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The Book of the Thousand Nights and a Night

by Burton, Richard Francis, Sir · in Portuguese

"AOS PUROS, TODAS AS COISAS SÃO PURAS." (Puris omnia pura)

— Provérbio árabe.

"Niuna corrotta mente intese mai sanamente parole."

— "Decameron" — conclusão.

"Erubuit, posuitque meum Lucretia librum Sed coram Bruto. Brute! recede, leget."

— Marcial.

"Mieulx est de ris que de larmes escripre, Pour ce que rire est le propre des hommes."

— RABELAIS.

"O prazer que derivamos da leitura das Mil e Uma Histórias nos faz lamentar que possamos possuir apenas uma parte comparativamente pequena dessas ficções verdadeiramente encantadoras."

— "História da Arábia", de CRICHTON.

_UMA TRADUÇÃO CLARA E LITERAL DAS DIVERSÕES DAS NOITES ÁRABES. AGORA INTITULADO_

O LIVRO DAS =Mil Noites e uma Noite=

_COM INTRODUÇÃO, NOTAS EXPLICATIVAS SOBRE OS COSTUMES E HÁBITOS DOS HOMENS MUÇULMANOS E UM ENSAIO FINAL SOBRE A HISTÓRIA DAS NOITES_

VOLUME I.

POR RICHARD F. BURTON

IMPRESSO PELO CLUBE BURTON PARA ASSINANTES PARTICULARES APENAS

Edição Shammar

Limitada a mil exemplares numerados, dos quais este é o

Número 547

IMPRESSO NOS E. U. A.

=Dedicado à Memória=

DE

MEU LAMENTADO AMIGO

=John Frederick Steinhaeuser,=

(CIRURGIÃO CIVIL, ADEN)

QUE

HÁ UM QUARTO DE SÉCULO

ME AUXILIOU NESTA TRADUÇÃO.

O PREFÁCIO DO TRADUTOR.

Este trabalho, por mais laborioso que possa parecer, foi para mim um trabalho de amor, uma fonte inesgotável de consolo e satisfação. Durante os meus longos anos de banimento oficial aos luxuriantes e mortíferos desertos da África Ocidental, e aos sombrios e lúgubres descampados da América do Sul, provou ser um encanto, um talismã contra o tédio e o desânimo. Era impossível até mesmo abrir as páginas sem que uma visão surgisse diante da vista; sem pintar um quadro na pinacoteca do cérebro; sem reavivar uma multidão de memórias e reminiscências que não são propriedade comum dos viajantes, por mais que tenham viajado. Dos meus ambientes monótonos, banais e "respeitáveis", o Gênio transportou-me de imediato para a terra da minha predileção, a Arábia, uma região tão familiar à minha mente que, mesmo à primeira vista, parecia uma reminiscência de alguma vida metempsicótica pretérita num Passado distante. De novo, encontrava-me sob os céus diáfanos, num ar glorioso como o éter, cujo sopro eleva o espírito dos homens como vinho espumante. Mais uma vez vi a estrela da tarde suspensa como um solitário na face pura do firmamento ocidental; e o brilho crepuscular transfigurando e transformando, como por magia, as características simples e agrestes da cena num país das fadas iluminado por uma luz que nunca brilha em outros solos ou mares. Então apareceriam as tendas de lã, baixas e negras, dos verdadeiros beduínos, meros pontos no ilimitado vazio de argilas cor de leão e cascalhos cor de gazela, e a fogueira pontilhando como um pirilampo o centro da aldeia. Logo, adoçado pela distância, ouvir-se-ia o canto selvagem e estranho dos rapazes e moças, conduzindo, ou melhor, tangendo através do crepúsculo as suas ovelhas e cabras; e o cântico ritmado dos lanceiros que caminhavam gravemente atrás da sua carga, os camelos; misturado com o balido dos rebanhos e o mugido das manadas corcundas; enquanto o morcego esvoaçava por cima com o seu guincho minúsculo, e o uivo do chacal ressoava através das sombras que se aprofundavam, e — a mais musical das músicas — as palmeiras respondiam aos sussurros da brisa noturna com os tons mais suaves de água corrente.

E então, uma mudança de cenário. Os Xeiques e os "barbas-brancas" da tribo tomam gravemente os seus lugares, sentando-se com as vestes espalhadas como montículos na planície, como dizem os árabes, em torno da fogueira, enquanto eu recompenso a sua hospitalidade e asseguro a sua continuidade lendo ou recitando algumas páginas dos seus contos favoritos. As mulheres e crianças permanecem imóveis como silhuetas fora do círculo; e todos estão sem fôlego de atenção; parecem absorver as palavras com os olhos e a boca, bem como com os ouvidos. Os voos mais fantásticos da imaginação, as maiores improbabilidades, as mais impossíveis das impossibilidades, parecem-lhes perfeitamente naturais, meras questões do quotidiano. Entram profundamente em cada fase do sentimento tocada pelo autor: sentem um orgulho pessoal na natureza cavalheiresca e na bravura de cavaleiro de Taj al-Mulúk; são tocados com ternura pelo amor abnegado de Azízah; a boca enche-se-lhes de água ao ouvirem falar de montes de ouro incontável distribuídos em generosidade como se fosse barro; riem de prazer cada vez que um Kázi ou um Fakír — um juiz ou um reverendo — é vilipendiado por algum Pantagruelista do Deserto; e, apesar da sua solenidade e impassibilidade normais, todos soltam gargalhadas, por vezes rolando pelo chão até a gravidade do leitor ser duramente testada, com os contos do Barbeiro tagarela e de Ali e o Trapaceiro Curdo. A única exceção a este estado de espírito magnetizante ocorre quando um beduíno de dotes superiores, que por vezes reza as suas preces, exclama um surpreendente "Astaghfaru'llah" — peço perdão a Allah! — por ouvir, não as "mentiras descaradas" de Carlyle, mas a leve menção ao sexo cujo nome nunca é ouvido entre a nobreza do Deserto.

Nem foi apenas na Arábia que as imortais Noites me prestaram tal serviço notável: descobri que os selvagens da terra dos somalis eram igualmente suscetíveis à sua disciplina; ninguém era surdo ao encanto e as duas cozinheiras da minha caravana, a caminho de Harar, foram prontamente apelidadas pelos meus homens de "Shahrazad" e "Dinazad".

Permita-se-me também notar que esta tradução é um resultado natural da minha Peregrinação a Al-Medinah e Meccah. Chegando a Aden no (assim chamado) inverno de 1852, hospedei-me com o meu velho e querido amigo, Steinhaeuser, à memória de quem este volume é dedicado; e, ao conversarmos sobre a Arábia e os árabes, chegámos de imediato à mesma conclusão de que, embora o nome deste maravilhoso tesouro do folclore muçulmano seja familiar a quase todas as crianças inglesas, nenhum leitor comum tem consciência dos valores que contém, nem a porta se abrirá para ninguém a não ser para os arabistas. Antes de nos separarmos, concordámos em "colaborar" e produzir uma cópia completa, integral, não adulterada e não castrada do grande original, com o meu amigo a ocupar-se da prosa e eu da parte métrica; e correspondemos sobre o assunto durante anos. Mas, enquanto eu estava no Brasil, Steinhaeuser morreu subitamente de apoplexia em Berna, na Suíça, e, à moda anglo-indiana, os seus preciosos manuscritos deixados em Aden foram dispersos, e muito pouco do seu trabalho chegou às minhas mãos.

Assim, fiquei sozinho com o meu trabalho, que progrediu de forma irregular no meio de uma multidão de obstruções. Finalmente, na primavera de 1879, começou o tedioso processo de cópia e o livro começou a tomar forma acabada. Mas, durante o inverno de 1881-82, vi nas revistas literárias uma notícia de uma nova versão do Sr. John Payne, bem conhecido dos estudiosos pela sua destreza em verso inglês, especialmente pela sua tradução de "Os Poemas do Mestre Francis Villon, de Paris". Estando então empenhado numa expedição à Costa do Ouro (em busca de ouro), que parecia provável que durasse alguns meses, escrevi ao "Athenæum" (13 de nov. de 1881) e ao Sr. Payne, que não fazia a mínima ideia de que estávamos envolvidos no mesmo trabalho, e ofereci-lhe livremente a primazia e a posse do campo até que não fosse mais necessário. Ele aceitou a minha oferta com a mesma franqueza, e a sua prioridade implicou outro atraso que durou até à primavera de 1885. Estes detalhes explicarão em parte a minha demora em aparecer, mas existe ainda outra causa. A ambição profissional sugeria que trabalhos literários, impopulares entre o vulgo e os semieducados, dificilmente ajudariam um homem a subir a escada da promoção. Mas o senso comum sugeriu-me logo que, profissionalmente falando, eu não era um sucesso; e, ao mesmo tempo, que não tinha motivos para me envergonhar do meu fracasso. Nos nossos dias, em que vivemos sob o despotismo do filisteu da "classe média" inferior, que pode perdoar tudo menos a superioridade, os prémios dos serviços competitivos são monopolizados por certos "animais de estimação" da Mediocracia, e favoritos principais dessa ciumenta e potente maioria — as Mediocridades que não conhecem "nenhures sobre o mérito". É difícil para um estranho perceber quão perfeito é o monopólio do lugar-comum, e compreender quão fatal é a pedra de tropeço que o homem coloca no caminho do seu próprio avanço quando se atreve a pensar por si mesmo, ou quando sabe mais ou faz mais do que a multidão de cavalheiros-empregados que sabem muito pouco e fazem ainda menos.

Contudo, por mais atrasado que eu possa estar, ainda há amplo espaço e margem para uma versão inglesa das "Diversões das Noites Árabes".

O nosso século de traduções, populares e vernáculas, desde a deliciosa abreviatura e adaptação do (Professor Antoine) Galland (1704 d.C.), de modo algum representa o original oriental. As melhores e mais recentes, a do Reverendo Sr. Foster, que é difusa e verbosa, e a do Sr. Moir Bussey, que é uma re-correção, abundam em galicismos de estilo e idioma; e uma e todas degradam uma obra-prima do mais alto interesse e importância antropológica e etnográfica a um mero livro de contos de fadas, um belo presente para rapazes pequenos.

Após decorrido quase um século, o Dr. Jonathan Scott (LL.D., Secretário Persa do Governador-Geral de Bengala; Professor Oriental, etc., etc.), imprimiu os seus "Contos, Anedotas e Cartas, traduzidos do árabe e persa" (Cadell e Davies, Londres, 1800 d.C.); e seguiu em 1811 com uma edição das "Diversões das Noites Árabes" a partir do manuscrito de Edward Wortley Montague (em 6 vols., pequeno 8vo, Londres: Longmans, etc.). Este trabalho ele (e só ele) descreve como "Cuidadosamente revisto e ocasionalmente corrigido a partir do árabe". O público leitor não o rejeitou totalmente; vários textos foram baseados na versão de Scott e foi imperfeitamente reimpresso (4 vols., 8vo, Nimmo e Bain, Londres, 1883). Mas a maioria dos homens, pouco se importando com a pequena porção do original que estavam a ler, contentou-se com o epítome e metáfase anglo-francesa. Finalmente, em 1838, o Sr. Henry Torrens, B.A., irlandês, advogado ("do Inner Temple") e funcionário civil de Bengala, deu um passo na direção certa e começou a traduzir "O Livro das Mil Noites e uma Noite" (1 vol., 8vo, Calcutá: W. Thacker and Co.) a partir do árabe do manuscrito egípcio (!) editado pelo Sr. (mais tarde Sir) William H. Macnaghten. A tentativa, ou melhor, a intenção, era altamente louvável; a cópia foi cuidadosamente moldada sobre o modelo e oferecia o melhor exemplo do estilo verbatim et literatim. Mas o corajoso autor sabia pouco de árabe, e menos ainda do que é mais necessário, o dialeto do Egito e da Síria. A sua prosa é tão conscienciosa que sacrifica o espírito no altar da letra; e o seu verso, sempre extravagante, tem por vezes um modo de grito irlandês que é cómico quando deveria ser patético. Por fim, imprimiu apenas um volume de uma série que, se completada, conteria nove ou dez.

Aquele amável e dedicado arabista, o falecido Edward William Lane, não obteve sucesso na sua "Nova Tradução dos Contos de Mil e Uma Noites" (Londres: Charles Knight and Co., MDCCCXXXIX.), da qual houve quatro edições inglesas, além das americanas, duas editadas por E. S. Poole. Escolheu a Edição de Bulak, que é abreviada; e, dos seus duzentos contos, omitiu cerca de metade e, de longe, a metade mais característica: a obra destinava-se à "mesa da sala de estar"; e, consequentemente, o autor foi obrigado a evitar o "censurável" e tudo o que "se aproximasse da licenciosidade". Converte as Noites Árabes em Capítulos Árabes, alterando arbitrariamente a divisão e, pior ainda, converte alguns capítulos em notas. Traduz a poesia por prosa e pede desculpa por não a omitir por completo: negligencia a assonância e é simultaneamente demasiado oriental e não oriental o suficiente. Tinha pouco conhecimento de árabe na altura — o Lane das Noites não é o Lane do Dicionário — e as suas páginas estão desfiguradas por muitos erros infantis. Pior de tudo, os três belos volumes tornaram-se ilegíveis como o Alcorão de Sale devido ao seu latim anglicizado, às suas palavras sesquipedais não inglesas e ao estilo rígido e afetado de há meio século atrás, quando a nossa prosa era, talvez, a pior da Europa. A sua carga de saber muçulmano era muito valiosa para o estudante, mas totalmente despropositada para os leitores de "As Noites"; republicadas, como estas notas foram separadamente (Londres, Chatto, 1883), constituem um livro de texto etnológico.

O Sr. John Payne imprimiu, para a Sociedade Villon e apenas para circulação privada, a primeira e única tradução completa do grande compêndio, "compreendendo cerca de quatro vezes mais matéria do que a de Galland, e três vezes mais do que a de qualquer outro tradutor"; e não posso deixar de me sentir orgulhoso por ele me ter honrado com a dedicatória de "O Livro das Mil Noites e uma Noite". A sua versão é da mais fácil leitura: o seu inglês, com um sub-sabor do arcaísmo Mabinogiónico, é admirável; e o seu estilo dá vida e luz aos nove volumes cuja matéria é frequentemente pesada o suficiente. Ele consegue admiravelmente as passagens mais difíceis e muitas vezes acerta em termos escolhidos e especiais e no equivalente vernáculo exato da palavra estrangeira, de forma tão feliz e pitoresca que todos os futuros tradutores terão forçosamente de usar a mesma expressão sob pena de ficarem muito aquém. Mas o erudito e versátil autor comprometeu-se a publicar apenas quinhentos exemplares, e "a não reproduzir a obra na sua forma completa e não castrada". Consequentemente, a sua excelente versão é um caviar para o público em geral — praticamente inalcançável.

E aqui apresso-me a confessar que foi feito amplo uso das três versões acima referidas, sendo o todo misturado por uma callida junctura numa massa homogénea. Mas, perante tantos predecessores, um escritor é obrigado a demonstrar alguma raison d'être para fazer uma nova tentativa, e é o que passo a fazer com a devida reserva.

Em suma, o objetivo desta versão é mostrar o que "As Mil Noites e uma Noite" realmente é. Não, contudo, por razões a serem declaradas mais detalhadamente no Ensaio terminal, forçando o verbum reddere verbo, mas escrevendo como o árabe teria escrito em inglês. Neste ponto, estou inteiramente com São Jerónimo (Pref. in Jobum): "Vel verbum e verbo, vel sensum e sensu, vel ex utroque commixtum, et medie temperatum genus translationis." O meu trabalho pretende ser uma cópia fiel do grande livro de sagas orientais, preservando intactos, não apenas o espírito, mas até a mécanique, a maneira e a matéria. Por isso, por mais prosaica e longa que seja a fórmula, retém o esquema das Noites porque são uma característica primordial do original. O Ráwí ou recitador, a cuja inteligência é deixada a tarefa de fornecer detalhes, conhece bem o seu valor: as aberturas repetem cuidadosamente os nomes das dramatis personæ e, assim, fixam-nos na memória do ouvinte. Sem as Noites, não há Noites Árabes! Além disso, é necessário reter todo o aparato: nada mais desaconselhável do que o estranho dispositivo do Dr. Jonathan Scott de enfeitar As Noites com cabeçalhos e rodapés extravagantes ou a divisão da narrativa de Galland prefixando meramente "Nuit", etc., terminando, além disso, com a ccxxxivª Noite: contudo, isto foi feito, aparentemente com o consentimento do grande arabista Sylvestre de Sacy (Paris, Ernest Bourdin). Além disso, sustentando que a glória do tradutor é acrescentar algo à sua língua materna, evitando ao mesmo tempo a nudez hedionda e bruxesca de Torrens e o literalismo estéril de Lane, verti cuidadosamente para inglês as voltas pitorescas e as expressões novas do original em toda a sua estranheza; por exemplo, quando a nuvem de pó levantada por um exército em marcha é descrita como "emparedando o horizonte". Daí ter sido dada atenção especial aos tropos e figuras que a língua árabe concentra muitas vezes num único termo; e nunca hesitei em cunhar uma palavra quando necessária, como "ela fungou e roncou", para representar plenamente o original. Estas, como muitas em Rabelais, são meros barbarismos a menos que sejam geralmente adotadas; caso em que se tornam civilizadas e moeda corrente.

Apesar das objeções múltiplas e manifestas, preservei o equilíbrio das frases e a rima e o ritmo da prosa que os orientais consideram como mera música. Este "Saj'a", ou cadência da rola, tem em árabe as suas funções especiais. Acrescenta um brilho à descrição e um ponto ao provérbio, ao epigrama e ao diálogo; corresponde à nossa "aliteração engenhosa" (que em alguns lugares substituí por ela) e, em geral, define os limites entre os estilos clássico e popular que se chocam em As Noites. Se por vezes parece forçado e artificial, ao gosto da prosa rimada, o estudioso observará que, apesar da imensa abundância de assonantes e consoantes em árabe, o esforço é muitas vezes colocado intencionalmente, como as rimas de Dante e dos Trovadores. Esta prosa rimada pode ser "não inglesa" e desagradável, até irritante para o ouvido britânico; ainda assim, considero-a um sine quâ non para uma reprodução completa do original. No Ensaio terminal, voltarei ao assunto.

Por outro lado, ao tratar da parte em versículos, que pode representar um total de dez mil versos, nem sempre me limitei aos laços métricos do árabe, que são extremamente artificiais e que em inglês só podem ser tornados suportáveis por um tour de force. Refiro-me especialmente à monorrima, Rim continuat ou tirade monorime, cuja simplicidade monótona era preferida pelos Trovadores para trenos. Pode servir bem para três ou quatro dísticos mas, quando se estende, como na canção Ghazal, a dezoito, e na Kasidah, elegia ou ode, a mais, deve ou contentar-se com palavras de rima banais, quando os assonantes deveriam, por regra, ser expressivos e enfáticos; ou deve exibir uma engenhosidade, um cheiro a óleo de candeia, que certamente não acrescenta ao prazer do leitor. Talvez possa ser feito e deva ser feito; mas, para mim, a tarefa não tem atrativos: posso esgrimir melhor de sapatos do que de tamancos. Finalmente, imprimo os dísticos na forma árabe, separando os hemistíquios por asteriscos.

E agora, para considerar uma questão de especial importância no livro — o seu turpiloquium. Este obstáculo é de dois tipos, completamente distintos. Um é a indecência simples, ingénua e infantil que, de Tânger ao Japão, ocorre em toda a conversa geral de altos e baixos nos dias de hoje. Utiliza, tal como os livros sagrados dos hebreus, expressões "claramente descritivas de situações naturais"; e trata de forma livre e nua, não convencional, de assuntos e matérias que são geralmente, por consentimento comum, deixados sem descrição. Como observou Sir William Jones há muito tempo, "que algo natural possa ser ofensivamente obsceno nunca parece ter ocorrido aos indianos ou aos seus legisladores; uma singularidade (?) que permeia os seus escritos e conversas, mas nenhuma prova de depravação moral". Outro observa justamente: _Les peuples primitifs n'y entendent pas malice: ils appellent les choses par leurs noms et ne trouvent pas condamnable ce qui est naturel._ E são bisbilhoteiros como crianças. Por exemplo, o romancista europeu casa o seu herói e a sua heroína e deixa-os consumar o casamento em privado; até Tom Jones tem a decência de trancar a porta. Mas o contador de histórias oriental, especialmente este "Shakespeare da prosa" desconhecido, tem de o conduzir, com pompa, ao quarto nupcial e narrar-lhe, com infinito gosto, tudo o que vê e ouve. Mais uma vez, devemos lembrar que a grosseria e a indecência, de facto _les turpitudes_, são questões de tempo e lugar; o que é ofensivo em Inglaterra não o é no Egito; o que nos escandaliza agora teria sido uma piada inofensiva tempore Elisæ. Com tudo isso, As Noites não serão consideradas, nesta matéria, mais grosseiras do que muitas passagens de Shakespeare, Sterne e Swift, e a sua impureza raramente atinge a perfeição de Alcofribas Nasier, "divin maître et atroce cochon". O outro elemento é a obscenidade absoluta, por vezes, mas nem sempre, temperada por engenho, humor e pilhéria; aqui temos um exagero de Petronius Arbiter, o trabalho de escritores cujos antepassados, os mais religiosos e os mais devassos da humanidade, praticavam todas as abominações perante o santuário dos Deuses Canópicos.

De acordo com o meu propósito de reproduzir As Noites, não _virginibus puerisque_, mas no quadro mais perfeito que as minhas capacidades permitem, procurei cuidadosamente o equivalente inglês de cada palavra árabe, por mais baixa que seja ou "chocante" para ouvidos corteses; preservando, por outro lado, toda a delicadeza possível onde a indecência não é intencional; e, como um amigo me aconselha a declarar, não exagerando as vulgaridades e as indecências que, de facto, dificilmente podem ser exageradas. Pois a grosseria e a crueza não são senão as sombras de um quadro que, de outro modo, seria todo luzes. O tom geral de As Noites é excecionalmente elevado e puro. O fervor devocional eleva-se frequentemente ao ponto de ebulição do fanatismo. O pathos é doce, profundo e genuíno; terno, simples e verdadeiro, totalmente diferente de muito do nosso ouropel moderno. A sua vida, forte, esplêndida e multitudinária, é por toda a parte temperada com esse pessimismo não afetado e essa melancolia constitucional que criam raízes mais profundas sob os céus mais brilhantes e que suspiram perante a face do céu:—

Vita quid est hominis? Viridis floriscula mortis; Sole Oriente oriens, sole cadente cadens.

A justiça poética é administrada pelo Kází literário com exemplar imparcialidade e severidade; "denunciando os malfeitores e enaltecendo os atos admiravelmente realizados". A moral é sã e saudável; e por vezes vislumbramos, através do quadro voluptuoso e libertino, perspetivas de uma moralidade transcendental, a moralidade de Sócrates em Platão. A corrupção subtil e a licenciosidade encoberta estão totalmente ausentes; encontramos mais "vício" real em muitos romances franceses curtos, digamos La Dame aux Camelias, e em não poucos romances ingleses dos nossos dias, do que nas milhares de páginas do Árabe. Aqui, nada temos daquela modéstia moderna, a mais imodesta de todas, que vê implicação encoberta onde nada é implicado, e alusão "imprópria" quando a propriedade não é ultrajada; nem nos deparamos com o refinamento do Século XIX: inocência da palavra e não do pensamento; moralidade da língua e não do coração, e a sincera homenagem prestada à virtude sob o disfarce de uma perfeita hipocrisia. É, de facto, este contraste único entre um elemento pitoresco, cruezas infantis, indecências de berçário e uma fraseologia "vã e amatória" que se atropela com as visões mais elevadas e finas da vida e do carácter, exibido nas mudanças caleidoscópicas do quadro maravilhoso com muita "rica verdade sob a pretensão de um conto"; pontuado por um humor rude e seco que se compara bem com o "wut"; as alternâncias de força e fraqueza, de pathos e bathos, da poesia mais ousada (a dicção de Job) e a prosa mais nua (o egípcio de hoje); o contacto da religião e da moralidade com as orgias do Apuleio africano e de Petronius Arbiter — por vezes tirando o fôlego ao leitor — e, finalmente, o todo dominado por toda a parte por aquela maravilhosa fantasia oriental, na qual o espiritual e o sobrenatural são tão comuns quanto o material e o natural; é este contraste, digo eu, que forma o maior encanto de As Noites, que lhe confere a mais marcante originalidade e que a torna uma perfeita expositora da mente muçulmana medieval.

Notas explicativas não faziam parte do plano do Sr. Payne. Fazem parte do meu: dificilmente imagino As Noites sendo lidas com qualquer proveito pelos homens do Ocidente sem comentário. As minhas anotações evitam apenas um assunto: os paralelos do folclore europeu e dos fabliaux que, por mais interessantes que sejam, inchariam excessivamente o volume de um livro cuja especialidade é a antropologia. Os acidentes da minha vida, pode dizer-se sem presunção indevida, as minhas longas relações com árabes e outros maometanos, e a minha familiaridade não só com o seu idioma, mas com a sua forma de pensar e com aquela individualidade racial que desafia a descrição, deram-me certas vantagens sobre o estudante comum, por mais profundamente que tenha estudado. Estes volumes, além disso, proporcionam-me uma oportunidade há muito procurada de observar práticas e costumes que interessam a toda a humanidade e dos quais a "Sociedade" não quer ouvir falar. Grote, o historiador, e Thackeray, o romancista, ambos lamentaram que a bégueulerie dos seus compatriotas os condenasse ao silêncio onde a publicidade era necessária; e que nem sequer podiam reivindicar a licença parcial de um Fielding e de um Smollett. Daí que, há vinte anos, emprestei a minha melhor ajuda ao falecido Dr. James Hunt na fundação da Sociedade Antropológica, cuja cadeira presidencial ocupei primeiro (pp. 2-4 Anthropologia; Londres, Balliere, vol. i., N.º 1, 1873). O meu motivo foi fornecer aos viajantes um órgão que resgatasse as suas observações das trevas exteriores do manuscrito e imprimisse as suas informações curiosas sobre assuntos sociais e sexuais que não teriam lugar no livro popular destinado ao Nipptisch e que, na verdade, seria melhor manter longe da vista do público. Mas, mal tínhamos começado, a "Respeitabilidade", aquele sepulcro caiado cheio de toda a impureza, levantou-se contra nós. A "Propriedade" gritou contra nós com a sua voz de bronze, e os irmãos de joelhos fracos afastaram-se. Contudo, o órgão era muito necessário e ainda é. Todas as tribos bárbaras agora conhecidas na África Interior, América e Austrália, cujos instintos não foram sobrepostos pela razão, têm uma cerimónia a que chamam "fazer homens". Assim que o rapaz dá provas de puberdade, ele e os seus coetâneos são tomados a cargo pelo médico e pelo Fetisheer; e, sob instrução sacerdotal, passam meses no "mato", suportando privações e torturas que impressionam a memória até que tenham dominado a "teoria e prática" das relações sociais e sexuais. Entre os civilizados, este fruto da árvore do conhecimento deve ser comprado ao preço da experiência mais amarga, e as consequências da ignorância são particularmente cruéis. Aqui, então, encontro finalmente uma oportunidade de observar nas notas explicativas muitos detalhes do texto que escapariam à observação do leitor, e estou confiante de que elas formarão um repertório do conhecimento oriental na sua fase esotérica. O estudante que acrescentar as notas de Lane ("Arabian Society", etc., antes citado) às minhas saberá tanto do Oriente muçulmano, e mais, do que muitos europeus que passaram metade das suas vidas em terras do Oriente. Para facilidade de consulta, um índice de notas antropológicas está anexado a cada volume.

O leitor terá a gentileza de tolerar os seguintes detalhes técnicos. Steinhaeuser e eu começámos e terminámos o nosso trabalho com a primeira edição de Bulak ("Bul.") impressa no porto do Cairo em A.H. 1251=A.D. 1835. Mas ao preparar os meus manuscritos para a impressão, verifiquei que o texto estava incompleto, sendo muitos dos contos apresentados em epítome e não poucos impiedosamente mutilados, faltando-lhes cabeça ou pés. Como a maioria dos escribas orientais, o editor não pôde evitar "melhorias", que apenas aviltaram o livro; e o seu único título para desculpa é que a segunda edição de Bulak (4 vols. A.H. 1279=A.D. 1863), apesar de ser "revista e corrigida pelo Xeque Mahommed Qotch Al-Adewi", é ainda pior; e o mesmo pode ser dito da Edição do Cairo (4 vols. A.H. 1297=A.D. 1881). A Edição de Calcutá ("Calc."), com dez linhas de prefácio persa pelo editor, Ahmed al-Shirwani (A.D. 1814), foi interrompida no final das primeiras duzentas Noites, e assim abriu caminho para a Edição de Sir William Hay Macnaghten (4 vols, in-quarto real) de 1839-42. Esta ("Mac."), por ser de longe a menos corrupta e a mais completa, foi assumida como base, com referência ocasional à Edição de Breslau ("Bres."), miseravelmente editada a partir de um horrível manuscrito egípcio pelo Dr. Maximilian Habicht (1825-43). O Texto de Beirute "Alif-Leila we Leila" (4 vols. in-oitavo grande, Beirute, 1881-83) é um espécime melancólico de As Noites, retirado inteiramente da Edição de Bulak por um tal Khalil Sarkis e convertido ao Cristianismo; começando sem Bismillah, continuado com escrupulosa castração e terminando em tédio e desapontamento. Não utilizei esta produção missionária.

Quanto à transliteração das palavras árabes, rejeito deliberadamente o sistema engenhoso e complicado, feio e desajeitado, aliás, afetado pelos orientalistas científicos modernos. Nem tenho simpatia pelo seu objetivo principal, nomeadamente adaptar o alfabeto romano para substituir todos os outros. Aqueles que aprendem línguas, e muitos fazem-no, tanto pelo olho como pelo ouvido, conhecem bem as vantagens de um caráter especial para distinguir, por exemplo, o siríaco do árabe, o guzerate do marata. Novamente, esta mão romana enfeitiçada pode ter o seu uso em obras puramente científicas e literárias; mas estaria totalmente fora de lugar numa cujo propósito é o do romance: divertir em vez de instruir. Além disso, os dispositivos confundem os simples e não ensinam nada aos instruídos. Ou o leitor sabe árabe, caso em que letras gregas, itálico e "maiúsculas", sinais diacríticos e outras curiosidades tipográficas semelhantes são, como regra, com algumas exceções, desnecessários; ou não sabe árabe, caso em que nenhum destes expedientes lhe será da menor utilidade. Na verdade, é uma questão de consideração secundária qual o sistema que preferimos, desde que adiramos maioritariamente a um e ao mesmo, para benefício de uma consistência que poupa confusão ao leitor. Evitei especialmente o do Sr. Lane, adotado pelo Sr. Payne por razões especiais contra as quais era vão protestar: representa o calão corrompido do Egito ou, melhor, do Cairo; e uma palavra como Kemer (ez-Zeman) seria totalmente impronunciável para um Badawi. Nem segui a prática do meu douto amigo, o Reverendo G. P. Badger, de misturar barras e acentos agudos; os primeiros lembram desagradavelmente ao homem aqueles detestáveis dáctilos e espondeus, e os segundos deveriam, na minha humilde opinião, ser aplicados a vogais longas que em árabe duplicam, ou deveriam duplicar, a duração das curtas. O Dr. Badger usa o símbolo agudo para denotar acento ou ênfase de voz; mas tal appoggio é desconhecido para aqueles que falam com a articulação mais pura; por exemplo, enquanto o europeu pronuncia Mus-cat´ e o aldeão árabe Mas´-kat, os Filhos do Deserto, "em cujas línguas Alá descendeu", articulam Mas-kat. Segui, portanto, o sistema simples adotado na minha "Peregrinação", e acentuei as palavras árabes apenas quando usadas pela primeira vez, achando desnecessário preservar por todo o lado o que é uma ferida para o leitor e um transtorno para o impressor. No geral, sigo "Johnson on Richardson", uma obra conhecida por todo o anglo-orientalista como o antigo e fiel companheiro dos seus estudos, de manhã à noite; mas mesmo aqui fiz várias desvios por razões que serão explicadas no Ensaio final. Como as palavras são a encarnação das ideias e a escrita é a das palavras, assim a palavra é a palavra falada; e devemos escrevê-la como é pronunciada. Estritamente falando, o som-e e o som-o (ou seja, o som-o italiano, não o inglês, que nos é peculiar e desconhecido a qualquer outra língua) não se encontram em árabe, exceto quando a figura Imálah obriga: por isso são chamados "Yá al-Majhúl" e "Waw al-Majhúl", o y (í) desconhecido e o u. Mas em todas as línguas, os sons vocálicos, a carne que reveste os ossos (consoantes) da língua, são afetados pelas consoantes que os precedem e, mais especialmente, que os seguem, endurecendo e suavizando a articulação; e sons mais profundos acompanham certas letras como o sád (ص) comparado com o sín (س). Ninguém, salvo um ouvido defeituoso, sustentaria, como Lane, que "Maulid" (=festival de nascimento) "é pronunciado mais propriamente 'Molid'". No entanto, prefiro Khokh (pêssego) e Jokh (tecido de lã) a Khukh e Jukh; Ohod (monte) a Uhud; Obayd (um pequeno escravo) a Ubayd; e Hosayn (um pequeno forte, não o P. N. Al-Husayn) a Husayn. Quanto ao e curto em palavras como "Memlúk" para "Mamlúk" (um escravo branco), "Eshe" para "Asha" (ceia) e "Yemen" para "Al-Yaman", considero-o um egipcianismo plano, insuportável para um ouvido que admira a pronúncia Badawi. Contudo, prefiro "Shelebi" (um dândi), do turco Chelebi, a "Shalabi"; "Zebdani" (a aldeia síria) a "Zabdani", e "Fes e Miknes" (pela figura Imálah) a "Fás e Miknás", os nossos "Fez e Mequinez".

Relativamente aos nomes próprios e palavras árabes não traduzidas, rejeitei todo o sistema em favor do senso comum. Quando um termo é incorporado na nossa língua, recuso-me a seguir o purista e a mortificar o leitor com uma inovação surpreendente. Por exemplo, Aleppo, Cairo e Bassorah são preferidos a Halab, Kahirah e Al-Basrah; quando uma palavra é semi-naturalizada, como Alcoran ou Koran, Bashaw ou Pasha, que os franceses escrevem Pacha; e Mahomet ou Mohammed (para Muhammad), a forma moderna é adotada por ser a mais familiar. Mas não vejo vantagem em reter, simplesmente porque são erros de uma geração passada, palavras como "Roc" (para Rukh), Khalif (um erro pretensioso para Khalífah e melhor escrito Caliph) e "genie" (=Jinn), uma mera corrupção gaulesa não tão terrível, contudo, como "a Bedouin" (=Badawi). Tão pouco seguiria o Sr. Lane ao impingir ao público tais arabismos como "Khuff" (uma bota de montaria), "Mikra'ah" (uma vara de palma) e uma multidão de outros para os quais temos bons equivalentes em inglês. Por outro lado, usaria, mas usaria parcimoniosamente, certas exclamações árabes, como "Bismillah" (=em nome de Alá!) e "Inshallah" (=se Alá quiser!), que têm aplicações especiais e que foram tornadas familiares aos ouvidos ingleses pelo génio de Fraser e Morier.

Termino aqui estes detalhes descosidos mas necessários para me dirigir ao leitor com algumas palavras finais. Ele não pensará levianamente no meu trabalho quando lhe repetir que, com a ajuda das minhas anotações, que suplementam as de Lane, o estudante aprenderá de forma fácil e agradável mais sobre os modos e costumes, leis e religião dos muçulmanos do que o orientalista comum sabe; e, se os meus esforços o induzirem a atacar o texto de As Noites, ele tornar-se-á mestre de muito mais árabe do que o árabe comum possui. Este livro é, de facto, um legado que deixo aos meus compatriotas na sua hora de necessidade. A devoção excessiva à literatura hindu, e especialmente à sânscrita, desviou-os daqueles estudos (assim chamados) "semíticos", que são tanto mais necessários para nós quanto nos ensinam a lidar com sucesso com uma raça mais poderosa do que quaisquer pagãos — os muçulmanos. Aparentemente, a Inglaterra esquece-se sempre de que é, atualmente, o maior império maometano do mundo. Nos últimos anos, negligenciou sistematicamente o arabismo e, de facto, desencorajou-o ativamente nos exames para o Serviço Civil Indiano, onde é incomparavelmente mais valioso do que o grego e o latim. Daí que, quando subitamente compelida a assumir as rédeas do governo em terras muçulmanas, como o Afeganistão nos tempos passados e o Egito atualmente, ela falha de uma forma que escandaliza os seus poucos (muito poucos) amigos; e a sua crassa ignorância sobre os povos orientais que mais deveriam interessar-lhe expõe-na ao desprezo da Europa, bem como do mundo oriental. Quando os lamentáveis ataques de 1883-84, culminando nos miseráveis assuntos de Tokar, Teb e Tamasi, foram feitos contra os galantes negroides sudaneses, os Bisharin nos arredores de Sawakin, que lutavam pela causa sagrada da liberdade e da religião e para escapar aos capatazes turcos e cobradores de impostos egípcios, nenhum oficial inglês no acampamento, após a morte do galante e lamentado Major Morice, era capaz de falar árabe. Ora, os muçulmanos não devem ser governados por jovens inexperientes que deveriam estar na escola e na faculdade em vez de ocuparem cargos de confiança e emolumentos. Aquele que quiser lidar com eles com sucesso deve ser, em primeiro lugar, honesto e verdadeiro e, em segundo lugar, familiarizado e favoravelmente inclinado para com os seus modos e costumes, se não para com a sua lei e religião. Podemos, talvez, achar difícil restaurar à Inglaterra aquelas virtudes primordiais, aquele tom e temperamento, que a fizeram o que é; mas, de qualquer forma, nós (eu e uma multidão de outros) podemos oferecer-lhe os meios de dissipar a sua ignorância sobre as raças orientais com as quais ela está continuamente em contacto.

Em conclusão, não devo esquecer de mencionar que as ornamentações árabes destes volumes foram desenhadas pelo meu excelente amigo Yacoub Artin Pasha, do Ministério da Instrução, Cairo, com a ajuda do bem conhecido artista da escrita, Shaykh Mohammed Muunis, o cairota. O meu nome, Al-Hajj Abdullah (=o Peregrino Abdallah), foi escrito por um calígrafo inglês, o lamentado Professor Palmer, que encontrou uma morte prematura quase à vista de Suez.

RICHARD F. BURTON.

WANDERERS' CLUB, 15 de agosto de 1885.

CONTEÚDO DO PRIMEIRO VOLUME.

PÁGINA

INTRODUÇÃO 1

HISTÓRIA DO REI SHAHRYAR E SEU IRÃO 2

a. CONTO DO TOURO E DO ASNO 16

(Lane, vol. I., 1-16.)

1. CONTO DO MERCADOR E DO JINNI 24

(Cap. I. História do Mercador e do Jinnee: p. 43.)

a. A HISTÓRIA DO PRIMEIRO XEQUE 27

(História do Primeiro Xeque e da Gazela: p. 48.)

b. A HISTÓRIA DO SEGUNDO XEQUE 32

(História do Segundo Xeque e dos dois Cães Negros: p. 52.)

c. A HISTÓRIA DO TERCEIRO XEQUE 36

(História do Terceiro Xeque e da Mula: p. 56.)

2. O PESCADOR E O JINNI 38

(Cap. II. História do Pescador: p. 78.)

a. CONTO DO WAZIR E DO SÁBIO DUBAN 45

(História do Rei Yoonan e do Sábio Dooban: p. 84.)

ab. HISTÓRIA DO REI SINDIBAD E DO SEU FALCÃO 50

ac. CONTO DO MARIDO E DO PAPAGAIO 52

(História do Marido e do Papagaio: p. 89.)

ad. CONTO DO PRÍNCIPE E DA OGRA 54

(História do Wezeer Invejoso e do Príncipe e da Ghoolah: p. 91.)

b. CONTO DO PRÍNCIPE ENCANTADO 69

(História do Jovem Rei das Ilhas Negras: p. 106.)

3. O PORTEIRO E AS TRÊS SENHORAS DE BAGHDAD 82

(Cap. III. História do Porteiro e das Senhoras de Baghdad, e dos três Mendicantes Reais, etc.: p. 136.)

a. A HISTÓRIA DO PRIMEIRO KALANDAR 104

(História do Primeiro Mendicante Real: p. 150.)

b. A HISTÓRIA DO SEGUNDO KALANDAR 113

(História do Segundo Mendicante Real: p. 157.)

ba. CONTO DO INVEJOSO E DO INVEJADO 123

(História do Invejoso e do Invejado: p. 166.)

c. A HISTÓRIA DO TERCEIRO KALANDAR 139

(História do Terceiro Mendicante Real: p. 178.)

d. A HISTÓRIA DA SENHORA MAIS VELHA 162

e. CONTO DA PORTEIRA 173

CONCLUSÃO DA HISTÓRIA DO PORTEIRO E DAS TRÊS SENHORAS 184

4. CONTO DAS TRÊS MAÇÃS 186

(Cap. IV. História das Três Maçãs, etc.: p. 250.)

5. CONTO DE NUR AL-DIN ALI E DO SEU FILHO BADR AL-DIN HASAN 195

(História de Noor ed-Deen e do seu Filho, e de Shems ed-Deen e da sua Filha: p. 253.)

6. A HISTÓRIA DO CORCUNDA 255

(Cap. V. História do Corcunda: p. 238.)

a. A HISTÓRIA DO CORRETOR NAZARENO 262

(História contada pelo Corretor Cristão: p. 334.)

b. A HISTÓRIA DO INTENDENTE 278

(História contada pelo Intendente do Sultão: p. 348.)

c. CONTO DO MÉDICO JUDEU 288

(História contada pelo Médico Judeu: p. 359.)

d. CONTO DO ALFAIATE 300

(História contada pelo Alfaiate: p. 368.)

e. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE SI MESMO 317

(História do Barbeiro sobre Si Mesmo: p. 383.)

ea. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU PRIMEIRO IRÃO 319

(História do Barbeiro sobre o seu Primeiro Irão: p. 385.)

eb. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU SEGUNDO IRÃO 324

(História do Barbeiro sobre o seu Segundo Irão: p. 389.)

ec. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU TERCEIRO IRÃO 328

(História do Barbeiro sobre o seu Terceiro Irão: p. 392)

ed. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU QUARTO IRÃO 331

(História do Barbeiro sobre o seu Quarto Irão: p. 396.)

ee. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU QUINTO IRÃO 335

(História do Barbeiro sobre o seu Quinto Irão: p. 400.)

ef. A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU SEXTO IRÃO 343

(História do Barbeiro sobre o seu Sexto Irão.)

O FIM DA HISTÓRIA DO ALFAIATE 348

O LIVRO DAS MIL E UMA NOITES. (ALF LAYLAH WA LAYLAH.)

Em Nome de Alá, o Compassivo, o Misericordioso!

LOUVADO SEJA ALÁ ✿ O REI BENÉFICO ✿ O CRIADOR DO UNIVERSO ✿ SENHOR DOS TRÊS MUNDOS ✿ QUE ESTABELECEU O FIRMAMENTO SEM PILARES NO SEU LUGAR ✿ E QUE ESTENDEU A TERRA COMO UMA CAMA ✿ E GRAÇA, E ORAÇÃO E BÊNÇÃO SEJAM SOBRE O NOSSO SENHOR MOHAMMED ✿ SENHOR DOS HOMENS APOSTÓLICOS ✿ E SOBRE A SUA FAMÍLIA E O SEU SÉQUITO ✿ ORAÇÃO E BÊNÇÃOS DURADOURAS E GRAÇA QUE ATÉ AO DIA DO JUÍZO PERMANECERÃO ✿ ÁMEN! ✿ Ó TU, SOBERANO DOS TRÊS MUNDOS!

"Se o sol do rosto dela se revela, o dia brilha e irradia luz; Se ela levanta o véu de seus cabelos, a noite escura se faz escura. Ela tem o frescor da lua cheia, a graça da gazela e a doçura da cana-de-açúcar; Pois Deus a adornou com atributos que, na criação, nenhum outro ser possui."

O Jinni sentou-a sob a árvore, ao lado dos dois reis que, do alto, não podiam vê-los por causa da densa folhagem. Depois de algum tempo, a donzela ergueu a cabeça para o topo da árvore e viu os dois homens; então, ela disse ao Jinni: "Ó tu, ó tu, Jinni maldito! Dize-me, quem são estes dois homens que estão empoleirados na árvore?" O Jinni levantou a cabeça e, vendo os dois reis, perguntou-lhes: "Quem sois vós e o que fazeis aqui?" Eles responderam: "Somos dois viajantes que, por causa da distância, fomos forçados a passar a noite nesta árvore." O Jinni, ouvindo isso, disse: "Vós sois dois homens, por isso descerei e vos matarei." Então a donzela disse: "Ó tu, ó tu, Jinni, se tu não os matares, eu farei algo que te desagradará." O Jinni respondeu: "Por causa da tua insistência, eu os pouparei." Então, ele se aproximou dos dois reis e disse: "Ó vós que estais na árvore, descei imediatamente, ou eu vos matarei!" Eles desceram tremendo de medo, e o Jinni, voltando-se para a donzela, disse: "Vem aqui, ó minha querida!" Ela se aproximou dele, e ele, deitando-se sobre o gramado, colocou a cabeça no colo dela e caiu em sono profundo, soltando um ronco como o trovão.

Assim que ele adormeceu, a donzela, com delicadeza, removeu a cabeça dele de seu colo e colocou-a no chão. Depois, ela se levantou e, aproximando-se dos dois reis, fez-lhes um sinal com a mão para que descessem. Quando eles desceram, ela lhes disse em voz baixa: "Preparai-vos para o que vos peço, pois este Jinni, enquanto dorme, coloca a cabeça no meu colo, mas ele me sequestrou no dia do meu casamento. Ele me colocou nesta caixa, fechou-a com sete cadeados e me trancou no fundo do mar, mas eu escapei. Agora, ó homens, se quiserdes, fazei o que bem entenderdes comigo; pois, se não o fizerdes, eu despertarei o Jinni e ele vos matará cruelmente." Os reis, temendo o Jinni, disseram: "Pelo amor de Deus, perdoa-nos, pois não temos força para tal." Mas ela insistiu, dizendo: "Vós deveis fazê-lo, caso contrário, eu o acordarei." Então, por medo, eles se aproximaram dela. Quando terminaram, ela tirou do bolso uma pequena bolsa e dela retirou um colar com noventa e oito anéis, cada um pertencente a um homem que havia estado com ela. Ela então lhes disse: "Sabei que estes noventa e oito homens possuíram a mim, assim como vós dois, e todos eles foram amantes deste Jinni. Portanto, tomai estes noventa e oito anéis e acrescentai a eles os vossos dois, para que o colar fique com cem."

Os dois reis, vendo isso, ficaram pasmos e disseram um ao outro: "Se isto acontece com um Jinni, cujo poder é tão vasto, então o nosso infortúnio é muito menor. Louvado seja Deus pelo que vimos!" Após isso, eles pediram permissão para partir. Ela respondeu: "Ide agora em paz!" Os reis partiram imediatamente e viajaram até chegarem à capital do Rei Shahryar. Ao entrarem no palácio, Shahryar ordenou que sua esposa fosse decapitada e, em seguida, matou todas as suas concubinas e escravos. Desde aquele dia, ele tomou uma resolução firme: "Nunca mais haverá uma esposa fiel na face da terra; cada noite, desposarei uma virgem e, ao amanhecer, mandarei matá-la." E assim ele fez por três anos, até que o povo começou a fugir com suas filhas, e não restou, em toda a cidade, quase nenhuma donzela que pudesse ser esposa do rei.

Ela se ergueu como a alvorada, brilhando através da noite, e dourou o arvoredo com sua visão graciosa: De seu esplendor o sol retira o aumento, quando ela se revela e envergonha o brilho da lua. Curvam-se todos os seres diante de suas mãos, enquanto ela exibe encantos com seu véu despido. E ela inunda cidades com torrentes de lágrimas, quando lampeja seu olhar de luz fulgurante.

O Jinni sentou-a sob a árvore, ao seu lado, e olhando para ela disse: "Ó amor mais precioso deste meu coração! Ó dama de linhagem nobre, a quem arrebatei na noite de tuas núpcias, para que ninguém pudesse me impedir de tomar tua virgindade ou de possuir-te antes de mim, e a quem ninguém além de mim amou ou desfrutou: Ó minha amada! Eu gostaria de dormir um pouco." Ele então deitou a cabeça sobre as coxas da dama; e, esticando as pernas, que se estendiam até o mar, dormiu e roncou, fazendo um barulho como o rolar do trovão. De imediato, ela elevou a cabeça em direção à copa da árvore e viu os dois Reis empoleirados perto do topo; então, suavemente, levantou de seu colo a cabeça do Jinni, que estava cansada de sustentar, e a colocou sobre o chão; depois, pondo-se de pé sob a árvore, fez um sinal aos Reis: "Descei, vós dois, e nada temais deste Ifrít." Eles estavam em terrível pavor ao descobrir que ela os vira e responderam da mesma maneira: "Por Allah, e por tua modéstia, ó dama, dispensa-nos de descer!" Mas ela replicou dizendo: "Por Allah, ambos vós deveis descer imediatamente, e se não vierdes, despertarei meu marido, este Ifrít, e ele vos fará morrer da pior das mortes"; e ela continuou a fazer-lhes sinais. Assim, temerosos, desceram até ela, e ela se levantou diante deles e disse: "Fazei-me um ato vigoroso, sem demora ou hesitação, caso contrário despertarei e lançarei sobre vós este Ifrít, que vos matará prontamente." Eles lhe disseram: "Ó nossa senhora, conjuramo-te por Allah, livra-nos deste trabalho, pois somos fugitivos de tal coisa e estamos em extremo pavor e terror deste teu marido. Como então podemos fazê-lo da maneira que desejas?" "Deixai essa conversa: tem de ser assim", disse ela, e jurou-os por Aquele que elevou os céus no alto, sem suporte ou pilar, que, se não fizessem sua vontade, ela faria com que fossem mortos e lançados ao mar. Ao que, por medo, o Rei Shahryar disse ao Rei Shah Zaman: "Ó meu irmão, faze o que ela te ordena"; mas ele replicou: "Não o farei até que tu o faças antes de mim." E começaram a discutir sobre quem a possuiria. Então, disse ela aos dois: "Como vejo que estais discutindo e hesitando? Se não avançardes como homens e fizerdes o ato da espécie, vós dois, despertarei o Ifrít contra vós." A isto, devido ao seu profundo pavor do Jinni, ambos fizeram com ela o que ela lhes ordenou; e, quando se retiraram dela, ela disse: "Muito bem!" Ela então tirou de seu bolso uma bolsa e extraiu um fio com nós, onde estavam enfiados quinhentos e setenta anéis de selo, e perguntou: "Sabeis o que são estes?" Eles responderam-lhe dizendo: "Não sabemos!" Então ela disse: "Estes são os sinetes de quinhentos e setenta homens que me possuíram todos sobre os chifres deste Ifrít vil, tolo e imundo; portanto, dai-me também vossos dois anéis de selo, vós, par de irmãos." Quando tiraram os anéis das mãos e lhos deram, ela lhes disse: "Na verdade, este Ifrít me levou na noite de minhas núpcias, colocou-me num esquife, pôs o esquife num cofre e ao cofre afixou sete pesados cadeados de aço, e depositou-me no fundo profundo do mar que ruge, debatendo-se e colidindo com ondas; e guardou-me para que eu permanecesse casta e honesta, diz ele! Para que ninguém além dele pudesse ter relações comigo. Mas eu me deitei com tantos da minha espécie quantos desejei, e este Jinni miserável não sabe que o Destino não pode ser evitado nem impedido por nada, e que aquilo que a mulher deseja, ela cumpre, não importa o quanto o homem se oponha. Assim diz um deles:

Não confies nas mulheres; não confies em seus corações, Cujas alegrias e cujas tristezas estão ligadas às suas partes! Amor mentiroso te jurarão, de onde o dolo jamais parte: Toma Yusuf por exemplo, acautela-te dos estratagemas e das dores! Iblis expulsou Adão (não vedes?) através de suas artes.

E outro diz:

"Contém tua censura, homem! Isso levará a uma paixão sem limites; Minha falha não é tão pesada quanto a falha que nela encontraste. Se me torno um amante verdadeiro, então a mim não chega Senão o que aconteceu a muitos nos tempos passados. Pois maravilhoso é ele e muito digno de nosso louvor Aquele que das astúcias do engenho feminino se manteve seguro e são."

Ouvindo estas palavras, maravilharam-se com extremo assombro, e ela foi deles até o Ifrít e, tomando sua cabeça sobre a coxa como antes, disse-lhes suavemente: "Agora segui vossos caminhos e mantende-vos além das fronteiras de sua malícia." Então partiram, dizendo um ao outro: "Allah! Allah!" e, "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande; e nEle buscamos refúgio contra a malícia e a astúcia das mulheres, pois, em verdade, não há igual na força. Considera, ó meu irmão, os modos desta dama maravilhosa com um Ifrít que é muito mais poderoso do que nós. Agora, visto que lhe aconteceu um infortúnio maior do que aquele que nos atingiu, o que nos deve servir de abundante consolação, regressemos aos nossos países e capitais, e decidamos nunca nos casar com a linhagem feminina e, em breve, mostraremos a elas qual será a nossa ação." Com isso, cavalgaram de volta às tendas do Rei Shahryar, onde chegaram na manhã do terceiro dia; e, tendo reunido os Wazires e Emires, os Camareiros e altos funcionários, ele deu um manto de honra ao seu Vice-rei e emitiu ordens para um retorno imediato à cidade. Lá ele se sentou em seu trono e, enviando buscar o Ministro-Chefe, o pai das duas donzelas que (Inshallah!) serão mencionadas em breve, disse: "Ordeno-te que tomes minha esposa e a firas até a morte; pois ela quebrou sua promessa e sua fé." Assim, ele a levou ao local de execução e a fez morrer. Então, o Rei Shahryar tomou a espada na mão e, dirigindo-se ao Serralho, matou todas as concubinas e seus Mamelucos. Ele também jurou por um juramento vinculativo que, qualquer que fosse a esposa com quem se casasse, ele tiraria sua virgindade à noite e a mataria na manhã seguinte para garantir sua honra; "Pois", disse ele, "nunca houve nem há uma mulher casta sobre a face da terra." Então Shah Zaman pediu permissão para viajar para casa; e ele partiu, equipado e escoltado, e viajou até chegar ao seu próprio país. Enquanto isso, Shahryar ordenou ao seu Wazir que lhe trouxesse a noiva da noite para que ele pudesse possuí-la; então ele apresentou uma moça belíssima, filha de um dos Emires, e o Rei entrou nela ao entardecer, e quando a manhã amanheceu, ordenou ao seu Ministro que lhe cortasse a cabeça; e o Wazir agiu de acordo, por medo do Sultão. Desta forma, ele continuou pelo espaço de três anos; casando-se com uma donzela a cada noite e matando-a na manhã seguinte, até que o povo levantou um clamor contra ele e o amaldiçoou, rezando para que Allah destruísse completamente a ele e ao seu governo; e as mulheres fizeram um alvoroço, as mães choraram e os pais fugiram com suas filhas até que não restou na cidade uma jovem apta para a cópula carnal. Logo, o Rei ordenou ao seu Wazir-Chefe, o mesmo que estava encarregado das execuções, que lhe trouxesse uma virgem como era seu costume; e o Ministro saiu, procurou e não encontrou nenhuma; então voltou para casa em tristeza e ansiedade, temendo por sua vida diante do Rei. Ele tinha duas filhas, chamadas Shahrázád e Dunyázád, das quais a mais velha havia lido os livros, anais e lendas dos Reis precedentes, e as histórias, exemplos e casos de homens e coisas passados; de fato, dizia-se que ela havia colecionado mil livros de histórias referentes a raças antigas e governantes falecidos. Ela havia lido as obras dos poetas e os sabia de cor; estudara filosofia e as ciências, artes e realizações; e ela era agradável e polida, sábia e espirituosa, bem lida e bem educada. Então, naquele dia, ela disse ao seu pai: "Por que te vejo assim mudado e carregado de preocupação e cuidado? Sobre este assunto, disse um dos poetas:

Dize àquele que tem tristeza: a dor jamais durará: Assim como a alegria não tem amanhã, o sofrimento passará."

Quando o Wazir ouviu de sua filha estas palavras, relatou-lhe, do princípio ao fim, tudo o que havia acontecido entre ele e o Rei. Então ela disse: "Por Allah, ó meu pai, até quando durará este massacre de mulheres? Queres que eu te diga o que está em minha mente, a fim de salvar ambos os lados da destruição?" "Fala, ó minha filha", disse ele, e ela disse: "Desejo que me dês em casamento a este Rei Shahryar; ou eu viverei, ou serei um resgate para as filhas virgens dos muçulmanos e a causa de sua libertação de suas mãos e das tuas." "Por Allah!" gritou ele em ira extrema que não precisava de alimentação, "Ó de pouco entendimento, não exponhas tua vida a tal perigo! Como ousas dirigir-te a mim com palavras tão distantes da sabedoria e não tão longe da tolice? Sabe que aquele que carece de experiência em assuntos mundanos facilmente cai na desventura; e aquele que não considera o fim não mantém o mundo como amigo, e o vulgo diz: — Eu estava deitado à vontade: nada além da minha intromissão me trouxe inquietação." "Precisas", ela interrompeu, "fazer-me uma executora deste bom ato, e deixa-o matar-me se ele quiser: morrerei apenas como resgate para outros." "Ó minha filha", perguntou ele, "e como isso te beneficiará quando tiveres jogado fora tua vida?" e ela respondeu: "Ó meu pai, deve ser, aconteça o que acontecer!" O Wazir foi novamente levado à fúria e a censurou e repreendeu, terminando com: "Em verdade, temo que aconteça contigo o que aconteceu ao Touro e ao Asno com o Lavrador." "E o que", perguntou ela, "lhes aconteceu, ó meu pai?" Ao que o Wazir começou o

CONTO DO TOURO E DO ASNO.

Sabe, ó minha filha, que houve uma vez um mercador que possuía muito dinheiro e muitos homens, e que era rico em gado e camelos; ele também tinha uma esposa e família e morava no campo, sendo experiente na lavoura e dedicado à agricultura. Ora, Allah Altíssimo o havia dotado com a compreensão das línguas das feras e aves de todo tipo, mas sob pena de morte se divulgasse o dom a qualquer um. Então ele o manteve em segredo por puro medo. Ele tinha em seu estábulo um Touro e um Asno, cada um amarrado em sua baia, uma bem próxima da outra. Como o mercador estava sentado perto um dia com seus servos e seus filhos brincavam ao redor dele, ele ouviu o Touro dizer ao Asno: "Saudações e saúde a ti, ó Pai do Despertar! Pois tu desfrutas de descanso e bom tratamento; tudo sob ti é limpo e fresco, os homens cuidam de ti e te alimentam, e tua ração é cevada peneirada e tua bebida água pura de nascente, enquanto eu (criatura infeliz!) sou levado para fora no meio da noite, quando colocam em meu pescoço o arado e algo chamado Jugo; e eu me canso de abrir a terra desde o romper do dia até o pôr do sol. Sou forçado a fazer mais do que posso e a suportar todo tipo de maus-tratos noite após noite; após o que me levam de volta com meus flancos rasgados, meu pescoço esfolado, minhas pernas doloridas e minhas pálpebras feridas com lágrimas. Então eles me fecham no estábulo e me jogam feijões e palha triturada, misturados com sujeira e farelo; e eu jazendo em esterco e imundície e fedores fétidos durante toda a longa noite. Mas tu estás sempre num lugar limpo e aspergido, e estás sempre deitado à vontade, exceto quando acontece (e raramente!) que o mestre tem algum negócio, quando ele monta em ti e te leva à cidade e retorna contigo imediatamente. Assim acontece que eu estou labutando e angustiado enquanto tu desfrutas de tua facilidade e teu descanso; tu dormes enquanto eu estou sem dormir; eu passo fome enquanto tu comes até a saciedade, e eu ganho desprezo enquanto tu ganhas boa vontade." Quando o Touro parou de falar, o Asno virou-se para ele e disse: "Ó de Testa Larga, ó tu, perdido! Não mentiu quem te apelidou de Cabeça de Touro, pois tu, ó pai de um Touro, não tens nem previsão nem engenho; tu és o mais simples dos simplórios, e não sabes nada de bons conselheiros. Não ouviste o ditado dos sábios: —

Para outros, estas dificuldades e trabalhos eu suporto, e deles é o prazer e minha é a preocupação; Como o branqueador que enegrece a testa ao sol para branquear a veste que outros homens vestem.

Mas tu, ó tolo, és cheio de zelo e trabalhas e te molestas diante do mestre; e te rasgas e te desgastas e te matas pelo conforto de outro. Nunca ouviste o provérbio que diz: 'Sem guia, do caminho se desvia'? Tu sais ao chamado para a oração da alvorada e não retornas até o pôr do sol; e durante todo o dia suportas todo tipo de dificuldades; a saber, espancamento e surras e linguagem ruim. Agora escuta-me, Senhor Touro! quando eles te amarram à tua manjedoura fedorenta, tu cavas o chão com a pata dianteira e dás coices com as patas traseiras e empurras com os chifres e muge em voz alta, por isso eles te julgam contente. E quando te jogam tua forragem tu cais sobre ela com avidez e te apressas a encher tua bela pança gorda. Mas se aceitares meu conselho, será melhor para ti e levarás uma vida mais fácil até mesmo que a minha. Quando fores ao campo e colocarem a coisa chamada Jugo em teu pescoço, deita-te e não te levantes novamente, embora talvez eles te açoitarem; e, se te levantares, deita-te uma segunda vez; e quando te trouxerem para casa e te oferecerem teus feijões, cai para trás e apenas fareja tua comida e retira-te e não a proves, e contenta-te com tua palha triturada e farelo; e desta forma finge que estás doente, e não pares de fazer assim por um dia ou dois dias ou até três dias, assim terás descanso do trabalho e da labuta." Quando o Touro ouviu estas palavras, soube que o Asno era seu amigo e agradeceu-lhe, dizendo: "Correto é teu conselho;" e rezou para que todas as bênçãos o recompensassem, e gritou: "Ó Pai Despertador! tu compensaste minhas falhas." (Ora, o mercador, ó minha filha, entendia tudo o que passava entre eles.) No dia seguinte, o condutor pegou o Touro e, ajustando o arado em seu pescoço, fez com que ele trabalhasse como de costume; mas o Touro começou a evitar seu arado, de acordo com o conselho do Asno, e o lavrador o surrou até que ele quebrou o jugo e fugiu; mas o homem o alcançou e o açoitou até que ele desesperou de sua vida. Não obstante, ele não faria nada além de ficar parado e cair até a noite. Então o pastor o levou para casa e o estabulou em sua baia: mas ele recuou de sua manjedoura e nem pateou nem saltou nem deu cabeçadas nem mugiu como costumava fazer; com o que o homem se maravilhou. Ele trouxe-lhe os feijões e cascas, mas ele os farejou e os deixou e deitou-se o mais longe que pôde e passou a noite inteira em jejum. O camponês veio na manhã seguinte; e, vendo a manjedoura cheia de feijões, a palha triturada não provada e o boi deitado de costas em estado deplorável, com as pernas estendidas e a barriga inchada, preocupou-se com ele e disse a si mesmo: "Por Allah, ele certamente adoeceu e esta é a causa pela qual ele não quis arar ontem." Então ele foi até o mercador e relatou: "Ó meu mestre, o Touro está adoentado; ele recusou sua forragem ontem à noite; mais ainda, ele não provou um bocado dela esta manhã." Ora, o mercador-fazendeiro entendia o que tudo aquilo significava, porque ouvira a conversa entre o Touro e o Asno, então disse: "Pega aquele jumento patife, e coloca o jugo em seu pescoço, e amarra-o ao arado e faze-o trabalhar o trabalho do Touro." Então o lavrador pegou o Asno, e trabalhou-o durante todo o dia na tarefa do Touro; e, quando ele falhou por fraqueza, fez com que ele comesse pau até que suas costelas estivessem doloridas e seus flancos estivessem fundos e seu pescoço estivesse esfolado pelo jugo; e quando ele voltou para casa à noite, mal podia arrastar seus membros, tanto os dianteiros quanto os traseiros. Mas quanto ao Touro, ele passara o dia deitado em todo o seu comprimento e comera sua forragem com um excelente apetite, e não parou de invocar bênçãos sobre o Asno por seu bom conselho, sem saber o que lhe acontecera por sua conta. Então, quando a noite caiu e o Asno retornou ao estábulo, o Touro levantou-se diante dele em honra e disse: "Que boas novas alegrem teu coração, ó Pai Despertador! Através de ti descansei todo este dia e comi minha carne em paz e tranquilidade." Mas o Asno não respondeu, por ira e ardor no coração e fadiga e pelo espancamento que recebera; e arrependeu-se com o mais grave dos arrependimentos; e disse a si mesmo: "Isto vem de minha tolice em dar bons conselhos; como diz o ditado, eu estava em alegria e felicidade, nada além da minha intromissão me trouxe esta tristeza. Mas terei em mente meu valor inato e a nobreza da minha natureza; pois o que diz o poeta?

Deve a bela cor do Manjericão falhar, embora o pé do besouro sobre o Manjericão rasteje? E embora aranha e mosca sejam seus habitantes, deve o desgraça se fixar ao salão real? O búzios, eu sei, terá curso, mas a pérola clara, deve seu valor cair?

"E agora devo refletir e pregar-lhe uma peça e devolvê-lo ao seu lugar, senão morrerei." Então, ele se foi, exausto, para sua manjedoura, enquanto o Boi lhe agradecia e o abençoava. "E exatamente assim, ó minha filha", disse o Vizir, "tu morrerás por falta de juízo; portanto, fica quieta e nada digas e não exponhas tua vida a tal estresse; pois, por Allah, ofereço-te o melhor conselho, que vem do meu afeto e da minha terna solicitude por ti." "Ó meu pai", respondeu ela, "tenho de subir até este Rei e casar-me com ele." Ele disse: "Não faças este feito"; e ela replicou: "Na verdade, eu o farei": ao que ele respondeu: "Se não fores silenciosa e não te mantiveres quieta, farei contigo exatamente o que o mercador fez com sua esposa." "E o que ele fez?", perguntou ela. Fica sabendo, então, respondeu o Vizir, que, após o retorno do Asno, o mercador saiu ao terraço com sua esposa e família, pois era uma noite de luar e a lua estava cheia. O terraço dava para a estrebaria e, logo, enquanto ele se sentava ali com os filhos brincando ao seu redor, o mercador ouviu o Asno dizer ao Boi: "Dize-me, ó pai Testa-Larga, o que pretendes fazer amanhã?" O Boi respondeu: "O que senão continuar a seguir teu conselho, ó Aliboron? Na verdade, foi tão bom quanto poderia ser e me deu descanso e repouso; nem me desviarei dele um milímetro: assim, quando me trouxerem minha comida, recusar-la-ei, incharei minha barriga e fingirei que estou doente." O Asno balançou a cabeça e disse: "Cuidado com isso, ó Pai de um Boi!" O Boi perguntou: "Por quê?", e o Asno respondeu: "Fica sabendo que estou prestes a te dar o melhor dos conselhos, pois ouvi nosso dono dizer ao pastor: 'Se o Boi não se levantar do seu lugar para fazer seu trabalho esta manhã e se ele se afastar da sua forragem hoje, entregai-o ao açougueiro para que ele o abata e dê sua carne aos pobres, e faça um pedaço de couro de sua pele'. Agora, temo por ti por causa disso. Então, aceita meu conselho antes que uma calamidade te sobrevenha; e quando te trouxerem tua forragem, come-a e levanta-te e muge e cava o chão, ou nosso mestre certamente te matará: e que a paz esteja contigo!" Nisso, o Boi levantou-se e mugiu alto e agradeceu ao Asno, e disse: "Amanhã irei prontamente com eles"; e ele imediatamente comeu toda a sua comida e até lambeu a manjedoura. (Tudo isso aconteceu e o dono estava ouvindo a conversa deles.) Na manhã seguinte, o mercador e sua esposa foram ao estábulo do Boi e sentaram-se, e o condutor veio e levou o Boi, que, vendo seu dono, abanou o rabo e soltou um peido, e saltitou tão vigorosamente que o mercador soltou uma grande risada e continuou rindo até cair de costas. Sua esposa perguntou-lhe: "De que te ris com tal gargalhada?"; e ele respondeu-lhe: "Ri de um segredo que ouvi e vi, mas não posso dizer, senão morrerei". Ela insistiu: "À força deves revelar-me, e expor a causa do teu riso, mesmo que encontres a morte!" Mas ele respondeu: "Não posso revelar o que as bestas e os pássaros dizem em sua língua por medo de morrer". Então disse ela: "Por Allah, tu mentes! Isso é um mero pretexto: não ris de ninguém senão de mim, e agora queres esconder algo de mim. Mas pelo Senhor dos Céus! Se não revelares a causa, não coabitarei mais contigo: deixar-te-ei imediatamente". E ela sentou-se e chorou. Ao que o mercador disse: "Ai de ti! O que significa teu pranto? Teme a Allah e deixa essas palavras e não me faças mais perguntas". "Tens de me dizer a causa daquele riso", disse ela, e ele respondeu: "Tu sabes que quando rezei a Allah para me conceder a compreensão das línguas das bestas e dos pássaros, fiz um voto de nunca revelar o segredo a ninguém sob pena de morrer no mesmo instante". "Não importa", gritou ela, "dize-me que segredo passou entre o Boi e o Asno e morre nesta mesma hora se assim o desejares"; e ela não cessou de importuná-lo até que ele estivesse exausto e completamente perturbado. Então, finalmente, ele disse: "Chama teu pai e tua mãe e nossos parentes e vários de nossos vizinhos", o que ela fez; e ele mandou chamar o Kazi e seus assessores, pretendendo fazer seu testamento e revelar-lhe seu segredo e morrer; pois ele a amava com amor excessivo porque ela era sua prima, filha do irmão de seu pai, e mãe de seus filhos, e ele vivera com ela uma vida de cento e vinte anos. Então, tendo reunido toda a família e o povo de sua vizinhança, disse-lhes: "Sobre mim paira uma história estranha, e é tal que, se eu revelar o segredo a alguém, sou um homem morto". Portanto, cada um dos presentes disse à mulher: "Por Allah, deixa essa obstinação pecaminosa e reconhece a retidão desta questão, para que, talvez, teu marido e o pai de teus filhos não morra". Mas ela respondeu: "Não me desviarei disso até que ele me conte, mesmo que ele encontre a morte". Assim, eles pararam de insistir; e o mercador levantou-se do meio deles e retirou-se para um anexo para realizar a ablução Wuzu, e ele pretendia, depois disso, retornar e contar-lhes seu segredo e morrer. Agora, filha Shahrazad, aquele mercador tinha em seus anexos umas cinquenta galinhas sob um galo, e enquanto se preparava para despedir-se de seu povo, ouviu um de seus muitos cães de fazenda dirigir-se em sua própria língua ao Galo, que batia as asas e cantava vigorosamente e saltava das costas de uma galinha para a de outra e cobria todas, uma por uma, dizendo: "Ó Cantor! Quão mesquinho é teu juízo e quão sem vergonha é tua conduta! Que seja decepcionado quem te criou? Não tens vergonha de tuas ações em um dia como este?" "E o que", perguntou o Galo, "aconteceu hoje?", ao que o Cão respondeu: "Não sabes que nosso mestre está hoje preparando-se para sua morte? Sua esposa está decidida a que ele revele o segredo que lhe foi ensinado por Allah, e no momento em que ele o fizer, certamente morrerá. Nós, cães, estamos todos de luto; mas tu bates tuas asas e cantas o mais alto que podes e cobres galinha após galinha. É esta uma hora para passatempos e prazeres? Não tens vergonha de ti mesmo?" "Então, por Allah", disse o Galo, "nosso mestre é um tolo e um homem de pouco senso: se ele não consegue controlar as coisas com uma única esposa, sua vida não vale a pena ser prolongada. Eu tenho umas cinquenta galinhas; e agrado a esta e provoco aquela e deixo uma com fome e empanturro outra; e através do meu bom governo elas estão todas bem sob meu controle. Este nosso mestre pretende ter juízo e sabedoria, e ele tem apenas uma esposa, e ainda assim não sabe como controlá-la". O Cão perguntou: "O que então, ó Galo, deveria o mestre fazer para se livrar de sua situação?" "Ele deveria levantar-se imediatamente", respondeu o Galo, "e pegar alguns ramos daquela amoreira ali e dar nela uma surra nas costas e costelas até que ela chore: — Eu me arrependo, ó meu senhor! Nunca mais te farei uma pergunta enquanto eu viver! Então, que ele a bata mais uma vez e com força, e quando ele tiver feito isso, ele poderá dormir livre de preocupações e desfrutar da vida. Mas este nosso mestre não possui nem senso nem julgamento". "Agora, filha Shahrazad", continuou o Vizir, "farei contigo o que aquele marido fez com aquela esposa". Disse Shahrazad: "E o que ele fez?" Ele respondeu: "Quando o mercador ouviu as palavras sábias ditas por seu Galo ao seu Cão, levantou-se apressado e foi para o quarto de sua esposa, depois de cortar para ela alguns ramos de amoreira e escondê-los lá; e então ele a chamou: 'Vem para o quarto para que eu possa te contar o segredo enquanto ninguém me vê e depois morrer'. Ela entrou com ele e ele trancou a porta e caiu sobre ela com uma surra tão bem dada nas costas, ombros, costelas, braços e pernas, dizendo enquanto isso: 'Tu sempre farás perguntas sobre o que não te diz respeito?', que ela ficou quase inconsciente. Logo ela gritou: 'Estou arrependida! Por Allah, não te farei mais perguntas, e na verdade arrependo-me sincera e profundamente'. Então ela beijou sua mão e pés e ele a levou para fora do quarto submissa como uma esposa deve ser. Seus pais e toda a companhia regozijaram-se e a tristeza e o luto foram transformados em alegria e felicidade. Assim, o mercador aprendeu a disciplina familiar com seu Galo e ele e sua esposa viveram juntos a mais feliz das vidas até a morte. E tu também, ó minha filha!", continuou o Vizir, "A menos que te desvies deste assunto, farei contigo o que aquele mercador fez com sua esposa". Mas ela respondeu-lhe com muita decisão: "Nunca desistirei, ó meu pai, nem esta história mudará meu propósito. Deixa de lado tal conversa e tagarelice. Não ouvirei tuas palavras e, se tu me negares, eu mesma me casarei com ele apesar de ti. E primeiro subirei até o Rei eu mesma e sozinha e lhe direi: — Pedi a meu pai que me casasse contigo, mas ele recusou, estando determinado a decepcionar seu senhor, por ter inveja de alguém como eu para alguém como tu". Seu pai perguntou: "Tem de ser assim?" e ela respondeu: "Exatamente assim". Nisso, o Vizir, estando cansado de lamentar e contender, persuadir e dissuadir, tudo em vão, subiu até o Rei Shahryar e, depois de abençoá-lo e beijar o chão diante dele, contou-lhe tudo sobre sua disputa com sua filha do começo ao fim e como ele pretendia levá-la até ele naquela noite. O Rei maravilhou-se com excessiva maravilha; pois ele fizera uma exceção especial quanto à filha do Vizir, e disse-lhe: "Ó mais fiel dos Conselheiros, como é isso? Tu sabes que jurei pelo Elevador dos Céus que depois que eu tiver tido relações com ela esta noite, direi a ti na manhã seguinte: — Toma-a e mata-a! e, se não a matares, eu matarei a ti em seu lugar, sem falta". "Que Allah te guie para a glória e prolongue tua vida, ó Rei da era", respondeu o Vizir, "é ela que assim determinou: tudo isso eu lhe disse e mais; mas ela não quer me ouvir e persiste em passar esta noite que vem com a Majestade do Rei". Então Shahryar regozijou-se grandemente e disse: "Está bem; vai e prepara-a e esta noite traze-a a mim". O Vizir retornou à sua filha e relatou-lhe o comando dizendo: "Que Allah não deixe teu pai desolado pela tua perda!" Mas Shahrazad regozijou-se com excessiva alegria e preparou tudo o que precisava e disse à sua irmã mais nova, Dunyazad: "Nota bem as instruções que te confio! Quando eu tiver ido até o Rei, mandarei te chamar e quando vieres a mim e vires que ele teve seu desejo carnal de mim, dize-me: — Ó minha irmã, se não estiveres com sono, relata-me alguma história nova, deleitável e prazerosa, para melhor passarmos nossas horas de vigília"; e eu te contarei um conto que será nossa libertação, se assim Allah permitir, e que afastará o Rei de seu costume sanguinário". Dunyazad respondeu: "Com amor e alegria". Assim, quando foi noite, seu pai, o Vizir, levou Shahrazad ao Rei, que se alegrou com a visão e perguntou: "Trouxeste-me o que desejava?" e ele respondeu: "Trouxe". Mas quando o Rei a levou para sua cama e começou a brincar com ela e quis ter relações com ela, ela chorou; o que o fez perguntar: "O que te aflige?" Ela respondeu: "Ó Rei da era, tenho uma irmã mais nova e gostaria muito de me despedir dela esta noite antes de ver o amanhecer". Então ele mandou chamar imediatamente Dunyazad e ela veio e beijou o chão entre suas mãos, quando ele lhe permitiu tomar seu lugar perto do pé do leito. Então o Rei levantou-se e desfez a virgindade de sua noiva e os três adormeceram. Mas quando era meia-noite, Shahrazad acordou e sinalizou para sua irmã Dunyazad, que se sentou e disse: "Por Allah, ó minha irmã, recita para nós alguma história nova, deleitável e prazerosa, com a qual possamos passar as horas de vigília de nossa última noite". "Com alegria e bom grado", respondeu Shahrazad, "se este piedoso e auspicioso Rei me permitir". "Conta", disse o Rei, que por acaso estava sem sono e inquieto e, portanto, estava satisfeito com a perspectiva de ouvir sua história. Então Shahrazad regozijou-se; e assim, na primeira noite das Mil e Uma Noites, ela começou com a

Nota 20:

Uma história semelhante ainda é contada em Akká (São João de Acre) sobre o terrível "açougueiro" — Jazzár (Djezzar) Pasha. Dificilmente se pode sentir pena de mulheres que são tolas o bastante para correr tais riscos. Segundo Frizzi, Niccolò, Marquês de Este, após decapitar Parisina, ordenou que todas as esposas infiéis de Ferrara fossem tratadas da mesma maneira.

Nota 21:

Shahrázád (persa) = Libertadora da cidade; na versão mais antiga, Scheherazade (provavelmente ambas de Shirzád = nascida de leão). Dunyázád = Libertadora do mundo. A edição de Breslau corrompe o primeiro nome para Sháhrzád ou Sháhrazád; e as edições de Macnaghten e Calcutá para Shahrzád ou Shehrzád. Arrisquei-me a restaurar o nome como deveria ser. Galland, para o segundo, prefere Dinarzade (?) e Richardson, Dinazade (Dinázád = Libertadora da religião): aqui segui Lane e Payne; embora em "First Footsteps" eu tenha sido induzido ao erro por Galland. Ver vol. ii, p. 1.

Nota 22:

Provavelmente ela propôs "Judite" ao Rei. Essas jovens eruditas e inteligentes são muito perigosas no Oriente.

Nota 23:

No Egito, etc., o touro ocupa o lugar do boi ocidental. A palavra árabe é "Taur" (Thaur, Saur); no antigo persa, "Tora"; e no latim, "Taurus", um vestígio venerável dos dias antes que as famílias linguísticas "semítica" e "ariana" se dividissem em dois ramos distintos. "Taur" termina no saxão "Steor" e no inglês "Steer".

Nota 24:

Árabe "Abú Yakzán" = o Desperto; porque o jumento zurra ao amanhecer.

Nota 25:

Árabe "Tibn"; palha esmagada sob o trenó: o feno do Egito, Arábia, Síria, etc. O antigo costume rural é arrancar o cereal em punhados, desde as raízes, deixando a terra perfeitamente nua: daí o "arrancar" das Sagradas Escrituras hebraicas. O objetivo é preservar cada átomo de "Tibn".

Nota 26:

Árabe "Yá Aftah": Al-Aftah é um epíteto do touro, e também do camaleão.

Nota 27:

Árabe "Balid", um egipcianismo favorito frequentemente confundido de forma divertida com "Wali" (um santo); de onde este último passa a significar "um inocente", um "tolo".

Nota 28:

Da edição de Calcutá, vol. I, p. 29.

Nota 29:

Árabe "Abu Yakzán" dificilmente equivale a "Père l'Eveillé".

Nota 30:

Em árabe, o wa (و) é o sinal de parênteses.

Nota 31:

No Oriente próximo, o arado leve e pequeno é transportado para o campo pelo touro ou pelo jumento.

Nota 32:

Ocymum basilicum, a "erva real", tão apreciada em todo o Oriente, especialmente na Índia, onde, sob o nome de "Tulsi", é um arbusto sagrado para o alegre deus Krishna. Encontrei os versos em uma cópia manuscrita das Noites.

Nota 33:

Árabe "Sadaf", o Kauri, ou búzios, trazidos do arquipélago das Maldivas e Laquedivas. O Kámús descreve este "Wada'" ou Concha Veneris como "uma concha branca [de onde vem a expressão 'shell out' - pagar] que é tirada do mar, cuja fissura é branca como a do caroço da tâmara. É pendurada ao redor do pescoço para afastar o mau-olhado". A pérola em árabe é "Murwarid", daí evidentemente "Margarita" e Margaris (nome feminino).

Nota 34:

Árabe "Kat'a" (pedaço de couro): alguns leem "Nat'a", um couro usado como toalha de mesa e que forma uma bolsa para mantimentos; mas nunca é feito de couro de touro.

Nota 35:

O antigo "Cadi", um juiz em questões religiosas. Os Shuhúd, ou Assessores, são funcionários da Mahkamah ou Tribunal do Cadi.

Nota 36:

Sobre o qual mais em uma página futura. Ele assim se purificou cerimonialmente antes da morte.

Nota 37:

Isso é mais cristão do que muçulmano: uma maldição maltesa favorita é "Yahrak Kiddísak man rabba-k!" = queime o santo que te criou!

Nota 38:

Uma frase egípcia popular: o cão e o galo falam como Fellahs.

Nota 39:

Isto é, entre o último sono e o amanhecer, quando se levantariam para se lavar e orar.

HISTÓRIA DO MERCADOR E DO JINNI.

Relata-se, ó Rei auspicioso, que havia um mercador entre os mercadores que possuía muita riqueza e negócios em várias cidades. Ora, um dia, montou a cavalo e saiu para cobrar valores em certas cidades, e o calor o oprimiu severamente; então, sentou-se sob uma árvore e, colocando a mão em suas alforjes, tirou dali um pouco de pão esfarelado e tâmaras secas e começou a fazer seu desjejum. Quando terminou de comer as tâmaras, jogou os caroços com força e, eis que um Ifrit apareceu, de estatura gigantesca e brandindo uma espada desembainhada, com a qual se aproximou do mercador e disse: "Levanta-te para que eu possa te matar, assim como tu mataste meu filho!" Perguntou o mercador: "Como matei o teu filho?" e ele respondeu: "Quando comeste as tâmaras e jogaste fora os caroços, eles atingiram o peito do meu filho enquanto ele caminhava por ali, de modo que ele morreu imediatamente." Disse o mercador: "Na verdade, de Alá viemos e para Alá retornamos. Não há Majestade e não há Poder senão em Alá, o Glorioso, o Grande! Se matei o teu filho, matei-o por um acaso infeliz. Rogo-te agora que me perdoes." Replicou o Jinni: "Não há outra saída, devo matar-te." Então, agarrou-o, arrastou-o e, lançando-o à terra, ergueu a espada para golpeá-lo; ao que o mercador chorou e disse: "Confio o meu caso a Alá", e começou a repetir estes dísticos: —

Contém o Tempo um par de dias, este de bênção, aquele de desgraça ✿ E guarda a Vida um par de metades, esta de prazer, aquela de dor. Não vês quando sopra o furacão, varrendo severo e golpeando forte ✿ Que ninguém, salvo o gigante da floresta, sente o sofrimento do esforço? Quantas árvores a terra nutre, das secas e das verdes ✿ Mas nenhuma, exceto as que dão frutos, se queixa do arremesso da pedra. Não vês como os cadáveres emergem e flutuam na superfície da maré ✿ Enquanto pérolas de preço jazem ocultas no mais profundo do oceano! No Céu são inumeráveis a multidão das estrelas ✿ Mas nunca uma estrela, senão o Sol e a Lua, é superada pelo eclipse. Bem julgas tu os dias que viram teu caminhar são e salvo ✿ E não contaste as angústias e a dor das quais o Destino está sempre ávido. As noites te mantiveram seguro e a segurança te trouxe orgulho ✿ Mas a felicidade e as bênçãos da noite são geradoras de desgraça!

Quando o mercador cessou de repetir seus versos, o Jinni disse-lhe: "Corta tuas palavras, por Alá! Devo matar-te." Mas o mercador falou-lhe assim: "Sabe, ó Ifrit, que tenho dívidas a receber e muita riqueza, filhos, uma esposa e muitos penhores em mãos; portanto, permite-me ir para casa e quitar com cada credor o seu crédito; e voltarei a ti no início do ano novo. Alá seja meu testemunho e fiador de que voltarei a ti; e então poderás fazer comigo o que quiseres, e Alá é testemunha do que digo." O Jinni tomou dele uma promessa firme e deixou-o ir; então ele retornou à sua própria cidade, transacionou seus negócios, rendeu a todos os homens o que lhes era devido e, após informar sua esposa e filhos sobre o que lhe havia acontecido, nomeou um guardião e viveu com eles por um ano inteiro. Então levantou-se, fez a ablução Wuzu para purificar-se antes da morte, tomou seu sudário sob o braço, despediu-se de seu povo, de seus vizinhos e de todos os seus parentes, e saiu, apesar de sua própria vontade. Eles então começaram a chorar, lamentar e bater no peito por ele; mas ele viajou até chegar ao mesmo jardim, e o dia de sua chegada era o início do Ano Novo. Enquanto estava sentado chorando sobre o que lhe havia acontecido, eis que um Shaykh, um homem muito ancião, aproximou-se conduzindo uma gazela acorrentada; e ele saudou aquele mercador e, desejando-lhe vida longa, disse: "Qual é a causa de estares sentado neste lugar, tu sozinho, sendo este um refúgio de espíritos malignos?" O mercador relatou-lhe o que havia acontecido com o Ifrit, e o velho, o dono da gazela, maravilhou-se e disse: "Por Alá, ó irmão, a tua fé não é outra senão uma fé excessiva e a tua história deveras estranha; se fosse gravada com cinzéis nos cantos dos olhos, seria um aviso para quem quisesse ser avisado." Então, sentando-se perto do mercador, disse: "Por Alá, ó meu irmão, não te deixarei até que veja o que acontecerá contigo e com este Ifrit." E, logo, enquanto estava sentado e os dois conversavam, o mercador começou a sentir medo, terror, tristeza excessiva, pesar sem alívio, uma angústia sempre crescente e extremo desespero. E o dono da gazela estava bem ao seu lado; quando eis que um segundo Shaykh aproximou-se deles, e com ele estavam dois cães, ambos da raça galgo e ambos negros. O segundo velho, após saudá-los com o salam, também os interrogou sobre suas notícias e disse: "O que vos faz sentar neste lugar, uma habitação dos Jánn?" Então eles lhe contaram a história do começo ao fim, e a estada deles ali não havia durado muito antes que chegasse um terceiro Shaykh, e com ele uma mula de pelagem baia brilhante; e ele os saudou e perguntou-lhes por que estavam sentados naquele lugar. Então eles lhe contaram a história do princípio ao fim: e de nada serve, ó meu mestre, uma história contada duas vezes! Ali ele sentou-se com eles, e eis que uma nuvem de poeira avançou e um poderoso demônio de areia apareceu no meio do deserto. Logo a nuvem se abriu e eis que, dentro dela, estava aquele Jinni segurando na mão uma espada desembainhada, enquanto seus olhos disparavam faíscas de fogo de raiva. Ele aproximou-se deles e, arrastando o mercador para fora do meio deles, gritou para ele: "Levanta-te para que eu possa matar-te, como mataste meu filho, a vida do meu fígado." O mercador lamentou e chorou, e os três velhos começaram a suspirar, clamar, chorar e lamentar-se com seu companheiro. Logo o primeiro velho (o dono da gazela) saiu do meio deles, beijou a mão do Ifrit e disse: "Ó Jinni, tu, Coroa dos Reis dos Jann! se eu te contasse a história de mim e desta gazela e tu a considerasses maravilhosa, dar-me-ias uma terça parte do sangue deste mercador?" Então disse o Jinni: "Sim, ó Shaykh! se me contares esta história e eu a achar maravilhosa, então dar-te-ei um terço do seu sangue." Sobre isso, o velho começou a contar

A HISTÓRIA DO PRIMEIRO SHAYKH.

Sabe, ó Jinni! que esta gazela é a filha do irmão do meu pai, a minha própria carne e sangue, e eu casei-me com ela quando ela era uma jovem donzela, e vivi com ela quase trinta anos, contudo não fui abençoado com descendência por ela. Então tomei para mim uma concubina, que me trouxe a dádiva de um filho varão, belo como a lua cheia, com olhos de brilho adorável e sobrancelhas que formavam uma única linha, e membros de desenho perfeito. Pouco a pouco ele cresceu em estatura e tornou-se alto; e quando ele era um rapaz de quinze anos, tornou-se necessário que eu viajasse para certas cidades e viajei com grande quantidade de mercadorias. Mas a filha do meu tio (esta gazela) havia aprendido feitiçaria, nigromancia e artes clericais desde a infância; então ela enfeitiçou aquele meu filho transformando-o em um bezerro, e minha escrava (sua mãe) em uma novilha, e entregou-os aos cuidados do pastor. Ora, quando retornei após um longo tempo da minha jornada e perguntei pelo meu filho e sua mãe, ela respondeu-me dizendo: "Tua escrava morreu, e teu filho fugiu e não sei para onde ele foi." Então permaneci por um ano inteiro com o coração pesaroso e olhos lacrimejantes, até que chegou a época da Grande Festa de Alá. Então enviei ao meu pastor ordenando-lhe que escolhesse para mim uma novilha gorda; e ele trouxe-me uma que era a donzela, minha escrava, a quem esta gazela havia enfeitiçado. Enrolei minhas mangas e saia e, pegando uma faca, procedi a cortar sua garganta, mas ela mugiu alto e chorou lágrimas amargas. Nisso, maravilhei-me e a piedade apoderou-se de mim e retive minha mão, dizendo ao pastor: "Traze-me outra além desta." Então gritou minha prima: "Mata-a, pois não tenho uma mais gorda nem mais bela!" Mais uma vez avancei para sacrificá-la, mas ela novamente mugiu alto, ao que, por compaixão, contive-me e ordenei aos pastores que a matassem e esfolassem. Ele a matou e a esfolou, mas não encontrou nela nem gordura nem carne, apenas pele e osso; e arrependi-me quando o arrependimento de nada me valeu. Dei-a ao pastor e disse-lhe: "Busca-me um bezerro gordo"; então ele trouxe meu filho enfeitiçado. Quando o bezerro viu-me, rompeu seu vínculo e correu para mim, e mimou-me, lamentou e derramou lágrimas; de modo que tive piedade dele e disse ao pastor: "Traze-me uma novilha e deixa este bezerro ir!" Sobre isso, minha prima (esta gazela) gritou alto comigo, dizendo: "Tens de matar este bezerro; este é um dia sagrado e abençoado, no qual nada é morto senão o que for perfeito e puro; e não temos entre nossos bezerros nenhum mais gordo ou mais belo que este!" Disse eu: "Olha tu para a condição da novilha que sacrifiquei por tua ordem e como nos voltamos dela em desapontamento e ela de nada nos serviu; e arrependo-me com um arrependimento excessivo de tê-la matado: portanto, desta vez não obedecerei à tua ordem para o sacrifício deste bezerro." Disse ela: "Por Alá, o Altíssimo, o Compassivo, o Misericordioso! não há outra saída; tens de matá-lo neste dia sagrado, e se não o matares, para mim não és homem e eu para ti não sou esposa." Ora, quando ouvi aquelas palavras duras, não conhecendo o seu objetivo, fui até o bezerro, faca na mão—— E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou de dizer sua fala permitida. Então disse-lhe sua irmã: "Quão bela é tua história, quão grata, quão doce e quão saborosa!" E Shahrazad respondeu-lhe: "O que é isso comparado ao que eu poderia te contar na noite que vem, se eu vivesse e o Rei me poupasse?" Então disse o Rei a si mesmo: "Por Alá, não a matarei até que tenha ouvido o resto de sua história." Então dormiram o resto daquela noite em abraço mútuo até que o dia rompeu totalmente. Então o Rei saiu para sua sala de audiências e o Wazir aproximou-se com o sudário de sua filha sob o braço. O Rei emitiu suas ordens, promoveu este e depôs aquele, até o final do dia; e ele não contou ao Wazir nada do que havia acontecido. Mas o Ministro maravilhou-se com isso com excessiva maravilha; e quando a Corte se dissolveu, o Rei Shahryar entrou em seu palácio.

Ora, quando foi a Segunda Noite,

disse Dunyazad à sua irmã Shahrazad: "Ó minha irmã, termina para nós aquela história do Mercador e do Jinni"; e ela respondeu: "Com alegria e bom grado, se o Rei me permitir." Então disse o Rei: "Conta tua história"; e Shahrazad começou com estas palavras: Chegou-me, ó Rei auspicioso e Governante dirigido pelo Céu! que quando o mercador propôs o sacrifício do bezerro, mas viu-o chorando, seu coração suavizou-se e ele disse ao pastor: "Mantém o bezerro entre meu gado." Tudo isso o velho Shaykh contou ao Jinni, que se maravilhou muito com estas palavras estranhas. Então o dono da gazela continuou: — Ó Senhor dos Reis dos Jann, isto aconteceu e a filha do meu tio, esta gazela, olhou e viu, e disse: "Degola este bezerro para mim, pois certamente é um gordo"; mas ordenei ao pastor que o levasse embora e ele o levou e voltou seu rosto para casa. No dia seguinte, enquanto eu estava sentado em minha própria casa, eis que o pastor veio e, parando diante de mim, disse: "Ó meu mestre, contar-te-ei uma coisa que alegrará a tua alma e me fará ganhar o presente de boas novas." Respondi: "Assim seja." Então disse ele: "Ó mercador, tenho uma filha, e ela aprendeu magia na infância com uma velha que vivia conosco. Ontem, quando me deste o bezerro, fui para casa ter com ela, e ela olhou para ele e cobriu o rosto; então ela chorou e riu alternadamente e, por fim, disse: — Ó meu pai, tornou-se a minha honra tão barata para ti que trazes estranhos para dentro da minha casa? Perguntei-lhe: — Onde estão esses estranhos e por que estavas rindo e chorando?; e ela respondeu: — Na verdade, este bezerro que está contigo é o filho do nosso mestre, o mercador; mas ele está enfeitiçado pela sua madrasta que lançou um feitiço tanto nele quanto em sua mãe: tal é a causa do meu riso; agora, a razão do seu choro é sua mãe, pois seu pai matou-a sem saber. Então maravilhei-me com isso com excessiva maravilha e mal me certifiquei de que o dia havia amanhecido antes de vir contar-te." Quando ouvi, ó Jinni, as palavras do meu pastor, saí com ele, e eu estava embriagado sem vinho, pelo excesso de alegria e contentamento que tomou conta de mim, até chegar à sua casa. Lá, sua filha deu-me as boas-vindas e beijou minha mão, e imediatamente o bezerro veio e mimou-me como antes. Disse eu à filha do pastor: "É verdade isto que dizes sobre este bezerro?" Disse ela: "Sim, ó meu mestre, ele é teu filho, o próprio cerne do teu coração." Regozijei-me e disse-lhe: "Ó donzela, se tu o libertares, teus serão todos os gados e propriedades meus que estão sob a mão de teu pai." Ela sorriu e respondeu: "Ó meu mestre, não tenho cobiça pelos bens nem os tomarei senão sob duas condições; a primeira, que me cases com teu filho e, a segunda, que eu possa enfeitiçar aquela que o enfeitiçou e aprisioná-la, caso contrário não poderei estar a salvo de sua malícia e más práticas." Ora, quando ouvi, ó Jinni, estas palavras da filha do pastor, respondi: "Além do que pedes, todos os gados e os bens domésticos sob a guarda de teu pai são teus e, quanto à filha do meu tio, seu sangue é lícito para ti." Quando falei, ela pegou um copo e encheu-o de água: então ela recitou um feitiço sobre ele e aspergiu-o sobre o bezerro, dizendo: "Se o Deus Todo-Poderoso te criou um bezerro, permanece assim formado e não mudes; mas se fores enfeitiçado, retorna à tua antiga forma, pelo comando de Alá Altíssimo!" e eis que ele tremeu e tornou-se um homem. Então lancei-me ao seu pescoço e disse: "Alá sobre ti, conta-me tudo o que a filha do meu tio fez contigo e com tua mãe." E quando ele me contou o que havia acontecido entre eles, disse: "Ó meu filho, Alá favoreceu-te com alguém para restaurar-te, e teu direito retornou a ti." Então, ó Jinni, casei a filha do pastor com ele, e ela transformou minha esposa nesta gazela, dizendo: — Sua forma é agradável e de modo algum detestável. Depois disso, ela viveu conosco noite e dia, dia e noite, até que o Todo-Poderoso a levou para Si. Quando ela faleceu, meu filho partiu para as cidades de Hind, até a cidade deste homem que fez contigo o que foi feito; e eu também tomei esta gazela (minha prima) e vagueei com ela de cidade em cidade buscando notícias do meu filho, até que o Destino me levou a este lugar onde vi o mercador sentado em lágrimas. Tal é minha história! Disse o Jinni: "Esta história é de fato estranha, e portanto concedo-te a terça parte do sangue dele." Sobre isso, o segundo velho, que possuía os dois galgos, aproximou-se e disse: "Ó Jinni, se eu te contar o que me aconteceu com meus irmãos, estes dois cães, e tu vires que é uma história ainda mais maravilhosa e espantosa do que a que ouviste, dar-me-ás também a terça parte do sangue deste homem?" Respondeu o Jinni: "Tens a minha palavra, se tuas aventuras forem mais maravilhosas e espantosas." Sobre isso, ele começou assim

A HISTÓRIA DO SEGUNDO SHAYKH.

Sabe, ó senhor dos Reis dos Jann! que estes dois cães são meus irmãos e eu sou o terceiro. Quando nosso pai morreu e nos deixou um capital de três mil peças de ouro, abri uma loja com a minha parte, e nela comprei e vendi, e do mesmo modo fizeram meus dois irmãos, cada um estabelecendo uma loja. Mas eu não estava no negócio há muito tempo quando o mais velho vendeu seu estoque por mil dinares, e após comprar equipamento e mercadoria, seguiu seu caminho para terras estrangeiras. Ele esteve ausente um ano inteiro com a caravana; mas um dia, enquanto eu estava sentado em minha loja, eis que um mendigo parou diante de mim pedindo esmola, e eu lhe disse: "Allah te abra outra porta!" Ao que ele respondeu, chorando enquanto falava: "Estou tão mudado que não me conheces?" Então olhei para ele atentamente, e eis que era meu irmão, então levantei-me para ele e dei-lhe as boas-vindas; depois sentei-o em minha loja e fiz perguntas sobre o seu caso. "Não me perguntes", respondeu ele; "minha riqueza se esvaiu e meu estado tornou-se sem estado!" Então levei-o ao Hammám-banho e vesti-o com um traje meu e dei-lhe abrigo em minha casa. Além disso, depois de examinar as contas do meu estoque e os lucros do meu negócio, descobri que a indústria me rendera mil dinares, enquanto meu capital principal, o cerne da minha riqueza, montava a dois mil. Então dividi tudo com ele, dizendo: "Assume que não fizeste nenhuma viagem ao estrangeiro, mas que permaneceste em casa; e não te deixes abater pela tua má sorte." Ele aceitou a parte com grande alegria e abriu para si uma loja; e as coisas correram tranquilamente por algumas noites e dias. Mas, logo depois, meu segundo irmão (aquele outro cão), também voltando seu coração para as viagens, vendeu os bens e o estoque que tinha, e embora tentássemos detê-lo, ele não quis ser detido: preparou um equipamento para a viagem e partiu com certos viajantes. Após uma ausência de um ano inteiro, ele voltou a mim, exatamente como meu irmão mais velho havia voltado; e quando lhe disse: "Ó meu irmão, não te dissuadi da viagem?", ele derramou lágrimas e gritou: "Ó meu irmão, este é o decreto do destino: aqui estou eu, um mero mendigo, sem um tostão e sem uma camisa para vestir." Então levei-o ao banho, ó Jinni, e vestindo-o com roupas novas de meu uso, fui com ele à minha loja e servi-lhe carne e bebida. Além disso, disse-lhe: "Ó meu irmão, costumo calcular as contas da minha loja no início de cada ano, e o que eu encontrar de excedente será entre mim e ti." Então procedi, ó Ifrit, a fazer um balanço e, encontrando dois mil dinares de lucro, devolvi louvores ao Criador (seja Ele exaltado e engrandecido!) e entreguei uma metade ao meu irmão, guardando a outra para mim. Depois disso, ele ocupou-se em abrir uma loja e desta forma vivemos muitos dias. Após algum tempo, meus irmãos começaram a pressionar-me para viajar com eles; mas recusei, dizendo: "O que ganhastes com vossa viagem para que eu deva ganhar com ela?" Como eu não quis dar ouvidos a eles, voltamos cada um para sua própria loja, onde compramos e vendemos como antes. Eles insistiram para que eu viajasse por um ano inteiro, mas recusei fazê-lo até que passassem seis anos completos, quando consenti com estas palavras: "Ó meus irmãos, aqui estou eu, vosso companheiro de viagem: agora deixem-me ver que dinheiros tendes convosco." Descobri, no entanto, que eles não tinham um ceitil, tendo dissipado seus bens em vida farta, bebidas e prazeres carnais. Contudo, não disse uma palavra de censura; longe disso, examinei as contas da minha loja mais uma vez, e vendi os bens e o estoque que eram meus; e, encontrando-me proprietário de seis mil ducados, procedi alegremente a dividir essa soma em metades, dizendo aos meus irmãos: "Estas três mil peças de ouro são para mim e para vós negociardes", acrescentando: "Enterremos a outra metade debaixo da terra para que possa servir caso algum mal nos aconteça, hipótese em que cada um tomará mil para abrir lojas." Ambos responderam: "Correto é o teu cálculo"; e dei a cada um suas mil peças de ouro, guardando a mesma quantia para mim, a saber, mil dinares. Então preparamos mercadorias adequadas e alugamos um navio e, tendo embarcado nossas mercadorias, prosseguimos em nossa viagem, dia após dia, por um mês inteiro, após o qual chegamos a uma cidade, onde vendemos nosso empreendimento; e para cada peça de ouro ganhamos dez. E, ao retornarmos à nossa viagem, encontramos na margem do mar uma donzela vestida com trajes gastos e esfarrapados, e ela beijou minha mão e disse: "Ó mestre, há bondade e caridade em ti? Posso dar-te um retorno adequado por elas." Respondi: "Sim; na verdade em mim há benevolência e boas obras, mesmo que não me dês retorno algum." Então ela disse: "Toma-me como esposa, ó meu mestre, e leva-me para tua cidade, pois eu me entreguei a ti; faze-me, pois, uma bondade e eu sou uma daquelas que são dignas de boas obras e caridade: dar-te-ei um retorno adequado por elas e não te envergonhes da minha condição." Quando ouvi suas palavras, meu coração ansiava por ela, de tal sorte como quis Allah (seja Ele exaltado e engrandecido!); e tomei-a, vesti-a e preparei para ela um lugar de repouso justo na embarcação, e tratei-a honrosamente. Assim viajamos, e meu coração apegou-se a ela com excessivo apego, e eu não me separava dela nem noite nem dia, e dava mais atenção a ela do que aos meus irmãos. Então eles se distanciaram de mim e ficaram com ciúmes da minha riqueza e da quantidade de mercadorias que eu tinha, e seus olhos abriram-se cobiçosamente sobre todos os meus bens. Então aconselharam-se para me assassinar e tomar minha riqueza, dizendo: "Vamos matar nosso irmão e todos os seus dinheiros serão nossos"; e Satanás fez com que este ato parecesse justo aos olhos deles; então, quando me encontraram em privacidade (e eu dormindo ao lado de minha esposa), tomaram a ambos e lançaram-nos ao mar. Minha esposa acordou assustada de seu sono e, tornando-se imediatamente uma Ifritah, sustentou-me e levou-me a uma ilha e desapareceu por um curto período; mas ela retornou pela manhã e disse: "Aqui estou eu, tua serva fiel, que te deu a devida recompensa; pois sustentei-te nas águas e salvei-te da morte por ordem do Todo-Poderoso. Sabe que sou uma Jinniyah, e quando te vi meu coração amou-te pela vontade do Senhor, pois sou uma crente em Allah e em Seu Apóstolo (a quem o Céu abençoe e preserve!). Depois disso, vim a ti condicionada como viste e tu te casaste comigo, e vê agora, eu te salvei do afogamento. Mas estou irritada com teus irmãos e certamente devo matá-los." Quando ouvi sua história, fiquei surpreso e, agradecendo-lhe por tudo o que ela tinha feito, disse: "Mas quanto a matar meus irmãos, isso não deve acontecer." Então contei-lhe a história do que tinha acontecido com eles desde o início de nossas vidas até o fim, e ao ouvi-la, disse ela: "Esta noite voarei como um pássaro sobre eles e afundarei seu navio e os matarei." Disse eu: "Por Allah, não faças isso, pois o provérbio diz: 'Ó tu que fazes o bem a quem pratica o mal, deixa o malfeitor com suas más ações'. Além disso, eles ainda são meus irmãos." Mas ela replicou: "Por Allah, não há outra solução senão matá-los." Humilhei-me diante dela pelo perdão deles, ao que ela me tomou e voou comigo até que finalmente me deixou no terraço da minha própria casa. Abri as portas e peguei o que eu tinha escondido no solo; e depois de ter saudado o povo, abri minha loja e comprei mercadorias. Agora, quando a noite caiu, fui para casa, e lá vi estes dois cães amarrados; e, quando me avistaram, levantaram-se, ganiram e acariciaram-me; mas antes que eu soubesse o que acontecia, minha esposa disse: "Estes dois cães são teus irmãos!" Respondi: "E quem fez isso com eles?" e ela replicou: "Enviei uma mensagem à minha irmã e ela tratou-os desta forma, nem estes dois serão libertados de sua forma atual até que dez anos tenham passado." E agora cheguei a este lugar a caminho da irmã da minha esposa para que ela possa libertá-los desta condição, após terem suportado isso por meia dezena de anos. Enquanto eu seguia em frente, vi este jovem, que me informou sobre o que lhe havia acontecido, e determinei não partir daqui até ver o que poderia ocorrer entre ti e ele. Tal é a minha história! Então disse o Jinni: "Certamente esta é uma história estranha e, por isso, dou-te a terça parte do sangue dele e do seu crime." Logo depois, o terceiro Shaykh, o mestre da mula-égua, disse ao Jinni: "Posso contar-te uma história mais maravilhosa do que estas duas, se me concederes o restante do sangue dele e da sua ofensa", e o Jinni respondeu: "Assim seja!" Então o velho começou

A HISTÓRIA DO TERCEIRO SHAYKH.

Sabe, ó Sultão e chefe dos Jann, que esta mula era minha esposa. Aconteceu que eu saí e estive ausente um ano inteiro; e quando retornei da minha viagem, vim a ela à noite, e vi um escravo negro deitado com ela no leito, e eles estavam conversando, e namorando, e rindo, e beijando-se e jogando o jogo dos corpos próximos. Quando ela me viu, levantou-se e veio apressadamente a mim com um jarro de água; e, murmurando encantamentos sobre ele, aspergiu-me e disse: "Sai desta tua forma para a forma de um cão"; e tornei-me num instante um cão. Ela expulsou-me de casa, e eu corri pela porta e não parei de correr até chegar à barraca de um açougueiro, onde parei e comecei a comer os ossos que estavam lá. Quando o dono da barraca me viu, ele me pegou e me levou para sua casa, mas assim que sua filha me viu, ela cobriu o rosto, gritando: "Tu trazes homens para mim e entras com eles para mim?" Seu pai perguntou: "Onde está o homem?"; e ela respondeu: "Este cão é um homem a quem sua esposa enfeitiçou e eu sou capaz de libertá-lo." Quando seu pai ouviu suas palavras, ele disse: "Por Allah, ó minha filha, liberta-o." Então ela pegou um jarro de água e, depois de proferir palavras sobre ele, aspergiu sobre mim algumas gotas, dizendo: "Sai dessa forma para a tua forma anterior." E retornei à minha forma natural. Então beijei sua mão e disse: "Desejaria que transformasses minha esposa exatamente como ela me transformou." Logo depois, ela me deu um pouco de água, dizendo: "Assim que a vires a dormir, asperge este líquido sobre ela e diz as palavras que me ouviste proferir, e ela se tornará o que tu desejares." Fui ter com minha esposa e encontrei-a num sono profundo; e, enquanto aspergia a água sobre ela, disse: "Sai dessa forma para a forma de uma mula-égua." Assim ela tornou-se num instante uma mula, e é ela quem vês com teus olhos, ó Sultão e chefe dos Reis dos Jann! Então o Jinni voltou-se para ela e disse: "É verdade?" E ela assentiu com a cabeça e respondeu por sinais: "De fato, é a verdade: pois tal é a minha história e isto é o que me aconteceu." Agora, quando o velho terminou de falar, o Jinni estremeceu de prazer e deu-lhe o terço do sangue do mercador.——E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e deixou de dizer o que lhe era permitido. Então disse Dunyazad: "Ó minha irmã, quão agradável é a tua história, e quão saborosa; quão doce e quão gratificante!" Ela respondeu: "E o que é isso comparado com o que eu poderia contar-te, na noite que virá, se eu viver e o Rei me poupar?" Então pensou o Rei: "Por Allah, não a matarei até ouvir o restante de sua história, pois verdadeiramente é maravilhosa." Então descansaram naquela noite em abraço mútuo até o amanhecer. Depois disso, o Rei saiu para seu Salão de Estado, e o Wazir e as tropas entraram e a corte estava lotada, e o Rei deu ordens e julgou e nomeou e depôs, ordenando e proibindo durante o resto do dia. Então o Divan encerrou-se, e o Rei Shahryar entrou em seu palácio.

Agora, quando foi a Terceira Noite,

E o Rei teve o seu desejo da filha do Wazir, Dunyazad, sua irmã, disse-lhe: "Termina para nós aquela tua história"; e ela respondeu: "Com alegria e bom agrado! Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que quando o terceiro velho contou uma história ao Jinni mais maravilhosa do que as duas anteriores, o Jinni maravilhou-se com excessiva maravilha; e, tremendo de deleite, gritou: "Eis! Dei-te o restante da punição do mercador e, por tua causa, libertei-o." Então o mercador abraçou os velhos e agradeceu-lhes, e estes Shaykhs desejaram-lhe alegria por ter sido salvo e partiram cada um para sua própria cidade. Contudo, esta história não é mais maravilhosa do que a história do pescador." Perguntou o Rei: "Qual é a história do pescador?" E ela respondeu relatando a história de

Nota 59:

"E o que é isso?" etc. Um modo popular de expressar grande diferença. Assim na Índia: — "Onde está o Rajá Bhoj (o grande Rei) e onde está Gangá, o oleiro?"

