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The Blue Lagoon: A Romance

by H. De Vere (Henry De Vere) Stacpoole · in Portuguese

A LAGOA AZUL

LIVRO I

PARTE I

CAPÍTULO I

ONDE QUEIMA A LÂMPADA DE ÓLEO

O Sr. Button estava sentado num baú de marinheiro com um violino debaixo da orelha esquerda. Ele tocava “The Shan van vaught” e acompanhava a melodia, pontuando-a com batidas do calcanhar esquerdo no convés do castelo de proa.

“Oh, os franceses estão na baía, Diz a Shan van vaught.”

Ele vestia calças de ganga, uma camisa às riscas e um casaco de baeta — verde em partes, devido à influência do sol e do sal. Um típico velho lobo-do-mar, de ombros arredondados, dedos curvos; uma figura que lembrava fortemente um caranguejo.

O seu rosto era como uma lua, vista avermelhada através de névoas tropicais; e, enquanto tocava, exibia uma expressão de atenção tensa, como se o violino lhe contasse histórias muito mais maravilhosas do que a velha e simples afirmação sobre a Baía de Bantry.

“Pat, o canhoto”, era o seu nome no castelo de proa; não porque fosse esquerdino, mas simplesmente porque tudo o que fazia, fazia mal — ou quase. Ao tomar rizes, ou a dobrar velas, ou a manusear o balde de gordura — se houvesse um erro a cometer, ele cometia-o.

Ele era um celta, e todos os mares salgados que tinham corrido entre ele e Connaught durante estes quarenta anos e mais não tinham lavado o elemento celta do seu sangue, nem a crença em fadas da sua alma. A natureza celta é uma tinta que não desbota, e a natureza do Sr. Button era tal que, embora tivesse sido forçado a embarcar por Larry Marr em São Francisco, embora se tivesse embriagado na maioria dos portos do mundo, embora tivesse navegado com capitães americanos e sido maltratado por imediatos americanos, ele ainda carregava as suas fadas consigo — elas, e uma reserva muito grande de inocência original.

Quase por cima da cabeça do músico balançava uma rede da qual pendia uma perna; outras redes penduradas na penumbra traziam sugestões de lémures e morcegos arbóreos. A lâmpada de querosene oscilante lançava a sua luz para a frente, passando pelo calcanhar do gurupés até às vigotas, iluminando aqui um pé nu pendurado sobre o bordo de um beliche, ali um rosto do qual sobressaía um cachimbo, ali um peito coberto de pelos escuros e musgosos, ali um braço tatuado.

Eram os dias antes de as vergas de gávea duplas terem reduzido as tripulações dos navios, e o castelo de proa do Northumberland tinha uma companhia completa: uma multidão de ratos de navio, como frequentemente se encontra num navio que contorna o Cabo Horn, “holandeses”, americanos — homens que eram trabalhadores rurais e cuidavam de porcos no Ohio há três meses, velhos marinheiros experientes como Paddy Button — uma mistura do melhor e do pior da terra, como não se encontra em mais lado nenhum num espaço tão pequeno como no castelo de proa de um navio.

O Northumberland tinha passado por uma terrível dobra do Cabo Horn. Vindo de Nova Orleães para São Francisco, passara trinta dias a lutar contra ventos de proa e tempestades — lá em baixo, onde os mares são tão vastos que três ondas podem cobrir com a sua amplitude mais de uma milha de espaço marítimo; passara trinta dias ao largo do Cabo Stiff e, precisamente agora, no momento desta história, encontrava-se bloqueado numa calmaria a sul da linha do equador.

O Sr. Button terminou a sua melodia com um golpe de arco e passou a manga direita do casaco pela testa. Depois tirou um cachimbo enfarruscado, encheu-o de tabaco e acendeu-o.

“Pawthrick”, arrastou uma voz da rede acima, da qual dependia a perna, “qual era aquela história que estavas a começar a contar esta noite sobre um duende?”

“Um quê?” perguntou o Sr. Button, inclinando o olho para o fundo da rede enquanto aproximava o fósforo do cachimbo.

“Era sobre uma coisa verde”, veio uma voz holandesa sonolenta de um beliche.

“Oh, um Leprechaun, queres dizer. Com certeza, a irmã da minha mãe tinha um lá em Connaught.”

“Como era ele?” perguntou a voz holandesa sonhadora — uma voz aparentemente possuída pela calmaria que tornara o mar como um espelho nos últimos três dias, reduzindo toda a tripulação do navio ao nível de ociosos.

“Como era? Com certeza, era como um Leprechaun; e como haveria de ser?”

“Como era isso?” insistiu a voz.

“Era como um homenzinho não maior que um rabanete bifurcado grande, e tão verde como um repolho. A minha tia tinha um na casa dela lá em Connaught nos velhos tempos. Oh musha! musha! os velhos tempos, os velhos tempos! Agora, podes acreditar ou não, mas podias tê-lo metido no bolso, e a cabeça dele, cor de relva, nem teria ficado de fora. Ela guardava-o num armário, e do armário ele saltava se estivesse uma fresta aberta, e metia-se nas panelas de leite, ou debaixo das camas, ou puxava o banco debaixo de ti, ou qualquer outra diversão. Ele perseguia o porco — a criatura! — até ficar todo ele costelas como um guarda-chuva velho de tanto susto, e tão magro como um galgo de tanto correr de manhã; ele estragava os ovos, de modo que os galos e as galinhas não sabiam o que lhes estava a acontecer com os pintos a saírem com duas cabeças e vinte e sete patas à frente e atrás. E tu começavas a persegui-lo, e depois era caçar a vela grande, e lá ia ele, tu atrás dele, até acabares com o rabo para o ar numa vala, e ele estar de volta ao armário.”

“Era um Troll”, murmurou a voz holandesa.

“Estou a dizer-te que era um Leprechaun, e não há como saber as diabruras que ele era capaz de fazer. Ele puxava o repolho, talvez, da panela a ferver no lume diante dos teus olhos, e espetava-to na cara; e então, talvez, estendesses o punho para ele, e ele punha lá uma libra de ouro.”

“Quem me dera que ele estivesse aqui!” murmurou uma voz de um beliche perto das vigotas.

“Pawthrick”, arrastou a voz da rede acima, “o que farias primeiro se te encontrasses com vinte libras no bolso?”

“Para que serve perguntar-me?” respondeu o Sr. Button. “Para que servem vinte libras a um marinheiro no mar, onde o grogue é todo água e a carne é toda cavalo? Dá-mas em terra, e verás o que faria com elas!”

“Acho que o dono da taberna mais próxima não te veria chegar nem por sombra”, disse uma voz do Ohio.

“Não veria”, disse o Sr. Button; “nem tu atrás de mim. Maldito seja o grogue e aqueles que o vendem!”

“É tudo muito fácil de dizer”, disse o Ohio. “Amaldiçoas o grogue no mar quando não o podes obter; põe-te em terra, e ficas a abarrotar.”

“Gosto da minha bebedeira”, disse o Sr. Button, “sou livre para admitir; e sou o diabo quando ela está em mim, e isso será o meu fim, ou a minha velha mãe era uma mentirosa. ‘Pat’, dizia ela, na primeira vez que voltei do mar a cambalear, ‘tempestades podes escapar, e mulheres podes escapar, mas o poitin é que te apanhará’. Há quarenta anos — há quarenta anos!”

“Bem”, disse o Ohio, “ainda não te apanhou.”

“Não”, respondeu o Sr. Button, “mas apanhará.”

CAPÍTULO II

SOB AS ESTRELAS

Era uma noite maravilhosa no convés, cheia de toda a majestade e beleza do brilho das estrelas e de uma calmaria tropical.

O Pacífico dormia; uma vasta e vaga ondulação fluindo de muito longe, lá no sul sob a noite, elevava o Northumberland nas suas ondulações ao som do matraquear das lais e do ranger ocasional do leme; enquanto por cima, perto do arco ígneo da Via Láctea, pendia o Cruzeiro do Sul como um papagaio de papel partido.

Estrelas no céu, estrelas no mar, estrelas aos milhões e milhões; tantas lâmpadas acesas que o firmamento enchia a mente com a ideia de uma cidade vasta e populosa — contudo, de todo aquele esplendor vivo e cintilante, nem um som.

Lá em baixo, na cabine — ou salão, como era chamado por cortesia — estavam sentados os três passageiros do navio; um a ler à mesa, dois a brincar no chão.

O homem à mesa, Arthur Lestrange, estava sentado com os seus olhos grandes e profundamente encovados fixos num livro. Ele estava, muito evidentemente, em estado de consunção — muito perto, de facto, de colher o resultado daquele último e mais desesperado remédio, uma longa viagem por mar.

Emmeline Lestrange, a sua pequena sobrinha — de oito anos de idade, uma criatura misteriosa, pequena para a sua idade, com pensamentos próprios, olhos de pupilas dilatadas que pareciam portas para visões, e um rosto que parecia apenas ter espreitado este mundo por um momento antes de ser tão subitamente retirado — sentou-se num canto a acalentar algo nos seus braços, e a balançar-se ao som dos seus próprios pensamentos.

Dick, o filhinho de Lestrange, com oito anos e pouco, estava algures debaixo da mesa. Eram de Boston, a caminho de São Francisco, ou melhor, para o sol e o esplendor de Los Angeles, onde Lestrange tinha comprado uma pequena propriedade, esperando lá desfrutar da vida cujo contrato seria renovado pela longa viagem marítima.

Enquanto ele estava sentado a ler, a porta da cabine abriu-se e apareceu uma forma feminina angular. Era a Sra. Stannard, a hospedeira, e a Sra. Stannard significava hora de dormir.

“Dicky”, disse o Sr. Lestrange, fechando o seu livro e levantando a toalha da mesa alguns centímetros, “hora de dormir.”

“Oh, ainda não, papá!” veio uma voz carregada de sono debaixo da mesa; “ainda não estou pronto. Não quero ir para a cama, eu... Hi yow!”

A Sra. Stannard, que conhecia o seu trabalho, tinha-se baixado debaixo da mesa, agarrado nele pelo pé e puxado-o para fora, a pontapear, a lutar e a choramingar tudo ao mesmo tempo.

Quanto a Emmeline, ela, tendo olhado para cima e reconhecido o inevitável, pôs-se de pé e, segurando a horrível boneca de trapos que estivera a acalentar, com a cabeça para baixo e a balançar numa mão, ficou à espera até que Dicky, após uns últimos berros superficiais, secasse subitamente os olhos e levantasse uma face molhada de lágrimas para o pai beijar. Depois, apresentou solenemente a sua testa ao tio, recebeu um beijo e desapareceu, conduzida pela mão para uma cabine a bombordo do salão.

O Sr. Lestrange voltou ao seu livro, mas não tinha lido muito tempo quando a porta da cabine se abriu e Emmeline, na sua camisola de dormir, reapareceu, segurando um pacote de papel pardo na mão, um pacote com aproximadamente o mesmo tamanho do livro que está a ler.

“A minha caixa”, disse ela; e enquanto falava, segurando-a como se para provar a sua segurança, o rostinho simples mudou para o rosto de um anjo.

Ela tinha sorrido.

Quando Emmeline Lestrange sorria, era absolutamente como se a luz do Paraíso tivesse subitamente brilhado no seu rosto: a forma mais feliz de beleza infantil aparecia subitamente diante dos seus olhos, ofuscava-os — e desaparecia.

Depois, ela desapareceu com a sua caixa, e o Sr. Lestrange retomou o seu livro.

Esta caixa de Emmeline, posso dizer entre parênteses, tinha dado mais trabalho a bordo do navio do que toda a bagagem dos restantes passageiros junta.

Tinha-lhe sido oferecida na sua partida de Boston por uma amiga, e o que continha era um segredo obscuro para todos a bordo, exceto para a sua dona e o seu tio; ela era uma mulher, ou, pelo menos, o princípio de uma mulher, contudo, guardava este segredo para si própria — um facto que a senhora fará o favor de notar.

O problema da coisa era que era frequentemente perdida. Suspeitando de si própria, talvez, como uma sonhadora pouco prática num mundo cheio de ladrões, ela carregava-a consigo para segurança, sentava-se atrás de um cabo enrolado e caía num estado de abstração: era chamada à vida pelas evoluções da tripulação a tomar rizes ou a dobrar velas ou o que fosse, levantava-se para supervisionar as operações — e então descobria subitamente que tinha perdido a sua caixa.

Então, ela assombrava absolutamente o navio. De olhos arregalados e rosto angustiado, vagueava de um lado para o outro, espreitando na cozinha, espreitando pelo alçapão de vante, nunca proferindo uma palavra ou lamento, procurando como um fantasma inquieto, mas muda.

Ela parecia envergonhada de contar a sua perda, envergonhada de deixar que alguém soubesse dela; mas todos sabiam dela assim que a viam, para usar a expressão do Sr. Button, “a vaguear”, e todos a procuravam.

Estranhamente, era Paddy Button quem geralmente a encontrava. Ele, que estava sempre a fazer a coisa errada aos olhos dos homens, geralmente fazia a coisa certa aos olhos das crianças. As crianças, de facto, quando conseguiam chegar ao Sr. Button, iam ter com ele de bom grado. Ele era tão atraente para elas como um espetáculo de Punch e Judy ou uma banda alemã — quase.

O Sr. Lestrange, depois de algum tempo, fechou o livro que estava a ler, olhou em redor e suspirou.

A cabine do Northumberland era um lugar suficientemente alegre, atravessada pelo mastro do traquete polido, alcatifada com um tapete Axminster e adornada com espelhos embutidos no painel de pinho branco. Lestrange estava a encarar o reflexo do seu próprio rosto num destes espelhos fixado exatamente em frente de onde ele estava sentado.

A sua emaciação era terrível, e foi talvez exatamente neste momento que ele reconheceu pela primeira vez o facto de que não devia apenas morrer, mas morrer em breve.

Ele afastou-se do espelho e sentou-se por algum tempo com o queixo apoiado na mão e os olhos fixos numa mancha de tinta na toalha da mesa; depois levantou-se e, atravessando a cabine, subiu laboriosamente a escada para o convés.

Ao apoiar-se contra o parapeito para recuperar o fôlego, o esplendor e a beleza da noite do Sul atingiram-no no coração com uma pontada cruel. Ele sentou-se numa cadeira de convés e olhou para a Via Láctea, aquele grande arco triunfal construído de sóis que a aurora varreria como um sonho.

Na Via Láctea, perto do Cruzeiro do Sul, ocorre um terrível abismo circular, o Saco de Carvão. É tão nitidamente definido, tão sugestivo de uma caverna vazia e sem fundo, que a contemplação do mesmo aflige a mente imaginativa com vertigem. A olho nu, é tão negro e tão lúgubre como a morte, mas o menor telescópio revela-o belo e populoso de estrelas.

Os olhos de Lestrange viajaram deste mistério para a cruz ardente, e para as estrelas inomináveis e inumeráveis que chegavam à linha do mar, onde empalideciam e desapareciam na luz da lua nascente. Depois, tornou-se consciente de uma figura a passear no convés de ré. Era o “Velho”.

Um capitão de mar é sempre o “velho”, independentemente da sua idade. A idade do Capitão Le Farge poderia ser quarenta e cinco anos. Ele era um marinheiro do tipo Jean Bart, de ascendência francesa, mas um americano naturalizado.

“Não sei para onde foi o vento”, disse o capitão ao aproximar-se do homem na cadeira de convés. “Acho que abriu um buraco no firmamento e escapou-se para algures para lá do horizonte.”

“Tem sido uma viagem longa”, disse Lestrange; “e estou a pensar, Capitão, que será uma viagem muito longa para mim. O meu porto não é São Francisco; sinto-o.”

“Não pense nesse tipo de coisas”, disse o outro, sentando-se numa cadeira ali perto. “Não há qualquer utilidade em prever o tempo com um mês de antecedência. Agora que estamos em latitudes quentes, o seu barómetro subirá de forma constante, e estará tão bem e animado como qualquer um de nós antes de chegarmos aos Portões Dourados.”

“Estou a pensar nas crianças”, disse Lestrange, parecendo não ouvir as palavras do capitão. “Caso me aconteça alguma coisa antes de chegarmos ao porto, gostaria que fizesse algo por mim. É apenas isto: disponha do meu corpo sem... sem que as crianças saibam. Tem estado na minha mente pedir-lhe isto há alguns dias. Capitão, aquelas crianças não sabem nada sobre a morte.”

Le Farge moveu-se inquieto na sua cadeira.

“A mãe da pequena Emmeline morreu quando ela tinha dois anos. O pai dela — o meu irmão — morreu antes de ela nascer. Dicky nunca conheceu uma mãe; ela morreu a dar-lhe à luz. Meu Deus, Capitão, a morte colocou uma mão pesada sobre a minha família; pode admirar-se por eu ter escondido o próprio nome dela daquelas duas criaturas que amo!”

“Sim, sim”, disse Le Farge, “é triste! é triste!”

“Quando eu era muito criança”, continuou Lestrange, “uma criança não mais velha que o Dicky, a minha ama costumava aterrorizar-me com histórias sobre pessoas mortas. Disseram-me que iria para o inferno quando morresse se não fosse uma boa criança. Não lhe sei dizer o quanto isso envenenou a minha vida, pois os pensamentos que pensamos na infância, Capitão, são os pais dos pensamentos que pensamos quando somos adultos. E pode um pai doente... ter filhos saudáveis?”

“Suponho que não.”

“Então, eu disse apenas, quando estas duas criaturas minúsculas ficaram ao meu cuidado, que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para as proteger dos terrores da vida — ou melhor, devo dizer, do terror da morte. Não sei se fiz bem, mas fiz pelo melhor. Elas tinham um gato, e um dia o Dicky veio ter comigo e disse: ‘Pai, a gatinha está no jardim a dormir e não consigo acordá-la’. Então, levei-o apenas para um passeio; havia um circo na cidade, e levei-o lá. Isso ocupou tanto a sua mente que ele se esqueceu completamente da gata. No dia seguinte, perguntou por ela. Não lhe disse que estava enterrada no jardim, disse apenas que ela deve ter fugido. Numa semana, ele tinha esquecido tudo sobre ela — as crianças esquecem-se rapidamente.”

“Sim, isso é verdade”, disse o capitão do navio. “Mas parece-me que têm de aprender a certa altura que têm de morrer.”

“Caso eu pague a pena antes de chegarmos a terra, e seja lançado naquele mar grande e vasto, não gostaria que os sonhos das crianças fossem assombrados pelo pensamento: diga-lhes apenas que fui para outro navio. Irá levá-las de volta a Boston; tenho aqui, numa carta, o nome de uma senhora que cuidará delas. O Dicky estará bem, no que diz respeito aos bens mundanos, e a Emmeline também. Diga-lhes apenas que fui para outro navio — as crianças esquecem-se rapidamente.”

“Farei o que me pede”, disse o marinheiro.

A lua estava agora acima do horizonte, e o Northumberland jazia à deriva num rio de prata. Cada mastro era distinto, cada lais nas grandes velas, e os convés jaziam como espaços de geada cortados por sombras negras como ébano.

Enquanto os dois homens se sentavam sem falar, pensando nos seus próprios pensamentos, uma pequena figura branca emergiu do alçapão do salão. Era Emmeline. Ela era uma sonâmbula profissional — uma mestra na arte.

Mal tinha ela entrado no mundo dos sonhos, já tinha perdido a sua preciosa caixa, e agora estava a caçá-la pelos convés do Northumberland.

O Sr. Lestrange pôs o dedo nos lábios, tirou os sapatos e seguiu-a silenciosamente. Ela procurou atrás de uma bobina de corda, tentou abrir a porta da cozinha; para lá e para cá vagueou, com olhos arregalados e rosto perturbado, até que finalmente, à sombra do galinheiro, encontrou o seu tesouro visionário. Depois voltou, segurando a sua pequena camisola de dormir com uma mão, para não tropeçar, e desapareceu pela escada do salão muito apressadamente, como se estivesse ansiosa por voltar para a cama, com o seu tio logo atrás, com uma mão estendida para a apanhar caso ela tropeçasse.

CAPÍTULO III

A SOMBRA E O FOGO

Era o quarto dia da longa calmaria. Um toldo tinha sido montado na popa para os passageiros, e debaixo dele sentou-se Lestrange, tentando ler, e as crianças tentando brincar. O calor e a monotonia tinham reduzido até o Dicky a apenas uma massa carrancuda, lânguida em movimento como uma larva. Quanto a Emmeline, parecia atordoada. A boneca de trapos jazia a um metro de distância dela no convés da popa sem ser acalentada; até mesmo da desgraçada caixa e do seu paradeiro ela parecia ter-se esquecido completamente.

“Papai!” gritou de repente Dick, que tinha subido e estava a olhar por cima do parapeito de ré.

“Quê?”

“Peixe!”

Lestrange levantou-se, veio para a ré e olhou por cima do parapeito.

Lá em baixo, no verde vago da água, algo se movia, algo pálido e comprido — uma forma horrível. Desapareceu; e ainda outra veio, aproximou-se da superfície e exibiu-se mais plenamente. Lestrange viu os seus olhos, viu a barbatana escura e todo o comprimento hediondo da criatura; um calafrio percorreu-o enquanto abraçava o Dicky.

“Não é fixe?” disse a criança. “Acho, papai, que o puxaria para bordo se tivesse um anzol. Por que não tenho um anzol, papai? — por que não tenho um anzol, papai? — Ai, você está a apertar-me!”

Algo puxou o casaco de Lestrange: era Emmeline — ela também queria ver. Ele levantou-a nos seus braços; o seu rostinho pálido espreitou por cima do parapeito, mas não havia nada para ver: as formas de terror tinham desaparecido, deixando as profundezas verdes imperturbadas e imaculadas.

“Como é que eles se chamam, papai?” insistiu Dick, enquanto o seu pai o tirava do parapeito e o levava de volta para a cadeira.

“Tubarões”, disse Lestrange, cujo rosto estava coberto de suor.

Ele pegou no livro que estivera a ler — era um volume de Tennyson — e sentou-se com ele nos joelhos, olhando para o convés principal branco e ensolarado, barrado com as sombras brancas do cordame.

O mar tinha-lhe revelado uma visão. Poesia, Filosofia, Beleza, Arte, o amor e a alegria da vida — seria possível que estas existissem no mesmo mundo que aqueles?

Ele olhou para o livro sobre os seus joelhos e contrastou as coisas belas que nele havia e de que se lembrava com as coisas terríveis que tinha acabado de ver, as coisas que esperavam pelo seu alimento debaixo da quilha do navio.

Eram três badaladas — três e meia da tarde — e o sino do navio tinha acabado de tocar. A hospedeira apareceu para levar as crianças para baixo; e enquanto elas desapareciam pela escada do salão, o Capitão Le Farge veio para a ré, para a popa, e ficou por um momento a olhar para o mar a bombordo, onde um banco de nevoeiro tinha surgido de repente como o espectro de um país.

“O sol escureceu um pouco”, disse ele; “quase consigo olhar para ele. O barómetro está estável o suficiente — há um nevoeiro a aproximar-se — alguma vez viu um nevoeiro do Pacífico?”

“Não, nunca.”

“Bem, não vai querer ver outro”, respondeu o marinheiro, protegendo os olhos com a mão e fixando-os na linha do horizonte. A linha do mar a estibordo tinha perdido um pouco da sua nitidez, e sobre o dia uma sombra quase impercetível tinha-se infiltrado.

O capitão desviou-se subitamente da sua contemplação do mar e do céu, levantou a cabeça e cheirou.

“Algo está a arder em algum lado — sente o cheiro? Parece-me um tapete velho ou algo do género. É aquele criado da cozinha, talvez; se não está a partir vidro, está a entornar candeeiros e a queimar buracos no tapete. Valha-me Deus, preferia ter uma dúzia de Mary Anns e as suas pás do lixo por aqui do que um criado tolo como o Jenkins.” Ele foi até à escotilha do salão. “Abaixo aí!”

“Sim, senhor.”

“O que está a queimar?”

“Não estou a queimar nada, senhor.”

“Digo-lhe, sinto o cheiro!”

“Não há nada a arder aqui, senhor.”

“Também não há, é tudo no convés. Algo na cozinha, talvez — trapos, muito provavelmente, que atiraram para o fogo.”

“Capitão!” disse Lestrange.

“Sim, sim.”

“Venha aqui, por favor.”

Le Farge subiu para a popa.

“Não sei se é a minha fraqueza que está a afetar os meus olhos, mas parece-me haver algo de estranho no mastro principal.”

O mastro principal perto de onde entrava no convés, e por alguma distância acima, parecia estar em movimento — um movimento em saca-rolhas muito estranho de observar do abrigo do toldo.

Este movimento aparente era causado por uma névoa espiral de fumo tão vaga que só se podia constatar a sua existência pelo tremor, semelhante a uma miragem, do mastro em torno do qual ela se enrolava.

“Meu Deus!” gritou Le Farge, enquanto saltava da popa e corria para a frente.

Lestrange seguiu-o lentamente, parando a cada momento para agarrar o parapeito e ofegar por ar. Ouviu as notas agudas, semelhantes a pássaros, do apito do contramestre. Viu os homens a emergir do castelo de proa, como abelhas de uma colmeia; observou-os a cercar a escotilha principal. Viu a lona e as barras de bloqueio serem removidas. Viu a escotilha ser aberta e uma explosão de fumo — fumo negro e vil — ascender ao céu, sólida como uma pluma no ar sem vento.

Lestrange era um homem de temperamento altamente nervoso, e é precisamente este tipo de homem que mantém a calma numa emergência, enquanto o indivíduo equilibrado e fleumático perde o equilíbrio. O seu primeiro pensamento foi para as crianças, o segundo para os botes.

No bater ao largo do Cabo Horn, o Northumberland perdeu vários dos seus botes. Restavam o bote grande, um bote de bombordo e o escaler. Ele ouviu a voz de Le Farge a ordenar que a escotilha fosse fechada e as bombas tripuladas, de modo a inundar o porão; e, sabendo que não podia fazer nada no convés, dirigiu-se tão rapidamente quanto podia para a escada do salão.

A Sra. Stannard estava a sair da cabine das crianças.

“As crianças estão deitadas, Sra. Stannard?” perguntou Lestrange, quase sem fôlego devido à agitação e ao esforço dos últimos minutos.

A mulher olhou para ele com olhos assustados. Ele parecia o próprio arauto do desastre.

“Porque se estão, e a senhora despiu-as, então tem de lhes vestir a roupa novamente. O navio está em chamas, Sra. Stannard.”

“Meu Deus, senhor!”

“Ouça!” disse Lestrange.

De uma distância, fino e lúgubre como o choro das gaivotas numa praia desolada, vinha o clangor das bombas.

CAPÍTULO IV

E COMO UM SONHO DISSOLVIDO

Antes que a mulher tivesse tempo de falar, um passo trovejante foi ouvido na escada do salão, e Le Farge irrompeu pelo salão dentro. O rosto do homem estava injetado de sangue, os seus olhos estavam fixos e vítreos como os olhos de um bêbado, e as veias saltavam nas suas têmporas como cordas retorcidas.

“Preparem essas crianças!” gritou ele, enquanto corria para a sua própria cabine. “Preparem-se todas — os botes estão a ser baixados e abastecidos. Inferno! onde estão esses documentos?”

Eles ouviram-no a procurar furiosamente e a recolher coisas na sua cabine — os documentos do navio, contas, coisas às quais o capitão se agarra como se agarra à vida; e enquanto procurava, encontrava e empacotava, continuava a bramar ordens para que as crianças fossem levadas para o convés. Meio louco parecia ele, e meio louco estava com o conhecimento da coisa terrível que estava guardada no meio da carga.

No convés, a tripulação, sob a direção do imediato, trabalhava de forma ordenada e com vontade, totalmente inconsciente de que houvesse algo debaixo dos seus pés que não uma carga comum a arder. As coberturas tinham sido retiradas dos botes, barris de água e sacos de biscoitos colocados neles. O escaler, o mais pequeno dos botes e o mais fácil de libertar, estava pendurado nas turcas de popa de bombordo, ao nível do parapeito; e Paddy Button estava no ato de arrumar um barril de água nele, quando Le Farge irrompeu no convés, seguido pela hospedeira que carregava Emmeline, e o Sr. Lestrange a conduzir Dick. O escaler era um bote um pouco maior que o escaler comum dos navios e possuía um pequeno mastro e uma vela comprida. Dois marinheiros estavam prontos para manobrar os cabos, e Paddy Button estava a virar-se para caminhar para a frente novamente quando o capitão o agarrou.

“Para dentro do escaler, você”, gritou ele, “e reme estas crianças e o passageiro para longe do navio, uma milha — duas milhas — três milhas — afaste-se.”

“Com certeza, Capitão querido, deixei o meu violino no...”

Le Farge deixou cair o embrulho de coisas que segurava debaixo do braço esquerdo, agarrou o velho marinheiro e empurrou-o contra o parapeito, como se pretendesse atirá-lo ao mar através do parapeito.

No momento seguinte, o Sr. Button estava no bote. Emmeline foi-lhe entregue, pálida de rosto e de olhos arregalados, e agarrando algo embrulhado num pequeno xale; depois Dick, e então o Sr. Lestrange foi ajudado a passar.

“Não há espaço para mais!” gritou Le Farge. “O seu lugar será no bote grande, Sra. Stannard, se tivermos de abandonar o navio. Baixem, baixem!”

O bote desceu em direção ao mar azul e calmo, beijou-o e estava a flutuar.

Ora, o Sr. Button, antes de se juntar ao navio em Boston, tinha passado um bom bocado a vadiar pelo cais, não tendo dinheiro para se divertir numa taberna. Ele tinha visto algo do carregamento do Northumberland, e ouvido mais de um estivador. Mal tinha largado os cabos e agarrado nos remos, o seu conhecimento despertou na sua mente, vivo e macabro. Ele deu um grito que trouxe os dois marinheiros a debruçarem-se sobre o lado.

“Rapazes!”

“Sim, senhor!”

“Corram pelas vossas vidas — acabei de me lembrar — há dois barris de pólvora de explosão no porão!”

Depois ele debruçou-se sobre os seus remos, como nenhum homem jamais se debruçou antes.

Lestrange, sentado na popa a abraçar Emmeline e Dick, não viu nada por um momento depois de ouvir estas palavras. As crianças, que nada sabiam sobre pólvora de explosão ou os seus efeitos, embora meio assustadas por toda a agitação, ainda estavam divertidas e satisfeitas por se encontrarem no pequeno bote tão perto do mar azul e bonito.

Dick pôs o dedo na água, fazendo uma pequena onda (a experiência mais deliciosa da infância). Emmeline, com uma mão agarrada à do seu tio, observava o Sr. Button com um tipo de prazer grave e meio sentido.

Ele era certamente um espetáculo que valia a pena observar. A sua alma estava cheia de tragédia e terror. A sua imaginação celta ouvia o navio a explodir, via-se a si mesmo e ao pequeno escaler reduzidos a pedaços — não, via-se no inferno, a ser assado pelos “diabos”.

Mas a tragédia e o terror não conseguiam encontrar espaço para se expressarem no seu rosto, fosse ele afortunado ou desafortunado. Ele bufava e soprava, inchando as bochechas para o céu enquanto puxava os remos, fazendo cento e uma caretas — tudo fruto da agonia de espírito, mas nada expressando-a. Atrás ficava o navio, uma imagem não desprovida do seu lado mais leve. O bote grande e o bote de bombordo, baixados com pressa e levados pelo mar pela misericórdia da Providência, flutuavam ao lado do Northumberland.

Do navio, os homens atiravam-se borda fora como ratos de água, nadando no mar como patos, trepando para bordo dos botes de qualquer maneira.

Da escotilha principal entreaberta, o fumo negro, misturado agora com faíscas, subia constante, veloz e maldoso, como se fosse expelido através dos dentes semicerrados de um dragão.

A uma milha de distância, além do Northumberland, erguia-se o banco de nevoeiro. Parecia sólido, como um vasto país que se tivesse construído de forma súbita e estranha sobre o mar — um país onde nenhum pássaro cantava e nenhuma árvore crescia. Um país com penhascos brancos e precipitados, sólidos à vista como os penhascos de Dover.

“Estou exausto!” ofegou subitamente o remador, descansando os punhos dos remos debaixo da dobra dos joelhos e curvando-se como se se preparasse para dar uma cabeçada nos passageiros na popa. “Exploda ou não exploda, estou exausto — não me peçam, estou exausto!”

O Sr. Lestrange, branco como um fantasma, mas recuperado um pouco do seu primeiro horror, deu ao Exausto tempo para se recuperar e virou-se para olhar para o navio. Parecia a uma grande distância, e os botes, bem longe dele, dirigiam-se a um ritmo furioso em direção ao escaler. Dick ainda brincava com a água, mas os olhos de Emmeline estavam inteiramente ocupados com Paddy Button. Coisas novas eram sempre de vasto interesse para a sua mente contemplativa, e estas evoluções do seu velho amigo eram eminentemente novas.

Ela tinha-o visto a lavar os conveses, tinha-o visto a dançar uma giga, tinha-o visto a andar pelo convés principal de gatas com Dick às costas, mas nunca o tinha visto a portar-se assim antes.

Ela percebeu agora que ele estava exausto e preocupado com algo, e, metendo a mão no bolso do vestido, procurou algo que sabia estar lá. Ela tirou uma tangerina e, debruçando-se para a frente, tocou na cabeça do Exausto com ela.

O Sr. Button levantou a cabeça, olhou vago por um segundo, viu a laranja oferecida, e à vista dela o pensamento das “crianças” e da sua inocência, de si mesmo e da pólvora de explosão, limpou o seu juízo atordoado, e ele voltou aos remos novamente.

“Papai”, disse Dick, que esteve a olhar para a ré, “há nuvens perto do navio.”

Num espaço de tempo incrivelmente curto, os penhascos sólidos de nevoeiro tinham-se rompido. O vento fraco que os tinha acumulado tinha-os perfurado, e estava agora a fazer desenhos e figuras deles, muito maravilhosos e estranhos de ver. Cavaleiros de névoa cavalgavam sobre a água, e eram dissolvidos; ondas rolavam no mar, mas não eram do mar; mantas e espirais de vapor ascendiam ao alto céu. E tudo com um terrível langor de movimento. Vasto e preguiçoso e sinistro, contudo firme de propósito como o Destino ou a Morte, o nevoeiro avançou, tomando o mundo para si.

Contra este fundo cinzento e indescritivelmente sombrio estava o navio fumegante com a brisa já a fazer tremer as suas velas, e o fumo da sua escotilha principal a soprar e a acenar como se para os botes em retirada.

“Por que é que o navio está a fumar assim?” perguntou Dick. “E olhe para aqueles botes a vir — quando é que vamos voltar, papai?”

“Tio”, disse Emmeline, metendo a mão na dele, enquanto ela olhava para o navio e para além dele, “estou com medo.”

“O que te assusta, Emmy?” perguntou ele, puxando-a para si.

“Formas”, respondeu Emmeline, aninhando-se ao seu lado.

“Oh, glória a Deus!” ofegou o velho marinheiro, descansando subitamente nos seus remos. “Olhem para o nevoeiro que está a vir...”

“Acho que é melhor esperarmos aqui pelos botes”, disse o Sr. Lestrange; “estamos suficientemente longe para estarmos seguros se... acontecer alguma coisa.”

“Sim, senhor”, respondeu o remador, cujo juízo tinha regressado. “Exploda ou não, ela não nos atingirá daqui.”

“Papai”, disse Dick, “quando vamos voltar? Quero o meu chá.”

“Não vamos voltar, meu filho”, respondeu o seu pai. “O navio está em chamas; estamos à espera de outro navio.”

“Onde está o outro navio?” perguntou a criança, olhando em redor para o horizonte que estava limpo.

“Não o podemos ver ainda”, respondeu o homem infeliz, “mas ele virá.”

O bote grande e o bote de bombordo aproximavam-se lentamente. Pareciam besouros a rastejar sobre a água, e atrás deles, através da superfície cintilante, veio uma opacidade que tirou o brilho do mar — uma opacidade que varreu e se espalhou como a sombra de um eclipse.

Agora o vento atingiu o escaler. Era como um vento do país das fadas, quase impercetível, frio, e a obscurecer o sol. Um vento de Liliput. Assim que atingiu o escaler, o nevoeiro apanhou o navio distante.

Foi um espetáculo extraordinário, pois em menos de trinta segundos o navio de madeira tornou-se um navio de gaze, um traçado — tremeluziu e desapareceu para sempre da vista do homem.

CAPÍTULO V

VOZES OUVIDAS NA NÉVOA

O sol tornou-se ainda mais fraco e desapareceu. Embora o ar em redor do escaler parecesse bastante limpo, os botes que se aproximavam estavam nebulosos e ténues, e aquela parte do horizonte que estava bastante clara estava agora apagada.

O bote grande liderava por uma boa distância. Quando estava ao alcance da voz, a voz do capitão chegou.

“Escaler, à vista!”

“À vista!”

“Venha para junto de nós!”

O bote grande cessou de remar para esperar pelo bote de bombordo que se aproximava lentamente. Era um bote pesado de puxar em qualquer altura, e agora estava sobrecarregado.

A ira do Capitão Le Farge para com Paddy Button pela forma como ele tinha provocado a debandada da tripulação era profunda, mas ele não teve tempo de lhe dar vazão.

“Aqui, venha a bordo, Sr. Lestrange!” disse ele, quando o escaler estava junto; “temos lugar para um. A Sra. Stannard está no bote de bombordo, e está sobrelotado; é melhor ela vir para o escaler, pois pode cuidar das crianças. Vamos, depressa, a névoa está a descer sobre nós rapidamente. À vista!” — para o bote de bombordo — “depressa, depressa!”

O bote de bombordo tinha desaparecido subitamente.

O Sr. Lestrange subiu para o bote grande. Paddy empurrou o escaler alguns metros para longe com a ponta de um remo, e depois descansou nos seus remos à espera.

“À vista! à vista!” gritou Le Farge.

“À vista!” veio do banco de nevoeiro.

No momento seguinte, o bote grande e o escaler desapareceram da vista um do outro: o grande banco de nevoeiro tinha-os levado.

Ora, um par de remadas do remo de bombordo teria trazido o Sr. Button para junto do bote grande, tão perto ele estava; mas o bote de bombordo estava na sua mente, ou melhor, na sua imaginação, por isso o que ele fez senão dar três remadas poderosas na direção em que supunha que o bote de bombordo estivesse.

O resto foram vozes.

“Escaler, à vista!”

“À vista!”

“À vista!”

“Não gritem todos juntos, ou não saberei para que lado remar. Bote de bombordo, à vista! onde estão vocês?”

“Leme a bombordo!”

“Sim, senhor!” — colocando o seu leme, por assim dizer, a estibordo — “Estarei convosco num minuto — dois ou três minutos de remada forte.”

“À vista!” — muito mais fraco.

“Que querem dizer ao remar para longe de mim?” — uma dúzia de remadas.

“À vista!” — mais fraco ainda.

O Sr. Button descansou nos seus remos.

“O diabo os leve — creio que foi o bote grande a gritar.”

Ele voltou aos seus remos e remou vigorosamente.

“Paddy”, veio a pequena voz de Dick, aparentemente do nada, “onde estamos agora?”

“Com certeza, estamos num nevoeiro; onde mais estaríamos? Não tenhas medo.”

“Não tenho medo, mas a Em está a tremer.”

“Dá-lhe o meu casaco”, disse o remador, descansando nos seus remos e tirando-o. “Envolve-a nele; e quando ela estiver envolvida, vamos todos dar um grande grito juntos. Há um xale velho algures no bote, mas não posso estar a procurá-lo agora.”

Ele estendeu o casaco e uma mão quase invisível pegou nele; no mesmo momento, um estrondo tremendo abalou o mar e o céu.

“Lá vai ela”, disse o Sr. Button; “e o meu velho violino e tudo. Não se assustem, crianças; é apenas um canhão que eles estão a disparar por diversão. Agora vamos todos gritar juntos — estão prontos?”

“Sim, senhor”, disse Dick, que era um aprendiz de termos marítimos.

“Gritem!” berrou Pat.

“Gritem! Gritem!” pipilaram Dick e Emmeline.

Uma resposta fraca veio, mas de onde, era difícil dizer. O velho remou algumas remadas e depois pausou nos remos. Tão imóvel estava a superfície do mar que o borbulhar da água na proa do bote, à medida que avançava sob o impulso da última remada poderosa, podia ser ouvido distintamente. Morreu à medida que ela perdia velocidade, e o silêncio fechou-se em torno deles como um anel.

A luz de cima, uma luz que parecia vir através de uma vasta escotilha de vidro profundamente fosco, ténue embora fosse, quase até à extinção, ainda variava à medida que o pequeno bote flutuava através dos estratos da névoa.

Um grande nevoeiro marítimo não é homogéneo — a sua densidade varia: está repleto de ruas, tem as suas cavernas de ar claro, os seus penhascos de vapor sólido, tudo a mudar e a trocar de lugar com a subtileza do prestidigitador. Tem também esta peculiaridade mágica, que cresce com o pôr do sol e a aproximação da escuridão.

O sol, se eles o pudessem ter visto, estava agora a deixar o horizonte.

Eles chamaram novamente. Depois esperaram, mas não houve resposta.

“Não vale a pena berrar como touros para gajos que são surdos como víboras”, disse o velho marinheiro, recolhendo os seus remos; imediatamente após a qual declaração ele deu outro grito, com o mesmo resultado no que toca a obter uma resposta.

“Sr. Button!” veio a voz de Emmeline.

“Que é, querida?”

“Estou—est—estou com medo.”

“Espera um minuto até eu encontrar o xale — aqui está ele, por sinal! — e eu vou embrulhar-te nele.”

Ele rastejou cautelosamente para a popa e tomou Emmeline nos braços.

“Não quero o xale”, disse Emmeline; “não tenho tanto medo no teu casaco.” O casaco velho, áspero e com cheiro a tabaco, dava-lhe coragem de alguma forma.

“Bem, então, fica com ele. Dicky, estás com frio?”

“Vesti o sobretudo do papá; ele deixou-o para trás.”

“Bem, então, vou pôr o xale nos meus próprios ombros, porque é de frio que eu estou. Têm fome, crianças?”

“Não”, disse Dick, “mas estou terrivelmente—Hi—yow——”

“Com sono, é? Bem, desce para o fundo do barco, e aqui tens o xale para almofada. Vou remar novamente num minuto para me manter quente.”

Ele abotoou o botão superior do casaco.

“Estou bem”, murmurou Emmeline com uma voz sonhadora.

“Fecha os olhos com força”, respondeu o Sr. Button, “ou o Billy Winker vai soprar areia para dentro deles.

“’Shoheen, shoheen, shoheen, shoheen, Sho-hu-lo, sho-hu-lo. Shoheen, shoheen, shoheen, shoheen, Hush a by the babby O.’”

Era o resto de uma velha canção de embalar folclórica que cantam nas choupanas da costa de Achill, fixada na sua memória, juntamente com a chuva, o vento, o cheiro da turfa a arder, o grunhido do porco e o bater rítmico de um berço de baloiço.

“Ela adormeceu”, murmurou o Sr. Button para si mesmo, à medida que a forma nos seus braços relaxava. Depois, deitou-a suavemente ao lado de Dick. Ele deslocou-se para a frente, movendo-se como um caranguejo. Depois, levou a mão ao bolso à procura do seu cachimbo, tabaco e caixa de isqueiro. Estavam no bolso do casaco, mas Emmeline estava dentro do casaco. Procurá-los seria acordá-la.

A escuridão da noite juntava-se agora à cegueira do nevoeiro. O remador não conseguia ver nem os toletes. Ficou à deriva, de mente e corpo. Estava, para usar a sua própria expressão, “atordoado”. Assombrado pela névoa, atormentado por “vultos”.

Era precisamente num nevoeiro como este que se podia ouvir os Merrows a divertirem-se na baía de Dunbeg e ao largo da costa de Achill. Divertindo-se, rindo e gritando através da névoa, para desencaminhar pescadores infelizes.

Os Merrows não são inteiramente maus, mas têm cabelo e dentes verdes, caudas de peixe e barbatanas como braços; e ouvir o seu chapinhar na água à nossa volta como salmões, estando sozinhos num pequeno barco, com o medo de que um venha a debater-se a bordo, é o suficiente para tornar o cabelo de um homem grisalho.

Por um momento, pensou em acordar as crianças para lhe fazerem companhia, mas sentiu vergonha. Depois, voltou aos remos e remou “pelo sentir da água”. O chiar dos remos era como a voz de um companheiro, o exercício acalmou os seus medos. De vez em quando, esquecido das crianças a dormir, dava um grito e parava para ouvir. Mas nenhuma resposta vinha.

Depois, continuou a remar, com remadas longas, firmes e laboriosas, cada uma levando-o cada vez mais longe dos barcos que ele estava destinado a nunca mais ver.

