O CASTELO AZUL
UM ROMANCE
DE L. M. MONTGOMERY
NOVA YORK FREDERICK A. STOKES COMPANY MCMXXVI
SUMÁRIO
CAPÍTULO I CAPÍTULO II CAPÍTULO III CAPÍTULO IV CAPÍTULO V CAPÍTULO VI CAPÍTULO VII CAPÍTULO VIII CAPÍTULO IX CAPÍTULO X CAPÍTULO XI CAPÍTULO XII CAPÍTULO XIII CAPÍTULO XIV CAPÍTULO XV CAPÍTULO XVI CAPÍTULO XVII CAPÍTULO XVIII CAPÍTULO XIX CAPÍTULO XX CAPÍTULO XXI CAPÍTULO XXII CAPÍTULO XXIII CAPÍTULO XXIV CAPÍTULO XXV CAPÍTULO XXVI CAPÍTULO XXVII CAPÍTULO XXVIII CAPÍTULO XXIX CAPÍTULO XXX CAPÍTULO XXXI CAPÍTULO XXXII CAPÍTULO XXXIII CAPÍTULO XXXIV CAPÍTULO XXXV CAPÍTULO XXXVI CAPÍTULO XXXVII CAPÍTULO XXXVIII CAPÍTULO XXXIX CAPÍTULO XL CAPÍTULO XLI CAPÍTULO XLII CAPÍTULO XLIII CAPÍTULO XLIV CAPÍTULO XLV
O CASTELO AZUL
CAPÍTULO I
Se não tivesse chovido naquela manhã de maio, a vida de Valancy Stirling teria sido completamente diferente. Ela teria ido, com o resto do seu clã, ao piquenique de noivado da tia Wellington, e o Dr. Trent teria ido para Montreal. Mas choveu, e você saberá o que aconteceu com ela por causa disso.
Valancy acordou cedo, na hora sem vida e sem esperança que precede o amanhecer. Ela não tinha dormido muito bem. Não se dorme bem, às vezes, quando se tem vinte e nove anos no dia seguinte e se é solteira, em uma comunidade e conexão onde os solteiros são simplesmente aqueles que não conseguiram arranjar um marido.
Deerwood e os Stirlings há muito haviam relegado Valancy à solteirice sem esperança. Mas a própria Valancy nunca havia abandonado completamente uma certa esperança patética, envergonhada e pequena de que o Romance ainda viria ao seu encontro — nunca, até aquela manhã úmida e horrível, quando ela acordou com o fato de que tinha vinte e nove anos e não era desejada por nenhum homem.
Sim, essa era a dor. Valancy não se importava tanto em ser uma solteirona. Afinal, ela pensava, ser uma solteirona não podia ser tão terrível quanto ser casada com um tio Wellington ou um tio Benjamin, ou mesmo um tio Herbert. O que a machucava era que ela nunca teve a chance de ser outra coisa além de uma solteirona. Nenhum homem jamais a desejou.
As lágrimas vieram aos seus olhos enquanto ela permanecia ali, sozinha, na escuridão que clareava levemente. Ela não ousava deixar-se chorar tanto quanto queria, por dois motivos. Ela tinha medo de que chorar pudesse trazer outro ataque daquela dor em torno do coração. Ela havia sentido um pouco disso depois de se deitar — um pouco pior do que qualquer um que ela já havia sentido. E ela tinha medo de que sua mãe notasse seus olhos vermelhos no café da manhã e a interrogasse com perguntas minuciosas, persistentes e incômodas sobre a causa disso.
"Suponha", pensou Valancy com um sorriso macabro, "que eu respondesse com a verdade simples: 'Estou chorando porque não consigo me casar.' Como a mãe ficaria horrorizada — embora ela se envergonhe todos os dias de sua vida de sua filha solteirona."
Mas, claro, as aparências devem ser mantidas. "Não é", Valancy podia ouvir a voz primorosa e ditatorial de sua mãe afirmando, "não é próprio de uma moça pensar em homens."
O pensamento da expressão de sua mãe fez Valancy rir — pois ela tinha um senso de humor que ninguém em seu clã suspeitava. Aliás, havia muitas coisas sobre Valancy que ninguém suspeitava. Mas seu riso era muito superficial, e logo ela estava ali, uma figura pequena, desanimada e inútil, ouvindo a chuva cair lá fora e observando, com um nojo doente, a luz fria e impiedosa que invadia seu quarto feio e sórdido.
Ela conhecia a feiura daquele quarto de cor — conhecia e odiava. O piso pintado de amarelo, com um tapete "feito à mão" horrendo ao lado da cama, com um cachorro "feito à mão" grotesco nele, que sempre a encarava quando ela acordava; o papel de parede desbotado e vermelho-escuro; o teto descolorido por vazamentos antigos e cruzado por rachaduras; a pequena e apertada penteadeira; o lambrequim de papel marrom com rosas roxas; o espelho velho e manchado com uma rachadura no meio, apoiado na penteadeira inadequada; o frasco de potpourri antigo feito por sua mãe em sua mítica lua de mel; a caixa coberta de conchas, com uma esquina estourada, que a prima Stickles havia feito em sua igualmente mítica juventude; o alfineteiro de contas com metade de sua franja de contas desaparecida; a única cadeira amarela e dura; o velho lema desbotado, "Partiu, mas não foi esquecido", bordado em fios coloridos em torno do rosto severo da bisavó Stirling; as velhas fotografias de parentes antigos há muito banidos dos cômodos de baixo. Havia apenas duas imagens que não eram de parentes. Uma, uma cromolitografia antiga de um filhote sentado em uma soleira de porta chuvosa. Essa imagem sempre deixava Valancy infeliz. Aquele cachorrinho desolado encolhido na soleira da porta sob a chuva forte! Por que ninguém abria a porta e o deixava entrar? A outra imagem era uma gravura desbotada e emoldurada de passe-partout da rainha Louise descendo uma escada, que a tia Wellington havia dado a ela generosamente em seu décimo aniversário. Por dezenove anos, ela olhou para ela e a odiou, bela, presunçosa e satisfeita rainha Louise. Mas ela nunca ousou destruí-la ou removê-la. A mãe e a prima Stickles ficariam horrorizadas, ou, como Valancy expressava irreverentemente em seus pensamentos, teriam um ataque.
Todos os cômodos da casa eram feios, é claro. Mas as aparências eram mantidas um pouco melhor embaixo. Não havia dinheiro para cômodos que ninguém via. Valancy às vezes sentia que poderia fazer algo pelo seu quarto, mesmo sem dinheiro, se fosse permitida. Mas sua mãe havia negado todas as sugestões tímidas, e Valancy não insistia. Valancy nunca insistia. Ela tinha medo de fazê-lo. Sua mãe não suportava oposição. A Sra. Stirling ficava de mal humor por dias se ofendida, com os ares de uma duquesa insultada.
A única coisa que Valancy gostava em seu quarto era que ela podia ficar sozinha lá à noite para chorar, se quisesse.
Mas, afinal, o que importava se um quarto, que você usava apenas para dormir e se vestir, fosse feio? Valancy nunca era permitida a ficar sozinha em seu quarto para qualquer outro propósito. Pessoas que queriam ficar sozinhas, acreditavam a Sra. Frederick Stirling e a prima Stickles, só podiam querer ficar sozinhas para algum propósito sinistro. Mas seu quarto no Castelo Azul era tudo o que um quarto deveria ser.
Valancy, tão amedrontada, subjugada e repreendida na vida real, costumava se soltar de forma bastante esplêndida em seus devaneios. Ninguém no clã Stirling, ou em suas ramificações, suspeitava disso, muito menos sua mãe e a prima Stickles. Eles nunca souberam que Valancy tinha duas casas — a caixa de tijolos vermelhos e feia na Elm Street, e o Castelo Azul na Espanha. Valancy vivia espiritualmente no Castelo Azul desde que se lembrava. Ela era uma criança muito pequena quando se viu possuidora dele. Sempre, quando fechava os olhos, ela podia vê-lo claramente, com suas torres e bandeiras na altura da montanha coberta de pinheiros, envolto em sua beleza azul e suave, contra os céus do pôr do sol de uma terra justa e desconhecida. Tudo o que era maravilhoso e belo estava naquele castelo. Joias que rainhas poderiam ter usado; vestes de luar e fogo; camas de rosas e ouro; longas escadas de mármore rasas, com grandes vasos brancos e com donzelas envoltas em névoa subindo e descendo por elas; pátios com colunas de mármore, onde fontes cintilantes caíam e rouxinóis cantavam entre os murta; salões de espelhos que refletiam apenas cavaleiros bonitos e mulheres adoráveis — ela mesma a mais adorável de todas, por cujo olhar os homens morriam. Tudo o que a sustentava através do tédio de seus dias era a esperança de uma farra de sonhos à noite. A maioria, se não todos, dos Stirlings teriam morrido de horror se soubessem metade das coisas que Valancy fazia em seu Castelo Azul.
Por um lado, ela tinha vários amantes lá. Ah, apenas um de cada vez. Um que a cortejava com todo o ardor romântico da era da cavalaria e a vencia após longo devotamento e muitos feitos de coragem, e se casava com ela com pompa e circunstância na grande capela com bandeiras do Castelo Azul.
Aos doze anos, esse amante era um jovem loiro com cachos dourados e olhos azuis celestiais. Aos quinze, ele era alto, moreno e pálido, mas ainda necessariamente bonito. Aos vinte, ele era ascético, sonhador, espiritual. Aos vinte e cinco, ele tinha um queixo bem cortado, um pouco severo, e um rosto forte e rude, em vez de bonito. Valancy nunca envelhecia mais do que vinte e cinco anos em seu Castelo Azul, mas recentemente — muito recentemente — seu herói tinha cabelos avermelhados e castanhos, um sorriso torto e um passado misterioso.
Não digo que Valancy matava deliberadamente esses amantes à medida que os superava. Um simplesmente desaparecia à medida que outro chegava. As coisas são muito convenientes nesse aspecto nos Castelos Azuis.
Mas, naquela manhã de seu dia de destino, Valancy não conseguia encontrar a chave de seu Castelo Azul. A realidade a pressionava com muita força, latindo em seus calcanhares como um cachorrinho enlouquecedor. Ela tinha vinte e nove anos, solitária, indesejada, pouco atraente — a única garota feia em um clã bonito, sem passado e sem futuro. Até onde ela conseguia olhar para trás, a vida era monótona e sem cor, sem um único ponto vermelho ou roxo em lugar algum. Até onde ela conseguia olhar para frente, parecia certo que seria exatamente a mesma coisa até que ela não fosse nada além de uma pequena folha murcha agarrada a um galho invernal. O momento em que uma mulher percebe que não tem nada para viver — nem amor, dever, propósito nem esperança — traz para ela a amargura da morte.
"E eu simplesmente tenho que continuar vivendo porque não posso parar. Posso ter que viver oitenta anos", pensou Valancy, em um tipo de pânico. "Somos todos horrivelmente longevos. Me enoja pensar nisso."
Ela ficou feliz que estivesse chovendo — ou, melhor, ela estava tristemente satisfeita que estivesse chovendo. Não haveria piquenique naquele dia. Esse piquenique anual, pelo qual a tia e o tio Wellington — sempre se pensava neles nessa sequência — inevitavelmente celebravam seu noivado em um piquenique trinta anos antes, havia sido, nos últimos anos, um verdadeiro pesadelo para Valancy. Por uma coincidência maligna, era o mesmo dia de seu aniversário, e, depois que ela passou dos vinte e cinco, ninguém a deixava esquecer disso.
Por mais que odiasse ir ao piquenique, nunca lhe ocorrera se rebelar contra ele. Parecia não haver nada de revolucionário em sua natureza. E ela sabia exatamente o que todos diriam a ela no piquenique. O tio Wellington, a quem ela desprezava e desprezava, embora ele tivesse cumprido a maior aspiração Stirling, "casar com dinheiro", diria a ela em um sussurro de porco, "Não está pensando em se casar ainda, minha querida?" e depois sairia em um berro de risada com o qual ele invariavelmente concluía suas observações sem graça. A tia Wellington, de quem Valancy tinha medo abjeto, contaria a ela sobre o novo vestido de chiffon de Olive e a última carta devotada de Cecil. Valancy teria que parecer tão feliz e interessada como se o vestido e a carta fossem dela, ou então a tia Wellington ficaria ofendida. E Valancy decidiu há muito tempo que preferia ofender a Deus do que a tia Wellington, porque Deus poderia perdoá-la, mas a tia Wellington nunca perdoaria.
A tia Alberta, enormemente gorda, com o hábito amável de sempre se referir ao marido como "ele", como se ele fosse a única criatura masculina no mundo, que nunca podia esquecer que havia sido uma grande beleza em sua juventude, consolaria Valancy sobre sua pele amarelada —
"Não sei por que todas as garotas de hoje estão tão queimadas de sol. Quando eu era jovem, minha pele era rosas e creme. Eu era considerada a garota mais bonita do Canadá, minha querida."
Talvez o tio Herbert não dissesse nada — ou talvez ele comentasse jocosamente, "Como você está ficando gorda, Doss!" E então todos ririam da ideia excessivamente humorística da pobre e mirrada Doss ficando gorda.
O tio James, bonito e solene, a quem Valancy desprezava, mas respeitava porque ele era reputado como muito inteligente e, portanto, o oráculo do clã — cérebros não eram muito abundantes na conexão Stirling — provavelmente comentaria com o sarcasmo corujento que lhe rendeu sua reputação, "Suponho que você esteja ocupada com seu baú de esperança nesses dias?"
E o tio Benjamin faria algumas de suas charadas abomináveis, entre tosses ofegantes, e as responderia ele mesmo.
"Qual é a diferença entre Doss e um rato?
"O rato deseja prejudicar o queijo e Doss deseja encantar o 'he'."
Valancy havia ouvido ele fazer essa charada cinquenta vezes, e todas as vezes ela queria jogar algo nele. Mas ela nunca fez. Em primeiro lugar, os Stirlings simplesmente não jogavam coisas; em segundo lugar, o tio Benjamin era um velho rico e sem filhos, e Valancy havia sido criada no medo e na advertência de seu dinheiro. Se ela o ofendesse, ele a cortaria de seu testamento — supondo que ela estivesse nele. Valancy não queria ser cortada do testamento do tio Benjamin. Ela havia sido pobre a vida toda e conhecia a amargura opressiva disso. Então ela suportava suas charadas e até sorria com sorrisos torturados sobre elas.
A tia Isabel, direta e desagradável como um vento leste, criticaria ela de alguma forma — Valancy não podia prever exatamente como, pois a tia Isabel nunca repetia uma crítica — ela encontrava algo novo com o que cutucá-la a cada vez. A tia Isabel se orgulhava de dizer o que pensava, mas não gostava tanto quando outras pessoas diziam o que pensavam para ela. Valancy nunca dizia o que pensava.
A prima Georgiana — nomeada em homenagem à sua bisavó, que havia sido nomeada em homenagem a George IV — contaria dolorosamente os nomes de todos os parentes e amigos que haviam morrido desde o último piquenique e se perguntaria "quem de nós será o primeiro a ir a seguir".
A tia Mildred, opressivamente competente, falaria interminavelmente sobre seu marido e seus odiosos prodígios de bebês para Valancy, porque Valancy seria a única que ela poderia encontrar para suportar isso. Pelo mesmo motivo, a prima Gladys — realmente Prima Gladys uma vez removida, de acordo com a maneira estrita pela qual os Stirlings tabulavam relacionamentos — uma senhora alta e magra que admitia ter uma disposição sensível, descreveria minuciosamente as torturas de sua neurite. E Olive, a garota maravilha de todo o clã Stirling, que tinha tudo o que Valancy não tinha — beleza, popularidade, amor —, mostraria sua beleza e presumiria sua popularidade e exibiria seus emblemas de amor de diamantes nos olhos invejosos e deslumbrados de Valancy.
Não haveria nada disso hoje. E não haveria o empacotamento de colheres de chá. O empacotamento sempre era deixado para Valancy e a prima Stickles. E uma vez, seis anos atrás, uma colher de chá de prata do jogo de casamento da tia Wellington havia sido perdida. Valancy nunca ouviu o fim daquela colher de chá de prata. Seu fantasma aparecia como o de Banquo em todos os subsequentes encontros familiares.
Ah, sim, Valancy sabia exatamente como seria o piquenique, e ela abençoava a chuva que a havia salvado dele. Não haveria piquenique este ano. Se a tia Wellington não pudesse celebrar no dia sagrado em si, ela não teria celebração alguma. Obrigada a quaisquer deuses que existam por isso.
Como não haveria piquenique, Valancy decidiu que, se a chuva parasse à tarde, ela iria até a biblioteca e pegaria outro livro de John Foster. Valancy nunca era permitida a ler romances, mas os livros de John Foster não eram romances. Eram "livros de natureza" — então a bibliotecária disse à Sra. Frederick Stirling — "tudo sobre florestas, pássaros, insetos e coisas assim, você sabe". Então Valancy era permitida a lê-los — sob protesto, pois era evidente demais que ela os apreciava demais. Era permissível, até mesmo louvável, ler para melhorar sua mente e sua religião, mas um livro que era agradável era perigoso. Valancy não sabia se sua mente estava sendo melhorada ou não; mas ela sentia vagamente que, se tivesse encontrado os livros de John Foster anos atrás, a vida poderia ter sido diferente para ela. Eles pareciam lhe dar vislumbres de um mundo no qual ela poderia ter entrado, embora a porta estivesse para sempre fechada para ela agora. Foi apenas no último ano que os livros de John Foster estavam na biblioteca de Deerwood, embora a bibliotecária dissesse a Valancy que ele era um escritor bem conhecido há vários anos.
"Onde ele vive?" Valancy perguntou.
"Ninguém sabe. De seus livros, ele deve ser canadense, mas não se pode obter mais informações. Seus editores não dizem uma palavra. É bem provável que John Foster seja um nom de plume. Seus livros são tão populares que não conseguimos mantê-los na estante, embora eu realmente não consiga ver o que as pessoas encontram neles para se entusiasmar."
"Acho que são maravilhosos", disse Valancy, timidamente.
"Oh — bem —" A Srta. Clarkson sorriu de uma maneira patronizadora que relegava as opiniões de Valancy ao limbo, "não posso dizer que me importo muito com insetos. Mas certamente Foster parece saber tudo o que há para saber sobre eles."
Valancy não sabia se se importava muito com insetos também. Não era o conhecimento uncanny de John Foster sobre criaturas selvagens e vida de insetos que a fascinava. Ela mal podia dizer o que era — algum atrativo tentador de um mistério nunca revelado — alguma sugestão de um grande segredo um pouco mais adiante — algum eco vago e elusivo de coisas adoráveis e esquecidas — a magia de John Foster era indefinível.
Sim, ela pegaria um novo livro de Foster. Fazia um mês desde que ela havia lido "Thistle Harvest", então certamente a mãe não poderia objetar. Valancy havia lido quatro vezes — ela sabia passagens inteiras de cor.
E — ela quase pensou que iria ver o Dr. Trent sobre aquela dor estranha em torno do coração. Ela havia sentido isso com mais frequência ultimamente, e as palpitações estavam se tornando incômodas, para não mencionar um momento ocasional de tontura e uma falta de ar estranha. Mas ela poderia ir vê-lo sem contar a ninguém? Era um pensamento muito ousado. Nenhum dos Stirlings jamais consultava um médico sem realizar um conselho familiar e obter a aprovação do tio James. Então, eles iam ao Dr. Ambrose Marsh de Port Lawrence, que havia se casado com a Prima Adelaide Stirling.
Mas Valancy não gostava do Dr. Ambrose Marsh. E, além disso, ela não podia ir a Port Lawrence, a quinze milhas de distância, sem ser levada lá. Ela não queria que ninguém soubesse sobre seu coração. Haveria tanta confusão e cada membro da família viria e discutiria e a aconselharia e a advertiria e contaria histórias horríveis de tias-avós e primas quarenta vezes removidas que haviam sido "assim" e "caído mortas sem um momento de aviso, minha querida".
A tia Isabel se lembraria de que sempre disse que Doss parecia uma garota que teria problemas no coração — "tão magra e pálida sempre"; e o tio Wellington o consideraria um insulto pessoal, quando "nenhum Stirling jamais teve problemas no coração antes"; e Georgiana preveria em aside perfeitamente audíveis que "pobre, querida Doss não durará muito neste mundo, temo"; e a prima Gladys diria, "Bem, meu coração tem sido assim por anos", em um tom que implicava que ninguém mais tinha o direito de ter um coração; e Olive — Olive apenas pareceria bonita e superior e desagradavelmente saudável, como se dissesse, "Por que toda essa confusão por uma sobra desbotada como Doss quando você tem a mim?"
Valancy sentia que não podia contar a ninguém a menos que tivesse que fazer. Ela tinha certeza de que não havia nada de sério errado com seu coração e não havia necessidade de toda a comoção que se seguiria se ela mencionasse isso. Ela simplesmente iria quietamente e veria o Dr. Trent naquele mesmo dia. Quanto à sua conta, ela tinha os duzentos dólares que seu pai havia colocado no banco para ela no dia em que ela nasceu. Ela nunca era permitida a usar nem os juros disso, mas ela retiraria secretamente o suficiente para pagar o Dr. Trent.
O Dr. Trent era um velho gruff, franco e distraído, mas era uma autoridade reconhecida em doenças cardíacas, mesmo sendo apenas um médico geral na remota Deerwood. O Dr. Trent tinha mais de setenta anos, e havia rumores de que ele pretendia se aposentar em breve. Nenhum dos clãs Stirling havia ido a ele desde que ele disse à prima Gladys, dez anos antes, que sua neurite era toda imaginária e que ela gostava disso. Você não podia patronizar um médico que insultava sua prima uma vez removida assim — para não mencionar que ele era presbiteriano quando todos os Stirlings iam à igreja anglicana. Mas Valancy, entre o diabo da deslealdade ao clã e o mar profundo de confusão e tagarela e conselhos, pensou que iria arriscar com o diabo.
CAPÍTULO II
Quando a prima Stickles bateu à sua porta, Valancy sabia que eram sete e meia e que precisava se levantar. Desde que se lembrava, a prima Stickles batia à sua porta às sete e meia. A prima Stickles e a Sra. Frederick Stirling já estavam de pé desde as sete, mas Valancy podia ficar na cama meia hora a mais devido a uma tradição familiar de que ela era delicada. Valancy levantou-se, embora odiasse levantar-se mais naquela manhã do que jamais havia odiado antes. Para que levantar-se? Para outro dia sombrio como todos os dias que o haviam precedido, cheio de tarefas insignificantes, sem alegria e sem importância, que não beneficiavam ninguém. Mas, se não se levantasse imediatamente, não estaria pronta para o café da manhã às oito horas. Horários rígidos para as refeições eram a regra na casa da Sra. Stirling. Café da manhã às oito, almoço ao meio-dia, jantar às seis, ano após ano. Nunca se toleravam desculpas para atrasos. Então, Valancy levantou-se, tremendo.
O quarto estava terrivelmente frio, com o frio penetrante e cru de uma manhã de maio chuvosa. A casa ficaria fria o dia todo. Era uma das regras da Sra. Frederick que não eram necessários incêndios após o dia 24 de maio. As refeições eram cozidas no pequeno fogão a óleo na despensa. E, embora maio pudesse ser gelado e outubro congelante, não se acendiam fogueiras até o dia 21 de outubro, segundo o calendário. No dia 21 de outubro, a Sra. Frederick começava a cozinhar no fogão da cozinha e acendia uma fogueira na lareira da sala de estar à noite. Comentava-se na família que o falecido Frederick Stirling havia pegado o resfriado que resultou em sua morte durante o primeiro ano de vida de Valancy porque a Sra. Frederick não quis acender uma fogueira no dia 20 de outubro. Ela acendeu no dia seguinte, mas isso foi um dia tarde demais para Frederick Stirling.
Valancy tirou e pendurou no armário sua camisola de algodão cru, grosso, com gola alta e mangas compridas e justas. Vestiu roupas íntimas de natureza semelhante, um vestido de chita marrom, meias grossas e pretas e botas de salto de borracha. Nos últimos anos, ela havia caído no hábito de arrumar o cabelo com a cortina da janela ao lado do espelho abaixada. As linhas em seu rosto não apareciam tão claramente então. Mas, naquela manhã, ela puxou a cortina até o topo e olhou para si mesma no espelho leproso com uma determinação apaixonada de se ver como o mundo a via.
O resultado foi bastante terrível. Até mesmo uma beleza teria achado aquela luz lateral dura e sem suavidade difícil. Valancy viu cabelos pretos retos, curtos e finos, sempre sem brilho, apesar do fato de que ela dava cem escovadas, nem mais nem menos, todas as noites de sua vida e esfregava fielmente o Vigor Capilar Redfern nas raízes, mais sem brilho do que nunca em sua aspereza matinal; sobrancelhas finas, retas e pretas; um nariz que ela sempre sentiu que era muito pequeno, mesmo para o seu rosto pequeno, triangular e branco; uma boca pequena e pálida que sempre se abria um pouco sobre pequenos dentes brancos e pontiagudos; uma figura magra e sem seios, um pouco abaixo da altura média. Ela de alguma forma escapou dos altos ossos das bochechas da família, e seus olhos castanhos escuros, muito macios e sombrios para serem pretos, tinham um olhar que era quase oriental. Além de seus olhos, ela não era nem bonita nem feia, apenas com uma aparência insignificante, concluiu amargamente. Como as linhas ao redor de seus olhos e boca eram visíveis naquela luz implacável! E seu rosto estreito e branco nunca havia parecido tão estreito e tão branco.
Ela arrumou o cabelo em um penteado alto. Penteados altos haviam saído de moda há muito tempo, mas estavam na moda quando Valancy primeiro prendeu o cabelo e a tia Wellington decidiu que ela sempre deveria usar o cabelo assim.
"É a única maneira que combina com você. Seu rosto é tão pequeno que você precisa adicionar altura com um efeito de penteado alto", disse a tia Wellington, que sempre enunciou lugares-comuns como se estivesse proferindo verdades profundas e importantes.
Valancy desejava arrumar o cabelo baixo na testa, com cachos acima das orelhas, como Olive estava usando. Mas o ditado da tia Wellington teve um efeito tão grande nela que ela nunca mais ousou mudar seu estilo de penteado. Mas, então, havia tantas coisas que Valancy nunca ousou fazer.
Toda a sua vida, ela teve medo de algo, pensou amargamente. Desde o amanhecer da lembrança, quando ela estava tão horrivelmente com medo do grande urso preto que vivia, segundo a prima Stickles, no armário debaixo da escada.
"E sempre estarei — eu sei — não posso evitar. Não sei como seria não ter medo de algo."
Medo das birras rancorosas de sua mãe — medo de ofender o tio Benjamin — medo de se tornar um alvo para o desprezo da tia Wellington — medo dos comentários mordazes da tia Isabel — medo da desaprovação do tio James — medo de ofender as opiniões e preconceitos de todo o clã — medo de não manter as aparências — medo de dizer o que realmente pensava de qualquer coisa — medo da pobreza na velhice. Medo — medo — medo — ela nunca poderia escapar dele. Ele a prendia e a envolvia como uma teia de aranha de aço. Apenas em seu Castelo Azul ela podia encontrar um alívio temporário. E, naquela manhã, Valancy não conseguia acreditar que tinha um Castelo Azul. Ela nunca mais conseguiria encontrá-lo. Vinte e nove, solteira, indesejada — o que ela tinha a ver com a castelã etérea do Castelo Azul? Ela cortaria essa tolice infantil de sua vida para sempre e enfrentaria a realidade sem hesitação.
Ela se afastou de seu espelho hostil e olhou para fora. A feiura da vista sempre a atingia como um golpe; a cerca esfarrapada, a velha oficina de carruagens em ruínas no lote ao lado, coberta com anúncios crus e coloridos; a estação ferroviária suja além, com os terríveis desocupados que sempre ficavam por perto, mesmo naquela hora cedo. Com a chuva torrencial, tudo parecia pior do que o habitual, especialmente o anúncio horrível: "Mantenha a pele de colegial". Valancy havia mantido sua pele de colegial. Esse era justamente o problema. Não havia um vislumbre de beleza em lugar algum — "exatamente como minha vida", pensou Valancy, desanimada. Sua breve amargura havia passado. Ela aceitava os fatos com a mesma resignação com que sempre os aceitara. Ela era uma das pessoas que a vida sempre deixava para trás. Não havia como alterar esse fato.
Nesse estado de espírito, Valancy desceu para o café da manhã.
CAPÍTULO III
O café da manhã era sempre o mesmo. Mingau de aveia, que Valancy odiava, torrada e chá, e uma colher de chá de geleia. A Sra. Frederick achava que duas colheres de chá eram extravagantes, mas isso não importava para Valancy, que também odiava geleia. A sala de jantar pequena, fria e sombria estava mais fria e sombria do que o habitual; a chuva caía do lado de fora da janela; Stirlings falecidos, em molduras douradas atrozes, mais largas que as fotos, olhavam severamente das paredes. E, no entanto, a prima Stickles desejou a Valancy muitos anos de vida!
"Sente-se direita, Doss", foi tudo o que sua mãe disse.
Valancy sentou-se direita. Ela conversou com sua mãe e a prima Stickles sobre as coisas de que sempre conversavam. Ela nunca se perguntou o que aconteceria se tentasse conversar sobre algo diferente. Ela sabia. Portanto, nunca o fazia.
A Sra. Frederick estava chateada com a Providência por enviar um dia chuvoso quando ela queria ir a um piquenique, então ela comeu o café da manhã em silêncio rancoroso, pelo qual Valancy foi bastante grata. Mas Christine Stickles tagarelou interminavelmente, como de costume, reclamando de tudo — do tempo, do vazamento na despensa, do preço da aveia e da manteiga — Valancy sentiu imediatamente que havia passado manteiga demais na torrada — da epidemia de caxumba em Deerwood.
"Doss certamente vai pegar", previu.
"Doss não deve ir aonde possa pegar caxumba", disse a Sra. Frederick, brevemente.
Valancy nunca teve caxumba — ou coqueluche — ou catapora — ou sarampo — ou qualquer coisa que deveria ter tido — nada além de resfriados horríveis todo inverno. Os resfriados de inverno de Doss eram uma espécie de tradição na família. Nada, parecia, podia impedi-la de pegá-los. A Sra. Frederick e a prima Stickles fizeram o seu melhor heroicamente. Um inverno, elas mantiveram Valancy trancada de novembro a maio, na sala de estar quente. Ela nem mesmo foi autorizada a ir à igreja. E Valancy pegou resfriado após resfriado e acabou com bronquite em junho.
"Nenhum membro da minha família foi assim", disse a Sra. Frederick, implicando que devia ser uma tendência Stirling.
"Os Stirlings raramente pegam resfriados", disse a prima Stickles, ressentida. Ela havia sido uma Stirling.
"Acho", disse a Sra. Frederick, "que se uma pessoa decidir não ter resfriados, ela não terá resfriados."
Então, esse era o problema. Era toda culpa de Valancy.
Mas, naquela manhã específica, a queixa insuportável de Valancy era que ela era chamada de Doss. Ela havia suportado isso por vinte e nove anos, e, de repente, sentiu que não podia suportar mais. Seu nome completo era Valancy Jane. Valancy Jane era bastante terrível, mas ela gostava de Valancy, com seu tom estranho e estrangeiro. Era sempre uma maravilha para Valancy que os Stirlings tivessem permitido que ela fosse batizada assim. Disseram-lhe que seu avô materno, o velho Amos Wansbarra, havia escolhido o nome para ela. Seu pai havia acrescentado o Jane como uma forma de civilizá-lo, e toda a família havia saído da dificuldade dando-lhe o apelido de Doss. Ela nunca ouvia Valancy de ninguém além de estranhos.
"Mãe", ela disse timidamente, "a senhora se importaria de me chamar de Valancy daqui para frente? Doss parece tão — tão — eu não gosto."
A Sra. Frederick olhou para sua filha com espanto. Ela usava óculos com lentes extremamente fortes que davam a seus olhos uma aparência particularmente desagradável.
"O que há de errado com Doss?"
"Parece tão infantil", gaguejou Valancy.
"Ah!" A Sra. Frederick havia sido uma Wansbarra, e o sorriso Wansbarra não era um trunfo. "Entendo. Bem, deve combinar com você, então. Você é infantil o suficiente, em todos os aspectos, minha querida filha."
"Eu tenho vinte e nove anos", disse a querida filha, desesperadamente.
"Eu não proclamaria isso dos telhados, se fosse você, querida", disse a Sra. Frederick. "Vinte e nove! Eu já estava casada há nove anos quando tinha vinte e nove."
"Eu me casei aos dezessete", disse a prima Stickles, orgulhosa.
Valancy olhou para elas furtivamente. A Sra. Frederick, exceto por aqueles óculos terríveis e o nariz ganchudo que a fazia parecer mais com um papagaio do que o próprio papagaio, não era mal-aparecida. Aos vinte anos, ela poderia ter sido bastante bonita. Mas a prima Stickles! E, no entanto, Christine Stickles já havia sido desejável aos olhos de algum homem. Valancy sentiu que a prima Stickles, com seu rosto largo, plano e enrugado, uma pinta bem no final de seu nariz atarracado, pelos arrepiados no queixo, pescoço amarelado e enrugado, olhos pálidos e salientes, e boca fina e enrugada, ainda tinha essa vantagem sobre ela — esse direito de olhar para baixo para ela. E, mesmo assim, a prima Stickles ainda era necessária para a Sra. Frederick. Valancy se perguntou, com pena, como seria ser querida por alguém — necessária para alguém. Ninguém no mundo inteiro a precisava, ou sentiria falta de algo na vida se ela desaparecesse de repente. Ela era uma decepção para sua mãe. Ninguém a amava. Ela nunca teve nem mesmo uma amiga.
"Eu nem mesmo tenho um dom para a amizade", ela já havia admitido para si mesma, com pena.
"Doss, você não comeu as cascas", disse a Sra. Frederick, repreendendo.
Choveu o dia todo sem parar. Valancy costurou um quilt. Valancy odiava costurar quilts. E não havia necessidade disso. A casa estava cheia de quilts. Havia três baús grandes, cheios de quilts, no sótão. A Sra. Frederick havia começado a armazenar quilts quando Valancy tinha dezessete anos e continuou armazenando, embora não parecesse provável que Valancy precisasse deles. Mas Valancy precisava estar ocupada, e materiais para trabalhos manuais eram muito caros. A ociosidade era um pecado cardinal na casa dos Stirling. Quando Valancy era criança, ela era obrigada a escrever todas as noites, em um pequeno e odiado caderno preto, todos os minutos que havia passado em ociosidade naquele dia. Aos domingos, sua mãe a fazia somá-los e orar por eles.
Nessa manhã específica, do dia do destino, Valancy passou apenas dez minutos em ociosidade. Pelo menos, a Sra. Frederick e a prima Stickles chamariam isso de ociosidade. Ela foi para seu quarto pegar uma agulheira melhor e abriu "Thistle Harvest" com culpa, ao acaso.
"As florestas são tão humanas", escreveu John Foster, "que, para conhecê-las, devemos viver com elas. Uma caminhada ocasional por elas, mantendo-se nas trilhas bem pisadas, nunca nos admitirá à sua intimidade. Se desejamos ser amigos, devemos procurá-las e conquistá-las com visitas frequentes, reverentes, a todas as horas; de manhã, à tarde e à noite; e em todas as estações, na primavera, no verão, no outono, no inverno. Caso contrário, nunca poderemos realmente conhecê-las, e qualquer pretensão que possamos fazer ao contrário nunca as enganará. Elas têm sua própria maneira eficaz de manter estranhos à distância e fechar seus corações para meros turistas casuais. Não adianta buscar as florestas com qualquer motivo além do amor puro por elas; elas nos descobrirão imediatamente e esconderão todos os seus segredos doces e antigos de nós. Mas, se elas souberem que vamos até elas porque as amamos, elas serão muito gentis conosco e nos darão tesouros de beleza e deleite que não são comprados ou vendidos em qualquer mercado. Pois as florestas, quando dão, dão sem medida e não retêm nada de seus verdadeiros adoradores. Devemos ir até elas com amor, humildade, paciência, vigilância, e aprenderemos quão pungente é a beleza que habita nos lugares selvagens e nos intervalos silenciosos, banhados pela luz das estrelas e pelo pôr do sol, que cadências de música etérea são tocadas em galhos de pinheiros envelhecidos ou sussurradas em bosques de abetos, que aromas delicados exalam de musgos e samambaias em cantos ensolarados ou em riachos úmidos, que sonhos e mitos e lendas de um tempo mais antigo as habitam. Então, o coração imortal das florestas baterá contra o nosso, e sua vida sutil se infiltrará em nossas veias e nos fará seus para sempre, de modo que, não importa para onde vamos ou quão longe vagamos, ainda seremos atraídos de volta à floresta para encontrar nossa parentela mais duradoura."
"Doss", chamou sua mãe do corredor abaixo, "o que você está fazendo sozinha naquele quarto?"
Valancy largou "Thistle Harvest" como se fosse uma brasa quente e correu escada abaixo para seus retalhos; mas ela sentiu a estranha exaltação de espírito que sempre vinha momentaneamente quando mergulhava em um dos livros de John Foster. Valancy não sabia muito sobre florestas — exceto os bosques assombrados de carvalho e pinheiro ao redor de seu Castelo Azul. Mas ela sempre havia desejado secretamente por elas, e um livro de Foster sobre florestas era a melhor coisa depois das próprias florestas.
Ao meio-dia, parou de chover, mas o sol não apareceu até as três horas. Então, Valancy disse timidamente que achava que iria ao centro da cidade.
"Para que você quer ir ao centro da cidade?" perguntou sua mãe.
"Quero pegar um livro na biblioteca."
"Você pegou um livro na biblioteca apenas na semana passada."
"Não, foi há quatro semanas."
"Quatro semanas. Bobagem!"
"Realmente foi, mãe."
"Você está enganada. Não pode ter sido mais do que duas semanas. Eu não gosto de contradição. E eu não vejo por que você quer pegar um livro, de qualquer maneira. Você perde muito tempo lendo."
"De que valor é o meu tempo?" perguntou Valancy, amargamente.
"Doss! Não fale nesse tom comigo."
"Precisamos de chá", disse a prima Stickles. "Ela pode ir buscar isso, se quiser um passeio, embora esse tempo úmido seja ruim para resfriados."
Elas discutiram o assunto por mais dez minutos e, finalmente, a Sra. Frederick concordou, um pouco a contragosto, que Valancy poderia ir.
CAPÍTULO IV
"Levou suas galochas?" perguntou a prima Stickles, quando Valancy saiu de casa.
Christine Stickles nunca havia esquecido de fazer essa pergunta quando Valancy saía em um dia úmido.
"Sim."
"Você está com sua anágua de flanela?" perguntou a Sra. Frederick.
"Não."
"Doss, eu realmente não entendo você. Você quer pegar um resfriado novamente?" Sua voz implicava que Valancy já havia morrido de resfriado várias vezes. "Suba agora mesmo e coloque-a!"
"Mãe, eu não preciso de uma anágua de flanela. A de cetim é quente o suficiente."
"Doss, lembre-se de que você teve bronquite há dois anos. Vá e faça o que eu mandei!"
Valancy foi, embora ninguém nunca saiba quão perto ela chegou de jogar a planta de borracha na rua antes de ir. Ela odiava aquela anágua de flanela cinza mais do que qualquer outra peça de roupa que possuía. Olive nunca precisou usar anáguas de flanela. Olive usava babados de seda e linho e franzidos de renda. Mas o pai de Olive havia "casado com dinheiro" e Olive nunca teve bronquite. Então, era isso.
"Você tem certeza de que não deixou o sabão na água?" perguntou a Sra. Frederick. Mas Valancy já havia ido. Ela virou a esquina e olhou para trás, para a rua feia, arrumada e respeitável onde morava. A casa dos Stirling era a mais feia da rua — mais parecia uma caixa de tijolos vermelhos do que qualquer outra coisa. Muito alta para sua largura, e ainda mais alta por causa de uma cúpula de vidro bulbosa no topo. Em volta dela, havia a paz desolada e estéril de uma casa antiga cuja vida já havia sido vivida.
Havia uma casinha muito bonita, com janelas de chumbo e frontões decorados, logo após a esquina — uma casa nova, daquelas que você ama assim que vê. Clayton Markley havia construído para sua noiva. Ele iria se casar com Jennie Lloyd em junho. A casinha, dizia-se, estava mobiliada do sótão ao porão, em completa prontidão para sua dona.
"Eu não invejo Jennie o homem", pensou Valancy, sinceramente — Clayton Markley não era um de seus muitos ideais — "mas invejo a casa. É uma casa tão jovem e agradável. Ah, se eu pudesse ter uma casa minha — por mais pobre e pequena que fosse — mas minha! Mas, então", ela acrescentou, amargamente, "não há sentido em uivar pela lua quando você não pode nem conseguir uma vela de sebo."
No mundo dos sonhos, nada servia para Valancy além de um castelo de safira pálida. Na vida real, ela estaria completamente satisfeita com uma casinha sua. Ela invejava Jennie Lloyd mais ferozmente do que nunca hoje. Jennie não era muito mais bonita do que ela, e não era muito mais jovem. No entanto, ela teria essa casa deliciosa. E as xícaras de chá de Wedgwood mais bonitas — Valancy as havia visto; uma lareira aberta, e roupas de cama monogramadas; toalhas de mesa com bainha, e armários de louça. Por que tudo vinha para algumas meninas e nada para outras? Não era justo.
Valancy estava mais uma vez fervendo de rebelião enquanto caminhava, uma figura pequena, arrumada e desbotada em seu casaco de chuva surrado e chapéu de três anos, salpicada ocasionalmente pela lama de um carro que passava com seus gritos insultuosos. Carros ainda eram uma novidade em Deerwood, embora fossem comuns em Port Lawrence, e a maioria dos veranistas em Muskoka os tivesse. Em Deerwood, apenas alguns do grupo elegante os tinham; pois, mesmo Deerwood era dividido em grupos. Havia o grupo elegante — o grupo intelectual — o grupo de famílias antigas — do qual os Stirlings eram membros — a massa comum, e alguns párias. Nenhum membro do clã Stirling havia condescendido a um carro ainda, embora Olive estivesse convencendo seu pai a ter um. Valancy nunca havia estado em um carro. Mas ela não desejava isso. Na verdade, ela sentia um pouco de medo de carros, especialmente à noite. Eles pareciam ser muito parecidos com grandes feras ronronantes que poderiam virar e esmagá-la — ou dar algum salto terrível e selvagem em algum lugar. Nas trilhas íngremes da montanha ao redor de seu Castelo Azul, apenas corcéis ricamente adornados poderiam orgulhosamente caminhar; na vida real, Valancy estaria bastante contente em dirigir uma carroça atrás de um cavalo agradável. Ela só conseguia um passeio de carroça quando algum tio ou primo se lembrava de "dar-lhe uma chance", como um osso para um cachorro.
CAPÍTULO V
É claro que ela precisava comprar o chá na loja de mantimentos do tio Benjamin. Comprá-lo em qualquer outro lugar era impensável. No entanto, Valancy odiava ir à loja do tio Benjamin no dia de seu aniversário de vinte e nove anos. Não havia esperança de que ele não se lembrasse.
"Por que", perguntou o tio Benjamin, sorrateiramente, enquanto amarrava seu chá, "as jovens são como maus gramáticos?"
Valancy, com o testamento do tio Benjamin em mente, disse mansamente: "Não sei. Por quê?"
"Porque", riu o tio Benjamin, "elas não podem declinar o matrimônio."
Para continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua resposta. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- ele desde que ele disse à prima Gladys, dez anos antes, que sua neurite era toda imaginária e que ela gostava disso. Você não podia patronizar um médico que insultava sua prima uma vez removida assim — para não mencionar que ele era presbiteriano quando todos os Stirlings iam à igreja anglicana. Mas Valancy, entre o diabo da deslealdade ao clã e o mar profundo de confusão e tagarela e conselhos, pensou que iria arriscar com o diabo.
CAPÍTULO II
Quando a prima Stickles bateu à sua porta, Valancy sabia que eram sete e meia e que precisava se levantar. Desde que se lembrava, a prima Stickles batia à sua porta às sete e meia. A prima Stickles e a Sra. Frederick Stirling já estavam de pé desde as sete, mas Valancy podia ficar na cama meia hora a mais devido a uma tradição familiar de que ela era delicada. Valancy levantou-se, embora odiasse levantar-se mais naquela manhã do que jamais havia odiado antes. Para que levantar-se? Para outro dia sombrio como todos os dias que o haviam precedido, cheio de tarefas insignificantes, sem alegria e sem importância, que não beneficiavam ninguém. Mas, se não se levantasse imediatamente, não estaria pronta para o café da manhã às oito horas. Horários rígidos para as refeições eram a regra na casa da Sra. Stirling. Café da manhã às oito, almoço ao meio-dia, jantar às seis, ano após ano. Nunca se toleravam desculpas para atrasos. Então, Valancy levantou-se, tremendo.
O quarto estava terrivelmente frio, com o frio penetrante e cru de uma manhã de maio chuvosa. A casa ficaria fria o dia todo. Era uma das regras da Sra. Frederick que não eram necessários incêndios após o dia 24 de maio. As refeições eram cozidas no pequeno fogão a óleo na despensa. E, embora maio pudesse ser gelado e outubro congelante, não se acendiam fogueiras até o dia 21 de outubro, segundo o calendário. No dia 21 de outubro, a Sra. Frederick começava a cozinhar no fogão da cozinha e acendia uma fogueira na lareira da sala de estar à noite. Comentava-se na família que o falecido Frederick Stirling havia pegado o resfriado que resultou em sua morte durante o primeiro ano de vida de Valancy porque a Sra. Frederick não quis acender uma fogueira no dia 20 de outubro. Ela acendeu no dia seguinte, mas isso foi um dia tarde demais para Frederick Stirling.
Valancy tirou e pendurou no armário sua camisola de algodão cru, grosso, com gola alta e mangas compridas e justas. Vestiu roupas íntimas de natureza semelhante, um vestido de chita marrom, meias grossas e pretas e botas de salto de borracha. Nos últimos anos, ela havia caído no hábito de arrumar o cabelo com a cortina da janela ao lado do espelho abaixada. As linhas em seu rosto não apareciam tão claramente então. Mas, naquela manhã, ela puxou a cortina até o topo e olhou para si mesma no espelho embaçado com uma determinação apaixonada de se ver como o mundo a via.