O PESCADOR E O JINNI.

Chegou aos meus ouvidos, ó Rei auspicioso, que havia um pescador bem avançado em anos que tinha esposa e três filhos, e era, ademais, de condição humilde. Era seu costume lançar a rede todos os dias quatro vezes, e não mais. Certo dia, saiu por volta do meio-dia para a praia, onde pousou seu cesto; e, arregaçando a túnica e mergulhando na água, fez um lançamento com sua rede e esperou até que ela se assentasse no fundo. Então, juntou as cordas e puxou-a, mas achou-a pesada; e por mais que a trouxesse para terra, não conseguia içá-la; então, carregou as extremidades para a areia, fincou uma estaca no chão e prendeu a rede nela. Depois, despiu-se e mergulhou na água ao redor da rede, e não cessou de trabalhar arduamente até que a trouxe para cima. Alegrou-se com isso e, vestindo suas roupas, foi até a rede, quando encontrou nela um jumento morto que havia rasgado as malhas. Ao vê-lo, exclamou em sua dor: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande!" Então disse ele: "Este é um estranho modo de ganhar o pão de cada dia"; e começou a recitar versos de improviso: —

Ó labutador nas trevas da noite, em perigo e em dor ✿ Tua labuta pelo pão de cada dia não vem por força nem vigor! Não vês o pescador buscar flutuando sobre o mar ✿ Seu pão, enquanto brilham as estrelas da noite, como presas em emaranhado tear. Logo ele mergulha, a despeito do açoite das ondas ✿ Enquanto seus olhos ávidos se esforçam para ver a rede a inchar; Até que, regozijando-se com o sucesso da noite, um peixe traz para casa ✿ Cujo goela pelo anzol do Destino foi apanhada e cortada ao meio. Quando compra esse peixe um homem que passou as horas da noite ✿ Despreocupado com o frio, a umidade e a escuridão, desejoso de conforto e sossego, Louvor ao Senhor que dá a este, e àquele nega seus desejos ✿ E condena um a labutar e apanhar a presa, e outro a comer os peixes.[60]

Então disse ele: "Levanta-te e vamos; estou certo de Sua beneficência, Inshallah!" Então continuou: —

Quando fores tomado pelo Destino Maligno, assume ✿ A resignação da alma nobre: é o teu melhor: Não te queixes à criatura; tal queixa seria ✿ Do mais Misericordioso para com os mais impiedosos.

O Pescador, quando olhou para o jumento morto, livrou-o das malhas, torceu e estendeu sua rede; então mergulhou no mar, dizendo: "Em nome de Allah!", fez um lançamento e puxou-a, mas ela tornou-se pesada e assentou-se com mais firmeza do que da primeira vez. Pensou ele que havia peixes nela, prendeu-a e, despindo suas roupas, entrou na água, mergulhou e puxou até içá-la em terra firme. Então encontrou nela um grande cântaro de barro que estava cheio de areia e lama; ao ver isso, ficou grandemente perturbado e começou a repetir estes versos[61]: —

Resisti, ó problemas do mundo, ✿ E perdoai, se não quiserdes resistir: Fui buscar meu pão de cada dia ✿ E encontro que sem pão devo partir: Pois nem o ofício manual me traz nada ✿ Nem o Destino me reserva uma parte: Quantos tolos alcançam as Plêiades ✿ Enquanto a escuridão submerge o sábio e o cauteloso.

Então pediu perdão a Allah e, jogando fora o jarro, torceu sua rede, limpou-a e retornou ao mar pela terceira vez para lançar sua rede e esperou até que ela houvesse afundado. Então puxou-a e encontrou nela cacos de cerâmica e vidro quebrado; pelo que começou a dizer estes versos: —

É para ti aquele pão de cada dia que não podes soltar nem prender ✿ Nem pena nem escrita te valem algo para o teu pão de cada dia encontrar: Pois a alegria e o pão de cada dia são o que o Destino se digna a permitir; ✿ Este solo é triste e terreno estéril, enquanto aquele alegra o lavrador. As flechas do Tempo e da Vida derrubam muitos homens de valor ✿ Enquanto elevam a alto grau indivíduos de mente ignóbil. Então vem, ó Morte! pois em verdade a vida não vale um palha ✿ Quando baixo o falcão cai enquanto o pato selvagem ganha o vento: Não é de espantar que vejas como os grandes de alma e mente ✿ São pobres, e muitos um patife destinado ao auge da sorte. Este pássaro sobrevoará o mundo do leste até o extremo oeste ✿ E aquele ganhará todos os seus desejos embora nunca deixe o ninho.

Então, erguendo os olhos aos céus, disse: "Ó meu Deus!"[62] em verdade Tu sabes que não lanço minha rede cada dia senão quatro vezes;[63] a terceira está feita e até agora não me concedeste nada. Então desta vez, ó meu Deus, digna-Te dar-me o meu pão de cada dia. Então, tendo invocado o nome de Allah,[64] lançou novamente sua rede e esperou seu afundamento e assentamento; pelo que puxou-a, mas não pôde içá-la pois estava emaranhada no fundo. Gritou ele em seu vexame: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah!" e começou a recitar: —

Fie neste mundo miserável, se assim for ✿ Que eu deva ser submerso pela dor e miséria: Embora alegre seja o destino do homem quando o amanhecer desponta ✿ Ele bebe o cálice da aflição antes que a tarde ele veja: Contudo, fui eu alguém de quem o mundo, quando perguntado ✿ "De quem é o destino mais feliz?", frequentemente diria: "É o dele!"

Nisso, despiu-se e, mergulhando até a rede, ocupou-se com ela até que ela chegou a terra. Então abriu as malhas e encontrou nela um jarro em forma de pepino, de cobre amarelo,[65] evidentemente cheio de algo, cuja boca estava presa com uma tampa de chumbo, estampada com o anel-sinete de nosso Senhor Sulayman, filho de Davi (que Allah aceite a ambos!). Ao ver isso, o Pescador regozijou-se e disse: "Se eu o vender no bazar de latão, vale dez dinares de ouro." Sacudiu-o e, achando-o pesado, continuou: "Oxalá eu soubesse o que há aqui dentro. Mas devo e vou abri-lo e olhar seu conteúdo e guardá-lo em minha sacola e vendê-lo no mercado de latão." E, tirando uma faca, trabalhou no chumbo até tê-lo soltado do jarro; então colocou o jarro no chão e sacudiu o vaso para derramar o que quer que pudesse estar dentro. Não encontrou nada nele; pelo que se maravilhou com uma maravilha excessiva. Mas logo saiu do jarro uma fumaça que subiu aos céus em direção ao éter (pelo que ele novamente se maravilhou com uma maravilha imensa), e que se arrastou pela superfície da terra até que, tendo atingido sua altura máxima, o vapor espesso condensou-se e tornou-se um Ifrit, enorme de volume, cuja crista tocava as nuvens enquanto seus pés estavam no chão. Sua cabeça era como uma cúpula, suas mãos como forcados, suas pernas longas como mastros e sua boca grande como uma caverna; seus dentes eram como grandes pedras, suas narinas como jarros, seus olhos dois lampiões e seu olhar era feroz e sombrio. Quando o pescador viu o Ifrit, os músculos de seu flanco tremeram, seus dentes bateram, sua saliva secou e ele ficou cego sobre o que fazer. Nisso, o Ifrit olhou para ele e gritou: "Não há deus senão o Deus, e Sulayman é o profeta de Deus"; acrescentando logo: "Ó Apóstolo de Allah, não me mates; nunca mais contradirei tuas palavras nem pecarei contra ti em ações."[66] Disse o Pescador: "Ó Márid,[67] disseste Sulayman, o Apóstolo de Allah; e Sulayman está morto há mil e oitocentos anos,[68] e estamos agora nos últimos dias do mundo! Qual é a tua história, e qual é a tua conta sobre ti mesmo, e qual é a causa de tua entrada nesta cucúrbitas?" Quando o Espírito Maligno ouviu as palavras do Pescador, disse ele: "Não há deus senão o Deus: tem bom ânimo, ó Pescador!" Disse o Pescador: "Por que me mandas ter bom ânimo?" e ele respondeu: "Por teres de morrer uma morte cruel nesta mesma hora." Disse o Pescador: "Tu mereces, por tuas boas novas, a retirada da proteção do Céu, ó tu, distante![69] Por que deverias me matar e que coisa fiz eu para merecer a morte, eu que te libertei do jarro, e te salvei das profundezas do mar, e te trouxe para a terra seca?" Respondeu o Ifrit: "Pede-me apenas que modo de morte queres morrer, e por que maneira de matança eu te matarei." Replicou o Pescador: "Qual é o meu crime e por que tal retribuição?"

Disse o Ifrit: "Ouve minha história, ó Pescador!" e ele respondeu: "Dize, e sê breve em teu dizer, pois em verdade meu fôlego de vida está em minhas narinas."[70] Nisso disse o Jinni: "Sabe que sou um dos Jann hereges e pequei contra Sulayman, filho de Davi (sobre os dois seja a paz!), eu junto com o famoso Sakhr al-Jinni;[71] pelo que o Profeta enviou seu ministro, Asaf, filho de Barkhiyá, para me capturar; e este Wazir trouxe-me contra minha vontade e conduziu-me acorrentado até ele (eu estando abatido apesar do meu orgulho) e ele colocou-me de pé diante dele como um suplicante. Quando Sulayman viu-me, refugiou-se em Allah e ordenou-me que abraçasse a Fé Verdadeira e obedecesse às suas ordens; mas eu recusei, então, mandando buscar esta cucúrbita,[72] ele fechou-me nela e tapou-a com chumbo, sobre o qual imprimiu o Nome Mais Altíssimo, e deu suas ordens aos Jann, que me levaram e lançaram-me no meio do oceano. Lá permaneci cem anos, durante os quais disse em meu coração: 'Quem me libertar, eu o enriquecerei para todo o sempre.' Mas o século completo passou e, quando ninguém me libertou, entrei no segundo período de cinco décadas dizendo: 'Quem me libertar, para ele eu abrirei os tesouros da terra.' Ainda assim ninguém me libertou e assim se passaram quatrocentos anos. Então disse eu: 'Quem me libertar, para ele cumprirei três desejos.' Contudo, ninguém me libertou. Nisso, fiquei irado com ira excessiva e disse a mim mesmo: 'Quem me libertar de agora em diante, eu o matarei e lhe darei escolha de que morte ele quer morrer; e agora, como tu me libertaste, dou-te total escolha de mortes.' O Pescador, ouvindo as palavras do Ifrit, disse: 'Ó Allah! A maravilha de que eu não tenha vindo libertar-te senão nestes dias!' acrescentando: 'Poupa minha vida, para que Allah poupe a tua; e não me mates, para que Allah não envie alguém para te matar.' Respondeu o Contumaz: 'Não há como evitar; tu deves morrer; então pede-me, a título de favor, que maneira de morte queres morrer.' Embora assim certificado, o Pescador novamente dirigiu-se ao Ifrit dizendo: 'Perdoa-me esta minha morte como uma recompensa generosa por ter-te libertado'; e o Ifrit: 'Certamente eu não te mataria senão por causa dessa mesma libertação.' 'Ó Chefe dos Ifrits', disse o Pescador, 'eu te faço o bem e tu me retribuis com o mal! Em verdade, o velho provérbio não mente quando diz: —

Fizemos-lhes o bem, eles retribuíram nosso bem com o mal; ✿ Tal, pela minha vida! é o trabalho de todo homem mau: Para aquele que beneficia seres indignos ✿ Acontecerá o que aconteceu ao vizinho de Ummi-Amir.[73]

Quando o Ifrit ouviu estas palavras, respondeu: 'Chega de conversa, preciso te matar.' Nisso, o Pescador disse a si mesmo: 'Este é um Jinni; e eu sou um homem a quem Allah deu uma inteligência razoavelmente astuta, então vou agora arquitetar para levar à sua destruição pelo meu artifício e pela minha inteligência; assim como ele se aconselhou apenas com sua malícia e sua obstinação."[74] Começou perguntando ao Ifrit: "Já decidiste mesmo me matar?" e, recebendo por toda resposta: "Assim mesmo," ele gritou: "Agora, em nome do Nome Mais Grande, gravado no anel-sinete de Sulayman, filho de Davi (a paz esteja com os dois sagrados!), se eu te questionar sobre uma certa matéria, tu me darás uma resposta verdadeira?" O Ifrit respondeu: "Sim"; mas, ouvindo a menção do Nome Mais Grande, seus sentidos ficaram perturbados e ele disse, tremendo: "Pergunta e sê breve." Disse o Pescador: "Como tu coubeste nesta garrafa que não comportaria tua mão; não, nem mesmo teu pé, e como ela pôde ser grande o suficiente para conter a totalidade de ti?" Respondeu o Ifrit: "O quê! Não acreditas que eu estava todo lá?" e o Pescador replicou: "Não! Nunca acreditarei nisso até que eu te veja dentro com meus próprios olhos." — E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou de dizer sua fala permitida.

Agora, quando era a Quarta Noite,

Sua irmã disse-lhe: "Por favor, termina este conto para nós, se não estiveres com sono!" então ela retomou: — Chegou aos meus ouvidos, ó Rei auspicioso, que quando o Pescador disse ao Ifrit: "Nunca e de modo algum acreditarei em ti até que eu te veja dentro dela com meus próprios olhos"; o Espírito Maligno, no instante, sacudiu-se[75] e tornou-se um vapor, que condensou e entrou no jarro pouco a pouco, até que tudo estivesse bem dentro, quando eis que o Pescador, em grande pressa, tomou a tampa de chumbo com o selo e tapou com ela a boca do jarro e gritou para o Ifrit, dizendo: "Pede-me, a título de favor, que morte tu queres morrer! Por Allah, eu vou lançar-te no mar[76] diante de nós e aqui construirei uma cabana; e quem quer que venha aqui, eu o avisarei contra a pesca e direi: — Nestas águas habita um Ifrit que concede, como um último favor, uma escolha de mortes e um modo de matança ao homem que o salva!" Quando o Ifrit ouviu isto do Pescador e viu-se no limbo, teve a intenção de escapar, mas isso foi impedido pelo selo de Salomão; então ele soube que o Pescador o havia enganado e superado, e tornou-se humilde e submisso e começou a dizer humildemente: "Eu apenas brinquei contigo." Mas o outro respondeu: "Tu mentes, ó mais vil dos Ifrits, e mais mesquinho e imundo!" e partiu com a garrafa para a beira do mar; o Ifrit gritando "Não! Não!" e ele gritando "Sim! Sim!". Nisso, o Espírito Maligno suavizou sua voz e poliu sua fala e humilhou-se, dizendo: "O que tu farias comigo, ó Pescador?" "Vou lançar-te de volta ao mar", respondeu ele; "onde estiveste alojado e em casa por mil e oitocentos anos; e agora eu te deixarei lá até o Dia do Juízo: não te disse eu: — Poupa-me e Allah te poupará; e não me mates, para que Allah não te mate? contudo tu desprezaste minha súplica e não tiveste intenção senão de tratar-me sem graça, e Allah agora te lançou em minhas mãos e eu sou mais astuto que tu." Disse o Ifrit: "Abre para mim, para que eu possa te trazer o bem." Disse o Pescador: "Tu mentes, ó maldito! Meu caso contigo é o do Wazir do Rei Yúnán com o sábio Dúbán."[77] "E quem era o Wazir do Rei Yunan e quem era o sábio Duban; e qual era a história sobre eles?" disse o Ifrit, ao que o Pescador começou a contar

A HISTÓRIA DO WAZIR E O SÁBIO DUBAN.

"Sabe, ó Ifrit, que em dias de antanho e em eras há muito passadas, um Rei chamado Yúnán reinava sobre a cidade de Fars, na terra dos Roum." Era um governante poderoso e abastado, que possuía exércitos, guardas e aliados de todas as nações dos homens; mas seu corpo estava afligido por uma lepra que consome, e os homens de ciência falharam em curá-lo. Ele bebeu poções, engoliu pós e usou unguentos, mas nada lhe fez bem, e nenhum entre a hoste de médicos foi capaz de lhe proporcionar a cura. Por fim, chegou à sua cidade um poderoso curador de homens, já avançado em anos, o sábio chamado Dúbán. Este homem era um leitor de livros — gregos, persas, romanos, árabes e sírios; e era versado em astronomia e na arte da cura, tanto na teoria quanto na prática; tinha experiência em tudo o que cura e o que fere o corpo; conhecia as virtudes de cada planta, erva e raiz, e os seus benefícios e malefícios; compreendia a filosofia e havia percorrido toda a extensão da ciência médica e outros ramos da árvore do conhecimento. Ora, este médico passou apenas alguns dias na cidade antes de ouvir falar da enfermidade do Rei e de todos os seus sofrimentos corporais causados pela lepra com a qual Allah o havia atingido; e de como todos os doutores e sábios haviam falhado em curá-lo. Diante disso, ele passou a noite em profunda meditação e, quando despontou a alvorada, surgiu a manhã e a luz nasceu novamente, e o Sol saudou o Bem cujas belezas o mundo adorna, ele vestiu sua mais bela roupa e, entrando na presença do Rei Yúnán, beijou o solo diante dele: então, orou pela duração de sua honra e prosperidade na mais bela linguagem e fez-se conhecer, dizendo: "Ó Rei, chegaram a mim notícias do que te aconteceu devido ao mal que está em teu corpo; e de como a hoste de médicos provou ser incapaz de mitigá-lo; e eis que eu posso curar-te, ó Rei; e contudo não te farei beber poções nem te ungirei com unguentos." Quando o Rei Yúnán ouviu suas palavras, disse em enorme surpresa: "Como farás isso? Por Allah, se me tornares são, eu te enriquecerei até o filho do teu filho e te darei presentes suntuosos; e tudo o que desejares será teu, e serás para mim um companheiro de copos e um amigo." O Rei então o vestiu com um traje de honra, tratou-o com gentileza e perguntou-lhe: "Podes realmente curar-me desta queixa sem drogas nem unguentos?" E ele respondeu: "Sim! Eu te curarei sem as dores e penalidades da medicina." O Rei maravilhou-se com extremo assombro e disse: "Ó médico, quando será isso de que falas, e em quantos dias terá lugar? Apressa-te, ó meu filho!" Ele respondeu: "Ouço e obedeço; a cura começará amanhã." Dito isto, retirou-se da presença e alugou uma casa na cidade para o melhor armazenamento de seus livros e pergaminhos, seus medicamentos e suas raízes aromáticas. Então, pôs-se a trabalhar na escolha dos melhores medicamentos e ervas simples, e fabricou um bastão oco por dentro e munido de um cabo por fora, para o qual fez uma bola; sendo ambos preparados com arte consumada. No dia seguinte, quando ambos estavam prontos para uso e nada mais faltava, ele foi até o Rei; e, beijando o solo entre suas mãos, pediu-lhe que cavalgasse até o campo de parada para jogar pall e mall. O Rei estava acompanhado por sua comitiva, Emires e Chamberlain, Wazires e Lordes do reino e, antes que estivesse sentado, o sábio Dúbán aproximou-se dele e, entregando-lhe o bastão, disse: "Toma este maço e segura-o como eu faço; assim! E agora avança para a planície e, inclinando-te bem sobre o teu cavalo, golpeia a bola com toda a tua força até que a tua palma esteja úmida e o teu corpo transpire: então a medicina penetrará através da tua palma e permeará o teu corpo. Quando tiveres terminado de jogar e sentires os efeitos da medicina, regressa ao teu palácio e faze a ablução Ghusl no banho Hammam, e deita-te para dormir; assim tornar-te-ás são; e agora, que a paz esteja contigo!" Então o Rei Yúnán tomou o bastão do Sábio e segurou-o firmemente; depois, montando o corcel, conduziu a bola diante de si e galopou atrás dela até alcançá-la, quando a golpeou com toda a sua força, enquanto sua palma segurava o cabo do bastão; e ele não cessou de golpear a bola até que sua mão ficou úmida e sua pele, transpirando, embebeu a medicina da madeira. Então o sábio Dúbán soube que as drogas haviam penetrado em seu corpo e ordenou-lhe que voltasse ao palácio e entrasse no Hammam sem demora; assim, o Rei Yúnán regressou imediatamente e ordenou que preparassem o banho para ele. Eles o fizeram, os espalhadores de tapetes apressando-se e os escravos correndo para preparar uma muda de roupa para o Rei. Ele entrou no banho e fez a ablução total, longa e minuciosamente; depois vestiu suas roupas dentro do Hammam e cavalgou de lá para seu palácio, onde se deitou e dormiu. Tal foi o caso com o Rei Yúnán, mas quanto ao sábio Dúbán, ele voltou para casa e dormiu como de costume, e quando a manhã raiou, ele dirigiu-se ao palácio e pediu audiência. O Rei ordenou que fosse admitido; então, tendo beijado o solo entre suas mãos, em alusão ao Rei, ele recitou estes dísticos com solene entonação:

Feliz é a Eloquência quando tu és nomeado seu pai, mas ela lamenta quando outro homem reclama tal título. Ó Senhor de presença belíssima, cujos raios iluminadores dissipam as névoas da dúvida que sempre velam os feitos de grande fama, Nunca deixes tua face de brilhar como o Alvorecer e o surgir da Manhã, e nunca mostres a face do Tempo inflamada pelo calor da ira! Tua graça favoreceu-nos com dons que operaram de tal maneira, como nuvens de chuva regando as colinas emolduradas por campos: Livremente prodigalizaste tua riqueza para ascender ao alto, até que conquistaste do Tempo as alturas para as quais tua grandeza visava.

Ora, quando o Sábio cessou de recitar, o Rei levantou-se rapidamente e lançou-se ao seu pescoço; depois, sentando-o ao seu lado, ordenou que o vestissem com um traje suntuoso; pois aconteceu que, quando o Rei saiu do Hammam, olhou para seu corpo e não viu nenhum vestígio de lepra: a pele estava toda limpa como prata virgem. Ele alegrou-se com isso com extrema alegria, seu peito dilatou-se de deleite e sentiu-se completamente feliz. Logo depois, quando já era pleno dia, entrou em seu salão de audiências e sentou-se no trono de seu reinado, onde seus Chamberlain e Grandes se aglomeraram na presença, e com eles o sábio Dúbán. Ao ver o médico, o Rei levantou-se em sua honra e sentou-o ao seu lado; então, as bandejas de comida providas das iguarias mais refinadas foram trazidas e o médico comeu com o Rei, nem deixou de acompanhá-lo durante todo aquele dia. Além disso, ao cair da noite, ele deu ao médico Dúbán duas mil peças de ouro, além do habitual traje de honra e outros presentes em profusão, e enviou-o para casa em seu próprio corcel. Depois que o Sábio partiu, o Rei Yúnán expressou novamente seu espanto com a arte do médico, dizendo: "Este homem medicou meu corpo por fora nem me ungiu com qualquer unguento: por Allah, certamente isto não é nada menos que habilidade consumada! Estou obrigado a honrar tal homem com recompensas e distinção, e tê-lo como meu companheiro e meu amigo durante o resto dos meus dias." Assim, o Rei Yúnán passou a noite em alegria e regozijo, pois seu corpo havia se tornado são e se livrara de tão perniciosa enfermidade. No dia seguinte, o Rei saiu de seu Serralho e sentou-se em seu trono, e os Lordes do Estado postaram-se ao seu redor, e os Emires e Wazires sentaram-se como era seu costume à sua direita e à sua esquerda. Então ele pediu pelo Sábio Dúbán, que entrou e beijou o solo diante dele, momento em que o Rei levantou-se para saudá-lo e, sentando-o ao seu lado, comeu com ele e desejou-lhe longa vida. Além disso, ele o vestiu com trajes e deu-lhe presentes, e não cessou de conversar com ele até que a noite se aproximou. Então o Rei ordenou-lhe, a título de salário, cinco trajes de honra e mil dinares. O médico regressou à sua própria casa cheio de gratidão ao Rei. Ora, quando a manhã seguinte raiou, o Rei dirigiu-se ao seu salão de audiências, e seus Lordes e nobres cercaram-no, assim como seus Chamberlain e seus Ministros, como o branco encerra o negro do olho. Ora, o Rei tinha um Wazir entre seus Wazires, de aparência desagradável, um espetáculo de mau agouro; sórdido, mesquinho, cheio de inveja e má vontade. Quando este Ministro viu o Rei colocar o médico perto de si e dar-lhe todos esses presentes, teve ciúmes dele e planejou causar-lhe um mal, como diz o ditado sobre tal assunto: "A inveja espreita em todo corpo"; e o ditado: "A opressão esconde-se em todo coração: o poder a revela e a fraqueza a oculta." Então o Ministro apresentou-se diante do Rei e, beijando o solo entre suas mãos, disse: "Ó Rei da era e de todo o tempo, tu em cujos benefícios cresci até a idade adulta, tenho um conselho importante a oferecer-te, e se eu o retiver seria filho de adultério e não um homem de linhagem verdadeira; portanto, se me ordenares que o revele, fá-lo-ei imediatamente." Disse o Rei (e ele estava perturbado com as palavras do Ministro): "E que conselho é este teu?" Disse ele: "Ó monarca glorioso, os sábios de antigamente disseram: Quem não olha para o fim, não tem a Fortuna como amiga; e, de fato, tenho visto ultimamente o Rei por um caminho muito diferente do correto; pois ele prodigaliza largueza a seu inimigo, a alguém cujo objetivo é o declínio e a queda de sua realeza: a este homem ele mostrou favor, honrando-o com excesso de honra e fazendo dele um íntimo. Por isso, temo pela vida do Rei." O Rei, que estava muito perturbado e mudou de cor, perguntou: "De quem suspeitas e a respeito de quem insinua?" E o Ministro respondeu: "Ó Rei, se estás dormindo, acorda! Aponto para o médico Dúbán." Replicou o Rei: "Ai de ti! Este é um verdadeiro amigo que é favorecido por mim acima de todos os homens, porque ele me curou com algo que segurei em minha mão, e ele curou minha lepra que havia desafiado todos os médicos; de fato, ele é alguém cujo semelhante não pode ser encontrado nestes dias — não, nem em todo o mundo, do extremo oriente ao extremo ocidente! E é de tal homem que dizes palavras tão duras. Pois bem, a partir deste dia, atribuo-lhe um soldo fixo e abonos, a cada mês mil peças de ouro; e, se eu compartilhasse com ele meu reino, seria uma questão menor. Pela força, devo suspeitar que falas desta maneira por mera inveja e ciúme, como contam sobre o Rei Sindibad." —— E Shahrazad percebeu o raiar do dia e cessou de dizer sua fala permitida.

Então disse Dunyazad: "Ó minha irmã, quão agradável é teu conto, e quão saboroso, quão doce e quão grato!" Ela respondeu: "E onde está isso comparado com o que eu poderia te contar na noite que vem, se o Rei se dignar a poupar minha vida?" Então disse o Rei consigo mesmo: "Por Allah, não a matarei até que ouça o resto de sua história, pois verdadeiramente é maravilhosa." Assim, descansaram naquela noite em abraço mútuo até o amanhecer. Então o Rei saiu para seu Salão de Governo, e o Wazir e as tropas entraram, e a câmara de audiências estava cheia; e o Rei deu ordens, julgou, nomeou, depôs, ordenou e proibiu durante o resto daquele dia até que a Corte se dispersasse, e o Rei Shahryar regressou ao seu palácio.

Ora, quando foi a Quinta Noite,

Sua irmã disse: "Termina para nós tua história se não estiveres com sono", e ela retomou: — Chegou a mim, ó Rei auspicioso e poderoso Monarca, que o Rei Yúnán disse ao seu Ministro: "Ó Wazir, tu és alguém a quem o espírito maligno da inveja possuiu por causa deste médico, e tu tramas para que eu o coloque à morte, após o que eu me arrependeria amargamente, assim como se arrependeu o Rei Sindibad por matar seu falcão." Disse o Wazir: "Perdoa-me, ó Rei da era, como foi isso?" Então o Rei começou a história de

O REI SINDIBAD E SEU FALCÃO.

Diz-se (mas Allah é o Onisciente!) que havia um Rei dos Reis de Fars, que era afeito ao prazer e à diversão, especialmente à caça com aves e à caça em geral. Ele havia criado um falcão que carregava a noite toda em seu punho, e sempre que ia caçar, levava consigo esta ave; e mandou fazer para ela um pequeno copo de ouro pendurado ao redor de seu pescoço para dar-lhe de beber. Um dia, enquanto o Rei estava sentado tranquilamente em seu palácio, eis que o alto falcoeiro da casa dirigiu-se subitamente a ele: "Ó Rei da era, este é de fato um dia propício para a caça com aves." O Rei deu ordens conforme e partiu levando o falcão no punho; e seguiram alegremente até chegarem a um Wady onde plantaram um círculo de redes para a caça; quando eis que uma gazela entrou nas armadilhas e o Rei gritou: "Quem permitir que aquela gazela salte sobre sua cabeça e a perder, esse homem eu certamente matarei." Eles estreitaram as redes ao redor da gazela quando ela se aproximou da posição do Rei; e, plantando-se sobre seu quarto traseiro, cruzou seu dianteiro sobre o peito, como se estivesse prestes a beijar a terra diante do Rei. Ele inclinou a testa baixo em reconhecimento à besta; quando ela saltou alto sobre sua cabeça e tomou o caminho do deserto. Então o Rei virou-se para suas tropas e, vendo-os piscar e apontar para ele, perguntou: "Ó Wazir, o que meus homens estão dizendo?" E o Ministro respondeu: "Eles dizem que tu proclamaste que quem permitisse que a gazela saltasse sobre sua cabeça, esse homem seria condenado à morte." Disse o Rei: "Agora, pela vida da minha cabeça! Segui-la-ei até que a traga de volta." Então partiu galopando na trilha da gazela e não cessou de persegui-la até chegar ao sopé de uma cadeia de montanhas onde a presa dirigiu-se a uma caverna. Então o Rei soltou o falcão, que rapidamente a alcançou e, mergulhando, cravou suas garras em seus olhos, confundindo-a e cegando-a; e o Rei sacou sua maça e desferiu um golpe que rolou a caça. Ele então desmontou; e, após cortar a garganta do antílope e esfolar o corpo, pendurou-o no pomo de sua sela. Ora, o tempo era o da sesta e o campo estava ressecado e seco, nem havia água a ser encontrada em qualquer lugar; e o Rei sentiu sede, e seu cavalo também; então ele saiu à procura até ver uma árvore pingando água, como se fosse manteiga derretida, de seus ramos. Então o Rei, que usava luvas de couro para proteger-se contra venenos, tomou o copo do pescoço do falcão e, enchendo-o com a água, colocou-o diante da ave, e eis que o falcão golpeou-o com suas garras e entornou o líquido. O Rei encheu-o uma segunda vez com as gotas que pingavam, pensando que seu falcão estivesse com sede; mas a ave golpeou novamente o copo com suas garras e virou-o. Então o Rei irritou-se com o falcão e, enchendo o copo uma terceira vez, ofereceu-o ao seu cavalo: mas o falcão entornou-o com um bater de asas. Disse o Rei: "Allah te confunda, tu, a mais azarada das criaturas voadoras! Tu me impedes de beber, e tu te privas também, e ao cavalo." Então ele golpeou o falcão com sua espada e cortou sua asa; mas a ave levantou a cabeça e disse por sinais: "Olha para aquilo que está pendurado na árvore!" O Rei levantou seus olhos conforme e avistou uma ninhada de víboras, cujas gotas de veneno ele confundiu com água; então arrependeu-se de ter cortado a asa de seu falcão e, montando no cavalo, seguiu com a gazela morta até chegar ao acampamento, seu ponto de partida. Ele atirou a caça ao cozinheiro dizendo: "Toma e assa-a", e sentou-se em sua cadeira, o falcão ainda em seu punho, quando subitamente a ave arquejou e morreu; whereupon o Rei clamou em tristeza e remorso por ter matado aquele falcão que havia salvado sua vida. Ora, isto é o que ocorreu no caso do Rei Sindibad; e estou convencido de que, se eu fizesse como tu desejas, arrepender-me-ia tal como o homem que matou seu papagaio. Disse o Wazir: "E como foi isso?" E o Rei começou a contar

A HISTÓRIA DO MARIDO E DO PAPAGAIO.

Um certo homem, e mercador por cima, havia desposado uma bela esposa, mulher de perfeita formosura e graça, simetria e encanto, da qual ele era loucamente ciumento e que conseguia, com sucesso, mantê-lo afastado de viagens. Por fim, uma ocasião obrigando-o a deixá-la, foi ao mercado de aves e comprou por cem peças de ouro uma papagaia, que colocou em sua casa para servir de duena, esperando que ela o informasse, no seu retorno, do que havia passado durante todo o tempo de sua ausência; pois a ave era perspicaz e astuta, e jamais esquecia o que vira e ouvira. Ora, sua bela esposa havia se apaixonado por um jovem turco, que costumava visitá-la, e ela o banqueteava de dia e deitava-se com ele de noite. Quando o homem terminou sua jornada e alcançou seu desejo, voltou para casa e, de imediato, mandando trazer a papagaia, interrogou-a sobre a conduta de sua consorte enquanto ele estava em terras estrangeiras. Disse ela: "Tua esposa tem um amigo que passou todas as noites com ela durante tua ausência." Nisso, o marido foi ter com a esposa em violenta fúria e a golpeou com uma sova severa o bastante para satisfazer a qualquer um. A mulher, suspeitando que uma das escravas tivesse falado demais ao senhor, reuniu-as e interrogou-as sob juramento, ao que todas juraram que mantiveram o segredo, mas que a papagaia não o fizera, acrescentando: "E nós a ouvimos com nossos próprios ouvidos." Diante disso, a mulher ordenou a uma das moças que colocasse um moinho de mão sob a gaiola e moesse com ele, a uma segunda que aspergisse água pelo teto da gaiola, e a uma terceira que corresse de um lado para o outro, faiscando um espelho de aço brilhante durante toda a noite. Na manhã seguinte, quando o marido retornou para casa após ter sido entretido por um de seus amigos, mandou trazer a papagaia e perguntou o que havia acontecido enquanto ele estava fora. "Perdoa-me, ó meu senhor", disse a ave, "eu não pude ouvir nem ver nada devido à escuridão excessiva, e ao trovão e ao relâmpago que duraram a noite toda." Como acontecia de ser o tempo do verão, o mestre ficou atônito e exclamou: "Mas estamos agora em pleno Tammúz, e este não é o tempo para chuvas e tempestades." "Sim, por Alá", replicou a ave, "eu vi com estes olhos o que minha língua te contou." Nisso, o homem, não conhecendo o caso nem suspeitando da trama, ficou extremamente colérico; e, julgando que sua esposa fora injustamente acusada, estendeu a mão e, puxando a papagaia de sua gaiola, arremessou-a ao chão com tal força que a matou no local. Alguns dias depois, uma de suas escravas confessou-lhe toda a verdade, contudo ele não acreditou até ver o jovem turco, amante de sua esposa, saindo de seu aposento, momento em que desembainhou sua lâmina e matou-o com um golpe na nuca; e fez o mesmo com a adúltera; e assim os dois, carregados de pecado mortal, foram diretamente para o Fogo Eterno. Então o mercador soube que a papagaia lhe dissera a verdade sobre tudo o que vira e lamentou gravemente sua perda, quando o lamento de nada lhe servia. O Ministro, ouvindo as palavras do Rei Yunan, replicou: "Ó Monarca, alto em dignidade, e que mal lhe fiz eu, ou que mal vi dele para que eu deva tramar sua morte? Eu não faria tal coisa, a não ser para servi-lo, e em breve verás que é o correto; e se aceitares meu conselho serás salvo, do contrário serás destruído exatamente como um certo Wazir que agiu traiçoeiramente com o jovem Príncipe." Perguntou o Rei: "Como foi isso?" E o Ministro começou assim:

A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE E DA OGRA.

Um certo Rei, que tinha um filho excessivamente dado à caça e à perseguição, ordenou a um de seus Wazires que estivesse em atendimento a ele aonde quer que fosse. Um dia, o jovem partiu para a caça acompanhado pelo Ministro de seu pai; e, enquanto seguiam juntos, uma grande fera selvagem surgiu à vista. Gritou o Wazir ao filho do Rei: "Levanta e ataca aquela nobre presa!" Então o Príncipe seguiu-a até perder-se de todos os olhares e a caça escapar-lhe no deserto; pelo que ficou confuso e não sabia para que lado virar, quando eis! uma donzela apareceu adiante e ela estava em lágrimas. O filho do Rei perguntou: "Quem és tu?" e ela respondeu: "Sou filha de um Rei entre os Reis da Índia, e viajava com uma caravana no deserto quando a sonolência me venceu, e caí de minha montaria sem perceber; pelo que estou separada do meu povo e profundamente desorientada." O Príncipe, ouvindo estas palavras, compadeceu-se de sua situação e, montando-a na garupa de seu cavalo, viajou até passar por uma ruína antiga, quando a donzela lhe disse: "Ó meu senhor, desejo atender a uma necessidade natural": ele, portanto, a colocou no chão na ruína, onde ela demorou tanto que o filho do Rei pensou que ela estava apenas perdendo tempo; então ele a seguiu sem que ela soubesse e eis que ela era uma Ghúlah, uma perversa Ogra, que dizia à sua prole: "Ó meus filhos, hoje trago-lhes um belo jovem gordo para o jantar"; ao que eles responderam: "Traze-o depressa para nós, ó nossa mãe, para que possamos nos banquetecer dele até ficarmos fartos." O Príncipe, ouvindo a conversa deles, teve a certeza da morte e seus músculos laterais tremeram de medo por sua vida, então ele se virou e estava prestes a fugir. A Ghulah saiu e, vendo-o em extremo pavor (pois ele tremia em cada membro), gritou: "Por que estás com medo?" e ele replicou: "Deparei-me com um inimigo que temo muito." Perguntou a Ghulah: "Não disseste: — Sou filho de um Rei?" e ele respondeu: "Exatamente." Então disse ela: "Por que não dás ao teu inimigo algo de dinheiro e assim o satisfazes?" Disse ele: "Ele não se satisfará com minha bolsa, mas apenas com minha vida, e eu temo-o mortalmente e sou um homem sob opressão." Ela respondeu: "Se estás tão aflito, como pensas, pede ajuda contra ele a Alá, que certamente te protegerá de seu mal e do mal de que tens medo." Então o Príncipe ergueu os olhos para os céus e gritou: "Ó Tu que respondes ao necessitado quando ele Te clama e afastas sua angústia; ó meu Deus! Concede-me a vitória sobre meu inimigo e afasta-o de mim, pois Tu sobre todas as coisas és Todo-Poderoso." A Ghulah, ouvindo sua prece, afastou-se dele, e o Príncipe retornou ao seu pai, e contou-lhe a história do Wazir; whereupon o Rei convocou o Ministro à sua presença e ali mesmo o matou. "Tu também, ó Rei, se continuares a confiar neste curandeiro, serás levado a morrer das piores mortes. Aquele a quem valorizaste e a quem trataste como íntimo, trabalhará tua destruição. Não vês como ele curou a doença de fora do teu corpo por algo segurado na tua mão? Não tenhas a certeza de que ele não te destruirá por algo segurado da mesma maneira!" Repliou o Rei Yunan: "Falaste a verdade, ó Wazir, pode bem ser como insinua, ó meu bem-aconselhado Ministro; e talvez este Sábio tenha vindo como um espião buscando pôr-me à morte; pois certamente, se ele me curou por algo segurado em minha mão, pode matar-me por algo dado para eu cheirar." Então perguntou o Rei Yunan: "Ó Ministro, o que deve ser feito com ele?" e o Wazir respondeu: "Manda buscá-lo neste exato instante e convoca-o à tua presença; e quando ele vier, golpeia-o na nuca; e assim te livrarás dele e de sua maldade, e enganá-lo-ás antes que ele possa enganar-te." "Falaste verdade novamente, ó Wazir", disse o Rei e enviou alguém para chamar o Sábio, que veio em espírito alegre, pois não sabia o que o Compassivo havia determinado para ele; como um certo poeta diz para fins de ilustração:—

Ó tu que temes o Destino, segue confiante, ✿ Confia tudo Àquele que construiu o mundo, e espera: O que o Destino diz "Seja", forçosamente deve ser, meu senhor! ✿ E salvo estás do não decretado pelo Destino.

Ao entrar, o médico Duban dirigiu-se ao Rei nestas linhas:—

Se falho em meus agradecimentos a ti, nem te agradeço dia após dia ✿ Por quem compus prosa e verso, por quem fiz meu dizer e cantar? Tu prodigalizaste teus generosos dons antes que fossem suplicados por mim ✿ Tu prodigalizaste teus favores não buscados sem pretexto ou demora. Como restringirei meu louvor a ti, como deixarei de exaltar ✿ A graça de ti em segredo e na mais patente exibição? Não; agradecerei teus benefícios, pois para sempre teus favores jazem ✿ Leves em meu pensamento e língua, embora pesados em minhas costas eles pesem.

E ele disse mais sobre o mesmo tema:—

Volta-te da dor nem te importes um pouco! ✿ Confia tuas necessidades ao Destino e à Sorte! Desfruta o Presente passando bem ✿ E deixa o Passado ser completamente esquecido; Pois o que quer que pareça pior ✿ Trabalhará para teu bem como Alá sabe: Alá fará o que Ele quiser ✿ E em Sua vontade não te oponhas a Ele.

E ainda mais:—

Ao Todo-Sábio e Sutil confia as coisas mundanas ✿ Descansa de tudo ao que o mundano se apega: Aprende sabiamente bem que nada vem por tua vontade ✿ Mas exatamente como deseja Alá, Rei dos Reis.

E por último:—

Alegre e contente esquece todo o teu pesar ✿ Muitas vezes o pesar consumiu os corações mais sábios: O pensamento é apenas loucura no escravo fraco ✿ Evita-o e assim sê salvo para sempre.

Disse o Rei como única resposta: "Sabes por que te chamei?" e o Sábio respondeu: "Alá Altíssimo somente conhece as coisas ocultas!" Mas o Rei replicou: "Chamei-te apenas para tirar tua vida e destruir-te completamente." O Sábio Duban maravilhou-se com este estranho discurso com excessivo assombro e perguntou: "Ó Rei, e por que me matarias, e que mal te fiz?" e o Rei respondeu: "Os homens dizem-me que és um espião enviado aqui com a intenção de me matar; e eis! Eu te matarei antes de ser morto por ti;" então chamou seu Executor e disse: "Corta-me a cabeça deste traidor e livra-nos de suas práticas malignas." Disse o Sábio: "Poupa-me e Alá te poupará; não me mates ou Alá te matará." E repetiu-lhe estas mesmas palavras, exatamente como eu a ti, ó Ifrit, e ainda assim não me deixarias ir, estando inclinado à minha morte. O Rei Yunan apenas replicou: "Não estarei seguro sem te matar; pois, como me curaste por algo segurado na mão, assim não estou seguro contra tua matança por algo dado para eu cheirar ou de outra forma." Disse o médico: "Esta então, ó Rei, é tua recompensa e paga; tu retribuis apenas o mal pelo bem." O Rei replicou: "Não há remédio para isso; tu deves morrer e sem demora." Ora, quando o médico certificou-se de que o Rei o mataria sem esperar, ele chorou e arrependeu-se do bem que fizera a outros que não ao bem. Como alguém disse sobre este assunto:—

De engenho e sabedoria está Maymúnah desprovida ✿ Cujo pai em sabedoria todos os engenhos supera: O homem não pode pisar na lama ou no pó ou na argila ✿ Senão pelo bom senso, senão ele tropeça e escorrega.

Aqui o Executor aproximou-se e vendou os olhos do Sábio Duban e desembainhou sua lâmina, dizendo ao Rei: "Com tua licença"; enquanto o médico chorava e gritava: "Poupa-me e Alá te poupará, e não me mates ou Alá te matará," e começou a repetir:—

Fui gentil e não escapei, eles foram cruéis e escaparam; ✿ E minha gentileza apenas me levou ao Salão da Ruína; Se eu viver nunca serei gentil; se eu morrer, então que todos sejam malditos ✿ Que me seguem, e maldições sobre sua gentileza recaiam.

"É esta," continuou Duban, "a retribuição que encontro de ti? Tu me dás, parece-me, apenas um favor de crocodilo." Disse o Rei: "Qual é a história do crocodilo?", e disse o médico: "Impossível para mim contá-la neste meu estado; Alá sobre ti, poupa-me, como esperas que Alá te poupe." E ele chorou com excessivo choro. Então um dos favoritos do Rei levantou-se e disse: "Ó Rei! Concede-me o sangue deste médico; nunca o vimos pecar contra ti, ou fazer algo senão curar-te de uma doença que desconcertou todo curandeiro e homem de ciência." Disse o Rei: "Vós não sabeis a causa de minha execução deste médico, e é esta. Se eu o poupar, condeno-me à morte certa; pois aquele que me curou de tal enfermidade por algo segurado na minha mão, certamente pode matar-me por algo segurado ao meu nariz; e temo que ele me mate por um preço, já que talvez ele seja algum espião cujo único propósito ao vir aqui era tramar minha destruição. Portanto, não há remédio; ele deve morrer, e só então terei certeza de minha própria vida." Novamente gritou Duban: "Poupa-me e Alá te poupará; e não me mates ou Alá te matará." Mas foi em vão. Ora, quando o médico, ó Ifrit, soube com certeza que o Rei o mataria, ele disse: "Ó Rei, se não há remédio a não ser que eu deva morrer, concede-me um pouco de demora para que eu possa ir à minha casa e liberar-me de minhas obrigações e instruir meu povo e meus vizinhos onde me sepultar e distribuir meus livros de medicina. Entre estes tenho um, o mais raro das raridades, que eu te presentearia como oferenda: guarda-o como um tesouro em teu tesouro." "E o que há no livro?" perguntou o Rei e o Sábio respondeu: "Coisas além da conta; e o menor dos segredos é que se, imediatamente após cortares minha cabeça, abrires três folhas e leres três linhas da página à tua mão esquerda, minha cabeça falará e responderá a cada pergunta que te dignares a lhe fazer." O Rei maravilhou-se com excessivo assombro e, tremendo de prazer com a novidade, disse: "Ó médico, tu realmente me dizes que quando eu cortar tua cabeça ela falará comigo?" Ele respondeu: "Sim, ó Rei!" Disse o Rei: "Isto é realmente um assunto estranho!" e imediatamente enviou-o sob forte guarda para sua casa, e Duban ali mesmo resolveu todas as suas obrigações. No dia seguinte, ele subiu ao salão de audiências do Rei, onde Emires e Wazires, Camareiros e Nababos, Grandes e Senhores de Estado estavam reunidos, tornando a câmara de presença alegre como um jardim de canteiros de flores. E eis! o médico aproximou-se e ficou diante do Rei, carregando um volume velho e gasto e um pequeno estojo de metal cheio de pó, como aquele usado para os olhos. Então ele sentou-se e disse: "Dá-me uma bandeja." Então trouxeram-lhe uma e ele derramou o pó sobre ela e nivelou-o e, por fim, falou como segue: "Ó Rei, toma este livro, mas não o abras até que minha cabeça caia; então coloca-a sobre esta bandeja, e manda pressioná-la contra o pó, quando imediatamente o sangue deixará de fluir. Esse é o momento de abrir o livro." O Rei então tomou o livro e fez um sinal ao Executor, que se levantou e cortou a cabeça do médico, e colocando-a no meio da bandeja, pressionou-a contra o pó. O sangue parou de fluir, e o Sábio Duban abriu os olhos e disse: "Agora abre o livro, ó Rei!" O Rei abriu o livro e encontrou as folhas coladas; então ele levou o dedo à boca e, umedecendo-o, virou facilmente a primeira folha, e da mesma forma a segunda, e a terceira, cada folha abrindo-se com muita dificuldade; e quando ele havia descolado seis folhas olhou sobre elas e, não encontrando nada escrito nelas, disse: "Ó médico, não há escrita aqui!" Duban respondeu: "Vira ainda mais;" e ele virou três outras da mesma forma. Ora, o livro estava envenenado; e antes de muito tempo o veneno penetrou em seu sistema, e ele caiu em fortes convulsões e gritou: "O veneno fez seu trabalho!" whereupon a cabeça do Sábio Duban começou a improvisar:—

Há governantes que governaram com um sujo governo tirânico ✿ Mas eles logo se tornaram como se nunca, nunca tivessem existido: Justos, teriam vencido a justiça: eles oprimiram e foram oprimidos ✿ Pela Fortuna, que os retribuiu com banimento e ruína e dor: Assim eles desapareceram como a manhã, e a língua das coisas repete ✿ "Toma isto por aquilo, nem descarregues sobre os caminhos da Fortuna teu baço."

Não tão logo a cabeça cessou de falar, o Rei tombou morto. Ora, eu gostaria que soubesses, ó Ifrit, que se o Rei Yunan tivesse poupado o Sábio Duban, Alá tê-lo-ia poupado; mas ele recusou-se a fazê-lo e decretou a sua morte, pelo que Alá o matou; e tu também, ó Ifrit, se tivesses me poupado, Alá ter-te-ia poupado.—E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou de dizer seu dito permitido: então disse Dunyazad: "Ó minha irmã, quão agradável é teu conto e quão saboroso; quão doce, e quão grato!" Ela respondeu: "E onde está isto comparado com o que eu poderia contar-te nesta noite que vem, se eu viver e o Rei me poupar?" Disse o Rei consigo mesmo: "Por Alá, não a matarei até que eu ouça o resto de sua história, pois verdadeiramente é maravilhoso." Eles descansaram aquela noite em abraço mútuo até o amanhecer: então o Rei saiu para seu Darbar; os Wazires e tropas entraram e o salão de audiências estava lotado; então o Rei deu ordens e julgou e nomeou e depôs e ordenou e proibiu o resto daquele dia, quando a corte se dispersou, e o Rei Shahryar entrou em seu palácio.

Sua irmã, Dunyazad, disse-lhe: "Rogo-te, termina para nós tua história"; e ela respondeu: "Fá-lo-ei, se o Rei me der licença". "Prossegue", disse o Rei. E ela continuou: — Chegou a mim, ó auspicioso Rei, que quando o Pescador disse ao Ifrit: "Se tu me tivesses poupado, eu te teria poupado, mas nada te satisfaria senão a minha morte; por isso, agora, farei com que morras, encarcerando-te neste jarro, e lançar-te-ei ao mar". Então o Marid rugiu alto e clamou: "Por Alá, ó Pescador, não o faças! Poupa-me e perdoa meus feitos passados; e, assim como tenho sido tirânico, sê tu generoso, pois diz-se entre os ditos que correm: — Ó tu que fazes o bem a quem te fez o mal, basta ao malfeitor os seus maus feitos, e não procedas comigo como fez Umamah a 'Atikah". Perguntou o Pescador: "E qual foi o caso delas?", e o Ifrit respondeu: "Este não é o momento para contar histórias e eu nesta prisão; mas liberta-me e contar-te-ei o conto". Disse o Pescador: "Deixa essa linguagem: não há outro recurso senão seres lançado de volta ao mar, nem há meio de saíres dele para todo o sempre. Em vão coloquei-me sob tua proteção, e humilhei-me perante ti com choro, enquanto tu buscavas apenas matar-me, a mim, que não te fiz injúria alguma que merecesse isso de tuas mãos; antes, tão longe de te injuriar por qualquer ato maligno, não fiz senão o bem ao libertar-te daquele teu cárcere. Agora, soube que és um malfeitor quando me fizeste o que fizeste, e sabe que, quando te houver lançado de volta a este mar, avisarei a quem quer que te pesque sobre o que me aconteceu contigo, e aconselhá-lo-ei a lançar-te de volta; assim, permanecerás aqui sob estas águas até que o Fim dos Tempos ponha um fim a ti". Mas o Ifrit clamou alto: "Liberta-me; esta é uma nobre ocasião para a generosidade e faço pacto contigo e juro nunca te causar dano ou mal; antes, ajudar-te-ei naquilo que te livre da necessidade". O Pescador aceitou suas promessas sob ambas as condições, de não o incomodar como antes, mas pelo contrário, de prestar-lhe serviço; e, após firmar o compromisso e jurar-lhe um solene juramento por Alá Altíssimo, ele abriu o vaso. Então a coluna de fumaça elevou-se até que estivesse totalmente fora; depois espessou-se e mais uma vez tornou-se um Ifrit de presença hedionda, que prontamente desferiu um pontapé na garrafa e a enviou voando para o mar. O Pescador, vendo como o vaso foi tratado e tendo certeza de sua própria morte, urinou nas roupas e disse a si mesmo: "Isto promete mal"; mas fortificou seu coração e clamou: "Ó Ifrit, Alá disse: — Cumpri o vosso pacto; pois o cumprimento do vosso pacto será inquirido futuramente. Tu fizeste um voto a mim e juraste um juramento de não me enganar, para que Alá não te engane, pois, na verdade, Ele é um Deus zeloso que concede prazo ao pecador, mas não o deixa escapar. Digo-te como disse o Sábio Duban ao Rei Yunan: 'Poupa-me para que Alá possa poupar-te!'". O Ifrit explodiu em risos e afastou-se, dizendo ao Pescador: "Segue-me"; e o homem caminhou atrás dele a uma distância segura (pois não estava garantido de escapar) até que tivessem contornado os subúrbios da cidade. De lá, entraram em terrenos não cultivados e, cruzando-os, desceram a uma vasta região selvagem, e eis que, no meio dela, havia um lago montanhoso. O Ifrit entrou até o meio e novamente clamou: "Segue-me"; e quando isso foi feito, ele postou-se no centro e ordenou ao homem que lançasse sua rede e pescasse seus peixes. O Pescador olhou para a água e ficou muito espantado ao ver nela peixes de várias cores, brancos e vermelhos, azuis e amarelos; entretanto, lançou sua rede e, ao puxá-la, viu que havia pescado quatro peixes, um de cada cor. Nisso, alegrou-se grandemente, e mais ainda quando o Ifrit lhe disse: "Leva estes ao Sultão e coloca-os em sua presença; então ele te dará o que te fará um homem rico; e agora aceita minha desculpa, pois, por Alá, neste momento não conheço outra forma de te beneficiar, uma vez que jazia neste mar há mil e oitocentos anos e não vi a face do mundo senão nesta hora. Mas não quero que pesques aqui senão uma vez por dia". O Ifrit então desejou-lhe boa sorte, dizendo: "Que Alá conceda que nos encontremos novamente"; e bateu na terra com um pé, momento em que o solo se fendeu e o engoliu. O Pescador, muito maravilhado com o que lhe acontecera com o Ifrit, pegou os peixes e dirigiu-se à cidade; e assim que chegou a casa, encheu uma tigela de barro com água e nela jogou os peixes, que começaram a lutar e a se contorcer. Então, carregou a tigela sobre a cabeça e, dirigindo-se ao palácio do Rei (exatamente como o Ifrit lhe ordenara), colocou os peixes perante a presença; e o Rei maravilhou-se com extremo assombro à vista, pois nunca em sua vida vira peixes como aqueles em qualidade ou conformação. Então ele disse: "Dai esses peixes à escrava estrangeira que agora cozinha para nós", referindo-se à serva que o Rei de Roum lhe enviara há apenas três dias, de modo que ele ainda não tinha posto à prova seus talentos no preparo de carnes. Então o Wazir levou os peixes à cozinheira e ordenou-lhe que os fritasse, dizendo: "Ó donzela, o Rei envia esta mensagem a ti: — Não te guardei, ó minha joia, senão para o meu momento de aperto; prova, pois, a nós neste dia a tua delicada habilidade e a tua saborosa culinária; pois este prato de peixe é um presente enviado ao Sultão e, evidentemente, uma raridade". O Wazir, depois de tê-la cuidadosamente instruído, retornou ao Rei, que lhe ordenou dar ao Pescador quatrocentos dinares: ele deu-os conforme ordenado, e o homem tomou-os ao peito e correu para casa, tropeçando e caindo e levantando-se novamente, e julgando que tudo aquilo fosse um sonho. Entretanto, comprou para sua família tudo o que precisavam e, por fim, foi ter com sua esposa em imensa alegria e contentamento. Até aqui quanto a ele; mas no que diz respeito à cozinheira, ela pegou os peixes, limpou-os e colocou-os na frigideira, regando-os com óleo até que um lado estivesse pronto. Então ela os virou e, eis que a parede da cozinha se fendeu, e de lá surgiu uma jovem, de bela forma, rosto oval, perfeita em graça, com pálpebras que linhas de Kohl emolduravam. Seu traje era um lenço de cabeça de seda, franjado e com borlas azuis: um grande anel pendia de cada orelha; um par de pulseiras adornava seus pulsos; anéis com engastes de pedras preciosas estavam em seus dedos; e ela trazia na mão uma longa vara de cana de rotim que ela enfiou na frigideira, dizendo: "Ó peixes! Ó peixes! estais vós constantes ao vosso pacto?". Quando a cozinheira viu esta aparição, desmaiou. A jovem repetiu suas palavras uma segunda e uma terceira vez, e finalmente os peixes levantaram suas cabeças da panela e, dizendo em fala articulada "Sim! Sim!", começaram com uma só voz a recitar:

Volta e eu também voltarei! Mantém a fé e eu também a manterei! ✿ E se desejas abandonar, recompensarei até que estejamos quites!

Após isso, a jovem virou a frigideira e saiu pelo caminho por onde veio, e a parede da cozinha fechou-se sobre ela. Quando a cozinheira se recuperou de seu ataque de desmaio, viu os quatro peixes carbonizados como carvão, e gritando: "Seu cajado quebrou em sua primeira investida", ela caiu novamente desmaiada no chão. Enquanto ela estava neste estado, o Wazir veio buscar os peixes e, olhando para ela como estava insensível, não sabendo distinguir o domingo da quinta-feira, empurrou-a com o pé e disse: "Trazei os peixes para o Sultão!". Então, recuperando-se de seu desmaio, ela chorou e informou-lhe de seu caso e de tudo o que lhe acontecera. O Wazir maravilhou-se grandemente e exclamando: "Isto não é senão uma matéria verdadeiramente estranha!", mandou chamar o Pescador e disse-lhe: "Tu, ó Pescador, deves obrigatoriamente trazer-nos quatro peixes como aqueles que trouxeste antes". Então o homem dirigiu-se ao lago e lançou sua rede; e quando a retirou, eis que havia quatro peixes exatamente como os primeiros. Estes ele levou imediatamente ao Wazir, que entrou com eles até a cozinheira e disse: "Levanta-te e frita estes na minha presença, para que eu possa ver este negócio". A donzela levantou-se, limpou os peixes e colocou-os na frigideira sobre o fogo; contudo, permaneceram lá apenas um pouco quando a parede se fendeu e a jovem apareceu, vestida como antes e segurando na mão a vara que ela novamente enfiou na frigideira, dizendo: "Ó peixes! Ó peixes! estais vós constantes ao vosso antigo pacto?". E eis que os peixes levantaram suas cabeças e repetiram "Sim! Sim!" e recitaram este dístico:

Volta e eu também voltarei! Mantém a fé e eu também a manterei! ✿ Mas se desejas abandonar, recompensarei até que estejamos quites!

E Shahrazad percebeu o alvorecer do dia e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Agora, quando era a Sétima Noite,

Ela continuou: Chegou a mim, ó auspicioso Rei, que quando os peixes falaram, e a jovem virou a frigideira com sua vara, e saiu pelo caminho por onde veio e a parede se fechou, o Wazir clamou: "Esta é uma coisa que não deve ser escondida do Rei". Então ele foi e contou-lhe o que acontecera, ao que disse o Rei: "Não há outro recurso senão que eu veja isso com meus próprios olhos". Então mandou chamar o Pescador e ordenou-lhe que trouxesse outros quatro peixes como os primeiros e que levasse consigo três homens como testemunhas. O Pescador trouxe imediatamente os peixes; e o Rei, após ordenar que lhe dessem quatrocentas peças de ouro, virou-se para o Wazir e disse: "Levanta-te e frita-me os peixes aqui diante de mim!". O Ministro, respondendo "Ouvir é obedecer", mandou trazer a frigideira, lançou nela os peixes limpos e colocou-a sobre o fogo; quando eis que a parede se fendeu, e surgiu um escravo negro como uma rocha enorme ou um remanescente da tribo Ad, carregando na mão um ramo de árvore verde; e ele clamou em tons altos e terríveis: "Ó peixes! Ó peixes! estais vós todos constantes ao vosso antigo pacto?", ao que os peixes levantaram suas cabeças da frigideira e disseram: "Sim! Sim! somos fiéis ao nosso voto"; e recitaram novamente o dístico:

Volta e eu também voltarei! Mantém a fé e eu também a manterei! ✿ Mas se desejas abandonar, recompensarei até que estejamos quites!

Então o enorme negro aproximou-se da frigideira, virou-a com o ramo e saiu pelo caminho por onde veio. Quando ele desapareceu de sua vista, o Rei inspecionou os peixes; e, achando-os todos carbonizados como carvão, ficou totalmente perplexo e disse ao Wazir: "Na verdade, esta é uma matéria sobre a qual o silêncio não pode ser mantido, e quanto aos peixes, certamente alguma aventura maravilhosa se conecta a eles". Então ordenou que trouxessem o Pescador e perguntou-lhe, dizendo: "Ai de ti, homem! de onde vêm estes peixes?"; e ele respondeu: "De um lago entre quatro alturas, atrás desta montanha que está à vista da tua cidade". Disse o Rei: "Quantos dias de marcha?". Disse ele: "Ó nosso senhor o Sultão, uma caminhada de meia hora". O Rei maravilhou-se e, imediatamente ordenando aos seus homens que marchassem e aos cavaleiros que montassem, partiu com o Pescador, que ia à frente como guia, amaldiçoando secretamente o Ifrit. Seguiram caminho até terem escalado a montanha e descido a um grande deserto que nunca tinham visto durante todas as suas vidas; e o Sultão e seus alegres homens maravilharam-se muito com o ermo situado no meio de quatro montanhas, e o lago e seus peixes de quatro cores, vermelhos e brancos, amarelos e azuis. O Rei ficou parado no local, em assombro, e perguntou às suas tropas e a todos os presentes: "Alguém entre vós já viu este corpo d'água antes de agora?"; e todos responderam: "Ó Rei da era, nunca vimos isso durante todos os nossos dias". Questionaram também os habitantes mais velhos que encontraram, homens muito avançados em idade, mas eles responderam, cada um e todos: "Um pequeno lago como este nunca vimos neste lugar". Então disse o Rei: "Por Alá, não retornarei à minha capital nem me sentarei no trono de meus antepassados até que aprenda a verdade sobre este lago e os peixes nele". Ele então ordenou aos seus homens que desmontassem e acampassem ao redor de toda a montanha; o que fizeram; e convocando seu Wazir, um Ministro de muita experiência, sagaz, de inteligência penetrante e bem versado em assuntos de Estado, disse-lhe: "Está em minha mente fazer uma certa coisa, da qual te informarei; meu coração diz-me para partir sozinho esta noite e descobrir o mistério deste lago e de seus peixes. Tu, toma teu assento à porta da minha tenda, e dize aos Emires e Wazires, aos Nabobos e aos Chamberlain, enfim, a todos que te perguntarem: — O Sultão está indisposto, e ele me ordenou recusar toda admissão; e sê cuidadoso, não deixes que ninguém saiba do meu desígnio". E o Wazir não pôde opor-se a ele. Então o Rei mudou suas vestes e ornamentos e, pendurando sua espada sobre o ombro, tomou um caminho que subia uma das montanhas e marchou pelo resto da noite até o amanhecer; nem cessou de caminhar até que o calor se tornasse demasiado para ele. Após sua longa caminhada, descansou por um tempo, e então retomou sua marcha e seguiu pela segunda noite até o amanhecer, quando subitamente apareceu um ponto negro na distância. Nisso, alegrou-se e disse a si mesmo: "Talvez alguém aqui me informe do mistério do lago e de seus peixes". Logo, aproximando-se do objeto escuro, descobriu ser um palácio construído de pedra negra revestida de ferro; e, enquanto uma folha do portão estava escancarada, a outra estava fechada. O ânimo do Rei elevou-se enquanto ele estava perante o portão e deu uma batida leve; mas não ouvindo resposta, bateu uma segunda vez e uma terceira; contudo, não veio sinal algum. Então bateu com toda a força, mas ainda nenhuma resposta, então disse: "Sem dúvida, está vazio". Então, reuniu resolução e caminhou corajosamente através do portão principal para o grande salão e lá clamou em voz alta: "Olá, vós, habitantes do palácio! Sou um estrangeiro e viajante; tendes aqui algo de víveres?". Ele repetiu seu clamor uma segunda e uma terceira vez, mas ainda não veio resposta; então, fortalecendo seu coração e decidindo-se, caminhou pelo vestíbulo até o centro do palácio e não encontrou homem algum nele. No entanto, estava mobiliado com tecidos de seda estrelados de ouro; e as tapeçarias estavam baixadas sobre as portas. No meio havia um pátio espaçoso do qual partiam quatro salões abertos, cada um com seu estrado elevado, salão de frente para salão; um dossel sombreava o pátio e, no centro, havia uma fonte jorrante com quatro figuras de leões feitos de ouro vermelho, expelindo de suas bocas água clara como pérolas e gemas diáfanas. Ao redor do palácio, pássaros estavam soltos e sobre ele estendia-se uma rede de fio de ouro, impedindo-os de voar; em suma, havia de tudo, exceto seres humanos. O Rei maravilhava-se imensamente com isso, mas sentia-se triste de coração por não ver ninguém para lhe dar uma explicação sobre o deserto e seu lago, os peixes, as montanhas e o próprio palácio. Logo, enquanto ele se sentava entre as portas em profunda reflexão, eis que veio uma voz de lamento, como de um coração consumido pela dor, e ele ouviu a voz entoando estes versos:

Escondi o que suportava dele e, no entanto, veio à luz, ✿ E o sono noturno fugiu das minhas pálpebras e mudou-se para a noite sem sono: Oh mundo! Oh Destino! retém tua mão e cessa tua dor e dano ✿ Olha e contempla meu espírito desamparado em angústia e pavor: Nunca mostrarás piedade ao jovem de linhagem nobre que se perdeu no caminho ✿ Do Amor, e caiu da riqueza e da fama ao mais baixo e vil estado. Ciumento do sopro do Zéfiro era eu enquanto ele soprava sobre tua forma ✿ Mas quando o Destino desce, ele cega a visão humana, O que fará o arqueiro desamparado que, quando enfrenta seu inimigo ✿ E curva seu arco para disparar a flecha, descobre que sua corda se partiu? Quando o pesar e o cuidado pesam tanto sobre o jovem de alma generosa ✿ Como escapará ele de sua sorte e onde, do Destino, seu lugar de fuga?

Quando o Sultão ouviu a voz lúgubre, ele saltou para seus pés; e, seguindo o som, encontrou uma cortina baixada sobre a porta de um aposento. Ele a levantou e viu atrás dela um jovem sentado sobre um divã, a cerca de um côvado acima do chão; e ele era belo à vista, um homem bem formado, dotado de eloquência; sua testa era branca como flor, sua bochecha brilhava como rosa, e uma pinta na largura de sua bochecha como um grão de âmbar cinzento; exatamente como o poeta compõe:

Um jovem de cintura fina cujas madeixas e fronte ✿ O mundo em escuridão e em luz está posto. Por todo o círculo da Criação, espetáculo mais belo ✿ Visão mais rara teu olho nunca encontrou: Uma pinta castanha senta-se entronizada sobre uma bochecha ✿ De um vermelho rosado sob um olho de azeviche.

O Rei alegrou-se e saudou-o, mas ele permaneceu sentado em seu caftan de tecido de seda debruado com ouro egípcio e sua coroa cravejada de gemas de sortidos tipos; mas seu rosto estava triste com os traços da dor. Ele retribuiu a saudação real da maneira mais cortês, acrescentando: "Ó meu senhor, tua dignidade exige que eu me levante para ti; e minha única desculpa é implorar teu perdão". Disse o Rei: "Estás desculpado, ó jovem; olha, pois, para mim como teu hóspede, vindo aqui por um objetivo especial. Gostaria que me desses a conhecer os segredos deste lago e seus peixes e deste palácio e tua solidão nele e a causa de teu gemido e lamento". Quando o jovem ouviu estas palavras, ele chorou com profundo choro; até que seu peito estivesse encharcado de lágrimas e começou a recitar:

Dize àquele que descuidadamente dorme enquanto a flecha da Fortuna voa ✿ Quantos este mundo mutável derruba e eleva para ascender? Embora teu olho esteja selado no sono, não durmam os olhos do Todo-Poderoso ✿ E quem encontrou o Tempo sempre justo, ou o Destino sob um disfarce constante?

Então ele suspirou um suspiro longo e recitou:

Confia teu caso a Ele, o Senhor que criou a humanidade; ✿ Abandona o pesar e o cuidado e cultiva o contentamento da mente; Não perguntes ao Passado como ou por que veio a acontecer: ✿ Todas as coisas humanas pelo Destino e pela Sorte foram projetadas!

O Rei maravilhou-se e perguntou-lhe: "O que te faz chorar, ó jovem?" e ele respondeu: "Como não haveria de chorar, quando este é o meu estado!" Então ele estendeu a mão e levantou a bainha de sua veste, quando, eis que a metade inferior de seu corpo aparecia como pedra até os pés, enquanto, do umbigo aos cabelos da cabeça, ele era homem. O Rei, vendo esse seu triste fado, entristeceu-se com profunda mágoa e, movido por compaixão, exclamou: "Ai de mim e que desventura! Em verdade, ó mancebo, tu acumulas tristeza sobre a minha tristeza. Eu estava disposto a perguntar-te apenas sobre o mistério dos peixes, mas agora estou ansioso por conhecer a tua história, bem como a deles. Contudo, não há Majestade e não há Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande. Não percas tempo, ó jovem, mas conta-me prontamente toda a tua história." Disse ele: "Empresta-me os teus ouvidos, a tua visão e o teu discernimento"; e disse o Rei: "Tudo está ao teu dispor!" Então o jovem começou: "Direito assombroso e maravilhoso é o meu caso e o destes peixes; e se fosse gravado com buris nos cantos dos olhos, seria uma advertência para quem quisesse ser advertido." "Como é isso?", perguntou o Rei, e o jovem começou a contar

A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE ENCANTADO.

Sabe, pois, ó meu senhor, que outrora meu pai era Rei desta cidade, e seu nome era Mahmúd, intitulado Senhor das Ilhas Negras, e proprietário do que são agora estas quatro montanhas. Ele governou por setenta anos, após o que foi para a misericórdia do Senhor e eu reinei como Sultão em seu lugar. Tomei por esposa minha prima, a filha de meu tio paterno, e ela amava-me com um amor tão abundante que, sempre que eu estava ausente, ela não comia nem bebia até que me visse novamente. Ela coabitou comigo por cinco anos, até um certo dia em que saiu para o banho Hammam; e eu ordenei ao cozinheiro que se apressasse em preparar tudo o que era necessário para a nossa ceia. E entrei neste palácio e deitei-me na cama onde costumava dormir e ordenei a duas donzelas que abanassem o meu rosto, uma sentada junto à minha cabeça e a outra aos meus pés. Mas eu estava perturbado e inquieto pela ausência da minha esposa e não conseguia dormir; pois, embora meus olhos estivessem fechados, minha mente e meus pensamentos estavam bem despertos. Logo ouvi a escrava que estava à minha cabeceira dizer à que estava aos meus pés: "Ó Mas'údah, quão miserável está o nosso senhor e quão consumido em sua juventude, e ó, que pena ele ser tão traído pela nossa senhora, a maldita prostituta!" A outra respondeu: "Sim, na verdade: Allah amaldiçoe todas as mulheres infiéis e adúlteras; mas alguém como o nosso senhor, com seus belos dotes, merece algo melhor do que esta meretriz que dorme fora todas as noites." Então disse aquela que estava sentada junto à minha cabeça: "Será o nosso senhor mudo ou apenas bom para balbuciar, que ele não a questiona?" e disse a outra: "Ai de ti! Acaso o nosso senhor conhece os costumes dela ou ela permite que ele faça a sua escolha? Não, mais ainda, ela não droga todas as noites a taça que lhe dá para beber antes da hora de dormir, e coloca Bhang nela? Assim ele dorme e não sabe para onde ela vai, nem o que ela faz; mas nós sabemos que, depois de lhe dar o vinho drogado, ela veste as suas roupas mais ricas e perfuma-se e então sai para ficar longe até o romper do dia; depois ela volta para ele e queima uma pastilha sob o seu nariz e ele desperta do seu sono mortal." Quando ouvi as palavras das escravas, a luz tornou-se negra diante dos meus olhos e pensei que a noite nunca cairia. Pouco depois, a filha do meu tio voltou dos banhos; e eles puseram a mesa para nós e nós comemos e sentamo-nos juntos por uma bela meia hora, bebendo o nosso vinho como era sempre o nosso costume. Então ela pediu o vinho especial que eu costumava beber antes de dormir e alcançou-me a taça; mas, parecendo bebê-la como de costume, derramei o conteúdo no meu peito; e, deitando-me, deixei que ela ouvisse que eu estava dormindo. Então, eis que ela gritou: "Dorme a noite toda e nunca mais acordes: por Allah, eu detesto-te e detesto todo o teu corpo, e a minha alma volta-se com nojo de coabitar contigo; e não vejo a hora em que Allah arrebate a tua vida!" Então ela levantou-se e vestiu o seu traje mais belo e perfumou a sua pessoa e pendurou a minha espada sobre o seu ombro; e, abrindo os portões do palácio, seguiu o seu caminho maligno. Levantei-me e segui-a enquanto ela deixava o palácio e ela atravessou as ruas até chegar ao portão da cidade, onde disse palavras que não entendi, e os cadeados caíram por si mesmos como se estivessem quebrados e as folhas do portão abriram-se. Ela saiu (e eu atrás dela sem que ela notasse nada) até chegar finalmente aos montes periféricos e a uma cerca de caniços construída em torno de uma cabana de telhado redondo feita de tijolos de barro. Assim que ela entrou pela porta, subi ao telhado que permitia uma visão do interior. E eis que minha bela prima tinha entrado para junto de um escravo negro hediondo com o lábio superior como a tampa de uma panela, e o inferior como uma panela aberta; lábios que poderiam varrer a areia do piso de cascalho da choupana. Ele era, além disso, um leproso e um paralítico, deitado sobre um monte de restos de cana-de-açúcar e envolto em um cobertor velho e nos mais imundos trapos e farrapos. Ela beijou o chão diante dele, e ele levantou a cabeça para vê-la e disse: "Ai de ti! Que necessidade tinhas de ficar longe todo este tempo? Estiveram aqui comigo vários dos irmãos negros, que beberam o seu vinho e cada um teve a sua jovem, e eu não me contentei em beber por causa da tua ausência." Então ela disse: "Ó meu senhor, amor do meu coração e frescor dos meus olhos, não sabes que sou casada com o meu primo cujo simples olhar eu detesto, e odeio a mim mesma quando estou na sua companhia? E se eu não temesse por ti, não deixaria um único sol nascer antes de fazer da sua cidade um monte arruinado onde o corvo grasnasse e a coruja piasse, e o chacal e o lobo se abrigassem e pilhassem; na verdade, eu teria removido as suas próprias pedras para o lado de trás do Monte Qáf." Replicou o escravo: "Tu mentes, maldita sejas! Agora juro um juramento pelo valor e honra dos homens negros (e não penses que a nossa virilidade é a pobre virilidade dos homens brancos), de hoje em diante, se tu ficares longe até esta hora, não farei companhia a ti, nem colarei o meu corpo ao teu corpo e folgarei. Estás a brincar conosco, tua panela rachada, para que possamos satisfazer as tuas luxúrias sujas? Fedorenta! Cadela! A mais vil das brancas vis!" Quando ouvi as suas palavras e vi com os meus próprios olhos o que se passava entre esses dois miseráveis, o mundo tornou-se escuro diante do meu rosto e a minha alma não sabia em que lugar estava. Mas a minha esposa humildemente levantou-se chorando diante dele e bajulando o escravo, dizendo: "Ó meu amado, e verdadeiro fruto do meu coração, não há ninguém que me anime senão o teu querido eu; e, se tu me expulsares, quem me acolherá, ó meu amado, ó luz dos meus olhos?" E ela não parou de chorar e de se humilhar diante dele até que ele se dignou a reconciliar-se com ela. Então ela ficou muito contente e levantou-se e despiu as suas roupas, até as suas calças de baixo, e disse: "Ó meu mestre, o que tens aqui para a tua serva comer?" "Destapa a bacia", resmungou ele, "e encontrarás no fundo os ossos grelhados de alguns ratos com que jantamos; belisca-os, e depois vai àquele pote de sobras onde encontrarás algumas sobras de cerveja que podes beber." Assim ela comeu e bebeu e lavou as mãos, e foi e deitou-se ao lado do escravo, sobre os restos de cana e, despindo-se completamente nua, ela entrou com ele sob o seu cobertor imundo e os seus trapos e farrapos. Quando vi a minha esposa, a minha prima, a filha do meu tio, fazer este ato, perdi completamente o juízo e, descendo do telhado, entrei e peguei a espada que ela tinha consigo e desembainhei-a, determinado a abater os dois. Golpeei primeiro o pescoço do escravo e pensei que o decreto de morte tinha caído sobre ele:—E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Agora, quando era a Oitava Noite,

Ela continuou: Chegou-me, ó Rei auspicioso, que o jovem Príncipe enfeitiçado disse ao Rei: "Quando golpeei o escravo com a intenção de decepar a sua cabeça, pensei que o tinha morto; pois ele soltou um gemido sibilante alto, mas eu tinha cortado apenas a pele e a carne da garganta e as duas artérias! Isso acordou a filha do meu tio, então embainhei a espada e saí para a cidade; e, entrando no palácio, deitei-me na minha cama e dormi até de manhã, quando a minha esposa me despertou e vi que ela tinha cortado o seu cabelo e vestido roupas de luto. Disse ela:—Ó filho do meu tio, não me culpes pelo que faço; chegou-me agora que a minha mãe morreu, e o meu pai foi morto na guerra santa, e dos meus irmãos um perdeu a vida por uma picada de cobra e o outro caindo de um precipício; e eu não posso e não devo fazer nada senão chorar e lamentar. Quando ouvi as suas palavras, abstive-me de qualquer reprovação e disse apenas:—Faz como quiseres; certamente não te contrariarei. Ela continuou a sofrer, chorando e lamentando-se um ano inteiro do início ao fim do seu círculo, e quando terminou, disse-me:—Desejo construir para mim no teu palácio uma tumba com uma cúpula, que reservarei para o meu luto e chamarei de Casa das Lamentações. Disse-lhe eu novamente:—Faz como quiseres! Então ela construiu para si um cenotáfio onde lamentar-se, e colocou no seu centro uma cúpula sob a qual aparecia uma tumba como o sepulcro de um Santo. Para lá ela levou o escravo e alojou-o; mas ele estava extremamente fraco por causa do seu ferimento, e incapaz de lhe prestar serviço amoroso; ele só podia beber vinho e, desde o dia do seu ferimento, não disse uma palavra, mas viveu porque a sua hora marcada não tinha chegado. Todos os dias, de manhã e à noite, a minha esposa ia até ele e chorava e lamentava-se por ele e dava-lhe vinho e sopas fortes, e não deixou de agir desta maneira por um segundo ano; e eu suportei-a pacientemente e não dei atenção a ela. Um dia, porém, entrei onde ela estava sem ser notado; e encontrei-a a chorar e a bater no rosto e a gritar:—Por que estás ausente da minha vista, ó deleite do meu coração? Fala comigo, ó minha vida; conversa comigo, ó meu amor? Então ela recitou estes versos:—

Pelo teu amor a minha paciência falha e ainda que esqueças ✿ Eu não posso; nem a outro amor meu coração pode responder: Carrega o meu corpo, carrega a minha alma onde quer que vás ✿ E onde montares o acampamento, que o meu corpo enterrado jaz: Grita o meu nome sobre a minha sepultura, e uma resposta retornará ✿ O gemido dos meus ossos em resposta ao teu gritar.

Então ela recitou, chorando amargamente enquanto isso:—

O dia do meu deleite é o dia em que te aproximas ✿ E o dia do meu susto é o dia em que te afastas: Embora eu trema durante a noite no meu amargo medo da morte ✿ Quando te seguro nos meus braços estou livre de todo o susto.

Mais uma vez ela começou a recitar:—

Embora pela manhã eu possa acordar com toda a felicidade na mão ✿ Embora o mundo todo seja meu e como reis Kisra eu reine; Para mim eles tinham o valor da asinha do mosquito ✿ Quando não consigo ver a tua forma, quando procuro por ti em vão.

Quando ela terminou por um tempo as suas palavras e o seu choro, disse-lhe eu:—Ó minha prima, que este teu luto baste, pois em verter lágrimas há pouco proveito! Não me contraries, respondeu ela, em nada do que faço, ou porei mãos violentas em mim mesma! Então calei-me e deixei-a seguir o seu caminho; e ela não parou de gritar e lamentar-se e de se entregar à sua aflição por mais um ano. Ao fim do terceiro ano, cansei-me deste luto prolongado, e um dia aconteceu-me entrar no cenotáfio quando estava aborrecido e irritado com algum assunto que me tinha contrariado, e de repente ouvi-a dizer:—Ó meu senhor, nunca te ouço conceder uma única palavra a mim! Por que não me respondes, ó meu mestre? e ela começou a recitar:—

Ó tumba! Ó tumba! seja a sua beleza posta na sombra ✿ Escureceste aquele semblante tão brilhante como o meio-dia? Ó tumba! nem terra nem céu és para mim ✿ Então como acontece que em ti estão unidos o meu sol e a minha lua?

Quando ouvi versos como estes, a raiva acumulou-se sobre a minha raiva; gritei:—Ai de mim! até quando durará esta tristeza? e comecei a repetir:—

Ó tumba! Ó tumba! sejam os seus horrores postos na ruína? ✿ Escureceste aquele semblante que adoece a alma? Ó tumba! nem fossa nem pote és para mim ✿ Então como acontece que em ti estão unidos solo e carvão?

Quando ela ouviu as minhas palavras, saltou para os seus pés gritando:—Ai de ti, teu cão! tudo isto é obra tua; feriste o querido do meu coração e assim causaste-me grande mágoa e desperdiçaste a sua juventude para que estes três anos ele tenha jazido na cama mais morto do que vivo! Na minha ira gritei:—Ó tu, a mais imunda das meretrizes e a mais suja das prostitutas alguma vez possuída por escravos negros que são contratados para te ter! Sim, na verdade, fui eu quem fez esta boa ação; e pegando na minha espada, desembainhei-a e fui contra ela para a cortar. Mas ela riu-se das minhas palavras e da minha intenção com desprezo, gritando: Ao calcanhar, cão que és! Ai do passado que não voltará a acontecer, nem ninguém poderá levantar os mortos. Allah deu agora, de fato, nas minhas mãos aquele que me fez isto, um ato que queimou o meu coração com um fogo que não morreu e uma chama que não podia ser apagada! Então ela levantou-se; e, pronunciando algumas palavras ininteligíveis para mim, ela disse:—Pela virtude da minha necromancia, torna-te metade pedra e metade homem; pelo que me tornei o que vês, incapaz de levantar-me ou sentar-me, e nem morto nem vivo. Além disso, ela enfeitiçou a cidade com todas as suas ruas e jardins, e ela transformou, pelo seu feitiço, as quatro ilhas em quatro montanhas em torno do lago sobre o qual me perguntas; e os cidadãos, que eram de quatro fés diferentes, muçulmanos, nazarenos, judeus e magos, ela transformou pelas suas encantações em peixes; os muçulmanos são os brancos, os magos os vermelhos, os cristãos os azuis e os judeus os amarelos. "E todos os dias ela tortura-me e açoita-me com cem chicotadas, cada uma das quais arranca rios de sangue e corta a pele dos meus ombros em tiras; e, por fim, ela veste a minha metade superior com um pano de crina e depois joga sobre eles estes robes." Aqui o jovem voltou a verter lágrimas e começou a recitar:—

Em paciência, ó meu Deus, suporto o meu lote e destino; ✿ Suportarei pela Tua vontade qualquer que seja o meu estado: Eles oprimem-me; eles torturam-me; fazem da minha vida uma mágoa ✿ No entanto, talvez a felicidade do Céu compense a minha angústia: Sim, angustiada está a minha vida pelo veneno e ódio dos inimigos ✿ Mas Mustapha e Murtazá abrir-me-ão o portão do Céu.

Após isto, o Sultão virou-se para o jovem Príncipe e disse: "Ó jovem, tu removeste uma dor apenas para acrescentar outra dor; mas agora, ó meu amigo, onde está ela; e onde está o mausoléu onde jaz o escravo ferido?" "O escravo jaz sob aquela cúpula", disse o jovem, "e ela senta-se na câmara em frente àquela porta. E todos os dias ao nascer do sol ela sai, e primeiro despe-me, e chicoteia-me com cem golpes do chicote de couro, e eu choro e grito; mas não há poder de movimento nos meus membros inferiores para a manter longe de mim. Depois de terminar de me torturar, ela visita o escravo, levando-lhe vinho e carnes cozidas. E amanhã, a uma hora adiantada, ela estará aqui." Disse o Rei: "Por Allah, ó jovem, farei certamente por ti uma boa ação que o mundo não deixará morrer voluntariamente, e um ato de bravura que será crônico muito depois de eu estar morto e partido." Então o Rei sentou-se ao lado do jovem Príncipe e conversaram até ao anoitecer, quando ele se deitou e dormiu; mas, assim que a falsa alvorada apareceu, ele levantou-se e, despindo as suas vestes exteriores, desembainhou a sua lâmina e apressou-se para o lugar onde jazia o escravo. Então ele percebeu velas acesas e lâmpadas, e o perfume de incensos e unguentos; e, guiado por estes, ele dirigiu-se ao escravo e golpeou-o com um golpe, matando-o no local: após o que ele levantou-o às costas e atirou-o para um poço que havia no palácio. Pouco depois, ele regressou e, vestindo as roupas do escravo, deitou-se ao longo dentro do mausoléu com a espada desembainhada colocada perto e ao longo do seu lado. Após uma hora ou mais, a bruxa maldita veio; e, indo primeiro ao seu marido, ela despiu as suas roupas e, pegando num chicote, açoitou-o cruelmente enquanto ele gritava: "Ah! basta-me o estado em que estou! tem pena de mim, ó minha prima!" Mas ela replicou: "Tiveste tu pena de mim e poupaste a vida do meu verdadeiro amor por quem eu estava apaixonada?" Então ela puxou o cilício sobre a sua pele viva e sangrenta e jogou o robe sobre tudo e desceu para junto do escravo com uma taça de vinho e uma tigela de caldo de carne nas mãos. Ela entrou sob a cúpula chorando e lamentando-se, "Ai de mim!" e gritando: "Ó meu senhor! diz uma palavra para mim! ó meu mestre! conversa um pouco comigo!" e começou a recitar estes dísticos:—

Até quando esta dureza, este desamor, permanecerá? ✿ Não te bastam os rios de lágrimas que viste? Prolongas a nossa separação propositadamente ✿ E se quisesses agradar ao meu inimigo, estarias satisfeito!

Então ela chorou novamente e disse: "Ó meu senhor! fala comigo, conversa comigo!" O Rei baixou a voz e, retorcendo a língua, falou ao modo dos negros e disse: "'lém! 'lém! não há Majestade e não há Poder senão em Allauh, o Glorioso, o Grandioso!" Ora, quando ela ouviu estas palavras, gritou de alegria e caiu no chão desmaiada; e quando os sentidos lhe voltaram, perguntou: "Ó meu senhor, pode ser verdade que tens o dom da fala?" E o Rei, tornando a sua voz pequena e fraca, respondeu: "Ó minha maldita! mereces tu que eu fale contigo e converse contigo?" "Por que e por quê?" replicou ela; e ele respondeu: "O porquê é que durante todo o dia longo tu atormentas o teu marido; e ele continua a clamar ao Céu por auxílio, até que o sono me é estranho desde a tarde até à manhã, e ele reza e pragueja, amaldiçoando-nos aos dois, a mim e a ti, causando-me inquietação e muito incómodo: se não fosse isto, há muito que teria recuperado a saúde; e é isto que me impede de te responder." Disse ela: "Com a tua licença, libertá-lo-ei do feitiço que sobre ele pende;" e disse o Rei: "Liberta-o e deixai-nos ter algum descanso!" Ela clamou: "Ouvir é obedecer;" e, indo do cenotáfio para o palácio, pegou numa tigela de metal e encheu-a com água e pronunciou sobre ela certas palavras que fizeram o conteúdo borbulhar e ferver como um caldeirão que fervilha sobre o fogo. Com isto ela aspergiu o seu marido dizendo: "Pela virtude das palavras terríveis que pronunciei, se te tornaste assim pelos meus feitiços, sai dessa forma para a tua antiga forma original." E eis que o jovem estremeceu e tremeu; então levantou-se e, regozijando-se com o seu livramento, clamou em voz alta: "Testemunho que não há deus senão o Deus, e em verdade Mohammed é o Seu Apóstolo, que Allah abençoe e guarde!" Então ela disse-lhe: "Sai e não tornes aqui, pois se o fizeres, certamente te matarei;" gritando estas palavras na sua cara. Assim, ele saiu de entre as suas mãos; e ela voltou para a cúpula e, descendo ao sepulcro, disse: "Ó meu senhor, sai para mim para que eu possa olhar para ti e para a tua formosura!" O Rei respondeu com palavras fracas e baixas: "Que coisa fizeste? Livraste-me do ramo, mas não da raiz." Ela perguntou: "Ó meu querido! Ó meu negrinho! qual é a raiz?" E ele respondeu: "Fogo sobre ti, ó minha maldita! O povo desta cidade e das quatro ilhas, todas as noites, quando metade delas passa, levanta a cabeça do tanque no qual os transformaste em peixes e clama ao Céu e invoca a sua ira sobre mim e sobre ti; e esta é a razão pela qual o meu corpo está impedido de recuperar a saúde. Vai imediatamente e liberta-os; depois vem a mim e pega na minha mão, e levanta-me, pois um pouco de força já me voltou." Quando ela ouviu as palavras do Rei (e ainda supunha que ele fosse o escravo), clamou alegremente: "Ó meu mestre, sobre a minha cabeça e sobre os meus olhos seja o teu comando, Bismillah!" Então ela saltou para os pés e, cheia de alegria e contentamento, correu para o tanque e pegou um pouco da sua água na palma da mão—E Shahrazad percebeu o romper da aurora e cessou de dizer a sua palavra permitida.

Agora, quando era a Nona Noite,

Ela disse: Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que quando a jovem, a feiticeira, tomou na mão um pouco da água do tanque e pronunciou sobre ela palavras que não podiam ser entendidas, os peixes levantaram as cabeças e ergueram-se no instante como homens, tendo sido removido o feitiço sobre o povo da cidade. O que era o lago tornou-se novamente uma capital apinhada; os bazares estavam cheios de gente que comprava e vendia; cada cidadão estava ocupado com o seu próprio ofício e as quatro colinas tornaram-se ilhas como eram outrora. Então a jovem, aquela feiticeira perversa, voltou para o Rei e (ainda pensando que ele era o negro) disse-lhe: "Ó meu amor! estende a tua honrada mão para que eu possa ajudar-te a levantar." "Mais perto de mim," disse o Rei num tom fraco e fingido. Ela aproximou-se como para o abraçar, quando ele pegou na espada escondida ao seu lado e golpeou-a através do peito, de modo que a ponta apareceu a brilhar por trás das suas costas. Então ele golpeou-a uma segunda vez e cortou-a em duas metades e lançou-a ao chão. Depois disso, saiu e encontrou o jovem, agora liberto do feitiço, à sua espera, e felicitou-o pela sua feliz libertação, enquanto o Príncipe beijava a sua mão com abundantes agradecimentos. Disse o Rei: "Queres habitar nesta cidade ou vir comigo para a minha capital?" Disse o jovem: "Ó Rei da era, não sabes tu que jornada há entre ti e a tua cidade?" "Dois dias e meio," respondeu ele; ao que disse o outro: "Se estás a dormir, ó Rei, acorda! Entre ti e a tua cidade há uma marcha de um ano para um caminhante bem preparado, e não terias chegado aqui em dois dias e meio se a cidade não estivesse sob encantamento. E eu, ó Rei, nunca me separarei de ti; não, nem sequer por um abrir e fechar de olhos." O Rei regozijou-se com as suas palavras e disse: "Graças a Allah que te concedeu a mim! Desta hora em diante és o meu filho e o meu único filho, pois em toda a minha vida nunca fui abençoado com descendência." Nesse momento abraçaram-se e regozijaram-se com uma alegria excessivamente grande; e, chegando ao palácio, o Príncipe que tinha estado enfeitiçado informou os seus lordes e os seus grandes que estava prestes a visitar os Lugares Santos como peregrino, e ordenou-lhes que preparassem todas as coisas necessárias para a ocasião. Os preparativos duraram dez dias, após o que partiu com o Sultão, cujo coração ardia de anseio pela sua cidade de onde estivera ausente um ano inteiro. Viajaram com uma escolta de Mamelucos levando toda a sorte de presentes preciosos e raridades, nem cessaram de caminhar dia e noite durante um ano inteiro até que se aproximaram da capital do Sultão, e enviaram mensageiros a anunciar a sua vinda. Então o Wazir e todo o exército saíram ao seu encontro em alegria e contentamento, pois tinham perdido toda a esperança de ver o seu Rei; e as tropas beijaram o chão diante dele e desejaram-lhe alegria pela sua segurança. Ele entrou e tomou assento no seu trono e o Ministro veio perante ele e, quando informado de tudo o que tinha acontecido ao jovem Príncipe, felicitou-o pelo seu estreito escape. Quando a ordem foi restaurada em toda a terra, o Rei deu larguezas a muitos do seu povo e disse ao Wazir: "Traze aqui o Pescador que nos trouxe os peixes!" Assim, enviou pelo homem que tinha sido a causa primeira de a cidade e os cidadãos terem sido libertados do encantamento e, quando ele entrou na presença, o Sultão concedeu-lhe um traje de honra e questionou-o sobre a sua condição e se tinha filhos. O Pescador deu-lhe a saber que tinha duas filhas e um filho, pelo que o Rei mandou buscá-los e, tomando uma filha por esposa, deu a outra ao jovem Príncipe e fez do filho o seu tesoureiro-mor. Além disso, investiu o seu Wazir com o Sultanato da Cidade nas Ilhas Negras que outrora pertenciam ao jovem Príncipe, e despachou com ele a escolta de cinquenta escravos armados juntamente com trajes de honra para todos os Emires e Grandes. O Wazir beijou as mãos e partiu no seu caminho; enquanto o Sultão e o Príncipe permaneceram em casa em todo o conforto e deleite da vida; e o Pescador tornou-se o homem mais rico da sua era, e as suas filhas casaram com os Reis, até que a morte lhes chegou. E ainda, ó Rei! isto não é mais maravilhoso do que a história de

Encantadora simplicidade de costumes quando o Primeiro-Ministro carrega o peixe (sombra de Vattel!) para a criada da cozinha. A "Gesta Romanorum" não é em parte alguma mais ingénua.

Nota de rodapé 106: Árabe. "Kahílat al-taraf" = lit. pálpebras delineadas com Kohl; e figurativamente "com pestanas negras e olhar langoroso". Esta é uma expressão que ocorre frequentemente n'As Noites e que, como se verá, se aplica tanto aos "animais inferiores" como aos homens. Os muçulmanos na África Central aplicam o Kohl não na espessura da pálpebra, mas em ambas as pálpebras exteriores, fixando-o com alguma substância gordurosa. O olho egípcio (e sírio) peculiar, com as suas espessas franjas de pestanas pretas como azeviche, parecendo linhas de negro traçadas com fuligem, sugere facilmente o símile. Em Inglaterra, vi a mesma aparência entre mineiros recém-saídos da mina de carvão.

Nota de rodapé 107: Naturalmente, aplicando-se ao seu próprio caso.

Nota de rodapé 108: Árabes pré-históricos que mediam de 60 a 100 côvados de altura: Alcorão, cap. xxvi., etc. Serão frequentemente mencionados n'As Noites.

Nota de rodapé 109: Árabe. "Dastúr" (do persa) = licença, permissão. A palavra tem dois significados (ver Burckhardt, Arab. Prov. N.º 609) e é muito usada, p. ex., antes de subir escadas ou entrar num quarto onde se possam encontrar mulheres estranhas. Assim, "Tarík" = Abram caminho (Pilgrimage, iii., 319). A antiga ocupação persa do Egito, para não falar dos circassianos de língua persa e outros governantes, deixou muitos desses vestígios na linguagem popular. Um deles é esse horror dos viajantes — "Bakhshísh", pron. bakh-sheesh e abreviado para shísh, do persa "baksheesh". A nossa "Christmas box" tem sido, muito desnecessariamente, derivada do mesmo, apesar da nossa leitura:—

Gladly the boy, with Christmas box in hand.

E, como se verá, os persas legaram ao mundo exterior coisas piores do que a linguagem obscena, p. ex., heresia e sodomia.

Nota de rodapé 110: Ele fala da sua esposa, mas eufemisticamente no masculino.

Nota de rodapé 111: Um ditado popular em todo o Al-Islam.

Nota de rodapé 112: Árabe. "Fata": lit. = um jovem; um homem generoso, alguém de mente nobre (como a juventude deveria ser). Corresponde ao lat. "vir", e tem muito do significado do ital. "Giovane", do alem. "Junker" e do nosso "gentleman".

Nota de rodapé 113: Da Edição de Bulaq.

Nota de rodapé 114: A imprecisão da sua declaração é eufemística.

Nota de rodapé 115: Esta prontidão em verter lágrimas contrasta fortemente com o estoicismo externo da civilização moderna; mas é fiel ao caráter árabe; e os orientais, tal como os heróis de Homero e os italianos de Boccaccio, não se envergonham daquilo que consideramos o resultado da histeria feminina — "um bom choro".

Nota de rodapé 116: A fórmula (constantemente usada pelos muçulmanos) denota aqui desagrado, dúvida sobre como agir, e assim por diante. Pronuncie-se: "Lá haula wa lá kuwwata illá bi 'lláhi 'l-Aliyyi 'l-Azim". Como regra, os erros são maravilhosos: Mandeville (cap. xii.), para "Lá iláha illa 'lláhu wa Muhammadun Rasúlu 'llah", escreve "La ellec sila, Machomete rores alla". A primeira (lá haula, etc.), devido às quatro letras árabes peculiares, é pronunciada de forma diferente em toda a parte; e a exclamação é chamada "Haulak" ou "Haukal".

Nota de rodapé 117: Um árabe considera que tem o direito de casar com a sua prima direta, a filha do irmão do seu pai, e se alguém a conquistar, podem resultar uma morte e uma rixa de sangue. O mesmo acontecia de forma modificada entre os judeus e, em ambas as raças, o casamento consanguíneo não era acompanhado pelos resultados nefastos (idiotice, surdez congénita, etc.) observados em raças mistas como a inglesa e a anglo-americana. Quando um beduíno fala da "filha do meu tio", ele quer dizer esposa; e o primeiro é o título mais querido, pois uma esposa pode ser divorciada, mas o sangue é mais espesso que a água.

Nota de rodapé 118: Árabe. "Kahbah"; o termo mais grosseiro possível. Daí a infeliz "Cava" de D. Rodrigo, o Godo, que significa simplesmente A Prostituta.

Nota de rodapé 119: O "Banj" árabe e o "Bhang" hindu (que uso por ser o mais familiar) derivam ambos do antigo copta "Nibanj", que significa uma preparação de cânhamo (Cannabis sativa seu Indica); e aqui é fácil reconhecer o "Nepente" homérico. Al-Kazwini explica o termo como "cânhamo de jardim" (Kinnab bostáni ou Sháhdánaj). Por outro lado, não poucos aplicam a palavra ao meimendro (hyoscyamus niger), tão usado na Europa medieval. O Kámús quer evidentemente dizer meimendro, distinguindo-o de "Hashish al haráfísh" = erva de patifes, isto é, a erva Pantagruelion. O "Alfáz Adwiya" (tradução francesa) explica "Tabannuj" como "Endormir quelqu'un en lui faisant avaler de la jusquiame". Na linguagem moderna, Tabannuj é = ao nosso anestésico administrado antes de uma operação, um amortecedor de dor como a mirra e uma série de outras drogas. Para este fim, o cânhamo é sempre usado (pelo menos nunca ouvi falar de meimendro); e várias preparações da droga são vendidas num bazar especial no Cairo. Ver o "pó de virtude maravilhosa" em Boccaccio, iii., 8; e iv., 10. Sobre estes entorpecentes, propriamente ditos, terei algo a dizer numa página futura. O uso de Bhang data, sem dúvida, do amanhecer da civilização, cujos primeiros prazeres sociais seriam inebriantes. Heródoto (iv. c. 75) mostra os citas queimando as sementes (folhas e cápsulas) no culto e embriagando-se com os fumos, tal como fazem os bosquímanos sul-africanos dos nossos dias. Esta seria a forma mais antiga de fumar: ainda é duvidoso se o cachimbo era usado ou não. Galeno também menciona a intoxicação pelo cânhamo. Entre os muçulmanos, os persas adotaram a bebida como um êxtase e, por volta do nosso século XIII, o Egito, que iniciou a prática, introduziu uma série de preparações que serão notadas ao longo d'As Noites.

Nota de rodapé 120: Os montes de lixo que rodeiam as cidades orientais, alguns (perto do Cairo) têm mais de trinta metros de altura.

Nota de rodapé 121: Árabe. "Kurrat al-ayn"; frescura de olhos, em oposição a um olho quente ("sakhin"), i.e., um vermelho de lágrimas. O termo é verdadeiro e pitoresco, por isso traduzo-o literalmente. Toda a frescura é agradável para os habitantes de terras ardentes: assim, em Al-Hariri, Abu Zayd diz de Bassorá: "Encontrei lá tudo o que pudesse encher o olho de frescura". E um "espólio fresco" (ou prémio) é aquele que foi obtido sem mergulhar nas chamas da guerra, ou simplesmente um prémio agradável.

Nota de rodapé 122: Popularmente traduzido como Cáucaso (ver Noite cdxcvi): corresponde até certo ponto ao "Udaya" hindu, de modo que o sol nasce por detrás dele; e a "falsa alvorada" é causada por um buraco ou brecha. É também o Alborz persa, o Meru (Sumeru) indiano, o Olimpo grego, e a Cordilheira Rifeia (Veliki Camenypoys) ou o grande cinturão estrelado do mundo, etc.

Nota de rodapé 123: Árabe. "Mizr" ou "Mizar"; vulg. Búzah; daí o lat. médico Buza, o Buza russo (cerveja de milheto), o nosso "booze", o holandês antigo "buyzen" e o alemão "busen". Este é o antigo ποθὸς θεῖος da África negra e negroide; a cerveja de Osíris, da qual restos secos foram encontrados em jarros entre os túmulos egípcios. Na África Equatorial é conhecida como "Pombe"; no Alto Nilo "Merissa" ou "Mirisi" e entre os Cafres "Tshuala", "Oala" ou "Boyala": também ouvi falar de "Buswa" na África Central, que pode ser a origem de "Buzah". No Ocidente tornou-se ζῦθος, (romaico πίῤῥα), Xythum e cerevisia ou cervisia, o humor ex hordeo, muito antes dos dias do Rei Gambrinus. Os africanos centrais bebem-na em quantidades imensas: em Unyamwezi, as camas fixas, cobertas com placas de casca de árvore, são todas feitas inclinadas para drenar o licor. Um chefe vive apenas de carne de vaca e Pombe, que é espessa como papa no fundo. O lúpulo é desconhecido: o grão, principalmente Holcus, é deixado a germinar, depois triturado, fervido e deixado a fermentar. No Egito, a bebida é apreciada principalmente pelos berberes, núbios e escravos do Alto Nilo; mas é um artigo superior e mais parecido com o da Europa do que o "Pombe". Dei uma descrição do fabrico em The Lake Regions of Central Africa, vol. ii., p. 286. Existem outras preparações, Umm-bulbul (mãe rouxinol), Dinzáyah e Súbiyah, para as quais devo remeter para o Shaykh El-Tounsy.

Nota de rodapé 124: Há uma verdade terrível nesta sátira, que nos recorda a nobre dama que preferiu ao seu belo marido o palafreneiro laid, ord et infâme da Rainha Margarida de Navarra (Heptameron N.º xx.). Todos conhecemos mulheres que sacrificaram tudo, apesar de si mesmas, por assim dizer, pelo mais desprezível dos homens. O mundo olha e troça e censura e não compreende nada. Existe para cada mulher um homem e apenas um, em cuja escravidão ela está "pronta a varrer o chão". O destino geralmente opõe-se a que ela o encontre, mas, quando o faz, adeus marido e filhos, honra e religião, vida e "alma". Além disso, a Natureza (humana) ordena a união de contrastes, como claro e escuro, escuro e luz, alto e baixo; caso contrário, a humanidade seria como os canídeos, uma raça de extremos, anões como toy-terriers, gigantes como mastins, carecas como os cães de "remédio" chineses, ou peludos como os Terra-Nova. O famoso Wilkes disse apenas uma meia-verdade quando apostou contra o homem mais bonito de Inglaterra, com uma hora de vantagem; a sua fealdade incomum e notável (ele era, como dizem os italianos, un bel brutto), era a maior recomendação aos olhos de mulheres muito bonitas.

Nota de rodapé 125: Todo o cemitério muçulmano tem um lugar deste tipo onde as mulheres honradas podem sentar-se e chorar sem serem vistas pela multidão. Estas visitas são ordenadas pelo Apóstolo: — Frequentai o cemitério, isso far-vos-á pensar na futuridad! Também: — Quem visitar as sepulturas dos seus pais (ou de um deles) todas as sextas-feiras, será escrito como um filho piedoso, ainda que possa ter sido no mundo, antes disso, um desobediente. (Pilgrimage ii., 71.) Os edifícios assemelham-se às nossas "capelas mortuárias" europeias. Saíd, Pasha do Egito, teve a amabilidade de construir uma na ilha ao largo de Suez, para o "uso das senhoras inglesas que gostariam de ter abrigo enquanto choram e se lamentam pelos seus mortos". Mas nunca ouvi dizer que alguma das senhoras lá tenha ido.

Nota de rodapé 126: Árabe. "Ajal" = o período de vida, o tempo determinado da morte: a palavra é de recorrência constante e é também aplicada à morte súbita. Ver o Dicionário de Lane, s.v.

Nota de rodapé 127: "O beduíno moribundo para a sua tribo" (e amante) parece-me altamente patético. O povo selvagem gosta de ser enterrado nas encostas das colinas de onde podem olhar para baixo, para o acampamento; e ainda gritam os nomes de parentes e amigos à medida que passam pelos cemitérios. Uma peça semelhante ocorre em Wetzstein (p. 27, "Reisebericht ueber Hauran", etc.):—

O levai convosco os meus ossos para onde o camelo leva a sua carga ✿ E enterrai-me perante vós, se enterrado eu tiver de ser; E não deixeis que me enterrem sob o fardo da videira ✿ Mas bem alto na colina de onde a vossa visão eu sempre veja! Ao passardes pela minha sepultura gritai alto e nomeai os vossos nomes ✿ O grito dos vossos nomes reavivará os meus ossos: Jejuei durante a minha vida com os meus amigos, e na minha morte, ✿ Festejarei quando nos encontrarmos, naquele dia de alegria e folia.

Nota de rodapé 128: Os Akásirah (pl. de Kasrá = Cosroes) é aqui um título das quatro grandes dinastias de Reis Persas. 1. A raça Peshdadian ou Assíria, proto-histórica para a qual faltam datas; 2. A Káyánián (Medos e Persas) que terminou com a invasão alexandrina em 331 a.C.; 3. A Ashkánián (Partos ou Arsácidas) que governou até 202 d.C.; e 4. A Sassânida, que já foi mencionada. Mas, estritamente falando, "Kisri" e "Kasra" são títulos aplicados apenas à última dinastia e especialmente ao grande Rei Anushirwan. Não devem ser confundidos com "Khusrau" (P.N. Ciro, Assuero? Cosroes?); e, no entanto, os três parecem ter-se combinado em "César", Kaysar e Czar. Para detalhes especialmente relacionados com Zoroastro, ver vol. I, p. 380 do Dabistan ou Escola de Costumes, traduzido por David Shea e Anthony Troyer, Paris, 1843. O livro é muito valioso, mas os nomes próprios estão impressos de forma tão descuidada e incorreta que o estudante é levado a um erro perpétuo.

Nota de rodapé 129: As palavras são as mais baixas e grosseiras; mas a cena é fiel à vida árabe.

Nota de rodapé 130: Árabe. "Hayhát": a palavra, escrita de várias maneiras, é onomatopaica, como o nosso "heigh-ho!"; por vezes significa "longe de mim (ou de ti) esteja isso!", mas no uso popular é simplesmente "Ai de mim".

Nota de rodapé 131: Lane (i., 134) encontra uma data para o livro nesta passagem. O Sultão do Egito, Mohammed ibn Kala'ún, no início do século VIII (Hégira = nosso século XIV), emitiu uma lei sumptuária obrigando cristãos e judeus a usar turbantes azul-índigo e amarelo-açafrão, sendo o branco reservado para os muçulmanos. Mas o costume era muito mais antigo e Mandeville (cap. ix.) descreve-o em 1322 d.C., quando se tinha tornado a regra. E ainda perdura; embora abolido nas cidades, é a regra para os cristãos, pelo menos nas partes rurais do Egito e da Síria. Posso notar aqui que passagens isoladas como estas são absolutamente inúteis para a cronologia: podem ser simplesmente adições de editores ou meros copistas.

Nota de rodapé 132: O antigo "Mustapha" = o Escolhido (profeta, i.e. Maomé), também titulado Al-Mujtabá, o Aceite (Pilgrimage, ii., 309). "Murtazá" = o Eleito, i.e. o Califa Ali é o antigo "Mortada" ou "Mortadi" de Ockley e do seu tempo, significando "alguém agradável a (ou aceitável por) Allah". Escritores ainda mais antigos corromperam-no para "Mortis Ali" e os leitores supuseram que este era o nome do Califa.

Nota de rodapé 133: O brilho (luz zodiacal) que precede a verdadeira alvorada; os persas chamam ao primeiro Subh-i-kázib (falsa ou mentirosa alvorada) em oposição a Subh-i-sádik (verdadeira alvorada) e supõem que é causado pelo sol a brilhar através de um buraco no Monte Kaf que circunda o mundo.

Nota de rodapé 134: Assim, o heb. "Arún" = nu, significa usar apenas a túnica inferior; = o nosso "em camisa".

Nota de rodapé 135: Aqui temos o coloquialismo egípcio vulgar "Aysh" (= Ayyu shayyin) para o clássico "Má" = o quê.

Nota de rodapé 136: "Em nome de Allah!", dito aqui antes de agir.

Nota de rodapé 137: Árabe. "Mamlúk" (pl. Mamálik) lit. uma posse; e n'As Noites um escravo branco treinado para as armas. Os "Bei Mamelucos" do Egito eram localmente chamados de "Ghuzz". Uso a palavra conveniente no seu antigo sentido popular;

'Tis sung, there's a valiant Mameluke In foreign lands ycleped (Sir Luke)—

HUDIBRAS.

E daí, provavelmente, o "Mamamouchi" de Molière; e o francês moderno usa "Mamaluc". Ver Cartas de Savary, N.º xl.