CAPÍTULO VI

O AMANHECER NUM MAR VASTO, VASTO

“Será que adormeci?” disse o Sr. Button, acordando subitamente com um sobressalto.

Ele tinha recolhido os remos apenas para um minuto de descanso. Deve ter dormido durante horas, pois agora, eis! um vento quente e suave soprava, a lua brilhava e o nevoeiro tinha desaparecido.

“Será que estive a sonhar?” continuou o homem que acordara. “Onde estou eu, enfim? O musha! Pois, aqui estou eu. O wirra! wirra! Sonhei que tinha adormecido na escotilha principal e que o navio explodira com pólvora, e tudo se tornou verdade.”

“Sr. Button!” veio uma vozinha da popa (a de Emmeline).

“Que é, querida?”

“Onde estamos agora?”

“Pois, estamos a flutuar no mar, acushla; onde mais estaríamos?”

“Onde está o tio?”

“Ele está ali, além, no bote — ele estará atrás de nós num minuto.”

“Quero beber.”

Ele encheu uma caneca de lata que estava junto do barril de água e deu-lhe de beber. Depois, tirou o cachimbo e o tabaco do bolso do casaco.

Ela quase imediatamente voltou a adormecer ao lado de Dick, que não se mexera nem movera; e o velho marinheiro, pondo-se de pé e equilibrando-se, lançou os olhos à volta do horizonte. Não havia sinal de vela ou barco em todo o mar banhado pelo luar.

Da baixa elevação de um barco aberto, tem-se um horizonte muito pequeno, e no vago mundo do luar, algures à volta, era possível que os barcos estivessem perto o suficiente para aparecerem ao raiar do dia.

Mas barcos abertos separados por alguns quilómetros podem ser separados por longas léguas no decorrer de algumas horas. Nada é mais misterioso do que as correntes do mar.

O oceano é um oceano de rios, uns a fluir rapidamente, outros lentos, e a uma légua de onde se está a derivar à velocidade de uma milha por hora, outro barco pode estar a derivar a duas.

Uma brisa leve e quente estava a congelar a água, misturando o luar e o cintilar das estrelas; o oceano parecia um lago, contudo, o continente mais próximo estava talvez a mil milhas de distância.

Os pensamentos da juventude podem ser pensamentos longos, muito longos, mas não mais longos do que os pensamentos deste velho marinheiro a fumar o seu cachimbo sob as estrelas. Pensamentos tão longos quanto o mundo é redondo. Bares ardentes em Callao — portos sobre cujas superfícies oleosas os sampanas deslizavam como besouros de água — as luzes de Macau — as docas de Londres. Dificilmente alguma vez um quadro marinho, puro e simples, pois porque haveria um velho marinheiro de se preocupar em pensar sobre o mar, onde a vida é toda entrar e sair do convés de vante, onde uma viagem se mistura e baralha com outra, onde depois de quarenta e cinco anos a rizar velas de gávea não se consegue bem lembrar de qual navio foi que Jack Rafferty caiu ao mar, ou quem matou quem no convés de vante de quê, embora ainda se possa ver, como num espelho, obscuramente, a luta e o rosto ensanguentado sobre o qual um homem segura uma lâmpada de querosene.

Duvido que Paddy Button pudesse ter dito o nome do primeiro navio em que navegou. Se lhe tivessem perguntado, ele provavelmente teria respondido: “Eu não me lembro; foi para o Báltico, e um tempo cruelmente frio, e eu estava enjoado — até quase deitar as tripas fora; e era ‘Ó por uma Irlanda antiga!’ que eu chorava a toda a hora, e o capitão a marcar-me as costas com a ponta de uma corda ao ritmo disso — mas o nome daquela traineira — eu não me lembro — má sorte para ela, quem quer que fosse!”

Então, ele sentou-se a fumar o seu cachimbo, enquanto as velas do céu ardiam acima dele, e lembrando cenas ruidosas de embriaguez e portos à sombra de palmeiras, e os homens e as mulheres que conhecera — tais homens e tais mulheres! Os náufragos da terra e do oceano. Depois, adormeceu novamente, e quando acordou a lua tinha ido.

Agora, no céu oriental, podia ter-se visto um leque pálido de luz, vago como a asa de uma efeméride. Desapareceu e voltou à escuridão.

Pouco depois, e quase de um só golpe, um lápis de fogo traçou uma linha ao longo do horizonte oriental, e o céu do leste tornou-se mais belo do que uma pétala de rosa colhida em maio. A linha de fogo contraiu-se num ponto crescente, o bordo do sol nascente.

À medida que a luz aumentava, o céu acima tornou-se de um azul impossível de imaginar a menos que visto, um azul pálido, contudo vivo e cintilante como se nascido do pó impalpável das safiras. Então, todo o mar brilhou como a harpa de Apolo tocada pelos dedos do deus. A luz era música para a alma. Era dia.

“Papá!” gritou subitamente Dick, sentando-se à luz do sol e esfregando os olhos com as palmas das mãos abertas. “Onde estamos?”

“Está tudo bem, Dicky, meu filho!” gritou o velho marinheiro, que estivera de pé lançando os olhos à volta numa vã tentativa de avistar os barcos. “O teu papá está tão seguro como se estivesse no céu; ele estará connosco num minuto, e trará outro navio com ele. Então, estás acordado, estás, Em’line?”

Emmeline, sentada no velho casaco de piloto, acenou em resposta sem falar. Outra criança poderia ter acrescentado às perguntas de Dick sobre o seu tio com perguntas próprias, mas ela não o fez.

Teria ela adivinhado que havia algum subterfúgio na resposta do Sr. Button e que as coisas eram diferentes do que ele as estava a pintar? Quem pode dizer?

Ela estava a usar um velho boné de Dick, que a Sra. Stannard, na pressa e confusão, lhe pusera na cabeça. Estava empurrado para um lado, e ela formava uma figurinha bastante pitoresca enquanto se sentava na claridade do início da manhã, vestida com o velho casaco manchado de sal ao lado de Dick, cujo chapéu de palha estava algures no fundo do barco e cujos caracóis ruivos sopravam na brisa fraca.

“Hurroo!” gritou Dick, olhando para a água azul e cintilante, e batendo com uma ripa no fundo do barco. “Vou ser marinheiro, não vou, Paddy? Vais deixar-me velejar o barco, não vais, Paddy, e ensinar-me a remar?”

“Com calma”, disse Paddy, segurando a criança. “Não tenho uma esponja ou toalha, mas vou lavar-te a cara com água salgada e deixar-te secar ao sol.”

Ele encheu a lata de esgoto com água do mar.

“Não quero lavar-me!” gritou Dick.

“Mete a cara na água da lata”, ordenou Paddy. “Não vais andar por aí com a cara como um saco de fuligem, pois não?”

“Mete a tua!” ordenou o outro.

O Sr. Button fê-lo e fez um barulho de borbulhar na água; depois, levantou uma cara molhada e a escorrer, e atirou o conteúdo da lata borda fora.

“Agora perdeste a tua oportunidade”, disse este arqui-estrategista de infantário, “toda a água foi-se.”

“Há mais no mar.”

“Não há mais com que lavar, não até amanhã — os peixes não o permitem.”

“Quero lavar-me”, resmungou Dick. “Quero meter a cara na lata, como tu fizeste; além disso, a Em não se lavou.”

“Não me importo”, murmurou Emmeline.

“Bem, então”, disse o Sr. Button, como que tomando uma resolução súbita, “vou perguntar aos tubarões.” Ele inclinou-se sobre o bordo do barco, com a cara perto da superfície da água. “Olá aí!” gritou ele, e depois inclinou a cabeça de lado para ouvir; as crianças também olharam por cima do bordo, profundamente interessadas.

“Olá aí! Estão a dormir— Ah, aí estão vocês! Aqui está um pirralho com a cara suja, e está com vontade de a lavar; posso levar uma lata de água de— Ah, agradeço a Vossa Senhoria, agradeço a Vossa Senhoria— bom dia para vocês, e os meus respeitos.”

“O que disse o tubarão, Sr. Button?” perguntou Emmeline.

“Ele disse: ‘Leve um barril cheio, e seja bem-vindo, Sr. Button; e sinto muito não ter uma gota da bebida para lhe oferecer nesta bela manhã.’ Depois, meteu a cabeça debaixo da barbatana e voltou a adormecer; pelo menos, ouvi-o ressonar.”

Emmeline quase sempre chamava “Sr. Button” ao seu amigo; por vezes chamava-lhe “Sr. Paddy”. Quanto a Dick, era sempre “Paddy”, puro e simples. As crianças têm as suas próprias etiquetas.

Deve muitas vezes ocorrer aos habitantes da terra que a experiência mais terrível quando se é náufrago no mar num barco aberto é a total ausência de privacidade. Parece um ultraje à decência por parte da Providência amontoar as pessoas assim. Mas, qualquer pessoa que tenha passado pela experiência confirmar-me-á que, em grandes momentos da vida como este, a mente humana expande-se, e coisas que nos chocariam em terra não são nada lá fora, face a face com a eternidade.

Se assim é com os adultos, quanto mais com este velho lobo do mar e os seus dois protegidos?

E, de facto, o Sr. Button era uma pessoa que chamava aos bois nomes, não tinha mais convenções do que uma morsa, e cuidava dos seus dois protegidos tal como uma ama poderia cuidar dos seus protegidos, ou uma morsa das suas crias.

Havia um grande saco de bolachas no barco, e algumas latas — principalmente sardinhas.

Conheci um marinheiro que abriu uma lata de sardinhas com um prego. Ele estava na prisão, as sardinhas tinham-lhe sido passadas a medo, e ele não tinha abre-latas. Apenas o seu génio e um prego.

Paddy tinha um canivete, contudo, e num tempo maravilhosamente curto uma lata de sardinhas foi aberta e colocada na popa ao lado de algumas bolachas.

Estas, com um pouco de água e a laranja Tangerina de Emmeline, que ela produziu e adicionou à reserva comum, formaram o banquete, e eles puseram-se a comer.

Quando terminaram, os restos foram cuidadosamente guardados, e eles procederam a montar o pequeno mastro.

O marinheiro, quando o mastro estava no seu lugar, ficou por um momento a descansar a mão sobre ele, e a olhar à sua volta para o vasto e mudo azul.

O Pacífico tem três azuis: o azul da manhã, o azul do meio-dia e o azul da noite. Mas o azul da manhã é o mais feliz: a coisa mais feliz em cor — cintilante, vaga, recém-nascida — o azul do céu e da juventude.

“O que estás à procura, Paddy?” perguntou Dick.

“Gaivotas”, respondeu o mentiroso; depois para si mesmo: “Nem um sinal ou som delas! Musha! musha! para que lado vou navegar — norte, sul, este ou oeste? É tudo a mesma coisa, pois se navegar para este, eles podem estar a oeste; e se navegar para oeste, eles podem estar a este; e não posso navegar para oeste, porque estaria a navegar contra o vento. Este seja; vou fazer um vento de través e confiar na sorte.”

Ele ajustou a vela e foi para a popa com a escota. Depois, deslocou o leme, acendeu um cachimbo, inclinou-se luxuosamente para trás e entregou a vela inchada à brisa suave.

Era parte da sua profissão, parte da sua natureza, que, navegando, talvez, diretamente para a morte por inanição e sede, ele estivesse tão despreocupado como se estivesse a levar as crianças para um passeio de verão. A sua imaginação lidava pouco com o futuro; quase inteiramente influenciada pelo que o rodeava, não conseguia conjurar medos da cena agora diante de si. As crianças eram iguais.

Nunca houve um começo mais feliz, mais alegria num pequeno barco. Durante o pequeno-almoço, o marinheiro tinha dado a entender aos seus protegidos que, se Dick não encontrasse o seu pai e Emmeline o seu tio em “um ou dois momentos”, era porque ele tinha ido para bordo de um navio, e ele apareceria em breve. O terror da sua posição estava tão profundamente velado para eles como a eternidade está velada para si ou para mim.

O Pacífico ainda estava preso por uma daquelas calmas glaciais que só podem ocorrer quando o mar esteve livre de tempestades numa vasta extensão da sua superfície, pois um furacão lá para os lados do Horn enviará o seu ondular e perturbação para além das Marquesas. De Bois, na sua tabela de amplitudes, aponta que mais de metade das perturbações do mar em qualquer espaço dado são causadas, não pelo vento, mas por tempestades a grande distância.

Mas o sono do Pacífico é apenas aparente. Este lago plácido, sobre o qual o bote perseguia a ondulação corrente, estava a oscilar com um ondular imperceptível e a quebrar-se nas costas do Baixo Arquipélago e das Marquesas em espuma e trovão.

A boneca de trapos de Emmeline era um caso chocante de um ponto de vista higiénico ou artístico. O seu rosto estava apenas desenhado a tinta, não tinha feições, não tinha braços; contudo, por todas as bonecas do mundo, ela não teria trocado esta coisa imunda e quase sem forma. Era um fetiche.

Ela sentou-se a embalá-la de um lado do timoneiro, enquanto Dick, do outro lado, pendurava o nariz sobre a água, à procura de peixe.

“Porque fumas, Sr. Button?” perguntou Emmeline, que observava o seu amigo há algum tempo em silêncio.

“Para aliviar as minhas tribulações”, respondeu Paddy.

Ele estava inclinado para trás com um olho fechado e o outro fixo na testa da vela. Ele estava no seu elemento: nada a fazer senão governar e fumar, aquecido pelo sol e arrefecido pela brisa. Um homem da terra estaria meio demente na sua condição, muitos marinheiros teriam estado taciturnos e mal-humorados, à procura de velas, e alternadamente a amaldiçoar a sua alma e a rezar ao seu Deus. Paddy fumava.

“Whoop!” gritou Dick. “Olha, Paddy!”

Um albacora a poucas braças de distância a bombordo dera um salto mortal para fora do mar cintilante, dera um salto mortal completo e desaparecera.

“É um albacora a dar um salto de carneiro. Centenas já vi antes disto; ele está a ser perseguido.”

“O que está a persegui-lo, Paddy?”

“O que o está a perseguir? — bem, que mais senão os gibly-gobly-ums!”

Antes que Dick pudesse perguntar sobre a aparência pessoal e os hábitos destes últimos, um cardume de pontas de seta prateadas passou pelo barco e agitou-se na água com um som sibilante.

“Esses são peixes voadores. O que estás a dizer — os peixes não podem voar! Onde estão os olhos na tua cabeça?”

“Os gibblyums também os estão a perseguir?” perguntou Emmeline com medo.

“Não; são os Billy balloos que estão atrás deles. Não me façam mais perguntas agora, ou vou começar a dizer-vos mentiras num minuto.”

Emmeline, como se lembrará, tinha trazido um pequeno pacote consigo, embrulhado num pequeno xale; estava debaixo do banco do barco, e de vez em quando ela abaixava-se para ver se estava seguro.

CAPÍTULO VII

HISTÓRIA DO PORCO E DO BODE

De hora a hora, o Sr. Button sacudia a sua letargia, levantava-se e olhava à volta à procura de “gaivotas”, mas a perspetiva era tão sem velas como o mar pré-histórico, sem asas, sem voz. Quando Dick se aborrecia de vez em quando, o velho marinheiro arranjava sempre alguma forma de o divertir. Fez-lhe equipamento de pesca com um alfinete dobrado e um pouco de fio que estava no barco, e disse-lhe para pescar “pinkeens”; e Dick, com a fé patética da infância, pescava.

Depois, contava-lhes coisas. Ele passara um ano em Deal há muito tempo, onde uma prima sua era casada com um barqueiro.

O Sr. Button passara um ano como estivador em Deal, e tinha muito para contar sobre a sua prima e o marido dela, e especialmente sobre uma, Hannah; Hannah era a bebé da sua prima — uma criança maravilhosa, que nasceu com os seus dentes de “coelho” totalmente desenvolvidos, e cujo primeiro ato antinatural ao entrar no mundo foi dar uma dentada no “doutor”. “Agarrou-se ao punho dele como um buldogue, e ele a berrar ‘Assassino!’”

“A Sra. James”, disse Emmeline, referindo-se a um conhecimento de Boston, “tinha um bebé, e ele era cor-de-rosa.”

“Ai, ai”, disse Paddy; “eles são na maioria cor-de-rosa para começar, mas desbotam quando são lavados.”

“Não tinha dentes”, disse Emmeline, “pois meti o meu dedo para ver.”

“O doutor trouxe-o num saco”, acrescentou Dick, que ainda estava a pescar firmemente — “desenterrou-o de uma couve; e eu arranjei uma pá e desenterrei toda a nossa horta de couves, mas não havia bebés — mas havia montes de minhocas.”

“Gostava de ter um bebé”, disse Emmeline, “e não o mandaria de volta para a horta das couves.”

“O doutor”, explicou Dick, “levou-o de volta e plantou-o outra vez; e a Sra. James chorou quando eu lhe perguntei, e o papá disse que ele foi posto de volta para crescer e transformar-se num anjo.”

“Os anjos têm asas”, disse Emmeline sonhadoramente.

“E”, prosseguiu Dick, “eu contei à cozinheira, e ela disse à Jane que o papá estava sempre a encher as crianças com — qualquer coisa ou outra. E pedi ao papá para me deixar ver como ele enchia uma criança — e o papá disse que a cozinheira teria de ir embora por dizer aquilo, e ela foi-se embora no dia seguinte.”

“Ela tinha três baús grandes e uma caixa para o chapéu”, disse Emmeline, com um olhar distante ao recordar o incidente.

“E o cocheiro perguntou-lhe se ela não tinha mais baús para pôr na sua carruagem, e se não se tinha esquecido da gaiola do papagaio”, disse Dick.

“Gostava de ter um papagaio numa gaiola”, murmurou Emmeline, movendo-se ligeiramente para ficar mais à sombra da vela.

“E o que estarias tu a fazer com um papagaio numa gaiola?” perguntou o Sr. Button.

“Deixá-lo-ia sair”, respondeu Emmeline.

“Falando em deixar pássaros sair das gaiolas, lembro-me de que o meu avô tinha um porco velho”, disse Paddy (estavam todos a conversar seriamente, como iguais). “Eu era um garoto que não chegava à altura do meu joelho, e ia até à porta da pocilga, e ele vinha até à porta, e grunhia e soprava com o focinho por baixo dela; e eu grunhia de volta para o irritar, e batia com o punho na porta, e gritava ‘Ó da guarda! ó da guarda!’ e ‘Ó da guarda para ti!’ dizia ele, falando a língua dos porcos. ‘Deixa-me sair’, dizia ele, ‘e eu dou-vos um xelim de prata’.”

“‘Passa-o por baixo da porta’, respondia-lhe eu. Então ele metia o focinho por baixo da porta e eu dava-lhe uma cacetada com um pau, e ele gritava por socorro em gaélico. E a minha mãe vinha cá fora e dava-me uma sova, e bem a merecia.”

“Bem, um dia abri a porta da pocilga, e ele disparou para fora e lá foi ele para longe, por montes e vales, até chegar à beira da falésia sobranceira ao mar, e ali encontra um bode, e ele e o bode têm uma divergência de opinião.”

“‘Desaparece daí!’ diz o bode.”

“‘Desaparece tu!’ diz ele.”

“‘Com quem estás a falar?’ diz o outro.”

“‘Contigo’, diz ele.”

“‘Quem roubou os ovos?’ diz o bode.”

“‘Pergunta à tua avó!’ diz o porco.”

“‘Pergunta à minha avó o quê?’ diz o bode.”

“‘Oh, pergunta à minha...’ E antes que pudesse completar a frase, zás, pumba, o velho bode dá-lhe uma marrada no peito, e lá vão os dois a voar para o mar lá em baixo.”

“Então o meu velho avô sai, agarra-me pelo cachaço, e ‘Para dentro da pocilga!’ diz ele; e para dentro da pocilga fui eu, e lá me mantiveram durante quinze dias a farelo e leite magro — e bem os merecia.”

Jantaram por volta das onze horas, e ao meio-dia Paddy desarmou o mastro e fez uma espécie de pequena tenda ou toldo com a vela na proa do barco para proteger as crianças dos raios do sol a pino.

Depois ocupou o seu lugar no fundo do barco, na popa, enfiou o chapéu de palha do Dick sobre o rosto para o proteger do sol, mexeu-se um pouco para encontrar uma posição confortável e adormeceu.

CAPÍTULO VIII

“S-H-E-N-A-N-D-O-A-H”

Dormira durante uma hora e mais, quando foi trazido à realidade por um grito fino e prolongado. Era Emmeline num pesadelo, ou mais propriamente num susto diurno, provocado por uma refeição de sardinhas e pela memória assombrada dos bichos-papões. Quando ela foi sacudida (levava sempre um tempo considerável a voltar a si depois destas crises) e consolada, o mastro foi montado de novo.

Enquanto o Sr. Button estava de pé com a mão na verga, olhando à sua volta antes de ir para a popa com a escota, um objeto atingiu-lhe o olhar a cerca de três milhas de distância. Objetos, melhor dizendo, pois eram os mastros e as vergas de um pequeno navio que se erguiam da água. Nem um vestígio de vela, apenas os mastros nus. Poderia ter sido um par de velhas árvores esqueléticas a sair da água, para o que um homem da terra teria sabido dizer.

Ele fixou este espetáculo durante vinte ou trinta segundos sem falar, com a cabeça projetada como a cabeça de uma tartaruga. Depois deu um “Hurra!” selvagem.

“O que é, Paddy?” perguntou Dick.

“Hurra!” respondeu o Sr. Button. “Navio à vista! Navio à vista! Fiquem à espera até que eu o aborde. Ora, eles estão parados — nem um trapo de lona nela — estarão a dormir ou a sonhar? Anda, Dick, deixa-me ir para a popa com a escota; o vento levar-nos-á até lá mais depressa do que remaremos.”

Ele rastejou para a popa e pegou no leme; a brisa apanhou a vela e o barco avançou.

“É o navio do papá?” perguntou Dick, que estava quase tão entusiasmado como o seu amigo.

“Não sei; veremos quando lá chegarmos.”

“Vamos subir para ele, Sr. Button?” perguntou Emmeline.

“Pois subiremos, querida.”

Emmeline inclinou-se e, tirando o seu embrulho debaixo do banco, manteve-o no colo.

À medida que se aproximavam, os contornos do navio tornavam-se mais aparentes. Era um pequeno brigue, com mastaréus curtos, das vergas do qual esvoaçavam alguns trapos de lona. Rapidamente tornou-se evidente para o olho do velho marinheiro o que estava de errado com ele.

“Está abandonado, que se lixe!” murmurou ele; “abandonado e acabado — a minha sorte!”

“Não vejo pessoas no navio”, gritou Dick, que se tinha arrastado para a proa. “O papá não está lá.”

O velho marinheiro desviou o barco um ou dois pontos, de modo a ter uma visão mais completa do brigue; quando estavam a cerca de vinte comprimentos de cabo, ele desarmou o mastro e pegou nos remos.

O pequeno brigue flutuava muito baixo na água e apresentava um aspeto bastante lúgubre; a sua adriça estava toda frouxa, farrapos de lona agitavam-se nas vergas e não havia botes pendurados nas turcas. Era fácil ver que se tratava de um navio de transporte de madeira, que tinha aberto uma fenda, ficado alagado e sido abandonado.

Paddy parou de remar a poucos metros dele. O brigue flutuava tão placidamente como se estivesse no porto de São Francisco; a água verde via-se na sua sombra, e na água verde ondulavam as algas tropicais que cresciam no seu cobre. A tinta estava empolada e queimada, absolutamente como se um ferro quente tivesse passado por ela, e sobre a amurada pendia uma corda grossa cuja extremidade se perdia na água.

Algumas remadas levaram-nos até à popa. O nome do navio estava lá em letras desbotadas, assim como o porto ao qual pertencia. “Shenandoah. Martha’s Vineyard.”

“Há letras nele”, disse o Sr. Button. “Mas não as consigo decifrar. Não tenho estudos.”

“Eu sei lê-las”, disse Dick.

“Eu também”, murmurou Emmeline.

“S-H-E-N-A-N-D-O-A-H”, soletrou Dick.

“O que é isso?” perguntou Paddy.

“Não sei”, respondeu Dick, bastante desanimado.

“Aí está!” gritou o remador de uma forma desgostosa, puxando o barco para o lado de estibordo do brigue. “Pretendem ensinar letras às crianças nas escolas, arrancando-lhes os olhos com a leitura de livros, e aqui estão letras tão grandes como a minha cara e eles não conseguem perceber nada — que se danem os livros!”

O brigue tinha as antigas redes de vante largas, verdadeiras plataformas; e flutuava tão baixo na água que eles estavam apenas a uns trinta centímetros acima do nível do bote.

O Sr. Button prendeu o barco passando o cabo de amarração por uma das aberturas da amurada, depois, com Emmeline e o seu embrulho nos braços, ou melhor, num braço, trepou para a rede e passou-a por cima da amurada para o convés. Depois foi a vez de Dick, e as crianças ficaram à espera enquanto o velho marinheiro trazia o jarro de água, as bolachas e as latas de comida a bordo.

Era um lugar para deliciar o coração de um rapaz, o convés do Shenandoah; à vante, mesmo desde a escotilha principal, estava carregado de madeira. O aparelho de labor encontrava-se espalhado pelo convés em bobinas, e quase todo o convés de popa era ocupado por uma casota. O lugar tinha um cheiro delicioso a praia, madeira podre, alcatrão e mistério. Alças de cabos de adriça e outros cabos pendiam de cima, esperando apenas que alguém se balançasse nelas. Um sino estava pendurado logo à vante do mastro do traquete. Num momento, Dick estava lá à frente a martelar o sino com um cavilhão que tinha apanhado no convés.

O Sr. Button gritou-lhe para parar; o som do sino irritava-lhe os nervos. Soa como uma convocatória, e uma convocatória naquela embarcação deserta estava completamente fora de lugar. Quem sabia o que poderia responder-lhe sob a forma do sobrenatural?

Dick largou o cavilhão e correu para a frente. Pegou na mão que estava livre e os três foram para a popa, até à porta da casota. A porta estava aberta e espreitaram lá para dentro.

O lugar tinha três janelas a estibordo, e através delas o sol brilhava de uma maneira lúgubre. Havia uma mesa no meio do lugar. Um banco estava afastado da mesa como se alguém se tivesse levantado à pressa. Sobre a mesa estavam os restos de uma refeição, um bule de chá, duas chávenas, dois pratos. Num dos pratos repousava um garfo com um pedaço de bacon em decomposição que alguém estava evidentemente a levar à boca quando... algo tinha acontecido. Perto do bule de chá encontrava-se uma lata de leite condensado, aberta à força. Algum velho lobo-do-mar estava prestes a deitar leite no seu chá quando o algo misterioso tinha ocorrido. Nunca um monte de coisas mortas falou tão eloquentemente como estas falavam.

Podia-se imaginar tudo. O capitão, provavelmente, tinha acabado o seu chá, e o imediato estava a trabalhar arduamente no seu, quando a fuga de água foi descoberta, ou algum navio abandonado foi abalroado, ou o que quer que tenha acontecido — aconteceu.

Uma coisa era evidente: desde o abandono do brigue, o tempo tinha estado bom, caso contrário as coisas não teriam sido deixadas tão arrumadas sobre a mesa.

O Sr. Button e Dick entraram no lugar para continuar as averiguações, mas Emmeline permaneceu à porta. O encanto do velho brigue atraía-a quase tanto como a Dick, mas ela tinha um pressentimento sobre aquilo que lhe era totalmente desconhecido. Um navio onde não estava ninguém tinha em si sugestões de “outras coisas”.

Ela tinha medo de entrar na lúgubre casota e medo de ficar sozinha do lado de fora; resolveu a questão sentando-se no convés. Depois colocou o pequeno embrulho ao seu lado e tirou apressadamente a boneca de trapo do bolso, no qual estava enfiada de cabeça para baixo, puxou a saia de chita de sobre a cabeça, encostou-a à ombreira da porta e disse-lhe para não ter medo.

Não havia muito a encontrar na casota, mas atrás dela havia duas pequenas cabines como gaiolas de coelhos, outrora habitadas pelo capitão e pelo seu imediato. Aqui havia grandes achados em termos de tralha. Roupas velhas, botas velhas, uma cartola velha daquele padrão extraordinário que se pode ver nas ruas de Pernambuco, imensamente alta e estreitando em direção à aba. Um telescópio sem lente, um volume de Hoyt, um almanaque náutico, um grande rolo de flanela às riscas para camisas, uma caixa de anzóis. E num canto — achado glorioso! — uma bobina do que parecia ser cerca de dez jardas de corda preta.

“Tabaco, por Deus!” gritou Pat, apoderando-se do seu tesouro. Era tabaco em rolo. Podem-se ver bobinas dele nas montras das tabacarias das cidades portuárias. Um cachimbo cheio daquilo faria um hipopótamo vomitar, mas os velhos marinheiros mastigam-no e fumam-no e deleitam-se com ele.

“Vamos levar todas as coisas para o convés e ver o que vale a pena guardar e o que vale a pena deixar”, disse o Sr. Button, pegando num enorme braçado daquela tralha velha; enquanto Dick, carregando a cartola, da qual se apoderara instantaneamente como o seu espólio especial, ia à frente.

“Em”, gritou Dick, ao sair da porta, “vê o que eu tenho!”

Ele enfiou aquela estrutura de aspeto horrível sobre a cabeça. Ficou-lhe logo pelos ombros.

Emmeline deu um grito.

“Cheira a engraçado”, disse Dick, tirando-a e encostando o nariz ao interior da mesma — “cheira a uma escova de cabelo velha. Toma, experimenta-a tu.”

Emmeline afastou-se o mais que pôde, até chegar às amuradas de estibordo, onde se sentou no trincaniz, sem fôlego, sem fala e com os olhos arregalados. Ela ficava sempre muda quando estava assustada (a menos que fosse um pesadelo ou um choque muito repentino), e aquele chapéu, subitamente visto a tapar metade do Dick, assustou-a até não poder mais. Além disso, era uma coisa preta, e ela detestava coisas pretas — gatos pretos, cavalos pretos; e pior de tudo, cães pretos.

Ela tinha visto uma vez um coche fúnebre nas ruas de Boston, um coche fúnebre à moda antiga com plumas pretas, arreios e tudo o que havia direito. A visão quase lhe causou um ataque, embora não soubesse minimamente o significado daquilo.

Entretanto, o Sr. Button transportava braçadas e mais braçadas de coisas para o convés. Quando a pilha ficou completa, sentou-se ao lado dela sob o glorioso sol da tarde e acendeu o cachimbo.

Ele ainda não tinha procurado comida nem água; contente com o tesouro que Deus lhe tinha dado, por um momento as coisas materiais da vida foram esquecidas. E, na verdade, se tivesse procurado, teria encontrado apenas meio saco de batatas na cozinha, pois o porão estava alagado e a água na barrica estava podre.

Emmeline, vendo o que se passava, aproximou-se, com Dick a prometer não lhe pôr o chapéu, e sentaram-se todos à volta da pilha.

“Estes sapatos”, disse o velho, segurando um par de botas velhas para inspeção como um leiloeiro, “renderiam meio dólar qualquer dia num velório em qualquer porto do mundo. Põe-nos ao teu lado, Dick, e agarra neste par de calças pelas pontas — estica-as.”

As calças foram esticadas, examinadas e aprovadas, e postas ao lado das botas.

“Aqui está um telescópio com um olho fechado”, disse o Sr. Button, examinando o telescópio partido e abrindo-o e fechando-o como uma concertina. “Põe-no ao lado dos sapatos; pode dar jeito para alguma coisa. Aqui está um livro” — atirando o almanaque náutico ao rapaz. “Diz-me o que diz.”

Dick examinou as páginas de números sem esperança.

“Não sei lê-los”, disse Dick; “são números.”

“Atira-o ao mar”, disse o Sr. Button.

Dick fez o que lhe foi dito alegremente e os procedimentos recomeçaram.

Ele experimentou a cartola e as crianças riram-se. Na cabeça do seu velho amigo, a coisa deixou de causar terror a Emmeline.

Ela tinha dois métodos de rir. O sorriso angelical mencionado anteriormente — uma coisa rara — e, quase tão rara, uma risada na qual mostrava os seus pequenos dentes brancos, enquanto apertava as mãos uma contra a outra, a esquerda bem fechada e a direita cingida sobre ela.

Ele pôs o chapéu de lado e continuou a triagem, revistando todos os bolsos das roupas e não encontrando nada. Quando arrumou o que ia guardar, atiraram o resto ao mar, e os valores foram transportados para a cabine do capitão, para ali permanecerem até serem precisos.

Então a ideia de que a comida poderia ser tão útil como a roupa velha na sua condição atual ocorreu à mente imaginativa do Sr. Button, e ele procedeu à busca.

O porão era simplesmente uma cisterna cheia de água do mar; o que mais poderia conter, não sendo um mergulhador, não podia dizer. No caldeirão da cozinha jazia um grande pedaço de carne de porco ou carne de qualquer tipo em decomposição. A barrica de salgas não continha nada exceto enormes cristais de sal. Toda a carne tinha sido levada. Ainda assim, as provisões e a água trazidas a bordo do bote seriam suficientes para durar uns dez dias, e no decorrer de dez dias muitas coisas poderiam acontecer.

O Sr. Button debruçou-se sobre a amurada. O bote estava aninhado ao lado do brigue como um patinho ao lado de uma pata; a rede larga poderia ter sido comparada à asa da pata meio estendida. Ele subiu à rede para ver se o cabo de amarração estava bem preso. Tendo deixado tudo seguro, subiu lentamente até à verga do mastro grande e olhou em redor para o mar.

CAPÍTULO IX

SOMBRAS AO LUAR

“O papá demora muito a vir”, disse Dick de repente.

Estavam sentados nos troncos de madeira que entulhavam o convés do brigue em ambos os lados da cozinha. Um poleiro ideal. O sol estava a pôr-se no lado da Austrália, num mar que parecia um mar de ouro a ferver. Algum mistério de miragem fazia a água levantar-se e tremer como se estivesse perturbada por um calor fervente.

“Pois é”, disse o Sr. Button; “mas antes tarde do que nunca. Agora não penses nele, pois isso não o trará. Olha para o sol a entrar na água e não digas uma palavra, agora, mas escuta e ouvirás o chiar.”

As crianças olharam e escutaram, Paddy também. Todos os três ficaram mudos à medida que o grande escudo flamejante tocava a água que saltava para o encontrar.

Podia-se ouvir a água chiar — se se tivesse imaginação suficiente. Uma vez que tocou na água, o sol desceu atrás dela, tão rapidamente como um homem com pressa a descer uma escada. À medida que desaparecia, um crepúsculo fantasmagórico e dourado espalhou-se sobre o mar, uma luz requintada mas imensamente desolada. Depois, o mar tornou-se uma sombra violeta, o oeste escureceu como se fosse uma porta a fechar-se, e as estrelas precipitaram-se sobre o céu.

“Sr. Button”, disse Emmeline, fazendo um gesto em direção ao sol enquanto ele desaparecia, “onde é ali?”

“O oeste”, respondeu ele, olhando fixamente para o pôr do sol. “China e Índia e tudo por ali fora.”

“Para onde foi o sol agora, Paddy?” perguntou Dick.

“Foi perseguir a lua, e ela está a fugir com o vestido arregaçado com toda a força que tem; ela aparecerá num minuto. Ele anda sempre atrás dela, mas nunca a apanhou.”

“O que é que ele lhe faria se a apanhasse?” perguntou Emmeline.

“Ora, talvez lhe desse uma tareia — e bem que ela a merecia.”

“Porque é que ela a merecia?” perguntou Dick, que estava num dos seus modos interrogativos.

“Porque ela anda sempre a iludir as pessoas e a levá-las pelo caminho errado. Raparigas ou homens, ela deixa-os todos loucos quando os consegue apanhar; tal como fez ao Buck M’Cann.”

“Quem é ele?”

“Buck M’Cann? Ora, ele era o idiota da aldeia onde eu costumava viver nos velhos tempos.”

“O que é isso?”

“Cala-te e não faças perguntas. Ele queria sempre a lua, embora tivesse vinte anos e quase dois metros de altura. Ele tinha uma boca que ficava aberta como uma ratoeira com uma mola partida, e era tão magro como um poste de barbeiro, podias ter dado um nó de corrediça no meio dele; e quando a lua estava cheia não havia quem o segurasse.” O Sr. Button olhou para o reflexo do pôr do sol na água por um momento, como se recordasse alguma forma do passado, e depois continuou. “Ele sentava-se na relva a olhar para ela, e depois começava a persegui-la pelos montes, e encontravam-no finalmente, talvez um ou dois dias depois, perdido nas montanhas, a pastar bagas, e tão verde como uma couve pela fome e pelo frio, até que ficou tão mau que, por fim, tiveram de o atar.”

“Já vi um burro atado”, gritou Dick.

“Então viste o irmão gémeo do Buck M’Cann. Bem, uma noite o meu irmão mais velho, Tim, estava sentado ao lume, a fumar o seu cachimbo e a pensar nos seus pecados, quando entra o Buck com as cordas nas pernas.

“‘Tim’, diz ele, ‘apanhei-a finalmente!’”

“‘Apanhaste quem?’ diz o Tim.”

“‘A lua’, diz ele.”

“‘Apanhaste-a onde?’ diz o Tim.”

“‘Num balde junto ao lago’, diz o outro, ‘sã e salva e nem um arranhão nela; vem ver’, diz ele. Então o Tim segue-o, ele a coxear, e vão até à margem do lago, e ali, com certeza, estava um balde de lata cheio de água, e na água o reflexo da lua.”

“‘Eu tirei-a do lago’, sussurra o Buck. ‘Com calma agora’, diz ele, ‘e eu vou deixar sair a água suavemente’, diz ele, ‘e apanhamo-la viva no fundo como se fosse uma truta’. Então ele deixa sair a água suavemente do balde até que quase toda se foi, e depois olha para dentro do balde esperando encontrar a lua a debater-se no fundo como um peixe chato.”

“‘Ela desapareceu, que se lixe!’, diz ele.”

“‘Tenta outra vez’, diz o meu irmão, e o Buck enche o balde novamente, e lá estava a lua, com certeza, quando a água ficou parada.”

“‘Continua’, diz o meu irmão. ‘Deixa sair a água, mas vai com calma, ou ela foge-te outra vez.’”

“‘Um minuto’, diz o Buck, ‘tive uma ideia’, diz ele; ‘ela não me foge desta vez’, diz ele. ‘Espera por mim’, diz ele; e ele vai a coxear até à cabana da sua velha mãe, a um tiro de pedra, e volta com um crivo.”

“Segura o crivo”, diz Buck, “e eu despejo a água nele; se ela fugir do balde, apanhamo-la no crivo.” E ele despeja a água do balde tão delicadamente como se fosse natas de um jarro. Quando toda a água saiu, ele vira o balde ao contrário e sacode-o.

“Raio da coisa!”, grita ele, “ela foi-se outra vez;” e com isso atira o balde para a lagoa, e o crivo atrás do balde, quando surge a sua velha mãe, a coxear sobre o seu cajado.

“Onde está o meu balde?”, diz ela.

“Na lagoa”, diz Buck.

“E o meu crivo?”, diz ela.

“Foi atrás do balde.”

“Eu dou-te um balde de pancada!”, diz ela; e levanta o cajado e desfere-lhe uma reguada, e leva-o à frente dela, a rugir e a coxear, e tranca-o na cabana, e mantém-no a pão e água durante uma semana para lhe tirar a lua da cabeça; mas bem podia ter poupado o trabalho, pois nesse mesmo dia, um mês depois, lá estava ela outra vez—— Lá vem ela!”

A lua, prateada e esplêndida, despontava da água. Estava cheia, e a sua luz era quase tão poderosa como a luz do dia. As sombras das crianças e a estranha sombra do Sr. Button projetavam-se na parede da cozinha, rígidas e negras como silhuetas.

“Olhem para as nossas sombras!”, gritou Dick, tirando o seu chapéu de palha de abas largas e acenando com ele.

Emmeline ergueu a sua boneca para ver a sombra dela, e o Sr. Button ergueu o seu cachimbo.

“Vamos agora”, disse ele, voltando a colocar o cachimbo na boca e preparando-se para se levantar, “e ponham-se a mexer para a cama; já é hora de estarem a dormir, os dois.”

Dick começou a ganir.

“Eu não quero ir para a cama; não estou cansado, Paddy—deixa-nos ficar mais um bocadinho.”

“Nem um minuto”, disse o outro, com toda a determinação de uma ama; “nem um minuto depois de o meu cachimbo se apagar!”

“Enche-o outra vez”, disse Dick.

O Sr. Button não respondeu. O cachimbo gorgolejou enquanto ele dava uma passa — uma espécie de estertor de morte que falava de uma extinção quase imediata.

“Sr. Button!”, disse Emmeline. Ela estava com o nariz no ar e a fungar; sentada a barlavento do fumador, e fora do ar viciado pelo fumo, o seu delicado sentido de olfato percebia algo que escapava aos outros.

“O que foi, acushla?”

“Cheiro a qualquer coisa.”

“Dizes que cheiras a quê?”

“A qualquer coisa boa.”

“A que é que sabe?”, perguntou Dick, fungando com força. “Eu não cheiro a nada.”

Emmeline fungou de novo para ter a certeza.

“A flores”, disse ela.

A brisa, que tinha mudado vários pontos desde o meio-dia, trazia consigo um odor ténue, muito ténue: um perfume de baunilha e especiarias tão fraco que era impercetível para todos, exceto para o sentido olfativo mais aguçado.

“Flores!”, disse o velho marinheiro, batendo as cinzas do seu cachimbo contra o calcanhar da bota. “E onde arranjavas tu flores no meio do mar? Estás a sonhar. Vamos agora — para a cama com vocês!”

“Enche-o outra vez”, lamentou-se Dick, referindo-se ao cachimbo.

“O que te vou dar é uma tareia”, respondeu o seu guardião, baixando-o das vigas de madeira e ajudando depois Emmeline, “num instante se não te portares bem. Vamos lá, Em’line.”

Ele começou a caminhar para a popa, com uma mão pequena em cada uma das suas, com Dick a berrar.

Ao passarem pelo sino do navio, Dick esticou-se em direção ao cavilhão que ainda estava deitado no convés, agarrou-o e deu uma pancada valente no sino. Era o último prazer que se podia arrebatar antes de dormir, e ele arrebatou-o.

Paddy tinha preparado camas para si e para os seus protegidos na casa do convés; tinha limpado as tralhas da mesa, aberto as janelas para tirar o cheiro a mofo e colocado os colchões das cabines do capitão e do imediato no chão.

Quando as crianças estavam na cama e a dormir, ele foi até ao corrimão de estibordo e, debruçando-se sobre ele, olhou para o mar banhado pela lua. Pensava nos navios enquanto o seu olhar errante percorria as extensões do mar, sem imaginar a mensagem que a brisa perfumada lhe trazia. A mensagem que tinha sido recebida e vagamente compreendida por Emmeline. Depois, encostou-se com as costas ao corrimão e as mãos nos bolsos. Já não estava a pensar, estava a ruminar.

A base do caráter irlandês, como exemplificado por Paddy Button, é uma preguiça profunda misturada com uma melancolia profunda. Contudo, Paddy, à sua maneira peculiar, era um trabalhador tão árduo como qualquer homem a bordo do navio; e, quanto à melancolia, ele era a alma e o coração do convés de proa. No entanto, lá estavam elas, a preguiça e a melancolia, apenas à espera de serem despertadas.

Enquanto permanecia com as mãos enfiadas fundo nos bolsos, à maneira dos homens da costa, a contar as cavilhas na prancha do convés à luz da lua, ele revia os “velhos tempos”. O conto de Buck M’Cann tinha-os recordado, e através de todos os mares salgados ele podia ver o luar sobre as montanhas de Connemara e ouvir as gaivotas a gritar na praia trovejante, onde cada onda tem atrás de si três mil milhas de mar.

De repente, o Sr. Button voltou das montanhas de Connemara para se encontrar no convés do Shenandoah; e foi instantaneamente possuído por medos. Para lá do convés branco e deserto, barrado pelas sombras do aparelho fixo, ele podia ver a porta da cozinha. E se visse de repente uma cabeça a saltar — ou, pior, uma forma sombria a entrar?

Ele virou-se para a casa do convés, onde as crianças dormiam profundamente, e onde, dentro de poucos minutos, ele também estava a dormir profundamente ao lado delas, enquanto durante toda a noite o brigue balançava com a ondulação suave do Pacífico e a brisa soprava, trazendo consigo o perfume das flores.

CAPÍTULO X

A TRAGÉDIA DOS BOTES

Quando o nevoeiro se dissipou depois da meia-noite, as pessoas no bote grande viram o bote de popa a meia milha a estibordo deles.

“Consegues ver o escaler?”, perguntou Lestrange ao capitão, que estava de pé a esquadrinhar o horizonte.

