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The Confessions of St. Augustine

by Augustine, of Hippo, Saint · in Portuguese

Grandioso és Tu, ó Senhor, e grandemente louvável; grande é o Teu poder e infinita a Tua sabedoria. E a Ti deseja louvar o homem; o homem, uma pequena partícula da Tua criação; o homem, que carrega consigo a sua mortalidade, o testemunho do seu pecado, o testemunho de que Tu resistes aos soberbos: ainda assim, deseja o homem louvar-Te; ele, apenas uma partícula da Tua criação. Tu nos despertas para o deleite em Te louvar; pois Tu nos fizeste para Ti, e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em Ti. Concede-me, Senhor, saber e compreender qual é o primeiro passo: invocar-Te ou louvar-Te? e, novamente, conhecer-Te ou invocar-Te? Pois quem pode invocar-Te sem Te conhecer? Pois aquele que não Te conhece pode invocar-Te como sendo algo diferente do que és. Ou será, antes, que Te invocamos para que possamos conhecer-Te? Mas como invocarão Aquele em quem não creram? Ou como crerão sem quem pregue? E aqueles que buscam o Senhor louvá-Lo-ão: pois os que buscam encontrá-Lo-ão, e os que encontrarem louvá-Lo-ão. Buscar-Te-ei, Senhor, invocando-Te; e invocar-Te-ei, crendo em Ti; pois a nós foste Tu anunciado. A minha fé, Senhor, invocar-Te-á, fé que Tu me deste, com a qual me inspiraste, através da Encarnação do Teu Filho, através do ministério do Pregador.

E como invocarei o meu Deus, meu Deus e Senhor, uma vez que, quando O invoco, estarei a chamá-Lo para mim? E que espaço existe dentro de mim para onde o meu Deus possa vir? Para onde pode vir a mim Deus, Deus que fez o céu e a terra? Existe, na verdade, ó Senhor meu Deus, algo em mim que Te possa conter? Será que o céu e a terra, que Tu fizeste, e nos quais Tu me fizeste, Te contêm? Ou, porque nada que existe poderia existir sem Ti, será que tudo o que existe Te contém? Já que eu também existo, por que busco que entres em mim, eu que não seria, se Tu não estivesses em mim? Por quê? Porque eu não desci ao inferno, e ainda assim Tu lá estás. Pois se eu descer ao inferno, Tu lá estás. Eu não poderia, pois, ó meu Deus, não poderia de todo existir, se Tu não estivesses em mim; ou, melhor dizendo, a menos que eu estivesse em Ti, de quem são todas as coisas, por quem são todas as coisas, em quem são todas as coisas? Assim é, Senhor, assim é. Para onde Te chamo, já que estou em Ti? Ou de onde podes Tu entrar em mim? Pois para onde posso eu ir, além do céu e da terra, para que de lá o meu Deus venha a mim, Ele que disse: Eu encho o céu e a terra?

Contêm-Te, então, o céu e a terra, uma vez que Tu os enches? Ou Tu os enches e ainda transbordas, uma vez que eles não Te contêm? E para onde, quando o céu e a terra estão cheios, derramas Tu o restante de Ti mesmo? Ou não tens Tu necessidade de que algo Te contenha, Tu que conténs todas as coisas, uma vez que o que enches, enches contendo-o? Pois os vasos que enches não Te sustentam, já que, ainda que fossem partidos, Tu não serias derramado. E quando Tu és derramado sobre nós, não és lançado para baixo, mas Tu nos elevas; não és dissipado, mas Tu nos congregas. Mas Tu que enches todas as coisas, enche-las com a Tua totalidade? Ou, uma vez que todas as coisas não podem conter-Te inteiramente, contêm elas uma parte de Ti? E todas ao mesmo tempo a mesma parte? Ou cada uma a sua própria parte, as maiores mais, as menores menos? E será, então, uma parte de Ti maior, outra menor? Ou és Tu todo em toda a parte, enquanto nada Te contém totalmente?

Que és Tu então, meu Deus? Que és, senão o Senhor Deus? Pois quem é Senhor senão o Senhor? Ou quem é Deus senão o nosso Deus? Altíssimo, boníssimo, potentíssimo, onipotentíssimo; misericordiosíssimo, porém justíssimo; ocultíssimo, porém presentíssimo; belíssimo, porém fortíssimo, estável, porém incompreensível; imutável, porém tudo mudando; nunca novo, nunca velho; tudo renovando, e trazendo o envelhecimento sobre os soberbos, e eles não o sabem; sempre trabalhando, sempre em repouso; sempre colhendo, contudo nada faltando; sustentando, enchendo e cobrindo; criando, nutrindo e amadurecendo; buscando, contudo possuindo todas as coisas. Tu amas, sem paixão; tens zelo, sem ansiedade; arrependes-Te, contudo não Te entristeces; iras-Te, contudo és sereno; mudas as Tuas obras, o Teu propósito imutável; recebes de volta o que encontras, contudo nunca perdeste; nunca em necessidade, contudo alegrando-Te com os ganhos; nunca cobiçoso, contudo exigindo usura. Tu recebes mais do que o devido, para que possas ficar a dever; e quem tem algo que não seja Teu? Tu pagas dívidas, não devendo nada; perdoas dívidas, não perdendo nada. E que disse eu agora, meu Deus, minha vida, minha santa alegria? Ou que diz qualquer homem quando fala de Ti? E, contudo, ai daquele que não fala, pois mudos são até os mais eloquentes.

Oh! Que eu pudesse repousar em Ti! Oh! Que Tu entrasses no meu coração, e o inebriasses, para que eu esqueça os meus males, e abrace a Ti, meu único bem! Que és Tu para mim? Na Tua piedade, ensina-me a proferi-lo. Ou que sou eu para Ti, que Tu exiges o meu amor e, se eu não o dou, iras-Te contra mim e me ameaças com graves aflições? É, pois, uma leve aflição não Te amar? Oh, pelas Tuas misericórdias, dize-me, ó Senhor meu Deus, o que és Tu para mim. Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Fala de tal modo que eu possa ouvir. Eis, Senhor, o meu coração está diante de Ti; abre os ouvidos dele e dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Após esta voz, que eu me apresse e me agarre a Ti. Não escondas de mim a Tua face. Que eu morra — para que eu não morra — apenas para que eu veja a Tua face.

Estreita é a mansão da minha alma; alarga-a Tu, para que possas entrar. Ela está em ruínas; repara-a Tu. Ela tem dentro de si o que deve ofender os Teus olhos; eu confesso-o e sei-o. Mas quem a purificará? Ou a quem devo clamar, senão a Ti? Senhor, purifica-me das minhas faltas secretas, e poupa o Teu servo do poder do inimigo. Creio, e por isso falo. Senhor, Tu sabes. Não confessei eu contra mim mesmo as minhas transgressões a Ti, e Tu, meu Deus, perdoaste a iniquidade do meu coração? Não contendo em julgamento Contigo, que és a verdade; temo enganar-me a mim mesmo; para que a minha iniquidade não minta para si mesma. Portanto, não contendo em julgamento Contigo; pois se Tu, Senhor, observasses as iniquidades, ó Senhor, quem subsistirá?

Contudo, permite-me falar à Tua misericórdia, a mim, pó e cinza. Contudo, permite-me falar, já que falo à Tua misericórdia, e não a homem desdenhoso. Tu também, talvez, desprezas-me, contudo voltarás e terás compaixão de mim. Pois que diria eu, ó Senhor meu Deus, senão que não sei de onde vim para esta vida moribunda (chamá-la-ei assim?) ou morte viva. Então, imediatamente, os confortos da Tua compaixão me acolheram, como ouvi (pois não me lembro disso) dos pais da minha carne, de cuja substância Tu outrora me formaste. Assim, receberam-me os confortos do leite materno. Pois nem a minha mãe nem as minhas amas armazenaram os seus seios para mim; mas Tu concedeste o alimento da minha infância através delas, segundo o Teu decreto, pelo qual distribuis as Tuas riquezas através das fontes ocultas de todas as coisas. Tu também me deste não desejar mais do que Tu davas; e às minhas amas dar-me voluntariamente o que Tu lhes davas. Pois elas, com um afeto ensinado pelo céu, davam-me voluntariamente o que lhes sobrava de Ti. Pois este meu bem, vindo delas, era um bem para elas. Nem, na verdade, era delas, mas através delas; pois de Ti, ó Deus, são todas as coisas boas, e do meu Deus é toda a minha saúde. Isto aprendi depois, Tu, através destes Teus dons, dentro de mim e fora de mim, anunciando-Te a mim. Pois então eu só sabia mamar; repousar no que agradava e chorar pelo que ofendia a minha carne; nada mais.

Depois, comecei a sorrir; primeiro no sono, depois acordado: pois assim me foi contado de mim mesmo, e acreditei; pois vemos o mesmo noutros lactentes, ainda que de mim mesmo não me lembre. Assim, pouco a pouco, tornei-me consciente de onde estava; e de ter o desejo de expressar os meus desejos àqueles que pudessem satisfazê-los, e eu não podia; pois os desejos estavam dentro de mim, e eles fora; nem podiam eles, por qualquer sentido seu, entrar dentro do meu espírito. Por isso, agitava-me ao acaso com membros e voz, fazendo os poucos sinais que podia, e tais como podia, semelhantes, embora na verdade muito pouco semelhantes, ao que desejava. E quando não era imediatamente obedecido (sendo os meus desejos prejudiciais ou ininteligíveis), então eu ficava indignado com os meus mais velhos por não se submeterem a mim, com aqueles que não me deviam serviço, por não me servirem; e vingava-me deles com lágrimas. Tais aprendi que são os lactentes por observá-los; e que eu próprio fui tal, eles, todos inconscientes, mostraram-me melhor do que as minhas amas que o sabiam.

E, eis! A minha infância morreu há muito, e eu vivo. Mas Tu, Senhor, que para sempre vives, e em quem nada morre: pois antes da fundação dos mundos, e antes de tudo o que pode ser chamado "antes", Tu és, e és Deus e Senhor de tudo o que criaste: em Ti residem, fixas para sempre, as causas primeiras de todas as coisas não duradouras; e de todas as coisas mutáveis, as fontes residem em Ti imutáveis: e em Ti vivem as razões eternas de todas as coisas irracionais e temporais. Dize, Senhor, a mim, Teu suplicante; dize, ó todo-piedade, a mim, Teu miserável; dize, sucedeu a minha infância a outra idade minha que morreu antes dela? Foi aquela que passei dentro do ventre da minha mãe? Pois disso ouvi um pouco, e vi eu mesmo mulheres grávidas; e o que houve antes dessa vida, ó Deus, minha alegria, eu estava em algum lugar ou era alguém? Pois disto não tenho quem me diga, nem pai nem mãe, nem experiência de outros, nem a minha própria memória. Zombas Tu de mim por perguntar isto, e ordenas-me que Te louve e Te reconheça, pelo que eu sei?

Reconheço-Te, Senhor do céu e da terra, e louvo-Te pelos meus primeiros rudimentos de ser, e a minha infância, da qual nada recordo; pois Tu determinaste que o homem devesse de outros adivinhar muito sobre si mesmo; e acreditar muito na força de fracas mulheres. Mesmo então eu tinha ser e vida, e (ao fim da minha infância) podia buscar sinais pelos quais fazer saber aos outros as minhas sensações. De onde poderia tal ser vir, senão de Ti, Senhor? Será alguém o seu próprio artífice? Ou pode noutro lugar derivar-se qualquer veia que possa verter essência e vida em nós, senão de Ti, ó Senhor, em quem essência e vida são uma só? Pois Tu mesmo és supremamente Essência e Vida. Pois Tu és altíssimo, e não és mudado, nem em Ti o dia chega ao fim; contudo, em Ti ele chega ao fim; porque todas essas coisas também estão em Ti. Pois elas não teriam como passar, a menos que Tu as sustentasses. E como os Teus anos não falham, os Teus anos são um só dia. Quantos dos nossos anos e dos anos dos nossos pais fluíram através do Teu "hoje", e dele receberam a medida e o molde de tal ser como tiveram; e ainda outros fluirão, e assim receberão o molde do seu grau de ser. Mas Tu és sempre o mesmo, e todas as coisas de amanhã, e tudo além, e todas de ontem, e tudo por trás disso, Tu fizeste hoje. Que me importa se alguém não compreende isto? Que ele também se alegre e diga: Que coisa é esta? Que ele se alegre mesmo assim! E contente-se antes em, não descobrindo, descobrir-Te, do que em descobrindo não Te descobrir.

Ouve, ó Deus. Ai, pelo pecado do homem! Assim diz o homem, e Tu compadece-Te dele; pois Tu o fizeste, mas o pecado nele Tu não fizeste. Quem me faz lembrar os pecados da minha infância? Pois à Tua vista ninguém é puro de pecado, nem mesmo o lactente cuja vida é apenas um dia sobre a terra. Quem me faz lembrar? Não faz cada pequeno lactente, em quem vejo o que de mim mesmo não recordo? Qual era então o meu pecado? Era o facto de eu me agarrar ao seio e chorar? Pois se eu agora o fizesse por alimento adequado à minha idade, justamente seria eu ridicularizado e repreendido. O que eu então fazia era digno de repreensão; mas como eu não podia compreender a repreensão, o costume e a razão proibiam-me de ser repreendido. Pois esses hábitos, quando crescidos, nós arrancamos e lançamos fora. Agora, nenhum homem, embora poda, lança fora conscientemente o que é bom. Ou era então bom, ainda que por um tempo, chorar pelo que, se fosse dado, prejudicaria? Ressentir-se amargamente de que pessoas livres, e seus próprios mais velhos, sim, os próprios autores do seu nascimento, não o servissem? De que muitos outros, mais sábios do que ele, não obedecessem ao aceno do seu bom prazer? De fazer o possível para bater e ferir, porque ordens não foram obedecidas, as quais teriam sido obedecidas para seu prejuízo? A fraqueza, então, dos membros infantis, não a sua vontade, é a sua inocência. Eu mesmo vi e conheci até um bebê invejoso; não podia falar, contudo empalidecia e olhava amargamente para o seu irmão de leite. Quem não sabe disto? Mães e amas dizem-te que aliviam estas coisas com não sei que remédios. É também isso inocência, quando a fonte de leite flui em rica abundância, não suportar que alguém a partilhe, embora em necessidade extrema, e cuja própria vida ainda depende disso? Suportamos gentilmente tudo isto, não como sendo males nulos ou leves, mas porque desaparecerão à medida que os anos aumentam; pois, embora tolerados agora, os mesmos temperamentos são absolutamente intoleráveis quando encontrados em anos mais maduros.

Tu, pois, ó Senhor meu Deus, que deste vida a esta minha infância, provendo assim com sentidos (como vemos) a estrutura que deste, compactando os seus membros, ornamentando as suas proporções, e, para o seu bem-estar e segurança geral, implantando nela todas as funções vitais, Tu ordenas-me que Te louve nestas coisas, que confesse a Ti, e cante ao Teu nome, ó Altíssimo. Pois Tu és Deus, Todo-Poderoso e Bom, mesmo que não tivesses feito nada senão apenas isto, o que ninguém poderia fazer senão Tu: cuja Unidade é o molde de todas as coisas; que da Tua própria beleza fazes todas as coisas belas; e ordenas todas as coisas pela Tua lei. Esta idade então, Senhor, da qual não tenho lembrança, que tomo pela palavra de outros, e adivinho de outros lactentes que passei, por mais verdadeira que seja a suposição, ainda sou relutante em contar nesta minha vida que vivo neste mundo. Pois não menos do que aquela que passei dentro do ventre da minha mãe, ela está escondida de mim nas sombras do esquecimento. Mas se fui formado na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe, onde, peço-Te, ó meu Deus, onde, Senhor, ou quando, fui eu Teu servo sem culpa? Mas, eis! Esse período eu deixo de lado; e o que tenho eu agora a ver com isso, de que não posso recordar nenhum vestígio?

Passando daqui da infância, cheguei à meninice, ou melhor, ela chegou a mim, deslocando a infância. Nem aquela partiu — (pois para onde foi ela?) — e contudo já não era. Pois eu já não era um lactente sem fala, mas um menino que falava. Disto recordo-me; e observei desde então como aprendi a falar. Não foi que os meus mais velhos me ensinassem palavras (como, pouco depois, outro aprendizado) em qualquer método estabelecido; mas eu, ansiando por gritos e acentos partidos e vários movimentos dos meus membros expressar os meus pensamentos, para que assim pudesse ter a minha vontade, e contudo incapaz de expressar tudo o que desejava, ou a quem desejava, pratiquei eu mesmo, pelo entendimento que Tu, meu Deus, me deste, os sons na minha memória. Quando eles nomeavam qualquer coisa, e à medida que falavam se voltavam para ela, eu via e recordava que chamavam o que queriam apontar pelo nome que proferiam. E que eles queriam dizer esta coisa e nenhuma outra era claro pelo movimento do seu corpo, a linguagem natural, por assim dizer, de todas as nações, expressa pelo semblante, olhares do olho, gestos dos membros e tons da voz, indicando as afeições da mente, enquanto ela persegue, possui, rejeita ou evita. E assim, ouvindo constantemente as palavras, à medida que ocorriam em várias frases, recolhi gradualmente para que serviam; e tendo quebrado na minha boca estes sinais, dei por meio deles expressão à minha vontade. Assim, troquei com aqueles ao meu redor estes sinais correntes das nossas vontades, e lancei-me assim mais profundamente no tempestuoso convívio da vida humana, dependendo contudo da autoridade parental e do aceno dos mais velhos.

Ó Deus meu Deus, que misérias e zombaria não experimentei eu agora, quando a obediência aos meus mestres me era proposta, como apropriada a um menino, para que neste mundo eu pudesse prosperar, e sobressair na ciência da língua, que deveria servir ao "louvor dos homens", e a riquezas enganosas. Depois fui colocado na escola para obter instrução, na qual eu (pobre miserável) não sabia que uso havia; e contudo, se fosse ocioso no aprendizado, era espancado. Pois isto era julgado correto pelos nossos antepassados; e muitos, passando pelo mesmo caminho antes de nós, moldaram para nós caminhos cansativos, através dos quais éramos forçados a passar; multiplicando o trabalho e a dor sobre os filhos de Adão. Mas, Senhor, descobrimos que os homens invocavam-Te, e aprendemos com eles a pensar em Ti (segundo as nossas forças) como em algum Grande, que, embora escondido dos nossos sentidos, podia ouvir-nos e ajudar-nos. Pois assim comecei, ainda menino, a rezar a Ti, meu auxílio e refúgio; e quebrei os grilhões da minha língua para invocar-Te, rezando-Te, embora pequeno, contudo com não pequena seriedade, para que eu não fosse espancado na escola. E quando Tu não me ouvias (não por isso entregando-me à loucura), os meus mais velhos, sim, os meus próprios pais, que contudo não me desejavam mal, zombavam dos meus açoites, o meu então grande e grave mal.

Existe, Senhor, alguém de alma tão grande, e agarrado a Ti com tão intenso afeto (pois uma espécie de estupidez fará isso de certo modo); mas existe alguém que, por agarrar-se devotamente a Ti, seja dotado de tão grande espírito, que possa pensar tão levemente nos cavaletes e ganchos e outros tormentos (contra os quais, por todas as terras, os homens Te invocam com extremo pavor), zombando daqueles por quem são temidos mais amargamente, como os nossos pais zombavam dos tormentos que sofremos na meninice por parte dos nossos mestres? Pois não temíamos menos os nossos tormentos; nem rezávamos menos a Ti para escapar deles. E contudo pecávamos, escrevendo ou lendo ou estudando menos do que nos era exigido. Pois não nos faltava, ó Senhor, memória ou capacidade, das quais a Tua vontade deu o suficiente para a nossa idade; mas o nosso único deleite era o jogo; e por isto éramos punidos por aqueles que, contudo, eles próprios faziam o mesmo. Mas a ociosidade dos mais velhos é chamada "negócio"; a dos meninos, sendo realmente a mesma, é punida por esses mais velhos; e ninguém se compadece de meninos ou homens. Pois será que alguém de bom discernimento aprovará que eu seja espancado quando menino, porque, jogando bola, fazia menos progresso nos estudos que deveria aprender, apenas para que, quando homem, pudesse jogar de forma mais inconveniente? E que mais fazia aquele que me batia? Que, se derrotado em alguma discussão trivial com o seu colega tutor, ficava mais amargurado e invejoso do que eu quando batido na bola por um companheiro de jogo?

E contudo, pequei nisto, ó Senhor Deus, Criador e Disponente de todas as coisas na natureza, mas do pecado apenas o Disponente, ó Senhor meu Deus, pequei ao transgredir as ordens de meus pais e as de meus mestres. Pois aquilo que eles, com qualquer que fosse o motivo, queriam que eu aprendesse, eu poderia, mais tarde, ter feito bom uso. Pois desobedeci, não por uma escolha melhor, mas por amor ao jogo, amando o orgulho da vitória em minhas competições, e ter meus ouvidos acariciados com fábulas mentirosas, para que coçassem ainda mais; a mesma curiosidade brilhando em meus olhos cada vez mais, pelos espetáculos e jogos de meus mais velhos. Contudo, aqueles que oferecem esses espetáculos são tão estimados, que quase todos desejam o mesmo para seus filhos, e ainda assim estão muito dispostos a que eles sejam espancados, se esses mesmos jogos os detêm dos estudos, pelos quais desejariam que eles alcançassem o ponto de serem os seus promotores. Olha com piedade, Senhor, para estas coisas, e livra-nos a nós que clamamos agora por Ti; livra também aqueles que ainda não clamam por Ti, para que possam clamar por Ti, e Tu possas livrá-los.

Quando menino, então, eu já ouvira falar de uma vida eterna, prometida a nós através da humildade do Senhor nosso Deus, que se curvou à nossa soberba; e ainda do ventre de minha mãe, que esperava muito em Ti, fui selado com o sinal da Sua cruz e temperado com o Seu sal. Tu viste, Senhor, como ainda menino, sendo tomado certa vez por súbita opressão no estômago, e quase perto da morte — Tu viste, meu Deus (pois eras o meu guardião), com que avidez e com que fé eu busquei, do cuidado piedoso de minha mãe e da Tua Igreja, mãe de todos nós, o batismo do Teu Cristo, meu Deus e Senhor. Ao que a mãe da minha carne, estando muito perturbada (pois, com um coração puro na Tua fé, ela ainda mais amorosamente sofria as dores de parto da minha salvação), teria com pressa ansiosa providenciado a minha consagração e purificação pelos sacramentos que dão a vida, confessando-Te, Senhor Jesus, para a remissão dos pecados, não fosse eu ter me recuperado subitamente. E assim, como se eu devesse ser novamente poluído caso vivesse, minha purificação foi adiada, porque as manchas do pecado trariam, após aquele lavamento, uma culpa maior e mais perigosa. Eu então já acreditava: e minha mãe, e toda a casa, exceto meu pai: contudo, ele não prevaleceu sobre o poder da piedade de minha mãe em mim, para que, como ele ainda não acreditava, eu também não o fizesse. Pois era o seu cuidado sincero que Tu, meu Deus, em vez dele, fosses meu pai; e nisto Tu a ajudaste a prevalecer sobre seu marido, a quem ela, melhor, obedecia, obedecendo nisso também a Ti, que assim ordenaste.

Eu Te suplico, meu Deus, eu gostaria de saber, se assim Tu queres, com que propósito o meu batismo foi então adiado? Foi para o meu bem que a rédea foi deixada solta, por assim dizer, sobre mim, para que eu pecasse? Ou não foi deixada solta? Se não, por que ecoa ainda em nossos ouvidos por toda parte: "Deixai-o, deixe-o fazer o que quiser, pois ainda não foi batizado"? Mas quanto à saúde corporal, ninguém diz: "Deixai que seja mais ferido, pois ainda não foi curado". Quanto melhor, então, teria sido se eu tivesse sido imediatamente curado; e então, pelos meus amigos e por mim mesmo, a saúde recuperada da minha alma teria sido mantida segura sob o Teu cuidado, que a deste. Melhor, certamente. Mas quantas e grandes ondas de tentação pareceram pairar sobre mim depois da minha infância! Estas minha mãe previu; e preferiu expor a elas a argila da qual eu poderia, mais tarde, ser moldado, do que o próprio vaso, uma vez feito.

Na própria infância, contudo (tão menos temida para mim do que a juventude), eu não amava o estudo, e odiava ser forçado a ele. Contudo, fui forçado; e isto foi bem feito para comigo, mas eu não fiz bem; pois, a menos que forçado, eu não teria aprendido. Mas ninguém faz bem contra a sua vontade, ainda que o que ele faça seja bom. Contudo, nem eles fizeram bem, os que me forçaram, mas o que era bom veio a mim de Ti, meu Deus. Pois eles não se importavam com o modo como eu empregaria o que me forçavam a aprender, a não ser para saciar os desejos insaciáveis de uma riqueza mendicante, e uma glória vergonhosa. Mas Tu, por quem os próprios cabelos de nossa cabeça estão contados, usaste para o meu bem o erro de todos que me instavam a aprender; e o meu próprio, que não queria aprender, Tu usaste para a minha punição — uma penalidade justa para alguém, tão pequeno menino e tão grande pecador. Assim, por meio daqueles que não fizeram bem, Tu fizeste o bem para mim; e por meio do meu próprio pecado, Tu justamente me puniste. Pois Tu ordenaste, e assim é, que toda afeição desordenada seja a sua própria punição.

Mas por que eu odiava tanto o grego, que estudei quando menino? Ainda não sei plenamente. Pois o latim eu amava; não o que os meus primeiros mestres, mas o que os chamados gramáticos me ensinaram. Pois essas primeiras lições, ler, escrever e aritmética, eu pensava serem um fardo e uma pena tão grandes quanto qualquer grego. E contudo, de onde vinha isto também, senão do pecado e da vaidade desta vida, porque eu era carne, e um sopro que passa e não volta? Pois aquelas primeiras lições eram melhores, certamente, porque mais certas; por elas obtive, e ainda retenho, a capacidade de ler o que encontro escrito, e eu mesmo escrever o que quero; enquanto que nas outras, eu era forçado a aprender as errâncias de um tal Eneias, esquecido das minhas, e a chorar pela morte de Dido, porque ela se matou por amor; enquanto, com olhos secos, eu suportava o meu miserável eu morrendo entre estas coisas, longe de Ti, ó Deus, minha vida.

Pois o que há de mais miserável do que um ser miserável que não se compadece de si mesmo; chorando a morte de Dido por amor a Eneias, mas não chorando a sua própria morte por falta de amor a Ti, ó Deus. Tu, luz do meu coração, Tu, pão da minha alma mais íntima, Tu, Poder que dás vigor à minha mente, que vivificas os meus pensamentos, eu não Te amava. Cometi fornicação contra Ti, e tudo ao meu redor, assim fornicando, ecoava: "Bem feito! bem feito!", pois a amizade deste mundo é fornicação contra Ti; e "Bem feito! bem feito!" ecoa até que alguém se envergonhe de não ser assim um homem. E por tudo isso eu não chorei, eu que chorei por Dido morta, e "buscando pela espada um golpe e ferida extrema", eu mesmo buscando, enquanto isso, um extremo pior, o mais extremo e mais baixo das Tuas criaturas, tendo Te abandonado, terra passando para a terra. E se proibido de ler tudo isto, eu me entristecia por não poder ler o que me entristecia. Loucura como esta é tida como um aprendizado mais elevado e mais rico do que aquele pelo qual aprendi a ler e escrever.

Mas agora, meu Deus, clama alto em minha alma; e que a Tua verdade me diga: "Não assim, não assim. Muito melhor era aquele primeiro estudo". Pois, eis que eu prontamente esqueceria as errâncias de Eneias e todo o resto, antes de como ler e escrever. Mas sobre a entrada da Escola de Gramática há um véu estendido! É verdade; contudo, não é isto tanto um emblema de algo recôndito, como um manto de erro. Não gritem contra mim aqueles a quem já não temo, enquanto confesso a Ti, meu Deus, tudo o que minha alma quer, e concordo com a condenação dos meus maus caminhos, para que eu possa amar os Teus bons caminhos. Não gritem contra mim nem compradores nem vendedores de aprendizado gramatical. Pois, se eu lhes perguntar se é verdade que Eneias veio certa vez a Cartago, como o poeta conta, os menos doutos responderão que não sabem, os mais doutos que ele nunca veio. Mas se eu perguntar com que letras o nome "Eneias" é escrito, todo aquele que aprendeu isso me responderá corretamente, quanto aos sinais que os homens convencionalmente estabeleceram. Se, de novo, eu perguntar qual poderia ser esquecido com menos detrimento para os negócios da vida, ler e escrever ou essas ficções poéticas? Quem não prevê o que todos devem responder, que não se esqueceram totalmente de si mesmos? Pequei, então, quando menino, ao preferir esses estudos vazios aos mais proveitosos, ou melhor, amei um e odiei o outro. "Um e um, dois"; "dois e dois, quatro"; isto era para mim um canto detestável: "o cavalo de madeira forrado com homens armados", e "a queima de Troia", e "a sombra de Creusa e a triste semelhança", eram o espetáculo escolhido da minha vaidade.

Por que então eu odiava os clássicos gregos, que têm histórias semelhantes? Pois Homero também teceu curiosamente ficções semelhantes, e é docemente vaidoso, contudo era amargo para o meu gosto de menino. E assim suponho que seria Virgílio para as crianças gregas, quando forçadas a aprendê-lo como eu fui Homero. A dificuldade, na verdade, a dificuldade de uma língua estrangeira, salpicava, por assim dizer, com fel toda a doçura da fábula grega. Pois eu não entendia uma só palavra dela, e para me fazer entender, eu era instado veementemente com ameaças cruéis e punições. Houve tempo também (quando infante) em que eu não sabia latim; mas isso aprendi sem medo ou sofrimento, por mera observação, entre as carícias da minha ama e as brincadeiras dos amigos, sorrindo e encorajando-me jovialmente. Isto aprendi sem qualquer pressão de punição para me incitar, pois o meu coração me instava a dar à luz as suas concepções, o que eu só podia fazer aprendendo palavras, não daqueles que ensinavam, mas daqueles que conversavam comigo; em cujos ouvidos também eu dava à luz os pensamentos, qualquer que fosse a minha concepção. Não há dúvida, então, de que uma curiosidade livre tem mais força no nosso aprendizado dessas coisas do que uma imposição assustadora. Apenas esta imposição restringe os desvios dessa liberdade, através das Tuas leis, ó meu Deus, as Tuas leis, desde a cana do mestre até as provações dos mártires, sendo capazes de temperar para nós um amargo saudável, chamando-nos de volta a Ti, daquele prazer mortal que nos atrai para longe de Ti.

Ouve, Senhor, a minha oração; não deixes a minha alma desfalecer sob a Tua disciplina, nem me deixes desfalecer ao confessar a Ti todas as Tuas misericórdias, pelas quais Tu me tiraste de todos os meus caminhos mais maus, para que pudesses tornar-Te um deleite para mim acima de todos os atrativos que outrora segui; para que eu possa amar-Te inteiramente, e agarrar a Tua mão com todas as minhas afeições, e Tu possas ainda resgatar-me de cada tentação, até ao fim. Pois eis, ó Senhor, meu Rei e meu Deus, para o Teu serviço seja qualquer coisa útil que a minha infância aprendeu; para o Teu serviço, que eu fale, escreva, leia, calcule. Pois Tu me concedeste a Tua disciplina, enquanto eu aprendia vaidades; e o meu pecado de deleitar-me nessas vaidades Tu perdoaste. Nelas, na verdade, aprendi muitas palavras úteis, mas estas podem ser igualmente aprendidas em coisas não vãs; e esse é o caminho seguro para os passos da juventude.

Mas ai de ti, torrente do costume humano! Quem resistirá contra ti? Até quando não secarás? Até quando rolarás os filhos de Eva para aquele oceano enorme e hediondo, que até eles mal ultrapassam, os que sobem na cruz? Não li eu em ti sobre Júpiter, o trovejador e o adúltero? Ambos, sem dúvida, ele não poderia ser; mas assim o trovão fingido poderia favorecer e servir de alcoviteiro ao adultério real. E agora, qual dos nossos mestres de toga empresta um ouvido sóbrio a alguém que da sua própria escola clama: "Estas eram as ficções de Homero, transferindo coisas humanas para os deuses; quem dera ele tivesse trazido coisas divinas para nós!" Contudo, mais verdadeiramente teria ele dito: "Estas são, na verdade, as suas ficções; mas atribuindo uma natureza divina a homens perversos, para que os crimes não fossem mais crimes, e quem os cometesse parecesse imitar não homens abandonados, mas os deuses celestiais".

E contudo, tu, torrente infernal, dentro de ti são lançados os filhos dos homens com ricas recompensas, por alcançarem tal aprendizado; e uma grande solenidade é feita disso, quando isto está acontecendo no fórum, à vista de leis que nomeiam um salário além dos pagamentos do estudioso; e tu açoitas as tuas rochas e ruges: "Daqui aprendem-se as palavras; daqui a eloquência; muito necessária para alcançar os vossos fins, ou manter opiniões". Como se nunca tivéssemos conhecido palavras como "chuva de ouro", "regaço", "seduzir", "templos dos céus", ou outras naquela passagem, a menos que Terêncio tivesse trazido um jovem lascivo para o palco, colocando Júpiter como seu exemplo de sedução.

"Vendo uma pintura, onde a história estava desenhada, De Júpiter descendo em uma chuva de ouro Ao regaço de Dânae para seduzir uma mulher."

E então observa como ele se excita para a luxúria como que por autoridade celestial:

"E que Deus? O grande Júpiter, Que sacode os mais altos templos do céu com seu trovão,

E eu, pobre mortal, não farei o mesmo! Eu fiz, e com todo o meu coração eu fiz."

Nem um pouco mais facilmente as palavras são aprendidas por causa de toda essa vileza; mas por meio delas a vileza é cometida com menos vergonha. Não que eu culpe as palavras, sendo, por assim dizer, vasos escolhidos e preciosos; mas aquele vinho de erro que é bebido para nós nelas por professores embriagados; e se nós, também, não bebemos, somos espancados, e não temos juiz sóbrio a quem possamos recorrer. Contudo, ó meu Deus (em cuja presença agora sem dano posso lembrar disto), tudo isto infelizmente aprendi de bom grado com grande deleite, e por isto fui proclamado um menino promissor.

Tolera-me, meu Deus, enquanto digo algo sobre o meu engenho, o Teu presente, e sobre que tolices o desperdicei. Pois uma tarefa me foi imposta, bastante incômoda para a minha alma, sob termos de louvor ou vergonha, e medo de açoites, para falar as palavras de Juno, enquanto ela se enfurecia e lamentava que não pudesse

"Este príncipe troiano de Lácio desviar."

Palavras estas que eu ouvira dizer que Juno nunca proferiu; mas fomos forçados a nos desviar nos passos dessas ficções poéticas, e a dizer em prosa muito do que ele expressou em verso. E aquele era mais aplaudido, em quem as paixões de raiva e luto eram mais preeminentes, e vestidas na linguagem mais adequada, mantendo a dignidade do personagem. O que é para mim, ó minha verdadeira vida, meu Deus, que a minha declamação fosse aplaudida acima de tantos da minha própria idade e classe? Não é tudo isto fumaça e vento? E não havia mais nada em que exercitar meu engenho e língua? Os Teus louvores, Senhor, os Teus louvores poderiam ter sustentado o rebento ainda tenro do meu coração pelo esteio das Tuas Escrituras; assim não teria ele se arrastado em meio a essas trifes vazias, uma presa contaminada para as aves do céu. Pois de mais de uma maneira os homens sacrificam aos anjos rebeldes.

Mas que maravilha que eu fosse assim arrebatado para vaidades, e saísse da Tua presença, ó meu Deus, quando homens eram postos diante de mim como modelos, que, se ao relatar alguma ação deles, em si mesma não má, cometiam algum barbarismo ou solecismo, sendo censurados, ficavam abalados; mas quando em discurso rico e adornado e bem ordenado relatavam sua própria vida desordenada, sendo louvados, gloriavam-se? Estas coisas Tu vês, Senhor, e permaneces em silêncio; longânime, e cheio de misericórdia e verdade. Permanecerás Tu em silêncio para sempre? E ainda agora Tu tiras deste horrível abismo a alma que Te busca, que tem sede dos Teus prazeres, cujo coração Te diz: Busquei a Tua face; a Tua face, Senhor, buscarei. Pois afeições obscurecidas são afastamento de Ti. Pois não é com nossos pés, ou mudança de lugar, que os homens Te deixam, ou voltam para Ti. Ou será que aquele Teu filho mais novo procurou cavalos ou carruagens, ou navios, voou com asas visíveis, ou viajou pelo movimento de seus membros, para que pudesse em um país distante desperdiçar em vida desregrada tudo o que Tu deste na sua partida? Um Pai amoroso, quando deste, e mais amoroso para com ele, quando voltou vazio. Assim, pois, em afeições luxuriosas, isto é, obscurecidas, está a verdadeira distância da Tua face.

Vê, ó Senhor Deus, sim, vê pacientemente como estás acostumado, quão cuidadosamente os filhos dos homens observam as regras pactuadas de letras e sílabas recebidas daqueles que falaram antes deles, negligenciando o pacto eterno da salvação eterna recebido de Ti. De tal modo que um professor ou aprendiz das leis hereditárias da pronúncia ofenderá mais os homens ao falar sem a aspiração, de um "umano", em desprezo às leis da gramática, do que se ele, um "humano", odiar um "humano" em desprezo às Tuas. Como se qualquer inimigo pudesse ser mais nocivo do que o ódio com que ele se enfurece contra ele; ou pudesse ferir mais profundamente aquele a quem ele persegue, do que ele fere a sua própria alma pela sua inimizade. Certamente nenhuma ciência das letras pode ser tão inata quanto o registro da consciência, "que ele está fazendo ao outro o que de outro ele detestaria sofrer". Quão profundos são os Teus caminhos, ó Deus, Tu, o único grande, que sentas em silêncio no alto e por uma lei incansável dispensas cegueira penal a desejos sem lei. Em busca da fama da eloquência, um homem de pé diante de um juiz humano, cercado por uma multidão humana, declamando contra o seu inimigo com o mais feroz ódio, terá cuidado muito atento, para não, por um erro da língua, assassinar a palavra "humano"; mas não tem cuidado, para não, através da fúria do seu espírito, assassinar o verdadeiro humano.

Este era o mundo em cuja porta eu, infeliz, jazia na minha infância; este o palco onde eu temia mais cometer um barbarismo do que, tendo cometido um, invejar aqueles que não o fizeram. Estas coisas eu falo e confesso a Ti, meu Deus; pelas quais tive louvor daqueles, a quem eu então pensava ser toda virtude agradar. Pois eu não via o abismo de vileza, onde eu estava lançado longe dos Teus olhos. Diante deles o que há de mais imundo do que eu já era, desagradando até mesmo a tais como eu mesmo? com inumeráveis mentiras enganando o meu tutor, os meus mestres, os meus pais, por amor ao jogo, avidez de ver espetáculos vãos e inquietude para imitá-los! Roubos também eu cometi, da despensa e da mesa de meus pais, escravizado pela ganância, ou para que eu pudesse ter para dar aos meninos, que me vendiam o seu jogo, o qual, enquanto isso, eles gostavam não menos do que eu. Neste jogo, também, eu muitas vezes buscava conquistas injustas, conquistado eu mesmo enquanto isso pelo vão desejo de preeminência. E o que eu poderia suportar tão mal, ou, quando o detectava, repreendia eu tão ferozmente, como o que eu estava fazendo aos outros? E pelo que se, detectado, eu era repreendido, eu escolhia antes brigar do que ceder. E é esta a inocência da infância? Não assim, Senhor, não assim; eu clamo pela Tua misericórdia, meu Deus. Pois estes mesmos pecados, à medida que os anos mais maduros sucedem, estes mesmos pecados são transferidos dos tutores e mestres, das nozes e bolas e pardais, para magistrados e reis, para ouro e terras e escravos, exatamente como punições mais severas substituem a cana. Era a baixa estatura então da infância que Tu, nosso Rei, elogiáveis como um emblema de humildade, quando disseste: Destes é o reino dos céus.

Contudo, Senhor, a Ti, Criador e Governador do universo, excelentíssimo e boníssimo, graças eram devidas a Ti, nosso Deus, mesmo que tivesses destinado para mim apenas a infância. Pois mesmo então eu era, eu vivia e sentia; e tinha uma providência implantada sobre o meu bem-estar — um vestígio daquela Unidade misteriosa de onde fui derivado; guardava pelo sentido interior a integridade dos meus sentidos, e nessas ocupações minuciosas, e nos meus pensamentos sobre coisas minuciosas, aprendi a deleitar-me na verdade, odiava ser enganado, tinha uma memória vigorosa, fui dotado de fala, era consolado pela amizade, evitava a dor, a baixeza, a ignorância. Em tão pequena criatura, o que não era maravilhoso, não era admirável? Mas tudo são dons do meu Deus: não fui eu quem os deu a mim; e bons são eles, e estes, juntos, sou eu mesmo. Bom, então, é Aquele que me fez, e Ele é o meu bem; e perante Ele exultarei por cada bem que, de menino, recebi. Pois foi o meu pecado que, não nEle, mas nas Suas criaturas — em mim e nos outros — busquei prazeres, grandezas, verdades, e assim caí de cabeça em tristezas, confusões, erros. Graças sejam dadas a Ti, minha alegria, minha glória e minha confiança, meu Deus, graças sejam dadas a Ti pelos Teus dons; mas preserva-os para mim. Pois assim preservar-me-ás, e aquelas coisas serão ampliadas e aperfeiçoadas que Tu me deste, e eu mesmo estarei Contigo, uma vez que até o ser Tu me deste.

LIVRO II

Recordarei agora a minha vileza passada e as corrupções carnais da minha alma; não porque as ame, mas para que possa amar-Te, ó meu Deus. Por amor ao Teu amor eu o faço; revendo os meus caminhos mais iníquos na própria amargura da minha lembrança, para que Tu possas tornar-Te doce para mim (Tu, doçura que nunca falha, Tu, doçura bem-aventurada e segura); e reunindo-me novamente daquela minha dissipação, na qual fui despedaçado, enquanto, desviado de Ti, o Único Bem, perdi-me entre uma multiplicidade de coisas. Pois ardi mesmo na minha juventude de outrora para ser saciado nas coisas inferiores; e ousei tornar-me selvagem novamente, com estes amores variados e sombrios: a minha formosura consumiu-se e tornei-me repugnante aos Teus olhos; agradando a mim mesmo, e desejoso de agradar aos olhos dos homens.

E em que me deleitava, senão em amar e ser amado? Mas não guardei a medida do amor, de mente para mente, o limite brilhante da amizade: mas, da lamacenta concupiscência da carne e das efervescências da juventude, vapores subiram que obscureceram e encobriram o meu coração, de modo que não pude discernir o claro brilho do amor da névoa da luxúria. Ambos ferviam confusamente em mim e apressaram a minha juventude instável sobre o precipício dos desejos impuros, e mergulharam-me num abismo de flagícios. A Tua ira tinha se acumulado sobre mim, e eu não o sabia. Tornei-me surdo pelo tilintar da corrente da minha mortalidade, a punição do orgulho da minha alma, e desviei-me mais para longe de Ti, e Tu deixaste-me só, e fui sacudido, e desperdiçado, e dissipado, e fervi nas minhas fornicações, e Tu calaste-Te, ó meu tardio gozo! Tu então calaste-Te, e eu vagueei cada vez mais para longe de Ti, para sementeiras de tristezas cada vez mais infrutíferas, com um desânimo orgulhoso e um cansaço inquieto.

Oh! se alguém tivesse então temperado a minha desordem e tirado proveito das belezas fugazes destas, as extremidades da Tua criação! Tivesse posto um limite à sua capacidade de dar prazer, para que assim as marés da minha juventude se pudessem ter lançado na margem do matrimônio, se não pudessem ser acalmadas e mantidas dentro do objeto de uma família, como a Tua lei prescreve, ó Senhor: Tu que, deste modo, formas a descendência desta nossa morte, sendo capaz, com uma mão suave, de embotar os espinhos que foram excluídos do Teu paraíso? Pois a Tua omnipotência não está longe de nós, mesmo quando estamos longe de Ti. De outra forma, deveria ter prestado mais atenção à voz das nuvens: Todavia, estes terão tribulação na carne, mas eu vos poupo. E é bom que o homem não toque em mulher. E, o que não é casado cuida das coisas do Senhor, como há de agradar ao Senhor; mas o que é casado cuida das coisas do mundo, como há de agradar à mulher.

A estas palavras deveria ter dado ouvidos mais atentamente, e, sendo separado por amor ao reino dos céus, teria aguardado mais felizmente os Teus abraços; mas eu, pobre miserável, espumava como um mar agitado, seguindo o correr da minha própria maré, abandonando-Te, e excedi todos os Teus limites; contudo, não escapei aos Teus açoites. Pois que mortal pode? Pois estavas sempre comigo, misericordiosamente rigoroso, e salpicando com a liga mais amarga todos os meus prazeres ilícitos: para que eu buscasse prazeres sem liga. Mas onde encontrar tais, não pude descobrir, senão em Ti, ó Senhor, que ensinas pela dor, e nos feres para curar; e nos matas, para que não morramos longe de Ti. Onde estava eu, e quão longe estava exilado das delícias da Tua casa, naquele décimo sexto ano da idade da minha carne, quando a loucura da luxúria (à qual a desvergonha humana dá livre licença, embora não licenciada pelas Tuas leis) tomou o domínio sobre mim, e eu me entreguei inteiramente a ela? Os meus amigos, entretanto, não se preocuparam em salvar-me da queda pelo matrimônio; a sua única preocupação era que eu aprendesse a falar excelentemente e fosse um orador persuasivo.

Pois naquele ano os meus estudos foram interrompidos: enquanto, após o meu regresso de Madaura (uma cidade vizinha, para onde tinha viajado para aprender gramática e retórica), as despesas para uma viagem mais longa a Cartago estavam sendo providenciadas para mim; e isso mais pela resolução do que pelos meios do meu pai, que era apenas um pobre cidadão livre de Thagaste. A quem conto isto? Não a Ti, meu Deus; mas diante de Ti à minha própria espécie, a essa pequena porção da humanidade que possa encontrar estes meus escritos. E com que propósito? Para que quem quer que leia isto, possa pensar das profundezas das quais devemos clamar a Ti. Pois o que é mais próximo aos Teus ouvidos do que um coração que confessa e uma vida de fé? Quem não exaltou o meu pai, por ele, além da capacidade dos seus meios, prover o filho com todas as necessidades para uma longa viagem por amor aos seus estudos? Pois muitos cidadãos muito mais abastados não faziam tal coisa pelos seus filhos. Mas, ainda assim, este mesmo pai não tinha preocupação sobre como eu crescia para Ti, ou quão casto eu era; contanto que eu fosse copioso na fala, ainda que estéril para o Teu cultivo, ó Deus, que és o único verdadeiro e bom Senhor do Teu campo, o meu coração.

Mas enquanto, naquele meu décimo sexto ano, vivia com os meus pais, deixando toda a escola por um tempo (um período de ócio sendo interposto devido à escassez da fortuna dos meus pais), os espinheiros de desejos impuros cresceram viçosos sobre a minha cabeça, e não havia mão para os arrancar. Quando aquele meu pai me viu nas termas, já chegando à idade adulta e dotado de uma juventude inquieta, ele, já antecipando aqui os seus descendentes, contou-o alegremente à minha mãe; regozijando-se naquele tumulto dos sentidos onde o mundo Te esquece, o seu Criador, e torna-se enamorado da Tua criatura, em vez de Ti mesmo, através dos vapores daquele vinho invisível da sua própria vontade, desviando-se e curvando-se às coisas mais vis. Mas no seio da minha mãe já tinhas começado o Teu templo, e o fundamento da Tua santa habitação, enquanto o meu pai era ainda apenas um Catecúmeno, e isso muito recentemente. Ela então sobressaltou-se com um santo temor e tremor; e, embora eu ainda não fosse batizado, temia por mim aqueles caminhos tortuosos nos quais andam os que viram as costas para Ti, e não o rosto.

Ai de mim! E ouso dizer que Te calaste, ó meu Deus, enquanto eu vagueava cada vez mais longe de Ti? Calaste-Te então de fato para mim? E de quem, senão Tuas, eram estas palavras que, pela minha mãe, a Tua fiel, cantaste nos meus ouvidos? Nada disso afundou no meu coração, de modo a praticá-lo. Pois ela desejava, e lembro-me de que em privado, com grande ansiedade, me advertiu "para não cometer fornicação; mas especialmente para nunca macular a mulher de outro homem". Estes pareciam-me conselhos feminis, aos quais eu deveria corar de obedecer. Mas eram Teus, e eu não o sabia: e pensei que Te calavas e que era ela quem falava; por meio de quem não Te calaste para mim; e nela foste desprezado por mim, seu filho, o filho da Tua serva, o Teu servo. Mas eu não o sabia; e corri de cabeça com tal cegueira que, entre os meus iguais, eu me envergonhava de uma menor desvergonha, quando os ouvia gabar-se dos seus flagícios, sim, e quanto mais se gabavam, mais se degradavam: e eu tinha prazer, não apenas no prazer do ato, mas no louvor. O que é digno de censura senão o vício? Mas eu fazia-me pior do que era, para não ser censurado; e quando em alguma coisa eu não tinha pecado como os depravados, eu dizia que tinha feito o que não tinha feito, para não parecer desprezível na proporção em que eu era inocente; ou de menor conta, quanto mais casto.

Vê com que companheiros eu percorria as ruas de Babilônia e me revolvia na sua lama, como se num leito de especiarias e unguentos preciosos. E para que eu me apegasse mais firmemente ao seu próprio centro, o inimigo invisível pisou-me e seduziu-me, porque eu era fácil de ser seduzido. Nem a mãe da minha carne (que já tinha fugido do centro de Babilônia, contudo ia mais lentamente nas franjas dela, enquanto me aconselhava a castidade, para que atentasse ao que tinha ouvido de mim do seu marido, de modo a restringir dentro dos limites do afeto conjugal, se não pudesse ser aparado até à raiz) o que sentia ser pestilento no presente e perigoso para o futuro. Ela não atentou a isto, pois temia que uma esposa se mostrasse um empecilho e estorvo às minhas esperanças. Não aquelas esperanças do mundo por vir, que a minha mãe depositava em Ti; mas a esperança do aprendizado, que ambos os meus pais desejavam demasiado que eu alcançasse; o meu pai, porque ele quase não tinha pensamento sobre Ti, e sobre mim apenas vãs ideias; a minha mãe, porque ela considerava que aqueles cursos habituais de aprendizado não seriam apenas um estorvo, mas até algum auxílio para Te alcançar. Pois assim conjecturo, recordando, tão bem quanto posso, a disposição dos meus pais. As rédeas, entretanto, foram afrouxadas para mim, além de toda a temperança da devida severidade, para gastar o meu tempo em diversões, sim, até à dissolução em tudo o que eu desejava. E em tudo havia uma névoa, interceptando de mim, ó meu Deus, o brilho da Tua verdade; e a minha iniquidade irrompeu como que da própria gordura.

O roubo é punido pela Tua lei, ó Senhor, e pela lei escrita nos corações dos homens, que a própria iniquidade não apaga. Pois que ladrão suportará um ladrão? Nem mesmo um ladrão rico, alguém que rouba por necessidade. Contudo, eu desejei roubar, e fiz-o, compelido não pela fome, nem pela pobreza, mas por uma saciedade de bem-fazer, e uma glutoneria de iniquidade. Pois roubei aquilo de que tinha bastante, e muito melhor. Nem me importei de desfrutar o que roubei, mas regozijei-me no roubo e no próprio pecado. Havia uma pereira perto da nossa vinha, carregada de frutos, não tentadora nem pela cor nem pelo sabor. Para sacudir e roubar isto, alguns jovens libertinos fomos, tarde numa noite (tendo, segundo o nosso costume pestilento, prolongado os nossos jogos nas ruas até então), e levamos cargas enormes, não para nossa alimentação, mas para atirar aos próprios porcos, tendo apenas provado deles. E isto, apenas para fazer o que nos agradava, porque era desaprazível. Contempla o meu coração, ó Deus, contempla o meu coração, de que Te compadeceste no fundo do abismo sem fundo. Agora, contempla, deixa o meu coração dizer-Te o que procurou ali, para que eu fosse gratuitamente mau, não tendo tentação para o mal, senão o próprio mal. Era imundo, e eu amava-o; amava perecer, amava a minha própria falta, não aquilo pelo qual eu era faltoso, mas a minha própria falta. Alma imunda, caindo do Teu firmamento para a destruição total; não buscando nada através da vergonha, senão a própria vergonha!

Pois há uma atratividade nos corpos belos, no ouro e na prata, e em todas as coisas; e no toque corporal, a simpatia tem muita influência, e cada outro sentido tem o seu objeto próprio adequadamente temperado. A honra mundana tem também a sua graça, e o poder de vencer, e de dominar; de onde brota também a sede de vingança. Mas ainda assim, para obter tudo isto, não devemos afastar-nos de Ti, ó Senhor, nem declinar da Tua lei. A vida também que aqui vivemos tem o seu próprio encanto, através de uma certa proporção própria, e uma correspondência com todas as coisas belas aqui em baixo. A amizade humana também é estimada com um doce laço, por causa da unidade formada de muitas almas. Por ocasião de todas estas, e semelhantes, o pecado é cometido, enquanto, através de uma inclinação imoderada para estes bens da ordem mais baixa, os melhores e mais altos são abandonados — Tu, nosso Senhor Deus, a Tua verdade e a Tua lei. Pois estas coisas inferiores têm as suas delícias, mas não como o meu Deus, que fez todas as coisas; pois nEle se deleita o justo, e Ele é a alegria dos retos de coração.

Quando, então, perguntamos por que um crime foi cometido, não o acreditamos, a menos que pareça que possa ter havido algum desejo de obter alguns daqueles que chamamos de bens inferiores, ou um medo de perdê-los. Pois são belos e formosos; embora, comparados com aqueles bens superiores e beatíficos, sejam abjetos e baixos. Um homem assassinou outro; por quê? amava a sua mulher ou a sua propriedade; ou queria roubar para o seu próprio sustento; ou temia perder algumas dessas coisas por ele; ou, injustiçado, estava a arder para se vingar. Alguém cometeria um assassinato sem causa, deleitando-se simplesmente em assassinar? Quem o acreditaria? Pois quanto àquele homem furioso e selvagem, de quem se diz que era gratuitamente mau e cruel, ainda assim a causa é atribuída: "para que" (diz ele) "por causa do ócio, a mão ou o coração não se tornassem inativos". E com que fim? Para que, através daquela prática de culpa, ele pudesse, tendo tomado a cidade, alcançar honras, império, riquezas, e ser libertado do medo das leis, e dos seus embaraços por necessidades domésticas, e da consciência de vilanias. Assim, então, nem mesmo Catilina amava as suas próprias vilanias, mas alguma outra coisa, por cuja causa as fazia.

O que então eu, miserável, amava tanto em ti, ó meu roubo, ó meu ato de trevas, naquele décimo sexto ano da minha idade? Amável não eras, porque eras roubo. Mas és tu alguma coisa, para que assim fale contigo? Belas eram as peras que roubávamos, porque eram a Tua criação, Tu, o mais belo de todos, Criador de todos, Tu, bom Deus; Deus, o bem soberano e o meu verdadeiro bem. Belas eram aquelas peras, mas não foram elas que a minha alma miserável desejou; pois eu tinha provisões de melhores, e colhi-as apenas para que pudesse roubar. Pois, quando colhidas, atirei-as fora, sendo o meu único festim nisso o meu próprio pecado, que eu tinha prazer em desfrutar. Pois se algo daquelas peras chegava à minha boca, o que a adoçava era o pecado. E agora, ó Senhor meu Deus, pergunto o que naquele roubo me deleitou; e eis que não tem formosura; não me refiro a tal formosura como na justiça e na sabedoria; nem tal como está na mente e na memória, e nos sentidos, e na vida animal do homem; nem ainda como as estrelas são gloriosas e belas nas suas órbitas; ou a terra, ou o mar, cheio de vida embrionária, substituindo pelo seu nascimento o que decai; não, nem mesmo aquela beleza falsa e sombria que pertence aos vícios enganadores.

Pois assim o orgulho imita a exaltação; ao passo que Tu és o único Deus exaltado sobre todos. A ambição, o que busca, senão honras e glória? ao passo que Tu és o único a ser honrado acima de todos e glorioso para todo o sempre. A crueldade dos grandes gostaria de ser temida; mas quem deve ser temido senão Deus apenas, de cujo poder o que pode ser arrancado ou retirado? quando, ou onde, ou para onde, ou por quem? As ternuras dos libertinos gostariam de ser contadas como amor: contudo nada é mais terno do que a Tua caridade; nem nada é amado mais saudavelmente do que essa Tua verdade, brilhante e bela acima de tudo. A curiosidade faz aparência de um desejo de conhecimento; ao passo que Tu supremamente sabes tudo. Sim, a ignorância e a tolice própria são disfarçadas sob o nome de simplicidade e inofensividade; porque nada é encontrado mais simples do que Tu: e o que menos prejudicial, uma vez que são as suas próprias obras que ferem o pecador? Sim, a preguiça gostaria de estar em repouso; mas que repouso estável senão o Senhor? A luxúria pretende ser chamada de plenitude e abundância; mas Tu és a plenitude e a inesgotável fartura de prazeres incorruptíveis. A prodigalidade apresenta uma sombra de liberalidade: mas Tu és o Dador mais transbordante de todo o bem. A cobiça gostaria de possuir muitas coisas; e Tu possuis todas as coisas. A inveja disputa pela excelência: o que é mais excelente do que Tu? A ira busca vingança: quem se vinga mais justamente do que Tu? O medo sobressalta-se com coisas inusitadas e repentinas, que põem em perigo as coisas amadas, e prevê a sua segurança; mas para Ti o que é inusitado ou repentino, ou quem separa de Ti o que Tu amas? Ou onde, senão Contigo, está a segurança inabalável? O luto definha pelas coisas perdidas, o deleite dos seus desejos; porque não gostaria que nada lhe fosse tirado, como nada pode ser de Ti.

Assim a alma fornica, quando se desvia de Ti, buscando fora de Ti o que não encontra puro e imaculado, até que retorna a Ti. Assim todos pervertidamente Te imitam, os que se removem para longe de Ti, e se levantam contra Ti. Mas mesmo ao imitar-Te assim, eles implicam que Tu és o Criador de toda a natureza; de onde não há lugar para onde se retirar totalmente de Ti. O que então eu amava naquele roubo? E em que eu imitava, ainda que corrupta e pervertidamente, o meu Senhor? Desejei mesmo, por meio do furto, fazer o contrário da Tua lei, porque pelo poder não podia, para que, sendo um prisioneiro, pudesse imitar uma liberdade mutilada, fazendo com impunidade coisas a mim não permitidas, uma semelhança obscurecida da Tua Omnipotência? Eis o Teu servo, fugindo do seu Senhor, e obtendo uma sombra. Ó podridão, ó monstruosidade da vida, e profundidade da morte! Poderia eu gostar do que não me era permitido, apenas porque não me era permitido?

Que poderei eu retribuir ao Senhor, para que, enquanto a minha memória recorda estas coisas, a minha alma não se espante diante delas? Amar-Te-ei, ó Senhor, e agradecer-Te-ei, e confessarei o Teu nome; porque me perdoaste estes meus feitos tão grandes e hediondos. À Tua graça atribuo, e à Tua misericórdia, o teres derretido os meus pecados como se fossem gelo. À Tua graça atribuo também tudo o que não fiz de mal; pois que não poderia eu ter feito, eu que até amava um pecado pelo seu próprio bem? Sim, confesso que tudo me foi perdoado; tanto os males que cometi pela minha própria vontade, como os que, pela Tua orientação, não cometi. Que homem é este que, pesando a sua própria enfermidade, ousa atribuir a sua pureza e inocência à sua própria força; para que assim Te ame menos, como se menos precisasse da Tua misericórdia, pela qual perdoas os pecados àqueles que se voltam para Ti? Pois aquele que, chamado por Ti, seguiu a Tua voz e evitou aquelas coisas que me lê recordar e confessar de mim mesmo, não me despreze a mim, que, estando doente, fui curado por aquele Médico, por cuja ajuda foi que ele não estava, ou melhor, estava menos, doente: e por isto que ele Te ame tanto, sim, e ainda mais; pois por Aquele por quem ele vê que fui recuperado de tal profunda consumpção de pecado, por Ele vê que ele próprio foi preservado de semelhante consumpção de pecado.

Que fruto colhi então (homem miserável!) naquelas coisas, da lembrança das quais agora me envergonho? Especialmente naquele furto que amei pelo amor ao furto; e ele em si nada era, e por isso tanto mais miserável eu, que o amei. Contudo, sozinho não o teria feito: tal era eu então, lembro-me, sozinho nunca o teria feito. Amava então nele também a companhia dos cúmplices, com quem o fiz? Não amava então nada mais além do furto, ou melhor, não amava nada mais; pois essa circunstância da companhia também não era nada. O que é, na verdade? quem me pode ensinar, senão Aquele que ilumina o meu coração e descobre os seus cantos escuros? O que é isto que me veio ao pensamento inquirir, discutir e considerar? Pois se eu tivesse amado as peras que roubei e desejado desfrutá-las, poderia tê-lo feito sozinho, se a mera execução do furto tivesse bastado para alcançar o meu prazer; nem precisaria de ter inflamado a comichão dos meus desejos pelo entusiasmo dos cúmplices. Mas, uma vez que o meu prazer não estava naquelas peras, estava na própria ofensa, que a companhia dos companheiros de pecado proporcionava.

Que sentimento era então este? Pois, na verdade, era demasiado imundo: e ai de mim, que o tive. Mas ainda assim, que era? Quem pode compreender os seus erros? Era a brincadeira, que de certa forma fazia cócegas nos nossos corações, o enganarmos aqueles que pouco pensavam no que estávamos a fazer e muito o desaprovavam. Por que então o meu prazer era de tal sorte que não o fiz sozinho? Porque ninguém ri ordinariamente sozinho? ordinariamente ninguém; contudo, o riso às vezes domina os homens sós e isolados quando ninguém está com eles, se algo muito ridículo se apresenta aos seus sentidos ou à sua mente. Todavia, eu não teria feito isto sozinho; sozinho nunca o teria feito. Vê, meu Deus, diante de Ti, a vívida lembrança da minha alma; sozinho, nunca teria cometido aquele furto em que o que roubei não me agradou, mas sim o facto de ter roubado; nem sozinho me teria agradado fazê-lo, nem o teria feito. Ó amizade demasiado hostil! tu, incompreensível sedutora da alma, tu, cobiça de fazer o mal por alegria e devassidão, tu, sede da perda alheia, sem desejo do meu próprio ganho ou vingança: mas quando se diz "Vamos, façamo-lo", envergonhamo-nos de não ser desavergonhados.

Quem pode desembaraçar aquele nó retorcido e intrincado? Imundo é ele: detesto pensar nele, olhar para ele. Mas a Ti anseio, ó Justiça e Inocência, bela e graciosa para todos os olhos puros, e de uma satisfação que não sacia. Contigo está o descanso inteiro e a vida imperturbável. Quem entra em Ti, entra na alegria do seu Senhor: e não temerá, e fará excelentemente no Todo-Excelente. Afastei-me de Ti e vagueei, ó meu Deus, demasiado extraviado de Ti, o meu amparo, naqueles dias da minha juventude, e tornei-me para mim mesmo uma terra árida.

LIVRO III

A Cartago cheguei, onde cantava à minha volta, aos meus ouvidos, um caldeirão de amores impuros. Ainda não amava, mas amava amar, e por uma necessidade profunda, odiava-me por não precisar. Procurava o que pudesse amar, apaixonado por amar, e odiava a segurança e um caminho sem armadilhas. Pois dentro de mim havia uma fome daquele alimento interior, Tu mesmo, meu Deus; contudo, através dessa fome não sentia fome; mas estava sem qualquer desejo de sustento incorruptível, não por estar cheio dele, mas quanto mais vazio, mais o detestava. Por esta causa a minha alma estava doente e cheia de chagas, atirava-se miseravelmente para fora, desejando ser arranhada pelo toque dos objetos sensíveis. Contudo, se estes não tivessem alma, não seriam objetos de amor. Amar, pois, e ser amado, era-me doce; mas mais, quando conseguia desfrutar da pessoa que amava, maculava, portanto, a fonte da amizade com a imundície da concupiscência, e obscurecia o seu brilho com o inferno da luxúria; e assim, imundo e indecoroso, queria, por excessiva vaidade, ser fino e cortês. Caí então de cabeça no amor em que desejava ser enredado. Meu Deus, minha Misericórdia, com quanto fel não salpicaste Tu, da Tua grande bondade, aquela doçura para mim? Pois eu era amado e chegava secretamente ao vínculo de desfrutar; e era com alegria acorrentado com laços que trazem tristeza, para que pudesse ser açoitado com as varas de ferro ardente do ciúme, e suspeitas, e medos, e raivas, e querelas.

As peças de teatro também me levaram, cheias de imagens das minhas misérias e de combustível para o meu fogo. Por que é que o homem deseja tornar-se triste, contemplando coisas dolentes e trágicas, as quais, contudo, ele próprio de modo algum sofreria? ainda assim ele deseja, como espectador, sentir pesar por elas, e este próprio pesar é o seu prazer. O que é isto senão uma loucura miserável? pois um homem é tanto mais afetado por estas ações quanto menos livre está de tais afeições. Seja como for, quando ele sofre na sua própria pessoa, costuma ser chamado de miséria: quando ele se compadece dos outros, então é misericórdia. Mas que espécie de compaixão é esta para paixões fingidas e cénicas? pois o ouvinte não é chamado a aliviar, mas apenas a afligir-se: e ele aplaude o ator destas ficções tanto mais, quanto mais se aflige. E se as calamidades daquelas pessoas (sejam de tempos antigos ou mera ficção) forem representadas de modo que o espectador não seja movido às lágrimas, ele afasta-se desgostoso e criticando; mas se for movido à paixão, permanece atento e chora de alegria.

Será que os pesares são então amados? Na verdade, todos desejam a alegria. Ou, uma vez que ninguém gosta de ser miserável, agrada-lhe contudo ser misericordioso? o que, porque não pode existir sem paixão, será por esta única razão que as paixões são amadas? Isto também brota daquela veia da amizade. Mas para onde vai essa veia? para onde flui ela? por que corre ela para aquela torrente de peixe que borbulha aquelas monstruosas marés de imunda luxúria, na qual é voluntariamente mudada e transformada, sendo por sua própria vontade precipitada e corrompida da sua claridade celestial? Deve então a compaixão ser afastada? de modo nenhum. Sejam então os pesares por vezes amados. Mas acautela-te da impureza, ó minha alma, sob a guarda do meu Deus, o Deus dos nossos pais, que deve ser louvado e exaltado sobre todos para sempre, acautela-te da impureza. Pois eu não deixei agora de sentir pena; mas então, nos teatros, alegrava-me com os amantes quando eles perversamente desfrutavam um do outro, embora isto fosse apenas imaginário na peça. E quando eles perdiam um ao outro, como se fosse muito compassivo, eu entristecia-me com eles, contudo tinha o meu deleite em ambos. Mas agora tenho muito mais pena daquele que se regozija na sua maldade do que daquele que se pensa sofrer dificuldades, perdendo algum prazer pernicioso e a perda de alguma miséria felicidade. Esta certamente é a verdadeira misericórdia, mas nela o pesar não se deleita. Pois embora aquele que se aflige pelos miseráveis seja louvado pelo seu ofício de caridade; contudo, aquele que é genuinamente compassivo preferiria que não houvesse nada por que se afligir. Pois se o querer o bem for querer o mal (o que nunca pode ser), então pode aquele que verdadeiramente e sinceramente se compadece desejar que houvesse alguns miseráveis, para que pudesse compadecer-se. Algum pesar pode então ser permitido, nenhum amado. Pois assim fazes Tu, ó Senhor Deus, que amas as almas muito mais puramente do que nós, e tens mais incorruptivelmente pena delas, contudo és ferido por nenhuma tristeza. E quem é suficiente para estas coisas?

Mas eu, miserável, então amava afligir-me, e procurava por que me afligir, quando na miséria alheia, e essa fingida e personificada, aquela representação agradava-me mais e atraía-me mais veementemente, que me extraía lágrimas. Que maravilha que uma ovelha infeliz, extraviando-se do Teu rebanho e impaciente da Tua guarda, fiquei infetado com uma doença imunda? E daí o amor aos pesares; não tais que se afundassem profundamente em mim; pois eu não amava sofrer o que amava contemplar; mas tais que, ao ouvir as suas ficções, levemente arranhassem a superfície; sobre a qual, como em unhas envenenadas, seguiam-se inchaços inflamados, tumores e uma ferida putrefacta. Sendo a minha vida tal, era ela vida, ó meu Deus?