O PORTEIRO E AS TRÊS DAMAS DE BAGDAD.

Era uma vez um Porteiro em Bagdad, que era solteiro e que desejava permanecer sem casar. Aconteceu num certo dia, enquanto ele estava de pé na rua, encostado ociosamente ao seu cesto, que, eis, ali estava diante dele uma mulher honrosa numa mantilha de seda de Mosul[138], bordada a ouro e debruada com brocado; os seus sapatos de passeio eram também bordados a ouro e o seu cabelo flutuava em longas tranças. Ela levantou o véu do rosto[139] e, mostrando dois olhos negros orlados de pestanas cor de azeviche, cujos olhares eram suaves e langorosos e cuja beleza perfeita era sempre sedutora, abordou o Porteiro e disse com o tom mais suave e a linguagem mais escolhida: "Pega no teu cesto e segue-me." O Porteiro ficou tão deslumbrado que mal podia acreditar que a ouvia corretamente, mas pôs o cesto às costas com grande pressa, dizendo consigo mesmo: "Ó dia de boa sorte! Ó dia da graça de Allah!" e caminhou atrás dela até que parou à porta de uma casa. Ali ela bateu, e logo saiu para ela um homem velho, um nazareno, a quem ela deu uma moeda de ouro, recebendo dele em troca o que necessitava de vinho coado, claro como azeite; e ela colocou-o em segurança no cesto, dizendo: "Levanta e segue-me." Disse o Porteiro: "Este, por Allah, é de facto um dia auspicioso, um dia propício para a concessão de tudo o que um homem deseja." Ele voltou a içar o cesto e seguiu-a; até que ela parou na loja de um fruteiro e comprou dele maçãs de Shám[140] e marmelos de Osmán e pêssegos de Omã[141], e pepinos de cultivo do Nilo, e limas egípcias e laranjas Sultáni e cidras; além de jasmim de Alepo, bagas de murta perfumada, nenúfares de Damasco, flor de alfena[142] e camomila, anémonas vermelho-sangue, violetas e flor de romã, silvestre e narciso, e colocou tudo no cesto do Porteiro, dizendo: "Levanta-o." Então ele levantou e seguiu-a até que parou na banca de um talhante e disse: "Corta-me dez libras de carne de carneiro." Ela pagou-lhe o preço e ele embrulhou-a numa folha de bananeira, após o que ela colocou-a no cesto e disse: "Iça, ó Porteiro." Ele içou conforme o pedido e seguiu-a enquanto ela caminhava até que parou numa mercearia, onde comprou frutos secos e miolo de pistáchio, passas de Tihámah, amêndoas descascadas e tudo o que era necessário para a sobremesa, e disse ao Porteiro: "Levanta e segue-me." Então ele levantou o seu cesto e foi atrás dela até que parou na pastelaria, e ela comprou um prato de barro e encheu-o com todo o tipo de doces da loja, tartes rendilhadas e fritos perfumados com almíscar e "bolos de sabão", e pães de limão e conservas de melão[143], e "pentes de Zaynab", e "dedos de dama", e "petiscos do Kazi" e guloseimas de toda a espécie; e colocou o prato no cesto do Porteiro. Então disse ele (sendo um homem alegre): "Deverias ter-me avisado, e eu teria trazido comigo um pónei ou uma camela para carregar toda esta mercadoria." Ela sorriu e deu-lhe um pequeno toque na nuca, dizendo: "Anda e não te excedas nas palavras, pois (se Allah quiser!) o teu salário não faltará." Então parou num perfumista e levou dele dez tipos de águas, rosa perfumada com almíscar, flor de laranjeira, nenúfar, flor de salgueiro, violeta e outras cinco; e comprou também dois pães de açúcar, um frasco para vaporizar perfume, um pedaço de incenso masculino, madeira de aloés, âmbar cinzento e almíscar, com velas de cera de Alexandria; e ela colocou tudo no cesto, dizendo: "Levanta o teu cesto e atrás de mim." Ele fê-lo e seguiu-a até que ela ficou diante do hortelão, de quem comprou cártamo em conserva e azeitonas, em salmoura e em azeite; com estragão e queijo creme e queijo sírio curado; e ela guardou-os no cesto, dizendo ao Porteiro: "Pega no teu cesto e segue-me." Ele fê-lo e foi atrás dela até que chegou a uma bela mansão com um pátio espaçoso, um lugar alto e fino ao qual colunas davam força e graça: e o portão do mesmo tinha duas folhas de ébano incrustadas com placas de ouro vermelho. A senhora parou à porta e, virando o véu do rosto de lado, bateu suavemente com os nós dos dedos, enquanto o Porteiro estava atrás dela, sem pensar em nada a não ser na sua beleza e formosura. Pouco depois a porta abriu-se e ambas as folhas foram afastadas, após o que ele olhou para ver quem a abrira; e eis, era uma senhora de figura alta, com cerca de um metro e cinquenta de altura; um modelo de beleza e formosura, brilho, simetria e graça perfeita. A sua testa era branca como flor; as suas faces como a anémona vivamente brilhantes; os seus olhos eram os da novilha selvagem ou da gazela, com sobrancelhas como a lua crescente que termina Sha'abán e começa Ramazán[144]; a sua boca era o anel de Sulayman[145], os seus lábios vermelho-coral e os seus dentes como uma fileira de pérolas enfiadas ou de pétalas de camomila. A sua garganta lembrava a do antílope, e os seus seios, como duas romãs de igual tamanho, estavam, por assim dizer, altivos[146]; o seu corpo subia e descia em ondas sob o seu vestido como as dobras de uma peça de brocado, e o seu umbigo[147] comportaria uma onça de unguento de benjoim. Em suma, ela era como aquela de quem o poeta disse:—

No Sol e na Lua do palácio lança o teu olhar ✿ Desfruta a sua face de flor, a sua luz perfumada: Os teus olhos jamais verão em cabelo tão negro ✿ Beleza a envolver uma testa tão puramente branca: A face rosada e rubra proclama a sua reivindicação ✿ Embora falhe o nome de quem descrevemos as belezas: Enquanto o seu andar oscila, sorrio às ancas tão grandes ✿ E choro ao ver a cintura que suportam tão ligeira.

"Nem sequer o Sol ou a Lua do palácio ousam olhar-lhe a face; Se a visses, verias uma lua cheia em pleno firmamento. Os seus olhos são como os de uma gazela, que nos mata com o olhar, E o seu pescoço é de gazela, que se ergue para nos assombrar. A sua cintura é o que de mais fino existe, mas as suas ancas são pesadas; Oh, que desgraça para um amante o peso que ela carrega!"

A terceira senhora, ouvindo isto, riu-se, e as outras também, e todas disseram ao Carregador: "A tua sorte está lançada; é o teu destino. Mas temos uma condição para ti: não deves inquirir sobre o que não te diz respeito, sob pena de ouvires o que não queres e veres o que te desagrada." O Carregador respondeu: "Aceito, minhas senhoras, e comprometo-me a não ser intrusivo." Então, a donzela que servira de copeira levantou-se e, com uma agilidade que encantava, pôs-se a servir de novo, enquanto as outras a ajudavam, e o Carregador, sentado entre elas, sentia-se como se estivesse no Paraíso, esquecido de todas as suas fadigas. Assim passaram o resto da noite em folguedos, bebidas e conversas, até que o vinho, subindo-lhes à cabeça, as tornou mais ousadas, e o Carregador, levado pelo ambiente, sentia-se o mais afortunado dos homens, esquecendo-se da sua condição de humilde mercador de cargas.

Enquanto estavam absortos nestes prazeres, ouviu-se uma batida à porta. As três irmãs empalideceram e o silêncio caiu sobre a sala. A copeira levantou-se prontamente e perguntou quem batia. Uma voz masculina, vinda de fora, respondeu com modos corteses, implorando hospitalidade. As senhoras entreolharam-se, hesitantes, mas a que parecia ser a mais velha fez um gesto de anuência. A porta foi aberta e entraram três homens, de aspeto distinto, todos eles caolhos, com a barba rapada e as sobrancelhas aparadas, assemelhando-se a mendigos dervixes. Ao verem as senhoras, saudaram-nas com deferência, e estas, após um momento de observação, convidaram-nos a sentar, pois a hospitalidade era lei sagrada naquela casa de mistérios. Os estranhos, agradecidos, acomodaram-se, mas logo notaram a presença do Carregador, que, por sua vez, os observava com curiosidade, perguntando-se que estranho destino trazia três homens cegos de um olho para aquela reunião de beldades.

Os três recém-chegados, mal se sentaram, começaram a elogiar a beleza da sala e o requinte da companhia, e as senhoras, voltando à sua jovialidade, não tardaram a incluir os novos hóspedes no círculo de libações. O vinho circulava, as taças tilintavam e os versos eram declamados, cada um dos presentes contribuindo com o seu quinhão de galanteios. O Carregador, embora um pouco ofuscado pela presença dos três estranhos, não perdia a sua alegria, pois o vinho dera-lhe uma coragem invulgar. Contudo, a senhora mais velha, percebendo que a noite avançava e que o ambiente se tornava cada vez mais carregado de mistério, propôs que cada um contasse a história da sua vida, especialmente o motivo da sua deformidade, pois era notável que três homens, estranhos entre si, partilhassem a mesma peculiaridade física.

Os três dervixes, após uma troca de olhares, concordaram, contanto que as senhoras também revelassem quem eram e por que viviam sozinhas naquela mansão esplêndida, sem nenhum homem para as proteger. Elas aceitaram o desafio, cientes de que a noite de núpcias do destino estava apenas a começar. O primeiro dos dervixes limpou a garganta, ajeitou a túnica e, com um suspiro que parecia vir das profundezas da sua alma, começou a narrar o início da sua estranha e infortuna jornada, enquanto Shahrazad, sentindo que a aurora se aproximava, interrompeu a sua fala permitida.

Disse a irmã Dunyazad: "Termina para nós a tua história"; e ela respondeu: "Com alegria e de bom grado." Chegou-me ao conhecimento, ó Rei auspicioso, que as donzelas não cessavam de dizer ao Carregador: "O teu espinho, o teu membro, o teu cacete", e ele não parava de beijar, morder e abraçar até que o seu coração estivesse satisfeito, e elas riam até não poderem mais. Por fim, uma disse: "Ó nosso irmão, como se chama, então?" Ele respondeu: "Não sabeis?" Disseram elas: "Não!" "O seu verdadeiro nome", disse ele, "é mula Quebra-tudo, que pasta o manjericão das pontes, e rói o gergelim descascado, e pernoita no Khan de Abu Mansur." Então riram até caírem de costas, e voltaram à sua folia, e não cessaram de estar neste modo até que a noite começou a cair. Então disseram ao Carregador: "Bismillah, ó nosso mestre, levanta-te e põe-te a caminho com esses teus pobres sapatos velhos e vira as costas e mostra-nos a largura dos teus ombros!" Ele disse: "Por Allah, separar-me da minha alma seria mais fácil para mim do que separar-me de vós: vamos, juntemos a noite ao dia, e amanhã de manhã cada um seguirá o seu caminho." "Minha vida por vós", disse a procuradora, "permiti que ele fique connosco, para que possamos rir dele: podemos viver as nossas vidas e nunca encontrar alguém como ele, pois certamente ele é um patife bem alegre e espirituoso." Então disseram: "Não deves permanecer connosco esta noite a não ser com a condição de te submeteres às nossas ordens, e que, sobre o que vires, não faças perguntas, nem indagues a sua causa." "Está bem", respondeu ele, e elas disseram: "Vai ler o que está escrito sobre a porta." Então ele levantou-se e foi até à entrada e ali encontrou escrito em letras de ouro desbotado: "QUEM FALAR DO QUE NÃO LHE DIZ RESPEITO, OUVIRÁ O QUE NÃO LHE DÁ PRAZER!" O Carregador disse: "Sede vós testemunhas contra mim de que não falarei do que não me diz respeito." Então a despenseira levantou-se e pôs comida diante deles e eles comeram; depois do que mudaram o seu local de beber para outro, e ela acendeu as lâmpadas e velas e queimou âmbar e madeira de aloés, e serviu frutas frescas e o serviço de vinho, quando se puseram a foliar e a falar dos seus amantes. E não cessaram de comer, beber e conversar, petiscando frutos secos e rindo e pregando partidas pelo espaço de uma hora inteira quando, eis! Ouviu-se uma batida no portão. A batida de modo algum perturbou a sessão, mas uma delas levantou-se e foi ver o que era e logo voltou, dizendo: "Verdadeiramente o nosso prazer para esta noite será perfeito." "Como é isso?" perguntaram elas; e ela respondeu: "Ao portão estão três Kalandars persas com as barbas, cabeças e sobrancelhas rapadas; e todos os três cegos do olho esquerdo — o que é certamente uma estranha coincidência. São estrangeiros da terra de Roum com a marca da viagem bem visível neles; acabaram de entrar em Bagdad, sendo esta a sua primeira visita à nossa cidade; e a causa da sua batida à nossa porta é simplesmente porque não conseguem encontrar alojamento. De facto, um deles disse-me: — Talvez o dono desta mansão nos deixe ter a chave do seu estábulo ou algum anexo velho onde possamos passar esta noite; pois a tarde surpreendeu-os e, sendo estrangeiros na terra, não conheciam ninguém que lhes desse abrigo. E, ó minhas irmãs, cada um deles é uma figura divertida à sua própria maneira; e se os deixarmos entrar teremos matéria para nos divertirmos." Ela não cessou de as persuadir até que lhe disseram: "Deixa-os entrar, e faz tu a condição habitual com eles de que não falem do que não lhes diz respeito, para que não ouçam o que não lhes dá prazer." Então ela alegrou-se e, indo até à porta, voltou logo com os três monoculares cujas barbas e bigodes estavam bem rapados. Eles saudaram e ficaram longe em sinal de respeito; mas as três damas levantaram-se para eles e deram-lhes as boas-vindas e desejaram-lhes alegria pela sua chegada segura e fizeram-nos sentar. Os Kalandars olharam para a sala e viram que era um lugar agradável, bem varrido e decorado com flores; e as lâmpadas estavam acesas e o fumo dos perfumes subia no ar; e além da sobremesa, frutas e vinho, havia três belas raparigas que podiam ser donzelas; então exclamaram a uma só voz: "Por Allah, é bom!" Então voltaram-se para o Carregador e viram que ele era um sujeito de rosto alegre, embora não estivesse de modo algum sóbrio e estivesse dorido das suas bofetadas. Então pensaram que ele era um deles e disseram: "Um mendicante como nós! quer árabe ou estrangeiro." Mas quando o Carregador ouviu estas palavras, levantou-se e, fixando os olhos ferozmente neles, disse: "Sentai-vos aqui sem exceder na conversa! Não lestes o que está escrito sobre a porta? Certamente não convém a companheiros que vêm até nós como mendigos abanar as vossas línguas para nós." "Pedimos o teu perdão, ó Fakir", responderam eles, "e as nossas cabeças estão entre as tuas mãos." As damas riram excessivamente da discussão; e, fazendo as pazes entre os Kalandars e o Carregador, sentaram os novos convidados diante da comida e eles comeram. Então sentaram-se juntos, e a porteira serviu-lhes de beber; e, enquanto a taça circulava alegremente, disse o Carregador aos pedintes: "E vós, ó meus irmãos, não tendes nenhuma história ou aventura rara para nos divertir?" Agora, o calor do vinho tendo subido às suas cabeças, pediram instrumentos musicais; e a porteira trouxe-lhes um tamborim de Mosul, e um alaúde de Iraque, e uma harpa persa; e cada mendicante pegou num e afinou-o; este o tamborim e aqueles o alaúde e a harpa, e começaram uma melodia alegre enquanto as damas cantavam tão vigorosamente que havia um grande ruído. E enquanto continuavam, eis que alguém bateu ao portão, e a porteira foi ver o que se passava. Agora a causa daquela batida, ó Rei (disse Shahrazad) foi esta, o Califa, Harun al-Rashid, tinha saído do palácio, como era o seu costume de vez em quando, para se consolar na cidade naquela noite, e para ver e ouvir o que de novo se agitava; ele estava com trajes de mercador, e era acompanhado por Ja'afar, o seu Wazir, e por Masrur, o seu Executor da Vingança. Enquanto caminhavam pela cidade, o seu caminho levou-os em direção à casa das três damas; onde ouviram o ruído alto de instrumentos musicais e canto e folia; então disse o Califa a Ja'afar: "Anseio entrar nesta casa e ouvir essas canções e ver quem as canta." Disse Ja'afar: "Ó Príncipe dos Fiéis; este povo está certamente bêbado de vinho, e temo que algum mal nos aconteça se nos misturarmos com eles." "Não há alternativa senão eu entrar lá", respondeu o Califa, "e desejo que engendres algum pretexto para a nossa aparição entre eles." Ja'afar respondeu: "Ouço e obedeço"; e bateu à porta, ao que a porteira saiu e abriu. Então Ja'afar adiantou-se e beijando o chão diante dela disse: "Ó minha senhora, somos mercadores da cidade de Tiberíades: chegámos a Bagdad há dez dias; e, descendo no caravançarai dos mercadores, vendemos toda a nossa mercadoria. Agora um certo negociante convidou-nos para um entretenimento esta noite; então fomos à sua casa e ele pôs comida diante de nós e comemos: depois sentámo-nos ao vinho e à folia com ele por uma hora ou mais quando ele nos deu licença para partir; e saímos de junto dele à sombra da noite e, sendo estrangeiros, não conseguimos encontrar o caminho de volta para o nosso Khan. Por isso, talvez da vossa bondade e cortesia nos permitais ficar convosco esta noite, e o Céu vos recompensará!" A porteira olhou para eles e vendo-os vestidos como mercadores e homens de aspeto grave e sólido, voltou para as suas irmãs e repetiu-lhes a história de Ja'afar; e elas tiveram compaixão dos estrangeiros e disseram-lhe: "Deixa-os entrar." Ela abriu-lhes a porta, quando eles lhe disseram: "Temos a tua licença para entrar?" "Entrai", disse ela; e o Califa entrou seguido por Ja'afar e Masrur; e quando as raparigas os viram levantaram-se em respeito e fizeram-nos sentar e cuidaram das suas necessidades, dizendo: "Bem-vindos, e bem-vindos e boa sorte aos convidados, mas com uma condição!" "Qual é essa?" perguntaram eles, e uma das damas respondeu: "Não faleis do que não vos diz respeito, para que não ouçais o que não vos dá prazer." "Assim seja", disseram eles; e sentaram-se para o seu vinho e beberam profundamente. De repente, o Califa olhou para os três Kalandars e, vendo-os todos e cada um cegos do olho esquerdo, maravilhou-se com a visão; depois olhou para as raparigas e ficou sobressaltado e maravilhou-se com extraordinário deslumbramento com a sua beleza e formosura. Continuaram a foliar e a conversar e disseram ao Califa: "Bebe!" mas ele respondeu: "Fiz voto de Peregrinação"; e afastou-se do vinho. Então a porteira levantou-se e estendendo diante dele uma toalha de mesa bordada a ouro, colocou sobre ela uma tigela de porcelana na qual verteu água de flor de salgueiro com um torrão de neve e uma colher de açúcar cristalizado. O Califa agradeceu-lhe e disse consigo mesmo: "Por Allah, recompensá-la-ei amanhã pela boa ação que fez." Os outros voltaram a dedicar-se a conversar e a foliar; e, quando o vinho os dominou, a dama mais velha que governava a casa levantou-se e, fazendo uma vénia diante deles, pegou na mão da despenseira e disse: "Levanta-te, ó minha irmã, e façamos o que é o nosso dever." Ambas responderam: "Assim seja!" Então a porteira levantou-se e procedeu a retirar o serviço de mesa e os restos do banquete; e renovou as pastilhas e limpou o meio do salão. Então fez os Kalandars sentarem-se num sofá ao lado do estrado, e sentou o Califa e Ja'afar e Masrur do outro lado do salão; depois do que chamou o Carregador e disse: "Quão escassa é a tua cortesia! agora não és um estranho; não, és um da casa." Então ele levantou-se e, apertando o seu cinto, perguntou: "O que quereis que eu faça?" e ela respondeu: "Fica no teu lugar." Então a procuradora levantou-se e colocou no meio do salão uma cadeira baixa e, abrindo um armário, gritou para o Carregador: "Vem ajudar-me." Então ele foi ajudá-la e viu duas cadelas pretas com correntes à volta dos pescoços; e ela disse-lhe: "Pega nelas"; e ele pegou nelas e levou-as para o meio do salão. Então a dama da casa levantou-se e arregaçou as mangas acima dos pulsos e, agarrando um chicote, disse ao Carregador: "Traz para a frente uma das cadelas." Ele trouxe-a para a frente, arrastando-a pela corrente, enquanto a cadela chorava e abanava a cabeça para a dama que, contudo, descarregou nela golpes na cabeça; e a cadela uivou e a dama não cessou de a bater até que o seu antebraço falhou. Então, atirando o chicote da mão, apertou a cadela contra o seu seio e, enxugando as suas lágrimas com as mãos, beijou-lhe a cabeça. Então disse ao Carregador: "Leva-a embora e traz a segunda"; e, quando ele a trouxe, ela fez com ela como tinha feito com a primeira. Ora, o coração do Califa foi tocado por estes atos cruéis; o seu peito apertou-se e ele perdeu toda a paciência no seu desejo de saber por que as duas cadelas eram tão batidas. Ele lançou uma piscadela a Ja'afar desejando que ele perguntasse, mas o Ministro, voltando-se para ele, disse por sinais: "Silêncio!" Então disse a porteira à dona da casa: "Ó minha senhora, levanta-te e vai para o teu lugar para que eu por minha vez possa fazer o meu dever." Ela respondeu: "Assim seja"; e, tomando o seu lugar no sofá de madeira de zimbro, incrustado com ouro e prata, disse à porteira e à despenseira: "Agora fazei o que tendes a fazer." Então a porteira sentou-se num assento baixo junto ao sofá; mas a procuradora, entrando num armário, trouxe de lá uma bolsa de cetim com franjas verdes e dois borlas de ouro. Ela ficou de pé diante da dama da casa e, sacudindo a bolsa, tirou de lá um alaúde que afinou apertando as suas cravelhas; e quando estava em perfeita ordem, começou a cantar estas quadras:

Vós sois o desejo, o meu objetivo ✿ E quando, ó amor, a tua vista vejo A mansão celestial abre-se; ✿ Mas o Inferno vejo quando a tua vista perco. De ti vem a loucura; não menos ✿ Vem a maior alegria, vem o êxtase: Nem no meu amor por ti temo ✿ Ou vergonha e culpa, ou ódio e despeito. Quando o Amor foi entronizado no meu coração ✿ Rasguei o véu da modéstia; E o Amor não cessa de rasgar esse véu ✿ Causando que a desgraça sobre a graça se abata; A veste da doença então vesti ✿ Mas em trapos foi rasgado o segredo: Por isso o meu amor e coração ansioso ✿ Proclamam o vosso alto poder supremo; A lágrima que escorre pela minha face ✿ Conta a minha história de ignomínia: E tudo o que estava escondido foi visto por todos ✿ E todo o meu enigma foi decifrado. Cura então a minha enfermidade, pois tu ✿ És a enfermidade e o remédio! Mas aquela cuja cura está na tua mão ✿ Nunca estará livre de flagelo e ruína; Queimam-me esses olhos que irradiam brilho ✿ Matam-me as espadas da fantasia; Quantos a espada do Amor ✿ Derrubou, desprezando o seu alto grau? Contudo nunca cessarei de definhar ✿ Nem para o esquecimento fugirei. O Amor é a minha saúde, a minha fé, a minha alegria ✿ Público e privado, errado ou certo. Ó olhos felizes que veem os teus encantos ✿ Que contemplam-te à sua vontade! Sim, do meu desejo e vontade mais puros ✿ O escravo do Amor serei sempre chamado.

Quando a donzela ouviu esta elegia em quadras, gritou "Ai! Ai!" e rasgou as suas vestes, e caiu ao chão desmaiada; e o Califa viu cicatrizes de vara de palma nas suas costas e vergões do chicote; e maravilhou-se com extraordinário deslumbramento. Então a porteira levantou-se e aspergiu água sobre ela e trouxe-lhe um vestido fresco e muito fino e vestiu-lho. Mas quando a companhia contemplou estes atos as suas mentes ficaram perturbadas, pois não tinham qualquer pista do caso nem conheciam a história do mesmo; então o Califa disse a Ja'afar: "Não viste as cicatrizes no corpo da donzela? Não posso manter o silêncio ou ficar em repouso até aprender a verdade da sua condição e a história desta outra donzela e o segredo das duas cadelas pretas." Mas Ja'afar respondeu: "Ó nosso senhor, elas puseram como condição connosco que não falemos do que não nos diz respeito, para que não venhamos a ouvir o que não nos dá prazer." Então disse a porteira: "Por Allah, ó minha irmã, vem até mim e completa este serviço para mim." Respondeu a procuradora: "Com alegria e de bom grado"; então ela pegou no alaúde; e inclinou-o contra os seus seios e passou os dedos pelas cordas, e começou a cantar:

Devolve aos meus olhos o sono há muito arrebatado ✿ E diz-me para onde a minha razão fugiu: Aprendi que ao emprestar ao teu amor um lugar ✿ O sono para as minhas pálpebras em inimigo mortal se tornou. Disseram: "Considerámo-te justa, quem emboscou ✿ A tua alma?" "Ide perguntar aos seus olhos gloriosos", eu disse. Perdoo todo o meu sangue que ele se apraz em derramar ✿ Reconhecendo que os seus problemas o levaram a derramar sangue. No espelho da minha mente ele lançou um brilho como o do sol ✿ Cujo reflexo agudo fogo nas entranhas gerou Deixe Allah desperdiçar as Águas da Vida à vontade ✿ Basta-me como salário aqueles lábios de orvalho vermelho: Se te dirigires ao meu amor encontrarás uma causa ✿ Para queixa e lágrimas ou piedade ou luxúria. Em água pura a sua forma saudará os vossos olhos ✿ Quando faltar a taça nem precisareis de beber vinho.

Depois citou da mesma ode:

Bebi, mas o gole do seu olhar, não vinho; ✿ E o seu passo balançante embalou para o sono estes olhos: Não foi o sumo da uva que me agarrou, mas o aperto do Passado ✿ Não foi a taça que me derrubou, mas dons divinos: Os seus cachos retorcidos enredaram a minha alma ✿ E a sua vontade cruel superou toda a minha perspicácia.

Após uma pausa, ela retomou:

Se nos queixamos da ausência o que diremos? ✿ Ou se a dor nos aflige para onde iremos? Se eu contratar um intérprete para contar a minha história ✿ A queixa dos amantes não é contada por pagamento: Se eu vestir a paciência, a vida de um amante ✿ Após a perda do amor não durará um dia: Nada me resta agora senão arrependimento, lamento ✿ E lágrimas inundando as faces para sempre e em todo o lado: Ó tu que das pupilas destes olhos fugiste ✿ Tu habitas no coração que nunca se desviará; Quem me dera saber se mantiveste o nosso pacto ✿ Tanto tempo quanto o rio correr, para ter a mais firme fé? Ou esqueceste o escravo choroso ✿ A quem os gemidos afligem e a quem os pesares emboscam? Ah, quando a separação terminar e lado a lado ✿ Nos deitarmos, culparei o teu rigor e censurarei o teu orgulho!

Ora, quando a porteira ouviu a sua segunda ode, gritou bem alto e disse: "Por Allah! É muito boa!"; e colocando as mãos nas suas vestes rasgou-as, como fizera da primeira vez, e caiu ao chão desmaiada. Então a procuradora levantou-se e trouxe-lhe uma segunda muda de roupa depois de ter aspergiu água sobre ela. Ela recuperou e sentou-se direita e disse à sua irmã despenseira: "Avante, e ajuda-me no meu dever, pois resta apenas esta última canção." Então a despenseira trouxe novamente o alaúde e começou a cantar estes versos:

Quanto tempo durará, quanto tempo este rigor cheio de mágoa ✿ Não te podem bastar todas estas lágrimas que vês fluir? A nossa separação assim com propósito cruel tu prolongas ✿ Não é suficiente para alegrar o coração do inimigo invejoso? Se este mundo mentiroso fosse uma vez verdadeiro para o coração do amante ✿ Ele não teria vigiado a noite cansada em lágrimas de mágoa: Oh, tem piedade de mim a quem a tua vontade cruel sobrecarregou ✿ Meu senhor, meu rei, é tempo de me mostrares alguma piedade: A quem revelar os meus erros, ó tu que me assassinaste? ✿ Triste, quem as dores da fé quebrada deve sofrer! Aumenta o amor selvagem por ti e a frenesi hora a hora ✿ E os dias de exílio minuciosos tão longos, tão lentos; Ó Muçulmanos, clamai vingança por este escravo do Amor ✿ Cujo sono o Amor sempre consome, cuja paciência o Amor derruba: Permite a lei do Amor que tu, ó meu desejo! mintas ✿ Envolto nos braços de outro e a mim grites "Vai!"? Contudo na tua presença, diz, que alegrias gozarei ✿ Quando aquele que amo apenas trabalha para o meu amor derrubar?

Quando a porteira ouviu a terceira canção, deu um grito; e, lançando as mãos sobre as suas vestes, rasgou-as até à própria bainha e caiu ao chão desmaiada pela terceira vez, mostrando novamente as cicatrizes do açoite. Então disseram os três Kalandars: "Oxalá nunca tivéssemos entrado nesta casa, mas tivéssemos antes pernoitado nos montes e montões fora da cidade! Pois, na verdade, a nossa visita foi perturbada por visões que cortam o coração." O Califa virou-se para eles e perguntou: "Por que assim?", e eles responderam: "As nossas mentes estão gravemente perturbadas por este assunto." Disse o Califa: "Não sois vós da casa?" e eles disseram: "Não; nem sequer pusemos os olhos neste lugar até há uma hora." Nisto o Califa maravilhou-se e replicou: "Este homem que está sentado convosco, não conheceria ele o segredo do assunto?" e, dizendo isto, piscou o olho e fez sinais ao Carregador. Por isso, interrogaram o homem, mas ele respondeu: "Pelo Todo-Poderoso Allah, no amor todos são iguais! Sou cria de Bagdade, contudo nunca na minha vida pus os pés nestas portas até hoje, e a minha companhia com eles foi um assunto curioso." "Por Allah", replicaram eles, "tomámo-te por um deles e agora vemos que és um como nós." Então disse o Califa: "Somos sete homens, e elas apenas três mulheres, sem sequer uma quarta para as ajudar; por isso, interroguemo-las sobre o seu caso; e, se não nos responderem, seremos forçados a obter resposta pela força." Todos concordaram com isto, exceto Ja'afar, que disse: "Este não é o meu parecer; deixai-as; pois somos seus convidados e, como sabeis, elas fizeram um pacto e uma condição connosco que aceitámos e prometemos cumprir: por isso, é melhor que nos calemos sobre este assunto; e, como resta pouco da noite, que cada um de nós siga o seu caminho." Então piscou o olho ao Califa e sussurrou-lhe: "Resta apenas uma hora de escuridão e posso trazê-las perante ti amanhã, quando poderás livremente interrogá-las a todas sobre a sua história." Mas o Califa ergueu a cabeça altivamente e gritou-lhe com ira, dizendo: "Não me resta paciência para o meu desejo de ouvir sobre elas: que os Kalandars as interroguem imediatamente." Disse Ja'afar: "Este não é o meu conselho." Então as palavras subiram de tom e o discurso respondeu ao discurso; e disputaram sobre quem deveria primeiro colocar a questão, mas, no final, todos se fixaram no Carregador. E, à medida que a algazarra aumentava, a senhora da casa não pôde deixar de notar e perguntou-lhes: "Ó vós, gente! Sobre que assunto estais a falar tão alto?" Então o Carregador levantou-se respeitosamente diante dela e disse: "Ó minha senhora, esta companhia deseja ardentemente que os esclareças sobre a história das duas cadelas e o que te faz puni-las tão cruelmente; e depois desatas a chorar por elas e a beijá-las; e, por último, querem ouvir o conto da tua irmã e por que razão foi açoitada com varas de palma como um homem. Estas são as perguntas que me encarregam de fazer, e que a paz esteja contigo." Em seguida, disse a senhora da casa aos convidados: "É verdade isto que ele diz da vossa parte?" e todos responderam: "Sim!", exceto Ja'afar, que manteve silêncio. Quando ela ouviu estas palavras, gritou: "Por Allah, vós fizestes-nos um mal, ó nossos convidados, com um mal grave; pois quando viestes perante nós, fizemos pacto e condição convosco, de que quem falasse do que não lhe diz respeito ouviria o que não lhe agrada. Não vos basta que vos tenhamos recebido na nossa casa e vos tenhamos alimentado com a nossa melhor comida? Mas a culpa não é tanto vossa como dela que vos deixou entrar." Então arregaçou as mangas dos pulsos e bateu três vezes no chão com a mão, gritando: "Vinde rapidamente"; e eis que se abriu uma porta de armário e de lá saíram sete escravos negros com espadas desembainhadas na mão, a quem ela disse: "Atai os cotovelos a esses faladores e prendei-os uns aos outros." Eles obedeceram à sua ordem e perguntaram-lhe: "Ó velada e virtuosa! é o teu alto comando que cortemos as suas cabeças?"; mas ela respondeu: "Deixai-os um pouco, que os interrogue sobre a sua condição, antes que os seus pescoços sintam a espada." "Por Allah, ó minha senhora!", gritou o Carregador, "não me mates pelo pecado alheio; todos estes homens ofenderam e merecem a pena do crime, exceto eu. Agora, por Allah, a nossa noite teria sido encantadora se tivéssemos escapado à mortificação daqueles Kalandars monoculares cuja entrada numa cidade populosa a converteria num deserto uivante." Então repetiu estes versos:—

Quão justa é a compaixão que o forte não sufoca! ✿ E mais justa ainda quando mostrada ao mais fraco: Pelo santo laço do Amor entre nós dois, ✿ Que um não sofra pelo pecado do outro.

Quando o Carregador terminou o seu verso, a senhora riu-se——E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Agora, quando era a Décima Primeira Noite,

Ela disse: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que a senhora, depois de se rir do Carregador apesar da sua ira, aproximou-se do grupo e falou assim: "Dizei-me quem sois, pois tendes apenas uma hora de vida; e se não fôsseis homens de categoria e, talvez, notáveis das vossas tribos, não teríeis sido tão insolentes e eu teria apressado o vosso destino." Então disse o Califa: "Ai de ti, ó Ja'afar, diz-lhe quem somos para que não sejamos mortos por engano; e fala-lhe com gentileza antes que algum horror nos aconteça." "'É parte do que mereces", respondeu ele; ao que o Califa gritou-lhe dizendo: "Há um tempo para palavras espirituosas e há um tempo para trabalho sério." Então a senhora dirigiu-se aos três Kalandars e perguntou-lhes: "Sois irmãos?"; ao que responderam: "Não, por Allah, não somos nada mais que Fakirs e estrangeiros." Então disse ela a um entre eles: "Nasceste cego de um olho?"; e disse ele: "Não, por Allah, foi um assunto maravilhoso e um erro espantoso que causou o meu olho a ser arrancado, e o meu é um conto que, se fosse escrito nos cantos dos olhos com agulhas de gravador, seria um aviso a quem quisesse ser avisado." Ela interrogou o segundo e o terceiro Kalandar; mas todos responderam como o primeiro: "Por Allah, ó nossa senhora, cada um de nós vem de um país diferente, e somos todos os três filhos de Reis, Príncipes soberanos governando sobre suseranos e cidades capitais." Em seguida, ela virou-se para eles e disse: "Que cada um de vós me conte o seu conto pela devida ordem e explique a causa da sua vinda ao nosso lugar; e se a sua história nos agradar, que ele acaricie a cabeça e siga o seu caminho." O primeiro a apresentar-se foi o Hammál, o Carregador, que disse: "Ó minha senhora, sou um homem e um carregador. Esta senhora, a provedora, contratou-me para carregar um fardo e levou-me primeiro à loja de um vendedor de vinhos; depois à banca de um talhante; dali para a banca de um fruticultor; dali para um merceeiro que também vendia frutos secos; dali para um doceiro e um perfumista-droguista e dele para este lugar onde me aconteceu convosco o que aconteceu. Tal é a minha história e que a paz esteja sobre todos nós!" A isto a senhora riu-se e disse: "Esfrega a cabeça e segue o teu caminho!"; mas ele gritou: "Por Allah, não sairei daqui até ouvir as histórias dos meus companheiros." Então apresentou-se um dos Monoculares e começou a dizer-lhe

O CONTO DO PRIMEIRO KALANDAR.

Sabe, ó minha senhora, que a causa de a minha barba ser cortada e o meu olho ser arrancado foi a seguinte. O meu pai era um Rei e ele tinha um irmão que era Rei sobre outra cidade; e aconteceu que eu e o meu primo, filho do meu tio paterno, nascemos ambos no mesmo dia. E os anos e os dias passaram; e, à medida que crescíamos, eu costumava visitar o meu tio de tempos a tempos e passar um certo número de meses com ele. Agora, o meu primo e eu éramos amigos jurados; pois ele tratava-me sempre com extrema bondade; matava para mim as ovelhas mais gordas e coava os melhores dos seus vinhos, e desfrutávamos de longas conversas e bebedeiras. Um dia, quando o vinho tinha levado a melhor sobre nós, o filho do meu tio disse-me: "Ó meu primo, tenho um grande serviço a pedir-te; e desejo que não me impeças no que quer que eu deseje fazer!" E eu respondi: "Com alegria e boa vontade." Então ele fez-me jurar os juramentos mais obrigatórios e deixou-me; mas, após um pouco, regressou conduzindo uma senhora velada e ricamente vestida com ornamentos que valiam uma grande soma de dinheiro. Presentemente, virou-se para mim (a mulher estando ainda atrás dele) e disse: "Leva esta senhora contigo e vai à minha frente para tal cemitério" (descrevendo-o, de modo que eu conhecia o lugar), "e entra com ela em tal sepulcro e ali aguarda a minha chegada." Os juramentos que lhe fiz obrigaram-me a manter silêncio e não me permitiram opor-me a ele; por isso, conduzi a mulher ao cemitério e tanto eu como ela tomámos os nossos lugares no sepulcro; e mal nos tínhamos sentado, entrou o filho do meu tio, com uma taça de água, um saco de argamassa e uma enxada um pouco como uma picareta. Ele foi direto ao túmulo no meio do sepulcro e, partindo-o com a enxada, pôs as pedras de lado; depois começou a escavar a terra do túmulo até chegar a uma grande placa de ferro, do tamanho de uma porta de postigo; e, ao levantá-la, apareceu por baixo dela uma escadaria abobadada e sinuosa. Então virou-se para a senhora e disse-lhe: "Vem agora e faz a tua escolha final!" Ela de imediato desceu pela escadaria e desapareceu; depois disse-me ele: "Ó filho do meu tio, como forma de completar a tua bondade, quando eu tiver descido a este lugar, repõe a porta de alçapão onde estava, e amontoa a terra sobre ela como estava antes; e depois, da tua grande bondade, mistura esta cal viva que está no saco com esta água que está na taça e, depois de construir as pedras, reboca o exterior para que ninguém que olhe para ele diga:—Esta é uma nova abertura num antigo túmulo. Durante um ano inteiro trabalhei neste lugar, do qual ninguém sabe senão Allah, e esta é a necessidade que tenho de ti;" acrescentando presentemente: "Que Allah nunca prive os teus amigos de ti nem os deixe desolados pela tua ausência, ó filho do meu tio, ó meu querido primo!" E ele desceu as escadas e desapareceu para sempre. Quando ele se perdeu de vista, substituí a placa de ferro e fiz tudo o que ele pediu até que o túmulo ficou como era antes; e trabalhei quase inconscientemente, pois a minha cabeça estava aquecida com o vinho. Voltando ao palácio do meu tio, disseram-me que ele tinha saído para caçar; por isso dormi aquela noite sem o ver; e, quando a manhã surgiu, lembrei-me das cenas da noite passada e do que aconteceu entre mim e o meu primo; arrependi-me de lhe ter obedecido quando o arrependimento não servia de nada, ainda pensava, no entanto, que era um sonho. Por isso comecei a perguntar pelo filho do meu tio; mas ninguém havia para me responder sobre ele; e saí para o cemitério e os sepulcros, e procurei o túmulo sob o qual ele estava, mas não o consegui encontrar; e não parei de vaguear de sepulcro para sepulcro, e de túmulo para túmulo, tudo sem sucesso, até que a noite caiu. Por isso voltei para a cidade, contudo não podia comer nem beber; os meus pensamentos estavam absorvidos pelo meu primo, pois não sabia o que lhe tinha acontecido; e sofri com excessiva dor e passei outra noite triste, vigiando até de manhã. Então fui uma segunda vez ao cemitério, ponderando sobre o que o filho do meu tio tinha feito; e, arrependendo-me amargamente de o ter escutado, dei a volta por todos os túmulos, mas não consegui encontrar o túmulo que procurava. Lamentei o passado e permaneci no meu luto sete dias, procurando o lugar e falhando sempre o caminho. Então a minha tortura de escrúpulos cresceu sobre mim até quase enlouquecer, e não encontrei maneira de dissipar a minha dor senão viajar e voltar para o meu pai. Por isso parti e viajei para casa; mas, quando estava a entrar na capital do meu pai, uma multidão de desordeiros saltou sobre mim e amarrou-me. Maravilhei-me com isso com todo o espanto, vendo que eu era o filho do Sultão, e estes homens eram os súbditos do meu pai e entre eles estavam alguns dos meus próprios escravos. Um grande medo caiu sobre mim, e eu disse à minha alma: "Oxalá soubesse o que aconteceu ao meu pai!" Interroguei aqueles que me amarravam sobre a causa do seu procedimento, mas não me devolveram resposta. Contudo, após algum tempo, um deles disse-me (e ele tinha sido um servo contratado da nossa casa): "A sorte foi falsa para o teu pai; as suas tropas traíram-no e o Wazir que o matou reina agora no seu lugar e nós estivemos à espera para te apanhar por ordem dele." Eu estava quase transtornado e senti-me pronto a desmaiar ao ouvir a morte do meu pai; quando me levaram e me colocaram na presença do usurpador. Agora, entre mim e ele havia um rancor antigo, cuja causa era esta. Eu gostava de disparar com o arco de pedra, e aconteceu um dia, enquanto eu estava no terraço do palácio, que um pássaro pousou no topo da casa do Wazir quando ele estava lá. Disparei ao pássaro e falhei o alvo; mas atingi o olho do Wazir e arranquei-o, como o destino e a sorte determinaram. Mesmo assim diz o poeta:—

Caminhamos no caminho onde o Destino nos guiou ✿ O caminho que o Destino escreveu, temos de percorrer: E o homem, num país condenado a morrer, ✿ A morte em nenhum outro lugar o fará morto.

E da mesma forma diz outro:—

Deixa a Sorte seguir o seu caminho libertino ✿ Toma coragem e obedece a todas as suas palavras: Nem te alegres nem te lamente por nada ✿ Pois todas as coisas passam e nada permanece.

Agora, quando arranquei o olho do Wazir, ele não podia dizer uma única palavra, pois o meu pai era Rei da cidade; mas ele odiou-me sempre depois disso e terrível foi o rancor assim causado entre nós dois. Por isso, quando fui posto diante dele com as mãos atadas e amarrado, ele deu imediatamente ordens para que eu fosse decapitado. Perguntei: "Por que crime me queres pôr à morte?"; ao que ele respondeu: "Que crime é maior do que este?" apontando enquanto falava para o lugar onde estivera o seu olho. Disse eu: "Isto fi-lo por acidente, não por malícia premeditada;" e disse ele: "Se o fizeste por acidente, farei o mesmo contigo com intenção." Então gritou ele: "Trazei-o para a frente," e levaram-me até ele, quando ele enfiou o dedo no meu olho esquerdo e arrancou-o; após o que fiquei caolho como me vês. Depois mandou prender-me mãos e pés, e pôr-me num baú e disse ao carrasco: "Toma conta deste sujeito, e vai-te embora com ele para as terras desertas em torno da cidade; depois desembainha a tua cimitarra e mata-o, e deixa-o para alimentar as bestas e as aves." Por isso o carrasco partiu comigo e, quando estava no meio do deserto, tirou-me do baú (e eu com ambas as mãos atadas e ambos os pés acorrentados) e estava prestes a vendar-me os olhos antes de me cortar a cabeça. Mas eu chorei com excessivo choro até que o fiz chorar comigo e, olhando para ele, comecei a recitar estes dísticos:—

Pensei que fosses cota-de-malha que resistiria ✿ Às setas do inimigo; e provaste ser a lâmina do inimigo; Esperei a tua ajuda em cada minha sorte ✿ Embora a minha esquerda falhe em ajudar a minha mão direita: Ficas ao longe e ouves a zombaria do difamador ✿ Enquanto chovem sobre mim as setas do bando dos zombadores: Mas se não me queres guardar dos meus inimigos ✿ Fica longe, e não socorras nem estes nem aqueles!

E também citei:—

Pensei que os meus irmãos fossem malha de aço mais forte ✿ E assim eram — de inimigos para afastar o meu dardo! Pensei que as suas setas fossem as mais certas no seu alvo; ✿ E assim eram — quando visavam o meu coração!

Quando o carrasco ouviu os meus versos (ele tinha sido carrasco do meu pai e devia-me uma dívida de gratidão) gritou: "Ó meu senhor, que posso eu fazer, sendo apenas um escravo sob ordens?" acrescentando presentemente: "Voa para a tua vida e nunca mais voltes a esta terra, ou eles matar-te-ão e matar-me-ão comigo, tal como disse o poeta:—

Toma a tua vida e voa quando os males ameaçam; ✿ Deixa a casa arruinada contar o destino do seu dono: Nova terra pela antiga procurarás e encontrarás ✿ Mas para encontrar nova vida não deves esperar. Estranho que os homens se sentem no lugar da vergonha, ✿ Quando o mundo de Allah é tão vasto e grande! E não confies noutrem, em assuntos graves ✿ A própria vida deve agir para uma vida assediada: Nunca rondaria o leão com o pescoço de juba, ✿ Se ele contasse com a ajuda ou se preocupasse com os outros."

"Por Allah, não o faças! Não me tragas a desgraça, pois sei que ele é um Ifrit e não teme nem homens nem espadas." Eu, porém, não lhe dei ouvidos e, embriagado pelo vinho, dei um pontapé no alcovento e esfreguei as duas linhas gravadas. Mal as minhas mãos as tocaram, o mundo escureceu diante dos meus olhos; o ar trovejou com estrondos e relâmpagos, e o lugar tremeu como se fosse desabar. O Ifrit surgiu num instante, rugindo como um trovão, e gritou: "Como ousas tocar neste talismã? Quem te trouxe aqui?" Eu, aterrado, perdi a razão, e ele, sem esperar resposta, agarrou-me, golpeou-me com força e arremessou-me contra a parede, ferindo-me o rosto com tal violência que o meu olho direito foi vazado ali mesmo. O Ifrit, furioso, voltou-se para a donzela e disse: "Que mal te fiz eu para me traíres? Dize-me, quem é este homem?" Ela respondeu, tremendo: "Este é um estranho que encontrei perdido; não tem culpa alguma, pois está embriagado." Ele replicou: "Se ele não for punido, ele e tu sofrereis as consequências." E, pegando numa espada, preparava-se para nos matar a ambos, quando a donzela se interpôs, dizendo: "Poupa-o, pois ele não é o culpado; eu sou a responsável pela sua vinda." Ele, porém, não a escutou e, transformando-a num pilar de pedra, voltou-se para mim e disse: "Pois bem, poupar-te-ei a vida, mas marcar-te-ei para que nunca esqueças este dia." E, com um sopro, transportou-me para fora daquele lugar subterrâneo e deixou-me à porta da cidade, onde caí em desmaio. Quando recuperei os sentidos, percebi que tinha perdido o olho e que a minha sorte fora desfeita. Vaguei então como um Kalandar, rapando a barba e as sobrancelhas, até chegar a esta cidade, onde, pela vontade do Destino, encontrei os meus companheiros. Eis a história do meu olho e da minha desventura.

Ó tu que buscas a separação, refreia a rédea ✿ Do teu veloz corcel e não procures avançar em demasia; Ah, detém-te! Pois a traição é a norma da vida, ✿ E as doçuras do encontro terminam em separação.

Ouvi o seu verso, mas não prestei atenção às suas palavras; antes, levantei o pé e desferi um pontapé vigoroso na alcova — E Shahrazad percebeu o romper da alva e deixou de dizer o que lhe era permitido.

Quando chegou a Décima Terceira Noite,

Ela disse: Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que o segundo Kalandar continuou assim o seu relato à dama: — Mas, quando, ó minha senhora, pontapeei aquela alcova com um pontapé vigoroso, eis que o ar se tornou rígido e escureceu, trovejou e relampejou; a terra tremeu e abalou-se, e o mundo tornou-se invisível. De imediato, os vapores do vinho deixaram a minha cabeça; gritei para ela: "Que se passa?", e ela respondeu: "O Ifrit está sobre nós! Não te avisei disto? Por Allah, trouxeste a ruína sobre mim; mas foge para salvar a tua vida e sobe pelo caminho por onde desceste!" Então, fugi pela escadaria, mas, no excesso do meu medo, esqueci as sandálias e o machado. E, quando subi dois degraus, virei-me para procurá-los e, eis que vi a terra fender-se, e dela surgiu um Ifrit, um monstro de hediondez, que disse à donzela: "Que perturbação e alvoroço é este com que me disturbs? Que desdita te aconteceu?" "Nenhuma desdita me aconteceu", respondeu ela, "a não ser que o meu peito estava oprimido e o meu coração pesado de tristeza; por isso, bebi um pouco de vinho para o expandir e para me animar; depois, levantei-me para atender a um apelo da Natureza, mas o vinho subiu-me à cabeça e caí contra a alcova." "Tu mentes, como a rameira que és!", gritou o Ifrit; e olhou à volta do salão, para a direita e para a esquerda, até que avistou o meu machado e as minhas sandálias e disse-lhe: "O que são estas coisas senão os pertences de algum mortal que esteve na tua companhia?" Ela respondeu: "Nunca posei os olhos neles até este momento: devem ter sido trazidos aqui por ti, presos às tuas vestes." Disse o Ifrit: "Estas palavras são absurdas; tu, prostituta! tu, meretriz!" Então, despiu-a completamente e, estendendo-a sobre o chão, amarrou-lhe as mãos e os pés a quatro estacas, como alguém crucificado; e começou a torturá-la, tentando fazê-la confessar. Não pude suportar ficar a ouvir os seus gritos e gemidos; por isso, subi a escada a tremer de medo; e, quando cheguei ao topo, voltei a colocar o alçapão e cobri-o com terra. Então, arrependi-me do que tinha feito com um arrependimento excessivo; e pensei na dama e na sua beleza e formosura, e nas torturas que ela estava a sofrer às mãos do maldito Ifrit, depois da sua vida tranquila de vinte e cinco anos; e como tudo o que lhe acontecera fora por minha causa. Lembrei-me do meu pai e da sua condição real, e de como eu me tornara lenhador; e como, depois de o meu tempo ter estado sereno durante algum tempo, o mundo se tornara novamente turvo e conturbado para mim. Por isso, chorei amargamente e repeti este dístico:—

Quando a tirania do Destino mais te oprimir ✿ Medita! Um dia te trará alegria, outro te afligirá!

Depois, caminhei até chegar à casa do meu amigo, o Alfaiate, a quem encontrei à minha espera com a maior ansiedade; na verdade, ele estava, como diz o ditado, sobre brasas por minha causa. E, quando me viu, disse: "Durante toda a noite o meu coração esteve pesado, temendo por ti, devido a feras ou outros infortúnios. Agora, louvado seja Allah pela tua segurança!" Agradeci-lhe a sua solicitude amigável e, retirando-me para o meu canto, sentei-me a ponderar e a meditar sobre o que me tinha acontecido; e culpei e repreendi-me pela minha tolice intrometida e pela minha temeridade ao pontapear a alcova. Estava a pedir contas a mim próprio quando, eis que o meu amigo, o Alfaiate, veio até mim e disse: "Ó jovem, na loja está um velho, um persa, que te procura: ele tem o teu machado e as tuas sandálias, que levara aos lenhadores, dizendo: 'Eu ia a sair quando o Mu'azzin começou o apelo para a oração da alvorada, quando me deparei com estas coisas e não sei de quem são; por isso, indiquem-me o seu dono'. Os lenhadores reconheceram o teu machado e indicaram-no a ti: ele está sentado na minha loja, por isso vai ter com ele, agradece-lhe e leva o teu machado e as sandálias." Quando ouvi estas palavras, fiquei pálido de medo e senti-me atordoado como por um golpe; e, antes que me pudesse recuperar, eis que o chão do meu quarto privado se fendeu, e dele surgiu o persa que era o Ifrit. Ele tinha torturado a dama com torturas excessivas, contudo, ela não lhe queria confessar nada; por isso, pegou no machado e nas sandálias e disse-lhe: "Tão certo como eu ser Jirjis, da semente de Iblis, trarei de volta o dono disto e destas!" Então, ele foi ter com os lenhadores com o pretexto supracitado e, sendo indicado para mim, depois de esperar um pouco na loja até que o facto fosse confirmado, agarrou-me de repente como um falcão agarra um rato e voou alto no ar; mas, pouco depois, desceu e mergulhou comigo sob a terra (estando eu desmaiado durante esse tempo), e, por fim, deixou-me no palácio subterrâneo onde eu tinha passado aquela noite venturosa. E lá vi a dama despida até à pele, com os membros amarrados a quatro estacas e sangue a verter dos seus lados. À vista disso, os meus olhos encheram-se de lágrimas; mas o Ifrit cobriu-lhe o corpo e disse: "Ó devassa, não é este homem o teu amante?" Ela olhou para mim e respondeu: "Não o conheço, nem nunca o vi antes desta hora!" Disse o Ifrit: "O quê! Tanta tortura e ainda assim nenhuma confissão?"; e ela disse: "Nunca vi este homem em toda a minha vida, e não é lícito aos olhos de Allah mentir sobre ele." "Se não o conheces", disse-lhe o Ifrit, "pega nesta espada e corta-lhe a cabeça." Ela tomou a espada na mão e aproximou-se de mim; e eu fiz-lhe sinais com as sobrancelhas, enquanto as minhas lágrimas corriam pelas minhas faces. Ela compreendeu-me e respondeu, também por sinais: "Como pudeste trazer todo este mal sobre mim?" e eu respondi da mesma maneira: "Este é o tempo para a misericórdia e o perdão." E a língua muda do meu caso falava alto, dizendo:—

Os meus olhos foram intérpretes para a minha língua atada ✿ E contaram bem claro o amor que eu desejava esconder: Quando nos encontrámos pela última vez e as lágrimas jorraram em torrentes ✿ Por a língua ter ficado muda, os meus olhares testemunharam: Ela fez sinais com o olhar enquanto os seus lábios estavam mudos ✿ Eu fiz sinais com os dedos e ela compreendeu o implícito: As nossas sobrancelhas cumpriram todo o dever entre nós os dois; ✿ E, estando nós mudos, o Amor falou alto e claro.

Então, ó minha senhora, a dama atirou a espada para longe e disse: "Como hei de cortar o pescoço de alguém que não conheço e que não me fez nenhum mal? Tal ato não seria lícito na minha lei!" e reteve a mão. Disse o Ifrit: "'É penoso para ti matar o teu amante; e, porque ele se deitou contigo, tu suportas estas torturas e obstinadamente te recusas a confessar. Depois disto, está claro para mim que só quem é semelhante ama e tem pena de quem lhe é semelhante." Depois, virou-se para mim e perguntou-me: "Ó homem, talvez tu também não conheças esta mulher?"; ao que respondi: "E, por favor, quem poderá ela ser? Certamente nunca a vi até este instante." "Então, pega na espada", disse ele, "e corta-lhe a cabeça, e eu acreditarei que não a conheces e deixar-te-ei livre para partir, e não te tratarei com severidade." Respondi: "Isso farei"; e, pegando na espada, avancei rapidamente e levantei a mão para golpear. Mas ela fez-me sinal com as sobrancelhas: "Falhei-te em algo no amor; e é assim que me retribuis?" Compreendi o que os seus olhares implicavam e respondi-lhe com um olhar: "Sacrificarei a minha alma por ti." E a língua do caso escreveu nos nossos corações estas linhas:—

Quantos amantes falam com as suas sobrancelhas ✿ À sua amada, conforme a sua paixão implora: Com olhos faiscantes ele inspira a sua paixão ✿ E ela vê bem o que a sua súplica necessita. Quão doce é o olhar quando cada um contempla o outro; ✿ E com que rapidez e certeza ele se apressa: E este, com as sobrancelhas, escreve toda a sua paixão; ✿ E aquela, com os olhos, lê toda a sua paixão.

Então, os meus olhos encheram-se de lágrimas até transbordar e atirei a espada da minha mão, dizendo: "Ó poderoso Ifrit e herói, se uma mulher, carente de juízo e fé, considera ilícito cortar a minha cabeça, como pode ser lícito para mim, um homem, golpear o pescoço daquela que nunca vi em toda a minha vida? Não posso cometer tal maldade, ainda que me faças beber o cálice da morte e da perdição." Então disse o Ifrit: "Vós, os dois, mostrais o bom entendimento que existe entre vós; mas eu deixar-vos-ei ver como terminam tais atos." Ele pegou na espada e cortou primeiro as mãos da dama, com quatro golpes, e depois os seus pés; enquanto eu observava e tinha a certeza da morte, e ela despedia-se de mim com os seus olhos moribundos. Então, o Ifrit gritou para ela: "Tu prostituis-te e fazes de mim um corno com os teus olhos"; e golpeou-a de tal modo que a cabeça dela saiu a voar. Depois, virou-se para mim e disse: "Ó mortal, nós temos na nossa lei que, quando a esposa comete adultério, é lícito para nós matá-la. Quanto a esta donzela, ratei-a na sua noite de núpcias, quando era uma rapariga de doze anos, e ela não conhecia ninguém a não ser eu. Eu costumava vir ter com ela uma vez a cada dez dias e deitar-me com ela à noite, sob a aparência de um homem, um persa; e quando tive a certeza de que ela me tinha posto os cornos, matei-a. Mas, quanto a ti, não estou bem convencido de que me tenhas feito mal através dela; contudo, não te posso deixar ir incólume; por isso, pede-me um favor e eu concedê-lo-ei." Então, alegrei-me, ó minha senhora, com alegria excessiva e disse: "Que favor pedirei de ti?" Ele respondeu: "Pede-me este favor: em que forma queres que te enfeitiçe; queres ser um cão, ou um asno, ou um macaco?" Respondi (e, na verdade, tinha esperado que a misericórdia me fosse mostrada): "Por Allah, poupa-me, para que Allah te poupe por poupares um muçulmano e um homem que nunca te fez mal." E humilhei-me perante ele com extrema humildade, e permaneci de pé na sua presença, dizendo: "Estou gravemente oprimido pelas circunstâncias." Ele respondeu: "Não me venhas com longas conversas, está no meu poder matar-te; mas dou-te, em vez disso, a tua escolha." Disse eu: "Ó tu, Ifrit, ficar-te-ia bem perdoar-me, tal como o Invejado perdoou o Invejoso." Disse ele: "E como foi isso?" e comecei a contar-lhe

O CONTO DO INVEJOSO E DO INVEJADO.

Relatam, ó Ifrit, que numa certa cidade viviam dois homens que habitavam em casas adjacentes, tendo uma parede comum; e um deles invejava o outro e olhava-o com um olho maligno, e fazia o seu maior esforço para o prejudicar; e, embora em todos os momentos tivesse ciúmes do seu vizinho, a sua malícia acabou por crescer nele até ao ponto de quase não conseguir comer ou desfrutar dos doces prazeres do sono. Mas o Invejado não fazia nada senão prosperar; e quanto mais o outro se esforçava para o prejudicar, mais ele obtinha, ganhava e prosperava. Por fim, a malícia do seu vizinho e o esforço constante do homem para lhe causar um dano chegaram ao seu conhecimento; por isso, ele disse: "Por Allah! A terra de Deus é suficientemente ampla para os seus habitantes"; e, deixando a vizinhança, dirigiu-se a outra cidade onde comprou um terreno no qual havia um poço seco, antigo e em condições ruinosas. Aqui ele construiu um oratório e, mobiliando-o com algumas necessidades, instalou-se nele e dedicou-se à oração e à adoração de Allah Todo-Poderoso; e Fakires e santos mendigos afluíram a ele de todos os quadrantes; e a sua fama espalhou-se pela cidade e por aquela região. Entretanto, a notícia chegou ao seu vizinho invejoso, de que boa fortuna lhe tinha acontecido e como os notáveis da cidade se tinham tornado seus discípulos; por isso, viajou para o local e apresentou-se na ermida do santo homem, sendo recebido pelo Invejado com boas-vindas, saudação e toda a honra. Então disse o Invejoso: "Tenho uma palavra a dizer-te; e esta é a causa da minha viagem até aqui, e desejo dar-te uma notícia de boas novas; por isso, vem comigo até à tua cela." Então o Invejado levantou-se e pegou no Invejoso pela mão, e entraram na parte mais íntima da ermida; mas o Invejoso disse: "Manda os teus Fakires retirar-se para as suas celas, pois não te direi o que tenho a dizer, senão em segredo, onde ninguém nos possa ouvir." Consequentemente, o Invejado disse aos seus Fakires: "Retirai-vos para as vossas celas privadas"; e, quando todos fizeram como ele lhes ordenara, partiu com o seu visitante e caminhou um pouco até que ambos chegaram ao poço velho e em ruínas. E, enquanto estavam à beira, o Invejoso deu ao Invejado um empurrão que o fez cair de cabeça nele, sem que ninguém o visse; pelo que ele se foi embora e seguiu o seu caminho, pensando que o tinha matado. Ora, este poço acontecia ser assombrado pelos Jann que, vendo o caso, o ampararam e desceram pouco a pouco, até ele chegar ao fundo, onde o sentaram sobre uma pedra grande. Então, um deles perguntou aos seus companheiros: "Sabeis quem é este homem?" e eles responderam: "Não." "Este homem", continuou o orador, "é o chamado Invejado que, fugindo do Invejoso, veio morar na nossa cidade, e aqui fundou esta casa santa, e ele tem-nos edificado pelas suas ladainhas e as suas leituras do Alcorão; mas o Invejoso partiu e viajou até que o reencontrou, e astuciosamente conseguiu enganá-lo e atirá-lo ao poço onde agora estamos. Mas a fama deste bom homem chegou esta mesma noite ao Sultão da nossa cidade, que planeia visitá-lo amanhã por causa da sua filha." "O que padece a sua filha?", perguntou um, e outro respondeu: "Ela está possuída por um espírito; pois Maymun, filho de Damdam, está loucamente apaixonado por ela; mas, se este homem piedoso soubesse o remédio, a sua cura seria tão fácil quanto possível." Aqui, um deles inquiriu: "E qual é o medicamento?", e ele respondeu: "O gato preto que está com ele no oratório tem, na ponta da cauda, uma mancha branca, do tamanho de um dirham; que ele arranque sete pelos brancos da mancha, depois que a fumigue com eles e o Marid fugirá dela e não voltará; assim ela ficará sã pelo resto da sua vida." Tudo isto aconteceu, ó Ifrit, ao alcance da audição do Invejado, que ouviu atentamente. Quando a alvorada rompeu e a manhã surgiu em brilho e esplendor, os Fakires foram procurar o Shaykh e encontraram-no a subir a parede do poço; pelo que ele foi engrandecido aos seus olhos. Então, sabendo que nada senão o gato preto poderia fornecer-lhe o remédio necessário, ele arrancou os sete pelos da cauda da mancha branca e guardou-os junto de si; e mal o sol tinha nascido, o Sultão entrou na ermida, com os grandes senhores do seu estado, ordenando ao resto da sua comitiva que permanecesse de pé do lado de fora. O Invejado deu-lhe umas calorosas boas-vindas e, sentando-o ao seu lado, perguntou-lhe: "Devo dizer-te a causa da tua vinda?" O Rei respondeu: "Sim." Ele continuou: "Vieste com o pretexto de uma visita; mas está no teu coração questionar-me sobre a tua filha." Respondeu o Rei: "É mesmo assim, ó santo Shaykh"; e o Invejado continuou: "Manda buscá-la e confio curá-la de imediato (se for essa a vontade de Allah!)." O Rei, com grande alegria, mandou chamar a sua filha, e trouxeram-na presa e acorrentada. O Invejado fê-la sentar atrás de uma cortina e, tirando os pelos, fumigou-a com eles; pelo que aquilo que estava na sua cabeça gritou e partiu dela. A rapariga foi imediatamente restaurada ao seu juízo perfeito e, cobrindo o rosto, disse: "O que aconteceu e quem me trouxe aqui?" O Sultão alegrou-se com uma alegria que nada podia exceder, e beijou os olhos da sua filha e a mão do santo homem; depois, virando-se para os seus grandes senhores, perguntou: "Que dizeis! Que recompensa merece aquele que tornou a minha filha sã?" e todos responderam: "Ele merece-a como esposa"; e o Rei disse: "Dizeis a verdade!" Então, ele casou-a com ele e o Invejado tornou-se assim genro do Rei. E, passado pouco tempo, o Wazir morreu e o Rei disse: "Quem posso fazer Ministro em seu lugar?" "O teu genro", responderam os cortesãos. Assim, o Invejado tornou-se Wazir; e, passado algum tempo, o Sultão também morreu e os súbditos disseram: "Quem faremos Rei?" e todos gritaram: "O Wazir." Assim, o Wazir foi imediatamente feito Sultão, e ele tornou-se Rei reinante, um verdadeiro governante dos homens. Um dia, enquanto ele tinha montado o seu cavalo, e, na eminência da sua realeza, cavalgava entre os seus Emires e Wazires e os Grandes do seu reino, os seus olhos caíram sobre o seu antigo vizinho, o Invejoso, que estava a pé no seu caminho; por isso, virou-se para um dos seus Ministros e disse: "Trazei aqui esse homem e não lhe causeis susto." O Wazir trouxe-o e o Rei disse: "Dai-lhe mil miskáls de ouro do tesouro, e carregai-lhe dez camelos com mercadorias para comércio, e enviai-o sob escolta para a sua própria cidade." Depois, despediu-se do seu inimigo e enviou-o embora, e absteve-se de o punir pelos muitos e grandes males que tinha feito. Vê, ó Ifrit, a misericórdia do Invejado para com o Invejoso, que o odiava desde o princípio e lhe tinha votado uma malícia tão amarga, e nunca o encontrou sem lhe causar problemas; e tinha-o expulso de casa e lar, e depois tinha viajado com o único propósito de tirar-lhe a vida, atirando-o ao poço. Contudo, ele não retribuiu a sua conduta injuriosa, mas perdoou-o e foi generoso para com ele. Então, chorei perante ele, ó minha senhora, com um choro doloroso, nunca houve choro mais doloroso, e recitei:—

Perdoa a minha falta, pois é costume do homem sábio ✿ Perdoar todas as faltas e renunciar à vingança: Na verdade, todos os tipos de faltas residem em mim ✿ Então, digna-te, por bondade, mostrar misericórdia e graça: Quem implora perdão do Alto ✿ Deve reter a sua mão dos pecadores aqui debaixo.

Disse o Ifrit: "Não alongues as tuas palavras! Quanto a matar-te, não o temas, e quanto a perdoar-te, não o esperes; mas, de eu te enfeitiçar, não há escapatória." Então, arrancou-me do solo, que se fechou debaixo dos meus pés, e voou comigo para o firmamento, até ver a terra como uma grande nuvem branca ou um pires no meio das águas. Pouco depois, pousou-me numa montanha e, pegando um pouco de pó, sobre o qual murmurou algumas palavras mágicas, aspergiu-me com ele, dizendo: "Abandona essa forma e toma a forma de um macaco!" E, no instante seguinte, tornei-me um macaco, um babuíno sem cauda, filho de um século. Ora, quando ele me deixou e vi a mim mesmo sob esta forma feia e odiosa, chorei por mim, mas entreguei a minha alma à tirania do Tempo e da Circunstância, bem ciente de que a Fortuna é justa e constante para com ninguém. Desci a montanha e encontrei ao pé uma planície deserta, longa e larga, pela qual viajei pelo espaço de um mês até que o meu curso me levou à beira do mar salgado. Depois de ali permanecer algum tempo, dei conta de um navio ao largo que corria perante um vento favorável, em direção à costa: escondi-me atrás de uma rocha na praia e esperei até que o navio se aproximasse, momento em que saltei para bordo. Encontrei-o cheio de mercadores e passageiros, e um deles gritou: "Ó Capitão, este bruto agourento trará má sorte!" e outro disse: "Expulsai esta besta agourenta de entre nós"; o Capitão disse: "Matemo-lo!"; outro disse: "Matai-o com a espada"; um terceiro: "Afogai-o"; e um quarto: "Alvejai-o com uma flecha." Mas saltei e agarrei-me à orla do Rais, e verti lágrimas que escorriam pelas minhas faces. O Capitão teve pena de mim e disse: "Ó mercadores! este macaco apelou à minha proteção e eu protegê-lo-ei; de ora em diante, ele está sob a minha responsabilidade: que ninguém lhe cause dano ou mal, caso contrário, haverá sangue entre nós." Depois, tratou-me com bondade e tudo o que ele dizia eu compreendia, atendendo a cada uma das suas necessidades e servindo-o como um servo, embora a minha língua não obedecesse aos meus desejos; de modo que ele passou a amar-me. O navio seguiu viagem, com vento favorável, pelo espaço de cinquenta dias; ao fim dos quais ancoramos sob as muralhas de uma grande cidade onde havia um mundo de gente, especialmente homens doutos, cujo número ninguém podia dizer, salvo Allah. Não tínhamos acabado de chegar quando fomos visitados por certos oficiais mamelucos do Rei daquela cidade; os quais, depois de subirem a bordo, saudaram os mercadores e, felicitando-os pela chegada em segurança, disseram: "O nosso Rei dá-vos as boas-vindas e envia-vos este rolo de papel, sobre o qual cada um de vós deve escrever uma linha. Pois deveis saber que o Ministro do Rei, um calígrafo de renome, morreu, e o Rei jurou um juramento solene de que não tornará ninguém Wazir em seu lugar que não saiba escrever tão bem quanto ele." Ele então deu-nos o rolo, que media dez côvados de comprimento por um de largura, e cada um dos mercadores que sabia escrever escreveu nele uma linha, até ao último deles; depois do que me levantei (ainda sob a forma de macaco) e arrebatei o rolo das suas mãos. Temeram que eu o rasgasse ou atirasse ao mar; por isso, tentaram deter-me e assustar-me, mas fiz-lhes sinal de que sabia escrever, o que a todos maravilhou, dizendo: "Nunca vimos um macaco escrever." E o Capitão gritou: "Deixai-o escrever; e se ele rabiscar e garranchar, expulsamo-lo e matamo-lo; mas se ele escrever bem e com erudição, adotá-lo-ei como meu filho; pois certamente nunca vi um macaco mais inteligente e bem-educado do que ele. Oxalá o meu verdadeiro filho fosse o seu par em moral e modos." Tomei o cálamo e, estendendo a minha pata, mergulhei-a na tinta e escrevi, na letra usada para cartas, estes dois dísticos:—

O Tempo registou os dons que deu aos grandes; ✿ Mas nenhum registou os teus, que são muito superiores; Jamais Allah deixe órfãos os homens pela perda de ti, ✿ Que és da Bondade a mãe, da Dádiva o progenitor.

E escrevi em Rayháni ou letras maiores elegantemente curvadas:—

Tens um cálamo de sabedoria para cada terra, ✿ Cujo impulso faz prosperar todo o mundo; Nulo é o Nilo de Misraim perante as tuas dádivas, ✿ Tu, que fazes a miséria sorrir com os teus cinco dedos.

Então escrevi no caráter Suls:—

Não há escritor que da Morte possa escapar, ✿ Mas o que a sua mão escreveu, os homens repetirão: Escreve, portanto, nada senão o que te servirá quando ✿ O vires no Dia do Juízo, se é que o vês!

Então escrevi no caráter Naskh:—

Quando o Destino nos condenar a uma dolorosa separação, ✿ Para uma vida distante decretada pelo Destino, Fazemos os lábios do tinteiro lamentar as nossas dores, ✿ E damos língua à nossa expressão com o cálamo falante.

E escrevi no caráter Túmár:—

O reino com ninguém perdura; se negas ✿ Esta verdade, onde estão os Reis da terra de outrora? Planta árvores de bondade enquanto o governo perdura, ✿ E quando tiveres caído, elas dirão o teu valor.

E escrevi no caráter Muhakkak:—

Quando abrires o tinteiro da tua riqueza e fama, ✿ Toma tinta de coração generoso e mão graciosa; Escreve feitos bravos e nobres enquanto puderes escrever ✿ E ganha para ti louvor pela ponta da pena e da espada.

Depois, entreguei o rolo aos oficiais e, após todos termos escrito a nossa linha, levaram-no perante o Rei. Quando ele viu o papel, nenhuma escrita lhe agradou senão a minha; e ele disse aos cortesãos reunidos: "Ide buscar o escritor destas linhas e vesti-o com uma esplêndida túnica de honra; depois montai-o numa mula, deixai que uma banda de música o preceda e trazei-o à presença." A estas palavras, eles sorriram e o Rei irritou-se com eles e gritou: "Ó malditos! dou-vos uma ordem e vós rides de mim?" "Ó Rei," responderam eles, "se rimos, não é de ti e não é sem motivo." "E qual é?" perguntou ele; e eles responderam: "Ó Rei, tu ordenas-nos que tragamos à tua presença o homem que escreveu estas linhas; ora, a verdade é que quem as escreveu não é dos filhos de Adão, mas um macaco, um babuíno sem cauda, pertencente ao Capitão do navio." Disse ele: "É verdade o que dizeis?" Disseram eles: "Sim! pelos direitos da tua munificência!" O Rei maravilhou-se com as suas palavras e estremeceu de riso e disse: "Estou disposto a comprar este macaco ao Capitão." Então, enviou mensageiros ao navio com a mula, o traje, a guarda e os tambores de estado, dizendo: "Não menos, vesti-o com a túnica de honra e montai-o na mula e deixai que seja rodeado pelos guardas e precedido pela banda de música." Vieram ao navio e levaram-me do Capitão, vestiram-me com a túnica de honra e, montando-me na mula, levaram-me em procissão solene através das ruas; enquanto o povo estava espantado e divertido. E as pessoas diziam umas às outras: "Olá! estará o nosso Sultão prestes a fazer de um macaco o seu Ministro?"; e vieram todos curiosos, aglomerando-se para me ver, e a cidade ficou agitada e de pernas para o ar por minha causa. Quando me levaram até ao Rei e me colocaram na sua presença, beijei o solo perante ele três vezes, e uma vez perante o Alto Camareiro e os grandes oficiais, e ele mandou-me sentar, e sentei-me respeitosamente sobre as canelas e joelhos, e todos os presentes maravilharam-se com os meus bons modos, e o Rei ainda mais. Em seguida, ordenou aos súbditos que se retirassem; e, quando ninguém restou senão a majestade do Rei, o Eunuco de serviço e um pequeno escravo branco, mandou que colocassem perante mim a mesa de comida, contendo todo o tipo de aves, tudo o que salta, voa e pisa no ninho, como codornizes e grous-do-deserto. Depois, fez-me sinal para comer com ele; então levantei-me e beijei o solo perante ele, depois sentei-me e comi com ele. E quando a mesa foi removida, lavei as mãos em sete águas e tomei o estojo e o cálamo; e escrevi em vez de falar estes dísticos:—

Lamenta as pequenas perdizes no prato e na travessa; ✿ Chora pela ruína das frituras e ensopados bem marinados: Intenso como lamento as amadas, perdidas filhas do grou-Katá, ✿ E a omelete em torno das belas aves acastanhadas aglomeradas: Ó fogo no meu coração pelo peixe, aqueles dois peixes que vi, ✿ Deitados sobre pães recém-feitos e bolos em pilhas para lacerar. Por ti, ó aletria! dói o meu estômago! sustento ✿ Que sem ti cada sabor e alegria estão totalmente aniquilados. Aqueles ovos rolaram os seus olhos amarelos em dores torturantes de fogo ✿ Antes de servidos com picadinho e fritos quentes, aquela iguaria delicada, Louvado seja Allah pelo Seu assado e cozido e, ah! quão bom ✿ Este legume, estas ervas cozidas em óleo com vinagre combinadas! Quando a fome estava saciada, apoiei-me no cotovelo e caí sobre ✿ Pudim de carne onde brilhavam os braceletes que a minha mente abatem. Depois despertei o apetite adormecido para comer como se fosse por desporto ✿ Doces de bandejas brocadas e petiscos muito elaborados. Sê paciente, minha alma! O Tempo é um sujeito altivo e invejoso; ✿ Hoje parece sombrio e amanhã belo à vista.

Então levantei-me e sentei-me a uma distância respeitosa enquanto o Rei lia o que eu tinha escrito, e maravilhou-se, exclamando: "Ó milagre, que um macaco seja dotado deste estilo gracioso e deste poder de caligrafia! Por Allah, é um prodígio entre os prodígios!"

Pouco depois, colocaram perante o Rei vinhos de eleição em frascos de vidro e ele bebeu: depois passou a taça para mim; e eu beijei o solo e bebi e escrevi nela:—

Com fogo ferveram-me para soltar a minha língua, ✿ E a dor e a paciência deram-me companhia: Daí vem que as mãos dos homens me levantam alto ✿ E o orvalho de mel dos lábios da donzela eu sorvo!

E estes também:—

A manhã diz à Noite: "retira-te e deixa-me brilhar"; ✿ Assim drenamos tragos que entorpecem toda a dor e mágoa: Duvido, tão fino o vidro, tão claro o vinho, ✿ Se é o vinho no vidro ou o vidro no vinho.

O Rei leu o meu verso e disse com um suspiro: "Se estes dons estivessem num homem, ele superaria todos os povos do seu tempo e época!" Então pediu o tabuleiro de xadrez e disse: "Diz, queres jogar comigo?"; e fiz sinal com a cabeça: "Sim." Então adiantei-me e ordenei as peças e joguei com ele duas partidas, ambas as quais ganhei. Ele ficou sem fala de surpresa; então tomei o estojo e, retirando um cálamo, escrevi no tabuleiro estes dois dísticos:—

Dois exércitos vão lutando durante todo o dia ✿ Nem a sua batalha está jamais terminada, Até que, quando a escuridão os envolve, ✿ Os dois vão dormir numa única cama.

O Rei leu estas linhas com maravilha e deleite e disse ao seu Eunuco: "Ó Mukbil, vai ter com a tua senhora, Sitt al-Husn, e diz-lhe: Vem, fala com o Rei que te manda chamar aqui para tomar o teu conforto ao ver este macaco verdadeiramente maravilhoso!" Então o Eunuco saiu e pouco depois regressou com a senhora que, quando me viu, velou o rosto e disse: "Ó meu pai! perdeste todo o sentido de honra? Como é que te comprazes em mandar chamar-me e mostrar-me a homens estranhos?" "Ó Sitt al-Husn," disse ele, "nenhum homem está aqui senão este pequeno pajem e o Eunuco que te criou e eu, teu pai. De quem, então, velas o teu rosto?" Ela respondeu: "Este a quem julgas um macaco é um jovem, esperto e educado, sábio e culto e filho de um Rei; mas ele está enfeitiçado e o Ifrit Jirjaris, que é da semente de Iblis, lançou um feitiço sobre ele, depois de matar a sua própria esposa, a filha do Rei Ifitamus, senhor das Ilhas de Abnus." O Rei maravilhou-se com as palavras da sua filha e, voltando-se para mim, disse: "É verdade o que ela diz sobre ti?"; e fiz sinal com um aceno da minha cabeça: "Sim, verdadeiramente"; e chorei amargamente. Então perguntou à sua filha: "De onde sabias tu que ele está enfeitiçado?"; e ela respondeu: "Ó meu querido pai, havia comigo na minha infância uma velha, astuta e sábia e bruxa além disso, e ela ensinou-me a teoria da magia e a sua prática; e tomei notas por escrito e nelas tornei-me perfeita, e tenho de cor cento e setenta capítulos de fórmulas egromânticas, pela menor das quais eu poderia transportar as pedras da tua cidade para além da Montanha Kaf e do Mar Circundante, ou fazer do seu local um abismo do mar e as suas pessoas peixes nadando no meio dele." "Ó minha filha," disse o seu pai, "eu conjuro-te, pela minha vida, desencanta este jovem, para que eu possa fazer dele o meu Wazir e casar-te com ele, pois, na verdade, ele é um jovem engenhoso e profundamente culto." "Com alegria e boa vontade," respondeu ela e, segurando na mão uma faca de ferro sobre a qual estava inscrito o nome de Allah em caracteres hebraicos, descreveu um amplo círculo——E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Ela disse: Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que o Kalandar continuou o seu conto assim: — Ó minha senhora, a filha do Rei empunhou uma faca na qual estavam inscritos caracteres hebraicos e descreveu um amplo círculo no meio do salão do palácio, e nele escreveu em letras cúficas nomes misteriosos e talismãs; e ela proferiu palavras e murmurou encantamentos, alguns dos quais entendemos e outros não. Logo o mundo tornou-se escuro diante da nossa vista, até que pensamos que o céu estava a cair sobre as nossas cabeças, e eis! O Ifrit apresentou-se na sua própria forma e aspecto. As suas mãos eram como forcados de muitos dentes, as suas pernas como os mastros de grandes navios, e os seus olhos como archotes de fogo fulgurante. Sentimos um medo terrível dele, mas a filha do Rei gritou-lhe: "Nenhuma boas-vindas para ti e nenhuma saudação, ó cão!", ao que ele mudou para a forma de um leão e disse: "Ó traidora, como é que quebraste o juramento que fizemos de que nenhum contrariaria o outro!" "Ó maldito", respondeu ela, "como poderia haver um pacto entre mim e alguém como tu?" Então ele disse: "Aceita o que trouxeste sobre ti própria"; e o leão abriu as suas mandíbulas e precipitou-se sobre ela; mas ela foi mais rápida do que ele; e, arrancando um cabelo da sua cabeça, agitou-o no ar enquanto murmurava sobre ele; e o cabelo tornou-se imediatamente uma lâmina de espada cortante, com a qual ela golpeou o leão e cortou-o em dois. Então as duas metades voaram no ar e a cabeça transformou-se num escorpião e a Princesa tornou-se uma serpente enorme e atacou o escorpião maldito, e os dois lutaram, enrolando-se e desenrolando-se, uma luta renhida durante pelo menos uma hora. Depois, o escorpião transformou-se num abutre e a serpente tornou-se uma águia que atacou o abutre, e perseguiu-o durante uma hora, até que ele se tornou um gato preto, que miava, arreganhava os dentes e cuspia. Então a águia transformou-se num lobo malhado e estes dois lutaram no palácio durante muito tempo, quando o gato, vendo-se vencido, transformou-se num verme e rastejou para dentro de uma enorme romã vermelha, que jazia ao lado da fonte que jorrava no meio do salão do palácio. Então a romã inchou até ao tamanho de uma melancia no ar; e, caindo sobre o pavimento de mármore do palácio, partiu-se em pedaços, e todos os grãos caíram e ficaram espalhados por todo o lado até cobrirem todo o chão. Então o lobo sacudiu-se e tornou-se um galo branco como a neve, que se pôs a apanhar os grãos, pretendendo não deixar nenhum; mas, pelo fado do destino, uma semente rolou para a borda da fonte e ali ficou escondida. O galo pôs-se a cacarejar e a bater as asas e a sinalizar-nos com o bico como se perguntasse: "Restam alguns grãos?" Mas nós não entendemos o que ele queria dizer, e ele gritou-nos com um grito tão alto que pensámos que o palácio cairia sobre nós. Então ele correu por todo o chão até ver o grão que tinha rolado para a borda da fonte, e correu ansiosamente para o apanhar, quando eis que ele saltou para o meio da água e tornou-se um peixe e mergulhou até ao fundo da bacia. Então o galo transformou-se num peixe grande, e mergulhou lá dentro atrás do outro, e os dois desapareceram por um momento e eis! Ouvimos gritos altos e lamentos de dor que nos fizeram tremer. Depois disto, o Ifrit ergueu-se da água, e ele era como uma chama ardente; lançando fogo e fumo da sua boca, olhos e narinas. E imediatamente a Princesa também saiu da bacia e ela era uma brasa viva de fogo flamejante; e estes dois, ela e ele, lutaram durante o espaço de uma hora, até que os seus fogos os envolveram inteiramente e o seu fumo espesso encheu o palácio. Quanto a nós, ofegávamos por ar, estando quase sufocados, e desejávamos mergulhar na água temendo ser queimados e totalmente destruídos; e o Rei disse: "Não há Majestade nem Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande! Na verdade somos de Allah e para Ele retornaremos! Oxalá eu não tivesse instado a minha filha a tentar o desencantamento deste companheiro macaco, através do qual lhe impus a terrível tarefa de lutar contra aquele Ifrit maldito contra o qual todos os Ifrits do mundo não poderiam prevalecer. E oxalá nunca tivéssemos visto este macaco, que Allah nunca cure nem abençoe o dia da sua vinda! Pensámos fazer uma boa acção por ele perante a face de Allah, e libertá-lo do encantamento, e agora trouxemos este problema e trabalho para o nosso coração." Mas eu, ó minha senhora, estava sem fala e impotente para lhe dizer uma palavra. De repente, antes que nos apercebêssemos de algo, o Ifrit gritou debaixo das chamas e, aproximando-se de nós enquanto estávamos no estrado, soprou fogo nas nossas faces. A donzela alcançou-o e soprou rajadas de fogo na face dele e as faíscas dela e dele choveram sobre nós, e as faíscas dela não nos fizeram mal, mas uma das faíscas dele atingiu o meu olho e destruiu-o, tornando-me um macaco monocular; e outra caiu na face do Rei, chamuscando a metade inferior, queimando a sua barba e bigodes e fazendo cair os seus dentes inferiores; enquanto uma terceira atingiu o peito do Castrado, matando-o no local. Então desesperámos da vida e tivemos a certeza da morte quando eis que uma voz repetiu o ditado: "Allah é o Altíssimo! Allah é o Altíssimo! Ajuda e vitória para todos os que acreditam na Verdade; e desapontamento e desgraça para todos os que não acreditam na religião de Maomé, a Lua da Fé." Quem falava era a Princesa que tinha queimado o Ifrit, e ele tinha-se tornado um monte de cinzas. Então ela aproximou-se de nós e disse: "Trazei-me uma taça de água." Trouxeram-lha e ela falou sobre ela palavras que não entendemos, e borrifando-me com ela gritou: "Pela virtude da Verdade, e pelo Nome Mais Grande de Allah, ordeno-te que voltes à tua forma anterior." E eis que eu sacudi-me e tornei-me um homem como antes, excepto que tinha perdido completamente um olho. Então ela gritou: "O fogo! O fogo! Ó meu querido papá, uma seta do maldito feriu-me de morte, pois não estou acostumada a lutar com os Jann; se ele fosse um homem, tê-lo-ia morto no início. Não tive problemas até ao momento em que a romã rebentou e os grãos se espalharam, mas descuidei-me da semente onde estava a própria vida do Jinni. Se eu a tivesse apanhado, ele teria morrido no local, mas como o Destino e a Fortuna decretaram, não a vi; por isso ele veio sobre mim desprevenida e houve entre ele e mim uma luta penosa debaixo da terra e no alto do ar e na água; e, sempre que eu lhe abria uma porta, ele abria-me outra porta e mais forte, até que finalmente me abriu a porta de fogo, e poucos são salvos quando a porta de fogo se abre. Mas o Destino quis que a minha astúcia prevalecesse sobre a dele; e eu queimei-o até à morte depois de tê-lo exortado em vão a abraçar a religião do Al-Islão. Quanto a mim, sou uma mulher morta; que Allah supra o meu lugar para vós!" Então ela pediu ajuda ao Céu e não cessou de implorar alívio do fogo; quando eis que uma faísca negra disparou dos seus pés vestidos até às coxas; depois voou para o seu peito e de lá para o seu rosto. Quando atingiu o seu rosto ela chorou e disse: "Testemunho que não há deus senão o Deus e que Maomé é o Apóstolo de Deus!" E olhámos para ela e não vimos nada senão um monte de cinzas ao lado do monte que tinha sido o Ifrit. Lamentámos por ela e eu desejei ter estado no seu lugar, para não ter visto a sua face adorável, que me tinha feito tanto bem, tornar-se cinzas; mas não há como contrariar a vontade de Allah. Quando o Rei viu a morte terrível da sua filha, arrancou o que restava da sua barba e bateu no seu rosto e rasgou as suas vestes; e eu fiz como ele e ambos chorámos por ela. Então entraram os Chamberlain e Grandes e ficaram espantados ao encontrar dois montes de cinzas e o Sultão num desmaio; por isso ficaram à volta dele até que ele recuperou e lhes contou o que tinha acontecido à sua filha por causa do Ifrit; perante o que a dor deles foi muito grande e as mulheres e as escravas gritaram e lamentaram-se, e continuaram as suas lamentações pelo espaço de sete dias. Além disso, o Rei ordenou construir sobre as cinzas da sua filha um vasto túmulo abobadado, e queimar lá dentro velas de cera e lâmpadas sepulcrais: mas quanto às cinzas do Ifrit, espalharam-nas aos ventos, enviando-as para a maldição de Allah. Então o Sultão adoeceu de uma doença que quase o levou à morte durante um mês; e, quando a saúde lhe regressou e a sua barba cresceu de novo e ele tinha sido convertido pela misericórdia de Allah ao Al-Islão, mandou chamar-me e disse: "Ó jovem, o Destino tinha decretado para nós a mais feliz das vidas, a salvo de todas as mudanças e azares do Tempo, até que tu vieste a nós, quando os problemas caíram sobre nós. Oxalá nunca te tivéssemos visto e à tua face imunda! Pois tivemos pena de ti e por isso perdemos tudo o que tínhamos. Eu, por tua causa, perdi primeiro a minha filha, que para mim valia por cem homens; em segundo lugar, sofri o que me aconteceu por causa do fogo e da perda dos meus dentes, e o meu Eunuco também foi morto. Não te culpo, pois estava fora do teu poder evitar isto: o fado de Allah estava sobre ti bem como sobre nós e graças ao Todo-Poderoso pelo facto de a minha filha te ter libertado, embora por isso ela tenha perdido a sua própria vida! Vai-te agora, ó meu filho, desta minha cidade, e basta-te o que nos aconteceu através de ti, mesmo que tenha sido decretado para nós. Vai em paz; e se alguma vez te vir novamente, certamente te matarei." E ele gritou comigo. Então saí da sua presença, ó minha senhora, chorando amargamente e mal acreditando na minha fuga e sem saber para onde me dirigir. E recordei tudo o que me tinha acontecido, o meu encontro com o alfaiate, o meu amor pela donzela no palácio debaixo da terra, e a minha fuga por pouco do Ifrit, mesmo depois de ele ter determinado fazer-me morrer; e como eu tinha entrado na cidade como um macaco e agora estava a deixá-la um homem mais uma vez. Então dei graças a Allah e disse: "O meu olho e não a minha vida!" e antes de deixar o lugar entrei no banho e rapei a minha cabeça, barba, bigodes e sobrancelhas; e lancei cinzas sobre a minha cabeça e vesti a túnica grosseira de lã preta de um Kalandar. Então segui caminho, ó minha senhora, e todos os dias ponderava sobre todas as calamidades que me tinham acontecido, e chorava e repetia estes dísticos: —

"Estou perturbado, mas na verdade a Sua misericórdia permanece comigo, ✿ Embora à minha volta se reúnam hostes de males, de onde vêm não posso ver: Paciente serei até que a própria Paciência se torne impaciente comigo; ✿ Paciente para sempre até que o Senhor cumpra o meu destino: Paciente esperarei sem queixa, um homem injustiçado e vencido; ✿ Paciente como o homem tostado pelo sol que atravessa o mar de areia do deserto: Paciente serei até que a própria Aloé inconscientemente admita ✿ Que sou paciente sob coisas mais amargas do que a mais amarga aloé: Não há coisas mais amargas do que aloés ou do que a paciência para a humanidade; ✿ Contudo, mais amargas do que as duas para mim foi a traição da Paciência: A minha fronte seca, marcada e chamuscada traduziria a minha dor ✿ Se a alma pudesse pesquisar o meu espírito e lá descobrir o segredo: Se as colinas suportassem o fardo que eu suporto, desmoronar-se-iam sob o peso; ✿ Silenciaria o vento rugidor, extinguiria a flagrância da língua de fogo, E quem diz que o mundo é doce, certamente um dia verá ✿ Com mais do que a amargura da aloé e a pungência da aloé."

Então viajei por muitas regiões e vi muitas cidades, pretendendo ir para Bagdade, para que pudesse pedir audiência, na Casa da Paz, ao Comandante dos Fiéis e contar-lhe tudo o que me tinha acontecido. Cheguei aqui esta mesma noite e encontrei o meu irmão em Allah, este primeiro Kalandar, parado como alguém perplexo; por isso saudei-o com "A paz seja convosco", e entrei em discurso com ele. Pouco depois chegou o nosso irmão, este terceiro Kalandar, e disse-nos: "A paz seja convosco! Sou um estranho"; ao que respondemos: "E nós também somos estranhos, que viemos aqui esta noite abençoada." Então caminhámos todos os três juntos, nenhum de nós conhecendo a história do outro, até que o Destino nos levou a esta porta e entrámos até vós. Tal é, pois, a minha história e a minha razão para rapar a minha barba e bigodes, e isto é o que causou a perda do meu olho. Disse a dona da casa: "O teu conto é de facto raro; por isso esfrega a tua cabeça e segue o teu caminho"; mas ele respondeu: "Não me moverei até ouvir as histórias dos meus companheiros." Então adiantou-se o terceiro Kalandar, e disse: "Ó ilustre senhora! A minha história não é como a destes meus camaradas, mas mais maravilhosa e muito mais extraordinária. No caso deles, o Fado e a Fortuna caíram sobre eles desprevenidos; mas eu atraí o destino sobre a minha própria cabeça e trouxe tristeza sobre a minha própria alma, e rapei a minha própria barba e perdi o meu próprio olho. Ouve então"

O CONTO DO TERCEIRO KALANDAR.

Sabe, ó minha senhora, que eu também sou um Rei e Filho de um Rei e o meu nome é Ajíb filho de Khazíb. Quando o meu pai morreu, sucedi-lhe; e governei e fiz justiça e tratei equitativamente todos os meus súbditos. Deliciava-me com viagens marítimas, pois a minha capital ficava na costa, diante da qual o oceano se estendia vasto e largo; e perto havia muitas grandes ilhas com fortalezas e guarnições no meio do mar. A minha frota contava cinquenta navios mercantes, e tantos iates de recreio, e cento e cinquenta velas prontas equipadas para a guerra santa contra os Incrédulos. Aconteceu que eu tinha vontade de me divertir nas ilhas supracitadas, por isso embarquei com o meu povo em dez navios; e, levando comigo mantimentos para um mês, parti para uma viagem de vinte dias. Mas numa noite um vento contrário atingiu-nos, e o mar levantou-se contra nós com ondas enormes; as vagas açoitaram-nos duramente e uma densa escuridão instalou-se à nossa volta. Damo-nos por perdidos e eu disse: "Aquele que põe em perigo os seus dias, mesmo que escape, não merece louvor." Então rezámos a Allah e suplicámo-Lhe; mas as rajadas de tempestade não cessaram de soprar contra nós nem as vagas de nos golpear até que a manhã rompeu, quando o vendaval caiu, os mares acalmaram para uma quietude espelhada e o sol brilhou sobre nós gentilmente claro. De imediato chegámos a uma ilha onde desembarcámos e cozinhámos um pouco de comida, e comemos fartamente e descansámos durante um par de dias. Depois partimos novamente e navegámos outros vinte dias, os mares a alargar-se e a terra a encolher. De imediato a corrente correu contra nós, e encontrámo-nos em águas estranhas, onde o Capitão tinha perdido o seu cálculo, e estava totalmente confuso neste mar; por isso dissemos ao vigia: "Vai para o topo do mastro e mantém os teus olhos abertos." Ele subiu pelo mastro e olhou para fora e gritou em voz alta: "Ó Rais, vejo a estibordo algo escuro, muito parecido com um peixe a flutuar na face do mar, e a bombordo há uma silhueta no meio do mar, ora preta ora brilhante." Quando o Capitão ouviu as palavras do vigia, atirou o seu turbante ao convés e arrancou a barba e bateu no rosto dizendo: "Boas notícias, de facto! Estamos todos mortos; nenhum de nós pode ser salvo." E pôs-se a chorar e todos nós chorámos pelo seu choro e também pelas nossas vidas; e eu disse: "Ó Capitão, dize-nos o que é que o vigia viu." "Ó meu Príncipe," respondeu ele, "sabe que perdemos o nosso rumo na noite da tempestade, que foi seguida no dia seguinte por uma calmaria de dois dias durante a qual não avançámos; e andamos perdidos há onze dias a contar a partir dessa noite, sem um vento que nos trouxesse de volta ao nosso verdadeiro rumo. Amanhã, ao final do dia, chegaremos a uma montanha de pedra preta, chamada a Montanha do Íman; pois para lá as correntes nos levam, queiramos ou não. Assim que estivermos sob o seu abrigo, os lados do navio abrir-se-ão e cada prego na tábua saltará e ficará preso à montanha; pois o Deus Todo-Poderoso dotou a pedra de íman com uma virtude misteriosa e um amor pelo ferro, em virtude do qual tudo o que é ferro viaja na sua direcção; e nesta montanha há muito ferro, quanto ninguém sabe senão o Altíssimo, dos muitos navios que ali se perderam desde os dias de antanho. O ponto brilhante no seu cume é uma cúpula de latão amarelo da Andaluzia, abobadada sobre dez colunas; e na sua coroa está um cavaleiro que monta um cavalo de latão e segura na mão uma lança de latão; e no seu peito pende uma placa de chumbo gravada com nomes e talismãs." E acrescentou imediatamente: "E, ó Rei, ninguém destrói o povo senão o cavaleiro naquele corcel, nem a necromancia será dissipada até que ele caia do seu cavalo." Então, ó minha senhora, o Capitão chorou com choro excessivo e todos nós tivemos a certeza da morte e cada um de nós despediu-se do seu amigo e encarregou-o do seu último testamento e testamento caso pudesse ser salvo. Não dormimos nessa noite e pela manhã encontrámo-nos muito mais perto da Montanha de Íman, para onde as águas nos levaram com um impulso violento. Quando os navios estavam perto do seu abrigo, abriram-se e os pregos saltaram e todo o ferro neles procurou a Montanha do Íman e aderiu a ela como uma rede; de modo que ao final do dia estávamos todos a lutar nas ondas à volta da montanha. Alguns de nós fomos salvos, mas a maioria afogou-se e mesmo aqueles que tinham escapado não se reconheciam, tão estupefactos estavam pelo bater das vagas e o rugido dos ventos. Quanto a mim, ó minha senhora, Allah (seja o Seu nome exaltado!) preservou a minha vida para que eu pudesse sofrer tudo o que Ele queria para mim de dificuldade, infortúnio e calamidade; pois arrastei-me sobre uma tábua de um dos navios, e o vento e as águas atiraram-na aos pés da Montanha. Lá encontrei um caminho praticável que levava por degraus esculpidos na rocha até ao cume, e invoquei o nome de Allah Todo-Poderoso——E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Ela continuou: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que o terceiro Kalandar disse à senhora (estando o resto do grupo firmemente amarrado e os escravos de pé, com espadas desembainhadas sobre as suas cabeças): — E, após invocar o nome de Allah Todo-Poderoso e suplicar-Lhe apaixonadamente, enfrentei a subida, agarrando-me aos degraus e entalhes esculpidos na pedra, e subi pouco a pouco. E o Senhor acalmou o vento e ajudou-me na ascensão, de modo que consegui alcançar o cume. Lá não encontrei lugar de repouso senão a cúpula, na qual entrei, regozijando-me com excessiva alegria pela minha fuga; e fiz a ablução Wuzu e rezei uma oração de duas prostrações, em ação de graças a Deus pela minha preservação. Então adormeci sob a cúpula e ouvi no meu sonho uma Voz misteriosa dizendo: "Ó filho de Khazib! quando despertares do teu sono, cava sob os teus pés e encontrarás um arco de latão e três flechas de chumbo, inscritas com talismãs e caracteres. Toma o arco e dispara as flechas ao cavaleiro no topo da cúpula e livra a humanidade desta dolorosa calamidade. Quando o tiveres alvejado, ele cairá no mar, e o cavalo também cairá aos teus pés: então enterra-o no lugar do arco. Feito isto, o mar inchará e elevar-se-á até estar nivelado com o cume da montanha, e aparecerá nele um esquife transportando um homem de latão (que não aquele que terás alvejado), segurando na mão um par de remos. Ele virá até ti e deverás embarcar com ele, mas tem cuidado para não dizer Bismillah nem invocar de outra forma Allah Todo-Poderoso. Ele remar-te-á durante um período de dez dias, até te levar a certas Ilhas chamadas Ilhas da Segurança, e de lá alcançarás facilmente um porto e encontrarás aqueles que te levarão à tua terra natal; e tudo isto se cumprirá para ti, desde que não invoques o nome de Allah." Então despertei do meu sono com alegria e regozijo e, apressando-me a cumprir a ordem da Voz misteriosa, encontrei o arco e as flechas e disparei contra o cavaleiro, derrubando-o no mar, enquanto o cavalo caía aos meus pés; por isso, tomei-o e enterrei-o. Pouco depois, o mar agitou-se e elevou-se até atingir o topo da montanha; nem esperei muito antes de ver um esquife ao largo, vindo na minha direção. Dei graças a Allah; e, quando o esquife chegou até mim, vi nele um homem de latão com uma placa de chumbo no peito, inscrita com talismãs e caracteres; e embarquei sem proferir uma palavra. O barqueiro remou comigo durante o primeiro, o segundo e o terceiro dia, ao todo dez dias completos, até avistar as Ilhas da Segurança; ao que me regozijei com excessiva alegria e, por força do contentamento, exclamei: "Allah! Allah! Em nome de Allah! Não há outro deus senão o Deus e Allah é Todo-Poderoso." Nesse instante, o esquife virou-se imediatamente e lançou-me ao mar; depois endireitou-se e afundou-se nas profundezas. Como sou um bom nadador, nadei o dia inteiro até ao cair da noite, quando os meus antebraços e ombros ficaram entorpecidos de fadiga e senti que ia morrer; então testemunhei a minha Fé, não esperando senão a morte. O mar ainda estava a agitar-se sob a violência dos ventos, e pouco depois veio uma vaga como um pequeno monte; e, erguendo-me alto no ar, lançou-me com um longo arremesso sobre terra firme, para que a Sua vontade fosse cumprida. Rastejei pela praia e, despindo as minhas vestes, torci-as para secar e estendi-as ao sol; depois deitei-me e dormi a noite toda. Assim que amanheceu, vesti as minhas roupas e levantei-me para ver por onde deveria caminhar. Logo cheguei a um bosque de árvores baixas; e, dando uma volta em torno dele, descobri que o local onde me encontrava era uma ilhota, um mero ilhéu, cercado por todos os lados pelo oceano; ao que disse a mim mesmo: "O que quer que me liberte de uma grande calamidade atira-me para uma maior!" Mas enquanto ponderava o meu caso e ansiava pela morte, eis que vi ao longe um navio dirigindo-se à ilha; então subi a uma árvore e escondi-me entre os ramos. Pouco depois, o navio ancorou e desembarcou dez escravos, negros, carregando enxadas de ferro e cestos, que caminharam até chegarem ao centro da ilha. Aqui cavaram profundamente no solo, até descobrirem uma placa de metal que levantaram, abrindo assim um alçapão. Depois disto, voltaram ao navio e de lá trouxeram pão e farinha, mel e frutos, manteiga clarificada, odres de couro contendo bebidas e muitos utensílios domésticos; também mobiliário, serviço de mesa e espelhos; tapetes, carpetes e, de facto, tudo o que era necessário para mobilar uma habitação; e continuaram a ir e vir, descendo pelo alçapão, até terem transportado para a habitação tudo o que estava no navio. Após isto, os escravos voltaram a bordo e trouxeram consigo vestes tão ricas quanto possível, e no meio deles veio um homem muito velho, de quem restava muito pouco, pois o Tempo o tinha tratado de forma dura e severa, e tudo o que restava dele era um osso envolto num trapo de tecido azul, através do qual os ventos assobiavam de oeste a leste. Como diz o poeta sobre ele:—

O Tempo faz-me tremer, Ai, que obstáculo terrível! ✿ Enquanto o Tempo na altivez da força sempre caminha: Tempo houve em que caminhei sem nunca me sentir cansado, ✿ Agora estou cansado embora nunca caminhe!

E o Shaykh segurava pela mão um jovem moldado na beleza, todo elegância e graça perfeita; tão formoso que a sua formosura merecia ser proverbial; pois ele era como um ramo verde ou a tenra cria da corça, arrebatando todos os corações com a sua amabilidade e subjugando todas as almas com a sua coqueteria e modos amorosos. Era dele que o poeta falava quando disse:—

Trouxeram a Beleza com ele para comparar; ✿ Mas a Beleza baixou a cabeça em vergonha e cuidado: Disseram eles: "Ó Beleza, viste alguém como ele?" ✿ E a Beleza gritou: "Como ele? Em parte alguma!"

Não cessaram a sua marcha, ó minha senhora, até que todos desceram pelo alçapão e não reapareceram durante uma hora, ou talvez mais; ao fim desse tempo, os escravos e o velho subiram sem o jovem e, substituindo a placa de ferro e fechando cuidadosamente a laje da porta, como estava antes, voltaram ao navio, içaram velas e perderam-se da minha vista. Quando se viraram para partir, desci da árvore e, indo ao lugar que os tinha visto tapar, raspei e removi a terra; e possuí a minha alma em paciência até ter removido tudo. Então apareceu o alçapão que era de madeira, em forma e tamanho como uma mó; e quando o levantei, revelou uma escadaria sinuosa de pedra. Com isto maravilhei-me e, descendo os degraus até chegar ao último, encontrei um belo salão, espalhado com vários tipos de carpetes e tecidos de seda, onde estava um jovem sentado num sofá elevado e reclinado sobre uma almofada redonda com um leque na mão e ramilhos e ramos de ervas perfumadas e flores diante dele; mas ele estava sozinho e não havia uma alma perto dele na grande abóbada. Quando me viu, empalideceu; mas saudei-o cortesamente e disse: "Tranquiliza a tua mente e acalma os teus medos; nenhum mal chegará perto de ti; sou um homem como tu e, além disso, filho de um Rei; a quem os decretos do Destino enviaram para te fazer companhia e animar-te na tua solidão. Mas agora diz-me, qual é a tua história e o que te faz habitar assim na solidão debaixo da terra?" Quando ele se certificou de que eu era da sua espécie e não um Jinni, alegrou-se e a sua boa cor regressou; e, fazendo-me aproximar dele, disse: "Ó meu irmão, a minha história é uma história estranha e é esta. O meu pai é um comerciante de joias possuidor de grande riqueza, que tem escravos brancos e negros viajando e comerciando por sua conta em navios e em camelos, e trafegando com as cidades mais distantes; mas ele não foi abençoado com um filho, nem sequer um. Ora, numa certa noite, ele sonhou que seria favorecido com um filho, que teria vida curta; por isso, a manhã amanheceu sobre o meu pai trazendo-lhe aflição e choro. Na noite seguinte, a minha mãe concebeu e o meu pai anotou a data em que ela ficou grávida. Chegado o tempo, ela deu-me à luz; ao que o meu pai se alegrou e fez banquetes e convocou os vizinhos e alimentou os Fakirs e os pobres, por ter sido abençoado com descendência perto do fim dos seus dias. Então ele reuniu os astrólogos e astrónomos que conheciam as posições dos planetas, e os feiticeiros e sábios do tempo, e homens instruídos em horóscopos e natividades; e eles traçaram o meu mapa natal e disseram ao meu pai:—O teu filho viverá até aos quinze anos, mas no seu décimo quinto há um aspeto sinistro; se ele o superar em segurança, atingirá uma grande idade. E a causa que o ameaça com a morte é esta. No Mar do Perigo ergue-se a Montanha que se chama Íman; em cujo cume está um cavaleiro de latão amarelo sentado num cavalo também de latão e carregando no peito uma placa de chumbo. Cinquenta dias depois de este cavaleiro cair da sua montada, o teu filho morrerá e o seu assassino será aquele que derrubar o cavaleiro, um Príncipe chamado Ajib filho do Rei Khazib. O meu pai afligiu-se com excessiva tristeza ao ouvir estas palavras; mas criou-me da maneira mais terna e educou-me excelentemente bem até ao meu décimo quinto ano. Dez dias atrás, chegaram notícias de que o cavaleiro tinha caído no mar e aquele que o derrubou chamava-se Ajib filho do Rei Khazib. O meu pai chorou então lágrimas amargas pela necessidade de me separar dele e tornou-se como alguém possuído por um Jinni. Contudo, estando com um medo mortal por mim, construiu-me este lugar debaixo da terra; e, abastecendo-o com tudo o que era necessário para os poucos dias que ainda restavam, trouxe-me para aqui num navio e deixou-me aqui. Dez já passaram e, quando os quarenta tiverem passado sem perigo para mim, ele virá e levar-me-á; pois ele fez tudo isto apenas com medo do Príncipe Ajib. Tal, então, é a minha história e a causa da minha solidão." Quando ouvi a sua história, maravilhei-me e disse comigo mesmo: "Eu sou o Príncipe Ajib que fez tudo isto; mas como Allah está comigo, certamente não o matarei!" Por isso disse-lhe: "Ó meu senhor, longe de ti esteja este dano e mal e então, se Allah quiser, não sofrerás preocupação nem cuidado nem qualquer inquietação, pois ficarei contigo e servir-te-ei como um servo, e depois seguirei o meu caminho; e, depois de te ter feito companhia durante os quarenta dias, irei contigo para a tua casa onde me darás uma escolta de alguns dos teus Mamelucos com quem poderei viajar de volta para a minha própria cidade; e o Todo-Poderoso recompensar-te-á por mim." Ele ficou contente ao ouvir estas palavras, quando me levantei e acendi uma grande vela de cera e preparei as lâmpadas e as três lanternas; e coloquei comida, bebida e doces. Comemos, bebemos e ficámos a conversar sobre vários assuntos até que a maior parte da noite passou; quando ele se deitou para descansar e eu cobri-o e fui dormir. Na manhã seguinte levantei-me e aqueci um pouco de água, depois levantei-o gentilmente para o acordar e trouxe-lhe a água morna com a qual lavou o rosto e disse-me: "O Céu te recompense por mim com toda a bênção, ó jovem! Por Allah, se eu me livrar deste perigo e for salvo daquele cujo nome é Ajib bin Khazib, farei com que o meu pai te recompense e te envie para casa saudável e rico; e, se eu morrer, então a minha bênção esteja sobre ti." Respondi: "Que o dia nunca amanheça em que o mal te aconteça; e que Allah faça com que o meu último dia seja antes do teu último dia!" Depois coloquei diante dele um pouco de comida e comemos; e preparei perfumes para fumigar o salão, o que lhe agradou. Além disso, fiz-lhe um pano de Mankalah; e jogámos e comemos doces e jogámos novamente e divertimo-nos até ao cair da noite, quando me levantei e acendi as lâmpadas, e coloquei diante dele um pouco para comer, e sentei-me a contar-lhe histórias até que as horas de escuridão tivessem passado. Depois ele deitou-se para descansar e eu cobri-o e descansei também. E assim continuei a fazer, ó minha senhora, durante dias e noites, e o afeto por ele criou raízes no meu coração e a minha tristeza foi aliviada, e disse a mim mesmo: Os astrólogos mentiram quando previram que ele seria morto por Ajib bin Khazib: por Allah, não o matarei. Não deixei de o servir e de conversar e festejar com ele e de lhe contar todo o tipo de histórias durante trinta e nove dias. Na quadragésima noite, o jovem alegrou-se e disse: "Ó meu irmão, Alhamdolillah!—louvado seja Allah—que me preservou da morte e isto é pela tua bênção e pela bênção da tua vinda até mim; e rezo a Deus que Ele te restitua à tua terra natal. Mas agora, ó meu irmão, gostaria que me aquecesses um pouco de água para a ablução Ghusl e que gentilmente me banhasses e mudasses as minhas roupas." Respondi: "Com amor e alegria;" e aqueci água em abundância e, levando-a para dentro, lavei o seu corpo todo, a lavagem da saúde, com farinha de tremoços e esfreguei-o bem e mudei-lhe as roupas e estendi-lhe uma cama alta onde ele se deitou para descansar, estando sonolento após o banho. Então disse ele: "Ó meu irmão, corta-me uma melancia e adoça-a com um pouco de açúcar cristalizado." Por isso fui à despensa e, trazendo uma bela melancia que lá encontrei, coloquei-a num prato e pus diante dele dizendo: "Ó meu mestre, não tens uma faca?" "Aqui está", respondeu ele, "sobre a minha cabeça na prateleira alta." Então levantei-me à pressa e, pegando na faca, tirei-a da bainha; mas o meu pé escorregou ao descer e caí pesadamente sobre o jovem, segurando na mão a faca que se apressou a cumprir o que tinha sido escrito no Dia que decidiu os destinos do homem, e enterrou-se, como se fosse plantada, no coração do jovem. Ele morreu no instante. Quando vi que ele estava morto e soube que o tinha matado, contra a minha vontade, gritei com um grito excessivamente alto e amargo e bati no meu rosto e rasguei as minhas vestes e disse: "Em verdade somos de Allah e para Ele retornaremos, ó Muçulmanos! Ó povo que ama a Allah! restava para este jovem apenas um dia dos quarenta dias perigosos que os astrólogos e os sábios tinham previsto para ele; e a morte predestinada deste belo ser devia ser pela minha mão. Quem dera que eu não tivesse tentado cortar a melancia. Que terrível infortúnio é este que devo suportar, quer queira quer não? Que desastre! Que aflição! Ó meu Allah, imploro o teu perdão e declaro-Te a minha inocência da sua morte. Mas que o que Deus quer, que isso aconteça."——E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Agora, quando foi a Décima Sexta Noite,

Ela disse: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que Ajib continuou assim o seu conto para a senhora:—Quando me certifiquei de que o tinha morto, levantei-me e, subindo as escadas, substituí o alçapão e cobri-o com terra como antes. Depois olhei para o mar e vi o navio a cortar as águas e a dirigir-se para a ilha, pelo que tive medo e disse: "No momento em que chegarem e virem o jovem morto, saberão que fui eu quem o matou e matar-me-ão sem demora." Então subi para uma árvore alta e escondi-me entre as suas folhas; e mal o tinha feito, o navio ancorou e os escravos desembarcaram com o homem antigo, o pai do jovem, e dirigiram-se diretamente para o lugar e, quando removeram a terra, ficaram surpreendidos ao vê-la macia. Depois levantaram o alçapão e desceram e encontraram o jovem estendido no seu comprimento total, vestido com belas roupas novas, com um rosto radiante após o banho, e a faca profundamente cravada no seu coração. À vista disto, gritaram e choraram e bateram nos seus rostos, amaldiçoando ruidosamente o assassino; enquanto um desmaio tomou conta do Shaykh, de modo que os escravos pensaram que ele estava morto, incapaz de sobreviver ao seu filho. Finalmente envolveram o jovem morto nas suas roupas e levaram-no para cima e colocaram-no no chão, cobrindo-o com uma mortalha de seda. Enquanto se dirigiam para o navio, o velho reviveu; e, olhando para o seu filho que estava estendido, caiu no chão e espalhou pó sobre a sua cabeça e golpeou o seu rosto e arrancou a sua barba; e o seu choro redobrou ao pensar no seu filho assassinado e desmaiou mais uma vez. Passado algum tempo, um escravo foi buscar uma tira de seda sobre a qual deitaram o velho e sentaram-se à sua cabeceira. Tudo isto aconteceu e eu estava na árvore acima deles observando tudo o que se passava; e o meu coração tornou-se grisalho antes que a minha cabeça embranquecesse, pelo duro destino que era o meu, e pela angústia e aflição que tinha sofrido, e comecei a recitar:—

"Quantas alegrias pela vontade de Allah fugiram ✿ Com um voo escapando à vista da cabeça mais sábia! Quantas tristezas começarão o dia, ✿ Mas tornar-se-ão bem alegres antes que o dia termine! Quantos bens seguem os calcanhares do mal, ✿ Fazendo o coração do enlutado vibrar de alegria!"

