I
O CARRO DO REI
— Ir de automóvel para Biarritz? Deves estar louco — disse Dick Waring.
— Porquê? — perguntei, embora soubesse a razão tão bem como ele. — Uma bela maneira de receber um convite.
— Se queres saber, é porque o Rei de Espanha estará lá, a visitar a sua noiva inglesa — respondeu Dick.
— Desejo-lhe felicidade — disse eu. — Ouvi dizer que é um excelente rapaz. Por que razão não haverá lugar em Biarritz para o Rei e para mim?
— Os detectives não acharão que há, nem te darão crédito pelos teus sentimentos generosos — disse Dick.
— Eles não saberão que lá estou.
— Souberam quando foste a Barcelona, vindo de Marselha.
Este era um assunto sensível. Não é culpa minha que o meu pai tenha sido um general tão imprudentemente corajoso, e um partidário tão obstinadamente determinado como Don Carlos alguma vez teve. Se eu tivesse nascido naqueles tempos, é possível que tivesse feito como o meu pai; mas não nasci e, portanto, não sou responsável. Nem foi culpa do Rei que perdêssemos as nossas propriedades, que os meus antepassados possuíam nos dias de Carlos V; nem que perdêssemos a nossa fortuna, nós, os Casa Triana; nem que o meu pai fosse banido de Espanha. Pois o Rei ainda não tinha nascido, portanto não era responsável; então, por que razão o hei de culpar por tudo o que me aconteceu?
Talvez tenha sido um erro visitar a terra do meu pai, uma vez que para ele tinha sido uma terra proibida. Mas alguns meses após a sua morte, quando eu tinha vinte e um anos, o desejo de ver Espanha tornou-se uma obsessão. E deve ter sido a minha má estrela que influenciou um anarquista a atirar uma bomba a uma figura real no próprio dia em que cheguei a Barcelona, tenuemente "disfarçado" sob um nome inglês.
A minha identidade foi descoberta de imediato, como filho do grande morto carlista. Fui suspeito e atirado para uma cela, para esperar até que a minha inocência pudesse ser provada. Não foi fácil; mas, por outro lado, não havia provas contra mim; e, após uma experiência que açoitou o meu orgulho e esvaziou a minha bolsa, fui libertado, apenas para ser educada, mas firmemente, aconselhado a nunca mais mostrar a indesejável cara de um Casa Triana em Espanha.
Foi depois disto que me lancei para a Rússia e, através de influência amiga, obtive uma comissão no exército. Tive algumas aventuras na rebelião Boxer; e, embora o Céu saiba que não guardo rancor aos japoneses, a luta que travei mais tarde do lado russo deu-me algo para fazer durante dois anos. Após a Paz com a Ociosidade, veio a mania dos automóveis, e não pensei em mais nada durante algum tempo. Mas, quando conduzes o teu carro durante meses, conduzir pelo simples prazer de o fazer deixa de ser tudo. Perguntas a ti próprio que país gostarias mais de visitar com a máquina que amas.
O orgulho impediu-me de responder a essa pergunta com o nome de "Espanha"; mas foi porque Biarritz fica à porta de Espanha que tinha acabado de convidar Dick Waring — o melhor dos amigos, o mais delicioso dos americanos, que lutou ao meu lado, por diversão, na China — para ir até lá no meu carro Gloria.
— Sim, souberam quando fui a Barcelona — admiti; pois Dick estava familiarizado com a história. — Mas isso era diferente. De qualquer forma, vou a Biarritz, aconteça o que acontecer. Podes fazer o que quiseres.
— Se tu vais, eu também vou — disse Dick; — e se acontecer alguma coisa, estarei nela contigo. Mas podes arrepender-te da tua imprudência.
— Nunca me arrependi da imprudência — disse eu. — As coisas feitas por impulso resultam sempre para melhor.
Portanto, partimos de Paris no dia seguinte e tivemos uma viagem esplêndida, através de uma paisagem para pôr o espírito a cantar em sintonia com o zumbido do motor.
Qualquer que fosse o acontecimento em Biarritz, e eu estava bem longe de o adivinhar então, nada aconteceu pelo caminho; e chegámos numa manhã de azul e ouro.
Instalámo-nos num hotel privado, fora das vias movimentadas da moda; e, como a minha infância e início da juventude foram passadas em Inglaterra, podia usar um nome inglês sem me tornar ridículo com um sotaque estrangeiro. Quanto à minha cara morena e olhos negros, muitos córnicos têm uma cara tão morena e olhos tão negros; portanto, editei o nome de Triana para Trevenna, de Cornish, e mudei Cristóbal, o meu nome do meio, para Christopher.
Fizemos a nossa primeira refeição no restaurante, e todos nas pequenas mesas próximas falavam do Rei e da "Princesa Ena"; quão bonita ela era, quão apaixonado ele; quão encantador o seu romance. O meu coração aqueceu-se bastante pelo meu jovem soberano, que teve sete anos a menos de vida na Terra do que eu. Senti que, se tivesse tido uma oportunidade justa, teria sido o seu súbdito leal.
— Gostava de dar uma vista de olhos nele — disse a Waring após o almoço. — A senhora com o nariz que se sentou à nossa esquerda disse ao marido com o queixo que o Rei e as duas Princesas andam de carro todas as tardes. Nós também andaremos; e onde eles forem, nós também iremos.
— Tem cuidado — disse Dick.
— Um gato pode olhar para um rei. Christopher Trevenna também.
— Não vale a pena aconselhar-te a ter cautela.
— Claro que não. Não te importarias um bocado comigo se o fizesses.
— Não me importaria? De qualquer forma, Christopher Trevenna podia usar óculos de protecção.
— Não há pó hoje — disse eu. — Choveu durante a noite.
— Desisto de ti — disse Dick. E se desistir de mim significava sair comigo no meu grande carro azul logo após o almoço, então ele cumpriu a sua palavra. Ropes, o meu motorista e braço direito, que se senta sempre no banco de trás, já tinha ouvido tudo sobre o automóvel do Rei e estava munido de detalhes. Inclinou-se para descrever o seu aspecto, bem como mencionar a marca; e quando um carro tal como ele estava prestes a descrever passou por nós, contornando uma curva da estrada que leva a Espanha, não havia como enganar.
— Vamos segui-los — disse eu.
Dick suspirou, mas naturalmente não prestei atenção a isso.
Havia cinco pessoas no carro do Rei. O esguio jovem proprietário, três senhoras, duas muito esguias e jovens, e o motorista, todos os cinco mascarados ou de óculos, de modo que era impossível ver-lhes as caras.
— Gostava que lhes acontecesse alguma coisa — disse eu.
Waring pareceu chocado.
— Apenas qualquer coisa que parasse o carro e tentasse as senhoras a tirar os véus de automobilismo. Talvez nunca tenha outra oportunidade de ver a futura Rainha de Espanha.
Quando era um rapazinho em Inglaterra, costumava deitar-me debaixo de uma macieira favorita no pomar da velha propriedade onde vivíamos, e desejar com todas as minhas forças a queda de uma certa maçã na qual os olhos e o coração estavam fixos. Era extraordinário com que frequência a maçã caía.
Num flash, lembrei-me desses desejos e dessas maçãs à medida que começávamos a ganhar terreno sobre o carro do Rei. O seu ritmo abrandou e depois parou. O motorista saltou para fora, e duas das senhoras estavam a levantar os seus véus espessos à medida que nos aproximávamos.
Como não se supunha que conhecêssemos o Rei, que estava "incógnito", as civilidades habituais entre automobilistas estavam em ordem. Abrandei e, tirando o chapéu, perguntei em francês se havia algo que pudesse fazer.
As duas raparigas, que tinham retirado apressadamente os seus véus, viraram-se e olharam para mim. Ambas eram mais do que bonitas; louras, de olhos violeta, com tez radiante; mas uma parecia-me bela como a Bem-Aventurada Donzela olhando para baixo da janela emoldurada por estrelas do céu; e senti-me subitamente doente de ciúmes do Rei, porque acreditei que ela era a sua Princesa.
Foi ele quem respondeu, num francês melhor do que o meu. Agradeceu-me a minha oferta gentil e encaminhou-me para o seu motorista, que ainda não tinha descoberto a causa da súbita perda de potência do carro. Mas, mesmo enquanto falava, o mistério foi resolvido. Havia uma fuga no depósito de gasolina, perto do fundo; a última gota de essência tinha fugido e, como tinham saído para um curto passeio, não havia reserva.
Pareceu uma estranha coincidência que me trouxe, o filho de um rebelde banido, ao auxílio do Rei; mas a vida é estranha. Regozijei-me porque era estranha, e mais por causa da rapariga.
Tinha um bidão de gasolina sobresselente que, com expressões convencionais de prazer, dei ao meu colega automobilista. Trocámos cumprimentos e, como ninguém olhou para mim de soslaio, tive razões para acreditar que nem as palavras, nem as acções, nem os olhares estavam fora do lugar. No entanto, o que disse e fiz foi dito e feito sem mais orientação da mente do que os gestos e a fala de uma boneca mecânica.
Estava consciente apenas dos olhos da rapariga, pois tinha feito aquela coisa irracional e indefinível — apaixonar-me à primeira vista, e tinha caído muito longe e muito fundo. Ela não olhou para mim muitas vezes, e depois da primeira quase não olhei para ela, para que os meus olhos não fossem indiscretos. Era a coisa mais curiosa do mundo, e muito além de qualquer coisa que me tivesse acontecido; mas já sabia que não a podia perder da minha vida. Antes poderia perder a própria vida. Se ela fosse a Princesa que seria Rainha de Espanha, segui-la-ia até Madrid, acontecesse o que acontecesse, apenas pela alegria de respirar o ar que ela respirava, de a ver passar por mim na sua carruagem, por vezes. Perguntava-me, conhecendo as tradições da nossa família, muitas delas trágicas, quando o amor viria a mim. Agora tinha vindo rapidamente, num momento; mas não para ir como tinha vindo. Ele e eu seríamos um, para sempre. A rapariga era pouco mais do que uma criança, mas sabia que ela seria a única mulher para mim; e era isso que temia que os meus olhos lhe pudessem dizer. Por isso, não olharia; no entanto, o ar parecia carregado de electricidade para enviar mil mensagens, e o meu sangue formigava com a certeza de que ela tinha recebido a minha mensagem, de que inconscientemente ela estava a enviar uma mensagem de volta para mim.
Tudo isto se passava no meu eu interior, enquanto a casca exterior do eu se entregava a coisas convencionais.
Uma fuga foi remendada, um depósito cheio, enquanto a minha vida estava a ser refeita. Depois houve vénias, levantar de bonés, muitas delicadezas, e o carro do Rei disparou.
— O que se passa? — perguntou Waring pouco depois.
— Nada — respondi. — Por que perguntas?
— Ages como se tivesses tido um ataque. Não vais continuar a conduzir?
— Não. Sim. Vou voltar — disse, e virei o carro.
— Não tens a intenção de seguir, então?
— Há algo que preciso de fazer imediatamente em Biarritz — respondi. Era verdade. Precisava de descobrir se ela era a Princesa, ou — apenas uma rapariga.
II
A RAPERIGA
Foi fácil saber que ela não era a Princesa. Fiz isso indo a uma papelaria e pedindo uma fotografia dos amantes reais. Não foi tão fácil descobrir quem ela era, sem pregar o meu novo segredo na manga; mas, felizmente, todos em Biarritz gabavam-se de conhecimento dos assuntos do Rei, e dos assuntos da bela Princesa. Christopher Trevenna tornou-se agradável após o jantar para a senhora com o nariz, que provavelmente teria recuado com medo se soubesse que estava a falar com o Marqués de Casa Triana.
Eu, no meu carácter de Trevenna, descobri que a Princesa tinha uma amiga, Lady Monica Vale, filha da viúva Condessa de Vale-Avon, que, quando em casa, vivia na Ilha de Wight. Actualmente, as duas estavam hospedadas em Biarritz, numa villa; e Lady Monica, uma rapariga de dezoito ou dezanove anos, tinha por vezes a honra de sair com as Princesas, no automóvel do Rei.
Havia outras amigas privilegiadas também; mas a descrição de Lady Monica Vale, embora pintada com um pincel incolor, era inconfundível.
Casualmente, perguntei o nome da casa onde Lady Vale-Avon e a sua filha estavam hospedadas, e tendo-o aprendido, arranjei uma desculpa para escapar à senhora com o nariz.
Eram dez e meia da noite, e uma noite inundada de luar. Saí, fumando um cigarro, e em dez minutos estava diante do portão do jardim da Villa Esmeralda.
Havia luzes em três ou quatro das janelas, brilhando entre árvores de crescimento denso; e eu não tinha terminado o meu segundo cigarro, quando uma carruagem virou a esquina e parou.
Movi-me para o fundo. Um cocheiro saltou, desapertou o portão e, tendo aberto a porta do brougham, ajudou respeitosamente uma senhora de meia-idade a descer.
O luar mostrou-me um perfil claro e orgulhoso, e ateou os diamantes numa tiara que coroava uma cabeça de cabelo cinzento ondulado.
Havia ondas de cetim violeta e renda para evitar o chão; e enquanto o cocheiro ajudava a portadora a ajustá-las sob o seu casaco de chinchila, uma rapariga saltou da carruagem, a sua figura branca e cabelo ondulante de ouro de narciso sob o luar pleno.
Fiquei como um homem pode ficar quando vê uma visão, quase sem respirar. Não fiz som, no entanto ela virou-se e viu-me, abrigado como estava pelo tronco manchado de um alto plátano. Foi como se eu tivesse chamado, e ela tivesse respondido.
Eu sabia que ela se lembrava de mim, e que ela não interpretou mal a minha presença. Não havia raiva na sua cara, apenas surpresa, e uma luz que foi escondida quando ela baixou a cabeça e passou pelo portão.
Poderia ter cantado a canção das estrelas. Ela não se tinha esquecido de mim desde a tarde. O olhar nos meus olhos então, tinha detido algum pensamento dela, e distinguido-me na sua mente dos outros homens.
Não foi uma vaidade estúpida que me fez sentir isto, mas uma espécie de convicção exaltada.
Quando o portão se fechou, tirei o chapéu e olhei para as janelas iluminadas. Eu poderia fazê-la importar-se. Disse para comigo: "Estamos destinados um ao outro. E se isso é verdade, embora todas as montanhas do mundo estivessem empilhadas como barreiras entre nós, eu atravessá-las-ia."
Esse foi um voto. E durante as horas restantes da noite tentei planear como seria melhor começar o seu cumprimento.
Homens que passaram por uma campanha como amigos próximos, têm poucos segredos uns dos outros; e eu não tinha nenhuns de Dick Waring. No entanto, agora teria guardado um se fosse possível; mas não era. Se eu não lhe tivesse dito, ele teria adivinhado, e então poderia ter pensado que tinha o direito de troçar de mim por perder a cabeça.
É apenas um amante feliz que pode suportar ser troçado, no entanto, e poucas palavras foram suficientes para mostrar ao meu tactuoso americano onde colocar os pés no caminho escorregadio.
Ele também tinha visto a rapariga; portanto, não podia estar surpreendido com o meu estado de espírito. Mas lamentou-o, e insistiu que o melhor que eu podia fazer era ir embora, antes que o pensamento dela tivesse tomado uma posição demasiado forte sobre mim.
— Vês — disse ele — estás numa posição sem esperança; e é melhor olhar os factos de frente. Se te tivesses apaixonado por quase qualquer outra rapariga, excepto a própria Princesa Ena, poderias ter tido esperança. Mas como está, o que tens para esperar? Não devias ter vindo a Biarritz. Nas circunstâncias, e com o Rei aqui, foi bravata. Amigos dele, inimigos teus, poderiam até dizer que foi de mau gosto, o que é pior. E depois, tendo vindo, procedes a seguir o automóvel do Rei; apaixonas-te perdidamente por uma rapariga nele, uma amiga da noiva, a quem o teu verdadeiro nome, se ela não tiver ouvido já, poderia facilmente ser feito parecer anátema maranatha. Mas isso não é tudo. Estás aqui sob um nome que não é o teu. Se por sorte ou azar tivesses a oportunidade de conhecer Lady Monica, não poderias ser apresentado a ela como Christopher Trevenna; seria uma falsa pretensão; ainda menos poderias atirar o teu verdadeiro nome à cara dela; pois entre o Rei de Espanha como amigo, e tu como um conhecido, a rapariga estaria numa posição desconfortável, para dizer o mínimo. Não, meu caro, não podes conhecer esta jovem; e a única coisa para a tua paz de espírito, se te apaixonaste realmente, é ir embora.
Não tinha argumentos com os quais enfrentar os de Dick. Ouvi em silêncio, mas — não fiz preparação para a partida. Se não havia nada a ganhar ficando, pelo menos havia tão pouco a ganhar indo; pois sabia que não me esqueceria da rapariga. Se eu ficasse cego, a sua cara ainda viveria para os meus olhos, branca e pura contra um fundo de escuridão.
Ficámos em Biarritz, mas comportei-me com circunspecção, e não fiz mais tentativas de me colocar no Caminho do Rei, embora ele chegasse à Villa Mouriscot todas as manhãs vindo de San Sebastian. Dick aprovou a minha conduta e, lamentando a minha depressão, talvez tenha-se arrependido da sua dureza. Encontrou vários amigos parisienses em Biarritz, e quando lá estávamos há três dias, ele voltou ao hotel vindo do Casino uma noite com um ar importante.
— Estranho como um é tentado a fazer coisas que sabe que não deve fazer — disse ele. — Agora, é imprudente dizer-te que conheci um homem que conhece Lady Monica Vale, mas estou a fazê-lo.
— O que disse o homem? — perguntei.
— Várias coisas — encantadoras, claro. Ela não está noiva, se isso for algum consolo.
— Oh, eu sabia disso.
— Como?
— Pelos olhos dela.
— Aparentemente ela observou os teus também.
— O quê? Ela falou de... ela...
— A irmã do meu homem é amiga de Lady Monica. Ela contou à irmã sobre a aventura do automóvel.
— Pelo amor de Deus, não me forces a fazer perguntas.
— Não forçarei. Tenho um coração mole, que tem sido muitas vezes a minha ruína. Ela disse que tinha visto o homem mais interessante do mundo. Não desmaies.
— Não sejas um burro.
— Não estou a troçar. Ela disse mesmo isso — honestamente. Pelo menos, tenho a palavra de Henri de la Mole sobre isso. A sua irmã estava na escola no convento da Virgem das Lágrimas com Lady Monica Vale. Lady Monica supôs no outro dia que éramos ambos franceses, o que é um elogio ao teu sotaque. Ela disse que desejava poder descobrir "quem era o homem moreno com os olhos". Sou um tolo por te ter dito isso, no entanto, eh? Não te pode fazer bem, e provavelmente tornar-te-á pior.
— Mas fez-me bem.
— Adulou a tua vaidade. Contudo, ainda não te contei tudo. De la Mole diz que a mãe é um dragão, dura como ferro, fria como aço, que vive para a ambição. Ficou pobre com a morte do marido, já que as propriedades de Vale-Avon seguiram com o título para um parente distante, e a rapariga foi educada para fazer um casamento brilhante. Deram-lhe todos os dotes imagináveis, para somar à sua beleza; e como a família é uma das mais antigas da Grã-Bretanha, ligada à realeza de uma forma ou de outra, nos tempos dos Stuart, espera-se que Lady Monica consiga algo do mais alto nível, em termos de casamento. De la Mole ouviu dizer que o atual Lord Vale-Avon era o favorito da mãe até há pouco tempo, embora seja quase um idiota. O noivado da Princesa Ena com o Rei de Espanha mudou tudo. Vês, Lady Vale-Avon e a sua filha vivem não muito longe da Princesa, na Ilha de Wight. Quando o Rei veio cortejar em Inglaterra, veio também, embora não exatamente na sua comitiva, outro espanhol, o Duque de Carmona, e...
— Não — interrompi; — não quero ouvir o nome dele associado ao dela. Aquele bruto meio mouro!
— Ele pode ter um traço de sangue mouro, mas não é meio mouro; e se é um bruto, é um bruto bem-parecido, segundo De la Mole, além de ser um dos homens mais ricos de Espanha. Lady Vale-Avon...
Levantei-me e parei o Dick. — Estou a falar a sério — disse eu. — Não suporto ouvir. Sei o género de coisas que dirias. Mas não digas. Se o fizeres, acho que mato o sujeito.
— Já alguma vez o conheceste?
— Não. Os homens da minha casa e da dele têm sido inimigos durante gerações. Mas já ouvi falar de certos feitos.
— Ele vem para cá para ficar com a mãe, a velha Duquesa, que tem passado o inverno em Biarritz. Outra razão para te pirares.
— Queres dizer, para ficar. Pelo menos, ele não terá caminho livre.
— Não vejo como podes esperar bloqueá-lo.
— Vou bloquear — de alguma forma.
— Sem dúvida que és cem vezes mais homem do que ele, mas... o destino colocou-te em desvantagem para um lugar de destaque no mercado matrimonial. Tu és...
— Um homem sem pátria e sem dinheiro. Não hesites em expor o caso francamente.
— Bem, tu disseste-o. Enquanto o outro é rico, e um grande de Espanha. E, embora De la Mole diga que o Rei não simpatiza com ele, por causa de algo relacionado com a Guerra Hispano-Americana, ele está destinado a tornar-se uma persona grata na Corte se casar com uma amiga da jovem Rainha; e, sem dúvida, isso influencia a sua escolha.
— Graças ao Céu, Lady Monica não é espanhola.
— Ah, mas Espanha está na moda agora. E ainda não ouviste todas as minhas novidades. Henri de la Mole diz que pediram a Lady Monica para ser dama de honra da jovem Rainha de Espanha, a única inglesa que ela terá no seu séquito.
— Pelo menos o casamento não será antes de junho. Estamos apenas no final de fevereiro. Tenho mais de três meses.
— Não tens um. Pouco depois de as Princesas deixarem Biarritz, Lady Vale-Avon e Lady Monica vão visitar a velha Duquesa de Carmona em Espanha.
— O quê, vão a Sevilha?
— Se a casa dela for lá. Estou a contar-te o que me disseram.
— A casa principal do Duque é em Sevilha, embora ele tenha uma propriedade perto de Granada, e um apartamento em Madrid como substituto de uma bela casa que ardeu.
— Então é em Sevilha que elas estarão. De qualquer forma, é lá que vão ver o grande espetáculo na Semana Santa.
Foi como se o Dick me tivesse encharcado subitamente com água gelada.
Por alguns segundos não falei. Depois disse: — Estás a tentar preparar-me para a ideia de que o casamento está arranjado?
— Disse-te que Lady Monica não estava noiva.
— E eu disse-te que sabia que não estava. Mas isso não quer dizer que a mãe, a mulher “tão dura como ferro e fria como aço”, não tenha planeado o futuro da filha, uma rapariga tão jovem, e sempre mantida sob controlo.
— Parece que o vento sopra nessa direção. Uma pessoa do tipo de Lady Vale-Avon dificilmente aceitaria tal convite se não pretendesse que algo resultasse dele.
— Tens a certeza de que o convite foi aceite?
— Certeza. Angèle de la Mole esteve com o irmão em Espanha, e Lady Monica tem-lhe pedido conselhos sobre o que levar e o que vestir. O Duque está em Paris, a comprar um automóvel novo; pelo menos, é o que diz a sua mãe; mas outros dizem que ele está em Monte Carlo. De qualquer forma, ele é esperado aqui a tempo do baile.
— Que baile?
— Não te contei? Um baile de máscaras que a velha Duquesa vai dar em honra da Princesa Ena. Será um grande acontecimento, diz De la Mole. Houve ciúmes quanto aos convites, que foram cuidadosamente selecionados.
— Tu e eu aceitaremos — disse eu.
— Não é provável que tenhamos a oportunidade.
— Às vezes um homem tem de criar uma oportunidade. Encontrarei Lady Monica no baile da Duquesa.
— Tudo bem. Suponho que vás vestido de peregrino?
— Hã?
— Estava a pensar noutro primeiro encontro, caso não muito diferente, sabes, Romeu e Julieta. Meu pobre amigo louco, há mais esperança para um Montecchio com uma Capuleto do que para um Casa Triana com uma amiga da futura Rainha de Espanha, e filha de uma Lady Vale-Avon.
— Romeu conquistou Julieta.
— Não foi propriamente um casamento afortunado. Olha, se vais representar o papel de Romeu, não adianta pedires-me para fazer de Mercúcio.
Olhei para o Dick e sorri. — Não pedirei nada — disse. — No entanto...
— No entanto, sabes muito bem, se quiseres um Mercúcio, estarei pronto para assumir o papel a qualquer momento, tudo pelos teus beaux yeux. Bem, tens razão. Há algo de estranho em ti, Ramón, que faz com que nós, os outros, fiquemos contentes por fazer o que pudermos, mesmo que isso custasse as nossas vidas. Se fosses um rei no exílio, não terias tido dificuldade em encontrar seguidores. Desde o teu criado francês aos teus soldados russos; desde o teu motorista inglês ao teu amigo americano, é quase a mesma coisa. Espero que consigas chegar a esse baile de máscaras.
— Se não chegar, não será por falta de tentativa — disse eu.
— Mas...
— Mas o quê...
— Este teu caso vai acabar em tragédia — para alguém — disse o Dick.
III
O CONVIDADO QUE NÃO FOI CONVIDADO
Durante os dois ou três dias seguintes, encontrei mais o que fazer. Levei o Dick a apresentar-me ao seu amigo Henri de la Mole, não como Christopher Trevenna, mas sob o meu próprio nome, e quando ele e a irmã se interessaram pelo que escolheram considerar um romance, pude saber através deles que, curiosamente, Lady Vale-Avon tinha planeado que a filha aparecesse no baile como Julieta.
O traje, ao que parecia, decidiu-se sozinho, porque aconteceu existir, entre os bens herdados e mais valiosos de Lady Vale-Avon, um interessante toucado de pérolas ao estilo convencional de Julieta. Este tinha sido pedido de Inglaterra; e se eu conseguisse entrar no baile, como pretendia fazer, teria pouca dificuldade em identificar a cabeça que adorava.
Se eu não tivesse posto De la Mole mais ou menos ao corrente, ele nada teria feito para promover os meus interesses; mas, se realmente possuo algum poder como o Dick Waring insinuou, usei-o para angariar De la Mole para o meu lado. Finalmente, ele não só concordou, como se ofereceu para me ajudar a entrar na casa da Duquesa de Carmona como um dos seus convidados mascarados. Pediram-lhe para estar à porta naquela noite e pedir a cada pessoa, ou em todo o caso ao homem de cada grupo, que levantasse a máscara por um instante. Isto, para manter afastados repórteres e intrusos de todo o género; e a sua promessa foi deixar-me passar sem ser contestado. Eu poderia contar com os seus bons ofícios, não só dessa forma, mas de qualquer outra maneira possível, pois “todo o mundo ama um amante”, dizia ele. E desejou-me a melhor sorte, embora parecesse que mal esperava que a tivesse.
Provavelmente foi estúpido e presunçoso, mas não consegui resistir a representar o papel que o Dick sugeriu. Ela seria Julieta. Eu seria Romeu.
A esta altura, sem dúvida, os convidados da Duquesa já teriam os seus trajes bem encaminhados; eu tive de arranjar o meu, e a única forma de ter algo digno da ocasião era ir a Paris para o conseguir. Fui, e estava de volta a Biarritz em dois dias.
O resto correu facilmente, sem percalços. Chegou a noite do baile. Vesti-me e fui sozinho, em vez de arrastar o Dick para um assunto que poderia terminar de forma desagradável.
Não me pus em evidência, mas fiquei por um momento a observar os dançarinos, à espera da minha oportunidade.
Carmona tinha chegado no dia anterior. Nunca o tinha conhecido, mas o que tinha ouvido não me agradava; e tendo-o visto uma ou duas vezes em Londres, à distância, era reconhecível num traje copiado de um famoso retrato daquele Duque de Alba que se tornou grande nos dias de Filipe II. Devido a uma ligeira diferença um do outro, na altura dos ombros, ele era difícil de disfarçar; e embora a disposição do traje pretendesse esconder a particularidade, era percetível.
Quando o “Duque de Alba” dançou duas vezes seguidas com Julieta Capuleto, não pude suportar mais o meu papel de observador. Além disso, sabia que não tinha muito tempo a perder. Por causa de De la Mole, que tinha corrido o risco de admitir um estranho, eu devia desaparecer antes da hora de as máscaras caírem. Quando tirei o meu gorro e fiz uma vénia perante esta Julieta branca com as tranças de ouro entrelaçadas de pérolas, ela olhou para mim através da sua máscara de veludo no silêncio da surpresa. Não podia adivinhar se ela se questionava sobre o que estaria por baixo da minha peruca louro-acastanhada e da minha máscara; mas, pelo menos, ela devia saber que era Romeu quem pedia uma dança.
Não insisti na minha reivindicação com tal pretexto, contudo, para não despertar a oposição de Carmona, e levá-lo a manter a rapariga longe de mim, se pudesse. Disse apenas: — A próxima é a nossa dança — arriscando uma recusa; mas ela não veio.
— Sim — disse ela, quase timidamente. Foi a primeira vez que a ouvi falar, e a sua voz tocou-me o coração.
O Duque olhou fixamente, como se quisesse arrancar-me a máscara pela mera força da curiosidade. Mas ele teve de deixar a rapariga ir; e quando a música começou, ela estava nos meus braços. Mal me atrevia a acreditar na minha própria sorte. Nenhum de nós falou. Estava perdido na sensação da sua proximidade, no conhecimento de que era a música que me dava o direito de a segurar assim, e que quando a música morresse, eu teria de a deixar ir.
Mas um pensamento rápido ocorreu-me. Se dançássemos a valsa até ao fim, Carmona ou outra pessoa reclamá-la-ia para a seguinte. Se eu pudesse esconder a rapariga antes de acabar, talvez pudesse mantê-la comigo por um pouco de tempo. De facto, eu devia mantê-la, se este encontro não terminasse em fracasso; pois havia coisas que eu precisava de dizer.
O jardim de inverno era demasiado óbvio; e a escadaria rasa com os seus balaústres enfeitados de rosas, e a sua almofada de seda gorda para cada degrau, logo seria invadida por uma dúzia de casais. O que fazer, então? Teria dado muito para conhecer a casa.
— Tenho de falar consigo — disse finalmente. — Para onde podemos ir?
Ela não disse em resposta: “Conhece-me, então?”, ou qualquer outra coisa convencional. A esperança em mim de que ela se tinha lembrado o suficiente para adivinhar quem eu era, brilhou. Ela não teria respondido a uma pessoa que considerasse um estranho, como respondeu a mim:
— Há uma sala de cartas no fim do corredor à esquerda, ao lado do grande salão, onde poderíamos descansar por um momento ou dois — disse ela. — Mas não me posso demorar.
— Não — prometi. — Não tentarei retê-la. Peço apenas alguns momentos. Não sei como agradecer-lhe por mo dar.
Lancei um olhar em redor à procura de Carmona, e vi-o a dançar com uma imponente Maria Stuart. Adivinhei que a sua parceira era Lady Vale-Avon; e se eu tivesse razão, era um mau presságio. Ela não era uma mulher que se interessasse por danças superficiais, por isso favorecia Carmona em particular.
Ainda assim, por um momento ele estava ocupado; e quando ele virou as costas, levei Lady Monica para fora do salão de baile, passando a escadaria decorada no átrio quadrado, e para a sala no fim do corredor. Lá, afastei um reposteiro e segui-a para dentro.
Ela tinha razão; a sala estava desocupada, embora duas ou três mesas de bridge estivessem prontas para os jogadores. Num canto havia um pequeno sofá. A rapariga sentou-se, deixando cuidadosamente nenhum lugar para mim, mesmo que eu tivesse presumido; e, inclinando-se para a frente, cruzou as suas mãos pequenas nervosamente à volta dos joelhos.
Depois olhou para mim através da sua máscara; e eu não a deixei à espera.
— Não tenho convite para esta noite — disse eu. — Mas tive de vir. Vim para a ver. Perdoa-me por dizer isto?
— Eu... acho que sim — respondeu ela.
— Terias a certeza, se soubesses tudo.
— Eu sei. Pelo menos... quero dizer... mas é claro, não devia estar aqui consigo.
— De acordo com a convenção, não devias. No entanto...
— Não estou a pensar em convenções. Mas... oh, detestaria que me compreendesse mal!
— Nunca poderia compreender mal.
Arranquei a máscara e fiquei a olhar para ela, sabendo que o meu rosto diria o que estava no meu coração, e não querendo agora esconder o segredo.
— Sabes — disse eu — que te adoro desde o primeiro momento em que te vi. Era impossível encontrar-te de qualquer forma comum, pois não tens nenhum amigo que te apresentasse ao Marqués de Casa Triana. Já ouviste alguma vez esse nome antes, Lady Monica?
— Sim — respondeu ela francamente. — Ouvi ontem. De Angèle de la Mole.
— O irmão dela é amigo do meu melhor amigo.
— Eu sei.
— Se não fosse por ele, teria tido grandes dificuldades em chegar aqui esta noite. No entanto, teria vindo. A Mademoiselle de la Mole disse-te que eu te amava?
Lady Monica baixou a cabeça e não respondeu, mas as pequenas mãos estavam apertadas com força.
— Sempre me orgulhei do meu nome — disse eu —, embora seja considerado um infortúnio tê-lo; mas quando te vi, então soube pela primeira vez quão grande infortúnio pode ser.
— Porquê?
— Porque a minha única felicidade pode vir agora de ter-te como minha esposa; e mesmo que eu pudesse conquistar o teu amor, não te seria permitido casar com o filho do meu pai.
— O teu pai pode ter estado enganado — a rapariga vacilou. — Acho mesmo que esteve. Mas era um homem gloriosamente corajoso. Mesmo os inimigos contra quem lutou devem respeitar a sua memória. Eu... li sobre ele. Eu... comprei um livro ontem. Vês... pensei em ti. Não pude evitar. Vimo-nos apenas aqueles poucos minutos, e nem sequer falámos; no entanto, de alguma forma, foi diferente de tudo o que alguma vez me aconteceu.
— Foi o destino — disse eu. — Estávamos destinados a encontrar-nos, e eu estava destinado a amar-te. Se eu pensasse que poderia fazer-te importar, isso dar-me-ia um direito que não poderia ter de outra forma; o direito de tentar conquistar o teu amor, e derrubar todos os obstáculos.
— Eu poderia... eu importo-me — sussurrou ela. — Mesmo que nunca mais te visse, não esqueceria. Isto... seria o romance da minha vida.
— Anjo! — disse eu. E então ela tirou a sua máscara, com um sorriso tão divino que eu poderia ter-me ajoelhado aos seus pés como no altar de uma santa.
— Não é maravilhoso? — perguntou ela. — Não descobri o teu nome até ontem, embora tivesse tentado antes; e não nos conhecemos de todo...
— Ora, conhecemo-nos desde que o mundo começou. A minha alma esteve à espera de encontrar a tua novamente, e encontrou-a na outra tarde, na estrada para a minha própria terra. É isso que as pessoas que não compreendem chamam de “amor à primeira vista”.
— Acho que deve ser assim; porque nunca houve nada como aquele primeiro minuto em que olhaste para mim.
— Se eu pudesse ter sabido, ter-me-ia poupado noites sem dormir. Pois agora és minha, minha querida, tal como eu sou teu. Nada te pode tirar de mim agora.
— Ah, tenho medo! Mesmo que... tudo fosse diferente na tua vida, seria difícil; pois... já existe outra pessoa na minha.
— Não pode haver mais ninguém, desde que tu te importas comigo.
— Não verdadeiramente na minha vida. Mas há alguém com quem a minha mãe quer que eu case.
— O Duque de Carmona.
— Sabias?
— Vês, não pensei noutra coisa senão em ti; e aprendi tudo o que pude sobre o que te diz respeito.
— Não gosto dele, nem sequer como amigo. Ele é suficientemente bonito, mas tenho a certeza de que tem um temperamento horrível. Poderia ter medo dele. Acredito que tenho medo. E a mãe... não a conheces, mas... quando ela decide que tens de fazer uma certa coisa, dás por ti a fazê-la. Essa é uma das razões pelas quais fiquei tão contente quando vieste esta noite, e disseste: “A próxima é a nossa dança”, de uma forma tão determinada. Não só me tiraste dele, mas... senti que tentarias manter-me longe dele, no fim.
— Tentar! — ecoei. — Vou manter-te. Confia em mim, minha querida. Fui tolo ao vir a Biarritz sob outro nome. Isto não é Espanha; e mesmo um Casa Triana tem o direito de estar aqui. Mas felizmente não houve grande mal. Através dos De la Mole, serei apresentado a Lady Vale-Avon; dir-lhe-ei que, embora comparado aos dias em que o meu povo contava para algo na história de Espanha, eu não tenha um tostão, ainda assim o meu pai deixou-me o suficiente para viver e manter uma esposa que me ame melhor do que ama a sociedade. Direi a Lady Vale-Avon que há países em que o meu nome é bem visto, mesmo nestes tempos agitados; que lá farei algo que valha a pena...
— Já fizeste coisas que valem a pena — interrompeu a rapariga; — coisas esplêndidas.
— Ainda não fiz nada, mas vou mudar isso. Pedirei à tua mãe para me dar uma oportunidade... para esperar...
— Não — insistiu ela. — A mãe recusaria, e tudo seria pior do que nunca.
— Querida, não poderia ser pior. Porque agora, estou a fazer o que não deveria, embora tenha sido forçado a isso pelo meu amor. Para te merecer no mais ínfimo grau, devo ser aberto nas minhas negociações. Devo falar com Lady Vale-Avon.
— Ela nunca consentirá.
— Pelo menos terei feito a coisa certa. Agora tivemos esta conversa, agora sabes que és todo o mundo, e o céu além disso, para mim, mesmo pelo bem da tua mãe, não me vais abandonar, pois não?
— Não, mil vezes não. Não sonhei que amar seria assim. Matar-me-ia desistir de ti.
— Então nada nos pode separar.
— Faz-me sentir corajosa ouvir-te dizer isso. Mas... não conheces a mãe.
— Conheço-me a mim mesmo, e confio em ti.
— Sou tão jovem, e... nunca me deixaram ter a minha própria vontade. Sempre desisti.
— Porque estavas sozinha, sem ninguém para te ajudar. Agora tens-me a mim.
— É verdade. Mas...
— Preciosa, não há “mas”.
— Gostava de poder pensar assim! No entanto, algo parece dizer-me que se falares com a mãe, estaremos perdidos. Amo-te... mas... deixa que se mantenha em segredo por um tempo.
— Com que fim?
— Mal sei. Apenas, tenho o mais forte pressentimento de que seria melhor.
— E eu tenho a mais forte convicção de que não só seria errado, como tu não me respeitarias se eu consentisse.
— Imploro-te, espera pelo menos até que a realeza deixe Biarritz antes de dizeres à mãe, ou a qualquer pessoa, quem és.
Não pude evitar sorrir, embora com amargura. — Ouviste falar da minha aventura em Barcelona?
— Sim, da Angèle. Não suportaria se tivesses problemas aqui.
— Não há perigo disso.
— Não se sabe. Circunstâncias que não prevemos podem parecer envolver-nos em alguma trama. Oh, se me amas, espera até que a realeza tenha partido.
Como poderia eu recusar aqueles olhos suaves e aquelas mãozinhas postas?
Agarrei as mãos e apertei-as contra os meus lábios, os dedos rosados que cheiravam a lírio, e as unhas polidas como joias cor-de-rosa. Enquanto me inclinava sobre o meu amor, a cortina que cobria a entrada agitou-se como se por uma rajada de vento.
Rápida como a luz, Monica arrancou as suas mãos, mas era tarde demais. Carmona segurava a cortina para Lady Vale-Avon.
Ele deve ter estado a vigiar. Deve ter sabido que eu tinha levado Lady Monica a esta sala. Deve ter trazido a mãe da rapariga de propósito para nos encontrar juntos.
Estes eram os pensamentos na minha mente enquanto encarava os dois, máscara na mão.
Tinham-me visto a beijar os dedos de Monica. Era inútil ter a esperança de que não tivessem visto.
— Deixe a sala imediatamente, minha filha — disse Lady Vale-Avon, em voz baixa. Ela também tinha tirado a sua máscara.
Era uma situação desastrosa para mim, e demasiado difícil de levar a cabo com dignidade.
— Madame — disse eu. — Sou o Marqués de Casa Triana. Conheci Lady Monica há algum tempo, e acabei de lhe dizer que a amo. Agora, peço o seu consentimento para...
— Casa Triana aqui! — exclamou Carmona, num tom que não poderia ter expressado mais horror, se eu fosse um bandido à solta.
— Não tenha receio pela sua casa — não pude deixar de dizer com desdém.
Lançou-me um olhar que um homem não pode perdoar a outro. — Não tenho esse receio — disse ele; — mas há aqui aqueles cuja segurança me é cara; e o seu nome não é um que deva ser pronunciado sob o mesmo teto.
Foi assim que ele escolheu informar Lady Vale-Avon, caso ela o ignorasse, que eu era uma personagem notória.
— Diga-me — continuou ele — como encontrou o caminho para a casa da minha mãe, onde ninguém com o seu nome poderia ser um convidado?
— Há uma janela — disse eu, pensando em salvar de la Mole, — pela qual o mundo e a sua esposa poderiam entrar.
— Vi-o, mascarado, no salão de baile há meia hora.
Há meia hora! Talvez ele não estivesse a exagerar. Mas os trinta minutos, se tinham sido trinta, tinham passado como um só.
— Eu estava lá — admiti, — à procura de Lady Monica Vale. Dançámos juntos, e eu trouxe-a para aqui...
— Quem é este homem, Duque? — Embora falasse com ele, os olhos de Lady Vale-Avon, frios como pontas de aço, perfuravam os meus.
— Uma pessoa que, quaisquer que sejam as suas intenções, não deveria estar em Biarritz enquanto o Rei Alfonso está aqui.
— Lembro-me do nome agora. E ele veio à sua casa, sem ser convidado; propõe-se casar com a minha filha — um homem que nunca vi! Tem a sua resposta, Marqués de Casa Triana, se precisa de uma resposta. É, não. Por favor, aceite-a calmamente, e deixe de nos perseguir, caso contrário terei de pedir ao Duque que aja por mim, já que não tenho marido nem filho. É suficiente?
— Não é suficiente — respondi. — Amo a sua filha, e confio que ela goste de mim. Não a vou abandonar.
— Monica, disse-te para ires, e tu desobedeces-me — exclamou Lady Vale-Avon. — Agora, digo-te para mandares este homem embora.
— Mãe... eu amo-o — hesitou a rapariga. — Espera... quando tiveres ouvido... quando souberes o que ele é...
— Falas como uma criança, Monica — disse a mãe. — És uma criança. É a tua única desculpa; mas este homem, que deve ter-te hipnotizado, atingiu a idade da discrição. Se ele não deixar a sala, teremos de ser nós.
— Vou-me embora, Lady Vale-Avon — disse eu, — mas antes deixe-me dizer mais uma vez, francamente, que nunca renunciarei à sua filha. Depois, olhei diretamente para Monica. — Confia em mim — disse eu, — como eu confio em ti; e tem coragem.
Com isso fiz uma vénia, e saí pela janela pela qual esperava que o Duque pensasse que eu tinha entrado.
— Não tenho a certeza — ouvi-o dizer a Lady Vale-Avon, — de que não deva informar a polícia. Em Barcelona, há seis ou sete anos...
Não esperei por mais.
IV
"NÃO AMEAÇO — AVISO"
No jardim parei, escondendo um pedaço de lenço de renda que tinha roubado; interrogando-me se tinha estado totalmente errado, ainda que sem conseguir ver que outro caminho estaria aberto.
Demorando-me perto da janela, vi Lady Vale-Avon ir ter com Monica, e segurar a rapariga pela mão enquanto falava com Carmona. Trocaram apenas algumas palavras. Depois, o Duque abriu a porta, e as duas senhoras saíram, sem que Monica olhasse uma única vez para trás.
Assim que se foram, Carmona caminhou até à janela e, vendo-me na noite cintilante, juntou-se a mim.
— Esta é a casa da minha mãe — disse ele em espanhol.
— E o jardim dela, acrescentaria eu — respondi.
— Sim.
— Mas há algo aqui que é meu.
— Não há nada aqui que seja seu. — A sua voz, estudadamente fria no início, aqueceu com raiva.
— Será meu um dia, apesar de... tudo.
— Está a gabar-se, Marqués de Casa Triana.
— Não. Pois Lady Monica Vale prometeu casar-se comigo.
Carmona susteve a respiração perante uma palavra com a qual, se não tivesse parado para pensar, me teria chamado mentiroso. Mas algo o conteve e ele riu-se em vez disso. — Eu não contaria com o cumprimento da promessa dela se fosse você — disse ele. — Lady Monica é uma estudante. Dir-lhe-ia, pelo seu próprio bem, que a melhor coisa que pode fazer é esquecer que alguma vez a viu; mas isso seria desperdício de fôlego. O que direi é: será sensato da sua parte deixar Biarritz antes que algo desagradável aconteça.
— Pretendo deixar Biarritz — disse eu calmamente.
— Fico contente por saber.
— Quando Lady Monica e a sua mãe partirem.
— Pretende perseguir estas senhoras!
— De modo algum. Mas quando forem visitar a Duquesa de Carmona, esse será... o momento que escolherei para deixar Biarritz.
— Quem falou de tal visita?
— Uma pessoa em quem confio.
Ele ficou em silêncio por um momento, fosse por surpresa ou por raiva, não saberia dizer. Mas finalmente disse: — Estou menos bem informado que o seu amigo quanto aos planos de Lady Vale-Avon e da sua filha. Podem regressar a Inglaterra; podem ir ter com amigos em Paris, podem visitar a minha mãe. Mas isto não diz respeito a estranhos como o senhor; e o meu conselho ao Marqués de Casa Triana é: aconteça o que acontecer, mantenha-se fora de Espanha.
— Está a ameaçar-me? — perguntei.
— Não ameaço — aviso.
— Obrigado pelas suas gentis intenções. Dão-me o que pensar.
— Tanto melhor. Será menos provável que se esqueça.
— Não me esquecerei — respondi. — Na verdade, aproveitarei o seu conselho. — E com isto afastei-me, colocando a minha máscara.
Como Romeu não sabia a que horas poderia desejar sair da casa de Capuleto, não tinha pedido nem o seu próprio automóvel nem uma carruagem; mas, por sorte, um táxi rondava pelas redondezas à espera de um passageiro. Fiquei contente por não ter de caminhar até ao meu hotel sob o disfarce de Romeu; e cheguei às minhas dependências sem encontrar olhares curiosos nos corredores.
Como esperava, Dick estava na nossa sala de estar privada, a fumar e a ler um romance.
— Bem, que sorte, amigo Romeu? — perguntou ele.
— Sorte, e má sorte — disse eu. Depois contei a história da noite.
— Hum! foste meter-te numa bela alhada — foi o seu comentário no final.
— Chamas-lhe "alhada" quando, por um milagre, a rapariga mais doce que existe se apaixonou por ti?
— Exatamente isso, se a rapariga não tem idade suficiente para conhecer a sua própria mente, e tem uma mãe que não a deixaria conhecê-la se pudesse. Já foste tão longe agora, que terás de ir mais longe...
— Até ao fim do mundo, se necessário.
— Oh! vocês, homens latinos, com os vossos olhos de fogo, as vossas paixões fervilhantes, e as vossas expressões exageradas! O que é que nós, ianques e outras pessoas sensatas, vemos em vocês?
— O céu sabe — disse eu, encolhendo os ombros.
— Duvido. Por que carga de água, como tinhas chegado aos vinte e sete anos sem te preocupares com o amor, não podias esperar até aos vinte e sete anos e um quarto, ir calmamente para o meu país comigo, o que é muito melhor do que o "fim do mundo", e propor-te a uma charmosa rapariga americana de idade racional e muitos dólares?
— Uma idade racional?
— Acima dos dezoito, de qualquer modo. Acredito que vocês, latinos, têm um fraquinho por estas pequenas ingénuas brancas, que não sabem de que lado da fatia está a manteiga, nem como dizer outra coisa que não "Sim, por favor" e "Não, obrigado". Quando chegar a minha vez, a rapariga terá de ter vinte e dois anos e ser uma boa americana patriótica.
— As raparigas americanas são fascinantes, mas por acaso estou apaixonado por uma inglesa, e é o azar dela e o meu, não é culpa nossa, que ela tenha dezoito em vez de vinte e dois.
— Um grande azar. Não deves raptar uma criança. É isso que torna a situação embaraçosa. Como eu disse, não podes recuar agora.
— Não enquanto eu viver.
— Não sejas tão espanhol. Mas, agora que penso nisso, suponho que não podes evitar. O que pretendes fazer a seguir?
— Vigiar. E enviar uma mensagem à Monica.
— Angèle de la Mole fará o que puder por ti.
— Espero que sim. Depois, tudo o resto terá de depender da rapariga.
O rosto magro e bronzeado de Dick estava meio irónico, meio triste.
— Tudo o resto terá de depender da rapariga — repetiu ele. — Pergunto-me o que aconteceria se alguém tentasse apoiar um peso de cem libras contra um lírio?
V
UM MISTÉRIO SOBRE UM CHOFER
Durante muitos dias depois disto, o jovem Rei de Espanha viajou de carro entre San Sebastián e Biarritz para visitar a senhora do seu amor; mas, finalmente, as duas Princesas despediram-se da Villa Mouriscot e foram para Paris. Lady Vale-Avon e Monica permaneceram; mas, por enquanto, a rapariga estava a salvo de Carmona, pois o Duque seguiu o Rei para Madrid.
Por mais adorável que Monica fosse, é, e sempre será, e genuinamente apaixonado por ela como eu não tinha dúvidas de que Carmona estivesse, ainda assim comecei a acreditar que Dick Waring tinha razão, e que o desejo do Duque de conquistar a amiga da Princesa Ena era tanto pelo favor da Corte como pela própria rapariga. Passaram-se várias semanas, e Monica e a sua mãe continuaram a ser inquilinas da Villa Esmeralda. Saíam pouco, exceto para visitar a velha Duquesa de Carmona, que evidentemente fazia tudo o que podia para promover os interesses do seu filho com convites para almoços e jantares; mas, por mais que tentasse, nunca consegui obter uma entrevista.
Felizmente para mim, Lady Vale-Avon só me tinha visto em traje de fantasia; o traje de Romeu, com uma ridícula peruca castanho-amarelada e ondulada, na qual o figurinista insistira contra os meus argumentos. Agora, abençoava-o pela sua obstinação; pois conseguia passar por Lady Vale-Avon na rua sem ser reconhecido, e uma vez consegui chegar perto o suficiente para deslizar para a mão de Monica um bilhete que tinha rabiscado apressadamente na folha de um caderno.
"Estás disposta a que eu tente a minha sorte novamente com a tua mãe?" tinha escrito. "Se não, consentirás num casamento em fuga com um homem que te ama mais do que a própria vida?"
No dia seguinte veio uma resposta através de Mademoiselle de la Mole.
Monica implorava que eu não falasse com a mãe dela. "Ela imagina que tu foste embora", escreveu a rapariga. "Se te apresentasses, penso que ela telegrafaria ao Duque de Carmona, pois ela escreve-lhe quase todos os dias como está; e faria tudo o que pudesse para me fazer casar com ele imediatamente. Não me odeies por ser cobarde. Não o sou, exceto com a mãe. Não consigo evitar com ela. Ela é diferente de todas as outras. Ouvi a Duquesa dizer-lhe ontem que, se eu me casasse com um fidalgo de Espanha, seria feita dama de companhia da Rainha em vez de dama de honra; por isso sei o que eles estão sempre a pensar. Mas, enquanto a mãe espera que tu tenhas desistido de mim, e que eu seja muito boazinha, talvez eles me deixem em paz.
"Gostaria de ter coragem de escrever à Princesa sobre ti; só que, vês tu, por causa do teu pai e daquele acidente horrível que aconteceu em Barcelona, ela poderia mal-entender-te, e as coisas seriam piores do que antes. Mas se eu descobrir que a mãe pretende realmente tentar forçar-me, então irei embora contigo. Caso contrário, preferiria esperar, por ambos os nossos bens.
"Quando voltar a Inglaterra, há alguns primos meus queridos que nos poderiam ajudar, mas não serve de nada escrever. Teria de ver e falar com eles eu mesma. De qualquer forma, se lá estivesse, eles conseguiriam não me deixar casar com um estrangeiro que odeio; e tu e eu poderíamos continuar a ser fiéis um ao outro por um pouco de tempo, até que tudo pudesse ser arranjado.
"O pior é que a mãe não pretende voltar para Inglaterra ainda. É disso que tenho medo, e que ela tenha algum plano sobre o qual não pretende falar até ao último minuto. Mas ela não disse nada ultimamente sobre visitar a Duquesa de Carmona em Espanha, e espero que ela desista disso. Assim que souber algo de concreto, de alguma forma avisar-te-ei. Acho que posso prometer isso, embora possa ser difícil, pois a mãe nunca deixará a Angèle e a mim estarmos sozinhas por um minuto se puder evitar. No dia seguinte ao baile, estávamos a ter uma conversa no meu quarto quando a minha mãe entrou, e talvez tenha adivinhado que eu estava a contar coisas à Angèle. Desde então, não me foi permitido ir a casa da Angèle; e, embora a Angèle venha ver-me, a mãe arranja sempre alguma desculpa para estar connosco."
Depois desta carta de Monica, tinha pelo menos alguma ideia de como estavam as coisas; e, nas circunstâncias, parecia não haver nada a fazer a não ser estar perto dela, e esperar.
Não foi até à última parte de março que o Duque de Carmona voltou à villa da sua mãe em Biarritz.
A sua chegada não foi anunciada no jornal local, contudo, soube dela; e no dia seguinte, Mademoiselle de la Mole enviou-me outra carta de Monica, apenas algumas linhas, evidentemente escritas com grande pressa.
Iam fazer a visita à Duquesa de Carmona em Sevilha, e deviam chegar lá a tempo das famosas cerimónias da Semana Santa; era tudo o que ela sabia. A hora da partida ou não estava decidida, ou então não se considerou o melhor que ela soubesse com muita antecedência.
"Sinto-me miserável por ir", escreveu a rapariga; "mas que posso eu fazer? Costumava pensar que seria glorioso ver Espanha, mas agora estou assustada. Tenho um sentimento horrível de que nunca mais voltarei. Sei que é pedir demais, e não vejo como podes fazê-lo se eu pedir, já que não te posso contar nada dos nossos planos; mas se apenas, apenas, pudesses manter-te perto de mim, ao alcance de um chamamento, eu estaria a salvo. Suponho que é inútil esperar por isso? De qualquer forma, aconteça o que acontecer, amar-te-ei sempre."
A isto escrevi uma resposta, mas Angèle receava não conseguir entregá-la à sua amiga. O contrato de arrendamento da villa de Lady Vale-Avon em Biarritz tinha acabado de expirar, e a mãe e a filha iam mudar-se para casa da Duquesa de Carmona por alguns dias. Por alguma razão, a Duquesa não tinha convidado a Angèle uma única vez para ir à sua casa desde o baile. Ela poderia não conseguir ver a Monica; e seria muito inseguro confiar no correio.
Foi na noite do dia em que recebi esta notícia que o meu chofer bateu à porta da nossa sala de estar no hotel.
— Pensei — disse ele — que seria melhor dizer ao senhor alguma coisa que acabou de acontecer. Pode ser de importância; pode não ser nada.
Agora, talvez deva explicar que Peter Ropes não é um chofer comum. Ele é filho do velho cocheiro que serviu o meu pai durante muitos anos em Inglaterra; foi cavalariço do meu primeiro pónei; foi para o estrangeiro comigo como criado para tudo; esteve comigo na maior parte das minhas aventuras; quando comecei a andar de automóvel, voluntariou-se para ir para uma fábrica e aprender minuciosamente a arte suave de ser chofer; e, nesta altura, entendia de um automóvel, e amava-o, como entendia e amava um cavalo; ele tem quase a mesma idade que eu, quase ao dia; e suponho que estará comigo em qualquer função até que um de nós morra. Ele tem um rosto castanho, que poderia ter sido esculpido num pedaço de carvalho; os olhos de um soldado; e nunca profere uma palavra mais do que o necessário.
— O senhor disse que eu podia ir à pelota esta tarde — continuou ele. — Quando voltei, fui à garagem, e encontrei um chofer estranho a examinar o seu Gloria. Fiquei à distância, atrás do carro do Rei de Inglaterra, e observei o que ele faria. O Sr. Levavasseur, o proprietário da garagem, entrou nessa altura, e eu perguntei em voz baixa quem era o sujeito. Ele não sabia; mas o homem tinha perguntado pelo chofer do Sr. Trevenna, dizendo, quando soube que eu estava fora, que era um amigo meu. Dei uma dica ao Levavasseur para ficar calado, e afastei-me. Pouco depois, o chofer caminhou até ao Levavasseur, e disse, em francês, que não esperaria mais.
— Bem, e depois, Ropes? — perguntei.
— Ele foi-se embora, e eu fui atrás dele. Ele não me viu, e não creio que me reconhecesse de lado nenhum se tivesse visto. Ele parou noutra garagem, e achei melhor não entrar lá. Mas esperei, e passado algum tempo um senhor muito moreno e alto, que parecia espanhol, entrou na garagem. Cinco minutos depois, ele e o chofer saíram juntos. Separaram-se à entrada, e foi o senhor que segui desta vez. Ele foi até uma villa grande e elegante; e uma pessoa que encontrei disse-me que era a casa da Duquesa de Carmona. Essa é a razão pela qual achei o assunto importante.
— Mas porquê, exatamente? — insisti, adivinhando o que Ropes diria.
— Porque penso que o senhor era o Duque de Carmona.
— E se fosse?
— Ouvi dizer por aí que ele está ansioso por ficar bem visto com o Rei de Espanha. Ocorreu-me que ele poderia ter algum interesse político em tentar descobrir o verdadeiro nome do Sr. Trevenna, se me perdoa por ter tal pensamento. Ele poderia ter enviado o seu chofer para olhar para o seu carro, e fazer um relatório; e se o fez, qualquer que fosse a razão, não significaria nada de bom para o senhor. Pensei que o senhor devia saber, e estar de guarda, no caso de alguma coisa acontecer.
— Obrigado — disse eu. — Fez bem em falar, e pode ser que me tenha feito um serviço inestimável.
Ropes sorriu; mas, tendo dito tudo o que tinha a dizer, mais uma palavra teria sido um desperdício de bom material, que ele não era homem para esbanjar.
VI
ENIGMA: ENCONTRE O CARRO
— O que pensas que isto significa? — perguntou Dick, quando o chofer saiu.
— Acabou de me ocorrer que pode significar que Carmona pretende fugir com as suas convidadas no seu novo automóvel, e que queria descobrir alguma coisa sobre o meu carro, como era, e por aí fora, no caso de eu apanhar o rasto da ideia, e segui-lo.
— A mesma coisa me ocorreu. Ele não iria espionar por si mesmo, mas enviou o seu chofer, uma nova importação, provavelmente, para dar uma vista de olhos no Gloria e descrevê-lo. Pergunto-me como é que ele soube que tinhas um.
— Fácil de fazer isso. Naturalmente, ele descobriu de alguma forma, talvez empregando um detetive, que Chris Trevenna e Casa Triana são a mesma pessoa. Ele não pode fazer muito uso desse conhecimento para me incomodar deste lado da fronteira, mas...
— Sim; um grande mas.
— Parece bastante certo que o seu próprio carro deve ter chegado, ou estar a chegar aqui, e que ele pretende usá-lo para entrar em Espanha, ou não teria desenvolvido este interesse súbito no meu.
— Parece que sim. Agora ele sabe, se um Gloria azul-escuro cruzar o seu caminho, é o carro do amante perseguidor, e—
— Eu estava justamente pensando que um Gloria azul-escuro não cruzará o caminho dele.
— Você não quer dizer—
— Quero dizer que não será prudente para o carro da Casa Triana nem para o de Chris Trevenna seguir o dele, para onde quer que ele pretenda ir.
— O quê, você vai desistir—
— É provável?
— Você está indo além do que posso acompanhar.
— O que eu quero é ficar com você, no seu carro.
— Quem me dera ter um! — disse Dick.
— Você vai ter um emprestado. Um carro cinza ou um vermelho lhe cairia melhor?
— Entendo. Vermelho, por favor. Dizem que a tinta vermelha seca mais rápido.
Nós dois rimos.
— Seu carro vermelho deve ter faróis novos — continuei — e uma placa nova, e qualquer outra coisinha que possa ser colocada às pressas. E é melhor você conseguir um passaporte, se ainda não tiver um. Cavalheiros em excursão por terras estrangeiras estão por vezes sujeitos a interrogatórios que poderiam ser inconvenientes, a menos que tenham bastante burocracia na manga.
— Vou fazer um estoque. O que você acha de eu ser o correspondente credenciado, para as festividades do casamento espanhol, de um ou dois jornais?
— Ideia excelente. Você conseguiria fazer isso?
— Tão fácil quanto cair de uma árvore ou furar um pneu. Organizarei por telégrafo, Londres e Nova York.
— Grande sujeito.
— Obrigado. Melhor esperar até que eu tenha feito algo. E quanto à sua parte no espetáculo?
— Um amigo humilde, acompanhando o importante correspondente de jornal em suas viagens.
— Tudo bem. Mas o negócio Trevenna está encerrado.
— Um nome de viagem é tão fácil de ajustar quanto um sobretudo de viagem.
— Nem tanto, a menos que você consiga combiná-lo com um rosto de viagem novo.
— Felizmente, Carmona conhece o rosto de Romeu melhor do que o meu. E, de qualquer forma, um traje de automobilismo pode ser quase um disfarce.
— Isso é verdade. Por trás dos óculos de proteção, Apolo não tem muita vantagem sobre Apoliom, e você pode deixar crescer um bigode. Sim. Acho que podemos fazer funcionar até esse ponto. Mas sempre ouvimos dizer que as estradas espanholas são impossíveis.
— Elas não serão piores para nós do que para Carmona — argumentei. — Além disso, a maioria dos livros mais conhecidos sobre a Espanha está desatualizada. O Rei tornou o automobilismo moda ultimamente, e deve ter havido algumas tentativas de deixar as estradas em condições aceitáveis.
— Por acaso ouvi um americano que está aqui com um Panhard de sessenta cavalos, querendo ir para Sevilha, dizer a outro sujeito que tinha sido avisado de que não conseguiria passar de Madri.
— Nunca me importei muito com avisos na minha vida. Geralmente segui em frente e descobri as coisas por mim mesmo.
— Continuaremos na mesma linha. E, de qualquer forma, para onde quer que formos, temos certeza de um guia; nosso amigo, o inimigo.
O próximo passo era descobrir se o Duque realmente tinha trazido um automóvel para Biarritz; mas por mais que tentássemos, não conseguimos aprender nada. Foram feitas perguntas nas estações ferroviárias, tanto em Bayonne quanto em Biarritz, sobre se um automóvel tinha sido despachado recentemente; mas, como aconteceu, nenhum carro de qualquer tipo tinha chegado por ferrovia em nenhuma das direções durante a última quinzena.
Todas as principais garagens de Bayonne e Biarritz também foram visitadas, na esperança de encontrar um carro misterioso que pudesse ser o do Duque de Carmona; mas não havia um sequer cuja propriedade não pudéssemos rastrear. Enviamos então para Bordeaux, e até para St. Jean de Luz; mas em ambos os casos nossa busca foi vã. Se Carmona tinha um automóvel no Sul da França, ele estava bem escondido.
Quanto ao motorista que tinha inspecionado meu carro, e depois encontrado Carmona em outra garagem, ele tinha desaparecido, aparentemente, no ar.
No entanto, Dick e eu formamos a teoria de que o novo automóvel, do qual tínhamos ouvido tantos rumores, estava realmente em Biarritz; que tinha sido levado para a cidade depois de escurecer, e estava agora sendo mantido por algum amigo de Carmona em uma garagem privada. E se estivéssemos certos em nossas conjecturas, sentíamos que poderíamos tomar isso como um sinal certo de que o Duque não estava apenas planejando uma viagem importante, mas não estava esquecendo um detalhe de precaução que pudesse impedir que eu soubesse de suas intenções.
Como não podíamos colocar uma vigia sobre o motorista, colocamos uma vigia sobre o Duque; e foi Ropes quem, com considerável entusiasmo, assumiu a tarefa. Eu não queria trazer um estranho para o caso; e em Ropes eu podia confiar como confiava em mim mesmo. Portanto, foi Ropes quem discretamente seguiu os passos de Carmona desde o momento em que o Duque saía de manhã, até o momento em que ele entrava novamente à noite.
Enquanto isso, Dick tomou providências para se tornar correspondente do *The Daily Despatch* de Londres e do *The New York Recorder*, cujos editores ele conhecia pessoalmente. Ele gastou uma grande quantidade de dinheiro enviando mensagens longas, mas sua recompensa foi o sucesso, e, como ele disse, ele estava “orgulhoso do seu trabalho”, que pretendia realizar tão fielmente como se escrever impressões para jornais fosse o negócio da sua vida.
Além disso, repintamos o carro; compramos faróis de um tipo diferente; pedimos que cestas laterais fossem anexadas, de um vermelho para combinar com a nova cor; colocamos o monograma de Dick Waring, de gosto execrável, nas portas; enquanto, última e mais importante mudança de todas, de ser o número A12.901, o automóvel tornou-se, ilegal mas convincentemente, M14.317. Dispositivo mais astuto de todos, Ropes trocou as calotas da minha Gloria pelas de um Frenzel, tão parecidas com um Gloria quanto um Fiat é parecido com um Mercedes; de modo que apenas um especialista de muita experiência saberia que o carro não era um Frenzel.
Um secante rápido foi usado, e em dois dias estávamos prontos para qualquer coisa. Eu ainda esperava por uma carta de Monica, com algumas dicas sobre os planos de sua mãe, mas nada veio; e quando tivemos um dia em branco, sem notícias de atividade no campo inimigo, foi um alívio ter Ropes chegando ao hotel pela manhã, exatamente quando eu estava vestido.
Eu soube no momento em que vi seu rosto que algo emocionante tinha acontecido.
— O Duque partiu, meu senhor — informou ele; — partiu em um carro cinza-escuro, coberto; não consegui chegar perto o suficiente para ter certeza do que era, mas parece um Lecomte. Ele acabou de sair.
— Não sozinho?
— Não, meu senhor. Vou lhe contar exatamente o que aconteceu. Eu estava na janela do quartinho que aluguei sobre uma loja três dias atrás, à vista dos portões de entrada da Villa Isabella. Eram exatamente sete horas desta manhã quando um carro cinza, grande e elegante, entrou, talvez um quarenta cavalos, e do tipo Lecomte. O motorista usava óculos de proteção, mas sua figura era como a do sujeito que veio outro dia à nossa garagem. Cerca de meia hora depois, o carro saiu novamente, o Duque dirigindo, uma dama sentada ao lado dele, outras duas damas no *tonneau*, o motorista aos pés do Duque, e uma boa quantidade de bagagem no teto. No portão eles viraram como se fossem para San Sebastian; e eu vim avisá-lo.
— Isso mesmo. Prepare-se imediatamente para partir e traga o carro para cá assim que puder.
— O carro já está pronto, meu senhor, e eu também.
— Bom. Mas não me chame de "meu senhor". Agora que sou o Sr. George Smith, isso é ainda mais importante lembrar do que nos dias de Trevenna. E não se esqueça de que o carro é o carro do Sr. Waring.
— Não esquecerei, senhor.
Ele saiu para a garagem, e eu estava batendo à porta de Dick.
Dick estava dando o nó na gravata. — Pronto para partir em cinco minutos — disse ele.
— Como você adivinhou o que estava acontecendo?
— Seu rosto, d'Artagnan.
— Por que d'Artagnan? Já não tenho uma variedade grande o suficiente de nomes?
— Selecionei um adequado para a situação. D'Artagnan assumiu uma missão. Você também; e terá tantas dificuldades a superar antes de cumpri-la, se conseguir, quanto ele teve.
— Tolice. Estamos partindo para nos manter em contato com outro grupo de motoristas.
— Em um país proibido para um de nós.
— Esse um pode cuidar de si mesmo. Se uma dama em outro automóvel precisar de alguém para apoiá-la, estaremos no local para dar esse apoio, é só isso.
— Sim; é só isso — disse Dick, rindo. — E tudo o que d'Artagnan teve de fazer foi conseguir algumas abotoaduras de diamante que uma dama queria usar em um baile. Soa simples, eh? Mas d'Artagnan se divertiu no caminho, e eu apostaria o último dólar da minha pilha que nós também nos divertiremos. Maldita gravata! Pronto; estou pronto. Temos tempo para um café e uma torrada?
VII
A IMPUDÊNCIA DE MOSTRAR UM LENÇO
Quinze minutos depois, partimos.
Adoro dirigir meu carro, como adoro o sopro da vida, e sou convencido o suficiente para imaginar que ninguém mais, nem mesmo Ropes, consegue tirar dele o que eu tiro. Ainda assim, esta não estava destinada a ser precisamente uma viagem de prazer, e a prudência me ordenou entregar o leme a Dick. Ele é um motorista bom o suficiente; e o carro era dele agora; eu não passava de um passageiro insignificante, com um estojo de cartões de visita no bolso, recém-gravados com o nome de Sr. George Smith. Sentei-me, no entanto, no banco da frente ao lado de Dick, criticando silenciosamente cada movimento dele; Ropes estava no *tonneau*; a bagagem que tínhamos, no teto.
Eram quase oito horas, e havia tão pouco tráfego na cidade que não precisávamos nos preocupar com um limite legal. Deslizamos rapidamente ao longo da estrada branca e irregular em direção à estação ferroviária, passando por grandes vilas e gramados verdes, e fizemos a curva fechada à direita que leva para fora da agradável terra da França diretamente para a romântica Espanha, o país dos meus sonhos. Passamos por casas que olhavam de suas profundas florestas protetoras para um lago prateado, e longe, à distância, captamos vislumbres do mar. Diante de nós estavam montanhas graciosas e empilhadas, a massa ameada de Les Trois Couronnes brilhando com diamantes invernais. Contra o céu da manhã, erguia-se, claro e frio, o cone da distante La Rune.
Olhando para frente, em meus ouvidos cantava a canção do meu sangue, doce com esperança, enquanto o nome da garota que amo e a terra que amo se misturavam em música.
Ao ganhar os primeiros arredores da esparsa St. Jean de Luz, meus olhos e os de Dick caíram ao mesmo tempo sobre algo à nossa frente; um grande automóvel cinza, seu teto empilhado com bagagem, parado à beira da estrada, um motorista ocupado levantando as rodas motrizes com um macaco, um homem alto parado para observar o trabalho, com as mãos nos bolsos do seu casaco de pele. Instantaneamente Dick reduziu a velocidade do nosso carro, para se inclinar para fora quando chegamos a uma distância de fala, enquanto eu permanecia sentado, seguro de reconhecimento por trás de óculos de proteção elaboradamente horríveis.
— Há algo que possamos fazer? — perguntou Dick com a generosidade de um automobilista na maré cheia da fortuna para outro na má sorte. Notei, enquanto ele falava, que ele marcou seu sotaque americano o mais possível; tão marcado, que era quase como hastear as estrelas e listras sobre o Gloria transformado e repintado.
— Não, obrigado — disse Carmona; pois era ele quem estava na estrada observando enquanto seu motorista trabalhava. Ele tinha olhado para cima com ansiedade e vexação em seu rosto escuro e sem óculos, ao primeiro som de um carro se aproximando, e eu sabia bem que pensamento saltou em sua cabeça. Mas um carro vermelho, com um americano dirigindo, não era o que ele tinha quase esperado ver. Ele estava visivelmente aliviado; no entanto, ele demorou o suficiente para responder para nos trazer a uma parada, enquanto ele perscrutava as calotas das nossas rodas.
O nome enganoso, brilhando para seus olhos, tão evidentemente o tranquilizou que uma tentação me dominou, e eu cedi sem lutar.
Eu tinha vindo preparado para um sinal rápido para Monica sempre que uma oportunidade surgisse, e, como eu estava ansioso para deixá-la saber que ela não estava desprotegida, parecia-me que a primeira chance de fazê-lo era melhor do que a segunda.
No bolso interno do meu casaco, eu tinha o lenço de renda que tinha roubado na noite do baile. Enquanto Dick questionava Carmona, e Carmona respondia, eu mostrei rapidamente o pedaço de renda e o passei pelos meus lábios, não me virando para olhar plenamente para a figura esguia de casaco cinza no banco da frente, mas consciente por um olhar de lado que um rosto velado nos observava.
O que fiz foi feito tão rapidamente que acho que teria passado despercebido pelo Duque; mas Monica, pega completamente de surpresa, inclinou-se repentinamente para frente; então, lembrando-se da necessidade de cautela, inclinou-se apressadamente para trás contra as almofadas.
Carmona captou seu movimento nervoso, viu quão autoconsciente, quase rigidamente, ela se sentou quando se recuperou, e, com a suspeita instantaneamente alerta, virou um olhar de busca sobre nós.
O lenço de renda tinha desaparecido. Eu estava sentado indiferente, com os braços cruzados, meu interesse concentrado no motorista ocupado. Ainda assim, senti que não havia detalhe da minha figura e roupas de automobilismo que Carmona não estivesse observando enquanto explicava a Dick a natureza do seu contratempo.
— Um simples furo — disse ele. — E temos todos os meios necessários para consertá-lo, obrigado.
Dick e eu levantamos nossos bonés para as damas e seguimos nosso caminho; mas não foi até passarmos pela charmosa casa renascentista onde Luís XIV nasceu, que Waring fez qualquer comentário sobre o incidente.
— Se aquele sujeito de cara de mouro não está por dentro do jogo, ele está ficando muito "quente", como dizem as crianças — observou ele secamente.
— Ele não pode ter certeza — disse eu. — Mesmo se ele viu meu rosto, ele não poderia jurar identificá-lo, já que a única visão que ele teve de mim foi com aquela peruca amarela de Romeu, idiota. Além disso, Romeu não tinha bigode e, graças ao seu conselho, eu tenho. É a única coisa que fica visível sob os óculos.
— Uma espécie de "evento futuro projetando sua sombra antes". Eu não disse que ele sabia. Eu disse que ele adivinhou. Veja aqui, enquanto ele espera pelo pneu, poderíamos telegrafar desta cidade para a fronteira a tempo de fazer você ser parado?
— Deveríamos chegar lá antes de qualquer telegrama que ele pudesse enviar — disse eu, esperançoso. — No entanto, haverá muitas formalidades na alfândega. Eles poderiam nos pegar antes que terminássemos. Mas, incerto como ele deve estar, dificilmente valeria a pena para ele—
— Eu não apostaria muito nisso — disse Dick.
— Vamos correr — disse eu.
— Muito arriscado. Você se sentiria um asno tão inútil sendo detido por um policial gordo na porta da Espanha, enquanto Carmona e Lady Monica passariam e desapareceriam.
— Eu daria um tiro no policial gordo primeiro.
— Aí está você, sendo espanhol novamente, exatamente quando deveria desenvolver um pouco de bom senso.
Isso me estimulou, e em dois minutos eu tinha pensado em um plano, enquanto Dick assobiava e refletia.
Era um plano um tanto estranho, e só poderia ser realizado com a ajuda de outro. Mas esse outro nunca tinha me falhado, quando lealdade ou devoção eram necessárias; e eu não tinha dito nem metade da sugestão quando ele entendeu tudo, e implorou para fazer o que eu mal tinha gostado de pedir.
Levamos exatamente oito minutos, pelo relógio de Dick, fazendo arranjos para enfrentar uma emergência que eu esperava que não surgisse se nossa velocidade fosse boa e nossa sorte se mantivesse.
Já Hendaye, a última cidade francesa, estava a apenas um passo da nossa visão. Atravessamos em alta velocidade, passamos por Béhobie; e no momento seguinte nossos pneus rolavam por uma mistura marrom de lama francesa e espanhola na ponte internacional que atravessa o turbilhão do Bidasoa. Tínhamos passado da Gália para a Ibéria. No poste de ferro central, carregando de um lado o "R.F." da França, do outro as Armas Reais da Espanha, levantei meu boné em saudação à minha terra natal, exatamente onde, se eu fosse um inglês, o teria levantado para memórias do grande e velho Wellington.
O rio largo corria, verde e veloz, em direção a Fuenterrabia e ao mar, girando após a pequena Ile des Faisans, onde tanta história foi feita; onde Cardeais negociaram casamentos reais; onde Francisco I, prisioneiro, foi trocado por seus dois filhos. Estávamos através da água divisória agora, em Irun, e em solo espanhol. Soldados espanhóis de gola alta descansando perto de suas guaritas olhavam fixamente para nós, mas não fizeram nenhum movimento, pouco imaginando que o acusado lançador de bombas de Barcelona estava passando por eles através deste portão romântico para a Espanha. Viramos abruptamente à direita e, esperando ainda escapar de problemas, paramos na alfândega.
Apressar um funcionário espanhol, eu tinha ouvido meu pai dizer muitas vezes, nos velhos tempos, é uma coisa impossível, e evitamos um ar de ansiedade. Os três homens no grande carro vermelho pareciam não desejar nada melhor do que demorar na companhia dos *douaniers*. No entanto, o motorista estava tão ágil em seus movimentos quanto se atrevia a ser.
Foi ele quem pulou do *tonneau* e, em um espanhol aceitável, perguntou ao nosso inquisidor qual, se algum, de nossos estojos de bagagem ele desejava abrir. No mesmo instante, um cigarro propiciatório foi oferecido e aceito.
Cuidadosamente, o homem de sobretudo selecionou com o olhar uma peça de bagagem no teto do carro. A sorte estava conosco. Era a mais fácil de destrancar.
Num piscar de olhos (um americano, não um olho espanhol), a coisa estava embaixo e no escritório. O *douanier* estava prestes a inspecionar, à sua maneira lenta, quando um camponês entrou com algumas bolsas para serem pesadas.
Naturalmente, o funcionário entrou em conversa com o recém-chegado, e foi necessário lembrá-lo de que tínhamos o direito de precedência. Cada momento era importante, pois já havia tempo para um telegrama ter chegado. Logo haveria tempo para que suas instruções fossem cumpridas também. E, neste momento, percebi, como não tinha percebido totalmente antes, tudo o que significaria para mim de humilhação e derrota falhar ignominiosamente no limiar da minha aventura.
Foi difícil não mostrar impaciência enquanto a mão preguiçosa e manchada de cigarro do *douanier* vagava pelo conteúdo da mala. Quando qualquer artigo o confundia, ele parava; mais um minuto precioso se ia. Mas, eventualmente, tendo recebido uma explicação sobre um barbeador de segurança, ele ficou satisfeito com a inspeção da bagagem e indicou que ela poderia ser substituída. Então veio a questão do depósito de dinheiro para o carro, ao entrar na Espanha.
Muito cuidadosamente, o funcionário imperturbável examinou cada nota bancária espanhola que oferecemos; laboriosamente ele fez o recibo. Se ele tivesse pretendido nos deter, seus movimentos, suas palavras, não poderiam ter sido mais deliberados. Como eu tinha desejado ouvir novamente a língua espanhola falada por espanhóis na Espanha, e ainda assim como pouco eu fui capaz de apreciar a realização do meu desejo longamente acalentado! Finalmente, no entanto, cada formalidade foi cumprida, e estávamos livres para ir.
Com toda a velocidade, tomamos o homem pela palavra. O motorista de casaco de couro e perneiras de couro fez o coração do motor acompanhar o seu próprio, lançou-se no *tonneau* e não tinha fechado a porta quando Waring engatou a marcha, murmurando "Viva!".
Mais um segundo e estaríamos fora de alcance; mas mal o freio foi solto, teve que ser apertado novamente para evitar atropelar um sargento e dois soldados que correram e saltaram na nossa frente, ofegantes com uma pressa incomum.
Em sua mão, o sargento segurava um telegrama aberto.
— Você fala espanhol? — ele ofegou.
— Um pouco — disse Dick. — Francês melhor.
— Não falo francês, senhor — respondeu o sargento, — mas meu negócio não é tanto com você, mas com este cavalheiro — ele olhou para o telegrama, — no casaco cinza com gola de pele, o boné cinza, os óculos em uma máscara de feltro cinza, o pequeno bigode escuro, as luvas de camurça cinza. (Carmona tinha notado tudo.) — Nossas instruções são impedir que o Marquês de Casa Triana entre na Espanha.
— Casa Triana? O que você quer dizer? — gritou Dick. Então ele riu. — A pessoa de quem você está falando é espanhola?
— É, senhor.
Dick riu muito mais. — Bem, acho que você terá que procurar em outro lugar. Há um engano. O cavalheiro de casaco cinza e todas as outras coisas cinzas mal tem espanhol suficiente para saber do que você está falando.
O sargento encolheu os ombros e pareceu determinado. — Não há erro nas minhas instruções, señor. Sinto muito, mas é meu dever deter aquele cavalheiro. Se houver um erro, haverá pedidos de desculpas.
— Eu diria que houve, sem dúvida, um erro — resmungou Dick, em sua selvagem combinação de espanhol, inglês e americano. — George, mostre seu cartão. Ele acha que você é um espanhol que está sendo "procurado".
O cavalheiro de casaco cinza mostrou os cartões de visita do Sr. George Smith, e o soldado espanhol examinou-os sombriamente. — Qualquer um poderia ter estes — disse ele, metade para nós, metade para um grupo de seus compatriotas. — Señor, devo solicitar relutantemente que o senhor desça e venha comigo. Será muito melhor se o fizer calmamente.
— De todas as indignidades monstruosas — gritou Dick. — Sou um correspondente de jornal em missão especial. Vou telegrafar ao ministro americano em Madri, e ao embaixador inglês também. Eu vou...
Mas o cavalheiro de casaco cinza obedecera ao sargento. Ele também havia tirado seus óculos de proteção.
— Ficará tudo bem em algumas horas, ou alguns dias — disse ele em inglês. — Vocês devem seguir. Não se preocupem comigo.
— Seguir sem você? — repetiu Dick, quebrando novamente em um espanhol espantoso para o benefício do oficial. — Bem, se você realmente não se importa, já que estou com uma pressa dos diabos. Você pode nos seguir de trem, sabe, assim que provar a esses paspalhos que você é George Smith.
— Se o senhor é o Señor George Smith, estará livre assim que a fotografia do Marqués de Casa Triana for enviada pela polícia de Madri — disse o sargento. — Se não... — ele não terminou a frase; mas a pausa foi significativa. E os soldados se aproximaram para separar o suposto George Smith de seus companheiros de carro, para que, no último momento, não tentassem um resgate.
— Faremos com que se arrependam disto, George — disse Dick. — Mas, como realmente não podemos fazer muito por você aqui, seguiremos para outro lugar, onde possamos.
— Devo pedir também o nome do proprietário deste automóvel, e o de seu chofer — insistiu o sargento, — antes que eu possa deixá-los ir.
— Oh, tudo bem — disse Dick, irritado, apresentando seu passaporte e cartões com os nomes dos jornais para os quais havia se comprometido a escrever. — Ropes, desembolse suas credenciais.
O chofer trouxe seus papéis franceses e apontou para o nome de Peter Ropes. O sargento anotou diligentemente tudo em seu caderno, um objeto engordurado e proibitivo.
— É satisfatório — disse ele com dignidade; — podem prosseguir, señores.
O motor não havia sido desligado durante a cena; e, enquanto o cavalheiro de casaco cinza era levado para o posto da guarda com uma multidão espanhola empurrando a seus calcanhares, o carro vermelho em que ele fora passageiro pouco antes deslizou e o deixou para trás.
Através das ruas de Irun, ele passou em passo de funeral, como se em respeito e pesar por um amigo que fora perdido; mas, uma vez fora na verde e ondulante paisagem além, imprimiu uma grande arrancada de velocidade, depois que o chofer subiu no banco da frente.
— Por todos os diabos, estou tão quente como se tivesse saído de um banho turco — resmungou Dick.
— Foram dez minutos quentes — disse eu. — Pobre velho Ropes — abençoado seja! — E enviei um suspiro de gratidão ao amigo leal em meu sobretudo cinza, boné, óculos de proteção e luvas, a cuja lealdade eu devia a liberdade.
VIII
ALÉM DA FRONTEIRA
Aqui estava eu na Espanha, minha Espanha — graças a Ropes; e, novamente graças a ele, provavelmente fora de perigo das suspeitas de Carmona por algum tempo, salvo acidentes.
Ele faria perguntas em Irun quando chegasse lá e, ao saber que a pessoa detida fora retida de acordo com as informações recebidas dele, seguiria triunfante. Mesmo quando o destino unisse seu carro ao nosso, como eu esperava que acontecesse frequentemente, a visão dos dois viajantes restantes, o automobilista americano e seu chofer horrivelmente protegido por óculos, causaria mais diversão do que inquietação.
Ele diria a si mesmo que, no que lhe dizia respeito, nenhum mal fora feito, mesmo que nenhum bem houvesse sido realizado; pois se o passageiro banido fosse realmente Casa Triana, ele fizera bem em livrar-se dele. Se, afinal, sua suspeita rápida tivesse sido exagerada e ele tivesse causado a prisão de um turista inocente, esse turista nunca saberia a quem devia sua aventura e seria impotente para incomodar o Duque de Carmona. Quanto a Ropes, quando a fotografia tirada de mim anos atrás pela polícia de Barcelona chegasse à polícia de Irun, ver-se-ia que dois jovens de vinte e sete anos, altos, esguios e com bigodes escuros, não necessariamente se parecem em outros detalhes. O Sr. George Smith seria generosamente perdoado por ter ocupado a atenção da polícia no lugar do Marqués de Casa Triana, e ele estaria livre para se juntar a seus companheiros de viagem.
Durante os três ou quatro minutos de discussão que tivemos antes de fazer a "troca rápida" que transformou o mestre em servo, havíamos combinado nos comunicar com Ropes por meio de anúncios no La Independencia. Enviaríamos dinheiro adiantado para aquele jornal, o suficiente para pagar vários anúncios, e poderíamos então telegrafar nosso paradeiro no último minuto, sempre que os movimentos do carro de Carmona nos dessem o sinal.
Este foi o melhor arranjo que pudemos fazer às pressas e, quando tivemos tempo para refletir, não nos pareceu que, nas circunstâncias, pudéssemos ter feito melhor.
E assim, acontecesse o que acontecesse, o fora da lei cruzara a fronteira e estava no país proibido de suas esperanças e de seu coração.
Apesar do remorso por causa de Ropes, eu estava feliz, desesperadamente feliz. Eu estava livre para vigiar a garota que eu amava e que me amava; e eu estava bebendo o ar da pátria. Parecia realmente mais doce e mais vivificante do que em qualquer outra parte do mundo.
Dick riu quando mencionei essa impressão e disse que eu deveria experimentar o clima da América antes de julgar; mas ele admitiu a extraordinária, embora quase indefinível, individualidade da paisagem, bem como da arquitetura, que atingia o olhar instantaneamente ao cruzar a fronteira.
Era fácil classificar como peculiarmente espanholas as antigas igrejas bascas, as longas linhas escuras de casas sombrias eriçadas de pequenas varandas e cintilantes com janelas salientes, cujos vidros intrincados davam correntes de ar ascendentes no tempo quente. Tudo isso, e muito mais, era óbvio na cidade ou na aldeia; mas Dick e eu discutimos sobre os traços distintivos da paisagem sem sondar o mistério que a separava de outras paisagens.
O que era tão peculiar? Havia sebes, choupos e outras árvores que tínhamos visto mil vezes em outros lugares. Havia uma estrada sinuosa bonita, embora não extravagantemente bonita, de superfície razoável estendendo-se diante de nós, paralelamente ao mar, oferecendo vislumbres aqui e ali de portos fechados com carvoeiros e navios de carga ancorados. Havia um pano de fundo distante de montanhas nevadas e um primeiro plano em mudança de grama de primavera e flores de primavera; ramos entrelaçados bordados com folhas novas daquele amarelo rosado que vem antes do verde do verão.
Não deveria haver nada de notável, exceto pelas figuras em movimento que aqui e ali a tornavam pictórica; homens escuros e eretos em coletes vermelhos, conduzindo burros; garotas de olhos aveludados, sem cobertura para a cabeça além de suas coroas brilhantes de cabelos pretos como azeviche, e nenhuma para seus pés e tornozelos bronzeados, embora carregassem sapatos nas mãos; padres de negro; monges de marrom; oficiais elegantes; soldados com xacos rígidos e brilhantes, e luvas verdes; bois com almofadas de lã em suas cabeças clássicas, cor de biscoito. No entanto, Dick concordou comigo em achar a paisagem notável.
Finalmente, começamos a nos perguntar se a diferença não residia na coloração e na atmosfera. Os efeitos do céu eram radiantes o suficiente para fazer a alma de um artista cantar, devido às luzes opalas, aos bancos violetas de nuvens com franjas irregulares e cristalinas de chuva, aos brilhos de diamante arrancados dos picos nevados; e, no entanto, apesar desse brilho etéreo, havia uma estranha solenidade nas vastas extensões da paisagem espanhola, uma penumbra rica que pairava sobre o terreno com sua coloração pensativa, nunca por um momento brilhante, nunca alegre.
— É uma terra de vitrais pintados — disse eu. — Vidro antigo, pintado por algum artista famoso que morreu no século XIV, e um pouco desbotado — não, suavizado pelo tempo.
— Você acertou — disse Dick. — Há um aspecto de vitral antigo em uma catedral sombria sobre o céu. Dá uma espécie de sentimento religioso, ou de qualquer modo, como se você fosse expulso da imagem se fosse muito frívolo.
— Sinto-me longe de ser frívolo — disse eu. — Mas estou animado. Veja aqui; estaremos em San Sebastian e fora de San Sebastian logo, se continuarmos. Mas não devemos continuar; pois se o fizermos, podemos perder o outro carro, e então eu ficaria tão mal quanto se estivesse no lugar de Ropes em Irun.
— Sabemos que eles estão indo para Sevilha — disse Dick.