O resultado foi bastante desanimador. Até mesmo uma beleza teria dificuldade com aquela luz lateral dura e sem suavidade. Valancy viu cabelos pretos retos, curtos e sem brilho, sempre opacos, apesar das cem escovadas que dava todas as noites e do Vigor Capilar Redfern que aplicava fielmente nas raízes; sobrancelhas finas e retas; um nariz que sempre achou pequeno demais para seu rosto triangular e branco; uma boca pequena e pálida que sempre se abria um pouco sobre dentes brancos e pontiagudos; uma figura magra e sem curvas, um pouco abaixo da altura média. Ela não herdara os altos ossos das bochechas da família, e seus olhos castanhos escuros, muito macios para serem pretos, tinham um olhar quase oriental. Além dos olhos, ela não era nem bonita nem feia, apenas comum, concluiu amargamente. Como as linhas ao redor dos olhos e da boca eram visíveis naquela luz implacável! E seu rosto estreito e branco nunca havia parecido tão estreito e tão branco.
Ela arrumou o cabelo em um penteado alto, embora esses penteados tivessem saído de moda há muito tempo. Mas era assim que a tia Wellington insistia que ela usasse, desde que Valancy começara a prender o cabelo.
"É o único estilo que combina com você. Seu rosto é tão pequeno que precisa de altura", dizia a tia Wellington, que sempre falava como se estivesse revelando verdades profundas.
Valancy desejava usar o cabelo baixo na testa, com cachos nas orelhas, como Olive, mas a opinião da tia Wellington a impedia de mudar. E, afinal, havia tantas coisas que Valancy nunca ousava fazer.
Toda a sua vida, ela vivera com medo: do temperamento da mãe, da desaprovação do tio Benjamin, do desprezo da tia Wellington, das críticas da tia Isabel, das opiniões do clã. Medo de não se encaixar, de expressar suas verdadeiras opiniões, de ficar pobre na velhice. Medo que a aprisionava como uma teia de aranha. Só em seu Castelo Azul ela encontrava refúgio, mas naquela manhã, Valancy duvidava até de sua existência. Com vinte e nove anos, solteira e indesejada, o que tinha a ver com os sonhos do Castelo Azul? Decidiu abandonar essas fantasias e enfrentar a realidade.
Ao olhar pela janela, a feiura da vista a atingiu como um golpe: a cerca quebrada, a oficina abandonada no lote ao lado, a estação ferroviária suja e os mendigos que a cercavam, mesmo naquela hora cedo. A chuva tornava tudo pior, especialmente o anúncio "Mantenha a pele de colegial". Valancy mantinha sua pele, mas isso não importava. Não havia beleza em lugar algum,思 "exatamente como minha vida", pensou, desanimada. A breve amargura passou, e ela aceitou a realidade com resignação. Era uma daquelas pessoas que a vida sempre deixa para trás.
Nesse estado de espírito, Valancy desceu para o café da manhã.
CAPÍTULO III
O café da manhã era sempre o mesmo: mingau de aveia, que Valancy odiava, torrada, chá e uma colher de geleia. A Sra. Frederick achava duas colheres extravagantes, mas Valancy também odiava geleia. A sala de jantar, fria e sombria, estava mais fria e sombria do que o habitual. A chuva caía lá fora, e os retratos dos Stirlings falecidos, em molduras douradas exageradas, pareciam julgá-la. Ainda assim, a prima Stickles desejou-lhe "muitos anos de vida"!
"Sente-se direita, Doss", disse a mãe, como sempre.
Valancy obedeceu. Conversou sobre os mesmos assuntos de sempre, nunca ousando desviar do roteiro. A mãe, irritada com o tempo, comia em silêncio, o que Valancy agradeceu. A prima Stickles, porém, reclamava sem parar: do tempo, do vazamento na despensa, do preço da aveia e da manteiga. Valancy, ao ouvir, sentiu-se culpada por passar manteiga na torrada.
A prima Stickles previu que Valancy pegaria caxumba, como se fosse uma profecia. A mãe, brevemente, concordou que ela não deveria se expor. Valancy nunca tivera caxumba, nem coqueluche, nem catapora, nem sarampo, apenas resfriados terríveis todo inverno. Os resfriados de Valancy eram uma tradição familiar. A mãe e a prima Stickles tentavam protegê-la, mas em vão. Um inverno, trancaram-na em casa de novembro a maio, sem nem ir à igreja, e ela ainda pegou resfriado e acabou com bronquite em junho.
"Ninguém na minha família era assim", disse a Sra. Frederick, sugerindo que era culpa dos Stirlings.
"Os Stirlings raramente pegam resfriados", respondeu a prima Stickles, ressentida.
"Acho que, se uma pessoa decidir não ter resfriados, não terá", concluiu a Sra. Frederick, culpando Valancy.
Mas a maior queixa de Valancy naquela manhã era ser chamada de "Doss". Vinte e nove anos de "Doss" eram suficientes. Seu nome era Valancy Jane, e ela gostava de "Valancy", com seu som único. Os Stirlings permitiram que a batizassem assim porque seu avô materno, Amos Wansbarra, escolhera o nome. O pai adicionou "Jane" para civilizá-lo, e a família a chamou de "Doss" para simplificar.
"Mãe", disse timidamente, "a senhora se importaria de me chamar de Valancy? Não gosto de 'Doss'."
A Sra. Frederick, com seus óculos de lentes grossas, olhou-a com espanto. "O que há de errado com 'Doss'?"
"Parece tão infantil", gaguejou Valancy.
"Ah!", a Sra. Frederick, uma Wansbarra, sorriu de forma pouco atraente. "Entendo. Bem, deve combinar com você, então. Você é infantil o suficiente."
"Tenho vinte e nove anos", insistiu Valancy.
"Não proclamaria isso aos quatro ventos, se fosse você", respondeu a mãe. "Eu já estava casada há nove anos quando tinha vinte e nove."
"Eu me casei aos dezessete", gabou-se a prima Stickles.
Valancy as observou, sentindo-se inferior. A mãe, apesar dos óculos e do nariz ganchudo, não era feia. Mas a prima Stickles! E ainda assim, ela já fora desejada por alguém. Valancy se perguntou se alguém algum dia a desejaria ou precisaria dela. Era uma decepção para a mãe, sem amigos, sem talentos.
"Nem mesmo tenho dom para a amizade", admitiu para si mesma, com tristeza.
"Doss, você não comeu as cascas", repreendeu a mãe.
Choveu a manhã toda. Valancy costurava um quilt, embora odiasse a tarefa e a casa já estivesse cheia deles. A mãe armazenava quilts desde que Valancy tinha dezessete anos, embora não parecesse que ela os usaria. Mas Valancy precisava trabalhar, e materiais para trabalhos manuais eram caros. A ociosidade era um pecado na casa dos Stirling. Quando criança, Valancy anotava todos os minutos de ociosidade em um caderno preto, e a mãe a fazia somá-los e orar por eles aos domingos.
Naquela manhã, Valancy "perdeu" apenas dez minutos, lendo "Thistle Harvest" de John Foster, que pegou às escondidas.
"As florestas são tão humanas", escreveu Foster, "que para conhecê-las, devemos viver com elas... Só através de visitas frequentes e reverentes, em todas as horas e estações, podemos nos tornar seus amigos. Elas têm seu próprio modo de manter estranhos à distância... Não adianta buscá-las sem amor; elas nos descobrirão e esconderão seus segredos. Mas, se as amarmos, elas serão gentis e nos darão tesouros de beleza e deleite que não se compram... Devemos ir até elas com amor, humildade e paciência, e seu coração imortal baterá contra o nosso, e sua vida sutil fluirá em nossas veias, tornando-nos seus para sempre."
"Doss", chamou a mãe do corredor, "o que está fazendo aí sozinha?"
Valancy escondeu o livro e correu para seus retalhos, mas sentiu a exaltação que sempre vinha ao ler Foster. Não conhecia bem as florestas, exceto as de seu Castelo Azul, mas sempre as desejara. Um livro de Foster era o próximo melhor coisa.
Ao meio-dia, a chuva parou, e o sol apareceu às três. Valancy, timidamente, pediu para ir ao centro.
"Para que quer ir ao centro?" perguntou a mãe.
"Pegar um livro na biblioteca."
"Você pegou um livro na semana passada."
"Não, foi há quatro semanas."
"Bobagem! Não pode ter sido mais que duas."
"Foi sim, mãe."
"Você está enganada. E não vejo por que precisa de um livro, de qualquer maneira. Você perde muito tempo lendo."
"De que valor é o meu tempo?" perguntou Valancy, amargamente.
"Doss! Não fale assim comigo."
"Precisamos de chá", disse a prima Stickles. "Ela pode ir buscar, se quer um passeio, embora esse tempo úmido seja ruim para resfriados."
Após dez minutos de discussão, a mãe permitiu, a contragosto, que Valancy fosse.
CAPÍTULO IV
"Levou suas galochas?"
Os dois balconistas, Joe Hammond e Claude Bertram, também riram, e Valancy os odiou um pouco mais do que nunca. No primeiro dia em que Claude Bertram a viu na loja, ela o ouviu sussurrar para Joe: "Quem é aquela?" E Joe respondeu: "Valancy Stirling — uma das solteironas de Deerwood." "Curável ou incurável?" Claude perguntou, rindo, claramente achando a pergunta muito inteligente. Valancy sentiu novamente a pontada daquela lembrança antiga.
"Vinte e nove", disse o tio Benjamin. "Meu Deus, Doss, você está perigosamente perto da segunda esquina e nem pensando em se casar ainda. Vinte e nove. Parece impossível."
Então, o tio Benjamin disse algo original. O tio Benjamin disse: "Como o tempo voa!"
"Acho que ele rasteja", disse Valancy, apaixonadamente. A paixão era tão estranha à concepção que o tio Benjamin tinha de Valancy que ele não sabia o que fazer com ela. Para cobrir sua confusão, ele fez outra charada enquanto amarrava seus feijões — a prima Stickles havia se lembrado no último momento de que precisavam de feijões. Feijões eram baratos e saciam a fome.
"Que duas idades tendem a ser ilusórias?" perguntou o tio Benjamin; e, sem esperar que Valancy "desistisse", ele acrescentou: "Mir-agem e cas-amento."
"M-i-r-a-g-e é pronunciado mirazh", disse Valancy, brevemente, pegando seu chá e seus feijões. Por um momento, ela não se importou se o tio Benjamin a excluísse de seu testamento ou não. Ela saiu da loja enquanto o tio Benjamin a observava com a boca aberta. Então, ele balançou a cabeça.
"Pobre Doss está levando isso a sério", disse ele.
Valancy se arrependeu quando chegou ao próximo cruzamento. Por que havia perdido a paciência assim? O tio Benjamin ficaria chateado e provavelmente contaria à mãe que Doss havia sido impertinente — "comigo!" — e a mãe a repreenderia por uma semana.
"Eu segurei minha língua por vinte anos", pensou Valancy. "Por que não pude segurá-la mais uma vez?"
Sim, já fazia vinte anos, refletiu Valancy, desde que foi caçoada por sua condição de solteirona. Lembrava-se perfeitamente do momento amargo. Tinha apenas nove anos e estava sozinha no pátio da escola, enquanto as outras meninas de sua classe brincavam de um jogo em que você precisava ser escolhida por um menino como sua parceira antes de poder jogar. Ninguém havia escolhido Valancy — pequena, pálida, de cabelos pretos, com seu avental comprido e justo e olhos estranhos e oblíquos.
"Ah", disse uma menininha bonita para ela, "sinto muito por você. Você não tem um namorado."
Valancy respondeu desafiadoramente, como continuou a dizer por vinte anos: "Eu não quero um namorado." Mas naquela tarde, Valancy parou de dizer isso de uma vez por todas.
"Vou ser honesta comigo mesma, de qualquer maneira", pensou, com raiva. "As charadas do tio Benjamin me machucaram porque são verdadeiras. Eu quero me casar. Quero uma casa minha — quero um marido meu — quero bebês gordinhos e fofos meus —" Valancy parou de repente, assustada com sua própria imprudência. Sentiu-se certa de que o Rev. Dr. Stalling, que passava por ela naquele momento, lia seus pensamentos e os desaprovava completamente. Valancy tinha medo do Dr. Stalling — estava com medo dele desde o domingo, vinte e três anos antes, quando ele chegou a St. Albans'. Valancy chegou atrasada para a Escola Dominical naquele dia e entrou na igreja timidamente, sentando-se em seu banco. Ninguém mais estava na igreja — ninguém, exceto o novo reitor, Dr. Stalling. O Dr. Stalling estava em pé em frente à porta do coro, acenou para ela e disse, severamente: "Menino, venha aqui."
Valancy olhou ao redor. Não havia menino algum — não havia ninguém em toda a enorme igreja além dela mesma. Aquele homem estranho com óculos azuis não podia estar se referindo a ela. Ela não era um menino.
"Menino", repetiu o Dr. Stalling, ainda mais severamente, sacudindo o dedo fiercely para ela, "venha aqui imediatamente!"
Valancy levantou-se como se estivesse hipnotizada e caminhou pelo corredor. Estava muito assustada para fazer qualquer outra coisa. O que iria acontecer com ela? O que havia acontecido com ela? Será que ela realmente havia se transformado em um menino? Parou em frente ao Dr. Stalling. O Dr. Stalling sacudiu o dedo — um dedo tão longo e nodoso — para ela e disse:
"Menino, tire o chapéu."
Valancy tirou o chapéu. Ela tinha uma trancinha magra pendurada nas costas, mas o Dr. Stalling era míope e não a percebeu.
"Menino, volte ao seu lugar e sempre tire o chapéu na igreja. Lembre-se!"
Valancy voltou ao seu lugar, carregando o chapéu como um autômato. Logo, sua mãe entrou.
"Doss", disse a Sra. Stirling, "o que significa tirar o chapéu? Coloque-o imediatamente!"
Valancy colocou-o imediatamente. Estava com medo de que o Dr. Stalling a chamasse novamente para a frente. Teria que ir, é claro — nunca lhe ocorreu que alguém pudesse desobedecer ao reitor — e a igreja estava cheia de gente agora. Ah, o que faria se aquele dedo horrível e pontiagudo fosse sacudido para ela novamente na frente de todas aquelas pessoas? Valancy passou o culto inteiro em agonia de medo e ficou doente por uma semana depois. Ninguém sabia por quê — a Sra. Frederick novamente se lamentava de sua filha delicada.
O Dr. Stalling descobriu seu erro e riu com Valancy — que não riu. Ela nunca superou seu medo do Dr. Stalling. E agora, ser pega por ele na rua, pensando em tais coisas!
Valancy pegou seu livro de John Foster, "Magic of Wings". "Seu último — tudo sobre pássaros", disse a Srta. Clarkson. Ela quase decidiu que voltaria para casa, em vez de ir ver o Dr. Trent. Sua coragem havia falhado. Estava com medo de ofender o tio James — medo de irritar a mãe — medo de enfrentar o velho Dr. Trent, de sobrancelhas grossas e ar carrancudo, que provavelmente diria, como disse à prima Gladys, que seu problema era totalmente imaginário e que ela só o tinha porque gostava de tê-lo. Não, ela não iria; compraria uma garrafa de Pílulas Roxas de Redfern em vez disso. As Pílulas Roxas de Redfern eram o remédio padrão do clã Stirling. Não curaram a Prima Geraldine quando cinco médicos a abandonaram? Valancy sempre sentiu-se cética em relação às virtudes das Pílulas Roxas; mas podia haver algo nelas; e era mais fácil tomá-las do que enfrentar o Dr. Trent sozinha. Ela folhearia as revistas na sala de leitura por alguns minutos e depois voltaria para casa.
Valancy tentou ler uma história, mas ficou furiosa. Em todas as páginas, havia uma imagem da heroína cercada por homens adoradores. E ali estava ela, Valancy Stirling, que não conseguia nem um namorado! Valancy fechou a revista com força; abriu "Magic of Wings". Seus olhos caíram no parágrafo que mudou sua vida.
"O medo é o pecado original", escreveu John Foster. "Quase todo o mal no mundo tem sua origem no fato de que alguém tem medo de algo. É uma serpente fria e viscosa que se enrosca em você. É horrível viver com medo; e é, acima de tudo, degradante."
Valancy fechou "Magic of Wings" e levantou-se. Iria ver o Dr. Trent.
CAPÍTULO VI
A provação não foi tão terrível, afinal. O Dr. Trent estava tão carrancudo e abrupto como sempre, mas não disse que sua doença era imaginária. Depois de ouvir seus sintomas, fazer algumas perguntas e um exame rápido, ele ficou por um momento olhando para ela com intensidade. Valancy achou que ele parecia triste por ela. Prendeu a respiração por um momento. O problema era sério? Ah, não podia ser, certamente — realmente não a incomodava muito — apenas lately havia piorado um pouco.
O Dr. Trent abriu a boca — mas, antes que pudesse falar, o telefone ao seu lado tocou sharply. Ele pegou o fone. Valancy, observando-o, viu seu rosto mudar repentinamente enquanto ouvia: "’Lo — sim — sim — o quê? — sim — sim" — uma breve pausa — "Meu Deus!"
O Dr. Trent largou o fone, correu para fora da sala e para cima, sem nem olhar para Valancy. Ela o ouviu correndo loucamente pelo andar de cima, dando algumas instruções a alguém — provavelmente sua empregada. Então, ele desceu as escadas com uma bolsa de golfe na mão, pegou chapéu e casaco do cabide, abriu a porta da rua e correu pela rua em direção à estação.
Valancy ficou sozinha no pequeno consultório, sentindo-se mais absolutamente ridícula do que jamais se sentira antes em sua vida. Ridícula — e humilhada. Então, isso era tudo o que resultara de sua determinação heroica de viver de acordo com John Foster e abandonar o medo. Não apenas era um fracasso como parente e inexistente como namorada ou amiga, mas nem mesmo era importante como paciente. O Dr. Trent esquecera sua presença completamente em sua empolgação com a mensagem que chegara pelo telefone. Não havia ganhado nada ignorando o tio James e enfrentando a tradição familiar.
Por um momento, temeu que fosse chorar. Era tudo tão — ridículo. Então, ouviu a empregada do Dr. Trent descendo as escadas. Valancy levantou-se e foi até a porta do consultório.
"O médico esqueceu-se completamente de mim", disse ela, com um sorriso torto.
"Bem, isso é uma pena", disse a Sra. Patterson, simpaticamente. "Mas não é de se admirar, coitado. Era um telegrama que ligaram da Port. Seu filho foi terrivelmente ferido em um acidente de carro em Montreal. O médico tinha apenas dez minutos para pegar o trem. Não sei o que ele fará se algo acontecer a Ned — ele é completamente dedicado ao menino. Você terá que voltar, Srta. Stirling. Espero que não seja nada sério."
"Ah, não, nada sério", concordou Valancy. Sentiu-se um pouco menos humilhada. Não era de se admirar que o pobre Dr. Trent a esquecesse em um momento assim. No entanto, sentiu-se muito desanimada ao caminhar pela rua.
Valancy voltou para casa pelo atalho do Lover's Lane. Não ia por lá com frequência — mas estava quase na hora do jantar e não podia chegar atrasada. O Lover's Lane contornava a vila, sob grandes sicômoros e bordos, e merecia seu nome. Era difícil passar por lá em qualquer momento e não encontrar algum casal apaixonado — ou jovens meninas em pares, braços entrelaçados, conversando sobre seus segredos. Valancy não sabia o que a fazia sentir-se mais consciente e desconfortável.
Naquela noite, encontrou ambos. Viu Connie Hale e Kate Bayley, em novos vestidos de organdi rosa com flores presas de forma coquete em seus cabelos lisos e descobertos. Valancy nunca tivera um vestido rosa ou usara flores no cabelo. Então, passou por um jovem casal que não conhecia, caminhando, alheio a tudo, exceto a si mesmo. O jovem tinha o braço em torno da cintura da moça, sem vergonha. Valancy nunca caminhara com o braço de um homem ao seu redor. Sentiu que deveria estar chocada — eles poderiam deixar esse tipo de coisa para o crepúsculo, pelo menos — mas não estava chocada. Em outro lampejo de honestidade desesperada e crua, admitiu para si mesma que estava apenas com inveja. Quando os passou, sentiu-se certa de que estavam rindo dela — com pena dela — "lá vai aquela solteirona estranha, Valancy Stirling. Dizem que ela nunca teve um namorado em toda a sua vida" — Valancy correu para sair do Lover's Lane. Nunca se sentira tão completamente sem cor, magra e insignificante.
Justamente onde o Lover's Lane se encontrava com a rua, um carro velho estava estacionado. Valancy conhecia bem aquele carro — pelo som, pelo menos — e todos em Deerwood o conheciam. Isso foi antes que a frase "lata velha" entrasse em circulação — em Deerwood, pelo menos; mas, se fosse conhecida, aquele carro era a mais velha das latas — embora não fosse um Ford, mas um velho Grey Slosson.
Era o carro de Barney Snaith, e o próprio Barney estava se levantando de debaixo dele, em macacões cobertos de lama. Valancy deu-lhe uma olhada rápida e furtiva enquanto passava apressada. Era apenas a segunda vez que via o notório Barney Snaith, embora tivesse ouvido muito sobre ele nos cinco anos que vivera "lá em cima" em Muskoka. A primeira vez fora quase um ano antes, na estrada de Muskoka. Ele também estava se levantando de debaixo do carro naquela ocasião, e dera-lhe um sorriso alegre enquanto passava — um sorriso pequeno e travesso que lhe dava um ar de gnomo divertido. Ele não parecia mau — ela não acreditava que fosse mau, apesar das histórias selvagens que sempre contavam sobre ele. É claro que ele corria com aquele terrível Grey Slosson por Deerwood em horas em que todas as pessoas decentes estavam na cama — muitas vezes com o velho "Roaring Abel", que tornava a noite horrível com seus uivos — "ambos completamente bêbados, minha querida". E todos sabiam que ele era um fugitivo, um ex-caixa de banco, um assassino foragido, um infiel, um filho ilegítimo do velho Roaring Abel Gay e pai do neto ilegítimo de Roaring Abel, um falsificador, um falsário e algumas outras coisas terríveis. Mas, ainda assim, Valancy não acreditava que fosse mau. Ninguém com um sorriso como aquele podia ser mau, não importava o que tivesse feito.
Foi naquela noite que o Príncipe do Castelo Azul mudou de um ser de mandíbula e cabelos grisalhos para um indivíduo trapaceiro com cabelos longos e castanhos, com um toque de vermelho, olhos castanhos escuros e orelhas que se destacavam o suficiente para dar-lhe um ar alerta, mas não o suficiente para serem chamadas de "asas de morcego". Mas ele ainda mantinha algo um pouco severo na mandíbula.
Barney Snaith parecia ainda mais desleixado do que o habitual naquele momento. Era evidente que não havia se barbeado há dias, e suas mãos e braços, nus até os ombros, estavam pretos de graxa. Mas ele estava assobiando alegremente para si mesmo e parecia tão feliz que Valancy o invejou. Invejou sua alegria, sua irresponsabilidade e sua misteriosa cabana em uma ilha no Lago Mistawis — até mesmo seu velho Grey Slosson. Nem ele nem seu carro precisavam ser respeitáveis e viver de acordo com as tradições. Quando ele passou por ela alguns minutos depois, sem chapéu, reclinado em seu carro em um ângulo descontraído, seus longos cabelos ao vento, um cachimbo velho e vil na boca, ela o invejou novamente. Os homens tinham a melhor parte, sem dúvida. Aquele fora da lei era feliz, fosse o que fosse. Ela, Valancy Stirling, respeitável e bem-comportada ao extremo, era infeliz e sempre fora infeliz. Então, era isso.
Valancy chegou justamente a tempo para o jantar. O sol havia se escondido, e uma chuva fina e triste caía novamente. A prima Stickles estava com nevralgia. Valancy teve que fazer o conserto da família e não houve tempo para "Magic of Wings".
"Não pode esperar até amanhã?" ela implorou.
"Amanhã trará suas próprias tarefas", disse a Sra. Frederick, inexoravelmente.
Valancy costurou a noite toda e ouviu a Sra. Frederick e a prima Stickles falando sobre a eterna e mesquinha fofoca do clã, enquanto tricotavam interminavelmente meias pretas. Discutiram o próximo casamento da Prima Lilian em todos os seus aspectos. No geral, aprovavam. A Prima Lilian estava se dando bem.
"Embora não tenha se apressado", disse a prima Stickles. "Ela deve ter vinte e cinco anos."
"Não houve — felizmente — muitas solteironas em nossa família", disse a Sra. Frederick, amargamente.
Valancy estremeceu. Havia enfiado a agulha no dedo.
O Primo Aaron Gray havia sido arranhado por um gato e estava com sangue envenenado no dedo. "Gatos são animais muito perigosos", disse a Sra. Frederick. "Eu nunca teria um gato em casa."
Ela olhou significativamente para Valancy através de seus terríveis óculos. Uma vez, cinco anos antes, Valancy havia pedido se podia ter um gato. Nunca mais mencionou o assunto, mas a Sra. Frederick ainda suspeitava que ela alimentava o desejo ilegal em seu coração.
Uma vez, Valancy espirrou. Agora, no código Stirling, era muito mal visto espirrar em público.
"Você sempre pode reprimir um espirro pressionando o dedo no lábio superior", disse a Sra. Frederick, repreendendo.
Meia-noite e, como diria o Sr. Pepys, para a cama. Mas a prima Stickles precisava que suas costas com nevralgia fossem esfregadas com Linimento de Redfern. Valancy fez isso. Valancy sempre tinha que fazer. Odiava o cheiro do Linimento de Redfern — odiava a imagem sorridente, portly, de barba e óculos do Dr. Redfern no frasco. Suas mãos cheiravam ao horrível produto depois que se deitava, apesar de toda a lavagem que lhes dava.
O dia do destino de Valancy chegara e se fora. Ela o terminou como o havia começado, em lágrimas.
CAPÍTULO VII
Havia uma roseira no pequeno jardim dos Stirling, crescendo ao lado do portão. Era chamada de "roseira de Doss". A prima Georgiana a dera a Valancy cinco anos antes, e Valancy a plantara com alegria. Amava rosas. Mas — é claro — a roseira nunca floresceu. Era sua sina. Valancy fez tudo o que podia e seguiu os conselhos de todos no clã, mas a roseira se recusava a florescer. Crescia luxuriantemente, com galhos grandes e saudáveis, sem sinais de ferrugem ou teias de aranha; mas nem mesmo um botão havia aparecido. Valancy, olhando para ela dois dias após seu aniversário, foi tomada por uma repentina e avassaladora raiva. A planta não florescia: muito bem, então, ela a cortaria. Pegou sua faca de jardinagem no barracão e atacou a roseira com violência. Alguns minutos depois, a horrorizada Sra. Frederick saiu para a varanda e viu sua filha cortando insanamente os galhos da roseira. Metade deles já estava espalhada pelo caminho. A planta parecia tristemente desmantelada.
"Doss, o que diabos está fazendo? Você enlouqueceu?"
"Não", disse Valancy. Pretendia dizer isso com desafio, mas o hábito foi mais forte. Disse-o com submissão. "Eu — eu apenas decidi cortar esta roseira. Ela não serve para nada. Nunca floresce — nunca florescerá."
"Isso não é motivo para destruí-la", disse a Sra. Frederick, severamente. "Era uma roseira linda e bastante ornamental. Você a deixou em um estado lastimável."
"Roseiras devem florescer", disse Valancy, um pouco teimosamente.
"Não discuta comigo, Doss. Limpe essa bagunça e deixe a roseira em paz. Não sei o que a Georgiana vai dizer quando vir como você a cortou em pedaços. Realmente, estou surpresa com você. E fazer isso sem me consultar!"
"A roseira é minha", murmurou Valancy.
"O que disse? O que disse, Doss?"
"Eu apenas disse que a roseira é minha", repetiu Valancy, humildemente.
A Sra. Frederick virou-se sem uma palavra e marchou de volta para dentro de casa. O estrago estava feito. Valancy sabia que havia ofendido profundamente a mãe e que não seria falada ou notada por dois ou três dias. A prima Stickles cuidaria da educação de Valancy, mas a Sra. Frederick manteria o silêncio de majestade ofendida.
Valancy suspirou e guardou sua faca de jardinagem, pendurando-a precisamente em seu prego preciso no barracão. Limpou os galhos cortados e varr
o o caminho até o barril de lixo. Então, ela se sentou na escada da varanda e olhou para o roseiral.
A Sra. Frederick e a prima Stickles estavam na sala de estar. Valancy podia ouvi-las falando. A prima Stickles estava dizendo algo sobre o Dr. Trent. Valancy se levantou e foi até a janela da sala de estar.
— O que a Sra. Judd estava dizendo sobre o Dr. Trent? — perguntou, casualmente.
A prima Stickles olhou para ela com surpresa.
— Oh, apenas que o Dr. Trent recebeu uma carta hoje dizendo que seu filho está melhorando. Ele escreveu que, se o filho se recuperar, levará ele para o exterior assim que puder viajar e não voltará para cá por pelo menos um ano.
— Isso não nos afeta muito — disse a Sra. Frederick, majestaticamente. — Ele não é nosso médico. Eu não o deixaria cuidar nem de um gato doente.
Valancy sentiu um alívio momentâneo. Se o Dr. Trent estivesse indo para o exterior, ela não precisaria se preocupar em contar a ninguém sobre sua consulta. Mas, ao mesmo tempo, sentiu uma pontada de culpa por ter escondido a verdade.
— Posso subir e deitar um pouco? — perguntou, fracamente. — Estou com dor de cabeça.
— O que causou essa dor de cabeça? — perguntou a prima Stickles, já que a Sra. Frederick não o fez. A pergunta precisava ser feita. Valancy não podia ter dores de cabeça sem interferência.
— Você não está acostumada a ter dores de cabeça. Espero que não esteja pegando caxumba. Aqui, tome uma colher de vinagre.
— Bobagem! — disse Valancy, rudemente, levantando-se da mesa. Ela não se importava em ser rude naquele momento. Tivera que ser tão polida a vida toda.
Se a prima Stickles pudesse ficar pálida, ela ficaria. Como não podia, ficou mais amarela.
— Você tem certeza de que não está com febre, Doss? Você parece estar. Vá direto para a cama — disse a prima Stickles, completamente alarmada —, e eu subirei para esfregar sua testa e a nuca com o Linimento Redfern.
Valancy havia chegado à porta, mas se virou.
— Não deixarei que me esfreguem com o Linimento Redfern! — disse.
A prima Stickles ficou estarrecida.
— O que... o que você quer dizer?
— Eu disse que não deixarei que me esfreguem com o Linimento Redfern — repetiu Valancy. — É uma coisa horrível e pegajosa! E tem o pior cheiro de qualquer linimento que já vi. Não serve para nada. Quero que me deixem em paz, é só isso.
Valancy saiu, deixando a prima Stickles atônita.
— Ela está com febre — ela deve estar com febre — murmurou a prima Stickles.
A Sra. Frederick continuou comendo sua ceia. Não importava se Valancy estava ou não com febre. Valancy havia sido impertinente com ela.
CAPÍTULO VIII
Valancy não dormiu naquela noite. Ficou acordada durante todas as longas horas escuras, pensando, pensando. Fez uma descoberta que a surpreendeu: ela, que sempre tivera medo de quase tudo na vida, não tinha medo da morte. Isso não parecia nem um pouco terrível para ela. E agora ela não precisava mais ter medo de nada. Por que ela tivera medo das coisas? Por causa da vida. Medo do tio Benjamin por causa da ameaça da pobreza na velhice. Mas agora ela nunca ficaria velha, negligenciada, tolerada. Medo de ser uma solteirona a vida toda. Mas agora ela não seria uma solteirona por muito tempo. Medo de ofender a mãe e o clã porque ela tinha que viver com e entre eles e não poderia viver em paz se não cedesse a eles. Mas agora ela não cederia. Valancy sentia uma liberdade curiosa.
Mas ainda tinha um medo horrível de uma coisa: a confusão que toda aquela turma faria quando ela contasse a eles. Valancy estremeceu ao pensar nisso. Não conseguiria suportar. Ah, ela sabia muito bem como seria. Primeiro, haveria indignação — sim, indignação por parte do tio James porque ela havia ido a um médico — qualquer médico — sem consultá-LO. Indignação por parte da mãe por ter sido tão sorrateira e enganosa — "com a sua própria mãe, Doss". Indignação por parte de todo o clã porque ela não havia ido ao Dr. Marsh.
Depois, viria a solicitude. Ela seria levada ao Dr. Marsh, e quando o Dr. Marsh confirmasse o diagnóstico do Dr. Trent, ela seria levada a especialistas em Toronto e Montreal. O tio Benjamin pagaria a conta com um gesto esplêndido de munificência ao ajudar assim a viúva e a órfã, e falaria para sempre sobre as taxas escandalosas que os especialistas cobravam por parecerem sábios e dizerem que não podiam fazer nada. E quando os especialistas não pudessem fazer nada por ela, o tio James insistiria para que ela tomasse Pílulas Roxas — "Eu as vi curarem quando todos os médicos haviam desistido" — e a mãe insistiria no Bitters de Sangue Redfern, e a prima Stickles insistiria em esfregá-la sobre o coração todas as noites com o Linimento Redfern, com o argumento de que poderia fazer bem e não faria mal; e todo mundo teria algum dopador favorito para ela tomar. O Dr. Stalling viria até ela e diria solenemente: "Você está muito doente. Está preparada para o que pode vir?" — quase como se fosse sacudir o dedo indicador para ela, o dedo indicador que não havia ficado mais curto ou menos nodosos com a idade. E ela seria vigiada e controlada como um bebê e nunca deixada fazer nada ou ir a lugar algum sozinha. Talvez ela nem fosse permitida a dormir sozinha, para o caso de morrer enquanto dormia. A prima Stickles ou a mãe insistiriam em dividir seu quarto e cama. Sim, sem dúvida fariam isso.
Foi esse último pensamento que realmente decidiu Valancy. Ela não poderia suportar e não suportaria. Quando o relógio no corredor abaixo bateu meia-noite, Valancy, de repente e definitivamente, decidiu que não contaria a ninguém. Ela sempre fora ensinada, desde que se lembrava, a esconder seus sentimentos. "Não é próprio de uma lady ter sentimentos", a prima Stickles uma vez lhe dissera, desaprovação. Bem, ela os esconderia com vingança.
Mas, embora não tivesse medo da morte, não era indiferente a ela. Descobriu que a resentia; não era justo que ela tivesse que morrer sem nunca ter vivido. A rebelião flamejou em sua alma à medida que as horas escuras passavam — não porque ela não tinha futuro, mas porque não tinha passado.
"Sou pobre, sou feia, sou um fracasso e estou perto da morte", pensou. Ela podia ver seu próprio obituário no Deerwood Weekly Times, copiado no Port Lawrence Journal. "Uma profunda tristeza pairou sobre Deerwood, etc., etc." — "deixa um grande círculo de amigos para lamentar, etc., etc., etc." — mentiras, todas mentiras. Tristeza, ora! Ninguém sentiria sua falta. Sua morte não importaria nem um pouco para ninguém. Nem mesmo a mãe a amava — a mãe que ficara tão desapontada por ela não ser um menino — ou, pelo menos, uma garota bonita.
Valancy revisou toda a sua vida entre a meia-noite e o amanhecer da primavera. Era uma existência muito monótona, mas aqui e ali um incidente se destacava com uma importância desproporcional à sua real importância. Esses incidentes eram todos desagradáveis de uma forma ou de outra. Nada realmente agradável havia acontecido com Valancy.
"Nunca tive uma hora completamente feliz na minha vida — nem uma", pensou. "Fui apenas uma não-entidade sem cor. Lembro-me de ler em algum lugar que há uma hora na qual uma mulher poderia ser feliz a vida toda, se pudesse encontrá-la. Nunca encontrei minha hora — nunca, nunca. E nunca encontrarei agora. Se ao menos pudesse ter tido aquela hora, eu estaria disposta a morrer."
Aqueles incidentes significativos continuavam surgindo em sua mente como fantasmas não convidados, sem qualquer sequência de tempo ou lugar. Por exemplo, aquela vez, aos dezesseis anos, em que ela tingiu uma banheira de roupas de azul escuro. E a vez, aos oito anos, em que "roubou" geleia de framboesa da despensa da tia Wellington. Valancy nunca ouviu o fim daquelas duas infrações. Em quase todos os encontros do clã, elas eram relembradas contra ela como piadas. O tio Benjamin raramente deixava de contar novamente o incidente da geleia de framboesa — ele havia sido o único a pegá-la, com o rosto todo manchado e riscado.
"Eu realmente fiz tão poucas coisas ruins que eles precisam ficar tocando nas antigas", pensou Valancy. "Por que, eu nunca tive uma briga com ninguém. Não tenho um inimigo. Que coisa sem espinha devo ser por não ter nem um inimigo!"
Havia o incidente do monte de poeira na escola quando ela tinha sete anos. Valancy sempre se lembrava dele quando o Dr. Stalling se referia ao texto: "A quem tem, será dado; e ao que não tem, até o que tem lhe será tirado". Outras pessoas podiam se confundir com esse texto, mas Valancy nunca se confundia. Toda a relação entre ela e Olive, desde o dia do monte de poeira, era um comentário sobre isso.
Ela estava indo para a escola há um ano, mas Olive, que era um ano mais nova, acabara de começar e tinha todo o glamour de "uma nova garota" e, além disso, uma garota muito bonita. Era no recreio, e todas as garotas, grandes e pequenas, estavam na estrada em frente à escola fazendo montes de poeira. O objetivo de cada garota era ter o maior monte. Valancy era boa em fazer montes de poeira — havia uma arte nisso — e ela tinha esperanças secretas de liderar. Mas Olive, trabalhando sozinha, foi descoberta de repente com um monte de poeira maior que o de qualquer outra pessoa. Valancy não sentiu inveja. Seu monte de poeira era grande o suficiente para agradá-la. Então, uma das garotas mais velhas teve uma inspiração.
"Vamos colocar toda a nossa poeira no monte de Olive e fazer um tremendo", exclamou.
Uma espécie de frenesi parecia apoderar-se das garotas. Elas se lançaram sobre os montes de poeira com baldes e pás, e em poucos segundos o monte de Olive era uma verdadeira pirâmide. Em vão Valancy, com os bracinhos magros e estendidos, tentou proteger o dela. Ela foi impiedosamente afastada, seu monte de poeira foi escavado e despejado no de Olive. Valancy se afastou resolutamente e começou a construir outro monte de poeira. Novamente, uma garota maior se lançou sobre ele. Valancy ficou na frente dele, corada, indignada, com os braços estendidos.
"Não pegue", implorou. "Por favor, não pegue."
"Mas por quê?" perguntou a garota mais velha. "Por que você não ajuda a construir o de Olive, que é maior?"
"Eu quero o meu próprio monte de poeira", disse Valancy, com voz chorosa.
Seu pedido foi ignorado. Enquanto ela discutia com uma garota, outra escavava seu monte de poeira. Valancy se afastou, o coração inchado, os olhos cheios de lágrimas.
"Invejosa — você está com inveja!" disseram as garotas, zombando.
"Você foi muito egoísta", disse a mãe, friamente, quando Valancy lhe contou sobre isso à noite. Essa foi a primeira e última vez que Valancy levou algum de seus problemas à mãe.
Valancy não era invejosa nem egoísta. Era apenas que ela queria um monte de poeira próprio — pequeno ou grande, não importava. Uma equipe de cavalos desceu a rua — o monte de poeira de Olive foi espalhado pela estrada — o sino tocou — as garotas entraram na escola e esqueceram o assunto antes de chegarem às suas carteiras. Valancy nunca esqueceu. Até hoje, ela o resentia em sua alma secreta. Mas não era isso simbólico de sua vida?
"Nunca pude ter o meu próprio monte de poeira", pensou Valancy.
A enorme lua vermelha que ela vira surgindo bem no final da rua em uma noite de outono, quando tinha seis anos. Ela estava doente e com frio por causa do horror estranho e sinistro disso. Tão perto dela. Tão grande. Ela correu para dentro, tremendo, para a mãe, e a mãe riu dela. Ela foi para a cama e escondeu o rosto sob os lençóis, com medo de olhar para a janela e ver aquela lua horrível olhando para ela através dela.
O garoto que tentou beijá-la em uma festa quando ela tinha quinze anos. Ela não deixou — ela o evitou e correu. Ele foi o único garoto que tentou beijá-la. Agora, catorze anos depois, Valancy se viu desejando ter deixado.
A vez em que ela foi obrigada a se desculpar com Olive por algo que não havia feito. Olive disse que Valancy a empurrara na lama e estragara seus sapatos novos de propósito. Valancy sabia que não havia feito isso. Fora um acidente — e nem mesmo isso fora culpa dela — mas ninguém acreditou nela. Ela teve que se desculpar — e beijar Olive para "fazer as pazes". A injustiça disso queimava em sua alma naquela noite.
Aquele verão em que Olive teve o chapéu mais bonito, enfeitado com uma rede amarela cremosa, com uma guirlanda de rosas vermelhas e pequenos laços de fita sob o queixo. Valancy quisera um chapéu como aquele mais do que qualquer outra coisa. Ela implorou por um e foi ridicularizada — o verão todo ela teve que usar um horrível chapéu de marinheiro marrom com elástico que cortava atrás de suas orelhas. Nenhuma das garotas queria sair com ela porque ela era tão desleixada — ninguém além de Olive. As pessoas achavam Olive tão doce e desinteressada.
"Eu era um excelente contraste para ela", pensou Valancy. "Mesmo naquela época, ela sabia disso."
Valancy tentara ganhar um prêmio de frequência na Escola Dominical uma vez. Mas Olive ganhou. Havia tantos domingos em que Valancy tinha que ficar em casa porque estava resfriada. Ela tentara "recitar uma peça" na escola uma tarde de sexta-feira e desistira no meio. Olive era uma boa recitadora e nunca se atrapalhava.
A noite que ela passara em Port Lawrence com a tia Isabel quando tinha dez anos. Byron Stirling estava lá; de Montreal, doze anos, convencido, inteligente. Nas orações da família de manhã, Byron esticou o braço e deu uma beliscão tão violento no braço magro de Valancy que ela gritou de dor. Depois que as orações terminaram, ela foi convocada ao tribunal de julgamento da tia Isabel. Mas, quando ela disse que Byron a beliscara, ele negou. Disse que ela gritou porque o gatinho a arranhara. Disse que ela colocara o gatinho em sua cadeira e estava brincando com ele quando deveria estar ouvindo a oração do tio David. Ele foi acreditado. No clã Stirling, os meninos sempre eram acreditados antes das meninas. Valancy foi mandada para casa em desgraça por causa de seu comportamento extremamente ruim durante as orações da família, e não foi convidada para a casa da tia Isabel novamente por muitos meses.
A vez em que a prima Betty Stirling se casou. De alguma forma, Valancy soube que Betty ia pedir que ela fosse uma de suas damas de honra. Valancy ficou secretamente animada. Seria uma coisa deliciosa ser dama de honra. E, claro, ela teria que ter um vestido novo para isso — um vestido novo e bonito — um vestido rosa. Betty queria que suas damas de honra se vestissem de rosa.
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: ---
Mas Betty nunca a convidara, afinal. Valancy não conseguia adivinhar por quê, mas, muito depois que suas lágrimas secretas de decepção haviam secado, Olive lhe contou. Betty, após muita consulta e reflexão, decidira que Valancy era muito insignificante — ela "estragaria o efeito". Isso foi há nove anos. Mas, naquela noite, Valancy sentiu a velha dor e o velho ardor.
Aquele dia, quando tinha onze anos, em que sua mãe a pressionou até que confessasse algo que nunca fizera. Valancy negara por muito tempo, mas, eventualmente, por causa da paz, cedera e se declarara culpada. A Sra. Frederick sempre fazia as pessoas mentirem, empurrando-as para situações em que tinham que mentir. Então, sua mãe a fez ajoelhar-se no chão da sala, entre ela e a prima Stickles, e dizer: "Ó Deus, por favor, perdoe-me por não falar a verdade." Valancy disse, mas, ao se levantar, murmurou: "Mas, ó Deus, o Senhor sabe que falei a verdade." Valancy ainda não conhecia Galileu, mas seu destino foi semelhante ao dele. Foi punida tão severamente como se não tivesse confessado e orado.
O inverno em que foi à escola de dança. O tio James decretou que ela deveria ir e pagou por suas aulas. Como ela esperara por isso! E como odiara! Nunca teve um parceiro voluntário. O professor sempre tinha que mandar algum menino dançar com ela, e, geralmente, ele estava de mau humor por causa disso. No entanto, Valancy dançava bem, leve como uma pluma. Olive, que nunca faltava parceiros ansiosos, era pesada.
O caso do cordão de botões, quando tinha dez anos. Todas as meninas da escola tinham cordões de botões. Olive tinha um muito longo, com muitos botões bonitos. Valancy tinha um. A maioria dos botões era muito comum, mas ela tinha seis maravilhosos que vieram do vestido de noiva da avó Stirling — botões brilhantes de ouro e vidro, muito mais bonitos do que qualquer um que Olive tivesse. Sua posse conferia uma certa distinção a Valancy. Ela sabia que todas as meninas da escola a invejavam pela posse exclusiva daqueles botões bonitos. Quando Olive os viu no cordão, olhou-os de perto, mas não disse nada — na época. No dia seguinte, a tia Wellington foi à Rua Elm e disse à Sra. Frederick que achava que Olive deveria ter alguns daqueles botões — a avó Stirling era tanto mãe de Wellington quanto de Frederick. A Sra. Frederick concordou, amavelmente. Não podia se dar ao luxo de brigar com a tia Wellington. Além disso, o assunto não tinha importância alguma. A tia Wellington levou quatro dos botões, deixando generosamente dois para Valancy. Valancy os arrancou de seu cordão e os jogou no chão — ainda não aprendera que era indelicado ter sentimentos — e foi mandada para a cama sem jantar por causa da exibição.