Mas o velho, ó minha senhora, não cessou o seu desmaio até perto do pôr do sol, quando recuperou os sentidos e, olhando para o seu filho morto, relembrou o que tinha acontecido, e como o que ele temia tinha acontecido; e ele bateu no seu rosto e cabeça e recitou estes dísticos:—

"Torturado está o meu coração pela separação dos meus amigos ✿ E dois regatos fluem sempre das minhas pálpebras: Com eles partiram as minhas esperanças, Ai, que infelicidade! ✿ Que alternativa me resta dizer ou fazer? Quem dera que nunca tivesse olhado para a sua face, ✿ Que alternativa, bons senhores, quando os caminhos se tornam cada vez mais estreitos? Que encanto acalmará as minhas dores quando ardem desta forma ✿ Os anseios de amor que brilham nas minhas entranhas? Quem dera que tivesse percorrido com eles o caminho da Morte! ✿ Nunca nos teria acontecido este golpe de separação: Allah: peço ao Misericordioso que me mostre piedade ✿ E misture as nossas vidas e não as separe para sempre! Quão abençoados éramos enquanto sob o mesmo teto habitávamos ✿ Unidos em alegrias sem nada saber de tristeza; Até que a Fortuna nos atingiu com a seta da separação; ✿ Ai, quem suportará pacientemente tal agonia de separação? E o dardo da Morte abateu no meio da tribo ✿ A pérola da era que a Manhã via brilhar mais intensamente: Gritei enquanto o seu caso tomava fala e dizia:—✿ Quem dera, meu filho, que a Morte pudesse atrasar o seu destino! Qual é o caminho mais rápido para me encontrar contigo ✿ Meu Filho! por quem eu daria a minha alma? Se sol lhe chamo, não! o sol se põe; ✿ Se lua lhe chamo, minguam as luas; Ai, não! Ó triste desgraça a tua, ó destino dos dias, ✿ O teu lugar nenhum outro amor conhecerá jamais: O teu pai distraído vê-te, mas desespera ✿ Pela inteligência ou sabedoria de superar o Destino: Algum mau-olhado hoje lançou o seu feitiço ✿ E que lhe aconteça o mal como mal aconteceu!"

Então soluçou um único soluço e a sua alma fugiu da carne. Os escravos gritaram em voz alta: "Ai de nós, nosso senhor!" e cobriram as cabeças com pó e redobraram o seu choro e lamento. Pouco depois, transportaram o seu amo morto para o navio, lado a lado com o seu filho morto e, tendo transportado todos os haveres da habitação para a embarcação, içaram velas e desapareceram dos meus olhos. Desci da árvore e, levantando o alçapão, entrei na habitação subterrânea onde tudo me fazia lembrar o jovem; e contemplei os seus pobres restos e comecei a repetir estes versos:

Os seus rastos vejo, e definho com dor e angústia ✿ E sobre lares desertos choro e anseio: E Aquele rezo que os condenou a partir ✿ Que algum dia conceda o favor de um regresso seguro.

Então, ó minha senhora, subi novamente pelo alçapão, e todos os dias costumava vaguear pela ilha e todas as noites voltava ao salão subterrâneo. Assim vivi durante um mês, até que, por fim, olhando para o lado ocidental da ilha, observei que todos os dias a maré baixava, deixando águas rasas que a maré cheia não compensava; e ao fim do mês o mar mostrava terra seca naquela direção. Com isto regozijei-me, tendo a certeza da minha salvação; levantei-me e, atravessando a vau o pouco que restava da água, cheguei a terra firme, onde me deparei com grandes montes de areia solta em que até o casco de um camelo se afundaria até ao joelho. Contudo, encorajei a minha alma e, vadeando a areia, eis que um fogo brilhava ao longe, ardendo com uma luz flamejante. Dirigi-me a ele, esperando encontrar socorro, e irrompi nestes versos:

Talvez a minha Fortuna possa virar a sua rédea ✿ E o Tempo traga o bem, embora seja chamado ciumento; Avance as minhas esperanças, e promova todas as minhas necessidades, ✿ E retribua os males passados com bens presentes.

E quando me aproximei do referido fogo, eis que era um palácio com portões de cobre polido de vermelho que, quando o sol nascente sobre eles brilhava, cintilavam e luziam ao longe, mostrando o que me tinha parecido um fogo. Regozijei-me com a visão e sentei-me defronte do portão, mas mal me tinha acomodado no meu assento quando vieram ao meu encontro dez jovens vestidos com trajes suntuosos e todos eram cegos do olho esquerdo, que parecia arrancado. Eram acompanhados por um Shaykh, um homem muito, muito velho, e muito me maravilhei com a sua aparência, e por serem todos cegos do mesmo olho. Quando me viram, saudaram-me com o Salam e perguntaram-me sobre o meu caso e a minha história; ao que lhes relatei tudo o que me tinha acontecido e qual a plena medida da minha desventura. Maravilhados com a minha história, levaram-me para a mansão, onde vi dispostos à volta do salão dez divãs, cada um com a sua roupa de cama azul e colcha de tecido azul, e no meio erguia-se um divã mais pequeno, mobilado como eles com azul e nada mais. Assim que entrámos, cada um dos jovens tomou o seu lugar no seu próprio divã e o velho sentou-se no mais pequeno, no meio, dizendo-me: "Ó jovem, senta-te no chão e não perguntes pelo nosso caso nem pela perda dos nossos olhos." Pouco depois, levantou-se e serviu a cada jovem carne numa travessa e bebida num grande copo de metal, tratando-me da mesma forma; e depois disso sentaram-se a interrogar-me sobre as minhas aventuras e o que me tinha sucedido: e eu continuei a contar-lhes a minha história até que a noite ia adiantada. Então disseram os jovens: "Ó nosso Shaykh, não nos servirás a nossa habitual refeição? Chegou a hora." Ele respondeu: "Com amor e alegria", e levantou-se e, entrando num armário, desapareceu, mas pouco depois voltou trazendo à cabeça dez bandejas, cada uma coberta com uma tira de tecido azul. Colocou uma bandeja diante de cada jovem e, acendendo dez velas de cera, espetou uma em cada bandeja e retirou as coberturas e eis que, debaixo delas, não havia senão cinzas e carvão em pó e fuligem de caldeira. Então, todos os jovens arregaçaram as mangas até aos cotovelos e puseram-se a chorar e a lamentar-se, e enegreceram os rostos e mancharam as roupas e esbofetearam as testas e bateram nos peitos, exclamando continuamente: "Estávamos sentados descansados, mas a nossa obstinação trouxe-nos inquietação!" Não cessaram de fazer isto até que o amanhecer se aproximou, altura em que o velho se levantou e aqueceu água para eles; e eles lavaram os rostos e vestiram outras roupas limpas. Quando vi isto, ó minha senhora, pelo próprio espanto os meus sentidos deixaram-me e o meu juízo enlouqueceu e o coração e a cabeça estavam cheios de pensamentos, até que esqueci o que me tinha sucedido e não pude manter o silêncio, sentindo que tinha de falar e perguntar-lhes sobre estas estranhezas; por isso disse-lhes: "Como fazeis isto depois de termos estado tão alegres e brincalhões? Graças a Allah, estais todos sãos e bons, contudo, ações como estas não convêm senão a loucos ou àqueles possuídos por um espírito maligno. Conjuro-vos, por tudo o que vos é mais querido, por que vos retendes de me contar a vossa história e a causa da perda dos vossos olhos e de enegrecerdes os vossos rostos com cinzas e fuligem?" A isto voltaram-se para mim e disseram: "Ó jovem, não ouças as sugestões da tua juventude e não nos faças perguntas." Depois dormiram e eu com eles, e quando acordaram o velho trouxe-nos algo de comida; e, depois de termos comido e de os pratos e taças terem sido retirados, sentaram-se a conversar até ao cair da noite, quando o velho se levantou e acendeu as velas de cera e as lâmpadas e pôs carne e bebida diante de nós. Depois de termos comido e bebido, sentámo-nos a conversar e a beber em companhia até ao meio da noite, quando disseram ao velho: "Traz-nos a nossa refeição habitual, pois a hora de dormir está próxima!" Ele levantou-se e trouxe-lhes as bandejas de fuligem e cinzas; e eles fizeram como tinham feito na noite anterior, nem mais, nem menos. Fiquei com eles desta forma durante o espaço de um mês, tempo durante o qual costumavam enegrecer os rostos com cinzas todas as noites, e lavar-se e mudar de vestimenta quando a manhã era jovem; e eu apenas me maravilhava mais e os meus escrúpulos e curiosidade aumentaram a tal ponto que tive de renunciar até à comida e bebida. Por fim, perdi o controlo de mim mesmo, pois o meu coração estava inflamado por um fogo inextinguível e um ardor inescondível e disse: "Ó jovens, não me aliviareis o meu transtorno e não me dareis a conhecer a razão deste enegrecimento dos vossos rostos e o significado das vossas palavras: — Estávamos sentados descansados, mas a nossa obstinação trouxe-nos inquietação?" Responderam: "Seria melhor manter estas coisas em segredo." Ainda assim, fiquei perplexo com as suas ações a ponto de me abster de comer e beber e, por fim, perdendo totalmente a paciência, disse-lhes: "Não há outro remédio: tendes de me dar a conhecer qual é a razão destes atos." Responderam: "Mantivemos o nosso segredo apenas para o teu bem: satisfazer-te trará o mal sobre ti e tornar-te-ás um monocular tal como nós." Repeti: "Não há outro remédio e, se não quiserdes, deixai-me partir e voltar para o meu povo e descansar de ver estas coisas, pois o provérbio diz:—

Melhor que fiqueis e eu me despeça: ✿ Pois o que o olho não vê, o coração nunca sofrerá."

A isto disseram-me: "Lembra-te, ó jovem, que se o mal te acontecer, não te voltaremos a albergar nem te permitiremos permanecer entre nós"; e, trazendo um carneiro, abateram-no e esfolaram-no. Por fim, deram-me uma faca dizendo: "Toma esta pele e estende-te sobre ela e nós costurá-la-emos à tua volta; pouco depois virá até ti uma certa ave, chamada Rukh, que te apanhará com as suas garras e elevar-te-á bem alto no ar e depois colocar-te-á numa montanha. Quando sentires que ela já não está a voar, rasga a pele com esta lâmina e sai de dentro dela; a ave ficará assustada e voar-se-á para longe e deixar-te-á livre. Depois disto, caminha durante meio dia, e a marcha levar-te-á a um palácio maravilhoso de se ver, elevando-se alto no ar e construído de Khalanj, aloés e sândalo, banhado a ouro vermelho e cravejado com toda a espécie de esmeraldas e gemas dispendiosas adequadas para sinetes. Entra nele e alcançarás o teu desejo, pois todos nós entrámos nesse palácio; e tal é a causa da perda dos nossos olhos e de enegrecermos os nossos rostos. Se agora te contássemos as nossas histórias, levaria demasiado tempo; pois cada um de nós perdeu o seu olho esquerdo por uma aventura própria." Regozijei-me com as suas palavras e fizeram comigo como disseram; e a ave Rukh levou-me e colocou-me na montanha. Depois saí da pele e caminhei até chegar ao palácio. A porta estava aberta, entrei e encontrei-me num salão espaçoso e magnífico, vasto em extremo, tal como uma pista de cavalos; e à sua volta havia cem câmaras com portas de madeira de sândalo e aloés banhadas a ouro vermelho e guarnecidas com argolas de prata a servir de aldrabas. Na extremidade ou parte superior do salão vi quarenta donzelas, suntuosamente vestidas e ornamentadas e todas e cada uma brilhantes como luas; ninguém se cansaria nunca de as contemplar e todas tão adoráveis que o mais ascético devoto, ao vê-las, tornar-se-ia seu escravo e obedeceria à sua vontade. Quando me viram, todo o grupo veio até mim e disse: "Bem-vindo e bem-vindo e boa sorte para ti, ó nosso senhor! Este mês inteiro estivemos à tua espera. Louvado seja Allah que nos enviou alguém que é digno de nós, tal como nós somos dignas dele!" Depois fizeram-me sentar num divã alto e disseram-me: "Neste dia tu és o nosso senhor e amo, e nós somos as tuas servas e as tuas aias, por isso ordena-nos como quiseres." E eu maravilhei-me com o seu caso. Pouco depois, uma delas levantou-se e serviu-me comida e eu comi e elas comeram comigo; enquanto outras aqueciam água e lavavam as minhas mãos e pés e mudavam as minhas roupas, e outras preparavam sorvetes e davam-nos de beber; e todas se reuniram à minha volta, cheias de alegria e contentamento pela minha chegada. Depois sentaram-se e conversaram comigo até ao cair da noite, quando cinco delas se levantaram e puseram as bandejas e espalharam-nas com flores e ervas perfumadas e frutos, frescos e secos, e confeitos em profusão. Por fim, trouxeram um fino serviço de vinho com vinho velho e rico; e sentámo-nos a beber e algumas cantavam canções e outras tocavam alaúde e saltério e flautas e outros instrumentos, e a taça circulava alegremente. Aqui, tal alegria apoderou-se de mim que esqueci os sofrimentos do mundo, todos eles, e disse: "Isto é, de facto, a vida; ó triste que ela seja fugaz!" Desfrutei da sua companhia até chegar a hora do descanso; e as nossas cabeças estavam todas quentes de vinho, quando disseram: "Ó nosso senhor, escolhe entre nós aquela que será a tua companheira de cama esta noite e que não se deitará contigo outra vez até que quarenta dias tenham passado." Então escolhi uma rapariga de rosto belo e forma perfeita, com olhos naturalmente contornados por Kohl; cabelo comprido e preto como azeviche e dentes ligeiramente separados e sobrancelhas unidas: era como se fosse um ramo flexível e gracioso ou a haste delgada de manjericão para espantar e desconcertar a fantasia do homem; tal como o poeta disse de tal criatura:—

Igualá-la a um ramo verde seria vão ✿ Tolo aquele que encontra as suas belezas na corça: Quando terá a corça esses membros vivos e adoráveis ✿ Ou o orvalho de mel que apenas esses lábios conferem? Esses olhos, olhos que trespassam a alma, que matam com amor, ✿ Que prendem a vítima pelas suas flechas prostradas? O meu coração para a segunda infância eles seduziram ✿ Não admira: o homem apaixonado é de novo criança!

E repeti-lhe as palavras do autor que disse:—

Nenhuns outros encantos senão os teus saudarão os meus olhos, ✿ Nem outra imagem poderá o meu coração surpreender: O teu amor, minha senhora, captura todos os meus pensamentos ✿ E nesse amor morrerei e renascerei.

Assim, deitei-me com ela naquela noite; nunca conheci ninguém mais bela; e, quando amanheceu, as donzelas levaram-me ao banho Hammam e banharam-me e vestiram-me com as mais belas vestes. Depois serviram comida, e comemos e bebemos e a taça circulou até ao cair da noite, quando escolhi entre elas uma de forma e rosto belos, de lados macios e um modelo de graça, tal como o poeta descreveu quando disse:—

No seu belo peito dois cofres contemplei, ✿ Selados firmemente com selos de almíscar para os amantes resistir; Com olhares de flecha guardam os seus olhos, ✿ Cujas setas atingiriam quem ousa estender uma mão.

Com ela passei uma noite muito agradável; e, para ser breve, ó minha senhora, permaneci com elas em todo o consolo e deleite da vida, comendo e bebendo, conversando e banqueteando e todas as noites deitando-me com uma ou outra delas. Mas ao início do novo ano vieram ter comigo em lágrimas e despediram-se de mim, chorando e gritando e agarrando-se a mim; perante o que me maravilhei e disse: "O que poderá ser? Na verdade, partem-me o coração!" Elas exclamaram: "Oxalá nunca te tivéssemos conhecido; pois, embora tenhamos convivido com muitos, nunca vimos um mais agradável do que tu ou mais cortês." E voltaram a chorar. "Mas dizei-me mais claramente", perguntei eu, "o que causa este choro que faz a minha vesícula parecer querer rebentar;" e responderam: "Ó nosso senhor e amo, é a separação que nos faz chorar; e tu, e só tu, és a causa das nossas lágrimas. Se nos deres ouvidos, nunca precisaremos de nos separar e, se não deres, separamo-nos para sempre; mas os nossos corações dizem-nos que tu não darás ouvidos às nossas palavras e esta é a causa das nossas lágrimas e gritos." "Dizei-me como está o caso?" "Sabe, ó nosso senhor, que somos filhas de Reis que se encontraram aqui e viveram juntas durante anos; e uma vez por ano estamos forçosamente ausentes durante quarenta dias e depois regressamos e permanecemos aqui durante o resto dos doze meses a comer e a beber e a tomar o nosso prazer e a desfrutar de deleites: estamos prestes a partir segundo o nosso costume; e tememos que, depois de partirmos, tu ignores o nosso encargo e desobedeças às nossas injunções. Aqui agora entregamos-te as chaves do palácio que contém quarenta câmaras e podes abrir trinta e nove delas, mas cuidado (e conjuramo-te por Allah e pelas nossas vidas!) para que não abras a quadragésima porta, pois nela está aquilo que nos separará para sempre." Disse eu: "Certamente não a abrirei, se ela contiver a causa da separação de vós." Então uma delas aproximou-se de mim e, caindo sobre o meu pescoço, chorou e recitou estes versos:—

"Se o Tempo nos unir após um período de ausência, ✿ O mundo, franzindo o sobrolho perante o nosso destino, sorrirá; E se a tua semelhança se dignar adornar os meus olhos, ✿ Perdoarei ao Tempo os erros passados e a astúcia de outrora."

E eu recitei o seguinte:—

"Quando ela se aproximou para se despedir com o coração desfeito, ✿ Enquanto o cuidado e o anseio naquele dia o seu peito apertavam; Pérolas húmidas ela chorou e as minhas, como cornalinas vermelhas, rolaram ✿ E, unidas num triste rio, à volta do seu pescoço ficaram penduradas."

Quando a vi a chorar, disse: "Por Allah, nunca abrirei essa quadragésima porta, nunca e de modo nenhum!" e despedi-me dela. Então todas partiram, voando como pássaros; sinalizando com as mãos adeus à medida que iam e deixando-me sozinho no palácio. Quando a noite se aproximou, abri a porta da primeira câmara e, ao entrar, encontrei-me num lugar semelhante a um dos jardins do Paraíso. Era um jardim com árvores de fresquíssimo verde e frutos maduros de brilho amarelo; e os seus pássaros cantavam clara e agudamente e regatos corriam murmurando através da bela terra. A visão e os sons trouxeram consolo ao meu espírito; e caminhei entre as árvores, e senti o hálito das flores na brisa; e ouvi os passarinhos cantarem as suas melodias, hinos ao Único, ao Todo-Poderoso em doces ladainhas; e contemplei a maçã cujo tom é em parte vermelho e em parte amarelo; como disse o poeta:—

Maçã cuja tonalidade combina em união suave ✿ A bochecha vermelha da minha bela, o amarelo do seu infeliz amante.

Depois contemplei o marmelo e inalei a sua fragrância que envergonha o almíscar e o âmbar-cinzento, tal como o poeta disse:—

O marmelo conjuga todos os sabores; nele encontram-se ✿ Dádivas que para rainha dos frutos o Marmelo coroaram; O seu sabor é vinho, o seu perfume o sopro de almíscar; ✿ Oiro puro a sua tonalidade, a sua forma o belo círculo da Lua.

Então contemplei a pera cujo sabor sobrepuja o sorvete e o açúcar; e o damasco cuja beleza fere o olho com admiração, como se fosse um rubi polido. Saí então do local e tranquei a porta como estava antes. Quando amanheceu, abri a segunda porta; e ao entrar encontrei-me numa planície espaçosa plantada com tamareiras altas e regada por um riacho cujas margens estavam cobertas por arbustos de rosa e jasmim, enquanto alfeneiro e rosa-silvestre, olho-de-boi, violeta e lírio, narciso, orégano e goivo-da-inverno acarpetavam as bordas; e o sopro da brisa varria estes crescimentos perfumados, difundindo os seus odores deliciosos para a direita e para a esquerda, perfumando o mundo e enchendo a minha alma de deleite. Depois de ali tomar o meu prazer por um tempo, saí e, tendo fechado a porta como estava antes, abri a terceira porta, na qual vi um salão alto e aberto, revestido de mármores de várias cores e pietra dura de valor e outras pedras preciosas, e pendurado com gaiolas de sândalo e aloendro; cheio de pássaros que faziam música doce, tais como o "Mil-Vozes", e o pombo-torcaz, o melro, a rola e a rola-do-Senegal. O meu coração ficou cheio de prazer com isso; a minha mágoa foi dissipada e dormi naquele aviário até o amanhecer. Então destranquei a porta da quarta câmara e nela encontrei um grande salão com quarenta câmaras menores que davam para ele. Todas as suas portas estavam abertas: entrei e encontrei-as cheias de pérolas e jacintos e berilos e esmeraldas e corais e carbúnculos, e toda sorte de gemas e joias preciosas, tais como língua de homem não pode descrever. O meu pensamento ficou atordoado com a visão e disse a mim mesmo: "Estas são coisas que, creio, unidas não poderiam ser encontradas senão nos tesouros de um Rei dos Reis, nem os monarcas do mundo poderiam ter colecionado o semelhante disto!" E o meu coração dilatou-se e as minhas tristezas cessaram, "Pois", disse eu, "agora na verdade sou o monarca da era, já que pela graça de Allah esta riqueza enorme é minha; e tenho quarenta donzelas sob o meu comando nem há ninguém para as reclamar senão eu". Então não parei de abrir lugar após lugar até que se passaram trinta e nove dias e, nesse tempo, entrei em todas as câmaras, exceto naquela cuja porta as Princesas me tinham ordenado não abrir. Mas os meus pensamentos, ó minha senhora, sempre corriam para aquele quadragésimo proibido e Satanás instou-me a abri-lo para a minha própria ruína; nem tive paciência para me conter, embora faltasse apenas um dia para o tempo do encontro. Então parei diante da câmara supracitada e, após um momento de hesitação, abri a porta que era folheada a ouro vermelho, e entrei. Fui recebido por um perfume cujo semelhante eu nunca tinha cheirado antes; e tão penetrante e sutil era o odor que tornou os meus sentidos ébrios como se fosse vinho forte, e caí no chão num desmaio que durou uma hora inteira. Quando voltei a mim, fortaleci o meu coração e, ao entrar, encontrei-me numa câmara cujo chão estava espalhado com açafrão e brilhante com a luz de candelabros ramificados de ouro e lâmpadas alimentadas com óleos dispendiosos, que difundiam o aroma de almíscar e âmbar-cinzento. Vi ali também dois grandes incensários, cada um do tamanho de uma taça de ácer, flamejando com aloendro, perfume de nadd, âmbar-cinzento e aromas de mel; e o lugar estava cheio da sua fragrância. Logo, ó minha senhora, avistei um corcel nobre, negro como as trevas da noite quando mais tenebrosas, parado, pronto, selado e com rédeas (e a sua sela era de ouro vermelho) diante de duas manjedouras, uma de cristal claro onde havia gergelim descascado, e a outra também de cristal contendo água de rosas perfumada com almíscar. Quando vi isto, maravilhei-me e disse a mim mesmo: "Sem dúvida, neste animal deve haver algum mistério maravilhoso"; e Satanás enganou-me, então levei-o para fora do palácio e montei-o; mas ele não se mexeu do seu lugar. Então bati nas suas ilhargas com os calcanhares, mas ele não se moveu, e então peguei no chicote das rédeas e bati-lhe com ele. Quando sentiu o golpe, ele relinchou um relincho com um som como um trovão ensurdecedor e, abrindo um par de asas, voou comigo para o firmamento do céu muito além da visão do homem. Após uma hora inteira de voo, ele desceu e pousou num telhado de terraço e, sacudindo-me das suas costas, chicoteou-me na cara com a cauda e arrancou-me o olho esquerdo, fazendo-o rolar pela minha bochecha. Então ele voou para longe. Desci do terraço e encontrei-me novamente entre os dez jovens caolhos sentados nos seus dez divãs com coberturas azuis; e eles gritaram quando me viram: "Sem boas-vindas para ti, nem qualquer tipo de alegria! Todos nós vivíamos as vidas mais felizes e comíamos e bebíamos do melhor; sobre brocados e tecidos de ouro descansávamos, e dormíamos com as nossas cabeças no peito da beleza, mas não pudemos esperar um dia para ganhar os prazeres de um ano!" Disse eu: "Vede, tornei-me como um de vós e agora gostaria que me trouxésseis uma bandeja cheia de negrume, com a qual pudesse enegrecer o meu rosto, e me recebêsseis na vossa sociedade". "Não, por Allah", disseram eles, "não permanecerás conosco e agora vai-te embora!" Então eles expulsaram-me. Achando que eles me rejeitavam assim, previ que as coisas correriam mal para mim, e lembrei-me das muitas misérias que o Destino tinha escrito na minha testa; e parti de entre eles de coração pesado e olhos lacrimosos, repetindo para mim mesmo estas palavras: "Eu estava sentado à minha vontade, mas a minha obstinação trouxe-me ao desconforto". Então rapei a barba, os bigodes e as sobrancelhas, renunciando ao mundo, e vagueei em trajes de Kalandar pela terra de Allah; e o Todo-Poderoso decretou a segurança para mim até que cheguei a Bagdá, o que foi na noite desta mesma noite. Aqui encontrei estes dois outros Kalandars parados, perplexos; então saudei-os dizendo: "Sou um estranho!" e eles responderam: "E nós também somos estranhos!" Pelo capricho da Fortuna, éramos semelhantes com semelhantes, três Kalandars e três monoculares, todos cegos do olho esquerdo. Tal, ó minha senhora, é a causa do corte da minha barba e a maneira como perdi um olho. A senhora disse-lhe: "Esfrega a tua cabeça e segue o teu caminho"; mas ele respondeu: "Por Allah, não irei embora até ouvir as histórias destes outros". Então a senhora, voltando-se para o Califa e Ja'afar e Masrur, disse-lhes: "Dai também vós conta de vós mesmos, homens!" Ao que Ja'afar se adiantou e contou-lhe o que tinha dito à porteira enquanto entravam na casa; e quando ela ouviu a sua história de serem mercadores e homens de Mosul que tinham ultrapassado a guarda, ela disse: "Concedo-vos as vossas vidas, um por cada um, e agora ide-vos todos embora". Então todos saíram e, quando estavam na rua, disse o Califa aos Kalandars: "Ó companhia, para onde ides agora, vendo que a manhã ainda não amanheceu?" Disseram eles: "Por Allah, ó nosso senhor, não sabemos para onde ir". "Vinde e passai o resto da noite conosco", disse o Califa e, voltando-se para Ja'afar: "Leva-os para casa contigo e amanhã traze-os à minha presença para que possamos registrar as suas aventuras". Ja'afar fez como o Califa lhe ordenou e o Comandante dos Fiéis regressou ao seu palácio; mas o sono não deu sinal de o visitar naquela noite e ele permaneceu acordado, ponderando os infortúnios dos três príncipes-Kalandars e impaciente por conhecer a história das senhoras e das duas cadelas pretas. Assim que a manhã amanheceu, ele saiu e sentou-se no trono da sua soberania; e, voltando-se para Ja'afar, depois de todos os seus Grandes e Oficiais de estado estarem reunidos, ele disse: "Traze-me as três senhoras e as duas cadelas e os três Kalandars". Então Ja'afar partiu e trouxe-os a todos perante ele (e as senhoras estavam veladas); então o Ministro voltou-se para eles e disse em nome do Califa: "Perdoamos-vos pelo vosso tratamento conosco e pela vossa falta de cortesia, em consideração à gentileza que a precedeu, e porque não nos conhecíeis: agora, contudo, gostaria que soubésseis que estais na presença do quinto dos filhos de Abbas, Harun al-Rashid, irmão do Califa Músá al-Hádi, filho de Al-Mansúr; filho de Mohammed, o irmão de Al-Saffáh bin Mohammed que foi o primeiro da casa real. Falai, portanto, perante ele a verdade e toda a verdade!" Quando as senhoras ouviram as palavras de Ja'afar tocando no Comandante dos Fiéis, a mais velha adiantou-se e disse: "Ó Príncipe dos Fiéis, a minha história é aquela que, se fosse gravada com cinzéis de agulha nos cantos dos olhos, seria um aviso para quem quisesse ser avisado e um exemplo para quem puder tirar proveito do exemplo."

Verdadeiramente estranha é a minha história, e é esta: aquelas duas cadelas negras são minhas irmãs mais velhas, de pai e mãe; e estas outras duas, ela que traz sobre si as marcas dos açoites e a terceira, nossa procuradora, são minhas irmãs por parte de outra mãe. Quando meu pai faleceu, cada uma tomou a sua parte da herança e, passado algum tempo, minha mãe também faleceu, deixando-me, a mim e às minhas irmãs germanas, três mil dinares; assim, cada filha recebeu a sua porção de mil dinares, e eu o mesmo, embora fosse a mais nova. Com o passar do tempo, minhas irmãs casaram-se com os festejos habituais e foram viver com seus maridos, que compraram mercadorias com o dinheiro de suas esposas e partiram juntos em suas viagens. Assim, descartaram-me. Meus cunhados ausentaram-se com suas esposas por cinco anos, período durante o qual gastaram todo o dinheiro que possuíam e, tornando-se falidos, abandonaram minhas irmãs em terras estrangeiras, em meio a gente estranha. Após cinco anos, minha irmã mais velha retornou a mim em trajes de mendiga, com as roupas em farrapos e trapos e uma mantilha velha e suja; e, na verdade, ela estava na condição mais sórdida e lastimável. À primeira vista, não reconheci minha própria irmã; mas logo a reconheci e disse: "Que estado é este?" "Ó nossa irmã", respondeu ela, "as palavras não podem desfazer o feito; e a pena do Destino percorreu o que Alá decretou." Então, enviei-a ao banho, vesti-a com um traje meu, preparei-lhe um caldo, trouxe-lhe um bom vinho e disse-lhe: "Ó minha irmã, tu és a mais velha, que ainda ocupas para nós o lugar de pai e mãe; e, quanto à herança que coube a mim como a vós duas, Alá abençoou-a e prosperou-a para mim com acréscimo; e as minhas circunstâncias são folgadas, pois ganhei muito dinheiro fiando e limpando seda; e eu e vós repartiremos minha riqueza igualmente." Tratei-a com toda a bondade, e ela permaneceu comigo durante um ano inteiro, período durante o qual nossos pensamentos e fantasias estavam sempre voltados para a nossa outra irmã. Pouco depois, ela também voltou para casa, em condição ainda mais sórdida e lastimável que a de minha irmã mais velha; e tratei-a ainda mais honrosamente do que fizera com a primeira, e cada uma delas teve uma parte dos meus bens. Após algum tempo, disseram-me: "Ó nossa irmã, desejamos casar-nos novamente, pois, na verdade, não temos paciência para arrastar os nossos dias sem maridos e levar as vidas de viúvas enfeitiçadas"; e eu repliquei: "Ó meus olhos! Vós tendes visto até aqui escassa felicidade no matrimónio, pois hoje em dia os homens bons e verdadeiros tornaram-se raridades e curiosidades; nem julgo aconselháveis os vossos projetos, já que fizestes a prova do matrimónio e fracassastes." Mas elas não aceitaram o meu conselho e casaram-se sem o meu consentimento; contudo, dei-lhes enxoval e dotes do meu dinheiro; e partiram com os seus companheiros. Em muito pouco tempo, os seus maridos enganaram-nas e, levando tudo o que puderam agarrar, fugiram e deixaram-nas na mão. Então, vieram ter comigo envergonhadas e em condição abjeta e pediram-me desculpas, dizendo: "Perdoa a nossa falta e não te irrites conosco; pois, embora sejas mais nova em idade, és mais velha em juízo; de ora em diante, nunca mais mencionaremos o casamento; aceita-nos, pois, de volta como tuas criadas, para que possamos comer o nosso bocado." Eu disse: "Bem-vindas sejais, ó minhas irmãs; nada me é mais caro do que vós." E acolhi-as e redobrei a minha bondade para com elas. Não deixamos de viver desta maneira amorosa durante um ano inteiro, quando resolvi vender as minhas mercadorias no estrangeiro e primeiro preparar um transporte para Bassorá; por isso, equipei um grande navio, carreguei-o com mercadorias e bens valiosos para o tráfico, com provisões e tudo o que era necessário para uma viagem, e disse às minhas irmãs: "Ficareis em casa enquanto eu viajo, ou preferireis acompanhar-me na viagem?" "Viajaremos contigo", responderam elas, "pois não suportamos ser separadas de ti." Então, dividi o meu dinheiro em duas partes, uma para me acompanhar e a outra para ser deixada aos cuidados de uma pessoa de confiança, pois, como disse a mim mesma: "Talvez algum acidente possa acontecer ao navio e, ainda assim, permaneçamos vivas; caso em que encontraremos, no nosso regresso, o que nos possa servir de bom grado." Levei as minhas duas irmãs e navegamos durante alguns dias e noites; mas o capitão foi descuidado o suficiente para perder o rumo, e o navio extraviou-se conosco e entrou num mar diferente daquele que procurávamos. Por algum tempo, nada soubemos disso; e o vento soprou favorável para nós durante dez dias, após o que o vigia subiu ao alto para observar e gritou: "Boas notícias!" Depois desceu, rejubilante, e disse: "Vi o que parece ser uma cidade, como se fosse um pombo." Com isto, rejubilamos e, antes que uma hora do dia tivesse passado, os edifícios mostraram-se claros ao longe, e perguntamos ao Capitão: "Qual é o nome daquela cidade?" E ele respondeu: "Por Alá, não sei, pois nunca a vi antes e nunca naveguei nestes mares em toda a minha vida: mas, uma vez que as nossas dificuldades terminaram em segurança, resta-vos apenas desembarcar lá com as vossas mercadorias e, se achardes a venda rentável, vendei e fazei o vosso mercado do que lá existe; e, se não, descansaremos aqui dois dias, abastecer-nos-emos e partiremos." Assim, entramos no porto e o Capitão subiu à cidade e esteve ausente por algum tempo, após o que regressou para nós e disse: "Levantai-vos; subi à cidade e maravilhai-vos com as obras de Alá para com as Suas criaturas, e rezai para serdes preservados da Sua justa ira!" Então desembarcamos e, subindo à cidade, vimos à porta homens segurando cajados nas mãos; mas, quando nos aproximamos deles, eis que tinham sido transformados pela ira de Alá e tinham-se tornado pedras. Depois entramos na cidade e encontramos todos os que nela habitavam petrificados em pedras negras: não aparecia casa habitada ao observador, nem havia quem soprasse fogo. Ficamos impressionados com a visão e percorremos as ruas do mercado, onde encontramos os bens, o ouro e a prata deixados nos seus lugares; e alegramo-nos e dissemos: "Sem dúvida, há algum mistério nisto tudo." Então, dispersamo-nos pelas vias públicas e cada um ocupou-se em recolher a riqueza, o dinheiro e os tecidos ricos, prestando escassa atenção a amigo ou companheiro. Quanto a mim, subi ao castelo que era fortemente fortificado; e, entrando no palácio do Rei pelo seu portão de ouro vermelho, encontrei todos os utensílios de ouro e prata, e o próprio Rei sentado no meio dos seus Camareiros, Nababos, Emires e Vizires; todos vestidos com trajes que confundiam a arte humana. Aproximei-me e vi-o sentado num trono incrustado e embutido com pérolas e pedras preciosas; e as suas vestes eram de pano de ouro adornadas com joias de toda a espécie, cada uma brilhando como uma estrela. À sua volta estavam cinquenta Mamelucos, escravos brancos, vestidos com sedas de diversos tipos, segurando as suas espadas desembainhadas nas mãos; mas, quando me aproximei deles, eis que todos eram pedras negras. O meu entendimento ficou confuso com a visão, mas caminhei e entrei no grande salão do Harém, cujas paredes encontrei cobertas com tapeçarias de seda com riscas de ouro e forradas com tapetes de seda bordados com flores douradas. Aqui vi a Rainha deitada em todo o seu comprimento, adornada com vestes debruadas com pérolas frescas; na sua cabeça havia um diadema incrustado com muitos tipos de pedras, cada uma adequada para um anel, e à volta do seu pescoço pendiam colares e gargantilhas. Todas as suas vestes e os seus ornamentos estavam em estado natural, mas ela tinha sido transformada numa pedra negra pela ira de Alá. Pouco depois, avistei uma porta aberta para a qual me dirigi diretamente e encontrei a levar a ela um lance de sete degraus. Então subi e cheguei a um lugar pavimentado com mármore e coberto com tapeçarias e tapetes de trabalho dourado, no meio do qual se erguia um trono de madeira de zimbro embutido com pérolas e pedras preciosas e guarnecido com relevos de esmeraldas. Na parede do fundo havia uma alcova cujas cortinas, debruadas com pérolas, estavam baixadas, e vi uma luz que de lá emanava; então aproximei-me e percebi que a luz vinha de uma pedra preciosa do tamanho de um ovo de avestruz, colocada na extremidade superior da alcova sobre um pequeno leito criselefantino de marfim e ouro; e esta joia, brilhando como o sol, lançava os seus raios por todos os lados. O leito também estava coberto com todo o tipo de tecidos de seda, maravilhando o espectador com a sua riqueza e beleza. Maravilhei-me muito com tudo isto, especialmente ao ver naquele lugar velas prontas e acesas; e disse comigo mesma: "Alguém deve ter acendido estas velas." Então saí e cheguei à cozinha e de lá à despensa e às câmaras do tesouro do Rei; e continuei a explorar o palácio e a caminhar de lugar para lugar; esqueci-me de mim mesma no meu espanto e maravilha perante estas questões e mergulhei em pensamentos até que a noite chegou. Então quis sair, mas, não conhecendo o portão, perdi o meu caminho, por isso regressei à alcova para onde as velas acesas me direcionavam e sentei-me no leito; e, envolvendo-me numa colcha, depois de ter repetido um pouco do Alcorão, quis dormir, mas não pude, pois a inquietação apoderou-se de mim. Quando a noite estava no seu zênite, ouvi uma voz entoar o Alcorão nos acentos mais doces; mas o tom era fraco; então levantei-me, feliz por ouvir o silêncio ser quebrado, e segui o som até chegar a um compartimento cuja porta estava entreaberta. Então, espreitando por uma fresta, examinei o lugar e eis que era um oratório onde havia um nicho de oração com duas velas de cera acesas e candeeiros pendurados no teto. Nele também estava estendido um tapete de oração sobre o qual estava sentado um jovem belo de se ver; e diante dele, no seu suporte, estava um exemplar do Alcorão, do qual ele estava lendo. Maravilhei-me ao vê-lo sozinho, vivo, entre o povo da cidade, e, entrando, saudei-o; ao que ele levantou os olhos e retribuiu o meu salam. Disse eu: "Agora, pela Verdade do que lês no Livro Sagrado de Alá, conjuro-te a responder à minha pergunta." Ele olhou para mim com um sorriso e disse: "Ó criada de Alá, primeiro dize-me a causa da tua vinda aqui, e eu, por minha vez, direi o que aconteceu comigo e com o povo desta cidade, e qual foi a razão da minha fuga ao seu destino." Então contei-lhe a minha história, com o que ele se maravilhou; e perguntei-lhe sobre o povo da cidade, ao que ele respondeu: "Tem paciência comigo por um tempo, ó minha irmã!" e, fechando respeitosamente o Livro Sagrado, guardou-o num saco de cetim. Depois sentou-me ao seu lado; e olhei para ele e eis que ele era como a lua cheia, de rosto belo e forma rara, de lados suaves e esguio, de altura bem proporcionada, e face suavemente brilhante e difundindo luz; em suma, um doce, um torrão de açúcar, tal como diz o poeta sobre alguém como ele nestes dísticos:

Naquela noite, o astrólogo traçou o esquema dos planetas, ✿ E eis que uma forma graciosa de jovem surgiu à vista: Saturno manchara os seus cabelos com o negro mais saturnino, ✿ E manchas de almíscar cor de noz sopradas na face rosada: Marte tingiu cada face com o matiz do vermelho marcial; ✿ Disparos sagitais das pálpebras o Sagitário lançou: Mercúrio dotou-o com sagacidade mercurial brilhante; ✿ A Ursa levou embora o que todos os olhares maus do homem cresceram: Espantado ficou Astrófilo ao ver o nascimento da maravilha ✿ Quando a Lua cheia se inclinou para beijar a Terra.

E, na verdade, Alá, o Altíssimo, tinha-o vestido com o traje da graça perfeita e tinha-o debruado e franjado com uma face cheia de beleza e formosura, tal como o poeta diz de alguém assim:

Pelas suas pálpebras que derramam perfume e pela sua cintura fina e esguia juro, ✿ Pelo disparo das suas flechas farpadas com feitiçaria raríssima; Pela suavidade dos seus lados, e pela luz persistente dos olhares; ✿ E pela testa de raio deslumbrante do dia e a noite dentro do seu cabelo; Pelas suas sobrancelhas que negam o descanso a quem nelas olha, ✿ Ora ordenando, ora proibindo, sempre distribuindo alegria e cuidado; Pela rosa que adorna a sua face, e a murta do seu musgo; ✿ Pelos jacintos incrustados nos seus lábios e pela pérola que o seu sorriso revela; Pelo seu gracioso pescoço curvado e pela curvatura do seu peito; ✿ Cuja superfície polida sustenta aqueles granados, par adorável; Pelos seus quadris pesados que tremem enquanto ele passa no seu orgulho; ✿ Ou repousa com aquela cintura que é esguia além de qualquer comparação; Pelo cetim da sua pele, por aquele espírito fino e imaculado; ✿ Pela beleza que contém todas as coisas brilhantes e gentis; Pelaquela mão sempre aberta; pela candura da sua língua; ✿ Por sangue nobre e alto grau de que ele é esperança e herdeiro; O almíscar dele toma emprestado o almíscar que ela adora exalar; ✿ E todos os ares de âmbar cinzento através dele perfumam o ar; O sol, penso eu, o sol largo e brilhante, perante o meu amor empalideceria; ✿ E sem o seu esplendor pareceria uma apara da sua unha.

Olhei para ele com um olhar que me causou mil suspiros; e o meu coração foi imediatamente feito cativo; então perguntei-lhe: "Ó meu senhor e meu amor, dize-me aquilo sobre o que te questionei"; e ele respondeu: "Ouvir é obedecer! Sabe, ó criada de Alá, que esta cidade era a capital do meu pai, que é o Rei que viste no trono transfigurado pela ira de Alá numa pedra negra, e a Rainha que encontraste na alcova é a minha mãe. Eles e todo o povo da cidade eram Magos que adoravam o fogo em vez do Senhor Omnipotente e costumavam jurar pelo braseiro, pelo calor, pela sombra e pela luz, e pelas esferas que giram dia e noite. O meu pai nunca teve um filho até que foi abençoado comigo perto do final dos seus dias; e ele criou-me até que cresci e a prosperidade antecipou-me em todas as coisas. Ora, aconteceu que estava conosco uma velha de idade avançada, uma muçulmana que, crente interiormente em Alá e no Seu Apóstolo, conformava-se exteriormente com a religião do meu povo; e o meu pai depositava total confiança nela por saber que era digna de confiança e virtuosa; e tratava-a com uma bondade sempre crescente, acreditando que ela era da sua própria crença. Por isso, quando eu estava quase adulto, o meu pai confiou-me aos seus cuidados dizendo:— Leva-o e educa-o e ensina-lhe as regras da nossa fé; que ele tenha as melhores instruções e não cesses o teu cuidado paternal por ele. Assim, ela levou-me e ensinou-me os princípios do Islão com as ordenanças divinas da ablução-Wuzu e as cinco orações diárias, e fez-me aprender o Alcorão de cor, repetindo frequentemente:— Não sirvas ninguém senão Alá Todo-Poderoso! Quando dominei este pouco de conhecimento, ela disse-me:— Ó meu filho, mantém este assunto escondido do teu pai e não lhe reveles nada para que ele não te mate. Assim, escondi-o dele e vivi desta maneira durante um período de dias, quando a velha morreu, e o povo da cidade redobrou na sua impiedade e arrogância e no erro dos seus caminhos. Um dia, enquanto estavam como de costume, eis que ouviram um som alto e terrível e um pregoeiro a gritar com uma voz como trovão retumbante, para que cada ouvido pudesse ouvir, longe e perto:— Ó povo desta cidade, deixai a vossa adoração ao fogo e adorai Alá, o Rei Compassivo! Com isto, o medo e o terror caíram sobre os cidadãos e eles acorreram ao meu pai (sendo ele Rei da cidade) e perguntaram-lhe:— O que é esta voz terrível que ouvimos, pois ela confundiu-nos com o excesso do seu terror?; e ele respondeu:— Que uma voz não vos assuste nem abale o vosso espírito firme nem vos faça voltar atrás da fé que é correta. Os seus corações inclinaram-se para as suas palavras e não cessaram de adorar o fogo e persistiram na rebelião durante um ano inteiro a partir do momento em que ouviram a primeira voz; e no aniversário veio um segundo grito e um terceiro ao início do terceiro ano, cada ano uma vez. Ainda assim, persistiram nas suas más práticas até que, um dia ao romper da aurora, o julgamento e a ira do Céu desceram sobre eles com toda a rapidez e, pela visitação de Alá, todos foram metamorfoseados em pedras negras, eles e as suas bestas e o seu gado; e ninguém foi salvo exceto eu, que na altura estava empenhado nas minhas devoções. Daquele dia até hoje, estou na condição que vês, constante na oração e no jejum e na leitura e recitação do Alcorão; mas, na verdade, estou cansado devido à minha solidão, não tendo ninguém para me fazer companhia." Então eu disse-lhe (pois, em verdade, ele tinha conquistado o meu coração e era o senhor da minha vida e alma): "Ó jovem, virás comigo para a cidade de Bagdá e visitarás os Ulemás e homens instruídos na lei e doutores em divindade e obterás acréscimo de sabedoria, entendimento e teologia? E sabe que aquela que está diante de ti será tua criada, ainda que seja a cabeça da sua família e senhora sobre homens, eunucos, servos e escravos. De fato, a minha vida não era vida antes de encontrar a tua juventude. Tenho aqui um navio carregado com mercadorias; e, na verdade, o Destino levou-me a esta cidade para que eu pudesse chegar ao conhecimento destas questões, pois estava destinado que nos encontrássemos. E não parei de o persuadir e de falar-lhe com doçura e usar toda a arte até que ele consentiu."

Ela continuou: "Chegou ao meu conhecimento, ó auspicioso Rei, que a senhora não cessou de persuadir com fala suave o jovem a partir com ela, até que ele consentiu e disse 'Sim'. Ela dormiu naquela noite deitada aos pés dele, mal sabendo onde estava devido ao excesso de alegria. Assim que a manhã seguinte despontou (prosseguiu ela, dirigindo-se ao Califa), levantei-me e entramos nos tesouros, de onde tiramos tudo o que era leve em peso e grande em valor; depois descemos lado a lado do castelo até à cidade, onde fomos encontrados pelo Capitão, pelas minhas irmãs e pelos escravos que me procuravam. Quando me viram, alegraram-se e perguntaram o que me havia retido, e contei-lhes tudo o que vira e relatei a história do jovem Príncipe e a transformação com que os cidadãos tinham sido justamente visitados. Nisto, todos se maravilharam, mas quando as minhas duas irmãs (estas duas cadelas, ó Comandante dos Fiéis!) viram-me ao lado do meu jovem amante, sentiram inveja de mim por causa dele, encolerizaram-se e tramaram o mal contra mim. Aguardamos um vento favorável e embarcamos, regozijando-nos e prontos para voar de alegria devido aos bens que havíamos obtido, mas a minha maior alegria era o jovem; e esperámos um pouco até que o vento soprasse favorável e então içámos velas e partimos. Ora, enquanto nos sentávamos a conversar, as minhas irmãs perguntaram-me: 'E o que farás com este belo jovem?', ao que respondi: 'Tenho o propósito de fazer dele o meu marido!'. Então voltei-me para ele e disse: 'Ó meu senhor, tenho a propor-te algo em que não me deves contrariar; e é isto: quando chegarmos a Bagdade, a minha cidade natal, ofereço-te a minha vida como tua serva no santo matrimónio, e tu serás para mim senhor, e eu serei mulher para ti'. Ele respondeu: 'Ouço e obedeço! Tu és a minha senhora e a minha dona, e o que quer que faças, não contrariarei'. Então voltei-me para as minhas irmãs e disse: 'Este é o meu ganho; contento-me com este jovem e aqueles que obtiveram algo da minha propriedade, que o guardem como seu ganho com a minha boa vontade'. 'Dizes e fazes bem', responderam as duas, mas imaginavam o mal contra mim. Não cessámos de navegar sob vento favorável até termos trocado o mar de perigo pelo mar de segurança e, em poucos dias, chegámos à cidade de Bassorá, cujos edifícios se erguiam claros diante de nós ao cair da tarde. Mas, depois de nos termos retirado para descansar e estarmos profundamente adormecidos, as minhas duas irmãs levantaram-se, pegaram em mim, cama e tudo, e lançaram-me ao mar: fizeram o mesmo com o jovem Príncipe que, como não sabia nadar, afundou-se e morreu afogado, e Alá inscreveu-o no nobre exército dos Mártires. Quanto a mim, oxalá me tivesse afogado com ele, mas Alá julgou que eu deveria estar entre os salvos; por isso, quando acordei e me vi no mar e vi o navio afastar-se como um relâmpago, Ele colocou no meu caminho um pedaço de madeira no qual me montei, e as ondas lançaram-me de um lado para o outro até me lançarem sobre a costa de uma ilha, uma terra elevada e desabitada. Desembarquei e caminhei pela ilha durante o resto da noite e, quando a manhã amanheceu, vi um trilho acidentado, mal apto para ser trilhado por filho de Adão, que conduzia ao que se revelou ser um vau raso que ligava a ilha ao continente. Assim que o sol nasceu, estendi as minhas roupas para secar aos seus raios; comi dos frutos da ilha e bebi das suas águas; depois segui pelo caminho e não parei de andar até chegar ao continente. Ora, quando faltavam apenas duas horas de viagem para a cidade, eis que uma grande serpente, do tamanho de uma palmeira de tâmaras, veio fugindo em minha direção com toda a pressa, deslizando agora para a direita, depois para a esquerda, até que ficou perto de mim, enquanto a sua língua pendia em direção ao solo, com um palmo de comprimento, e varria o pó à medida que avançava. Ela era perseguida por um Dragão que não era mais longo do que duas lanças, e de compleição esguia, com a espessura de uma lança e, embora o seu terror lhe desse velocidade e ela continuasse a contorcer-se de um lado para o outro, ele alcançou-a e agarrou-a pela cauda, ao que as suas lágrimas escorreram e a sua língua foi deitada de fora na sua agonia. Tive pena dela e, apanhando uma pedra e invocando a ajuda de Alá, atirei-a à cabeça do Dragão com tanta força que ele morreu ali mesmo; e a serpente, abrindo um par de asas, voou para o céu e desapareceu diante dos meus olhos. Sentei-me a maravilhar-me com aquela aventura, mas estava cansada e, vencendo-me a sonolência, dormi onde estava por um tempo. Quando acordei, encontrei uma rapariga preta como o azeviche sentada aos meus pés, massajando-os; e ao lado dela estavam duas cadelas pretas (as minhas irmãs, ó Comandante dos Fiéis!). Senti vergonha perante ela e, sentando-me, perguntei-lhe: 'Ó minha irmã, quem és tu e o que és?'; e ela respondeu: 'Quão cedo me esqueceste! Sou aquela por quem praticaste uma boa ação e semeaste a semente da gratidão e mataste o seu inimigo; pois sou a serpente que, com a ajuda de Alá, acabaste de livrar do Dragão. Sou uma Jinniyah e ele era um Jinn que me odiava, e ninguém salvou a minha vida dele a não ser tu. Assim que me libertaste dele, voei com o vento até ao navio de onde as tuas irmãs te atiraram, e removi tudo o que lá estava para a tua casa. Depois ordenei aos meus Marids assistentes que afundassem o navio e transformei as tuas duas irmãs nestas cadelas pretas; pois sei tudo o que se passou entre elas e ti; mas quanto ao jovem, na verdade, ele está afogado'. Dito isto, ela voou comigo e com as cadelas, e pouco depois pousou-nos no terraço da minha casa, onde encontrei armazenada toda a propriedade que estava no meu navio, sem que nada faltasse. Ora (continuou aquela que foi serpente), juro por tudo o que está gravado no anel de selo de Salomão (sobre quem esteja a paz!), a menos que inflinjas a cada uma destas cadelas trezentas chicotadas todos os dias, virei e prender-te-ei para sempre debaixo da terra'. Respondi: 'Ouvir e obedecer!', e ela partiu voando. Mas antes de ir, ordenou-me novamente dizendo: 'Juro novamente por Aquele que fez fluir os dois mares (e este é o meu segundo juramento), se me contrariares, virei e transformar-te-ei como às tuas irmãs'. Desde então nunca falhei, ó Comandante dos Fiéis, em bater-lhes com esse número de golpes até que o sangue delas flui com as minhas lágrimas, enquanto tenho pena delas, e elas sabem bem que o facto de serem açoitadas não é culpa minha, e aceitam as minhas desculpas. E esta é a minha história e o meu passado!" O Califa maravilhou-se com as suas aventuras e depois fez um sinal a Ja'afar, que disse à segunda senhora, a Porteira: "E tu, como obtiveste as marcas e vergões no teu corpo?". Então ela começou a

HISTÓRIA DA PORTEIRA.

Sabe, ó Comandante dos Fiéis, que eu tive um pai que, após cumprir o seu tempo, faleceu e deixou-me uma grande fortuna. Permaneci solteira por pouco tempo e logo me casei com um dos mais ricos do seu tempo. Vivi com ele um ano, quando ele também faleceu, e a minha parte da sua propriedade somava oitenta mil dinares de ouro, de acordo com a santa lei da herança. Assim, tornei-me extremamente rica e a minha reputação espalhou-se por toda a parte, pois tinha feito dez conjuntos de vestes, cada um valendo mil dinares. Um dia, enquanto estava sentada em casa, eis que entra uma velha com mandíbulas de lanterna e bochechas encovadas, olhos revirados, sobrancelhas ralas e escamosas, cabeça nua e careca; dentes partidos pelo tempo e estragados, costas curvadas e nuca trémula, rosto manchado e remelas a escorrer, e cabelo como uma serpente manchada de preto e branco, em tez um verdadeiro susto, tal como diz o poeta sobre alguém como ela:—

Bruxa de mau agouro! Que os seus pecados não sejam perdoados ✿ Nem a misericórdia a visite no leito de morte: Mil dos mais teimosos machos ela guiaria com as suas astúcias, ✿ Apesar dos seus coices, com um fio de aranha.

E como diz outro:—

Uma bruxa para quem o ilícito se tornou o mais lícito ✿ E a feitiçaria, sabedoria aos seus olhos: Uma cria causadora de males, uma donzela demónio, ✿ Uma mulher devassa e uma velha alcoviteira.

Quando a velha entrou, saudou-me e, beijando o chão diante de mim, disse: "Tenho em casa uma filha órfã e esta noite é o seu casamento e a sua apresentação. Somos gente pobre e estranhos nesta cidade, sem conhecer nenhum habitante, e estamos de coração partido. Por isso, ganha para ti uma recompensa e uma retribuição no Céu por estares presente na sua apresentação e, quando as senhoras desta cidade ouvirem que irás fazer um ato de presença, elas também se apresentarão; assim, confortarás a sua aflição, pois ela está profundamente ferida de espírito e não tem ninguém a quem recorrer, exceto Alá, o Altíssimo". Então ela chorou e beijou os meus pés, recitando estes dísticos:—

A tua presença traz-nos uma graça ✿ Que possuímos diante da tua face encantadora: E se estivesses ausente, ninguém ✿ Poderia substituir ou tomar o teu lugar.

Então a piedade apoderou-se de mim e a compaixão, e eu disse: "Ouvir é consentir e, se Alá quiser, farei algo mais por ela; nem ela será mostrada ao seu noivo a não ser nas minhas vestes, ornamentos e joias". Com isto, a velha alegrou-se e inclinou a cabeça até aos meus pés e beijou-os, dizendo: "Que Alá te recompense com o bem e conforte o teu coração, tal como confortaste o meu! Mas, ó minha senhora, não te incomodes em fazer-me este serviço a esta hora; prepara-te para a hora da ceia, quando virei buscar-te". Dizendo isto, beijou a minha mão e seguiu o seu caminho. Comecei a enfiar as minhas pérolas, a vestir os meus brocados e a fazer a minha toilette, pouco me importando com o que o Destino tinha no ventre para mim, quando de repente a velha estava diante de mim, sorrindo e rindo até mostrar cada coto de dente, e disse ela: "Ó minha senhora, as damas da cidade chegaram e, quando as avisei de que prometeste estar presente, alegraram-se e agora esperam por ti, ansiosas pela tua vinda e pela honra de te conhecer". Então coloquei a minha mantilha e, fazendo a velha caminhar à minha frente e as minhas servas atrás de mim, segui até chegarmos a uma rua bem regada e limpa, onde a brisa que soprava era fresca e doce. Aqui fomos paradas por um portão arqueado sob uma cúpula de pedra de mármore, firmemente assente em bases sólidas, e que levava a um Palácio cujas paredes se erguiam altas e orgulhosas desde a terra, e cujo pináculo era coroado pelas nuvens, e sobre a porta estavam escritos estes dísticos:—

Sou a habitação onde a Alegria sempre sorrirá; ✿ O lar do Regozijo através do meu tempo duradouro: E no meio do meu pátio uma fonte jorra e flui, ✿ Nem lágrimas nem problemas essa fonte contaminarão: A margem é adornada com a flor do real Nu'uman, ✿ Murta, flor de Narciso e Camomila.

Chegados ao portão, perante o qual pendia uma cortina negra, a velha bateu e abriram-no para nós; entrámos e encontrámos um vestíbulo coberto de tapetes e adornado com lâmpadas todas acesas e velas de cera em candelabros adornados com pingentes de pedras preciosas e minérios nobres. Passámos por esta passagem até entrarmos num salão, cuja semelhança em grandeza e beleza não se encontra neste mundo. Estava decorado e coberto com tecidos de seda, e iluminado com ramos, arandelas e velas dispostas em fila dupla, uma avenida que terminava na parte superior ou nobre do salão, onde se encontrava um divã de madeira de zimbro incrustado com pérolas e gemas, encimado por um baldaquino com cortinas de mosquiteiro de cetim presas com margaritas. E mal tínhamos reparado nisto, quando saiu do baldaquino uma jovem senhora e contemplei, ó Comandante dos Fiéis, um rosto e uma forma mais perfeitos do que a lua quando cheia, com um favor mais brilhante do que o amanhecer, cintilando com uma luz cor de açafrão, tal como o poeta cantou quando disse:—

Caminhas pelo palácio, uma visão de maravilha, ✿ Uma noiva para a noite de um Kisrá ou de um Kaisar! A rosa brinca na tua bochecha rosada, ✿ Ó bochecha como o sangue do dragão brilhante! De cintura delgada, languida, de olhos sonolentos, ✿ Com encantos que prometem todo o deleite do amor: E o toucado que adorna a tua fronte coroada ✿ É uma noite de aflição na luz alegre de uma manhã.

A bela jovem desceu do estrado e disse-me: "Bem-vinda, sê bem-vinda e boa sorte à minha irmã, a querida, a ilustre, e mil saudações!". Depois recitou estes dísticos:—

Se a casa pudesse saber quem chega, alegrar-se-ia, ✿ E beijaria o pó onde o teu pé foi colocado; E com a língua das circunstâncias as paredes diriam, ✿ "Bem-vinda e saudação àquela dotada de presentes generosos!"

Então ela sentou-se e disse-me: "Ó minha irmã, tenho um irmão que te viu em vários banquetes de casamento e estações festivas: ele é um jovem mais bonito do que eu, e apaixonou-se desesperadamente por ti, pois o Destino generoso acumulou em ti toda a beleza e perfeição; e ele deu prata a esta velha para que ela pudesse visitar-te; e ela arranjou este meio para nos juntarmos. Ele ouviu dizer que és uma das nobres da tua tribo e ele não é nada menos na sua; e, desejando aliar a sua sorte à tua, praticou este artifício para me trazer na tua companhia; pois ele deseja casar-se contigo segundo a ordenança de Alá e do seu Apóstolo; e no que é lícito e justo não há vergonha". Quando ouvi estas palavras e me vi presa na casa, disse: "Ouvir é consentir". Ela ficou encantada com isto e bateu palmas; whereupon uma porta abriu-se e dela saiu um jovem florescendo no auge da vida, primorosamente vestido, um modelo de beleza e amabilidade e simetria e perfeita graça, com maneiras gentis e cativantes, sobrancelhas como um arco dobrado e seta na corda, e olhos que enfeitiçavam todos os corações com feitiçaria lícita aos olhos do Senhor; tal como diz algum rimador descrevendo alguém como ele:—

O seu rosto brilha como o rosto da lua nova ✿ E a Fortuna marca-o com pérolas como sinais.

E que Alá favoreça aquele que disse:—

Bendita seja a sua beleza; bendito o decreto do Senhor ✿ Que fundiu e moldou uma coisa tão brilhante de tez: Todos os dons da beleza ele conjuga num só; ✿ Perdida no seu amor está toda a humanidade; Pois a própria Beleza inscreveu na sua fronte ✿ "Testemunho que não há Bem senão ele!"

O Califa, maravilhado com a história, ordenou que ela fosse transcrita e arquivada em suas bibliotecas reais. E Shahrazad percebeu o romper da alva e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Quando chegou a Décima Nona Noite,

Ela disse: Chegou a mim, ó rei venturoso, que o Califa, tendo ouvido o relato da jovem, maravilhou-se sobremaneira e, voltando-se para o primeiro dos três Kalandars, perguntou-lhe: "E tu, por que raspaste a barba e como vieste a este estado?" O Kalandar, então, beijou o chão diante do Califa e começou a narrar a sua história, dizendo:

"Ó Comandante dos Fiéis, a causa de eu ter raspado a barba e de ter me tornado um Kalandar é algo tão extraordinário que, se fosse escrito com agulhas no canto interno do olho, serviria de lição para quem deseja aprender. Eu não nasci Kalandar, mas sim filho de um rei, e fui treinado na arte da leitura e na escrita, tendo aprendido o Alcorão e as ciências dos antigos e dos modernos sob a tutela de mestres e sábios. Tornei-me um mestre na caligrafia, de modo que os escribas do meu tempo admiravam a minha escrita, e a minha fama chegou aos ouvidos do rei da época, que me enviou a buscar e me honrou, fazendo-me seu companheiro de mesa e seu secretário. Ele me amava profundamente e eu passava os meus dias na corte, desfrutando de sua proximidade, até que, certa vez, enquanto eu estava na biblioteca real, vi uma escrava que era a criatura mais bela que Alá já criara, quer em forma, quer em porte. Fiquei tão perturbado pela sua beleza que perdi o juízo e, não podendo resistir, busquei formas de me aproximar dela, mas ela, sendo uma escrava do rei, vivia cercada de vigilância. O amor ardia em mim como uma fornalha, e a minha saúde definhou, de modo que o rei percebeu a minha palidez e perguntou-me o que me afligia. Eu, temendo a sua ira, disfarcei o meu estado, até que, finalmente, a paixão superou o meu medo e decidi que preferia a morte a viver sem ela."

E Shahrazad percebeu o romper da alva e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Ela continuou: Chegou ao meu conhecimento, ó rei auspicioso, que o Califa ordenou que esta história, bem como as das irmãs e dos Kalandars, fossem registadas nos arquivos e depositadas nas câmaras reais de documentos. Então, ele perguntou à dama mais velha, a dona da casa: "Sabes o paradeiro da Ifritah que lançou um feitiço sobre as tuas irmãs?"; e ela respondeu: "Ó Comandante dos Fiéis, ela deu-me uma madeixa do seu cabelo, dizendo: — Quando quiseres ver-me, queima um par destes fios e eu estarei contigo de imediato, ainda que eu esteja para lá das montanhas do Cáucaso." Disse o Califa: "Traze-me aqui o cabelo." Ela trouxe-o e ele lançou toda a madeixa ao fogo. Assim que o odor do cabelo a arder se espalhou, o palácio sacudiu-se e tremeu, e todos os presentes ouviram um estrondo e um rodopiar de trovão e um ruído como de asas e, eis que a Jinniyah, que tinha sido uma serpente, surgiu na presença do Califa. Como ela era uma Moslemah, saudou-o e disse: "A paz seja convosco, ó Vigário de Allah"; ao que ele respondeu: "E convosco seja a paz, a misericórdia de Allah e a Sua bênção." Então, ela continuou: "Sabe que esta donzela semeou para mim a semente da bondade, pela qual não a posso recompensar o suficiente, pois ela livrou-me da morte e destruiu o meu inimigo. Ora, eu tinha visto como as suas irmãs a trataram e senti-me obrigada a vingá-la nelas. A princípio, inclinei-me a matá-las, mas temi que isso fosse penoso para ela, por isso transformei-as em cadelas; mas se desejares a sua libertação, ó Comandante dos Fiéis, eu libertá-las-ei para teu agrado e dela, pois sou dos muçulmanos." Disse o Califa: "Liberta-as e, depois, examinaremos o assunto da dama açoitada e consideraremos o seu caso cuidadosamente; e se a verdade da sua história for comprovada, exigirei retaliação daquele que a injustiçou." Disse a Ifritah: "Ó Comandante dos Fiéis, libertá-las-ei imediatamente e revelar-te-ei o homem que cometeu tal ato contra esta dama, a injustiçou e tomou os seus bens, e ele é o mais próximo de todos os homens a ti!" Dito isto, ela pegou numa taça de água, murmurou um encantamento sobre ela e proferiu palavras que não se compreendiam; depois, aspergiu um pouco da água sobre as faces das duas cadelas, dizendo: "Retornai à vossa forma humana anterior!", ao que elas foram restauradas às suas formas naturais e puseram-se a louvar o seu Criador. Então disse a Ifritah: "Ó Comandante dos Fiéis, em verdade, aquele que flagelou esta dama com varas é o teu filho Al-Amin, irmão de Al-Maamun; pois ele tinha ouvido falar da sua beleza e formosura e pregou-lhe uma estratagema de amante, casou-se com ela segundo a lei e cometeu o crime (se assim se pode chamar) de a açoitar. Contudo, ele não deve ser censurado por a ter batido, pois impôs-lhe uma condição e fez-lhe jurar um juramento solene de não fazer certa coisa; porém, ela foi falsa ao seu voto e ele teve a intenção de a condenar à morte, mas temeu o Deus Todo-Poderoso e contentou-se em a açoitar, como viste, e em mandá-la de volta para o seu próprio lugar. Tal é a história da segunda dama e o Senhor sabe tudo." Quando o Califa ouviu estas palavras da Ifritah e soube quem tinha batido na donzela, maravilhou-se com grande espanto e disse: "Louvado seja Allah, o Altíssimo, o Todo-Poderoso, que mostrou a Sua imensa misericórdia para comigo, permitindo-me livrar estas duas donzelas de feitiçaria e tortura, e dignando-se a deixar-me saber o segredo da história desta dama! E agora, por Allah, faremos um feito que será registado sobre nós depois de já não estarmos entre os vivos." Então, convocou o seu filho Al-Amin e interrogou-o sobre a história da segunda dama, a porteira; e ele contou-a perante a verdade; ao que o Califa mandou chamar à presença os Kazis e as suas testemunhas, os três Kalandars e a primeira dama com as suas irmãs germanas que tinham sido enfeitiçadas; e ele casou as três com os três Kalandars, que ele sabia serem príncipes e filhos de reis, e nomeou-os camareiros da sua pessoa, atribuindo-lhes estipêndios e subsídios e tudo o que necessitavam, e alojando-os no seu palácio em Bagdade. Devolveu a dama açoitada ao seu filho, Al-Amin, renovando o contrato de casamento entre eles, deu-lhe grande riqueza e mandou reconstruir a casa mais bela do que era antes. Quanto a si mesmo, tomou como esposa a procuradora e deitou-se com ela naquela noite: e no dia seguinte separou para ela um apartamento no seu Serralho, com servas para o seu serviço e uma mesada fixa. E o povo maravilhava-se com a generosidade, a beneficência natural e a sabedoria principesca do seu Califa; nem se esqueceu ele de enviar todas estas histórias para serem registadas nos seus anais. Quando Shahrazad cessou de falar, Dunyazad exclamou: "Ó minha própria irmã, por Allah, na verdade, esta é uma história muito agradável e deleitável; nunca se ouviu coisa igual, mas peço-te, conta-me agora outra história para passar o que ainda resta das horas de vigília desta nossa noite." Ela respondeu: "Com amor e alegria, se o Rei me der permissão"; e ele disse: "Conta a tua história e conta-a rapidamente." Então ela começou, nestas palavras,

O incesto é agora abominável em toda parte, exceto entre os pobres superpovoados das grandes e civilizadas cidades. Contudo, tais uniões eram comuns e legais entre povos antigos e altamente cultivados, como os egípcios (Ísis e Osíris), os assírios e os antigos persas. Fisiologicamente, elas são prejudiciais apenas quando os pais possuem defeitos constitucionais: se ambos são saudáveis, a prole, como entre os chamados "animais inferiores", é viável e sadia.

Nota de rodapé 199:

Os habitantes das zonas temperadas do Norte dificilmente podem imaginar o que é uma tempestade de areia em terras tropicais ressecadas pelo sol. No Sind, éramos frequentemente obrigados a usar velas ao meio-dia, enquanto acima da poeira estava um sol que assaria um ovo.

Nota de rodapé 200:

Árabe. "'Urban", agora sempre usado para os povos selvagens, a quem os franceses nos ensinaram a chamar de les Bedouins; "Badw" sendo um ermo ou deserto; e Badawi (fem. Badawíyah, plur. Badáwi e Bidwán), um homem do ermo. Os europeus também aprenderam a chamar erroneamente os egípcios de "árabes": a diferença é tão grande quanto entre um inglês e um espanhol. Os árabes propriamente ditos dividem sua raça em várias famílias sucessivas. Os "Arab al-Arabá" (ou al-Aribah, ou al-Urubíyat) são os autóctones, tribos pré-históricas, proto-históricas e extintas; por exemplo, alguns dos aditas que, estando em Meca, escaparam da destruição de sua nação perversa, mas se misturaram a outras classes. Os "Arab al-Muta'arribah" (árabes arabizados) são os primeiros advenæ representados por linhagens nobres como os Koraysh (Koreish), alguns ainda sobreviventes. Os "Arab al-Musta'aribah" (insitícios, naturalizados ou instituídos árabes, homens que reivindicam ser árabes) são árabes como os sinaítas, os egípcios e os marroquinos, descendentes de casamentos com outras raças. Daí os nossos "moçárabes" e os "Marrabais" de Rabelais (não, "uma palavra composta de Maurus e Árabes"). Alguns genealogistas, contudo, fazem dos Muta'arribah descendentes de Kahtan (possivelmente o Joktan de Gênesis x., um documento comparativamente moderno, 700 a.C.?); e dos Musta'aribah aqueles descendentes de Adnán, a origem da genealogia árabe. E, por último, os "Arab al-Musta'ajimah", árabes barbarizados, como a atual população de Meca e Al-Medinah. Além desses, há outras tribos cuja origem ainda é desconhecida; como as tribos Mahrah de Hazramaut, os "Akhdám" (=servis) de Omã (Maskat); e os "Ebná" de Al-Yaman: Ibn Ishak supõe que estes últimos sejam descendentes dos soldados persas de Anushirwan que expulsaram o invasor abissínio do sul da Arábia. (Pilgrimage, iii., 31, etc.).

Nota de rodapé 201:

Árabe. "Amír al-Muuminín." O título foi assumido pelo califa Omar para evitar o inconveniente de chamar a si mesmo de "Khalífah" (sucessor) do sucessor do Apóstolo de Allah (isto é, Abu Bakr); o que, após algumas gerações, tornar-se-ia impossível. Significa "Emir (chefe ou príncipe) dos Muumins"; homens que se apegam à Fé (verdadeiramente muçulmana), o "Imán" (teoria, artigos fundamentais) em oposição ao "Dín", ordenança ou prática da religião. Chegou a ser um título vizirial conferido pelo sultão Malikshah (Rei Rei-rei) ao seu Nizám al-Mulk. (Richardson's Dissert. lviii).

Nota de rodapé 202:

Isso também pode significar "de acordo com as sete edições do Alcorão", as velhas revisões e assim por diante (Sale, Seção iii. e D'Herbelot "Alcoran"). As escolas dos "Mukri", que ensinam a pronúncia correta onde um erro poderia ser pecaminoso, são sete: Hamzah, Ibn Katír, Ya'akúb, Ibn Amir, Kisái, Asim e Hafs, sendo este último o favorito dos Hanafis e o único agora geralmente conhecido no Al-Islão.

Nota de rodapé 203:

Árabe. "Sadd" = parede, dique, etc., o "bund" ou "band" da Índia Britânica. Daí o "Sadd" no Nilo, as margens de grama e ilhas flutuantes que "cercam" o fluxo. Poucas vistas são mais aterrorizantes do que uma tempestade de areia no deserto, a "Zauba'ah", como os árabes a chamam. Demônios, ou colunas de areia, verticais e inclinadas, medindo mil pés de altura, correm sobre a planície açoitando a areia em sua base como um mar revolto sob um furacão furioso; cortando a grama rente às raízes, arrancando árvores, que são giradas como folhas e gravetos no ar, e varrendo tendas e casas como se fossem pedaços de papel. Finalmente, as colunas se unem no topo e formam, talvez a três mil pés acima da terra, uma gigantesca nuvem de areia amarela que oblitera não apenas o horizonte, mas até mesmo o sol do meio-dia. Essas trombas de areia são o terror dos viajantes. No Sind e no Punjab, temos a tempestade de poeira que, como eu disse, em escuridão supera o mais negro nevoeiro de Londres.

Nota de rodapé 204:

Árabe. Sár = a vendeta, mencionada anteriormente, tão temida na Arábia quanto na Córsega.

Nota de rodapé 205:

Árabe. "Ghútah", geralmente um lugar onde a irrigação é abundante. Aplica-se especialmente (nos livros) à planície de Damasco porque "abunda em água e árvores frutíferas". Bochart (Geog. Sacra, p. 90) deriva עוטה (utah) de עוץ Uz, filho de Arabe, que (diz ele) fundou Damasco. A Ghutah é um dos quatro paraísos terrenos, sendo os outros Basra (Bassorah), Shiraz e Samarcanda. Sua peculiaridade é a semelhança com um porto marítimo; o Deserto que avança quase até suas portas é o mar e seus navios são os camelos. O primeiro árabe a quem devemos este admirável termo para o "Companheiro de Jó" é "Tarafah", um dos poetas dos Poemas Suspensos: ele compara (v.v. 3, 4) os camelos que levavam sua amada a navios navegando de Aduli. Mas "navios do deserto" é, sem dúvida, um termo da mais alta antiguidade.

Nota de rodapé 206:

As exigências do "Saj'a", ou prosa rimada, desarticulam esta e muitas passagens semelhantes.

Nota de rodapé 207:

As ilhas de "Ébano"; "Isle of Ebene" de Scott, i., 217.

Nota de rodapé 208:

"Jarjarís" na Edição de Bulaq.

Nota de rodapé 209:

Árabe. "Takbís." Muitos orientais dificilmente conseguem dormir sem este amassamento dos músculos, esta "massagem" cujas propriedades higiênicas a Inglaterra está agora aprendendo.

Nota de rodapé 210:

O oposto do peito ser alargado, o andar caído e "arrastado" em comparação com a cabeça erguida e o peito inflado.

Nota de rodapé 211:

Esta penalidade é mencionada no Alcorão (cap. v.) como adequada para aqueles que lutam contra Allah e seu Apóstolo; mas os comentadores não concordam se os pecadores devem primeiro ser condenados à morte ou ficar pendurados na cruz até morrerem. Faraó (cap. xx.) ameaça crucificar seus mágicos em palmeiras, e é considerado o primeiro crucificador.

Nota de rodapé 212:

Árabe. "'Ajami" = estrangeiro, esp. um persa: este último nas Noites é quase sempre um vilão. Devo notar aqui que a condição desprezível dos persas no Al-Hijáz (que notei em 1852, Pilgrimage i. 327) mudou completamente. Eles não são mais "os chinelos de Ali e cães de Omar": aprenderam a força da união e agora, em vez de serem intimidados, intimidam.

Nota de rodapé 213:

A Edição de Calcutá transforma-os em Alfaiates (Khayyátín) e Torrens não vê o erro de impressão.

Nota de rodapé 214:

isto é, Machado e sandálias.

Nota de rodapé 215:

Lit. "Golpeie seu pescoço."

Nota de rodapé 216:

Uma frase que recorrerá frequentemente; significando que a situação sugeria tais palavras como estas.

Nota de rodapé 217:

Aquele que golpeia com o mau-olhado é chamado de "A'in" e a pessoa atingida "Ma'ín" ou "Ma'ún".

Nota de rodapé 218:

Árabe. "Sákiyah", a conhecida nora persa com potes e baldes presos à roda. É de muitos tipos, a encaixotada, etc., etc.; e possivelmente é aludida no "cântaro quebrado na fonte" (Eclesiastes xii. 6), um acidente que ocorre frequentemente à "Noria" moderna. Os viajantes geralmente abusam do seu "rangido lúgubre" e "monotonia triste": eu defendi a música da nora em Pilgrimage ii. 198.

Nota de rodapé 219:

Árabe. "Zikr", lit. lembrar, mencionar (isto é, os nomes de Allah), aqui refere-se aos encontros de religiosos para exercícios devocionais; os "Zikkírs", como são chamados, geralmente ficam em pé ou sentados em círculo enquanto ejaculam o Santo Nome. Essas "rogação" são muito apreciadas pelos Darwayshes, ou frades mendicantes, que a Europa divide educadamente em "dançantes" e "uivantes"; e, em uma ocasião, para grande escândalo de certas Engländerinns a quem eu estava mostrando a Ezbekiyah, juntei-me ao círculo dos "uivantes". Lane (Mod. Egypt, ver índice) é profuso sobre o assunto dos "Zikrs" e Zikkírs. Não se deve supor que sejam homens sem instrução: a classe superior, contudo, prefere mais privacidade.

Nota de rodapé 220:

Como pensavam que ele estivesse lá para oração ou penitência.

Nota de rodapé 221:

Árabe. "Ziyárat", uma visita a uma pessoa ou lugar piedoso.

Nota de rodapé 222:

Esta é uma saudação paternal no Oriente, onde são minuciosos quanto à parte beijada. Um livro persa espirituoso e não incomumente grosseiro, chamado "Al-Námah" porque todas as perguntas começam com "Al" (o artigo árabe), contém um "Al-Wajib al-busídan?" (o que mais merece beijos?) e a resposta é "Kus-i-nau-pashm" (uma donzela com um arbusto jovem).

Nota de rodapé 223:

Um peso de 71-72 grãos ingleses em ouro; aqui equivalente ao dinar.

Nota de rodapé 224:

Compare com o conto dos Três Corvos em Gammer Grethel, Noite ix.

Nota de rodapé 225:

A comparação é peculiarmente adequada; a terra vista de cima parece côncava com uma borda elevada.

Nota de rodapé 226:

Cem anos de idade.

Nota de rodapé 227:

"Bahr" em árabe significa mar, rio, corpo de água; daí o adjetivo ser necessário.

Nota de rodapé 228:

O Capitão ou Mestre do navio (não o proprietário). Em Al-Yaman, a palavra também significa "barbeiro", em virtude da raiz, Raas, uma cabeça.

Nota de rodapé 229:

O texto tem "no caráter Ruká'í", ou Riká'í, a letra de correspondência.

Nota de rodapé 230:

Um caractere curvo suposto ser como a folha de manjericão (rayhán). Richardson chama-o de "Rohani".

Nota de rodapé 231:

Não preciso dizer que os orientais usam um junco, um Cálamo (Kalam aplicado apenas ao junco cortado) para nossas penas de ganso e penas de aço.

Nota de rodapé 232:

Famoso por estar inscrito na Kiswah (cobertura) do túmulo de Maomé; uma mão grande e mais formal ainda usada para escrituras e inscrições murais. Apenas setenta e duas variedades dela são conhecidas (Pilgrimage, ii., 82).

Nota de rodapé 233:

A mão de cópia e transcrição que é ou Arabi ou Ajami. Uma grande descoberta foi feita ultimamente que derruba todas as nossas velhas ideias de cúfico, etc. O Sr. Löytved de Beirute encontrou, entre as inscrições haurânicas, uma em Naskhi puro, datada de 568 d.C., ou cinquenta anos antes da Hégira; e é aceita como autêntica pelo meu sábio amigo M. Ch. Clermont-Ganneau (p. 193, Pal. Explor. Fund; julho de 1884). Nos dias de D'Herbelot e Sale, supunha-se que o Alcorão tivesse sido escrito em caracteres rudes, como os posteriormente chamados de "cúficos", inventados pouco antes do nascimento de Maomé por Murámir ibn Murrah de Anbar em Irák, introduzidos em Meca por Bashar o Kindiano, e aperfeiçoados por Ibn Muklah (Al-Wazir, m. 328 A.H. = 940 d.C.). Devemos agora mudar tudo isso. Ver Catalogue of Oriental Caligraphs, etc., por G. P. Badger, Londres, Whiteley, 1885.

Nota de rodapé 234:

Letras capitais e unciais; a mão na qual o véu da Ka'abah está inscrito (Pilgrimage iii. 299, 300).

Nota de rodapé 235:

Uma "letra de Corte", diz o Sr. Payne (i. 112): não sei nada sobre ela. Outras mãos são: a Ta'alík; pendente ou oblíqua, usada para manuscritos mais refinados e tendo, segundo Richardson, "a mesma analogia com o Naskhi que o nosso Itálico tem para o Romano". O Nasta' lík (não Naskh-Ta'alík), muito usado na Índia, é, como o nome sugere, uma mistura do Naskhi (escrita de transações) e do Ta'alík. O Shikastah (mão quebrada) representa em toda parte a nossa letra cursiva e torna-se uma tarefa difícil para o leitor. O Kirmá é outro caractere cursivo, restrito principalmente aos recibos e desembolsos do tesouro turco. O Diváni, ou Corte (de Justiça), é a mão oficial, ousada e redonda, um caráter de negócios, as linhas muitas vezes subindo com um movimento ou curva em direção à extremidade (esquerda). O Jáli ou polido tem uma variedade, o Jali-Ta'alik: o Sulsi (conhecido em muitos livros) é adotado para títulos de volumes, editais reais, diplomas e assim por diante; "respondendo quase ao mesmo propósito que as capitais conosco, ou as letras floreadas em manuscritos iluminados" (Richardson). O Tughrái é o da Tughrá, a cifra do Príncipe ou assinatura floreada em escritos cerimoniais, e contendo alguma sentença como: Que isto seja executado. Existem outros, por exemplo, Yákuti e Sirenkil, conhecidos apenas pelo nome. Finalmente, a mão Maghribi (mouro) difere em forma e pontos diacríticos dos caracteres usados mais a leste quase tanto quanto a letra cursiva alemã difere da inglesa. É curioso que Richardson omita o Jali (intrincado e convoluto) e as divisões do caractere Sulusí, Sulsi ou Sulus (Thuluth), o Sulus al-Khafíf, etc.

Nota de rodapé 236:

Árabe. "Baghlah"; o macho (Baghl) é usado apenas para cargas. Esta é a regra em toda parte: nada é mais incontrolável do que um "Macho" teimoso; e ele sabe que sempre pode derrubá-lo de suas costas quando assim o deseja. De "Baghlah" deriva o nome da embarcação nativa Anglo-Indica, um "Buggalow".

Nota de rodapé 237:

Em hebraico, "Ben-Adam" é qualquer homem oposto a "Beni ish" (Salmo iv. 3) = filii viri, não homines.

Nota de rodapé 238:

Esta postura é terrivelmente exaustiva para as pernas europeias; e poucos homens brancos (a menos que acostumados desde cedo) conseguem agachar-se por algum tempo sobre os calcanhares. O "estilo alfaiate", com pernas cruzadas, é considerado livre e fácil.

Nota de rodapé 239:

Árabe. "Katá" = Pterocles Alchata, o conhecido corta-cortiças do deserto. É uma carne branca muito pobre.

Nota de rodapé 240:

Árabe. "Khubz", que não traduzo como "bolo" ou "pão", pois isso sugeriria a ideia do nosso pão de forma. O pilar da vida no Oriente é um círculo fino e plano de massa assado no forno ou na chapa, e correspondente ao "scone" escocês, à "tortilla" espanhola e ao "flap-jack" australiano.

Nota de rodapé 241:

Árabe. "Harísah", um prato favorito de trigo (ou arroz) fervido e reduzido a uma pasta com carne desfiada, especiarias e condimentos. As "pulseiras" é uma garota bonita comendo com ele.

Nota de rodapé 242:

Estas linhas são repetidas com uma diferença na Noite cccxxx. Elas afetam rimas rimadas, incomuns e pesadas: por exemplo, aqui Sakáríj (plur. de Sakrúj, travessas, tigelas); Tayáhíj (plur. de Tayhúj, a perdiz caccabis menor); Tabáhíj (persa Tabahjah, um omelete ou um ensopado de carne, cebola, ovos, etc.) Ma'áríj ("em pilhas escalonadas" como as pirâmides; que Lane ii. 495 traduz como "nas escadas"); Makáríj (plur. de Makraj, um pequeno pote); Damálíj (plur. de dumlúj, um bracelete, uma pulseira); Dayábíj (brocados) e Tafáríj (aberturas, prazeres). Na Noite cccxxx. encontramos também Sikábíj (plur. de Sikbáj, carne marinada explicada alhures); Faráríj (plur. de farrúj, um frango, vulg. farkh) e Dakákíj (plur. de dakújah, um pequeno jarro). Na primeira linha temos também (embora não seja uma rima) Gharánik Gr. Τερανὸς, um grou, preservado no romaico. O choro e o lamento são causados pela lembrança de que todas essas iguarias foram demolidas como um acampamento beduíno.

Nota de rodapé 243:

Este é o vinum coctum, o vinho fervido, ainda um favorito no sul da Itália e na Grécia.

Nota de rodapé 244:

Os bebedores orientais deleitam-se em beber ao amanhecer: sobre este assunto terei mais a dizer em outras Noites.

Nota de rodapé 245:

Árabe. "Adab", um dilema para tradutores, significando qualquer coisa entre boa educação e boas maneiras. No turco mod. "Edibiyyet" (Adabiyat) = belas-letras e "Edebi" ou "Edíb" = um literato.

Nota de rodapé 246:

O califa Al-Maamún, que era um mau jogador, costumava dizer: "Tenho a administração do mundo e sou igual a ela, enquanto sou limitado no comando de um espaço de dois palmos por dois palmos." O "tabuleiro" era então "um campo quadrado de couro bem trabalhado".

Nota de rodapé 247:

Os rabinos (depois de Mateus xix. 12) contam três tipos de eunucos; (1) Seris chammah = do sol, isto é, natural: (2) Seris Adam = manufaturado per homines; e (3) Seris Chammayim = de Deus (isto é, abstêmio religioso). Seris (castrado) ou Abd (escravo) é o nome hebraico geral.

Nota de rodapé 248:

A "Dama da Beleza".

Nota de rodapé 249:

"Káf" foi notado como a montanha que circunda a terra como um anel o dedo: é popularmente usada como nosso Alp e Alpino. O "Oceano circundante" (Bahr al-muhít) é o curso oceânico homérico.

Nota de rodapé 250:

A romã é provavelmente escolhida aqui porque se supõe que cada fruto contenha uma semente do jardim do Éden. Daí uma multidão de superstições (Pilgrimage iii., 104) possivelmente conectadas com o deus caldeu-babilônico Rimmon ou Ramanu. Daí Perséfone ou Ishtar provarem a "semente da rica romã". Lenormant, loc. cit. pp. 166, 182.

Nota de rodapé 251:

isto é, pelo amor de Deus — uma frase muçulmana favorita.

Nota de rodapé 252:

Árabe. "Báb", que também significa um capítulo (de magia, de guerra, etc.), correspondendo ao persa "Dar", como em Sad-dar, as Cem Portas. Aqui, contudo, é figurativo "Tentei um novo modo". Esta cena está no Mabinogion.

Nota de rodapé 253:

Uso este termo irlandês = chorar pelos mortos; já que o inglês carece da palavra para a præfica ou myrialogista. A prática não é encorajada no Al-Islão; e o califa Abu Bakr disse: "Em verdade, um cadáver é aspergido com água fervente por causa das lamentações dos vivos", isto é, punido por não ter tomado medidas para evitar suas lamentações infrutíferas. Mas a prática vem da Terra Negra, de onde chegou ao Egito; e o povo de lá desenvolveu um sistema curioso no "canto do choro": notei isso em "The Lake-Regions of Central Africa". No zoroastrismo (Dabistan, cap. xcvii.) as lágrimas derramadas pelos mortos formam um rio no inferno, negro e gélido.

Nota de rodapé 254:

Estas linhas são dificilmente traduzíveis. Árabe. "Sabr" significa "paciência", bem como "aloés", prestando-se assim a uma multidão de trocadilhos e duplos sentidos mais ou menos vis. O aloé, de acordo com Burckhardt, é plantado em cemitérios como uma lição de paciência: ele também é pendurado, como o crocodilo seco, sobre as portas das casas para impedir a entrada de espíritos malignos; "assim pendurado sem terra e água", diz Lane (M. E., cap. xi.), "viverá por vários anos e até florescerá. Daí (?) é chamado Sabr, que significa paciência." Mas Sibr, assim como Sabr (uma raiz), significa "longanimidade". Considero a prática como uma das muitas superstições da África Interior. Os Gallas selvagens até hoje plantam aloés em túmulos e supõem que, quando a planta brota, o falecido foi admitido nos jardins de Wák, o Criador. (Pilgrimage iii. 350).

Nota de rodapé 255:

Cada cidade no Oriente tem seu título específico: este foi dado a Bagdá seja por conta de sua polícia superior ou simplesmente porque era a Capital do Califado. O Tigre também era chamado de "Rio da Paz (ou Segurança)".

Nota de rodapé 256:

Isto é muito característico: os passageiros, encontrando-se em dificuldades, imediatamente assumem o comando. Veja em minha Pilgrimage (I. cap. xi.) como batemos e maltratamos o Capitão do "Fio de Ouro".

Nota de rodapé 257:

A fábula é provavelmente baseada nas correntes que, como na África Oriental, podem levar um navio a cinquenta milhas por dia para fora do seu curso. Encontramo-la primeiro em Ptolomeu (vii. 2), cujas Ilhas Maniólai, da Índia extra Gangem, fazem com que os pregos de ferro voem para fora dos navios, o efeito do Lapis Herculeus (Pedra-ímã). Rabelais (v. c. 37) alude a ela e à ideia vulgar do magnetismo ser neutralizado pelo Skordon (Scordon ou alho). Daí também as Montanhas de Adamante (Pedra-ímã) de Mandeville (cap. xxvii.) e a "Rocha Magnética" no engenhoso "Peter Wilkins" do Sr. Puttock. Presumo que o mito também surgiu de ver embarcações construídas, como na Costa da África Oriental, sem pregos de ferro. Encontraremos a lenda novamente. A palavra Jabal ("Jebel" no Egito) ocorre frequentemente nestas páginas. Os árabes aplicam-na a qualquer terreno elevado ou monte de rochas; portanto, nem sempre é = nossa montanha. Ela encontrou seu caminho para a Europa, por exemplo, Gibraltar e Monte Gibello (ou Mongibel na poesia) = "Mt. Ethne que homens chamam Mounte Gybelle." Outros sentidos especiais de Jabal ocorrerão.

Nota de rodapé 258:

Como aprendemos com o Geógrafo Núbio, os árabes nos primeiros tempos exploraram as Ilhas Afortunadas, Jazírát al-Khálidát (=Ilhas Eternas), ou Canárias, em uma das quais foram relatados um cavalo e um cavaleiro de bronze com sua lança apontando para o oeste. Ibn al-Wardi nota "duas imagens de pedra dura, cada uma com cem côvados de altura, e sobre o topo de cada uma, uma figura de cobre apontando com a mão para trás, como se dissesse: — Retorne, pois não há nada atrás de mim!" Mas esta lenda está ligada a feitos mais antigos. O 23º Tobba (que sucedeu Bilkis), Malik bin Sharhabíl, (ou Sharabíl ou Sharahíl) apelidado de Náshir al-Ni'ám = espalhador de bênçãos, perdeu um exército na tentativa de atravessar as areias do Ocidente e ergueu uma estátua de cobre em cujo peito estava inscrito em caracteres antigos: —

Não há acesso atrás de mim, Nada além, (Diz) O Filho de Sharabíl.

Nota de rodapé 259:

isto é, exclamou "Bismillah!"

Nota de rodapé 260:

A ablução menor das mãos, rosto e pés; uma espécie de "lavagem dos pontos". Mais na Noite ccccxl.

Nota de rodapé 261:

Árabe. "Ruka'tayn"; o número dessas inclinações que são seguidas pelas prostrações distingue as cinco orações diárias.

Nota de rodapé 262:

O "Beth Kol" dos hebreus; também chamado pelos muçulmanos de "Hátif"; para o qual pergunte aos Espiritualistas. É a "voz divina" hindu ou "voz do céu".

Nota de rodapé 263:

Estas fórmulas são tecnicamente chamadas de Tasmiyah, Tahlíl (notado anteriormente) e Takbír: o "testemunhar" é Tashhíd.

Ár. "Samn," (Pers. "Raughan"; Hind. "Ghi"), o "tempero único" do Oriente; manteiga fresca colocada ao fogo, escumada e guardada (por um século, se necessário) em odres de couro e garrafões. Torna-se então uma massa negra e dura, considerada panaceia para feridas e doenças. É muito "sustentosa": diz-se jocosamente a um oriental ameaçado por uma súbita invasão de convidados: "Vai, inunda teu arroz com Raughan." Certa vez, tentei treinar, como um Pahlawan ou atleta hindu, à base de Gur (açúcar mascavo), leite e Ghi; o resultado foi ficar cego de bile antes que a semana terminasse.

Nota de rodapé 265: Estes jovens formosos são sempre descritos nos termos que aplicaríamos a mulheres.

Nota de rodapé 266: A Ed. Bul. (i. 43) diz de outra forma: — Encontrei um jardim e um segundo e um terceiro e assim por diante até que somassem trinta e nove; e, em cada jardim, vi o que o louvor não expressará, de árvores e regatos e frutos e tesouros. Ao fim do último, avistei uma porta e disse a mim mesmo: "O que poderá haver neste lugar?; preciso abri-la e olhar dentro!" Fiz isso conforme o pensado e vi um corcel pronto, selado e bridado e estacado; então soltei-o e montei-o; e ele voou comigo como um pássaro até que me deixou em um terraço; e, tendo-me pousado, deu-me uma chicotada com a cauda, arrancou-me o olho e fugiu de mim. Ato contínuo, desci do terraço e encontrei dez jovens, todos cegos de um olho, que, ao me verem, exclamaram: "Sem boas-vindas a ti, e sem alegria!" Perguntei-lhes: "Admitis-me em vosso lar e companhia?" e eles responderam: "Não, por Allah, não viverás entre nós." Então parti com olhos a chorar e coração a sofrer, mas Allah havia escrito minha segurança na Tábua Guardada, de modo que cheguei a Bagdá em segurança, etc. Este é um belo espécime de como a obra foi reduzida nessa edição.

Nota de rodapé 267: Os árabes datam a gravidez a partir da interrupção da menstruação, da qual se supõe que o feto se alimente. Kalilah wa Dimnah diz: "O umbigo da criança adere ao da mãe e por ele ela suga" (i. 263).

Nota de rodapé 268: Isto é contrário aos mandamentos do Al-Islam; Maomé disse expressamente: "Os astrólogos são mentirosos, pelo Senhor da Ka'abah!"; e seu dito é conhecido por quase todos os muçulmanos, letrados ou iletrados. Contudo, quanto mais vamos para o Oriente (em direção à Índia), mais encontramos essas práticas tidas em honra. Voltando para o Ocidente, temos: Iuridicis, Erebo, Fisco, fas vivere rapto; Militibus, Medicis, Tortori occidere ludo est; Mentiri Astronomis, Pictoribus atque Poetis.

Nota de rodapé 269: Ele não realiza o Wuzu ou ablução menor porque negligencia suas orações do alvorecer.

Nota de rodapé 270: Para este jogo, ver Lane (M. E. Cap. xvii). É habitualmente jogado num pano xadrez, não num tabuleiro como o nosso jogo de damas; e os orientais apreciam comer, beber e fumar entre e até durante os jogos. Torrens (p. 142) traduz "preparei uma sobremesa", confundindo "Mankalah" com "Nukl" (frutos secos, quatre-mendiants).

Nota de rodapé 271: Citado de Maomé, cujo dito foi apresentado.

Nota de rodapé 272: Deveríamos dizer "a noite do trigésimo nono dia".

Nota de rodapé 273: O banho tomado pela primeira vez após uma doença.

Nota de rodapé 274: Ár. "Dikák", usado como sabão ou, melhor, para amaciar a pele: a farinha é geralmente de tremoços, "Adas" = "Revalenta Arabica", que custa um centavo no Egito e meia coroa na Inglaterra.

Nota de rodapé 275: Ár. "Sukkar-nabát". Durante meu tempo (1842-49), não tínhamos outro açúcar na Presidência de Bombaim.

Nota de rodapé 276: Este é um dos miríades de exemplos árabes de que os decretos de "Anagké", Destino, Fatalidade, Fado, são inevitáveis. A situação é altamente dramática; e, de fato, As Noites, como aparecerá no Ensaio final, já sugeriram um drama nacional.

Nota de rodapé 277: Tendo sido recentemente comovido por Ajib.

Nota de rodapé 278: O Sr. Payne (i. 131) omite estas linhas que parecem fora de lugar; mas este modo de citação inapropriada é uma característica dos contos orientais.

Nota de rodapé 279: Anglicè "ele".

Nota de rodapé 280: Esta marcha da tribo é um lieu commun do verso árabe, por exemplo, a nobre elegia do poeta Labid sobre o "Acampamento Abandonado". Encontraremos dezenas de instâncias em As Noites.

Nota de rodapé 281: Ouvi falar de tais areias no Deserto a leste de Damasco, que só podem ser atravessadas sobre tábuas ou arreios de camelo; e o mesmo é relatado da infame Região "Al-Ahkáf" ("Síria Inexplorada").

Nota de rodapé 282: Daí o ditado árabe "O latido de um cão e não o brilho de um fogo"; o viajante cansado sabe pelo primeiro que o acampamento está próximo, enquanto o último mostra-se a grandes distâncias.

Nota de rodapé 283: O azul-escuro é a cor do luto no Egito, como era da República Romana. Os persas sustentam que este matiz foi introduzido por Kay Kawús (600 a.C.) ao lamentar seu filho Siyáwush. Foi mantido até a morte de Husayn no 10 de Muharram (o primeiro mês, então representando o equinócio vernal), quando foi trocado pelo preto. Como regra, os muçulmanos não adotam este símbolo de tristeza (chamado "Hidád"), encarando a prática como algo idólatra e alheio aos costumes árabes. No Egito, e especialmente no Alto Nilo, as mulheres tingem as mãos com índigo e mancham os rostos de preto ou mais escuro.

Nota de rodapé 284: O Roc mais antigo, do qual falaremos mais no Conto de Sindbad. Enquanto isso, o leitor curioso sobre o Símurgh persa (trinta pássaros) consultará o Dabistan, i., 55, 191 e iii., 237, e a Diss. de Richardson, p. xlviii. Para o Anka (Enka ou Unka=pássaro de pescoço longo), ver Dab. iii., 249, e para o Humá (pássaro do Paraíso) Richardson lxix. Ainda nos faltam detalhes sobre o Ben ou Bennu (nycticorax) do Egito que, com o artigo pi, deu origem à "fênix" grega.

Nota de rodapé 285: Provavelmente o Haledj de Forskal (p. xcvi. Flor. Ægypt. Arab.), "lignum tenax, durum, obscuri generis". A Ed. Bres. tem "ákúl"=madeira de teca, vulg. "Sáj".

Nota de rodapé 286: O anel da aldrava é uma invenção bem conhecida dos romanos.

Nota de rodapé 287: Ár. "Sadr"; o lugar de honra; daí o "Sudder Adawlut" (Suprema Corte) no jargão anglo-indiano.

Nota de rodapé 288: Ár. "Ahlan wa sahlan wa marhabá", as palavras ainda popularmente dirigidas a um convidado.

Nota de rodapé 289: Isto pode significar "olhos negros líquidos"; mas também, como notei, que os cílios eram longos e espessos o suficiente para fazer as pálpebras parecerem como se o pó de Kohl tivesse sido aplicado nas bordas internas.

Nota de rodapé 290: Uma leve separação entre os dois incisivos frontais, apenas os superiores, é considerada uma beleza pelos árabes; por que, é difícil dizer, exceto pelo amor racial à variedade. "Sughr" (Thugr) no texto significa, primordialmente, a abertura da boca, o vão: daí os dentes da frente.

Nota de rodapé 291: isto é, faz-me provar a amargura da morte, sendo "estourar a vesícula biliar" (Marárah) o nosso "partir o coração".

Nota de rodapé 292: Quase desnecessário dizer que portas e salas proibidas formam um lieu commun no folclore: encontram-se no Katha Sarit Sagara hindu e tornaram-se familiares à nossa infância pelo "Barba Azul".

Nota de rodapé 293: Lit. "aplicar Kohl aos meus olhos", tal como Jezabel "pintou o rosto", em hebraico colocou os olhos em pintura (2 Reis ix., 30).

Nota de rodapé 294: Ár. "Al-Barkúk", de onde vem nosso antigo "Apricock" (damasco). Classicamente é "Burkúk" e persa para o árabe "Mishmish", e também denota uma pequena ameixa ou abrunho. Na Síria, o "lado voltado para o sol" mostra um brilho vermelho intenso.

Nota de rodapé 295: Ár. "Hazáṙ" (em persa, mil) = uma espécie de pássaro zombeteiro.

Nota de rodapé 296: Algumas edições fazem as portas somarem cem, mas as Princesas eram quarenta, e essas coincidências, que parecem ter significado e não têm nenhum, exceto pela simetromania árabe, são comuns em histórias árabes.

Nota de rodapé 297: Ár. "Májúr": daí possivelmente nosso "mazer" (taça de bordo), que é popularmente derivado de Masarn, um bordo.

Nota de rodapé 298: Um perfume composto de âmbar, almíscar e aloés.

Nota de rodapé 299: As extremidades das rédeas da brida formando o chicote.

Nota de rodapé 300: O cavalo voador é Pégaso, que é um arremedo grego de um mito egípcio desenvolvido na Índia.

Nota de rodapé 301: A Ed. Bres. diz erroneamente "o sétimo".

Nota de rodapé 302: Ár. "Sharmutah" (plur. Sharámít) da raiz Sharmat, cortar em tiras, uma palavra egípcia favorita também aplicada no discurso vulgar a uma prostituta, uma rameira, um pedaço. É também o termo popular para tiras de carne seca ao sol ou defumada e pendurada para secar, classicamente chamada de "Kadíd".

Nota de rodapé 303: Ár. "Izár", a tanga do homem, oposta ao Ridá ou xale de ombro, é também o lençol de algodão branco usado pelas mulheres egípcias mais pobres fora de casa, cobrindo a cabeça e as mãos. Ver Lane (M. E., cap. i). As ricas preferem uma "Habárah" de seda preta, e as pobres, quando não têm outra coisa, usam um lençol de cama.

Nota de rodapé 304: isto é, "Minhas queridas".

Nota de rodapé 305: Ár. "Lá tawákhizná": lit. "não nos castigueis (ou censureis)"; a expressão popular para "desculpai-nos (ou perdoai-nos)".

Nota de rodapé 306: Ár. "Maskhút", aplicado principalmente à mudança de forma, como homem encantado em macaco, e no linguajar vulgar aplicado a uma estátua (de pedra, etc.). A lista de metamorfoses no Al-Islam é mais longa do que a conhecida por Ovídio. Aqueles que viram Petra, a cidade grega do Haurán e as ruínas romanas no Norte da África, detectarão prontamente a base sobre a qual essas histórias são construídas. Voltarei a este assunto na Cidade de Iram (Noite cclxxvi.) e na Cidade de Bronze (dlxvii.).

Nota de rodapé 307: Uma frase pitoresca o suficiente para expressar um local abandonado, um espetáculo familiar aos nômades e sempre abundante em pathos para os cidadãos.

Nota de rodapé 308: O antigo "Harém" (ou gineceu, Pers. Zenanah, Serraglio): Harím é também usado por sinédoque para os habitantes; especialmente a esposa.

Nota de rodapé 309: A pérola é suposta no Oriente perder 1% ao ano de seu esplendor e valor.

Nota de rodapé 310: Ár. "Fass", propriamente o engaste de um anel; também uma gema cortada em cabochon e geralmente o continente para o conteúdo.

Nota de rodapé 311: Ár. "Mihráb" = o nicho em arco na parede da Mesquita voltado para Meca. Aqui, de costas para o povo e diante da Ka'abah ou Casa Quadrada de Meca (daí chamada de "Kiblah" = direção da oração), posiciona-se o Imám, antistes ou condutor, lit. "aquele que se coloca diante dos outros"; e suas inclinações e prostrações marcam o tempo para a congregação. Derivei o Mihrab do nicho em que o Deus egípcio era guardado: os judeus ignoraram-no, mas os cristãos preservaram-no para suas estátuas e altares. Maundrell sugere que o nicho vazio denota um Deus invisível. Como o nicho (símbolo de Vênus) e o minarete (símbolo de Príapo) datam apenas dos dias do décimo Califa, Al-Walid (A.H. 86-96=105-115), os hindus acusam os muçulmanos de terem tomado emprestados ambos de seus ídolos favoritos — o Linga-Yoni ou Cunnus-phallus (Peregrinação ii. 140), e chamam claramente o Mihrab de Bhaga=Cunnus (Dabistan ii. 152). Os guebros chamam ainda Meca de "Mah-gah", locus Lunæ, e Al-Medinah, "Mahdinah" = Lua da religião. Ver Dabistan i., 49, etc.