— É um longo caminho até Sevilha. E Carmona pode pretender viajar por Madri, através de Vitoria e Burgos, ou pode pretender seguir uma estrada que Levavasseur, em Biarritz, me disse que era melhor, indo para Sevilha via Santander e Salamanca. Depende de se ele quer parar na capital, suponho. De qualquer forma, como ele está inconscientemente fazendo nossos arranjos, bem como os dele, não há nada a fazer a não ser esperar até que ele passe e nos dê nossa dianteira.
— Para mim, tanto faz se paramos ou corremos — disse Dick. — Tenho mais tempo do que qualquer outra coisa. Este é o seu circo; eu sou apenas o "melhor amigo do prisioneiro", como dizem em uma corte marcial. Mas se formos a Burgos, tenho uma tarefa a fazer, se você não se importar.
— Por que eu me importaria? — perguntei.
— É para visitar uma jovem.
— Você nunca mencionou ter amigos lá.
— Ela é amiga de Angèle de la Mole. Tudo o que sei é que ela é irlandesa, chama-se O’Donnel; que tem um pai inofensivo e necessário, e um irmão em quem minha alma profética me diz que Angèle está interessada; que o papai e a filha estão visitando o irmão, que está no exército espanhol por alguma razão estranha e inexplicável, e está estacionado em Burgos. Prometi levar um pacote com um presente de Angèle para a Srta. O’Donnel se parássemos tempo suficiente em Burgos, ou, se não fôssemos lá, enviá-lo pelo correio. Tenho também uma carta nos apresentando ao papai. Angèle disse que era possível que ele tivesse conhecido seu pai, então provavelmente ele viveu bastante na Espanha em algum momento ou outro, ou a ideia não lhe teria ocorrido. Ela pensou que, se fôssemos ver os O’Donnel, o papai poderia ser útil caso você lhe contasse quem você realmente era; mas eu não deveria incomodá-lo sobre sair do seu caminho por causa deles; essa é a razão pela qual não os mencionei até agora, quando você falou de Burgos.
— Se Carmona for naquela direção, é quase certo que passará a noite lá — disse eu, com base no conhecimento que muito estudo de mapas rodoviários espanhóis me dera. — Nesse caso, passaremos a noite também, e haverá tempo para você visitar seus O’Donnels; mas, quanto a mim, não sei se seria sensato confiar em pessoas estranhas. E, se não for decepcioná-lo, espero que não tenhamos que passar por Burgos, embora digam que a catedral é uma das mais belas do mundo, pois se a estrada for tão ruim quanto dizem os rumores, deve ser abominável.
— Bem, você tem suas molas amarradas com um milhão de metros de corda resistente, de propósito; e aqueles amortecedores extras de borracha que Ropes colocou para evitar que os pneus roçassem contra os para-lamas; então devemos nos sair muito bem na pior das hipóteses — observou Dick. — Quanto a mim, sentirei-me defraudado se o carro não começar logo a pular como um camurça de um obstáculo horrível para outro, ao longo da superfície da estrada, tantas coisas terríveis foram marteladas em meus ouvidos sobre Castela e La Mancha. Até agora, não temos do que reclamar, e temos estado no veludo, em comparação com algumas das atrocidades de pavé que se recordam na Bélgica e no norte da França.
— Suponho que ainda chegaremos ao ato da camurça — disse eu. — Mas, até agora, ainda estamos no coração da civilização. Aqui está San Sebastian, e aqui está um café perto de onde Carmona deve passar, então vamos parar e ficar à espreita.
IX
UMA PERSEGUIÇÃO INCESSANTE
Estávamos nos arredores de San Sebastian e, para chegar ao café, saímos da estrada principal e entramos em uma rua lateral. Lá, sem sermos notados, podíamos ver tudo o que passava pela estrada à frente. Tomamos um vermute, sentados a uma pequena mesa de ferro do lado de fora da porta do café, para justificar nossa presença. A cada momento, esperávamos ver o carro do Duque passar, mas o tempo passava e ele não vinha. Terminamos nossa primeira dose de vermute e tomamos uma segunda, com a qual brincamos e não bebemos, para garantir nosso lugar.
Teriam furado outro pneu? Carmona teria parado em Irun, e teria ocorrido algum contratempo lá que pudesse, afinal, colocar a polícia em meu rastro?
Dick e eu estávamos começando a ficar inquietos, perguntando um ao outro com sobrancelhas erguidas, quando o grande automóvel cinza passou rapidamente pelo final de nossa rua. Nem uma cabeça no carro se virou em nossa direção; e, deixando algumas pesetas na mesa, saltamos para assumir o controle de nosso próprio navio rodoviário. Tão rápida foi nossa partida que, quando giramos para a estrada, lá estava nosso líder ainda à vista.
Eu ouvira meu pai falar muitas vezes de San Sebastian, que, situada no coração do país basco, fora o grande centro carlista e, mesmo quando as esperanças carlistas morreram, reteve com firmeza as tradições carlistas. Mas, carlista como ele era de coração até o dia de sua morte, ele não podia deixar de apreciar o tato da Rainha Cristina, por cujo desejo uma villa real de verão se erguera sobre as águas da baía. Graças a esse golpe de política inteligente, uma cidade pobre e descontente foi transformada no balneário mais elegante da Espanha, e certamente, se lentamente, o descontentamento se fundiu em uma satisfação próspera.
Por causa das histórias que ouvira meu pai contar, eu gostaria de explorar o lugar; mas a única coisa importante agora era manter o carro cinza à vista até que pudéssemos ter certeza de qual estrada ele tomaria; então só havia tempo para breves olhares para a direita e para a esquerda enquanto passávamos rapidamente.
Através de ruas com casas modernas e altas, mais parisienses do que espanholas, chegamos finalmente a um boulevard largo que nos conduziu pelo mar. Havia em casa uma foto da baía profunda, em forma de concha, guardada pelos imponentes promontórios de Monte Urgull e Monte Igueldo, palco de muitos combates na guerra carlista. O palácio real, Villa Miramar, era novo para mim, exceto pelas muitas fotografias que dele vira em Biarritz; mas não tivemos mais do que um vislumbre da modesta casa de tijolos vermelhos na colina, antes de atravessarmos um túnel que perfurava um promontório rochoso e sairmos em campo aberto.
Agora nosso progresso se desenvolveu em uma perseguição incessante. Por uma curva errada em uma rua de San Sebastian, perdemos o carro da frente por alguns momentos, mas, além da cidade, onde lama, fresca após uma chuva recente, jazia com uma polegada de espessura na estrada, encontramos o rastro do inimigo que fugia.
Lá estava a trilha dos "pneus", tão clara de ler quanto uma mensagem escrita, e seguimos, aliviados da dúvida.
Seguimos, seguimos em direção ao sul, e às montanhas de Navarra, e minha mente estava finalmente livre o suficiente de tensão para exultar em cada novo vislumbre da terra pela qual eu ansiava.
Desde que tive idade para ler, mergulhei na história e na lenda do meu próprio país. Eu conhecia todas as suas guerras e onde foram travadas; conhecia os nomes das cidades e aldeias, insignificantes em si mesmas, talvez, mas tornadas famosas por grandes vitórias ou derrotas; e havia tempo para pensar nelas agora, enquanto passávamos pelo caminho que os heróis da Guerra Peninsular haviam tomado; mas não havia tempo para demorar-se em marcos, nem mesmo em Hernani, onde a legião britânica de De Lacy Evans foi destruída pelo exército carlista em 1836, e onde, na igreja, poderíamos ter visto o túmulo daquele soldado espanhol que, em Pavia, fez prisioneiro Francisco I.
A chuva caiu em aguaceiros rápidos e ferozes, mas nos deixou secos sob a cobertura de nosso carro; e enquanto corríamos, brilhos repentinos de luz solar brilhando nas calçadas de pedra molhada de pequenas aldeias marrons transformavam as ruas em prata cintilante; enquanto além, as árvores espalhavam ouro como fontes mágicas contra o brilho branco de picos nevados distantes.
Assim subimos a estrada sinuosa pelo rio Urumea, abrindo caminho profundamente para o coração das montanhas; subindo cada vez mais alto com uma visão mais ampla se desdobrando diante de nossos olhos — uma visão tão nova, tão estranha para mim quanto para Dick Waring. E, no entanto, eu me sentia em casa, como se a conhecesse desde sempre.
À medida que subíamos, as estradas faziam o que podiam para merecer sua má reputação. A chuva de alguns dias atrás fora neve nas montanhas. A superfície da estrada tornou-se como cola e, apesar das faixas antiderrapantes e da direção cuidadosa de Waring, o carro declarou uma tendência esportiva para valsar. Logo a cola se liquefez. Estávamos correndo através de lençóis de sopa amarela, que jorravam de nossos pneus em duas grandes ondas curvas, salpicando da cabeça aos pés os poucos viajantes que encontrávamos. Pelo vidro da frente corria uma catarata de lama, e Waring só conseguia dirigir olhando de lado. Lançada pelas rodas dianteiras, a torrente amarela batia no teto, de modo que estávamos dirigindo sob um arco voador de terra espanhola líquida.
Com a aproximação de uma cidade, no entanto, o caminho melhorou. O lugar era Tolosa, e ao som de nosso motor à distância, um grito de "Automovile, automovile" veio agudamente de uma dezena de gargantas infantis. Mesmo os adultos corriam para fora e ficavam muito mais animados do que teríamos esperado nesta parte da Espanha, tão frequentada por automóveis, entre Biarritz e Madri. Em uma cidade francesa do mesmo tamanho, dificilmente uma cabeça se viraria se um automóvel passasse; aqui as pessoas estavam tão satisfeitas como se fôssemos um circo, embora apenas alguns momentos antes devessem ter tido a alegria de ver o carro de Carmona passar.
— Se é assim no norte, como deve ser ao sul de Madri? — disse eu. — Aqui eles são todos maravilhosamente bem-humorados; encantados conosco nas cidades e aldeias — acredito que pagariam para nos ver se precisassem! — os trabalhadores da estrada fazem saudações militares, e até mesmo os homens cujas mulas e burros estão assustados sorriem enquanto cobrem o rosto dos animais bobos com seus xales.
— Isso é porque nos comportamos como seres humanos decentes em vez de escorpiões de coração de mármore — disse Dick, com uma originalidade de símile que ele cultiva. — Quando vemos que estamos assustando alguma coisa, diminuímos a velocidade, soltamos a embreagem e deslizamos tão furtivamente que a criatura não tem desculpa para ataques histéricos. Eu costumava pensar, antes que você me ensinasse a dirigir e eu tivesse a experiência e a responsabilidade, que você perdia tempo se curvando aos preconceitos animais; mas mudei de ideia. Aprendi que não há diversão em ser egoísta como um porco na estrada e deixar um rastro de angústia para trás.
— Se você não tivesse chegado a sentir isso, eu não poderia ter passado meu carro para você — disse eu. — A brutalidade na estrada seria particularmente brutal na Espanha, onde o automobilismo é um novo esporte, e os camponeses devem ser acostumados a ele. Todo motorista que diminui a velocidade para animais assustados, ou sai para ajudar, está pavimentando o caminho para futuros motoristas.
— De alguma forma, não acredito que Carmona pavimentará muito para nós — disse Dick, rindo.
— Monica não tolerará se ele não o fizer — disse eu. — Ele a tem sentada ao lado dele, o mendigo; e é seu dever agradá-la.
Tínhamos perdido o rastro dos pneus, mas à medida que o terreno mudava, voltamos a encontrá-lo. Estávamos agora entre árvores, e as encostas das montanhas eram verdes com carvalhos e álamos, embora, à medida que descíamos, a paisagem escurecesse para a desolação. O canto desolado do mundo em direção ao qual corríamos tinha aquela aparência informe e inexpressiva que se vê em rostos comuns, como se tivesse sido misturado descuidadamente pelo grande Criador em um momento de distração.
Nenhuma paisagem pode ser pouco atraente para um motorista enquanto seu carro funciona bem e o vento suave sopra contra seu rosto; mas até eu tive de admitir que este país — iluminado apenas pelas montanhas nevadas que cercavam o horizonte — seria irremediável nos calores estagnados do verão.
Meu mapa, que consultei enquanto Dick dirigia, dizia que tínhamos passado de Navarra para Álava; e subitamente notei que havíamos atravessado a bacia hidrográfica, pois os riachos brilhantes, em vez de correrem para o Golfo da Biscaia, teciam fios de prata em direção ao Ebro, a caminho de desaguar no Mediterrâneo, perto de Tarragona.
Aqui e ali, meu anseio pelo estranho e pitoresco era gratificado pela graça trágica de uma torre de vigia alta e arruinada, coroando uma colina desolada, um lembrete vívido dos dias em que sinais de fogo vermelho brilhavam de colina em colina para chamar os bons homens cristãos às armas contra os mouros. Às vezes, ondas cremosas de ovelhas pirenaicas surgiam ao redor do nosso carro, criaturas graciosas e belas com estandartes de lã esvoaçantes, e rostos apenas menos inteligentes do que os do cão cinzento que as organizava, e do pastor moreno em trajes esvoaçantes de vermelho e azul.
Quanto mais ao sul chegávamos, mais escuros se tornavam os bois de olhos dóceis que nosso automóvel assustava. Em Biarritz e além, eram de um tom de biscoito pálido; aqui, o sol parecia tê-los cozido até um marrom mais rico.
No entanto, aquele sol não nos deu boas-vindas calorosas hoje. Fomos picados pelo vento amargo, que nos atingiu com mais frieza por estarmos com fome; e, por volta das duas horas, não ficamos tristes ao ver, no meio de uma planície extensa, a Concha de Alava — uma cidade grande que sabíamos ser Vitoria.
O almoço ali poderia ser garantido. Estava frio demais para que uma refeição ao ar livre fosse viável com senhoras, portanto, o carro de Carmona deveria parar por uma ou duas horas, e agora estava claro que ele seguiria pelo caminho de Burgos; consequentemente, era provável que a carta de Angèle de la Mole fosse entregue em mãos.
Entramos furtivamente em Vitoria, olhando em volta de forma furtiva à procura de um grande Lecomte cinzento; mas não demorou muito para que o avistássemos à distância, na rua principal, parado diante do hotel principal.
Eu teria dado muito se pudesse ter enviado um aviso a Monica; pois, mesmo que ela tivesse visto o carro vermelho seguindo-nos desde Irun, ela provavelmente estava infeliz com o pensamento de que eu tinha sido mandado embora na porta da Espanha.
Claro, por medo de desgostá-la, Carmona poderia ter mantido a cortina abaixada sobre o pequeno drama que ele havia encenado. O ocultamento teria sido difícil, no entanto, já que ele deve ter assinado seu telegrama para a polícia; e, ao chegar à alfândega, alguns dos fatos estariam sujeitos a vazar aos ouvidos de Monica.
Era duro que ela devesse estar angustiada por minha causa, bem como pela dela; mas meu primeiro duelo com o Duque tinha me alertado contra a imprudência, e decidi que nada poderia ser feito até chegarmos a Burgos. Lá, de alguma forma, eu encontraria um jeito de deixá-la saber que fui eu, e não o Duque, quem levou a melhor.
Antes de me juntar a Dick no almoço, contratei um menino que vendia jornais na rua para nos avisar quando o outro carro partisse. Isso era para evitar que nos escapassem por qualquer acaso; mas provou ser uma precaução desnecessária, pois devoramos um menu espanhol, e o carro cinzento ainda dormia em sua camada de lama mais cinzenta diante do hotel escolhido; portanto, Dick e eu engolimos uma impressão apressada de Vitoria, tal como engolimos nosso almoço.
Ele leu em voz alta enquanto caminhávamos, trechos de um guia sobre Wellington, o Rei José e a batalha de Vitoria que decidira o destino da Guerra Peninsular; mas, por acaso, eu estava mais interessado em um estranho efeito de luz e sombra no céu que, por um momento, criou uma imagem inesquecível.
Outra tempestade selvagem de abril estava se formando, e onde estávamos na praça, abaixo do longo lance de degraus de pedra, a alta catedral acima parecia construída contra uma parede de nuvens de ébano. Um longo sabre de luz solar atingiu a torre e lançou um raio de ouro refletido sobre a Virgem branca em seu nicho. Sobre toda a cidade não havia outro lampejo de luz, e a tarde escurecera tanto que era como se um véu de luto pendesse entre nossos olhos e o céu solene.
De repente, os sinos de tom profundo da catedral soaram; e, com a abertura das portas, centenas de mulheres vestidas de preto, com mantilhas pretas bem dobradas, saíram, descendo a escadaria dupla em direção à praça.
À medida que se aproximavam, e cada figura ganhava significado individual com a quebra da nuvem, os ricos marrons e cinzas sombreados de azul dos edifícios — profundos e macios como veludo — adquiriram um valor fino como pano de fundo para os rostos emoldurados por renda e as cores vivas das capas das crianças pequenas.
Por um único instante, esqueci até mesmo de Monica, na sensação vibrante de que a vida da Espanha pulsava ao meu redor, mas um toque em meu braço trouxe-me de volta a ela num salto.
— O carro cinzento está se preparando para partir, señor — murmurou uma voz espanhola, enquanto dois olhos espanhóis olhavam para cima — esperançosos por pesetas — para os meus.
X
O IMPREVISTO DA SENHORITA O’DONNEL
Acho que nem uma única vez Carmona ou qualquer outra pessoa no Lecomte avistou o carro que, com a obstinação incansável de um cão de caça, manteve-se no rastro fresco dos pneus que recomeçaram fora de Vitoria; pois, enquanto tivéssemos o rastro, estávamos satisfeitos em pairar sempre além do campo de visão daqueles à frente.
Tínhamos uma multidão para nos ver partir da cidade, uma multidão risonha que parecia se perguntar por que pessoas em seu juízo perfeito correriam pelo mundo quando poderiam ficar em casa e tirar siestas. E os camponeses à beira da estrada também eram surpreendentemente bem-humorados, embora perturbássemos seus afazeres e transtornássemos os cálculos de seus animais.
Imponentes señores espanhóis, cujas longas capas marrons ou índigo arrastavam-se sobre o dorso de suas mulas, sorriam pensativos e não nos invejavam, talvez até nos piedosamente. Mulheres descalças com xales amarelos davam sorrisos gentis e lançavam olhares de olhos como estrelas, tão frequentemente azuis quanto pretos, mas sempre singularmente celtas. Quase não havia rosto que não fosse dotado de traços celtas graves; pois celtas estas pessoas eram muito antes de serem espanhóis; e não há tipo tão persistente, exceto o judeu.
Um velho bonito em um burro perdeu tanto o controle de sua besta quando surgimos que foi desalojado, e teria caído de cara se não tivesse enredado os joelhos em algum traçado intrincado de corda. O animal assustado girava e girava no meio da estrada, como um gato perseguindo a própria cauda, com o cavaleiro tombando, seu nariz bem delineado quase raspando o chão.
Nosso carro parou e eu saí num instante, embora devesse ter sido um momento longo e vertiginoso para aquela roca de fiar humana. Alguns segundos confusos, e eu o tinha desenrolado e recolocado no assento, sem esperar gratidão. Mas, para minha surpresa, quando coloquei o velho de pé novamente, encontrei-o banhado em sorrisos, derramando agradecimentos e desejos de boa viagem. Lembrando-me de experiências em outros países que se autodenominam esclarecidos, brilhei de orgulho pelos meus compatriotas, especialmente quando a vítima do progresso educadamente recusou cinco pesetas.
À medida que chegávamos mais perto da Velha Castela, a terra antiga de muitos castelos, senti-me como um homem deve sentir-se quando finalmente chega a uma casa que é sua, embora nunca até agora tivesse segurado a chave e estado livre para entrar.
As províncias do norte, povoadas por bascos misteriosos, alheios a nós em sangue e língua, eu mal podia considerar como Espanha. Mas em Castela vi o coração e a cidadela do meu país natal. Meu pai era andaluz; minha mãe, castelhana, e ela costumava dizer que em minha natureza estavam unidas as qualidades das duas províncias — o orgulho e a teimosia castelhanos; a alegria e a imprudência do verdadeiro andaluz.
Eu esperava que alguma mudança de cenário, algum sinal dado pela Natureza, pudesse marcar a passagem para Castilla la Vieja; por isso, fiquei grato quando o carro correu sobre uma ponte imponente, suspensa acima de um rio largo que era uma torrente de ouro manchado. De lá, olhamos para a velha cidade de Miranda del Ebro, com seus contrafortes e varandas, estranha e até surpreendente em seu cenário selvagem de montanhas brancas; e, ao desacelerarmos em admiração, de um túnel escuro e secreto que era a rua principal do lugar, parecia soprar, como pétalas de flores levadas pelo vento, um bando de meninas em amarelo dourado, vermelho tulipa e azul íris. Então, enquanto olhávamos, seguiu-se uma fila de mulas pretas com arreios carmesim, pressionadas por uma dúzia de jovens de calças azuis curtas, cobertos como bascos com a boina vermelha.
Era como entrar em um quadro que nossa chegada tinha, de alguma forma mágica, dotado de vida; e o efeito não passou enquanto corríamos para o túnel de sombra, onde a poeira marrom se iluminava com chamas de cor. Sob as varandas eriçadas sobre ruas estreitas, pequenas lojas e barracas brilhavam com pimentões vermelhos e verdes, resplandeciam com laranjas e o ouro mais pálido dos limões, cintilavam com pernas gigantes que eram cebolas espanholas.
Miranda, pensei, era digna da Velha Castela; e quando, pouco mais adiante, o caminho pareceu bloqueado por uma alta cordilheira lançada através de nosso trajeto, comecei a esperar que o país de minha mãe — aquele lar do mais alto orgulho e honra espanhóis — tivesse alguma magnificência real de cenário para nos dar. Entramos no esplêndido lúgubre do desfiladeiro de Pancorbo, cortado como uma fenda de espada na rocha; e eu disse que essa cena sozinha valia uma viagem à Espanha.
Havia espaço apenas para a estrada e o espumante Oroncillo rasgando seu caminho através da montanha. Bem acima de nossas cabeças, onde dedos de luz solar tateavam, a ferrovia de Paris a Madri enlaçava sua teia de aranha ao longo do precipício, serpenteando através de túnel após túnel em rivalidade em miniatura com as sublimidades do São Gotardo. Abaixo, nas profundezas da sombra do desfiladeiro, agachava-se a triste aldeia de Pancorbo, atingida, desolada, articulada apenas em seus dois castelos em ruínas na altura, Santa Engracia e Santa Marta, implorando ao Céu com um apelo silencioso. Ainda mais alto, erguia-se uma montanha guardiã de uma majestade assombrosa, parecendo sustentar no alto, sobre uma almofada petrificada, uma coroa real de ferro. Era um lugar para evocar na memória com os olhos fechados. Esta foi a entrada majestosa para Castela; mas ela elevou minhas esperanças apenas para derrubá-las. Uma vez passadas as agulhas serrilhadas e os dedos de rocha dolomita que faziam a grandeza do desfiladeiro, chegamos novamente à monotonia do contorno e começamos a perceber Castela como ela é; uma estepe vasta e solitária, varrida pelo vento, limitada por um horizonte infinito.
Sem árvores, silenciosa, ininterrupta por sebes ou limites, guardada por uma torre de vigia em ruínas em cada colina crescente, a planície ilimitada jazia sombria e impressionante.
Nenhum trabalhador podia ser visto; nenhuma aldeia estava à vista, de onde homens pudessem vir para cultivar a terra; no entanto, em toda parte havia sinais de cultivo por mãos invisíveis, colheitas a serem ceifadas por homens que surgiriam de onde não se sabia.
Contudo, a monotonia desses espaços tremendos era redimida por tal esplendor mutável de cores como eu nunca tinha visto. Ondulações crescentes, dignas de serem chamadas de montanhas, eram quentes com o roxo da urze, embora nenhuma urze crescesse nelas. Às vezes, você poderia ter imaginado, a partir de uma súbita explosão de radiância no topo de uma colina distante, que um arco-íris tinha se deitado para descansar. E através de tudo, nunca esteve ausente aquela impressão de que este era um país de vitrais, com seus tons ricos de carmesim e violeta, seus céus palidamente luminosos e a solenidade de seus matizes misturados. Sempre havia um efeito persistente de tristeza, mesmo na pureza primaveril daqueles arcos de flores brancas que decoravam a monotonia marrom de nossas estradas.
O céu ainda ardia em vermelho escuro quando, no meio de uma planície vasta, as torres gêmeas de Burgos ergueram-se para nossos olhos contra um véu de rosa do pôr do sol preso com as cabeças de diamante das estrelas. Longe à nossa esquerda, enquanto corríamos em direção à cidade, havia um edifício escuro como a capela do Eton College, em pé sobre uma colina varrida pelo vento; e isso eu sabia ser o convento de Miraflores, onde Isabel a Católica empregou Gil de Siloe para fazer para seu pai e sua mãe o “túmulo mais belo do mundo”.
Senti um sentido de posse na grande cidade velha, chegando a ela assim, em seu melhor momento; e fiquei feliz que o destino tivesse me levado para minha própria terra em automóvel. Mesmo que, ao seguir Carmona para vigiar a garota que ambos amávamos, eu pudesse ter que ficar frequentemente na trilha batida, banalizada por turistas, o caminho nunca seria realmente banal, como para os turistas que fazem o circuito comum de trem.
Cada nova hora de vida na estrada construiria para mim um conhecimento de meu povo e de meu país. Eu não estaria estudando-o de forma óbvia, estilo guia turístico, e aprenderia mais sobre a verdadeira Espanha em algumas semanas do que em meses de um consciencioso percurso ferroviário de um ponto a outro.
Não havia dúvida sobre qual hotel Carmona poderia escolher. Ele iria para o melhor; consequentemente, pessoas discretas cujas esperanças residiam em manter-se em segundo plano deviam selecionar um menos bom.
Paramos fora da cidade, enquanto eu consultava um guia para a fonda mais espanhola em Burgos. Quando, esforçando meus olhos no crepúsculo, li um nome, Dick exclamou: “É onde os amigos da Angèle, os O’Donnels, estão hospedados.”
— Tanto melhor — disse eu. — Você pode cumprir sua comissão sem problemas. Talvez você os veja no jantar. Eles certamente serão os únicos estrangeiros lá, então será fácil escolher seus rostos irlandeses em uma sala de jantar cheia de espanhóis.
Havia pouco espaço em minha mente para a família O’Donnel, no entanto. Estávamos perto de Monica agora, e meu único desejo era deixá-la saber que eu não tinha falhado.
Dirigimos através de um belo portal antigo, subindo uma rua larga e passando por grandes quartéis, em frente aos quais ficava o hotel onde Carmona pararia. Mas seu Lecomte já tinha desaparecido; e, embora Dick clamasse pelo jantar, esperei apenas o tempo suficiente para garantir quartos em nossa própria fonda e guardar o carro, antes de sair em busca de informações.
A esta altura, o Duque e seus amigos estariam jantando, e eu poderia me aventurar até os escritórios inferiores de seu hotel sem muito medo de ser visto pelos olhos aguçados de Carmona. De qualquer modo, decidi arriscar e, no caminho, tracei um plano de ação.
Dois carregadores estavam no salão vazio do andar térreo quando entrei. Entrando com um ar profissional, disse em espanhol: “Vocês têm aqui algumas pessoas que vieram em um automóvel vermelho? Eles deveriam ter chegado esta noite.”
— Não, señor — respondeu um dos homens. — Temos um grupo hospedado para a noite que veio em um automóvel cinzento.
Bom rapaz, como ele jogou a meu favor! Escondendo o deleite sob um olhar de decepção, disse que meus amigos estavam em um automóvel vermelho. “Eles podem ter se atrasado”, continuei. “Eles provavelmente aparecerão antes da meia-noite. Espero que vocês tenham bons quartos para lhes dar, na parte da frente da casa. Eles são muito exigentes.”
— Receio que todos os nossos melhores quartos estejam ocupados — disse o homem. — O señor que veio no automóvel cinzento ocupou cinco quartos ao longo da frente, no primeiro andar, com uma sala de estar privada. Infelizmente, seus amigos terão que se contentar com algo nos fundos.
Expressei pesar e fui embora alegre, tendo surpreendido o carregador ao pressionar em sua mão duas pesetas. Eu agora sabia tudo o que queria aprender, até mesmo — falando grosseiramente — a posição do quarto de Monica; e vi um jeito de enviar-lhe uma mensagem.
Dick estava pronto para o jantar quando voltei, mas não testei sua paciência por muito tempo. Ele perguntou se os O’Donnels ainda estavam no hotel e foi informado de que estavam, embora partissem em um ou dois dias. Isso era tudo o que sabíamos quando entramos na sala de jantar, mas, como muitas pessoas ainda estavam sentadas à mesa longa e nas numerosas pequenas, olhamos em volta em busca dos amigos de Mademoiselle de la Mole.
Não havia um rosto que você não teria pronunciado com confiança como sendo espanhol, se o tivesse encontrado no Polo Norte.
Dick e eu nos sentamos a uma pequena mesa e começamos a falar em inglês, enquanto ao nosso redor, de todos os lados, a língua espanhola — castelhano puro e andaluz desleixado e melífluo — jorrava como uma fonte dourada.
A fome, há muito não saciada, a princípio inclinou Dick a uma visão cínica da vida em geral, e da vida em hotéis espanhóis em particular, mas seu temperamento melhorou à medida que a refeição avançava, e ele até me perdoou por abandonar um homem faminto.
— Nenhum sinal dos O’Donnels — disse ele. — Talvez eles tenham uma sala de jantar privativa.
— Duvido que exista uma na casa — disse eu.
— Bem, vou perguntar mais tarde — continuou Dick. — Olhei para cada rosto aqui, e...
— Para um em particular — cortei.
Dick corou. — Espero não ter estado encarando — disse ele; — mas ela é a garota espanhola ideal, não é? Se eu fosse um artista, gostaria de pintá-la. — Enquanto falava, seus olhos vagavam em direção à mesa vizinha à nossa, que, desde que um prato de pimentões espanhóis, arroz e frango o tornara um homem, monopolizara toda a atenção que ele podia poupar do jantar.
Eu tinha notado isso; daí minha provocação. Mas Dick não estava muito errado sobre a garota.
Seu lugar na mesa a colocava em frente a ele; e seu companheiro era um homem rechonchudo e moreno, com o rosto radiante de um querubim de meia-idade, e o hábito de murmurar suas contribuições à conversa em uma voz andaluza, com um sotaque andaluz tão melífluo quanto o mel andaluz.
A própria garota era uma autêntica andaluza, também, embora de um tipo muito diferente da pessoa querúbica que (Dick esperava) fosse seu pai. Nenhum par de estrelas de olhos castanhos jamais se abriu para o mundo fora da Andaluzia; nem ninguém, exceto uma andaluza, saberia, sem ser ensinado, como dar olhares tão líquidos, porém inocentes, como aqueles, que ocasionalmente brilhavam sob seus longos cílios para Dick, quando o Querubim não estava olhando.
Ela era uma jovem esguia, com um rosto em forma de coração de uma palidez de oliva cativante; uma boca bonita e autoconsciente, que mudava de forma encantadora de momento a momento; e pesadas massas de cabelo escuro empilhadas no alto, ao estilo espanhol, como se para combinar com uma mantilha — cabelo tão liso e brilhante que, a uma pequena distância, dava o efeito de ter sido esculpido a partir de um bloco de ébano.
— Ela é perfeita em seu gênero — disse eu; — mas pensei que você preferisse tipos americanos.
— Besteira! — disse Dick. — Comparações são odiosas. Digo, agradeça aos céus por uma garota bonita, qualquer que ela seja. Mas há algo particularmente fascinante nesta.
— Vejo uma objeção séria a ela do seu ponto de vista — continuei. — Ela é jovem demais. Você traça a linha naquelas com menos de vinte e dois. Aposto com você que ela não verá vinte e dois por mais alguns anos.
— Ela pode valer a pena esperar — disse Dick.
— Não adianta. Ela estará casada muito antes dos vinte e dois. Todas as garotas espanholas que se respeitam estão. É melhor você não pensar mais nela. Esqueça-a e procure a Senhorita O’Donnel.
— Angèle de la Mole diz que a senhorita O’Donnel é bonita — disse Dick. Enquanto falava, fez um sinal a um garçom; e notei que a garota dos olhos já não fingia esconder seu interesse por Dick. Ela chegou a sussurrar para sua companheira, que, após ouvir o que ela tinha a dizer, virou-se para nos olhar com benigna curiosidade.
— Pergunte se ele conhece o coronel O’Donnel e a senhorita O’Donnel de vista — ordenou Dick quando o garçom apareceu, para exalar benevolência e alho sobre nós em quantidades iguais. Ele era tímido em expor seu próprio espanhol diante de uma sala cheia de espanhóis.
Eu perguntei; o garçom pareceu surpreso e, para confusão de Dick e meu espanto, indicou os ocupantes da mesa ao lado.
— O coronel e a señorita — disse ele. Foi tão surpreendentemente parecido com uma apresentação que o homem pardo e querubínico levantou-se e fez uma reverência; e a garota, inclinando-se sobre o mazapán em seu prato, deixou-nos ver o topo da espiral de seu penteado de cabelos negros.
Dick, sobrecarregado, e recordando cada palavra que tínhamos dito, como um homem que se afoga recorda cada ato perverso de sua vida desde a infância, pôs-se de pé e começou a balbuciar explicações.
— Bem, isso mostra o quão idiota um homem pode ser — disse ele. — A senhorita — Mademoiselle de la Mole deu-me uma carta de apresentação e um pacote com um pequeno presente, e eu estava procurando por vocês. Meu nome é Richard Waring; não sei se a mademoiselle escreveu sobre mim. De qualquer forma...
— Señor — anunciou o coronel O’Donnel, aflito com a angústia de Dick — no entiendo.
— Habla usted español? — perguntou a garota. — No Inglees, we, much. — E ela sorriu um sorriso com covinhas, direto para Dick, com um brilho de lado para mim.
Dick estava, para usar contra ele uma palavra favorita sua, pasmo. — Então vocês não são o coronel e a senhorita O’Donnel? — disse ele. — Achei que não poderiam ser, mas...
— Si, si — o Querubim o tranquilizou, acenando. — O’Donnel. Aw—right. — Ele riu de forma tão contagiante que nós também rimos; e senti meu coração aquecer por esses amigos inesperados e surpreendentes de Angèle de la Mole.
— Eu, María del Pilar Inés O’Donnel y Alvarez — a garota apresentou-se. — Angèle de la Mole, mi—mi fren. — Tendo hesitado até ali, entre o espanhol e o inglês, ela lançou-se de cabeça em sua língua nativa. Este foi o sinal para que o Querubim também começasse explicações fluentes, ambos falando andaluz juntos, e tão rápido, que Dick (pacientemente ensinado um pouco de castelhano por mim em momentos de lazer) viu-se perdido e afogando-se.
Tive que traduzir para ele os fatos da história da família O’Donnel que consegui desenrolar da teia emaranhada. O mistério dos amigos irlandeses de Angèle de la Mole que falavam espanhol (o que ela deve ter se abstido de explicar para pregar uma peça em Dick) foi resolvido em uma frase. Um avô O’Donnel lutara na Espanha sob o comando de Wellington na Guerra Peninsular e permanecera na Espanha porque amava uma garota espanhola que possuía muitos hectares. O pai do Querubim nasceu na Espanha e falava pouco inglês. O próprio Querubim não falava nada, ou apenas uma ou duas palavras. Ele era um coronel do exército espanhol, agora aposentado. Isso era tudo; exceto que seu filho e sua filha tinham estudado uma gramática inglesa, até chegarem aos verbos; então pararam, porque a vida é curta e cheia de outras coisas. — Mas — disse a senhorita O’Donnel orgulhosamente — me know, two, three, word. Lo-vely. Varry nice. Aw raight. Yes.
Quando ela exibia assim seu estoque de conhecimentos, pontuado por covinhas, qualquer homem que não estivesse perdidamente apaixonado por outra garota teria dado os olhos para beijá-la. Senti pena de Dick. Quanto a mim — vi-me desejando contar tudo sobre Lady Monica Vale a Doña María del Pilar Inés O’Donnel y Alvarez, com a convicção de que sua ajuda seria de valor inestimável.
Tal é o poder dos olhos de uma garota sobre o homem fraco, mesmo quando ele adora um par de olhos muito diferente; e já era estranho lembrar da minha rígida negação do desejo de conhecer os O’Donnel. Eu os chamara de “irrelevantes”. Que asno estúpido!
XI
MARÍA DEL PILAR EM SOCORRO
Finalmente, quando a confusão geral diminuiu, consegui impressionar o adorável par de que, se falassem muito devagar e gentilmente se dessem ao trabalho de articular uma palavra de três sílabas, digamos, duas delas (um hábito meticuloso desaprovado na Andaluzia), o senhor Waring seria capaz de participar da conversa. Com a verdadeira bondade espanhola, eles fizeram o possível, embora Deus saiba o quanto deve ter custado a eles. Dick também fez o possível, com uma pronúncia americana conscienciosa; mas onde as línguas hesitavam, os olhos falavam uma linguagem universal, e todos nos demos tão bem que, em dez minutos, poderíamos nos conhecer há dez anos.
Ao final desses minutos, fomos convidados para a sala de estar dos O’Donnel, que fora improvisada a partir de um quarto; e lá Dick trouxe a famosa carta de apresentação e o pacote de papel branco amarrado com fita rosa.
Meu nome não tinha sido mencionado por Angèle. Eu era apenas um “amigo do senhor Waring”; e, ao que parecia, eu fora designado vagamente assim em uma carta anterior na qual nossa chegada fora profetizada. Essa fora a maneira de Angèle deixar em aberto para que eu me apresentasse como desejasse; mas agora não havia segredo que eu não me sentisse seguro em confiar aos nossos velhos amigos, os O’Donnel, então dei-lhes meu nome verdadeiro.
O rosto do Querubim iluminou-se. — Conheci bem seu pai — disse ele. — Aprendemos a arte militar juntos quando rapazes, embora ele fosse quatro ou cinco anos mais velho que eu e o herói da minha juventude. Nossas ideias — ele tossiu em um instante de embaraço — eram diferentes. Isso nos separou. Mas nunca o esqueci. Ele era um grande homem; e é um evento conhecer seu filho. Quando vi você lá embaixo na sala de jantar, foi como voltar trinta anos. Tão jovem quanto você é agora, era seu pai quando o vi pela última vez. Você é o retrato vivo dele.
Apertamos as mãos; e acredito que, com o menor encorajamento, o querido velho teria plantado um beijo em cada uma das minhas bochechas. O fato de não o ter feito foi um tributo à minha educação inglesa.
A próxima coisa foi que, a pedido de Dick, eu estava contando tudo a eles; e, enquanto Pilar ouvia a história que precedia minha missão na Espanha, seus olhos, que tinham sido estrelas, tornaram-se sóis. Quando pronunciei o nome de Carmona, ela e seu pai soltaram uma exclamação.
— El Duque de Carmona! — ecoou o Querubim.
— Ele! — gritou Pilar. E eles se entreolharam.
Por um segundo, perguntei a mim mesmo se minha franqueza tinha sido um erro.
— Vocês conhecem o Duque? — perguntei.
— Santa María, mas se o conhecemos! — suspirou a garota. — Eu gostaria que pudéssemos dizer que não.
— Vocês não gostam dele?
— Gostamos do Duque, papai?
O bom Querubim balançou a cabeça de forma agourenta. — O Duque de Carmona é um homem mau — disse ele. — Ele não nos fez nenhum mal...
— Oh—oh! — Pilar o interrompeu. — Ele não levou para um convento uma das minhas amigas mais queridas?
— Minha filha refere-se a uma história triste — explicou seu pai. — Em Madri, causou alvoroço na época. Ele abandonou uma amiga de colégio de Pilarcita. Isso é algo quase inaudito na Espanha; mas ele o fez. A família da jovem teve problemas na Corte — um caso insignificante; mas o Duque é ambicioso por favores. Ele tinha algo a recuperar, após o escândalo durante a Guerra Hispano-Americana, quando era um homem muito jovem — não mais que vinte e quatro anos — e...
— Você quer dizer, a história de que ele especulou com cavalos — comprou cavalos miseráveis baratos e vendeu-os ao exército para a cavalaria, com a conivência dos veterinários que supostamente ele subornou?
— Sim. Ele conseguiu se livrar; mas a realeza olhou para ele com frieza, e ele não é um homem para suportar isso. O pai da garota — amiga de Pilarcita — era, certa vez, muito querido pelo jovem Rei, e as pessoas pensavam que esse era o motivo de Carmona para se comprometer. Com o primeiro sopro da tempestade, o Duque partiu; e a noiva descartada entrou como noviça no convento onde ela e minha filha estudaram. É por isso que Pilarcita não gosta nada dele...
— Mas não é tudo! — gritou a garota. — E o touro cinzento, o pobre Corcito?
O coronel O’Donnel riu com sua risada gentil e abafada.
— Nossa casa é perto de uma ganadería — uma fazenda de touros do Duque perto de Sevilha — explicou ele com indulgência. — Os lugares são adjacentes; e como permiti que essa Pilarcita crescesse como uma garota selvagem, muito diferente das jovens de Sevilha que ela deveria emular, ela fez amizade com o gado do Duque. Houve, alguns anos atrás, um touro cinzento que era tão manso com ela quanto um animal de estimação; mas ele pegou antipatia pelo Duque, que veio dar uma olhada em seus touros uma vez, e o atacou. Dizem que o sangue mourisco nos Carmona lhes dá um temperamento cruel. De qualquer forma, Carmona não pôde perdoar o touro por sua falta de respeito e prontamente mandou-o para o matadouro, embora fosse um toro bravo.
— Isso é bem ele — disse eu.
— Não há nada que ele não fizesse contra um inimigo, ou para conseguir algo que desejava — disse Pilar, voltando-se para mim. — Tenha cuidado, agora ele quer algo que você quer.
— Tem sido assim entre nossas famílias há gerações — eu disse. — Meu avô fugiu com a garota que o avô dele queria desposar, e meu pai e o dele, em sua juventude, tiveram um processo judicial furioso.
— Quem venceu? — perguntou a garota.
— Meu pai.
— Tenha certeza de que ele se lembrará — disse ela. — Oh, como eu gostaria que pudéssemos ajudá-lo! Seria uma vingança contra ele pela pobre Eulalia e por Corcito. Papai, não podemos fazer algo?
— Se pudéssemos — ecoou o Querubim —, pelo filho de seu pai!
De repente, a garota saltou e bateu palmas. — Oh, eu pensei na coisa certa! — ela gritou. — Seria como uma peça de teatro. — Mas seu rosto caiu. — Não sei como propor isso — disse ela. — Talvez você e o senhor Waring desaprovassem. E como poderíamos nos convidar...
Ela parou; mas eu a fiz continuar. — Por favor, conte-nos — eu disse. — Com certeza será um plano esplêndido. E qualquer coisa associada a vocês traria sorte.
— Isso seria muito associado a nós — disse ela, rindo; — pois a ideia é que, em vez de irmos para casa de trem como pretendíamos fazer, depois de amanhã, nós continuemos em seu carro com você, fingindo sermos convidados do senhor Waring, e você supostamente sendo meu irmão Cristóbal.
— Pilarcita, algum pássaro selvagem construiu seu ninho em seu cérebro — disse o Querubim.
— Espere até eu terminar! — ordenou a garota. E era fácil ver que, embora seu pai balançasse a cabeça, ela era uma mimada que não podia fazer nada de errado.
— Eu só gostaria que Cristóbal estivesse aqui — continuou ela, sem fôlego; — mas houve um jantar regimental e ele teve que nos deixar. Ele virá mais tarde, e vocês o conhecerão e ouvirão o que ele diz sobre o plano. Oh, não há muito medo de que ele se oponha, quando você é amigo de Angèle e ela está fazendo tudo o que pode por você. Ele atravessaria o fogo para agradar Angèle. E isso seria apenas abrir mão de sua licença — ou pelo menos de ir para casa conosco — e lhe emprestar seu uniforme, que tenho certeza de que serviria perfeitamente em você.
Não pude deixar de rir da maneira como ela dispunha do irmão e de seus planos, sem falar daqueles que estava fazendo para mim; mas ela continuou, ansiosa para justificar seu conselho.
— Você ainda não entende — insistiu ela. — É uma ideia maravilhosa. Veja, papai e eu conhecemos o Duque em Madri, na casa de amigos. Eu mal falei com ele, pois as garotas espanholas não têm muitas chances de conversar com homens, mas ele se lembrará de mim, e do papai também. A coisa de sorte é que ele nunca viu meu irmão desde que Cristóbal era um garotinho, e então não mais do que uma ou duas vezes, quando veio à sua ganadería. Ele deve saber, se parar para pensar, que o papai tem um filho; isso é tudo. E você diz que o Duque só o viu no baile de fantasias, com um traje de Romeu, com uma peruca loira. Quando Lady Monica Vale deu aquele passo à frente e olhou para você no automóvel, embora você tivesse mudado seu carro, ele imaginou que você pudesse estar nele e telegrafou para que o homem que ele suspeitava fosse detido em Irún. Bem, foi inteligente da sua parte trocar com seu motorista; mas, mesmo assim, se você continuar, vestido de motorista, nunca terá a chance de chegar perto de Lady Monica. E se você aparecer como você mesmo, mesmo que o Duque não tenha certeza de que é você, ele manterá Lady Monica longe de você. E a mãe dela o ajudará, já que ela quer que eles se casem. Mas pense em como é diferente para meu irmão! Todos nós nos encontramos por acaso — suponha que seja na catedral — e o papai diz: “Como vai? Você não se lembra de Cristóbal?” Ele simplesmente teria que aceitar você como Cristóbal, embora pudesse achar Cristóbal um pouco parecido com aquele problemático Marqués de Casa Triana.
— Casa Triana também é Cristóbal — ri eu. — Ramón Cristóbal.
— Tanto melhor. Nenhum de nós teria que mentir. Eu sempre disse que Cristóbal é o santo mais sortudo para se ter como padroeiro. Veja como ele está oferecendo sua ajuda a você. E oh, você sabia que ele é o santo padroeiro dos automobilistas? Amanhã darei a você uma medalha de Cristóbal para pregar em seu carro. São feitas de propósito; que gracinhas! Mas agora você começa a entender onde quero chegar, e que não foi apenas impudência sugerir que fôssemos em seu automóvel, papai e eu? Com a gente, e San Cristóbal, você deve conseguir colocar o pé na cabeça do Duque.
— Mas e quanto ao seu irmão Cristóbal?
— Oh, ele! Todos nós devemos agradecer a San Cristóbal por ele ter essa licença, caso contrário o Duque poderia descobrir facilmente; mas, em vez de ir para casa, ele pode ir — bem, ele pode ir para Biarritz, onde verá Angèle, então será bom para todos. E imagine-se em seu uniforme, caminhando conosco na catedral, onde o Duque certamente levará Lady Monica e sua mãe — caso contrário, por que parar em Burgos? Vem-se por isso, e nada mais, a menos que se tenha um irmãozinho na guarnição. Agora, o que você diz, Don Ramón?
— Digo que você é um anjo — respondi prontamente. — Mas também digo que o coronel O’Donnel não permitirá tal arranjo.
— Oh, não permitirá? — exclamou Pilar. — Você acha que sou uma garota comum do sul da Espanha, que diz “sim, sim” e “não, não” como seus pais desejam, e olha para o chão enquanto a vida passa? Só de pensar em ser assim é o suficiente para fazer uma mulher criar bigode e ter embonpoint por puro tédio. É meu coração irlandês que mantém meu pai e meu irmão vivos; e quando quero fazer algo, eles se apressam em me deixar fazer, para que eu não tenha um ataque — do qual eu seria capaz.
— Como você é uma Cristóbal — disse o Querubim suavemente —, poderia ser arranjado, se você quisesse, sem termos que ir mais de uma vez extra à confissão. Eu poderia carregar o pecado em minha consciência, se você pudesse; e se você pudesse também usar o uniforme do meu filho.
— Eu gostaria de ver a cara de Carmona quando você for apresentado — observou Dick, em seu espanhol lento.
— Você a verá — exclamou Pilar; e com isso, a porta se abriu e o outro Cristóbal entrou.
XII
SOB UMA VARANDA
Gostei do irmão porque ele tinha os olhos da irmã e — sendo o homem humano, egoísta e comum — gostei ainda mais dele por seu desejo entusiástico de ajudar o último dos Casa Triana. Se seu entusiasmo era pelo bem de Casa Triana ou de Angèle de la Mole, era um detalhe. Teve o mesmo efeito sobre meus negócios; e tendo levado muito pouco tempo para refletir, deixei-me ser levado pela maré.
Pilar — tão diferente de uma garota espanhola na mente quanto era parecida com uma no rosto — dirigiu a encenação de todos nós. Nós apenas aceitamos nossos papéis na peça, eu com gratidão, os outros com calma.
O irmão Cristóbal, talvez, não tenha se arrependido de fazer um voo inesperado para Biarritz, com a notícia de Dick e minha como desculpa, em vez de passar sua licença pacatamente em casa. Havia, de qualquer forma, uma prontidão suspeita na maneira como ele concordou em desaparecer o mais cedo possível no dia seguinte. Como ele estava usando o uniforme que seria passado para mim, decidiu-se que ele o traria ao meu quarto na manhã seguinte, antes de ouvir missa na catedral. Foi ideia de Pilar que eu fosse para lá com ele, saindo antes que a fonda estivesse totalmente agitada, e buscasse santuário em cantos escuros de capelas remotas até que meus amigos chegassem.
— Descobriremos quando o Duque e sua mãe levarem Lady Monica para ver a catedral — disse a garota, deliciando-se com sua própria engenhosidade; — e então nós também começaremos. Embora não possamos suportar o Duque, sempre fomos educados com ele e sua mãe sempre que nos encontramos em Madri, louvado sejam os santos, então eles não podem ser rudes conosco agora. Se formos até lá e falarmos, eles terão que nos apresentar a Lady Vale-Avon e Lady Monica. Eu vou ter um grande carinho à primeira vista por Lady Monica, é claro; e não me surpreenderia se eu conseguisse fazer com que ela gostasse de mim. O resto será fácil para toda a viagem. Oh, nós vamos nos divertir!
Comecei a pensar que sim, e que, graças ao contra-ataque de uma garota, eu teria um caminho bem fácil, apesar de Carmona. Mas, porque comecei a ver terra à frente, fiquei ainda mais ansioso para dar paz de espírito a Monica; e quando dissemos boa noite aos O’Donnel por volta das dez e meia, saí para realizar o plano em que pensara antes do jantar.
Na parede do escritório do proprietário, fora do corredor principal, eu vira um violão pendurado. Pertencia ao seu filho, um jovem de aparência romântica, cuja alma solidária deliciava-se em emprestar o auxílio nacional ao namoro, sem fazer uma única pergunta.
Eu não seria um verdadeiro espanhol se não soubesse tocar violão; e, de fato, minha mãe me dera alguma destreza com o instrumento antes que eu completasse dez anos. Eu o negligenciara por anos; no entanto, meus dedos só precisavam tocar as cordas para estarem em termos amigáveis com elas.
Madri e Sevilha provavelmente estariam acordando para a vida plena a esta hora; mas nas cidades provincianas vai-se para a cama cedo porque não há nada mais divertido para fazer.
Às onze, as janelas do hotel principal estavam escuras; e sem ser observado curiosamente por nenhum transeunte, posicionei-me sob as varandas do primeiro andar, com meu violão.
Eu não sabia qual quarto era o de Monica, mas sabia que não poderia estar longe; e contei com a chance de que pensamentos ansiosos pudessem impedi-la de dormir profundamente.
Suavemente, e depois mais audaciosamente, comecei a dedilhar o ar da valsa húngara que eles tinham tocado naquela noite na casa da Duquesa de Carmona, enquanto eu dizia a Monica que a amava. Muitas vezes seu refrão apaixonado ecoou em meus ouvidos desde então, e trouxe a cena diante de mim. Esperei que Monica também pudesse se lembrar.
Cinco minutos se passaram, e eu continuei tocando, mas nada aconteceu. Então, quando comecei a temer o fracasso, ouvi um som fraco acima. Uma janela estava se abrindo. Não havia brilho de luz, nenhum sussurro; mas algo macio e pequeno caiu perto de meus pés. Abaixei-me e peguei. Era uma rosa, pesada por uma luva de camurça cinza, amarrada em torno do caule; e a luva estava perfumada com íris, a mesma fragrância delicada que me viera quando beijei a mão de Monica e suas cartas.
Ela recebera minha mensagem e respondeu-a.
XIII
O QUE ACONTECEU NA CATEDRAL
Antes das seis da manhã seguinte, Cristóbal O’Donnel estava batendo à minha porta, com o uniforme e os apetrechos prometidos escondidos sob o sobretudo militar que também seria colocado à minha disposição.
Ao ouvir nossas vozes, Waring apareceu, bocejando, à porta do quarto contíguo, e houve uma boa dose de risos contidos entre nós três, enquanto eu vestia meu traje emprestado de vermelho e azul. As peças serviram muito bem, já que tenho apenas alguns centímetros a mais que o outro Cristóbal, e até o quepe se acomodou à minha cabeça quase como se tivesse sido feito para mim. Quando estive pronto para o papel designado por Pilar, Dick disse que eu nunca estivera tão bem antes, e que provavelmente nunca estaria novamente.
Minhas malas estavam prontas, e o programa que Dick deveria cumprir, quando O’Donnel e eu tivéssemos partido, era acertar nossa conta no hotel, acomodar a bagagem no teto do carro e, finalmente, dirigir até a porta da catedral, para partir de lá sem voltar à fonda ou à garagem. Reclamávamos da ausência do pobre Ropes quando houve uma batida discreta na porta, e o próprio Ropes apareceu assim que a abrimos, como um boneco de mola.
Seu sorriso feliz deu lugar a um olhar de surpresa ao me ver no uniforme de oficial espanhol, mas, fiel ao seu treinamento, ele apagou qualquer expressão de suas feições num instante e permitiu-se parecer apenas decorosamente satisfeito quando Dick e eu o recebemos com entusiasmo.
— Muito bem! — disse eu. — Escapou da cadeia? — Mas, para dizer a verdade, eu estava levemente inquieto; pois, se ele tivesse escapado, isso significaria problemas para todos nós em breve, quando fôssemos rastreados pela polícia. Mas não precisei duvidar do fiel Ropes.
— Não, senhor, não escapei — respondeu ele. — Eu não teria feito isso de qualquer forma, embora não gostasse de pensar no meu trabalho nas suas mãos. Mas vou lhe contar como foi, se eu não estiver incomodando.
O’Donnel, que não entendia uma palavra, achou que deveria ir embora, pois queria ouvir a missa e pegar o trem para Biarritz. Deixei-o ir sem mim, portanto; e, após as despedidas, Dick e I clamamos pela história de Ropes.
— Foi uma situação complicada, senhor — disse ele. — Levaram-me para a chefatura de polícia em Irun, e o chefe me fez todo tipo de perguntas; mas continuei repetindo "no comprendo" e mostrando os cartões do Sr. George Smith. Eu não conseguia entender toda aquela conversa deles, mas mencionaram seu nome, e, pelo jeito como olhavam quando eu fingia minha estupidez, achei que começavam a ter dúvidas. O chefe de polícia sinalizou para que eu ficasse onde estava e ordenou que dois dos homens fossem a algum lugar. Do meu lugar, pude ver a ponte e os dois policiais que pareciam estar procurando algo.
— Logo depois veio o ronco de um automóvel, e eu pude dizer que era um Lecomte. Um minuto depois, os sujeitos lá fora falavam com o Duque de Carmona, que parou o carro onde eles estavam. Conversaram um pouco; então, ele passou o volante para seu motorista e entrou na delegacia. O chefe tratou-o com muita deferência; encostaram as cabeças num canto, mas pude vê-los lendo um telegrama, e vez ou outra lançavam um olhar para mim.
— Eu sabia demais para deixar transparecer que suspeitava do Duque em relação ao assunto, mas, tendo-o ouvido responder ao Sr. Waring sobre o pneu num inglês tão bom quanto o meu, levantei-me e perguntei se ele poderia interpretar para mim com a polícia. Expliquei o que havia acontecido, mostrei meu cartão e disse que houvera um erro tolo que estava me causando um incômodo sem fim. Então disse que escreveria ao The Times sobre o tipo de coisa que acontecia com ingleses viajando na Espanha, e falei da Embaixada em Madri.
— Durante todo o tempo em que falei, o Duque puxava o bigode e olhava tão fixamente que, se eu estivesse usando um bigode falso, peruca ou qualquer coisa do tipo, ele certamente teria descoberto. Ele parecia irritado e confuso também; mas finalmente disse que, como eu era inglês e ele acreditava que procuravam um espanhol, deveria haver um engano, e que ele faria o melhor que pudesse para me ajudar. Suponho que ele deva ter dito a eles que estavam no caminho errado, afinal, pois depois que ele se foi, e eles discutiram um pouco e redigiram vários papéis, disseram que, como uma pessoa muito importante certificava que eu era o Sr. George Smith, eu poderia ir.
— A essa altura já era tarde, e eu queria seguir viagem o mais rápido possível, então peguei o próximo trem para San Sebastian e procurei um lugar para alugar uma moto. Eu não sabia para onde o senhor teria ido depois disso, então não pude reservar o trem; mas contei com a possibilidade de encontrar seu rastro se seguisse pela estrada.
— Como você poderia esperar fazer isso, já que deve haver muitos automóveis indo e vindo entre Biarritz e San Sebastian, mesmo nesta época do ano? — perguntei.
— Ora, pelos pneus antiderrapantes, senhor. Eu reconheceria os nossos em qualquer lugar. Há três dos cravos de aço gastos quase até o fim na roda motriz externa, o que faz uma marca estranha na poeira ou na lama. Pude até ver, assim que peguei os rastros, que o senhor seguiu o carro do Duque, pois suas marcas vinham às vezes sobre as dele, quase apagando seu rastro por um tempo. Posso lhe dizer, senhor, que me animou encontrar seus rastros assim. Fez-me sentir em casa em um país estranho. A moto me levou muito bem também; mas, apesar de todo o meu esforço, a noite caiu sem que eu os alcançasse. Por medo de perder os rastros, hospedei-me numa posada, parti no minuto em que raiou o dia e encontrei os senhores aqui perguntando.
— Você é um verdadeiro Sherlock Holmes, além de um sujeito formidável, Ropes — disse eu. — Agora, coma alguma coisa; leve a motocicleta de volta para San Sebastian de trem e esteja pronto para outra partida.
Com isso, saí, deixando-o com Dick. Levantei a gola do casaco grande de Cristóbal até os olhos, puxei o quepe para baixo quase até encontrar a gola e saí, rezando para não encontrar nenhum dos colegas oficiais de Cristóbal.
O vento selvagem pelo qual Burgos é famosa uivava através das longas ruas arcadas, com seus edifícios altos e amarelos, e tentava me repelir do grande portal cor de mel com suas torres e pináculos, onde eu teria parado para identificar a estátua de El Cid entre outras estátuas desgastadas em nichos batidos pelo tempo.
Os poucos homens que passavam, envoltos em capas pretas com forros azuis ou carmesim, tinham as feições finas e melancólicas daqueles que vivem no frio do norte, e seus olhares eram tão gélidos quanto o clima. Mas isso era melhor do que se tivessem se interessado demais por um rosto estranho num uniforme familiar; e teria sido preciso mais do que um olhar congelante para murchar a primavera em meu coração, pois eu estava indo para Monica.
Eu estava pronto para amar Burgos por causa do herói da minha infância, o bravo e velho Cid, com quem cada pedra parecia estar associada. Esta era a cidade do Cid, assim como a terra do Cid; e se eu tivesse vindo à minha pátria como um turista, e não como um amante, teria feito uma peregrinação ao seu túmulo no convento de San Pedro de Cárdeña, a apenas alguns quilômetros de Burgos — essa Cidade das Batalhas.
Como as coisas estavam, eu teria que me contentar em ler sobre isso em algum livro, pois Carmona não deixaria seu carro para ir; e onde Carmona fosse, eu também deveria ir.
Pelo menos tomei uma xícara de café no "Café do Cid" a caminho da catedral; e o primeiro ponto de referência que busquei naquele triunfo da grandeza gótica foi o cofre do Cid. Eu poderia ter horas de espera, sabia, antes que os outros chegassem, embora, para chegar a Valladolid numa hora decente, eles não devessem demorar muito. Mas, mais cedo ou mais tarde, eles certamente chegariam, pois Carmona não poderia, por vergonha, tirar Monica de Burgos sem lhe mostrar a glória de Burgos. E enquanto isso, pois apenas para uma alma mesquinha o Tempo teria parado, pesado, como um companheiro naquele reino de esplendor sombrio.
Era a primeira das famosas catedrais da Espanha sobre a qual eu, um filho exilado, havia pousado os olhos; e um vislumbre das torres gêmeas ao longe me dera alguma noção de sua beleza. Envoltas em chamas de pôr do sol, vi as torres como se esculpidas em pedras preciosas, cinzeladas, segundo a lenda, por anjos, como a pulseira de uma rainha, adornadas como um antigo relicário. Eu disse a mim mesmo que o vasto edifício era um festival selvagem em pedra, uma canção de bravura na arquitetura. E se eu me lembrava, enquanto olhava, de outras torres gêmeas que são a glória do Reno, tentei afastar a reminiscência, porque queria que as catedrais da Espanha fossem diferentes das de qualquer outro país. Queria que elas falassem comigo com sua própria inspiração nacional. E esta manhã, enquanto eu deslizava com as outras sombras para a penumbra solene da grande nave, senti-me satisfeito. Não encontrei inspiração alemã aqui. Cada detalhe atingia a mesma nota curiosamente nacional, desde a rara obra de ferro até a lanterna octogonal, um milagre do design plateresco, que se elevava, clara e brilhante, sobre o centro da grande igreja. Talvez o efeito residisse em parte na cor magnífica, uma cor nunca vistosa, nunca vulgar, como eu vira às vezes na Itália; ou então nos maravilhosos relevos; estátuas em nichos de ouro, pedras floridas, arabescos, colunas de alabastro, pinturas de tons ricos; mas não importava de onde viesse, estava lá, e não poderia ter estado em nenhum lugar exceto na Espanha.
Vaguei de capela em capela, vi a estranha figura mumificada do Cristo de Burgos, que se supõe sangrar toda sexta-feira; admirei os tesouros da sacristia; e, tenho quase vergonha de dizer, tinha acabado de dedicar uma vela para propiciar San Cristóbal, quando meu coração deu um salto ao ver quatro pessoas que surgiam por trás do grande coro que preenche a nave.
A velha Duquesa de Carmona, morena, robusta, mas de alguma forma imponente, e a figura alta de Lady Vale-Avon avançavam em minha direção, lado a lado. Atrás vinha Monica, fresca e doce em seu chapéu cinza de asas brancas e vestido de viagem, e o Duque de Carmona, escuro como um mouro em contraste com sua juventude clara.
Não me atrevi a interrompê-la inesperadamente, após minha experiência de ontem, então me virei e, entrando numa capela, interessei-me por um túmulo que é a joia mais querida da catedral.
Quanto tempo eu teria conseguido manter minha paciência sob provocação, não sei dizer; mas minha força de vontade não fora testada por cinco minutos quando ouvi a voz da minha irmã adotiva Pilarcita. Ela e o excelente Querubim estavam reivindicando conhecimento com o Duque.
Eles estavam perto da capela em que eu estava. Virando-me pela metade, vi o grupo, que consistia em seis pessoas. Dick não estava entre eles, e perguntei-me se ele estava ausente por design ou acidente.
Agora a Duquesa e o Querubim conversavam. Agora os O’Donnel estavam sendo apresentados a Lady Vale-Avon e Monica. As duas garotas começaram a conversar. Querida Pilar, que joia de irmã ela era!
— Você se lembra de Cristóbal? — ouvi-a perguntar de repente a Carmona, numa voz elevada a tal clareza distinta que adivinhei que ela tinha visto um uniforme atrás das grades de ferro da porta da capela entreaberta. — Você viu meu irmão, creio eu, quando ele era um menino pequeno. Ele está estacionado aqui agora; temos estado visitando-o.
Tomei isso como sinal e, virando-me da figura adormecida do Bispo Alonso de Cartagena, saí da capela para me juntar à minha família adotiva.
— Ora, aqui está Cristóbal! — exclamou Pilar.
Então, num flash, ela me apresentou a todos, deixando Monica por último, para que a garota pudesse ter tempo de recuperar o fôlego após o primeiro choque de surpresa.
Se foi porque o dia de ontem lhe dera uma lição de autocontrole, ou se Pilar conseguira sussurrar alguma palavra sobre seu irmão, eu não poderia dizer; mas se Monica mudou de cor, eu não pude ver, talvez porque um escurecimento do céu lá fora tivesse começado a aprofundar a penumbra rica da catedral.
Por causa dela, mal me atrevi a olhar para ela; e meu silêncio deve ter passado aos outros como a timidez de um jovem soldado entre estranhos. Mas olhei para Carmona, sentindo seus olhos sobre mim, e encontrei um olhar tão penetrante quanto raios X.
Seu rosto não é fácil de ler; mas, por uma vez, as janelas de sua mente estavam bem abertas. Se ele tivesse me reconhecido e adivinhado o truque que fora pregado nele, teria usado uma expressão muito diferente; mas ele estava perplexo, inquieto, como estivera ontem quando viu Monica inclinar-se para frente, corando, para olhar um homem mascarado num automóvel.
Ele percebeu a semelhança entre Cristóbal O’Donnel y Alvarez e seu próprio rival perigoso, embora inelegível, Casa Triana. Pude ver o pensamento disparar em sua mente e remoer; pude vê-lo empurrá-lo para um canto escuro guardado para o lixo da imaginação. Eu sabia como ele dizia a si mesmo que não poderia haver conexão ou conluio entre a família O’Donnel e Casa Triana. Esperava que ele também acalmasse sua ansiedade lembrando a si mesmo que, com toda probabilidade, Casa Triana, no carro Gloria azul visto uma vez por seu motorista, estava ocupado esquecendo Monica Vale em alguma parte distante da Europa. Carmona admitira um erro ontem: ele não estaria pronto para cair em outro hoje.
Lady Vale-Avon também olhava um tanto severamente para o jovem oficial espanhol, um irmão daqueles velhos conhecidos do Duque. Mas agora ela ajudou sua visão levantando um lorgnon que, como Mary Stuart, ela não pudera carregar na noite de nosso encontro anterior; e quando um olhar de questionamento a Carmona não encontrou resposta alarmante, a carranca suspeita desapareceu de sua testa.
Após algumas palavras, todos nós, como se num só acordo, começamos a caminhar para a excursão; e ainda não havia sinal de Dick.
Eu desafiaria qualquer um a resistir por mais de cinco minutos ao charme do Querubim. Sem elevar a voz acima de um murmúrio doce, e sem nada de particular a dizer, pela pura força de um charme andaluz de querubim, ele fascinou a Duquesa de Carmona e até Lady Vale-Avon, para quem ele era um tipo novo. Ela estivera estudando espanhol com vistas ao futuro, pois entendia e respondia ao Coronel O’Donnel; mas com aparente inocência e real sutileza, ele conseguiu manter o Duque ocupado explicando-o, e murmurou tantas coisas engraçadas que até Carmona era obrigado ocasionalmente a cair na gargalhada.
Enquanto isso, Monica, Pilar e eu ficamos para seguir atrás, muito contra a vontade do Duque, como adivinhei pela postura carrancuda de seus ombros.
— Rápido, rápido, para esta capela — sussurrou Pilar, — antes que eles olhem para trás. Então eles não saberão para onde desaparecemos, e você terá cinco minutos de graça. — Enquanto falava, ela pegou Monica pelo braço e a levou para a Capilla del Condestable. Uma vez atrás da treliça de ferro, ela disparou como se movida por uma paixão súbita de olhar para o retábulo esculpido.
— Que maravilhoso! — disse Monica. Segurei suas mãos, que ela estendeu para mim, e então rimos nos olhos um do outro, em pura felicidade e triunfo sobre o destino. — Pensar que você está aqui, afinal.
— Onde quer que você esteja, eu estarei, enquanto você me quiser — disse eu, — e até sabermos se terei que levá-la embora.
— Eu poderia ter imaginado que você não me falharia — disse ela. — Mas eu estava tão infeliz ontem. Quando vi aquele lenço, soube imediatamente quem você era, embora eu nunca tivesse adivinhado, com aqueles óculos terríveis, e não pude evitar dar um pulo e ficar vermelha. Mas nunca serei tão estúpida novamente. Estarei preparada para qualquer coisa. Apenas um sussurro da Señorita O’Donnel foi suficiente desta vez. Enquanto apertávamos as mãos, ela disse: "Algo vai acontecer". Então eu estava pronta. Só que parece bom demais para ser verdade.
— Aqui estão a luva e a rosa que você me jogou — disse eu, mostrando-as dentro do meu casaco.
— Aqui está a música que você tocou para mim — respondeu ela, tocando o coração; e eu teria dado um ano da minha vida para beijá-la. — Oh, diga-me, a Srta. O’Donnel é alguma parente sua, realmente?
— Apenas uma amiga muito boa e inteligente — disse eu, pois não havia muito tempo a perder explicando coisas mais ou menos irrelevantes. — Tudo isso foi ideia dela, para me dar uma chance de chegar perto de você. E, como Cristóbal é meu nome também, assim como o de seu irmão, a coisa foi gerenciada sem uma mentira. O irmão Cristóbal tem licença. O amigo Cristóbal a passará com a família; ou seja, todos eles vão naquele carro vermelho que você viu ontem — onde quer que você vá. Isso pouparia muita ansiedade se você pudesse dizer onde isso será.
— Não posso — disse Monica. — Acho que a mamãe teme que eu possa encontrar alguma maneira de avisá-lo; de qualquer forma, o Duque está sempre falando sobre como é agradável não fazer planos com antecedência, mas deixar cada dia arranjar-se sozinho. Não sei como ou onde vamos passar o tempo antes de chegarmos a Sevilha; mas para a Semana Santa estaremos na casa do Duque. Não tenho medo de nada, porém, agora que você está perto; e acho que vou me permitir ser feliz, apesar do Duque, pois sua Espanha é gloriosa, e eu a amo. Gostaria que não fosse a Espanha do Duque também!
— Ele acha que é tudo dele — disse eu. — Ele está incomodando muito você?
— Não. Ele está sendo gentil comigo. Sabe, eu o recusei em Biarritz; mas mamãe entrou enquanto eu o fazia e disse a ele que eu era muito jovem para saber o que queria; que ele deveria ser paciente, e ela quase podia prometer que eu mudaria de ideia. Eu disse que não mudaria, mas isso não fez diferença. E como mamãe queria vir nesta viagem, eu tive que vir também. Tenho a ideia de que eles fizeram um plano entre eles de que serei deixada em paz até Sevilha, se eu me comportar. Se eles suspeitarem quem você realmente é, porém, será terrível. Não sei o que acontecerá.
— Eles não podem obrigá-la a se casar com Carmona — disse eu.
— Não. Como poderiam? Essas coisas não podem ser feitas hoje em dia; pelo menos, suponho que não possam; e, no entanto, quando as pessoas são fortes e determinadas, e inescrupulosas também, nunca se sabe o que podem estar planejando, do que podem ser capazes de fazer. Muitas vezes, à noite, tento pensar no que eles poderiam fazer, e digo a mim mesma que não poderiam fazer nada, a menos que eu consentisse, o que, é claro, eu nunca faria. Oh, serei muito feliz e estarei segura agora. Será até divertido, ou seria se eu tivesse certeza de que o Duque não poderia lhe fazer mal.
— Ele tentou ontem e falhou — disse eu. — Se ele tentar novamente, falhará novamente. Mas, por enquanto, ele pensa que foi um alarme falso e talvez acredite que parei em Biarritz, emburrado.
— Foi perigoso para você vir — disse Monica.
Ri. — Não pareço o tipo de sujeito que pode cuidar de si mesmo — e talvez da garota que ama, também?
— Sim, sim — respondeu ela. — Como eu te amo, e como estou orgulhosa de você. Se você parasse de se importar — se achasse que não valia a pena...
— Temos poucos momentos juntos para discutir impossibilidades.
— Ah, mas você me conhece há tão pouco tempo. Suponha que você visse outra pessoa... — e ela olhou para o rosto bonito em forma de coração de Pilar, e para os olhos de veludo erguidos em contemplação de uma Madonna esculpida.
— Não existe ninguém além de você no mundo — eu começara, quando Pilar fez um sinal. — Eles estão vindo — disse ela. — Você deve estar olhando para este doce e pequeno painel, Lady Monica. Cristóbal, vá instantaneamente e encare o máximo que puder San Gerónimo do outro lado. Veja, aquele animal de estimação que está torcendo seus queridos pés.
Foi assim que nos encontraram; as duas jovens conversando sobre a perfeição dos túmulos do condestável e de sua esposa; o soldado cego aos encantos da companheira de sua irmã, e envolto em reverente contemplação de uma obra-prima de madeira.
— Fomos tão estúpidos em perdê-los — disse Pilar. — Mas achamos que vocês certamente voltariam por este caminho logo mais.
XIV
ALGUMAS PEQUENAS IDEIAS DE DICK
Despedimo-nos logo em seguida, ainda na catedral, todos muito educados e convencionalmente interessados nos assuntos uns dos outros. Pilar, ingenuamente, esperava que pudéssemos nos encontrar novamente em Madri. O Duque disse que também esperava, mas não sabia, já que estavam viajando de automóvel e paravam a cada dia onde a vontade sugeria. Pilar achou isso encantador e disse que nós também faríamos uma pequena viagem de automóvel. Um amigo americano nos convidara.
Naquele exato momento, o amigo americano era visível à distância, na penumbra, de costas para nós, contemplando um túmulo de alabastro. Dir-se-ia que ele tinha algum motivo para nos evitar, ou então para escapar de uma apresentação aos outros, pois deixou que saíssem da catedral antes de se arrancar de seu estudo do cardeal adormecido. Quando eles desapareceram, no entanto, ele veio em nossa direção com uma vivacidade que mostrava que ele tivera mais interesse em nossos movimentos do que aparentava.
— Saiu-se maravilhosamente bem! — Pilar informou-o. — E você fez exatamente o correto, Señor Waring. Você vê — disse ela para mim —, pensando bem, percebeu-se que era melhor ele ficar fora do caminho, por medo de que o Duque começasse a juntar lé com cré, justamente quando ele notava que Cristóbal se parecia um tanto com outra pessoa. Ele teve um vislumbre do rosto do Señor Waring ontem, no carro, e será mais seguro para ele não nos ver naquele carro até termos avançado um pouco mais. Então, ele terá tido tempo de se acostumar com o rosto do meu irmão, como sendo o rosto do meu irmão. Não foi uma ideia inteligente da minha parte?
Todos nós a elogiamos; e a elogiamos novamente quando ela explicou sua estratégia de ter deixado escapar uma dica sobre nosso amigo motorista americano, para que não fosse suspeita de ter tentado esconder algo quando o carro aparecesse em cena.
— O automóvel do Duque estava na porta quando entrei — disse Dick. — Ele deve ter visto o nosso.
— Sim. Mas ele também viu você, rondando a catedral sozinho. Suponho que você tenha tanto direito de viajar de carro pela Espanha quanto ele, vendo os pontos turísticos?
Isso era verdade. E como o carro cinza provavelmente já partira, era hora de o nosso seguir.
Ropes estava em seu assento, encapotado e com perneiras de couro mais uma vez, e tão bem equipado com óculos de proteção que não havia motivo para que fosse associado em mente alguma àquele Sr. George Smith que ameaçara expor suas queixas no The Times. Ele vira o outro carro partir, então devíamos segui-lo. Cruzamos o Arlanzón e olhei para trás com pesar para a cidadela de Burgos, erguendo-se no meio da cidade. Não tivemos tempo de visitar aquele castelo no qual tanta história foi feita. Ali o Cid casou-se; ali ele manteve prisioneiro Afonso de Leão; ali Eduardo I da Inglaterra casou-se com Leonor de Castela; e ali Pedro, o Cruel, viu a luz pela primeira vez. Mas se havia um arrependimento mais urgente do que outro, era que eu não pudesse ir à Prefeitura e prestar minhas homenagens àqueles ossos do Cid, e de Ximena, sua esposa, tão estranhamente restaurados a Burgos, após suas extraordinárias peregrinações até a distante Sigmaringen.
— Quem é esse Thith de quem vocês todos ficam falando? — perguntou Dick, enquanto o carro corria ao longo da margem do rio.
— Céus, não me diga que você foi criado na ignorância do nosso herói nacional! — exclamei. — Se eu tivesse sonhado com tal coisa, não poderia ter feito de você um amigo. Ora, esta era a cidade dele. Ele foi casado na cidadela. Ele...
— Como se soletra o nome dele? — perguntou Dick, cautelosamente.
— C-i-d, é claro.
— Santo Deus! Você não quer dizer que meu velho amigo o Cid era o Thith o tempo todo, e eu nunca soube? Que golpe! Não vejo por que C-i-d não deveria soar como Cid, mesmo em espanhol; como um Thith eu não posso respeitá-lo.
— Então deixe que ele vá para o túmulo com você como o Cid — disse eu. — Mas você sabe, ou deveria saber, que “C”, e “Z”, e às vezes “D” são “th” para nós.
— Nunca me incomodei muito em tentar pronunciar línguas estrangeiras — disse Dick. — Eu apenas luto com as palavras da melhor maneira que posso, em um americano simples. Mas agora — sempre achei indelicado mencionar isso antes — entendo por que vocês, espanhóis, parecem cecear e sibilam suas últimas sílabas como segredos. Quanto ao lugar para onde vamos a seguir...
— Valladolid? — pronunciei como um espanhol, “Valyadoleeth”.
— Sim. Isso supera o Thith. Minha língua não foi feita para isso, e vou chamá-la simplesmente de Val.
Com murmúrios de pesar do Querubim por nós, estrangeiros, estarmos virando as costas para Burgos sem ver todos os seus tesouros, e suspiros de Pilar pela Cartuja de Miraflores e o mais belo túmulo esculpido da Terra, voltamos nossos rostos para Valladolid.
Nossa estrada cortava a planície árida que se estendera diante de nós ontem. Poucas árvores pontuavam a triste canção de sua monotonia; mas sempre ao longe erguiam-se colinas amarelas como leões agachados adormecidos, luzes e sombras navegando sobre suas cabeças com o mergulho ousado das aves titânicas. Mais de uma vez cruzamos a pobre linha ferroviária única, a principal via de comunicação entre Paris e Madri, e Dick disse que a Espanha precisava de alguns americanos para acordá-la. Três trens por dia, na verdade, e uma velocidade de vinte e quatro quilômetros por hora! As pessoas balançavam a cabeça e diziam que a Espanha não era país para se viajar de automóvel. Bem, certamente não era país para se viajar de trem, a menos que você quisesse esquecer para onde estava indo antes de chegar lá. Ele desejava ser um diretor administrativo; ou não, pensando bem, a coisa que ele preferiria seria melhorar o futuro da indústria automobilística. Ora, havia uma fortuna a ser recolhida por algum sujeito com um pouco de iniciativa e um pouco de capital. Olhe para estas estradas, agora; nenhuma delas tão ruim, pelo que tínhamos visto; algumas, tão boas quanto na França; outras, apenas acidentadas porque a ciência não fora empregada em sua construção; após a chuva, ficavam macias e lamacentas, e então endureciam em sulcos. Mas alguns milhares de dólares, bem aplicados, mudariam isso. Então, com um bom serviço de automóveis, veja o que poderia ser feito em termos de transporte de produtos agrícolas e uma centena de outras coisas. O que havia de errado com os espanhóis para que não consertassem algum esquema deste tipo?
O Querubim, ouvindo educadamente o notável espanhol de Dick, e entendendo talvez metade, respondeu suavemente que seria muito trabalhoso, e que os espanhóis não gostavam de trabalho.
— Mas suponho que os espanhóis gostem de enriquecer, não gostam? — disse Dick, que estava descansando e deixando Ropes dirigir, enquanto fazia o quarto ocupante no banco traseiro.
— Eles não estão ansiosos. É melhor estar confortável — murmurou o irlandês-espanhol. — Além disso, é vulgar ser rico demais e faz com que os vizinhos fiquem infelizes. É uma coisa que eu mesmo não faria.
— Isso é verdade — disse Pilar. — Não é o que vocês chamam de uvas verdes. Papai poderia ser rico se quisesse. Temos cobre em nossa terra, muito cobre. Homens vieram e disseram ao papai que, se ele escolhesse explorá-lo, poderia ter uma das melhores minas de cobre da Espanha.
— E ele não quis? — perguntou Dick.
— Nem por todo o ouro do mundo — disse o Coronel O’Donnel, com um brilho de orgulho em seus olhos castanhos e suaves. — Não venho desse tipo de gente. Sou um oficial. Não sou um mineiro.
— Mas — implorou Dick, perplexo com este novo tipo de homem que se recusava a abrir sua porta e deixar que o dinheiro, toneladas de dinheiro, entrasse —, mas você poderia vender a terra e ter um lucro enorme. Você poderia manter ações, e...
— Não tenho desejo de vender — respondeu o Querubim.
— Bem, você poderia deixar que outros trabalhassem na mina para você.
— Mas prefiro viver sobre ela. É uma terra linda. Não gostaria que fosse tornada feia. Meus ancestrais se levantariam de suas sepulturas e protestariam contra mim.
— Ainda assim, somos pobres — disse Pilar. — Novo irmão, por favor, tenha cuidado com as roupas de Cristóbal — e ela riu alegremente. — Demorará muito até que possamos comprar outras.
— E todo aquele cobre apodrecendo debaixo da terra — ofegou Dick.
— Temos primos que são mais orgulhosos do que nós sobre tais coisas — disse Pilar. — Duas moças e sua mãe, que vivem em Sevilha. Elas têm uma casa antiga e bonita com jardins adoráveis, mas nada mais. Como conseguem não passar fome, os santos sabem. Venderam sua porcelana e joias — tudo, exceto suas mantilhas — para manter sua carruagem; e precisam compartilhá-la com duas outras famílias de primos, cada uma se revezando; mas elas têm três portas na carruagem — uma porta com o brasão da família de uma, uma porta com o brasão da segunda e outra com o da terceira; então ninguém de fora sabe. Uma companhia escocesa quer comprar sua casa e terras para um hotel, e ofereceu dinheiro suficiente para torná-las ricas para o resto da vida; mas elas prefeririam morrer a abrir mão do lugar. E embora uma das minhas primas pinte maravilhosamente bem e pudesse ganhar muito vendendo belos esboços de Sevilha, sua mãe não permite. Acho que é levar o orgulho longe demais; mas conheço muitas pessoas que são assim.
— Sinto como se tivesse passado por uma semana de doença só de ouvir tudo isso — disse Dick. — Não consigo superar esse cobre.
Através de vila após vila, avançamos suavemente, todos encantados em nos ver, exceto os cães, que se ressentiam de nossa chegada e tornavam a direção uma dificuldade, até que Ropes aprendeu um truque que geralmente servia para manter cães e carro fora de perigo um do outro. Ele levantava os braços repentinamente e o cão, pensando em um chicote ou uma pedra, saltava mecanicamente para fora do caminho. A essa altura, já teríamos passado zunindo.
Após um curto trajeto chegamos a Torquemada, lar do Grande Inquisidor; cruzamos o Pisuerga por uma ponte de pernas longas que se estendia pelo leito do rio; tivemos um vislumbre fugaz de Venta de Baños; chegamos a um canal de águas verde-berilo cortado em linha reta (o que Dick considerou sombriamente uma evidência surpreendente de energia na Espanha) e diminuímos a velocidade para nos maravilhar com uma vila de habitações em cavernas, escavadas em níveis na encosta, acima da estrada à nossa direita.
Era um lugar como Crockett descreve de forma empolgante em um de seus livros de aventura. Todo o longo flanco amarelo da colina estava repleto de pequenas portas escuras e janelas oblíquas, de onde rostos selvagens olhavam. De chaminés irregulares subia a fumaça de fogos ocultos queimando no coração da terra; enquanto lá embaixo na estrada um ou dois burros, com a cabeça em sacos amarelos e as patas dianteiras amarradas com corda, tentavam saltar colina acima, como se fossem coelhos gigantescos.
À beira da água erguiam-se árvores podadas, esguias e pretas, alinhadas ao longo da margem como meninos negros nus, cabeçudos, com tufos de lã felpudos, hesitando antes de um mergulho. As estradas arenosas foram bem-vindas após as pedras, e de repente a paisagem começou a copiar a África, com desertos de areia amarela movediça, varridos por sombras púrpuras do Saara. Ao longe, as montanhas, rolando ao longo do horizonte largo, cintilavam em azul, rosa, ocre e branco, como mármore colorido ou um mosaico mourisco. Novamente passamos zunindo por uma vila troglodita em uma encosta; cruzamos uma ponte magnífica, que até Dick aprovou; serpenteamos por um labirinto de ruas estranhas como as ruas de um pesadelo, e estradas à altura; sentimos perfumes misturados de incenso, braseiros acesos, cigarros e alho (o verdadeiro e íntimo cheiro da Espanha rural); vimos Dueñas, onde a bela Isabel, a Católica, encontrou Fernando na construção do mais romântico dos cortejos reais; giramos por Cabezon: e então, ao entrarmos em Valladolid, começamos a saltar e pular sobre abismos e sulcos como as nossas rodas ainda não tinham sido insultadas na Espanha.
— Céus! O que os Pais da Cidade estarão pensando? — ofegou Dick, entre os solavancos que nem as melhores molas podiam disfarçar. Seguimos em frente, através daquela famosa cidade antiga que Filipe II escolheu para capital da Espanha; e cada rua era uma revelação mais terrível que a anterior. O carro balançava e rolava como uma embarcação em mar agitado, tremendo para se endireitar entre as ondas, embora Ropes dirigisse a passo de caminhada. — Quem já ouviu falar de estradas estarem bem fora de uma cidade e se despedaçarem dentro dela? — continuou Dick. — Ora, na América...
— Mas isto é a Espanha — lembrou-lhe o Querubim.
Tínhamos deixado Burgos às dez e meia, e eram duas horas quando mergulhamos na cidade que Dick abreviou para “Val”. Lá, aproveitei a vantagem do papel que desempenhava e procurei o hotel onde Carmona deveria almoçar ou talvez passar a noite; mas, para meu espanto, ele não foi encontrado em nenhuma das duas pousadas possíveis. Eu estava com fome, pois não tomara café da manhã, exceto por uma xícara de café no Signo do Cid; mas eu não comeria até que o mistério fosse resolvido.
O carro cinza fora visto entrando na cidade, e ninguém o vira sair; no entanto, ele, com todos os seus passageiros, desaparecera. Enquanto os outros examinavam um menu francês de nomes pomposos no hotel que encabeçava a lista do guia, Ropes e eu fizemos um trabalho de detetive. Foi ele, na verdade, quem encontrou a pista do Lecomte, quando tínhamos caminhado de volta para a rua em que ele deve ter entrado primeiro; e mesmo para Ropes isso teria se provado uma tarefa impossível se nossos automóveis não tivessem sido os únicos dois que passaram após as fortes chuvas. — Tenho o padrão daqueles pneus antiderrapantes impresso em meu cérebro, senhor, desde ontem — disse ele. — O que eu não sei sobre eles não vale a pena saber.
Então ele atacou a linha espessa, reta e pontilhada na lama e, perdendo-a frequentemente, mas sempre a recuperando, viramos e serpenteamos até que a trilha parou em frente a uma casa particular. Mais tarde, ela continuou; mas era evidente que o carro fizera uma pausa. A lama estava muito pisoteada e provavelmente a bagagem fora retirada.
Presumimos, portanto, que aqueles que procurávamos estavam lá dentro; mas a próxima coisa era encontrar o local de descanso do Lecomte, para que ele não desaparecesse e nos deixasse na mão, ignorantes de seu destino. Felizmente para nós, o pior já passara. A trilha levava a um estábulo não muito longe, e como as portas estavam escancaradas tivemos o alívio alegre de ver o carro sendo limpo de sua rica camada de lama. O motorista estava supervisionando, de costas para as portas, e caminhamos rapidamente para que ele não avistasse um casaco de couro e adivinhasse que seu próprio jogo estava sendo jogado contra ele.
— Agora você pode ficar tranquilo, senhor — disse Ropes. — Esse carro não sairá desta cidade sem que eu saiba; e será difícil se eu não for capaz de lhe dizer no decorrer da próxima hora se ele está programado para partir hoje ou amanhã.
Ri com gratidão. — Obrigado, Ropes — disse eu. — Não vou perguntar como você pretende obter suas informações. Quando você diz que pode fazer algo, sei que está praticamente feito.
— Cabe a mim agradecer ao senhor — por tudo — respondeu ele, corando de prazer.
Então voltamos ao hotel. E se Ropes almoçou ou não, não posso dizer; mas eu almocei, com bom apetite, com Dick e minha família adotiva demorando-se à mesa para ouvir minhas notícias.
Em três quartos de hora, Sherlock Holmes cumpriu sua palavra enviando um bilhete curto, endereçado (como eu sugerira) a Waring. “Honrado Senhor”, dizia, “Lecomte permanece a noite. Mestre e amigos hospedando-se com seus parentes. Avisarei o horário de partida pela manhã e manterei nosso carro pronto. Respeitosamente, P. Ropes”.
Algum criado da casa ou ajudante de estábulo sem dúvida ganhara algumas pesetas. Como o truque fora feito tinha pouca importância, pois estava feito. Com o coração leve no peito e o uniforme de Cristóbal O’Donnel y Alvarez ainda adornando inadequadamente minhas costas, fui com os outros fazer turismo e procurar por Monica.
Vagueamos um tanto sem rumo pelas ruas, parando diante de qualquer edifício que chamasse nosso interesse; olhando para as janelas atrás das quais Cervantes escreveu parte de “Dom Quixote” quando voltara da escravidão; admirando o gracioso mirante daquela casa de esquina onde Filipe II nasceu; (“Muito bom para ele, já que o mundo teria sido melhor se ele nem tivesse nascido”, disse Dick, que tem ancestrais holandeses e uma longa memória;) tentando identificar o lugar onde Gil Blas estudou medicina com o Doutor Sangrado; entrando em duas ou três igrejas, mas não perdendo tempo com a catedral estragada por Churriguera.