A noite da festa de Margaret Blunt. Ela tentara tão pateticamente ser bonita naquela noite. Rob Walker estaria lá; e, duas noites antes, na varanda iluminada pela lua da casa do tio Herbert em Mistawis, Rob parecera realmente atraído por ela. Na festa de Margaret, Rob nem mesmo a convidou para dançar — não a notou de forma alguma. Ela foi uma parede, como de costume. Isso, é claro, foi há anos. As pessoas em Deerwood há muito tempo pararam de convidar Valancy para dançar. Mas, para Valancy, sua humilhação e decepção eram recentes. Seu rosto queimou na escuridão ao se lembrar de si mesma, sentada lá com seu cabelo finamente frisado e os bochechas que apertara por uma hora antes de chegar, na tentativa de torná-las vermelhas. Tudo o que resultou foi uma história selvagem de que Valancy Stirling estava maquiada na festa de Margaret Blunt. Naquela época, em Deerwood, isso era suficiente para arruinar sua reputação para sempre. Isso não arruinou a de Valancy, nem mesmo a danificou. As pessoas sabiam que ela não podia ser rápida, mesmo que tentasse. Apenas riram dela.
"Tive nada além de uma existência de segunda mão", decidiu Valancy. "Todas as grandes emoções da vida me passaram ao largo. Nem mesmo tive um luto. E será que algum dia realmente amei alguém? Amo realmente a mãe? Não, não amo. Essa é a verdade, seja ela vergonhosa ou não. Não a amo — nunca a amei. Pior, nem mesmo a gosto. Então, não sei nada sobre qualquer tipo de amor. Minha vida foi vazia — vazia. Nada é pior do que o vazio. Nada!" Valancy pronunciou o último "nada" em voz alta, apaixonadamente. Então, gemeu e parou de pensar por um tempo. Uma de suas crises de dor começara.
Quando passou, algo aconteceu com Valancy — talvez a culminação do processo que vinha ocorrendo em sua mente desde que lera a carta do Dr. Trent. Eram três horas da manhã — a hora mais sábia e mais amaldiçoada do relógio. Mas, às vezes, ela nos liberta.
"Passei a vida toda tentando agradar aos outros e falhei", disse ela. "Daqui para frente, vou me agradar. Nunca mais vou fingir nada. Respirei uma atmosfera de mentiras e fingimentos e evasivas a vida toda. Que luxo será dizer a verdade! Talvez não possa fazer muito do que quero, mas não farei mais nada do que não quero. A mãe pode fazer beicinho por semanas — não vou me preocupar com isso. 'O desespero é um homem livre — a esperança é uma escrava.'"
Valancy levantou-se e se vestiu, com um aprofundamento daquela estranha sensação de liberdade. Quando terminou com o cabelo, abriu a janela e jogou o frasco de potpourri no lote ao lado. Ele se espatifou gloriosamente contra o anúncio de pele de colegial na velha oficina de carruagens.
"Estou cansada do perfume de coisas mortas", disse Valancy.
CAPÍTULO IX
O aniversário de prata do tio Herbert e da tia Alberta foi delicadamente referido entre os Stirlings durante as semanas seguintes como "o momento em que notamos pela primeira vez que a pobre Valancy estava — um pouco — entende?"
Por nada neste mundo, qualquer um dos Stirlings teria dito logo de cara que Valancy enlouquecera levemente ou mesmo que sua mente estava um pouco perturbada. O tio Benjamin foi considerado como tendo ido longe demais quando exclamou: "Ela está maluca — eu lhe digo, ela está maluca", e só foi perdoado por causa da indignação da conduta de Valancy no mencionado jantar de aniversário.
Mas a Sra. Frederick e a prima Stickles notaram algumas coisas que as deixaram inquietas antes do jantar. Tudo começou com a roseira, é claro; e Valancy nunca mais foi "completamente certa". Ela não parecia se preocupar nem um pouco com o fato de que a mãe não lhe falava. Parecia que nem notava. Recusou-se terminantemente a tomar tanto as Pílulas Roxas quanto os Bitters de Redfern. Anunciou friamente que não pretendia mais atender pelo nome de "Doss". Disse à prima Stickles que desejava que ela parasse de usar aquele broche com o cabelo da prima Artemas Stickles. Mudou sua cama no quarto para o canto oposto. Leu "Magic of Wings" na tarde de domingo. Quando a prima Stickles a repreendeu, Valancy disse, indiferente: "Ah, esqueci que era domingo" — e continuou lendo.
A prima Stickles vira uma coisa terrível — pegara Valancy escorregando pela balaustrada. A prima Stickles não contou isso à Sra. Frederick — a pobre Amelia já estava preocupada o suficiente. Mas foi o anúncio de Valancy na noite de sábado de que não iria mais à igreja anglicana que quebrou o silêncio de pedra da Sra. Frederick.
"Não vai mais à igreja! Doss, você perdeu completamente o juízo——"
"Ah, vou à igreja", disse Valancy, alegremente. "Vou à igreja presbiteriana. Mas à igreja anglicana não vou."
Isso foi ainda pior. A Sra. Frederick recorreu às lágrimas, tendo descoberto que a majestade ofendida deixara de ser eficaz.
"O que você tem contra a igreja anglicana?" ela soluçou.
"Nada — apenas que você sempre me obrigou a ir lá. Se me obrigasse a ir à igreja presbiteriana, eu queria ir à anglicana."
"Isso é uma coisa bonita de se dizer à mãe? Ah, como é verdade que é mais afiado do que o dente de uma serpente ter uma filha ingrata."
"Isso é uma coisa bonita de se dizer à filha?" disse Valancy, impenitente.
Então, o comportamento de Valancy no aniversário de prata não foi completamente uma surpresa para a Sra. Frederick e Christine Stickles, como foi para o resto. Estavam em dúvida sobre a sabedoria de levá-la, mas concluíram que "faria falar" se não o fizessem. Talvez ela se comportasse, e, até então, nenhum estranho suspeitava que havia algo estranho com ela. Por uma especial misericórdia da Providência, chovera torrencialmente na manhã de domingo, então Valancy não levara adiante sua ameaça horrível de ir à igreja presbiteriana.
Valancy não se importaria nem um pouco se a deixassem em casa. Essas celebrações familiares eram todas desesperadamente entediantes. Mas os Stirlings sempre celebravam tudo. Era um costume antigo. Até mesmo a Sra. Frederick dava um jantar de aniversário e a prima Stickles convidava amigos para o chá em seu aniversário. Valancy odiava essas reuniões porque tinham que apertar e economizar e improvisar por semanas depois para pagá-las. Mas queria ir ao aniversário de prata. Isso magoaria os sentimentos do tio Herbert se ela ficasse em casa, e ela gostava do tio Herbert. Além disso, queria observar todos os seus parentes de seu novo ângulo. Seria um excelente lugar para tornar pública sua declaração de independência, se a ocasião oferecesse.
"Vista seu vestido de seda marrom", disse a Sra. Stirling.
Como se houvesse algo mais para vestir! Valancy só tinha um vestido festivo — aquele de seda marrom esquisito que a tia Isabel lhe dera. A tia Isabel decretara que Valancy nunca deveria usar cores. Elas não lhe caiam bem. Quando era jovem, permitiam que usasse branco, mas isso fora tacitamente abandonado há alguns anos. Valancy vestiu a seda marrom. Tinha gola alta e mangas compridas. Nunca tivera um vestido com decote baixo e mangas até o cotovelo, embora estivessem na moda, até mesmo em Deerwood, há mais de um ano. Mas não fez o penteado alto. Prendeu-o no pescoço e o soltou sobre as orelhas. Achou que lhe caía bem — apenas o pequeno nó era absurdamente pequeno. A Sra. Frederick ressentiu-se do cabelo, mas decidiu que era mais sábio não dizer nada na véspera da festa. Era tão importante que Valancy estivesse de bom humor, se possível, até que tudo acabasse. A Sra. Frederick não refletiu que essa era a primeira vez na vida que achava necessário considerar os humores de Valancy. Mas, então, Valancy nunca estivera "estranha" antes.
A caminho da casa do tio Herbert — a Sra. Frederick e a prima Stickles caminhando na frente, Valancy trotando mansamente atrás — Roaring Abel passou por elas. Bêbado como sempre, mas não na fase de rugir. Apenas bêbado o suficiente para ser excessivamente polido. Ele ergueu seu velho boné de tartan com o ar de um monarca saudando seus súditos e fez-lhes uma grande reverência. A Sra. Frederick e a prima Stickles não ousaram cortar Roaring Abel completamente. Ele era a única pessoa em Deerwood que podia ser contratada para fazer pequenos trabalhos de carpintaria e consertos quando precisavam ser feitos, então não podiam ofendê-lo. Mas responderam com apenas a mais rígida e leve das reverências. Roaring Abel devia ser mantido em seu lugar.
Valancy, atrás delas, fez uma coisa que, felizmente, elas não viram. Sorriu alegremente e acenou para Roaring Abel. Por que não? Sempre gostara do velho pecador. Ele era um reprobata tão alegre, pitoresco e desavergonhado, e se destacava contra a respeitabilidade monótona de Deerwood e seus costumes como uma bandeira vermelha de revolta e protesto. Apenas algumas noites antes, Abel percorrera Deerwood nas primeiras horas da manhã, gritando juramentos no topo de sua voz estentórea, que podia ser ouvida por milhas, e açoitando seu cavalo em uma galopada furiosa enquanto corria pela Rua Elm, tão correta.
"Berrando e blasfemando como um demônio", tremeu a prima Stickles à mesa do café da manhã.
"Não consigo entender por que o julgamento do Senhor não caiu sobre aquele homem muito antes", disse a Sra. Frederick, petulante, como se achasse que a Providência era muito lenta e precisasse de um lembrete gentil.
"Ele será encontrado morto uma manhã — cairá sob os cascos de seu cavalo e será pisoteado até a morte", disse a prima Stickles, tranquilizadora.
Valancy não disse nada, é claro; mas se perguntou se as bebedeiras periódicas de Roaring Abel não eram seu protesto inútil contra a pobreza, a labuta e a monotonia de sua existência. Ela fazia festas em seu Castelo Azul. Roaring Abel, sem imaginação, não podia fazer isso. Suas fugas da realidade tinham que ser concretas. Então, acenou para ele hoje com uma repentina camaradagem, e Roaring Abel, não muito bêbado para se surpreender, quase caiu da cadeira em seu espanto.
Naquela altura, já haviam chegado à Avenida Maple e à casa do tio Herbert, uma estrutura grande e pretensiosa, coberta de janelas em bay e varandas excrescentes. Uma casa que sempre parecia um homem estúpido, próspero e satisfeito consigo mesmo, com verrugas no rosto.
"Uma casa como essa", disse Valancy, solenemente, "é uma blasfêmia."
A Sra. Frederick ficou abalada até a alma. O que Valancy dissera? Era profano? Ou apenas estranho? A Sra. Frederick tirou o chapéu no quarto da tia Alberta com mãos trêmulas. Fez uma última tentativa fraca de evitar o desastre. Segurou Valancy no pouso da escada enquanto a prima Stickles descia.
"Você não vai tentar se lembrar de que é uma lady?" ela implorou.
"Ah, se houvesse apenas alguma esperança de poder esquecer!" disse Valancy, cansada.
A Sra. Frederick sentiu que não merecera isso da Providência.
CAPÍTULO X
"Abençoa este alimento para nosso uso e consagra nossas vidas ao Teu serviço", disse o tio Herbert, rapidamente.
A tia Wellington franziu a testa. Sempre considerara as orações de Herbert completamente curtas e "levianas". Uma oração, para ser uma oração aos olhos da tia Wellington, tinha que durar pelo menos três minutos e ser proferida em um tom ultraterreno, entre um gemido e um canto. Como protesto, manteve a cabeça abaixada por um tempo perceptível depois que todos os outros a ergueram. Quando se permitiu sentar ereta, encontrou Valancy olhando para ela. Depois, a tia Wellington afirmou que soube, desde aquele momento, que havia algo errado com Valancy. Naqueles olhos estranhos e oblíquos — "deveríamos sempre ter sabido que ela não estava completamente certa com olhos assim" — havia um brilho estranho de zombaria e diversão — como se Valancy estivesse rindo dela. Uma coisa assim era impensável, é claro. A tia Wellington, imediatamente, deixou de pensar nisso.
Valancy estava se divertindo. Nunca se divertira em uma "reunião familiar" antes. Em funções sociais, como em jogos infantis, ela apenas "preenchia". Seu clã sempre a considerara muito entediante. Não tinha truques de salão. E estava acostumada a se refugiar do tédio das festas familiares em seu Castelo Azul, o que resultava em uma ausência de espírito que aumentava sua reputação de tédio e vacuidade.
"Ela não tem presença social alguma", a tia Wellington decretara, de uma vez por todas. Ninguém sonhava que Valancy era muda em sua presença apenas porque tinha medo deles. Agora, não tinha mais medo deles. As algemas haviam sido retiradas de sua alma. Estava bastante preparada para falar, se a ocasião oferecesse. Enquanto isso, dava-se a liberdade de pensamento que nunca ousara tomar antes. Deixou-se levar por uma exultação interna e selvagem, enquanto o tio Herbert cortava o peru. O tio Herbert deu a Valancy um segundo olhar naquele dia. Sendo homem, não sabia o que ela fizera com o cabelo, mas pensou, surpreso, que Doss não era tão feia, afinal; e colocou um pedaço extra de carne branca em seu prato.
"Que erva é mais prejudicial à beleza de uma jovem?" propôs o tio Benjamin, como forma de iniciar a conversa — "afrouxando as coisas", como diria.
Valancy, cujo dever era dizer "O quê?", não o disse. Ninguém mais o disse, então o tio Benjamin, após uma pausa expectante, teve que responder "Tomilho", e sentiu que sua charada caíra no vazio. Olhou ressentido para Valancy, que nunca o decepcionara antes, mas Valancy parecia nem estar ciente dele. Estava olhando ao redor da mesa, examinando implacavelmente cada um naquela assembléia deprimente de pessoas sensatas e observando seus pequenos espasmos com um sorriso distante e divertido.
Então, essas eram as pessoas que sempre reverenciara e temera. Parecia vê-las com novos olhos.
A tia Mildred, grande, capaz, patronizadora e tagarela, que se achava a mulher mais inteligente do clã, seu marido um pouco abaixo dos anjos e seus filhos maravilhosos. Não fora seu filho, Howard, dentado aos onze meses? E não podia contar a melhor maneira de fazer tudo, de cozinhar cogumelos a pegar uma cobra? Que chata era! Que pintas feias tinha no rosto!
A prima Gladys, que sempre elogiava o filho que morrera jovem e sempre brigava com o vivo. Tinha neurite — ou o que chamava de neurite. Saltava de uma parte do corpo para outra. Era uma coisa conveniente. Se alguém a convidava para ir a algum lugar que não queria, tinha neurite nas pernas. E sempre, se algum esforço mental era requerido, podia ter neurite na cabeça. Não se pode pensar com neurite na cabeça, minha querida.
"Que velha hipócrita você é!", pensou Valancy, impiedosamente.
A tia Isabel. Valancy contou seus queixos. A tia Isabel era a crítica do clã. Sempre andava por aí esmagando as pessoas. Mais membros do que Valancy tinham medo dela. Tinha, era concedido, uma língua afiada.
"Gostaria de saber o que aconteceria com seu rosto se algum dia sorrisse", especulou Valancy, descaradamente.
A Prima Sarah Taylor, com seus grandes olhos pálidos e sem expressão, conhecida por suas receitas de picles e por nada mais. Tão com medo de dizer algo indiscreto que nunca dizia nada que valesse a pena ouvir. Tão correta que corava ao ver o anúncio de um corset e colocara um vestido em sua estátua de Vênus de Milo, que a deixara "realmente elegante".
A pequena Prima Georgiana. Não era uma má alma. Mas entediante — muito. Sempre parecia que acabara de ser engomada e passada. Sempre com medo de se soltar. A única coisa que realmente gostava era de um funeral. Sabia onde estava com um cadáver. Nada mais podia acontecer com ele. Mas, enquanto houvesse vida, havia medo.
O tio James. Bonito, negro, com sua boca sarcástica e traiçoeira e costeletas grisalhas, cujo passatempo favorito era escrever cartas controversas ao Christian Times, atacando o Modernismo. Valancy sempre se perguntava se ele parecia tão solene quando dormia quanto quando acordado. Não era de se admirar que sua esposa morrera jovem. Valancy se lembrava dela. Uma criatura sensível e bonita. O tio James negava-lhe tudo o que queria e lhe dava tudo o que não queria. A matara — completamente legalmente. Fora sufocada e faminta.
O tio Benjamin, ofegante, de boca carnuda. Com grandes bolsas sob olhos que não reverenciavam nada.
O tio Wellington. Rosto longo e pálido, cabelos finos e amarelos — "um dos Stirlings claros" — corpo magro e curvado, testa abominavelmente alta com rugas tão feias, e "olhos tão inteligentes quanto os de um peixe", pensou Valancy. "Parece uma caricatura de si mesmo."
A tia Wellington. Chamada Mary, mas chamada pelo nome do marido para distingui-la da tia-avó Mary. Uma senhora masiva, digna e permanente. Cabelos grisalhos arranjados splendidamente. Vestido elegante e bordado. Removera suas pintas por eletrólise — o que a tia Mildred achava uma evasão ímpia dos propósitos de Deus.
O tio Herbert, com seu cabelo grisalho espinhoso. A tia Alberta, que torcia a boca de forma tão desagradável ao falar e tinha uma grande reputação de desprendimento porque sempre abria mão de muitas coisas que não queria. Valancy os deixou de lado em seu julgamento porque gostava deles, mesmo que fossem, na frase expressiva de Milton, "estupidamente bons". Mas se perguntou por que motivo incompreensível a tia Alberta achara conveniente amarrar uma fita de veludo preto em cada um de seus braços rechonchudos, acima do cotovelo.
Então, ela olhou para o outro lado da mesa, para Olive. Olive, que sempre fora apresentada a ela como um modelo de beleza, comportamento e sucesso desde que se lembrava. "Por que você não se senta como a Olive, Doss? Por que você não fica em pé corretamente como a Olive, Doss? Por que você não fala de forma agradável como a Olive, Doss? Por que você não faz um esforço, Doss?"
Os olhos travessos de Valancy perderam seu brilho de zombaria e ficaram pensativos e tristes. Não se podia ignorar ou desprezar Olive. Era impossível negar que ela era bonita, eficaz e, às vezes, um pouco inteligente. Sua boca podia ser um pouco pesada — ela podia mostrar seus dentes brancos, regulares e bonitos de forma um pouco demasiada quando sorria. Mas, no final das contas, Olive justificava a conclusão do tio Benjamin: "uma garota deslumbrante". Sim, Valancy concordava em seu coração, Olive era deslumbrante.
Cabelos ricos e castanhos, penteados com esmero, com uma faixa brilhante segurando seus cachos lustrosos no lugar; olhos grandes e brilhantes, e cílios grossos e sedosos; rosto de rosa e pescoço nu de neve, erguendo-se acima de seu vestido; grandes bolhas de pérolas em suas orelhas; o diamante azul-branco em seu dedo longo, liso e ceroso, com sua unha rosada e pontiaguda. Braços de mármore, brilhando através de chiffon verde e renda sombra. Valancy sentiu-se subitamente grata por seus próprios braços mirrados estarem decentemente envolvidos em seda marrom. Então, ela retomou sua lista dos encantos de Olive.
Alta. Majestosa. Confiante. Tudo o que Valancy não era. Covinhas também, nas bochechas e no queixo. "Uma mulher com covinhas sempre consegue o que quer", pensou Valancy, em um espasmo recorrente de amargura pelo destino que lhe negara até mesmo uma covinha.
Olive era apenas um ano mais nova que Valancy, embora um estranho pudesse pensar que havia pelo menos dez anos entre elas. Mas ninguém temia que ela se tornasse uma solteirona. Olive fora cercada por um grupo de pretendentes ávidos desde o início da adolescência, assim como seu espelho sempre fora cercado por uma moldura de cartões, fotografias, programas e convites. Aos dezoito anos, quando se formou no Havergal College, Olive ficou noiva de Will Desmond, advogado em formação. Will Desmond morreu, e Olive o lamentou adequadamente por dois anos. Quando tinha vinte e três anos, teve um caso agitado com Donald Jackson. Mas a tia e o tio Wellington não aprovaram isso, e, no final, Olive, obedientemente, desistiu dele. Ninguém no clã Stirling — o que os de fora pudessem dizer — insinuava que ela o fizera porque o próprio Donald estava esfriando. Seja como for, o terceiro empreendimento de Olive teve a aprovação de todos. Cecil Price era inteligente, bonito e "um dos Prices de Port Lawrence". Olive estava noiva dele há três anos. Ele acabara de se formar em engenharia civil, e eles se casariam assim que ele conseguisse um contrato. O baú de esperança de Olive estava transbordando de coisas maravilhosas, e Olive já confidenciara a Valancy como seria seu vestido de noiva. Seda marfim drapeada com renda, cauda de corte de cetim branco, forrada com georgette verde-claro, véu de renda de Bruxelas, herança. Valancy também sabia — embora Olive não lhe tivesse contado — que as damas de honra já estavam selecionadas e que ela não estava entre elas.
Valancy, de certa forma, sempre fora a confidente de Olive — talvez porque ela fosse a única garota na conexão que não podia entediar Olive com confissões em retorno. Olive sempre contava a Valancy todos os detalhes de seus casos amorosos, desde os dias em que os meninos na escola costumavam "persegui-la" com cartas de amor. Valancy não podia se consolar pensando que esses casos fossem míticos. Olive realmente os tinha. Muitos homens enlouqueceram por ela, além dos três sortudos.
"Não sei o que esses pobres idiotas veem em mim que os leva a se tornarem idiotas duplos", Olive costumava dizer. Valancy gostaria de ter dito: "Eu também não", mas a verdade e a diplomacia a impediam. Ela sabia muito bem. Olive Stirling era uma das garotas por quem os homens enlouquecem, assim como ela, Valancy, era uma das garotas a quem nenhum homem olhava duas vezes.
"E, no entanto", pensou Valancy, resumindo-a com uma nova e implacável conclusividade, "ela é como uma manhã sem orvalho. Há algo faltando."
CAPÍTULO XI
Enquanto isso, o jantar em suas etapas iniciais arrastava sua lenta extensão, fiel à forma Stirling. O cômodo estava frio, apesar do calendário, e a tia Alberta acendera os troncos de gás. Todos no clã invejavam-na por aqueles troncos de gás, exceto Valancy. Fogueiras gloriosas ardiam em todos os cômodos de seu Castelo Azul quando as noites de outono estavam frescas, mas ela congelaria até a morte antes de cometer o sacrilégio de um tronco de gás. O tio Herbert fez sua piada perene e resistente quando ajudou a tia Wellington com a carne fria: "Mary, você quer um pouco de cordeiro?" A tia Mildred contou a mesma história antiga de encontrar um anel perdido no papo de um peru. O tio Benjamin contou sua história prolixa favorita de como ele perseguira e punira um homem agora famoso por roubar maçãs. A prima Jane descreveu todos os seus sofrimentos com um dente ulcerado. A tia Wellington admirou o padrão das colheres de chá de prata da tia Alberta e lamentou o fato de que uma das suas havia sido perdida.
"Isso estragou o jogo. Nunca pude encontrá-la. E foi meu presente de casamento da querida tia Matilda."
A tia Isabel achava que as estações estavam mudando e não conseguia imaginar o que acontecera com nossas boas e velhas primaveras. A prima Georgiana, como de costume, discutiu o último funeral e se perguntou, em voz alta, "quem de nós será o próximo a partir". A prima Georgiana nunca dizia nada tão direto como "morrer". Valancy achava que podia dizer a ela, mas não disse. A prima Gladys, da mesma forma, tinha uma queixa. Seus sobrinhos visitantes haviam arrancado todos os brotos de suas plantas de interior e importunado seu grupo de galinhas exóticas — "esmagaram algumas delas até a morte, minha querida".
"Meninos serão meninos", lembrou o tio Herbert, tolerante.
"Mas eles não precisam ser animais furiosos e selvagens", retrucou a prima Gladys, olhando ao redor da mesa em busca de apreciação por seu humor. Todos sorriram, exceto Valancy. A prima Gladys se lembrou disso. Alguns minutos depois, quando Ellen Hamilton estava sendo discutida, a prima Gladys falou dela como "uma daquelas garotas tímidas e feias que não conseguem maridos" e olhou significativamente para Valancy.
O tio James achava que a conversa estava caindo para um plano bastante baixo de fofoca pessoal. Ele tentou elevá-la iniciando uma discussão abstrata sobre "a maior felicidade". Todos foram convidados a declarar sua ideia de "a maior felicidade".
A tia Mildred achava que a maior felicidade — para uma mulher — era ser "uma esposa e mãe amorosa e amada". A tia Wellington achava que seria viajar pela Europa. Olive achava que seria ser uma grande cantora como Tetrazzini. A prima Gladys comentou, tristemente, que sua maior felicidade seria ser livre — absolutamente livre — de neurite. A maior felicidade da prima Georgiana seria "ter seu querido irmão Richard de volta". A tia Alberta comentou vagamente que a maior felicidade era encontrada na "poesia da vida" e apressou-se em dar algumas instruções à sua empregada para evitar que alguém lhe perguntasse o que ela queria dizer. A Sra. Frederick disse que a maior felicidade era passar a vida em serviço amoroso pelos outros, e a prima Stickles e a tia Isabel concordaram com ela — a tia Isabel com um ar ressentido, como se achasse que a Sra. Frederick havia tirado o vento de suas velas ao dizer isso primeiro. "Estamos todos muito propensos", continuou a Sra. Frederick, determinada a não perder uma oportunidade tão boa, "a viver na egoísmo, mundanalidade e pecado." As outras mulheres se sentiram repreendidas por seus ideais baixos, e o tio James teve a convicção de que a conversa havia sido elevada com vingança.
"A maior felicidade", disse Valancy, de repente e distintamente, "é espirrar quando se quer."
Todos olharam. Ninguém se sentiu seguro para dizer nada. Valancy estava tentando ser engraçada? Era incrível. A Sra. Frederick, que estivera respirando mais aliviada desde que o jantar prosseguira tão bem sem nenhum surto da parte de Valancy, começou a tremer novamente. Mas ela considerou prudente não dizer nada. O tio Benjamin não foi tão prudente. Ele se lançou imprudentemente onde a Sra. Frederick temia pisar.
"Doss", ele riu, "qual é a diferença entre uma jovem e uma solteirona?"
"Uma é feliz e despreocupada, e a outra é cativa e cabeluda", disse Valancy. "Você fez essa pergunta pelo menos cinquenta vezes na minha lembrança, tio Ben. Por que não procura algumas charadas novas, se é que você precisa de charadas? É um erro fatal tentar ser engraçado se você não consegue."
O tio Benjamin olhou estupidamente. Nunca em sua vida ele, Benjamin Stirling, da Stirling e Frost, fora falado assim. E por Valancy, de todas as pessoas! Ele olhou ao redor da mesa, fraco, para ver o que os outros pensavam disso. Todos pareciam um pouco confusos. A pobre Sra. Frederick fechara os olhos. E seus lábios se moviam, trêmulos — como se estivesse orando. Talvez estivesse. A situação era tão sem precedentes que ninguém sabia como enfrentá-la. Valancy continuou comendo sua salada calmamente, como se nada de incomum tivesse ocorrido.
A tia Alberta, para salvar seu jantar, mergulhou em uma história de como um cachorro a mordera recentemente. O tio James, para apoiá-la, perguntou onde o cachorro a mordera.
"Um pouco abaixo da igreja católica", disse a tia Alberta.
Nesse ponto, Valancy riu. Ninguém mais riu. O que havia para rir?
"Isso é uma parte vital?" perguntou Valancy.
"O que você quer dizer?" disse a tia Alberta, perplexa, e a Sra. Frederick quase foi levada a acreditar que servira a Deus todos os seus anos em vão.
A tia Isabel concluiu que era sua vez de suprimir Valancy.
"Doss, você está horrivelmente magra", disse. "Você é toda cantos. Você nunca tenta engordar um pouco?"
"Não." Valancy não pedia trégua nem a dava. "Mas posso dizer onde você encontrará um salão de beleza em Port Lawrence onde podem reduzir o número de seus queixos."
"Val-an-cy!" O protesto foi arrancado da Sra. Frederick. Ela pretendia que seu tom fosse majestoso e imponente, como de costume, mas soou mais como um pedido de ajuda. E ela não disse "Doss".
"Ela está com febre", disse a prima Stickles ao tio Benjamin, em um sussurro angustiado. "Achamos que ela parecia febril há vários dias."
"Ela está louca, na minha opinião", resmungou o tio Benjamin. "Se não, deveria ser espancada. Sim, espancada."
"Você não pode espancá-la." A prima Stickles estava muito agitada. "Ela tem vinte e nove anos."
"Então, há essa vantagem, pelo menos, em ter vinte e nove anos", disse Valancy, cujos ouvidos captaram esse aparte.
"Doss", disse o tio Benjamin, "quando eu estiver morto, você pode dizer o que quiser. Enquanto eu estiver vivo, exijo ser tratado com respeito."
"Ah, mas você sabe que estamos todos mortos", disse Valancy, "todo o clã Stirling. Alguns de nós estão enterrados e alguns não — ainda. Essa é a única diferença."
"Doss", disse o tio Benjamin, pensando que isso poderia amedrontar Valancy, "você se lembra da vez em que roubou a geleia de framboesa?"
Valancy ficou escarlate — de riso contido, não de vergonha. Ela tinha certeza de que o tio Benjamin arrastaria aquela geleia de alguma forma.
"Claro que me lembro", disse. "Era uma geleia boa. Sempre me arrependi de não ter tido tempo de comer mais antes que você me encontrasse. Ah, olhe para o perfil da tia Isabel na parede. Você já viu algo tão engraçado?"
Todos olharam, incluindo a própria tia Isabel, o que, claro, destruiu o efeito. Mas o tio Herbert disse, gentilmente: "Eu... eu não comeria mais, se fosse você, Doss. Não é que eu não queira — mas você não acha que seria melhor para você? Seu... seu estômago parece um pouco fora de ordem."
"Não se preocupe com meu estômago, querido", disse Valancy. "Ele está bem. Vou continuar comendo. É tão raro ter a chance de uma refeição satisfatória."
Era a primeira vez que alguém era chamado de "querido" em Deerwood. Os Stirlings acharam que Valancy inventara a frase e tiveram medo dela a partir daquele momento. Havia algo tão estranho sobre tal expressão. Mas, na opinião da pobre Sra. Frederick, a referência a uma refeição satisfatória foi a pior coisa que Valancy dissera até então. Valancy sempre fora uma decepção para ela. Agora, era uma desgraça. Ela achava que teria que se levantar e sair da mesa. No entanto, não ousava deixar Valancy lá.
A empregada da tia Alberta entrou para retirar os pratos da salada e trazer a sobremesa. Foi uma distração bem-vinda. Todos se animaram com a determinação de ignorar Valancy e falar como se ela não estivesse lá. O tio Wellington mencionou Barney Snaith. Eventualmente, alguém mencionava Barney Snaith em todas as funções Stirling, refletiu Valancy. Seja lá o que ele fosse, era um indivíduo que não podia ser ignorado. Ela se resignou a ouvir. Havia uma fascinação sutil no assunto para ela, embora ainda não tivesse enfrentado esse fato. Ela podia sentir seus pulsos batendo até as pontas dos dedos.
Claro que eles o difamavam. Ninguém nunca tinha uma boa palavra para dizer sobre Barney Snaith. Todas as antigas histórias selvagens foram relembradas — as lendas de caixa-forte-falsificador-ateu-assassino-em-esconderijo foram reviradas. O tio Wellington estava muito indignado por tal criatura ser permitida existir na vizinhança de Deerwood. Ele não sabia o que a polícia de Port Lawrence estava pensando. Todos seriam assassinados em suas camas uma noite. Era uma vergonha que ele fosse permitido estar solto depois de tudo o que fizera.
"O que ele fez?" perguntou Valancy, de repente.
O tio Wellington olhou para ela, esquecendo que ela deveria ser ignorada.
"Fez! Fez! Ele fez tudo."
"O que ele fez?" repetiu Valancy, inexoravelmente. "O que você sabe que ele fez? Você sempre o difama. E o que foi provado contra ele?"
"Não discuto com mulheres", disse o tio Wellington. "E não preciso de provas. Quando um homem se esconde lá em uma ilha em Muskoka, ano após ano, e ninguém consegue descobrir de onde ele veio ou como vive, ou o que faz lá, isso é prova suficiente. Encontre um mistério e encontrará um crime."
"A própria ideia de um homem chamado Snaith!" disse a prima Sarah. "Por que, o nome em si é suficiente para condená-lo!"
"Eu não gostaria de encontrá-lo em uma viela escura", estremeceu a prima Georgiana.
"O que você acha que ele faria com você?" perguntou Valancy.
"Me assassinaria", disse a prima Georgiana, solenemente.
"Apenas por diversão?" sugeriu Valancy.
"Exatamente", disse a prima Georgiana, sem suspeitar. "Quando há tanta fumaça, deve haver algum fogo. Eu temia que ele fosse um criminoso quando veio para cá pela primeira vez. Senti que ele tinha algo a esconder. Não sou frequentemente enganada em minhas intuições."
"Criminoso! Claro que ele é um criminoso", disse o tio Wellington. "Ninguém duvida disso" — olhando furiosamente para Valancy. "Por que, eles dizem que ele cumpriu uma pena na penitenciária por peculato. Não duvido. E dizem que ele está envolvido com aquela gangue que está perpetrando todos aqueles assaltos a bancos pelo país."
"Quem diz?" perguntou Valancy.
O tio Wellington franziu a testa feia para ela. O que havia entrado naquela garota maldita, afinal? Ele ignorou a pergunta.
"Ele tem o aspecto exato de um prisioneiro", resmungou o tio Benjamin. "Notei isso na primeira vez que o vi."
"‘Um fellow pela mão da natureza marcado, Citada e assinada para fazer um feito de vergonha’",
declamou o tio James. Ele parecia enormemente satisfeito por conseguir trabalhar aquela citação finalmente. Ele esperara a vida toda por essa chance.
"Uma de suas sobrancelhas é um arco e a outra é um triângulo", disse Valancy. "É por isso que você acha que ele é tão vil?"
O tio James levantou as sobrancelhas. Geralmente, quando o tio James levantava as sobrancelhas, o mundo chegava ao fim. Desta vez, continuou a funcionar.
"Como você conhece tão bem suas sobrancelhas, Doss?" perguntou Olive, um pouco maliciosamente. Tal comentário teria coberto Valancy de confusão duas semanas atrás, e Olive sabia disso.
"Sim, como?" exigiu a tia Wellington.
"Eu o vi duas vezes e olhei para ele com atenção", disse Valancy, compostamente. "Achei seu rosto o mais interessante que já vi."
"Não há dúvida de que há algo estranho no passado daquele criatura", disse Olive, que começou a pensar que estava decididamente fora da conversa, que se centrara de forma tão surpreendente em Valancy. "Mas ele dificilmente pode ser culpado de tudo o que é acusado, você sabe."
Valancy sentiu-se irritada com Olive. Por que ela deveria falar em defesa, mesmo que qualificada, de Barney Snaith? O que ela tinha a ver com ele? Aliás, o que Valancy tinha? Mas Valancy não se perguntou isso.
"Eles dizem que ele mantém dúzias de gatos naquela cabana lá em Mistawis", disse a prima Sarah Taylor, como forma de parecer não totalmente ignorante sobre ele.
Gatos. Isso soou bastante atraente para Valancy, no plural. Ela imaginou uma ilha em Muskoka assombrada por gatinhos.
"Isso sozinho mostra que há algo errado com ele", decretou a tia Isabel.
"Pessoas que não gostam de gatos", disse Valancy, atacando sua sobremesa com prazer, "sempre parecem pensar que há alguma virtude peculiar em não gostar deles."
"O homem não tem um amigo, exceto Roaring Abel", disse o tio Wellington. "E se Roaring Abel tivesse se mantido afastado dele, como todos os outros fizeram, teria sido melhor para — para alguns membros de sua família."
A conclusão um tanto fraca do tio Wellington foi devida a um olhar conjugal da tia Wellington, lembrando-o do que ele quase esquecera — que havia garotas na mesa.
"Se você quer dizer", disse Valancy, apaixonadamente, "que Barney Snaith é o pai do filho de Cecily Gay, ele não é. É uma mentira maldita."
Apesar de sua indignação, Valancy estava imensamente divertida com a expressão dos rostos ao redor daquela mesa festiva. Ela não vira nada assim desde o dia, dezessete anos atrás, quando, na festa de costura da prima Gladys, eles descobriram que ela tinha — ALGO — na cabeça na escola. Piolhos na cabeça! Valancy estava done com eufemismos.
A pobre Sra. Frederick estava quase em estado de colapso. Ela acreditara — ou fingira acreditar — que Valancy ainda supunha que as crianças eram encontradas em canteiros de salsa.
"Silêncio — silêncio!" implorou a prima Stickles.
"Não pretendo ficar em silêncio", disse Valancy, perversamente. "Fiquei em silêncio a vida toda. Vou gritar se quiser. Não me faça querer. E pare de falar bobagens sobre Barney Snaith."
Valancy não entendia exatamente sua própria indignação. O que os crimes e delitos imputados a Barney Snaith importavam para ela? E por que, entre todos, parecia mais intolerável que ele tivesse sido o falso amante da pobre e pitoresca Cecily Gay? Para ela, parecia intolerável. Ela não se importava quando o chamavam de ladrão, falsificador e prisioneiro; mas não podia suportar pensar que ele tivesse amado e arruinado Cecily Gay. Ela se lembrava de seu rosto nas duas ocasiões de seus encontros casuais — seu sorriso torto, enigmático e cativante, seu brilho, seus lábios finos, sensíveis e quase ascéticos, seu ar geral de franqueza e ousadia. Um homem com tal sorriso e lábios podia ter assassinado ou roubado, mas não podia ter traído. Ela odiava, de repente, todos que diziam ou acreditavam isso dele.
"Quando eu era uma jovem, nunca pensava ou falava sobre tais assuntos, Doss", disse a tia Wellington, esmagadoramente.
"Mas eu não sou uma jovem", retrucou Valancy, inabalável. "Você não para de me lembrar disso? E vocês são todos fofoqueiros malignos e insensatos. Não podem deixar a pobre Cissy Gay em paz? Ela está morrendo. Seja lá o que ela fez, Deus ou o Diabo a puniu o suficiente por isso. Vocês não precisam se intrometer também. Quanto a Barney Snaith, o único crime de que foi culpado é viver para si mesmo e cuidar de seus próprios negócios. Ele pode, parece, se virar sem vocês. O que é um pecado imperdoável, claro, na sua pequena snobocracia." Valancy cunhou essa palavra final de repente e sentiu que era uma inspiração. Era exatamente o que eles eram, e nenhum deles era apto a consertar outro.
"Valancy, seu pobre pai se reviraria no túmulo se pudesse ouvi-la", disse a Sra. Frederick.
"Acho que ele gostaria disso para uma mudança", disse Valancy, descaradamente.
"Doss", disse o tio James, pesadamente, "os Dez Mandamentos ainda estão bastante atualizados — especialmente o quinto. Você se esqueceu disso?"
"Não", disse Valancy, "mas achei que você tinha — especialmente o nono. Você já pensou, tio James, como a vida seria monótona sem os Dez Mandamentos? É apenas quando as coisas são proibidas que se tornam fascinantes."
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- deixou de ser um lugar de refúgio e paz para ela. Ela não podia mais se sentar ali e sonhar com seu Castelo Azul. Ela não podia mais se sentar ali e sonhar com nada. Ela não podia mais se sentar ali e ler John Foster. Ela não podia mais se sentar ali e fazer nada, exceto pensar, pensar, pensar. E ela estava cansada de pensar.
Ela estava cansada de tudo. Cansada de sua vida. Cansada de si mesma. Cansada de sua família. Cansada de Deerwood. Cansada de tudo, exceto...
Exceto o que?
Valancy não sabia. Ela só sabia que estava cansada.
E então, uma noite, ela tomou uma decisão.
Ela não contaria a ninguém sobre sua doença. Ela não se submeteria aos especialistas, às pílulas, aos bitters, aos linimentos, às perguntas, às advertências, às cautelas, às condolências. Ela não se deixaria transformar em uma inválida, em uma curiosidade, em uma carga.
Ela viveria o resto de sua vida — fosse ele um ano ou um mês — do seu jeito. Ela faria o que quisesse, diria o que quisesse, pensaria o que quisesse. Ela não se importaria com as consequências. Ela não se importaria com nada.
Ela seria livre.
E, para ser livre, ela sabia que tinha que sair de Deerwood. Ela tinha que sair da casa de sua mãe, da casa dos Stirlings, da casa dos fofoqueiros, dos críticos, dos conselheiros.
Ela tinha que sair do alcance de suas vozes, de seus olhares, de suas expectativas.
Ela tinha que encontrar um lugar onde pudesse ser ela mesma, onde pudesse viver sua vida, onde pudesse morrer sua morte.
E esse lugar, ela decidiu, seria o Castelo Azul.
Não o Castelo Azul de seus sonhos, mas o Castelo Azul da realidade.
O Castelo Azul que ela vira em um livro de John Foster, o Castelo Azul que ele descreveria em suas cartas, o Castelo Azul que ela sentira em suas palavras.
O Castelo Azul que era um lugar real, um lugar onde ela podia ir, um lugar onde ela podia viver.
Ela não sabia onde era, exatamente. Ela só sabia que era em Muskoka, em uma ilha, em um lago.
E ela sabia que era lá que ela queria estar.
Ela não sabia como chegaria lá. Ela não sabia o que faria lá. Ela não sabia o que encontraria lá.
Mas ela sabia que tinha que ir.
E, naquela noite, ela começou a planejar sua fuga.
Ela não contaria a ninguém. Ela não pediria permissão a ninguém. Ela não aceitaria ajuda de ninguém.
Ela faria tudo sozinha.
Ela venderia suas joias, usaria o dinheiro que seu pai lhe deixara, e partiria.
Ela não sabia para onde, exatamente. Ela só sabia que tinha que sair de Deerwood.
E, enquanto planejava, ela sentia uma sensação estranha, uma sensação de liberdade, uma sensação de expectativa.
Ela sentia que estava prestes a começar uma nova vida, uma vida que era só dela, uma vida que ela podia viver do seu jeito.
Ela sentia que estava prestes a encontrar o que procurara a vida toda.
Ela não sabia o que era, exatamente. Ela só sabia que era algo que valia a pena procurar.
E, com essa sensação, ela adormeceu, sonhando com o Castelo Azul.
CAPÍTULO XII
A fuga de Valancy foi mais fácil do que ela esperava.
Ela vendeu suas joias, sacou o dinheiro do banco, e, em uma manhã de outono, pegou o trem para Port Lawrence.
De lá, ela pegou outro trem para Muskoka.
Ela não sabia para onde estava indo, exatamente. Ela só sabia que estava indo para o Castelo Azul.
E, quando o trem entrou nas montanhas, ela sentiu uma sensação estranha, uma sensação de estar chegando em casa.
Ela desceu do trem em uma pequena estação, e, enquanto olhava ao redor, viu um homem que parecia estar esperando por ela.
Ele era alto, moreno, com olhos azuis e um sorriso enigmático.
Ele se aproximou dela e disse: "Você deve ser Valancy Stirling."
Ela olhou para ele, surpresa. "Como você sabe?"
Ele sorriu. "Eu sei muitas coisas. Eu sou Barney Snaith."
Valancy sentiu o coração parar por um momento. Barney Snaith. O homem sobre quem ela ouvira tantas histórias, o homem que ela defendera na mesa de jantar, o homem que ela sentira uma conexão estranha.
E, agora, ele estava na frente dela, sorrindo para ela, como se a conhecesse a vida toda.
"Eu li suas cartas para John Foster", ele disse. "Eu sabia que você viria."
Valancy olhou para ele, confusa. "Minhas cartas? Como você as leu?"
Ele sorriu. "John Foster me contou sobre você. Ele me disse que você estava procurando pelo Castelo Azul."
Valancy sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto. "Eu não sabia que era real", ela disse. "Eu pensei que era só um sonho."
Barney Snaith pegou sua mão. "O Castelo Azul é real", ele disse. "E eu vou levá-la até lá."
Ele a levou até um pequeno barco, e, juntos, eles remaram pelo lago até uma ilha.
E, quando chegaram à ilha, Valancy viu o Castelo Azul.
Era uma pequena cabana de madeira, com um telhado de palha e uma chaminé de pedra.
Era cercado por árvores, por flores, por um jardim.
E, no jardim, havia gatos.
Dozens de gatos, de todas as cores e tamanhos, brincando, dormindo, comendo.
Valancy sentiu uma alegria estranha, uma alegria que não sentia há anos.
"Bem-vinda ao Castelo Azul", disse Barney Snaith.
E, naquele momento, Valancy soube que estava em casa.
Ela não sabia o que o futuro reservava. Ela não sabia o que aconteceria com ela.
Mas ela sabia que estava onde deveria estar.
E, enquanto olhava para Barney Snaith, para os gatos, para o Castelo Azul, ela sentiu uma sensação de paz, uma sensação de pertencimento.
Ela estava em casa.
E, naquela noite, enquanto sentava na varanda, olhando para o lago, ela sentiu uma sensação estranha, uma sensação de expectativa.
Ela sentia que sua vida estava prestes a começar.
Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta.
E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu.
Ela estava no Castelo Azul.
E tudo estava bem.
FIM
(Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.)
Mas sua empolgação foi demais para ela. Ela sabia, por certos sinais inconfundíveis, que uma de suas crises de dor estava chegando. Não podia deixá-la acontecer ali. Levantou-se da cadeira.
"Estou indo para casa agora. Só vim pelo jantar. Estava muito bom, tia Alberta, embora seu molho da salada não tenha sal suficiente e um toque de pimenta caiena melhoraria."
Nenhum dos atônitos convidados do jantar de bodas de prata conseguiu pensar em nada para dizer até que o portão do jardim rangeu atrás de Valancy na penumbra. Então...
"Ela está com febre — eu disse o tempo todo que ela estava com febre", lamentou a prima Stickles.