E a Tua misericórdia fiel pairava sobre mim de longe. Sobre que iniquidades graves me consumi, perseguindo uma curiosidade sacrílega, para que, tendo-Te abandonado, ela me pudesse levar ao abismo traiçoeiro e ao serviço enganador dos demónios, a quem eu sacrificava as minhas más ações, e em todas estas coisas Tu açoitavas-me! Ousei mesmo, enquanto as Tuas solenidades eram celebradas dentro das paredes da Tua Igreja, desejar e realizar um negócio merecedor de morte pelos seus frutos, pelo qual Tu me açoitaste com castigos graves, embora nada em comparação com a minha falta, ó Tu, minha extrema misericórdia, meu Deus, meu refúgio contra aqueles terríveis destruidores, entre os quais eu vagueava de pescoço rígido, afastando-me mais de Ti, amando os meus caminhos, e não os Teus; amando uma liberdade errante.

Aqueles estudos também, que eram considerados louváveis, visavam o sobressair nos tribunais de litígio; quanto mais louvados, mais astutos. Tal é a cegueira dos homens, vangloriando-se até na sua cegueira. E agora eu era o primeiro na escola de retórica, pelo que me alegrava orgulhosamente, e inchava de arrogância, embora (Senhor, Tu sabes) muito mais quieto e completamente removido das subversões daqueles "Subversores" (pois este nome de mau agouro e diabólico era o próprio emblema da galhardia) entre os quais eu vivia, com uma vergonha desavergonhada de que eu não era sequer como eles. Com eles vivia, e por vezes deleitava-me com a sua amizade, cujos feitos eu sempre detestava — isto é, as suas "subversões", com as quais perseguiam lascivamente a modéstia dos estranhos, que perturbavam por uma zombaria gratuita, alimentando com isso o seu nascimento malicioso. Nada pode ser mais parecido com as próprias ações dos demónios do que isto. Como poderiam então ser mais verdadeiramente chamados do que "Subversores"? eles próprios subvertidos e completamente pervertidos primeiro, os espíritos enganadores zombando secretamente e seduzindo-os, em que eles próprios se deleitam em zombar e enganar os outros.

Entre tais como estes, naquela minha idade incerta, aprendi livros de eloquência, nos quais desejava ser eminente, por um fim condenável e vanglorioso, uma alegria na vaidade humana. No curso normal de estudo, deparei com um certo livro de Cícero, cujo discurso quase todos admiram, não tanto o seu coração. Este livro dele contém uma exortação à filosofia, e é chamado "Hortensius". Mas este livro alterou as minhas afeições, e voltou as minhas orações para Ti, ó Senhor; e fez-me ter outros propósitos e desejos. Toda a esperança vã tornou-se de imediato sem valor para mim; e anseio com um desejo incrivelmente ardente por uma imortalidade de sabedoria, e comecei agora a levantar-me, para que pudesse regressar a Ti. Pois não para afiar a minha língua (coisa que eu parecia estar a comprar com as mesadas da minha mãe, naquele meu décimo nono ano, tendo o meu pai morrido dois anos antes), não para afiar a minha língua empreguei aquele livro; nem ele infundiu em mim o seu estilo, mas a sua matéria.

Como ardia então, meu Deus, como ardia por voltar a subir das coisas terrenas para Ti, nem sabia eu o que Tu farias comigo? Pois Contigo está a sabedoria. Mas o amor à sabedoria é em grego chamado "filosofia", com a qual aquele livro me inflamou. Há alguns que seduzem através da filosofia, sob um grande, e suave, e honroso nome, colorindo e disfarçando os seus próprios erros: e quase todos os que naquela e em eras anteriores foram tais, são naquele livro censurados e expostos: aí também é tornado claro aquele conselho salutar do Teu Espírito, pelo Teu bom e devoto servo: Vede que ninguém vos engane através da filosofia e vã sutileza, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. Pois n’Ele habita toda a plenitude da Divindade corporalmente. E uma vez que naquela altura (Tu, ó luz do meu coração, sabes) a Escritura Apostólica não me era conhecida, deleitei-me com aquela exortação, apenas até ao ponto em que fui por ela fortemente despertado, e acendido, e inflamado a amar, e procurar, e obter, e segurar, e abraçar não esta ou aquela seita, mas a própria sabedoria, qualquer que fosse; e isto apenas me impedia assim não acendido, que o nome de Cristo não estava nela. Pois este nome, segundo a Tua misericórdia, ó Senhor, este nome do meu Salvador, Teu Filho, tinha o meu terno coração, até com o leite da minha mãe, devotamente bebido e profundamente entesourado; e tudo o que estivesse fora daquele nome, embora muito erudito, polido ou verdadeiro, não me prendia inteiramente.

Resolvi então voltar a minha mente para as Sagradas Escrituras, para que pudesse ver o que eram. Mas eis que vejo uma coisa não compreendida pelos orgulhosos, nem revelada às crianças, humilde no acesso, nos seus recessos elevada, e velada com mistérios; e eu não era tal que pudesse entrar nela, ou dobrar o meu pescoço para seguir os seus passos. Pois não como agora falo, sentia eu quando me voltava para aquelas Escrituras; mas pareciam-me indignas de serem comparadas com a imponência de Túlio: pois o meu orgulho inchado recuava da sua humildade, nem podia o meu espírito agudo perfurar o interior delas. Contudo, eram tais que cresceriam num pequenino. Mas eu desdenhava ser um pequenino; e, inchado de orgulho, tomei-me por um grande.

Portanto, caí entre homens orgulhosamente delirantes, excessivamente carnais e tagarelas, em cujas bocas estavam as armadilhas do Diabo, untadas com a mistura das sílabas do Teu nome, e do nosso Senhor Jesus Cristo, e do Espírito Santo, o Paráclito, o nosso Consolador. Estes nomes não saíam da sua boca, mas apenas na medida do som e do ruído da língua, pois o coração estava vazio de verdade. Contudo, gritavam "Verdade, Verdade", e falavam muito dela para mim, ainda assim ela não estava neles: mas falavam falsidade, não só de Ti (que verdadeiramente és a Verdade), mas até daqueles elementos deste mundo, Tuas criaturas. E eu, na verdade, deveria ter passado por cima até dos filósofos que falavam a verdade sobre eles, por amor a Ti, meu Pai, supremamente bom, Beleza de todas as coisas belas. Ó Verdade, Verdade, quão interiormente até então a medula da minha alma ofegava por Ti, quando eles frequente e diversamente, e em muitos e enormes livros, ecoavam de Ti para mim, embora fosse apenas um eco? E estes eram os pratos onde, para mim, faminto de Ti, eles, em vez de Ti, serviam o Sol e a Lua, belas obras Tuas, mas ainda assim Tuas obras, não Tu mesmo, nem as Tuas primeiras obras. Pois as Tuas obras espirituais estão antes destas obras corpóreas, celestiais embora sejam, e brilhantes. Mas eu não tinha fome nem sede nem mesmo daquelas primeiras obras Tuas, mas de Ti mesmo, a Verdade, em quem não há variação, nem sombra de mudança: contudo, eles ainda punham diante de mim, naqueles pratos, fantasias cintilantes, do que melhor seria amar este próprio sol (que é real à nossa vista, pelo menos), do que aquelas fantasias que pelos nossos olhos enganam a nossa mente. Contudo, porque eu pensava que fossem Tu, alimentava-me delas; não avidamente, pois Tu não sabias nelas a mim como Tu és; pois Tu não eras estas vacuidade, nem eu era nutrido por elas, mas exausto antes. O alimento no sono parece-se muito com o nosso alimento acordado; contudo, aqueles que dormem não são nutridos por ele, pois estão a dormir. Mas aquelas não eram sequer de modo algum parecidas contigo, como agora me tens falado; pois aquelas eram fantasias corpóreas, falsos corpos, do que estes corpos verdadeiros, celestiais ou terrestres, que com a nossa visão carnal contemplamos, são muito mais certos: estas coisas as bestas e as aves discernem tão bem como nós, e são mais certas do que quando as imaginamos. E de novo, nós com mais certeza imaginamos que, por elas, conjecturamos outros corpos mais vastos e infinitos que não têm existência. De tais cascas vazias fui eu então alimentado; e não fui alimentado. Mas Tu, Amor da minha alma, em cuja procura eu desfaleço, para que possa tornar-me forte, não és esses corpos que vemos, embora no céu; nem aqueles que não vemos lá; pois Tu criaste-os, nem os contas entre os mais elevados das Tuas obras. Quão longe então estás Tu daquelas minhas fantasias, fantasias de corpos que absolutamente não são, do que as imagens daqueles corpos, que são, são muito mais certas, e mais certas ainda os próprios corpos, que contudo Tu não és; não, nem ainda a alma, que é a vida dos corpos. Assim, pois, melhor e mais certa é a vida dos corpos do que os corpos. Mas Tu és a vida das almas, a vida das vidas, tendo a vida em Ti mesmo; e não mudas, vida da minha alma.

Onde estavas então Tu para mim, e quão longe de mim? Longe na verdade vagueava eu de Ti, barrado até das cascas dos porcos, que eu alimentava com cascas. Pois quão melhores são as fábulas dos poetas e gramáticos do que estas armadilhas? Pois versos, e poemas, e a "Medeia a voar", são mais proveitosos verdadeiramente do que estes cinco elementos destes homens, variadamente disfarçados, correspondendo a cinco covis de escuridão, que não têm existência, contudo matam o crente. Pois versos e poemas posso converter em verdadeiro alimento, e "Medeia a voar", embora eu cantasse, não mantive; embora ouvisse cantar, não acreditei: mas aquelas coisas eu acreditei. Ai, ai, por que degraus fui eu trazido para as profundezas do inferno! labutando e turbilhonando através da falta da Verdade, uma vez que procurava por Ti, meu Deus (a Ti confesso-o, que tiveste misericórdia de mim, ainda não confessando), não segundo o entendimento da mente, em que querias que eu sobressaísse às bestas, mas segundo o sentido da carne. Mas Tu eras mais interior a mim do que a minha parte mais interior; e mais alto do que a minha parte mais alta. Deparei com aquela mulher ousada, simples e que nada sabe, representada em Salomão, sentada à porta, e dizendo: Comei pão de segredos voluntariamente, e bebei águas roubadas que são doces: ela seduziu-me, porque encontrou a minha alma a habitar fora, no olho da minha carne, e a ruminar sobre tal alimento como através dele eu tinha devorado.

Fora disto, o que realmente é, eu não sabia; e era, por assim dizer, pela agudeza de espírito, persuadido a dar o meu assentimento a enganadores insensatos, quando me perguntavam: "de onde vem o mal?", "é Deus limitado por uma forma corporal, e tem cabelos e unhas?", "devem ser estimados como justos aqueles que tiveram muitas esposas ao mesmo tempo, e mataram homens, e sacrificaram criaturas vivas?". Com o que eu, na minha ignorância, ficava muito perturbado, e desviando-me da verdade, parecia-me a mim mesmo estar a caminhar em direção a ela; porque ainda não sabia que o mal não era senão uma privação do bem, até que finalmente uma coisa deixa inteiramente de ser; o que como poderia eu ver, eu cuja visão dos olhos alcançava apenas os corpos, e a do meu espírito apenas um fantasma? E eu não sabia que Deus era Espírito, não alguém que tem partes estendidas em comprimento e largura, ou cuja essência fosse massa; pois toda a massa é menor numa parte do que no todo: e se for infinita, deve ser menor em tal parte definida por um certo espaço do que na sua infinitude; e assim não está totalmente em toda parte, como Espírito, como Deus. E o que deveria ser em nós, pelo qual éramos semelhantes a Deus, e poderíamos com razão ser ditos à imagem de Deus, eu era totalmente ignorante.

Nem conhecia eu aquela verdadeira justiça interior que não julga segundo o costume, mas pela lei mais legítima de Deus Todo-Poderoso, pela qual os modos dos lugares e dos tempos foram dispostos de acordo com esses tempos e lugares; sendo ela mesma, entretanto, a mesma sempre e em toda parte, não uma coisa num lugar e outra noutro; segundo a qual Abraão, e Isaac, e Jacob, e Moisés, e David foram justos, e todos aqueles louvados pela boca de Deus; mas foram julgados injustos por homens tolos, julgando pelo juízo humano, e medindo pelos seus próprios hábitos mesquinhos os hábitos morais de toda a raça humana. Como se num arsenal, alguém ignorante do que era adequado a cada parte cobrisse a cabeça com grevas, ou procurasse calçar um elmo, e se queixasse de que não serviam: ou como se num dia em que os negócios estão publicamente interrompidos à tarde, alguém se irritasse por não lhe ser permitido manter a loja aberta, porque estivera aberta pela manhã; ou quando numa casa observa um servo tomar algo na mão, que ao despenseiro não é permitido tocar; ou algo permitido fora de portas, que é proibido na sala de jantar; e se irritasse porque, numa casa e numa família, a mesma coisa não é atribuída a toda a parte e a todos. Tais são eles que se irritam ao ouvir que algo foi lícito para homens justos antigamente, que agora não o é; ou que Deus, por certos respeitos temporais, lhes ordenou uma coisa, e a estes outra, obedecendo ambos à mesma justiça: enquanto veem, num homem, num dia e numa casa, coisas diferentes serem adequadas para membros diferentes, e uma coisa anteriormente lícita, depois de certo tempo não o ser; num canto permitida ou ordenada, mas noutro justamente proibida e punida. É a justiça, portanto, vária ou mutável? Não, mas os tempos, sobre os quais ela preside, não fluem uniformemente, porque são tempos. Mas os homens, cujos dias são poucos sobre a terra, porque pelos seus sentidos não podem harmonizar as causas das coisas em eras passadas e outras nações, das quais não tiveram experiência, com estas das quais têm, enquanto num e no mesmo corpo, dia ou família, veem facilmente o que é adequado a cada membro, estação, parte e pessoa; a um eles tomam exceções, ao outro submetem-se.

Estas coisas eu então não sabia, nem observei; feriam a minha vista por todos os lados, e eu não as via. Eu compunha versos, nos quais não podia colocar cada pé em qualquer lugar, mas diferentemente em diferentes metros; nem mesmo em qualquer metro o mesmo pé em todos os lugares. Contudo, a arte mesma, pela qual eu compunha, não tinha princípios diferentes para estes casos diferentes, mas compreendia todos num só. Ainda assim, eu não via como aquela justiça, à qual homens bons e santos obedeciam, continha de forma muito mais excelente e sublime num só todas aquelas coisas que Deus ordenava, e em nenhuma parte variava; embora em tempos variáveis não prescrevesse tudo de uma vez, mas repartisse e ordenasse o que era apto para cada um. E eu, na minha cegueira, censurava os santos Padres, não apenas onde faziam uso das coisas presentes como Deus lhes ordenava e inspirava, mas também onde prediziam coisas futuras, como Deus neles revelava.

Pode em qualquer tempo ou lugar ser injusto amar a Deus de todo o coração, com toda a alma, e com todo o entendimento; e ao seu próximo como a si mesmo? Portanto, são essas ofensas imundas que são contra a natureza para serem em toda parte e em todos os tempos detestadas e punidas; tais como foram as dos homens de Sodoma: as quais, se todas as nações cometessem, seriam todas culpadas do mesmo crime, pela lei de Deus, que não fez os homens de tal modo que devessem abusar uns dos outros. Pois até aquele intercâmbio que deveria haver entre Deus e nós é violado, quando a mesma natureza, da qual Ele é Autor, é poluída pela perversidade da luxúria. Mas aquelas ações que são ofensas contra os costumes dos homens devem ser evitadas de acordo com os costumes que prevalecem separadamente; de modo que uma coisa acordada, e confirmada, pelo costume ou lei de qualquer cidade ou nação, não pode ser violada ao prazer sem lei de ninguém, seja nativo ou estrangeiro. Pois qualquer parte que não se harmonize com o seu todo é ofensiva. Mas quando Deus ordena que uma coisa seja feita, contra os costumes ou pacto de qualquer povo, ainda que nunca tivesse sido por eles feita até então, deve ser feita; e se interrompida, deve ser restaurada; e se nunca ordenada, deve agora ser ordenada. Pois, se é lícito para um rei, no estado sobre o qual reina, ordenar o que ninguém antes dele, nem ele mesmo até então, tinha ordenado, e obedecer-lhe não pode ser contra o bem comum do estado (aliás, seria contra ele se não lhe obedecessem, pois obedecer aos príncipes é um pacto geral da sociedade humana); quanto mais inquestionavelmente devemos nós obedecer a Deus, em tudo o que Ele ordena, o Governador de todas as Suas criaturas! Pois, como entre os poderes na sociedade humana, a autoridade maior é obedecida de preferência à menor, assim deve Deus acima de tudo.

Assim nos atos de violência, onde há um desejo de ferir, seja por insulto ou injúria; e estes, ou por vingança, como um inimigo contra outro; ou por algum lucro pertencente a outrem, como o ladrão ao viajante; ou para evitar algum mal, como para com alguém que é temido; ou por inveja, como um menos afortunado para um mais afortunado, ou alguém bem sucedido em qualquer coisa, para aquele cuja igualdade consigo ele teme, ou com a qual se aflige, ou pelo simples prazer na dor alheia, como espectadores de gladiadores, ou zombadores e escarnecedores dos outros. Estes são os cabeças da iniquidade que brotam da luxúria da carne, do olho, ou do domínio, seja isoladamente, ou dois combinados, ou todos juntos; e assim vivem os homens mal contra os três, e os sete, aquele saltério de dez cordas, os Teus Dez Mandamentos, ó Deus, altíssimo e mui doce. Mas que ofensas imundas podem haver contra Ti, que não podes ser contaminado? ou que atos de violência contra Ti, que não podes ser ferido? Mas Tu vingas o que os homens cometem contra si mesmos, vendo também que, quando pecam contra Ti, agem perversamente contra as suas próprias almas, e a iniquidade mente a si mesma, corrompendo e pervertendo a sua natureza, que Tu criaste e ordenaste, ou pelo uso imoderado de coisas permitidas, ou queimando em coisas não permitidas, para aquele uso que é contra a natureza; ou são encontrados culpados, enfurecendo-se com o coração e a língua contra Ti, dando pontapés contra as aguilhões; ou quando, rompendo a cerca da sociedade humana, alegram-se audazmente em combinações ou divisões obstinadas, conforme tenham qualquer objetivo a ganhar ou sujeito de ofensa. E estas coisas são feitas quando Tu és abandonado, ó Fonte da Vida, que és o único e verdadeiro Criador e Governador do Universo, e por um orgulho obstinado, qualquer coisa falsa é selecionada daí e amada. Assim, pois, por uma piedade humilde voltamo-nos para Ti; e Tu purificas-nos dos nossos maus hábitos, e és misericordioso para com os pecados daqueles que confessam, e ouves o gemido do prisioneiro, e soltas-nos das cadeias que nós próprios fizemos, se não levantarmos contra Ti os chifres de uma liberdade irreal, sofrendo a perda de tudo, pela ganância de mais, ao amar mais o nosso próprio bem privado do que a Ti, o Bem de todos.

Entre estas ofensas de imundície e violência, e tantas iniquidades, estão os pecados dos homens, que estão no todo a progredir; os quais, por aqueles que julgam retamente, são, segundo a regra da perfeição, desaprovados, contudo as pessoas elogiadas, na esperança de fruto futuro, como na espiga verde do trigo em crescimento. E há alguns, assemelhando-se a ofensas de imundície ou violência, que contudo não são pecados; porque não ofendem nem a Ti, nosso Senhor Deus, nem a sociedade humana; quando, nomeadamente, coisas aptas para um dado período são obtidas para o serviço da vida, e não sabemos se por uma luxúria de possuir; ou quando as coisas são, por causa de correção, punidas por autoridade constituída, e não sabemos se por uma luxúria de ferir. Muitas ações, então, que aos olhos dos homens são desaprovadas, são pelo Teu testemunho aprovadas; e muitas, por homens louvadas, são (sendo Tu testemunha) condenadas: porque a aparência da ação, e a mente de quem a faz, e a exigência desconhecida do período, variam separadamente. Mas quando Tu de repente ordenas uma coisa inusitada e impensada, sim, ainda que a tenhas por vezes proibido, e ainda por um tempo ocultes a razão do Teu mandado, e seja contra a ordenança de alguma sociedade de homens, quem duvida que deve ser feita, vendo que aquela sociedade de homens é justa que serve a Ti? Mas bem-aventurados são aqueles que conhecem os Teus mandamentos! Pois todas as coisas foram feitas pelos Teus servos; ou para mostrar algo necessário para o presente, ou para prefigurar coisas futuras.

Estas coisas, sendo eu ignorante delas, zombava daqueles Teus santos servos e profetas. E que ganhei eu em zombar deles, senão ser zombado por Ti, sendo insensivelmente e passo a passo arrastado para essas loucuras, como acreditar que uma figueira chorava quando era colhida, e a árvore, sua mãe, derramava lágrimas leitosas? A qual figo, não obstante (colhido por alguma culpa alheia, não sua), tivesse algum santo maniqueu comido, e misturado com as suas entranhas, ele deveria exalar dele anjos, sim, haveriam de irromper partículas de divindade, a cada gemido ou lamento na sua oração, as quais partículas do altíssimo e verdadeiro Deus teriam permanecido presas naquele figo, a menos que tivessem sido postas em liberdade pelos dentes ou ventre de algum santo "Eleito"! E eu, miserável, acreditava que mais misericórdia devia ser mostrada aos frutos da terra do que aos homens, para quem foram criados. Pois se alguém com fome, não um maniqueu, pedisse algum, aquele bocado pareceria como se condenado à pena capital, o que lhe fosse dado.

E Tu enviaste a Tua mão do alto, e tiraste a minha alma daquelas profundas trevas, minha mãe, a Tua fiel, chorando por mim a Ti, mais do que as mães choram as mortes corporais dos seus filhos. Pois ela, por aquela fé e espírito que tinha de Ti, discernia a morte em que eu jazia, e Tu ouviste-a, ó Senhor; Tu ouviste-a, e não desprezaste as suas lágrimas, quando, escorrendo, regavam o solo sob os seus olhos em cada lugar onde ela orava; sim, Tu ouviste-a. Pois de onde vinha aquele sonho pelo qual Tu a consolaste; de modo que ela me permitiu viver com ela, e comer à mesma mesa na casa, a qual ela começara a evitar, horrorizada e detestando as blasfêmias do meu erro? Pois ela viu-se de pé sobre uma certa régua de madeira, e um jovem brilhante vindo ao seu encontro, alegre e sorrindo para ela, enquanto ela se afligia, e estava sobrecarregada de dor. Mas ele, tendo (para instruir, como é costume deles não serem instruídos) perguntado-lhe as causas da sua dor e lágrimas diárias, e ela respondendo que estava a lamentar a minha perdição, ele pediu-lhe que estivesse contente, e disse-lhe para olhar e observar: "Que onde ela estava, lá estava eu também". E quando ela olhou, viu-me de pé junto dela na mesma régua. De onde vinha isto, senão que os Teus ouvidos estavam voltados para o seu coração? Ó Tu, Bom onipotente, que tanto cuidas de cada um de nós, como se cuidasses apenas dele; e assim de todos, como se fossem apenas um!

De onde vinha isto também, que quando ela me contou esta visão, e eu quis incliná-la a significar: "Que ela, pelo contrário, não devia desesperar de ser um dia o que eu era"; ela prontamente, sem qualquer hesitação, respondeu: "Não; pois não me foi dito que, 'onde ele, ali tu também'; mas 'onde tu, ali ele também'"? Confesso a Ti, ó Senhor, que, tanto quanto me recordo (e muitas vezes falei disto), que a Tua resposta, através da minha mãe desperta,--que ela não se deixou confundir pela plausibilidade da minha falsa interpretação, e tão rapidamente viu o que havia para ser visto, e que eu certamente não tinha percebido antes que ela falasse--mesmo então moveu-me mais do que o sonho em si, pelo qual uma alegria para a santa mulher, a ser cumprida tanto tempo depois, foi, para consolação da sua angústia presente, tão tempo antes prefigurada. Pois quase nove anos passaram, nos quais me revolvi na lama daquele poço profundo, e nas trevas da falsidade, tentando muitas vezes levantar-me, mas sendo derrubado mais gravemente. Todo este tempo aquela casta, piedosa e sóbria viúva (tal como Tu amas), agora mais animada com a esperança, contudo de modo algum relaxando nas suas lágrimas e luto, não cessava em todas as horas das suas devoções de lamentar o meu caso perante Ti. E as suas orações entraram na Tua presença; e ainda assim Tu permitiste que eu fosse ainda envolvido e re-envolvido naquelas trevas.

Tu deste-lhe entretanto outra resposta, da qual me lembro; pois muito deixo passar, apressando-me para aquelas coisas que mais me pressionam a confessar a Ti, e muito não me recordo. Tu deste-lhe então outra resposta, por um sacerdote Teu, um certo Bispo educado na Tua Igreja, e bem estudado nos Teus livros. A quem, quando esta mulher implorou que se dignasse conversar comigo, refutar os meus erros, desensinar-me as coisas más, e ensinar-me as boas (pois isto ele costumava fazer, quando encontrava pessoas aptas a recebê-lo), ele recusou, sabiamente, como depois percebi. Pois respondeu que eu ainda era inensinável, estando inchado com a novidade daquela heresia, e já tinha confundido diversas pessoas incultas com perguntas capciosas, como ela lhe contara: "mas deixa-o um pouco" (disse ele), "apenas reza a Deus por ele, ele mesmo pela leitura encontrará qual é aquele erro, e quão grande a sua impiedade". Ao mesmo tempo, ele contou-lhe como ele mesmo, quando pequenino, tinha sido entregue por sua mãe seduzida aos maniqueus, e não só lera, mas frequentemente copiou quase todos os seus livros, e tinha (sem qualquer argumento ou prova de ninguém) visto quão muito aquela seita devia ser evitada; e tinha-a evitado. O que, quando ele disse, e ela não se deu por satisfeita, mas insistiu mais, com súplicas e muitas lágrimas, para que ele me visse e conversasse comigo; ele, um pouco aborrecido com a sua importunidade, diz: "Vai-te embora e Deus te abençoe, pois não é possível que o filho destas lágrimas pereça". Resposta esta que ela tomou (como muitas vezes mencionou nas suas conversas comigo) como se tivesse soado do céu.

LIVRO IV

Durante este espaço de nove anos (desde o meu décimo nono ano até ao meu vigésimo oitavo) vivemos seduzidos e seduzindo, enganados e enganando, em diversas luxúrias; abertamente, pelas ciências que chamam liberais; secretamente, com uma religião de nome falso; aqui orgulhosos, ali supersticiosos, em toda parte vãos. Aqui, caçando a vacuidade do louvor popular, até aos aplausos teatrais, e prémios poéticos, e lutas por grinaldas de erva, e as loucuras dos espetáculos, e a intemperança dos desejos. Ali, desejando ser limpo destas contaminações, levando comida àqueles que eram chamados "eleitos" e "santos", da qual, na oficina dos seus estômagos, eles deviam forjar para nós Anjos e Deuses, pelos quais pudéssemos ser limpos. Estas coisas segui eu, e pratiquei com os meus amigos, enganados por mim, e comigo. Que os arrogantes zombem de mim, e aqueles que não foram, para a saúde da sua alma, atingidos e derrubados por Ti, ó meu Deus; mas eu continuaria a confessar a Ti a minha própria vergonha em Teu louvor. Permite-me, rogo-Te, e dá-me graça para rever na minha lembrança presente os errantes do meu tempo passado, e para oferecer a Ti o sacrifício de ação de graças. Pois que sou eu para mim mesmo sem Ti, senão um guia para a minha própria queda? ou que sou eu mesmo no melhor, senão uma criança a sugar o leite que Tu dás, e a alimentar-me de Ti, o alimento que não perece? Mas que tipo de homem é qualquer homem, vendo que ele é apenas um homem? Deixem agora os fortes e poderosos rir de nós, mas deixai-nos, pobres e necessitados, confessar a Ti.

Naqueles anos ensinei retórica, e, vencido pela cupidez, vendi uma loquacidade para vencer com ela. Contudo preferia (Senhor, Tu sabes) estudantes honestos (como são considerados), e estes eu, sem artifício, ensinei artifícios, não para serem praticados contra a vida dos inocentes, embora por vezes para a vida dos culpados. E Tu, ó Deus, de longe percebias-me a tropeçar naquele curso escorregadio, e em meio a muito fumo enviando algumas faíscas de fidelidade, que mostrei naquele meu guia de tais que amavam a vaidade, e buscavam a mentira, eu mesmo seu companheiro. Naqueles anos tive uma,--não naquilo que é chamado casamento lícito, mas a quem tinha encontrado num caminho de paixão caprichosa, destituída de entendimento; contudo apenas uma, permanecendo fiel mesmo a ela; em quem eu, no meu próprio caso, experimentei que diferença há entre a autodisciplina do pacto matrimonial, pelo bem da descendência, e a barganha de um amor luxurioso, onde os filhos nascem contra a vontade dos seus pais, embora, uma vez nascidos, constranjam o amor.

Lembro-me também, que quando tinha decidido entrar nas competições por um prémio teatral, algum mago perguntou-me o que lhe daria para vencer; mas eu, detestando e horrorizando tais mistérios imundos, respondi: "Embora a grinalda fosse de ouro imperecível, não permitiria que uma mosca fosse morta para me a ganhar". Pois ele devia matar algumas criaturas vivas nos seus sacrifícios, e por essas honras convidar os demónios a favorecer-me. Mas este mal também rejeitei, não por um puro amor a Ti, ó Deus do meu coração; pois eu não sabia como Te amar, que não sabia como conceber algo além de um brilho material. E não comete uma alma, suspirando por tais ficções, fornicação contra Ti, confiando em coisas irreais, e alimentando o vento? Ainda assim, eu não queria, na verdade, que sacrifícios fossem oferecidos aos demónios por mim, a quem eu estava a sacrificar-me por essa superstição. Pois que outra coisa é alimentar o vento, senão alimentá-los, isto é, por desviar-se tornar-se o seu prazer e escárnio?

Consultava, pois, sem escrúpulo esses impostores, a quem chamam Matemáticos, porque pareciam não usar sacrifício algum, nem orar a qualquer espírito para as suas adivinhações: arte que, contudo, a piedade cristã e verdadeira rejeita e condena de modo consistente. Pois é bom confessar-Te e dizer: Tem misericórdia de mim, cura a minha alma, porque pequei contra Ti; e não abusar da Tua misericórdia como licença para pecar, mas lembrar as palavras do Senhor: Eis que estás curado, não peques mais, para que não te suceda algo pior. Todo este conselho salutar esforçam-se eles por destruir, dizendo: "A causa do teu pecado está inevitavelmente determinada no céu"; e "Isto fez Vénus, ou Saturno, ou Marte": para que o homem, na verdade, carne e sangue e orgulhosa corrupção, seja tido por inocente; enquanto o Criador e Ordenador do céu e dos astros deve arcar com a culpa. E quem é Ele senão o nosso Deus? A própria doçura e fonte da justiça, que retribuis a cada homem segundo as suas obras: e a um coração contrito e humilhado não desprezarás.

Havia naqueles dias um homem sábio, muito perito em física e nela renomado, que com a sua própria mão proconsular pusera a grinalda agónica sobre a minha cabeça enferma, mas não como médico: pois desta doença só Tu curas, que resistes aos soberbos e dás graça aos humildes. Mas acaso falhaste-me por meio daquele velho, ou deixaste de curar a minha alma? Pois tendo-me tornado mais familiarizado com ele, e ficando assídua e fixamente atento à sua fala (pois ainda que em termos simples, era vívida, viva e sincera), quando ele percebeu pelo meu discurso que eu era dado aos livros dos astrólogos, aconselhou-me bondosa e paternalmente a lançá-los fora, e não desperdiçar inutilmente um cuidado e diligência, necessários para coisas úteis, nestas vaidades; dizendo que, nos seus primeiros anos, estudara aquela arte de modo a torná-la a profissão pela qual viveria, e que, entendendo Hipócrates, poderia logo ter entendido tal estudo como este; e ainda assim abandonara-o, e voltara-se para a física, por nenhuma outra razão senão a de que a achara inteiramente falsa; e ele, um homem grave, não ganharia a vida enganando as pessoas. "Mas tu", dizia ele, "tens a retórica para te sustentar, de modo que segues isto por livre escolha, não por necessidade: tanto mais, então, deverias dar-me crédito nisto, eu que me esforcei por adquiri-la tão perfeitamente a ponto de ganhar a vida apenas com ela." De quem, quando indaguei como poderiam então ser previstas muitas coisas verdadeiras por ela, respondeu-me (como pôde): "que a força do acaso, difundida através de toda a ordem das coisas, trazia isso a cabo. Pois se, quando um homem por acaso abre as páginas de algum poeta, que cantou e pensou em algo inteiramente diferente, um verso muitas vezes sobressaía, maravilhosamente adequado ao assunto presente: não seria de admirar se, da alma do homem, inconsciente do que nela se passa, por algum instinto superior uma resposta fosse dada, por acaso, não por arte, correspondente aos negócios e ações daquele que pede."

E tanto, ou dele ou através dele, transmitiste-me, e traçaste na minha memória, o que eu poderia mais tarde examinar por mim mesmo. Mas naquela época nem ele, nem o meu caríssimo Nebridius, um jovem singularmente bom e de um temor santo, que zombava de todo o corpo da adivinhação, puderam persuadir-me a lançá-la de lado, a autoridade dos autores influenciando-me ainda mais, e até então eu não encontrara prova certa (tal como buscava) pela qual pudesse sem toda a dúvida parecer que o que fora verdadeiramente previsto por aqueles consultados era o resultado do acaso, não da arte dos observadores das estrelas.

Naqueles anos em que comecei a ensinar retórica na minha cidade natal, fiz de um um amigo, mas demasiado querido para mim, pela comunhão de interesses, da minha própria idade, e, como eu, na primeira flor da juventude. Crescera de criança comigo, e tínhamos sido ambos colegas de escola e de folguedos. Mas ele não era ainda meu amigo como depois, nem mesmo então, como a verdadeira amizade é; pois verdadeira ela não pode ser, a não ser naqueles que Tu cimentas juntos, apegados a Ti, por aquele amor que é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos é dado. Contudo, era doce demais, amadurecido pelo calor de estudos afins: pois, da fé verdadeira (que ele, como jovem, não tinha sorvido sólida e completamente), eu tinha desviado também a ele para aquelas superstições e fábulas perniciosas, pelas quais a minha mãe chorava por mim. Comigo ele errava agora de mente, nem podia a minha alma estar sem ele. Mas eis que Tu estavas perto dos passos dos Teus fugitivos, ao mesmo tempo Deus de vingança e Fonte de misericórdias, voltando-nos para Ti por meios maravilhosos; tiraste esse homem desta vida, quando ele mal completara um ano inteiro da minha amizade, doce para mim acima de toda a doçura daquela minha vida.

Quem pode narrar todos os Teus louvores, que ele sentiu em si mesmo? Que fizeste então, meu Deus, e quão inescrutável é o abismo dos Teus juízos? Pois, doente há muito tempo de uma febre, jazia sem sentidos num suor mortal; e sendo a sua recuperação dada por perdida, foi batizado, sem o saber; eu, entretanto, pouco me importando, e presumindo que a sua alma reteria antes o que tinha recebido de mim, não o que fora operado no seu corpo inconsciente. Mas provou-se muito diferente: pois ele foi refrescado e restaurado. Imediatamente, assim que pude falar com ele (e podia, logo que ele era capaz, pois nunca o deixava, e dependíamos demasiado um do outro), tentei zombar com ele, como se ele zombasse comigo daquele batismo que tinha recebido, quando totalmente ausente em mente e sentimento, mas que agora entendera ter recebido. Mas ele afastou-se de mim, como de um inimigo; e com uma liberdade maravilhosa e súbita ordenou-me, se eu quisesse continuar a ser seu amigo, que evitasse tal linguagem para com ele. Eu, todo atónito e maravilhado, suprimi todas as minhas emoções até que ele melhorasse, e a sua saúde estivesse forte o suficiente para eu lidar com ele como queria. Mas ele foi arrebatado da minha insensatez, para que contigo pudesse ser preservado para o meu conforto; poucos dias depois, na minha ausência, foi atacado novamente pela febre, e assim partiu.

Neste pesar, o meu coração ficou inteiramente escurecido; e tudo o que eu via era morte. A minha terra natal era um tormento para mim, e a casa de meu pai uma infelicidade estranha; e tudo o que eu partilhara com ele, faltando-lhe ele, tornou-se uma tortura perturbadora. Os meus olhos procuravam-no por toda a parte, mas não me era concedido; e eu odiava todos os lugares, porque não tinham ele; nem podiam eles agora dizer-me: "ele está a chegar", como quando ele estava vivo e ausente. Tornei-me um grande enigma para mim mesmo, e perguntei à minha alma por que ela estava tão triste, e por que ela me inquietava severamente: mas ela não sabia o que me responder. E se eu dissesse: Espera em Deus, ela muito corretamente não me obedecia; porque aquele caríssimo amigo, que ela perdera, era, sendo homem, mais verdadeiro e melhor do que aquele fantasma em que era mandada esperar. Apenas as lágrimas me eram doces, pois sucederam ao meu amigo, nos meus afetos mais queridos.

E agora, Senhor, estas coisas passaram, e o tempo suavizou a minha ferida. Possa eu aprender de Ti, que és a Verdade, e aproximar o ouvido do meu coração à Tua boca, para que me digas por que o choro é doce aos miseráveis? Terás Tu, embora presente em toda a parte, lançado a nossa miséria para longe de Ti? E Tu permaneces em Ti mesmo, mas nós somos lançados de um lado para o outro em diversas provações. E ainda assim, a menos que chorássemos aos Teus ouvidos, não teríamos esperança alguma. De onde, então, é colhido fruto doce da amargura da vida, do gemido, das lágrimas, dos suspiros e das queixas? Adoça isto o facto de esperarmos que Tu ouças? Isto é verdade quanto à oração, pois nela há um anseio por aproximar-se de Ti. Mas é assim também na dor por uma coisa perdida, e no pesar com que eu estava então sobrecarregado? Pois eu não esperava que ele voltasse à vida, nem desejava isto com as minhas lágrimas; mas chorava apenas e entristecia-me. Pois eu era miserável, e perdera a minha alegria. Ou é o choro de fato uma coisa amarga, e pelo próprio nojo das coisas que antes desfrutávamos, agrada-nos então, quando nos afastamos delas?

Mas que falo eu destas coisas? Pois agora não é tempo de questionar, mas de confessar-Te. Miserável eu era; e miserável é toda alma ligada pela amizade de coisas perecíveis; ela é dilacerada quando as perde, e então sente a miséria que tinha antes mesmo de as perder. Assim foi comigo então; chorei amargamente, e encontrei o meu repouso na amargura. Assim era eu miserável, e essa vida miserável eu prezava mais do que o meu amigo. Pois, embora de boa vontade a tivesse mudado, ainda assim era mais relutante em separar-me dela do que dele; sim, não sei se me teria separado dela mesmo por ele, como se conta (se não é ficção) de Pílades e Orestes, que teriam morrido alegremente um pelo outro ou juntos, não viver juntos sendo para eles pior que a morte. Mas em mim tinha surgido um sentimento inexplicável, demasiado contrário a este, pois ao mesmo tempo eu detestava excessivamente viver e temia morrer. Suponho que, quanto mais o amava, mais odiava e temia (como um inimigo cruel) a morte, que me privara dele: e imaginava que ela rapidamente daria fim a todos os homens, uma vez que tinha poder sobre ele. Assim estava eu, lembro-me. Contempla o meu coração, ó meu Deus, contempla e vê dentro de mim; pois bem me lembro, ó minha Esperança, que me limpas da impureza de tais afetos, dirigindo os meus olhos para Ti, e arrancando os meus pés do laço. Pois eu admirava-me que outros, sujeitos à morte, vivessem, já que ele, a quem eu amava como se nunca devesse morrer, estava morto; e admirava-me ainda mais que eu mesmo, que era para ele um segundo eu, pudesse viver, estando ele morto. Bem disse um dos seus amigos: "Tu, metade da minha alma"; pois sentia que a minha alma e a sua alma eram "uma alma em dois corpos": e por isso a minha vida era um horror para mim, porque não queria viver cortado ao meio. E por isso, talvez, temia morrer, para que ele, a quem muito amara, não morresse totalmente.

Ó loucura, que não sabe amar os homens como homens! Ó homem tolo que eu então era, suportando impacientemente a sorte do homem! Eu inquietava-me então, suspirava, chorava, estava distraído; não tinha descanso nem conselho. Pois carregava uma alma despedaçada e sangrenta, impaciente por ser carregada por mim, mas onde repousá-la, não encontrava. Não em bosques calmos, não em jogos e música, nem em lugares perfumados, nem em banquetes curiosos, nem nos prazeres do leito e do repouso; nem (finalmente) em livros ou poesia, encontrava ela repouso. Todas as coisas pareciam lúgubres, sim, a própria luz; tudo o que não era o que ele era, era revoltante e odioso, exceto o gemido e as lágrimas. Pois só neles encontrava um pouco de refresco. Mas quando a minha alma era retirada deles, um enorme peso de miséria oprimia-me. A Ti, ó Senhor, deveria ter sido elevado, para que Tu o aliviasse; eu sabia-o; mas nem podia nem queria; tanto mais, uma vez que, quando pensava em Ti, Tu não eras para mim coisa alguma sólida ou substancial. Pois Tu não eras Tu mesmo, mas um mero fantasma, e o meu erro era o meu Deus. Se eu me oferecesse para descarregar o meu fardo sobre Ele, para que pudesse repousar, ele deslizava através do vazio, e vinha caindo novamente sobre mim; e eu tinha permanecido para mim mesmo um lugar infeliz, onde não podia nem estar, nem estar longe dali. Pois para onde fugiria o meu coração do meu coração? Para onde fugiria de mim mesmo? Para onde não me seguiria a mim mesmo? E ainda assim fugi da minha pátria; pois assim os meus olhos menos o procurariam, onde não estavam acostumados a vê-lo. E assim de Tagaste, vim para Cartago.

Os tempos não perdem tempo; nem passam ociosamente; através dos nossos sentidos operam estranhas operações na mente. Eis que iam e vinham dia após dia, e ao vir e ir, introduziam na minha mente outras imaginações e outras lembranças; e pouco a pouco remendaram-me novamente com o meu antigo tipo de deleites, aos quais aquela minha tristeza cedeu lugar. E contudo sucederam, não de fato outros pesares, mas as causas de outros pesares. Pois de onde aquele pesar anterior chegara tão facilmente à minha alma mais íntima, senão de que eu tinha derramado a minha alma sobre o pó, amando um que devia morrer, como se ele nunca devesse morrer? Pois o que me restaurava e refrescava principalmente eram os solaces de outros amigos, com os quais eu amava, o que em vez de Ti eu amava; e isto era uma grande fábula, e mentira prolongada, por cujo estímulo adúltero a nossa alma, que jazia a comichão nos nossos ouvidos, estava sendo contaminada. Mas essa fábula não morria para mim, tantas vezes quantos os meus amigos morriam. Havia outras coisas que neles mais cativavam a minha mente; falar e zombar juntos, fazer favores bondosos alternadamente; ler juntos livros melosos; brincar ou ser sério juntos; discordar às vezes sem descontentamento, como um homem poderia consigo mesmo; e mesmo com a raridade dessas discordâncias, temperar as nossas mais frequentes concordâncias; por vezes ensinar, e por vezes aprender; ansiar pelos ausentes com impaciência; e acolher os que chegam com alegria. Estas e expressões semelhantes, procedendo dos corações dos que amavam e eram amados de volta, pelo semblante, a língua, os olhos e mil gestos agradáveis, eram tanto combustível para derreter as nossas almas juntas, e de muitas fazer apenas uma.

É isto o que é amado nos amigos; e tão amado, que a consciência de um homem condena-se a si mesma, se não amar aquele que o ama de volta, ou não amar de volta aquele que o ama, não procurando nada da sua pessoa senão indicações do seu amor. Daí aquele luto, se alguém morre, e escurecimentos de pesares, aquele mergulhar do coração em lágrimas, toda a doçura transformada em amargura; e sobre a perda da vida do que morre, a morte do que vive. Bendito quem ama a Ti, e o seu amigo em Ti, e o seu inimigo por Ti. Pois ele só não perde ninguém que lhe seja caro, a quem todos são caros Naquele que não pode ser perdido. E quem é este senão o nosso Deus, o Deus que fez o céu e a terra, e os enche, porque ao enchê-los Ele os criou? A Ti ninguém perde, a menos que Te deixe. E quem Te deixa, para onde vai ou para onde foge, senão de Ti bem-aprazado, para Ti desprazado? Pois onde é que ele não encontra a Tua lei no seu próprio castigo? E a Tua lei é a verdade, e a verdade és Tu.

Converte-nos, ó Deus dos Exércitos, mostra-nos o Teu rosto, e seremos salvos. Pois para onde quer que a alma do homem se vire, a menos que seja para Ti, ela é cravada em tristezas, sim, ainda que seja cravada em coisas belas. E ainda assim elas, fora de Ti, e fora da alma, não seriam, a menos que fossem de Ti. Elas nascem, e morrem; e ao nascer, começam por assim dizer a ser; crescem, para que possam ser aperfeiçoadas; e aperfeiçoadas, envelhecem e murcham; e nem todas envelhecem, mas todas murcham. Assim, pois, quando elas nascem e tendem a ser, quanto mais rapidamente crescem para que sejam, tanto mais se apressam para não ser. Esta é a lei delas. Tanto lhes concedeste, porque são porções de coisas, que não existem todas de uma vez, mas por passarem e sucederem, elas juntas completam aquele universo, do qual são porções. E exatamente assim é a nossa fala completada por sinais que emitem um som: mas isto novamente não é aperfeiçoado a menos que uma palavra passe quando tiver soado a sua parte, para que outra possa suceder. De todas estas coisas, que a minha alma Te louve, ó Deus, Criador de tudo; contudo, que a minha alma não seja cravada a estas coisas com a cola do amor, através dos sentidos do corpo. Pois elas vão para onde deviam ir, para que não fossem; e dilaceram-na com anseios pestilentos, porque ela anseia por ser, contudo ama repousar no que ama. Mas nestas coisas não há lugar de repouso; elas não permanecem, elas fogem; e quem pode segui-las com os sentidos da carne? sim, quem pode agarrá-las, quando estão perto? Pois o sentido da carne é lento, porque é o sentido da carne; e por ele é limitado. Ele basta para o que foi feito, mas não basta para deter as coisas que correm o seu curso desde o seu ponto de partida designado até ao fim designado. Pois na Tua Palavra, pela qual elas são criadas, elas ouvem o seu decreto: "daqui e até aqui".

Não sejas tola, ó minha alma, nem te tornes surda no ouvido do teu coração com o tumulto da tua loucura. Escuta tu também. A própria Palavra chama-te a voltar: e ali está o lugar de repouso imperturbável, onde o amor não é abandonado, se ele mesmo não abandona. Eis que estas coisas passam, para que outras as substituam, e assim este universo inferior seja completado por todas as suas partes. Mas parto eu para algum lugar? diz a Palavra de Deus. Ali fixa a tua morada, confia ali tudo o que tens de lá, ó minha alma, pelo menos agora que estás cansada de vaidades. Confia a Verdade, tudo o que tens da Verdade, e nada perderás; e a tua decadência florescerá novamente, e todas as tuas doenças serão curadas, e as tuas partes mortais serão reformadas e renovadas, e atadas ao teu redor: nem te levarão para onde elas mesmas descem; mas ficarão firmes contigo, e permanecerão para sempre diante de Deus, que permanece e fica firme para sempre.

Por que então te perverteres e seguires a tua carne? Que ela seja convertida e te siga. Tudo o que por ela tens sentido, é em parte; e o todo, do qual estas são partes, não conheces; e ainda assim elas te deleitam. Mas tivesse o sentido da tua carne capacidade para compreender o todo, e não tivesse ele mesmo também, para teu castigo, sido justamente restringido a uma parte do todo, quererias que tudo o que existe neste presente passasse, para que assim o todo te agradasse melhor. Pois o que falamos também, pelo mesmo sentido da carne ouves; contudo não quererias que as sílabas ficassem, mas que voassem, para que outras viessem, e tu ouvisses o todo. E assim sempre, quando qualquer coisa é feita de muitas, todas as quais não existem juntas, todas coletivamente agradariam mais do que fazem separadamente, se todas pudessem ser percebidas coletivamente. Mas muito melhor do que estas é Aquele que fez tudo; e Ele é o nosso Deus, nem Ele passa, pois também nada Lhe sucede.

Se os corpos te agradam, louva a Deus por causa deles e volta o teu amor para o seu Criador; para que, nessas coisas que te agradam, não desagrades. Se as almas te agradam, que sejam amadas em Deus: pois elas também são mutáveis, mas n'Ele estão firmemente estabelecidas; caso contrário, passariam e se desvaneceriam. N'Ele, pois, sejam elas amadas; e leva contigo até Ele as almas que puderes, e dize-lhes: "A Ele amemos, a Ele amemos: Ele fez estas coisas, nem está Ele longe. Pois Ele não as fez e logo partiu, mas elas procedem d'Ele e n'Ele estão. Vede, Ele está ali, onde a verdade é amada. Ele está no âmago do coração, contudo o coração desviou-se d'Ele. Voltai ao vosso coração, ó transgressores, e apegai-vos firmemente Àquele que vos fez. Permanecei com Ele, e permanecereis firmes. Repousai n'Ele, e estareis em repouso. Para onde ides por caminhos escabrosos? Para onde ides? O bem que amais provém d'Ele; mas é bom e agradável em referência a Ele, e justamente será amargurado, porque injustamente é amada qualquer coisa que d'Ele provém, se por ela Ele for abandonado. Com que fim, então, continuareis vós a trilhar estes caminhos difíceis e penosos? Não há repouso onde o buscais. Buscai o que buscais; mas não está lá onde o buscais. Buscais a vida bem-aventurada na terra da morte; não está lá. Pois como haveria uma vida bem-aventurada onde a própria vida não existe?

"Mas a nossa verdadeira Vida desceu até aqui, e suportou a nossa morte, e a matou, pela abundância da Sua própria vida: e Ele trovejou, chamando-nos em alta voz para que voltássemos daqui para Ele, para aquele lugar secreto de onde Ele saiu para nós, primeiro para o ventre da Virgem, no qual Ele esposou a criação humana, a nossa carne mortal, para que ela não fosse para sempre mortal, e de lá como um esposo que sai do seu tálamo, exultando como um gigante a percorrer o seu caminho. Pois Ele não tardou, mas correu, clamando em alta voz por palavras, obras, morte, vida, descida, ascensão; clamando em alta voz para que voltássemos para Ele. E Ele partiu de diante dos nossos olhos, para que pudéssemos voltar ao nosso coração e lá encontrá-Lo. Pois Ele partiu, e eis que Ele está aqui. Ele não quis estar muito tempo conosco, contudo não nos deixou; pois Ele partiu para lá de onde nunca se separou, porque o mundo foi feito por Ele. E neste mundo Ele estava, e para este mundo Ele veio para salvar os pecadores, a quem a minha alma confessa, e Ele a cura, pois ela pecou contra Ele. Ó vós, filhos dos homens, até quando sereis lentos de coração? Mesmo agora, após a descida da Vida até vós, não ascendereis e vivereis? Mas para onde ascendeis, quando estais no alto e colocais a vossa boca contra os céus? Descei, para que possais ascender, e ascendei a Deus. Pois vós caístes ao ascenderdes contra Ele." Dize-lhes isto, para que possam chorar no vale das lágrimas, e assim leva-os contigo até Deus; porque é do Seu espírito que assim lhes falas, se tu falas, ardendo com o fogo da caridade.

Estas coisas eu então não sabia, e amava estas belezas inferiores, e eu estava afundando até as profundezas, e aos meus amigos eu dizia: "Amamos alguma coisa senão o belo? O que é, então, o belo? E o que é a beleza? O que é que nos atrai e nos conquista para as coisas que amamos? Pois, a não ser que houvesse nelas uma graça e beleza, de modo algum poderiam atrair-nos para si." E eu observei e percebi que nos próprios corpos havia uma beleza, por formarem uma espécie de todo, e, novamente, outra por uma correspondência apta e mútua, como a de uma parte do corpo com o seu todo, ou de um sapato com um pé, e coisas semelhantes. E esta consideração brotou na minha mente, do âmago do meu coração, e escrevi "sobre o belo e o apto", creio que dois ou três livros. Tu o sabes, ó Senhor, pois isso partiu de mim; pois não os tenho, mas eles se extraviaram de mim, não sei como.

Mas o que me moveu, ó Senhor meu Deus, a dedicar estes livros a Hierius, um orador de Roma, a quem eu não conhecia de vista, mas amava pela fama da sua erudição que era eminente nele, e algumas palavras suas que eu tinha ouvido, as quais me agradaram? Mas ele agradou-me mais ainda porque agradava aos outros, que o exaltavam grandemente, maravilhados de que, de um sírio, instruído primeiro na eloquência grega, pudesse depois ser formado um maravilhoso orador latino, e um homem mui douto nas coisas concernentes à filosofia. Alguém é elogiado, e, sem ser visto, é amado: será que este amor entra no coração do ouvinte pela boca de quem o elogia? Não é assim. Mas por quem ama, outro é inflamado. Pois por isso é amado quem é elogiado, quando se acredita que o elogiador o exalta com um coração sem fingimento; isto é, quando alguém que o ama, o louva.

Pois assim eu então amava os homens, pelo juízo dos homens, não pelo Teu, ó meu Deus, em Quem nenhum homem é enganado. Mas, ainda assim, por que não por qualidades, como as de um famoso auriga, ou lutador com feras no teatro, conhecido por toda a parte por uma popularidade vulgar, mas de modo muito diferente, e seriamente, e de tal maneira como eu gostaria de ser eu mesmo elogiado? Pois eu não gostaria de ser elogiado ou amado como os atores são (embora eu mesmo os elogiasse e amasse), mas preferiria ser desconhecido a ser assim conhecido; e até odiado a ser assim amado. Onde estão agora guardados os impulsos para tão variados e diversos tipos de amores em uma só alma? Por que, uma vez que somos igualmente homens, amo eu em outro o que, se eu não odiasse, não desprezaria e expulsaria de mim mesmo? Pois não se sustenta que, como um bom cavalo é amado por aquele que não quereria, ainda que pudesse, ser esse cavalo, o mesmo possa ser dito de um ator, que compartilha a nossa natureza. Amo eu, então, em um homem o que odeio ser, eu que sou um homem? O homem é um grande abismo, cujos próprios cabelos Tu contas, ó Senhor, e eles não caem por terra sem Ti. E, contudo, os cabelos da sua cabeça são mais fáceis de contar do que os seus sentimentos e as batidas do seu coração.

Mas aquele orador era do tipo que eu amava, desejando ser eu mesmo tal; e eu errava através de um orgulho inchado, e era jogado de um lado para outro por todo vento, mas ainda assim era guiado por Ti, embora muito secretamente. E como sei eu, e como confesso confiantemente a Ti, que eu o tinha amado mais pelo amor dos seus elogiadores do que pelas próprias coisas pelas quais ele era elogiado? Porque, se ele não fosse elogiado, e esses mesmos homens o tivessem criticado, e com crítica e desprezo tivessem dito as mesmíssimas coisas sobre ele, eu nunca teria sido tão inflamado e excitado a amá-lo. E, no entanto, as coisas não tinham sido outras, nem ele mesmo outro; mas apenas os sentimentos daqueles que narravam. Vê onde jaz a alma impotente, que ainda não é sustentada pela solidez da verdade! Assim como os vendavais das línguas sopram do peito dos opinativos, assim é ela levada para lá e para cá, impulsionada para a frente e para trás, e a luz é obscurecida para ela, e a verdade não é vista. E eis que ela está diante de nós. E era para mim uma grande coisa que o meu discurso e os meus trabalhos fossem conhecidos por aquele homem: o qual, se ele aprovasse, eu ficaria mais inflamado; mas se ele desaprovasse, o meu coração vazio, desprovido da Tua solidez, teria sido ferido. E, contudo, o "belo e apto", sobre o qual escrevi para ele, eu contemplava com prazer, e examinava-o, e admirava-o, embora ninguém se juntasse a mim.

Mas eu ainda não via em que girava esta questão importante na Tua sabedoria, ó Tu Onipotente, que somente fazes maravilhas; e a minha mente divagava pelas formas corpóreas; e "belo", eu definia e distinguia o que é assim em si mesmo, e "apto", cuja beleza reside na correspondência com alguma outra coisa: e isto eu apoiava com exemplos corpóreos. E voltei-me para a natureza da mente, mas a falsa noção que eu tinha das coisas espirituais não me deixava ver a verdade. Contudo, a força da verdade brilhava por si mesma diante dos meus olhos, e eu desviava a minha alma ofegante da substância incorpórea para lineamentos, cores e magnitudes volumosas. E não sendo capaz de ver estas coisas na mente, pensava que não podia ver a minha mente. E enquanto na virtude eu amava a paz, e na viciosidade eu abominava a discórdia; na primeira eu observava uma unidade, mas na outra, uma espécie de divisão. E nessa unidade eu concebia que a alma racional, e a natureza da verdade e do sumo bem, consistiam; mas nessa divisão eu imaginava miseravelmente haver alguma substância desconhecida de vida irracional, e a natureza do sumo mal, que deveria não apenas ser uma substância, mas também vida real, e ainda assim não derivada de Ti, ó meu Deus, de quem são todas as coisas. E, contudo, à primeira eu chamava Mônada, como se fora uma alma sem sexo; mas à última, Díade — ira, em atos de violência, e na flagícia, luxúria; não sabendo do que falava. Pois eu não tinha conhecido ou aprendido que nem o mal era uma substância, nem a nossa alma aquele sumo e imutável bem.

Pois assim como os atos de violência surgem, se aquela emoção da alma é corrompida, de onde brota a ação veemente, agitando-se insolente e desordenadamente; e as luxúrias, quando aquela afeição da alma não é governada, pela qual os prazeres carnais são sorvidos, assim também os erros e as falsas opiniões mancham a conversa, se a própria alma racional for corrompida; como estava então em mim, que não sabia que ela deve ser iluminada por outra luz, para que possa ser participante da verdade, vendo que ela mesma não é essa natureza da verdade. Pois Tu iluminarás a minha candeia, ó Senhor meu Deus, Tu iluminarás as minhas trevas: e da Tua plenitude todos nós recebemos, pois Tu és a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem ao mundo; pois em Ti não há variação, nem sombra de mudança.

Mas eu pressionava em direção a Ti, e era repelido por Ti, para que pudesse provar a morte: pois Tu resistes aos soberbos. Mas que coisa mais soberba do que eu, com uma loucura estranha, sustentar ser eu mesmo por natureza aquilo que Tu és? Pois, enquanto eu estava sujeito à mudança (sendo isso manifesto para mim, o próprio desejo de tornar-me sábio sendo o desejo de, de pior, tornar-me melhor), contudo escolhi antes imaginar-Te sujeito à mudança, e a mim mesmo não ser aquilo que Tu és. Portanto, fui repelido por Ti, e Tu resististe à minha vã obstinação, e eu imaginava formas corpóreas, e, sendo eu carne, acusava a carne; e, um vento que passa, não voltei para Ti, mas passei adiante e mais adiante para coisas que não têm ser, nem em Ti, nem em mim, nem no corpo. Nem foram elas criadas para mim pela Tua verdade, mas pela minha vaidade inventadas a partir de coisas corpóreas. E eu costumava perguntar aos Teus fiéis pequeninos, meus concidadãos (dos quais, sem eu saber, eu estava exilado), eu costumava, tagarelando e tolamente, perguntar-lhes: "Por que então erra a alma que Deus criou?" Mas eu não queria que me perguntassem: "Por que então Deus erra?" E eu sustentava que a Tua substância imutável errava por necessidade, em vez de confessar que a minha substância mutável tinha se desviado voluntariamente e agora, como punição, jazia no erro.

Eu tinha então uns vinte e seis ou vinte e sete anos quando escrevi aqueles volumes; revolvendo dentro de mim ficções corpóreas, zumbindo nos ouvidos do meu coração, que eu voltava, ó doce verdade, para a tua melodia interior, meditando sobre o "belo e apto", e ansiando por ficar e escutar-Te, e por me alegrar grandemente com a voz do Esposo, mas não podia; pois, pelas vozes dos meus próprios erros, eu era arrastado para fora, e, pelo peso do meu próprio orgulho, eu estava afundando no poço mais profundo. Pois Tu não me fizeste ouvir júbilo e alegria, nem os ossos exultaram, os quais ainda não estavam humilhados.

E de que me aproveitou que, com quase vinte anos, um livro de Aristóteles, ao qual chamam as dez Predicamentos, caindo em minhas mãos (em cujo próprio nome eu me pendurava, como em algo grande e divino, tantas vezes quanto o meu mestre de retórica de Cartago, e outros, tidos por doutos, o pronunciavam com as bochechas inchadas de orgulho), eu o li e entendi sem ajuda? E ao conferir com outros, que diziam que dificilmente o entendiam com tutores muito capazes, não apenas explicando-o oralmente, mas desenhando muitas coisas na areia, eles não podiam dizer-me mais sobre ele do que eu tinha aprendido, lendo-o sozinho. E o livro parecia-me falar muito claramente de substâncias, como "homem", e das suas qualidades, como a figura de um homem, de que tipo é; e estatura, quantos pés de altura; e o seu relacionamento, de quem é irmão; ou onde colocado; ou quando nascido; ou se está de pé ou sentado; ou se está calçado ou armado; ou faz, ou sofre alguma coisa; e todas as inumeráveis coisas que poderiam ser classificadas sob esses nove Predicamentos, dos quais dei alguns espécimes, ou sob aquele Predicamento principal de Substância.

Que me adiantou tudo isto, vendo que até me atrapalhou? quando, imaginando que tudo o que existia era compreendido sob aqueles dez Predicamentos, eu tentava de tal maneira entender, ó meu Deus, a Tua maravilhosa e imutável Unidade também, como se Tu também fosses submetido à Tua própria grandeza ou beleza; de modo que (como nos corpos) elas existissem em Ti, como o seu sujeito: enquanto Tu mesmo és a Tua grandeza e beleza; mas um corpo não é grande ou belo por ser um corpo, visto que, embora fosse menos grande ou belo, deveria, não obstante, ser um corpo. Mas era falsidade que sobre Ti eu concebia, não verdade, ficções da minha miséria, não as realidades da Tua bem-aventurança. Pois Tu tinhas ordenado, e foi feito em mim, que a terra produzisse abrolhos e espinhos para mim, e que com o suor do meu rosto eu comesse o meu pão.

E de que me aproveitou que todos os livros que pude obter das chamadas artes liberais, eu, o vil escravo de vis afeições, li sozinho e entendi? E eu me deleitava neles, mas não sabia de onde vinha tudo o que neles havia de verdadeiro ou certo. Pois eu estava de costas para a luz, e de rosto para as coisas iluminadas; de onde o meu rosto, com o qual eu discernia as coisas iluminadas, ele mesmo não era iluminado. Tudo o que foi escrito, seja sobre retórica, ou lógica, geometria, música e aritmética, sozinho, sem muita dificuldade ou qualquer instrutor, eu entendi, Tu sabes, ó Senhor meu Deus; porque tanto a rapidez de entendimento quanto a agudeza no discernir é Teu dom: contudo, não sacrifiquei a Ti por causa disso. Assim, pois, não serviu para o meu uso, mas antes para a minha perdição, uma vez que me esforçava por obter tão boa parte da minha substância para a minha própria guarda; e não guardei a minha força para Ti, mas vagueei longe de Ti para uma terra distante, para gastá-la em prostituições. Pois de que me aproveitaram boas habilidades, não empregadas em bons usos? Pois eu não sentia que essas artes eram alcançadas com grande dificuldade, mesmo pelos estudiosos e talentosos, até que tentei explicá-las a tais pessoas; quando ele mais se destacava nelas aquele que não me seguia de todo lentamente.

Mas de que me adiantou isto, imaginando que Tu, ó Senhor Deus, a Verdade, eras um corpo vasto e brilhante, e eu um fragmento desse corpo? Perversidade grande demais! Mas tal era eu. Nem me envergonho, ó meu Deus, de confessar a Ti as Tuas misericórdias para comigo, e de clamar por Ti, que não me envergonhei então de professar aos homens as minhas blasfêmias, e de ladrar contra Ti. De que me aproveitou então o meu engenho ágil nessas ciências e todos aqueles volumes cheios de nós, desatados por mim, sem ajuda de instrução humana; vendo que eu errava tão feiamente, e com tal vergonhosa sacrilégio, na doutrina da piedade? Ou que obstáculo foi um engenho mais lento para os Teus pequeninos, uma vez que não se afastaram longe de Ti, para que no ninho da Tua Igreja pudessem seguramente criar penas, e nutrir as asas da caridade, pelo alimento de uma fé sã. Ó Senhor nosso Deus, sob a sombra das Tuas asas esperemos; protege-nos e carrega-nos. Tu nos carregarás tanto quando pequenos, e até à velhice Tu nos carregarás; pois a nossa firmeza, quando é Tu, então é firmeza; mas quando é a nossa, é enfermidade. O nosso bem vive sempre contigo; do qual quando nos desviamos, somos desviados. Voltemos agora, ó Senhor, para que não sejamos derrubados, porque contigo o nosso bem vive sem qualquer decadência, cujo bem és Tu; nem precisamos temer que não haja lugar para onde voltar, porque caímos dele: pois através da nossa ausência, a nossa mansão não caiu — a Tua eternidade.

LIVRO V

Aceita o sacrifício das minhas confissões pelo ministério da minha língua, que Tu formaste e agitaste para confessar o Teu nome. Cura todos os meus ossos, e que eles digam: Ó Senhor, quem é semelhante a Ti? Pois aquele que confessa a Ti não ensina a Ti o que se passa dentro dele; vendo que um coração fechado não exclui o Teu olhar, nem pode a dureza de coração do homem repelir a Tua mão: pois Tu a dissolves à Tua vontade por piedade ou por vingança, e nada pode esconder-se do Teu calor. Mas que a minha alma Te louve, para que possa amar-Te; e que ela confesse as Tuas próprias misericórdias a Ti, para que possa louvar-Te. Toda a Tua criação não cessa, nem se cala nos Teus louvores; nem o espírito do homem com a voz dirigida a Ti, nem a criação animada ou inanimada, pela voz daqueles que sobre ela meditam: para que assim as nossas almas possam do seu cansaço elevar-se para Ti, apoiando-se naquelas coisas que Tu criaste, e passando para Ti mesmo, que as fizeste maravilhosamente; e ali há refrigério e verdadeira força.

Que os inquietos, os ímpios, partam e fujam de Ti; ainda assim Tu os vês, e divides as trevas. E eis que o universo com eles é belo, embora eles sejam vis. E como eles Te prejudicaram? Ou como eles desonraram o Teu governo, que, do céu até esta terra mais baixa, é justo e perfeito? Pois para onde fugiram eles, quando fugiram da Tua presença? Ou onde não os encontras Tu? Mas eles fugiram, para que não vissem Tu a vê-los, e, cegados, pudessem tropeçar em Ti (porque Tu não abandonas nada do que fizeste); para que os injustos, digo eu, pudessem tropeçar em Ti, e justamente ser feridos; retirando-se da Tua doçura, e tropeçando na Tua retidão, e caindo sobre a sua própria aspereza. Ignorantes, na verdade, de que Tu estás em toda parte, a Quem nenhum lugar circunda! E Tu somente estás perto, mesmo daqueles que se removem para longe de Ti. Que eles então se voltem, e Te busquem; porque não como eles abandonaram o seu Criador, abandonaste Tu a Tua criação. Que eles se voltem e Te busquem; e eis que Tu estás ali no seu coração, no coração daqueles que confessam a Ti, e se lançam sobre Ti, e choram no Teu seio, depois de todos os seus caminhos escabrosos. Então Tu enxugas suavemente as suas lágrimas, e eles choram ainda mais, e alegram-se no choro; mesmo por isso que Tu, Senhor — não homem de carne e sangue, mas — Tu, Senhor, que os fizeste, refazes e consolas. Mas onde estava eu, quando Te buscava? E Tu estavas diante de mim, mas eu tinha me afastado de Ti; nem encontrei a mim mesmo, quanto menos a Ti!

Desejo expor diante do meu Deus aquele vigésimo nono ano da minha idade. Tinha então chegado a Cartago um certo Bispo dos maniqueus, de nome Fausto, um grande laço do Diabo, e muitos eram enredados por ele através daquela isca da sua linguagem polida: a qual, embora eu elogiasse, ainda assim conseguia separar da verdade das coisas que eu estava ansioso por aprender; nem eu considerava tanto o serviço da oratória quanto a ciência que este Fausto, tão louvado entre eles, colocava diante de mim para me alimentar. A fama já o havia precedido como o mais conhecedor de todo o saber valioso, e requintadamente habilidoso nas ciências liberais. E uma vez que eu lera e bem me lembrava de muito dos filósofos, comparei algumas coisas deles com aquelas longas fábulas dos maniqueus, e achei as primeiras mais prováveis; mesmo que elas só pudessem prevalecer a ponto de julgar este mundo inferior, o Senhor dele não podiam de modo algum encontrar. Pois Tu és grande, ó Senhor, e tens respeito aos humildes, mas aos orgulhosos contemplas de longe. Nem Te aproximas, senão dos contritos de coração, nem és encontrado pelos orgulhosos, não, nem mesmo que, por curiosa habilidade, eles pudessem numerar as estrelas e a areia, e medir os céus estrelados, e rastrear os cursos dos planetas.