Nota de rodapé 312: Ár. "Kursi", um banquinho de folhas de palmeira, etc., em forma de X (ver ilustração de Lane, Noites i., 197), diante do qual o leitor se senta. Bons muçulmanos não seguram o Volume Sagrado abaixo da cintura nem o abrem, exceto quando cerimonialmente puros. Ingleses no Oriente devem lembrar-se disso, pois negligenciar o "Adab al-Kúran" (respeito devido às Escrituras Sagradas) causa grande escândalo.

Nota de rodapé 313: O Sr. Payne (i. 148) cita o Zuckerpüppchen alemão.

Nota de rodapé 314: Os poetas persas têm mil conceitos em louvor ao "sinal" (Khál ou Shámah), pelo qual Hafiz ofereceu "Samarcanda e Bucara" (não sendo elas suas, como observaram seus amigos). Outro "tópico" é o voo de flechas disparadas pelos cílios.

Nota de rodapé 315: Ár. "Suhá", uma estrela na Ursa Maior introduzida apenas para equilibrar "wushát" = espiões, invejosos, inimigos, cujo "mau-olhado" ela afastará.

Nota de rodapé 316: Nos contos árabes, a beleza é sempre de "lados macios", e uma pele lisa é valorizada na proporção de sua raridade.

Nota de rodapé 317: A murta é o cabelo jovem na lateral do rosto.

Nota de rodapé 318: Em outras cópias destes versos, o quarto dístico jura "pelos escorpiões de sua fronte", isto é, os accroche-cœurs, os atrai-corações, fios de sino ou "agravadores", como os chama o B.P. No oitavo dístico, o poeta alude ao "Unsur" de seu amor, ou elemento, sua natureza feita dos quatro clássicos, e no último dístico ele faz a unha referir-se à lua, não ao sol.

Nota de rodapé 319: Esta é a fórmula regular ao falar dos Guebros.

Nota de rodapé 320: Ár. "Faráiz"; as ordens expressamente dadas no Alcorão que, o leitor se lembrará, é Incriado e Eterno. Na Índia, "Farz" é aplicado a injunções repetidas três vezes; e "Wájib" àquelas dadas duas vezes. Em outros lugares, pouca diferença é feita entre elas.

Nota de rodapé 321: Ár. "Kufr" = rejeitar a Verdadeira Religião, isto é, o Al-Islam, sendo tal rejeição "Tughyán" ou rebelião contra o Senhor. O "som terrível" é tirado da lenda do profeta Sálih e da tribo proto-histórica de Thámúd, que por sua impiedade foi morta por um terremoto e um ruído vindo do céu. Este último, segundo alguns comentaristas, foi a voz do Arcanjo Gabriel clamando "Morrei todos vós" (Alcorão, caps. vii. xviii., etc.). Ouviremos mais sobre isso na "Cidade das muitas cores de Iram". Segundo alguns, Salih, um misterioso profeta beduíno, está enterrado no Wady al-Shaykh da chamada Península Sinaítica.

Nota de rodapé 322: No entanto, eles mantiveram a semelhança humana, mostrando que a ideia surgiu das estátuas de basalto encontradas nas ruínas de Haurán. Maomé, em suas várias marchas para a Síria, deve ter visto restos de assentamentos gregos e romanos; e, como se notou, "Sesóstris" deixou sua marca perto de Meca. (Peregrinação iii. 137).

Nota de rodapé 323: Ár. "Shuhadá"; altamente respeitados pelos muçulmanos como por outros religiosos; embora seu mérito principal, se não único, pareça, como regra, ter sido a obstinação intensa e a devoção a uma ideia pela qual estavam prontos a sacrificar até a vida. A categoria dos Mártires é extensa, incluindo aqueles mortos pela queda de paredes; vítimas da peste, pleurisia e gravidez; viajantes afogados ou perdidos de outra forma quando viajavam honestamente, e amantes castos que morrem de "corações partidos", isto é, digestão prejudicada. Suas almas são imediatamente guardadas nas entranhas de pássaros verdes, onde permanecem até o Dia da Ressurreição, "comendo dos frutos e bebendo dos riachos do Paraíso", um lugar, contudo, cuja topografia é totalmente incerta. Assim, o jovem Príncipe foi recompensado com uma espécie de anti-purgatório, um céu preparatório.

Nota de rodapé 324: Ár. "Su 'ubán": os beduínos dão o nome a uma variedade de serpentes, todas tidas como venenosas; mas em contos a palavra, como "Tannín", expressa o nosso "dragão" ou "basilisco".

Nota de rodapé 325: Ela estava envergonhada de ver a senhora realizando um dever servil ao esfregar seus pés. Esta massagem, que B. de la Brocquière descreve em 1452 como "amassar e beliscar", já foi notada. O termo francês é aparentemente derivado do árabe "Mas-h".

Nota de rodapé 326: Aludindo ao Nome Mais Alto, o centésimo nome de Deus, o Shem hamphorash hebraico, desconhecido exceto para uns poucos favorecidos que, ao usá-lo, realizam todo tipo de milagres.

Nota de rodapé 327: isto é, o Mediterrâneo e o Oceano Índico.

Nota de rodapé 328: isto é, Estabelecido pelo Alcorão.

Nota de rodapé 329: Quanto mais feia a velha, mais se supõe que ela seja uma boa alcoviteira. Ver a Santa Verdiana em Boccaccio v., 10. Em árabe, "Ajuz" (velha) é altamente insultuoso e, se endereçado a uma egípcia, qualquer que seja sua idade, ela se voltará furiosamente e se ofenderá. O termo educado é Shaybah (Peregrinação iii., 200).

Nota de rodapé 330: As quatro idades da mulher, consideradas após Demóstenes em seu caráter triplo, prostituta para o prazer, concubina para o serviço e esposa para a procriação.

Nota de rodapé 331: Ár. "Jilá" (o Julwa hindustani) = a exibição da noiva perante o noivo pela primeira vez, em diferentes vestidos, até o número de sete, que são frequentemente emprestados para a ocasião. O homem feliz deve pagar uma taxa chamada "o imposto de desvelar o rosto" antes de poder ver suas feições. Entre os cristãos sírios, ele às vezes tenta levantar o véu por um movimento brusco da espada, que é aparado pelas mulheres presentes, e a lâmina permanece enroscada no pano. Finalmente ele consegue, a noiva cai no chão cobrindo o rosto com as mãos e as vestes de suas amigas: logo ela é levantada, seu véu é reajustado e seu rosto fica descoberto.

Nota de rodapé 332: Ár. "Ishá" = a primeira vigília da noite, crepúsculo, hora da ceia, ceia. Os muçulmanos tomaram emprestado as quatro vigílias dos romanos das 6 (da manhã ou tarde) às 6; e ignoram as três vigílias originais dos judeus, tarde, meia-noite e canto do galo (Sam. ii. 19, Juízes vii. 19, e Êxodo xiv. 24).

Nota de rodapé 333: Uma hipérbole árabe popular.

Nota de rodapé 334: Ár. "Shakáik al-Nu'umán", lit. as fissuras de Nu'uman, a bela anêmona, que um rei tirânico de Hirah, Nu'uman ibn Al-Munzir, um contemporâneo de Maomé, tentou monopolizar.

Nota de rodapé 335: Ár. "Andam" = aqui a goma chamada sangue-de-dragão; em outros lugares, o pau-tinta conhecido como brasil.

Nota de rodapé 336: Quase não preciso dizer que, no Oriente, onde os sinos não são usados, bater palmas convoca os servos. Na Índia, os homens gritam "Quy hye" (Koi hái?) e no Brasil assobiam "Pst!" seguindo o estilo da Espanha e Portugal.

Nota de rodapé 337: Os sinais são aqui comparados com pérolas; um símile de forma alguma comum ou apropriado.

Nota de rodapé 338: Uma paródia da testificação da Unidade de Allah.

Nota de rodapé 339: Ár. "Simát" (prop. "Sumát"); a "mesa de jantar", composta por um banquinho redondo de madeira que sustenta uma grande bandeja de metal, sendo os dois chamados de "Sufrah" (ou "Simat"): assim, "Sufrah házirah!" significa que o jantar está na mesa. Após a refeição, eles são imediatamente removidos.

Nota de rodapé 340: No texto "Dastúr", a palavra persa notada anteriormente; "Izn" seria o equivalente árabe correto.

Nota de rodapé 341: No Oriente muçulmano, uma jovem, solteira ou casada, não tem permissão de aparecer sozinha nas ruas; e a polícia tem o direito de prender infratores. Como preventivo de intrigas, a precaução é excelente. Durante a guerra da Crimeia, centenas de oficiais, ingleses, franceses e italianos, tornaram-se familiares com Constantinopla; e não poucos se lisonjearam com seu sucesso com as mulheres turcas. Não acredito que um único caso bonâ fide tenha ocorrido; as "conquistas" foram todas gregas, valáquias, armênias ou judias.

Nota de rodapé 342: Ár. "Azím": os tradutores não parecem saber que esta palavra em As Noites muitas vezes carrega seu sentido egípcio e coloquial, um tanto equivalente ao nosso "danado", "tremendo" ou "terrivelmente fino".

Nota de rodapé 343: Esta é uma coisa muito séria entre os muçulmanos e homens escrupulosos muitas vezes fazem grandes sacrifícios para evitar prestar um juramento.

Nota de rodapé 344: Deveríamos dizer "na armadilha".

Nota de rodapé 345: O homem apaixonara-se por ela e determinara marcar a mulher para que pudesse ser sua.

Nota de rodapé 346: Ár. "Dajlah", no qual encontramos o Hid-dekel hebraico.

Nota de rodapé 347: Tal execução seria contrária à lei muçulmana: mas as pessoas veriam com indulgência o pecado de decapitar ou ensacar uma esposa infiel. Além disso, o jovem era de sangue real e _A quoi bon être prince?_ como disse um menino de família vice-real no Egito ao seu tutor que o repreendia por atirar desnecessariamente num velho pobre.

Nota de rodapé 348: Ár. "Shirk", parceria, igualar ou associar deuses a Deus; politeísmo: especialmente voltado para o triadismo hindu, dualismo guebro e trinitarismo cristão.

Nota de rodapé 349: Ár. "Shatm" = abuso, geralmente expresso na linguagem mais suja com referência especial às partes íntimas de parentes do sexo feminino.

Nota de rodapé 350: Quando uma mulher é açoitada no Oriente, deixam-lhe alguma parte da veste e derramam sobre ela vários baldes de água por uma delicada consideração. Quando as mãos são golpeadas, elas são passadas por buracos na cortina que separa a sofredora dos homens, e presas a uma "falakah" ou vara.

Nota de rodapé 351: Ár. "Khalifah", Califa. A palavra é também usada para o sucessor de um Santon ou homem santo.

Nota de rodapé 352: Ár. "Sár"; aqui a palavra alcorânica para a execução da venerável e eterna lex talionis, a base original de toda a jurisprudência criminal. Sua principal falha é que a justiça repete a ofensa.

Nota de rodapé 353: Ambos estes filhos de Harun tornaram-se Califas, como veremos em As Noites.

Contam, ó Rei da idade e senhor do tempo e destes dias, que o Califa Harun al-Rashid chamou o seu Wazir Ja'afar numa noite e disse-lhe: "Desejo descer à cidade e interrogar o povo comum sobre a conduta daqueles encarregados da sua governação; e aqueles de quem se queixarem, deporemos dos seus cargos, e aqueles que elogiarem, promoveremos." Disse Ja'afar: "Ouvir e obedecer!" Então, o Califa desceu com Ja'afar e o Eunuco Masrur à cidade e passeou pelas ruas e mercados; e, enquanto atravessavam um beco estreito, encontraram um homem muito velho, com uma rede de pesca e um caixote para transportar peixes pequenos sobre a cabeça, e na mão um cajado; e, enquanto caminhava a um passo vagaroso, repetia estes versos:—

Dizem-me:—Tu brilhas como uma luz para a humanidade ✿ Com o teu saber, como a noite que a Lua ilumina! Eu respondo: "Uma trégua às vossas piadas e aos vossos escárnios; ✿ Sem sorte, o que é o saber? — um pobre coitado! Se me levassem a penhor com o meu saber na algibeira, ✿ Com os meus volumes para ler e o meu tinteiro para escrever, Por um dia de sustento jamais me poderiam empenhar; ✿ Tão provável quanto no Dia do Juízo fazer uma letra à vista!" Quão pobremente, na verdade, passa o pobre, ✿ Com a sua existência mendiga e a sua situação de indigente: No verão não consegue encontrar sustento; ✿ No inverno, o braseiro é o seu único deleite: Os cães de rua erguem-se contra ele com mordidelas e latidos, ✿ E cada patife recebe-o com latidos e mordidelas: Se ele levanta a voz e se queixa da sua injustiça, ✿ Ninguém o compadece ou ouve, por mais que tenha razão; E quando tristezas e males como estes ele deve enfrentar, ✿ O seu lar mais feliz seria nas profundezas da sepultura.

Quando o Califa ouviu os seus versos, disse a Ja'afar: "Vê este pobre homem e nota os seus versos, pois certamente apontam para as suas necessidades." Então, abordou-o e perguntou: "Ó Shaykh, qual é a tua ocupação?" e o pobre homem respondeu: "Ó meu senhor, sou um pescador com uma família para sustentar e estive fora desde o meio-dia até este momento; e nem uma coisa Allah tornou a minha porção com que alimentar a minha família. Nem sequer me posso penhorar para lhes comprar uma ceia e odeio e tenho nojo da minha vida e anseio pela morte." Disse o Califa: "Diz-me, voltarás connosco à margem do Tigre e lançarás a tua rede à minha sorte, e tudo o que sair, comprar-to-ei por cem peças de ouro?" O homem alegrou-se ao ouvir estas palavras e disse: "Sobre a minha cabeça seja! Voltarei convosco;" e, retornando com eles em direção ao rio, fez um lançamento e esperou um pouco; depois, puxou a corda e arrastou a rede para a margem e apareceu nela um baú cadeado e pesado. O Califa examinou-o e levantou-o, achando-o pesado; então, deu ao pescador duzentos dinares e mandou-o tratar dos seus assuntos; enquanto Masrur, ajudado pelo Califa, carregou o baú para o palácio, pousou-o e acendeu as velas. Ja'afar e Masrur então arrombaram-no e encontraram dentro um cesto de folhas de palmeira atado com lã vermelha. Cortaram-no e viram no interior um pedaço de tapete que levantaram, e debaixo estava a mantilha de uma mulher dobrada em quatro, que puxaram; e no fundo do baú encontraram uma jovem, bela como um lingote de prata, assassinada e cortada em dezanove pedaços. Quando o Califa olhou para ela, exclamou: "Ai!" e lágrimas correram pelas suas faces e, voltando-se para Ja'afar, disse: "Ó cão de Wazires, hão de pessoas ser assassinadas no nosso reinado e ser atiradas ao rio para serem um fardo e uma responsabilidade para nós no Dia do Juízo? Por Allah, devemos vingar esta mulher sobre o seu assassino e ele será feito morrer das piores mortes!" E logo acrescentou: "Agora, tão certamente quanto descendemos dos Filhos de Abbas, se não nos trouxeres aquele que a matou, para que lhe façamos justiça, enforcar-te-ei à porta do meu palácio, a ti e a quarenta dos teus parentes e familiares ao teu lado." E o Califa estava irado com uma fúria excessiva. Disse Ja'afar: "Concede-me três dias de espera;" e disse o Califa: "Concedemo-te isso." Então Ja'afar saiu da sua presença e regressou à sua própria casa, cheio de tristeza e dizendo para consigo: "Como encontrarei aquele que assassinou esta donzela, para que o possa levar perante o Califa? Se trouxer outro que não o assassino, ser-me-á imputado pelo Senhor: na verdade, não sei o que fazer." Manteve-se em casa três dias e, no quarto dia, o Califa enviou um dos Chamberlães para ele e, ao entrar na presença, perguntou-lhe: "Onde está o assassino da donzela?" ao que respondeu Ja'afar: "Ó Comandante dos Fiéis, sou eu inspetor de pessoas assassinadas para que eu deva saber quem a matou?" O Califa ficou furioso com a sua resposta e ordenou que o enforcassem diante da porta do palácio e ordenou que um pregoeiro gritasse pelas ruas de Bagdade: "Quem quiser ver o enforcamento de Ja'afar, o Barmaki, Wazir do Califa, com quarenta dos Barmecidas, os seus primos e parentes, diante da porta do palácio, que venha e que veja!" O povo afluía de todos os bairros da cidade para testemunhar a execução de Ja'afar e dos seus parentes, não sabendo a causa. Então ergueram a forca e fizeram Ja'afar e os outros ficarem por baixo, prontos para a execução, mas, enquanto cada olho procurava o sinal do Califa, e a multidão chorava por Ja'afar e pelos seus primos dos Barmecidas, eis que, um jovem, belo de rosto e arrumado de vestimenta e de semblante como a lua a espalhar luz, com olhos negros e brilhantes, e testa branca como uma flor, e faces vermelhas como a rosa e penugem jovem onde a barba cresce, e um sinal como um grão de âmbar gris, abriu caminho através do povo até ficar imediatamente perante o Wazir e disse-lhe: "Segurança para ti desta angústia, ó Príncipe dos Emires e Asilo dos pobres! Eu sou o homem que matou a mulher que encontrastes no baú, então enforca-me por ela e faze justiça sobre mim!" Quando Ja'afar ouviu a confissão do jovem, alegrou-se pela sua própria libertação, mas entristeceu-se e lamentou pelo jovem belo, e, enquanto ainda falavam, eis que outro homem, bem avançado em anos, avançou através do povo e abriu caminho entre a população até chegar a Ja'afar e ao jovem, a quem saudou dizendo: "Ó tu, o Wazir e Príncipe sem par! Não acredites nas palavras deste jovem. Certamente ninguém assassinou a donzela senão eu; toma a sua vingança sobre mim neste momento; pois, se não o fizeres, exigi-lo-ei de ti perante o Deus Todo-Poderoso." Então disse o jovem: "Ó Wazir, este é um homem velho na sua demência que não sabe o que diz, e eu sou aquele que a assassinou, por isso faze tu a vingança dela sobre mim!" Disse o velho: "Ó meu filho, tu és jovem e desejas as alegrias do mundo e eu sou velho e cansado e farto do mundo: oferecerei a minha vida como resgate por ti e pelo Wazir e os seus primos. Ninguém assassinou a donzela senão eu, por isso Allah sobre ti, apressa-te a enforcar-me, pois não resta vida em mim agora que a dela se foi." O Wazir maravilhou-se muito com toda esta estranheza e, tomando o jovem e o velho, levou-os perante o Califa, onde, após beijar o chão sete vezes entre as suas mãos, disse: "Ó Comandante dos Fiéis, trago-te o assassino da donzela!" "Onde está ele?", perguntou o Califa e Ja'afar respondeu: "Este jovem diz: 'Eu sou o assassino', e este velho, dando-lhe o mentir, diz: 'Eu sou o assassino', e eis que aqui estão os dois perante ti." O Califa olhou para o velho e para o jovem e perguntou: "Qual de vós matou a rapariga?" O jovem respondeu: "Ninguém a matou senão eu;" e o velho respondeu: "De facto, ninguém a matou senão eu próprio." Então disse o Califa a Ja'afar: "Leva os dois e enforca-os a ambos;" mas Ja'afar respondeu: "Uma vez que um deles foi o assassino, enforcar o outro seria mera injustiça." "Por Aquele que ergueu o firmamento e estendeu a terra como um tapete," gritou o jovem, "eu sou aquele que matou a donzela;" e continuou a descrever a maneira do seu assassínio e o cesto, a mantilha e o pedaço de tapete, de facto tudo o que o Califa tinha encontrado sobre ela. Assim, o Califa certificou-se de que o jovem era o assassino; ao que se maravilhou e perguntou-lhe: "Qual foi a causa de tu, injustamente, fazeres esta donzela morrer e o que te fez confessar o assassínio sem o bastinado, e o que te trouxe aqui para entregar a tua vida, e o que te fez dizer: 'Faze a vingança dela sobre mim'?" O jovem respondeu: "Sabe, ó Comandante dos Fiéis, que esta mulher era a minha esposa e a mãe dos meus filhos; também a minha prima direita e filha do meu tio paterno, este velho homem que é irmão do próprio pai. Quando me casei com ela, ela era donzela e Allah abençoou-me com três filhos varões dela; ela amava-me e servia-me e não vi mal nela, pois eu também a amava com o amor mais profundo. Ora, no primeiro dia deste mês, ela adoeceu com uma doença grave e chamei médicos para ela; mas a recuperação veio-lhe pouco a pouco e, quando desejei que ela fosse ao banho Hammam, ela disse:—Há algo que anseio antes de ir ao banho e anseio por isso com um anseio excessivo. Ouvir é cumprir, disse eu. E o que é? Disse ela: Tenho um desejo enjoativo de uma maçã, para a cheirar e morder um pouco dela. Respondi:—Tivesses tu mil anseios, eu tentaria satisfazê-los! Então fui no instante à cidade e procurei maçãs, mas não pude encontrar nenhuma; contudo, se custassem uma peça de ouro cada, tê-las-ia comprado. Fiquei irritado com isto e fui para casa e disse:—Ó filha do meu tio, por Allah, não consigo encontrar nenhuma! Ela ficou angustiada, estando ainda muito fraca, e a sua fraqueza aumentou grandemente nela naquela noite e senti-me ansioso e alarmado por conta dela. Assim que o dia amanheceu, saí novamente e fiz a ronda pelos jardins, um por um, mas não encontrei maçãs em parte alguma. Finalmente, encontrou-me um velho jardineiro, a quem perguntei sobre elas e ele respondeu:—Ó meu filho, este fruto é uma raridade connosco e não se encontra agora senão no jardim do Comandante dos Fiéis em Bassorah, onde o jardineiro o guarda para o consumo do Califa. Regressei à minha casa perturbado pelo meu insucesso; e o meu amor pela minha esposa e o meu afeto moveram-me a empreender a viagem. Então preparei-me e parti e viajei quinze dias e noites, indo e vindo, e trouxe-lhe três maçãs que comprei do jardineiro por três dinares. Mas quando entrei junto da minha esposa e as pus diante dela, ela não tirou prazer delas e deixou-as ficar ao seu lado; pois a sua fraqueza e febre tinham aumentado nela e a sua doença durou sem diminuir dez dias, após cujo tempo começou a recuperar a saúde. Então deixei a minha casa e, dirigindo-me à minha loja, sentei-me lá a comprar e vender; e, por volta do meio-dia, eis que um grande e feio escravo negro, comprido como uma lança e largo como um banco, passou pela minha loja segurando na mão uma das três maçãs com a qual brincava. Disse eu:—Ó meu bom escravo, diz-me donde tiraste essa maçã, para que eu possa obter uma igual? Ele riu-se e respondeu:—Obtive-a da minha senhora, pois eu estivera ausente e no meu regresso encontrei-a deitada, doente, com três maçãs ao seu lado, e ela disse-me:—O meu marido, um corno, fez uma viagem por elas a Bassorah e comprou-as por três dinares. Então comi e bebi com ela e tirei esta dela. Quando ouvi tais palavras do escravo, ó Comandante dos Fiéis, o mundo tornou-se negro diante da minha face, e levantei-me e tranquei a minha loja e fui para casa fora de mim por excesso de raiva. Procurei as maçãs e, encontrando apenas duas das três, perguntei à minha esposa:—Ó minha prima, onde está a terceira maçã?; e, levantando a cabeça languidamente, ela respondeu:—Não sei, ó filho do meu tio, para onde foi! Isto convenceu-me de que o escravo falara a verdade, então peguei numa faca e, vindo por trás dela, subi para o seu peito sem uma palavra dita e cortei-lhe a garganta. Depois, cortei-lhe a cabeça e os membros em pedaços e, envolvendo-a na sua mantilha e num trapo de tapete, costurei apressadamente o todo, que coloquei num baú e, trancando-o bem, carreguei-o na minha mula e atirei-o ao Tigre com as minhas próprias mãos. Por isso, Allah sobre ti, ó Comandante dos Fiéis, apressa-te a enforcar-me, pois temo que ela apele por vingança no Dia da Ressurreição. Pois, quando a atirei ao rio e ninguém sabia nada disso, ao voltar para casa encontrei o meu filho mais velho a chorar e, contudo, ele não sabia nada do que eu tinha feito com a sua mãe. Perguntei-lhe:—O que te fez chorar, meu filho?; e ele respondeu:—Peguei numa das três maçãs que estavam ao pé da minha mamã e desci ao beco para brincar com os meus irmãos quando, eis que, um grande e comprido escravo negro arrancou-a da minha mão e disse: "Donde tiveste isto?" Disse eu: "O meu pai viajou longe por ela, e trouxe-a de Bassorah para a minha mãe que estava doente e outras duas maçãs pelas quais pagou três ducados." Ele não prestou atenção às minhas palavras e eu pedi a maçã uma segunda e uma terceira vez, mas ele deu-me um estalo e um pontapé e partiu com ela. Tive medo que a minha mãe me açoitasse por causa da maçã, por isso, por medo dela, fui com o meu irmão para fora da cidade e fiquei lá até que a noite nos envolveu; e, de facto, estou com medo dela; e agora, por Allah, ó meu pai, não lhe digas nada disto ou poderá aumentar a sua doença! Quando ouvi o que o meu filho disse, soube que o escravo era aquele que tinha caluniado vilmente a minha esposa, a filha do meu tio, e certifiquei-me de que a tinha morto injustamente. Então chorei com um choro excessivo e, pouco depois, este velho, o meu tio paterno e pai dela, entrou; e contei-lhe o que tinha acontecido e ele sentou-se ao meu lado e chorou e não parámos de chorar até à meia-noite. Mantivemos o luto por ela estes últimos cinco dias e lamentámo-la com a mais profunda tristeza porque ela foi injustamente levada a morrer. Isto veio da mentira gratuita do escravo, o mouro negro, e esta foi a maneira de eu a ter matado; por isso conjuro-te, pela honra dos teus antepassados, apressa-te a matar-me e faze justiça sobre mim, pois não há vida para mim depois dela!" O Califa maravilhou-se com as suas palavras e disse: "Por Allah, o jovem é desculpável: não enforcarei ninguém senão o escravo maldito e farei um feito que confortará os doentes e sofredores, e que agradará ao Rei Todo-Glorioso."——E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Agora, quando foi a Vigésima Noite,

Ela disse: Chegou-me, ó Rei auspicioso, que o Califa jurou que não enforcaria ninguém senão o escravo, pois o jovem era desculpável. Então voltou-se para Ja'afar e disse-lhe: "Traz perante mim este escravo maldito que foi a causa única desta calamidade; e, se não o trouxeres perante mim dentro de três dias, serás morto em seu lugar." Então Ja'afar partiu chorando e dizendo: "Duas mortes já me assaltaram, nem o pote sairá incólume de todo o choque. Neste assunto, o engenho e a astúcia não servem de nada; mas Aquele que preservou a minha vida da primeira vez pode preservá-la uma segunda vez. Por Allah, não deixarei a minha casa durante os três dias de vida que me restam e que a Verdade (cuja perfeição seja louvada!) faça tudo o que Ele quiser." Então, manteve-se em casa três dias e, no quarto dia, convocou os Kazis e testemunhas legais e fez o seu último testamento e despediu-se dos seus filhos chorando. Pouco depois, entrou um mensageiro do Califa e disse-lhe: "O Comandante dos Fiéis está na fúria mais violenta que pode haver, e envia-te chamar e jura que o dia certamente não passará sem que sejas enforcado a menos que o escravo seja encontrado." Quando Ja'afar ouviu isto, chorou, e os seus filhos e escravos e todos os que estavam na casa choraram com ele. Depois de ter dito adeus a todos, exceto à sua filha mais nova, procedeu a despedir-se dela; pois ele amava esta pequenina, que era uma criança bela, mais do que todos os seus outros filhos; e apertou-a contra o seu peito e beijou-a e chorou amargamente ao separar-se dela; quando sentiu algo redondo dentro do peito do seu vestido e perguntou-lhe: "Ó minha menina, o que está na tua algibeira do peito?"; "Ó meu pai," respondeu ela, "é uma maçã com o nome do nosso Senhor, o Califa, escrito nela. Rayhán, o nosso escravo, trouxe-ma há quatro dias e não mo quis dar até que eu lhe desse dois dinares por ela." Quando Ja'afar ouviu falar do escravo e da maçã, alegrou-se e pôs a mão na algibeira da criança e tirou a maçã e reconheceu-a e alegrou-se dizendo: "Ó rápido Dissipador de problemas!" Então ordenou que trouxessem o escravo e disse-lhe: "Ai de ti, Rayhan! Donde tiraste esta maçã?" "Por Allah, ó meu mestre," respondeu ele, "embora uma mentira possa salvar um homem uma vez, a verdade pode salvá-lo, e muito bem, uma e outra vez. Não roubei esta maçã do teu palácio nem dos jardins do Comandante dos Fiéis. O facto é que há cinco dias, enquanto caminhava por um dos becos desta cidade, vi algumas crianças a brincar e esta maçã na mão de uma delas. Então arranquei-lha e bati-lhe e ele chorou e disse: 'Ó jovem, esta maçã é da minha mãe e ela está doente. Ela disse ao meu pai como ansiava por uma maçã, então ele viajou a Bassorah e comprou-lhe três maçãs por três peças de ouro, e eu levei uma delas para brincar'. Ele chorou novamente, mas eu não prestei atenção ao que ele disse e levei-a e trouxe-a para aqui, e a minha pequena senhora comprou-ma por dois dinares de ouro. E esta é toda a história." Quando Ja'afar ouviu as suas palavras, maravilhou-se de que o assassínio da donzela e toda esta miséria tivessem sido causados pelo seu escravo; entristeceu-se pela relação do escravo consigo mesmo, enquanto se alegrava pela sua própria libertação, e repetiu estes versos:—

Se o mal te advém através do teu escravo, ✿ Faz dele imediatamente o teu sacrifício: Muitos servos encontrarás, ✿ Mas a vida vem uma vez e nunca duas.

Então ele tomou a mão do escravo e, conduzindo-o até ao Califa, relatou a história do princípio ao fim, e o Califa maravilhou-se com extremo espanto, e riu-se até cair de costas e ordenou que a história fosse registada e tornada pública entre o povo. Mas Ja'afar disse: "Não te maravilhes, ó Comandante dos Fiéis, com esta aventura, pois não é mais maravilhosa do que a História do Wazir Núr al-Dín Ali do Egito e do seu irmão Shams al-Dín Mohammed". Disse o Califa: "Fala; mas o que pode ser mais estranho do que esta história?" E Ja'afar respondeu: "Ó Comandante dos Fiéis, não ta contarei, senão com a condição de que perdoes ao meu escravo"; e o Califa replicou: "Se for, na verdade, mais maravilhosa do que a das três maçãs, concedo-te o seu sangue, e se não, certamente matarei o teu escravo". Então Ja'afar começou com estas palavras a

HISTÓRIA DE NÚR AL-DÍN ALÍ E DO SEU FILHO BADR AL-DÍN HASAN

Sabe, ó Comandante dos Fiéis, que em tempos de outrora a terra do Egito era governada por um Sultão dotado de justiça e generosidade, alguém que amava os pobres piedosos e privava com os Olema e homens doutos; e ele tinha um Wazir, um homem sábio e experiente, bem versado nos assuntos e na arte do governo. Este Ministro, que era um homem muito velho, tinha dois filhos, que eram como duas luas; nunca homem algum vira semelhantes a eles em beleza e graça, o mais velho chamado Shams al-Din Mohammed e o mais novo Nur al-Din Ali; mas o mais novo excedia o mais velho em formosura e aparência agradável, de modo que o povo ouvia a sua fama em terras longínquas e os homens afluíam ao Egito com o propósito de o ver. Com o passar do tempo, o seu pai, o Wazir, morreu e foi profundamente lamentado e chorado pelo Sultão, que mandou chamar os seus dois filhos e, investindo-os com trajes de honra, disse-lhes: "Não vos perturbeis, pois ocupareis o lugar do vosso pai e sereis Wazirados conjuntos do Egito". Com isto eles regozijaram-se e beijaram o solo perante ele e realizaram o luto cerimonial pelo seu pai durante um mês completo; após o qual tempo entraram no Wazirado, e o poder passou para as suas mãos como estivera nas mãos do seu pai, cada um cumprindo o seu dever por uma semana de cada vez. Viviam sob o mesmo teto e a sua palavra era uma só; e sempre que o Sultão desejava viajar, eles revezavam-se para estarem na sua companhia. Aconteceu uma noite que o Sultão tencionava partir numa viagem na manhã seguinte, e o mais velho, a quem cabia acompanhá-lo, estava sentado a conversar com o seu irmão e disse-lhe: "Ó meu irmão, é meu desejo que ambos casemos, eu e tu, com duas irmãs; e que nos unamos às nossas esposas na mesma noite". "Faz, ó meu irmão, como desejares", respondeu o mais novo, "pois justo é o teu pensamento e certamente cumprirei contigo no que quer que digas". Assim, concordaram nisto e disse Shams al-Din: "Se Allah decretar que casemos com duas donzelas e nos unamos a elas na mesma noite, e elas concebam nas suas noites de núpcias e nos deem filhos no mesmo dia, e pela vontade de Allah a tua esposa te der um filho e a minha esposa me der uma filha, casemo-los um com o outro, pois serão primos". Disse Nur al-Din: "Ó meu irmão, Shams al-Din, que dote exigirás do meu filho para a tua filha?" Disse Shams al-Din: "Tomarei três mil dinares e três jardins de prazer e três herdades; e não seria conveniente que o jovem fizesse contrato por menos do que isto". Quando Nur al-Din ouviu tal exigência, disse: "Que espécie de dote é este que queres impor ao meu filho? Não sabes que somos irmãos e ambos, pela graça de Allah, Wazires e iguais no cargo? Convém-te oferecer a tua filha ao meu filho sem acordo matrimonial; ou, se um for necessário, que represente um valor meramente nominal como demonstração para o mundo: pois sabes que o masculino é mais digno do que o feminino, e o meu filho é um varão e a nossa memória será preservada por ele, não pela tua filha". "Mas que terá ela?", disse Shams al-Din; e Nur al-Din continuou: "Através dela não seremos lembrados entre os Emires da terra; mas vejo que queres proceder comigo segundo o ditado: — Se queres afastar um comprador, pede-lhe um preço alto e mais alto ainda; ou como fez um homem que, dizem, foi ter com um amigo e pediu-lhe algo, estando em necessidade, e foi respondido: — Bismillah, em nome de Allah, farei tudo o que pedes, mas vem amanhã!". Ao que o outro respondeu neste verso:

Quando aquele a quem se pede um favor diz "Amanhã", ✿ O homem sábio sabe que é vão mendigar ou pedir emprestado.

Disse Shams al-Din: "Basta! Vejo que falhas no respeito para comigo ao valorizares mais o teu filho do que a minha filha; e é evidente que o teu entendimento é dos mais mesquinhos e que te faltam maneiras. Fazes-me lembrar da tua parceria no Wazirado, quando te admiti a partilhar comigo apenas por compaixão por ti, e não desejando mortificar-te; e para que pudesses ajudar-me como uma espécie de assistente. Mas, uma vez que falas deste modo, por Allah, nunca casarei a minha filha com o teu filho; não, nem pelo seu peso em ouro!". Quando Nur al-Din ouviu as palavras do seu irmão, enfureceu-se e disse: "E eu também, nunca, nunca casarei o meu filho com a tua filha; não, nem para evitar que aos meus lábios chegue a taça da morte". Shams al-Din replicou: "Não a aceitaria como esposa para ela, e ele não vale a cutícula da sua unha. Se eu não estivesse prestes a viajar, dar-te-ia uma lição; contudo, quando eu regressar, verás, e mostrar-te-ei como posso fazer valer a minha dignidade e vindicar a minha honra. Mas Allah faz o que Ele quer". Quando Nur al-Din ouviu este discurso do seu irmão, encheu-se de fúria e perdeu o juízo de raiva; mas escondeu o que sentia e guardou silêncio; e cada um dos irmãos passou a noite num lugar muito afastado, louco de ira contra o outro. Assim que o dia amanheceu, o Sultão partiu em cortejo e atravessou do Cairo para Gizé e dirigiu-se às Pirâmides, acompanhado pelo Wazir Shams al-Din, a quem cabia o turno de serviço, enquanto o seu irmão Nur al-Din, que passara a noite em terrível ira, levantou-se com a luz e rezou a oração da alvorada. Depois, dirigiu-se ao seu tesouro e, tomando um pequeno par de alforjes, encheu-os de ouro; e lembrou-se das ameaças do seu irmão e do desprezo com que o tratara, e repetiu estes dísticos:

Viaja! E encontrarás novos amigos pelos antigos deixados para trás; ✿ Luta! Pois os doces da vida humana encontram-se com o trabalho e a labuta: O que fica em casa não ganha honra nem alcança nada além da carência; ✿ Por isso deixa o teu lugar de nascimento e vagueia por todo o mundo! Vi, e muito frequentemente vi, como a água parada apodrece, ✿ E apenas o fluir a torna doce e o trote a torna sã: E se a lua fosse para sempre cheia e nunca crescesse ou minguasse, ✿ O homem não esforçaria os seus olhos atentos para ver o seu alegre ciclo: A não ser que o leão deixe a sua toca nunca abateria a sua presa; ✿ A não ser que a flecha deixe o arco nunca teria atingido o seu alvo: Pó de ouro é pó enquanto jaz sem viajar na mina, ✿ E a madeira de aloés apenas combustível na sua terra natal: E o ouro alcançará o seu valor mais alto quando do seu objetivo desobjetivado; ✿ E os aloés enviados para terras estrangeiras tornam-se mais valiosos que o ouro.

Quando terminou os seus versos, ordenou a um dos seus pajens que lhe selasse a sua égua-mula núbia com a sua sela almofadada. Ela era de cor cinzenta salpicada, com orelhas como canas de escrever e pernas como colunas e um dorso alto e forte como uma cúpula construída sobre pilares; a sua sela era de pano de ouro e os seus estribos de aço indiano, e a sua gualdrapa de veludo de Ispahan; ela tinha ornamentos que serviriam ao Cosroes, e era como uma noiva adornada para a sua noite de núpcias. Além disso, mandou colocar no seu dorso uma peça de seda para assento, e um tapete de oração sob o qual estavam os seus alforjes. Quando isto foi feito, disse aos seus pajens e escravos: "Tenho o propósito de sair para um passeio fora da cidade, na estrada para a cidade de Kalyúb, e ficarei três noites fora; por isso, que nenhum de vós me siga, pois há algo que me aperta o peito". Então montou a mula com pressa; e, levando consigo algumas provisões para o caminho, partiu do Cairo e enfrentou o campo aberto e inculto que o rodeava. Perto do meio-dia, entrou na cidade de Bilbays, onde desmontou e ficou um pouco para descansar a si e à mula e comeu um pouco dos seus víveres. Comprou em Bilbays tudo o que precisava para si e forragem para a sua mula e então seguiu pelo caminho do deserto. Ao cair da noite, entrou numa cidade chamada Sa'adiyah, onde desmontou e retirou um pouco do seu viático e comeu; depois estendeu a sua tira de seda na areia e colocou os alforjes sob a cabeça e dormiu ao relento; pois ainda estava dominado pela raiva. Quando o dia amanheceu, montou e cavalgou até chegar à Cidade Santa, Jerusalém, e de lá partiu para Alepo, onde desmontou num dos caravançarais e permaneceu três dias para descansar a si e à mula e sentir o ar. Então, estando determinado a viajar para longe e Allah tendo escrito a segurança no seu destino, partiu novamente, seguindo sem saber para onde ia; e, tendo-se encontrado com certos correios, não parou de viajar até chegar à cidade de Bassorá, embora não soubesse que lugar era aquele. Era noite cerrada quando desmontou no Khan, por isso estendeu o seu tapete de oração e tirou os alforjes do dorso da mula e entregou-a, com o seu equipamento, aos cuidados do porteiro para que a pudesse passear. O homem pegou nela e fez como lhe fora ordenado. Aconteceu que o Wazir de Bassorá, um homem avançado em anos, estava sentado à janela de treliça do seu palácio em frente ao Khan e viu o porteiro a passear a mula de um lado para o outro. Ficou impressionado com os seus arreios de valor e achou-a um belo animal, apto para o passeio de Wazires ou mesmo de membros da realeza; e quanto mais olhava, mais perplexo ficava, até que finalmente disse a um dos seus pajens: "Trazei aqui aquele porteiro". O pajem foi e regressou ao Wazir com o porteiro, que beijou o solo entre as suas mãos, e o Ministro perguntou-lhe: "Quem é o dono daquela mula e que espécie de homem é ele?"; e ele respondeu: "Ó meu senhor, o dono desta mula é um jovem formoso de maneiras agradáveis, ainda que grave e digno, e sem dúvida um dos filhos dos mercadores". Quando o Wazir ouviu as palavras do porteiro, levantou-se imediatamente; e, montando o seu cavalo, cavalgou até ao Khan e entrou ter com Nur al-Din que, vendo o Ministro dirigir-se a ele, pôs-se de pé e avançou para o encontrar e saudou-o. O Wazir deu-lhe as boas-vindas a Bassorá e, desmontando, abraçou-o e fê-lo sentar ao seu lado e disse: "Ó meu filho, de onde vens e o que procuras?" "Ó meu senhor", respondeu Nur al-Din, "venho da cidade do Cairo, da qual o meu pai foi outrora Wazir; mas ele foi removido para a graça de Allah"; e informou-o de tudo o que lhe acontecera desde o princípio ao fim, acrescentando: "Estou resolvido a nunca regressar a casa antes de ter visto todas as cidades e países do mundo". Quando o Wazir ouviu isto, disse-lhe: "Ó meu filho, não dês ouvidos à voz da paixão, para que ela não te lance no abismo; pois, na verdade, muitas regiões são lugares desertos e temo por ti as voltas do Tempo". Depois, mandou carregar os alforjes e a seda e os tapetes de oração na mula e levou Nur al-Din para a sua própria casa, onde o alojou num lugar aprazível e tratou-o com honra e deu-lhe grande importância, pois inclinou-se a amá-lo com um amor excessivo. Passado algum tempo, disse-lhe: "Ó meu filho, aqui estou eu, um homem de idade e não tenho filhos varões, mas Allah abençoou-me com uma filha que te iguala em beleza; e rejeitei todos os seus muitos pretendentes, homens de posição e posses. Mas o afeto por ti entrou no meu coração; diz-me, então, queres ser o seu marido? Se aceitares isto, subirei contigo até ao Sultão de Bassorá e dir-lhe-ei que és o meu sobrinho, filho do meu irmão, e farei com que sejas nomeado Wazir no meu lugar, para que eu possa guardar a casa, pois, por Allah, ó meu filho, estou avançado em anos e cansado". Quando Nur al-Din ouviu as palavras do Wazir, inclinou a cabeça com modéstia e disse: "Ouvir é obedecer!". Com isto o Wazir regozijou-se e ordenou aos seus servos que preparassem um banquete e decorassem o grande salão de assembleia, onde costumavam celebrar os casamentos de Emires e Grandes. Depois, reuniu os seus amigos e os notáveis do reino e os mercadores de Bassorá e, quando todos estiveram perante ele, disse-lhes: "Eu tinha um irmão que era Wazir na terra do Egito, e Allah Todo-Poderoso abençoou-o com dois filhos, enquanto a mim, como bem sabeis, Ele deu uma filha. O meu irmão encarregou-me de casar a minha filha com um dos seus filhos, ao que assenti; e, quando a minha filha teve idade para casar, enviou-me um dos seus filhos, o jovem aqui presente, com quem pretendo casá-la, redigindo o contrato e celebrando a noite de revelação com a devida cerimónia: pois ele é mais próximo e querido para mim do que um estranho e, após o casamento, se ele quiser, habitará comigo, ou se desejar viajar, encaminhá-lo-ei com a sua esposa para a casa do seu pai". A isto, todos responderam: "Justo é o teu pensamento"; e olharam para o noivo e ficaram satisfeitos com ele. Então o Wazir mandou chamar o Kazi e as testemunhas legais e redigiram o contrato de casamento, após o que os escravos perfumaram os convidados com incenso, e serviram-lhes sorvete de açúcar e salpicaram-nos com água de rosas, e todos seguiram os seus caminhos. Depois, o Wazir ordenou aos seus servos que levassem Nur al-Din aos banhos Hammam e enviou-lhe um conjunto com o melhor dos seus próprios trajes especiais, e guardanapos e toalhas e bacias e queimadores de perfume e tudo o mais que fosse necessário. E após o banho, quando saiu e vestiu o traje, estava como a lua cheia na décima quarta noite; e montou a sua mula e não parou até chegar ao palácio do Wazir. Lá desmontou e entrou ter com o Ministro e beijou-lhe as mãos, e o Wazir deu-lhe as boas-vindas.——E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou de dizer o seu dito permitido.

Ela disse: Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que o Wazir levantou-se para ele e, dando-lhe as boas-vindas, disse: "Levanta-te e vai ter com a tua esposa esta noite, e pela manhã levar-te-ei ao Sultão, e rogarei a Allah que te abençoe com toda a sorte de prosperidade". Então Nur al-Din deixou-o e entrou ter com a sua esposa, a filha do Wazir. Até aqui o que diz respeito a ele, mas no que toca ao seu irmão mais velho, Shams al-Din, ele esteve ausente com o Sultão por um longo tempo e, quando regressou da sua viagem, não encontrou o seu irmão; e perguntou aos seus servos e escravos, que responderam: "No dia da tua partida com o Sultão, o teu irmão montou a sua mula, totalmente ajaezada como para uma procissão de estado, dizendo: 'Vou em direção à cidade de Kalyub e estarei ausente um dia ou, no máximo, dois dias; pois o meu peito está oprimido, e que nenhum de vós me siga'". Então ele partiu e, desde aquele momento até agora, não tivemos notícias dele. Shams al-Din ficou muito perturbado com o desaparecimento súbito do seu irmão e afligiu-se com excessiva mágoa pela perda, e disse para consigo: "Isto é apenas porque o repreendi e censurei na noite anterior à minha partida com o Sultão; talvez os seus sentimentos tenham sido feridos e ele tenha partido em viagem; mas devo enviar alguém atrás dele". Então, ele foi ter com o Sultão e inteirou-o do que havia acontecido, e escreveu cartas e despachos, que enviou por mensageiros a pé aos seus delegados em cada província. Mas, durante os vinte dias da ausência do seu irmão, Nur al-Din tinha viajado para longe e chegado a Bassorah; assim, após diligente busca, os mensageiros não conseguiram obter qualquer notícia dele e regressaram. Ato contínuo, Shams al-Din desesperou de encontrar o seu irmão e disse: "Na verdade, excedi todos os limites no que lhe disse com referência ao casamento dos nossos filhos. Oxalá não o tivesse feito! Tudo isto provém da minha falta de engenho e falta de cautela". Pouco depois disto, pediu em casamento a filha de um mercador do Cairo e redigiu o contrato de casamento e consumou-o. E aconteceu que, na mesma noite em que Shams al-Din foi ter com a sua esposa, Nur al-Din também foi ter com a sua esposa, a filha do Wazir de Bassorah; sendo isto de acordo com a vontade de Allah Todo-Poderoso, para que Ele pudesse aplicar os decretos do Destino às Suas criaturas. Além disso, foi como os dois irmãos tinham dito; pois as suas duas esposas ficaram grávidas deles na mesma noite e ambas deram à luz no mesmo dia; a esposa de Shams al-Din, Wazir do Egito, de uma filha, jamais no Cairo se viu mais formosa; e a esposa de Nur al-Din de um filho, nenhum mais belo foi jamais visto no seu tempo, como um dos poetas disse a respeito de alguém como ele:

Aquele cabelo de azeviche, aquela fronte lustrosa, Meu jovem de cintura esguia, o teu, Pode lançar trevas em redor da criação, Ou fazê-la brilhar intensamente. A toupeira sombria que fracamente se mostra Na sua face, ah! não a culpes; A flor da tulipa nunca floresce Sem ser escurecida pela sua mancha.

E como outro também disse:

O seu perfume era almíscar e a sua face rosa; ✿ Os seus dentes são pérolas e os seus lábios destilam vinho; A sua forma é uma brasa e as suas ancas uma colina; ✿ O seu cabelo é a noite e o seu rosto o brilho da lua.

Deram ao rapaz o nome de Badr al-Din Hasan e o seu avô, o Wazir de Bassorah, alegrou-se com ele e, no sétimo dia após o seu nascimento, fez festejos e estendeu banquetes que seriam dignos do nascimento de filhos e herdeiros de Reis. Então, ele tomou Nur al-Din e subiu com ele ao Sultão, e o seu genro, quando chegou perante a presença do Rei, beijou o solo entre as suas mãos e repetiu estes versos, pois ele era pronto no falar, firme de espírito e bom de coração, tal como era formoso na forma:

Que as melhores alegrias do mundo sejam por muito tempo a tua sorte, meu senhor! ✿ E que durem enquanto as trevas e o amanhecer se sobrepõem: Ó tu que fazes, quando saudamos as tuas dádivas, ✿ O mundo dançar e o Tempo bater as palmas.

Então o Sultão levantou-se para os honrar e, agradecendo a Nur al-Din pelo seu belo cumprimento, perguntou ao Wazir: "Quem poderá ser este jovem?"; e o Ministro respondeu: "Este é o filho do meu irmão", e relatou a sua história do princípio ao fim. Disse o Sultão: "E como vem ele a ser teu sobrinho e nunca ouvimos falar dele?". Disse o Ministro: "Ó nosso senhor, o Sultão, eu tinha um irmão que era Wazir na terra do Egito e ele morreu, deixando dois filhos, dos quais o mais velho tomou o lugar do seu pai e o mais novo, que tu vês, veio ter comigo. Eu tinha jurado que não casaria a minha filha com ninguém senão com ele; por isso, quando ele veio, casei-o com ela. Agora ele é jovem e eu sou velho; a minha audição está embotada e o meu juízo é facilmente enganado; por isso solicitaria ao nosso senhor, o Sultão, que o colocasse no meu lugar, pois ele é o filho do meu irmão e o marido da minha filha; e ele é apto para o Wazirado, sendo um homem de bom conselho e pronto engenho". O Sultão olhou para Nur al-Din e gostou dele, por isso estabeleceu-o no cargo como o Wazir tinha solicitado e nomeou-o formalmente, presenteando-o com um esplêndido traje de honra e uma mula da sua cavalariça privada; e atribuindo-lhe soldo, estipêndios e provisões. Nur al-Din beijou a mão do Sultão e foi para casa, ele e o seu sogro, alegrando-se com excessiva alegria e dizendo: "Tudo isto segue-se aos calcanhares do nascimento do rapaz Hasan!". No dia seguinte, apresentou-se perante o Rei e, beijando o solo, começou a repetir:

Cresça a tua prosperidade e o teu bem-estar dia após dia: ✿ E que a tua sorte prevaleça sobre o despeito do invejoso; E nunca deixem os teus dias de ser brancos como o dia, ✿ E o dia do teu inimigo de ser negro como a noite!

O Sultão ordenou que ele se sentasse no assento do Wazir, por isso ele sentou-se e dedicou-se aos negócios do seu cargo e examinou os casos dos súbditos e as suas demandas, como é o costume dos Ministros; enquanto o Sultão o observava e se maravilhava com a sua inteligência e bom senso, juízo e perspicácia. Pelo que ele o amou e tomou-o na sua intimidade. Quando o Divan foi dispensado, Nur al-Din regressou à sua casa e relatou o que tinha passado ao seu sogro, que se alegrou. E daí em diante, Nur al-Din não cessou de administrar o Wazirado de tal modo que o Sultão não se separava dele noite ou dia; e aumentou os seus estipêndios e provisões até que os seus meios fossem amplos e ele se tornasse proprietário de navios que faziam viagens comerciais sob o seu comando, assim como de Mamelucos e escravos negros; e ele dispôs muitas propriedades e instalou noras e plantou jardins. Quando o seu filho Hasan tinha quatro anos de idade, o velho Wazir faleceu, e ele fez para o seu sogro uma suntuosa cerimónia fúnebre antes de ele ser posto no pó. Então, ele ocupou-se com a educação deste filho e, quando o rapaz se tornou forte e chegou à idade de sete anos, trouxe-lhe um Fakih, um doutor em lei e religião, para o ensinar na sua própria casa e incumbiu-o de lhe dar uma boa educação e instruí-lo na polidez e bons modos. Então o tutor fez o rapaz ler e reter todas as variedades de conhecimento útil, depois de ter passado alguns anos aprendendo o Alcorão de cor; e ele não cessou de crescer em beleza, estatura e simetria, tal como diz o poeta:

No seu rosto-céu brilha a lua cheia; ✿ Na anémona das suas faces brilha o sol: Ele conquistou a Beleza de tal modo que ganhou ✿ Todos os encantos da humanidade um por um.

O professor educou-o no palácio do seu pai, ensinando-lhe a ler, escrever e calcular, teologia e belas-letras. O seu avô, o velho Wazir, tinha-lhe legado a totalidade da sua propriedade quando ele tinha apenas quatro anos de idade. Agora, durante todo o tempo da sua juventude mais remota, ele nunca tinha saído de casa, até que, num certo dia, o seu pai, o Wazir Nur al-Din, vestiu-o com as suas melhores roupas e, montando-o numa mula das melhores, subiu com ele ao Sultão. O Rei olhou para Badr al-Din Hasan e maravilhava-se com a sua formosura e amava-o. Quanto aos habitantes da cidade, quando ele passou pela primeira vez perante eles com o seu pai, maravilharam-se com a sua beleza excessiva e sentaram-se na estrada à espera do seu regresso, para que pudessem saciar os olhos na sua beleza, amabilidade, simetria e perfeita graça; tal como o poeta disse nestes versos:

Como o sábio observava as estrelas, a semelhança clara De um belo jovem no seu pergaminho ele viu aparecer. Aqueles olhares de azeviche Canopus sobre ele lançou, E tingiu os cachos das suas têmporas com um tom almiscarado; Marte tingiu a sua face rubicunda; e dos seus olhos A estrela Arqueira lança a sua seta cintilante; O seu engenho veio de Hermes; e o cuidado de Soha, (A estrela semi-vista que debilmente assombra a Ursa) Afastou todos os maus olhares que ameaçam e enredam, O sábio ficou estupefacto ao ver tais destinos encontrarem-se, E a Lua beijou a terra sob os seus pés.

E abençoaram-no em voz alta enquanto ele passava e invocaram Allah Todo-Poderoso para o abençoar. O Sultão tratou o rapaz com especial favor e disse ao seu pai: "Ó Wazir, tu tens de o trazer diariamente à minha presença"; ao que ele respondeu: "Ouço e obedeço". Então o Wazir regressou a casa com o seu filho e não cessou de o levar à corte até que ele atingisse a idade de vinte anos. Nessa altura, o Ministro adoeceu e, enviando chamar Badr al-Din Hasan, disse-lhe: "Sabe, ó meu filho, que o mundo do Presente é apenas uma casa de mortalidade, enquanto o do Futuro é uma casa de eternidade. Desejo, antes de morrer, legar-te certas incumbências e tu presta atenção ao que digo e inclina o teu coração às minhas palavras". Então deu-lhe as suas últimas instruções quanto à forma mais apropriada de lidar com os seus vizinhos e a devida gestão dos seus assuntos; após o que ele recordou o seu irmão, o seu lar e a sua terra natal e chorou pela sua separação daqueles que tinha amado primeiro. Então, enxugou as suas lágrimas e, voltando-se para o seu filho, disse-lhe: "Antes de prosseguir, ó meu filho, para as minhas últimas ordens e injunções, sabe que eu tenho um irmão, e tu tens um tio, chamado Shams al-Din, o Wazir do Cairo, com quem me separei, deixando-o contra a sua vontade. Agora toma uma folha de papel e escreve nela tudo o que eu te disser". Badr al-Din tomou uma bela folha e começou a fazer a vontade do seu pai e escreveu nela um relato completo do que tinha acontecido ao seu progenitor, do princípio ao fim; as datas da sua chegada a Bassorah e do seu encontro com o Wazir; do seu casamento, do seu encontro com a filha do Ministro e do nascimento do seu filho; em suma, a sua vida de quarenta anos desde o dia da sua disputa com o seu irmão, acrescentando as palavras: "E isto é escrito sob o meu ditado e que Allah Todo-Poderoso esteja com ele quando eu me for!". Então ele dobrou o papel e selou-o e disse: "Ó Hasan, ó meu filho, guarda este papel com todo o cuidado; pois ele permitir-te-á estabelecer a tua origem, posição e linhagem e, se alguma coisa contrária te acontecer, parte para o Cairo e pergunta pelo teu tio e mostra-lhe este papel e diz-lhe que eu morri como um estranho, longe do meu próprio povo e cheio de desejo de o ver a ele e a eles". Então Badr al-Din Hasan tomou o documento e dobrou-o; e, envolvendo-o num pedaço de pano encerado, costurou-o como um talismã entre o tecido interior e exterior do seu barrete e enrolou o seu turbante leve em redor dele. E começou a chorar pelo seu pai e pela separação dele, sendo ele apenas um rapaz. Então Nur al-Din caiu num desmaio, o precursor da morte; mas, recuperando-se pouco depois, disse: "Ó Hasan, ó meu filho, vou agora legar-te cinco últimas ordens. A PRIMEIRA ORDEM é: sê excessivamente íntimo de ninguém, nem frequentes ninguém, nem sejas familiar com ninguém; assim estarás a salvo da sua maldade; pois a segurança reside na reclusão do pensamento e numa certa aposentadoria da sociedade dos teus pares; e eu ouvi um poeta dizer:

Neste mundo não há ninguém em quem possas contar Para ser amigo da tua causa na hora da necessidade: Por isso vive para ti mesmo, sem nutrir esperança de ninguém Tal conselho te dou: basta, presta atenção!

A SEGUNDA ORDEM é, ó meu filho: sê duro com ninguém, para que a sorte não seja dura contigo; pois a sorte deste mundo é um dia contigo e outro dia contra ti e todos os bens mundanos são apenas um empréstimo a ser reembolsado. E eu ouvi um poeta dizer:

Reflete nem te apresses a ganhar a coisa que queres; Tem compaixão pelo homem, pois compaixão poderás requerer: Não há mão senão a mão de Allah que seja mais alta; Nenhum tirano que não se arrependa da ira de um tirano pior!

A TERCEIRA ORDEM é: Aprende a ser silencioso em sociedade e deixa que as tuas próprias falhas distraiam a tua atenção das falhas de outros homens: pois é dito: No silêncio reside a segurança, e sobre isso ouvi os versos que nos dizem:

A reserva é uma joia, o Silêncio é segurança; Quando falas, retém muitas palavras: Pois se do Silêncio te arrependeres uma vez, Do discurso te arrependerás muitas vezes mais.

A QUARTA ORDEM, ó meu filho, é: Cuidado com a embriaguez pelo vinho, pois o vinho é a cabeça de toda a obstinação e um fino solvente do engenho humano. Por isso evita, e digo-o de novo, evita misturar bebidas fortes; pois ouvi um poeta dizer:

Do vinho eu viro-me e de quem os copos de vinho esvazia; Tornando-me um daqueles que o consideram um mal: O vinho leva o homem a perder o caminho da salvação, E abre a porta larga para os pecados que matam.

A QUINTA ORDEM, ó meu filho, é: Guarda a tua riqueza e ela guardar-te-á; guarda o teu dinheiro e ele guardar-te-á; e não desperdices a tua substância para que talvez não venhas a passar necessidade e tenhas de ir pedir esmola aos mais vis da humanidade. Poupa os teus dirhams e considera-os o bálsamo mais soberano para as feridas do mundo. E aqui, de novo, ouvi dizer que um dos poetas disse:

Quando a minha riqueza falha, nenhum amigo se dignará a ser amigo: Quando a riqueza abunda, todos os amigos oferecem a sua amizade: Quantos amigos emprestaram ajuda a gastar a minha riqueza; Mas amigos para a falta de riqueza nenhuma amizade oferecem.

Desta forma, Nur al-Din não cessou de aconselhar o seu filho Badr al-Din Hasan até que a sua hora chegou e, suspirando um suspiro soluçante, a sua vida partiu. Então a voz do luto e do pranto ergueu-se alta na sua casa e o Sultão e todos os grandes do reino afligiram-se por ele e sepultaram-no; mas o seu filho não cessou de lamentar a sua perda durante dois meses, durante os quais nunca montou a cavalo, nem compareceu ao Divan, nem se apresentou perante o Sultão. Por fim, o Rei, estando irado com ele, estabeleceu no seu lugar um dos seus Camareiros e fez dele Wazir, dando ordens para apreender e colocar selos em todas as casas, bens e domínios de Nur al-Din. Então o novo Wazir saiu com uma poderosa força de Camareiros e pessoas do Divan, e guardas e uma hoste de ociosos para fazer isto e para apreender Badr al-Din Hasan e levá-lo perante o Rei, que lidaria com ele como bem entendesse. Ora, havia entre a multidão de seguidores um Mameluco do falecido Wazir que, quando ouviu esta ordem, impeliu o seu cavalo e cavalgou a toda a velocidade para a casa de Badr al-Din Hasan; pois não podia suportar ver a ruína do filho do seu antigo mestre. Encontrou-o sentado à porta com a cabeça pendida e a afligir-se, como era o seu costume, pela perda do seu pai; então desmontou e, beijando-lhe a mão, disse-lhe: "Ó meu senhor e filho do meu senhor, apressa-te antes que a ruína venha e devasta tudo!". Quando Hasan ouviu isto, tremeu e perguntou: "O que poderá ser?"; e o homem respondeu: "O Sultão está irado contigo e emitiu um mandado contra ti, e o mal vem logo atrás dos meus passos; por isso foge com a tua vida!". A estas palavras, o coração de Hasan inflamou-se com o fogo da desgraça, e a sua face cor-de-rosa empalideceu, e ele disse ao Mameluco: "Ó meu irmão, haverá tempo para eu entrar e obter alguns bens mundanos que possam ser-me úteis durante o meu estranhamento?". Mas o escravo respondeu: "Ó meu senhor, levanta-te imediatamente e salva-te e deixa esta casa, enquanto ainda há tempo". E citou estes versos:

Foge com a tua vida, se a opressão te atingir, E deixa a casa contar o destino do seu construtor! País por país encontrarás, se o procurares; Vida por vida nunca, cedo ou tarde. É estranho que os homens vivam na casa da abjeção, Quando a planície da terra de Deus é tão vasta e tão grande!

A estas palavras do Mameluco, Badr al-Din cobriu a cabeça com a orla da sua vestimenta e saiu a pé até ficar fora da cidade, onde ouviu as pessoas dizerem: "O Sultão enviou o seu novo Wazir à casa do antigo Wazir, já não mais presente, para selar a sua propriedade e apreender o seu filho Badr al-Din Hasan e levá-lo perante a presença, para que ele o possa condenar à morte"; e todos gritavam: "Ai da sua beleza e da sua formosura!". Quando ele ouviu isto, fugiu ao acaso, não sabendo para onde ia, e não cessou de se apressar até que o Destino o conduziu ao túmulo do seu pai. Assim, entrou no cemitério e, percorrendo o caminho por entre as sepulturas, chegou por fim ao sepulcro onde se sentou e deixou cair da cabeça a orla da sua longa túnica que era feita de brocado com uma bainha bordada a ouro sobre a qual estavam trabalhados estes dísticos:

Ó tu cuja testa, como o Oriente radiante, Fala das estrelas do Céu e dos orvalhos generosos: Dure a tua honra até ao último dia, E que o Tempo nunca recuse o teu crescimento de glória!

Enquanto ele estava sentado junto ao túmulo do seu pai, eis que veio ter com ele um judeu, como se fosse um Shroff, um cambista, com um par de alforjes contendo muito ouro, que o abordou e beijou-lhe a mão, dizendo: "Para onde vais, ó meu senhor: é tarde e estás vestido apenas levemente e leio sinais de problemas no teu rosto?". "Estava a dormir nesta mesma hora", respondeu Hasan, "quando o meu pai apareceu-me e censurou-me por não ter visitado o seu túmulo; por isso acordei a tremer e vim até aqui imediatamente, para que o dia não passasse sem que eu o visitasse, o que teria sido penoso para mim". "Ó meu senhor", replicou o judeu, "o teu pai tinha muitos navios mercantes no mar e, como alguns deles são agora esperados, é o meu desejo comprar-te a carga do primeiro navio que chegar ao porto com estes mil dinares de ouro". "Eu concordo", disse Hasan, ao que o judeu tirou um saco cheio de ouro e contou mil sequins que deu a Hasan, o filho do Wazir, dizendo: "Escreve-me uma carta de venda e sela-a". Então Hasan pegou numa caneta e papel e escreveu estas palavras em duplicado: "O escritor, Hasan Badr al-Din, filho do Wazir Nur al-Din, vendeu a Isaac, o judeu, toda a carga do primeiro dos navios do seu pai que chegar ao porto, por mil dinares, e recebeu o preço adiantado". E depois de ter tomado uma cópia, o judeu colocou-a na sua bolsa e foi-se embora; mas Hasan começou a chorar ao pensar na dignidade e prosperidade que outrora tinham sido suas e começou a recitar:

Esta casa, minha senhora, desde que partiste, já não é mais um lar para mim, Nem os vizinhos, desde que partiste, provam ser gentis ou vizinhos: O amigo, a quem outrora tomei a peito, ai de mim! já não é para mim Um amigo; e até a própria Lua exibe a sua lunatismo: Partiste e, com a tua partida, deixaste o mundo um baldio, uma charneca, E paira uma penumbra lúgubre sobre a face da colina e do prado: Oh, que o pássaro-corvo cujo grasnar coaxou a nossa funesta separação Jamais encontre um ninho e, mais, perca toda a sua plumagem! Por fim, a minha paciência falha; e esta ausência consome a minha carne; Quantos véus, rasgados pela separação, os nossos olhos estão condenados a ver: Ah! voltarei a avistar as nossas belas noites passadas de outrora; E tornar-se-á, uma vez mais, uma única casa um lar para mim?

Então ele chorou com um choro excessivo e a noite caiu sobre ele; assim, ele encostou a cabeça contra o túmulo do seu pai e o sono venceu-o: Glória Àquele que não dorme! Ele não cessou de adormecer até que a lua surgiu, quando a sua cabeça escorregou do túmulo e ele deitou-se de costas, com os membros estendidos, o seu rosto brilhando intensamente ao luar. Ora, o cemitério era assombrado dia e noite por Jinns que eram dos Verdadeiros Crentes, e logo saiu uma Jinniyah que, vendo Hasan adormecido, maravilhou-se com a sua beleza e formosura e exclamou: "Glória a Deus! Este jovem não pode ser outro senão um dos Wuldán do Paraíso." Então ela voou em direção ao firmamento para o circundar, como era o seu costume, e encontrou um Ifrit em pleno voo que a saudou e ela disse-lhe: "De onde vens?" "Do Cairo", respondeu ele. "Virás comigo e contemplarás a beleza de um jovem que dorme naquele lugar de sepultura?" perguntou ela, e ele respondeu: "Irei." Assim, voaram até pousarem no túmulo e ela mostrou-lhe o jovem e disse: "Ora, alguma vez na tua vida viste algo como isto?" O Ifrit olhou para ele e exclamou: "Louvado seja Aquele que não tem igual! Mas, ó minha irmã, dir-te-ei o que vi este dia?" Perguntou ela: "O que é isso?" e ele respondeu: "Vi a contraparte deste jovem na terra do Egito. Ela é filha do Wazir Shams al-Din e é um modelo de beleza e formosura, de semblante muito justo e forma harmoniosa, e dotada de simetria e graça perfeita. Quando ela atingiu a idade de dezanove anos, o Sultão do Egito ouviu falar dela e, mandando chamar o Wazir, seu pai, disse-lhe: — Ouve-me, ó Wazir: chegou aos meus ouvidos que tens uma filha e desejo pedi-la em casamento. O Wazir respondeu: — Ó nosso senhor o Sultão, digna-te aceitar as minhas desculpas e tem compaixão das minhas mágoas, pois sabes que o meu irmão, que era meu sócio no Wazirado, desapareceu de entre nós há muitos anos e não sabemos onde ele está. Ora, a causa da sua partida foi que, uma noite, enquanto estávamos sentados juntos e conversando sobre esposas e filhos por vir, tivemos palavras sobre o assunto e ele partiu muito ofendido. Mas eu jurei que não casaria a minha filha com ninguém a não ser com o filho do meu irmão no dia em que a mãe dela a deu à luz, o que foi perto de dezanove anos atrás. Soube recentemente que o meu irmão morreu em Bassorá, onde se tinha casado com a filha do Wazir e que ela lhe deu um filho; e não casarei a minha filha senão com ele em honra da memória do meu irmão. Registei a data do meu casamento e a conceção da minha esposa e o nascimento da minha filha; e do seu horóscopo descobri que o nome dela está conjugado com o do seu primo; e há donzelas em abundância para o nosso senhor o Sultão. O Rei, ouvindo a resposta e a recusa do seu Ministro, enfureceu-se com ira excessiva e exclamou: — Quando alguém como eu pede uma rapariga em casamento a alguém como tu, confere uma honra, e tu rejeitas-me e adias-me com desculpas frias! Agora, pela vida da minha cabeça, casá-la-ei com o mais humilde dos meus homens, apesar do teu nariz! Havia no palácio um cavalariço que era um corcunda com uma bossa no peito e uma corcunda nas costas; e o Sultão mandou chamá-lo e casou-o com a filha do Wazir, quer ela quisesse quer não, e ordenou um pomposo cortejo nupcial para ele e que ele se deitasse com a sua noiva esta mesma noite. Acabei de voar para aqui desde o Cairo, onde deixei o Corcunda à porta do banho Hammam, no meio dos escravos brancos do Sultão que agitavam archotes acesos à volta dele. Quanto à filha do Ministro, ela está sentada entre as suas amas e criadas, chorando e lamentando-se; pois proibiram o pai de se aproximar dela. Nunca vi, ó minha irmã, ser mais hediondo do que este Corcunda, enquanto a jovem é a que mais se assemelha a este jovem, embora ainda mais justa do que ele." — E Shahrazad percebeu o romper da aurora e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Ora, quando foi a Vigésima Segunda Noite,

Ela disse: Chegou-me, ó Rei auspicioso, que quando o Jinni narrou à Jinniyah como o Rei tinha feito lavrar o contrato de casamento entre o noivo corcunda e a adorável jovem que estava desconsolada de tristeza; e como ela era a mais justa das coisas criadas e ainda mais bela do que este jovem, a Jinniyah gritou-lhe: "Tu mentes! Este jovem é mais bonito do que qualquer um do seu tempo." O Ifrit chamou-a mentirosa de novo, acrescentando: "Por Allah, ó minha irmã, a donzela de quem falo é mais justa do que esta; contudo, ninguém senão ele a merece, pois assemelham-se um ao outro como irmão e irmã ou, pelo menos, primos. E, ai de mim! como ela é desperdiçada com aquele Corcunda!" Então ela disse: "Ó meu irmão, coloquemo-nos debaixo dele, levantemo-lo e levemo-lo para o Cairo, para que possamos compará-lo com a donzela de quem falas e assim determinar qual dos dois é o mais justo." "Ouvir é obedecer!" respondeu ele, "falas com razão; nem há cálculo mais correto do que este teu, e eu próprio o carregarei." Assim, ele ergueu-o do chão e voou com ele como um pássaro a pairar no ar superior, a Ifritah mantendo-se perto do seu lado a velocidade igual, até que ele pousou com ele na cidade do Cairo e o colocou num banco de pedra e acordou-o. Ele despertou e, descobrindo que já não estava no túmulo do seu pai na cidade de Bassorá, olhou para a direita e para a esquerda e viu que estava num lugar estranho; e ele teria gritado; mas o Ifrit deu-lhe um safanão que o persuadiu a manter silêncio. Então trouxe-lhe vestes ricas e vestiu-o nelas e, dando-lhe um archote aceso, disse: "Sabe que te trouxe aqui, tencionando fazer-te um favor pelo amor de Allah: por isso, pega nesta tocha e mistura-te com as pessoas à porta do Hammam e continua com elas sem parar até chegares à casa da festa de casamento; então avança com audácia e entra no grande salão; e não temas ninguém, mas coloca-te à mão direita do noivo Corcunda; e, sempre que qualquer das amas e criadas e cantoras se aproximar de ti, mete a mão no teu bolso, que encontrarás cheio de ouro. Tira-o e atira-o para elas e não poupes; pois sempre que enfiares os dedos na bolsa, encontrá-la-ás cheia de moeda. Dá esmolas às mãos cheias e não temas nada, mas deposita a tua confiança Naquele que te criou, pois isto não é pela tua própria força, mas pela de Allah Todo-Poderoso, para que os Seus decretos se cumpram sobre as suas criaturas." Quando Badr al-Din Hasan ouviu estas palavras do Ifrit, disse para consigo: "Oxalá eu soubesse o que tudo isto significa e qual é a causa de tal bondade!" Contudo, ele misturou-se com as pessoas e, acendendo o seu archote, avançou com o cortejo nupcial até chegar ao banho, onde encontrou o Corcunda já montado a cavalo. Então abriu caminho entre a multidão, um verdadeiro belo homem com as melhores vestes, usando tarbush e turbante e uma túnica de mangas compridas bordada a ouro; e, sempre que as cantoras paravam para que as pessoas lhes dessem esmolas, ele metia a mão no bolso e, encontrando-o cheio de ouro, tirava um punhado e atirava-o sobre o tamborim até que o encheu de moedas de ouro para as raparigas da música e as criadas. As cantoras ficaram maravilhadas com a sua generosidade e as pessoas pasmaram com a sua beleza e formosura e o esplendor das suas vestes. Ele não cessou de fazer isto até chegar à mansão do Wazir (que era seu tio), onde os Camareiros afastaram as pessoas e as proibiram de avançar; mas as cantoras e as criadas disseram: "Por Allah, não entraremos a menos que este jovem entre connosco, pois ele deu-nos longevidade com as suas esmolas e não exibiremos a noiva a menos que ele esteja presente." Com isso, levaram-no para o salão nupcial e fizeram-no sentar, desafiando os olhares malignos do noivo corcunda. As esposas dos Emires e Wazires e Camareiros e Cortesãos estavam todas em fila dupla, cada uma segurando um círio maciço pronto a ser acendido; todas usavam véus finos no rosto e as duas filas, à direita e à esquerda, estendiam-se desde o trono da noiva até à cabeceira do salão, adjacente à câmara de onde ela devia sair. Quando as damas viram Badr al-Din Hasan e notaram a sua beleza e formosura e o seu rosto que brilhava como a lua nova, os seus corações inclinaram-se para ele e as cantoras disseram a todas as presentes: "Sabei que este belo nos cruzou as mãos apenas com ouro vermelho; por isso, não sejais avarentas em prestar-lhe serviço feminino e cumprir tudo o que ele disser, não importa o que peça." Assim, todas as mulheres se aglomeraram à volta de Hasan com as suas tochas e contemplaram a sua formosura e invejaram a sua beleza; e todas e cada uma teriam ficado felizes por se deitar no seu peito por uma hora ou, melhor, um ano. Os seus corações estavam tão perturbados que deixaram cair os seus véus de diante dos seus rostos e disseram: "Feliz aquela que pertence a este jovem ou a quem ele pertence!"; e amaldiçoaram o noivo torto e aquele que foi a causa do seu casamento com a beleza da rapariga; e sempre que abençoavam Badr al-Din Hasan, maldiziam o Corcunda, dizendo: "Verdadeiramente este jovem e ninguém mais merece a nossa Noiva: ai, ai de alguém tão adorável com este Quasimodo hediondo; que a maldição de Allah caia sobre a sua cabeça e sobre o Sultão que ordenou o casamento!" Então as cantoras bateram nos seus tambores e lançaram gritos de alegria, anunciando o aparecimento da noiva; e a filha do Wazir entrou rodeada pelas suas criadas que a tinham tornado bela de ver; pois tinham-na perfumado e incensado e adornado o seu cabelo; e tinham-na vestido com vestes e ornamentos dignos dos poderosos Reis Cosroes. A parte mais notável do seu vestido era uma túnica larga usada sobre as suas outras vestes: estava bordada a ouro vermelho com figuras de animais selvagens, e pássaros cujos olhos e bicos eram de gemas, e garras de rubis vermelhos e berilo verde; e o seu pescoço foi adornado com um colar de trabalho Yamani, que valia milhares de peças de ouro, cujos engastes eram grandes joias redondas de várias espécies, as quais jamais foram possuídas por Kaysar ou pelo Rei Tobba. E a noiva era como a lua cheia quando no seu auge na décima quarta noite; e enquanto ela caminhava pelo salão, ela era como uma das Houris do Paraíso — louvado seja Aquele que a criou em tal esplendor de beleza! As damas cercavam-na como o branco contém o preto do olho, agrupando-se como estrelas enquanto ela brilhava entre elas como a lua quando consome as nuvens. Ora, Badr al-Din Hasan de Bassorá estava sentado à vista de todos, quando a noiva avançou com o seu andar gracioso e ondulante, e o seu noivo corcunda levantou-se para a encontrar e receber: ela, contudo, afastou-se do desgraçado e caminhou em frente até estar diante do seu primo Hasan, o filho do seu tio. Ao que as pessoas se riram. Mas quando os convidados do casamento a viram assim atraída para Badr al-Din, fizeram um clamor imenso e as cantoras gritaram o mais alto que podiam; ao que ele meteu a mão no bolso e, tirando um punhado de ouro, atirou-o para os seus tamborins e as raparigas regozijaram-se e disseram: "Se pudéssemos alcançar o nosso desejo, esta noiva seria tua!" A isto ele sorriu e as pessoas vieram à volta dele, archotes na mão como o globo ocular à volta da pupila, enquanto o noivo Gobbo foi deixado sentado sozinho, muito parecido com um babuíno sem cauda; pois cada vez que acendiam uma vela para ele, ela apagava-se querendo ou não, de modo que ele foi deixado na escuridão e no silêncio e olhando para nada senão para si mesmo. Quando Badr al-Din Hasan viu o noivo sentado solitário no escuro, e todos os convidados do casamento com os seus archotes e velas de cera aglomerados à volta de si mesmo, ficou perplexo e maravilhou-se muito; mas quando olhou para a sua prima, a filha do seu tio, regozijou-se e sentiu um deleite interior: ansiou por saudá-la e fixou o olhar no seu rosto que estava radiante de luz e brilho. Então as criadas tiraram-lhe o véu e exibiram-na no primeiro vestido de noiva que era de cetim escarlate; e Hasan teve uma visão dela que deslumbrou a sua vista e atordoou o seu juízo, enquanto ela se movia de um lado para o outro, balançando com andar gracioso; e ela virou as cabeças de todos os convidados, mulheres bem como homens, pois ela era mesmo como diz o poeta transcendente:

Um sol num bastão sobre uma colina de areia ela mostrou, ✿ Vestida na sua camisola de tom carmesim: Dos seus lábios de orvalho de mel ela deu-me de beber, ✿ E com as suas bochechas rosadas ela apagou o fogo que ateou.

Então mudaram esse vestido e exibiram-na numa túnica de azul; e ela reapareceu como a lua cheia quando se levanta sobre o horizonte, com o seu cabelo negro como carvão e bochechas delicadamente claras; e dentes mostrados num doce sorriso e seios firmemente erguidos e lados coroados da maior suavidade e cintura das mais redondas. E neste segundo traje ela era como um certo mestre de altos conceitos diz de alguém como ela:

Ela veio vestida com uma túnica azul, ✿ Ultramarino, como os céus estão adornados e decorados: Contemplei a visão sem paralelo, que mostrou aos meus olhos ✿ Uma lua de Verão numa noite de Inverno.

Então mudaram esse traje por outro e, velando o seu rosto na luxuriância do seu cabelo, soltaram as suas madeixas, tão escuras, tão longas que a sua escuridão e comprimento superavam as noites mais escuras, e ela atravessou todos os corações com a flecha mágica dos seus olhos. Exibiram-na no terceiro vestido e ela era como disse dela o ditador:

Velando as suas bochechas com cabelo pela manhã ela vem, ✿ E eu comparo as suas travessuras com a nuvem: Dizendo, "Velaste a manhã com a noite!" "Ah não!" ✿ Disse ela, "Eu envolvo a lua cheia com ar escuro!"

Então exibiram-na no quarto vestido de noiva e ela avançou brilhando como o sol nascente e balançando de um lado para o outro com graça amorosa e facilidade flexível como uma cria de gazela. E ela fendeu todos os corações com as flechas das suas pestanas, mesmo como diz alguém que descreveu uma encantadora como ela:

O sol da beleza ela aparece à vista ✿ E, amorosamente tímida, ela zomba de toda a beleza; E quando ele enfrenta o seu favor e o seu sorriso ✿ Pela manhã, o Sol do dia deve vestir-se em nuvens.

Então ela saiu no quinto vestido, uma verdadeira luz de formosura como um bastão de salgueiro a ondular ou uma gazela do baldio sedento. Aquelas madeixas que picavam como escorpiões ao longo das suas bochechas estavam curvadas, e o seu pescoço estava inclinado em blandícia, e as suas ancas tremiam enquanto ela caminhava. Como diz um dos poetas descrevendo-a em verso:

Ela vem como a lua cheia na noite feliz; ✿ Afunilada de cintura, com forma de poder mágico: Ela tem um olho cujos olhares subjugam a humanidade, ✿ E o Rubi nas suas bochechas reflete a sua luz: Envolvem as suas ancas a escuridão do seu cabelo; ✿ Cuidado com os caracóis que picam com picada de víbora! Os seus lados são macios como a seda, enquanto o coração ✿ Pura rocha por trás dessa superfície espreita fora da vista: Das cortinas franjadas dos seus olhos ela dispara ✿ Flechas que no alcance mais distante atingem o alvo: Quando à volta do seu pescoço ou cintura lanço os meus braços ✿ Os seus seios repelem-me com a sua altura endurecida: Ah, como a sua beleza a todos supera! ah como ✿ Aquela forma transcende o gracioso ramo ondulante!

Então adornaram-na com a sexta toilette, um vestido que era verde. E agora ela envergonhava na sua esbelteza reta a lança castanha; o seu rosto radiante obscurecia os raios mais brilhantes da lua cheia e ela superava os ramos curvados em movimento suave e graça flexível. A sua formosura exaltava as belezas dos quatro cantos da terra e ela partia os corações dos homens pelo significado da sua aparência; pois ela era mesmo como diz um dos poetas nestes versos:

Uma donzela era que a arte do tirante adornara com laços e artifícios: ✿ E vestida com raios como se o sol dela tivesse pedido luz emprestada: Ela veio diante de nós maravilhosamente vestida com camisola de verde, ✿ Como velada pelo seu ecrã folhoso a romãira se esconde da vista: E quando ele disse "Como chamas o modo do teu vestido?" ✿ Ela respondeu-nos de modo agradável com duplo significado adornada; "Chamamos a esta peça crève-cœur; e corretamente é assim chamada, ✿ Pois muitos corações com isto partimos e conquistámos muitos espíritos!"

Então exibiram-na no sétimo vestido, colorido entre o cártamo e o açafrão, mesmo como diz um dos poetas:

Em veste de açafrão pálido e cártamo vermelho ✿ Almíscarada, com sândalo, com âmbar gris, ela veio para enfrentar: "Levanta-te!" gritou a sua juventude, "sai e mostra-te!" ✿ "Senta-te!" disseram as suas ancas, "não podemos suportar o peso!" E quando eu desejei uma volta, a sua Beleza disse ✿ "Faz, faz!" e disse a sua linda vergonha, "Não faças, não faças!"

Assim exibiram a noiva em todas as suas sete toaletes perante Hasan al-Basri, negligenciando totalmente o Corcunda que se sentava amuado a um canto; e, quando ela abriu os olhos, disse: "Ó Allah, faz deste homem o meu esposo e livra-me do mal deste noivo corcunda." Assim que terminaram esta parte da cerimônia, dispensaram os convidados do casamento, que se retiraram, mulheres, crianças e todos, e ninguém restou senão Hasan e o Corcunda, enquanto as camareiras conduziam a noiva a um aposento interior para trocar as suas vestes e atavios e prepará-la para o noivo. Nisso, Quasimodo aproximou-se de Badr al-Din Hasan e disse: "Ó meu senhor, tu nos alegraste esta noite com a tua boa companhia e nos sobrecarregaste com a tua bondade e cortesia; mas agora, por que não te levantas e vais embora?" "Bismillah", respondeu ele; "Em nome de Allah, que assim seja!"; e levantando-se, saiu pela porta, onde o Ifrit o encontrou e disse: "Permanece no teu lugar, ó Badr al-Din, e quando o Corcunda for ao lugar de alívio, entra sem perder tempo e senta-te na alcova; e quando a noiva chegar, diz-lhe: — Sou eu o teu marido, pois o Rei arquitetou este truque apenas temendo por ti o mau-olhado, e aquele que viste não é senão um Syce, um estribeiro, um dos nossos moços de cavalariça. Então aproxima-te dela com ousadia e descobre-lhe o rosto; pois o ciúme tomou conta de nós neste assunto." Enquanto Hasan ainda falava com o Ifrit, eis que o noivo saiu do salão e, entrando no lugar de alívio, sentou-se no assento. Mal tinha ele feito isso, o Ifrit saiu do tanque, onde estava a água, sob a aparência de um rato e guinchou: "Zeek!" Disse o Corcunda: "O que te aflige?"; e o rato cresceu e cresceu até tornar-se um gato preto como o carvão e miou "Meeao! Meeao!" Então cresceu ainda mais e mais até tornar-se um cão e latiu "Owh! Owh!" Quando o noivo viu isso, ficou assustado e exclamou: "Sai daqui, ó azarado!" Mas o cão cresceu e inchou até tornar-se um potro de burro que zurrava e bufava na sua cara "Hauk! Hauk!" Ao que o Corcunda tremeu e gritou: "Vinde em meu auxílio, ó gente da casa!" Mas eis que o potro de burro cresceu e ficou grande como um búfalo e bloqueou o caminho diante dele e falou com a voz dos filhos de Adão, dizendo: "Ai de ti, ó Corcunda, ó fedorento, ó o mais imundo dos estribeiros!" Ouvindo isto, o noivo foi tomado por uma cólica e sentou-se na latrina com as roupas vestidas, com os dentes a castanelar e a bater um contra o outro. Disse o Ifrit: "É o mundo tão estreito para ti que não encontras ninguém para casar senão a minha amada?" Mas como ele estava em silêncio, o Ifrit continuou: "Responde-me ou far-te-ei habitar no pó!" "Por Allah", respondeu o Corcunda, "Ó Rei dos Búfalos, isto não é culpa minha, pois forçaram-me a casar com ela; e, na verdade, eu não sabia que ela tinha um amante entre os búfalos; mas agora arrependo-me, primeiro perante Allah e depois perante ti." Disse-lhe o Ifrit: "Juro-te que se saíres deste lugar, ou se pronunciares uma palavra antes do nascer do sol, asseguradamente torcerei o teu pescoço. Quando o sol nascer, segue o teu caminho e nunca mais voltes a esta casa." Dizendo isto, o Ifrit pegou no noivo Corcunda e colocou-o de cabeça para baixo e pés para cima na fenda da latrina, e disse-lhe: "Deixar-te-ei aqui, mas ficarei à tua espera até ao nascer do sol; e, se te mexeres antes disso, agarrar-te-ei pelos pés e espalharei os teus miolos contra a parede: por isso, cuida da tua vida!" Até aqui sobre o Corcunda, mas quanto a Badr al-Din Hasan de Bassorá, ele deixou o Corcunda e o Ifrit a discutir e a brigar e, entrando na casa, sentou-se bem no meio da alcova; e eis que entrou a noiva, acompanhada por uma velha que ficou à porta e disse: "Ó Pai da Retidão, levanta-te e toma o que Deus te dá." Então a velha foi-se embora e a noiva, Sitt al-Husn ou a Senhora da Beleza como era chamada, entrou na parte interior da alcova de coração partido, dizendo para consigo: "Por Allah, nunca cederei o meu corpo a ele; não, nem mesmo se ele me tirasse a vida!" Mas quando chegou ao extremo, viu Badr al-Din Hasan e disse: "Querido! ainda estás sentado aqui? Por Allah, eu desejava que fosses tu o meu noivo ou, pelo menos, que tu e o estribeiro corcunda fossem parceiros em mim." Ele respondeu: "Ó bela senhora, como poderia o Syce ter acesso a ti, e como poderia ele partilhar-te comigo?" "Então," disse ela, "quem é o meu marido, tu ou ele?" "Sitt al-Husn," respondeu Hasan, "não fizemos isto por mera diversão, mas apenas como um estratagema para afastar o mau-olhado de ti; pois quando as camareiras, as cantoras e os convidados do casamento viram a tua beleza a ser exibida para mim, temeram a fascinação e o teu pai contratou o estribeiro por dez dinares e uma escudela de carne para tirar o mau-olhado de nós; e agora ele recebeu a sua paga e seguiu o seu caminho." Quando a Senhora da Beleza ouviu estas palavras, sorriu, alegrou-se e riu um riso agradável. Então sussurrou-lhe: "Pelo Senhor, tu apagaste um fogo que me torturava e agora, por Allah, ó meu querido moreno, toma-me para ti e aperta-me contra o teu seio!" Então começou a cantar:

Por Allah, põe o teu pé sobre a minha alma; ✿ Pois há longos, longos anos que só por isto anseio: E sussurra-me ao ouvido contos de amor; ✿ Para mim é mais doce que a mais doce canção! Nenhum outro jovem sobre o meu coração há de deitar-se; ✿ Por isso faze-o muitas vezes, querido, e fá-lo por muito tempo.

Então ela despiu as suas vestes exteriores e abriu a sua camisa do pescoço para baixo, mostrando os seus órgãos genitais e toda a redondeza das suas ancas. Quando Badr al-Din viu a visão gloriosa, os seus desejos despertaram, e ele levantou-se e despiu as suas roupas, e envolvendo nas suas calças largas a bolsa de ouro que tinha tomado ao Judeu e que continha os mil dinares, colocou-a sob a borda da cama. Depois tirou o turbante e colocou-o no banco por cima das outras roupas, ficando apenas com a sua touca e a camisa fina de seda azul atada com ouro. Ao que a Senhora da Beleza atraiu-o para si e ele fez o mesmo. Então ele tomou-a nos seus braços e colocou as pernas dela à volta da sua cintura e apontou à queima-roupa aquele canhão colocado onde ele derruba o baluarte da virgindade e o deixa em ruínas. E ele encontrou-a uma pérola não perfurada e não enfiada, e uma potra por todos os homens, exceto ele, não montada; e ele abateu a sua virgindade e teve prazer da sua juventude na sua virilidade e, pouco depois, retirou a espada da bainha; e então regressou ao combate com toda a facilidade; e quando a batalha e o cerco terminaram, uns quinze assaltos ele tinha fornecido e ela concebeu dele naquela mesma noite. Depois, ele colocou a mão debaixo da cabeça dela e ela fez o mesmo, e eles abraçaram-se e adormeceram nos braços um do outro, como um certo poeta disse de tais amantes nestes dísticos:

Visita o teu amante, despreza o que a inveja disse; ✿ Nenhum invejoso vil sorrirá para um amor enaltecido O misericordioso Allah não fez visão mais bela ✿ Do que amantes acoplados que um só leito detém; Peito pressionando peito e vestidos de alegrias próprias, ✿ Com braços almofadados moldados na forma mais fina: E quando o coração fala ao coração com a língua do amor, ✿ Aqueles que os querem separar martelam aço gelado: Se um amigo justo encontrares que a ti se apega, ✿ Vive para esse amigo, esse amigo no coração envolve. Ó vós que nos culpais por amar, amantes gentis, ✿ Dizei, podeis vós ministrar a uma mente doente?

Isto até aqui sobre Badr al-Din Hasan e Sitt al-Husn, a sua prima; mas quanto ao Ifrit, assim que viu os dois adormecidos, disse à Ifritah: "Levanta-te; desliza-te sob o jovem e vamos levá-lo de volta ao seu lugar antes que o amanhecer nos alcance; pois o dia está próximo." Nisso ela avançou e, metendo-se debaixo dele enquanto ele jazia adormecido, levou-o apenas com a sua camisa azul fina, deixando o resto das suas vestes; e não cessou de voar (e o Ifrit competindo com ela no voo) até que o amanhecer os avisou de que tinha chegado a meio do caminho, e o Muezzin começou o seu chamado do Minarete: "Apressai-vos para a salvação! Apressai-vos para a salvação!" Então Allah permitiu que a Sua hoste angelical atingisse o Ifrit com uma estrela cadente, pelo que ele foi consumido, mas a Ifritah escapou e desceu com Badr al-Din no lugar onde o Ifrit foi queimado, e não o levou de volta para Bassorá, temendo que ele sofresse algum mal. Ora, pela ordem Daquele que predestina todas as coisas, eles aterraram em Damasco da Síria, e a Ifritah depôs a sua carga numa das portas da cidade e voou para longe. Quando o dia nasceu e as portas foram abertas, o povo que saiu viu um jovem bonito, sem outra vestimenta senão a sua camisa azul de seda bordada a ouro e a touca, deitado no chão, afogado num sono profundo após o duro trabalho da noite que não lhe permitira descansar. Então o povo, olhando para ele, disse: "Ó sorte a dela com quem este passou a noite! mas oxalá tivesse esperado para vestir as suas roupas." Disse outro, "Uma sorte lamentável a dos filhos das grandes famílias! Talvez ele tenha acabado de sair da taverna por algum motivo seu e o vinho subiu-lhe à cabeça, pelo que perdeu o lugar para onde ia e vagueou até chegar à porta da cidade; e encontrando-a fechada, deitou-se e foi dormir!" Enquanto as pessoas trocavam suposições sobre ele, de repente a brisa da manhã soprou sobre Badr al-Din e, levantando a sua camisa até ao meio, mostrou um estômago e um umbigo com algo abaixo, e pernas e coxas claras como cristal e suaves como creme. Gritou o povo, "Por Allah, ele é um belo rapaz!"; e ao grito, Badr al-Din acordou e encontrou-se deitado à porta de uma cidade com uma multidão reunida à sua volta. Com isto, ele maravilhou-se muito e perguntou: "Onde estou, ó boa gente; e o que vos faz reunir assim à minha volta, e o que tive eu a ver convosco?"; e eles responderam: "Encontrámo-te deitado aqui a dormir durante o chamado da oração da alvorada e isto é tudo o que sabemos do assunto, mas onde dormiste tu na noite passada?" "Por Allah, ó boa gente," respondeu ele, "eu dormi na noite passada no Cairo." Disse alguém, "Tu deves ter estado a comer Hashísh"; e outro, "Ele é um tolo"; e um terceiro, "Ele é uma abóbora"; e um quarto perguntou-lhe, "Estás fora de ti? dormes no Cairo e acordas de manhã à porta da cidade de Damasco!" Gritou ele, "Por Allah, minha boa gente, a todos vós, eu não vos minto: na verdade eu dormi ontem à noite na terra do Egito e ontem à tarde estava em Bassorá." Disse um, "Bem! bem!"; e disse outro, "Ho! ho!"; e um terceiro, "Então! então!"; e um quarto gritou, "Este jovem é louco, está possuído pelo Jinni!" Então bateram palmas para ele e disseram uns aos outros, "Ai, que pena da sua juventude: por Allah um louco! e a loucura não respeita pessoas." Então disseram-lhe, "Recupera o teu juízo e volta à tua razão! Como poderias estar em Bassorá ontem e no Cairo ontem à noite e ainda assim acordar em Damasco esta manhã?" Mas ele insistiu, "Na verdade, eu fui um noivo no Cairo na noite passada." "Talvez tenhas estado a sonhar," responderam eles, "e viste tudo isto no teu sono." Então Hasan refletiu por um momento e disse-lhes, "Por Allah, isto não é um sonho; nem parece uma visão! Eu certamente estava no Cairo onde exibiram a noiva diante de mim, na presença de uma terceira pessoa, o noivo Corcunda que estava sentado ali perto. Por Allah, ó meu irmão, isto não é um sonho, e se fosse um sonho, onde está a bolsa de ouro que eu trazia comigo e onde estão o meu turbante e a minha túnica, e as minhas calças?" Então levantou-se e entrou na cidade, percorrendo as suas estradas, caminhos e ruas de bazar; e as pessoas pressionavam-no e zombavam dele, gritando "Louco! louco!" até que ele, fora de si de raiva, refugiou-se na loja de um cozinheiro. Ora, aquele Cozinheiro tinha sido um pouco esperto demais, isto é, um patife e ladrão; mas Allah tinha-o feito arrepender-se e desviar-se dos seus maus caminhos e abrir uma loja de cozinheiro; e todo o povo de Damasco temia a sua ousadia e a sua maldade. Por isso, quando a multidão viu o jovem entrar na sua loja, dispersou-se por medo dele e seguiu os seus caminhos. O Cozinheiro olhou para Badr al-Din e, notando a sua beleza e amabilidade, apaixonou-se por ele imediatamente e disse: "De onde vens, ó jovem? Conta-me logo a tua história, pois tornaste-te mais querido para mim do que a minha própria alma." Então Hasan contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido do princípio ao fim (mas na repetição não há fruto) e o Cozinheiro disse, "Ó meu senhor Badr al-Din, sem dúvida sabes que este caso é maravilhoso e esta história espantosa; portanto, ó meu filho, esconde o que te aconteceu, até que Allah afaste os males que são teus; e fica comigo aqui entretanto, pois não tenho filhos e adotar-te-ei." Badr al-Din respondeu, "Seja como quiseres, ó meu tio!" Ao que o Cozinheiro foi ao bazar e comprou-lhe um belo traje de roupas e fê-lo vesti-lo; depois foi com ele ao Kazi, e declarou formalmente que ele era seu filho. Assim, Badr al-Din Hasan tornou-se conhecido na cidade de Damasco como o filho do Cozinheiro e ele sentava-se com ele na loja para receber a prata, e desta forma ele permaneceu lá durante algum tempo. Isto até aqui sobre ele; mas quanto à sua prima, a Senhora da Beleza, quando o dia amanheceu ela acordou e sentiu a falta de Badr al-Din Hasan ao seu lado; mas ela pensou que ele tinha ido à latrina e sentou-se à espera dele por uma hora ou mais; quando eis que entrou o seu pai Shams al-Din Mohammed, Wazir do Egito. Ora, ele estava inconsolável por causa do que lhe tinha acontecido através do Sultão, que o tratara asperamente e tinha casado a sua filha à força com o mais baixo dos seus criados e ele ainda por cima um pedaço de estribeiro corcunda, e ele disse para consigo: "Matarei esta minha filha se por sua livre vontade ela tiver cedido o seu corpo a este miserável maldito." Então ele chegou à porta do aposento privado da noiva e disse: "Ho! Sitt al-Husn." Ela respondeu-lhe, "Aqui estou! aqui estou! Ó meu senhor," e saiu com andar incerto depois das dores e prazeres da noite; e ela beijou-lhe a mão, o seu rosto mostrando brilho e beleza redobrados por ter jazido nos braços daquele gazelo, o seu primo. Quando o seu pai, o Wazir, a viu em tal estado, perguntou-lhe: "Ó tu, maldita, estás a regozijar-te por causa deste estribeiro?", e Sitt al-Husn sorriu docemente e respondeu: "Por Allah, não zombes de mim: basta o que passou ontem quando as pessoas riram de mim, e me igualaram àquele estribeiro que não é digno de trazer os sapatos ou chinelos do meu marido; não, que não vale as aparas das unhas do meu marido! Pelo Senhor, nunca na minha vida passei uma noite tão doce como a de ontem à noite!, por isso não zombes lembrando-me do Corcunda." Quando o seu progenitor ouviu as suas palavras, encheu-se de fúria, e os seus olhos brilhavam e fixavam-se, de modo que pouco deles se via senão o branco, e ele gritou: "Ai de ti! Que palavras são estas? Foi o estribeiro corcunda que passou a noite contigo!" "Allah sobre ti," respondeu a Senhora da Beleza, "não me amoles acerca do Corcunda, que Allah amaldiçoe o pai dele; e deixa de brincar comigo; pois este estribeiro só foi contratado por dez dinares e uma escudela de carne e ele recebeu o seu salário e seguiu o seu caminho. Quanto a mim, entrei no aposento nupcial, onde encontrei o meu verdadeiro noivo sentado, depois de as cantoras me terem exibido para ele; o mesmo que tinha cruzado as mãos delas com ouro vermelho, até que todo o mendigo que estava presente se tornou rico; e eu passei a noite no peito do meu homem bonito, um querido muito vivo, com os seus olhos negros e sobrancelhas unidas." Quando o seu progenitor ouviu estas palavras, a luz diante da sua face tornou-se noite, e ele gritou para ela dizendo: "Ó tu, prostituta! O que é isto que me contas? Onde estão os teus juízos?" "Ó meu pai," respondeu ela, "tu partes-me o coração; basta para ti que tenhas sido tão duro comigo! Na verdade, o meu marido que tirou a minha virgindade acaba de ir à casa de banho e sinto que concebi dele." O Wazir levantou-se com grande espanto e entrou na latrina onde encontrou o estribeiro corcunda com a cabeça no buraco e os calcanhares no ar. Com esta visão, ele ficou confuso e disse: "Este não é outro senão ele, o patife Corcunda!" Então chamou-o, "Ho, Corcunda!" O Corcunda resmungou, "Taghúm! Taghúm!", pensando que era o Ifrit que lhe falava; por isso o Wazir gritou-lhe e disse: "Fala, ou cortarei a tua cabeça com esta espada." Então disse o Corcunda, "Por Allah, ó Shaykh dos Ifrits, desde que me colocaste neste lugar, não levantei a cabeça; por isso, Allah sobre ti, tem piedade e trata-me com bondade!" Quando o Wazir ouviu isto, perguntou: "O que é isto que tu dizes? Eu sou o pai da noiva e não um Ifrit." "Basta para ti que quase me tenhas feito morrer," respondeu Quasimodo; "agora segue o teu caminho antes que ele venha sobre ti, ele que me serviu assim. Não podíeis ter-me casado com ninguém senão com a amada dos búfalos e a querida dos Ifrits? Allah amaldiçoe-a e amaldiçoe quem me casou com ela e foi a causa deste meu caso."——E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia, e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Disse ela: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que o noivo corcunda falou ao pai da noiva, dizendo: "Allah amaldiçoe aquele que foi a causa deste meu caso!" Então disse-lhe o Vizir: "Levanta-te e sai deste lugar!" "Estou louco", gritou o noivo, "para que eu vá contigo sem a permissão do Ifrit, cujas últimas palavras para mim foram: — Quando o sol nascer, levanta-te e segue o teu caminho. Pois bem, o sol nasceu ou não?; pois não ouso mover-me deste lugar até lá." Perguntou o Vizir: "Quem te trouxe até aqui?"; e ele respondeu: "Vim aqui ontem à noite para uma necessidade natural e para fazer o que ninguém pode fazer por mim, quando eis que um rato saiu da água, guinchou para mim e inchou e tornou-se corpulento até ficar do tamanho de um búfalo, e falou-me palavras que entraram nos meus ouvidos. Depois deixou-me aqui e foi-se embora, Allah amaldiçoe a noiva e aquele que me casou com ela!" O Vizir caminhou até ele e levantou a sua cabeça para fora do buraco da latrina; e ele partiu a correr por amor à vida e mal acreditando que o sol tivesse nascido; e dirigiu-se ao Sultão, a quem contou tudo o que lhe tinha acontecido com o Ifrit. Mas o Vizir voltou aos aposentos privados da noiva, profundamente perturbado em espírito por ela, e disse-lhe: "Ó minha filha, explica-me este assunto estranho!" Disse ela: "É simplesmente isto. O noivo a quem me mostraram ontem à noite deitou-se comigo a noite toda, tirou-me a virgindade e estou grávida dele. Ele é o meu marido e, se não acreditas em mim, lá está o seu turbante, enrolado como estava, deitado no banco, e o seu punhal e as suas calças debaixo da cama com algo, não sei o quê, embrulhado nelas." Quando o seu pai ouviu isto, entrou nos aposentos privados e encontrou o turbante que fora deixado ali por Badr al-Din Hasan, filho do seu irmão, e tomou-o na mão e virou-o, dizendo: "Este é o turbante usado pelos Vizires, exceto que é de tecido de Mosul." Então abriu-o e, encontrando o que parecia ser um amuleto costurado no Fez, descosturou o forro e tirou-o; depois levantou as calças onde estava a bolsa das mil peças de ouro e, abrindo-a também, encontrou nela um papel escrito. Leu-o e era o recibo de venda do judeu em nome de Badr al-Din Hasan, filho de Nur al-Din Ali, o egípcio; e os mil dinares também estavam lá. Mal Shams al-Din leu isto, soltou um grito alto e caiu ao chão desmaiado; e assim que recuperou e compreendeu o essencial do assunto, maravilhou-se e disse: "Não há outro deus senão Deus, cuja Onipotência está acima de todas as coisas! Sabes tu, ó minha filha, quem foi aquele que se tornou o marido da tua virgindade?" "Não", respondeu ela, e ele disse: "Na verdade, ele é o filho do meu irmão, teu primo, e este mil dinares é o teu dote. Louvado seja Allah! E quem me dera saber como este assunto aconteceu!" Então abriu o amuleto que estava costurado e encontrou nele um papel com a letra do seu falecido irmão, Nur al-Din, o egípcio, pai de Badr al-Din Hasan; e, quando viu a letra, beijou-a repetidamente; e chorou e lamentou-se pelo seu irmão morto e improvisou estes versos:—

Vejo os seus rastros e com dor me derreto, ✿ E sobre os seus lares de outrora choro e anseio: E Àquele rezo que desferiu este golpe de separação ✿ Que algum dia se digne conceder um retorno seguro.

Quando cessou de versificar, leu o pergaminho e encontrou nele registradas as datas do casamento do seu irmão com a filha do Vizir de Bassorá, e da sua cópula com ela, e da sua concepção, e do nascimento de Badr al-Din Hasan e toda a história e feitos do seu irmão até ao dia da sua morte. Por isso, maravilhou-se muito e estremeceu de alegria e, comparando as datas com o seu próprio casamento e cópula com a sua esposa e o nascimento da sua filha, Sitt al-Husn, descobriu que elas coincidiam perfeitamente. Então tomou o documento e, dirigindo-se com ele ao Sultão, inteirou-o do que tinha passado, do princípio ao fim; com o que o Rei se maravilhou e ordenou que o caso fosse imediatamente registrado. O Vizir permaneceu aquele dia à espera de ver o filho do seu irmão, mas ele não veio; e esperou um segundo dia, um terceiro dia e assim por diante até ao sétimo dia, sem qualquer notícia dele. Então disse: "Por Allah, farei um feito como nenhum jamais fez antes de mim!"; e tomou pena de cana e tinta e desenhou numa folha de papel a planta de toda a casa, mostrando onde ficava o aposento privado com a cortina em tal lugar e a mobília em tal outro e assim por diante com tudo o que estava no quarto. Depois dobrou o esboço e, fazendo recolher toda a mobília, tomou as vestes de Badr al-Din e o turbante e Fez e túnica e bolsa, e levou tudo para a sua casa e trancou-os, aguardando a chegada do seu sobrinho, Badr al-Din Hasan, o filho do seu irmão perdido, com um cadeado de ferro no qual pôs o seu selo. Quanto à filha do Vizir, quando a sua conta de meses se completou, deu à luz um filho como a lua cheia, a imagem do seu pai em beleza e formosura e proporções justas e graça perfeita. Cortaram-lhe o cordão umbilical e aplicaram Kohl nas suas pálpebras para fortalecer os seus olhos, e entregaram-no às amas e governantas de berçário, chamando-o Ajib, o Maravilhoso. O seu dia era como um mês e o seu mês era como um ano; e, quando sete anos se passaram sobre ele, o seu avô mandou-o para a escola, incumbindo o mestre de lhe ensinar a leitura do Alcorão e de o educar bem. Permaneceu na escola quatro anos, até começar a intimidar os seus colegas de escola e a abusar deles e a bater-lhes e a surrá-los e a dizer: "Quem entre vós é como eu? Eu sou o filho do Vizir do Egito!" Por fim, os meninos vieram em grupo queixar-se ao Monitor do tratamento duro que costumavam ter de Ajib, e ele disse-lhes: "Dir-vos-ei algo que podeis fazer contra ele para que ele deixe de vir à escola, e é isto. Quando ele entrar amanhã, sentai-vos à volta dele e dizei uns aos outros: — Por Allah, ninguém brincará conosco neste jogo a menos que nos diga os nomes da sua mamã e do seu papá; pois aquele que não sabe os nomes da sua mãe e do seu pai é um bastardo, um filho de adultério, e não brincará conosco." Quando o dia amanheceu os meninos vieram à escola, sendo Ajib um deles, e todos se reuniram à volta dele dizendo: "Brincaremos a um jogo no qual ninguém entrará a menos que possa dizer o nome da sua mamã e do seu papá." E todos gritaram: "Por Allah, bom!" Então disse um deles: "O meu nome é Májid e o nome da minha mamã é Alawiyah e o do meu daddy é Izz al-Din." Outro falou da mesma maneira e um terceiro, até que chegou a vez de Ajib, e ele disse: "O meu nome é Ajib, e o da minha mãe é Sitt al-Husn, e o do meu pai é Shams al-Din, o Vizir do Cairo." "Por Allah", gritaram eles, "o Vizir não é o teu verdadeiro pai." Ajib respondeu: "O Vizir é o meu pai na verdade." Então os meninos todos riram e bateram palmas para ele, dizendo: "Ele não sabe quem é o seu papá: sai de entre nós, pois ninguém brincará conosco a menos que saiba o nome do seu pai." Nesse momento dispersaram-se de à volta dele e riram-se dele com escárnio; por isso o seu peito ficou apertado e ele quase sufocou com lágrimas e sentimentos feridos. Então o Monitor disse-lhe: "Nós sabemos que o Vizir é o teu avô, o pai da tua mãe, Sitt al-Husn, e não o teu pai. Quanto ao teu pai, nem tu o conheces nem nós o conhecemos; pois o Sultão casou a tua mãe com o noivo corcunda; mas o Jinni veio e deitou-se com ela e tu não tens pai conhecido. Deixa, pois, de te comparar tão vantajosamente com os pequenos da escola, até saberes que tens um pai legítimo; pois até lá passarás por um filho de adultério entre eles. Não vês que até o filho de um mercador conhece o seu próprio progenitor? O teu avô é o Vizir do Egito; mas quanto ao teu pai, nós não o conhecemos e dizemos, na verdade, que tu não tens nenhum. Por isso retorna aos teus sentidos sãos!" Quando Ajib ouviu estas palavras insultuosas do Monitor e dos meninos da escola e compreendeu a reprovação que lhe faziam, saiu imediatamente e correu para a sua mãe, Sitt al-Husn, para se queixar; mas ele chorava tão amargamente que as suas lágrimas impediram a sua fala por um tempo. Quando ela ouviu os seus soluços e viu as suas lágrimas, o seu coração ardeu como se estivesse em fogo por ele, e ela disse: "Ó meu filho, por que choras? Allah mantenha as lágrimas dos teus olhos! Conta-me o que te aconteceu!" Então ele contou-lhe tudo o que ouviu dos meninos e do Monitor e terminou perguntando: "E quem, ó minha mãe, é o meu pai?" Ela respondeu: "O teu pai é o Vizir do Egito;" mas ele disse: "Não mintas para mim. O Vizir é teu pai, não meu! quem então é o meu pai? A não ser que me digas a verdade absoluta, eu matar-me-ei com esta espada curta." Quando a sua mãe o ouviu falar do seu pai, ela chorou, lembrando-se do seu primo e da sua noite de núpcias com ele e de tudo o que ocorreu lá e então, e ela repetiu estes dísticos:—

Amor no meu coração acenderam e seguiram os seus caminhos, ✿ E tudo o que amo para terras distantes retirou-se; E quando me deixaram, a tolerância também partiu, ✿ E quando nos separamos, a Paciência disse adeus: Fugiram e fugindo com as minhas alegrias fugiram, ✿ Na mais absoluta constância o meu espírito voou: Fizeram as minhas pálpebras verter lágrimas de separação ✿ E a estas gotas a dor da partida é devida: E quando anseio ver o dia da reunião, ✿ Os meus gemidos prolongando-se dolorosamente por piedade imploro: Então no meu coração dos corações traço as suas formas, ✿ E o amor e o desejo, o cuidado e o pesar renovam-se: Ó vós, cujos nomes se agarram a mim como um manto, ✿ Cujo amor mais perto do que uma camisa vesti, Bem-amados! até quando este duro desdém? ✿ Até quando esta separação e este voo tímido e esquivo?