“Nem uma mancha”, respondeu Le Farge. “Maldito seja aquele irlandês! Se não fosse por ele, eu teria conseguido levar os botes devidamente aprovisionados e tudo; assim, não sei o que temos a bordo. Tu, Jenkins, o que tens aí à frente?”

“Dois sacos de pão e um barril de água”, respondeu o despenseiro.

“Um barril de água, uma ova!”, veio outra voz; “um barril meio cheio, queres tu dizer.”

Depois a voz do despenseiro: “Pois é; não há mais do que um par de galões nele.”

“Meu Deus!”, disse Le Farge. “Maldito seja aquele irlandês!”

“Não há mais do que o suficiente para nos dar dois meios canecos a cada um”, disse o despenseiro.

“Talvez”, disse Le Farge, “o bote de popa esteja mais bem abastecido; remem para lá.”

“Eles estão a remar para nós”, disse o remador de cadência.

“Capitão”, perguntou Lestrange, “tem a certeza de que não há sinal do escaler?”

“Nenhum”, respondeu Le Farge.

A cabeça do infeliz homem caiu sobre o seu peito. Tinha pouco tempo, contudo, para remoer os seus problemas, pois uma tragédia começava a desenrolar-se à sua volta, a mais chocante, talvez, nos anais do mar — uma tragédia para ser sugerida em vez de falada.

Quando os botes estavam à distância de voz, um homem na proa do bote grande levantou-se.

“Bote de popa, ó da embarcação!”

“Ó da embarcação!”

“Quanta água têm aí?”

“Nenhuma!”

A palavra veio flutuando sobre a água plácida banhada pelo luar. Ao ouvi-la, os tipos no bote grande pararam de remar, e podia-se ver as gotas de água a pingar dos remos como diamantes ao luar.

“Bote de popa, ó da embarcação!”, gritou o tipo na proa. “Parem de remar.”

“Olha este, seu patife!”, gritou Le Farge, “quem és tu para dar ordens——”

“Patife és tu!”, respondeu o tipo. “Rapazes, virem o barco!”

Os remos de estibordo fizeram força para trás, e o barco virou-se.

Por acaso, o pior grupo da tripulação do Northumberland estava no bote grande — verdadeiros “patifes”, escória; e como a escória se agarra à vida, nunca saberás, até teres estado entre ela num barco aberto no mar. Le Farge não tinha mais comando sobre este grupo do que tu que estás a ler este livro.

“Parem!”, veio do bote de popa, enquanto este se esforçava atrás.

“Parem de remar, rapazes!”, gritou o rufia na proa, que ainda estava de pé como um génio do mal que tinha tomado momentaneamente o comando dos acontecimentos. “Parem de remar, rapazes; é melhor que eles a tenham agora.”

O bote de popa, por sua vez, cessou de remar e ficou a um cabo de distância.

“Quanta água têm?”, veio a voz do imediato.

“Não é suficiente para todos.”

Le Farge fez menção de se levantar, e o remador de cadência golpeou-o, acertando-lhe no estômago e dobrando-o no fundo do barco.

“Deem-nos um pouco, pelo amor de Deus!”, veio a voz do imediato; “estamos ressequidos de tanto remar, e há uma mulher a bordo.”

O tipo na proa do bote grande, como se alguém o tivesse atingido subitamente, desatou num tornado de blasfémias.

“Deem-nos um pouco”, veio a voz do imediato, “ou, por Deus, nós abordamo-vos!”

Antes que as palavras fossem bem ditas, os homens no bote de popa levaram a ameaça à prática. O conflito foi breve: o bote de popa estava demasiado cheio para combater. Os homens de estibordo no bote grande lutaram com os seus remos, enquanto os tipos a bombordo estabilizavam o barco.

A luta não durou muito, e logo o bote de popa afastou-se, com metade dos homens nele cortados na cabeça e a sangrar — dois deles inconscientes.

* * * * * *

Era pôr do sol no dia seguinte. O bote grande andava à deriva. A última gota de água tinha sido distribuída oito horas antes.

O bote de popa, como um fantasma horrível, tinha estado a assombrá-la e a persegui-la durante todo o dia, a pedir água quando não havia nenhuma. Eram como as orações que se esperariam ouvir no inferno.

Os homens no bote grande, sombrios e mal-humorados, pesados com um sentido de crime, torturados pela sede e atormentados pelas vozes que imploravam por água, paravam de remar quando o outro barco tentava aproximar-se.

De vez em quando, subitamente, e como se movidos por um impulso comum, todos gritavam juntos: “Não temos nenhuma.” Mas o bote de popa não queria acreditar. Era inútil segurar o barril com a tampa aberta para provar a sua secura, as criaturas semidelirantes tinham na cabeça que os seus camaradas lhes estavam a reter a água que não existia.

Assim que o sol tocou o mar, Lestrange, despertando do torpor em que tinha caído, ergueu-se e olhou por cima da amurada. Viu o bote de popa a derivar a um cabo de distância, iluminado pela luz plena do pôr do sol, e os espectros nele, vendo-o, estenderam em apelo mudo as suas línguas enegrecidas.

* * * * * *

Sobre a noite que se seguiu, é quase impossível falar. A sede não era nada comparada com o que os patifes sofriam com a tortura do apelo choroso por água que lhes chegava a intervalos durante a noite.

* * * * * *

Quando finalmente o Arago, um navio baleeiro francês, os avistou, a tripulação do bote grande ainda estava viva, mas três deles eram loucos varridos. Da tripulação do bote de popa, salvou-se — nem um.

PARTE II

CAPÍTULO XI

A ILHA

“Crianças!”, gritou Paddy. Ele estava nas cruzetas ao romper da aurora, enquanto as crianças, de pé lá em baixo no convés, esticavam os rostos para ele. “Há uma ilha à nossa frente.”

“Hurra!”, gritou Dick. Ele não tinha a certeza de como seria uma ilha na prática, mas era algo novo, e a voz de Paddy estava jubilante.

“Terra à vista! É isso mesmo”, disse ele, descendo para o convés. “Venham para a proa, e eu mostro-vos.”

Ele ficou de pé sobre a madeira na proa e ergueu Emmeline nos seus braços; e mesmo àquela elevação humilde da água, ela conseguia ver algo de uma cor indecisa — verde, de preferência — no horizonte.

Não estava diretamente em frente, mas a estibordo da proa — ou, como ela teria expressado, à direita. Quando Dick olhou e expressou a sua deceção por haver tão pouco para ver, Paddy começou a fazer preparativos para deixar o navio.

Foi só agora, com terra à vista, que ele reconheceu de alguma forma o horror da situação da qual estavam prestes a escapar.

Ele alimentou as crianças apressadamente com algumas bolachas e carne enlatada e, depois, com uma bolacha na mão, comendo enquanto ia, trotava pelo convés, recolhendo coisas e arrumando-as no escaler. O rolo de flanela às riscas, todas as roupas velhas, um estojo de costura cheio de agulhas e linha, como os marinheiros por vezes levam, meio saco de batatas, uma serra que encontrou na cozinha, o precioso rolo de tabaco e um monte de outras miudezas foram transbordados, afundando o pequeno escaler várias tábuas no processo. Também, claro, levou o barril de água e os restos da bolacha e das conservas que tinham trazido a bordo. Sendo estes arrumados, e o escaler pronto, ele foi para a proa com as crianças, para ver como a ilha se apresentava.

Ela tinha surgido mais perto durante a hora ou mais em que ele esteve a recolher e a guardar as coisas — mais perto e mais para a direita, o que significava que o brigue estava a ser levado por uma corrente bastante rápida e que passaria por ela, deixando-a a duas ou três milhas a estibordo. Ainda bem que tinham o comando do escaler.

“O mar está à volta dela toda”, disse Emmeline, que estava sentada no ombro de Paddy, agarrando-se bem a ele e olhando para a ilha, cujo verde das árvores era agora visível, um oásis de verdura no azul cintilante e seráfico.

“Vamos para lá, Paddy?”, perguntou Dick, agarrando-se a um estai e forçando os olhos em direção à terra.

“Sim, vamos”, disse o Sr. Button. “A todo o vapor — cinco nós, se estamos a fazer um; e em terra estaremos ao meio-dia, e talvez mais cedo.”

A brisa tinha refrescado e soprava diretamente da ilha, como se a ilha estivesse a fazer uma tentativa fraca de os soprar para longe dela.

Oh, que brisa fresca e perfumada era aquela! Todo o tipo de plantas tropicais tinha juntado o seu aroma num só bouquet.

“Cheira”, disse Emmeline, dilatando as suas pequenas narinas. “É a isto que cheirei ontem à noite, só que agora é mais forte.”

O último cálculo feito a bordo do Northumberland tinha provado que o navio estava a sul por sudeste das Marquesas; esta era evidentemente uma daquelas pequenas ilhas perdidas que jazem aqui e ali a sul por sudeste das Marquesas. Ilhas as mais solitárias e belas do mundo.

À medida que olhavam, ela crescia diante deles e desviava-se ainda mais para a direita. Era montanhosa e verde agora, embora as árvores não pudessem ser claramente distinguidas; aqui, o verde era de uma cor mais clara, e ali, mais escura. Um rebordo de puro mármore parecia cercar a sua base. Era a espuma a quebrar na barreira de recifes.

Passada outra hora, a folhagem plumosa dos coqueiros pôde ser distinguida, e o velho marinheiro julgou ser altura de ir para o barco.

Ele levantou Emmeline, que apertava a sua bagagem, sobre a amurada para o canal e depositou-a no banco da popa; depois Dick.

Num momento o barco estava à deriva, o mastro montado, e o Shenandoah deixado para prosseguir a sua misteriosa viagem à mercê das correntes do mar.

“Não vais para a ilha, Paddy”, gritou Dick, enquanto o velho homem colocava o barco em amura de bombordo.

“Fica descansado”, respondeu o outro, “e não te ponhas a ensinar a tua avó. Como raio pensas tu que eu chegaria à terra a navegar diretamente contra o vento?”

“O vento tem olhos?”

O Sr. Button não respondeu à pergunta. Estava perturbado no seu espírito. E se a ilha fosse habitada? Ele tinha passado vários anos nos Mares do Sul. Conhecia as pessoas das Marquesas e de Samoa e gostava delas. Mas aqui estava fora da sua rota.

No entanto, toda a preocupação do mundo não servia de nada. Era um caso de a ilha ou o mar alto, e, colocando o barco em amura de estibordo, ele acendeu o seu cachimbo e encostou-se para trás com a cana do leme no vinco do braço. Os seus olhos aguçados tinham distinguido, a partir do convés do brigue, uma abertura no recife, e ele estava a preparar-se para levar o escaler lado a lado com a abertura e depois pegar nos remos e remar através dela.

Agora, à medida que se aproximavam, um som veio na brisa, um som ténue, sonoro e sonhador. Era o som das ondas no recife. O mar aqui estava a ondular com um balanço mais profundo, como se estivesse vexado no seu sono pela resistência que a terra lhe oferecia.

Emmeline, sentada com o seu embrulho no colo, olhava sem falar para a visão à sua frente. Mesmo no sol radiante e glorioso, e apesar da vegetação que se via para lá, era uma visão desoladora vista do seu lugar no escaler. Uma praia branca e desamparada, sobre a qual as ondas corriam e rebolavam, gaivotas a girar e a gritar, e sobre tudo o trovão da rebentação.

De repente, a abertura tornou-se visível, e um vislumbre de água azul e lisa para lá dela. O Sr. Button desarmou a cana do leme, desmontou o mastro e pegou nos remos.

À medida que se aproximavam, o mar tornou-se mais ativo, selvagem e vivo; o trovão da rebentação tornou-se mais alto, as ondas mais ferozes e ameaçadoras, a abertura mais larga.

Podia-se ver a água a rodopiar à volta dos pilares de coral, pois a maré estava a inundar a lagoa; tinha agarrado o pequeno escaler e estava a levá-lo muito mais depressa do que os remos poderiam ter feito. As gaivotas gritavam à volta deles, o barco balançava e oscilava. Dick gritou de excitação, e Emmeline fechou os olhos com força.

Então, como se uma porta tivesse sido rápida e silenciosamente fechada, o som da rebentação tornou-se subitamente menor. O barco flutuava em equilíbrio; ela abriu os olhos e encontrou-se no País das Maravilhas.

CAPÍTULO XII

O LAGO DE AZUL

De cada lado estendia-se uma grande extensão de água azul ondulante. Calma, quase como um lago, safira aqui, e ali com os tons da água-marinha. Água tão clara que, a braças de profundidade, se podiam ver o coral ramificado, os cardumes de peixes que passavam e as sombras dos peixes sobre as extensões de areia.

Diante deles, a água límpida banhava as areias de uma praia branca, os coqueiros ondulavam e sussurravam na brisa; e enquanto o remador parava para olhar, um bando de pássaros azuis ergueu-se, como se libertado subitamente das copas das árvores, girou e passou silencioso, como uma coroa de fumo, sobre as copas das árvores da terra mais alta além.

“Olha!”, gritou Dick, que tinha o nariz sobre a amurada do barco. “Olha para os peixes!”

“Sr. Button”, gritou Emmeline, “onde estamos?”

“Bedad, não sei; mas podíamos estar num lugar pior, estou eu a pensar”, respondeu o velho, varrendo com os olhos a lagoa azul e tranquila, desde a barreira de recifes até à costa feliz.

De cada lado da larga praia diante deles, os coqueiros desciam como dois regimentos e, curvando-se, observavam os seus próprios reflexos na lagoa. Para lá estendia-se matagal ondulante, onde coqueiros e fruta-pão se misturavam com a maçã-mammee e as gavinhas da vinha selvagem. Num dos pilares de coral, na quebra do recife, erguia-se um único coqueiro; curvando-se com uma ligeira inclinação, parecia também procurar o seu reflexo na água ondulante.

Mas a alma de tudo isto, a coisa indescritível sobre este quadro de palmeiras espelhadas, lagoa azul, recife de coral e céu, era a luz.

Lá fora no mar, a luz era ofuscante, deslumbrante, cruel. Lá fora no mar, não tinha nada em que se focar, nada para exibir a não ser extensões infinitas de água azul e desolação.

Aqui, ela tornava o ar um cristal, através do qual o observador via a beleza da terra e do recife, o verde da palmeira, o branco do coral, as gaivotas que giravam, a lagoa azul, tudo nitidamente delineado — ardente, colorido, arrogante, mas terno — de uma beleza de partir o coração, pois o espírito da manhã eterna estava aqui, a felicidade eterna, a juventude eterna.

“Fairies is it?” disse o velho marinheiro, com um sorriso de desprezo. “Pois se a Sra. Sims diz isso, deve ser verdade, pois as mulheres com chapéus de flores e maridos médicos têm um conhecimento profundo das coisas do mundo, não é mesmo? Mas ouça-me, Dicky, se você nunca viu um, não significa que eles não estejam ali. Há coisas neste mundo, meu rapaz, que são como o vento: você não vê o vento, mas vê o que ele faz com as árvores e com o mar. E se você prestar atenção, poderá ver o que os Pequenos Povos fazem com as flores e com o orvalho.”

Ele parou, e um silêncio caiu sobre o trio, pesado com o mistério da noite tropical e o som abafado da arrebentação.

“Eles são bons?” perguntou Emmeline, com a voz baixa e sonhadora.

“São o que a sorte os faz ser, pequena”, respondeu Paddy. “Às vezes, eles são como a luz da lua sobre a água, e às vezes são como a sombra da nuvem que passa. Mas não se fala deles quando a noite cai tão perto. Eles têm ouvidos que alcançam mais longe que o grito de uma gaivota.”

“Conte-nos uma história sobre eles”, pediu Dick, aproximando-se do velho.

“Outra vez, Dicky. Agora, a lua está subindo, e é hora de as crianças dormirem. Amanhã teremos muito o que fazer, e preciso que vocês dois fiquem fortes.”

Ele se levantou e começou a arrumar o abrigo com o zelo de uma mãe. Emmeline, sentindo-se estranhamente pequena sob o vasto teto do céu estrelado, deitou-se na areia macia, usando seu casaco como travesseiro. Dick, após uma última tentativa de obter mais informações sobre os "Cluricaunes", logo se rendeu ao cansaço e fechou os olhos.

O Sr. Button sentou-se à entrada do abrigo, com o cachimbo apagado na mão, vigiando o mar. A lua, uma foice de prata, começou a banhar a lagoa em uma luz pálida e fantasmagórica. O recife de coral, longe dali, parecia uma muralha de ossos brancos na escuridão. Ele olhou para o horizonte, onde a mancha que vira mais cedo havia desaparecido, deixando apenas a vastidão absoluta.

Ele sabia, no fundo de seu coração, que a sorte era uma coisa volúvel. Tinham água, tinham abrigo, tinham comida, mas estavam sozinhos num ponto esquecido pelo mapa. Ele pensou na tripulação do navio, no nevoeiro, na estranha e súbita partida. O que quer que tivesse acontecido, ele estava ali agora, um guardião de duas crianças que não compreendiam a gravidade do que lhes ocorrera. Ele suspirou, um som curto e áspero, e olhou para Emmeline. Ela dormia serenamente, com a mãozinha ainda agarrada a um pedaço de fita que prendia a caixa que ela trouxera.

O mar sussurrava contra a areia, um som constante, um ritmo que parecia ditar a vida daquela ilha. O Sr. Button fechou os olhos por um momento, mas não para dormir. Ele estava escutando. Ele estava sempre escutando, como se esperasse que o próprio vento lhe trouxesse a notícia de que não estavam tão sós quanto pensava.

A noite avançava, e a ilha parecia respirar. As palmeiras, balançando suavemente, projetavam sombras que se moviam como seres vivos sobre a areia branca. O Sr. Button, um homem feito de sol e sal, sentia-se um estranho naquele paraíso que parecia feito apenas para os sonhos. Ele se perguntava se, ao acordar, o mundo real ainda estaria lá, ou se tudo aquilo — a lagoa, as flores, o crânio sob o líquen — não passava de uma ilusão tecida pelos mesmos seres sobre os quais ele falara para as crianças.

Ele se levantou, caminhou até a beira da água e lavou o rosto. A água estava morna e salgada. Ele olhou para o fundo da lagoa, onde a luz da lua revelava o desenho dos corais, como as ruínas de uma cidade submersa. Então, ele voltou para o abrigo, deitou-se junto à entrada e, finalmente, cedeu ao sono, enquanto o mundo, indiferente e majestoso, continuava sua vigília sob as estrelas.

— A sra. James — interrompeu Emmeline — disse que existiam. Disse que gostava de ver crianças acreditando em fadas. Ela estava conversando com outra senhora, que usava uma pena vermelha no chapéu e um manguito de pele. Elas estavam tomando chá e eu estava sentada no tapete da lareira. Ela disse que o mundo estava ficando muito... algo assim, e então a outra senhora concordou e perguntou à sra. James se ela tinha visto a sra. Alguém com aquele chapéu horrível que ela usou no Dia de Ação de Graças. Não disseram mais nada sobre fadas, mas a sra. James...

— Quer vocês acreditem nelas ou não — disse Paddy —, lá estão elas. E talvez estejam saltando da floresta atrás de nós agora, e nos ouvindo conversar; embora eu duvide que haja alguma por estas bandas, ainda que lá em Connaught elas fossem tão numerosas quanto amoras nos velhos tempos. O musha! musha! os velhos tempos, os velhos tempos! quando os verei novamente? Ora, vocês podem acreditar em mim ou não, mas meu próprio velho pai — Deus descanse sua alma! — estava atravessando Croagh Patrick uma noite antes do Natal com uma garrafa de uísque em uma das mãos e um ganso, depenado, limpo e tudo mais, na outra, o qual ele havia ganhado em uma loteria, quando, ouvindo uma melodia não mais alta que o zumbido de uma abelha, ele espreita por cima de um arbusto de tojo, e lá, ao redor de uma grande pedra branca, o Bom Povo dançava em roda, de mãos dadas, chutando os calcanhares, com os olhos brilhando como olhos de mariposa; e um sujeito sobre a pedra, não maior que a articulação do seu polegar, tocando para eles em uma gaita de foles. Com isso, ele soltou um grito, deixou cair o ganso e saiu em disparada para casa, por cima de cercas e valas, saltando como um canguru, e com o rosto branco como farinha quando irrompeu pela porta, onde estávamos todos sentados ao redor da lareira queimando castanhas para ver quem se casaria primeiro.

— "E o que, em nome dos santos, há com vocês?" diz minha mãe.

— "Eu vi o Bom Povo", diz ele, "lá no campo além", diz ele; "e eles levaram o ganso", diz ele, "mas, por Deus, salvei a garrafa", diz ele. "Tirem a rolha e me dêem um gole, pois meu coração está na garganta e minha língua está como uma olaria."

— E quando tentamos tirar a rolha da garrafa, não havia nada nela; e quando fomos na manhã seguinte procurar o ganso, ele tinha sumido. Mas lá estava a pedra, com certeza, e as marcas nela dos pequenos sapatos do sujeito que tocara a gaita de foles — e quem duvidaria que houvesse fadas depois disso?

As crianças não disseram nada por um tempo, e então Dick disse:

— Conte-nos sobre os Cluricaunes e como eles fazem as botas.

— Quando estou contando a vocês sobre os Cluricaunes — disse o sr. Button —, é a verdade que estou contando, e por conhecimento próprio, pois já falei com um homem que segurou um na mão; era irmão da minha própria mãe, Con Cogan — descanse sua alma! Con tinha um metro e oitenta e sete, com um rosto longo e pálido; ele tinha tido a cabeça esmagada, anos antes de eu nascer, em uma confusão qualquer, e os médicos tinham tapado o buraco com uma moeda de cinco xelins batida até ficar plana.

Dick interpôs uma pergunta sobre o processo, o objetivo e a finalidade daquela reparação, mas o sr. Button ignorou a pergunta.

— Ele já era propenso a ver fadas antes de consertarem a cabeça dele, mas depois, por Deus, ficou duas vezes pior. Eu era um rapazinho na época, mas meu cabelo quase ficou grisalho com os contos que ele contava sobre o Bom Povo e seus feitos. Numa noite eles o transformavam em um cavalo e o montavam por metade do condado, um sujeito nas costas dele e outro correndo atrás, enfiando espinhos de tojo debaixo do rabo para fazê-lo corcovear. Outra noite ele seria um burro, atrelado a uma carroça, sendo chutado na barriga e forçado a puxar pedras. Então ele seria um ganso, correndo pelo descampado com o pescoço esticado grasnando, e uma velha fada atrás dele com uma faca, até que isso o levou de vez para a bebida; embora, aliás, ele não precisasse de muito incentivo.

— E o que ele faz quando seu dinheiro acaba, senão arrancar a moeda de cinco xelins que tinham usado para consertar sua cabeça, e trocá-la por uma garrafa de uísque, e esse foi o fim dele.

O sr. Button pausou para reacender seu cachimbo, que tinha apagado, e houve silêncio por um momento.

A lua havia nascido, e o som da arrebentação no recife preenchia toda a noite com sua canção de ninar. A larga lagoa ondulava e tremeluzia ao luar com a maré crescente. Ela sempre parecia duas vezes mais larga vista ao luar ou à luz das estrelas do que quando vista à luz do dia. Ocasionalmente, o mergulho de um peixe grande cortava o silêncio, e a sua ondulação passava um momento depois pela água plácida.

Grandes coisas aconteciam na lagoa durante a noite, invisíveis aos olhos que vinham da costa. Você teria achado a floresta atrás deles, se tivesse caminhado por ela, cheia de luz. Uma floresta tropical sob uma lua tropical é verde como uma caverna marinha. Você pode ver as gavinhas das vinhas e as flores, as orquídeas e os troncos das árvores, todos iluminados como pela luz de um dia de tom esmeralda.

O sr. Button tirou um longo pedaço de barbante do bolso.

— É hora de dormir — disse ele; — e vou prender Em’leen, por medo de ela andar dormindo, sair vagando e se perder na floresta.

— Eu não quero ser presa — disse Emmeline.

— É para o seu próprio bem que estou fazendo isso — respondeu o sr. Button, prendendo o barbante em volta da cintura dela. — Agora venha.

Ele a conduziu como um cachorro na coleira até a tenda, e amarrou a outra ponta do barbante ao mastro, que era o suporte principal da tenda.

— Agora — disse ele —, se você se levantar e andar por aí durante a noite, a tenda vai cair em cima de todos nós.

E, de fato, nas primeiras horas da manhã, foi exatamente o que aconteceu.

CAPÍTULO XV

BELAS IMAGENS NO AZUL

— Eu não quero vestir minhas calças velhas! Eu não quero vestir minhas calças velhas!

Dick corria pela areia, e o sr. Button atrás dele com um par de calças pequenas na mão. Um caranguejo teria tido o mesmo sucesso ao tentar perseguir um antílope.

Eles estavam na ilha há quinze dias, e Dick tinha descoberto a alegria mais intensa da vida: estar nu. Estar nu e chafurdar nas águas rasas da lagoa, estar nu e sentar-se para secar ao sol. Estar livre da maldição das roupas, descartar a civilização na praia na forma de calças, botas, casaco e chapéu, e tornar-se um com o vento, o sol e o mar.

A primeira ordem que o sr. Button deu na segunda manhã de sua chegada foi: "Descam e entrem na água com vocês".

Dick resistira no início, e Emmeline (que raramente chorava) ficara chorando em sua camisolinha. Mas o sr. Button era irredutível. A dificuldade no início era fazê-los entrar; a dificuldade agora era fazê-los sair.

Emmeline estava sentada tão nua quanto a estrela da manhã, secando-se ao sol após seu mergulho e observando as evoluções de Dick na areia.

A lagoa tinha para as crianças muito mais atração do que a terra. Bosques onde você poderia derrubar bananas maduras das árvores com uma vara grande, areias onde lagartos dourados corriam tão mansos que você poderia, com um pouco de cautela, agarrá-los pelo rabo, um topo de colina de onde você poderia ver, para usar a expressão de Paddy, "o fim do mundo"; tudo isso era muito bom à sua maneira, mas não era nada comparado à lagoa.

Bem lá no fundo, onde ficavam os ramos de coral, você podia observar, enquanto Paddy pescava, todo tipo de coisas divertindo-se nos bancos de areia e entre os tufos de coral. Caranguejos-eremitas que tinham despejado búzios, usando as conchas dos despejados — um desajuste óbvio; anêmonas-do-mar do tamanho de rosas. Flores que se fechavam de maneira irritada se você baixasse o anzol gentilmente e as tocasse; conchas extraordinárias que caminhavam sobre tentáculos, empurrando os caranguejos para fora do caminho e aterrorizando os búzios. Estes eram os senhores dos bancos de areia; ainda assim, toque um nas costas com uma pedra amarrada em um pedaço de barbante, e ele ficava plano, imóvel e fingindo-se de morto. Havia muita natureza humana à espreita nas profundezas da lagoa, comédia e tragédia.

Uma poça de rocha inglesa tem suas maravilhas. Você pode imaginar as maravilhas desta vasta poça de rocha, com quase quinze quilômetros de circunferência e variando de meio a um quilômetro de largura, repleta de vida tropical e cardumes de peixes coloridos; onde o cintilante atum passava sob o barco como um fogo e uma sombra; onde o reflexo do barco repousava tão claro no fundo como se a água fosse ar; onde o mar, pacificado pelo recife, contava, como uma criança pequena, seus sonhos.

Combinava com o humor preguiçoso do sr. Button nunca explorar a lagoa mais do que uns oitocentos metros para cada lado da praia. Ele trazia os peixes que pescava para terra e, com a ajuda de sua pederneira e gravetos mortos, fazia uma fogueira na areia; cozinhava peixe, fruta-pão e raízes de taro, ajudado e atrapalhado pelas crianças. Eles montaram a tenda entre as árvores na orla do chaparral, e a tornaram maior e mais resistente com a ajuda da vela do bote.

Em meio a essas ocupações, maravilhas e prazeres, as crianças perderam toda a conta da passagem do tempo. Raramente perguntavam sobre o sr. Lestrange; depois de um tempo, não perguntavam mais nada sobre ele. As crianças esquecem depressa.

PARTE III

CAPÍTULO XVI

A POESIA DO APRENDIZADO

Para esquecer a passagem do tempo você deve viver ao ar livre, em um clima quente, com o mínimo de roupas possível. Você deve coletar e cozinhar sua própria comida. Então, depois de um tempo, se você não tiver laços especiais que o prendam à civilização, a Natureza começará a fazer por você o que ela faz pelo selvagem. Você reconhecerá que é possível ser feliz sem livros ou jornais, cartas ou contas. Você reconhecerá o papel que o sono desempenha na Natureza.

Depois de um mês na ilha, você poderia ter visto Dick em um momento cheio de vida e atividade, ajudando o sr. Button a desenterrar uma raiz de taro ou algo parecido, e no outro, enroscado para dormir como um cachorro. Emmeline, da mesma forma. Lapsos profundos e prolongados de sono; despertares súbitos para um mundo de ar puro e luz ofuscante, a alegria das cores por toda parte. A Natureza tinha de fato aberto suas portas para essas crianças.

Poder-se-ia imaginá-la em um estado de espírito experimental, dizendo: "Deixe-me colocar estes brotos da civilização de volta no meu berçário e ver o que eles se tornarão — como florescerão, e qual será o fim de tudo isso."

Assim como Emmeline trouxera sua caixa preciosa do Northumberland, Dick levara consigo um pequeno saco de linho que tilintava ao ser sacudido. Continha bolas de gude. Bolinhas verde-oliva e outras de tamanho médio de várias cores; bolas de vidro com núcleos coloridos magníficos; e uma grande bola de gude antiga, grande demais para ser usada no jogo, mas nem por isso menos adorada — uma bola-deus.

É claro que não se pode jogar bolas de gude a bordo de um navio, mas pode-se brincar com elas. Elas tinham sido um grande consolo para Dick durante a viagem. Ele conhecia cada uma pessoalmente, e as espalhava sobre o colchão de seu beliche e as revia quase todos os dias, enquanto Emmeline observava.

Um dia, o sr. Button, notando Dick e a menina ajoelhados um de frente para o outro em um pedaço de areia plano e duro perto da beira da água, aproximou-se para ver o que estavam fazendo. Eles estavam jogando bolas de gude. Ele ficou com as mãos nos bolsos e o cachimbo na boca, observando e criticando o jogo, satisfeito por as "crianças" estarem entretidas. Então ele mesmo começou a se divertir e, em poucos minutos, estava de joelhos participando; Emmeline, uma jogadora fraca e sem entusiasmo, retirou-se em seu favor.

Depois disso, era comum vê-los brincando juntos, o velho marinheiro de joelhos, um olho fechado e uma bola de gude contra a unha do polegar calejado, mirando; Dick e Emmeline atentos para garantir que ele jogasse limpo, suas vozes agudas ecoando entre os coqueiros com gritos de "Dedo no chão, Paddy, dedo no chão!". Ele entrava em todas as suas diversões exatamente como um deles. Em ocasiões especiais e raras, Emmeline abria sua caixa preciosa, espalhava o conteúdo e dava uma festa de chá, com o sr. Button agindo como convidado ou presidente, conforme o caso.

— O chá está do seu agrado, senhora? — ele perguntava; e Emmeline, bebendo de sua xícara minúscula, invariavelmente respondia: "Mais um torrão de açúcar, por favor, sr. Button"; ao que vinha a resposta estereotipada: "Pegue uma dúzia, e seja bem-vinda; e mais uma xícara para o bem da sua compleição."

Então Emmeline lavava as coisas em água imaginária, colocava-as de volta na caixa, e todos perdiam as maneiras de festa e tornavam-se naturais novamente.

— Você já viu seu nome, Paddy? — perguntou Dick uma manhã.

— Vi o meu quê?

— Seu nome?

— Ora, não fique me fazendo perguntas — respondeu o outro. — Como diabos eu poderia ver meu nome?

— Espere que eu vou lhe mostrar — respondeu Dick.

Ele correu e buscou um pedaço de cana, e um minuto depois, na areia branca como sal, em face da ortografia e do sol, apareceram estas letras portentosas:

B U T T E N

— Puxa, você é um menino esperto — disse o sr. Button admirado, enquanto se encostava luxuosamente em um coqueiro e contemplava o trabalho de Dick. — E esse é o meu nome, é? Quais são as letras nele?

Dick as enumerou.

— Vou ensinar você a fazer também — disse ele. — Vou ensinar você a escrever seu nome, Paddy — você gostaria de escrever seu nome, Paddy?

— Não — respondeu o outro, que só queria poder fumar seu cachimbo em paz; — meu nome não me serve de nada.

Mas Dick, com a terrível persistência da infância, não se deixou levar, e o infeliz sr. Button teve que ir à escola apesar de si mesmo. Em poucos dias, ele conseguia realizar o ato de desenhar na areia caracteres um tanto semelhantes aos acima, mas não sem ajuda, com Dick e Emmeline de cada lado dele, ofegantes por medo de um erro.

— Qual é o próximo? — perguntava o escriba suado, com a transpiração escorrendo da testa — qual é o próximo? e seja rápido, pois estou atordoado.

— N. N. — isso mesmo — Oh, você está fazendo torto! — isso mesmo — aí! está tudo aí agora — Hurroo!

— Hurroo! — respondia o aluno, balançando seu chapéu velho sobre seu próprio nome, e "Hurroo!" respondiam os ecos do coqueiral; enquanto o distante e fraco "Hi hi!" das gaivotas sobre o recife vinha sobre a lagoa azul como se fosse um reconhecimento do feito, e um incentivo.

O apetite vem com o ensino. O exercício mental mais agradável da infância é a instrução dos mais velhos. Até Emmeline sentia isso. Ela deu a aula de geografia um dia, de maneira tímida, colocando sua mãozinha primeiro no grande punho calejado de seu amigo.

— Sr. Button!

— Pois não, querida?

— Eu sei g’ografia.

— E o que é isso? — perguntou o sr. Button.

Isso deixou Emmeline em dúvida por um momento.

— É onde os lugares ficam — disse ela por fim.

— Quais lugares? — perguntou ele.

— Todos os tipos de lugares — respondeu Emmeline. — Sr. Button!

— O que foi, querida?

— Você gostaria de aprender g’ografia?

— Não tenho desejo de aprender — disse o outro apressadamente. — Minha cabeça zune ao ouvir essas coisas que eles leem nos livros.

— Paddy — disse Dick, que estava animado com o desenho naquela tarde —, olhe aqui. Ele desenhou o seguinte na areia:

— Isso é um elefante — disse ele com uma voz duvidosa.

O sr. Button resmungou, e o som não estava de forma alguma preenchido com assentimento entusiasmado. Um calafrio caiu sobre o procedimento.

Dick apagou o elefante lenta e pesarosamente, enquanto Emmeline se sentia desencorajada. Então seu rosto subitamente se iluminou; o sorriso seráfico surgiu nele por um momento — uma ideia brilhante a atingira.

— Dicky — disse ela —, desenhe Henrique Oitavo.

O rosto de Dick se iluminou. Ele limpou a areia e desenhou a seguinte figura:

l l <[ ]> / \

— Não é Henrique Oitavo — explicou ele —, mas será em um minuto. Papai me mostrou como desenhá-lo; ele não é nada até colocar o chapéu.

— Coloque o chapéu nele, coloque o chapéu nele! — implorou Emmeline, olhando alternadamente da figura na areia para o rosto do sr. Button, observando o sorriso encantado com o qual ela tinha certeza que o velho cumprimentaria o grande rei quando ele aparecesse em toda a sua glória.

Então, Dick, com um único traço da cana, colocou o chapéu de Henrique.

=== l l l <[ ]> / \

Ora, nenhum retrato poderia ser mais parecido com sua majestade caçadora de monges do que o acima, criado com um traço de cana, mas o sr. Button permaneceu impassível.

— Eu fiz para a sra. Sims — disse Dick com pesar —, e ela disse que era a cara dele.

— Talvez o chapéu não seja grande o suficiente — disse Emmeline, virando a cabeça de um lado para o outro enquanto contemplava a imagem. Parecia certo, mas ela sentia que devia haver algo errado, já que o sr. Button não aplaudiu. Acaso não sentiu todo verdadeiro artista o mesmo diante do silêncio de algum crítico?

O sr. Button bateu as cinzas de seu cachimbo e levantou-se para se espreguiçar, e a classe se levantou e caminhou em direção à beira da lagoa, deixando Henrique e seu chapéu como uma figura na areia para ser obliterada pelo vento.

Depois de um tempo, com o passar dos dias, o sr. Button aceitou as aulas como algo natural, as pequenas invenções das crianças auxiliando seu conhecimento completamente indigno de confiança. Conhecimento, talvez, tão útil quanto qualquer outro ali, em meio à adorável poesia das palmeiras e do céu.

Os dias transformaram-se em semanas, e as semanas em meses, sem o aparecimento de um navio — um fato que causava muito pouco problema ao sr. Button; e ainda menos aos seus encargos, que estavam ocupados e divertidos demais para se preocupar com navios.

A estação das chuvas veio sobre eles com força, e com as palavras "estação das chuvas" não conjures em sua mente a visão de um dia chuvoso em Manchester.

A estação das chuvas ali era um tempo bastante animado. Pancadas torrenciais seguidas por rajadas de sol, arco-íris e nuvens carregadas no céu, e o perfume delicioso de todo tipo de coisas crescendo na terra.

Depois das chuvas, o velho marinheiro disse que faria uma casa de bambus antes que as próximas chuvas viessem sobre eles; mas, talvez, antes disso eles tivessem ido embora da ilha.

— No entanto — disse ele —, vou desenhar para vocês uma imagem de como será quando estiver pronta; e na areia ele desenhou uma figura como esta:

X

Tendo assim desenhado os planos do edifício, ele se encostou em um coqueiro e acendeu seu cachimbo. Mas ele tinha calculado sem Dick.

O menino não tinha o menor desejo de morar em uma casa, mas tinha um desejo ardente de ver uma ser construída, e ajudar a construir uma. A engenhosidade que faz parte da multiforme base da natureza americana foi despertada.

— Como você vai impedir que elas escorreguem, se você as amarrar como essa? — perguntou ele, quando Paddy explicou mais detalhadamente seu método.

— O que escorregando?

— As canas — uma da outra?

— Depois de fixá-las, uma cruzada na outra, você bate um prego através da cruz e passa uma corda por cima de tudo.

— Você tem pregos, Paddy?

— Não — disse o sr. Button —, eu não tenho.

— Então como você vai construir a casa?

— Não me faça perguntas agora; quero fumar meu cachimbo.

Mas ele tinha despertado um demônio difícil de acalmar. De manhã, à tarde e à noite era "Paddy, quando você vai começar a casa?" ou, "Paddy, acho que tenho um jeito de fazer as canas grudarem sem pregar". Até que o sr. Button, em desespero, como um castor, começou a construir.

Houve um grande corte de canas no canavial acima e, quando se obteve o suficiente, o sr. Button parou o trabalho por três dias. Ele teria parado de vez, mas encontrara um capataz.

O incansável Dick, jovem e ativo, sem qualquer preguiça original em sua composição, sem ossos velhos para descansar ou cachimbo para fumar, perseguia-o como uma mosca varejeira. Foi em vão que tentou afastá-lo com histórias sobre fadas e Cluricaunes. Dick queria construir uma casa.

O sr. Button não queria. Ele queria descansar. Não se importava de pescar ou de subir em um coqueiro, o que fazia admiravelmente passando uma corda em volta de si e da árvore, dando um nó e usando-a como apoio durante a subida; mas a construção de casas era um trabalho monótono.

Ele disse que não tinha pregos. Dick rebateu mostrando como as canas poderiam ser mantidas juntas cortando-lhes entalhes.

— E, fé em Deus, mas você é um menino esperto — disse o cansado, admirado, quando o outro explicou seu método.

— Então venha, Paddy, e vamos fincá-las.

O sr. Button disse que não tinha corda, que teria de pensar a respeito, que amanhã ou no dia seguinte tentaria arranjar alguma noção de como fazer aquilo sem corda. Mas Dick apontou que o tecido marrom que a Natureza envolveu em volta dos talos dos coqueiros serviria em vez de corda se cortado em tiras. Então, o acossado cedeu.

Eles trabalharam durante uma quinzena na coisa e, ao final desse tempo, produziram uma espécie de wigwam rústico nas margens do chaparral.

Lá no recife, para onde remavam frequentemente no bote, quando a maré estava baixa, restavam poças profundas e, nas poças, peixes. Paddy disse que, se tivessem uma lança, talvez pudessem espetar alguns desses peixes, como vira os nativos fazerem longe, "lá" no Tahiti.

Dick indagou sobre a natureza de uma lança e, no dia seguinte, produziu uma cana de três metros, afiada na ponta à moda de uma pena de escrever.

— Ora, para que serve isso? — disse o sr. Button. — Você pode espetar um peixe, mas ele escaparia em dois tempos; é a farpa que os prende.

No dia seguinte, o incansável produziu a cana aprimorada; ele a entalhara cerca de um metro a partir da ponta e de um lado, e esculpira uma farpa bastante eficiente. Era bom o suficiente, pelo menos, para espetar um "garoupa" naquela tarde, nas poças iluminadas pelo sol do recife na maré baixa.

— Não há batatas aqui — disse Dick um dia, depois das segundas chuvas.

— Nós as comemos todas meses atrás — respondeu Paddy.

— Como as batatas crescem? — perguntou Dick.

— Crescem, é? Ora, elas crescem na terra; e onde mais cresceriam? — Ele explicou o processo de plantio de batatas: cortá-las em pedaços de modo que houvesse um olho em cada pedaço, e assim por diante. — Tendo feito isso — disse o sr. Button —, você apenas joga os pedaços na terra; os olhos crescem, folhas verdes "brotam" e então, se você desenterrasse as raízes talvez seis meses depois, encontraria alqueires de batatas na terra, umas grandes como sua cabeça e outras pequeninas. É como uma família de crianças — algumas são grandes e outras pequenas. Mas elas estão lá na terra, e tudo o que você tem a fazer é pegar um garfo e cavar um pote cheio delas com um giro do pulso, como tantas vezes fiz nos velhos tempos.

— Por que não fizemos isso? — perguntou Dick.

— Fazer o quê? — perguntou o sr. Button.

— Plantar algumas das batatas.

— E onde teríamos encontrado a pá para plantá-las?

— Acho que poderíamos ter consertado uma pá — respondeu o menino. — Eu fiz uma pá em casa, com um pedaço de tábua velha, uma vez — papai ajudou.

— Bem, suma daqui e faça uma pá agora — respondeu o outro, que queria ficar quieto e pensar —, e você e Em’line podem cavar na areia.

Emmeline estava sentada por perto, enfiando algumas flores magníficas em uma gavinhas de liana. Meses de sol e ozônio tinham feito uma diferença considerável na criança. Ela estava morena como uma cigana e sardenta, não muito mais alta, mas duas vezes mais gorda. Seus olhos haviam perdido consideravelmente aquele olhar de quem contemplava o futuro e a imensidão — não como abstrações, mas como imagens concretas, e ela havia perdido o hábito de sonambulismo.

O susto da barraca caindo na primeira noite em que ela estava amarrada ao mastro a curara disso, auxiliada pelas novas condições saudáveis de vida, pelos banhos de mar e pelo ar livre eterno. Não há narcótico que supere o ar fresco.

Meses de semisselvageria também fizeram uma grande diferença na aparência de Dick. Ele estava cinco centímetros mais alto do que no dia em que desembarcaram. Sardento e bronzeado, tinha a aparência de um menino de doze anos. Era a promessa de um belo homem. Não era uma criança bonita, mas tinha um aspecto saudável, com uma risada alegre e uma expressão facial ousada, quase insolente.

A questão das roupas das crianças estava começando a perturbar a mente do velho marinheiro. O clima era um conjunto de roupas por si só. Ficava-se muito mais feliz com quase nada no corpo. É claro que havia mudanças de temperatura, mas eram leves. Verão eterno, interrompido por chuvas torrenciais e, ocasionalmente, uma tempestade, esse era o clima da ilha; ainda assim, as "crianças" não podiam andar por aí sem nada.

Ele pegou um pouco da flanela listrada e fez uma saia para Emmeline. Era engraçado vê-lo sentado na areia, Emmeline em pé diante dele com a roupa em volta da cintura, sendo experimentada; ele, com a boca cheia de alfinetes, e o porta-agulhas com as tesouras, agulhas e linha ao seu lado.

— Vire um pouco mais para a esquerda — dizia ele —, com calma. Fique firme assim — puxa! puxa! onde estão aquelas tesouras? Dick, segure a ponta desse pedaço de barbante até eu dar os pontos atrás. Isso fica confortável? — bem, e você é um problema e tanto. Como está isso? Está mais confortável, não é? Levante o pé para eu ver se chega aos seus joelhos. Agora tire, e me deixe sozinho até eu costurar as tiras.