— Como espanhol, qual é a sua opinião sobre a Inquisição? — Dick perguntou de repente ao Querubim, como se estivesse perguntando as horas. Tínhamos parado por um momento na Plaza Mayor onde Filipe assistira aos hereges queimando em suas camisas amarelas pintadas com chamas, no primeiro grande auto-da-fé que ele organizou.
Como outro espanhol, sei que esta é a única pergunta de todas, talvez, que não é sábio fazer a um espanhol, mesmo neste confortável século vinte. Mas Dick ou não sabia, ou queria parecer que não sabia; e observei o efeito das palavras. Mas o Querubim estava à altura da ocasião — e de sua natureza querúbica.
Ele olhou em volta instintivamente, como um homem faria alguns séculos atrás, para ter certeza de que ninguém ouvia; então, sorrindo lentamente, respondeu: — Não sou juiz, senhor; sou meio irlandês.
Pilar parecia perturbada, mas deu um pequeno suspiro com isso, dizendo: — Venham, vamos ver o museu.
Em nenhum lugar da Espanha pode haver coisa mais bela do que aquela fachada, bem chamada de Plateresca devido à sua semelhança com o trabalho de ourives; e dentro do museu encontramos uma coleção de figuras de madeira esculpida maravilhosa o suficiente, como disse Dick, para “vencer o mundo”. Havia crucifixos, santos pintados e virgens chorosas de Hernandez e Berruguete, modelados sem falhas, tão vívidos e belos que eram quase surpreendentes; e eu esperava que Monica pudesse vir enquanto nos demorávamos. Mas ela não veio, nem a vimos no Colegio de San Gregorio. Lá, no adorável pátio interno, entretanto, encontrei uma pequena luva cinza no pavimento de mármore, e ela parecia tão semelhante a uma certa outra luva que a anexei para comparar com aquela outra que vivia no bolso do meu peito com sua amiga, a rosa.
O par combinava em tamanho, cor e forma delicada. Até a fragrância de lírio pairava sobre ela, e eu sabia que esta segunda luva não fora deixada cair por acidente. Monica estivera aqui, e ela deixara uma mensagem para eu ler se a seguisse.
XV
COMO O DUQUE MUDOU
— Lecomte preparando-se, senhor — foram as primeiras palavras de Ropes para mim na manhã seguinte; — e trouxe nosso carro até a porta.
Ele tinha outras notícias também. Um automóvel chegara ontem à noite de Madri, um Merlin de sessenta cavalos-vapor, e o motorista relatara neve de meio metro de profundidade nas montanhas. O Merlin ficara preso, disse ele, e precisara ser puxado por bois. Supondo que o Duque pretendesse ir para Madri em vez de desviar pelo caminho de Salamanca, ele — e incidentalmente nós — parecia propenso a enfrentar uma aventura.
Todos havíamos tomado café e pãezinhos em nossos quartos, pois ninguém em sã consciência sonha em descer para o café da manhã em um hotel espanhol; e logo após as oito, estávamos saindo de “Val” aos solavancos pelas ruas tão execravelmente pavimentadas quanto aquelas pelas quais havíamos entrado. Mantivemos Ropes esperando após seu anúncio apenas o tempo necessário para amarrar nossa bagagem no teto; e como o outro carro também tinha bagagem e passageiros para apanhar, chegamos a tempo de vê-lo sair da casa dos parentes do Duque com todos a bordo.
Ao tomar a estrada para o sul ao sair da cidade, o Lecomte deu-nos a garantia de que não seguiria para Salamanca; mas ainda havia dúvidas quanto aos seus movimentos. Poderia ir direto para Madri pelas alturas nevadas da Sierra de Guadarrama, ou poderia fazer uma visita ao Escorial. Poderia até parar ali para passar a noite; e como havia tantas alternativas, estávamos ansiosos para manter nosso líder continuamente à vista.
O vento estava terrivelmente frio e Pilar tremia em sua capa, que não fora feita para andar de automóvel. Quando Dick viu isso, antes que eu pudesse falar, ele já havia tirado seu próprio casaco forrado de pele, insistindo que ela o vestisse. “Posso pegar o da Casa Triana”, disse ele, “já que ele ainda está fingindo ser um soldado da Espanha.” E um olhar me advertiu para não cometer a gafe de perguntar por que, em nome do bom senso, ela não deveria usar o meu, que eu não estava usando, em vez do dele, que estava em suas costas. Ele queria que ela usasse seu casaco, e que se dane o bom senso!
Após um instante de perplexidade estúpida, entendi e mal pude conter uma risada. Há quantos dias ele a conhecia? Dois e um pouco. Em Biarritz, ele me dera bons conselhos sobre meus assuntos; não conseguia entender esse negócio de amor à primeira vista; achava que uma garota não valia um centavo furado até os vinte e dois anos; não se via sendo sentimental em circunstâncias alguma; pretendia esperar para fazer sua escolha até voltar à América; acreditava que um homem devia ao seu próprio país colocar suas compatriotas em primeiro lugar; e, de qualquer modo, não suportava uma garota que não fosse capaz de conversar racionalmente. No entanto, Pilar, se fosse para falar com ele em sua própria língua, teria que limitar seus brilhos a “Varry nice, lo-vely, all raight”; enquanto, se ele se esforçasse com a dela, mal poderia ir além dos limites de um guia de frases.
A linguagem dos olhos permanecia; mas isso não tem lugar no reino do bom senso. Meu sobretudo era singularmente deselegante em Dick; mas ele brilhava de felicidade nele, enquanto observava Pilar aconchegantemente envolta no seu; e, ao contemplar a cena, certas coisas me ocorreram que eu poderia dizer a Dick quando o tivesse a sós. Mas, no fim, pensei que as guardaria para rir sozinho.
Nesta manhã de vento cortante e sol brilhante, havia ainda mais deslumbramento de neve para iluminar os picos das montanhas; e embora a estrada fosse monótona, a beleza dos efeitos atmosféricos valia a viagem até a Espanha para ser vista. A estrada pela qual viajávamos e os prados próximos pareciam, à medida que avançávamos em velocidade, o único solo sólido à vista; como se tivéssemos pousado em uma ilha flutuando a uma velocidade de trinta milhas por hora, através de um vasto mar de tons translúcidos que mudavam com a luz, como uma opala muda.
Florestas de pinheiros “guarda-chuva”, estranhamente agrupados, eram manchas de tinta verde-escura salpicadas contra o céu; e mal passavam cinco minutos sem que víssemos o dedo de uma antiga torre de vigia apontando para as nuvens a partir de uma colina. Às vezes nossa estrada, dividindo campos de milho sem fim, estendia-se diante de nós longa e reta por quilômetros, subindo e descendo colinas, como se elas se perseguissem, mas nunca conseguissem se alcançar. Então, quando nos acostumávamos a tal perspectiva, a estrada girava tão subitamente que parecia saltar em nossos rostos. Ela se voltava sobre si mesma e se contorcia como uma cobra ferida, antes de conseguir rastejar novamente.
O nosso era um mundo silencioso e inabitado, sem uma casa visível em lugar algum, exceto aqui e ali alguma ruína de pedra — um marco da Guerra Peninsular. Só se podia pensar que gnomos saíam à noite de buracos sob as colinas para cultivar a terra para proprietários ausentes; pois os campos ilimitados eram cultivados até o último centímetro. Compartilhávamos a estranha impressão de que havíamos nos desviado para um país que nenhum olho humano via há séculos; mas quando cruzamos o largo Douro correndo para o Golfo da Biscaia e o Porto, e dirigimos o carro aos solavancos pelo vilarejo esfarrapado de Mojales, em uma curva abrupta da estrada estávamos em um mundo diferente — um deserto de pedras.
Gigantes pré-históricos haviam brincado com dólmens e rochedos ciclópicos, e deixado seus brinquedos espalhados em confusão. Stonehenge poderia ter sido copiado de uma de suas estranhas estruturas; e eles haviam dado às raças posteriores uma ideia rudimentar de fortes e cidades. Crianças gigantes haviam moldado elefantes de pedra, cabeças de guerreiros, cães sentados sobre as ancas, copos de granito e cestos deformados, todos de tamanho surpreendente. Ou seria a água, lenta como os moinhos dos deuses, e tão certa, que havia esculpido todos esses desenhos fantásticos e empilhado esses imensos blocos uns sobre os outros?
Uma ponte alta de pedra atravessava uma ravina rochosa esculpida por aquele poder lento em alguns milhões de anos de lazer; e ali, abrigado do vento, teria sido um lugar ideal para os motoristas fazerem um piquenique. Mas o Duque não fazia piqueniques, portanto nós não devíamos. Seguindo-o de perto, continuamos, subindo cada vez mais para o mundo das montanhas, ainda no playground dos gigantes desaparecidos, serpenteando ao longo de uma estrada tão selvagem quanto o caminho para Montenegro. Erguendo-se em intervalos regulares diante de nós, de ambos os lados, ficavam altas colunas de pedra, como sentinelas, colocadas em pares para guiar os viajantes através dos montes de neve branca durante as tempestades de inverno. O país era arborizado e começava a ter o ar de um parque particular, embora as alturas estivessem próximas acima de nós agora, e nossa estrada subisse constantemente. Do cenário de Montenegro, entramos direto na Floresta Negra; e Baden-Baden poderia ter ficado no vale abaixo dessas montanhas pontiagudas vestidas com pinheiros de luto.
Splat! A lama marrom da neve derretida jorrava em fontes enquanto nossos pneus gordos abriam caminho, e de ambos os lados ela jazia intacta em pureza virgem sob os pinheiros. Meia milha acima, e nem mesmo o tráfego de pesadas carroças de bois e o fogo feroz do sol tiveram o poder de quebrar o pavimento de mármore. Ele estava estilhaçado e lascado, esculpido em sulcos profundos por rodas de madeira; mas não havia veios lamacentos de marrom. Dez minutos a mais, e nosso motor começou a sofrer. Então, antes que houvesse tempo para contar os momentos, estávamos com neve até os eixos.
O coração do motor batia forte, mas com um ruído robusto e confiável que confortava Pilar, que estava metade rindo, metade assustada, com aquela sua primeira aventura. A qualquer instante poderíamos encontrar o Lecomte preso na armadilha de neve que ameaçava nos pegar.
Ropes manteve o carro nos sulcos largos feitos pelas carroças de bois, mas mesmo com sua boa direção, balançávamos para a direita e para a esquerda, deixando a trilha irregular e entrando em montes perigosamente perto da borda do precipício, ou derrapando como se patinássemos no gelo polido, falhando em aderir à superfície congelada.
Agora era o momento de aliviar o motor disposto. Dick e eu saltamos, e o Coronel O’Donnel seguiu, embora o tivéssemos persuadido a permanecer em seu lugar. Apenas Pilar permaneceu no carro, com Ropes dirigindo, enquanto nós três homens, com neve até os joelhos, colocamos nossos ombros para ajudar o Gloria enquanto ele fazia o esforço supremo. Empurrando e escorregando a cada passo, nosso sangue (que correra lentamente devido ao frio) correndo em nossas veias, estávamos fazendo um grande esforço de força unida, quando, ao contornar bravamente uma curva, quase batemos na traseira do carro de Carmona.
Lá estava ele, preso em um monte de neve como uma onda congelada; e lá estava o próprio Carmona, com neve até os joelhos no pó de diamante, supervisionando sombriamente seu motorista que compactava neve no radiador para resfriar o motor superaquecido.
Toda a potência extra do Lecomte não dava vantagem sobre o Gloria aqui. O destino havia preparado o palco para nós, e tínhamos que obedecer à deixa. Nenhuma engenhosidade de Pilar poderia nos esconder nos bastidores por mais tempo, e tínhamos que desempenhar nossos papéis conforme o Destino indicava.
Apenas uma coisa estava clara. Carmona não poderia ter tido ideia até agora de que os O’Donnel (com aquele jovem soldado tão parecido com o Homem Proibido) estavam viajando no carro vermelho de onde ele já havia retirado um passageiro suspeito. A coincidência pareceria estranha para ele; e se ele estivesse seguro o suficiente de sua posição para arriscar outro erro, provavelmente me denunciaria à polícia na próxima cidade grande. Disfarçar meu eu banido como um oficial em um regimento espanhol não seria um ponto a meu favor; mas... ele não podia fazer nada agora. Monica estava aqui, e o momento era meu.
Havia uma alegria selvagem na situação, nascida da exaltação, da alta altitude e da incerteza sobre o que poderia vir a seguir.
“Vocês vão se manter fora do caminho?” perguntou Dick; pois ainda estávamos ocultos da visão de Carmona pelo nosso próprio carro, que Ropes havia parado com um ranger de freios; e o rosto de Pilar estava velado.
“Eu não. Vou me divertir um pouco”, respondi. “Tem que acontecer mais cedo ou mais tarde, melhor mais cedo, ou de que serve interpretar Cristóbal O’Donnel?”
Com isso, apareci de trás do carro, e os outros seguiram, enquanto Pilar se inclinava para fora em ansiosa expectativa.
“Como vai?” disse eu, em um andaluz tão preguiçoso quanto o outro Cristóbal poderia ter usado. Tirei meu boné para as senhoras, assim como Dick e o Querubim, expondo testas aquecidas, úmidas pelo trabalho honesto. “Sinto muito encontrá-los em tal dificuldade. Mas logo vamos tirá-los daí, não vamos, Señor Waring? Aqui estamos três de nós com ombros fortes e corações dispostos.”
“Quatro, contando meu motorista”, disse Dick em inglês, entrando no meu jogo, já que não havia como me parar agora. “Estamos encantados em fazer qualquer coisa que pudermos.”
Carmona olhou fixamente como um animal olha quando está acuado; apenas, um animal pode atacar seus inimigos, e ele não podia nos atacar; pois não tinha certeza se éramos inimigos ou não, e se não estaria fazendo um tolo de si mesmo se nos deixasse saber o que passava em sua mente.
Era evidente que ele pensou muito por um momento, e estava em dúvida sobre o que seria melhor fazer. Mas, de repente, o olhar acuado desapareceu de seu rosto, como uma sombra é afugentada pelo sol, e presumi que um curso de ação lhe ocorrera com o qual ele estava bem satisfeito. Isso parecia sinistro para mim, e eu teria dado qualquer coisa para ler seus pensamentos.
Ele respondeu ao nosso “Como vai?” com grande cordialidade — para ele; disse que fora pego de surpresa, a princípio, pois não tinha ideia de que a excursão automobilística da qual a Señorita Pilar falara começaria tão cedo, ou nos colocaria em seu caminho. Foi uma coisa boa para ele, no entanto, que estivéssemos aqui, e não apenas ele estava satisfeito em nos ver por nossa própria causa, mas ficaria feliz em aceitar nossa gentil oferta.
Enquanto isso, Pilar havia levantado seu véu, e ela e Monica estavam trocando cumprimentos. Quanto a Lady Vale-Avon, seu véu também estava levantado, e seus lorgnons em seus olhos. Eu não duvidava que ela e o Duque tivessem comparado impressões sobre nossa festa familiar, após o episódio em Burgos, impressões surpreendentemente confirmadas agora, e a cordialidade de Carmona em tais circunstâncias deve tê-la intrigado. Quanto à Duquesa, seu rosto largo estava escondido atrás de uma espessa tela de tecido cor de chumbo, e eu não podia julgar nada de seus sentimentos.
Quando Monica ouviu a proposta de impulsionar o carro cinza através dos montes de neve, ela abriu a porta em um instante e teria saído na neve profunda se não a tivéssemos impedido.
“Vocês devem todos ficar onde estão”, disse Carmona apressadamente, temendo, talvez, que alguma oportunidade para uma palavra fosse arrebatada apesar dele, se eu fosse realmente Casa Triana. “O peso de três mulheres não faz diferença alguma; não é verdade, senhor?” e ele se virou para Dick, que, de acordo com nossa história, era o dono do automóvel vermelho, bem como o anfitrião do grupo.
Claro que Dick concordou, assim como todos nós, que as senhoras não deviam sair de jeito nenhum. O motorista do Duque pulou para seu lugar novamente e, com um giro da manivela de partida, o motor cansado estremeceu até suas entranhas de ferro. Houve um despertar repentino de carburador, pistões, velas de ignição, válvulas, platinado, cada parte que estivera descansando após o longo esforço, esforçando-se para obedecer ao seu mestre. Com um grito de suspiro da engrenagem, o carro tropeçou para frente e para cima, nossa força unida posta a serviço. Cambaleando, mergulhando, empurrando, demos toda a ajuda que pudemos, e por alguns minutos pareceu que com nossa ajuda o motor abriria caminho até o ponto mais alto.
Nossos corações batiam em nossos peitos e enviavam o sangue quente pulando para nossas cabeças como se em simpatia com a luta poderosa do motor. Mas os quarenta cavalos do Lecomte, e a força e boa vontade de cinco homens — contando Carmona, que fez o mínimo de trabalho que pôde — não foram suficientes. As rodas afundaram até os eixos, girando na neve sem impulsionar o carro; com o motor incapaz de fazer sua parte, nós homens sozinhos não podíamos fazer tudo. O automóvel não se movia por mais que empurrássemos; e, vendo que o trabalho era perdido, paramos para respirar e erguer as sobrancelhas questionadoramente um para o outro. Carmona, alarmado ao descobrir que suas castanhas não podiam ser tiradas do fogo por quaisquer gatos a seu serviço, perguntou em voz alta o que deveria fazer.
“Alguém que veio a Valladolid ontem à noite foi puxado através dos montes de neve por bois”, disse eu. E mesmo enquanto falava, como um carneiro preso nos arbustos pronto para o sacrifício, avistei na distância branca a silhueta negra de um boi enorme.
Ele não estava sozinho, pois um olhar mais penetrante mostrou que ele tinha um companheiro de jugo tão grande e negro quanto ele; e guiados por um rapaz de faixa vermelha, cachecol e xale, eles avançaram em nossa direção lentamente, mas com tanta certeza que suspeitei de algo mais do que uma coincidência. Os grandes animais pesados eram como manchas de tinta contra a neve, e a figura ágil do rapaz formava um belo ponto de cor enquanto ele caminhava diante de suas bestas, seu bastão junto aos focinhos delas como se fosse um ímã que elas, ancoradas cabeça com cabeça com uma viga de madeira, eram compelidas a seguir.
Passou-me pela cabeça que este jovem e seus bois não estavam vagando pelas montanhas cobertas de neve por nada. Os lobos que uivam nessas mesmas fortalezas selvagens em uma noite de inverno sentem o cheiro da presa; e assim eu pensei que o rapaz também, com a insignificante substituição de gasolina por sangue. Este jovem havia feito uma boa pesca (em todos os sentidos da palavra) por acidente ontem; estava caçando outras pescarias hoje, e estaria enquanto a neve durasse.
Nós o chamamos. Ele fingiu surpresa e hesitou, como se para aumentar seu valor. Então, baixando os longos cílios enquanto ouvia nossa proposta, fingiu considerar os prós e contras. Seria um esforço terrível para seus animais arrastar um peso tão grande, mas — oh, certamente eles seriam capazes de fazer isso. Eles eram dóceis e fortes. Quase todos os dias eles arrastavam cargas pesadas de toras cortadas sobre as montanhas. Por vinte pesetas ele arriscaria ferir seus bois, mas não um real a menos; e eles arrastariam o carro cinza até o topo da passagem, isso ele poderia prometer.
“Que extorsão!” protestou Carmona, que não é famoso pela generosidade, exceto quando algo pode ser ganho com isso.
“Oh, ele é bonito demais para ser barganhado!” implorou Monica.
Isso resolveu a questão. Para agradá-la, ele teria dado o dobro de vinte pesetas pela metade da distância. O rapaz foi contratado sem mais pechinchas; os animais foram atrelados ao grande Lecomte com uma corda que o jovem “por acaso” tinha; e com um grito emocionante de “A-r-r-r-i! O-lah!”, ele golpeou as duas costas negras com sua aguilhada.
“Não suporto ver isso!” Monica gritou, cobrindo os olhos, enquanto as grandes cabeças eram abaixadas para ajustar o esforço, e cada músculo nos corpos poderosos e dóceis se retorcia e se agrupava com o esforço tremendo. Grandes como eram, parecia impossível que dois bois pudessem fazer pelo carro, com passageiros e bagagem, o que seu próprio motor se recusava a fazer; no entanto, a coisa enorme se moveu, a princípio com um solavanco trêmulo, depois com um rastreio constante, embora pesado.
“O-lah!” gritou o rapaz; “thump” na pele grossa sobre os músculos em esforço caiu a aguilhada, e assim o carro avançou pela neve profunda, todos nós seguindo, exceto Ropes, que, tendo derramado neve derretida no radiador e deixado o fluxo de resfriamento passar pelos tubos de água, trazia o Gloria lentamente, por sua própria potência. Ele agora tinha apenas dois passageiros e nem metade da bagagem do Lecomte, o que talvez explicasse sua proeza; no entanto, eu estava orgulhoso. “Brava, Gloria!” eu gostaria de ter gritado.
Eu poderia ter avançado agora e, acompanhando o carro de Carmona, enquanto os bois lutavam nobres na passagem, ter tentado uma ou duas palavras com Monica. Mas talvez Lady Vale-Avon esperasse tal movimento por parte do jovem oficial problemático; e, por precaução, ela se aproximou da garota no tonneau. Uma conversa que valesse a pena teria sido impossível sendo assim espionada, e eu desapontei a chaperona não fazendo tal tentativa.
Para minha surpresa, Carmona caminhou conosco, em vez de seguir em frente ao lado de seu próprio carro. Sua amizade me intrigou. Cada olhar direcionado ao meu rosto era afiado como uma verruma, embora suas palavras fossem geniais; mas o choque final veio quando ele anunciou que estava indo para o Escorial e perguntou se gostaríamos de nos juntar ao seu grupo.
“Conheço o palácio como a palma da minha mão — melhor do que conheço a maioria dos livros”, disse ele; “e se vocês nunca foram, posso levá-los a lugares que não costumam ser mostrados.”
O Querubim agradeceu aos céus por nunca ter ido; e longe estaria dele ir hoje ou em qualquer outro dia. Ele havia contemplado o Escorial por fora e ficara deprimido a ponto de chorar. Muitas vezes, desde então, ele se consolou de vários infortúnios refletindo que, na pior das hipóteses, não estava suportando-os no Escorial. Mas ele se sentaria no automóvel e se prepararia para cochilar enquanto seus queridos filhos e amigos eram martirizados no Mosteiro.
“O senhor é muito gentil em nos guiar pessoalmente”, Dick respondeu ao Duque, “mas não temos tempo para o Escorial.”
“Valerá a pena arranjar tempo”, apressei-me a interromper, embora Dick tenha lançado um olhar de aviso que dizia: “Seu idiota, você não vê que o homem está armando uma armadilha, e você está caindo nela?”
Eu estava pronto para arriscar aquela armadilha e, percebendo que eu pretendia ir até o fim, Dick não apresentou mais objeções.
XVI
UM SEGREDO DO REI
Pilar disse que os bois eram uns idiotas queridos por partirem seus corações por nada, nem mesmo uma porcentagem sobre as vinte pesetas. Mas bestas de quatro patas são tragicamente conscienciosas, e esses mártires de curral realizaram sua tarefa sem um gemido, enquanto o Gloria subia perto atrás por sua própria potência.
Agradeci ao santo padroeiro da criação bovina quando os brutos em esforço chegaram ao topo. O cume da passagem era coroado por um leão em um pedestal de granito; um leão com um ar frio de orgulho em sua missão de marcar o limite entre a Velha Castela e a Nova. Para mim também ele marcava algo pelo qual eu lhe devia gratidão; meu avanço mais profundo no coração de minha própria terra.
Perto do nosso local de descanso no topo da passagem havia uma cabana rude, e um ou dois vagões que haviam subido com esforço pelo outro lado estavam parando suas parelhas fumegantes. Ali, sentados no carro novamente, enquanto esperávamos para ver os bois serem desjugados e o rapaz pago, uma moça saiu da pequena casa com um volume grande, no qual ela nos pediu que assinássemos nossos nomes. O Querubim rabiscou algo; e enquanto Dick escrevia, Carmona aproximou-se, para ver se eu confiava ou não meu nome ao livro. Eu pretendia não o fazer, mas agora teria mudado de ideia se o Coronel O’Donnel não me tivesse detido. “Eu escrevi o seu nome, Cristóbal”, disse ele, com sua voz ambrosiana; e a situação foi salva. Carmona fez algum comentário trivial para justificar sua aproximação, e caminhou para longe com um ar autoconsciente, enquanto o olhar de Pilar e o de Monica cruzavam a distância entre os dois automóveis e se encontravam de forma travessa.
O carro cinza assumiu a liderança novamente, e em uma curva da estrada parecia que o mundo inteiro estava a nossos pés; ainda assim, não era nem toda a Velha Castela, tão vasto país é minha Espanha.
Tão longe quanto o olho podia viajar estendia-se a bela terra, verde com o verde terno da primavera, amarela com manchas de areia dourada, sombriamente salpicada de bosques; atingida por raios de luz fugazes, cercada por um azul etéreo.
Nada poderia roubar-me este missal iluminado de memórias, e se eu fosse banido amanhã, eu teria a Espanha para guardar em meu coração, eu disse, enquanto descíamos velozes o caminho íngreme e sinuoso que serpenteava ao longo da encosta sul da Guadarrama. Era uma estrada vertiginosa, mas nobremente projetada, contorcendo-se sobre si mesma em muitas voltas, deixando-nos voar com a velocidade de um pássaro para níveis mais baixos; e parecia que mal tínhamos descido a borda da montanha e já estávamos na curva à direita que levaria ao Escorial.
Bem diante de nós, erguendo-se da encosta nua da montanha e parecendo uma parte dela, elevava-se e estendia-se um edifício mais vasto do que qualquer um que eu tivesse visto até mesmo nos espaços ilimitados da terra dos sonhos. Se não fosse por sua fria regularidade, eu teria pensado estar me aproximando de outro deserto de gigantes que faziam brinquedos de monólitos e obeliscos; mas essas cúpulas e torres assustadoras só poderiam ser obra do homem. Não havia brincadeira ali; tudo era proibitivo e sombrio; pois este era o Escorial — imenso, sinistro, como se moldado a partir do produto severo daquelas minas de ferro que lhe deram o nome.
Eu podia imaginar a satisfação fanática que a mente seca de Filipe havia encontrado ao planejar este monumento para representar a grelha na qual São Lourenço foi martirizado. Ele, que na história seria conhecido como o grande Inquisidor, devia construir seu mosteiro e palácio em honra a um mártir! Mas Filipe era a última pessoa a ter senso de humor; e era típico dele aplacar um santo ofendido dando-lhe uma igreja mil vezes maior do que a destruída no próprio dia de São Lourenço, na batalha de San Quentin.
“O Escorial não seria horrível se estivesse em qualquer outro lugar que não fosse exatamente aqui?”, perguntou Pilar.
Ela tinha razão; pois na Serra ele parecia uma expressão da Serra; e, apesar de Filipe, e não por causa dele, ele era esplêndido na força melancólica que o tornava um irmão das montanhas.
Almoçamos uma comida extremamente espanhola em uma fonda em frente ao Escorial; e quando chegou a hora do turismo — um tempo para nós, mas não para o público — o Duque começou por reunir a todos nós, exceto a cansada Duquesa e o preguiçoso Querubim, através da grande porta guardada por São Lourenço. Uma vez dentro, vimos os tesouros, como um pássaro em voo vê as belezas de uma cidade sobre a qual ele mergulha; mas nós os vimos, e uma vez obtive três palavras e um olhar de Monica, antes que ocorresse a Lady Vale-Avon passar o braço pelo da filha, num súbito transbordamento de afeição materna.
Carmona havia enfatizado a “influência” que poderia abrir para nós portas que, para outros, permaneceriam fechadas; e ele de fato nos introduziu sorrateiramente na Biblioteca de Manuscritos, no Oratório da Rainha e na Capilla Mayor para ver os túmulos reais. Mas depois que paramos mais tempo do que ele desejava na igreja, e no Coro, onde Filipe soube que Lepanto havia salvado a Europa dos turcos, e ouvimos a música triste do réquiem de Mary Stuart, o Duque prometeu algo ainda melhor, no palácio. “O que vocês verão lá”, disse ele, “é um segredo. Era um segredo do Rei Filipe — um segredo tão grande que até os escritores de guias turísticos não sabem nada a respeito; enquanto, se um turista tivesse ouvido um rumor e feito uma pergunta, os atendentes diriam: ‘Não existe tal coisa’. Apenas a Família Real sabe, algumas poucas pessoas privilegiadas na Corte e os guardiões do Escorial. Quanto a mim, fui informado por alguém aqui — alguém que eu mesmo coloquei no palácio.”
Minha curiosidade foi despertada; e até Dick, que se ressentia desta expedição, pareceu interessado quando chegamos ao palácio — o cabo da grande grelha. Na entrada, Carmona separou-se do resto do grupo, dizendo que precisava trocar algumas palavras em particular com o atendente que mostraria os aposentos de Filipe Segundo. Ele caminhou à frente, envolveu o guia de libré marrom em uma conversa em voz baixa e pareceu fazer uma pergunta com certa avidez.
Observando a pantomima à distância, imaginei que, por alguma razão, Carmona seria privado do privilégio do qual se gabara; mas, aparentemente, ele não pretendia aceitar a derrota sem lutar. Ele e o guia moveram-se, então pararam novamente para discutir — desta vez de costas para nós; mas, pelo movimento dos cotovelos de Carmona, julguei que ele colocou a mão no bolso. Cinco ou seis minutos depois ele retornou, para anunciar que, após alguma dificuldade, ele havia conseguido o que queria. Poderíamos entrar, sem acompanhantes, nos apartamentos privados de Filipe Segundo; e enquanto estivéssemos lá, outros visitantes seriam mantidos fora. “Se houver algum, eles serão levados por outro caminho”, disse Carmona, “e não estarão prontos para entrar nos aposentos do Rei até que nós estejamos prontos para sair.”
O guia levou-nos pela escadaria estreita até a porta externa da suíte de Filipe, depois esgueirou-se, fechando a porta atrás de si. Lady Vale-Avon e Monica (a mãe ainda segurando o braço da filha), Pilar, Dick, Carmona e eu estávamos agora sozinhos entre as paredes sombrias atrás das quais o fanático e déspota viveu sua vida miserável e morreu sua morte miserável.
Havia um frio no lugar sombrio que congelava o espírito; ainda assim, eu, por exemplo, não me senti triste. Eu estava consciente apenas de uma expectativa excitada, como se estivesse esperando que algo acontecesse.
Deixamos nossa imaginação colocar a forma magra de Filipe em sua cadeira, ou pela escrivaninha na qual ele costumava escrever; examinamos as relíquias sombrias de sua existência monástica; e finalmente nos movemos para a câmara mortuária, montada como um camarote de teatro, ao lado do altar-mor da capela.
Tão pequeno era o quarto que foi preenchido pelo nosso pequeno grupo de seis; ainda assim, senti ali outra presença que nenhum de nós podia ver — um fantasma cinzento agonizando por seus pecados, através de uma eternidade lúgubre.
Monica sentiu isso também, pois ela estremeceu e exclamou: “Vamos embora. Este quarto parece assombrado pelo mal. Não consigo respirar aqui.”
“Mas agora, o segredo”, disse Carmona. “Vocês adivinhariam alguma abertura escondida nestas paredes?”
Olhamos criticamente ao redor, e comecei a examinar o lambril, mas o Duque me deteve. “Você nunca encontraria o lugar”, disse ele; “e eu prometi à pessoa que me contou para não revelar o segredo; mas isso não me impede de mostrar o que está atrás da porta.”
Ele moveu-se para perto da parede, ficou parado por um instante, depois recuou, enquanto ouvíamos um leve som de clique, como o estalo de uma mola em uma tampa de caixa antiga. Ao mesmo tempo, uma parte do lambril deslizou para longe, deixando uma abertura estreita.
Estava escuro do outro lado, mas Carmona tirou uma caixa de fósforos de ouro do bolso e acendeu um maço de pequenos fosforos de cera.
“Filipe mandou fazer esta cela para um lugar de penitência e autoflagelação”, disse ele, “e está exatamente como costumava ser durante sua vida, antes que ele estivesse doente demais para entrar mais. Seu chicote de arame retorcido está lá, com seu sangue nele, sua camisa de crina de cavalo e um cinto eriçado com pequenas pontas afiadas. Quer dar uma olhada, Lady Vale-Avon? Não posso ir com você, pois a cela não é grande o suficiente para dois, mas segurarei os fósforos na porta.”
Lady Vale-Avon é do tipo de mulher que gosta de ver coisas como estas; e embora ela não tivesse se torturado se vivesse nos tempos feudais, tenho certeza de que ela teria jantado calmamente sobre uma masmorra subterrânea onde um inimigo — um infeliz inconveniente como eu, por exemplo — sofresse as dores da inanição.
Ela se espremeu para dentro da cela, descendo alguns degraus, permaneceu por dois ou três minutos e saiu, declarando ser extremamente interessante.
“Agora, Lady Monica, é a sua vez”, disse Carmona; mas Monica recuou. “Detesto ver coisas de tortura”, disse ela, “e sangue, mesmo sangue velho e perverso como o de Filipe, o qual eu costumava pensar, quando lia sobre ele na história, que adoraria derramar. Não, não vou entrar, obrigada.”
Pilar também recusou, pois se entrasse, certamente teria um pesadelo e sonharia que estava emparedada; assim, restaram apenas os três homens para inspecionar os horrores escondidos.
Carmona segurou sua caixa de fósforos para mim, dizendo que quando víssemos o lugar ele entraria para refrescar suas lembranças. Mas Dick calmamente serviu-se de vários fosforos e tomou a primeira vez, provavelmente suspeitando de algo no estilo de um esquecimento, especialmente preparado para mim.
Ele reapareceu logo, no entanto, suas suspeitas dissipadas. “Buraco horrível”, comentou; “quase ruim o suficiente para Filipe, embora ele tenha grelhado alguns dos meus melhores ancestrais.”
Peguei um par de fósforos, acendendo-os na caixa do Duque; então, baixando a cabeça e empurrando um ombro de cada vez, contorci-me através da abertura. Ao fazê-lo, no entanto, consegui tropeçar no pé de Carmona, que devia ter sido projetado para frente, cambaleei contra a parede oposta da cela estreita e perdi ambos os meus fósforos acesos. Carmona exclamou, eu tropecei e, quase simultaneamente, a porta deslizou para o lugar com um clique seco.
Não havia espaço para cair estendido. Apenas perdi o equilíbrio e salvei minha cabeça de uma batida protegendo-a com um braço levantado. Estabilizei-me em um segundo ou dois; mas eu estava na escuridão total. Do lado de fora eu podia ouvir um murmúrio confuso de vozes, e teria dado qualquer coisa para saber o que Dick estava dizendo naquele momento.
Eu estava pensando que não gostaria de ser um prisioneiro neste buraco (apenas grande o suficiente para o balanço do chicote de Filipe) por muitas horas seguidas, quando veio uma batida imperativa. “Olá!” respondi, esperando ouvir Dick falar em retorno; mas foi a voz de Carmona que respondeu. Evidentemente, ele estava falando com a boca perto da porta secreta.
“Sinto muito por este acidente”, disse ele distintamente. “Quando você tropeçou, bateu no meu braço e me fez tocar na mola. Infelizmente, a porta fechou com tal estrondo que a mola parece estar fora de ordem, e não consigo movê-la. Mas se você for paciente por alguns minutos, buscarei um atendente que entenda a coisa, para tirá-lo da cadeia.”
Se eu fosse o Tenente Cristóbal O’Donnel, não teria ouvido nada mais na junção rimada daquelas palavras “cadeia” e “fiança” do que o que chegava aos ouvidos, mas sendo o homem que eu era — o homem que ele suspeitava que eu fosse — eu ouvi mais; e acreditei que ele desejava que eu captasse um sentido duplo.
“Ele pretende me entregar à polícia agora, sob suspeita?”, perguntei-me na minha cela escura — “diante dos olhos de Monica?” Mas em voz alta eu disse: “Obrigado; não demore muito, ou serei tentado a destruir a porta.”
“Você achará isso impossível”, respondeu Carmona. “Não se preocupe se eu parecer ter ido uma eternidade. Só há um homem de serviço hoje que conhece o segredo deste quarto; perguntei por ele quando viemos, mas seu camarada disse que ele estava de folga até as quatro horas. Deve ser essa hora agora, e o trarei aqui o mais rápido possível. Ele ficará ainda mais satisfeito em libertá-lo, pois é um velho amigo seu. Você se lembra do pequeno Rafael Calmenare?”
Fiquei em silêncio, vendo, como se pelo brilho de um relâmpago, todo o desenho da armadilha, e parecendo ver também o triunfo que devia estar nos olhos de Carmona. Mas a pausa não se estendeu a um segundo, quando ouvi a voz de Pilar, falando também perto da porta.
“É claro que você se lembra, Cristóbal. Rafael Calmenare, da ganadaria do Duque. Mas faz muito tempo desde que ele foi embora.”
“Depois que ele foi chifrado por Nero e perdeu a saúde, através da influência de um amigo na Corte, consegui-lhe um lugar aqui”, ouvi Carmona dizer. Então, elevando a voz para meus ouvidos, ele continuou: “O pobre Rafael ficará satisfeito em vê-lo novamente. Você deve ter brincado com ele quando menino. Vou atrás dele agora.”
O silêncio seguiu-se a estas últimas palavras. Eu podia imaginar a consternação de Dick e Pilar. Nenhum dos dois podia fazer nada para me ajudar, nem eu podia ajudar a mim mesmo. Eu só podia esperar neste buraco negro sufocante pelo momento em que um estranho me desse luz e exclamasse: “Este não é Don Cristóbal!”
Quase admirei Carmona por sua perspicácia. Após alguns momentos de raiva, ao avistar o homem suspeito da Catedral de Burgos em seu rastro no carro vermelho, o pensamento do Escorial e de seu antigo servo deve ter surgido em sua mente.
Se Calmenare estivesse disponível desde o início, Carmona teria sido poupado do trabalho de me prender na câmara de tortura de Filipe, o Fanático; mas, pressionado por uma desculpa para nos manter no Escorial até que seu homem voltasse, ele me colocou onde eu pudesse ser mantido enquanto fosse necessário. E agora que ele havia saído em busca de Rafael, nós três camaradas leais não podíamos discutir a situação, por causa da presença de Lady Vale-Avon.
Um golpe brilhante de Carmona ter me feito ser traído por outra pessoa que não ele mesmo, para que Monica não guardasse rancor dele! Quem era esta pessoa disfarçada de oficial do exército espanhol? seria a primeira pergunta da polícia. E a resposta não precisaria demorar a chegar. O Duque tinha motivos para se parabenizar; eu tinha sido um tolo ao cair como uma mosca em sua rede, e agora que estava dentro, não via saída.
“Oh, como eu gostaria que pudéssemos abrir a porta secreta!”, ouvi Monica exclamar.
“Não consigo nem ver exatamente onde ela está agora”, disse Pilar. “Cristóbal?”
“Sim”, respondi.
“Pobre pequeno Rafael; um bom sujeito, não era?”
“Muito bom”, respondi. Com que objetivo ela estava trabalhando? perguntei-me. Mas eu não seria feito mais sábio. Antes que ela tivesse tempo de terminar a dica, ouvi Carmona falando.
“Enviei por Calmenare, que retornou, e estará aqui em alguns minutos”, ele chamou para mim. Era típico dele voltar apressado, para que de nenhuma maneira possível os três suspeitos pudessem chegar a qualquer entendimento.
Os momentos se arrastaram, e eu poderia ter me açoitado com o chicote de Filipe em fúria pela imprudência que poderia envolver toda a família O’Donnel no meu desastre. Nunca fui capaz de pensar menos claramente; mas talvez fosse a atmosfera sufocante da cela que me fazia sentir que dedos em uma luva de malha estavam cerrados em torno das minhas têmporas.
Lá fora, vozes zumbiam; mas aqueles que falavam deviam estar a uma distância, pois não conseguia captar palavras. Então, finalmente, havia uma nova voz no quarto. Calmenare tinha chegado.
“Como vai, Don Rafael?”, exclamou Pilar, tão educadamente como se tivesse se dirigido a um igual. “Estou feliz em vê-lo novamente. Estive esperando por você impacientemente. Apenas pense, meu querido irmão Cristóbal, a quem você conhece tão bem, está naquele lugar terrível e não consegue sair, porque o Señor Duque o trancou — por engano — e quebrou a mola.”
“Não acho que ela esteja quebrada, señorita”, respondeu a nova voz.
“Não consegui fazê-la funcionar”, disse Carmona apressadamente.
Clique! a mola funcionou sob dedos habilidosos. A porta deslizando para trás me deu uma lufada de luz e ar que me fez piscar por um segundo ou dois; e lá estava eu à mercê do estranho.
O que vi, quando minhas pupilas subitamente contraídas se expandiram, foi um homenzinho com a libré do palácio; um homenzinho pálido com traços insignificantes e olhos grandes e firmes. Não havia absolutamente nenhuma expressão em seu rosto enquanto por um breve instante nossos olhares se encontraram. Então — “Deus esteja com você, Don Cristóbal”, disse ele. “Fico feliz em ter sido útil, mesmo que minimamente. Espero, senhorito, que não tenha sofrido pela falta de ar?”
“Muito pouco”, disse eu. Estendi minha mão. Ele a pegou respeitosamente.
“Faz muito tempo desde que se viram?”, perguntou Carmona, pálido e vermelho alternadamente.
“Apenas cerca de dois anos, Señor Duque”, respondeu seu ex-servo, inexpressivo como antes, e calmamente respeitoso com todos. “Não pude esquecer a data, pois o Señor Coronel e a señorita, assim como o próprio senhorito, sempre foram muito bons para mim.”
O Duque foi silenciado. O teste inventado por ele mesmo falhou. Calmenare aceitou-me como Cristóbal O’Donnel; ele foi obrigado a aceitar-me também — pelo menos por enquanto.
“Vamos sair deste lugar?”, disse ele a Lady Vale-Avon.
Ela arrastou a filha consigo; mas Monica teve um olhar de despedida para mim, brilhando agora com malícia para Carmona, radiante de alívio para Casa Triana.
Nos despedimos de Calmenare na presença do Duque; e eu teria pressionado uma moeda de ouro em sua mão por “abrir a porta da minha prisão”, mas ele não aceitou. Depois, enquanto seguíamos o carro cinza na estrada de descida para Madrid, Pilar contou toda a história com efeito dramático para o Querubim.
“Minha única esperança estava em Rafael”, disse ela. “Fui boa com ele, você se lembra, quando ele estava doente. E ele e eu tínhamos uma grande simpatia por Corcito, o querido touro cinza. Rezei para que ele nunca tivesse perdoado o Duque por aquele crime, e que ainda fosse grato a mim. Bem, olhei Rafael diretamente nos olhos quando disse: ‘Meu irmão Cristóbal está naquele lugar, trancado pelo Duque, que quebrou a mola’. Com toda a minha alma, desejei que ele entendesse, e ele entendeu. ‘Se a señorita escolhe ter um cavalheiro estranho como seu irmão, ele é seu irmão para mim’, foi o que ele disse para si mesmo; nada mais! Mas e se ele não tivesse?”
“É aí que eu teria entrado”, comentou Dick.
“O que você teria feito?”, perguntou Pilar, sem fôlego.
“Não sei”, disse Dick. “Só sei que teria feito; e que se tivesse feito, talvez Carmona não estivesse se sentindo tão bem quanto se sente agora.”
XVII
COMO UM LADRÃO NA NOITE
O Duque já não desejava nossa companhia. Ele havia encenado sua pequena comédia de camaradagem, e ela tinha acabado, embora não tivesse terminado de acordo com suas esperanças. O carro cinza fez o melhor que seus quarenta cavalos permitiam para nos deixar para trás no caminho para Madrid, mas a estrada — tão boa que talvez não tenhamos perdido nada no desvio para o Escorial — distribuía seus favores de forma equilibrada. Mantivemo-nos perto dos calcanhares voadores do Lecomte até que um de nossos quatro cilindros entrou em sono profundo, e Ropes teve que descer e acordá-lo testando a ignição.
Alguns companheiros motoristas teriam parado para oferecer ajuda, mas o Lecomte era sempre um levita no que nos dizia respeito; e quando estávamos prontos para seguir, o carro cinza não era nem mesmo um ponto no horizonte. Felizmente, porém, havia pouca ou nenhuma dúvida sobre onde seus ocupantes se hospedariam.
Embora a casa dos Carmona em Madrid tivesse sido incendiada há dez anos (desde quando a Duquesa estabelecera sua residência no antigo palácio em Sevilha), mal havia um jornal continental que não tivesse descrito os esplendores do apartamento do Duque em um dos mais finos e modernos edifícios residenciais de Madrid. Naturalmente, ele receberia sua mãe e convidados ali, de modo que seria difícil escapar com eles sem que percebêssemos.
A coisa que eu não sabia era por quanto tempo ele pretendia ficar na capital; mas como ele precisava mostrar Sevilha na Semana Santa, e mais tarde talvez outros lugares no sul da Espanha, a Lady Vale-Avon e a Monica antes do retorno delas a Madrid para o Casamento Real, era quase certo que ele seguiria viagem em poucos dias.
Os O’Donnel nos recomendaram o Hotel Inglés, o melhor hotel espanhol em Madrid, além de ser o mais divertido, e foi com o coração relativamente leve que esperei pela primeira visão da capital do meu país. Como ela se compararia a Paris, a Viena, a Londres? Que aventuras me esperavam ali? Qual seria o próximo lance neste estranho duelo com Carmona?
Mas eu não precisaria ter buscado comparações. Enquanto avançávamos para dentro de Madrid sem passar por quaisquer subúrbios — uma vez que a cidade não tem subúrbios —, descobri que ela não guardava semelhança com nenhum outro lugar.
Passamos num relance do campo aberto para um parque sombrio, repleto de *buvettes* e jardins de cerveja; atravessamos um portal maciço e estávamos no coração de Madrid. Bondes elétricos zumbiam de forma confusa ao nosso redor e, muito acima do burburinho desse tráfego, erguia-se orgulhosa uma colina coroada por um enorme palácio. Não havia necessidade de perguntar se era o palácio real, pois ele era essencialmente Real, uma casa digna de um rei.
Meu pai lutara para colocar Dom Carlos ali — Dom Carlos, agora distante em Veneza; mas, com toda a minha admiração por seu bravo filho Dom Jaime, minhas simpatias fluíam lealmente para o jovem habitante daquelas alturas.
Passamos por baixo e contornamos a colina do palácio, conforme o Coronel O’Donnel orientou. Apesar de suas instruções, no entanto, Dick errou o caminho duas vezes, mergulhando em viradas erradas; mas, na segunda vez que fez isso, pareceu que São Cristóvão — cuja medalha agora adornava nosso Gloria e moldava nossos destinos — devia ter girado o volante. Ali, diante da porta de um edifício oficial guardado por sentinelas, ofegava o carro cinza de Carmona; e, entre seus passageiros, apenas Carmona estava ausente.
— Aquele é o Ministério da Guerra — disse o Querubim, e com um pensamento rápido pedi a Dick que diminuísse a velocidade. Aproveitando a cordialidade tardia do filho dela, falei com a Duquesa.
— Pensamos que os tínhamos perdido — disse eu, com leveza. — Espero que nada esteja errado, para que parem aqui?
— De modo algum, obrigada — respondeu friamente a Duquesa.
Mas Monica falou corajosamente. — O Duque não nos disse por que queria entrar. Ele apenas disse que não nos manteria por muitos minutos. Señorita O’Donnel, ficarão muito tempo em Madrid?
— Apenas alguns dias — disse Pilar. — E vocês?
— Estaremos aqui novamente na época do casamento — respondeu Monica rapidamente; — por isso acredito que o Duque e a Duquesa irão...
— Está indeciso — Lady Vale-Avon interrompeu antes que a moça pudesse nos presentear com os planos de Carmona. — Podemos fazer algumas excursões. Como há uma boa estrada para Barcelona, talvez vamos para lá e para Montserrat; e o Duque mencionou algo sobre Bilbau...
— Mas, mamãe, certamente vamos a Sevilha para a Semana Santa! — exclamou Monica.
— Não há razão para chegarmos antes da Quinta-feira Santa — respondeu Lady Vale-Avon, escondendo o aborrecimento. — Mas não é o Duque saindo? Espero que não demore. Está ventando aqui, e você está ficando resfriada, minha querida Duquesa.
Fomos dispensados; e, tirando nossos chapéus novamente, seguimos viagem, com Pilar acenando uma mão pequena e encorajadora para Monica. — Eles não farão nada disso — disse a moça espanhola. — Algo me diz que pretendem partir para Sevilha assim que puderem.
— Algo me diz isso também — disse eu. — E algo me diz que a tarefa de Carmona no Ministério da Guerra é descobrir se o Tenente Cristóbal O’Donnel y Alvarez está realmente fora de Burgos em licença.
— Era o que eu estava pensando — murmurou o Querubim. — Mas o pensamento não trará um fio de cabelo branco. Cristóbal está de licença; e ele disse aos seus oficiais colegas que esperava ir com sua família para Sevilha. Foi de última hora que seus planos foram alterados. Ninguém foi colocado em sua confiança; e será muito negligente da parte de São Cristóvão deixá-lo encontrar em Biarritz qualquer conhecido comum dele e de Carmona.
— Estou depositando minha fé em São Cristóvão — disse eu. — Mas, como ele tem muito com que se ocupar, quanto menos eu me mostrar em Madrid, onde meu irmão adotivo deve ser conhecido, melhor.
— Ele não esteve aqui tantas vezes quanto Pilar e eu — disse o Querubim —, então conhece poucas pessoas. Ainda assim, o uniforme de Cristóbal deve ser guardado, e Cristóbal deve usar roupas civis.
— Ele certamente usará — respondi, rindo. E o Coronel O’Donnel entregou-se a dirigir Dick sobre qual caminho seguir, já que estávamos no centro mais movimentado agora, perto da Puerta del Sol.
Este grande espaço aberto, em forma de paralelogramo, murado por hotéis, prédios do governo e lojas, pareceu-me uma combinação espanhola de Piccadilly Circus e Mansion House, fundidas em uma só. Dez ruas movimentadas despejavam seu tráfego no local; linhas intrincadas de bondes convergiam ali. As calçadas estavam lotadas de ociosos que tinham o ar de nunca fazer nada além de descansar e esperar por emoções. Havia muito movimento de pedestres sem pressa, falando e rindo, todas as classes se misturando; homens de cartola a caminho de seus clubes conversando com homens de capas e sombreros cinzas, que pertenciam a clubes muito diferentes; oficiais elegantes em uniforme ombro a ombro com toureiros, cujas pequenas tranças retorcidas de cabelo preto apareciam sob seus chapéus inclinados; mendigos esfarrapados, mas bonitos, achando-se tão bons, se não tão afortunados, quanto seus irmãos de casaca; meninos alegres gritando os jornais da tarde, mulheres de olhos negros e homens vendendo joias baratas, porém coloridas, cartões-postais, brinquedos e doces maravilhosos. Era uma cena tão alegre quanto se poderia encontrar em qualquer capital, e pareceu-me que essa democracia absoluta era, afinal, a verdadeira nota da Espanha moderna. Seja o que for que possamos ser, nunca fomos, nunca seremos uma nação de esnobes, nós, espanhóis, cujo santo favorito é o camponês Isidro.
Manobrando cautelosamente através da multidão que mal se incomodava em se mover diante de nós, pegamos uma das principais artérias que saíam da Puerta del Sol (onde nenhum sinal de portão podia ser visto) e entramos nas sombras azul-profundas da Calle Echegaray em direção ao nosso hotel.
Eu já havia descoberto que não é o hábito dos proprietários espanhóis descerem do importante primeiro andar para o térreo sem importância e darem as boas-vindas aos seus hóspedes. Eles ficam felizes se você vier, se quiser, mas não se importam se você não vier, pois há muitos outros; e, quer você seja primo do Rei da Inglaterra, um milionário americano ou um caixeiro-viajante espanhol, muito tímido e apenas começando nos negócios, receberá a mesma recepção, a menos que adote "ares orgulhosos", quando lhe mostrarão que seria melhor ir a outro lugar. Mas com um velho amigo, tudo é diferente; todos deram as boas-vindas ao Querubim e à señorita; por causa deles, todos deram as boas-vindas a Dick e a mim. Fui vagamente apresentado como um parente — nenhum nome foi dado; nenhum nome, na confusão das saudações, foi perguntado; pois a Espanha não é como a França ou a Alemanha, onde a primeira coisa a fazer é anotar todos os detalhes sobre si mesmo em um pedaço de papel.
Ropes levou o carro para uma garagem, e fomos conduzidos a quartos que nos fizeram perceber que tínhamos deixado as províncias para trás e chegado à capital.
— Graças a Deus terei um travesseiro para dormir esta noite — disse Dick —, em vez de fazer o papel de cavaleiro esculpido em um túmulo de mármore. Olhei especialmente para os dois blocos limpos e arredondados que aqueles sujeitos na Catedral de Burgos tinham para descansar a cabeça, e os supostos travesseiros da minha cama eram uma cópia exata, dureza e tudo.
— Eu gosto deles duros — disse eu.
— Isso mesmo! Defenda as instituições espanholas.
— Há uma, de qualquer forma, que não acho que você criticaria — comentei.
— Qual?
— As moças espanholas.
Jantamos de bom humor naquela noite, no grande restaurante escarlate e dourado; e no rico Marqués de Riscal tinto, Dick bebeu pela confusão do Duque de Carmona. O Querubim nos dissera onde ficava o apartamento de Carmona, dizendo que seu carro talvez fosse mantido sob o mesmo teto que sua carruagem e o coche oficial.
A companhia era interessante de observar. Leoncavallo tinha como convidado o famoso ex-toureiro Mazzantini; um príncipe russo recebia várias beldades da Ópera; e havia dois ou três políticos muito em evidência. Estávamos com fome; o jantar estava bom; havia muito o que conversar; e tudo parecia estar indo bem.
Mas por volta das dez e meia, quando Pilar tinha ido embora e o Querubim estava tendo um "dedo de prosa" e um charuto na sala de estar de nossa suíte, Ropes apareceu, parecendo sério.
— Algo ruim aconteceu, senhor; e eu me culpo — disse ele.
— Algo errado com o carro — perguntei rapidamente.
— Algo fora do carro, senhor — corrigiu. — O eixo principal da engrenagem de câmbio.
— Impossível! — disse eu. — Um carro não pode sair por aí derrubando sua engrenagem, como uma mulher derruba sua bolsa!
— Não, senhor. Mas ele pode, por assim dizer, ter o bolso revistado. Depois de tudo o que aconteceu, eu deveria ter mantido meus olhos abertos.
— Desembucha, meu caro — disse eu; — não tente nos preparar para a notícia.
— É o carro que foi arrombado, senhor. Encontrei a garagem bem, deixei-o são e salvo, voltei para cá, mas depois do jantar pensei em dar uma passada lá de novo para consertar um pouco o carro, caso tenhamos uma partida cedo amanhã. Quando cheguei ao local, havia três sujeitos novos de plantão, e eles pareceram surpresos quando viram que eu pretendia trabalhar no Gloria. O motorista que cuidava daquele carro tinha estado lá, disseram eles; e pode acreditar, senhor, que minhas orelhas ficaram em pé. Ele tinha trabalhado como um demônio, disseram, abrindo a caixa de câmbio e desmontando o eixo principal. Depois ele saiu com ele sobre o ombro, depois de dizer ao capataz que seu patrão não acreditaria que os pinhões estavam tão gastos que deveria haver um jogo novo, e que ele ia mostrar a ele. Eles ficaram surpresos, posso lhe garantir, senhor, quando eu disse que tínhamos sido roubados, e que o ladrão não era seu motorista. Mas logo então um dos antigos funcionários chegou e testemunhou que eu era o homem certo. Parecia um pesadelo, mas uma olhada na caixa de câmbio me mostrou que era real o suficiente. Fui um tolo por não avisar ninguém, ou pagar um homem para ficar junto ao carro.
— Não vejo que você tivesse motivos para suspeitar — disse eu —, embora seja um ultraje canalha e me faça sentir vontade de matar. Eles descreveram o suposto motorista?
— Descreveram, senhor; e eu esperava reconhecer a descrição. Mas não reconheci; eles são muito espertos para isso.
— Você acha que o conhecemos?
— Tenho certeza, senhor. Nada mais fácil do que um pouco de disfarce.
— Poderia ser um ladrão de automóveis comum, que queria um eixo principal para um carro Gloria.
— E, por outro lado, senhor, poderia não ser.
— De qualquer forma — disse eu —, o que temos a fazer é recorrer à polícia, fazer com que o rufião seja encontrado e preso, não importa qual seja sua posição. O pior de tudo, porém, é que não estou ansioso para ter o olhar da polícia espanhola voltado para mim, e há aqueles que contam com esse fato.
— Eu não adoraria esmagar a cabeça deles por isso! Eu não adoraria esmagar o carro deles! — rosnou Dick.
— Não. Isso seria jogar muito baixo — disse eu.
Ropes corou sob sua pele queimada de sol e começou a procurar por poeira inexistente na boina de couro em sua mão.
— O senhor tem razão, sem dúvida — disse ele, com uma voz dócil.
Fiquei meio arrependido de que ele, ou qualquer um, concordasse comigo. Parecia, de certa forma, como se meu motorista estivesse levando essa coisa monstruosa com frieza demais. — Bem, o fato é que estamos perdidos — disse eu, com fúria contida. — Se o Duque de Carmona teve participação nesse ato, é sinal de que ele pretende escapar enquanto estamos parados esperando por um novo eixo e pinhões chegarem — provavelmente vindo de todo o caminho de Paris. Ele pode ir amanhã...
— Peço perdão, senhor; ele não pode, não no próprio carro — disse Ropes. — Se não podemos partir, ele também não pode.
— Por quê, o que você fez? — tentei falar com severidade.
— Oh, quase nada, senhor. Um toque no ignição do magneto dele, e um carinho na bobina, apenas o suficiente para mantê-lo no hospital até que ele seja medicado.
A expressão de Ropes era tão infantil que Dick e eu caímos na risada. — Seu demônio! — eu disse. — Como você chegou ao carro?
— Quase do mesmo jeito que eles chegaram ao nosso, embora eu não pretenda ser tão esperto quanto alguns. Eu disse a mim mesmo, como este carro do Duque é novo, e ele não dirige, as chances são de que ele nunca teve um automóvel antes e não teria uma garagem em Madrid, embora ele more aqui parte do ano e deva ter bons estábulos. Perguntei qual era a melhor garagem além da nossa e dei uma volta, pensando que o motorista teria ido direto ao Duque com a notícia. Encontrei o lugar, e todos os sujeitos estavam do lado de fora das portas abertas, observando um par de cães brigando. Entrei, sem uma palavra para ninguém, embora eu tivesse dito que vinha do Duque se tivesse que dizer. Lá estava o carro; e antes que um daqueles cães abençoados tivesse mastigado o nariz do outro, eu tinha terminado meu pequeno trabalho. Então vim até o senhor, sentindo-me um pouco melhor do que há alguns minutos.
— Você deveria estar esmagado pelo remorso — disse eu; mas temo ter dado um sorriso; e Dick comentou que se ele fosse o Rei da Inglaterra, daria a Ropes um título de cavaleiro.
— O céu sabe qual será o próximo passo — comentei, quando o vingador se foi, não muito abatido. — Começa a parecer que o inimigo não hesitaria em nada, e não podemos continuar devolvendo na mesma moeda.
— Ele não tomará nenhuma ação aberta contra o senhor por enquanto — disse o Querubim —, já que não tem certeza se o senhor não é Cristóbal O’Donnel; e o senhor está avisado se ele tentar atacar no escuro. Ele provavelmente descobriu através do Ministério da Guerra que Cristóbal está de licença, então, para se livrar de sua companhia, ele recorreu ao único meio que lhe ocorreu.
— Tenho a lhe agradecer por ele não ter tido um meio mais seguro — disse eu.
— É a moda na Espanha, se um amigo quer uma coisa, dizer-lhe que ela é dele — respondeu o Coronel O’Donnel. — O senhor me queria como pai, Pilar como irmã. Eu disse: "Somos seus". Não há muito pelo que agradecer. Eu faria dez vezes mais pelo filho do seu pai; e meu confessor é um homem compreensivo. Além disso, para lhe contar um segredo meu que nem Pilar sabe, embora ela tenha a maioria dos outros na ponta dos dedos, sua mãe foi meu primeiro amor. Eu a adorava! O senhor tem os olhos dela!
Ao que apertei a mão do Querubim.
XVIII
O HOMEM QUE AMAVA PILAR
Quando Ropes foi enviar um telegrama para Paris, Dick e eu discutimos o assunto de tantos pontos de vista, que o Coronel O’Donnel aparentemente adormeceu. Foi apenas quando irrompi em vitupérios contra Carmona que o excelente homem subitamente deu sinais de vida.
— Estive pensando — disse ele, e me peguei animando-me com a declaração; pois notei que, embora o Querubim muitas vezes tivesse o ar de estar silencioso por preguiça; que de seu melífluo andaluz ele descartava todas as consoantes possíveis como descartaria as espinhas de um peixe; ainda assim, com seus murmúrios, invariavelmente rolava de sua língua alguma joia de bom senso.
— Temos um amigo perto de Madrid — disse ele —, que tem um automóvel. Sei pouco sobre tais coisas; mas quando ouvi que o senhor tinha um Gloria de vinte e quatro cavalos-vapor, pensei: "É o mesmo do Conde de Roldan". Levará dias até que suas novas peças possam vir de Paris, mesmo se o senhor enviar Ropes; e há poucos automóveis à venda aqui, se é que há algum. É cem contra um que o senhor poderia conseguir peças para ajustar ao seu carro dessa maneira. Mas se o carro de Dom Cipriano é o que penso, ele lhe dará o que o senhor precisa. Quando as novas peças chegarem, elas serão para ele.
— Coronel O’Donnel — disse Dick —, você e sua família são joias!
— Isso é verdade — disse eu; — mas se você pudesse persuadir seu amigo a tal ato de generosidade, eu não poderia aceitar. Eu...
— Oh — disse o bom homem, com astúcia querúbica —, ele daria a mão esquerda por tal chance de nos agradar! Talvez o senhor não tenha notado que minha *niña* é bastante atraente; mas isso não escapou à observação de Dom Cipriano.
Então o vento soprava daquela direção! Lancei um olhar para Dick e vi em seu rosto a mesma expressão de *amour propre* desconcertado que vi uma vez quando uma bala passou assobiando pelo nariz dele. Mas ele não disse nada sobre nenhum dos dois projéteis; e agora cabia a mim justificar nosso apreço pela señorita.
Normalmente, se há uma coisa que o Querubim ama, é procrastinar, mas agora ele se levantou sem um suspiro e comentou que não havia tempo a perder. Ele precisava buscar Pilar.
— Ela terá ido para a cama — objetei.
O Querubim sorriu. Pilar ir para a cama às dez e meia em sua primeira noite em Madrid após meses de ausência? Nem pensar. O pai dela estava disposto a apostar que ela estava à janela, olhando para a rua, e desejando ter nascido homem para que pudesse estar nela. — A noite é o momento para diversão em Madrid — disse ele. — Pode-se ficar na cama até a tarde sem perder nada; mas à noite — esse é o momento de estar vivo aqui! E embora nossa casa seja no sul, quando estamos em Madrid, minha Pilar e eu, somos verdadeiros madrilenhos. Se ela e eu estivéssemos sozinhos, ela teria me feito levá-la ao teatro ou ao circo. Não teríamos chegado em casa até a uma hora: e então eu teria que lhe dar a ceia. Oh, ela ficará encantada quando eu a trouxer de volta à vida!
Com isso, ele saiu trotando, e antes que parecesse que ele poderia ter explicado qualquer coisa, ele nos trouxe Pilar em triunfo, com o chapéu na cabeça, covinhas nas bochechas e estrelas nos olhos. — Estou pronta! — exclamou ela.
— Pronta? — ecoei. — Para quê?
— Ora, para dirigir com todos vocês até Dom Cipriano! O que mais? Não devemos perder um minuto, ou nossa fada má terá tempo de trabalhar algum outro feitiço maligno antes que tenhamos remediado o primeiro. Oh, posso ser apenas uma garota, e sem importância; mas Dom Cipriano me acha importante, e terei que estar lá para fazer sorrisos para ele. Ele tem um Gloria, e é de vinte e quatro cavalos-vapor. Papai mandou pedir uma carruagem enquanto eu colocava meu chapéu e casaco. A casa de Dom Cipriano fica a apenas meia hora de Madrid, mesmo com um "simón". Ele cria cavalos, e oh, que cães! Vamos lá — vamos lá!
— A esta hora da noite? — disse Dick. — Ele vai pensar que somos loucos!
— É sempre cedo até amanhã de manhã em Madrid — riu Pilar. — Ah, que bom ter uma emoção!
— Ele não estará em casa — disse Dick.
— Sim, ele estará. São Cristóvão o manterá lá.
Antes que soubéssemos o que estávamos a fazer, este pequeno turbilhão espanhol tinha-nos arrastado escada abaixo, no seu encalço, para dentro do veículo que tinha, de facto, chegado, e para fora, para o meio de uma cena noturna tão animada como uma feira. Muitas lojas estavam abertas e brilhantemente iluminadas. As montras dos cafés flamejavam como diamantes; metade da população de Madrid estava nas ruas, e um estranho poderia ter pensado que algo de invulgar tinha acontecido; mas Pilar garantiu-nos que era “sempre assim”. “Podem viver na rua se quiserem, em Madrid”, disse ela, “e eu diria que muitas pessoas bastante encantadoras o fazem. Há doces e fruta quando se tem fome, e água, vinho e leite fresco de cabra quando se tem sede, portas frescas ou passeios bem quentes para dormir quando se está cansado, com folhas de alface ou uma couve para almofada, tudo a um custo de um ou dois cêntimos por dia; e se fores esperto, alguém que passe dar-te-á esse cêntimo. Por isso, rico ou pobre, com um palácio ou sem casa, podes ser feliz em Madrid.”
“Gostava de saber como acharias Nova Iorque?” murmurou Dick.
“Isso depende da pessoa com quem eu vivesse!” disse Pilar.
Pouco depois tínhamos deixado o brilho dourado e carmesim das ruas e estávamos na noite azul. Passámos pela Puente de Toledo e seguimos por uma estrada larga e branca.
Pilar tinha dito que chegaríamos ao nosso destino em meia hora; mas o seu entusiasmo corria mais depressa do que os nossos cavalos; e era quase meia-noite quando parámos em frente a um arco alto que cintilava na escuridão. Teve de se puxar um sino estridente, que foi ecoado pelo uivo musical de muitos cães. “Os amores!” exclamou Pilar. “Conheço as suas vozes. É o Melampo, o Cubillon e a Lubina, os animais de estimação mais queridos de todos; chamados assim por causa dos cães que acompanharam os pastores para ver o Menino Jesus no Seu berço — lembram-se? — por isso nunca podem enlouquecer.”
A essa altura, o portão estava aberto e uma vaga de galgos belíssimos surgiu à nossa volta, embora chamados imperativamente de volta por um homem que parecia um cruzamento entre um porteiro e um guarda-caça. Seguiu-se uma efusiva explosão de reconhecimento entre o Querubim, Pilar e o criado. Conduzimos até um pátio e, antes que pudéssemos descer da nossa carruagem, o dono da casa apareceu numa porta iluminada, alto, moreno, corado, pitoresco com calções de montar espanhóis e casaco curto; um homem bonito de trinta e cinco anos, talvez, cujo rosto se iluminou de surpresa a êxtase ao ver Pilar. Dick e eu também fomos bem recebidos, embora pudesse ver que o Conde de Roldan não estava tranquilo quanto a estes jovens que pareciam estar em termos de intimidade com os seus amigos.
Do pátio passámos por uma porta para um pátio interior, e do pátio para uma sala indefinida que não poderia ter pertencido a ninguém senão a um solteiro e desportista. Havia, contudo, uma mãe, e a pobre senhora teria sido arrancada da sua cama para cumprimentar os bem-vindos, se o pai e a filha não tivessem protestado. Amanhã, se tudo corresse bem, voltariam e veriam a querida Dona Rosita; mas agora, deixem-na dormir. Estávamos ali por negócios.
“Posso explicar-te?” Pilar apelou a mim. “Don Cipriano está seguro. E eu quero que ele se interesse.”
Pobre Don Cipriano! Teve visivelmente um mau meio momento, a tremer que tivéssemos corrido para anunciar o meu noivado com a adorável Pilarcita; mas foi bom ver a luz voltar aos seus olhos quando soube que eu — verme cego — me tinha apaixonado por outra rapariga. A astuta Pilarcita esclareceu este facto, para que o coração ciumento de Don Cipriano pudesse aquecer-se por mim antes de saber o que era pretendido. Dick tornou-se também tolerável, como um amigo que seguia no rasto das minhas aventuras; e em breve o pobre rapaz estava pronto a pôr não só a engrenagem do seu automóvel, mas a sua casa e tudo o que nela havia, ao nosso serviço.
Abençoou o seu santo padroeiro por nos trazer à sua porta e por lhe permitir ter cavalgado para casa desde uma quinta distante a tempo de nos cumprimentar; amaldiçoou redondamente o Duque de Carmona, condenando-o ao Purgatório por um período mais longo do que o habitual; e quando cada um de nós (exceto Dick) estava da melhor disposição com todos os outros, fizemos uma visita ao seu carro.
Poderia, em tudo exceto na cor, ter sido irmã gémea da minha. Parecia haver razão para esperar que os pinhões desta Gloria servissem na outra Gloria, e para que não se perdesse tempo a fazer a experiência, o Conde de Roldan voluntariou-se para nos levar a Madrid, deixando o nosso “simón” voltar vazio. Se nos enganássemos, antes que eu fosse atrasado (disse ele), o seu carro era meu para levar onde eu quisesse, e o Querubim pisou-me o pé para conter uma recusa.
Havia um motorista nesta interessante casa, mas ele era várias outras coisas também, e era melhor médico de cães do que o veterinário. Naquele momento, ele estava a assistir a um aumento da família da filha de Lubina; mas em qualquer caso, protestou Don Cipriano, não teria permitido que ninguém nos conduzisse a não ser ele próprio.
Corremos para Madrid num quarto do tempo que tínhamos levado a vir; e duas horas após o momento em que tivemos notícias do desastre, chegámos à garagem da minha Gloria ferida.
Um porteiro noturno sonolento (uma das poucas pessoas em Madrid que parecia usar a noite para dormir) deixou-nos entrar; e ao som da nossa entrada, a figura de um homem saltou dos estofos do meu carro. Pilar deu um grito, que se transformou numa risada ao ver que era Ropes.
“São Cristóvão falhou-te por alguns minutos esta noite, não foi? Mas ele vai compensar isso agora”, disse ela. “E eu vou vê-lo fazê-lo, mesmo que leve a noite toda.”
Em vão o Querubim tentou persuadi-la de que seria bom deixá-lo acompanhá-la a casa, já que a experiência seria uma longa tarefa. Ninguém apoiou os seus esforços e, se o tivessem feito, dez para um que Pilarcita teria ouvido. Nunca, em toda a sua vida, disse ela, tinha conhecido algo como as emoções dos últimos dias, e era muito provável que nunca mais conhecesse.
Com isto, ela subiu para o seu lugar habitual na carroçaria da minha Gloria, os seus olhos brilhantes fascinantes na incerta luz amarela; e encantado com a perspetiva de manter a sua companhia, Don Cipriano propôs um banquete. Não quis ouvir discussões, mas levou o atordoado vigilante para um restaurante vizinho, de onde um empregado apareceu com a rapidez da magia. A ceia foi pedida; frango, salada, champanhe, tudo o que se pôde encontrar do melhor; e dulces para a senhorita.
Enquanto Ropes e eu trabalhávamos como se fosse por uma aposta, um enxame de empregados divertidos vinha zumbindo à volta da garagem, trazendo cadeiras, uma mesa, pratos a tilintar, facas e garfos a bater, e baldes de prata onde tinia o gelo a embutir garrafas de rótulos dourados.
Ropes é inigualável como mecânico, e eu não sou inábil com ferramentas, pelo que entre nós, sob a inspiração dos olhos brilhantes e dos ditos de Pilar, tínhamos os pinhões fora do carro de Don Cipriano quando o champanhe estava frio. Então, enquanto as rolhas saltavam, a grande experiência foi tentada. “Encaixa! Encaixa!” exclamei, e alegremente bebemos à saúde das duas Glorias.
Tais gorjetas como eles receberam naquela noite, aqueles empregados e aquele vigilante nunca poderiam ter visto. Sem dúvida pensaram que éramos loucos, e talvez fôssemos; mas era em parte culpa de São Cristóvão.
XIX
UM PACOTE PARA O TENENTE O’DONNEL
Nunca houve um homem como Don Cipriano, Conde de Roldan. Não contente por me emprestar as suas asas para que eu pudesse voar enquanto ele era deixado a rastejar, propôs cobrir de outros favores o amigo dos seus amigos.
Ofereceu-me asilo na sua propriedade para o meu carro rejuvenescido, para que o inimigo, ao reconhecer o terreno, não aprendesse o nosso segredo antes do tempo; e, melhor ainda, voluntariou-se para visitar o acampamento desse inimigo e descobrir os seus planos.
Sendo um conhecido da senhora que Carmona tinha deixado, ele não era um admirador do Duque. Contudo, era membro de um clube que Carmona frequentava quando estava em Madrid, e pensou que o Duque lá apareceria no dia seguinte. Mesmo que decidisse prosseguir por caminho de ferro, depois de descobrir como “dois podem jogar o mesmo jogo”, tal mudança de plano significaria atraso; portanto, Carmona e o seu grupo passariam pelo menos um dia em Madrid. Don Cipriano ofereceu-se para ir cedo ao clube e não sair até ter visto o Duque. No momento em que tivesse alguma notícia, traria-ma.
Aceitei o convite do meu novo amigo para albergar a Gloria, pois a sua propriedade era tão perto da cidade que Ropes ou eu poderíamos levá-la de volta com pouco aviso; e ao amanhecer, quando a alegre Madrid pensava em dormir, o meu carro rebocou o seu desmantelado. Pilar e o seu pai tinham ido para casa sonhar com as suas boas ações; Dick, quando ouviu que iríamos conduzir atrás dos cavalos do Conde, desenvolveu uma dor de cabeça, e Ropes e eu tivemos de levar o negócio a cabo sozinhos.
Tomámos banho e pequeno-almoço no campo, e conduzimos de volta a Madrid enquanto o mundo alegre dormia. Ele iria agora, anunciou Don Cipriano, passar o dia na cidade, em dever de vigilância; mas como não teria notícias até à tarde, eu poderia visitar as galerias de arte se quisesse. “Elas fá-lo-ão sentir orgulho do seu país”, disse ele; e fá-lo-iam, sem dúvida. Mas resolvi sacrificá-las com o receio de que, afinal, Carmona pudesse escapar-me se eu lhe desse uma oportunidade tão boa.
Nunca tinha visto Dick tão sombrio como quando voltei para ele, e o cão negro não foi afugentado pelos meus elogios a Don Cipriano. Ele animou-se, no entanto, com a perspetiva de passear com o Querubim e Pilar; o Querubim martirizado; Pilar alegre no pensamento de mostrar os Murillos e Velasquez que ela adorava.
Fizeram a Armería e as galerias de arte durante toda a manhã, até estarem caídos de fadiga; voltaram num táxi em ruínas, clamando pelo almoço e pelas minhas novidades; partiram de novo à tarde para terminar o que tinham deixado por fazer.
Entretanto, eu não tinha ouvido nada; e o dia, passado à espera de Don Cipriano ou de algum bocado de mexerico apanhado por Ropes, foi longo.
Mas as cinco horas e Don Cipriano chegaram juntos. Carmona tinha estado no clube. O Conde de Roldan não lhe tinha falado, mas o Duque tinha falado com outro homem, um amigo automobilista do Rei. Talvez, com poucos outros, o Duque tivesse sido tão expansivo. Ele tinha dito: “Estou em Madrid apenas por hoje. Devia ter partido esta manhã, com a minha mãe e duas senhoras que vão visitá-la a Sevilha, mas tive um acidente com o meu automóvel, o que me deu muito trabalho. Espero conseguir partir, contudo, amanhã.” Depois, perguntou pela saúde de uma certa atriz, e o assunto tinha sido definitivamente mudado.
Isto foi um triunfo. Agradeci cordialmente a Don Cipriano, sentindo-me todo o tempo um culpado; pois se eu fosse leal a Dick e lhe desejasse sorte, teria de ser desleal e desejar a derrota do meu benfeitor.
Falámos da estrada, que ele conhecia, e disse que não estava muito má; e sobre os salteadores, que estavam a fazer falar de si naquela altura. “É melhor comprar armas, se não as tem”, disse Don Cipriano; “mas não há muito perigo deste lado de Sevilha.”
Ele tinha trazido um mapa rodoviário; e estávamos a examiná-lo, na sala de leitura do hotel, imaginando se Carmona tomaria o caminho direto através de Manzanares, Valdepeñas e Córdova, ou outro que Don Cipriano considerava melhor, embora mais longo, por Talavera de la Reina, Trujillo e Zafra, quando o porteiro veio dizer que um mensageiro com um pacote desejava ver-me.
“Deve ser um erro”, respondi.
“Ele perguntou pelo el Teniente O’Donnel; e tem um pacote para si.”
“Traga-o, por favor, e deixe-me ver como está endereçado.”
“Ele não o entrega, senhor, sem o ver pessoalmente. Foram essas as suas instruções.”
Levantei-me impacientemente e fui para o hall, onde um rapaz com a libré de alguma loja me entregou um pequeno pacote. Não havia endereço nele, e perguntei-me se não seria alguma compra de Pilar, enviada para o meu cuidado. No entanto, decidi abri-lo, e não encontrei nada dentro exceto uma pequena faca de papel de aço com a palavra Toledo gravada no cabo preto e dourado.
Olhei para a coisa estupidamente por um momento, enquanto procurava uma gorjeta para dar ao mensageiro, quando me ocorreu que ele poderia explicar o mistério. “Uma senhora comprou isto?” perguntei; “uma jovem, com um senhor alto também jovem, e outro de meia-idade?”
“Uma jovem? sim, senhor. Mas ela estava apenas com um senhor e duas senhoras, ambas com a mesma idade.”
“Viu-os?”
“Sim, senhor.”
“Descreva todos os quatro, e terá duas pesetas em vez de uma.”
“Uma senhora era espanhola, morena, gorda, com olhos mortos num rosto grande e mole de dois queixos. A outra era alta e estrangeira, bonita, mas com um ar! Eu não seria seu criado. O senhor era distinto. Escuro, com um nariz fino que virava para baixo, como o seu bigode; um rosto de um quadro antigo; um ombro mais alto que o outro.”
“Mas a jovem?”
“Oh, senhor, a senhorita era um anjo branco e dourado, feito de um raio de sol! Foi ela quem comprou a faca, enquanto os outros escolhiam uma coisa para a senhora alta. Ela deu-a rapidamente e o dinheiro a um empregado, com o endereço, dizendo que devia ser colocado na mão do cavalheiro.”
Dei ao rapaz cinco pesetas em vez de duas.
Uma faca de papel com a palavra Toledo gravada nela, vinda da Monica para mim! Sem mensagem, apenas isso! Mas não seria, em si mesma, uma mensagem — a única que ela conseguiu encontrar forma de enviar?
Voltei para Don Cipriano. “Acabei de ouvir”, disse eu, “que quando Carmona partir, pretende ir a Toledo.”
XX
A PALAVRA MÁGICA
Quando os outros voltaram, e a faca de papel foi mostrada, todos concordaram comigo que só poderia significar uma coisa. O melhor de tudo é que para ir a Toledo o carro cinzento teria de passar pela propriedade do Conde de Roldan, onde a minha Gloria estava; e tudo o que precisaríamos fazer seria esperar pelo momento em que o Lecomte passasse a correr. Então poderíamos dar uma surpresa a Carmona.
Nenhum de nós duvidava que ele pudesse adivinhar a causa do seu acidente, como nós adivinhámos o nosso; contudo, o golpe que ele tinha infligido era muito mais severo do que a nossa retaliação, e ele sem dúvida esperava que, apesar do nosso arranhão vingativo, pudesse escapar de Madrid deixando-nos fora de combate.
Don Cipriano jantou connosco naquela noite e foi com os outros ao Teatro Español, onde a grande Guerrero e o seu marido estavam a representar. Não foi considerado bom que eu aparecesse, para o caso de o Duque lá estar, e dizer a algum conhecido: “Vê os O’Donnel. É aquele o filho que está no exército?”
Quando voltaram, Pilar tinha novidades. Carmona, com a Duquesa, Lady Vale-Avon e Monica tinham estado todos no teatro num camarote.
“Eu sabia que aquela rapariga era bonita”, disse Pilar, “mas não sabia o quão bonita até esta noite! Com a sua pele de pérola e cabelo dourado entre todas as cabeças escuras, ela brilhava como uma pérola entre carbúnculos, e todos olhavam para ela. Sabes como admiramos as belezas loiras, e como esperamos adorar a jovem rainha quando ela vier? Bem, se fosse a própria Princesa Ena, as pessoas dificilmente poderiam ter olhado mais, e o Duque estava encantado. Ele quer tudo o que há de melhor para si próprio, e que os outros o apreciem. Ele estava tão orgulhoso da Lady Monica entre os atos, e mantinha-se inclinado sobre ela como se ela lhe pertencesse. Não creio que ele nos tenha visto; mas fiquei contente por não estares lá, ou terias ficado louco para te atirares a ele.”
“Tu deixas-me louco para o fazer agora”, disse eu.
“Tem um pouco de paciência, e tu roubá-la-ás”, disse Pilar.
“Se ela apenas mo permitisse! Mas ela não quer.”
“Quem sabe o que ela estará pronta a fazer se eles a pressionarem? E depois de esta noite, também! Ela parecia ter medo dele, como se começasse a perceber cada vez mais o que ele é. Oh, se tu não estivesses aqui, eu quereria fazer um ato desesperado e arrebatá-la eu mesma! Ele gosta de a ter admirada, enquanto ela ainda não é sua; mas ele tem o suficiente de mouro nele para trancar uma esposa, para que nenhum outro homem veja a sua beleza. E então, passados tempos, ele cansaria, e seria cruel.”
“Não falemos disso”, disse eu. “Não vai acontecer.”
Embora fosse tão tarde antes de dormirmos, estávamos vestidos a uma hora inumana — segundo o Querubim — e a partir com a pequena bagagem que nos acompanhava no carro, para a propriedade de Don Cipriano na estrada de Toledo.
Ropes tinha passado a noite lá, e a Gloria estava pronta. A bagagem foi posta no lugar; e Don Cipriano e a sua mãe — uma fada madrinha de uma velha senhora, com uma cúpula branca de cabelo sob uma mantilha de renda preta valiosíssima — estavam determinados a providenciar-nos comida e bebida como se fosse para resistir a um cerco.
Havia um presunto curado na neve de Trevelez, o mais famoso da Andaluzia. Havia pão delicioso feito em casa, cuernos, molletes e panecillos; e azeitonas grandes como uvas. Havia queijo branco coalhado; doce de marmelo ou carne de membrillo; cabelo de anjo, feito de melões desfiados com mel; mazapan, a cheirar a amêndoas, e moldado como figuras de santos, serpentes e cavalos; laranjas de Sevilha e Tarifa; figos gordos secos em paus; e, o mais maravilhoso de tudo, um odre de vinho da terra, tão antigo que o sabor da pele tinha desaparecido há uma geração, e cheio com tanto bom vinho tinto que encheria seis garrafas.
“Precisarão destas coisas”, insistiu a velha senhora, dando ao Querubim uma palmada amigável no braço, enquanto circundava a cintura de Pilar. “É diferente na estrada entre Madrid e Sevilha, das que percorreram. Vão querer almoçar ao ar livre, ao sol, pois não encontrarão coisas boas como estas em nenhuma pequena venta. Eu sei, pois já estive lá com o meu filho. Sou uma heroína, dizem os meus amigos. Vamos embalar tudo bem para vocês.”
“E o odre de vinho têm de o pendurar na lateral do carro”, disse Don Cipriano, toda solicitude pelo nosso bem-estar, pobre homem, acreditando alegremente, como ele agora acreditava, que nem Dick nem eu éramos perigosos. “Não há cura para o pó espanhol, exceto o vinho espanhol. Além disso, vão passar por campo selvagem onde os automóveis raramente são vistos. Se os camponeses estiverem inclinados a atirar pedras, a visão de um bom odre de vinho deve suavizá-los. E que verdadeiro homem arriscaria danificar um odre de vinho?”
Aquela fada madrinha, Doña Rosita, encasquetou-se com Dick, que flertou com ela em seu espanhol macarrônico tão escandalosamente que ela ficou encantada. Ele a fez sentir-se jovem outra vez, dizia ela, e foi um choque descobrir que ele era americano. Ela não havia perdoado a América pela guerra de Cuba, a qual não compreendera minimamente. “Mas você não é perverso!”, exclamou. “Pensei que todos os homens americanos fossem perversos, e fizessem qualquer coisa por dinheiro. Ay de mi! Suponho que devo perdoar Colombo novamente por ter descoberto seu país; embora eu tenha dito muitas vezes nestes últimos anos, quanto melhor teria sido se ele o tivesse deixado em paz. Costumava parar em minha carruagem perto da estátua de Cristóbal Colón no Prado, quando a guerra estava em curso, e rir ao ver as pessoas atirarem coisas, porque estavam irritadas com ele pelo transtorno que trouxera. No entanto, agora vejo que há algo pelo qual agradecer-lhe, afinal.” Isto último com um olhar para Dick que deve ter derretido seu coração americano como água se ela tivesse a idade de Pilarcita. Mas o que ela teria dito se soubesse que — indiretamente — Colombo enviara à Espanha um rival para seu adorado Cipriano?
Sendo a ignorância uma bênção, a adorável mãe e o filho foram uma anfitriã e um anfitrião quase hospitaleiros demais.
Como se as cestas guardadas no carro não fossem o bastante, um café da manhã tremendo em uma mesa carregada de flores foi providenciado para nós. Mas, exatamente quando nos sentamos, às dez horas, um criado em serviço de batedor apareceu, ofegante após uma correria pelos campos, para dizer que um automóvel passara. Nosso motorista mandou avisar que era o automóvel; e estava pronto para ligar nosso carro.
Este foi o sinal para confusão, gritos de pesar, desejos de boa sorte, risadas e exclamações. Pilar e o Querubim foram persuadidos a terminar suas xícaras de chocolate espesso, aromatizado com canela, enquanto Dick e eu bebíamos nosso café forte e deixávamos nosso aguardente.
Lá fomos nós, em florido discurso espanhol beijando os pés da señora, enquanto ela beijava nossas mãos; Don Cipriano saltou sobre um cavalo para nos despedir, todos os seus cães ao redor dele; e dez minutos depois nossos pneus pressionavam a trilha na poeira branca feita pelo Lecomte.
Logo perdemos de vista a alegre Madri, com suas cúpulas e torres recortadas contra as montanhas brancas, para correr através de uma paisagem verde de milho e uvas em crescimento, vinhedos emoldurados para nossos olhos com colinas distantes flamejando nas cores espanholas, vermelho e ouro. O Coronel O’Donnel apontou uma elevação isolada que, segundo ele, era o centro exato da Espanha; e, claro, havia um convento em seu topo. Toda outra colina tinha uma torre de vigia em ruínas, marrom contra um céu de um azul mais profundo e pensativo que o turquesa radiante da Itália. Homens que encontramos cavalgavam eretos como estátuas em nobres animais andaluzes, grandiosos como cavalos de guerra em pinturas medievais; mas alguns não desdenharam virar abruptamente para o lado ao ver e ouvir nosso motor, para ir a galope através dos campos até uma distância prudente. Carroceiros com mulas nervosas mantinham tapetes listrados sobre o rosto das criaturas até que passássemos; burros zurravam e hesitavam entre sentar ou fugir, mas terminavam não fazendo nem uma coisa nem outra; contudo, ninguém franzia a testa.
Dick disse que agora, finalmente, começava a sentir que estava realmente na Espanha, porque encontrávamos o tipo certo de rostos espanhóis, o único tipo que ele estava disposto a aceitar como espanhol. Ele estivera satisfeito com as qualidades fortemente características de todo o resto (especialmente as sacadas, a marca registrada da arquitetura doméstica na Espanha); a culinária rica e oleosa; os travesseiros, oh, os travesseiros de pedra! os modos das pessoas, e os trajes de Castela. Mas os traços das pessoas não tinham sido, até hoje, típicos o suficiente para agradá-lo. Ele esperava no norte bascos de aparência misteriosa; então, algo gótico ou ibérico, se não mouro, com um toque de berbere para dar uma curva aquilina extra ao nariz. Mas nada disso! Os narizes eram tão rombos quanto na Inglaterra, Irlanda ou América, e poderiam ter crescido lá. Foi apenas nesta manhã que tínhamos passado rapidamente por alguns traços espanhóis de livro de ilustrações, e bigodes ferozes e curvados.
“Espere até chegar mais ao sul”, murmurou o Querubim, “você verá os camponeses bonitos. Eles deixam os habitantes da cidade envergonhados.”
“E mantilhas — eu quero mantilhas”, disse Dick. “Só vi uma até agora, exceto à distância em Vitória; eu esperava que toda mulher usasse uma. Agora você, señorita, deve isso ao seu país.”