Pois com o seu entendimento e engenho, que Tu lhes conferiste, eles perscrutam estas coisas; e muito descobriram; e predisseram, muitos anos antes, eclipses daqueles luminares, o sol e a lua — que dia e hora, e quantos dígitos —, nem o seu cálculo falhou; e aconteceu como predisseram; e escreveram as regras que descobriram, e estas são lidas até hoje, e delas outros predizem em que ano e mês do ano, e que dia do mês, e que hora do dia, e que parte da sua luz, lua ou sol, será eclipsada, e assim será, como é preanunciado. Com estas coisas os homens, que não conhecem esta arte, maravilham-se e espantam-se, e os que a conhecem, exultam e ensoberbecem-se; e por um orgulho ímpio afastando-se de Ti, e falhando da Tua luz, eles preveem uma falha da luz do sol, que será, com tanta antecedência, mas não veem a sua própria, que já é. Pois não perscrutam religiosamente de onde lhes vem o engenho com que perscrutam isto. E descobrindo que Tu os fizeste, não se entregam a Ti, para preservar o que Tu fizeste, nem sacrificam a Ti o que eles mesmos fizeram; nem abatem as suas próprias imaginações altivas, como aves do céu, nem as suas próprias curiosidades profundas (com as quais, como os peixes do mar, vagueiam pelos caminhos desconhecidos do abismo), nem a sua luxúria, como as feras do campo, para que Tu, Senhor, um fogo consumidor, possas queimar esses seus cuidados mortos, e recriá-los imortalmente.

Mas eles não conheciam o caminho, a Tua Palavra, por Quem fizeste estas coisas que eles numeram, e a eles mesmos que numeram, e o sentido pelo qual percebem o que numeram, e o entendimento, de onde eles numeram; ou que da Tua sabedoria não há número. Mas o Unigénito é Ele mesmo feito para nós sabedoria, e justiça, e santificação, e foi contado entre nós, e pagou tributo a César. Eles não conheciam este caminho pelo qual descer a Ele a partir de si mesmos, e por Ele ascender até Ele. Eles não conheciam este caminho, e julgavam-se exaltados entre as estrelas e brilhantes; e eis que caíram sobre a terra, e o seu coração insensato ficou obscurecido. Discursam muitas coisas verdadeiramente acerca da criatura; mas a Verdade, Artífice da criatura, eles não buscam piamente, e por isso não O encontram; ou se O encontram, conhecendo-O como Deus, não O glorificam como Deus, nem Lhe são gratos, mas tornam-se vãos nas suas imaginações, e professam ser sábios, atribuindo a si mesmos o que é Teu; e assim, com a mais perversa cegueira, esforçam-se por imputar a Ti o que é deles, forjando mentiras sobre Ti que és a Verdade, e mudando a glória do Deus incorruptível numa imagem feita à semelhança do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis, mudando a Tua verdade em mentira, e adorando e servindo a criatura mais do que o Criador.

Contudo, muitas verdades acerca da criatura retive desses homens, e vi a razão delas a partir de cálculos, da sucessão dos tempos e dos testemunhos visíveis dos astros; e comparei-as com as afirmações de Maniqueu, que no seu delírio havia escrito muito extensamente sobre estes assuntos; mas não descobri qualquer explicação dos solstícios, ou equinócios, ou dos eclipses dos luminares maiores, nem qualquer coisa deste género que eu tivesse aprendido nos livros da filosofia secular. Mas era-me ordenado acreditar; e, no entanto, não correspondia ao que tinha sido estabelecido por cálculos e pela minha própria visão, mas era completamente contrário.

Agradam-Te, pois, ó Senhor Deus da verdade, aqueles que conhecem estas coisas? Certamente infeliz é aquele que conhece tudo isto, e não Te conhece: mas feliz aquele que Te conhece, ainda que não conheça estas. E quem conhece tanto a Ti como a elas não é mais feliz por causa delas, mas apenas por causa de Ti, se, conhecendo-Te, Te glorifica como Deus, e é grato, e não se torna vão nas suas imaginações. Pois, assim como está em melhor situação aquele que sabe possuir uma árvore, e devolver-Te graças pelo uso dela, ainda que não saiba quantos côvados de altura tem, ou quão larga ela se estende, do que aquele que a pode medir, e contar todos os seus ramos, e nem a possui, nem conhece ou ama o seu Criador: assim um crente, a quem pertence todo este mundo de riqueza, e que nada tendo, possui contudo todas as coisas, por se apegar a Ti, a Quem todas as coisas servem, ainda que não conheça sequer as constelações da Ursa Maior, é loucura duvidar que ele está num estado melhor do que aquele que pode medir os céus, e numerar as estrelas, e pesar os elementos, mas negligencia a Ti, que fizeste todas as coisas em número, peso e medida.

Mas, ainda assim, quem ordenou a esse Maniqueu que escrevesse também sobre estas coisas, cuja habilidade não era elemento de piedade? Pois Tu disseste ao homem: Eis a piedade e a sabedoria; das quais ele poderia ser ignorante, ainda que tivesse perfeito conhecimento destas coisas; mas estas coisas, uma vez que, ignorando-as, ele impudentemente ousou ensinar, claramente não podia ter qualquer conhecimento de piedade. Pois é vaidade fazer profissão destas coisas mundanas mesmo quando conhecidas; mas a confissão a Ti é piedade. Por isso este errante, para este fim, falou muito destas coisas, para que, convicto por aqueles que as tinham verdadeiramente aprendido, se manifestasse que entendimento ele tinha nas outras coisas mais abstrusas. Pois ele não queria ser tido em pouca conta, mas andava por aí a persuadir os homens de que "o Espírito Santo, o Consolador e Enriquecedor dos Teus fiéis, estava com autoridade plena pessoalmente dentro dele". Quando, então, foi descoberto que ensinara falsamente sobre o céu e as estrelas, e sobre os movimentos do sol e da lua (embora estas coisas não pertençam à doutrina da religião), contudo a sua presunção sacrílega tornou-se suficientemente evidente, vendo que ele apresentava coisas que não só não conhecia, mas que eram falsificadas, com uma vaidade de orgulho tão louca, que procurava atribuí-las a si mesmo, como a uma pessoa divina.

Pois quando ouço qualquer irmão cristão ignorante destas coisas, e enganado sobre elas, posso pacientemente contemplar tal homem mantendo a sua opinião; nem vejo que qualquer ignorância quanto à posição ou natureza da criação corpórea possa prejudicá-lo, desde que não creia em nada indigno de Ti, ó Senhor, o Criador de todas as coisas. Mas prejudica-o se ele imaginar que isso pertence à forma da doutrina da piedade, e quiser ainda afirmar com demasiada rigidez aquilo de que é ignorante. E, no entanto, até tal enfermidade, na infância da fé, é suportada pela nossa mãe Caridade, até que o recém-nascido possa crescer até ser um homem perfeito, de modo a não ser levado por todo o vento de doutrina. Mas naquele que de tal modo presumiu ser o mestre, fonte, guia, chefe de todos os que ele podia persuadir, que quem o seguia pensava que seguia, não um mero homem, mas o Teu Espírito Santo; quem não julgaria que tal loucura, uma vez convicta de ter ensinado algo falso, deveria ser detestada e totalmente rejeitada? Mas eu ainda não tinha claramente averiguado se as vicissitudes dos dias e noites mais longos e mais curtos, e do dia e da noite em si, com os eclipses dos luminares maiores, e tudo o mais do género que eu lera noutros livros, poderiam ser explicadas de forma consistente com as suas afirmações; de modo que, se por algum meio pudessem, ainda permaneceria uma questão para mim se era assim ou não; mas eu poderia, devido à sua reputação de santidade, apoiar a minha crença na sua autoridade.

E por quase todos aqueles nove anos, em que com mente inquieta eu fora seu discípulo, eu ansiava, mas demasiado intensamente, pela vinda deste Fausto. Pois o resto da seita, com quem por acaso me tinha deparado, quando incapazes de resolver as minhas objeções sobre estas coisas, ainda assim mantinham perante mim a vinda deste Fausto, por cuja conferência estas e maiores dificuldades, se eu as tivesse, deveriam ser prontamente e abundantemente esclarecidas. Quando, então, ele veio, encontrei nele um homem de discurso agradável, e que podia falar fluentemente e em melhores termos, mas ainda assim eram as mesmíssimas coisas que eles costumavam dizer. Mas de que valia a máxima limpeza do copeiro para a minha sede de uma bebida mais preciosa? Os meus ouvidos já estavam fartos de tal, nem me pareciam melhores porque melhor ditas; nem por isso verdadeiras, porque eloquentes; nem a alma por isso sábia, porque o rosto era afável e a linguagem graciosa. Mas aqueles que mo indicavam não eram bons juízes das coisas; e por isso para eles ele parecia entendido e sábio, porque as suas palavras eram agradáveis. Senti, contudo, que outro tipo de pessoas suspeitava até da verdade, e recusava dar o seu assentimento, se proferida num discurso polido e copioso. Mas Tu, ó meu Deus, já me tinhas ensinado por vias maravilhosas e secretas, e por isso creio que Tu me ensinaste, porque é verdade, nem há além de Ti qualquer mestre da verdade, onde ou quando quer que ela possa brilhar sobre nós. De Ti mesmo, portanto, eu aprendera agora que nada deveria parecer ser dito verdadeiramente só porque eloquentemente; nem por isso falsamente, porque o proferir dos lábios é inarmonioso; nem, novamente, por isso verdadeiro, porque rudemente proferido; nem por isso falso, porque a linguagem é rica; mas que a sabedoria e a loucura são como alimento saudável e não saudável; e frases adornadas ou desadornadas como vasos cortesãos ou rústicos; qualquer tipo de manjar pode ser servido em qualquer tipo de prato.

Aquela avidez, portanto, com que eu tinha há tanto tempo esperado aquele homem, deleitava-se verdadeiramente com a sua ação e sentimento ao disputar, e com a sua escolha e prontidão de palavras para revestir as suas ideias. Eu estava então encantado, e, com muitos outros e mais do que eles, eu louvava-o e exaltava-o. Incomodava-me, contudo, que na assembleia dos seus auditores, não me fosse permitido intervir e comunicar aquelas questões que me perturbavam, em conversa familiar com ele. Quando o pude fazer, e com os meus amigos comecei a ocupar os seus ouvidos em momentos em que não era inconveniente para ele discutir comigo, e tinha apresentado tais coisas que me moviam; encontrei-o primeiro totalmente ignorante das ciências liberais, exceto a gramática, e isso apenas de uma forma comum. Mas porque tinha lido algumas das Orações de Túlio, pouquíssimos livros de Séneca, algumas coisas dos poetas, e tais poucos volumes da sua própria seita que foram escritos em latim e com elegância, e era diariamente exercitado em falar, adquiriu uma certa eloquência, que se revelou mais agradável e sedutora porque sob a orientação de um bom engenho, e com uma espécie de graça natural. Não é assim, como recordo, ó Senhor meu Deus, Tu juiz da minha consciência? Diante de Ti está o meu coração, e a minha memória, Tu que me dirigias naquele tempo pelo mistério oculto da Tua providência, e colocavas esses erros vergonhosos meus diante da minha face, para que eu pudesse vê-los e odiá-los.

Pois depois de ficar claro que ele era ignorante daquelas artes em que eu pensava que ele se destacava, comecei a desesperar que ele abrisse e resolvesse as dificuldades que me perplexavam (das quais, aliás, por mais ignorante que fosse, ele poderia ter mantido as verdades da piedade, se não fosse maniqueu). Pois os seus livros estão repletos de fábulas prolixas, sobre o céu, e estrelas, sol e lua, e eu já não pensava que ele fosse capaz de decidir satisfatoriamente o que eu desejava saber, se, comparando estas coisas com os cálculos que eu tinha lido noutros lugares, a explicação dada nos livros de Maniqueu era preferível, ou pelo menos tão boa. O que, quando propus para ser considerado e discutido, ele, na medida do possível modestamente, esquivou-se ao peso. Pois ele sabia que não sabia estas coisas, e não se envergonhou de o confessar. Pois ele não era um daqueles faladores, muitos dos quais eu tinha suportado, que se propunham a ensinar-me estas coisas e nada diziam. Mas este homem tinha um coração, embora não reto para Contigo, contudo nem de todo traiçoeiro para consigo mesmo. Pois ele não era de todo ignorante da sua própria ignorância, nem se deixaria precipitadamente enredar numa disputa de onde não pudesse retirar-se ou safar-se dignamente. Até por isso gostei mais dele. Pois mais bela é a modéstia de uma mente cândida do que o conhecimento das coisas que eu desejava; e tal eu o encontrei, em todas as questões mais difíceis e subtis.

O meu zelo pelos escritos de Maniqueu estando assim embotado, e desesperando ainda mais dos seus outros mestres, vendo que em diversas coisas que me perturbavam, ele, tão renomado entre eles, se revelara assim; comecei a ocupar-me com ele no estudo daquela literatura, na qual ele também estava muito empenhado (e que como professor de retórica eu estava naquela época a ensinar a jovens estudantes em Cartago), e a ler com ele, ou o que ele próprio desejava ouvir, ou o que eu julgava adequado para o seu génio. Mas todos os meus esforços pelos quais eu tinha pretendido avançar naquela seita, após o conhecimento daquele homem, chegaram totalmente ao fim; não que eu me tivesse separado deles totalmente, mas como alguém que não encontrando nada melhor, tinha decidido contentar-me enquanto isso com o que eu tinha, de qualquer forma que me tivesse calhado, a menos que por acaso algo mais elegível surgisse para mim. Assim, aquele Fausto, para tantos um laço de morte, tinha agora, nem querendo nem sabendo, começado a desatar aquilo em que eu estava preso. Pois as Tuas mãos, ó meu Deus, no propósito secreto da Tua providência, não abandonaram a minha alma; e do sangue do coração da minha mãe, através das suas lágrimas derramadas dia e noite, foi oferecido um sacrifício por mim a Ti; e Tu trataste comigo por vias maravilhosas. Tu fizeste isto, ó meu Deus: pois os passos de um homem são ordenados pelo Senhor, e Ele disporá o seu caminho. Ou como obteremos a salvação, senão da Tua mão, refazendo o que ela fez?

Tu trataste comigo, para que eu fosse persuadido a ir a Roma, e a ensinar lá antes, o que eu estava a ensinar em Cartago. E como fui persuadido a isto, não negligenciarei confessar-Te; porque também aqui os recessos mais profundos da Tua sabedoria, e a Tua misericórdia mais presente para connosco, devem ser considerados e confessados. Eu não desejava, portanto, ir a Roma porque maiores ganhos e maiores dignidades me eram garantidos pelos meus amigos que me persuadiram a isto (embora mesmo estas coisas tivessem naquela época uma influência sobre a minha mente), mas a minha principal e quase única razão era que eu ouvira dizer que os jovens estudavam lá mais pacificamente, e eram mantidos quietos sob a restrição de uma disciplina mais regular; de modo que eles não pudessem, aos seus prazeres, precipitar-se petulantemente na escola de alguém cujos alunos não eram, nem fossem admitidos sem a sua permissão. Ao passo que em Cartago reina entre os estudantes uma licenciosidade mais desgraçada e indisciplinada. Eles irrompem audaciosamente e, com gestos quase frenéticos, perturbam toda a ordem que alguém estabeleceu para o bem dos seus alunos. Diversos ultrajes eles cometem, com uma estupidez maravilhosa, puníveis por lei, não fosse o costume defendê-los; esse costume mostrando-os como mais miseráveis, na medida em que agora fazem como lícito o que pela Tua lei eterna nunca será lícito; e pensam que o fazem impunemente, enquanto são punidos com a própria cegueira com que o fazem, e sofrem incomparavelmente pior do que o que fazem. Os modos, então, que, quando estudante, eu não quiseria tornar meus, fui obrigado como professor a suportar nos outros: e assim fiquei bem satisfeito em ir para onde, todos os que sabiam, garantiam-me que o semelhante não era feito. Mas Tu, meu refúgio e minha porção na terra dos viventes; para que eu pudesse mudar a minha morada terrena para a salvação da minha alma, em Cartago estimulaste-me, para que eu pudesse ser arrancado de lá; e em Roma ofereceste-me atrativos, pelos quais eu pudesse ser atraído para lá, por homens apaixonados por uma vida moribunda, uns fazendo coisas frenéticas, outros prometendo coisas vãs, e, para corrigir os meus passos, usaste secretamente a perversidade deles e a minha própria. Pois tanto eles que perturbavam a minha quietude estavam cegos por um frenesi desgraçado, quanto eles que me convidavam para outro lugar saboreavam a terra. E eu, que aqui detestava a miséria real, estava lá à procura de felicidade irreal.

Mas por que parti daqui e fui para lá, Tu o sabias, ó Deus, contudo não o revelaste nem a mim, nem à minha mãe, que lamentou amargamente a minha viagem e seguiu-me até ao mar. Mas eu enganei-a, mantendo-me à força, para que ela ou me impedisse ou viesse comigo, e fingi que tinha um amigo a quem não podia deixar enquanto não houvesse vento favorável para navegar. E menti à minha mãe, e a tal mãe, e escapei: pois também isto me perdoaste misericordiosamente, preservando-me, tão cheio de detestáveis imundícies, das águas do mar, para a água da Tua Graça; pela qual, quando fui purificado, as correntes dos olhos de minha mãe deviam ser secadas, com as quais, por mim, ela regava diariamente o solo sob o seu rosto. E, contudo, recusando-me a voltar sem mim, persuadi-a dificilmente a ficar naquela noite num lugar próximo do nosso navio, onde havia um Oratório em memória do bem-aventurado Cipriano. Naquela noite parti furtivamente, mas ela não ficou para trás no choro e na oração. E o que, ó Senhor, pedia ela a Ti com tantas lágrimas, senão que não permitisses que eu navegasse? Mas Tu, na profundidade dos Teus desígnios e ouvindo o ponto principal do seu desejo, não atendeste ao que ela pedia então, para que pudesses fazer de mim o que ela sempre pedia. O vento soprou e inchou as nossas velas, e retirou a costa da nossa vista; e ela, no dia seguinte, estava lá, frenética de dor, e com queixas e gemidos encheu os Teus ouvidos, que então os desprezaste; enquanto, através dos meus desejos, Tu me apressavas a pôr fim a todo o desejo, e a parte terrena do seu afeto por mim era castigada pelo açoite destinado de sofrimentos. Pois ela amava a minha presença, como as mães fazem, mas muito mais do que muitas; e não sabia quão grande alegria Tu estavas prestes a realizar para ela a partir da minha ausência. Ela não sabia; por isso chorava e lamentava, e por esta agonia apareceu nela a herança de Eva, buscando com dor o que com dor ela tinha dado à luz. E, contudo, após acusar a minha traição e dureza de coração, entregou-se novamente a interceder por mim junto de Ti, foi ao seu lugar habitual, e eu para Roma.

E eis que ali fui recebido pelo açoite da doença corporal, e eu estava descendo ao inferno, carregando todos os pecados que tinha cometido, tanto contra Ti, quanto contra mim mesmo e contra outros, muitos e graves, além daquele vínculo do pecado original, pelo qual todos morremos em Adão. Pois Tu não me tinhas perdoado nenhuma destas coisas em Cristo, nem Ele tinha abolido pela Sua Cruz a inimizade que pelos meus pecados eu tinha incorrido convosco. Pois como o faria, pela crucificação de um fantasma, que eu acreditava que Ele fosse? Tão verdadeira, então, era a morte da minha alma, quanto a da Sua carne me parecia falsa; e quão verdadeira a morte do Seu corpo, tão falsa era a vida da minha alma, que não acreditava nisso. E agora, aumentando a febre, eu estava partindo e indo embora para sempre. Pois se eu tivesse partido dali, para onde teria ido, senão para o fogo e tormentos, tais como os meus erros mereciam na verdade da Tua determinação? E isto ela não sabia, contudo, na ausência, rezava por mim. Mas Tu, em toda a parte presente, ouviste-a onde ela estava, e, onde eu estava, tiveste compaixão de mim; para que eu recuperasse a saúde do corpo, embora ainda frenético no meu coração sacrílego. Pois eu não desejei, em todo aquele perigo, o Teu batismo; e era melhor quando rapaz, quando o pedi à piedade da minha mãe, como já relatei e confessei anteriormente. Mas eu tinha crescido para a minha própria vergonha, e zombava loucamente dos preceitos da Tua medicina, Tu que não permitirias que eu, sendo tal, morresse uma morte dupla. Com qual ferida o coração da minha mãe teria sido trespassado, nunca poderia ser curado. Pois não posso expressar o afeto que ela nutria por mim, e com quanta mais veemente angústia ela estava agora em trabalho de parto por mim no espírito, do que no seu parto na carne.

Não vejo, então, como ela teria sido curada, se tal morte minha tivesse atravessado as entranhas do seu amor. E onde teriam estado aquelas suas orações tão fortes e incessantes, ininterruptas apenas a Ti? Mas desprezarias Tu, Deus de misericórdias, o coração contrito e humilhado daquela viúva casta e sóbria, tão frequente em esmolas, tão cheia de dever e serviço aos Teus santos, não passando dia sem a oblação no Teu altar, duas vezes ao dia, de manhã e à noite, sem qualquer interrupção, indo à Tua igreja, não para conversas ociosas e fábulas de velhas; mas para que ela pudesse ouvir-Te nos Teus discursos, e Tu a ela nas suas orações. Poderias Tu desprezar e rejeitar da Tua ajuda as lágrimas de tal pessoa, com as quais ela Te pedia não ouro ou prata, nem qualquer bem mutável ou passageiro, mas a salvação da alma do seu filho? Tu, por cujo dom ela era tal? Nunca, Senhor. Sim, Tu estavas presente, e ouvindo e fazendo, naquela ordem em que tinhas determinado antes que deveria ser feito. Longe de mim que Tu a enganasses nas Tuas visões e respostas, algumas das quais mencionei, outras não, que ela guardava no seu coração fiel, e, sempre rezando, insistia junto de Ti, como se fossem a Tua própria caligrafia. Pois Tu, porque a Tua misericórdia perdura para sempre, concedes àqueles a quem perdoas todas as suas dívidas, tornar-se também devedor pelas Tuas promessas.

Recuperaste-me, então, daquela doença, e curaste o filho da Tua serva, por enquanto no corpo, para que ele pudesse viver, para que Tu lhe concedesses uma saúde melhor e mais duradoura. E mesmo então, em Roma, uni-me àqueles "santos" enganadores e enganados; não apenas com os seus discípulos (do número dos quais era aquele em cuja casa eu adoeci e recuperei); mas também com aqueles a quem chamam "Os Eleitos". Pois eu ainda pensava "que não éramos nós que pecávamos, mas que não sei que outra natureza pecava em nós"; e deleitava o meu orgulho estar livre de culpa; e, quando tinha feito qualquer mal, não confessar que o tinha feito, para que Tu pudesses curar a minha alma porque ela tinha pecado contra Ti: mas eu adorava desculpá-lo, e acusar não sei que outra coisa, que estava comigo, mas que eu não era. Mas, na verdade, era inteiramente eu, e a minha impiedade tinha-me dividido contra mim mesmo: e aquele pecado era mais incurável, pelo qual eu não me julgava um pecador; e era uma iniquidade detestável que eu preferisse que Tu, Tu, ó Deus Todo-Poderoso, fosses vencido em mim para a minha destruição, do que eu por Ti para a salvação. Ainda não tinhas Tu posto guarda diante da minha boca, e uma porta de segurança ao redor dos meus lábios, para que o meu coração não se desviasse para discursos iníquos, para fazer desculpas de pecados, com homens que praticam a iniquidade; e, portanto, eu ainda estava unido aos seus Eleitos.

Mas agora, desesperando de fazer progresso naquela falsa doutrina, mesmo aquelas coisas (com as quais, se não encontrasse melhor, tinha resolvido contentar-me) eu agora mantinha mais frouxa e descuidadamente. Pois surgiu em mim um pensamento de que aqueles filósofos, a quem chamam Académicos, eram mais sábios que os restantes, por sustentarem que os homens devem duvidar de tudo, e estabeleciam que nenhuma verdade pode ser compreendida pelo homem: pois assim, não entendendo então sequer o seu significado, eu também estava claramente convencido de que eles pensavam, como são comumente relatados. Contudo, livre e abertamente desencorajei aquele meu anfitrião daquela excessiva confiança que percebi que ele tinha naquelas fábulas, das quais os livros de Maniqueu estão cheios. Ainda assim, vivia numa amizade mais familiar com eles do que com outros que não eram desta heresia. Nem a mantive com o meu antigo entusiasmo; ainda assim, a minha intimidade com aquela seita (Roma albergando secretamente muitos deles) tornava-me mais lento a procurar qualquer outro caminho: especialmente porque eu desesperava de encontrar a verdade, da qual me tinham desviado, na Tua Igreja, ó Senhor do céu e da terra, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis: e parecia-me muito impróprio acreditar que Tu tivesses a forma de carne humana, e fosses limitado pelos lineamentos corporais dos nossos membros. E porque, quando eu desejava pensar no meu Deus, não sabia o que pensar senão uma massa de corpos (pois o que não era tal não me parecia ser nada), esta era a maior, e quase única causa do meu erro inevitável.

Pois daqui eu acreditava que o Mal também era algum tipo de substância, e que tinha o seu próprio volume imundo e hediondo; quer grosseiro, a que chamavam terra, quer fino e subtil (como o corpo do ar), que imaginam ser alguma mente maligna, rastejando através daquela terra. E porque uma piedade, tal como era, me impelia a acreditar que o bom Deus nunca criou nenhuma natureza má, concebi duas massas, contrárias uma à outra, ambas ilimitadas, mas a má mais estreita, a boa mais expansiva. E deste início pestilento, as outras conceções sacrílegas seguiram-se em mim. Pois quando a minha mente se esforçava por recorrer à fé Católica, eu era repelido, uma vez que aquela não era a fé Católica que eu pensava ser. E parecia-me mais reverencial se acreditasse em Ti, meu Deus (a quem as Tuas misericórdias confessam da minha boca), como ilimitado, pelo menos por outros lados, embora naquele em que a massa do mal se opunha a Ti, eu fosse constrangido a confessar-Te limitado; do que se por todos os lados eu Te imaginasse limitado pela forma de um corpo humano. E parecia-me melhor acreditar que Tu não tinhas criado nenhum mal (que para mim, ignorante, parecia não algum apenas, mas uma substância corporal, porque eu não podia conceber mente senão como um corpo subtil, e aquele difundido em espaços definidos), do que acreditar que a natureza do mal, tal como a concebia, pudesse vir de Ti. Sim, e o nosso Salvador Ele próprio, o Teu Unigénito, acreditei ter sido estendido (por assim dizer) para a nossa salvação, da massa da Tua substância mais lúcida, de modo a não acreditar nada d'Ele, senão o que eu pudesse imaginar na minha vaidade. A Sua Natureza então, sendo tal, pensei que não podia ter nascido da Virgem Maria, sem ser misturada com a carne: e como aquilo que eu tinha assim figurado para mim pudesse ser misturado, e não contaminado, eu não via. Temi, portanto, acreditar n'Ele nascido na carne, para que não fosse forçado a acreditar n'Ele contaminado pela carne. Agora, os Teus espirituais sorrirão suave e amorosamente para mim, se lerem estas minhas confissões. Contudo, tal era eu.

Além disso, o que os Maniqueus tinham criticado nas Tuas Escrituras, eu pensava que não podia ser defendido; contudo, por vezes, verdadeiramente, tinha o desejo de conferir sobre estes vários pontos com alguém muito bem versado naqueles livros, e experimentar o que ele pensava sobre isso; pois as palavras de um tal Helpidius, enquanto falava e disputava face a face contra os ditos Maniqueus, tinham começado a mover-me ainda em Cartago: pelo facto de ele ter produzido coisas das Escrituras, não facilmente refutáveis, à resposta dos Maniqueus para as quais me parecia fraca. E esta resposta eles não gostavam de dar publicamente, mas apenas a nós em privado. Era que as Escrituras do Novo Testamento tinham sido corrompidas por não sei quem, que desejava enxertar a lei dos Judeus na fé Cristã: contudo, eles próprios não produziram quaisquer cópias não corrompidas. Mas eu, concebendo apenas coisas corpóreas, era principalmente retido, veementemente oprimido e de certa forma sufocado por aquelas "massas"; ofegante sob as quais, atrás do sopro da Tua verdade, eu não podia respirá-lo puro e imaculado.

Comecei então diligentemente a praticar aquilo para que vim a Roma, ensinar retórica; e primeiro, a reunir alguns na minha casa, a quem, e através de quem, tinha começado a ser conhecido; quando eis que encontrei outras ofensas cometidas em Roma, às quais eu não estava exposto na África. É verdade, aquelas "subversões" por jovens devassos não eram aqui praticadas, como me foi dito: mas de repente, diziam eles, para evitar pagar o estipêndio do seu mestre, um número de jovens conspira em conjunto, e muda-se para outro; transgressores da fé, que por amor ao dinheiro têm a justiça em pouca conta. Estes também o meu coração odiava, embora não com um ódio perfeito: pois talvez eu os odiasse mais porque ia sofrer por causa deles, do que porque faziam coisas totalmente ilegais. Na verdade, tais são pessoas vis, e prostituem-se de Ti, amando estas zombarias fugazes das coisas temporais, e o lucro imundo, que suja a mão que o agarra; abraçando o mundo fugaz, e desprezando-Te, Tu que permaneces, e chamas de volta, e perdoas a alma adúltera do homem, quando ela volta para Ti. E agora odeio tais pessoas depravadas e tortuosas, embora as ame se forem corrigíveis, de modo a preferir ao dinheiro o conhecimento que adquirem, e ao conhecimento, Tu, ó Deus, a verdade e plenitude do bem assegurado, e a paz mais pura. Mas então eu não gostava deles pelo mal, mais por causa de mim mesmo, do que gostava e desejava-lhes o bem por Tua causa.

Quando, portanto, eles de Milão enviaram a Roma ao prefeito da cidade, para que lhes fornecesse um professor de retórica para a sua cidade, e o enviaram à custa pública, eu fiz a candidatura (através dessas mesmas pessoas, embriagadas com vaidades Maniqueias, para ser livre das quais eu ia, nenhum de nós contudo sabendo disso) para que Símaco, então prefeito da cidade, me pusesse à prova definindo-me algum assunto, e assim me enviasse. A Milão cheguei, a Ambrósio, o Bispo, conhecido pelo mundo inteiro como um dos melhores dos homens, o Teu servo devoto; cujo discurso eloquente distribuía então abundantemente ao Teu povo a flor do Teu trigo, a alegria do Teu azeite, e a sobria embriaguez do Teu vinho. A ele fui eu, sem saber, conduzido por Ti, para que por ele pudesse conscientemente ser conduzido a Ti. Aquele homem de Deus recebeu-me como um pai, e mostrou-me uma bondade Episcopal à minha chegada. Daí em diante comecei a amá-lo, a princípio, na verdade, não como um mestre da verdade (que eu desesperava totalmente na Tua Igreja), mas como uma pessoa bondosa para comigo. E escutava diligentemente a sua pregação ao povo, não com a intenção que deveria, mas, por assim dizer, testando a sua eloquência, se correspondia à fama da mesma, ou se fluía mais cheia ou mais baixa do que era relatado; e pendia das suas palavras atentamente; mas quanto ao assunto eu era como um espectador descuidado e desdenhoso; e eu deleitava-me com a doçura do seu discurso, mais recôndita, contudo de maneira menos cativante e harmoniosa, do que a de Fausto. Quanto ao assunto, contudo, não havia comparação; pois um vagueava entre delírios Maniqueus, o outro ensinando a salvação mais sadiamente. Mas a salvação está longe dos pecadores, tais como eu estava então diante dele; e contudo eu estava me aproximando pouco a pouco, e inconscientemente.

Pois embora eu não me esforçasse por aprender o que ele dizia, mas apenas ouvir como ele dizia (pois aquele cuidado vazio apenas me restava, desesperando de um caminho, aberto para o homem, para Ti), contudo, juntamente com as palavras que eu escolheria, vinham também à minha mente as coisas que eu recusaria; pois eu não as podia separar. E enquanto eu abria o meu coração para admitir "quão eloquentemente ele falava", entrou também "quão verdadeiramente ele falava"; mas isto por graus. Pois primeiro, estas coisas também tinham começado a parecer-me capazes de defesa; e a fé Católica, para a qual eu pensava que nada podia ser dito contra as objeções dos Maniqueus, agora pensava que podia ser mantida sem sem-vergonhice; especialmente depois de ter ouvido um ou dois lugares do Antigo Testamento resolvidos, e muitas vezes "em figura", o que, quando eu entendia literalmente, eu era morto espiritualmente. Muitos lugares, então, daqueles livros tendo sido explicados, eu agora culpava o meu desespero, em acreditar que nenhuma resposta podia ser dada a tais que odiavam e zombavam da Lei e dos Profetas. Contudo, não vi, portanto, então que o caminho Católico devia ser mantido, porque ele também podia encontrar defensores doutos, que podiam largamente e com alguma aparência de razão responder às objeções; nem que o que eu mantinha devia por isso ser condenado, porque ambos os lados podiam ser mantidos. Pois a causa Católica parecia-me de tal modo não vencida, como ainda não vitoriosa.

Com isto, inclinei seriamente a minha mente, para ver se de alguma forma eu poderia por alguma prova certa convencer os Maniqueus de falsidade. Pudesse eu uma vez conceber uma substância espiritual, todas as suas fortalezas teriam sido derrubadas, e lançadas totalmente para fora da minha mente; mas eu não podia. Não obstante, quanto à estrutura deste mundo, e a totalidade da natureza, que os sentidos da carne podem alcançar, à medida que eu mais e mais considerava e comparava as coisas, julguei os dogmas da maioria dos filósofos terem sido muito mais prováveis. Assim, então, à maneira dos Académicos (como se supõe) duvidando de tudo, e oscilando entre todos, estabeleci-me até ao ponto de que os Maniqueus deviam ser abandonados; julgando que, mesmo enquanto duvidando, eu não podia continuar naquela seita, à qual eu já preferia alguns dos filósofos; aos quais filósofos, contudo, por serem sem o Nome salvador de Cristo, eu recusava totalmente confiar a cura da minha alma doente. Determinei, portanto, ser catecúmeno na Igreja Católica, à qual eu tinha sido recomendado pelos meus pais, até que algo certo surgisse para mim, para onde eu pudesse dirigir o meu curso.

Ó Tu, minha esperança desde a juventude, onde estavas Tu para mim, e para onde havias ido? Não me havias Tu criado, e separado das feras do campo e das aves do céu? Havias-me feito mais sábio, contudo eu caminhava em trevas e em lugares escorregadios, e buscava-Te fora de mim mesmo, e não encontrava o Deus do meu coração; e tinha entrado nas profundezas do mar, e desconfiava e desesperava de jamais encontrar a verdade. Minha mãe tinha agora vindo a mim, resoluta pela piedade, seguindo-me por mar e terra, em todos os perigos confiando em Ti. Pois, nos perigos do mar, ela consolava os próprios marinheiros (pelos quais os passageiros não acostumados ao abismo costumam ser mais consolados quando perturbados), assegurando-lhes uma chegada a salvo, porque Tu a havias assegurado disso por uma visão. Ela encontrou-me em grave perigo, por desespero de jamais encontrar a verdade. Mas, quando lhe revelei que eu não era mais um maniqueu, embora ainda não um cristão católico, ela não se rejubilou como por algo inesperado; embora estivesse agora assegurada a respeito daquela parte da minha miséria, pela qual ela me pranteava como a um morto, embora a ser despertado por Ti, carregando-me para fora sobre o esquife dos seus pensamentos, para que Tu pudesses dizer ao filho da viúva: Jovem, eu te digo, levanta-te; e ele revivesse, e começasse a falar, e Tu o entregasses à sua mãe. O coração dela, então, não foi abalado por nenhuma exultação tumultuosa, quando ouviu que aquilo que ela diariamente desejava de Ti com lágrimas estava já em tão grande parte realizado; pois, embora eu ainda não houvesse alcançado a verdade, eu fora resgatado da falsidade; mas, como estando assegurada de que Tu, que havias prometido o todo, darias um dia o restante, muito calmamente, e com um coração cheio de confiança, ela respondeu-me: "Ela acreditava em Cristo, que antes de partir desta vida, ela me veria um crente católico." Isto quanto a mim. Mas a Ti, Fonte de misericórdias, derramou ela orações e lágrimas mais copiosas, para que Tu apressasses o Teu auxílio e iluminasses as minhas trevas; e ela apressava-se com mais avidez à Igreja, e pendia dos lábios de Ambrósio, orando pela fonte daquela água que salta para a vida eterna. Mas aquele homem ela amava como a um anjo de Deus, porque sabia que por ele eu tinha sido levado, por ora, àquele estado duvidoso de fé em que eu me encontrava, através do qual ela antecipava, com a maior confiança, que eu passaria da doença para a saúde, após o acesso, por assim dizer, de um mal mais agudo, ao qual os médicos chamam de "a crise".

Quando, pois, minha mãe tinha, como era seu costume na África, trazido às Igrejas construídas em memória dos Santos, certos bolos, e pão e vinho, e foi proibida pelo porteiro; tão logo soube que o Bispo havia proibido isto, ela abraçou os desejos dele tão piedosa e obedientemente, que eu mesmo me maravilhei de quão prontamente ela censurou a sua própria prática, em vez de discutir a proibição dele. Pois a embriaguez não sitiava o seu espírito, nem o amor ao vinho provocava-a ao ódio da verdade, como faz a tantos (tanto homens quanto mulheres), que se revoltam contra uma lição de sobriedade, como homens ébrios contra um gole misturado com água. Mas ela, quando trazia o seu cesto com o alimento festivo habitual, para ser apenas provado por ela mesma e depois doado, nunca juntava a ele mais do que um pequeno copo de vinho, diluído de acordo com os seus próprios hábitos abstêmios, o qual, por cortesia, ela provava. E se houvesse muitas igrejas dos santos falecidos que devessem ser honradas daquela maneira, ela ainda carregava consigo aquele mesmo copo, para ser usado em toda parte; e este, ainda que não apenas muito aguado, mas desagradavelmente aquecido pelo transporte, ela distribuía aos que estavam ao seu redor em pequenos goles; pois ela buscava ali a devoção, não o prazer. Tão logo, pois, ela descobriu que este costume era proibido por aquele famoso pregador e prelado piedosíssimo, mesmo àqueles que o usariam sobriamente, para que uma ocasião de excesso não fosse dada aos ébrios; e porque essas solenes comemorações funerárias, por assim dizer, assemelhavam-se muito à superstição dos gentios, ela absteve-se dele de boa vontade: e, por um cesto cheio de frutos da terra, ela aprendera a levar às Igrejas dos mártires um peito cheio de petições mais purificadas, e a dar o que podia aos pobres; para que assim a comunicação do Corpo do Senhor pudesse ser ali corretamente celebrada, onde, seguindo o exemplo da Sua Paixão, os mártires tinham sido sacrificados e coroados. Mas ainda assim me parece, ó Senhor meu Deus, e assim pensa o meu coração a respeito disso diante da Tua face, que talvez ela não tivesse cedido tão prontamente ao corte desse costume, se ele tivesse sido proibido por outro, a quem ela não amasse como a Ambrósio, a quem, para a minha salvação, ela amava inteiramente; e ele a ela, por sua conduta religiosíssima, pela qual, em boas obras, tão fervorosa de espírito, ela era constante na igreja; de modo que, quando ele me via, irrompia frequentemente em louvores a ela, parabenizando-me por ter tal mãe; não sabendo que filho ela tinha em mim, que duvidava de todas essas coisas, e imaginava que o caminho para a vida não podia ser encontrado.

Nem eu ainda gemia em minhas orações, para que Tu me ajudasses; mas meu espírito estava totalmente atento ao aprendizado, e inquieto para disputar. E o próprio Ambrósio, como o mundo considera feliz, eu estimava um homem feliz, a quem personagens tão grandes tinham em tamanha honra; apenas o seu celibato parecia-me um curso penoso. Mas que esperança ele carregava dentro de si, que lutas ele travava contra as tentações que assediavam as suas próprias excelências, ou que conforto em adversidades, e que doces alegrias o Teu Pão tinha para a boca oculta do seu espírito, ao ruminá-lo, eu não poderia conjecturar, nem tinha experimentado. Nem ele conhecia as marés dos meus sentimentos, ou o abismo do meu perigo. Pois eu não podia perguntar-lhe o que eu queria como eu queria, sendo excluído tanto do seu ouvido quanto da sua fala por multidões de pessoas ocupadas, cujas fraquezas ele servia. Com quem, quando ele não estava ocupado (o que era apenas por pouco tempo), ou ele estava refrescando o seu corpo com o sustento absolutamente necessário, ou a sua mente com a leitura. Mas quando ele estava lendo, o seu olhar deslizava pelas páginas, e o seu coração perscrutava o sentido, mas a sua voz e a sua língua estavam em repouso. Muitas vezes, quando tínhamos vindo (pois a ninguém era proibido entrar, nem era costume que qualquer um que viesse fosse anunciado a ele), víamo-lo lendo assim para si mesmo, e nunca de outro modo; e tendo ficado muito tempo em silêncio (pois quem ousaria intrudir-se em alguém tão atento?), retirávamo-nos, conjecturando que, no pequeno intervalo que ele obtinha, livre do ruído dos negócios alheios, para o revigoramento da sua mente, ele não queria ser interrompido; e talvez ele temesse que, se o autor que ele lia entregasse algo obscuramente, algum ouvinte atento ou perplexo desejasse que ele o explicasse, ou que discutisse algumas das questões mais difíceis; de modo que, sendo o seu tempo assim gasto, ele não poderia folhear tantos volumes quanto desejava; embora a preservação da sua voz (que um pouco de fala enfraqueceria) pudesse ser a razão mais verdadeira para ele ler para si mesmo. Mas com que intenção que ele o fizesse, certamente em tal homem era bom.

Eu, contudo, certamente não tive oportunidade de indagar o que eu desejava daquele oráculo Teu tão santo, o peito dele, a menos que a coisa pudesse ser respondida brevemente. Mas aquelas marés em mim, a serem derramadas a ele, exigiam o seu pleno lazer, e nunca o encontravam. Eu o ouvia, de fato, a cada dia do Senhor, expondo corretamente a Palavra da verdade entre o povo; e eu estava cada vez mais convencido de que todos os nós daquelas astutas calúnias, que aqueles nossos enganadores tinham tecido contra os Livros Divinos, podiam ser desenredados. Mas quando entendi, além disso, que "o homem criado por Ti, à Tua própria imagem", não era assim entendido pelos Teus filhos espirituais, a quem da Mãe Católica Tu havias gerado de novo através da graça, como se eles acreditassem e concebessem de Ti como limitado por uma forma humana (embora do que deveria ser uma substância espiritual eu não tivesse sequer uma noção tênue ou sombria); contudo, com alegria eu corei por ter, por tantos anos, latido não contra a fé Católica, mas contra as ficções de imaginações carnais. Pois tão temerário e ímpio eu tinha sido, que o que eu deveria ter aprendido indagando, eu tinha pronunciado sobre, condenando. Pois Tu, Altíssimo, e mais próximo; mais secreto, e mais presente; que não tens membros uns maiores, outros menores, mas és totalmente em toda parte, e em lugar nenhum no espaço, não és de tal forma corpórea, ainda assim fizeste o homem à Tua própria imagem; e eis que, da cabeça aos pés, ele é contido no espaço.

Ignorante, então, de como essa Tua imagem deveria subsistir, eu deveria ter batido e proposto a dúvida, de como ela deveria ser acreditada, não me oposto insultuosamente, como se acreditada. A dúvida, então, sobre o que manter como certo, roía o meu coração tanto mais agudamente, quanto mais envergonhado eu ficava, por ter, durante tanto tempo iludido e enganado pela promessa de certezas, falado com erro e veemência infantis sobre tantas incertezas. Pois que elas eram falsidades tornou-se claro para mim mais tarde. Contudo, eu estava certo de que elas eram incertas, e que eu as tinha anteriormente considerado certas, quando, com uma contenciosidade cega, eu acusava a Tua Igreja Católica, a quem eu agora descobria, não de fato ainda ensinar verdadeiramente, mas pelo menos não ensinar aquilo pelo que eu a tinha gravemente censurado. Assim, eu fui confundido, e convertido: e rejubilei, ó meu Deus, que a Única e Só Igreja, o corpo do Teu Filho Único (no qual o nome de Cristo tinha sido posto sobre mim quando infante), não tinha gosto por conceitos infantis; nem na sua sã doutrina mantinha qualquer princípio que devesse confinar-Te, o Criador de tudo, no espaço, por maior e mais vasto que fosse, contudo limitado em toda parte pelos limites de uma forma humana.

Rejubilei também que as antigas Escrituras da lei e dos Profetas fossem colocadas diante de mim, não mais para serem perscrutadas com aquele olhar para o qual antes pareciam absurdas, quando eu injuriava os Teus santos por assim pensarem, ao passo que, na verdade, eles não pensavam assim: e com alegria eu ouvia Ambrósio, nos seus sermões ao povo, frequentemente recomendar com a maior diligência este texto como regra: A letra mata, mas o Espírito vivifica; enquanto ele afastava o véu místico, expondo espiritualmente o que, de acordo com a letra, parecia ensinar algo destituído de fundamento; ensinando aqui nada que me ofendesse, embora ele ensinasse o que eu ainda não sabia se era verdade. Pois eu mantinha o meu coração de assentir a qualquer coisa, temendo cair de cabeça; mas, ao ficar em suspenso, eu era piormente morto. Pois eu desejava estar tão assegurado das coisas que eu não via, quanto eu estava de que sete e três são dez. Pois eu não era tão louco a ponto de pensar que nem mesmo isto podia ser compreendido; mas eu desejava ter outras coisas tão claras quanto esta, fossem coisas corpóreas, que não estavam presentes aos meus sentidos, ou espirituais, das quais eu não sabia como conceber, exceto corpóreamente. E, acreditando, eu poderia ter sido curado, para que assim a visão da minha alma, sendo limpa, pudesse de alguma forma ser dirigida à Tua verdade, que permanece sempre, e em parte alguma falha. Mas, como acontece que alguém que experimentou um mau médico teme confiar-se a um bom, assim foi com a saúde da minha alma, que não podia ser curada senão acreditando, e, para que não acreditasse em falsidades, recusava ser curada; resistindo às Tuas mãos, Tu que preparaste os remédios da fé, e os aplicaste às doenças de todo o mundo, e lhes deste tamanha autoridade.

Sendo levado, contudo, a partir disto, a preferir a doutrina Católica, senti que o seu procedimento era mais despretensioso e honesto, na medida em que ela exigia que fossem acreditadas coisas não demonstradas (fosse porque elas poderiam em si mesmas ser demonstradas, mas não a certas pessoas, ou não poderiam de forma alguma), ao passo que, entre os maniqueus, a nossa credulidade era zombada por uma promessa de conhecimento certo, e então tantas coisas fabulosas e absurdas eram impostas para serem acreditadas, porque não podiam ser demonstradas. Então Tu, ó Senhor, pouco a pouco, com a mão mais terna e mais misericordiosa, tocando e compondo o meu coração, persuadiste-me — considerando quantas inumeráveis coisas eu acreditava, que eu não via, nem estava presente enquanto eram feitas, como tantas coisas na história secular, tantos relatos de lugares e de cidades, que eu não tinha visto; tantos de amigos, tantos de médicos, tantos continuamente de outros homens, que, a menos que acreditássemos, não faríamos nada de todo nesta vida; por último, com quão inabalável certeza eu acreditava de quais pais eu nasci, o que eu não poderia saber, se não tivesse acreditado por ouvir dizer — considerando tudo isto, Tu persuadiste-me de que não aqueles que acreditavam nos Teus Livros (que Tu estabeleceste em tamanha autoridade entre quase todas as nações), mas aqueles que não acreditavam neles, é que deviam ser culpados; e que não deveriam ser ouvidos aqueles que me dissessem: "Como sabes que essas Escrituras foram transmitidas à humanidade pelo Espírito do único verdadeiro e veracíssimo Deus?" Pois esta própria coisa era, de todas, a mais digna de ser acreditada, uma vez que nenhuma contenciosidade de questionamentos blasfemos, de toda aquela multidão que eu tinha lido nos filósofos contraditórios, podia arrancar de mim esta crença: "Que Tu és" qualquer coisa que fosses (o que eu não sabia), e "Que o governo das coisas humanas pertence a Ti."

Nisto eu acreditava, às vezes mais fortemente, outras vezes mais fracamente; contudo eu sempre acreditava tanto que Tu eras, quanto que tinhas cuidado de nós; embora eu fosse ignorante, tanto sobre o que deveria ser pensado da Tua substância, quanto sobre que caminho levava ou trazia de volta a Ti. Visto que, então, éramos muito fracos por raciocínios abstratos para encontrar a verdade: e por esta própria causa precisávamos da autoridade da Sagrada Escritura; eu tinha agora começado a acreditar que Tu nunca terias dado tamanha excelência de autoridade àquela Escritura em todas as terras, se não tivesses querido, por meio dela, ser acreditado, por meio dela buscado. Pois agora, as coisas que, soando estranhamente na Escritura, costumavam ofender-me, tendo ouvido várias delas explicadas satisfatoriamente, eu as remeti à profundidade dos mistérios, e a sua autoridade apareceu-me mais venerável, e mais digna de crença religiosa, na medida em que, enquanto ela se abria a todos para ler, ela reservava a majestade dos seus mistérios dentro do seu significado mais profundo, curvando-se a todos na grande clareza das suas palavras e humildade do seu estilo, contudo invocando a aplicação mais intensa daqueles que não são leves de coração; para que assim ela pudesse receber a todos no seu seio aberto, e, através de passagens estreitas, transportar para Ti alguns poucos, ainda assim muito mais do que se ela não estivesse elevada em tal altura de autoridade, nem atraísse multidões para dentro do seu seio pela sua santa humildade. Estas coisas eu meditava, e Tu estavas comigo; eu suspirava, e Tu ouvias-me; eu vacilava, e Tu guiavas-me; eu vagava pelo caminho largo do mundo, e Tu não me abandonavas.

Eu ofegava por honras, ganhos, casamento; e Tu escarnecias de mim. Nestes desejos, sofri cruzas amarguíssimas, sendo Tu tanto mais gracioso, quanto menos permitias que qualquer coisa se tornasse doce para mim, que não fosses Tu. Contempla o meu coração, ó Senhor, Tu que querias que eu me lembrasse de tudo isto, e confessasse a Ti. Que a minha alma se apegue a Ti, agora que Tu a libertaste daquele visgo da morte que a prendia firmemente. Quão miserável ela era! E Tu irritaste a sensação da sua ferida, para que, abandonando tudo o mais, ela pudesse ser convertida a Ti, que estás acima de tudo, e sem o qual todas as coisas seriam nada; ser convertida, e ser curada. Quão miserável eu era então, e como Tu agiste comigo, para me fazer sentir a minha miséria naquele dia, quando eu estava me preparando para recitar um panegírico do Imperador, no qual eu deveria proferir muita mentira, e mentindo, deveria ser aplaudido por aqueles que sabiam que eu mentia, e o meu coração ofegava com essas ansiedades, e fervia com a febre de pensamentos consumantes. Pois, passando por uma das ruas de Milão, observei um mendigo pobre, então, suponho, com a barriga cheia, brincando e alegre: e eu suspirei, e falei aos amigos ao meu redor, das muitas tristezas das nossas frenesis; pois que, por todos esses esforços nossos, como aqueles em que eu então labutava arrastando, sob o aguilhão do desejo, o fardo da minha própria miséria, e, ao arrastá-lo, aumentando-a, nós ainda esperávamos chegar apenas àquela mesma alegria a que aquele mendigo tinha chegado antes de nós, a qual talvez ele jamais alcançaria. Pois o que ele tinha obtido por meio de alguns poucos centavos mendigados, o mesmo eu estava tramando por muitas voltas e reviravoltas penosas; a alegria de uma felicidade temporária. Pois ele, na verdade, não tinha a verdadeira alegria; mas ainda assim eu, com aqueles meus desígnios ambiciosos, buscava uma muito menos verdadeira. E certamente ele estava alegre, eu ansioso; ele livre de cuidados, eu cheio de medos. Mas se alguém me perguntasse, preferiria eu estar alegre ou temeroso? Eu responderia alegre. Novamente, se ele perguntasse se eu preferiria ser tal como ele era, ou o que eu era então? Eu escolheria ser eu mesmo, embora desgastado por cuidados e medos; mas por um juízo errado; pois, seria a verdade? Pois eu não deveria preferir-me a ele, por ser mais instruído do que ele, vendo que eu não tinha alegria nisso, mas buscava agradar aos homens por meio disso; e isso não para instruir, mas simplesmente para agradar. Pelo que também Tu quebraste os meus ossos com a vara da Tua correção.

Para longe, então, da minha alma aqueles que dizem a ela: "Faz diferença de onde vem a alegria de um homem. Aquele mendigo alegrava-se na embriaguez; Tu desejavas alegrar-te na glória." Que glória, Senhor? Aquela que não está em Ti. Pois, assim como a dele não era uma alegria verdadeira, assim aquela não era uma glória verdadeira: e ela derrubou a minha alma ainda mais. Ele, naquela mesma noite, digeriria a sua embriaguez; mas eu tinha dormido e me levantado novamente com a minha, e deveria dormir novamente, e novamente levantar-me com ela, por quantos dias, Tu, Deus, sabes. Mas "faz diferença de onde vem a alegria de um homem." Eu sei disso, e a alegria de uma esperança fiel jaz incomparavelmente além de tal vaidade. Sim, e assim estava ele então além de mim: pois ele, na verdade, era o mais feliz; não apenas porque estava completamente encharcado de alegria, e eu desventrado com cuidados: mas ele, por desejos justos, tinha obtido vinho; eu, mentindo, buscava um louvor vazio e inchado. Muito sobre este propósito eu disse então aos meus amigos: e eu frequentemente notava neles como ia comigo; e descobri que ia mal comigo, e entristecia-me, e dobrava esse próprio mal; e se qualquer prosperidade sorria para mim, eu hesitava em capturá-la, pois quase antes que eu pudesse agarrá-la, ela voava para longe.

Estas coisas nós, que vivíamos juntos como amigos, lamentávamos juntos, mas principalmente e mais familiarmente falava disso com Alípio e Nebrídio, dos quais Alípio era nascido na mesma cidade que eu, de pessoas de alta linhagem ali, mas mais jovem que eu. Pois ele estudara sob mim, tanto quando primeiro lecionei em nossa cidade, quanto depois em Cartago, e amava-me muito, porque eu lhe parecia bondoso e culto; e eu a ele, pela sua grande disposição para a virtude, que era bastante eminente em alguém de pouca idade. Contudo, o turbilhão dos hábitos cartagineses (entre os quais aqueles espetáculos ociosos são calorosamente seguidos) arrastara-o para a loucura do Circo. Mas enquanto ele era miseravelmente agitado nele, e eu, professando retórica ali, tinha uma escola pública, ele ainda não usava o meu ensino, devido a algum desentendimento surgido entre seu pai e mim. Eu descobrira então quão mortalmente ele se deixava levar pelo Circo, e estava profundamente entristecido por ele parecer inclinado, ou melhor, ter desperdiçado tão grande promessa: contudo, eu não tinha meios de aconselhá-lo ou, com uma espécie de constrangimento, reclamá-lo, seja pela bondade de um amigo, ou pela autoridade de um mestre. Pois eu supunha que ele pensava de mim como o seu pai; mas ele não era tal; deixando de lado então o pensamento de seu pai naquela matéria, ele começou a cumprimentar-me, a vir às vezes à minha sala de aula, a ouvir um pouco e a ir embora.

Eu, todavia, esquecera-me de tratar com ele para que não, através de um desejo cego e precipitado de vaidosos passatempos, desfizesse um tão bom engenho. Mas Tu, ó Senhor, que guias o curso de tudo o que criaste, não Te esqueceras dele, que um dia estaria entre os Teus filhos, Sacerdote e Dispensador do Teu Sacramento; e para que a sua correção pudesse claramente ser atribuída a Ti, Tu a efetuaste através de mim, sem que eu o soubesse. Pois, como um dia eu estava sentado no meu lugar habitual, com os meus alunos diante de mim, ele entrou, cumprimentou-me, sentou-se e aplicou a sua mente ao que eu então tratava. Eu tinha por acaso uma passagem em mãos, a qual, enquanto explicava, ocorreu-me uma semelhança das corridas circenses, como provável de tornar o que eu queria transmitir mais agradável e claro, temperada com mordaz zombaria daqueles a quem aquela loucura escravizara; Deus, Tu sabes que eu então não pensava em curar Alípio daquela infecção. Mas ele tomou-a inteiramente para si, e pensou que eu a dissera simplesmente por causa dele. E de onde outro teria tomado ocasião de ofensa comigo, aquele jovem de mente reta tomou como fundamento para se ofender consigo mesmo, e amar-me mais fervorosamente. Pois Tu o tinhas dito há muito tempo, e colocado no Teu livro: repreende um sábio e ele te amará. Mas eu não o tinha repreendido, mas Tu, que empregas a todos, sabendo ou não, naquela ordem que Tu mesmo conheces (e essa ordem é justa), fizeste do meu coração e língua brasas ardentes, pelas quais incendiar a mente esperançosa, assim definhando, e então curá-la. Que se cale nos Teus louvores quem não considera as Tuas misericórdias, que confessam a Ti da minha alma mais íntima. Pois ele, após aquele discurso, irrompeu daquela cova tão profunda, na qual estava voluntariamente mergulhado, e estava cego com os seus miseráveis passatempos; e ele sacudiu a sua mente com um forte autocontrole; pelo que todas as imundícies dos passatempos circenses voaram dele, nem voltou mais lá. Após isso, ele prevaleceu com seu pai relutante para que pudesse ser meu aluno. Ele cedeu, e rendeu-se. E Alípio, começando a ser meu ouvinte novamente, envolveu-se na mesma superstição comigo, amando nos maniqueus aquela aparência de continência que ele supunha verdadeira e não fingida. Sendo que era uma continência insensata e sedutora, que enreda almas preciosas, incapazes ainda de alcançar a profundidade da virtude, mas prontamente enganadas com a superfície do que era apenas uma virtude sombria e falsificada.

Ele, não abandonando aquele curso secular que os seus pais o tinham encantado a seguir, tinha ido antes de mim para Roma, para estudar direito, e lá foi levado incrivelmente com uma incrível avidez pelos espetáculos de gladiadores. Pois, sendo completamente avesso e detestando espetáculos, foi um dia por acaso encontrado por diversos dos seus conhecidos e colegas de estudo vindo do jantar, e eles, com uma violência familiar, arrastaram-no, veementemente recusando e resistindo, para o Anfiteatro, durante esses cruéis e mortais espetáculos, ele protestando assim: "Embora arrasteis o meu corpo para esse lugar, e lá me coloqueis, podeis forçar-me também a voltar a minha mente ou os meus olhos para esses espetáculos? Estarei então ausente enquanto presente, e assim superarei tanto a vós quanto a eles." Eles, ouvindo isto, conduziram-no todavia, desejosos talvez de tentar essa mesma coisa, se ele poderia fazer como dissera. Quando chegaram lá, e tomaram os seus lugares como podiam, o lugar inteiro inflamou-se com aquele passatempo selvagem. Mas ele, fechando a passagem dos seus olhos, proibiu a sua mente de vaguear para fora atrás de tal mal; e oxalá tivesse tapado os seus ouvidos também! Pois, na luta, quando um caiu, um poderoso grito de todo o povo atingindo-o fortemente, vencido pela curiosidade, e como se preparado para desprezar e ser superior a isso, fosse o que fosse, mesmo quando visto, ele abriu os olhos, e foi atingido com uma ferida mais profunda na sua alma do que o outro, que ele desejava contemplar, foi no seu corpo; e ele caiu mais miseravelmente do que aquele sobre cuja queda foi levantado aquele poderoso ruído, que entrou através dos seus ouvidos, e destrancou os seus olhos, para abrir caminho para o golpe e abatimento de uma alma, ousada antes que resoluta, e a mais fraca, por ter presumido de si mesma, a qual deveria ter confiado em Ti. Pois, assim que ele viu aquele sangue, bebeu com ele a selvageria; nem se desviou, mas fixou o olhar, bebendo frenesi, sem saber, e deleitou-se com aquela luta culpada, e embriagou-se com o passatempo sangrento. Nem era ele agora o homem que veio, mas um da multidão para onde veio, sim, um verdadeiro associado daqueles que o trouxeram para lá. Por que dizer mais? Ele contemplou, gritou, inflamou-se, levou dali consigo a loucura que o incitaria a voltar não apenas com eles que primeiro o arrastaram para lá, mas também antes deles, sim e a atrair outros. Contudo, dali Tu, com uma mão fortíssima e misericordiosíssima, arrancaste-o, e ensinaste-o a ter confiança não em si mesmo, mas em Ti. Mas isto foi depois.

Mas isto já estava sendo armazenado na sua memória para ser um remédio futuramente. Assim foi também isto, que quando ele ainda estudava sob mim em Cartago, e estava pensando ao meio-dia na praça do mercado sobre o que deveria dizer de cor (como os estudantes costumam praticar), Tu permitiste que ele fosse apreendido pelos oficiais da praça como um ladrão. Por nenhuma outra causa, eu creio, Tu o permitiste, nosso Deus, senão para que aquele que futuramente provaria ser um tão grande homem, já começasse a aprender que, ao julgar causas, o homem não deveria ser prontamente condenado por um homem por uma credulidade precipitada. Pois, enquanto ele caminhava de um lado para o outro sozinho diante do tribunal, com o seu caderno e caneta, eis que um jovem, um advogado, o verdadeiro ladrão, trazendo furtivamente um machado, entrou, despercebido por Alípio, até às grades de chumbo que cercam as lojas dos ourives, e começou a cortar o chumbo. Mas o ruído do machado sendo ouvido, os ourives lá embaixo começaram a fazer alvoroço, e enviaram para apreender quem quer que encontrassem. Mas ele, ouvindo as vozes deles, fugiu, deixando o seu machado, temendo ser pego com ele. Alípio agora, que não o vira entrar, percebeu a sua partida, e viu com que velocidade ele se afastava. E sendo desejoso de saber o assunto, entrou no local; onde, encontrando o machado, estava parado, admirando-o e considerando-o, quando eis que aqueles que tinham sido enviados encontram-no sozinho com o machado na mão, cujo ruído os tinha assustado e trazido para lá. Eles agarram-no, arrastam-no, e reunindo os habitantes da praça, vangloriam-se de ter tomado um ladrão notório, e assim ele estava sendo levado para ser conduzido perante o juiz.

Mas até aqui Alípio deveria ser instruído. Pois imediatamente, ó Senhor, Tu socorreste a sua inocência, da qual Tu somente eras testemunha. Pois, enquanto ele estava sendo levado seja para a prisão ou para o castigo, um certo arquiteto encontrou-os, que tinha o encargo principal dos edifícios públicos. Ficaram contentes por encontrá-lo especialmente, por quem costumavam ser suspeitos de roubar os bens perdidos fora da praça, como se para mostrar-lhe finalmente por quem esses roubos eram cometidos. Ele, todavia, tinha visto diversas vezes Alípio na casa de um certo senador, a quem muitas vezes ia para apresentar os seus respeitos; e reconhecendo-o imediatamente, tomou-o de lado pela mão, e indagando a ocasião de tão grande calamidade, ouviu todo o assunto, e ordenou a todos os presentes, em meio a muito alvoroço e ameaças, que fossem com ele. Assim, chegaram à casa do jovem que tinha cometido o ato. Lá, diante da porta, estava um menino tão jovem a ponto de ser provável, não temendo qualquer dano ao seu mestre, que revelasse tudo. Pois ele tinha acompanhado o seu mestre à praça. A quem, assim que Alípio lembrou, disse ao arquiteto: e ele, mostrando o machado ao menino, perguntou-lhe "De quem era aquele?" "Nosso", disse ele prontamente: e sendo mais questionado, descobriu tudo. Assim, o crime sendo transferido para aquela casa, e a multidão envergonhada, que começara a insultar Alípio, ele, que deveria ser um dispensador da Tua Palavra, e um examinador de muitas causas na Tua Igreja, foi embora mais experiente e instruído.

A ele, então, eu tinha encontrado em Roma, e ele apegou-se a mim por um laço fortíssimo, e foi comigo para Milão, tanto para que não me deixasse, quanto para que pudesse praticar algo do direito que estudara, mais para agradar aos seus pais do que a si mesmo. Lá ele tinha três vezes sentado como Assessor, com uma incorruptibilidade muito admirada pelos outros, ele admirando os outros mais que podiam preferir o ouro à honestidade. O seu caráter foi provado além disso, não apenas com a isca da cobiça, mas com o aguilhão do medo. Em Roma ele era Assessor do conde do Tesouro Italiano. Havia naquela época um senador muito poderoso, a cujos favores muitos estavam em dívida, muitos temiam muito. Ele queria, pelo seu poder habitual, ter uma coisa permitida que pelas leis era não permitida. Alípio resistiu a isso: um suborno foi prometido; com todo o seu coração ele desprezou-o: ameaças foram feitas; ele pisou nelas: todos admirando tão inusitado espírito, que nem desejava a amizade, nem temia a inimizade de alguém tão grande e tão poderosamente renomado por inúmeros meios de fazer o bem ou o mal. E o próprio juiz, de quem Alípio era conselheiro, embora também relutante em que fosse, contudo não recusou abertamente, mas adiou o assunto para Alípio, alegando que ele não o deixaria fazê-lo: pois, na verdade, se o juiz o tivesse feito, Alípio teria decidido de outra forma. Com esta única coisa no caminho do aprendizado ele foi quase seduzido, que poderia ter livros copiados para ele a preços pretorianos, mas, consultando a justiça, ele alterou a sua deliberação para melhor; estimando a equidade pela qual ele era impedido mais proveitosa do que o poder pelo qual ele seria permitido. Estas são coisas ligeiras, mas aquele que é fiel no pouco, também é fiel no muito. Nem pode aquilo de algum modo ser vão, que procedeu da boca da Tua Verdade: Se não fostes fiéis no Mamom injusto, quem vos confiará as verdadeiras riquezas? E se não fostes fiéis no que é de outro homem, quem vos dará o que é vosso? Ele, sendo tal, naquele tempo apegava-se a mim, e comigo vacilava em propósito, que curso de vida deveria ser tomado.

Nebrídio também, que tendo deixado a sua terra natal perto de Cartago, sim e a própria Cartago, onde tinha vivido muito, deixando a sua excelente família-propriedade e casa, e uma mãe para trás, que não o seguiria, tinha vindo para Milão, por nenhuma outra razão senão que comigo pudesse viver em uma busca ardentíssima pela verdade e sabedoria. Como eu ele suspirava, como eu ele vacilava, um ardente buscador pela verdadeira vida, e um examinador agudíssimo das questões mais difíceis. Assim estavam as bocas de três pessoas indigentes, suspirando as suas necessidades umas para as outras, e esperando por Ti que Tu lhes desses o seu alimento no devido tempo. E em toda a amargura que pela Tua misericórdia seguiu os nossos negócios mundanos, enquanto olhávamos para o fim, por que deveríamos sofrer tudo isto, a escuridão encontrou-nos; e virávamo-nos gemendo, e dizendo, Até quando serão estas coisas? Isto também dizíamos muitas vezes; e assim dizendo não os abandonávamos, pois ainda não amanhecera nada de certo, que, estes abandonados, pudéssemos abraçar.

E eu, vendo e revendo coisas, admirava-me mais com o tempo decorrido desde aquele meu décimo nono ano, em que tinha começado a inflamar-me com o desejo de sabedoria, estabelecendo que, quando a encontrasse, abandonaria todas as esperanças vazias e frenesis mentirosos de desejos vãos. E eis que eu estava agora no meu trigésimo ano, preso no mesmo lodo, ávido de desfrutar coisas presentes, que passavam e consumiam a minha alma; enquanto dizia a mim mesmo: "Amanhã eu a encontrarei; ela aparecerá manifestamente e eu a agarrarei; eis que Fausto, o maniqueu, virá, e esclarecerá tudo! Ó vós grandes homens, vós Acadêmicos, é verdade então, que nenhuma certeza pode ser alcançada para a ordenação da vida! Não, vamos pesquisar mais diligentemente, e não desesperar. Eis que coisas nos livros eclesiásticos não são absurdas para nós agora, que por vezes pareciam absurdas, e podem ser tomadas de outra forma, e em um bom sentido. Eu tomarei o meu lugar, onde, como uma criança, os meus pais me colocaram, até que a verdade clara seja encontrada. Mas onde será buscada ou quando? Ambrósio não tem lazer; nós não temos lazer para ler; onde encontraremos até os livros? De onde, ou quando obtê-los? De quem emprestá-los? Que tempos definidos sejam marcados, e horas certas sejam ordenadas para a saúde da nossa alma. Grande esperança amanheceu; a Fé Católica não ensina o que pensávamos, e vãmente a acusávamos; os seus membros instruídos consideram profano acreditar que Deus seja limitado pela figura de um corpo humano: e duvidamos nós de 'bater', para que o resto 'possa ser aberto'? As manhãs os nossos alunos ocupam; que fazemos durante o resto? Por que não isto? Mas quando então prestamos corte aos nossos grandes amigos, cujo favor precisamos? Quando compomos o que podemos vender aos alunos? Quando refrescamo-nos, relaxando as nossas mentes desta intensidade de cuidado?