Era a mistura de uma saia e a ideia de uma vela, pois tinha duas fileiras de pontos de rizo; uma ideia muito engenhosa, pois poderia ser reduzida se a criança quisesse ir remar, ou em tempo de vento.

CAPÍTULO XVII

O BARRIL DO DIABO

Certa manhã, cerca de uma semana após o dia em que o velho marinheiro, para usar sua própria expressão, tinha colocado uma saia em Emmeline, Dick veio correndo através dos bosques e pelas areias. Ele tinha estado no topo da colina.

— Paddy — gritou ele para o velho, que estava prendendo um anzol em uma linha de pesca —, há um navio!

Não demorou muito para o sr. Button chegar ao topo da colina, e lá estava ele, batendo para a ilha. Proa arredondada e achatada, a figura de uma velha holandesa, e denunciando seu comércio a uma légua de distância. Era logo depois das chuvas, o céu ainda não estava totalmente livre de nuvens; podiam-se ver pancadas de chuva no mar, e o mar estava verde e com espuma.

Lá estava o equipamento de processamento; lá estavam os barcos, a cesta da gávea e tudo completo, rotulando-a como um baleeiro. Era um navio, sem dúvida, mas Paddy Button preferiria ter embarcado em um navio tripulado por demônios e capitaneado por Lúcifer a embarcar em um baleeiro do Mar do Sul. Ele já estivera lá antes e sabia.

Ele escondeu as crianças sob uma grande figueira-de-bengala e disse-lhes para não se mexerem ou respirarem até que ele voltasse, pois o navio era "o navio do próprio diabo"; e se os homens a bordo os pegassem, eles os esfolariam vivos e tudo o mais.

Então ele se dirigiu à praia; recolheu todas as coisas de dentro do wigwam e toda a tralha velha na forma de botas e roupas velhas, e guardou-as no bote. Ele teria destruído a casa, se pudesse, mas não teve tempo. Então remou o bote cem metros pela lagoa para a esquerda e ancorou-o sob a sombra de um aoa, cujos galhos cresciam bem sobre a água. Então ele voltou através do coqueiral a pé e espiou através das árvores sobre a lagoa para ver o que havia para ver.

O vento soprava diretamente para a abertura no recife, e o velho baleeiro veio avançando contra a ondulação com suas proas arredondadas e entrou na lagoa. Não havia sondador em seus brandais. Ele apenas entrou como se conhecesse todas as sondagens de cor — como provavelmente conhecia —, pois esses baleeiros conhecem cada buraco e canto do Pacífico.

A âncora caiu com um mergulho, e ele balançou com ela, formando uma imagem estranha enquanto flutuava no espelho azul, tendo ao fundo a graciosa palmeira no recife. Então, o sr. Button, sem esperar para ver os barcos serem baixados, voltou para seus protegidos, e os três acamparam na floresta naquela noite.

Na manhã seguinte, o baleeiro partiu e foi embora, deixando como sinal de sua visita a areia branca toda pisoteada, uma garrafa vazia, metade de um jornal velho e o wigwam despedaçado.

O velho marinheiro amaldiçoou-o e sua tripulação, pois o incidente trouxera um novo exercício para sua vida preguiçosa. Todos os dias, ao meio-dia, ele tinha de subir a colina, à procura de baleeiros. Baleeiros assombravam seus sonhos, embora eu duvide que ele tivesse voluntariamente embarcado até mesmo em um vapor da Royal Mail. Ele estava muito feliz onde estava. Após longos anos de convés, a ilha era de fato uma mudança. Ele tinha tabaco suficiente para durar por um tempo indeterminado, as crianças como companheiras e comida à mão. Ele teria sido inteiramente feliz se a ilha tivesse sido suprida pela Natureza com um bar.

O espírito de hilaridade e boa camaradagem, no entanto, que de repente descobriu esse erro por parte da Natureza, retificou-o, como será visto em breve.

O resultado mais desastroso da visita do baleeiro não foi a destruição da "casa", mas o desaparecimento da caixa de Emmeline. Procurasse alto ou baixo, não podia ser encontrada. O sr. Button, em sua pressa, deve tê-la esquecido quando removeu as coisas para o bote — de qualquer forma, ela se fora. Provavelmente um dos tripulantes do baleeiro a encontrara e a levara consigo; ninguém poderia dizer. Ela se fora, e esse foi o fim do assunto, e o começo de uma grande tribulação, que durou para Emmeline por uma semana.

Ela era intensamente afeiçoada a coisas coloridas, especialmente flores coloridas; e ela tinha o jeito mais bonito de transformá-las em uma coroa para sua própria cabeça ou para a de outra pessoa. Era o instinto de fazer chapéus que estava em ação nela, talvez; de qualquer forma, era um instinto feminino, pois Dick não fazia coroas.

Certa manhã, enquanto ela estava sentada perto do velho marinheiro, ocupada em enfiar conchas, Dick veio correndo ao longo da beira do bosque. Ele tinha acabado de sair da mata e parecia estar procurando algo. Então ele encontrou o que procurava — uma concha grande — e com ela na mão voltou para a mata.

Item.— Seu traje era um pedaço de tecido de coqueiro amarrado em volta da cintura. Por que ele o usava, Deus sabe, pois na maioria das vezes ele corria completamente nu.

— Encontrei algo, Paddy! — gritou ele, enquanto desaparecia entre as árvores.

— O que você encontrou? — perguntou Emmeline, que sempre se interessava por coisas novas.

— Algo engraçado! — veio de volta de dentro das árvores.

Logo ele retornou; mas não estava correndo agora. Ele caminhava lenta e cuidadosamente, segurando a concha como se ela contivesse algo precioso que ele temia que escapasse.

— Paddy, eu virei o barril velho e ele tinha uma rolha nele, e eu a puxei, e o barril está cheio de um troço com um cheiro muito engraçado — trouxe um pouco para você ver.

Ele entregou a concha nas mãos do velho marinheiro. Havia cerca de meio decilitro de líquido amarelo na concha. Paddy cheirou, provou e deu um grito.

— Rum, por Deus!

— O que é, Paddy? — perguntou Emmeline.

— Onde você disse que conseguiu — no barril velho, você disse? — perguntou o sr. Button, que parecia atordoado e pasmo, como por um golpe.

— Sim; eu puxei a rolha...

— Você a colocou de volta?

— Sim.

— Oh, glória a Deus! Aqui estou eu, há muito tempo, sentado em um barril velho e vazio, com a língua pendurada até os calcanhares por falta de um drinque, e ele cheio de rum o tempo todo!

Ele tomou um gole da coisa, virou tudo, fechou os lábios com força para manter os vapores dentro e fechou um olho.

Emmeline riu.

O sr. Button levantou-se aos trambolhos. Eles o seguiram através do chaparral até chegarem à fonte de água. Lá estava o pequeno barril verde; virado pelo inquieto Dick, ele jazia com sua abertura apontando para as folhas acima. Podia-se ver a cavidade que ele fizera no solo macio durante os anos. Tão verde era ele, e tão parecido com um objeto da natureza, um pedaço de tronco de árvore velho ou uma rocha manchada de líquen, que, embora os baleeiros tivessem realmente buscado água na fonte, sua verdadeira natureza não fora descoberta.

O sr. Button bateu nele com a base da concha: estava quase cheio. Por que fora deixado ali, por quem ou como, não havia ninguém para contar. Os velhos crânios cobertos de líquen poderiam ter contado, se pudessem ter falado.

— Vamos rolá-lo até a praia — disse Paddy, quando provou outro gole.

Ele deu a Dick um gole. O menino cuspiu e fez uma careta, então, empurrando o barril à frente, começaram a rolá-lo colina abaixo até a praia, Emmeline correndo à frente deles coroada de flores.

CAPÍTULO XVIII

A CAÇA AOS RATOS

Eles jantaram ao meio-dia. Paddy sabia como cozinhar peixe, ao estilo da ilha, envolvendo-os em folhas e assando-os em um buraco no chão onde um fogo tinha sido previamente aceso. Eles comeram peixe e raiz de taro assada, e coqueiros verdes; e após o jantar o sr. Button encheu uma concha grande com rum e acendeu seu cachimbo.

O rum era bom originalmente, e o tempo o melhorara. Acostumado como ele estava ao terrível suco de balão vendido nos antros de bebida da "costa de Barbary" em San Francisco, ou nos bares das docas, aquilo era néctar.

A jovialidade irradiava dele: era contagiosa. As crianças sentiam que alguma influência feliz caíra sobre seu amigo. Geralmente, depois do jantar, ele ficava sonolento e "desejoso de ficar quieto". Hoje, ele lhes contava histórias do mar e cantava canções — chanties:

"Sou um marinheiro de peixe-voador que voltou de Hong Kong, Yeo ho! sopre o homem para baixo. Sopre o homem para baixo, valentões, sopre o homem para baixo, Oh, dê-nos tempo para soprar o homem para baixo. Você é um sujo navio de bandeira negra que voltou de Nova York, Yeo ho! sopre o homem para baixo, Sopre o homem para baixo, valentões, sopre o homem para baixo. Oh, dê-nos tempo para soprar o homem para baixo."

"Oh, dê-nos tempo para soprar o homem para baixo!", ecoaram Dick e Emmeline.

Lá em cima, nas árvores, os pássaros de olhos brilhantes os observavam — um grupo tão feliz. Eles tinham toda a aparência de piqueniqueiros, e a canção ecoava entre os coqueiros, e o vento a levava sobre a lagoa até onde as gaivotas circulavam e gritavam, e a espuma trovejava no recife.

Naquela noite, o sr. Button, sentindo-se inclinado à jovialidade e não querendo que as crianças o vissem sob a influência, rolou o barril através do coqueiral até uma pequena clareira à beira da água. Lá, quando as crianças estavam na cama e dormindo, ele se retirou com alguns coqueiros verdes e uma concha. Ele geralmente era musical quando se divertia dessa maneira, e Emmeline, acordando durante a noite, ouviu sua voz levada pelo vento através do coqueiral iluminado pela lua:

"Havia cinco ou seis velhos marinheiros bêbados Em pé diante do balcão, E Larry, ele estava servindo-os De um grande jarro de cinco galões.

"Refrão.— Icem a bandeira, que ela balance por muito tempo! Que ela nos guie para a glória ou para a sepultura. Firme, rapazes, firme — soem o jubileu, Pois a Babilônia caiu, e os negros estão todos libertados."

Na manhã seguinte, o músico acordou ao lado do barril. Ele não tinha um traço de dor de cabeça ou qualquer sensação ruim, mas fez Dick cozinhar; e ele ficou deitado na sombra dos coqueiros, com a cabeça sobre um "travesseiro" feito de um casaco velho enrolado, girando os polegares, fumando seu cachimbo e discorrendo sobre os "velhos" tempos, metade para si mesmo e metade para seus companheiros.

Naquela noite, ele teve outra noite musical sozinho, e assim foi por uma semana. Então ele começou a perder o apetite e o sono; e certa manhã Dick o encontrou sentado na areia parecendo muito estranho, de fato — como bem poderia, pois ele estivera "vendo coisas" desde o amanhecer.

— O que é, Paddy? — disse o menino, correndo, seguido por Emmeline.

O sr. Button estava encarando um ponto na areia ali perto. Ele tinha a mão direita levantada à maneira de uma pessoa que está tentando pegar uma mosca. De repente, ele deu um bote na areia e depois abriu a mão bem aberta para ver o que tinha pegado.

— O que é, Paddy?

— O Cluricaune — respondeu o sr. Button. — Ele estava todo vestido de verde — puxa! puxa! mas eu só estou fingindo.

A queixa da qual ele sofria tem essa coisa estranha, que, embora o paciente veja ratos, ou cobras, ou o que quer que seja, tão real quanto as coisas reais, e embora elas possuam sua mente por um momento, quase imediatamente ele reconhece que está sofrendo de uma ilusão.

As crianças riram, e o sr. Button riu de um jeito estúpido.

— Ora, era apenas um jogo que eu estava brincando — não havia Cluricaune nenhum — é quando eu bebo rum que isso coloca na minha cabeça brincar de jogos assim. Oh, pelo Santo Poker, há ratos vermelhos saindo da areia!

Ele ficou de quatro e correu em direção aos coqueiros, olhando por cima do ombro com uma expressão confusa no rosto. Ele teria se levantado para fugir, se não tivesse medo de ficar de pé.

As crianças riram e dançaram em volta dele enquanto ele engatinhava.

— Olhe os ratos, Paddy! olhe os ratos! — gritou Dick.

— Eles estão na minha frente! — gritou o aflito, dando um bote vicioso no rabo de um roedor imaginário. — Danem-se as bestas! — agora eles se foram. Puxa, mas eu estou fazendo papel de bobo.

— Continue, Paddy — disse Dick; — não pare — Olhe lá — há mais ratos vindo atrás de você!

— Oh, cale a boca, quer? — respondeu Paddy, sentando-se na areia e limpando a testa. — Eles saíram de mim agora.

As crianças ficaram por perto, desapontadas com o fim do jogo. Uma boa atuação atrai as crianças tanto quanto às pessoas crescidas. Elas ficaram esperando por outro acesso de humor para tomar o comediante, e não tiveram de esperar muito.

Uma coisa como um cavalo esfolado saiu da lagoa e subiu a praia, e desta vez o sr. Button não se arrastou para longe. Ele se levantou e correu.

— É um cavalo que está atrás de mim — é um cavalo que está atrás de mim! Dick! Dick! dê um tapa nele. Dick! Dick! espante-o.

— Hurroo! Hurroo! — gritou Dick, perseguindo o aflito, que corria em um círculo largo, seu rosto vermelho e largo virado sobre o ombro esquerdo. — Vai, Paddy! vai, Paddy!

— Fique longe de mim, seu monstro! — gritou Paddy. — Santa Maria, Mãe de Deus! Vou te dar um pontapé se você chegar perto de mim. Em’leen! Em’leen! venha entre nós!

Ele tropeçou e caiu na areia, o incansável Dick batendo nele com um pequeno galho que pegara para fazê-lo continuar.

— Estou melhor agora, mas estou quase exausto — disse o sr. Button, sentando-se na areia. — Mas, por Deus, se eu for perseguido por mais coisas como essas, é para o mar que vou me lançar. Dick, empreste-me seu braço.

Ele segurou o braço de Dick e caminhou até a sombra das árvores. Ali, jogou-se ao chão e disse às crianças que o deixassem dormir. Elas reconheceram que a brincadeira havia acabado e o deixaram. E ele dormiu por seis horas seguidas; foi o primeiro sono de verdade que tivera em vários dias. Quando acordou, estava bem, mas muito trêmulo.

CAPÍTULO XIX

LUZ DAS ESTRELAS SOBRE A ESPUMA

O sr. Button não viu mais ratos, para grande desapontamento de Dick. Ele estava longe da bebida. Ao amanhecer do dia seguinte, levantou-se, revigorado por um segundo sono, e caminhou até a margem da lagoa. A abertura no recife dava para o leste, e a luz do amanhecer entrava ondulando com a maré crescente.

— Fui um estúpido — disse o penitente —, um bruto estúpido.

Ele estava totalmente enganado; na verdade, era apenas um homem cercado e traído.

Ficou ali por um tempo, amaldiçoando a bebida, “e aqueles que a vendem”. Então, decidiu colocar-se fora do alcance da tentação. Tirar a rolha do barril e deixar o conteúdo escapar?

Tal pensamento nunca lhe ocorreu — ou, se ocorreu, foi imediatamente descartado; pois, embora um velho marinheiro possa amaldiçoar a bebida, o bom rum é para ele algo sagrado; e esvaziar metade de um pequeno barril no mar seria um ato quase equivalente ao infanticídio. Ele colocou o barril no bote e remou até o recife. Lá, colocou-o sob o abrigo de um grande bloco de coral e remou de volta.

Paddy fora treinado toda a sua vida para a embriaguez rítmica. Cerca de quatro meses geralmente se passavam entre suas bebedeiras — às vezes seis; tudo dependia da duração da viagem. Seis meses se passaram agora antes que ele sentisse qualquer inclinação para olhar para o barril de rum, aquele pequeno ponto escuro lá no recife. E foi melhor assim, pois durante esses seis meses outro navio baleeiro chegou, abasteceu-se de água e foi evitado.

— Maldito seja! — disse ele. — O mar aqui parece criar navios baleeiros, e nada além de navios baleeiros. É como percevejos numa cama: você mata um, e outro aparece. Seja como for, estamos livres deles por enquanto.

Ele caminhou até a margem da lagoa, olhou para o pequeno ponto escuro e assobiou. Depois, voltou para preparar o jantar. Aquele pequeno ponto escuro começou a incomodá-lo depois de um tempo; não ele, mas o espírito que continha.

Os dias tornaram-se longos e cansativos, os dias que tinham sido tão curtos e agradáveis. Para as crianças, não existia tempo. Tendo saúde absoluta e perfeita, desfrutavam da felicidade tanto quanto os mortais podem desfrutar. O sistema nervoso altamente tenso de Emmeline, é verdade, desenvolvia uma dor de cabeça quando ela ficava tempo demais sob o brilho do sol, mas esses momentos eram raros.

O espírito no pequeno barril vinha sussurrando através da lagoa há algumas semanas; finalmente, começou a gritar. O sr. Button, metaforicamente falando, tapou os ouvidos. Ocupou-se com as crianças o máximo possível. Fez outra vestimenta para Emmeline e cortou o cabelo de Dick com a tesoura (um trabalho que geralmente era realizado uma vez a cada dois meses).

Certa noite, para evitar que o rum perturbasse sua cabeça, contou-lhes a história de Jack Dogherty e o Merrow, que é bem conhecida na costa oeste.

O Merrow leva Jack para jantar no fundo do mar e mostra-lhe as armadilhas de lagosta onde mantém as almas de antigos marinheiros, e então eles jantam, e o Merrow apresenta uma grande garrafa de rum.

Foi uma história fatal para ele se lembrar e narrar; pois, depois que seus companheiros estavam dormindo, a visão do Merrow e Jack bebendo juntos, e a ideia da alegria disso, surgiu diante dele e excitou uma sede de jovialidade impossível de resistir.

Havia alguns cocos verdes que ele colhera naquele dia deitados em uma pequena pilha sob uma árvore — meia dúzia ou mais. Pegou vários deles e uma concha, encontrou o bote onde estava amarrado à árvore de aoa, soltou-o e partiu para a lagoa.

A lagoa e o céu estavam cheios de estrelas. Nas profundezas escuras da água podiam ser vistos brilhos fosforescentes de peixes passando, e o trovão da arrebentação no recife enchia a noite com sua canção.

Ele prendeu o cabo do barco cuidadosamente em uma ponta de coral e desembarcou no recife, e com uma concha cheia de rum e limonada de coco misturados meio a meio, empoleirou-se em uma alta borda de coral de onde se podia obter uma vista do mar e da praia de coral.

Em uma noite de luar, era bom sentar-se ali e observar as grandes ondas quebrando, todas marmoreadas, nubladas e coloridas com a espuma e lençóis de borrifos. Mas a neve e o canto delas sob a luz difusa das estrelas produziam um efeito mais indescritivelmente belo e estranho.

A maré estava baixando agora, e o sr. Button, enquanto se sentava fumando seu cachimbo e bebendo seu grogue, podia ver espelhos brilhantes aqui e ali onde a água ficava em poças nas rochas. Quando contemplou essas vistas por um tempo considerável em completo contentamento, retornou ao lado da lagoa do recife e sentou-se ao lado do pequeno barril. Então, depois de um tempo, se você estivesse parado na praia oposta, teria ouvido fragmentos de canção levados pela água trêmula da lagoa.

“Navegando, navegando Na costa da Barbária.”

Se a costa da Barbária em questão é a de São Francisco ou a costa verdadeira e apropriada, não importa. É uma canção antiga; e quando você a ouve, seja em um recife de coral ou em um cais de granito, pode ter certeza de que um velho marinheiro a está cantando, e que o velho marinheiro está confuso.

Logo o bote partiu do recife, os remos quebraram as águas estreladas e grandes círculos trêmulos de luz responderam ritmicamente ao lento e constante ranger dos toletes contra o couro. Ele amarrou no aoa, certificou-se de que os remos estavam guardados com segurança; então, respirando pesadamente, tirou as botas por medo de acordar as “crianças”. Como as crianças dormiam a mais de duzentos metros de distância, essa era uma precaução desnecessária — especialmente porque a distância entre eles era composta principalmente de areia macia.

Suco de coco verde e rum misturados são agradáveis o suficiente para beber, mas são melhores bebidos separadamente; combinados, nem o cérebro de um velho marinheiro pode fazer nada com eles além de névoa e confusão; isto é, em termos de pensamento — em termos de ação, eles podem fazê-lo fazer muita coisa. Eles fizeram Paddy Button atravessar a lagoa nadando.

A lembrança veio a ele de repente, enquanto caminhava pela praia em direção à cabana, de que deixara o bote amarrado ao recife. O bote estava, na verdade, são e salvo amarrado ao aoa; mas a memória do sr. Button dizia-lhe que estava amarrado ao recife. Como ele havia atravessado a lagoa não tinha importância alguma para ele; o fato de ter atravessado sem o barco, e ainda assim sem se molhar, não lhe parecia estranho. Ele não tinha tempo para lidar com ninharias como essas. O bote precisava ser buscado através da lagoa, e havia apenas uma maneira de buscá-lo. Então, ele voltou pela praia até a beira da água, jogou suas botas, tirou o casaco e mergulhou. A lagoa era larga, mas em seu estado mental atual ele teria nadado o Helesponto. Sua figura desaparecida da praia, a noite retomou sua majestade e aspecto de meditação.

Tão iluminada estava a lagoa pelo brilho das estrelas que a cabeça do nadador podia ser distinguida lá longe, no meio de círculos de luz; também, conforme a cabeça se aproximava do recife, um triângulo escuro que vinha cortando a água passando pela palmeira no cais. Era a patrulha noturna da lagoa, que ouvira de alguma maneira misteriosa que um marinheiro bêbado estava causando problemas em suas águas.

Olhando, ouvia-se, com a mão no coração, o grito do detido, mas ele não veio. O nadador, subindo no recife de maneira exausta, esquecido evidentemente do objeto pelo qual retornara, dirigiu-se ao barril de rum e caiu ao lado dele como se o sono o tivesse tocado em vez da morte.

CAPÍTULO XX

O SONHADOR NO RECIFE

— Eu me pergunto onde está Paddy? — gritou Dick na manhã seguinte. Ele estava saindo do matagal arrastando um galho morto atrás de si. — Ele deixou o casaco na areia, e a caixa de isqueiro dentro dele, então vou fazer o fogo. Não adianta esperar. Quero meu café da manhã. Que chatice...

Ele pisou no galho morto com seus pés descalços, quebrando-o em pedaços.

Emmeline sentou-se na areia e observou-o.

Emmeline tinha dois deuses de certa forma: Paddy Button e Dick. Paddy era quase um deus esotérico envolto nos vapores do tabaco e do mistério. O deus dos navios balançantes e mastros rangentes — os mastros e vastas áreas de velas do Northumberland eram uma visão duradoura em sua mente — a divindade que a tirara de um pequeno barco para este lugar maravilhoso, onde os pássaros eram coloridos e os peixes eram pintados, onde a vida nunca era monótona e os céus quase nunca cinzentos.

Dick, a outra divindade, era uma personalidade muito mais compreensível, mas não menos admirável como companheiro e protetor. Nos dois anos e cinco meses de vida na ilha, ele crescera quase oito centímetros. Era tão forte quanto um menino de doze anos e podia remar o barco quase tão bem quanto o próprio Paddy, e acender uma fogueira. De fato, durante os últimos meses, o sr. Button, ocupado em descansar seus ossos e contemplar o rum como uma ideia abstrata, deixara o cozimento, a pesca e a coleta geral de alimentos o máximo possível para Dick.

— Diverte a criatura fingir que está fazendo as coisas — dizia ele, enquanto observava Dick cavando na terra para fazer um pequeno forno — ao estilo da ilha — para cozinhar peixe ou qualquer outra coisa.

— Venha, Em — disse Dick, empilhando a madeira quebrada sobre alguns gravetos de hibisco podres; — dê-me a caixa de isqueiro.

Ele conseguiu uma centelha em um pedaço de isca, e então soprou sobre ela, parecendo não muito diferente de Éolo como representado naqueles antigos mapas holandeses que cheiram a gim e rapé, e nos dão sereias e anjos em vez de sondagens.

O fogo logo estava cintilando e crepitando, e ele empilhou galhos em profusão, pois havia muito combustível, e ele queria cozinhar fruta-pão.

A fruta-pão varia em tamanho, de acordo com a idade, e em cor de acordo com a estação. Estas que Dick estava se preparando para cozinhar eram tão grandes quanto pequenos melões. Duas seriam mais do que suficientes para o café da manhã de três pessoas. Eram verdes e nodosas por fora, e sugeriam à mente limões não maduros, em vez de pão.

Ele as colocou nas brasas, assim como se coloca batatas para assar, e logo elas chiaram e cuspiram pequenos jatos venenosos de vapor, depois racharam, e a substância interna branca tornou-se visível. Ele as cortou e retirou o miolo — o miolo não é próprio para comer — e elas estavam prontas.

Enquanto isso, Emmeline, sob suas instruções, não ficara ociosa.

Havia na lagoa — existem em várias outras lagoas tropicais que conheço — um peixe que só posso descrever como um arenque dourado. Parece um arenque de bronze quando pescado, mas quando nada contra o fundo de corais e manchas de areia branca, tem o brilho de ouro polido. É tão bom de comer quanto de olhar, e Emmeline estava cuidadosamente torrando vários deles em um pedaço de cana.

O suco do peixe impedia que a cana carbonizasse, embora houvesse acidentes às vezes, quando um peixe inteiro ia parar no fogo, em meio a gritos de escárnio de Dick.

Ela formava uma imagem bem bonita enquanto se ajoelhava, a “saia” em torno da cintura parecendo não muito diferente de uma toalha de banho listrada, seu rosto pequeno atento e cheio da seriedade do trabalho em mãos, e seus lábios franzidos pelo calor do fogo.

— Está tão quente! — gritou ela em sua defesa, após o primeiro dos acidentes.

— Claro que está quente — disse Dick —, se você fica a sotavento do fogo. Quantas vezes Paddy lhe disse para ficar a barlavento dele!

— Eu não sei qual é qual — confessou a infeliz Emmeline, que era um fracasso absoluto em tudo o que era prático: que não sabia remar nem pescar, nem jogar uma pedra, e que, embora estivessem na ilha há vinte e oito meses ou mais, não sabia nem nadar.

— Você quer dizer — disse Dick — que você não sabe de onde vem o vento?

— Sim, eu sei disso.

— Bem, isso é a barlavento.

— Eu não sabia disso.

— Bem, você sabe agora.

— Sim, eu sei agora.

— Bem, então, venha a barlavento do fogo. Por que você não perguntou o significado disso antes?

— Eu perguntei — disse Emmeline; — perguntei ao sr. Button um dia, e ele me contou muito sobre isso. Ele disse que se ele cuspisse a barlavento e uma pessoa ficasse a sotavento dele, ela seria uma tola; e ele disse que se um navio fosse demais a sotavento ele ia parar nas rochas, mas eu não entendi o que ele quis dizer. Dicky, eu me pergunto onde ele está?

— Paddy! — gritou Dick, pausando no ato de abrir uma fruta-pão. Ecos vinham do meio das árvores de coco, mas nada mais.

— Vamos — disse Dick; — não vou esperar por ele. Ele pode ter ido buscar as linhas noturnas — eles às vezes colocavam linhas noturnas na lagoa — e adormecido sobre elas.

Agora, embora Emmeline honrasse o sr. Button como uma divindade menor, Dick não tinha ilusões sobre o assunto. Ele admirava Paddy porque ele sabia dar nós, fazer emendas, subir em coqueiros e exercer seu ofício de marinheiro de outras maneiras admiráveis, mas ele sentia as limitações do velho. Eles deveriam ter batatas agora, mas tinham comido tanto as batatas quanto a possibilidade de batatas quando consumiram o conteúdo daquele meio saco. Jovem como era, Dick sentia a absoluta falta de economia desse procedimento. Emmeline não; ela nunca pensava em batatas, embora pudesse lhe dizer a cor de todos os pássaros da ilha.

Então, novamente, a casa precisava ser reconstruída, e o sr. Button dizia todos os dias que começaria a cuidar disso amanhã, e no dia seguinte seria amanhã. As necessidades da vida que levavam eram um estímulo para a mente ousada e ativa do menino; mas ele estava sempre sendo contido pelos métodos de viver conforme a vontade de seu mais velho. Dick vinha de um povo que faz máquinas de costura e máquinas de escrever. O sr. Button vinha de um povo notável por baladas, corações ternos e potheen. Essa era a principal diferença.

— Paddy! — gritou o menino novamente, quando comeu o quanto quis. — Ei! onde você está?

Eles ouviram, mas nenhuma resposta veio. Um pássaro de cores vivas voou pelo espaço de areia, um lagarto correu pela areia brilhante, o recife falou, e o vento nas copas das árvores; mas o sr. Button não deu resposta.

— Espere — disse Dick.

Ele correu pelo bosque em direção ao aoa onde o bote estava amarrado; depois voltou.

— O bote está bem — disse ele. — Onde será que ele pode estar?

— Eu não sei — disse Emmeline, sobre cujo coração uma sensação de solidão havia caído.

— Vamos subir a colina — disse Dick; — talvez o encontremos lá.

Eles subiram a colina pelo bosque, passando pelo curso d'água. De vez em quando Dick gritava, e ecos respondiam — havia ecos de voz úmida e estranha entre as árvores — ou um bando de pássaros levantava voo. A pequena cachoeira borbulhava e sussurrava, e as grandes folhas de bananeira espalhavam sua sombra.

— Vamos — disse Dick, quando ele chamou novamente sem receber resposta.

Eles encontraram o topo da colina, e a grande rocha estava lá projetando sua sombra ao sol. A brisa da manhã soprava, o mar brilhava, o recife reluzia, a folhagem da ilha balançava ao vento como as chamas de uma tocha de fogo verde. Um profundo swell espalhava-se pelo peito do Pacífico. Algum furacão longe, além das ilhas Navegadores ou Gilberts, enviara esta mensagem e estava encontrando seu eco aqui, a mil milhas de distância, no trovão mais profundo do recife.

Em nenhum outro lugar do mundo se poderia encontrar tal imagem, tal combinação de esplendor e verão, tal visão de frescor e força, e o deleite da manhã. Era a pequenez da ilha, talvez, que fechava o encanto e a tornava perfeita. Apenas um punhado de folhagem e flores colocadas no meio do vento soprante e do azul brilhante.

De repente, Dick, parado ao lado de Emmeline na rocha, apontou com o dedo para o recife perto da abertura.

— Ali está ele! — gritou ele.

CAPÍTULO XXI

A GUIRLANDA DE FLORES

Podia-se distinguir a figura deitada no recife perto do pequeno barril, e confortavelmente protegida do sol por um bloco de coral erguido.

— Ele está dormindo — disse Dick.

Ele não tinha pensado em olhar em direção ao recife a partir da praia, ou poderia ter visto a figura antes.

— Dicky! — disse Emmeline.

— Bem?

— Como ele chegou lá, se você disse que o bote estava amarrado à árvore?

— Eu não sei — disse Dick, que não tinha pensado nisso; — de qualquer forma, ele está ali. Sabe de uma coisa, Em, vamos remar até lá e acordá-lo. Vou fazer um "boo" no ouvido dele e fazê-lo pular.

Eles desceram da rocha e voltaram pelo bosque. Enquanto vinham, Emmeline colhia flores e começava a fazer uma de suas guirlandas. Alguns hibiscos escarlates, algumas campânulas, um par de papoulas pálidas com caules peludos e perfume amargo.

— Para que você está fazendo isso? — perguntou Dick, que sempre via a confecção de guirlandas de Emmeline com uma mistura de compaixão e vago desprezo.

— Vou colocar na cabeça do sr. Button — disse Emmeline; — assim, quando você fizer "boo" no ouvido dele, ele pulará com ela na cabeça.

Dick riu com prazer da ideia da brincadeira prática, e quase admitiu em sua própria mente, por um momento, que afinal poderia haver utilidade para tais futilidades como guirlandas.

O bote estava amarrado sob a sombra espalhada do aoa, o cabo amarrado a um dos galhos que se projetavam sobre a água. Estes aoas anões ramificam-se de forma extraordinária perto do solo, lançando membros como trilhos. A árvore criara uma boa proteção para o pequeno barco, protegendo-o de mãos saqueadoras e do sol; além da proteção da árvore, Paddy de vez em quando afundava o barco em águas rasas. Era um barco novo para começar, e com precauções como estas poderia durar muitos anos.

— Entre — disse Dick, puxando o cabo para que a proa do bote chegasse perto da praia.

Emmeline entrou cuidadosamente e foi para a popa. Então Dick entrou, empurrou e pegou os remos. No momento seguinte, eles estavam sobre a água brilhante.

Dick remou cautelosamente, temendo acordar o adormecido. Ele prendeu o cabo no espigão de coral que parecia ali colocado pela natureza para esse propósito. Ele subiu no recife e, deitando-se de bruços, puxou a amurada do barco para perto para que Emmeline pudesse desembarcar. Ele não estava de botas; as solas de seus pés, pela exposição constante, haviam se tornado insensíveis como couro.

Emmeline também estava sem botas. As solas de seus pés, como sempre acontece com pessoas altamente nervosas, eram sensíveis, e ela andava delicadamente, evitando os piores lugares, segurando sua guirlanda na mão direita.

Era maré alta, e o trovão das ondas lá fora sacudia o recife. Era como estar em uma igreja quando o baixo profundo do órgão é ligado no máximo, sacudindo o chão e o ar, as paredes e o teto. Borrifos de espuma passavam com o vento, e o melancólico “Hi, hi!” das gaivotas que circulavam vinha como as vozes de marinheiros fantasmagóricos puxando as adriças.

Paddy jazia sobre o flanco direito, mergulhado em profundo esquecimento. O rosto estava sepultado na curva do braço direito, e a mão esquerda, morena e tatuada, repousava sobre a coxa esquerda, com a palma voltada para cima. Estava sem chapéu, e a brisa agitava-lhe os cabelos grisalhos.

Dick e Emmeline aproximaram-se dele às ocultas até ficarem bem junto dele. Então Emmeline, soltando uma risada súbita, atirou a pequena grinalda de flores sobre a cabeça do velho, e Dick, ajoelhando-se de repente, gritou-lhe ao ouvido. Mas o sonhador não se mexeu nem moveu um dedo.

— Paddy — gritou Dick —, acorda! Acorda!

Puxou-lhe o ombro até que o corpo, da postura de lado, tombou de costas. Os olhos estavam bem abertos e fixos. A boca pendia aberta, e dela dardejava um pequeno caranguejo; este escafedeu-se pelo queixo e caiu sobre o coral.

Emmeline gritou e gritou, e teria caído, se o rapaz não a tivesse apanhado nos braços — um lado do rosto fora destruído pelas larvas das rochas.

Apertou-a contra si enquanto fitava a figura terrível estendida de costas, com as mãos abertas. Depois, louco de terror, arrastou-a em direção ao pequeno barco. Ela debatia-se, ofegante e arquejante, como uma pessoa a afogar-se em água gelada.

O seu único instinto era escapar, fugir — para qualquer parte, não importava onde. Arrastou a rapariga até à borda do coral e puxou o barco para perto. Se o recife se tivesse visto subitamente envolvido em chamas, ele não se teria esforçado mais para escapar dele e salvar a companheira. Um momento depois estavam a flutuar, e ele remava desabaladamente para a terra.

Não sabia o que tinha acontecido, nem parou para pensar: fugia do horror — de um horror sem nome; enquanto a criança a seus pés, com a cabeça apoiada na borda, fitava o grande céu azul de olhos arregalados e em silêncio, como se visse ali algum terror visível. O barco encalhou na areia branca, e o embalo da maré enchente empurrou-o de lado.

Emmeline caíra para a frente; perdera os sentidos.

CAPÍTULO XXII

SOZINHA

A ideia de vida espiritual deve ser inerente ao coração do homem, pois durante toda aquela noite terrível, quando as crianças se deitaram encolhidas na pequena choupana no chaparel, o medo que as invadia era o de que o seu velho amigo de repente lhes escurecesse a entrada e procurasse deitar-se ao lado delas.

Não falaram dele. Tinham-lhe feito algo; algo acontecera. Algo de terrível acontecera ao mundo que conheciam. Mas não ousavam falar disso nem interrogar-se mutuamente.

Dick levara a companheira para a choupana quando largou o barco, e escondia-se com ela ali; a tarde caíra, e a noite, e agora na escuridão, sem terem provado alimento durante todo o dia, ele dizia-lhe para não ter medo, que cuidaria dela. Mas nem uma palavra sobre a coisa que acontecera.

A coisa, para eles, não tinha precedente nem vocabulário. Tinham deparado com a morte crua e real, não cozinhada pela religião, não desodorizada pelos ditos de sábios e poetas.

Nada sabiam da filosofia que nos diz que a morte é o lote comum e a consequência natural do nascimento, nem da religião que nos ensina que a morte é a porta para a vida.

Um velho marinheiro morto, jazendo como uma carcaça em putrefação num recife de coral, com os olhos estáticos, vidrados e fixos, uma boca escancarada que outrora proferira palavras reconfortantes e agora geria caranguejos vivos.

Essa era a visão diante deles. Não filosofavam sobre isso; e embora estivessem cheios de terror, creio que não foi o terror que os impediu de falar nisso, mas um sentimento vago de que o espetáculo a que tinham assistido era obsceno, indizível e algo a evitar.

Lestrange educara-os à sua maneira. Dissera-lhes que havia um Deus bondoso que cuidava do mundo; determinado, tanto quanto podia, a excluir da mente deles a demonologia, o pecado e a morte, contentara-se com a afirmação nua e crua de que havia um Deus bondoso que cuidava do mundo, sem explicar cabalmente que esse mesmo Deus os torturaria pelos séculos dos séculos, caso falhassem em crer Nele ou em guardar os Seus mandamentos.

Este conhecimento do Todo-Poderoso era, portanto, apenas um meio conhecimento, a mais vaga das abstrações. Tivessem eles sido criados, contudo, na escola mais estritamente calvinista, este conhecimento Dele não lhes teria servido de consolo agora. A crença em Deus não é consolo para uma criança assustada. Ensinai-lhe quantas preces de papagaio quiserdes, e na aflição ou na escuridão de que servem elas? O seu grito é pela ama ou pela mãe.

Durante aquela noite terrível, aquelas duas crianças não tinham consolo a procurar em parte alguma de todo o vasto universo senão uma na outra. Ela, na sensação da proteção dele; ele, na sensação de ser o protetor dela. A virilidade nele, maior e mais bela do que a força física, desenvolveu-se naquelas horas escuras exatamente como uma planta, sob circunstâncias extraordinárias, é forçada a florescer.

Perto do amanhecer, Emmeline adormeceu. Dick esgueirou-se para fora da choupana quando se certificou, pela respiração regular dela, de que estava a dormir, e, afastando os gavinheiros e os ramos das maçãs-mamão, encontrou a praia. O amanhecer despontava e a brisa matinal chegava do mar.

Quando arrastara o bote para a praia no dia anterior, a maré estava exatamente na preia-mar, o que o deixara encalhado. A maré vinha subindo agora, e dentro em pouco estaria alta o bastante para o empurrar.

Emmeline suplicara-lhe durante a noite que a levasse dali. Que a levasse para longe dali para qualquer parte, e ele prometera, sem saber minimamente como havia de cumprir a promessa. Ao ficar ali a olhar para a praia, tão deserta e estranhamente diferente agora daquela do dia anterior, veio-lhe à mente a ideia de como poderia cumprir a promessa. Correu para o sítio onde o pequeno barco jazia na areia inclinada, com as ondulações da maré enchente a banharem o leme, que ainda estava encaixado. Desencaixou o leme e voltou.

Debaixo de uma árvore, coberto pela vela de estai que tinham trazido do Shenandoah, jazia a maior parte dos seus tesouros: roupas velhas e botas, e toda a sorte de bugigangas. O precioso tabaco cosido num pedaço de lona estava ali, bem como a caixinha de costura com as agulhas e as linhas. Tinham cavado um buraco na areia como uma espécie de esconderijo para eles, e a vela de estai fora posta por cima para os proteger do orvalho.

O sol espreitava agora acima da linha do mar, e os altos coqueiros cantavam e sussurravam juntos sob a brisa que se avigorava.

CAPÍTULO XXIII

MUDAM-SE

Começou a recolher as coisas e a transportá-las para o bote. Levou a vela de estai e tudo o que pudesse ser útil; e, quando os arrumou no barco, pegou na barrica e encheu-a de água na nascente do bosque; colheu algumas bananas e frutos-pão, e arrumou-os no bote com a barrica. Depois encontrou os restos do pequeno-almoço do dia anterior, que escondera entre duas folhas de palmeira, e colocou-os também no barco.

A água estava agora tão alta que um forte empurrão o faria flutuar. Voltou para a choupana para ir buscar Emmeline. Ela ainda estava a dormir: tão profundamente a dormir que, quando a ergueu nos braços, ela não fez nenhum movimento. Colocou-a com cuidado à ré, com a cabeça apoiada na vela enrolada, e depois, postando-se na proa, desatracou com um remo curto. A seguir, pegando nos remos, virou a proa do barco lagoa acima, para a esquerda. Manteve-se rente à margem, mas, por mais que tentasse, não pôde evitar levantar os olhos e olhar em direção ao recife.

Em torno de um certo ponto no coral branco distante havia uma enorme barafunda de aves. Algumas pareciam aves enormes, e o seu "Hi! hi! hi!" cruzava a lagoa trazido pela brisa, à medida que discutiam umas com as outras e batiam o ar com as asas. Desviou o rosto até que uma curva da margem ocultou o local da vista.

Ali, abrigadas de forma mais completa do que em frente à brecha no recife, as árvores artu chegavam em alguns pontos mesmo à beira da água; os frutos-pão projetavam a sombra das suas grandes folhas recortadas sobre a água; clareiras densas defetos, ermos de maçãs-mamão e arbustos de "coqueiro silvestre" escarlate desfilavam à passagem, enquanto o bote, costeando a margem, subia a lagoa.

Fitando a orla da margem, poder-se-ia tê-la imaginado como a margem de um lago, não fosse o trovejar do Pacífico no recife distante; e nem mesmo isso destruía a impressão, conferindo-lhe apenas um toque de estranheza.

Um lago no meio do oceano, era isso o que a lagoa realmente era.

Aqui e ali, os coqueiros inclinavam-se sobre a água, espelhando os seus caules delicados e traçando as suas sombras bem delineadas no fundo arenoso, a uma braça de profundidade.

Manteve-se junto à margem para aproveitar o abrigo das árvores. O seu objetivo era encontrar algum lugar onde pudessem fixar-se permanentemente e erguer uma tenda. Procurava um novo lar, de fato. Mas, por bonitas que fossem as clareiras por onde passavam, não eram sítios atraentes para se viver. Havia árvores a mais, ou os fetos eram demasiado densos. Procurava ar e espaço, e de repente encontrou-os. Contornando um pequeno cabo, todo resplandecente com o escarlate do coqueiro silvestre, o bote irrompeu num mundo novo.

Diante dele estendia-se uma vasta extensão de água azul-pálida fustigada pelo vento, para a qual declinava um largo relvado verde de aspeto aprazível, ladeado de ambos os lados por bosques densos, que subia e conduzia a terras mais altas onde, acima do verde macio e imóvel dos grandes frutos-pão, as palmeiras balançavam e agitavam as suas plumas verde-claras ao sabor da brisa. A cor pálida da água devia-se à extrema rasueira da lagoa precisamente ali. Tão rasa era que se podiam ver manchas castanhas a indicar bancos de coral morto e apodrecido, e salpicos de safira escuro onde se estendiam as poças fundas. O recife ficava a mais de meia milha da terra: muito longe, parecia, tão longe que a sua influência constritora desaparecia e ficava-se com a impressão de um mar vasto e ininterrupto.

Dick deteve os remos e deixou o bote derivar enquanto olhava em redor. Tinha percorrido umas quatro milhas e meia, e aquilo ficava precisamente na parte posterior da ilha. À medida que o barco, derivando em direção à terra, roçava a margem, Emmeline despertou do sono, sentou-se e olhou em redor.

LIVRO II

PARTE I

CAPÍTULO I

DEBAIXO DA ÁRVORE ARTU

Na orla do relvado, entre um tronco de artu axadrezado de losangos e o tronco macio de um fruto-pão, surgira uma casa. Não era muito maior do que um grande galinheiro, mas perfeitamente suficiente para as necessidades de duas pessoas num clima de verão eterno. Era construída de bambus e coberta por um telhado duplo de folhas de palmeira, tão limpezamente edificada e tão bem capinada que se diria obra de vários artífices qualificados.