Pilar riu. “Imagine uma mantilha em um automóvel. Vocês ainda não me viram, señores — não, nem mesmo quando fui ao teatro. Quando estivermos em Sevilha, bem, então vocês serão apresentados ao Meu Eu Real. Olhem, eu tenho apenas um único chapéu neste vasto mundo, além desta coisa de automobilismo pela qual barganhei em Burgos. Vocês não têm ideia do que um chapéu — tal chapéu como uma señorita que se preza pode colocar sobre a cabeça que Deus fez — custa nesta terra da Espanha. Duas — três vezes o que custaria em outro lugar, dizem as mulheres viajadas, e para ter um elegante é necessária uma viagem pelo menos até Biarritz. Quanto a Doña Rosita, ela é antiquada, e sempre usa a mantilha; na verdade, em sua viagem de núpcias a Paris, ela teve que comprar seu primeiro chapéu em Marselha, diz ela; pois, trinta anos atrás, mal se podia encontrar um na Espanha. Agora, a maioria das senhoras em Madri usa chapéus, exceto para a tourada; mas na querida Sevilha, é diferente. Não terei mais dor de cabeça com os alfinetes de chapéu que beliscam estes meus cabelos. Santa María Purísima, vocês verão o que verão.”
Ela falou como se fosse para mim; mas lançou um olhar para Dick, que — embora ainda tivesse que posar como o dono do carro — estava começando a gostar do tonneau, enquanto Ropes dirigia. Ai de Don Cipriano se ele tivesse visto aquele olhar!
Logo depois, desviamos da estrada principal em Getafe, e fomos pegos por cancelas fechadas em uma passagem de nível.
“Provavelmente estaremos aqui por uma hora, e poderíamos muito bem almoçar”, disse o Querubim resignado; mas quando um trem de carga de aparência humilde rastejou para dentro, ele ficou tão impressionado com nosso ar de importância superior que, para nossa surpresa, ele deu marcha a ré em vez de obstruir nosso honroso caminho; e os portões foram movidos para trás para que passássemos à frente do focinho polido do motor.
Foi um percurso de apenas cinquenta milhas de Madri até as plantações de oliveiras (as primeiras que vi na Espanha) perto de Toledo; mas a superfície da estrada não era de veludo; e tivemos frequentemente que reduzir a velocidade para animais que odiavam, porque não compreendiam, aquela mais fiel e leal das bestas, o automóvel. Portanto, estava perto de uma hora quando a nobre e antiga cidade ergueu-se em selvagem majestade diante de nós sobre sua colina de granito em forma de ferradura, cingida pelo leito de ouro escuro do Tejo.
Madri vista de longe dificilmente tinha sido impressionante, mas esta Roma da Espanha — embora não a tenhamos abordado pelo caminho da mundialmente famosa ponte — era mais grandiosa do que qualquer imagem tinha me levado a acreditar.
Não tínhamos visto nada do carro cinza ainda, nem mesmo uma nuvem de poeira, mas sabíamos que ele devia estar aqui, e cada um de nós ansiava por observar o rosto do Duque quando marchássemos para dentro da sala de jantar do melhor hotel, onde a esta altura ele e seu grupo provavelmente estavam prestes a almoçar.
Em poucos minutos eu veria Monica, talvez tão perto dela quanto na fonda do Escorial. Esse era o pensamento mais absorvente; ainda assim, meu espírito estava de joelhos diante deste antigo trono de reis.
Eu dificilmente poderia acreditar que o fluxo amarelo e sombrio golpeando seu caminho através do desfiladeiro, e empurrando para o lado rochas enormes como se fossem seixos, fosse realmente o Tejo, rio encantado dos meus sonhos de infância — o rio que meu pai amava — o rio dourado que eu mal ousara esperar ver.
Nem uma lenda do Tejo ou de Toledo que eu não conhecesse, lembrei a mim mesmo sonhadoramente. Eu sabia como, nos grandes velhos tempos da glória da cidade, os judeus de Jerusalém tinham respeitosamente enviado uma delegação aos sábios judeus de Toledo, perguntando: “Deve este homem que diz que Ele é o Filho de Deus ser entregue à lei romana, e morrer?” E como os judeus de Toledo tinham se apressado a retornar a resposta: “De forma alguma cometam este grande crime, porque acreditamos pelas evidências que Ele é de fato o Redentor há muito esperado.” Como a caravana tinha feito toda a velocidade de volta, chegando tarde demais; e como, por causa de sua sabedoria e piedade, os judeus de Toledo tinham sido poupados pela Inquisição quando todos os outros queimaram.
Eu sabia como, em um tempo de desastre e pobreza para Toledo, San Alonzo, um homem pobre, rezou fervorosamente à Virgem, em cuja vida a catedral tinha sido iniciada, implorando sua ajuda para a cidade; como ela veio ao seu chamado, e olhando ao redor para ver o que poderia fazer, tocou a rocha, que palpitava sob seus dedos como um coração, até que todas as suas veias fluíssem com ferro derretido; como este ferro foi bebido pelo Tejo em tais goles que a água tornou-se da cor de ouro velho; e como depois disso, a cidade tornou-se rica e famosa através da qualidade maravilhosa de seu aço, o qual, os fiéis acreditam, deve seu valor ao Tejo impregnado de ferro.
Eu sabia como o Rei dos Visigodos tinha aqui se tornado cristão, e feito de Toledo a capital eclesiástica da Espanha. Eu sabia como o Cid tinha cavalgado até a cidade em Babieca, ao lado do traiçoeiro Alonzo. Eu sabia como Filipe II tinha sido expulso pela altivez do clero, fingindo maior amor por Madri, aquela cidade construída para satisfazer o capricho de um rei. Eu sabia como, mesmo como nas montanhas ao redor de Granada, em cada caverna entre as rochas do desfiladeiro selvagem, dorme um mouro encantado em armadura, em um corcel encantado, guardando tesouro escondido, ou esperando pela palavra mágica que o libertará para lutar por seus governantes banidos. E ainda assim, aqui estava eu entrando nesta antiga cidadela poderosa em história e fábula, em um automóvel, com uma câmera fotográfica!
“Mas você é um príncipe banido você mesmo”, disse Pilar, quando falei algo do que estava em minha mente. “E você saiu de sua caverna encantada pela palavra mágica. Essa palavra mágica é — Amor.”
XXI
A MÃO DA DUQUESA
Alto na colina, o Coronel O’Donnel apontou o Alcázar de muitas vicissitudes, há muito transformado em uma academia militar, que fez de Toledo para a Espanha o que Woolwich é para a Inglaterra. “Lá seu pai e eu fomos para a escola”, disse ele. “Venho a cada ano ou dois, e vago com meus pensamentos.”
Com isso, ele começou a curvar-se para a esquerda e para a direita para jovens oficiais que passeavam dentro do portão. Quase todos conheciam e pareciam encantados de vê-lo; na verdade, quem poderia ver o excelente Querubim, e não se alegrar?
Ele mesmo estava feliz. “Lá vão seu pai e eu!”, exclamou ele, escolhendo as duas crianças de melhor aparência em uma procissão de meninos incrivelmente pequenos usando orgulhosamente um uniforme elegante. “Oh, onde estão as garotas que costumavam sorrir para nós?”
Então dirigimos para dentro da fortaleza de aspecto mouro, através de um labirinto de túneis de ascensão íngreme que eram ruas. Eram tão estreitos que eu não teria acreditado que o carro pudesse passar raspando sem amassar os para-lamas, se o Querubim não tivesse nos instigado valentemente, com garantias de que seria possível. E sempre deslizávamos através, as laterais do Gloria tão próximas de portas e janelas abertas que poderíamos ter alcançado o interior de quartos escuros, e nos servido de pães, recipientes de cozinha de latão, cerâmica verde grosseira, jarras de flores, ou bebês atônitos.
Não havia espaço para os moradores nestas ruelas sombreadas correrem para fora de suas casas antes do nosso carro, quando avisados pelo “choof, choof” do motor enquanto chacoalhávamos sobre as “pedras da agonia”, que algo extraordinário estava chegando; mas mães gritavam por seus rebentos, enquanto jovens garotas chamavam suas amigas para o espetáculo gratuito; e homens, mulheres e crianças empurravam uns aos outros de bom humor em cada janela e porta à medida que nos aproximávamos, saindo em nossa esteira, embora aparentemente meio receosos mesmo assim de que o dragão pudesse começar a investir de volta contra eles.
Rostos bonitos espreitavam de trás de grades enferrujadas, com olhos para tentar qualquer homem a “comer ferro”, como diz o ditado. Homens morenos com olhos aquecidos pelo sol, e cabeças negras envoltas em lenços de seda escarlate, olhavam curiosamente para o véu de Pilar; e quando emergimos do labirinto de pedra e reboco, para um espaço mais amplo onde o hotel se ergue como um palácio antigo, fomos inundados pela multidão ridente que se formara em uma procissão de trote atrás de nós.
Exatamente quando a brancura de mármore do pátio resfriou nossos olhos, desceram as escadas aqueles com quem meus pensamentos tinham corrido à frente; a Duquesa de Carmona; Monica e sua mãe; atrás deles o Duque.
Monica ficou cor-de-rosa à nossa vista. Seus mais velhos, não na confiança do Duque sobre as incapacidades do Gloria, pareceram tão pouco surpresos quanto satisfeitos; mas as várias e visíveis emoções de Carmona incluíam extremo espanto. Olhei para ele, meu quepe fora para as senhoras, sorridente e nonchalant como se nada tivesse acontecido desde nosso último encontro; e apesar do autocontrole herdado de ancestrais orientais, por um instante ele tentou em vão esconder a raiva e o desconsolo misturados. Possivelmente ele poderia ter imaginado que tínhamos vindo de trem, se Ropes não estivesse ligando o carro naquele momento, a caminho de algum lugar de descanso disfarçado de garagem; e o “choof, choof” do meu Gloria entrou pelas portas abertas como uma risada desafiadora.
Então ele deve ter se perguntado como, por tudo que era demoníaco, tínhamos conseguido rastreá-lo até Toledo!
“Esta é uma surpresa e tanto, Señor Duque!”, disse eu, ao nos encontrarmos no pátio ao pé das escadas.
“Si—im”, respondeu ele, puxando seu bigode, e desejando nós e nosso carro em algum planeta inabitado.
“E um grande prazer!”
“Hum — er — claro”, murmurou ele; e não ousei encontrar os olhos risonhos de Monica, para que nossos lábios não rissem também.
Eles foram almoçar; mas não demoramos muito, e Pilar, murmurando em meu ouvido, “Gatos podem olhar para um rei, quer o rei goste ou não”, alegremente selecionou uma mesa ao lado dos outros. Ela então manteve um fluxo de conversa com Monica, trocando impressões de Madri. “Você não amou as lojas?”, perguntou ela. “E você vai comprar coisas de Toledo hoje; alfinetes de gravata e alfinetes de chapéu e abridores de cartas; ou você comprou demais ontem?”
“Acho que comprei o suficiente”, disse Monica, com um sorriso rápido. “Mas vou comprar mais aqui. Vamos a uma oficina de metal, depois da catedral.”
Mas isso foi pura audácia, e foi punido como temi que seria.
Não querendo perseguir com violência conspícua demais, para não frustrarmos nosso objetivo, deixamos o grupo de Carmona sair da sala de jantar antes de nós. Um quarto de hora depois seguimos, saindo para as estranhas ruas cinzentas, assombradas por homens e mulheres que fizeram história. Dick (armado com um livro de Leonard Williams, o maior dos especialistas em Espanha) teve permissão para caminhar ao lado de Pilar, enquanto aquele mais insuspeito e bondoso dos acompanhantes, o Querubim, presenteou-me com sua companhia. Mas, de acordo com seu hábito, ele estava frequentemente em silêncio, dando-me tempo para sonhar com o passado de Toledo.
Bastante pitorescas eram as figuras de hoje na velha capital cinzenta dos Visigodos, contudo elas não eram tão reais para mim quanto outras figuras que apenas os olhos da minha mente podiam ver.
Aqui estava a longa e plana fachada do edifício que a lenda escolhera como o palácio de Wamba, o Benfeitor — o Rei Agricultor. Vi o velho homem despertando para a vida no calabouço onde a traição de alguém amado e confiado o tinha lançado, vestido com o traje monástico que nunca mais poderia ser trocado por vestes de estado. Vi uma companhia abatida de judeus marchando para “Társis”, marcada e sangrando pelas perseguições de Nabucodonosor que os expulsara de Jerusalém. Vi homens mouros lutando para tomar Toledo — a “Vigia”, “a Luz do Mundo”, e lutando novamente para salvá-la para si mesmos.
Lá, no imponente Alcázar, Rodrigo traíra sua bela rainha, Egilona, pela ainda mais bela Florinda, filha de Julião, Espatórios da Espanha; pelo menos, assim dizia a lenda, misturando a música romântica de suas baladas inextricavelmente com as notas profundas de órgão da história. Abaixo, no penhasco sobre o Tejo, na Torre de Hércules, Rodrigo tinha tirado os panos de linho pintados do caixão encantado, e visto a visão terrível da horda moura com sua própria figura fugindo diante deles, um dia em que ele esquecera a profecia que advertia a todos os reis da Espanha contra entrar naquela misteriosa porta trancada.
Subindo esta rua estreita na cidade, atrás daquela janela gradeada com suas curiosas decorações de bala de canhão, talvez a incomparável Doña Flor do “Bandido” de Dumas tivesse sorrido e trespassado o coração do “Correio do Amor” com sua beleza.
Foi como despertar de um sonho brilhante quando o Querubim parou abruptamente, para apontar para o vasto e incongruente volume da catedral erguendo-se sobre nós. Mas não havia nada incongruente no esplendor gótico rico no interior; e meu único choque de decepção veio quando perdi a esperança de encontrar Monica.
Eles a tinham punido mudando seu plano de campanha, e eu deveria procurá-la em outro lugar. Mas eu não podia arrancar meus amigos deste grande monumento da glória espanhola, meramente porque me importava mais em olhar para o rosto de Monica Vale do que para o rosto de qualquer santo, esculpido ou pintado por uma mão de mestre.
Fiquei, portanto, encontrando tal consolo quanto podia no brilho cravejado de joias de vidro antigo raro, a magnificência de portas de bronze; túmulos de reis e heróis; e todas as maravilhas de ouro, prata, pérolas e diamantes que, armazenadas na sacristia, prestam homenagem à famosa Virgem Negra, Rainha da catedral.
Sair novamente para a cidade foi como dar um único passo de volta da Europa para a África; pois em lugar nenhum as civilizações muçulmana e cristã podem estar mais estreitamente emaranhadas do que em Toledo. Ruas mouras eram como golpes de cimitarra fendidos profundamente na cidade; abismos estreitos alinhados com casas secretas, dando aqui e ali um vislumbre de algum pátio brilhante e florido, através de portas entreabertas cravejadas com tachas de ferro, e pesadas o suficiente para resistir a um cerco; contudo, acima dos telhados de telha, torres cristãs subiam no azul translúcido.
Ninguém se importava conosco agora que não éramos mais deuses em um carro, exceto um mendigo ocasional, para quem o Querubim murmurava, “Deus o ajudará, irmã!” “Perdoe-me, irmão!” e então, mudando de ideia, deixava cair um centavo em uma mão murcha e velha, ou em uma palma rosada e infantil.
“Eles deixarão as compras para o final, porque Lady Monica nos disse que era para ser feito primeiro”, disse Pilar sabiamente; então vagamos pelos corredores surrados da Feira da Ladra, Pilar esperando contra a esperança desenterrar um tesouro; porque, um homem não pegou uma vez, por uma ninharia, um Greco que valia uma fortuna, e não se encontrava sempre algo pelo menos divertido na Feira da Ladra de Madri? De lá fomos para a mesquita moura, que os Visigodos começaram, e assim para San Juan de los Reyes, que, Pilar disse, eu deveria gostar mais do que qualquer outra coisa em Toledo, porque ela gostava. Com um ar de posse, ela explicou as correntes votivas de cristãos cativos festoneando sombriamente as paredes externas, e eu não lhe disse que ouvira a história há muito tempo. Ela estremeceu ao apontar para o crucifixo que costumava acompanhar a procissão do auto de fé. “Apenas pense em quão diferentes são os tempos agora!”, disse ela. “Quando Filipe II ia se casar com sua noiva, não com catorze anos, um grande espetáculo em honra ao casamento era uma queima de hereges, aqui no Zoco — a praça do mercado de Toledo! Eu não gostaria muito de ver um casamento real então. Eu nem gosto de olhar para aquele crucifixo, isso me dá tais pensamentos. Mas veja, não são aquelas galerias de pedra esculpida onde Fernando e Isabel costumavam ouvir missa, como dois grandes cálices de prata cinzelada? Espero que o rei e a rainha nunca tenham sentado ali observando os pobres infelizes acorrentados antes de marchar para o Zoco para morrer; mas tenho certeza de que Isabel não faria isso: ela era tão doce, que muitas vezes deve ter desejado não ter feito aquela terrível promessa a Torquemada.”
“Você é católica, e no entanto diz isso!” exclamei, enquanto parávamos para observar os magníficos escudos de Los Reyes Católicos. Dick estava por perto, escutando com uma avidez dissimulada a resposta da moça — e não era para menos, já que ele era protestante e não era homem de mudar de convicções, nem mesmo por amor.
“Ah, sim, sou católica”, disse ela. “Mas” — num sussurro — “os espanhóis, mesmo os católicos mais fervorosos, não amavam realmente a Inquisição. Ela lhes foi imposta; e — suponho que, naqueles dias brutais de outrora, fosse uma excitação horrível ver as fogueiras. É natural a nós, latinos, buscarmos excitação; e depois de anos com tantas tão terríveis como as que tivemos naqueles tempos, você se admira de que o povo clame por touradas?”
“Então você não acha que nós, protestantes, merecemos ser queimados?” perguntou Dick, fitando o crucifixo.
“Como pode fazer tal pergunta?”
“Mas você — não poderia fazer de um de nós um verdadeiro amigo, suponho, ou — er — permitir-se importar muito com alguém assim?”
“Eu tentaria convertê-lo — ou convertê-la.”
“Supondo que não conseguisse?”
“Então, eu teria que gostar dele — ou dela — apesar de tudo. E ele — ou ela — teria que deixar minha religião em paz. Mas estou cansada de coisas solenes; e o irmão Cristóbal está morrendo de vontade de comprar objetos de metal.”
Não creio que Dick soubesse se havia sido encorajado ou não. E deve ter se lembrado de que o Conde de Roldan é o melhor e mais elegível dos católicos. Pobre Dick! Talvez estivesse começando a perceber quão mais fácil é aconselhar outro homem a ser sensato do que ser sensato você mesmo.
Pilar acertara em suas suposições quanto ao funcionamento da mente de Carmona. Quando chegamos ao salão de exposições da Fabrica de Espadas, onde o crepúsculo era atravessado por mil brilhos e reflexos de armas estranhas, lá estavam aqueles que havíamos buscado em vão até então. A Duquesa, amarela de fadiga, descansava sua pessoa robusta num banco no longo e baixo salão, com Lady Vale-Avon ao seu lado, parecendo cansada e entediada. Mas Carmona estava junto ao balcão coberto de vidro, pedindo a opinião de Monica na seleção de suas compras.
Ele estava de costas para nós quando entramos e, sem ser notado por ele, vimos que segurava contra a luz um pequeno e afiado punhal, com um cabo belamente ornamentado. Ele indicava com o dedo, para benefício de Monica, o delicado entalhe sobre o ouro quando, alertado pela falta de atenção e pelos olhares errantes de sua companheira, virou-se em nossa direção. Então, depositando apressadamente o punhal, empurrou-o para longe como se ressentisse a intrusão de nossos olhos.
“Afinal, fomos à Gruta de Hércules”, disse Monica, “e à casa onde os nobres mouros teriam sido assassinados; então, perdemos vocês quando chegamos à catedral. Señorita O’Donnel, venha ajudar-me a escolher presentes para algumas moças lá em casa, na Inglaterra.”
Ela falou de forma alegre, porém melancólica, como se perguntasse se teria permissão para voltar àquelas moças, sendo ela própria uma, e capaz de chamar a Inglaterra de lar.
Pilar atravessou o salão até ela imediatamente, e Dick e eu a seguimos. O bom Cherub, com tato, atraiu a atenção da Duquesa e de Lady Vale-Avon, parecendo tão inocente que era mais do que elas podiam fazer ser rudes com ele. E enquanto o Duque fazia beicinho, escolhemos facas e garfos maravilhosos para nossas cestas de piquenique, e finas bengalas-espada de couro que imitavam bambu e escondiam lâminas tão flexíveis que podiam ser enroladas como molas de relógio.
“Vamos todos comprar presentes uns para os outros, em memória do dia”, sugeriu Dick; e começou oferecendo a Pilar um par de alfinetes de chapéu esplêndidos. Ela retribuiu com abotoaduras; então, encorajado por esse prelúdio, implorei a Monica que aceitasse um broche em forma de escudo. “Agora nunca me faltará proteção”, disse ela, com uma ênfase gentil; e foi bom para mim que o Cherub estivesse mostrando a Lady Vale-Avon alguns golpes de espada maravilhosos. “Deixe-me ver”, continuou a moça, quando, desafiadoramente, prendeu a joia em seu lenço de renda, sob o cenho furioso de Carmona. “O que devo lhe dar por sorte? Será um punhal? Onde está aquele que você estava olhando, Duque?”
“Não sei”, respondeu ele, tão zangado comigo por minha presunção que mal conseguia falar, embora não ousasse mostrar seus verdadeiros sentimentos e comprometer suas chances. “Parece ter desaparecido. Mas realmente precisamos ir imediatamente. Minha mãe está cansada e ainda temos várias coisas para ver antes que eu possa levá-la de volta ao hotel para descansar.”
Propositadamente, ele falou em tom alto, e Lady Vale-Avon ouviu através dos murmúrios melosos do Cherub. Ela se levantou e chamou Monica, que foi levada embora sem encontrar o punhal.
Era hora do jantar quando voltamos ao nosso hotel; mas o grupo de Carmona não apareceu no salão de jantar. Ficamos ali esperando, na esperança de que viessem, até que fosse inútil esperar mais, e enquanto bebíamos café puro, no pátio, o Coronel O’Donnel perguntou a um garçom onde estavam as pessoas que haviam almoçado conosco. “Eles reservaram uma sala de estar privativa”, respondeu o homem, o que foi um alívio, pois eu começava a ser assombrado pelo medo terrível de que Carmona tivesse fugido na calada da noite.
Aos poucos, os longos cílios de Pilar se curvaram e o Cherub, pegando-a no ato de sufocar um bocejo, mandou-a rir e ir para a cama. “Você não dormiu o suficiente nestas últimas noites para manter um cigarron vivo”, disse ele. Pouco depois, seus próprios olhos começaram a parecer os de uma criança sonolenta, e ele se desculpou com toda a cerimônia das despedidas espanholas. Dick e eu ficamos sozinhos e discutíamos o que o amanhã poderia trazer, quando um garçom pairou perto de nós, fazendo uma reverência.
“A Excelentísima Señora Duquesa de Carmona consideraria um favor se o Señor Waring e o Teniente O’Donnel a visitassem em sua sala de estar”, anunciou ele.
Estariam os céus prestes a cair? Minhas sobrancelhas levantadas e as de Dick se interrogaram em perplexidade. Mas nossos lábios permaneceram em silêncio enquanto seguíamos o criado.
A sala de estar da “Excelentísima Señora” ficava no primeiro andar, talvez um grande quarto rapidamente transformado. O que esperávamos ver quando o garçom abriu a porta, mal sei; mas certamente não esperávamos ver a Duquesa sentada sozinha.
A mesa onde o grupo havia jantado estava coberta agora por um pedaço de bordado vistoso, pseudomouro, e adornada com flores. Alguns guias e romances estavam espalhados por ali, e na mão a Duquesa segurava um volume de capa de papel, como se estivesse lendo. Mas a expressão do rosto escuro e pesado contradizia sua pose. Podíamos ver que ela estava agitada.
“Perdoem-me por não me levantar, pois estou cansada”, disse ela, enquanto entrávamos. “É gentil da parte de vocês serem tão pontuais, e agradeço-lhes.” Então ela fez uma pausa, e nós esperamos.
“Peço que se sentem. Quero o prazer de uma conversa.”
Obedecemos. E continuamos esperando.
“Estou um pouco embaraçada”, continuou a Duquesa. “Vocês devem ser pacientes. O que desejo dizer é difícil. E, no entanto, o Señor Teniente, sendo ele próprio espanhol, entenderá. Estamos na Espanha, a terra da formalidade e da etiqueta rígida, entre pessoas da nossa classe. Que um automóvel com dois jovens solteiros nele (e até o Coronel O’Donnel é viúvo, não é velho) — que tal automóvel siga de perto o nosso, que contém uma bela moça, é algo calculado para causar fofocas. Por onde quer que passemos ao longo desta rota, meu filho e eu temos conhecidos, amigos; e já houve conversa, que voa de lugar em lugar em cartas fofoqueiras entre mulheres. Tenho certeza de que vocês não gostariam de pensar que causaram-me esse sofrimento por causa de minha doce jovem hóspede e sua mãe?”
Nunca fui tão completamente apanhado de surpresa. Ela nos tinha à sua mercê; pois como pode um homem lutar contra uma mulher?
“Estamos viajando em sua direção”, disse eu, hesitante. “As casualidades da estrada nos colocam juntos.”
“Ah! Mas peço-lhes, como uma mulher da minha idade pode pedir um favor a jovens como vocês, señores, para não aproveitar essas casualidades. Se é como vocês dizem — e, claro, acredito — que por acaso estão viajando na nossa estrada, não seria um grande sacrifício atrasar-se e nos dar uma vantagem maior. Lembrem-se, é pelo bem de uma jovem moça e pela paz de espírito de uma velha. Vocês farão essa gentileza, então, por mim?”
Ela me deixou mudo. Eu não sabia como respondê-la, e ela sabia disso. Até Dick, com sua rápida sagacidade ianque, por uma vez não estava pronto. E, de fato, a Duquesa nos colocou em uma desvantagem detestável.
“Estamos com um pouco de pressa, Señora Duquesa”, gaguejei sem jeito.
“Então, em vez de causar-lhes perda de tempo, partiremos muito cedo e iremos o mais longe que pudermos no dia. Se partirmos às — digamos, sete horas de amanhã, não seria muito inconveniente para vocês esperarem até as nove? É só isso que peço; e passar a noite em Manzanares em vez de tentar chegar a algum outro lugar de parada. Se prometerem isso, vocês são homens honrados, e sei que manterão sua palavra.”
Ela tinha sua lição bem aprendida, e evidentemente a ensaiara com o filho, pois esta mulher linfática e de olhos cansados não era de conhecer de antemão os nomes de locais de parada em uma viagem de automóvel. Era inteligente da parte de Carmona usar a mão gordinha de sua mãe como instrumento para tirar suas castanhas do fogo; mas não era corajoso, porque ele devia saber que não podíamos deixar que ela tocasse as chamas.
Pensei por um momento em silêncio. Apenas grosseiros poderiam, com tantas palavras, recusar tal pedido, feito com aparente franqueza por uma mulher com idade para ser mãe deles. No entanto, eu não deveria ser preso em uma promessa que pudesse me separar de Monica.
Estar perto dela, sempre a seu serviço, era a única coisa de suprema importância; mas descartar minha pele de cordeiro e declarar-me um lobo seria perdê-la; pois no instante em que Carmona tivesse certeza de minha identidade, ele me denunciaria. Eu seria enviado para além da fronteira enquanto Monica permaneceria com ele, desprotegida, exceto por sua mãe, que era sua leal amiga. Isso certamente aconteceria, mesmo que eu não contasse o problema que poderia causar ao Coronel O’Donnel se eu fosse preso enquanto fingia ser seu filho.
Pareceu-me que deveríamos concordar em fazer o que a Duquesa pedia e, mantendo a letra de nossa promessa, tomar medidas para ver Monica em Sevilha. Lá, eu deveria deixá-la saber tudo o que havia acontecido, mesmo que eu não pudesse me comunicar com ela antes. E eu deveria implorar-lhe que partisse comigo, para que algum complô não tivesse sido tramado enquanto isso pelas minhas costas.
“O que você acha, Waring?” disse eu. Então, dando-lhe uma dica: “Sinto que devemos consentir, mesmo que não vejamos as coisas de acordo com o ponto de vista da Duquesa.”
“Ora, é claro, um homem não pode recusar uma dama; uma dama geralmente sabe disso”, respondeu Dick, vingando nossos erros com uma estocada precisa.
Ela nos agradeceu efusivamente. “Então posso contar com vocês?” perguntou ela, olhando para mim.
“Pode contar conosco”, disse eu. “E, por favor, não se preocupe em partir em um horário inconveniente. Meu amigo e eu prometemos-lhes duas horas de vantagem.”
XXII
A SORTE DO LIVRO DOS SONHOS
Era tarde, e Monica devia ter ido para a cama, portanto era impossível enviar-lhe uma mensagem. Na manhã seguinte, levantei-me cedo e tomei meu café e pão em uma mesinha no pátio, na esperança de trocar uma palavra com ela. Mas ela desceu tão acompanhada por sua mãe e pela Duquesa como se fosse uma rainha, e elas, suas damas de companhia. Tive apenas a chance de me despedir, pois elas estavam prontas para partir; e quando tentei acrescentar uma explicação apressada sobre nosso atraso, a Duquesa começou a falar, de modo que Monica foi levada embora sem ouvir.
“Velha — bruxa — perversa!” foi a exclamação de Pilar quando Dick contou a ela a história do dilema da noite passada. Mas quando perguntada sobre o que ela teria feito em nosso lugar, sua invenção falhou; e o Cherub aprovou nossa conduta.
Os outros haviam aproveitado ao máximo nossa generosidade e não haviam saído de Toledo até às nove. Portanto, de acordo com nosso contrato, fomos obrigados a esperar até as onze, surpreendendo Ropes com nossa procrastinação.
Mas quando estávamos prestes a partir do hotel, um pastor de cabras fez a curva à frente de seu rebanho felpudo. O homem, curtido num bronze escuro pela exposição constante, vestia seus trapos com o ar de um rei marchando para a conquista e, em vez de mostrar curiosidade vulgar, passou a passos largos, mal se dignando a olhar para o automóvel, embora fosse bem provável que fosse o primeiro que ele já vira. Suas cabras, igualmente indiferentes, vagaram entre nossas rodas sem pressa e, quando escolheram, afastaram-se com muito jogo de pequenos cascos fendidos sobre as pedras de calçamento. Uma nota de contraste mais nítida dificilmente poderia ter sido dada, dissemos Dick e eu um ao outro. Um encontro entre o automóvel, o mais recente produto da inquieta invenção do homem, feito para voar através de estados e continentes, e o pastor de cabras, cujo conhecimento do mundo poderia estender-se a dez milhas além do lugar onde, desde o seu nascimento, exercia uma das ocupações mais antigas do globo. Assim, as eras pareciam unidas, e Virgílio e Teócrito trazidos subitamente frente a frente com Maeterlinck e Henley; e um instante depois havíamos feito uma pequena excursão à Idade Média da superstição. Pilar nos contou gravemente que em um volume de “Sonhos e Histórias de Amor”, valorizado acima de todos os outros livros pelas jovens de Andaluzia, lia-se que trazia boa sorte aos amantes encontrar um rebanho de cabras ao começar uma jornada pela manhã.
Assim encorajados a esperar pelo que eu não ousava esperar, partimos, encontrando-nos repetidas vezes em apuros para fazer o longo chassi do Gloria contornar curvas acentuadas de ruas estreitas. Mais de uma vez, isso só pôde ser feito dando marcha a ré no carro, um feito que foi testemunhado com gritos de espanto por uma multidão de vendedores de água com vasilhas de estanho pintadas, leiteiros no lombo de burros, amoladores de facas e querubins de Murillo que nos seguiam para nos ver partir. Assim acompanhados, descemos a colina íngreme que serpenteava pelas antigas fortificações de Toledo e nos levou finalmente à Puente de Alcántara, a ponte mais maravilhosa de todo o mundo.
O Tejo, o rio mais grandioso da Espanha, e dourado como o velho pai Tibre, mergulhava por seu desfiladeiro estreito cem pés abaixo do arco de pedra, e de ambos os lados erguiam-se os penhascos queimados pelo sol, com Toledo assentada em seu cume, coroada de torres, como uma imperatriz em seu trono. Bem abaixo, no turbilhão de água amarela, havia moinhos mouros, brancos de velhice, moendo milho para seus novos mestres.
Ao passarmos pela ponte a passo de homem entre fileiras de mulas com borlas e guizos, pequenos burros cinzentos carregados de odres de vinho, jarros marrons de azeite ou sacos de farinha, e crianças encantadoras que nos ofereciam rosas por uma perrilla, tivemos nossa última visão das agulhas da catedral. A voz de uma jovem, lavando roupas brancas e azuis em um cocho de água corrente, nos apressou em nossa jornada. Sua cabeça estava amarrada em um lenço escarlate; e sorrindo para nós enquanto batia a roupa, ela cantava uma música estranha, meio canto, com aquele ritmo selvagem oriental que foi transmitido dos mouros aos filhos e filhas da Espanha.
“Ela está improvisando uma copla!” exclamou Pilar. “Escute; é para você, irmão Cristóbal.”
Então escutei e ouvi que meus olhos, embora escuros como céus sem estrelas, podiam brilhar como o sol com amor, e que a bênção de uma moça pobre que não tinha ninguém para cuidar dela estava sobre a moça rica que detinha o tesouro do meu coração.
“Você deve soprar um beijo para ela para pagar a música”, disse Pilar. “Você não sabe disso? Mas, então, você não está na Espanha há muito tempo — exceto em seus pensamentos. Isso é esperado; assim como uma moça deve educadamente beijar a mão para um toureiro se ele a beija para ela; pois se ela não o fizer, ela lança o mau-olhado sobre ele; e é bem provável que ele seja chifrado na próxima vez que entrar na arena. Oh, eu amo as coplas! E aquela mulher não estava cantando em um bom espanhol? Até as pessoas comuns falam bem aqui, pois o espanhol de Valladolid e Toledo é o melhor da Espanha.”
Olhei para trás e beijei minha mão para a moça, que teria se sentido insultada se eu tivesse jogado dinheiro; e levantando meus olhos mais uma vez para a torre da cidade, vi um cenário medieval como os antigos mestres adoram dar às suas pinturas.
A paisagem era selvagem e inalterada, ao que tudo indicava, desde os dias em que o Crescente e a Cruz lutavam pela supremacia naquelas colinas pedregosas e naqueles desfiladeiros selvagens. Mais uma vez, senti-me um anacronismo grosseiro em meu automóvel, nem a impressão me deixou quando Toledo foi escondida por uma curva; nem quando passamos velozes por antigas norias orientais, lentamente giradas por cavalos sonolentos ou burros indignados; nem com vislumbres de torres de vigia ou castelos em ruínas — tais “castelos na Espanha” como Dom Pedro prometeu aos soldados do Príncipe Negro — e raramente deu, se valiam a pena ser dados.
Agora, nosso negócio era voltar à estrada real entre Madri e Sevilha — aquela estrada em que Dick planejava economicamente seu serviço rápido de automóveis para passageiros e horticultores; mas hoje não havia nada daquela excitação da caça a que estávamos acostumados. Eu estava deprimido, apesar do bom presságio das cabras e de um encontro com uma mula que tinha quatro patas brancas — um sinal de alguma sorte extraordinária, de acordo com o Livro dos Sonhos de Pilar. O campo suavemente ondulado, prateado pelas oliveiras, com seus ocasionais vilarejos distantes e belas agulhas de igreja, não me interessava, e eu não estava tão grato quanto deveria pela boa estrada.
Finalmente, deixamos a zona das cidades marrons e vilas de tons sombrios e entramos na zona das habitações brancas deslumbrantes, o que significava que estávamos nos aproximando da terra do sul, amada pelo sol. As enormes fazendas semi-fortificadas, de paredes altas, situadas em espaços solitários, eram brancas como grandes conchas flutuando solitárias em mares de verde ondulante. Os grupos de chalés amontoados para proteção mútua poderiam ter sido cortados de blocos de mármore; e seus inquilinos eram criaturas vívidas, ardendo como flores tropicais contra o branco deslumbrante de suas paredes ásperas.
A paisagem nunca era a mesma por dez minutos. De plantações de oliveiras, corremos para um país desolado de colinas selvagens, onde moinhos de vento plantados sobre rochas acenavam com braços que se moviam lentamente; depois, descendo para vales floridos com um fio de rio prateado emaranhado nas gramíneas perto de uma longa estrada branca. E sempre o horizonte era quebrado por montanhas desmoronadas, roxas, douradas e rosadas, nadando em um mar de luz e cores mutáveis.
“Logo estaremos no país de Cervantes”, disse o Cherub; “e é um bom país — para o esporte. Eu mesmo venho às vezes com amigos, atrás de javalis; e há muitos coelhos para se conseguir quando não há nada melhor.”
“Não fale de coelhos”, disse Dick. “Fico com fome só de pensar neles; e como ninguém disse nada sobre almoçar, e estamos tendo uma boa corrida, não quis mencionar isso. Ainda assim, tem aquele presunto andaluz e Deus sabe quantas outras coisas desperdiçando sua doçura...”
O Cherub balançou a cabeça. “Não devemos parar aqui. Será melhor esperar até chegarmos à casa de outro consertador de estradas. Com certeza passaremos por uma antes de muito tempo. Então pararemos, e as mulheres nos trarão água, ou o que quisermos.”
“Eu acredito que o que você está realmente pensando é em bandoleiros!” exclamou Pilar.
“Bem”, sorriu o Cherub, “talvez algo do tipo estivesse em minha mente; embora você não precise ter medo, minha Pilarcita.”
“Como se eu tivesse — uma filha de soldado!” zombou Pilarcita. “Eu gostaria que encontrássemos os Sete Homens de Ecija, ou o próprio El Vivillo — se ainda não o pegaram. Seria divertido.”
“Nada de diversão com você entre nós, criança”, disse o Cherub. “Os cavalheirescos bandoleros do passado existem nestes dias apenas em livros de histórias e baladas. Vivillo é um bruto vilanesco, e um pouco mais ao sul não encontraremos ninguém na estrada que se importe em pronunciar seu nome. Vão chamá-lo de Señor Coso. Quanto aos Sete Homens de Ecija, diz-se que se dissolveram há muito tempo, contudo há um boato de que ainda existem; e, a propósito, Don Ramón, por gerações esse famoso bando de sete brigões teve uma ligação — pelo menos nas fofocas das velhas — com os Duques de Carmona.”
“Como é isso?”, inquiri, interessado; pois, embora tivesse ouvido muitas coisas sobre aquela casa, não ouvira a história à qual o Coronel O’Donnel aludia.
“Admiro-me de que não saiba!”, disse ele. “Ora, o conto diz que, há mais de cem anos, o bebê herdeiro dos Carmona estava doente. Se o perdessem, o título iria para outro ramo da família; mas a Duquesa havia falecido poucos dias após o nascimento dele, e nenhuma ama de leite pôde ser encontrada para dar saúde à criança. Então o Duque fez saber por toda parte que, se alguma mulher pudesse salvar seu filho, ela teria uma pensão vitalícia, o suficiente para mantê-la com conforto com toda a sua família; e que sua filha e a filha de sua filha seriam, se ela escolhesse fazer o contrato, amas de leite dos futuros Duques de Carmona. Em resposta a esta proclamação veio uma mulher de Ecija, a cidade dos brigões; uma criatura como uma Juno. Ela cuidou do herdeiro doente até a saúde, e quando a criança se tornou devotada a ela, o segredo vazou de que ela era a irmã casada do terrível padre que liderava o bando de brigões. Mas ela não foi mandada embora por essa razão. Em vez disso, o Duque usou sua influência com sucesso para obter um perdão para o marido dela, o cunhado do padre, quando ele foi pego em flagrante por roubo e assassinato entre Carmona e Sevilha; e, em gratidão por isso, o homem prometeu que seus filhos e os filhos de seus filhos estariam sempre à disposição da casa ducal. No mais, a história diz que mais de uma vez no século passado essa promessa foi exigida e cumprida em segredo.”
“Eu não duvidaria que o atual Carmona tivesse um ninho de bandidos na manga”, disse Dick. “É uma manga bem negra, se algumas das coisas que se ouvem forem verdadeiras. Mas ali está a casa de um consertador de estradas. Que tal parar e zombar de El Vivillo?”
“Servirá muito bem”, respondeu o Cherub. “Se o pior acontecesse, poderíamos fazer uma boa defesa de dentro.”
“Sinceramente, você não está nos enganando sobre os brigões?”, perguntou Dick, meio desdenhoso e meio divertido, enquanto diminuíamos a velocidade.
“Não”, disse o Cherub. “Não estou brincando, se é isso que você quer dizer; pois estamos nas fronteiras do território dos bandidos agora. Levará anos até que o banditismo seja erradicado na Espanha; e você deve ter lido sobre os problemas que tem havido ultimamente. Não que eu ache que há muita chance de um encontro, mas é bom estar preparado; pois, se um bando de homens saltar sobre você com carabinas nos ombros, não há como sacar revólveres.”
“H’m!”, murmurou Dick. “Suponho que você saiba do que está falando; mas eu apostaria que essas pessoas ririam se perguntássemos: ‘E quanto aos brigões?’”
“Muito bem; vamos perguntar”, disse o Cherub calmamente.
A essa altura, o carro havia parado perto de uma minúscula casa branca, como uma caixa, situada a poucos metros da estrada, com uma faixa de grama como gramado; e um velho, evidentemente um ex-soldado, com uma esposa rechonchuda e uma filha bonita estavam saindo. Trocamos vários cumprimentos; dissemos que, com a gentil permissão de sua senhoria, o consertador de estradas, almoçaríamos perto de sua casa; fomos informados de que a casa, e todos, bem como tudo o que nela havia, estavam à disposição de vossas mercês; e, finalmente, o Cherub murmurou uma pergunta sobre se algum bandido havia sido visto ultimamente.
Para lá e para cá o velho olhou antes de responder. Então, em voz baixa, respondeu que, por acaso, quatro cavalheiros da profissão haviam passado não fazia mais do que três ou quatro horas. Estavam sem sorte, pois haviam sido caçados pela guarda civil; e, como estavam com fome, foram para a direita, ali, para ver o que se podia conseguir na fazenda mais próxima. Quanto a este lugar, era seguro o bastante, pois não havia nele nada que até mesmo um brigão desejaria; e era preciso ser agradável com essas pessoas, se parassem para descansar ou conversar; era mais prudente.
“Você vê, teria perdido seu dinheiro se eu tivesse aceitado sua aposta, Señor Waring”, disse o Cherub.
Nunca houve almoço como aquele que fizemos à beira da estrada. Todos trabalhamos para espalhar o conteúdo das cestas, enquanto o consertador de estradas e sua família se agitavam, não como inferiores com a esperança de uma gorjeta, mas ajudando-nos como amigos e anfitriões.
Quando chegamos, não se via uma alma, exceto os moradores da caixa branca. As únicas coisas vivas, além do trio e de nós mesmos, eram as cotovias que saltavam em direção ao céu, derramando joias de gargantas latejantes, e alguns pássaros desconhecidos de vermelho e amarelo brilhantes, como pétalas de flores à deriva. Mas, se esses pássaros levaram a notícia, ou se ela soprou pelo campo com o vento perfumado, é certo que um público se reuniu para nos observar, como nuvens que fervilham sobre um horizonte claro.
Não era uma multidão intrusiva a que veio; nem se aproximaram de forma ofensiva, ou nos encararam com vulgar curiosidade. Seus membros — três ou quatro belos jovens condutores de mulas, principescos em sua miséria; um idoso cultivador da terra, com os olhos e o perfil de um falcão meio domesticado; uma velha e uma jovem donzela, semelhantes a madonas em suas capas com capuz enquanto montavam seus pacientes burros; e um par de crianças tímidas com olhos de cervos assustados — pairavam, pausavam e ruminavam, prontos para levantar voo, como criaturas selvagens da floresta, a um olhar rude ou palavra de escárnio.
Mas eles não receberam olhares rudes ou palavras de escárnio de nós, embora não ousássemos sorrir de forma muito convidativa, para que não entendessem mal e fugissem de nós, ofendidos. Inclinamo-nos gravemente; eles se inclinaram gravemente em resposta. Então, seguindo um sussurro apressado de conselho do diplomático Cherub, continuamos nossa refeição. Mas, logo depois, sanduíche na mão, ele caminhou em direção ao grupo disperso, misturou-se a ele e murmurou. O que ele murmurou, nós, no carro e ao redor dele, não pudemos ouvir; mas a incerteza fria naqueles rostos escuros brilhou em diversão compreensiva.
“Ele está contando a eles sobre nós e o automóvel”, riu Pilarcita. “Oh, eu o conheço! Ele provavelmente está inventando absurdos sobre o carro e seu funcionamento. Em mais um minuto eles serão seus escravos e amigos de todos nós.”
Enquanto ela sussurrava, a figura rechonchuda caminhou de volta. “Acho que agora é seguro oferecer a eles uma parte de nossa comida”, disse ele, do jeito de quem transmite um segredo delicioso. “Eles estão morrendo de vontade de comer algo; mas recusarão a menos que façamos isso da maneira certa, pois são tão orgulhosos quanto nós.”
Pilar não teve permissão para se mover, porque, na Espanha, as mulheres devem ser adoradas de longe e não devem se misturar com estranhos. Mas ela entregou pratos das iguarias fornecidas por Doña Rosita a Dick e a mim, e assim carregados caminhamos em direção ao nosso público.
“Ofereça algo primeiro à família do consertador de estradas”, sugeriu o Cherub, e obedecemos. “Provavelmente vocês não estão com fome”, foi seu prefácio. “Por que estariam, quando têm bastante comida tão boa quanto a nossa, talvez melhor? Mas aqui estão coisas de Madri. Pode ser que sejam novas para vocês. Ficaríamos felizes se as provassem.”
Então, dedos orgulhosos e hesitantes não hesitaram mais, mas desceram sobre fatias finas de presunto, ovos desfiados e adoçados, queijo e mazapán. Ninguém traiu ansiedade, mas os rostos brilhavam, especialmente quando o consertador de estradas, orgulhoso de nós como se fôssemos seus parentes, circulava com nosso odre de vinho, convidando cordialmente cada homem a colocá-lo aos lábios.
Enquanto a companhia comia e bebia, o Cherub circulava entre eles e logo estava munido da breve história de vida de cada pessoa, embora aparentemente não tivesse feito perguntas. De alguma forma, o primeiro impulso da alma mais reservada era confiar no Cherub; e, quando a refeição terminou e não restou desculpa para demorar, os pássaros selvagens, domesticados pela bondade, voaram com pesar.
“Eles terão boas palavras a dizer sobre os automobilistas depois disso”, disse Pilar.
“Até que algum rufião apareça correndo, derrubando suas carroças e quebrando suas ilusões”, acrescentou Dick.
Quando estávamos prontos para seguir, a esposa do consertador de estradas não ficaria satisfeita se Pilar não desse uma olhada na casa, o que ela fez e voltou encantada. “Quartos minúsculos, mas limpos como cera”, relatou ela. “Fotos e crucifixos e facas de Toledo nas paredes brancas como a neve, e um lindo cobre brilhante na cozinha. Acredito que eu poderia ser feliz vivendo ali — com alguém que eu amasse.”
Estaria a imagem de Don Cipriano em sua mente enquanto ela dizia isso? Ou o rosto bronzeado e os olhos cinzentos extravagantes de Dick? Ou ela pensava apenas em uma existência na companhia de seu pai?
“Cuidado com as valetas!”, foi a última palavra do consertador de estradas enquanto partíamos; e ficamos gratos pelo aviso; pois, apesar da direção cuidadosa, alguns segundos de desatenção poderiam ter nos feito colidir e passar por cima de uma vala profunda através da estrada, meio escondida por poeira espessa. Havia muitas dessas valetas, que poderiam ter sido colocadas por baixo na forma de bueiros; mas, como o Cherub comentou, já que ninguém se dá ao trabalho de reclamar, na Espanha, por que alguém se importaria?
Havia trechos quebrados também, onde alguém havia começado a construir uma ponte e depois aparentemente esquecido tudo sobre continuar; mas, felizmente, havia caminhos laterais feitos por outros pioneiros, pelos quais, com cuidado, podíamos contornar o grande buraco quadrado e pousar em segurança do outro lado.
Assim chegamos diante de uma cidade murada com um portão mourisco; e, apesar de todas as mudanças que ocorreram desde os dias daqueles que o ergueram, o lugar poderia estar sob um feitiço de encantamento, uma espécie de “doença do sono”, por pelo menos quinhentos anos imperceptíveis.
Nossos mapas diziam que era Ciudad Real; o Coronel O’Donnel acrescentou que, de todas as cidades de guarnição, era a que os jovens oficiais mais odiavam. E enquanto o carro parava com o motor ofegante para uma discussão sobre o caminho a seguir, dois jovens de pele escura à beira da estrada interessaram-se pela nossa situação. Eles tinham lenços vermelhos enrolados em volta da cabeça, e o mais elegante da dupla usava dois sombreros, um sobre o outro — uma maneira simples de carregar seu chapéu de domingo em dias de semana; e eles olharam para cima de uma refeição de pão de milho e cebolas para iniciar uma conversa.
Tinham vossas mercês alguma dúvida quanto à estrada? Se assim fosse, e vossas senhorias se dignassem a mencionar o destino desejado, eles poderiam ter a felicidade de nos ajudar.
Queríamos ir para Manzanares, respondi.
Nesse caso, respondeu o dono dos dois sombreros, havia um atalho que seria de auxílio. Não só nos pouparia de um trecho ruim de estrada, mas também de uma hora de tempo. Não deveríamos passar pela cidade, mas virar à esquerda ao redor da muralha, nem deveríamos entrar na aldeia que logo veríamos, mas contornar essa também. Logo chegaríamos a campos plantados com oliveiras, e nosso caminho nos levaria através deles. Não deveríamos ficar desanimados se parecesse selvagem e rude. Conseguiríamos passar e, no final, ficaríamos felizes por termos nos aproveitado de tal conselho.
Tomando isso como certo, dei a cada um dos rapazes uma peseta, que eles aceitaram mais como um direito justo do que como um favor. Para evitar a cidade, parecia que devíamos nos dirigir ao caos, vazio e sem forma; mas havia apenas algumas centenas de metros de deserto. Além, encontramo-nos em uma boa estrada, que levava à aldeia branca que nos disseram para esperar; e lá, como já estávamos preparados com informações, não perdemos tempo fazendo perguntas. Em vez disso, mergulhamos em campo aberto, com uma vista de oliveiras na distância cinza-esverdeada. De aceitável, a estrada diminuiu para duvidosa; depois para uma certeza de ruindade. Estreitou-se; suavizou-se para um banco de areia; endureceu-se em um deserto de rochas e pedras espalhadas entre sulcos profundos cavados pelas rodas das carroças de boi. Aparentemente, nenhum outro veículo além desses jamais havia enfrentado os terrores dessa passagem; contudo, perseveramos; pois ali estavam as prometidas oliveiras, tão próximas, de fato, que tombávamos contra elas enquanto balançávamos de um lado para o outro. Fomos avisados de não nos desencorajarmos, acontecesse o que acontecesse, e animamos uns aos outros corajosamente, enquanto nossas cabeças batiam no teto. “Sairemos disso logo”, ofegamos. “Certamente ficará tudo bem em breve.”
Enquanto isso, porém, era um pesadelo; o tipo de coisa com que um motorista delirante poderia sonhar e delirar, em febre; e em vez de melhorar, o caminho piorava.
“Será possível que aqueles sujeitos nos enganaram de propósito?”, disparei entre dentes cerrados, enquanto o carro saltava de um sulco de um metro para outro, apesar da insistência de Ropes.
“Aposto que é um truque de Carmona”, ofegou Dick, correndo o risco de morder a língua. “Achei que aquele sujeito dos dois chapéus parecia uma raposa.”
“Eu vi que eles estavam rindo quando olhei para trás depois que passamos”, disse Pilar, tão sobressaltada como se montasse um cavalo de trote. “Mas eu — pensei — que eles estavam satisfeitos com as pesetas.”
“Espero que eles tenham conseguido mais do que demos, para nos mandar pelo caminho errado”, rosnou Dick. “Devemos estar sonhando para não pensar nisso.”
“Não podemos sair por aí suspeitando que todo mundo que encontramos esteja na folha de pagamento de Carmona”, disse eu. “Estaríamos errados tantas vezes quanto certos, e então nos sentiríamos pequenos. Afinal, não houve tanto dano.”
“É um milagre que não tenhamos quebrado nada, senhor”, suspirou o paciente Ropes.
“Foi o que Carmona pediu aos seus demônios que fizéssemos”, disse Dick.
“Eu apostarei em San Cristóbal contra todos eles”, disse eu.
“Além disso, havia a mula com as quatro patas brancas e o pastor de cabras”, lembrou-me Pilar.
“Não posso dizer que nos trouxeram sorte.”
“Espere”, disse Pilar.
“Enquanto isso, vamos voltar”, disse Dick. “Mais cem metros assim, e mesmo que não quebremos o diferencial ou o chassi, Ropes terá um desvio lateral no cérebro. Meia hora de tal direção deve ser igual a uma semana no Purgatório para um motorista.”
Nós voltamos, e sentindo-nos anos mais velhos, chegamos mais uma vez ao ponto de onde tínhamos partido. Teríamos dado algo para ver o homem dos dois chapéus e seu companheiro, mas eles prudentemente foram embora, como abutres bem alimentados. Desta vez não fizemos perguntas, mas confiamos em nossa intuição e em nossos mapas, que, sem nunca se contradizerem, levaram-nos a uma estrada decente que parecia um caminho para o paraíso depois de tudo o que havíamos suportado.
Recuperando o tempo perdido e deleitando-nos com a alegria do movimento, colocamos nossa melhor velocidade, o que por alguns momentos trouxe os postes de telégrafo da beira da estrada tão próximos quanto abetos em uma floresta norueguesa. Mas de repente o motor diminuiu a velocidade e parou com um suspiro cansado à vista de uma aldeia branca como prata recém-polida.
“A gasolina acabou”, disse Ropes. “Não deveria ter acabado, mas acabou. O esforço extra naquele atalho do Duque a consumiu.”
Ele saiu e desamarrou um bidon do estoque de reserva preso ao estribo. Mas a lata estava leve em sua mão como uma pena. Ele deu um assobio baixo, e uma sombra escureceu seu rosto, uma sombra que não foi feita pela aba de seu boné de motorista enquanto ele inclinava a cabeça para examinar o bidon.
“Há um vazamento aqui, senhor”, disse ele para mim — pois, embora Dick devesse agora ser seu mestre, em momentos de tensão ele se apegava aos velhos hábitos. “Parece que a lata foi perfurada com algum instrumento afiado. H’m! Não me surpreenderia se tivesse sido. Seria coerente com todo o resto.”
“Você quer dizer em Toledo?”
“Sim, senhor. Estava tudo certo, então. Comprei gasolina suficiente em Madri para durar até Córdoba, quase tudo o que podíamos carregar, e encomendei mais para nos encontrar lá, grande vitesse, caso eu não conseguisse — como você disse que certamente iríamos por aquele caminho.”
“Bem, vamos olhar seus outros bidons. Estaremos em apuros se ficarmos presos aqui.”
“Mais dois vazios”, anunciou Ropes. “E três bidons não começam a vazar de repente, por conta própria. Suponho que, se eu tivesse meus sentidos comigo, teria olhado, em Toledo, antes de partir; mas quem pensa em tudo? Fiz uma revisão completa no carro, por medo de travessuras, mas esqueci os bidons. No entanto, há um para seguir em frente, tenho quase certeza; pois está guardado em um lugar que ninguém pensaria, se tivesse que fazer o ato vilanesco com pressa.”
Ao que ele entregou um novo bidon da caixa de ferramentas, e nós dois soltamos um suspiro de alívio ao ver que estava intacto. Pelo menos, tínhamos agora o suficiente para chegar a Manzanares; e, na pior das hipóteses, poderíamos apenas ficar presos lá enquanto Ropes voltava de trem até Madri para comprar gasolina.
Enquanto fazíamos essas descobertas, porém, a aldeia estava nos descobrindo. Não era a época do ano, como Pilar disse, para ursos e macacos chegarem pela estrada; portanto, quando algo foi visto aproximando-se rapidamente e parando de repente, os habitantes da cidade branca não puderam suportar o suspense. Alguém deu a palavra de que havia algo para ver, e Torralba saiu aos borbotões em suas centenas, uma procissão brilhante de 400 metros de comprimento.
Juventude e beleza tomaram a liderança. Meninas com braços entrelaçados nos ombros das jaquetas azuis, rosas ou amarelas umas das outras saltavam ao longo da estrada deslumbrante como graças camponesas. Pequenos meninos morenos de olhos estrelados aparentemente se deram ao trabalho de sair das telas de Murillo para descobrir o que éramos, enquanto suas irmãs pequenas choravam por serem ultrapassadas. Atrás delas vinham homens, de meia-idade e velhos, em bonés de formatos estranhos como carvões de pele e couro, mulheres de cabeça negra nua, ou lenços azuis desbotados sombreando rostos enrugados, e mendigos mancando em seus bastões; um exército gritando e rindo derramando seu fluxo de cores brilhantes pela linha branca da estrada reta. E antes que a Gloria tivesse sido refrescada com seu longo gole de gasolina, a onda de vida havia se quebrado ao redor de seu capô. Olhos brilhantes encaravam, mãos morenas quase nos tocavam; e as crianças não sabiam se gritavam de susto ou riam de alegria ao verem a si mesmas refletidas no vidro virado para cima contra nosso teto. Mas, ao primeiro tossir do motor enquanto latejava para despertar, a multidão recuou, dividindo-se para nos deixar passar, como se o carro a tivesse dividido em dois, e juntando-se novamente para correr para casa em nosso rastro.
Todas as mulheres aptas que não tinham saído para nos encontrar estavam sentadas diante das portas de suas casas brancas, fazendo mantilhas de renda e babados para a jovem Rainha eleita — Torralba é famosa por suas rendeiras — e elas acenavam com mãos gastas pelo trabalho enquanto passávamos, desejando-nos boa viagem, ou lançando uma copla improvisada atrás da Gloria que desaparecia.
Estávamos agora na terra de Dom Quixote; e se tivéssemos voltado aos seus tempos ao entrar na sua província de La Mancha, o nosso carro vermelho teria suscitado pouco mais entusiasmo. Aldeia após aldeia saiu para nos ver; sempre as mesmas cores deslumbrantes contra o pano de fundo de casas brancas e o arco azul do céu; sempre os mesmos olhos brilhantes e rostos morenos ricos com lábios escarlates que riam. Foi até um alívio para a monotonia encontrar um bando de carroceiros jovens de olhar feroz alinhados com grandes pedras nas mãos, desejando esmagar as feições do aristocrata, se os aristocratas assustassem as suas mulas. Mas nem os aristocratas nem as mulas mostraram medo. Pilar até se inclinou para fora, como se desafiasse os quatro ou cinco sujeitos carrancudos a atirarem as suas pedras contra o rosto de uma rapariga, e os braços deles caíram inofensivos.
“Não acredito que qualquer espanhol, por muito mau que seja, faria mal a uma mulher que não lhe tenha feito nenhum mal!” exclamou ela.
A estrada, com a sua superfície irregular e irritante, parecia interminável. Tínhamos começado tarde, conforme a nossa promessa, e tendo perdido mais de uma hora no “atalho”, as asas cinzentas do crepúsculo começaram finalmente a envolver a paisagem. Há muito que tínhamos passado uma aldeia; Manzanares ainda não estava perto, e comecei a perguntar-me se a Gloria não voltaria a ter sede antes que lhe pudéssemos dar de beber.
Curva após curva; sempre o mesmo solavanco; sempre o mesmo cenário, até que as nossas mentes se cansaram. Então, de repente, ao fazer uma curva, deparámo-nos com algo que fez com que cada um de nós esquecesse o tédio.
Lá estava o carro do Duque — o carro cinzento que tínhamos jurado evitar — preso num caniveau que cortava a estrada em dois. Lá estavam Carmona e o seu motorista a encarar maldosamente os mecanismos internos do motor; lá estavam a Duquesa e Lady Vale-Avon, cobertas de pó e desconsoladas, sentadas desalentadamente em pequenos montes à beira da estrada; e lá estava Monica, sem o seu véu, a andar de um lado para o outro impacientemente com as suas mãozinhas enterradas nos bolsos do seu casaco cinzento, o último brilho do pôr do sol encontrando uma nota correspondente no ouro do seu cabelo.
“O que eu te disse!” exclamou Pilar. “O pastor de cabras! A mula com as patas brancas! É a sorte do Livro dos Sonhos!”
XXIII
A GLORIFICAÇÃO DE MONICA
Desacelerando, estávamos quase sobre o grupo; e, por uma vez, fomos bem-vindos pelos nossos inimigos. Até o rosto de Carmona iluminou-se, um vislumbre de esperança acendeu os olhos cinzentos de Lady Vale-Avon; e a Duquesa cortejou-nos deliberadamente com um sorriso.
Quanto a Monica, estava radiante como uma criança que foi surpreendida pelo regresso a casa dos seus entes queridos; contudo, havia uma nova melancolia nos seus olhos, apesar da alegria que demonstrava.
“Oh, quão glorioso é que tenham vindo em nosso socorro!” exclamou ela, toda covinhas e rosas. Ainda assim, ela olhava de mim para Pilar, e de Pilar para mim, como se desejasse perguntar a um ou a outro alguma questão que era impossível verbalizar; e eu disse para comigo que seria difícil para mim se não descobrisse, antes que passassem muitas horas, qual era essa questão.
Qualquer porto é bem-vindo numa tempestade ou entre colegas automobilistas, se se está indefeso à beira da estrada com várias senhoras quando a noite se aproxima; e as primeiras palavras de Carmona mostraram que ele não tinha escrúpulos em servir-se de nós. Mas, com as provações pelas quais tinha passado, e a sua preferência natural pela ajuda de qualquer outro carro em vez da odiada Gloria, ele estava de mau humor. Queria ser cortês, para que não fôssemos levados a deixá-lo na mão; ainda assim, era claramente um esforço tal que eu poderia ter rido em voz alta. Pilar teria sido capaz de citar parágrafo e página do seu Livro dos Sonhos.
O pior dano no carro era uma mola partida, embora algo parecesse ter corrido mal também com a ignição naquele impacto desastroso no caniveau. Estavam onde os encontrámos há um par de horas, admitiu Carmona, sem encontrar qualquer veículo ou animal para os rebocar. A primeira esperança tinha sido seguir penosamente até Manzanares (pela qual originalmente tinham planeado passar) com uma mola partida; mas a abelha na cabeça do motor não podia ser feita zumbir, e em desespero, Carmona estava prestes a enviar o seu motorista a pé, em busca de algum transporte para as senhoras e a sua bagagem. Mais horas teriam de passar, na melhor das hipóteses, antes que o homem pudesse ter regressado ao resgate, e já todos estavam famintos.
As senhoras do grupo do Duque tiveram de ser transferidas para a Gloria; e Dick, com ares de proprietário, insistiu em razões vagas e volúveis para que eu fosse o seu companheiro no tonneau. Éramos os mestres da situação, e o rosto de Carmona, quando foi obrigado a sentar-se ao lado do motorista que tinha de conduzir o carro rebocado, compensou-me de erros graves.
Pilar, para não ser superada em engenho por Dick, fez por mim o que eu não podia fazer por mim mesmo, ao arranjar forma de eu me sentar ao lado de Monica. Embora eu não pudesse dizer nada para os seus ouvidos que outros ouvidos não pudessem ouvir, era uma alegria sentir o seu ombro leve aconchegado calorosamente contra o meu braço, saber que ela não podia ser arrebatada de mim pela sua mãe ou por Carmona, mas que, como era agora, assim teria de ser por muitos momentos, talvez uma hora, que viriam. Havia também satisfação em obter do facto de que o meu inimigo, a solavancar atrás no seu próprio carro avariado (impulsionado pela nossa generosidade e potência), estava a olhar com malícia, inveja e toda a falta de caridade para as minhas costas.
O meu único arrependimento nestes momentos que deveriam ter sido perfeitos, era que a minha alma profética não me tivesse levado a escrever uma longa carta a Monica, a qual eu poderia ter conseguido deslizar para a sua mão sob a cobertura de mantas e da escuridão.
Ropes teve de acender os candeeiros antes que víssemos mais de Manzanares do que uma torre de igreja ilusória que continuava a aparecer e a desaparecer como um fogo-fátuo. Mas a gasolina aguentou, e a respiração da Gloria estava regular, apesar do peso que tinha de rebocar sobre sulcos e através de valetas. Uma vez, porém, Ropes olhou para trás para mim com um movimento expressivo de ombros que interpretei como “temos sorte se chegarmos lá!”, por isso eu poderia ter gritado “hurra!” ao ver as primeiras casas, embora elas trouxessem o meu último momento de felicidade.
Num outro instante, a população de Manzanares respondia ao rufar do nosso motor, como soldados ao toque do tambor. De algum lugar, só os seus santos sabiam onde, um exército de crianças derramou-se pela rua longa e reta, e enquanto desacelerávamos para evitar uma matança em massa, elas aproveitaram a nossa consideração para invadir o carro como formigas. Corriam gritando ao nosso lado, subiam aos estribos, penduravam-se atrás, lutando tão impiedosamente por posições privilegiadas que quase caíam sob as rodas. Não se teria suposto que pudessem ter restado outras crianças em Espanha. Como poderia haver espaço para estas na cidade de Manzanares era uma maravilha; como todas poderiam ter saído num segundo às milhares, era um milagre; e a sua prontidão teria feito justiça a qualquer comandante.
Os gritos estridentes desta legião, abafando o som do motor, e aumentando à medida que o contingente era reforçado a partir de cada rua lateral, despertaram a cidade. Famílias deixaram as suas mesas e correram para a porta, com a ceia nas mãos. Padeiros com braços brancos deixaram o pão de amanhã nas masseiras; um grupo de ferradores a ferrar um cavalo parou o trabalho, até que o ferro incandescente empalideceu. Lojistas que tinham iluminado as suas montras com um clarão de eletricidade, correram para a rua. Mulas e burros atados às ombreiras das portas partilhavam a agitação geral, mergulhavam e empinavam-se perante o avanço da vaga humana com o carro na sua crista, rompiam as suas cordas e precipitavam-se para dentro das casas dos seus donos.
Nunca, entre todos os nossos sucessos, tínhamos feito tal succés fou como este; mas, então, nunca antes tínhamos tido um carro a reboque. Metade do nosso triunfo pertencia ao Lecomte; contudo, qualquer um de nós teria dispensado de bom grado tudo; e se não fosse por um pequeno mas determinado polícia que lutava para preservar o crédito da cidade, poderíamos ter passado metade da noite a lutar pelo nosso caminho até um hotel.
Ele desferia golpes e exortações indiscriminadamente, guiou-nos através de ruas laterais que nunca teria ocorrido à nossa imaginação entrar, e com esforços dignos daquele que “sozinho guardou a ponte”, ajudou-nos a abrir caminho para que as senhoras saltassem para a porta da pequena fonda.
Era uma porta de ferro de trabalho aberto elaborado, conduzindo, à moda mourisca, através de um vestíbulo raso para um pátio — o primeiro que tínhamos visto no nosso caminho para sul; e se não tivesse sido fechada com um clique alto, por alguma pessoa lá dentro, metade de Manzanares teria entrado atrás dos fugitivos.
Assegurada a segurança das senhoras, os homens dos dois grupos (exteriormente) unidos permaneceram para ajudar os motoristas e um senhorio atordoado a descarregar a bagagem. Sobrecarregado por uma onda de crianças quase crescidas e um spray espesso de bebés, o homem de Carmona perdeu a sua presença de espírito. Os dois carros mal tinham parado antes que as criaturinhas estivessem neles, sobre eles e debaixo deles, a tentar beliscar os pneus, a soprar a buzina, a gritar, a rir, a chorar. “Mon Dieu, c’est une obsession!” gemia o infeliz francês; e até o imperturbável Ropes mostrava sinais de “nervos”.
Tão depressa quanto os duendes que se aglomeravam eram repelidos, eles voltavam com força redobrada; mas tão alegres eram eles, e tão bonito era cada rosto castanho e ousado, com os seus olhos deslumbrantes, que era impossível ficar zangado. De alguma forma, resgatámos a bagagem, e com a ajuda do senhorio atirámo-la, ou deslizámo-la, ou rolámo-la através da porta, momentaneamente aberta.
“Pelo amor de Deus, senhor, ajude-me com isto!” implorou Ropes, notando que os homens do grupo estavam prestes a seguir a bagagem. “Detesto incomodá-lo, mas não creio que o meu espanhol chegue para isto.” Com pena, subi para o carro para ir com ele até ao estábulo que o senhorio indicou como a nossa garagem. Foi uma experiência para ser lembrada em pesadelos; contudo, havia nela uma espécie de prazer de colegial. Parecíamos ter batalhado contra toda a força do exército contra nós; no entanto, quando regressámos à fonda, varridos por uma grande escolta, encontrámos um regimento reunido em torno da porta. Como passámos foi matéria para outro sonho selvagem, mas passámos, para ficar ofegantes do outro lado da grade, no pátio.
Dezenas de rostos escuros estavam pressionados contra as barras, como camadas sobre camadas de amores-perfeitos brilhantes num canteiro de flores; e soubemos finalmente a sensação daqueles que são os observados, não os observadores, num jardim zoológico.
Todos estavam no pátio, onde luzes elétricas penduradas nas varandas se misturavam com uma rica luz amarela de candeeiros e luz avermelhada de fogo que vinha da cozinha. Toda a bagagem estava amontoada de qualquer maneira, numa pilha caótica onde surgiam malas, a ferver com bolsas de toucador; enquanto perto dali, como Marius e um amigo ou dois nas ruínas de Cartago, estavam a Duquesa, Lady Vale-Avon, Carmona, Dick e o Querubim. Monica e Pilar tinham estado a falar à distância com uma rapariga da casa, mas vendo-me gravitar na sua direção, Lady Vale-Avon chamou a sua filha.
“As senhoras estão a dizer que não podem ficar aqui,” anunciou Dick, a sua voz em sintonia com um brilho nos seus olhos.
“Eu não estou a dizer isso,” interrompeu Monica. “Acho que será divertido; uma verdadeira aventura. A dona da casa é maravilhosa, e todas as suas filhas e sobrinhas são belezas. Se formos simpáticos para elas, serão adoráveis connosco.”
“O lugar é uma toca!” exclamou Lady Vale-Avon. “Deve haver algo melhor na cidade.”
“Temo que não haja,” disse o Duque. “Este acidente deixou-me impotente. Lamento horrivelmente; mas não podemos seguir para mais lado nenhum esta noite.”
“Podemos ficar acordados,” disse a Duquesa, “no automóvel.”
“Deixem-nos ver os quartos,” implorou Monica. “E não deixem que eles vejam que estamos a encontrar defeitos. Os sentimentos deles serão feridos.”
“Que disparate!” respondeu Lady Vale-Avon. “Como se eles tivessem sentimentos!”
“Se não os tiverem em consideração, eles não se esforçarão para vos tornar confortáveis,” disse eu, sabendo por instinto as pessoas com quem tínhamos de lidar. “Eles já estão a começar a suspeitar que algo está errado, e a julgar pela expressão dos seus rostos, bastará pouco mais para que o senhorio diga que não tem quartos. Então poderemos realmente ter de ficar sentados nos automóveis.”
O proprietário da fonda e a sua família, que tinham vindo tão calorosamente dar as boas-vindas aos estranhos, estavam agora a pairar ao longe, silenciosos e desconfiados, os seus espíritos abatidos pelos olhares desdenhosos de Lady Vale-Avon e da Duquesa. De pé na penumbra, o rosto do senhorio era um borrão de sombra castanha, sem traços, exceto por um par de olhos enormes a arder com uma emoção que já não era hospitalidade. A sua esposa, cujo ombro largo estava pressionado contra o do seu marido como se para formar uma linha de defesa, era uma mulher de sobrancelhas escuras, tipo cigana, que deve ter sido bonita em tempos, e poderia agora ser formidável. Atrás deles estavam agrupados um rapaz bonito, e três ou quatro raparigas extraordinariamente bonitas com rosas vermelhas e brancas no cabelo.
“Eles não se atreveriam a expulsar-nos!” exclamou Lady Vale-Avon. “Nunca devem ter tido pessoas do nosso tipo antes.”
“Se perguntasse, provavelmente responderiam que Duques e Marqueses eram tão comuns como amoras,” disse eu.
Ela olhou para Carmona, esperando apoio, mas ele encolheu os ombros em desespero; e um olhar meu foi o sinal para o Querubim avançar.
A atmosfera tinha começado a vibrar, e em mais alguns momentos poderia ter sido tarde demais para fazer as pazes com estas pessoas orgulhosas e que se respeitam a si mesmas, que nunca tinham submetido a indignidade. Mas no espaço de seis segundos o magnetismo do Querubim tinha começado a fazer o seu trabalho. Ele murmurou, acenou e sorriu, colocou a família na sua confiança com alguns gestos gráficos, explicou que as senhoras estavam perturbadas por um acidente, apelou à cavalaria do senhorio e ao coração da patroa. As carrancas que se formavam foram afugentadas por sorrisos; e quando Monica mostrou as suas covinhas ao rapaz e às raparigas com um olhar que implorava por bondade, a batalha foi travada e vencida.
Eles não tinham muitos quartos. Vários estavam ocupados por viajantes de comércio, mas estes cavalheiros seriam acomodados num quarto, a sua roupa e bagagem movidas imediatamente. Oh, eles não se importariam quando soubessem que era uma questão de acomodar senhoras; ou se se importassem, teriam de engolir as suas objeções ao jantar; não tinha importância. E o senhorio e a patroa cederiam o seu quarto, um bom quarto, as suas mercês não precisavam de ter medo. Tudo estaria pronto no abrir e fechar de olhos. Mas não quereríamos, entretanto, cear? Havia sempre o suficiente para alguns inesperados.
Tendo ouvido até aqui, o Querubim virou-se suavemente para Carmona. Estes arranjos não precisavam de incluir o grupo do Señor Duque, a menos que ele quisesse, claro, mas—as suas palmas foram estendidas como se para receber a decisão. Ela caiu-lhe gorda nelas. Todos teriam de ficar, e tirar o melhor partido disso.
Assim, as senhoras foram empurradas para um quarto onde pudessem livrar-se do pó, e os homens para outro; quartos limpos, com paredes caiadas, vazias exceto por um santo ou dois pintados em cores berrantes; chão coberto com esteiras grosseiras e brilhantes; e camas de ferro com almofadas de renda e bordadas.
Em um quarto de hora, todos estavam prontos para jantar, mas cinco dos quinze minutos eu tinha dedicado ao rabisco apressado de uma nota a lápis para Monica. Esperava deslizá-la para a sua mão na sala de jantar, mas ela estava sob guarda próxima; e Carmona anexou quatro lugares na cabeceira da longa mesa, manobra com a qual garantiu isolamento para o seu grupo. Estava a salvo de qualquer investida nossa, pois havia um contingente disperso de viajantes de comércio já seriamente empenhados em jantar em ambos os lados da mesa. Dois homens educados à esquerda, e três à direita, todos com guardanapos enfiados sob o queixo, levantaram-se, oferecendo-se para mudar em vez de dividir amigos; mas Carmona assegurou-lhes que o sacrifício era desnecessário. Como estavam todos paralisados pela beleza de Monica, de um tipo tão diferente de qualquer um a que estivessem acostumados, não tiveram o autocontrolo para protestar; e à medida que o jantar prosseguia (em muitos pratos de que o senhorio estava evidentemente orgulhoso), eles mal podiam fazer justiça à sua merluza servida com limão grelhado e pimento espanhol vermelho picado; à sua tortilla de ovos, batatas, ervilhas e presunto; aos seus pombos com azeitonas, ou mesmo ao seu macarrão acabado de cozer, por olharem languidamente para a visão de rosa, branco e ouro.
Encantos como os de Pilar, embora insuperáveis do seu género, não contavam para nada com estes cavalheiros ardentes; e até o filho, filhas e sobrinhas do senhorio que serviam os seus convidados, esqueciam metade das suas obrigações em admiração abjeta. “Um anjo!” “uma santa!” “uma princesa de conto de fadas!” eram alguns dos seus adjetivos sussurrados; e quando o objeto da sua adoração foi arrebatado pela sua mãe e pela Duquesa, antes que o queijo de leite de cabra tivesse sido trazido, uma tristeza caiu sobre a sala. Os viajantes de comércio galoparam pelo resto da refeição, e saíram, esperando talvez, se passeassem pela rua, ter a alegria de ver uma luz na janela do ser radiante. As raparigas bonitas da casa desapareceram com desculpas murmuradas, deixando-nos à mercê do rapaz, que suspirava gravemente, deixou cair uma açucareira, e entornou café por um triz sobre o ombro do Querubim.
Pilar desapareceu pouco depois, deixando os seus três homens sozinhos à mesa, observados apenas por algumas dezenas de rostos ansiosos pressionados contra as barras de ferro que protegiam a janela aberta.
Em breve ouvíamos gargalhadas vindas do pátio; as raparigas bonitas estavam a sair numa expedição de forrageamento em busca de um aquecedor de camas para aquecer os leitos das três grandes senhoras, que temiam a humidade. Em vinte minutos voltaram, e chegámos ao pátio a tempo de ver a entrada triunfal de quatro ou cinco criaturas encantadoras, carregando entre elas um vaso de latão de cabo longo que provavelmente existia desde os tempos de Filipe II. Mas isto era apenas o começo da diversão; e desculpámo-nos com os nossos cigarros para demorar, e ouvir o que não podíamos ver.
Não era um pátio bonito; e o público ainda fervilhava do lado de fora da porta gradeada de ferro na esperança de mais perspicácia sobre as vidas privadas do jardim zoológico itinerante; mas a nossa bagagem tinha sido levada para os quartos que estavam agora prontos (graças à complacência dos cavalheiros comerciais deslumbrados), e havia cadeiras de jardim, nas quais nos instalámos apesar do frio no ar da noite.
Dos quartos acima ouvimos risos e gritos extasiados. Evidentemente, o aquecedor de camas estava a causar sensação à medida que fazia a sua ronda, ou algo mais tinha acontecido; e quando finalmente as raparigas desceram as escadas da varanda, fiz-lhes sinal para virem na nossa direção. Elas saltitaram até nós, loucas de prazer com a perspetiva de derramar os seus corações para uma audiência apreciativa.
O grande aquecedor de camas, recheado com brasas que brilhavam e empalideciam, foi colocado no pavimento de azulejos enquanto as raparigas se entrelaçavam num grupo, com braços entrelaçados.
“Por que estão tão felizes?” perguntei.
“Felizes? Estivemos no paraíso, com os anjos,” respondeu a rapariga mais bonita com rosas carmesim presas num banco de cabelo cor de cobre.
“Havia apenas um anjo,” objetou a sua prima morena.
“Isso é verdade. As duas velhas pensam que são tudo, mas são menos que nada. Eu não trocaria os meus anos pelos delas, com as suas joias e os seus brasões. Graças a Deus, na nossa Espanha, somos todos tão nobres como os nobres, ou pelo menos nesta província!”
“Vocês são também todas bonitas!” disse eu.
“Que possa dizer isso, senhor, depois de ver aquela maravilha!” exclamou a filha mais velha do senhorio, uma criatura de cravo e chama. “Ah, a alegria disto, temos estado a despi-la!”
“Se pudesse tê-la visto, com cabelo de ouro até aos joelhos!” ofegou uma cigana de quinze anos. “E quando lhe tínhamos tirado o vestido, e ela estava no seu...”
— Silêncio, Micaela! Não é conveniente que menciones tais vestimentas na presença de señores! — interrompeu a rapariga da coroa de cobre.
— Agora estás tão má como eu estava, Mariquita!
— Mas por que razão, então, sendo elas belíssimas? Bem sabes, Mariquita, tu própria disseste que pareciam obra de fadas, e os seus ombros...
— Cala-te, tola, ou terei de queimar-te o nariz com a braseira!
— E o que disseram as senhoras mais velhas às novas criadas da jovem senhora? — perguntei rapidamente, enquanto grandes olhos começavam a faiscar e lábios escarlates a fazer beicinho.
Os sorrisos voltaram, e as donzelas caíram numa crise de risadinhas de escola.
— Só havia lá uma Majestade, louvados sejam os santos, a inglesa, que é sem dúvida a mãe da nossa senhora anjo. Têm dois quartos entre as duas, mas o da señorita é minúsculo, sem porta própria, e apenas com um buraco envidraçado quadrado por janela, embora a cama seja tão boa como qualquer outra, e nós demos-lhe os melhores lençóis. Quando levámos a braseira, o nosso anjo tentou dizer em espanhol que tinha a certeza de que as nossas camas estavam secas e bem arejadas, como de facto estavam. Tinha tirado o corpete e estava a desfazer o cabelo, que era tão bonito que podíamos ter caído de joelhos e rezado a ela como a uma santa. Então não resistimos, mas começámos a ajudá-la a despir-se, falando da sua beleza. Ela não se ofendeu, embora tenhamos beijado as suas mãos, e aquela tonta da Micaela um dos seus minúsculos pés brancos quando lhe tirámos a meia...
— Agora estás tão má como eu estava, Mariquita.
— Não, na verdade; o que é uma meia? Uma coisa de que é tão bom prescindir como usar. Isso é diferente. O anjo riu-se até estar quase às lágrimas e disse que éramos criadas muito mais simpáticas do que aquela que a sua mãe tinha enviado pelo caminho-de-ferro ao partir de automóvel. Depois disto, ela ficaria estragada para os outros; e deu a cada uma de nós um presente. À Lola, dois maravilhosos alfinetes de chapéu com pedras azuis em prata — não que ela alguma vez fosse sofrer as torturas de um chapéu, mas é uma grande coisa tê-los. À Teresa, uma doce bolsa redonda de couro azul, do tamanho para guardar uma moeda de cinco pesetas; à Micaela, um lenço com renda na borda, e a mim um véu bordado como uma teia de aranha. Que nos importava que Sua Majestade a mãe nos tivesse despedido se pudesse? Não tinha espanhol suficiente para nos fazer entender o que não queríamos entender, e, por fim, guardou o fôlego para outro dia. Mas, a essa altura, já tínhamos terminado, pois tínhamos vestido o nosso anjo com a sua camisa de dormir, uma coisa de teias de aranha e renda unidas por fitas azuis, que eu teria achado boa o suficiente para uma rainha usar ao subir ao trono.
— Devem mostrar-nos os vossos presentes — disse eu, com astúcia deliberada. Todos foram exibidos no instante, com conversas, risos e reivindicações clamorosas de méritos rivais. Mas o véu foi a coisa que olhei para cobiçar. Ela tinha-o usado um dia depois da chuva, quando as estradas estavam limpas de pó, e o seu rosto tinha brilhado através da renda como uma estrela brilha através de uma nuvem flutuante. Senti que não podia vê-lo em outras mãos que não as minhas.
Enquanto o Querubim comparava os presentes com eloquência, afastei Mariquita. — Quero muito esse véu — disse eu; — tanto que lhe darei cem pesetas se se desfizer dele.
Ela abriu os seus olhos cor de tabaco. — Mas o senhor é apenas um homem e não pode saber que o bocado de rede bordada não vale mais, em dinheiro, do que quinze pesetas, no máximo.
— Não era no seu valor em dinheiro que eu estava a pensar.
— A—ah, percebo! O señorito — sim, claro, seria estranho se não fosse! Adoro o meu novo véu, não só porque é bonito, mas mais porque veio até mim da señorita mais bonita que alguma vez vi. Ainda assim, já que o señorito o valorizará ainda mais do que eu, dar-lho-ei, embora não pelas cem pesetas. Dar-lho-ei por nada, exceto pelos seus agradecimentos.
Disse à rapariga que ela era boa demais; que não podia roubar-lhe o presente recém-recebido; mas ela insistiu, e vi que o seu orgulho ficaria ferido se eu recusasse. Por isso aceitei, enquanto uma forma de me beneficiar e recompensá-la me ocorria ao pensamento.
— Vê como é comigo — disse eu, com um ar confidencial. — Tens sido muito generosa. Serás também prestável?
— Pode confiar em mim — respondeu ela. — Adoro uma história de amor, especialmente se houver dificuldade. Espero ter eu própria um novio reconhecido em breve. Ele é um toureiro — apenas um principiante, mas será grande um dia, e embora o meu pai tenha feito má cara ao princípio, agora encolhe os ombros; e quando isso é feito, há sempre esperança. Sua Majestade a mãe faz má cara, não é?
Assenti.
— Ela encolherá os ombros logo, logo.
— Duvido. Mas, entretanto, escrevi uma carta. Tentarás dá-la à jovem senhora?
— Sim — disse Mariquita. — Tentarei o meu melhor. Acho que consigo. Não esta noite, pois ela já se deitou, e não haveria desculpa para voltar ao seu quarto, uma vez que tenho de passar pelo de Sua Majestade. Mas amanhã de manhã levarei a água quente das senhoras, com um ar tão inocente! E levarei também a carta.
— Obrigado muitas vezes — disse eu.
— A coisa ainda não está feita.
— É pela tua boa vontade que te agradeço antecipadamente. E isto é para o teu toureiro, como um presente da sua novia.
Tirei o meu alfinete de gravata. O rosto dela corou de prazer, como não teria corado por quantia nenhuma de dinheiro. Poderia ter dispensado um presente para si mesma, mas não conseguiu resistir a um para o novio, e fui agradecido muito para lá do mérito do presente.
Se ela foi deitar-se feliz, eu também fui, pois acreditava que Monica teria a minha carta de manhã; e se a melancolia nos seus olhos significava algum novo problema em que eu tinha parte, esperava que as palavras que escrevi pudessem bani-la.
XXIV
A BOA VONTADE DE MARIQUITA
Contudo, não consegui dormir nas minhas almofadas duras mas limpas, por causa da inquietação sobre aquele olhar de Monica e o seu significado; e sempre que fechava os olhos, hordas de figuras vermelhas e amarelas derramavam-se de casas brancas sobre estradas brancas, formando padrões caleidoscópicos irritantes na minha retina cansada.
Cada hora que passava era anunciada pelo guarda noturno, ao longe, e depois logo ali sob a minha janela; um grito temível como um gemido de agonia proferido por um louco num espasmo mortal.
Fiquei contente quando a manhã chegou; e após um banho como dois ou três jarros em miniatura de água permitiam (o rapaz de olhos de corça perguntava em nome de todos os santos o que eu poderia fazer com tantos), sacudi as nuvens mentais de uma noite sem dormir.
Em breve Monica teria a minha carta. Ela saberia — se tivesse podido duvidar — que, se eu a amara ao princípio, agora adorava-a. Ela saberia por que não tínhamos seguido mais de perto ontem; e por que — a menos que Carmona escolhesse aceitar a nossa ajuda novamente — seguiríamos antes do carro cinzento hoje. Ela saberia também que a minha esperança mais sincera era levá-la embora, para fora do alcance do mal.
Estava vestido e tinha tomado o meu café e o pão duro e gordo de pão espanhol, às sete e meia, pois tinha a certeza de que Ropes estaria à minha espera. Não teria perturbado Dick, que dormia num quarto do outro lado do pátio, mas encontrei-o na sala de jantar, a lutar com um copo de chocolate espesso e um biscoito doce em forma de dedo. — Estou a tentar gostar dos costumes espanhóis — disse ele.
Ri-me.
— Porque, se vou levar avante aquele meu plano sobre o tráfego automóvel, talvez tenha de viver no local, percebes.
— Oh! — disse eu. — E que tal as minas de cobre do Coronel O’Donnel? Pensaste num meio de persuadi-lo de que é seu dever explorá-las?
— De certa forma, pensei — respondeu Dick secamente. — Um tipo de forma indireta. Que tal a nossa gasolina? Ouviste alguma coisa sobre isso?
— Não. Vou procurar o Ropes.
— Seria uma grande derrota para o Carmona, se ele realmente mandou furar os nossos bidões, sentir que é culpa dele se formos retidos tanto tempo como ele.
— O Ropes está no pátio — disse eu. — Vou entrevistá-lo.
— Que novidades? — perguntei.
— Bem, senhor, fiz o que o senhorio disse ontem à noite, e tentei arranjar moto-nafta — como lhe chamam aqui — na farmácia.
— Eles tinham alguma?
— Oh sim, senhor, tinham alguma. Tanto como meio litro cada, nas duas lojas. Queriam vendê-la à onça.
Dick e eu rimos, embora a minha alegria não fosse despreocupada. Tive visões de ficar preso neste lugar até que Ropes fizesse uma viagem a Madrid e voltasse, com o carro de Carmona a fugir muito antes de estarmos prontos.
— Tive medo de que fosse inútil procurar gasolina aqui — disse eu, esforçando-me pela resignação, mesmo vendo Mariquita subir as escadas com duas latas batidas de água quente.
— Ainda não, senhor. Um homem que me ouviu perguntar por moto-nafta na farmácia aconselhou-me a tentar o cemitério.
— O cemitério? Percebeste mal a palavra.
— Não, senhor; era cemitério. E mais, disse que o Presidente da Câmara a guarda lá para matar lagostas.
Esta declaração, proferida de forma algo nervosa, foi recebida com escárnio.
— O tipo estava a pregar-te uma partida — disse Dick.
— Não me parece, senhor.
— Então ele é louco — insisti. — Pescar lagostas com moto-nafta num cemitério em Manzanares é uma história sobre a qual o Barão de Munchausen teria pensado duas vezes antes de contar.
— Langostas significa lagosta — ou lagostins, suponho, senhor? — perguntou Ropes.
— Si—im — respondi pensativo. Então o relâmpago brilhou através da escuridão da minha mente. — Significa gafanhotos também — disse eu. — Eles usam gasolina para matar gafanhotos e, por alguma razão que só eles conhecem, guardam-na no cemitério. Vamos, Ropes, e persuadi-los a vender-nos mais do que uma onça.
— Certo, senhor. Imediatamente?
— Num momento — disse eu.
Mariquita, de mãos vazias, descia as escadas. Interceptei-a sob aquela parte da varanda escondida da janela do quarto de Lady Vale-Avon.
— Entregaste a carta? — perguntei.
— Sim, señor.
— À própria jovem senhora?