O tio Benjamin puniu sua mão esquerda rechonchuda ferozmente com a direita.
"Ela está louca — eu digo que ela está louca", resmungou com raiva. "É só isso. Completamente louca."
"Oh, Benjamin", disse a prima Georgiana, suavemente, "não a condene tão precipitadamente. Devemos lembrar o que o querido velho Shakespeare diz — que a caridade não pensa no mal."
"Caridade! Bobagem!", resmungou o tio Benjamin. "Nunca ouvi uma jovem falar tantas bobagens na minha vida como ela acabou de falar. Falando sobre coisas que deveria ter vergonha de pensar, quanto mais mencionar. Blasfemando! Insultando-nos! O que ela precisa é de uma dose generosa de spank-weed e eu gostaria de ser o responsável por administrá-la. H-uh-h-h-h!" O tio Benjamin engoliu metade de uma xícara de café escaldante.
"Será que o sarampo poderia causar isso em uma pessoa?" choramingou a prima Stickles.
"Eu abri um guarda-chuva dentro de casa ontem", resmungou a prima Georgiana. "Eu sabia que pressagiava alguma desgraça."
"Você tentou ver se ela tem febre?" perguntou a prima Mildred.
"Ela não deixou a Amelia colocar o termômetro debaixo da língua", choramingou a prima Stickles.
A Sra. Frederick estava abertamente em lágrimas. Todas as suas defesas haviam caído.
"Devo dizer", soluçou, "que Valancy tem agido de forma muito estranha há mais de duas semanas. Ela não tem sido nem um pouco como ela mesma — Christine poderia dizer. Eu tenho esperado contra a esperança de que fosse apenas um de seus resfriados chegando. Mas é — deve ser algo pior."
"Isso está trazendo minha neurite de volta", disse a prima Gladys, levando a mão à cabeça.
"Não chore, Amelia", disse Herbert, gentilmente, puxando nervosamente seus cabelos grisalhos e espinhosos. Ele odiava "brigas familiares". Muito inconveniente da parte de Doss começar uma em seu jantar de bodas de prata. Quem poderia supor que ela tinha isso dentro de si? "Você terá que levá-la a um médico. Isso pode ser apenas um — er — um acesso de loucura. Há coisas como acessos de loucura nowadays, não é?"
"Eu — eu sugeri consultar um médico para ela ontem", choramingou a Sra. Frederick. "E ela disse que não iria a um médico — não iria. Oh, certamente eu tive problemas suficientes!"
"E ela não toma o Bitters de Redfern", disse a prima Stickles.
"Ou qualquer coisa", disse a Sra. Frederick.
"E ela está determinada a ir à igreja Presbiteriana", disse a prima Stickles — reprimindo, no entanto, a seu crédito, a história do corrimão.
"Isso prova que ela está louca", resmungou o tio Benjamin. "Notei algo estranho nela no momento em que ela entrou hoje. Notei antes de hoje." (O tio Benjamin estava pensando em "m-i-r-a-z-h".) "Tudo o que ela disse hoje mostrou uma mente desequilibrada. Aquela pergunta — 'Era uma parte vital?' Havia algum sentido naquela observação? Nenhum! Nunca houve nada assim nos Stirlings. Deve ser dos Wansbarras."
A pobre Sra. Frederick estava muito abalada para se indignar.
"Nunca ouvi nada assim nos Wansbarras", soluçou.
"Seu pai era estranho o suficiente", disse o tio Benjamin.
"Pobre Pa era — peculiar", admitiu a Sra. Frederick, chorosa, "mas sua mente nunca foi afetada."
"Ele falava a vida toda exatamente como Valancy fez hoje", retrucou o tio Benjamin. "E ele acreditava que era seu próprio bisavô nascido de novo. Eu o ouvi dizer isso. Não me diga que um homem que acreditava em uma coisa assim estava em sã consciência. Venha, venha, Amelia, pare de fungar. Claro que Doss se exibiu terrivelmente hoje, mas ela não é responsável. Solteironas têm a tendência de sair dos eixos assim. Se ela tivesse se casado quando deveria, não teria ficado assim."
"Ninguém quis se casar com ela", disse a Sra. Frederick, que sentia que, de alguma forma, o tio Benjamin estava a culpando.
"Bem, felizmente não há nenhum estranho aqui", resmungou o tio Benjamin. "Podemos manter isso na família. Vou levá-la para ver o Dr. Marsh amanhã. Sei como lidar com pessoas teimosas. Não será melhor, James?"
"Devemos ter aconselhamento médico, certamente", concordou o tio James.
"Bem, isso está decidido. Enquanto isso, Amelia, aja como se nada tivesse acontecido e fique de olho nela. Não a deixe sozinha. Acima de tudo, não a deixe dormir sozinha."
Novos soluços da Sra. Frederick.
"Eu não posso ajudar. Na noite passada, sugeri que Christine dormisse com ela. Ela se recusou categoricamente — e trancou a porta. Oh, você não sabe como ela mudou. Ela não trabalha. Pelo menos, não costura. Faz seu trabalho doméstico habitual, é claro. Mas ela não varreria a sala de estar ontem de manhã, embora sempre a varramos às quintas-feiras. Ela disse que esperaria até que estivesse suja. 'Você prefere varrer uma sala suja do que uma limpa?' Eu perguntei. Ela disse: 'Claro. Eu veria o resultado do meu trabalho então.' Pense nisso!"
O tio Benjamin pensou nisso.
"O frasco de potpourri" — a prima Stickles pronunciou como estava escrito — "desapareceu de seu quarto. Encontrei os pedaços no lote ao lado. Ela não nos diz o que aconteceu com ele."
"Eu nunca sonharia com isso de Doss", disse o tio Herbert. "Ela sempre pareceu uma garota tão quieta e sensata. Um pouco atrasada — mas sensata."
"A única coisa de que você pode ter certeza neste mundo é da tabuada", disse o tio James, sentindo-se mais esperto do que nunca.
"Bem, vamos animar", sugeriu o tio Benjamin. "Por que as coristas são como criadores de gado de qualidade?"
"Por quê?" perguntou a prima Stickles, já que tinha que ser perguntado e Valancy não estava lá para perguntar.
"Gostam de exibir bezerros", riu o tio Benjamin.
A prima Stickles achou o tio Benjamin um pouco indelicado. Na frente de Olive, também. Mas, então, ele era um homem.
O tio Herbert estava pensando que as coisas estavam um pouco monótonas agora que Doss havia ido embora.
CAPÍTULO XII
Valancy correu para casa através da penumbra azul — correu talvez rápido demais. O ataque que teve quando chegou, agradecida, ao abrigo de seu próprio quarto foi o pior até então. Foi realmente muito ruim. Ela poderia morrer em uma daquelas crises. Seria terrível morrer com tanta dor. Talvez — talvez isso fosse a morte. Valancy sentiu-se miseravelmente sozinha. Quando conseguia pensar, ela se perguntava como seria ter alguém com ela que pudesse se simpatizar — alguém que realmente se importasse — apenas para segurar sua mão com força, se nada mais — alguém apenas para dizer: "Sim, eu sei. É terrível — seja corajosa — você logo ficará melhor"; não alguém apenas ansioso e agitado. Não sua mãe ou a prima Stickles. Por que o pensamento de Barney Snaith veio à sua mente? Por que ela sentiu, de repente, no meio dessa solidão horrível de dor, que ele seria simpático — que sentiria pena de qualquer um que estivesse sofrendo? Por que ele parecia para ela como um velho amigo conhecido? Seria porque ela o defendera — enfrentara sua família por ele?
Ela estava tão mal no início que não conseguia nem pegar uma dose da prescrição do Dr. Trent. Mas, eventualmente, conseguiu, e logo depois o alívio chegou. A dor passou e ela deitou-se na cama, exausta, em um suor frio. Oh, isso havia sido horrível! Ela não poderia suportar muitos mais ataques como aquele. Não se importava em morrer se a morte pudesse ser instantânea e indolor. Mas ser ferida assim ao morrer!
De repente, ela começou a rir. Aquele jantar havia sido divertido. E tudo tinha sido tão simples. Ela apenas dissera as coisas que sempre pensara. Suas caras — oh, suas caras! O tio Benjamin — pobre, atônito tio Benjamin! Valancy sentiu-se bastante certa de que ele faria um novo testamento naquela mesma noite. Olive receberia a parte de Valancy em sua gordurosa reserva. Olive sempre recebera a parte de Valancy em tudo. Lembre-se do monte de poeira.
Rir de seu clã como ela sempre quisera rir era toda a satisfação que ela poderia obter da vida agora. Mas ela achava que era um pouco triste que fosse assim. Ela não poderia se compadecer um pouco de si mesma quando ninguém mais o fazia?
Valancy levantou-se e foi até a janela. O vento úmido e belo soprando através de bosques de árvores de folhas novas tocou seu rosto com o carinho de um velho amigo sábio e terno. Os lombardias no gramado da Sra. Tredgold, à esquerda — Valancy podia vê-los entre o estábulo e a antiga oficina de carruagens — estavam em silhueta roxa escura contra um céu claro, e havia uma estrela branca e pulsante logo acima de um deles, como uma pérola viva em um lago prateado e verde. Além da estação, estavam os bosques sombrios e com capuzes roxos ao redor do Lago Mistawis. Uma névoa branca e etérea pairava sobre eles e, logo acima, havia uma lua nova e tênue. Valancy olhou para ela sobre seu ombro esquerdo magro.
"Eu desejo", disse ela, de forma caprichosa, "ter um pequeno monte de poeira antes de morrer."
CAPÍTULO XIII
O tio Benjamin descobriu que havia calculado sem seu anfitrião quando prometeu, de forma tão despreocupada, levar Valancy a um médico. Valancy não iria. Valancy riu na cara dele.
"Por que diabos eu deveria ir ao Dr. Marsh? Não há nada de errado com minha mente. Embora vocês todos achem que eu enlouqueci de repente. Bem, não enlouqueci. Simplesmente me cansei de viver para agradar aos outros e decidi me agradar. Isso dará a vocês algo para falar além de eu ter roubado a geleia de framboesa. Então, é isso."
"Doss", disse o tio Benjamin, solene e impotentemente, "você não está — como você mesma."
"Então, como eu estou?" perguntou Valancy.
O tio Benjamin estava um pouco confuso.
"Como seu avô Wansbarra", respondeu desesperadamente.
"Obrigada." Valancy parecia satisfeita. "Isso é um verdadeiro elogio. Lembro-me do avô Wansbarra. Ele foi uma das poucas pessoas humanas que conheci — quase a única. Agora, é inútil brigar, suplicar ou ordenar, tio Benjamin — ou trocar olhares angustiados com a mãe e a prima Stickles. Não vou a nenhum médico. E, se trouxer algum médico aqui, não o receberei. Então, o que você vai fazer a respeito?"
O que, de fato! Não era decente — ou mesmo possível — arrastar Valancy para o médico pela força física. E, de nenhuma outra forma, parecia que poderia ser feito. As lágrimas e súplicas implorantes de sua mãe não adiantaram.
"Não se preocupe, mãe", disse Valancy, levemente, mas com bastante respeito. "Não é provável que eu faça algo muito terrível. Mas pretendo me divertir um pouco."
"Diversão!" A Sra. Frederick pronunciou a palavra como se Valancy tivesse dito que ia ter um pouco de tuberculose.
Olive, enviada por sua mãe para ver se tinha alguma influência sobre Valancy, voltou com as bochechas coradas e os olhos irritados. Ela disse à mãe que nada poderia ser feito com Valancy. Depois que ela, Olive, conversara com ela como uma irmã, ternamente e sabiamente, tudo o que Valancy dissera, estreitando seus olhos engraçados até que fossem meras fendas, foi: "Eu não mostro minhas gengivas quando rio."
"Mais como se estivesse falando consigo mesma do que comigo. De fato, mãe, enquanto eu falava com ela, tive a impressão de que ela não estava realmente ouvindo. E isso não era tudo. Quando finalmente decidi que o que eu estava dizendo não tinha influência sobre ela, pedi que, quando Cecil viesse na próxima semana, ela não dissesse nada estranho na frente dele, pelo menos. Mãe, o que você acha que ela disse?"
"Tenho certeza de que não posso imaginar", gemeu a tia Wellington, preparada para qualquer coisa.
"Ela disse: 'Eu gostaria de chocar Cecil. Sua boca é muito vermelha para um homem.' Mãe, nunca poderei me sentir a mesma com Valancy novamente."
"Sua mente está afetada, Olive", disse a tia Wellington, solenemente. "Você não deve responsabilizá-la pelo que diz."
Quando a tia Wellington contou à Sra. Frederick o que Valancy dissera a Olive, a Sra. Frederick quis que Valancy se desculpasse.
"Você me fez pedir desculpas a Olive quinze anos atrás por algo que não fiz", disse Valancy. "Aquela velha desculpa serve para agora."
Outro conclave familiar solene foi realizado. Todos estavam lá, exceto a prima Gladys, que sofrera tais tormentos de neurite na cabeça "desde que a pobre Doss enlouqueceu" que não podia assumir nenhuma responsabilidade. Eles decidiram — ou, melhor, aceitaram um fato que foi imposto a eles — que o mais sábio era deixar Valancy sozinha por um tempo — "dar-lhe rédea solta", como o tio Benjamin expressou — "manter um olho atento nela, mas deixá-la bastante sozinha". O termo "espera vigilante" ainda não havia sido inventado, mas essa era praticamente a política que os parentes aflitos de Valancy decidiram seguir.
"Devemos ser guiados pelos desenvolvimentos", disse o tio Benjamin. "É" — solenemente — "mais fácil mexer ovos do que desmexê-los. Claro — se ela se tornar violenta——"
O tio James consultou o Dr. Ambrose Marsh. O Dr. Ambrose Marsh aprovou sua decisão. Ele apontou ao irritado tio James — que gostaria de trancar Valancy em algum lugar, de imediato — que Valancy não havia, até então, dito ou feito nada que pudesse ser interpretado como prova de loucura — e, sem prova, não se pode trancar as pessoas nowadays. Nada do que o tio James relatara parecia muito alarmante para o Dr. Marsh, que colocou a mão sobre a boca para conter um sorriso várias vezes. Mas, então, ele mesmo não era um Stirling. E sabia muito pouco sobre a antiga Valancy. O tio James saiu e voltou para Deerwood, pensando que Ambrose Marsh não era um médico tão bom, afinal, e que Adelaide Stirling poderia ter feito melhor para si mesma.
CAPÍTULO XIV
A vida não pode parar porque a tragédia entra nela. As refeições devem ser preparadas mesmo que um filho morra, e as varandas devem ser consertadas mesmo que sua única filha esteja enlouquecendo. A Sra. Frederick, em sua maneira sistemática, havia designado a segunda semana de junho para o conserto da varanda da frente, cujo telhado estava perigosamente inclinado. Roaring Abel havia sido contratado para fazê-lo muitos meses antes, e Roaring Abel apareceu prontamente na manhã do primeiro dia da segunda semana, e começou a trabalhar. Claro que ele estava bêbado. Roaring Abel nunca estava outra coisa senão bêbado. Mas ele estava apenas no primeiro estágio, que o tornava falante e amigável. O cheiro de uísque em seu hálito quase enlouqueceu a Sra. Frederick e a prima Stickles no jantar. Até Valancy, com toda a sua emancipação, não gostou. Mas ela gostava de Abel e de seu discurso vívido e eloqüente, e, depois de lavar a louça do jantar, ela saiu e sentou-se nos degraus para conversar com ele.
A Sra. Frederick e a prima Stickles acharam um procedimento terrível, mas o que poderiam fazer? Valancy apenas sorriu de forma sarcástica para elas quando a chamaram, e não entrou. Era tão fácil desafiar uma vez que se começava. O primeiro passo era o único que realmente contava. Ambas tinham medo de dizer mais alguma coisa a ela, temendo que ela pudesse fazer uma cena na frente de Roaring Abel, que espalharia tudo pela região com seus próprios comentários e exageros característicos. Estava muito frio para a Sra. Frederick sentar-se na janela da sala de jantar e ouvir o que era dito. Ela teve que fechar a janela, e Valancy e Roaring Abel tiveram sua conversa para si mesmos. Mas, se a Sra. Frederick soubesse qual seria o resultado daquela conversa, ela a teria impedido, mesmo que a varanda nunca fosse consertada.
Valancy sentou-se nos degraus, desafiando a brisa fria desta junho gelada que fizera a tia Isabel afirmar que as estações estavam mudando. Ela não se importava se pegasse um resfriado ou não. Era delicioso sentar-se ali naquele mundo frio, bonito e perfumado e sentir-se livre. Ela encheu os pulmões com o vento limpo e adorável, estendeu os braços para ele e deixou que ele bagunçasse seu cabelo enquanto ouvia Roaring Abel, que contava seus problemas entre intervalos de martelar alegremente ao ritmo de suas canções escocesas. Valancy gostava de ouvi-lo. Cada golpe de seu martelo caía no compasso certo.
O velho Abel Gay, apesar de seus setenta anos, ainda era handsome, de uma maneira imponente e patriarcal. Sua enorme barba, caindo sobre sua camisa azul de flanela, ainda era de um vermelho flamejante e intocado, embora seu cabelo fosse branco como a neve, e seus olhos fossem de um azul jovem e ardente. Suas enormes sobrancelhas avermelhadas e brancas eram mais como bigodes do que sobrancelhas. Talvez fosse por isso que ele sempre mantinha o lábio superior escrupulosamente barbeado. Suas bochechas eram vermelhas, e seu nariz deveria ser, mas não era. Era um nariz fino, ereto e aquilino, como o mais nobre dos romanos poderia ter se orgulhado. Abel tinha seis pés e duas polegadas de altura, ombros largos e quadris estreitos. Em sua juventude, ele fora um famoso amante, encontrando todas as mulheres muito charmosas para se prender a uma. Seus anos haviam sido um panorama selvagem e colorido de loucuras e aventuras, galanteios, fortunas e infortúnios. Ele tinha quarenta e cinco anos quando se casou — com uma jovem bonita cuja vida ele estragou em poucos anos. Abel estava piedosamente bêbado em seu funeral e insistiu em repetir o capítulo cinqüenta e cinco de Isaías — Abel conhecia a maior parte da Bíblia e todos os Salmos de cor — enquanto o ministro, a quem ele não gostava, orava ou tentava orar. Depois disso, sua casa foi administrada por uma prima desleixada que cozinhava suas refeições e mantinha as coisas indo de alguma forma. Neste ambiente pouco promissor, a pequena Cecilia Gay cresceu.
Valancy conhecera "Cissy Gay" bastante bem na democracia da escola pública, embora Cissy fosse três anos mais nova que ela. Depois que deixaram a escola, seus caminhos se separaram, e ela não a vira mais. O velho Abel era presbiteriano. Isso é, ele conseguiu um ministro presbiteriano para casá-lo, batizar sua filha e enterrar sua esposa; e ele sabia mais sobre teologia presbiteriana do que a maioria dos ministros, o que o tornava um terror para eles em argumentos. Mas Roaring Abel nunca ia à igreja. Todo ministro presbiteriano que estivera em Deerwood tentara — uma vez — reformar Roaring Abel. Mas ele não fora importunado ultimamente. O reverendo Bently estivera em Deerwood por oito anos, mas não procurara Roaring Abel desde os primeiros três meses de seu pastorado. Ele visitara Roaring Abel então e o encontrara no estágio teológico da embriaguez — que sempre seguia o sentimental e choroso, e precedia o ruidoso e blasfemo. O estágio eloquente e orante, no qual ele se percebia temporariamente e intensamente como um pecador nas mãos de um Deus irado, era o final. Abel nunca ia além dele. Ele geralmente adormecia de joelhos e acordava sóbrio, mas nunca estivera "mortalmente bêbado" em sua vida. Ele disse ao Sr. Bently que era um presbiteriano sólido e seguro de sua eleição. Ele não tinha pecados — que soubesse — para se arrepender.
"Você nunca fez nada em sua vida do que se arrependa?" perguntou o Sr. Bently.
Roaring Abel coçou sua cabeça branca e cheia de cachos e fingiu refletir.
"Bem, sim", disse finalmente. "Havia algumas mulheres que eu poderia ter beijado e não beijei. Sempre me arrependi disso."
O Sr. Bently saiu e foi para casa.
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- Ela não sabia o que o futuro reservava. Ela não sabia o que aconteceria com ela. Mas ela sabia que estava onde deveria estar. E, enquanto olhava para Barney Snaith, para os gatos, para o Castelo Azul, ela sentiu uma sensação de paz, uma sensação de pertencimento. Ela estava em casa. E, naquela noite, enquanto sentava na varanda, olhando para o lago, ela sentiu uma sensação estranha, uma sensação de expectativa. Ela sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.)
Abel viu que Cissy foi devidamente batizada — jovialmente bêbado ele mesmo na ocasião. Ele a fazia ir à igreja e à Escola Dominical regularmente. A comunidade da igreja a acolheu, e ela se tornou, por sua vez, membro da Banda Missionária, da Liga das Meninas e da Sociedade Missionária de Jovens Mulheres. Ela era uma trabalhadora fiel, discreta e sincera. Todos gostavam de Cissy Gay e sentiam pena dela. Ela era tão modesta, sensível e bonita, com aquela beleza delicada e etérea que se desfaz rapidamente se a vida não for mantida por amor e ternura. Mas gostar e sentir pena não impediram que a dilacerassem como gatos famintos quando o escândalo veio à tona. Quatro anos antes, Cissy Gay foi para um hotel em Muskoka como garçonete de verão. E, quando voltou no outono, era uma criatura mudada. Ela se escondeu e não saía de casa. A razão logo vazou, e o escândalo se espalhou. Naquele inverno, o bebê de Cissy nasceu. Ninguém nunca soube quem era o pai. Cissy manteve seus lábios pálidos e tristes firmemente cerrados sobre seu triste segredo. Ninguém ousava perguntar a Roaring Abel sobre isso. Os rumores e suposições atribuíram a culpa a Barney Snaith, porque uma investigação diligente entre as outras empregadas do hotel revelou que ninguém lá jamais vira Cissy Gay "com um rapaz". Ela "se mantinha distante", disseram, com certo ressentimento. "Muito boa para nossas festas. E agora olha!"
O bebê viveu por um ano. Após sua morte, Cissy definhou. Dois anos antes, o Dr. Marsh lhe dera apenas seis meses de vida — seus pulmões estavam irremediavelmente doentes. Mas ela ainda estava viva. Ninguém ia visitá-la. As mulheres não iam à casa de Roaring Abel. O Sr. Bently foi uma vez, quando sabia que Abel estava fora, mas a velha criatura terrível que estava esfregando o chão da cozinha disse-lhe que Cissy não receberia ninguém. A prima velha havia morrido, e Roaring Abel tivera duas ou três empregadas desonestas — o único tipo que podia ser convencido a ir para uma casa onde uma garota estava morrendo de tuberculose. Mas a última havia saído, e Roaring Abel não tinha ninguém para cuidar de Cissy e "fazer" por ele. Essa era a carga de sua queixa para Valancy, e ele condenou os "hipócritas" de Deerwood e suas comunidades vizinhas com alguns juramentos ricos e suculentos que, por acaso, chegaram aos ouvidos da prima Stickles quando ela passava pelo corredor e quase acabaram com a pobre senhora. Valancy estava ouvindo aquilo?
Valancy mal notou os palavrões. Sua atenção estava focada no pensamento horrível de pobre, infeliz e desonrada Cissy Gay, doente e impotente naquela casa solitária na estrada de Mistawis, sem uma alma para ajudá-la ou confortá-la. E isso em uma comunidade supostamente cristã no ano da graça de dezenove e alguns!
"Você quer dizer que Cissy está sozinha lá agora, sem ninguém para fazer nada por ela — ninguém?"
"Oh, ela pode se mover um pouco e pegar um bocado e um copo quando quer. Mas não pode trabalhar. É difícil para um homem trabalhar o dia todo e voltar para casa à noite cansado e com fome e cozinhar suas próprias refeições. Às vezes, sinto pena de ter expulsado a velha Rachel Edwards." Abel descreveu Rachel de forma pitoresca.
"Seu rosto parecia ter desgastado cem corpos. E ela era melancólica. Falar de temperamento! Temperamento não é nada comparado à melancolia. Ela era tão lenta que não pegava nem vermes, e suja — suja. Não sou irracional — sei que um homem tem que comer seu quinhão antes de morrer —, mas ela foi além do limite. Você sabe o que eu vi aquela senhora fazer? Ela fez geleia de abóbora — tinha na mesa em frascos de vidro com as tampas abertas. O cachorro subiu na mesa e enfiou a pata em um deles. O que ela fez? Simplesmente pegou o cachorro e espremeu a geleia de sua pata de volta para o frasco! Depois, colocou a tampa e guardou na despensa. Abri a porta e disse: 'Saia!' A dama saiu, e atirei os frascos de geleia atrás dela, dois de cada vez. Pensei que ia morrer de rir ao ver a velha Rachel correr — com os frascos de geleia chovendo atrás dela. Ela espalhou por todos os lados que sou louco, então ninguém virá por amor ou dinheiro."
"Mas Cissy deve ter alguém para cuidar dela", insistiu Valancy, cuja mente estava centrada nesse aspecto do caso. Ela não se importava se Roaring Abel tinha alguém para cozinhar para ele ou não. Mas seu coração doía por Cecilia Gay.
"Oh, ela se vira. Barney Snaith sempre aparece quando está passando e faz o que ela precisa. Traz laranjas, flores e coisas assim. Aqui está um cristão para você. No entanto, aquele grupo santimonioso e choramingas de St. Andrew's não seria visto no mesmo lado da estrada que ele. Seus cães irão para o céu antes deles. E seu ministro — liso como se o gato o tivesse lambido!"
"Há muitas pessoas boas, tanto em St. Andrew's quanto em St. George's, que seriam gentis com Cissy se você se comportasse", disse Valancy severamente. "Elas têm medo de ir à sua casa."
"Porque sou um velho cão triste? Mas não mordo — nunca mordi ninguém na vida. Algumas palavras soltas não machucam ninguém. E não estou pedindo que as pessoas venham. Não quero que fiquem bisbilhotando. O que quero é uma empregada. Se eu me barbeasse todo domingo e fosse à igreja, teria todas as empregadas que quisesse. Seria respeitável então. Mas para que ir à igreja quando tudo está resolvido pela predestinação? Diga-me isso, moça."
"Está?" disse Valancy.
"Sim. Não há como escapar. Gostaria que houvesse. Não quero nem o céu nem o inferno para sempre. Gostaria que um homem pudesse ter os dois misturados em proporções iguais."
"Não é assim que é neste mundo?" disse Valancy pensativamente — mas mais como se seu pensamento estivesse preocupado com algo além da teologia.
"Não, não", rugiu Abel, dando uma pancada tremenda em um prego teimoso. "Há muito inferno aqui — muito inferno. É por isso que me embebedo com tanta frequência. Isso o liberta por um tempo — liberta você de si mesmo — sim, por Deus, liberta você da predestinação. Já experimentou?"
"Não, tenho outra maneira de me libertar", disse Valancy, distraída. "Mas, sobre Cissy agora. Ela deve ter alguém para cuidar dela——"
"Por que você está falando de Sis? Parece que você não se importava muito com ela até agora. Você nunca foi visitá-la. E ela gostava tanto de você."
"Eu deveria ter ido", disse Valancy. "Mas não importa. Você não entenderia. O ponto é — você precisa de uma empregada."
"Onde vou conseguir uma? Posso pagar um salário decente se conseguir uma mulher decente. Você acha que eu gosto de velhas bruacas?"
"Eu sirvo?" disse Valancy.
CAPÍTULO XV
"Vamos nos acalmar", disse o tio Benjamin. "Vamos nos acalmar completamente."
"Acalmar!" A Sra. Frederick enxugou as lágrimas. "Como posso me acalmar — como alguém pode se acalmar com uma desgraça como essa?"
"Por que diabos você deixou ela ir?" perguntou o tio James.
"Deixar ela! Como eu poderia impedi-la, James? Parece que ela embalou a grande valise e a enviou com Roaring Abel quando ele foi embora após o jantar, enquanto Christine e eu estávamos na cozinha. Então, Doss desceu com sua pequena sacola, vestida com seu traje de sarja verde. Senti uma terrível premonição. Não posso explicar como foi, mas parecia que eu sabia que Doss ia fazer algo terrível."
"Era uma pena que você não tivesse tido sua premonição um pouco antes", disse o tio Benjamin, secamente.
"Eu disse: 'Doss, para onde você está indo?' e ela disse: 'Estou indo em busca do meu Castelo Azul.'"
"Você não acha que isso convenceria Marsh de que sua mente está afetada?" interveio o tio James.
"E eu disse: 'Valancy, o que você quer dizer?' E ela disse: 'Estou indo para cuidar da casa de Roaring Abel e cuidar de Cissy. Ele vai me pagar trinta dólares por mês.' Eu me pergunto se não desmaiei na hora."
"Você não deveria ter deixado ela ir — você não deveria ter deixado ela sair de casa", disse o tio James. "Você deveria ter trancado a porta — qualquer coisa——"
"Ela estava entre mim e a porta da frente. E você não pode imaginar o quão determinada ela estava. Ela era como uma rocha. Isso é o mais estranho de tudo sobre ela. Ela sempre foi tão boa e obediente, e agora não é nem para segurar nem para amarrar. Mas eu disse tudo o que pude pensar para trazê-la de volta à razão. Perguntei se ela não tinha consideração por sua reputação. Disse a ela solenemente: 'Doss, quando a reputação de uma mulher é uma vez manchada, nada pode torná-la imaculada novamente. Seu caráter estará perdido para sempre se você for para a casa de Roaring Abel cuidar de uma garota má como Sis Gay.' E ela disse: 'Não acho que Cissy foi uma garota má, mas não me importo se foi.' Essas foram suas palavras exatas: 'Não me importo se foi.'"
"Ela perdeu todo o senso de decência", explodiu o tio Benjamin.
"'Cissy Gay está morrendo', ela disse, 'e é uma vergonha e uma desgraça que ela esteja morrendo em uma comunidade cristã sem ninguém para fazer nada por ela. Seja lá o que ela foi ou fez, ela é um ser humano.'"
"Bem, você sabe, quando se pensa nisso, acho que ela é", disse o tio James, com o ar de quem faz uma grande concessão.
"Perguntei a Doss se ela não tinha consideração pelas aparências. Ela disse: 'Passei a vida toda mantendo as aparências. Agora vou em busca da realidade. As aparências que se danem!' Se danem!"
"Uma coisa ultrajante!" disse o tio Benjamin, violentamente. "Uma coisa ultrajante!"
O que aliviou seus sentimentos, mas não ajudou ninguém.
A Sra. Frederick chorou. A prima Stickles retomou o refrão entre seus gemidos de desespero.
"Eu disse a ela — nós duas dissemos a ela — que Roaring Abel certamente matou sua esposa em uma de suas bebedeiras e mataria ela. Ela riu e disse: 'Não tenho medo de Roaring Abel. Ele não me matará, e é velho demais para que eu tenha medo de suas galanteios.' O que ela quis dizer? O que são galanteios?"
A Sra. Frederick viu que tinha que parar de chorar se quisesse recuperar o controle da conversa.
"Eu disse a ela: 'Valancy, se você não tem consideração por sua própria reputação e pelo status de sua família, não tem nenhuma por meus sentimentos?' Ela disse: 'Nenhuma.' Assim, 'Nenhuma!'"
"Pessoas insanas nunca têm consideração pelos sentimentos dos outros", disse o tio Benjamin. "Esse é um dos sintomas."
"Eu comecei a chorar então, e ela disse: 'Ora, mãe, seja uma boa esportista. Estou indo fazer um ato de caridade cristã, e, quanto ao dano que isso fará à minha reputação, bem, você sabe que não tenho chances matrimoniais de qualquer maneira, então o que importa?' E, com isso, ela se virou e saiu."
"As últimas palavras que disse a ela", disse a prima Stickles, pateticamente, "foram: 'Quem vai esfregar minhas costas à noite agora?' E ela disse — ela disse — mas não, não posso repetir."
"Bobagem", disse o tio Benjamin. "Fale. Este não é momento para ser melindroso."
"Ela disse" — a voz da prima Stickles era pouco mais que um sussurro — "ela disse — 'Oh, dane-se!'"
"Pensar que eu deveria ter vivido para ouvir minha filha xingando!" soluçou a Sra. Frederick.
"Era — era apenas xingamento de imitação", gaguejou a prima Stickles, desejando suavizar as coisas agora que o pior estava fora. Mas ela nunca contara sobre o corrimão.
"Será apenas um passo de lá para o xingamento real", disse o tio James, severamente.
"O pior disso" — a Sra. Frederick procurava um local seco em seu lenço — "é que todos saberão agora que ela está louca. Não podemos mais manter isso em segredo. Oh, não posso suportar!"
"Você deveria ter sido mais rigorosa com ela quando era jovem", disse o tio Benjamin.
"Não vejo como poderia ter sido", disse a Sra. Frederick — com bastante sinceridade.
"O pior aspecto do caso é que aquele canalha do Snaith está sempre rondando a casa de Roaring Abel", disse o tio James. "Agradeço se nada pior vier dessa loucura do que algumas semanas na casa de Roaring Abel. Cissy Gay não pode viver muito mais."
"E ela nem levou sua anágua de flanela!" lamentou a prima Stickles.
"Vou falar com Ambrose Marsh novamente sobre isso", disse o tio Benjamin — referindo-se a Valancy, não à anágua de flanela.
"Vou falar com o advogado Ferguson", disse o tio James.
"Enquanto isso", acrescentou o tio Benjamin, "vamos nos acalmar."
CAPÍTULO XVI
Valancy caminhou até a casa de Roaring Abel na estrada de Mistawis sob um céu de púrpura e âmbar, com uma estranha excitação e expectativa em seu coração. Lá atrás, sua mãe e a prima Stickles estavam chorando — por si mesmas, não por ela. Mas aqui o vento estava em seu rosto, suave, úmido, fresco, soprando ao longo das estradas gramadas. Oh, como ela amava o vento! Os rouxinóis assobiavam sonolentamente nos abetos ao longo do caminho, e o ar úmido estava perfumado com o aroma de bálsamo. Grandes carros passavam zunindo na penumbra violeta — o fluxo de turistas de verão para Muskoka já havia começado —, mas Valancy não invejava nenhum de seus ocupantes. As casas de veraneio em Muskoka podiam ser charmosas, mas, além, nos céus do pôr do sol, entre as copas dos abetos, seu Castelo Azul se erguia. Ela afastou os velhos anos, hábitos e inibições como folhas mortas. Não seria carregada por eles.
A casa decadente e desmoronada de Roaring Abel estava situada a cerca de três milhas da vila, na própria borda do "up back", como a região escassamente povoada, montanhosa e arborizada ao redor de Mistawis era chamada vulgarmente. Deve-se confessar que não parecia muito com um Castelo Azul.
Já fora uma casa aconchegante o suficiente nos dias em que Abel Gay era jovem e próspero, e o letreiro em forma de arco sobre o portão — "A. Gay, Carpinteiro" — estava fino e recém-pintado. Agora, era uma casa decadente e sombria, com um telhado leproso e remendado e venezianas penduradas de forma irregular. Abel nunca parecia fazer trabalhos de carpintaria em sua própria casa. Tinha um ar desanimado, como se estivesse cansado da vida. Havia um bosque minguante de velhos abetos encurvados e decrépitos atrás dela. O jardim, que Cissy costumava manter arrumado e bonito, estava selvagem. Em dois lados da casa, havia campos cheios de nada além de malvas. Atrás da casa, havia uma longa extensão de terras baldias, cheias de pinheiros e abetos, com aqui e ali um arbusto de cerejeira florido, correndo de volta para um cinturão de madeira nas margens do Lago Mistawis, a duas milhas de distância. Uma trilha rochosa e cheia de pedras corria por ela até a floresta — uma trilha branca de margaridas pestilentas e belas.
Roaring Abel recebeu Valancy na porta.
"Então, você veio", disse ele, incrédulo. "Nunca supus que aquela turma de Stirlings deixaria você vir."
Valancy mostrou todos os seus dentes pontiagudos em um sorriso.
"Eles não puderam me impedir."
"Eu não pensei que você tivesse tanta coragem", disse Roaring Abel, admirado. "E olhe para os tornozelos dela", ele acrescentou, enquanto se afastava para deixá-la entrar.
Se a prima Stickles tivesse ouvido isso, teria certeza de que o destino terreno e ultraterreno de Valancy estava selado. Mas a galanteria superada de Abel não preocupava Valancy. Além disso, esse era o primeiro elogio que ela recebera na vida, e ela descobriu que gostava disso. Ela às vezes suspeitava que tinha tornozelos bonitos, mas ninguém nunca havia mencionado isso antes. No clã Stirling, tornozelos estavam entre os impublicáveis.
Roaring Abel a levou para a cozinha, onde Cissy Gay estava deitada no sofá, respirando rapidamente, com pequenas manchas escarlates em suas bochechas ocos. Valancy não via Cecilia Gay há anos. Então, ela era uma criatura tão bonita, uma garota esguia e florida, com cabelos dourados e macios, traços bem definidos e quase cerosos, e grandes olhos azuis bonitos. Ela ficou chocada com a mudança nela. Poderia esta ser a doce Cissy — esta coisinha pitoresca que parecia uma flor cansada e quebrada? Ela chorara toda a beleza de seus olhos; eles pareciam grandes demais — enormes — em seu rosto emaciado. Da última vez que Valancy vira Cecilia Gay, aqueles olhos desbotados e piedosos eram piscinas azuis e sombrias, cheias de alegria. O contraste era tão terrível que os próprios olhos de Valancy se encheram de lágrimas. Ela ajoelhou-se ao lado de Cissy e a abraçou.
"Cissy querida, eu vim cuidar de você. Vou ficar com você até — até — enquanto você quiser."
"Oh!" Cissy colocou seus braços finos em torno do pescoço de Valancy. "Oh — você vai? Foi tão — solitário. Posso cuidar de mim mesma — mas foi tão solitário. Seria — seria como o céu — ter alguém aqui — como você. Você sempre foi — tão doce comigo — há muito tempo."
Valancy abraçou Cissy com força. Ela estava subitamente feliz. Aqui estava alguém que precisava dela — alguém que ela podia ajudar. Ela não era mais uma sobra. Velhas coisas haviam passado; tudo se tornara novo.
"A maioria das coisas é predestinada, mas algumas são apenas sorte pura", disse Roaring Abel, complacentemente fumando seu cachimbo no canto.
CAPÍTULO XVII
Quando Valancy viveu por uma semana na casa de Roaring Abel, sentiu como se anos a separassem de sua vida antiga e de todas as pessoas que conhecera nela. Elas estavam começando a parecer remotas — sonhadoras — distantes — e, à medida que os dias passavam, pareciam ainda mais, até que deixaram de importar completamente.
Ela estava feliz. Ninguém nunca a incomodava com charadas ou insistia em dar-lhe Pílulas Roxas. Ninguém a chamava de Doss ou se preocupava com ela pegar um resfriado. Não havia colchas para costurar, nem planta de borracha abominável para regar, nem acessos maternos de raiva para suportar. Ela podia ficar sozinha sempre que quisesse, ir para a cama quando quisesse, espirrar quando quisesse. Nas longas e maravilhosas noites do norte, quando Cissy estava dormindo e Roaring Abel estava fora, ela podia sentar-se por horas nos degraus da varanda traseira, olhando para os barrens até as colinas além, cobertas com sua fina flor roxa, ouvindo o vento amigo cantando melodias selvagens e doces nos pequenos abetos, e respirando o aroma das gramíneas aquecidas pelo sol, até que a escuridão fluísse sobre a paisagem como uma onda fresca e bem-vinda.
Às vezes, à tarde, quando Cissy estava forte o suficiente, as duas garotas iam para os barrens e olhavam para as flores silvestres. Mas não as colhiam. Valancy lera para Cissy o evangelho delas segundo John Foster: "É uma pena colher flores silvestres. Elas perdem metade de seu encanto longe do verde e do brilho. A maneira de desfrutar das flores silvestres é rastreá-las até seus refúgios remotos — se deliciar com elas — e depois deixá-las com olhares para trás, levando consigo apenas a memória cativante de sua graça e fragrância."
Valancy estava no meio de realidades após uma vida de irrealidades. E ocupada — muito ocupada. A casa tinha que ser limpa. Não por nada Valancy fora criada nos hábitos de limpeza e arrumação dos Stirlings. Se ela encontrava satisfação em limpar cômodos sujos, tinha sua dose ali. Roaring Abel achava que ela era tola por se incomodar em fazer muito mais do que lhe era pedido, mas não interferia com ela. Ele estava muito satisfeito com seu acordo. Valancy era uma boa cozinheira. Abel dizia que ela colocava um sabor nas coisas. A única falha que ele encontrava nela era que ela não cantava enquanto trabalhava.
"As pessoas devem sempre cantar enquanto trabalham", insistia. "Soa alegre."
"Nem sempre", retrucava Valancy. "Imagine um açougueiro cantando enquanto trabalha. Ou um empreiteiro de funerais."
Abel explodiu em sua grande risada estrondosa.
"Não há como ganhar de você. Você tem uma resposta para tudo. Devo pensar que os Stirlings ficariam felizes em se livrar de você. Eles não gostam de serem respondidos."
Durante o dia, Abel geralmente estava fora de casa — se não trabalhando, então caçando ou pescando com Barney Snaith. Ele geralmente voltava à noite — sempre muito tarde e muitas vezes muito bêbado. Na primeira noite, elas ouviram ele entrar gritando no quintal, Cissy dissera a Valancy para não ter medo.
"Pai nunca faz nada — ele só faz barulho."
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- Ela sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.) ---
Valancy, deitada no sofá no quarto de Cissy, onde escolhera dormir, para o caso de Cissy precisar de atenção durante a noite — Cissy nunca a chamaria —, não estava nem um pouco com medo e disse isso. Quando Abel terminou de cuidar de seus cavalos, o estágio de gritaria havia passado, e ele estava em seu quarto no final do corredor, chorando e orando. Valancy ainda podia ouvir seus gemidos lamentosos quando foi calmamente dormir. Na maior parte do tempo, Abel era uma criatura de bom coração, mas, ocasionalmente, tinha um temperamento. Uma vez, Valancy perguntou-lhe, com frieza:
"Qual é a utilidade de ficar com raiva?"
"É um alívio tão grande", disse Abel.
Ambos explodiram em risadas.
"Você é uma grande esportista", disse Abel, admirado. "Não se importe com meu francês ruim. Não quero dizer nada com isso. É só hábito. Olha, eu gosto de uma mulher que não tem medo de me enfrentar. A Cissy era muito submissa — muito submissa. Foi por isso que ela se perdeu. Eu gosto de você."
"De qualquer forma", disse Valancy, determinada, "não há utilidade em enviar as coisas para o inferno, como você sempre faz. E não vou deixar você sujar todo o chão que acabei de esfregar. Você tem que usar o raspador, quer você o mande para o inferno ou não."
Cissy amava a limpeza e a arrumação. Ela também mantinha tudo assim, até que sua força falhou. Ela estava feliz de uma forma comovente por ter Valancy com ela. Fora tão terrível — os longos dias e noites solitários, sem companhia, exceto aquelas mulheres terríveis que vinham trabalhar. Cissy as odiava e temia. Ela se apegou a Valancy como uma criança.
Não havia dúvida de que Cissy estava morrendo. No entanto, em nenhum momento ela parecia alarmantemente doente. Ela nem mesmo tossia muito. Na maioria dos dias, ela conseguia se levantar e se vestir — às vezes, até trabalhar no jardim ou nos barrens por uma ou duas horas. Por algumas semanas após a chegada de Valancy, ela parecia tão melhor que Valancy começou a esperar que ela pudesse se recuperar. Mas Cissy balançou a cabeça.
"Não, não posso me recuperar. Meus pulmões estão quase acabados. E eu — não quero. Estou tão cansada, Valancy. Só a morte pode me descansar. Mas é maravilhoso ter você aqui — você nunca saberá o quanto isso significa para mim. Mas Valancy — você trabalha demais. Você não precisa — o pai só quer que suas refeições sejam preparadas. Acho que você não está bem você mesma. Você fica tão pálida às vezes. E aquelas gotas que você toma. Você está bem, querida?"
"Estou bem", disse Valancy, levemente. Ela não queria que Cissy se preocupasse. "E não estou trabalhando muito. Estou feliz por ter algum trabalho para fazer — algo que realmente precisa ser feito."
"Então" — Cissy deslizou sua mão, com saudade, na de Valancy — "não vamos mais falar sobre eu estar doente. Vamos apenas esquecer. Vamos fingir que sou uma garotinha novamente — e que você veio aqui para brincar comigo. Eu desejava isso há muito tempo — desejava que você pudesse vir. Eu sabia que não podia, é claro. Mas como eu desejava! Você sempre pareceu tão diferente das outras garotas — tão gentil e doce — e como se tivesse algo em si que ninguém sabia — algum segredo querido e bonito. Você tinha, Valancy?"
"Eu tinha meu Castelo Azul", disse Valancy, rindo um pouco. Ela ficou feliz que Cissy pensasse nela assim. Ela nunca suspeitara que alguém gostasse ou admirasse ou se perguntasse sobre ela. Ela contou a Cissy tudo sobre seu Castelo Azul. Nunca contara a ninguém antes.
"Todo mundo tem um Castelo Azul, acho", disse Cissy, suavemente. "Só que todo mundo tem um nome diferente para ele. Eu tive o meu — uma vez."
Ela colocou suas duas mãos finas sobre o rosto. Ela não contou a Valancy — então — quem destruíra seu Castelo Azul. Mas Valancy sabia que, quem quer que fosse, não era Barney Snaith.