O fruto-pão estava estéril, como estas árvores por vezes ficam, com bosques inteiros delas a deixarem de dar fruto por alguma razão misteriosa conhecida apenas da Natureza. Estava verde agora, mas, quando sofria a sua transformação anual, as grandes folhas recortadas assumiam todas as tonalidades imagináveis de dourado, bronze e âmbar. Além do artu havia uma pequena clareira, onde o chaparel fora cuidadosamente limpo e se tinham plantado raízes de taro.

Ao sair da porta da casa para o relvado, poder-se-ia ter julgado, não fosse a natureza tropical da folhagem, num qualquer parque inglês.

Olhando para a direita, o olhar perdia-se nos bosques, onde todas as tonalidades de verde coloriam a folhagem, e os arbustos do coqueiro silvestre ruborizavam-se em escarlate como bagas de pilriteiro.

A casa tinha porta, mas não tinha folha de porta. Poder-se-ia dizer que tinha um teto duplo, pois a folhagem do fruto-pão por cima proporcionava um excelente abrigo durante as chuvas. Por dentro era bastante nua. Fetos secos e odoríferos cobriam o chão. Duas velas, enroladas, jaziam de cada lado da entrada. Havia uma prateleira rústica fixada a uma das paredes, e sobre ela algumas tigelas feitas de casca de coqueiro. As pessoas a quem o lugar pertencia evidentemente não o incomodavam muito com a sua presença, usando-o apenas à noite e como refúgio contra o orvalho.

Sentada na relva junto à entrada, abrigada pela sombra do fruto-pão, mas com os raios quentes do sol de tarde a roçarem-lhe os pés nus, estava uma rapariga. Uma rapariga de quinze ou dezasseis anos, nua, a não ser por uma saia de franjas de tecido alegremente riscado que lhe descia da cintura aos joelhos. Os compridos cabelos negros estavam puxados para trás a partir da testa e atados atrás com um laço de cipó elástico. Uma flor escarlate estava entalada atrás da orelha direita, à maneira da pena de um escriturário. O rosto era belo, salpicado de pequenas sardas, especialmente sob os olhos, que eram de um azul-acinzentado profundo e tranquilo. Meio sentada, meio deitada sobre o flanco esquerdo; enquanto diante dela, bem perto, passeava de um lado para o outro na relva um pássaro de plumagem azul, bico vermelho-coral e olhos vivos e vigilantes.

A rapariga era Emmeline Lestrange. Bem junto ao seu cotovelo erguia-se uma tigelinha feita de meia casca de coqueiro e cheia de uma substância branca com que ela alimentava o pássaro. Dick encontrara-o nos bosques dois anos antes, pequenino, abandonado pela mãe e a esfomear-se. Tinham-no alimentado e domesticado, e agora era um membro da família, empoleirando-se no teto à noite e aparecendo regularmente à hora das refeições.

De repente, ela estendeu a mão; o pássaro voou para o ar, pousou-lhe no indicador e equilibrou-se, enfiando a cabeça entre os ombros e emitindo o som que constituía todo o seu vocabulário e único meio de expressão vocal — um som donde derivara o seu nome.

— Koko — disse Emmeline —, onde está o Dick?

O pássaro virou a cabeça de um lado para o outro, como se procurasse o amo; e a rapariga recostou-se preguiçosamente na relva, a rir, erguendo-o equilibrado no dedo, como se fosse alguma joia esmaltada que desejasse admirar de um pouco mais longe. Faziam um belo quadro sob a sombra cavernosa das folhas do fruto-pão; e era difícil compreender como esta jovem, tão perfeitamente formada, tão plenamente desenvolvida e tão bela, evoluíra a partir da singela e pequenina Emmeline Lestrange. E tudo aquilo, no que dizia respeito à sua beleza, acontecera durante os últimos seis meses.

CAPÍTULO II

MEIA MENINA — MEIA SELVAGEM

Cinco estações chuvosas tinham passado desde o trágico acontecimento no recife. Cinco longos anos em que as vagas trovejaram e as gaivotas prantearam em torno da figura cujo sortilégio traçara uma barreira misteriosa através da lagoa.

As crianças nunca mais tinham voltado ao lugar antigo. Tinham-se mantido inteiramente na parte posterior da ilha e nos bosques — a lagoa, até certo ponto, e o recife; um mundo suficientemente vasto e belo, mas um mundo sem esperança, no que respeita a ajuda da civilização. Pois, dos poucos navios que tocavam na ilha ao longo dos anos, quantos explorariam a lagoa ou os bosques? Talvez nenhum.

De vez em quando, Dick fazia uma excursão no bote ao lugar antigo, mas Emmeline recusava-se a acompanhá-lo. Ia principalmente para obter bananas; pois em toda a ilha havia apenas um cacho de bananeiras — o que ficava perto da nascente de água no bosque, onde os velhos crânios verdes tinham sido descobertos, e o pequeno barril.

Ela nunca recuperara inteiramente do sucedido no recife. Fora-lhe mostrado algo, cujo sentido compreendia vagamente, e isso enchera-a de horror e de pavor do sítio onde acontecera. Dick era completamente diferente. Assustara-se o suficiente no início; mas o sentimento desvanecera-se com o tempo.

Dick construíra três casas consecutivas durante os cinco anos. Plantara um canteiro de taro e outro de batatas-doces. Conhecia todas as poças do recife a duas milhas para cada lado, bem como as formas dos seus habitantes; e, embora não soubesse os nomes das criaturas ali encontradas, fizera um estudo profundo dos seus hábitos.

Vira coisas espantosas durante aqueles cinco anos — desde uma luta entre uma baleia e duas lúvaras travada fora do recife, que durou uma hora e tingiu as ondas rebentantes de sangue, até ao envenenamento dos peixes na lagoa por água doce, devido a uma estação chuvosa extraordinariamente rigorosa.

Conhecia de cor os bosques da parte de trás da ilha e as formas de vida que neles habitavam — borboletas, traças, aves, lagartos e insetos de formas estranhas; orquídeas extraordinárias — algumas de aspeto imundo, a própria imagem da corrupção, outras belas, e todas estranhas. Encontrara melões e goiabas, e frutos-pão, a maçã vermelha de Otaíti e a grande ameixa brasileira, taro em abundância e uma dúzia de outras coisas boas — mas não havia bananas. Isso entristecia-o às vezes, pois era humano.

Embora Emmeline tivesse perguntado a Koko pelo paradeiro de Dick, fora apenas um comentário feito a jeito de conversa, pois conseguia ouvi-lo no pequeno canavial que ficava ali perto, entre as árvores.

Passado alguns minutos, ele apareceu, arrastando atrás de si duas canas que acabara de cortar e enxugando o suor da testa com o braço nu. Vestia um par de calças velhas — parte da carga salvada há muito do Shenandoah — nada mais, e valia bem a pena observá-lo e ponderá-lo, tanto do ponto de vista físico como psicológico.

Ruivo e alto, parecendo mais ter dezasseis para dezassete anos, com uma expressão irrequieta e ousada, metade criança, metade homem, metade ser civilizado, metade selvagem, ele tanto progredira como regredira durante os cinco anos de vida selvagem. Sentou-se ao lado de Emmeline, atirou as canas para junto de si, testou o fio da velha faca de talhante com que as cortara e, tomando depois uma das canas sobre o joelho, começou a entalhá-la.

— O que estás a fazer? — perguntou Emmeline, soltando o pássaro, que voou para um dos ramos do artu e ali pousou, um ponto azul no meio do verde-escuro.

— Lança para peixe — respondeu Dick.

Sem ser taciturno, raramente desperdiçava palavras. A vida era pura lide para ele. Conversava com Emmeline, mas sempre em frases curtas; e desenvolvera o hábito de falar com coisas inanimadas, com a lança de peixe que estava a esculpir, ou com a tigela que moldava a partir de um coco.

Quanto a Emmeline, mesmo em criança nunca fora dada a conversas. Havia algo de misterioso na sua personalidade, algo reservado. A mente parecia-lhe meio submergida no crepúsculo. Embora falasse pouco, e embora o tema das suas conversas fosse quase inteiramente material e relativo às suas necessidades quotidianas, a mente dela divagava por campos abstratos e pela terra das quimeras e dos sonhos. O que lá encontrava, ninguém o sabia — e menos que ninguém, talvez, ela própria.

Quanto a Dick, por vezes falava e resmungava sozinho, como em devaneio; mas, se lhe apanhasses as palavras, verias que não se referiam a nenhuma abstração, mas a algum ninharia que tinha em mãos. Parecia totalmente absorvido pelo momento, tendo esquecido o passado tão completamente como se este nunca tivesse existido.

Contudo, tinha os seus momentos contemplativos. Deitava-se com o rosto debruçado sobre uma poça de rocha durante horas, a observar as estranhas formas de vida ali visíveis, ou sentava-se nos bosques imóvel como uma estátua, a observar as aves e os lagartos de corrida veloz. As aves aproximavam-se tanto que ele podia facilmente tê-las derrubado, mas nunca magoara nenhuma nem interferira de forma alguma com a vida selvagem dos bosques.

A ilha, a lagoa e o recife eram para ele os três volumes de um grande livro de ilustrações, tal como eram para Emmeline, embora de uma forma diferente. A cor e a beleza de tudo aquilo alimentavam uma necessidade misteriosa na sua alma. A sua vida era um longo devaneio, uma bela visão — perturbada por sombras. Através de todos os espaços azuis e coloridos que significavam meses e anos, ela ainda conseguia ver, como num espelho, de forma turva, o Northumberland, a soltar fumo contra o pano de fundo selvagem de nevoeiro; o rosto do seu tio, Boston — uma imagem vaga e sombria para lá de uma tempestade — e, mais perto, a forma trágica no recife que ainda assombrava terrivelmente os seus sonhos. Mas ela nunca falava destas coisas a Dick. Tal como guardava o segredo do que estava na sua caixa, e o segredo da sua aflição sempre que a perdia, guardava o segredo dos seus sentimentos sobre estas coisas.

Nascido destas coisas, permanecia com ela sempre um terror vago: o terror de perder Dick. A Sra. Stannard, o seu tio, as pessoas vagas que conhecera em Boston, tudo tinha desaparecido da sua vida como um sonho e sombras. O outro também, da forma mais horrível. E se Dick lhe fosse tirado também?

Esta aflição assombrosa acompanhava-a há muito tempo; até há poucos meses, tinha sido principalmente pessoal e egoísta — o receio de ficar sozinha. Mas ultimamente alterara-se e tornara-se mais aguda. Dick tinha mudado aos seus olhos, e o medo agora era por ele. A sua própria personalidade tinha-se fundido, súbita e estranhamente, na dele. A ideia de uma vida sem ele era impensável, contudo a aflição permanecia, uma ameaça no azul.

Havia dias em que era pior do que noutros. Hoje, por exemplo, estava pior do que ontem, como se algum perigo se tivesse aproximado deles durante a noite. Contudo, o céu e o mar estavam imaculados, o sol brilhava sobre árvores e flores, o vento de oeste trazia a melodia do recife longínquo como uma canção de embalar. Nada havia que sugerisse perigo ou a necessidade de desconfiança.

Por fim, Dick terminou a sua lança e pôs-se de pé.

“Onde vais?” perguntou Emmeline.

“Ao recife,” respondeu ele. “A maré está a vazar.”

“Vou contigo,” disse ela.

Ele entrou em casa e guardou a preciosa faca. Depois saiu, com a lança numa mão e meia braça de liana na outra. A liana servia para enfiar o peixe, caso a captura fosse grande. Ele guiou o caminho pela relva até à lagoa onde o bote estava, junto à margem, e amarrado a um poste enterrado no solo macio. Emmeline entrou e, pegando nos remos, ele empurrou. A maré estava a vazar.

Disse que o recife, mesmo ali, ficava a uma grande distância da costa. A lagoa era tão rasa que, na maré baixa, se poderia ter atravessado quase toda a vau, se não fossem os buracos aqui e ali — armadilhas de três metros — e grandes leitos de coral podre, nos quais nos afundaríamos como em silvado, para não mencionar o coral de urtigas, que arde como um canteiro de urtigas. Havia também outros perigos. As águas rasas tropicais estão cheias de surpresas selvagens em termos de vida — e de morte.

Dick tinha marcado há muito, na sua memória, as sondagens da lagoa, e foi uma sorte possuir o sentido especial de localização que é o principal apoio do caçador e do selvagem, pois, devido à disposição do coral em cristas, a água corria em canais desde a beira da costa até ao recife. Apenas dois destes canais ofereciam um caminho livre e justo da margem até ao recife; se tivessem seguido os outros, mesmo num barco de calado tão raso como o bote, ter-se-iam encontrado encalhados a meio caminho, a menos, claro, que fosse maré viva.

A meio do caminho, o som da rebentação na barreira tornou-se mais alto, e o grito eterno e monótono das gaivotas vinha com a brisa. Era solitário ali fora e, ao olhar para trás, a costa parecia estar muito longe. Era ainda mais solitário no recife.

Dick amarrou o barco a uma saliência de coral e ajudou Emmeline a desembarcar. O sol rastejava para oeste, a maré estava quase a meio, e grandes poças de água brilhavam como escudos polidos sob a luz do sol. Dick, com a sua preciosa lança ao lado, sentou-se calmamente numa saliência de coral e começou a despir a sua única peça de roupa.

Emmeline desviou o olhar e contemplou a costa distante, que parecia três vezes mais longe do que era na realidade. Quando voltou a olhar, ele corria ao longo da rebentação. Ele e a sua lança, silhuetados contra o borrifo e a espuma deslumbrante, formavam um quadro bastante selvagem, e muito de acordo com a desolação geral do cenário. Ela observou-o deitar-se e agarrar-se a um pedaço de coral, enquanto a rebentação corria à volta e por cima dele, e depois levantar-se e sacudir-se como um cão, e prosseguir as suas folias, com o corpo todo a brilhar de humidade.

Por vezes, um grito vinha com a brisa, misturando-se com o som da rebentação e o grito das gaivotas, e ela via-o mergulhar a lança numa poça, e no momento seguinte a lança era erguida com algo a lutar e a brilhar na ponta.

Ele era completamente diferente ali fora, no recife, do que era em terra. O ambiente ali parecia desenvolver tudo o que era selvagem nele, de uma forma alarmante; e ele matava, e matava, apenas pelo prazer de matar, destruindo mais peixe do que poderiam possivelmente consumir.

CAPÍTULO III

O DEMÓNIO DO RECIFE

O romance do coral ainda está por escrever. Existe ainda a opinião generalizada de que o recife de coral e a ilha de coral são obra de um “inseto”. Este inseto fabuloso, a quem se atribui o génio de Brunel e a paciência de Job, tem sido, de forma bastante humorística, apresentado às crianças de muitas gerações como um exemplo de indústria — algo a ser admirado, um modelo a ser seguido.

Na verdade, nada poderia ser mais preguiçoso ou lento, mais entregue a uma vida de ócio e degenerescência, do que o “polífero construtor de recifes” — para lhe dar o seu nome científico. Ele é o vagabundo do mundo animal, mas, ao contrário do vagabundo, nem sequer caminha para ganhar a vida. Existe como um verme letárgico e gelatinoso; atrai a si elementos calcários da água para fazer a sua casa — repare bem, é o mar que faz a construção — ele morre e deixa a sua casa para trás — e uma reputação de indústria, ao lado da qual a reputação da formiga empalidece, e a da abelha torna-se de pouco valor.

Num recife de coral, pisa-se rocha que os políferos construtores de recifes de eras passadas deixaram para trás como prova das suas vidas ociosas e aparentemente inúteis. Poder-se-ia pensar que o recife é formado de rocha morta, mas não é: é aí que reside a maravilha da coisa — um recife de coral está meio vivo. Se não estivesse, não resistiria à ação do mar durante dez anos. A parte viva do recife é exatamente onde as ondas quebram e para lá dela. Os políferos construtores de rocha gelatinosos morrem quase imediatamente se expostos ao sol ou se deixados descobertos pela água.

Por vezes, na maré muito baixa, se tiver coragem suficiente para arriscar ser levado pelas ondas, indo o mais longe possível no recife, poderá vislumbrá-los no seu estado vivo — grandes montes e massas do que parece ser rocha, mas que é um favo de mel de coral, cujas células estão cheias de políferos vivos. Aqueles nas células superiores estão geralmente mortos, mas mais abaixo estão vivos.

Sempre a morrer, sempre a ser renovado, devorado por peixes, atacado pelo mar — essa é a vida de um recife de coral. É algo tão vivo como uma couve ou uma árvore. Cada tempestade arranca um pedaço do recife, que o coral vivo substitui; ocorrem feridas nele que, na verdade, granulanam e cicatrizam como as feridas do corpo humano.

Não há, talvez, nada mais misterioso na natureza do que este facto da existência de uma terra viva: uma terra que se repara a si própria, quando ferida, por processos vitais, e resiste ao ataque eterno do mar por força vital, especialmente quando pensamos na extensão de algumas destas ilhas de lagoa ou atóis, cujas existências são uma batalha eterna com as ondas.

Ao contrário da ilha desta história (que é uma ilha rodeada por um recife de barreira de coral que circunda um espaço de mar — a lagoa), o recife forma a ilha. O recife pode ser coberto por árvores, ou pode ser perfeitamente desprovido de vegetação importante, ou pode estar incrustado de ilhéus. Alguns ilhéus podem existir dentro da lagoa, mas, frequentemente, é apenas um grande lago vazio com fundo de areia e coral, povoado por vida diferente da vida do oceano exterior, protegido das ondas e a refletir o céu como um espelho.

Quando nos lembramos que o atol é uma coisa viva, um todo orgânico, tão cheio de vida, embora não tão altamente organizado, como uma tartaruga, a imaginação mais humilde deve ser atingida pela imensidão de uma destas estruturas.

O atol Vliegen, no arquipélago Low, medido de margem de lagoa a margem de lagoa, tem sessenta milhas de comprimento por vinte milhas de largura, na sua parte mais larga. No arquipélago Marshall, Rimsky Korsacoff tem cinquenta e quatro milhas de comprimento e vinte milhas de largura; e Rimsky Korsacoff é uma coisa viva, secretando, excretando e crescendo — mais altamente organizada do que os coqueiros que crescem nas suas costas, ou as flores que polvilham as árvores hotoo nos seus bosques.

A história do coral é a história de um mundo, e o capítulo mais longo dessa história preocupa-se com a infinita variedade e forma do coral.

Lá fora, na margem do recife onde Dick estava a espetar peixes, poderia ter visto um líquen da cor de flor de pessegueiro na rocha. Este líquen era uma forma de coral. Coral a crescer sobre coral, e nas poças à beira da rebentação, corais ramificados também da cor da flor de pessegueiro.

A cem metros de onde Emmeline estava sentada, as poças continham corais de todas as cores, desde o vermelho-laca ao branco puro, e na lagoa atrás dela — corais das formas mais estranhas e curiosas.

Dick tinha espetado vários peixes e deixara-os no recife para os apanhar mais tarde. Cansado de matar, caminhava agora, examinando as várias coisas vivas com que se deparava.

Lesmas enormes habitavam o recife, lesmas tão grandes como pastinacas e com uma forma algo semelhante; eram uma espécie de Bech de mer. Águas-vivas em forma de globo tão grandes como laranjas, grandes ossos de choco planos, brilhantes e brancos, dentes de tubarão, espinhos de equinodermos; por vezes um peixe scarus morto, com o estômago distendido por pedaços de coral de que se alimentara; caranguejos, ouriços-do-mar, algas marinhas de cor e forma estranhas; estrelas-do-mar, algumas minúsculas e da cor de pimenta caiena, outras enormes e pálidas. Estas e mil outras coisas, belas ou estranhas, podiam ser encontradas no recife.

Dick tinha pousado a sua lança e estava a explorar uma poça funda como uma banheira. Tinha entrado até aos joelhos e estava prestes a entrar mais quando foi subitamente agarrado pelo pé. Foi exatamente como se o seu tornozelo tivesse sido subitamente apanhado num nó de laçada e a corda tivesse sido puxada com força. Ele gritou de dor e terror, e subitamente e com violência um chicote disparou da água, laçou-o à volta do joelho esquerdo, esticou-se e prendeu-o.

CAPÍTULO IV

O QUE A BELEZA ESCONDIA

Emmeline, sentada na rocha de coral, tinha quase esquecido Dick por um momento. O sol estava a pôr-se, e a luz âmbar quente do pôr do sol brilhava sobre o recife e a poça de rocha. Exatamente ao pôr do sol e na maré baixa, o recife exercia um fascínio peculiar sobre ela. Tinha o cheiro a maré baixa de algas expostas ao ar, e o tormento e a aflição das ondas pareciam aliviados. Diante dela, e de ambos os lados, o coral salpicado de espuma brilhava em âmbar e ouro, e o grande Pacífico entrava a espelhar e a brilhar, sem voz e pacífico, até chegar à margem e explodir em música e borrifo.

Aqui, tal como no topo da colina do outro lado da ilha, podia-se marcar o ritmo das ondas. “Para sempre, e para sempre — para sempre, e para sempre,” pareciam dizer.

O grito das gaivotas vinha misturado com o borrifo na brisa. Assombravam o recife como espíritos inquietos, sempre a queixar-se, nunca em repouso; mas ao pôr do sol o seu grito parecia mais distante e menos melancólico, talvez porque, naquele momento, todo o mundo da ilha parecia banhado pelo espírito de paz.

Ela desviou-se da vista do mar e olhou para trás, através da lagoa, para a ilha. Conseguia distinguir a ampla clareira verde junto à qual ficava a sua pequena casa, e uma mancha amarela, que era o colmo da casa, mesmo ao lado da árvore artu, e quase escondida pela sombra da fruta-pão. Sobre os bosques, as frondes das grandes palmeiras de coco destacavam-se acima de todas as outras árvores, silhuetadas contra o azul escuro e ténue do céu oriental.

Visto à luz encantada do pôr do sol, todo o quadro tinha um aspeto irreal, mais belo do que um sonho. Ao amanhecer — e Dick partia muitas vezes para o recife antes do amanhecer, se a maré permitisse — o quadro era tão belo; mais, talvez, pois sobre a ilha, toda na sombra, e contra as estrelas, via-se o topo das palmeiras a incendiar-se, e depois a luz do dia a chegar através das árvores verdes e do céu azul, como um espírito, através da lagoa azul, alargando-se e fortalecendo-se à medida que se expandia, através da espuma branca, mar afora, espalhando-se como um leque, até que, de uma vez, a noite era dia, e as gaivotas gritavam e as ondas brilhavam, o vento da alvorada soprava, e as palmeiras curvavam-se, como só as palmeiras sabem fazer. Emmeline imaginava-se sempre sozinha na ilha com Dick, mas a beleza também lá estava, e a beleza é uma grande companheira.

A rapariga contemplava a cena diante de si. A Natureza, no seu humor mais amigável, parecia dizer: “Contempla-me! Os homens chamam-me cruel; os homens chamaram-me enganadora, até traiçoeira. Eu — ah, bem! a minha resposta é: ‘Contempla-me!’”

A rapariga contemplava a beleza especiosa de tudo aquilo, quando na brisa vinda do mar chegou um grito. Ela virou-se rapidamente. Lá estava Dick, com água pelos joelhos numa poça de rocha a uns cem metros de distância, imóvel, com os braços erguidos, a pedir ajuda. Ela saltou para os seus pés.

Existira outrora um ilhéu nesta parte do recife, uma pequena coisa, consistindo em algumas palmeiras e um punhado de vegetação, destruída, talvez, nalguma grande tempestade. Menciono isto porque a existência deste ilhéu, outrora, foi o meio, indiretamente, de salvar a vida de Dick; pois onde estes ilhéus estiveram ou estão, ocorrem “planícies” no recife formadas de conglomerado de coral.

Emmeline, com os seus pés descalços, nunca teria chegado a tempo sobre o coral áspero, mas, felizmente, esta superfície plana e comparativamente lisa ficava entre eles.

“A minha lança!” gritou Dick, à medida que ela se aproximava.

Ele parecia, a princípio, emaranhado em silvas; depois, ela pensou que cordas o estavam a emaranhar e a prendê-lo a algo na água — fosse o que fosse, era algo terrível, hediondo e como um pesadelo. Ela correu com a velocidade de Atalanta até à rocha onde a lança estava pousada, toda vermelha com o sangue dos peixes recém-mortos, a trinta centímetros da ponta.

Ao aproximar-se de Dick, lança na mão, viu, ofegante de terror, que as cordas estavam vivas e que estavam a tremeluzir e a ondular sobre as suas costas. Uma delas prendia-lhe o braço esquerdo ao corpo, mas o braço direito estava livre.

“Rápido!” gritou ele.

Num segundo, a lança estava na sua mão livre, e Emmeline tinha-se lançado de joelhos, e olhava com olhos aterrorizados para a água da poça de onde as cordas saíam. Ela estava, apesar do seu terror, perfeitamente preparada para se atirar lá para dentro e lutar com a coisa, fosse ela o que fosse.

O que viu foi apenas por um segundo. Na água funda da poça, olhando para cima e para a frente, diretamente para Dick, viu um rosto, lúgubre e terrível. Os olhos eram largos como pires, pétreos e firmes; um bico grande, pesado e semelhante ao de um papagaio pendia diante dos olhos, mexendo-se e oscilando, e parecia acenar. Mas o que gelava o coração era a expressão dos olhos, tão pétreos e lúgubres, tão desprovidos de especulação, contudo tão fixos de propósito e cheios de destino.

De muito longe, lá em baixo, ele tinha subido com a maré crescente. Estava a alimentar-se de caranguejos, quando a maré, traindo-o, vazou, deixando-o preso na poça de rocha. Talvez tivesse adormecido e acordado para encontrar um ser, nu e indefeso, a invadir a sua poça. Era bastante pequeno, para o tamanho dos octópodes, e jovem, contudo era grande e poderoso o suficiente para ter afogado um boi.

O octópode só foi descrito uma vez, em pedra, por um artista japonês. A estátua ainda existe, e é a obra-prima mais terrível de escultura alguma vez executada por mãos humanas. Representa um homem que estava a banhar-se numa praia de maré baixa e foi apanhado. O homem grita num delírio de terror e ameaça com o braço livre o espectro que o tem nas suas garras. Os olhos do octópode estão fixos no homem — olhos sem paixão e lúgubres, mas firmes e fixos.

Outro chicote disparou da água num chuveiro de espuma e agarrou Dick pela coxa esquerda. No mesmo instante, ele enterrou a ponta da lança através do olho direito do monstro, profundamente através do olho e da carcaça gelatinosa e mole, até a ponta da lança vibrar e estalar contra a rocha. No mesmo momento, a água da poça tornou-se negra como tinta, as faixas à sua volta relaxaram e ele ficou livre.

Emmeline levantou-se e agarrou-o, soluçando e agarrando-se a ele, e beijando-o. Ele abraçou-a com o braço esquerdo à volta do seu corpo, como se para a proteger, mas era uma ação mecânica. Ele não estava a pensar nela. Louco de raiva, e soltando gritos roucos, mergulhou a lança partida uma e outra vez nas profundezas da poça, procurando destruir completamente o inimigo que o tinha tido nas suas garras há pouco. Depois, lentamente, voltou a si, limpou a testa e olhou para a lança partida na sua mão.

“Besta!” disse ele. “Viste os seus olhos? Viste os seus olhos? Quem me dera que tivesse cem olhos, e que eu tivesse cem lanças para lhes espetar!”

Ela estava agarrada a ele, soluçando e rindo histericamente, e elogiando-o. Poder-se-ia pensar que tinha sido ele a salvá-la da morte, e não ela a ele.

O sol quase desaparecera, e ele conduziu-a de volta para onde o bote estava amarrado, recuperando e vestindo as calças pelo caminho. Apanhou os peixes mortos que tinha espetado; e enquanto a remava de volta através da lagoa, falava e ria, contando os incidentes da luta, tomando toda a glória da coisa para si, e parecendo ignorar completamente a parte importante que ela tinha desempenhado nela.

Isto não era por qualquer insensibilidade ou falta de gratidão, mas simplesmente pelo facto de, nos últimos cinco anos, ele ter sido o centro e o fim da sua pequena comunidade — o mestre Imperial. E ele teria pensado tanto em agradecê-la por lhe entregar a lança como em agradecer à sua mão direita por a ter enterrado. Ela estava perfeitamente contente, não procurando nem agradecimentos nem elogios. Tudo o que ela tinha vinha dele: ela era a sua sombra e a sua escrava. Ele era o seu sol.

Ele repassou a luta várias vezes antes de se deitarem para descansar, contando-lhe que tinha feito isto e aquilo, e o que faria à próxima besta daquele tipo. A reiteração era bastante cansativa, ou teria sido para um ouvinte externo, mas, para Emmeline, era melhor do que Homero. As mentes das pessoas não melhoram num sentido intelectual quando estão isoladas do mundo, mesmo que vivam as vidas selvagens e felizes dos selvagens.

Então, Dick deitou-se nas fetas secas e cobriu-se com um pedaço da flanela listrada que usavam como cobertor, e ele ressonou e tagarelou durante o sono como um cão a caçar caça imaginária, e Emmeline deitou-se ao lado dele, desperta e a pensar. Um novo terror tinha entrado na sua vida. Ela tinha visto a morte pela segunda vez, mas desta vez ativa e em existência.

CAPÍTULO V

O SOM DE UM TAMBOR

No dia seguinte, Dick estava sentado à sombra da artu. Tinha a caixa de anzóis ao seu lado e estava a atar uma linha a um deles. Originalmente, havia cerca de duas dúzias de anzóis, grandes e pequenos, na caixa; restavam agora apenas seis — quatro pequenos e dois grandes. Era um grande que ele estava a fixar à linha, pois pretendia ir no dia seguinte ao lugar antigo para buscar algumas bananas e, pelo caminho, tentar pescar algo nas partes mais profundas da lagoa.

Era o final da tarde e o calor do dia tinha desaparecido. Emmeline, sentada na relva à sua frente, segurava a extremidade da linha enquanto ele desfazia os nós, quando, de repente, ela levantou a cabeça.

Não havia um sopro de vento; o silêncio da arrebentação distante chegava através do tempo azul — o único som audível, exceto, de vez em quando, um movimento e um bater de asas da ave empoleirada nos ramos da artu. De repente, outro som misturou-se com a voz da arrebentação — um som fraco e latejante, como o bater de um tambor distante.

“Escuta!” disse Emmeline.

Dick pausou por um momento o seu trabalho. Todos os sons da ilha eram familiares: aquilo era algo completamente estranho.

Fraco e longínquo, agora rápido, agora lento; vindo de onde, quem poderia dizer? Às vezes parecia vir do mar, outras vezes, se a imaginação do ouvinte se inclinasse para esse lado, dos bosques. Enquanto ouviam, um suspiro veio de cima; a brisa da tarde tinha surgido e movia-se nas folhas da árvore artu. Tal como se se pudesse apagar um desenho de uma ardósia, a brisa baniu o som. Dick continuou com o seu trabalho.

Na manhã seguinte, bem cedo, ele embarcou no bote. Levou o anzol e a linha consigo, e um pouco de peixe cru como isco. Emmeline ajudou-o a empurrar o barco e ficou na margem, a acenar com a mão enquanto ele contornava o pequeno cabo coberto de cocos selvagens.

Estas expedições de Dick eram uma das suas tristezas. Ficar sozinha era terrível; contudo, ela nunca se queixava. Ela vivia num paraíso, mas algo lhe dizia que, por trás de todo aquele sol, de todo aquele esplendor de mar e céu azuis, por trás das flores e das folhas, por trás de toda aquela aparência especiosa e fingida de felicidade na natureza, espreitava um sobrolho franzido e o dragão do infortúnio.

Dick remou durante cerca de uma milha, depois recolheu os remos e deixou o bote flutuar. A água ali era muito profunda; tão profunda que, apesar da sua claridade, o fundo era invisível; a luz do sol sobre o recife atravessava-a diagonalmente, enchendo-a de brilhos.

O pescador iscou o seu anzol com um pedaço do ventre de um scarus e baixou-o para fora da vista; depois, amarrou a linha a um tolete e, sentado no fundo do barco, debruçou a cabeça sobre a borda e olhou profundamente para dentro da água. Às vezes não havia nada para ver, apenas o azul profundo da água. Então, um cardume de pontas de seta cintilantes atravessava a linha de visão e desaparecia, perseguido por uma forma como uma barra de ouro em movimento. Depois, um grande peixe materializava-se e ficava suspenso na sombra do barco, imóvel como uma pedra, salvo pelo movimento das suas guelras; no momento seguinte, com um movimento de cauda, desaparecia.

De repente, o bote inclinou-se e poderia ter virado, não fosse o facto de Dick estar sentado no lado oposto àquele onde a linha pendia. Então, o barco endireitou-se; a linha afrouxou e a superfície da lagoa, a poucas braças de distância, ferveu como se estivesse a ser agitada por baixo por uma grande vara de prata. Ele tinha fisgado um albacora. Amarrou a extremidade da linha de pesca a um remo, soltou a linha do tolete e atirou o remo borda fora.

Fez tudo isto com uma rapidez maravilhosa, enquanto a linha ainda estava frouxa. No momento seguinte, o remo corria pela superfície da lagoa, ora em direção ao recife, ora em direção à costa, ora plano, ora na vertical. Por vezes, era puxado completamente para baixo da superfície; desaparecia por um momento e depois reaparecia. Era uma coisa impressionante de observar, pois o remo parecia vivo — viciosamente vivo e imbuído de algum propósito destrutivo; como, de facto, era. A mais venenosa das coisas vivas, e a mais inteligente, não teria lutado melhor contra o grande peixe.

O albacora fazia uma investida frenética pela lagoa abaixo, esperando, talvez, encontrar em mar aberto uma libertação do seu inimigo. Depois, quase afogado com o puxão do remo, pausava, lançava-se de um lado para o outro em perplexidade e, em seguida, fazia uma investida igualmente frenética lagoa acima, para ser travado da mesma maneira. Procurando as profundezas mais abismais, afundava o remo algumas braças; e, por uma vez, procurou o ar, saltando para a luz do sol como um crescente de prata, enquanto o mergulho que dava ao cair ecoava entre as árvores que marginavam a lagoa. Passou uma hora antes que o grande peixe desse sinais de fraqueza.

A luta tinha ocorrido até aquele momento perto da costa, mas agora o remo nadava para fora, para a vasta extensão de água banhada pelo sol, e começava lentamente a descrever círculos largos, ondulando o azul pacífico em pequenas ondas cintilantes. Era uma visão melancólica de observar, pois o grande peixe tinha lutado bem, e podia-se vê-lo, através do olho da imaginação, derrotado, quase afogado, atordoado e movendo-se, como é o costume das coisas atordoadas, em círculo.

Dick, manobrando o remo restante na popa do barco, remou para fora e apanhou o remo flutuante, trazendo-o para bordo. Centímetro a centímetro, puxou a sua captura para o barco até que a longa linha cintilante da coisa surgiu vagamente à vista.

A luta tinha sido ouvida a milhas de distância através da água da lagoa por todo o tipo de criaturas nadadoras. O senhor do lugar tinha ouvido o som. Uma barbatana escura ondulou a água; e enquanto Dick, puxando a sua linha, trazia a sua captura para mais perto, uma monstruosa sombra cinzenta manchou as profundezas, e o rasto cintilante que era o albacora desapareceu como se engolido por uma nuvem. A linha veio frouxa e Dick puxou a cabeça do albacora. Tinha sido separada do corpo como se fosse por um enorme par de tesouras. A sombra cinzenta deslizou pelo barco e Dick, louco de raiva, gritou e abanou o punho para ela; depois, agarrando a cabeça do albacora, da qual tinha retirado o anzol, atirou-a ao monstro na água.

O grande tubarão, com um movimento da cauda que fez a água rodopiar e o bote balançar, virou-se de costas e engoliu a cabeça; depois, afundou-se lentamente e desapareceu, tal como se tivesse sido dissolvido. Tinha saído vencedor deste, o seu primeiro encontro — tal como foi.

CAPÍTULO VI

VELAS SOBRE O MAR

Dick guardou o anzol e pegou nos remos. Tinha três milhas de remo pela frente e a maré estava a subir, o que não facilitava as coisas. Enquanto remava, falava e resmungava para si mesmo. Estava com um espírito de resmungar há algum tempo: a causa principal, Emmeline.

Nos últimos meses ela tinha mudado; até o seu rosto tinha mudado. Uma nova pessoa tinha aparecido na ilha, parecia-lhe, e ocupado o lugar da Emmeline que ele conhecia desde a primeira infância. Esta parecia diferente. Ele não sabia que ela se tinha tornado bela, apenas sabia que ela parecia diferente; além disso, ela tinha desenvolvido novos modos que o desagradavam — ela ia tomar banho sozinha, por exemplo.

Até há cerca de seis meses, ele tinha estado bastante contente; a dormir e a comer, a caçar comida e a cozinhá-la, a construir e reconstruir a casa, a explorar os bosques e o recife. Mas, ultimamente, um espírito de inquietação tinha tomado conta dele; ele não sabia exatamente o que queria. Tinha um sentimento vago de que queria ir embora do lugar onde estava; não da ilha, mas do lugar onde tinham montado a sua tenda, ou melhor, construído a sua casa.

Poderia ter sido o espírito da civilização a clamar dentro dele, falando-lhe de tudo o que estava a perder. Das cidades, das ruas, das casas, dos negócios e da busca pelo ouro, da busca pelo poder. Poderia ter sido simplesmente o homem dentro dele a clamar por Amor, e sem saber ainda que o Amor estava ao seu lado.

O bote deslizava, abraçando a costa, passando pelos pequenos claros de fetas e pela penumbra catedral dos frutos-pão; depois, contornando um promontório, abriu a vista da abertura no recife. Um pouco da margem branca era visível, mas ele não estava a olhar para aquele lado — estava a olhar em direção ao recife, para um minúsculo ponto escuro, não notável a menos que procurado pelo olho. Sempre que vinha nestas expedições, exatamente ali, ele parava os seus remos e olhava para ali, onde as gaivotas voavam e a arrebentação trovejava.

Há alguns anos, o ponto enchia-o de pavor, bem como de curiosidade, mas, pela familiaridade e pelo tédio que o tempo lança sobre tudo, o pavor tinha quase desaparecido, mas a curiosidade permanecia: a curiosidade que faz uma criança olhar para o abate de um animal, mesmo que a sua alma se revolte contra isso. Ele olhou por um momento, depois continuou a remar e o bote aproximou-se da praia.

Algo tinha acontecido na praia. A areia estava toda pisoteada e manchada de vermelho aqui e ali; no centro jaziam os restos de um grande fogo ainda a arder lentamente, e bem onde a água lambia a areia, jaziam dois sulcos profundos como se dois barcos pesados tivessem sido ali varados. Um homem dos Mares do Sul teria percebido pela forma dos sulcos e pelas pequenas marcas dos estabilizadores que duas canoas pesadas tinham sido ali varadas. E tinham sido.

No dia anterior, no início da tarde, duas canoas, possivelmente daquela ilha longínqua que lançava uma mancha no horizonte a su-sudoeste, tinham entrado na lagoa, uma em perseguição da outra.

O que aconteceu então seria melhor deixar velado. Um tambor de guerra com uma pele de tubarão tinha feito os bosques pulsar; a vitória foi celebrada durante toda a noite e, ao amanhecer, os vencedores tripularam as duas canoas e partiram para o lar, ou para o inferno, de onde tinham vindo. Se tivesse examinado a margem, teria descoberto que uma linha tinha sido traçada através da praia, além da qual não havia pegadas: isso significava que o resto da ilha era, por alguma razão, tabu.

Dick puxou a proa do barco um pouco para cima na margem e depois olhou à sua volta. Apanhou uma lança partida que tinha sido abandonada ou esquecida; era feita de alguma madeira dura e farpada com ferro. Do lado direito da praia, algo jazia entre os coqueiros. Aproximou-se; era uma massa de vísceras; as entranhas de uma dúzia de ovelhas pareciam ter sido ali atiradas num monte, contudo não havia ovelhas na ilha, e as ovelhas não são transportadas, por norma, em canoas de guerra.

A areia na praia era eloquente. O pé que persegue e o pé perseguido; o joelho do caído e, depois, a testa e as mãos espalmadas; o calcanhar do chefe que matou o seu inimigo, espalmou o corpo, abriu um buraco através dele pelo qual passou a cabeça e que permanece, literalmente, a usar o seu inimigo como um manto; a cabeça do homem arrastado de costas para ser esquartejado como uma ovelha — destas coisas falava a areia.

Até onde os vestígios na areia podiam falar, a história da batalha ainda estava a ser contada; os gritos e a algazarra, o choque dos clãs e das lanças tinham desaparecido, mas o fantasma da luta permanecia.

Se a areia podia conter tais vestígios e contar tais histórias, quem dirá que o éter plástico estava destituído da história da luta e da carnificina?

Seja como for, Dick, ao olhar à sua volta, teve a sensação arrepiante de ter escapado por pouco de um perigo. Quem quer que tivesse estado ali, tinha ido embora — ele podia dizer isso pelos vestígios das canoas. Ido embora, ou para o mar, ou para o trecho direito da lagoa. Era importante determinar isso.

Subiu ao topo da colina e varreu o mar com os olhos. Ali, para sudoeste, bem longe no mar, ele conseguia distinguir as velas castanhas de duas canoas. Havia algo de indescritivelmente lúgubre e solitário na sua aparência; pareciam folhas secas — traças castanhas sopradas para o mar — despojos do outono. Depois, lembrando-se da praia, estas coisas ficaram carregadas com os pensamentos mais sinistros para a mente do observador. Estavam a fugir, tendo feito o seu trabalho. O facto de parecerem solitárias, velhas e lúgubres, e como folhas secas sopradas através do mar, apenas aumentava o horror.

Dick nunca tinha visto canoas antes, mas sabia que aquelas coisas eram barcos de algum tipo que transportavam pessoas, e que as pessoas tinham deixado todos aqueles vestígios na praia. Quanto do horror da coisa foi revelado à sua inteligência subconsciente, quem pode dizer?

Ele tinha subido o rochedo e agora sentava-se com os joelhos dobrados e as mãos cruzadas em torno deles. Sempre que ele vinha a este lado da ilha, algo acontecia de natureza fatal ou sinistra. Na última vez, tinha quase perdido o bote; tinha varado o pequeno barco de tal forma que ele flutuou, e a maré estava precisamente no ato de o roubar e de o varrer da lagoa para o mar aberto, quando ele regressou carregado com as suas bananas e, correndo para dentro da água até à cintura, salvou-o. Noutra vez, tinha caído de uma árvore e, por milagre, escapou à morte. Noutra vez, um furacão tinha rebentado, açoitando a lagoa em neve e fazendo os cocos saltar e voar como bolas de ténis através da margem. Desta vez, tinha acabado de escapar a algo, não sabia exatamente o quê. Era quase como se a Providência lhe estivesse a dizer: "Não venhas aqui."

Ele observou as velas castanhas à medida que diminuíam no azul soprado pelo vento, depois desceu do topo da colina e cortou as suas bananas. Cortou quatro grandes cachos, o que o levou a fazer duas viagens até ao barco. Quando as bananas foram arrumadas, ele empurrou o barco.

Durante muito tempo, uma grande curiosidade tinha puxado as cordas do seu coração: uma curiosidade da qual ele se envergonhava vagamente. O medo tinha-lhe dado origem, e o Medo ainda se agarrava a ela. Era, talvez, o elemento do medo e o deleite terrível de desafiar o desconhecido que o faziam ceder a isso.

Ele tinha remado, talvez, cem jardas quando virou a proa do barco e dirigiu-se ao recife. Já tinham passado mais de cinco anos desde aquele dia em que ele remou através da lagoa, com Emmeline sentada na popa, com a sua grinalda de flores na mão. Poderia ter sido apenas ontem, pois tudo parecia exatamente igual. A arrebentação trovejante e as gaivotas a voar, a luz do sol cegante e o cheiro a sal e fresco do mar. A palmeira na entrada da lagoa ainda se inclinava a olhar para dentro da água e, em torno da projeção de coral à qual ele tinha amarrado o barco pela última vez, ainda jazia um fragmento da corda que ele tinha cortado na sua pressa para escapar.

Navios tinham entrado na lagoa, talvez, durante os cinco anos, mas ninguém tinha notado nada no recife, pois era apenas do topo da colina que se podia ter uma visão completa do que lá estava, e apenas por olhos que sabiam onde procurar. Da praia, era visível apenas um ponto. Poderia ter sido, talvez, um pedaço de destroços antigos ali atirado por uma onda num grande temporal. Um pedaço de destroços antigos que tinha sido atirado daqui para ali durante anos e que, finalmente, tinha encontrado um lugar de descanso.