"Pereça tudo, dispensem-se estas vaidades vazias, e entreguemo-nos à única busca pela verdade! A vida é vã, a morte incerta; se ela nos rouba de repente, em que estado partiremos daqui? E onde aprenderemos o que aqui negligenciamos? E não sofreremos antes o castigo desta negligência? O que, se a própria morte corta e termina todo cuidado e sentimento? Então isto deve ser averiguado. Mas Deus proíba isto! Não é uma coisa vã e vazia, que a excelente dignidade da autoridade da Fé Cristã tenha se espalhado por todo o mundo. Nunca seriam tais e tão grandes coisas por Deus feitas para nós, se com a morte do corpo a vida da alma chegasse ao fim. Por que demora então abandonar esperanças mundanas, e darmo-nos inteiramente a buscar a Deus e a vida abençoada? Mas espere! Até essas coisas são agradáveis; elas têm alguma, e não pequena doçura. Não devemos abandoná-las levianamente, pois seria uma vergonha retornar novamente a elas. Veja, não é grande coisa agora obter alguma posição, e então o que mais desejaríamos? Temos estoque de amigos poderosos; se nada mais se oferecer, e estivermos com muita pressa, pelo menos uma presidência pode ser-nos dada: e uma esposa com algum dinheiro, que ela não aumente os nossos encargos: e este será o limite do desejo. Muitos grandes homens, e digníssimos de imitação, deram-se ao estudo da sabedoria no estado de casamento."

Enquanto eu passava por estas coisas, e estes ventos mudavam e dirigiam o meu coração para um lado e para o outro, o tempo passava, mas eu demorava a voltar-me para o Senhor; e de dia para dia adiava viver em Ti, e não adiava diariamente morrer em mim mesmo. Amando uma vida feliz, eu a temia na sua própria morada, e buscava-a, fugindo dela. Eu pensava que seria demasiado miserável, a menos que dobrado em braços femininos; e do remédio da Tua misericórdia para curar essa enfermidade eu não pensava, não o tendo tentado. Quanto à continência, supunha que estava em nosso próprio poder (embora em mim mesmo não encontrasse esse poder), sendo tão tolo a ponto de não saber o que está escrito, Ninguém pode ser continente a menos que Tu o dês; e que Tu o darias, se com gemidos interiores eu batesse às Tuas orelhas, e com uma fé estabelecida lançasse o meu cuidado sobre Ti.

Alípio, na verdade, impedia-me de casar; alegando que assim poderíamos de nenhuma maneira com lazer não distraído viver juntos no amor da sabedoria, como tínhamos longamente desejado. Pois ele mesmo era até então puríssimo neste ponto, de modo que era maravilhoso; e isso tanto mais, desde que no início da sua juventude ele tinha entrado nesse curso, mas não tinha ficado preso nele; antes, tinha sentido remorso e revolta por isso, vivendo desde então até agora muito continentemente. Mas eu opunha-lhe os exemplos daqueles que como homens casados tinham nutrido a sabedoria, e servido a Deus aceitavelmente, e retido os seus amigos, e amado-os fielmente. De cuja grandeza de espírito eu estava muito aquém; e ligado com a doença da carne, e a sua doçura mortal, arrastava a minha corrente, temendo ser solto, e como se a minha ferida tivesse sido irritada, empurrava de volta as suas boas persuasões, como se fosse a mão de alguém que me desacorrentaria. Além disso, por mim falava a serpente ao próprio Alípio, pela minha língua tecendo e colocando no seu caminho laços prazerosos, nos quais os seus virtuosos e livres pés poderiam ser emaranhados.

Pois, quando ele admirava que eu, a quem ele estimava não ligeiramente, devesse ficar tão preso na visgo daquele prazer, a ponto de protestar (tão frequentemente quanto o discutíamos) que eu nunca poderia levar uma vida solteira; e urgia na minha defesa quando eu o via admirar, que havia grande diferença entre o seu momentâneo e mal lembrado conhecimento daquela vida, o qual assim ele poderia facilmente desprezar, e a minha contínua convivência à qual, se o nome honroso de casamento fosse adicionado, ele não deveria admirar-se por que eu não poderia desprezar aquele curso; ele começou também a desejar ser casado; não como vencido pelo desejo de tal prazer, mas por curiosidade. Pois ele gostaria de saber, dizia ele, o que aquilo deveria ser, sem o qual a minha vida, para ele tão agradável, me pareceria não vida mas um castigo. Pois a sua mente, livre daquela corrente, estava espantada com a minha escravidão; e através daquele espanto estava indo para um desejo de experimentá-lo, dali para a própria tentativa, e dali talvez afundar naquela escravidão por que ele se admirava, vendo que ele estava disposto a fazer um pacto com a morte; e aquele que ama o perigo, cairá nele. Pois qualquer honra que haja no ofício de bem ordenar uma vida casada, e uma família, movia-nos apenas ligeiramente. Mas a mim, na maior parte, o hábito de satisfazer um apetite insaciável atormentava, enquanto me mantinha cativo; a ele, um espanto admirativo estava levando cativo. Assim estávamos, até que Tu, ó Altíssimo, não abandonando o nosso pó, compadecendo-nos miseráveis, vieste em nosso auxílio, por caminhos maravilhosos e secretos.

Fazia-se esforço contínuo para que eu me casasse. Eu cortejava, eu era prometido, principalmente pelos cuidados da minha mãe, para que, uma vez casado, o batismo salutar pudesse purificar-me, para o qual ela se alegrava que eu estivesse sendo diariamente preparado, e observava que as suas orações, e as Tuas promessas, estavam sendo cumpridas na minha fé. Nessa época, em verdade, tanto a meu pedido quanto por seu próprio anseio, com fortes clamores de coração ela diariamente Te suplicava que, por uma visão, revelasses a ela algo sobre o meu futuro casamento; Tu jamais o fizeste. Ela viu, na verdade, certas coisas vãs e fantásticas, tais como a energia do espírito humano, ocupado com isso, reunia; e contou-me sobre elas, não com aquela confiança que costumava ter quando Tu lhe mostravas qualquer coisa, mas menosprezando-as. Pois ela podia, dizia ela, através de um certo sentimento que não conseguia expressar em palavras, discernir entre as Tuas revelações e os sonhos da sua própria alma. Contudo, o assunto foi pressionado, e uma donzela foi pedida em casamento, dois anos abaixo da idade adequada; e, como era agradável, foi aguardada.

E muitos de nós, amigos, conferenciando sobre isso e detestando os turbulentos tumultos da vida humana, havíamos debatido e agora quase decidido viver afastados dos negócios e do burburinho dos homens; e isso deveria ser obtido assim: deveríamos trazer o que quer que pudéssemos individualmente obter e formar um só lar para todos; de modo que, pela verdade da nossa amizade, nada pertencesse especialmente a ninguém; mas o todo, assim derivado de todos, deveria, como um todo, pertencer a cada um, e todos a todos. Pensamos que poderia haver uns dez nesta sociedade; alguns dos quais eram muito ricos, especialmente Romanianus, nosso conterrâneo, desde a infância um amigo muito íntimo meu, a quem as graves perplexidades dos seus negócios haviam levado à corte; que era o mais zeloso por este projeto; e nele a sua voz era de grande peso, porque o seu amplo patrimônio excedia de longe o de qualquer outro. Tínhamos estabelecido também que dois oficiais anuais, por assim dizer, deveriam prover todas as coisas necessárias, permanecendo os demais despreocupados. Mas quando começamos a considerar se as esposas, que alguns de nós já tínhamos e outros esperavam ter, permitiriam isso, todo aquele plano, que estava sendo tão bem moldado, caiu em pedaços em nossas mãos, foi totalmente destruído e posto de lado. Dali nos voltamos para suspiros e gemidos, e nossos passos para seguir os caminhos largos e batidos do mundo; pois muitos pensamentos havia em nosso coração, mas o Teu conselho permanece para sempre. Deste conselho Tu zombaste do nosso, e preparaste o Teu próprio; propondo dar-nos alimento no devido tempo e encher as nossas almas de bênção.

Entretanto, os meus pecados multiplicavam-se, e minha concubina sendo arrancada do meu lado como um empecilho ao meu casamento, meu coração, que a ela se apegava, foi dilacerado, ferido e sangrava. E ela retornou à África, jurando a Ti nunca conhecer outro homem, deixando comigo o meu filho dela. Mas eu, infeliz, que não podia imitar sequer uma mulher, impaciente pela demora, na medida em que somente após dois anos obteria aquela que buscava, não sendo tanto um amante do casamento quanto um escravo da luxúria, procurei outra, embora não como esposa, para que, pela servidão de um costume duradouro, a doença da minha alma pudesse ser mantida e levada adiante em seu vigor, ou mesmo aumentada, até o domínio do casamento. Nem foi curada aquela minha ferida, que fora feita pelo corte da anterior, mas, após inflamação e dor aguda, gangrenou, e as minhas dores tornaram-se menos agudas, porém mais desesperadoras.

A Ti seja o louvor, glória a Ti, Fonte de misericórdias. Eu tornava-me mais miserável, e Tu mais próximo. A Tua mão direita estava continuamente pronta para arrancar-me da lama e lavar-me completamente, e eu não o sabia; nem coisa alguma me chamava de volta de um abismo ainda mais profundo de prazeres carnais, senão o medo da morte e do Teu julgamento vindouro; o qual, em meio a todas as minhas mudanças, nunca se afastou do meu peito. E, em minhas disputas com os meus amigos Alípio e Nebrídio sobre a natureza do bem e do mal, eu sustentava que Epicuro havia, em minha mente, ganho a palma, se eu não acreditasse que após a morte restava uma vida para a alma, e lugares de retribuição de acordo com os merecimentos dos homens, o que Epicuro não queria acreditar. E eu perguntava: "Se fôssemos imortais e vivêssemos em perpétuo prazer corporal, sem medo de perdê-lo, por que não seríamos felizes, ou o que mais buscaríamos?", não sabendo que grande miséria estava envolvida nisto mesmo, que, estando assim submerso e cego, eu não podia discernir aquela luz de excelência e beleza, a ser abraçada por si mesma, que o olho da carne não pode ver, e é vista pelo homem interior. Nem eu, infeliz, considerava de que fonte brotava o fato de que, mesmo sobre essas coisas, vis como eram, eu com prazer discorria com os meus amigos, nem poderia eu, mesmo de acordo com as noções que então tinha de felicidade, ser feliz sem amigos, em meio a qualquer abundância de prazeres carnais. E, no entanto, estes amigos eu amava apenas por si mesmos, e sentia que era amado por eles de volta apenas por mim mesmo.

Ó caminhos tortuosos! Ai da alma audaciosa, que esperava, ao abandonar-Te, ganhar algo melhor! Girou ela, e girou novamente, sobre costas, lados e ventre, contudo tudo era doloroso; e Tu és o único descanso. E eis que Tu estás perto, e nos livras das nossas errantes misérias, e nos colocas no Teu caminho, e nos consolas, e dizes: "Correi; Eu vos carregarei; sim, Eu vos conduzirei; ali também vos carregarei."

LIVRO VII

Falecida estava já aquela minha juventude má e abominável, e eu passava para a primeira idade adulta; quanto mais crescia em anos, mais me corrompia por coisas vãs, eu que não conseguia imaginar nenhuma substância, senão aquela que costuma ser vista com estes olhos. Não pensava em Ti, ó Deus, sob a figura de um corpo humano; desde que comecei a ouvir algo sobre a sabedoria, sempre evitei isso; e alegrei-me por ter encontrado o mesmo na fé da nossa mãe espiritual, a Tua Igreja Católica. Mas o que mais conceber sobre Ti, eu não sabia. E eu, um homem, e tal homem, buscava conceber-Te a Ti, o soberano, único e verdadeiro Deus; e eu acreditava, no mais íntimo da minha alma, que Tu eras incorruptível, e invulnerável, e imutável; porque, embora não soubesse de onde ou como, eu via claramente, e tinha certeza, de que aquilo que pode ser corrompido deve ser inferior àquilo que não pode; o que não podia ser ferido, eu preferia sem hesitação ao que podia receber injúria; o imutável às coisas sujeitas à mudança. O meu coração gritava apaixonadamente contra todos os meus fantasmas, e com este único golpe buscava afastar do olho da minha mente toda aquela tropa impura que zumbia ao seu redor. E eis que, mal afastados, num abrir e fechar de olhos, juntavam-se novamente densamente ao meu redor, voavam contra o meu rosto e obscureciam-no; de modo que, embora não sob a forma de corpo humano, fui forçado a conceber-Te (aquele incorruptível, invulnerável e imutável, que eu preferia ao corruptível, ao injuriável e ao mutável) como estando no espaço, quer infundido no mundo, quer difundido infinitamente fora dele. Porque tudo o que eu concebia, privado deste espaço, parecia-me nada, sim, absolutamente nada, nem mesmo um vazio, como se um corpo fosse retirado do seu lugar, e o lugar permanecesse vazio de qualquer corpo, de terra e água, ar e céu, ainda assim restaria um lugar vazio, como se fosse um nada espaçoso.

Eu então, sendo assim de coração grosseiro, e nem claro para mim mesmo, tudo o que não se estendia por certos espaços, nem se difundia, nem se condensava, nem se inchava, ou não recebia ou não podia receber algumas destas dimensões, eu pensava ser absolutamente nada. Pois sobre tais formas, como as que os meus olhos costumam percorrer, o meu coração então percorria; nem eu via que esta mesma noção da mente, pela qual eu formava essas mesmas imagens, não era deste tipo, e contudo não as poderia ter formado, se ela própria não fosse alguma grande coisa. Assim também me esforçava por conceber-Te, Vida da minha vida, como vasto, através de espaços infinitos por todos os lados penetrando toda a massa do universo, e além dele, por todos os caminhos, através de espaços imensuráveis e sem limites; de modo que a terra Te tivesse, o céu Te tivesse, todas as coisas Te tivessem, e elas fossem delimitadas em Ti, e Tu delimitado em parte alguma. Pois assim como o corpo deste ar que está acima da terra não impede a luz do sol de passar por ele, penetrando-o, não rompendo ou cortando, mas enchendo-o totalmente: assim pensei que o corpo, não apenas do céu, do ar e do mar, mas da terra também, era permeável a Ti, de modo que em todas as suas partes, da maior à menor, admitisse a Tua presença, por uma inspiração secreta, dentro e fora, dirigindo todas as coisas que criaste. Assim eu supunha, apenas por ser incapaz de conceber outra coisa, pois era falso. Pois assim uma parte maior da terra conteria uma porção maior de Ti, e uma menor, uma menor; e todas as coisas deveriam, de tal sorte, estar cheias de Ti, que o corpo de um elefante conteria mais de Ti do que o de um pardal, por ser tão maior e ocupar mais espaço; e assim Tu tornarias as diversas porções de Ti mesmo presentes às diversas porções do mundo, em fragmentos, grandes aos grandes, pequenos aos pequenos. Mas tal não és Tu. Mas ainda não tinhas Tu iluminado a minha escuridão.

Bastava-me, Senhor, opor-me àqueles enganados enganadores, e faladores mudos — já que a Tua palavra não soava através deles — bastava o que há muito, enquanto ainda estávamos em Cartago, Nebrídio costumava propor, ao que todos nós que o ouvíamos ficávamos perplexos: "Aquela dita nação das trevas, que os maniqueus costumam colocar como uma massa oposta contra Ti, o que poderia ter feito a Ti, se Tu tivesses recusado lutar com ela? Pois, se respondessem: 'teria causado a Ti algum dano', então serias Tu sujeito a injúria e corrupção; mas se 'não poderia causar-Te dano algum', então não havia razão trazida para a Tua luta com ela; e lutar de tal modo que uma certa porção ou membro de Ti, ou descendência da Tua própria Substância, fosse misturado com poderes opostos, e naturezas não criadas por Ti, e fosse por eles corrompido e mudado para pior a ponto de ser transformado de felicidade em miséria, e precisar de assistência, pela qual pudesse ser extraído e purificado; e que esta descendência da Tua Substância era a alma, que sendo escravizada, maculada, corrompida, a Tua Palavra, livre, pura e inteira, poderia aliviar; sendo essa Palavra mesma ainda corruptível porque era de uma e a mesma Substância. Então, se eles afirmassem que Tu, o que quer que sejas, isto é, a Tua Substância pela qual és, és incorruptível, então todos esses ditos seriam falsos e execráveis; mas se corruptível, a própria afirmação mostrava ser falsa e revoltante." Este argumento de Nebrídio, pois, bastava contra aqueles que mereciam totalmente ser vomitados do estômago sobrecarregado; pois eles não tinham escapatória, sem horrível blasfêmia de coração e língua, pensando e falando assim de Ti.

Mas eu também, ainda que mantivesse e estivesse firmemente persuadido de que Tu, nosso Senhor, o verdadeiro Deus, que fizeste não apenas as nossas almas, mas os nossos corpos, e não apenas as nossas almas e corpos, mas todos os seres e todas as coisas, eras imaculável e inalterável, e em grau nenhum mutável; contudo eu não entendia, clara e sem dificuldade, a causa do mal. E, todavia, o que quer que fosse, eu percebia que devia ser buscado de tal modo que não me forçasse a acreditar que o Deus imutável é mutável, para que eu não me tornasse aquele mal que estava a buscar. Buscava-o, então, livre de ansiedade, certo da falsidade do que aqueles sustentavam, de quem eu me afastava com todo o meu coração; pois eu via que, através da indagação sobre a origem do mal, eles ficavam cheios de mal, na medida em que preferiam pensar que a Tua substância sofria o mal do que a deles própria o cometia.

E eu me esforçava por perceber o que agora ouvia, que o livre-arbítrio era a causa de fazermos o mal, e o Teu justo julgamento do nosso sofrer o mal. Mas eu não era capaz de discerni-lo claramente. Então, esforçando-me por tirar a visão da minha alma daquele poço profundo, eu era novamente nele mergulhado, e esforçando-me frequentemente, era mergulhado de volta tão frequentemente. Mas isto elevou-me um pouco para a Tua luz, que eu sabia tão bem que tinha uma vontade, quanto que vivia: quando então eu queria ou não queria qualquer coisa, eu tinha certeza de que ninguém além de mim mesmo queria ou não queria; e eu quase via que ali estava a causa do meu pecado. Mas o que eu fazia contra a minha vontade, via que sofria mais do que fazia, e eu julgava não ser minha culpa, mas meu castigo; pelo que, contudo, tendo-Te por justo, rapidamente confessava-me não ser injustamente punido. Mas novamente eu dizia: Quem me fez? Não foi o meu Deus, que não é apenas bom, mas a bondade em si? De onde então me veio querer o mal e não querer o bem, de modo que sou assim justamente punido? Quem pôs isto em mim, e enxertou em mim esta planta de amargura, vendo que fui totalmente formado pelo meu dulcíssimo Deus? Se o diabo fosse o autor, de onde vem esse mesmo diabo? E se ele também, pela sua própria vontade perversa, de um bom anjo tornou-se um diabo, de onde, novamente, veio nele aquela vontade má pela qual se tornou um diabo, vendo que toda a natureza dos anjos foi feita por aquele Criador bondosíssimo? Por estes pensamentos eu era novamente submerso e sufocado; ainda que não levado para aquele inferno de erro (onde homem nenhum Te confessa), de pensar antes que Tu sofres o mal, do que que o homem o faz.

Pois eu estava me esforçando de tal modo por descobrir o resto, como alguém que já tinha descoberto que o incorruptível deve necessariamente ser melhor do que o corruptível; e a Ti, portanto, o que quer que fosses, eu confessava ser incorruptível. Pois nenhuma alma jamais foi, nem será, capaz de conceber qualquer coisa que possa ser melhor do que Tu, que és o soberano e o melhor bem. Mas como, muito verdadeira e certamente, o incorruptível é preferível ao corruptível (como eu agora o preferia), então, se Tu não fosses incorruptível, eu poderia em pensamento ter chegado a algo melhor do que o meu Deus. Onde então eu via o incorruptível ser preferível ao corruptível, ali deveria eu buscar-Te, e ali observar "em que o mal mesmo consistia"; isto é, de onde vem a corrupção, pela qual a Tua substância não pode de forma alguma ser prejudicada. Pois a corrupção de modo algum prejudica o nosso Deus; por nenhuma vontade, por nenhuma necessidade, por nenhum acaso imprevisto: porque Ele é Deus, e o que Ele quer é bom, e Ele mesmo é esse bem; mas ser corrompido não é bom. Nem és Tu contra a Tua vontade constrangido a coisa alguma, uma vez que a Tua vontade não é maior do que o Teu poder. Mas maior seria ela, se Tu mesmo fosses maior do que Tu mesmo. Pois a vontade e o poder de Deus é o próprio Deus. E o que pode ser imprevisto por Ti, que conheces todas as coisas? Nem existe natureza alguma nas coisas, sem que Tu a conheças. E que mais diríamos, "por que aquela substância que Deus é não deveria ser corruptível", vendo que, se fosse assim, não seria Deus?

E eu buscava "de onde é o mal", e buscava de um modo mau; e não via o mal na minha própria busca. Coloquei agora diante da vista do meu espírito toda a criação, o que quer que nela possamos ver (como mar, terra, ar, estrelas, árvores, criaturas mortais); sim, e o que nela não vemos, como o firmamento do céu, todos os anjos, além disso, e todos os habitantes espirituais dele. Mas estes mesmos seres, como se fossem corpos, a minha fantasia dispunha no espaço, e eu fazia uma grande massa da Tua criação, distinguida quanto aos tipos de corpos; alguns, corpos reais, outros, o que eu mesmo tinha fingido para os espíritos. E esta massa eu a fazia enorme, não como ela era (o que eu não podia saber), mas como eu pensava conveniente, contudo de todo modo finita. Mas a Ti, ó Senhor, eu imaginava por toda parte cercando-a e penetrando-a, embora de todo modo infinito: como se houvesse um mar, em toda parte, e por todo lado, através de espaço imensurável, um único mar sem limites, e ele contivesse dentro de si alguma esponja, enorme, mas limitada; essa esponja deveria necessariamente, em todas as suas partes, ser preenchida daquele mar imensurável: assim concebia eu a Tua criação, ela mesma finita, cheia de Ti, o Infinito; e eu dizia, eis Deus, e eis o que Deus criou; e Deus é bom, sim, mais poderosa e incomparavelmente melhor do que todas estas; mas ainda Ele, o Bom, criou-as boas; e vede como Ele as cerca e as preenche. Onde está o mal então, e de onde, e como rastejou ele para aqui? Qual é a sua raiz, e qual a sua semente? Ou não tem ele ser? Por que então tememos e evitamos o que não é? Ou, se o tememos inutilmente, então esse próprio medo é mau, pelo qual a alma é assim inutilmente aguilhoada e atormentada. Sim, e tanto maior mal, quanto não temos nada a temer, e contudo tememos. Portanto, ou é mal aquilo que tememos, ou então o mal é o que tememos. De onde é ele então? Vendo que Deus, o Bom, criou todas estas coisas boas. Ele, na verdade, o maior e principal Bem, criou estes bens menores; ainda assim, tanto o Criador quanto o criado, todos são bons. De onde é o mal? Ou, existia alguma matéria má da qual Ele fez, e formou, e ordenou, contudo deixou algo nela que Ele não converteu em bem? Por que assim então? Ele não tinha poder para virar e mudar o todo, de modo que nenhum mal permanecesse nele, vendo que Ele é Todo-Poderoso? Por último, por que Ele iria querer fazer qualquer coisa dela, e não antes, pela mesma Todo-Poderosidade, fazer com que ela não fosse de todo? Ou, poderia então ser contra a Sua vontade? Ou se ela existia desde a eternidade, por que Ele permitiu que assim fosse por infinitos espaços de tempos passados, e agradou-se tão tarde depois em fazer algo dela? Ou se Ele se agradou subitamente agora de efetuar algo, isto antes deveria o Todo-Poderoso ter efetuado, que esta matéria má não fosse, e Ele sozinho fosse o todo, verdadeiro, soberano e infinito Bem. Ou se não era bom que Ele que era bom não criasse e formasse também algo que fosse bom, então, sendo aquela matéria má removida e reduzida ao nada, Ele poderia formar matéria boa, da qual criar todas as coisas. Pois Ele não seria Todo-Poderoso, se não pudesse criar algo bom sem a ajuda daquela matéria que Ele mesmo não tinha criado. Estes pensamentos eu revolvia em meu coração miserável, sobrecarregado com os mais roedores cuidados, para que eu não morresse antes de ter encontrado a verdade; contudo, a fé do Teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, professada na Igreja Católica, estava firmemente fixada em meu coração, em muitos pontos, na verdade, ainda não formada, e flutuante da regra da doutrina; ainda assim, a minha mente não a abandonou totalmente, mas antes absorvia diariamente mais e mais dela.

Por esta altura, já tinha eu rejeitado as mentirosas adivinhações e as ímpias loucuras dos astrólogos. Que as Tuas próprias misericórdias, desde o mais íntimo da minha alma, confessem a Ti também isto, ó meu Deus. Pois Tu, Tu mesmo (porque quem mais nos chama de volta da morte de todos os erros, senão a Vida que não pode morrer, e a Sabedoria que, sem precisar de luz, ilumina as mentes que dela necessitam, pelas quais o universo é dirigido, até ao girar das folhas das árvores?) — Tu providenciaste para a minha obstinação com a qual eu lutava contra Vindicianus, um homem velho e agudo, e Nebridius, um jovem de talentos admiráveis; o primeiro afirmando veementemente, e o último dizendo muitas vezes (embora com alguma dúvida), "Que não existia tal arte pela qual se pudessem prever as coisas futuras, mas que as conjecturas dos homens eram uma espécie de lotaria, e que de muitas coisas que eles diziam que haveriam de acontecer, algumas de facto aconteciam, sem que aqueles que as diziam o soubessem, tropeçando nelas através do seu muito falar."

Tu providenciaste então um amigo para mim, não um consultor negligente dos astrólogos; nem bem versado nessas artes, mas (como eu disse) um curioso consultor deles, e contudo sabendo algo, que ele dizia ter ouvido do seu pai, o que, até que ponto servia para derrubar a estimação dessa arte, ele não sabia. Este homem então, Firminus por nome, tendo tido uma educação liberal e bem ensinado em Retórica, consultou-me, como a alguém muito caro a ele, sobre o que, de acordo com as suas chamadas constelações, eu pensava acerca de certos assuntos seus, nos quais as suas esperanças mundanas tinham crescido, e eu, que aqui já começava a inclinar-me para a opinião de Nebridius, não recusei de todo conjecturar e dizer-lhe o que vinha à minha mente indecisa; mas acrescentei que já estava quase persuadido de que estas não passavam de tolices vazias e ridículas. Então ele contou-me que o seu pai tinha sido muito curioso em tais livros, e tinha um amigo tão fervoroso neles quanto ele próprio, que com estudo e conferência conjuntos avivavam a chama das suas afeições por estes brinquedos, de modo que observavam os momentos em que os próprios animais mudos, que se criavam à volta das suas casas, davam à luz, e então observavam a posição relativa dos céus, para assim fazerem novas experiências nesta chamada arte.

Disse então que tinha ouvido do seu pai que, no tempo em que a sua mãe estava prestes a dar à luz a ele, Firminus, uma serva daquele amigo do seu pai também estava grávida, o que não podia escapar ao seu senhor, que cuidava com a mais exata diligência de conhecer os nascimentos dos seus próprios cachorros. E assim foi que (um pela sua esposa, e o outro pela sua serva, com a observação mais cuidadosa, contando dias, horas, e até as menores divisões das horas) ambos foram entregues no mesmo instante; de modo que ambos foram forçados a admitir as mesmas constelações, até aos pontos mais minuciosos, um para o seu filho, o outro para o seu escravo recém-nascido. Pois, logo que as mulheres começaram a estar em trabalho de parto, cada uma deu aviso à outra do que acontecia nas suas casas, e tinham mensageiros prontos para enviar um ao outro logo que tivessem notícia do nascimento real, do qual tinham facilmente providenciado, cada um na sua própria província, para dar inteligência imediata. Assim então os mensageiros das respetivas partes encontraram-se, asseverou ele, a tal distância igual de cada casa que nenhum deles pôde notar qualquer diferença na posição das estrelas, ou quaisquer outros pontos minuciosos; e contudo Firminus, nascido num elevado estado na casa dos seus pais, percorreu o seu curso pelos caminhos dourados da vida, aumentou em riquezas, foi elevado a honras; ao passo que aquele escravo continuou a servir os seus senhores, sem qualquer relaxamento do seu jugo, como Firminus, que o conhecia, me contou.

Ao ouvir e acreditar nestas coisas, contadas por alguém de tal credibilidade, toda a minha resistência cedeu; e primeiro esforcei-me por reclamar o próprio Firminus dessa curiosidade, dizendo-lhe que, ao inspecionar as suas constelações, eu deveria, se fosse prever verdadeiramente, ter visto nelas pais eminentes entre os seus vizinhos, uma família nobre na sua própria cidade, nascimento elevado, boa educação, saber liberal. Mas se aquele servo me tivesse consultado sobre as mesmas constelações, uma vez que eram também as dele, eu deveria novamente (para lhe dizer também a verdade) ver nelas uma linhagem a mais abjeta, uma condição servil, e tudo o resto totalmente em desacordo com o anterior. De onde então, se eu dissesse a verdade, deveria, a partir das mesmas constelações, falar de modo diverso, ou se dissesse o mesmo, falar falsamente: daí seguia-se com toda a certeza que tudo o que, após a consideração das constelações, era dito verdadeiramente, era dito não por arte, mas por acaso; e tudo o que era dito falsamente, não era por ignorância na arte, mas pela falha do acaso.

Uma abertura assim feita, ruminando comigo mesmo sobre coisas semelhantes, para que nenhum daqueles velhos caducos (que viviam de tal comércio, e a quem eu ansiava atacar, e com escárnio refutar) pudesse instar contra mim que Firminus me tinha informado falsamente, ou o seu pai a ele; voltei os meus pensamentos para aqueles que nascem gémeos, que na maior parte das vezes saem do ventre tão próximos um do outro, que o pequeno intervalo (por mais força que na natureza das coisas as pessoas possam pretender que tenha) não pode ser notado pela observação humana, ou ser de todo expresso naquelas figuras que o astrólogo deve inspecionar, para que ele possa pronunciar-se verdadeiramente. Contudo, elas não podem ser verdadeiras: pois, olhando para as mesmas figuras, ele deve ter predito o mesmo de Esaú e Jacó, ao passo que o mesmo não lhes aconteceu. Portanto, ele deve falar falsamente; ou se verdadeiramente, então, olhando para as mesmas figuras, ele não deve dar a mesma resposta. Não por arte, então, mas por acaso, ele falaria verdadeiramente. Pois Tu, ó Senhor, Governante mais justo do Universo, enquanto consultores e consultados o ignoram, fazes pela Tua inspiração oculta que o consultor ouça o que, de acordo com os merecimentos ocultos das almas, ele deve ouvir, fora da insondável profundidade do Teu justo julgamento, a Quem nenhum homem diga: Que é isto? Porquê aquilo? Não diga ele assim, pois é homem.

Agora então, ó meu Ajudador, tinhas-Me libertado daquelas algemas: e eu buscava "de onde vem o mal", e não encontrei caminho. Mas Tu não permitiste que eu fosse levado por quaisquer flutuações de pensamento para longe da Fé pela qual eu acreditava que Tu existes, e que a Tua substância é imutável, e que Tu tens cuidado, e julgarias os homens, e que em Cristo, Teu Filho, Nosso Senhor, e nas Sagradas Escrituras, que a autoridade da Tua Igreja Católica me impunha, Tu tinhas estabelecido o caminho da salvação do homem, para aquela vida que há de ser após esta morte. Estando estas coisas seguras e imutavelmente fixadas na minha mente, eu buscava ansiosamente "de onde vinha o mal?" Quais foram as agonias do meu coração palpitante, quais gemidos, ó meu Deus! contudo, mesmo ali estavam os Teus ouvidos abertos, e eu não o sabia; e quando em silêncio eu buscava veementemente, essas contrições silenciosas da minha alma eram fortes clamores à Tua misericórdia. Tu sabias o que eu sofria, e nenhum homem. Pois, que era aquilo que de lá, através da minha língua, destilava para os ouvidos dos meus amigos mais íntimos? Chegou-lhes todo o tumulto da minha alma, para o qual nem o tempo nem a expressão bastavam? Contudo, subiu tudo à Tua audição, tudo o que eu rugia dos gemidos do meu coração; e o meu desejo estava perante Ti, e a luz dos meus olhos não estava comigo: pois aquela estava dentro, eu fora: nem estava ela confinada a um lugar, mas eu estava atento às coisas contidas em lugar, mas ali não encontrei lugar de repouso, nem me receberam elas de modo que eu pudesse dizer: "Basta", "está bem": nem me permitiram contudo voltar atrás, onde pudesse estar bem comigo. Pois destas coisas eu era superior, mas inferior a Ti; e Tu és a minha verdadeira alegria quando sujeito a Ti, e Tu tinhas sujeito a mim o que criaste abaixo de mim. E este era o verdadeiro temperamento, e região média da minha segurança, permanecer na Tua Imagem, e servindo-Te, governar o corpo. Mas quando me levantei orgulhosamente contra Ti, e corri contra o Senhor com o meu pescoço, com as espessas saliências do meu escudo, até estas coisas inferiores foram postas acima de mim, e pressionaram-me, e em parte alguma houve descanso ou espaço de respiração. Elas encontravam a minha visão por todos os lados em montes e tropas, e no pensamento as imagens delas apresentavam-se sem serem buscadas, enquanto eu queria voltar para Ti, como se dissessem para mim: "Para onde vais, indigno e manchado?" E estas coisas tinham crescido da minha ferida; pois Tu "humilhaste o orgulhoso como um ferido", e através do meu próprio inchaço fui separado de Ti; sim, a minha face inchada de orgulho fechou os meus olhos.

Mas Tu, Senhor, permaneces para sempre, contudo não para sempre estás irado connosco; porque Te compadeces do nosso pó e cinza, e foi do Teu agrado reformar as minhas deformidades; e com aguilhões interiores Tu despertaste-me, para que eu estivesse inquieto, até que Tu fosses manifestado à minha visão interior. Assim, pela mão secreta da Tua medicina, o meu inchaço foi diminuído, e a visão conturbada e obscurecida da minha mente, pelas unções picantes de salutares tristezas, foi de dia para dia curada.

E Tu, querendo primeiro mostrar-me como resistes aos orgulhosos, mas dás graça aos humildes, e por quão grande ato da Tua misericórdia tinhas traçado aos homens o caminho da humildade, em que o Teu Verbo se fez carne, e habitou entre os homens: — procuraste para mim, por meio de alguém inchado com o mais antinatural orgulho, certos livros dos Platonistas, traduzidos do grego para o latim. E neles li, não de facto nas mesmas palavras, mas com o mesmo propósito, reforçado por muitas e diversas razões, que No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus: o Mesmo estava no princípio com Deus: todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito: o que foi feito por Ele é vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. E que a alma do homem, embora dê testemunho da luz, contudo ela própria não é essa luz; mas o Verbo de Deus, sendo Deus, é a verdadeira luz que ilumina todo o homem que vem ao mundo. E que Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu. Mas, que veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam; mas a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no Seu nome; isto não li lá.

Novamente li lá, que Deus o Verbo nasceu não da carne nem do sangue, nem da vontade do homem, nem da vontade da carne, mas de Deus. Mas que o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, não li lá. Pois tracei naqueles livros que era dito de muitas e diversas maneiras, que o Filho estava na forma do Pai, e não julgou como usurpação ser igual a Deus, porque naturalmente Ele era da Mesma Substância. Mas que Ele Se esvaziou a Si mesmo, tomando a forma de servo, sendo feito na semelhança dos homens, e achado na forma como um homem, humilhou-Se a Si mesmo, e tornou-Se obediente até à morte, e morte de cruz: pelo que Deus O exaltou dos mortos, e Lhe deu um nome acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre, das coisas no céu, e coisas na terra, e coisas debaixo da terra; e que toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai; esses livros não têm. Pois que antes de todos os tempos e acima de todos os tempos o Teu Filho Unigénito permanece imutável, coeterno Contigo, e que da Sua plenitude as almas recebem, para que sejam abençoadas; e que pela participação da sabedoria que nelas permanece, são renovadas, de modo a serem sábias, isso está lá. Mas que no devido tempo Ele morreu pelos ímpios; e que Tu não poupaste o Teu Filho Unigénito, mas O entregaste por todos nós, não está lá. Pois Tu escondeste estas coisas aos sábios, e revelaste-as aos pequeninos; para que aqueles que trabalham e estão sobrecarregados pudessem vir a Ele, e Ele os refresque, porque Ele é manso e humilde de coração; e aos mansos Ele dirige no julgamento, e aos gentis Ele ensina os Seus caminhos, contemplando a nossa humildade e tribulação, e perdoando todos os nossos pecados. Mas aqueles que se levantam no caminho elevado de alguma aprendizagem que pretende ser mais sublime, não O ouvem, dizendo, Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Embora conhecessem a Deus, contudo não O glorificaram como Deus, nem Lhe foram gratos, mas tornaram-se vãos nos seus pensamentos; e o seu coração insensato foi obscurecido; professando que eram sábios, tornaram-se loucos.

E portanto li lá também, que tinham mudado a glória da Tua natureza incorruptível em ídolos e diversas formas, na semelhança da imagem do homem corruptível, e aves, e quadrúpedes, e répteis; nomeadamente, naquela comida egípcia pela qual Esaú perdeu a sua primogenitura, pois que o Teu povo primogénito adorou a cabeça de uma besta quadrúpede em vez de Ti; voltando de coração para o Egito; e inclinando a Tua imagem, a sua própria alma, perante a imagem de um bezerro que come feno. Estas coisas encontrei aqui, mas não me alimentei delas. Pois foi do Teu agrado, ó Senhor, tirar a vergonha da diminuição de Jacó, para que o mais velho servisse o mais novo: e Tu chamaste os Gentios para a Tua herança. E eu tinha vindo a Ti de entre os Gentios; e fixei a minha mente no ouro que Tu quiseste que o Teu povo tirasse do Egito, vendo que era Teu, onde quer que estivesse. E aos Atenienses Tu disseste pelo Teu Apóstolo, que em Ti vivemos, nos movemos, e existimos, como um dos seus próprios poetas tinha dito. E verdadeiramente estes livros vieram de lá. Mas não fixei a minha mente nos ídolos do Egito, a quem serviam com o Teu ouro, que mudaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e serviram a criatura em vez do Criador.

E sendo daí admoestado a voltar a mim mesmo, entrei até ao meu próprio eu interior, sendo Tu o meu Guia: e fui capaz, pois Tu tinhas-Te tornado o meu Ajudador. E entrei e contemplei com o olho da minha alma (tal como ele era), acima do mesmo olho da minha alma, acima da minha mente, a Luz Imutável. Não esta luz comum, que toda a carne pode contemplar, nem como que uma maior do mesmo género, como se o brilho desta fosse multiforme mais brilhante, e com a sua grandeza ocupasse todo o espaço. Não tal era esta luz, mas outra, sim, muito outra destas. Nem estava ela acima da minha alma, como o óleo está acima da água, nem ainda como o céu acima da terra: mas acima para a minha alma, porque Ela me fez; e eu abaixo Dela, porque fui feito por Ela. Aquele que conhece a Verdade, conhece o que é essa Luz; e aquele que A conhece, conhece a eternidade. O Amor conhece-a. Ó Verdade que és a Eternidade! e Amor que és a Verdade! e Eternidade que és o Amor! Tu és o meu Deus, a Ti suspiro de dia e de noite. A Ti quando primeiro conheci, Tu levantaste-me, para que eu pudesse ver que havia o que eu pudesse ver, e que eu ainda não era tal como para ver. E Tu repeliste a fraqueza da minha vista, irradiando os Teus raios de luz sobre mim mais fortemente, e eu tremi de amor e temor: e percebi-me como estando longe de Ti, na região da dessemelhança, como se ouvisse esta Tua voz do alto: "Eu sou o alimento dos adultos, cresce, e tu alimentar-te-ás de Mim; nem tu Me converterás, como o alimento da tua carne em ti, mas tu serás convertido em Mim." E aprendi, que Tu por iniquidade castigas o homem, e fizeste a minha alma consumir-se como uma aranha. E eu disse, "É a Verdade, portanto, nada, porque não é difundida através de espaço finito ou infinito?" E Tu clamaste para mim de longe: "Contudo, verdadeiramente, EU SOU o que SOU." E ouvi, como o coração ouve, nem tive espaço para duvidar, e eu duvidaria mais cedo de que vivo do que de que a Verdade não é, que é claramente vista, sendo compreendida pelas coisas que são feitas.

E contemplei as outras coisas abaixo de Ti, e percebi que elas nem totalmente são, nem totalmente não são, pois são, uma vez que são de Ti, mas não são, porque não são o que Tu és. Pois aquilo verdadeiramente é que permanece imutavelmente. É bom, pois, para mim apegar-me a Deus; pois se eu não permanecer n'Ele, não posso em mim mesmo; mas Ele permanecendo n'Ele mesmo, renova todas as coisas. E Tu és o Senhor meu Deus, uma vez que não tens necessidade da minha bondade.

E foi-me manifestado, que aquelas coisas são boas que contudo estão corrompidas; as quais nem eram soberanamente boas, nem a menos que fossem boas poderiam ser corrompidas: pois se soberanamente boas, seriam incorruptíveis, se não fossem de todo boas, não haveria nada nelas a ser corrompido. Pois a corrupção fere, mas a menos que diminuísse a bondade, não poderia ferir. Ou então a corrupção não fere, o que não pode ser; ou, o que é mais certo, tudo o que é corrompido é privado de bem. Mas se forem privadas de todo o bem, deixarão de ser. Pois se elas hão de ser, e já não podem ser mais corrompidas, serão melhores do que antes, porque permanecerão incorruptivelmente. E que mais monstruoso do que afirmar que as coisas se tornam melhores perdendo todo o seu bem? Portanto, se forem privadas de todo o bem, já não serão. Enquanto, portanto, elas são, são boas: portanto tudo o que é, é bom. Aquele mal então que eu buscava, de onde ele é, não é qualquer substância: pois se fosse uma substância, deveria ser bom. Pois ou deveria ser uma substância incorruptível, e assim um bem supremo: ou uma substância corruptível; a qual, a menos que fosse boa, não poderia ser corrompida. Percebi, portanto, e foi-me manifestado, que Tu fizeste todas as coisas boas, nem há qualquer substância de todo, que Tu não fizeste; e porque não fizeste todas as coisas iguais, portanto todas as coisas são; porque cada uma é boa, e todas muito boas, porque o nosso Deus fez todas as coisas muito boas.

E para Ti não há absolutamente nada de mau: sim, não apenas para Ti, mas também para toda a Tua criação, pois não há nada fora que possa invadir e corromper essa ordem que Tu lhe designaste. Mas, nas partes que a compõem, algumas coisas, por não estarem em harmonia com outras, são tidas por más; enquanto essas mesmas coisas harmonizam-se com outras e são boas; e, em si mesmas, são boas. E todas estas coisas que não harmonizam entre si, harmonizam, contudo, com a parte inferior, a que chamamos Terra, tendo o seu próprio céu nublado e ventoso a harmonizar-se com ela. Longe de mim, pois, dizer: "Estas coisas não deveriam existir": pois se eu visse apenas estas coisas, ansiaria de facto pelas melhores; mas ainda assim, mesmo por estas apenas, devo louvar-Te; pois que Tu és digno de louvor, mostram-no, a partir da terra, os dragões e todos os abismos, fogo, granizo, neve, gelo e vento tempestuoso, que cumprem a Tua palavra; os montes e todas as colinas, árvores frutíferas e todos os cedros; as feras e todo o gado, os répteis e as aves que voam; os reis da terra e todos os povos, os príncipes e todos os juízes da terra; os jovens e as donzelas, os velhos e os jovens, louvem o Teu Nome. Mas quando, desde o céu, estes Te louvam, louvai-Te, nosso Deus, nas alturas todos os Teus anjos, todas as Tuas hostes, o sol e a lua, todas as estrelas e a luz, o Céu dos céus e as águas que estão acima dos céus, louvai o Teu Nome; eu já não ansiava por coisas melhores, porque concebia tudo: e, com um juízo mais são, compreendi que as coisas de cima eram melhores do que estas de baixo, mas que tudo era melhor do que as de cima por si sós.

Não há sanidade naqueles a quem algo da Tua criação desagrada: tal como não havia em mim, quando muito daquilo que Tu fizeste me desagradava. E porque a minha alma não ousava desagradar ao meu Deus, queria não considerar como Teu aquilo que lhe desagradava. Daí ter caído na opinião de duas substâncias, e não ter tido descanso, mas ter falado inutilmente. E, regressando dali, fizera para mim um Deus através de medidas infinitas de todo o espaço; e pensei que fosse Tu, e coloquei-o no meu coração; e tinha-me tornado novamente o templo do meu próprio ídolo, abominável para Ti. Mas depois de teres acalmado a minha cabeça, sem eu saber, e fechado os meus olhos para que não contemplassem a vaidade, cessei um pouco do meu antigo eu, e o meu frenesi foi embalado até dormir; e despertei em Ti, e vi-Te infinito, mas de outra maneira, e esta visão não derivava da carne.

E olhei para outras coisas; e vi que deviam o seu ser a Ti; e estavam todas limitadas em Ti: mas de uma forma diferente; não como estando no espaço; mas porque Tu conténs todas as coisas na Tua mão, na Tua Verdade; e todas as coisas são verdadeiras na medida em que são, nem há falsidade, a menos que se pense que é aquilo que não é. E vi que todas as coisas harmonizavam, não apenas com os seus lugares, mas com as suas estações. E que Tu, que apenas és Eterno, não começaste a agir após inumeráveis espaços de tempo decorridos; pois todos os espaços de tempo, tanto os que passaram como os que passarão, não vão nem vêm, senão através de Ti, trabalhando e permanecendo.

E percebi e não achei estranho que o pão, que é agradável a um paladar saudável, seja repugnante a um enfermo: e que para os olhos doridos a luz seja ofensiva, a qual, para os sãos, é deleitável. E a Tua justiça desagrada aos ímpios; muito mais à víbora e aos répteis, que criaste bons, ajustando-os às partes inferiores da Tua Criação, com as quais os próprios ímpios também se ajustam; e tanto mais, quanto mais se tornam diferentes de Ti; mas com as criaturas superiores, quanto mais se tornam semelhantes a Ti. E indaguei o que era a iniquidade, e descobri que não era uma substância, mas a perversão da vontade, desviada de Ti, ó Deus, o Supremo, em direção a estas coisas inferiores, expelindo as suas entranhas e inchando exteriormente.

E maravilhei-me por agora Te amar, e não um fantasma em Teu lugar. E contudo não me apressei a desfrutar do meu Deus; mas fui elevado até Ti pela Tua beleza, e logo derrubado de Ti pelo meu próprio peso, afundando-me com tristeza nestas coisas inferiores. Este peso era o hábito carnal. Contudo, habitava em mim uma lembrança de Ti; nem duvidei de modo algum que houvesse Um a quem eu pudesse apegar-me, mas que eu ainda não era tal que pudesse apegar-me a Ti: pois o corpo que se corrompe oprime a alma, e a tenda terrena pesa sobre a mente que medita em muitas coisas. E estava certíssimo de que as Tuas obras invisíveis, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas que são feitas, até mesmo o Teu eterno poder e divindade. Pois examinando donde vinha o facto de eu admirar a beleza dos corpos celestiais ou terrestres; e o que me ajudava a julgar sensatamente as coisas mutáveis, e a pronunciar: "Isto deveria ser assim, isto não"; examinando, digo, donde vinha que eu assim julgasse, vendo que eu de facto julgava, tinha encontrado a imutável e verdadeira Eternidade da Verdade acima da minha mente mutável. E assim, gradualmente, passei dos corpos para a alma, que percebe através dos sentidos corporais; e daí para a sua faculdade interior, à qual os sentidos corporais representam as coisas externas, até onde chegam as faculdades das bestas; e daí novamente para a faculdade racional, à qual o que é recebido dos sentidos do corpo é referido para ser julgado. A qual, descobrindo-se também ser em mim uma coisa variável, elevou-se ao seu próprio entendimento, e afastou os meus pensamentos do poder do hábito, retirando-se daquelas tropas de fantasmas contraditórios; para que assim pudesse encontrar qual era aquela luz pela qual era banhada, quando, sem qualquer dúvida, clamava: "Que o imutável deve ser preferido ao mutável"; donde também conhecia Aquele Imutável, que, se não tivesse de algum modo conhecido, não teria tido fundamento seguro para o preferir ao mutável. E assim, com o lampejo de um olhar trêmulo, chegou ao QUE É. E então vi as Tuas coisas invisíveis compreendidas pelas coisas que são feitas. Mas não pude fixar o meu olhar nelas; e a minha enfermidade sendo repelida, fui lançado novamente aos meus hábitos habituais, carregando comigo apenas uma memória amorosa disso, e um anseio pelo que eu tinha, por assim dizer, sentido o odor, mas ainda não era capaz de me nutrir.

Então procurei uma maneira de obter força suficiente para desfrutar de Ti; e não a encontrei, até abraçar aquele Mediador entre Deus e os homens, o Homem Cristo Jesus, que está acima de todos, Deus bendito para sempre, chamando por mim e dizendo: Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e misturando aquele alimento que eu era incapaz de receber com a nossa carne. Pois, o Verbo fez-se carne, para que a Tua sabedoria, pela qual criaste todas as coisas, pudesse fornecer leite para o nosso estado infantil. Pois eu não me apegava ao meu Senhor Jesus Cristo, eu, humilhado, ao Humilde; nem sabia ainda para onde a Sua enfermidade nos guiaria. Pois o Teu Verbo, a Verdade Eterna, muito acima das partes superiores da Tua Criação, eleva os subjugados a Si mesma: mas neste mundo inferior construiu para Si uma habitação humilde do nosso barro, para abater de si mesmos aqueles que seriam subjugados e trazê-los para Si; acalmando o seu inchaço e fomentando o seu amor; a fim de que não prosseguissem mais na autoconfiança, mas antes consentissem em tornar-se fracos, vendo diante dos seus pés a Divindade fraca por tomar as nossas túnicas de pele; e, cansados, pudessem lançar-se sobre Ela, e Ela, levantando-se, pudesse elevá-los.

Mas eu pensava de outro modo; concebendo apenas o meu Senhor Cristo como um homem de excelente sabedoria, a quem ninguém poderia ser igualado; especialmente, por que, sendo maravilhosamente nascido de uma Virgem, Ele parecia, em conformidade com isso, através do cuidado Divino por nós, ter atingido aquela grande eminência de autoridade, como um exemplo de desprezo pelas coisas temporais para a obtenção da imortalidade. Mas que mistério jazia em "O Verbo fez-se carne", eu não conseguia sequer imaginar. Apenas tinha aprendido, do que nos é transmitido por escrito sobre Ele, que Ele comia, bebia, dormia, caminhava, alegrava-se em espírito, entristecia-se, discursava; que a carne não se apegava por si mesma ao Teu Verbo, mas com a alma e a mente humana. Todos sabem isto, os que conhecem a imutabilidade do Teu Verbo, que eu agora conhecia, tanto quanto podia, nem duvidava de modo algum disso. Pois, agora mover os membros do corpo pela vontade, agora não, agora ser movido por alguma afeição, agora não, agora proferir ditos sábios através de sinais humanos, agora guardar silêncio, pertence à alma e à mente sujeitas a variação. E se estas coisas fossem falsamente escritas sobre Ele, todo o resto também arriscaria a acusação, nem permaneceria naqueles livros qualquer fé salvadora para a humanidade. Uma vez que, portanto, foram escritas verdadeiramente, reconheci um homem perfeito em Cristo; não apenas o corpo de um homem, nem, com o corpo, uma alma sensitiva sem uma racional, mas o homem verdadeiro; a quem, não apenas como sendo uma forma da Verdade, mas por uma certa grande excelência da natureza humana e uma participação mais perfeita da sabedoria, julguei que devia ser preferido aos outros. Mas Alípio imaginava que os Católicos acreditavam que Deus estava tão revestido de carne que, além de Deus e da carne, não havia alma alguma em Cristo, e não pensava que uma mente humana Lhe fosse atribuída. E porque estava bem persuadido de que as ações registadas sobre Ele só poderiam ser realizadas por uma criatura vital e racional, moveu-se mais lentamente em direção à Fé Cristã. Mas compreendendo depois que este era o erro dos heréticos Apolinarianos, alegrou-se e conformou-se à Fé Católica. Mas um pouco mais tarde, confesso, aprendi como naquela afirmação, O Verbo fez-se carne, a verdade Católica é distinguida da falsidade de Fotinino. Pois a rejeição dos heréticos faz com que os dogmas da Tua Igreja e a sã doutrina sobressaiam mais claramente. Pois deve haver também heresias, para que os aprovados se tornem manifestos entre os fracos.

Mas tendo então lido aqueles livros dos Platonistas, e daí sido ensinado a procurar a verdade incorpórea, vi as Tuas coisas invisíveis, compreendidas pelas coisas que são feitas; e, embora repelido, percebi o que era aquilo que, através das trevas da minha mente, eu estava impedido de contemplar, estando seguro "De que Tu eras, e eras infinito, e contudo não difundido no espaço, finito ou infinito; e que Tu verdadeiramente és Quem és o mesmo sempre, em nenhuma parte nem movimento variando; e que todas as outras coisas são de Ti, por este fundamento mais seguro apenas, que elas são". Destas coisas estava eu seguro, mas demasiado inseguro para desfrutar de Ti. Falava como um bem erudito; mas se não tivesse procurado o Teu caminho em Cristo nosso Salvador, ter-me-ia revelado, não erudito, mas destruído. Pois agora tinha começado a desejar parecer sábio, estando cheio do meu próprio castigo, contudo não chorava, mas antes desprezava, inchado com o conhecimento. Pois onde estava aquela caridade construída sobre o fundamento da humildade, que é Cristo Jesus? ou quando me ensinariam isso estes livros? Sobre estes, creio, Tu, portanto, quiseste que eu caísse, antes de estudar as Tuas Escrituras, para que pudesse ser impresso na minha memória como eu fui afetado por eles; e para que depois, quando os meus espíritos fossem domados através dos Teus livros, e as minhas feridas tocadas pelos Teus dedos curadores, eu pudesse discernir e distinguir entre presunção e confissão; entre aqueles que viam para onde deviam ir, mas não viam o caminho, e o caminho que conduz não apenas a contemplar, mas a habitar na pátria beatífica. Pois se eu tivesse sido primeiro formado nas Tuas Sagradas Escrituras, e se Tu, no uso familiar delas, tivesses crescido doce para mim, e se eu tivesse então caído naqueles outros volumes, eles poderiam talvez ter-me afastado do fundamento sólido da piedade, ou, se eu tivesse continuado naquela estrutura saudável que tinha dali bebido, poderia ter pensado que ela poderia ter sido obtida apenas pelo estudo daqueles livros.

Com a maior avidez, então, agarrei aquele escrito venerável do Teu Espírito; e principalmente o Apóstolo Paulo. Sobre o que aquelas dificuldades desapareceram, nas quais ele outrora parecia-me contradizer-se, e o texto do seu discurso não concordar com os testemunhos da Lei e dos Profetas. E a face daquela palavra pura apareceu-me una e a mesma; e aprendi a alegrar-me com tremor. Assim comecei; e qualquer verdade que eu tinha lido naqueles outros livros, encontrei aqui em meio ao louvor da Tua Graça; para que quem vê, não se glorie como se não tivesse recebido, não apenas o que vê, mas também que vê (pois que tem ele, que não tenha recebido?), e para que não seja apenas admoestado a contemplar-Te, que és sempre o mesmo, mas também curado, para Te possuir; e que aquele que não pode ver de longe, possa ainda caminhar no caminho, pelo qual possa chegar, e contemplar, e possuir-Te. Pois, embora um homem se deleite com a lei de Deus segundo o homem interior, que fará ele com aquela outra lei nos seus membros que combate contra a lei da sua mente, e o traz cativo à lei do pecado que está nos seus membros? Pois Tu és justo, ó Senhor, mas nós pecamos e cometemos iniquidade, e fizemos o mal, e a Tua mão tornou-se pesada sobre nós, e fomos justamente entregues àquele antigo pecador, o rei da morte; porque ele persuadiu a nossa vontade a ser semelhante à sua vontade pela qual ele não permaneceu na Tua verdade. Que fará o homem miserável? quem o livrará do corpo da sua morte, senão apenas a Tua Graça, através de Jesus Cristo nosso Senhor, a quem geraste coeterno, e formaste no princípio dos Teus caminhos, em quem o príncipe deste mundo nada encontrou digno de morte, contudo Ele matou-O; e o escrito de dívida, que era contrário a nós, foi apagado? Isto estes escritos não contêm. Aquelas páginas não apresentam a imagem desta piedade, as lágrimas da confissão, o Teu sacrifício, um espírito perturbado, um coração quebrantado e contrito, a salvação do povo, a Cidade Nupcial, o penhor do Espírito Santo, o Cálice da nossa Redenção. Ninguém canta ali: Não será a minha alma submetida a Deus? pois d'Ele vem a minha salvação. Pois Ele é o meu Deus e a minha salvação, o meu guardião, não serei mais movido. Ninguém ali ouve Ele chamar: Vinde a Mim, todos os que estais cansados. Eles desprezam aprender d'Ele, porque Ele é manso e humilde de coração; pois estas coisas Tu ocultaste aos sábios e prudentes, e revelaste-as aos pequeninos. Pois uma coisa é, do cume escarpado da montanha, ver a terra da paz, e não encontrar caminho para lá; e em vão tentar através de caminhos intransitáveis, opostos e cercados por fugitivos e desertores, sob o seu capitão o leão e o dragão: e outra é manter-se no caminho que conduz até lá, guardado pelo exército do General celestial; onde não saqueiam aqueles que desertaram o exército celestial; pois evitam-no, como verdadeiro tormento. Estas coisas penetraram maravilhosamente nas minhas entranhas, quando li aquele menor dos Teus Apóstolos, e meditei sobre as Tuas obras, e tremi excessivamente.

LIVRO VIII

Ó meu Deus, deixa-me, com ação de graças, recordar e confessar-Te as Tuas misericórdias para comigo. Que os meus ossos sejam banhados pelo Teu amor, e que digam a Ti: Quem é como Tu, ó Senhor? Tu quebraste as minhas cadeias, oferecerei a Ti o sacrifício de ação de graças. E como Tu as quebraste, declararei; e todos os que Te adoram, quando ouvirem isto, dirão: "Bendito seja o Senhor, no céu e na terra, grande e maravilhoso é o seu nome". As Tuas palavras tinham-se fixado profundamente no meu coração, e eu estava cercado por todos os lados por Ti. Da Tua vida eterna eu estava agora certo, embora a visse em figura e como através de um espelho. Contudo, tinha cessado de duvidar que existisse uma substância incorruptível, de onde vinha toda a outra substância; nem desejava agora estar mais certo de Ti, mas mais firme em Ti. Mas quanto à minha vida temporal, tudo era vacilante, e o meu coração tinha de ser purgado do velho fermento. O Caminho, o próprio Salvador, agradava-me, mas ainda hesitava em percorrer a sua estreiteza. E Tu puseste na minha mente, e pareceu-me bem aos meus olhos, ir ter com Simplicianus, que me parecia um bom servo Teu; e a Tua graça brilhava nele. Tinha ouvido também que, desde a sua juventude, vivera mais devotado a Ti. Agora ele estava entrado em anos; e, devido a tão grande idade gasta em tão zeloso seguimento dos Teus caminhos, parecia-me provável ter aprendido muita experiência; e assim tinha. Desse depósito, desejei que ele me dissesse (expondo-lhe as minhas ansiedades) qual seria o caminho mais apto para alguém na minha situação caminhar nas Tuas veredas.

Pois via a igreja cheia; e um ia por este caminho, e outro por aquele. Mas desagradava-me levar uma vida secular; sim, agora que os meus desejos já não me inflamavam, como outrora, com esperanças de honra e lucro, era um fardo muito penoso suportar tão pesada servidão. Pois, em comparação com a Tua doçura e a beleza da Tua casa que eu amava, aquelas coisas já não me deleitavam. Mas ainda estava cativado pelo amor de mulher; nem o Apóstolo me proibia de casar, embora me aconselhasse algo melhor, desejando principalmente que todos os homens fossem como ele próprio era. Mas eu, sendo fraco, escolhi a parte mais indulgente; e, por causa disto apenas, era lançado de um lado para o outro em tudo o resto, fraco e consumido por preocupações definhantes, porque noutros assuntos era constrangido contra a minha vontade a conformar-me a uma vida matrimonial, à qual estava entregue e cativado. Tinha ouvido da boca da Verdade que havia alguns eunucos que se tinham feito eunucos por amor do reino dos céus: mas, diz Ele, quem pode receber, receba. Certamente vãos são todos os homens que ignoram a Deus, e não puderam, das coisas boas que são vistas, encontrar Aquele que é bom. Mas eu já não estava naquela vaidade; tinha-a superado; e, pelo testemunho comum de todas as Tuas criaturas, tinha encontrado-Te a Ti, nosso Criador, e o Teu Verbo, Deus contigo, e juntamente contigo um só Deus, por quem criaste todas as coisas. Existe ainda outro tipo de ímpio, que, conhecendo a Deus, não O glorificou como Deus, nem Lhe foi grato. Nisso também eu tinha caído, mas a Tua mão direita sustentou-me, e tirou-me de lá, e colocaste-me onde eu pudesse recuperar. Pois disseste ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e, Não desejes parecer sábio; porque aqueles que afirmaram ser sábios, tornaram-se tolos. Mas eu tinha agora encontrado a pérola preciosa, a qual, vendendo tudo o que tinha, deveria ter comprado, e eu hesitava.

Fui então a Simplicianus, o pai de Ambrósio (agora Bispo) no recebimento da Tua graça, e a quem Ambrósio verdadeiramente amava como a um pai. A ele relatei os labirintos dos meus desvios. Mas, quando mencionei que lera certos livros dos platónicos, que Victorinus, outrora professor de Retórica em Roma (que morrera cristão, como eu ouvira dizer), traduzira para o latim, ele testemunhou a sua alegria por eu não ter caído nos escritos de outros filósofos, cheios de falácias e enganos, segundo os rudimentos deste mundo, enquanto os platónicos, de muitas maneiras, conduziam à crença em Deus e na Sua Palavra. Então, para exortar-me à humildade de Cristo, escondida aos sábios e revelada aos pequeninos, falou-me do próprio Victorinus, a quem, enquanto em Roma, conhecera intimamente; e dele relatou o que não ocultarei. Pois contém grande louvor da Tua graça, a ser confessado a Ti, como aquele homem idoso, doutíssimo e versado nas ciências liberais, e que lera e pesara tantas obras dos filósofos; o instrutor de tantos nobres senadores, que também, como monumento do seu excelente desempenho do cargo, tinha (o que os homens deste mundo estimam como uma alta honra) merecido e obtido uma estátua no Fórum Romano; ele, até àquela idade um adorador de ídolos e participante dos ritos sacrílegos, aos quais quase toda a nobreza de Roma se entregava, e que inspirara o povo com o amor de

Anúbis, divindade que ladra, e todos Os monstros deuses de toda espécie, que lutaram Contra Neptuno, Vénus e Minerva:

a quem Roma outrora conquistou e agora adorava, tudo o que o idoso Victorinus, com eloqüência trovejante, por tantos anos defendera; — ele agora não se envergonhava de ser filho do Teu Cristo e recém-nascido da Tua fonte; submetendo o pescoço ao jugo da humildade e curvando a fronte ao opróbrio da Cruz.

Ó Senhor, Senhor, que inclinaste os céus e desceste, tocaste os montes e eles fumegaram, de que maneira Te introduziste naquele peito? Ele costumava ler (como disse Simplicianus) a Sagrada Escritura, estudava e examinava minuciosamente todos os escritos cristãos, e dizia a Simplicianus (não abertamente, mas em privado e como amigo): "Sabe que já sou cristão". Ao que ele respondia: "Não o acreditarei, nem te contarei entre os cristãos, a menos que te veja na Igreja de Cristo". O outro, em tom de brincadeira, replicava: "As paredes, então, fazem os cristãos?". E dizia isto frequentemente, que já era cristão; e Simplicianus, tão frequentemente, dava a mesma resposta, e a pilhéria das "paredes" era pelo outro tão frequentemente renovada. Pois temia ofender os seus amigos, orgulhosos adoradores de demónios, da altura de cuja dignidade babilónica, como dos cedros do Líbano, que o Senhor ainda não derrubara, supunha que o peso da inimizade cairia sobre ele. Mas depois que, pela leitura e meditação fervorosa, ganhou firmeza, e temeu ser negado por Cristo diante dos santos anjos, caso receasse confessá-Lo diante dos homens, e pareceu-se a si mesmo culpado de uma grave ofensa, por ter vergonha dos Sacramentos da humildade da Tua Palavra, e não ter vergonha dos ritos sacrílegos daqueles orgulhosos demónios, cuja soberba imitara e cujos ritos adotara, tornou-se ousado contra a vaidade e envergonhado diante da verdade, e, súbita e inesperadamente, disse a Simplicianus (como ele mesmo me contou): "Vamos à Igreja; desejo tornar-me cristão". Mas ele, não cabendo em si de alegria, foi com ele. E tendo sido admitido ao primeiro Sacramento e tornado Catecúmeno, não muito depois deu o seu nome, para que pudesse ser regenerado pelo batismo, Roma maravilhada, a Igreja regozijando-se. Os orgulhosos viram e enfureceram-se; rangeram os dentes e desfizeram-se. Mas o Senhor Deus era a esperança do Teu servo, e ele não olhou para vaidades e loucuras mentirosas.

Para concluir, quando chegou a hora de fazer a profissão da sua fé (que em Roma aqueles que estão prestes a aproximar-se da Tua graça entregam, de um lugar elevado, à vista de todos os fiéis, numa fórmula estabelecida de palavras memorizadas), os presbíteros, disse ele, ofereceram a Victorinus (como se fazia àqueles que pareciam propensos a alarmar-se por timidez) que fizesse a sua profissão em privado: mas ele escolheu antes professar a sua salvação na presença da santa multidão. "Pois não era a salvação que ele ensinava na retórica, e contudo ele a professara publicamente: quanto menos deveria ele, ao pronunciar a Tua palavra, temer o Teu rebanho manso, ele que, ao proferir as suas próprias palavras, não temera uma multidão enfurecida!" Quando, então, ele subiu para fazer a sua profissão, todos, como o conheciam, sussurravam o seu nome uns aos outros com voz de congratulação. E quem ali não o conhecia? E um murmúrio baixo percorreu todas as bocas da multidão que se regozijava: Victorinus! Victorinus! Súbito foi o arrebatamento por o verem; subitamente calaram-se para que pudessem ouvi-lo. Ele pronunciou a verdadeira fé com uma excelente ousadia, e todos desejavam atraí-lo para o seu próprio coração; sim, pelo seu amor e alegria, atraíram-no para lá, tais foram as mãos com que o atraíram.

Bom Deus! O que acontece ao homem, para que ele se regozije mais com a salvação de uma alma desesperada, e liberta de maior perigo, do que se sempre tivesse havido esperança nela, ou o perigo tivesse sido menor? Pois assim Tu também, misericordioso Pai, te regozijas mais com um pecador que se arrepende do que com noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. E com muita alegria ouvimos, tantas vezes quantas ouvimos com que alegria a ovelha que se perdera é trazida de volta sobre os ombros do pastor, e a dracma é restaurada ao Teu tesouro, com os vizinhos a regozijarem-se com a mulher que a encontrou; e a alegria do serviço solene da Tua casa força-nos às lágrimas, quando na Tua casa se lê sobre o Teu filho mais novo, que estava morto e vive de novo; estava perdido e foi encontrado. Pois Tu te regozijas em nós e nos Teus santos anjos, santos pela santa caridade. Pois Tu és sempre o mesmo; pois todas as coisas que não permanecem as mesmas nem para sempre, Tu para sempre conheces da mesma maneira.