— À própria. Mas tenho de lhe dizer o que me preocupa, señor. Quando saía do quarto exterior, ouvi um som como um grito de aflição, vindo do quarto interior. Olhei para trás, e Sua Majestade a mãe tinha entrado. É tudo o que sei. Não podia fazer nada, acontecesse o que acontecesse, e senti que seria melhor escapar antes de ser interrogada.
— O que achas que aconteceu?
— Como posso saber, señor? A menos que a senhora terrível tenha arrancado a sua carta ao anjo.
— Pelo menos, espero que o anjo tenha tido tempo de a ler.
— Não sei, señorito. Não houve muito tempo; mas ela podia ter sido rápida; e se a carta não era longa, ainda há esperança.
Isto foi um fraco conforto. Com todas as minhas alegres antecipações destruídas, tentei pensar numa forma de descobrir se Monica tinha lido a minha carta e se haveria alguma forma de lhe contrabandear outra.
O bilhete tinha sido escrito com tanta pressa que mal sabia o que tinha dito. Nenhum nome fora assinado; contudo, se Lady Vale-Avon lesse o que eu tinha escrito, diria para si mesma: “Não é Cristóbal O’Donnel quem diz estas coisas, mas um homem mais perigoso.” Se ela tivesse a carta, podia mostrá-la a Carmona; mas, ao refletir sobre o assunto, decidi que era improvável que ela o fizesse.
Os espanhóis, especialmente os espanhóis com sangue mouro nas veias, não gostam de pensar que as raparigas que amam são capazes de manter correspondência secreta com outros homens; e imaginei que Lady Vale-Avon era uma mulher que adivinharia isto. Carmona já sabia que Lady Monica estava interessada em alguém, ou tinha um capricho de rapariga por ele, que podia ou não ter sido afugentado. Mas o seu desejo por ela não seria aguçado pelo facto de ela estar a receber cartas desse alguém, talvez a enviá-las para ele; e ocorreu-me que Lady Vale-Avon esconderia a correspondência, em vez de a exibir na cara de Carmona. Se eu tivesse razão, então estava tão seguro como antes do ciúme do Duque; mas, teria Monica lido a minha carta?
Em alerta como a sua mãe estaria agora, eu acharia mais difícil do que nunca comunicar com a rapariga. No entanto, não suportava deixar Manzanares com o receio de um mal-entendido.
Nada mais podia ser feito no momento, contudo; e apressei Ropes para que pudéssemos terminar o nosso recado e voltar a tempo de Monica estar em baixo.
Parecia que o homem que se oferecera para dar informações sobre moto-nafta estava à espera para servir de guia. Ainda estava na farmácia e, de lá, levou-nos à Casa Consistorial. Na Casa Consistorial estavam dois polícias no átrio, a aquecerem-se sobre um buraco no chão, onde brilhavam brasas de carvão. Mas o Presidente da Câmara não tinha chegado. Sem ele nada podia ser arranjado. Além disso, mesmo que ele estivesse presente e disposto a consentir, a chave do cemitério estava com o cura, que podia estar em qualquer lugar.
Disparamos para a casa do cura, e mesmo a tempo. Cinco minutos mais tarde, e poderíamos ter esperado horas por ele. Mas lá estava ele, um velho encantador de cabelos brancos, que ficaria encantado por abrir o cemitério para as nossas mercês, uma vez que não era para nos enterrar; mas não podia dar nenhum passo nessa direção sem a honrosa concordância do Presidente da Câmara.
De volta, então, apressámo-nos para a Casa Consistorial, com a sensação de petecas, jogadas entre raquetes com propósitos cruzados.
Mas, finalmente, a segunda raquete estava pronta para nos enviar na direção certa. O Presidente da Câmara, um homem jovem, que parecia um advogado de cartola e casaco, era tão educado como só um espanhol pode ser. Pôs-se a si próprio, e à sua casa, e a Manzanares ao nosso serviço. Foi algo como nos darem a liberdade de Londres; e o que era mais importante do que qualquer outra coisa, ofereceu-nos tanta moto-nafta quanto a cidade possuía, a qualquer preço que quiséssemos pagar.
A questão era: quanto é que a cidade possuía; um único litro, ou cem galões? O próprio Presidente da Câmara não tinha a certeza, por isso fomos num “simón” antigo ao cemitério para descobrir; e, felizmente, pudemos levar tudo o que provavelmente precisaríamos para os próximos dois dias, deixando algo para os gafanhotos. Mas entre a Casa Consistorial, a casa do cura, o cemitério distante e a viagem de volta para a nossa garagem, tínhamos levado quase três horas para atingir o nosso fim. Depois houve uma pequena demora com o carro, para garantir que tudo estava bem e que não tinham sido feitas mais partidas; e a caminhada de volta à fonda exauriu a última da minha paciência. Não esperava estar fora mais de uma hora, e tinha estado três. Entretanto, dizia eu para comigo, quase tudo poderia ter acontecido. A minha ideia tinha sido voltar a tempo de Monica estar vestida, e agora, pelo que sabia, ela podia ter partido.
Dick riu-se desta sugestão, pois, dizia ele, o motorista de Carmona não era um fazedor de milagres, exceto, talvez, nos carros dos outros; e ele não poderia ter posto o carro do seu amo em ordem e pronto a arrancar. Os seus argumentos eram razoáveis; contudo, como muitas outras deduções plausíveis, estavam errados; pois a primeira notícia que ouvimos no hotel foi que o automóvel cinzento tinha partido há quase uma hora. O motorista, parecia, tinha estado acordado toda a noite a trabalhar, e tinha tido ajuda de manhã cedo numa oficina. Os danos tinham sido remendados, e esperava-se que o carro seguisse para Andújar, ou Linares se uma certa ponte tivesse sido terminada.
Afinal, isto não era tão mau como se não tivéssemos feito nenhuma promessa à Duquesa. Estávamos obrigados a não ficar à espera, ou seguir de perto, o carro do seu filho; e se não fosse a “sorte do Livro dos Sonhos”, Carmona e o seu grupo estariam longe ontem à noite quando chegámos a Manzanares. Se eu não tivesse sido torturado por dúvidas sobre o destino da minha carta, poderia ter sido filósofo o suficiente para dizer: “Paciência, até Sevilha!”
Como estava, paciência era a última virtude que podia cultivar; e, pelo que restava daquele dia, fui incapaz de encontrar o menor prazer em conduzir.
Novamente estávamos na estrada principal entre Madrid e Sevilha; ainda assim, os sulcos e cristas ondulantes de lama endurecida estavam salpicados com um brilho verde de erva, como se numa tentativa traiçoeira de ocultação. O pó enrolava-se atrás de nós como fumo, rastejando sob a lona que cobria a nossa bagagem no tejadilho, e para dentro das nossas malas, polvilhando a nossa roupa como açúcar branco fino.
Apesar das boas molas e almofadas profundas do carro, o corpo leve de Pilar dançava para cima e para baixo, como Dick dizia, como um bocado de pipocas americanas sobre um fogo forte; e os nossos dois convidados, que se tinham achado entusiastas do motor, não responderam ardentemente aos elogios forçados de Dick ao desporto.
Quão glorioso, dizia ele (cada segunda palavra enfatizada com um solavanco), quão glorioso não estar preso às horas fixas e inconvenientes dos comboios. Parar onde e quando se quer; voltar a arrancar quando se escolhe; nunca ter a visão da melhor parte da paisagem tapada num túnel; não ser sujo por fumo de caminho-de-ferro; sentir sempre o rosto ventilado por uma brisa fresca, formigando com ozono; ler — se se tivesse o olho que vê — toda a vida do país escrita na estrada; as marcas de carros pesados; as pegadas delicadas dos pés dos burros, trotando para o mercado carregados com vinho ou fruta; o traçado das rodas das diligências, ou carruagens à moda antiga a caminho de uma tourada; as pegadas dos camponeses que levavam economicamente os seus sapatos aos ombros; a marca semelhante a trevo dos pequenos cascos das ovelhas, e das cabras; as almofadas dos cães pastores. Passar rapidamente por vislumbres cinematográficos de vinhas e olivais, e graciosas formas de montanhas azuis; ver aldeias estranhas de cuja existência nunca saberíamos se seguíssemos de comboio; voar de um lembrete vivo de Dom Quixote para outro, como estávamos a fazer hoje (não teríamos visto a estalagem onde ele foi armado cavaleiro?) — Bang! Nunca antes me lembro de saudar com deleite o disparo semelhante a uma pistola que só pode significar uma coisa; o rebentamento de um pneu. Mas fiquei encantado por a eloquência de Dick ser interrompida.
Tínhamos percorrido aos solavancos Valdepeñas, produtora de vinho, onde o sumo vermelho da uva parece jorrar de um vale cinzento de pedras; tínhamos passado, no pitoresco mercado, pela pousada que Dom Quixote conheceu; tínhamos saltado por Santa Cruz de Mudela, com a sua bela e antiga igreja do século XV, e tínhamos visto as suas famosas e alegremente coloridas ligas expostas para venda nas lojas; e agora estávamos longe de cidades ou aldeias, fora no campo.
Felizmente, todos estavam prontos para o almoço, e Pilar e o Querubim tinham tido a previdência de pedir coisas que não teriam ocorrido a Dick ou a mim. Não muito longe, na crista de uma colina, erguia-se uma casa de um cantoneiro, com um forno exterior de adobe como uma enorme colmeia. Rastejámos até ele, viajando com o pneu vazio, e fomos servidos por uma família morena encantadora; servidos como se tivéssemos sido o Rei e a sua comitiva que tinham almoçado (assim disse a família morena) naquele local há algumas semanas. Saíram as cadeiras em que o Rei e os seus amigos se tinham sentado, pratos e copos de que o Rei e os seus amigos tinham bebido; e o povo simples derivava um prazer infantil de se deter no episódio.
Como antes, a notícia da nossa presença pareceu atravessar o ar como um relâmpago e trazer, da mesma forma misteriosa, um público saído do vazio. Pilar dizia que as pessoas que vinham eram, na realidade, aves selvagens, vistas pelos nossos olhos sofisticados sob a forma de seres humanos; e, como se fossem aves selvagens, nós as atraíamos, até que confiassem em nós e se alimentassem conosco, bebendo do nosso odre o sangue da uva espanhola, quase inocente de álcool. A suave língua espanhola, ao cair dos seus lábios, era rica como o sabor daquele vinho espanhol na língua, e despertava no meu coração um orgulho de parentesco.
Enquanto os outros almoçavam, Ropes levantou o Gloria com o macaco e trocou a câmara de ar, parando de vez em quando para trincar uma sanduíche ou beber um trago de vinho com um ar imperturbável que lhe era característico. Quando o cantoneiro mencionou que quatro bandidos tinham sido capturados de manhã pela guarda civil, na estrada por onde tínhamos passado, a sua expressão não mudou um músculo sequer. De fato, parecia capaz de se livrar de meia dúzia de salteadores sem a ajuda de um único guardia civile.
Após quarenta minutos à beira da estrada, partimos para penetrar mais fundo naquele país melancólico que Cervantes amava, e quase de imediato estávamos na Venta de Cordeñas, aquele ermo vasto e pedregoso onde Dom Quixote cavalgou para fazer a sua penitência. Os espíritos mais alegres teriam sido abatidos pela tristeza da prisão autoimposta do cavaleiro, e os meus não melhoraram. Tive uma impressão inquietante de que a voz de Monica, chamando por um apelo, ecoava das paredes da montanha.
Claro que não havia nada naquilo, exceto um absurdo supersticioso de que eu deveria me envergonhar; no entanto, não conseguia fechar os ouvidos à sua voz, que parecia gritar as palavras que os seus dedos tinham outrora escrito: "Não me abandones! Não me deixes sozinha!"
O eco seguia-nos sempre, à medida que o carro subia mais alto nas encostas da Sierra Morena, e glórias da Espanha abriam-se diante dos nossos olhos como ainda não tínhamos visto, nem mesmo no esplêndido Desfiladeiro de Pancorbo.
Cume sobre cume, grandes cadeias de montanhas cortavam o safira suave do céu; e, à medida que serpenteávamos para o seu abraço mais estreito, cada volta da estrada alpina oferecia uma combinação nova e mais fantástica de rocha e riacho. O carro abria caminho num desfiladeiro de uma sublimidade espantosa, um golpe de martelo de Vulcano que fendeu a montanha e deixou para trás lascas de cobre, de ouro, de prata e uma rica dispersão de pedras preciosas.
À medida que o martelo do deus caía, das ruínas que ele criava eram moldadas maravilhas de forma; castelos olímpicos e estátuas gigantescas, imagens de criaturas selvagens como as que vagueavam devastando a terra nos dias em que o homem estava na sua infância.
Até o semblante calmo de Ropes foi transfigurado por esta explosão de esplendor. "Faz-nos esquecer que as estradas podem ser más e os pneus avariar, não faz, senhor?", disse-me ele. "Eu poderia conduzir por lugares como estes, dia e noite a fio, sem comida nem bebida, sem nunca saber se estava esgotado."
E um elogio de um chofer é, de fato, um elogio!
Estávamos no desfiladeiro de Despeñaperros, o mais terrível e, ao mesmo tempo, o mais nobre desfiladeiro de Espanha; e tê-lo-ia reconhecido pelas histórias contadas pelo meu pai, que outrora lutara contra bandoleros nesta mesma estrada. Para o rio que lançava plumas brancas de espuma muito abaixo, ele atirara um homem, enquanto outro disparava tiro após tiro da sua carabina, protegido atrás de uma rocha no lado oposto da ravina, a mal um lançamento de biscoito de distância.
Há muito tempo, também, a história tinha sido feita nesta passagem de montanha cujas paredes tinham ressoado com sons mais selvagens do que o grito da nossa sirene. Os gritos de guerra rivais de mouro e espanhol tinham ecoado entre as rochas, e sangue cristão e pagão tinham-se misturado na espuma branca do rio.
Pensei nestas coisas, enquanto olhava para as profundezas silenciosas do abismo e via os veios cintilantes de granito e as massas púrpuras de xisto brilharem com vida e cor vulcânicas. Mas ainda ouvia o eco assombroso da voz de Monica, na solidão pela qual ela deve ter passado ultimamente, talvez deixando alguma mensagem, se eu pudesse apenas saber.
Seria meramente uma reviravolta fantástica dos meus nervos, ou estaria o seu espírito a chamar, tentando fazer-se ouvir e compreender?
Foi Pilar quem quebrou o feitiço com uma salva de palmas repentina. "Andalucía! querida Andalucía!", gritou ela; e cada um de nós, subjugado e silenciado pela majestade da cena, sobressaltou-se como se acordasse de um sonho.
Ela apontava para um obelisco de pedra, olhando para o qual o seu pai sorriu e tirou o chapéu.
"Chega de frio", disse ele; "chega de ventos a beliscar os nossos narizes. Aqui está a linha divisória entre os países do norte e o país do sol."
Então, como se o obelisco fosse o dedo de algum génio invocando uma mudança mágica, um encantamento desfocou os traços severos da paisagem. Era como se o rosto feroz de um gigante zangado tivesse sido transformado no de uma mulher bela e risonha com o sol nos olhos.
O desfiladeiro abriu-se quando passamos por uma ou duas aldeias de montanha semiocultas; alargou-se num vale brilhante de cor como as joias na cauda aberta de um pavão; e, como um barco, o carro navegava num mar ondulante de verde, azul e ouro, que cintilava como se um spray de diamantes fosse atirado ao ar com a velocidade da nossa marcha.
Em Santa Elena, estávamos numa Espanha que eu não tinha visto. Em La Carolina, irrompemos num mundo belo e fértil como o Jardim do Éden; e lembrei-me da lenda mourisca de que o Céu é construído sobre o azul que paira sobre a Andalucía.
Vedações de aloés brandiam espadas e dardos de zinco; catos espalhavam-se e lançavam olhares de soslaio ao longo da beira da estrada; inseridos no verde vívido do cereal que amadurecia, os olivais pareciam esculpidos em jade; ou os ombros nus e rosados das encostas, transformados pelo contraste, viravam os seus tons pálidos para prata manchada. Videiras com folhas de ouro jovem rastejavam pela terra púrpura; avenidas de acácias destilavam perfumes; e à medida que o sol se inclinava para o poente, a luz rosa trêmula sobre montanhas violetas dava à Andalucía a coloração vívida, quase violenta, que se vê nos cartazes sensacionalistas.
Cada rapariga por quem passávamos usava uma flor brilhante a cintilar como uma estrela através da nuvem negra do seu cabelo. Os homens tinham descartado os gorros de Luís XI debruados a pele pelos sombreros de Cordoba de abas largas e cinzentas, e os cavalos ou mulas estavam atrelados com alegres salpicos de cor vermelha e azul e borlas saltitantes.
Tínhamos falado de Linares, a cidade de minas de chumbo, como um local de paragem para a noite, uma vez que estávamos comprometidos a não perseguir o Lecomte; e nos arredores de Bailen, ao cair do crepúsculo, o Gloria foi levado a uma paragem súbita no meio de uma multidão pulsante, para que pudéssemos perguntar o caminho.
Se despertávamos a sua curiosidade, eles instigavam-nos à mesma emoção, pois a maioria dos homens, e eram centenas, não só usava nas pernas uma espécie de avental dividido, como transportava nas costas um aparelho que teria despertado espanto em qualquer outro lugar que não este país de fadas.
A máquina fez-me lembrar à primeira vista um extintor de incêndio; depois, algum dispositivo usado pelos mineiros para armazenar uma reserva de oxigénio. Uma parte de mim queria saber o que era o instrumento; a outra preferia permanecer na ignorância, receando que a explicação se revelasse demasiado banal. Mas Waring tinha toda a minha curiosidade e nenhum dos meus escrúpulos; por isso, fez uma pergunta com um gesto mais inteligível do que o seu espanhol; e exatamente como eu temia, a estranha união de reservatórios e bocais não era mais do que um mecanismo para pulverizar as vinhas e protegê-las da filoxera.
Como sempre, usamos os encantos do Querubim para influenciar a multidão, tal como se aponta a última arma contra o inimigo; e o seu jeito persuasivo revelou fatos que levaram Dick a achar que estava na hora de organizar as coisas e de colocar o seu serviço motorizado em funcionamento. Parecia que, outrora, tinha sido construída uma boa estrada de Bailen para Linares, mas a estrada era atravessada por um rio; e quando os suportes de alvenaria para uma ponte foram construídos, descobriu-se que as vigas tinham sido esquecidas. De alguma forma, não era dever de ninguém lembrar o outro, e o assunto tinha terminado ali, há tanto tempo que a erva e as flores tinham brotado entre as pedras inúteis.
Parecia a coisa mais natural do mundo para as gentes de Bailen, que estavam habituadas a atravessar o rio a vau, quando queriam passar, com cavalos; mas embora o tempo estivesse seco nos últimos dias, as torrentes recentes que tinham caído nas montanhas ainda faziam subir o volume de água a tal ponto que este poderia "apagar o fogo do automóvel".
Fiquei contente ao ouvir isto, porque se apagasse o nosso fogo, apagaria o de Carmona; e como ele era prudente em assuntos relacionados com o seu carro, provavelmente teria parado em Andujar; assim, o destino trar-me-ia de novo perto de Monica, apesar da nossa promessa.
A principal razão para ir a Linares era porque o Querubim acreditava que havia um bom hotel, construído para acomodar os ingleses reunidos para a mineração de chumbo; por isso, foi sem remorso que viramos o Gloria para seguir a carretera para Cordoba.
Os nossos conselheiros correram atrás de nós com um aviso para evitar as pedras irregulares de Bailen, tomando a ronda que contorna a cidade pela esquerda. Tão lentamente, no crepúsculo que florescia azul como a flor da murta, contornamos a cidade por fora, recuperamos a estrada principal, saltando a alta velocidade para um mundo de espaços vastos e prateados e mistério de cavidades violetas, mergulhando no vale profundo do rio cheio e regozijando-nos com uma superfície dura de bom macadame por quinze milhas ou mais.
Chegamos assim a Andujar, as luzes dos nossos grandes candeeiros de acetileno (acesos antes de o céu passar de opala a ametista) espreitando por portas e janelas escuras como os raios X espreitam através da carne até ao osso.
No brilho branco, raparigas bonitas nas portas pareciam atrizes numa peça de época, esperando nas coxias para "entrar". Mas nenhum grito de uma multidão de teatro foi tão realista como os daquela turo não ensaiada que uivou sobre o meu pobre Gloria enquanto ele depositava os seus passageiros na fonda; e Ropes e eu empurramo-lo através de uma parede de seres humanos para uma garagem-estábulo, onde o seu volante jorrou um protesto de faíscas ígneas no alto degrau de pedra da entrada.
A fonda era passável; mas Carmona e o seu grupo não estavam lá; nem estavam em qualquer outro lugar de Andujar, como fizemos questão de descobrir; e adivinhamos que o carro cinzento devia, afinal, ter-se aventurado até Linares.
Como ele tinha desaparecido, estávamos livres para partir quando quiséssemos na manhã seguinte. Por isso, escolhemos uma hora matinal, voando por boas estradas através de uma terra bordada com o escarlate das papoilas, o azul da genciana, o rosa do trevo e o ouro dos botões-de-ouro, cosidos com a prata de pequenos riachos correntes.
"'Dai-nos pão e dai-nos touros', é o grito deste país", disse o Querubim, saudando com olhares alegres cada traço da sua amada Andalucía.
"Soa a uma sanduíche de carne", refletiu Dick em voz alta; mas Pilar repreendeu-o pela leviandade. "Não deves fazer piadas sobre o pão na Andalucía!", exclamou ela. "E é considerado pecado deitar fora uma migalha. Porque é um dom do Céu; se deixares cair um bocado, deves apanhá-lo e pedir desculpa beijando-o."
"Porque não comê-lo em vez disso?", perguntou Dick.
"Podes fazer isso depois. E se o pão for feito com buracos, deves deixá-lo com o lado dos buracos para cima, porque o espírito de Deus entra pelos buracos para te abençoar."
"Pensei que apenas as azeitonas eram sagradas na Andalucía", disse Dick, olhando para vastas extensões das árvores cinzento-prateadas que cresciam de solo acobreado, ondulando até onde a vista alcançava, até à linha flutuante de montanhas de azul etéreo.
"Também são sagradas", assentiu Pilar. "Sabias que, antigamente, só eram vendidas por ouro, ouro transportado em dorso de mula em grandes sacos, e trocado no local pelas árvores — tantas por tanto? Nós temos azeitonas na nossa propriedade, e são colhidas de uma forma tão agradável e antiga; o papai não gosta dos modos novos, mesmo que tragam um pouco mais de dinheiro. É bonito de ver. Gostaria que visses, apenas... o Senhor Waring não gosta de coisas antiquadas."
"Temo que eu goste de fazer o 'pouco mais de dinheiro'", confessou Dick.
"Às vezes eu também gosto de dinheiro — quando quero comprar alguma coisa. Noutras vezes não me importo. Ultimamente tenho estado a poupar. Tenho mil e novecentas pesetas."
"Meu Deus!", riu-se Dick, "vais comprar uma quinta de touros com uma soma tão gigantesca?"
"É engraçado teres dito isso. Vou comprar um touro. É a única posse do Duque de Carmona que eu quero, e quero-o tanto que sacrifiquei, ah... não consigo lembrar-me de quantos chapéus de Paris, e sapatos, e saias de seda, e vestidos bonitos para o conseguir, com todo o meu próprio dinheiro! O pior de tudo é que ele nunca saberá dos chapéus e das outras coisas."
Dick parecia interessado agora.
"O que, em nome da bondade, vais fazer com ele quando o tiveres?", inquiriu.
"Salvá-lo", disse a rapariga.
"De quê?"
"Da praça de touros. Oh, ele é um toro bravo, o Vivillo, um coração de ouro. Nem o toureiro mais famoso de Espanha o perfurará. Amo-o há quatro anos, desde que era um bebé ao lado da mãe, e Rafael Calmenare costumava levar-me a visitá-lo; amo-o ainda mais do que ao Corcito, e durante todo este tempo estive a poupar para o comprar antes que tivesse a idade para uma corrida. Agora tenho o suficiente, ou quase, e não há muitas semanas a perder, pois em breve terá cinco anos; e já tem a força e a coragem de três touros, o meu Vivillo! Anseio por vê-lo de novo — anseio pelo dia em que possa pôr os meus braços à volta do seu grande pescoço e dizer: 'Hermanito, és meu!'"
"Os teus braços à volta do pescoço dele!", arquejou Dick. "Um touro de lide! Estás a brincar. Diz que te referes a um touro irlandês e livra-me do sofrimento."
"Ele é um verdadeiro grande de Espanha entre os touros, e os meus braços já estiveram muitas vezes à volta do seu pescoço", disse Pilarcita.
"Então ele não pode ser muito feroz."
"Ele pode ser terrível. Já matou quase dois homens — estranhos que o provocaram, por isso ele não teve intenção, pobre querido! E não se atrevem a deixar ninguém, exceto cavalos pretos, aproximar-se dele. Nenhum touro de Miura é mais selvagem do que ele se for provocado. Sabes, os touros do Duque de Carmona são tão célebres como os próprios Miuras. Mas Vivillo sempre me amou, e a um ou outro mais — a mim mais, contudo — e come da minha mão, o grande animal de veludo castanho, como um gatinho."
"Há quanto tempo não te vê?", perguntou Dick.
"Seis semanas."
"Eu não confiaria na memória dele."
"Confio nela como confiaria na do meu irmão. Ver-me-ás a mimá-lo."
"Meu Deus! não vais deixá-la arriscar a vida com este animal selvagem, pois não, Coronel O’Donnel?", gritou Dick.
Mas o Querubim sorriu o seu sorriso plácido.
"Don Cipriano chama-lhe Una, porque ela consegue domar animais selvagens", disse ele.
O rosto de Dick tornou-se quase demasiado expressivo. Se ele não queria que os olhos de Pilar lessem cada uma das suas emoções, pensei que seria mais sensato colocar a sua máscara de motorista.
XXV
O QUE FALTAVA EM CORDOBA
Através de um campo florido de pano de ouro chegámos, enquanto a tarde ainda era jovem, a Cordoba — "Kartuba a Importante", deitada como uma sepultura a enterrar a sua glória morta, prostrada ao pé de montanhas que eram lápides.
Após o deslumbramento das flores silvestres a brilhar ao sol e o ozono das brisas campestres, uma entrada repentina na rede de ruas estreitas foi como ser atirado, sem pistas, para o labirinto escuro do Minotauro.
Eu pensava que nenhuma cidade poderia ter ruas mais estreitas do que Toledo; mas as ruas de Cordoba eram meras fendas entre as paredes das casas. Enquanto passávamos raspando no carro, Dick comparou a cidade a um enorme bolo branco dividido em fatias por uma faca afiada, mas deixado na sua forma, com apenas uma ou duas peças retiradas para soltar a massa.
Ainda assim, as fendas pavimentadas a pedra conseguiam criar quadros; aqui e ali, um par de portas mouriscas esplêndidas, uma fila de janelas antigas de padrão oriental, ou um vislumbre de fada de um pátio iluminado pelo sol para lá de um túnel de sombra; uma fonte a borrifar joias, um ondular de palmeiras e o brilho de rosas pendentes.
"Ela há de estar aqui", disse para mim mesmo, enquanto parávamos finalmente diante do hotel principal. "Uma vez que a viagem deve ser um passeio de prazer, Carmona é obrigado a dar aos seus convidados tempo para ver os pontos turísticos de Cordoba."
Mas nada se sabia do Duque e do seu grupo no hotel, embora houvesse um rumor de que um automóvel tinha passado pela cidade de manhã.
O Querubim, consultado, era da opinião de que, se o carro de Carmona tinha vindo, devia ter permanecido.
"Não haveria lugar para eles pararem depois, a não ser em Sevilha", disse ele, "a menos que fosse em Carmona, e isso é perto de Sevilha. Devem estar escondidos em Cordoba — talvez no Marqués de Villa-blanca, que é amigo do Duque. Encontraremos a nossa adorável senhora em breve, se circularmos pela cidade; no Paseo del Gran Capitán, ou no Patio de los Naranjos, ou na catedral, ou junto às ruínas do Alcázar."
"Além disso, pensei que tinhas decidido não te preocupares até chegarmos a Sevilha", disse Dick.
"Pois tinha", respondi. "Mas tenho um sentimento como se algo tivesse corrido mal."
"Alguma razão para o sentimento — além do próprio sentimento?", perguntou Dick.
Abanei a cabeça, não querendo mencionar a carta que poderia ter-se perdido. "Nada que eu possa definir."
"Então suponho que está tudo bem e que estás a desenvolver nervos."
"Sei exatamente como ele se sente", disse Pilar, com um olhar de reprovação para Dick, com quem estava de mal desde o episódio do touro. "Havia uma expressão nos olhos da Lady Monica, não havia, em Manzanares, como se ela estivesse triste? Oh, eu vi; e não me deixaram aproximar-me dela o suficiente para um sussurro depois disso, senão eu teria descoberto o que significava. Tive a ideia de que estavam particularmente ansiosos por me manter afastada, e interroguei-me se havia alguma razão nova. Não me surpreende que Don Ramón esteja preocupado. Pode ver-se que o Señor Waring nunca esteve apaixonado!"
"Oh, nunca estive?", exclamou Dick; o que, claro, piorou as coisas; e para as remediar, ele continuou a cometer erros. "O que sabes tu sobre os sintomas?"
"As raparigas nascem a saber coisas que os homens levam anos a aprender", disse Pilar.
Não aliviou a minha ansiedade o fato de ela ter notado o que eu tinha notado. Mas agarrei-me à garantia do Querubim, esperando, quando tivéssemos começado as nossas explorações, encontrá-la, ver o seu rosto iluminar-se com o esplendor que eu conhecia.
Mas não havia estranhos, exceto nós próprios e alguns americanos errantes sob as palmeiras e laranjeiras do paseo dedicado à memória de El Gran Capitán.
Vagueamos — Pilar mantendo-se ao meu lado, deixando Dick para o seu pai — de portão em portão, fora da Mesquita-Catedral que outrora fez de Cordoba a Meca da Europa; olhando para a massa tremenda de alvenaria cor de mel que se erguia como uma vasta fortaleza dos seus contrafortes de pedra; demorando-nos sob a torre sineira da Puerta del Perdon porque Pilar "sentia como se algo fosse acontecer ali". Mas nada aconteceu; e fomos enfrentar o desvanecimento das esperanças renovadas no Pátio das Laranjeiras, cujo charme melancólico e perfume sensual era tão triste como o canto de um rouxinol quando o verão morre.
Ela não estava lá; nem pudemos encontrá-la na floresta de mármore da catedral de pilares, embora, enquanto Dick e Pilar faziam as pazes sobre os mosaicos cravejados de joias, eu a procurasse.
— Digo-lhe, Ramón, há uma certa satisfação em sentir que se está a olhar para as melhores coisas que o mundo tem para mostrar — disse Dick, quase ao meu ouvido —, e há muitas delas no seu país, especialmente em Córdova, embora suponha que os mouros chorariam ao vê-la agora. Mas você não parece estar a apreciá-las, apesar de arriscar tanto para vir até onde elas estão.
Não lhe recordei que o risco que corria era pela única coisa melhor em todo o mundo, que estava apenas temporariamente no meu país, e que a minha depressão vinha do facto de ela não estar visível naquele momento. Mas Pilar não precisava de lembretes e, à maneira das mulheres doces, tentou "manter a minha mente ocupada" falando de história e lendas, confundindo-as deliciosamente, e defendendo as suas histórias da bela Egilona e da formosa Florinda dizendo que, de qualquer modo, ninguém se importava se eram verdadeiras ou não. Além disso, o que era a história, uma vez que pessoas aborrecidas estavam continuamente a descobrir que nenhuma das melhores partes tinha acontecido de facto?
— Escolho acreditar em Florinda — exclamou ela —, e em todas as outras mulheres belas que influenciaram reis, fizeram guerras e transtornaram países. Sem elas e as suas histórias de amor, a história seria como uma tapeçaria desbotada sem fios de ouro.
Então Dick deixou de discutir e, em silêncio, deixámos a perfeição semelhante a uma joia do terceiro Mihrab, para vaguear mais uma vez através da selva de colunas cintilantes que eram agora como árvores a formar arco, agora como fontes a cair.
Nenhuma vista sombria daquelas muitas que mudavam enquadrava a figura que eu ansiava ver; e quando deixámos a catedral e subimos aos jardins e torres onde outrora se erguia o Alcázar de glórias góticas e mouriscas, foi a mesma história de desapontamento. Apenas os americanos que tínhamos visto no passeio estavam lá, mais interessados do que eu em tais fragmentos que podiam captar das histórias de Pilar. Masmorras onde Theodofredo tinha sido cegado, e Witica, o ímpio, tinha pago pelos seus crimes; salões desaparecidos onde Rodrigo reinou e amou antes do dia sombrio junto ao Guadalete lhe ter perdido a coroa e à cristandade; o que continham eles de interesse, desde que o jardim de lilases e rosas que cobria as suas ruínas estava vazio de uma Presença?
Quando tínhamos visto tudo, deixei os meus amigos no átrio do hotel a escolher curiosidades de vitrinas, e saí novamente em busca de notícias sobre o automóvel que tinha passado de manhã.
Presumivelmente, tinha atraído uma multidão, contudo ninguém parecia saber nada dele até que, finalmente, quando eu estava a perder a esperança, encontrei um velho que tinha visto um grande automóvel cinzento na estação ferroviária. Poucos minutos depois, tinha resolvido o mistério do desaparecimento do Lecomte. Tinha chegado cedo; os seus passageiros tinham sido conduzidos por Córdova no menor tempo possível por Carmona; tinha sido depois conduzido para a estação; e com os seus últimos ocupantes tinha ido para Sevilha no mesmo comboio.
Poderia haver vários motivos para este movimento. O carro poderia estar parcialmente avariado, por não ter sido devidamente preparado em Manzanares; ou Carmona poderia ter determinado frustrar o destino que até então me tinha mantido perto dele. Eu estava inclinado a aceitar a última teoria, e isso não contribuiu para promover a minha paz de espírito.
Fiquei contente por saber, no entanto, que o comboio não era esperado em Sevilha antes de tarde naquela noite. Se fizéssemos um início cedo no dia seguinte, não era provável que a situação pudesse mudar muito antes de eu chegar, livre de obrigações para com a Duquesa.
Claro, disse Pilar, antes de eu ter tempo para perguntar, estariam prontos para partir cedo, oh, muito cedo. Seria lindo estar no campo antes de o sol ter bebido o orvalho na erva, e murchado as rosas do amanhecer nas nuvens. Não havia receio de frio agora que estávamos na querida Andalucía. Sim! tomaríamos café às seis, e partiríamos às seis e meia.
Eu não me teria atrevido a sugerir tal prova de coragem moral, mas aceitei o sacrifício; assim, as rosas da manhã que Pilar amava ainda floresciam no jardim do céu, e arrastavam o seu reflexo no Guadalquivir, enquanto rolávamos sobre a velha ponte e passávamos pelas colinas brancas e mouriscas.
Uma manhã no Paraíso dificilmente poderia ser mais bela; e as flores rosa-púrpura do álamo a cintilar numa névoa rosada contra ciprestes escuros, ou a misturar-se com a renda branca do pilriteiro, eram uma sinfonia de cores da Primavera.
Casas de campo dignas já não erguiam telhados castanhos de entre olivais; mas um mar ilimitado de colinas ondulantes jazia banhado na luz âmbar de Espanha. Depois, bosques de oliveiras novamente, com uma espuma de flores silvestres a pulverizar os seus pés nodosos, sebes de roseira-brava, entrelaçadas com lilases altos e selvagens, e espinheiros em flor. Para lá disso, colinas altas pelas quais o Gloria avançava ousadamente, assustando os cavalos de uma tropa de soldados risonhos que cavalgavam sem selas; por estradas pedregosas, meros trilhos acidentados traçados através de prados, onde touros pastavam e mugiam ao automóvel; assim até uma aldeia que se mostrou primeiro como uma coroa branca no cimo de uma colina, e provou ser habitada por mulheres e crianças de beleza suprema. Nunca houve olhos como aqueles que olhavam dos rostos na multidão que se reunia rapidamente; olhos como poços negros com estrelas caídas nas suas profundezas.
As casas dos camponeses à beira da estrada tinham telhados de colmo, cinzentos e cintilantes como veludo prateado; e fornos exteriores como grandes taças viradas ao contrário. Os campos estavam alegres com flores; a distância flutuava em ondas de gaze azul que tocavam o céu.
Avançámos rapidamente, como se fôssemos encontrar o ponto de união, mas encontrámos apenas Ecija, a Cidade dos Sete Bandidos, com a sua grande ponte e moinhos mouriscos branco-pérola, no Genil amarelo e veloz.
Reis tinham sido alojados por trás daquelas portas de tachas de latão e varandas de ferro forjado, disse o Querubim; e malfeitores famosos na história e nas baladas tinham baloiçado daquela forca alta que captava o olhar antes das oito torres das igrejas de Ecija. Tinha havido lutas famosas, também, pela margem do rio; mas agora o lugar dormia, sonhando com a paz, e o zumbido das rodas dos moinhos soava tão reconfortante como o "chum-chum" de um motor que corre à noite.
Assim passámos da Província de Córdova para a Província de Sevilha, e palmeiras altas e esguias, erguendo cabeças emplumadas entre nogueiras e carvalhos, eram marcos a apontar para sul. Era o início de abril, mas o ar era o ar de um junho inglês, e maravilhei-me ao ver homens envoltos em capas longas. — Eles fazem-no para manter o sol fora, como no norte para manter o vento fora — explicou Pilar; mas ela apenas riu quando Dick perguntou por que barbeavam as costas dos seus burros, por que punham focinheiras vermelhas e amarelas nas bocas dos seus burros, por que carregavam sempre "mantas de viagem" aos quadrados nas costas das suas bestas ou nas suas próprias, e por que as suas calças e perneiras eram feitas numa só peça?
Para lá das oliveiras, aglomerados negros de pinheiros-mansos lançavam manchas de tinta contra o céu, e um tapete púrpura de urze a brotar era rasgado para deixar a estrada passar. Era um país ideal para automóveis, e Dick recordou com escárnio o homem dos sessenta cavalos-vapor em Biarritz, que tinha temido a experiência.
— O caminho é fazer o que se quer fazer, e descobrir à medida que se vai avançando se pode ser feito ou não — soliloquiou ele.
Perguntei-me se ele estaria a pensar noutra estrada difícil, não para ser percorrida por automóveis — uma estrada onde talvez Don Cipriano já soubesse o caminho.
Cotovias saltavam para o céu de canteiros de flores silvestres enquanto fugíamos, pequenas fontes de música; grous altos voavam de arbustos que serviam de abrigo junto a riachos brilhantes; e turvando a distância à nossa frente, uma névoa de chuva flutuava como um véu soprado através do rosto da Primavera.
À vista das muralhas esplêndidas e do castelo em ruínas de Carmona, a chuva apanhou-nos; e, pelo bem de Pilar, tornámos o carro acolhedor fixando o vidro frontal e preenchendo o espaço com cortinas de lona esticadas.
Depois disto, os nossos vislumbres fugazes de pinheiro, palmeira e oliveira foram esbatidos enquanto seguíamos por uma estrada de areia, amarela como ouro batido. De vez em quando, uma mancha de flor púrpura a arder através da névoa cantava uma nota alta e exultante de primavera e amor; e bonitas apanhadoras de laranjas, com casacos de homem e calças castanhas, chilreavam sobre o mesmo tema naquele suave andaluz que está acima de todas as outras línguas de paixão.
A cor, e a música, e o dia subiram-me à cabeça. Sabia que era jovem, e queria a minha oportunidade de felicidade — queria-a tanto que senti que poderia matar um homem que se atrevesse a tentar arrancá-la de mim.
XXVI
NO PALÁCIO DOS REIS
— Agora tenho algo de sério para dizer, Don Ramón — começou o Querubim, quando passámos pela primeira casa cor-de-rosa e branca que marcava os subúrbios de Sevilha. — Não deve ir para um hotel aqui. Seria perigoso. Deve ser nosso convidado; e o Señor Waring, também. Sinto agora como se a nossa pequena peça fosse verdadeira, e você fosse meu filho; enquanto que, quanto ao Señor Waring, poderíamos conhecê-lo há anos, não poderíamos, Pilarcita?
— Claro. Pela minha parte, estou pronta para adotá-lo como irmão, também — respondeu Pilar.
Cobri o recuo de Dick perante este golpe agradecendo ao Querubim. Ele era mais do que gentil, disse eu, mas não podíamos pensar em...
— Não pensará em desapontar-nos — interrompeu o querido homem de pele morena. — Poderia ter imaginado que a nossa única razão é mantê-lo fora de perigo? Não. Não somos tão altruístas. Queremos você. As despedidas virão cedo o suficiente. Temos de tê-lo connosco, sob o nosso teto, à nossa mesa, tanto tempo quanto pudermos. Agora que entende, dirá "sim".
— No meu país — disse Dick, como uma sugestão clara para mim —, quando dizemos às pessoas que queremos que nos visitem, falamos a sério; e acho que o Coronel O'Donnel e a Senhorita O'Donnel são do mesmo tipo.
Claro que eu queria dizer sim; e, claro, depois disto, disse sim sem mais delongas.
— Agora começa o momento mais crítico nesta sua aventura, Don Ramón — continuou o Querubim. — Veja bem, como a nossa casa fica apenas a cinco milhas fora de Sevilha, conhecemos muitas pessoas; e embora Carmona raramente lá esteja com a sua mãe, ele certamente tem conhecidos, e alguns deles podem ser os nossos também. Você viajou desde Burgos como meu filho, embora tenha usado o uniforme dele apenas por dois dias; mas pode ter a certeza de que Carmona tem estado ansioso por se ver livre de si, de uma vez por todas, se você se aventurar a vir a Sevilha para ver o espetáculo da Semana Santa como outros turistas veem.
— Ele talvez pense que, devido à nossa promessa — que cumprimos —, ele já se livrou de Ramón — disse Dick.
— Ele sabe melhor. O truque funcionou por algumas horas; mas o carro dele avariou, e ele teve de aceitar a nossa ajuda. Ele disse então que o destino estava contra ele; eu ouvi; e Carmona é um homem para ser realmente supersticioso quanto a si, agora. Até aqui, ele manteve a pequena señorita fora de contacto consigo, mas isso é quase tudo o que ele alcançou.
— Graças a ambos — interrompi. — Se não fosse pela vossa ajuda, eu teria sido "apanhado", e empurrado para além da fronteira há muito tempo. Vejo isso agora; e embora eu tivesse voltado e começado a perseguição novamente de alguma forma, teria sido mil vezes mais difícil.
— Não vale a pena preocupar-se com o que poderia ter acontecido — riu-se Pilar. — Pensemos no que aconteceu — e no que acontecerá.
— Contudo — disse eu —, o pensamento está frequentemente na minha mente; e se tivéssemos falhado o Coronel e a Senhorita O'Donnel em Burgos?
Dick deu uma gargalhada; e quando Pilar quis saber o que o divertia, pediu a minha permissão para contar. Dei-lhe autorização; e com uma memória para detalhes que eu poderia ter dispensado, para não falar de uma tentativa de mimetismo, repetiu, palavra por palavra, as minhas objeções a conhecer os amigos irlandeses de Angèle de la Mole.
Estávamos tão íntimos agora que o meu ponto de vista antes de os conhecer parecia particularmente cómico, e Dick aproveitou-o ao máximo.
— Bem, pense no que temos para lhe agradecer! — exclamou Pilar; — esta viagem deliciosa. Se não fosse por si, Cristóbal estaria aqui em vez de estar com Angèle em Biarritz.
— Voltem ao senso comum — implorou o Querubim —, e ajudem-me a planear para o Cristóbal que está aqui. Se ele se sentar no nosso camarote para as procissões, Carmona vê-lo-á e dirá a alguma pessoa oficiosa, muito diferente de Rafael Calmenare, "quem é aquele jovem com os O'Donnels?". E a pessoa oficiosa responderá, "nunca o vi na minha vida". "Ah", exclamará o Duque, "não é Cristóbal O'Donnel?". "De todo", virá a resposta; e Carmona procederá a criar problemas.
— Para si, assim como para mim; é o pior de tudo — disse eu.
— Não nos importamos nada com isso. É em si que pensamos — disse o Querubim. E porque sabia que era verdade, mais do que nunca tornou-se o meu dever pensar nele e nos seus.
— Claro que não quero perder nenhuma hipótese de ver a Monica — disse eu; — mas nos dias das procissões caminharei pela multidão e manter-me-ei fora do caminho de Carmona.
— Quanto a nós — disse Pilar —, tentaremos um camarote perto do do Duque — embora possa não restar nada, já que o Rei estará aqui e certamente haverá uma multidão. Farei o meu melhor para sussurrar à Lady Monica, ou enviar-lhe um bilhete, ou falar com os meus olhos se não for mais.
— Sabe como dependo de si — respondi. — Ela pode dar-lhe uma carta, uma resposta a uma que espero que ela tenha recebido em Manzanares.
— Estarei pronta para a mais leve sugestão — disse Pilar. — Se ela tiver um bilhete para si, ela mostrá-lo-á por trás do leque. Depois farei sinal para que ela o amachuque e o atire para o chão enquanto sai. Se não aparecer na nossa sociedade, o Duque pensará talvez que, afinal, está a salvo.
— Não. Não devemos contar com tal coisa — interrompeu o seu pai. — Se ele não conseguir livrar-se de si de uma maneira, tentará outra; e há um velho ditado que ainda é verdadeiro: tudo pode acontecer em Espanha, especialmente no sul. Carmona estará à sua espera. Deve estar preparado para isso.
— Estarei — disse eu.
— Estaremos todos — terminou Pilar. — Oh, ali está o antigo aqueduto romano! Não é esplêndido; e forte como se tivesse sido construído ontem em vez de nos dias anteriores aos Godos. Adoro Sevilha — adoro cada tijolo e pedra dela, desde as ruínas da muralha mourisca e a Torre del Oro, e a gloriosa catedral, até à velha casa na Calle del Candilejo, onde a mulher-bruxa olhou para fora e viu o Rei Don Pedro a lutar o seu duelo. Não creio que qualquer outro lugar pudesse compensar-me por Sevilha.
Ao lado do aqueduto de dois mil anos corria um elétrico moderno; e um dos arcos graciosos feitos por mãos romanas tinha sido alargado para deixar passar a linha ferroviária para Madrid. Mais à frente, casas mouriscas com miradouros elevados e belas janelas com cúpulas estavam escondidas entre edifícios novos e feios, e através da avenida sombreada de um parque verde estava lançada uma extraordinária escada em espiral de quatro alas, feita de ferro. Gemi perante a monstruosidade, dizendo que o próprio Pedro nunca tinha perpetrado um ato mais cruel; e o Querubim desculpou-a tristemente, dizendo que era conveniente para as multidões passarem de um lado da rua para o outro, como eu veria se ficasse para além da Semana Santa para a feira.
— Olhe para a Giralda, e esquecerá a ponte de ferro — disse Pilar. Os meus olhos seguiram os dela, e pousaram como pássaros em voo sobre uma bela torre que subia delicadamente contra o céu. Tão leve, tão frágil no efeito era, senti que ela poderia apoiar-se numa nuvem. Na luz dourada da tarde, os pequenos pilares de mármore antigo, os losangos de pedra esculpidos, os arcos das janelas em ferradura, as esculturas delicadas das varandas, e toda a ornamentação maravilhosa que quebrava as superfícies quadradas da torre, estavam rosadas como se com reflexos de um céu de pôr do sol. A sua beleza era um poema mourisco em alvenaria, tal como nenhuma outra mão, exceto mãos mouriscas, alguma vez fez.
Olhei para trás até perder de vista a Giralda, exceto a figura cintilante da Fé no topo (estranho símbolo para um cata-vento), enquanto passava por ruas tortuosas, meras tiras de pavimento veladas com sombra azul, e muradas com casas secretas de fachada plana, velhas e novas, peroladas com cal fresca, ou pintadas de limão pálido, laranja desbotado, ou um verde etéreo como os tons das algas. Mesmo à primeira vista, a cidade pitoresca era singularmente adorável, na sua mistura de simplicidade e mistério, e tão espanhola nesta mistura como em todas as outras coisas.
As palmeiras altas e direitas, com as suas cabeças tufadas como fontes a cair, claras contra o céu, eram orientais, e pareciam dificilmente aparentadas com as palmeiras da Itália e do Sul de França. Nem as ruas estreitas, através das quais batíamos sobre as calçadas, eram como as ruas estreitas das cidades italianas. Eram espanholas; inexplicavelmente mas totalmente espanholas, embora Dick não tivesse a certeza de que não recordassem bocados de Veneza, "assim que se vira as costas a São Marcos".
Era estranho que lojas tão pequenas pudessem ser tão alegres e atraentes como estas, com as suas filas de leques pintados, as suas mantilhas drapeadas, as suas faixas brilhantes, tamborins tolos e pequenos, castanholas atadas com rosetas de fita nas cores espanholas; as suas joias antigas curiosas e vívidas; os seus sombreros cordobeses expostos nas mesmas montras com cartolas de Bond Street; as suas flores flamejantes, cerâmica mourisca, rendas antigas, e armários de ébano e prata incrustados. E sabia que aprenderia a amar os sons de Sevilha mais do que os sons de Londres ou de outras cidades que tinha visto.
Sons assombrosos eram eles, estes ruídos de uma cidade velha densamente povoada, característicos como os de Nápoles, não tão estridentes como em Madrid; acima de tudo, o som dos sinos, a tocar, a ressoar, a badalar, tão continuamente que em breve afetariam os sentidos como um perfume pesado sempre presente. Deixar-se-ia de os ouvir, e ficar-se-ia surpreendido apenas se as suas línguas clamorosas fossem silenciadas.
Nas ruas, por onde passariam as procissões da Semana Santa, já centenas de cadeiras de palha estavam alinhadas em frente às casas e lojas, empilhadas em confusão, que seria reduzida a ordem para amanhã, Domingo de Ramos. Mais além, na Plaza de la Constitución — cenário nos velhos tempos da tourada e do auto-de-fé —, muitos homens estavam ocupados a dar os últimos toques nos drapeados de veludo carmesim e ouro do camarote real, a martelar barreiras no lugar na tribuna em frente ao cinzelado semelhante a prata da fachada plateresca da Casa del Ayuntamiento, ou a organizar fila após fila de cadeiras no espaço aberto em frente, deixando um corredor para a procissão passar entre elas.
— Agora há algo a fazer antes de irmos para o Cortijo de Santa Rufina — disse o Querubim. — Tenho de tratar de conseguir um camarote na tribuna para a semana; tenho de descobrir se Carmona veio mesmo de comboio ontem à noite. Don Ramón não sugeriu este plano, mas penso que ele não desgostaria dele.
— Pretendia sair do carro, para ver o que poderia aprender eu mesmo, e juntar-me a vocês mais tarde em casa — disse eu. — Mas você consegue obter coisas melhor do que eu, um estranho, consigo.
— Deve continuar a ser um estranho — complementou ele as minhas palavras. — Se o seu motorista parar no cimo desta rua estreita, caminharei por ela algumas portas até ao meu clube, e perguntarei pelas últimas notícias. Carmona não honra a sua casa em Sevilha demasiadas vezes com a sua presença, embora a sua mãe esteja aqui todas as estações, e a sua chegada será o assunto do clube. Posso tomar medidas também, sobre um camarote para o espetáculo. Não o farei esperar muito; mas é melhor esperar no Café Perla. Pilar não pode ir lá sem mim. Oh, pode sorrir; mas lembre-se de que estamos em Espanha. Ela deve esperar na casa de um amigo.
A ideia do Querubim sobre um “pouco tempo” e um “longo tempo” era sempre bastante vaga, e tendia a encaixar-se de forma confusa uma na outra; mas, sabendo qual era o seu objetivo, não me importei com os cinquenta minutos antes de a sua forma ampla e o seu rosto sorridente aparecerem na porta do café.
“Está tudo bem”, foram as suas primeiras palavras. “Senti que a minha sorte não me abandonaria. Quem acha” — e voltou-se para Pilar, que viera com ele — “foi o primeiro homem com quem me cruzei? Ninguém menos que Don Esteban Villaroya.”
Pilar pareceu um pouco assustada. “Mas ele é amigo do Duque. Isso não tornará as coisas complicadas?”
“Não; antes pelo contrário. Disse-lhe que Cristóbal, a minha filha e eu tínhamos vindo de Burgos de automóvel com um amigo americano, um escritor importante para os jornais, que nos ia fazer uma visita. Nem uma palavra falsa para incomodar o meu confessor. Don Esteban pode mencionar ou não o nosso encontro a Carmona quando jantar com ele esta noite.”
“Jantar com ele? Oh, espero que isso não cause problemas.”
“Não causará. Carmona chegou ontem à noite, tarde, com a mãe e os convidados. Parece que os preparativos decorrem na casa há quinze dias; e a primeira coisa que Carmona e a mãe fizeram foi enviar meia dúzia de convites para o jantar desta noite. Depois, conseguiu, provavelmente através de influência real, obter permissão do Governador para levar o grupo ao Alcázar sob o luar, e vai ter iluminações coloridas, música e danças espanholas executadas por profissionais nos trajes das diferentes províncias. Uma ideia grandiosa, pensa Don Esteban.”
“Mas porque é que ele está a fazer isto?”, perguntou Pilar, pensativa. “María purísima! Não é como se ele fosse um homem impulsivo ou hospitaleiro, afeiçoado a organizar entretenimentos improvisados. Isto é feito à pressa. Qual poderá ser o seu objetivo? Pois ele tem sempre um objetivo.”
“Divertir Lady Monica, que não está nada satisfeita com ele até agora”, explicou o Querubim. “E como é um bom católico, pelo menos na aparência, esta noite ou a seguinte será a sua última oportunidade de entreter até que a Semana Santa termine.”
“De alguma forma, não sinto que isso seja razão suficiente”, disse Pilar, parecendo tão perturbada que senti novos arrepios de ansiedade, e devo tê-lo demonstrado; pois Pilar exclamou que era uma “pequena besta” por me preocupar.
“Não me preocupou”, protestei. “Ainda assim, acho que vou a esse entretenimento no Alcázar.”
Pilar e o pai ficaram a olhar. “Percebo o que quer dizer”, disse a rapariga. “Espera entrar e encontrar Lady Monica. Mas não pode, porque o Alcázar é fechado ao público após o pôr do sol. Só estará aberto para o Duque como um favor, porque ele é rico e importante, e ter-se-á o cuidado de garantir que nenhum estranho se infiltre.”
“Se houvesse mais um guitarrista do que o contratado, acha que seria notado?”, perguntei, sorrindo.
Pilar bateu palmas. “É um verdadeiro amante, Don Ramón”, exclamou. “Ay de mi! Ninguém amará nunca uma coisinha morena como eu, como Lady Monica é amada. Devo contentar-me com o afeto dos meus parentes, e de alguns outros, suponho.” Grandes olhos elevaram-se tristemente para o teto enquanto ela falava, depois baixaram-se com um jogo distrativo de longas pestanas curvas. Espanhola até à ponta dos dedos, afinal, esta María del Pilar Inés, apesar da sua rapidez irlandesa. Pobre Dick!
“Acredita que eu conseguiria, então?”
“Acredito que sim. O Señor Waring contou-me sobre o baile de máscaras, e como interpretou Romeu para a Julieta de alguém.”
“A dificuldade será conseguir falar com o empresário.”
Pilar olhou para o seu relógio. “Eles saberão no Alcázar quem foi contratado. Ainda falta uma hora e meia para a hora de fecho.”
“Que tal se você e eu dermos um passeio por lá?”, sugeriu Dick.
“Iremos todos dar um passeio por lá”, disse Pilar, “e o papá descobrirá. Sabe, ele consegue sempre fazer com que todos lhe contem tudo em cinco minutos. Até o Cristóbal e eu nunca fomos capazes de esconder um segredo dele. Se eu tivesse planeado fugir, ele só teria de sussurrar e sorrir para que eu contasse tudo, mesmo que isso significasse entrar num convento logo a seguir.”
“Sim, temos de ir ao Alcázar agora, ou será demasiado tarde”, disse o Querubim, com um brilho indulgente para a sua filha mimada.
O carro levou-nos até ao portão do Alcázar, um portão daquela simplicidade mourisca pouco sugestiva que escondia propositadamente todos os esplendores da decoração de todos, exceto de olhos favorecidos. O guardião conhecia e, evidentemente, respeitava o Coronel O’Donnel; mas com desculpas que englobavam todo o grupo, lamentou não poder deixar-nos entrar. O Rei deveria chegar dentro de poucos dias, regressando da sua viagem de iate às Canárias, e viveria no Alcázar, que estava a ser preparado para ele. Daquele momento até ao dia seguinte à sua partida, o Alcázar estaria fechado ao público.
Isso era justo, e como deveria ser, admitiu o Querubim; mas nós não éramos o público. Éramos pessoas especiais, tão especiais como o Duque de Carmona, que entreteria os seus amigos ali naquela noite. Certamente que o guardião deveria saber que a família O’Donnel estava em termos de amizade com o Governador do Alcázar, que sofreria graves dores de coração se soubesse que tais visitantes tinham sido mandados embora. Assim continuou o bom Querubim a sussurrar. E se moedas mudaram de mãos ou não, não o posso dizer; mas certo é que, em menos dos cinco minutos permitidos por Pilar para o efeito dos encantos do seu pai, estávamos dentro das dependências proibidas, acompanhados por um atendente manso como um cordeiro.
Foi dele que tivemos de aprender o que queríamos saber; mas seria imprudente trair uma sede prematura de informações sobre qualquer assunto que não fosse a história ou as belezas do Alcázar. Fazendo uma pergunta aqui e ali ao nosso guia, vagueámos de pátio em pátio, de sala em sala daquela maravilhosa habitação real outrora chamada “a casa de César”. Muitos choques rudes e vicissitudes tinha sofrido quando os Godos lutaram por ela com os Romanos, quando os Mouros a tomaram aos Cristãos, quando os Cristãos a reconquistaram, e se conduziram dentro das suas paredes adornadas de joias de formas indignas da sua fé e da proclamada cavalaria, mas as belezas que Pedro, o Cruel, restaurou em imitação admirada da Alhambra, brilhavam ainda com esplendor imaculado, sob a luz do sol desta tarde do século vinte.
Se não estivesse preocupado com as minhas próprias ansiedades privadas e extremamente modernas, teria deixado a imaginação exercer o feitiço que ansiava exercer, e fazer de mim alguma personagem humilde deslizando como uma sombra, mas sempre observadora, através de conto após conto das “Mil e uma Noites”. Num palácio exatamente como este, os Sete Calenders perderam cada um um olho; atrás de qualquer um destes arcos lavrados poderia alguém encontrar um rei, meio homem, meio mármore negro como azeviche. O mais exigente dos génios não teria encontrado falha no Salão dos Embaixadores, exceto a ausência do ovo de roc; e apesar da minha impaciência, o encantamento histórico do lugar logo me prendeu.
Scheherezade, disse para comigo, não poderia ter inventado contos que superassem em interesse emocionante as cenas que tinham ocorrido ali. O drama da viúva Egilona e do seu belo príncipe mouro, arruinado pelo seu amor; a tragédia de Abu Said, morto por Pedro por causa do seu “rubi justo, grande como uma bola de raquete”, e o tesouro de gemas que os homens ainda procuram secretamente em recantos escondidos do Alcázar; o assassinato do jovem Mestre de Santiago, que veio a Pedro como um convidado de honra; a história de amor de Maria de Padilla, cujo espírito, sussurrou o guardião, podia ser visto até aos dias de hoje a esvoaçar sob o luar e a sombra ao longo dos seus passeios de jardim favoritos, ou arrastando vestes brancas através de salas que tinham sido suas.
“Talvez, como a lua está cheia, Maria apareça esta noite no jardim para o Duque de Carmona e os seus convidados”, disse Pilar; e eu soube por este prefácio que a nossa prova tinha terminado.
O atendente riu. “Talvez”, respondeu ele; “mas acho que haverá ruído a mais para a agradar. O Duque contratou uma trupe de dançarinos e guitarristas para entreter os seus amigos.”
“Sem dúvida que o Rei Don Pedro costumava entreter os seus da mesma forma”, observou o Querubim, “empregando talvez os precursores de Ramiro Olivero e da sua escola.”
“É Ramiro Olivero quem atua esta noite”, disse o atendente, jogando a nosso favor.
“Claro! Ele é o favorecido em tais assuntos”, concordou o Querubim. “Deve ser um entretenimento bonito, e interessante para os convidados ingleses do Duque. Será algures nos jardins?”
“No jardim inferior do quiosque mourisco”, foi a resposta desprevenida.
Pilar olhou para mim, e os seus olhos diziam: “A chave que queria está na sua mão.”
XXVII
LUAR NO JARDIM
Quando o Querubim morrer e for recolhido junto dos seus antepassados irlandeses e espanhóis (que esse dia esteja muito distante!) não conhecerá um momento feliz no Paraíso a menos que esteja a fazer algo ingenuamente bondoso por alguém. É a minha convicção de que ele terá de ser feito um anjo da guarda; e mencionei esta teoria a ele enquanto me levava à casa de Ramiro Olivero, ex-toureiro, atual professor de dança espanhola.
Os outros esperavam no carro, pois, de acordo com o plano de campanha do Querubim, ele e eu visitaríamos Olivero sozinhos.
Subimos muitas escadas até ao apartamento onde o homem célebre vive e dirige a sua escola de dança. Foi ele quem veio à porta, e foi um espetáculo que valeu a pena ver, observar os seus traços um tanto duros e de meia-idade relaxarem em resposta aos murmúrios querúbicos.
O Coronel O’Donnel lembrava-se do Señor Olivero desde o tempo em que ele era banderillero; oh, incomparavelmente o mais brilhante banderillero do seu tempo. Depois, mais tarde, que triunfos como toureiro! Ah, isso era algo para um velho admirador recordar. Não para lamentar, naturalmente, uma vez que o señor era um artista tão grande na sua profissão atual como naquela outra, sem dúvida sacrificada aos afetos familiares.
Este cavalheiro a quem ele (Coronel O’Donnel) se aventurava agora a apresentar era de Inglaterra, viajando com um amigo dos Estados Unidos que escrevia artigos sobre Espanha para jornais conhecidos. O americano não falava espanhol, mas com o cavalheiro de Inglaterra era como a língua materna. Portanto, era ele quem mais frequentemente assistia a cerimónias importantes, e tomava notas para o seu amigo desenvolver em artigos. Este entretenimento no qual o Señor Olivero estava a ajudar o Duque de Carmona, por exemplo; seria tudo o que era característico de Espanha, além de belo. Se o señor permitisse que o cavalheiro de Inglaterra entrasse no Alcázar como um dos seus guitarristas, poderia ser feito um artigo para os grandes jornais americanos que não só seria um crédito para o jornalista, mas que publicitaria amplamente a habilidade do Señor Olivero e dos seus alunos.
Se cada homem tem o seu preço, não era depreciativo para os seus méritos que estas pérolas de lisonja fossem o preço que comprou Olivero. Nem um centavo seria pago pelo favor. Quando a palavra “dinheiro” foi insinuada, em vez de dita, o ex-herói da praça de touros afastou-a com um gesto soberbo. Mas ficaria contente por ver os artigos quando aparecessem; e isso foi prometido, pois Dick teria de os escrever para os jornais negligenciados que ele supostamente representava.
Em troca da promessa (e dos elogios), foi arranjado que eu me apresentasse em sua casa por volta das dez horas (a dança estava marcada para começar às 10h45), me vestisse para o meu papel, e fosse providenciado com uma guitarra. Uma vez dentro do Alcázar, não precisaria de tocar o instrumento; mas, disse Olivero, era bom que eu fosse capaz de o fazer se fosse chamado. O meu traje seria um casaco curto de chulo e calças cinzentas justas nas ancas e largas nas pernas, com uma camisa de colarinho baixo e não engomada, e um sombrero de Cordoba cinzento de abas largas. Com este chapéu, bem inclinado sobre os olhos, ao luar ou mesmo em rajadas espasmódicas de fogo colorido rosa e dourado, o reconhecimento seria impossível à distância; e eu pretendia manter-me à distância de todo o grupo do Duque — com uma exceção.
Quando o plano foi traçado, eram quase sete horas, mas os O’Donnel ainda insistiam que eu jantasse no Cortijo de Santa Rufina. O Gloria percorreria os seis quilómetros de distância em dez minutos; eu poderia tomar banho e vestir-me antes das 8h15, quando o jantar estaria pronto (tinha sido enviado um telegrama aos criados desde Córdoba), e descansado e refrescado, poderia partir para Sevilha no carro novamente às nove e meia.
Assim, zarpámos através do Guadalquivir, passando pela ponte de Isabel Segunda, para aquele estranho subúrbio que deu nascimento a Trajano, e à minha família o seu nome; a antiga Trajana, agora Triana, cidade de oleiros, picadores e ciganos.
Rapazes de sobrancelhas escuras brincavam a toureiros com o nosso carro como touro, os seus casacos como muletas, paus como banderilhas, gritando e saltando agilmente para o lado à medida que o inimigo avançava sobre eles. Raparigas, belas como Carmen, atiravam-nos flores, olhando audazmente olho no olho; e este foi o meu acolhimento ao lugar perto do qual a Casa Trianas tinha outrora vivido e se considerado grande!
Quase que poderia ter visto as torres da casa antiga — agora propriedade do Rei — enquanto passávamos novamente para campo aberto; mas não falei, nem os outros, embora o pensamento na minha mente devesse ter estado na de Pilar e do Coronel O’Donnel.
Mais cinco quilómetros, através do crepúsculo que caía e dos doces aromas campestres, e virámos da estrada principal para outra, brilhando branca como um caminho de neve no crepúsculo opalescente. Então, numa plantação de oliveiras de vasto alcance, pulverizando prata num solo avermelhado onde cintilavam tanques de irrigação e moinhos de moagem, encontrámos um grande e irregular grupo de edifícios brancos agrupados, e unidos por uma parede alta com uma torre sineira aberta num canto.
“Estamos em casa!”, exclamou o Querubim com um suspiro de contentamento, enquanto tocava gentilmente no ombro de Ropes. “Bem-vindos, queridos amigos, ao Cortijo de Santa Rufina. Ele, e tudo dentro das suas paredes, está à vossa disposição.”
Entrámos por um portão largo na parede exterior, onde houve um clamor de saudação do intendente, de muitos criados e de mais cães, cães de todas as raças, que selecionaram Pilar para as suas demonstrações mais selvagens. Num segundo, ela estava fora do carro, e meio afogada numa onda de cãozice tumultuosa. Rindo, apertando as mãos aos criados, acariciando ou reprimindo galgos, collies, setters, retrievers, ela nunca tinha parecido tão encantadora. Esta era a verdadeira Pilar — Pilar em casa; a Pilar que seria quase impossível arrancar de tais associações. Novamente, pobre Dick! E agora ele já não tentava esconder a admiração amorosa nos seus olhos. Penso que ele teria até feito o seu melhor para acariciar um ou dois touros bravos do seu conhecimento se estivessem entre os amigos que lhe deram as boas-vindas.
O Gloria ressoou para as cavalariças — a única garagem no Cortijo — enquanto éramos convidados a passar através do alpendre mourisco e da cancela de ferro forjado para um pátio rodeado em todos os lados por uma arcada, coberta com telhas verdes e castanhas. Os pilares de suporte eram de tijolo rosa pálido, não de mármore, e o pavimento era também de tijolo, intercalado com um padrão de pequenos azulejos azuis. Mas os azulejos eram antigos e bons; de uma bacia de pedra esculpida no meio do pátio brotava o talo alto de cristal de uma fonte, florescendo em diamantes; lírios, azáleas cor-de-rosa e hortênsias verde-pálido floresciam em enormes vasos brancos e azuis e amarelos de Triana, das mesmas formas belas feitas antes de Santa Justa e Santa Rufina saberem que eram santas, e se encarregarem de impedir a Giralda de cair.
As janelas que davam para as salas que rodeavam o pátio eram tão grandes como portas, e todas estavam hospitaleiramente abertas, dando através de cortinas finas vislumbres de móveis antigos cuidadosamente agrupados para agradar ao gosto delicado de uma mulher. Pilar novamente — sempre Pilar! Aqui estavam os seus lares e penates; e ela era uma deusa entre deuses domésticos menores. Eu sabia que seria mais seguro para Dick dizer um adeus apressado no limiar; mas sabia também que nenhum poder na terra poderia forçá-lo a fazê-lo.
“Isto é apenas uma quinta, sabe”, disse a rapariga, humildemente, enquanto mostrava orgulho na sua casa e no que tinha feito dela; “pois somos apenas agricultores, não somos, Papá.”
Os nossos quartos — o de Dick e o meu — não estavam sobrecarregados de mobiliário; mas havia duas ou três coisas pelas quais um antiquário teria penhorado a sua alma. De um lado, as nossas janelas davam para o pátio; do outro, contemplávamos através de grades de ferro oliveiras e prados onde o cereal era verde. Não havia som exceto a chuva tilintante da fonte, e de vez em quando a nota sonolenta de um pássaro, ou o mugido distante de gado — talvez o bramido de boas-vindas de Vivillo, o touro castanho que era a única posse de Carmona cobiçada por Pilar.
Os dois criados que serviam ao jantar estavam cobertos de sorrisos ao verem novamente o seu mestre e a sua senhora; e os seus ocasionais olhares furtivos de interesse na minha direção fizeram-me perguntar se eles não tinham recebido instruções misteriosas sobre como deviam responder a quaisquer perguntas a meu respeito. Mas, quaisquer que fossem essas instruções, eu tinha a certeza de que seriam lealmente cumpridas; pois o Querubim é um homem que os criados obedeceriam através da tortura até à morte, se estes dias fossem como os de antigamente.
Às nove e meia, Ropes estava pronto para me levar de volta a Sevilha. Chegámos mais cedo do que o necessário; e tendo marcado um encontro num hotel tranquilo, onde Ropes me esperaria das onze e meia até à meia-noite e meia, decidi passar pela casa de Carmona e fazer um reconhecimento.
Eu sabia onde a encontrar, na Calle de las Dueñas; mas se eu esperava por um vislumbre revelador lá dentro, como numa mansão londrina ou parisiense, fiquei desapontado. Otrora um palácio mourisco, mostrava uma fachada fechada e secreta à rua estreita. Mas eu sabia, pois tinha lido, que dentro havia seis pátios, noventa pilares de mármore, meia dúzia de fontes, um jardim de laranjeiras e magnólias, com sebes de murta aparadas para representar os brasões ducais; que havia vastos tesouros de estatuária, quadros de Velasquez, Murillo e Alonso Cano; armaduras de placa com incrustações de ouro; tapeçaria dos Países Baixos que não poderia ser superada no Palácio Real em Madrid.
Eu sabia que estes esplendores pareceriam grandes aos olhos de Lady Vale-Avon, e poderiam contar para algo mesmo com Monica, que confessava um amor por todas as coisas belas. Pensei nas famosas joias de Carmona, que pertenceriam à esposa do Duque, enquanto ela vivesse, tal como tinham pertencido a gerações de Duquesas. Acima de tudo, pensei na incomparável pérola Blanca Laguna e nas suas cintilantes damas de companhia, que, a esta altura talvez, já tivessem sido mostradas a Monica. Havia poucas raparigas em Espanha, ou no mundo, lembrei-me de ouvir a minha mãe dizer, que pudessem resistir àquela pérola como noiva. E agora era oferecida a Monica, uma rapariga sem um cêntimo de dezoito anos, cuja beleza formava o seu único dote.
Lá, atrás da fria reserva daquelas paredes brancas com as portas fechadas e cravejadas de latão e janelas gradeadas, ela estava a ser festejada pelo Duque, a jantar em pratos de ouro, numa sala de tapeçarias perfumada com flores de laranjeira. Eu podia ver as imagens. Podia ver o olhar nos olhos de Carmona enquanto se voltavam para ela, dizendo: “tudo isto é teu se tu o quiseres”. E os olhos de Carmona eram olhos belos; tive de admitir isso, em justiça.
Seria ela fiel a mim — fiel a um homem sem palácios, sem terras, sem pérolas inestimáveis, e apenas com metade das centenas por ano que o seu outro amante tinha em milhares? Seria ela capaz de resistir à sua mãe, agora que a mãe tinha visto com os seus próprios olhos quanto havia para lutar e para ganhar?
A questão surgiria. Mas com ela veio uma visão da própria Monica, pura e doce como bela, leal e amorosa como era adorável. E disse para comigo: “Sim, ela será fiel.”
Foi com o soar claro destas palavras na minha mente que voltei as costas à casa de Carmona.
Deixei o Alcázar com o grupo de dançarinos e guitarristas de Olivero e, uma vez lá dentro, fiquei livre para fazer o que bem entendesse. E o que me aprouve foi escapar da companhia dos meus alegres e tagarelas companheiros antes da chegada do Duque e dos seus convidados, e das iluminações em sua honra. Não havia lugar melhor para aguardar e vigiar pela oportunidade que eu desejava do que no quiosque de estilo mourisco, no final do jardim inferior. De lá, eu podia ver sem ser visto; e, no momento em que surgisse uma chance, estaria pronto para a aproveitar.
Ainda era cedo, mas Olivero não perdeu tempo a organizar o seu pequeno exército, para que pudessem causar um bom efeito como *tableau vivant* quando as figuras importantes chegassem. Sentou os seus seis homens com guitarras, os seus sombreros num ângulo precisamente correto sobre as suas cabeças negras e brilhantes, e, numa fila de cadeiras à frente, seis jovens mulheres em vestidos pretos com mantilhas de renda preta, com as fitas vermelhas e amarelas das suas castanholas já nas mãos. Depois, a intervalos, agrupou os dançarinos, jovens e raparigas bonitas, cuidadosamente vestidos com os trajes de diferentes províncias, compondo um ramo de cores vivas sob a luz de algumas lâmpadas ocultas que complementavam o brilho prateado da lua, agora quase no zénite.
Os minutos passaram. Os dançarinos conversavam em tons contidos que dificilmente perturbavam os rouxinois. Uma brisa fazia sussurrar as folhas estaladiças das laranjeiras e das sebes de murta; ao longe, a voz do guarda noturno anunciava a hora das onze, ecoada pelas badaladas do relógio de uma igreja; e a última badalada ainda não tinha soado quando surgiu uma explosão de vozes alegres numa alameda distante. Carmona e os seus amigos tinham chegado — atrasados, é claro — ou não haveria andaluzes entre eles; e subitamente, como se por um sinal, os jardins pulsaram com uma luz cor-de-rosa. No clarão rosado, vi Monica, esguia e pura como um lírio, num vestido branco cintilante de prata; mas só tive tempo de ver que caminhava ao lado de Carmona quando a chama rosada diminuiu e deixou o jardim puro e tranquilo sob o luar.
Por um instante, a luz suave pareceu escuridão, e perdi a figura branca. Quando ela surgiu de novo aos meus olhos num flash verde-esmeralda, enquanto todas as fontes escondidas nos caminhos do jardim jorravam joias, outros estavam agrupados à sua volta; apenas a coroa de ouro do seu cabelo ondulante brilhava clara como uma estrela para mim, entre as tranças e caracóis escuros das outras mulheres.
Cadeiras de ébano antigas, com almofadas de veludo carmesim e o brasão de Carmona em talha dourada, tinham sido enviadas para o Alcázar, da casa do Duque, para o entretenimento. O grupo sentou-se e a dança começou, ao som da música flamenca das guitarras e do estalar das castanholas; o fandango, o bolero, a malagueña, a chaquera vella; todas as danças clássicas da velha Espanha, sendo cada uma delas uma variante sobre o tema do amor: a mulher esquiva, recuando com coqueteria; o homem a persuadir ou a exigir, a mulher cedendo finalmente num abandono apaixonado.
No meio de uma sevilhana, saí das sombras do quiosque e caminhei, sem o som de um seixo a rolar ou de um ramo a quebrar, ao longo de um caminho que a lua ainda não tinha encontrado.
Os encostos altos das cadeiras de ébano estavam voltados para mim. Eu nem sequer conseguia ver as cabeças das pessoas que nelas se sentavam; mas tinha-as visto tomar os seus lugares e sabia que a cadeira de Monica era a de fora, na ponta, à direita.
Todos estavam absortos a observar a dança. À medida que esta se aproximava do seu clímax tempestuoso de alegria e amor, movi-me para a sombra profunda de uma magnólia, perto de Monica — tão perto que, estendendo a mão por trás do tronco redondo que me escondia, toquei-lhe na mão.
Com um sobressalto, ela olhou para cima, esperando talvez descobrir que a brisa tinha soprado um ramo de rosas contra os seus dedos. Em vez disso, viu o meu rosto; pois eu tinha tirado o sombrero cinzento de abas largas e descoberto a cabeça para ela.
Por um segundo, ela olhou diretamente nos meus olhos, como se duvidasse do que via. Então, aconteceu algo inacreditável. Os seus olhos tornaram-se frios como vidro. Os seus lábios contraíram-se numa linha que eu nunca imaginara que as suas curvas suaves pudessem assumir. A sua juventude e beleza congelaram sob o meu olhar. Com um erguer altivo das sobrancelhas, e um movimento indescritível do ombro que não podia significar outra coisa senão indiferença desdenhosa, ela virou-se, como se estivesse impaciente por ter perdido um gesto dos dançarinos.
Pasmado, recuei; e o abismo do meu espanto era tão vasto que me debati nele, confuso, incapaz até de sofrer.
Depois veio uma pontada de tanta dor e raiva como nunca tinha conhecido — raiva não contra a rapariga, mas contra Carmona; e a faca que me trespassou estava embebida no veneno do ciúme. O meu impulso foi saltar da sombra e estrangulá-lo. As minhas mãos formigavam pelo seu pescoço e, através do rufar do sangue nos meus ouvidos, podia ouvir o estalo que a sua espinha faria enquanto eu a torcia. Por aquele instante, fui um louco. Então, algo que era eu próprio conquistou.
O horror pela coisa selvagem que acabara de nascer em mim transbordou num fluxo gelado que a varreu, afogando-a, para fora da minha alma. Mas nunca mais, enquanto viver, condenarei um homem que mata outro num momento cego de fúria.
Mesmo quando o veludo vermelho desapareceu da frente dos meus olhos, não pude confiar em mim para ficar ali, a olhar para Carmona enquanto ele sorria e condescendia com os dançarinos, batendo palmas. Afastei-me, sem parar até ter recuperado o quiosque.
Sentei-me lá, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos, a tentar analisar aquele olhar no rosto de Monica, a tentar dizer a mim próprio que tinha interpretado mal — que tal expressão, como a que imaginei, não poderia ter estado lá para mim.
Talvez, como eu apareci subitamente por trás de um véu de luar tremeluzente e sombras, ela não tivesse percebido quem eu era. Tinha-me confundido com um estranho impertinente e, em vez de dar o alarme, esperara que um franzir de sobrolho a livrasse do intruso. Depois, eu tinha ido embora sem lhe dar uma segunda oportunidade de me reconhecer.
Após alguns minutos de tais reflexões, quase me persuadi de que tinha sido um tolo e que era o único culpado pelo que sofria. Pelo menos, disse eu, devia-lhe a certeza de que aquele olhar tinha sido para mim, e o suspense tinha de acabar esta noite. Eu saberia, mesmo que a fizesse responder-me sob o olhar de Carmona e dos outros.
Mas, um momento depois, vi que não precisava de ser levado a tais extremos.
A primeira parte da dança tinha terminado; o Duque e os seus convidados caminhavam pelos jardins no intervalo. Vinham na minha direção — vinham para o quiosque. À medida que avançavam, recuei para a sombra. Deixei o grupo demorar-se no quiosque, admirando os belos azulejos; deixei-os seguir em frente; depois, enquanto Monica se atrasava propositadamente atrás dos outros, cabisbaixa e evidentemente triste, coloquei-me à sua frente.
“Monica,” disse eu, “o que aconteceu? Tu—”
A rapariga ergueu a cabeça e, embora houvesse um brilho de lágrimas nos seus olhos e o seu rosto estivesse branco sob a lua, ela encarou-me com desafio. “Não me fale,” disse ela. “Nunca mais quero vê-lo. Vou casar-me com o Duque de Carmona.”
XXVIII
DEIXE O SEU CORAÇÃO FALAR
Os homens não se matam por essas coisas. Tolos, ou cobardes, ou crianças podem fazê-lo; mas não homens dignos desse nome. Contudo, não restava alegria de viver em mim enquanto saía do jardim do Alcázar, depois de ter obtido a minha resposta.
O amor não pode morrer numa hora, e eu ainda amava Monica, embora dissesse que ela não era a rapariga a quem eu tinha dedicado a minha alma em adoração.
Ela tinha deixado que eu a seguisse, apenas para dizer por fim: “Nunca mais quero vê-lo. Vou casar-me com o Duque de Carmona.”
Afinal de contas, ela provara ser uma filha dócil. Ela tinha visto como pode ser a casa de um grande de Espanha. Ela tinha visto a pérola Blanca Laguna. Pobre criança de dezoito anos, educada para conhecer a pobreza e para a detestar; seria eu a deixar o meu amor transformar-se em ódio porque ela não era um anjo, mas uma mulher como as outras?
Uma piedade desesperada e um sentido de perda sem esperança pesavam sobre o meu espírito com tal peso como nunca tinha conhecido. Não só tinha perdido a rapariga que amava, como não existia tal rapariga; ela era um sonho, e eu tinha acordado. Era só isso; mas parecia o fim de tudo.
A minha missão em Espanha tinha terminado, ou melhor, fora interrompida. Ela já não me queria. Quanto mais cedo eu a tirasse da sua vida e a deixasse esquecer o que agora devia parecer uma tolice infantil, melhor. Eu devia ter sabido — ela era tão jovem; e tinha-me avisado do desastre quando disse: “Não me deixe sozinha.”
Fui ao apartamento de Olivero e mudei de roupa; depois ao hotel onde Ropes e o carro esperavam. Pela primeira vez desde que tínhamos chegado a Espanha, conduzi, “como um demónio”, dizia o rosto surpreendido de Ropes, embora a sua língua fosse discreta; e a corrida louca através do ar era vinho para lábios sedentos.
No Cortijo de Santa Rufina, estavam todos sentados no pátio sob torrentes de luar, com o grande toldo que dava sombra durante o dia totalmente recolhido.
“Está a ver,” exclamou Pilar, “ficámos à sua espera. Bem, como é que correu?”
Ouvi-me a rir. Não me pareceu um riso agradável, mas fiquei contente por pensar que soava como qualquer outro. “Oh, correu exatamente como eu poderia ter esperado,” disse eu, sabendo que era inútil esconder a minha humilhação, embora pudesse esconder a minha miséria. “E, consequentemente, o meu carro e eu também partiremos amanhã. Quanto ao Dick, ele que faça o que quiser; mas aconselho-o, agora que aqui está, a ficar para a Semana Santa.”
“O que quer dizer?” perguntou Pilar, quase deixando cair a guitarra que estava a tocar. “A—a Lady Monica prometeu ir consigo — amanhã?”
“De modo algum,” disse eu. “Mas o que ela prometeu a outro homem torna melhor que eu vá. Ela está noiva de Carmona.”
“Não acredito,” gritou Pilar.
“Eu não acreditaria, se outra pessoa que não ela própria mas tivesse dito.”
“Ela disse isso?”
“Exatamente nessas palavras. Disse também que não queria voltar a ver-me.”
“Oh — oh!” suspirou Pilar. “Graças ao Céu por isso. Assustou-me horrivelmente — apenas por um momento.”
Fiquei a olhar. “E agora—”
“Agora sei que há um engano — terrível, mas não terrível demais para ser esclarecido.”
Ri-me de novo, tão amargamente quanto me sentia desta vez. “Ideia extraordinária! Porque ela diz que não quer ver-me, há um engano—”
“Claro. Certamente não é tão insensível, tão desleal, tão — tão estúpido ao ponto de acreditar nela? Mas diga-me imediatamente tudo sobre isso — tudo; cada palavra; cada olhar.”
“Fácil,” disse eu, “se não vos aborrecer a todos. Foram muito poucas de ambas as coisas; mas o que houve não deixou nada para a imaginação.”
“Imaginação, de facto!” exclamou Pilar. “Mas continue.”
Então continuei, e ela ouviu até ao fim sem interrupção, tal como os outros dois, que eram apenas homens e, portanto, não tinham comentários a fazer sobre tais assuntos.
Enquanto contava a triste história com as palavras mais breves e diretas possíveis, Pilar sentou-se com olhos graves e lábios tensos, como Pórcia no Tribunal de Justiça antes da sua vez de defender. Quando terminei, ela ficou em silêncio por um momento, pensei que porque, afinal, se via sem nada para dizer. Mas, quando o seu pai, na sua compaixão, ia começar algum murmúrio de consolação, ela irrompeu rapidamente: “Suponho que ela esteja noiva do Duque, ou não teria dito isso.”
“Poucas dúvidas disso,” concordei.
“Nem qualquer dúvida sobre os seus sentimentos reais. Pobre rapariguinha, sei que ela deseja morrer esta noite. Aqueles demónios! Sim, vou dizê-lo, Papá. Serei perdoada, pois eles são-no. Disseram-lhe uma mentira odiosa e deixaram-na tão desesperada que ela estava pronta para fazer qualquer coisa. Ora, ocorreu-me agora; só há uma coisa que faria uma rapariga que ama um homem fazer o que ela fez.”
“O quê?” interrompi, sem fôlego; pois o fogo de Pilar tinha inflamado o meu sangue agora, e aguardei a sua resposta como um homem espera pelo antídoto para um veneno.
“Acreditar que ele está apaixonado por outra pessoa.”
“Como poderia ela acreditar nisso? Quem é que há—” Parei. Os meus olhos encontraram os de Pilar, e ela corou, gaguejando enquanto continuava bravamente. “O maior disparate, claro. Mas — mas — oh, não se lembra de como ela estava naquela noite em Manzanares, quando a vimos pela última vez? Tão melancólica, como se houvesse algo na sua mente que ela não pudesse contar? Apanhei-a a olhar para mim uma ou duas vezes como se estivesse a interrogar-se — eles devem ter começado, até nessa altura, a perturbar a sua mente, pobre criança solitária; mas o pior ainda não tinha acontecido; ela estava apenas um pouco hesitante. Se tivesse podido falar com ela, ou se eu—”
“Eu escrevi,” disse eu, “embora sempre tenha tido medo de que algo tivesse corrido mal com essa carta.”
“Ah!” Pilar agarrou-se a isto e quis a história toda com cada detalhe. Até me vi a confessar o meu antigo pressentimento, a fantasia de que Monica estava a chamar por mim para a ajudar.
“Acredito que sim, a chamar e a rezar. Claro que ela nunca recebeu a carta. O que dizia nela? Se não se importa que eu pergunte?”
“Disse que uma crise parecia estar a chegar, e que ela tinha de se decidir a deixar-me levá-la.”
“Uma excelente carta para cair nas mãos da mãe dela. Assinou com o seu verdadeiro nome?”
“Nenhum nome. Escrevi à pressa e—”
“Isso é uma sorte. Mas mesmo que tivesse assinado, a Lady Vale-Avon não poderia ter mostrado tal carta ao Duque, ele é demasiado espanhol — demasiado mourisco, devo dizer. Ela não se teria atrevido, já que o quer para genro.”
“Isso ocorreu-me.”
“Mas não há muitas outras coisas que ela não se atreveria a fazer para se livrar de um perigo como o senhor. Se ela obteve a carta — e tenho a certeza de que obteve — a sua caligrafia estava à mercê dela. Supondo que ela—”
“Sei o que lhe vai na mente. Mas não creio que tais coisas sejam feitas — fora dos romances.”
“Oh, não são? Quando as pessoas são suficientemente inteligentes? Conheço um caso pessoalmente. E a vida da rapariga foi arruinada. A da Lady Monica não será, contudo, se eu puder ajudar.”
“Está a tomar muitas coisas como garantidas,” disse eu. Mas sentia como se a radiância do céu estivesse a derramar-se sobre mim, em vez do luar pensativo.
“O seu coração não lhe diz que tenho razão?” gritou Pilar.
“Sim!” respondi. “Sim, seu anjo bom, diz.”
XXIX
O JARDIM DOS LÍRIOS EM CHAMAS
A voz de uma criada a cantar uma copla acordou-me cedo pela manhã, após uma ou duas horas de sono.
El amor y la naranja se parecen infinito; Que por muy dulces que sean de agrio tienen su poquito.(1)
Sim, sempre um pouco amargo, disse para comigo. Mas se, afinal, ainda houvesse alguma doçura para mim?
Ontem à noite, antes da despedida, o Querubim, Dick e eu tínhamos discutido os assuntos de todos os pontos de vista. Eu estava agradecido demais por aceitar o conselho de uma rapariga em nome de outra, e por conceder a Monica o benefício da dúvida que, a princípio, não parecia admissível. Mas até Pilar confessou que o noivado de Monica com Carmona tornava a nossa parte cem vezes mais difícil.
Qualquer que tivesse sido o seu motivo — vingança contra mim por uma suposta deslealdade, medo da sua mãe ou ambição despertada — ela tinha, em qualquer caso, consentido em casar-se com ele, e Pilar sugeriu que os convites para o jantar tinham sido enviados como desculpa para um anúncio público, que a prenderia mais firmemente à sua promessa. A notícia teria voado por toda Sevilha em vinte e quatro horas; quando o Rei chegasse na terça-feira, Carmona certamente não perderia tempo a dizer-lho; a Lady Vale-Avon não esperaria que Monica escrevesse à Princesa, mas provavelmente enviaria um telegrama; e, independentemente das minhas ansiedades privadas, pelo bem de Monica, eu não deveria fazer nada abertamente. Quanto a desafiar Carmona a usar o conhecimento do meu verdadeiro nome e a enfrentá-lo num duelo, isso nem sequer devia ser pensado. A boa fama de Monica nunca sobreviveria a tal escândalo, especialmente em Espanha, onde a reputação de uma rapariga é tão facilmente danificada como a penugem na asa de uma borboleta.