Dick amarrou o barco e pisou o recife. A maré estava alta, tal como antes; a brisa soprava fortemente e, acima, uma fragata, negra como o ébano, com um bico vermelho-sangue, vinha a planar, o vento a curvar as suas asas. Ele circulou no ar e gritou ferozmente, como se ressentisse a presença do intruso, depois afastou-se, deixou-se levar pelo vento, por assim dizer, através da lagoa, girou, circulou e passou para o mar.

Dick aproximou-se do lugar que conhecia, e ali jazia o pequeno barril velho, todo empenado pelo sol poderoso; as aduelas estavam separadas, e os aros estavam enferrujados e partidos, e o que quer que tivesse contido em termos de espírito e convívio tinha-se escoado há muito tempo.

Ao lado do barril jazia um esqueleto, em torno do qual jaziam alguns trapos de tecido. O crânio tinha caído para um lado e o maxilar inferior tinha caído do crânio; os ossos das mãos e dos pés ainda estavam articulados e as costelas não tinham colapsado. Estava tudo branco e branqueado, e o sol brilhava sobre ele tão indiferentemente como sobre o coral, esta concha e estrutura que outrora tinha sido um homem. Não havia nada de terrível nisso, mas sim todo um mundo de maravilha.

Para Dick, que não tinha sido educado com a ideia da morte, que não tinha aprendido a associá-la a sepulturas e funerais, tristeza, eternidade e inferno, a coisa falava como nunca poderia ter falado para si ou para mim.

Olhando para ela, as coisas ligavam-se na sua mente: os esqueletos de aves que tinha encontrado nos bosques, os peixes que tinha morto, até árvores a jazer mortas e apodrecidas — até as conchas de caranguejos.

Se lhe tivesse perguntado o que jazia diante dele, e se ele pudesse ter expressado o pensamento na sua mente, ele ter-lhe-ia respondido "mudança".

Toda a filosofia do mundo não lhe poderia ter dito mais do que ele sabia precisamente naquele momento sobre a morte — ele, que nem sequer sabia o seu nome.

Ele estava enfeitiçado pela maravilha e pelo milagre da coisa e pelos pensamentos que subitamente se aglomeraram na sua mente como uma hoste de espectros para os quais uma porta tinha acabado de ser aberta.

Tal como uma criança, por uma lógica irrefutável, sabe que um fogo que a queimou uma vez a queimará de novo, ou queimará outra pessoa, ele sabia que, tal como a forma diante dele era, a sua forma seria algum dia — e a de Emmeline.

Depois veio a pergunta vaga que nasce não do cérebro, mas do coração, e que é a base de todas as religiões — onde estarei eu então? A sua mente não era de natureza introspectiva e a pergunta apenas vagueou por ela e desapareceu. E, ainda assim, a maravilha da coisa retinha-o. Ele estava, pela primeira vez na sua vida, num devaneio; o cadáver que o tinha chocado e aterrorizado há cinco anos tinha semeado sementes de pensamento com os seus dedos mortos na sua mente, o esqueleto tinha-as levado à maturidade. O facto pleno da morte universal surgiu subitamente diante dele, e ele reconheceu-o.

Ele permaneceu imóvel por um longo tempo, e então, com um suspiro profundo, voltou-se para o barco e afastou-se da costa sem olhar uma única vez para o recife. Atravessou a lagoa e remou lentamente para casa, mantendo-se o máximo possível sob o abrigo das sombras das árvores.

Mesmo observando-o da margem, notar-se-ia uma diferença nele. O selvagem rema a sua canoa, ou move o seu barco, alerta, olhando ao redor, em contato com a natureza em todos os pontos; embora possa ser preguiçoso como um gato e dormir metade do dia, quando acordado é todo ouvidos e olhos — uma criatura que reage à menor impressão externa.

Dick, enquanto remava de volta, não olhava ao redor: ele estava a pensar ou a recordar. O selvagem nele tinha recebido um revés. Ao contornar o pequeno cabo onde o coqueiro selvagem ardia em cores, olhou por cima do ombro. Uma figura estava de pé no relvado, junto à beira da água. Era Emmeline.

CAPÍTULO VII

A ESCUNA

Levaram as bananas para a casa e penduraram-nas num ramo da artu. Depois, Dick, de joelhos, acendeu o lume para preparar a refeição da noite. Quando terminou, desceu até onde o barco estava atracado e regressou com algo na mão. Era o dardo com a ponta de ferro — ou, melhor dizendo, os dois pedaços dele. Ele não tinha dito nada à rapariga sobre o que vira.

Emmeline estava sentada na relva; tinha uma longa tira do tecido de flanela às riscas sobre si, usada como um xafe, e tinha outro pedaço na mão que estava a bainhar. O pássaro saltitava por perto, bicando uma banana que lhe tinham atirado; uma brisa leve fazia a sombra das folhas da artu dançar sobre a relva, e as folhas serrilhadas da fruta-pão chocar umas contra as outras com o som de gotas de chuva a cair sobre vidro.

"Onde arranjaste isso?", perguntou Emmeline, olhando fixamente para o pedaço do dardo que Dick atirara quase ao lado dela enquanto ia a casa buscar a faca.

"Estava na praia, ali", respondeu ele, sentando-se e examinando os dois fragmentos para ver como os poderia unir.

Emmeline olhou para as peças, juntando-as na sua mente. Não gostava do aspeto da coisa: tão afiada e selvagem, e manchada de escuro por mais de um pé a partir da ponta.

"Pessoas estiveram lá", disse Dick, juntando as duas peças e examinando a fratura criticamente.

"Onde?"

"Ali. Isto estava deitado na areia, e a areia estava toda pisada."

"Dick", disse Emmeline, "quem eram as pessoas?"

"Não sei; subi a colina e vi os barcos deles a afastar-se — muito longe. Isto estava deitado na areia."

"Dick", disse Emmeline, "lembras-te do barulho ontem?"

"Sim", disse Dick.

"Ouvi-o durante a noite."

"Quando?"

"Na noite antes de a lua desaparecer."

"Foram eles", disse Dick.

"Dick!"

"Sim?"

"Quem eram eles?"

"Não sei", respondeu Dick.

"Foi durante a noite, antes de a lua desaparecer, e continuou e continuou a bater nas árvores. Pensei que estava a dormir, e depois soube que estava acordada; tu estavas a dormir, e empurrei-te para ouvires, mas não conseguiste acordar, estavas tão a dormir; depois a lua desapareceu e o barulho continuou. Como é que eles faziam o barulho?"

"Não sei", respondeu Dick, "mas foram eles; e deixaram isto na areia, e a areia estava toda pisada, e vi os barcos deles a partir da colina, muito longe."

"Achei que ouvi vozes", disse Emmeline, "mas não tive a certeza."

Ela caiu em meditação, observando o seu companheiro a trabalhar na coisa selvagem e de aspeto sinistro que tinha nas mãos. Ele estava a unir as duas peças com uma tira daquele material castanho, semelhante a pano, que envolve os talos das frondes do coqueiro. A coisa parecia ter sido lançada ali, vinda do azul, por uma mão invisível.

Quando uniu as peças, fazendo-o com uma destreza maravilhosa, pegou na coisa perto da ponta e começou a espetá-la na terra macia para a limpar; depois, com um pedaço de flanela, poliu-a até brilhar. Sentiu um prazer intenso nela. Era inútil como fisga, porque não tinha farpa, mas era uma arma. Era inútil como arma, porque não havia inimigo na ilha contra quem a usar; ainda assim, era uma arma.

Quando terminou de a esfregar, levantou-se, puxou as suas calças velhas para cima, apertou o cinto de tecido de coco que Emmeline fizera para ele, entrou na casa e pegou na sua fisga, e afastou-se em direção ao barco, chamando por Emmeline para que o seguisse. Atravessaram para o recife, onde, como de costume, ele se despiu.

Era estranho que, ali fora, ele andasse completamente nu, mas, na ilha, usasse sempre alguma cobertura. Mas talvez não tão estranho, afinal.

O mar é um grande purificador, tanto da mente como do corpo; perante esse grande espírito doce, as pessoas não pensam da mesma forma que pensam no interior. Que mulher apareceria numa cidade ou numa estrada rural, ou mesmo a banhar-se num rio, como aparece a banhar-se no mar?

Algum instinto fazia Dick cobrir-se na costa e despir-se no recife. Em pouco tempo, estava junto à rebentação, o dardo numa mão, a fisga na outra.

Emmeline, junto a uma pequena poça cujo fundo estava coberto de coral ramificado, sentou-se a contemplar as profundezas, perdida num devaneio como aquele em que caímos quando olhamos para as formas no lume. Estava sentada assim há algum tempo quando um grito de Dick a despertou. Ela pôs-se de pé num sobressalto e olhou para onde ele apontava. Algo espantoso estava ali.

Para leste, contornando a curva do recife e a menos de um quarto de milha, vinha uma grande escuna de gávea; era uma visão bela, inclinando-se à brisa com todas as velas abertas, e a espuma branca como uma pena na sua proa.

Dick, com o dardo na mão, estava de pé a observá-la; tinha deixado cair a sua fisga e permanecia imóvel como se tivesse sido esculpido em pedra. Emmeline correu para ele e ficou ao seu lado; nenhum dos dois disse uma palavra enquanto o navio se aproximava.

Tudo era visível, tão perto que ela estava agora, desde os pontos do recife na grande vela mestra, luminosa com a luz do sol e branca como a asa de uma gaivota, até ao corrimão das amuradas. Uma multidão de homens debruçava-se sobre as amuradas de bombordo, observando a ilha e as figuras no recife. Bronzeados pelo sol e pela brisa marinha, com o cabelo de Emmeline a esvoaçar ao vento e a ponta do dardo de Dick a brilhar ao sol, pareciam um par ideal de selvagens, vistos do convés da escuna.

"Eles estão a ir embora", disse Emmeline, com um suspiro longo de alívio.

Dick não respondeu; olhou para a escuna por mais um momento em silêncio, então, tendo a certeza de que ela se afastava da terra, começou a correr de um lado para o outro, chamando loucamente e fazendo sinais para o navio, como se o quisesse chamar de volta.

Um momento depois, um som veio na brisa, um grito ténue; uma bandeira foi içada no mastro e baixada como em escárnio, e o navio continuou o seu curso.

Na verdade, ele estivera prestes a virar. O seu capitão estivera por um momento indeciso se as formas no recife seriam náufragos ou selvagens. Mas o dardo na mão de Dick tinha feito pender a balança da sua opinião a favor da teoria dos selvagens.

CAPÍTULO VIII

O AMOR INTERVÉM

Dois pássaros estavam sentados nos ramos da árvore artu: Koko tinha arranjado uma companheira. Tinham construído um ninho a partir de fibras tiradas dos invólucros das frondes dos coqueiros, pedaços de pau e erva — qualquer coisa, na verdade; até fibras da cobertura de palmeira da casa abaixo. Os furtos dos pássaros, a construção de ninhos, que incidentes encantadores são eles no grande episódio da primavera!

O espinheiro nunca florescia ali, o clima era o de um verão eterno, contudo, o espírito de maio vinha exatamente como vem para o campo inglês ou para a floresta alemã. Os afazeres nos ramos da artu interessavam muito a Emmeline.

O namoro e a construção do ninho desenrolavam-se exatamente da maneira habitual, de acordo com as regras estabelecidas pela Natureza e seguidas pelos homens e pelos pássaros. Todo o tipo de sons estranhos filtrava-se através das folhas, vindo do ramo onde os amantes de cor de safira se sentavam lado a lado, ou da bifurcação onde o ninho começava a formar-se: arrulhos e cacarejos, sons como o abrir de um leque, sons de uma discussão, seguidos pelos sons que indicavam que a discussão tinha terminado. Às vezes, após uma destas discussões, uma ou duas penas azul-claras e felpudas flutuavam em direção à terra, tocavam nas folhas de palmeira do telhado da casa e ali se agarravam, ou eram sopradas para a relva.

Passaram alguns dias após o aparecimento da escuna, e Dick preparava-se para ir para a floresta apanhar goiabas. Tinha estado toda a manhã ocupado a fazer um cesto para as transportar. Na civilização, a julgar pelo seu talento mecânico, talvez tivesse sido um engenheiro, a construir pontes e navios, em vez de cestos de folha de palmeira e casas de cana — quem sabe se teria sido mais feliz?

O calor do meio-dia tinha passado quando, com o cesto pendurado ao ombro por um pedaço de cana, começou a caminhar para a floresta, com Emmeline a segui-lo. O lugar para onde iam enchia-a sempre de um vago pavor; por nada deste mundo ela teria ido lá sozinha. Dick tinha-o descoberto numa das suas caminhadas.

Entraram na floresta e passaram por um pequeno poço, um poço sem fonte ou saída aparente e com um fundo de areia branca e fina. Como a areia se formara ali, seria impossível dizer; mas lá estava ela, e à volta da margem cresciam fetos, redobrando-se na superfície da água cristalina. Deixaram-no à direita e embrenharam-se no coração da floresta. O calor do meio-dia ainda se escondia ali; o caminho era claro, pois havia uma espécie de trilho entre as árvores, como se, em tempos muito remotos, tivesse existido uma estrada.

Mesmo através deste caminho, metade perdido na sombra, metade iluminado pelo sol, as lianas penduravam as suas cordas. A árvore hotoo, com o seu polvilhado de flores delicadas, erguia-se ali, mostrando a sua beleza perdida ao sol; na sombra, o hibisco escarlate ardia como uma chama. Árvores artu, fruta-pão e coqueiros ladeavam o caminho.

À medida que avançavam, as árvores tornavam-se mais densas e o caminho mais obscuro. De repente, contornando uma curva apertada, o caminho terminava num vale coberto de fetos. Este era o lugar que sempre enchia Emmeline de um pavor indefinido. Um dos lados estava todo edificado em terraços com enormes blocos de pedra. Blocos de pedra tão enormes que a dúvida era como os antigos construtores os tinham colocado nos seus lugares.

Árvores cresciam ao longo dos terraços, enfiando as suas raízes entre os interstícios dos blocos. Na base, ligeiramente inclinado para a frente como se fosse pelo peso dos anos, erguia-se uma grande figura de pedra, esculpida grosseiramente, com pelo menos trinta pés de altura — de aspeto misterioso, o próprio espírito do lugar. Esta figura e os terraços, o vale em si, e as próprias árvores que lá cresciam, inspiravam Emmeline com profunda curiosidade e vago medo.

Pessoas tinham estado ali outrora; às vezes, ela imaginava ver sombras escuras a moverem-se por entre as árvores, e o sussurro da folhagem parecia-lhe, por vezes, esconder vozes, assim como a sua sombra escondia formas. Era, de facto, um lugar inquietante para se estar sozinho, mesmo sob a luz ampla do dia. Por todo o Pacífico, ao longo de milhares de milhas, encontram-se relíquias do passado, como estas, espalhadas pelas ilhas.

Estes lugares de templos são quase todos iguais: grandes terraços de pedra, ídolos maciços, desolação coberta de vegetação. Eles sugerem uma religião e uma época em que o espaço marítimo do Pacífico era um continente que, afundando-se lentamente ao longo das eras, deixou apenas as suas terras mais altas e topos de colinas visíveis sob a forma de ilhas. À volta destes lugares, as florestas são mais densas do que em qualquer outro lugar, sugerindo a presença ali, outrora, de bosques sagrados. Os ídolos são imensos, os seus rostos são vagos; as tempestades, os sóis e as chuvas das eras lançaram sobre eles um véu. A esfinge é compreensível e um brinquedo comparada com estas coisas, algumas das quais têm uma estatura de cinquenta pés, cuja criação está envolta em mistério absoluto — os deuses de um povo para sempre perdido.

"O homem de pedra" era o nome que Emmeline tinha dado ao ídolo do vale; e, por vezes, à noite, quando os seus pensamentos divagavam naquela direção, imaginava-o de pé, todo sozinho, à luz da lua ou das estrelas, a olhar fixamente para a frente.

Ele parecia estar sempre à escuta; inconscientemente, caía-se também na escuta, e então o vale parecia imerso num silêncio sobrenatural. Não era bom estar sozinho com ele.

Emmeline sentou-se entre os medos, mesmo na sua base. Quando se estava perto dele, perdia a sugestão de vida e era simplesmente uma grande pedra que projetava uma sombra ao sol.

Dick atirou-se também para descansar. Depois levantou-se e foi-se embora por entre os arbustos de goiabeiras, colhendo o fruto e enchendo o seu cesto. Desde que vira a escuna, os homens brancos nos seus conveses, os seus grandes mastros e velas, e o aspeto geral de liberdade, velocidade e aventura desconhecida, ele tinha estado mais sombrio e inquieto do que o habitual. Talvez associasse na sua mente a visão longínqua do Northumberland, e a ideia de outros lugares e terras, e o desejo de mudança que a ideia deles inspirava.

Ele regressou com o cesto cheio de fruta madura, deu um pouco à rapariga e sentou-se ao lado dela. Quando ela terminou de comer, pegou na cana que ele usava para transportar o cesto e segurou-a nas mãos. Estava a dobrá-la sob a forma de um arco quando ela escorregou, voou e atingiu o seu companheiro com um golpe seco na face.

Quase no mesmo instante, ele virou-se e deu-lhe uma palmada no ombro. Ela olhou-o por um momento em espanto perturbado, um soluço subiu-lhe à garganta. Então, algum véu pareceu levantar-se, alguma varinha de condão pareceu estender-se, algum frasco misterioso pareceu quebrar-se. Enquanto ela o olhava daquela maneira, ele subitamente e com ferocidade apertou-a nos seus braços. Segurou-a assim por um momento, atordoado, estupefacto, sem saber o que fazer com ela. Depois, os lábios dela disseram-lhe, pois encontraram os dele num beijo sem fim.

CAPÍTULO IX

O SONO DO PARAÍSO

A lua ergueu-se naquela noite e disparou as suas flechas de prata contra a casa sob a árvore artu. A casa estava vazia. Depois, a lua atravessou o mar e atravessou o recife.

Iluminou a lagoa até ao seu coração escuro e profundo. Iluminou os corais e os espaços de areia, e os peixes, projetando as suas sombras na areia e no coral. O guardião da lagoa ergueu-se para a saudar, e a sua barbatana quebrou o reflexo dela na superfície espelhada em mil ondulações cintilantes. Ela viu as costelas brancas e fixas da forma no recife. Depois, espreitando por cima das árvores, olhou para o vale, onde o grande ídolo de pedra mantinha a sua vigília solitária há cinco mil anos, talvez, ou mais.

Na sua base, na sua sombra, parecendo estar sob a sua proteção, jaziam dois seres humanos, nus, abraçados um ao outro e profundamente adormecidos. Quase não se poderia lamentar a sua vigília, se ela tivesse sido marcada por vezes, ao longo dos anos, por um incidente como este. A coisa tinha sido conduzida exatamente como os pássaros conduzem os seus casos de amor. Um caso absolutamente natural, absolutamente irrepreensível e sem pecado.

Foi um casamento de acordo com a Natureza, sem banquetes ou convidados, consumado com um cinismo acidental sob a sombra de uma religião morta há mil anos.

Estavam tão felizes na sua ignorância que apenas sabiam que, de repente, a vida tinha mudado, que os céus e o mar estavam mais azuis e que se tinham tornado, de alguma forma mágica, um parte do outro. Os pássaros na árvore acima eram igualmente felizes na sua ignorância e no seu amor.

PARTE II

CAPÍTULO X

UMA LUA DE MEL NA ILHA

Um dia, Dick subiu à árvore acima da casa e, expulsando a Madame Koko do ninho onde estava sentada, espreitou lá para dentro. Havia vários ovos verde-pálidos nele. Não os perturbou, mas desceu novamente, e a ave retomou o seu lugar como se nada tivesse acontecido. Tal acontecimento teria aterrorizado um pássaro habituado aos costumes dos homens, mas, ali, os pássaros eram tão destemidos e tão cheios de confiança que, muitas vezes, seguiam Emmeline na floresta, voando de ramo em ramo, observando-a através das folhas, pousando bem perto dela — uma vez, até, no seu ombro.

Os dias passaram. Dick tinha perdido a sua inquietação: o seu desejo de vaguear tinha desaparecido. Ele não tinha motivos para vaguear; talvez fosse essa a razão pela qual não o fazia. Em toda a terra vasta, ele não poderia ter encontrado nada mais desejável do que aquilo que tinha.

Em vez de encontrar um selvagem seminu seguido como um cão pela sua companheira, encontrar-se-ia, ao anoitecer, um par de amantes a vaguear pelo recife. Tinham tentado, de uma forma patética, adornar a casa com uma trepadeira de flor azul tirada da floresta e guiada sobre a entrada.

Emmeline, até então, tinha feito a maior parte da cozinha, tal como ela era; Dick ajudava-a agora, sempre. Ele já não falava com ela em frases curtas atiradas como se fosse para um cão; e ela, quase perdendo a estranha reserva que a acompanhara desde a infância, mostrou-lhe metade da sua mente. Era uma mente curiosa: a mente de uma sonhadora, quase a mente de uma poeta. Os Cluricaunes habitavam ali, e formas vagas nascidas de coisas sobre as quais ela ouvira falar ou sonhara: ela tinha pensamentos sobre o mar e as estrelas, as flores e os pássaros.

Dick ouvia-a enquanto ela falava, como um homem poderia ouvir o som de um regato. A sua mente prática não podia participar nos sonhos da sua outra metade, mas a conversa dela agradava-lhe.

Ele olhava para ela por longos períodos, absorvido em pensamentos. Ele estava a admirá-la.

O cabelo dela, azul-negro e brilhante, enredava-o nas suas malhas; ele acariciava-o, por assim dizer, com os olhos, e depois puxava-a para perto de si e enterrava o rosto nele; o cheiro era inebriante. Ele respirava-a como se faz com o perfume de uma rosa.

As orelhas dela eram pequenas, e como pequenas conchas brancas. Ele tomava uma entre o dedo e o polegar e brincava com ela como se fosse um brinquedo, puxando o lóbulo ou tentando achatar a parte curva. Os seios dela, os ombros, os joelhos, os pés pequenos, cada pedaço dela, ele examinava, brincava e beijava. Ela deixava-se estar, parecendo absorta em algum pensamento longínquo, do qual ele era o objeto, então, de repente, os braços dela envolviam-no. Tudo isto acontecia em plena luz do dia, sob a sombra das folhas da artu, sem ninguém para observar, exceto os pássaros de olhos brilhantes nas folhas acima.

O tempo deles não era passado apenas desta forma. Dick estava tão interessado nos peixes quanto antes. Escavou com uma pá — improvisada de uma das tábuas do bote — um espaço de terra macia perto da plantação de taro e plantou as sementes de melão que encontrara no bosque; cobriu o telhado da casa novamente. Eram, em suma, o mais ocupados que podiam ser num clima daqueles, mas o desejo de amor surgia-lhes em acessos, e então tudo o resto era esquecido. Tal como alguém revisita um lugar para renovar a memória de uma experiência dolorosa ou agradável ali vivida, eles voltavam ao vale do ídolo e passavam uma tarde inteira sob a sua sombra. A felicidade absoluta de vaguear pelos bosques juntos, descobrindo flores novas, perdendo-se e encontrando o caminho de volta, era algo que ia além da expressão.

Dick tinha tropeçado subitamente no Amor. O seu cortejo durara apenas uns vinte minutos; estava a ser revivido agora, e prolongado.

Certo dia, ao ouvir um ruído curioso na árvore acima da casa, subiu-a. O ruído vinha do ninho, que tinha sido temporariamente deixado pela mãe pássaro. Era um som de arfada, de chiadeira, e vinha de quatro bicos escancarados, tão ansiosos por serem alimentados que quase se podia ver o interior dos próprios papos dos donos. Eram os filhos de Koko. Dentro de mais um ano, cada uma daquelas coisas feias e penugentas seria, se lhes fosse permitido viver, um belo pássaro de cor safira com algumas penas da cauda cor de pomba, bico de coral e olhos brilhantes e inteligentes. Há poucos dias, cada uma daquelas coisas estava aprisionada num ovo verde-pálido. Há um mês, elas não existiam em parte alguma.

Algo atingiu Dick na face. Era a mãe pássaro que regressara com comida para os filhotes. Dick afastou a cabeça e ela procedeu, sem mais delongas, a encher-lhes os papos.

CAPÍTULO XI

O DESAPARECIMENTO DE EMMELINE

Os meses passaram. Apenas um pássaro permanecia nos ramos da artu: os filhos e a companheira de Koko tinham desaparecido, mas ele permanecia. As folhas da fruta-pão tinham mudado de verde para ouro pálido e âmbar profundo, e agora as novas folhas verdes eram apresentadas à primavera.

Dick, que tinha um mapa completo da lagoa na cabeça e conhecia todas as sondagens e os melhores locais de pesca, a localização do coral urticante e os lugares onde se podia atravessar a vau na maré baixa — Dick, certa manhã, estava a reunir as suas coisas para uma expedição de pesca. O local onde ia lançar as linhas ficava a cerca de quatro quilómetros do outro lado da ilha e, como o caminho era mau, ia sozinho.

Emmeline estivera a passar um fio novo pelas contas do colar que por vezes usava. Este colar tinha uma história. Nas águas pouco profundas, não muito longe, Dick encontrara um banco de marisco; entrando na água na maré baixa, retirara alguns deles para examinar. Eram ostras. A primeira que abriu, tão repugnante que lhe pareceu a aparência, poderia ter sido a última, não fosse o facto de, sob a barba da coisa, repousar uma pérola. Tinha cerca do dobro do tamanho de uma ervilha grande e era tão lustrosa que mesmo ele não pôde deixar de admirar a sua beleza, embora totalmente inconsciente do seu valor.

Atirou fora as ostras fechadas e levou a coisa a Emmeline. No dia seguinte, regressando por acaso ao mesmo local, encontrou as ostras que tinha deitado fora, todas mortas e abertas ao sol. Examinou-as e encontrou outra pérola incrustada numa delas. Depois, recolheu quase um alqueire das ostras e deixou-as morrer e abrir. Ocorreu-lhe a ideia de fazer um colar para a sua companheira. Ela tinha um feito de conchas, ele pretendia fazer-lhe um de pérolas.

Demorou muito tempo, mas era algo para fazer. Perfurou-as com uma agulha grande e, ao fim de quatro meses ou mais, a coisa estava completa. Eram pérolas grandes, a maior parte delas — brancas puras, negras, cor-de-rosa, algumas perfeitamente redondas, outras em forma de lágrima, outras irregulares. A coisa valia quinze ou talvez vinte mil libras, pois ele só usava as maiores que conseguia encontrar, descartando as pequenas como inúteis.

Emmeline, esta manhã, tinha acabado de enfiar as pérolas num fio duplo. Parecia pálida e nada bem, e estivera inquieta a noite toda.

Quando ele partiu, armado com a sua lança e equipamento de pesca, ela acenou-lhe com a mão sem se levantar. Normalmente, seguia-o um pouco bosque adentro quando ele partia assim, mas esta manhã apenas se sentou à porta da pequena casa, o colar no regaço, seguindo-o com os olhos até ele se perder entre as árvores.

Não tinha bússola para o guiar, e não precisava de nenhuma. Conhecia os bosques de cor. A linha misteriosa para lá da qual quase não se encontrava uma árvore artu. A longa faixa de mammee apple — um manto regular com cem jardas de largura, estendendo-se do meio da ilha até à lagoa. As clareiras, algumas quase circulares, onde as fetos cresciam até aos joelhos. Depois, chegou à parte má.

A vegetação aqui tinha explodido num tumulto. Todo o tipo de grandes caules suculentos de plantas desconhecidas bloqueavam o caminho e emaranhavam os pés; e havia zonas pantanosas nas quais se afundava horrorosamente. Ao parar para limpar o suor da testa, os caules e as gavinhas que se tinham abatido ou afastado erguiam-se e fechavam-se, tornando-nos prisioneiros, quase tão cercados como uma mosca no âmbar.

Todos os meios-dias que alguma vez tinham caído sobre a ilha pareciam ter deixado um pouco do seu calor ali. O ar era húmido e abafado como o ar de uma lavandaria; e o zumbido lúgubre e perpétuo dos insetos preenchia o silêncio sem o destruir.

Cem homens com foices poderiam abrir um caminho pelo local hoje; um ou dois meses depois, ao procurar o caminho, não encontraria nenhum — a vegetação ter-se-ia fechado como a água se fecha quando dividida.

Este era o habitat da orquídea-jarro — um verdadeiro jarro, com tampa e tudo. Ao levantar a tampa, encontrava-se o jarro meio cheio de água. Por vezes, no emaranhado lá em cima, entre duas árvores, via-se uma coisa parecida com um pássaro que se arruinara. As orquídeas cresciam aqui como numa estufa. Todas as árvores — as poucas que havia — tinham uma aparência espectral e miserável. Estavam meio famintas devido ao crescimento voluptuoso das ervas gigantescas.

Se alguém tivesse muita imaginação, sentia medo naquele lugar, pois sentia-se que não estava sozinho. A qualquer momento, parecia que se podia ser tocado no cotovelo por uma mão que se estendia a partir do emaranhado circundante. Até Dick sentia isto, por mais desprovido de imaginação e destemido que fosse. Demorou quase três quartos de hora a atravessar e, então, finalmente, surgiu o ar abençoado do dia real e um vislumbre da lagoa entre os troncos das árvores.

Teria remado no bote, se não fosse o facto de, na maré baixa, os baixios do norte da ilha serem um impedimento à passagem do barco. É claro que poderia ter remado toda a volta pelo lado da costa e da entrada do recife, mas isso teria significado um circuito de seis milhas ou mais. Quando chegou entre as árvores à margem da lagoa, eram cerca das onze da manhã e a maré estava quase no auge.

A lagoa, ali, era como uma calha, e o recife estava muito perto, a quase um quarto de milha da costa. A água não tinha declive, caía a pique por cinquenta braças ou mais, e podia pescar-se da margem tal como de um cais. Ele tinha trazido alguma comida consigo e colocou-a debaixo de uma árvore enquanto preparava a sua linha, que tinha um pedaço de coral como peso. Iscou o anzol e, fazendo girar o peso no ar, lançou-o a cem pés da margem. Havia um coqueiro bebé a crescer mesmo à beira da água. Prendeu a extremidade da linha à haste estreita, para o caso de eventualidades, e depois, segurando a própria linha, pescou.

Tinha prometido a Emmeline regressar antes do pôr do sol.

Ele era um pescador. Isto é, uma criatura com a paciência duradoura de um gato, incansável e alheio ao tempo como uma ostra. Vinha ali pelo desporto mais do que pelo peixe. Podiam encontrar-se criaturas grandes nesta parte da lagoa. Da última vez, tinha fisgado um horror sob a forma de um peixe-gato; pelo menos em aparência exterior, era o que mais se assemelhava a um peixe-gato do Mississippi. Ao contrário do peixe-gato, era grosseiro e inútil como alimento, mas proporcionava um bom desporto.

A maré estava agora a baixar, e era na maré vazante que se conseguia a melhor pesca. Não havia vento, e a lagoa parecia uma folha de vidro, com apenas uma covinha aqui e ali onde a maré vazante criava um turbilhão na água.

Enquanto pescava, pensava em Emmeline e na pequena casa debaixo das árvores. Dificilmente se poderia chamar a isso pensar. Imagens passavam diante dos olhos da sua mente — imagens agradáveis e felizes, iluminadas pelo sol, pela lua, pelas estrelas.

Três horas passaram assim sem uma dentada ou sintoma de que a lagoa contivesse algo mais do que água salgada e desilusão; mas ele não se queixou. Ele era um pescador. Depois, deixou a linha atada à árvore e sentou-se para comer a comida que trouxera. Mal tinha terminado a refeição quando o pequeno coqueiro estremeceu e entrou em convulsão, e ele não precisou de tocar na linha esticada para saber que era inútil tentar lidar com a coisa na extremidade dela. O único caminho era deixá-la puxar e afogar-se. Por isso, sentou-se e observou.

Após alguns minutos, a linha afrouxou e o pequeno coqueiro retomou a sua atitude de meditação pensativa e repouso. Ele puxou a linha: não havia nada na extremidade dela senão um anzol. Ele não se queixou; iscou o anzol novamente e lançou-o, pois era muito provável que a coisa feroz na água voltasse a morder.

Cheio desta ideia e alheio ao tempo, pescou e esperou. O sol estava a afundar-se no poente — ele não lhe prestou atenção. Tinha-se esquecido completamente de que prometera a Emmeline regressar antes do pôr do sol; estava quase na hora do pôr do sol agora. Subitamente, mesmo atrás de si, vinda de entre as árvores, ouviu a voz dela, a gritar:

"Dick!"

CAPÍTULO XII

O DESAPARECIMENTO DE EMMELINE (continuação)

Ele deixou cair a linha e virou-se com um sobressalto. Não estava ninguém visível. Correu entre as árvores gritando o nome dela, mas apenas ecos responderam. Depois voltou para a margem da lagoa.

Sentia-se seguro de que o que ouvira fora apenas fantasia, mas estava quase na hora do pôr do sol e era mais do que tempo de partir. Puxou a linha, enrolou-a, pegou na sua lança de peixe e começou a caminhar.

Foi mesmo no meio do lugar mau que o pavor o invadiu. E se algo lhe tivesse acontecido? Estava a anoitecer ali, e nunca as ervas tinham parecido tão espessas, a penumbra tão lúgubre, as gavinhas das videiras tão semelhantes a armadilhas. Então, perdeu o caminho — ele, que estava sempre tão seguro do seu caminho! O instinto do caçador tinha sido perturbado e, por um momento, vagueou aqui e ali, desamparado como um navio sem bússola. Finalmente, entrou no bosque real, mas muito para a direita de onde deveria ter estado. Sentia-se como uma besta que escapara de uma armadilha e apressou-se, guiado pelo som do marulho.

Quando chegou à clareira que conduzia à lagoa, o sol acabara de desaparecer para lá da linha do mar. Uma faixa de nuvem vermelha flutuava como a pena de um flamingo no céu ocidental, perto do mar, e o crepúsculo já preenchera o mundo. Ele podia ver a casa vagamente, sob a sombra das árvores, e correu na sua direção, atravessando a clareira na diagonal.

Sempre antes, quando ele estivera fora, a primeira coisa a saudar os seus olhos no regresso fora a figura de Emmeline. Quer na margem da lagoa, quer à porta da casa, ele encontrava-a à sua espera.

Ela não estava à sua espera esta noite. Quando chegou à casa, ela não estava lá, e ele parou, após procurar pelo local, vítima da perplexidade mais horrível, incapaz por um momento de pensar ou agir.

Desde o choque do acontecimento no recife, ela estivera sujeita, por vezes, a ataques ocasionais de dor de cabeça; e quando a dor era mais do que ela podia suportar, ela afastava-se e escondia-se. Dick procurava-a entre as árvores, gritando o seu nome e chamando. Um "alô" fraco respondia quando ela o ouvia, e então ele encontrava-a debaixo de uma árvore ou arbusto, com a sua infeliz cabeça entre as mãos, uma imagem de miséria.

Ele lembrou-se disto agora e partiu ao longo das margens do bosque, chamando por ela e parando para ouvir. Nenhuma resposta veio.

Procurou entre as árvores até ao pequeno poço, despertando os ecos com a sua voz; depois voltou lentamente, espreitando à sua volta na penumbra profunda que agora cedia à luz das estrelas. Sentou-se diante da porta da casa e, olhando para ele, poder-se-ia tê-lo imaginado nos últimos estados de exaustão. A dor profunda e a exaustão profunda agem sobre o corpo de forma muito semelhante. Sentou-se com o queixo a descansar no peito, as mãos desamparadas. Podia ouvir a voz dela, ainda como a ouvira do outro lado da ilha. Ela estivera em perigo e chamara-o, e ele estivera calmamente a pescar, inconsciente de tudo aquilo.

Este pensamento enlouqueceu-o. Sentou-se, olhou em volta e bateu no chão com as palmas das mãos; depois saltou para os seus pés e foi para o bote. Remos até ao recife: a ação de um louco, pois ela não poderia possivelmente estar lá.

Não havia lua, a luz das estrelas iluminava e velava o mundo, e não havia som a não ser o trovão majestoso das ondas. Enquanto ele estava ali, o vento noturno a soprar-lhe no rosto, a espuma branca a fervilhar diante de si, e Canopus a arder no grande silêncio lá em cima, o facto de estar no centro de uma indiferença terrível e profunda atingiu a sua mente inculta com uma pontada.

Regressou à costa: a casa continuava deserta. Uma pequena taça feita da casca de um coco estava sobre a relva perto da entrada. Ele a vira pela última vez nas mãos dela, e pegou-a e segurou-a por um momento, pressionando-a firmemente contra o seu peito. Depois, atirou-se diante da entrada e deitou-se de bruços, com a cabeça a descansar sobre os braços, na atitude de alguém que está profundamente a dormir.

Deve ter procurado pelos bosques novamente naquela noite, tal como um sonâmbulo procura, pois encontrou-se perto da alvorada no vale, diante do ídolo. Então, foi o amanhecer — o mundo estava cheio de luz e cor. Ele estava sentado diante da porta da casa, exausto e esgotado, quando, ao levantar a cabeça, viu a figura de Emmeline a sair de entre as árvores distantes, do outro lado da clareira.

CAPÍTULO XIII

O RECÉM-CHEGADO

Ele não se conseguiu mover por um momento, depois saltou para os pés e correu na direção dela. Ela parecia pálida e atordoada, e segurava algo nos braços; algo embrulhado no seu lenço. À medida que ele a pressionava contra si, o algo no embrulho lutou contra o seu peito e emitiu um guincho — tal como o guincho de um gato. Ele recuou e Emmeline, movendo ternamente o lenço um pouco para o lado, expôs um rosto minúsculo. Era cor de tijolo e enrugado; havia dois olhos brilhantes e uma madeixa de cabelo escuro sobre a testa. Então os olhos fecharam-se, o rosto contraiu-se e a coisa espirrou duas vezes.

"Onde o arranjaste?" perguntou ele, absolutamente perdido em espanto enquanto ela cobria o rosto novamente com o lenço.

"Encontrei-o no bosque," respondeu Emmeline.

Mudo de espanto, ajudou-a a chegar à casa, e ela sentou-se, descansando a cabeça contra os bambus da parede.

"Senti-me tão mal," explicou ela; "e depois fui sentar-me no bosque, e depois não me lembrei de mais nada, e quando acordei, ele estava lá."

"É um bebé!" disse Dick.

"Eu sei," respondeu Emmeline.

O bebé da Sra. James, visto há muito tempo, tinha surgido diante dos olhos das suas mentes, um mensageiro do passado para explicar o que era a nova coisa. Depois, ela contou-lhe coisas — coisas que destruíram completamente a velha teoria da "cova dos repolhos", substituindo-a por uma verdade muito mais maravilhosa, muito mais poética, também, para quem pode apreciar o maravilhamento e o mistério da vida.

"Tem algo engraçado atado a ele," continuou ela, como se se estivesse a referir a um pacote que acabara de receber.

"Vamos ver," disse Dick.

"Não," respondeu ela; "deixa-o estar."

Ela sentou-se a embalar a coisa suavemente, parecendo alheia a todo o mundo e totalmente absorvida nele, como, de facto, estava Dick. Um médico ter-se-ia arrepiado, mas, talvez felizmente, não havia médico na ilha. Apenas a Natureza, e ela colocou tudo em ordem no seu próprio tempo e modo.

Quando Dick se sentou a maravilhar-se o tempo suficiente, levantou-se e acendeu o lume. Ele não comia nada desde o dia anterior e estava quase tão exausto como a rapariga. Cozinhou alguma fruta-pão, havia algum peixe frio que sobrara do dia anterior; isto, com algumas bananas, serviu em duas folhas largas, fazendo Emmeline comer primeiro.

Antes de terminarem, a criatura no embrulho, como se tivesse cheirado a comida, começou a gritar. Emmeline puxou o lenço para o lado. Parecia faminto; a sua boca estava agora franzida e agora escancarada, os seus olhos abriam-se e fechavam-se. A rapariga tocou-lhe nos lábios com o dedo, e ele agarrou-se à ponta do seu dedo e chupou-o. Os olhos dela encheram-se de lágrimas, olhou suplicante para Dick, que estava de joelhos; ele pegou numa banana, descascou-a, partiu um pedaço e entregou-lho. Ela aproximou-a da boca do bebé. Ele tentou chupá-la, falhou, soprou bolhas ao sol e gritou.

"Espera um minuto," disse Dick.

Havia alguns cocos verdes que ele tinha apanhado no dia anterior, ali perto. Pegou num, removeu a casca verde e abriu um dos olhos, fazendo também uma abertura no lado oposto da casca. O infeliz infante chupou vorazmente o coco, encheu o estômago com o sumo do coco jovem, vomitou violentamente e chorou. Emmeline, em desespero, prendeu-o ao seu peito nu, de onde, num momento, ele estava pendurado como uma sanguessuga. Ele sabia mais sobre bebés do que eles.

CAPÍTULO XIV

HANNAH

Ao meio-dia, nos baixios do recife, sob o sol ardente, a água tornava-se bastante quente. Eles levavam o bebé até ali, e Emmeline lavava-o com um pedaço de flanela. Após alguns dias, ele quase nunca gritava, mesmo quando ela o lavava. Ele ficava deitado nos joelhos dela durante o processo, chutando valentemente com os braços e pernas, olhando fixamente para o céu. Depois, quando ela o virava de bruços, ele pousava a cabeça e ria-se e soprava bolhas para o coral do recife, examinando, aparentemente, o padrão do coral com atenção profunda e filosófica.

Dick sentava-se ao lado com os joelhos encostados ao queixo, observando tudo. Sentia-se como coproprietário da coisa — como de facto era. O mistério do caso ainda pairava sobre ambos. Há uma semana, eles os dois estavam sozinhos e, subitamente, do nada, este novo indivíduo aparecera.

Era tão completo. Tinha cabelo na cabeça, unhas minúsculas e mãos que o agarravam. Tinha toda uma série de pequenos hábitos próprios, e cada dia acrescentava mais a eles.

Em uma semana, a extrema feiura do recém-nascido havia desaparecido. Seu rosto, que parecia esculpido na imitação da face de um macaco a partir de meio tijolo, tornou-se o rosto de um bebê feliz e saudável. Parecia ver as coisas e, às vezes, ria e soltava gritinhos como se lhe tivessem contado uma boa piada. Seu cabelo preto caiu por completo e foi substituído por uma espécie de penugem. Não tinha dentes. Deitava-se de costas, esperneava, soltava gorjeios, fechava os punhinhos e tentava engoli-los alternadamente, cruzando os pés e brincando com os dedos. Na verdade, era exatamente como qualquer um dos mil e um bebês que nascem no mundo a cada tique-taque do relógio.

“Como o chamaremos?”, disse Dick um dia, enquanto observava seu filho e herdeiro engatinhando na grama sob a sombra das folhas da fruta-pão.

“Hannah”, disse Emmeline prontamente.

A lembrança de outro bebê de quem um dia ouvira falar estava em sua mente; e era um nome tão bom quanto qualquer outro, talvez, naquele lugar solitário, apesar do fato de que Hannah era um menino.

Koko demonstrava um vasto interesse pelo recém-chegado. Ele saltitava ao redor dele e o observava com a cabeça inclinada para o lado; e Hannah engatinhava atrás do pássaro e tentava agarrá-lo pela cauda. Em poucos meses, tornou-se tão valente e forte que perseguia o próprio pai, engatinhando à frente dele na grama, e poder-se-ia ter visto a mãe, o pai e a criança brincando todos juntos como três crianças, o pássaro às vezes pairando acima como um bom espírito, outras vezes juntando-se à diversão.

Às vezes, Emmeline sentava-se e contemplava a criança, com uma expressão perturbada no rosto e um olhar distante nos olhos. O velho medo vago de um infortúnio havia retornado — o pavor daquela forma invisível que sua imaginação meio que pintava por trás do sorriso na face da Natureza. Sua felicidade era tão grande que ela temia perdê-la.

Não há nada mais maravilhoso do que o nascimento de um homem e tudo o que concorre para que isso aconteça. Ali, naquela ilha, no coração do mar, em meio ao sol e às árvores sopradas pelo vento, sob o grande arco azul do céu, em perfeita pureza de pensamento, eles discutiam a questão do início ao fim sem corar, o objeto de sua discussão engatinhando diante deles na grama e tentando agarrar penas da cauda de Koko.

Era a solidão do lugar, assim como sua ignorância da vida, que fazia com que o velho, velho milagre parecesse tão estranho e fresco — tão belo quanto o milagre da morte parecera terrível. Em pensamentos vagos e impossíveis de expressar em palavras, eles ligavam esta nova ocorrência àquela velha ocorrência no recife, seis anos antes. O desaparecimento e o surgimento de um homem.