O que acontece então na alma, quando ela se deleita mais em encontrar ou recuperar as coisas que ama do que se sempre as tivesse tido? Sim, e outras coisas testemunham isto; e todas as coisas estão cheias de testemunhas, clamando: "Assim é". O comandante vitorioso triunfa; contudo, não teria triunfado se não tivesse lutado; e quanto maior o perigo na batalha, tanto maior a alegria no triunfo. A tempestade agita os marinheiros, ameaça o naufrágio; todos empalidecem perante a morte iminente; o céu e o mar acalmam-se, e eles regozijam-se excessivamente, por terem temido excessivamente. Um amigo está doente, e o seu pulso ameaça perigo; todos os que anseiam pela sua recuperação adoecem de espírito com ele. Ele é restaurado, embora ainda não caminhe com a sua força anterior; contudo, há tal alegria, como não havia quando ele caminhava antes são e forte. Sim, os próprios prazeres da vida humana os homens adquirem através de dificuldades, não apenas aqueles que nos sobrevêm inesperadamente e contra as nossas vontades, mas até por dificuldades escolhidas e buscadas por prazer. Comer e beber não têm prazer, a menos que preceda o aperto da fome e da sede. Os homens, dados à bebida, comem certos alimentos salgados, para provocar um calor incômodo, que a bebida, ao aliviar, causa prazer. Também se ordena que a noiva prometida não seja dada imediatamente, para que, como marido, ele não desvalorize aquela por quem, como noivo, não suspirava.

Esta lei mantém-se na alegria imunda e maldita; esta na alegria permitida e lícita; esta na mais pura perfeição da amizade; esta, naquele que estava morto e viveu de novo; estava perdido e foi encontrado. Por toda parte, a maior alegria é precedida pela maior dor. O que significa isto, ó Senhor meu Deus, visto que Tu és eternamente alegria para Ti mesmo, e algumas coisas ao Teu redor regozijam-se sempre em Ti? O que significa isto, que esta porção de coisas assim alterna entre o fluxo e o refluxo, ora descontente, ora reconciliada? É esta a sua medida atribuída? É isto tudo o que lhes destinaste, enquanto desde os mais altos céus até à mais baixa terra, desde o princípio do mundo até ao fim dos séculos, desde o anjo até ao verme, desde o primeiro movimento até ao último, Tu colocas cada um no seu lugar, e realizas cada um no seu tempo, cada coisa boa segundo a sua espécie? Ai de mim! Quão alto és Tu nos mais altos, e quão profundo nos mais profundos! E Tu nunca te afastas, e nós dificilmente voltamos a Ti.

Levanta-Te, Senhor, e age; desperta-nos e chama-nos de volta; acende e atrai-nos; inflama-nos, torna-Te doce para nós, que amemos agora, que corramos. Não regressam a Ti, aproximam-se e são iluminados muitos, de um inferno de cegueira mais profundo que o de Victorinus, recebendo aquela Luz, que aqueles que recebem, recebem de Ti o poder de se tornarem Teus filhos? Mas se eles são menos conhecidos pelas nações, mesmo aqueles que os conhecem regozijam-se menos por eles. Pois quando muitos se regozijam juntos, cada um também tem uma alegria mais exuberante porque são acesos e inflamados uns pelos outros. Além disso, porque aqueles conhecidos por muitos influenciam mais para a salvação, e abrem o caminho para que muitos os sigam. E por isso, também aqueles que os precederam regozijam-se muito neles, porque não se regozijam apenas neles. Pois longe de mim que no Teu tabernáculo as pessoas dos ricos sejam aceitas antes dos pobres, ou os nobres antes dos ignóbeis; vendo que, pelo contrário, escolheste as coisas fracas do mundo para confundir as fortes; e as coisas vis deste mundo, e as coisas desprezadas escolheste Tu, e aquelas coisas que não são, para que pudesses reduzir a nada as coisas que são. E ainda assim, aquele menor dos Teus apóstolos, por cuja língua fizeste soar estas palavras, quando através da sua luta, Paulo, o Procônsul, com o seu orgulho vencido, foi levado a passar sob o jugo suave do Teu Cristo, e tornou-se um provincial do grande Rei; ele também, pelo seu nome anterior, Saulo, aprouve ser chamado Paulo, em testemunho de tão grande vitória. Pois o inimigo é mais vencido num só, de quem ele tem mais posse; por quem ele tem posse de mais. Mas os orgulhosos ele possui mais, através da sua nobreza; e através deles, possui mais outros através da sua autoridade. Quanto mais bem-vindo, pois, foi estimado o coração de Victorinus, que o diabo mantivera como uma posse inexpugnável, a língua de Victorinus, com a qual, arma poderosa e afiada, ele tinha matado muitos; tanto mais abundantemente deveriam os Teus filhos regozijar-se, pois o nosso Rei amarrou o homem forte, e eles viram os seus vasos tomados dele e purificados, e tornados aptos para a Tua honra; e tornaram-se úteis para o Senhor, para toda a boa obra.

Mas quando aquele homem Teu, Simplicianus, me relatou isto de Victorinus, eu ardia por imitá-lo; pois para este fim ele o relatara. Mas quando ele acrescentou também como, nos dias do Imperador Juliano, foi feita uma lei pela qual os cristãos eram proibidos de ensinar as ciências liberais ou a oratória; e como ele, obedecendo a esta lei, escolheu antes abandonar a escola cheia de palavras do que a Tua Palavra, pela qual Tu tornas eloqüentes as línguas dos mudos; ele pareceu-me não mais resoluto do que bem-aventurado, por ter assim encontrado oportunidade de servir apenas a Ti. Coisa pela qual eu suspirava, preso como estava, não com os ferros de outro, mas pela minha própria vontade de ferro. A minha vontade o inimigo possuía, e dela fizera uma corrente para mim, e prendeu-me. Pois de uma vontade perversa, foi feito um desejo; e um desejo servido, tornou-se costume; e ao costume não resistido, tornou-se necessidade. Por estes elos, por assim dizer, unidos (daí eu ter chamado a isso uma corrente), uma dura escravidão mantinha-me cativo. Mas aquela nova vontade que começara a estar em mim, de servir-Te livremente e desejar desfrutar de Ti, ó Deus, a única certeza prazerosa, ainda não era capaz de vencer a minha vontade anterior, fortalecida pela idade. Assim, as minhas duas vontades, uma nova e a outra velha, uma carnal e a outra espiritual, lutavam dentro de mim; e pela sua discórdia, desfaziam a minha alma.

Assim, entendi, pela minha própria experiência, o que lera, como a carne deseja contra o espírito e o espírito contra a carne. Eu mesmo, na verdade, de ambas as formas; contudo, mais eu mesmo naquilo que aprovava em mim do que naquilo que em mim desaprovava. Pois nesta última, já não era, na maior parte, eu mesmo, porque em muito eu mais sofria contra a minha vontade do que agia voluntariamente. E contudo, foi por minha causa que o costume obteve este poder de guerrear contra mim, porque eu tinha vindo voluntariamente para onde não queria. E quem tem algum direito de falar contra isso, se o justo castigo segue o pecador? Nem eu tinha já a minha desculpa anterior, de que por isso hesitava em estar acima do mundo e servir-Te, porque a verdade não estava de todo confirmada para mim; pois agora ela também estava. Mas eu, ainda sob o serviço da terra, recusava lutar sob a Tua bandeira, e temia tanto ser liberto de todos os embaraços, como deveríamos temer ser embaraçados por eles. Assim, com a bagagem deste mundo presente, eu era retido agradavelmente, como num sono: e os pensamentos nos quais meditava sobre Ti eram como os esforços daqueles que querem despertar, mas que, vencidos por uma pesada sonolência, são novamente mergulhados nela. E como ninguém dormiria para sempre, e no julgamento sóbrio de todos os homens o despertar é melhor, contudo um homem, na maior parte, sentindo uma pesada letargia em todos os seus membros, adia o sacudir do sono, e embora meio descontente, ainda assim, mesmo depois de ser hora de levantar, com prazer cede a ele; assim eu estava certo de que muito melhor seria para mim entregar-me à Tua caridade, do que entregar-me à minha própria cupidez; mas embora o primeiro caminho me satisfizesse e ganhasse o domínio, o segundo agradava-me e mantinha-me dominado. Nem tinha eu nada para responder a Ti, que me chamavas: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dos mortos, e Cristo te iluminará. E quando Tu me mostravas por todos os lados que o que dizias era verdade, eu, condenado pela verdade, não tinha nada para responder, a não ser aquelas palavras lentas e sonolentas: "Logo, logo", "já, já", "deixa-me só um pouco". Mas "já, já" não tinha presente, e o meu "pouco tempo" prolongava-se por muito tempo; em vão eu me deleitava na Tua lei segundo o homem interior, quando outra lei nos meus membros rebelava-se contra a lei da minha mente, e levava-me cativo sob a lei do pecado que estava nos meus membros. Pois a lei do pecado é a violência do costume, pela qual a mente é atraída e mantida, mesmo contra a sua vontade; mas merecidamente, porque nela caiu voluntariamente. Quem então me livraria, assim miserável, do corpo desta morte, senão a Tua graça apenas, através de Jesus Cristo, nosso Senhor?

E como Tu me livraste dos laços do desejo, com os quais eu estava preso mais estreitamente à concupiscência carnal, e da escravidão das coisas mundanas, declararei agora, e confessarei ao Teu nome, ó Senhor, meu auxílio e meu redentor. Em meio a uma ansiedade crescente, eu fazia os meus afazeres habituais, e diariamente suspirava por Ti. Frequentava a Tua Igreja, sempre que livre dos negócios sob cujo peso eu gemia. Alypius estava comigo, agora depois da terceira sessão liberto do seu trabalho jurídico, e à espera de a quem vender o seu conselho, como eu vendia a habilidade de falar, se é que o ensino pode transmiti-la. Nebridius tinha agora, em consideração pela nossa amizade, consentido em ensinar sob Verecundus, um cidadão e gramático de Milão, e um amigo muito íntimo de todos nós; que desejava urgentemente, e pelo direito da amizade reclamava da nossa companhia, tal auxílio fiel de que ele muito necessitava. Nebridius então não foi atraído a isto por qualquer desejo de vantagem (pois ele poderia ter obtido muito mais com o seu saber, se assim o desejasse), mas como um amigo muito amável e gentil, ele não queria faltar a um bom serviço, e ignorar o nosso pedido. Mas ele agiu nisto muito discretamente, evitando tornar-se conhecido de personagens grandes segundo este mundo, evitando a distração de mente que daí resultava, e desejando tê-la livre e em lazer, tantas horas quantas fosse possível, para buscar, ou ler, ou ouvir algo sobre a sabedoria.

Num dia então, Nebridius estando ausente (não me lembro porquê), eis que vieram ver-me a mim e a Alypius um tal Pontitianus, nosso compatriota, tanto quanto por ser africano, em alto cargo na corte do Imperador. O que ele queria connosco, não sei, mas sentamo-nos para conversar, e aconteceu que, sobre uma mesa para algum jogo diante de nós, ele observou um livro, pegou-o, abriu-o, e contrariamente à sua expectativa, encontrou o Apóstolo Paulo; pois ele pensava que fosse algum daqueles livros que eu me desgastava a ensinar. Ao que sorrindo, e olhando para mim, ele expressou a sua alegria e admiração por ter encontrado de repente este livro, e apenas este, diante dos meus olhos. Pois ele era cristão, e batizado, e frequentemente se curvava diante de Ti, nosso Deus, na Igreja, em frequentes e contínuas orações. Quando então lhe disse que dedicava muito esforço àquelas Escrituras, surgiu uma conversa (sugerida pelo seu relato) sobre António, o monge egípcio: cujo nome estava em alta reputação entre os Teus servos, embora até àquela hora nos fosse desconhecido. O que, quando ele descobriu, demorou-se mais sobre aquele assunto, informando-nos e maravilhando-se da nossa ignorância sobre alguém tão eminente. Mas nós ficamos maravilhados, ouvindo as Tuas obras maravilhosas mais plenamente atestadas, em tempos tão recentes, e quase nos nossos, realizadas na verdadeira Fé e Igreja Católica. Todos nos maravilhamos; nós, de que fossem tão grandes, e ele, de que não tivessem chegado aos nossos ouvidos.

Daí o seu discurso voltou-se para os rebanhos nos mosteiros, e os seus santos caminhos, um aroma de suavidade para Ti, e para os desertos férteis do ermo, dos quais nada sabíamos. E havia um mosteiro em Milão, cheio de bons irmãos, fora das muralhas da cidade, sob o cuidado protetor de Ambrósio, e nós não o sabíamos. Ele continuou com o seu discurso, e nós escutávamos em silêncio atento. Contou-nos então como certa tarde em Tréveris, quando o Imperador estava ocupado com os jogos circenses, ele e três outros, seus companheiros, saíram para caminhar em jardins perto das muralhas da cidade, e ali, como aconteceu de caminharem aos pares, um seguiu à parte com ele, e os outros dois vaguearam sozinhos; e estes, nas suas deambulações, deram com uma certa cabana, habitada por certos servos Teus, pobres de espírito, dos quais é o reino dos céus, e ali encontraram um pequeno livro contendo a vida de António. Um deles começou a lê-lo, a admirá-lo e a inflamar-se com ele; e, enquanto lia, a meditar sobre adotar tal vida, e abandonar o seu serviço secular para servir-Te. E estes dois eram daqueles que denominam agentes dos negócios públicos. Então, subitamente, cheio de um santo amor e de uma vergonha sóbria, com raiva de si mesmo, lançou os olhos sobre o seu amigo, dizendo: "Diz-me, peço-te, o que alcançaríamos com todos estes nossos labores? A que visamos? Para que servimos? Podem as nossas esperanças na corte elevar-se mais do que a ser os favoritos do Imperador? E nisto, o que não é frágil e cheio de perigos? E através de quantos perigos chegamos a um perigo maior? E quando chegamos lá? Mas um amigo de Deus, se eu quiser, torno-me agora mesmo." Assim falou ele. E, em dor com as dores de uma nova vida, voltou os seus olhos novamente para o livro, e continuou a ler, e foi mudado interiormente, onde Tu vias, e a sua mente foi despojada do mundo, como logo apareceu. Pois, enquanto lia e revolvia as ondas do seu coração, enfureceu-se consigo mesmo por um tempo, depois discerniu e determinou-se por um caminho melhor; e agora, sendo Teu, disse ao seu amigo: "Agora libertei-me daquelas nossas esperanças e estou decidido a servir a Deus; e isto, a partir desta hora, neste lugar, eu começo. Se não queres imitar-me, não te oponhas." O outro respondeu que se uniria a ele, para participar de tão gloriosa recompensa, de tão glorioso serviço. Assim, ambos agora Teus, estavam a construir a torre ao custo necessário, abandonando tudo o que tinham e seguindo-Te. Então, Ponticiano e o outro que estava com ele, que tinham caminhado noutras partes do jardim, vieram em busca deles ao mesmo lugar; e, encontrando-os, lembraram-nos de regressar, pois o dia já ia muito adiantado. Mas eles, relatando a sua resolução e propósito, e como essa vontade fora iniciada e estabelecida neles, pediram-lhes, se não quisessem juntar-se, que não os molestassem. Mas os outros, embora em nada alterados do que eram, lamentaram-se (como ele afirmou) e piedosamente congratularam-nos, recomendando-se às suas orações; e assim, com corações que se demoravam na terra, partiram para o palácio. Mas os outros dois, fixando o coração no céu, permaneceram na cabana. E ambos tinham noivas prometidas, que, quando souberam disto, também dedicaram a sua virgindade a Deus.

Tal foi a história de Ponticiano; mas Tu, ó Senhor, enquanto ele falava, voltaste-me para mim mesmo, tirando-me de trás das costas, onde eu me tinha colocado, sem querer observar-me; e colocando-me diante do meu rosto, para que eu visse quão imundo eu era, quão torto e manchado, conspurcado e ulcerado. E contemplei e fiquei horrorizado; e para onde fugir de mim mesmo, não encontrei. E se eu procurava desviar o meu olho de mim mesmo, ele continuava com a sua relação, e Tu novamente colocavas-me perante mim mesmo, e empurravas-me diante dos meus olhos, para que eu pudesse descobrir a minha iniquidade e odiá-la. Eu sabia-a, mas fingia que não a via, fechava os olhos para ela e esquecia-a.

Mas agora, quanto mais ardentemente eu amava aqueles cujas afeições saudáveis eu ouvia, que se tinham resignado inteiramente a Ti para serem curados, mais eu me detestava, quando comparado com eles. Pois muitos dos meus anos (cerca de doze) tinham passado desde os meus dezanove, quando, após a leitura do Hortensius de Cícero, fui movido a um amor sincero pela sabedoria; e ainda estava a adiar rejeitar a mera felicidade terrena e dedicar-me a procurar aquilo, do qual não apenas o encontrar, mas a própria busca, era preferível aos tesouros e reinos do mundo, ainda que já encontrados, e aos prazeres do corpo, embora espalhados ao meu redor à minha vontade. Mas eu, miserável, mui miserável, logo no início da minha juventude, tinha pedido castidade a Ti e dito: "Dá-me castidade e continência, mas não ainda." Pois temia que me ouvisses depressa, e depressa me curasses da doença da concupiscência, a qual eu desejava que fosse satisfeita, antes que extinta. E tinha vagueado por caminhos tortuosos numa superstição sacrílega, não de facto seguro dela, mas preferindo-a às outras, que eu não buscava religiosamente, mas opunha-me maliciosamente.

E eu tinha pensado que adiava de dia para dia rejeitar as esperanças deste mundo e seguir-Te apenas porque não aparecia nada de certo para onde dirigir o meu curso. E agora chegara o dia em que eu deveria ser exposto a mim mesmo, e a minha consciência deveria censurar-me. "Onde estás agora, minha língua? Dizias que por uma verdade incerta não querias descartar a bagagem da vaidade; agora, é certo, e ainda assim esse fardo oprime-te, enquanto eles que nem se desgastaram tanto a procurá-la, nem durante dez anos e mais estiveram a pensar nela, tiveram os seus ombros aliviados e receberam asas para voar." Assim era eu roído por dentro, e extremamente confundido com uma vergonha horrível, enquanto Ponticiano falava. E ele, tendo trazido ao fim a sua história e o assunto para o qual viera, seguiu o seu caminho; e eu, para dentro de mim mesmo. O que não disse eu contra mim mesmo? Com que açoites de condenação não açoitava eu a minha alma, para que ela me seguisse, esforçando-se por ir atrás de Ti! No entanto, ela recuava; recusava, mas não se desculpava. Todos os argumentos estavam gastos e refutados; permanecia um encolhimento mudo; e ela temia, como temeria a morte, ser restringida do fluxo daquele costume, pelo qual ela se estava a consumir até à morte.

Então, nesta grande contenda da minha habitação interior, que eu tinha fortemente levantado contra a minha alma, na câmara do meu coração, perturbado de mente e semblante, voltei-me para Alípio. "Que nos aflige?", exclamo: "que é isto? que ouviste? Os iletrados levantam-se e tomam o céu pela força, e nós com a nossa aprendizagem, e sem coração, vê onde nos revolvemos na carne e no sangue! Temos vergonha de seguir, porque outros foram adiante, e não temos vergonha de nem sequer seguir?" Algumas palavras tais proferi, e a minha febre de espírito afastou-me dele, enquanto ele, olhando para mim com espanto, guardou silêncio. Pois não era o meu tom habitual; e a minha testa, faces, olhos, cor, tom de voz, diziam a minha mente mais do que as palavras que proferi. Havia um pequeno jardim junto à nossa hospedaria, do qual tínhamos o uso, como de toda a casa; pois o dono da casa, o nosso anfitrião, não vivia ali. Para lá o tumulto do meu peito tinha-me arrastado, onde ninguém pudesse impedir a quente contenda em que me tinha envolvido comigo mesmo, até que terminasse como Tu sabias, eu não sabia. Apenas estava saudavelmente distraído e a morrer, para viver; sabendo que coisa má eu era, e não sabendo que coisa boa eu estava prestes a tornar-me. Retirei-me então para o jardim, e Alípio, nos meus passos. Pois a sua presença não diminuía a minha privacidade; ou como poderia ele abandonar-me tão perturbado? Sentámo-nos o mais longe que pudemos da casa. Estava perturbado de espírito, veementemente indignado por não entrar na Tua vontade e aliança, ó meu Deus, para a qual todos os meus ossos clamavam que eu entrasse, e louvavam-na até aos céus. E nela não entramos por navios, ou carruagens, ou pés, não, não nos movemos tanto quanto eu tinha vindo da casa para aquele lugar onde estávamos sentados. Pois, não só ir, mas entrar ali não era nada mais do que querer ir, mas querer resoluta e completamente; não virar e revirar, de um lado para o outro, uma vontade mutilada e dividida, lutando, com uma parte a afundar-se enquanto a outra subia.

Por fim, na própria febre da minha irresolução, fiz com o meu corpo muitos movimentos tais como os homens por vezes querem, mas não podem, se não têm os membros, ou se estes estão ligados com laços, enfraquecidos pela enfermidade, ou de qualquer outra forma impedidos. Assim, se eu arrancava o meu cabelo, batia na minha testa, se cruzando os meus dedos eu apertava o meu joelho; eu queria, eu fazia-o. Mas eu poderia ter querido e não o ter feito; se o poder de movimento nos meus membros não obedecesse. Tantas coisas então eu fazia, quando "querer" não era em si mesmo "poder"; e eu não fazia o que ambos eu ansiava incomparavelmente mais fazer, e o que pouco depois, quando eu quisesse, seria capaz de fazer; porque pouco depois, quando eu quisesse, eu quereria completamente. Pois nestas coisas a capacidade era uma com a vontade, e querer era fazer; e ainda assim não era feito: e mais facilmente o meu corpo obedecia à mais fraca vontade da minha alma, ao mover os seus membros ao seu aceno, do que a alma obedecia a si mesma para realizar na vontade apenas esta sua vontade momentânea.

De onde é esta monstruosidade? E para que fim? Deixa a Tua misericórdia brilhar para que eu possa perguntar, se porventura as penalidades secretas dos homens, e essas dores mais sombrias dos filhos de Adão, talvez me possam responder. De onde é esta monstruosidade? E para que fim? A mente comanda o corpo, e ele obedece instantaneamente; a mente comanda a si mesma, e é resistida. A mente comanda a mão para ser movida; e tal prontidão existe, que o comando é quase distinto da obediência. No entanto, a mente é mente, a mão é corpo. A mente comanda a mente, a si mesma, para querer, e ainda assim ela não o faz. De onde esta monstruosidade? E para que fim? Ela comanda a si mesma, digo, para querer, e não comandaria, a menos que quisesse, e o que ela comanda não é feito. Mas ela não quer inteiramente: por isso não comanda inteiramente. Pois, na medida em que comanda, ela quer: e, na medida em que a coisa comandada não é feita, ela não quer. Pois a vontade comanda que haja uma vontade; não outra, mas ela mesma. Mas não comanda inteiramente, portanto o que ela comanda, não é. Pois se a vontade fosse inteira, nem sequer comandaria que ela fosse, porque já o seria. Não é, portanto, uma monstruosidade querer em parte, não querer em parte, mas uma doença da alma, que ela não se eleva totalmente, sustentada pela verdade, derrubada pelo costume. E, portanto, existem duas vontades, porque uma delas não é inteira: e o que falta a uma, a outra tem.

Que pereçam da Tua presença, ó Deus, como perecem os vãos faladores e sedutores da alma: que, observando que ao deliberar havia duas vontades, afirmam que há duas mentes em nós de dois tipos, uma boa, a outra má. Eles próprios são verdadeiramente maus, quando sustentam estas coisas más; e eles próprios tornar-se-ão bons quando sustentarem a verdade e assentirem à verdade, para que o Teu Apóstolo lhes possa dizer: Éreis outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor. Mas eles, desejando ser luz, não no Senhor, mas neles mesmos, imaginando a natureza da alma como aquilo que Deus é, são feitos trevas mais densas através de uma terrível arrogância; pois foram mais longe de Ti, a verdadeira Luz que ilumina cada homem que vem ao mundo. Tende cuidado com o que dizeis, e corai de vergonha: aproximai-vos d'Ele e sereis iluminados, e os vossos rostos não serão envergonhados. Eu mesmo, quando estava a deliberar sobre servir ao Senhor meu Deus agora, como há muito tinha proposto, era eu quem queria, eu quem não queria, eu, eu mesmo. Eu não queria inteiramente, nem não queria inteiramente. Portanto, estava em conflito comigo mesmo, e dilacerado por mim mesmo. E este dilaceramento aconteceu-me contra a minha vontade, e ainda assim indicava, não a presença de outra mente, mas o castigo da minha própria. Portanto, não era mais eu que o operava, mas o pecado que habitava em mim; o castigo de um pecado mais livremente cometido, na medida em que eu era um filho de Adão.

Pois se existissem tantas naturezas contrárias quantas são as vontades conflitantes, não haveria agora apenas duas, mas muitas. Se um homem delibera se deve ir ao seu conventículo ou ao teatro, estes maniqueus gritam: Vede, aqui estão duas naturezas: uma boa, puxa para este lado; outra má, puxa para trás para aquele lado. Pois de onde mais é esta hesitação entre vontades conflitantes? Mas eu digo que ambas são más: aquela que puxa para eles, como aquela que puxa de volta para o teatro. Mas eles não acreditam que aquela vontade seja outra senão boa, que puxa para eles. Que então se um de nós deliberasse, e em meio à luta das suas duas vontades estivesse num dilema, se deveria ir ao teatro ou à nossa igreja? não estariam também estes maniqueus num dilema sobre o que responder? Pois ou eles devem confessar (o que eles não gostariam) que a vontade que leva à nossa igreja é boa, bem como a deles, que receberam e são mantidos pelos mistérios da deles: ou eles devem supor duas naturezas más, e duas almas más em conflito num homem, e não será verdade o que eles dizem, que existe uma boa e outra má; ou eles devem converter-se à verdade, e não mais negar que, onde alguém delibera, uma alma flutua entre vontades contrárias.

Que não digam mais então, quando percebem duas vontades conflitantes num homem, que o conflito é entre duas almas contrárias, de duas substâncias contrárias, de dois princípios contrários, um bom e o outro mau. Pois Tu, ó verdadeiro Deus, desmentes, refutas e convences; como quando, sendo ambas as vontades más, alguém delibera se deve matar um homem por veneno ou pela espada; se deve apoderar-se desta ou daquela propriedade de outro, quando não pode ambas; se deve comprar prazer pelo luxo, ou manter o seu dinheiro pela avareza; se vai ao circo ou ao teatro, se ambos estiverem abertos num dia; ou, em terceiro lugar, roubar a casa de outro, se tiver a oportunidade; ou, em quarto lugar, cometer adultério, se ao mesmo tempo tiver os meios para tal; todas estas reunindo-se na mesma conjuntura de tempo, e todas sendo igualmente desejadas, o que não pode ser feito ao mesmo tempo: pois elas dilaceram a mente em meio a quatro, ou mesmo (em meio à vasta variedade de coisas desejadas) mais vontades conflitantes, nem eles alegam ainda que existem tantas substâncias diversas. Assim também nas vontades que são boas. Pois eu pergunto-lhes: é bom ter prazer na leitura do Apóstolo? ou é bom ter prazer num Salmo sóbrio? ou é bom discorrer sobre o Evangelho? Eles responderão a cada uma: "é bom". Que então se todas derem igual prazer, e todas ao mesmo tempo? Não distraem a mente vontades diversas, enquanto ele delibera qual deveria escolher? contudo são todas boas, e estão em divergência até que uma seja escolhida, para onde a única vontade inteira possa ser levada, que antes estava dividida em muitas. Assim também, quando, acima, a eternidade nos deleita, e o prazer do bem temporal nos detém abaixo, é a mesma alma que não quer isto ou aquilo com uma vontade inteira; e, portanto, é dilacerada com graves perplexidades, enquanto fora da verdade ela coloca isto primeiro, mas fora do hábito não coloca aquilo de lado.

Assim estava a minha alma doente, e atormentada, acusando-me muito mais severamente do que o meu costume, revolvendo-me e voltando-me na minha corrente, até que ela fosse totalmente quebrada, pela qual eu agora estava apenas, mas ainda assim estava, preso. E Tu, ó Senhor, pressionavas-me nas minhas partes íntimas por uma severa misericórdia, redobrando os açoites do medo e da vergonha, para que eu não cedesse novamente, e não rompendo esse mesmo leve laço restante, ele recuperasse força e me prendesse com mais força. Pois eu dizia comigo mesmo: "Que seja feito agora, que seja feito agora." E enquanto eu falava, por pouco não o punha em prática: por pouco não o fazia, e não o fiz: contudo não recuei para o meu estado anterior, mas mantive a minha posição junto, e respirei. E tentei novamente, e faltou um pouco menos para isso, e um pouco menos, e por pouco toquei, e agarrei-o; e contudo não cheguei lá, nem toquei nem agarrei; hesitando em morrer para a morte e viver para a vida: e o pior, ao qual eu estava habituado, prevaleceu mais em mim do que o melhor, ao qual eu estava desabituado: e o próprio momento em que eu deveria tornar-me outro do que era, quanto mais se aproximava, maior horror me causava; contudo não me golpeou para trás, nem me desviou, mas manteve-me em suspenso.

Os próprios brinquedos dos brinquedos, e vaidades das vaidades, as minhas antigas amantes, ainda me seguravam; elas puxavam a minha veste carnal, e sussurravam suavemente: "Descartas-nos? e a partir desse momento já não estaremos mais contigo para sempre? e a partir desse momento isto ou aquilo não te será lícito para sempre?" E o que era que elas sugeriam ao dizer eu "isto ou aquilo", o que sugeriam elas, ó meu Deus? Que a Tua misericórdia o afaste da alma do Teu servo. Que imundícias sugeriam elas! que vergonha! E agora eu as ouvia muito menos do que a metade, e não mostrando-se abertamente e contradizendo-me, mas murmurando como que por trás das minhas costas, e furtivamente puxando-me, enquanto eu partia, apenas para olhar para trás para elas. No entanto, elas retardavam-me, de modo que eu hesitava em romper e libertar-me delas, e saltar para onde eu era chamado; um hábito violento dizendo-me: "Pensas que podes viver sem elas?"

Mas agora ela falava muito fracamente. Pois, daquele lado para onde eu voltara o meu rosto e para onde eu tremia em ir, apareceu-me a casta dignidade da Continência, serena, porém não indolente, alegre, atraindo-me honestamente a vir e não duvidar; e estendendo para me receber e abraçar as suas mãos santas, cheias de multidões de bons exemplos: havia ali tantos jovens e donzelas, uma multidão de juventude e de todas as idades, viúvas graves e virgens idosas; e a própria Continência em todos, não estéril, mas uma mãe frutífera de filhos de alegrias, por Ti, seu Esposo, ó Senhor. E ela sorriu-me com um escárnio persuasivo, como se dissesse: "Não podes tu o que estes jovens, o que estas donzelas podem? Ou poderão eles por si mesmos, e não antes no Senhor seu Deus? O Senhor seu Deus deu-me a eles. Por que te manténs em ti mesmo, e assim não te manténs? Lança-te sobre Ele, não temas; Ele não se retirará para que tu caias; lança-te destemidamente sobre Ele, Ele receber-te-á e curar-te-á." E eu corei excessivamente, pois ainda ouvia o murmúrio daquelas vaidades e pendia em suspense. E ela de novo parecia dizer: "Fecha os teus ouvidos contra esses teus membros impuros na terra, para que sejam mortificados. Eles falam-te de deleites, mas não como faz a lei do Senhor teu Deus." Esta controvérsia no meu coração era apenas o eu contra o eu. Mas Alípio, sentado bem perto de mim, em silêncio aguardava o desfecho da minha emoção insólita.

Mas quando uma profunda consideração, do fundo secreto da minha alma, reuniu e amontoou toda a minha miséria à vista do meu coração, surgiu uma tempestade poderosa, trazendo um poderoso aguaceiro de lágrimas. Para que eu as pudesse derramar inteiramente, nas suas expressões naturais, levantei-me de junto de Alípio: a solidão foi-me sugerida como mais adequada para o trabalho de chorar; retirei-me, pois, para tão longe que mesmo a sua presença não me pudesse ser um fardo. Assim estava eu então, e ele percebeu algo disso; pois creio ter dito alguma coisa, em que os tons da minha voz pareciam sufocados pelo choro, e assim me levantara. Ele, então, permaneceu onde estávamos sentados, extremamente atónito. Lancei-me, não sei como, debaixo de uma certa figueira, dando livre curso às minhas lágrimas; e as cheias dos meus olhos jorraram, um sacrifício aceitável a Ti. E, não certamente com estas palavras, mas com este propósito, falei muito a Ti: e Tu, ó Senhor, até quando? Até quando, Senhor, te irarás para sempre? Não te lembres das nossas iniquidades passadas, pois sentia que estava preso por elas. Enviei estas palavras dolorosas: Até quando, até quando, "amanhã e amanhã"? Por que não agora? Por que não há nesta hora um fim para a minha impureza?

Assim falava eu e chorava na mais amarga contrição do meu coração, quando, eis! ouvi de uma casa vizinha uma voz, de um rapaz ou de uma rapariga, não sei, cantando e repetindo frequentemente: "Toma e lê; toma e lê." Instantaneamente, o meu semblante alterou-se, comecei a pensar com a maior atenção se as crianças costumavam, em algum tipo de jogo, cantar tais palavras: nem me podia lembrar de ter ouvido algo semelhante. Então, refreando a torrente das minhas lágrimas, levantei-me; interpretando não ser outra coisa senão um comando de Deus para abrir o livro e ler o primeiro capítulo que encontrasse. Pois ouvira dizer de António que, entrando durante a leitura do Evangelho, recebeu a admoestação como se o que estava a ser lido fosse dito a ele: Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu, e vem e segue-me: e por tal oráculo foi imediatamente convertido a Ti. Retornei, pois, ansioso ao lugar onde Alípio estava sentado; pois ali deixara o volume do Apóstolo quando me levantei. Peguei, abri e li em silêncio aquela secção em que os meus olhos primeiro caíram: Não em orgias e embriaguez, não em dissoluções e lascívias, não em contendas e invejas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não façais provisões para a carne, em concupiscências. Não leria mais, nem precisava: pois instantaneamente, ao fim desta sentença, por uma luz como que de serenidade infundida no meu coração, toda a escuridão da dúvida desapareceu.

Então, colocando o meu dedo entre as páginas, ou alguma outra marca, fechei o volume e, com o semblante serenado, dei-o a conhecer a Alípio. E o que foi operado nele, que eu não sabia, ele mostrou-me assim. Pediu para ver o que eu lera: mostrei-lhe; e ele olhou até mais longe do que eu lera, e eu não sabia o que se seguia. Isto seguia-se: quanto ao que é fraco na fé, recebei-o; o que ele aplicou a si mesmo, e revelou-me. E por esta admoestação ele foi fortalecido; e por uma boa resolução e propósito, e o mais correspondente ao seu carácter, no qual ele sempre diferiu muito de mim, para melhor, sem qualquer atraso turbulento ele juntou-se a mim. Daí vamos ter com a minha mãe; contamos-lhe; ela rejubila: relatamos em ordem como aconteceu; ela salta de alegria, e triunfa, e bendiz-Te, que és capaz de fazer acima do que pedimos ou pensamos; pois percebeu que Tu lhe tinhas dado mais por mim do que ela costumava pedir com os seus gemidos piedosos e mais dolorosos. Pois Tu converteste-me a Ti, de modo que não procurei nem esposa, nem qualquer esperança deste mundo, permanecendo naquela regra de fé onde Tu me tinhas mostrado a ela numa visão, há tantos anos. E Tu converteste o seu luto em alegria, muito mais abundante do que ela desejara, e de uma maneira muito mais preciosa e pura do que ela antes requeria, por ter netos do meu corpo.

LIVRO IX

Ó Senhor, eu sou o Teu servo; eu sou o Teu servo e o filho da Tua serva: Tu quebraste as minhas cadeias. Oferecer-Te-ei o sacrifício de louvor. Que o meu coração e a minha língua Te louvem; sim, que todos os meus ossos digam, ó Senhor, quem é semelhante a Ti? Que digam, e responde-me Tu, e diz à minha alma, eu sou a tua salvação. Quem sou eu, e o que sou eu? Que mal não têm sido as minhas ações, ou se não as minhas ações, as minhas palavras, ou se não as minhas palavras, a minha vontade? Mas Tu, ó Senhor, és bom e misericordioso, e a Tua mão direita olhou para a profundidade da minha morte, e do fundo do meu coração esvaziou esse abismo de corrupção. E este Teu dom inteiro foi o de não querer o que eu queria, e querer o que Tu querias. Mas onde, ao longo de todos aqueles anos, e de que baixo e profundo recanto foi o meu livre-arbítrio chamado a sair num momento, pelo qual submeti o meu pescoço ao Teu jugo suave, e os meus ombros ao Teu fardo leve, ó Cristo Jesus, meu Ajudador e meu Redentor? Quão doce se tornou de imediato para mim querer a falta das doçuras daquelas vaidades! E o que eu temia separar-me, era agora uma alegria deixar. Pois Tu lançaste-as para fora de mim, Tu, verdadeira e suprema doçura. Lançaste-as para fora, e por elas entraste Tu mesmo, mais doce do que todo o prazer, embora não para a carne e o sangue; mais brilhante do que toda a luz, mas mais escondido do que todas as profundezas, mais alto do que toda a honra, mas não para os altos nos seus próprios conceitos. Agora a minha alma estava livre dos cuidados mordazes de ambicionar e obter, e de revolver-me na imundície, e de coçar a comichão da luxúria. E a minha língua infantil falou livremente a Ti, meu brilho, e minhas riquezas, e minha saúde, o Senhor meu Deus.

E resolvi à Tua vista, não tumultuosamente rasgar, mas suavemente retirar, o serviço da minha língua dos mercados de trabalho labial: para que os jovens, não estudantes na Tua lei, nem na Tua paz, mas em delírios mentirosos e escaramuças de leis, não comprassem mais da minha boca armas para a sua loucura. E muito oportunamente, faltavam agora apenas poucos dias para as Férias da Vindima, e resolvi suportá-los, depois de uma forma regular despedir-me, e tendo sido comprado por Ti, não mais voltar para venda. O nosso propósito era então conhecido por Ti; mas aos homens, exceto aos nossos amigos, não era conhecido. Pois tínhamos acordado entre nós não o revelar a ninguém: embora a nós, agora subindo do vale de lágrimas, e cantando aquele cântico dos degraus, Tu tivesses dado flechas agudas, e brasas destruidoras contra a língua subtil, que, como se nos aconselhando, nos frustraria, e por amor nos devoraria, como faz com a sua carne.

Tinhas trespassado os nossos corações com a Tua caridade, e carregávamos as Tuas palavras como que fixadas nas nossas entranhas: e os exemplos dos Teus servos, a quem por negro tinhas feito brilhante, e por morto, vivo, estando amontoados no receptáculo dos nossos pensamentos, acenderam e queimaram aquele nosso torpor pesado, para que não nos afundássemos no abismo; e eles incendiaram-nos tão veementemente, que todos os sopros de línguas subtis dos contraditores poderiam apenas inflamar-nos mais ferozmente, não extinguir-nos. Todavia, porque pelo Teu Nome que santificaste por toda a terra, este nosso voto e propósito poderia também encontrar quem o louvasse, parecia ostentação não esperar pelas férias agora tão próximas, mas abandonar antecipadamente uma profissão pública, que estava perante os olhos de todos; de modo que todos olhando para este meu ato, e observando quão perto estava o tempo da vindima que eu desejava antecipar, falariam muito de mim, como se eu desejasse aparecer como alguém importante. E que fim me teria servido que as pessoas reputassem e disputassem sobre o meu propósito, e que o nosso bem fosse mal falado.

Além disso, tinha-me primeiramente perturbado que neste mesmo verão os meus pulmões começaram a ceder, no meio de demasiado trabalho literário, e a respirar profundamente com dificuldade, e pela dor no meu peito a mostrar que estavam feridos, e a recusar qualquer fala plena ou prolongada; isto tinha-me perturbado, pois quase me constrangia por necessidade a depor esse fardo de ensinar, ou, se pudesse ser curado e recuperar, pelo menos a interrompê-lo. Mas quando o desejo pleno de lazer, para que eu pudesse ver como Tu és o Senhor, surgiu e se fixou em mim; meu Deus, Tu sabes, comecei até a rejubilar por ter esta desculpa secundária, e não fingida, que poderia moderar um pouco a ofensa tomada por aqueles que, por causa dos seus filhos, desejavam que eu nunca tivesse a liberdade dos Teus filhos. Cheio então de tal alegria, suportei até que aquele intervalo de tempo tivesse decorrido; podem ter sido uns vinte dias, mas foram suportados varonilmente; suportados, pois a cobiça que outrora suportava uma parte deste pesado negócio, tinha-me deixado, e eu permanecia só, e teria sido sobrecarregado, se a paciência não tivesse tomado o seu lugar. Porventura, alguns dos Teus servos, meus irmãos, podem dizer que pequei nisto, que com um coração plenamente posto no Teu serviço, me permiti sentar até uma hora na cátedra das mentiras. Nem eu seria contencioso. Mas não perdoaste Tu, ó Senhor mais misericordioso, e remiste este pecado também, com os meus outros pecados mais horríveis e mortais, na água santa?

Verecundus estava desgastado com cuidado sobre esta nossa bem-aventurança, pois que, sendo retido por laços, pelos quais estava mais estreitamente ligado, via que seria separado de nós. Pois ele mesmo ainda não era cristão, sua esposa era uma das fiéis; e ainda assim por isto, mais rigidamente do que por qualquer outra corrente, ele era impedido e obstaculizado da jornada que tínhamos agora tentado. Pois não queria, dizia ele, ser cristão sob quaisquer outras condições a não ser aquelas que não podia. Contudo, ofereceu-nos cortesmente permanecer na sua casa de campo durante todo o tempo que lá estivéssemos. Tu, ó Senhor, recompensá-lo-ás na ressurreição dos justos, vendo que já lhe deste a sorte dos justos. Pois embora, na nossa ausência, estando agora em Roma, ele fosse acometido por doença corporal, e nela sendo feito cristão, e um dos fiéis, partiu desta vida; todavia, tiveste misericórdia não só dele, mas também de nós: para que, lembrando-nos da extrema bondade do nosso amigo para connosco, mas incapazes de o contar entre o Teu rebanho, não fôssemos agonizados com dor intolerável. Graças a Ti, nosso Deus, nós somos Teus: as Tuas sugestões e consolações dizem-nos, Fiel nas promessas, Tu recompensas agora Verecundus pela sua casa de campo de Cassiacum, onde da febre do mundo repousámos em Ti, com a frescura eterna do Teu Paraíso: pois que Tu lhe perdoaste os seus pecados na terra, naquela montanha rica, aquela montanha que dá leite, a Tua própria montanha.

Ele, então, tinha naquele tempo tristeza, mas Nebridius alegria. Pois embora ele também, não sendo ainda cristão, tivesse caído no fosso daquele erro mais pernicioso, acreditando que a carne do Teu Filho era um fantasma: todavia, emergindo daí, ele acreditava como nós; não ainda revestido com quaisquer Sacramentos da Tua Igreja, mas um ardentíssimo investigador da verdade. A quem, não muito depois da nossa conversão e regeneração pelo Teu Baptismo, sendo também um membro fiel da Igreja Católica, e servindo-Te em perfeita castidade e continência entre os seus na África, tendo toda a sua casa através dele primeiro sido feita cristã, libertaste Tu da carne; e agora ele vive no seio de Abraão. Seja o que for, o que é significado por aquele seio, ali vive o meu Nebridius, o meu doce amigo, e Teu filho, adotado de um liberto: ali ele vive. Pois que outro lugar existe para tal alma? Ali ele vive, de onde ele me perguntava muito, a mim, um pobre inexperiente. Agora ele não encosta o seu ouvido à minha boca, mas a sua boca espiritual à Tua fonte, e bebe tanto quanto pode receber, sabedoria na proporção da sua sede, infinitamente feliz. Nem penso que ele esteja tão embriagado com ela, a ponto de se esquecer de mim; vendo que Tu, Senhor, de Quem ele bebe, és consciente de nós. Assim estávamos nós então, confortando Verecundus, que se entristecia, tanto quanto a amizade permitia, que a nossa conversão fosse de tal sorte; e exortando-o a tornar-se fiel, de acordo com a sua medida, a saber, a de um estado matrimonial; e aguardando que Nebridius nos seguisse, o que, estando tão perto, ele estava quase a fazer: e assim, eis! aqueles dias passaram finalmente; pois longos e muitos pareciam, pelo amor que eu nutria à liberdade repousante, para que eu pudesse cantar-Te, do meu mais íntimo tutano, O meu coração disse-Te, busquei a Tua face: a Tua face, Senhor, buscarei.

Agora chegara o dia em que eu estava de facto para ser libertado da minha Professoria de Retórica, da qual em pensamento já estava libertado. E foi feito. Tu resgataste a minha língua, de onde tinhas antes resgatado o meu coração. E eu bendisse-Te, rejubilando; retirando-me com todos os meus para a villa. O que lá fiz por escrito, que estava agora alistado ao Teu serviço, embora ainda, neste intervalo como que de respiração, ofegante da escola do orgulho, os meus livros podem testemunhar, assim como o que debati com outros, como o que comigo só, perante Ti: o que com Nebridius, que estava ausente, as minhas Epístolas testemunham. E quando terei tempo para ensaiar todos os Teus grandes benefícios para connosco naquela altura, especialmente quando me apresso para misericórdias ainda maiores? Pois a minha lembrança recorda-me, e agradável é para mim, ó Senhor, confessar-Te, por que aguilhões interiores Tu me domaste; e como Tu me nivelaste, baixando as montanhas e colinas das minhas altas imaginações, endireitando a minha tortuosidade, e suavizando os meus caminhos ásperos; e como Tu também subjugaste o irmão do meu coração, Alípio, ao nome do Teu Unigénito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o que ele não queria a princípio dignar-se a ter inserido nos nossos escritos. Pois preferia antes que eles cheirassem aos altos cedros das Escolas, que o Senhor agora derrubou, do que às ervas saudáveis da Igreja, o antídoto contra as serpentes.

Oh, em que acentos falei a Ti, meu Deus, quando li os Salmos de David, aqueles cânticos fiéis, e sons de devoção, que não permitem espírito inchado, ainda como Catecúmeno, e um noviço no Teu amor real, descansando naquela villa, com Alípio Catecúmeno, minha mãe apegada a nós, em vestes femininas com fé masculina, com a tranquilidade da idade, amor maternal, piedade cristã! Oh, que acentos proferi a Ti naqueles Salmos, e como fui por eles acendido para Ti, e em fogo para ensaiá-los, se possível, por todo o mundo, contra o orgulho da humanidade! E ainda assim são cantados por todo o mundo, nem pode ninguém esconder-se do Teu calor. Com que dor veemente e amarga fui irritado contra os Maniqueus! e de novo compadeci-me deles, pois não conheciam aqueles Sacramentos, aqueles remédios, e estavam loucos contra o antídoto que os poderia ter recuperado da sua loucura. Como eu queria que eles estivessem então algures perto de mim, e sem eu saber que lá estavam, pudessem ter contemplado o meu semblante, e ouvido as minhas palavras, quando li o quarto Salmo naquele tempo do meu descanso, e como aquele Salmo operou sobre mim: Quando invoquei, o Deus da minha justiça ouviu-me; na tribulação me dilataste. Tem misericórdia de mim, ó Senhor, e ouve a minha oração. Quem dera que o que eu proferi sobre estas palavras, eles pudessem ouvir, sem eu saber se ouviam, para que não pensassem que eu o dizia por causa deles! Porque, na verdade, nem diria as mesmas coisas, nem da mesma maneira, se percebesse que eles me ouviam e viam; nem se as dissesse as receberiam como quando falei por e para mim mesmo perante Ti, dos sentimentos naturais da minha alma.

Tremia de medo, e de novo acendia-me com esperança, e com regozijo na Tua misericórdia, ó Pai; e tudo brotava tanto pelos meus olhos como pela minha voz, quando o Teu bom Espírito voltando-se para nós, disse, Ó vós filhos dos homens, até quando tardios de coração? por que amais a vaidade, e buscais a mentira? Pois eu tinha amado a vaidade, e buscado a mentira. E Tu, ó Senhor, já tinhas magnificado o Teu Santo, ressuscitando-O dos mortos, e colocando-O à Tua mão direita, de onde do alto Ele enviaria a Sua promessa, o Consolador, o Espírito da verdade. E Ele já o enviara, mas eu não o sabia; Ele enviara-o, porque Ele era agora magnificado, ressuscitando dos mortos, e ascendendo ao céu. Pois até então, o Espírito ainda não fora dado, porque Jesus ainda não fora glorificado. E o profeta clama, Até quando, tardios de coração? por que amais a vaidade, e buscais a mentira? Sabei que o Senhor magnificou o Seu Santo. Ele clama, Até quando? Ele clama, Sabei isto: e eu por tanto tempo, não sabendo, amei a vaidade, e busquei a mentira: e por isso ouvi e tremi, porque foi dito a tais como eu me lembrava de ter sido. Pois naqueles fantasmas que eu tinha tomado por verdades, havia vaidade e mentira; e falei em voz alta muitas coisas com fervor e força, na amargura da minha recordação. Quem dera que as tivessem ouvido, os que ainda amam a vaidade e buscam a mentira! Teriam talvez ficado perturbados, e tê-la-iam vomitado; e Tu ouvi-los-ias quando clamassem a Ti; pois por uma verdadeira morte na carne morreu Ele por nós, que agora intercede a Ti por nós.

Li também: Irai-vos, e não pequeis. E como fui comovido, ó meu Deus, eu que já aprendera a irar-me comigo mesmo pelas coisas passadas, para não pecar no tempo por vir! Sim, a irar-me justamente; pois não era outra natureza, de um povo de trevas, que pecava por mim, como dizem aqueles que não se iram consigo mesmos, e entesouram ira para o dia da ira e da revelação do Teu justo juízo. Nem estavam agora as minhas coisas boas fora, nem eram buscadas com os olhos da carne naquele sol terreno; pois aqueles que querem alegria de fora logo se tornam vãos, e desperdiçam-se nas coisas vistas e temporais, e em seus pensamentos famintos lambem as suas próprias sombras. Oh, se eles estivessem exaustos de sua fome e dissessem: Quem nos mostrará o bem? E nós diríamos, e eles ouviriam: A luz da Tua face está selada sobre nós. Pois nós não somos essa luz que ilumina todo homem, mas somos iluminados por Ti; para que, tendo sido outrora trevas, sejamos luz em Ti. Oh, se pudessem ver o Eterno Interno, do qual, tendo provado, entristeci-me por não poder mostrá-lo a eles, enquanto me traziam o coração nos olhos, vagando longe de Ti, enquanto diziam: Quem nos mostrará o bem? Pois ali, onde eu me irava dentro de mim mesmo em meu aposento, onde eu era interiormente pungido, onde eu tinha sacrificado, matando o meu velho homem e iniciando o propósito de uma nova vida, pondo a minha confiança em Ti — ali tinhas Tu começado a tornar-te doce para mim, e tinhas posto alegria no meu coração. E clamei, ao ler isto exteriormente, encontrando-o interiormente. Nem eu seria multiplicado com bens mundanos; desperdiçando o tempo, e desperdiçado pelo tempo; enquanto eu tinha em Tua eterna Essência Simples outro trigo, e vinho, e azeite.

E com um forte clamor do meu coração clamei no versículo seguinte: Ó em paz, ó pelo Mesmo! Ó o que ele disse: Deitar-me-ei e dormirei, pois quem nos impedirá, quando acontecer aquele ditado que está escrito: A morte foi tragada na vitória? E Tu és soberanamente o Mesmo, que não és mudado; e em Ti está o repouso que esquece todo o trabalho, pois não há outro contigo, nem devemos buscar aquelas muitas outras coisas, que não são o que Tu és: mas Tu, Senhor, somente me fizeste habitar em esperança. Li, e inflamei-me; nem encontrei o que fazer àqueles surdos e mortos, dos quais eu mesmo fora, uma pessoa pestilenta, um amargo e cego gritador contra aqueles escritos, que são melados com o mel do céu, e luminosos com a Tua própria luz: e eu era consumido de zelo pelos inimigos desta Escritura.

Quando recordarei tudo o que passou naqueles dias santos? Contudo, nem esqueci, nem passarei por alto a severidade do Teu açoite, e a maravilhosa rapidez da Tua misericórdia. Tu então me atormentaste com dor nos dentes; a qual, quando chegou a tal altura que eu não podia falar, veio ao meu coração desejar que todos os meus amigos presentes orassem por mim a Ti, o Deus de toda sorte de saúde. E isto escrevi em cera, e dei-lhes para ler. Imediatamente, tão logo com humilde devoção tínhamos dobrado os nossos joelhos, aquela dor desapareceu. Mas que dor? Ou como desapareceu? Fiquei assustado, ó meu Senhor, meu Deus; pois desde a infância eu nunca experimentara nada semelhante. E o poder do Teu Aceno foi profundamente comunicado a mim, e regozijando-me na fé, louvei o Teu Nome. E aquela fé não me permitiu ficar em paz quanto aos meus pecados passados, que ainda não me tinham sido perdoados pelo Teu batismo.

Terminadas as férias da vindima, dei aviso aos milaneses para que providenciassem aos seus alunos outro mestre para vender-lhes palavras; pois eu tinha feito a escolha de servir-Te, e por causa da minha dificuldade de respirar e dor no peito, não estava à altura do Professorado. E por cartas signifiquei ao Teu Prelado, o santo homem Ambrósio, os meus erros passados e desejos presentes, pedindo o seu conselho sobre qual das Tuas Escrituras eu deveria ler, para tornar-me mais pronto e apto para receber tão grande graça. Ele recomendou Isaías, o Profeta: creio eu, porque ele, acima dos outros, é um mais claro precursor do Evangelho e do chamado dos gentios. Mas eu, não entendendo a primeira lição nele, e imaginando que o todo fosse como ela, deixei-o de lado, para ser retomado quando melhor praticado nas próprias palavras do nosso Senhor.

Depois, quando chegou o tempo em que eu devia dar o meu nome, deixamos o campo e voltamos a Milão. Aprouve a Alípio também nascer de novo em Ti comigo, estando já revestido com a humildade que convém aos Teus Sacramentos; e um valentíssimo domador do corpo, a ponto de, com inusitada ousadia, usar o chão gelado da Itália com os seus pés nus. Unimos a nós o menino Adeodato, nascido segundo a carne, do meu pecado. Excelentemente o tinhas feito. Ele não tinha bem quinze anos, e em inteligência superava muitos homens graves e doutos. Confesso-Te os Teus dons, ó Senhor meu Deus, Criador de tudo, e abundantemente capaz de reformar as nossas deformidades: pois eu não tive parte naquele menino, senão o pecado. Pois que o criamos na Tua disciplina, foste Tu, ninguém mais, quem nos inspirou com ela. Confesso-Te os Teus dons. Há um livro nosso intitulado O Mestre; é um diálogo entre ele e mim. Tu sabes que tudo ali atribuído à pessoa que conversa comigo eram as ideias dele, em seu décimo sexto ano. Muito mais, e ainda mais admirável, encontrei nele. Aquele talento causava-me temor. E quem senão Tu poderia ser o mestre de obras de tais maravilhas? Logo tiraste a sua vida da terra: e eu agora lembro-me dele sem ansiedade, nada temendo pela sua infância ou juventude, ou por todo ele. A ele unimos a nós, nosso contemporâneo na graça, para ser criado na Tua disciplina: e fomos batizados, e a ansiedade pela nossa vida passada desapareceu de nós. Nem me saciava naqueles dias com a maravilhosa doçura de considerar a profundidade dos Teus conselhos sobre a salvação da humanidade. Como chorei, nos Teus Hinos e Cânticos, tocado até o âmago pelas vozes da Tua Igreja harmoniosamente afinada! As vozes fluíam para os meus ouvidos, e a Verdade destilava no meu coração, donde os afetos da minha devoção transbordavam, e as lágrimas corriam, e feliz eu era nisso.

Não fazia muito que a Igreja de Milão começara a usar esse tipo de consolação e exortação, os irmãos zelosa e harmoniosamente unindo as vozes e os corações. Pois fazia um ano, ou não muito mais, que Justina, mãe do Imperador Valentiniano, uma criança, perseguia o Teu servo Ambrósio, em favor da sua heresia, à qual fora seduzida pelos arianos. O povo devoto mantinha vigília na Igreja, pronto a morrer com o seu Bispo, Teu servo. Ali minha mãe, Tua serva, sustentando a parte principal daquelas ansiedades e vigílias, vivia para a oração. Nós, ainda não aquecidos pelo calor do Teu Espírito, ainda éramos agitados pela visão da cidade atônita e perturbada. Foi então que se instituiu pela primeira vez que, ao modo das Igrejas Orientais, Hinos e Salmos fossem cantados, para que o povo não desfalecesse através do tédio da tristeza: e desde aquele dia até hoje o costume é retido, diversas (sim, quase todas) as Tuas congregações, por outras partes do mundo, seguindo nisto.

Então Tu, por uma visão, descobriste ao Teu já nomeado Bispo onde os corpos de Gervásio e Protásio, os mártires, jaziam escondidos (os quais tinhas Tu guardado incorruptos em Teu tesouro secreto por tantos anos), donde os poderias oportunamente produzir para reprimir a fúria de uma mulher, mas uma Imperatriz. Pois quando foram descobertos e desenterrados, e com a devida honra trasladados para a Basílica Ambrosiana, não apenas aqueles que eram atormentados por espíritos imundos (os demônios confessando-se) foram curados, mas um certo homem que fora cego por muitos anos, um cidadão, e bem conhecido na cidade, perguntando e ouvindo a razão da alegria confusa do povo, saltou desejando que o seu guia o conduzisse até lá. Levado até lá, pediu permissão para tocar com o seu lenço o esquife dos Teus santos, cuja morte é preciosa aos Teus olhos. O que, quando fez, e pôs aos seus olhos, foram imediatamente abertos. Daí a fama espalhou-se, daí os Teus louvores brilharam, resplandeceram; daí a mente daquela inimiga, embora não voltada para a sanidade da fé, foi contudo desviada da sua fúria de perseguir. Graças a Ti, ó meu Deus. Donde e para onde levaste assim a minha memória, para que eu confessasse estas coisas também a Ti? Que, grandes embora sejam, eu tinha deixado passar no esquecimento. E contudo então, quando o odor dos Teus unguentos era tão fragrante, não corríamos nós após Ti. Por isso chorei mais entre o canto dos Teus Hinos, outrora suspirando por Ti, e finalmente respirando em Ti, tanto quanto o fôlego pode entrar nesta nossa casa de erva.

Tu que fazes os homens habitar de um só sentimento em uma casa, uniste a nós Euódio também, um jovem da nossa própria cidade. O qual, sendo um oficial da Corte, fora antes de nós convertido a Ti e batizado: e abandonando a sua milícia secular, cingiu-se à Tua. Estávamos juntos, prestes a morar juntos em nosso propósito devoto. Buscávamos onde poderíamos servir-Te mais utilitariamente, e estávamos juntos voltando para a África: para onde, estando nós tão longe quanto Óstia, minha mãe partiu desta vida. Muito omito, como quem tem muita pressa. Recebe as minhas confissões e ações de graças, ó meu Deus, por inúmeras coisas das quais me calo. Mas não omitirei tudo o que a minha alma queira trazer à tona concernente àquela Tua serva, que me trouxe ao mundo, tanto na carne, para que eu pudesse nascer para esta luz temporal, quanto no coração, para que eu pudesse nascer para a Luz eterna. Não dos seus dons, mas dos Teus nela, eu falaria; pois nem ela se fez, nem se educou. Tu a criaste; nem o seu pai e mãe sabiam que tipo de pessoa viria deles. E o cetro do Teu Cristo, a disciplina do Teu único Filho, em uma casa cristã, um bom membro da Tua Igreja, educou-a no Teu temor. Contudo, pela sua boa disciplina, ela costumava elogiar não tanto a diligência da sua mãe, mas a de uma certa criada decrépita, que carregara o seu pai quando criança, como as pequenas costumam ser carregadas nas costas das meninas mais velhas. Por cuja razão, e pela sua grande idade, e excelente conversa, era ela, naquela família cristã, bem respeitada pelos seus chefes. Donde também o cuidado das filhas do seu senhor lhe foi confiado, ao qual ela dava diligente atenção, restringindo-as seriamente, quando necessário, com uma santa severidade, e ensinando-as com uma grave discrição. Pois, exceto naquelas horas em que eram muito temperadamente alimentadas à mesa dos pais, ela não lhes permitia, embora ressequidas pela sede, beber sequer água; prevenindo um mau costume, e acrescentando este conselho salutar: "Vós bebeis água agora, porque não tendes vinho em vosso poder; mas quando vierdes a ser casadas, e vos tornardes senhoras de adegas e armários, desprezareis a água, mas o costume de beber permanecerá." Por este método de instrução, e a autoridade que ela tinha, ela refreou a ganância da infância, e moldou a própria sede delas para tal excelente moderação que o que não deviam, isso não queriam.

E contudo (como a Tua serva me contou, seu filho) tinha-se infiltrado nela um amor pelo vinho. Pois quando (como era o costume) ela, como uma donzela sóbria, era ordenada pelos seus pais a tirar vinho da barrica, segurando o vaso sob a abertura, antes que vertesse o vinho no jarro, ela sorvia um pouco com a ponta dos lábios; pois mais os seus instintos recusavam. Pois isto ela fazia, não por desejo de bebida, mas pela exuberância da juventude, pela qual ela transborda em travessuras festivas, que nos espíritos jovens costumam ser contidas pela gravidade dos mais velhos. E assim, ao adicionar a aquele pouco, poucos diários (pois quem despreza as pequenas coisas cairá pouco a pouco), ela tinha caído em tal hábito de beber avidamente o seu copinho quase cheio de vinho. Onde estava então aquela discreta velha, e aquela sua séria repreensão? Valeria algo contra uma doença secreta, se a Tua mão curadora, ó Senhor, não velasse sobre nós? Pai, mãe e governantes ausentes, Tu presente, que criaste, que chamas, que também pelos que estão sobre nós, trabalhas algo em direção à salvação das nossas almas, o que fizeste Tu então, ó meu Deus? Como a curaste? Como a saraste? Não fizeste Tu brotar de outra alma uma dura e aguda provocação, como um bisturi do Teu estoque secreto, e com um toque remover toda aquela matéria imunda? Pois uma criada com quem ela costumava ir à adega, caindo em palavras (como acontece) com a sua pequena senhora, quando a sós com ela, provocou-a com esta falta, com o mais amargo insulto, chamando-a de beberrona. Com a qual provocação ela, picada até o âmago, viu a imundície da sua falta, e instantaneamente condenou-a e abandonou-a. Como amigos lisonjeiros pervertem, assim inimigos reprovadores frequentemente corrigem. Contudo, não o que por eles Tu fazes, mas o que eles mesmos propuseram, é o que Tu lhes pagas. Pois ela, na sua ira, buscava vexar a sua jovem senhora, não corrigi-la; e fê-lo em privado, quer porque o tempo e o lugar da briga assim as encontrou; quer para que ela mesma também não tivesse ira, por descobri-lo assim tarde. Mas Tu, Senhor, Governador de tudo no céu e na terra, que desvias para os Teus propósitos as correntes mais profundas, e a turbulência governada da maré dos tempos, fizeste pela própria enfermidade de uma alma curar outra; para que ninguém, quando observa isto, o atribua ao seu próprio poder, mesmo quando outro, a quem ele desejava que fosse reformado, é reformado através de palavras suas.

Criada assim modesta e sobriamente, e feita sujeita mais por Ti aos seus pais, do que pelos seus pais a Ti, tão logo ela teve idade de casar, sendo entregue a um marido, serviu-o como seu senhor; e fez a sua diligência para ganhá-lo para Ti, pregando-Te a ele pela sua conversa; pela qual Tu a ornamentaste, tornando-a reverentemente amável, e admirável para o seu marido. E ela suportou de tal modo a ofensa do seu leito que nunca teve qualquer briga com o seu marido por causa disso. Pois ela esperava a Tua misericórdia sobre ele, para que, crendo em Ti, ele pudesse ser feito casto. Mas além disto, ele era fervente, tanto nas suas afeições, quanto na ira: mas ela tinha aprendido a não resistir a um marido irado, não apenas em atos, mas nem sequer em palavra. Somente quando ele estava suavizado e tranquilo, e em temperamento para recebê-lo, ela daria conta das suas ações, se por acaso ele tivesse tomado ofensa precipitadamente. Em uma palavra, enquanto muitas matronas, que tinham maridos mais brandos, contudo traziam até nos seus rostos marcas de vergonha, costumavam em conversa familiar culpar as vidas dos seus maridos, ela culpava as línguas delas, dando-lhes, como em gracejo, um conselho sério: "Que, desde o tempo em que ouviram as escrituras de casamento lidas para elas, elas deveriam considerá-las como contratos, pelos quais foram feitas servas; e assim, lembrando-se da sua condição, não deveriam levantar-se contra os seus senhores." E quando elas, sabendo que tipo de marido colérico ela suportava, maravilhavam-se de que nunca tivesse sido ouvido, nem por qualquer sinal percebido, que Patrício tivesse batido na sua esposa, ou que tivesse havido qualquer diferença doméstica entre eles, mesmo por um dia, e confidencialmente perguntando a razão, ela ensinou-lhes a sua prática acima mencionada. Aquelas esposas que a observaram encontraram o bem, e deram graças; aquelas que não a observaram, não encontraram alívio, e sofreram.

A sua sogra também, a princípio incitada contra ela por sussurros de más criadas, ela superou de tal modo pela observância e perseverante resistência e mansidão, que ela, de sua própria vontade, descobriu ao seu filho as línguas intrometidas pelas quais a paz doméstica entre ela e a sua nora tinha sido perturbada, pedindo-lhe que as corrigisse. Então, quando em cumprimento à sua mãe, e pela boa ordem da família, ele tinha com açoites corrigido aquelas descobertas, por vontade dela que as descobrira, ela prometeu a mesma recompensa a qualquer um que, para agradá-la, falasse mal da sua nora para ela: e não se aventurando mais ninguém, viveram juntos com uma notável doçura de mútua bondade.

Este grande dom também Tu concedeste, ó meu Deus, minha misericórdia, àquela boa serva Tua, em cujo ventre Tu me criaste, que entre quaisquer partes discordantes e desavindas onde ela era capaz, ela mostrava-se tal pacificadora, que, ouvindo de ambos os lados as coisas mais amargas, tais como a cólera inchada e indigesta costuma romper, quando as cruezas das inimizades são expelidas em discursos azedos a um amigo presente contra um inimigo ausente, ela nunca revelaria nada de um ao outro, senão o que pudesse tender à reconciliação deles. Um pequeno bem isto poderia parecer-me, se eu não soubesse, para minha dor, inumeráveis pessoas, que através de alguma horrível e vasta contágio de pecado, não apenas revelam a pessoas mutuamente iradas coisas ditas em ira, mas acrescentam, além disso, coisas nunca faladas, enquanto à humana humanidade deveria parecer uma coisa leve não fomentar ou aumentar a má vontade por más palavras, a menos que alguém estude, além disso, com boas palavras para extingui-la. Tal era ela, Tu mesmo, o seu Instrutor mais íntimo, ensinando-a na escola do coração.

Finalmente, o seu próprio marido, perto do próprio fim da sua vida terrena, ela ganhou para Ti; nem teve ela que se queixar daquilo nele como crente, que antes de ele ser crente ela suportara dele. Ela era também a serva dos Teus servos; quem quer que deles a conhecesse, nela muito louvava e honrava e amava a Ti; pois que através do testemunho dos frutos de uma santa conversa eles percebiam a Tua presença no seu coração. Pois ela tinha sido esposa de um só homem, tinha recompensado os seus pais, tinha governado a sua casa piamente, tinha boa fama pelas boas obras, tinha criado filhos, tantas vezes sentindo as dores de parto deles, quantas via que eles se desviavam de Ti. Por último, de todos nós, Teus servos, ó Senhor (a quem, por ocasião do Teu próprio dom, permites falar), nós, que antes do seu adormecer em Ti vivíamos unidos, tendo recebido a graça do Teu batismo, ela cuidou de tal modo, como se tivesse sido mãe de todos nós; serviu-nos, como se tivesse sido filha de todos nós.

O dia agora aproximando-se em que ela deveria partir desta vida (cujo dia Tu bem sabias, nós não sabíamos), aconteceu que, Tu mesmo, como creio, por Teus caminhos secretos ordenando-o, ela e eu ficamos sozinhos, encostados em uma certa janela, que dava para o jardim da casa onde agora jazíamos, em Óstia; onde, removidos do ruído dos homens, nos recuperávamos das fadigas de uma longa viagem, para a navegação. Discorríamos então juntos, a sós, muito docemente; e esquecendo as coisas que atrás ficam, e avançando para as coisas que estão diante, investigávamos entre nós, na presença da Verdade, que Tu és, de que sorte deveria ser a vida eterna dos santos, a qual olho não viu, nem ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem. Mas contudo nós arquejávamos com a boca do nosso coração, após aqueles riachos celestiais da Tua fonte, a fonte da vida, que está contigo; para que, sendo orvalhados de lá conforme a nossa capacidade, pudéssemos de alguma sorte meditar sobre tão alto mistério.