Mas, como dizia o Querubim, há muitos caminhos que levam ao centro do mundo. Ele soubera no seu clube que o Duque tinha emprestado o seu camarote na tribuna a um amigo, para procissões que ele e o seu agregado não se importavam de não ver. Esse amigo era um membro do clube e, através dele, o Querubim descobrira que o camarote em questão ficava ao lado do camarote real, que seria ocupado pelo Rei, pela Infanta Dona Maria Teresa e pelo seu marido. Imediatamente após fazer esta descoberta, o Querubim começou a mover mundos e fundos para obter um camarote para si próprio, atrás, à frente ou ao lado do de Carmona. Ainda não sabia se teria sucesso, pois as coisas não eram feitas num momento em Espanha. Claro que todos os camarotes já estavam reservados para toda a semana por membros da aristocracia e outras pessoas importantes em Sevilha; mas, afinal, o Querubim tinha amigos e conhecidos em todas as classes. Se fosse uma questão de dinheiro, o dinheiro não seria poupado; se fosse uma questão de um favor por outro, esse favor seria dado. Havia esperança de que a coisa pudesse ser arranjada; e, uma vez que Pilar ficasse ao alcance da voz de Monica, nada a não ser uma morte súbita poderia impedi-la de dizer à rapariga a verdade, jurando por todos os santos que ela tinha sido enganada com o único propósito de a separar de mim. Se Monica pudesse ser levada a acreditar nisso, ela teria coragem para ser fiel apesar de tudo; e então caberia a mim salvá-la de cumprir o noivado no qual tinha sido enganada.
Quanto a eu ir a casa de Carmona e tentar ver Monica, tal plano parecia inútil, pois certamente não me seria permitido aproximar-me dela. Portanto, deveria esperar com a paciência que pudesse ter e deixar que os meus amigos me ajudassem das formas subtis favorecidas em Espanha.
Agora, o Domingo de Ramos tinha nascido cristalino; mas Pilar explicara que ninguém ocupava os camarotes e as cadeiras para ver a procissão dos ramos de manhã; que, embora fosse bonito de ver, não era uma das grandes atrações; e, como se tinha de esperar cedo fora da catedral, era improvável que alguém da casa de Carmona estivesse lá. Ainda assim, havia a hipótese, e eu não podia dar-me ao luxo de a perder; por isso os O’Donnels ofereceram-se para ir comigo a Sevilha, Dick, claro, fazendo parte do grupo.
Consequentemente, todos no Cortijo estavam de pé às seis; e antes das sete, Dick e eu estávamos no pátio, a tempo de cumprimentar Pilar, absolutamente fascinante com uma mantilha.
Ela estava vestida como uma mulher espanhola da classe alta devia estar vestida no Domingo de Ramos; e, embora a seda de brocado preto, justa e rica, que ela usava, parecesse noutro país um traje não para a juventude, mas para a meia-idade, assentava-lhe maravilhosamente. O seu rosto de pele clara, em forma de coração, com os seus grandes olhos suaves e lábios vermelhos, estava belo na moldura nublada de renda preta; e o seu cabelo apanhado, de um castanho tão escuro que parecia preto, exceto quando a luz do sol polia fios de ouro nas suas massas, parecia avermelhado como as folhas de uma faia-vermelha a brilhar através da renda figurada.
“Por Jove!” exclamou Dick, saltando para os pés quando a viu. Nada mais do que isso; mas Pilar era mulher suficiente para compreender o valor do elogio; e sorriu, ajeitando o folho da sua mantilha em dobras ainda mais graciosas sobre o peito.
“Acha-me bonita assim?” perguntou ela. “Tenho orgulho na minha mantilha, sabe. Veio da minha bisavó, como todas as melhores vêm às raparigas espanholas; e tenho duas mantilhas brancas encantadoras que uso nos grandes dias de festa, quando quero estar muito bonita.”
“Nas touradas?” perguntou Dick, com os olhos a adorá-la de uma forma que, há apenas umas semanas, ele teria achado ridícula em qualquer outro homem.
“Eu não vou a touradas”, disse Pilar. “Gosto tanto dos pobres touros e cavalos que me entristeceria vê-los morrer. Embora, se eu fosse um touro, escolheria para mim uma morte corajosa na arena, após uma vida de cinco anos gloriosos, em vez do matadouro ou de uma existência cansativa de trabalho até que a velhice ou o esforço excessivo me acabassem. Mas passeio no paseo nos dias de tourada e para a feria. Ay de mi! Uma rapariga em Espanha tem poucas outras oportunidades de se fazer bonita para o mundo ver, a menos que viva em Madrid; e, se não fossem as touradas, suponho que muitas raparigas nunca arranjariam maridos. Mas, graças a Nossa Senhora, não preciso de procurar um.”
Será que ela queria dizer que havia algum entendimento com Don Cipriano?
Eu sabia que este era o pensamento que atravessara a mente de Dick. E se Pilar já era desejável nos dias de automobilismo, era irresistível em casa.
Antes das oito horas, o Gloria estava aos portões e, vinte minutos depois, já caminhávamos na rua do Gran Capitán, misturando-nos com a multidão que esperava que a primeira procissão da Semana Santa saísse pelas portas da catedral. Mas a multidão não era densa e o rosto que eu esperava ver não estava lá. “Ainda vai demorar muito até que algo aconteça”, disse o Querubim. “Aqui, quando uma coisa deve ser às oito, é às nove ou talvez às nove e meia. Que importa um pouco de tempo? Mas a missa está a ser celebrada. Quem sabe se a velha Duquesa não teve um ataque religioso e veio ouvi-la, trazendo as suas amigas?”
Não foi preciso mais nada para me deixar ansioso por entrar; e entrámos na catedral que é, na minha opinião, a mais bela, inspiradora e poética do mundo.
Os dois O’Donnels desapareceram na penumbra, misteriosos como o crepúsculo dos deuses, e adivinhámos que iam ouvir missa. Pouco depois, encontraram-nos novamente. Não tinham visto aqueles que procurávamos; mas a procissão estava a começar.
Apressámo-nos a sair antes dela, e não foi cedo demais, pois ela surgiu atrás de nós num brilho de vestes douradas e púrpuras, e ramos de palmeira altos e alvejados como feixes de luz do luar a fluir contra o azul do céu matinal.
“Eles não estão aqui”, disse Pilar, quando o último crucifixo cintilante e a palmeira ondulante, abençoada pelo bispo, desapareceram. “Tinha a certeza de que não viriam. E — custa-me desapontá-lo — mas receio que não estejam no seu camarote esta tarde. Oh, nós vamos, claro! Mas essa será a altura para o Duque emprestar o seu camarote ao Conde de Ambulato. Quinta-feira será o grande dia, em que o Rei estará no camarote real e caminhará com a sua cofradia das tabaqueiras diante de Nossa Senhora da Vitória. Sabe como o Duque está ansioso por reconquistar o favor da família real; e dificilmente achará que vale a pena passar horas numa procissão a menos que possa estar ao lado do Rei, com a possibilidade de um convite para o seu camarote.”
Isto foi desencorajador; ainda assim, decidi estar na multidão durante a tarde; e sabia bem que, embora o esplêndido espetáculo da Semana Santa fosse uma história antiga para os O’Donnels, eles não me falhariam por um momento.
Dick, envergonhado, comprou a um dos muitos vendedores um braçado de palmas abençoadas para Pilar atar debaixo das janelas da casa, como proteção contra a fúria das tempestades durante todo o ano que se seguia; e fomos para o campo com as grandes frondes brilhantes a soprar atrás do automóvel como plumas gigantes.
Passei horas a escrever, a rasgar e a reescrever uma carta para Monica que Pilar tentaria entregar se pudesse, e quando pudesse. Almoçámos e esforçamo-nos por manter uma conversa descuidada, como se não estivéssemos ansiosos e excitados — Dick e eu pelas nossas próprias razões egoístas; os outros dois em solidariedade. Falámos de Sevilha, do passado e do presente — outrora “Sultana do Sul”, ainda bela e alegre, embora o seu reinado tenha terminado. “Somos muito felizes mesmo agora, entre nós, os sevilhanos”, disse o Querubim. “Devia ver uma tertúlia, se quer saber como as famílias se podem divertir juntas. Mas há também outro lado da moeda. Os ingleses e americanos — há alguns — acusam-nos de não sermos sociáveis. Dizem que nunca damos convites para almoços e jantares como fazem as pessoas de outros países; que apenas se trocam algumas visitas, e é tudo, num relacionamento que pode durar muitos anos.”
“Oh, eu sei o que eles dizem!” riu-se Pilar. “Ouvi uma rapariga americana descrever a uma amiga as famílias que conhecia em Sevilha. ‘Vais fazer uma visita’, dizia ela; ‘e se as senhoras estiverem em casa (não estarão se puderem evitar), és conduzida a uma sala de estar fechada que cheira a mofo. Em frente à lareira, se houver alguma, ou então à mesa do braseiro, um sofá duro de cetim amarelo ou vermelho é puxado para o centro, com uma poltrona de cada lado. Todo o resto da mobília está alinhado numa fila reta à volta da parede. É de tarde, mas tens de esperar que as senhoras se vistam, porque se estiverem em casa, de certeza que estarão de roupão, a menos que seja tão tarde que a carruagem já esteja pronta para o paseo. Depois de quase adormeceres, elas aparecem, e falas de coisas desinteressantes que elas consigam imaginar; nunca coisas interessantes, porque essas são guardadas para as bisbilhotices das amigas íntimas; e as raparigas sorriem e olham fixamente como se fosses uma curiosidade, porque tens permissão para andar na rua sem uma criada.’ Isso é ser ‘sociável’ em Sevilha, segundo a rapariga americana; e receio que ela tenha razão do ponto de vista de um estrangeiro.”
Tudo isto, para nos divertir; mas, infelizmente, estava longe de divertir Dick. Ele sentou-se com um ar introspectivo, perguntando-se, sem dúvida, se Pilar pretendia insinuar que, no que diz respeito à porta do seu coração, os estrangeiros poderiam poupar-se ao trabalho de bater.
Vendo-o taciturno, ela, como anfitriã, sentiu que era seu dever consolá-lo, por isso, quando o almoço terminou, foi feito a todos um convite para ir visitar Vivillo, o touro adorado, com um olhar especialmente sedutor para Dick. Ele aceitou com uma presteza suspeita, e para lhe agradar eu disse que sim; enquanto o Querubim, que estava claramente a ansiar por uma sesta, encolheu os ombros obedientemente. Parecia que podíamos ver a pastagem que era a sala de estar de Vivillo sem invadir as terras de Carmona, nas quais eu teria hesitado em pôr os pés, mesmo por Pilar; mas quando, após vinte minutos de caminhada pelos prados, chegámos à sebe que dividia a ganadaria do Duque da quinta do Coronel O’Donnel, Dick não se deu por satisfeito com uma inspeção distante dos touros a pastar. Pilar (despojada da sua mantilha, mas ainda com o brocado preto, pronta para a tarde em Sevilha) ia fazer uma visita amigável ao seu querido, e Dick estava decidido a ser apresentado.
Pilar gritou alegremente para um pastor visível à distância e, alegremente obediente à voz evidentemente familiar da rapariga, o jovem veio a correr na nossa direção, com a garrocha na mão. Entre ele e a sebe que separava as duas propriedades, havia uma vala profunda que nenhum touro, a não ser em estado de fúria, gostaria de saltar. Mas, não muito longe, uma tábua comprida estava meio escondida na erva rica, e o ganadero arrastou-a para mais perto, sem questionar, como se já soubesse o que se esperava dele. Depois de a ter empurrado sobre a vala, para formar uma ponte no local onde a sebe era mais rala, tirou o chapéu e deu as boas-vindas ao gracioso senhor e à senhorita. Vivillo, disse ele, estava bem, mas ficaria melhor com a visão da senhorita, que era o único ser humano que ele parecia amar desde o dia da tienta que provara a sua bravura.
Sim, lá estava ele — o “animado”, bem chamado, na verdade! — a pastar naquele momento ali a sudeste. Não conseguia a senhorita ver o seu dorso castanho entre os cinzentos e pretos, lá ao fundo? Mas ela só tinha de chamar. Vivillo conhecia a sua voz e responderia a ela como a nenhuma outra. Era realmente um prodígio. E seria verdade que ela tinha começado a negociar a sua compra? Ah, era uma pena que um toro bravo daqueles não tivesse a sua oportunidade de lutar numa corrida esplêndida, onde os touros mais nobres de Espanha deviam encontrar os mais hábeis espadas. Ele — Mateo — tinha pensado muitas vezes que seria um grande espetáculo ver Fuentes e Vivillo juntos. Mas — bem, mais vale desperdiçar o melhor touro que alguma vez pastou nestas pastagens e agradar à senhorita. Para os interesses dela, era uma coisa boa que o Senhor Duque raramente ou nunca se preocupasse em vir ver los toros, pois se o seu olhar alguma vez pousasse em Vivillo, ele nunca se separaria dele por dinheiro nenhum, exceto pela honra da corrida.
“Então certifique-se de que não dá ao Duque qualquer pista!” riu-se Pilar, feliz e destemida como um rapaz, enquanto se espremia pela sebe e atravessava a tábua, seguida por Dick.
“Ela está perfeitamente segura”, disse o Querubim, em resposta a um olhar inquieto da minha parte. “Ela é quase tão conhecida por lá como os pastores que cuidam dos touros desde o nascimento; além disso, ela tem uma influência curiosa sobre os animais. Nunca vi nada parecido noutro ser humano, embora tenha lido sobre tais coisas. Desde que era criança, deixei de ter qualquer receio por ela por aquelas bandas; e o Senhor Waring também está seguro, enquanto ficar com ela e com Mateo, a não ser que fosse tolo o suficiente para fazer alguma demonstração. Mas, quanto a mim, não sou amigo de los toros quando estão em casa.”
Dick e Pilar estavam agora na pastagem de Carmona, movendo-se em direção a um grupo de touros a pastar, criaturas magníficas cujos chifres terríveis e peles sedosas (marcadas com círculos duplos sob uma coroa) cintilavam ao sol. Quase nenhuma cabeça foi erguida em honra dos recém-chegados; mas, quando Pilar elevou a sua voz de rapariga para dar um chamamento peculiar, vi uma forma escura à distância separar-se de um grupo. Então, um touro castanho, de flancos magros, nobremente armado com chifres grandiosos como as hastes de um veado, afastou-se dos seus companheiros e correu numa linha tão reta em direção a Pilar que, apesar das palavras do Querubim, o meu coração ficou apertado.
Mas não precisava de ter receio. Enquanto o jovem pastor e Dick permaneciam passivos e admirados, este toro bravo de famosa linhagem de combate reduziu a sua corrida para um galope e trotou até Pilar tão mansamente como se tivesse sido um cabestro com guizos.
A rapariga, abrindo um grande lenço com nós que trouxera cheio de biscoitos doces, deu um ou dois passos em frente para encontrar o touro. Aconchegando-se contra a sua cabeça enorme, suficientemente poderosa para suportar um cavalo e um cavaleiro empalados nos seus chifres, ela alimentou calmamente a grande besta com o seu estoque. Nunca poderia ter havido quadro mais belo desde o dia em que outro touro se submeteu às carícias de Europa.
Vivillo mal se dignou a olhar para Dick, que fez algumas tentativas para conquistar o seu favor. Toda a sua alma cavalheiresca de toro bravo estava absorvida no prazer do regresso de Pilar, na gratidão pela lembrança que ela tinha dele. Dificilmente acreditaria que pudesse ser real, se não o tivesse visto.
Ela ficou dez minutos, com Dick muito próximo do seu lado, sempre ignorado pelo touro; depois, ela voltou e caminhou na nossa direção, lentamente, com o pastor a manter-se por perto e Vivillo a marchar atrás de uma forma resoluta que teria embranquecido o cabelo de qualquer homem ou mulher nervosos.
Mas, se Dick estava consciente dos seus nervos numa situação tão invulgar, não o demonstrou. A sua cabeça estava inclinada sobre a de Pilar, falando seriamente, e embora ela nunca olhasse para ele em resposta, uma vez desatou a rir, tão alegremente, que me perguntei o que ele teria dito.
Novamente no nosso prado, em segurança e longe dos touros, Pilar dirigiu-se imediatamente para o lado do pai e começou a tagarelar sobre Vivillo, que estava parado junto à vala a olhar melancolicamente para ela enquanto mastigava o seu último biscoito. Dick e eu ficámo-nos a conhecer; e embora o rosto de Dick não seja nenhum delator, adivinhei de alguma forma que a sua mente não estava tão calma como os seus traços.
“Eu diria que isso pode ter sido um pouco perturbador para um amador”, disse eu.
“Talvez”, respondeu Dick, distraído. “Mas não é isso, se pareço estranho. Olha, Ramón, fiz o que tinha a fazer.”
“O quê?”
“Pedi uma rapariga em casamento pela primeira vez na minha vida. E mais, humilhei-me. Chamei ao Vivillo um cordeiro, embora naquele momento ele parecesse mais umas dúzias de leões. Disse-lhe que, se ela se casasse comigo, poderia ficar com ele e com qualquer outro touro que estivesse sentado no nosso tapete da lareira; que teríamos um grande e simpático de propósito.”
“Isso deveria ser um incentivo — mesmo vindo de um herege.”
“Oh, diabo, não insistas nisso. Estou louco pela rapariga. Sei tudo o que estás a sofrer, e se alguma vez assumi ares de superioridade, retiro-os e engulo-os.”
Até um homem de coração partido teria tido de sorrir; e Pilar tinha-me persuadido a não ficar ainda de coração partido. Se me ri, também me solidarizei, e gostei mais do que nunca de Dick porque estávamos a comer a mesma laranja agridoce de que a voz cantara. Parecia que Pilar não o tinha aceite nem recusado, mas tinha pedido tempo para pensar; e ele teria ficado um pouco encorajado se ela não tivesse dito subitamente: “Don Cipriano gosta de touros.”
Às cinco horas, entrámos em Sevilha com o carro, pois ninguém sabia a que horas a procissão poderia começar; ninguém sabia nunca, ao que parecia. E Pilar já não era alegremente varonil, mas feminina e sedutora novamente na sua mantilha preta.
O vasto retângulo da Plaza de la Constitución já fervilhava com a excitação de uma multidão em movimento. O corredor entre as cadeiras e a tribuna estava repleto de pobres da cidade e camponeses do campo, que não teriam lugares e teriam de se apertar para ver a procissão; mas não havia empurrões mal-intencionados, e era tido o maior cuidado para não esmagar as crianças pequenas, de olhos estrelados, que tombavam sob os pés das pessoas. Os soldados riam-se e abriam caminho entre grupos de raparigas bonitas. Guardas civis, com um aspeto de quem tinha saído de quadros antigos, esforçavam-se por manter a ordem, os seus gritos perdidos entre os clamores que enchiam o ar; gritos de vendedores de água carregando grandes vasos de barro; gritos daqueles que empurravam cargas de amendoins torrados em barquinhos pintados; gritos de vendedores de caranguejos; gritos de homens velhos e maltrapilhos, e rapazes asseados de barrete branco, apregoando calientes acabados de fritar, bolos com açúcar e todo o tipo de dulces em tabuleiros cobertos com guardanapos.
Turistas ingleses e americanos de chapéu panamá vagueavam pela multidão à procura das suas cadeiras numeradas; os vendedores de lugares gritavam preços reduzidos; mulheres de cabeça descoberta com bebés castanhos nos braços ofereciam programas das procissões da semana; rapazes esfarrapados gritavam os jornais do dia e postais coloridos; enquanto, das varandas das casas particulares, senhoras de mantilha preta, crianças de branco e estrangeiros de cores alegres olhavam para a cena.
Assim passou uma hora, enquanto os camarotes e os melhores lugares começavam a encher-se. Famílias espanholas da classe média, homens e mulheres de preto, ocupavam os lugares da frente da tribuna, onde o vazio camarote real fazia um belo salpico de ouro e carmesim; mas mais lentamente chegavam membros da aristocracia e oficiais de azul e ouro; e, empurrado pela multidão, aguardava com suspense.
O Coronel O’Donnel tinha ido ao seu clube em busca de notícias sobre o camarote que, por meios estratégicos, tinha tentado conseguir. Pilar e Dick tinham ido com ele, para permanecer no carro, chaperonados por Ropes, até que ele saísse; pelo que eu não tinha forma de saber se o Querubim tinha triunfado ou falhado. Tudo o que sabia era que um conhecido do clube, cuja esposa estava doente, poderia ser convencido a oferecer o seu camarote, próximo da família real, a um segundo conhecido em troca de um lugar diretamente atrás daquele que o Duque de Carmona tinha reservado. Se isto pudesse ser arranjado, os O’Donnels ficariam com este último, em troca de — apenas o Querubim sabia o quê. Transportado para trás e para a frente pela multidão em movimento, como uma folha num remoinho, os meus olhos raramente se desviavam por muito tempo da tribuna. Viria a família Carmona? Seriam os O’Donnels os seus vizinhos?
Finalmente, vi Pilar e os dois homens a entrar na tribuna. Sim, tinham conseguido, podia dizer pela descrição que o Querubim fizera do camarote do Duque. Mas o de Carmona ainda estava vazio.
A procissão ainda não tinha aparecido, embora a primeira cofradia devesse estar na Praça há uma hora, e o crepúsculo caía sobre a vasta praça, etereamente claro e pálido. Apenas a figura da Fé, na imponente Giralda, voltada como se observasse a cena, ainda cintilava ao sol; e o seu brilho deslumbrante tinha desvanecido antes que uma nota de corneta soasse, pungente como um grito de tristeza amarga de um coração partido.
Este era o arauto de uma irmandade com as suas imagens sagradas; e a polícia começou a limpar a multidão à sua frente para fora do corredor entre as cadeiras e a tribuna. Lentamente, o rebanho foi forçado a avançar pelos cães pastores; e, à medida que o caminho se abria, vindo do túnel escuro de Las Sierpes, marchou, com as armas invertidas, um esquadrão de guardas civis; depois, uma companhia de soldados montados, as suas cornetas ainda a gemer aquele aviso triste de algum espetáculo lastimável que estava para vir.
A cavalaria passou; não passava de um prefácio moderno para um poema medieval que, seguindo de perto, trazia consigo para a Praça fantasmas tristes, fantasmas sombrios, fantasmas santificados de tempos passados.
Liderados por um deles, que transportava um crucifixo requintado, caminhava um grupo de penitentes com grandes velas acesas. As suas túnicas brancas de linho varriam o empedrado em longas caudas pontiagudas, as fivelas de prata nos seus sapatos pretos cintilando a cada passo; através das fendas estreitas nos capuchas azuis, cujas pontas cónicas se estreitavam muito acima da cabeça dos que as usavam, os seus olhos escuros ardiam com uma intensidade misteriosa. Moviam-se aos pares, silenciosos como morcegos, exceto pelo toque dos bastões de prata, criando uma avenida de estrelas deslizantes, como fogos-fátuos, da boca negra de Las Sierpes através do comprimento da Praça.
Então, subitamente, naquele túnel escuro e distante, algo luminoso brilhou, algo que se movia, oscilava no ar mais alto do que a cabeça dos homens, algo que era como um grande caixão de joias a arder ou uma nuvem de pirilampos.
Avançou, parando, recomeçando, chegando à praça aberta e revelando-se como uma plataforma iluminada que sustentava um Cristo crucificado, em tamanho real, sem poupar nenhum detalhe da tragédia e da tortura.
Uma daquelas esculturas finas de madeira pintada, como as que tinha visto em Valladolid, na qual o artista do século XVI tinha gasto a sua alma para mostrar aos crentes o que Cristo tinha sofrido para que pudessem ser salvos; e tão surpreendente era o apelo desta figura terrível à nossa empatia que, por um instante, me vi a esquecer tudo, exceto um desejo selvagem de a resgatar.
À medida que o paso, com as suas lâmpadas de prata trémulas e flores espalhadas, se aproximava de onde eu estava, podia ver, sob as longas cortinas de veludo que drapejavam a plataforma, vinte pares ou mais de pés a moverem-se lentamente; e as pausas frequentes ficaram explicadas.
Observei a figura de cortar o coração passar pela esquina da Plaza, perdendo-se de vista, com andorinhas a cirandar por cima, como se mais uma vez quisessem arrancar os espinhos daquela fronte sangrenta; e, mal desapareceu, longe, no crepúsculo de Las Sierpes, surgiu outro mistério iluminado de estrelas congregadas. Vindo da escuridão para o crepúsculo de jacinto, flutuou uma plataforma com dossel de veludo púrpura, incrustada de prata e ouro; sob o telhado cintilante, uma virgem que parecia estar de pé, a rezar num jardim de lírios altos, iluminada por uma chama sagrada de prata.
Os lírios aglomerados, à medida que o paso se aproximava, não passavam afinal de velas brancas de cera, mas, à sua luz, a imagem da Virgem ganhava uma feminilidade e uma beleza extraordinárias. A sua magnífica cauda de manto de veludo bordado a ouro, o seu vestido interior de cetim cintilante com diamantes, a sua coroa flamejante de joias, os anéis cintilantes nos dedos delicados, os seus colares, as suas pulseiras, eram tais que a Mãe de Cristo jamais sonhou na sua vida simples; e metade dos que observavam conheciam uma pobreza esmagadora que algumas das suas gemas poderiam aliviar.
Esse pensamento, eu bem sabia, saltaria a muitas mentes; mas seriam as mentes de estrangeiros; e eu, sendo espanhol, compreendia. Via o que esta procissão de emblemas significava para estas pessoas, ricas e pobres por igual. Estavam a ser recordadas, da forma realista e dramática que melhor apelava à sua imaginação, de tudo o que Cristo sofrera por elas, de tudo o que a mãe-mulher suportara. As gemas, que para mentes alheias eram incongruentes, cristalizavam as suas lágrimas, o seu amor, a sua gratidão; e as joias de Nossa Senhora eram as joias dos pobres — posses ricas que não lhes podiam ser retiradas, alegrias para sempre, objetos do seu mais alto orgulho.
Curvando-se em pesar suave, a face bela inclinou-se, a figura graciosa passou na fragrância dos lírios, da cera perfumada e do incenso que enviava nuvens azuis de incensários de prata, balançados por rapazes vestidos de branco. Com ela, enquanto se movia, ia a música — a música da própria Nossa Senhora, triste e bela como o luar sobre uma campa solitária, fresca como a paz após uma dor ardente.
Agora, a tribuna que eu observara durante tanto tempo estava cheia de estranhos. Pilar tinha razão. Carmona cedera o seu lugar a amigos. Mas, com aquela música suave e inesquecível nos meus ouvidos, doce como dias de alegria lembrados, eu não podia temer nada. De alguma forma, estava em paz, com bons pensamentos na mente e esperança no coração.
Irmandades em preto, irmandades em púrpura, e paso após paso passavam; Christus curvado sob o peso da cruz, Christus a rezar entre discípulos adormecidos no Getsémani, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Dores, rios flamejantes de luz, sóis a erguerem-se de nuvens púrpuras.
A noite dobrou-se sobre a grande praça, com a sua multidão de pessoas. Ninguém se fora embora. Luzes elétricas irromperam e fizeram com que a cena parecesse o auditório de um vasto teatro; mas o palco e o auditório eram um só. Então, a lua cheia, amarela como mel, espreitou sobre os jardins de telhado apinhados das casas altas, em frente da tribuna, e navegou alto no céu.
Passava das nove horas quando o Coronel O’Donnel me tocou no ombro.
— Vimo-lo há muito tempo — disse ele. — É tão alto. Vamos para casa jantar? Mas na quinta-feira terá outra oportunidade.
Quinta-feira! E havia três dias pelo meio. Desejei que ele me tivesse deixado no meu sonho de paz enquanto este pudesse durar.
XXX
A MÃO SOB AS CORTINAS
Como um sonho passaram os três dias; mas não um sonho de paz, pois essa perdi a perdi com o último eco da música da Virgem e a fragrância dos seus lírios.
Dick julgava-se miserável, mas eu teria trocado de bom grado o meu estado de espírito pelo dele. Por vezes ele esperava, por vezes desesperava, mas, em todos os momentos, era na verdade muito feliz, se apenas o soubesse. Gostava de visitar os Murillos com Pilar e o Querubim quando eu não tinha ânimo para ir. Pediu o automóvel emprestado para os levar a Itálica. Ia com os O’Donnels, ao fim de cada tarde, para o passeio na moda ao longo da margem do rio, tão satisfeito com as cinco mulas bonitas, nos seus arreios espanhóis elegantes de corda branca e carmesim e couro castanho, como se fossem suas.
Quanto a mim, não ia, embora Dick insistisse que, na interminável fila dupla de carruagens elegantes, poderíamos encontrar a da Duquesa de Carmona. Mas eu não me atrevia a ver Monica outra vez depois do que acontecera, a menos que houvesse alguma esperança de que Pilar pudesse falar por mim, ou de que eu pudesse falar por mim mesmo. Ainda assim, não conseguia resistir a questionar a família à noite. Tinham ouvido notícias dela? Tinham-na visto?
Pouco depois, houve notícias, mas não boas notícias. O noivado era conhecido e falado por toda a parte. A história era que o casamento seria em breve, pois a Duquesa não estava forte e professava-se ansiosa por ver o filho casado. Os boatos diziam também que o casamento seria celebrado em Madrid logo após o fim das festividades do casamento real, para que a jovem duquesa, como esposa de um grande de Espanha, pudesse tornar-se dama de honor da rainha-noiva, quando los Reyes regressassem da sua lua-de-mel em La Granja.
O Querubim contou-me estas coisas apenas porque insisti em ouvir tudo; e, na noite de quarta-feira, arrastei mais detalhes de Pilar. Tinham passado pela Duquesa, Lady Vale-Avon e Monica na carruagem dos Carmona, a mais bonita de Sevilha; e o Duque ia a cavalo, parecendo mais atraente do que Pilar alguma vez o vira no traje de chulo, usado por vezes como uma afetação divertida por alguns jovens aristocratas da Andaluzia. Podia imaginá-lo no sombrero cinzento de abas largas, no casaco curto e apertado, e nas calças ajustadas como uma luva até alargarem abaixo do joelho. Sim, o traje ficava-lhe bem; e Pilar admitiu, relutante, que ele era um cavaleiro perfeito. Estava horrivelmente ciumento, pronto para imaginar que, afinal, Monica tinha realmente começado a importar-se com ele.
Houvera uma procissão na quarta-feira, mas não fora um assunto de importância; e com a quinta-feira, e a presença do Rei, todos os maiores eventos desta Semana Santa estavam prestes a começar.
No início da tarde, houve o lava-pés dos homens pobres pelos grandes eclesiásticos na catedral, ficando o Rei no Alcázar para lavar — como Dick dizia — alguns pés cuidadosamente selecionados por sua própria conta, como um sinal de humildade. Mais tarde, viria a procissão mais esplêndida da semana, o Rei a caminhar com a sua própria cofradia; à noite, o Miserere na catedral, e procissões durante toda a noite, até à missa da Sexta-Feira Santa. Disse a mim mesmo, portanto, que teria mais duas oportunidades: a primeira, para a qual dependia de Pilar à tarde; a segunda, para a qual dependia de uma inspiração minha à noite. Pois o mundo inteiro ia ouvir o Miserere.
Embora fosse uma semana de penitência e jejum, Sevilha — honrada pelo Rei — vibrava de excitação. Milhares de estranhos tinham inundado a cidade para este dia, e as multidões eram três vezes mais densas do que no domingo. Embora houvesse rumores inquietantes, sussurros de conspirações anarquistas e bombas, a polícia estivera alerta; o Rei apanhara uma lancha rápida pelo Guadalquivir, em vez de chegar num comboio especial de Cádis, chegara a Sevilha em segurança; e agora a ansiedade fora esquecida. Toda a cidade derramou-se na Plaza de la Constitución mais de uma hora antes de haver qualquer esperança de que a procissão pudesse começar; e eu estava na multidão.
Os camarotes encheram-se mais cedo do que antes, muitas das senhoras já não vestidas de preto, mas usando chapéus de Paris e vestidos de tons claros, embora amanhã houvesse novamente mantilhas pretas e cravos vermelhos. Pilar, Dick e o Coronel O’Donnel estavam nos seus lugares e, embora o camarote do Duque ainda estivesse vazio, tinha a certeza de que não ficaria desapontado hoje. "Ele aparecerá por volta da altura em que o Rei aparecer", dizia eu para mim mesmo, quando, de repente, houve um movimento no camarote real. O presidente da câmara e os vereadores entraram, com ar importante; quatro alabardeiros gigantes da guarda real tomaram posição, cada um num canto do camarote. Então ergueu-se um grito: "Viva el Rey!" e, contra as cortinas de veludo carmesim, a figura do jovem Rei alto em uniforme branco destacava-se como uma esguia estátua de mármore.
Ele era acompanhado pela sua irmã, a Infanta, e pelo marido dela, três ou quatro senhoras e um séquito de oficiais condecorados; mas, por um instante, vi apenas o Rei porque — rebelde como se supunha que eu fosse — o meu chapéu acenou tão alto e os meus vivas soaram tão ruidosamente como quaisquer outros na multidão.
Não tinha visto o seu rosto — naquele dia em Biarritz, há muito tempo — quando o seu automóvel parou por falta de gasolina. Ele usara a sua máscara de motorista e não a removera, pois estava incógnito; mas agora, enquanto se inclinava em resposta à saudação do povo, o rosto jovem era nobre sob o capacete de prata. O seu sorriso trazia uma cova profunda a cada face, e uma luz agradável aos olhos castanhos. Estava orgulhoso do meu Rei, e dei por mim a desejar poder servi-lo, embora parecesse que isso nunca poderia acontecer; e, com um suspiro pelas perversidades do destino, desviei o olhar, apenas para receber um choque de surpresa.
Entre as senhoras com a Infanta estavam a Duquesa de Carmona, Lady Vale-Avon e Monica. Com os oficiais e amigos do Rei estava o Duque, o seu rosto escuro a irradiar satisfação, como se aquele fosse o momento culminante da sua vida.
Não só Monica estava com o homem como sua noiva, mas estava vestida, em cumprimento a ele, como uma rapariga de Espanha. Usava uma mantilha tal como a que a Infanta usava, e tão brilhante era o seu cabelo, tão clara a sua pele emoldurada pelo folho preto de renda, que era quase tão observada como o Rei. No seu peito, prendendo as dobras da mantilha, havia um brilho de carmesim; e, olhando atentamente, percebi que era um grande broche de rubis, formando o famoso "No. 8 Do", o lema de Sevilha. Apenas o Duque poderia ter-lhe dado isto, pensei; e ela aceitara-o!
Não havia mais esperança, então. Não importava que a sua presença inesperada no camarote real impedisse Pilar de falar, ou de lhe entregar a minha carta. Ainda assim, agarrei-me desesperadamente à única oportunidade que restava; a catedral e o Miserere.
Mal os membros da realeza e os seus amigos se instalaram no camarote drapejado de vermelho, a irmandade seguinte marchou para fora de Las Sierpes e parou o seu primeiro paso perante o Rei, para que ele o pudesse ver bem. Ele estava de pé, a cabeça descoberta e inclinada; e enquanto permanecia velado no incenso ascendente, uma alma emocional na assistência irrompeu num lamento mourisco, a canção de oração ou saeta do povo, improvisando palavras que captaram a fantasia popular.
Um murmúrio de aprovação percorreu a multidão, que se aproximou, apesar da polícia; e, como todos os olhos se voltaram por um momento para o Rei, ou para o cantor camponês de cabelos brancos, aconteceu algo que me chamou a atenção.
A cortina de veludo que escondia os portadores do paso, repousando perante o camarote real, separou-se muito ligeiramente de um lado, como se alguém estivesse a espreitar; então, uma mão surgiu e recebeu de um homem de casaco preto, que estava de costas para mim, um ramo de flores desbotado, arranjado à moda espanhola numa pirâmide dura e rígida.
Tão rápido como aquela mão que surgira, um pensamento atravessou o meu cérebro. Em poucos segundos, o paso estaria em movimento; os portadores estavam a preparar-se para um novo esforço. Aquele ramo! E se contivesse a bomba ameaçada? Este era o momento para tal tentativa de destruir o camarote real, pois o Rei era membro da irmandade seguinte que devia passar; e em breve deixaria a sua irmã e amigos para caminhar com ela, talvez não regressando ao seu camarote naquele dia.
A passagem da luz não é mais veloz do que foi o voo destes pensamentos; e, sem esperar para calcular o custo para mim mesmo, pensando apenas no Rei e na rapariga que amava, enfiei instantaneamente ambas as mãos entre as cortinas, seguindo as flores enquanto eram passadas para dentro. Agarrei o ramo firmemente à volta da base rígida da pirâmide e puxei-o para fora antes que o homem escondido que o recebera soubesse que não fora retirado pelo seu confederado. Tudo terminou num segundo, e eu tinha o ramo. Também identificara o homem que o empurrara através das cortinas do paso, embora não pudesse dizer qual, entre os vinte ou vinte e cinco portadores escondidos, o recebera dele.
Quer o meu ato tivesse sido sensato ou insensato, estava feito, e o paso seguira em frente, levando o segredo de um coração acelerado sob a plataforma cortinada.
Vasculhando cautelosamente entre as flores densamente dispostas, o meu sangue acelerou-se ao tocar em algo redondo e duro, uma coisa do tamanho de uma laranja grande, presa no centro da pirâmide por uma rede de arame fino. A intuição não me pregara uma partida. Havia morte naquele ramo de rosas, morte para muitos, talvez. Embora fosse de primeira importância afastar a bomba o mais possível do Rei e de Monica, e torná-la inofensiva, eu não desistiria da minha perseguição ao homem de casaco preto, que abria caminho através da multidão, apenas a alguns metros à minha frente — uma figura de constituição quadrada, nas roupas de festa de um operário respeitável. Via apenas as suas costas agora, cada músculo tenso no seu desejo de escapar à vingança no seu encalço; mas vira o seu rosto por um instante e poderia identificá-lo em qualquer lugar.
E se, no seu desespero, ele se voltasse e, na esperança de se salvar, me acusasse do crime que ele cometera? Bastaria isso para me arruinar — depois de Barcelona e desta longa viagem a Sevilha, onde o Rei era esperado. Seria acreditada qualquer explicação que eu pudesse dar, quando a bomba estava na minha mão?
Empurrei os pensamentos aglomerados para fora da minha mente. Havia outras coisas em que pensar — a própria bomba, o que fazer com ela; e o homem a ser seguido.
Entretanto, movia-me atrás daquelas costas largas que não devia perder de vista, e para longe da vizinhança do camarote real. Estava na fila da procissão, perto da frente das longas fileiras de cadeiras ocupadas e em frente da tribuna. Havia apenas duas pessoas lado a lado na linha em movimento que me levava, impulsionado pela polícia, mas estávamos densamente compactados, pressionados de um lado pelos joelhos das pessoas nas cadeiras, do outro pela irmandade púrpura que precedia outro paso. A situação parecia desesperada, uma vez que dar um alarme colocaria em perigo a multidão, bem como comprometeria o meu futuro; e um pânico seria uma calamidade.
De repente, o grito de um vendedor de água atingiu o meu ouvido bruscamente. — Agua! — claro como cristal e frio como a neve da montanha. Agua!
Ele estava logo à minha frente com o seu vaso de barro. — Venda-me o seu cântaro — disse eu. — Não, não quero um copo de água. Quero o cântaro — para uma curiosidade. Vinte pesetas por ele.
Esta oferta evitou perguntas. O vaso, com o seu conteúdo, valia duas pesetas para o vendedor, talvez, e, para que eu não mudasse de ideias, o seu dono entregou apressadamente o cântaro e embolsou a minha prata. Mesmo agora, tive de esperar por uma abertura na multidão, até ter sido empurrado para o caminho que levava da praça à Plaza de San Fernando; e ali, para minha alegria, esbarrei com Ropes. Sem uma palavra de explicação, disse: — Siga aquele homem de boina e casaco preto com gravata vermelha. Agarre-o; tenha cuidado para que ele não o esfaqueie ou dispare. Não o deixe ir — e espere por mim.
Isto foi tudo o que Ropes precisou. — Certo, senhor — disse ele, e avançou atrás das costas pretas, que, naquele espaço mais livre, ganhavam distância.
Inesperadamente aliviado da minha segunda tarefa, protegendo cuidadosamente o ramo com o cântaro de água, abri caminho para o caminho e choquei a cabeça do vaso de barro contra uma borda de pedra.
O barro poroso estalou como uma casca de ovo, o topo saindo numa só peça, com alguns estilhaços a voar; e pressionei o ramo profundamente na água.
Isto era o melhor que podia fazer naquele momento, embora, se a bomba fosse feita com ácido pícrico, eu nada tivesse conseguido. Só podia esperar; e, avançando, alcancei Ropes, que segurava o homem e o encostara a uma parede.
Nem um som o miserável proferira. Ele sabia que, se resistisse, seria instantaneamente denunciado e feito em pedaços por uma multidão que provavelmente não esperaria por uma prova clara de tal acusação. Como falhara, era melhor confiar na misericórdia do seu captor e da polícia do que nos milhares em êxtase pelo Rei. Felizmente para ele, como para nós, a multidão tinha algo melhor para fazer do que parar para observar o que tomavam por uma trivial disputa privada.
— Ele tentou esfaquear-me — disse Ropes; — mas impedi isso. A faca está no meu bolso. O que se segue, senhor?
Era característico que ele não perguntasse o que o homem fizera.
— Entregue o bruto à polícia — respondi em inglês. — Ele estava com outro sujeito que perdi, numa conspiração para lançar uma bomba ao camarote real; e a bomba está neste cântaro de água.
Pela primeira vez, o rosto de Ropes perdeu a sua expressão imperturbável. — O quê, senhor! — exclamou ele, — depois dos seus problemas — desculpe-me por mencioná-los — envolve-se num assunto como este!
— Não tenho escolha. Não podemos deixar este animal escapar. Se o tiverem, a polícia pode apanhar o seu cúmplice. Ele parece um cobarde e um vilão.
— Peço perdão, senhor, tem uma escolha. Tenho o homem. Dê-me o cântaro com a bomba, e assumirei tudo com a polícia, embora seja uma vergonha que perca o crédito. Tenho a ficha limpa; motorista do Sr. R. Waring, correspondente de um jornal americano. Não há necessidade de o envolver.
— Se for explodido pela bomba...
— Seria explodido da mesma forma se ficasse consigo, pois ficaria agarrado como um cardo, senhor. (Agora, nada de contorcer-se, seu animal, ou palrar sobre um engano. Não há engano, e não vai escapar!) É melhor dizer-lhe o que está naquele cântaro, senhor — o meu espanhol não vai tão longe — e isso irá acalmá-lo.
— Não pode tratar do homem e do cântaro.
— Poderia tratar de dois de cada. Ali estão uns guardas civis. Agora, se tem alguma bondade por mim, senhor, largue esse cântaro; e não seja visto comigo.
Deixei Ropes ter o seu caminho. Mas demorei-me o suficiente para observar a cena que se seguiu; e, se aquele cântaro de aspeto inocente tivesse partido, ou se o conteúdo do ramo encharcado tivesse explodido por si próprio, eu teria estado perto o suficiente para partilhar o destino do meu motorista.
Ele explicou em espanhol macarrónico, completado com gestos; e o facto de ser inglês, com o mais honesto dos rostos ingleses para atestar a sua sinceridade, ajudou-o. O homem sob o seu domínio era catalão, o que não estava a seu favor em Sevilha. Os guardas civis olharam para o cântaro com interesse respeitoso, mas não ofereceram-se para o pegar; e, após um momento de conversa animada, Ropes e o seu cativo marcharam rapidamente com os homens de vermelho, preto e branco.
Pelo menos, acontecesse o que acontecesse agora, o Rei estava a salvo; e Monica estava a salvo.
Não foi senão às oito horas, quando me dirigi ao hotel sossegado onde tínhamos combinado encontrar-nos para jantar, que descobri algo mais. Então, disseram-me que o Rei regressara ao seu camarote após caminhar na procissão e que, pouco depois, Dick fora surpreendido por uma visita de um membro da polícia à civil. O homem tinha ido ao camarote dos O’Donnel, perguntou se o cavalheiro americano era o Sr. Waring, se ele tinha um motorista chamado Peter Ropes e, tendo obtido uma resposta afirmativa, contara a história da bomba. Dick fora então com o polícia ver Ropes, prestara declarações acerca de si próprio, dos seus negócios, do seu automóvel, do seu motorista, da sua ocupação na vida e dos amigos com quem estava hospedado. Tudo se revelara satisfatório. Ropes fora agradecido pela polícia pela sua prontidão e presença de espírito, e ameaçado com uma gratidão ativa por parte de instâncias superiores. A ambos fora pedido que permanecessem ao alcance durante alguns dias; e o episódio estava encerrado.
Mas só quando ouviram a minha parte da história é que Dick ou os O’Donnel souberam precisamente onde e como Ropes tinha entrado no drama.
XXXI
ATRÁS DE UMA GRADE DE FERRO
— Diga lá — comentou Dick num sussurro audível — haveria uma grande quebra na indústria da cera se o mundo inteiro se tornasse protestante e não comprasse mais velas grandes de cera.
Estávamos parados dentro do arco mourisco da Puerta del Perdon, no Pátio das Laranjeiras. Mais além, onde o crocodilo empalhado balançava numa brisa leve, ficava a entrada da catedral, negra como a boca de uma caverna. O vento que embalava aquele enorme réptil — oferta de um Sultão desiludido — fazia as pétalas de dez mil flores de laranjeira pairarem sobre as nossas cabeças numa tempestade de neve perfumada. Passou por nós uma irmandade de hábito escuro, cada homem com a sua vela alta a deixar cair cera sobre as pedras cobertas de musgo do antigo pátio.
Foi isto que suscitou a reflexão de Dick; mas mal ouvi as suas palavras. Estava à espera de Monica; e a minha última oportunidade teria de surgir em breve, se é que chegaria a surgir.
Pilar e o seu pai não estavam connosco. Tinham entrado na catedral, onde garantiram lugares não longe da capela real, e na melhor posição para ouvir o Miserere. Embora ainda fosse cedo, não passava das nove horas, multidões vastas estavam a reunir-se e era possível, pensavam eles, que Carmona e os seus convidados já estivessem nos seus lugares. Se fossem vistos lá, o Coronel O’Donnel enviaria um mensageiro (um homem empregado na catedral) com um recado para mim.
Mais cedo, esta pessoa tinha vindo ao hotel, onde lhe tinham dito para olhar bem para mim, a fim de que não falhasse em reconhecer-me de novo. E Dick e eu não tínhamos estado de sentinela durante quinze minutos quando ele apareceu, abrindo caminho através da maré oposta da multidão à medida que esta varria em direção à catedral.
— Sua Excelência o Coronel O’Donnel deseja que as Vossas Excelências, os dois señoritos, saibam que aqueles que desejam encontrar não são visíveis na catedral.
— Poderão estar lá e serem invisíveis? — perguntei.
— A catedral está muito fracamente iluminada; e poderão não ser vistos se estiverem nalguma capela. Há várias com muita gente dentro e as portas estão trancadas.
— Isso é permitido?
— As pessoas deram algo a um sacristão para não deixar entrar outros. Tenho poder do mesmo género, se algum senhor desejar que eu o use.
— Ei-los que vêm! — sussurrou Dick. — Carmona, Lady Vale-Avon e Lady Monica.
Recuámos mais para a sombra, embora tal precaução fosse pouco necessária. Estava tão escuro no Pátio das Laranjeiras que a multidão tateava o caminho sobre o pavimento rachado e irregular. Apenas porque estavam perto de nós, e ele estava atento, é que Dick fora capaz de distinguir os rostos que conhecíamos.
— Fique connosco — disse eu ao mensageiro do Coronel O’Donnel. — Terá cem pesetas se abrir a porta de uma capela vazia para mim e a trancar novamente quando eu der a ordem.
— Mas temo que não existam capelas vazias — começou ele.
— Então torne uma vazia. Pode fazer isso — por cem pesetas?
— Sim, señor, creio que posso.
A esta altura, Monica, ainda com a sua mantilha preta, tinha passado por nós entre a mãe e o Duque, mas estávamos a segui-los. Por muito escuro que estivesse no pátio, a lua espreitava por detrás da torre da Giralda, e não estava escuro o suficiente para o meu projeto. Dentro da catedral, contudo (exceto onde brilhava o monumento da Semana Santa, um templo iluminado de branco e ouro), havia uma escuridão misteriosa. Nem as centenas de grandes velas de cera eram suficientes para iluminar os corredores naquela vasta floresta de pedra. Tropeçando, tateando para passar através de um véu de sombra pendente, milhares de homens e mulheres derivavam sem rumo de um lado para o outro, eles próprios negros como as sombras que combatiam, exceto aqui e ali algum soldado cujo uniforme despertava uma breve chama de vermelho e ouro, ou um irmão encapuzado que brilhava em púrpura sob um pilar iluminado.
Intencionalmente empurrámos as pessoas à nossa frente, para que, num espaço negro como um lago de tinta, o trio que seguíamos fosse separado. O ímpeto das pessoas por detrás foi tão repentino — tão bem gerido por nós — que apanhou o Duque desprevenido. Os três foram apanhados no remoinho, divididos, e antes que se pudessem reunir novamente, eu tinha o meu braço enlaçado no de Monica e arrastava-a para longe, com o mensageiro agarrado a mim de perto.
— Não tenha medo — disse eu. — Sou eu — Ramón. Tenho de falar consigo.
Ela olhou para mim, o seu rosto pálido baço como o de um espírito na escuridão.
— Que vergonha! — gaguejou ela, desconsolada. — Forçar-me desta maneira — você, que tem…
— Não fiz nada exceto amá-la demasiado bem; e você tem de me dar a oportunidade de a reconquistar. Deve-mo — disse eu, quase ferozmente; e ela calou-se.
— Monica! Onde estás? — ouvi a voz de Lady Vale-Avon chamar, e poderia tê-la agradecido por me dar a direção a evitar.
— Leve-nos para aquela capela vazia depressa — disse ao homem. Então ele, que teria sabido encontrar o caminho naquela floresta de pedra de olhos vendados, guiou-nos através do mar de gente e para um refúgio para além das ondas. Nem uma capela estava iluminada; mas à medida que os meus olhos se habituavam à penumbra, podia ver rostos do outro lado dos altos portões fechados de ferro trabalhado por onde passávamos.
— Tenho a chave desta. Prometerei às pessoas um lugar melhor se saírem — sussurrou o mensageiro, parando diante de um par destas portas fechadas e abrindo-as com uma chave grande.
Ouvi-o a informar especiosamente um grupo de sombras de que estariam demasiado longe da música para a ouvir bem. Ele tinha um amigo que abriria outra capela mais perto. Avidamente, dez ou vinte pessoas morderam o isco, saíram em bando e, no instante em que as costas lhes foram viradas, arrastei e carreguei Monica para dentro. Depois, antes que ela pudesse escapar, se tivesse querido tentar, os grandes portões de ferro foram fechados e trancados sobre nós.
— Eles estarão a procurá-la por todo o lado — disse eu. — Venha comigo para a parte de trás, onde está tão escuro que ninguém nos pode ver. Esta capela deve parecer estar vazia.
— Quero ser encontrada — respondeu a rapariga cruelmente. — Vou casar-me com o Duque.
— Se o ama a ele e não a mim, não levantarei um dedo para a manter — disse eu. — Na outra noite acreditei que era assim e decidi não a incomodar mais. Mas a Srta. O’Donnel disse…
— Srta. O’Donnel! — exclamou Monica. — Admiro-me que possa falar dela para mim.
A sua voz tremia de desprezo irado, contudo o meu coração saltou de alegria com as palavras que confirmavam as suspeitas de Pilar e as minhas esperanças.
— Ela é tão lealmente sua amiga como eu sou lealmente seu amante — assegurei-lhe. — Agora ouça. Há coisas que tem de ouvir; e se, depois de as ouvir, me pedir para a levar à sua mãe e a Carmona, obedecerei instantaneamente. — Então, sem lhe dar tempo para me interromper, comecei a falar da carta que tinha escrito em Manzanares, e como a enviei, e o que dizia. — Recebeu-a? — perguntei.
— Nenhuma carta dessas. Foi uma muito diferente — uma carta horrível. Oh, Ramón! Se fosse verdade; se você tivesse sido verdadeiro! Se pudesses ter continuado a amar-me! — Ela desfez-se em soluços e escondeu o rosto entre as mãos.
— Não se atreva a duvidar que o fiz, e que sempre o farei. Diga-me o que dizia a carta? — Puxei-lhe as mãos, talvez demasiado rudemente, e segurei-as firmemente nas minhas.
Ela tentou conter os soluços. — Poderia mostrar-lhe a carta se houvesse luz. Desde aquele dia que a trago comigo, para que pudesse olhá-la por vezes, e ter forças para o odiar se o meu coração falhasse.
— Minha querida — minha novamente — apaziguei-a. — Foi uma conspiração horrível. Se essa carta não estava cheia de amor e saudade por si, foi forjada; sem dúvida após a caligrafia daquela que eu realmente enviei.
— Quer dizer que a minha mãe… faria uma coisa dessas?
— Ela poderia tê-lo justificado dizendo a si própria que o fim santifica os meios.
— Eu sei — ela estava pronta a fazer quase tudo para me afastar de si — admitiu Monica, inclinando-se contra mim tão confiantemente que tudo o que eu tinha sofrido foi esquecido. — Não poderia ter acreditado nisto dela; mas — ela disse-me na noite anterior a Manzanares que em Toledo ouviu-o chamar à Pilar O’Donnel, “querida”. “O jovem Sr. O’Donnel parece muito afeiçoado à sua irmã”, disse a mãe, olhando diretamente para mim, embora parecesse falar inocentemente. “Ouvi-o chamá-la de ‘rapariga querida’.” Pode imaginar como me senti! Mas esperava que ela estivesse enganada, ou que o tivesse inventado para me fazer infeliz; por isso não me deixei ser muito infeliz, apenas um pouco angustiada. Porque, sabe, a Srta. O’Donnel é terrivelmente bonita e perfeitamente fascinante. A mãe disse, na noite em que estávamos em Manzanares, que ela era uma daquelas raparigas por quem a maioria dos homens se apaixona irresistivelmente; e — e eu amava-o tanto, que não pude evitar sentir ciúmes.
— Como se algum homem pudesse sequer ver a pobre pequena Pilar, quando você estava por perto! — exclamei, esquecendo a divergência de opinião de Dick.
— Oh, eu tinha fé em si, nessa altura. Mas na manhã seguinte aquela bonita Mariquita entregou-me uma carta, que eu tinha a certeza ser sua, enquanto a escondia por detrás de uma lata de água quente. Estava a pegá-la, quando a mãe viu e arrancou-a. Não pode imaginar as coisas que lhe disse, para a obrigar a devolvê-la. Estava tão furiosa, que, pela primeira vez na minha vida, não tive o menor medo, e teria tentado passar por ela a correr para ir ter consigo, quando ela se recusou a devolver a carta, mas eu não estava vestida. O meu quarto não tinha porta própria. Tinha de passar pelo quarto da mãe para sair; e antes que eu soubesse o que ela estava a fazer, ela bateu a porta entre nós, trancando-a do lado dela. Nem sequer tinha uma janela decente, apenas uma coisinha quadrada, gradeada, bem no alto da parede. Não podia gritar por ajuda, mesmo que não tivesse vergonha de fazer uma cena num hotel estranho; por isso, o que havia de fazer?
— Ela manteve-me lá, louca de raiva contra ela, durante quase uma hora depois de eu estar vestida e pronta para sair a correr quando tivesse a oportunidade; mas por fim ela destrancou a porta, com um ar muito grave. “Abri a sua carta”, disse ela, “e li-a, como era o meu dever e o meu direito. É diferente do que esperava, e decidi afinal que é melhor que a tenha.”
— Depois entregou-me um envelope rasgado, e reconheci-o como aquele que tínhamos amarrotado entre nós quando ela o arrancou. A sua caligrafia estava nele, e nunca duvidei que fosse a sua lá dentro, embora parecesse que você a tinha escrito à pressa, com uma caneta má. Nenhum nome estava assinado; mas a carta dizia que achava melhor dizer-me, sem esperar mais, que temia que ambos tivéssemos sido precipitados e cometido um erro nos nossos sentimentos. O nosso encontro fora romântico, e tínhamos sido levados pela nossa juventude e sangue quente. Agora você tinha tido tempo para ver que seria imprudente da minha parte desistir de um homem como o Duque de Carmona por um indigno o suficiente para se ter apaixonado por outra rapariga. Consequentemente, libertava-me de todas as obrigações, e dava por certo que você também estava livre. Depois despediu-se de mim, desejando-me um futuro feliz no caso de o seu carro e o do Duque seguirem por caminhos diferentes. Admira-se que eu tenha tentado odiá-lo, e que tenha dito “sim” logo na noite seguinte, quando o Duque me perguntou de novo se eu não mudaria de ideias e me casaria com ele?
Como resposta, agarrei-a contra o meu peito, e ficámos abraçados como se nunca nos pudéssemos separar.
— Tal promessa não é promessa nenhuma — disse eu finalmente. — Tenho-a, e não pretendo deixá-la ir, para que não a perca para sempre. Monica, confiará em si própria comigo e fugirá comigo esta noite?
— Sim — sussurrou ela. — Não me atrevo a voltar para eles. Mas o que faremos?
— Dir-lhe-ei o que tenho estado a pensar — disse eu. — O meu carro não está longe. O Coronel O’Donnel e Pilar, que fariam qualquer coisa por si e por mim, estão na catedral. Mesmo fora desta capela, o homem que nos trancou está à espera do meu sinal para abrir a porta. Com os O’Donnel e Dick Waring para a acompanharem, quer ir de carro comigo para Cádis, apanhar um navio para Gibraltar e casar-se comigo em solo inglês?
— E se não houver navio durante dias? — hesitou ela.
— Há um quase todos os dias; mas, na pior das hipóteses, posso alugar um barco de qualquer tipo.
— Uma vez em Gibraltar, você estaria fora de alcance se o Duque tentasse vingar-se — disse ela. — Sim, eu irei! Amo-o e não posso desistir de si outra vez. Oh, Ramón, nunca teria prometido casar-me com ele, se não tivesse desejado mostrar-lhe que — que eu não me importava, e que havia alguém que me queria muito, se você não quisesse.
— Tão típico de uma mulher! — exclamou, rindo — pois agora podia rir.
— Ele apenas beijou a minha mão — continuou ela — e eu odiei até isso.
— Contudo, está a usar o broche dele — fez-me dizer um lampejo de ciúme que regressava; — e uma mantilha, para lhe agradar.
— O broche é da mãe dele. A mantilha também. Ela, pelo menos, tem sido gentil; por isso deixei que ela os pusesse ambos em mim hoje, quando pediu.
— Gentil? Quando houver tempo dir-lhe-ei uma ou duas coisas. Mas agora não há tempo para nada, exceto para a levar embora.
— Ouça! O Miserere começou — disse ela. — Foi há muito tempo? Ouvi-o apenas agora. Conseguiremos sair antes que termine?
— Claro que conseguimos — embora não tão facilmente, talvez, como se a multidão estivesse a mover-se connosco. Contudo, não nos podemos dar ao luxo de esperar.
— Que música maravilhosa! — sussurrou Monica. — Quem me dera ter coragem de sentir que nos está a abençoar.
— Sim, sinta-o assim — disse eu, e involuntariamente calei-me para ouvir por um instante a torrente melodiosa que varria de corredor em corredor em ondas douradas. Da onda de música de órgão e vozes masculinas, notas de soprano juvenil espargiam-se alto, lançando os seus cristais brilhantes para cima, para cima, até caírem, despedaçados, do teto abobadado de pedra.
De cada coluna fracamente vista disparava uma daquelas lírios brancos de luz, de caule fino, como os que tinham florescido no jardim de Nossa Senhora, à medida que os pasos se moviam florescendo pelas ruas. Parecia que poderiam ter sido colhidos e replantados aqui, para iluminar a escuridão; e à medida que a música subia e descia, as suas ondas faziam as chamas dos lírios oscilar.
Espreitei para fora e vi o meu homem a pairar perto. Na penumbra, ele não apanhou o sinal que lhe fiz com a mão, mas quando agitei um lenço entre as grades, ele veio rapidamente. Enquanto ele destrancava as portas, deslizei o suborno prometido para a sua palma; e tendo olhado em redor para garantir, tanto quanto possível, que não estávamos a ser vigiados, chamei Monica.
— Leve-nos pelo caminho mais curto — disse eu; e o homem começou a apressar-nos oficiosamente através da multidão.
Monica agarrava-se a mim com força, e eu podia sentir os tremores que percorriam o seu corpo. O meu coração também batia com força; pois é quando o navio está mais perto de casa, após uma viagem tempestuosa, que o capitão se lembra de que tem nervos. Parecia demasiado maravilhoso para ser verdade que a rapariga fosse minha finalmente, e ainda assim — o que poderia separar-nos, agora que a segurava perto do meu lado, e ela estava pronta a ir comigo, para fora do mundo dela para o meu?
— Por aqui, por aqui, señorito — avisou-me o nosso guia, puxando-me pelo braço enquanto eu seguia à frente, confuso por mil sombras em movimento. Segui, roçando bruscamente contra um homem alto com capucha cónica e manto azul. Ele virou-se, com o rosto mascarado perto do meu, tão perto que mesmo no crepúsculo apanhei um lampejo de olhos brilhantes. Então, dando-me um empurrão repentino, gritou: — Socorro — assassínio! Um anarquista — um livre-pensador! Ao socorro!
Era a voz de Carmona, e soube instantaneamente que ele devia ter pedido emprestado aquele traje a algum amigo na catedral — talvez um membro da cofradía à qual ele próprio pertencia — para que pudesse procurar por mim e por Monica, sem ser visto por nós.
Empurrando a rapariga para trás de mim, mantendo-a contudo perto, lancei-o para longe, mas ele saltou de novo para mim, e desta vez algo brilhou na sua mão direita. Lutei com ele por isso e puxei um fino comprimento de aço através dos seus dedos fechados, de modo que a lâmina afiada da adaga devia tê-lo cortado até ao osso. Ele deu um grito e relaxou o aperto; mas, embora estivesse incapacitado por um instante, uma dúzia de homens na multidão, que rodopiava à nossa volta agora, agarrou-me e segurou-me firmemente. Monica foi arrancada de mim; a adaga tinha caído ao chão (mas não antes de eu ter visto que era de fabrico de Toledo); a figura na capucha azul foi varrida da minha vista, e eu lutava como um louco numa camisa de forças pela liberdade.
XXXII
NA ESTRADA PARA CÁDIS
Foi um rato que roeu um buraco na rede que enredava o leão.
Ora, eu não sou um leão em importância, nem o mensageiro do Coronel O’Donnel tinha tão pouca importância como um rato; contudo, ele era a última criatura de quem eu esperaria socorro num momento de tensão. Não obstante, foi a ele que devia o meu salvamento.
— Um erro, um erro — chilreava ele, saltando de um lado para o outro, como um pássaro, mesmo fora do círculo de homens em luta. — Sou um sacristão aqui; este cavalheiro estava comigo. Ele não fez nada. É uma pessoa muito respeitável e duas vezes rica, um turista que eu guio. Ele é inocente — não é anarquista, não é livre-pensador. Aquele outro — aquele pretendido irmão — pregou uma partida. Vejam, ele fugiu para escapar às consequências. Não há nada contra este nobre señor; tem a palavra de um sacristão.
Porque estava desconcertantemente escuro, e podiam ter apanhado o homem errado; porque, também, o sacristão provavelmente tinha razão, e tinha sido uma partida pregada por uma pessoa que tinha agora desaparecido, os doze ou quinze homens que me rodeavam recuaram envergonhados, contentes, pensavam agora, por se dissiparem antes que pudessem ser identificados e censurados por perturbarem a paz pública e estragarem a música que o seu Rei escutava.
Eu estava livre, mas não queria deixar a catedral ainda, pois a minha esperança era encontrar Monica novamente. Vagueei em todas as direções, enquanto o sacristão ia buscar Dick e os O’Donnel para se encontrarem comigo no Pátio das Laranjeiras.
O prazer de Pilar na primeira parte da minha história foi frustrado pela continuação. É claro, disse ela, que tudo deve terminar bem, já que Monica e eu finalmente nos entendemos. Mas, por enquanto, tudo parecia difícil. O Duque tinha agora a certeza de que eu era Casa Triana, e não Cristóbal O’Donnel. Ele quase certamente criaria todos os problemas que pudesse, e um homem da sua influência poderia criar um bom bocado. Como a sua tentativa de me cravar um punhal — a título de solução rápida — tinha sido coberta pela capucha de uma cofradía, eu não podia vingar-me apresentando uma contra-acusação. Eu poderia dizer que reconhecera a sua voz, e que pensava ter reconhecido o punhal comprado em Toledo; mas não podia provar nada, e o Duque levaria a melhor.
Ainda assim, como o Querubim observou de forma consoladora, ele não poderia fazer muito pior do que forçar-me a sair de Espanha. Nem eu, nem ninguém, tinha dito expressamente que eu era Cristóbal O’Donnel. Se as pessoas tinham tomado a minha identidade como garantida devido a algumas insinuações indiretas, e porque, por brincadeira, eu tinha pedido emprestado o uniforme de um amigo durante um dia ou dois, nada de muito grave poderia ser extraído disso, afinal; e como Cristóbal estava realmente de licença, não precisava de estar envolvido. Ele era um bom oficial, cujos serviços eram valorizados, e eu não devia preocupar-me que lhe acontecesse algum mal. Só precisava de pensar em Monica e em mim mesmo. Tinha formado alguma ideia do que fazer a seguir?
— Tenho de tirar a Monica da casa de Carmona — disse eu.
— Terás de ficar à espreita e arrebatá-la debaixo do nariz deles da próxima vez que aparecerem — sugeriu Dick; — a menos que...
— A menos que?
— Carmona mantenha a dela fechada dentro de casa até ter arranjado maneira de fazer com que o teu seja educadamente deportado.
— Não podem livrar-se de mim numa hora.
— Podem amanhã.
— Receio que possam — suspirou o Querubim —, e que, embora eu vá fazer o meu melhor, possa estar impotente para te ajudar.
— E se se soubesse que ele salvou o Rei ontem? — perguntou Pilar ao seu pai.
— O Rei vai embora amanhã. Sabes, ele parte para Inglaterra dentro de poucos dias. Além disso, o incidente de hoje será abafado. O Rei saberá, é claro, e alguns outros; mas será mantido fora dos jornais — de qualquer forma, até que ponham as mãos em ambos os homens envolvidos.
— Ainda tenho esta noite — disse eu —, e ainda não são onze horas. Tive esperança de que, na confusão, a Monica tivesse escapado à mãe e a Carmona, e que, se esperasse aqui, pudesse encontrá-la de novo. Pensei que ela pudesse tentar voltar à capela onde conversámos, confiando que eu a procuraria lá. Mas ela não veio, e procurei em todo o lado em vão antes de tentar observar a multidão a passar pelo Pátio das Laranjeiras. Agora, tenho a certeza de que Carmona ou Lady Vale-Avon devem tê-la apanhado enquanto eu estava rodeado, e forçado a ir-se embora. Sem dúvida que já estão em casa há muito tempo. Porque não hei de apelar ao cônsul inglês e dizer que o Duque de Carmona está a deter uma rapariga inglesa em sua casa contra a sua vontade?
— Sem utilidade — disse o Querubim. — Ela é menor de idade e está com a mãe, que está de visita à Duquesa.
— Então irei à porta de Carmona e farei tal barulho que eles serão obrigados a deixar-me entrar.
— Acabarias numa cela da polícia. A casa de um homem é o seu castelo, especialmente quando é um palácio e ele é um Duque.
Fiquei calado. Sabia que o Querubim tinha razão; mas parecia monstruoso que, neste século vinte, tal tirania separasse uma rapariga do seu amante.
Quando pensei por um momento, disse: — De qualquer forma, irei à casa e tentarei subornar um criado. Uma vez lá dentro, não sairia sem a Monica. Fiz duas coisas satisfatórias hoje através de suborno e corrupção, e não vejo porque não possa conseguir pela terceira vez.
— Os criados do Duque estão ao serviço da família há anos, e os seus pais e avôs antes deles. Nenhum dinheiro os subornaria para enganar o seu senhor e senhora — disse o Querubim.
— Não teria pensado que nem o Duque nem a sua mãe fossem capazes de inspirar tal devoção.
— Não é devoção — é medo. A um criado infiel naquela casa... bem, quase tudo poderia acontecer.
— Tens algum conselho para me dar, então? — perguntei, em desespero.
O Querubim abanou a cabeça. — O prudente seria ir embora esta noite e confiar na lealdade de Lady Monica. Ela não pode ser forçada a casar com o Duque, sabes; e se ela romper o noivado, ele terá de a deixar em paz, por uma questão de dignidade.
— Isso poderia ser prudente; mas, naturalmente, não o farei.
— Naturalmente que não farás — respondeu o Querubim, como se fosse evidente.
— Muito bem, então; a situação é desesperante, e devem ser tentados remédios desesperados; as coisas não podem estar piores do que estão. Ficarei por perto da casa de Carmona de manhã cedo, e quando a primeira pessoa sair, entrarei. Se eu não sair, saberás o que aconteceu comigo; e não suponho que, nestes dias, até um Duque possa matar um homem sem ter problemas?
— Ele apenas faria com que te prendessem por invasão de domicílio — disse o Querubim.
— Bem, eu teria visto a Monica primeiro, e talvez a tivesse feito passar para o lado certo da porta.
— Vamos tentar o negócio juntos — disse Dick. — Seria mais sociável.
— Está bem, obrigado — disse eu. — Então algo está decidido; e estes melhores amigos podem ir para casa dormir.
— Dormir! — repetiu Pilar com desprezo. — Oh, se eu fosse um homem, e pudesse fazer algo para punir o Duque!
— Gostaria que pudesses soltar o teu touro contra ele — disse Dick. — Só que, agora que penso nisso, ainda é o touro dele.
Por mais que tentássemos, era impossível persuadir o Coronel O’Donnel ou Pilar a regressarem calmamente para a cama, se não para dormir. Não, eles não fariam nada desse género. Além disso, ninguém com bom senso num raio de dez milhas de Sevilha ficaria na cama naquela noite. As procissões continuariam até de manhã cedo. Muitas pessoas observá-las-iam, ou passariam as horas até à missa matinal em oração na catedral, que estaria aberta toda a noite. Porque não haveria a família O’Donnel de fazer como os outros faziam?
Não houve resposta a isto; e ficou finalmente combinado que, se eles quisessem descansar, seria no hotel na Plaza de San Fernando, onde tínhamos jantado. Esse seria o ponto de encontro; e o Querubim contrataria o sacristão que conhecíamos para vigiar a casa do Duque de manhã, trazendo notícias do nosso destino ao hotel — se nós mesmos não as levássemos.
Nunca — se eu viver para além dos setenta anos atribuídos — esquecerei aquela estranha noite de Quinta-Feira Santa em Sevilha.
Dick e eu vagueámos pelas ruas, e na Plaza de la Constitución, onde candeeiros elétricos e o luar se misturavam sombriamente, enquanto infindáveis cofradías passavam.
Um céu de violeta era como um véu de gaze sedosa, e à medida que a lua deslizava pelas encostas do céu, a vasta cúpula empalidecia. Uma a uma, as estrelas apagavam-se como fósforos gastos; o amanhecer estava a caminho. As luzes elétricas brilhavam e morriam, deixando um crepúsculo perolado mais misterioso do que qualquer crepúsculo que caia com a noite.
As multidões tinham diminuído; mas irmandades silenciosas moviam-se através de ruas onde não havia outro som senão o farfalhar dos seus pés, o bater dos bastões de prata dos seus líderes. Tão ténue era o crepúsculo do amanhecer, que eles eram bandos de sombras a caminho de volta à noite, as luzes das suas velas estrelas perdidas. De vez em quando, o tilintar de um bastão trazia a alguma janela meio fechada um rosto, ao qual se juntavam outros rostos, espreitando as sombrias procissões de homens e mulheres penitentes vestidas de negro.
Fora da grande porta leste da catedral parava um paso, como um enorme carro dourado. Cristo estava pregado a uma cruz ainda não levantada no seu lugar. Um soldado romano, de altura exagerada e feições sardónicas, lia o pergaminho com a inscrição zombeteira prestes a ser pregada acima da cabeça coroada de espinhos. A sua boca maligna estava curvada num sorriso satírico. Dois centuriões em armadura montavam os seus cavalos impacientes e davam instruções para levantar a cruz. O efeito era surpreendente; pois neste início pálido de luz, e na atmosfera de exaltação vibrante que banhava a cidade, era difícil não acreditar que as terríveis figuras esculpidas de madeira tinham vida, e que, com os olhos da carne, se contemplava a grande tragédia do mundo.
De alguma forma, a impressão de horror era apenas aprofundada pelo facto de os carregadores terem saído debaixo das cortinas do paso, para tirar as grandes almofadas que usavam nas cabeças, para beber água e fumar cigarros com os penitentes que tinham enrolado as máscaras dos seus rostos pálidos e húmidos. Poderiam ter sido camaradas dos soldados romanos, no seu esquecimento daquela forma torturada na cruz.
Ainda não eram cinco horas quando Dick e eu mergulhámos na penumbra fresca da catedral, passando pelo local onde Carmona me tinha golpeado, e pela capela onde eu tinha levado Monica. As pedras estavam escorregadias como o chão de um salão de baile, com cera caída de inúmeras velas, e o ar estava pesado com o fumo de incenso estagnado.
O holofote do amanhecer mal conseguia penetrar nas cortinas pretas que, durante toda a Semana Santa, tinham coberto a catedral; por isso, um raio solitário, como uma barra de ouro, inclinava-se através de uma janela soberba.
As ametistas, esmeraldas e rubis do incomparável vidro pintado transformavam a barra amarela num arco-íris que corria ao longo da majestosa nave e incidia em cheio sobre um altar dourado. Depois, lentamente, a banda de joias moveu-se das talhas douradas, as chamas morrendo à medida que passava. Viajando, ainda como um holofote, encontrou as formas prostradas de homens adormecidos exaustos pelas suas vigílias, arrancou da escuridão que envolvia mulheres ajoelhadas vestidas de preto e, finalmente, descansou sobre o próprio monumento da Semana Santa, empalideceu as suas miríades de velas e fez poças de ouro líquido nas vestes dos padres que tinham estado ajoelhados toda a noite em adoração à Hóstia.
— Diz-me — disse Dick, a sussurrar — eu não me derreto por hábito; mas não parece a luz da salvação a vir salvar almas perdidas?
Nem um hotel em Sevilha fechara as suas portas naquela noite de Quinta-Feira Santa; nem um concierge tinha feito mais do que acenar e acordar de um sonho interrompido, pois tinha havido um vai-e-vem agitado durante todas as horas escuras.
Às seis horas, Dick e eu estávamos na fonda, perguntando pelo Coronel O’Donnel e a sua filha. Eles tinham chegado às duas, e estavam agora a dormir, ao que parecia; mas tinham deixado um bilhete para os señores. Nesse bilhete, fomos assegurados de que o amigável sacristão da aventura da noite passada estaria à espreita nas redondezas da casa de Carmona logo pelas seis horas, e caso precisássemos dele, saberíamos onde o encontrar.
Alugámos quartos, tomámos banho, vestimo-nos novamente e, depois de café quente e pãezinhos, decidimos que estava na hora de ir para a guarda. De certo, era absurdamente cedo; mas a esta hora a casa do Duque já poderia estar agitada, e não devíamos arriscar deixar a Monica ser levada antes de termos tido a oportunidade de praticar a gentil arte de invasão de domicílio.
Os relógios de Sevilha marcavam espasmodicamente a hora de sete quando entrámos na ruela estreita e sombria da Calle de las Dueñas. Tão profundamente adormecidas estavam as janelas fechadas que a nossa missão parecia um erro de tolo; mas quando avistámos a porta fechada do Duque, o mensageiro do Querubim surgiu das sombras.
Por fazer a barba e abatido, os seus olhos brilhavam como contas pretas à luz do dia; e ele cumprimentou-nos entusiasmado. — Señores — começou ele —, eu ia procurar-vos ao hotel. Uma coisa aconteceu. O Señor Coronel disse-me que eu devia vigiar a casa de Sua Graça o Duque, e avisar-vos quando viessem se alguém tinha entrado ou saído. Quem pensaria em pessoas a iniciar uma viagem antes de o dia acordar? Mas assim é. O Duque, que vi em outros anos, foi-se embora num automóvel com a sua honrada mãe e duas outras senhoras.
— Tens a certeza de que era ele? — perguntei, completamente surpreendido.
— Certo, meu señorito. O carro era um carro cinzento grande. E — o seu rosto tornou-se astuto como o de um esquilo — posso dizer-vos para onde vai, se quiserem saber.
— Quero saber tudo o que puderes contar — disse eu.
— Bem, o carro cinzento chegou um pouco antes das seis e meia, suponho eu. Nele estava apenas o jovem que conduz, vestido de couro. "O que vai acontecer?", perguntei a mim mesmo. Pareceu melhor esperar para ver do que correr para o hotel a dizer: "há um automóvel à porta para o Duque", e talvez encontrá-lo ido, ninguém sabendo para onde, quando eu voltasse. Mas eu não durmo de pé. Há sempre ideias a correr na minha cabeça. Fingi estar a passear e a parar para dar uma vista de olhos a uma máquina tão fina. Talvez tivesse fósforos no bolso, talvez não; de qualquer forma, pedi ao jovem de couro que me desse lume para o meu cigarro. Ele deu, e foi natural começar a conversar. "Começa cedo", disse eu. Ele acenou. "Vai longe?" "Para Cádis hoje, por Jerez." É tudo, honrados señores; mas conto-o pelo que vale. Poucos minutos depois, os grandes personagens saíram, e o automóvel disparou.
— Puseram bagagem? — perguntei.
— Tudo o que o automóvel podia conter.
— Por Júpiter! — exclamou Dick. — Carmona deitou areia nos nossos olhos desta vez. Quem teria suposto que ele viraria as costas e fugiria como um cobarde no meio do espetáculo da Semana Santa, com o Rei ainda na cidade?
— Fui um tolo por não esperar o inesperado — disse eu. — Se alguém exceto o homem do Coronel O’Donnel me tivesse dito, eu teria ficado em dúvida se aceitaria a história ou não. Mas O’Donnel chamou-lhe um tipo de confiança; e ele serviu-me bem ontem à noite. Se esperarmos para verificar a sua história, quando descobrirmos que é verdade, o carro cinzento terá ganho uma vantagem demasiado grande. Não gosto da fuga de Carmona. Parece que há algo a acontecer.
— Ele mostrou ontem à noite que estava desesperado — disse Dick. — Acho que é melhor pôr-nos a caminho antes que cresça muita erva.
— Vocês são os melhores amigos — disse eu. E pagando bem ao sacristão pelos seus serviços, apressámo-nos de volta ao hotel para encontrar Ropes e preparar o carro.
Ainda era muito cedo, e o Querubim e Pilar não tinham tido muitas horas de sono de beleza; mas não podíamos partir para uma ausência indefinida sem nos despedirmos deles; e estávamos a caminho de bater à porta do Coronel O’Donnel quando Pilar apareceu da sala contígua.
Um momento, e ela entendeu tudo. — Vão segui-los! — exclamou ela, sem esperar para ouvir os meus planos.
— E eu irei com ele — disse Dick, olhando melancolicamente para ela; pois ele ainda não tinha tido a sua resposta, e quem poderia dizer quando a teria agora, ou o que seria quando chegasse?
— Naturalmente. Eu sabia que iriam — respondeu Pilar. E uma luz saltou nos seus olhos escuros. Se não significava nada mais caloroso, significava aprovação. — Vão querer ir imediatamente. Oh, lamento que percam a feira. Não sabem que terra de fadas é Sevilha, com milhas de ruas e parques cobertos com arcos de luzes coloridas, como joias; e o papá tem uma tenda no lugar mais alegre, onde ficamos todo o dia, e vemos os nossos amigos, e é tão divertido visitar as barracas e as atrações! Mas talvez na próxima primavera voltem para a feria com a vossa noiva, Don Ramón; e quanto a si, Señor Waring...
— Quanto a mim? — repetiu Dick, ansiosamente. — Não devo voltar antes disso?
— Deve voltar quando quiser, e... o papá ficará contente por vê-lo — respondeu ela, exatamente como qualquer pequena señorita convencional poderia ter respondido. Mas pelo menos ela teve a gentileza de corar; e eu ter-me-ia afastado para dar a Dick uma última oportunidade se, naquele momento, o Querubim não tivesse saído do seu quarto.
Instantaneamente, Pilar lançou-se em explicações, e entre nós os três, ele rapidamente teve a história dos eventos.
Ninguém na terra parece menos prático do que o Querubim de olhos sonhadores e voz suave; no entanto, foi ele quem pensou em detalhes práticos que tínhamos esquecido. Foi ele quem nos lembrou que não seria prudente levar Ropes para fora de Sevilha. Como o homem que disse ter descoberto a bomba, o seu testemunho seria necessário, e se ele desaparecesse, pareceria misterioso. A sua real ligação com o Marqués de Casa Triana poderia ser descoberta pela polícia; e por causa daquele miserável caso em Barcelona, cujas consequências surgiam continuamente, alguma história horrível poderia ser inventada e acreditada.
Dick e eu decidimos sem hesitação seguir o conselho do Querubim e deixar Ropes para trás. Ele estava ocupado a preparar o carro, e sem dúvida ficaria desapontado ao saber que ia ser temporariamente abandonado; mas ele veria a sabedoria de tal rumo, e poder-se-ia confiar nele para guardar os meus interesses. Quanto a Dick, ele poderia dar as costas aos procedimentos em Sevilha sem perigo, pois ele apresentava-se apenas como o empregador de um homem que tinha encontrado a bomba; além disso, como sugeri sem olhar para Pilar, ele poderia voltar em poucos dias caso fosse necessário para prestar depoimento.
Assim ficou decidido; às oito horas tínhamos dito adeus a Pilarcita e ao Querubim, suavizando a despedida com um esperançoso "au revoir"; e com Ropes a olhar desconsolado para nós, saímos disparados da Plaza de San Fernando.
Eu conduzia, com Dick ao meu lado, pois já não havia necessidade de subterfúgios. Carmona conhecia-me pelo que eu era, e eu podia ajudar Monica mais desafiando-o do que jogando o velho jogo de espera, do qual estava cansado.
Parecia estranho estar a correr pelo campo novamente no carro, depois daqueles dias febris em Sevilha. Com o volante na minha mão, o zumbido constante do motor parecia dizer: "Tu vais conseguir; tu vais conseguir; — eu vou ajudar-te a consegui-lo".
O ar era feito de perfume — flores de laranjeira e acácias; e a vasta planície florida onde Sevilha é rainha deu-nos uma estrada tolerável, na qual o carro corria levemente. Picos de neve altaneiros de formas fantásticas muravam a arena verde de prados ondulantes, e o dia era como um dia de junho.
Exceto pelo Lecomte cinzento, mal tínhamos visto um motor desde que deixámos Biarritz, exceto em Madrid; mas agora, quando tentei decifrar os hieróglifos da estrada, o pó mostrava mais do que um rasto de pneus. Carros tinham vindo a Sevilha de Madrid para a Semana Santa, e tinham evidentemente corrido por este caminho para um passeio mais do que uma vez. Como eu não tinha o talento de detetive de Ropes, fui incapaz de distinguir as marcas de pneus do Lecomte das outras.
À vista da notável torre da igreja em Utrera — antigo lar de fora da lei — encontrámos uma linha branca poeirenta que divergia para Écija. Parando para questionar um calceteiro, lembrei-me da história do Coronel O’Donnel sobre os Sete Homens de Écija, e o curioso vínculo entre eles e os Duques de Carmona. Mas o que me trouxe o conto à mente — a menos que fosse o nome de Écija no mapa rodoviário e no sinal, ou o facto de estarmos agora no verdadeiro coração da terra dos bandoleiros — eu não teria sabido dizer.
Sim, disse o calceteiro, ele vira um automóvel passar — um grande, não fazia muito tempo, seguindo como se fosse para Jerez. Era cinzento? Ele não teria certeza, mas, de qualquer modo, a coisa estava tão cinzenta de poeira que, se houvesse outra cor por baixo, ninguém a poderia ter visto. Damas no carro? Bem, ele não estava certo, pois passara como uma bala de canhão numa nuvem de fumo; mas havia várias pessoas dentro, e era o único motor que passara por ele hoje. Vários carros tinham aparecido à distância ontem, mas tinham voltado atrás no lado de Utrera, em direção a Sevilha.
Um automóvel, um grande, aparentemente cinzento e com várias pessoas dentro, passara a um ritmo tremendo pouco antes. Isso soava como se o carro que perseguíamos não pudesse estar longe. Os nossos olhos procuraram a poeira reveladora e encontraram o rasto liso e reto de um pneu no meio dos sulcos vacilantes das carroças. Tínhamos apenas de seguir aquele rasto reto, então, eu disse, para alcançar Carmona e interferir nos seus novos planos.
Agora corríamos através de uma vasta região de sapal, onde dentro de cercados pastavam centenas de ferozes touros negros, destinados mais cedo ou mais tarde a morrer na arena. O campo tornou-se desolado e curiosamente triste. Não encontrámos mais carroças de camponeses ou burros carregados à medida que a estrada começava a ondular entre os contrafortes de distantes cordilheiras.
“Que lugar ideal para um bando dos bandidos do Coronel O’Donnel, eh?”, disse Dick; depois prendeu a respiração com uma nitidez que cortou a frase a meio, enquanto girávamos em torno de um montículo numa curva da estrada.
XXXIII
OS SETE HOMENS DE ÉCIJA
Bem à nossa frente estava parado um grande automóvel, as suas rodas dianteiras montadas sobre uma barreira de pedras toscas construída através da estrada. Enrolado na poeira jazia um motorista vestido de couro, inerte na inconsciência ou na morte; e, de costas para o carro, dois jovens mantinham-se bravamente a defender-se contra sete.
Tão subitamente irrompemos na cena, e tão furiosamente tive de pisar o travão, que vi apenas um quadro selvagem de rostos determinados, pálidos sobre lâminas cintilantes, rostos ferozes sob boinas vermelhas de camponês e carabinas usadas como clavas. Depois, Dick e eu estávamos fora do Gloria; e em vez de dois, éramos quatro contra sete.
Onde estavam os revólveres que compráramos por conselho de Don Cipriano em Madrid, para precisamente uma emergência como esta? Nas nossas malas no Cortijo de Santa Rufina, esquecidos desde o momento da compra até este momento de necessidade. Mas, como que por um acordo, cada um agarrou uma pedra irregular que tinha rebolado da barricada e, antes que tivéssemos tido tempo para dois pensamentos consecutivos, tínhamos-nos juntado aos estranhos, e os quatro lutávamos como demónios.
Curiosamente, os sete gorros vermelhos não dispararam as suas carabinas e tinham aparentemente dirigido todos os seus esforços para desarmar ou atordoar os automobilistas. Mas, à nossa vista, as suas táticas mudaram. Surpreendidos a princípio, o seu espanto foi consumido pela raiva. Quatro dos sete voltaram-se para nós e sacaram de facas, mas, rápido como a luz, arranquei uma delas de uma mão morena, dando ao seu dono um golpe esmagador entre os olhos com a minha pedra.
Ele caiu como um boi, e eu estava pronto para outro; mas a lâmina de um terceiro teria deslizado entre as minhas costelas se um dos sete não tivesse gritado agudamente: “Parem! Um carro vermelho — um carro vermelho. Estes são os homens que queremos.”
“Incapacitem-nos”, gritou outra voz; mas era mais fácil dizer do que fazer. A pausa de um segundo que se seguiu ao grito de aviso salvou a minha pele. A faca do salteador voou; e ele levou um golpe lateral na têmpora que o fez girar.
Éramos agora quatro contra cinco; mas já o braço direito de outro gorro vermelho vertia carmesim pela lâmina de uma bengala-espada que brilhava como um relâmpago azul, e outro trazia uma mancha escura na camisa — uma mancha que se espalhava e mudava de forma.
Não havia tempo para olhar para rostos. Mal vi as feições de amigo ou inimigo, e não poderia ter jurado a identidade de um só homem se a minha vida dependesse disso. Mas eu sabia que dois, ao lado dos quais lutávamos, eram bravos acima do comum, que valia a pena lutar por eles e com eles. Estávamos os quatro ombro a ombro agora, as costas contra o carro, embora como tivéssemos chegado a essa posição eu não saberia dizer.
Outro gorro vermelho tinha caído sobre um joelho, praguejando, e havia uma nova mancha de carmesim numa camisa manchada de escuro. Nós, os quatro, tínhamos a vantagem agora, pois não tínhamos sofrido mal maior do que algumas nódoas negras e uma ou outra dor de cabeça, quando de repente houve um uivo do sujeito caído por último: “El guardia civile!”
Era verdade. À distância, cavalgavam dois homens, vindo em nossa direção a partir de Jerez. Ainda longe, os seus uniformes brancos, pretos e vermelhos apanhavam o sol; e, adivinhando pelo grupo de formas que oscilavam em torno de um automóvel que algo estava errado, a parelha esporeou os seus cavalos para um galope.
“Está demasiado quente para nós!”, arquejou o salteador que tomei pelo líder. Ele rosnou uma ordem; e, apoiando dois dos seus camaradas caídos que se conseguiam ajudar a si mesmos, a parelha ilesa fugiu em direção a um pequeno bosque onde vi agora cavalos atados. Fomos atrás deles; mas eles rapidamente deixaram os seus amigos meio incapacitados por conta própria, e carregaram as suas carabinas — tão recentemente clavas — com uma rapidez quase inacreditável.
Um instante depois, dois canos pretos cobriram-nos; e a maré da batalha poderia, afinal, ter-se voltado de forma desastrosa, se o silvo agudo de uma bala não tivesse avisado o inimigo de que não havia tempo a perder com represálias.