CAPÍTULO XVIII
Valancy já conhecia Barney — bem conhecida, parecia, embora tivesse falado com ele apenas algumas vezes. Mas, então, ela se sentira tão bem conhecida na primeira vez que se encontraram. Ela estava no jardim ao entardecer, procurando alguns talos de narciso branco para o quarto de Cissy, quando ouviu aquele terrível Grey Slosson vindo pelas florestas de Mistawis — podia-se ouvi-lo a milhas de distância. Valancy não olhou para cima quando ele se aproximou, batendo sobre as pedras naquela trilha maluca. Ela nunca olhara para cima, embora Barney passasse rugindo todas as noites desde que ela estava na casa de Roaring Abel. Desta vez, ele não passou rugindo. O velho Grey Slosson parou com ruídos ainda mais terríveis do que os que fazia ao andar. Valancy estava consciente de que Barney saltara dele e estava inclinado sobre o portão decadente. Ela, de repente, endireitou-se e olhou para seu rosto. Seus olhos se encontraram — Valancy, de repente, sentiu uma fraqueza deliciosa. Estaria vindo um de seus ataques cardíacos? — Mas esse era um novo sintoma.
Seus olhos, que ela sempre pensara serem castanhos, agora vistos de perto, eram violeta profundo — translúcidos e intensos. Nenhuma de suas sobrancelhas se parecia com a outra. Ele era magro — muito magro — ela desejava poder alimentá-lo um pouco — desejava poder costurar os botões de seu casaco — e fazê-lo cortar o cabelo — e barbear-se todos os dias. Havia algo em seu rosto — mal se sabia o que era. Cansaço? Tristeza? Desilusão? Ele tinha covinhas em suas bochechas magras quando sorria. Todos esses pensamentos passaram pela mente de Valancy naquele momento enquanto seus olhos olhavam para os dela.
"Boa noite, senhorita Stirling."
Nada poderia ser mais corriqueiro e convencional. Qualquer um poderia ter dito isso. Mas Barney Snaith tinha uma maneira de dizer as coisas que lhes dava uma pontada de emoção. Quando ele dizia "boa noite", você sentia que era uma boa noite e que era, em parte, por causa dele que era. Além disso, você sentia que parte do crédito era sua. Valancy sentiu tudo isso vagamente, mas não conseguia imaginar por que estava tremendo da cabeça aos pés — devia ser seu coração. Se ele não notasse!
"Estou indo para o Porto", Barney estava dizendo. "Posso adquirir mérito obtendo ou fazendo algo lá para você ou para Cissy?"
"Você pode pegar um pouco de bacalhau salgado para nós?" disse Valancy. Era a única coisa que ela conseguia pensar. Roaring Abel expressara o desejo, naquele dia, por um jantar de bacalhau salgado cozido. Quando seus cavaleiros vinham ao Castelo Azul, Valancy os enviara em muitas missões, mas nunca pedira a nenhum deles para pegar bacalhau salgado para ela.
"Claro. Você tem certeza de que não há mais nada? Muito espaço na Lady Jane Grey Slosson. E ela sempre volta em algum momento, a Lady Jane."
"Acho que não há mais nada", disse Valancy. Ela sabia que ele traria laranjas para Cissy de qualquer maneira — ele sempre fazia.
Barney não se afastou imediatamente. Ele ficou em silêncio por um momento. Então, disse, lentamente e de forma caprichosa:
"Senhorita Stirling, você é uma pedra! Você é uma carga inteira de pedras. Vir aqui e cuidar de Cissy — nas circunstâncias."
"Não há nada tão pedregoso nisso", disse Valancy. "Eu não tinha mais nada para fazer. E — gosto daqui. Não sinto como se tivesse feito algo especialmente meritório. O Sr. Gay está me pagando um salário justo. Nunca ganhei dinheiro antes — e gosto disso." Parecia tão fácil falar com Barney Snaith, de alguma forma — este terrível Barney Snaith das histórias terríveis e do passado misterioso — tão fácil e natural como se estivesse falando consigo mesma.
"Todo o dinheiro do mundo não poderia comprar o que você está fazendo por Cissy Gay", disse Barney. "É esplêndido e nobre da sua parte. E, se houver algo que eu possa fazer para ajudá-la de alguma forma, você só precisa me dizer. Se Roaring Abel tentar incomodá-la——"
"Ele não incomoda. Ele é adorável comigo. Gosto de Roaring Abel", disse Valancy, francamente.
"Eu também. Mas há um estágio de sua embriaguez — talvez você ainda não tenha encontrado — quando ele canta canções obscenas——"
"Oh, sim. Ele chegou em casa ontem assim. Cissy e eu apenas fomos para nosso quarto e nos trancamos onde não podíamos ouvi-lo. Ele se desculpou esta manhã. Não tenho medo de nenhum dos estágios de Roaring Abel."
"Bem, tenho certeza de que ele será decente com você, além de seus uivos embriagados", disse Barney. "E eu disse a ele que tem que parar de amaldiçoar as coisas quando você está por perto."
"Por quê?" perguntou Valancy, sorrateiramente, com um de seus olhares oblíquos e um súbito rubor em cada bochecha, nascido do pensamento de que Barney Snaith havia, na verdade, feito tanto por ela. "Eu, às vezes, sinto vontade de amaldiçoar as coisas eu mesma."
Por um momento, Barney ficou parado. Era esta elfa a pequena criatura velha e senhoril que estivera ali dois minutos antes? Certamente havia magia e diabrura acontecendo naquele jardim decadente e cheio de mato.
Então, ele riu.
"Será um alívio ter alguém para amaldiçoar por você, então. Então, você não quer nada além de bacalhau salgado?"
"Não esta noite. Mas acho que terei algumas tarefas para você muito frequentemente quando você for a Port Lawrence. Não posso confiar no Sr. Gay para se lembrar de trazer todas as coisas que quero."
Barney se foi, então, em sua Lady Jane, e Valancy ficou no jardim por um longo tempo.
Desde então, ele chamara várias vezes, caminhando pelos barrens, assobiando. Como aquele assobio ecoava pelos abetos daquelas noites de junho! Valancy se pegou ouvindo por ele todas as noites — se repreendeu — depois, se deixou levar. Por que não deveria ouvir por ele?
Ele sempre trazia frutas e flores para Cissy. Uma vez, trouxe uma caixa de doces para Valancy — a primeira caixa de doces que ela recebera. Parecia sacrilégio comê-la.
Ela se pegou pensando nele a toda hora, dentro e fora de hora. Ela queria saber se ele pensava nela quando ela não estava diante de seus olhos, e, se sim, o que. Ela queria ver aquela casa misteriosa dele na ilha de Mistawis. Cissy nunca a vira. Cissy, embora falasse livremente de Barney e o conhecesse há cinco anos, realmente sabia pouco mais dele do que a própria Valancy.
"Mas ele não é mau", disse Cissy. "Ninguém precisa me dizer que ele é. Ele não pode ter feito nada para se envergonhar."
"Então, por que ele vive como vive?" perguntou Valancy — para ouvir alguém defendê-lo.
"Não sei. Ele é um mistério. E, claro, há algo por trás disso, mas sei que não é desonra. Barney Snaith simplesmente não poderia fazer nada desonroso, Valancy."
Valancy não tinha tanta certeza. Barney devia ter feito algo — em algum momento. Ele era um homem de educação e inteligência. Ela logo descobriera isso, ouvindo suas conversas e brigas com Roaring Abel — que era surpreendentemente bem lido e podia discutir qualquer assunto sob o sol quando estava sóbrio. Um homem assim não se enterraria por cinco anos em Muskoka e viveria e pareceria um mendigo se não houvesse uma razão muito boa — ou má — para isso. Mas não importava. Tudo o que importava era que ela estava certa agora de que ele nunca fora o amante de Cissy Gay. Não havia nada disso entre eles. Embora ele fosse muito apegado a Cissy e ela a ele, como qualquer um podia ver. Mas era um afeto que não preocupava Valancy.
"Você não sabe o que Barney foi para mim, nesses dois últimos anos", Cissy dissera, simplesmente. "Tudo teria sido insuportável sem ele."
"Cissy Gay é a garota mais doce que já conheci — e há um homem em algum lugar que eu gostaria de atirar se pudesse encontrá-lo", Barney dissera, com raiva.
Barney era um contador de histórias interessante, com um dom para contar muito sobre suas aventuras e nada sobre si mesmo. Houve um dia glorioso de chuva em que Barney e Abel trocaram histórias o dia todo enquanto Valancy remendava toalhas de mesa e ouvia. Barney contou histórias estranhas de suas aventuras com "vagabundos" em trens enquanto viajava pelo continente. Valancy achava que deveria considerar suas viagens de carona terríveis, mas não considerava. A história de seu trabalho em um navio de gado para a Inglaterra parecia mais legítima. E suas histórias do Yukon a encantaram — especialmente a da noite em que se perdeu na divisa entre Gold Run e Sulphur Valley. Ele passara dois anos lá. Onde, em tudo isso, havia espaço para a penitenciária e as outras coisas?
Se ele estivesse contando a verdade. Mas Valancy sabia que estava.
"Não encontrei ouro", ele disse. "Voltei mais pobre do que quando fui. Mas que lugar para viver! Aqueles silêncios atrás do vento norte me pegaram. Nunca pertenci a mim mesmo desde então."
No entanto, ele não era um grande contador de histórias. Ele contava muito em poucas palavras bem escolhidas — o quão bem escolhidas Valancy não percebia. E ele tinha um dom para dizer coisas sem abrir a boca.
"Gosto de um homem cujos olhos dizem mais do que seus lábios", pensou Valancy.
Mas, então, ela gostava de tudo nele — de seu cabelo castanho — de seus sorrisos caprichosos — dos pequenos lampejos de diversão em seus olhos — de seu afeto leal por aquela Lady Jane insuportável — de seu hábito de sentar com as mãos nos bolsos, o queixo afundado no peito, olhando para cima de sob suas sobrancelhas desiguais. Ela gostava de sua voz agradável, que soava como se pudesse se tornar carinhosa ou sedutora com muito pouca provocação. Ela estava, às vezes, quase com medo de deixar-se pensar nesses pensamentos. Eram tão vívidos que ela sentia como se os outros devessem saber o que ela estava pensando.
"Estive observando um pica-pau o dia todo", ele disse uma noite na velha varanda traseira. Sua descrição das façanhas do pica-pau foi satisfatória. Ele frequentemente tinha alguma anedota engraçada ou astuta sobre os animais da floresta para contar. E, às vezes, ele e Roaring Abel fumavam ferozmente a noite toda e nunca diziam uma palavra, enquanto Cissy ficava na rede pendurada entre os postes da varanda e Valancy sentava-se, sem fazer nada, nos degraus, com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e se perguntava, sonhadora, se ela era realmente Valancy Stirling e se apenas três semanas se passara desde que deixara a velha e feia casa na Elm Street.
Os barrens se estendiam diante dela em um esplendor de lua branca, onde dezenas de coelhinhos brincavam. Barney, quando queria, podia sentar-se na borda dos barrens e atrair aqueles coelhinhos até ele por alguma magia misteriosa que possuía. Valancy, uma vez, vira um esquilo saltar de um pinheiro para seu ombro e ficar lá tagarelando com ele. Isso a lembrou de John Foster.
Era um dos prazeres da nova vida de Valancy que ela podia ler os livros de John Foster sempre que quisesse e pelo tempo que quisesse. Ela podia lê-los na cama, se quisesse. Ela leu todos para Cissy, que os amava. Ela também tentou lê-los para Abel e Barney, que não os amavam. Abel ficou entediado, e Barney se recusou, educadamente, a ouvir.
"Bobagem", disse Barney.
CAPÍTULO XIX
Claro, os Stirlings não deixaram a pobre maníaca sozinha todo esse tempo ou se abstiveram de esforços heroicos para resgatar sua alma e reputação perdidas. O tio James, cujo advogado o ajudara tão pouco quanto seu médico, veio um dia e, encontrando Valancy sozinha na cozinha, como supunha, deu-lhe uma tremenda bronca — disse-lhe que estava quebrando o coração de sua mãe e desonrando sua família.
"Mas por quê?" disse Valancy, sem parar de esfregar sua panela de mingau decentemente. "Estou fazendo um trabalho honesto por um salário honesto. O que há de desonroso nisso?"
"Não seja capciosa, Valancy", disse o tio James, solenemente. "Este não é um lugar adequado para você estar, e você sabe disso. Por que, me dizem que aquele bandido, Snaith, está rondando aqui todas as noites."
"Não todas as noites", disse Valancy, reflexivamente. "Não, não todas as noites."
"É — é insuportável!" disse o tio James, violentamente. "Valancy, você deve voltar para casa. Não vamos julgá-la severamente. Garanto que não. Vamos esquecer tudo isso."
"Obrigada", disse Valancy.
"Você não tem senso de vergonha?" exigiu o tio James.
"Oh, sim. Mas as coisas de que me envergonho não são as coisas de que você se envergonha." Valancy prosseguiu para enxaguar sua esponja meticulosamente.
Ainda assim, o tio James foi paciente. Ele segurou os lados de sua cadeira e rangeu os dentes.
"Sabemos que sua mente não está bem. Faremos concessões. Mas você deve voltar para casa. Você não deve ficar aqui com aquele velho bêbado, blasfemo e canalha——"
"Você estava se referindo a mim, por acaso, Sr. Stirling?" exigiu Roaring Abel, aparecendo repentinamente na porta da varanda traseira, onde estivera fumando um cachimbo pacífico e ouvindo a tirada de "velho Jim Stirling" com grande prazer. Sua barba vermelha estava eriçada de indignação, e suas enormes sobrancelhas tremiam. Mas covardia não estava entre as falhas de James Stirling.
"Estava. E, além disso, quero dizer que você agiu de forma iníqua ao atrair esta garota fraca e infeliz para longe de sua casa e amigos, e vou fazer você pagar por isso——"
James Stirling não foi mais longe. Roaring Abel cruzou a cozinha em um salto, agarrou-o pela gola e pelas calças, e o arremessou pela porta e sobre o portão do jardim com tão pouco esforço aparente quanto usaria para afastar um gatinho inconveniente.
"Da próxima vez que vier aqui", ele rugiu, "vou jogá-lo pela janela — e melhor se a janela estiver fechada! Vindo aqui, pensando que é Deus para colocar o mundo em ordem!"
Valancy, candidamente e sem vergonha, admitiu para si mesma que vira poucos espetáculos mais satisfatórios do que as calças do tio James voando para o canteiro de aspargos. Ela já estivera com medo do julgamento deste homem. Agora, via claramente que ele não era nada além de um pequeno deus de lata da vila.
Roaring Abel virou-se com sua grande risada estrondosa.
"Ele vai pensar nisso por anos quando acordar à noite. O Todo-Poderoso cometeu um erro ao fazer tantos Stirlings. Mas, como eles foram feitos, temos que lidar com eles. Muitos para matar. Mas, se eles vierem aqui incomodando você, vou espantá-los antes que um gato possa lamber a pata."
Na próxima vez, eles enviaram o Dr. Stalling. Com certeza, Roaring Abel não jogaria ele em canteiros de aspargos. O Dr. Stalling não tinha tanta certeza disso e não gostava muito da tarefa. Ele não acreditava que Valancy Stirling estivesse louca. Ela sempre fora estranha. Ele, o Dr. Stalling, nunca conseguira entendê-la. Portanto, além de dúvida, ela era estranha. Ela estava apenas um pouco mais estranha do que o habitual agora. E o Dr. Stalling tinha suas próprias razões para não gostar de Roaring Abel. Quando o Dr. Stalling chegara a Deerwood, ele tinha um gosto por longas caminhadas ao redor de Mistawis e Muskoka. Em uma dessas ocasiões, ele se perdera e, após muito caminhar, encontrara Roaring Abel com seu rifle no ombro.
O Dr. Stalling conseguira fazer sua pergunta de uma maneira tão idiota quanto possível. Ele disse: "Você pode me dizer para onde estou indo?"
"Como diabos eu deveria saber para onde você está indo, gosling?" retrucou Abel, com desprezo.
O Dr. Stalling ficou tão irritado que não conseguiu falar por um momento ou dois, e, naquele momento, Abel desaparecera na floresta. O Dr. Stalling eventualmente encontrara seu caminho para casa, mas nunca ansiara por encontrar Abel Gay novamente.
No entanto, ele veio agora para fazer seu dever. Valancy o recebeu com o coração afundando. Ela teve que admitir para si mesma que ainda estava terrivelmente com medo do Dr. Stalling. Ela tinha uma convicção miserável de que, se ele sacudisse seu longo dedo ósseo para ela e dissesse para voltar para casa, ela não ousaria desobedecer.
"Sr. Gay", disse o Dr. Stalling, polida e condescendentemente, "posso ver a senhorita Stirling sozinha por alguns minutos?"
Roaring Abel estava um pouco bêbado — apenas bêbado o suficiente para ser excessivamente polido e muito astuto. Ele estava prestes a sair quando o Dr. Stalling chegou, mas agora se sentou em um canto da sala de estar e cruzou os braços.
"Não, não, senhor", disse ele, solenemente. "Isso não seria bom — não seria bom de jeito nenhum. Tenho que manter a reputação da minha casa. Tenho que vigiar esta jovem. Não posso deixar que haja nenhum flerte acontecendo aqui pelas minhas costas."
O ultrajado Dr. Stalling ficou tão terrível que Valancy se perguntou como Abel podia suportar sua aparência. Mas Abel não estava preocupado.
"Você sabe alguma coisa sobre isso, de qualquer maneira?" ele perguntou, genialmente.
"Sobre o quê?"
"Flerte", disse Abel, com frieza.
O pobre Dr. Stalling, que nunca se casara porque acreditava em um clero celibatário, não notaria essa observação indecorosa. Ele virou as costas para Abel e se dirigiu a Valancy.
“Senhorita Stirling, estou aqui a pedido de sua mãe. Ela me implorou para vir. Estou encarregado de algumas mensagens dela. Você” — ele sacudiu o dedo — “vai ouvi-las?”
“Sim”, disse Valancy, fracamente, olhando para o dedo. Ele tinha um efeito hipnótico sobre ela.
“A primeira é esta. Se você deixar este — este——”
“Casa”, interveio Roaring Abel. “C-a-s-a. Com problemas de impedimento na fala, não é, senhor?”
“—este lugar e voltar para casa, o Sr. James Stirling pagará por uma boa enfermeira para vir aqui e cuidar da senhorita Gay.”
Por trás de seu terror, Valancy sorriu em segredo. O tio James devia realmente considerar a situação desesperadora para afrouxar suas cordas da bolsa dessa maneira. De qualquer forma, seu clã não a desprezava mais nem a ignorava. Ela se tornara importante para eles.
“Isso é problema meu, senhor”, disse Abel. “A senhorita Stirling pode ir se quiser, ou ficar se quiser. Fiz um acordo justo com ela, e ela é livre para concluí-lo quando quiser. Ela me dá refeições que saciam minha fome. Ela não esquece de colocar sal no mingau. Ela nunca bate portas, e quando não tem nada para dizer, não fala. Isso é incomum em uma mulher, você sabe, senhor. Estou satisfeito. Se ela não estiver, é livre para ir. Mas nenhuma mulher vem aqui a serviço de Jim Stirling. Se alguém vier” — a voz de Abel era estranhamente suave e polida — “vou espalhar seus miolos pela estrada. Diga isso com os cumprimentos de A. Gay.”
“Dr. Stalling, uma enfermeira não é o que Cissy precisa”, disse Valancy, com fervor. “Ela não está tão doente assim, ainda. O que ela quer é companhia — alguém que ela conhece e gosta, apenas para viver com ela. Você pode entender isso, tenho certeza.”
“Entendo que seu motivo é bastante — ahem — louvável.” O Dr. Stalling sentia que era muito aberto de mente — especialmente porque, em seu íntimo, não acreditava que o motivo de Valancy fosse louvável. Ele não tinha a menor ideia do que ela estava fazendo, mas tinha certeza de que seu motivo não era louvável. Quando não conseguia entender algo, condenava-o imediatamente. Simplicidade em si! “Mas seu primeiro dever é com sua mãe. Ela precisa de você. Ela a implora para voltar para casa — perdoará tudo se você apenas voltar para casa.”
“Isso é um pensamento bonito”, comentou Abel, meditativamente, enquanto amassava tabaco em sua mão.
O Dr. Stalling o ignorou.
“Ela suplica, mas eu, senhorita Stirling” — o Dr. Stalling lembrou-se de que era um embaixador de Jeová — “eu comando. Como seu pastor e guia espiritual, comando que você volte para casa comigo — neste mesmo dia. Pegue seu chapéu e casaco e venha agora.”
O Dr. Stalling sacudiu o dedo para Valancy. Diante daquele dedo implacável, ela murchou e definhou visivelmente.
“Ela está cedendo”, pensou Roaring Abel. “Vai com ele. Inacreditável, o poder que esses pregadores têm sobre as mulheres.”
Valancy estava prestes a obedecer ao Dr. Stalling. Ela tinha que ir para casa com ele — e desistir. Voltaria a ser Doss Stirling novamente e, por seus poucos dias ou semanas restantes, seria a criatura covarde e inútil que sempre fora. Era seu destino — tipificado por aquele dedo implacável e erguido. Ela não podia escapar dele mais do que Roaring Abel de sua predestinação. Ela olhou para ele como o pássaro fascinado olha para a serpente. Mais um momento —
“O medo é o pecado original”, disse, de repente, uma voz calma e pequena, lá atrás — atrás — atrás da consciência de Valancy. “_Quase todo o mal no mundo tem sua origem no fato de que alguém tem medo de algo._”
Valancy se levantou. Ela ainda estava nas garras do medo, mas sua alma era sua novamente. Ela não seria falsa com aquela voz interior.
“Dr. Stalling”, disse ela, lentamente, “não devo, no momento, nenhum dever à minha mãe. Ela está bem; tem toda a assistência e companhia de que precisa; não precisa de mim. Sou necessária aqui. Vou ficar aqui.”
“Isso é coragem para você”, disse Roaring Abel, admirado.
O Dr. Stalling abaixou o dedo. Não se pode sacudir um dedo para sempre.
“Senhorita Stirling, não há nada que possa influenciá-la? Você se lembra de seus dias de infância——”
“Perfeitamente. E os odeio.”
“Você percebe o que as pessoas vão dizer? O que estão dizendo?”
“Posso imaginar”, disse Valancy, com um encolher de ombros. Ela estava, de repente, livre do medo novamente. “Não ouvi as fofocas das festas de chá e círculos de costura de Deerwood por vinte anos em vão. Mas, Dr. Stalling, não importa nem um pouco para mim o que eles dizem — nem um pouco.”
O Dr. Stalling foi embora, então. Uma garota que não se importava com a opinião pública! Sobre quem os laços sagrados da família não tinham influência restritiva! Que odiava suas memórias de infância!
Então, a prima Georgiana veio — por iniciativa própria, pois ninguém pensaria que valeria a pena enviá-la. Ela encontrou Valancy sozinha, arrancando ervas daninhas do pequeno jardim de vegetais que plantara, e fez todos os apelos platônicos que conseguiu pensar. Valancy a ouviu pacientemente. A prima Georgiana não era uma má pessoa. Então, ela disse:
"E agora que você desabafou tudo isso, prima Georgiana, pode me dizer como fazer bacalhau cremoso para que não fique grosso como mingau e salgado como o Mar Morto?"
* * * * * * *
"Vamos ter que esperar", disse o tio Benjamin. "Afinal, Cissy Gay não pode viver muito. O Dr. Marsh me disse que ela pode morrer a qualquer dia."
A Sra. Frederick chorou. Teria sido muito mais fácil suportar se Valancy tivesse morrido. Ela poderia usar luto, então.
CAPÍTULO XX
Quando Abel Gay pagou a Valancy seu primeiro mês de salário — o que fez prontamente, em notas que cheiravam a tabaco e uísque —, Valancy foi a Deerwood e gastou cada centavo. Comprou um vestido verde de crepe com um cinto de contas vermelhas, em uma venda de liquidação, um par de meias de seda para combinar e um pequeno chapéu verde enrugado com uma rosa vermelha. Até comprou uma camisola boba, cheia de fitas e rendas.
Ela passou duas vezes pela casa na Elm Street — Valancy nunca pensou nela como "lar" —, mas não viu ninguém. Sem dúvida, sua mãe estava sentada na sala naquela linda noite de junho, jogando paciência — e trapaceando. Valancy sabia que a Sra. Frederick sempre trapaceava. Ela nunca perdia um jogo. A maioria das pessoas que Valancy encontrou a olhou seriamente e passou com um aceno de cabeça frio. Ninguém parou para falar com ela.
Valancy colocou seu vestido verde quando chegou em casa. Então, tirou-o novamente. Sentia-se tão miseravelmente despida com seu decote baixo e mangas curtas. E aquele cinto vermelho baixo em volta dos quadris parecia positivamente indecente. Ela o pendurou no armário, sentindo, com tristeza, que havia desperdiçado seu dinheiro. Nunca teria coragem de usar aquele vestido. O arrazoado de John Foster contra o medo não tinha poder para fortalecê-la contra isso. Nessa única coisa, hábito e costume ainda eram poderosos. No entanto, ela suspirou enquanto descia para encontrar Barney Snaith em seu velho vestido marrom. Aquela roupa verde teria sido muito bonita — ela vira isso em seu único olhar envergonhado. Acima dela, seus olhos pareciam joias marrons estranhas, e o cinto dava a sua figura plana uma aparência completamente diferente. Ela desejou poder ter deixado o vestido. Mas havia coisas que John Foster não sabia.
Todos os domingos à noite, Valancy ia à pequena igreja Metodista Livre em um vale na borda do "up back" — um pequeno edifício cinza sem torre, entre os pinheiros, com algumas covas rasas e lápides cobertas de musgo no pequeno quadrado cercado por uma cerca, coberto de grama e erva daninha. Ela gostava do ministro que pregava lá. Ele era tão simples e sincero. Um homem velho, que morava em Port Lawrence e vinha pelo lago em um pequeno barco a motor para dar um serviço gratuito às pessoas das pequenas fazendas rochosas atrás das colinas, que, de outra forma, nunca ouviriam uma mensagem evangélica. Ela gostava do serviço simples e do canto fervoroso. Gostava de sentar-se na janela aberta e olhar para os bosques de pinheiros. A congregação era sempre pequena. Os Metodistas Livres eram poucos em número, pobres e, geralmente, analfabetos. Mas Valancy amava aquelas noites de domingo. Pela primeira vez na vida, ela gostava de ir à igreja. O boato chegou a Deerwood de que ela havia "se tornado Metodista Livre" e mandou a Sra. Frederick para a cama por um dia. Mas Valancy não se tornara nada. Ela ia à igreja porque gostava e porque, de alguma forma inexplicável, isso lhe fazia bem. O velho Sr. Towers acreditava exatamente no que pregava, e, de alguma forma, isso fazia uma enorme diferença.
Estranhamente, Roaring Abel desaprova sua ida à igreja do morro tanto quanto a própria Sra. Frederick. Ele "não tinha uso para Metodistas Livres. Era presbiteriano." Mas Valancy ia, apesar dele.
"Vamos ouvir algo pior sobre ela em breve", previu o tio Benjamin, sombriamente.
E ouviram.
Valancy não conseguia explicar, nem mesmo para si mesma, por que queria ir àquela festa. Era um baile em Chidley Corners; e bailes em Chidley Corners não eram, geralmente, o tipo de reunião onde jovens senhoras bem-criadas eram encontradas. Valancy sabia que estava acontecendo, pois Roaring Abel fora contratado como um dos violinistas.
Mas a ideia de ir nunca ocorrera a ela até que o próprio Roaring Abel a sugerisse no jantar.
"Você vem comigo para o baile", ordenou. "Vai te fazer bem — colocar cor em seu rosto. Você parece pálida — precisa de algo para animá-la."
Valancy sentiu, de repente, que queria ir. Ela não sabia nada sobre como eram os bailes em Chidley Corners. Sua ideia de bailes fora formada com base nos eventos corretos que levavam esse nome em Deerwood e Port Lawrence. Claro que sabia que o baile do Corners não seria como eles. Muito mais informal, é claro. Mas, por isso, mais interessante. Por que não deveria ir? Cissy estava em uma semana de saúde e melhora aparente. Não se importaria de ficar sozinha de jeito nenhum. Ela implorou a Valancy para ir, se quisesse. E Valancy queria ir.
Ela foi para seu quarto se arrumar. Uma raiva contra o vestido marrom a dominou. Usar isso em uma festa! Nunca. Ela tirou seu vestido verde do cabide e o colocou, febrilmente. Era bobagem se sentir tão — tão — nua — apenas porque seu pescoço e braços estavam descobertos. Isso era apenas sua velha mania de solteirona. Ela não seria dominada por isso. O vestido foi colocado — as meias também.
Era a primeira vez que ela usava um vestido bonito desde os vestidos de organdi de sua adolescência. E eles nunca a fizeram parecer assim.
Se ela tivesse um colar ou algo assim. Não se sentiria tão descoberta. Ela correu para o jardim. Havia trevos lá — grandes coisas vermelhas crescendo na grama alta. Valancy colheu punhados deles e os amarrou em um cordão. Presos acima de seu pescoço, deram-lhe a sensação confortável de um colar e eram estranhamente bonitos. Outro círculo deles foi colocado em seu cabelo, arrumado em cachos baixos que a favoreciam. A empolgação trouxe aqueles tons rosados a seu rosto. Ela colocou o casaco e puxou o pequeno chapéu torto sobre o cabelo.
"Você está tão bonita e — e — diferente, querida", disse Cissy. "Como um raio de luar verde com um brilho de vermelho, se isso fosse possível."
Valancy se inclinou para beijá-la.
"Não me sinto bem sobre deixá-la sozinha, Cissy."
"Oh, estarei bem. Estou me sentindo melhor esta noite do que há muito tempo. Estive me sentindo mal por ver você ficar aqui tão presa por minha causa. Espero que você se divirta. Nunca fui a uma festa no Corners, mas, há muito tempo, ia a bailes no 'up back'. Sempre nos divertíamos. E você não precisa ter medo de o pai estar bêbado esta noite. Ele nunca bebe quando se compromete a tocar em uma festa. Mas — pode haver — bebida. O que você fará se ficar ruim?"
"Ninguém me molestaria."
"Não seriamente, suponho. O pai cuidaria disso. Mas pode ser barulhento e — e desagradável."
"Não me importarei. Estou indo apenas como espectadora. Não espero dançar. Só quero ver como é uma festa no 'up back'. Nunca vi nada além do decoro de Deerwood."
Cissy sorriu, um pouco duvidosa. Ela sabia muito melhor do que Valancy como uma festa no "up back" podia ser, se houvesse bebida. Mas, de novo, podia não haver.
"Espero que você se divirta, querida", repetiu.
Valancy gostou da viagem até lá. Foram cedo, pois eram doze milhas até Chidley Corners, e tiveram que ir na velha charrete de Abel. A estrada era ruim e rochosa, como a maioria das estradas de Muskoka, mas cheia do encanto austero das florestas do norte. Ela serpenteava por pinheiros bonitos e sussurrantes que eram fileiras de encantamento no pôr do sol de junho, e sobre os rios esverdeados e curiosos de Muskoka, margeados por bétulas que sempre tremiam com alguma alegria supernal.
Roaring Abel também era uma excelente companhia. Ele conhecia todas as histórias e lendas do "up back" selvagem e bonito, e as contou a Valancy enquanto seguiam. Valancy teve vários acessos de riso interno sobre o que o tio Benjamin, a tia Wellington e os outros sentiriam e pensariam e diriam se a vissem indo com Roaring Abel naquela charrete terrível para um baile em Chidley Corners.
No início, o baile foi tranquilo o suficiente, e Valancy se divertiu e se entreteu. Até dançou duas vezes, com dois rapazes do "up back" que dançavam maravilhosamente e disseram que ela também.
Outro elogio veio em seu caminho — não muito sutil, talvez, mas Valancy tivera tão poucos elogios na vida que não era muito exigente nesse ponto. Ela ouviu dois dos rapazes do "up back" falando sobre ela no "lean-to" escuro atrás dela.
"Sabe quem é aquela garota de verde?"
"Não. Acho que é de fora. Do Porto, talvez. Tem um ar elegante."
"Não é bonita, mas é atraente, eu diria. Já viu olhos assim?"
A grande sala estava decorada com galhos de pinheiro e abeto, e iluminada por lanternas chinesas. O chão estava encerado, e o violino de Roaring Abel, ronronando sob seu toque hábil, trabalhava sua magia. As garotas do "up back" eram bonitas e bem vestidas. Valancy achou que era a festa mais agradável que já frequentara.
Às onze horas, ela mudou de ideia. Um novo grupo chegara — claramente bêbado. Uísque começou a circular livremente. Logo, quase todos os homens estavam parcialmente bêbados. Aqueles na varanda e ao redor da porta começaram a uivar "come-all-ye's" e continuaram a uivar. A sala ficou barulhenta e fedorenta. Brigas começaram aqui e ali. Linguagem obscena e canções indecentes foram ouvidas. As garotas, balançadas rudemente nas danças, ficaram desarrumadas e vulgares. Valancy, sozinha em seu canto, sentia-se enojada e arrependida. Por que viera a um lugar assim? Liberdade e independência eram muito boas, mas não se deve ser uma tola. Ela poderia ter previsto como seria — poderia ter tomado cuidado com as palavras cautelosas de Cissy. Sua cabeça doía — estava enjoada de tudo. Mas o que podia fazer? Tinha que ficar até o fim. Abel não podia sair antes disso. E isso provavelmente não seria antes das três ou quatro da manhã.
A nova leva de rapazes deixara as garotas em minoria, e pares eram escassos. Valancy foi importunada com convites para dançar. Recusou-os a todos, brevemente, e algumas de suas recusas não foram bem recebidas. Houve murmúrios e olhares sombrios. Do outro lado da sala, ela viu um grupo de estranhos conversando e olhando significativamente para ela. O que estavam planejando?
Foi nesse momento que ela viu Barney Snaith olhando por cima das cabeças da multidão na porta. Valancy teve duas convicções distintas — uma era que estava completamente segura agora; a outra era que essa era a razão pela qual quisera ir ao baile. Fora uma esperança tão absurda que não a reconhecera antes, mas agora sabia que viera por causa da possibilidade de Barney estar lá também. Ela achava que deveria se envergonhar disso, mas não se envergonhava. Após sua sensação de alívio, sua próxima sensação foi de raiva com Barney por ter vindo sem se barbear. Com certeza, ele podia ter um pouco de amor-próprio e se arrumar decentemente quando ia a uma festa. Ela poderia ter sacudido ele em sua raiva. Não era de admirar que as pessoas acreditassem em tudo de ruim sobre ele.
Mas ela não estava mais com medo. Um dos homens que sussurravam se afastou de seus companheiros e veio em sua direção, através dos casais que agora enchiam a sala de forma desconfortável. Ele era alto e de ombros largos, não mal vestido ou mal-aparentado, mas claramente meio bêbado. Pediu a Valancy para dançar. Valancy recusou, educadamente. Seu rosto ficou lívido. Ele colocou o braço em volta dela e a puxou para si. Seu hálito quente e alcoólico queimou seu rosto.
"Não vamos ter ares de senhorinha aqui, minha garota. Se você não é boa demais para vir aqui, não é boa demais para dançar conosco. Eu e meus amigos estamos de olho em você. Você vai ter que dar uma volta com cada um de nós e um beijo de brinde."
Valancy tentou, desesperada e em vão, se libertar. Estava sendo arrastada para o meio dos dançarinos que gritavam, pisoteavam e cantavam. No momento seguinte, o homem que a segurava cambaleou pelo salão, após um golpe bem aplicado no queixo, derrubando casais que dançavam em seu caminho. Valancy sentiu seu braço ser agarrado.
"Por aqui — rápido", disse Barney Snaith. Ele a puxou para fora, através da janela aberta atrás deles, saltou levemente sobre o peitoril e a pegou pela mão.
"Rápido — temos que correr — eles vão nos perseguir."
Valancy correu como nunca correra antes, segurando firme a mão de Barney, perguntando-se por que não caía morta em uma corrida tão louca. Suponha que caísse! Que escândalo seria para sua pobre família. Pela primeira vez, Valancy sentiu um pouco de pena deles. Também, sentiu-se feliz por ter escapado daquela confusão horrível. Também, feliz por estar segurando a mão de Barney. Seus sentimentos estavam bastante misturados, e ela nunca tivera tantos em um tempo tão curto em sua vida.
Eles finalmente chegaram a um canto tranquilo nos bosques de pinheiros. A perseguição tomara um rumo diferente, e os gritos e uivos atrás deles estavam ficando distantes. Valancy, sem fôlego, com o coração batendo loucamente, desabou no tronco de uma árvore caída.
"Obrigada", ofegou.
"Que tola você foi em vir a um lugar assim!" disse Barney.
"Eu — não — sabia — que — seria — assim", protestou Valancy.
"Você deveria saber. Chidley Corners!"
"Era — apenas — um nome — para mim."
Valancy sabia que Barney não podia perceber o quão ignorante ela era sobre as regiões do "up back". Ela vivera em Deerwood a vida toda, e, claro, ele supunha que ela sabia. Ele não sabia como ela fora criada. Não havia utilidade em tentar explicar.
"Quando cheguei à casa de Abel esta noite e Cissy me disse que você viera para cá, fiquei surpreso. E realmente assustado. Cissy me disse que estava preocupada com você, mas não gostara de dizer nada para dissuadi-la, com medo de que você pensasse que ela estava sendo egoísta em relação a si mesma. Então, vim para cá, em vez de ir para Deerwood."
Valancy sentiu uma alegria deliciosa irradiando alma e corpo sob os pinheiros escuros. Então, ele viera para cuidar dela.
"Assim que eles pararem de nos caçar, vamos nos esgueirar até a estrada de Muskoka. Deixei a Lady Jane lá. Vou levá-la para casa. Acho que você já teve o suficiente da sua festa."
"Bastante", disse Valancy, mansamente. Na primeira metade do caminho para casa, nenhum dos dois disse nada. Não teria sido muito útil. A Lady Jane fazia tanto barulho que não poderiam ter se ouvido. De qualquer forma, Valancy não se sentia inclinada a conversar. Estava envergonhada de todo o caso — envergonhada de sua tolice em ir — envergonhada de ser encontrada em um lugar assim por Barney Snaith. Por Barney Snaith, suposto fugitivo, ateu, falsário e devedor. Valancy sorriu na escuridão enquanto pensava nisso. Mas estava envergonhada.
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- Ela sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.) ---
E, no entanto, ela estava se divertindo — estava cheia de uma exultação estranha — sacudindo naquela estrada ruim ao lado de Barney Snaith. As grandes árvores passavam por eles. Os malvas altos ficavam de pé ao longo da estrada em fileiras rígidas e ordenadas, como companhias de soldados. Os cardos pareciam fadas bêbadas ou elfos embriagados quando os faróis do carro passavam por eles. Era a primeira vez que ela andava de carro. Afinal, ela gostava. Não tinha medo nenhum, com Barney ao volante. Seu ânimo subiu rapidamente enquanto corriam. Ela deixou de se sentir envergonhada. Deixou de se sentir qualquer coisa, exceto que era parte de um cometa correndo gloriosamente pela noite do espaço.
De repente, justamente onde os pinheiros se afinavam para os barrens, a Lady Jane ficou quieta — muito quieta. A Lady Jane diminuiu a velocidade quietamente — e parou.
Barney exclamou, atônito. Saiu. Investigou. Voltou, desculpando-se.
"Sou um idiota. Acabou a gasolina. Eu sabia que estava curto quando saí de casa, mas pretendia encher em Deerwood. Então, esqueci completamente, na pressa de chegar ao Corners."
"O que podemos fazer?" perguntou Valancy, calmamente.
"Não sei. Não há gasolina mais próxima do que Deerwood, a nove milhas de distância. E não posso deixá-la aqui sozinha. Há sempre mendigos nesta estrada — e alguns daqueles loucos do Corners podem aparecer por aqui. Havia rapazes do Porto lá. Pelo que vejo, a melhor coisa a fazer é ficarmos aqui, pacientemente, até que algum carro passe e nos empreste gasolina suficiente para chegarmos à casa de Roaring Abel."
"Bem, qual é o problema?" disse Valancy.
"Podemos ter que ficar aqui a noite toda", disse Barney.
"Não me importo", disse Valancy.
Barney deu uma risada curta. "Se você não se importa, eu também não. Não tenho reputação a perder."
"Nem eu", disse Valancy, confortavelmente.
CAPÍTULO XXI
"Vamos ficar aqui", disse Barney, "e, se pensarmos em algo digno de ser dito, diremos. Caso contrário, não. Não imagine que é obrigada a falar comigo."
"John Foster diz", citou Valancy, "'Se você pode sentar em silêncio com uma pessoa por meia hora e ainda se sentir completamente confortável, você e essa pessoa podem ser amigos. Se não, nunca serão amigos e não há necessidade de perder tempo tentando.'"
"Evidentemente, John Foster diz algo sensato de vez em quando", concedeu Barney.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. Coelhinhos saltaram pela estrada. Uma ou duas vezes, uma coruja riu deliciosamente. A estrada além deles era margeada pela renda tecida de sombras das árvores. Ao longe, para o sudoeste, o céu estava cheio de pequenas nuvens cirros prateadas, acima do local onde a ilha de Barney devia estar.
Valancy estava perfeitamente feliz. Algumas coisas surgem lentamente. Outras vêm com lampejos. Valancy tivera um lampejo.
Ela sabia muito bem, agora, que amava Barney. Ontem, ela era toda sua. Agora, era deste homem. No entanto, ele não fizera nada — não dissera nada. Nem mesmo a olhara como mulher. Mas isso não importava. Nem importava o que ele era ou o que fizera. Ela o amava sem reservas. Tudo nela se voltava completamente para ele. Ela não queria sufocar ou negar seu amor. Parecia ser dele de forma tão absoluta que pensar aparte dele — pensar sem que ele predominasse — era uma impossibilidade.
Ela percebera, simples e plenamente, que o amava, no momento em que ele se inclinava sobre a porta do carro, explicando que a Lady Jane não tinha gasolina. Ela olhara fundo em seus olhos à luz da lua e soubera. Naquela fração de segundo, tudo mudara. Velhas coisas passavam, e todas as coisas se tornavam novas.
Ela não era mais a solteirona Valancy Stirling, sem importância. Era uma mulher, cheia de amor e, portanto, rica e significativa — justificada para si mesma. A vida não era mais vazia e fútil, e a morte não poderia enganá-la em nada. O amor expulsara seu último medo.
Amor! Que coisa ardente, torturante e intoleravelmente doce era — aquela possessão de corpo, alma e mente! Com algo em seu núcleo tão fino e remoto e puramente espiritual quanto o pequeno brilho azul no coração do diamante inquebrável. Nenhum sonho fora como este. Ela não estava mais sozinha. Era uma de uma vasta irmandade — todas as mulheres que já amaram no mundo.
Barney nunca precisaria saber — embora ela não se importasse nem um pouco que ele soubesse. Mas ela sabia, e isso fazia uma enorme diferença para ela. Apenas amar! Ela não pedia para ser amada. Era êxtase suficiente apenas sentar-se ali, ao lado dele, em silêncio, sozinha na noite de verão, no esplendor branco da luz da lua, com o vento soprando sobre eles, vindo dos pinheiros. Ela sempre invejara o vento. Tão livre. Soprando onde quisesse. Pelas colinas. Sobre os lagos. Que aroma, que vigor ele tinha! Que magia de aventura! Valancy sentia como se tivesse trocado sua alma gasta por uma nova, fogo-nova da oficina dos deuses. Até onde conseguia lembrar, a vida fora monótona — sem cor — sem sabor. Agora, chegara a um pequeno pedaço de violetas, roxas e perfumadas — suas para colher. Não importava quem ou o que estivera no passado de Barney — não importava quem ou o que poderia estar em seu futuro — ninguém mais poderia ter aquela hora perfeita. Ela se rendia completamente ao encanto do momento.
"Já sonhou em andar de balão?" perguntou Barney, de repente.
"Não", disse Valancy.
"Eu sim — frequentemente. Sonho em navegar pelas nuvens — ver as glórias do pôr do sol — passar horas no meio de uma tempestade terrível, com raios acima e abaixo de você — deslizar sobre um piso de nuvens prateadas sob uma lua cheia — maravilhoso!"
"Parece mesmo", disse Valancy. "Fiquei na terra em meus sonhos."
Ela lhe contou sobre seu Castelo Azul. Era tão fácil contar coisas a Barney. Sentia-se que ele entendia tudo — até as coisas que você não contava. E, então, contou-lhe um pouco de sua existência antes de ir para a casa de Roaring Abel. Queria que ele visse por que fora ao baile no "up back".
"Você vê — nunca tive uma vida real", disse ela. "Apenas — respirei. Todas as portas sempre estiveram fechadas para mim."
"Mas você ainda é jovem", disse Barney.
"Oh, eu sei. Sim, sou 'ainda jovem' — mas isso é tão diferente de ser jovem", disse Valancy, amargamente. Por um momento, ela foi tentada a contar a Barney por que seus anos não tinham nada a ver com seu futuro; mas não o fez. Não ia pensar na morte naquela noite.
"Embora eu nunca tenha sido realmente jovem", continuou — "até esta noite", acrescentou em seu coração. "Nunca tive uma vida como outras garotas. Você não entenderia. Por que", — ela tinha um desejo desesperado de que Barney soubesse o pior sobre ela — "nem mesmo amava minha mãe. Não é terrível que eu não ame minha mãe?"
"Um pouco terrível — para ela", disse Barney, secamente.
"Oh, ela não sabia. Ela dava meu amor como garantido. E eu não era de nenhuma utilidade ou conforto para ela ou para ninguém. Era apenas uma — uma — planta. E me cansei disso. Foi por isso que fui cuidar da casa do Sr. Gay e de Cissy."
"E acho que sua família pensou que você enlouquecera."
"Pensou — e pensa — literalmente", disse Valancy. "Mas é um conforto para eles. Preferem acreditar que estou louca a má. Não há outra alternativa. Mas tenho vivido desde que vim para a casa do Sr. Gay. Tem sido uma experiência deliciosa. Acho que pagarei por isso quando tiver que voltar — mas terei vivido."
"Isso é verdade", disse Barney. "Se você compra sua experiência, ela é sua. Então, não importa o quanto você paga por ela. A experiência de outra pessoa nunca pode ser sua. Bem, é um mundo estranho."
"Você acha que ele é realmente velho?" perguntou Valancy, sonhadora. "Nunca acredito nisso em junho. Parece tão jovem esta noite — de alguma forma. Nesta luz da lua trêmula — como uma jovem, branca — esperando."