E quando nosso discurso foi levado a esse ponto, de que o deleite mais elevado dos sentidos terrenos, na luz material mais pura, não era, em relação à doçura daquela vida, não apenas indigno de comparação, mas nem sequer de menção; nós, elevando-nos com um afeto mais ardente para com o "Mesmo", passamos gradualmente por todas as coisas corporais, até mesmo pelo próprio céu de onde o sol, a lua e as estrelas brilham sobre a terra; sim, elevávamo-nos ainda mais alto, por meio de meditação interior, discurso e admiração das Tuas obras; e chegamos às nossas próprias mentes, e fomos além delas, para que pudéssemos chegar àquela região de fartura inesgotável, onde Tu alimentas Israel para sempre com o alimento da verdade, e onde a vida é a Sabedoria pela qual todas essas coisas são feitas, e o que foi, e o que será, e ela não é feita, mas é, como tem sido, e assim será para sempre; sim, melhor dizendo, "ter sido" e "ser no futuro" não estão nela, mas apenas "ser", visto que ela é eterna. Pois "ter sido" e "ser no futuro" não são eternos. E enquanto discorríamos e arquejávamos por ela, tocamo-la ligeiramente com todo o esforço de nosso coração; e suspiramos, e lá deixamos presas as primícias do Espírito; e retornamos às expressões vocais de nossa boca, onde a palavra falada tem começo e fim. E o que é semelhante à Tua Palavra, nosso Senhor, que permanece em Si mesma sem envelhecer, e faz todas as coisas novas?

Dizíamos então: Se para alguém o tumulto da carne se calasse, calassem as imagens da terra, e das águas, e do ar, calasse também o polo do céu, sim, a própria alma se calasse para consigo mesma, e por não pensar em si mesma superasse a si mesma, calassem todos os sonhos e revelações imaginárias, toda língua e todo sinal, e tudo o que existe apenas na transição, já que, se alguém pudesse ouvir, todas essas coisas diriam: Nós não nos fizemos, mas Aquele nos fez que permanece para sempre--Se então, tendo proferido isso, elas também se calassem, tendo despertado apenas nossos ouvidos para Aquele que as fez, e Ele sozinho falasse, não por elas, mas por Si mesmo, para que possamos ouvir Sua Palavra, não através de qualquer língua de carne, nem voz de Anjo, nem som de trovão, nem no enigma escuro de uma semelhança, mas pudéssemos ouvir Aquele a Quem nestas coisas amamos, pudéssemos ouvir Sua Própria Pessoa sem estas (como nós dois agora nos esforçamos, e em pensamento veloz tocamos aquela Sabedoria Eterna que permanece sobre todas);--se isso pudesse ser continuado, e outras visões de espécie muito diferente fossem retiradas, e esta única arrebatasse, e absorvesse, e envolvesse seu observador em meio a estas alegrias interiores, de modo que a vida pudesse ser para sempre como aquele único momento de entendimento pelo qual agora suspirávamos; não seria isto, Entra no gozo do teu Senhor? E quando isso será? Quando todos ressuscitarmos, embora nem todos sejamos transformados?

Tais coisas eu estava dizendo, e ainda que não desta mesma maneira, e com estas mesmas palavras, contudo, Senhor, Tu sabes que naquele dia em que falávamos destas coisas, e este mundo com todos os seus deleites se tornou, enquanto falávamos, desprezível para nós, minha mãe disse: "Filho, da minha parte não tenho mais deleite em coisa alguma nesta vida. O que faço aqui por mais tempo, e para que estou aqui, não sei, agora que minhas esperanças neste mundo estão realizadas. Uma coisa havia pela qual desejei demorar-me por um tempo nesta vida, que pudesse ver-te cristão católico antes que eu morresse. Meu Deus fez isso por mim mais abundantemente, que eu agora te veja, ademais, desprezando a felicidade terrena, tornar-te Seu servo: o que faço aqui?"

Que resposta lhe dei a estas coisas, não me lembro. Pois quase cinco dias depois, ou não muito mais, ela adoeceu de uma febre; e nessa doença um dia ela caiu em desmaio, e por um tempo foi retirada destas coisas visíveis. Apressamo-nos ao redor dela; mas ela logo voltou aos seus sentidos; e olhando para mim e meu irmão que estávamos de pé ao seu lado, disse-nos interrogativamente: "Onde estava eu?" E então olhando fixamente para nós, com dor espantada: "Aqui", diz ela, "enterrareis a vossa mãe." Eu guardei silêncio e contive o choro; mas meu irmão disse algo, desejando para ela, como a sorte mais feliz, que ela pudesse morrer, não em um lugar estranho, mas em sua própria terra. Ao que ela, com olhar ansioso, repreendendo-o com os olhos, por ele ainda saborear tais coisas, e então olhando para mim: "Vede", diz ela, "o que ele diz": e logo depois para nós dois: "Depositai", diz ela, "este corpo em qualquer lugar; não vos inquiete de modo algum o cuidado por isso: apenas isto peço, que vos lembreis de mim no altar do Senhor, onde quer que estejais." E tendo entregue este sentimento com as palavras que pôde, calou-se, sendo exercitada pela sua crescente doença.

Mas eu, considerando os Teus dons, Tu, Deus invisível, que incutes nos corações dos Teus fiéis, de onde brotam frutos maravilhosos, alegrei-me e dei-Te graças, recordando o que eu antes sabia, quão cuidadosa e ansiosa ela sempre fora quanto ao seu lugar de sepultamento, que ela havia providenciado e preparado para si mesma junto ao corpo de seu marido. Pois porque eles haviam vivido em grande harmonia juntos, ela também desejava (tão pouco a mente humana pode abraçar as coisas divinas) ter este acréscimo àquela felicidade, e que fosse lembrado entre os homens que, após sua peregrinação além dos mares, o que havia de terreno neste par unido tinha sido permitido unir-se sob a mesma terra. Mas quando este vazio havia, através da plenitude da Tua bondade, começado a cessar em seu coração, eu não sabia, e alegrei-me admirando o que ela havia assim me revelado; embora, na verdade, naquela nossa conversa também na janela, quando ela disse: "O que faço aqui por mais tempo?", não aparecesse nenhum desejo de morrer em sua própria pátria. Ouvi depois também que, quando já estávamos em Óstia, ela, com confiança de mãe, quando eu estava ausente, um dia discorreu com alguns de meus amigos sobre o desprezo desta vida e a bênção da morte: e quando eles ficaram maravilhados com tal coragem que Tu havias dado a uma mulher, e perguntaram: "Se ela não tinha medo de deixar seu corpo tão longe de sua própria cidade?", ela respondeu: "Nada é longe para Deus; nem se devia temer que, no fim do mundo, Ele não reconhecesse de onde deveria ressuscitar-me." No nono dia então de sua doença, e no quinquagésimo sexto ano de sua idade, e no trigésimo terceiro do meu, foi aquela alma religiosa e santa libertada do corpo.

Fechei seus olhos; e fluiu ao mesmo tempo uma grande tristeza em meu coração, que estava transbordando em lágrimas; meus olhos ao mesmo tempo, pelo comando violento da minha mente, beberam sua fonte completamente seca; e ai de mim em tal conflito! Mas quando ela deu seu último suspiro, o menino Adeodatus irrompeu em um lamento alto; então, contido por todos nós, calou-se. Da mesma maneira, um sentimento infantil em mim, que estava, através da voz juvenil do meu coração, encontrando sua saída no choro, foi contido e silenciado. Pois não julgamos adequado solenizar aquele funeral com lamento choroso e gemidos; pois por meio disso eles expressam na maioria das vezes tristeza pelos que partiram, como se infelizes, ou totalmente mortos; enquanto ela não era nem infeliz em sua morte, nem totalmente morta. Disso estávamos assegurados por boas razões, o testemunho de sua boa conversa e sua fé não fingida.

O que era então que me doía gravemente por dentro, senão uma ferida fresca produzida pela súbita ruptura daquele costume tão doce e caro de vivermos juntos? Alegrei-me de fato em seu testemunho, quando, naquela sua última doença, misturando seus carinhos com meus atos de dever, ela me chamou de "ditoso", e mencionou, com grande afeto de amor, que ela nunca tinha ouvido nenhum som áspero ou reprovador proferido pela minha boca contra ela. Mas ainda assim, ó meu Deus, que nos fizeste, que comparação há entre aquela honra que eu lhe prestei e sua escravidão por mim? Sendo então abandonado por tão grande conforto nela, minha alma ficou ferida, e aquela vida dilacerada como se fosse, que, da dela e da minha juntas, tinha sido feita uma só.

O menino então, tendo se calado do choro, Euodius pegou o Saltério e começou a cantar, toda a nossa casa respondendo-lhe, o Salmo: Cantarei a misericórdia e o juízo a Ti, ó Senhor. Mas ouvindo o que estávamos fazendo, muitos irmãos e mulheres religiosas reuniram-se; e enquanto eles (cujo ofício era) preparavam o sepultamento, como é o costume, eu, em uma parte da casa onde podia apropriadamente, junto com aqueles que não achavam adequado deixar-me, discorri sobre algo adequado ao tempo; e por este bálsamo da verdade aplaquei aquele tormento, conhecido por Ti, eles desconhecendo e ouvindo atentamente, e concebendo que eu estava sem todo sentimento de tristeza. Mas em Teus ouvidos, onde nenhum deles ouvia, eu culpava a fraqueza dos meus sentimentos, e continha minha torrente de dor, que cedeu um pouco a mim; mas novamente veio, como com uma maré, ainda não de modo a irromper em lágrimas, nem a mudar de semblante; ainda assim eu sabia o que estava contendo em meu coração. E estando muito descontente por essas coisas humanas terem tal poder sobre mim, que na devida ordem e designação da nossa condição natural devem necessariamente acontecer, com uma nova dor eu sofria pela minha dor, e era assim desgastado por uma dupla tristeza.

E eis que o cadáver foi levado para o sepultamento; fomos e voltamos sem lágrimas. Pois nem naquelas orações que derramamos a Ti, quando o Sacrifício do nosso resgate foi oferecido por ela, quando agora o cadáver estava ao lado da sepultura, como é o costume lá, antes de ser nela depositado, eu chorei mesmo durante aquelas orações; contudo eu estive o dia todo em segredo pesadamente triste, e com mente perturbada orei a Ti, como pude, para curar minha tristeza, ainda assim Tu não o fizeste; imprimindo, creio, em minha memória por este único exemplo, quão forte é o vínculo de todo hábito, mesmo sobre uma alma, que agora se alimenta de nenhuma Palavra enganosa. Pareceu-me também bom ir banhar-me, tendo ouvido que o banho tinha seu nome (balneum) do grego Balaneion, por expulsar a tristeza da mente. E isto também confesso à Tua misericórdia, Pai dos órfãos, que me banhei, e estava o mesmo que antes de me banhar. Pois a amargura da tristeza não pôde exudar do meu coração. Então dormi, e acordei novamente, e encontrei minha dor não pouco suavizada; e como eu estava sozinho em minha cama, lembrei-me daqueles versos verdadeiros do Teu Ambrósio. Pois Tu és o

"Criador de tudo, o Senhor, E Regente da altura, Que, vestindo o dia de luz, derramaste Suaves sonos sobre a noite, Para que aos nossos membros o poder Do trabalho possa ser renovado, E corações sejam levantados que afundam e se acovardam, E as tristezas sejam subjugadas."

E então, pouco a pouco, recuperei meus pensamentos anteriores sobre a Tua serva, sua santa conversa para Contigo, sua santa ternura e observância para conosco, das quais fui subitamente privado: e tive a intenção de chorar à Tua vista, por ela e por mim, em seu nome e no meu próprio. E cedi às lágrimas que antes continha, para transbordar tanto quanto desejassem; repousando meu coração sobre elas; e ele encontrou descanso nelas, pois estava em Teus ouvidos, não nos de homens, que teriam interpretado com desprezo o meu choro. E agora, Senhor, por escrito eu confesso a Ti. Leia-o quem quiser, e interprete-o como quiser: e se ele encontrar pecado nisso, que eu chorei por minha mãe por uma pequena porção de hora (a mãe que por aquele tempo estava morta aos meus olhos, que havia por muitos anos chorado por mim para que eu pudesse viver aos Teus olhos), não me ridicularize; mas antes, se ele for um homem de grande caridade, que ele chore ele mesmo pelos meus pecados a Ti, o Pai de todos os irmãos do Teu Cristo.

Mas agora, com um coração curado daquela ferida, na qual poderia parecer censurável por um sentimento terreno, derramo a Ti, nosso Deus, em nome dessa Tua serva, um tipo muito diferente de lágrimas, fluindo de um espírito abalado pelos pensamentos dos perigos de toda alma que morre em Adão. E embora ela, tendo sido vivificada em Cristo, mesmo antes de sua libertação da carne, tenha vivido para o louvor do Teu nome por sua fé e conversa; ainda assim não ouso dizer que, desde o tempo em que Tu a regeneraste pelo batismo, nenhuma palavra saiu de sua boca contra o Teu Mandamento. Teu Filho, a Verdade, disse: Quem disser ao seu irmão, Tolo, estará em perigo do fogo do inferno. E ai mesmo da vida louvável dos homens, se, deixando de lado a misericórdia, Tu a examinasses. Mas porque Tu não és extremo em investigar os pecados, esperamos confiantemente encontrar algum lugar Contigo. Mas quem quer que conte seus méritos reais a Ti, o que ele conta a Ti senão os Teus próprios dons? Ó, que os homens soubessem que são homens; e que aquele que se gloria, se glorie no Senhor.

Eu, portanto, ó meu Louvor e minha Vida, Deus do meu coração, deixando de lado por um tempo suas boas obras, pelas quais dou graças a Ti com alegria, rogo agora por causa dos pecados de minha mãe. Escuta-me, suplico-Te, pelo Remédio das nossas feridas, Aquele que pendurou no madeiro, e agora sentado à Tua destra intercede a Ti por nós. Sei que ela agiu misericordiosamente, e de seu coração perdoou a seus devedores suas dívidas; perdoa Tu também suas dívidas, o que quer que ela possa ter contraído em tantos anos, desde a água da salvação. Perdoa-a, Senhor, perdoa, suplico-Te; não entres em juízo com ela. Que a Tua misericórdia seja exaltada acima da Tua justiça, já que Tuas palavras são verdadeiras, e Tu prometeste misericórdia aos misericordiosos; o que Tu lhes deste para serem, Tu que terás misericórdia de quem quiseres ter misericórdia; e terás compaixão de quem tiveres tido compaixão.

E, creio, Tu já fizeste o que peço; mas aceita, ó Senhor, as ofertas voluntárias da minha boca. Pois ela, com o dia de sua dissolução agora próximo, não pensou em ter seu corpo sumptuosamente envolto, ou embalsamado com especiarias; nem desejou um monumento escolhido, ou ser enterrada em sua própria terra. Estas coisas ela não nos ordenou; mas desejou apenas ter seu nome comemorado em Teu Altar, ao qual ela havia servido sem interrupção de um dia: de onde ela sabia que o santo Sacrifício era dispensado, pelo qual o escrito de dívida que era contra nós é apagado; através do qual o inimigo foi triunfado, que somando nossas ofensas, e buscando o que lançar contra nós, nada encontrou Naquele, em Quem vencemos. Quem restaurará a Ele o sangue inocente? Quem pagará a Ele o preço com o qual Ele nos comprou, e assim nos tirará d'Ele? Ao Sacramento de cujo resgate, Tua serva ligou sua alma pelo vínculo da fé. Que ninguém a separe da Tua proteção: que nem o leão nem o dragão se interponham por força ou fraude. Pois ela não responderá que não deve nada, para que não seja condenada e apreendida pelo astuto acusador: mas ela responderá que seus pecados lhe são perdoados por Aquele, a Quem ninguém pode pagar aquele preço que Ele, que nada devia, pagou por nós.

Que ela descanse então em paz com o marido, antes e depois do qual ela nunca teve nenhum outro; a quem ela obedeceu, com paciência dando fruto para Ti, para que ela pudesse ganhá-lo também para Ti. E inspira, ó Senhor meu Deus, inspira Teus servos meus irmãos, Teus filhos meus senhores, a quem com voz, e coração, e pena sirvo, que tantos quantos lerem estas Confissões, possam em Teu Altar lembrar-se de Mônica, Tua serva, com Patrício, seu outrora marido, por cujos corpos Tu me trouxeste a esta vida, como não sei. Que eles, com afeto devoto, lembrem-se de meus pais nesta luz transitória, meus irmãos sob Ti, nosso Pai, em nossa Mãe Católica, e meus concidadãos naquela Jerusalém eterna pela qual Teu povo peregrino suspira desde seu Êxodo, até seu retorno para lá. Para que assim o último pedido de minha mãe a mim, possa através de minhas confissões, mais do que através de minhas orações, ser, pelas orações de muitos, mais abundantemente cumprido para ela.

LIVRO X

Que eu Te conheça, ó Senhor, que me conheces: que eu Te conheça, como sou conhecido. Poder da minha alma, entra nela, e adapta-a para Ti, para que possas tê-la e mantê-la sem mancha ou ruga. Esta é minha esperança, por isso falo; e nesta esperança me alegro, quando me alegro saudavelmente. Outras coisas desta vida são tanto menos para serem lamentadas, quanto mais são lamentadas; e tanto mais para serem lamentadas, quanto menos os homens as lamentam. Pois eis que Tu amas a verdade, e aquele que a pratica, vem para a luz. Isto faria eu em meu coração diante de Ti em confissão: e em minha escrita, diante de muitas testemunhas.

E de Ti, ó Senhor, a cujos olhos o abismo da consciência humana está nu, o que poderia estar oculto em mim ainda que eu não quisesse confessá-lo? Pois eu esconderia Ti de mim, não a mim de Ti. Mas agora, porque meu gemido é testemunha de que estou descontente comigo mesmo, Tu brilhas, e és agradável, e amado, e desejado; para que eu possa ter vergonha de mim mesmo, e renunciar a mim mesmo, e escolher-Te, e nem agradar a Ti nem a mim mesmo, mas em Ti. A Ti, portanto, ó Senhor, estou aberto, qualquer que seja o que eu sou; e com que fruto confesso a Ti, eu disse. Nem o faço com palavras e sons da carne, mas com as palavras da minha alma, e o grito do pensamento que Teu ouvido conhece. Pois quando sou mau, então confessar a Ti não é nada mais do que estar descontente comigo mesmo; mas quando santo, nada mais do que não atribuí-lo a mim mesmo: porque Tu, ó Senhor, abençoas o piedoso, mas primeiro Tu o justificas quando ímpio. Minha confissão então, ó meu Deus, à Tua vista, é feita silenciosamente, e não silenciosamente. Pois em som, é silenciosa; em afeto, clama em voz alta. Pois nem profiro nada de correto aos homens, que Tu não tenhas antes ouvido de mim; nem Tu ouves algo assim de mim, que Tu não tenhas primeiro dito a mim.

O que tenho então a ver com os homens, para que ouçam minhas confissões--como se pudessem curar todas as minhas enfermidades--uma raça curiosa de saber as vidas dos outros, preguiçosa para emendar as suas próprias? Por que buscam ouvir de mim o que sou; que não querem ouvir de Ti o que eles mesmos são? E como sabem, quando de mim mesmo ouvem sobre mim, se digo a verdade; vendo que nenhum homem sabe o que há no homem, senão o espírito do homem que nele está? Mas se ouvirem de Ti sobre eles mesmos, não podem dizer: "O Senhor mente." Pois o que é ouvir de Ti sobre eles mesmos, senão conhecerem-se a si mesmos? E quem conhece e diz: "É falso", a menos que ele mesmo minta? Mas porque a caridade crê em todas as coisas (isto é, entre aqueles que, unindo a si mesma, torna um só), eu também, ó Senhor, confessarei a Ti de tal maneira, que os homens possam ouvir, a quem não posso demonstrar se confesso verdadeiramente; ainda assim eles acreditam em mim, cujos ouvidos a caridade me abre.

Mas faze Tu, meu Médico íntimo, que se torne claro para mim que fruto posso colher ao fazê-lo. Pois as confissões dos meus pecados passados, que Tu perdoaste e cobriste, para que me abençoasses em Ti, transformando a minha alma pela Fé e pelo Teu Sacramento, quando lidas e ouvidas, despertam o coração, para que não adormeça no desespero e diga "não posso", mas desperte no amor da Tua misericórdia e na doçura da Tua graça, pela qual aquele que é fraco, torna-se forte, quando por ela se tornou consciente da sua própria fraqueza. E os bons deleitam-se em ouvir os males passados daqueles que agora estão livres deles, não porque sejam males, mas porque foram e já não são. Com que fruto, então, ó Senhor meu Deus, a Quem a minha consciência confessa diariamente, confiando mais na esperança da Tua misericórdia do que na sua própria inocência, com que fruto, rogo-Te, confesso eu por este livro também aos homens, na Tua presença, o que agora sou, e não o que fui? Pois esse outro fruto eu já vi e dele falei. Mas o que agora sou, no preciso momento de fazer estas confissões, diversos desejam saber, os que me conheceram ou não, os que ouviram de mim ou sobre mim; mas o seu ouvido não está no meu coração, onde eu estou, qualquer que seja o que eu sou. Desejam, pois, ouvir-me confessar o que sou por dentro; aonde nem o seu olho, nem o seu ouvido, nem a sua compreensão podem chegar; desejam-no, prontos a acreditar — mas saberão eles? Pois a caridade, pela qual eles são bons, diz-lhes que nas minhas confissões eu não minto; e ela, neles, acredita em mim.

Mas com que fruto desejariam eles ouvir isto? Desejam alegrar-se comigo, quando ouvem quão perto, pelo Teu dom, me aproximo de Ti? E rezar por mim, quando ouvirem o quanto sou retido pelo meu próprio peso? A tais pessoas eu revelar-me-ei. Pois não é um fruto pequeno, ó Senhor meu Deus, que por muitos sejam dadas graças a Ti em nosso nome, e que por muitos sejas Tu suplicado por nós. Que a mente fraternal ame em mim o que Tu ensinas que deve ser amado, e lamente em mim o que Tu ensinas que deve ser lamentado. Que seja uma mente fraternal, não a de um estranho, não a dos filhos estranhos, cuja boca fala vaidade e cuja mão direita é uma mão de iniquidade, mas aquela mente fraternal que, quando aprova, rejubila por mim, e quando me desaprova, compadece-se de mim; porque, quer aprove ou desaprove, ela ama-me. A tais pessoas revelar-me-ei: eles respirarão livremente com as minhas boas ações, suspirarão pelas minhas más. As minhas boas ações são as Tuas designações e os Teus dons; as minhas más são as minhas ofensas e os Teus julgamentos. Que respirem livremente pelas umas, suspirem pelas outras; e que hinos e pranto subam à Tua vista, vindos dos corações dos meus irmãos, os Teus incensários. E sê Tu, ó Senhor, agradado com o incenso do Teu templo santo, tem misericórdia de mim segundo a Tua grande misericórdia por amor do Teu próprio nome; e não abandonando de forma alguma o que começaste, aperfeiçoa as minhas imperfeições.

Este é o fruto das minhas confissões do que sou, não do que fui, confessar isto, não apenas diante de Ti, numa exultação secreta com tremor, e numa tristeza secreta com esperança; mas também aos ouvidos dos filhos dos homens que acreditam, partilhadores da minha alegria e sócios da minha mortalidade, meus concidadãos e companheiros de peregrinação, que partiram antes, ou que hão de seguir, companheiros do meu caminho. Estes são os Teus servos, meus irmãos, a quem Tu queres que sejam Teus filhos; meus mestres, a quem Tu me ordenas que sirva, se quiser viver contigo, de Ti. Mas esta Tua Palavra seria pouco se apenas mandasse falando, e não fosse à frente cumprindo. Isto, pois, faço em ato e em palavra, isto faço sob as Tuas asas; em perigo demasiado grande, se a minha alma não estivesse submetida a Ti sob as Tuas asas, e a minha enfermidade conhecida por Ti. Sou um pequenino, mas o meu Pai vive sempre, e o meu Guardião é suficiente para mim. Pois Ele é o mesmo que me gerou e me defende: e Tu mesmo és todo o meu bem; Tu, Todo-Poderoso, Que estás comigo, sim, antes que eu esteja contigo. A tais, então, a quem Tu me ordenas que sirva, revelarei, não o que fui, mas o que agora sou e o que ainda sou. Mas nem a mim mesmo julgo. Assim, portanto, quero ser ouvido.

Pois Tu, Senhor, julgas-me: porque, embora ninguém conheça as coisas de um homem, senão o espírito do homem que nele está, ainda assim há algo no homem que nem o espírito do homem que nele está, ele próprio conhece. Mas Tu, Senhor, conheces tudo dele, Tu que o fizeste. Contudo eu, embora à Tua vista me despreze e me considere pó e cinza; ainda assim sei algo de Ti, que não sei de mim mesmo. E verdadeiramente, agora vemos através de um espelho, obscuramente, não ainda face a face. Enquanto, portanto, estiver ausente de Ti, estou mais presente comigo mesmo do que contigo; e contudo conheço-Te, que Tu não és de modo algum passível; mas eu, que tentações posso resistir, quais não posso, não sei. E há esperança, porque Tu és fiel, que não permitirás que sejamos tentados acima do que podemos; mas com a tentação farás também o caminho de escape, para que possamos suportá-la. Confessarei, então, o que sei de mim mesmo, confessarei também o que não sei de mim mesmo. E isso porque o que sei de mim mesmo, sei por Teu brilho sobre mim; e o que não sei de mim mesmo, não o sei até que a minha escuridão se torne como o meio-dia na Tua face.

Não com dúvida, mas com consciência assegurada, amo-Te, Senhor. Feriste o meu coração com a Tua palavra, e eu amei-Te. Sim, também o céu, e a terra, e tudo o que neles há, eis que, por todos os lados, me convidam a amar-Te; e não cessam de dizê-lo a todos, para que sejam inescusáveis. Mas mais profundamente terás misericórdia de quem quiseres ter misericórdia, e terás compaixão de quem tiveres tido compaixão: de outra forma, em ouvidos surdos o céu e a terra proclamam os Teus louvores. Mas o que amo eu, quando Te amo? Não a beleza dos corpos, nem a bela harmonia do tempo, nem o brilho da luz, tão alegre para os nossos olhos, nem as doces melodias de canções variadas, nem o cheiro fragrante das flores, e unguentos, e especiarias, não o maná e o mel, não membros aceitáveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus; e contudo amo uma espécie de luz, e melodia, e fragrância, e alimento, e abraço quando amo o meu Deus, a luz, melodia, fragrância, alimento, abraço do meu homem interior: onde brilha para a minha alma o que o espaço não pode conter, e soa o que o tempo não leva consigo, e cheira o que a respiração não dispersa, e sabe o que o comer não diminui, e adere o que a saciedade não divorcia. Isto é o que amo quando amo o meu Deus.

E o que é isto? Perguntei à terra, e ela respondeu-me: "Não sou Ele"; e tudo o que nela há confessou o mesmo. Perguntei ao mar e aos abismos, e aos seres vivos que rastejam, e eles responderam: "Nós não somos o teu Deus, procura acima de nós". Perguntei ao ar em movimento; e todo o ar com os seus habitantes respondeu: "Anaxímenes enganou-se, eu não sou Deus". Perguntei aos céus, sol, lua, estrelas: "Nem (dizem eles) somos nós o Deus que procuras". E respondi a todas as coisas que rodeiam a porta da minha carne: "Vós dissestes-me sobre o meu Deus, que não sois Ele; dizei-me algo sobre Ele". E elas clamaram com voz alta: "Ele fez-nos". O meu questioná-las era o meu pensamento sobre elas: e a sua forma de beleza deu a resposta. E voltei-me para mim mesmo, e disse a mim mesmo: "Quem és tu?" E respondi: "Um homem". E eis que, em mim apresentam-se-me alma e corpo, um fora, o outro dentro. Por qual destes devo eu procurar o meu Deus? Procurei-O no corpo da terra ao céu, até onde pude enviar mensageiros, os feixes dos meus olhos. Mas o melhor é o interior, pois a ele, como presidindo e julgando, todos os mensageiros corporais relataram as respostas do céu e da terra, e todas as coisas neles, que disseram: "Nós não somos Deus, mas Ele fez-nos". Estas coisas o meu homem interior conheceu pelo ministério do exterior: eu, o interior, conhecia-as; eu, a mente, através dos sentidos do meu corpo. Perguntei a toda a estrutura do mundo sobre o meu Deus; e ela respondeu-me: "Não sou Ele, mas Ele fez-me".

Não é esta figura corpórea aparente a todos cujos sentidos são perfeitos? por que então não diz ela o mesmo a todos? Animais pequenos e grandes veem-na, mas não podem perguntar-lhe: porque nenhuma razão é posta sobre os seus sentidos para julgar o que eles relatam. Mas os homens podem perguntar, de modo que as coisas invisíveis de Deus são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas que são feitas; mas pelo amor delas, são feitas sujeitas a elas: e os sujeitos não podem julgar. Nem as criaturas respondem aos que perguntam, a menos que possam julgar; nem mudam a sua voz (isto é, a sua aparência), se um homem apenas vê, e outro vendo pergunta, de modo a aparecer de uma maneira para este homem, de outra maneira para aquele, mas aparecendo da mesma maneira para ambos, é mudo para este, fala para aquele; sim, antes fala a todos; mas só compreendem aqueles que comparam a sua voz recebida de fora com a verdade de dentro. Pois a verdade diz-me: "Nem o céu, nem a terra, nem qualquer outro corpo é o teu Deus". Isto, a sua própria natureza diz àquele que as vê: "Elas são uma massa; uma massa é menor numa parte do que no todo". Agora a ti falo, ó minha alma, tu és a minha melhor parte: pois tu vivificas a massa do meu corpo, dando-lhe vida, o que nenhum corpo pode dar a um corpo: mas o teu Deus é até para ti a Vida da tua vida.

O que amo então, quando amo o meu Deus? quem é Ele acima da cabeça da minha alma? Pela minha própria alma ascender-Lhe-ei. Passarei além daquele poder pelo qual estou unido ao meu corpo, e encho toda a sua estrutura de vida. Nem posso por esse poder encontrar o meu Deus; pois assim o cavalo e o mulo que não têm entendimento poderiam encontrá-Lo; vendo que é o mesmo poder pelo qual até os seus corpos vivem. Mas outro poder existe, não apenas aquele pelo qual animo, mas também aquele pelo qual imbuo de sentido a minha carne, que o Senhor formou para mim: ordenando ao olho que não ouça, e ao ouvido que não veja; mas ao olho, que através dele eu devesse ver, e ao ouvido, que através dele eu devesse ouvir; e aos outros sentidos separadamente, o que é para cada um os seus próprios assentos e ofícios; os quais, sendo diversos, eu, a mente única, através deles pratico. Passarei além deste meu poder também; pois este também têm o cavalo e o mulo, pois eles também percebem através do corpo.

Passarei então além deste poder da minha natureza também, subindo por graus até Aquele que me fez. E chego aos campos e palácios espaçosos da minha memória, onde estão os tesouros de inumeráveis imagens, trazidas para ela de coisas de todos os tipos percebidas pelos sentidos. Aí está guardado tudo o que mais pensamos, quer ampliando ou diminuindo, ou de qualquer outra forma variando aquelas coisas a que o sentido chegou; e tudo o que mais foi cometido e depositado, que o esquecimento ainda não engoliu e enterrou. Quando entro lá, exijo o que quero que seja trazido para fora, e algo instantaneamente vem; outros devem ser procurados por mais tempo, os quais são buscados, por assim dizer, de algum receptáculo interior; outros irrompem em tropas, e enquanto uma coisa é desejada e exigida, saltam para fora, como quem diria: "Serei porventura eu?" Estes eu afasto com a mão do coração, da face da minha lembrança; até que o que desejo seja desvendado, e apareça à vista, fora do seu lugar secreto. Outras coisas vêm prontamente, em ordem ininterrupta, conforme são chamadas; as da frente dando lugar às seguintes; e à medida que dão lugar, são escondidas da vista, prontas a vir quando eu quiser. Tudo o que acontece quando repito uma coisa de cor.

Aí estão todas as coisas preservadas distintamente e sob cabeças gerais, tendo cada uma entrado pela sua própria avenida: como a luz, e todas as cores e formas dos corpos pelos olhos; pelos ouvidos todos os tipos de sons; todos os cheiros pela avenida das narinas; todos os sabores pela boca; e pela sensação de todo o corpo, o que é duro ou macio; quente ou frio; ou rugoso; pesado ou leve; quer exteriormente ou interiormente ao corpo. Todas estas recebe aquele grande porto da memória nas suas inúmeras secretas e inexprimíveis voltas, para estarem presentes, e trazidas para fora na necessidade; cada uma entrando pela sua própria porta, e aí depositada. Nem as coisas mesmas entram; apenas as imagens das coisas percebidas estão aí prontas, para o pensamento recordar. Quais imagens, como são formadas, quem pode dizer, embora pareça claramente por qual sentido cada uma foi trazida e armazenada? Pois mesmo enquanto habito na escuridão e no silêncio, na minha memória posso produzir cores, se quiser, e discernir entre o preto e o branco, e outras que eu quiser: nem os sons irrompem e perturbam a imagem trazida pelos meus olhos, que estou a rever, embora eles também estejam lá, jazendo dormentes, e depositados, por assim dizer, à parte. Pois estes também chamo, e imediatamente aparecem. E embora a minha língua esteja imóvel, e a minha garganta muda, assim posso cantar tanto quanto quiser; nem aquelas imagens de cores, que não obstante estejam lá, se intrometem e interrompem, quando outro armazém é chamado, que fluiu pelos ouvidos. Assim as outras coisas, empilhadas dentro e para cima pelos outros sentidos, recordo ao meu prazer. Sim, discirno o sopro dos lírios das violetas, embora não cheirando nada; e prefiro o mel ao vinho doce, o liso ao rugoso, no momento não provando nem tocando, mas lembrando apenas.

Estas coisas faço eu por dentro, naquele vasto tribunal da minha memória. Pois estão presentes comigo, céu, terra, mar, e tudo o que neles pude pensar, além do que esqueci. Aí também encontro-me comigo mesmo, e recordo-me, e quando, onde, e o que fiz, e sob que sentimentos. Aí estão tudo o que me lembro, quer por minha própria experiência, ou crédito de outros. Do mesmo armazém eu próprio combino continuamente com o passado novas e novas semelhanças de coisas que experimentei, ou, do que experimentei, acreditei: e daí novamente infiro ações futuras, eventos e esperanças, e todas estas novamente reflito, como presentes. "Farei isto ou aquilo", digo a mim mesmo, naquele grande receptáculo da minha mente, armazenado com as imagens de coisas tantas e tão grandes, "e isto ou aquilo seguirá". "Oxalá isto ou aquilo pudesse ser!" "Deus afaste isto ou aquilo!" Assim falo a mim mesmo: e quando falo, as imagens de tudo de que falo estão presentes, fora do mesmo tesouro da memória; nem falaria de nenhuma delas, se as imagens faltassem.

Grande é esta força da memória, excessivamente grande, ó meu Deus; uma câmara vasta e sem limites! quem sondou alguma vez o fundo dela? contudo é este um poder meu, e pertence à minha natureza; nem eu próprio compreendo tudo o que sou. Por isso é a mente demasiado estreita para conter-se a si mesma. E onde estaria o que ela não contém de si mesma? Está fora dela, e não dentro? como então não se compreende ela a si mesma? Uma admiração maravilhosa surpreende-me, espanto apodera-se de mim sobre isto. E os homens vão para fora admirar as alturas das montanhas, as poderosas ondas do mar, as largas marés dos rios, a bússola do oceano, e os circuitos das estrelas, e passam por si mesmos; nem se maravilham que quando falei de todas estas coisas, não as vi com os meus olhos, contudo não poderia ter falado delas, a menos que então visse realmente as montanhas, ondas, rios, estrelas que tinha visto, e aquele oceano que acredito ser, interiormente na minha memória, e isso, com os mesmos vastos espaços entre, como se os visse fora. Contudo não os trouxe para dentro de mim vendo-os, quando com os meus olhos os contemplei; nem estão eles mesmos comigo, mas apenas as suas imagens. E sei por qual sentido do corpo cada uma foi impressa em mim.

Contudo não apenas estas retém a incomensurável capacidade da minha memória. Aqui está também tudo, aprendido das ciências liberais e ainda não esquecido; removido, por assim dizer, para algum lugar interior, que contudo não é lugar: nem são as imagens delas, mas as próprias coisas. Pois, o que é a literatura, o que é a arte de disputar, quantos tipos de questões há, tudo o que disto sei, de tal maneira existe na minha memória, como que não tomei a imagem, e deixei de fora a coisa, ou que devesse ter soado e passado como uma voz fixada no ouvido por aquela impressão, pela qual pudesse ser recordada, como se soasse, quando já não soava; ou como um cheiro enquanto passa e evapora no ar afeta o sentido do olfato, de onde transmite para a memória uma imagem de si mesmo, que lembrando, renovamos, ou como alimento, que verdadeiramente no ventre já não tem gosto, e contudo na memória ainda de certa maneira tem gosto; ou como qualquer coisa que o corpo pelo toque percebe, e que quando removida de nós, a memória ainda concebe. Pois essas coisas não são transmitidas para a memória, mas apenas as suas imagens são com uma rapidez admirável capturadas, e armazenadas, por assim dizer, em armários maravilhosos, e daí maravilhosamente pelo ato de lembrar, trazidas para fora.

Mas agora, quando ouço dizer que há três tipos de questões: "Se a coisa é? O que ela é? De que tipo é?", retenho, na verdade, as imagens dos sons de que essas palavras são compostas, e que esses sons, com um ruído, passaram pelo ar e agora já não existem. Mas as coisas mesmas que são significadas por esses sons, nunca as alcancei com qualquer sentido do meu corpo, nem nunca as discernei de outra forma senão na minha mente; contudo, na minha memória, guardei não as suas imagens, mas elas próprias. Como entraram em mim, que o digam se puderem; pois percorri todas as avenidas da minha carne, mas não consigo encontrar por onde entraram. Pois os olhos dizem: "Se essas imagens fossem coloridas, teríamos dado conta delas". Os ouvidos dizem: "Se soassem, teríamos dado notícia delas". As narinas dizem: "Se tivessem cheiro, teriam passado por nós". O paladar diz: "A menos que tenham sabor, não me perguntes". O tato diz: "Se não tiver tamanho, não o manuseei; se não o manuseei, não dei notícia dele". Donde e como entraram estas coisas na minha memória? Não sei como. Pois quando as aprendi, não dei crédito à mente de outro homem, mas reconheci-as na minha; e, aprovando-as como verdadeiras, confiei-as a ela, guardando-as como que num depósito, donde as poderia trazer para fora quando quisesse. No meu coração, então, elas estavam, mesmo antes de as aprender, mas na minha memória não estavam. Onde então? Ou por que, quando foram ditas, as reconheci e disse: "É assim, é verdade", senão porque já estavam na memória, mas tão recuadas e enterradas, por assim dizer, em recessos mais profundos, que, não tivesse a sugestão de outro as trazido para fora, talvez eu não tivesse sido capaz de concebê-las?

Pelo que descobrimos que aprender estas coisas, das quais não sorvemos as imagens pelos sentidos, mas percebemos interiormente por si mesmas, sem imagens, como são, não é nada mais do que, pela concepção, receber, e, pelo ato de notar, ter o cuidado de que as coisas que a memória antes continha ao acaso e desordenadas, sejam colocadas à mão, por assim dizer, nessa mesma memória onde antes jaziam desconhecidas, dispersas e negligenciadas, e assim ocorram prontamente à mente que se familiarizou com elas. E quantas coisas deste tipo a minha memória traz, que já foram descobertas e, como disse, colocadas por assim dizer à mão, as quais, se eu por um curto espaço de tempo deixasse de trazer à mente, ficam novamente tão enterradas e deslizam de volta, por assim dizer, para os recessos mais profundos, que devem novamente, como se fossem novas, ser pensadas a partir dali, pois não têm outra morada: mas devem ser reunidas novamente, para que possam ser conhecidas; isto é, devem ser como que recolhidas da sua dispersão: donde deriva a palavra "cogitação". Pois cogo (recolher) e cogito (re-colher) têm a mesma relação entre si que ago e agito, facio e factito. Mas a mente apropriou-se desta palavra (cogitação), de modo que, não o que é "recolhido" de qualquer maneira, mas o que é "re-colhido", isto é, trazido em conjunto, na mente, é propriamente dito ser cogitado ou pensado.

A memória contém também razões e leis inumeráveis de números e dimensões, nenhuma das quais qualquer sentido corporal imprimiu; vendo que não têm cor, nem som, nem paladar, nem cheiro, nem tato. Ouvi o som das palavras pelas quais, quando discutidas, são denotadas: mas os sons são diferentes das coisas. Pois os sons são diferentes em grego e em latim; mas as coisas não são gregas, nem latinas, nem de qualquer outra língua. Vi as linhas dos arquitetos, as mais finas, como um fio de aranha; mas essas são ainda diferentes, não são as imagens daquelas linhas que o olho da carne me mostrou: conhece-as quem quer que, sem qualquer concepção de um corpo, as reconhece dentro de si mesmo. Percebi também os números das coisas com as quais numeramos todos os sentidos do meu corpo; mas esses números com os quais numeramos são diferentes, nem são as imagens destes, e, portanto, eles de fato existem. Que aquele que não os vê me ridicularize por dizer estas coisas, e eu terei pena dele enquanto ele me ridiculariza.

Todas estas coisas eu lembro, e como as aprendi eu lembro. Muitas coisas também falsamente objetadas contra elas ouvi, e lembro; as quais, embora sejam falsas, não é falso que eu as lembre; e lembro também que discerni entre essas verdades e estas falsidades a elas objetadas. E percebo que o discernimento presente destas coisas é diferente de lembrar que as discerni muitas vezes, quando muitas vezes pensei nelas. Lembro-me, então, de ter muitas vezes compreendido estas coisas; e o que agora discerno e compreendo, guardo na minha memória, para que no futuro eu possa lembrar que o compreendo agora. Assim, pois, lembro-me também de ter lembrado; como se no futuro eu trouxer à memória que agora fui capaz de lembrar estas coisas, pela força da memória o trarei à lembrança.

A mesma memória contém também as afeições da minha mente, não da mesma maneira que a mente mesma as contém, quando as sente; mas de forma muito diferente, de acordo com um poder que lhe é próprio. Pois sem me regozijar, lembro-me de ter me alegrado; e sem tristeza recordo a minha tristeza passada. E o que uma vez temi, revejo sem medo; e sem desejo trago à mente um desejo passado. Por vezes, pelo contrário, com alegria lembro a minha tristeza de outrora, e com tristeza, a alegria. O que não é maravilhoso quanto ao corpo; pois a mente é uma coisa, o corpo outra. Se eu, portanto, com alegria lembro alguma dor passada do corpo, não é tão maravilhoso. Mas agora, vendo que esta própria memória é mente (pois quando confiamos uma coisa para ser guardada na memória, dizemos: "Vê que a guardas na mente"; e quando esquecemos, dizemos: "Não me veio à mente", e "Escapou da minha mente", chamando a memória mesma de mente); sendo assim, como é que, quando com alegria lembro a minha tristeza passada, a mente tem alegria, a memória tem tristeza; a mente, sobre a alegria que nela está, é alegre, contudo a memória, sobre a tristeza que nela está, não é triste? A memória, porventura, não pertence à mente? Quem o diria? A memória é, então, como que o ventre da mente, e a alegria e a tristeza, como alimento doce e amargo; que, quando confiados à memória, são como que passados para o ventre, onde podem ser armazenados, mas não podem ter sabor. É ridículo imaginar que sejam iguais; e, contudo, não são inteiramente diferentes.

Mas, eis que, da minha memória o trago, quando digo que há quatro perturbações da mente: desejo, alegria, medo, tristeza; e tudo o que sobre elas posso disputar, dividindo cada uma nas suas espécies subordinadas, e definindo-a, na minha memória encontro o que dizer, e de lá o trago: contudo, não sou perturbado por nenhuma destas perturbações, quando, ao trazê-las à mente, eu as lembro; aliás, e antes que as recordasse e trouxesse de volta, elas estavam lá; e, portanto, podiam, pela recordação, de lá ser trazidas. Porventura, então, como o alimento é, por ruminar, trazido para fora do ventre, assim pela recordação estas, fora da memória. Por que então o disputante, assim recordando, não saboreia na boca da sua meditação a doçura da alegria ou a amargura da tristeza? A comparação é dessemelhante nisto, porque não é em todos os aspectos semelhante? Pois quem falaria voluntariamente disso, se tão frequentemente quanto nomeamos a dor ou o medo, fôssemos compelidos a estar tristes ou temerosos? E, contudo, não poderíamos falar deles se não encontrássemos na nossa memória, não apenas os sons dos nomes de acordo com as imagens impressas pelos sentidos do corpo, mas noções das coisas mesmas que nunca recebemos por qualquer avenida do corpo, mas que a mente mesma, percebendo pela experiência das suas próprias paixões, confiou à memória, ou a memória de si mesma reteve, sem que lhe fossem confiadas.

Mas se por imagens ou não, quem pode prontamente dizer? Assim, nomeio uma pedra, nomeio o sol, não estando as coisas mesmas presentes aos meus sentidos, mas as suas imagens à minha memória. Nomeio uma dor corporal, contudo ela não está presente comigo, quando nada dói: ainda assim, a menos que a sua imagem estivesse presente na minha memória, eu não saberia o que dizer a respeito, nem, ao discorrer, discerniria dor de prazer. Nomeio a saúde corporal; estando são de corpo, a coisa mesma está presente comigo; contudo, a menos que a sua imagem também estivesse presente na minha memória, eu não poderia de modo algum recordar o que o som deste nome deveria significar. Nem o enfermo, quando a saúde fosse nomeada, reconheceria o que era dito, a menos que a mesma imagem fosse pela força da memória retida, embora a coisa mesma estivesse ausente do corpo. Nomeio números pelos quais numeramos; e não as suas imagens, mas eles mesmos estão presentes na minha memória. Nomeio a imagem do sol, e essa imagem está presente na minha memória. Pois não recordo a imagem da sua imagem, mas a imagem mesma está presente a mim, ao trazê-la à mente. Nomeio a memória, e reconheço o que nomeio. E onde o reconheço, senão na própria memória? Está ela também presente a si mesma pela sua imagem, e não por si mesma?

O que dizer, quando nomeio o esquecimento, e ao mesmo tempo reconheço o que nomeio? Donde o reconheceria, se não o lembrasse? Não falo do som do nome, mas da coisa que ele significa: a qual, se eu tivesse esquecido, não poderia reconhecer o que esse som significa. Quando então lembro a memória, a memória mesma está, através de si mesma, presente a si mesma: mas quando lembro o esquecimento, estão presentes tanto a memória quanto o esquecimento; memória pela qual lembro, esquecimento que lembro. Mas o que é o esquecimento, senão a privação da memória? Como então está presente, para que eu o lembre, visto que, quando presente, não posso lembrar? Mas se o que lembramos retemos na memória, ainda assim, a menos que lembrássemos o esquecimento, nunca poderíamos, ao ouvir o nome, reconhecer a coisa por ele significada, então o esquecimento é retido pela memória. Presente então está, para que não esqueçamos, e sendo assim, esquecemos. Deve entender-se disto que o esquecimento, quando o lembramos, não está presente à memória por si mesmo, mas pela sua imagem: pois se estivesse presente por si mesmo, não nos faria lembrar, mas esquecer. Quem agora investigará isto? Quem compreenderá como é?

Senhor, eu, verdadeiramente, labuto nisto, sim, labuto em mim mesmo; tornei-me um solo pesado que requer demasiado suor da fronte. Pois não estamos agora investigando as regiões do céu, ou medindo as distâncias das estrelas, ou inquirindo os equilíbrios da terra. Sou eu mesmo quem lembra, eu, a mente. Não é tão maravilhoso se o que eu mesmo não sou, estiver longe de mim. Mas o que está mais perto de mim do que eu mesmo? E eis que a força da minha própria memória não é compreendida por mim; embora eu não possa nem sequer nomear-me sem ela. Pois o que direi, quando é claro para mim que lembro o esquecimento? Direi que não está na minha memória aquilo que lembro? Ou direi que o esquecimento está na minha memória para este propósito, para que eu não esquecesse? Ambos seriam absurdos. Que terceira via existe? Como posso dizer que a imagem do esquecimento é retida pela minha memória, e não o esquecimento mesmo, quando o lembro? Como poderia dizer isto também, vendo que, quando a imagem de qualquer coisa é impressa na memória, a coisa mesma deve necessariamente estar primeiro presente, donde essa imagem possa ser impressa? Pois assim lembro Cartago, assim todos os lugares onde estive, assim os rostos dos homens que vi, e coisas relatadas pelos outros sentidos; assim a saúde ou a doença do corpo. Pois quando estas coisas estavam presentes, a minha memória recebeu delas imagens, as quais, estando presentes comigo, eu poderia olhar e trazer de volta na minha mente, quando as lembrava na sua ausência. Se então este esquecimento é retido na memória através da sua imagem, e não através de si mesmo, então claramente ele mesmo esteve uma vez presente, para que a sua imagem pudesse ser tomada. Mas quando estava presente, como escreveu a sua imagem na memória, vendo que o esquecimento pela sua presença apaga até o que encontra já notado? E contudo, de qualquer maneira, embora essa maneira seja de passar a conceber e explicar, ainda assim certo estou de que lembro o próprio esquecimento, pelo qual o que lembramos é apagado.

Grande é o poder da memória, uma coisa terrível, ó meu Deus, uma profundidade e imensidão sem limites; e esta coisa é a mente, e este sou eu mesmo. Que sou eu então, ó meu Deus? Que natureza sou eu? Uma vida variada e múltipla, e imensa em demasia. Vê, nas planícies, e cavernas, e antros da minha memória, inumeravelmente cheios de inumeráveis tipos de coisas, seja através de imagens, como todos os corpos; ou por presença real, como as artes; ou por certas noções ou impressões, como as afeições da mente, as quais, mesmo quando a mente não sente, a memória retém, enquanto contudo o que quer que esteja na memória está também na mente — sobre tudo isto corro, voo; mergulho deste lado e daquele, tanto quanto posso, e não há fim. Tão grande é a força da memória, tão grande a força da vida, mesmo na vida mortal do homem. Que farei então, ó Tu, minha verdadeira vida, meu Deus? Passarei mesmo além deste meu poder que é chamado memória: sim, passarei além dele, para que possa aproximar-me de Ti, ó doce Luz. Que me dizes? Vê, estou ascendendo através da minha mente em direção a Ti que habitas acima de mim. Sim, agora passarei além deste meu poder que é chamado memória, desejoso de chegar a Ti, donde Tu podes ser alcançado; e de apegar-me a Ti, donde se pode apegar a Ti. Pois mesmo as bestas e as aves têm memória; de outro modo não poderiam retornar aos seus antros e ninhos, nem a muitas outras coisas a que estão acostumadas: nem de fato poderiam estar acostumadas a coisa alguma, senão pela memória. Passarei então além da memória também, para que possa chegar Àquele que me separou das bestas de quatro patas e me fez mais sábio que as aves do céu, passarei além da memória também, e onde Te encontrarei, Tu, verdadeiramente boa e certa doçura? E onde Te encontrarei? Se Te encontro fora da minha memória, então não Te retenho na minha memória. E como Te encontrarei, se não Te lembro?

Pois a mulher que tinha perdido a dracma, e a procurou com uma luz; a menos que a tivesse lembrado, nunca a teria encontrado. Pois quando foi encontrada, donde saberia se era a mesma, a não ser que a lembrasse? Lembro-me de ter procurado e encontrado muitas coisas; e isto sei por isso, que quando eu procurava qualquer delas, e era perguntado: "É esta?", "É aquela?", tanto tempo dizia "Não", até que me fosse oferecida aquela que procurava. A qual, se eu não a tivesse lembrado (fosse ela o que fosse), embora me fosse oferecida, não a encontraria, porque não a poderia reconhecer. E assim é sempre, quando procuramos e encontramos qualquer coisa perdida. Não obstante, quando qualquer coisa é por acaso perdida da visão, não da memória (como qualquer corpo visível), contudo a sua imagem ainda é retida dentro, e ela é procurada até que seja restaurada à visão; e quando é encontrada, é reconhecida pela imagem que está dentro: nem dizemos que encontrámos o que estava perdido, a menos que o reconheçamos; nem podemos reconhecê-lo, a menos que o lembremos. Mas esta estava perdida para os olhos, mas retida na memória.

Mas o que dizer quando a memória mesma perde qualquer coisa, como acontece quando esquecemos e procuramos para que possamos recordar? Onde no fim procuramos, senão na própria memória? E lá, se uma coisa é porventura oferecida em vez de outra, rejeitamo-la, até que o que procuramos nos encontre; e quando encontra, dizemos: "É esta"; o que não diríamos se não a reconhecêssemos, nem reconheceríamos se não a lembrássemos. Certamente então tínhamos esquecido. Ou, não terá o todo escapado de nós, mas pela parte da qual tínhamos posse, a parte perdida foi procurada; em que a memória sentiu que não carregava em conjunto tudo o que costumava, e mutilada, por assim dizer, pelo corte do seu antigo hábito, exigia a restauração do que lhe faltava? Por exemplo, se vemos ou pensamos em alguém conhecido nosso, e tendo esquecido o seu nome, tentamos recuperá-lo; qualquer outra coisa que ocorra, não se conecta com ele; porque não costumava ser pensado em conjunto com ele, e portanto é rejeitado, até que se apresente aquilo em que o conhecimento repousa equitativamente como o seu objeto costumeiro. E donde se apresenta isso, senão da própria memória? Pois mesmo quando o reconhecemos, ao sermos lembrados por outro, é de lá que vem. Pois não o acreditamos como algo novo, mas, após a recordação, permitimos que o que foi nomeado esteja correto. Mas se estivesse inteiramente apagado da mente, não o lembraríamos, mesmo quando lembrados. Pois não esquecemos ainda inteiramente aquilo que lembramos ter esquecido. O que então esquecemos inteiramente, embora perdido, não podemos nem mesmo procurar.

Como, então, Te busco, ó Senhor? Pois quando busco a Ti, meu Deus, busco uma vida feliz. Buscar-Te-ei, para que a minha alma viva. Pois o meu corpo vive por minha alma; e a minha alma por Ti. Como, pois, busco uma vida feliz, vendo que não a tenho, até que possa dizer, onde devo dizê-lo: "É o bastante"? Como a busco? Pela lembrança, como se a tivesse esquecido, lembrando-me de que a tinha esquecido? Ou desejando aprendê-la como algo desconhecido, ou por nunca a ter conhecido, ou por tê-la esquecido de tal modo que nem sequer me lembro de que a tinha esquecido? Não é a vida feliz o que todos querem, e ninguém deixa de querer de todo? Onde a conheceram, para que assim a queiram? Onde a viram, para que assim a amem? Verdadeiramente nós a temos, como, não sei. Sim, há outro modo, no qual, quando alguém a possui, então é feliz; e há os que são bem-aventurados, na esperança. Estes a possuem de uma forma inferior àqueles que a possuem na realidade; contudo, estão em melhor situação do que aqueles que não são felizes nem na realidade nem na esperança. Ainda assim, mesmo estes, se não a tivessem de algum modo, não quereriam tanto ser felizes, o que, que eles queiram, é certíssimo. Conheceram-na então, não sei como, e assim a têm por algum tipo de conhecimento, o qual, não sei, e fico perplexo se está na memória, a qual, se estiver, então fomos felizes um dia; se todos separadamente, ou naquele homem que primeiro pecou, em quem também todos morremos, e de quem todos nascemos com miséria, não indago agora; mas apenas se a vida feliz está na memória. Pois nem a amaríamos, se não a conhecêssemos. Ouvimos o nome, e todos confessamos que desejamos a coisa; pois não nos deleitamos com o mero som. Pois quando um grego a ouve em latim, não se deleita, não sabendo o que é dito; mas nós, latinos, deleitamo-nos, como ele também se deleitaria se a ouvisse em grego; porque a coisa em si não é nem grega nem latina, a qual gregos e latinos, e homens de todas as outras línguas, anseiam tão ardentemente. Conhecida, portanto, é a todos, pois se lhes for perguntado com uma só voz: "quereriam ser felizes?", responderiam sem dúvida: "quereriam". E isto não poderia ser, a menos que a própria coisa da qual é o nome estivesse retida em sua memória.

Mas será assim, como alguém se lembra de Cartago que a viu? Não. Pois uma vida feliz não é vista com o olho, porque não é um corpo. Como nos lembramos dos números, então? Não. Pois estes, aquele que os tem em seu conhecimento, não busca mais obter; mas uma vida feliz nós a temos em nosso conhecimento, e portanto a amamos, e contudo ainda desejamos obtê-la, para que possamos ser felizes. Como nos lembramos da eloquência, então? Não. Pois embora ao ouvir este nome também, alguns recordem a coisa, que ainda não são eloquentes, e muitos que desejam sê-lo, donde aparece que está em seu conhecimento; contudo estes observaram pelos seus sentidos corporais outros serem eloquentes, e deleitaram-se, e desejam ser como eles (embora, na verdade, não se deleitassem senão por algum conhecimento interior disso, nem desejariam ser como eles, a menos que estivessem assim deleitados); enquanto uma vida feliz, nós não a experimentamos por nenhum sentido corporal em outros. Como então nos lembramos da alegria? Talvez; pois minha alegria eu recordo, mesmo quando triste, como uma vida feliz, quando infeliz; nem nunca com o sentido corporal vi, ouvi, cheirei, provei ou toquei a minha alegria; mas experimentei-a em minha mente, quando me regozijei; e o conhecimento dela aderiu à minha memória, de modo que posso recordá-la com desgosto por vezes, noutras com anseio, segundo a natureza das coisas nas quais me lembro de ter me alegrado. Pois mesmo de coisas vis tenho sido imerso em um tipo de alegria; a qual, agora recordando, detesto e execro; outras vezes em coisas boas e honestas, as quais recordo com anseio, embora talvez já não presentes; e portanto com tristeza recordo a alegria anterior.

Onde então e quando experimentei a minha vida feliz, para que eu devesse lembrar, e amar, e ansiar por ela? Nem sou apenas eu, ou poucos outros, mas todos nós gostaríamos de ser felizes; o que, a menos que por algum conhecimento certo soubéssemos, não desejaríamos com tão certa vontade. Mas como é isto, que se a dois homens for perguntado se iriam às guerras, um, talvez, responderia que iria, o outro, que não iria; mas se fossem perguntados se seriam felizes, ambos diriam instantaneamente sem qualquer dúvida que seriam; e por nenhuma outra razão iria o um às guerras, e o outro não, senão para ser feliz. Será porventura que, como um busca a sua alegria nesta coisa, outro naquela, todos concordam no seu desejo de serem felizes, como diriam (se fossem perguntados) que desejam ter alegria, e esta alegria chamam de vida feliz? Embora então um obtenha esta alegria por um meio, outro por outro, todos têm um fim, o qual se esforçam por atingir, a saber, a alegria. A qual, sendo uma coisa que todos devem dizer ter experimentado, encontra-se, portanto, na memória, e é reconhecida sempre que o nome de vida feliz é mencionado.

Longe esteja, Senhor, longe esteja do coração do Teu servo que aqui Te confessa, longe esteja, que, seja a alegria o que for, eu deva por isso pensar-me feliz. Pois há uma alegria que não é dada aos ímpios, mas àqueles que Te amam por amor a Ti mesmo, cuja alegria Tu mesmo és. E esta é a vida feliz, regozijar-se em Ti, de Ti, por Ti; esta é, e não há outra. Pois aqueles que pensam que há outra, perseguem alguma outra e não a verdadeira alegria. Contudo, a sua vontade não está desviada de algum semblante de alegria.

Não é certo, então, que todos desejam ser felizes, na medida em que aqueles que não desejam regozijar-se em Ti, que é a única vida feliz, não desejam verdadeiramente a vida feliz. Ou será que todos os homens desejam isto, mas porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, para que não possam fazer o que querem, caem naquilo que podem, e contentam-se com isso; porque, o que não são capazes de fazer, não querem tão fortemente quanto bastaria para torná-los capazes? Pois pergunto a qualquer um: preferiria ele regozijar-se na verdade, ou na falsidade? Tão pouco hesitarão em dizer "na verdade", quanto em dizer "que desejam ser felizes", pois uma vida feliz é regozijar-se na verdade: pois isto é um regozijar-se em Ti, que és a Verdade, ó Deus minha luz, saúde do meu semblante, meu Deus. Esta é a vida feliz que todos desejam; esta vida que somente é feliz, todos desejam; regozijar-se na verdade todos desejam. Tenho encontrado muitos que enganariam; quem seria enganado, ninguém. Onde então conheceram esta vida feliz, senão onde conhecem a verdade também? Pois eles a amam também, uma vez que não seriam enganados. E quando amam uma vida feliz, que não é outra senão regozijar-se na verdade, então também amam a verdade; a qual contudo não amariam, se não houvesse algum aviso dela em sua memória. Por que então não se regozijam nela? Por que não são felizes? Porque estão mais fortemente ocupados com outras coisas que têm mais poder para torná-los miseráveis do que aquela que recordam tão fracamente para torná-los felizes. Pois há ainda uma pequena luz nos homens; que caminhem, que caminhem, para que as trevas não os surpreendam.

Mas por que a "verdade gera ódio", e o homem Teu, pregando a verdade, torna-se um inimigo para eles? enquanto uma vida feliz é amada, que não é nada mais do que regozijar-se na verdade; a menos que essa verdade seja amada daquele modo em que aqueles que amam qualquer outra coisa gostariam que aquilo que amam fosse a verdade: e porque não seriam enganados, não quereriam ser convencidos de que o são? Portanto, odeiam a verdade por causa daquela coisa que amaram em vez da verdade. Amam a verdade quando ela ilumina, odeiam-na quando ela reprova. Pois uma vez que não seriam enganados, e enganariam, amam-na quando ela se descobre a eles, e odeiam-na quando ela os descobre. Donde ela lhes retribuirá de tal forma que, aqueles que não queriam ser manifestados por ela, ela os manifesta contra a vontade deles, e ela própria não se torna manifesta a eles. Assim, assim, sim, assim a mente do homem, assim cega e doente, vil e mal-parecida, deseja estar escondida, mas que qualquer coisa lhe seja escondida, não quer. Mas o contrário lhe é retribuído, que ela própria não seja escondida da Verdade; mas a Verdade está escondida dela. Contudo, mesmo assim miserável, prefere regozijar-se em verdades do que em falsidades. Feliz então será, quando, nenhuma distração se interponto, regozijar-se-á naquela única Verdade, por Quem todas as coisas são verdadeiras.

Vê que espaço percorri em minha memória buscando-Te, ó Senhor; e não Te encontrei fora dela. Nem encontrei qualquer coisa a Teu respeito, senão o que guardei na memória, desde que Te aprendi. Pois desde que Te aprendi, não Te esqueci. Pois onde encontrei a Verdade, aí encontrei o meu Deus, a própria Verdade; a qual, desde que a aprendi, não esqueci. Desde que então Te aprendi, Tu resides na minha memória; e aí Te encontro, quando Te recordo, e me deleito em Ti. Estes são os meus santos deleites, que Tu me deste na Tua misericórdia, tendo em conta a minha pobreza.

Mas onde na minha memória resides Tu, ó Senhor, onde resides Tu aí? que tipo de aposento construíste para Ti? que tipo de santuário edificaste para Ti? Deste esta honra à minha memória, de residir nela; mas em que parte dela resides, é o que estou considerando. Pois ao pensar em Ti, passei além de tais partes dela como as bestas também têm, pois não Te encontrei lá entre as imagens das coisas corpóreas: e cheguei àquelas partes às quais confiei os afetos da minha mente, nem Te encontrei lá. E entrei no próprio assento da minha mente (que ela tem em minha memória, na medida em que a mente se lembra de si mesma também), nem aí estavas Tu: pois como não és uma imagem corpórea, nem o afeto de um ser vivo (como quando nos regozijamos, condoemo-nos, desejamos, tememos, lembramos, esquecemos, ou coisas do gênero); assim também não és a própria mente; porque és o Senhor Deus da mente; e todas estas coisas são mudadas, mas Tu permaneces imutável sobre todas, e contudo dignaste-Te habitar na minha memória, desde que Te aprendi. E por que busco agora em que lugar dela habitas, como se houvesse lugares nela? Certo estou de que nela habitas, uma vez que me lembro de Ti desde que Te aprendi, e aí Te encontro, quando Te recordo.

Onde então Te encontrei, para que pudesse aprender-Te? Pois na minha memória Tu não estavas, antes que eu Te aprendesse. Onde então Te encontrei, para que pudesse aprender-Te, senão em Ti acima de mim? Lugar não há; vamos para trás e para diante, e não há lugar. Em toda parte, ó Verdade, dás audiência a todos que pedem conselho de Ti, e de uma vez respondes a todos, embora sobre assuntos variados peçam o Teu conselho. Claramente respondes, embora todos não ouçam claramente. Todos Te consultam sobre o que querem, embora não ouçam sempre o que querem. Ele é o Teu melhor servo que não olha tanto para ouvir de Ti o que ele mesmo quer, como antes para querer aquilo que de Ti ouve.

Tarde demais Te amei, ó Beleza de antigos dias, mas sempre nova! tarde demais Te amei! E eis que Tu estavas dentro, e eu fora, e lá eu Te buscava; deformado eu, mergulhando no meio daquelas formas belas que Tu tinhas feito. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. As coisas mantinham-me longe de Ti, que, a menos que estivessem em Ti, não seriam de todo. Tu chamaste, e gritaste, e rompeste a minha surdez. Tu lampejaste, brilhaste, e dispersaste a minha cegueira. Tu exalaste odores, e eu respirei e ofeguei por Ti. Provei, e tenho fome e sede. Tu tocaste-me, e queimei pela Tua paz.

Quando eu me apegar a Ti com todo o meu ser, não terei em parte alguma tristeza ou trabalho; e a minha vida viverá inteiramente, como inteiramente cheia de Ti. Mas agora, uma vez que a quem Tu enches, Tu levantas, porque não estou cheio de Ti, sou um fardo para mim mesmo. Alegrias lamentáveis lutam com tristezas alegres: e de que lado está a vitória, não sei. Ai de mim! Senhor, tem piedade de mim. As minhas tristes tristezas lutam com as minhas boas alegrias; e de que lado está a vitória, não sei. Ai de mim! Senhor, tem piedade de mim. Ai de mim! eis! não escondo as minhas feridas; Tu és o Médico, eu o doente; Tu misericordioso, eu miserável. Não é a vida do homem sobre a terra toda provação? Quem deseja problemas e dificuldades? Tu ordenas que sejam suportados, não que sejam amados. Ninguém ama o que suporta, embora ame suportar. Pois embora se regozije por suportar, preferiria que não houvesse nada para ele suportar. Na adversidade anseio pela prosperidade, na prosperidade temo a adversidade. Que lugar intermediário existe entre estes dois, onde a vida do homem não seja toda provação? Ai das prosperidades do mundo, uma e outra vez, pelo medo da adversidade, e corrupção da alegria! Ai das adversidades do mundo, uma e outra vez, e pela terceira, pelo anseio da prosperidade, e porque a adversidade em si é uma coisa dura, e para que não quebre a resistência. Não é a vida do homem sobre a terra toda provação: sem qualquer intervalo?

E toda a minha esperança não está em parte alguma senão na Tua grandíssima misericórdia. Dá o que ordenas, e ordena o que quiseres. Tu nos ordenas a continência; e quando soube, disse um, que ninguém pode ser continente, a menos que Deus o dê, isto também era uma parte da sabedoria saber de quem é este dom. Pela continência, na verdade, somos unidos e trazidos de volta ao Um, donde fomos dissipados em muitos. Pois ama-Te muito pouco quem ama qualquer coisa contigo, que não ama por amor a Ti. Ó amor, que sempre ardes e nunca consomes! Ó caridade, meu Deus, inflama-me. Tu ordenas a continência: dá-me o que ordenas, e ordena o que quiseres.

Na verdade, Tu me ordenas a continência da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos, e da ambição do século. Tu ordenas a continência do concubinato; e quanto ao próprio matrimônio, Tu aconselhaste algo melhor do que o que permitiste. E uma vez que Tu o deste, foi feito, mesmo antes de eu me tornar um dispensador do Teu Sacramento. Mas ainda vivem na minha memória (da qual muito falei) as imagens de tais coisas que o meu mau costume lá fixou; as quais me perseguem, sem força quando estou acordado: mas no sono, não só de modo a dar prazer, mas mesmo a obter assentimento, e o que é muito semelhante à realidade. Sim, tão longe prevalece a ilusão da imagem, na minha alma e na minha carne, que, enquanto durmo, falsas visões persuadem àquilo que, quando desperto, as verdadeiras não podem. Não sou eu então eu mesmo, ó Senhor meu Deus? E contudo há tanta diferença entre mim mesmo e mim mesmo, dentro daquele momento em que passo do estar acordado para o dormir, ou retorno do dormir para o estar acordado! Onde está a razão então, que, desperta, resiste a tais sugestões? E se as próprias coisas fossem urgidas sobre ela, permaneceria inabalável. Está fechada com os olhos? está adormecida com os sentidos do corpo? E donde é que muitas vezes mesmo no sono resistimos, e conscientes do nosso propósito, e permanecendo castissimamente nele, não damos assentimento a tais aliciamentos? E contudo tanta diferença há, que quando acontece de outra forma, ao despertar retornamos à paz de consciência: e por esta mesma diferença descobrimos que não fizemos, o que contudo lamentamos que de alguma forma tenha sido feito em nós.