Um dos guardas civis tinha disparado de longe, mas com pontaria precisa, como um grito de dor anunciou. Um homem já ferido recebeu outra lembrança do encontro; e, dos sete, apenas quatro conseguiram montar nos seus selins. Um coxeava na retaguarda, mas perdera a sua carabina; um sentava-se onde os seus camaradas o tinham atirado na fuga, e o último dos sete — atordoado pela minha pedra — jazia respirando estertorosamente na estrada.
“Atrás deles — atrás deles!”, gritou agora um dos jovens que tinha lutado tão brilhantemente para os guardas civis. “Não os deixem escapar.”
Pela primeira vez olhei para ele com olhos de ver. Então, mal consegui sufocar uma exclamação. Era o Rei.
Ele retribuiu o meu olhar, sorrindo aquele sorriso corajoso e encantador que tem magia para transformar um inimigo num servo leal.
Eu tinha tirado o meu boné agora, e o mesmo fizera Dick, que usava o ar jovial que eu o vira usar em mais do que uma batalha.
“Tenho de agradecer aos dois”, disse o Rei. “E — não pela primeira vez. Os nossos carros, assim como nós próprios, já se encontraram antes. Não foi... perto de Biarritz?”
Senti o sangue subir até às raízes do meu cabelo. “Vossa Majestade tem a memória de um Rei para rostos”, balbuciei.
“Há rostos que não se esquecem”, disse ele. “Mas falaremos disso daqui a pouco. Agora temos trabalho aqui.”
O companheiro do Rei já estava de joelhos ao lado do motorista, vertendo aguardente de um frasco na boca entreaberta do homem. Quanto ao sujeito que eu tinha atingido, tinha a certeza de que ele recuperaria em breve, sem grande dano; e sugeri que Dick e eu encontrássemos uma corda no carro, que serviria para o prender a ele e aos outros dois meio incapacitados. Mas o Rei não nos deixou trabalhar sozinhos. Ele fez tanto quanto nós, e mais, antes de sermos acompanhados pelo jovem oficial que era seu amigo.
Desencorajados e fracos pela perda de sangue, bem como pela perda das suas carabinas e dos seus camaradas, os salteadores feridos não ofereceram mais luta. Mas estavam silenciosos, salvo por um ou outro juramento murmurado, e decidi que o verdadeiro segredo do trabalho desta manhã nunca lhes seria arrancado.
Pois havia, claro, um segredo. O Rei, que não tinha a pista que eu detinha, viu isso e perguntou-se por que razão os salteadores não tinham querido disparar contra nós logo de início. Claramente, o seu plano tinha sido fazer prisioneiros.
A ideia óbvia era que teriam levado os seus prisioneiros para algum ninho de salteadores nas montanhas, na esperança de obter um resgate rico. Mas tinham, evidentemente, esperado um automóvel, ou não teriam erguido uma barricada, logo após uma curva apertada num pedaço de estrada particularmente solitário.
Teriam estado à espera do Rei? Isto parecia impossível, uma vez que ele não tinha dito a ninguém que ia sair, e a expedição tinha sido feita por impulso, na companhia de apenas um companheiro além do motorista. Ele tencionava dar uma volta e descobrir o estado das estradas até onde fosse praticável no caminho para Jerez, antes de regressar para a procissão da tarde. E naquela noite ele tinha de regressar a Madrid. Não, não era o Rei que os sete homens tinham preparado.
Quem, então, deveria ter sido a sua presa?
Eu acreditava que poderia ter respondido a esta pergunta, mas mantive-me em silêncio; e não havia razão para que o Rei adivinhasse que eu tinha uma suspeita.
“De qualquer modo”, disse ele, “temos a si e ao seu amigo a agradecer por o caso não ter sido mais grave. Espero que tivéssemos sido capazes de dar boa conta de nós próprios; mas sete contra dois são probabilidades longas. E parece haver um destino nisto, que tivessem vindo ter comigo no momento certo hoje, tal como em Biarritz. Gostaria de saber os vossos nomes.”
Eu tinha receado isto. Tolo, talvez, sentia que não suportaria ver a luz cordial nos seus olhos desvanecer-se para uma frieza orgulhosa, como deveria acontecer quando soubesse que eu era filho do homem que tentara colocar outro no seu trono. Além disso, que eu deveria num tal momento anunciar-me como um Casa Triana pareceria um pedido de perdão como recompensa pelo que tinha feito. A confissão prendeu-se-me na garganta; e enquanto eu hesitava, Dick falou.
“O meu amigo não queria que soubesse, senhor”, disse ele, atropelando-se tão depressa que eu não o consegui parar; “mas esta não é a segunda vez que ele calha estar por perto quando havia uma pequena coisa a fazer pela Vossa Majestade — é a terceira. Ontem foi ele quem arrancou aquela bomba do homem debaixo do paso, agarrou o outro sujeito e enfiou a bomba num jarro de água partido, embora tenha dado o crédito ao motorista — que, aliás, é o ‘chauffeur’ deste carro. O meu amigo aqui está a viajar, como se pode dizer, incognito por razões privadas importantes, que ele quererá que saiba um dia, senhor, se não agora; e é por isso que, quando Ropes, o motorista, apareceu por ali, ele lhe deu de presente todo o louvor.”
O Rei corou, olhando-me diretamente nos olhos com uma expressão tão nobre e ao mesmo tempo tão gentil que, se tivéssemos vivido há um século ou dois, quando os homens não tinham vergonha de mostrar os seus verdadeiros sentimentos, eu ter-me-ia atirado aos seus pés.
“Agradeço-vos de novo”, disse ele, “por tudo. Fico contente por saber que são espanhóis, mesmo que não saiba mais nada. Mas hei de não saber mais nada?”
“Perdoar-me-á Vossa Majestade”, perguntei, “se pedir para permanecer sem nome por enquanto?”
“Eu poderia perdoar-vos crimes muito mais graves”, disse o Rei, sorrindo; “e estou certo de que a vossa razão, seja ela qual for, reflete apenas honra sobre vós próprio. Devo-vos uma dívida. Reivindiquem o seu pagamento na minha gratidão sempre que quiserem; quanto mais cedo, melhor. E se quiserem um amigo, saberão onde encontrar um.”
Ele estendeu a mão e, quando a tomei, apertou a minha calorosamente ao estilo inglês. Outra coisa ele estava prestes a dizer, após uma segunda reflexão, quando o seu amigo — que tinha agora devolvido o motorista à consciência atordoada — chamou a sua atenção. “Senhor”, disse ele, “a guarda civil está a voltar sem prisioneiros.”
Um minuto ou dois depois, os dois homens tinham galopado até nós, um deles ferido na face. Tinham perseguido os salteadores, trocando tiros, até que subitamente, tendo passado para lá de um grupo de árvores e alguns montículos irregulares de areia, o bando desaparecera como por magia. Os guardas civis tinham explorado o local em busca de algum esconderijo habilmente dissimulado, que sabiam ter de existir dentro do espaço de duzentos metros, mas não tinham encontrado nada. E como não tinham tido tempo para verificar a condição dos homens deixados para tratarmos, acharam melhor regressar para o caso de o inimigo ferido não estar afinal fora de combate.
Felizmente, a distância deste local solitário até Jerez não era mais do que trinta quilómetros, e dentro de três milhas havia uma quinta. Ali, poderia arranjar-se uma carroça para levar os salteadores feridos para a cidade; e de Jerez seria imediatamente enviada uma força de homens para vasculhar o campo pelos salteadores escapados.
O Rei, que a guarda civil reconheceu com respeitosa surpresa, estava agora ansioso por voltar a Sevilha, onde era esperado no camarote real para a procissão de Sexta-Feira Santa, e tinha de aparecer até às cinco horas, o mais tardar. Ele atrasou-se apenas o tempo suficiente para ter a certeza de que o seu motorista não estava ferido além de uma ligeira concussão cerebral, para dizer algumas palavras gentis à guarda civil e para dizer um “Au revoir” significativamente enfatizado a Dick e a mim. Depois, assumindo ele próprio o volante, enquanto o motorista meio atordoado jazia no tonneau, fez recuar o grande carro castanho-avermelhado para fora da barricada e disparou numa nuvem de poeira a uns bons sessenta quilómetros por hora.
Restou-nos fazer o que podíamos para ajudar a guarda civil na sua tarefa; e, embora já tivéssemos perdido demasiado tempo para a minha paz de espírito, era o nosso dever evidente ajudar aqueles que nos tinham ajudado. Quando nivelámos a barricada tosca, relutantemente empilhámos os homens feridos no nosso tonneau e, seguindo a um ritmo que permitia aos guardas civis galopar perto de nós, dirigimo-nos para a quinta de que tinham falado. Ali, num zumbido de excitação, os salteadores foram empilhados numa carroça; e, deixando-os seguir, presididos por um guarda montado que conduzia o cavalo do seu camarada, levámos o outro para Jerez no nosso carro, para que o grupo de busca pudesse ser organizado mais cedo.
Por vezes a virtude traz a sua própria recompensa, e a minha veio quando soube que o nosso novo companheiro tinha encontrado um automóvel a seguir a grande velocidade para Jerez. Tinha ido tão depressa que, na poeira, ele não tinha a certeza da cor ou do número de pessoas dentro, mas pensou ter visto várias damas.
Se pudesse, ele ter-nos-ia obrigado a parar em Jerez e a prestar testemunho do ataque dos salteadores; mas, rindo, dissemos-lhe que, em vez de sermos atrasados de novo, atirá-lo-íamos para fora da beira da estrada e desapareceríamos no espaço antes que ele pudesse pôr o telégrafo a trabalhar. Quanto aos salteadores, o líder com outros três tinha escapado, e os rostos dos capturados não eram conhecidos da guarda. Mas o facto de terem sido sete era significativo na sua opinião; e ele acreditava que seriam homens de Écija, formando um bando oficialmente suposto estar extinto.
Se déssemos uma pista das nossas suspeitas, sabíamos bem que seriam feitos todos os esforços para nos deter em Jerez, e tal catástrofe eu tê-la-ia evitado a quase qualquer preço, a menos que houvesse uma esperança de prejudicar Carmona. Mas que não havia tal esperança, eu estava tão certo quanto de que o plano abortado tinha sido organizado por ele.
Como tinha comunicado tão rapidamente com os seus amigos, os Sete, eu não pretendia dizer, a menos que tivesse sabido onde encontrar o seu líder e o tivesse visitado esta manhã no seu carro. O que quer que tivesse feito, no entanto, ele não teria sido tolo ao ponto de arriscar a sua reputação por causa de me apanhar. O facto de ter reclamado a ajuda de bandidos provava que ele desejava descartar-se de mim sem se comprometer, embora por que razão não tivesse adotado o plano muito mais simples de me denunciar como Casa Triana à polícia, eu não podia conceber. Ainda assim, havia engenho nesta ideia. Se um jovem — ou dois jovens — fossem capturados num lugar solitário conhecido por estar infetado com salteadores; se esses jovens fossem mantidos para resgate e mantidos fora do caminho por semanas ou meses, o que era tudo isso para um Duque de Carmona?
E se, quando um desses jovens aparecesse no mundo novamente (menos uma orelha ou um dedo, talvez), ele contasse uma história de fadas sobre a inimizade do Duque e lembrasse ao público uma velha história de ama sobre um vínculo entre a casa de Carmona e o líder dos sete famosos salteadores? Quem acreditaria nele? Quem não pensaria que fosse uma tentativa estúpida e vingativa por parte de um homem amargurado de ferir um grande de Espanha?
Carmona não teria tomado os Sete inteiros na sua confiança, isso era certo. Ele teria apelado apenas ao líder. Esse líder escapou; e mesmo que fosse capturado, não trairia o Duque. Por que o faria, já que não ajudaria a si próprio; enquanto que, se fosse leal, Carmona usaria secretamente influência para aliviar o seu destino?
Dick e eu discutimos estes assuntos em inglês, debaixo do nariz da guarda civil, enquanto eu conduzia para Jerez; e ianqui astuto como era, por uma vez, ele aceitou o ponto de vista espanhol. Se tínhamos de “empatar com Carmona e pagar-lhe por isto”, teria de ser de uma forma menos desajeitada, concordou Dick.
XXXIV
A CORRIDA
Foi uma sorte para nós que o guarda tivesse encontrado um automóvel entre a barricada dos salteadores e Jerez, caso contrário teríamos andado às cegas. O calceteiro perto de Utrera vira apenas um carro, e esse poderia ter sido o do Rei; mas agora tínhamos algo a esperar ainda; e Dick e eu resolvemos sair de Jerez assim que possível, desde que pudéssemos saber que o carro que seguíamos tinha seguido em frente. Se nos demorássemos, a guarda civil poderia, afinal, pensar que era o seu dever deter-nos, e não queríamos dar-lhe tempo para mudar de ideias.
“É uma pena, contudo”, disse Dick, com um suspiro sedento. “Sempre tive a fantasia secreta de que, se alguma vez viesse a Espanha, pararia em Jerez — ‘o lugar de onde vem o xerez’ — e andaria por grandes e frescas bodegas, provando vinho dourado de barris gigantes com nomes estranhos neles. Só de pensar como seria hoje ter um fluxo de ‘Methusalem’ suave a escorrer pelos nossos lábios poeirentos e gargantas secas? Grande Scott! Não me atrevo a pensar nisso, já que não pode ser. Mas é uma grande oportunidade perdida.”
Quase enquanto ele falava, entrámos numa cidade branca e arrumada, com vislumbres verdes de pátios; e gemendo, Dick fechou os olhos perante uma grande bodega onde os famosos nomes de Gonzalez e Byass se erguiam a preto sobre branco.
Desembarcámos o nosso guarda civil à entrada de uma rua lateral que, insinuámos nós, era demasiado estreita para automóveis e, sem esperar pelos seus adeus agradecidos, partimos a toda a velocidade, perguntando a um engraxador o caminho para o melhor hotel. No “Sign of the Swan” parámos apenas o tempo suficiente para dar água à Gloria e para descobrir que um automóvel tinha parado por alguns momentos cerca de duas horas antes. Havia senhoras no interior, mas não tinham saído. Um cavalheiro, coberto de pó, tinha pedido xerez e bolachas, que ele e o motorista levaram pessoalmente aos outros passageiros, mostrando-se bastante impacientes com os empregados. Este cavalheiro falara espanhol no hotel, mas fora ouvido a conversar em inglês com os seus amigos. Tinham permanecido cerca de quinze minutos e depois tinham seguido caminho. Um empregado recordava-se de ver o motorista e o seu patrão a consultar um mapa rodoviário e tinha ouvido a palavra “Cádis”.
Isto deu-nos uma pista aparentemente contínua e, esperando a meio ser apanhados numa armadilha policial, saímos furtivamente de Jerez, com uma aceleração de velocidade assim que as ruas ficaram para trás.
Ainda éramos observados por montanhas de manto púrpura, sentadas em conclave. Um fogo contínuo de papoilas varria os campos por entre os quais viajávamos, enquanto prados distantes estavam pavimentados com ouro, ou com o azul de miosótis, como quadrados do mosaico do céu que tivessem caído. O ar tornou-se luminoso como a campânula de cristal que pende sobre as lagoas de Veneza; e com a subtil mudança de atmosfera, tínhamos nas narinas o primeiro travo do mar.
Aqui e ali, uma faixa de verde luxuriante era cingida por catos, mas percorríamos pântanos salgados e, à nossa volta, estendia-se uma planície empilhada com estranhas e brilhantes pirâmides de sal, brancas e luminosas como colinas de pó de diamante. Então, subitamente, uma linha quebrada de torres, cúpulas e espiras foi recortada em pérola cintilante contra o céu; e não foi apenas a clareza opalina do ar que levou a memória a Veneza. Ali estava o mesmo fluxo e refluxo de água salgada em lagoas brilhantes, as mesmas linhas escuras e ondulantes de algas, a mesma ampla extensão de safira para lá das cúpulas de alabastro.
Para Espanha, a estrada era boa e deslizámos suavemente pela bonita e antiga cidade de Puerta de Santa Maria, com as suas grandes bodegas e associações byrónicas. Atravessando o Guadalquivir, onde este se precipita no Atlântico, atravessando uma floresta aromática de pinheiros-mansos, saímos na Puerto Real branca e de aspeto mourisco da Rainha Isabel. Daí, a distante Cádis, no seu rochedo, parecia mudar de posição de forma desconcertante, como um grupo de castelos de fadas, enquanto contornávamos o limite daquela baía semicircular onde outrora os fenícios comerciavam metais de Inglaterra e âmbar do Báltico; onde os navios da Grande Armada jaziam; e onde Essex semeou a destruição.
Em San Fernando, fui assaltado pela dúvida. E se, afinal, o carro que procurávamos não tinha ido para Cádis, mas tinha tomado a estrada costeira para Algeciras? A grande conferência tinha acabado de terminar lá; turistas de todas as nações afluíam à cidade, atraídos pela curiosidade; e como o local ostenta o hotel mais bonito de Espanha, parecia provável que, ao fugir de Sevilha, o Duque escolhesse Algeciras em vez de Cádis. Mas alguns pescadores, naquela corda de areia que liga Cádis ao continente, tinham visto um carro passar algumas horas antes. Sim, apenas um; e pensavam que era cinzento. Tinha quatro ou cinco passageiros e dirigia-se a Cádis.
Para lá partimos a fundo, com Dick a estudar um plano da cidade enquanto voávamos ao longo da estrada reta, elevada sobre a areia. Quando chegámos à prateada Cádis, ele já era capaz de dizer em que direção eu devia conduzir para encontrar o hotel principal; e parámos num espaço aberto não muito longe do porto apinhado.
Dick ficou a guardar o carro da multidão que rapidamente se juntou, enquanto eu fui interrogar o proprietário.
Nenhum viajante com um automóvel estava hospedado com ele naquele momento; mas um tinha chegado há um par de horas, talvez, e os seus passageiros tinham desejado ficar durante a noite. Infelizmente, contudo, como um grande navio tinha acabado de chegar da América, todos os quartos estavam ocupados.
Não havia outro hotel onde pessoas de gosto pudessem ficar com conforto; e, após alguma discussão, o dono do carro tinha decidido seguir para Algeciras por via de Tarifa. O grupo, composto por três senhoras, um cavalheiro e o motorista, tinha feito uma refeição apressada e tinha partido cerca de uma hora e meia antes da nossa chegada.
“Aqueles bandidos malditos!” exclamei para Dick num acesso de desapontamento. “Se não fosse por eles, teríamos estado nos calcanhares do carro cinzento e tê-lo-íamos apanhado aqui no hotel. Eu teria sido capaz de arrebatar a Monica debaixo dos seus narizes — pois sei que ela não me teria falhado.”
“Esses bandidos malditos apresentaram-te ao Rei — não te esqueças disso”, disse Dick de forma consoladora. “E pode chegar o dia, em breve, em que ficarás grato por essa apresentação. Nunca se sabe, numa vida como a tua. E uma vez que o Carmona esteja em Algeciras, bem, tens o homem num tipo de beco sem saída de onde ele não pode escapar, tanto quanto um rato pode saltar de uma bacia meio cheia de água. Se ele alugar quartos no Reina Cristina, vais dar de caras com ele. Se tentar regressar pela estrada, vai correr para os teus braços; e uma ou outra coisa terá de acontecer a menos que coloque o seu automóvel num comboio ou navio, o que é pouco provável.”
Um pouco confortado, propus seguir imediatamente, mas Dick lembrou-me, com ar nostálgico, que a tarde estava a avançar e ele com ela. Em breve estaria esgotado, a menos que eu lhe desse algo para comer. Pareciam anos desde aquela chávena de café e pão de manhã cedo.
Se precisávamos de alimento, o carro precisava de água. Ambas as necessidades foram supridas um tanto relutantemente por mim, embora a minha parte física apreciasse a frescura do restaurante e os pratos estranhos pelos quais Cádis é famosa; o choco com sabor a cogumelos, o dourado dourado em xerez.
Depois partimos novamente, para tomar uma estrada que o proprietário nos avisou que não era nada boa. As pessoas que viajavam de carruagem ou diligência tinham coisas más a dizer das catorze a dezoito horas de viagem, embora a paisagem fosse bela. Isto não soava animador; mas o que bons cavalos podiam fazer em catorze horas, a Gloria podia fazer em três ou quatro.
Através de ramificações de ruas estreitas, guiei o carro para fora de Cádis. Em todas as direções elas ramificavam-se umas das outras, entrelaçando-se, sobrepondo-se com a complexidade de um puzzle. As casas eram altas, também, e não havia uma janela com varanda cintilante de vidro e ferro onde mulheres de olhos escuros não se debruçassem entre o céu e a terra, para sorrir lá de cima para o nosso motor a zumbir. Era tudo muito pitoresco e alegre, apesar das antigas e trágicas memórias; e embora poucas cidades de Espanha sejam mais velhas do que Cádis — que reclama Hércules como fundador —, as casas brancas pareciam tão limpas como se tivessem sido construídas ontem ou segundo um modelo medieval.
Corremos de volta para San Fernando; e logo encontrámos a má superfície que tinha sido profetizada. A Gloria saltava sobre sulcos e ranhuras, e pedras espalhadas, e forçosamente tive de diminuir a velocidade para que ela não partisse nenhum vaso sanguíneo. Contudo, não perdemos tempo a percorrer as seis milhas até Chiclana de la Frontera; e quando atravessámos este antigo bastião dos fenícios, soltámo-nos aos solavancos para uma solidão aberta e arenosa, com apenas a colina de Barosa a quebrar a sua monotonia vazia.
Mesmo uma mente preocupada deve poupar alguns pensamentos para Graham e os “Faugh-a-ballaghs”, neste terreno onde homens espanhóis e homens britânicos lutaram ombro a ombro contra o invasor francês. Mas quando passámos a estrada que ramificava para Conil e seguimos em frente pelo pequeno rio Salado, ouvi uma coisa mais instrutiva do que a história, mais excitante do que o romance.
Um homem que encontrámos — que parecia quase velho o suficiente para se lembrar dos tempos corajosos da grande pesca do atum — tinha visto um grande automóvel, não há mais de uma hora. Evidentemente, então, estávamos a ganhar terreno à presa. A notícia deu-me coragem.
O mar e o Estreito de Gibraltar estavam perto agora e, embora ainda não estivessem à vista, nem o promontório arenoso de Trafalgar, o cheiro a sal veio até nós com o vento.
Na antiga cidade mourisca de Vejer de la Frontera (dificilmente há uma cidade neste recanto histórico do mundo que não conte, com o seu “de la Frontera”, os dias em que os mouros eram empurrados para trás, cada vez mais e mais) tínhamos percorrido trinta milhas completas desde Cádis. Vozes infantis a gritar à volta do carro clamavam que outro automóvel não estava muito à frente; e, como um cavalo de corrida perto da meta, acelerámos, correndo num ímpeto até à Laguna de Janda, sobre o terreno onde Tarik, o Conquistador, começou a sua grande luta incessante com Rodrigo. Assim, através da pequena Venta de Tabilla, deixando o lago para mergulhar num desfiladeiro imponente que era uma porta para o mar. Ali, estendido à frente, estavam o estreito e a ardente costa africana; a Europa e a África face a face; a branca Tarifa a projetar-se nas ondas verdes; Trafalgar à distância, sufocado em nuvens como memórias persistentes; Tânger em frente, um crescente de pérolas, atirado para o mar por ondas azuis altíssimas que eram as Montanhas do Atlas. Tomando a beleza selvagem da cena com tudo o que ela significava, era uma das grandes vistas do mundo — o mundo que outrora se supunha terminar aqui, com os pilares de Hércules.
À medida que a Gloria saltava em direção a Tarifa, um vento feroz que esteve à espreita saltou para cima do carro e fê-lo cambalear. Rajada após rajada investia da emboscada, cegando a metade os nossos olhos sem óculos com a areia que eles atiravam em punhados para as nossas caras. Mas apertámos os chapéus; e a Gloria suportou os ataques bravamente, a sua voz afogada no grito do vento, que poderia ter sido os gritos de guerra daqueles exércitos mouros cujo campo de batalha esta terra tinha sido durante sete séculos.
À medida que a boa estrada branca subia a encosta de uma colina a caminho de Tarifa, aquela que é a mais mourisca de todas as cidades espanholas ergueu-se como um modelo recortado em alabastro numa moldura de jade. Clara contra o céu erguia-se a torre em ruínas de Guzman el Bueno, o Abraão da história medieval; mas o nosso caminho, em vez de conduzir através da estranha cidade antiga, passou pelo portão em forma de ferradura de entrada e levou-nos montanha acima.
Não encontrámos uma alma, uma vez que virámos as costas a Tarifa. Apenas o vento selvagem não nos abandonava, mas rugia com vozes estranhas ao longo das cavidades da terra, num país onde tudo era selvagem. As encostas montanhosas ásperas estavam salpicadas de carvalhos atrofiados; e à medida que o nosso caminho ascendia, mais emocionantes tornavam-se as vistas, com o fumo de grandes navios a lançar galhardetes negros sobre o mar, e as Montanhas do Atlas agachadas como uma Esfinge a guardar a costa africana.
Depois, perdemos a linha azul dura da água, escondida atrás das montanhas; e, deslizando pelo cume, escondemo-nos do vento que bramia. O carro voava como um pássaro em círculo à volta das largas curvas e deixou-nos em vales pacíficos protegidos por florestas de sobreiros e muralhas rochosas incrustadas com a prata de riachos a escorrer.
Assim, de volta à ampla vista do mar e às colinas cujo tapete florido era rasgado por pontas de rocha irregulares. Sobreiros, sombrios como oliveiras gigantes vestidas de luto, fortes nos seus corseletes e escudos de casca semi-descascada como cavaleiros em armadura, cobriam as colinas como um vasto exército. Ao pé dos guerreiros veneráveis, ondulavam fetos e íris amarelas em massas emaranhadas; bem acima das suas cabeças navegava aqui e ali uma águia dourada ou um abutre, parecendo pássaros de papel ou papagaios japoneses.
Lá muito abaixo de nós, as casas brancas de Algeciras jaziam espalhadas, um colar partido de contas brancas; e do outro lado da água, aquele leão escuro, Gibraltar, agachado como se esperasse para saltar.
Se foi o Dick ou eu que vimos primeiro, não sei dizer, mas exclamámos juntos: “Ali está o outro carro!” E lá estava ele, um ponto em movimento na estrada, numa nuvem branca de pó.
Atrás dele fomos com um salto de velocidade aumentada. Não era preciso agora parar e perguntar o caminho para o hotel; tudo o que tínhamos de fazer era seguir e apanhar o Lecomte nos degraus do Hotel Reina Cristina. Uma ideia selvagem passou-me pela cabeça: que eu arrebateria a Monica assim que ela saísse do carro de Carmona, atirá-la-ia para o Dick no meu, saltaria para lá eu próprio, e estaria longe antes que os outros tivessem tempo de recuperar da sua surpresa.
Quanto mais pensava nisto, mais viável parecia. Nada de abrandar para curvas apertadas agora; confiar na sorte de que a estrada estava livre à frente! Eu estava entusiasmado com a esperança e a excitação enquanto corríamos atrás do automóvel coberto de pó que desaparecia para dentro de um largo portão aberto. O perfume de heliotrópio e gerânio-rosa, quente sob o sol de abril, inebriou-me enquanto varríamos a avenida branca e avistámos o outro carro a parar diante de uma galeria com arcadas.
XXXV
A LUA NO DESERTO
Duas senhoras e a sua criada estavam a sair. Um jovem americano estava a ajudá-las a descer. O carro cinzento não era um Lecomte. O proprietário, o seu motorista e as três mulheres eram de tipos inteiramente diferentes daqueles que procurávamos.
A descoberta, vinda depois de tal exaltação de esperança, foi como um golpe no coração.
“Azar”, exclamou Dick. “Mas o carro de Carmona tem de estar em algum lado.”
“Se é que alguma vez partiu”, disse eu. “Começo a pensar agora que Carmona reuniu os seus salteadores e enviou-me ao encontro deles, sabendo que eu seguiria certamente se acreditasse que ele tinha ido por aquele caminho.”
“Oh, vamos lá, ainda há esperança”, consolou-me Dick. E virando-se para o dono do carro, perguntou se ele tinha visto outro automóvel cinzento. Não tinha; e, após mais perguntas, continuou a dizer-nos que tinha partido de Sevilha com a intenção de parar em Cádis e vir para aqui amanhã; mas o hotel estava cheio, por isso tinha “corrido” até Algeciras. Estes detalhes provaram que o dele era o motor que tínhamos estado a perseguir desde o início; e o excelente espanhol que o californiano falou com os carregadores explicou um pouco de informação enganadora.
Enquanto o grupo de turistas despreocupados entrava, Dick e eu ficámos nos nossos casacos de pó a discutir a situação. Concordámos rapidamente que só havia uma coisa a fazer. Enviar um telegrama ao Coronel O’Donnel a pedir notícias dos movimentos de Carmona e esperar onde estávamos por uma resposta.
Para ninguém, exceto para aqueles que contam cada momento como precioso, tal atraso poderia ter sido fastidioso. O local era um paraíso, o jardim um canto do Éden, e o Reina Cristina mais parecido com a casa de campo de um milionário espanhol do que com um hotel.
Deixando a Gloria, entrámos para escrever um telegrama; e num pátio, encantador como o pátio de um palácio mourisco, sentámo-nos para planear uma mensagem. O pessoal do hotel confirmou os nossos receios de que nenhuma resposta poderia vir de Sevilha até à manhã seguinte; por isso, Dick ocupou-se a escolher quartos enquanto, para poupar tempo, eu levei o carro pela estrada costeira até à estação de telégrafo na cidade.
Quantas milhas para cima e para baixo naqueles caminhos bordados de flores Dick e eu caminhámos na manhã seguinte à espera de notícias, nenhum de nós teria sabido dizer. Onze horas tinham batido quando a resposta do Coronel O’Donnel me foi trazida ao jardim.
“Ao receber o telegrama, entrevistei o sacristão”, li. “Fiz com que confessasse ter aceite uma grande soma do agente de C—— para vos enviar na pista errada. Estou a fazer averiguações e espero fazer-vos saber em poucas horas se C—— realmente partiu; se assim for, em que direção. Aconselho-vos a parar em Algeciras até ouvirem de mim novamente. Estou a enviar a bagagem para aí.”
“Poucas horas!” Eu estava a começar a saber demasiado bem o que poucas horas podiam significar em Espanha onde, para uma população de filósofos, nada importava se uma coisa acontecesse amanhã ou no dia seguinte.
Gibraltar estava arroxeada com a noite e lantejoulada com dez mil luzes quando chegou o telegrama seguinte — uma mensagem que ocupava dois formulários telegráficos.
“Acabei de saber que C—— partiu hoje para Granada com o mesmo grupo. Apanhou o comboio e não se descobriu se despachou o automóvel. Acredita-se que C—— esteja doente. Amigo no clube diz que C—— foi ouvido dizer que conhece em Granada um homem que vale vinte médicos, um curandeiro natural, médico de ervas. Talvez deseje consultar esta pessoa. A doença parece misteriosa. A casa de C—— é bem conhecida em Granada. Informem-se no Washington Irving, onde suponho que ficarão. Enviarei telegrama ou carta para esse endereço.”
Eu deveria ter partido dentro da hora, mas a maneira mais rápida de chegar a Granada era por Ronda, e não havia estrada para automóveis. Podia-se caminhar, podia-se cavalgar, ao longo de um trilho através de desfiladeiros insuperáveis em grandeza; mas era uma expedição de dois dias, ao passo que se conseguíssemos conter a nossa impaciência até à manhã cedo, chegaríamos a Ronda de comboio em cerca de quatro horas.
Não sendo completamente loucos, esperámos, levantámo-nos às cinco e antes das sete estávamos a sair de Algeciras, enquanto a grande catarata de nuvens do Levante fervia e borbulhava sobre Gibraltar. Num vagão, viajando no mesmo comboio, estava a minha valente Gloria, nada pior da fuga selvagem de ontem, e pronta para outra quando pudesse tomar a estrada para além de Ronda. Eu não tinha parado ainda de me maravilhar com a rapidez com que ela tinha sido despachada. Dick descobriu, no entanto, que o gerente da linha era um escocês, uma espécie de fada madrinha para toda a região, o que explicou o mistério; e a sua estrada era maravilhosa. Num vagão de vidro, que era uma “carruagem de observação”, atravessámos paisagens tão diversificadas que poderiam ter sido escolhidas dos melhores bocados de um continente inteiro. Havia ravinas arborizadas tapeçadas de rosa-silvestre; havia cidades colinares distantes como bandos de gaivotas descansando na borda de precipícios vertiginosos; havia estranhas fortalezas antigas; castelos mouriscos em ruínas; campos de um verde aveludado com sebes de aloé cinzentas como linhas de ardósia partida; desfiladeiros escuros e nobres salpicados de flocos de madrepérola de rosas silvestres brancas, que derivavam pela rocha vermelha abaixo até à água verde como ónix. Havia bocados floridos da Holanda e longas extensões da Suíça. Moinhos glaciares em desfiladeiros estreitos eram como nichos vazios para estátuas colossais de santos; pomares cor-de-rosa e brancos espumavam aos pés de antigas torres de vigia; rochas negras, como enormes cães de guarda, pareciam agachar-se sobre almofadas de flores silvestres; e salgueiros-chorões debruavam o rio com prata antes de ele se precipitar para lutar entre as montanhas; acácias choviam perfume e laranjais chegavam tão perto do comboio que uma mão estendida poderia ter colhido os seus globos dourados.
Havia grutas e rios subterrâneos, assombrados por mouros encantados; e, finalmente, um breve vislumbre de Ronda pendurada no alto contra o céu, desaparecendo como o lendário Jardim de Iram, e não voltando a ser vista até que o comboio subisse a falésia por muitas voltas.
Assim que chegámos ao fim da viagem, um pensamento no meu cérebro pareceu estalar como o gatilho de uma carabina. Na minha pressa para partir no primeiro comboio da manhã, tinha-me esquecido de tentar encontrar mais gasolina em Algeciras, embora não tivesse o suficiente para levar o carro até Granada.
Havia tempo apenas para enviar um telegrama de volta ao Reina Cristina e pedir um pouco ao jovem californiano, que se tinha apaixonado tanto pelo lugar que tencionava ficar uma semana. Tínhamos ficado amigos e ele concederia certamente o favor, portanto podíamos contar com viajar naquela noite à luz de acetileno e luar. Entretanto, havia um longo dia para esperar, mas percorri a minha inquietação o melhor que pude, explorando cada centímetro de Ronda.
Depois daquele primeiro olhar para cima, a partir do comboio, quando Ronda ficou suspensa diante dos nossos olhos sobre um desfiladeiro de trezentos metros, tínhamos, por fim, entrado furtivamente, por assim dizer, por uma porta das traseiras. Se não fosse por esse primeiro vislumbre, e se não tivéssemos lido "Miranda of the Balcony", não teríamos adivinhado, ao caminhar da estação até à Alameda, que Ronda diferia de outras cidades mouriscas. Mas, ao longe, havia uma barreira de gradeamento de ferro e um efeito curioso, como se, para lá dela, tudo terminasse, exceto o céu. Continuámos a caminhar, alcançámos o gradeamento e debruçámo-nos.
Nenhuma imagem, nenhum livro fora capaz de nos dar uma ideia real de Ronda. Era estupendo — maravilhoso. Olhámos para baixo, para o mundo lá em baixo, como se estivéssemos suspensos num balão, pois a rocha caía verticalmente a partir dos nossos pés, um precipício abrupto; e os homens que trabalhavam no vale lá em baixo pareciam minúsculos caranguejos. Os moinhos mouriscos eram ampulhetas brancas, partidas, que sacudiam um riacho de prata; os gansos no rio eram migalhas de pão a flutuar; uma fila de burros a subir a íngreme estrada mourisca estava invisível sob as suas cargas, que pareciam cogumelos com caules em movimento.
O ruído do rio subia até nós com um rugido abafado e, através do vale profundo que a sua água cortara, estendia-se uma terra de montanha selvagem, atravessada aqui e ali por fios brancos de estrada que se agarravam à linha do horizonte e desapareciam.
"Caramba, se este ninho de águia não bate o recorde!", exclamou Dick, sempre moderno. "Se houvesse mais alguma coisa para bater, também poderia ser isso. Viva tu, rocha e rio. És sublime."
Mas não tínhamos visto tudo, ao estarmos debruçados sobre aquele gradeamento de ferro, nem pouco mais ou menos. Havia o palácio do Rei Mourisco e os terríveis degraus cortados por cativos cristãos. Havia a ponte suspensa sobre o desfiladeiro; e a famosa "janela" de rocha, uma das maravilhas do mundo. Havia o antigo anfiteatro romano, transformado em praça de touros; a muralha da cidade, que Hércules ajudou a construir; a porta romana e a porta mourisca, e a casa onde Miranda viveu; e uma centena de outras coisas a encontrar subindo colinas íngremes ou deslizando por precipícios selvagens.
O esplêndido ar da montanha dera a Dick um apetite feroz; no entanto, mal podia ser arrancado do penhasco acima da "janela", e jurou que valeria a pena vir de Nova Iorque a Ronda no próximo ano, quando o grande hotel novo estivesse terminado.
Choveu enquanto almoçávamos, mas voltámos a sair, numa névoa fina como um crivo, através da qual se peneiravam turquesas e lantejoulas de prata; nem parámos de vaguear até chegar a hora de o comboio chegar com o esperado petróleo. O californiano não nos falhou; e com uma boa provisão de combustível para o Gloria, e o suficiente para nós até à manhã seguinte, partimos, contra o conselho de todos.
O céu tinha clareado e o crepúsculo fundir-se-ia em breve com o luar; mas precisaríamos da lua e das estrelas também na estrada que tínhamos de percorrer. Em mais do que um lugar, estava marcada no meu mapa por uma sinistra e fina linha preta que significava "Automobilistas, cuidado". O campo era escassamente povoado; as pessoas sussurravam sobre bandidos; e, se algo acontecesse ao carro no meio da noite, não haveria meios de obter ajuda.
Ainda assim, se conseguíssemos passar sem um acidente grave, ganharíamos um dia; pois não havia comboio para Granada até de manhã, e Dick estava tão entusiasmado com a aventura, pelo prazer da aventura, como eu estava por outra razão.
Afinal, recordámos um ao outro, era uma viagem de apenas cento e vinte milhas. Sem tráfego para interferir, o Gloria deveria voar sobre a distância em quatro horas; e que importava se todos tentavam desencorajar-nos? Tínhamos passado por esse tipo de coisas em Biarritz, e os perigos tinham-se resolvido em quimeras. Nada em Espanha era tão problemático hoje em dia como os intrometidos queriam fazer crer — nem sequer os mendigos.
Os meus grandes faróis lançavam um anel cintilante na estrada, que o carro parecia empurrar rapidamente diante de si enquanto corria.
Dick perscrutava a luz incerta em busca da cidade serrana de Teba, de onde a Imperatriz Eugénia tirou o seu título, mas os meus olhos estavam colados à estrada.
Pensar que, se soubéssemos em Jerez que Granada era a estrela polar, poderíamos ter chegado a Ronda num percurso de quatro horas anteontem! Mas era inútil lamentar, e o destino dera-nos Ronda.
Quando passámos pela aldeia dispersa de Campillos, a lua tinha subido, um grande globo de luz branca e incandescente, tão brilhante que, em vez de drenar a cor da rocha, da erva e da flor, deu valores novos e quase sobrenaturais a tudo.
Tínhamos o mundo só para nós, um mundo maravilhoso como uma vasta taça de prata meio cheia de joias. Sobre os cumes das montanhas, cortados de forma irregular como aço, figuras estranhas pareciam correr ao longo do horizonte. Banhados numa luminosidade sobrenatural, jaziam campos de papoilas como lagos profundos de sangue a encher os vales entre pequenas colinas ondulantes, e, aqui e ali, uma montanha em miniatura de cor-de-rosa ou cinzento cintilante erguia-se da planície como um palácio de fadas que seria invisível à luz do dia. Oliveiras estendendo-se em linhas retas de ambos os lados de avenidas sem fim, formavam fontes de prata sob a lua, cada avenida varrida por uma onda de papoilas. Era uma paisagem da Caverna de Aladino feita de metais raros e pedras preciosas que imitavam árvores e flores.
Antequera, nos seus penedos selvagens, era um buraco negro e esfarrapado no céu prateado, até entrarmos na cidade sob o castelo dominante de memórias carmesins.
Ali, ainda havia vida e música; guitarras tilintavam, crianças que deveriam estar na cama brincavam nas ruas com cordeiros que as seguiam como cães, enquanto todos, velhos e novos, riam e gritavam para o Gloria à medida que passava sem parar, a caminho de Loja e Granada.
Uma curva acentuada para a esquerda tirou-nos de Antequera, e a estrada era tão boa que Dick e eu começámos a rir das previsões sombrias que, até àquele momento, não se tinham concretizado.
O meu ânimo subiu a tal ponto que, ao passarmos sob a Rocha dos Enamorados, ainda assombrada pela donzela mourisca e o seu amante cristão, citei Southey, estrofe após estrofe da poesia à moda antiga que me voltava à mente. A Peña de los Enamorados erguia-se como um pequeno modelo de Gibraltar, elevando-se da planície; e, enquanto serpenteávamos entre outros pináculos quase tão majestosos, podíamos ver o esqueleto esbranquiçado de Archidona pendurado na sua montanha. Outrora, o lugar fora um famoso ninho de salteadores; e quando, após subir uma colina tremenda, entrámos na sua longa rua branca, Dick era da opinião de que a Archidona de hoje ainda era um refúgio de verão ideal para a fraternidade, caso desejassem uma vida urbana. Cada casa de traça baixa na interminável avenida parecia um berçário apropriado para mistérios e segredos. Aqui e ali, um rosto escuro enquadrado num lenço vermelho atado espreitava de uma porta iluminada, observando o Gloria até que este deslizasse pela crista da colina para descer suavemente por outra tão íngreme quanto a anterior.
Ali, se tivéssemos sabido, o tranquilo olival por onde passámos e calámos o canto dos rouxinois seria o nosso último vislumbre de paz. Para lá daquela barreira de prata jazia o caos, um caos de montanhas selvagens, abismos profundos e estepes lúgubres, solitários, despovoados, proibitivos sob a lua!
Se partíssemos um eixo ali, com léguas a caminhar até à quinta mais próxima, não haveria esperança de chegar a Granada amanhã. E agora a estrada era igualmente adequada para partir eixos, pescoços e corações.
Era feita de rocha em ondas petrificadas, entre as quais o Gloria debatia-se e saltava como, há muito tempo, Dick esperava que fizesse quando atravessou a fronteira espanhola. Cada parte dela tremia como se fosse um cavalo na praça de touros, e eu tinha pena dela como se tivesse um nervo em cada mola e corrente.
"Isto não é uma estrada; é um pesadelo", gemeu Dick. Mas se o era, era um pesadelo que corria connosco, fulminante, mostrando presas assustadoras, por milha após milha de horror. Assim que a inclinação acentuada de uma descida oferecia uma almofada mais macia para os pneus sofredores, e a esperança se agitava dentro de nós, irrompíamos numa região como a que a imaginação descreve nas ruas de Lisboa após o grande terramoto. Ravinas e fendas verticais sulcavam a estrada serpenteando para cá e para lá, os abismos boquiabertos para engolir o Gloria ou, pelo menos, morder uma roda.
Agora o bordo terroso de uma fenda esfarelava-se e caía enquanto as nossas rodas motrizes deslizavam ao longo da borda; agora, conduzisse com toda a coragem e precisão que pudesse, o Gloria oscilava enquanto ficava meio pendurado sobre uma ravina. De alguma forma, convenci-o a descer a colina e, saindo do labirinto de fendas, soltei um suspiro de alívio. Mas, no instante seguinte, só tive tempo de travar a fundo para evitar que o carro saltasse para dentro de um pequeno rio que atravessava a estrada. Cuidadosamente margiado de ambos os lados, o riacho corria velozmente, cortando a descida em ângulos retos.
Qualquer que fosse a profundidade, tinha de arriscar. Subindo a margem mais próxima, desci para a água corrente, onde a lua ria para mim enquanto eu rompia o seu reflexo cintilante.
"Bom velho São Cristóvão!", gritou Dick enquanto passávamos sem danos e subíamos a margem oposta, para cairmos numa descida vertiginosa do outro lado.
Mas era ainda cedo para louvar o santo. Bastava olhar em frente para ver quanto mais ele teria de fazer por nós, se quiséssemos chegar a Granada de todo. Onde um pequeno grupo de casas se tinha reunido no fundo da colina, como se para assistir à nossa luta, corria outro rio, muito mais largo.
Também este corria através da estrada, como se as estradas fossem feitas para leitos de rios; e, desta vez, a situação era tão séria que parei o Gloria para refletir.
Não havia dúvida quanto a isso; este rio era profundo. Embora uma carroça pudesse atravessá-lo em segurança, e ter a inundação de prata ondulante não mais alta do que os eixos, era diferente com um automóvel. Perguntei-me desoladamente o que aconteceria ao silenciador se a sua massa de metal aquecido fosse subitamente mergulhada em água fria, e o que aconteceria ao comutador.
"Quando em dúvida, joga um trunfo", disse Dick. "E acho que aquela ponte em corcunda de camelo é um trunfo, mesmo que seja apenas um valete — ou o dois."
Era verdade, havia uma construção estreita que poderia passar por uma ponte, se se quisesse fazer um elogio. Era de pedra e chegava a um ponto íngreme no vértice, como uma "tenda de cartas" quando duas cartas recebem apoio uma da outra. Era uma questão de uma fração de milímetro, se o Gloria quisesse passar; mas, entre o perigo de um bloqueio e o perigo de um cilindro rebentar, decidi arriscar jogar o trunfo de Dick.
Primeiro saí e desapertei as tampas das rodas para dar mais folga, depois voltei a entrar para o teste, enquanto Dick caminhava, pronto a oferecer ajuda se fosse necessário. Tinha passado com esforço até ao topo, e o Gloria tinha realmente começado a descida, quando deu um grito estridente e ficou preso entre os parapeitos.
Tentei mover-me e não consegui. O carro estava irremediavelmente encravado.
"Bela situação", disse Dick. "Se eu estivesse a escrever um livro, diria: 'esta rota é apenas adequada para carros de cem cavalos-vapor, construídos em pequenas secções e transportando passageiros bem-dispostos'. Bem, nós estivemos bem-dispostos outrora — e poderemos estar de novo. Atira-me a chave da caixa de ferramentas, queres?"
Fi-lo sem uma palavra, receando que, se pronunciasse alguma, fosse demasiado forte. Mas a curiosidade venceu-me quando ouvi um tinir metálico, depois as pancadas de um martelo.
"Apenas a derrubar um pouco deste velho parapeito", foi a resposta calma à minha pergunta. "Alguma parte já se foi; porque não mais? Aposto que as gerações futuras me agradecerão — já que é certo que nunca será consertado."
Enquanto falava, houve um grande salpico, quando um pedaço do parapeito, já enfraquecido por anos de tempestades e tensões, mergulhou no rio. O carro foi libertado e deslizou pela outra encosta das costas do camelo.
Agora parecia mesmo que podíamos agradecer em segurança a São Cristóvão, uma vez que nada poderia ser pior do que o passo de que ele nos tinha acabado de livrar, arranhados, magoados, mas intactos. Tínhamos apenas de sair do leito irregular do rio, saltar sobre a passagem de nível de um caminho de ferro, para sair para uma autoestrada larga e suave como uma estrada para o paraíso. Pronto para gritar de alegria, acelerei, e o Gloria disparou pelo caminho branco e silencioso como se estivesse feliz por virar as costas ao Inferno.
O estudo do mapa de ontem assegurou-me que finalmente tínhamos chegado à estrada principal de Málaga, e parecia haver todas as razões para acreditar que a provação que acabámos de superar seria a última. Voando a umas boas cinquenta milhas por hora, sob uma lua cansada que procurava o oeste, pouco depois, uma cidade ergueu-se grandiosamente diante de nós, entronizada em rochas num vale largo, e pálida na luz estranha como alguma rainha triste.
Loja, chave tragicamente perdida de Granada, irmã da famosa Alhama, baluarte daquele feroz alcaide que chamou filha à sultana de Boabdil! Loja, e apenas mais trinta milhas até Granada.
Corremos em direção àquele vale largo, e para a cidade montanhosa que ousou repelir Fernando. Nas ruas desertas, o único som era o canto de muitas fontes, as mesmas vozes musicais, os mesmos sons que Lord Rivers ouviu há quase quinhentos anos, quando veio com os seus arqueiros ingleses para ajudar a conquistar o lugar selvagem. O Gran Capitán, também, viera aqui, um exilado solitário, depois de todos os seus esplêndidos serviços a um rei ingrato. Ele também ouvira o canto das fontes de Loja, não em triunfo, mas em tristeza.
Lá em baixo no vale, para lá da cidade, o rio chorava um aviso para nós; mas não prestámos atenção, mesmo quando a superfície da estrada mudou novamente para lama pegajosa; avançando milha após milha, ao melhor ritmo que podíamos, e dizendo sempre que em breve estaríamos na Vega. Assim, o amanhecer roubou-se e tremeu sobre as neves da Sierra Nevada.
A lua tinha ido embora, e ainda faltava muito para que o sol brilhasse sobre as montanhas, quando uma sombra negra como um grande caixão abandonado na estrada me fez parar. Travei com pressa, mesmo a tempo, e mal podia acreditar no que via. Mas não era ilusão. Estávamos na estrada do porto de Málaga para Granada, contudo, ali estava uma ponte partida, uma estrutura nobre que deveria ter sobrevivido a séculos, a desmoronar-se em ruínas.
A queda do grande arco central não era coisa nova, pois o musgo e o líquen esmaltavam as suas bordas irregulares com ouro e verde. Alguns ramos espalhados frouxamente pela estrada eram os únicos sinais de trânsito que indicavam esta tragédia, embora talvez fosse uma história tão antiga quanto o grande terramoto de vinte e dois anos atrás.
Mais um metro ou pouco mais e teríamos atravessado; mas São Cristóvão não se tinha esquecido de nós; e a questão seguinte era como atravessar o rio sem ponte. Voltei atrás, descobrindo marcas de rodas que mostravam um caminho obscuro que mergulhava sobre a orla do aterro. Segui-o e contemplei o vau, um pouco mais adiante numa pequena floresta, onde um largo riacho jazia em cheia entre margens baixas.
"Teremos de passar", disse eu, e conduzi o Gloria para dentro da água. Se houvesse lama — mas, em vez disso, havia pedras; e com pequenas ondas a sussurrar entre os raios das suas rodas, ele partiu para avançar aos solavancos.
"Acredito que ele vai conseguir..." tinha eu começado, quando ele deu um grande silvo, como quando um ferreiro mergulha uma ferradura em brasa na água; e uma nuvem de vapor jorrou. Ainda assim, forcei-o a continuar, esperando a cada instante ouvir algum estrondo fatal, enquanto mergulhávamos mais fundo no riacho. Agora as pequenas ondas salpicavam friamente os meus pés. Será que subiriam ao carburador, estragariam a ignição ou, pior ainda, rachariam os cilindros?
Nenhum de nós falou, e o carro avançou, soluçando. Por um momento, ele arranhou em vão algo e, depois, tropeçou, como se estivesse de joelhos, subindo a margem oposta. A pingar água e a soltar vapor, subiu novamente para a estrada principal e, com um salto, partiu através da lama que jorrava, como se nada tivesse acontecido. Dir-se-ia que estava impulsionado por algum incentivo tão poderoso como o meu, que o forçava a seguir em frente perante todas as dificuldades; e talvez fosse uma canção de alegria que o motor zumbia, ao sair para a Vega.
De repente, os primeiros raios de sol desceram pelas encostas brancas da distante Sierra Nevada, tocaram a vasta planície fértil e operaram magia com uma colina fortificada que flutuava, onírica, a partir de uma névoa púrpura onde uma grande cidade jazia adormecida. Torres vermelhas agrupadas brilhavam com o ouro do amanhecer e deslumbravam os nossos olhos com o glamour do romance. Pois a cidade adormecida era Granada, e as torres vermelhas e jardins na colina fortificada eram as torres e jardins da Alhambra.
A aventura tinha acabado. E sob um daqueles telhados, cinzento-pomba ao amanhecer, esperava que Monica estivesse a dormir.
XXXVI
ASTÚCIAS E ENCANTAMENTOS
Apesar de diques e represas, disse Dick, tínhamos chegado a um lugar que, visitá-lo, outrora lhe parecera tão maravilhoso como encontrar a chave do arco-íris. No entanto, aqui estávamos nós; e Granada — depois de termos entrado finalmente atravessando ainda outro rio — saiu do seu feitiço de encantamento quando a vimos de perto. Apenas aquela colina maravilhosa acima era ainda mágica, tão mágica para a vista como quando Ibraham, o astrólogo, decretou os seus jardins.
Mais de metade das casas mouriscas com miradouros tinham dado lugar a casas francesas modernas; e os descendentes dos donos banidos, em Tetuão e Tunes, bem poderiam deitar fora as suas chaves e títulos de propriedade.
A cúpula da catedral de Isabel e as torres de igrejas muito, muito antigas erguiam-se por entre os telhados de ruas comuns; lojas vulgares de ontem e de hoje subiam a colina íngreme em direção à Alhambra; mas, numa grande entrada — la Puerta de las Granadas, erguida por Carlos V —, os séculos abriram-se e deixaram-nos passar para o passado.
A esta hora da manhã, a floresta verde e profunda do parque da Alhambra, para lá do arco clássico, estava tão silenciosa como o bosque encantado que escondia do mundo a Bela Adormecida no seu palácio. Os rouxinois tinham ido dormir, e os pássaros da luz do dia tinham terminado o seu primeiro concerto, mas outra voz cantava, o alegre soprano agudo da água — água invisível, a ondular através de canais subterrâneos; água vista a cair em regatos de cristal de cada lado da estrada, no seu caminho borbulhante colina abaixo.
Ainda não víamos nada das torres vermelhas encantadas que atraem todo o mundo através do mar e da terra. Houve apenas um vislumbre de ameias avermelhadas, uma vez, numa curva da estrada, através de uma rede de árvores e ramos; depois estávamos num corte verde no bosque profundo, onde dois hotéis agradáveis e antiquados se defrontavam.
Esperavam por nós na casa com o nome daquela alma delicada e genial que despertou a Europa e a América para o charme da Alhambra. Eu tinha telegrafado esperançosamente de Ronda que chegaríamos cedo, de automóvel; no entanto, o estalajadeiro, conhecendo a rota, ficou sorridentemente surpreendido ao ver-nos.
Havia um telegrama; essa foi a primeira coisa que soubemos; e era do Coronel O’Donnel; mas ele não tinha novidades para contar. Limitou-se a telegrafar o seu conselho de que, se possível, o Señor Waring deveria voltar a Sevilha imediatamente, pois o seu testemunho era agora necessário no caso da bomba.
Dick disse prontamente que não me abandonaria, mas insisti com ele sobre a sensatez de partir. Ele tinha-me acompanhado na minha grande aventura; e se Carmona e os outros estavam em Granada, não havia nada que ele pudesse fazer no momento que eu não pudesse fazer por mim mesmo. Se ele não aparecesse em Sevilha, poderia haver problemas; e caso eu descobrisse que precisava da sua ajuda, eu telegrafaria.
O nome de Pilar não foi pronunciado, mas ecoou nos nossos pensamentos, e Dick não conseguiu esconder o brilho de avidez que iluminou os seus olhos. Talvez a esta altura ela já tivesse decidido se ele teria um “sim” ou um “não” como resposta.
“A minha partida dependerá de Carmona estar aqui ou não”, disse ele; e eu virei-me para o estalajadeiro com uma pergunta. Sabia ele se o Duque de Carmona e a sua mãe tinham chegado, e trazido amigos para o seu palácio em Granada?
O espanhol riu-se. Sabia bem demais, uma vez que a chegada da distinta família tinha provocado algo como uma revolta no seu hotel e noutros. O palácio Carmona era talvez o local de exposição mais interessante que restava na cidade de Granada, exceto os túmulos dos Reis Católicos na catedral. Era o palácio para onde Boabdil tinha fugido da ira do seu pai; e, depois da Alhambra e do Generalife, era a única coisa que os turistas vinham ver. Agora, estavam impedidos de o ver pela chegada do Duque e da Duquesa, uma calamidade que não acontecia na época alta uma vez em dez anos. Se a casa (que tinha naqueles dias apenas uma suíte principal de quartos mobiliados e habitáveis) fosse ocupada pelos seus proprietários, era geralmente por algumas semanas no auge do verão, depois de os estranhos terem deixado de vir para o sul; ou então no outono, antes da época dos viajantes. Agora, havia uma grande insatisfação entre os visitantes estrangeiros, que se consideravam defraudados nos seus direitos. Ontem de manhã, vários grupos de turistas tinham insistido numa entrada e, à tarde, em cumprimento do pedido do Duque, dois guardas civis tinham sido destacados para a porta para manter os intrusos à distância.
Isto não parecia uma perspetiva esperançosa para mim, caso desejasse tentar algum golpe de Estado como o que tinha planeado em Sevilha. Mas haveria outras formas de chegar a Monica, disse a mim mesmo, quando o estalajadeiro continuou a dizer que o Duque estava supostamente gravemente doente. Se Carmona estivesse a sofrer, não seria capaz de vigiar os membros da sua casa tão atentamente como antes, e não deveria ser impossível fazer chegar a Monica a notícia de que eu estava em Granada. Uma vez que ela entendesse que eu estava pronto e à espera para a levar embora, seriam encontrados meios para a alcançar.
Houve apenas tempo, quando Dick decidiu finalmente partir, para um banho e pequeno-almoço antes de o levar rapidamente à estação para o comboio da manhã.
Entretanto, tinha aprendido que todos os quartos nos dois hotéis do nosso estalajadeiro estavam ocupados, pois era a época mais movimentada. Mas eu teria uma villa pertencente aos hotéis dada para meu uso exclusivo, uma villa num antigo jardim mourisco de fontes tilintantes, riachos correntes, miradores entrelaçados de rosas, caramanchões de jasmim, sebes de murta e magnólias. O Carmen de Mata Moros seria meu por quantos dias ou quantas semanas eu escolhesse ficar. Satisfeito, portanto, por não ter de acampar sob as árvores do parque, decidi, quando vi Dick partir, guardar o carro na cidade de Granada e reconhecer a vizinhança do palácio Carmona.
Uma pergunta aqui e ali levou-me à rua sem muita demora. O palácio, sagrado às memórias de Boabdil, da sua gentil Sultana Zorayda e da sua severa mãe Ayxa, encontrava-se nos arredores do Albaicín, aquela parte de Granada outrora favorecida pela aristocracia mourisca, agora quase entregue aos espanhóis mais pobres e aos ciganos, ricos e sofisticados o suficiente para abandonar as suas cavernas. Fernando e Isabel tinham concedido a casa a um rico nobre mourisco que tinha renegado a sua religião para os ajudar nas suas guerras, e que se tornou o primeiro Duque de Carmona, proprietário de muitas propriedades e muitos palácios.
O meu estalajadeiro não tinha sido mal informado. A bela entrada, com o seu brasão de armas espanhol do século quinze sobre o portal mourisco, era guardada por dois guardas civis. Aproximei-me e, com o ar de um turista, perguntei quando é que o palácio estaria aberto aos visitantes. Os homens não me souberam dizer. Estaria o Duque doente? Acreditavam que sim. E como não consegui obter mais nada deles, afastei-me.
Acima, na colina, agrupavam-se as torres vermelhas da Alhambra. Imaginei que naquelas torres devia haver janelas que davam para o pátio do antigo palácio de Boabdil, e resolvi provar isso em breve, mas ainda não estava pronto para deixar o Albaicín.
Tinha trazido a minha Kodak como desculpa para me demorar, e agora comecei, à vista das portas de Carmona, a tirar fotos sem pressa. Quando estava ocupado assim há quase meia hora, vi uma jovem, evidentemente uma criada, a sair do palácio com um pequeno embrulho debaixo do braço; e sem parecer notá-la, passeiei na direção que ela tomava. Uma vez fora da vista dos guardas civis, falei com a rapariga, tirando o chapéu educadamente.
“A senhora é do Duque de Carmona?”, disse eu. “Sou um conhecido dele e pretendia visitar, mas ouço dizer que ele não está a receber ninguém.”
“Isso é verdade, señor”, respondeu a rapariga, uma criatura bonita do tipo cigano, com olhos ousados que absorviam cada detalhe das minhas feições e vestuário. “Sua Graça chegou muito fatigado e é obrigado a ficar na cama; o que é inconveniente, pois há hóspedes estrangeiros que precisam de ser constantemente entretidos por Sua Graça a Duquesa, que ela não tem tempo para cuidar do seu filho.”
“Espero que ele tenha um médico habilidoso”, disse eu.
“Oh, um muito habilidoso”, respondeu a rapariga avidamente. “Não um médico comum, mas uma pessoa maravilhosa. O meu irmão conhece-o bem e vai à Serra encontrar ervas e flores para os seus medicamentos e bálsamos.”
Evidentemente, a rapariga orgulhava-se da amizade e eu segui-lhe a conversa.
“Esses remédios são bons em casos de febre e malária”, disse eu.
“E para muitas outras coisas”, insistiu ela. “Sua Graça contraiu algum envenenamento na mão. Não sei como; mas ele já está melhor e, sem dúvida, ficará bem em breve. Se o señor quiser enviar uma nota de solidariedade, eu poderia arranjar forma de chegar ao Duque. Neste momento, nem os amigos mais íntimos são admitidos, mas estou na confiança da criada de Sua Graça, que veio com ela de Sevilha. De facto, estou agora a caminho de fazer um recado para ela.”
Aproveitei esta abertura.
“Gostaria de enviar um bilhete”, disse eu, “mas não para o Duque.”
Tendo chegado até aqui, tirei um rolo de notas do bolso, enquanto passeávamos lentamente juntos. Uma jovem tão ansiosa por transmitir uma impressão da sua própria importância deve ter ambições além do seu lugar na vida.
O rosto escuro brilhou à vista do dinheiro e, com tato, expliquei que o meu principal interesse se centrava numa jovem hóspede da Duquesa. Qualquer pessoa que pudesse levar uma palavra minha para ela, sem que outros soubessem, seria bem recompensada. Eu não acharia quinhentas pesetas demasiado para dar por tal serviço.
Uma dica foi suficiente. Num instante, a rapariga tornou-se uma mulher de negócios e uma mestre em intrigas. Ela não se atreveria, disse, a tentar entregar um bilhete. Seria mais simples, menos perigoso para todos os envolvidos, estar a trabalhar num corredor pelo qual a señorita inglesa tivesse de passar; murmurar algumas palavras que chamassem a sua atenção; receber uma mensagem verbal em troca; e trazer-ma quando pudesse — não hoje; isso seria impossível; mas amanhã à noite por volta das nove, altura em que já tinha permissão para sair.
Deveria confiar nela? O seu rosto era um daqueles que inspira a admiração de um homem em vez de confiança, mas eu não tinha alternativa. Se renunciasse a esta oportunidade, dificilmente encontraria outra tão promissora; e como tinha de depender de alguém na casa de Carmona, por que não desta mulher? O suborno que ofereci era tentador o suficiente para a manter fiel, se alguma coisa pudesse.
Não hesitei mais do que um momento em aceitar a sua alteração à minha proposta, uma vez que ela garantiu que era impossível marcar um encontro mais cedo. E a mensagem que enviei a Monica foi redigida com cautela.
Os amigos que a tinham visto pela última vez na catedral de Sevilha estavam ansiosos por vê-la novamente e pediam que ela arranjasse forma de se encontrar com eles o mais rapidamente possível, para levar a cabo o plano que tinha sido interrompido.
A rapariga repetiu estas palavras depois de mim, prometeu lembrar-se delas e dar-me a resposta amanhã à noite às nove, caso alguma mensagem lhe fosse confiada. Não nos encontraríamos no mesmo local, contudo, mas na Colina da Alhambra, na estrada que sobe do “Wasinton” (como ela chamava ao hotel) para o Carmen de Mata Moros. Ela tinha um irmão a viver não muito longe dali, disse, que esperava visitar na noite seguinte. Ofereci metade do dinheiro adiantado como incentivo à lealdade, e foi aceite com dignidade. Então, quando nos estávamos a despedir, perguntei se se conseguia ver o pátio do palácio a partir da Alhambra, que se erguia sobre nós na altura.
“Da janela do meio da Sala de Ambajadores o señor poderá ver muito bem”, respondeu ela. “E há ainda outro pátio, para o qual há uma vista melhor a partir dos jardins do Generalife. Certamente os jardins são muito altos e longe; mas se o señor tiver um óculo de algum tipo? E se quiser, posso tentar dizer à jovem dama que ele estará primeiro num lugar, depois no outro, esperando vê-la. Digamos, à tarde entre as quatro e as seis na Alhambra; depois disso, no Generalife, até o sol se pôr.”
Este plano arrumado valia uma nota extra de vinte e cinco pesetas, e dei-lha. Depois, não tendo outros assuntos pessoais para distrair a minha atenção, vagueei pelas ruas de Granada e entrei na fria catedral antes de subir para conhecer o Carmen de Mata Moros.
Quando vi a villa, com o seu encantador jardim em socalcos, pendurado na encosta bem acima da Vega, uma esperança selvagem brilhou dentro de mim de que eu poderia arrebatar Monica, persuadir o Cônsul inglês a casar-nos e mantê-la aqui para a lua de mel, exibindo a minha felicidade na cara de Carmona. É claro que a ideia era fantástica, mas deu-me alguns momentos de felicidade.
Almocei no jardim sob a sombra espessa das nespereiras e, antes da hora combinada, comecei a caminhar para a Alhambra.
Por nada deste mundo teria levado um guia para mostrar o caminho. Durante toda a minha vida, desde os dias em que a minha mãe me contava lendas de tesouros escondidos e guerreiros mouriscos encantados, a Alhambra tinha sido um sonho de fadas para mim. Não havia ninguém no mundo, exceto Monica, cuja companhia eu teria desejado para esta expedição. Os pensamentos e impressões de outras pessoas sobre o lugar poderiam ser melhores que os meus, mas eu não queria ouvi-los; eu queria apenas os meus.
Sob os enormes olmos inclinados, que as pessoas que confiam nos guias atribuem a Wellington, vagueei até chegar a uma grande torre vermelha, com um arco de ferradura como entrada. Ali, na chave do arco, estava a mão esculpida; mais além, sobre o arco no interior, a chave; e lembrando-me da lenda de que nunca o desastre viria até que a Mão tivesse agarrado a Chave, soube que esta devia ser a Porta da Justiça.
Agora, um feitiço caiu sobre mim. Era como se a Mão tivesse descido para me tocar no ombro e dar a Chave para maravilhas escondidas, que só a mim seria permitido ver. Essa foi a ficção com que me agradei; pois aquele que vem ao mais famoso dos lugares é tão verdadeiramente um descobridor como aquele que encontra um novo mundo. Não importa o quanto tenha lido, quantas fotografias fiéis tenha visto, ele tem de descobrir tudo de novo, uma vez que é certo que em parte alguma encontrará algo mais do que aquilo que tem dentro de si. A imagem que ele vê adaptar-se-á à moldura que a sua mente puder dar, e ninguém nunca viu, ninguém nunca verá ali exatamente o que ele vê. Se a mente de um homem não conseguir criar uma bela moldura, então a imagem terá apenas um efeito pobre para ele, e ele irá embora menosprezando-a.
Agora, acreditava que tinha estado a criar uma bela moldura de joias para esta imagem da Alhambra, e esperava merecer a Chave que a Mão tinha emprestado.
Dentro da entrada, quando subi uma viela sinuosa, encontrei-me na grande Praça das Cisternas, que, com o vasto palácio incongruente meio acabado por Carlos V, reconheci de muitas imagens; mas ainda não olharia para baixo sobre Granada e a Vega. Esperaria até poder estar numa janela no Salão dos Embaixadores e ver o que me tinha sido prometido. Então, sem um olhar sobre o parapeito, caminhei para uma porta aberta, onde estavam dois ou três homens de chapéus com galões de ouro. Um moveu-se resignadamente para a frente para atuar como guia, mas uma palavra e uma moeda de prata convenceram-no de que eu era uma pessoa em quem se podia confiar sozinho, embora me faltasse um bilhete de estudante.
Passei pela sala dedicada ao funcionalismo, e então — chegara a hora de usar a chave, pois eu já estava em terra de fadas; as capas das “Mil e Uma Noites” tinham-se fechado sobre mim e encerrado-me entre as páginas.
Fisicamente, não estava sozinho; pois havia turistas desbotados e estridentes no pátio pavimentado de mármore da Alberca, que eu teria gostado que tivessem parado lá fora e vestido trajes apropriados para o reino das fadas; mas espiritualmente tinha o lugar só para mim.
Os pequenos peixes cintilantes, como flores tropicais sob vidro verde, lampejaram na minha direção através da água de berilo, tal como peixes antepassados tinham lampejado quando mãos adornadas de joias de belezas de harém esfarelavam bolo no tanque cintilante. A minha mãe tinha-me contado uma lenda, de que as belas favoritas de sultões banidos rezavam para voltar após a morte para a Alhambra, nas formas de bronze e ouro, rosa e púrpura destes peixes da Alberca; e agora eu acreditava a meio na história. Onde — uma vez que Maomé não concede céu às mulheres — poderiam elas ser mais felizes do que aqui? Flutuando sempre sob o seu teto de esmeralda, pensariam elas que eram mais afortunadas do que os seus maridos, amantes e irmãos, permitidos a descansar dentro das muralhas da Alhambra sob a forma de andorinhas a chorar agudamente por dias que não poderiam voltar a vir?
Sonhando, passei para o Pátio dos Leões, onde eu e os doze pitorescos guardiões de pedra do lugar olhámos uns para os outros através de alguns metros de pavimento de mármore que mediam séculos. Cada besta primorosa, bela devido à sua rude hediondez que diferia dos seus companheiros; cada um com uma história diferente para contar, se quisesse. Qual deles se lembrava daquela noite em que os bravos Abencerragens enfrentaram a morte, ali na sala à direita, onde a fonte mantinha manchas ominosas de castanho? Qual tinha o olho que vê nestes tempos decadentes, para observar quando o fantasma daqueles nobres mouros passava silencioso e triste ao luar? Em qual tinham salpicado gotas de sangue quando os príncipes rapazes morreram pelo prazer da ciumenta Fátima? Qual tinha conhecido o toque da pequena mão de Morayma ou da adorável Galiana?
Fiz as perguntas; contudo, o profundo silêncio de resposta do pátio, e de todo este palácio de fadas escondido e secreto, parecia dizer tanto que não era como o silêncio, mas reserva.
“A Alhambra é música e cor e conhecimento”, disse eu aos leões. “Quando me for embora, fecharei os olhos e ouvirei, bem como verei; ouvirei a música mágica do silêncio, tocada em alaúdes de prata de mouros, e fontes tilintantes, uma canção de sereia para me atrair de volta; e saberei e sentirei coisas que nunca fui capaz de pensar claramente antes.”
Viria Monica aqui? Perguntei-me. Nenhum rosto mais adorável do que o dela tinha olhado para baixo daquelas janelas treliçadas, suportadas por pilares delicados como o braço branco de uma criança. Se eu pudesse ver o rosto dela agora! Não o vendo, sabia que nenhum lugar, por mais belo que fosse, poderia ser perfeito para mim. Sombras de tristeza, de separação, destacar-se-iam mais negras contra as paredes de joias banhadas pelo sol do palácio de fadas; e até a felicidade teria de cantar em notas menores aqui, para não atingir uma discórdia no poema trágico da Alhambra. Não admira que, ao perder a sua joia da coroa, os mouros tenham perdido a esperança, e com ela toda a arte e ciência que os tinham colocado muito acima dos seus rivais cristãos! Não admira que tenham mergulhado, desesperados, nos desertos que tinham deixado, misturando-se entre raças selvagens como uma fonte brilhante se mistura com um rio subterrâneo escuro, para nunca mais cintilar à luz.
Mas nenhum dos meus sonhos acordados me enganou ao ponto de perder a noção do tempo.
Se a minha mensageira fosse verdadeira, em breve Monica estaria num dos pátios do palácio de Carmona, olhando para as torres da Alhambra. “A janela do meio quando se entra no Salão dos Embaixadores”, repeti, e encontrei o caminho de volta através do pátio da Alberca; pois não é preciso conhecer a Alhambra para encontrar o caminho de sala em sala, vista cem vezes na imaginação.
Tão bela tinha adivinhado aquela sala acima de todas as outras, que não esperava ficar surpreendido; contudo, fiquei surpreendido e estranhamente excitado, pois a beleza suprema é sempre excitante para a mente latina. Um vasto caramanchão de joias e rendas antigas bordadas com fios de ouro manchados e pérolas amareladas, parecia; os seus portais também com cortinas de renda; dobras ricas e suspensas de renda e franjas, como o drapeado levantado da tenda de um sultão, suportado em delicados postes de marfim polido.
Atrás de mim estava o bloco de berilo do tanque de peixes, colocado em prata em vez de mármore pela luz do sol no pátio. Diante de mim, através da penumbra de joias cor-de-rosa da Sala de los Ambajadores, uma imagem azul e verde de céu e montanhas era emoldurada por renda e pedras preciosas.
Caminhei até à janela do meio e olhei diretamente para baixo, sobre as copas das árvores altas, para o vale do Darro, onde os telhados do Albaicín se agrupavam, suavemente cinzentos e brilhantes como a plumagem eriçada de pássaros recém-nascidos.
Longe, à esquerda, jazia a Vega, cintilando sob uma névoa de calor, que dava o aspeto de um mar de cristal a engolir a planície, com árvores e aldeias dispersas a brilhar através do fluxo transparente. Diretamente diante dos meus olhos, no ombro coberto de cactos de uma colina oposta à torre, brilhava uma mancha de cal pontilhada por buracos negros, que eram as portas e janelas das cavernas ciganas. E acima de mim, à direita, numa encosta mais alta, erguiam-se as torres e miradores daquele antigo “palácio de verão de delícias”, o Generalife.
Um olhar abrangente deu-me estes detalhes; então, ajustando o óculo de campo que tinha trazido, fixei a minha atenção numa casa perto do Albaicín, que identifiquei facilmente como o palácio de Carmona.
Olhando para baixo de tal altura, tive uma visão de pássaro de pátios duplos densos com arbustos agrupados, laranjeiras e ciprestes. As lentes poderosas realçaram claramente os delicados pilares de mármore que suportavam os arcos mouriscos da galeria superior num destes pátios; mas o outro estava envolto para mim por um grupo de ciprestes.
Durante muito tempo esperei — horas, parecia; mas ninguém se moveu ao longo da galeria ou apareceu nas janelas semi-fechadas que davam para o pátio; e, finalmente, decidi experimentar os jardins do Generalife, que me tinham dito que comandavam o segundo pátio.
Certa vez, diz a lenda, um príncipe fora isolado pelo pai naqueles jardins e naquelas torres, para que não visse o rosto de uma mulher e não conhecesse a tristeza através do amor; contudo, ele descobrira o grande segredo e tivera notícias da mais bela dama do mundo. Esperei, enquanto caminhava pela alameda de ciprestes, que pudesse ser tão afortunado; e nos jardins todas as coisas falavam de amor. Ali, sob o gigantesco cipreste, o belo Abencerrage viera cumprir o encontro que lhe custou a cabeça, e a de outros trinta e cinco tão nobres quanto ele. Ali, no topo daquela sombreada escadaria de pedra, cujos balaústres eram adornados com água corrente, o Príncipe Ahmed sentara-se para tocar alaúde. Daquela varanda em arco, Zorayda olhara quando o amor era jovem e Boabdil ainda era o amante. Nos espelhos do pátio das águas, Galiana debruçara-se sobre a própria imagem e perguntara: “Serei digna de ser amada?”
Do emaranhado de rosas brancas e vermelhas, agrupadas com laranjas douradas e flores perfumadas que se misturavam num único e enorme buquê, olhei para encontrar o meu amor. Era verdade, agora eu conseguia ver claramente o pátio dos ciprestes; e, de repente, uma figura branca saiu de uma janela na galeria. Com as lentes nos olhos, julguei reconhecer a esguia jovialidade de Monica; mas, um momento depois, uma forma maior apareceu. As duas mulheres ficaram juntas olhando para cima, com Lady Vale-Avon apontando para as torres da Alhambra ou do Generalife.
Seria possível que ela me visse? Ainda assim, não, ela não poderia sem óculos. Mas, se de fato tivessem dito a Monica onde eu estaria a uma certa hora, não poderia ela ter engendrado algum meio de iludir a mãe e vir sozinha à varanda?
Muito tempo depois que as duas desapareceram, eu permaneci; esperei até o pôr do sol; esperei até que o céu se inundasse de rosa e ouro, e as torres e colinas ficassem púrpuras em uma névoa violeta. Mas Monica não voltou.
Se não lhe tivessem dado a mensagem, que garantia eu tinha de que ela receberia a outra, muito mais importante?
Foi em uma febre de incerteza que precisei passar as vinte e quatro horas seguintes.
XXXVII
SONHOS E UM DESPERTAR
Naquela noite, em minha villa acima da “estrada do grande matador de mouros”, os rouxinóis eram os únicos serenos. Seu canto era o canto das estrelas; e o canto das estrelas era o canto dos rouxinóis. Ao amanhecer, da minha janela, fui conduzido à vida privada dos meus pássaros vizinhos. Ouvi-os acordarem uns aos outros; vi-os fazerem suas limpezas; e da cidade, muito abaixo do meu jardim em terraços, o som dos sinos subia — sinos de igreja, sinos de mulas e cavalos começando o trabalho, enquanto seus donos cantavam coplas com um balanço de lamento mouro.
Mais uma vez desci para olhar a porta de Carmona, encontrando-a ainda guardada pela guardia civile; e passei a maior parte do dia na Alhambra, vendo quartos e pátios que eu perdera no dia anterior, olhando frequentemente para o pátio do palácio no Albaicín.
Jantei no jardim do hotel e, antes das nove, estava no local marcado na estrada, fora do muro alto do meu Carmen. Os momentos passavam enquanto eu andava de um lado para o outro, meu cigarro um ponto de fogo sob o luar crescente; ainda assim, a rapariga com rosto de cigana não vinha.
Vinte minutos de atraso, dizia meu relógio, e enquanto eu o encarava, um homem parou à minha frente.
“O nobre senhor espera alguém?”, perguntou ele.
Guardei o relógio e olhei para ele. A lua, por mais obscurecida que estivesse pelas nuvens, mostrava uma figura alta, com ombros fortes e um rosto que, na noite, parecia tão escuro quanto o de um mouro. O homem tirara o chapéu dos seus densos cabelos negros, e eu disse a mim mesmo que ele era um modelo para um artista que desejasse pintar um cigano.
Ao ver que eu não respondia de imediato, ele continuou:
“O senhor deve perdoar-me se cometi um erro; mas minha irmã, que tinha um recado para um cavalheiro, enviou-me em seu lugar.”
“Nesse caso, não cometeu erro algum”, disse eu. “Tem uma mensagem para mim da sua irmã?”
“E de uma dama. A mensagem é que, se o senhor vier à minha casa dentro de uma hora, encontrará o que procura.”
Meu sangue acelerou.
“O que procuro?”
“Uma dama que o ama e que lhe enviou isto através da minha irmã.”
O homem produziu um pequeno pacote de papel branco que tomei, mas não quis abrir em sua presença.
“Quer dizer que a dama encontrar-me-á na sua casa — esta noite?”, perguntei.
“Ela espera que sim, pois não há outro lugar ou meio. Minha irmã trará a dama; mas não é uma casa, à sua maneira de falar, senhor. É uma caverna na encosta que fiz de lar, pois sou um gitano.”
“Vive acima do Albaicín, no bairro cigano, então?”, disse eu.
“Não, senhor, mais perto daqui do que isso. Deve ter visto, se caminhou pela vizinhança, que há muitas outras cavernas que formam um favo de mel nas encostas. Para encontrar a minha, deve ir em direção ao cemitério, tomar a primeira curva à direita, seguir a estrada sinuosa que desce e, depois, subir por um caminho íngreme e parar na primeira das três cavernas ciganas. Não devo esperá-lo, pois tenho de garantir que minha irmã e a dama cheguem em segurança. Mas não pode perder o lugar; e, se eu não estiver esperando à porta, abra-a sem bater e entre. Está entendido, senhor?”
“Sim”, disse eu.
“Então irei vigiar a chegada da minha irmã perto do palácio. Às dez e meia, senhor.”
“Às dez e meia.” Ecoei suas palavras e vi-o desaparecer de vista enquanto caminhava na direção que o levaria ao Albaicín. Então, apressei-me a voltar à villa e abri o pacote. Continha o broche de Toledo em forma de escudo, com cuja oferta eu enfurecera Carmona; isso, e nada mais. Mas — a menos que tivesse sido roubado dela — era a garantia de que ela enviara o mensageiro, de que queria que eu confiasse nele.
Apesar disso, havia o perigo de eu cair numa armadilha ao encontrar-me à noite na caverna de um cigano, especialmente um cigano que ou desertara ou fora banido da colônia. Mas não correr esse risco seria correr um muito maior, o de perder a chance oferecida por Monica; e sobre tal alternativa eu nem conseguia pensar.
Se eu contasse ao homem, Pepe, que cuidava dos meus afazeres na villa, onde pretendia ir, poderia acabar comprometendo Monica, caso ela chegasse tão tarde que Pepe ficasse alarmado. Como o nome dela deveria ser mantido fora do assunto a qualquer custo, decidi que a devida cautela seria proteção suficiente. A menos que a notícia da minha presença em Granada tivesse chegado a Carmona em seu leito, havia pouco medo de traição; e quando coloquei na minha algibeira o revólver comprado em Madri, senti que estava seguro.
Era uma estrada escura e solitária, aquele caminho dos mortos. Não encontrei uma alma viva quando cheguei a um caminho estreito, uma mera trilha de cabras, que levava mais alto pela encosta até uma fileira de quatro ou cinco janelas minúsculas iluminadas na rocha. Estas deveriam, eu sabia, marcar as habitações em cavernas de que o cigano falara, algum pequeno ramo do assentamento principal perto do Albaicín. A porta que alcancei primeiro estava fechada. Ninguém estava à espera, mas abri-a e entrei.
Uma luz fraca, projetada por uma pequena lâmpada de parafina colocada num nicho escavado na rocha caiada, tornava a escuridão visível num quarto minúsculo com um chão de terra batida. Uma cortina de chita vermelha na extremidade indicava um segundo cômodo de caverna logo atrás. Ninguém estava visível, ninguém respondeu quando falei, e sentei-me à espera numa cadeira de assento de palha em ruínas que estava de costas para a cortina vermelha.
Depois disso, nada.
E então, sonhos.
Houve um sonho sobre um quarto, um quarto grande, ao que parecia, sombrio nos cantos, e com paredes onde guerreiros cristãos e mouros lutavam em tapeçaria, saltando às vezes de seus garanhões e voltando a galope para o seu lugar.
No quarto havia uma grande cama com cortinas de seda escura. Um homem estava deitado nela, mas sentou-se de repente e olhou ansiosamente para algo que parecia ser eu, morto ou morrendo. Mas eu não me importava. Eu sabia quem ele era, e que nos odiávamos por algum motivo que eu não conseguia lembrar, mas era impossível recordar o seu nome. Estava emaranhado num milhar de novelos de seda; ou seria o cabelo amarelo de uma mulher?
O homem exclamou: “Bom — muito bom”, mais de uma vez para alguém que eu não conseguia ver. Depois disse, quando o outro alguém falou: “Apenas mantenha-o até depois de eu me casar. Não me importa o que faça com ele depois disso. Atire-o num poço ou deixe-o ir. De qualquer forma, ele nunca poderá descobrir ou provar nada problemático.”
Isso foi tudo daquela parte do sonho, embora houvesse outro que veio logo depois e estava de alguma forma ligado a ele. Era um sonho sobre uma longa e escura passagem, que cheirava a porão, e eu estava sendo arrastado por ela por duas vozes, uma coisa que não parecia de todo extraordinária, embora fosse desagradável.
Depois disso, os pensamentos concretos perderam-se num tremendo pulsar de dor, que estava na nuca no início, mas espalhou-se lentamente pela coluna vertebral, até que, finalmente, todo o meu corpo parecia ter sido espancado com martelos gigantes.
Tive uma ideia, a certa altura, de que caíra nas garras da Inquisição e fora torturado pelo parafuso de cabeça e pelo potro, porque frequentemente um homem de capucha preta esvoaçava à minha volta; mas, mais tarde, compreendi que meu sofrimento era causado por tornar-me consciente do movimento do mundo — um redemoinho terrível e incessante, que, uma vez sentido, só poderia ser evitado na morte.
Isso era terrível. Vivi muitos anos de horror, mas finalmente caí do mundo para outro planeta, onde houve um período de paz.
Quando acordei, estava olhando para as minhas mãos.
Para minha grande surpresa, elas já não eram castanhas e fortes como as mãos de um jovem deveriam ser, mas de um branco doentio, e tão finas que me vi rindo delas de uma forma lenta e suave, como se ri enquanto se dorme.
A princípio, não parecia importar que eu tivesse mãos como aquelas; mas, de repente, com uma onda de sangue para o coração, percebi que era antinatural, terrível, que algo hediondo devia ter acontecido comigo.
Num momento, minha cabeça ficou clara e senti como se uma faixa apertada tivesse sido retirada da minha testa.
Sim, algo tinha acontecido, mas o quê?
Olhei em volta e vi um quarto desconhecido, mas já odiado. Era um quarto pequeno, porém belo, com as paredes cobertas por trabalho mourisco, como o que vira na Alhambra. Eu estava deitado num divã-cama, numa alcova sem janelas; mas, no quarto ao lado, vi uma com uma delicada moldura de filigrana, sustentada por um pilar de mármore. Havia também um arco, de onde uma cortina foi afastada, e pude ver a extremidade de uma banheira de mármore.
Como vim parar a este lugar? Onde era, e há quanto tempo eu estava ali? foram as perguntas seguintes que fiz a mim mesmo.
Não houve mais sonhos. O quarto era real; e a brancura e a emaciação das minhas mãos eram reais. Um homem deve ter estado muito doente, e por muito tempo, para ter mãos tão brancas e finas como aquelas.
De repente, sentei-me, gritando: “Monica!”
O som do seu nome trouxe a imagem dela à minha frente. Que coisa horrível me fora feita para que eu tivesse esquecido a sua própria existência?
As forças falharam e caí para trás, um suor frio brotando na minha testa. Acima de tudo, o que tinha sido feito a ela? “Não me deixe sozinha”, ela suplicara; contudo, eu a abandonara. Eu estava — aqui.
Os dias de automobilismo voltaram-me à memória; dias felizes e esperançosos ao ar livre. Há quanto tempo foram eles, para que eu estivesse assim destroçado, para que me sentisse como um homem envelhecido?
Lentamente, e frio como o rastro de uma serpente, um pensamento rastejou para a minha mente.
Lembrei-me de um conto que lera uma vez. Era de Gertrude Atherton, e na época eu o considerara o conto mais angustiante já escrito. Uma mulher adormecera, jovem, bela, amada. Acordara para encontrar o seu cabelo grisalho, as suas mãos velhas e com veias. Vinte anos vazios de loucura passara ela num manicômio, depois de ter sido levada à loucura por um choque, despertando para a sanidade apenas no final para encontrar-se uma mulher idosa.
Terei eu enlouquecido? Estaria eu velho agora, com as minhas mãos brancas e definhadas?
Formigando de pavor, toquei no meu rosto. O queixo estava áspero com a barba por fazer. Imaginei que havia covas nas minhas bochechas. Estaria o meu cabelo grisalho?
Em algum lugar devia haver um espelho. Tentei lutar para me levantar e encontrá-lo, para que pudesse ver a minha própria imagem e conhecer o pior; mas uma vertigem apoderou-se de mim e tive de me deitar novamente, ou sabia que desmaiaria.
“Tenho Carmona a agradecer por isto”, disse em voz alta, furiosamente. Mas então perguntei a mim mesmo: como eu sabia que alguma vez existira um Carmona, que alguma vez existira uma rapariga chamada Monica Vale? Talvez eu tivesse sonhado com ambos, no tempo da loucura.
Houvera muitos sonhos. De repente, lembrei-me da voz de um homem a dizer: “Apenas mantenha-o até depois de eu me casar.” A voz fora a de Carmona. Eu sabia disso agora.
Não, eu nunca enlouquecera. Um truque horrível fora pregado em mim — na caverna do cigano. Disso eu me lembrava. Tudo era um vazio desde então, exceto pelos sonhos. Talvez alguns deles fossem verdadeiros. Talvez, meio inconsciente — (pois alguém devia ter saído de trás daquela cortina vermelha e atingido a minha cabeça) — eu tivesse sido levado até ele, para que ele tivesse certeza de que era o homem certo. Alguém fora ordenado a manter-me, até depois — Sentei-me novamente, com um gemido. Eu precisava sair dali. Precisava salvar Monica do homem e da sua própria mãe. Mas — se já fosse tarde demais?
Houve um som no quarto. De uma porta que eu não conseguia ver, alguém entrara. Uma chave girara, e estava sendo girada novamente. O sonho da Inquisição voltou à minha mente, pois o homem de capucha preta estava de pé, olhando para mim.
“Quem é você?”, perguntei. Embora durante muitos anos tivesse falado inglês, e espanhol apenas por algumas semanas, foi mecanicamente que usei o espanhol agora.
“Seu bom amigo”, veio debaixo da capucha, enquanto havia um brilho de olhos através das duas fendas oblíquas na seda preta.
“Se é meu amigo, deixar-me-á sair deste lugar, onde quer que seja”, disse eu.
“Mas eu sou também o seu médico, e você está fraco demais para sair. Esta é a primeira vez que profere palavras sensatas, e agora elas não são sábias.”
“Não estou fraco demais para ouvir como vim aqui, há quanto tempo estou, e—” Ele cortou-me com um aceno de uma mão amarela e velha. Sob a capucha, ele usava um casaco preto comum, como os que os espanhóis idosos de classe média usam todos os dias.