* * * * * *

Hannah, apesar de seu nome infeliz, era certamente um bebê muito viril e cativante. O cabelo preto que havia aparecido e desaparecido como uma brincadeira de mau gosto pregada pela Natureza deu lugar a uma penugem, a princípio tão amarela quanto o trigo desbotado pelo sol, mas que, em poucos meses, tingiu-se de ruivo.

Um dia — ele andava inquieto e mordendo os polegares há algum tempo — Emmeline, olhando para dentro de sua boca, viu algo branco e semelhante a um grão de arroz brotando de sua gengiva. Era um dente que acabara de nascer. Ele já podia comer bananas agora, e fruta-pão, e eles frequentemente o alimentavam com peixe — um fato que, novamente, poderia ter feito um médico estremecer; no entanto, ele prosperava com tudo aquilo e tornava-se mais robusto a cada dia.

Emmeline, com uma sabedoria profunda e natural, deixava-o engatinhar totalmente nu, vestido de ozônio e luz solar. Levando-o ao recife, deixava-o chapinhar nas poças rasas, segurando-o pelas axilas enquanto ele espalhava a água brilhante como diamante em borrifos com os pés, rindo e gritando.

Eles estavam começando agora a experimentar um fenômeno tão maravilhoso quanto o nascimento do corpo da criança — o nascimento de sua inteligência: o vislumbre de uma pequena personalidade com predileções próprias, gostos e aversões.

Ele distinguia Dick de Emmeline; e quando Emmeline satisfazia suas necessidades materiais, ele estendia os braços para ir para Dick, se este estivesse por perto. Ele via Koko como um amigo, mas quando um amigo de Koko — um pássaro de mente inquisitiva e três penas vermelhas na cauda — apareceu um dia para inspecionar o recém-chegado, ele se ressentiu da intrusão e gritou.

Ele tinha paixão por flores ou qualquer coisa brilhante. Ria e gritava quando levado à lagoa no bote, e fazia menção de pular na água para alcançar os corais de cores vivas lá embaixo.

Ah, eu! Nós rimos das mães jovens e de todas as coisas milagrosas que nos contam sobre seus bebês. Elas veem o que nós não podemos ver: o primeiro desabrochar daquela flor misteriosa, a mente.

Um dia, eles estavam na lagoa. Dick estivera remando; parara e deixava o barco derivar um pouco. Emmeline estava balançando a criança em seu joelho, quando esta de repente estendeu os braços para o remador e disse:

“Dick!”

A pequena palavra, tão frequentemente ouvida e facilmente repetida, foi sua primeira palavra na Terra.

Uma voz que nunca antes falara no mundo, falara; e ouvir seu nome assim, misteriosamente proferido por um ser que ele criou, é a coisa mais doce e, talvez, a mais triste que um homem pode conhecer.

Dick tomou a criança em seus joelhos e, a partir daquele momento, seu amor por ela era maior do que seu amor por Emmeline ou por qualquer outra coisa na Terra.

CAPÍTULO XV

A LAGOA DE FOGO

Desde a tragédia de seis anos atrás, formava-se na mente de Emmeline Lestrange algo — devo chamar de uma profunda desconfiança? Ela nunca fora inteligente; as lições a entristeciam e a cansavam, sem torná-la muito mais sábia. No entanto, sua mente era daquela ordem em que verdades profundas chegam por atalhos. Ela era intuitiva.

Um grande conhecimento pode espreitar na mente humana sem que o dono da mente esteja ciente. Ele ou ela age de tal ou tal maneira, ou pensa de tal ou tal forma por intuição; em outras palavras, como o resultado do mais profundo raciocínio.

Quando aprendemos a chamar tempestades de tempestades, a morte de morte, e o nascimento de nascimento; quando dominamos o manual do marinheiro, a lei dos ciclones do Sr. Piddington, a anatomia de Ellis e a obstetrícia de Lewer, já nos tornamos meio cegos. Tornamo-nos hipnotizados por palavras e nomes. Pensamos em palavras e nomes, não em ideias; o lugar-comum triunfou, o verdadeiro intelecto está meio esmagado.

Tempestades já haviam irrompido sobre a ilha antes disso. E o que Emmeline lembrava delas poderia ser expresso por um exemplo.

A manhã seria brilhante e feliz, nunca tão brilhante o sol, ou tão suave a brisa, ou tão pacífica a lagoa azul; então, com uma horrível rapidez, como se doente de dissimulação e louca para se mostrar, algo escureceria o sol e, com um grito, estenderia uma mão e devastaria a ilha, transformaria a lagoa em espuma, derrubaria os coqueiros e mataria os pássaros. E um pássaro seria levado e outro deixado, uma árvore destruída e outra deixada de pé. A fúria da coisa era menos assustadora do que a sua cegueira e a sua indiferença.

Uma noite, quando a criança estava dormindo, logo após a última estrela ser acesa, Dick apareceu na porta da casa. Ele tinha ido até a beira da água e agora retornara. Ele fez um sinal para que Emmeline o seguisse e, colocando a criança no chão, ela o fez.

“Venha aqui e olhe”, disse ele.

Ele abriu caminho para a água; e, à medida que se aproximavam, Emmeline percebeu que havia algo estranho na lagoa. De longe, ela parecia pálida e sólida; poderia ter sido uma grande extensão de mármore cinza veado de preto. Então, à medida que se aproximava, viu que a aparência cinzenta e opaca era um engano da visão.

A lagoa estava acesa e em chamas.

O fogo fosfórico estava em seu próprio coração e ser; cada ramo de coral era uma tocha, cada peixe uma lanterna passageira. A maré crescente, movendo as águas, fazia todo o chão cintilante da lagoa mover-se e tremer, e as pequenas ondas batiam na margem, deixando para trás rastros de vaga-lumes.

“Olhe!”, disse Dick.

Ele se ajoelhou e mergulhou o antebraço na água. A parte submersa ardia como uma tocha fumegante. Emmeline podia vê-la tão claramente como se estivesse iluminada pela luz do sol. Então ele tirou o braço e, até onde a água alcançara, ele estava coberto por uma luva brilhante.

Eles já haviam visto a fosforescência da lagoa antes; de fato, qualquer noite poderia-se observar os peixes passando como barras de prata, quando a lua não estava presente; mas isso era algo completamente novo e fascinante.

Emmeline ajoelhou-se e chapinhou as mãos, fez para si um par de luvas fosfóricas, gritou de prazer e riu. Era todo o prazer de brincar com fogo sem o perigo de ser queimado. Então Dick esfregou o rosto com a água até que brilhasse.

“Espere!”, ele gritou; e, correndo para a casa, trouxe Hannah.

Ele veio correndo com ele até a beira da água, deu a criança para Emmeline, desamarrou o barco e partiu da margem.

Os remos, na medida em que estavam submersos, eram como barras de prata reluzente; sob eles passavam os peixes, deixando caudas de cometa; cada grupo de corais era uma lâmpada, emprestando seu brilho até que a grande lagoa ficasse luminosa como um salão de baile iluminado. Até mesmo a criança no colo de Emmeline gorjeou e gritou com a estranheza da visão.

Eles pousaram no recife e caminharam sobre a superfície plana. O mar estava branco e brilhante como a neve, e a espuma parecia uma cerca de fogo.

Enquanto estavam ali contemplando aquela visão extraordinária, de repente, quase tão instantaneamente quanto o apagar de uma luz elétrica, a fosforescência do mar tremeluziu e desapareceu.

A lua estava nascendo. Sua crista estava apenas saindo da água e, à medida que sua face surgia lentamente por trás de um cinturão de vapor que pairava no horizonte, ela parecia feroz e vermelha, manchada de fumaça como a face de Eblis.

CAPÍTULO XVI

O CICLONE

Quando acordaram na manhã seguinte, o dia estava escuro. Um telhado sólido de nuvens, cor de chumbo e sem uma única ondulação, estendia-se pelo céu, quase até o horizonte. Não havia um sopro de vento, e os pássaros voavam descontroladamente como se perturbados por algum inimigo invisível na floresta.

Enquanto Dick acendia o fogo para preparar o café da manhã, Emmeline caminhava de um lado para o outro, segurando seu bebê junto ao peito; ela se sentia inquieta e intranquila.

À medida que a manhã avançava, a escuridão aumentava; uma brisa surgiu, e as folhas das árvores de fruta-pão batiam umas nas outras com o som da chuva caindo sobre o vidro. Uma tempestade estava chegando, mas havia algo diferente em sua aproximação em relação à aproximação das tempestades que já conheciam.

À medida que a brisa aumentava, um som enchia o ar, vindo de muito longe, além do horizonte. Era como o som de uma grande multidão de pessoas, e ainda assim tão fraco e vago que súbitas rajadas da brisa através das folhas acima o abafavam completamente. Então ele cessava, e nada podia ser ouvido a não ser o balanço dos galhos e o movimento das folhas sob o vento crescente, que agora soprava agudo e ferozmente, com uma corrente constante diretamente do oeste, irritando a lagoa e enviando nuvens e massas de espuma sobre o recife. O céu que estivera tão plúmbeo e pacífico e como um telhado sólido agora estava todo apressado, fluindo para o leste como um grande rio turbulento em enchente.

E agora, novamente, podia-se ouvir o som à distância — o trovão dos capitães da tempestade e a gritaria; mas ainda tão fraco, tão vago, tão indeterminado e sobrenatural que parecia o som de um sonho.

Emmeline sentou-se entre as samambaias no chão, acuada e muda, segurando o bebê junto ao peito. Ele estava profundamente adormecido. Dick estava de pé na porta. Ele estava perturbado, mas não demonstrava.

Todo o belo mundo da ilha agora assumira a cor das cinzas e a cor do chumbo. A beleza havia desaparecido completamente, tudo parecia tristeza e angústia.

Os coqueiros, sob o vento que perdera sua corrente constante e agora soprava em rajadas de furacão, lançavam-se em todas as atitudes de aflição; e quem já viu uma tempestade tropical sabe o que um coqueiro pode expressar com seus movimentos sob o açoitamento do vento.

Felizmente, a casa estava posicionada de modo a ser protegida por toda a profundidade do bosque entre ela e a lagoa; e felizmente, também, estava abrigada pela densa folhagem da fruta-pão, pois, de repente, com um estrondo de trovão como se o martelo de Thor tivesse sido lançado do céu para a terra, as nuvens se partiram e a chuva desceu em uma grande onda inclinada. Ela rugia na folhagem acima, que, dobrando folha sobre folha, formava um telhado inclinado do qual ela corria em uma cascata constante como uma folha.

Dick entrara na casa e agora estava sentado ao lado de Emmeline, que tremia e segurava a criança, que despertara com o som do trovão.

Durante uma hora eles ficaram sentados, a chuva parando e voltando, o trovão sacudindo a terra e o mar, e o vento passando acima com um grito penetrante e monótono.

Então, de repente, o vento diminuiu, a chuva cessou e uma luz pálida e espectral, como a luz do amanhecer, caiu diante da porta.

“Acabou!”, gritou Dick, fazendo menção de se levantar.

“Oh, ouça!”, disse Emmeline, agarrando-se a ele e segurando o bebê contra seu peito como se o toque dele lhe desse proteção. Ela havia adivinhado que havia algo pior se aproximando do que uma tempestade.

Então, ouvindo no silêncio, vindo do outro lado da ilha, eles ouviram um som como o zumbido de um grande pião.

Era o centro do ciclone se aproximando.

Um ciclone é uma tempestade circular: uma tempestade na forma de um anel. Este anel de furacão viaja pelo oceano com velocidade e fúria inconcebíveis, mas seu centro é um refúgio de paz.

Enquanto ouviam, o som aumentou, tornou-se mais agudo e transformou-se em um estalido que perfurava os tímpanos: um som que tremia com pressa e velocidade, aumentando, trazendo consigo o estouro e o estrondo das árvores, e quebrando finalmente acima deles em um grito que atordoava o cérebro como o golpe de um porrete. Em um segundo, a casa foi arrancada e eles estavam agarrados às raízes da fruta-pão, surdos, cegos, quase sem vida.

O terror e o choque prolongado disso os reduziram de seres pensantes ao nível de animais assustados cujo único instinto é a preservação.

Quanto tempo durou o horror, eles não podiam dizer, quando, como um louco que faz uma pausa por um momento em meio a suas lutas e fica imóvel, o vento parou de soprar e houve paz. O centro do ciclone estava passando sobre a ilha.

Olhando para cima, via-se uma visão maravilhosa. O ar estava cheio de pássaros, borboletas, insetos — todos suspensos no coração da tempestade e viajando com ela sob sua proteção.

Embora o ar estivesse tão parado quanto o ar de um dia de verão, do norte, sul, leste e oeste, de todos os pontos da bússola, vinha o grito do furacão.

Havia algo chocante nisso.

Em uma tempestade, a pessoa é tão espancada pelo vento que não tem tempo para pensar: fica meio estupefata. Mas no centro morto de um ciclone, está-se em perfeita paz. O problema está todo ao redor, mas não aqui. Tem-se tempo para examinar a coisa como um tigre em uma jaula, ouvir sua voz e estremecer com sua ferocidade.

A moça, segurando o bebê junto ao peito, sentou-se ofegante. O bebê não sofrera nenhum dano; ele chorara no início quando o trovão explodiu, mas agora parecia impassível, quase atordoado. Dick saiu debaixo da árvore e olhou para o prodígio no ar.

O ciclone havia reunido em seu caminho pássaros marinhos e pássaros da terra; havia gaivotas, aves-fragata pretas e brancas como eletricidade, borboletas, e todos pareciam prisioneiros sob uma grande cúpula de vidro à deriva. Enquanto iam, viajando como coisas sem volição e em um sonho, com um zumbido e um rugido, o quadrante sudoeste do ciclone explodiu sobre a ilha, e todo o negócio amargo começou de novo.

Durou horas, então perto da meia-noite o vento diminuiu; e quando o sol nasceu na manhã seguinte, ele veio através de um céu sem nuvens, sem um traço de desculpa pela destruição causada por seus filhos, os ventos. Ele mostrava árvores desenraizadas e pássaros mortos, três ou quatro varas restando do que um dia fora uma casa, a lagoa da cor de uma safira pálida, e um mar verde-vidro, coberto de espuma, correndo em trovão contra o recife.

CAPÍTULO XVII

OS BOSQUES ATINGIDOS

A princípio, pensaram que estavam arruinados; então Dick, procurando, encontrou a serra velha debaixo de uma árvore, e a faca de açougueiro perto dela, como se a faca e a serra estivessem tentando escapar juntas e tivessem falhado.

Pouco a pouco, começaram a recuperar algo de sua propriedade espalhada. Os restos da flanela tinham sido levados pelo ciclone e enrolados em torno de um coqueiro esguio, até que o tronco parecesse uma perna alegremente enfaixada. A caixa de anzóis tinha sido empurrada para o centro de uma fruta-pão cozida, ambos tendo sido pegos pelos dedos do vento e arremessados contra a mesma árvore; e a vela de estai da Shenandoah estava no recife, com um pedaço de coral cuidadosamente colocado sobre ela como se para mantê-la no lugar. Quanto à vela de caranguejo pertencente ao bote, nunca mais foi vista.

Existe humor às vezes em um ciclone, se você puder apreciá-lo; nenhuma outra forma de perturbação do ar produz efeitos tão peculiares. Ao lado do grande redemoinho principal de vento, existem redemoinhos subsidiários, cada um acionado por seu próprio diabrete especial.

Emmeline sentira Hannah ser quase arrancada de seus braços duas vezes por esses ventos pequenos e ferozes como verrumas; e que todo o negócio da grande tempestade fora planejado com o objetivo de arrancar Hannah dela e levá-lo para o mar, era uma crença que ela mantinha, talvez, nos recessos mais profundos de sua mente.

O bote teria sido completamente destruído, se não tivesse virado e afundado em águas rasas ao primeiro impacto do vento; como foi, Dick conseguiu esvaziá-lo na maré baixa seguinte, quando ele flutuou tão bravamente quanto sempre, sem ter aberto uma única costura.

Mas a destruição em meio às árvores era lamentável. Olhando para os bosques como um todo, notavam-se lacunas aqui e ali, mas o que realmente acontecera não podia ser visto até que se estivesse entre as árvores. Grandes e belos coqueiros, não mortos, mas apenas morrendo, jaziam esmagados e quebrados como se pisoteados por algum pé enorme. Você encontrava meia dúzia de lianas retorcidas em um grande cabo. Onde havia coqueiros, você não conseguia mover um metro sem chutar uma noz caída; você poderia ter pegado nozes crescidas, meio crescidas e pequeninas, não maiores que maçãs pequenas, pois na mesma árvore você encontrará nozes de todos os tamanhos e condições.

Nunca se vê um coqueiro de caule perfeitamente reto; todos eles têm uma inclinação em relação à perpendicular mais ou menos acentuada; talvez seja por isso que um ciclone tem mais efeito sobre eles do que sobre outras árvores.

Os Artus, outrora uma imagem tão bonita com seus troncos xadrez de diamante, jaziam quebrados e arruinados; e bem através do cinturão de mamoeiros, bem através das terras más, abria-se uma estrada larga, como se um exército, cavalaria, infantaria e artilharia, tivesse passado por ali de uma ponta a outra da lagoa. Este era o caminho deixado pelo grande pé dianteiro da tempestade; mas se você tivesse procurado nos bosques de ambos os lados, teria encontrado caminhos onde os ventos menores tinham trabalhado, onde os redemoinhos bebês tinham brincado.

Do bosque contundido, como um incenso oferecido aos céus, erguia-se um perfume de flores colhidas e espalhadas, de folhas molhadas pela chuva, de lianas retorcidas, quebradas e a verter a sua seiva; o perfume de árvores recém-destruídas e arruinadas — a essência e a alma do artu, da figueira-de-bengala e do coqueiro lançados ao vento.

Você teria encontrado borboletas mortas no bosque, aves mortas também; mas no grande caminho da tempestade teria encontrado asas de borboletas, penas, folhas esgarçadas como se por dedos, ramos de aoa e gravetos de hibisco partidos em pequenos fragmentos.

Poderoso o suficiente para abrir um navio ao meio, arrancar uma árvore, arruinar metade de uma cidade. Delicado o suficiente para arrancar uma asa de borboleta de outra — isso é um ciclone.

Emmeline, vagueando pelo bosque com Dick no dia seguinte à tempestade, observando a ruína da grande árvore e do pequeno pássaro, e recordando as aves terrestres que vislumbrara ontem sendo levadas em segurança pela tempestade para o mar, para se afogarem, sentiu um grande peso elevar-se do seu coração. O infortúnio chegara, mas poupara-os, a ela e ao bebé. O azul falara, mas não os chamara.

Ela sentiu que algo — aquele algo que na civilização chamamos de Destino — estava, por enquanto, saciado; e, sem ser aniquilada, o seu incessante terror hipocondríaco condensou-se num ponto, deixando o seu horizonte ensolarado e límpido.

O ciclone tratara-os, de facto, quase, poder-se-ia dizer, amavelmente. Levara a casa — mas isso era um assunto menor, pois deixara-lhes quase todos os seus pequenos pertences. A caixa de isca, o pederneira e o aço teriam sido uma perda muito mais grave do que uma dúzia de casas, pois, sem eles, não teriam absolutamente nenhum meio de fazer fogo.

Se alguma coisa, o ciclone fora quase demasiado gentil com eles; deixara-os pagar demasiado pouco daquela misteriosa dívida que deviam aos deuses.

CAPÍTULO XVIII

UM ÍDOLO CAÍDO

No dia seguinte, Dick começou a reconstruir a casa. Ele fora buscar a vela de estai ao recife e montara uma tenda temporária.

Era um grande trabalho cortar as canas e arrastá-las para o descampado. Emmeline ajudava; enquanto Hannah, sentado na relva, brincava com o pássaro que desaparecera durante a tempestade, mas reaparecera na noite seguinte.

A criança e o pássaro tornaram-se amigos íntimos; já eram amigáveis no início, mas agora o pássaro deixava, por vezes, que as mãos minúsculas o envolvessem por completo — pelo menos, tanto quanto as mãos alcançavam.

É uma experiência rara para um homem segurar um pássaro manso, que não luta nem se assusta, nas mãos; a seguir a abraçar uma mulher, é a sensação tátil mais agradável que ele alguma vez experimentará, talvez, na vida. Ele sentirá o desejo de pressioná-lo contra o peito, se possuir tal coisa.

Hannah pressionava Koko contra o seu pequeno estômago moreno, como se fosse uma admissão ingénua de onde residia o seu coração.

Ele era uma criança extraordinariamente brilhante e inteligente. Não prometia ser falador, pois, tendo alcançado a palavra “Dick”, permaneceu satisfeito durante muito tempo antes de avançar mais no labirinto da linguagem; mas, embora não usasse a língua, falava de muitas outras maneiras. Com os olhos, que eram tão brilhantes como os de Koko, e cheios de todo o tipo de travessuras; com as mãos, os pés e os movimentos do seu corpo. Ele tinha um jeito de abanar as mãos à sua frente quando muito satisfeito, uma forma de expressar quase todas as nuances de prazer; e, embora raramente expressasse raiva, quando o fazia, expressava-a plenamente.

Ele estava agora a atravessar a fronteira para o mundo dos brinquedos. Na civilização, seria, sem dúvida, o possuidor de um cão de borracha ou de um cordeiro de lã, mas não havia brinquedos aqui. A boneca antiga de Emmeline fora deixada para trás quando fugiram do outro lado da ilha, e Dick, há um ano ou mais, numa das suas expedições, encontrara-a semi-enterrada na areia da praia.

Trouxera-a agora mais como uma curiosidade do que outra coisa, e mantiveram-na na prateleira da casa. O ciclone empalara-a num ramo de árvore ali perto, como se fosse por escárnio; e Hannah, quando lhe foi apresentada como um brinquedo, atirou-a para longe como se fosse com nojo. Mas ele brincava com flores, conchas brilhantes ou pedaços de coral, fazendo padrões vagos com eles no relvado.

Todos os cordeiros de brinquedo do mundo não lhe teriam agradado mais do que aquelas coisas, os brinquedos das crianças trogloditas — as crianças da Idade da Pedra. Bater duas conchas de ostra uma na outra e fazer barulho — o que, afinal, poderia um bebé querer melhor do que isso?

Certa tarde, quando a casa começava a tomar uma forma qualquer, cessaram o trabalho e foram para o bosque; Emmeline carregando o bebé, e Dick revezando-se com ele. Iam para o vale do ídolo.

Desde a vinda de Hannah, e até antes, a figura de pedra que permanecia na sua terrível e misteriosa solidão deixara de ser um objeto de medo para Emmeline, e tornara-se algo vagamente benevolente. O amor chegara-lhe sob a sua sombra; e sob a sua sombra o espírito da criança entrara nela — de onde, quem sabe? Mas certamente através do céu.

Talvez a coisa que fora o deus de algum povo desconhecido a tenha inspirado com o instinto da religião; se assim fosse, ela era a sua última adoradora na terra, pois, quando entraram no vale, encontraram-no caído de bruços. Grandes blocos de pedra jaziam à sua volta: houvera, evidentemente, um deslizamento de terras, uma catástrofe preparada durante eras e, talvez, determinada pela chuva torrencial do ciclone.

Em Ponape, Huahine, na Ilha da Páscoa, pode ver grandes ídolos que foram derrubados assim, templos dissolvendo-se lentamente da vista, e terraços, aparentemente tão sólidos como as colinas, transformando-se suave e subtilmente em montes informes de pedra.

CAPÍTULO XIX

A EXPEDIÇÃO

Na manhã seguinte, a luz do dia, filtrada através das árvores, despertou Emmeline na tenda que improvisaram enquanto a casa era construída. O amanhecer chegava mais tarde aqui do que do outro lado da ilha que dava para leste — mais tarde, e de uma maneira diferente — pois existe a diferença de mundos entre o amanhecer que chega sobre uma colina arborizada e o amanhecer que chega sobre o mar.

Do outro lado, sentado na areia com a quebra do recife que dava para o leste diante de si, mal o leste mudava de cor, a linha do mar estaria em chamas, o céu iluminado num vazio ilimitado de azul, e a luz do sol inundando a lagoa, as ondulações de luz parecendo perseguir as ondulações da água.

Deste lado era diferente. O céu estaria escuro e cheio de estrelas, e o bosque, grandes espaços de sombra aveludada. Então, através das folhas do artu, viria um suspiro, e as folhas da fruta-pão bateriam, e o som do recife tornar-se-ia ténue. A brisa da terra despertara e, pouco depois, como se os tivesse soprado, ao olhar para cima, encontraria as estrelas desaparecidas e o céu um véu de azul muito pálido. Nesta aproximação indireta do amanhecer, havia algo inefavelmente misterioso. Podia-se ver, mas as coisas vistas eram indecisas e vagas, tal como são no crepúsculo de um dia de verão inglês.

Mal Emmeline se levantara, Dick acordou também, e saíram para o relvado, e depois até à beira da água. Dick foi dar um mergulho, e a rapariga, segurando o bebé, ficou na margem a observá-lo.

Sempre após uma grande tempestade, o tempo da ilha tornava-se mais tonificante e estimulante, e naquela manhã o ar parecia cheio do espírito da primavera. Emmeline sentiu-o e, enquanto observava o nadador a divertir-se na água, riu-se e ergueu a criança para o observar. Ela estava fora de si. A brisa, cheia de todo o tipo de perfumes doces dos bosques, soprava o seu cabelo preto sobre os ombros, e a luz plena da manhã, vindo sobre as frondes das palmeiras do bosque para além do relvado, tocava-a a ela e à criança. A Natureza parecia acariciá-los.

Dick veio para terra e depois correu para se secar ao vento. Depois foi até ao bote e examinou-o; pois decidira deixar a construção da casa por meio dia e remar até ao local antigo para ver como as bananeiras tinham resistido à tempestade. A sua ansiedade por elas não era de admirar. A ilha era a sua despensa, e as bananas eram um artigo de comida valiosíssimo. Ele tinha todos os sentimentos de um dono de casa cuidadoso a respeito delas, e não podia descansar até ver por si mesmo a extensão do dano, se é que havia algum.

Ele examinou o barco e depois voltaram todos para o pequeno-almoço. Vivendo as suas vidas, tinham de usar a prudência. Guardavam, por exemplo, todas as cascas dos cocos que usavam para combustível; e nunca se poderia imaginar o esplendor ardente que existe na casca de um coco até se ver a arder. Ontem, Dick, com a sua prudência habitual, colocara uma pilha de gravetos, todos molhados com a chuva da tempestade, a secar ao sol: como resultado, tinham combustível suficiente para fazer fogo naquela manhã.

Quando terminaram o pequeno-almoço, ele foi buscar a faca para cortar as bananas — se restasse alguma para cortar — e, pegando no dardo, foi para o barco, seguido por Emmeline e pela criança.

Dick entrara no barco e estava prestes a desamarrá-lo e a empurrá-lo, quando Emmeline o deteve.

“Dick!”

“Sim?”

“Eu vou contigo.”

“Tu!” disse ele, espantado.

“Sim, eu… já não tenho medo.”

Era um facto; desde a chegada da criança, ela perdera aquele medo do outro lado da ilha — ou quase o perdera.

A morte é uma grande escuridão, o nascimento é uma grande luz — misturaram-se na sua mente; a escuridão ainda lá estava, mas já não era terrível para ela, pois estava infundida com a luz. O resultado era um crepúsculo triste, mas belo, e despovoado de formas de medo.

Anos atrás, ela vira uma porta misteriosa fechar-se e excluir um ser humano para sempre do mundo. A visão enchera-a de um terror inimaginável, pois ela não tinha palavras para a coisa, nem religião ou filosofia para a explicar ou disfarçar. Recentemente, vira uma porta igualmente misteriosa abrir-se e admitir um ser humano; e bem no fundo da sua mente, no lugar onde os sonhos habitavam, o grande facto explicara e justificara o outro. A vida desaparecera no vazio, mas a vida viera de lá. Havia vida no vazio, e já não era terrível.

Talvez todas as religiões tenham nascido num dia em que uma mulher, sentada numa rocha junto ao mar pré-histórico, olhou para o seu filho recém-nascido e recordou o homem que fora morto, fechando assim o encanto e aprisionando a ideia de um estado futuro.

Emmeline, com a criança nos braços, entrou no pequeno barco e sentou-se na popa, enquanto Dick afastava. Mal ele estendeu os remos, um novo passageiro chegou. Era Koko. Ele acompanhava-os frequentemente até ao recife, embora, estranhamente, nunca fosse lá sozinho por vontade própria. Ele fez um círculo ou dois sobre eles, depois pousou na amurada da proa, e empoleirou-se ali, curvado, com as suas longas penas da cauda cor de pomba voltadas para a água.

O remador manteve-se perto da costa, e à medida que contornavam o pequeno cabo, todo alegre com cocos selvagens, os arbustos roçavam o barco, e a criança, excitada pela cor deles, estendeu-lhes as mãos. Emmeline esticou a mão e partiu um ramo; mas não era um ramo de coco selvagem que ela colhera, era um ramo das bagas do “nunca-acordar”. As bagas que fazem um homem dormir, caso as coma — dormir e sonhar, e nunca mais acordar.

“Atira-as fora!” gritou Dick, que se lembrava.

“Atiro num minuto,” respondeu ela.

Ela estava a segurá-las diante da criança, que se ria e tentava agarrá-las. Depois esqueceu-as e deixou-as cair no fundo do barco, pois algo batera na quilha com um estrondo, e a água fervia à volta.

Havia uma luta selvagem a decorrer lá em baixo. Na época de reprodução, grandes batalhas ocorriam por vezes na lagoa, pois os peixes têm os seus ciúmes tal como os homens — casos amorosos, amizades. As duas grandes formas podiam ser vagamente percebidas, uma em perseguição da outra, e aterrorizaram Emmeline, que implorou a Dick que remasse.

Passaram pelas margens agradáveis que Emmeline nunca vira antes, tendo estado a dormir profundamente quando passaram por elas, anos atrás.

Pouco antes de partir, ela olhara para o início da pequena casa sob a árvore artu, e, enquanto olhava para as estranhas clareiras e bosques, a imagem disso surgiu diante dela, e pareceu chamá-la de volta.

Era uma posse minúscula, mas era o lar; e ela estava tão pouco habituada a mudanças que uma espécie de saudade já a dominava; mas passou quase assim que veio, e ela pôs-se a maravilhar-se com as coisas à sua volta, apontando-as para a criança.

Quando chegaram ao local onde Dick fisgara o atum, ele parou de remar e contou-lhe sobre isso. Era a primeira vez que ela ouvia falar do assunto; um facto que mostra o estado de selvajaria a que ele estivera a regredir. Ele mencionara as canoas, pois tinha de justificar o dardo; mas, quanto a contar-lhe os incidentes da caçada, ele não pensou mais em fazê-lo do que um índio americano pensaria em detalhar à sua squaw os incidentes de uma caça ao urso. O desprezo pelas mulheres é a primeira lei da selvajaria, e talvez a última lei de alguma filosofia antiga e profunda.

Ela ouviu, e quando se chegou ao incidente do tubarão, ela estremeceu.

“Quem me dera ter um anzol grande o suficiente para o apanhar,” disse ele, olhando para a água como se procurasse o seu inimigo.

“Não penses nele, Dick,” disse Emmeline, segurando a criança mais apertada contra o coração. “Rema.”

Ele retomou os remos, mas podia-se ver pelo seu rosto que ele estava a recordar o incidente para si mesmo.

Quando contornaram o último promontório, e a praia e a quebra no recife se abriram diante deles, Emmeline suspirou. O lugar mudara de alguma forma subtil; tudo estava lá como antes, mas tudo parecia diferente — a lagoa parecia mais estreita, o recife mais perto, os coqueiros nem de perto tão altos. Ela estava a contrastar as coisas reais com a recordação delas quando vistas por uma criança. A mancha preta desaparecera do recife; a tempestade varrera-a completamente.

Dick encostou o barco na areia inclinada e deixou Emmeline sentada na popa, enquanto ele ia em busca das bananas; ela tê-lo-ia acompanhado, mas a criança adormecera.

Hannah adormecido era uma imagem ainda mais agradável do que quando acordado. Parecia um pequeno cupido moreno sem asas, arco ou flecha. Ele tinha toda a graça de uma pena enrolada. O sono estava sempre em perseguição dele, e apanhava-o nos momentos mais inesperados — quando estava a brincar, ou de facto a qualquer hora. Emmeline encontrava-o por vezes com uma concha colorida ou um pedaço de coral com que estivera a brincar na mão, profundamente adormecido, uma expressão feliz no rosto, como se a sua mente estivesse a prosseguir as suas ocupações terrenas em alguma praia afortunada na terra dos sonhos.

Dick colhera uma folha enorme de fruta-pão e dera-lha como abrigo do sol, e ela sentou-se segurando-a sobre si, e olhando fixamente para a frente, sobre as areias brancas e iluminadas pelo sol.

O voo da mente em devaneio não é em linha reta. Para ela, sonhando enquanto estava sentada, vieram todos os tipos de imagens coloridas, recordadas pela cena diante dela: a água verde sob a popa de um navio, e a palavra Shenandoah vagamente refletida nela; a sua chegada, e o pequeno conjunto de chá espalhado na areia branca — ela ainda conseguia ver os amores-perfeitos pintados nos pratos, e contava na memória as colheres de chumbo; as grandes estrelas que ardiam sobre o recife à noite; os Cluricaunes e fadas; a barrica junto ao poço onde a campainha florescia, e as árvores sopradas pelo vento vistas do topo da colina — todas estas imagens flutuavam diante dela, dissolvendo-se e substituindo-se umas às outras enquanto passavam.

Havia tristeza na contemplação delas, mas prazer também. Sentia-se em paz com o mundo. Todos os problemas pareciam muito longe, atrás dela. Era como se a grande tempestade que os deixara ilesos tivesse sido um embaixador dos poderes acima para a assegurar da sua tolerância, proteção e amor.

De repente, reparou que entre a proa do barco e a areia jazia uma linha larga, azul e cintilante. O bote estava a flutuar.

CAPÍTULO XX

O GUARDIÃO DA LAGOA

Os bosques aqui tinham sido menos afetados pelo ciclone do que os do outro lado da ilha, mas houvera destruição suficiente. Para chegar ao local que queria, Dick teve de treinar sobre árvores derrubadas e lutar para passar por um emaranhado de vinhas que outrora pendiam acima.

As bananeiras não tinham sofrido nada; como se por alguma dispensa especial da Providência, até os grandes cachos de fruta tinham sido pouco danificados, e ele procedeu a subir e a cortá-los. Cortou dois cachos e, com um sobre o ombro, voltou para baixo através das árvores.

Ele tinha chegado a meio das areias, a cabeça curvada sob o peso, quando um grito distante lhe chegou, e, levantando a cabeça, viu o barco à deriva no meio da lagoa, e a figura da rapariga na proa do mesmo a acenar-lhe com o braço. Viu um remo a flutuar na água a meio caminho entre o barco e a margem, que ela sem dúvida perdera numa tentativa de remar o barco de volta. Lembrou-se de que a maré estava a vazar.

Ele atirou a sua carga para o lado e correu pela praia; num momento estava na água. Emmeline, de pé no barco, observava-o.

Quando se viu à deriva, ela fizera um esforço para remar de volta, e na sua pressa ao colocar os remos perdera um. Com um único remo, ela estava completamente indefesa, pois não tinha a arte de remar um barco a partir da popa. A princípio, não ficou assustada, porque sabia que Dick voltaria em breve em seu auxílio; mas, à medida que a distância entre o barco e a margem aumentava, uma mão fria parecia pousar sobre o seu coração. Olhando para a margem, parecia muito longe, e a vista em direção ao recife era terrível, pois a abertura aumentara em tamanho aparente, e o grande mar para além parecia atraí-la.

Ela viu Dick a sair do bosque com a carga ao ombro, e chamou por ele. A princípio, ele não pareceu ouvir, depois ela viu-o levantar a cabeça, atirar as bananas para longe e correr pela areia até à beira da água. Observou-o a nadar, viu-o agarrar o remo, e o seu coração deu um grande salto de alegria.

Rebocando o remo e nadando com um braço, ele aproximou-se rapidamente do barco. Estava muito perto, a apenas três metros, quando Emmeline viu atrás dele, cortando a água límpida e ondulante e avançando com velocidade, um triângulo escuro que parecia feito de lona esticada sobre uma ponta de espada.

Há quarenta anos, ele flutuava à deriva no mar sob a forma e semelhança de uma pequena e gasta pinha, presa de qualquer coisa que o pudesse encontrar. Escapara às mandíbulas do cação, e as mandíbulas do cação são uma porta muito larga; escapara ao albacora e à lula: a sua vida fora uma longa série de fugas miraculosas à morte. De mil milhões como ele, nascidos no mesmo ano, apenas ele e uns poucos outros sobreviveram.

Durante trinta anos, guardara a lagoa para si, tal como um tigre feroz guarda uma selva. Conhecera a palmeira no recife quando ainda era uma plântula, e conhecera o recife mesmo antes de a palmeira lá estar. As coisas que devorara, atiradas umas sobre as outras, teriam formado uma montanha; contudo, ele era tão isento de inimizade como uma espada, tão cruel e tão desprovido de alma. Ele era o espírito da lagoa.

* * * * * *

Emmeline gritou e apontou para a coisa atrás do nadador. Ele virou-se, viu-a, largou o remo e dirigiu-se para o barco. Ela tinha agarrado o remo restante e estava de pé, com ele em riste, quando o atirou, com a pá em primeiro lugar, contra a forma na água, agora totalmente visível e perto da sua presa.

Ela não conseguia atirar uma pedra com precisão, mas o remo foi como uma seta ao alvo, impedindo o perseguidor e salvando o perseguido. Um momento depois, a perna dele estava sobre a borda e ele estava salvo.

Mas o remo perdeu-se.

CAPÍTULO XXI

A MÃO DO MAR

Não havia nada no barco que pudesse ser usado como remo; o remo estava a apenas cinco ou seis metros de distância, mas tentar nadar até ele era morte certa, contudo, estavam a ser arrastados para o mar aberto. Ele poderia ter feito a tentativa, não fosse o facto de que, no quarto de bombordo, a forma do tubarão, nadando suavemente ao mesmo ritmo em que derivavam, se conseguiria distinguir apenas meio velada pela água.

O pássaro pousado na borda pareceu adivinhar-lhes o problema, pois levantou voo, descreveu um círculo e retomou o seu poleiro com todas as penas eriçadas.

Dick ficou em desespero, impotente, com as mãos a agarrar a cabeça. A costa afastava-se diante dele, o rebentamento das ondas tornava-se mais alto atrás dele, contudo, nada podia fazer. A ilha estava a ser-lhes arrebatada pela grande mão do mar.

Então, subitamente, o pequeno barco entrou no canal formado pela confluência das marés, dos braços direito e esquerdo da lagoa; o som da rebentação aumentou repentinamente, como se uma porta tivesse sido escancarada. As ondas quebravam e as gaivotas gritavam de ambos os lados deles e, por um momento, o oceano pareceu hesitar entre levá-los para as suas vastidões ou esmagá-los contra a margem de coral. Apenas por um momento durou esta aparente hesitação; então, a força da maré prevaleceu sobre a força da ondulação, e o pequeno barco, apanhado pela corrente, derivou suavemente para o mar.

Dick atirou-se para junto de Emmeline, que estava sentada no fundo do barco, segurando a criança contra o peito. O pássaro, vendo a terra retirar-se, e sábio no seu instinto, levantou voo. Circundou três vezes o barco à deriva e, depois, como um espírito belo mas infiel, partiu para a costa.

CAPÍTULO XXII

JUNTOS

A ilha afundara-se lentamente de vista; ao pôr do sol era apenas um traço, uma mancha no horizonte sudoeste. Estava antes da lua nova, e o pequeno barco jazia à deriva. Derivou da luz do pôr do sol para um mundo de crepúsculo violeta vago, e agora jazia à deriva sob as estrelas.

A rapariga, apertando o bebé contra o peito, encostou-se ao ombro do seu companheiro; nenhum deles falou. Todas as maravilhas da sua curta existência tinham culminado nesta maravilha final, esta partida conjunta do mundo do Tempo. Esta estranha viagem em que se tinham embarcado — para onde?

Agora que o primeiro terror passara, não sentiam nem tristeza nem medo. Estavam juntos. Acontecesse o que acontecesse, nada os poderia separar; mesmo que adormecessem e nunca mais acordassem, dormiriam juntos. Se um tivesse sido deixado e o outro levado!

Como se o pensamento lhes tivesse ocorrido simultaneamente, viraram-se um para o outro, e os seus lábios encontraram-se, as suas almas encontraram-se, misturando-se num único sonho; enquanto lá em cima, no céu sem vento, o espaço respondia ao espaço com lampejos de luz sideral, e Canopus brilhava e ardia como a espada em ponta de Azrael.

Apertado na mão de Emmeline estava o último e mais misterioso presente do misterioso mundo que tinham conhecido — o ramo de bagas carmesim.

LIVRO III

CAPÍTULO I

O LOUCO LESTRANGE

Conheciam-no na vertente do Pacífico como o “Louco Lestrange”. Ele não era louco, mas era um homem com uma ideia fixa. Era perseguido por uma visão: a visão de duas crianças e um velho marinheiro à deriva num pequeno barco sobre um vasto mar azul.

Quando o Arago, com destino a Papeete, recolheu os barcos do Northumberland, apenas as pessoas no escaler estavam vivas. Le Farge, o capitão, estava louco e nunca recuperou a razão. Lestrange estava completamente destroçado; a experiência terrível nos barcos e a perda das crianças tinham deixado dele um destroço aparentemente impotente. Os trabalhadores braçais, como todos da sua classe, tinham-se saído melhor e, em poucos dias, já andavam pelo navio e sentavam-se ao sol. Quatro dias após o resgate, o Arago falou com o Newcastle, com destino a São Francisco, e transbordou os náufragos.

Se um médico tivesse visto Lestrange a bordo do Northumberland, enquanto este jazia naquela longa, longuíssima calmaria antes do incêndio, teria declarado que nada menos do que um milagre poderia prolongar a sua vida. O milagre aconteceu.

No hospital geral de São Francisco, à medida que as nuvens se dissipavam da sua mente, revelavam o quadro das crianças e do pequeno barco. O quadro esteve lá diariamente, visto mas não verdadeiramente compreendido; os horrores vividos no barco aberto, a exaustão física absoluta, tinham fundido todos os acidentes do grande desastre num único facto lúgubre e meio compreendido. Quando o seu cérebro clareou, todos os outros incidentes perderam o foco, e a memória, com os olhos postos nas crianças, começou a pintar um quadro que ele haveria de ver para sempre.

A memória não consegue produzir um quadro que a Imaginação não tenha retocado; e os seus quadros, mesmo os menos tocados pela Imaginação, não são meras fotografias, mas a obra de um artista. Tudo o que é inessencial, ela descarta; tudo o que é essencial, ela retém; ela idealiza, e é por isso que o seu quadro de uma amada perdida teve o poder de manter um homem celibatário até ao fim dos seus dias, e por que ela pode partir um coração humano com o quadro de uma criança morta. Ela é pintora, mas é também poeta.

O quadro diante da mente de Lestrange estava preenchido com esta poesia quase diabólica, pois nele o pequeno barco e a sua tripulação impotente eram representados à deriva num mar azul e ensolarado. Um mar belíssimo de contemplar, contudo, terrível, carregando como carregava as recordações da sede.

Ele estava a morrer quando, erguendo-se sobre o cotovelo, por assim dizer, olhou para este quadro. Isso trouxe-o de volta à vida. A sua força de vontade afirmou-se, e ele recusou-se a morrer.

A vontade de um homem tem, se for suficientemente forte, o poder de rejeitar a morte. Ele não estava minimamente consciente do exercício deste poder; apenas sabia que um interesse grande e absorvente tinha surgido subitamente nele, e que um grande objetivo estava diante dele — a recuperação das crianças.

A doença que o estava a matar cessou as suas devastações, ou melhor, foi morta por sua vez pela vitalidade aumentada contra a qual tinha de lutar. Ele deixou o hospital e instalou-se no Palace Hotel, e então, como o General de um exército, começou a formular o seu plano de campanha contra o Destino.

Quando a tripulação do Northumberland se debandou, atirando os seus oficiais para o lado, baixando os barcos com um ímpeto e atirando-se ao mar, tudo se perdera em termos de documentos de bordo; as cartas marítimas, os dois diários de bordo — tudo, de facto, que pudesse indicar a latitude e a longitude do desastre. O primeiro e o segundo oficiais e um aspirante tinham partilhado o destino do barco de serviço; dos marinheiros salvos, nenhum, claro, podia dar a mínima pista quanto à localização do ponto.

Uma contagem do tempo a partir do Cabo Horn pouco dizia, pois não havia registo do diário de bordo. Tudo o que se podia dizer era que o desastre ocorrera algures a sul da linha.