Não és Tu poderoso, Deus Todo-Poderoso, para curar todas as doenças da minha alma, e pela Tua mais abundante graça apagar mesmo os movimentos impuros do meu sono! Tu aumentarás, Senhor, os Teus dons cada vez mais em mim, para que a minha alma possa seguir-me até Ti, desembaraçada do visgo da concupiscência; para que não se rebele contra si mesma, e mesmo nos sonhos não só não, através de imagens do sentido, cometa essas corrupções aviltantes, mesmo até a poluição da carne, mas nem sequer consinta nelas. Pois que nada deste tipo deva ter, sobre os afetos puros mesmo de um adormecido, a menor influência, nem mesmo tal como um pensamento conteria, — operar isto, não apenas durante a vida, mas mesmo na minha presente idade, não é difícil para o Todo-Poderoso, que és capaz de fazer acima de tudo o que pedimos ou pensamos. Mas o que ainda sou neste tipo do meu mal, confessei ao meu bom Senhor; regozijando-me com tremor, naquilo que Tu me deste, e lamentando aquilo em que ainda sou imperfeito; esperando que Tu aperfeiçoarás as Tuas misericórdias em mim, até à paz perfeita, que o meu homem exterior e interior terá Contigo, quando a morte for engolida na vitória.

Há outro mal do dia, que eu gostaria que fosse suficiente para ele. Pois pelo comer e beber reparamos as decadências diárias do nosso corpo, até que Tu destruas tanto o ventre quanto a comida, quando matares a minha vacuidade com uma plenitude maravilhosa, e vestires este incorruptível com uma incorrupção eterna. Mas agora a necessidade é doce para mim, contra a qual doçura luto, para não ser levado cativo; e travo uma guerra diária por jejuns; trazendo muitas vezes o meu corpo à sujeição; e as minhas dores são removidas pelo prazer. Pois a fome e a sede são de certa maneira dores; queimam e matam como uma febre, a menos que o remédio dos alimentos venha em nosso auxílio. O qual, uma vez que está à mão através das consolações dos Teus dons, com os quais a terra, e a água, e o ar servem à nossa fraqueza, a nossa calamidade é denominada gratificação.

Isto Tu me ensinaste, que eu deveria dispor-me a tomar o alimento como remédio. Mas enquanto estou passando do desconforto da vacuidade para o contentamento do reabastecimento, na própria passagem o laço da concupiscência me assedia. Pois essa passagem é prazer, nem há qualquer outro caminho para passar para lá, para onde necessariamente devemos passar. E sendo a saúde a causa do comer e beber, junta-se como um assistente um prazer perigoso, que na maioria das vezes tenta precedê-la, de modo que eu possa por causa dela fazer o que digo que faço, ou desejo fazer, por causa da saúde. Nem cada um tem a mesma medida; pois o que é bastante para a saúde, é pouco demais para o prazer. E muitas vezes é incerto, se é o cuidado necessário do corpo que ainda está pedindo sustento, ou se uma enganadora voluptuosidade da ganância está oferecendo os seus serviços. Nesta incerteza a alma infeliz regozija-se, e nela prepara uma desculpa para proteger-se, contente por não parecer o que basta para a moderação da saúde, para que, sob o manto da saúde, ela possa disfarçar o assunto da gratificação. Estas tentações esforço-me diariamente por resistir, e invoco a Tua mão direita, e a Ti refiro as minhas perplexidades; porque ainda não tenho conselho firme sobre isto.

Ouço a voz do meu Deus a ordenar: Não deixeis que os vossos corações se sobrecarreguem com a intemperança e a embriaguez. A embriaguez está longe de mim; Tu terás misericórdia, para que ela não se aproxime de mim. Mas a saciedade de alimentos por vezes rasteja sobre o Teu servo; Tu terás misericórdia, para que ela se mantenha longe de mim. Pois ninguém pode ser continente a menos que Tu o concedas. Muitas coisas nos dás, pedindo-as nós; e qualquer bem que tenhamos recebido antes de orarmos, de Ti o recebemos; sim, para que depois pudéssemos saber isto, recebemo-lo nós antes. Ébrio nunca fui, mas ébrios conheci que foram feitos sóbrios por Ti. De Ti, pois, veio que aqueles que nunca foram tais, não o viessem a ser, assim como de Ti veio que aqueles que o foram, não o fossem para sempre; e de Ti veio que ambos pudessem saber de Quem isto provinha. Ouvi outra voz Tua: Não sigas as tuas concupiscências, e desvia-te dos teus prazeres. Sim, pelo Teu favor ouvi aquilo que muito amei; nem se comermos, teremos abundância; nem se não comermos, teremos falta; o que quer dizer, nem um me fará farto, nem o outro miserável.

Ouvi também outra, pois aprendi a contentar-me em qualquer estado em que me encontre; sei como ter abundância e como sofrer necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece, Cristo. Eis um soldado do acampamento celestial, não o pó que nós somos. Mas lembra-Te, Senhor, de que somos pó, e de que do pó fizeste o homem; e ele estava perdido e foi encontrado. Nem ele poderia por si mesmo fazer isto, porque aquele a quem tanto amei, dizendo isto através do sopro da Tua inspiração, era do mesmo pó. Tudo posso (diz ele) por Aquele que me fortalece. Fortalece-me, para que eu possa. Dá o que ordenas, e ordena o que quiseres. Ele confessa ter recebido, e quando se gloria, no Senhor se gloria. Outro ouvi a suplicar que pudesse receber. Tira de mim (diz ele) os desejos do ventre; donde parece, ó meu santo Deus, que Tu dás, quando é feito o que mandas que seja feito.

Ensinaste-me, bom Pai, que para os puros, todas as coisas são puras; mas que é um mal para o homem que come com escândalo; e que toda a criatura Tua é boa, e nada deve ser recusado, o que é recebido com ação de graças; e que a comida não nos recomenda a Deus; e que ninguém nos deve julgar pelo comer ou pelo beber; e que aquele que come, não despreze aquele que não come; e aquele que não come, não julgue aquele que come. Estas coisas aprendi, graças a Ti, louvor a Ti, meu Deus, meu Mestre, que bates aos meus ouvidos, iluminando o meu coração; livra-me de toda a tentação. Não temo a impureza da comida, mas a impureza do desejo. Sei que a Noé foi permitido comer toda a espécie de carne que era boa para alimento; que Elias foi alimentado com carne; que dotado de uma admirável abstinência, não foi poluído por se alimentar de criaturas vivas, gafanhotos. Sei também que Esaú foi enganado pelo desejo de lentilhas; e que David censurou-se a si mesmo por desejar um gole de água; e que o nosso Rei foi tentado, não quanto à carne, mas quanto ao pão. E, portanto, o povo no deserto também mereceu ser repreendido, não por desejar carne, mas porque, no desejo de comida, murmuraram contra o Senhor.

Colocado então entre estas tentações, luto diariamente contra a concupiscência no comer e no beber. Pois não é de tal natureza que eu possa decidir cortá-la de uma vez por todas, e nunca mais lhe tocar, como pude com o concubinato. O freio da garganta deve, pois, ser mantido temperado entre o desleixo e o rigor. E quem é ele, ó Senhor, que não é algum tanto transportado para além dos limites da necessidade? Quem quer que seja, é um grande homem; que ele faça grande o Teu Nome. Mas eu não sou tal, pois sou um homem pecador. Contudo, também eu exalto o Teu nome; e Aquele que venceu o mundo intercede junto de Ti pelos meus pecados; contando-me entre os membros fracos do Seu corpo; porque os Teus olhos viram o que n’Ele é imperfeito, e no Teu livro tudo será escrito.

Com os atrativos dos cheiros, não me preocupo muito. Quando ausentes, não sinto a sua falta; quando presentes, não os recuso; todavia, sempre pronto a ficar sem eles. Assim me pareço a mim mesmo; talvez esteja enganado. Pois também esta é uma treva lúgubre, pela qual as minhas capacidades dentro de mim me estão ocultas; de modo que a minha mente, ao investigar em si mesma os seus próprios poderes, não se atreve prontamente a acreditar em si mesma; porque mesmo o que nela existe está na maior parte oculto, a menos que a experiência o revele. E ninguém deve estar seguro nesta vida, cuja totalidade é chamada de provação, de que aquele que foi capaz de, sendo pior, tornar-se melhor, não possa, do mesmo modo, de melhor tornar-se pior. A nossa única esperança, única confiança, única promessa assegurada, é a Tua misericórdia.

Os deleites do ouvido tinham-me mais firmemente enredado e subjugado; mas Tu libertaste-me e soltaste-me. Agora, naquelas melodias que as Tuas palavras inspiram, quando cantadas com uma voz doce e afinada, repouso um pouco; contudo, não de modo a ser retido por elas, mas de modo que posso desligar-me quando quero. Mas com as palavras que são a sua vida e pelas quais encontram admissão em mim, elas próprias buscam nos meus afetos um lugar de alguma estimação, e dificilmente consigo atribuir-lhes um adequado. Pois por vezes pareço a mim mesmo dar-lhes mais honra do que é conveniente, sentindo as nossas mentes serem mais santamente e fervorosamente elevadas a uma chama de devoção, pelas próprias palavras sagradas quando assim cantadas, do que quando não o são; e que os vários afetos do nosso espírito, por uma doce variedade, têm as suas próprias medidas próprias na voz e no canto, por alguma correspondência oculta com a qual são despertados. Mas este contentamento da carne, ao qual a alma não deve ser entregue para ser enervada, engana-me frequentemente, não esperando o sentido pela razão tão pacientemente para a seguir; mas tendo sido admitido meramente por causa dela, esforça-se até por correr à sua frente, e liderá-la. Assim, nestas coisas, peco sem o saber, mas depois torno-me consciente disso.

Noutras alturas, evitando demasiado ansiosamente este mesmo engano, erro em excessiva severidade; e por vezes a tal ponto, que desejo que toda a melodia da música doce que é usada no Saltério de David seja banida dos meus ouvidos, e os da Igreja também; e aquele modo parece-me mais seguro, que me lembro de ter ouvido dizer muitas vezes de Atanásio, Bispo de Alexandria, que fazia o leitor do salmo proferi-lo com tão leve inflexão de voz, que estava mais próximo da fala do que do canto. Contudo, novamente, quando me lembro das lágrimas que derramei na Salmodia da Tua Igreja, no início da minha fé recuperada; e como nesta altura sou movido, não pelo canto, mas pelas coisas cantadas, quando são cantadas com uma voz clara e modulação muito adequada, reconheço o grande uso desta instituição. Assim, flutuo entre o perigo do prazer e a salubridade aprovada; inclinado antes (embora não como quem pronuncia uma opinião irrevogável) a aprovar o uso do canto na igreja; para que, pelo deleite dos ouvidos, as mentes mais fracas possam elevar-se ao sentimento da devoção. Contudo, quando me acontece ser mais movido pela voz do que pelas palavras cantadas, confesso ter pecado penosamente, e então preferiria não ouvir música. Vê agora o meu estado; chora comigo, e chora por mim, vós, quem quer que reguleis os vossos sentimentos por dentro, de modo a que a boa ação se siga. Pois para vós que não agis, estas coisas não vos tocam. Mas Tu, ó Senhor meu Deus, escuta; olha, e vê, e tem misericórdia e cura-me, Tu, em cuja presença me tornei um problema para mim mesmo; e essa é a minha enfermidade.

Resta o prazer destes olhos da minha carne, sobre o qual devo fazer as minhas confissões no ouvir dos ouvidos do Teu templo, esses ouvidos fraternais e devotos; e assim concluir as tentações da concupiscência da carne, que ainda me assaltam, gemendo ardentemente, e desejando ser revestido com a minha casa que é do céu. Os olhos amam formas belas e variadas, e cores brilhantes e suaves. Não ocupem estas a minha alma; ocupe-a antes Deus, que fez estas coisas, muito boas na verdade, contudo Ele é o meu bem, não elas. E estas afetam-me, acordado, durante todo o dia, nem descanso me é dado delas, como há da música, por vezes no silêncio, de todas as vozes. Pois esta rainha das cores, a luz, banhando tudo o que contemplamos, onde quer que eu esteja durante o dia, deslizando por mim em formas variadas, suaviza-me quando ocupado noutras coisas, e sem a observar. E tão fortemente se entrelaça, que se for subitamente retirada, é com saudade procurada, e se ausente por muito tempo, entristece a mente.

Ó Tu Luz, que Tobias viu, quando, fechados estes olhos, ele ensinou ao seu filho o caminho da vida; e ele próprio ia à frente com os pés da caridade, nunca se desviando. Ou que Isaac viu, quando os seus olhos carnais, pesados e fechados pela velhice, foi-lhe concedido, não conscientemente, abençoar os seus filhos, mas abençoando, conhecê-los. Ou que Jacob viu, quando ele também, cego pela grande idade, com o coração iluminado, nas pessoas dos seus filhos lançou luz sobre as diferentes raças do povo futuro, neles pressignificado; e impôs as suas mãos, misticamente cruzadas, sobre os seus netos por José, não como o seu pai pelo seu olho exterior os corrigia, mas como ele mesmo interiormente discernia. Esta é a luz, é uma, e todos são um, que a veem e a amam. Mas aquela luz corpórea de que falei, tempera a vida deste mundo para os seus cegos amantes, com uma doçura sedutora e perigosa. Mas aqueles que sabem como louvar-Te por ela, "ó Senhor criador de tudo", tomam-na nos Teus hinos, e não são tomados por ela no seu sono. Tal gostaria eu de ser. A estas seduções dos olhos resisto, para que os meus pés com os quais caminho no Teu caminho não sejam enredados; e levanto os meus olhos invisíveis para Ti, para que arranques os meus pés da armadilha. Tu os arrancas de vez em quando, pois estão enredados. Tu não cessas de os arrancar, enquanto eu frequentemente me enredo nas armadilhas de todos os lados armadas; porque Aquele que guarda Israel não dormitará nem dormirá.

Que inumeráveis brinquedos, feitos por diversas artes e manufaturas, no nosso vestuário, calçado, utensílios e toda a sorte de obras, em pinturas também e diversas imagens, e estas excedendo em muito todo o uso necessário e moderado e todo o significado piedoso, adicionaram os homens para tentar os seus próprios olhos com elas; seguindo exteriormente o que eles mesmos fazem, abandonando interiormente Aquele por quem eles mesmos foram feitos, e destruindo aquilo que eles mesmos foram feitos! Mas eu, meu Deus e minha Glória, canto desde já um hino a Ti, e consagro louvor Àquele que me consagra, porque aqueles belos modelos que através das almas dos homens são transmitidos para as suas mãos engenhosas, vêm daquela Beleza, que está acima das nossas almas, pela qual a minha alma dia e noite suspira. Mas os criadores e seguidores das belezas exteriores derivam de lá a regra de as julgar, mas não de as usar. E Ele está lá, embora eles não O percebam, para que assim não vagueiem, mas guardem a sua força para Ti, e não a espalhem por aí em prazerosa lassidão. E eu, embora fale e veja isto, enredo os meus passos com estas belezas exteriores; mas Tu arrancas-me, ó Senhor, Tu arrancas-me; porque a Tua benevolência está diante dos meus olhos. Pois sou tomado miseravelmente, e Tu arrancas-me misericordiosamente; por vezes não o percebendo, quando tinha apenas levemente pousado nelas; outras vezes com dor, porque tinha ficado preso nelas.

A isto é acrescentada outra forma de tentação mais multiplamente perigosa. Pois além daquela concupiscência da carne que consiste no deleite de todos os sentidos e prazeres, nos quais os seus escravos, que vão para longe de Ti, desperdiçam e perecem, a alma tem, através dos mesmos sentidos do corpo, um certo desejo vão e curioso, velado sob o título de conhecimento e aprendizagem, não de se deleitar na carne, mas de fazer experiências através da carne. Cujo assento sendo no apetite de conhecimento, e sendo a visão o sentido principalmente usado para alcançar o conhecimento, é na linguagem divina chamado A concupiscência dos olhos. Pois, ver, pertence propriamente aos olhos; contudo usamos esta palavra para os outros sentidos também, quando os empregamos na busca do conhecimento. Pois não dizemos, ouve como brilha, ou cheira como resplandece, ou prova como reluz, ou sente como cintila; pois todas estas coisas são ditas como sendo vistas. E contudo não dizemos apenas, vê como brilha, o que apenas os olhos podem perceber; mas também, vê como soa, vê como cheira, vê como sabe, vê quão duro é. E assim a experiência geral dos sentidos, como foi dito, é chamada A concupiscência dos olhos, porque o ofício de ver, no qual os olhos mantêm a prerrogativa, os outros sentidos por via de semelhança tomam para si, quando fazem busca por qualquer conhecimento.

Mas por isto pode mais evidentemente ser discernido, onde o prazer e onde a curiosidade é o objeto dos sentidos; pois o prazer busca objetos belos, melodiosos, fragrantes, saborosos, suaves; mas a curiosidade, por causa da prova, o contrário também, não por causa de sofrer aborrecimento, mas pelo desejo de fazer prova e conhecê-los. Pois que prazer tem, ao ver num cadáver mutilado o que o fará estremecer? e contudo se estiver deitado perto, acorrem ali, para se entristecerem, e empalidecerem. Mesmo no sono têm medo de o ver. Como se, quando acordados, alguém os forçasse a vê-lo, ou qualquer relato da sua beleza os atraísse para lá! Assim também nos outros sentidos, o que seria longo percorrer. Desta doença da curiosidade são todas aquelas visões estranhas exibidas no teatro. Daí os homens seguirem a busca dos poderes ocultos da natureza (o que está além do nosso fim), o que saber não aproveita, e onde os homens não desejam nada senão saber. Daí também, se com esse mesmo fim de conhecimento pervertido, artes mágicas forem inquiridas. Daí também, na própria religião, Deus é tentado, quando sinais e prodígios são exigidos d'Ele, não desejados para qualquer bom fim, mas meramente para fazer prova.

Neste deserto tão vasto, cheio de armadilhas e perigos, eis que muitas delas cortei, e expulsei do meu coração, como Tu me deste, ó Deus da minha salvação. E contudo, quando me atrevo a dizer, visto que tantas coisas deste género zumbem de todos os lados sobre a nossa vida diária — quando me atrevo a dizer que nada deste tipo ocupa a minha atenção, ou causa em mim um interesse ocioso? É verdade, os teatros não me levam agora, nem me importa saber os cursos das estrelas, nem a minha alma consultou fantasmas de mortos; todos os mistérios sacrílegos detesto. De Ti, ó Senhor meu Deus, a quem devo serviço humilde e de coração simples, por que artifícios e sugestões o inimigo trata comigo para desejar algum sinal! Mas suplico-Te pelo nosso Rei, e pela nossa pura e santa pátria, Jerusalém, que assim como qualquer consentimento para com isso está longe de mim, assim possa ele estar sempre mais e mais longe. Mas quando Te peço pela salvação de alguém, o meu fim e intenção é bem diferente. Tu dás e dar-me-ás seguir-Te de boa vontade, fazendo o que Tu queres.

Não obstante, em quantas coisas mais pequenas e desprezíveis é a nossa curiosidade diariamente tentada, e quantas vezes cedemos, quem pode contar? Quantas vezes começamos como se estivéssemos a tolerar pessoas que contam histórias vãs, para não ofendermos os fracos; depois, aos poucos, interessamo-nos por elas! Não vou agora ao circo para ver um cão a correr atrás de uma lebre; mas no campo, se passar, essa corrida porventura distrair-me-á até de algum pensamento importante, e atrair-me-á atrás dela: não que eu desvie o corpo da minha besta, mas ainda assim inclino a minha mente para lá. E a menos que Tu, tendo-me feito ver a minha enfermidade, me admoestasses prontamente ou através da própria visão por alguma contemplação de elevar-me para Ti, ou de todo desprezar e passar por ela, fico estupidamente fixado nela. Que, quando sentado em casa, um lagarto apanhando moscas, ou uma aranha enredando-as correndo para as suas teias, muitas vezes me chama a atenção? É a coisa diferente, porque são apenas pequenas criaturas? Continuo a partir delas para louvar-Te, o maravilhoso Criador e Ordenador de tudo, mas isto não me atrai primeiro a atenção. Uma coisa é elevar-se rapidamente, outra não cair. E de tais coisas está cheia a minha vida; e a minha única esperança é a Tua maravilhosa grande misericórdia. Pois quando o nosso coração se torna o receptáculo de tais coisas, e é sobrecarregado com multidões desta abundante vaidade, então são as nossas orações também por isso frequentemente interrompidas e distraídas, e enquanto na Tua presença direcionamos a voz do nosso coração para os Teus ouvidos, este tão grande cuidado é interrompido pela precipitação de não sei que pensamentos ociosos. Devemos então considerar isto também entre as coisas de pouco cuidado, ou deverá algo trazer-nos de volta à esperança, salvo a Tua completa misericórdia, uma vez que começaste a mudar-nos?

E Tu sabes quão longe já me mudaste, que primeiro me curaste da luxúria de me justificar a mim mesmo, para que assim pudesses perdoar todas as restantes das minhas iniquidades, e curar todas as minhas enfermidades, e redimir a vida da corrupção, e coroar-me com misericórdia e piedade, e satisfazer o meu desejo com coisas boas: Tu que refreaste o meu orgulho com o Teu temor, e domaste o meu pescoço para o Teu jugo. E agora suporto-o e ele é leve para mim, porque assim o prometeste, e assim o fizeste; e verdadeiramente assim era, e eu não o sabia, quando temia tomá-lo.

Mas, ó Senhor, Tu és o único Senhor sem orgulho, porque és o único Senhor verdadeiro, que não tens senhor; terá este terceiro género de tentação também cessado em mim, ou poderá cessar durante toda esta vida? Desejar, nomeadamente, ser temido e amado pelos homens, sem outro fim senão o de podermos ter nisso uma alegria que não é alegria? Uma vida miserável esta, e uma vanglória imunda! Daqui advém, especialmente, que os homens não Te amem nem Te temam puramente. E, portanto, Tu resistes aos soberbos e dás graça aos humildes: sim, Tu trovejais sobre as ambições do mundo, e os fundamentos dos montes tremem. Porque agora certos ofícios da sociedade humana tornam necessário ser amado e temido pelos homens, o adversário da nossa verdadeira bem-aventurança ataca-nos duramente, espalhando por toda a parte as suas armadilhas de "muito bem, muito bem"; para que, agarrando-as avidamente, sejamos apanhados desprevenidos, e separemos a nossa alegria da Tua verdade, e a coloquemos no engano dos homens; e nos comprazamos em ser amados e temidos, não por Tua causa, mas em Teu lugar: e assim, tendo sido feitos semelhantes a ele, ele possa tê-los para si, não nos laços da caridade, mas nos grilhões do castigo: ele que intentou colocar o seu trono no norte, para que, sombrios e enregelados, O servissem, imitando-Te de forma pervertida e tortuosa. Mas nós, ó Senhor, eis que somos o Teu pequeno rebanho; possui-nos como Teus, estende as Tuas asas sobre nós, e deixai-nos voar sob elas. Sê Tu a nossa glória; sejamos amados por Ti, e que a Tua palavra seja temida em nós. Quem quiser ser louvado pelos homens quando Tu censuras, não será defendido pelos homens quando Tu julgas; nem livrado quando Tu condenas. Mas quando — não é o pecador louvado nos desejos da sua alma, nem é abençoado aquele que procede impiamente, mas — um homem é louvado por algum dom que Tu lhe deste, e ele se regozija mais com o louvor por si mesmo do que pelo facto de possuir o dom pelo qual é louvado, ele também é louvado enquanto Tu o censuras; melhor é aquele que louvou do que aquele que é louvado. Pois o primeiro deleitou-se no dom de Deus no homem; o segundo comprazia-se mais com o dom do homem, do que com o de Deus.

Por estas tentações somos assediados diariamente, ó Senhor; sem cessar somos assediados. A nossa fornalha diária é a língua dos homens. E desta forma também Tu nos ordenas a continência. Dá o que ordenas, e ordena o que quiseres. Tu conheces, sobre este assunto, os gemidos do meu coração e as torrentes dos meus olhos. Pois não consigo saber até que ponto estou mais purificado deste flagelo, e temo muito os meus pecados secretos, que os Teus olhos conhecem, mas os meus não. Pois, noutros tipos de tentações, tenho algum meio de me examinar; nesta, quase nenhum. Pois, ao refrear a minha mente dos prazeres da carne e da curiosidade ociosa, vejo o quanto alcancei quando passo sem eles; renunciando-os, ou não os tendo. Pois então pergunto a mim mesmo o quanto mais ou menos me é penoso não os ter? Depois, as riquezas, que são desejadas para que possam servir a uma, duas ou todas as três concupiscências; se a alma não consegue discernir se, quando as possui, as despreza, elas podem ser postas de parte, para que assim se possa pôr à prova. Mas viver sem louvor, e aí ensaiar as nossas forças, teremos de viver mal, sim, de forma tão abandonada e atroz, que ninguém nos conheça sem nos detestar? Que maior loucura pode ser dita ou pensada? Mas se o louvor usa e deve acompanhar uma vida boa e boas obras, devemos tão pouco renunciar à sua companhia quanto à própria vida boa. Contudo, não sei se posso bem ou mal ficar sem qualquer coisa, a menos que ela esteja ausente.

O que confesso então a Ti, neste tipo de tentação, ó Senhor? O que, senão que me deleito com o louvor, mas com a própria verdade, mais do que com o louvor? Pois se me fosse proposto se eu preferiria, sendo frenético no erro em todas as coisas, ser louvado por todos os homens, ou, sendo coerente e o mais firme na verdade, ser censurado por todos, vejo o que escolheria. Todavia, gostaria que a aprovação de outro não aumentasse sequer a minha alegria por qualquer bem em mim. Contudo, confesso que ela a aumenta, e não só isso, mas o desdouro diminui-a. E quando me perturbo com esta minha miséria, ocorre-me uma desculpa, cujo valor, ó Deus, Tu conheces, pois deixa-me incerto. Pois, uma vez que Tu nos ordenaste não apenas a continência, isto é, de que coisas devemos refrear o nosso amor, mas também a justiça, isto é, onde o devemos depositar, e quiseste que amássemos não só a Ti, mas também ao nosso próximo; muitas vezes, quando me agrada um louvor inteligente, pareço-me a mim mesmo comprazer-me com o progresso ou a inclinação do meu próximo, ou entristecer-me pelo mal nele, quando o ouço censurar o que não compreende, ou o que é bom. Pois às vezes entristeço-me com o meu próprio louvor, seja quando são louvadas em mim coisas de que eu mesmo não gosto, ou quando bens menores e ligeiros são mais estimados do que deveriam ser. Mas, de novo, como sei se sou assim afetado porque não gostaria que aquele que me louva discordasse de mim acerca de mim mesmo; não por ser influenciado pela preocupação com ele, mas porque essas mesmas coisas boas que me agradam em mim, agradam-me mais quando agradam também a outro? Pois, de algum modo, não sou louvado quando o meu juízo sobre mim mesmo não é louvado; na medida em que ou são louvadas coisas que me desagradam; ou mais aquelas que me agradam menos. Estarei então na dúvida sobre mim mesmo nesta matéria?

Eis que, em Ti, ó Verdade, vejo que não devo mover-me com os meus próprios louvores, por minha própria causa, mas pelo bem do meu próximo. E se é assim comigo, não o sei. Pois nisto conheço menos de mim mesmo do que de Ti. Suplico agora, ó meu Deus, revela-me também a mim mesmo, para que eu possa confessar aos meus irmãos, que hão de orar por mim, em que me encontro mutilado. Deixa-me examinar-me novamente com mais diligência. Se no meu louvor sou movido pelo bem do meu próximo, por que sou menos movido se outro for injustamente censurado do que se fosse eu mesmo? Por que sou mais picado pelo opróbrio lançado sobre mim, do que pelo lançado sobre outro, com a mesma injustiça, diante de mim? Não saberei isto também? Ou será que, afinal, me engano a mim mesmo, e não faço a verdade diante de Ti no meu coração e na minha língua? Afasta de mim esta loucura, ó Senhor, para que a minha própria boca não seja para mim o óleo do pecador a engordar a minha cabeça. Sou pobre e necessitado; ainda que melhor, enquanto em gemidos ocultos me desagrado a mim mesmo e busco a Tua misericórdia, até que o que falta no meu estado defeituoso seja renovado e aperfeiçoado, até aquela paz que o olho do soberbo não conhece.

Contudo, a palavra que sai da boca, e as obras conhecidas pelos homens, trazem consigo uma tentação perigosíssima através do amor ao louvor: o qual, para estabelecer uma certa excelência nossa, solicita e coleciona os sufrágios dos homens. Tenta, mesmo quando é reprovado por mim em mim mesmo, precisamente pelo facto de ser reprovado; e muitas vezes gloriar-se-á mais vaidosamente do próprio desprezo da vanglória; e assim já não é desprezo da vanglória aquilo de que se gloria; pois não despreza quando se gloria.

Dentro também, dentro está outro mal, surgindo de uma tentação semelhante; pelo qual os homens se tornam vãos, agradando-se a si mesmos em si mesmos, ainda que não agradem, ou desagradem, ou não se importem de agradar aos outros. Mas, agradando-se a si mesmos, desagradam muito a Ti, não só deleitando-se em coisas que não são boas como se o fossem, mas nos Teus bens, como se fossem seus; ou, ainda que como Teus, como se fossem pelos seus próprios méritos; ou, ainda que como se fossem da Tua graça, não com regozijo fraterno, mas invejando essa graça aos outros. Em todos estes e semelhantes perigos e trabalhos, Tu vês o tremor do meu coração; e sinto que as minhas feridas são curadas por Ti, e não que foram infligidas por mim.

Por onde não tens Tu caminhado comigo, ó Verdade, ensinando-me do que me guardar e o que desejar; quando referia a Ti o que podia descobrir aqui em baixo, e Te consultava? Com os meus sentidos externos, como pude, examinei o mundo e observei a vida que o meu corpo tem de mim, e estes meus sentidos. Dali entrei nos recessos da minha memória, aquelas câmaras multiformes e espaçosas, maravilhosamente providas de inumeráveis provisões; e ponderei, e fiquei atónito; não sendo capaz de discernir nenhuma destas coisas sem Ti, e não encontrando nenhuma delas que fosse Tu. Nem eu mesmo, que descobri estas coisas, que as percorri todas, e me esforcei por distinguir e avaliar cada coisa segundo a sua dignidade, aceitando algumas coisas pelo relato dos meus sentidos, questionando sobre outras que sentia estarem misturadas comigo, numerando e distinguindo os próprios relatores, e no grande tesouro da minha memória revolvendo algumas coisas, guardando outras, retirando outras, era eu mesmo. Nem ainda era eu mesmo quando fazia isto, isto é, aquele meu poder pelo qual o fazia, nem eras Tu, pois Tu és a luz permanente, a qual consultei sobre todas estas coisas, se existiam, o que eram, e como deviam ser avaliadas; e ouvi-Te a dirigir-me e a ordenar-me; e isto faço muitas vezes, isto deleita-me, e, na medida em que possa estar liberto dos deveres necessários, a este prazer recorro. Nem em todas estas coisas que percorro consultando-Te posso encontrar qualquer lugar seguro para a minha alma, senão em Ti; para onde os meus membros dispersos possam ser reunidos, e nada de mim se afaste de Ti. E, por vezes, Tu admites-me a um afeto, muito invulgar, na minha alma mais íntima; subindo a uma doçura estranha, que se fosse aperfeiçoada em mim, não sei o que nela não pertenceria à vida futura. Mas, devido aos meus miseráveis embaraços, afundo-me de novo nestas coisas inferiores, e sou arrastado pelo costume anterior, e sou retido, e choro grandemente, mas sou grandemente retido. Tanto nos pesa o fardo de um mau costume. Aqui posso ficar, mas não quero; ali quero, mas não posso; de ambas as maneiras, miserável.

Assim, pois, considerei as doenças dos meus pecados naquela tríplice concupiscência, e chamei a Tua mão direita em meu auxílio. Pois com um coração ferido contemplei o Teu brilho, e, repelido, disse: "Quem pode chegar lá? Fui lançado fora da vista dos Teus olhos." Tu és a Verdade que presides sobre tudo, mas eu, através da minha cobiça, não queria, na verdade, renunciar a Ti, mas queria, contigo, possuir uma mentira; tal como ninguém quereria falar falsamente de tal modo que ele próprio ignorasse a verdade. Assim, perdi-Te, porque Tu não Te dignas ser possuído com uma mentira.

Quem poderia eu encontrar para me reconciliar contigo? Teria de recorrer aos Anjos? Por que orações? Por que sacramentos? Muitos, esforçando-se por voltar a Ti, e sendo incapazes por si mesmos, tentaram isto, como ouço, e caíram no desejo de visões curiosas, e foram considerados dignos de serem iludidos. Pois eles, sendo altivos de espírito, buscaram-Te pela soberba da erudição, inchando-se em vez de baterem no peito, e assim, pelo acordo do seu coração, atraíram a si mesmos os príncipes do ar, os co-conspiradores da sua soberba, pelos quais, através de influências mágicas, foram enganados, buscando um mediador por quem pudessem ser purificados, e não havia nenhum. Pois era o diabo, transformando-se num Anjo de luz. E aliciou muito a carne orgulhosa o facto de ele não ter corpo de carne. Pois eram mortais e pecadores; mas Tu, Senhor, a quem eles procuravam orgulhosamente reconciliar-se, és imortal e sem pecado. Mas um mediador entre Deus e os homens deve ter algo semelhante a Deus, algo semelhante aos homens; para que, sendo em ambos semelhante ao homem, não estivesse longe de Deus: ou se, em ambos, semelhante a Deus, demasiado diferente do homem: e assim não seria um mediador. Aquele mediador enganador, pois, pelo qual nos Teus juízos secretos a soberba mereceu ser iludida, tem uma coisa em comum com o homem, que é o pecado; outra ele quereria parecer ter em comum com Deus; e não estando revestido da mortalidade da carne, gabar-se-ia de ser imortal. Mas, uma vez que o salário do pecado é a morte, isto tem ele em comum com os homens, que com eles deveria ser condenado à morte.

Mas o verdadeiro Mediador, a Quem na Tua misericórdia secreta mostraste aos humildes, e enviaste, para que pelo Seu exemplo também aprendessem essa mesma humildade, esse Mediador entre Deus e os homens, o Homem Cristo Jesus, apareceu entre os pecadores mortais e o imortal justo; mortal com os homens, justo com Deus: para que, porque o salário da justiça é a vida e a paz, Ele pudesse, por uma justiça unida a Deus, anular aquela morte dos pecadores, agora feitos justos, que Ele quis ter em comum com eles. Daí que Ele tenha sido mostrado aos homens santos de outrora; para que eles, pela fé na Sua Paixão futura, tal como nós pela fé nela passada, pudessem ser salvos. Pois como Homem, Ele era Mediador; mas como Verbo, não no meio entre Deus e o homem, porque igual a Deus, e Deus com Deus, e juntamente um só Deus.

Como nos amaste, bom Pai, que não poupaste o Teu próprio Filho, mas O entregaste por nós, ímpios! Como nos amaste, por quem Aquele que não considerou como usurpação ser igual a Ti, foi feito sujeito até à morte da cruz, Ele sozinho, livre entre os mortos, tendo poder para depor a Sua vida, e poder para a retomar: para nós, para Ti, tanto Vencedor como Vítima, e por isso Vencedor, porque Vítima; para nós, para Ti, Sacerdote e Sacrifício, e por isso Sacerdote porque Sacrifício; fazendo-nos para Ti, de servos, filhos por sermos nascidos de Ti, e servindo-nos. Bem, então, é forte a minha esperança n'Ele, de que Tu curarás todas as minhas enfermidades, por Aquele que está sentado à Tua direita e intercede por nós; de outra forma, desesperaria. Pois muitas e grandes são as minhas enfermidades, muitas são, e grandes; mas o Teu remédio é mais poderoso. Poderíamos imaginar que o Teu Verbo estava longe de qualquer união com o homem, e desesperar de nós mesmos, se Ele não tivesse sido feito carne e habitado entre nós.

Amedrontado com os meus pecados e com o fardo da minha miséria, tinha pensado no meu coração, e tinha proposto fugir para o deserto: mas Tu proibiste-me, e fortaleceste-me, dizendo: Portanto Cristo morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam agora mais para si mesmos, mas para Aquele que morreu por eles. Vê, Senhor, lanço o meu cuidado sobre Ti, para que eu possa viver, e considerar as coisas admiráveis da Tua lei. Tu conheces a minha inexperiência, e as minhas enfermidades; ensina-me, e cura-me. Ele, Teu único Filho, em Quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, redimiu-me com o Seu sangue. Não falem mal de mim os soberbos; porque medito no meu resgate, e como e bebo, e comunico-o; e pobre, desejei ser saciado por Ele, entre aqueles que comem e são saciados, e louvarão ao Senhor aqueles que O buscam.

LIVRO XI

Senhor, uma vez que a eternidade é Tua, ignoras Tu o que Te digo? ou vês Tu no tempo o que passa no tempo? Por que então disponho diante de Ti tantas narrativas? Não, na verdade, para que Tu as aprendesses através de mim, mas para despertar as minhas próprias devoções e as dos meus leitores para contigo, para que possamos todos dizer: Grande é o Senhor, e grandemente louvável. Já o disse; e de novo direi, por amor do Teu amor faço isto. Pois nós também oramos, e contudo a Verdade disse: O vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes de lhe pedirdes. São, pois, as nossas afeições que abrimos diante de Ti, confessando as nossas próprias misérias, e as Tuas misericórdias sobre nós, para que Tu nos possas libertar totalmente, já que começaste, para que deixemos de ser miseráveis em nós mesmos, e sejamos abençoados em Ti; vendo que nos chamaste a tornarmo-nos pobres em espírito, e mansos, e aflitos, e famintos e sedentos de justiça, e misericordiosos, e puros de coração, e pacificadores. Vê, disse-Te muitas coisas, como pude e como quis, porque Tu primeiro quiseste que eu Te confessasse, meu Senhor Deus. Pois Tu és bom, pois a Tua misericórdia dura para sempre.

Mas como bastarei com a língua da minha pena para proferir todas as Tuas exortações, e todos os Teus terrores, e confortos, e orientações, pelos quais me trouxeste a pregar a Tua Palavra, e a dispensar o Teu Sacramento ao Teu povo? E se bastar para os proferir em ordem, as gotas do tempo são preciosas para mim; e há muito que ardo por meditar na Tua lei, e nela confessar-Te a minha perícia e inexperiência, o romper do dia da Tua iluminação, e os restos da minha escuridão, até que a enfermidade seja engolida pela força. E não quereria que nada mais roubasse essas horas que encontro livres das necessidades de refrescar o meu corpo e as faculdades da minha mente, e do serviço que devemos aos homens, ou que, embora não devamos, pagamos contudo.

Ó Senhor meu Deus, dá ouvidos à minha oração, e deixe a Tua misericórdia escutar o meu desejo: porque ele não está ansioso apenas por mim, mas serviria à caridade fraterna; e Tu vês o meu coração, que assim é. Queria sacrificar-Te o serviço do meu pensamento e da minha língua; dá-me Tu o que possa oferecer-Te. Pois sou pobre e necessitado, Tu és rico para todos os que Te invocam; Tu que, inacessível ao cuidado, cuidas de nós. Circuncida de toda a temeridade e de toda a mentira tanto os meus lábios interiores como os exteriores: que as Tuas Escrituras sejam os meus puros deleites: não me deixe eu ser enganado nelas, nem enganar através delas. Senhor, escuta e compadece-Te, ó Senhor meu Deus, Luz dos cegos, e Força dos fracos; sim, também Luz daqueles que veem, e Força dos fortes; escuta a minha alma, e ouve-a a clamar das profundezas. Pois, se os Teus ouvidos não estiverem connosco também nas profundezas, para onde iremos? para onde clamaremos? O dia é Teu, e a noite é Tua; ao Teu aceno os momentos fogem. Concede, pois, um espaço para as nossas meditações nas coisas ocultas da Tua lei, e não o feches contra nós que batemos. Pois não em vão quererias que os segredos sombrios de tantas páginas fossem escritos; nem aquelas florestas estão sem os seus veados que nelas se retiram e vagueiam e caminham; alimentam-se, deitam-se e ruminam. Aperfeiçoa-me, ó Senhor, e revela-as a mim. Eis que a Tua voz é a minha alegria; a Tua voz excede a abundância dos prazeres. Dá o que amo: pois eu amo; e isto Tu o deste: não abandones os Teus próprios dons, nem desprezes a Tua erva verde que tem sede. Deixa-me confessar-Te tudo o que encontrar nos Teus livros, e ouvir a voz de louvor, e beber em Ti, e meditar nas coisas admiráveis da Tua lei; desde o princípio, em que criaste o céu e a terra, até ao reinado eterno da Tua cidade santa contigo.

Senhor, tem misericórdia de mim e ouve o meu desejo. Pois não é, julgo eu, da terra, nem de ouro e prata, e pedras preciosas, ou trajes suntuosos, ou honras e cargos, ou prazeres da carne, ou necessidades para o corpo e para esta vida da nossa peregrinação: todas as quais serão acrescentadas àqueles que buscam o Teu reino e a Tua justiça. Eis, ó Senhor meu Deus, onde reside o meu desejo. Os iníquos falaram-me de deleites, mas não como a Tua lei, ó Senhor. Eis onde reside o meu desejo. Eis, Pai, eis, e vê e aprova; e que seja agradável à vista da Tua misericórdia, para que eu encontre graça diante de Ti, para que as partes íntimas das Tuas palavras me sejam abertas enquanto bato. Suplico pelo nosso Senhor Jesus Cristo, Teu Filho, o Homem da Tua mão direita, o Filho do homem, a quem estabeleceste para Ti, como Teu Mediador e nosso, por meio de Quem nos buscaste, não buscando a Ti, mas nos buscaste, para que pudéssemos buscar-Te — o Teu Verbo, por Quem fizeste todas as coisas, e entre elas, a mim também; — o Teu Unigénito, por Quem chamaste à adoção o povo crente, e nele a mim também; — suplico-Te por Aquele que está sentado à Tua direita, e intercede por nós junto de Ti, em Quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Estes busco nos Teus livros. Sobre Ele escreveu Moisés; isto diz Ele mesmo; isto diz a Verdade.

Eu ouviria e compreenderia como "No Princípio criaste o céu e a terra". Moisés escreveu isto, escreveu e partiu, passou daqui para Ti; nem está ele agora diante de mim. Pois se estivesse, eu segurá-lo-ia e perguntar-lhe-ia, e suplicar-lhe-ia por Ti que me revelasse estas coisas, e encostaria os ouvidos do meu corpo aos sons que irrompiam da sua boca. E se ele falasse hebraico, em vão atingiria os meus sentidos, nem algo disso tocaria a minha mente; mas se latim, eu saberia o que ele disse. Mas de onde saberia eu se ele disse a verdade? Sim, e se eu soubesse isto também, sabê-lo-ia por ele? Verdadeiramente dentro de mim, dentro, na câmara dos meus pensamentos, a Verdade, nem hebraica, nem grega, nem latina, nem bárbara, sem órgãos de voz ou língua, ou som de sílabas, diria: "É verdade", e eu imediatamente diria confiantemente àquele teu homem: "dizes a verdade". Visto que então não posso interrogar a ele, a Ti, a Ti suplico, ó Verdade, de quem Ele estava cheio quando disse a verdade, a Ti, meu Deus, suplico, perdoa os meus pecados; e Tu, que deste a ele, Teu servo, falar estas coisas, dá-me também a mim entendê-las.

Eis que os céus e a terra existem; eles proclamam que foram criados; pois mudam e variam. Ao passo que tudo o que não foi feito, e ainda assim é, nada tem em si que antes não tivesse; e isto é mudar e variar. Eles proclamam também que não se fizeram a si mesmos: "portanto, somos, porque fomos feitos; não éramos, pois, antes de sermos, de modo a fazer-nos a nós mesmos". Ora, a evidência da coisa é a voz dos que falam. Tu, portanto, Senhor, fizeste-os; Tu que és belo, pois eles são belos; que és bom, pois eles são bons; que és, pois eles são; contudo, não são belos nem bons, nem são, como Tu, o seu Criador; comparados com Quem, eles não são belos, nem bons, nem são. Isto sabemos, graças sejam dadas a Ti. E o nosso conhecimento, comparado com o Teu conhecimento, é ignorância.

Mas como fizeste o céu e a terra? E qual foi o engenho da Tua tão poderosa fábrica? Pois não foi como um artífice humano, formando um corpo a partir de outro, segundo o discernimento da sua mente, que pode de algum modo investir com tal forma, como vê em si mesmo pelo seu olho interior. E de onde seria ele capaz de fazer isto, se Tu não tivesses feito essa mente? E ele investe com uma forma o que já existe, e tem um ser, como argila, ou pedra, ou madeira, ou ouro, ou algo semelhante. E de onde seriam eles, se Tu não os tivesses ordenado? Tu fizeste o artífice, o seu corpo, Tu a mente que comanda os membros, Tu a matéria da qual ele faz qualquer coisa; Tu a apreensão pela qual captar a sua arte, e ver dentro o que ele faz fora; Tu o sentido do seu corpo, pelo qual, como por um intérprete, ele pode, da mente para a matéria, transportar aquilo que faz, e reportar à sua mente o que é feito; para que ela, dentro, possa consultar a verdade, que preside sobre si mesma, se está bem feito ou não. Todos estes Te louvam, Criador de tudo. Mas como os fazes Tu? Como, ó Deus, fizeste o céu e a terra? Na verdade, nem no céu, nem na terra, fizeste o céu e a terra; nem no ar, ou nas águas, vendo que estes também pertencem ao céu e à terra; nem no mundo inteiro fizeste o mundo inteiro; porque não havia lugar onde o fazer, antes de ser feito, para que pudesse ser. Nem seguraste nada na Tua mão, do qual fazer o céu e a terra. Pois de onde terias tu isto, que não tinhas feito, para disso fazer qualquer coisa? Pois o que é, sê-lo-ia se não fosses Tu? Portanto, falaste, e eles foram feitos, e no Teu Verbo fizeste-os.

Mas como falaste? Da maneira que a voz saiu da nuvem, dizendo: Este é o meu Filho amado? Pois essa voz passou e desapareceu, começou e terminou; as sílabas soaram e passaram, a segunda após a primeira, a terceira após a segunda, e assim por diante em ordem, até à última após as restantes, e o silêncio após a última. De onde é abundantemente claro e evidente que o movimento de uma criatura a expressou, ela mesma temporal, servindo a Tua vontade eterna. E estas Tuas palavras, criadas por um tempo, o ouvido exterior reportou à alma inteligente, cujo ouvido interior estava a escutar o Teu Verbo Eterno. Mas ela comparou estas palavras que soavam no tempo com aquele Teu Verbo Eterno em silêncio, e disse: "É diferente, muito diferente. Estas palavras estão muito abaixo de mim, nem são, porque fogem e passam; mas o Verbo do meu Senhor permanece acima de mim para sempre". Se então, ao soar e passar das palavras, disseste que o céu e a terra deveriam ser feitos, e assim fizeste o céu e a terra, havia uma criatura corpórea antes do céu e da terra, pelos cujos movimentos no tempo aquela voz poderia seguir o seu curso no tempo. Mas não havia nada corpóreo antes do céu e da terra; ou se houvesse, certamente terias, sem tal voz passageira, criado isso, do qual fazer esta voz passageira, pela qual dizer: Seja feito o céu e a terra. Pois qualquer que fosse isso, de que tal voz fosse feita, a menos que por Ti fosse feita, não poderia existir de todo. Por que Verbo então falaste, para que um corpo pudesse ser feito, pelo qual estas palavras fossem novamente feitas?

Chamas-nos então a entender o Verbo, Deus, junto de Ti Deus, Que é falado eternamente, e por Ele são todas as coisas faladas eternamente. Pois o que foi falado não foi falado sucessivamente, uma coisa concluída para que a seguinte pudesse ser falada, mas todas as coisas juntas e eternamente. De outro modo, temos tempo e mudança; e não uma verdadeira eternidade nem verdadeira imortalidade. Isto eu sei, ó meu Deus, e dou graças. Sei, confesso-Te, ó Senhor, e comigo sabe e bendiz-Te quem não é ingrato à Verdade segura. Sabemos, Senhor, sabemos; já que, na medida em que algo não é o que era, e é o que não era, nessa medida morre e surge. Nada então do Teu Verbo dá lugar ou substitui, porque Ele é verdadeiramente imortal e eterno. E, portanto, ao Verbo coeterno contigo dizes de uma só vez e eternamente tudo o que dizes; e tudo o que dizes que será feito é feito; nem fazes de outro modo que não seja dizendo; e contudo nem todas as coisas são feitas juntas, ou são eternas, as que fazes dizendo.

Por que, suplico-Te, ó Senhor meu Deus? Vejo-o de certa forma; mas como expressá-lo, não sei, a menos que seja que tudo o que começa a ser, e deixa de ser, começa então, e deixa então, quando na Tua Razão eterna é sabido que deve começar ou deixar; na qual Razão nada começa ou deixa. Este é o Teu Verbo, que é também "o Princípio, porque também Ele fala connosco". Assim, no Evangelho, Ele fala através da carne; e isto soou exteriormente nos ouvidos dos homens; para que pudesse ser crido e buscado interiormente, e encontrado na Verdade eterna; onde o bom e único Mestre ensina todos os Seus discípulos. Ali, Senhor, ouço a Tua voz falando-me; porque Ele fala connosco, quem nos ensina; mas quem não nos ensina, embora fale, a nós não fala. Quem nos ensina agora, senão a inalterável Verdade? Pois mesmo quando somos admoestados através de uma criatura mutável, somos apenas conduzidos à inalterável Verdade; onde aprendemos verdadeiramente, enquanto permanecemos e O ouvimos, e nos regozijamos grandemente por causa da voz do Esposo, restaurando-nos a Ele, de Quem somos. E, portanto, o Princípio, porque a não ser que Ele permanecesse, não haveria, quando nos desviássemos, para onde retornar. Mas quando retornamos do erro, é através do conhecimento; e para que possamos conhecer, Ele ensina-nos, porque Ele é o Princípio, e fala connosco.

Neste Princípio, ó Deus, criaste o céu e a terra, no Teu Verbo, no Teu Filho, na Tua Potência, na Tua Sabedoria, na Tua Verdade; maravilhosamente falando, e maravilhosamente fazendo. Quem compreenderá? Quem o declarará? O que é isso que reluz através de mim, e atinge o meu coração sem o ferir; e eu estremeço e me incendeio? Estremeço, na medida em que sou diferente dele; incendeio-me, na medida em que sou semelhante a ele. É a Sabedoria, a própria Sabedoria que reluz através de mim; separando a minha nebulosidade que ainda me envolve, desfalecendo dela, através da escuridão que para meu castigo se acumula sobre mim. Pois a minha força é abatida na necessidade, de modo que não posso suportar as minhas bênçãos, até que Tu, Senhor, que tens sido gracioso para com todas as minhas iniquidades, cures todas as minhas enfermidades. Pois Tu também redimirás a minha vida da corrupção, e coroar-me-ás com benignidade e ternas misericórdias, e satisfarás o meu desejo com coisas boas, porque a minha juventude se renovará como a da águia. Pois na esperança somos salvos, pelo que através da paciência aguardamos as Tuas promessas. Ouça-Te aquele que pode, interiormente discorrendo do Teu oráculo: clamarei ousadamente, Quão maravilhosas são as Tuas obras, ó Senhor, em Sabedoria fizeste-as todas; e esta Sabedoria é o Princípio, e nesse Princípio criaste o céu e a terra.

Eis, não estão eles cheios do seu velho fermento, os que nos dizem: "O que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Pois se (dizem eles) Ele estava desocupado e não trabalhava, por que não o faz também de agora em diante, e para sempre, como fez outrora? Pois se algum novo movimento surgiu em Deus, e uma nova vontade de criar uma criatura, que Ele nunca antes tinha criado, como então seria essa uma verdadeira eternidade, onde surge uma vontade, que não existia? Pois a vontade de Deus não é uma criatura, mas anterior à criatura; vendo que nada poderia ser criado, a menos que a vontade do Criador a tivesse precedido. A vontade de Deus pertence, pois, à Sua própria Substância. E se algo surgiu na Substância de Deus, que antes não existia, essa Substância não pode ser verdadeiramente chamada eterna. Mas se a vontade de Deus tem sido desde a eternidade que a criatura deveria ser, por que não foi a criatura também desde a eternidade?"

Os que assim falam ainda não Te compreendem, ó Sabedoria de Deus, Luz das almas, não compreendem ainda como são feitas as coisas que por Ti e em Ti são feitas: contudo esforçam-se por compreender as coisas eternas, enquanto o seu coração flutua entre os movimentos das coisas passadas e futuras, e é ainda instável. Quem o segurará e o fixará, para que se aquiete por um momento, e por um momento capture a glória daquela Eternidade sempre fixa, e a compare com os tempos que nunca estão fixos, e veja que não pode ser comparada; e que um longo tempo não pode tornar-se longo senão a partir de muitos movimentos que passam, que não podem ser prolongados todos juntos; mas que no Eterno nada passa, mas o todo está presente; ao passo que nenhum tempo está todo presente de uma só vez: e que todo o tempo passado é impulsionado pelo tempo futuro, e todo o futuro segue-se ao passado; e todo o passado e futuro é criado, e flui daquele que está sempre presente? Quem segurará o coração do homem, para que ele possa ficar imóvel, e ver como a eternidade, sempre imóvel, nem passada nem futura, profere os tempos passados e futuros? Pode a minha mão fazer isto, ou a mão da minha boca pelo discurso realizar uma coisa tão grande?

Vê, respondo àquele que pergunta: "O que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?" Não respondo como se diz que alguém fez jocosamente (iludindo a pressão da pergunta): "Ele estava a preparar o inferno (disse ele) para os que perscrutam mistérios". Uma coisa é responder a indagações, outra é zombar dos indagadores. Assim não respondo; pois preferiria responder "Não sei", ao que não sei, do que responder de modo a provocar o riso daquele que pergunta sobre coisas profundas e ganhar louvor por quem responde coisas falsas. Mas digo que Tu, nosso Deus, és o Criador de toda a criatura: e se pelo nome "céu e terra" toda a criatura for entendida, digo ousadamente "que antes de Deus criar o céu e a terra, Ele não criou nada". Pois se Ele criou, o que criou senão uma criatura? E oxalá eu soubesse tudo o que desejo saber para o meu proveito, como sei que nenhuma criatura foi feita antes de ser feita alguma criatura.

Mas se algum cérebro errante divagar pelas imagens dos tempos passados, e se admirar de que Tu, o Deus Todo-Poderoso e Todo-Criador e Todo-Sustentador, Criador do céu e da terra, tivesses por incontáveis eras deixado de realizar tão grande obra, antes de a querer criar, que desperte e considere que se admira de conceitos falsos. Pois de onde poderiam passar incontáveis eras, que Tu não criaste, Tu, o Autor e Criador de todas as eras? Ou que tempos seriam, que não foram criados por Ti? Ou como passariam eles, se nunca existiram? Vendo então que Tu és o Criador de todos os tempos, se algum tempo houve antes de Tu criares o céu e a terra, por que dizem que Tu deixaste de trabalhar? Pois esse mesmo tempo Tu criaste, nem poderiam os tempos passar antes de Tu criares esses tempos. Mas se antes do céu e da terra não havia tempo, por que se pergunta o que fazias então? Pois não havia "então", quando não havia tempo.

Nem Tu, pelo tempo, precedes o tempo: de outro modo não precederias todos os tempos. Mas Tu precedes todas as coisas passadas pela sublimidade de uma eternidade sempre presente; e ultrapassas todas as futuras porque são futuras, e quando chegarem, serão passadas; mas Tu és o Mesmo, e os Teus anos não falham. Os Teus anos nem vêm nem vão; enquanto os nossos tanto vêm como vão, para que todos possam vir. Os Teus anos permanecem juntos, porque permanecem; nem são expulsos pelos anos que vêm, pois não passam; mas os nossos serão todos, quando já não forem. Os Teus anos são um dia; e o Teu dia não é diário, mas Hoje, vendo que o Teu Hoje não dá lugar ao amanhã, pois não substitui o ontem. O Teu Hoje é a Eternidade; portanto geraste o Coeterno, a quem disseste: Hoje Te gerei. Criaste todas as coisas; e antes de todos os tempos Tu és: nem em tempo algum o tempo não existiu.

Em tempo algum, então, não criaste nada, porque o próprio tempo Tu criaste. E nenhum tempo é coeterno contigo, porque Tu permaneces; mas se permanecessem, não seriam tempos. Pois o que é o tempo? Quem pode pronta e brevemente explicar isto? Quem pode até no pensamento compreendê-lo, de modo a dizer uma palavra sobre ele? Mas do que mencionamos no discurso mais familiar e conhecidamente do que o tempo? E entendemos, quando falamos dele; entendemos também, quando ouvimos falar dele por outro. O que é então o tempo? Se ninguém me pergunta, sei: se desejo explicá-lo a quem pergunta, não sei: contudo digo ousadamente que sei que, se nada passasse, o tempo passado não existiria; e se nada viesse, um tempo futuro não existiria; e se nada fosse, o tempo presente não existiria. Esses dois tempos então, passado e futuro, como são, vendo que o passado agora não é, e o futuro ainda não é? Mas o presente, se sempre fosse presente, e nunca passasse para o tempo passado, na verdade não seria tempo, mas eternidade. Se o tempo presente (se há de ser tempo) apenas entra na existência porque passa para o tempo passado, como podemos dizer que este existe, cuja causa de ser é que não será; assim, nomeadamente, que não podemos verdadeiramente dizer que o tempo é, senão porque tende a não ser?

E contudo dizemos: "um longo tempo" e "um curto tempo"; ainda assim, apenas do tempo passado ou futuro. Um longo tempo passado (por exemplo) chamamos cem anos atrás; e um longo tempo futuro, cem anos à frente. Mas um curto tempo passado, chamamos (suponhamos) dez dias atrás; e um curto tempo futuro, dez dias à frente. Mas em que sentido é longo ou curto o que não existe? Pois o passado não é agora; e o futuro ainda não é. Não digamos então "é longo"; mas do passado, "foi longo"; e do futuro, "será longo". Ó meu Senhor, minha Luz, não zombará aqui também a Tua Verdade do homem? Pois esse tempo passado que foi longo, era longo quando já era passado, ou quando ainda era presente? Pois então poderia ser longo, quando havia o que pudesse ser longo; mas quando passado, já não o era; pelo que também não poderia ser longo, o que não existia de todo. Não digamos então "o tempo passado foi longo": pois não encontraremos o que foi longo, vendo que, desde que passou, já não é, mas digamos "aquele tempo presente foi longo"; porque, quando era presente, era longo. Pois ainda não tinha passado, de modo a não ser; e portanto havia o que pudesse ser longo; mas depois de ter passado, deixou também de ser longo, o que deixou de ser.

Vejamos então, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo: pois a ti é dado sentir e medir a duração do tempo. Que me responderás? São cem anos, quando presentes, um longo tempo? Vê primeiro se cem anos podem estar presentes. Pois se o primeiro desses anos está agora em curso, ele está presente, mas os outros noventa e nove estão por vir, e por isso ainda não são; mas se o segundo ano está em curso, um já passou, outro está presente, o restante está por vir. E assim, se assumirmos qualquer ano intermédio destes cem como presente, tudo o que o precede já passou; tudo o que o sucede está por vir; pelo que cem anos não podem estar presentes. Mas vê pelo menos se aquele que está agora em curso está ele próprio presente; pois se o mês em curso é o seu primeiro, os restantes estão por vir; se o segundo, o primeiro já passou e os restantes ainda não são. Portanto, nem o ano agora em curso está presente; e se não está presente como um todo, então o ano não está presente. Pois doze meses compõem um ano; dos quais qualquer um que seja o mês em curso está presente; os restantes passaram ou estão por vir. Embora nem esse mês em curso esteja presente; mas apenas um dia; sendo os restantes por vir, se for o primeiro; passados, se o último; se qualquer um dos intermédios, então entre o passado e o futuro.

Vê como o tempo presente, que apenas achámos poder ser chamado de longo, é abreviado para a duração de quase um dia. Mas examinemos também isso; porque nem um dia está presente como um todo. Pois é constituído por vinte e quatro horas de noite e dia: das quais a primeira tem as restantes por vir; a última tem as passadas; e qualquer uma das intermédias tem as que a precedem como passadas, e as que a seguem como por vir. Sim, essa única hora passa em partículas fugitivas. Tudo o que dela voou, passou; tudo o que resta, está por vir. Se um instante de tempo for concebido, que não possa ser dividido nas mais pequenas partículas de momentos, esse é o único que pode ser chamado de presente. O qual, contudo, voa com tal rapidez do futuro para o passado, que não se pode alongar com a mínima demora. Pois se o for, divide-se em passado e futuro. O presente não tem espaço. Onde está então o tempo, que podemos chamar de longo? Está por vir? Dele não dizemos: "é longo"; porque ainda não é, de modo a ser longo; mas dizemos: "será longo". Quando, portanto, será? Pois se mesmo então, quando ainda está por vir, não for longo (porque o que pode ser longo ainda não é), e assim só será longo quando, do futuro que ainda não é, começar agora a ser e se tiver tornado presente, para que assim exista o que possa ser longo; então o tempo presente clama, nas palavras acima, que não pode ser longo.

E contudo, Senhor, percebemos intervalos de tempos, e comparamo-los, e dizemos que uns são mais curtos e outros mais longos. Medimos também o quanto este tempo é mais longo ou mais curto que aquele; e respondemos: "Este é o dobro, ou o triplo; e aquele, apenas uma vez, ou apenas tanto quanto aquele". Mas medimos os tempos à medida que passam, percebendo-os; mas o passado, que já não é, ou o futuro, que ainda não é, quem pode medir? A menos que um homem presuma dizer que pode ser medido o que não é. Quando, pois, o tempo está a passar, pode ser percebido e medido; mas quando passou, não pode, porque não é.

Pergunto, Pai, não afirmo: Ó meu Deus, rege-me e guia-me. "Quem me dirá que não há três tempos (como aprendemos quando meninos, e ensinámos a meninos), passado, presente e futuro; mas apenas o presente, porque aqueles dois não são? Ou serão eles também; e quando do futuro se torna presente, vem ele de algum lugar secreto; e assim, ao retirar-se, do presente torna-se passado? Pois onde viram aqueles que predisseram as coisas futuras, se elas ainda não são? Pois o que não é, não pode ser visto. E aqueles que relatam coisas passadas, não poderiam relatá-las se na mente não as discernissem, e se elas não fossem, de modo nenhum poderiam ser discernidas. As coisas, pois, passadas e futuras, são."

Permite-me, Senhor, procurar mais. Ó minha esperança, não seja confundido o meu propósito. Pois se os tempos passados e futuros são, eu queria saber onde eles estão. O que, se não puder, ainda sei que, onde quer que estejam, não estão lá como futuros ou passados, mas presentes. Pois se lá também fossem futuros, ainda não estariam lá; se lá também fossem passados, já não estariam lá. Onde quer que esteja o que quer que seja, só é como presente. Embora, quando factos passados são relatados, sejam extraídas da memória, não as coisas em si que passaram, mas palavras que, concebidas pelas imagens das coisas, elas, ao passar, deixaram através dos sentidos como vestígios na mente. Assim, a minha infância, que agora não é, está no tempo passado, que agora não é: mas agora, quando recordo a sua imagem e falo dela, contemplo-a no presente, porque ainda está na minha memória. Se existe uma causa semelhante para predizer também as coisas futuras; que das coisas que ainda não são, as imagens possam ser percebidas antes, já existindo, confesso, ó meu Deus, que não sei. Isto, de facto, sei, que geralmente pensamos antes nas nossas ações futuras, e que esse pensar de antemão é presente, mas a ação da qual pensamos de antemão ainda não é, porque está por vir. A qual, quando a empreendemos e começamos a fazer o que pensávamos de antemão, então essa ação será; porque então já não é futura, mas presente.

De que modo, então, seja este secreto perceber de antemão as coisas futuras; só pode ser visto o que é. Mas o que agora é, não é futuro, mas presente. Quando, pois, se diz que as coisas futuras são vistas, não são elas próprias que ainda não são (isto é, que hão de ser), mas talvez as suas causas ou sinais são vistos, que já são. Portanto, não são futuras, mas presentes para aqueles que agora veem aquilo de que o futuro, sendo concebido de antemão na mente, é predito. As quais conceções de antemão, por sua vez, agora são; e aqueles que predizem essas coisas, contemplam as conceções presentes diante deles. Deixe agora a numerosa variedade das coisas fornecer-me algum exemplo. Contemplo o romper do dia, preanuncio que o sol está prestes a nascer. O que contemplo, é presente; o que preanuncio, é futuro; não o sol, que já é; mas o nascer do sol, que ainda não é. E contudo, se eu não imaginasse na minha mente o próprio nascer do sol (como agora enquanto falo dele), não poderia predizê-lo. Mas nem aquele romper do dia que discerni no céu é o nascer do sol, embora o preceda; nem aquela imaginação da minha mente; as quais duas são vistas agora presentes, para que a outra que há de ser possa ser predita. As coisas futuras, pois, ainda não são: e se ainda não são, não são: e se não são, não podem ser vistas; contudo, podem ser preditas a partir de coisas presentes, que já são e são vistas.

Tu, pois, Governante da Tua criação, por que via ensinas às almas as coisas futuras? Pois ensinaste os Teus Profetas. Por que via ensinas Tu, a quem nada é futuro, as coisas futuras; ou antes, acerca do futuro, ensinas as coisas presentes? Pois, o que não é, nem pode ser ensinado. Demasiado longe está este caminho da minha compreensão: é demasiado poderoso para mim, não posso alcançá-lo; mas de Ti posso, quando Tu o concederes, ó doce luz dos meus olhos ocultos.

O que agora é claro e evidente é que nem as coisas futuras nem as passadas são. Nem se diz propriamente "há três tempos, passado, presente e futuro": contudo, talvez se pudesse dizer propriamente "há três tempos; um presente das coisas passadas, um presente das coisas presentes e um presente das coisas futuras". Pois estes três existem de certa forma na alma, mas noutro lugar não os vejo; presente das coisas passadas, memória; presente das coisas presentes, visão; presente das coisas futuras, expectativa. Se assim nos for permitido falar, vejo três tempos, e confesso que há três. Que se diga também: "há três tempos, passado, presente e futuro": à nossa maneira incorreta. Vê, não me oponho, nem contradigo, nem critico, se o que é assim dito for apenas entendido, que nem o que há de ser agora é, nem o que passou. Pois poucas são as coisas que dizemos propriamente, a maioria das coisas impropriamente; ainda assim, as coisas pretendidas são entendidas.

Disse então ainda agora, medimos os tempos à medida que passam, para sermos capazes de dizer: este tempo é duas vezes tanto quanto aquele; ou, este é exatamente tanto quanto aquele; e assim de quaisquer outras partes do tempo, que sejam mensuráveis. Portanto, como disse, medimos os tempos à medida que passam. E se alguém me perguntasse: "Como sabes?", eu poderia responder: "Sei que medimos, nem podemos medir coisas que não são; e as coisas passadas e futuras não são". Mas o tempo presente como o medimos, vendo que não tem espaço? É medido enquanto passa, mas quando tiver passado, não é medido; pois não haverá nada a ser medido. Mas de onde, por que via e para onde passa ele enquanto é medido? De onde, senão do futuro? Por que via, senão através do presente? Para onde, senão para o passado? Daquilo, portanto, que ainda não é, através daquilo que não tem espaço, para aquilo que agora não é. Contudo, o que medimos, se não o tempo em algum espaço? Pois não dizemos simples, e duplo, e triplo, e igual, ou qualquer outra maneira semelhante como falamos do tempo, exceto de espaços de tempos. Em que espaço então medimos o tempo que passa? No futuro, de onde ele passa? Mas o que ainda não é, não medimos. Ou no presente, pelo qual passa? Mas sem espaço, não medimos: ou no passado, para onde passa? Mas nem medimos aquilo que agora não é.