“Você não deve se exaltar”, disse ele. “Quanto à sua vinda para cá, encontrei-o caído na estrada numa noite escura, com a cabeça aberta, e por compaixão trouxe-o para a minha casa.”
“Se é médico e não tem motivos para esconder o seu rosto de mim, por que o cobre com uma capucha?”, continuei, incrédulo.
“É a capucha da cofradìa à qual pertenço”, explicou o homem. “Uso-a em certas horas por causa de um voto que não expirará até Corpus Christi. Se eu fosse uma pessoa perversa, que desejasse o seu mal, por que precisaria me preocupar em esconder o rosto para que não o reconhecesse novamente? Vivo sozinho nesta casa, e se lhe desejasse o mal, nunca precisaria deixar que saísse destes aposentos. Mas, em vez disso, cuidei de você, e você retribuiu algumas experiências que fiz, pois agora acho que está melhorando. Só precisa ter paciência.”
“Diga-me há quanto tempo jogou de bom samaritano e me apanhou à beira da estrada”, disse eu. “Então talvez eu tente ser paciente.”
“Há quanto tempo?”, ecoou ele. “Não lhe posso dizer isso. Para um filósofo como eu, dias e semanas são quase a mesma coisa.”
“Filósofos têm estado muitas vezes a soldo de duques”, disse eu.
“Esses dias passaram. Vivo a minha vida sem duques.”
“Sem o Duque de Carmona?”
“O Duque de Carmona? Isso é apenas um nome para mim. Por que o menciona?”
“Acho que pode adivinhar.”
“Temo que, afinal, o seu cérebro não esteja lúcido. Devemos tomar um pouco mais do bom remédio.”
Antes que eu soubesse o que ele pretendia fazer, ele estava fora da alcova e fora de vista no quarto ao lado. Mais uma vez tentei as minhas forças e teria seguido, mas antes que pudesse fazer mais do que lutar para me levantar da cama, a porta fora destrancada e trancada novamente.
“Ele deve guardar a chave no bolso”, pensei.
Eu não acreditava numa palavra das explicações plausíveis. O esforço mental contínuo que eu fizera limpou, em vez de cansar, o meu cérebro; e eu estava fora daquele mar negro de horror em que me afogava.
Eu não enlouquecera e não podia estar naquela casa há muitas semanas, já que o homem da capucha falava de Corpus Christi como algo ainda no futuro.
Lembrei-me do telegrama do Coronel O’Donnel e da sua menção a um homem em Granada a quem Carmona valorizava mais do que a muitos médicos. Parecia não ser impossível que essa pessoa e o meu “bom amigo” fossem um só; mas se — fraco como eu estava agora — eu esperava sair da casa dele vivo, talvez fosse melhor mudar a minha tática e guardar as minhas suspeitas para mim mesmo, até que eu recuperasse forças. Se o homem acreditasse que me convencera da sua inocência e intenções bondosas, talvez achasse mais fácil deixar-me viver do que me eliminar violentamente.
Decidi cultivar um espírito mais razoável, até que o meu corpo pudesse ajudar-me a defender outras convicções. E uma coisa deu-me coragem para manter a resolução. O fato de o meu anfitrião ainda não estar disposto a dar-me alta como curado argumentava que ainda havia um forte motivo para me manter atrás de portas trancadas. O tempo de que Carmona falara no meu sonho não chegara. Ele ainda não se casara, e disse a mim mesmo que nunca se casaria, se isso dependesse do consentimento de Monica para ser sua esposa.
Desde aquela hora na catedral de Sevilha, nada faria com que ela acreditasse que eu era desleal, pensei; portanto, nada poderia torná-la desleal a mim.
Conhecendo pouco sobre doenças, confiava que, afinal, eu não fora ali colocado por muito tempo. Talvez alguns dias de febre e delírio definhassem as mãos e desbotassem a mancha castanha do bronzeado. No momento, embora eu fosse jovem e tivesse sido forte, não teria hipótese contra um homem velho; mas se eu comesse e pudesse arrastar-me para fazer um pouco de exercício, um ou dois dias deveriam fazer uma enorme diferença.
Eu ainda estava com esse pensamento quando o capucha voltou. Tão suavemente ele destrancou a porta que não o ouvi, mas não foi tão furtivo ao trancá-la novamente. Trouxera-me um copo de leite; e, quando o bebi, pediu-me que me levantasse para que ele pudesse avaliar a minha força.
Fraco como estava, senti que poderia ter me levantado, mas decidi combatê-lo com as suas próprias armas. Fazendo um esforço débil, caí de volta nas almofadas e fechei os olhos.
“Serão precisos muitos mais copos de leite antes que precise perguntar novamente: ‘Mas quando é que o deixo?’” disse a voz através do capucha.
Concordei e deleitei-me com a minha estratégia depois que o homem saiu, até que, para meu alarme, fui vencido pelo sono.
Ele tinha posto algo no leite.
XXXVIII
A FONTE
O delicado trabalho de treliça das paredes estava desfocado na penumbra quando acordei de um sono pesado e irresistível.
Sentia-me entorpecido, mas não conseguia detectar qualquer outro efeito nocivo da droga. Na verdade, imaginei que estava mais forte; e, muito lentamente, com descansos ocasionais, coloquei-me de pé e comecei a rastejar pelo quarto.
Havia pouca mobília, mas o que havia era bom, de um gracioso desenho mourisco que combinava com a decoração da parede e com o formato em ferradura da janela. Esta tinha uma treliça de madeira elaborada, que deixava entrar bastante ar, já que não havia vidro; mas, do lado de fora, havia seis barras robustas de ferro, e a treliça estava fixada com segurança. Olhei através do padrão de madeira para um pátio muito pequeno, porém encantador, pavimentado com tijolos e azulejos, e que possuía no centro uma fonte com uma bacia rasa. Penachos plumosos de água escorriam sobre algumas palmeiras baixas em grandes vasos azuis e brancos de cerâmica de Triana, mas, enquanto eu olhava, os penachos encolheram quase a nada e depois pararam de oscilar. A fonte estava a dormir para a noite.
Apoiando-me com uma mão na parede, cheguei ao quarto do banho de mármore. Lá, a janela não tinha mais que um pé quadrado e estava situada no alto da parede. Num banco baixo e esculpido, estava a roupa que eu vestira na noite da minha visita à caverna da cigana. Sentei-me e examinei os bolsos. O dinheiro que eu tinha — seis ou setecentas pesetas, tanto quanto me lembrava — tinha desaparecido; assim como o meu relógio de ouro e o revólver que eu carregara tão alegremente como um meio seguro de autoproteção.
“Prerrogativas de cigano”, disse para mim mesmo, mas a visão das roupas trouxe o passado de volta tão vividamente que pude ver-me a despedir de Dick na estação ferroviária. Leal e engenhoso velho Dick! Por que ele não encontrara o seu amigo em todo este tempo, enquanto as minhas mãos se tornavam brancas e finas?
Certamente deve ter havido algum clamor quando não apareci nem na villa nem no hotel? Um homem não pode desaparecer da face da terra, disse a mim mesmo, e não deixar rasto. Ansiava que o homem do capucha voltasse para que eu lhe pudesse fazer mais perguntas, ainda que não pudesse depositar fé nas suas respostas; mas ele não apareceu novamente naquela noite. Dormi depois de algum tempo, um sono de exaustão; e, quando acordei à luz do dia, encontrei um copo de leite sobre uma pequena mesa mourisca ao lado da cama.
Não suportei bebê-lo, com medo de que a mesma droga me fizesse dormir como antes. Mas como recuperar a força sem comida? E, evidentemente, eu teria isto ou nada.
Por algum tempo esperei, esperando que o meu “bom amigo” viesse e que, se eu lhe dissesse que não gostava de leite, ele me desse outra coisa, não tão fácil de misturar com uma droga. No entanto, acabei por ficar fraco. Talvez, pensei, o leite fosse inocente desta vez. Bebi, e a mesma sonolência me venceu. Assim, dormi durante a maior parte do dia e enfureci-me comigo mesmo quando acordei.
Novamente, um copo cheio estava ao lado da cama, mas eu não bebia. Muitas horas de cochilo deixaram-me desperto; e os meus olhos estavam bem abertos quando, uma ou duas horas depois do amanhecer, a porta no quarto exterior foi suavemente destrancada.
Ele não se tinha esquecido do seu capucha, embora devesse esperar encontrar-me a dormir. Na mão trazia um copo de leite, mas, quando viu que eu estava acordado, viu também que o outro copo não tinha sido tocado.
Eu não estava com fome nem com sede, disse como desculpa. E não conseguia descansar porque não estava confortável. Tinha-me irritado, expliquei, sentir o cabelo comprido no pescoço e o rosto por barbear. O meu anfitrião poderia trazer um barbeiro?
O homem refletiu por um momento e depois disse que faria o seu melhor como barbeiro. No momento, e até que o seu voto fosse cumprido, ele não saía, exceto após o cair da noite, e, portanto, não podia pedir a ninguém que viesse à casa.
No instante em que ele virou as costas, escorreguei da cama para estar pronto a cambalear o melhor que pudesse do meu nicho e saltar sobre ele quando tivesse a porta aberta; pois acreditava que estava forte o suficiente agora para ter alguma hipótese. Mas a sua audição devia ser aguçada, pois virou-se e disse-me para não me esforçar. O quê — eu estava apenas a levantar-me para estar pronto quando ele voltasse com tesouras e navalha? Não precisava de me incomodar. Ele faria tudo enquanto eu estivesse na cama; e esperaria até me ver regressar a ela.
Ele era o mestre da situação e sabia disso. Fui obrigado a deixá-lo fazer a sua vontade; e, depois, ele foi tão rápido a chegar à porta que, no meu estado de fraqueza, não teria chegado a tempo.
Quando ele voltou, no entanto, eu estava pronto. Esperando logo dentro da porta, assim que ela foi cautelosamente aberta, lancei-me sobre ele. Mas tinha superestimado a minha força e subestimado a dele. Rápido e ágil como um leopardo, o velho enrolou-se em mim e, por um momento, lutamos pela supremacia, eu a pensar na navalha que ele prometera trazer e na esperança de a conseguir. Se eu pudesse fazer isso, seria capaz de o manter à distância, sem qualquer violência, exceto ameaças.
Uma vez, quase o derrubei, ou ele deixou-me imaginar isso; mas com uma torção súbita fez-me perder o equilíbrio, que não estava nada firme. Escorreguei no chão de azulejos e quase me salvei quando um empurrão rápido me fez cambalear para trás. Instantaneamente, o capucha estava do outro lado da porta, um ferrolho deslizou para o lugar e a chave girou na fechadura.
A fúria deu-me um breve impulso de força. Agarrei o banco de madeira esculpida na casa de banho e atirei-o furiosamente, uma e outra vez, contra um painel da porta. Mas a madeira forte nem sequer rachou sob os meus golpes.
À medida que a hora passava e eu era deixado sozinho, de tempos em tempos renovava os meus esforços, sem resultado, exceto que, eventualmente, quebrei o banco. Depois, rasguei a treliça da janela, enfiando os dedos e tentando, em vão, fazer a madeira em pedaços. Embora as barras de ferro no exterior impedissem a minha fuga para o pátio, pensei que, se a treliça estivesse partida, os gritos poderiam ser ouvidos mais facilmente.
Finalmente, quando fui obrigado a desistir da esperança, pressionei o rosto contra o padrão fechado da madeira e gritei vigorosamente, até que a minha voz falhou. Mas os meus próprios gritos eram os únicos sons que ouvia, exceto o sino de igrejas distantes e o canto de águas subterrâneas, silenciosas apenas à noite, quando a fonte ia dormir. Seria quase impossível, tive de admitir, para qualquer pessoa do lado de fora julgar a direção de um grito, vindo através de uma janela tapada e rodeada por todos os lados por muros altos de casas.
A escuridão caiu; e fiquei com tanta fome que teria bebido alegremente o leite deixado desde a manhã. Provei-o e descobri que estava estragado pelo calor, pois o dia tinha sido quente. Com nojo, deitei-o fora, mas quando toda aquela noite passou e parte do dia seguinte, arrependi-me da minha exigência.
Frequentes goles de água do quarto de banho de mármore davam-me um estímulo ocasional, mas um homem que recupera de uma congestão cerebral ou de alguma doença semelhante, após uma pancada na cabeça, não pode viver muito tempo apenas com água; e era claro que o meu anfitrião, enojado com a minha “ingratidão”, pretendia punir-me cruelmente ou dar fim a mim pela inanição.
Quando a segunda noite se fechou, decidi que ele tinha decidido a minha morte. Talvez, se eu tivesse sido dócil, quando o tempo fixado pelo seu empregador tivesse expirado, ele pudesse ter escolhido libertar-me, confiando que eu acreditasse na sua história. Mas, vendo que eu não acreditava, que não pouparia esforços nem truques que pudessem permitir a minha fuga enquanto a minha presença no mundo exterior ainda fosse altamente indesejável, o homem provavelmente esmagou todos os sentimentos humanos pelo seu prisioneiro. Como ninguém me procurara, vivo, na sua casa, era improvável que me procurassem lá quando morto.
Eu estava na janela, enquanto dizia estas coisas a mim mesmo, olhando para o pátio, onde as palmeiras e a concha que era a bacia superior da fonte eram fracamente definíveis à luz das estrelas. Privado do meu relógio, a única maneira que tinha de calcular o tempo após o cair da noite era pelo silêncio que surgia cerca de uma hora depois do pôr do sol. Então, a voz gorgolejante da água escondida (que cantava no subsolo neste pátio isolado, como em toda a parte no Albaicín e na colina da Alhambra) cessava abruptamente, após um toque distante que julguei ser o do sino na Torre de la Vela, que regulava a irrigação de todo o campo em redor. Neste mesmo momento, os penachos de diamante da fonte caíam invariavelmente e desapareciam, para não voltar a oscilar até que o sol da manhã surgisse.
Ficava sempre triste quando a fonte morria, pois era a única companheira do meu cativeiro, o meu único prazer ténue ao observar o seu jogo de ninfa. E esta noite o silêncio mortal do pátio parecia a calmaria antes da minha própria morte.
Deve ter sido, pensei, por volta das dez horas, quando ouvi um som novo no pátio, leve, ilusório, mas distinto. *Clink — clink* — como metal sobre pedra, como se um *troll* estivesse a escavar no subsolo. O velho estava a aproveitar a oportunidade, disse severamente a mim mesmo, preparando um lugar em alguma cave para me colocar quando eu estivesse acabado. Eu duraria ainda alguns dias; mas levava tempo para fazer estas coisas bem. No hotel, tinham-me contado como, há um ou dois anos, ao destruir uma casa velha no Albaicín para construir uma nova no local, os trabalhadores encontraram os esqueletos de dois granadeiros franceses, cuidadosamente selados numa parede de pedra, onde tinham guardado vigília desde o tempo da Guerra Peninsular. Provavelmente, uma ou duas noites tinham sido necessárias para a construção do seu nicho.
*Clink — clink!* Sim, o velho miserável devia estar a trabalhar numa cave. O ruído certamente vinha do subsolo; e não era tão agradável aos meus ouvidos como o tinir da fonte desaparecida. Desejei que a hora chegasse para a água saltar e afogar aquele outro som furtivo.
De repente, enquanto voltava um olhar saudoso para a concha de alabastro que brilhava fracamente entre as palmeiras baixas, para meu espanto, ela pareceu vacilar. Pensei que devia ser uma mera ilusão de olhos cansados, ou que o efeito fosse criado por uma nuvem obscurecendo a luz das estrelas. Mas, novamente, a concha branca moveu-se contra o fundo verde-escuro, desta vez oscilando de um lado para o outro.
Poderia haver um terramoto, tão leve que eu não sentisse o abalo? Mesmo enquanto me fazia a pergunta, a concha da fonte soltou-se do seu suporte e caiu na bacia principal, agora quase vazia. Os lírios de água e as suas folhas verdes que flutuavam escassamente ali abafaram o som do choque, mas houve um ruído de quebra. As placas de mosaico colorido que pavimentavam a bacia inferior ergueram-se, como se a terra por baixo estivesse a rebentar, e espalharam-se de um lado para o outro, caindo sobre as linhas esmagadas. Então, através de uma abertura negra e irregular, surgiu a cabeça e os ombros de um homem.
O som metálico tinha parado; mas de algures na casa veio o bater de uma porta.
A cabeça e os ombros, agora imóveis, estavam nitidamente definidos contra a pilha dispersa de fragmentos brancos, como o busto de um homem modelado em mármore negro. Alguém assobiou suavemente, e a melodia era “The Girl I Left Behind Me”.
“Dick!” chamei através da treliça de madeira fechada.
“Hurrah!” respondeu ele; e o busto de mármore negro tornou-se a estátua de corpo inteiro de um homem.
Como ele me tinha encontrado, como tinha vindo, eu não sabia; mas lá estava ele, e o portão da vida não se tinha fechado para mim, afinal. Dick estava fora do buraco irregular na bacia e a meio caminho do pátio, quando uma porta, que eu sempre vira fechada, abriu-se de repente para deixar sair um jato de luz, e a figura do velho que eu conhecia tão bem saltou sobre ele.
Eu estava fraco e, por um momento, senti-me enjoado, o pátio com a sua fonte partida e as formas dos homens num halo de luz amarela, girando diante dos meus olhos como se houvesse de fato um terramoto. Depois, a névoa clareou e, como um rato numa gaiola, observei a luta que significava vida ou morte para mais do que um de nós.
Não havia capucha agora para cobrir a cabeça de cabelos grisalhos e a barba venerável. Uma vez apanhei um vislumbre de um perfil afiado como o de um falcão. O velho tinha saído da casa com uma bengala de espada de Toledo, tal como o Rei e o seu amigo tinham usado com os bandoleiros, e, ao ver o inimigo que tinha de enfrentar, atirara fora a bengala de bambu. A lâmina longa e fina brilhava à mesma luz que me mostrava Dick, armado com um pé-de-cabra de ferro, formidável e ameaçador.
Se fosse uma cena numa peça de teatro e eu estivesse na plateia, teria aplaudido, pois havia algo em mim que gritava que era um belo quadro. Mas a vida de Dick e a minha estavam na balança.
XXXIX
DEPOIS DE AMANHÃ
O par estava a observar-se como dois esgrimistas, Dick com o pé-de-cabra levantado, apontando ao coração a lâmina que o perfuraria quando o espanhol se atrevesse a avançar uma polegada.
Ansiava gritar: “Atira o pé-de-cabra à cabeça dele!” Mas se o olhar de Dick deixasse o olhar do seu oponente, ele era um homem morto; não devia arriscar distraí-lo por uma fração de segundo.
Pareceu uma hora, embora não pudesse ter sido um minuto, quando, como se o meu pensamento tivesse voado para o seu cérebro, a grossa barra de ferro girou pelo ar e atingiu o velho em cheio na testa. A lâmina de Toledo caiu da sua mão e ele caiu para trás sem um grito, com a cabeça dentro da porta aberta.
“Ele está morto?” perguntei.
Dick inclinou-se sobre o corpo inerte; mas, após um longo momento, levantou-se novamente, agitando uma chave grande e antiquada.
“Não”, respondeu ele. “O coração bate. Erva daninha não morre. Ele ficará bem. É esta a chave da sala da aranha?”
“Acho que sim”, disse eu. “Dick, vieste mesmo a tempo de me impedir de desistir. Estou esfomeado.”
Ele baixou-se e pegou no pé-de-cabra.
“Velho bruto! Tenho vontade de acabar com ele!” exclamou.
“Não queres dizer isso”, disse eu. “Mas procura algo para o amarrar. Ele pode voltar a si antes de partirmos.”
“Acho que vou levá-lo comigo”, disse Dick. “Quem guarda, acha.”
Recolhendo o corpo longo como se fosse a forma de uma criança a dormir, Dick desapareceu na casa. Sabia que ele estava à procura da porta da minha gaiola, e logo — pela primeira vez com prazer — ouvi o deslizar do ferrolho e o girar da chave.
Já estava na porta, abrindo-a para Dick entrar com o seu fardo pesado.
“Aqui está a cama”, disse eu, e Dick deitou o seu fardo, não muito gentilmente. Depois, penso que a coisa seguinte que fizemos foi apertar as mãos.
“Velho abençoado!” exclamou Dick, um pouco instável. “Que negócio horrível.”
“É um mistério”, disse eu. “E como me encontraste—”
“Conduta”, disse Dick. “Mas contar-te-ei tudo sobre isso, e tudo o resto. Não tens luz elétrica aqui?”
“Nada além da luz das estrelas. Pelo amor de Deus, conta-me sobre Monica!”
“Ela está bem”, disse Dick. “Ainda não é uma Duquesa, se é isso que te preocupa. Olha, se este lugar foi bom o suficiente para te enjaular todo este tempo, é bom o suficiente para o manter lá dentro—” (Ele acenou para o nicho.) “Ele vive aqui sozinho, sem criados; descobri tudo isso, com muito mais; e o seu mestre — acho que sabes quem — está em Madrid; então, quando este sujeito voltar a si, ele pode experimentar se gosta dos teus aposentos. Parecem ser bastante agradáveis, a julgar pelo que posso ver; mas Carmona sempre se trata bem.”
“Esta é a casa de Carmona?” perguntei.
“Podes apostar que é. Um tipo de lugar privado que ele mantém pronto quando quer divertir-se de alguma forma que a sua mãe, Monica e outras pessoas talvez não aprovassem em Duques. Este velho é uma combinação de caseiro e médico particular de Sua Graça. Mas vamos sair daqui. Não te posso oferecer um banho de mármore ou decorações mouriscas no meu hotel, mas não me admiraria se preferisses o alojamento; e depois daquela história da conduta, preciso de uma ‘lavagem e escovadela’ tanto quanto tu. Ora, meu velho, o que se passa? Não vais desmoronar, pois não?”
“Estou bem”, disse eu; “mas não comi nada desde o dia depois de te acompanhar, exceto leite, e nada disso nos últimos dois dias.”
“Grande Deus! Estás a brincar. Separamo-nos há cinco semanas!”
As palavras deram-me um choque, apesar da barba por fazer no meu queixo e da brancura das minhas mãos. Dick tinha o seu braço molhado à volta dos meus ombros, e estávamos na porta, que ele estava prestes a trancar, e eu surpreendi-o ao ceder um pouco nos joelhos.
“Olha aqui”, disse ele, agarrando-se ao meu braço como se tivesse medo que eu desaparecesse no ar, “não vamos esperar para jantar no meu hotel. Vamos farejar um pouco na despensa deste velho. Tens de ser animado antes de saíres para a rua. Oh, é seguro o suficiente. O velho bruto é um eremita — pelas suas próprias razões ou pelas de Carmona. Ninguém se aproxima da casa, e podemos levar o nosso tempo. Enquanto comes, vais ouvir tudo o que tenho para te contar.”
Ele trancou e ferrolhou a porta, e ajudou-me a descer as escadas, pelas quais eu devia ter sido carregado inconsciente; talvez pelo cigano, assistido pelo mestre da casa.
Lá em baixo, o lugar estava escuro, exceto pela luz que tinha saído para o pátio com a abertura da porta. Vinha de uma sala de bom tamanho, evidentemente destinada a uma cozinha, mas também usada pelo inquilino solitário como sala de jantar. Tinha uma janela que dava para o pátio; esta, porém, não estava apenas coberta com pesadas persianas, mas também protegida por uma cortina, e a ventilação vinha através de um quarto adjacente de uma janela que dava para outro pátio pequeno.
Evidentemente, meu carcereiro fora interrompido no meio da ceia e, ao ouvir um ruído no pátio, parara apenas o tempo suficiente para agarrar um bastão com espada. Sobre a mesa havia uma refeição simples de carne fria, salada, queijo de leite de cabra e frutas frescas; mas, para meus olhos famintos, parecia um banquete. Havia também uma garrafa meio cheia de vinho espanhol tinto; e não esperei pela sugestão de Dick para me sentar. Eu precisava recuperar minhas forças se quisesse ser de alguma utilidade para Monica ou para mim mesmo, e mal ouvi o aviso de Dick de que um homem faminto não deve satisfazer sua primeira fome.
“Coma devagar e não muito”, disse ele, com olhos ansiosos em meu rosto, que devia estar pavoroso, embora ele fosse tactuoso demais para fazer comentários. Enquanto eu obedecia, ele me contou sua história, de forma breve e desconexa, à medida que os pontos lhe vinham à mente.
“Não tive notícias suas”, disse ele, “e comecei a imaginar o que estava acontecendo. Enviei dois telegramas; sem resposta; eu estava um pouco ocupado com meus próprios assuntos naquela altura, receio. Sim, refiro-me a Pilar. Após cinco dias, enviei um telegrama ao proprietário. Ele respondeu que você tinha partido com um amigo. Achei aquilo estranho e parti para Granada no trem seguinte, com Ropes. No Washington Irving, encontrei meus dois telegramas para você e uma carta. O proprietário disse que recebeu um bilhete seu, datado de Motril, dizendo que você conhecera um amigo e partira inesperadamente no automóvel dele. Você incluiu dinheiro mais do que suficiente para pagar a conta e as gorjetas, e pediu que ele mantivesse sua bagagem embalada e guardada até seu retorno, que poderia ser em alguns dias ou talvez não por algum tempo. Naturalmente, ele não se preocupou; e como ele destruiu a carta, não pude dizer se era sua letra.
“Bem, pensei que você pudesse ter corrido para longe de repente por causa de alguma travessura de Carmona; mas logo descobri que ele ainda estava em Granada, recuperando-se lentamente; e os convidados não tinham ido embora. A propósito, fiz uma visita, mas ninguém na casa estava recebendo visitantes. Ropes descobriu que seu carro estava em um estábulo na cidade, onde você o deixara, sem dizer por quanto tempo. Ele e eu estávamos ficando assustados, e fui à polícia, mas não me atrevi a dar seu nome verdadeiro sem sua permissão, especialmente porque as autoridades tinham uma espécie de preconceito contra ele. Disparei meu melhor espanhol, no entanto, e insinuei que Carmona não era muito afeito a você; mas, quando comecei a sugerir que poderia ser conveniente para os planos dele que você desaparecesse, eles não me levaram a sério, foram educados e tudo mais, prometeram procurá-lo, como se você fosse um gatinho perdido, mas deram a entender que a maioria das pessoas que desapareciam tinha motivos particulares para fazê-lo.
“Depois disso, não esperava que descobrissem nada, e eles fizeram o possível para não me decepcionar. Vi que, se alguém fosse fazer o papel de Sherlock Holmes, teríamos de ser Ropes e eu. Ficamos firmes no Washington Irving e observamos ao redor; mas, ao fim de uma quinzena, ninguém estava mais sábio do que no início. Então, o que acontece, senão o querido e velho Coronel e Pilar surgirem para ver se podiam ajudar. Ah, e esqueci de lhe dizer que, enquanto isso, as pessoas no palácio de Carmona tinham ido embora. Tinham voltado para Sevilha de trem; e, por ironia, o Coronel e Pilar encontraram Carmona cara a cara na estação.”
“Não Monica?”, interrompi.
“Não. Suponho que os outros tivessem entrado em uma carruagem; ele estava retardando para dar instruções a um criado sobre a bagagem. E então houve uma cena. Pilar me contou tudo sobre isso. Carmona fez uma reverência; e antes que o Querubim pudesse afastar a menina, como tentou, vendo perigo nos olhos dela, ela disse ao Duque o que pensava. Disse que ele era um vilão, ou algumas palavras gentis desse tipo. Ele retrucou dizendo ao pai dela que poderia causar muitos problemas a Cristóbal se eles não tomassem cuidado. Pilar disse que eles poderiam acusá-lo de coisas piores do que ele poderia a eles; e de alguma forma, em um momento infeliz, o assunto de Corcito, um touro cinzento sobre o qual Carmona foi indelicado uma vez, surgiu. Então, antes que ela soubesse o que estava fazendo, Pilar soltou o nome de Vivillo, a fera que ela queria comprar, sabe. E, a partir desse minuto, o problema estava instaurado no que lhe dizia respeito. Mas sobre isso depois. Entre você e o touro, ela estava em um estado de espírito terrível quando chegou aqui, pobre criança. No entanto, ela começou a pensar e disse: ‘Tente os ciganos. Veja se eles não sabem de algo.’
“Aquilo foi o suficiente para mim. Tive uma simpatia repentina pelo Capitão Pepe, o chefe dos ciganos, e ia todas as noites ver uma dança em sua caverna. Mas logo vi que ele era honesto; e eles não eram um mau grupo de pessoas na colônia. Os desagradáveis ele expulsava, e eles que se virassem. O Capitão Pepe me falou de um sujeito, Juan Castello, que se tornara antipático, embora fosse um mestre no violão; e quando ele disse que o sujeito tinha uma irmã que tinha uma boa posição na casa de uma pessoa de título, porque ela era a melhor costureira da região, agucei os ouvidos. Pode apostar que, depois que ouvi que a pessoa de título era Carmona, voltei minha atenção para o Sr. Castello, apareci lá um dia, nomeei um preço alto e pedi que me desse aulas de violão. Ele não se importou, e ficamos bastante amigos. Passei várias noites em sua caverna, onde uma noite ouvi um cachorro uivando, como se estivesse muito doente, atrás de uma cortina vermelha.”
“Aquela cortina vermelha!”, exclamei. “Eu não estaria onde estou agora, nem teria uma cicatriz na parte de trás da cabeça, se tivesse olhado atrás dela.”
“Por Júpiter! Bem, tive uma ideia desse tipo. Castello disse que o cachorro pertencia a um cavalheiro em Granada, que vivia sozinho no Albaicín e mantinha essa fera como cão de guarda; mas ele estava com medo de que estivesse ficando louco e disse a Castello para matá-lo. No entanto, era um animal valioso, e Castello se encarregou de curá-lo para seu próprio benefício. Já estava melhor, e o dono falava em comprá-lo de volta se se recuperasse. O velho cavalheiro viria ver o cachorro naquela mesma noite, talvez, disse Castello; e, sendo evidentemente orgulhoso de um conhecido respeitável, continuou falando dele, eu o encorajando o máximo que podia, porque qualquer amigo dele poderia se mostrar interessante para mim.
“No minuto em que ouvi que o sujeito era uma espécie de médico de ervas e que às vezes tratava gente importante, quase pulei da cadeira; pois você sabe por que se supunha que Carmona viesse a Granada?”
Eu balancei a cabeça.
“Bem, Castello era ligado a esse médico de certa forma, pois era contratado por ele para buscar ervas e flores nas montanhas — como a Manzanilla, por exemplo, que só começa a crescer a uma altitude de doze mil pés. Castello acreditava que o velho também podia fazer venenos, além de antídotos; e eu disse a mim mesmo: ‘Talvez aquele pequeno punhal na catedral tenha sido especialmente preparado, hein?’. O que explicaria Carmona correndo para Granada depois que ele encontrou o alvo errado.
“De qualquer forma, disse que gostaria de ver o cachorro, então fui levado atrás da cortina vermelha para o quarto do Sr. Castello, e em uma prateleira jazia um revólver que poderia ter sido gêmeo daquele que você comprou em Madri.”
“Era ainda mais estreitamente relacionado”, disse eu.
“Bem, pensei isso, mas não tive certeza suficiente para chamar a polícia. Fui embora depois de dizer coisas gentis sobre o cachorro doente; mas não fui longe. Fiquei por perto até que o visitante de Castello tivesse vindo e ido embora, e então o segui até a porta desta casa. Um velho cavalheiro tão suave, de aparência inteligente e bem vestido, era o médico de ervas; mas acho que não preciso descrevê-lo para você!”
“No dia seguinte, comprei algumas coisas em uma padaria não muito longe daqui e adulei o lojista, dizendo que sua loja era boa demais para o bairro. É claro que ele me disse que tinha clientes ricos, e foi muita sorte eu ter me esforçado com o espanhol por causa de Pilar, ou teria perdido muita coisa logo ali. Logo o levei ao assunto do médico de ervas, seu melhor cliente, que, embora supostamente rico e vivendo em uma boa casa, fazia todas as suas compras sozinho e não mantinha empregados. Ninguém sabia muito sobre ele, exceto o que ele mesmo dizia; que podia consertar ossos e era capaz de ganhar tanto dinheiro quanto quisesse, vendendo seus remédios de ervas para grandes personalidades. Quem eram as grandes personalidades? O padeiro não sabia dizer; mas o médico vivia em sua casa atual há anos, depois de tê-la tomado quando estava em mau estado de conservação e tê-la reformado por dentro com trabalhadores que trouxe de Madri. Daquele dia em diante, ninguém que o padeiro conhecesse jamais fora convidado a entrar, embora ele tivesse ouvido histórias de damas veladas e sons de música à noite.
“Com isso, o pensamento surgiu em minha mente de que talvez a casa fosse de Carmona, um pequeno brinquedo secreto dele. E lembrei-me de ler sobre um famoso palácio antigo no Albaicín com uma passagem subterrânea para a Alhambra. Por que não haveria tal caminho do palácio de Carmona para a casa do médico? E que lugar conveniente seria para manter uma pessoa incômoda.”
“Ou para matar uma”, emendei.
“Pensei nisso; mas mantive a esperança. As pessoas não cometem assassinato quando seu sangue está frio se podem conseguir o que querem mais barato. Fui novamente à polícia, disse que acreditava que meu amigo estava detido contra sua vontade na casa do Doutor Molina. Mas quando eles queriam meus motivos, eu não conseguia dar nenhum que os convencesse. Eles acharam que eu era louco e se recusaram a revistar. Tive medo de que avisassem o velho para tomar cuidado com um americano louco, então me apressei e tomei as rédeas da situação.
“Eu não tinha certeza de nada o suficiente para pular em cima do homem fora de sua própria porta e agir como um ladrão abertamente, para que a polícia não pulasse em cima de mim, e eu fosse detido antes de encontrá-lo. Mas, por volta daquela época, comecei a ter água no cérebro; ou melhor, fiquei possuído pela ideia de entrar sorrateiramente em casas por meio de condutos; e não é de se admirar, quando todo o Albaicín é repleto de cursos d’água, borbulhando e gorgolejando de manhã até a noite.
“Na rua vizinha a esta, há uma casa mourisca do mesmo tipo, sendo demolida. Eles estavam vendendo azulejos antigos para negociantes de curiosidades um dia, então entrei no pátio. O pavimento estava levantado e vi como o conduto corria por baixo e abastecia a fonte. Aquilo foi instrutivo. Em frente a este lugar de Molina há um moinho. Descobri como o moleiro conseguia sua água e que, depois que ela girava sua roda, ela corria nesta direção, sendo desligada todas as noites por volta das nove. No moinho, o conduto é aberto, apenas protegido por um trilho; e desenvolvi um gosto por fazer esboços e tirar fotografias — turista em busca do pitoresco; o moleiro se acostumou a me ver por perto, enquanto eu me tornava familiarizado com a paisagem. Então comprei um pé de cabra e uma pequena lâmpada elétrica. A barra escondi sob meu casaco; e quando eu estava pronto para tirar a peça, Ropes a vestiu. Acho que serviu mais folgada para ele do que aquele conduto para mim, e havia doze metros de conduto; uma bela camisa de força longa, mas já estive nela muitas vezes agora e me sinto em casa. Você vê, o trabalho não poderia ser feito de uma só vez, pois eu precisava aumentar o buraco sob a fonte, e estive trabalhando nisso por quase uma semana, à noite, quando a água era interrompida. E se eu tivesse surgido finalmente, como um demônio em uma pantomima, para descobrir que tive meu trabalho por nada, não sei a que teria voltado minha astúcia em seguida.”
“Pilar sabe?”, perguntei.
“Ela e o Coronel partiram às pressas para Madri pouco antes de eu assumir o trabalho. Eles achavam que poderiam influenciar a polícia na sede, que era sua principal razão para ir; embora tivessem uma ou duas outras além. Mas veja aqui, você tem a história na ponta da língua agora, e está parecendo mil por cento mais saudável do que quando se sentou a esta mesa há dez minutos. O pobre e velho Ropes, que sempre fica por perto montando guarda, ficará muito feliz em vê-lo; mas, antes de abrirmos a porta e sairmos como se fôssemos donos da casa, vamos dar uma olhada ao redor. Pode haver algo que me dê a chance de dizer ‘eu avisei!’ à polícia.”
Revigorado com o vinho e com as escassas rações que Dick permitira, caminhei com firmeza suficiente para a sala adjacente, enquanto Dick carregava uma lâmpada. Não havia decorações tão suntuosas ali como na suíte que ocupei relutantemente. Uma cama moderna ficava em um canto. Havia prateleiras na parede, equipadas com portas de vidro que protegiam potes e garrafas. Em uma mesa grande, havia um equipamento para experimentos químicos e, em outra, algumas flores amarelas meio enterradas em folhas verdes. Na janela, havia uma escrivaninha moderna, e Dick imediatamente começou a revirar os poucos papéis nos escaninhos. Não havia nada, no entanto, que parecesse ter relação com nossos assuntos, com exceção de um formulário de telegrama, que tomei. Estava datado de primeiro de junho e fora enviado de um escritório em Madri. Não havia assinatura, mas havia um indício de algo secreto nas três palavras que continha: “Depois de amanhã”.
Dick e eu encaramos o papel, como se esperássemos que o significado da mensagem saltasse aos nossos olhos.
“Meu nome não é Richard D. Waring se a assinatura de Carmona não deveria estar anexada a isso”, disse ele. “Agora, temos algo por onde começar. Este telegrama será rastreado até o remetente antes que eu tenha muitas horas a mais; podemos confiar em nosso querido e velho Querubim para isso.”
“Depois de amanhã”, repeti. “O que vai acontecer depois de amanhã, para que Carmona tenha enviado um telegrama a este homem?”
“Eu diria que era sua maneira de deixar Molina saber que a porta da gaiola poderia se abrir.”
“Mas por que depois de amanhã? Ele...” interrompi-me subitamente, e pareceu que meu coração pararia de bater. “Dick”, comecei novamente, com uma voz estranha que não parecia a minha, “Monica está...” Eu não conseguia terminar a frase. Mas Dick entendeu.
“Perdoe-me”, disse ele. “Vi que você não estava forte o suficiente para suportar isso no início. Eu queria que você comesse, e então... eu teria guardado isso um pouco mais se pudesse, apenas até levá-lo ao hotel. Ela vai se casar com ele — no dia três de junho, Deus sabe por que, embora Pilar jure que a moça não pode ser a culpada, e que eles a fizeram acreditar de alguma forma que ela está se sacrificando por sua causa.”
“Que dia é hoje?”, perguntei.
“O primeiro. O casamento real foi ontem, e uma terrível explosão de bomba, na qual o Rei e a Rainha escaparam por pouco, e... mas vamos, Ramón, quero levá-lo ao hotel.”
“Não vou ao hotel”, disse eu. “Vou para Madri, para impedir o casamento de Carmona.”
XL
PELA NOITE
Dick olhou para mim com simpatia indulgente, como se eu fosse uma criança.
“São mais de onze horas da noite”, disse ele. “O trem para Madri partiu há duas horas, e...”
“Você disse que Ropes estava esperando por você lá fora?”, perguntei.
“Sim.”
“E meu carro ainda está na garagem onde o coloquei?”
“Sim; mas você não está em condições de fazer uma viagem. Se você pudesse se ver...”
“Ah, eu sei que sou uma aparição de pesadelo”, interrompi; “mas quando eu me barbear e...”
“A viagem o mataria.”
“O que me mataria seria não fazê-la.”
Olhamos um para o outro por um momento, então Dick disse:
“Tudo bem. Vamos. Eu sei o que você sente. Mas e aquele velho réprobo lá em cima?”
“Esperarei por você aqui enquanto você leva um pouco de comida e a deixa no quarto. Não podemos perder tempo em Granada por causa dele. Contarei minha história, e você pode contar a sua à polícia em Madri, depois que eu... depois que eu fizer o que vou lá para fazer.”
“Quanto tempo leva a viagem?”, perguntou Dick resignado.
“São cerca de quatrocentos e trinta quilômetros. Se pudermos partir por uma ou duas horas, excluindo acidentes, deveríamos estar em Madri ao meio-dia.”
“A tourada real é amanhã”, respondeu Dick. “Embora o casamento seja depois de amanhã, e os convites tenham sido enviados há uma quinzena, Carmona e Lady Monica são obrigados a estar lá, pois é um evento de convite real; isso significa uma ordem.”
“Muito bem”, disse eu. “Já que pode ser tão difícil chegar a ela em Madri quanto em Sevilha e Granada, esperarei do lado de fora da entrada da praça de touros e, quando ela estiver prestes a entrar, ela me verá e ouvirá toda a verdade. Não olhe como se achasse que não adiantaria nada, Dick; se ela prometeu se casar com Carmona apesar de tudo, é porque ele a fez pensar que pode me arruinar se ela se recusar. O instinto de Pilar está certo, eu sei; e agora, pela primeira vez, entendo por que Carmona não me denunciou à polícia como Casa Triana, quando Monica se recusou a manter seu noivado com ele, como tenho certeza de que ela fez. Sem dúvida, ele contou mentiras a ela — que eu poderia ser preso — por anos, talvez. E sua mão ferida — que oportunidade para ele! Ah! ele não a desperdiçaria. Ele a faria acreditar que eu o esfaqueei na catedral naquela noite. Quão plausível! E como ele esteve muito doente, não consegue imaginar quais devem ter sido os medos dela por mim? Dick, considero seu futuro casamento como uma prova de amor, não de indiferença.”
“Estou pronto para concordar com você”, disse Dick. “Mas você está arriscando sua vida para provar isso.”
“Bobagem”, respondi. “O pensamento de que estou livre, de que estou indo até ela e de que finalmente tenho Carmona em minhas mãos, me dará força suficiente para conseguir.”
Dick arqueou as sobrancelhas, mas não respondeu. Ele estava juntando pão e carne em um prato, para deixar para o homem lá em cima.
Cinco minutos depois, estávamos fora da casa e na rua. Em frente às instalações do moleiro, Ropes andava de um lado para o outro. Ele não disse muito quando viu que Dick tinha um companheiro; mas, enquanto apertava a mão que estendi para ele, ouvi-o respirando com dificuldade, e ele praguejou baixo quando viu meu rosto à luz de um poste de rua.
Foi a expressão no rosto dele que me fez perceber, como as persuasões de Dick não tinham feito, que eu deveria me atrasar o suficiente para me tornar novamente alguma semelhança de um homem são. Mais uma hora antes de pegar a estrada não colocaria o sucesso em risco, embora testasse minha paciência. Uma caminhada de quatrocentos metros até a garagem foi um teste mais severo para minha força do que eu confessaria; mas, quando Ropes acordou o vigia, encheu a boa e velha Gloria com gasolina e a fez subir a colina, a lufada de ar noturno puro me deu vida.
No hotel, entramos sem acordar o recepcionista que cochilava. Dick me deixou usar suas coisas; e quando, entre nós, terminamos minha higiene, ele admitiu que eu não era um objeto tão terrível quanto ele pensava. Ele trocou suas roupas molhadas, deixou um bilhete para o proprietário, e não eram nem duas horas quando partimos, Ropes dirigindo, Dick comigo no banco traseiro.
“Para Madri, velocidade máxima, o caminho mais rápido”, foi a ordem; e eu esperava uma corrida sem paradas, ou o mais próximo possível disso.
O caminho mais rápido era por Jaen, uma estrada que nenhum de nós conhecia, e o céu estrelado estava obscurecido por nuvens escuras que anunciavam uma trovoada de verão. Enquanto Ropes dirigia através da Vega em direção àquela abertura nas montanhas que é a porta do norte, veio uma tromba d'água sobre o teto. O trovão abafava o ronco do motor, e um relâmpago a cada instante ofuscava o círculo voador dos nossos acetilenos. Já tinha chovido mais de uma vez ultimamente, e este dilúvio tornou a estrada, já ruim, macia e gordurosa como uma esponja gasta. O Gloria valsava e escorregava em uma massa de mingau marrom, mas Ropes sabia que tínhamos de correr contra o tempo e, jogando a cautela ao vento, rasgou a lama traiçoeira como se fosse vencer a taça em uma grande corrida.
Deixamos Granada para trás, avançando entre as colinas das montanhas, subindo um desfiladeiro escorregadio, com a chuva como chicotes a açoitar nossos rostos. Pomares passavam num lampejo; havia um túnel de rocha, onde as luzes brilhavam ferozmente sobre a pedra bruta, e o pulsar do motor tornou-se um rugido.
Novamente fora, e ainda subindo, os feixes de nossas lâmpadas atravessavam vinhedos, plantações de figos e romãs, e tiravam prata das curvas do rio Guadalbullon. Um vislumbre de um antigo castelo dominando um desfiladeiro escuro, e estávamos em Jaen; então, pouco depois, a estrada tornou-se familiar, pois já havíamos viajado por ela antes. Foi justamente nesta curva que paramos para pedir informações a homens que carregavam instrumentos estranhos como extintores de incêndio, pois este era Bailen; mas agora, em vez de receber nosso primeiro vislumbre da Andalucía, estávamos deixando-a para trás.
Oitenta milhas das duzentas e setenta tínhamos percorrido, embora o ritmo não tivesse sido bom. Ainda assim, a chuva estava parando, e poderíamos compensar o tempo perdido, já que o tráfego rural ainda não havia começado.
La Carolina, Santa Elena; a estrada subia para o bem lembrado desfiladeiro de Despeñaperros. Bip! soou a sirene, gritando ao longo da face de imensos penhascos, e um grito mais alto ressoou como um eco. Uma linha de fogo lá no desfiladeiro significava o trem de Madri para Sevilha. Cintilava como um colar de estrelas desenhado sobre um viaduto de teia de aranha, depois desapareceu em um túnel, enquanto seguíamos em direção às planícies de La Mancha, com Ropes agachado como um duende sobre o volante.
Chuva novamente, borrando vilarejos e varrendo as ruas de pedra de uma cidade: campos mais uma vez, e finalmente Manzanares. Ali Dick insistiu que parássemos para comer, para que a força não me faltasse quando eu mais precisasse; mas eu não conseguia suportar voltar à fonda que conhecia, ver as moças bonitas de lá olharem para o meu rosto pálido com olhos chocados, talvez tê-las questionando-me sobre o “anjo branco e dourado”.
Eram oito horas quando saímos do café, onde passamos uns vinte minutos; e a estrada não estava mais livre. Fomos obrigados a moderar a velocidade e perdemos mais tempo do que podíamos nos dar ao luxo até chegar a Aranjuez.
— Faça o seu melhor agora, Ropes — eu estava dizendo, quando o Gloria — por uma vez perverso — estourou um pneu com uma forte explosão. Ropes lançou-me um olhar pesaroso.
— Eu esperava passar sem problemas, senhor — disse ele —, mas o carro ficou parado por mais de cinco semanas, e não houve tempo ontem à noite para revisá-lo.
— Você fez um trabalho esplêndido — garanti-lhe. — Vou sair com o Sr. Waring e esticar as pernas.
Eu estava feliz por caminhar, e ainda mais feliz por sentir que, em vez de estar exausto como Dick havia profetizado, a força parecia estar voltando. Enquanto caminhávamos de um lado para o outro, tão certo eu estava da simpatia de Dick que comecei a falar sobre minhas esperanças e medos. Ele não me decepcionou, mas uma ou duas vezes respondeu de forma distraída, com um olhar distante, e de repente, com uma pontada de remorso, lembrei-me de que não tinha mencionado uma única vez o progresso dos seus casos amorosos. Os meus próprios tinham me preocupado até a exclusão de tudo o que estava fora, e eu tinha falado sobre os de Pilar apenas em conexão com Monica.
Anatematizando-me em voz alta como um bruto ingrato e indelicado, perguntei se Pilar tinha se decidido.
— Você não precisa se culpar — disse ele. — Todo esse tempo ela me manteve em suspense, porque, embora admitisse gostar de mim, não conseguia reconciliar seu coração com sua consciência. Recebi a bênção do querido e velho Querubim e a exibi na cara dela; mas isso não era o suficiente. Também argumentei que era seu dever casar comigo e tentar me tornar tão bom quanto ela, mas ela parecia pensar que poderia dar certo ao contrário. Então você desapareceu, e a última palavra que ela disse foi que, se eu o encontrasse, ela interpretaria como um sinal de que San Cristóbal queria a união; parece que ele é um santo casamenteiro, quando está na Espanha, além de um santo automobilístico. Então, como vê, ela terá que cumprir sua promessa agora; e deverei minha felicidade a você.
— Não voltei à vida em vão, então — disse. — Será um bom momento para mim, aconteça o que acontecer, quando vir minha irmãzinha Pilar novamente.
— Ela estará na tourada real — suspirou Dick.
— Achei que ela odiasse touradas — por causa de Vivillo.
— É por causa de Vivillo que ela vai. Ela moveu céus e terra para conseguir convites.
— E ela conseguiu.
— Disso depende uma história. Mas não vou incomodá-lo com ela.
Insisti, instando-o ainda mais para compensar o descuido anterior.
— Bem, então — disse ele com outro suspiro —, Vivillo é o quinto touro na tourada real de hoje.
Fiquei chocado, sabendo como Pilar amava o nobre animal marrom e como ela contava com a posse dele. Mas, se eu tivesse juízo, poderia ter adivinhado ontem à noite como as coisas estavam. Dick tinha me contado então que, na cena improvisada entre Carmona e os O’Donnels, com a estação ferroviária de Sevilha como palco, “o nome de Vivillo tinha infelizmente surgido”. Agora, Dick explicou que Carmona tinha se agarrado às palavras precipitadas da moça, tinha escrito ao seu agente na ganadería instruindo-o a não se separar do touro por preço algum, não importasse o quão longe tivessem ido as negociações com o Coronel O’Donnel. Um ou dois dias depois, o agente foi instruído por telegrama a enviar Vivillo imediatamente para Madri, já que o Duque o oferecera como um presente para o grande espetáculo da tourada real. Esta notícia tinha chegado a Pilar em Granada em uma carta mal escrita, mas bem-intencionada, de Mateo, o ganadero.
— Foi puro despeito — continuou Dick —, e Pilar ficou com o coração partido. Se ela não tivesse deixado escapar o nome de Vivillo em um momento de raiva, o touro poderia estar a salvo. Carmona não teria se interessado, pois ele confia em seu agente em todos os assuntos de negócios. É verdade que vários dos grandes proprietários de fazendas de touros foram convidados a dar cada um um touro escolhido para a tourada real, que se espera ser o maior acontecimento da geração; mas Carmona poderia muito bem ter dado outro em vez de Vivillo.
— É a cara dele — eu disse. — Pobre Pilar!
— Ela está simplesmente doente. Mas, curiosamente, ela ainda não perdeu as esperanças — ou não tinha quando escreveu, e anexou um bilhete de convite que ela tinha conseguido obter para mim. Ela me implorou que fosse se pudesse, e a “ajudasse a passar por isso”, embora eu não tenha a menor noção do que ela quer dizer. Tudo o que sei é que ela e o Querubim têm feito tudo o que podiam até o último minuto para fazer uma troca de touros. O querido velho correu para Madri, como eu disse, para agitar a polícia no seu caso; e Pilar esperava que ela pudesse ter uma chance de ver Lady Monica e perguntar que diabos ela queria dizer ao abandoná-lo. Mas qualquer tempo livre que os dois tinham, acho que dedicaram a Vivillo. Eles compraram um fino touro Muira, a um preço altíssimo, e ofereceram às autoridades em troca de Vivillo, que estava no pasto nos últimos dez dias, recuperando-se após ficar encaixotado para sua longa viagem de trem. Se Carmona teve participação nessa parte ou não, de qualquer forma, nada pôde ser feito.
— E Pilar vai ver seu animal de estimação morrer! — exclamei.
— Não consigo entender o Querubim permitindo isso — disse Dick. — Fui a uma tourada com ele no dia em que voltei a Sevilha. Júpiter, foi enojante, embora tenha havido alguns belos momentos, admito; e posso entender como os espanhóis, criados para entender cada golpe, cada movimento, pensam que é um belo esporte. Mas não é esporte para amadores, e não consegui engolir carne bovina desde então; sinto como se tivesse visitado um matadouro. O último toque de horror, cada touro ter um nome. Céus! como seria se sentir tão íntimo assim com ovelhas e galinhas, a ponto de poder falar em fritar Lottie no café da manhã, ou grelhar Maud com ervilhas para o almoço? É claro que a tourada real será maravilhosa — algo visto apenas quando um rei espanhol se casa —, mas odeio a ideia de Pilar estar lá.
— O pai dela estará com ela — tentei consolá-lo.
— Não, ele não estará. O lugar dele é em um camarote. O dela foi dado no Tendido Número 9, um espaço reservado para as señoritas da aristocracia sentarem-se juntas, em vestidos elegantes e mantilhas, como se fossem parte do espetáculo.
— Talvez Monica esteja lá — disse eu rapidamente.
— Ela não. O Duque e a Duquesa de Carmona e a noiva do Duque e sua mãe estarão em um camarote próximo aos noivos reais; Pilar ouviu isso e escreveu-me. Você vê, eles estão em grande favor na Corte agora, e a ambição de Carmona será finalmente satisfeita. A nova Duquesa será uma dama de companhia e assumirá suas funções quando o Rei e a Rainha voltarem da lua de mel.
— Ela nunca as assumirá como Duquesa de Carmona — disse eu.
— Carro pronto — anunciou Ropes, que tinha feito um tempo recorde na troca de uma câmara de ar e estava ofegante com seus esforços.
Mas onde estava San Cristóbal hoje — neste dia de todos os outros, quando seus serviços eram necessários? Não tínhamos percorrido meia milha quando veio um zumbido e um ruído de trituração que significava uma corrente quebrada. Ropes empalideceu e mordeu o lábio. Em sua ansiedade avassaladora por mim, ele estava perdendo a coragem.
— Não se preocupe em consertar aqui — eu disse. — Aperte o eixo e continue com apenas uma roda dentada. Podemos entrar na cidade assim e encontrar uma oficina mecânica.
Nós encontramos uma; mas fomos mantidos por uma hora inteira em Aranjuez; nem pudemos fazer um bom caminho depois, à medida que nos aproximávamos da capital. A estrada estava coberta de veículos e lotada à medida que chegávamos perto de Madri; pois toda alma não convidada para a grande tourada desejava ver os favorecidos que estavam, e aplaudir o Rei e a Rainha que, por sua esplêndida coragem dois dias antes, haviam conquistado dupla popularidade.
Era quase insuportável ser pego na multidão e saber que não havia saída, exceto mover-se com a massa; no entanto, tinha de ser suportado. E o tempo passava.
Esperávamos entrar em algum buraco ou canto o mais próximo possível da entrada real da Plaza de Toros, antes que a multidão começasse a entrar; mas uma hora bateu enquanto entrávamos na grande praça banhada pelo sol — quatro horas; o horário marcado para o início do desfile.
XLI
O QUINTO TOURO; E DEPOIS
Centenas — milhares, parecia — de automóveis e carruagens estavam à nossa frente; e enquanto o Gloria era parado pela parada dos outros à frente, um grito ecoou até o céu, por trás das altas paredes marrons da praça de touros. Foi a recepção que o público deu ao seu Rei e sua noiva quando apareceram no camarote real.
Chegamos tarde demais para interceptar Carmona; pois, como os membros da realeza tinham tomado seus lugares, ele certamente já estaria no seu, com sua noiva ao lado.
Coberto de poeira, queimado pelo sol que brilhava intensamente desde Manzanares, quase exausto de fadiga, recostei-me no meu assento. Por um momento, não ouvi o que Dick estava dizendo, embora estivesse consciente de que ele falava; mas de repente o significado de suas palavras invadiu meu cérebro cansado.
— Levará duas horas até que o Rei e a Rainha deixem seu camarote e as pessoas comuns possam se mover — disse ele. — Não vou deixar você sentado aqui no calor e na poeira.
— Devo esperar até que saiam — respondi embotadamente. — É a única maneira.
— Não, não é. Eu disse a você que Pilar tinha me enviado um bilhete. O cartão diz “sombra”, então o assento está na sombra, tudo bem, e você vai ficar com ele.
— Mas você? — eu disse. — Pilar nunca me perdoaria...
— Ela nunca me perdoaria se eu não passasse para você. Mas entrarei de alguma forma. Pode me custar cinquenta dólares se for preciso para passar por um policial, mas acho que o preço não vai me impedir. Não me importo se eu ficar de pé no callejón. Sou alto o suficiente para ver tudo o que quero, e mais; e se um touro pular a barreira, como um fez em Sevilha outro dia, minhas pernas são longas o suficiente para me salvar.
Ropes ficaria com o carro e esperaria até voltarmos. Antes desse tempo, meu destino estaria decidido. Nada poderia me impedir de encontrar Monica agora; e nada deveria mantê-la longe de mim, se ela me amasse. Se não — se, afinal, eu estivesse sonhando, bem, ela seria a Duquesa de Carmona amanhã.
Sob o nariz dos cavalos, entre as traseiras e capôs dos carros, abrimos caminho através da densa multidão de veículos e pessoas amontoadas na planície escaldante fora da praça de touros. O círculo que tinha sido limpo para a realeza tinha se enchido novamente agora, como um banco de areia que desabou sobre si mesmo; mas o espetáculo do outro lado daquelas paredes marrons íngremes tinha começado, e a entrada principal estava comparativamente livre.
Armado com o bilhete gravado com as palavras mágicas “Corrida Real” sobre um desenho em preto e branco de um picador montado, fui autorizado a entrar. Mas quando passei por um corredor e atravessei uma porta que dava para um tendido lotado, ouvi a voz de Dick no meu ouvido. — Apenas vinte e cinco dólares afinal — disse ele —, e posso sentar nos degraus. Ótimo! Estamos ao lado do Tendido Número 9. Vejo Pilar; olhe — perto do fim, na primeira fileira.
Depois das salas silenciosas da antiga casa mourisca e do pequeno pátio com sua fonte tinindo, a luz brilhante e a cor, os sons e movimentos confusos, o tamanho vasto da praça de touros atingiu-me ferozmente entre os olhos, confundindo visão e sentido.
Os assentos eram valiosos nos tendidos para este grande dia, quando quase cada lugar significava um favor real; mas estávamos atrasados e, em vez de continuar a procurar pelos meus trinta centímetros de tábua ou pedra, fiquei grato por me espremer perto da entrada. Não vi o Coronel O’Donnel e, embora estivesse perto do famoso Tendido Número 9 (que deve ter prendido todos os olhares até a chegada da realeza), esqueci-me de procurar Pilar naquele jardim branco e rosa de beleza espanhola.
O primeiro ato da grande tourada real tinha começado. Vinte espadas brilhantes e cintilantes marcharam com passos elásticos para a arena, seguidos pelos picadores de calças amarelas em seus cavalos miseráveis. As três carruagens de gala transportando os distintos picadores amadores e seus patronos ducais que honravam esta festa de casamento ainda circulavam pitorescamente na arena, criando um desfile da Idade Média. O sol brilhava em plumas de avestruz balançando, mantas bordadas a ouro, librés deslumbrantes, cabeças empoadas e cavalos esplêndidos em arreios pitorescos, ricos em ouro e joias. Os três Duques, donos das carruagens, tinham apresentado os cavaleiros que patrocinavam ao Rei-Presidente; a noiva-Rainha em sua mantilha branca e flores das cores espanholas estava curvando-se na moldura de vidro do camarote real. Palcos, tendidos e grados alegremente decorados, camada após camada, metade ao sol, metade na sombra, erguiam-se acima do enorme anel como tantos canteiros de flores em terraços, deslumbrantes com o fio de ouro dos uniformes e os tons brilhantes dos vestidos das mulheres suavizados por mantilhas brancas. Sobre tudo, havia um tremular de leques, como milhares de borboletas pairando; e um zumbido flutuava alto como o zumbido de um milhão de abelhas, até a cúpula azul do céu, onde as bandeiras inglesa e espanhola agitavam-se juntas.
Mecanicamente, meus olhos absorveram a cena esplêndida enquanto procuravam por Monica; e ao encontrá-la, por um tempo não vi mais nada.
Ela estava em um camarote perto dos membros da realeza e sentava-se entre sua mãe e a Duquesa, com Carmona e um homem que eu não conhecia atrás delas. Ela estava com um vestido branco e mantilha branca, com malmequeres rosas e brancos no cabelo; e seu rosto estava pateticamente pálido em sua moldura de renda caindo. Em sua mão estava um leque com o qual se podia bloquear horrores da luta que ninguém além de mulheres espanholas nascidas e criadas ousaria confiar em si mesmas para ver. Meu lugar era distante e muito abaixo; no entanto, meus olhos eram aguçados, e parecia-me que ela parecia magra e frágil, embora muito bonita. Se por um instante, desde que Dick me deu a notícia, eu tivesse duvidado da lealdade de seu coração, a visão de seu rosto jovem e triste teria afastado a dúvida. Eu estava mais do que nunca certo de que, ao prometer casar com Carmona, ela pensava em me salvar da punição ameaçada por ele.
Nem ele nem ela imaginavam que eu estava perto. Mas onde ela acreditava que eu estava? Talvez Carmona tivesse dito que, por causa dela, ele me deixara fugir do perigo depois de esfaqueá-lo na catedral, apressando-me a voltar para a Inglaterra.
O Duque estava inclinado para frente para falar com ela. Ela não olhou para ele, mas deixou seus olhos vagarem apaticamente sobre a vasta plateia. Achei que eles pairaram no Tendido Número 9, drapeado com xales floridos da Andalucía e lotado de mulheres bonitas. De repente, ela corou e desviou o rosto. Olhei para onde ela tinha olhado e soube o que tinha trazido o sangue às suas bochechas. Pilar, em cor rosa, com uma mantilha branca e os ortodoxos malmequeres, de rosa e carmesim, estava olhando para o camarote de Carmona, uma expressão suplicante em seu rosto. Pilar, também, estava pálida e magra. Percebi cada vez mais que quase seis semanas tinham sido apagadas da minha vida.
Cada uma das três carruagens tinha, por sua vez, parado sob o camarote real, enquanto um patrono ducal apresentava seu cavaleiro ao jovem Rei e sua noiva; agora, a arena estava sendo limpa enquanto os magníficos picadores amadores montavam seus cavalos, que tinham sido conduzidos por escudeiros com o traje pitoresco de 1630. Um dos quatro dignos alguaziles em veludo preto e renda tirou o chapéu emplumado para o Rei como Presidente da luta, pedindo a chave da cela do touro. Ela brilhou ao descer, enquanto a música parava como se estivesse impressionada em silêncio, e o alguazil estimulou seu garanhão através da arena para jogar na montera de el Buñolero, zelador das celas dos touros, a chave que ele tinha recebido.
— Vivillo é o quinto touro — disse para mim mesmo, repetindo as palavras de Dick; e lá, também, estava seu nome no programa da luta. O favorito de Pilar ainda tinha um pouco de tempo para respirar, pisoteando na escuridão de seu toril estreito. Ainda não tinha aquele pescoço indomado sido picado pelo dardo com rosetas ostentando as cores de seu dono; e muito estava para acontecer na arena antes que a beleza corajosa de Vivillo clamasse pelos aplausos de duas vezes treze mil mãos.
Primeiro, os três nobres amadores, com suas lanças longas e afiadas, devem cada um, por sua vez, agir como picador com graça para agradar a uma rainha-noiva e salvar as laterais de seu cavalo de chifres perfurantes. Então, quando três touros tivessem morrido de acordo com o costume antigo e cavalheiresco (se a habilidade do cavaleiro servisse), sem o abate de cavalos, a corrida continuaria à moda espanhola comum de hoje, com todos os seus momentos sensacionais e suas tragédias, até que — a hora de Vivillo chegasse.
Quanto a mim, devo sentar-me até que a partida da realeza e dos convidados reais esvazie também o camarote de Carmona. Perguntei-me, quando o primeiro touro entrou na arena, se o Rei e a Rainha ainda estariam em seus lugares quando a porta se abrisse para Vivillo, ou se a sua partida roubaria a Carmona o espetáculo da sua vingança mesquinha. Esperei que sim, pois não suportaria que ele visse o sofrimento que impusera a Pilar por minha causa, e que se deleitasse com isso. Ainda assim, quando ele fosse, eu teria de ir também; e senti vagamente que deveria estar perto de Pilar — minha leal irmã Pilar — durante o ato que seria trágico para ela.
Como disse Dick, houve momentos brilhantes na tourada; e os amadores portaram-se de uma forma a merecer o entusiasmo da multidão. A bela e jovem Rainha atirou uma joia a cada toureiro que terminava um touro após os dardos dos cavaleiros terem feito o seu trabalho; e quando o último do trio valente se curvou para sair da arena, começou aquela fase do desporto que os espanhóis conhecem e amam. Os cavalos vendados entraram a trote, montados por picadores profissionais com rostos indiferentes e carrancudos; e então, uma agitação de entusiasmo percorreu a assistência de fila em fila, como uma brisa sopra sobre um campo de trigo. A primeira parte não passara de um jogo bonito; agora vinha o verdadeiro, com os melhores touros e os melhores espadas de Espanha.
A noiva, na sua mantilha branca, olhou para o seu leque e contou as varetas de marfim dourado, quando o primeiro touro atacou o primeiro cavalo. Ela, a Rainha de Espanha, não devia parecer estremecer, embora os seus olhos ingleses nunca tivessem visto tais espetáculos carmesins como estes. Este era o desporto nacional; ela tinha de aprender a compreender que, quando os homens gritavam, e até as mulheres clamavam "Buena vara!", não era por alegria porque o flanco de um cavalo fora dilacerado, mas porque um picador tinha feito a estocada perfeita. Ela tinha de parecer amar o que o povo amava, se quisesse que eles a amassem; mas não muito longe sentava-se outra jovem de branco, que não tinha tais obrigações imperiosas.
Monica, talvez avisada de antemão, quando foi forçada a vir, erguia o seu leque sempre que um touro corria em direção a um cavalo, e sem dúvida tê-lo-ia mantido lá se a sua mãe não lhe tivesse falado mais de uma vez, de forma peremptória. Quanto a Pilar, embora não levantasse o seu leque, parecia não ver nada, pois estava sentada com a cabeça curvada, apenas sobressaltando-se e olhando para cima quando a trombeta soava para um novo touro.
Por fim, já não havia dúvidas sobre se o Rei e a Rainha ficariam para ver Vivillo desempenhar o seu papel. O quarto touro fora arrastado morto pela parelha de mulas com borlas, e o estridente toque, que se tornara trágico aos meus ouvidos, convocou Vivillo, sem saber, para o seu destino. E a realeza manteve os seus assentos, embora a tarde declinasse, e a sombra — como a sombra rastejante da morte — escurecesse dois terços da arena.
Tão profunda era a minha simpatia por Pilar que senti a garganta contrair-se e a boca secar. Assim devia estar ela neste momento que chamava o seu bravo favorito para a morte; assim, como o meu, apenas mais rápido e mais pesado, deve estar o seu coração a bater.
Poderia ela, afinal, suportar a provação? Não se viraria ela e sairia apressada antes que o primeiro picador retirasse o sangue que ela tanto tentara salvar? Mas não; ela permaneceu sentada, com os olhos grandes, o rosto empalidecido, e uma mão torcida nas dobras da sua mantilha de renda enquanto esta subia e descia no seu peito.
Antes que o morto estivesse bem fora da arena, e o seu rasto vermelho coberto de areia, a porta do toril foi aberta para o quinto touro, dito nunca ser um cobarde. Era um elogio a Carmona e a Vivillo serem escolhidos para esta posição no programa, uma vez que se tornou um provérbio que o melhor da corrida deve ser o quinto da lista. Era também um elogio a Carmona que o Rei esperasse para ver como o seu Vivillo morreria.
O buñolero saltou para trás ao abrir a porta, retirando-se mais apressadamente do que era o seu hábito para o espaço entre as barreiras, fora do caminho do touro. Era como se ele, também, esperasse que o recém-chegado fosse algo além do comum em ferocidade ou astúcia; pois os touros de Carmona, como os da raça Muira, são famosos pelo seu terrível hábito de ignorar a capa e atacar o corpo do homem que a segura.
Alguns touros tinham corrido para a arena e atacado cegamente o primeiro objeto que surgia na sua visão atordoada; mas o meu coração teve tempo de bater duas vezes antes que aquela forma nobre, que eu vira pela última vez em pasto tranquilo, se dignasse a mostrar-se na saída escura do toril.
Era como se Vivillo quisesse provar como desprezava a pequena picada daquele dardo com gancho de peixe escondido por uma roseta de fita verde e roxa, suprema indiferença à estranha cena que irrompia perante olhos acostumados durante muito tempo à escuridão, e altiva superioridade à sede e à fome que irritavam animais mais fracos até ao frenesim. Ninguém, vendo o grande touro parado com a cabeça erguida, interrogativo, surpreendido, poderia ter confundido a sua atitude com cobardia. Havia algo de sinistro, até terrível, na sua pausa; e deu ao público que esperava tempo para apreciar a magnificência das suas proporções, o comprimento e a agudeza de adaga dos seus chifres, o ondular dos músculos sob o cetim castanho da sua pele, no grande peito e nos flancos magros.
"Isto não é um touro — é uma montanha", gritou uma voz; e outras vozes louvaram as perfeições de Vivillo, tão prestes a desaparecer da terra. "Grandemente armado!" "Ele enfrentaria um batalhão!" "Que Fuentes se cuide!"
Pois Fuentes, o melhor espada que restava em Espanha, o mais bravo lutador de touros de acordo com os métodos clássicos, ia dar a Vivillo o golpe de misericórdia, quando os picadores e bandarilheiros tivessem terminado com ele.
Os gritos da vasta multidão transformaram num instante o orgulhoso espanto do touro em fúria. Ele parecia perceber que este novo mundo, tão diferente do antigo mundo doce e verde, era um mundo de inimigos, cada alma contra ele, e ele estava pronto para lutar contra todos até à morte. Ele nem cavou a areia nem mugiu, pois estes são traços pueris de temperamento aos quais os touros mais nobres não descem. Como um tornado, ele varreu a arena, matou um cavalo com uma única estocada, enviou o picador a chocar contra a barreira; e rápido como um gato selvagem, forte como um leão africano, virou-se para elevar outro animal e o seu cavaleiro nos seus chifres. Metade do comprimento da arena ele trotou, suportando ambos, enquanto o público se levantava para ele e gritava admiração pela sua força selvagem.
"Isto é como nos bons velhos tempos. Não se vê um touro assim em dez mil", diziam os homens uns aos outros, enquanto Vivillo atirava o cavalo morto na areia, derrubando o picador sobre a barreira para o callejón, e corria valentemente para um terceiro duelo.
Quando ele tinha matado três cavalos (não conhecendo distinção entre a sua inocência e a crueldade do homem, depois de os seus ombros terem sentido a lança), ele estava aparentemente tão fresco como quando saiu do toril. Nesta fase do drama da morte, a maioria dos touros estaria a respirar com dificuldade; mas embora o veludo castanho do pescoço de Vivillo estivesse manchado de carmesim escuro, nem a fadiga nem a dor faziam o seu coração forte trabalhar.
Mais cavalos lhe foram dados, para morrer como outros tinham morrido, todos menos um, que o touro se recusou a tocar porque era da cor que ele conhecia e com a qual era amigável em casa. Foi conduzido finalmente incólume; mas Vivillo tinha agora seis cavalos na sua conta, e a sua popularidade junto do público já tinha subido muito além da dos seus predecessores. Ainda assim, a sua atividade, em vez de diminuir, parecia crescer com a febre crescente da sua fúria.
Em casos comuns, a trombeta teria agora soado para o segundo ato, dispensando os picadores e convocando os bandarilheiros; mas Vivillo na sua condição atual era um adversário demasiado formidável para ser provocado pelos mais bravos com dardos farpados e adornados com fitas; e "Caballos — caballos!" era o grito.
Mais quatro bestas de sacrifício foram trazidas, e ele lidou com todas, quase chifrando um picador de tal forma que um espada, correndo para o resgate, foi perseguido até à barreira, e teve a sua meia manchada de carmesim ao saltar sobre ela.
A lista de vítimas de Vivillo tinha agora subido para dez, e embora ele tivesse aceite trinta e três varas, ou estocadas de lança, os seus grandes ombros mal estremeceram sob a chuva vermelha do seu sangue. Ainda assim, o primeiro ato não podia ser prolongado por mais tempo. O estridente e cruel toque da corneta deu o sinal para o segundo começar.
Dick e eu não tínhamos falado, e eu não ousava olhar para Pilar. Quando a multidão gritou uma exigência imperiosa para que o grande Fuentes entrasse na arena como bandarilheiro, pareceu-me que séculos eram varridos pelas suas vozes selvagens; que esta não era a praça de touros de Madrid, mas o Coliseu de Roma.
Vivillo esperou, com a cabeça erguida, inabalável; e embora o seu rosto e atitude fossem ameaçadores, os olhos castanhos, bem afastados, eram radiantemente inocentes. Ele parecia uma criatura feita do melhor da natureza, um produto do céu azul, do prado doce e do ar puro; da sua espécie, a perfeição. Teria ele pensado agora na sua antiga casa na rica pastagem, e no tilintar dos sinos dos cabestros amigos? Se pensou, o pensamento de saudades de casa não o fez temer enfrentar o que estava para vir. Nunca uma vez ele seguiu o exemplo de dois ou três entre os seus predecessores, e virou-se para a porta fechada do toril como se fosse para refúgio. Sempre ele enfrentara o inimigo; e agora ele correu para brincar com os seus chifres pelas brilhantes bandarilhas que esperavam pelos seus ombros.
Fuentes estava a consentir o desejo do público, mas dois bandarilheiros comuns precedê-lo-iam. O famoso matador, que depois mataria este touro tão popular do dia, colocaria o último par dos seis.
O primeiro homem, brilhando em cetim e prata, ergueu ao alto os seus dois paus com pontas de farpa, alegremente ornamentados com papel de estanho, e chamou Vivillo de uma distância. A sua voz zombeteira enfureceu o touro, que correu sobre ele; então, enquanto ele se balançava levemente para o lado, foi tudo o que pôde fazer para se salvar da viragem súbita e veloz do grande animal, sem colocar nenhuma das suas bandarilhas. Repetidas vezes o jogo foi repetido, mas o público dizia que Vivillo se estava a tornar astuto como Shylock. Finalmente um pau de cores alegres — "meio par" — pendia dos ombros de Vivillo; duas e três vezes a tentativa foi feita antes que o "par" estivesse completo; e o segundo bandarilheiro não teve melhor sucesso. Mas quando Fuentes entrou na arena, condescendendo em jogar o jogo do qual ele fora outrora mestre, ouviu-se um rugido de aplausos. Fuentes nunca falhava; e aquele truque seu — colocar ambos os pés sobre um lenço, nem se dignando a mover-se a não ser por um balanço do corpo enquanto colocava as duas farpas — era famoso, um espetáculo que valia a pena ver quando o touro era, pelo menos, metade tão bom como este. Mas, por uma vez, até as táticas brilhantes de Fuentes estavam perdidas. Vivillo tinha cérebro e usava-o. Ele usava os seus olhos, também, antes de atacar, o que nem um em cada quinhentos touros consegue fazer; e se Fuentes brincava com ele, ele também brincava, um jogo cujo entusiasmo vinha de uma ponta de perigo iminente. Uma vez pareceu que Vivillo saltaria a barreira, para o callejón, e houve uma debandada de todos os espectadores ali. Outra vez ele ameaçou demolir a barreira de madeira com os seus chifres, e houve um atropelo mais selvagem do que antes. Mas as bandarilhas foram finalmente colocadas, e o sangue nos ombros castanhos de Vivillo parecia uma capa carmesim. A grande ovação de aplausos era tanto para o touro quanto para o bandarilheiro; e todos os rostos na audiência estavam tensos de entusiasmo quando a trombeta soou para a cena da morte. Com tal rei da arena, tudo podia acontecer. Era bom que um mestre como Fuentes fosse o espada que lidaria com ele, ou ele poderia lidar com o espada.
E assim ia terminar na tragédia habitual, e depois de mais alguns momentos brilhantes de jogo o bravo coração da besta teria de sentir a espada. Eu sabia, é claro, que tinha de ser assim, e ainda assim até agora não parecia uma certeza fria. Talvez eu tivesse esperado vagamente que Vivillo saltasse a barreira e se recusasse a ser persuadido a voltar; mas, mesmo que o tivesse feito, ele não se poderia ter salvo, e poderia ter tido de morrer alguma morte menos gloriosa do que pela lâmina do espada.
Fuentes curvava-se sob o camarote real, pedindo ao Rei-Presidente a graciosa permissão para matar Vivillo como um touro tão nobre deveria ser morto. Então, espada e muleta vermelha na mão, ele foi encontrar Vivillo, um olhar alerta no seu rosto; pois esta não era uma rês comum, mas um adversário bravo e cauteloso, muito digno do seu aço.
O silêncio profundo dos treze mil espectadores era um elogio tão grande quanto poderia ser prestado a homem ou touro, e Fuentes sabia-o. Ele sabia que o público esperava tal jogo, antes do golpe de misericórdia, como não se via em Espanha há anos, e ele não pretendia desapontá-los. Ainda maravilhosamente fresco, considerando os seus feitos valorosos e a perda de sangue, Vivillo não mostrava qualquer aflição. Mas ele tornara-se visivelmente pensativo, como se percebesse finalmente que este não era um desporto selvagem, mas o fim de todas as coisas.
Fuentes afastou os seus homens — "fuera gente", sabendo que este sinal de coragem serena emocionaria treze mil corações, já calorosos para com ele, e ajustou a sua muleta vermelha ao pequeno pau com pontas que a prendia. Então, gracioso como uma onda que ergue a sua crista até ao ponto de rutura, ele moveu-se em direção ao touro, cauteloso mas desafiante.
Vivillo, como se para provar o poder e a plenitude dos seus pulmões, mugiu pela primeira vez desde que entrara na arena, enquanto lançava o seu corpo escuro sobre o toureiro, a sua enorme cabeça baixa. A muleta encontrou os seus chifres e abafou-os, para ser varrida para cima e para longe, enquanto Fuentes permanecia imóvel, sorrindo. Mas para agitação do público, em vez de seguir a onda escarlate da muleta, Vivillo parou com os chifres baixos para chifrar, e atacou o homem.
Levemente Fuentes desviou-se, tentando o touro novamente com a muleta; mas Vivillo não queria nada disso. Então veio tal dar e receber entre a habilidade do homem e a astúcia feroz da besta que o público perdeu toda a autoconsciência ao observar.
Mais e mais perto Fuentes e Vivillo aproximaram-se da barreira. Agora estavam perto do Tendido Número 9, e mecanicamente levantei os meus olhos da arena para encontrar Pilar. Ela já não estava ali, e pensei que ela tivesse fugido antes da morte. Mas quando Vivillo fez um ataque que quase apanhou Fuentes, uma porta na barreira brilhou aberta, brilhou fechada, e uma rapariga estava na arena.
Era Pilar no seu vestido branco e mantilha de renda. Ela deixara o seu assento, descera sozinha até à entrada do tendido, esperara a sua oportunidade, e deslizara para a arena. Mas ela já não podia esconder-se. À vista da figura da rapariga, branca contra a barreira vermelho-escura, um grito selvagem de aviso subiu. Dois ou três da cuadrilla de Fuentes correram para ela, mas com um gesto apaixonado ela afastou-os, estendendo os seus braços para o camarote real.
"Perdão, perdão para Vivillo, o bravo touro!", ela gritou. E eu sabia agora que era isto que ela tinha querido dizer desde o início. Se Vivillo fosse bravo, se ele ganhasse o respeito do Rei e da multidão pela força suprema e coragem, ela esperava salvá-lo como outros touros tinham sido salvos de tempos a tempos, desde que, nos primeiros dias, a Espanha seguira os costumes romanos. Eu tinha lido sobre esses touros perdoados e ouvido falar deles pelo meu pai — um herói, talvez, em dez anos. Por isto ela tinha vindo; por isto ela tinha ficado a ver o sangue de Vivillo fluir, esperando até que ele tivesse provado ser tão bravo que treze mil vozes pudessem juntar-se à dela ao pedir a vida do touro ao Rei-Presidente.
Ao som do seu nome, gritado naqueles tons queridos e familiares como se o chamasse de além do vale da morte, Vivillo ergueu a cabeça, virou as costas pela primeira vez ao inimigo, e saltou em direção à rapariga. Horrorizado, o público gritou para ela, para ele, agitando as suas mãos, atirando chapéus para a arena à frente do touro como se para o distrair de uma vítima indefesa. Mas não precisavam de ter receio. Com os flancos a arfar sob o seu manto de sangue, o ataque de Vivillo diminuiu para um trote, como no pasto de casa, longe. Meio cego de fúria como estivera há um momento, o rosto jovem e bondoso e a voz amada por ele desde que era um bezerro ao lado da sua mãe trouxeram Vivillo de volta a si mesmo. A esperança deve ter-se avivado no seu coração ao ouvir aquele chamamento, que nos velhos tempos tinha significado comida de eleição e doces carícias. Era o chamamento da vida, e ele respondeu-lhe com gratidão.
Como gritavam os homens, e as mulheres riam e choravam enquanto o grande touro encostava a sua cabeça armada ao braço da rapariga pálida! Como aplaudiam quando ele comia algo que ela lhe oferecia na sua mão, e como gritavam para o Rei — "Perdão — perdão para este bravo touro. Perdão para El Vivillo!"
Dick estava ao lado dela agora. Ele devia ter saltado a barreira; mas eu não o vi até que ele lá estivesse, e o Cherub perto atrás dele. Fuentes estava sob o camarote real, perguntando se a oração pela vida do touro ia ser ouvida; e, em meio a aclamações tumultuosas, o perdão foi concedido, com a joia que ele deveria ter ganho dando a Vivillo a morte em vez da vida. O touro estava salvo. Arfante, ele estava ao lado de Pilar, o seu sangue manchando a brancura cremosa da sua mantilha. Mesmo quando o cabestro manso veio, com o sino a tilintar, para atrair Vivillo para longe, ela mal podia suportar deixá-lo, embora soubesse bem que ele estava seguro; que as suas feridas seriam habilmente tratadas; que ele seria restaurado à saúde, e que, na própria vergonha (quando a história fosse tornada conhecida), Carmona teria de entregar o touro a ela.
Mas o Rei e a Rainha estavam de pé, curvando-se para a multidão, os seus parentes e convidados de pé atrás deles. A Rainha virou-se e murmurou para o Rei, que falou para alguém que eu não podia ver, e um equestre apressou-se a sair do camarote. Um momento depois, o Duque de Carmona, a sua mãe, Lady Vale-Avon, e Monica estavam a entrar no camarote real. Evidentemente, o desejo da Rainha tinha sido fazer alguma apresentação. Todos conversaram juntos durante um minuto, olhando para a arena, que Vivillo estava apenas a deixar com o grande cabestro tigrado. Provavelmente, o Rei estava a congratular Carmona pelo touro dado por ele à Corrida Real. Então, tendo-se curvado mais uma vez aos seus entusiastas súbditos, a realeza preparou-se para deixar o camarote antes que o próximo touro entrasse na arena.
Eu sabia que Monica, com Carmona e os outros, seguiria no cortejo do Rei e da Rainha, que eles sairiam pela entrada real, e que eu devia estar perto se quisesse ter a minha última oportunidade com a rapariga. Mas era um infortúnio que ela estivesse com a realeza, porque, desde a catástrofe de há dois dias, a polícia de Madrid estava a tomar precauções extra para a segurança do seu soberano e da sua noiva. O terreno fora da entrada real tinha sido mantido limpo da população quando eles entraram, e seria novamente quando saíssem. Um desgraçado, esquelético e de olhos encovados, como eu estava agora, seria instantaneamente suspeito e mandado retirar.
No entanto, Monica ia casar-se amanhã, e então seria para sempre demasiado tarde. De alguma forma, eu tinha de chegar perto o suficiente para falar com ela, mesmo que as palavras que eu tivesse de dizer fossem cortadas por uma bala.
Muitas pessoas estavam a sair, embora mais de metade do público permanecesse, e tive de abrir caminho à força através de uma multidão que não tinha os meus motivos para a pressa. Talvez um olhar para o meu rosto fizesse com que me dessem espaço, pois, mais cedo do que me atrevia a esperar, estava fora da praça de touros, empurrando-me pelo denso grupo de pessoas que se tinham reunido para ver os membros da realeza e os seus convidados partir. Tinha chegado à fila exterior quando vi o automóvel de Carmona a posicionar-se atrás das carruagens e automóveis reais. Alguém tinha sido enviado para o buscar da outra entrada; e o Duque de Carmona seria uma figura de importância aos olhos de todo o Madrid.
Guardas civis e polícias estavam ocupados a manter a multidão em ordem, com gestos de aviso a empurrarem fila após fila umas contra as outras.
Não fiz qualquer esforço para me separar da massa, pois nem o Rei, nem a Rainha, nem Carmona tinham ainda aparecido; e eu estava à espera. Mas, de repente, gritos de “Viva el Rey—Viva la Reina!” irromperam e avolumaram-se.
Eles estavam a vir. Agora estavam à porta. Vislumbrei Carmona, extremamente elegante na alegria do seu grande triunfo. O Rei parou à porta e, vendo Carmona por perto, lançou-lhe uma última palavra gentil, com um sorriso. Carmona deu um passo em frente, de chapéu na mão. Monica, com a sua mãe e a Duquesa, parou logo atrás.
O meu momento tinha chegado. Saltei da multidão e tinha dado três passos em direção a ela, quando dois guardas civis me agarraram pelos ombros. No mesmo instante, ouvi a voz de Dick e soube que ele tinha encontrado o caminho atrás de mim, fiel como sempre, adivinhando o que eu tentaria fazer.
O movimento súbito e o burburinho no grupo à minha volta chamaram a atenção de Monica. Ela olhou e soltou um pequeno grito quando os nossos olhos se encontraram através do espaço aberto e banhado pelo sol. As suas mãos estenderam-se e, por um instante, pensei que teria corrido para mim; mas os olhos rápidos da sua mãe tinham identificado o homem entre os guardas civis, e ela agarrou Monica pelo braço.
“Recue,” disse um dos guardas civis, irritado. “Ninguém tem permissão para chegar mais perto do Rei.”
“Tenho de falar com aquelas senhoras,” disse eu, libertando um ombro.
“Mais um passo e passará a noite entre as paredes de uma prisão,” murmurou o guarda, furioso por haver uma cena sob os olhos da realeza.
Mas agora os olhos da realeza estavam sobre mim, e havia reconhecimento neles. O Rei ergueu a mão imperativamente.
“Deixem esse cavalheiro passar,” disse ele. “É um amigo meu. Señores, alegro-me por vê-los novamente. Vieram para me felicitar pelo meu casamento?”
Os guardas recuaram; e a pergunta do Rei foi uma ordem. Ele disse “Señores”; portanto, estava a falar com Dick assim como comigo. Caminhei em direção a ele enquanto estava pronto para nos saudar; e agora Dick, que se tinha mantido atrás na multidão, estava ao meu lado.
O rosto de Carmona ficou escarlate, depois amarelo-pálido.
“Peço perdão a Vossa Majestade,” disse ele, “mas não pode saber o que eu sei sobre este homem, ou não o receberia. Este pode ser outro complô horrível; pois ele é o Marqués de Casa Triana, suspeito de lançar uma bomba em Barcelona há alguns anos, que não só quebrou a sua liberdade condicional e veio secretamente para Espanha, como tem seguido Vossa Majestade de lugar em lugar no seu automóvel, e—”
O Rei desatou a rir, à sua maneira juvenil.
“Tanto melhor para mim se o fez, uma vez que encontrou continuamente a forma de me fazer algum favor. Se não fosse por ele e pelo seu automóvel, não tenho a certeza de que estaria aqui — e feliz — hoje.” Ele estendeu-me a mão. “Portanto, é o Marqués de Casa Triana,” disse ele. “E foi por isso que não me quis dizer o seu nome, quando o seu amigo me deu a conhecer que eu tinha mais uma coisa a agradecer-lhe, além daquelas que eu já sabia — no dia dos salteadores?”
Ele sorriu para Dick, que se aproveitou da sua atenção.
“Vossa Majestade,” aventurou-se ele, “posso mencionar o nome do homem que empregou esses salteadores, não para o ferir, mas para ferir alguém que ele já tinha ferido — o próprio Casa Triana? Bem, é o Duque de Carmona; e quando os salteadores falharam, ele tentou que Casa Triana fosse agredido na cabeça e fechado numa casa sua em Granada, para que pudesse casar com a rapariga que estava noiva do meu amigo. Pode perguntar à Lady Monica Vale, senhor, se não lhe estou a dizer a verdade — até onde ela a conhece.”
O Rei, sem responder, voltou os olhos para Monica.
“É verdade, senhor, que estávamos noivos,” respondeu ela à pergunta no olhar dele. “Amo-o ainda, e só prometi casar com o Duque porque ele disse que, se o fizesse, salvaria Ramón da prisão — e de pior. Ele disse-me que tinha ajudado Ramón a sair de Espanha para Inglaterra, quando ele estava prestes a ser preso por — algo que aconteceu em Sevilha. Agora sei que não era verdade; — que ele — mentiu, e que tem sido horrivelmente traiçoeiro para com Ramón, assim como para comigo. Não cumprirei a minha promessa para com ele amanhã, nem nunca.”
“Esta parece uma história estranha,” disse o Rei. “Tenho de a ouvir na íntegra, mais tarde. Mas não casará contra a sua vontade. Casará com o homem que ama; trataremos disso, quer Carmona se possa justificar ou não. Quanto ao meu amigo Casa Triana, devo-lhe uma dívida tripla. Parte dela posso pagar dando-lhe certas propriedades no Sul que acredito ter estado a — guardar em custódia para ele. Parte dela nunca poderei pagar; e parte — bem, se lhe puder dar uma noiva que o ame, talvez ele se considere pago?”
“Agradeço a Vossa Majestade mil vezes,” disse eu.
Monica olhou para mim. Ela estava muito pálida; mas havia o paraíso nos seus olhos.
“Viva el Rey!” gritou Dick; e a multidão, embora não tivesse ouvido ou compreendido o que tinha passado, acompanhou o grito com todo o coração —
“Viva el Rey!”
FIM