No cérebro de Le Farge residia, com certeza, a posição, e Lestrange foi ver o capitão à “Maison de Santé”, onde estava a ser cuidado, e encontrou-o totalmente recuperado da mania furiosa de que tinha estado a sofrer. Totalmente recuperado, e a brincar com um novelo de lã colorida.

Restava o diário de bordo do Arago; nele seriam encontradas a latitude e a longitude dos barcos que recolhera.

O Arago, esperado em Papeete, entrou em atraso. Lestrange observou as listas de navios atrasados dia após dia, semana após semana, mês após mês, inutilmente, pois nunca mais se ouviu falar do Arago. Não se podia afirmar sequer que tivesse naufragado; era simplesmente um dos navios que nunca regressam do mar.

CAPÍTULO II

O SEGREDO DO AZUL

Perder uma criança que se ama é, sem dúvida, a maior catástrofe que pode acontecer a um homem. Não me refiro à sua morte.

Uma criança vagueia pela rua, ou é deixada pela sua ama por um momento, e desaparece. No início, a coisa não é compreendida. Há uma pontada e pressa no coração que quase desaparece, enquanto o entendimento explica que, numa cidade civilizada, se uma criança se perde, ela será encontrada e trazida de volta pelos vizinhos ou pela polícia.

Mas a polícia nada sabe sobre o assunto, nem os vizinhos, e as horas passam. Qualquer minuto pode trazer de volta o errante; mas os minutos passam, e o dia desgasta-se até à tarde, e a tarde para a noite, e a noite para o amanhecer, e os sons comuns de um novo dia começam.

Não pode permanecer em casa devido à inquietação; sai, apenas para regressar apressadamente em busca de notícias. Está eternamente a ouvir, e o que ouve choca-o; os sons comuns da vida, o rolar das carroças e carruagens na rua, os passos dos transeuntes, estão cheios de uma melancolia indescritível; a música aumenta a sua miséria até à loucura, e a alegria dos outros é monstruosa como o riso ouvido no inferno.

Se alguém lhe trouxesse o corpo morto da criança, poderia chorar, mas abençoá-lo-ia, pois é a incerteza que mata.

Enlouquece, ou continua a viver. Os anos passam, e é um homem velho. Diz para si mesmo: “Ele teria hoje vinte anos de idade.”

Não existe no antigo e feroz código penal dos nossos antepassados um castigo adequado para o caso do homem ou da mulher que rouba uma criança.

Lestrange era um homem rico, e restava-lhe uma esperança: que as crianças pudessem ter sido resgatadas por algum navio de passagem. Não era o caso de crianças perdidas numa cidade, mas no vasto Pacífico, onde os navios viajam de todos os portos para todos os portos, e para anunciar a sua perda adequadamente era necessário afixar cartazes pelo mundo. Dez mil dólares era a recompensa oferecida por notícias dos perdidos, vinte mil pela recuperação; e o anúncio apareceu em todos os jornais com probabilidade de chegar aos olhos de um marinheiro, do Liverpool Post ao Dead Bird.

Os anos passaram sem que nada de definitivo surgisse em resposta a todos estes anúncios. Uma vez chegaram notícias de duas crianças salvas do mar nas vizinhanças das ilhas Gilbert, e não eram notícias falsas, mas não eram as crianças que ele procurava. Este incidente de imediato deprimiu-o e estimulou-o, pois parecia dizer: “Se estas crianças foram salvas, por que não as suas?”

O estranho era que, no seu coração, ele sentia a certeza de que elas estavam vivas. O seu intelecto sugeria a morte delas de vinte formas diferentes; mas um sussurro, algures fora daquele grande oceano azul, dizia-lhe a intervalos que o que ele procurava estava lá, vivo, e à espera dele.

Ele era de temperamento algo semelhante ao de Emmeline — um sonhador, com uma mente sintonizada para receber e registar os raios finos que preenchem este mundo, fluindo de intelecto para intelecto, e até mesmo do que chamamos de coisas inanimadas. Uma natureza mais rude teria, embora sentindo talvez tão agudamente o pesar, desistido em desespero da busca. Mas ele continuou; e ao fim do quinto ano, longe de desistir, fretou uma escuna e passou dezoito meses numa busca infrutífera, fazendo escala em ilhas pouco conhecidas e, uma vez, sem o saber, numa ilha a apenas trezentas milhas da pequena ilha desta história.

Se deseja sentir a desesperança desta busca sem guia, não olhe para um mapa do Pacífico, mas vá lá. Centenas e centenas de milhares de léguas quadradas de mar, milhares de ilhas, recifes, atóis.

Até há poucos anos, havia muitas pequenas ilhas totalmente desconhecidas; ainda hoje existem algumas, embora as cartas marítimas do Pacífico sejam os maiores triunfos da hidrografia; e embora a ilha da história estivesse realmente nas cartas do Almirantado, de que servia esse facto a Lestrange?

Ele teria continuado a procurar, mas não se atreveu, pois a desolação do mar tinha-o tocado.

Naqueles dezoito meses, o Pacífico explicou-se a si mesmo em parte, explicou a sua vastidão, o seu segredo e a sua inviolabilidade. A escuna levantava véu sobre véu de distância, e véu sobre véu jazia para além. Ele só podia mover-se em linha reta; para pesquisar a vastidão de água com qualquer esperança, seria preciso ser dotado com o dom de se mover em todas as direções ao mesmo tempo.

Ele inclinava-se frequentemente sobre o parapeito da amurada e observava a ondulação passar, como se questionasse a água. Então, os pores do sol começaram a pesar-lhe no coração, e as estrelas a falar-lhe numa nova língua, e ele soube que era altura de regressar, se quisesse regressar com a mente sã.

Quando regressou a São Francisco, visitou o seu agente, Wannamaker, da Kearney Street, mas ainda não havia notícias.

CAPÍTULO III

O CAPITÃO FOUNTAIN

Ele tinha uma suíte de quartos no Palace Hotel, e vivia a vida de qualquer outro homem rico que não seja viciado no prazer. Conhecia algumas das melhores pessoas da cidade e conduzia-se de forma tão sã em todos os aspetos que um estranho casual nunca teria adivinhado a sua reputação de loucura; mas, quando o conhecia melhor, descobria por vezes, a meio de uma conversa, que a sua mente estava longe do assunto; e se o seguisse na rua, ouvi-lo-ia em conversa consigo mesmo. Uma vez, num jantar, levantou-se e saiu da sala, e não voltou. Trifes, mas suficientes para estabelecer uma reputação de certo tipo.

Certa manhã — para ser preciso, era o segundo dia de maio, exatamente oito anos e cinco meses depois do naufrágio do Northumberland — Lestrange estava na sua sala de estar a ler, quando a campainha do telefone, que estava no canto da sala, tocou. Ele foi ao aparelho.

“Está lá?”, veio uma voz americana aguda. “Lestrange — certo — venha cá baixo ver-me — Wannamaker — tenho notícias para si.”

Lestrange segurou o auscultador por um momento, depois pousou-o de volta na base. Dirigiu-se a uma cadeira e sentou-se, segurando a cabeça entre as mãos, depois levantou-se e foi novamente ao telefone; mas não se atreveu a usá-lo, não se atreveu a estilhaçar a esperança recém-nascida.

“Notícias!” Que mundo reside nesta palavra.

Na Kearney Street, ele parou diante da porta do escritório de Wannamaker, recompondo-se e observando a multidão que passava, depois entrou e subiu as escadas. Empurrou uma porta vaivém e entrou numa grande sala. O tilintar e o ruído de uma dúzia de máquinas de escrever preenchiam o lugar, e toda a pressa dos negócios; empregados passavam e vinham com feixes de correspondência nas mãos; e o próprio Wannamaker, levantando-se de sobre uma mensagem que estava a corrigir numa das mesas das dactilógrafas, viu o recém-chegado e levou-o para o escritório privado.

“O que é?”, disse Lestrange.

“Apenas isto”, disse o outro, pegando num pedaço de papel com um nome e morada. “Simon J. Fountain, da Rathray Street, 45, Oeste — isso é lá em baixo perto dos cais — diz que viu o seu anúncio num número antigo de um jornal, e acha que lhe pode dizer algo. Ele não especificou a natureza da informação, mas pode valer a pena descobrir.”

“Vou lá”, disse Lestrange.

“Conhece a Rathray Street?”

“Não.”

Wannamaker saiu e chamou um rapaz e deu-lhe algumas instruções; depois, Lestrange e o rapaz partiram.

Lestrange deixou o escritório sem dizer “Obrigado”, ou despedir-se de qualquer forma do agente de publicidade — que não se sentiu minimamente ofendido, pois conhecia o seu cliente.

A Rathray Street é, ou era antes do terramoto, uma rua de casas pequenas e limpas. Tinha um aspeto marinheiro que era acentuado pelos perfumes marinhos dos cais próximos e pelo som dos guindastes a vapor a carregar ou descarregar carga — um som que não cessava noite ou dia enquanto o trabalho prosseguia sob o sol ou as luzes de arco sibilantes.

O número 45 era quase exatamente igual aos seus semelhantes, nem melhor nem pior; e a porta foi aberta por uma mulher limpa, primorosa, pequena e de meia-idade. Comum ela era, sem dúvida, mas não comum para Lestrange.

“O senhor Fountain está?”, perguntou ele. “Vim por causa do anúncio.”

“Oh, veio, senhor?”, respondeu ela, dando-lhe passagem para entrar e conduzindo-o a uma pequena sala de estar à esquerda do corredor. “O Capitão está na cama; ele é um grande inválido, mas estava à espera, talvez, que alguém aparecesse, e ele poderá vê-lo num minuto, se não se importar de esperar.”

“Obrigado”, disse Lestrange; “Posso esperar.”

Tinha esperado oito anos, o que importavam uns minutos agora? Mas em nenhum momento nos oito anos tinha sofrido tal suspense, pois o seu coração sabia que agora, exatamente agora nesta pequena casa comum, dos lábios de, talvez, o marido daquela mulher comum, ele ia saber ou o que temia ouvir, ou o que esperava.

Era uma pequena sala deprimente; era tão limpa, e parecia que nunca era usada. Um navio aprisionado numa garrafa de vidro estava sobre a lareira, e havia conchas de lugares distantes, quadros de navios em areia — todas as coisas que se encontram por norma a adornar o lar de um velho marinheiro.

Lestrange, enquanto esperava, podia ouvir movimentos na sala ao lado — provavelmente a do inválido, que estavam a preparar para a sua receção. Os sons distantes dos guindastes e dos tornos chegavam abafados através da janela bem fechada, que parecia nunca ter sido aberta. Um quadrado de luz solar iluminava a parte superior da cortina de renda barata à direita da janela, e repetia o seu padrão vagamente na parte inferior da parede oposta. Depois, uma mosca varejeira despertou subitamente para a vida e começou a zumbir e a bater contra o vidro da janela, e Lestrange desejou que eles viessem.

Um homem do seu temperamento tem necessariamente, mesmo nas circunstâncias mais felizes, de sofrer ao passar pelo mundo; a fibra fina sofre sempre quando entra em contacto com a grosseira. Estas pessoas eram tão bem-intencionadas como qualquer outra. O anúncio e o rosto e os modos do visitante poderiam ter-lhes dito que não era altura para demoras, contudo, mantiveram-no à espera enquanto arrumavam colchas e punham frascos de remédios em ordem — como se ele pudesse ver!

Por fim, a porta abriu-se, e a mulher disse:

“O senhor pode passar por aqui, por favor?”

Ela conduziu-o a um quarto que dava para o corredor. O aposento era limpo e arrumado, e possuía aquela aparência indescritível que caracteriza o quarto de um inválido.

Na cama, formando uma montanha sob a colcha com um estômago enormemente distendido, jazia um homem de barba negra, com as suas mãos grandes, capazes e inúteis estendidas sobre o cobertor — mãos prontas e dispostas, mas impedidas de trabalhar. Sem mover o corpo, ele virou a cabeça lentamente e olhou para o recém-chegado. Este movimento lento não era devido a fraqueza ou doença, era a natureza lenta e impassível do homem a falar.

“Este é o cavalheiro, Silas”, disse a mulher, falando por cima do ombro de Lestrange. Depois, retirou-se e fechou a porta.

“Tome uma cadeira, senhor”, disse o capitão do mar, agitando uma das suas mãos sobre a colcha como se em protesto cansado contra a sua própria impotência. “Não tenho o prazer de saber o seu nome, mas a patroa diz-me que veio por causa do anúncio em que tropecei ontem à noite.”

Ele pegou num papel, dobrado em pequeno, que estava ao seu lado, e estendeu-o ao visitante. Era um Sidney Bulletin com três anos.

“Sim”, disse Lestrange, olhando para o papel; “esse é o meu anúncio.”

“Bem, é estranho — muito estranho”, disse o capitão Fountain, “que eu tenha tropeçado nele apenas ontem. Tive-o guardado estes três anos todos no meu baú, daquelas coisas que ficam esquecidas no fundo com nicles e aparas. Talvez não o tivesse visto agora, se a patroa não tivesse feito uma limpeza ao baú e, ‘Dê-me esse papel’, disse eu, vendo-o na mão dela; e pus-me a lê-lo, pois um homem lê qualquer coisa, exceto folhetos, quando está de cama há oito meses, como eu estou com a hidropisia. Fui baleeiro, homem e rapaz, durante quarenta anos, e o meu último navio foi o Sea-Horse. Há mais de sete anos, um dos meus homens apanhou algo numa praia de uma daquelas ilhas a leste das Marquesas — tínhamos atracado para abastecer de água——”

“Sim, sim”, disse Lestrange. “O que foi que ele encontrou?”

“Mulher!” rugiu o capitão com uma voz que fez estremecer as paredes do quarto.

A porta abriu-se e a mulher apareceu.

“Traga-me as chaves que estão no bolso das minhas calças.”

As calças estavam penduradas na parte de trás da porta, como se estivessem apenas à espera de ser vestidas. A mulher trouxe as chaves, e ele remexeu nelas até encontrar uma. Entregou-lha e apontou para a gaveta de uma cómoda em frente à cama.

Ela sabia evidentemente o que era necessário, pois abriu a gaveta e tirou uma caixa, que lhe entregou. Era uma pequena caixa de cartão atada com um pedaço de fio. Ele desfez o fio e revelou um serviço de chá de criança: um bule, uma leiteira, seis pratinhos — todos pintados com amores-perfeitos.

Era a caixa que Emmeline andava sempre a perder — perdida de novo.

Lestrange enterrou o rosto nas mãos. Ele conhecia aquelas peças. Emmeline tinha-lhas mostrado num ímpeto de confiança. De todo aquele vasto oceano que ele tinha percorrido infrutiferamente: elas tinham chegado até ele como uma mensagem, e o temor e o mistério disso prostraram-no e esmagaram-no.

O capitão tinha colocado os objetos sobre o jornal estendido ao seu lado, e estava a desenrolar as colheres minúsculas da sua proteção de papel de seda. Contou-as como se estivesse a registar o relato de um depósito, e colocou-as sobre o jornal.

“Quando as encontrou?” perguntou Lestrange, falando com o rosto ainda coberto.

“Há cerca de sete anos”, respondeu o capitão, “tínhamos atracado para abastecer de água num lugar a sul da linha — Palm Tree Island, como nós, baleeiros, lhe chamamos, por causa da árvore na entrada da lagoa. Um dos meus homens trouxe-a a bordo, encontrou-a numa cabana feita de canas-de-açúcar que os homens tinham destruído por maldade.”

“Bom Deus!” disse Lestrange. “Não havia ninguém lá — nada além desta caixa?”

“Nem sinal nem som, segundo os homens; apenas a cabana aparentemente abandonada. Não tive tempo para desembarcar e procurar náufragos, eu andava atrás de baleias.”

“Qual é o tamanho da ilha?”

“Oh, uma ilha de tamanho médio — sem nativos. Ouvi dizer que é tabu; porquê, só Deus sabe — alguma excentricidade dos Kanakas, suponho. De qualquer forma, aí estão os achados — reconhece-os?”

“Reconheço.”

“Parece estranho”, disse o capitão, “que eu as tenha apanhado; parece estranho o seu anúncio ter saído e a resposta estar entre as minhas coisas, mas é assim que as coisas acontecem.”

“Estranho!” disse o outro. “É mais do que estranho.”

“É claro”, continuou o capitão, “podiam ter estado escondidas algures na ilha, não se pode dizer; só que as aparências não o sugerem. É claro que podem estar lá agora, sem que você ou eu saibamos.”

“Elas estão lá agora”, respondeu Lestrange, que estava sentado e a olhar para os brinquedos como se lesse neles alguma mensagem oculta. “Estão lá agora. Tem a posição da ilha?”

“Tenho. Mulher, entregue-me o meu diário de bordo privado.”

Ela tirou um caderno volumoso, gorduroso e preto da cómoda e entregou-lho. Ele abriu-o, folheou as páginas e depois leu a latitude e a longitude.

“Registei no dia em que encontrei — aqui está o registo. ‘Adams trouxe a bordo uma caixa de brinquedos de criança de uma cabana abandonada, que os homens derrubaram; trocou-a comigo por um trago de rum.’ O cruzeiro durou três anos e oito meses depois disso; só levávamos três anos quando aconteceu. Esqueci-me completamente: três anos a esfregar o mundo atrás de baleias não iluminam a memória de um homem. Demos a volta ao mundo e terminámos em Nantucket. Depois, passadas duas semanas em terra e um mês de reparações, o velho Sea-Horse partiu novamente, e eu com ele. Foi em Honolulu que esta hidropisia me apanhou, e voltei para aqui, para casa. Esta é a história. Não é grande coisa, mas, ao ver o seu anúncio, pensei que podia responder.”

Lestrange pegou na mão de Fountain e apertou-a.

“Vê a recompensa que ofereci?” disse ele. “Não tenho o meu livro de cheques comigo, mas terá o cheque daqui a uma hora.”

“Não, senhor”, respondeu o capitão; “se algo resultar disso, não digo que não esteja aberto a algum pequeno reconhecimento, mas dez mil dólares por uma caixa de cinco cêntimos — não é a minha forma de fazer negócios.”

“Não posso obrigá-lo a aceitar o dinheiro agora — nem sequer posso agradecer-lhe devidamente agora”, disse Lestrange — “estou com febre; mas quando tudo estiver resolvido, você e eu acertaremos este assunto. Meu Deus!”

Enterrou novamente o rosto nas mãos.

“Não desejo ser curioso”, disse o capitão Fountain, guardando lentamente os objetos na caixa e colocando as aparas de papel à volta deles, “mas posso perguntar como pretende agir neste assunto?”

“Vou alugar um navio imediatamente e procurar.”

“Sim”, disse o capitão, embrulhando as colheres pequenas de forma meditativa; “talvez seja o melhor.”

Ele sentia-se certo, no seu íntimo, de que a busca seria infrutífera, mas não o disse. Se tivesse tido a certeza absoluta, sem conseguir apresentar a prova, não teria aconselhado Lestrange a qualquer outro curso de ação, sabendo que a mente do homem nunca sossegaria enquanto uma prova positiva não fosse apresentada.

“A questão é”, disse Lestrange, “qual é a forma mais rápida de chegar lá?”

“Aí posso ajudá-lo”, disse Fountain, atando o fio à volta da caixa. “Uma escuna com bom andamento é o que você quer; e, se não me engano, há uma a descarregar carga neste preciso momento no cais de O’Sullivan. Mulher!”

A mulher respondeu ao chamado. Lestrange sentia-se como alguém num sonho, e aquelas pessoas que se interessavam pelos seus assuntos pareciam-lhe benéficas além da natureza dos seres humanos.

“Acha que o capitão Stannistreet está em casa?”

“Não sei”, respondeu a mulher; “mas posso ir ver.”

“Vá.”

Ela foi.

“Ele vive apenas a algumas casas de distância”, disse Fountain, “e é o homem certo para si. O melhor capitão de escuna que alguma vez saiu de São Francisco. Raratonga é o nome do barco que tenho em mente — o melhor barco que alguma vez usou cobre. Stannistreet é o seu capitão, os donos são os M’Vitie. Já foi missionário e já transportou porcos; copra foi a sua última carga, e está quase toda descarregada. Oh, os M’Vitie alugá-la-iam ao próprio Satanás por um preço; não precisa de recear que eles hesitem se conseguir arranjar os dólares. Teve um jogo de velas novo logo no início do ano. Oh, eles resolvê-lo-ão na perfeição, e aceite a palavra de S. Fountain sobre isso. Eu tratarei da logística a partir desta cama, se me deixar dar uma ajuda no seu problema; eu tratarei das provisões e arranjarei uma tripulação por três quartos do preço de qualquer um daqueles agentes malditos. Oh, eu cobrarei uma comissão, claro, mas sinto-me meio pago apenas por fazer o serviço—”

Caliou-se, pois ouviram-se passos no corredor lá fora, e o capitão Stannistreet foi conduzido ao quarto. Era um homem jovem, com não mais de trinta anos, alerta, de olhar rápido e rosto agradável. Fountain apresentou-o a Lestrange, que simpatizou com ele à primeira vista.

Quando ouviu falar do assunto, pareceu interessado de imediato; o caso parecia atraí-lo mais do que se fosse uma questão puramente comercial, como copra e porcos.

“Se vier comigo ao cais, senhor, mostrar-lhe-ei o barco agora”, disse ele, depois de terem discutido o assunto e o terem analisado profundamente.

Levantou-se, despediu-se do seu amigo Fountain, e Lestrange seguiu-o, carregando a caixa de cartão na mão.

O cais de O’Sullivan não ficava longe. Um grande veleiro de cabo, que parecia quase uma irmã gémea do malfadado Northumberland, estava a descarregar ferro, e à popa, gracioso como um sonho, com conveses brancos como a neve, estava o Raratonga a descarregar copra.

“Aquele é o barco”, disse Stannistreet; “a carga está quase toda fora. O que lhe parece?”

“Fico com ele”, disse Lestrange, “custe o que custar.”

CAPÍTULO IV

RUMO A SUL

Foi no dia 10 de maio, tão rapidamente as coisas se moveram sob a supervisão do capitão acamado, que o Raratonga, com Lestrange a bordo, passou os Golden Gates e dirigiu-se para sul, inclinando-se perante uma brisa de dez nós.

Não há modo de viagem que se compare ao navio à vela. Num grande navio, se alguma vez fez uma viagem num, os vastos espaços de lona, os mastros que chegam ao céu, a perícia com que o vento é enfrentado e aproveitado, formarão uma memória que nunca será apagada.

Uma escuna é a rainha de todos os tipos de embarcação; tem uma flutuabilidade saltitante negada às embarcações de velas quadradas, com as quais mantém a mesma relação que uma jovem para com uma viúva; e o Raratonga não era apenas uma escuna, mas a rainha, reconhecida por todas as escunas do Pacífico.

Nos primeiros dias fizeram um bom caminho para sul; depois, o vento tornou-se confuso e desviou-os.

À excitação febril de Lestrange somava-se uma ansiedade, uma ansiedade profunda e dilacerante, como se alguma voz semi-ouvida lhe dissesse que as crianças que ele procurava estavam ameaçadas por algum perigo.

Estes ventos confusos sopravam sobre a ansiedade latente no seu peito, como o vento sopra sobre as brasas, fazendo-as brilhar. Duraram alguns dias, e depois, como se o Destino se tivesse compadecido, surgiu a estibordo uma brisa forte, fazendo o cordame cantar uma melodia alegre e soprando a espuma da proa, enquanto o Raratonga, inclinando-se com a pressão, seguia zumbindo pelo mar, deixando um rasto que se espalhava atrás de si como um leque.

Levou-os ao longo de quinhentas milhas, silenciosamente e com a rapidez de um sonho. Depois, cessou.

O oceano e o ar pararam. O céu acima permanecia sólido como uma grande cúpula azul-pálida; exatamente onde encontrava a linha de água do horizonte distante, um delicado traçado de nuvens drapejava toda a volta do céu.

Disse que o oceano também estava parado, tal como o ar: aos olhos, era assim, pois a ondulação que corria por baixo do brilho na superfície era tão uniforme, tão estável e tão rítmica, que a superfície parecia não estar em movimento. Ocasionalmente, uma pequena covinha quebrava a superfície, e tiras de algas marinhas escuras passavam a flutuar, realçando o verde; coisas difusas subiam à superfície e, adivinhando a presença do homem, afundavam-se lentamente e desapareciam da vista.

Dois dias, que nunca seriam recuperados, passaram, e a calmaria continuou. Na manhã do terceiro dia, a brisa levantou-se de nor-noroeste, e eles continuaram o seu curso, uma nuvem de lona, todas as velas a receber o vento, e a música da ondulação sob a proa.

O capitão Stannistreet era um génio na sua profissão; conseguia tirar mais velocidade de uma escuna do que qualquer outro homem ao leme, e transportar mais lona sem perder um mastro. Era também, felizmente para Lestrange, um homem de refinamento e educação, e, o que era ainda melhor, de compreensão.

Caminhavam pelo convés uma tarde, quando Lestrange, que andava com as mãos atrás das costas e os olhos a contar as cavilhas castanhas no soalho branco-creme, quebrou o silêncio.

“Não acredita em visões e sonhos?”

“Como sabe disso?” respondeu o outro.

“Oh, fiz a pergunta apenas por fazer; a maioria das pessoas diz que não acredita.”

“Sim, mas a maioria das pessoas acredita.”

“Eu acredito”, disse Lestrange.

Ficou em silêncio por um momento.

“Você conhece tão bem o meu problema que não o vou incomodar a repeti-lo, mas apoderou-se de mim, ultimamente, um sentimento — é como um sonho acordado.”

“Sim?”

“Não consigo explicar bem, pois é como se eu visse algo que a minha inteligência não consegue compreender, ou de que não consegue formar uma imagem.”

“Acho que sei o que quer dizer.”

“Não creio que saiba. Isto é algo bastante estranho. Tenho cinquenta anos, e em cinquenta anos um homem experimentou, por norma, todas as sensações comuns e a maioria das extraordinárias a que um ser humano pode estar sujeito. Bem, nunca senti esta sensação antes; acontece apenas por vezes. Vejo, como se pode imaginar, como vê um bebé, e coisas estão diante de mim que não compreendo. Não é através dos meus olhos corporais que esta sensação surge, mas através de alguma janela da mente, diante da qual uma cortina foi aberta.”

“Isso é estranho”, disse Stannistreet, que não gostava muito da conversa, sendo apenas um capitão de escuna e um homem simples, embora bastante inteligente e compreensivo.

“Este algo diz-me”, continuou Lestrange, “que há um perigo a ameaçar os—” Ele parou, fez uma pausa de um minuto e, para alívio de Stannistreet, continuou. “Se eu falar assim, pensará que não estou bem da cabeça: deixemos o assunto de lado, esqueçamos os sonhos e os presságios e passemos às realidades. Sabe como perdi as crianças; sabe como espero encontrá-las no lugar onde o capitão Fountain encontrou os vestígios delas. Ele diz que a ilha estava desabitada, mas não tinha a certeza.”

“Não”, respondeu Stannistreet, “ele apenas falou da praia.”

“Sim. Bem, suponha que havia nativos do outro lado da ilha que levaram estas crianças.”

“Se assim fosse, elas cresceriam com os nativos.”

“E tornar-se-iam selvagens?”

“Sim; mas os polinésios não podem ser realmente chamados de selvagens; são um grupo muito decente. Tenho andado por entre eles há bastante tempo, e um kanaka é tão branco como um homem branco — o que não quer dizer muito, mas é alguma coisa. A maioria das ilhas está civilizada agora. É claro que há algumas que não estão, mas ainda assim, suponha até que ‘selvagens’, como lhes chama, tinham vindo e levado as crianças—”

A respiração de Lestrange prendeu-se, pois este era o próprio medo que estava no seu coração, embora nunca o tivesse verbalizado.

“Bem?”

“Bem, seriam bem tratadas.”

“E educadas como selvagens?”

“Suponho que sim.”

Lestrange suspirou.

“Olhe lá”, disse o capitão; “falar é muito bonito, mas, sinceramente, acho que nós, os civilizados, temos muitas manias e desperdiçamos muita piedade com os selvagens.”

“Como assim?”

“O que quer um homem senão ser feliz?”

“Sim.”

“Bem, quem é mais feliz do que um selvagem nu num clima quente? Oh, ele é suficientemente feliz, e não passa o tempo todo a fazer danças tribais. Ele é, em grande parte, um cavalheiro; tem uma saúde perfeita; vive a vida para a qual um homem nasceu, face a face com a Natureza. Não vê o sol através da janela de um escritório nem a lua através do fumo das chaminés das fábricas; feliz e civilizado também — mas, meu Deus, onde é que ele está? Os brancos expulsaram-no; numa ou noutra pequena ilha talvez ainda o encontre — algumas migalhas dele.”

“Suponha”, disse Lestrange, “suponha que aquelas crianças tinham sido criadas face a face com a Natureza—”

“Sim?”

“Vivendo essa vida livre—”

“Sim?”

“Acordando sob as estrelas” — Lestrange falava com os olhos fixos, como se estivesse em algo muito distante — “indo dormir quando o sol se põe, sentindo o ar fresco, como este que sopra sobre nós, à volta deles. Suponha que elas fossem assim, não seria uma crueldade trazê-las para o que chamamos de civilização?”

“Acho que seria”, disse Stannistreet.

Lestrange não disse nada, mas continuou a caminhar pelo convés, com a cabeça baixa e as mãos atrás das costas.

Uma noite, ao pôr do sol, Stannistreet disse:

“Estamos a duzentas e quarenta milhas da ilha, contando a partir do cálculo de hoje ao meio-dia. Estamos a fazer dez nós constantes com esta brisa; devemos chegar ao local a esta hora amanhã. Antes disso, se o vento aumentar.”

“Estou muito perturbado”, disse Lestrange.

Ele desceu para o convés inferior, e o capitão da escuna abanou a cabeça e, prendendo o braço num estai, entregou o corpo ao balanço suave da embarcação enquanto ela deslizava, contornando o pôr do sol, esplêndido e, para o olhar náutico, cheio de bom tempo.

A brisa não estava tão fresca na manhã seguinte, mas tinha soprado razoavelmente durante toda a noite, e o Raratonga tinha feito um bom caminho. Por volta das onze, começou a falhar. Tornou-se a brisa mais leve, apenas o suficiente para manter as velas esticadas e o rasto a ondular e a redemoinhar atrás. De repente, Stannistreet, que estava parado a falar com Lestrange, subiu alguns degraus nos estais do mastro de mezena e sombreou os olhos.

“O que é?” perguntou Lestrange.

“Um barco”, respondeu ele. “Entregue-me aquele binóculo que encontrará ali na suspensão.”

Ele nivelou o binóculo e olhou durante muito tempo sem falar.

“É um barco à deriva — um pequeno barco, sem nada dentro. Espere! Vejo algo branco, não consigo distinguir. Ei, você!” — para o homem ao leme — “Mantenha-o um ponto mais a estibordo.” Ele subiu para o convés. “Estamos a ir diretamente para ele.”

“Está alguém lá dentro?” perguntou Lestrange.

“Não consigo distinguir bem, mas vou baixar o baleeiro e trazê-lo para junto de nós.”

Deu ordens para o baleeiro ser baixado e tripulado.

À medida que se aproximavam, era evidente que o barco à deriva, que parecia um escaler de navio, continha algo, mas o quê, não se conseguia distinguir.

Quando chegaram suficientemente perto, Stannistreet meteu o leme a fundo e parou a escuna, com as velas todas a tremeluzir. Ele tomou o seu lugar na proa do baleeiro e Lestrange na popa. O barco foi baixado, as adriças soltas e os remos colocados na água.

O pequeno escaler formava um quadro lúgubre enquanto flutuava, parecendo pouco maior do que uma casca de noz. Em trinta remadas, o nariz do baleeiro tocava na popa do outro barco. Stannistreet agarrou a amurada.

No fundo do escaler jazia uma rapariga, nua, exceto por uma tira de tecido às riscas coloridas. Um dos seus braços estava abraçado ao pescoço de uma forma que estava meio escondida pelo seu corpo, o outro abraçado parcialmente a si mesma, parcialmente à sua companheira: o corpo de um bebé. Eram nativos, evidentemente, naufragados ou perdidos por algum azar de alguma escuna inter-ilhas. Os seus peitos subiam e desciam suavemente, e, presa na mão da rapariga, estava um ramo de alguma árvore, e no ramo uma única baga seca.

“Estão mortos?” perguntou Lestrange, que adivinhara que havia pessoas no barco e que estava de pé na popa do baleeiro a tentar ver.

“Não”, disse Stannistreet; “estão a dormir.”

FIM

Nascido a 9 de abril de 1863, em Kingstown, na Irlanda, Henry de Vere Stacpoole cresceu num agregado familiar dominado pela mãe e por três irmãs mais velhas. William C. Stacpoole, doutor em teologia pelo Trinity College e diretor da escola de Kingstown, faleceu algum tempo antes do oitavo aniversário do filho, deixando a responsabilidade de sustentar a família à sua esposa, Charlotte Augusta Mountjoy Stacpoole, natural do Canadá. Em tenra idade, Charlotte tinha sido trazida das regiões remotas do Canadá pela sua mãe viúva e levada para a Irlanda, onde viviam os seus parentes. Esta experiência fortalecera o seu caráter e preparara-a para a maternidade a solo.

Charlotte cuidava apaixonadamente dos seus filhos e era, talvez, excessivamente protetora em relação ao filho. Em criança, Henry sofreu de graves problemas respiratórios, diagnosticados erradamente como bronquite crónica pelo seu médico, que, no inverno de 1871, aconselhou que o rapaz fosse levado para o sul de França para melhorar de saúde. Com toda a família a reboque, Charlotte fez a longa viagem de Kingstown a Londres e depois a Paris, onde os sinais da Guerra Franco-Prussiana ainda eram evidentes, instalando-se finalmente em Nice, no Hotel des Iles Britannique. Nice era como um paraíso para Henry, que se maravilhava com a afluência e a beleza da cidade enquanto brincava ao sol quente.

Após várias outras excursões ao continente, Stacpoole foi enviado para Portarlington, um colégio interno sombrio a mais de 160 quilómetros de Kingstown. Ao contrário das suas irmãs, os rapazes de Portarlington eram barulhentos e grosseiros. Como Stacpoole escreve na sua autobiografia Men and Mice, 1863-1942 (1942), os rapazes abusavam dele mental e fisicamente, fazendo-o sentir-se como “um pequeno Arthur numa jaula de babuínos”. Certa noite, fugiu através de um colégio feminino adjacente e regressou a Kingstown, apenas para ser traído pela família e arrastado de volta para a escola pela sua irmã mais velha.

Quando a sua família se mudou para Londres, foi retirado de Portarlington e matriculado no Malvern College, uma escola progressista com estudantes refinados e muito ar e sol. Stacpoole desfrutou plenamente dos seus novos arredores, que associava à descrição das colinas de Malvern no poema Aurora Leigh (1857), de Elizabeth Barrett Browning: “Guardas das visões de Piers Plowman / Através do sol e da neve.” Este ambiente estimulou o seu interesse pela literatura e pela escrita.

O idílio terminou, no entanto, quando Stacpoole iniciou a sua formação médica. Por insistência da mãe, ingressou na faculdade de medicina do St. George’s Hospital. Duas vezes por dia, tinha de atravessar um parque frequentado por amas a passear, e envolveu-se romanticamente com uma delas. Quando a mãe descobriu o caso, insistiu que ele se transferisse para o University College, e ele obedeceu.

Mais interessado em literatura do que em cadáveres, Stacpoole começou a desleixar os estudos e a faltar às aulas, especialmente às dissecções obrigatórias. Finalmente, o diretor da faculdade de medicina confrontou-o, e a discussão levou Stacpoole ao St. Mary’s Hospital, onde completou a sua formação médica e obteve a qualificação L.S.A. em 1891. A partir dessa data, Stacpoole fez várias viagens marítimas aos trópicos (pelo menos uma vez como médico a bordo de um navio de reparação de cabos), recolhendo informações para futuras histórias.

A carreira literária de Stacpoole, que ele descreveu uma vez como sendo “mais parecida com uma prahu de pesca malaia do que com uma legítima embarcação literária inglesa”, começou de forma pouco auspiciosa com a publicação de The Intended (1894), um romance trágico sobre dois sósias, um rico e outro pobre, que trocam de lugar por capricho. Atónito com a falta de sucesso do romance, Stacpoole consultou a sua musa amiga, Pearl Craigie, pseudónimo de John Oliver Hobbes, que sugeriu um tratamento cómico em vez de trágico. Anos mais tarde, Stacpoole recontou a história em The Man Who Lost Himself (1918), um romance cómico de sucesso comercial sobre um americano arruinado que se faz passar pelo seu rico sósia em Inglaterra.

Passado em França durante a Guerra Franco-Prussiana, o segundo romance de Stacpoole, Pierrot (1896), relata a estranha relação de um rapaz francês com um sósia parricida. Tal como o seu antecessor, foi um fracasso comercial, e foi nesta altura, talvez, que Stacpoole começou a ver o sucesso literário apenas em termos de números de vendas e quantidades de edições.

Um conto estranho de reencarnação, travestismo e uxoricídio, o terceiro romance de Stacpoole, Death, the Knight, and the Lady (1897), pretende ser a confissão no leito de morte de Beatrice Sinclair, que é simultaneamente uma assassina reencarnada (homem) e descendente da vítima do homicídio (mulher). Ela apaixona-se por Gerald Wilder, um homem disfarçado de mulher, que é tanto uma vítima de homicídio reencarnada (mulher) quanto descendente do assassino (homem). Apesar da sua originalidade, o romance foi morto pela “Indiferença Pública” (termo de Stacpoole), que também matou The Rapin (1899), um romance sobre um estudante de arte em Paris.

Stacpoole passou o verão de 1898 em Somerset, onde assumiu o consultório médico de um médico rural doente. Tão pacíficos foram os seus dias neste ambiente pastoral que teve tempo para escrever The Doctor (1899), um romance sobre um médico à moda antiga que exercia medicina na Inglaterra rural. “É o melhor livro que escrevi”, declarou Stacpoole mais de quarenta anos depois. Ele poderia também dizer, em retrospetiva, que as fracas vendas do livro foram uma bênção disfarçada, “pois eu não tinha lastro suficiente a bordo naqueles dias para aguentar o vendaval do sucesso, o que significa, incidentalmente, dinheiro”. Ele seria poupado ao vendaval do sucesso por mais nove anos, durante os quais publicou sete livros, incluindo uma coleção de histórias infantis e dois romances em colaboração com o seu amigo William Alexander Bryce.

Em 1907, ocorreram dois eventos que alteraram o curso da vida de Stacpoole: escreveu The Blue Lagoon e casou-se com Margaret Robson. Incapaz de dormir numa noite, viu-se a pensar no homem das cavernas e a invejá-lo, pois, na sua primitividade, ele era capaz de se maravilhar com fenómenos banais como pores do sol e trovoadas. O homem civilizado e tecnológico tinha desvendado estes mistérios com os seus telescópios e balões meteorológicos, de modo que já não eram “maravilhas sem nome” a serem temidas e contempladas. Como médico, Stacpoole tinha testemunhado inúmeros nascimentos e mortes, e estes eventos já não lhe pareciam milagrosos. Concebeu a ideia de duas crianças a crescerem sozinhas numa ilha e a experienciarem tempestades, morte e nascimento numa ignorância e inocência quase totais. Na manhã seguinte, começou a escrever The Blue Lagoon. O exercício foi terapêutico, porque pôde experienciar as maravilhas da vida e da morte de forma vicariante através das suas personagens.

The Blue Lagoon é a história de dois primos, Dicky e Emmeline Lestrange, deixados numa ilha remota com uma bela lagoa. Quando crianças, são cuidados por Paddy Button, um marinheiro corpulento que bebe até à morte após apenas dois anos e meio no paraíso. Assustadas e confusas com o cadáver grotesco do homem, as crianças fogem para outra parte da Palm Tree Island. Ao longo de cinco anos, crescem e acabam por se apaixonar. O sexo e o nascimento são tão misteriosos para eles como a morte, mas conseguem copular instintivamente e conceber uma criança. O nascimento é especialmente notável: Emmeline, de quinze anos, sozinha na selva, perde a consciência e acorda para encontrar um bebé no chão perto dela. Chamando ao rapaz Hannah (um exemplo da propensão de Stacpoole para a inversão de géneros), os Lestrange vivem em felicidade familiar até serem inesperadamente expulsos do seu Éden tropical.

Os paralelos entre The Blue Lagoon e a história bíblica de Adão e Eva são óbvios e intencionais, mas Stacpoole foi também influenciado por Alice’s Adventures in Wonderland (1865), de Lewis Carroll, que invoca numa passagem que descreve a chegada dos náufragos a Palm Tree Island:

“Podia ver-se a água a rodopiar à volta dos pilares de coral, pois a maré estava a inundar a lagoa; tinha apanhado o pequeno bote e levava-o muito mais depressa do que os remos poderiam ter feito. As gaivotas gritavam à volta deles, o barco balançava e oscilava. Dick gritou de excitação, e Emmeline fechou os olhos COM FORÇA.

“Então, como se uma porta se tivesse fechado rápida e silenciosamente, o som da rebentação tornou-se subitamente menor. O barco flutuou equilibrado; ela abriu os olhos e encontrou-se no País das Maravilhas.”

Esta referência direta ao País das Maravilhas prepara o leitor para os muitos paralelos que se seguem. Quando as suas aventuras começam, ambas as raparigas têm quase a mesma idade, Alice sete anos e meio, Emmeline exatamente oito. Tal como Alice se junta a um chá no País das Maravilhas, Emmeline brinca com o seu pequeno serviço de chá na praia depois de desembarcarem. O antigo animal de estimação de Emmeline, tal como o Gato de Cheshire, “tinha riscas brancas e o peito branco, e anéis na cauda” e morreu “mostrando os dentes”. Enquanto Alice procura um rótulo de veneno numa garrafa que diz “Bebe-me”, Emmeline tenta inocentemente comer “as bagas de nunca-acordar” e recebe uma severa reprimenda e uma lição sobre veneno de Paddy Button. O capítulo “A Poesia da Aprendizagem” ecoa o diálogo de Alice com a lagarta. Tal como a criatura astuta que fuma um cachimbo de água, Paddy fuma um cachimbo e grita “Hurroo!” enquanto as crianças lhe ensinam a escrever o seu nome na areia. As crianças perdem “toda a noção do tempo”, tal como o Chapeleiro Louco. Enquanto Alice cresce três metros, Dick torna-se “cinco centímetros mais alto” e Emmeline “duas vezes mais rechonchuda”. Tal como o bebé em “Porco e Pimenta”, Hannah espirra ao ver Dicky pela primeira vez. O romance está artisticamente salpicado de referências ao maravilhamento, à curiosidade e à estranheza — tudo provas do esforço consciente de Stacpoole para invocar e homenagear o seu predecessor vitoriano.

Stacpoole apresentou The Blue Lagoon ao editor T. Fisher Unwin em setembro de 1907 e foi para Cumberland ajudar outro médico doente no seu consultório. Todos os dias, a partir de Eden Vue, em Langwathby, Stacpoole escrevia à sua noiva, Margaret Robson (ou Maggie, como a chamava), e esperava ansiosamente pelo dia do casamento. A 17 de dezembro de 1907, o casal casou-se e passou a lua de mel em Stebbing Park, uma casa de campo de um amigo em Essex, a cerca de cinco quilómetros da aldeia de Stebbing. Foi lá que tropeçaram em Rose Cottage, onde Stacpoole viveu durante vários anos antes de se mudar para Cliff Dene, na Ilha de Wight, na década de 1920.

Publicado em janeiro de 1908, The Blue Lagoon foi um sucesso imediato, tanto junto dos críticos como do público. “[Este] conto da descoberta do amor e do acasalamento inocente é tão fresco como o ozono que os tornou fortes”, declarou um crítico. Outro afirmou que “por uma vez, o título de ‘romance’, encontrado em tantas histórias modernas, é realmente justificado”. O romance foi reimpresso mais de vinte vezes nos doze anos seguintes e permaneceu popular noutras formas durante mais de oitenta anos. Norman MacOwen e Charlton Mann adaptaram a história para uma peça de teatro, que esteve em cena durante 263 representações em Londres, de 28 de agosto de 1920 a 16 de abril de 1921. Versões cinematográficas do romance foram feitas em 1923, 1949 e 1980.

Stacpoole também escreveu duas sequelas de sucesso: The Garden of God (1923) e The Gates of Morning (1925). Estes três livros e dois outros foram combinados para formar The Blue Lagoon Omnibus em 1933. The Garden of God foi adaptado para o cinema como Return to the Blue Lagoon em 1992.

Este e-texto do Gutenberg de The Blue Lagoon: A Romance baseia-se na primeira edição americana de 1908, publicada pela J. B. Lippincott Company de Filadélfia.

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