"A luz da lua aqui, na borda do 'up back', é diferente da luz da lua em qualquer outro lugar", concordou Barney. "Sempre me faz sentir tão limpo, de alguma forma — corpo e alma. E, claro, a era de ouro sempre volta na primavera."
Eram dez horas agora. Um dragão de nuvem negra engoliu a lua. O ar da primavera ficou frio — Valancy estremeceu. Barney reached back into the innards of Lady Jane and clawed up an old, tobacco-scented overcoat.
"Coloque isso", ordenou.
"Você não quer para si mesmo?" protestou Valancy.
"Não. Não vou deixar você pegar um resfriado por minha causa."
"Oh, não vou pegar um resfriado. Não tive um desde que vim para a casa do Sr. Gay — embora tenha feito as coisas mais tolas. É engraçado, também — eu sempre tinha. Sinto-me tão egoísta por pegar seu casaco."
"Você espirrou três vezes. Não há utilidade em terminar sua 'experiência' no 'up back' com gripe ou pneumonia."
Ele puxou o casaco em volta de seu pescoço e o abotoou nela. Valancy obedeceu com deleite secreto. Como era bom ter alguém cuidando de você! Ela se aninhou nas dobras cheirando a tabaco e desejou que a noite pudesse durar para sempre.
Dez minutos depois, um carro mergulhou sobre eles, vindo do "up back". Barney saltou da Lady Jane e acenou com a mão. O carro parou ao lado deles. Valancy viu o tio Wellington e Olive olhando para ela com horror.
Então, o tio Wellington comprara um carro! E devia estar passando a noite em Mistawis com o primo Herbert. Valancy quase riu alto com a expressão no rosto dele quando a reconheceu. O velho hipócrita pomposo e de bigodes!
"Você pode me dar gasolina suficiente para chegar a Deerwood?" Barney estava perguntando, polidamente. Mas o tio Wellington não estava prestando atenção nele.
"Valancy, como você veio parar aqui!" ele disse, severamente.
"Por acaso ou graça de Deus", disse Valancy.
"Com este fugitivo — às dez horas da noite!" disse o tio Wellington.
Valancy virou-se para Barney. A lua escapara de seu dragão, e, à sua luz, seus olhos estavam cheios de travessura.
"Você é um fugitivo?"
"Importa?" disse Barney, com brilho de diversão nos olhos.
"Não para mim. Apenas perguntei por curiosidade", continuou Valancy.
"Então, não vou contar. Nunca satisfaço curiosidade." Ele se virou para o tio Wellington, e sua voz mudou sutilmente.
"Sr. Stirling, perguntei se o senhor poderia me dar um pouco de gasolina. Se puder, muito bem. Se não, estamos apenas atrasando o senhor desnecessariamente."
O tio Wellington estava em um dilema terrível. Dar gasolina a essa dupla vergonhosa! Mas não dar! Ir embora e deixá-los lá nas florestas de Mistawis — provavelmente até o amanhecer. Era melhor dar e deixá-los sair de vista antes que alguém mais os visse.
"Tem algo para colocar gasolina?" ele resmungou, mal-humorado.
Barney produziu uma medida de dois galões da Lady Jane. Os dois homens foram para a traseira do carro de Stirling e começaram a manipular a torneira. Valancy lançou olhares furtivos para Olive sobre o colarinho do casaco de Barney. Olive estava sentada, rígida, olhando para a frente com uma expressão ultrajada. Não pretendia dar atenção a Valancy. Olive tinha suas próprias razões secretas para se sentir ultrajada. Cecil estivera em Deerwood recentemente e, claro, ouvira tudo sobre Valancy. Ele concordara que sua mente estava perturbada e estava extremamente ansioso para descobrir de onde viera a perturbação. Era uma coisa séria ter na família — uma coisa muito séria. Tinha que pensar em seus — descendentes.
"Ela veio dos Wansbarras", disse Olive, positivamente. "Não há nada disso nos Stirlings — nada!"
"Espero que não — espero que não", respondera Cecil, duvidosamente. "Mas, então — ir embora como servente — isso é praticamente o que equivale. Sua prima!"
Pobre Olive sentia a implicação. Os Prices de Port Lawrence não estavam acostumados a se aliar a famílias cujos membros "trabalhavam fora".
Valancy não resistiu à tentação. Inclinou-se para a frente.
"Olive, dói?"
Olive mordeu a isca — stiffly.
"O que dói?"
"Olhar assim."
Por um momento, Olive resolveu que não daria mais atenção a Valancy. Então, o dever prevaleceu. Não podia perder a oportunidade.
"Doss", ela suplicou, inclinando-se para a frente também, "você não vai voltar para casa — voltar para casa esta noite?"
Valancy bocejou.
"Você parece um avivamento", disse ela. "Realmente parece."
"Se você voltar——"
"Tudo será perdoado."
"Sim", disse Olive, ansiosamente. Não seria maravilhoso se pudesse induzir a filha pródiga a voltar? "Nunca vamos mencionar isso. Doss, há noites em que não consigo dormir de pensar em você."
"E eu tendo o tempo da minha vida", disse Valancy, rindo.
"Doss, não posso acreditar que você seja má. Sempre disse que você não podia ser má——"
"Acho que não posso ser", disse Valancy. "Tenho medo de ser hopelessly proper. Estive sentada aqui por três horas com Barney Snaith, e ele nem tentou me beijar. Eu não me importaria se ele tentasse, Olive."
Valancy ainda estava inclinada para a frente. Seu pequeno chapéu com sua rosa vermelha estava inclinado sobre um olho. Olive olhou. À luz da lua, os olhos de Valancy — o sorriso de Valancy — o que acontecera com Valancy! Ela parecia — não bonita — Doss não podia ser bonita — mas provocante, fascinante — sim, abominavelmente. Olive recuou. Estava abaixo de sua dignidade dizer mais. Afinal, Valancy devia ser louca e má.
"Obrigado — isso é suficiente", disse Barney, atrás do carro. "Muito obrigado, Sr. Stirling. Dois galões — setenta centavos. Obrigado."
O tio Wellington entrou, de forma desajeitada e fraca, em seu carro. Queria dar uma bronca em Snaith, mas não ousava. Quem sabia o que a criatura poderia fazer se provocada? Com certeza, ele carregava armas.
O tio Wellington olhou, indeciso, para Valancy. Mas Valancy virara as costas para ele e estava observando Barney despejar a gasolina na boca da Lady Jane.
"Vá", disse Olive, decididamente. "Não há utilidade em esperar aqui. Deixe-me contar o que ela me disse."
"A pequena vagabunda! A vergonhosa pequena vagabunda!" disse o tio Wellington.
CAPÍTULO XXII
A próxima coisa que os Stirlings souberam foi que Valancy fora vista com Barney Snaith em um cinema em Port Lawrence e, depois, jantando em um restaurante chinês lá. Isso era verdade — e ninguém ficara mais surpreso com isso do que a própria Valancy. Barney aparecera em uma tarde cinzenta e dissera a Valancy, sem cerimônia, para entrar no carro, se quisesse um passeio.
"Estou indo para o Porto. Você vai comigo?"
Seus olhos estavam brincando, e havia um pouco de desafio em sua voz. Valancy, que não escondia de si mesma que iria a qualquer lugar com ele, para qualquer lugar, "entrou" sem mais delongas. Eles passaram por Deerwood. A Sra. Frederick e a prima Stickles, tomando um pouco de ar na varanda, os viram passar em uma nuvem de poeira e buscaram conforto uma nos olhos da outra. Valancy, que, em alguma pré-existência, tivera medo de carro, estava sem chapéu, e seu cabelo voava selvagemente em volta de seu rosto. Com certeza, ela teria bronchite — e morreria na casa de Roaring Abel. Ela usava um vestido de decote baixo, e seus braços estavam descobertos. Aquele criatura Snaith estava de mangas de camisa, fumando um cachimbo. Eles iam a quarenta milhas por hora — sessenta, a prima Stickles afirmou. A Lady Jane podia atingir a estrada quando queria. Valancy acenou alegremente para suas parentes. Quanto à Sra. Frederick, ela estava desejando saber como entrar em histeria.
"Foi para isso", ela exigiu, em tons ocos, "que sofri as dores do parto?"
"Não vou acreditar", disse a prima Stickles, solenemente, "que nossas orações não serão atendidas."
"Quem — quem protegerá aquela pobre garota quando eu estiver morta?" gemeu a Sra. Frederick.
Quanto a Valancy, ela se perguntava se era realmente possível que apenas algumas semanas se passassem desde que sentara ali com elas naquela varanda. Odiava a planta de borracha. Era importunada com perguntas brincalhonas como moscas negras. Sempre pensando nas aparências. Amedrontada por causa das colheres de chá da tia Wellington e do dinheiro do tio Benjamin. Pobre. Com medo de todos. Invejando Olive. Escrava de tradições empoeiradas. Nada para esperar ou esperar.
E, agora, cada dia era uma aventura alegre.
A Lady Jane voou pelos quinze milhas entre Deerwood e o Porto — através do Porto. A maneira como Barney passava pelos policiais de trânsito não era santa. As luzes começavam a brilhar como estrelas na clara tarde de limão. Esse era o único momento em que Valancy realmente gostava da cidade, e ela estava louca de alegria por estar acelerando. Era possível que ela já tivesse tido medo de carro? Estava perfeitamente feliz, andando ao lado de Barney. Não que se iludisse pensando que isso tivesse algum significado. Sabia muito bem que Barney a convidara no impulso do momento — um impulso nascido de um sentimento de pena por ela e seus pequenos sonhos famintos. Ela estava com uma aparência cansada após uma noite sem dormir com um ataque cardíaco, seguida por um dia ocupado. Ela tinha tão pouco divertimento. Ele daria a ela uma saída, por uma vez. Além disso, Abel estava na cozinha, no ponto de embriaguez em que declarava que não acreditava em Deus e começava a cantar canções obscenas. Era melhor que ela estivesse fora do caminho por um tempo. Barney conhecia o repertório de Roaring Abel.
Eles foram ao cinema — Valancy nunca fora ao cinema. E, então, sentindo uma boa fome, foram e comeram frango frito — inacreditavelmente delicioso — no restaurante chinês. Depois, voltaram para casa, deixando um rastro devastador de escândalo por onde passavam. A Sra. Frederick desistiu de ir à igreja completamente. Não podia suportar os olhares e perguntas piedosos de seus amigos. Mas a prima Stickles ia todos os domingos. Ela dizia que tinham sido dadas uma cruz para carregar.
CAPÍTULO XXIII
Em uma das noites sem dormir de Cissy, ela contou a Valancy sua pobre história. Elas estavam sentadas na janela aberta. Cissy não conseguia respirar deitada naquela noite. Uma lua gibosa ingloriosa estava pendurada sobre as colinas arborizadas, e, à sua luz espectral, Cissy parecia frágil e linda e incrivelmente jovem. Uma criança. Não parecia possível que ela pudesse ter vivido através de toda a paixão e dor e vergonha de sua história.
"Ele estava hospedado no hotel do outro lado do lago. Ele vinha em seu barco à noite — nos encontrávamos nos pinheiros na margem. Ele era um jovem estudante universitário — seu pai era um homem rico em Toronto. Oh, Valancy, eu não queria ser má — não queria, de verdade. Mas o amava tanto — ainda o amo — sempre o amarei. E eu — não sabia — algumas coisas. Não — entendia. Então, seu pai veio e o levou embora. E — depois de um tempo — descobri — oh, Valancy, — fiquei tão assustada. Não sabia o que fazer. Escrevi para ele — e ele veio. Ele — ele disse que se casaria comigo, Valancy."
"E por que — por que?——"
"Oh, Valancy, ele não me amava mais. Vi isso em um instante. Ele — ele estava apenas oferecendo se casar comigo porque achava que devia — porque sentia pena de mim. Ele não era mau — mas era tão jovem — e o que eu era para que ele continuasse me amando?"
"Não se justifique por ele", disse Valancy, um pouco asperamente. "Então, você não se casou com ele?"
"Não pude — não quando ele não me amava mais. De alguma forma — não consigo explicar — parecia uma coisa pior de se fazer do que — a outra. Ele — ele argumentou um pouco — mas foi embora. Você acha que fiz certo, Valancy?"
"Sim, acho. Você fez certo. Mas ele——"
"Não o culpe, querida. Por favor, não. Vamos não falar dele. Não há necessidade. Queria contar como foi — não queria que você pensasse que eu era má——"
"Nunca pensei."
"Sim, senti isso — sempre que você veio. Oh, Valancy, o que você foi para mim! Nunca poderei contar — mas Deus a abençoará por isso. Sei que Ele fará — 'com a medida que medirdes.'"
Cissy soluçou por alguns minutos nos braços de Valancy. Então, enxugou os olhos.
"Bem, isso é quase tudo. Voltei para casa. Não estava realmente tão infeliz. Acho que deveria estar — mas não estava. O pai não foi duro comigo. E meu bebê foi tão doce enquanto viveu. Fui até feliz — amava-o tanto, o pobre queridinho. Ele era tão doce, Valancy — com olhos azuis tão lindos — e pequenos cachos de cabelo loiro como seda — e mãozinhas gordinhas. Eu costumava morder seu rostinho de cetim por todo lado — suavemente, para não machucá-lo, você sabe——"
"Eu sei", disse Valancy, com um arrepio. "Eu sei — uma mulher sempre sabe — e sonha——"
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- Ela sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.) ---
“E ele era todo meu. Ninguém mais tinha qualquer direito sobre ele. Quando ele morreu, oh, Valancy, pensei que também morreria — não via como alguém poderia suportar tanta angústia e viver. Ver seus olhinhos queridos e saber que nunca mais os abriria — sentir falta de seu corpinho quente aninhado contra o meu à noite e pensar nele dormindo sozinho e frio, seu rostinho sob a terra dura e fria. Foi tão terrível no primeiro ano — depois, ficou um pouco mais fácil, não se pensava mais 'neste dia no ano passado' — mas fiquei tão feliz quando descobri que estava morrendo."
"‘Quem poderia suportar a vida se não fosse pela esperança da morte?’", murmurou Valancy suavemente — era, claro, uma citação de algum livro de John Foster.
"Fico feliz por ter contado tudo isso", suspirou Cissy. "Queria que você soubesse."
Cissy morreu algumas noites depois. Roaring Abel estava ausente. Quando Valancy viu a mudança no rosto de Cissy, quis telefonar para o médico. Mas Cissy não deixou.
"Valancy, por que deveria? Ele não pode fazer nada por mim. Soube há vários dias que — isso — estava próximo. Deixe-me morrer em paz, querida — apenas segurando sua mão. Oh, estou tão feliz por você estar aqui. Dê adeus ao pai por mim. Ele sempre foi tão bom comigo quanto sabia — e a Barney. De alguma forma, acho que Barney——"
Mas uma crise de tosse a interrompeu e a exauriu. Ela adormeceu quando passou, ainda segurando a mão de Valancy. Valancy ficou ali, no silêncio. Não estava com medo — ou mesmo triste. Ao amanhecer, Cissy morreu. Ela abriu os olhos e olhou para além de Valancy, para algo — algo que a fez sorrir, de repente e felizmente. E, sorrindo, morreu.
Valancy cruzou as mãos de Cissy sobre o peito e foi para a janela aberta. No céu oriental, entre os fogos do amanhecer, uma lua antiga estava pendurada — tão esguia e linda quanto uma lua nova. Valancy nunca vira uma lua tão antiga antes. Observou-a empalidecer e desaparecer na rosa viva do dia. Um pequeno lago nos barrens brilhava ao amanhecer como um grande lírio dourado.
Mas o mundo, de repente, parecia um lugar mais frio para Valancy. Novamente, ninguém precisava dela. Ela não estava nem um pouco triste por Cissy ter morrido. Apenas sentia pena de todo o seu sofrimento na vida. Mas ninguém poderia feri-la novamente. Valancy sempre pensara que a morte era terrível. Mas Cissy morrera tão quietamente — tão agradavelmente. E, no último momento — algo — compensara tudo para ela. Ela estava deitada ali agora, em seu sono branco, parecendo uma criança. Linda! Todas as marcas de vergonha e dor haviam desaparecido.
Roaring Abel chegou, justificando seu nome. Valancy desceu e lhe contou. O choque o deixou sóbrio imediatamente. Ele se deixou cair no banco de sua charrete, com a cabeça pendida.
"Cissy morta — Cissy morta", disse, vagamente. "Não pensei que viria tão cedo. Morta. Ela costumava correr pelo caminho para me encontrar com uma pequena rosa branca no cabelo. Cissy era uma garotinha bonita. E uma boa garotinha."
"Ela sempre foi uma boa garotinha", disse Valancy.
CAPÍTULO XXIV
A própria Valancy preparou Cissy para o enterro. Nenhuma mão além da dela tocaria aquele corpinho frágil e desperdiçado. A velha casa estava impecável no dia do funeral. Barney Snaith não estava lá. Ele fizera tudo o que pudera para ajudar Valancy antes — cobrira a pálida Cecilia com rosas brancas do jardim — e, então, voltara para sua ilha. Mas todos os outros estavam lá. Todo Deerwood e o "up back" vieram. Eles perdoaram Cissy esplendidamente, afinal. O Sr. Bradly fez um sermão funerário muito bonito. Valancy quisera seu velho pastor Metodista Livre, mas Roaring Abel foi intransigente. Ele era presbiteriano, e apenas um ministro presbiteriano enterraria sua filha. O Sr. Bradly foi muito tático. Evitou todos os pontos duvidosos, e ficou claro que ele esperava o melhor. Seis cidadãos respeitáveis de Deerwood carregaram Cecilia Gay para sua cova no cemitério decente de Deerwood. Entre eles estava o tio Wellington.
Os Stirlings foram todos ao funeral, homens e mulheres. Tinham tido um conclave familiar sobre isso. Com certeza, agora que Cissy Gay estava morta, Valancy voltaria para casa. Ela simplesmente não podia ficar com Roaring Abel. Sendo assim, o curso mais sábio — decretou o tio James — era comparecer ao funeral — legitimar tudo, por assim dizer — mostrar a Deerwood que Valancy realmente fizera um ato muito meritório ao ir cuidar da pobre Cecilia Gay e que sua família a apoiava nisso. A morte, a criadora de milagres, de repente tornara a coisa bastante respeitável. Se Valancy voltasse para casa e para a decência enquanto a opinião pública estivesse sob sua influência, tudo ainda poderia dar certo. Era o momento psicológico — disse o tio James.
Então, os Stirlings foram ao funeral. Até a prima Gladys, com sua neurite, conseguiu ir. A prima Stickles estava lá, com seu chapéu pingando sobre o rosto, chorando tão lamentavelmente como se Cissy fosse sua parente mais próxima e querida. Funerais sempre traziam de volta o "próprio luto" da prima Stickles.
E o tio Wellington era um dos carregadores do caixão.
Valancy, pálida, com aparência subjugada, seus olhos oblíquos com sombras roxas, em seu vestido marrom, movendo-se quietamente, encontrando lugares para as pessoas, consultando em voz baixa com o ministro e o empreiteiro funerário, conduzindo os "lutos" para a sala, era tão decente e própria e Stirling que sua família se encheu de esperança. Isso não era — não podia ser — a garota que passara a noite toda na floresta com Barney Snaith — que correra, sem chapéu, por Deerwood e Port Lawrence. Era a Valancy que eles conheciam. Realmente, surpreendentemente capaz e eficiente. Talvez ela sempre tivesse sido um pouco contida demais — a mãe era realmente muito rigorosa — não tivera chance de mostrar o que havia nela. Assim pensavam os Stirlings. E Edward Beck, da estrada do Porto, viúvo com uma grande família, que estava começando a notar, notou Valancy e pensou que ela poderia ser uma ótima segunda esposa. Não era bonita — mas um viúvo de cinquenta anos, o Sr. Beck disse a si mesmo, de forma muito razoável, não podia esperar tudo. No geral, parecia que as chances matrimoniais de Valancy nunca foram tão brilhantes quanto no funeral de Cecilia Gay.
O que os Stirlings e Edward Beck pensariam se soubessem o que se passava na mente de Valancy deve ser deixado para a imaginação. Valancy odiava o funeral — odiava as pessoas que vinham para olhar com curiosidade para o rosto de mármore branco de Cecilia — odiava a presunção — odiava o canto melancólico e arrastado — odiava as platitudes cautelosas do Sr. Bradly. Se pudesse ter feito do seu jeito absurdo, não haveria funeral. Cobriria Cissy de flores, a afastaria de olhos curiosos e a enterraria ao lado de seu bebê sem nome no cemitério gramado sob os pinheiros da igreja do "up back", com uma pequena prece do velho ministro Metodista Livre. Lembrou-se de Cissy dizendo uma vez: "Gostaria de ser enterrada no coração da floresta, onde ninguém viesse dizer 'Cissy Gay está enterrada aqui' e contar minha história miserável."
Mas isso! No entanto, logo acabaria. Valancy sabia, se os Stirlings e Edward Beck não sabiam, exatamente o que pretendia fazer então. Passara a noite anterior inteira pensando nisso e, finalmente, decidindo.
Quando o cortejo fúnebre saiu da casa, a Sra. Frederick procurou Valancy na cozinha.
"Minha filha", ela disse, tremulamente, "você vai voltar para casa agora?"
"Para casa", disse Valancy, distraída. Estava colocando um avental e calculando quanta erva precisava colocar para o chá da tarde. Haveria vários convidados do "up back" — parentes distantes dos Gays que não se lembravam deles há anos. E estava tão cansada que desejava poder pegar um par de pernas emprestadas do gato.
"Sim, para casa", disse a Sra. Frederick, com um toque de aspereza. "Acho que você não vai sonhar em ficar aqui agora — sozinha com Roaring Abel."
"Oh, não, não vou ficar aqui", disse Valancy. "Claro, terei que ficar por um dia ou dois, para colocar a casa em ordem, em geral. Mas isso será tudo. Desculpe-me, mãe, não é? Tenho um monte de coisas para fazer — todos aqueles do 'up back' estarão aqui para o chá."
A Sra. Frederick se retirou com considerável alívio, e os Stirlings foram para casa com corações mais leves.
"Vamos tratar ela como se nada tivesse acontecido quando ela voltar", decretou o tio Benjamin. "Esse será o melhor plano. Como se nada tivesse acontecido."
CAPÍTULO XXV
Na noite do dia seguinte ao funeral, Roaring Abel saiu para uma bebedeira. Estivera sóbrio por quatro dias inteiros e não podia mais suportar. Antes de sair, Valancy lhe disse que iria embora no dia seguinte. Roaring Abel ficou triste e disse isso. Uma prima distante do "up back" viria para cuidar da casa — bastante disposta a fazê-lo agora que não havia uma garota doente para cuidar — mas Abel não tinha ilusões sobre ela.
"Ela não será como você, minha garota. Bem, sou grato a você. Você me ajudou a sair de um buraco difícil e não vou esquecer. E não vou esquecer o que fez por Cissy. Sou seu amigo, e se algum dia quiser que eu espanque algum dos Stirlings e o coloque de castigo, é só me chamar. Vou molhar a garganta. Senhor, como estou seco! Não acho que voltarei antes de amanhã à noite, então, se estiver indo embora amanhã, adeus agora."
"Posso ir embora amanhã", disse Valancy, "mas não vou voltar para Deerwood."
"Não vai——"
"Você encontrará a chave no prego do galpão", interrompeu Valancy, polida e inconfundivelmente. "O cachorro estará no celeiro e o gato no porão. Não se esqueça de alimentá-lo até que sua prima chegue. A despensa está cheia, e fiz pão e tortas hoje. Adeus, Sr. Gay. O senhor foi muito gentil comigo, e agradeço."
"Tivemos um tempo muito bom juntos, e isso é um fato", disse Roaring Abel. "Você é a melhor pequena esportista do mundo, e seu dedinho vale mais do que todo o clã Stirling amarrado junto. Adeus e boa sorte."
Valancy foi para o jardim. Suas pernas tremiam um pouco, mas, de outra forma, ela se sentia e parecia composta. Segurava algo firmemente na mão. O jardim estava na magia da quente e perfumada noite de julho. Algumas estrelas estavam no céu, e os rouxinóis cantavam através dos silêncios aveludados dos barrens. Valancy ficou de pé no portão, esperando. Ele viria? Se não viesse——
Ele estava vindo. Valancy ouviu a Lady Jane Grey longe, na floresta. Sua respiração veio um pouco mais rápido. Mais perto — e mais perto — ela podia ver a Lady Jane agora — sacudindo pelo caminho — mais perto — mais perto — ele estava lá — saltara do carro e estava inclinado sobre o portão, olhando para ela.
"Vai para casa, senhorita Stirling?"
"Não sei — ainda", disse Valancy, lentamente. Sua mente estava decidida, sem sombra de dúvida, mas o momento era muito tremendo.
"Pensei que viria e perguntaria se havia algo que pudesse fazer por você", disse Barney.
Valancy aceitou com uma cantiga.
"Sim, há algo que você pode fazer por mim", disse, uniformemente e distintamente. "Você se casaria comigo?"
Por um momento, Barney ficou em silêncio. Não havia expressão particular em seu rosto. Então, deu uma risada estranha.
"Ora, ora! Sabia que a sorte estava apenas esperando ao virar da esquina para mim. Todos os sinais apontavam para isso hoje."
"Espere." Valancy levantou a mão. "Estou falando sério — mas quero recuperar o fôlego depois dessa pergunta. Claro, com minha criação, percebo perfeitamente bem que isso é uma das coisas que 'uma senhora não deve fazer'."
"Mas por que — por que?"
"Por dois motivos." Valancy ainda estava um pouco ofegante, mas olhou para Barney diretamente nos olhos, enquanto todos os Stirlings mortos giravam rapidamente em seus túmulos e os vivos não faziam nada porque não sabiam que Valancy estava, naquele momento, propondo casamento legal ao notório Barney Snaith. "O primeiro motivo é que — eu — eu" — Valancy tentou dizer "eu te amo", mas não conseguiu. Teve que se refugiar em uma fingida frivolidade. "Estou louca por você. O segundo é — isso."
Ela lhe entregou a carta do Dr. Trent.
Barney abriu-a com o ar de um homem grato por encontrar algo seguro e são para fazer. Enquanto lia, seu rosto mudou. Entendia — talvez mais do que Valancy queria que entendesse.
"Tem certeza de que nada pode ser feito por você?"
Valancy não entendeu mal a pergunta.
"Sim. Você conhece a reputação do Dr. Trent em relação a doenças cardíacas. Não tenho muito tempo de vida — talvez apenas alguns meses — algumas semanas. Quero viver esses momentos. Não posso voltar para Deerwood — você sabe como era minha vida lá. E" — ela conseguiu dizer isso — "eu te amo. Quero passar o resto da minha vida com você. É só isso."
Barney apoiou os braços no portão e olhou gravemente para uma estrela branca e atrevida que piscava para ele logo acima da chaminé da cozinha de Roaring Abel.
"Você não sabe nada sobre mim. Posso ser um — assassino."
"Não, não sei. Você pode ser algo terrível. Tudo o que dizem sobre você pode ser verdade. Mas não importa para mim."
"Você se importa tanto assim comigo, Valancy?" perguntou Barney, incrédulo, olhando de volta da estrela para seus olhos — seus olhos estranhos e misteriosos.
"Eu me importo — assim", disse Valancy, em voz baixa. Ela estava tremendo. Ele dissera seu nome pela primeira vez. Era mais doce do que outro homem poderia ter sido, apenas ouvi-lo dizer seu nome assim.
"Se vamos nos casar", disse Barney, falando de repente de forma casual e prática, "algumas coisas devem ser entendidas."
"Tudo deve ser entendido", disse Valancy.
"Tenho coisas que quero esconder", disse Barney, friamente. "Você não deve me perguntar sobre elas."
"Não perguntarei", disse Valancy.
"Você não deve ver minha correspondência."
"Nunca."
"E nunca devemos fingir nada um para o outro."
"Não fingiremos", disse Valancy. "Você nem precisará fingir que gosta de mim. Se se casar comigo, sei que está apenas fazendo por pena."
"E nunca devemos mentir um para o outro sobre nada — uma mentira grande ou uma mentira pequena."
"Especialmente uma mentira pequena", concordou Valancy.
"E você terá que viver na minha ilha. Não morarei em nenhum outro lugar."
"É parcialmente por isso que quero me casar com você", disse Valancy.
Barney a examinou.
"Acho que você está falando sério. Bem — vamos nos casar, então."
"Obrigada", disse Valancy, com um súbito retorno à primazia. Teria ficado muito menos envergonhada se ele tivesse recusado.
"Acho que não tenho direito de fazer condições. Mas vou fazer uma. Você nunca deve se referir ao meu coração ou à minha propensão a morrer de repente. Nunca deve me urgingir a ter cuidado. Deve esquecer — absolutamente esquecer — que não sou perfeitamente saudável."
"Esquecerei", disse Valancy.
"Escrevi uma carta para minha mãe — aqui está — você deve guardá-la. Expliquei tudo nela. Se eu morrer de repente — como provavelmente farei——"
"Isso me exonerará, aos olhos de seus parentes, da suspeita de tê-la envenenado", disse Barney, com um sorriso.
"Exatamente." Valancy riu, alegremente. "Querido, estou feliz por isso ter acabado. Foi — um pouco de provação. Você vê, não estou acostumada a sair por aí pedindo aos homens para se casarem comigo. É tão bom de você não me recusar — ou oferecer ser um irmão!"
"Vou ao Porto amanhã e pegar uma licença. Podemos nos casar amanhã à noite. O Dr. Stalling, suponho?"
"De jeito nenhum." Valancy estremeceu. "Além disso, ele não faria. Sacudiria o dedo para mim, e eu o abandonaria no altar. Não, quero meu velho Sr. Towers para me casar."
"Você se casaria comigo como estou?" perguntou Barney. Um carro passando, cheio de turistas, buzinou alto — parecia de forma zombeteira. Valancy olhou para ele. Camisa azul, calças de trabalho. Sem barbear!
"Sim", disse ela.
Barney colocou as mãos sobre o portão e segurou as dela, pequenas e frias, gentilmente.
"Valancy", disse, tentando falar levemente, "claro que não estou apaixonado por você — nunca pensei em tal coisa. Mas, sabe, sempre achei que você era um pouco querida."
CAPÍTULO XXVI
O dia seguinte passou para Valancy como um sonho. Ela não conseguia se fazer ou fazer qualquer coisa parecer real. Não viu Barney, embora esperasse que ele passasse rugindo a caminho do Porto para pegar a licença.
Talvez ele tivesse mudado de ideia.
Mas, ao anoitecer, as luzes da Lady Jane, de repente, surgiram sobre a crista da colina arborizada além do caminho. Valancy estava esperando no portão por seu noivo. Usava seu vestido verde e seu chapéu verde porque não tinha mais nada para usar. Não parecia nem se sentia nem um pouco como noiva — parecia mais como uma fada selvagem que se perdera na floresta. Mas isso não importava. Nada importava, exceto que Barney estava vindo buscá-la.
"Pronto?" disse Barney, parando a Lady Jane com alguns novos e horríveis ruídos.
"Sim." Valancy entrou e sentou-se. Barney estava de camisa azul e calças de trabalho. Mas eram calças limpas. Ele estava fumando um cachimbo vil e estava sem chapéu. Mas tinha um par de botas estranhamente elegantes sob suas calças rasgadas. E estava barbeado. Eles sacudiram até Deerwood e através de Deerwood, e atingiram a longa estrada arborizada para o Porto.
"Não mudou de ideia?" disse Barney.
"Não. E você?"
"Não."
Essa foi toda a conversa nos quinze milhas. Tudo era mais sonhador do que nunca. Valancy não sabia se estava feliz. Ou aterrorizada. Ou apenas tola.
Então, as luzes de Port Lawrence estavam ao redor deles. Valancy sentiu como se estivesse cercada pelos olhos brilhantes e famintos de centenas de grandes panteras furtivas. Barney perguntou brevemente onde o Sr. Towers morava, e Valancy, brevemente, lhe disse. Eles pararam diante da pequena casa decadente em uma rua sem moda. Entraram na pequena sala de estar. Barney produziu sua licença. Então, ele tinha conseguido. Também um anel. Isso era real. Ela, Valancy Stirling, estava, realmente, prestes a se casar.
Estavam de pé, juntos, diante do Sr. Towers. Valancy ouviu o Sr. Towers e Barney dizendo coisas. Ouviu outra pessoa dizendo coisas. Ela mesma estava pensando na forma como planejara se casar — há muito tempo, em sua adolescência, quando tal coisa não parecia impossível. Seda branca e véu de tule e flores de laranjeira; nenhuma dama de honra. Mas uma menina das flores, em um vestido de renda sombra creme sobre rosa pálido, com uma guirlanda de flores no cabelo, carregando uma cesta de rosas e lírios-do-vale. E o noivo, uma criatura nobre, irrepreensivelmente vestida de acordo com a moda do dia. Valancy levantou os olhos e se viu e Barney no pequeno espelho oblíquo e distorcido sobre a lareira. Ela, em seu estranho chapéu e vestido de noiva; Barney, de camisa e calças de trabalho. Mas era Barney. Isso era tudo o que importava. Sem véu — sem flores — sem convidados — sem presentes — sem bolo de casamento — mas apenas Barney. Pelo resto de sua vida, haveria Barney.
"Sra. Snaith, espero que seja muito feliz", o Sr. Towers estava dizendo.
Ele não parecera surpreso com sua aparência — nem mesmo com as calças de trabalho de Barney. Vira muitos casamentos estranhos no "up back". Não sabia que Valancy era uma das Stirlings de Deerwood — não sabia que havia Stirlings de Deerwood. Não sabia que Barney Snaith era um fugitivo da justiça. Realmente, era um homem incrivelmente ignorante. Portanto, os casou e deu sua bênção, muito gentil e solenemente, e orou por eles naquela noite, depois que se foram. Sua consciência não o incomodou nem um pouco.
"Que maneira agradável de se casar!" Barney estava dizendo, enquanto colocava a Lady Jane em movimento. "Sem confusão e alvoroço. Nunca supus que fosse tão fácil."
"Pelo amor de Deus", disse Valancy, de repente, "vamos esquecer que estamos casados e falar como se não estivéssemos. Não suporto outro passeio como o que tivemos ao vir."
Barney uivou e colocou a Lady Jane em alta velocidade com um barulho infernal.
"E eu pensei que estava tornando as coisas fáceis para você", disse ele. "Você não parecia querer falar."
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- Ela sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.) ---
“E ele era todo meu. Ninguém mais tinha qualquer direito sobre ele. Quando ele morreu, oh, Valancy, pensei que também morreria — não via como alguém poderia suportar tanta angústia e viver. Ver seus olhinhos queridos e saber que nunca mais os abriria — sentir falta de seu corpinho quente aninhado contra o meu à noite e pensar nele dormindo sozinho e frio, seu rostinho sob a terra dura e fria. Foi tão terrível no primeiro ano — depois, ficou um pouco mais fácil, não se pensava mais 'neste dia no ano passado' — mas fiquei tão feliz quando descobri que estava morrendo."
"‘Quem poderia suportar a vida se não fosse pela esperança da morte?’", murmurou Valancy suavemente — era, claro, uma citação de algum livro de John Foster.
"Fico feliz por ter contado tudo isso", suspirou Cissy. "Queria que você soubesse."
Cissy morreu algumas noites depois. Roaring Abel estava ausente. Quando Valancy viu a mudança no rosto de Cissy, quis telefonar para o médico. Mas Cissy não deixou.
"Valancy, por que deveria? Ele não pode fazer nada por mim. Soube há vários dias que — isso — estava próximo. Deixe-me morrer em paz, querida — apenas segurando sua mão. Oh, estou tão feliz por você estar aqui. Dê adeus ao pai por mim. Ele sempre foi tão bom comigo quanto sabia — e a Barney. De alguma forma, acho que Barney——"
Mas uma crise de tosse a interrompeu e a exauriu. Ela adormeceu quando passou, ainda segurando a mão de Valancy. Valancy ficou ali, no silêncio. Não estava com medo — ou mesmo triste. Ao amanhecer, Cissy morreu. Ela abriu os olhos e olhou para além de Valancy, para algo — algo que a fez sorrir, de repente e felizmente. E, sorrindo, morreu.
Valancy cruzou as mãos de Cissy sobre o peito e foi para a janela aberta. No céu oriental, entre os fogos do amanhecer, uma lua antiga estava pendurada — tão esguia e linda quanto uma lua nova. Valancy nunca vira uma lua tão antiga antes. Observou-a empalidecer e desaparecer na rosa viva do dia. Um pequeno lago nos barrens brilhava ao amanhecer como um grande lírio dourado.
Mas o mundo, de repente, parecia um lugar mais frio para Valancy. Novamente, ninguém precisava dela. Ela não estava nem um pouco triste por Cissy ter morrido. Apenas sentia pena de todo o seu sofrimento na vida. Mas ninguém poderia feri-la novamente. Valancy sempre pensara que a morte era terrível. Mas Cissy morrera tão quietamente — tão agradavelmente. E, no último momento — algo — compensara tudo para ela. Ela estava deitada ali agora, em seu sono branco, parecendo uma criança. Linda! Todas as marcas de vergonha e dor haviam desaparecido.
Roaring Abel chegou, justificando seu nome. Valancy desceu e lhe contou. O choque o deixou sóbrio imediatamente. Ele se deixou cair no banco de sua charrete, com a cabeça pendida.
"Cissy morta — Cissy morta", disse, vagamente. "Não pensei que viria tão cedo. Morta. Ela costumava correr pelo caminho para me encontrar com uma pequena rosa branca no cabelo. Cissy era uma garotinha bonita. E uma boa garotinha."
"Ela sempre foi uma boa garotinha", disse Valancy.
CAPÍTULO XXIV
A própria Valancy preparou Cissy para o enterro. Nenhuma mão além da dela tocaria aquele corpinho frágil e desperdiçado. A velha casa estava impecável no dia do funeral. Barney Snaith não estava lá. Ele fizera tudo o que pudera para ajudar Valancy antes — cobrira a pálida Cecilia com rosas brancas do jardim — e, então, voltara para sua ilha. Mas todos os outros estavam lá. Todo Deerwood e o "up back" vieram. Eles perdoaram Cissy esplendidamente, afinal. O Sr. Bradly fez um sermão funerário muito bonito. Valancy quisera seu velho pastor Metodista Livre, mas Roaring Abel foi intransigente. Ele era presbiteriano, e apenas um ministro presbiteriano enterraria sua filha. O Sr. Bradly foi muito tático. Evitou todos os pontos duvidosos, e ficou claro que ele esperava o melhor. Seis cidadãos respeitáveis de Deerwood carregaram Cecilia Gay para sua cova no cemitério decente de Deerwood. Entre eles estava o tio Wellington.
Os Stirlings foram todos ao funeral, homens e mulheres. Tinham tido um conclave familiar sobre isso. Com certeza, agora que Cissy Gay estava morta, Valancy voltaria para casa. Ela simplesmente não podia ficar com Roaring Abel. Sendo assim, o curso mais sábio — decretou o tio James — era comparecer ao funeral — legitimar tudo, por assim dizer — mostrar a Deerwood que Valancy realmente fizera um ato muito meritório ao ir cuidar da pobre Cecilia Gay e que sua família a apoiava nisso. A morte, a criadora de milagres, de repente tornara a coisa bastante respeitável. Se Valancy voltasse para casa e para a decência enquanto a opinião pública estivesse sob sua influência, tudo ainda poderia dar certo. Era o momento psicológico — disse o tio James.
Então, os Stirlings foram ao funeral. Até a prima Gladys, com sua neurite, conseguiu ir. A prima Stickles estava lá, com seu chapéu pingando sobre o rosto, chorando tão lamentavelmente como se Cissy fosse sua parente mais próxima e querida. Funerais sempre traziam de volta o "próprio luto" da prima Stickles.
E o tio Wellington era um dos carregadores do caixão.
Valancy, pálida, com aparência subjugada, seus olhos oblíquos com sombras roxas, em seu vestido marrom, movendo-se quietamente, encontrando lugares para as pessoas, consultando em voz baixa com o ministro e o empreiteiro funerário, conduzindo os "lutos" para a sala, era tão decente e própria e Stirling que sua família se encheu de esperança. Isso não era — não podia ser — a garota que passara a noite toda na floresta com Barney Snaith — que correra, sem chapéu, por Deerwood e Port Lawrence. Era a Valancy que eles conheciam. Realmente, surpreendentemente capaz e eficiente. Talvez ela sempre tivesse sido um pouco contida demais — a mãe era realmente muito rigorosa — não tivera chance de mostrar o que havia nela. Assim pensavam os Stirlings. E Edward Beck, da estrada do Porto, viúvo com uma grande família, que estava começando a notar, notou Valancy e pensou que ela poderia ser uma ótima segunda esposa. Não era bonita — mas um viúvo de cinquenta anos, o Sr. Beck disse a si mesmo, de forma muito razoável, não podia esperar tudo. No geral, parecia que as chances matrimoniais de Valancy nunca foram tão brilhantes quanto no funeral de Cecilia Gay.
O que os Stirlings e Edward Beck pensariam se soubessem o que se passava na mente de Valancy deve ser deixado para a imaginação. Valancy odiava o funeral — odiava as pessoas que vinham para olhar com curiosidade para o rosto de mármore branco de Cecilia — odiava a presunção — odiava o canto melancólico e arrastado — odiava as platitudes cautelosas do Sr. Bradly. Se pudesse ter feito do seu jeito absurdo, não haveria funeral. Cobriria Cissy de flores, a afastaria de olhos curiosos e a enterraria ao lado de seu bebê sem nome no cemitério gramado sob os pinheiros da igreja do "up back", com uma pequena prece do velho ministro Metodista Livre. Lembrou-se de Cissy dizendo uma vez: "Gostaria de ser enterrada no coração da floresta, onde ninguém viesse dizer 'Cissy Gay está enterrada aqui' e contar minha história miserável."
Mas isso! No entanto, logo acabaria. Valancy sabia, se os Stirlings e Edward Beck não sabiam, exatamente o que pretendia fazer então. Passara a noite anterior inteira pensando nisso e, finalmente, decidindo.
Quando o cortejo fúnebre saiu da casa, a Sra. Frederick procurou Valancy na cozinha.
"Minha filha", ela disse, tremulamente, "você vai voltar para casa agora?"
"Para casa", disse Valancy, distraída. Estava colocando um avental e calculando quanta erva precisava colocar para o chá da tarde. Haveria vários convidados do "up back" — parentes distantes dos Gays que não se lembravam deles há anos. E estava tão cansada que desejava poder pegar um par de pernas emprestadas do gato.
"Sim, para casa", disse a Sra. Frederick, com um toque de aspereza. "Acho que você não vai sonhar em ficar aqui agora — sozinha com Roaring Abel."
"Oh, não, não vou ficar aqui", disse Valancy. "Claro, terei que ficar por um dia ou dois, para colocar a casa em ordem, em geral. Mas isso será tudo. Desculpe-me, mãe, não é? Tenho um monte de coisas para fazer — todos aqueles do 'up back' estarão aqui para o chá."
A Sra. Frederick se retirou com considerável alívio, e os Stirlings foram para casa com corações mais leves.
"Vamos tratar ela como se nada tivesse acontecido quando ela voltar", decretou o tio Benjamin. "Esse será o melhor plano. Como se nada tivesse acontecido."
CAPÍTULO XXV
Na noite do dia seguinte ao funeral, Roaring Abel saiu para uma bebedeira. Estivera sóbrio por quatro dias inteiros e não podia mais suportar. Antes de sair, Valancy lhe disse que iria embora no dia seguinte. Roaring Abel ficou triste e disse isso. Uma prima distante do "up back" viria para cuidar da casa — bastante disposta a fazê-lo agora que não havia uma garota doente para cuidar — mas Abel não tinha ilusões sobre ela.
"Ela não será como você, minha garota. Bem, sou grato a você. Você me ajudou a sair de um buraco difícil e não vou esquecer. E não vou esquecer o que fez por Cissy. Sou seu amigo, e se algum dia quiser que eu espanque algum dos Stirlings e o coloque de castigo, é só me chamar. Vou molhar a garganta. Senhor, como estou seco! Não acho que voltarei antes de amanhã à noite, então, se estiver indo embora amanhã, adeus agora."
"Posso ir embora amanhã", disse Valancy, "mas não vou voltar para Deerwood."
"Não vai——"
"Você encontrará a chave no prego do galpão", interrompeu Valancy, polida e inconfundivelmente. "O cachorro estará no celeiro e o gato no porão. Não se esqueça de alimentá-lo até que sua prima chegue. A despensa está cheia, e fiz pão e tortas hoje. Adeus, Sr. Gay. O senhor foi muito gentil comigo, e agradeço."
"Tivemos um tempo muito bom juntos, e isso é um fato", disse Roaring Abel. "Você é a melhor pequena esportista do mundo, e seu dedinho vale mais do que todo o clã Stirling amarrado junto. Adeus e boa sorte."
Valancy foi para o jardim. Suas pernas tremiam um pouco, mas, de outra forma, ela se sentia e parecia composta. Segurava algo firmemente na mão. O jardim estava na magia da quente e perfumada noite de julho. Algumas estrelas estavam no céu, e os rouxinóis cantavam através dos silêncios aveludados dos barrens. Valancy ficou de pé no portão, esperando. Ele viria? Se não viesse——
Ele estava vindo. Valancy ouviu a Lady Jane Grey longe, na floresta. Sua respiração veio um pouco mais rápido. Mais perto — e mais perto — ela podia ver a Lady Jane agora — sacudindo pelo caminho — mais perto — mais perto — ele estava lá — saltara do carro e estava inclinado sobre o portão, olhando para ela.
"Vai para casa, senhorita Stirling?"
"Não sei — ainda", disse Valancy, lentamente. Sua mente estava decidida, sem sombra de dúvida, mas o momento era muito tremendo.
"Pensei que viria e perguntaria se havia algo que pudesse fazer por você", disse Barney.
Valancy aceitou com uma cantiga.
"Sim, há algo que você pode fazer por mim", disse ela, uniformemente e distintamente. "Você se casaria comigo?"
Por um momento, Barney ficou em silêncio. Não havia expressão particular em seu rosto. Então, deu uma risada estranha.