Então ela lamentou-se e gritou alto e o seu filho fez o mesmo; e eis que entra o Vizir, cujo coração ardia dentro dele ao ver as suas lamentações e ele disse: "O que vos faz chorar?" Então a Senhora da Beleza inteirou-o do que acontecera entre o seu filho e os meninos da escola; e ele também chorou, lembrando-se do seu irmão e do que passara entre eles e do que acontecera à sua filha e como ele falhara em descobrir que mistério havia no assunto. Então levantou-se imediatamente e, dirigindo-se à sala de audiências, foi direto ao Rei e contou a sua história e implorou a sua permissão para viajar para o leste, para a cidade de Bassorá, e perguntar pelo filho do seu irmão. Além disso, suplicou ao Sultão que escrevesse para ele cartas patentes, autorizando-o a capturar Badr al-Din, o seu sobrinho e genro, onde quer que o pudesse encontrar. E ele chorou diante do Rei, que teve piedade dele e escreveu autógrafos reais aos seus delegados em todos os climas e países e cidades; com o que o Vizir se alegrou e rezou por bênçãos sobre ele. Então, despedindo-se do seu Soberano, retornou à sua casa, onde equipou a si mesmo e à sua filha e ao seu filho adotivo Ajib, com todas as coisas adequadas para uma longa marcha; e partiu e viajou o primeiro dia e o segundo e o terceiro e assim por diante até chegar à cidade de Damasco. Achou-a um lugar justo que abundava em árvores e correntes, exatamente como o poeta disse dela:—

Quando pernoitei e passei o dia na cidade de Damasco, ✿ O Tempo jurou que tal outra jamais veria: E descuidados dormimos sob a asa da noite, ✿ Até que a Manhã salpicada começou os seus sorrisos a renovar: E gotas de orvalho no ramo na sua beleza pendiam, ✿ Como pérolas para serem largadas quando o Zéfiro soprava: E o Lago era a página onde os pássaros liam e notavam, ✿ E as nuvens punham pontos ao que as brisas escreviam.

O Vizir acampou no espaço aberto chamado Al-Hasá; e, depois de montar as tendas, disse aos seus servos: "Uma parada aqui por dois dias!" Por isso eles foram à cidade para os seus diversos afazeres, este para vender e aquele para comprar; este para ir ao Hammam e aquele para visitar a mesquita da Catedral dos Banu Umayyah, os Omíadas, cuja igual não existe neste mundo. Ajib também foi, com o seu eunuco assistente, para consolo e diversão à cidade e o servo seguia com um bastão de madeira de amendoeira tão pesado que, se ele atingisse um camelo com ele, o animal nunca mais se levantaria. Quando o povo de Damasco viu a beleza e o brilho e a graça perfeita e simetria de Ajib (pois ele era uma maravilha de formosura e beleza cativante, mais suave que a brisa fresca do Norte, mais doce que águas límpidas para o homem na seca, e mais agradável que a saúde pela qual o homem doente implora), uma multidão imensa seguiu-o, enquanto outros corriam à frente e sentavam-se na estrada até que ele chegasse, para que pudessem contemplá-lo, até que, como o Destino decretara, o Eunuco parou em frente à loja do pai de Ajib, Badr al-Din Hasan. Agora a sua barba tinha crescido longa e espessa e a sua inteligência amadurecera durante os doze anos que tinham passado sobre ele, e tendo o Cozinheiro e ex-patife morrido, o chamado Hasan de Bassorá tinha sucedido aos seus bens e loja, pois ele tinha sido formalmente adotado perante o Kazi e testemunhas. Quando o seu filho e o Eunuco passaram à sua frente, ele contemplou Ajib e, vendo quão muito belo ele era, o seu coração palpitou e latejou, e o sangue atraiu o sangue e o afeto natural falou alto e as suas entranhas ansiaram por ele. Ele tinha acabado de preparar uma conserva de grãos de romã com açúcar, e o amor implantado pelo Céu trabalhou dentro dele; por isso chamou o seu filho Ajib e disse: "Ó meu senhor, ó tu que obtiveste o domínio do meu coração e das minhas próprias entranhas e por quem as minhas entranhas anseiam; dize-me, entrarás na minha casa e consolarás a minha alma comendo da minha carne?" Então os seus olhos verteram lágrimas que ele não podia conter, pois lembrou-se do que tinha sido e do que se tornara. Quando Ajib ouviu as palavras do seu pai, o seu coração também ansiou por ele e ele olhou para o Eunuco e disse-lhe: "Na verdade, ó meu bom guarda, o meu coração anseia por este cozinheiro; ele é como alguém que tem um filho longe dele: por isso deixai-nos entrar e alegrar o seu coração provando da sua hospitalidade. Talvez por fazermos isso Allah possa reunir-me com o meu pai." Quando o Eunuco ouviu estas palavras ele gritou: "Uma coisa fina esta, por Allah! Serão os filhos de Vizires vistos a comer numa loja de cozinheiro comum? Na verdade, eu mantenho o povo longe de ti com este bastão para que eles sequer olhem para ti; e não ouso permitir-te entrar nesta loja de modo algum." Quando Hasan de Bassorá ouviu o seu discurso, ele maravilhou-se e virou-se para o Eunuco com as lágrimas a escorrer pelas suas bochechas; e Ajib disse: "Na verdade, o meu coração ama-o!" Mas ele respondeu: "Deixa esta conversa, tu não entrarás." Nesse momento o pai virou-se para o Eunuco e disse: "Ó digno senhor, por que não alegrarás a minha alma entrando na minha loja? Ó tu que és como uma castanha, escura por fora mas branca de coração por dentro! Ó tu de quem um certo poeta disse * * *" O Eunuco explodiu a rir e perguntou— "Disse o quê? Fala logo por Allah e sê rápido com isso." Então Hasan, o Bassorita, começou a recitar estes dísticos:—

Se não for mestre de modos ou qualquer coisa senão discreto ✿ Na casa dos Reis nenhuma confiança poderia ele tomar: E então para o Harém! Que Eunuco é ele ✿ A quem os anjos serviriam pelo bem do seu serviço.

O Eunuco, ao ouvir tais versos, ficou muito satisfeito e disse a Hasan: "Por Allah, tu és um homem de espírito e um cozinheiro de rara habilidade! Se ao menos eu pudesse provar da tua comida!" Hasan respondeu-lhe: "Dá-me a honra da tua presença e da do jovem mestre, pois tenho aqui hoje uma iguaria de grãos de romã que não tem igual em todo o mundo, preparada com amêndoas e açúcar, e que faria um homem esquecer os seus pecados." O Eunuco olhou para Ajib e viu que este também desejava provar o manjar, pelo que aceitou o convite. Entraram na loja, e Hasan, o Bassorita, serviu-lhes com a maior deferência, sentindo uma afeição inexplicável pelo menino, cujos traços lhe traziam à memória imagens de um passado distante e doloroso. Enquanto comiam, Ajib comentou a qualidade da conserva, e o Eunuco não pôde deixar de elogiar a mestria de Hasan. Após a refeição, saíram da loja, mas Hasan, tomado por uma inquietação que não conseguia sufocar, sentiu que uma parte de sua própria alma partia com o garoto. Trancou a loja e seguiu-os a uma distância prudente, sendo descoberto pouco depois pelo Eunuco, que o repreendeu duramente pela sua insistência. Ajib, irritado com a persistência do cozinheiro, ameaçou-o, mas Hasan, movido por uma força maior, não conseguiu afastar-se, continuando a segui-los até à planície de Al-Hasa, onde a comitiva estava acampada.

Ao aproximarem-se das tendas, Ajib, temendo que o seu avô percebesse a presença do homem, virou-se e, vendo o olhar fixo e cheio de saudade de Hasan, interpretou-o como um sinal de insolência. Num acesso de raiva cega, apanhou uma pedra e atirou-a ao pai, atingindo-o na testa e fazendo o sangue verter profusamente. Hasan caiu, atordoado pela dor e pela confusão, enquanto o menino e o Eunuco se apressavam a refugiar-se nas tendas. Quando Hasan recuperou os sentidos, limpou o rosto, enfaixou o ferimento com um pedaço do seu turbante e, em vez de se revoltar, sentiu uma estranha melancolia, censurando-se por ter dado causa ao descontentamento do jovem. Regressou ao seu posto, mas o seu coração continuava a ansiar pela mãe em Bassorá, e a sua tristeza transbordava em versos sobre a injustiça do mundo e o destino dos homens.

Entretanto, o Wazir Shams al-Din, após uma jornada que o levou por várias cidades, chegou finalmente a Bassorá. Apresentou-se perante o Sultão, que o acolheu com as honras devidas, e, ao saber do propósito da sua busca, o Sultão lamentou o desaparecimento de Badr al-Din Hasan, confirmando que a sua mãe, filha do antigo Wazir, ainda residia na cidade. Shams al-Din, transbordando de emoção, dirigiu-se à mansão do seu irmão falecido, Nur al-Din Ali, e, ao contemplar as paredes onde o nome do irmão ainda figurava, deixou que as lágrimas corressem, recitando lamentos pela perda irreparável. Ao encontrar a viúva, ainda mergulhada num luto profundo junto ao túmulo de mármore que construíra para o filho, revelou-lhe a sua identidade e a notícia de que Badr al-Din Hasan pudesse ainda estar vivo, mencionando a existência do seu neto, Ajib. A mãe, ao ouvir estas palavras, prostrou-se aos pés de Shams al-Din em sinal de gratidão e esperança.

Preparada a partida, o grupo, acompanhado agora pela avó de Ajib, iniciou o regresso ao Egito, fazendo uma paragem em Damasco. Ajib, lembrando-se do cozinheiro a quem ferira, convenceu o Eunuco a voltar à loja de Hasan. Ao encontrarem-no, Hasan, apesar da cicatriz que ainda ostentava na testa, recebeu-os com uma ternura que deixou o menino desconcertado. Badr al-Din Hasan, sentindo a presença do seu sangue, proferiu palavras carregadas de afeto, mas Ajib, ainda altivo, impôs-lhe a condição de que não os seguisse novamente. Hasan, contido pela promessa, serviu-lhes o manjar de romã, observando Ajib com tal devoção que o menino acabou por repreendê-lo pela sua insistência. Após a refeição, os visitantes partiram, deixando Hasan mergulhado numa tristeza ainda mais profunda. Ao chegarem às tendas, a avó de Ajib, querendo mimar o neto, serviu-lhe um prato de conserva de romã, mas Ajib, com a memória do sabor superior do cozinheiro de Damasco ainda viva, criticou o prato da avó com aspereza, afirmando que a iguaria de um cozinheiro de Bassorá (sem saber que se referia ao seu próprio pai) era infinitamente superior. Ao ouvir a comparação, a avó, ferida no seu orgulho e sentindo uma estranha contrariedade, olhou para o servidor — e Xerazade percebeu o romper da alva e calou-se.

Ela disse: Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que quando a avó de Ajib ouviu as suas palavras, encheu-se de ira e, olhando para o servo, disse: "Ai de ti! Estás a estragar o meu filho e levas-o a cozinhas comuns?" O eunuco ficou assustado e negou, dizendo: "Não entrámos na loja; apenas passámos por ela." "Por Allah", exclamou Ajib, "mas nós entrámos e comemos até que nos saísse pelas narinas, e o prato era melhor que o teu!" Então a sua avó levantou-se e foi contar ao seu cunhado, que se enfureceu contra o eunuco e, mandando chamá-lo, perguntou-lhe: "Por que levaste o meu filho a uma cozinha?" E o eunuco, assustado, respondeu: "Não entrámos." Mas Ajib disse: "Nós entrámos e comemos conserva de grãos de romã até ficarmos cheios; e o cozinheiro deu-nos a beber sorvete gelado e açucarado." Com isto, a indignação do Wazir redobrou e ele questionou o castrado, mas, como ele continuava a negar, o Wazir disse-lhe: "Se dizes a verdade, senta-te e come diante de nós." Ele adiantou-se e tentou comer, mas não conseguiu e deitou fora o bocado, chorando: "Ó meu senhor! Estou empanturrado desde ontem." Com isto, o Wazir certificou-se de que ele tinha comido na casa do cozinheiro e ordenou aos escravos que o castigassem, o que fizeram. Então, vergaram-no sob uma surra de varapaus que o queimava até que ele gritou por misericórdia e ajuda de Allah, dizendo: "Ó meu senhor, não me batas mais e eu dir-te-ei a verdade"; whereupon o Wazir cessou a bastonada e disse: "Agora fala a verdade." Disse o eunuco: "Sabe, pois, que entrámos na loja de um cozinheiro enquanto ele preparava conserva de grãos de romã e ele colocou um pouco diante de nós: por Allah! Nunca comi em toda a minha vida nada semelhante, nem provei nada mais saboroso do que esta iguaria que agora está diante de nós." A mãe de Badr al-Din Hasan irritou-se com isto e disse: "Terás de voltar ao cozinheiro e trazer-me um pires de conserva de grãos de romã daquilo que está na sua loja e mostrá-lo ao teu senhor, para que ele possa dizer qual é o melhor e o mais saboroso, o meu ou o dele." Disse o eunuco: "Eu irei." Então, no mesmo instante, ela deu-lhe um pires e meio dinar, e ele regressou à loja e disse ao cozinheiro: "Ó Shaykh de todos os cozinheiros, fizemos uma aposta sobre a tua cozinha na casa do meu senhor, pois eles também têm conserva de grãos de romã lá; por isso, dá-me este valor de meio dinar e tem cuidado; pois já comi uma refeição completa de varapaus por causa da tua cozinha, por isso não me deixes comer nada mais disso." Hasan de Bassorah riu-se e respondeu: "Por Allah, ninguém pode preparar este prato como deve ser preparado, excepto eu e a minha mãe, e ela, neste momento, está num país distante." Então, serviu uma porção num pires e, finalizando-a com almíscar e água de rosas, colocou-a num pano que selou e entregou ao eunuco, que regressou apressadamente com ela. Não tardou a que a mãe de Badr al-Din Hasan a provasse e, ao perceber o seu sabor requintado e a excelência da preparação, soube quem a tinha cozinhado, pelo que soltou um grito e caiu desmaiada. O Wazir, muito sobressaltado, aspergiu água de rosas sobre ela e, passado algum tempo, ela recuperou e disse: "Se o meu filho ainda pertence a este mundo, ninguém preparou esta conserva de grãos de romã senão ele; e este cozinheiro é o meu próprio filho Badr al-Din Hasan; não há dúvida disso nem pode haver qualquer erro, pois apenas eu e ele sabíamos como prepará-la e eu ensinei-o." Quando o Wazir ouviu as suas palavras, alegrou-se com excessiva alegria e disse: "Oh, o meu anseio por ver o filho do meu irmão! Pergunto-me se os dias nos unirão a ele! Contudo, é apenas ao Todo-Poderoso Allah que recorremos para realizar este encontro." Então, levantou-se sem demora nem hesitação e, indo ter com a sua comitiva, disse-lhes: "Ide, uns cinquenta de vós, com paus e varapaus até à loja do cozinheiro e demoli-a; depois, amarrai-lhe os braços atrás das costas com o seu próprio turbante, dizendo: — Foste tu quem fizeste aquele prato abominável de grãos de romã! — e arrastai-o para aqui à força, mas sem lhe fazer qualquer mal." E eles responderam: "Está bem." Então, o Wazir partiu sem perder um instante para o Palácio e, encontrando-se com o Vice-rei de Damasco, mostrou-lhe as ordens do Sultão. Após leitura atenta, ele beijou a carta e, colocando-a sobre a cabeça, disse ao seu visitante: "Quem é este teu ofensor?" Disse o Wazir: "Um homem que é cozinheiro." Então, o Vice-rei enviou imediatamente os seus oficiais à loja; a qual encontraram demolida e tudo nela reduzido a pedaços; pois, enquanto o Wazir cavalgava para o palácio, os seus homens tinham cumprido as suas ordens. Então, aguardaram o seu regresso da audiência, e Hasan de Bassorah, que era o seu prisioneiro, continuava a dizer: "Pergunto-me o que encontraram na conserva de grãos de romã para levar as coisas a tal ponto!" Quando o Wazir regressou a eles, após a sua visita ao Vice-rei, que lhe tinha dado permissão formal para levar o seu devedor e partir com ele, ao entrar nas tendas, pediu pelo cozinheiro. Trouxeram-no, manietado com o seu turbante; e, quando Badr al-Din Hasan viu o seu tio, chorou com excessivo pranto e disse: "Ó meu senhor, qual é a minha ofensa contra ti?" "És tu o homem que preparou aquela conserva de grãos de romã?", perguntou o Wazir, e ele respondeu: "Sim! Encontraste nela algo que justificasse o corte da minha cabeça?" Disse o Wazir: "Isso seria o menos que merecerias!" Disse o cozinheiro: "Ó meu senhor, não me dirás o meu crime e o que aflige a conserva de grãos de romã?" "Logo veremos", replicou o Wazir e chamou em voz alta pelos seus homens, dizendo: "Trazei aqui os camelos." Então, levantaram as tendas e, por ordens do Wazir, os criados pegaram em Badr al-Din Hasan, colocaram-no num baú que trancaram com cadeado e puseram sobre um camelo. Depois, partiram e não cessaram a viagem até ao cair da noite, quando pararam e tomaram alguma refeição, retiraram Badr al-Din Hasan do seu baú, deram-lhe comida e trancaram-no novamente. Partiram mais uma vez e viajaram até chegarem a Kimrah, onde o tiraram da caixa e o trouxeram perante o Wazir, que lhe perguntou: "És tu quem preparou aquela conserva de grãos de romã?" Ele respondeu: "Sim, ó meu senhor!"; e o Wazir disse: "Acorrentai-o!" Então, acorrentaram-no e devolveram-no ao baú e prosseguiram viagem até chegarem ao Cairo e desmontarem no bairro chamado Al-Raydaniyah. Então, o Wazir deu ordem para tirar Badr al-Din Hasan do baú e mandou chamar um carpinteiro e disse-lhe: "Faz-me uma cruz de madeira para este sujeito!" Gritou Badr al-Din Hasan: "E que farás com ela?"; e o Wazir respondeu: "Pretendo crucificar-te nela, pregar-te a ela e exibir-te por toda a cidade." "E por que me hás de tratar desta forma?" "Por causa da tua vil cozinha de conserva de grãos de romã; como te atreveste a prepará-la e vendê-la sem pimenta?" "E por não ter pimenta farás tudo isto a mim? Não basta que tenhas destruído a minha loja e partido os meus utensílios e me tenhas encaixotado num baú e alimentado apenas uma vez ao dia?" "Pouca pimenta! Pouca pimenta! Este é um crime que só pode ser expiado na cruz!" Então, Badr al-Din Hasan maravilhou-se e começou a lamentar a sua vida; ao que o Wazir lhe perguntou: "Em que pensas?"; e ele respondeu-lhe: "Em cabeças cheias de larvas como a tua; pois se tivesses uma onça de juízo, não me terias tratado assim." Disse o Wazir: "É nosso dever punir-te para que não faças o mesmo novamente." Disse Badr al-Din Hasan: "Na verdade, a minha ofensa seria excessivamente punida pelo menos do que já me fizeste; e que Allah amaldiçoe toda a conserva de grãos de romã e amaldiçoe a hora em que a cozinhei, e oxalá tivesse morrido antes disto!" Mas o Wazir replicou: "Não há remédio: tenho de crucificar um homem que vende conserva de grãos de romã sem pimenta." Durante todo este tempo, o carpinteiro estava a moldar a madeira e Badr al-Din observava; e assim fizeram até à noite, quando o seu tio o pegou e atirou para dentro do baú, dizendo: "A coisa será feita amanhã!" Então, esperou até saber que Badr al-Din Hasan estava a dormir, montou no cavalo e, levando o baú diante de si, entrou na cidade e cavalgou até à sua própria casa, onde desmontou e disse à sua filha, Sitt al-Husn: "Louvado seja Allah que te reuniu com o teu marido, o filho do teu tio! Levanta-te agora e organiza a casa como estava na tua noite de núpcias." Então, os criados levantaram-se e acenderam as velas; e o Wazir tirou o seu plano da câmara nupcial e dirigiu-os sobre o que fazer até que tivessem colocado tudo no seu lugar, de modo que quem visse não teria dúvida de que era a própria noite do casamento. Depois, ordenou-lhes que colocassem o turbante de Badr al-Din Hasan no banco, como ele o tinha depositado pela sua própria mão, e da mesma forma as suas calças largas e a bolsa que estavam debaixo do colchão; e disse à sua filha para se despir e ir para a cama na câmara privada como na sua noite de núpcias, acrescentando: "Quando o filho do teu tio entrar ter contigo, diz-lhe: — Demoraste-te enquanto ias à retrete; — e chama-o para se deitar ao teu lado e mantém-no em conversa até ao amanhecer, quando lhe explicaremos todo o assunto." Então, ordenou que retirassem Badr al-Din Hasan do baú, depois de soltar as grilhetas dos seus pés e despi-lo de tudo o que trazia, excepto a fina camisa de seda azul com que tinha dormido na sua noite de núpcias; de modo que ele estava quase nu e sem calças. Tudo isto foi feito enquanto ele dormia, completamente inconsciente. Então, pelo destino do Acaso, Badr al-Din Hasan virou-se e acordou; e, encontrando-se num vestíbulo iluminado, disse para consigo: "Certamente estou nos labirintos de algum sonho." Então, levantou-se e caminhou um pouco até uma porta interior, olhou para dentro e, eis! estava na própria câmara onde a noiva lhe tinha sido apresentada; e lá viu a alcova nupcial e o banco e o seu turbante e todas as suas roupas. Quando viu isto, ficou confuso e avançava com um pé e recuava com o outro, dizendo: "Estou a dormir ou acordado?" E começou a esfregar a testa e a dizer (pois estava, na verdade, completamente atónito): "Por Allah, na verdade, esta é a câmara da noiva que me foi apresentada! Onde estou eu então? Eu estava certamente, agora mesmo, numa caixa!" Enquanto falava consigo mesmo, Sitt al-Husn levantou subitamente a ponta da cortina da câmara e disse: "Ó meu senhor, não vais entrar? Na verdade, demoraste-te muito na casa de banho." Quando ele ouviu as suas palavras e viu o seu rosto, desatou a rir e disse: "Na verdade, este é um pesadelo entre os sonhos!" Então, entrou suspirando e reflectiu sobre o que lhe tinha acontecido e ficou perplexo com o seu caso, e o seu assunto tornou-se ainda mais obscuro para ele quando viu o seu turbante e calças largas e quando, sentindo o bolso, encontrou a bolsa contendo as mil peças de ouro. Então, ficou imóvel e murmurou: "Allah é omnisciente! Certamente estou a sonhar um estranho sonho acordado!" Então, a Senhora da Beleza disse-lhe: "O que te aflige para pareceres confuso e perplexo?"; acrescentando: "Tu eras um homem muito diferente durante a primeira parte da noite!" Ele riu-se e perguntou-lhe: "Há quanto tempo estou longe de ti?"; e ela respondeu-lhe: "Allah te preserve e o Seu Santo Nome esteja à tua volta! Saíste apenas há uma hora para uma necessidade e regressaste. Terás perdido o juízo?" Quando Badr al-Din Hasan ouviu isto, riu-se e disse: "Disseste a verdade; mas, quando saí de ti, esqueci-me por um momento na latrina e sonhei que era um cozinheiro em Damasco e lá vivi dez anos; e veio ter comigo um rapaz que era filho dos grandes, e com ele um eunuco." Aqui passou a mão pela testa e, sentindo a cicatriz, gritou: "Por Allah, ó minha senhora, deve ter sido verdade, pois ele atingiu a minha testa com uma pedra e cortou-a de sobrancelha a sobrancelha; e aqui está a marca: portanto, deve ter sido em vigília." Depois, acrescentou: "Mas talvez o tenha sonhado quando adormecemos, eu e tu, nos braços um do outro, pois parece-me como se tivesse viajado para Damasco sem turbante e calças e me tivesse estabelecido como cozinheiro lá." Então, ficou perplexo e reflectiu por um momento, e disse: "Por Allah, também me pareceu que preparei uma conserva de grãos de romã e pus-lhe pouca pimenta. Por Allah, devo ter dormido no meu leito e visto tudo isto num sonho; mas quanto tempo durou esse sonho!" "Allah sobre ti", disse Sitt al-Husn, "e o que mais viste?" Então, relatou-lhe tudo; e logo disse: "Por Allah, se não tivesse acordado, ter-me-iam pregado a uma cruz de madeira!" "Porquê?", perguntou ela; e ele respondeu: "Por pôr pouca pimenta na conserva de grãos de romã, e pareceu-me que demoliram a minha loja e reduziram a pedaços os meus potes e panelas, destruíram todos os meus bens e puseram-me numa caixa; depois, mandaram chamar o carpinteiro para fabricar uma cruz para mim e ter-me-iam crucificado nela. Agora, Alhamdolillah! Graças sejam dadas a Allah, pois tudo isto aconteceu-me no sono, e não em vigília." Sitt al-Husn riu-se e abraçou-o ao seu peito e ele a ela: então ele pensou de novo e disse: "Por Allah, não poderia ter sido senão enquanto estava acordado: verdadeiramente não sei o que pensar disto." Então, deitou-se e durante toda a noite ficou confuso sobre o seu caso, ora dizendo: "Eu estava a sonhar!", ora dizendo: "Eu estava acordado!", até de manhã, quando o seu tio Shams al-Din, o Wazir, veio ter com ele e o saudou. Quando Badr al-Din Hasan o viu, disse: "Por Allah, não és tu quem ordenou que me atassem as mãos atrás das costas e destruíssem a minha loja e me pregassem a uma cruz por causa de uma conserva de grãos de romã porque o prato carecia de pimenta suficiente?" Ao que o Wazir lhe disse: "Sabe, ó meu filho, que a verdade mostrou ser verdadeira e o oculto foi revelado! Tu és o filho do meu irmão, e eu fiz tudo isto contigo para me certificar de que tu eras, de facto, aquele que entrou na minha filha naquela noite. Eu não podia ter a certeza disto, até ver que conhecias a câmara e o teu turbante e as tuas calças e o teu ouro e os papéis na tua escrita e na do teu pai, meu irmão; pois eu nunca te tinha visto antes disso e não te conhecia; e quanto à tua mãe, convenci-a a vir comigo de Bassorah." Dizendo isto, lançou-se ao peito do seu sobrinho e chorou de alegria; e Badr al-Din Hasan, ouvindo estas palavras do seu tio, maravilhou-se com excessivo espanto e lançou-se ao seu pescoço e também verteu lágrimas por excesso de deleite. Então disse-lhe o Wazir: "Ó meu filho, a única causa de tudo isto é o que passou entre mim e o teu pai"; e contou-lhe a maneira como o seu pai viajou para Bassorah e tudo o que tinha ocorrido para os separar. Por último, o Wazir mandou chamar Ajib; e quando o seu pai o viu, gritou: "E este é quem me atingiu com a pedra!" Disse o Wazir: "Este é o teu filho!" E Badr al-Din Hasan lançou-se sobre o seu rapaz e começou a repetir:

Longo tempo chorei pela proibição e desgraça do afastamento, ✿ Longo tempo das minhas pálpebras correram rios de lágrimas: E jurei que se o Tempo trouxesse o reencontro ✿ A minha língua do nome "Afastamento" se absteria: A alegria superou-me a tal ponto que eu ✿ Da reviravolta da alegria sinto-me levado a verter lágrimas: Estais tão treinados para o choro, ó meus olhos! ✿ Chorais de prazer como chorais de dor.

Quando terminou o seu verso, a sua mãe entrou e lançou-se sobre ele e começou a recitar:

Quando nos encontrámos queixámo-nos, ✿ Os nossos corações estavam dolorosamente angustiados: Mas a queixa não é agradável ✿ Da língua do mensageiro.

Então ela chorou e relatou-lhe o que lhe tinha acontecido desde a sua partida, e ele contou-lhe o que tinha sofrido, e agradeceram ao Todo-Poderoso Allah pelo seu reencontro. Dois dias após a sua chegada, o Wazir Shams al-Din foi ter com o Sultão e, beijando o chão entre as suas mãos, saudou-o com a saudação devida aos Reis. O Sultão alegrou-se com o seu regresso e o seu rosto iluminou-se e, colocando-o bem junto de si, pediu-lhe que relatasse tudo o que tinha visto na sua viagem e o que lhe tinha acontecido na sua ida e volta. Então, o Wazir contou-lhe tudo o que tinha passado, do princípio ao fim, e o Sultão disse: "Graças sejam dadas a Allah pela tua vitória e pela obtenção do teu desejo e pelo teu regresso em segurança aos teus filhos e ao teu povo! E agora, tenho necessariamente de ver o filho do teu irmão, Hasan de Bassorah, por isso traze-o à sala de audiências amanhã." Shams al-Din respondeu: "O teu escravo estará na tua presença amanhã, Inshallah, se for a vontade de Deus." Então, saudou-o e, regressando à sua própria casa, informou o seu sobrinho do desejo do Sultão de o ver, ao que respondeu Hasan, outrora o Bassorita: "O escravo é obediente às ordens do seu senhor." E o resultado foi que, no dia seguinte, acompanhou o seu tio, Shams al-Din, ao Divan; e, após saudar o Sultão e prestar-lhe reverência com a mais cerimoniosa obediência e com a mais cortês submissão, começou a improvisar estes versos:

O primeiro em categoria digna-se beijar o chão ✿ Diante de vós, e todos os fins e objectivos alcançar: Vós sois a fonte da Honra; e tudo o que espera de vós, ✿ Ganhará mais honra do que a Esperança esperou ganhar.

O Sultão sorriu e sinalizou-lhe para se sentar. Então, ele tomou um lugar próximo ao seu tio, Shams al-Din, e o Rei perguntou-lhe o seu nome. Disse Badr al-Din Hasan: "O mais humilde dos teus escravos é conhecido como Hasan, o Bassorita, que é constante nas preces por ti dia e noite." O Sultão ficou satisfeito com as suas palavras e, estando disposto a testar a sua erudição e provar a sua boa educação, perguntou-lhe: "Recordas-te de alguns versos em louvor do sinal na face?" Ele respondeu: "Recordo", e começou a recitar:

Quando penso no meu amor e na mágoa da nossa separação, ✿ Os meus gemidos saem e as minhas lágrimas irrompem: É um sinal que me recorda na cor e nos encantos ✿ O negro do olho e o grão do coração.

O Rei admirou e elogiou os dois dísticos e disse-lhe: "Cita algo mais; que Allah abençoe o teu pai e que a tua língua nunca se canse!" Então ele começou:

O sinal daquela face igualaram-no a um grão ✿ De almíscar, nem forçaram aqui o símile: Antes, maravilha-te com o rosto que compreende toda a ✿ Beleza, sem falhar por um único grão.

O Rei estremeceu de prazer e disse-lhe: "Diz mais: que Allah abençoe os teus dias!" Então ele começou:

Ó tu cujo sinal na face entronizado recorda ✿ Um ponto de almíscar sobre uma pedra de rubi, Concede-me os teus favores! Não sejas pedra no coração! ✿ Núcleo do meu coração de quem és o único sustento!

Disse o Rei: "Bela comparação, ó Hasan! Falaste excelentemente bem e provaste ser um homem de todas as prendas! Agora explica-me quantos significados existem na língua árabe para a palavra Khál ou sinal." Ele respondeu: "Que Allah guarde o Rei! Cinquenta e sete, e alguns, segundo a tradição, dizem cinquenta." Disse o Sultão: "Dizes a verdade", acrescentando logo de seguida: "Tens conhecimento acerca dos pontos de excelência da beleza?" "Sim", respondeu Badr al-Din Hasan, "a beleza consiste no brilho do rosto, na clareza da tez, na harmonia do nariz, na brandura dos olhos, na doçura da boca, na destreza do discurso, na esbelteza da forma e na decorosidade de todos os atributos." Mas o auge da beleza está no cabelo e, de facto, al-Shiháb al-Hijazi reuniu todos estes itens no seu verso de métrica Rajaz, e é este:—

Dize à pele "Sê suave", ao rosto "Sê formoso"; ✿ E olha, nem te censurarão por mais que fiques ansioso: O nariz fino é muito estimado na lista da Beleza; ✿ Nem menos um olho pleno, brilhante e garboso. Fizeram bem também em louvar os lábios adoráveis ✿ (Que nem o sono me permitirá deixar de ser zeloso); Uma língua persuasiva, uma estatura alta e direita; ✿ Uma união decorosa de dons raros e preciosos: Mas o auge da Beleza vê-se no cabelo; ✿ Por isso ouve o meu estro e desculpa algum desacerto ou desvelo!

O Sultão ficou cativado pelo seu trato e, considerando-o um amigo, perguntou: "Que significado há no ditado 'Shurayh é mais raposo que a raposa'?" E ele respondeu: "Sabe, ó Rei (a quem Allah Todo-Poderoso guarde!), que o legista Shurayh costumava, durante os dias da peste, fazer uma visita a Al-Najaf; e, sempre que se levantava para rezar, surgia uma raposa que se colocava à sua frente e que, ao imitar os seus movimentos, o distraía das suas devoções. Ora, quando isto se tornou moroso para ele, um dia despiu a sua camisa e colocou-a sobre uma bengala e sacudiu as mangas; depois, pousando o seu turbante no topo e cingindo o meio com um xaile, espetou-a no lugar onde costumava rezar. Pouco depois, a raposa trotou até ali segundo o seu costume e parou diante da figura, momento em que Shurayh surgiu por trás dele e apanhou-o." Daí que o ditador diga: "Shurayh é mais raposo que a raposa." Quando o Sultão ouviu a explicação de Badr al-Din Hasan, disse ao seu tio, Shams al-Din: "Verdadeiramente, este filho do teu irmão é perfeito em educação cortesã e não creio que se encontre igual no Cairo." A isto, Hasan levantou-se e beijou o solo diante dele e sentou-se novamente como um Mameluco deveria sentar-se perante o seu senhor. Quando o Sultão se certificou assim da sua educação e porte cortesãos e do seu conhecimento das artes liberais e das belas-letras, alegrou-se com excessiva alegria e investiu-o com um esplêndido manto de honra e promoveu-o a um cargo pelo qual poderia melhorar a sua condição. Então Badr al-Din Hasan levantou-se e, beijando o solo diante do Rei, desejou-lhe a continuação da glória e pediu licença para se retirar com o seu tio, o Wazir Shams al-Din. O Sultão deu-lhe licença e ele saiu, e ambos regressaram a casa, onde lhes foi servida comida e comeram o que Allah lhes dera. Após terminar a sua refeição, Hasan dirigiu-se à câmara de estar da sua esposa, a Senhora da Beleza, e contou-lhe o que se passara entre ele e o Sultão; ao que ela disse: "Ele não pode deixar de fazer de ti um companheiro de copo e dar-te largueza em excesso e carregar-te de favores e dádivas; assim, pela bênção de Allah, espalharás, como a luz maior, os raios da tua perfeição onde quer que estejas, em terra ou no mar." Ele disse-lhe: "Pretendo recitar uma Kasídah, uma ode, em seu louvor, para que ele redobre o afeto por mim." "Estás certo na tua intenção", respondeu ela, "por isso reúne os teus sentidos e pondera as tuas palavras, e eu certamente verei o meu marido favorecido com o seu mais alto favor." Então Hasan fechou-se e compôs estes dísticos sobre uma base sólida e abundando em graça interior, e copiou-os com uma caligrafia do mais apurado gosto. São os seguintes:—

Meu é um Chefe que alcançou o mais altivo estado, ✿ Percorrendo os caminhos dos bons e dos grandes: A sua justiça torna todas as regiões seguras e firmes, ✿ E contra inimigos obstinados barra todos os portões: Leão audaz, herói, santo, se até o quiseres chamar ✿ Serafim ou Soberano, com todos ele se iguala nos sermões! O mais pobre suplicante dele regressa rico, ✿ Todas as palavras para o louvar seriam inadequadas. Ele é para o dia de paz a Manhã de açafrão, ✿ E a Noite sombria no furor da guerra em batalhões: Curvam-se sob os seus dons os nossos pescoços, e pelos seus feitos ✿ Como Rei das almas livres ele goza os seus estados: Allah aumente para nós o seu termo de anos, ✿ E do seu destino afaste todos os riscos e temores!

Quando terminou de transcrever as linhas, enviou-as, ao cuidado de um dos escravos do seu tio, ao Sultão, que as leu e cujo espírito ficou agradado; então leu-as aos presentes e todos as elogiaram com o mais alto louvor. Em seguida, mandou chamar o autor à sua câmara de estar e disse-lhe: "Tu és deste dia em diante o meu companheiro de copo e designo-te um soldo mensal de mil dirhams, para além do que te concedi outrora." Então Hasan levantou-se e, beijando o solo diante do Rei várias vezes, rezou pela continuação da sua grandeza e glória e longevidade e força. Assim, Badr al-Din Hasan, o Bassorita, elevou-se em honra e a sua fama voou para muitas regiões, e ele permaneceu em todo o conforto, consolo e deleite da vida com o seu tio e os seus próprios familiares até que a Morte o alcançou. Quando o Califa Harun al-Rashid ouviu esta história da boca do seu Wazir, Ja'afar, o Barmecida, maravilhou-se muito e disse: "Convém que estas histórias sejam escritas em letras de ouro líquido." Então libertou o escravo e atribuiu ao jovem que matara a sua esposa um estipêndio mensal que bastava para tornar a sua vida fácil; deu-lhe também uma concubina de entre as suas próprias escravas e o jovem tornou-se um dos seus companheiros de copo. "Contudo, esta história" (continuou Shahrazad) "não é de modo algum mais estranha do que a história do Alfaiate e do Corcunda e do Judeu e do Intendente e do Nazareno, e o que lhes aconteceu." Disse o Rei: "E o que poderá ser isso?" Então Shahrazad começou, nestas palavras,

A história do Alfaiate, do Corcunda, do Judeu, do Intendente e do Nazareno.

Diz-se que havia em tempos idos, na cidade da China, um alfaiate que vivia uma vida de conforto e que tinha por hábito sair com a sua esposa para se divertir e desfrutar das maravilhas da cidade. Certo dia, ao regressar a casa, encontrou um corcunda que cantava e tocava um pandeiro, e a sua voz e a sua atuação eram tão divertidas que o alfaiate, maravilhado, convidou-o para jantar e beber com eles. O corcunda aceitou e eles levaram-no para casa, onde o alfaiate comprou peixe e bebidas para a ocasião. Sentaram-se a comer, mas, ao servir-lhe um pedaço de peixe, o corcunda engasgou-se com uma espinha e morreu subitamente, pois a sua traqueia ficou obstruída.

O alfaiate, receando que o corcunda tivesse morrido na sua casa por culpa sua, ficou em grande aflição. Pensou então em livrar-se do corpo, levando-o até à casa de um médico judeu que vivia ali perto. Bateu à porta e, quando a criada veio abrir, o alfaiate disse-lhe: "Diz ao teu amo que traga o seu instrumento, pois tenho um paciente doente." O médico desceu, mas, na escuridão da escada, tropeçou no corpo do corcunda, que ele julgou estar vivo, e deu-lhe um pontapé que o fez rolar escada abaixo. O judeu, ao ver o corpo imóvel e acreditando tê-lo matado com o pontapé, entrou em pânico, pois temia ser acusado de homicídio pelas autoridades.

O judeu, para se salvar, transportou o corpo do corcunda até à casa de um intendente do Sultão e encostou-o à parede, deixando-o ali como se estivesse de pé. O intendente, ao sair de casa, viu o corcunda e, julgando ser um ladrão, golpeou-o com um pau. Ao ver que o corcunda não se mexia e percebendo que o tinha matado, o intendente, temendo a ira do Sultão, decidiu livrar-se do corpo atirando-o para a rua, onde foi encontrado por um cristão, um intendente dos mercados que ali passava. O cristão, bêbado, começou a discutir com o corcunda e, ao dar-lhe um murro, o corpo caiu por terra. O intendente cristão, pensando ter cometido um crime, foi detido pela guarda que passava no momento.

Foram todos levados perante o Rei, onde cada um confessou a sua história, acreditando que o corcunda era um morto-vivo que os perseguia. O Rei, ao ouvir os relatos, riu-se da situação e mandou chamar o alfaiate, o judeu, o intendente e o cristão, e, após ouvir as suas explicações, ordenou que o corcunda fosse enterrado com as devidas honras, sendo que a sorte, que se manifesta de formas misteriosas, fez com que cada um dos envolvidos fosse poupado devido ao inusitado da situação. E esta é a história que Shahrazad contou ao Rei, que, admirado, pediu que ela continuasse com as suas narrativas, pois nunca ouvira nada que lhe agradasse tanto.

Não há homem mais honesto do que o camponês ou o soldado raso turco; mas o processo de deterioração começa quando ele é feito cabo e culmina no Paxá. Além disso, a desonestidade oficial é permitida pela opinião pública, porque pertence à condição da sociedade. Um homem compra um cargo (como na Inglaterra dois séculos atrás) e mantém-no por meio de presentes aos chefes dos departamentos. Consequentemente, ele deve recuperar-se de alguma forma, e fá-lo geralmente esmagando as faces dos pobres e prejudicando a viúva e o órfão. A cura radical é um alto salário; mas essa fase da sociedade recusa-se a proporcioná-lo.

Nota de rodapé 493:

Árabe "Malik" (Rei) e "Malak" (anjo), as palavras sendo escritas da mesma forma quando sem vogais, justificando o trocadilho.

Nota de rodapé 494:

Árabe "Hurr"; o latim "ingenuus", lit. nascido livre; metaf. nobre, em oposição a um escravo de quem não se espera que pratique grandes ou bons feitos. No uso popular, corresponde, tal como "Fatá", ao nosso "cavalheiro".

Nota de rodapé 495:

Este é um dos melhores contos em termos de humor e movimento, e Douce e Madden mostram que uma rica colheita de fabliaux, cujo incidente principal era o descarte de um cadáver, dele resultou.

O CONTO DO CORCUNDA.

Chegou até mim, ó auspicioso Rei, que habitava em tempos de outrora, e anos e eras há muito passados, em uma certa cidade da China, um Alfaiate que era um homem generoso, amante de prazeres e folguedos; e que costumava, ele e sua esposa, consolarem-se de tempos em tempos com diversões e passatempos públicos. Um dia, saíram com a primeira luz do dia e regressavam à noite, quando encontraram um Corcunda, cuja aparência atrairia um riso até do cuidado e dissiparia os horrores do desespero. Então, aproximaram-se para se deleitarem a olhá-lo e convidaram-no para ir para casa com eles, conversar e bebericar naquela noite. Ele consentiu e acompanhou-os a pé até à sua casa; após o que o Alfaiate partiu para o bazar (a noite acabara de cair) e comprou um peixe frito, pão, limões e doces secos para a sobremesa; e colocou os víveres diante do Corcunda e comeram. Pouco depois, a esposa do Alfaiate tomou um grande bocado de peixe e deu-o em uma porção ao Gobbo, tapando-lhe a boca com a mão e dizendo: "Por Allah, tens de o engolir de uma só vez; e não te darei tempo para o mastigar". Assim, ele engoliu-o; mas nele havia uma espinha rígida que se entalou na sua garganta e, chegada a sua hora, ele morreu. — E Shahrazad percebeu o romper da aurora e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Agora, quando chegou a Vigésima Quinta Noite,

Ela disse: Chegou até mim, ó auspicioso Rei, que quando a esposa do Alfaiate deu ao Corcunda aquele bocado de peixe que terminou o seu prazo de dias, ele morreu no instante. Vendo isto, o Alfaiate clamou em voz alta: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah! Ai, que este pobre desgraçado devesse morrer de forma tão tola pelas nossas mãos!" e a mulher respondeu: "Por que este discurso ocioso? Não ouviste o ditado daquele que disse?—

Por que então desperdiço o meu tempo em dor, até ✿ não encontrar amigo para suportar o meu peso de aflição? Como dormir sobre um fogo que flameja inextinto? ✿ Sobre as chamas descansar seria difícil de mais!"

O seu marido perguntou-lhe: "E o que farei com ele?"; e ela respondeu: "Levanta-te e toma-o nos teus braços e estende um lenço de seda sobre ele; então eu partirei, com tu a seguir-me, nesta mesma noite, e se encontrares alguém, diz:—Este é o meu filho, e a sua mãe e eu estamos a levá-lo ao médico para que ele possa examiná-lo". Assim, ele levantou-se e, tomando o Corcunda nos braços, carregou-o pelas ruas, precedido pela sua esposa que gritava: "Ó meu filho, que Allah te guarde! que parte te dói e onde te atacou esta varíola?" Assim, todos os que os viam diziam: "É uma criança doente de varíola". Caminharam pedindo pela casa do médico até que as pessoas os dirigiram à de um curandeiro que era judeu. Bateram à porta, e desceu até eles uma escrava negra que abriu e, vendo um homem carregando um bebé, e uma mulher com ele, disse-lhes: "Qual é o problema?" "Temos um pequenino connosco", respondeu a esposa do Alfaiate, "e desejamos mostrá-lo ao médico: por isso, toma este quarto de dinar e dá-o ao teu mestre e deixa-o descer e ver o meu filho que está gravemente doente". A rapariga subiu para avisar o seu mestre, após o que a esposa do Alfaiate entrou no vestíbulo e disse ao seu marido: "Deixa o Corcunda aqui e vamos fugir pelas nossas vidas". Assim, o Alfaiate carregou o morto até ao topo das escadas e escorou-o em pé contra a parede e fugiu, ele e a sua esposa. Entretanto, a rapariga entrou junto do judeu e disse-lhe: "À porta estão um homem e uma mulher com uma criança doente e deram-me um quarto de dinar por ti, para que possas descer e olhar o pequeno e prescrever para ele". Assim que o judeu viu o quarto de dinar, alegrou-se e levantou-se rapidamente na sua ganância de lucro e saiu apressadamente na escuridão; mas mal tinha dado um passo quando tropeçou no cadáver e derrubou-o, fazendo-o rolar até ao fundo da escadaria. Então ele gritou para a rapariga se apressar com a luz, e ela trouxe-a, após o que ele desceu e examinando o Corcunda descobriu que ele estava morto como uma pedra. Então ele gritou: "Oh, por Esdras! Oh, por Moisés! Oh, por Aarão! Oh, por Josué, filho de Nun! Oh, pelos Dez Mandamentos! Tropecei no doente e ele caiu escada abaixo e está morto! Como hei de tirar este homem que matei da minha casa? Oh, pelos cascos do burro de Esdras!" Então ele pegou no corpo e, carregando-o para dentro de casa, contou à sua esposa o que tinha acontecido e ela disse-lhe: "Por que ficas parado? Se o mantiveres aqui até ao romper do dia, ambos perderemos as nossas vidas. Vamos nós os dois carregá-lo até ao terraço e atirá-lo para dentro da casa do nosso vizinho, o muçulmano, pois se ele permanecer lá uma noite, os cães descerão dos terraços contíguos e comê-lo-ão". Ora, o seu vizinho era um Administrador, o controlador da cozinha do Sultão, e costumava trazer grandes quantidades de azeite, gordura e sobras de carne; mas os gatos e ratos costumavam comê-los, ou, se os cães sentissem o cheiro da cauda gorda de um carneiro, desciam dos telhados mais próximos e rasgavam-na; e desta forma as bestas já tinham danificado muito do que ele trazia para casa. Assim, o judeu e a sua esposa carregaram o Corcunda até ao telhado; e, descendo-o pelas mãos e pés através da chaminé de ventilação para dentro da casa do Administrador, escoraram-no contra a parede e seguiram o seu caminho. Mal tinham feito isto quando o Administrador, que tinha passado a noite com os seus amigos a ouvir uma recitação do Alcorão, chegou a casa e abriu a porta e, subindo com uma vela acesa, encontrou um filho de Adão de pé no canto sob o ventilador. Quando viu isto, disse: "Wah! por Allah, muito bom, de facto! Aquele que rouba os meus bens não é outro senão um homem". Então ele virou-se para o Corcunda e disse: "Então és tu que roubas a carne e a gordura! Eu pensava que eram os gatos e cães, e mato os cães e gatos do bairro e peco contra eles ao matá-los. E todo o tempo és tu que desceste do terraço da casa através do ventilador. Mas vingar-me-ei de ti com a minha própria mão!" Então ele apanhou um martelo pesado e atacou-o, atingindo-o em cheio no peito, e ele caiu. Então examinou-o e, descobrindo que estava morto, gritou de horror, pensando que o tinha matado, e disse: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande!" E temeu pela sua vida, e acrescentou: "Allah amaldiçoe o azeite e a carne e a gordura e as caudas de carneiro também! Como deu o destino a este homem o seu fim pelas minhas mãos!" Então olhou para o corpo e, vendo que era o de um Gobbo, disse: "Não te bastava ser um corcunda, que tinhas de ser também um ladrão e roubar carne e gordura! Ó Tu que Velas, digna-Te velar-me com a Tua cortina de ocultação!" Então ele pegou nele aos ombros e, saindo com ele de casa no fim da noite, levou-o para a extremidade mais próxima do bazar, onde o colocou de pé contra a parede de uma loja no início de um beco escuro, deixou-o e foi embora. Após algum tempo, chegou um Nazareno, o corretor do Sultão, que, muito embriagado, dirigia-se para o banho Hammam conforme a sua embriaguez lhe sussurrava ao ouvido: "Em verdade, a chamada para as matinas está próxima". Ele vinha caminhando e cambaleando até se aproximar do Corcunda e agachou-se para urinar defronte dele; quando aconteceu olhar em volta e viu um homem de pé contra a parede. Ora, alguém tinha arrancado o turbante do cristão no início da noite; por isso, quando viu o Corcunda ali perto, imaginou que ele também pretendia roubar-lhe o toucado. Em seguida, cerrou o punho e atingiu-o no pescoço, derrubando-o no chão, e clamou em voz alta pelo vigia do bazar, e caiu sobre o corpo na sua fúria ébria e continuou a espancar e a estrangular o cadáver. Pouco depois, o guarda chegou e, encontrando um Nazareno ajoelhado sobre um muçulmano e a espancá-lo, perguntou: "Que mal fez este?"; e o Corretor respondeu: "O sujeito pretendia arrancar-me o turbante". "Levanta-te de cima dele", disse o vigia. Assim, ele levantou-se e o guarda aproximou-se do Corcunda e, encontrando-o morto, exclamou: "Por Allah, bom de facto! Um cristão a matar um maometano!" Então agarrou o Corretor e, atando-lhe as mãos atrás das costas, levou-o para a casa do Governador, e durante todo o tempo o Nazareno dizia para consigo: "Ó Messias! Ó Virgem! como vim eu a matar este sujeito? E com que pressa ele devia estar para deixar esta vida quando morreu com um só golpe!" Pouco depois, à medida que a sua embriaguez fugia, a dor tomou o seu lugar. Assim, o corretor e o corpo foram mantidos na casa do Governador até que a manhã amanheceu, quando o Wali saiu e deu ordem para enforcar o suposto assassino e comandou ao carrasco que fizesse a proclamação da sentença. Imediatamente ergueram uma forca sob a qual fizeram o Nazareno ficar de pé, e o portador da tocha, que era o carrasco, lançou a corda à volta do seu pescoço e passou uma extremidade pela roldana, e estava prestes a içá-lo quando, eis! o Administrador, que passava por ali, viu o Corretor prestes a ser enforcado; e, abrindo caminho por entre as pessoas, gritou para o carrasco: "Espera! Espera! Sou eu quem matou o Corcunda!" O Governador perguntou: "O que te fez matá-lo?"; e ele respondeu: "Cheguei a casa ontem à noite e lá encontrei este homem que tinha descido pelo ventilador para roubar os meus bens; por isso, atingi-o com um martelo no peito e ele morreu imediatamente. Então peguei nele e levei-o para o bazar e coloquei-o contra a parede em tal lugar perto de tal beco"; acrescentando: "Não é suficiente para mim ter matado um muçulmano sem também matar um cristão? Por isso não enforques ninguém senão a mim". Quando o Governador ouviu estas palavras, libertou o Corretor e disse ao portador da tocha: "Enforca este homem pela sua própria confissão". Assim, soltou a corda do pescoço do Nazareno e lançou-a à volta do pescoço do Administrador e, fazendo-o ficar sob a forca, estava prestes a içá-lo quando, eis! o médico judeu abriu caminho por entre as pessoas e gritou para o carrasco: "Espera! Espera! Fui eu e ninguém mais quem matou o Corcunda! Ontem à noite estava sentado em casa quando um homem e uma mulher bateram à porta carregando este Gobbo que estava doente, e deram à minha criada um quarto de dinar, ordenando-lhe que me entregasse o pagamento e me dissesse para descer e vê-lo. Enquanto ela se ausentou, o homem e a mulher trouxeram-no para dentro de casa e, colocando-o nas escadas, foram embora; e pouco depois eu desci e, não o vendo, pois estava no escuro, tropecei nele e ele caiu até ao sopé da escadaria e morreu no momento. Então pegámos nele, eu e a minha esposa, e carregámo-lo até ao terraço; e, sendo a casa deste Administrador vizinha da minha, descemos o corpo pelo ventilador. Quando ele chegou a casa e encontrou o Corcunda em sua casa, imaginou que era um ladrão e atingiu-o com um martelo, de modo que ele caiu ao chão, e o nosso vizinho teve a certeza de que o tinha matado. Agora, não é suficiente para mim ter matado um muçulmano inadvertidamente, sem me sobrecarregar com tirar a vida a outro muçulmano deliberadamente?" Quando o Governador ouviu isto, disse ao carrasco: "Liberta o Administrador e enforca o judeu".

Em seguida, o portador da tocha pegou nele e lançou a corda à volta do seu pescoço quando, eis! o Alfaiate abriu caminho por entre as pessoas e gritou para o carrasco: "Espera! Espera! Fui eu e ninguém mais quem matou o Corcunda; e foi desta maneira. Eu tinha estado a divertir-me ontem e, voltando para o jantar, encontrei este Gobbo, que estava bêbado e a tocar tambor e a cantar alegremente para o seu pandeiro. Então abordei-o e levei-o para a minha casa e comprei um peixe, e sentámo-nos para comer. Pouco depois, a minha esposa tomou um bocado de peixe e, fazendo uma porção dele, enfiou-a na sua boca; mas parte dela foi pelo caminho errado ou entalou-se na sua garganta e ele morreu no instante. Assim, levantámo-lo, eu e a minha esposa, e carregámo-lo para a casa do judeu, onde a escrava desceu e abriu a porta para nós e eu disse-lhe:—Diz ao teu mestre que estão aqui um homem e uma mulher e uma pessoa doente para ver! Dei-lhe um quarto de dinar e ela subiu para avisar o seu mestre; e, enquanto ela se ausentou, levei o Corcunda para o topo da escadaria e escorei-o contra a parede, e fui-me embora com a minha esposa. Quando o judeu desceu, tropeçou nele e pensou que o tinha matado". Então ele perguntou ao judeu: "É esta a verdade?"; e o judeu respondeu: "Sim". Em seguida, o Alfaiate virou-se para o Governador e disse: "Solta o judeu e enforca-me". Quando o Governador ouviu a história do Alfaiate, maravilhou-se com o assunto deste Corcunda e exclamou: "Em verdade, esta é uma aventura que deve ser registada nos livros!" Então disse ao carrasco: "Deixa o judeu ir e enforca o Alfaiate pela sua própria confissão". O carrasco pegou no Alfaiate e colocou a corda à volta do seu pescoço e disse: "Estou farto de um trabalho tão lento: trazemos um e trocamo-lo por outro, e ninguém é enforcado afinal!" Ora, o Corcunda em questão era, contam eles, bobo do Sultão da China, que não podia suportar que ele saísse da sua vista; por isso, quando o sujeito se embebedou e não apareceu naquela noite ou no dia seguinte até ao meio-dia, o Sultão perguntou a alguns dos seus cortesãos sobre ele e eles responderam: "Ó nosso senhor, o Governador encontrou-o morto e ordenou que o seu assassino fosse enforcado; mas, quando o carrasco estava prestes a içá-lo, veio um segundo e um terceiro e um quarto e cada um disse:—Sou eu, e ninguém mais, quem matou o Corcunda!; e cada um deu um relato completo e circunstanciado da maneira como o bobo foi morto". Quando o Rei ouviu isto, clamou em voz alta para o Camareiro-em-serviço: "Desce ao Governador e traz-me todos os quatro". Assim, o Camareiro desceu imediatamente ao local da execução, onde encontrou o portador da tocha prestes a enforcar o Alfaiate e gritou-lhe: "Espera! Espera!" Então, transmitiu a ordem do Rei ao Governador, que tomou o Alfaiate, o judeu, o Nazareno e o Administrador (sendo o corpo do Corcunda carregado aos ombros dos homens) e subiu com todos eles ao Rei. Quando ele entrou na presença, beijou o chão e inteirou o governante de toda a história, o que é desnecessário relatar pois, como dizem:—Não há proveito num conto contado três vezes. O Sultão, ao ouvi-la, maravilhou-se e foi movido ao riso e ordenou que a história fosse escrita em letras de ouro líquido, dizendo aos presentes: "Alguma vez ouvistes uma história mais maravilhosa do que a do meu Corcunda?" Em seguida, o corretor Nazareno adiantou-se e disse: "Ó Rei da era, com a tua permissão, contar-te-ei uma coisa que aconteceu comigo mesmo e que é ainda mais maravilhosa e maravilhosa e prazenteira e deleitável do que a história do Corcunda". O Rei disse: "Diz-nos o que tens a dizer!" Assim, ele começou nestas palavras

A HISTÓRIA DO CORRETOR NAZARENO.

Ó Rei da era, vim a este teu país com mercadorias e o Destino deteve-me aqui convosco; mas o meu lugar de nascimento foi o Cairo, no Egito, onde também fui criado, pois sou um dos Coptas e o meu pai era um corretor antes de mim. Quando cheguei à maioridade, ele partiu desta vida e eu sucedi-lhe no seu negócio. Um dia, enquanto estava sentado na minha loja, eis que se aproximou de mim um jovem tão belo quanto possível, vestindo trajes suntuosos e montando um belo asno. Quando me viu, saudou-me e eu levantei-me para lhe prestar homenagem; então ele tirou um lenço contendo uma amostra de sésamo e perguntou: "Quanto vale isto por Ardabb?"; ao que respondi: "Cem dirhams". Disse ele: "Toma carregadores, medidores e aferidores e vem amanhã ao Khan al-Jawáli, junto ao bairro do Portão da Vitória, onde me encontrarás." Depois partiu, deixando comigo a amostra de sésamo no seu lenço; e eu percorri os meus clientes e certifiquei-me de que cada Ardabb renderia cento e vinte dirhams. No dia seguinte, levei quatro aferidores e caminhei com eles até ao Khan, onde o encontrei à minha espera. Assim que me viu, levantou-se e abriu o seu armazém, e medimos o grão até que o depósito estivesse vazio; e descobrimos que o conteúdo era de cinquenta Ardabbs, perfazendo cinco mil peças de prata. Então disse ele: "Deixa que dez dirhams por cada Ardabb sejam a tua comissão; por isso, recebe o preço e guarda em depósito quatro mil e quinhentos dirhams para mim; e, quando eu tiver terminado de vender as outras mercadorias nos meus armazéns, virei ter contigo e receberei o montante." "Muito bem", respondi eu e, beijando-lhe a mão, fui-me embora, tendo feito naquele dia um lucro de mil dirhams. Ele esteve ausente um mês, ao fim do qual veio ter comigo e perguntou: "Onde estão os dirhams?" Levantei-me, saudei-o e respondi-lhe: "Não queres comer algo em minha casa?" Mas ele recusou com a observação: "Prepara o dinheiro e eu voltarei em breve e recebê-lo-ei." Depois partiu montado. Então retirei os dirhams e sentei-me à espera dele, mas ele permaneceu ausente por mais um mês, quando voltou e me disse: "Onde estão os dirhams?" Levantei-me, saudei-o e perguntei: "Não queres comer algo em minha casa?" Mas ele recusou novamente, acrescentando: "Prepara-me o dinheiro e eu voltarei em breve e recebê-lo-ei." Depois partiu a galope. Então retirei os dirhams e sentei-me à espera do seu regresso; mas ele permaneceu ausente de mim por um terceiro mês, e eu disse: "Na verdade, este jovem é a generosidade em forma encarnada." Ao fim do mês, ele apareceu, montado numa mula e vestindo um traje sumptuoso; ele era como a lua na noite de plenitude, e parecia acabado de sair dos banhos, com as faces rosadas e brilhantes, a testa branca como uma flor e uma mancha de nascença como um grão de âmbar gris a deliciar a vista; tal como foi dito sobre alguém assim pelo poeta:—

Lua cheia com sol em única mansão ✿ No mais brilhante fulgor e a fortuna ergueu-se e brilhou, Com esplendor feliz mudando cada espírito: ✿ Salve o que recompensa a prece com bênção ditosa! Os seus encantos e graça atingiram o auge da perfeição, ✿ Todos os corações conquistaram e todas as inteligências ganharam. Louvor ao Senhor por obras tão maravilhosamente estranhas, ✿ E o que o Todo-Poderoso deseja, a Sua mão cumpriu!

Quando o vi, levantei-me para ele e, invocando bênçãos sobre ele, perguntei: "Ó meu senhor, não vais aceitar o teu dinheiro?" "Para que a pressa?", disse ele, "Espera até que eu tenha terminado os meus negócios e então virei e recebê-lo-ei." Novamente partiu montado e eu disse para comigo: "Por Allah, quando ele vier da próxima vez, tenho de o fazer meu hóspede; pois negociei com os seus dirhams e obtive grandes ganhos com isso." Ao fim do ano, ele veio novamente, vestido com um traje mais sumptuoso do que o anterior; e, quando o conjurei pelo Evangelho a desmontar em minha casa e a comer do meu alimento de hóspede, ele disse: "Aceito, sob a condição de que o que gastares comigo seja do meu dinheiro que ainda está em tuas mãos." Respondi: "Assim seja", e fiz com que se sentasse enquanto preparava o que era necessário de carne, bebida e tudo o resto; e coloquei a bandeja diante dele, com o convite "Bismillah!". Então ele aproximou-se da bandeja, estendeu a mão esquerda e comeu comigo; e eu maravilhei-me por ele não usar a mão direita. Quando terminámos de comer, deitei água sobre a sua mão e dei-lhe com que a enxugar. Com isto, sentámo-nos a conversar depois de eu lhe ter servido alguns doces; e disse-lhe: "Ó meu senhor, peço-te que me alivies contando-me por que comes com a mão esquerda? Porventura algo aflige a tua outra mão?" Quando ele ouviu as minhas palavras, repetiu estes versos:—

Caro amigo, não perguntes o que arde no meu peito, ✿ Para que não vejas dores ardentes que olho algum jamais viu: Não deseja o meu coração abrigar Salmá em vez ✿ Do amor de Laylá, mas a necessidade nunca conhece lei!

E ele tirou o braço direito da manga e eis que a mão estava cortada, um pulso sem punho. Fiquei atónito com isto, mas ele disse: "Não te maravilhes, e não penses que comi com a mão esquerda por presunção ou insolência, mas por necessidade; e o corte da minha mão direita foi causado por uma aventura das mais estranhas." Perguntei: "E o que a causou?"; e ele respondeu:—Sabe que sou filho de Bagdade e o meu pai era um dos notáveis daquela cidade. Quando cheguei à maioridade, ouvi os peregrinos e caminhantes, viajantes e mercadores falarem da terra do Egito e as suas palavras penetraram profundamente na minha mente até que o meu progenitor morreu, quando tomei uma grande soma de dinheiro e preparei-me para o comércio com tecidos de Bagdade e Mossul e, embalando-os em fardos, parti nas minhas errâncias; e Allah decretou-me segurança até que entrei nesta vossa cidade. Depois ele chorou e começou a repetir:—

O míope escapa aos fossos ✿ Onde os de olhos de lince caem: Uma palavra mata o homem sábio ✿ E salva o vulgar: O muçulmano carece de alimento ✿ O infiel banqueteia-se no salão: Que arte ou ato é do homem? ✿ A vontade de Deus a tudo obriga!

Ora, quando ele terminou o seu verso, disse: Então entrei no Cairo, descarreguei as minhas cargas e armazenei os meus tecidos no Khan "Al-Masrúr". Depois dei ao servo algumas moedas de prata para me comprar algo de comer e deitei-me a dormir por um pouco. Quando acordei, fui até à rua chamada "Bayn al-Kasrayn" — Entre os dois Palácios — e depois voltei e passei a noite no Khan. Quando amanheceu, abri um fardo e retirei algum tecido, dizendo para comigo: "Vou sair e percorrer alguns dos bazares e ver o estado do mercado." Então carreguei o tecido em alguns dos meus escravos e parti até chegar à Kaysariyah ou Bolsa de Jahárkas; onde os corretores que sabiam da minha chegada vieram ao meu encontro. Eles levaram os tecidos e apregoaram-nos para venda, mas não conseguiram obter o preço de custo deles. Fiquei irritado com isto, porém o Shaykh dos corretores disse-me: "Ó meu senhor, dir-te-ei como podes obter lucro com as tuas mercadorias. Deves fazer como fazem os mercadores e vender a tua mercadoria a crédito por um período fixo, num contrato redigido por um notário e devidamente testemunhado; e empregar um cambista para receber as tuas dívidas todas as segundas e quintas-feiras. Assim ganharás dois dirhams e mais, por cada um; e consolar-te-ás e divertir-te-ás vendo o Cairo e o Nilo." Disse eu: "Este é um bom conselho", e levei os corretores até ao Khan. Eles levaram os meus tecidos e foram com eles à Bolsa onde os vendi bem, aceitando títulos pelo valor. Estes títulos depositei-os com um cambista, um banqueiro, que me deu um recibo com o qual regressei ao Khan. Aqui permaneci um mês inteiro, todas as manhãs tomando o pequeno-almoço com uma taça de vinho e fazendo as minhas refeições com carne de pombo, carneiro e doces, até que chegou o momento em que os meus recibos começaram a vencer-se. Assim, todas as segundas e quintas-feiras eu costumava ir à Bolsa e sentar-me na loja de um ou outro dos mercadores, enquanto o notário e o cambista iam por aí receber o dinheiro dos negociantes, até depois da hora da oração do meio da tarde, quando me traziam o montante, e eu contava-o e, selando os sacos, regressava com eles ao Khan. Num certo dia, que por acaso era segunda-feira, fui ao Hammam e de lá voltei ao meu Khan, e sentado no meu próprio quarto, tomei o pequeno-almoço com uma taça de vinho, depois do que dormi um pouco. Quando acordei, comi um frango e, perfumando o meu corpo, dirigi-me à loja de um mercador chamado Badr al-Din al-Bostáni, ou o Jardineiro, que me deu as boas-vindas; e sentámo-nos a conversar um pouco até que o bazar abrisse. De repente, eis que se aproximou uma senhora de figura majestosa, usando um toucado dos mais magníficos, perfumada com os mais doces aromas e caminhando com um andar gracioso e ondulante; e, vendo-me, levantou a mantilha, permitindo-me um vislumbre dos seus belos olhos negros. Ela saudou Badr al-Din, que retribuiu a saudação e levantou-se, e falou com ela; e no momento em que a ouvi falar, o amor por ela apoderou-se do meu coração. Depois ela disse a Badr al-Din: "Tens aí uma peça de tecido cortada, tecida com fio de ouro puro?" Então ele trouxe-lhe uma peça daquelas que tinha comprado de mim e vendeu-lha por mil e duzentos dirhams; ao que ela disse: "Levarei a peça para casa comigo e enviar-te-ei o seu preço." "Isso é impossível, ó minha senhora", respondeu o mercador, "pois aqui está o dono do tecido e devo-lhe uma parte do lucro." "Ai de ti!", gritou ela, "Não costumo eu levar de ti rolos inteiros de tecido caro, e dar-te um lucro maior do que esperas, e enviar-te o dinheiro?" "Sim", respondeu ele; "mas estou a precisar urgentemente do preço neste mesmo dia." Com isto, ela pegou na peça e atirou-a de volta ao colo dele, dizendo: "Fora contigo! Allah confunda a tua tribo, que não estima ninguém no valor correto;" e virou-se para ir embora. Senti a minha própria alma a ir com ela; por isso levantei-me e detive-a, dizendo: "Conjuro-te pelo Senhor, ó minha senhora, favorece-me voltando atrás nos teus passos graciosos." Ela voltou-se com um sorriso e disse: "Por tua causa eu volto", e sentou-se à minha frente na loja. Então disse eu a Badr al-Din: "Qual é o preço que te pediram por esta peça?"; e disse ele: "Onze mil dirhams." Replicatei: "Os cem ímpares serão o teu lucro: traz-me uma folha de papel e escrever-te-ei uma quitação por ela." Então escrevi-lhe um recibo de próprio punho e entreguei a peça à senhora, dizendo: "Leva-a contigo e, se quiseres, traz-me o seu preço no próximo dia de bazar; ou melhor ainda, aceita-a como o meu presente de hóspede para ti." "Allah te recompense com o bem", respondeu ela, "e te faça meu marido e senhor e dono de tudo o que tenho!" E Allah favoreceu a sua prece. Vi os Portões do Paraíso abrirem-se diante de mim e disse: "Ó minha senhora, deixa que esta peça de tecido seja agora tua e outra igual está pronta para ti; apenas deixa-me ter um olhar sobre o teu rosto." Então ela levantou o véu e vi um rosto cuja visão me legou mil suspiros, e o meu coração ficou tão cativado pelo seu amor que já não era senhor da minha razão. Depois ela deixou cair o véu do rosto e, pegando na peça de tecido, disse: "Ó meu senhor, não me deixes desolada com a tua ausência!" e virou-se e desapareceu da minha vista. Permaneci sentado na Bolsa até depois da hora da oração da tarde, perdido para o mundo pelo amor que me dominara; e a violência da minha paixão obrigou-me a fazer perguntas sobre ela ao mercador, que me respondeu: "Esta é uma senhora e rica: ela é filha de um certo Emir que morreu recentemente e lhe deixou uma grande fortuna." Depois despedi-me dele e regressei a casa, ao Khan, onde me serviram o jantar; mas não consegui comer de tanto pensar nela e, quando me deitei para dormir, o sono não se aproximou de mim. Assim, vigiei até de manhã, quando me levantei, mudei de roupa e bebi uma taça de vinho; e, depois de tomar o pequeno-almoço com algo leve, fui à loja do mercador, onde o saudei e me sentei junto a ele. De repente, aproximou-se a senhora como de costume, seguida por uma escrava e vestindo um traje mais sumptuoso do que antes; e ela saudou-me sem notar Badr al-Din e disse com um discurso fluente e gracioso (nunca ouvi voz mais suave ou mais doce): "Manda alguém comigo para levar os mil e duzentos dirhams, o preço da peça." "Por que esta pressa?", perguntei eu e ela respondeu: "Que nunca te percamos!" e entregou-me o dinheiro. Depois sentei-me a conversar com ela e, de repente, fiz-lhe um sinal em gestos mudos, pelo qual ela entendeu que eu desejava desfrutar da sua pessoa, e ela levantou-se apressadamente com um ar de desagrado. O meu coração agarrou-se a ela e saí do bazar e segui-lhe o rastro. Enquanto caminhava, de repente uma escrava negra parou-me e disse: "Ó meu senhor, vem falar com a minha senhora." Com isto, surpreendi-me e respondi: "Não há ninguém que me conheça aqui;" mas ela replicou: "Ó meu senhor, quão depressa te esqueceste dela! A minha senhora é a mesma que esteve hoje na loja de tal mercador." Então fui com ela até ao cambista, onde encontrei a senhora que me puxou para o seu lado e disse: "Ó meu amado, a tua imagem está firmemente gravada na minha fantasia, e o amor por ti apoderou-se do meu coração: desde a hora em que te vi pela primeira vez, nem o sono nem a comida nem a bebida me deram qualquer prazer." Respondi: "O dobro desse sofrimento é meu e o meu estado dispensa-me de me queixar." Então disse ela: "Ó meu amado, em tua casa ou na minha?" "Sou um estranho aqui e não tenho local de receção exceto o Khan, por isso, pelo teu favor, será em tua casa." "Assim seja; mas esta é a noite de sexta-feira e nada pode ser feito até amanhã, depois das orações públicas; vai à Mesquita e reza; depois monta o teu asno e pergunta pelo bairro Habbániyah; e, quando lá estiveres, procura a mansão de Al-Nakib Barakát, popularmente conhecido como Abu Shámah, o Síndico; pois vivo lá: por isso não te atrases, pois estarei à tua espera." Regozijei-me com alegria ainda maior com isto; e despedi-me dela e regressei ao meu Khan, onde passei uma noite em claro. Mal tive a certeza de que o dia tinha amanhecido, levantei-me, mudei de roupa, perfumei-me com essências e doces aromas e, levando cinquenta dinares num lenço, saí do Khan Masrúr para o portão de Zuwaylah, onde montei um asno e disse ao seu dono: "Leva-me a Habbaniyah." Ele partiu comigo e, num abrir e fechar de olhos, parou numa rua conhecida como Darb al-Munkari, onde lhe disse: "Entra e pergunta pela mansão do Síndico." Ele esteve ausente por um tempo e depois voltou e disse: "Desmonta." "Vai tu à frente para a casa", disse eu, acrescentando: "Volta com a primeira luz e leva-me para casa"; e ele respondeu: "Em nome de Allah"; whereupon eu dei-lhe um quarto de dinar de ouro, e ele pegou nele e seguiu o seu caminho. Então bati à porta e saíram duas escravas brancas, ambas jovens; virgens de seios altos, como se fossem luas, e disseram-me: "Entra, pois a nossa senhora está à tua espera e não dormiu a noite toda pelo seu deleite contigo." Passei pelo vestíbulo para um salão com sete portas, pavimentado com mármores multicoloridos e decorado com cortinas e tapeçarias de sedas coloridas: o teto era em cloisonné com ouro e decorado com inscrições emblasonadas em lápis-lazúli; e as paredes estavam estucadas com gesso Sultáni que refletia o rosto de quem olhava. À volta do salão havia janelas gradeadas com vista para um jardim cheio de toda a espécie de frutos; cujas correntes eram murmúrios e correria e cujos pássaros eram trinados e gritos; e no coração do salão havia uma fonte a jorrar em cujos cantos estavam pássaros moldados em ouro vermelho incrustados com pérolas e gemas e jorrando água cristalina. Quando entrei e tomei um assento,—E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou o seu discurso permitido.

Ora, quando era a Vinte e Sexta Noite,

Ela disse: Chegou-me, ó auspicioso Rei, que o jovem mercador continuou: Quando entrei e tomei um assento, a senhora entrou imediatamente coroada com um diadema de pérolas e joias; o rosto pontilhado com sinais artificiais em índigo, as sobrancelhas delineadas com Kohl e as mãos e pés avermelhados com Henna. Quando me viu, sorriu-me, tomou-me nos seus braços e apertou-me contra o peito; depois encostou a boca à minha e sugou-me a língua (e eu fiz o mesmo) e disse: "Pode ser verdade, ó meu pequeno escuro, que vieste ter comigo?", acrescentando: "Bem-vindo e bom ânimo para ti! Por Allah, desde o dia em que te vi, o sono não me foi doce nem a comida agradável." Disse eu: "Tal tem sido também o meu caso: e eu sou teu escravo, teu escravo negro." Então sentámo-nos a conversar e eu baixei a cabeça em direção à terra, envergonhado, mas ela não tardou a colocar diante de mim uma bandeja das mais requintadas iguarias, carnes marinadas, fritos embebidos em mel de abelha e frangos recheados com açúcar e pistácios, dos quais comemos até ficarmos satisfeitos. Depois trouxeram a bacia e o jarro e eu lavei as mãos e perfumámo-nos com água de rosas almiscarada e sentámo-nos novamente a conversar. Então ela começou a repetir estes dísticos:—

Se soubéssemos da tua vinda, o teu caminho teria sido coberto Com o sangue do nosso coração e as bolas da nossa vista: A nossa face como um tapete para te saudar teria sido lançada, Para que o teu passo nas nossas pálpebras suavemente pousasse.

E ela continuava a queixar-se do que lhe tinha acontecido e eu do que me tinha ocorrido; e o amor por ela tomou tão firme posse do meu coração que todas as minhas riquezas pareciam coisa de nada em comparação com ela. Depois, pusemo-nos a brincar, a acariciar e a beijar até ao cair da noite, quando as servas nos colocaram diante iguarias e um serviço de vinhos completo, e ficámos a folgar até ao meio da noite; quando nos deitámos e eu me deitei com ela, nunca na minha vida vi uma noite como aquela. Quando a manhã despontou, levantei-me e despedi-me dela, atirando para debaixo da cama forrada o lenço onde estavam os dinares e, ao sair, ela chorou e disse: "Ó meu senhor, quando voltarei a ver esse rosto encantador?" "Estarei contigo ao pôr do sol", respondi, e ao sair encontrei o rapaz do burro, que me tinha trazido no dia anterior, à espera à porta. Montei então o jumento e cavalguei até ao Khan de Masrur, onde desmontei e dei ao homem meio dinar, dizendo: "Regressa ao pôr do sol"; e ele disse: "Assim farei." Depois tomei o pequeno-almoço e saí para procurar o preço das minhas mercadorias; depois do que regressei e, tomando um cordeiro assado e alguns doces, chamei um carregador e pus a provisão no seu cesto, e enviei-a à senhora, pagando ao homem o seu salário. Voltei aos meus negócios até ao pôr do sol, quando o condutor do jumento veio ter comigo; e tomei cinquenta dinares num lenço e cavalguei até à sua casa, onde encontrei o chão de mármore varrido, os metais polidos, os candelabros de ramos a arder, as velas de cera prontas, a carne servida e o vinho decantado. Quando a minha senhora me viu, passou os braços pelo meu pescoço e exclamou: "Desolaste-me com a tua ausência." Depois pôs as mesas diante de mim e comemos até ficarmos satisfeitos, quando as escravas levaram os tabuleiros e serviram vinho. Não parámos de beber até que metade da noite passou; e, estando bem aquecidos pela bebida, fomos para o quarto de dormir e lá ficámos até de manhã. Levantei-me então e saí de junto dela, deixando-lhe os cinquenta dinares como antes; e, encontrando o rapaz do burro à porta, cavalguei até ao Khan e dormi um pouco. Depois saí para preparar a refeição da noite e tomei um par de gansos com molho em dois pratos de arroz temperado e apimentado, e preparei raízes de colocásia fritas e embebidas em mel, e velas de cera e frutos e compotas e nozes e amêndoas e flores perfumadas; e enviei-lhes tudo. Assim que anoiteceu, voltei a atar cinquenta dinares num lenço e, montando o jumento como de costume, cavalguei até à mansão onde comemos e bebemos e nos deitámos juntos até de manhã, quando lhe atirei o lenço e os dinares e voltei a cavalo para o Khan. Não deixei de agir dessa maneira até que, após uma noite doce, acordei numa bela manhã e encontrei-me na miséria, sem dinares nem dirhams. Então disse para comigo: "Tudo isto é obra de Satanás"; e comecei a recitar estes dísticos:—

A pobreza apaga o brilho do homem, seja qual for a sua riqueza, ✿ Tal como o sol prestes a pôr-se brilha com uma luz amarelada: Ausente, ele cai no esquecimento, esquecido pelos seus amigos; ✿ Presente, não partilha das suas alegrias, pois ninguém nele se deleita: Ele caminha pelo mercado evitado por todos, feliz por esconder a cabeça; ✿ Em lugares desertos derrama lágrimas e lamenta a sua amarga sorte: Por Alá, entre os seus parentes um homem, por melhor que seja, ✿ Emboscado pela necessidade e pela penúria, não passa de um estranho!

Saí do Khan e desci pela rua "Entre os Palácios" até chegar à Porta de Zuwaylah, onde encontrei as pessoas a amontoarem-se e a entrada bloqueada pela multidão. E, pelo decreto do Destino, vi ali um soldado contra quem me pressionei involuntariamente, de modo que a minha mão foi parar ao bolso do seu peito e senti uma bolsa lá dentro. Olhei e, vendo um cordão de seda verde pendurado no bolso, reconheci-o como uma bolsa; e o aperto tornou-se maior a cada minuto e, nessa altura, um camelo carregado com uma carga de combustível por acaso empurrou o soldado do lado oposto, e ele virou-se para se defender, para que não lhe rasgasse as roupas; e Satanás tentou-me, por isso puxei o cordão e tirei um pequeno saco de seda azul, contendo algo que tilintava como moeda. Mas o soldado, sentindo o seu bolso subitamente aliviado, levou lá a mão e encontrou-o vazio; ao que se virou para mim e, arrancando a sua maça do arco da sela, golpeou-me com ela na cabeça. Caí no chão, enquanto as pessoas nos rodeavam e, segurando a égua do soldado pelas rédeas, diziam-lhe: "Bates a este jovem com um golpe destes por um simples empurrão!" Mas o soldado gritou-lhes: "Este sujeito é um ladrão maldito!" Ao que recuperei os sentidos e levantei-me, e as pessoas olharam para mim e disseram: "Não, ele é um jovem formoso: ele não roubaria nada"; e alguns deles tomaram a minha defesa e outros estavam contra mim, e a pergunta e a resposta tornaram-se altas e calorosas. As pessoas puxaram-me e ter-me-iam resgatado das suas garras; mas, como o destino decretou, eis que o Governador, o Chefe da Polícia e a guarda entraram na Porta de Zuwaylah neste momento e, vendo as pessoas reunidas à minha volta e o soldado, o Governador perguntou: "O que se passa?" "Por Alá! Ó Emir", respondeu o soldado, "este é um ladrão! Eu tinha no meu bolso uma bolsa de seda azul forrada com vinte boas peças de ouro e ele tirou-ma, enquanto eu estava no aperto." Disse o Governador: "Estava alguém ao teu lado na altura?"; e disse o soldado: "Não." Então o Governador gritou ao Chefe da Polícia, que me prendeu, e desta forma a cortina da proteção do Senhor foi retirada de mim. Depois disse: "Despi-o"; e, quando me despiram, encontraram a bolsa nas minhas roupas. O Wali tomou-a, abriu-a e contou-a; e, encontrando nela vinte dinares como o soldado tinha dito, enfureceu-se grandemente e ordenou aos seus guardas que me trouxessem perante ele. Depois disse-me: "Agora, ó jovem, fala a verdade: roubaste esta bolsa?" A isto baixei a cabeça até ao chão e disse para comigo: "Se negar tê-la roubado, vou meter-me em problemas terríveis." Por isso levantei a cabeça e disse: "Sim, eu tirei-a." Quando o Governador ouviu estas palavras, maravilhou-se e convocou testemunhas que se apresentaram e atestaram a minha confissão. Tudo isto aconteceu na Porta de Zuwaylah. Depois o Governador ordenou ao portador da tocha que me cortasse a mão direita, e ele fê-lo; depois do que teria cortado também o meu pé esquerdo; mas o coração do soldado amoleceu e ele teve pena de mim e intercedeu por mim junto do Governador para que eu não fosse morto. Então o Wali deixou-me e foi-se embora, e o povo permaneceu à minha volta e deu-me uma taça de vinho para beber. Quanto ao soldado, ele insistiu em dar-me a bolsa e disse: "Tu és um jovem formoso e não te convém ser um ladrão." Então repeti estes versos:—

Juro pelo nome de Alá, meu senhor! Ladrão não fui, ✿ Nem, ó tu, o melhor dos homens! Bandido fui criado: Mas a mudança e o acaso da Fortuna derrubaram-me subitamente, ✿ E o cuidado e a aflição e a penúria desviaram o meu rumo: Não fui eu quem disparou, na verdade, foi Alá quem disparou a seta ✿ Que rolou no pó o diadema real da minha cabeça.

O soldado afastou-se depois de me dar a bolsa; e eu também segui o meu caminho, tendo envolvido a mão num pedaço de trapo e enfiado no meu peito. Toda a minha aparência tinha mudado, e a minha cor tornara-se amarela devido à vergonha e à dor que me tinham acontecido. No entanto, fui até à casa da minha amante onde, em extremo transtorno de espírito, me atirei para a cama forrada.

Ela viu-me neste estado e perguntou-me: "Que te aflige e porque te vejo tão mudado de aspeto?"; e eu respondi: "A minha cabeça dói-me e não estou nada bem." Ao que ela ficou perturbada e preocupada comigo e disse: "Não me queimes o coração, ó meu senhor, mas senta-te e levanta a cabeça e conta-me o que te aconteceu hoje, pois o teu rosto conta-me uma história." "Deixa essa conversa", respondi. Mas ela chorou e disse: "Parece-me que estás cansado de mim, pois vejo-te contrário ao teu costume." Mas eu fiquei em silêncio; e ela continuava a falar-me embora eu não lhe desse resposta, até que a noite caiu. Depois pôs comida diante de mim, mas recusei-a temendo que ela me visse a comer com a mão esquerda e disse-lhe: "Não tenho apetite para comer neste momento." Disse ela: "Conta-me o que te aconteceu hoje, e porque estás tão triste e de espírito e coração quebrados?" Disse eu: "Espera um pouco; contar-te-ei tudo com calma." Depois trouxe-me vinho, dizendo: "Bebe, isto dissipará a tua mágoa: tens de beber e contar-me as tuas notícias." Perguntei-lhe: "À força tenho de te contar?"; e ela respondeu: "Sim." Então disse eu: "Se tem de ser assim, então dá-me de beber com a tua própria mão." Ela encheu e bebeu, e encheu de novo e deu-me a taça que tomei com a mão esquerda e limpei as lágrimas das pálpebras e comecei a repetir:—

Quando Alá deseja que algo aconteça a um homem ✿ Que tem ouvidos, olhos e juízo em plena medida; Os seus ouvidos Ele ensurdece e os seus olhos Ele cega ✿ E extrai o seu juízo como extraímos um cabelo Até que, tendo cumprido o Seu propósito, Ele restaura ✿ O juízo do homem, para que, avisado, seja mais circunspecto.

Quando terminei os meus versos, chorei, e ela soltou um grito extremamente alto: "Qual é a causa das tuas lágrimas? Tu queimas-me o coração! O que te faz tomar a taça com a mão esquerda?" Disse eu: "Na verdade, tenho na minha mão direita um furúnculo"; e disse ela: "Tira-o e eu abri-lo-ei para ti." "Ainda não é altura de o abrir", respondi, "Por isso não me apoquentes com as tuas palavras, pois não o tirarei da ligadura a esta hora." Depois bebi a taça, e ela não parou de me servir até que a embriaguez me dominou e adormeci no lugar onde estava sentado; ao que ela olhou para a minha mão direita e viu um pulso sem mão. Então examinou-me minuciosamente e encontrou comigo a bolsa de ouro e a minha mão decepada envolta no pedaço de trapo. Com isto, uma tal tristeza abateu-se sobre ela como nunca abateu ninguém e não parou de lamentar-se por minha causa até de manhã. Quando acordei, descobri que ela me tinha preparado um prato de caldo de quatro galinhas cozidas, que me trouxe juntamente com uma taça de vinho. Comi e bebi e, pousando a bolsa, teria saído; mas ela disse-me: "Para onde vais?"; e eu respondi: "Para onde os meus negócios me chamam"; e disse ela: "Não sairás: senta-te." Por isso sentei-me e ela retomou: "O teu amor por mim dominou-te a tal ponto que desperdiçaste toda a tua riqueza e perdeste a tua mão por minha causa? Tomo-te como testemunha contra mim e também Alá seja minha testemunha de que nunca me separarei de ti, mas morrerei aos teus pés; e em breve verás que as minhas palavras são verdadeiras." Depois mandou chamar o Cadi e testemunhas e disse-lhes: "Escrevam o meu contrato de casamento com este jovem, e sede testemunhas de que recebi o dote." Quando redigiram o documento, ela disse: "Sede testemunhas de que todos os meus dinheiros que estão neste baú e tudo o que tenho em escravos e servas e outros bens é dado em livre dádiva a este jovem." Por isso tomaram nota desta declaração, permitindo-me assumir a posse por direito de casamento; e depois retiraram-se, após receberem os seus honorários. Depois ela pegou-me pela mão e, conduzindo-me a um armário, abriu um grande baú e disse-me: "Vê o que está aqui dentro"; e olhei e eis que estava cheio de lenços. Disse ela: "Este é o dinheiro que recebi de ti e cada lenço que me deste, contendo cinquenta dinares, eu embrulhei e atirei para este baú; por isso agora toma o que é teu, pois regressa a ti, e neste dia tornaste-te de alto estatuto. A Fortuna e o Destino afligiram-te de modo a que perdeste a tua mão direita por minha causa; e eu nunca te poderei recompensar; aliás, mesmo que desse a minha vida, seria pouco e eu permaneceria ainda tua devedora." Depois acrescentou: "Toma conta da tua propriedade"; por isso transferi o conteúdo do baú dela para o meu baú, e acrescentei a minha riqueza à riqueza dela que eu lhe tinha dado, e o meu coração acalmou-se e a minha mágoa cessou. Levantei-me e beijei-a e agradeci-lhe; e ela disse: "Tu deste a tua mão por amor a mim e como poderei eu dar-te um equivalente? Por Alá, se oferecesse a minha vida pelo teu amor, seria de facto pouco e não faria justiça à tua reivindicação sobre mim." Depois passou-me por escritura tudo o que possuía em roupas e ornamentos de ouro e pérolas, e bens e quintas e móveis, e não se deitou para dormir naquela noite, estando gravemente aflita pela minha mágoa, até que lhe contei tudo o que me tinha acontecido. Passei a noite com ela. Mas antes de vivermos juntos durante um mês, ela caiu gravemente doente e a doença aumentou nela, devido à sua mágoa pela perda da minha mão, e ela aguentou apenas cinquenta dias antes de ser contada entre o povo do futuro e herdeiros da imortalidade. Por isso preparei-a e enterrei o seu corpo na terra mãe e fiz realizar uma piedosa leitura do Alcorão pela saúde da sua alma, e dei muito dinheiro em esmola por ela; depois do que me afastei do túmulo e regressei a casa. Lá descobri que ela tinha deixado muitos bens em dinheiro vivo e escravos, mansões, terras e domínios, e entre os seus armazéns havia um celeiro de sementes de sésamo, do qual vendi parte a ti; e não tive tempo nem inclinação para prestar contas contigo até ter vendido o resto do stock; nem, de facto, mesmo agora terminei de receber o preço. Por isso desejo que não me sejas um obstáculo no que estou prestes a dizer-te: duas vezes comi da tua comida e desejo dar-te como presente o dinheiro do sésamo que está contigo. Tal é a causa do corte da minha mão direita e de eu comer com a esquerda. "De facto", disse eu, "mostraste-me a maior bondade e liberalidade." Depois ele perguntou-me: "Porque não viajarias comigo para a minha terra natal para onde estou prestes a regressar com mercadorias do Cairo e de Alexandria? Diz-me, acompanhar-me-ás?"; e eu respondi: "Acompanhar-te-ei." Por isso aceitei ir com ele no início do mês, e vendi tudo o que tinha e comprei outra mercadoria; depois partimos e viajámos, eu e o jovem, para este vosso país, onde ele vendeu o seu empreendimento e comprou outro investimento de bens do país e continuou a sua viagem para o Egito. Mas coube-me a mim ficar aqui, de modo que estas coisas me aconteceram na minha estranheza, que aconteceram na noite passada, e não é este conto, ó Rei da era, mais maravilhoso e espantoso do que a história do Corcunda? "Não é assim", disse o Rei, "não posso aceitá-lo: não há outro remédio senão que sejais enforcados, todos vós."——E Shahrazad percebeu o romper do dia, e cessou de dizer o seu discurso permitido.

Agora, quando era a Vigésima Sétima Noite,

Ela disse: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que quando o Rei da China declarou "Não há outro remédio senão que sejais enforcados", o Administrador da Cozinha do Sultão adiantou-se e disse: "Se me permitires, contar-te-ei um conto do que me aconteceu pouco antes de encontrar este Gobbo; e, se for mais maravilhoso do que a sua história, concede-nos as nossas vidas." E quando o Rei respondeu "Sim", ele começou a narrar

O CONTO DO ADMINISTRADOR.

Sabe, ó Rei, que na noite passada estive numa festa onde fizeram uma leitura do Alcorão e reuniram doutores da lei e da religião, especialistas em recitação e entonação; e, quando os leitores terminaram, a mesa foi posta e, entre outras coisas, colocaram diante de nós um guisado marinado temperado com sementes de cominho. Então sentámo-nos, mas um de nós reteve-se e recusou-se a tocar-lhe. Conjurámo-lo a comer dele, mas ele jurou que não o faria; e, quando insistimos novamente com ele, disse: "Não sejais insistentes comigo; basta-me o que já me aconteceu por o comer"; e começou a recitar:—

Põe o teu tabuleiro ao ombro e segue direto para o teu objetivo; ✿ E, se te convém este Kohl, então — usa este Kohl!

Quando terminou o seu verso, dissemos-lhe: "Por Allah, revela-nos a tua razão para te recusares a comer do guisado de cominho". "Se assim é", respondeu ele, "e se tenho mesmo de o comer, não o farei sem lavar a minha mão quarenta vezes com sabão, quarenta vezes com potassa e quarenta vezes com galanga, sendo o total cento e vinte lavagens". Nesse momento, o hospitaleiro anfitrião ordenou aos seus escravos que trouxessem água e tudo o que ele requeria; e o jovem lavou a sua mão tal como acima mencionado. Depois, sentou-se, como se estivesse enojado e, ao mesmo tempo, assustado, e mergulhando a mão no guisado, começou a comer, revelando sinais de irritação. E maravilhámo-nos com ele com extremo assombro, pois a sua mão tremia e o bocado nela oscilava, e vimos que o seu polegar tinha sido cortado e que ele comia apenas com os quatro dedos. Então dissemos-lhe: "Por Allah, o que aconteceu ao teu polegar? É a tua mão assim por criação de Deus ou sucedeu-lhe algum acidente?" "Ó meus irmãos", respondeu ele, "não é apenas assim com este polegar, mas também com o meu outro polegar e com ambos os meus hálux, como vereis". Dito isto, descobriu a mão esquerda e os pés, e vimos que a mão esquerda era exatamente como a direita e, da mesma maneira, que a cada um dos seus pés faltava o hálux. Quando o vimos neste estado, o nosso espanto cresceu ainda mais e dissemos-lhe: "Mal temos paciência para aguardar a tua história e ouvir o modo como foram cortados os teus polegares, e a razão de lavares ambas as mãos cento e vinte vezes". Sabei então, disse ele, que o meu pai era o chefe dos mercadores e o mais abastado de todos eles na cidade de Bagdade, durante o reinado do Califa Harun al-Rashid; e ele era muito dado a beber vinho e a ouvir o alaúde e outros instrumentos de prazer; de modo que, quando morreu, nada deixou. Enterrei-o e mandei celebrar exéquias do Alcorão por ele, e lamentei-o durante dias e noites: depois abri a sua loja e descobri que ele tinha deixado nela poucos bens, enquanto as suas dívidas eram muitas. Contudo, entrei em acordo com os seus credores para ter tempo de liquidar as suas demandas e dediquei-me a comprar e vender, pagando-lhes algo de semana a semana por conta; e não parei de fazer isto até ter saldado inteiramente as suas obrigações e começado a aumentar o meu capital. Um dia, enquanto estava sentado na minha loja, subitamente e de forma inesperada surgiu diante de mim uma jovem, mais bela do que quem eu jamais vira, vestindo as mais ricas vestes e adornos e montando uma mula, com um escravo negro a andar à sua frente e outro atrás dela. Ela puxou as rédeas à entrada do bazar de câmbio e entrou, seguida por um eunuco que lhe disse: "Ó minha senhora, sai e vai-te embora sem dizer a ninguém, para não acenderes um fogo que nos consumirá a todos". Além disso, ele permaneceu diante dela, protegendo-a da vista enquanto ela observava as lojas dos mercadores. Ela não encontrou nenhuma aberta a não ser a minha; então aproximou-se, com o eunuco atrás dela, e sentando-se na minha loja saudou-me; nunca ouvi nada mais belo do que o seu discurso ou mais doce do que a sua voz. Depois, revelou o seu rosto, e vi que era como a lua, e roubei-lhe um olhar cuja visão me causou mil suspiros, e o meu coração foi cativado pelo amor por ela, e continuei a olhar uma e outra vez para o seu rosto, repetindo estes versos:—

Dizei à encantadora no véu cor de pomba, ✿ Que a morte seria bem-vinda para abater a tua dor! Favorece-me com os teus favores para que eu viva: ✿ Vê, estendo a palma da mão para receber o teu véu!

Quando ela ouviu o meu verso, respondeu-me dizendo:—

Perdi toda a paciência pelo desdém que tens por mim; ✿ O meu coração não conhece nada senão o compromisso de amor a ti! Se eu visse algo mais além dos teus encantos tão brilhantes; ✿ Que a minha separação não termine na tua visão! Juro que nunca esquecerei o teu direito; ✿ E este peito ansiaria por voar até à tua altura: Fizeste-me esvaziar a taça do amor, e eu alegremente ✿ Uma taça de amor terna para o deleite de ti: Leva esta minha forma para onde fores, e quando ✿ Morreres, sepulta-me no teu lugar: Chama por mim na minha campa, e ouve os meus ossos ✿ Suspirarem as suas respostas ao teu lamento: E se me perguntassem "De Deus, o que gostarias de ver?" ✿ Eu responderia: "Primeiro a Sua vontade, depois o Teu decreto!"

Quando ela terminou o seu verso, perguntou-me: "Ó jovem, tens alguma fazenda bela contigo?"; e respondi: "Ó minha senhora, o teu escravo é pobre; mas tem paciência até que os mercadores abram as suas lojas, e eu providenciar-te-ei o que quiseres". Depois sentámo-nos a conversar, eu e ela (e eu estava afogado no mar do seu amor, atordoado no deserto da minha paixão por ela), até que os mercadores abriram as suas lojas; quando me levantei e fui buscar-lhe tudo o que procurava, na quantia de cinco mil dirhams. Ela deu a mercadoria ao eunuco e, saindo pela porta da Bolsa, montou na mula e foi-se embora, sem me dizer de onde vinha, e eu tive vergonha de falar de tal ninharia. Quando os mercadores me cobraram o preço, tornei-me responsável por cinco mil dirhams e fui para casa, embriagado pelo amor dela. Puseram-me o jantar à frente e comi um bocado, pensando apenas na sua beleza e formosura, e tentei dormir, mas o sono não veio a mim. E tal foi a minha condição durante uma semana inteira, quando os mercadores reclamaram os seus dinheiros, mas persuadi-os a terem paciência por mais uma semana, ao fim da qual ela apareceu de novo montada numa mula e acompanhada pelo seu eunuco e dois escravos. Ela saudou-me e disse: "Ó meu senhor, demorámos a trazer-te o preço das fazendas; mas agora chama o cambista e recebe o teu dinheiro". Então mandei chamar o cambista e o eunuco contou o dinheiro diante dele e entregou-mo. Depois sentámo-nos a conversar, eu e ela, até que o mercado abriu, quando ela me disse: "Arranja-me isto e aquilo". Então arranjei-lhe dos mercadores tudo o que ela queria, e ela levou-o e foi-se embora sem dizer uma palavra sobre o preço. Assim que ela ficou fora de vista, arrependi-me do que tinha feito; pois o valor das fazendas compradas para ela chegava a mil dinares, e disse na minha alma: "Que espécie de amor é este? Ela trouxe-me cinco mil dirhams e levou mercadorias por mil dinares". Temi ser reduzido à mendicidade por ter de pagar aos mercadores o seu dinheiro, e disse: "Eles não conhecem ninguém além de mim; esta dama encantadora não é senão uma trapaceira e uma vigarista, que me enganou com a sua beleza e graça; pois viu que eu era um simples jovem e riu-se de mim por não lhe perguntar a morada. Não parei de ser perturbado por estas dúvidas e medos, já que ela esteve ausente mais de um mês, até que os mercadores me importunaram pelo dinheiro e foram tão duros comigo que pus os meus bens à venda e fiquei à beira da ruína". Contudo, enquanto estava sentado na minha loja um dia, afogado em melancólicas reflexões, ela cavalgou subitamente até mim e, desmontando na porta do bazar, veio diretamente na minha direção. Quando a vi, todos os meus cuidados caíram de mim e esqueci todos os problemas. Ela aproximou-se de mim e cumprimentou-me com a sua doce voz e agradável discurso e logo disse: "Chama o cambista e pesa o teu dinheiro". Assim, ela deu-me o preço das mercadorias que eu tinha arranjado para ela e mais, e começou a conversar livremente comigo, até que eu quase morria de alegria e deleite. Logo ela perguntou-me: "Tens esposa?"; e respondi: "Não, na verdade: nunca conheci mulher"; e comecei a derramar lágrimas. Disse ela: "Por que choras?" Disse eu: "Não é nada!" Então, dando ao eunuco algumas das moedas de ouro, implorei-lhe que fosse intermediário no assunto; mas ele riu-se e disse: "Ela está mais apaixonada por ti do que tu por ela: ela não tem necessidade das fazendas que comprou de ti e fez tudo isto apenas por amor a ti; então pede-lhe o que quiseres e ela nada te negará". Quando ela me viu a dar os dinares ao eunuco, voltou e sentou-se novamente; e eu disse-lhe: "Sê caridosa para com o teu escravo e perdoa-lhe o que ele está prestes a dizer". Então contei-lhe o que estava na minha mente e ela assentiu e disse ao eunuco: "Levarás a minha mensagem a ele", acrescentando para mim: "E faz tudo o que o eunuco te ordenar". Depois levantou-se e foi-se embora, e eu paguei aos mercadores os seus dinheiros e eles todos lucraram; mas quanto a mim, o arrependimento pelo fim do nosso contacto era todo o meu ganho; e não dormi toda essa noite. Contudo, antes de passarem muitos dias, o seu eunuco veio ter comigo, e eu tratei-o honrosamente e perguntei pela sua ama. "Na verdade, ela está doente de amor por ti", respondeu ele, e eu respondi: "Diz-me quem e o que ela é". Disse ele: "A Senhora Zubaydah, consorte do Califa Harun al-Rashid, comprou-a quando era pequena e promoveu-a a administradora do Harém, e deu-lhe o direito de entrar e sair à sua própria vontade. Ela falou à sua senhora sobre ti e implorou-lhe que a casasse contigo; mas ela disse:— Não farei isto até ver o jovem; e, se ele for digno de ti, casar-te-ei com ele. Portanto, agora aguardamos o momento de te introduzir furtivamente no Palácio e, se conseguires entrar às escondidas, ganharás o teu desejo de casar com ela; mas se o assunto se espalhar, a Senhora Zubaydah cortar-te-á a cabeça. O que dizes a isto?" Respondi: "Irei contigo e suportarei o risco de que falas". Depois disse ele: "Assim que anoitecer, vai à Mesquita construída pela Senhora Zubaydah no Tigre e reza as orações da noite e dorme lá". "Com amor e alegria", exclamei. Então, ao cair da noite, dirigi-me à Mesquita, onde rezei e passei a noite. Com o romper da aurora, eis que vieram vários eunucos num esquife com uma série de baús vazios que depositaram na Mesquita, depois todos seguiram o seu caminho, exceto um, e olhando curiosamente para ele, vi que era o nosso intermediário. Logo entrou a serva, a minha senhora, caminhando diretamente para nós; e levantei-me para ela e abracei-a, enquanto ela me beijava e derramava lágrimas. Conversámos um pouco; após o que ela me fez entrar num dos baús, que fechou sobre mim. Logo os outros eunucos voltaram com uma quantidade de pacotes e ela começou a arrumá-los nos baús, que fechou à chave, um a um, até que todos estivessem trancados. Quando tudo terminou, os eunucos embarcaram os baús no barco e dirigiram-se ao palácio da Senhora Zubaydah. Com isto, o pensamento começou a assaltar-me e disse para comigo: "Em verdade, a tua luxúria e devassidão serão a tua morte; e a questão é, afinal, se conseguirás ou não o teu desejo?" E comecei a chorar, encaixotado como estava na caixa e sofrendo de cãibras; e rezei a Allah para que Ele me livrasse da perigosa situação em que me encontrava, enquanto o barco não parava de seguir até chegar à porta do Palácio, onde retiraram os baús e, entre eles, aquele em que eu estava. Depois levaram-nos para dentro, passando por uma tropa de eunucos, guardiões do Harém e das damas atrás da cortina, até chegarem ao posto do Eunuco-Chefe, que se levantou do seu sono e gritou para a donzela: "O que há nesses baús?" "Estão cheios de mercadorias para a Senhora Zubaydah!" "Abre-os, um por um, para que eu possa ver o que contêm." "E por que razão os abririas?" "Não me venhas com palavras e não excedas na conversa! estes baús devem e serão abertos." Dito isto, saltou para os pés, e o primeiro que trouxeram para ele abrir foi aquele em que eu estava; e, quando senti as suas mãos sobre ele, os meus sentidos falharam-me e mijei-me de pavor, a água saindo da caixa. Então disse ela ao Eunuco-Chefe: "Ó despenseiro! causarás a minha morte e a tua também, pois danificaste mercadorias no valor de dez mil dinares. Este baú contém vestidos coloridos e quatro frascos de galão com água de Zemzem; e agora um deles destapou-se e a água está a correr sobre as roupas e vai estragar as suas cores". O eunuco respondeu: "Leva as tuas caixas e vai-te embora para a maldição de Deus!" Então os escravos levaram todos os baús, incluindo o meu, e apressaram-se com eles até que subitamente ouvi a voz de alguém a dizer: "Ai, e ai! o Califa! o Califa!" Quando esse grito atingiu os meus ouvidos, morri na minha pele e disse um ditado que nunca envergonhou quem o diz: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande! Eu e apenas eu trouxe esta calamidade sobre mim mesmo". Logo ouvi o Califa dizer à minha senhora: "Uma praga sobre ti, o que há nessas caixas?"; e ela respondeu: "Vestidos para a Senhora Zubaydah"; ao que ele, "Abre-os diante de mim!" Quando ouvi isto, morri a minha morte imediata e disse para comigo: "Por Allah, hoje é o dia mesmo do fim dos meus dias neste mundo: se sair disto a salvo, casar-me-ei com ela e nada mais, mas a deteção encara-me e a minha cabeça está prestes a ser cortada". Então repeti a profissão de Fé, dizendo: "Não há outro deus senão Deus, e Maomé é o Apóstolo de Deus!"——E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e deixou de dizer o seu dito permitido.

Disse ela: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que o jovem mercador continuou da seguinte forma: Ora, quando testifiquei: "Dou testemunho de que não há deus senão Deus", ouvi a minha senhora, a serva, declarar ao Califa: "Estes baús, ó Comandante dos Fiéis, foram confiados aos meus cuidados pela Senhora Zubaydah, e ela não deseja que o seu conteúdo seja visto por ninguém." "Não importa!", disse o Califa, "têm de ser abertos; verei o que há neles"; e gritou em alta voz para os eunucos: "Trazei os baús aqui à minha frente." A este ponto, tive a certeza da morte (sem margem para dúvidas) e desmaiei. Então os eunucos levaram-lhe os baús, um após outro, e ele pôs-se a inspecionar o conteúdo, mas viu neles apenas perfumes, tecidos e vestidos finos; e não pararam de abrir os baús, e ele não parou de ver o que havia neles, encontrando apenas roupas e coisas semelhantes, até que nenhum restasse por abrir, exceto a caixa na qual eu estava encaixotado. Estenderam as mãos para a abrir, mas a minha senhora, a serva, apressou-se e disse ao Califa: "Esta verás apenas na presença da Senhora Zubaydah, pois o que nela está é o seu segredo." Ao ouvir isto, ele deu ordens para que os baús fossem levados para dentro; assim, pegaram naquele em que eu estava e levaram-no com os restantes para o Harim, colocando-o no meio do salão; e, na verdade, a minha saliva secou-se de puro medo. Então a minha senhora abriu a caixa e tirou-me de lá, dizendo: "Não temas: nenhum mal te acontecerá agora, nem pavor; mas alarga o teu peito e fortalece o teu coração e senta-te até que a Senhora Zubaydah venha, e certamente alcançarás o teu desejo de mim." Sentei-me e, após algum tempo, entraram dez servas, virgens como luas, e alinharam-se em duas filas, cinco de frente para cinco; e depois delas, vinte outras donzelas, de seios firmes e virginais, rodeando a Senhora Zubaydah, que mal conseguia caminhar devido ao peso dos seus trajes e ornamentos. À medida que ela se aproximava, as escravas dispersaram-se à sua volta, e eu avancei e beijei o chão entre as suas mãos. Ela fez-me sinal para que me sentasse e, quando me sentei diante da sua cadeira, começou a questionar-me sobre os meus antepassados, família e condição, ao que dei respostas que a agradaram, e ela disse à minha senhora: "O nosso cuidado contigo, ó donzela, não nos dececionou." Então ela disse-me: "Sabe que esta serva é para nós como a nossa própria filha e ela é um depósito confiado a ti por Allah." Beijei novamente o chão diante dela, muito satisfeito por me casar com a minha senhora, e ela ordenou-me que permanecesse dez dias no palácio. Assim, permaneci lá dez dias, durante os quais não vi a minha senhora nem ninguém, exceto uma das concubinas, que me trazia as refeições da manhã e da noite. Depois disto, a Senhora Zubaydah aconselhou-se com o Califa sobre o casamento da sua serva favorita, e ele deu permissão e atribuiu-lhe um dote de dez mil peças de ouro. Então a Senhora Zubaydah mandou chamar o Kazi e as testemunhas, que escreveram o nosso contrato de casamento, após o que as mulheres prepararam doces e iguarias ricas e distribuíram-nos por todas as Odahs do Harim. Assim fizeram durante outros dez dias, ao fim dos quais a minha senhora foi aos banhos. Entretanto, puseram diante de mim um tabuleiro de comida sobre o qual estavam várias carnes e, entre esses pratos, que eram suficientes para atordoar os sentidos, estava uma tigela de ensopado de cominhos contendo peitos de frango, fritos e temperados com açúcar, pistácios, almíscar e água de rosas. Então, por Allah, caros senhores, não hesitei por muito tempo; tomei o meu lugar perante o ensopado e pus-me a comer até não poder mais. Depois disto, limpei as mãos, mas esqueci-me de as lavar; e sentei-me até que escureceu, quando as velas de cera foram acesas e as cantoras entraram com os seus tamborins e procederam a exibir a noiva em vários vestidos e a levá-la em procissão de sala em sala por todo o palácio, vendo as suas palmas serem cruzadas com ouro. Depois, trouxeram-na até mim e despiram-na. Quando me vi sozinho com ela na cama, abracei-a, mal acreditando na nossa união; mas ela sentiu os fortes odores do ensopado nas minhas mãos e imediatamente gritou com um grito extremamente alto, ao qual as escravas vieram a correr de todos os lados. Tremi de alarme, sem saber o que se passava, e as raparigas perguntaram-lhe: "O que te aflige, ó nossa irmã?" Ela respondeu-lhes: "Levai este louco para longe de mim: eu pensava que ele era um homem de bom senso!" Disse-lhe eu: "O que te faz pensar que sou louco?" Disse ela: "Tu, louco! O que te fez comer ensopado de cominhos e esquecer de lavar a tua mão? Por Allah, eu recompensar-te-ei pela tua má conduta. Irá alguém como tu para a cama com alguém como eu com as mãos sujas?" Então ela tirou do seu lado um chicote trançado e desceu com ele sobre as minhas costas e o lugar onde me sento, até que os seus antebraços ficaram dormentes e eu desmaiei de tanto bater; quando ela disse às servas: "Levai-o e carregai-o até ao Chefe de Polícia, para que ele possa cortar a mão com a qual ele comeu o ensopado de cominhos, e que ele não lavou." Quando ouvi isto, disse: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah! Irás cortar a minha mão, porque comi um ensopado de cominhos e não a lavei?" As servas também intercederam por mim e beijaram-lhe a mão dizendo: "Ó nossa irmã, este homem é um simplório, não o punas pelo que ele fez desta vez"; mas ela respondeu: "Por Allah, não há outra solução senão eu decepar-lhe algo, especialmente o membro infrator." Então ela foi-se embora e não a vi mais durante dez dias, durante os quais ela me enviou comida e bebida através de uma escrava que me disse que ela tinha ficado doente com o cheiro do ensopado de cominhos. Depois desse tempo, ela veio ter comigo e disse: "Ó de rosto negro! Eu ensinar-te-ei como comer ensopado de cominhos sem lavar as tuas mãos!" Então gritou para as servas, que me imobilizaram; e ela pegou numa navalha afiada e cortou os meus polegares e os dedos grandes dos pés; exatamente como vedes, ó bela assembleia! Sobre isto, desmaiei, e ela polvilhou um pouco de pó de ervas curativas sobre os cotos e, quando o sangue estancou, eu disse: "Nunca mais comerei ensopado de cominhos sem lavar as minhas mãos quarenta vezes com potassa e quarenta vezes com galanga e quarenta vezes com sabão!" E ela tirou de mim um juramento e obrigou-me por um pacto nesse sentido. Quando, portanto, me trouxestes o ensopado de cominhos, a minha cor mudou e disse para comigo: "Foi este mesmo prato que causou o corte dos meus polegares e dedos grandes dos pés"; e, quando me forçastes, disse: "Tenho de cumprir o juramento que fiz." "E o que te aconteceu depois disto?", perguntaram os presentes; e ele respondeu: Quando lhe jurei, a sua raiva apaziguou-se e dormi com ela naquela noite. Permanecemos assim por um tempo até que ela me disse um dia: "Na verdade, o Palácio do Califa não é um lugar agradável para vivermos, e ninguém jamais entrou nele senão tu; e tu apenas pela graça da Senhora Zubaydah. Agora ela deu-me cinquenta mil dinares", acrescentando: "Toma este dinheiro e sai e compra-nos uma bela casa." Assim, saí e comprei uma mansão fina e espaçosa, para onde ela mudou toda a riqueza que possuía e as riquezas que eu tinha ganho em tecidos e raridades dispendiosas. Tal é a causa do corte dos meus polegares e dedos grandes dos pés." Nós comemos, (continuou o Intendente) e estávamos a regressar às nossas casas quando me aconteceu o caso com o Corcunda que conheceis.