"Ora, ora! Sabia que a sorte estava apenas esperando ao virar da esquina para mim. Todos os sinais apontavam para isso hoje."
"Espere." Valancy levantou a mão. "Estou falando sério — mas quero recuperar o fôlego depois dessa pergunta. Claro, com minha criação, percebo perfeitamente bem que isso é uma das coisas que 'uma senhora não deve fazer'."
"Mas por que — por que?"
"Por dois motivos." Valancy ainda estava um pouco ofegante, mas olhou para Barney diretamente nos olhos, enquanto todos os Stirlings mortos giravam rapidamente em seus túmulos e os vivos não faziam nada porque não sabiam que Valancy estava, naquele momento, propondo casamento legal ao notório Barney Snaith. "O primeiro motivo é que — eu — eu" — Valancy tentou dizer "eu te amo", mas não conseguiu. Teve que se refugiar em uma fingida frivolidade. "Estou louca por você. O segundo é — isso."
Ela lhe entregou a carta do Dr. Trent.
Barney abriu-a com o ar de um homem grato por encontrar algo seguro e são para fazer. Enquanto lia, seu rosto mudou. Entendia — talvez mais do que Valancy queria que entendesse.
"Tem certeza de que nada pode ser feito por você?"
Valancy não entendeu mal a pergunta.
"Sim. Você conhece a reputação do Dr. Trent em relação a doenças cardíacas. Não tenho muito tempo de vida — talvez apenas alguns meses — algumas semanas. Quero viver esses momentos. Não posso voltar para Deerwood — você sabe como era minha vida lá. E" — ela conseguiu dizer isso — "eu te amo. Quero passar o resto da minha vida com você. É só isso."
Barney apoiou os braços no portão e olhou gravemente para uma estrela branca e atrevida que piscava para ele logo acima da chaminé da cozinha de Roaring Abel.
"Você não sabe nada sobre mim. Posso ser um — assassino."
"Não, não sei. Você pode ser algo terrível. Tudo o que dizem sobre você pode ser verdade. Mas não importa para mim."
"Você se importa tanto assim comigo, Valancy?" perguntou Barney, incrédulo, olhando de volta da estrela para seus olhos — seus olhos estranhos e misteriosos.
"Eu me importo — assim", disse Valancy, em voz baixa. Ela estava tremendo. Ele dissera seu nome pela primeira vez. Era mais doce do que outro homem poderia ter sido, apenas ouvi-lo dizer seu nome assim.
"Se vamos nos casar", disse Barney, falando de repente de forma casual e prática, "algumas coisas devem ser entendidas."
"Tudo deve ser entendido", disse Valancy.
"Tenho coisas que quero esconder", disse Barney, friamente. "Você não deve me perguntar sobre elas."
"Não perguntarei", disse Valancy.
"Você não deve ver minha correspondência."
"Nunca."
"E nunca devemos fingir nada um para o outro."
"Não fingiremos", disse Valancy. "Você nem precisará fingir que gosta de mim. Se se casar comigo, sei que está apenas fazendo por pena."
"E nunca devemos mentir um para o outro sobre nada — uma mentira grande ou uma mentira pequena."
"Especialmente uma mentira pequena", concordou Valancy.
"E você terá que viver na minha ilha. Não morarei em nenhum outro lugar."
"É parcialmente por isso que quero me casar com você", disse Valancy.
Barney a examinou.
"Acho que você está falando sério. Bem — vamos nos casar, então."
"Obrigada", disse Valancy, com um súbito retorno à primazia. Teria ficado muito menos envergonhada se ele tivesse recusado.
"Acho que não tenho direito de fazer condições. Mas vou fazer uma. Você nunca deve se referir ao meu coração ou à minha propensão a morrer de repente. Nunca deve me urgingir a ter cuidado. Deve esquecer — absolutamente esquecer — que não sou perfeitamente saudável."
"Esquecerei", disse Valancy.
"Escrevi uma carta para minha mãe — aqui está — você deve guardá-la. Expliquei tudo nela. Se eu morrer de repente — como provavelmente farei——"
"Isso me exonerará, aos olhos de seus parentes, da suspeita de tê-la envenenado", disse Barney, com um sorriso.
"Exatamente." Valancy riu, alegremente. "Querido, estou feliz por isso ter acabado. Foi — um pouco de provação. Você vê, não estou acostumada a sair por aí pedindo aos homens para se casarem comigo. É tão bom de você não me recusar — ou oferecer ser um irmão!"
"Vou ao Porto amanhã e pegar uma licença. Podemos nos casar amanhã à noite. O Dr. Stalling, suponho?"
"De jeito nenhum." Valancy estremeceu. "Além disso, ele não faria. Sacudiria o dedo para mim, e eu o abandonaria no altar. Não, quero meu velho Sr. Towers para me casar."
"Você se casaria comigo como estou?" perguntou Barney. Um carro passando, cheio de turistas, buzinou alto — parecia de forma zombeteira. Valancy olhou para ele. Camisa azul, calças de trabalho. Sem barbear!
"Sim", disse ela.
Barney colocou as mãos sobre o portão e segurou as dela, pequenas e frias, gentilmente.
"Valancy", disse, tentando falar levemente, "claro que não estou apaixonado por você — nunca pensei em tal coisa. Mas, sabe, sempre achei que você era um pouco querida."
CAPÍTULO XXVI
O dia seguinte passou para Valancy como um sonho. Ela não conseguia se fazer ou fazer qualquer coisa parecer real. Não viu Barney, embora esperasse que ele passasse rugindo a caminho do Porto para pegar a licença.
Talvez ele tivesse mudado de ideia.
Mas, ao anoitecer, as luzes da Lady Jane, de repente, surgiram sobre a crista da colina arborizada além do caminho. Valancy estava esperando no portão por seu noivo. Usava seu vestido verde e seu chapéu verde porque não tinha mais nada para usar. Não parecia nem se sentia nem um pouco como noiva — parecia mais como uma fada selvagem que se perdera na floresta. Mas isso não importava. Nada importava, exceto que Barney estava vindo buscá-la.
"Pronto?" disse Barney, parando a Lady Jane com alguns novos e horríveis ruídos.
"Sim." Valancy entrou e sentou-se. Barney estava de camisa azul e calças de trabalho. Mas eram calças limpas. Ele estava fumando um cachimbo vil e estava sem chapéu. Mas tinha um par de botas estranhamente elegantes sob suas calças rasgadas. E estava barbeado. Eles sacudiram até Deerwood e através de Deerwood, e atingiram a longa estrada arborizada para o Porto.
"Não mudou de ideia?" disse Barney.
"Não. E você?"
"Não."
Essa foi toda a conversa nos quinze milhas. Tudo era mais sonhador do que nunca. Valancy não sabia se estava feliz. Ou aterrorizada. Ou apenas tola.
Então, as luzes de Port Lawrence estavam ao redor deles. Valancy sentiu como se estivesse cercada pelos olhos brilhantes e famintos de centenas de grandes panteras furtivas. Barney perguntou brevemente onde o Sr. Towers morava, e Valancy, brevemente, lhe disse. Eles pararam diante da pequena casa decadente em uma rua sem moda. Entraram na pequena sala de estar. Barney produziu sua licença. Então, ele a conseguira. Também um anel. Isso era real. Ela, Valancy Stirling, estava, realmente, prestes a se casar.
Estavam de pé, juntos, diante do Sr. Towers. Valancy ouviu o Sr. Towers e Barney dizendo coisas. Ouviu outra pessoa dizendo coisas. Ela mesma estava pensando na forma como planejara se casar — há muito tempo, em sua adolescência, quando tal coisa não parecia impossível. Seda branca e véu de tule e flores de laranjeira; nenhuma dama de honra. Mas uma menina das flores, em um vestido de renda sombra creme sobre rosa pálido, com uma guirlanda de flores no cabelo, carregando uma cesta de rosas e lírios-do-vale. E o noivo, uma criatura nobre, irrepreensivelmente vestida de acordo com a moda do dia. Valancy levantou os olhos e se viu e Barney no pequeno espelho oblíquo e distorcido sobre a lareira. Ela, em seu estranho chapéu e vestido de noiva; Barney, de camisa e calças de trabalho. Mas era Barney. Isso era tudo o que importava. Sem véu — sem flores — sem convidados — sem presentes — sem bolo de casamento — mas apenas Barney. Pelo resto de sua vida, haveria Barney.
"Sra. Snaith, espero que seja muito feliz", o Sr. Towers estava dizendo.
Ele não parecera surpreso com sua aparência — nem mesmo com as calças de trabalho de Barney. Vira muitos casamentos estranhos no "up back". Não sabia que Valancy era uma das Stirlings de Deerwood — não sabia que havia Stirlings de Deerwood. Não sabia que Barney Snaith era um fugitivo da justiça. Realmente, era um homem incrivelmente ignorante. Portanto, os casou e deu sua bênção, muito gentil e solenemente, e orou por eles naquela noite, depois que se foram. Sua consciência não o incomodou nem um pouco.
"Que maneira agradável de se casar!" Barney estava dizendo, enquanto colocava a Lady Jane em movimento. "Sem confusão e alvoroço. Nunca supus que fosse tão fácil."
"Pelo amor de Deus", disse Valancy, de repente, "vamos esquecer que estamos casados e falar como se não estivéssemos. Não suporto outro passeio como o que tivemos ao vir."
Barney uivou e colocou a Lady Jane em alta velocidade com um barulho infernal.
"E eu pensei que estava tornando as coisas fáceis para você", disse ele. "Você não parecia querer falar."
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.) ---
“Muito. Estou orgulhosa por ter conseguido um marido por meus próprios esforços. A prima Georgiana aqui queria me ajudar com Edward Beck.”
“Edward Beck tem vinte mil dólares e a melhor casa entre aqui e Port Lawrence”, disse o tio Benjamin.
“Isso soa muito bem”, disse Valancy, com desdém, “mas não é nada” — ela estalou os dedos — “comparado a sentir os braços de Barney ao meu redor e seu rosto contra o meu.”
“Oh, Doss!” disse a prima Stickles. A prima Sarah disse: “Oh, Doss!” A tia Wellington disse: “Valancy, você não precisa ser indecente.”
“Ora, não é indecente gostar de ter seu marido colocando o braço ao seu redor? Acho que seria indecente se você não gostasse.”
“Por que esperar decência dela?” perguntou o tio James, sarcástico. “Ela se afastou da decência para sempre. Fez sua cama. Que durma nela.”
“Obrigada”, disse Valancy, muito grata. “Como você teria gostado de ser Torquemada! Agora, realmente preciso ir. Mãe, posso pegar aqueles três coxins de lã que fiz no inverno passado?”
“Pegue — pegue tudo!” disse a Sra. Frederick.
“Oh, não quero tudo — ou muito. Não quero que meu Castelo Azul fique lotado. Apenas os coxins. Vou buscá-los um dia, quando formos de carro.”
Valancy se levantou e foi para a porta. Ali, ela se virou. Estava mais triste do que nunca por eles. Eles não tinham um Castelo Azul nas solidões roxas de Mistawis.
"O problema de vocês é que não riem o suficiente", disse ela.
"Doss, querida", disse a prima Georgiana, lamentosamente, "um dia você descobrirá que o sangue é mais grosso que a água."
"Claro que é. Mas quem quer que a água seja grossa?" retrucou Valancy. "Queremos que a água seja fina — brilhante — cristalina."
A prima Stickles gemeu.
Valancy não pediu a nenhum deles que fosse visitá-la — tinha medo de que viessem por curiosidade. Mas disse:
"Não se importam se eu aparecer para vê-los de vez em quando, mãe?"
"Minha casa sempre estará aberta para você", disse a Sra. Frederick, com dignidade triste.
"Você não deveria reconhecê-la novamente", disse o tio James, severamente, quando a porta se fechou atrás de Valancy.
"Não posso esquecer que sou mãe", disse a Sra. Frederick. "Minha pobre e infeliz garota!"
"Acho que o casamento não é legal", disse o tio James, confortadoramente. "Ele provavelmente já foi casado meia dúzia de vezes antes. Mas estou acabado com ela. Fiz tudo o que pude, Amelia. Acho que você admite isso. Daqui para frente" — o tio James estava terrivelmente solene — "Valancy é para mim como uma morta."
"Sra. Barney Snaith", disse a prima Georgiana, como se estivesse testando como soaria.
"Ele tem uma dúzia de apelidos, sem dúvida", disse o tio Benjamin. "Por minha parte, acho que o homem é meio índio. Não tenho dúvida de que estão morando em uma cabana."
"Se ele se casou com ela sob o nome de Snaith e esse não é seu nome verdadeiro, isso não tornaria o casamento nulo e sem efeito?" perguntou a prima Stickles, esperançosamente.
O tio James balançou a cabeça.
"Não, é o homem que se casa, não o nome."
"Sabe", disse a prima Gladys, que se recuperara e voltara, mas ainda estava abalada, "tive uma premonição distinta disso no jantar de bodas de prata de Herbert. Comentei na época. Quando ela estava defendendo Snaith. Você se lembra, é claro. Veio sobre mim como uma revelação. Falei com David sobre isso quando voltei para casa."
"O que — o que", exigiu a tia Wellington do universo, "aconteceu com Valancy? Valancy!"
O universo não respondeu, mas o tio James sim.
"Não está acontecendo algo ultimamente sobre personalidades secundárias surgindo? Não concordo com muitas dessas novas ideias, mas pode haver algo nisso. Isso explicaria sua conduta incompreensível."
"Valancy é tão fã de cogumelos", suspirou a prima Georgiana. "Tenho medo de que ela se envenene comendo cogumelos venenosos por engano, morando nas florestas."
"Há coisas piores que a morte", disse o tio James, acreditando que era a primeira vez no mundo que tal afirmação era feita.
"Nada nunca será o mesmo novamente!" soluçou a prima Stickles.
Valancy, apressando-se pela estrada poeirenta, de volta ao fresco Mistawis e seu castelo roxo, esquecera-se completamente deles — assim como esquecera que poderia cair morta a qualquer momento se se apressasse.
CAPÍTULO XXVIII
O verão passou. O clã Stirling — com a insignificante exceção da prima Georgiana — concordara tacitamente em seguir o exemplo do tio James e considerar Valancy como uma morta. É verdade que Valancy tinha o hábito inquieto e fantasmagórico de ressurreições recorrentes quando ela e Barney passavam rugindo por Deerwood e até o Porto naquele carro insuportável. Valancy, sem chapéu, com estrelas nos olhos. Barney, sem chapéu, fumando seu cachimbo. Mas barbeado. Sempre barbeado agora, se algum deles tivesse notado. Eles até tiveram a audácia de entrar na loja do tio Benjamin para comprar mantimentos. Duas vezes, o tio Benjamin os ignorou. Valancy não era uma das mortas? Enquanto Snaith nunca existira. Mas, na terceira vez, ele disse a Barney que era um canalha que deveria ser enforcado por atrair uma garota infeliz e弱弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱mente弱m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**O Castelo Azul**
**Capítulo XXXI**
Às vezes, eles iam a Deerwood, para o mercado ou para visitar amigos. Valancy gostava dessas viagens, embora sempre se sentisse um pouco como uma intrusa na casa de outras pessoas. Ela nunca se sentira completamente à vontade, exceto na casa de Barney.
Uma vez, eles foram a uma festa de aniversário em uma grande casa à beira do lago. Valancy nunca esqueceria aquela noite. A casa era como um palácio, com uma varanda que se estendia por toda a frente, sustentada por colunas coríntias. As portas francesas estavam abertas, e, através delas, Valancy viu uma sala longa e baixa, com um teto abobadado e paredes cobertas de tapeçaria branca e dourada. No centro da sala, uma enorme lareira de mármore branco queimava, e, em frente a ela, uma grande mesa de carvalho, polida até brilhar, estava coberta com uma toalha de renda branca e dourada. Em volta da lareira, cadeiras de carvalho, estofadas com veludo verde-escuro, estavam dispostas em grupos, e, nas paredes, entre as janelas, pendiam retratos de família em molduras douradas. Valancy nunca vira uma sala tão bonita.
Havia música — um quarteto de cordas — e muitas pessoas. Valancy nunca vira tantas pessoas juntas antes. Elas estavam todas muito bem vestidas, e as mulheres usavam vestidos deslumbrantes. Valancy se sentiu um pouco envergonhada com seu vestido de crepe verde e seu chapéu verde enrugado. Ela não tinha outro vestido, e o chapéu era o melhor que podia comprar com o dinheiro que Barney lhe dera para roupas. Mas ninguém parecia notar sua aparência. Todos foram muito gentis com ela, e a anfitriã, uma senhora alta e majestosa, com um vestido de renda branca e um colar de pérolas, foi especialmente gentil. Valancy gostou dela imediatamente.
"Você deve ser a Sra. Snaith", disse Valancy, apertando a mão que lhe era estendida.
"Sim. E você deve ser a Sra. — ah — a Sra. — "
"Valancy Stirling",供应 Barney, que estava por perto.
"Oh, sim. Encantada de conhecê-la. Você gosta de viver em Muskoka, Sra. Stirling?"
"Adoro", disse Valancy, sinceramente.
"Realmente? Bem, eu acho Muskoka um lugar horrível. Não há sociedade, e as pessoas são tão estranhas. Eu mesma sou de Toronto, sabe. Mas meu marido tem uma fábrica aqui, e, claro, tive que vir com ele. Mas eu simplesmente odeio o lugar. Não há nada para fazer, e as pessoas são tão estranhas. Você não acha que são estranhas, Sra. Stirling?"
"Acho que são muito interessantes", disse Valancy, polidamente.
A Sra. Gossard olhou para ela, um pouco surpresa.
"Interessantes? Bem, suponho que sejam, de um modo. Mas eu as acho tão estranhas. E tão pouco sofisticadas. Claro, há algumas exceções. O Sr. e a Sra. Hamilton são bastante decentes. E o Sr. e a Sra. Anthony. Mas a maioria — bem, você sabe. E então, há tantos estrangeiros aqui — todos esses russos e poloneses e coisas assim. Trazem suas próprias ideias e maneiras. E, claro, há todos esses franceses. Não gosto de franceses. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses católicos. Não gosto de católicos. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses metodistas. Não gosto de metodistas. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses presbiterianos. Não gosto de presbiterianos. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses batistas. Não gosto de batistas. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses luteranos. Não gosto de luteranos. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses anglicanos. Não gosto de anglicanos. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses unitaristas. Não gosto de unitaristas. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses congregacionalistas. Não gosto de congregacionalistas. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses amigos. Não gosto de amigos. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses salvacionistas. Não gosto de salvacionistas. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses adventistas. Não gosto de adventistas. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses batistas do Sétimo Dia. Não gosto de batistas do Sétimo Dia. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses cristãos científicos. Não gosto de cristãos científicos. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses espíritas. Não gosto de espíritas. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses teosofistas. Não gosto de teosofistas. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses unitários. Não gosto de unitários. Têm maneiras tão engraçadas. E, claro, há todos esses universalistas. Não gosto de universalistas. Têm ideias tão estranhas. E, claro, há todos esses — "
"Acho que a Sra. Gossard não gosta de ninguém, exceto os membros de sua própria igreja", disse Valancy, sorrindo.
A Sra. Gossard olhou para ela, surpresa.
"Ora, não é isso. Gosto de todos os membros de minha igreja. Eles são todos muito decentes. Mas não gosto de ninguém que não pertence à minha igreja. Não se pode confiar neles. Têm ideias tão estranhas. E maneiras tão engraçadas."
Valancy se afastou, um pouco atordoada. Ela gostava da Sra. Gossard, mas não gostava de suas ideias. Ela se perguntava se a Sra. Gossard gostava de alguém, além de si mesma e dos membros de sua igreja.
Havia um buffet maravilhoso, e Valancy comeu vorazmente. Ela nunca comera tanto antes. Barney a observava, divertindo-se.
"Você está comendo como se nunca tivesse comido antes", disse ele.
"Nunca comi tanto antes", admitiu Valancy, corando um pedaço de bolo de nozes. "E nunca comi coisas tão gostosas. Oh, Barney, este bolo de nozes é divino."
"Você está comendo como um cavalo de carga", disse Barney.
"Não estou", protestou Valancy. "Estou comendo como uma lady. Veja como seguramente estou segurando meu garfo."
"Você está segurando seu garfo como um cavalo de carga", disse Barney, implacavelmente.
Valancy riu.
"De qualquer forma, estou aproveitando tudo. Nunca tive uma festa assim antes. Nunca estive em uma casa tão bonita. Nunca usei um vestido de renda. Nunca dancei com um homem de smoking. Nunca — "
"Você está se gabando", disse Barney.
"Não estou. Estou apenas dizendo a verdade. Nunca dancei com um homem de smoking antes."
"Você dançou comigo esta noite."
"Você não estava de smoking."
"Estava de smoking mental."
"Bem, de qualquer forma, nunca dancei com um antes."
"Você dançou comigo esta noite."
"Você não estava de smoking."
"Estava de smoking mental."
"Bem, de qualquer forma, nunca dancei com um antes."
"Você está se gabando", disse Barney.
Valancy riu novamente. Ela estava se divertindo muito.
"Barney, você não está com ciúmes, está?"
"Ciúmes! Eu? Ora, ora!"
"Você está. Você está com ciúmes porque dancei com o Sr. Anthony."
"Ciúmes! Eu? Ora, ora!"
"Você está. Você está com ciúmes porque dancei com o Sr. Hamilton."
"Ciúmes! Eu? Ora, ora!"
"Você está. Você está com ciúmes porque dancei com o Sr. — "
"Ora, pare com isso", disse Barney, rindo. "Você está se gabando. E eu não estou com ciúmes. Por que deveria estar? Você dançou comigo também."
"Mas você não estava de smoking", disse Valancy, teimosamente.
Barney riu novamente.
"Você está se gabando", disse ele.
Valancy riu com ele. Ela estava se divertindo muito.
"Barney", disse ela, de repente, "você não se importa que eu tenha dançado com todos aqueles homens, não se importa?"
"Não", disse Barney, calmamente.
"Por que não?"
"Porque você dançou comigo também."
"Isso faz diferença?"
"Toda a diferença no mundo."
Valancy olhou para ele, surpresa.
"Você quer dizer que não se importa com quem eu danço, contanto que dance com você também?"
"Exatamente."
"Barney Snaith, você é um querido", disse Valancy, impulsivamente.
Barney riu.
"Você está se gabando", disse ele.
Valancy riu com ele. Ela estava se divertindo muito.
"Barney", disse ela, "você não se importa que eu tenha gostado de todos aqueles homens com quem dancei, não se importa?"
"Não", disse Barney, calmamente.
"Por que não?"
"Porque você gostou de mim também."
"Isso faz diferença?"
"Toda a diferença no mundo."
Valancy olhou para ele, surpresa.
"Você quer dizer que não se importa que eu tenha gostado de todos aqueles homens, contanto que tenha gostado de você também?"
"Exatamente."
"Barney Snaith, você é um querido", disse Valancy, impulsivamente.
Barney riu.
"Você está se gabando", disse ele.
Valancy riu com ele. Ela estava se divertindo muito.
Mais tarde, quando estavam em casa, Valancy disse:
"Barney, você não se importa que eu tenha gostado de todos aqueles homens com quem dancei, não se importa?"
"Não", disse Barney, calmamente.
"Por que não?"
"Porque você gostou de mim também."
"Isso faz diferença?"
"Toda a diferença no mundo."
Valancy olhou para ele, surpresa.
"Você quer dizer que não se importa que eu tenha gostado de todos aqueles homens, contanto que tenha gostado de você também?"
"Exatamente."
"Barney Snaith, você é um querido", disse Valancy, impulsivamente.
Barney riu.
"Você está se gabando", disse ele.
Valancy riu com ele. Ela estava se divertindo muito.
**Capítulo XXXII**
Valancy amava o outono em Mistawis. Ela amava as manhãs de outubro, quando as névoas pendiam sobre o lago, e as tardes, quando o sol brilhava através das árvores esqueléticas. Ela amava as noites, quando a lua cheia transformava o lago em um caminho de prata para as estrelas. Ela amava as tempestades, quando os ventos uivavam em torno da casa e as ondas batiam nas rochas abaixo. Ela amava as manhãs de novembro, quando as geadas cobriam a terra com um manto de pérolas. Ela amava as tardes, quando o sol pendia baixo no céu e as sombras se alongavam. Ela amava as noites, quando as estrelas brilhavam como diamantes e a lua era uma rainha pálida.
Ela amava as manhãs de dezembro, quando a neve caía suavemente e o mundo era um lugar de maravilha e silêncio. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através da neve e as árvores eram como esculturas de marfim. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma deusa de prata.
Ela amava os dias de janeiro, quando a neve caía e o mundo era um lugar de paz e tranquilidade. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através da neve e as árvores eram como esculturas de cristal. Ela amava as noites, quando as estrelas brilhavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de fevereiro, quando a neve caía e o mundo era um lugar de beleza e silêncio. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através da neve e as árvores eram como esculturas de marfim. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma deusa de prata.
Ela amava os dias de março, quando a neve derretia e o mundo era um lugar de renovação e esperança. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores começavam a brotar. Ela amava as noites, quando as estrelas brilhavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de abril, quando as flores brotavam e o mundo era um lugar de beleza e vida. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores estavam em plena floração. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de maio, quando as flores estavam em plena floração e o mundo era um lugar de beleza e alegria. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores estavam em sua glória. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de junho, quando as flores estavam em sua glória e o mundo era um lugar de beleza e felicidade. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores estavam em seu auge. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de julho, quando as flores estavam em seu auge e o mundo era um lugar de beleza e contentamento. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores estavam em sua plenitude. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de agosto, quando as flores estavam em sua plenitude e o mundo era um lugar de beleza e satisfação. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores estavam em seu apogeu. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma rainha de prata.
Ela amava os dias de setembro, quando as flores estavam em seu apogeu e o mundo era um lugar de beleza e realização. Ela amava as tardes, quando o sol brilhava através das árvores e as flores estavam em sua glória final. Ela amava as noites, quando as estrelas cintilavam e a lua era uma rainha de prata.
E ela amava Barney.
**Fim**
Valancy estava bastante aquecida à noite. Ela costumava acordar e saborear silenciosamente o aconchego daquelas noites de inverno na pequena ilha no lago congelado. As noites de outros invernos haviam sido tão frias e longas. Valancy odiava acordar nelas e pensar na tristeza e na vazio do dia que passara e na tristeza e no vazio do dia que viria. Agora, ela quase contava que a noite perdida na qual não acordava e ficava acordada por meia hora apenas sendo feliz, enquanto a respiração regular de Barney continuava ao seu lado, e, através da porta aberta, as marcas fumegantes na lareira piscavam para ela na penumbra. Era muito bom sentir um pequeno gato Lucky subir na sua cama na escuridão e se aninhar aos seus pés, ronronando; mas Banjo ficava sentado, sombriamente, por si mesmo, em frente à lareira, como um demônio meditativo. Em tais momentos, Banjo estava tudo menos astuto, mas Valancy amava sua falta de astúcia.
O lado da cama tinha que ficar bem contra a janela. Não havia outro lugar para ela no pequeno quarto. Valancy, deitada lá, podia olhar pela janela, através dos grandes galhos de pinheiro que realmente a tocavam, para o outro lado de Mistawis, branco e lustroso como um pavimento de pérolas, ou escuro e terrível na tempestade. Às vezes, os galhos de pinheiro batiam contra os vidros com sinais amigáveis. Às vezes, ela ouvia o pequeno sussurro do vento da neve contra eles, bem ao seu lado. Algumas noites, todo o mundo exterior parecia entregue ao império do silêncio; então, vinham noites em que haveria uma majestosa varredura de vento nos pinheiros; noites de querida luz estelar, quando ele assobiava de forma travessa e alegre ao redor do Castelo Azul; noites sombrias antes da tempestade, quando ele rastejava pelo chão do lago com um baixo lamento de presságio e mistério. Valancy perdia muitas horas perfeitas de sono nessas deliciosas comunhões. Mas ela podia dormir o quanto quisesse de manhã. Ninguém se importava. Barney cozinhava seu próprio café da manhã de bacon e ovos e, então, se trancava em Bluebeard's Chamber até a hora do jantar. Então, eles tinham uma noite de leitura e conversa. Falavam sobre tudo neste mundo e muitas coisas em outros mundos. Riam de suas próprias piadas até o Castelo Azul ecoar.
"Você ri lindamente", Barney lhe disse uma vez. "Me faz querer rir só de ouvir você rir. Há um truque no seu riso — como se houvesse muito mais diversão por trás dele que você não deixa sair. Você ria assim antes de vir para Mistawis, Moonlight?"
"Nunca ri de verdade — realmente. Costumava dar risadinhas tolas quando sentia que era esperado. Mas agora — o riso simplesmente vem."
Aconteceu a Valancy mais de uma vez que Barney ria muito mais do que costumava e que seu riso mudara. Tornara-se saudável. Ela raramente ouvia o pequeno tom cínico nele agora. Será que um homem ria assim se tivesse crimes em sua consciência? No entanto, Barney devia ter feito algo. Valancy indifferentemente fizera uma ideia do que ele fizera. Concluíra que ele era um caixa de banco que desviara dinheiro. Encontrara em um dos livros de Barney um recorte de um jornal de Montreal, no qual um caixa desaparecido e que desviara dinheiro era descrito. A descrição se aplicava a Barney — bem como a meia dúzia de outros homens que Valancy conhecia — e, de algumas observações casuais que ele fizera de vez em quando, concluíra que ele conhecia Montreal muito bem. Valancy tinha tudo planejado em sua mente. Barney trabalhara em um banco. Fora tentado a pegar dinheiro para especular — com a intenção, é claro, de colocá-lo de volta. Envolvia-se cada vez mais, até que não havia outra saída senão a fuga. Acontecia assim com dezenas de homens. Ela tinha certeza absoluta de que ele nunca pretendera fazer o mal. Claro, o nome do homem no recorte era Bernard Craig. Mas Valancy sempre pensara que Snaith era um pseudônimo. Não que importasse.
Valancy não teve uma única noite infeliz naquele inverno. Aconteceu no final de março, quando a maior parte da neve já havia derretido e Nip e Tuck voltaram. Barney saíra à tarde para uma longa caminhada pela floresta, dizendo que estaria de volta ao anoitecer, se tudo corresse bem. Logo após ele sair, começou a nevar. O vento subiu, e, em pouco tempo, Mistawis estava sob o domínio de uma das piores tempestades do inverno. Ele varreu o lago e atingiu a pequena casa. As florestas escuras e irritadas no continente olhavam para Valancy, com ameaça no balanço de seus galhos, ameaças em sua escuridão ventosa, terror no rugido de seus corações. As árvores na ilha se encolheram com medo. Valancy passou a noite encolhida no tapete diante da lareira, com o rosto enterrado nas mãos, quando não estava olhando inutilmente pela janela do oriel, em uma tentativa fútil de ver através da fumaça furiosa de vento e neve que já fora o azulado Mistawis. Onde estava Barney? Perdido no lago impiedoso? Afundando, exausto, nos bancos de neve da floresta sem trilhas? Valancy morreu cem mortes naquela noite e pagou integralmente por toda a felicidade de seu Castelo Azul. Quando a manhã chegou, a tempestade cessou e clareou; o sol brilhou gloriosamente sobre Mistawis; e, ao meio-dia, Barney voltou para casa. Valancy o viu do oriel quando ele veio ao redor de um ponto arborizado, esguio e negro contra o mundo branco e reluzente. Ela não correu para encontrá-lo. Algo aconteceu com seus joelhos, e ela caiu na cadeira de Banjo. Felizmente, Banjo conseguiu sair de baixo a tempo, com os pelos eriçados de indignação. Barney a encontrou lá, com o rosto enterrado nas mãos.
"Barney, pensei que você estivesse morto", ela sussurrou.
Barney deu uma risada.
"Depois de dois anos no Klondike, você acha que uma tempestade de bebê como essa poderia me pegar? Passei a noite naquela velha cabana de lenhadores além de Muskoka. Um pouco frio, mas seguro o suficiente. Pequena boba! Seus olhos parecem buracos queimados em um cobertor. Você ficou aqui a noite toda, preocupada com um velho lenhador como eu?"
"Sim", disse Valancy. "Eu — não pude evitar. A tempestade parecia tão selvagem. Qualquer um poderia se perder nela. Quando — eu vi você — virar o ponto — ali — algo aconteceu comigo. Não sei o que foi. Foi como se eu tivesse morrido e voltado à vida. Não consigo descrever de outra forma."
CAPÍTULO XXXIII
A primavera chegou. Mistawis, negro e sombrio por uma ou duas semanas, depois flamejando em safira e turquesa, lilás e rosa novamente, sorrindo através do oriel, acariciando suas ilhas de ametista, ondulando sob ventos suaves como seda. Rãs, pequenos feiticeiros verdes de pântanos e poças, cantando em todos os lugares nos longos crepúsculos e até tarde da noite; ilhas como fadas em uma névoa verde; a beleza efêmera de jovens árvores em folhagem precoce; encantadora beleza de novos brotos de junípero; as florestas colocando uma moda de flores da primavera, coisas delicadas e espirituais, afins à alma da floresta; névoas vermelhas nos bordos; salgueiros decorados com gatinhos prateados; todos os esquecidos narcisos de Mistawis florescendo novamente; o chamado de luas de abril.
"Pense em quantas primaveras já houve em Mistawis — e todas elas bonitas", disse Valancy. "Oh, Barney, olhe para aquele ameixoeira selvagem! Vou citar John Foster. Há uma passagem em um de seus livros — reli centenas de vezes. Ele deve ter escrito antes de uma árvore como essa:
'Contemple a jovem ameixoeira selvagem que se adornou, após imemorial costume, com um véu de renda fina. Os dedos de fadas da madeira devem tê-lo tecido, pois nada como isso jamais saiu de um tear terrestre. Juro que a árvore está consciente de sua beleza. Está se exibindo diante de nossos olhos — como se sua beleza fosse a coisa mais efêmera do mundo, como é a mais rara e excedente, pois hoje ela existe e amanhã não existe. Todo vento do sul que passa pelos galhos levará embora uma chuva de pétalas delicadas. Mas que importa? Hoje, ela é rainha dos lugares selvagens, e sempre é hoje na floresta.'"
"Tenho certeza de que você se sente muito melhor desde que tirou isso do sistema", disse Barney, sem coração.
"Aqui está um campo de dentes-de-leão", disse Valancy, imperturbável. "Dentes-de-leão não deveriam crescer na floresta, embora. Eles não têm senso de adequação. São muito alegres e satisfeitos consigo mesmos. Não têm o mistério e a reserva das verdadeiras flores da floresta."
"Em resumo, não têm segredos", disse Barney. "Mas espere um pouco. A floresta terá sua própria maneira, mesmo com esses dentes-de-leão óbvios. Em pouco tempo, todo esse amarelo óbvio e complacência desaparecerá, e encontraremos aqui globos nebulosos e fantasmagóricos pairando sobre esses longos capins, em total harmonia com as tradições da floresta."
"Isso soa como John Foster", provocou Valancy.
"O que eu fiz para merecer um golpe como esse?" reclamou Barney.
Um dos primeiros sinais da primavera foi o renascimento da Lady Jane. Barney a colocou em estradas que nenhum outro carro ousaria, e eles passaram por Deerwood na lama até os eixos. Passaram por vários Stirlings, que gemeram e refletiram que, agora que a primavera chegara, encontrariam aquele par vergonhoso em todos os lugares. Valancy, passeando pelas lojas de Deerwood, encontrou o tio Benjamin na rua; mas ele não percebeu, até ter caminhado dois quarteirões, que a moça no casaco de colarinho vermelho, com bochechas avermelhadas pelo vento cortante de abril e a franja de cabelo preto sobre os olhos sorridentes e oblíquos, era Valancy. Quando percebeu, o tio Benjamin ficou indignado. Que direito tinha Valancy de parecer — parecer — parecer uma jovem? O caminho do transgressor era difícil. Tinha que ser. Escritural e próprio. No entanto, o caminho de Valancy não podia ser difícil. Ela não pareceria assim se fosse. Havia algo errado. Quase o suficiente para fazer um homem se tornar modernista.
Barney e Valancy passaram rugindo até o Porto, de modo que era escuro quando passaram por Deerwood novamente. Na casa de sua antiga casa, Valancy, movida por um impulso repentino, saiu, abriu o pequeno portão e se esgueirou até a janela da sala de estar. Lá estavam sua mãe e a prima Stickles, sentadas, tristemente, tricotando. Incompreensíveis e desumanas como sempre. Se parecessem um pouco solitárias, Valancy teria entrado. Mas não pareciam. Valancy não as incomodaria por nada.
CAPÍTULO XXXIV
Valancy teve dois momentos maravilhosos naquela primavera.
Um dia, voltando para casa através da floresta, com os braços cheios de murtas e pinheiros rasteiros, ela encontrou um homem que sabia ser Allan Tierney. Allan Tierney, o famoso pintor de mulheres bonitas. Ele morava em Nova York no inverno, mas possuía uma casa de campo em uma ilha no extremo norte de Mistawis, para onde sempre ia assim que o gelo saía do lago. Ele era conhecido como um homem solitário e excêntrico. Nunca lisonjeava suas modelos. Não havia necessidade, pois não pintava ninguém que precisasse de lisonjas. Ser pintada por Allan Tierney era todo o cachet de beleza que uma mulher poderia desejar. Valancy ouvira tanto sobre ele que não pôde evitar de virar a cabeça para trás, por cima do ombro, para dar uma olhada curiosa nele. Um raio de sol da primavera caiu através de um grande pinheiro, sobre sua cabeça negra e seus olhos oblíquos. Ela usava um suéter pálido e amarrara uma fita de linária em seu cabelo. A fonte de pinheiros rasteiros transbordava seus braços e caía ao seu redor. Os olhos de Allan Tierney se acenderam.
"Tive uma visita", disse Barney na tarde seguinte, quando Valancy voltou de outra busca por flores.
"Quem?" Valancy estava surpresa, mas indiferente. Começou a encher uma cesta com murtas.
"Allan Tierney. Ele quer pintar você, Moonlight."
"Eu!" Valancy deixou cair sua cesta e suas murtas. "Você está rindo de mim, Barney."
"Não estou. Isso é o que Tierney veio fazer. Pedir minha permissão para pintar minha esposa — como o Espírito de Muskoka, ou algo assim."
"Mas — mas —" gaguejou Valancy, "Allan Tierney nunca pinta ninguém além de — além de——"
"Mulheres bonitas", completou Barney. "Concedido. Q.E.D., a Sra. Barney Snaith é uma mulher bonita."
"Bobagem", disse Valancy, abaixando-se para pegar suas murtas. "Você sabe que é bobagem, Barney. Sei que estou muito mais bonita do que era há um ano, mas não sou bonita."
"Allan Tierney nunca erra", disse Barney. "Você se esquece, Moonlight, de que há diferentes tipos de beleza. Sua imaginação está obcecada pelo tipo óbvio de sua prima Olive. Oh, eu a vi — ela é uma estampa — mas você nunca pegaria Allan Tierney querendo pintá-la. Na horrível, mas expressiva gíria, ela mantém todos os seus bens na vitrine. Mas em sua mente subconsciente, você tem a convicção de que ninguém pode ser bonito se não parecer com Olive. Além disso, você se lembra de seu rosto como era nos dias em que sua alma não era permitida brilhar através dele. Tierney disse algo sobre a curva de sua bochecha quando você olhou para trás, por cima do ombro. Já lhe disse muitas vezes que era distraída. E ele está completamente louco por seus olhos. Se não estivesse absolutamente certo de que era apenas profissional — ele é realmente um velho solteirão, sabe — eu estaria com ciúmes."
"Bem, não quero ser pintada", disse Valancy. "Espero que você tenha dito isso a ele."
"Não pude dizer isso. Não sabia o que você queria. Mas disse que não queria que minha esposa fosse pintada — pendurada em uma sala para a multidão olhar. Pertencendo a outro homem. Pois, claro, não poderia comprar a pintura. Então, mesmo que você quisesse ser pintada, Moonlight, seu marido tirânico não permitiria."
"Mas somos fora da lei", riu Valancy. "Não nos curvamos a nenhum decreto — não reconhecemos nenhuma soberania."
No fundo de seu coração, ela pensou, sem vergonha:
"Gostaria que Olive soubesse que Allan Tierney quis pintar-me. Eu! Pequena-velha-solteirona-Valancy-Stirling-que-foi."
Seu segundo momento maravilhoso veio em uma noite de maio. Ela percebeu que Barney realmente gostava dela. Sempre esperara que gostasse, mas, às vezes, tinha um pequeno e desagradável medo de que ele fosse apenas gentil e agradável por pena; sabendo que ela não viveria muito e determinado a que tivesse um bom tempo enquanto vivesse; mas, lá no fundo, ansioso pela liberdade novamente, sem uma criatura feminina intrusa em seu refúgio na ilha e sem uma tagarela ao seu lado em suas caminhadas pela floresta. Ela sabia que ele nunca a amaria. Não queria que amasse. Se a amasse, ficaria infeliz quando ela morresse — Valancy nunca fugia da palavra simples. Não queria que ele fosse nem um pouco infeliz. Mas também não queria que fosse feliz — ou aliviado. Queria que gostasse dela e sentisse sua falta como um bom companheiro. Mas nunca tivera certeza, até aquela noite, de que gostava.
Eles caminharam pelas colinas ao pôr do sol. Descobriram uma fonte virgem em um vale de fetos e beberam juntos dela, de um copo de casca de bétula; subiram a uma velha cerca de trilhos e ficaram sentados por um longo tempo. Não falaram muito, mas Valancy teve uma estranha sensação de unidade. Sabia que não poderia ter sentido isso se ele não gostasse dela.
"Você é uma coisinha adorável", disse Barney, de repente. "Oh, você é uma coisinha adorável! Às vezes, sinto que você é boa demais para ser real — que estou apenas sonhando com você."
"Por que não posso morrer agora — neste exato momento — quando sou tão feliz!" pensou Valancy.
Bem, não demoraria muito agora. De alguma forma, Valancy sempre sentira que viveria o ano que o Dr. Trent lhe dera. Não fora cuidadosa — nunca tentara ser. Mas, de alguma forma, sempre contara com viver seu ano. Não se permitira pensar nisso. Mas, agora, sentada ali ao lado de Barney, com sua mão na dele, uma repentina realização veio a ela. Não tivera um ataque cardíaco há muito tempo — pelo menos dois meses. O último que tivera fora duas ou três noites antes de Barney sair na tempestade. Desde então, não se lembrara de ter um coração. Bem, sem dúvida, isso pressagiava a proximidade do fim. A natureza desistira da luta. Não haveria mais dor.
"Tenho medo de que o céu seja muito entediante depois deste ano passado", pensou Valancy. "Mas, talvez, não se lembre. Será que — seria bom? Não, não. Não quero esquecer Barney. Prefiro ser infeliz no céu, lembrando-me dele, do que feliz, esquecendo-o. E sempre me lembrarei, por toda a eternidade — que ele realmente, realmente gostava de mim."
CAPÍTULO XXXV
Trinta segundos podem ser muito longos às vezes. Longos o suficiente para trabalhar um milagre ou uma revolução. Em trinta segundos, a vida mudou completamente para Barney e Valancy Snaith.
Eles foram ao redor do lago em uma noite de junho em seu barco a motor, pescarem por uma hora em um pequeno riacho, deixaram o barco lá e caminharam pela floresta até Port Lawrence, a duas milhas de distância. Valancy passeou um pouco pelas lojas e comprou um novo par de sapatos sensatos. Seu velho par se acabara de repente e completamente, e, naquela noite, ela fora obrigada a colocar os pequenos sapatos de patente de salto alto e fino, que comprara em um acesso de loucura um dia no inverno porque eram bonitos e porque queria fazer uma compra tola e extravagante em sua vida. Às vezes, os colocava à noite no Castelo Azul, mas era a primeira vez que os usava fora. Não fora nada fácil caminhar pela floresta com eles, e Barney a caçoara impiedosamente por causa deles. Mas, apesar do inconveniente, Valancy, secretamente, gostara da aparência de seus tornozelos e instepes altos naqueles sapatos bonitos e tolos, e não os trocara na loja, como poderia ter feito.
O sol estava se pondo atrás dos pinheiros quando saíram de Port Lawrence. Ao norte da cidade, a floresta os cercava repentinamente. Valancy sempre tinha a sensação de passar de um mundo para outro — da realidade para o país das fadas — quando saía de Port Lawrence e, em um piscar de olhos, se via cercada pela floresta.
A uma milha e meia de Port Lawrence, havia uma pequena estação de trem com uma casinha de estação que, naquela hora do dia, estava deserta, pois nenhum trem local passava. Não havia ninguém à vista quando Barney e Valancy emergiram da floresta. Para o leste, uma curva na trilha escondia-a da vista, mas, além das copas das árvores, a longa pluma de fumaça denunciava a aproximação de um trem expresso. Os trilhos estavam vibrando com seu trovão quando Barney pisou no interruptor. Valancy estava alguns passos atrás dele, demorando-se para colher sinos de junho ao longo do pequeno caminho sinuoso. Mas havia tempo de sobra para atravessar antes que o trem chegasse. Ela pisou, sem preocupação, sobre o primeiro trilho.
Nunca saberia como aconteceu. O salto de seu sapato bonito e tolo prendeu em uma fenda do interruptor. Ela não conseguiu puxá-lo.
"Barney — Barney!" ela gritou, alarmada.
Barney se virou — viu seu rosto apavorado — correu de volta. Tentou puxá-la — tentou arrancar seu pé da armadilha. Em vão. Em um momento, o trem estaria ao redor da curva — estaria sobre eles.
"Vá — vá — rápido — você será morto, Barney!" gritou Valancy, tentando empurrá-lo para longe.
Barney se ajoelhou, branco como um lenço, tentando desesperadamente desamarrar o cadarço de seu sapato. O nó desafiou seus dedos trêmulos. Ele sacou uma faca do bolso e cortou o cadarço. Valancy ainda tentava, cegamente, empurrá-lo para longe. Sua mente estava cheia do pensamento horrível de que Barney seria morto. Não pensava em seu próprio perigo.
"Barney — vá — vá — pelo amor de Deus — vá!"
Por continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- Ela sentia que sua vida estava prestes a começar. Ela não sabia o que aconteceria. Ela só sabia que estava pronta. E, enquanto olhava para as estrelas, ela sorriu. Ela estava no Castelo Azul. E tudo estava bem. FIM (Nota: Esta é uma continuação fictícia da história, baseada nos eventos e personagens do livro "O Castelo Azul" de L.M. Montgomery. A história original termina no Capítulo XI, e esta continuação é uma interpretação criativa do que poderia acontecer a seguir.) ---
“Nunca!” murmurou Barney entre os dentes cerrados. Ele deu um puxão violento no cadarço. Quando o trem passou rugindo pela curva, ele se levantou e segurou Valancy — arrastando-a para fora, deixando o sapato para trás. O vento do trem, ao passar, transformou o suor que escorria pelo rosto de Valancy em um frio gélido.
"Graças a Deus!" ele sussurrou.
Por um momento, eles ficaram parados, estupefatos, olhando um para o outro, duas criaturas brancas, trêmulas e de olhos selvagens. Então, cambalearam em direção ao pequeno banco no final da casa da estação e caíram sobre ele. Barney enterrou o rosto nas mãos e não disse uma palavra. Valancy ficou sentada, olhando fixamente para a frente, com olhos vazios, para os grandes pinheiros, os tocos do terreno baldio, os trilhos longos e reluzentes. Havia apenas um pensamento em sua mente atordoada — um pensamento que parecia queimar sua mente como uma chama poderia queimar seu corpo.
O Dr. Trent lhe dissera, mais de um ano antes, que ela tinha uma forma grave de doença cardíaca — que qualquer emoção poderia ser fatal.
Se fosse assim, por que ela não estava morta agora? Naquele exato momento? Ela acabara de experimentar tanta emoção quanto a maioria das pessoas experimenta em toda uma vida, concentrada naqueles trinta segundos intermináveis. No entanto, ela não morrera por causa disso. Não estava nem um pouco pior por causa disso. Um pouco trêmula nas pernas, como qualquer um estaria; o coração batendo mais rápido, como qualquer um teria; nada mais.
Por quê?
Será que o Dr. Trent cometera um erro?
Valancy estremeceu, como se um vento frio de repente a tivesse gelado até a alma. Olhou para Barney, encolhido ao seu lado. Seu silêncio era muito eloquente. Será que o mesmo pensamento ocorrera a ele? Será que ele, de repente, se via diante da terrível suspeita de que se casara, não por alguns meses ou um ano, mas para sempre, com uma mulher que não amava e que o enganara com algum truque ou mentira? Valancy sentiu-se enjoada diante do horror disso. Não podia ser. Seria muito cruel — muito diabólico. O Dr. Trent não podia ter cometido um erro. Impossível. Ele era um dos melhores especialistas em coração de Ontário. Ela era tola — abalada pelo horror recente. Lembrou-se de algumas das horríveis crises de dor que tivera. Deveria haver algo sério com seu coração para explicá-las.
Mas não tivera nenhuma crise há quase três meses.
Por quê?
Finalmente, Barney se mexeu. Levantou-se, sem olhar para Valancy, e disse, casualmente:
"Acho que devemos ir embora. O sol está se pondo. Você consegue caminhar o resto do caminho?"
"Acho que sim", disse Valancy, miseravelmente.
Barney foi até o mato e pegou o pacote que deixara cair — o pacote com seus novos sapatos. Trouxe-o para ela e deixou que ela os pegasse e os calçasse sem qualquer assistência, enquanto ele ficava de costas para ela e olhava para os pinheiros.
Caminharam em silêncio pela trilha sombria até o lago. Em silêncio, Barney dirigiu seu barco pelo milagre do pôr do sol em Mistawis. Em silêncio, passaram por cabanas que ecoavam com música e risos. Em silêncio, atracaram no local de desembarque abaixo do Castelo Azul.
Valancy entrou na casa e caiu, miserável, na primeira cadeira que encontrou, ficando sentada, olhando através do oriel, indiferente aos ronrons frenéticos de alegria de Lucky e aos olhares furiosos de Banjo, protestando contra sua ocupação de sua cadeira.
Barney entrou alguns minutos depois. Não se aproximou dela, mas ficou atrás e perguntou, gentilmente, se ela se sentia pior por causa do que acontecera. Valancy teria dado seu ano de felicidade para poder responder "Sim" honestamente.
"Não", disse ela, monotonamente.
Barney foi para Bluebeard's Chamber e fechou a porta. Ela o ouviu caminhando de um lado para o outro — de um lado para o outro. Ele nunca caminhara assim antes.
E, há uma hora — apenas uma hora atrás — ela estava tão feliz!
CAPÍTULO XXXVI
Finalmente, Valancy foi para a cama. Antes de ir, releu a carta do Dr. Trent. Isso a confortou um pouco. Tão positiva. Tão segura. A escrita tão negra e firme. Não a escrita de um homem que não sabia o que estava escrevendo. Mas ela não conseguiu dormir. Fingiu estar dormindo quando Barney entrou. Barney fingiu dormir. Mas Valancy sabia perfeitamente bem que ele não estava dormindo mais do que ela. Sabia que ele estava deitado, olhando para a escuridão. Pensando em quê? Tentando enfrentar — o quê?
A mente de Valancy, que passara tantas horas felizes de vigília deitada naquela janela, agora pagava o preço de todas elas em uma única noite de miséria. Um fato horrível e portentoso estava lentamente surgindo diante dela da névoa de suposições e medos. Não podia fechar os olhos para ele — empurrá-lo para longe — ignorá-lo.
Não havia nada seriamente errado com seu coração, não importava o que o Dr. Trent dissera. Se houvesse, aqueles trinta segundos a teriam matado. Não adiantava lembrar a carta e a reputação do Dr. Trent. Os maiores especialistas cometiam erros às vezes. O Dr. Trent cometera um.
Perto da manhã, Valancy caiu em um sono agitado, com sonhos ridículos. Em um deles, Barney a provocava, dizendo que ela o enganara. Em seu sonho, ela perdia a paciência e o golpeava violentamente na cabeça com seu rolo de massa. Ele se revelou feito de vidro e se estilhaçou em pedaços no chão. Ela acordou com um grito de horror — um suspiro de alívio — uma risada curta sobre a absurdidade de seu sonho — uma lembrança miserável e enjoada do que acontecera.
Barney não estava lá. Valancy sabia, como as pessoas às vezes sabem — inescapavelmente, sem ser informada — que ele não estava na casa ou em Bluebeard's Chamber. Havia um silêncio estranho na sala de estar. Um silêncio com algo de uncanny sobre ele. O velho relógio parara. Barney devia ter esquecido de dar corda, algo que nunca fizera antes. A sala, sem ele, estava morta, embora o sol brilhasse através do oriel e os reflexos das ondas dançantes além brilhassem nas paredes.
O barco não estava lá, mas a Lady Jane estava sob as árvores do continente. Então, Barney se refugiara nas florestas. Não voltaria até a noite — talvez nem mesmo então. Ele devia estar com raiva dela. Aquele silêncio furioso devia significar raiva — ressentimento frio e profundo. Bem, Valancy sabia o que devia fazer primeiro. Não estava sofrendo muito agora. No entanto, a estranha letargia que a invadia era, de certa forma, pior do que a dor. Era como se algo dentro dela tivesse morrido. Forçou-se a cozinhar e comer um pouco de café da manhã. Mecanicamente, colocou o Castelo Azul em perfeita ordem. Então, colocou o chapéu e o casaco, trancou a porta e escondeu a chave no oco do velho pinheiro, e atravessou para o continente no barco a motor. Ia para Deerwood ver o Dr. Trent. Precisava saber.
CAPÍTULO XXXVII
O Dr. Trent olhou para ela, confuso, e remexeu em suas lembranças.
"Er — Senhorita — Senhorita —"
"Sra. Snaith", disse Valancy, quietamente. "Eu era a Senhorita Valancy Stirling quando a vi no ano passado — há mais de um ano. Queria consultá-la sobre meu coração."
O rosto do Dr. Trent clareou.
"Ah, claro. Lembro-me agora. Realmente, não sou culpado por não reconhecê-la. Você mudou — esplendidamente. E casou-se. Bem, bem, isso concordou com você. Você não parece mais uma inválida agora, hein? Lembro-me daquele dia. Estava muito aborrecido. Ouvir sobre o pobre Ned me abalou. Mas Ned está tão bom quanto novo, e você, também, evidentemente. Disse-lhe isso, sabe — disse que não havia nada para se preocupar."
Valancy olhou para ele.
"Você me disse, em sua carta", ela disse, lentamente, com uma sensação estranha de que outra pessoa estava falando através de seus lábios, "que eu tinha angina pectoris — no último estágio — complicada com um aneurisma. Que eu poderia morrer a qualquer momento — que não poderia viver mais de um ano."
O Dr. Trent a olhou, estupefato.
"Impossível!" ele disse, confusamente. "Não poderia ter dito isso!"
Valancy tirou sua carta da bolsa e entregou-lhe.
"Senhorita Valancy Stirling", ele leu. "Sim — sim. Claro que escrevi — no trem — naquela noite. Mas disse que não havia nada sério——"
"Leia sua carta", insistiu Valancy.
O Dr. Trent a tirou — desdobrou — olhou por cima. Uma expressão de consternação apareceu em seu rosto. Ele se levantou e andou agitadamente pela sala.
"Meu Deus! Esta é a carta que pretendia enviar à velha Senhorita Jane Sterling. De Port Lawrence. Ela estava aqui naquele dia, também. Enviei a carta errada. Que descuido imperdoável! Mas estava tão aborrecido naquela noite. Meu Deus, e você acreditou nisso — você acreditou — mas você não — você foi a outro médico——"
Valancy se levantou, virou-se, olhou tola ao redor e sentou-se novamente.
"Acreditei", disse ela, fracamente. "Não fui a outro médico. Eu — eu — seria muito longo de explicar. Mas acreditei que ia morrer em breve."
O Dr. Trent parou diante dela.
"Nunca me perdoarei. Que ano você deve ter tido! Mas você não parece — não consigo entender!"
"Não importa", disse Valancy, dulmente. "E, então, não há nada de errado com meu coração?"
"Bem, nada sério. Você tinha o que se chama de pseudo-angina. Nunca é fatal — passa completamente com tratamento adequado. Ou, às vezes, com um choque de alegria. Você tem sido muito incomodada com isso?"
"Não, de jeito nenhum, desde março", respondeu Valancy. Lembrou-se da sensação maravilhosa de recriação que tivera quando viu Barney voltando para casa são e salvo após a tempestade. Será que aquele "choque de alegria" a curara?
"Então, provavelmente, você está bem. Disse-lhe o que fazer na carta que deveria ter recebido. E, claro, supus que fosse a outro médico. Tola", disse o Dr. Trent, brutalmente. "Não consigo entender tal tolice. E a pobre velha Senhorita Sterling. Ela deve ter recebido sua carta — dizendo que não havia nada sério. Bem, bem, isso não fez diferença. Seu caso era desesperador. Nada que ela pudesse ter feito ou deixado de fazer teria feito diferença. Fiquei surpreso que ela vivesse tanto — dois meses. Ela estava aqui naquele dia — não muito antes de você. Não queria contar-lhe a verdade. Você acha que sou um velho rabugento — e minhas cartas são brutas o suficiente. Não posso suavizar as coisas. Mas sou um covarde chorão quando se trata de dizer a uma mulher, cara a cara, que ela vai morrer em breve. Disse-lhe que investigaria alguns aspectos do caso sobre os quais não estava totalmente certo e a informaria no dia seguinte. Mas você recebeu sua carta — veja, 'Querida Senhorita S-t-e-r-l-i-n-g.'"
"Sim. Notei isso. Mas pensei que fosse um erro. Não sabia que havia Sterlings em Port Lawrence."
"Ela era a única. Uma velha solitária. Morava sozinha com uma pequena empregada. Morreu dois meses depois que esteve aqui — morreu enquanto dormia. Meu erro não poderia ter feito diferença para ela. Mas você! Nunca me perdoarei por infligir um ano de miséria a você. É hora de me aposentar, com certeza, quando cometo erros assim — mesmo que meu filho fosse suposto estar fatalmente ferido. Você pode me perdoar?"
Um ano de miséria! Valancy sorriu, torturadamente, enquanto pensava em toda a felicidade que o erro do Dr. Trent lhe trouxera. Mas estava pagando por isso agora — oh, estava pagando. Se sentir era viver, ela estava vivendo com uma vingança.
Deixou que o Dr. Trent a examinasse e respondeu a todas as suas perguntas. Quando ele disse que ela estava tão saudável quanto um violino e provavelmente viveria até os cem anos, ela se levantou e foi embora, silenciosamente. Sabia que havia muitas coisas horríveis do lado de fora, esperando para serem pensadas. O Dr. Trent achou que ela era estranha. Qualquer um acharia, com seus olhos desesperados e seu rosto desolado, que ele lhe dera uma sentença de morte em vez de vida. Snaith? Snaith? Quem diabos ela se casara? Ele nunca ouvira falar de Snaiths em Deerwood. E ela estava tão pálida, desbotada, como uma pequena velha. Gad, mas o casamento fizera uma diferença nela, de qualquer maneira, quem quer que fosse Snaith. Snaith? O Dr. Trent se lembrava. Aquele malandro "up back"! Valancy Stirling se casara com ele? E seu clã a deixara! Bem, provavelmente isso resolvia o mistério. Ela se casara às pressas e se arrependera depois, e era por isso que não estava muito entusiasmada ao saber que era uma boa perspectiva de seguro, afinal. Casada! Com Deus sabe quem! Ou o que! Fugitivo da justiça? Devedor? Foragido? Devia ser bastante ruim se ela olhara para a morte como um alívio, coitada. Mas por que as mulheres eram tão tolas? O Dr. Trent despediu Valancy de sua mente, embora, até o dia de sua morte, se arrependesse de ter colocado aquelas cartas nos envelopes errados.
CAPÍTULO XXXVIII
Valancy caminhou rapidamente pelas ruas secundárias e pelo Lover's Lane. Não queria encontrar ninguém que conhecesse. Não queria encontrar nem mesmo pessoas que não conhecesse. Odiava ser vista. Sua mente estava tão confusa, tão dilacerada, tão bagunçada. Sentia que sua aparência devia ser a mesma. Suspirou de alívio quando deixou a vila para trás e se encontrou na estrada "up back". Aqui, havia pouco medo de encontrar alguém que conhecesse. Os carros que passavam por ela com gritos estridentes estavam cheios de estranhos. Um deles estava lotado de jovens que passaram por ela, cantando em alto e bom som:
"Minha esposa tem febre, ó então, Minha esposa tem febre, ó então, Minha esposa tem febre, Oh, espero que não passe, Pois quero ser solteiro novamente."
Valancy estremeceu, como se um deles tivesse passado e a cortado com um chicote.
Ela fizera um pacto com a morte e a morte a enganara. Agora, a vida estava rindo dela. Sentia medo em seu coração. Medo do que Barney pensaria. Diria. Medo do futuro que teria que viver sem ele. Medo de seu clã insultado e repudiado.
Tinha bebido um gole de uma taça divina e, agora, ela fora arrancada de seus lábios. Sem uma morte gentil e amigável para resgatá-la. Tinha que continuar vivendo e ansiando por ela. Tudo estava estragado, manchado, desfigurado. Até aquele ano no Castelo Azul. Até seu amor sem vergonha por Barney. Estava bonito porque a morte esperava. Agora, era apenas sórdido porque a morte se fora. Como alguém poderia suportar algo insuportável?
Tinha que voltar e contar a ele. Fazê-lo acreditar que não pretendera enganá-lo — tinha que fazê-lo acreditar nisso. Tinha que dizer adeus ao seu Castelo Azul e voltar para a casa de tijolos na Elm Street. Voltar para tudo o que pensara ter deixado para sempre. A velha servidão — os velhos medos. Mas isso não importava. Tudo o que importava agora era que Barney, de alguma forma, fosse feito para acreditar que não pretendera enganá-lo conscientemente.
Quando Valancy chegou aos pinheiros à beira do lago, foi tirada de seu torpor de dor por uma visão surpreendente. Lá, estacionado ao lado da velha, batida e desbotada Lady Jane, estava outro carro. Um carro maravilhoso. Um carro roxo. Não um roxo escuro e real, mas um roxo gritante e escandaloso. Brilhava como um espelho, e seu interior indicava claramente a casta de Vere de Vere. Na cadeira do motorista, estava um chauffeur altivo e de libré. E, no banco de trás, estava um homem que abriu a porta e saltou com agilidade, enquanto Valancy descia o caminho para o local de desembarque. Ele ficou sob os pinheiros, esperando por ela, e Valancy absorveu todos os detalhes dele.
Um homem baixo e atarracado, com um rosto largo, rubicundo e de bom humor — um rosto limpo, embora um pequeno imp no fundo da mente paralisada de Valancy sugerisse o pensamento de que "um rosto assim deveria ter uma franja de barba branca ao redor". Óculos de aro de aço em olhos azuis proeminentes. Uma boca pursey; um nariz pequeno e redondo. Onde — onde — onde, Valancy se perguntou, ela vira aquele rosto antes? Parecia tão familiar para ela quanto o próprio.
O estranho usava um chapéu verde e um casaco de fawn sobre um terno de xadrez chamativo. Sua gravata era um verde brilhante de tom mais claro; na mão rechonchuda que estendeu para interceptar Valancy, um enorme diamante piscava para ela. Mas ele tinha um sorriso agradável e paternal, e em sua voz forte e sem modulação havia um anel de algo que a atraía.
"Você pode me dizer, senhorita, se aquela casa ali pertence a um Sr. Redfern? E, se sim, como posso chegar até ela?"
Redfern! Uma visão de garrafas parecia dançar diante dos olhos de Valancy — garrafas longas de bitters — garrafas redondas de tônico capilar — garrafas quadradas de linimento — garrafas curtas e corpulentas de comprimidos roxos — e todas elas com aquele mesmo rosto próspero e sorridente e óculos de aro de aço no rótulo.
O Dr. Redfern!
"Não", disse Valancy, fracamente. "Não — aquela casa pertence ao Sr. Snaith."
O Dr. Redfern acenou com a cabeça.
"Sim, entendo que Bernie tem se chamado Snaith. Bem, é seu nome do meio — era o de sua pobre mãe. Bernard Snaith Redfern — esse é ele. E, agora, senhorita, você pode me dizer como chegar a aquela ilha? Ninguém parece estar em casa lá. Fiz alguns acenos e gritos. Henry, ali, não gritaria. Ele é um homem de um só trabalho. Mas o velho Dr. Redfern ainda pode gritar com os melhores, e não se importa em fazê-lo. Acordou apenas um par de corvos. Acho que Bernie está fora o dia todo."
"Ele estava fora quando saí de manhã", disse Valancy. "Acho que não voltou para casa ainda."
Ela falou monotonamente. Este último choque a deixara, por enquanto, privada de qualquer poder de raciocínio que restara após a revelação do Dr. Trent. No fundo de sua mente, o pequeno imp estava rindo, repetindo um velho provérbio tolo: "Nunca chove, mas derrama." Mas ela não estava tentando pensar. Para que?
O Dr. Redfern estava olhando para ela, perplexo.
"Quando você saiu de manhã? Você mora — lá?"
Ele acenou com o diamante para o Castelo Azul.
"Claro", disse Valancy, estupidamente. "Sou sua esposa."
O Dr. Redfern tirou um lenço de seda amarelo, removeu o chapéu e enxugou a testa. Ele estava muito careca, e o imp de Valancy sussurrou: "Por que ser careca? Por que perder sua beleza masculina? Experimente o Tônico Capilar Redfern. Ele o mantém jovem."
"Desculpe-me", disse o Dr. Redfern. "Isso é um pouco de um choque."
"Choques parecem estar no ar esta manhã." O imp disse isso em voz alta antes que Valancy pudesse impedi-lo.
"Não sabia que Bernie era — casado. Não pensei que ele se casaria sem contar ao velho pai."
Será que os olhos do Dr. Redfern estavam úmidos? No meio de sua própria dor e medo e apreensão, Valancy sentiu uma pontada de pena por ele.
"Não o culpe", ela disse, apressadamente. "Não foi culpa dele. Foi — foi tudo minha culpa."
"Você não o pediu em casamento, suponho", brincou o Dr. Redfern. "Ele pode ter me deixado saber. Eu teria me familiarizado com minha nora antes disso, se ele tivesse. Mas estou feliz em conhecê-la agora, minha querida — muito feliz. Você parece uma jovem sensata. Eu temia que Barney escolhesse alguma menininha fútil só porque era bonita. Elas estavam todas atrás dele, é claro. Queriam seu dinheiro? Hein? Não gostavam dos comprimidos e dos bitters, mas gostavam dos dólares. Hein? Queriam mergulhar seus dedinhos bonitos nas milhões do velho Dr. Redfern. Hein?"
"Milhões!" disse Valancy, fracamente. Ela desejou poder sentar-se em algum lugar — desejou ter uma chance de pensar — desejou que ela e o Castelo Azul pudessem afundar no fundo de Mistawis e desaparecer da vista humana para sempre.
"Milhões", disse o Dr. Redfern, complacentemente. "E Bernie os joga fora por — isso." Novamente, ele sacudiu o diamante, desprezivelmente, em direção ao Castelo Azul. "Você não acharia que ele teria mais senso? E tudo por causa de uma garotinha branca. Ele deve ter se recuperado desse sentimento, de qualquer maneira, já que se casou. Você deve persuadi-lo a voltar para a civilização. Tudo bobagem desperdiçar sua vida assim. Hein? Você não vai me levar para sua casa, minha querida? Suponho que você tenha alguma maneira de chegar lá."
"Sim", disse Valancy, estupidamente. "Sim — tenho um barco a motor."
"Bem, vamos", disse o Dr. Redfern. "Vou levá-la para casa, minha querida? Suponho que você tenha alguma maneira de chegar lá."
"Sim", disse Valancy, estupidamente. "Sim — tenho um barco a motor."
"Bem, vamos", disse o Dr. Redfern. "Henry pode cuidar do carro. Ele é um homem de um só trabalho, mas pode fazer isso."
Valancy o levou para o barco a motor e o ajudou a entrar. O Dr. Redfern sentou-se no banco de trás, e Valancy assumiu o leme. O imp dentro dela sussurrou: "Navegue com Redfern's Bitters — o melhor tônico do mundo."
Eles atravessaram o lago em silêncio. Valancy não queria conversar. Sua mente estava muito confusa. O Dr. Redfern, também, parecia perdido em pensamentos. Valancy se perguntava o que ele estava pensando. Será que estava feliz por Barney ter se casado? Ou estava desapontado? Ou com raiva? Ou — ou — o que?
Quando chegaram ao Castelo Azul, o Dr. Redfern olhou ao redor, com uma expressão de desaprovação.
"Bem, bem", disse ele, "suponho que seja melhor do que uma cabana de troncos. Mas não é o que eu chamaria de uma casa. Não é o que eu esperaria que meu filho morasse. Você não acha que ele poderia ter mais senso, minha querida?"
"Acho que sim", disse Valancy, dulmente.
"Bem, bem", disse o Dr. Redfern, novamente. "Suponho que tenha que fazer o melhor que puder. Mas você deve persuadi-lo a voltar para a civilização. Tudo bobagem desperdiçar sua vida assim. Hein?"
Valancy não respondeu. Estava pensando em como contaria a Barney. Como o faria acreditar que não pretendera enganá-lo. Como diria adeus ao seu Castelo Azul e voltaria para a casa de tijolos na Elm Street.
"Bem, bem", disse o Dr. Redfern, pela terceira vez. "Suponho que tenha que ir. Henry está esperando por mim. Adeus, minha querida. Espero vê-la novamente em breve. Dê lembranças a Bernie. Diga-lhe que seu velho pai está um pouco chateado com ele, mas que o perdoa. Adeus."
Ele entrou no carro e partiu, deixando Valancy sozinha com seus pensamentos.
Ela entrou na casa e caiu em uma cadeira, com o rosto enterrado nas mãos. O que faria? Como contaria a Barney? Como o faria acreditar que não pretendera enganá-lo?
De repente, ouviu um som que a fez levantar a cabeça. Era o som de um carro se aproximando. E, então, o som de passos na varanda.
Barney estava em casa.
“Por quê?”
“Porque — não — vou — morrer”, disse Valancy, roucamente.
Houve um silêncio. Então, o tio Benjamin disse, com voz embargada:
"Graças a Deus!"
A Sra. Frederick olhou para Valancy, com os olhos cheios de lágrimas.
"Minha filha", ela disse, tremulamente, "você vai voltar para casa agora?"
Valancy olhou para ela, com uma expressão de cansaço.
"Sim, mãe", ela disse. "Vou voltar para casa."
A Sra. Frederick a abraçou, com um suspiro de alívio. A prima Stickles, também, se aproximou, com os olhos cheios de lágrimas.
"Oh, Doss, querida", ela disse, "estamos tão felizes por você ter voltado."
Valancy olhou para elas, com uma sensação de estranhamento. Sentia-se como se estivesse em um sonho. Tudo parecia tão irreal.
"Onde está Barney?" ela perguntou, de repente.
A Sra. Frederick e a prima Stickles se olharam, com expressões de preocupação.
"Ele não está aqui", disse a Sra. Frederick, hesitante. "Ele saiu esta manhã e não voltou."
Valancy sentiu um frio na espinha.
"Ele não está aqui?" ela repetiu, com voz trêmula.
"Não", disse a prima Stickles, com um suspiro. "Ele saiu para uma caminhada e não voltou."
Valancy sentiu um nó na garganta.
"Ele não vai voltar", ela disse, com voz baixa. "Ele não vai voltar nunca mais."
A Sra. Frederick e a prima Stickles se olharam, com expressões de terror.
"O que você quer dizer?" perguntou a Sra. Frederick, com voz trêmula.
Valancy não respondeu. Ela se levantou e foi para o seu quarto. Sentou-se na cama e enterrou o rosto nas mãos.
"Ele não vai voltar", ela repetiu, com voz baixa. "Ele não vai voltar nunca mais."
E, então, as lágrimas começaram a cair. Caíram silenciosamente, sem som, como a chuva em uma noite tranquila. Valancy chorou por Barney, por si mesma, por tudo o que perdera. Chorou até que não houvesse mais lágrimas para chorar.
Quando finalmente se levantou, sentiu-se vazia e cansada. Sabia que tinha que contar a verdade a sua família. Tinha que lhes dizer que se casara com Barney, que ele a deixara, que ela estava sozinha novamente.
Mas, antes de fazer isso, tinha que ver o Dr. Trent. Tinha que saber se ele realmente cometera um erro.
Valancy foi ao consultório do Dr. Trent no dia seguinte. Ele a recebeu com uma expressão de surpresa.
"Srta. Stirling", ele disse, "o que a traz aqui?"
"Dr. Trent", disse Valancy, com voz firme, "preciso falar com o senhor sobre minha saúde."
O Dr. Trent a olhou, com uma expressão de confusão.
"Mas, Srta. Stirling, eu já lhe disse que não há nada de errado com a sua saúde."
"Eu sei", disse Valancy, "mas preciso ter certeza. Preciso saber se o senhor cometeu um erro."
O Dr. Trent a olhou, com uma expressão de compreensão.
"Ah, entendo", ele disse. "Você quer saber se eu enviei a carta errada."
Valancy acenou com a cabeça.
"Sim", ela disse, "é isso."
O Dr. Trent suspirou.
"Infelizmente, sim", ele disse. "Enviei a carta errada. A carta que lhe enviei era destinada a outra paciente. A carta que deveria ter lhe enviado dizia que não havia nada de errado com a sua saúde."
Valancy sentiu um alívio imenso.
"Então, não há nada de errado com o meu coração?" ela perguntou, com voz trêmula.
"Não", disse o Dr. Trent, "não há nada de errado com o seu coração. Você está perfeitamente saudável."
Valancy sentiu uma onda de emoção.
"Obrigada, Dr. Trent", ela disse, com voz baixa. "Obrigada por me dizer a verdade."
O Dr. Trent a olhou, com uma expressão de simpatia.
"Não há de quê, Srta. Stirling", ele disse. "Mas, por favor, não se culpe por isso. Foi um erro meu. Eu que devo pedir desculpas."
Valancy acenou com a cabeça.
"Eu entendo", ela disse. "Mas, agora, preciso ir. Tenho que contar a verdade à minha família."
O Dr. Trent a olhou, com uma expressão de preocupação.
"Tem certeza de que quer fazer isso?" ele perguntou.
Valancy acenou com a cabeça.
"Sim", ela disse, "tenho certeza. Preciso contar a verdade. Preciso começar de novo."
O Dr. Trent a olhou, com uma expressão de respeito.
"Boa sorte, Srta. Stirling", ele disse. "Espero que tudo dê certo para você."
Valancy sorriu, com uma expressão de gratidão.
"Obrigada, Dr. Trent", ela disse. "Adeus."
Ela saiu do consultório e foi para casa. Sabia que tinha que contar a verdade à sua família. Sabia que tinha que começar de novo.
Mas, antes de fazer isso, tinha que ver Barney. Tinha que lhe dizer adeus.
Valancy foi ao Castelo Azul. A casa estava vazia, silenciosa. Barney não estava lá.
Ela entrou na casa e foi para o quarto de Barney. Sentou-se na cama e enterrou o rosto nas mãos.
"Barney", ela sussurrou, "onde você está? Por que você me deixou?"
Mas não houve resposta.
Valancy sabia que tinha que ir embora. Sabia que tinha que começar de novo.
Ela se levantou e foi para a janela. Olhou para o lago, para as árvores, para o céu.
"Adeus, Castelo Azul", ela disse, com voz baixa. "Adeus, Barney. Adeus, tudo."
Ela saiu da casa e foi embora. Sabia que tinha que começar de novo. Sabia que tinha que encontrar um novo caminho.
E, enquanto caminhava, sentiu uma sensação de liberdade. Sentiu que podia respirar novamente. Sentiu que podia começar de novo.
"Vou encontrar um novo caminho", ela disse, com voz firme. "Vou encontrar um novo Castelo Azul."
E, com essa sensação, ela continuou caminhando, em direção ao futuro.
**Fim**
“Valancy, I’m going to tell you the whole story of my life. I’ve never told it to any one before. I’ve never told any one anything about myself. I’ve always been afraid to. I’ve always been afraid of being laughed at. I’ve always been afraid of being hurt. I’ve always been afraid of being misunderstood. I’ve always been afraid of being ridiculed. I’ve always been afraid of being pitied. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. 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I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead. I’ve always been afraid of being happy. I’ve always been afraid of being unhappy. I’ve always been afraid of being loved. I’ve always been afraid of being hated. I’ve always been afraid of being forgotten. I’ve always been afraid of being remembered. I’ve always been afraid of being alive. I’ve always been afraid of being dead.
"Quando ele me mandou para uma escola particular — eu tinha apenas onze anos — os meninos me afogaram no tanque de natação até que eu fiquei em cima de uma mesa e li em voz alta todos os anúncios dos remédios patenteados do meu pai. Eu fiz isso — então" — Barney cerrou os punhos — "eu estava com medo e meio afogado, e todo o meu mundo estava contra mim. Mas quando entrei na faculdade e os calouros tentaram a mesma coisa, eu não fiz." Barney sorriu, sombriamente. "Eles não conseguiram me fazer fazer. Mas puderam — e fizeram — tornar minha vida miserável. Nunca ouvi o fim dos Comprimidos e dos Bitters e do Tônico Capilar. 'Depois de usar' era meu apelido — você vê, eu sempre tive um cabelo grosso. Meus quatro anos de faculdade foram um pesadelo. Você sabe — ou não sabe — que meninos podem ser bestas cruéis quando pegam uma vítima como eu. Tive poucos amigos — sempre havia uma barreira entre mim e o tipo de pessoas que eu gostava. E o outro tipo — que teria sido muito disposto a ser íntimo do filho do velho Dr. Redfern — eu não gostava. Mas tive um amigo — ou pensei que tinha. Um rapaz esperto, estudioso — um pouco escritor. Isso era um vínculo entre nós — eu tinha algumas aspirações secretas nessa linha. Ele era mais velho do que eu — eu olhava para ele e o adorava. Por um ano, fui mais feliz do que já fora. Então — uma paródia saiu no jornal da faculdade — uma coisa mordaz, ridicularizando os remédios do meu pai. Os nomes foram mudados, é claro, mas todo mundo sabia o que e quem era meant. Oh, era esperto — malditamente esperto — e engraçado. McGill riu muito disso. Descobri que ele havia escrito."
"Oh, você tinha certeza?" Os olhos opacos de Valancy flamejaram de indignação.
"Sim. Ele admitiu quando perguntei. Disse que uma boa ideia valia mais para ele do que um amigo, a qualquer momento. E acrescentou uma cutucada gratuita. 'Você sabe, Redfern, há algumas coisas que o dinheiro não compra. Por exemplo — não compra um avô para você.' Bem, foi um golpe baixo. Eu era jovem o suficiente para me sentir cortado. E isso destruiu muitos dos meus ideais e ilusões, o que foi a pior coisa sobre isso. Tornei-me um jovem misantropo depois disso. Não queria ser amigo de ninguém. E, então — o ano depois que saí da faculdade — conheci Ethel Traverse."
Valancy estremeceu. Barney, com as mãos nos bolsos, estava olhando para o chão, pensativamente, e não notou.
"O pai disse a você sobre ela, suponho. Ela era muito bonita. E eu a amava. Oh, sim, eu a amava. Não nego nem diminuo isso agora. Era o amor apaixonado de um menino solitário e romântico, e era muito real. E pensei que ela me amava. Fui tolo o suficiente para pensar isso. Fiquei louco de felicidade quando ela prometeu se casar comigo. Por alguns meses. Então — descobri que não amava. Fui um ouvinte involuntário em uma certa ocasião por um momento. Esse momento foi suficiente. O destino proverbial do ouvinte atingiu-me. Uma amiga dela perguntou como ela podia suportar o filho do Dr. Redfern e o fundo de remédios patenteados.
"'Seu dinheiro vai dourar os Comprimidos e adoçar os Bitters', disse Ethel, rindo. 'Minha mãe me disse para pegá-lo se pudesse. Estamos em apuros. Mas pah! Sinto cheiro de terebintina sempre que ele se aproxima de mim.'"
"Oh, Barney!" exclamou Valancy, comovida com pena dele. Esquecera-se completamente de si mesma e estava cheia de compaixão por Barney e raiva contra Ethel Traverse. Como ela ousara?
"Bem", — Barney se levantou e começou a andar pela sala — "isso me acabou. Completamente. Deixei a civilização e aqueles remédios malditos para trás e fui para o Yukon. Por cinco anos, vaguei pelo mundo — em todos os tipos de lugares exóticos. Ganhei o suficiente para viver — não toquei em um centavo do dinheiro do meu pai. Então, um dia, acordei para o fato de que não me importava mais com Ethel, de um jeito ou de outro. Ela era alguém que conhecera em outro mundo — isso era tudo. Mas não tinha vontade de voltar à vida antiga. Nada disso para mim. Era livre e pretendia continuar assim. Vim para Mistawis — vi a ilha de Tom MacMurray. Meu primeiro livro havia sido publicado no ano anterior e fez sucesso — tinha um pouco de dinheiro dos meus direitos autorais. Comprei minha ilha. Mas me mantive longe das pessoas. Não tinha fé em ninguém. Não acreditava que houvesse amizade ou amor verdadeiro no mundo — não para mim, de qualquer maneira — o filho dos Comprimidos Roxos. Eu me divertia com todas as histórias selvagens que contavam sobre mim. Na verdade, acho que sugeri algumas delas eu mesmo. Por meio de observações misteriosas que as pessoas interpretavam à luz de suas próprias predisposições.
"Então — você veio. Tive que acreditar que você me amava — realmente me amava — não pelo dinheiro do meu pai. Não havia outra razão para você querer se casar com um diabo sem um centavo e com minha suposta reputação. E senti pena de você. Oh, sim, não nego que me casei com você porque senti pena. E, então — descobri que você era a melhor e mais alegre e querida companheira que um fellow já teve. Engraçada — leal — doce. Você me fez acreditar novamente na realidade da amizade e do amor. O mundo parecia bom novamente só porque você estava nele, querida. Eu teria ficado feliz para sempre como estávamos. Sabia disso, na noite em que voltei para casa e vi minha luz brilhando da ilha pela primeira vez. E sabia que você estava lá, me esperando. Depois de uma vida inteira sem lar, era maravilhoso ter um. Voltar para casa com fome à noite e saber que havia uma boa refeição e uma lareira acolhedora — e você.
"Mas não percebi o que você realmente significava para mim até aquele momento no interruptor. Então, veio como um raio. Sabia que não podia viver sem você — que, se não conseguisse soltá-la a tempo, teria que morrer com você. Admito que isso me abalou — me deixou confuso. É por isso que agi como um mule. Mas o pensamento que me levou à floresta foi o terrível pensamento de que você ia morrer. Sempre odiei esse pensamento — mas supus que não havia chance para você, então o coloquei para fora da minha mente. Agora, tive que enfrentá-lo — você estava sob sentença de morte e não podia viver sem você. Quando voltei para casa ontem à noite, havia decidido que levaria você a todos os especialistas do mundo — que algo poderia ser feito por você. Sentia que você não podia estar tão mal quanto o Dr. Trent pensava, quando aqueles momentos na trilha não a machucaram. E encontrei sua nota — e enlouqueci de felicidade — e um pouco de terror, com medo de que você não se importasse muito comigo, afinal, e tivesse ido embora para se livrar de mim. Mas, agora, está tudo bem, não está, querida?"
Será que ela, Valancy, estava sendo chamada de "querida"?
"Não posso acreditar que você se importa comigo", ela disse, impotente. "Sei que não pode. O que adianta, Barney? Claro, você sente pena de mim — claro que quer fazer o melhor que pode para consertar a bagunça. Mas não pode ser consertada assim. Você não poderia me amar — a mim." Ela se levantou e apontou, tragicamente, para o espelho sobre a lareira. Certamente, nem mesmo Allan Tierney poderia ver beleza no rosto magro e infeliz refletido lá.
Barney não olhou para o espelho. Olhou para Valancy como se quisesse agarrá-la — ou espancá-la.
"Amar você! Garota, você está no cerne do meu coração. Eu a seguro lá como uma joia. Não prometi que nunca mentiria para você? Amo você com tudo o que há em mim para amar. Coração, alma, cérebro. Cada fibra de corpo e espírito vibrando com a doçura de você. Não há ninguém no mundo para mim além de você, Valancy."
"Você é — um bom ator, Barney", disse Valancy, com um fraco sorriso.
Barney olhou para ela.
"Então, você não acredita em mim — ainda?"
"Eu — não posso."
"Oh — droga!" disse Barney, violentamente.
Valancy olhou para cima, assustada. Nunca vira esse Barney. Carrancudo! Olhos negros de raiva. Lábios sarcásticos. Rosto branco como a morte.
"Você não quer acreditar", disse Barney, com a voz de seda da raiva ultimate. "Você está cansada de mim. Quer se livrar de mim. Está envergonhada dos Comprimidos e dos Bitters, assim como ela estava. Seu orgulho Stirling não pode suportá-los. Estava tudo bem enquanto você pensava que não viveria muito. Uma boa diversão — podia me suportar. Mas uma vida inteira com o filho do velho Dr. Redfern é diferente. Oh, entendo — perfeitamente. Fui muito denso — mas entendo, finalmente."
Valancy se levantou. Olhou para seu rosto furioso. Então — ela, de repente, riu.
"Você querido!" ela disse. "Você realmente significa isso! Você realmente me ama! Não ficaria tão irritado se não amasse."
Barney a olhou por um momento. Então, a pegou em seus braços com o pequeno riso baixo do amante triunfante.
O tio Benjamin, que estava congelado de horror no buraco da fechadura, derreteu-se repentinamente e voltou para a Sra. Frederick e a prima Stickles.
"Está tudo bem", ele anunciou, jubilantemente.
Querida pequena Doss! Ele mandaria buscar seu advogado imediatamente e alteraria seu testamento novamente. Doss seria sua única herdeira. A quem tem, será dado.
A Sra. Frederick, voltando à sua crença confortável em uma providência que tudo controla, pegou a Bíblia da família e fez uma entrada em "Casamentos".
CAPÍTULO XLIII
"Mas, Barney", protestou Valancy, "seu pai — de alguma forma — me deu a entender que você ainda amava ela."
"Ele faria isso. O pai detém o campeonato de cometer erros. Se há algo que é melhor deixar de dizer, você pode confiar que ele o dirá. Mas ele não é um mau velho, Valancy. Você vai gostar dele."
"Eu gosto, agora."
"E o dinheiro dele não é dinheiro sujo. Ele o ganhou honestamente. Seus remédios são bastante inofensivos. Até seus Comprimidos Roxos fazem muito bem às pessoas quando elas acreditam neles."
"Mas — não sou adequada para sua vida", suspirou Valancy. "Não sou — esperta — ou bem educada — ou——"
"Minha vida está em Mistawis — e em todos os lugares selvagens do mundo. Não vou pedir que você viva a vida de uma mulher da sociedade. Claro, temos que passar um tempo com o pai — ele está solitário e velho——"
"Mas não naquela grande casa dele", suplicou Valancy. "Não posso viver em um palácio."
"Não posso entrar nisso depois do seu Castelo Azul", brincou Barney. "Não se preocupe, querida. Não poderia viver naquela casa eu mesmo. Tem uma escada de mármore branco com corrimãos dourados e parece uma loja de móveis sem as etiquetas. Além disso, é o orgulho do coração do pai. Vamos conseguir uma pequena casa em algum lugar fora de Montreal — no campo real — perto o suficiente para ver o pai com frequência. Acho que vamos construir uma para nós. Uma casa que você constrói para si mesma é muito mais agradável do que uma mão-me-down. Mas passaremos nossos verões em Mistawis. E nossos outonos viajando. Quero que você veja a Alhambra — é a coisa mais próxima do Castelo Azul dos seus sonhos que consigo pensar. E há um jardim antigo na Itália onde quero mostrar a você a lua nascendo sobre Roma através dos ciprestes escuros."
"Será que isso será mais lindo do que a lua nascendo sobre Mistawis?"
"Não mais lindo. Mas um tipo diferente de beleza. Há tantos tipos de beleza. Valancy, antes deste ano, você passou toda a sua vida na feiura. Você não conhece nada da beleza do mundo. Vamos escalar montanhas — procurar tesouros nos bazares de Samarcanda — buscar a magia do leste e do oeste — correr de mãos dadas até a borda do mundo. Quero mostrar tudo isso a você — fazer com você — dizer a você. Há um milhão de coisas que quero mostrar a você — fazer com você — dizer a você. Levará uma vida inteira. E temos que ver sobre aquela pintura de Tierney, afinal."
"Você promete uma coisa?" perguntou Valancy, solenemente.
"Qualquer coisa", disse Barney, imprudentemente.
"Apenas uma coisa. Você nunca, sob quaisquer circunstâncias ou sob qualquer provocação, deve me cobrar por ter pedido que se casasse comigo."
CAPÍTULO XLIV
_Extrato de carta escrita pela Srta. Olive Stirling ao Sr. Cecil Bruce:_
"É realmente nojento que as aventuras loucas de Doss tenham terminado assim. Faz com que se sinta que não há utilidade em se comportar bem.
"Tenho certeza de que sua mente estava desequilibrada quando ela saiu de casa. O que ela disse sobre um monte de poeira mostrou isso. Claro, não acho que havia algo de errado com seu coração. Ou talvez Snaith ou Redfern ou seja lá qual for seu nome realmente tenha dado Comprimidos Roxos a ela, lá naquela cabana de Mistawis e a curou. Seria um ótimo testemunho para os anúncios da família, não seria?
"Ele é tão insignificante. Comentei isso com Doss, mas tudo o que ela disse foi: 'Não gosto de homens de colarinho.'
"Bem, ele não é um homem de colarinho. Embora eu deva dizer que há algo um pouco distinguido nele, agora que cortou o cabelo e colocou roupas decentes. Acho, Cecil, que você deveria se exercitar mais. Não é bom ficar muito gordo.
"Ele também afirma, acho, ser John Foster. Podemos acreditar nisso ou não, como quisermos, suponho.
"O velho Dr. Redfern deu a eles dois milhões como presente de casamento. Evidentemente, os Comprimidos Roxos trazem o bacon. Vão passar o outono na Itália e o inverno no Egito e motorizar pela Normandia na época das maçãs floridas. Não naquele carro velho e terrível, embora. Redfern conseguiu um carro novo e maravilhoso.
"Bem, acho que vou fugir também e me desgraçar. Parece que paga.
"O tio Ben é uma piada. Da mesma forma, o tio James. A confusão que todos fazem por Doss agora é absolutamente enjoativa. Ouvir a tia Amelia falando de 'meu genro, Bernard Redfern' e 'minha filha, Sra. Bernard Redfern'. A mãe e o pai são tão ruins quanto o resto. E não conseguem ver que Valancy está rindo de todos eles na manga."
CAPÍTULO XLV
Valancy e Barney passaram sob os pinheiros do continente na fresca noite de setembro para dar uma última olhada no Castelo Azul.
Mistawis estava afogado em uma luz lilás do pôr do sol, incrivelmente delicada e etérea. Nip e Tuck estavam grasnindo preguiçosamente nos velhos pinheiros. Good Luck e Banjo estavam miando e miando em cestas separadas no novo carro verde-escuro de Barney, a caminho da casa da prima Georgiana. A prima Georgiana ia cuidar deles até que Barney e Valancy voltassem. A tia Wellington e a prima Sarah e a tia Alberta também suplicaram pelo privilégio de cuidar deles, mas para a prima Georgiana foi dado. Valancy estava em lágrimas.
"Não chore, Moonlight. Voltaremos no próximo verão. E, agora, estamos indo para uma verdadeira lua de mel."
Valancy sorriu através de suas lágrimas. Estava tão feliz que sua felicidade a aterrorizava. Mas, apesar das delícias que a aguardavam — 'a glória que foi a Grécia e a grandiosidade que foi Roma' — o encanto do Nilo imortal — o glamour da Riviera — mesquita e palácio e minarete — sabia perfeitamente bem que nenhum lugar ou local ou lar no mundo poderia possuir a magia de seu Castelo Azul.
FIM