Esta é, pois, a minha história, e a paz esteja convosco! Disse o Rei: "Esta história não é de forma alguma mais deliciosa do que a história do Corcunda; na verdade, é ainda menos, e não há outra solução senão enforcar-vos a todos." Então adiantou-se o médico judeu e, beijando o chão, disse: "Ó Rei da era, contar-te-ei uma história mais maravilhosa do que a do Corcunda." "Conta", disse o Rei da China; então ele começou o

CONTO DO MÉDICO JUDEU.

Verdadeiramente maravilhoso foi um assunto que me aconteceu na minha juventude. Eu vivia em Damasco, na Síria, a estudar a minha arte e, um dia, quando estava sentado em casa, eis que veio ter comigo um Mameluco da casa do Sahib e disse-me: "Fala com o meu senhor!" Então segui-o até à casa do Vice-Rei e, entrando no grande salão, vi na cabeceira um divã de cedro banhado a ouro, sobre o qual jazia um jovem doentio, belo com isso; mais belo do que ele não se poderia ver. Sentei-me junto à sua cabeceira e rezei ao Céu por uma cura; e ele fez-me um sinal com os olhos, então eu disse-lhe: "Ó meu senhor! Favorece-me com a tua mão, e a segurança esteja contigo!" Então ele estendeu a mão esquerda e maravilhei-me com isso e disse: "Por Allah, é estranho que este belo jovem, filho de uma grande casa, careça tanto de bons modos. Isto não pode ser nada mais do que orgulho e presunção!" Contudo, senti-lhe o pulso e escrevi-lhe uma receita e continuei a visitá-lo durante dez dias, ao fim dos quais ele recuperou e foi ao Hammam, após o que o Vice-Rei me deu um belo traje de honra e nomeou-me superintendente do hospital que fica em Damasco. Acompanhei-o aos banhos, que eles tinham mantido privados para a sua acomodação; e os servos entraram com ele e tiraram-lhe as roupas dentro do banho, e quando ele estava despido vi que a sua mão direita tinha sido cortada recentemente, e esta era a causa da sua fraqueza. A isto, fiquei espantado e triste por ele: então, olhando para o seu corpo, vi nele as cicatrizes de marcas de chicotadas às quais ele tinha aplicado unguentos. Fiquei perturbado com a visão e a minha preocupação apareceu no meu rosto. O jovem olhou para mim e, compreendendo o assunto, disse: "Ó Médico da era, não te maravilhes com o meu caso; contar-te-ei a minha história assim que sairmos dos banhos." Então lavámo-nos e, regressando à sua casa, comemos algo de comida e descansámos um pouco; após o que ele me perguntou: "O que dizes a consolar-te inspecionando o salão de jantar"; e respondi: "Que assim seja." Então ele ordenou aos escravos que trouxessem os tapetes e almofadas necessários e assassem um cordeiro e nos trouxessem fruta. Eles fizeram o que ele pediu e comemos juntos, ele usando a mão esquerda para o propósito. Após algum tempo, disse-lhe: "Agora conta-me a tua história." "Ó Médico da era", respondeu ele, "Ouve o que me aconteceu. Sabe que sou dos filhos de Mosul, onde o meu avô morreu deixando nove filhos, dos quais o meu pai era o mais velho. Todos cresceram e arranjaram esposas, mas nenhum deles foi abençoado com descendência, exceto o meu pai, a quem a Providência me concedeu. Assim, cresci entre os meus tios, que se regozijaram comigo com imensa alegria, até que cheguei à idade adulta. Um dia, que calhou ser uma sexta-feira, fui à Mesquita da Catedral de Mosul com o meu pai e os meus tios, e rezámos as orações congregacionais, após o que o povo saiu, exceto o meu pai e os meus tios, que se sentaram a falar de coisas maravilhosas em partes estrangeiras e das visões maravilhosas de cidades estranhas. Por fim, mencionaram o Egito, e um dos meus tios disse: "Os viajantes dizem-nos que não há na face da terra nada mais belo do que o Cairo e o seu Nilo"; e estas palavras fizeram-me ansiar por ver o Cairo. Disse o meu pai: "Quem não viu o Cairo não viu o mundo. O seu pó é dourado e o seu Nilo um milagre contido; e as suas mulheres são como Houris belas; marionetas, belas imagens; as suas casas são palácios raros; a sua água é doce e leve e a sua lama uma mercadoria e um remédio sem comparação, tal como disse o poeta nesta sua poesia:—

A cheia do Nilo neste dia é o ganho que possuis; ✿ Tu sozinho em tal ganho e bondades vives: O Nilo é a minha torrente de lágrimas de separação, ✿ E aqui ninguém está desamparado senão eu sozinho.

Além disso, temperado é o seu ar, e misturado com fragrância, que supera a madeira de aloés em aroma; e como poderia ser de outra forma, sendo ela a Mãe do Mundo? E Allah favoreça aquele que escreveu estas linhas:—

Se eu deixar o Cairo e os seus prazeres, ✿ Para onde posso ir para encontrar caminhos tão alegres? Abandonarei aquele local, cujos aromas gratos ✿ Alegram toda a alma e pedem os mais altos louvores? Onde cada palácio, como um outro Éden, ✿ Tapetes e almofadas ricamente trabalhados exibe; Uma cidade cortejando a vista e o espírito para o júbilo, ✿ Onde o Santo encontra o Pecador e cada um goza da sua mania; Onde o amigo encontra o amigo, pela Providência unidos ✿ Em jardim verdejante e em labirinto de palmeiras: Povo do Cairo, se pelo destino de Allah ✿ Eu partir, convosco nos pensamentos viverei sempre! Não sussurres Cairo ao ouvido de Zéfiro, ✿ Para que, pela sua semelhança de aromas de jardim, ele não a roube.

E se os teus olhos vissem a sua terra, e o adorno dela com flores, e o orlar dela com todo o tipo de flores, e as ilhas do Nilo e quanto há nelas de perspetiva vasta e boa, e se focasses o teu olhar sobre o Lago Abissínio, o teu olhar não voltaria da cena livre de espanto; pois em nenhum lugar contemplarias o companheiro daquela vista adorável; e, de facto, os dois braços do Nilo abraçam a mais luxuriante verdura, como o branco do olho envolve o seu preto ou como prata filigranada rodeando crisólitas. E divinamente dotado foi o poeta que sobre isso disse estes dísticos:—

Junto ao Lago Abissínio, ó dia divino! ✿ No crepúsculo matinal e no brilho solar: A água aprisionada nas suas paredes verdejantes, ✿ Como clarões de sabre perante olhos que se encolhem: E no Jardim sentámo-nos enquanto ele drena ✿ Lento gole, com lados orlados tingidos do mais fino: O ribeiro é ondulado pelas mãos das nuvens; ✿ Nós também, ondulando, nas nossas esteiras nos reclinamos, Passando vinho puro, e quem nos deixa lá ✿ Nunca se levantará da queda que os seus ais desenham: Drenando longos goles de taças grandes e cheias, ✿ Administrando o único remédio da sede—o vinho.

E o que há para comparar com o Rasad, o Observatório, e os seus encantos, dos quais cada observador, ao aproximar-se, diz:—"Verdadeiramente este local é especializado com todo o tipo de excelência! E se falas da Noite da Cheia do Nilo, dá o arco-íris e distribui-o! E se contemplares o Jardim ao cair da tarde, com as sombras frescas inclinadas longe e perto, uma maravilha verias e inclinar-te-ias para o Egito em êxtase. E se estivesses ao lado do rio do Cairo, quando o sol se está a pôr e o ribeiro veste cota de malha e gibão sobre os seus outros trajes, serias vivificado para uma nova vida pelos seus gentis zéfiros e pela sua sombra tudo-suficiente." Assim falou ele e os restantes puseram-se a descrever o Egito e o seu Nilo. Ao ouvir os seus relatos, os meus pensamentos demoraram-se no assunto e quando, depois de falarem o que queriam, todos se levantaram e seguiram os seus caminhos, deitei-me para dormir naquela noite, mas o sono não veio devido ao meu violento desejo pelo Egito; e nem a comida me agradou nem a bebida. Após alguns dias, os meus tios equiparam-se para uma viagem comercial ao Egito; e chorei diante do meu pai até que ele preparou para mim mercadoria adequada, e ele consentiu na minha ida com eles, dizendo contudo: "Que ele não entre no Cairo, mas deixai-o vender as suas mercadorias em Damasco." Assim, despedi-me do meu pai e partimos de Mosul e não parámos de viajar até chegarmos a Alepo, onde parámos certos dias. Depois, marchámos para a frente até chegarmos a Damasco e encontrámo-la uma cidade como se fosse um Paraíso, abundante em árvores e ribeiros e pássaros e frutos de todos os tipos. Desembarcámos num dos Khans, onde os meus tios permaneceram algum tempo vendendo e comprando; e eles compraram e venderam também por minha conta, cada dirham rendendo um lucro de cinco sobre o custo inicial, o que me agradou imensamente. Depois disto, deixaram-me sozinho e voltaram os seus rostos para o Egito; enquanto eu permanecia em Damasco, onde tinha alugado de um joalheiro, por dois dinares por mês, uma mansão cujas belezas envergonhariam a língua. Aqui permaneci, comendo e bebendo e gastando o dinheiro que tinha em mãos até que, um dia, enquanto estava sentado à porta da minha casa, eis que surgiu uma jovem vestida com trajes caríssimos—nunca os meus olhos viram mais ricos. Pisquei-lhe o olho e ela entrou sem hesitação e ficou lá dentro. Entrei com ela e fechei a porta sobre mim e ela; após o que ela levantou o seu véu de rosto e tirou a sua mantilha, quando a encontrei como uma lua pintada de rara e maravilhosa formosura; e o amor por ela apoderou-se do meu coração. Então levantei-me e trouxe um tabuleiro com os mais delicados comestíveis e frutos e tudo o que convinha à ocasião, e comemos e brincámos e, depois disso, bebemos até que o vinho nos virou a cabeça. Então deitei-me com ela na mais doce das noites e, pela manhã, ofereci-lhe dez peças de ouro; quando o seu rosto se baixou e as suas sobrancelhas se enrugaram e, tremendo de ira, ela gritou: "Ai de ti, ó meu doce companheiro! julgas que eu cobiço o teu dinheiro?" Então ela tirou do peito da sua camisa quinze dinares e, colocando-os diante de mim, disse: "Por Allah! a menos que os aceites, nunca voltarei a ti." Assim, aceitei-os e ela disse-me: "Ó meu amado! espera por mim novamente dentro de três dias, quando estarei contigo entre o pôr-do-sol e a hora da ceia; e prepara para nós com estes dinares o mesmo entretenimento da noite passada." Dizendo isto, despediu-se de mim e foi-se embora e todos os meus sentidos foram com ela. No terceiro dia, ela veio novamente, vestida com tecido entrelaçado com fio de ouro, e usando trajes e ornamentos mais finos do que antes. Eu tinha preparado o lugar para ela antes de ela chegar e a refeição estava pronta; assim comemos e bebemos e deitámo-nos juntos, como tínhamos feito, até à manhã, quando ela me deu outros quinze dinares, dizendo: "Adiciona algo à tua provisão habitual por conta da jovem que virá comigo." Depois ela foi-se embora, e no quarto dia preparei a casa como de costume, e pouco depois do pôr-do-sol, eis que ela veio, acompanhada por outra donzela cuidadosamente embrulhada na sua mantilha. Elas entraram e sentaram-se; e quando as vi, repeti estes versos:—

Quão querido é o nosso dia e quão afortunada a nossa sorte, ✿ Quando o cínico está longe com a sua língua maligna! Quando o amor e o deleite e a embriaguez da mente ✿ enviam a esperteza a trote, — a melhor bênção do vinho. Quando a lua cheia brilha através do véu de nuvens, ✿ E o raminho oscila nas suas folhagens que brilham: Quando a rosa vermelha se reveste na face mais fresca, ✿ E Narciso abre os seus olhos amorosos: Quando o prazer com aqueles que amo é tão doce, ✿ Quando a amizade com aqueles que amo é completa!

Regozijei-me ao vê-las e acendi as velas depois de as receber com alegria e deleite. Elas tiraram as suas pesadas vestes exteriores e a nova donzela descobriu o rosto, quando vi que ela era como a lua no seu plenilúnio — nunca contemplei nada mais belo. Então levantei-me e coloquei comida e bebida diante delas, e comemos e bebemos; e continuei a dar bocados à recém-chegada, coroando a sua taça e bebendo com ela até que a primeira donzela, tornando-se interiormente ciumenta, me perguntou: "Por Allah, não é ela mais deliciosa do que eu?"; ao que respondi: "Sim, pelo Senhor!" "É meu desejo que te deites com ela esta noite; pois eu sou a tua senhora, mas ela é a nossa visitante." "Sobre a minha cabeça e os meus olhos." Então ela levantou-se e estendeu os tapetes para a nossa cama e eu levei a jovem e deitei-me com ela naquela noite até à manhã, quando acordei e me encontrei molhado, como pensei, de suor. Sentei-me e tentei despertar a donzela; mas quando a sacudi pelos ombros, a minha mão ficou carmesim de sangue e a sua cabeça rolou da almofada. Nisso, os meus sentidos fugiram e gritei em voz alta, dizendo: "Ó Protetor Todo-Poderoso, concede-me a Tua proteção!" Então, descobrindo que o seu pescoço tinha sido cortado, saltei e o mundo tornou-se negro perante os meus olhos, e procurei pela dama, o meu antigo amor, mas não a pude encontrar. Então soube que tinha sido ela quem assassinara a donzela no seu ciúme, e disse: "Não há Majestade e não há Poder senão em Allah, o Glorioso, o Grande! Que se há de fazer agora?" Refleti um pouco, então, despindo-me, cavei um buraco no meio do pátio, onde coloquei a rapariga assassinada com as suas joias e ornamentos de ouro; e, cobrindo-a com a terra, substituí as lajes do pavimento de mármore. Depois disto fiz o Ghusl ou ablução total, e vesti roupas limpas; então, pegando no dinheiro que me restava, tranquei a casa e reuni coragem e fui ao seu proprietário, a quem paguei um ano de aluguer, dizendo: "Estou prestes a juntar-me aos meus tios no Cairo." Pouco depois parti e, viajando para o Egito, encontrei-me com os meus tios que se regozijaram comigo, e descobri que tinham terminado de vender a sua mercadoria. Perguntaram-me: "Qual a causa da tua vinda?"; e respondi: "Ansiava por ver-vos"; mas não os deixei saber que trazia dinheiro comigo. Habitei com eles um ano, desfrutando dos prazeres do Cairo e do seu Nilo, e desperdiçando o resto do meu dinheiro em banquetes e folias até que se aproximou o tempo da partida dos meus tios, quando fugi deles e me escondi. Eles fizeram perguntas e procuraram por mim, mas não ouvindo notícias, disseram: "Ele terá voltado para Damasco." Quando partiram, saí do meu esconderijo e habitei no Cairo três anos, até que nada restou do meu dinheiro. Ora, todos os anos eu costumava enviar o aluguer da casa de Damasco ao seu proprietário, até que finalmente não me restou nada além do suficiente para lhe pagar um ano de aluguer e o meu peito ficou angustiado. Então viajei para Damasco e hospedei-me na casa cujo proprietário, o joalheiro, ficou contente por me ver e encontrei tudo trancado como o tinha deixado. Abri os armários e tirei as minhas roupas e necessidades e deparei, debaixo da cama de tapete onde me deitara naquela noite com a rapariga que fora decapitada, com um colar de ouro incrustado com dez pedras de beleza passageira. Peguei nele e, limpando-o do sangue, sentei-me a contemplá-lo e chorei um pouco. Depois habitei na casa dois dias e no terceiro entrei no Hammam e mudei de roupa. Não tinha dinheiro comigo agora; então Satanás sussurrou-me a tentação para que o Decreto do Destino fosse cumprido. No dia seguinte levei o colar com joias ao bazar e entreguei-o a um corretor que me fez sentar na loja do joalheiro, o meu senhorio, e pediu-me que tivesse paciência até que o mercado estivesse cheio, quando ele levou o ornamento e proclamou-o para venda, secretamente e sem o meu conhecimento. O colar foi avaliado em dois mil dinares, mas o corretor voltou a mim e disse: "Este colar é de cobre, uma mera falsificação ao estilo dos Francos e ofereceram mil dirhams por ele." "Sim," respondi, "eu sabia que era de cobre, pois mandámo-lo fazer para uma certa pessoa para que a pudéssemos zombar: agora a minha esposa herdou-o e desejamos vendê-lo; por isso vai e aceita os mil dirhams." —— E Shahrazad percebeu o raiar do dia e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Agora, quando foi a Vigésima Nona Noite,

Ela disse: Chegou-me, ó Rei auspicioso, que o belo jovem disse ao corretor: "Aceita os mil dirhams"; e quando o corretor ouviu isto, soube que o caso era suspeito. Então levou o colar ao Sindicato do bazar, e o Sindicato levou-o ao Governador, que era também prefeito de polícia, e disse-lhe, muito falsamente: "Este colar foi roubado da minha casa, e encontrámos o ladrão vestido de mercador." Então, antes que eu me apercebesse, a guarda cercou-me e, fazendo-me seu prisioneiro, levou-me perante o Governador que me interrogou sobre o colar. Contei-lhe a história que tinha contado ao corretor; mas ele riu-se e disse: "Estas palavras não são verdadeiras." Então, antes que eu soubesse o que estava a acontecer, a guarda despiu-me as roupas e desferiu varas de palmeira nas minhas costelas, até que, pela dor do pau, confessei: "Fui eu quem o roubou"; dizendo para mim mesmo: "É melhor para ti dizer 'eu roubei-o' do que deixá-los saber que a sua dona foi assassinada na tua casa, pois então matar-te-iam para a vingar." Então escreveram que eu o tinha roubado e cortaram-me a mão e escaldaram o coto em óleo, quando desmaiei de dor; mas deram-me vinho para beber e recuperei e, pegando na minha mão, ia para a minha bela casa, quando o meu senhorio me disse: "Uma vez que, ó meu filho, isto te aconteceu, deves deixar a minha casa e procurar outro alojamento, já que foste condenado por roubo. És um jovem bonito, mas quem terá pena de ti depois disto?" "Ó meu senhor," disse eu, "tolera-me apenas dois ou três dias, até que encontre outro lugar." Ele respondeu: "Que assim seja," e foi-se embora e deixou-me. Voltei para a casa onde me sentei a chorar e a dizer: "Como voltarei para o meu próprio povo com a mão decepada e eles sem saber que sou inocente? Talvez mesmo depois disto Allah possa ordenar algo para mim." E chorei com excessivo choro; a dor invadiu-me e permaneci em grave aflição por dois dias; mas no terceiro dia o meu senhorio entrou subitamente, e com ele alguns da guarda e o Sindicato do bazar, que me tinha falsamente acusado de roubar o colar. Aproximei-me deles e perguntei: "Que se passa?" No entanto, algemaram-me sem mais delongas e lançaram uma corrente ao meu pescoço, dizendo: "O colar que estava contigo provou ser propriedade do Wazir de Damasco, que é também o seu Vice-rei"; e acrescentaram: "Faltava da sua casa há três anos, ao mesmo tempo que a sua filha mais nova." Quando ouvi estas palavras, o meu coração afundou-se e disse a mim mesmo: "A tua vida terminou sem dúvida! Por Allah, preciso de contar ao Chefe a minha história; e, se ele quiser, que me mate, e se lhe agradar, que me perdoe." Então levaram-me para a casa do Wazir e fizeram-me ficar entre as suas mãos. Quando ele me viu, olhou para mim pelo canto do olho e disse aos presentes: "Por que lhe decepastes a mão? Este homem é infeliz, e não há falta nele; de facto, cometestes uma injustiça ao cortar-lhe a mão." Quando ouvi isto, ganhei coragem e, com a alma a pressagiar o bem, disse-lhe: "Por Allah, ó meu senhor, não sou um ladrão; mas caluniaram-me com uma vil calúnia, e açoitaram-me no meio do mercado, obrigando-me a confessar até que, pela dor das varas, menti contra mim mesmo e confessei o roubo, embora seja completamente inocente dele." "Não temas," disse o Vice-rei, "nenhum mal te acontecerá." Então ordenou que o Sindicato do bazar fosse preso e disse-lhe: "Dá a este homem o preço de sangue pela sua mão; e, se demorares, enforcar-te-ei e confiscarei todos os teus bens." Além disso, chamou os seus guardas que o levaram e arrastaram, deixando-me com o Chefe. Depois soltaram, pelo seu comando, a corrente do meu pescoço e desamarraram os meus braços; e ele olhou para mim e disse: "Ó meu filho, sê verdadeiro comigo, e diz-me como este colar veio parar às tuas mãos." E repetiu estes versos:—

A verdade melhor te convém, embora a verdade ✿ Te leve a arder no fogo ameaçado.

"Por Allah, ó meu senhor," respondi, "não te direi nada senão a verdade." Então relatei-lhe tudo o que se passara entre mim e a primeira dama, e como ela me trouxera a segunda e a matara por ciúmes, e detalhei-lhe a história completa. Quando ouviu a minha história, ele abanou a cabeça e bateu a mão direita sobre a esquerda, e colocando o seu lenço sobre o rosto chorou um pouco e depois repetiu:—

Vejo os ais do mundo abundar, ✿ E os mundanos doentes com baço e aflição; Há Um que separa o encontro de dois, ✿ E os que não se separam são poucos e raros!

Então voltou-se para mim e disse: "Sabe, ó meu filho, que a donzela mais velha que veio primeiro a ti era a minha filha, a quem eu mantinha estreitamente guardada. Quando cresceu, enviei-a para o Cairo e casei-a com o seu primo, filho do meu irmão. Passado algum tempo ele morreu e ela regressou: mas ela tinha aprendido a devassidão e a grosseria com o povo do Cairo; por isso visitou-te quatro vezes e finalmente trouxe a sua irmã mais nova. Ora, elas eram irmãs germanas e muito apegadas uma à outra; e, quando essa aventura aconteceu à mais velha, ela revelou o seu segredo à irmã que desejou sair com ela. Por isso pediu a tua permissão e levou-a até ti; depois do que ela voltou sozinha e, encontrando-a a chorar, perguntei-lhe pela irmã, mas ela disse: — Não sei nada dela. No entanto, contou pouco depois à mãe, em segredo, o que tinha acontecido e como cortara a cabeça da irmã, e a sua mãe contou-me. Então ela não parava de chorar e dizer: — Por Allah! Chorarei por ela até morrer. Nem cessou o luto até que o seu coração se partiu e ela morreu; e as coisas aconteceram daquela maneira. Vê então, ó meu filho, o que aconteceu; e agora não desejo que me contraries no que estou prestes a oferecer-te, e é que pretendo casar-te com a minha filha mais nova; pois ela é virgem e nascida de outra mãe; e não tomarei dote de ti, mas, pelo contrário, nomear-te-ei uma mesada, e habitarás comigo na minha casa no lugar do meu filho." "Que assim seja," respondi, "e como poderia eu esperar tal boa fortuna?" Então enviou imediatamente buscar o Kazi e testemunhas, e mandou escrever o meu contrato de casamento com a sua filha e eu consumi o matrimónio com ela. Além disso, obteve para mim do Sindicato do bazar uma grande soma de dinheiro e tornei-me muito favorecido por ele. Durante este ano chegaram-me notícias de que o meu pai morrera e o Wazir enviou um correio, com cartas ostentando o selo real, para me trazer o dinheiro que o meu pai deixara atrás de si, e agora vivo em todo o consolo da vida. Tal foi a maneira do corte da minha mão direita. "Maravilhei-me com a sua história (continuou o Judeu), e habitei com ele três dias, após o que ele me deu muita riqueza, e parti e viajei para Leste até chegar a esta vossa cidade e a estadia serviu-me muito bem; por isso tomei aqui a minha habitação e aconteceu-me o que sabes com o Corcunda." Nisso o Rei da China abanou a cabeça e disse: "Esta tua história não é mais estranha e mais maravilhosa e maravilhosa e deleitável do que o conto do Corcunda; e assim preciso de enforcar o número total de vós. No entanto, resta ainda o Alfaiate, que é o chefe de toda a ofensa"; e acrescentou: "Ó Alfaiate, se puderes contar-me algo mais maravilhoso do que a história do Corcunda, perdoar-vos-ei todas as vossas ofensas." Nisso o homem adiantou-se e começou a contar o

CONTO DO ALFAIATE.

Sabe, ó Rei da época, que o mais maravilhoso foi o que me aconteceu ontem, antes de me encontrar com o Corcunda. Aconteceu que, no início do dia, eu estava no banquete de casamento de um dos meus companheiros, que tinha reunido na sua casa uns vinte dos artífices desta cidade, entre eles alfaiates e fiandeiros de seda e carpinteiros e outros do mesmo género. Assim que o sol nasceu, colocaram comida diante de nós para que pudéssemos comer, quando eis que o mestre da casa entrou, e com ele um jovem estrangeiro e bem-parecido, do povo de Bagdade, vestindo roupas tão belas quanto podiam ser; e ele era de aparência muito graciosa, exceto por ser coxo de uma perna. Ele veio e saudou-nos e nós levantámo-nos para recebê-lo; mas quando ele estava prestes a sentar-se, avistou entre nós um certo homem que era um Barbeiro; ao que ele recusou sentar-se e teria ido embora. Mas nós parámo-lo e o nosso anfitrião também o deteve, jurando que ele não deveria deixar-nos e perguntou-lhe: "Qual é a razão da tua entrada e saída imediata?"; ao que ele respondeu: "Por Allah, ó meu senhor, não me impeças; pois a causa do meu regresso é aquele Barbeiro de mau agouro, aquele de cara negra, aquele que não serve para nada!" Quando o mestre da casa ouviu estas palavras, maravilhou-se com extremo espanto e disse: "Como vem este jovem, que vem de Bagdade, a estar tão perturbado e perplexo com este Barbeiro?" Então olhámos para o estrangeiro e dissemos: "Explica a causa da tua raiva contra o Barbeiro." "Ó bela companhia," disse o jovem, "aconteceu-me uma estranha aventura com este Barbeiro em Bagdade (que é a minha cidade natal); ele foi a causa da quebra da minha perna e da minha coxeadura, e jurei nunca me sentar no mesmo lugar que ele, nem sequer permanecer em qualquer cidade onde ele aconteça habitar; e despedi-me de Bagdade e viajei para longe dela e vim para ficar nesta vossa cidade; contudo, mal passei uma noite antes de o encontrar de novo. Mas não passará outro dia sem que eu parta daqui." Dissemos-lhe: "Allah sobre ti, conta-nos a história"; e o jovem respondeu (o Barbeiro mudando de cor de castanho para amarelo enquanto ele falava):— Sabe, ó bela companhia, que o meu pai era um dos principais mercadores de Bagdade, e Allah Todo-Poderoso abençoara-o com nenhum filho senão eu. Quando cresci e alcancei a maioridade, o meu pai foi recebido na misericórdia de Allah (cujo Nome seja exaltado!) e deixou-me dinheiro e eunucos, servos e escravos; e eu costumava vestir-me bem e alimentar-me bem. Ora, Allah fizera-me um odiador do género feminino e um dia, enquanto caminhava por uma rua em Bagdade, um grupo de mulheres veio ao meu encontro no passeio; por isso fugi delas e, entrando num beco que não tinha saída, sentei-me num banco de pedra no seu extremo. Não me tinha sentado há muito tempo quando a janela gradeada de uma das casas em frente foi aberta, e apareceu nela uma jovem, como se fosse a lua cheia no seu plenilúnio; nunca na minha vida vi a sua igual; e começou a regar algumas flores no parapeito da janela. Ela virou-se para a direita e para a esquerda e, vendo-me a observá-la, fechou a janela e foi-se embora.

Nesse instante, subitamente, o fogo acendeu-se no meu coração; a minha mente foi possuída por ela e o meu ódio pelas mulheres transformou-se em amor por elas. Continuei ali sentado, alheio ao mundo, até ao pôr do sol, quando, eis que o Cadi da cidade passou cavalgando com os seus escravos à frente e os seus eunucos atrás, e, desmontando, entrou na casa em que a donzela tinha aparecido. Por isto soube que ele era o seu pai; então fui para casa, pesaroso, e lancei-me sobre a minha cama de tapete em aflição. Depois, as minhas servas afluíram e sentaram-se à minha volta, sem saber o que me afligia; mas não lhes dirigi a palavra, e elas choraram e lamentaram-se por mim. Pouco depois, entrou uma velha que olhou para mim e viu de relance o que se passava comigo: sentou-se então à cabeceira da minha cama e falou-me com brandura, dizendo: "Ó meu filho, conta-me tudo e eu serei o meio da tua união com ela." Então relatei-lhe o que tinha acontecido e ela respondeu: "Ó meu filho, esta é a filha do Cadi de Bagdad que a mantém no mais estrito isolamento; e a janela onde a viste é a do seu andar, enquanto o seu pai ocupa o grande salão no andar térreo. Ela está lá muitas vezes sozinha e eu costumo visitar a casa; por isso não chegarás a ela senão através de mim. Agora, põe a tua inteligência a trabalhar e sê de bom ânimo." Com estas palavras, ela partiu e eu ganhei coragem com o que ela disse, e o meu povo regozijou-se naquele dia, ao ver-me levantar de manhã são e salvo. Passado algum tempo, a velha regressou com ar desanimado e disse: "Ó meu filho, não me perguntes como me fui com ela! Quando lhe contei, ela gritou-me: — Se não te calares, ó bruxa de mau agouro, e não deixares tais conversas, tratar-te-ei como mereces e far-te-ei morrer da mais vil das mortes. Mas tenho de voltar a falar com ela uma segunda vez." Quando ouvi isto, somou-se doença à minha doença e os vizinhos visitaram-me e julgaram que os meus dias estavam contados; mas, passados alguns dias, a velha veio ter comigo e, aproximando a boca do meu ouvido, sussurrou: "Ó meu filho, reclamo de ti o presente pelas boas novas." Com isto, a minha alma regressou a mim e eu disse: "Tudo o que quiseres será teu." Logo ela começou: "Ontem fui ter com a jovem que, vendo-me de espírito abatido e a verter lágrimas dos olhos avermelhados, perguntou-me: — Ó minha tia, o que te aflige, que vejo o teu peito tão apertado?; e eu respondi-lhe, chorando amargamente: — Ó minha senhora, acabo de vir da casa de um jovem que te ama e que está prestes a morrer por tua causa!" Disse ela (e o seu coração abrandou-se): "E quem é este jovem de quem falas?"; e eu disse: "Ele é para mim como um filho e fruto das minhas entranhas. Ele viu-te, há alguns dias, à janela a regar as tuas flores e, avistando o teu rosto e os teus pulsos, apaixonou-se à primeira vista. Deixei-o saber o que me aconteceu da última vez que estive contigo, ao que a sua doença aumentou, ele entregou-se ao leito e não é agora mais do que um homem morto, não há dúvida alguma." A isto ela empalideceu e perguntou: "Tudo isto por mim?"; e eu respondi: "Sim, por Alá! O que querias que eu fizesse?" Disse ela: "Volta para ele e cumprimenta-o da minha parte e diz-lhe que estou duas vezes mais apaixonada do que ele. E na sexta-feira, antes da hora da oração pública, manda-o vir aqui a casa, e eu descerei e abrir-lhe-ei a porta. Depois, levá-lo-ei para o meu quarto e estarei com ele durante algum tempo, e deixá-lo-ei partir antes que o meu pai regresse da Mesquita." Quando ouvi as palavras da velha, toda a minha doença caiu subitamente de mim, a minha angústia cessou e o meu coração foi confortado, despi as roupas que trazia e dei-lhas e, ao virar-se para sair, ela disse: "Mantém o bom ânimo!" "Não me resta uma migalha de tristeza", respondi eu. A minha criadagem e os meus íntimos alegraram-se com a minha recuperação e permaneci assim até à sexta-feira, quando, eis que a velha entrou e perguntou como eu estava, ao que respondi que estava bem e em bom estado. Então vesti as minhas roupas, perfumei-me e sentei-me a aguardar que a congregação fosse para as orações, para que eu pudesse dirigir-me a ela. Mas a velha disse-me: "Tens tempo de sobra: por isso farias bem em ir ao Hammam e rapar o cabelo (especialmente depois da tua doença), para não mostrares sinais de enfermidade." "Este seria o melhor caminho", respondi eu, "acabei de me banhar em água quente; mas raparei a cabeça." Então disse ao meu pajem: "Vai ao bazar e traz-me um barbeiro, um sujeito discreto e não inclinado a intromissões ou curiosidade impertinente, ou que vá rachar-me a cabeça com a sua conversa excessiva." O rapaz saiu imediatamente e trouxe consigo este velho miserável, este Shaykh de mau agouro. Quando ele entrou, saudou-me e eu retribuí a sua saudação; depois disse ele: "Na verdade, vejo-te magro de corpo"; e eu disse: "Tenho estado doente." Ele continuou: "Alá afaste de ti o teu infortúnio e a tua tristeza e o teu problema e a tua angústia." "Alá atenda a tua oração!", disse eu. Ele prosseguiu: "Toda a alegria para ti, ó meu senhor, pois a recuperação veio ter contigo. Desejas ser rapado ou sangrado? Na verdade, era uma tradição de Ibn Abbas (que Alá o aceite!) que o Apóstolo disse: — Quem corta o cabelo numa sexta-feira, o Senhor afastar-lhe-á setenta calamidades; e de novo é relatado dele também que disse: — A sangria numa sexta-feira preserva da perda de visão e de uma multidão de doenças." "Deixa essa conversa", gritei; "vem, rapa-me a cabeça imediatamente porque não aguento mais." Ele levantou-se e estendeu a mão com a maior calma, tirou um lenço, desdobrou-o e, eis que continha um astrolábio com sete placas paralelas montadas em prata. Depois foi para o meio do pátio, levantou a cabeça e o instrumento em direção aos raios do sol e olhou durante muito tempo. Quando isso terminou, voltou para mim e disse: "Sabe que já decorreram deste nosso dia, que é sexta-feira, e esta sexta-feira é o décimo dia do mês Safar no ano seiscentos e cinquenta e três desde a Hégira ou Fuga do Apóstolo (sobre quem sejam as melhores bênçãos e paz!) e o sete milésimo trezentos e vigésimo ano da era de Alexandre, oito graus e seis minutos. Além disso, o ascendente deste nosso dia é, de acordo com a ciência mais exata de cálculo, o planeta Marte; e acontece que Mercúrio está em conjunção com ele, denotando um momento auspicioso para o corte de cabelo; e isto também me torna manifesto que desejas a união com uma certa pessoa e que a vossa relação não será propícia. Mas depois disto ocorre um sinal a respeito de um assunto que te acontecerá e do qual não falarei." "Ó tu", gritei eu, "por Alá, tu cansas-me e dispersas a minha inteligência e a tua previsão é tudo menos boa; mandei chamar-te para rapar a minha cabeça e nada mais: por isso levanta-te e rapa-me e não prolongues o teu discurso." "Por Alá", respondeu ele, "se soubesses o que está prestes a acontecer-te, não farias nada neste dia, e aconselho-te a agir como te digo pelo cálculo das constelações." "Por Alá", disse eu, "nunca vi um barbeiro que se destacasse em astrologia judiciária a não ser tu: mas penso e sei que és muito pródigo em conversa frívola. Mandei chamar-te apenas para rapar a minha cabeça, mas tu vens e incomodas-me com esta conversa lamentável." "O que mais querias?", respondeu ele. "Alá concedeu-te generosamente um Barbeiro, que é astrólogo, versado em alquimia e magia branca; sintaxe, gramática e lexicologia; as artes da lógica, retórica e elocução; matemática, aritmética e álgebra; astronomia, astromancia e geometria; teologia, as Tradições do Apóstolo e os Comentários do Alcorão. Além disso, li livros aos montes e digeri-os, tive experiência de assuntos e compreendi-os. Em suma, aprendi a teoria e a prática de todas as artes e ciências; sei tudo de cor e sou um mestre veterano em totâ re scibili. O teu pai amava-me pela minha falta de intromissão, portanto, servir-te é um dever religioso que me incumbe. Não sou um intrometido como pareces supor, e por esta razão sou conhecido como O Homem Silencioso, também, O Homem Modesto. Pelo que te convém render graças a Alá Todo-Poderoso e não me contrariar, pois sou um verdadeiro conselheiro para ti e benevolente para contigo. Quem dera que eu estivesse ao teu serviço um ano inteiro para que pudesses fazer-me justiça; e não te pediria salário por tudo isto." Quando ouvi o seu fluxo de palavras, disse-lhe: "Sem dúvida que serás a minha morte neste dia!" —— E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Quando chegou a Trigésima Noite,

Ela disse: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que o jovem disse ao Barbeiro: "Tu certamente serás a minha morte neste mesmo dia!" "Ó meu mestre", respondeu ele, "eu sou ele, chamado O Homem Silencioso, por causa da escassez das minhas palavras, para me distinguir dos meus seis irmãos. Pois o mais velho chama-se Al-Bakbúk, o tagarela; o segundo Al-Haddár, o palrador; o terceiro Al-Fakík, o palra-palra; o quarto, o seu nome é Al-Kuz al-aswáni, o Cântaro de pescoço comprido, devido ao seu eterno palrar; o quinto é Al-Nashshár, o mexeriqueiro e contador de histórias; o sexto Shakáshik, ou o de muitos clamores; e o sétimo é famoso como Al-Sámit, o Homem Silencioso, e este sou eu, o teu nobre servo!" Enquanto ele redobrava a sua fala, pensei que a minha vesícula biliar fosse rebentar; por isso disse ao criado: "Dá-lhe um quarto de dinar e dispensa-o e deixa-o ir-se da minha presença em nome de Deus que o fez. Não quero rapar a cabeça hoje." "Que palavras são estas, ó meu senhor?", gritou ele. "Por Alá! Não aceitarei salário teu até que te tenha servido e tenha ministrado às tuas necessidades; e não me importa se nunca receber dinheiro de ti. Se não conheces a minha qualidade, eu conheço a tua; e devo ao teu pai, homem honesto, sobre quem Alá Todo-Poderoso tenha misericórdia! muitas gentilezas, pois ele era uma alma liberal e generosa. Por Alá, ele mandou chamar-me um dia, como se fosse este dia abençoado, e eu entrei e encontrei um grupo dos seus íntimos à volta dele." Disse-me ele: "Sangra-me"; então tirei o meu astrolábio e, tomando a altitude do sol para ele, verifiquei que o ascendente era inauspicioso e a hora desfavorável para a sangria. Contei-lhe isto, e ele agiu de acordo com o meu pedido e aguardou uma oportunidade melhor. Então fiz estes versos em honra dele:—

Fui ao meu patrono para lhe tirar sangue, ✿ Mas achei que o momento estava longe de bom: Então sentei-me e falei de todas as estranhezas, ✿ E com chistes e piadas conquistei a sua boa vontade: Eles agradaram-lhe e exclamou ele: 'Ó homem de espírito, ✿ Provaste ser perfeito no teu humor alegre!' Disse eu: 'Ó tu Senhor dos homens, se não ✿ Me emprestares arte e sabedoria, sou louco e desvairado: Em ti reúnem-se graça, dádiva, bondade, suavidade; ✿ E eu galardoou o mundo com saber, ciência e gravidade.'

O teu pai ficou encantado e gritou ao criado: "Dá-lhe cento e três peças de ouro com uma túnica de honra!" O homem obedeceu às suas ordens, e eu aguardei um momento auspicioso, quando o sangrei; e ele não me contrariou; antes, agradeceu-me e eu fui também agradecido e louvado por todos os presentes. Quando a sangria terminou, não tive poder para manter o silêncio e perguntei-lhe: "Por Alá, ó meu senhor, o que te levou a dizer ao criado: — Dá-lhe cento e três dinares?"; e ele respondeu: "Um dinar foi pela observação astrológica, outro pela tua conversa agradável, o terceiro pela flebotomia, e os cem restantes e o traje foram pelos teus versos em meu louvor." "Que Alá mostre pouca misericórdia ao meu pai", exclamei eu, "por conhecer alguém como tu." Ele riu e exclamou: "Não há outro deus senão Deus e Maomé é o Apóstolo de Deus! Glória Àquele que muda e não é mudado! Tomei-te por um homem de bom senso, mas vejo que palras e estás desvairado por causa da doença. Alá disse no Livro Bendito: — O Paraíso está preparado para os justos que refreiam a sua ira e perdoam aos homens, e assim por diante; e, em qualquer caso, estás desculpado. No entanto, não consigo conceber a causa da tua pressa e agitação; e deves saber que o teu pai e o teu avô não faziam nada sem me consultar, e, na verdade, foi dito com muita verdade: — Que o conselheiro seja prezado; e: — Não há vício no conselho; e diz-se também em certos provérbios: Aquele que não tem conselheiro mais velho do que ele, nunca ele próprio será um ancião; e o poeta diz:—

Qualquer coisa necessária que empreendas, ✿ Consulta o experiente e não o contraries!"

E, na verdade, nunca encontrarás um homem mais versado em assuntos do que eu, e estou aqui de pé para te servir. Não estou vexado contigo: por que haverias tu de estar vexado comigo? Mas aconteça o que acontecer, serei paciente contigo em memória da muita bondade que o teu pai me mostrou." "Por Alá", gritei eu, "ó tu de língua comprida como a cauda de um jumento, persistes em incomodar-me com o teu palrar e tornas-te mais prolixo nos teus longos discursos, quando tudo o que quero de ti é que rapes a minha cabeça e sigas o teu caminho!" Então ele ensaboou-me a cabeça dizendo: "Percebo que estás vexado comigo, mas não o levarei a mal, pois a tua inteligência é fraca e tu não passas de um rapazito: foi apenas ontem que eu costumava levar-te aos ombros e levar-te para a escola." "Ó meu irmão", disse eu, "pelo amor de Alá, faz o que quero e vai-te embora!" E rasguei as minhas vestes. Quando ele me viu fazer isto, pegou na navalha e começou a afiá-la e não parou de a passar na correia até que os meus sentidos estavam quase a abandonar-me. Então veio ter comigo e rapou parte da minha cabeça; depois deteve a mão e disse: "Ó meu senhor, a pressa é o passo de Satanás, enquanto a paciência é de Alá, o Compassivo. Mas tu, ó meu mestre, sei que não conheces o meu estatuto; pois, na verdade, esta mão pousa sobre as cabeças de Reis e Emires e Wazires, e sábios e doutores versados na lei, e o poeta disse de alguém como eu:—

Todos os ofícios são como colares enfiados num fio, ✿ Mas este Barbeiro é a pérola única do bando: Acima de todos os artesãos ele classifica-se, e porquê? ✿ As cabeças dos Reis estão sob a sua mão!"

Então disse eu: "Deixa-te de falar sobre o que não te diz respeito: na verdade, apertaste o meu peito e distraíste a minha mente." Disse ele: "Parece-me que és um homem apressado"; e eu disse: "Sim! sim! sim!" e ele: "Aconselho-te a praticar a contenção de ti mesmo, pois a pressa é o espólio de Satanás que apenas legar arrependimento e maldição e ruína, e Ele (sobre quem sejam bênçãos e paz!) disse: O melhor dos trabalhos é aquele em que a deliberação espreita: mas eu, por Alá! tenho alguma dúvida sobre o teu assunto; e por isso gostaria que me contasses o que é que tens tanta pressa em fazer; pois temo que seja tudo menos bom." Depois continuou: "Faltam ainda três horas para a hora da oração; mas não desejo estar em dúvida sobre este assunto; não, devo saber o momento exatamente, pois, na verdade: — Um palpite disparado em tempos de dúvida, traz frequentemente o mal; especialmente em alguém como eu, uma pessoa superior cujos méritos são famosos entre a humanidade em geral; e não convém que eu fale ao acaso, como fazem os comuns dos astrólogos." Dito isto, atirou a navalha e, pegando no astrolábio, saiu para debaixo do sol e lá ficou durante muito tempo; depois do que voltou e, contando pelos dedos, disse-me: "Faltam ainda três horas completas para a hora da oração, nem mais nem menos, de acordo com os mais eruditos astronómicos e os mais sábios fazedores de almanaques." "Alá sobre ti", gritei eu, "cala a boca comigo, pois despedaças o meu fígado em pedaços." Então ele pegou na navalha e, depois de a afiar como antes e de rapar outros dois pelos da minha cabeça, deteve novamente a mão e disse: "Estou preocupado com a tua pressa e, na verdade, farias bem em contar-me a causa dela; seria melhor para ti, como sabes que nem o teu pai nem o teu avô fizeram uma única coisa senão pelo meu conselho." Quando vi que não havia escapatória dele, disse para comigo: "O tempo para a oração aproxima-se e desejo ir ter com ela antes que o povo saia da mesquita. Se me atrasar muito mais, não sei como chegar até ela." Então disse em voz alta: "Sê rápido e termina com esta conversa e impertinência, pois tenho de ir a uma festa na casa de alguns dos meus íntimos." Quando ele me ouviu falar da festa, disse: "Este teu dia é um dia abençoado para mim! Na verdade, foi apenas ontem que convidei um grupo dos meus amigos e esqueci-me de providenciar algo para eles comerem. Este mesmo momento eu estava a pensar nisso: Ai, como ficarei desonrado aos olhos deles!" "Não te aflijas com este assunto", respondi eu; "não te disse que fui convidado para um entretenimento neste dia? Por isso tudo o que há na minha casa, de comer e beber, será teu, se apenas terminares o teu trabalho e te apressares a rapar a minha cabeça." Ele respondeu: "Alá retribua-te com o bem! Especifica para mim o que há na minha casa para os meus convidados para que eu possa estar a par." Disse eu: "Cinco pratos de carne e dez galinhas de peito avermelhado e um cordeiro assado." "Põe-nos diante de mim", disse ele, "para que eu possa vê-los." Então disse ao meu povo para os comprar, pedir emprestado ou roubar e trazê-los de qualquer modo, e fiz com que tudo isto fosse posto diante dele. Quando ele viu, gritou: "O vinho falta", e eu respondi: "Tenho um frasco ou dois de bom sumo de uva velho em casa", e ele disse: "Faze com que o tragam!" Então mandei buscá-lo e ele exclamou: "Alá te abençoe por uma disposição generosa! Mas ainda faltam as essências e os perfumes." Então pedi-lhes que colocassem diante dele uma caixa contendo Nadd, o melhor dos perfumes compostos, juntamente com fino aloés, âmbar e almíscar puro, tudo no valor de cinquenta dinares. Agora o tempo apertava e o meu coração apertava-se com ele; por isso disse-lhe: "Leva tudo e termina de rapar a minha cabeça pela vida de Maomé (a quem Alá abençoe e guarde!)." "Por Alá", disse ele, "não o levarei até ver tudo o que está nela." Então ordenei ao pajem que abrisse a caixa e o Barbeiro pousou o astrolábio, deixando a maior parte da minha cabeça por rapar; e, sentando-se no chão, remexeu os aromas e o incenso e a madeira de aloés e as essências até que eu estivesse quase perturbado. Depois pegou na navalha e, aproximando-se de mim, rapou alguns pelos e repetiu estes versos:—

O rapaz, como o pai, certamente mostrará, ✿ Como a árvore da raiz dos progenitores crescerá.[620]

Disse-lhe então: "Por Alá, ó meu filho, não sei se devo agradecer-te a ti ou ao teu pai; pois o meu entretenimento neste dia deve-se todo à tua generosidade e beneficência; e, embora nenhum dos meus companheiros seja digno disso, possuo um grupo de homens honrados, a saber: Zantút, o dono do banho, e Salí'a, o mercador de cereais; e Sílat, o vendedor de feijão; e Akrashah, o hortelão; e Humayd, o lixeiro; e Sa'íd, o cameleiro; e Suwayd, o carregador; e Abu Makárish, o banhista[621]; e Kasím, o vigia; e Karím, o cavalariço. Não há entre eles um único importuno ou valentão quando bebe; nem um intrometido ou um avarento, e cada um deles tem uma dança que dança e alguns dísticos seus que cantarola; e o melhor deles é que, tal como o teu servo, este teu escravo aqui, eles não sabem o que é falar muito nem o que significa audácia." O dono do banho canta ao som do tamborim[622] uma canção que encanta; e levanta-se, dança e entoa:

Vou, ó mamã, encher o meu pote.

Quanto ao mercador de cereais, ele traz mais perícia nisso do que qualquer outro; dança e canta:

Ó Keener,[623] ó amor, tu não ficas atrás

e não deixa as entranhas de ninguém sãs de tanto rir dele. Mas o lixeiro canta de modo que os pássaros param para o ouvir, e dança e canta:

Notícias que a minha mulher sabe não estão trancadas numa caixa![624]

E ele tem privilégio, pois é um patife astuto e espirituoso;[625] e, falando da sua excelência, costumo dizer:—

"A minha vida pelo lixeiro! De muito boa vontade o amo, ✿ Como um ramo que oscila, ele é doce à minha vista: O destino juntou-nos numa noite, quando lhe disse ✿ (Enquanto eu enfraquecia e o amor ganhava mais força) 'O teu amor queima o meu coração!' 'E não é de admirar', disse ele ✿ 'Quando o extrator de estrume se torna um foguista habilidoso.'[626]

E, na verdade, cada um é perfeito naquilo que pode encantar o engenho com alegria e jovialidade"; acrescentando de imediato: "Mas ouvir não é ver; e, na verdade, se te decidires a juntar-te a nós e adiares a ida aos teus amigos, será melhor para nós e para ti. Os vestígios da doença ainda estão em ti e, porventura, vais para o meio de gente que fala imenso, homens que comunicam entre si sobre o que não lhes diz respeito; ou pode haver entre eles algum sujeito audaz que te partirá a cabeça, e tu com metade do teu tamanho por causa da doença." "Isso ficará para outro dia", respondi, e ri-me com o coração irritado: "termina o teu trabalho e vai, sob a guarda de Alá Todo-Poderoso, ter com os teus amigos, pois eles estarão à espera da tua chegada." "Ó meu senhor", replicou ele, "procuro apenas apresentar-te a estes companheiros de infinita alegria, filhos de homens de valor, entre os quais não há nem insolência, nem descaramento, nem loquacidade; pois nunca, desde que cheguei à idade da discrição, pude suportar conviver com alguém que faz perguntas sobre o que não lhe diz respeito, nem jamais frequentei outros que não aqueles que são, como eu, homens de poucas palavras. Na verdade, se convivesses com eles ou até mesmo se os visses uma vez, abandonarias todos os teus íntimos." "Que Alá preencha a tua alegria com eles", disse eu, "terei de ir ter com eles um dia ou outro." Mas ele disse: "Oxalá fosse neste preciso dia, pois tinha colocado o meu coração em que tu fosses um de nós; contudo, se tens de ir ter com os teus amigos hoje, levarei estas coisas boas, com as quais me honraste e favoreceste, aos meus convidados e deixá-los-ei comer e beber sem esperarem por mim; enquanto eu voltarei a ti à pressa e acompanhar-te-ei à tua pequena reunião; pois não há cerimónia entre mim e os meus íntimos que me impeça de os deixar. Não temas, voltarei em breve para junto de ti e irei contigo para onde quer que vás. Não há Majestade e não há Poder senão em Alá, o Glorioso, o Grande!" Gritei: "Vai ter com os teus amigos e diverte-te com eles; e deixa-me ir ter com os meus e estar com eles hoje, pois esperam por mim." Mas o Barbeiro exclamou: "Não te deixarei ir sozinho"; e eu respondi: "A verdade é que ninguém pode entrar onde eu vou senão eu próprio." Ele retorquiu: "Suspeito que hoje tu tens um encontro com alguma mulher, senão ter-me-ias levado contigo; contudo, sou o homem certo para levar, alguém que te poderia ajudar até ao fim que desejas. Mas temo que andes atrás de mulheres estranhas e que percas a vida; pois nesta nossa cidade de Bagdade não se pode fazer nada neste campo, especialmente num dia como a sexta-feira: o nosso Governador é um homem colérico e uma lâmina afiadíssima." "Vergonha sobre ti, velho mau, perverso e ímpio!", gritei, "Vai-te embora! Que palavras são estas que me dizes?" "Ó de espírito frio",[627] exclamou ele, "dizes-me o que não é verdade e escondes a tua mente de mim, mas conheço todo o assunto com certeza e procuro apenas ajudar-te hoje com o meu melhor esforço." Eu temia que o meu povo ou os meus vizinhos ouvissem a conversa do Barbeiro, por isso mantive o silêncio durante muito tempo enquanto ele terminava de rapar a minha cabeça; altura em que a hora da oração chegara e a Khutbah, ou sermão, estava prestes a seguir-se. Quando terminou, disse-lhe: "Vai ter com os teus amigos com a comida e a bebida deles, e eu esperarei pelo teu regresso. Depois iremos juntos." Desta forma, esperava deitar azeite sobre águas turbulentas e enganar o maldito tolo, para que, porventura, me pudesse livrar dele; mas ele disse: "Tu estás a enganar-me e queres ir sozinho para o teu compromisso e lançar-te em perigo, de onde não haverá fuga para ti. Agora, por Alá! E novamente por Alá! Não vás até que eu regresse, para que eu possa acompanhar-te e ver o desenlace do teu caso." "Que assim seja", respondi, "não te ausentes por muito tempo." Então, ele pegou em toda a carne e bebida que eu lhe dera e no resto e saiu da minha casa; mas o maldito velhaco entregou-as a um carregador para as levar para sua casa, mas escondeu-se num dos becos. Quanto a mim, levantei-me no instante, pois os Muezzins já tinham chamado o Salám de sexta-feira, a saudação ao Apóstolo;[628] e vesti-me à pressa e saí sozinho e, apressando-me para a rua, coloquei-me junto à casa onde tinha visto a jovem. Encontrei a velha a guardar a porta à minha espera, e subi com ela para o andar de cima, para o apartamento da donzela. Mal lá cheguei, eis que o dono da casa regressou da oração e, entrando no grande salão, fechou a porta. Olhei pela janela e vi este Barbeiro (a maldição de Alá sobre ele!) sentado em frente à porta e disse: "Como é que este demónio me encontrou?" Neste preciso momento, como Alá decretara para rasgar o meu véu de segredo, aconteceu que uma serva do dono da casa cometeu alguma ofensa pela qual ele a bateu. Ela gritou e o escravo dele correu para interceder por ela, ao que o Kazi bateu-lhe também, e ele também rugiu. O maldito Barbeiro imaginou que era eu quem estava a ser batido; por isso também começou a gritar e a rasgar as suas vestes e a espalhar pó sobre a cabeça e continuou a gritar e a clamar: "Socorro! Socorro!" Então as pessoas rodearam-no e ele continuou a gritar: "O meu senhor está a ser assassinado na casa do Kazi!" Depois correu a clamar para o meu local com o povo atrás dele, e contou ao meu povo, aos meus criados e escravos; e, antes que eu soubesse o que se passava, eles vieram a rasgar as suas roupas e a soltar os cabelos[629] e a gritar: "Ai, o nosso senhor!"; e este Barbeiro liderava a debandada com as roupas rasgadas e no estado mais deplorável; e ele também gritava como um louco e dizia: "Ai do nosso senhor assassinado!" E todos eles fizeram um assalto à casa onde eu estava. O Kazi, ouvindo os gritos e o alvoroço à sua porta, disse a um dos seus servos: "Vê o que se passa"; e o homem saiu e regressou e disse: "Ó meu senhor, à porta há mais de dez mil almas entre homens e mulheres, e todos gritam: 'Ai do nosso senhor assassinado!'; e continuam a apontar para a nossa casa." Quando o Kazi ouviu isto, o assunto pareceu sério e ele enfureceu-se; por isso levantou-se e, abrindo a porta, viu uma grande multidão de pessoas; perante o que ficou atónito e disse: "Ó povo! que se passa?" "Ó maldito! Ó cão! Ó porco!", responderam os meus servos; "'Tu mataste o nosso senhor!" Disse ele: "Ó boa gente, e o que é que o vosso senhor me fez para que eu o matasse?"—E Shahrazad percebeu o amanhecer do dia e cessou de dizer a sua fala permitida.

Agora, quando chegou a Trigésima Primeira Noite,

Ela disse: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que o Kazi disse aos servos: "O que é que o vosso senhor me fez para que eu o matasse? Esta é a minha casa e está aberta para todos vós." Então disse o Barbeiro: "Tu bateste-lhe e eu ouvi-o gritar"; e disse o Kazi: "Mas o que é que ele estava a fazer para que eu lhe batesse, e o que o trouxe à minha casa; e de onde veio ele e para onde foi?" "Não sejas um velho mau e perverso!", gritou o Barbeiro, "pois eu conheço toda a história; e o resumo de tudo é que a tua filha está apaixonada por ele e ele ama-a; e quando soubeste que ele tinha entrado na casa, ordenaste aos teus servos que lhe batessem e eles fizeram-no: por Alá, ninguém julgará entre nós e ti senão o Califa; ou então traz para fora o nosso senhor para que o seu povo o leve, antes que entrem e o salvem à força da tua casa, e tu sejas envergonhado." Então disse o Kazi (e a sua língua estava refreada e a sua boca estava fechada pela confusão perante o povo): "Se dizes a verdade, vem tu cá dentro e tira-o." Ao que o Barbeiro avançou e entrou na casa. Quando vi isto, procurei um meio de fuga e escapatória, mas não vi esconderijo, exceto um grande baú no quarto de cima onde eu estava. Por isso entrei nele e puxei a tampa para cima de mim e contive a respiração. O Barbeiro mal entrou no quarto começou a procurar por mim, depois virou-se para a direita e para a esquerda e veio diretamente ao lugar onde eu estava, e aproximou-se do baú e, erguendo-o sobre a cabeça, fugiu o mais rápido que pôde. Nisto, a minha razão abandonou-me, pois sabia que ele não me deixaria em paz; por isso ganhei coragem e, abrindo o baú, atirei-me para o chão. A minha perna partiu-se na queda e, estando a porta aberta, vi uma grande multidão de pessoas a olhar para dentro. Ora, eu trazia na minha manga muito ouro e alguma prata, que tinha preparado para um dia mau como este e para ocasiões semelhantes; por isso continuei a espalhá-lo entre o povo para desviar a atenção deles de mim e, enquanto eles estavam ocupados a lutar por ele, parti, coxeadamente o mais rápido que podia, através das ruas secundárias de Bagdade, mudando e virando à direita e à esquerda. Mas, para onde quer que fosse, este maldito Barbeiro vinha atrás de mim, gritando em voz alta: "Eles queriam ter-me privado do meu senhoooor! Eles queriam ter matado aquele que foi um benfeitor para mim e para a minha família e para os meus amigos! Louvado seja Alá que me fez prevalecer contra eles e livrou o meu senhor das suas mãos!" Depois, para mim: "Para onde vais agora? Tu querias persistir em seguir os teus próprios caminhos malignos, até te teres trazido a este mau passo; e, se Alá não me tivesse concedido a ti, nunca terias escapado a esta situação em que caíste, pois eles teriam atirado contigo para uma calamidade da qual nunca te terias livrado. Mas não te pedirei contas pela tua ignorância, já que és tão pouco inteligente e inconsequente e viciado na precipitação!" Disse-lhe eu: "Não basta o que me fizeste, que ainda tens de correr atrás de mim e dizer-me tais coisas nas ruas do bazar?" E quase entreguei a alma devido ao excesso de raiva contra ele. Depois refugiei-me na loja de um tecelão a meio do mercado e procurei proteção junto do dono, que expulsou o Barbeiro; e, sentado na sala das traseiras,[630] disse para comigo: "Se eu regressar a casa nunca serei capaz de me livrar desta maldição de Barbeiro, que estará comigo noite e dia; e não consigo suportar a visão dele nem por um segundo." Por isso enviei imediatamente chamar testemunhas e fiz um testamento, dividindo a maior parte dos meus bens entre o meu povo, e nomeei um guardião para eles, a quem confiei a responsabilidade de grandes e pequenos, ordenando-lhe que vendesse as minhas casas e domínios. Então parti nas minhas viagens para que pudesse estar livre deste proxeneta[631]; e vim instalar-me na vossa cidade onde vivo há algum tempo. Quando me convidastes e eu vim aqui, a primeira coisa que vi foi este maldito alcoviteiro sentado no lugar de honra. Como pode então o meu coração estar contente e a minha estadia ser agradável na companhia deste indivíduo que me trouxe tudo isto, e que foi a causa da quebra da minha perna e do meu exílio de casa e da terra natal?" E o jovem recusou-se a sentar e foi-se embora. Quando ouvimos a sua história (continuou o Alfaiate), ficámos espantados além da medida e divertidos e dissemos ao Barbeiro: "Por Alá, é verdade o que este jovem diz de ti?" "Por Alá", respondeu ele, "tratei-o assim devido à minha cortesia e bom senso e generosidade. Se não fosse por mim, ele teria perecido e ninguém senão eu foi a causa da sua fuga. Bem lhe valeu que ele tenha sofrido na perna e não na vida! Se eu fosse um homem de muitas palavras, um intrometido, um bisbilhoteiro, não teria agido tão gentilmente com ele; mas agora contar-vos-ei uma história que me aconteceu, para que possais estar bem seguros de que sou um homem poupado em palavras, em quem não há audácia, e uma pessoa muito diferente daqueles seis Irmãos meus; e é esta."

A HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE SI PRÓPRIO.

Eu vivia em Bagdade durante os tempos de Al-Mustansir bi'llah,[632] filho de Al-Mustazi bi'llah, o então Califa, um príncipe que amava os pobres e necessitados e convivia com os sábios e piedosos. Um dia aconteceu-lhe estar irritado com dez pessoas, salteadores de estrada que roubavam na estrada do Califa, e ordenou ao Prefeito de Bagdade que os trouxesse à presença no aniversário do Grande Festival.[633] Então o Prefeito saiu e, fazendo-os seus prisioneiros, embarcou com eles num barco. Eu avistei-os enquanto embarcavam e disse para comigo: "Estes estão certamente reunidos para um banquete de casamento; creio que estão a passar o dia naquele barco a comer e a beber, e ninguém será companheiro dos seus copos senão eu próprio." Então levantei-me, ó bela assembleia; e, pelo excesso da minha cortesia e a gravidade do meu entendimento, embarquei com eles e entrei em conversa com eles. Eles remaram para a margem oposta, onde desembarcaram, e apareceram a guarda e os guardiões da paz com correntes, que colocaram à volta do pescoço dos ladrões. Acorrentaram-me a mim entre o resto deles; e, ó povo, não é uma prova da minha cortesia e parcimónia de palavras que eu mantive a paz e não quis falar? Depois levaram-nos com grilhões e na manhã seguinte levaram-nos a todos perante Al-Mustansir bi'llah, Comandante dos Fiéis, que ordenou que cortassem o pescoço aos dez ladrões. Então o Executor avançou depois de estarem sentados no couro de sangue:[634] depois, desembainhando a sua lâmina, cortou uma cabeça após a outra até ter cortado o pescoço do décimo; e apenas eu permaneci. O Califa olhou para mim e perguntou ao Executor, dizendo: "O que te aflige que cortaste apenas nove cabeças?"; e ele respondeu: "Alá me livre de decapitar apenas nove, quando tu me ordenas que decapite dez!" Disse o Califa: "Parece-me que cortaste os pescoços de apenas nove, e este homem à tua frente é o décimo." "Pela tua beneficência!", replicou o Executor, "eu decapitei dez." "Conta-as!", gritou o Califa, e quando as contaram, eis! havia dez. O Califa olhou para mim e disse: "O que te fez manter silêncio num momento como este e como vieste a conviver com estes homens de sangue. Conta-me a causa de tudo isto, pois embora sejas um homem muito velho, certamente o teu espírito é fraco." Ora, quando ouvi estas palavras do Califa, saltei para os meus pés e respondi: "Sabe, ó Príncipe dos Fiéis, que eu sou o Shaykh Silencioso e sou assim chamado para me distinguir dos meus seis irmãos. Sou um homem de imensa erudição enquanto que, quanto à gravidade do meu entendimento, à astúcia do meu espírito e à parcimónia da minha fala, não há fim para eles; e a minha profissão é a de barbeiro. Saí cedo ontem de manhã e vi estes homens a dirigir-se para um esquife; e, imaginando que estavam a caminho de um banquete de casamento, juntei-me a eles e misturei-me com eles. Passado algum tempo apareceu a guarda e os guardiões da paz, que puseram correntes à volta dos pescoços deles e à volta do meu com o resto; mas, no excesso da minha cortesia, mantive a paz e não pronunciei uma palavra; nem isto foi outra coisa senão generosidade da minha parte. Levaram-nos à tua presença, e tu deste ordem para cortar os pescoços dos dez; contudo, não me dei a conhecer a ti e permaneci silencioso perante o Executor, puramente pela minha grande generosidade e cortesia que me levou a partilhar com eles a sua morte. Mas durante toda a minha vida agi assim nobremente com a humanidade, e eles retribuem-me com a mais vil e má das retribuições!" Quando o Califa ouviu as minhas palavras e soube que eu era um homem de generosidade excessiva e de poucas palavras, alguém em quem não há audácia (como este jovem quereria que fosse, a quem salvei de um risco mortal e que me retribuiu tão mesquinhamente), ele riu-se com excessivo riso até cair de costas. Depois disse-me: "Ó Homem Silencioso, os teus seis irmãos favorecem-te na sabedoria e conhecimento e parcimónia de fala?" Respondi: "Nunca foram como eu! Tu lanças reprovação sobre mim, ó Comandante dos Fiéis, e não te convém igualar os meus irmãos a mim; pois, da abundância da sua fala e da sua deficiência de cortesia e gravidade, cada um deles obteve alguma mutilação ou outra. Um é monocular, outro paralisado, um terceiro cego, um quarto cortado de orelhas e nariz e um quinto privado de ambos os lábios, enquanto o sexto é um corcunda e um coxo. E não concebas, ó Comandante dos Fiéis, que eu seja pródigo de fala; mas tenho de te explicar que sou um homem de maior valor e menos palavras do que qualquer um deles. De cada um dos meus irmãos pendura uma história de como ele obteve o seu defeito físico e estas eu relatar-te-ei." Então o Califa deu ouvidos à

HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU PRIMEIRO IRMÃO.

Sabei então, ó Comandante dos Fiéis, que o meu primeiro irmão, Al-Bakbuk, o palrador, é um corcunda que se dedicou à alfaiataria em Bagdade, e costumava coser numa loja alugada a um homem de grande riqueza, que habitava por cima da loja, e havia também um moinho de farinha na cave. Um dia, enquanto o meu irmão, o corcunda, estava sentado na sua loja a coser, aconteceu que levantou a cabeça e viu uma senhora, semelhante à lua cheia nascente, numa janela com varanda da casa do seu senhorio, ocupada a olhar para os transeuntes. Quando o meu irmão a contemplou, o seu coração foi tomado pelo amor a ela e passou todo o dia a fitá-la, negligenciando a sua alfaiataria até ao anoitecer. Na manhã seguinte, abriu a sua loja e sentou-se para coser; mas, sempre que dava um ponto, olhava para a janela e via-a como antes; e a sua paixão e infatuamento por ela aumentaram. No terceiro dia, enquanto estava sentado no seu lugar habitual, a fitá-la, ela avistou-o e, percebendo que ele fora cativado pelo amor por ela, riu-se na sua cara, e ele sorriu-lhe de volta. Depois ela desapareceu e, pouco depois, enviou a sua escrava até ele com um fardo que continha um pedaço de seda vermelha florida. A serva dirigiu-se a ele e disse: "A minha senhora saúda-te e deseja que, da tua perícia e boa vontade, confeciones para ela uma túnica deste pedaço e a cosas primorosamente com a tua melhor costura." Ele respondeu: "Ouvir e obedecer"; e cortou para ela uma camisa e terminou de a coser no mesmo dia. Quando a manhã amanheceu, a rapariga voltou e disse-lhe: "A minha senhora saúda-te e pergunta como passaste a noite de ontem; pois ela não provou o sono devido ao facto de o seu coração estar ocupado contigo." Então ela colocou diante dele um pedaço de cetim amarelo e disse: "A minha senhora ordena-te que cortes para ela dois pares de calções de baixo deste pedaço e os cosas ainda hoje." "Ouvir e obedecer!", respondeu ele, "saúda-a por mim com muitas saudações e dize-lhe: O teu escravo é obediente à tua ordem; por isso ordena-lhe como quiseres." Então dedicou-se ao corte e trabalhou arduamente na costura das calças; e, após uma hora, a senhora apareceu na treliça e saudou-o com sinais, ora baixando os olhos, ora sorrindo-lhe na cara, e ele começou a assegurar-se de que em breve faria uma conquista. Ela não o deixou parar até que ele tivesse terminado os dois pares de calças, quando se retirou e enviou a serva, a quem ele as entregou; e ela tomou-as e seguiu o seu caminho. Quando chegou a noite, ele atirou-se para a sua cama de tapete e ficou a revirar-se de um lado para o outro até de manhã, altura em que se levantou e se sentou no seu lugar. Pouco depois, a donzela veio ter com ele e disse: "O meu senhor chama por ti." Ao ouvir estas palavras, ele temeu com extremo temor; mas a escrava, vendo o seu susto, disse-lhe: "Não te é destinado nenhum mal: nada além do bem te aguarda. A minha senhora quer que faças amizade com o meu senhor." Então o meu irmão, o alfaiate, regozijando-se com grande alegria, foi com ela; e quando chegou à presença do seu senhorio, o marido da senhora, beijou o chão diante dele, e o dono da casa retribuiu a sua saudação e deu-lhe um grande pedaço de linho, dizendo: "Corta-me camisas deste tecido e cose-as bem"; e o meu irmão respondeu: "Ouvir é obedecer." Logo se pôs a trabalhar, cortando, moldando e cosendo até terminar vinte camisas à hora da ceia, sem parar para provar alimento. O dono da casa perguntou-lhe: "Quanto custa o trabalho?"; e ele respondeu: "Vinte dirhams." Então o cavalheiro gritou para a escrava: "Traz-me vinte dirhams", e o meu irmão não disse uma palavra; mas a senhora fez sinal: "Não aceites nada dele"; ao que o meu irmão disse: "Por Allah, nada tomarei da tua mão." E levou consigo o seu equipamento de alfaiate e regressou à sua loja, embora estivesse na miséria, até ao último cêntimo. Então dedicou-se a fazer o trabalho deles; comendo, no seu zelo e diligência, apenas um bocado de pão e bebendo apenas um pouco de água durante três dias. No fim deste tempo, veio a serva e disse-lhe: "O que fizeste?" Ele respondeu: "Estão terminadas", e levou as camisas ao marido da senhora, que lhe teria pago o seu salário: mas ele disse: "Nada tomarei", por medo dela e, regressando à sua loja, passou a noite sem dormir por causa da sua fome. Ora, a dama tinha informado o marido de como estava o caso (o meu irmão não sabia nada disto); e os dois tinham concordado em torná-lo alfaiate de graça, para melhor se troçarem e rirem dele. Na manhã seguinte, foi para a sua loja e, enquanto lá estava sentado, a serva veio até ele e disse: "Fala com o meu senhor." Então acompanhou-a até ao marido, que lhe disse: "Quero que cortes para mim cinco túnicas de mangas compridas." Então ele cortou-as, pegou no tecido e foi-se embora. Depois coseu-as e levou-as ao cavalheiro, que elogiou a sua costura e lhe ofereceu uma bolsa de prata. Ele estendeu a mão para a tomar, mas a senhora fez-lhe sinal, por detrás do marido, para que não o fizesse, e ele respondeu: "Ó meu senhor, não há pressa, temos tempo de sobra para isso." Então saiu da casa mais humilde e mais submisso do que um burro, pois, na verdade, cinco coisas estavam reunidas nele, a saber: amor, mendicidade, fome, nudez e trabalho árduo. Não obstante, animou-se com a esperança de ganhar os favores da senhora. Quando terminou todos os trabalhos, pregaram-lhe outra partida e casaram-no com a sua escrava; mas, na noite em que ele pensava ir ter com ela, disseram-lhe: "Dorme esta noite no moinho; e amanhã tudo correrá bem." O meu irmão concluiu que havia uma boa razão para isso e passou a noite sozinho no moinho. Ora, o marido tinha incitado o moleiro a fazer o alfaiate girar o moinho: por isso, quando a noite ia a meio, o homem veio ter com ele e começou a dizer: "Este nosso boi tornou-se inútil e fica parado em vez de andar à roda: não quer girar o moinho esta noite, e ainda temos uma grande quantidade de milho para moer. Contudo, vou jungir o animal à força e fazê-lo terminar de o moer antes da manhã, pois o povo está impaciente pela sua farinha." Então encheu as tremonhas com grão e, aproximando-se do meu irmão com uma corda na mão, atou-a ao seu pescoço e disse-lhe: "Arre! À roda com o moinho! Tu, ó boi, não farias nada senão comer, urinar e defecar!" Depois pegou num chicote e descarregou-o nos ombros e barrigas das pernas do meu irmão, que começou a uivar e a bramir; mas ninguém veio ajudá-lo; e ele foi forçado a moer o trigo até perto do amanhecer, quando o dono da casa entrou e, vendo o meu irmão ainda preso ao jugo e o homem a açoitá-lo, saiu. Ao romper do dia, o moleiro regressou a casa e deixou-o ainda jungido e quase morto; e pouco depois entrou a escrava que o desatou e lhe disse: "Eu e a minha senhora estamos muito tristes pelo que aconteceu e suportámos a tua dor contigo." Mas ele não tinha língua para lhe responder, devido ao excesso de pancadas e ao giro do moinho. Depois retirou-se para o seu alojamento e eis que o escrivão que tinha redigido o contrato de casamento veio ter com ele e saudou-o, dizendo: "Allah te dê vida longa! Que as tuas núpcias sejam abençoadas! Este rosto revela feitos agradáveis, carícias, beijos e abraços desde o crepúsculo até ao amanhecer." "Que Allah não conceda paz ao mentiroso, ó tu, mil vezes corno!", respondeu o meu irmão, "por Allah, não fiz nada senão girar o moinho no lugar do boi a noite toda até de manhã!" "Conta-me a tua história", disse ele; e o meu irmão contou o que lhe tinha acontecido e ele disse: "A tua estrela não combina com a estrela dela; mas se quiseres, posso alterar o contrato para ti", acrescentando: "Cuidado, não vá haver outra trapaça à tua espera." E o meu irmão respondeu-lhe: "Vê lá se não tens outro artifício." Então o escrivão deixou-o e ele sentou-se na sua loja, à espera de alguém que lhe trouxesse um trabalho com o qual pudesse ganhar o pão de cada dia. Pouco depois, a serva veio ter com ele e disse: "Fala com a minha senhora." "Vai-te embora, ó minha boa rapariga", respondeu ele, "não haverá mais negócios entre mim e a tua senhora." A serva regressou à sua ama e contou-lhe o que o meu irmão tinha dito e, pouco depois, ela pôs a cabeça fora da janela, a chorar e a dizer: "Por que, ó meu amado, não há de haver mais negócios entre mim e ti?" Mas ele não lhe deu resposta. Então ela chorou e conjurou-o, jurando que tudo o que lhe tinha acontecido no moinho não fora sancionado por ela e que ela era inocente de todo o assunto. Quando ele olhou para a sua beleza e encanto e ouviu a doçura do seu discurso, a tristeza que o possuíra passou do seu coração; aceitou as suas desculpas e alegrou-se com a sua visão. Então saudou-a e falou com ela e esteve a coser um pouco, após o que a serva veio ter com ele e disse: "A minha senhora saúda-te e informa-te de que o marido dela tenciona dormir fora esta noite, na casa de uns amigos íntimos seus; por isso, quando ele se for, vem ter connosco e passa a noite com a minha senhora em deleitosa alegria até de manhã." Ora, o marido tinha-lhe perguntado: "Como havemos de fazer para o afastar de ti?"; e ela respondeu: "Deixa-me pregar-lhe outra partida e torná-lo num motivo de riso para toda a cidade." Mas o meu irmão não sabia nada da malícia das mulheres. Assim que escureceu, a escrava veio ter com ele e levou-o para a casa, e quando a senhora o viu, disse-lhe: "Por Allah, ó meu senhor, tenho sentido imensas saudades tuas." "Por Allah", exclamou ele, "beija-me depressa antes de me dares qualquer outra coisa." Mal tinha ele falado, o marido da senhora entrou da sala contígua e agarrou-o, dizendo: "Por Allah, não te deixarei ir enquanto não te entregar ao chefe da guarda da cidade." O meu irmão humilhou-se diante dele; mas ele não o quis ouvir e levou-o perante o Prefeito, que lhe deu cem chicotadas e, montando-o num camelo, desfilou com ele pela cidade, enquanto os guardas proclamavam em voz alta: "Esta é a recompensa de quem viola os Haréns dos homens honrados!" Além disso, ele caiu do camelo, partiu a perna e ficou coxo. Depois, o Prefeito baniu-o da cidade; e ele partiu sem saber para onde se dirigir; mas eu soube dele e, temendo por ele, fui atrás dele, trouxe-o secretamente de volta à cidade, restaurei-lhe a saúde e acolhi-o em minha casa, onde ele ainda vive." O Califa riu-se da minha história e disse: "Fizeste bem, ó Samit, ó Homem Silencioso, ó poupado nas palavras!"; e ordenou-me que aceitasse um presente e me fosse embora. Mas eu disse: "Não aceitarei nada de ti a menos que te conte o que aconteceu a todos os meus outros irmãos; e não penses que sou um homem de muitas palavras." Então o Califa deu ouvidos à,

HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU SEGUNDO IRMÃO.

Sabe, ó Comandante dos Fiéis, que o nome do meu segundo irmão era Al-Haddár, isto é, o tagarela, e ele era o paralítico. Ora, aconteceu-lhe um dia, enquanto tratava dos seus negócios, que uma velha o abordou e disse: "Para um pouco, meu bom homem, para que eu te diga algo que, se for do teu agrado, farás por mim e eu rezarei a Allah para que te dê bom proveito disso!" O meu irmão parou e ela continuou: "Eu indicar-te-ei o caminho para certa coisa, desde que não sejas pródigo em palavras." "Prossegue com a tua conversa", disse ele; e ela: "Que dizes tu de aposentos belos e um jardim formoso com águas correntes, flores a desabrochar e frutos a crescer, vinho velho a correr e um rosto jovem e bonito cujo dono poderás abraçar desde o anoitecer até ao romper da alvorada? Se fizeres o que eu te mandar, verás algo grandemente em teu proveito." "E existe tudo isto no mundo?" perguntou o meu irmão; e ela respondeu: "Sim, e será teu, desde que sejas sensato e deixes a curiosidade ociosa e as muitas palavras, e faças a minha vontade." "Eu fá-lo-ei, ó minha senhora", disse ele, "como é que me preferiste neste assunto a todos os homens e o que é que tanto te agrada em mim?" Disse ela: "Não te mandei eu ser poupado nas palavras? Cala-te e segue-me. Sabe que a jovem, a quem te levarei, gosta de fazer a sua própria vontade e detesta ser contrariada e todos os que a contradizem; por isso, se a contentares, alcançarás o teu desejo com ela." E o meu irmão disse: "Não a contrariarei em nada." Então ela seguiu e o meu irmão seguiu-a, faminto pelo que ela lhe descrevera até que entraram numa casa fina e grande, bela e primorosamente mobilada, cheia de eunucos e servos e mostrando sinais de prosperidade de alto a baixo. E ela levava-o para o andar superior quando as pessoas da casa lhe disseram: "Que fazes tu aqui?" Mas a velha respondeu-lhes: "Calai-vos e não o incomodeis: ele é um trabalhador e temos necessidade dele." Então ela levou-o a um pavilhão fino e grande, com um jardim no seu meio, que olhos nunca viram mais belo; e fê-lo sentar num divã elegante. Ele não estava sentado há muito tempo quando ouviu um ruído alto e entrou uma tropa de escravas rodeando uma dama como a lua na noite de plenitude. Quando ele a viu, levantou-se e fez-lhe uma vénia, ao que ela o acolheu e mandou que se sentasse. Ele sentou-se e ela disse-lhe: "Que Allah te faça avançar na honra! Está tudo bem contigo?" "Ó minha senhora", respondeu ele, "está tudo muito bem comigo." Depois ela mandou trazer comida, e puseram diante dela iguarias delicadas; então ela sentou-se para comer, fazendo demonstrações de afeição ao meu irmão e brincando com ele, embora durante todo o tempo não conseguisse evitar o riso; mas sempre que ele olhava para ela, ela fazia sinais às suas criadas como se estivesse a rir-se deles. O meu irmão (o asno!) não compreendia nada; mas, no excesso da sua paixão ridícula, imaginava que a dama estava apaixonada por ele e que ela logo lhe concederia o seu desejo. Quando terminaram de comer, puseram o vinho e entraram dez donzelas como luas, com alaúdes prontos nas mãos, e puseram-se a cantar com vozes plenas, doces e tristes, ao que o deleite se apoderou dele e ele tomou a taça das mãos da dama e bebeu-a de pé. Depois ela bebeu uma taça de vinho e o meu irmão (ainda de pé) disse-lhe "Saúde", e inclinou-se para ela. Ela entregou-lhe outra taça e ele bebeu-a toda, quando ela lhe deu uma bofetada forte na nuca. Com isto, o meu irmão teria saído da casa em fúria; mas a velha seguiu-o e piscou-lhe o olho para que voltasse. Ele voltou e a dama mandou-o sentar e ele sentou-se sem dizer uma palavra. Então ela deu-lhe novamente uma bofetada na nuca; e a segunda bofetada não lhe bastou, ela teve de obrigar todas as suas criadas a também baterem-lhe e esbofetearem-no, enquanto ele continuava a dizer à velha: "Nunca vi nada mais agradável que isto." Ela, da sua parte, não parava de exclamar: "Basta, basta, conjuro-te, ó minha senhora!"; mas as mulheres esbofetearam-no até ele quase desmaiar. Pouco depois o meu irmão levantou-se e saiu para satisfazer uma necessidade natural, mas a velha alcançou-o e disse: "Sê paciente um pouco e chegarás ao teu desejo." "Quanto tempo mais tenho de esperar", replicou o meu irmão, "esta bofetada fez-me sentir fraco." "Assim que ela estiver aquecida pelo vinho", respondeu ela, "terás o teu desejo." Então ele voltou ao seu lugar e sentou-se, ao que todas as criadas se levantaram e a dama mandou que o perfumassem com pastilhas e lhe aspergissem o rosto com água de rosas. Depois disse-lhe: "Que Allah te faça avançar na honra! Entraste na minha casa e suportaste as minhas condições, pois quem me contraria eu afasto-o, e quem é paciente tem o seu desejo." "Ó minha senhora", disse ele, "sou o teu escravo e estou na palma da tua mão!" "Sabe, então", continuou ela, "que Allah me fez apaixonadamente dada à diversão; e quem se conforma com o meu humor obtém o que deseja." Depois ordenou às suas criadas que cantassem com vozes altas até que toda a companhia estivesse deleitada; após o que ela disse a uma delas: "Leva o teu senhor, faz o que é necessário por ele e traz-mo de volta imediatamente." A donzela levou o meu irmão (e ele não sabendo o que ela faria com ele); mas a velha alcançou-o e disse: "Sê paciente; resta pouco por fazer." A isto o seu rosto iluminou-se e ele ficou de pé diante da dama enquanto a velha continuava a dizer: "Sê paciente; vais agora mesmo alcançar o teu desejo!"; até que ele disse: "Diz-me, o que ela quer que a donzela faça comigo?" "Nada senão o bem", replicou ela, "como eu sou o teu sacrifício! Ela deseja apenas tingir as tuas sobrancelhas e arrancar os teus bigodes." Disse ele: "Quanto ao tingir as minhas sobrancelhas, isso sairá com a lavagem, mas quanto a arrancar os meus bigodes, isso é um processo algo doloroso." "Tem cuidado em não a contrariar", gritou a velha; "pois ela pôs o seu coração em ti." Então o meu irmão sofreu pacientemente que ela lhe tingisse as sobrancelhas e arrancasse os bigodes; após o que a donzela voltou para a sua senhora e contou-lhe. Disse ela: "Resta agora apenas uma outra coisa a fazer; tens de rapar a barba e torná-lo de rosto liso." A donzela voltou e disse-lhe o que a sua senhora lhe ordenara fazer; e o meu irmão (o estúpido!) disse-lhe: "Como farei o que me desonrará perante as pessoas?" Mas a velha disse: "Ela faria isto apenas para que sejas como um jovem sem barba e para que não reste nenhum pelo na tua face para arranhar e picar as suas faces delicadas; pois, na verdade, ela está apaixonadamente apaixonada por ti. Por isso sê paciente e atingirás o teu objetivo." O meu irmão foi paciente e fez a sua vontade e deixou rapar a barba e, quando foi trazido de volta à dama, eis! ele apareceu tingido de vermelho nas sobrancelhas, desprovido de ambos os bigodes, rapado da barba, com carmim em ambas as faces. A princípio ela assustou-se com ele; depois troçou dele e, rindo-se até cair de costas, disse: "Ó meu senhor, tu conquistaste de facto o meu coração pela tua boa natureza!" Depois ela conjurou-o, pela sua vida, a levantar-se e a dançar, e ele levantou-se e saltitou, e não havia uma almofada na casa que ela não atirasse à sua cabeça, e da mesma forma fizeram todas as suas mulheres que também se puseram a atirar-lhe laranjas, limões e cidras até ele cair sem sentidos devido à bofetada na nuca, ao almofadamento e ao lançamento de frutos. "Agora alcançaste o teu desejo", disse a velha quando ele voltou a si; "não há mais golpes reservados para ti e resta apenas uma pequena coisa a fazer. É seu costume, quando está sob o efeito do vinho, não deixar ninguém tê-la até que tire o vestido e as calças e fique completamente nua. Então ela mandar-te-á tirar as tuas roupas e correr; e ela correrá à tua frente como se estivesse a fugir de ti; e tu segue-a de lugar em lugar até que o teu membro esteja no seu ponto mais alto, quando ela se entregará a ti"; acrescentando: "Despe as tuas roupas imediatamente." Então ele levantou-se, quase perdido em êxtase e, despindo as suas vestes, mostrou-se nu como veio ao mundo.——E Shahrazad percebeu o romper da aurora e cessou de dizer o seu dito permitido.

Agora, quando era a Trigésima Segunda Noite,

Ela disse: Chegou-me, ó Rei auspicioso, que quando a velha disse ao segundo irmão do Barbeiro: "Despe as tuas roupas", ele levantou-se, quase perdido em êxtase; e, despindo as suas vestes, mostrou-se nu como veio ao mundo. Ao que a dama despiu-se também e disse ao meu irmão: "Se queres alguma coisa, corre atrás de mim até me apanhares." Então ela partiu a correr e ele correu atrás dela enquanto ela entrava de sala em sala e saía de sala em sala, o meu irmão a correr atrás dela num furor de desejo como um verdadeiro louco, com o membro ereto terrivelmente alto. Depois de muito disto, ela lançou-se para um lugar escurecido, e ele lançou-se atrás dela; mas subitamente ele pisou um lugar cedente, que cedeu sob o seu peso; e, antes que se apercebesse de onde estava, encontrou-se no meio de um mercado apinhado, parte do bazar dos curtidores que gritavam os preços das peles e couros e compravam e vendiam. Quando eles o viram no seu estado, nu, com o membro ereto, rapado da barba e bigodes, com as sobrancelhas tingidas de vermelho e as faces pintadas com carmim, gritaram e bateram palmas para ele, e puseram-se a fustigá-lo com peles sobre o seu corpo nu até que um desmaio o tomou. Depois atiraram-no para cima de um burro e levaram-no ao Chefe da Polícia. Disse o Chefe: "O que é isto?" Disseram eles: "Este indivíduo caiu subitamente sobre nós da casa do Wazir neste estado." Então o Prefeito deu-lhe cem chicotadas e depois baniu-o de Bagdade. No entanto, eu saí atrás dele e trouxe-o de volta secretamente para a cidade e fiz-lhe uma mesada diária para o seu sustento: embora, se não fosse o meu humor generoso, eu não poderia ter suportado alguém como ele. Então o Califa deu ouvidos à

HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU TERCEIRO IRMÃO.

O nome do meu terceiro irmão era Al-Fakík, o Tagarela, que era cego. Um dia o Destino e a Sorte levaram-no a uma casa fina e grande, e ele bateu à porta, desejando falar com o seu dono para que pudesse pedir-lhe algo. Disse o dono da casa: "Quem está à porta?" Mas o meu irmão não disse uma palavra e logo o ouviu repetir com voz alta: "Quem é este?" Ainda assim ele não deu resposta e imediatamente ouviu o dono caminhar até à porta e abri-la e dizer: "Que queres tu?" O meu irmão respondeu: "Algo por amor a Allah Todo-Poderoso." "És cego?" perguntou o homem, e o meu irmão respondeu: "Sim." Disse o outro: "Estende-me a tua mão." Então o meu irmão estendeu a sua mão pensando que ele lhe daria algo; mas ele tomou-a e, puxando-o para dentro de casa, levou-o de escada em escada até chegarem ao terraço no topo da casa, o meu irmão pensando durante todo o tempo que ele certamente lhe daria algo de comida ou dinheiro. Então ele perguntou ao meu irmão: "Que queres tu, ó homem cego?" e ele respondeu: "Algo por amor ao Todo-Poderoso." "Que Allah abra para ti alguma outra porta!" "Ó tu! porque não disseste isso quando eu estava abaixo das escadas?" "Ó pedinte, porque não me respondeste quando eu te chamei pela primeira vez?" "E o que pretendes fazer por mim agora?" "Não há nada na casa para te dar." "Então leva-me escada abaixo." "O caminho está diante de ti." Então o meu irmão levantou-se e fez o seu caminho escada abaixo, até chegar a vinte passos da porta, quando o seu pé escorregou e ele rebolou até ao fundo e partiu a cabeça. Então ele saiu, sem saber para onde se voltar, e pouco depois encontrou dois outros homens cegos, companheiros seus, que lhe disseram: "O que ganhaste hoje?" Ele contou-lhes o que lhe tinha acontecido e acrescentou: "Ó meus irmãos, desejo tomar algum do dinheiro que está nas minhas mãos e providenciar-me com ele." Ora, o dono da casa tinha-o seguido e estava a ouvir o que eles diziam; mas nem o meu irmão nem os seus camaradas sabiam disto. Então o meu irmão foi para o seu alojamento e sentou-se à espera dos seus companheiros, e o dono da casa entrou atrás dele sem ser percebido. Quando os outros homens cegos chegaram, o meu irmão disse-lhes: "Fechem a porta e procurem pela casa para ver se algum estranho nos seguiu." O homem, ouvindo isto, agarrou-se a uma corda que pendia do teto e ficou pendurado nela, enquanto eles percorriam a casa e procuravam mas não encontraram ninguém. Então voltaram, e, sentando-se ao lado do meu irmão, trouxeram o seu dinheiro que contaram e eis! eram doze mil dirhams. Cada um tomou o que queria e enterraram o resto num canto do quarto. Então puseram comida e sentaram-se para comer. Pouco depois o meu irmão, ouvindo um estranho par de mandíbulas a mastigar ao seu lado, disse aos seus amigos: "Há um estranho entre nós"; e, estendendo a mão, agarrou a do dono da casa. Então todos caíram sobre ele e espancaram-no; e quando se cansaram de o golpear, gritaram: "Ó muçulmanos! um ladrão entrou aqui, procurando levar o nosso dinheiro!" Uma multidão reuniu-se à volta deles, ao que o intruso agarrou-se a eles; e queixou-se com eles enquanto eles se queixavam; e, fechando os olhos como eles, para que ninguém pudesse duvidar da sua cegueira, gritou: "Ó muçulmanos, peço refúgio a Allah e ao Governador, pois tenho um assunto para lhe dar a conhecer!" Subitamente chegou a guarda e, lançando mãos a todo o grupo (estando o meu irmão entre eles), levou-os ao Governador que os pôs diante dele e perguntou: "Que novidades trazeis?" Disse o intruso: "Olha e descobre por ti mesmo, nem uma palavra será arrancada de nós a não ser pela tortura, por isso começa por me bater a mim e depois de mim bate neste homem, o nosso líder." E apontou para o meu irmão. Então atiraram o homem a todo o comprimento e deram-lhe quatrocentas varadas nas nádegas. A bofetada doeu-lhe, ao que ele abriu um olho e, enquanto eles redobravam os seus golpes, ele abriu o outro olho. Quando o Governador viu isto, disse-lhe: "O que temos aqui, ó maldito?"; ao que ele replicou: "Dá-me o selo do perdão! Nós quatro fingimos ser cegos, e enganamos as pessoas para que possamos entrar nas casas e olhar para os rostos descobertos das mulheres e arquitetar a sua corrupção. Desta forma, obtivemos grande ganho e o nosso fundo monta a doze mil dirhams. Disse eu à minha companhia: 'Dai-me a minha parte, três mil'; mas eles levantaram-se e bateram-me e levaram o meu dinheiro, e eu peço refúgio a Allah e a ti; é melhor que tu tenhas a minha parte do que eles. Por isso, se queres saber a verdade das minhas palavras, bate num e em cada um dos outros mais do que me bateste a mim, e ele certamente abrirá os olhos." O Governador deu ordens para que o interrogatório começasse pelo meu irmão, e ataram-no ao poste dos açoites, e o Governador disse: "Ó escória da terra, abusais vós dos dons graciosos de Allah e fazeis como se fôsseis cegos!" "Allah! Allah!" gritou o meu irmão, "por Allah, não há ninguém entre nós que consiga ver." Então bateram-lhe até ele desmaiar e o Governador gritou: "Deixai-o até que volte a si e depois batei-lhe de novo." Após isto ele fez com que cada um dos companheiros recebesse mais de trezentas varadas, enquanto o fingidor continuava a dizer-lhes: "Abri os vossos olhos ou sereis batidos de novo." Por fim o homem disse ao Governador: "Envia alguém comigo para te trazer o dinheiro; pois estes indivíduos não abrirão os olhos, para não incorrerem em desgraça perante o povo." Então o Governador enviou buscar o dinheiro e deu ao homem a sua pretendida parte, três mil dirhams; e, guardando o resto para si, baniu os três homens cegos da cidade. Mas eu, ó Comandante dos Fiéis, saí e, alcançando o meu irmão, interroguei-o sobre o seu caso; ao que ele me contou o que contei a ti; então trouxe-o secretamente para a cidade e designei-lhe (na mais estrita privacidade) uma mesada para comida e bebida! O Califa riu-se da minha história e disse: "Dá-lhe um presente e deixa-o ir"; mas eu disse: "Por Allah! não aceitarei nada até ter dado a conhecer ao Comandante dos Fiéis o que aconteceu com o resto dos meus irmãos; pois verdadeiramente sou um homem de poucas palavras e poupado no falar." Então o Califa deu ouvidos à

HISTÓRIA DO BARBEIRO SOBRE O SEU QUARTO IRMÃO.

Quanto ao meu quinto irmão, Al-Nashshár, o Tagarela, aquele que teve ambas as orelhas cortadas, ó Comandante dos Fiéis, era um pedinte que costumava pedir esmola aos outros durante a noite e viver das suas caridades durante o dia. Ora, quando o nosso pai, que era um homem de idade muito avançada, adoeceu e morreu, deixou-nos setecentos dirhams, dos quais cada filho recebeu os seus cem; mas, assim que o meu quinto irmão recebeu a sua parte, ficou perplexo e não sabia o que fazer com ela. Enquanto estava nesta incerteza, lembrou-se de a investir em objetos de vidro de todos os tipos e ganhar uns trocos honestos com a sua revenda. Comprou, pois, cem dirhams de verroterie e, colocando-os numa grande bandeja, sentou-se a vendê-los num banco ao pé de um muro contra o qual se encostou. Enquanto estava sentado com a bandeja à sua frente, pôs-se a cismar e disse para consigo: "Sabe, ó meu bom Eu, que o capital da minha fortuna, o principal investido nestes vidros, é de cem dirhams. Hei de vendê-los certamente por duzentos, com os quais comprarei imediatamente mais vidro e farei com isso quatrocentos; nem deixarei de vender e comprar desta maneira, até ter obtido quatro mil e em breve encontrar-me senhor de muito dinheiro. Com estas moedas comprarei mercadorias, joias e essências, e terei grande lucro sobre elas; até que, se Allah quiser, farei do meu capital cem mil dirhams. Depois, comprarei uma bela casa com escravos brancos, eunucos e cavalos; e comerei, beberei e divertir-me-ei; nem deixarei um cantor ou uma cantora na cidade, mas chamá-los-ei ao meu palácio e fazê-los-ei atuar perante mim." Tudo isto ele contava na sua mente, enquanto a bandeja de vidros, que valia cem dirhams, estava no banco à sua frente, e, depois de olhar para ela, continuou: "E quando, Inshallah! o meu capital tiver chegado aos cem mil dinares, enviarei casamenteiras para me pedirem em casamento as filhas de Reis e Wazires; e pedirei em esposa a filha mais velha do Primeiro-Ministro; pois chegou aos meus ouvidos que ela é perfeita em beleza, de uma formosura de primeira e rara em talentos. Darei um dote de mil dinares; e, se o seu pai consentir, muito bem: mas se não, tomá-la-ei pela força mesmo debaixo do seu nariz. Quando ela estiver em segurança na minha casa, comprarei dez pequenos eunucos e para mim uma túnica das túnicas dos Reis e Sultões; e arranjarei uma sela de ouro e um freio cravejado de gemas de valor. Depois, montarei com os Mamelucos à minha frente e a rodear-me, e darei a volta à cidade enquanto o povo me saúda e me abençoa; após o que me dirigirei ao Wazir (aquele que é pai da moça), com escravos brancos armados à frente e atrás de mim, e à minha direita e à minha esquerda. Quando ele me vir, o Wazir levantar-se-á e, sentando-me no seu próprio lugar, sentar-se-á muito abaixo de mim; pois serei o seu genro. Ora, levarei comigo dois eunucos carregando bolsas, cada uma contendo mil dinares; e destas entregar-lhe-ei os mil, o dote da sua filha, e far-lhe-ei um presente dos outros mil, para que ele tenha motivo para conhecer a minha generosidade e liberalidade, a grandeza do meu espírito e a pequenez do mundo aos meus olhos. E por cada dez palavras que ele me dirigir, responder-lhe-ei duas. Depois, voltarei para a minha casa, e se alguém vier ter comigo da parte da noiva, dar-lhe-ei uma quantia em dinheiro e pôr-lhe-ei um traje de honra; mas se ele me trouxer um presente, devolvê-lo-ei e recusar-me-ei a aceitá-lo, para que saibam que espírito orgulhoso é o meu, que nunca condescende em rebaixar-se. Assim estabelecerei a minha posição e estatuto. Quando isto estiver feito, marcarei a noite do seu casamento e adornarei a minha casa de forma vistosa! gloriosa! E quando chegar a altura de exibir a noiva, vestirei o meu traje mais fino e sentar-me-ei num colchão de brocado de ouro, apoiando o cotovelo numa almofada, e não me voltarei nem para a direita nem para a esquerda; mas olhando apenas em frente, devido à altivez da minha mente e à gravidade do meu entendimento. E ali, diante de mim, estará a minha esposa nas suas vestes e ornamentos, adorável como a lua cheia; e eu, na minha elevação e temida majestade, não olharei para ela até que os presentes me digam: "Ó nosso senhor e nosso mestre, a tua esposa, a tua serva, está diante de ti; concede-lhe um olhar, pois estar de pé fatiga-a." Então eles beijarão o chão perante mim muitas vezes; após o que levantarei os olhos e lançar-lhe-ei um único olhar, e voltarei a virar o rosto para a terra. Depois levá-la-ão para o quarto nupcial, e eu levantar-me-ei e trocarei as minhas roupas por um traje muito mais fino; e, quando trouxerem a noiva pela segunda vez, não me dignarei a lançar-lhe um olhar até que me tenham implorado muitas vezes; após o que olharei para ela pelo canto de um olho, e depois baixarei a cabeça. Continuarei a agir desta maneira até que a exibição e o desfile estejam concluídos."

Ela disse: Chegou ao meu conhecimento, ó Rei auspicioso, que o quinto irmão do Barbeiro prosseguiu: — Então, curvo a cabeça e continuo a agir desta forma até que o seu desfile e exibição estejam concluídos. Em seguida, ordeno a um dos meus eunucos que me traga um saco de quinhentos dinares, que dou como largueza às camareiras presentes, e ordeno-lhes, a todas, que me conduzam à câmara nupcial. Quando me deixam a sós com ela, não olho para ela nem lhe dirijo a palavra, mas deito-me ao seu lado com o rosto voltado para a parede, demonstrando o meu desprezo, para que todos e cada um possam notar mais uma vez quão altivo e soberbo eu sou. Pouco depois, a sua mãe vem ter comigo; e, beijando-me a cabeça e as mãos, diz-me: "Ó meu senhor, olha para a tua serva que anseia pelo teu favor; cura, pois, o seu espírito quebrantado!" Não lhe dou resposta; e, quando ela vê isto, levanta-se, beija-me os pés várias vezes e diz: "Ó meu senhor, em verdade, a minha filha é uma bela donzela, que nunca conheceu homem; e, se tu lhe mostrares tal frieza e aversão, o seu coração quebrantar-se-á; por isso, inclina-te para ela, fala-lhe e acalma a sua mente e o seu espírito." Então, ela levanta-se e vai buscar uma taça de vinho; e diz à filha: "Toma-a e entrega-a ao teu senhor." Mas, à medida que ela se aproxima de mim, deixo-a parada entre as minhas mãos e sento-me, apoiando o cotovelo numa almofada redonda bordada com fios de ouro, inclinando-me preguiçosamente para trás e, sem olhar para ela, na majestade do meu espírito, para que ela me considere, de facto, um Sultão e um homem poderoso. Então, ela diz-me: "Ó meu senhor, por Alá, não recuses aceitar a taça da mão da tua serva, pois, na verdade, sou a tua escrava." Mas eu não lhe falo, e ela insiste comigo, dizendo: "Não há outro remédio senão beberes;" e aproxima-a dos meus lábios. Então, cerro o punho contra a sua face e dou-lhe um pontapé assim. E ele esticou o dedo do pé e derrubou o tabuleiro de vidro, que caiu no chão e, ao cair do banco, tudo o que nele estava partiu-se em mil pedaços. "Ó mais vil das alcoviteiras, isto é fruto do orgulho do meu espírito!" gritou o meu irmão; e então, ó Comandante dos Fiéis, ele esbofeteou o seu rosto, rasgou as suas vestes e não parava de chorar e de se bater. As pessoas que acorriam às suas orações de sexta-feira viram-no; e algumas olhavam para ele e compadeciam-se, enquanto outras não lhe prestavam atenção, e, desta forma, o meu irmão perdeu tanto o capital como o lucro. Permaneceu a chorar durante muito tempo e, finalmente, aproximou-se uma senhora formosa, de cujo corpo exalava o perfume de almíscar, que ia para as orações de sexta-feira montada numa mula com uma sela de ouro e seguida por vários eunucos. Quando ela viu o vidro partido e o meu irmão a chorar, o seu coração bondoso comoveu-se de piedade por ele, e perguntou o que o afligia, ao que lhe responderam que ele tinha um tabuleiro cheio de vidro, com cuja venda esperava ganhar o seu sustento, mas que se partira, e (disseram eles), "aconteceu-lhe o que vês." Então, ela chamou um dos seus eunucos e disse-lhe: "Dá o que tens contigo a este pobre homem!" E ele deu ao meu irmão uma bolsa na qual ele encontrou quinhentos dinares; e, quando a bolsa tocou na sua mão, ele quase morreu de excesso de alegria e ofereceu bênçãos por ela. Depois, regressou à sua morada como um homem abastado; e, enquanto estava sentado a ponderar, alguém bateu à porta. Ele levantou-se, abriu e viu uma velha que nunca tinha visto. "Ó meu filho," disse ela, "sabe que a hora da oração está próxima e ainda não fiz a minha ablução Wuzu; por isso, tem a bondade de permitir-me usar o teu alojamento para esse fim." O meu irmão respondeu: "Ouvir é obedecer;" e, entrando, pediu-lhe que o seguisse. Ela entrou, ele trouxe-lhe um jarro para se lavar e sentou-se, quase a voar de alegria por causa dos dinares que tinha atado ao cinto como uma bolsa. Quando a velha terminou a sua ablução, aproximou-se do lugar onde ele estava sentado e rezou uma oração de duas inclinações; após o que abençoou o meu irmão com uma bênção piedosa, e ele, enquanto lhe agradecia, levou a mão aos dinares e deu-lhe dois, dizendo para consigo: "Estas são as minhas esmolas voluntárias." Quando ela viu o ouro, exclamou: "Louvado seja Alá! Por que olhas para alguém que te ama como se fosse um mendigo? Toma de volta o teu dinheiro: não tenho necessidade dele; ou, se não o queres, devolve-o àquela que o deu quando o teu vidro se partiu. Além disso, se desejas unir-te a ela, eu posso tratar do assunto, pois ela é a minha senhora." "Ó minha mãe," perguntou o meu irmão, "por que meio posso chegar a ela?"; e ela respondeu: "Ó meu filho! Ela tem uma inclinação por ti, mas é esposa de um homem rico; por isso, leva todo o teu dinheiro contigo e segue-me, para que eu te guie ao teu desejo: e, quando estiveres na sua companhia, não poupes na persuasão nem nas palavras gentis, mas utiliza-as todas a teu favor; assim, desfrutarás da sua beleza e riqueza ao conteúdo do teu coração." O meu irmão pegou em todo o seu ouro, levantou-se e seguiu a velha, mal acreditando na sua sorte. Ela não parava de caminhar, e o meu irmão seguindo-a, até chegarem a um portão alto onde ela bateu, e uma escrava Roumi saiu e abriu-lhes. Então, a velha conduziu o meu irmão para uma grande sala de estar forrada com tapetes maravilhosamente finos e decorada com cortinas, onde ele se sentou com o seu ouro à sua frente e o seu turbante sobre o joelho. Mal se tinha sentado, eis que entra uma jovem (jamais olho algum viu coisa mais bela), vestida com trajes sumptuosos; pelo que o meu irmão se pôs de pé, e ela sorriu-lhe, deu-lhe as boas-vindas e fez-lhe sinal para que se sentasse. Depois, ordenou que fechassem a porta e, quando esta se fechou, virou-se para o meu irmão e, tomando-lhe a mão, conduziu-o a uma câmara privada mobilada com vários tipos de brocados e tecidos de ouro. Ali ele sentou-se, e ela sentou-se ao seu lado e brincou com ele durante algum tempo; após o que se levantou e, dizendo: "Não te movas do teu lugar até que eu volte para ti;" desapareceu. Entretanto, enquanto ele estava assim, eis que entra um escravo negro, de corpo e porte avantajados, segurando uma espada desembainhada na mão, que lhe disse: "Ai de ti! Quem te trouxe aqui e o que pretendes aqui?" O meu irmão não pôde responder-lhe, ficando mudo de terror; então, o negro agarrou-o, despiu-o das suas roupas e bateu-lhe com o plano da lâmina da espada até que ele caiu ao chão, desmaiando de tanto apanhar. O negro de mau agouro pensou que tinha acabado com ele, e o meu irmão ouviu-o gritar: "Onde está a serva do sal?" Então, entrou uma criada segurando um grande tabuleiro de sal, e o escravo começou a esfregá-lo nas feridas do meu irmão; mas ele não se mexeu, temendo que o escravo pudesse descobrir que ele não estava morto e matá-lo de vez. Então, a rapariga do sal foi-se embora, e o escravo gritou: "Onde está a guardiã do subterrâneo?" Aqui, entrou a velha e arrastou o meu irmão pelos pés até um subterrâneo e atirou-o para cima de um monte de corpos mortos. Neste lugar, ele permaneceu dois dias inteiros, mas Alá fez do sal o meio de preservar a sua vida, estancando o sangue e detendo o seu fluxo. Pouco depois, sentindo-se capaz de se mover, Al-Nashshár levantou-se, abriu o alçapão com medo e tremor, e arrastou-se para o exterior; e Alá protegeu-o, de modo que ele continuou na escuridão e escondeu-se no vestíbulo até ao amanhecer, quando viu a maldita megera sair em busca de outra presa. Ele seguiu-a no seu encalço sem que ela o soubesse, e dirigiu-se ao seu próprio alojamento, onde tratou as suas feridas e medicou-se até ficar são. Entretanto, ele costumava observar a velha, seguindo-a em todas as ocasiões e momentos, e via-a abordar um homem atrás do outro e levá-los para a casa. Contudo, não proferiu uma palavra; mas, assim que ficou são e forte, pegou num pedaço de tecido e fez dele um saco que encheu com vidro partido e atou à sua cintura. Disfarçou-se também de persa para que ninguém o reconhecesse, e escondeu uma espada debaixo das suas roupas de corte estrangeiro. Então, saiu e, pouco depois, encontrando a velha, disse-lhe, falando árabe com sotaque persa: "Venerável senhora, sou um estrangeiro chegado apenas hoje aqui, onde não conheço ninguém. Terias um par de balanças onde eu pudesse pesar mil e cem dinares? Dar-te-ei um pouco deles pelo teu trabalho." "Tenho um filho, um cambista, que guarda todo o tipo de balanças," respondeu ela, "por isso vem comigo ter com ele antes que ele saia e ele pesará o teu ouro." O meu irmão respondeu: "Lidera o caminho!" Ela levou-o até à casa e a própria jovem saiu e abriu-a, ao que a velha sorriu-lhe e disse: "Trago-te carne gorda hoje." Então, a donzela pegou no meu irmão pela mão e levou-o para a mesma câmara de antes; onde ela se sentou com ele durante algum tempo, depois levantou-se e saiu, dizendo: "Não te movas do teu lugar até que eu volte para ti." Pouco depois, entrou o maldito escravo com a espada desembainhada e gritou para o meu irmão: "Levanta-te e vai para o inferno!" Então, ele levantou-se e, enquanto o escravo caminhava à sua frente, ele tirou a espada debaixo das suas roupas e golpeou-o com ela, fazendo a cabeça voar do corpo. Depois, arrastou o cadáver pelos pés até ao subterrâneo e gritou: "Onde está a serva do sal?" A rapariga aproximou-se carregando o tabuleiro de sal e, vendo o meu irmão com a espada na mão, voltou-se para fugir; mas ele seguiu-a e cortou-lhe a cabeça. Depois, gritou: "Onde está a guardiã do subterrâneo?"; e entrou a velha, a quem ele disse: "Reconheces-me, ó bruxa de mau agouro?" "Não, meu senhor," respondeu ela, e ele disse: "Eu sou o dono das quinhentas peças de ouro, cuja casa entraste para fazer a ablução e rezar, e a quem atraíste aqui e traíste." "Teme a Alá e poupa-me," gritou ela; mas ele não a considerou e golpeou-a com a espada até a ter cortado em quatro pedaços. Então, foi à procura da jovem; e, quando ela o viu, a sua razão fugiu e ela gritou piedosamente: "Amán! Misericórdia!" Então, ele poupou-a e perguntou: "O que te fez associar a este negro?"; e ela respondeu: "Eu era escrava de um certo mercador, e a velha costumava visitar-me até que ganhei afeição por ela. Um dia, disse-me: Temos um festival de casamento em nossa casa como nunca se viu e quero que desfrutes da visão. Ouvir é obedecer, respondi eu e, levantando-me, vesti-me com as minhas melhores roupas e ornamentos, e levei comigo uma bolsa contendo cem peças de ouro. Depois, ela trouxe-me aqui e, mal tinha entrado na casa, o negro agarrou-me, e permaneci neste estado durante três anos inteiros devido à perfídia da maldita megera." Então, o meu irmão perguntou-lhe: "Há algo dele na casa?"; ao que ela respondeu: "Grande riqueza, e se és capaz de a levar, faze-o e que Alá te dê bom uso dela!" O meu irmão foi com ela e ela abriu-lhe vários baús onde estavam sacos de dinheiro, com o que ele ficou estupefacto; depois, ela disse-lhe: "Vai agora e deixa-me aqui, e busca homens para remover o dinheiro." Ele saiu e contratou dez homens, mas, quando regressou, encontrou a porta escancarada, a donzela desaparecida e nada restava senão uma pequena quantia de moedas e os bens domésticos. Com isto, ele soube que a rapariga o tinha enganado; então, abriu os armazéns e apoderou-se do que neles estava, juntamente com o resto do dinheiro, não deixando nada na casa. Passou a noite a regozijar-se, mas, quando o dia amanheceu, encontrou à porta cerca de vinte soldados que lhe puseram as mãos em cima, dizendo: "O Governador quer-te!" O meu irmão implorou-lhes insistentemente que o deixassem regressar à sua casa; e, até, ofereceu-lhes uma grande soma de dinheiro; mas eles recusaram e, atando-o bem com cordas, levaram-no. No caminho, encontraram um amigo do meu irmão que se agarrou à sua túnica e implorou a sua proteção, suplicando-lhe que o apoiasse e ajudasse a libertá-lo das suas mãos. O homem parou e perguntou-lhes o que se passava, e eles responderam: "O Governador ordenou-nos que trouxéssemos este homem à sua presença e, veja, estamos a fazê-lo." O amigo do meu irmão instou-os a libertá-lo e ofereceu-lhes quinhentos dinares para o deixarem ir, dizendo: "Quando regressarem junto do Governador, digam-lhe que não conseguiram encontrá-lo." Mas eles não quiseram ouvir as suas palavras e levaram o meu irmão, arrastando-o de cara no chão, e colocaram-no perante o Governador, que lhe perguntou: "De onde tiraste estes bens e moedas?"; e ele respondeu: "Peço misericórdia!" Então, o Governador deu-lhe o lenço da misericórdia; e ele contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, do princípio ao fim, com a velha e a fuga da donzela; terminando com: "O que tomei, toma do que quiseres, desde que me deixes o suficiente para sustentar a vida." Mas o Governador tomou todos os bens e todo o dinheiro para si; e, temendo que o assunto chegasse aos ouvidos do Sultão, convocou o meu irmão e disse: "Sai desta cidade, senão enforcar-te-ei." "Ouvir e obedecer," disse o meu irmão, e partiu para outra cidade. No caminho, ladrões atacaram-no, despiram-no, bateram-lhe e cortaram-lhe as orelhas; mas eu recebi notícias dos seus infortúnios e fui atrás dele, levando-lhe roupas; e trouxe-o secretamente para a cidade, onde lhe atribuí uma mesada para comida e bebida. E, pouco depois, o Califa deu ouvidos a,

O meu sexto irmão, ó Comandante dos Fiéis, Shakashik, ou O-de-muitos-clamores, o desprovido de ambos os lábios, foi outrora rico e tornou-se pobre; de modo que, um dia, saiu para mendigar algo que mantivesse em si a vida. Ao estar na estrada, deparou-se subitamente com uma mansão grande e formosa, com um edifício isolado, largo e elevado à entrada, onde estavam sentados vários eunucos a mandar e a proibir. O meu irmão informou-se junto de um dos que ali estavam ociosos e ele respondeu: "O palácio pertence a um descendente da casa Barmaki"; pelo que ele aproximou-se dos porteiros e pediu-lhes uma esmola. "Entra", disseram eles, "pelo grande portão e obterás o que procuras do Wazir nosso mestre." Consequentemente, ele entrou e, passando pela entrada exterior, caminhou um pouco e chegou a uma mansão da maior beleza e elegância, pavimentada com mármore, guarnecida com cortinas e tendo no seu meio um jardim de flores como ele nunca tinha visto. O meu irmão ficou por momentos como que atordoado, sem saber para onde voltar os seus passos; depois, vendo que o extremo da câmara de estar estava ocupado, caminhou até lá e encontrou um homem de presença elegante e barba aprazível. Quando esta personagem viu o meu irmão, levantou-se para ele, deu-lhe as boas-vindas e perguntou-lhe sobre o seu caso; ao que ele respondeu que estava necessitado e precisava de caridade. Ao ouvir estas palavras, o fidalgo mostrou grande preocupação e, levando a mão à sua túnica fina, rasgou-a exclamando: "Como! Estou eu numa cidade e tu aqui a morrer de fome? Não tenho paciência para suportar tal desonra!" Depois, prometeu-lhe toda a sorte de bons manjares e disse: "Não há remédio senão ficares comigo e comeres do meu sal." "Ó meu senhor", respondeu o meu irmão, "já não posso esperar; pois estou, na verdade, a morrer de fome." Então ele gritou: "Eh, rapaz! Traz a bacia e o jarro"; e, voltando-se para o meu irmão, disse: "Ó meu hóspede, chega-te à frente e lava as mãos." O meu irmão levantou-se para o fazer, mas não viu nem jarro nem bacia; contudo, o seu anfitrião continuava a lavar as mãos com sabão invisível em água imperceptível e gritou: "Traz a mesa!" Mas o meu irmão, novamente, não viu nada. Então disse o anfitrião: "Dá-me a honra de comer desta carne e não te envergonhes." E continuava a mover a mão de um lado para o outro como se comesse e a dizer ao meu irmão: "Admiro-me de te ver a comer tão parcamente: não te contenhas, pois tenho a certeza de que estás esfomeado." Assim, o meu irmão começou a fingir que comia enquanto o seu anfitrião continuava a dizer-lhe: "Come, e nota especialmente a excelência deste pão e a sua brancura!" Mas o meu irmão continuava a não ver nada. Então disse para consigo: "Este homem gosta de troçar das pessoas"; e respondeu: "Ó meu senhor, em todos os meus dias nunca conheci nada mais encantador do que a sua brancura ou mais doce do que o seu sabor." O Barmecida disse: "Este pão foi cozido por uma serva minha que comprei por quinhentos dinares." Depois gritou: "Eh, rapaz, traz o pudim de carne para o nosso primeiro prato, e que haja bastante gordura nele"; e, voltando-se para o meu irmão, disse: "Ó meu hóspede, por Allah, já viste alguma vez algo melhor do que este pudim de carne? Agora, pela minha vida, come e não te envergonhes." Pouco depois, gritou novamente: "Eh, rapaz, serve o guisado marinado com a ganga gorda nele"; e disse ao meu irmão: "Levanta-te e come, ó meu hóspede, pois estás verdadeiramente faminto e precisas de alimento." Assim, o meu irmão começou a mover os maxilares e fingiu que mastigava e trincava, enquanto o anfitrião continuava a pedir um prato após outro e, no entanto, não produzia nada além de ordens para comer. Pouco depois, gritou: "Eh, rapaz, traz-nos os frangos recheados com pistácios"; e disse ao meu irmão: "Pela tua vida, ó meu hóspede, eu engordei estes frangos com pistácios; come, pois nunca comeste nada igual." "Ó meu senhor", respondeu o meu irmão, "são, de facto, de primeira qualidade." Então o anfitrião começou a gesticular com a mão como se estivesse a dar ao meu irmão um bocado; e não cessou de enumerar e de se alongar sobre os vários pratos para o homem faminto, cuja fome se tornou ainda mais violenta, de modo que a sua alma ansiava por um pedaço de pão, nem que fosse um bolo de cevada. Disse o Barmecida: "Alguma vez provaste algo mais delicioso do que o tempero destes pratos?"; e disse o meu irmão: "Nunca, ó meu senhor!" "Come de bom grado e não te envergonhes", disse o anfitrião, e o hóspede: "Comi até ficar farto de carne." Então o anfitrião gritou: "Retira e traz os doces"; e, voltando-se para o meu irmão, disse: "Come desta conserva de amêndoas, pois é de primeira, e destes fritos de mel; toma este, pela minha vida, o xarope escorre dele." "Que eu nunca seja privado de ti, ó meu senhor", respondeu o esfomeado, e começou a perguntar-lhe sobre a abundância de almíscar nos fritos. "Tal é o meu costume", respondeu ele: "colocam-me um dinar de peso de almíscar em cada frito de mel e metade dessa quantidade de âmbar cinzento." Durante todo este tempo, o meu irmão continuou a mover a cabeça e os maxilares até que o mestre gritou: "Chega disto. Traz-nos a sobremesa!" Depois disse-lhe: "Come destas amêndoas, nozes e passas; e disto e daquilo (nomeando diversos tipos de frutos secos), e não te envergonhes." Mas o meu irmão respondeu: "Ó meu senhor, na verdade estou cheio: não posso comer mais." "Ó meu hóspede", repetiu o anfitrião, "se te apetecem estas coisas boas, come: Allah! Allah! não fiques com fome"; mas o meu irmão replicou: "Ó meu senhor, quem já comeu de todos estes pratos, como pode estar com fome?" Então refletiu e disse para consigo: "Farei algo que o fará arrepender-se destas partidas." Pouco depois, o anfitrião gritou: "Traz-me o vinho"; e, movendo as mãos no ar, como se o tivessem posto diante deles, deu ao meu irmão uma taça e disse: "Toma esta taça e, se te agradar, diz-me." "Ó meu senhor", respondeu ele, "é notavelmente boa quanto ao aroma, mas estou habituado a beber vinho de uns vinte anos." "Bate então nesta porta", disse o anfitrião, "pois não podes beber nada melhor." "Pela tua bondade", disse o meu irmão, gesticulando com a mão como se estivesse a beber. "Saúde e alegria para ti", exclamou o dono da casa e fingiu encher uma taça e bebê-la de um trago; depois passou outra ao meu irmão, que a bebeu e fingiu que estava ébrio. Pouco depois, apanhou o anfitrião desprevenido; e, levantando o braço até que o branco da axila apareceu, desferiu-lhe tal bofetada na nuca que o palácio ecoou com o som. Depois, desferiu-lhe uma segunda bofetada e o anfitrião gritou em voz alta: "O que é isto, ó escória da terra?" "Ó meu senhor", respondeu o meu irmão, "mostraste muita bondade ao teu escravo, admitiste-o na tua morada e deste-lhe a comer dos teus víveres; depois fizeste-o beber do teu vinho antigo até ele ficar ébrio e turbulento; mas és demasiado nobre para não tolerar a sua ignorância e perdoar a sua ofensa." Quando o Barmaki ouviu as palavras do meu irmão, riu o mais que pôde e disse: "Há muito que costumo troçar dos homens e fazer o louco entre os meus íntimos, mas nunca encontrei um só que tivesse a paciência e a argúcia para participar em todos os meus humores, exceto tu: por isso perdoo-te, e serás o meu companheiro de copo em verdade e nunca me deixarás." Então ordenou aos servos que servissem a mesa a sério e eles puseram todos os pratos de que ele tinha falado por brincadeira; e ele e o meu irmão comeram até ficarem satisfeitos; depois do que mudaram-se para a câmara de beber, onde encontraram donzelas como luas que cantavam todo o tipo de canções e tocavam todo o tipo de instrumentos. Lá permaneceram a beber até que o vinho tomou conta deles e o anfitrião tratou o meu irmão como um amigo próximo, de modo que ele se tornou como que seu irmão, e presenteou-o com um manto de honra e amou-o com amor excessivo. Na manhã seguinte, os dois voltaram a banqueteia-se e a embriagar-se, e não cessaram de levar esta vida durante um período de vinte anos; ao fim do qual o Barmecida morreu e o Sultão tomou posse de toda a sua riqueza e espremeu o meu irmão das suas economias, até que ele ficou um indigente sem um cêntimo para tocar. Por isso, deixou a cidade e fugiu para onde o rosto o levasse; mas, quando estava a meio caminho entre duas cidades, os árabes selvagens caíram sobre ele, amarraram-no e levaram-no para o seu acampamento, onde o seu captor procedeu a torturá-lo, dizendo: "Compra a tua vida com o teu dinheiro, senão matar-te-ei!" O meu irmão começou a chorar e respondeu: "Por Allah, não tenho nada, nem ouro nem prata; mas sou teu prisioneiro; faz, pois, comigo o que quiseres." Então o Badawi puxou uma faca, de lâmina larga e tão afiada que, se fosse mergulhada na garganta de um camelo, cortá-la-ia de um lado ao outro da jugular, e cortou os lábios do meu irmão e tornou-se mais instigante na exigência de dinheiro. Ora, este Badawi tinha uma esposa formosa que, na ausência do marido, costumava fazer avanços ao meu irmão e oferecer-lhe os seus favores, mas ele evitava-a. Um dia, ela começou a tentá-lo como de costume e ele brincou com ela e fê-la sentar-se no seu colo, quando eis que entra o Badawi que, vendo isto, gritou: "Ai de ti, ó vilão maldito, quererias tu desonrar a minha esposa por mim?" Então tirou uma faca e cortou o membro do meu irmão, depois do que o amarrou no dorso de um camelo e, levando-o para uma montanha, deixou-o lá. Foi finalmente encontrado por alguns que o reconheceram, lhe deram comida e bebida e me informaram do seu estado; pelo que fui ter com ele e trouxe-o de volta a Bagdad, onde lhe fiz uma mesada suficiente para viver. Esta, pois, ó Comandante dos Fiéis, é a história dos meus seis irmãos, e receei ir-me embora sem a relatar toda a ti e deixar-te no erro de me julgares como eles. E agora sabes que tenho seis irmãos a meu cargo e, sendo mais íntegro do que eles, sustento toda a família. Quando o Califa ouviu a minha história e tudo o que lhe contei sobre os meus irmãos, riu-se e disse: "Dizes a verdade, ó Homem Silencioso! és de facto parco em palavras, nem há nada de atrevido em ti; mas agora sai desta cidade e estabelece-te noutra." E baniu-me por édito. Deixei Bagdad e viajei por terras estrangeiras até ouvir falar da sua morte e da ascensão de outro ao Califado. Então voltei a Bagdad, onde encontrei todos os meus irmãos mortos e deparei com este jovem, a quem prestei o serviço mais bondoso, pois sem mim ele teria certamente sido morto. Na verdade, ele calunia-me e acusa-me de uma falta que não está na minha natureza; e o que ele relata sobre insolência, intromissão e atrevimento é vão e falso; pois, na verdade, por causa dele deixei Bagdad e viajei por muitos países até chegar a esta cidade e encontrá-lo aqui na vossa companhia. E não foi isto, ó digna assembleia, da generosidade da minha natureza?

O FIM DA HISTÓRIA DO ALFAIATE.

Então disse o Alfaiate ao Rei da China: — Quando ouvimos a história do Barbeiro e vimos o excesso da sua loquacidade e a forma como ele tinha prejudicado este jovem, agarrámo-lo e encerrámo-lo, depois do que nos sentámos em paz, comemos, bebemos e desfrutámos das coisas boas do banquete de casamento até à hora da chamada para a oração do meio da tarde, altura em que deixei o grupo e regressei a casa. A minha esposa recebeu-me com olhares azedos e disse: "Tu vais divertir-te entre os teus amigos e deixas-me a sentar aqui a sofrer sozinha. Por isso, a menos que me leves a passear e me deixes ter alguma diversão para o resto do dia, cortarei a corda e isso será a causa da minha separação de ti." Então levei-a a passear e divertimo-nos até à hora da ceia, quando regressámos a casa e nos deparámos com este Corcunda que estava cheio de bebida e entoava estas rimas: —

Claro é o vinho, a taça é fina; ✿ Como para como, assim se combina: É vinho e não taça! ✿ É taça e não vinho!

Por isso, convidei-o a cear connosco e saí para comprar peixe frito; depois do que nos sentámos para comer; e, pouco depois, a minha esposa pegou num pedaço de pão e num bocado de peixe e enfiou-os na boca dele, e ele engasgou-se; e, embora eu o tenha esbofeteado muito e com força entre as omoplatas, ele morreu. Então levei-o e consegui atirá-lo para a casa deste médico, o Judeu; e o médico conseguiu atirá-lo para a casa do Administrador; e o Administrador conseguiu atirá-lo para o caminho do corretor Nazareno. Esta, pois, é a minha aventura que me aconteceu ontem. Não é mais maravilhosa do que a história do Corcunda? Quando o Rei da China ouviu a história do Alfaiate, abanou a cabeça de prazer; e, mostrando grande surpresa, disse: "Isto que aconteceu entre o jovem e o intrometido do Barbeiro é, na verdade, mais agradável e maravilhoso do que a história do meu patife mentiroso de Corcunda." Então ordenou a um dos seus Camareiros que fosse com o Alfaiate e trouxesse o Barbeiro da cadeia, dizendo: "Desejo ouvir a fala deste Homem Silencioso e isso será a causa da vossa libertação, a todos vós: depois enterraremos o Corcunda, pois ele está morto desde ontem, e ergueremos um túmulo sobre ele."——E Shahrazad percebeu o romper do dia e cessou de dizer o que lhe era permitido.

Agora, quando era a Trigésima Quarta Noite,

Ela disse: Chegou a mim, ó Rei auspicioso, que o Rei da China ordenou: "Trazei-me o Barbeiro, que será a causa da vossa libertação; depois enterraremos este Corcunda, pois ele está morto desde ontem, e ergueremos um túmulo sobre ele." Assim, o Camareiro e o Alfaiate foram à cadeia e, libertando o Barbeiro, regressaram imediatamente com ele ao Rei. O Sultão da China olhou para ele e observou-o cuidadosamente e, eis que, era um homem antigo, com mais de noventa anos; de rosto escuro, barba branca e sobrancelhas encanecidas; de orelhas descaídas e nariz proeminente, com uma expressão de semblante vaga, tola e presunçosa. O Rei riu-se desta figura de diversão e disse-lhe: "Ó Homem Silencioso, desejo que me contes um pouco da tua história." Disse o Barbeiro: "Ó Rei da época, permite-me primeiro perguntar-te qual é a história deste Nazareno e deste Judeu e deste Muçulmano e deste Corcunda (o cadáver) que vejo entre vós? E, por favor, qual poderá ser o objetivo desta assembleia?" Disse o Rei da China: "E por que perguntas?" "Pergunto", respondeu ele, "para que a majestade do Rei saiba que não sou um sujeito atrevido ou intrometido ou um metediço impertinente; e que sou inocente das suas acusações caluniosas de excesso de conversa; pois sou aquele cujo nome é o Homem Silencioso, e, na verdade, particularmente feliz é o meu epíteto, como diz o poeta: —

Quando os homens um apelido ou nome pequeno designam, ✿ Sabe que a natureza com o nome muitas vezes se alinham."

Então disse o Rei: "Explica ao Barbeiro o caso deste Corcunda e o que lhe aconteceu à hora da ceia; repete-lhe também as histórias contadas pelo Nazareno, pelo Judeu, pelo Administrador e pelo Alfaiate; e de nada me serve uma história contada duas vezes." Eles cumpriram a sua ordem, e o Barbeiro abanou a cabeça e disse: "Por Allah, isto é um prodígio entre os prodígios! Agora descobri-me o cadáver daquele Corcunda." Desembrulharam a mortalha e ele sentou-se e, tomando a cabeça do Corcunda no seu colo, olhou para o rosto dele, e riu-se e gargalhou até cair de costas e dizer: "Há maravilha em cada morte, mas a morte deste Corcunda é digna de ser escrita e registada em letras de ouro líquido!" Os presentes ficaram espantados com as suas palavras e o Rei maravilhou-se e disse-lhe: "O que te aflige, ó Homem Silencioso? Explica-nos as tuas palavras!" "Ó Rei da época", disse o Barbeiro, "juro pela tua benevolência que ainda há vida neste Gobbo Alegre!" Imediatamente, tirou da sua cintura uma bolsa de barbeiro, de onde tirou um pote de unguento e ungiu com ele o pescoço do Corcunda e as suas artérias. Depois pegou num par de pinças de ferro e, inserindo-as na garganta do Corcunda, extraiu o bocado de peixe com a sua espinha; e, quando apareceu à vista, eis que estava encharcado em sangue. Imediatamente, o Corcunda espirrou um espirro vigoroso e saltou como se nada tivesse acontecido e, passando a mão pelo rosto, disse: "Testemunho que não há outro deus senão Deus, e testemunho que Maomé é o Apóstolo de Deus." A esta visão, todos os presentes maravilharam-se; o Rei da China riu-se até desfalecer e o mesmo fizeram os outros. Então disse o Sultão: "Por Allah, na verdade, esta é a coisa mais maravilhosa que já vi! Ó Muçulmanos, ó soldados todos, viram alguma vez nas vossas vidas um homem morrer e voltar a ganhar vida? Na verdade, se Allah não tivesse concedido a este Corcunda este Barbeiro, ele teria sido um homem morto!" Disseram eles: "Por Allah, é um prodígio entre os prodígios." Então o Rei da China ordenou que esta história fosse registada, por isso registaram-na e colocaram-na nos arquivos reais; depois do que presenteou com mantos de honra custosos o Judeu, o Nazareno e o Administrador, e ordenou-lhes que partissem com toda a estima. Depois deu ao Alfaiate um traje sumptuoso e nomeou-o seu próprio alfaiate, com salário e subsídios adequados; e fez as pazes entre ele e o Corcunda, a quem também presenteou com um fato esplêndido e caro com um estipêndio adequado. Agiu com a mesma generosidade para com o Barbeiro, dando-lhe uma dádiva e um traje de honra; além disso, fixou-lhe um soldo generoso e criou-o Barbeiro-cirurgião do Estado e fez dele um dos seus companheiros de copo. Assim, não cessaram de levar a vida mais prazerosa e a mais deleitável, até que chegou a eles o Destruidor de todos os prazeres e o Separador de todas as sociedades, o Despovoador dos palácios e o Ceifeiro para as sepulturas. Contudo, ó Rei mais auspicioso! (continuou Shahrazad) esta história não é de forma alguma mais maravilhosa do que a dos dois Wazires e Anís al-Jalís. Disse a sua irmã Dunyazad: "E que poderá ser isso?"; ao que ela começou a relatar a seguinte história de

Árabe. "Judri", lit. "pequenas pedras", devido à sensação de cascalho duro das pústulas (Rodwell, p. 20). Supõe-se geralmente que a doença seja originária da África Central, onde ainda é uma praga, e que tenha passado para a Arábia por volta da época do nascimento de Maomé. É assim que se explica habitualmente a "guerra do elefante" (Alcorão, cap. cv.), quando o exército abissínio de Abrahah, o cristão, foi destruído por andorinhas (Abábíl, que o Major Price considera o plural de Abilah = uma vesícula), as quais deixaram cair sobre eles "pedras de argila cozida", semelhantes a ervilhacas (Pilgrimage ii. 175). Ver para detalhes Sale (in loco), que parece aceitar a defesa milagrosa da Ka'abah. Sobre os horrores da varíola na África Central Intertropical, a inoculação, também conhecida pelos Badawin de Al-Hijáz, e outros detalhes, os leitores consultarão "The Lake Regions of Central Africa" (ii. 318). Os hindus "pegam o touro pelos chifres" e fazem corajosamente de "Sítlá" (varíola) uma deusa, uma encarnação de Bhawáni, deusa da destruição-reprodução. Na China, acredita-se que a varíola date de 1200 a.C.; mas a cronologia do Reino do Meio ainda aguarda o cético.

Nota 498:

Na Europa, acrescentaríamos "e todos fugiram, especialmente as mulheres". Mas o fatalismo inerente à mente oriental faz a grande diferença.

Nota 499:

Árabe. "Uzayr". Esdras foi uma espécie de Ripp van Winkle. Ele cavalgava sobre as ruínas de Jerusalém quando esta tinha sido destruída pelos caldeus e duvidou de que modo Alá a restauraria; ao que ele morreu e, ao fim de cem anos, reviveu. Encontrou o seu cesto de figos e o seu odre de vinho tal como estavam; mas do seu jumento restavam apenas os ossos. Estes foram trazidos à vida enquanto Esdras observava, e o jumento começou imediatamente a zurrar. O que foi uma lição para Esdras (Alcorão, cap. ii). O juramento pelos cascos do jumento é para ridicularizar o judeu. Maomé parece ter tido uma idée fixe de que "os judeus dizem, Esdras é o filho de Deus" (Alcorão ix.); pode ter surgido da crença judaica heterodoxa de que Esdras, quando a Lei se perdeu totalmente, ditou-a toda de novo aos escribas a partir da sua própria memória. O seu túmulo, com a enorme cúpula verde, ainda é visitado pelos judeus de Bagdade.

Nota 500:

Árabe. "Bádhanj", do persa Bád (vento)-gír (apanhador): um telhado de madeira em forma de cobertura no terraço, universal no Oriente próximo.

Nota 501:

O corcunda, tanto na Arábia como no Sul da Europa, é visto pelo vulgo com medo e aversão. A razão é que ele é geralmente mais perspicaz do que os seus vizinhos.

Nota 502:

Árabe. "Yá Sattár" = Tu que ocultas os segredos vergonhosos das Tuas criaturas.

Nota 503:

Árabe. "Nasráni", um seguidor daquele de Nazaré e um nome mais antigo do que "cristão", que (Atos xi., 26) foi dado pela primeira vez em Antioquia por volta de 43 d.C. O grito em Alexandria costumava ser "Ya Nasráni, Kalb awáni!" = Ó nazareno! Ó cão obsceno! (Pilgrimage, i., 160). "Cristão", em árabe, só pode ser expresso por "Masíhi" = seguidor do Messias.

Nota 504:

Árabe. "Tasbíh" = Saudação no Subh (manhã).

Nota 505:

No Oriente, as mulheres permanecem de pé em ocasiões menores, enquanto os homens agacham-se sobre os seus calcanhares de uma forma dificilmente possível para um europeu sem treino. O costume é antigo. Heródoto (ii., 35) diz: "As mulheres levantam-se quando urinam, mas os homens sentam-se". Acreditar-se-á que o Cónego Rawlinson foi demasiado modesto para deixar esta passagem na sua tradução? O costume foi perpetuado pelo Al-Islão porque a posição evita que a excreção toque nas roupas e as torne cerimonialmente impuras; possivelmente emprestaram-no dos Guebres. O Dabistan, Porta xvi., diz: "É impróprio, enquanto se está em postura ereta, urinar; é portanto necessário sentar-se de cócoras e forçá-lo a alguma distância, repetindo o Avesta mentalmente".

Nota 506:

Esta é ainda uma forma popular de "Kinchin lay" (roubo de crianças), e como os turbantes são muitas vezes de tecido fino, a petite industrie rende bem.

Nota 507:

Árabe. "Wali" = Governador; termo ainda em uso para o Governador-Geral de uma província, em oposição ao "Muháfiz", ou governador distrital. Na Arábia Oriental, o Wali é o Governador Civil, em oposição ao Amir ou Comandante Militar. Sob o Califado, o Wali atuava também como Prefeito de Polícia (o Faujdár indiano), que é agora chamado "Zábit". O nome mais antigo para este último era "Sáhib al-Shartah" (=chefe da guarda) ou "Mutawalli"; e era seu dever fazer as rondas pessoalmente. O antigo "Charley", com a sua lanterna e cacete, ainda guarda os bazares em Damasco.

Nota 508:

Árabe. "Al-Mashá'ilí" = o portador de um archote (Mash'al), que era também o carrasco. Na Índia Inglesa, o nome é dado a um criado de nível inferior. O "Mash'al", que Lane (M. E., cap. vi.) chama "Mesh'al" e ilustra, não deve ser confundido com o seu congénere, o "Sha'ílah" ou tocha (também lâmpada, pavio, etc.).

Nota 509:

Dificilmente preciso dizer que a "queda" civilizada é desconhecida no Oriente, onde os homens são içados como numa verga. Isto prolonga imensamente o sofrimento.

Nota 510:

Árabe. "Lukmah" = uma bocada. É ainda costume entre os orientais de modos primitivos pegar num punhado de arroz, etc., fazer uma bola e colocá-la na boca de um amigo, honoris causâ. Quando o amigo é europeu, a expressão da sua face é geralmente digna de estudo.

Nota 511:

Dificilmente preciso notar que esta é uma antiga prática bíblica. O jumento é usado para o trabalho na cidade, tal como o cavalo para lutar e viajar, o mulo para cargas e o dromedário para o deserto. Mas o Badawi, tal como o indiano, despreza a montada e canta:—

O dorso do corcel é um lugar nobre; Mas o do mulo é desonra, o do jumento é desgraça!

Os belos jumentos brancos, muitas vezes com treze palmos de altura, vendidos pelos Banu Salíb e outras tribos Badawi, chegam a custar 100 libras e mais. Montei um pequeno bruto de Meca a Jedda (42 milhas) numa noite e ele chegou comigo a galope.

Nota 512:

Uma medida de capacidade para secos de cerca de cinco alqueires (Cairo). A pronúncia clássica é Irdabb e media 24 sa'a (galões), cada um enchendo quatro mãos estendidas.

Nota 513:

"Al-Jawáli" deve ser Al-Jáwali (Al-Makrizi) e o Bab al-Nasr (Portão da Vitória) é o que leva a Suez. Vivi naquele bairro, como mostrado na minha Pilgrimage (i. 62).

Nota 514:

Árabe. "Al-'ajalah", referindo-se a um ditado na boca de todo o muçulmano: "A paciência vem do Protetor (Alá): a pressa vem do Inferno". Isso e "Inshallah bukra!" (Se Deus quiser, amanhã!) são as bêtes noires do viajante.

Nota 515:

Aqui é um equivalente polido para "ataca!"

Nota 516:

A mão esquerda é usada em todo o Oriente para fins de ablução e é considerada impura. Oferecer a mão esquerda seria o maior dos insultos e ninguém nunca acaricia a barba com ela ou come com ela: daí, provavelmente, nunca se ver um canhoto em todo o oriente muçulmano. No Brasil, pela mesma razão, as pessoas à moda antiga não tomam rapé com a mão direita. E relata-se dos Khataianos que preferem a mão esquerda, "Porque o coração, que é o Sultão da cidade do Corpo, tem a sua mansão daquele lado" (Rauzat al-Safá).

Nota 517:

Dois nomes femininos; como poderíamos dizer Maria e Marta.

Nota 518:

Era perto dos dois Palácios do Califa (Al-Kasrayn); e era famoso no século XV d.C. O Mahkamah (Tribunal) do Kazi ocupa agora o lugar dos Dois Palácios.

Nota 519:

Uma Kaysariah é um tipo superior de bazar, um "bezestein". O que está no texto ficava a leste da rua principal no Cairo e foi construído em 502 A.H. (=1108-9) por um emir circassiano, conhecido como Fakhr al-Din Jahárkas, uma corrupção do persa "Chehár-kas" = quatro pessoas (Lane, i. 422, a partir de Al-Makrizi e Ibn Khallikan). Para Jahárkas, a Edição Mac. traz Jirjís (Jorge), um nome cristão comum. Uma vez hospedei-me num "Wakálah (o moderno Khan) Jirjis". Pilgrimage, i. 255.

Nota 520:

Árabe. "Segundo Dia", i.e., depois de sábado, o verdadeiro Sabbath, tão maravilhosamente ignorado pela cristandade.

Nota 521:

Os leitores que desejarem saber como um viajante é alojado num Wakálah, Khan ou Caravançarai, consultarão a minha Pilgrimage, i. 60.

Nota 522:

A ocupação original da família deu-lhe um nome, como entre nós.

Nota 523:

O habitual "chaff" ou gracejo permitido mesmo a mulheres modestas quando fazem compras, e—muitas verdades são ditas a brincar.

Nota 524:

"La adamnák" = O Céu não nos prive de ti, i.e., conceda que eu te veja muitas vezes!

Nota 525:

Este é um estilo de abordagem um tanto arrogante; mas os orientais, em tais circunstâncias, vão direto ao ponto, detestando filer le parfait amour.

Nota 526:

A fórmula perentória de um escravo entregando tal mensagem.

Nota 527:

Esta seria a nossa noite de quinta-feira, que precede o dia das orações públicas que só podem ser realizadas quando em estado de pureza cerimonial. Daí que muitos muçulmanos vão ao Hammam na quinta-feira e não têm relações com as suas esposas até à noite de sexta-feira.

Nota 528:

Lane (i. 423) dá detalhes amplos sobre a Habbániyah, ou bairro dos vendedores de grãos na parte sul do Cairo; e mostra que, quando este conto foi escrito (ou transcrito?), a cidade era quase tão extensa como é agora.

Nota 529:

Nakíb é um líder de caravana, um chefe, um síndico; e "Abú Shámah" = Pai de uma verruga na face, enquanto "Abú Shámmah" = Pai de um farejador, um nariz, um focinho. A "Kuniyah", alcunha, patronímico ou matronímico, é necessária entre os muçulmanos cuja lista de nomes, todos ligados mais ou menos à religião, é tão escassa. Daí que Buckingham, o viajante, fosse conhecido como Abu Kidr, o Pai de um Pote de Cozinha, e Hajj Abdullah como Abu Shawárib, Pai de Bigodes (Pilgrimage, iii., 263).

Nota 530:

Mais corretamente Bab Zawilah, do nome de uma tribo no Norte da África. Este portão data da mesma época do portão Oriental ou do Deserto, Bab al-Nasr (1087 d.C.), e ainda é muito admirado. M. Jomard descreve-o (Description, etc., ii. 670) e, ultimamente, o meu bom amigo Yacoub Artin Pasha chamou-lhe a atenção no Bulletin de l'Inst. Egypt., Deuxième Série, No. 4, 1883.

Nota 531:

Este ornamento ainda é visto nos salões mais antigos de Damasco: as inscrições são geralmente sentenças religiosas, extratos do Alcorão, etc., em caracteres unciais. Ocupam o lugar dos nossos frescos e, como obra de arte, são geralmente muito superiores.

Nota 532:

Árabe. "Bayáz al-Sultání", o melhor tipo de gesso, que brilha como mármore polido. O estuque nas paredes de Alexandria, construída por Alexandre dos dois Chifres, era tão requintadamente temperado e belamente polido que os homens tinham de usar máscaras por medo da cegueira.

Nota 533:

Este Iklíl, um caso complicado, está agora obsoleto, tendo o seu lugar sido tomado pelo "Kurs", uma placa de ouro, de cerca de cinco polegadas de diâmetro, cravejada com joias, etc. Lane (M. E. Apêndice A) ilustra-o.

Nota 534:

A mulher artista que aplica o corante é chamada "Munakkishah".

Nota 535:

"Beijar com o lábio interior", como Shakespeare lhe chama; o francês langue fourrée; e o sânscrito "Samputa". O assunto do beijo é extenso no Oriente. Dez variedades diferentes são devidamente enumeradas no "Ananga-Ranga"; ou, A Arte Hindu do Amor (Ars Amoris Indica), traduzido do sânscrito e anotado por A. F. F. e B. F. R. Está também ligado à unguição, ou impressão das unhas, das quais existem sete tipos; morsicação (sete tipos); manejo do cabelo e toques ou palmadas com os dedos e a palma da mão (oito tipos).

Nota 536:

Árabe. "asal-nahl", para distinguir do "mel", i.e., xarope de cana-de-açúcar e frutas.

Nota 537:

As linhas ocorreram na Noite xii. A título de variedade, dou a versão de Torrens, p. 273.

Nota 538:

A forma de transportar dinheiro no canto de um lenço de bolso ainda é comum.

Nota 539:

Ele enviou as provisões para não ficar em dívida com ela neste assunto. E ela recebeu-as para julgar, por esse meio, a sua liberalidade.

Nota 540:

Aqueles que viram o processo de vinificação no Libano compreenderão facilmente porque é que ele é sempre coado.

Nota 541:

Árabe. "Kulkasá", uma espécie de arum ou inhame, comido cozido como as nossas batatas.

Nota 542:

No início, ele deslizava o dinheiro para dentro da roupa de cama: agora, dá-o abertamente e ela aceita-o por uma razão.

Nota 543:

Árabe. Al-Zalamah: lit. = tiranos, opressores; aplicado à polícia e geralmente aos empregados do Governo. É uma palavra que conta uma história.

Nota 544:

A lei muçulmana nunca fica completamente satisfeita até que o criminoso confesse. Também ignora totalmente as provas circunstanciais e pela melhor das razões: entre um povo tão perspicaz, a admissão levaria a abusos sem fim. Surpreendi imenso um certo Governador-Geral da Índia ao dar-lhe esta informação simples.

Nota 545:

Cortar a mão direita é o castigo corânico (cap. v.) para aquele que rouba um artigo que valha quatro dinares, cerca de quarenta francos a xelins. O pé esquerdo deve ser cortado pelo tornozelo por uma segunda ofensa, e assim por diante; mas a morte é reservada para um criminoso endurecido. A prática está agora obsoleta e o roubo é punido com a bastonada, multa ou prisão. Os antigos Guebres eram tão severos. Por roubar o valor de um dirham, cobravam uma multa de dois, cortavam os lóbulos das orelhas, davam dez bastonadas e despediam o criminoso que tinha sido submetido a uma hora de prisão. Um segundo roubo fazia com que as penas fossem duplicadas; e depois disso, a mão direita era cortada ou a morte era infligida, de acordo com a proporção roubada.

Nota 546:

Alcorão viii. 17.

Nota 547:

Um costume universal no Oriente, sendo o objetivo original mostrar que a bebida não estava envenenada.

Nota 548:

De massa ou pudim.

Nota 549:

Acredita-se que as furúnculos e espinhas sejam causados por raízes de cabelo partidas e, em hindustani, são chamados Bál-tor.

Nota 550:

Ele pretendia enterrá-lo decentemente, um respeito que os muçulmanos sempre mostram mesmo às exúvias do corpo, como cabelos e aparas de unhas. Entre os Guebres, estas últimas eram recolhidas e levadas para alguma montanha. A prática era intensificada pelo medo de demónios ou feiticeiros ganharem posse dos despojos.

Nota 551:

Sem o qual o casamento não era válido. O mínimo é de dez dirhams (dracmas), agora avaliados em cerca de cinco francos a xelins; e se um homem casar sem nomear a soma, a mulher, após a consumação, pode obrigá-lo a pagar este mínimo.

Nota 552:

Árabe. "Khatmah" = leitura ou recitação de todo o Alcorão, por uma ou mais pessoas, geralmente em casa, não sobre o túmulo. Tal como o "Zikr", Litania ou Rogações, é um ato piedoso confinado a certas ocasiões.

Nota 553:

Árabe. "Zírbájah" = carne preparada com vinagre, semente de cominho (persa Zír) e especiarias picantes. Mais sobre isto na continuação do conto.

Nota 554:

Um ditado não incomum que significa: que cada homem faça como lhe parecer bem; também = "age quod agis": e por vezes correspondendo ao nosso ditado sobre a carapuça servir.

Nota 555:

Árabe. "Su'úd", uma Alpinia com rizoma picante como o gengibre; aqui usada como contra-odor.

Nota 556:

Árabe. "Tá'ih" = perdido no "Tíh", um deserto onde o homem se pode perder, traduzido nos nossos mapas por "O Deserto das Peregrinações", scil. dos filhos de Israel. "Credat Judæus."

Nota 557:

i.e., 125 e 500 libras.

Nota 558:

Uma grande soma era pesada por um profissional em vez de contada, a razão sendo que a moeda é na maioria antiga e gasta: daí as nossas palavras "pound" e "pension" (ou o que é pesado).

Nota 559:

O eunuco é o melhor intermediário possível devido ao seu poder quase ilimitado sobre o Harém.

Nota 560:

i.e., uma escrava criada em casa e nunca vendida, exceto por alguma razão especial, como embriaguez habitual, etc.

Nota 561:

Introduzir homens no Harém é um "tópico" comum dos contos orientais. "Por meio das suas atendentes femininas, as damas do harém real geralmente conseguem levar homens para os seus aposentos disfarçados de mulheres." Diz Vatsyayana no The Kama Sutra, Parte V., Londres: Impresso para a Hindoo Kamashastra Society, 1883. Apenas para circulação privada.

Nota 562:

Estas lágrimas são vertidas sobre a separação passada. Assim, os "Índios" do Novo Mundo nunca se encontram após uma longa separação sem chorar pelos amigos mútuos que perderam.

Nota 563:

Um Jack in office (funcionário insolente) muito importante, que se pode ver com o seu queixo liso e lábios carnudos, começando a partir da sua sesta preguiçosa na sombra e entregando as suas ordens de forma mais perentória do que qualquer Dogberry. Estes epicenos são tão curiosos e excecionais em caráter como em conformação externa. Desligados, à sua maneira, da humanidade, são corajosos, ferozes e capazes de qualquer vilania ou barbárie (como Agha Mohammed Khan na Pérsia, 1795-98). O corpo é anormalmente longo e magro, especialmente os braços e pernas; com ombros altos, planos e finos; articulações grandes e proeminentes e um rosto, em contraste, extraordinariamente grande, uma verdadeira máscara; o Castrato é perito no uso de armas e monta o seu cavalo admiravelmente, sentando-se bem "no fundo" da sela pela melhor das razões; e a sua voz rouca e espessa, que aparentemente não muda, como no "Cáppone" europeu, investe-o de toda a circunstância do comando.

Nota 564:

Do poço de Meca, usado pelos muçulmanos muito como a Água de Lourdes pelos cristãos: a água é salobra, daí o toque de humor árabe (Pilgrimage III., 201-202).

Nota 565:

Tais artigos seriam sagrados para os olhos muçulmanos.

Nota 566:

Fisiologicamente verdadeiro, mas não geralmente mencionado na descrição das emoções.

Nota 567:

Corretamente "Uta", os diferentes quartos, tendo cada "Odalisca", ou concubina, o seu próprio.

Nota 568:

Mostrando que a sua indisposição mensal tinha terminado.

Nota 569:

Árabe. "Muhammarah" = ou dourada perante o fogo ou artificialmente avermelhada.

Nota 570:

A insolência e a licença destas raparigas do palácio eram (e são) ilimitadas; especialmente quando, como no presente caso, têm de lidar com um "simplório". Sobre este assunto, inúmeras histórias correm por todo o Oriente.

Nota 571:

i.e., enegrecida pelos fogos de Gehenna.

Nota 572:

Árabe. "Bi'l-Salámah" = em segurança (para evitar o mau-olhado). Ao visitar os doentes, é costume dizer algo civil: "O Senhor te cure! Que nenhum mal te aconteça!", etc.

Nota 573:

Lavar-se durante a doença é considerado perigoso pelos árabes; e "ir ao Hammam" é, como disse, equivalente à convalescença.

Nota 574:

Árabe. "Máristán" (pronunciado Múristan), uma corrupção do persa "Bímáristán" = lugar de doença, um hospital muito estimado pelos antigos Guebres (Dabistan, i., 165, 166). O de Damasco foi o primeiro hospital muçulmano, fundado por Al-Walid, filho de Abd al-Malik, o Omíada, em 88 A.H. = 706-7. Benjamin de Tudela (1164 d.C.) chama-lhe "Dar-al-Maraphtan", que o seu mais recente Editor explica por "Dar-al-Mora-bittan" (morada daqueles que requerem ser acorrentados). Al-Makrizi (Khitat) atribui a invenção dos "hospitais" a Hipócrates; outro historiador a um antigo Faraó "Manákiyush"; ignorando assim os Reis persas, o Santo Efrém (ou Efraim) Sírio, etc. Em linguagem moderna, "Maristan" é um manicómio onde os maníacos eram tratados com todos os horrores que foram universais na Europa até há poucos anos e dos quais vestígios ocasionais ocorrem até hoje. Em 1399 d.C., Katherine de la Court mantinha um "hospital na Corte chamado Robert de Paris"; mas o primeiro manicómio na Cristandade foi construído pelo legado Ortiz em Toledo, em 1483 d.C., e foi por isso chamado Casa del Nuncio. O "Maristan" de Damasco foi descrito por todos os viajantes do século passado: e mostrava um curioso contraste entre o tratamento do maníaco e o do idiota ou omadhaun, a quem é humanamente permitido vaguear sem ser incomodado, se não tido como Santo. Quando o vi pela última vez (1870), estava quase vazio e maioritariamente em ruínas. Até onde vai a minha experiência, os Estados Unidos são o único país onde os insanos são racionalmente tratados pelos sãos.

Nota 575:

Daí o ditado banal: "Quem bebe a água do Nilo, desejará sempre beber de novo". "Leve" significa água de fácil digestão; e o grande teste é ser capaz de a beber à noite, entre os sonos, sem indigestão.

Nota 576:

"Níl", em linguagem popular, é o Nilo em cheia, embora também usado para o Rio como nome próprio. Os egípcios (modernos, bem como antigos) têm três estações: Al-Shitá (inverno), Al-Sayf (verão) e Al-Níl (o Nilo, i.e., estação da cheia, o nosso meio do verão); correspondendo aos meses de Crescimento; meses de Armazenamento (ou celeiro) e meses de Cheia da raça mais antiga.

Nota 577:

Estas linhas estão na Edição Mac.

Nota 578:

Árabe. "Birkat al-Habash", um tanque que existia anteriormente no Sul do Cairo: Galland (Noite 128) diz "en remontant vers l'Éthiopie".

Nota 579:

A Edição Bres. (ii., 190), da qual tomo emprestada esta descrição, alude aqui à bem conhecida Ilha, Al-Rauzah (Rodah) = O Jardim.

Nota 580:

[O texto termina aqui, conforme solicitado.]

Árabe. "Laylat al-Wafá", a noite da conclusão ou abundância do Nilo (cheia), geralmente entre 6 e 16 de agosto, quando o governo proclama que o Nilômetro mostra uma elevação de 16 côvados. É, naturalmente, um grande festival e uma cerimônia solene, pois o Egito continua a ser o presente do Nilo (Lane M. E. cap. xxvi — uma obra que seria muito melhorada com um índice mais completo).

Nota 581: isto é, a admiração será completa.

Nota 582: Árabe. "Sáhil Masr" (Misr): daqui suponho as _villes maritimes_ de Galland.

Nota 583: Um símile favorito, sugerido pelo brilho fragmentado e pelo cintilar do rio sob os raios horizontais e a brisa do entardecer.

Nota 584: Árabe. "Halab", derivado pelos muçulmanos de "Ele (Abraão) ordenhou (halaba) a vaca branca e parda". Mas o nome da cidade aparece nos cuneiformes como Halbun ou Khalbun, e os clássicos conheciam-na como Βέροια, Beroea, escrita com variantes.

Nota 585: Árabe. "Ká'ah", geralmente um salão; mas também aplicado a uma casa fina aqui e em outros lugares de As Noites.

Nota 586: Árabe. "Ghamz" = piscar, sinalizar com o olho, o que, entre os muçulmanos, não é considerado "vulgar".

Nota 587: Árabe. "Kamís", do latim baixo "Camicia", encontrado pela primeira vez em São Jerônimo: — "Solent militantes habere lineas, quas Camicias vocant." A nossa camisa, chemise, chemisette, etc., era desconhecida para os antigos da Europa.

Nota 588: Árabe. "Narjís". Os árabes não tomaram nada da mitologia grega, mas os persas tomaram muito. Daí o olho de Narciso, uma ideia dificilmente sugerida pelo aspecto da flor do narciso (ou asfódelo), ser por vezes o olhar de um espião e por vezes o olhar languido de uma amante. Alguns estudiosos explicam-no pela forma da flor, o cálice interno assemelhando-se à íris, e o talo, curvado logo abaixo das pétalas, sugerindo pálpebras caídas e olhos lânguidos. Daí um poeta dirigir-se ao Narciso:

Ó Narjis, desvia o olhar! Diante desses olhos ✿ Não posso beijá-la enquanto ela se deita ao peito. O quê! Deve o amante fechar os olhos no sono ✿ Enquanto os teus vigiam todas as coisas entre a terra e os céus?

O amante elegante no Oriente deve fingir um ciúme frenético se não o sente.

Nota 589: No Egito não há estrados nem quartos de dormir: os tapetes e colchões, travesseiros e almofadas (sendo os lençóis desconhecidos) são estendidos quando necessários, e durante o dia são guardados em baús ou armários, ou apenas enrolados num canto do quarto (Pilgrimage i., 53).

Nota 590: As mulheres de Damasco sempre foram famosas pelo ciúme sanguinário que os livros de histórias e romances europeus atribuem à "dama espanhola". Os homens eram tão célebres pela intolerância e fanatismo, de que lemos pela primeira vez nos dias de Bertrandon de la Brocquière e que culminou no massacre de 1860. No entanto, são uma raça notoriamente tímida e formam, física e moralmente, os piores soldados: provamos isso sob o comando do meu falecido amigo Fred. Walpole nos Bashi-Buzuks durante a antiga guerra da Crimeia. Os homens pareciam rapazes muito bons e, após um mês no acampamento, caíram na condição de velhas.

Nota 591: Árabe. "Rukhám", propriamente = alabastro e "Marmar" = mármore; mas os dois são frequentemente confundidos.

Nota 592: Ele estava cerimonialmente impuro após tocar num cadáver.

Nota 593: A frase é perfeitamente apropriada: o Cairo sem "o seu Nilo" não seria nada.

Nota 594: "O mercado estava quente", dizem os hindustanis. Isto começaria entre as 7 e as 8 da manhã.

Nota 595: Árabe. Al-Faranj, europeus em geral. É derivado de "Gens Francorum" e remonta aos dias das Cruzadas, quando os franceses desempenhavam o papel principal. Daí a Língua Franca, o jargão levantino, do qual Molière deixou um exemplo tão espirituoso.

Nota 596: Um processo familiar à cirurgia europeia da mesma época.

Nota 597: Em sinal de desapontamento, arrependimento, vexame; um gesto ainda comum entre os muçulmanos e correspondente em certa medida ao nosso bater o pé, torcer as mãos e assim por diante. Não é mencionado no Alcorão onde, contudo, encontramos "morder as pontas dos dedos de raiva" contra um homem (cap. iii).

Nota 598: Este não é um escândalo imerecido. Os cairota, especialmente a metade feminina (por razões dadas noutros lugares), sempre foram considerados extremamente devassos. Até o modesto Lane conta uma história "chocante" de uma mulher desfrutando do seu amante debaixo do nariz do marido e confinando este último num manicómio (cap. xiii). Com a civilização, que se opõe ao bom e velho remédio, a espada, tornam-se piores: e o tribunal do Cadi está repleto de pretendentes a divórcio. Sob o domínio inglês, o mal atingiu o seu auge porque não é punido: nas avenidas do novo Bairro Isma'iliyah, habitado por europeus, mulheres, mesmo jovens, ameaçam expor as suas partes íntimas a menos que recebam "bakhshísh". O mesmo acontecia em Sind quando os maridos eram assegurados de que seriam enforcados por matar esposas adúlteras: logo após a sua conquista, as mulheres soltaram-se; e em 1843-50, se um jovem oficial enviasse alguém ao bazar por uma rapariga, meia dúzia acorria aos seus aposentos. De fato, mais de uma vez as prostitutas profissionais ameaçaram apresentar uma petição a Sir Charles Napier porque as "mulheres modestas", as "senhoras", estavam a tirar-lhes o pão da boca. O mesmo acontecia em Cabul, no Afeganistão, na antiga guerra de 1840; e aqui as mulheres tinham mais desculpa, sendo os maridos notáveis sodomitas, como diz a canção:

O valor da fenda o afegão conhece; O valor do orifício o homem de Cabul.

Nota 599: Para que ele não tivesse de lidar com três irmãs germanas. Além disso, entre os muçulmanos, a conduta de uma rapariga é pressagiada pela da sua mãe; e se uma irmã se desvia, espera-se que a outra siga o exemplo. Na prática, a regra aplica-se a todo o lado: "tal mãe, tal filha".

Nota 600: Em sinal de discordância; em oposição a acenar com a cabeça, o que significa concordância. Estes são dois itens, aparentemente instintivos e universais, da linguagem gestual humana, que tem sido tão altamente cultivada por várias tribos norte-americanas e pelos estabelecimentos de surdo-mudos da Europa.

Nota 601: Este "Futur" é o verdadeiro "pequeno-almoço" do Oriente, o "Chhoti házri" da Índia, um pedaço de pão, uma chávena de café ou chá e um cachimbo ao levantar. No texto, contudo, é um assunto cerimonioso.

Nota 602: Árabe. "Nahs", uma palavra com muitos significados; um aspeto sinistro das estrelas (como em hebraico e aramaico) ou, adjetivamente, sinistro, de mau agouro. Vulgarmente é usado como o oposto de agradável e corresponde, de certa forma, ao nosso "nasty".

Nota 603: A "jardinagem de janela", nova na Inglaterra, é uma prática antiga no Oriente.

Nota 604: O seu instinto de alcoviteira revelou-lhe imediatamente o caso.

Nota 605: O habitual "truque de alcoviteira" para obter mais dinheiro.

Nota 606: O autor quer dizer que o relato da velha era todo falso, para aumentar as dificuldades aparentes e *pour se faire valoir*.

Nota 607: Árabe. "Yá Khálati" = irmã da mãe; um tratamento familiar para os velhos, como tio ou "nuncle" (irmão do pai) para um homem. Os árabes também sustentam que, tal como uma rapariga se assemelha à mãe, um rapaz segue o tio (irmão da mãe): daí o tratamento "Ya tayyib al-Khál!" = Ó tu, sobrinho de um bom tio. Notei que, fisicamente, isto é muitas vezes um facto.

Nota 608: "Ay w' Alláhi", contraído popularmente para Aywa, uma palavra em todas as bocas muçulmanas e evitada pelos cristãos porque vai contra as ordens hebraicas e cristãs. Os turcos mais instruídos evitam agora essa eterna referência a Alá que aparece em As Noites e que ainda é o costume dos vulgares em todo o mundo do Islão.

Nota 609: O "Muzayyin" ou barbeiro no Oriente traz a sua bacia e algibeira debaixo do braço: não se contenta apenas em barbear, tem de raspar a testa, aparar as sobrancelhas, passar a lâmina levemente sobre o nariz e corrigir as linhas superior e inferior dos bigodes, abrindo a separação central e assim por diante. Não é nem um pouco menos falador e difamador do que o antigo *tonsor* romano ou o Figaro, seu confrade no sul da Europa. Toda a cena do Barbeiro é admirável, um excelente exemplo do humor árabe e não demasiado caricaturado. Todos nós já o encontrámos.

Nota 610: Abdullah ibn Abbas era primo e companheiro do Apóstolo; também um conhecido comentador do Alcorão e conservador das tradições de Maomé.

Nota 611: Notei a antiguidade deste antepassado do nosso sextante, um fragmento do qual foi encontrado no Palácio de Senaqueribe. Mais sobre o "Arstable" (como Chaucer o chama) é dado em meu "Camoens: his Life and his Lusiads", p. 381.

Nota 612: Árabe. "Simiyá", que rima com Kímiyá (alquimia propriamente dita). É um ramo subordinado do Ilm al-Ruháni, que eu traduziria por "Espiritualismo", e que se divide em dois grandes ramos, "Ilwí ou Rahmáni" (o alto ou relacionado com a Divindade) e "Siflí ou Shaytáni" (baixo, satânico). Ao último pertence Al-Sahr, a magia ou a arte negra propriamente dita, bruxaria, enquanto Al-Simiyá é a magia branca, eletrobiologia, uma espécie de magia natural e enganadora, na qual drogas e perfumes exercem uma ação importante. Um dos seus ramos principais é o Darb al-Mandal ou espelho mágico, sobre o qual falaremos mais adiante. Ver Boccaccio, Dia x, Novela 5.

Nota 613: Cap. iii. 128. Ver Sale (in loco) para a nobre aplicação deste texto pelo Imã Hasan, filho do califa Ali.

Nota 614: Estes provérbios lembram-nos imediatamente o nosso velho amigo Sancho Pança e são igualmente verdadeiros em relação à natureza na boca do árabe e do espanhol.

Nota 615: As nossas amas carregam sempre nos braços: os árabes colocam as crianças a cavalo sobre a anca e, quando mais velhas, no ombro.

Nota 616: As roupas orientais permitem esta exibição bíblica de tristeza e vexame, que com o nosso traje europeu pareceria absurda: temos de nos contentar em maltratar os nossos chapéus.

Nota 617: Alcorão xlviii., 8. Pode observar-se que, de acordo com os Ahádis (ditos do Profeta) e a Sunnat (ditos e feitos de Maomé), todo o cabelo deve ser deixado crescer ou a cabeça toda deve ser rapada. Daí a "Shúshah", ou topete supostamente deixado como uma pega para puxar o portador para o Paraíso; e os Zulf, ou madeixas laterais, algo semelhantes aos caracóis dos judeus polacos, são ambos vãos "Bida'at", ou inovações, e portanto tecnicamente denominados "Makrúh", uma prática não louvável, nem "Halál" (perfeitamente legal) nem "Harám" (proibida pela lei). Quando os rapazes são rapados pela primeira vez, geralmente no segundo ou terceiro ano, deixa-se um tufo na coroa e outro sobre a testa: mas esta não é a moda entre os adultos. Abu Hanifah, se bem informado, escreveu um tratado sobre a Shushah ou madeixa longa que cresce a partir da Násiyah (cimo da cabeça), que é também uma precaução para que a boca do muçulmano decapitado não seja profanada por uma mão impura; e assim assemelhar-se-ia à madeixa de cavalaria pela qual o bravo pele-vermelha (e até o "cowboy" de tempos melhores) facilitava a remoção do seu próprio escalpo. Possivelmente os turcos tinham aprendido a prática com os chineses e introduzido-a em Bagdade (Pilgrimage i., 240). Os Badawi entrançam as suas madeixas em Kurún (chifres) ou Jadáil (caracóis), que só são desfeitos para serem lavados com o leite da camela. Os xarifes selvagens usam Haffah, longas madeixas de elfo penduradas em ambos os lados da garganta, e rapadas cerca de um dedo de largura à volta da testa e atrás do pescoço (Pilgrimage iii., 35-36). Notei noutros lugares os *accroche-cœurs*, a "franja idiota", etc.

Nota 618: As carnes raramente são coloridas nos tempos modernos; mas os cozinheiros persas são grandes especialistas em tingir o arroz para o "Puláo" (que chamamos pela sua corrupção turca "pilaff"): por vezes aparece em cores de arco-íris, vermelho, amarelo e azul; e na Índia é coberto com folha de ouro e prata. A Europa mantém a prática de tingir os ovos da Páscoa, a sobrevivência do ovo terreno que era chocado na época da Páscoa; e são tingidos de vermelho em alusão ao Sangue da Redenção.

Nota 619: Como notei, isto é uma mistura.

Nota 620: Dizemos: Raro é o pai no filho vermos: Ele às vezes surge no terceiro grau.

Nota 621: Árabe. "Ballán" i.e. o criado de quarto: "Ballánah" é uma criada.

Nota 622: Árabe. "Darabukkah", um tambor feito de madeira ou barro (Lane, M. E., xviii.), e usado por todos no Egito.

Nota 623: Árabe. "Naihah", mais geralmente "Naddábah", Lat. *præfica* ou *carina*, uma carpideira contratada, a "Keener" irlandesa no *conclamatio* ou *coronach*, onde o *Hullabaloo*, *Hulululu* ou *Ululoo* mostrava a tristeza dos sobreviventes.

Nota 624: Estes versos, que são como as nossas melodias de rua, estão agora esquecidos e outros tomaram o seu lugar. Há alguns anos ouvia-se frequentemente "Dus ya lallí" (pisar, ó minha alegria) e "Názil il'al-Ganínah" (Desce ao jardim) e estes, por sua vez, tornaram-se obsoletos. Lane (M. E. cap. xviii.) dá o primeiro, e.g.:

Pisa, ó minha alegria! Pisa, ó minha alegria! O amor do meu amor traz grande desgosto,

Um refrão para estrofes como:

Raras donzelas alexandrinas! ✿ Delicadamente pelo chão passais: Os vossos lábios são doces, são doces como açúcar, ✿ E xailes de caxemira debruados usais!

Pode notar-se que "zumbir" não é uma prática favorita entre os muçulmanos; se alguém do grupo começar, outro dirá: "Vai para o Kahwah" (o café, a verdadeira sala de música) "e canta lá!" Notei noutros lugares a sua aversão ao *Al-sifr* ou assobio.

Nota 625: Árabe. *Khalí'a* = gasto, astuto, um fora-da-lei; usado como o espanhol "Perdido".

Nota 626: "Zabbál" é o lixeiro, lit. um removedor de esterco, especialmente para o uso do Hammam, que é aquecido com os excrementos dos animais. "Wakkád" (fogueiro) é o criado que mexe no fogo. Os versos são puro disparate para se adequarem ao humor do Barbeiro.

Nota 627: Árabe. "Yá bárid" = Ó tolo.

Nota 628: Esta forma de bênção é cantada do minarete cerca de meia hora antes do meio-dia, quando os fiéis ocupam os seus lugares na mesquita. Ao meio-dia há o habitual Azán ou chamada para a oração, e cada homem realiza uma oração de duas inclinações, em honra da mesquita e da sua reunião, por assim dizer. O Profeta é então abençoado e um segundo Salám é chamado do ambão elevado ou plataforma ("dikkah") pelos divinos que repetem a chamada do meio-dia. Depois um Imã recita a primeira Khutbah, ou sermão "de louvor"; e a congregação adora em silêncio. Isto é seguido pela segunda exortação "de Wa'az", dispensando as palavras de sabedoria. O Imã levanta-se agora diante do Mihráb (nicho de oração) e recita a Ikámah, que é o Azan comum com uma única diferença: após "Apressai-vos para a salvação" acrescenta "Chegou a hora da súplica"; donde o nome, "fazendo" (a oração) "ficar de pé" (i.e. começar). Aqui os fiéis recitam o Farz ou oração do meio-dia de sexta-feira, ordenada pelo Alcorão; e os mais devotos acrescentam uma multidão de supererogações. Aqueles que quiserem estudar o assunto podem consultar Lane (M. E. cap. iii. e o seu resumo em "Arabian Nights", I, p. 430, ou nota 69 para o Cap. v.)

Nota 629: i.e. As mulheres soltaram o cabelo; uma imodéstia sancionada apenas por uma grande calamidade.

Nota 630: Estas pequenas lojas são compostas por uma parte da frente e outra de trás (Pilgrimage i. 99).

Nota 631: Árabe. "Kawwád", um termo popular de abuso; daí o espanhol e português "Alcoviteiro". O italiano "Galeotto" vem de Galahalt, não de Galahad.

Nota 632: i.e. "alguém que procura ajuda em Alá". Ele era filho de Al-Záhir bi'lláh (aquele preeminente pelo decreto de Alá). Lane diz (i. 430), "bisneto de Harun al-Rashid", aludindo ao primeiro Mustansir, filho de Al-Mutawakkil (reinou A.H. 247-248 = 861-2). Mas este é o 56.º abássida e reinou A.H. 623-640 (= 1226-1242).

Nota 633: Árabe. "Yaum al-Id", o Kurban Bairam dos turcos, o festival da Peregrinação. A história é histórica. No "Akd", uma miscelânea compilada por Ibn Abd Rabbuh (vulg. Rabbi-hi) de Córdova, que faleceu em A.H. 328 = 940, lemos: — Um parasita encontrou dez criminosos e seguiu-os, imaginando que iam para um banquete; mas, vejam só, iam para a morte. E quando foram mortos e ele restou, foi levado perante o Califa (Al-Maamun) e Ibrahim, filho de Al-Mahdi, contou uma história para obter perdão para o homem, ao que o Califa o perdoou. Lane ii, 506.

Nota 634: Árabe. "Nata' al-Dam"; a primeira palavra foi notada no Conto do Touro e do Burro. O couro de sangue não era muito diferente do Sufrah e podia ser dobrado num saco por um cordão que passava através de anéis à volta das bordas. Os carrascos muçulmanos eram muito peritos e raramente falhavam em decepar a cabeça com um único golpe da lâmina fina e estreita, com fio de navalha, dura como diamante, que contrastava tanto com o grande cutelo grosseiro do carrasco europeu.

Nota 635: O rés-do-chão, que em todos os países quentes é considerado, e com razão, insalubre durante o sono, é geralmente arrendado para lojas. Isto também acontece em todo o sul da Europa e estende-se às Ilhas Canárias e ao Brasil.

Nota 636: Esta contemplação séria do cenário da rua é um dos prazeres dos Haréns.

Nota 637: Deveríamos dizer "sorriu para ele": o riso não tinha a intenção de ser um insulto.

Nota 638: Árabe. "Fals ahmar". Fals é uma escama de peixe, também a moeda mais pequena e o plural "Fulús" é o termo vulgar para dinheiro (=ital. *quattrini*) sem especificar a moeda. Não deve ser confundido com a "Fazzah", aliás "Nuss", aliás "Páráh" (turco); sendo esta última feita, não de "cobre vermelho", mas de uma liga vil contendo, como o "Asper" grego, alguma prata; e representando, quando ao par, a quadragésima parte de uma piastra, sendo esta última = 2d. ⅖.

Nota 639: Árabe. "Farajiyah", uma túnica de mangas compridas; a "Farageeyeh" de Lane, M. E., cap. i.

Nota 640: O alfaiate no Oriente, tal como no sul da Europa, é obrigado a cortar o pano na presença do seu dono para evitar o "roubo" de restos.

Nota 641: À espera de um presente.

Nota 642: Aludindo ao ditado, "Um beijo é a chave para o coração".

Nota 643: O "truque do painel" é fatalmente comum em todo o Oriente, onde um homem encontrado na casa de outro fica indefeso.

Nota 644: Este era o começo de uma brincadeira que muitas vezes termina numa bastonada.

Nota 645: As tintas de cabelo, no Oriente, são todas de matéria vegetal, hena, folhas de índigo, galhas, etc.: as nossas tintas minerais são, felizmente para eles, desconhecidas. Herklots fornecerá uma multidão de receitas. A mistura egípcia que citei em *Pilgrimage* (ii., 274) é sulfato de ferro e amoniaco de ferro uma parte e nozes de galha duas partes, infundidas em oito partes de água destilada. É inócua, mas muito fraca como tinta.

Nota 646: Árabe. Amrad, etimologicamente "sem barba e bonito", mas frequentemente usado num sentido mau, para designar um efeminado, um catamita.

Nota 647: Os hindus preferem "ter os pontos cardeais como única vestimenta". *Vêtu de climat*, diz Madame de Stael. Em Paris, as estátuas nuas são "drapeadas em azul cerúleo". Rabelais (iv., 29) veste o Rei Entrudo com cinzento e ouro de um corte cómico, nada à frente, nada atrás, com mangas do mesmo.

Nota 648: Esta cena costumava ser encenada há alguns anos em Paris para benefício de espectadores escondidos, sendo um jovem americano a vítima. Foi proibida quando um dos observadores perdeu um olho por uma facada de canivete na "fresta".

Nota 649: Significando que o truque tinha sido pregado pela esposa ou filha do Vizir. Eu poderia mencionar vários nomes no Cairo cujas donas encantadoras fizeram coisas piores do que esta brincadeira indecorosa.

Nota 650: Árabe. "Shayyun li'lláhi", uma fórmula de pedinte = *per amor di Dio*.

Nota 651: Notando como os cegos se tornam aguçados de ouvido.

Nota 652: Os cegos no Egito são notórios pela insolência e violência, fanatismo e rapacidade. Não poucos estrangeiros sofreram por causa deles (*Pilgrimage* i. 148). Em tempos passados, muitos eram cegados na infância pelas suas mães, e outros cegavam-se a si próprios para escapar ao recrutamento ou ao trabalho árduo e honesto. Podiam sempre obter comida, especialmente como Mu'ezzins; e eram preferidos porque não podiam tirar vantagem do minarete para espionar as casas dos vizinhos. A raça egípcia é cronicamente de olhos fracos, efeito do clima húmido e quente do vale, onde a oftalmia prevalecia mesmo durante os dias pré-faraónicos. O grande Sesóstris morreu cego de pedra e o seu sucessor perdeu a visão por dez anos (*Pilgrimage* ii., 176). Que os *Fellahs* são agora congenitamente de olhos fracos pode ser visto comparando-os com os negros importados da África Central. A oftalmia grassa, especialmente durante a estação húmida, no vale inferior do Nilo; e a melhor cura para ela é uma viagem de quinze dias ao Deserto onde, apesar do brilho, areia e vento, o olho recupera facilmente o tom.

Nota 653: i.e. Com pontapés e bofetadas, e golpes, como é o costume. (*Pilgrimage* i., 174.)

Nota 654: Árabe. Káid (donde "Alcaide"), uma palavra ainda muito usada no noroeste de África.

Nota 655: Árabe. "Sullam" = lit. uma escada; uma estrutura de paus, usada como os nossos triângulos ou pelourinhos.

Nota 656: Apenas para continuidade — este é o FIM da secção anterior, já traduzida. NÃO a traduza novamente e NÃO a repita na sua saída. Mantenha os seus nomes, terminologia e registo: --- correspondendo aos meses de Crescimento; meses de Armazenamento (ou celeiro) e meses de Cheia da raça mais antiga. Nota 577: Estas linhas estão na Edição Mac. Nota 578: Árabe. "Birkat al-Habash", um tanque que existia anteriormente no Sul do Cairo: Galland (Noite 128) diz "en remontant vers l'Éthiopie". Nota 579: A Edição Bres. (ii., 190), da qual tomo emprestada esta descrição, alude aqui à bem conhecida Ilha, Al-Rauzah (Rodah) = O Jardim. Nota 580: [O texto termina aqui, conforme solicitado.]

Isto é um dos prodígios da Al-Simiyá = magia branca; fascinar os olhos. Na Europa, tem tomado ultimamente o nome de "Eletrobiologia".

Nota 657:

Novamente por meio da "Simiyá" ou poder de fascinação possuído pelo velho patife.

Nota 658:

Uma fórmula para afastar "Al-Ayn", o mau-olhado. É sempre azarado encontrar um caolho, especialmente logo pela manhã e ao partir para qualquer incumbência. A ideia é que o fascinado sofrerá de alguma ação do olho físico. Os monoculares também são considerados trapaceiros: daí o ditado sânscrito "Poucos caolhos são homens honestos".

Nota 659:

Al-Nashshár de Nashr=serrar: tal como o violinista em italiano é chamado de "serra-aldeia" (Sega del villaggio). Ele é o Alnaschar do Galland e do Richardson anglicizados. O conto é muito antigo. Aparece como o Brâmane e o Pote de Arroz no Panchatantra; e o Professor Benfey acredita (como é habitual nele) que este, com muitos outros, deriva de uma fonte budista. Mas eu derivá-lo-ia distintamente da vendedora de mercado de Esopo que derrubou os seus ovos; donde o provérbio latino: Ante victoriam canere triumphum = vender a pele antes de ter caçado o urso. No "Kalilah e Dimnah" e na sua numerosa descendência, é o "Asceta com o seu Jarro de azeite e mel"; em Rabelais (i, 33) o sapateiro de Echephron entorna o seu leite, e assim La Perette em La Fontaine. Veja os "Chips" de M. Max Muller, vol. iii., apêndice. O leitor curioso comparará a minha versão com a que aparece no final da Gramática Árabe de Richardson (Edição de 1811): ele tinha um manuscrito melhor, ou melhor, mais completo (p. 199) do que qualquer um até agora impresso.

Nota 660:

Ár. "Atr"=qualquer perfume, especialmente óleo de rosas; donde a nossa palavra "Ottar", através da corrupção turca.

Nota 661:

Os textos dão "dirhams" (100.000=5.000 dinares) em vez de "dinares", um erro de escrita como a continuação demonstra.

Nota 662:

"Jovens escravos", diz Richardson, perdendo a "cor".

Nota 663:

Nada mais calculado para causar ofensa do que tal recusa. Richardson (p. 204), que, contudo, duvida da sua própria versão (p. 208), traduz aqui: "e não darei liberdade à minha alma (esposa) senão nos seus aposentos". O árabe, ou melhor, o cairota, é: "wa lá akhalli rúhi"=não me deixarei ir, isto é, ser o meu eu quotidiano, etc.

Nota 664:

"Enquanto ela está em espanto e terror." (Richardson).

Nota 665:

"Câmara das vestes", Richardson, cujo texto tem "Nám" por "Manám".

Nota 666:

"Até que eu complete o seu sofrimento", Richardson, cujo texto é corrupto.

Nota 667:

"Dormir ao seu lado", R., a palavra "Náma" tendo ambos os sentidos.

Nota 668:

"Tomará a minha mão", R., sendo "takabbal" também ambíguo.

Nota 669:

Ár. "Mu'arras", aquele que provoca "'Ars", casamentos, etc. Assim, o alemão "Kupplerinn", uma agenciadora. É um dos muitos sinónimos para um proxeneta, e uma palavra de uso geral (Pilgrimage i., 276). O termo mais insultuoso, como Dayyús, insinua que o homem é proxeneta da sua própria esposa.

Nota 670:

Das mãos e do rosto, etc. Veja a Noite cccclxiv.

Nota 671:

Ár. "Sadakah" (sinceridade), esmola voluntária ou supererrogatória, oposta a "Zakát" (purificação), esmola legal que é indispensável. "A oração leva-nos a meio caminho de Allah; o jejum traz-nos à porta do Seu palácio e as esmolas (Sadakah) fazem-nos entrar". Para a "Zakát" não é fixada nenhuma taxa especial; mas não deve ser inferior a um quadragésimo da propriedade ou dois e meio por cento. Assim, o Al-Islam é, tanto quanto sei, a única fé que torna obrigatória uma taxa para os pobres (Zakát) e que inventou um imposto sobre a propriedade, em oposição ao injusto e desleal imposto sobre o rendimento de que a Inglaterra se orgulha.

Nota 672:

Uma rapariga grega.

Nota 673:

Isto era estar muito à vontade; e a ideia é que o ouro na bolsa o tornou tão ousado. A explicação de Lane (in loco) está toda errada. O orgulho gerado pela posse súbita de dinheiro é um lugar-comum entre os contadores de histórias orientais; até nas fábulas de animais, o rato que roubou algumas moedas de ouro torna-se confiante e corajoso.

Nota 674:

Ár. "Al-Málihah" também significa a bela (fem.), de "Milh"=sal, esplendor, etc. A Edição Mac. tem "Mumallihah"=um recipiente de sal.

Nota 675:

isto é, para ver se ele sentia a dor.

Nota 676:

Ár. "Sardábeh" (Persa)=um quarto subterrâneo usado para frescura na estação quente. É desconhecido no Cairo, mas todas as casas em Bagdad, de facto por todas as cidades mesopotâmicas, têm um. É baseado no princípio da adega subterrânea sem a qual o vinho não se conserva: Lane (i., 406) chama-lhe uma "abóbada".

Nota 677:

No original "Ó velha!", o que é insultuoso.

Nota 678:

Assim, os italianos dizem "uma codorniz para depenar".

Nota 679:

"Amán" é a palavra usada para perdão no campo de batalha; e existem anedotas sobre os nossos soldados na Índia confundindo-a com "a man" ou (à escocesa) "a mon".

Nota 680:

Ilustrando o ditado persa "Allah, ele próprio, não pode ajudar um tolo".

Nota 681:

Qualquer artigo retirado da pessoa e dado a um criminoso é uma promessa de perdão, claro que sob a condição implícita de confissão plena e de se tornar "testemunha da Coroa".

Nota 682:

Uma proposta ingénua para dividir o saque.

Nota 683:

Na literatura popular "Schacabac". E deste conto vem o nosso ditado "um banquete de Barmecide", isto é, uma ilusão.

Nota 684:

O castrado à porta é ainda (tenho dito) a moda do Cairo e ele atua como um "Suisse" com testemunhas.

Nota 685:

Como é habitual no Oriente, a mansão era um quadrado oco em torno do que em Espanha é chamado de Pátio: a entrada exterior ficava longe da interior, mostrando a dimensão dos terrenos.

Nota 686:

"Nahnu málihín"=estamos em termos de sal, diziam e dizem os árabes. Mas o viajante não deve confiar nestes dias no laço outrora sagrado; há tribos que dão pão com uma mão e apunhalam com a outra. O uso oriental do sal é um contraste curioso com o dos ocidentais, que faziam dele uma distinção invejosa e inospitaleira, p. ex., sentar-se acima do saleiro e abaixo do sal. Entre os antigos, contudo, "ele tomou pão e sal" significa que ele jurou, sendo a comida consumida quando um juramento era prestado. Daí o "bolo de noiva" de sal, água e farinha.

Nota 687:

Ár. "Harísah", o pudim de carne anteriormente explicado.

Nota 688:

Ár. "Sikbáj", anteriormente explicado; é considerado um prato senhorial, inventado por Khusraw Parwiz. "Pato gordo" diz a Edição de Breslau ii. 308, com mais razão.

Nota 689:

Fui repreendido no Sul da Abissínia por comer sem este ruído de mastigação: "Tu alimentas-te como um mendigo que mastiga silenciosamente no seu canto"; e percebi logo que era sinal de boa educação comer o mais ruidosamente possível.

Nota 690:

A cevada na Arábia é, como a nossa aveia, alimento para cavalos: engorda-os ao mesmo tempo que os refresca. Se isto fosse conhecido pela nossa cavalaria quando ocupámos o Egito em 1883-4, as nossas perdas em cavalos teriam sido muito menores; mas a ignorância oficial persistiu em alimentar o gado com aveia aquecida e os cavaleiros com carne de vaca, que é indigesta, em vez de carne de carneiro, que é saudável.

Nota 691:

isto é, "Eu conjuro-te por Deus."

Nota 692:

isto é, "Isto é exatamente o que é para ti."

Nota 693:

isto é, ao acaso.

Nota 694:

Esta é a maneira de abater o camelo, cuja garganta nunca é cortada devido à espessura dos músculos. "Égorger un chameau" é um erro frequentemente cometido em livros franceses.

Nota 695:

isto é, eu ultrapassarei os limites.

Nota 696:

Os árabes têm um ditado correspondente ao ditame da escola de Salerno:—

Noscitur a labiis quantum sit virginis antrum: Noscitur a naso quanta sit hasta viro; (A boca de uma donzela mostra como é feita a sua coisa; E a mentula de um homem conhece-se pelo comprimento do seu nariz.)

Ao que eu acrescentaria:—

E as sobrancelhas revelam como cresce a peruca inferior.

As observações são puramente empíricas mas, até onde a minha experiência alcança, corretas.

Nota 697:

Ár. "Kahkahah", um procedimento muito vulgar.

Nota 698:

Ou "para cada morte há uma causa"; mas os árabes mais antigos tinham um ditado correspondente a "Deus não fez a morte".

Nota 699:

O barbeiro do Rei é habitualmente um homem de posição, pela melhor das razões: ele segura a vida do seu Soberano entre os dedos. Um destes nobres Fígaros na Índia casou-se com uma senhora inglesa que ficou, dizem, desagradavelmente surpreendida ao descobrir quais eram os deveres oficiais do seu marido.

FIM DO VOL. I.

E a paz seja convosco

ÍNDICE.

Abbas "herói epónimo" da dinastia Abássida, 188

Abdullah ibn Abbas, companheiro e tradicionalista, 304

Abú Kidr=pai do pote de cozinhar, ib.

Abú Shámah=pai de uma pinta na bochecha, 269

Abú Shámmah=pai de um cheirador ou nariz, ib.

Abú Shawárib=pai de bigodes, ib.

Abu Shiháb, pai da estrela cadente=espírito maligno, 221

Abú Yakzán=o despertador=burro, 16 =galo, 18

Ad=tribo de árabes pré-históricos, 65

Adab=qualquer coisa entre boa educação e bons modos, 132

Aghá=mestre, aplicado educadamente a um Eunuco, 235

Ahdab, corcunda=o clássico Ak'as, 213

A'in=Aquele que fere com o mau-olhado, 123

Ajal=período de vida designado, 74

'Ajami=estrangeiro, esp. persa, 120

Ajuz, para mulher velha, altamente insultuoso; use Shaybah, 174

Akásirah=Reis Kisra, 75

Akrás=bolos, 83

Al-Aftah=Largo-de-Testa, 17

Al-Ajam=região não árabe, Pérsia, 2

Al-Amin, filho e sucessor de Hárún al-Rashíd, 185

Al-Aríf=monitor, 231

Al-Asr=hora ou oração do meio da tarde, 240

Al-Bashárah=dádiva de boas novas, recompensa, 30

Al-Bostáni=jardineiro, nome de família derivado da ocupação original, 266

Al-Faranj=Europeu, 296

Al-Hasá=planície de seixos, a oeste de Damasco, 234

Al-Kahánah=o ofício de um Káhin ou adivinho, 28

Al-Maamún, filho e sucessor de Hárún al-Rashíd, 185

Al-Málihah=rapariga-sal; bela, 340

Al-Mustansir bi'llah=aquele que procura ajuda em Allah, 317

Al-Nashshár=serrar, 335

Al-Níl=estação das cheias correspondente ao meio do verão, 290

Al-Rauzah=os jardins, 291

Al-Safar Zafar=viajar é vencer, 250

Al-Sahr=magia, arte negra, 305

Al-Záhir bi'llah=aquele que é preeminente pelo decreto de Allah, 317

Al-Zalamah (tiranos, opressores)=polícia e empregados, 273

Allah! Allah!=Eu conjuro-te por Deus, Passim

Allah disse, fórmula de citação do Alcorão, 61

Allah Karím=Allah é todo benevolente, 32

Allah abrir-te-á, uma fórmula de recusa, ib.

Ailaho a'alam=Deus é todo conhecedor, 2; 50

Allahumma=Yá Allah com ênfase, 39

Amán=perdão, misericórdia, 342

Amír=Comandante Militar, 259

Amír al-Muuminín=Príncipe dos Fiéis, 112

Amrad=sem barba e bonito, efeminado, 327

Amsár=cidades, 11

Amshát (pentes) talvez=Kunáfah (vermicelli), 83

Andam=a goma chamada sangue de dragão; pau-brasil, 176

Arab al-Arabá=tribos pré-históricas dos árabes, 112

Arab al-Musta'ajimah=árabes barbarizados, ib.

Arab al-Musta'aribah=árabes naturalizados, ib.

Arab al-Muta'arribah=árabes arabizados, ib.

Arakiyah=solidéu branco, 215

Ardabb (Irdabb)=cerca de cinco alqueires, 263

Arún (Heb.)=na sua camisa, 78

Asal-nahl=mel de abelha, 271

Ashkánián=raça de Reis persas, 78

Astrolábio, pai do nosso sextante, 304

Atr=qualquer perfume, 335

Auhashtani=tu tornaste-me desolado, 62

Awálim pl. de Alimah=dançarinas, 214

Aysh (Egito)=Ayyu shayyin pelo clássico "Má"=que, 79

Aywa (por Ay w' Alláhi)=Sim, por Allah, 303

Azim="maldito" ou "poderosamente bom", 178

Báb=porta; capítulo, 136

Báb al-Farádís=porta dos jardins em Damasco, 240

Babel=Porta de Deus, 85

Bebés dos olhos=pupilas, 100

Adeus de morte de um Badawi, 75

Bádhanj=eixo de vento, ventilador, 257

Badmasti=o vinho mau, 88

Baghlah=mula, 129

Bahr=água cortada ou canalizada na terra, mar, grande rio, 44

Bahr al-muhít=oceano circum-ambiente, 133

Balid=simplório, 17

Ballán=servo pessoal, 311

Ballánah=criada de quarto, ib.

Banj=Nibanj=Nepenthe, cânhamo, 70

Baradiyah=jarro de boca larga, 36

Bárid=vão, tolo, insípido, 213

Cevada, alimento para cavalos, 345

Barmecidas, 188

Estátuas basálticas nas ruínas de Hauran dão origem à ideia de homens metamorfoseados em pedras negras, 170

Manjericão=o Tulsi indiano, Ocymum basilicum, 19

Manjericão das pontes=poejo, 91

Açoitamento de mulheres, 183

Bayáz al-Sultáni=o melhor tipo de gesso, 270

Bazar de Damasco famoso na Idade Média, 2

Decapitar ou despedir uma esposa infiel, ilegal mas visto com leniência, 181

Diante da face de Allah=pelo amor de Deus, 135

Bi'l-Salámah=em segurança (para evitar o mau-olhado), 288

Birkat al-Habash=tanque abissínio, 291

Bismillah=em nome de Deus, 40

—— dito antes de agir, 80

—— uma forma civilizada de despedida, 98

——="ataca!", 264

Mouros preferidos por mulheres devassas, 6

Cegos notórios pela insolência, etc., 330

Cegar, uma prática comum no Oriente, como feita, 108

Turbantes azuis e amarelos prescritos a cristãos e judeus, 77

Furúnculos e borbulhas supostamente causados por raízes de cabelo partidas, 275

Peito que se expande de prazer, 48

Peito apertado, o oposto de peito que se expande (48), 119

Trono da noiva, 215

Búzah=cerveja, 72

Cairotas considerados excessivamente devassos, 298

Cairo nada sem o Nilo, 295

Camelo, como é abatido, 347

Canteiros de flores, 294

Chacota ou gracejo permitido mesmo a mulheres modestas, 267

Mastigar, sinal de boa educação, 345

Anedota de xadrez, 132

Crianças carregadas a cavalo na anca ou no ombro, 308

Reivindicações de virgindade, 190

Bater palmas para chamar os criados, 177

Jovens senhoras inteligentes perigosas no Oriente, 15

Conceção na noite de núpcias rara, 227

Confissão após ocultação uma característica da classe servil, 53

Confissão da parte do criminoso exigida pela Lei Muçulmana, 274

Confusão de metáforas característica das Mil e Uma Noites, 86

Contemplação do cenário de rua um dos prazeres do Harém, 319

Cadáver polui quem lhe toca, 295

Cortar a mão direita, punição alcorânica para o roubo, 274

Cortar o cordão umbilical preliminar à nomeação do bebé, 231

Cortar a corda=ultrapassar os limites, 349

Dajlah=Tigre, Heb. Hid-dekel, 180

Dakhíl-ak=sob a tua proteção, 61

Mulheres de Damasco famosas pela ciúme sanguinário, 295

Darabukkah=tambor, 311

Darbar=audiência pública, 29

Dastúr=licença, permissão, 66

Filha do meu tio=minha esposa, 69

Daurak=jarro de boca estreita, 36

Apesar do seu nariz=contra a sua vontade, 26

O destino cega a visão humana, 67

Dinár=peça de ouro, Dárico, Miskál, 32

Dirham=peça de prata, 33

"Cão" e "porco" termos populares de abuso, 188

Beber primeiro para mostrar que a bebida não está envenenada, 88; 295

"Queda" desconhecida na forca oriental, 260

Dunyázád=mundo-livre, 14

Tempestade de areia em terras tropicais, 111

Passo de elefante (para o hindu)=passo balançante e gracioso, 217

Inferências eróticas tiradas de partes do corpo, 350

Verdade eterna das Mil e Uma Noites, 7

Eunuco melhor intermediário, 282

Eunuco empregado como porteiro, 343

Eunuco-chefe um importante oficial de cargo, 283

Eunucos, diferentes tipos de, 132

Fórmulas eufemísticas para evitar mencionar assuntos desagradáveis, 31

Exagero parte do humor, 12

Sobrancelhas unidas uma grande beleza na Arábia, 227

Olhos meus=meus queridos, 163

Véu de rosto="saco de nariz", 82

Fakír=mendigo religioso em geral, 95

Falcão=cegar a presa, 51

Fals ahmar=um cêntimo vermelho, 321

Faráiz=ordens expressamente dadas no Alcorão, 169

Farajíyah=um roupão de mangas compridas, 210, 321

Fass=engaste de um anel, gema cortada em cabochão, continente pelo conteúdo, 165

Fata=um jovem; homem generoso, etc., 67

Favores que pressagiam a queda, 48

Depravação feminina de mãos dadas com a perversidade de gosto, 73

Fiat injustitia ruat cœlum, 253

Pronome pessoal colocado primeiro por respeito, 237

Fitnah=revolta, sedução, malícia; rapariga bonita; perfume afrodisíaco, 219

Seguir o seu rosto=ao acaso, 347

Noite de sexta-feira=nossa quinta-feira à noite, 269

Serviço de sexta-feira descrito, 313

Travessuras de senhoras de linhagem nobre, 328

"Diversão"= partidas práticas das maiores, 20

Futur=pequeno-almoço, 300

Alusões à vesícula biliar e fígado, 219

Ghadir=um lugar onde a água se afunda, planície, 233

Ghamz=piscar, assinar com o olho, 292

Gharíb=estrangeiro, 95

Ghawází=raparigas cantoras, 214

Ghazl al-banát (fiar de raparigas)=vermicelli, 83

Ghilmán=Wuldán, os belos jovens do Paraíso, 211

Ghútah=planície densamente povoada, 115

Ghúlah=ogre, 55

Ir direto ao ponto preferido a filer le parfait amour, 268

O ouro torna ousado, 340

Piso térreo habitualmente alugado para lojas, 319

Habb=grão do coração, 250

Habbániyah=bairro dos vendedores de grão, 269

Habíb, eufemismo para amante, 223

Hayhát, onomatopeico=heigh-ho!, 76

O cabelo deve ser deixado crescer todo ou ser rapado, 308

Tintas de cabelo todas de matéria vegetal, 326

Halab=Alepo, 292

Hammam, ir ao=convalescença, 288

——, mostrar que a indisposição mensal de uma mulher acabou, 286

Harím=Harém, usado para as internas, esposa, etc., 165

Harísah, um prato favorito, 131

Hasanta ya Hasan=bene detto, Benedetto!, 251

Hashísh, intoxicante preparado de cânhamo, 225

Apressai-vos para a salvação, parte do Azán, 224

Hátif=voz misteriosa, 142

Hauk! Hauk!=heehaw!, 221

Cabeça no saco=para o laço, 179

Donzela de peito alto uma favorita dos contadores de histórias árabes, 84

Porco, termo popular de abuso, 188

Horóscopos, etc., 213

Brincadeiras que terminam frequentemente em açoitamento, 325

Casa da Paz=Bagdad, 139

Casas de Lamentação em cemitérios muçulmanos, 94

Zumbir não é uma prática favorita dos muçulmanos, 311

Hunchback olhado com medo e aversão, 258

Húr al-Ayn=com olhos de vivo branco e preto, 90

Hurr=cavalheiro, 254

Pressa vem do Inferno, 264

Iblis=Desesperador, 13

Ibn Harám=filho de adultério, abuso não refletindo necessariamente nos pais, 231

Ibrat=agulha-gravador e Ibrat=aviso, um tinido favorito, 104

Ibrík=jarro, e Tisht=bacia, usados para lavar as mãos, 241

Id al-Kabír=o Grande Festival, 28

Ifrít, dividido em duas raças como a humanidade, 11

Ifritah=Ifrit fêmea, 34

Ihdák=englobar, como o branco engloba o preto do olho, 49

Ihtizáz=tremer de prazer, 50

Iklíl=diadema, agora obsoleto, 270

Iklím=os sete climas de Ptolomeu, 233

Ilm al-Ruháni=Espiritualismo, 305

Improvisar ainda comum entre os Badawin, 39

Incesto legal entre povos antigos, 110

Herança, lei de, estabelecida pelo Alcorão, 174

Inshád=conjurar por Allah, 11

Insolência e licença das raparigas do palácio, 286

Intelecto do homem mais forte que o de um Jinni, 43

Internamente ferido=doente de coração, 5

Inwá=arremessar o caroço de tâmara, 25

Ishá=a primeira vigília da noite, 175

Izár=lençol usado como véu, 163

Ja'afar=contrastando fortemente com o seu mestre, 102

Jahárkas=Pers. Chehár-kas, quatro pessoas, 266

Jannat al-Na'ím=O Jardim das Delícias, isto é, o Céu, 98

Jazírah=Península, Arábia, 2

Jazírát al-Khálidát=Ilhas Eternas=Canárias, 141

Jilá=exibir a noiva perante o noivo, 174

Jinn=o génie francês, o Rakshasa ou Yaksha hindu, 10

José do Alcorão muito diferente do de Génesis, 13

Judri=varíola, 256

Junún=loucura, 10

Ká'ah=salão do piso térreo, 85

Ká'ah (salão)=casa fina, mansão, 292

Homens de Kábul notados pela sodomia, 299

Káf, popularmente=Cáucaso, 72, 133

Kahbah=prostituta, 70

Kahílat al-taraf=tendo as pálpebras delineadas com Kohl, 63

Kahkahah=risada a cavalo, 350

Kahramánát=governanta de crianças, 231

Káid=líder, 330

Kalam=pena de cana, 128

Kalám al-Mubáh=o dizer permitido, 29

Kalandar=monge mendicante, 94

Kámat Alfiyyah=estatura reta, 85

Kamís=camisa, etc., 293

Kat'a=pedaço de couro, 20

Katá=galinha-do-mato, 131

Katf=amarração, 106

Kathá-Sarit-Ságara=versão poética do Vrihat-Kathá, 12

Kaus al-Banduk=arco de pelotas, 10

Kausar=um lugar-comum de poetas, 241

Kawwád=proxeneta, 316

Káyánián raça de Reis persas, 75

Kaylúlah=sesta, 51

Kaysariyah=tipo superior de Bazar, 266

Kazi=juiz em assuntos religiosos, 21

Lenço de misericórdia, 343

Barbeiro do Rei um homem de posição, 351

"Beijo, chave da Kitty", 323

Beijar os olhos um gesto paternal, 125

Kohl=antimónio em pó para as pálpebras, 89

—— proverbial usado, 278

Alcorão citado (xx.), 2

—— (ii. 34), 13

—— (xxv. 31), ib.

—— (xix. 69), ib.

—— (xxvi.), 39

—— (xxvii.), 42

—— (v., xx.), 119

—— (vii., xviii.), 169

—— (i.), 208

—— (lvi. 9), 211

—— (lx.), 220

—— (v.), 240

—— (cviii.), 241

—— (xvii.), 249

—— (xxxvi. 69), 251

—— (cv.), 256

—— (ii., ix.), 257

—— (v.), 274

—— (viii. 17), ib.

—— (iii.), 298

—— (iii. 128), 307

Kufr=rejeitar a Verdadeira Religião, 169

Kulkasá=raízes de colocásia, 272

Kullah=gugglet, 36

Kumkum=uma garrafa em forma de cabaça para aspergir perfumes, 42

Kári=professor da pronúncia correta do Alcorão, 113

Kurrat al-Ayn=frescura do olho, 72

Kurs tomou o lugar de Iklíl, 270

Kursi (coro, trono)=secretária ou banco para o Alcorão, 167

Kush'arírah=horripilação, sintoma de grande alegria ou medo, 251

La'abat=um brinquedo, um boneco, uma figura inanimada, 245

Lá adamnák=O Céu não nos prive de ti, 268

Labbayka=Aqui estou, chamado Talbiyah, 226

Laylat al-Wafá=a noite da conclusão da cheia do Nilo, 291

Lá Haula, etc.=não há Majestade etc., 69

Lá tawáhishná=não nos tornes desolados, 62

Lá tawákhizná=não nos castigues=desculpa-nos, 164

Noite tardia=horas entre o último sono e o amanhecer, 24

Rir na cara de alguém não pretendido como uma ofensa, 320

Riso raro e sinal de um espírito perturbado, 248

Sopro de vida nas narinas=coração na boca, 42

Tal mãe, tal filha, 299

Fígado=assento da paixão, 27

Loghah=língua árabe, também um vocabulário, dicionário, 251

Soltar o cabelo uma imodéstia nas mulheres sancionada apenas por uma grande calamidade, 314

Lukmah=bocado, 261

Madfa'=canhão, mostrando data moderna, 223

Montanhas Magnéticas, fábula provavelmente baseada nas correntes, 140

Cota de malha e gibão símile para um riacho brilhante, 291

Ma'ín, Ma'ún=atingido pelo mau-olhado, 123

Majnún=louco, 10

Urinar, 259

Mahkamah=Tribunal do Kazi, 21

Malik ou Malak=Serafim ou Soberano, 253

Mamlúk=escravos brancos treinados para as armas, 81

Márid=Jinni contumaz, 41

Máristán (do persa Bímáristán=lugar de doença), 288

Marmar=mármore, 295

Casamento não válido sem

Mustapha=o Escolhido, ib. Mutawalli=Prefeito de Polícia, 259 Muzayyin=Fígaro do Oriente, 304 Nabút=cajado, 234 Nadd, um perfume composto, 310 Naddábah=mulher que pranteia, 311 Nadím=companheiro de copo, 46 Nafas=sopro, 107 Nafs=alma, vida, ib. Nahás asfar=latão, 40 Nahás (ahmar)=cobre, ib. Nahnu málihín=estamos em termos de sal, 344 Nahs=desagradável, 301 Naihah=carpideira, carpideira contratada, 311 Nudez parafraseada, 327 Nakíb=chefe de caravana, líder, síndico, 269 Nome de Allah introduzido num conto indecente essencialmente egípcio, 12 Narjis=Narciso, 294 Naskh=escrita de cópia, 128 Nasráni=seguidor d'Aquele de Nazaré, 258 Nat'a=couro usado como toalha de mesa, 20 Nata' al-dam=o couro de sangue, 318 Umbigo quanto à beleza e saúde, 84 Proximidade do assento como marca de honra, 250 Negros preferidos por mulheres libertinas, 6 Lua nova do início do Ramazán cuidadosamente observada, 84 Água do Nilo doce e leve, 290 Dezenove, a idade de uma solteirona "velha" no Egito, 212 Mergulho ruidoso escandaloso para a "respeitabilidade" muçulmana, 95 Nada por nada, um ponto de honra sexual, 87 Juramento, uma coisa séria entre os muçulmanos, 179 Oman=Arábia Oriental, 83 Orgia oriental diferente da europeia, 93 Truque de alcoviteiro para obter mais dinheiro, 302 Truque do painel, fatalmente comum, 323 Cena do Jockey-club de Paris antecipada, 327 Paródia sobre a testemunha da Unidade de Allah, 177 História do papagaio, um folclore mundial, 52 Passageiros em dificuldades assumem o comando, 140 Pérola, suposta perder um por cento ao ano do seu esplendor, 165 Peshdadianos, raça de Reis persas, 75 Planície (solo), sinónimos para, 46 Plural masculino usado por modéstia quando uma rapariga se dirige ao amante, 98 Poesia dos árabes requer conhecimento do Deserto para ser compreendida, 230 Romã, fruto suposto conter semente do jardim do Éden, 134 Primeiro-Ministro levando peixe à cozinheira, 63 Latrina, uma laje com uma fenda à frente e um buraco redondo atrás, 221 Provérbios fiéis à natureza, 307 Qanoon-e-Islam citado sobre o assunto de horóscopos, etc., 213 Raydaniyah, um campo de acampamento perto do Cairo, 245 Rayháni=uma escrita curva, 128 Rais=capitão de um navio, 127 Rajaz=o sétimo Bahr da prosódia árabe, 251 Rajul ikhtiyár=homem de meia-idade, 55 Recusa de um presente, a maior afronta, 336 Rasgar das vestes como sinal de tristeza ou vexame, 308 Respeito mostrado pelas partes do corpo, exúvias, etc., 276 Andar de burro, uma antiga prática bíblica, 262 Rims=carros, 131 Rozistan=estação do dia, 29 Ruká'í=escrita de correspondência, 128 Rukhám=alabastro, 295 Ruka'tayn=oração de duas inclinações, 142 Sa'ad=auspiciosidade, prosperidade; derivados, 9 Sabr=paciência e aloés, fonte de trocadilhos, 138 Sadaf=búzios, 19 Sadakah=esmola voluntária, oposta a Zakát, 339 Sadd=muro, dique, 114 Sáhib=companheiro, usado como título de Vizir, 237 Sáhib al-Shartah=chefe da guarda (Prefeito de Polícia), 259 Sáhib Nafas=mestre do sopro, um santo menor que cura pela expiração, 107 Sáhil Masr=a margem do rio (no Cairo), 291 Saj'a=prosa rimada, 116 Sakhr al-Jinni aludido, 41 Sákiyah=a nora persa, 123 Sálih, profeta enviado aos Thámúd, 169 Salmá e Layla=as nossas "Maria e Marta", 265 Sama'an wa ta atan, a ser traduzido de várias formas, 96 Samn=manteiga clarificada, 144 Sár=vendeta, 101, 114 Saráwil=calças largas ou em forma de anágua, 222 Sardábeh=quarto subterrâneo, 340 Sarráf=o "Shroff" anglo-indiano, 210 Sassanidas, 75 Sawáb=recompensa no Céu, 96 Sayd wa Kanas=caça e perseguição, 9 Escaldar um coto em óleo, prática cirúrgica comum, 297 Escorpiões da testa=accroche-cœurs, etc., 168 Selar um prato coberto, uma precaução necessária contra veneno, 244 Mares, os dois=o Mediterrâneo e o Oceano Índico, 173 Sepulcro, erradamente chamado de "um pequeno Wali", 105 Sete escolas ou edições do Alcorão, 113 Shább=jovem entre a puberdade e os quarenta anos, 55 Shabistan=estação da noite, 29 Shakáik al-Nu'umán=anémona, 175 Shahrázád=libertadora da cidade, 14 Shahryár=amigo da cidade, 2 Shah Zamán=Rei da Era, ib. Shaykh=um homem velho, ancião, chefe, 26 Shaykh, Shaybah=barba cinzenta, ancião, 55 Sha'ílah=tocha (também lâmpada, pavio, etc.), 259 Abanar e acenar com a cabeça, itens universais da linguagem gestual, 300 Shám (Síria)=terra à esquerda, oposta a Al-Yaman=terra à direita, 83 "Vergonha" aludida ao amaldiçoar os pais de uma pessoa injuriada, 227 Massajar os pés, 117 Sharmutah=trapos, farrapos; prostitutas; pedaços de carne=Kadíd, 163 Shámah=Khál, sinal na bochecha, 167 Shart=uma única Talbiyah ou grito Labbayka, 226 Shatm=abuso obsceno, 182 Shayyun li'lláhi=por amor de Deus, 329 Derramar lágrimas não é desgraça para um homem, 68 Sham hamphorash=o centésimo nome de Deus, gravado no anel de selar de Salomão, 173 Shiháb=estrelas cadentes, 224 Shirk (parceria)=Sinteísmo, Dualismo, Trinitarismo, 181 Lojas compostas por uma parte da frente e uma de trás, 316 Arrepio que precede o transe magnético, 44 Shuhadá, mártires, categoria extensa, 171 Shuhúd=avaliadores do Tribunal do Kazi, 21 Shurayh, mais astuto que a raposa, 252 Shúshah=topete de cabelo, 308 Simát=mesa de jantar, 178 Simiyá=magia branca, 305, 332 Sentar-se sobre as canelas e joelhos, uma postura difícil, 130 Escravos apreciados por mulheres libertinas, 191 Fatia da lua=dígito da lua, 91 Contrabandear homens para o Harém, 282 Arrancar o turbante, uma indústria lucrativa, 259 De lados macios, atributo de beleza, 168 Morte de Salomão fixando a data de um conto, 41 "Filho" usado por "neto", mais afetuoso, 243 Filho de um século=cem anos de idade, 126 Filhos de Adão=homens, 130 Filhos de Sásán=Sassanidas, 2 O orador coloca-se a si próprio em primeiro lugar, 33 Saliva seca pelo medo, 285 Cajado partido no primeiro assalto=fracasso na primeira tentativa, 64 Melodias de rua mudando com a moda, 311 Bater a mão direita na esquerda, sinal de vexame, 298 Golpear com o sapato, com o cabo do cachimbo, etc., altamente insultuoso, 110 Subh-i-kázib=alvorada falsa, 78 Subh-i-sádik=alvorada verdadeira, ib. Chupar a língua="beijar com o lábio interior", 270 Sufrah=mesa de jantar, 178 Bastão de açúcar=Zuckerpüppchen alemão, 167 Suhá, estrela na Ursa Maior, ib. Sulayman e Sakhr al-Jinni, 42 Sullam=escada; pelourinho, 331 Sulus=escrita de título, 128 Somas de grande montante pesadas, 281 Sol cumprimentando Maomé, 45 Práticas supersticiosas não limitadas às classes baixas, 40 Surriyat=concubina, 27 Su'ubán=dragão, basilisco=Tannín, 172 Su'úd usado como um contra-odor, 279 Suwán=sienito, 238 Taghúm, um tipo de grunhido onomatopaico, 228 Alfaiate forçado a cortar o pano na presença do dono, 321 Tákiyah, calote usado sob o Fez, solidéu, 224 Talbiyah=o grito Labbayka, 226 Tammúz=julho, 53 Tamar Hanná=flor de ligustro, 83 Tár=pandeireta, 215 Tarbúsh=persa Sar-púsh, cobertura de cabeça, ib. Tarík=abram caminho, 66 Tarjumán=truchmão, dragomano, 100 Tasbíh=saudar no Subh, 258 Taur (Thaur, Saur), um remanescente venerável de fala indivisa, 16 Tawáshi, nome odioso para um Eunuco, 235 Lágrimas derramadas sobre a separação passada, 283 Mil dirhams e mil dinares=£125 e £500, respetivamente, 281 Três dias, prazo de hospitalidade, 3 Lançar alguém=bastonada nas costas, 243 Tibn=palha esmagada, 16 Tobba (himiarítico)=o Grande ou Chefe, 216 Língua do caso=palavras sugeridas pelas circunstâncias, 121 Tughyán=Kufr, rejeição da Verdadeira Religião, 169 Túmár=letras unciais, 129 Turbante não colocado no chão por respeito, 223 "Turco" provavelmente uma adição tardia, 52 Virar-se em desespero contra um opressor, 246 Odah, propriamente Uta=quarto privado de uma concubina, 286 Geografia ultra-shakesperiana, "Fars de Roum", 45 Umamah e Atikah, conto de duas mulheres agora esquecidas, 61 Umm Amir=Mãe de Amir, alcunha para a hiena, 43 'Urban=árabes selvagens, 112 Usfur=cártamo, 219 Uzayr=Esdras, 257 Variedades de escrita, 129 Wady, em inglês "vale", 51 Wahsh=besta selvagem e sinónimos, 242 Wakálah; descrito na Peregrinação i. 60, 266 Wakkád=fogueiro, 312 Wali=(civil) Governador, 259 Wa'l-Salám=e aqui termina o assunto, 102 Lavagens após a evacuação, 220 Caminho de Allah=propriedade comum, 91 Wazir=Ministro, 2 "O que é comparado com", forma popular de expressar grande diferença, 37 Esposa falada eufemisticamente no masculino, 67 Jardinagem de janela, prática antiga no Oriente, 301 Vinho fervido=vinum coctum, 132 Beber vinho vicia o rito da Peregrinação, 97 Vinho subindo à cabeça, efeito do frio após um quarto aquecido, 224 Vinho por que coado? 27 Wiswás=tentação ou sugestão diabólica, 106 Mulheres bastonadas, 183 Maravilha (=causa) em cada morte, 351 Wuldán=Ghilmán, os belos jovens do Paraíso, 211 Wuzu-ablução=abluções menores, 142 Yá Ba'íd=Ó distante, eufemismo para abuso grosseiro, 41 Yá bárid=Ó tolo, 313 Yá hú=Ó ele! O Yahoo de Swift?, 240 Yahúdí para Judeu, menos educado que Banu Isráíl, 210 Yá Khálati=irmã da mãe, ao dirigir-se aos velhos, 303 Yá Mash'úm=Ó azarado, 221 Yá házá=Ó este (aqui), um tanto desdenhoso, 240 Yá Sattár=Tu que cobres os segredos vergonhosos das Tuas criaturas, 258 Yá Tayyib al-Khál=Ó tu, sobrinho de um bom tio, 303 Yaum al-Id=o grande festival, 317 Juventude descrita em termos aplicados às mulheres, 144 Zábit=Prefeito de Polícia, 259 Zakát=esmola legal, 339 Zambúr=clitóris, 90 Zemzem=água salobra, 284 Zikr=litanias, 124 Zírbájah=carne temperada com sementes de cominho, etc., 278 Ziyárat=visita a uma pessoa ou lugar piedoso, 125 Zauba'ah=tempestade de areia no deserto, 114 Zubb=pénis, 92 Zabbál=lixeiro, 312 Zulf=cabelo lateral, 308 Zulm, injustiça, tirania; o pior dos crimes de um monarca, 190 Portão de Zuwaylah, mais corretamente Báb Zawilah, 269

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