A minha alma está em fogo para conhecer este enigma tão intrincado. Não o encerres, ó Senhor meu Deus, bom Pai; por Cristo Te suplico, não encerres estas coisas habituais, contudo ocultas, ao meu desejo, para que não seja impedido de penetrar nelas; mas deixa que elas amanheçam através da Tua misericórdia esclarecedora, ó Senhor. A quem inquirirei acerca destas coisas? E a quem confessarei mais proveitosamente a minha ignorância, do que a Ti, a Quem estes meus estudos, tão veementemente acesos pelas Tuas Escrituras, não são trabalhosos? Dá o que amo; pois amo, e isto Tu me deste. Dá, Pai, que verdadeiramente sabes dar boas dádivas aos Teus filhos. Dá, porque me dispus a conhecer, e o trabalho está diante de mim até que Tu o abras. Por Cristo Te suplico, em Seu Nome, Santo dos santos, que ninguém me perturbe. Pois acreditei, e por isso falo. Esta é a minha esperança, por isto vivo, para que possa contemplar as delícias do Senhor. Vê, fizeste os meus dias velhos, e eles passam, e como, não sei. E falamos de tempo, e tempo, e tempos, e tempos: "Quanto tempo faz desde que disse isto"; "quanto tempo desde que fez isto"; e "quanto tempo desde que vi aquilo"; e "esta sílaba tem o dobro do tempo daquela sílaba curta simples". Estas palavras dizemos, e estas ouvimos, e são entendidas, e entendemos. São manifestíssimas e ordinárias, e as mesmas coisas, por sua vez, são demasiado profundamente ocultas, e a descoberta delas seria nova.

Ouvi uma vez de um homem douto que os movimentos do sol, da lua e das estrelas constituíam o tempo, e não assenti. Pois por que não haveriam os movimentos de todos os corpos ser antes tempos? Ou, se as luzes do céu cessassem, e a roda de um oleiro girasse, não haveria tempo pelo qual pudéssemos medir esses giros, e dizer que ou se movia com pausas iguais, ou se girava por vezes mais devagar, outras mais depressa, que algumas voltas eram mais longas, outras mais curtas? Ou, enquanto dizíamos isto, não estaríamos também a falar no tempo? Ou, haveria nas nossas palavras algumas sílabas curtas, outras longas, senão porque aquelas soavam num tempo mais curto, estas num mais longo? Deus, concede aos homens ver numa pequena coisa noções comuns a coisas grandes e pequenas. As estrelas e luzes do céu são também para sinais, e para estações, e para anos, e para dias; elas são; contudo, nem eu diria que o girar daquela roda de madeira era um dia, nem ele, que por isso não era tempo.

Desejo conhecer a força e a natureza do tempo, pelo qual medimos os movimentos dos corpos, e dizemos (por exemplo) este movimento é duas vezes mais longo que aquele. Pois pergunto: Vendo que "dia" não denota apenas a permanência do sol sobre a terra (segundo a qual dia é uma coisa, noite outra); mas também todo o seu circuito de oriente a oriente de novo; segundo o qual dizemos: "passaram tantos dias", a noite estando incluída quando dizemos "tantos dias", e as noites não contadas à parte; — vendo então que um dia é completado pelo movimento do sol e pelo seu circuito de oriente a oriente de novo, pergunto: o movimento sozinho faz o dia, ou a permanência em que esse movimento é completado, ou ambos? Pois se o primeiro for o dia; então teríamos um dia, embora o sol terminasse esse curso num espaço de tempo tão pequeno quanto uma hora. Se o segundo, então não faria um dia, se entre um nascer do sol e outro houvesse apenas uma permanência tão curta quanto uma hora; mas o sol teria de girar vinte e quatro vezes, para completar um dia. Se ambos, então nem isso poderia ser chamado de dia; se o sol corresse toda a sua volta no espaço de uma hora; nem aquilo, se, enquanto o sol estivesse parado, tanto tempo passasse quanto o sol habitualmente perfaz o seu curso todo, de manhã a manhã. Não perguntarei, pois, agora, o que é aquilo que é chamado de dia; mas, o que é o tempo, pelo qual nós, medindo o circuito do sol, deveríamos dizer que foi terminado em metade do tempo que costumava, se por acaso fosse terminado num espaço tão pequeno quanto doze horas; e comparando ambos os tempos, chamaríamos a este um tempo simples, àquele um tempo duplo; mesmo supondo que o sol corra a sua volta de oriente a oriente, por vezes nesse tempo simples, por vezes nesse tempo duplo. Que ninguém então me diga que os movimentos dos corpos celestes constituem tempos, porque, quando à oração de um, o sol tinha parado, até que ele pudesse alcançar a sua batalha vitoriosa, o sol parou, mas o tempo continuou. Pois no seu próprio espaço de tempo designado foi aquela batalha travada e terminada. Percebo o tempo, então, como uma certa extensão. Mas percebo-o, ou pareço percebê-lo? Tu, Luz e Verdade, mostrar-me-ás.

Ordenas-me que assinta, se alguém definir o tempo como "movimento de um corpo"? Não me ordenas. Pois que nenhum corpo é movido senão no tempo, ouço; isto dizes Tu; mas que o movimento de um corpo é tempo, não ouço; Tu não o dizes. Pois quando um corpo é movido, eu, pelo tempo, meço quanto tempo ele se move, desde o tempo em que começou a mover-se até que parou? E se eu não visse de onde começou; e ele continuasse a mover-se de modo que não visse quando termina, não posso medir, salvo talvez do tempo em que comecei até que deixasse de ver. E se olhar durante muito tempo, só posso declarar que é um longo tempo, mas não quanto tempo; porque quando dizemos "quanto tempo", fazemo-lo por comparação; como: "isto é tão longo quanto aquilo", ou "duas vezes tão longo quanto aquilo", ou algo semelhante. Mas quando podemos marcar as distâncias dos lugares, de onde e para onde vai o corpo movido, ou as suas partes, se se movesse como num torno, então podemos dizer precisamente em quanto tempo o movimento desse corpo ou da sua parte, deste lugar para aquele, foi terminado. Vendo, portanto, que o movimento de um corpo é uma coisa, e aquilo pelo qual medimos quanto tempo é, outra; quem não vê qual das duas deve ser mais chamada de tempo? Pois se um corpo é por vezes movido, por vezes permanece parado, então medimos, não apenas o seu movimento, mas a sua paragem também pelo tempo; e dizemos: "ficou parado tanto quanto se moveu"; ou "ficou parado duas ou três vezes tanto quanto se moveu"; ou qualquer outro espaço que a nossa medição tenha ou averiguado ou adivinhado; mais ou menos, como costumamos dizer. O tempo, então, não é o movimento de um corpo.

E confesso-Te, ó Senhor, que ainda não sei o que é o tempo, e novamente confesso-Te, ó Senhor, que sei que falo isto no tempo, e que, tendo falado longamente sobre o tempo, esse próprio "longo" não é longo, senão pela pausa do tempo. Como sei então isto, vendo que não sei o que é o tempo? Ou será por acaso que não sei como expressar o que sei? Ai de mim, que nem sequer sei o que não sei. Vê, ó meu Deus, diante de Ti não minto; mas como falo, assim é o meu coração. Tu acenderás a minha candeia; Tu, ó Senhor meu Deus, iluminarás as minhas trevas.

Não confessa a minha alma, com a maior veracidade, diante de Ti, que eu meço o tempo? Meço então, ó meu Deus, e não sei o que meço? Meço o movimento de um corpo no tempo; e o próprio tempo, não o meço eu? Ou poderia eu, na verdade, medir a duração do movimento de um corpo, e em quanto espaço ele poderia ir deste lugar àquele, sem medir o tempo no qual ele é movido? Este mesmo tempo, então, como o meço? Medimos um tempo mais longo por um mais curto, como medimos o espaço de um côvado pelo espaço de um palmo? Pois assim, na verdade, parecemos medir o espaço de uma sílaba longa pelo espaço de uma sílaba curta, e dizer que esta é o dobro daquela. Assim medimos os espaços das estrofes pelos espaços dos versos, e os espaços dos versos pelos espaços dos pés, e os espaços dos pés pelos espaços das sílabas, e os espaços das sílabas longas pelo espaço das sílabas curtas; não medindo por páginas (pois então mediríamos espaços, não tempos); mas quando pronunciamos as palavras e elas passam, e dizemos: "é uma estrofe longa, porque composta de tantos versos; versos longos, porque consistindo de tantos pés; pés longos, porque prolongados por tantas sílabas; uma sílaba longa porque é o dobro de uma curta". Mas nem desta maneira obtemos qualquer medida certa de tempo; porque pode acontecer que um verso mais curto, pronunciado mais plenamente, ocupe mais tempo do que um mais longo, pronunciado apressadamente. E o mesmo vale para um verso, um pé, uma sílaba. De onde me pareceu que o tempo não é nada mais do que protração; mas de quê, não sei; e maravilho-me se não será da própria mente? Pois o que, rogo-Te, ó meu Deus, meço eu, quando digo, ou indefinidamente "este é um tempo mais longo do que aquele", ou definidamente "este é o dobro daquele"? Que meço o tempo, eu sei; e contudo não meço o tempo futuro, pois ele ainda não é; nem o presente, porque não é protraído por espaço algum; nem o passado, porque ele agora já não é. O que meço então? Tempos que passam, não passados? Pois assim eu disse.

Coragem, minha mente, e avança com vigor. Deus é o nosso auxílio, Ele nos fez, e não nós a nós mesmos. Avança para onde a verdade começa a despontar. Suponha, agora, que a voz de um corpo começa a soar, e soa, e continua a soar, e escuta, ela cessa; é silêncio agora, e aquela voz é passada, e já não é uma voz. Antes de soar, estava para vir, e não podia ser medida, porque ainda não era, e agora não pode, porque já não é. Então, portanto, enquanto soava, ela podia; porque ali então havia o que pudesse ser medido. Mas, mesmo então, não estava parada; pois estava passando e se esvaindo. Poderia ser medida mais facilmente por isso? Pois, enquanto passava, estava sendo estendida em algum espaço de tempo, de modo que pudesse ser medida, já que o presente não tem espaço. Se, portanto, então podia, então, eis, suponha que outra voz começou a soar, e ainda soa em um tom contínuo sem qualquer interrupção; meçamo-la enquanto soa; vendo que, quando ela deixar de soar, será então passado, e nada restará para ser medido; meçamo-la verdadeiramente, e digamos quanto ela é. Mas ela ainda soa, nem pode ser medida senão desde o instante em que começou até o fim em que terminou. Pois o próprio espaço entre eles é a coisa que medimos, a saber, desde algum começo até algum fim. Portanto, uma voz que ainda não terminou não pode ser medida, de modo que se possa dizer quão longa ou curta ela é; nem pode ser chamada igual a outra, ou o dobro de uma única, ou algo semelhante. Mas quando termina, já não é. Como pode então ser medida? E contudo medimos tempos; mas, contudo, nem aqueles que ainda não são, nem aqueles que já não são, nem aqueles que não são alongados por alguma pausa, nem aqueles que não têm limites. Não medimos nem tempos futuros, nem passados, nem presentes, nem passageiros; e contudo medimos tempos.

"Deus Creator omnium", este verso de oito sílabas alterna entre sílabas curtas e longas. As quatro curtas então, a primeira, a terceira, a quinta e a sétima, são apenas simples, em relação às quatro longas, a segunda, a quarta, a sexta e a oitava. Cada uma destas, em relação a cada uma daquelas, tem um tempo duplo: pronuncio-as, relato-as e descubro que é assim, como o sentido simples percebe. Pelo sentido simples então, meço uma sílaba longa por uma curta, e sensivelmente descubro que ela tem o dobro; mas quando uma soa após a outra, se a primeira for curta e a segunda longa, como reterei a curta, e como, medindo, a aplicarei à longa, para que eu possa descobrir que esta tem o dobro, vendo que a longa não começa a soar a menos que a curta deixe de soar? E essa mesma longa, meço-a como presente, vendo que não a meço até que ela termine? Ora, o seu fim é o seu esvair-se. O que é então o que meço? Onde está a sílaba curta pela qual meço? Onde a longa que meço? Ambas soaram, voaram, passaram, já não são; e contudo meço, e respondo confiantemente (na medida em que se presume num sentido praticado) que, quanto ao espaço de tempo, esta sílaba é apenas simples, aquela, dupla. E contudo eu não poderia fazer isso, a menos que elas estivessem já passadas e terminadas. Não são, então, elas mesmas, que agora não são, o que meço, mas algo na minha memória, que lá permanece fixo.

É em ti, minha mente, que meço os tempos. Não me interrompas, isto é, não te interrompas com os tumultos das tuas impressões. Em ti meço os tempos; a impressão, que as coisas causam em ti à medida que passam, permanece mesmo quando elas se vão; é isto que, ainda presente, eu meço, não as coisas que passam para causar esta impressão. Isto eu meço, quando meço os tempos. Ou então isto é o tempo, ou não meço os tempos. E quando medimos o silêncio, e dizemos que este silêncio durou tanto tempo quanto aquela voz? Não estendemos nós o nosso pensamento à medida de uma voz, como se ela soasse, para que possamos relatar os intervalos de silêncio num dado espaço de tempo? Pois, embora tanto a voz quanto a língua estejam em silêncio, contudo, no pensamento, percorremos poemas, versos e qualquer outro discurso, ou dimensões de movimentos, e relatamos, quanto aos espaços de tempo, quanto este é em relação àquele, não de outra forma senão como se os pronunciássemos vocalmente. Se um homem quisesse proferir um som prolongado e tivesse determinado no pensamento quão longo ele deveria ser, ele já percorreu em silêncio um espaço de tempo e, confiando-o à memória, começa a proferir aquele discurso, que soa até ser levado ao fim proposto. Sim, ele soou e soará; pois tanto dele quanto está terminado já soou, e o resto soará. E assim ele passa, até que a intenção presente conduza o futuro para o passado; o passado aumentando pela diminuição do futuro, até que, pelo consumo do futuro, tudo seja passado.

Mas como é esse futuro diminuído ou consumido, que ainda não é? Ou como é esse passado aumentado, que agora já não é, senão que, na mente que efetua isto, há três coisas feitas? Pois ela espera, ela considera, ela lembra; de modo que aquilo que ela espera, através daquilo que ela considera, passa para aquilo que ela lembra. Quem, portanto, nega que as coisas futuras ainda não são? E, contudo, há na mente uma expectativa das coisas futuras. E quem nega que as coisas passadas já não são? E, contudo, há ainda na mente uma memória das coisas passadas. E quem nega que o tempo presente não tem espaço, porque ele passa num momento? E, contudo, a nossa consideração continua, através da qual aquilo que será presente procede para se tornar ausente. Não é então o tempo futuro que é longo, pois ainda não é: mas um longo futuro é "uma longa expectativa do futuro", nem é o tempo passado, que agora não é, que é longo; mas um longo passado é "uma longa memória do passado".

Estou prestes a repetir um Salmo que conheço. Antes de começar, minha expectativa é estendida sobre o todo; mas quando comecei, quanto quer que dele eu separe para o passado, é estendido ao longo da minha memória; assim, a vida desta minha ação é dividida entre a minha memória, quanto ao que repeti, e a expectativa, quanto ao que estou prestes a repetir; mas a "consideração" está presente comigo, para que através dela o que era futuro possa ser conduzido, de modo a se tornar passado. O que, quanto mais é feito repetidamente, tanto mais a expectativa sendo encurtada, a memória é alargada: até que toda a expectativa seja finalmente exaurida, quando toda aquela ação, sendo terminada, terá passado para a memória. E isto que ocorre em todo o Salmo, o mesmo ocorre em cada porção dele, e em cada sílaba; o mesmo vale para aquela ação mais longa, da qual este Salmo pode ser parte; o mesmo vale para toda a vida do homem, da qual todas as ações do homem são partes; o mesmo vale através de toda a era dos filhos dos homens, da qual todas as vidas dos homens são partes.

Mas porque a Tua benignidade é melhor do que todas as vidas, eis que a minha vida é apenas uma distração, e a Tua mão direita me sustentou, no meu Senhor, o Filho do homem, o Mediador entre Ti, O Um, e nós muitos, muitos também através das nossas múltiplas distrações em meio a muitas coisas, para que por Ele eu possa apreender Aquele em Quem fui apreendido, e possa ser recolhido da minha antiga conversação, para seguir O Um, esquecendo o que fica atrás, e não distendido, mas estendido, não para as coisas que serão e passarão, mas para aquelas coisas que estão diante, não distraidamente, mas atentamente, sigo para o prêmio da minha vocação celestial, onde posso ouvir a voz do Teu louvor, e contemplar as Tuas delícias, nem futuras, nem passageiras. Mas agora os meus anos são gastos em lamento. E Tu, ó Senhor, és o meu conforto, meu Pai eterno, mas eu fui separado em meio a tempos, cuja ordem não conheço; e os meus pensamentos, até as entranhas mais íntimas da minha alma, estão dilacerados e despedaçados com variedades tumultuosas, até que eu flua para dentro de Ti, purificado e fundido pelo fogo do Teu amor.

E agora ficarei de pé e me tornarei firme em Ti, no meu molde, a Tua verdade; nem suportarei as questões dos homens, que, por uma doença penal, têm sede de mais do que podem conter, e dizem: "o que Deus fazia antes de criar o céu e a terra?" Ou: "Como lhe veio à mente criar alguma coisa, nunca antes tendo criado nada?" Dá-lhes, ó Senhor, que pensem bem no que dizem, e que descubram que "nunca" não pode ser predicado quando o "tempo" não é. Isto então que se diz que Ele "nunca criou"; o que é senão dizer "em 'nenhum tempo' criou?" Que vejam, portanto, que o tempo não pode existir sem o ser criado, e cessem de dizer essa vaidade. Possam eles também ser estendidos para aquelas coisas que estão diante; e entender-Te antes de todos os tempos, o Criador eterno de todos os tempos, e que nenhum tempo é coeterno Contigo, nem qualquer criatura, mesmo que haja qualquer criatura antes de todos os tempos.

Ó Senhor meu Deus, que profundidade é esse recôndito dos Teus mistérios, e quão longe dele as consequências das minhas transgressões me lançaram! Cura os meus olhos, para que eu possa compartilhar a alegria da Tua luz. Certamente, se há uma mente dotada de tal vasto conhecimento e preconhecimento, que saiba todas as coisas passadas e futuras, como eu conheço um Salmo bem conhecido, verdadeiramente essa mente é extraordinariamente maravilhosa e temerosamente espantosa; em que nada passado, nada futuro nas eras vindouras, lhe é mais oculto do que, quando cantei aquele Salmo, me era oculto o que, e quanto dele tinha passado desde o começo, o que, e quanto dele restava até o fim. Mas longe esteja que Tu, o Criador do Universo, o Criador das almas e dos corpos, longe esteja que Tu devesses saber todas as coisas passadas e futuras de tal maneira. Muito, muito mais maravilhosamente, e muito mais misteriosamente, Tu as conheces. Pois não, como os sentimentos de alguém que canta o que conhece, ou ouve alguma canção bem conhecida, são, através da expectativa das palavras futuras, e da lembrança daquelas que passaram, variados, e os seus sentidos divididos--não assim acontece algo Contigo, imutavelmente eterno, isto é, o eterno Criador das mentes. Como então Tu, no Princípio, conheceste o céu e a terra, sem qualquer variedade do Teu conhecimento, assim fizeste no Princípio o céu e a terra, sem qualquer distração da Tua ação. Quem entende, que confesse a Ti; e quem não entende, que confesse a Ti. Oh, quão alto és Tu, e contudo os humildes de coração são a Tua morada; pois Tu levantas aqueles que estão curvados, e eles não caem, cuja elevação és Tu.

LIVRO XII

Meu coração, ó Senhor, tocado pelas palavras da Tua Sagrada Escritura, está muito ocupado em meio a esta pobreza da minha vida. E, portanto, na maioria das vezes, a pobreza da compreensão humana é copiosa em palavras, porque indagar tem mais a dizer do que descobrir, e perguntar é mais longo do que obter, e a nossa mão que bate tem mais trabalho a fazer do que a nossa mão que recebe. Temos a promessa, quem a tornará nula? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Pedi e recebereis; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; e aquele que busca, encontra; e àquele que bate, abrir-se-á. Estas são as Tuas próprias promessas: e quem precisaria temer ser enganado, quando a Verdade promete?

A humildade da minha língua confessa à Tua Alteza que Tu fizeste o céu e a terra; este céu que vejo, e esta terra que piso, de onde é esta terra que trago comigo; Tu a fizeste. Mas onde está aquele céu dos céus, ó Senhor, de que ouvimos nas palavras do Salmo: "Os céus dos céus são do Senhor; mas a terra Ele deu aos filhos dos homens"? Onde está aquele céu que não vemos, ao qual tudo isto que vemos é terra? Pois este todo corpóreo, não sendo totalmente em toda parte, recebeu de tal maneira a sua porção de beleza nestas partes inferiores, cuja mais baixa é esta nossa terra; mas para aquele céu dos céus, até o céu da nossa terra, é apenas terra: sim, ambos estes grandes corpos não podem ser absurdamente chamados de terra, perante aquele céu desconhecido, que é do Senhor, não dos filhos dos homens.

E agora esta terra era invisível e sem forma, e havia não sei que profundidade de abismo, sobre a qual não havia luz, porque não tinha forma. Portanto, ordenaste que fosse escrito que as trevas estavam sobre a face do abismo; o que era senão a ausência de luz? Pois, se houvesse luz, onde deveria ela estar senão por estar sobre tudo, no alto, e iluminando? Onde então a luz não estava, qual era a presença das trevas, senão a ausência da luz? As trevas, portanto, estavam sobre ela, porque a luz não estava sobre ela; como onde o som não está, há silêncio. E o que é ter silêncio ali, senão não ter som ali? Não ensinaste Tu, ó Senhor, a sua alma, que Te confessa? Não me ensinaste, Senhor, que antes de formares e diversificares esta matéria informe, não havia nada, nem cor, nem figura, nem corpo, nem espírito? E contudo, não totalmente nada; pois havia uma certa informalidade, sem qualquer beleza.

Como então deveria ser chamada, para que pudesse ser, em alguma medida, transmitida àqueles de mente mais lenta, senão por alguma palavra comum? E o que, entre todas as partes do mundo, pode ser encontrado mais próximo de uma informalidade absoluta do que a terra e o abismo? Pois, ocupando o estágio mais baixo, são menos belos do que as outras partes superiores, todas transparentes e brilhantes. Por que então não posso conceber a informalidade da matéria (que Tu tinhas criado sem beleza, da qual fazer este belo mundo) como sendo adequadamente intimada aos homens pelo nome de terra invisível e sem forma.

De modo que, quando o pensamento busca o que o sentido pode conceber sob isto, e diz a si mesmo: "Não é forma intelectual, como vida, ou justiça; porque é a matéria dos corpos; nem objeto de sentido, porque sendo invisível e sem forma, não havia nela objeto de visão ou sentido";--enquanto o pensamento do homem diz isto a si mesmo, ele pode esforçar-se ou por conhecê-lo, sendo ignorante dele; ou por ser ignorante, conhecendo-o.

Mas eu, Senhor, se quisesse, pela minha língua e pela minha pena, confessar a Ti o todo, tudo o que Tu mesmo me ensinaste sobre aquela matéria -- o nome da qual, ouvindo antes e não entendendo, quando aqueles que não a entendiam me falavam dela, assim concebi-a como tendo inumeráveis formas e diversas, e portanto não a concebi de todo, a minha mente lançava para cima e para baixo "formas" vis e horríveis fora de toda ordem, mas contudo "formas", e chamei-a de sem forma não porque carecesse de toda forma, mas porque tinha tais que a minha mente, se apresentadas a ela, se voltaria, como inusitadas e discordantes, e a fragilidade humana ficaria perturbada. E ainda aquilo que concebi era sem forma, não por ser privado de toda forma, mas em comparação com formas mais belas; e a verdadeira razão persuadiu-me de que devo despojá-la totalmente de todos os resquícios de forma, qualquer que fosse, se eu quisesse conceber a matéria absolutamente sem forma; e não pude; pois mais cedo poderia imaginar que aquilo não é de todo, que devesse ser privado de toda forma, do que conceber uma coisa entre a forma e o nada, nem formada, nem nada, um quase nada informe. Assim, a minha mente desistiu de questionar sobre isso com o meu espírito, estando ela cheia das imagens de corpos formados, e mudando-os e variando-os, como queria; e voltei-me para os próprios corpos, e olhei mais profundamente para a sua mutabilidade, pela qual eles deixam de ser o que foram e começam a ser o que não eram; e esta mesma mudança de forma em forma, suspeitei ser através de um certo estado informe, não através de um mero nada; contudo, isto eu ansiava saber, não apenas suspeitar. Se então a minha voz e a minha pena confessa-sem a Ti o todo, todos os nós que desataste para mim nesta questão, que leitor teria fôlego para absorver o todo? Nem o meu coração, por tudo isso, deixará de Te dar honra, e um cântico de louvor, por aquelas coisas que não é capaz de expressar. Pois a mutabilidade das coisas mutáveis é ela mesma capaz de todas aquelas formas, nas quais estas coisas mutáveis são mudadas. E esta mutabilidade, o que é? É alma? É corpo? É aquilo que constitui a alma ou o corpo? Poderia alguém dizer, "um nada algo", um "é, não é", eu diria, isto seria: e contudo, de alguma forma, estava ela mesmo então, como sendo capaz de receber estas figuras visíveis e compostas.

Mas de onde teria ela este grau de ser, senão de Ti, de Quem são todas as coisas, enquanto elas são? Mas tanto mais longe de Ti, quanto mais dessemelhante de Ti; pois não é distância de lugar. Tu, portanto, Senhor, que não és um num lugar e outro noutro, mas o Mesmo, e o Mesmo, e o Mesmo, Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-Poderoso, criaste no Princípio, que é de Ti, na Tua Sabedoria, que nasceu da Tua própria Substância, algo, e isso do nada. Pois criaste o céu e a terra; não de Ti mesmo, pois assim teriam sido iguais ao Teu Filho Unigênito, e por isso também a Ti; ao passo que de modo algum seria justo que algo fosse igual a Ti, que não fosse de Ti. E nada mais além de Ti havia, de que pudesses criá-los, ó Deus, Uma Trindade, e Trina Unidade; e, portanto, do nada criaste o céu e a terra; uma coisa grande e uma coisa pequena; pois Tu és Todo-Poderoso e Bom, para fazer todas as coisas boas, até mesmo o grande céu e a pequena terra. Tu eras, e nada havia além, de que criasses o céu e a terra; coisas de dois tipos; uma perto de Ti, a outra perto do nada; uma à qual só Tu deverias ser superior; a outra, à qual nada deveria ser inferior.

Mas aquele céu dos céus era para Ti mesmo, ó Senhor; mas a terra que deste aos filhos dos homens, para ser vista e sentida, não era tal como agora vemos e sentimos. Pois era invisível, sem forma, e havia um abismo, sobre o qual não havia luz; ou, as trevas estavam sobre o abismo, isto é, mais do que no abismo. Porque este abismo de águas, visível agora, tem mesmo em suas profundezas uma luz própria de sua natureza; perceptível em qualquer grau para os peixes e os seres rastejantes no fundo dele. Mas todo aquele abismo era quase nada, porque até então estava inteiramente sem forma; contudo, já existia aquilo que poderia ser formado. Pois Tu, Senhor, fizeste o mundo de uma matéria sem forma, a qual, do nada, fizeste quase nada, para dela fazer essas grandes coisas, das quais nós, filhos dos homens, nos admiramos. Pois muito maravilhoso é este céu corpóreo; do qual firmamento entre águas e águas, no segundo dia, após a criação da luz, Tu disseste: Faça-se, e foi feito. O qual firmamento chamaste céu; o céu, isto é, para esta terra e mar, que fizeste no terceiro dia, dando uma figura visível à matéria sem forma, que criaste antes de todos os dias. Pois já tinhas criado tanto um céu, antes de todos os dias; mas aquele era o céu deste céu; porque No princípio tinhas criado o céu e a terra. Mas esta mesma terra que fizeste era matéria sem forma, porque era invisível e sem forma, e as trevas estavam sobre o abismo, da qual terra invisível e sem forma, da qual informe, da qual quase nada, Tu poderias fazer todas estas coisas das quais este mundo mutável consiste, mas não subsiste; cuja própria mutabilidade aparece nisso, que tempos podem ser observados e numerados nele. Pois os tempos são feitos pelas alterações das coisas, enquanto as figuras, cuja matéria é a terra invisível supracitada, são variadas e transformadas.

E, portanto, o Espírito, o Mestre do Teu servo, quando narra que Tu no Princípio criaste o céu e a terra, nada diz de tempos, nada de dias. Pois certamente aquele céu dos céus que criaste no Princípio é alguma criatura intelectual, que, embora de modo algum coeterna a Ti, a Trindade, contudo participa da Tua eternidade, e através da doçura daquela felicíssima contemplação de Ti, refreia fortemente a sua própria mutabilidade; e sem qualquer queda desde a sua primeira criação, apegando-se firmemente a Ti, é colocada além de toda a vicissitude rolante dos tempos. Sim, nem mesmo esta informe terra, invisível e sem forma, é numerada entre os dias. Pois onde não há figura nem ordem, ali nada vem nem vai; e onde isto não existe, claramente não há dias, nem qualquer vicissitude de espaços de tempos.

Ó, que a Luz, a Verdade, a Luz do meu coração, e não a minha própria escuridão, fale comigo. Caí naquilo e tornei-me obscurecido; mas mesmo de lá, mesmo de lá eu Te amei. Desviei-me e lembrei-me de Ti. Ouvi a Tua voz atrás de mim, chamando-me para voltar, e dificilmente a ouvi, através do tumulto dos inimigos da paz. E agora, eis que volto em angústia e ofegante pela Tua fonte. Que ninguém me proíba! Desta eu beberei, e assim viverei. Não me deixes ser a minha própria vida; de mim mesmo eu vivia mal, morte era eu para mim mesmo; e revivo em Ti. Fala Tu comigo, disserta Tu comigo. Eu acreditei nos Teus Livros, e as suas palavras são cheíssimas de mistério.

Já me disseste com voz forte, ó Senhor, no meu ouvido interior, que Tu és eterno, que somente tens a imortalidade; visto que não podes ser mudado quanto à figura ou movimento, nem a Tua vontade é alterada pelos tempos: vendo que nenhuma vontade que varia é imortal. Isto está claro diante dos Teus olhos para mim, e que seja mais e mais esclarecido para mim, rogo-Te; e na manifestação disso, que eu com sobriedade permaneça sob as Tuas asas. Tu me disseste também com voz forte, ó Senhor, no meu ouvido interior, que criaste todas as naturezas e substâncias, que não são o que Tu mesmo és, e contudo são; e que apenas não é de Ti aquilo que não é, e o movimento da vontade de Ti que és, para aquilo que em menor grau é, porque tal movimento é transgressão e pecado; e que o pecado de nenhum homem te fere, nem perturba a ordem do Teu governo, primeiro ou último. Isto está claro diante dos Teus olhos para mim, e que seja mais e mais esclarecido para mim, rogo-Te; e na manifestação disso, que eu com sobriedade permaneça sob as Tuas asas.

Tu me disseste também com voz forte, no meu ouvido interior, que nem aquela criatura é coeterna a Ti, cuja felicidade só Tu és, e que com uma pureza mais perseverante, tirando o seu sustento de Ti, não exibe em nenhum lugar e em nenhum tempo a sua mutabilidade natural; e, estando Tu sempre presente com ela, a Quem com todo o seu afeto se mantém, não tendo futuro a esperar, nem trazendo para o passado o que recorda, não é alterada por nenhuma mudança, nem distraída em nenhum tempo. Ó criatura bendita, se tal existe, por se apegar à Tua Bem-aventurança; bendita em Ti, seu Habitante eterno e seu Iluminador! Nem encontro por que nome possa chamar o céu dos céus que é do Senhor, senão Tua casa, que contempla as Tuas delícias sem qualquer defeito de sair para outro; uma mente pura, harmoniosamente una, pela estabilidade daquela paz de santos espíritos, os cidadãos da Tua cidade nos lugares celestiais; muito acima desses lugares celestiais que vemos.

Por isto a alma, cuja peregrinação é feita longa e distante, por isto pode ela compreender, se agora tem sede de Ti, se as suas lágrimas se tornaram agora o seu pão, enquanto diariamente lhe dizem: Onde está o teu Deus? se ela agora busca de Ti uma coisa, e a deseja, que possa habitar na Tua casa todos os dias da sua vida (e o que é a sua vida, senão Tu? e o que são os Teus dias, senão a Tua eternidade, como os Teus anos que não falham, porque Tu és sempre o mesmo?); por isto então a alma que é capaz, pode compreender quão longe Tu estás, acima de todos os tempos, eterno; vendo que a Tua casa, que em tempo algum foi para um país distante, embora não seja coeterna a Ti, contudo, por continuamente e infalivelmente se apegar a Ti, não sofre nenhuma mutabilidade de tempos. Isto está claro diante dos Teus olhos para mim, e que seja mais e mais esclarecido para mim, rogo-Te, e na manifestação disso, que eu com sobriedade permaneça sob as Tuas asas.

Há, eis, não sei que informe naquelas mudanças destas últimas e mais baixas criaturas; e quem me dirá (a menos que tal um que, através do vazio do seu próprio coração, se admira e se agita para cima e para baixo em meio às suas próprias fantasias?), quem senão tal um me diria que, se toda figura for tão gasta e consumida que apenas reste aquela informe, através da qual a coisa foi mudada e transformada de uma figura para outra, que isso poderia exibir as vicissitudes dos tempos? Pois claramente não poderia, porque, sem a variedade de movimentos, não há tempos: e nenhuma variedade, onde não há figura.

Consideradas estas coisas, tanto quanto Tu dás, ó meu Deus, tanto quanto Tu me estimulas a bater, e tanto quanto Tu abres para mim que bato, duas coisas encontro que Tu fizeste, não dentro do compasso do tempo, nenhuma das quais é coeterna a Ti. Uma, que é de tal modo formada, que sem qualquer cessação de contemplação, sem qualquer intervalo de mudança, embora mutável, contudo não mudada, ela pode desfrutar plenamente da Tua eternidade e imutabilidade; a outra que era tão informe, que não tinha o que pudesse ser mudado de uma forma para outra, seja de movimento ou de repouso, de modo a se tornar sujeita ao tempo. Mas isto Tu não deixaste assim informe, porque antes de todos os dias, Tu no Princípio criaste o Céu e a Terra; as duas coisas de que falei. Mas a Terra era invisível e sem forma, e as trevas estavam sobre o abismo. Em cujas palavras nos é transmitida a informe (para que tais capacidades possam ser levadas por graus, as que não são capazes de conceber uma privação total de toda forma, sem ainda chegar ao nada), da qual outro Céu poderia ser criado, juntamente com uma terra visível e bem formada; e as águas diversamente ordenadas, e o que quer que mais esteja na formação do mundo, registrado como tendo sido, não sem dias, criado; e isso, sendo de tal natureza, que as mudanças sucessivas dos tempos possam ocorrer neles, como estando sujeitos a alterações designadas de movimentos e de formas.

Isto então é o que concebo, ó meu Deus, quando ouço a Tua Escritura dizendo: No princípio Deus criou o Céu e a Terra: e a Terra era invisível e sem forma, e as trevas estavam sobre o abismo, e não mencionando em que dia Tu os criaste; isto é o que concebo, que por causa do Céu dos céus--aquele Céu intelectual, cujas Inteligências conhecem tudo de uma vez, não em parte, não obscuramente, não através de um espelho, mas como um todo, em manifestação, face a face; não, esta coisa agora, e aquela coisa logo; mas (como eu disse) conhecem tudo de uma vez, sem qualquer sucessão de tempos;--e por causa da terra invisível e sem forma, sem qualquer sucessão de tempos, cuja sucessão apresenta "esta coisa agora, aquela coisa logo"; porque onde não há forma, não há distinção de coisas:--é, então, por causa destes dois, um primitivo formado, e um primitivo informe; um, céu mas o Céu do céu, o outro terra mas a terra invisível e sem forma; por causa destes dois concebo, disse a Tua Escritura sem menção de dias, No Princípio Deus criou o Céu e a Terra. Pois logo sublinhou de que terra falava; e também, em que o Firmamento é registrado como criado no segundo dia, e chamado Céu, transmite-nos de qual Céu Ele antes falou, sem menção de dias.

Maravilhosa profundidade das Tuas palavras! cuja superfície, eis! está diante de nós, convidando os pequeninos; contudo são elas uma maravilhosa profundidade. Ó meu Deus, uma maravilhosa profundidade! É terrível olhar para dentro dela; uma terribilidade de honra, e um tremor de amor. Os inimigos dela odeio veementemente; oh, que Tu os matasses com a Tua espada de dois gumes, para que não fossem mais inimigos dela: pois assim amo vê-los mortos para si mesmos, para que vivam para Ti. Mas eis outros não críticos, mas exaltadores do livro do Gênesis; "O Espírito de Deus", dizem eles, "Quem por Seu servo Moisés escreveu estas coisas, não queria que aquelas palavras fossem assim entendidas; Ele não queria que fosse entendido, como tu dizes, mas de outra forma, como nós dizemos." A Quem Tu mesmo, ó Tu Deus de tudo, sendo juiz, assim respondo.

"Afirmareis ser falso o que com voz forte a Verdade me diz no meu ouvido interior, sobre a Eternidade do Criador, que a Sua substância não é de modo algum mudada pelo tempo, nem a Sua vontade separada da Sua substância? Portanto, Ele não quer uma coisa agora, outra logo, mas uma vez, e de uma vez, e sempre, Ele quer todas as coisas que Ele quer; não de novo e de novo, nem agora isto, agora aquilo; nem quer depois o que antes não queria, nem não quer o que antes queria; porque tal vontade é e nenhuma coisa mutável é eterna: mas o nosso Deus é eterno. Novamente, o que Ele me diz no meu ouvido interior, a expectativa das coisas futuras torna-se visão, quando elas chegam, e esta mesma visão torna-se memória, quando elas passam. Ora, todo pensamento que assim varia é mutável; e nenhuma coisa mutável é eterna: mas o nosso Deus é eterno." Estas coisas infiro, e ponho juntas, e descubro que o meu Deus, o Deus eterno, não criou qualquer criatura por alguma nova vontade, nem o Seu conhecimento admite qualquer coisa transitória. "Que direis então, ó vós contraditores? São estas coisas falsas?" "Não", dizem eles; "O que então? É falso, que toda natureza já formada, ou matéria capaz de forma, não é, senão d'Aquele que é supremamente bom, porque Ele é supremamente?" "Nem negamos isto", dizem eles. "O que então? negais isto, que existe uma certa criatura sublime, com um amor tão casto apegando-se ao verdadeiro e verdadeiramente eterno Deus, que embora não coeterna com Ele, contudo não é destacada d'Ele, nem dissolvida na variedade e vicissitude dos tempos, mas repousa na mais verdadeira contemplação d'Ele somente?" Porque Tu, ó Deus, àquele que Te ama tanto quanto ordenas, mostras-Te, e lhe bastas; e por isso ele não declina de Ti, nem para si mesmo. Esta é a casa de Deus, não de molde terreno, nem de volume celestial corpóreo mas espiritual, e participante da Tua eternidade, porque sem defeito para sempre. Pois Tu a fizeste firme para sempre e sempre, Tu lhe deste uma lei que não passará. Nem contudo é ela coeterna a Ti, ó Deus, porque não sem princípio; pois foi feita.

Pois embora não encontremos tempo antes dela, pois a sabedoria foi criada antes de todas as coisas; não aquela Sabedoria que é inteiramente igual e coeterna a Ti, nosso Deus, Seu Pai, e por Quem todas as coisas foram criadas, e em Quem, como o Princípio, Tu criaste o céu e a terra; mas aquela sabedoria que é criada, isto é, a natureza intelectual, que contemplando a luz, é luz. Pois esta, embora criada, é também chamada sabedoria. Mas que diferença há entre a Luz que ilumina, e a que é iluminada, tanta há entre a Sabedoria que cria, e a criada; como entre a Justiça que justifica, e a justiça que é feita pela justificação. Pois nós também somos chamados Tua justiça; pois assim diz um certo servo Teu, Para que fôssemos feitos justiça de Deus n'Ele. Portanto, uma vez que uma certa sabedoria criada foi criada antes de todas as coisas, a mente racional e intelectual daquela Tua cidade casta, nossa mãe que está acima, e é livre e eterna nos céus (em que céus, senão naqueles que Te louvam, o Céu dos céus? Porque este é também o Céu dos céus para o Senhor);--embora não encontremos tempo antes dela (porque aquilo que foi criado antes de todas as coisas, precede também a criatura do tempo), contudo a Eternidade do próprio Criador é antes dela, de Quem, sendo criada, tirou o princípio, não certamente do tempo (pois o tempo mesmo ainda não era), mas da sua criação.

Daí que ela é de tal modo de Ti, nosso Deus, a ponto de ser inteiramente outra que Tu, e não o Mesmo: porque embora não encontremos tempo nem antes dela, nem nela (sendo conveniente sempre contemplar a Tua face, nem é jamais desviada dela, pelo que não é variada por nenhuma mudança), contudo há nela uma possibilidade de mudança, donde ela se tornaria escura, e esfriaria, não fosse que por um forte afeto apegando-se a Ti, como eterno meio-dia, ela brilha e resplandece de Ti. Ó casa luzidíssima e deleitosíssima! Eu amei a tua beleza, e o lugar da habitação da glória do meu Senhor, teu construtor e possuidor. Que o meu caminho suspire por ti, e eu digo Àquele que te fez, que Ele tome posse de mim também em ti, vendo que Ele me fez igualmente. Eu me desviei como uma ovelha perdida: contudo sobre os ombros do meu Pastor, teu construtor, espero ser trazido de volta para ti.

"Que dizeis a mim, ó vós contraditores a quem eu falava, que contudo credes que Moisés foi o santo servo de Deus, e os seus livros os oráculos do Espírito Santo? Não é esta casa de Deus, não coeterna na verdade com Deus, contudo conforme a sua medida, eterna nos céus, quando buscais mudanças de tempos em vão, porque não as encontrareis? Pois aquilo, a que é sempre bom apegar-se firmemente a Deus, supera toda extensão, e todos os períodos revolventes de tempo." "É", dizem eles. "O que então de tudo aquilo que o meu coração declarou em voz alta ao meu Deus, quando interiormente ouviu a voz do Seu louvor, que parte disso afirmais ser falsa? É que a matéria estava sem forma, na qual porque não havia forma, não havia ordem? Mas onde não havia ordem, não poderia haver vicissitude de tempos: e contudo este 'quase nada', na medida em que não era totalmente nada, era de Quem certamente, de Quem é o que quer que seja, em que grau quer que seja." "Isto também", dizem eles, "não negamos."

Com estes agora parlamentarei um pouco na Tua presença, ó meu Deus, que concedes que todas estas coisas sejam verdadeiras, que a Tua Verdade sussurra à minha alma. Pois aqueles que negam estas coisas, que latam e ensurdeçam a si mesmos tanto quanto quiserem; tentarei persuadi-los à quietude, e abrir neles um caminho para a Tua palavra. Mas se eles recusarem, e me repelirem; rogo, ó meu Deus, não sejas Tu silencioso para comigo. Fala Tu verdadeiramente no meu coração; pois só Tu assim falas: e eu deixarei que eles soprem sobre o pó do lado de fora, e o levantem para os seus próprios olhos: e eu mesmo entrarei no meu quarto, e cantarei lá um cântico de amores a Ti; gemendo com gemidos inefáveis, na minha jornada, e lembrando-me de Jerusalém, com o coração erguido em direção a ela, Jerusalém minha pátria, Jerusalém minha mãe, e Tu mesmo que reinas sobre ela, o Iluminador, Pai, Guardião, Esposo, o puro e forte deleite, e sólido gozo, e todas as boas coisas inexprimíveis, sim todas de uma vez, porque o Único Soberano e verdadeiro Bem. Nem serei desviado, até que Tu reunas tudo o que sou, deste estado disperso e desordenado, na paz daquela nossa caríssima mãe, onde as primícias do meu espírito já estão (de onde estou certificado destas coisas), e Tu a conformes e confirmes para sempre, ó meu Deus, minha Misericórdia. Mas aqueles que não afirmam que todas estas verdades são falsas, que honram a Tua santa Escritura, exposta pelo santo Moisés, colocando-a, como nós, no cume da autoridade a ser seguida, e contudo contradizem-me em alguma coisa, respondo assim; Por Ti mesmo julga, ó nosso Deus, entre as minhas Confissões e as contradições destes homens.

Pois dizem eles: "Embora estas coisas sejam verdadeiras, não foi a estas duas que Moisés se referiu quando, por revelação do Espírito, disse: No princípio Deus criou o céu e a terra. Ele não designou, sob o nome de céu, aquela criatura espiritual ou intelectual que contempla sempre a face de Deus; nem sob o nome de terra, aquela matéria sem forma". "O que então?" "Aquele homem de Deus", dizem eles, "queria dizer o que nós dizemos, isto declarou ele por aquelas palavras." "O quê?" "Pelo nome de céu e terra ele quis primeiro significar", dizem, "universal e compendiosamente, todo este mundo visível; de modo que, posteriormente, pela enumeração dos dias sucessivos, pudesse arranjar em detalhe, e, por assim dizer, peça por peça, todas aquelas coisas que aprouve ao Espírito Santo enunciar desta maneira. Pois tal era aquele povo rude e carnal ao qual ele falava, que ele os julgou aptos a serem incumbidos do conhecimento apenas daquelas obras de Deus que eram visíveis." Concordam, contudo, que sob as palavras terra invisível e sem forma, e aquele abismo tenebroso (do qual se mostra posteriormente que todas essas coisas visíveis que todos conhecemos foram feitas e arranjadas durante aqueles "dias"), pode-se, não incongruentemente, compreender esta primeira matéria sem forma.

Que dizer agora se outro afirmasse que "esta mesma falta de forma e confusão da matéria foi, por esta razão, primeiro veiculada sob o nome de céu e terra, porque dela foi criado e aperfeiçoado este mundo visível com todas as naturezas que nele mais manifestamente aparecem, o que é frequentemente chamado pelo nome de céu e terra?" Que dizer ainda se outro disser que "a natureza invisível e a visível não são, na verdade, inapropriadamente chamadas de céu e terra; e, portanto, que a criação universal, que Deus fez em Sua Sabedoria, isto é, no Princípio, foi compreendida sob essas duas palavras? Não obstante, uma vez que todas as coisas não são feitas da substância de Deus, mas do nada (porque não são o mesmo que Deus é, e há uma natureza mutável em todas elas, quer permaneçam, como faz a casa eterna de Deus, ou sejam transformadas, como são a alma e o corpo do homem): por isso, a matéria comum de todas as coisas visíveis e invisíveis (ainda informe, embora capaz de forma), da qual haveriam de ser criados tanto o céu quanto a terra (i.e., a criatura invisível e a visível quando formadas), foi intitulada pelos mesmos nomes dados à terra invisível e sem forma e à escuridão sobre o abismo, mas com esta distinção: que pela terra invisível e sem forma se entende a matéria corpórea, antecedente a ser qualificada por qualquer forma; e pela escuridão sobre o abismo, a matéria espiritual, antes que sofresse qualquer restrição da sua ilimitada fluidez, ou recebesse qualquer luz da Sabedoria?"

Resta ainda a um homem dizer, se quiser, que "as naturezas já aperfeiçoadas e formadas, visíveis e invisíveis, não são significadas sob o nome de céu e terra quando lemos: No princípio Deus criou o céu e a terra, mas que o início das coisas ainda informe, a substância apta a receber forma e feitura, foi chamada por esses nomes, porque nela estavam contidas confusamente, ainda não distinguidas por suas qualidades e formas, todas aquelas coisas que, sendo agora digeridas em ordem, são chamadas de Céu e Terra, sendo uma a criação espiritual e a outra a corpórea."

Sendo todas estas coisas ouvidas e bem consideradas, não contenderei sobre palavras: pois isso não é proveitoso para nada, senão para a subversão dos ouvintes. Mas a lei é boa para edificar, se alguém a usa legitimamente: pois o fim dela é a caridade, de um coração puro e boa consciência, e de fé não fingida. E bem sabia o nosso Mestre sobre quais dois mandamentos Ele suspendeu toda a Lei e os Profetas. E que prejuízo me causa, ó meu Deus, Tu que és a luz dos meus olhos no segredo, professar zelosamente estas coisas, uma vez que diversas coisas podem ser compreendidas sob estas palavras, que ainda assim são todas verdadeiras — que prejuízo, digo, me causa se penso de maneira diferente daquela que outro pensa que o autor pensou? Todos nós, leitores, verdadeiramente nos esforçamos para rastrear e compreender o sentido daquele que lemos; e, vendo que acreditamos que ele fala verdadeiramente, não ousamos imaginar que ele tenha dito qualquer coisa que nós mesmos saibamos ou pensemos ser falsa. Enquanto cada homem se esforça, então, para compreender nas Sagradas Escrituras o mesmo que o autor compreendeu, que mal há se um homem compreender o que Tu, a luz de todas as mentes que falam a verdade, lhe mostras ser verdadeiro, embora aquele que ele lê não tenha compreendido isto, vendo que ele também compreendeu uma Verdade, ainda que não esta verdade?

Pois é verdade, ó Senhor, que Tu fizeste o céu e a terra; e é verdade também que o Princípio é a Tua Sabedoria, na Qual crias tudo; e verdade ainda que este mundo visível tem como sua parte maior o céu e a terra, que resumem brevemente todas as naturezas feitas e criadas. E verdade também que tudo o que é mutável nos dá a entender uma certa falta de forma, pela qual recebe uma forma, ou é mudado, ou transformado. É verdade que não está sujeito a tempos aquilo que adere de tal modo à Forma imutável, que, embora sujeito a mudança, nunca será mudado. É verdade que aquela falta de forma, que é quase nada, não pode estar sujeita à alteração dos tempos. É verdade que aquilo de que uma coisa é feita pode, por um certo modo de falar, ser chamado pelo nome da coisa feita disso; de onde aquela falta de forma, da qual o céu e a terra foram feitos, poderia ser chamada de céu e terra. É verdade que, das coisas que têm forma, não há nenhuma mais próxima de não ter forma do que a terra e o abismo. É verdade que não apenas toda coisa criada e formada, mas tudo o que é capaz de ser criado e formado, Tu fizeste, de Quem são todas as coisas. É verdade que tudo o que é formado a partir daquilo que não tinha forma, estava sem forma antes de ser formado.

Destas verdades, das quais não duvidam aqueles cujo olho interior Tu permitiste ver tais coisas, e que inabalavelmente acreditam que Teu servo Moisés falou no Espírito da verdade; de todas estas, pois, toma uma aquele que diz: No Princípio Deus criou o céu e a terra; isto é, "em Sua Palavra coeterna Consigo, Deus criou a criatura inteligível e a sensível, ou a espiritual e a corpórea". Outro toma aquela que diz: No Princípio Deus criou o céu e a terra; isto é, "em Sua Palavra coeterna Consigo, Deus criou a massa universal deste mundo corpóreo, juntamente com todas aquelas criaturas aparentes e conhecidas que ele contém". Outro toma a que diz: No Princípio Deus criou o céu e a terra; isto é, "em Sua Palavra coeterna Consigo, Deus criou a matéria informe das criaturas espirituais e corpóreas". Outro toma a que diz: No Princípio Deus criou o céu e a terra; isto é, "em Sua Palavra coeterna Consigo, Deus criou a matéria informe da criatura corpórea, onde o céu e a terra jaziam ainda confusos, os quais, sendo agora distinguidos e formados, vemos hoje na massa deste mundo". Outro, que diz: No Princípio Deus criou o céu e a terra; isto é, "no próprio início da criação e do trabalho, Deus criou aquela matéria informe, contendo confusamente em si tanto o céu quanto a terra; a partir da qual, sendo formada, eles agora se destacam e são aparentes, com tudo o que neles há".

E com relação à compreensão das palavras seguintes, de todas essas verdades, escolhe para si uma aquele que diz: Mas a terra era invisível e sem forma, e a escuridão estava sobre o abismo; isto é, "aquela coisa corpórea que Deus criou era ainda uma matéria informe das coisas corpóreas, sem ordem, sem luz". Outro, aquele que diz: A terra era invisível e sem forma, e a escuridão estava sobre o abismo; isto é, "este todo, que é chamado de céu e terra, era ainda uma matéria informe e tenebrosa, da qual o céu corpóreo e a terra corpórea haveriam de ser feitos, com todas as coisas neles que são conhecidas aos nossos sentidos corpóreos". Outro, aquele que diz: A terra era invisível e sem forma, e a escuridão estava sobre o abismo; isto é, "este todo, que é chamado de céu e terra, era ainda uma matéria informe e tenebrosa; da qual havia de ser feito tanto aquele céu inteligível, alhures chamado de Céu dos céus, quanto a terra, isto é, toda a natureza corpórea, sob cujo nome se compreende também este céu corpóreo; em uma palavra, da qual toda criatura visível e invisível haveria de ser criada". Outro, aquele que diz: A terra era invisível e sem forma, e a escuridão estava sobre o abismo, "a Escritura não chamou aquela falta de forma pelo nome de céu e terra; mas aquela falta de forma, diz ele, já existia, a qual ele chamou de terra invisível e sem forma, e escuridão sobre o abismo; da qual ele havia dito antes que Deus fizera o céu e a terra, a saber, a criatura espiritual e corpórea". Outro, aquele que diz: A terra era invisível e sem forma, e a escuridão estava sobre o abismo; isto é, "já existia uma certa matéria informe, da qual a Escritura dissera antes que Deus criou o céu e a terra; a saber, toda a massa corpórea do mundo, dividida em duas grandes partes, superior e inferior, com todas as criaturas comuns e conhecidas nelas".

Pois se alguém tentasse disputar contra estas duas últimas opiniões, da seguinte forma: "Se não quereis permitir que esta falta de forma da matéria pareça ser chamada pelo nome de céu e terra; logo, havia algo que Deus não fizera, do qual fazer o céu e a terra; pois nem a Escritura nos disse que Deus fez esta matéria, a menos que entendamos que ela é significada pelo nome de céu e terra, ou de terra apenas, quando é dito: No Princípio Deus criou o céu e a terra; de modo que no que se segue, e a terra era invisível e sem forma (embora Lhe aprouvesse chamar assim a matéria informe), devemos entender nenhuma outra matéria senão aquela que Deus fez, da qual está escrito acima: Deus criou o céu e a terra". Os defensores de qualquer uma dessas duas últimas opiniões, ao ouvirem isto, responderão: "nós não negamos que esta matéria informe seja, de fato, criada por Deus, aquele Deus de Quem são todas as coisas, muito bom; pois, assim como afirmamos ser um bem maior aquilo que é criado e formado, confessamos ser um bem menor aquilo que é feito capaz de criação e forma, ainda assim bom. Dizemos, contudo, que a Escritura não registrou que Deus fez esta falta de forma, assim como não registrou muitas outras; como os Querubins, e Serafins, e aqueles de quem o Apóstolo fala distintamente: Tronos, Dominações, Principados, Potestades. Que tudo isso Deus fez, é claríssimo. Ou se naquilo que é dito, Ele criou o céu e a terra, todas as coisas são compreendidas, que diremos das águas, sobre as quais o Espírito de Deus se movia? Pois se elas estão compreendidas nesta palavra terra; como então pode a matéria informe ser entendida nesse nome de terra, quando vemos as águas tão belas? Ou se é assim tomado; por que então está escrito que da mesma falta de forma o firmamento foi feito, e chamado de céu; e que as águas foram feitas, não está escrito? Pois as águas não permanecem informes e invisíveis, vendo que as contemplamos fluindo de maneira tão formosa. Mas se elas então receberam aquela beleza quando Deus disse: Ajuntem-se as águas debaixo do firmamento, de modo que o ajuntamento seja ele próprio a formação delas; que será dito quanto àquelas águas acima do firmamento? Vendo que, se informes, não teriam sido dignas de assento tão honroso, nem está escrito por qual palavra foram formadas. Se então o Gênesis silencia quanto a Deus ter feito qualquer coisa, que contudo esse Deus fez, nem a fé sã nem o entendimento bem fundamentado duvidam, nem tampouco qualquer ensino sóbrio ousará afirmar que estas águas são coeternas com Deus, sob o fundamento de que as encontramos mencionadas no livro do Gênesis, mas quando foram criadas, não encontramos; por que (já que a verdade nos ensina) não deveríamos entender que a matéria informe (que esta Escritura chama de terra invisível e sem forma, e abismo tenebroso) foi criada por Deus do nada, e portanto não é coeterna a Ele; não obstante esta história ter omitido mostrar quando foi criada?"

Estas coisas, então, sendo ouvidas e percebidas, de acordo com a fraqueza da minha capacidade (o que confesso a Ti, ó Senhor, que a conheces), vejo que dois tipos de discordâncias podem surgir, quando uma coisa é relatada em palavras por relatores verdadeiros; uma, concernente à verdade das coisas, a outra, concernente ao significado do relator. Pois inquirimos de uma maneira sobre a feitura da criatura, o que é verdadeiro; de outra, o que Moisés, aquele excelente ministro da Tua Fé, queria que seu leitor e ouvinte entendesse por aquelas palavras. Para o primeiro tipo, longe todos aqueles que imaginam saber como verdade o que é falso; e para este outro, longe também todos aqueles que imaginam que Moisés escreveu coisas que são falsas. Mas que eu seja unido em Ti, ó Senhor, com aqueles, e me deleite em Ti com aqueles que se alimentam da Tua verdade, na largueza da caridade, e aproximemo-nos juntos das palavras do Teu livro, e busquemos nelas o Teu sentido, através do sentido do Teu servo, por cuja pena Tu as dispensaste.

Mas qual de nós poderá, entre tantas verdades que ocorrem aos inquiridores naquelas palavras, à medida que são compreendidas de forma diferente, descobrir aquele único sentido, a ponto de afirmar: "isto Moisés pensou", e "isto ele queria que fosse entendido naquela história"; com a mesma confiança com que diria "isto é verdadeiro", quer Moisés tenha pensado isto ou aquilo? Pois eis, ó meu Deus, eu, Teu servo, que neste livro fiz voto de um sacrifício de confissão a Ti, e rezo para que, por Tua misericórdia, eu possa pagar meus votos a Ti, posso eu, com a mesma confiança com que afirmo que no Teu mundo incomutável criaste todas as coisas visíveis e invisíveis, afirmar também que Moisés não quis dizer outra coisa senão isto, quando escreveu: No Princípio Deus criou o céu e a terra? Não. Porque não vejo na sua mente que ele pensou nisso quando escreveu estas coisas, como vejo na Tua verdade ser certo. Pois ele poderia ter seus pensamentos no início da criação por parte de Deus, quando disse No princípio; e por céu e terra, neste lugar, ele poderia não pretender nenhuma natureza formada e aperfeiçoada, quer espiritual ou corpórea, mas ambas inchoadas e ainda informes. Pois percebo que, qualquer uma das duas que tivesse sido dita, poderia ter sido verdadeiramente dita; mas qual das duas ele pensou nessas palavras, não percebo tão claramente. Embora, fosse uma ou outra, ou qualquer sentido além (que não mencionei aqui), que este homem tão grande viu em sua mente quando proferiu estas palavras, não duvido que ele o viu verdadeiramente e o expressou aptamente.

Que ninguém me assedie, então, dizendo: Moisés não pensou como tu dizes, mas como eu digo: pois, se ele me perguntasse: "Como sabes que Moisés pensou o que tu deduzes de suas palavras?" eu deveria levar isso na esportiva, e responderia talvez como fiz acima, ou algo mais amplamente, se ele fosse inflexível. Mas quando ele diz: "Moisés não quis dizer o que tu dizes, mas o que eu digo", contudo não nega que o que cada um de nós diz possa ser verdade, ó meu Deus, vida dos pobres, em cujo seio não há contradição, derrama um orvalho suavizante em meu coração, para que eu possa suportar pacientemente aqueles que me dizem isso, não porque tenham um Espírito divino e tenham visto no coração de Teu servo o que dizem, mas porque são orgulhosos; não conhecendo a opinião de Moisés, mas amando a sua própria, não porque é a verdade, mas porque é deles. De outra forma, amariam igualmente outra opinião verdadeira, como eu amo o que eles dizem quando dizem a verdade: não porque é deles, mas porque é a verdade; e, por esse mesmo motivo, não deles, porque é a verdade. Mas se eles a amam porque é verdadeira, então ela é tanto deles quanto minha; sendo comum a todos os amantes da verdade. Mas enquanto eles contendem que Moisés não quis dizer o que eu digo, mas o que eles dizem, isto eu não gosto, não amo: pois, ainda que fosse assim, essa temeridade deles não pertence ao conhecimento, mas à audácia, e não à perspicácia, mas à vaidade foi sua progenitora. E, portanto, ó Senhor, Teus julgamentos são terríveis; vendo que Tua verdade não é minha, nem dele, nem de outrem; mas pertencendo a todos nós, a quem Tu chamas publicamente para dela participar, advertindo-nos terrivelmente para não a considerar privada para nós mesmos, para que não sejamos privados dela. Pois quem quer que reivindique como próprio aquilo que Tu propões a todos para desfrutar, e queira que seja seu o que pertence a todos, é expulso do que é comum para o seu próprio; isto é, da verdade para a mentira. Pois aquele que profere uma mentira, profere-a do que é seu.

Escuta, ó Deus, Tu, o melhor juiz; a própria Verdade, escuta o que direi a este contraditor, escuta, pois diante de Ti eu falo, e diante de meus irmãos, que empregam Tua lei legitimamente, para o fim da caridade: escuta e contempla, se Te apraz, o que direi a ele. Pois esta palavra fraterna e pacífica eu lhe devolvo: "Se ambos vemos ser verdade o que tu dizes, e ambos vemos ser verdade o que eu digo, onde, rogo-te, o vemos? Nem eu em ti, nem tu em mim; mas ambos na própria Verdade imutável, que está acima de nossas almas." Vendo então que não contendemos sobre a própria luz do Senhor Deus, por que contendemos sobre os pensamentos do nosso próximo, que não podemos ver como a Verdade imutável é vista? Pois que, se o próprio Moisés tivesse nos aparecido e dito: "Isto eu quis dizer"; nem assim o veríamos, mas acreditaríamos. Não nos inchemos, pois, uns contra os outros, acima do que está escrito: amemos o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos. Com vista a estes dois preceitos de caridade, a menos que acreditemos que Moisés quis dizer o que quer que ele tenha querido dizer naqueles livros, faremos de Deus um mentiroso, imaginando o pensamento do nosso conservo de outra forma que não a que Ele nos ensinou. Vê agora como é tolo, em tal abundância de significados verdadeiríssimos, como podem ser extraídos daquelas palavras, afirmar temerariamente qual deles Moisés pretendeu principalmente; e com contendas perniciosas ofender a própria caridade, por causa da qual ele disse todas as coisas, cujas palavras nos propomos a expor.

E, contudo, eu, ó meu Deus, Tu que elevas a minha humildade e és o descanso do meu labor, que ouves as minhas confissões e perdoas os meus pecados: vendo que me ordenas que ame o meu próximo como a mim mesmo, não posso crer que tenhas dado a Moisés, Teu servo fiel, um dom menor do que aquele que eu desejaria ou pediria que me desses, se eu tivesse nascido no tempo dele e se Tu me tivesses colocado nesse ofício, para que, pelo serviço do meu coração e da minha língua, fossem dispensados aqueles livros que por tanto tempo depois haviam de beneficiar todas as nações, e, por toda a terra, a partir de tal eminência de autoridade, haviam de superar todos os ditos de doutrinas falsas e orgulhosas. Eu teria desejado, na verdade, se eu fosse Moisés (pois todos viemos da mesma massa, e que é o homem, senão para que Te lembres dele?), eu teria, se eu fosse então o que ele era e tivesse sido incumbido por Ti de escrever o livro de Génesis, desejado que me fosse dado tal poder de expressão e tal estilo que nem aqueles que ainda não podem compreender como Deus criou pudessem rejeitar os ditos por estarem além da sua capacidade, e que aqueles que a isso tinham chegado pudessem encontrar, qualquer que fosse a opinião verdadeira a que tivessem chegado pelo pensamento, não omitida naquelas poucas palavras do Teu servo; e se outro homem, pela luz da verdade, tivesse descoberto outra, também essa não deixaria de ser descoberta nessas mesmas palavras.

Pois, assim como uma fonte, num espaço estreito, é mais abundante e fornece uma maré para mais riachos sobre espaços maiores do que qualquer um desses riachos que, após um longo intervalo, é derivado da mesma fonte; assim, a narração daquele Teu dispensador, que havia de beneficiar muitos que sobre ela haviam de discorrer, transborda, a partir de uma estreita medida de linguagem, em riachos de claríssima verdade, de onde cada homem pode extrair para si tal verdade quanto puder sobre estes assuntos, um, uma verdade, outro, outra, por maiores circunlóquios de discurso. Pois alguns, quando leem ou ouvem estas palavras, concebem que Deus, como um homem ou alguma massa dotada de poder ilimitado, por alguma nova e súbita resolução, criou, exterior a si mesmo, como que a uma certa distância, o céu e a terra, dois grandes corpos acima e abaixo, nos quais todas as coisas haviam de ser contidas. E quando ouvem: "Deus disse, faça-se, e foi feito", concebem palavras começadas e terminadas, soando no tempo e passando; após cuja partida, veio a ser o que foi ordenado fazer; e tudo o que, do mesmo género, o conhecimento do mundo material sugerisse aos homens. Naqueles que, sendo ainda pequeninos e carnais, enquanto a sua fraqueza é levada por este tipo humilde de discurso, como que no seio de uma mãe, a sua fé é salutarmente edificada, pela qual eles sustentam com certeza que Deus criou todas as naturezas que, em admirável variedade, o seu olho contempla ao redor. Palavras estas que, se alguém as desprezar como demasiado simples, com uma orgulhosa fraqueza, e se estender para além do ninho guardião, cairá, ai de mim, miseravelmente. Tem piedade, ó Senhor Deus, para que os que passam pelo caminho não pisem a ave implume, e envia o Teu anjo para a recolocar no ninho, para que possa viver até que possa voar.

Mas outros, para quem estas palavras já não são um ninho, mas profundos e sombrios pomares de frutos, veem os frutos nelas ocultos, voam alegremente ao redor e, com notas alegres, procuram-nos e colhem-nos. Pois, lendo ou ouvindo estas palavras, veem que todos os tempos passados e futuros são superados pela Tua eterna e estável permanência; e, contudo, que não há criatura formada no tempo que não seja obra Tua. Cuja vontade, porque é a mesma que Tu és, criaste todas as coisas, não por qualquer mudança de vontade, nem por uma vontade que antes não existia, e que estas coisas não foram feitas de Ti mesmo, à Tua própria semelhança, que é a forma de todas as coisas; mas do nada, uma dessemelhança sem forma, que deveria ser formada pela Tua semelhança (recorrendo à Tua Unidade, de acordo com a sua capacidade designada, tanto quanto é dado a cada coisa na sua espécie), e poderiam todas ser feitas muito boas; quer permaneçam ao redor de Ti, quer, sendo em gradação removidas no tempo e no lugar, façam ou sofram as belas variações do Universo. Estas coisas veem eles, e regozijam-se, no pequeno grau em que aqui podem, na luz da Tua verdade.

Outro inclina a sua mente sobre o que é dito: "No Princípio, Deus criou o céu e a terra", e contempla nele a Sabedoria, o Princípio, porque Ela também nos fala. Outro, igualmente, inclina a sua mente sobre as mesmas palavras, e por Princípio entende o início das coisas criadas; "No princípio Ele criou", como se fosse dito: "Ele primeiro criou". E entre os que entendem "No Princípio" como significando "Na Tua Sabedoria criaste o céu e a terra", um crê que a matéria da qual o céu e a terra haviam de ser criados é aí chamada céu e terra; outro, naturezas já formadas e distinguidas; outro, uma natureza formada, e essa espiritual, sob o nome de Céu, a outra sem forma, uma matéria corpórea, sob o nome de Terra. Aqueles, de novo, que pelos nomes céu e terra entendem a matéria ainda sem forma, da qual o céu e a terra haviam de ser formados, nem eles a entendem de uma só maneira; mas um, aquela matéria da qual tanto a criatura inteligível como a sensível haviam de ser aperfeiçoadas; outro, apenas aquela da qual esta massa corpórea sensível havia de ser feita, contendo no seu vasto seio estas naturezas visíveis e ordinárias. Nem eles, que creem que as criaturas já ordenadas e dispostas são neste lugar chamadas céu e terra, entendem o mesmo; mas um, ambas a invisível e a visível, o outro, apenas a visível, na qual contemplamos este céu luminoso e esta terra sombria, com as coisas neles contidas.

Mas aquele que não entende "No Princípio Ele criou" de outra forma senão como se fosse dito: "Primeiramente Ele criou", só pode entender verdadeiramente o céu e a terra como a matéria do céu e da terra, isto é, da criação universal inteligível e corpórea. Pois se ele quisesse entender por isso o universo, como já formado, pode ser-lhe perguntado com razão: "Se Deus criou isto primeiro, o que criou Ele depois?"; e após o universo, não encontrará nada; pelo que terá de ouvir, contra a sua vontade, outra pergunta: "Como criou Deus isto primeiro, se nada depois?". Mas quando ele diz: "Deus criou a matéria primeiro sem forma, depois formada", não há absurdo, se ele for apenas qualificado para discernir o que precede pela eternidade, o que pelo tempo, o que pela escolha e o que na originalidade. Pela eternidade, como Deus está antes de todas as coisas; pelo tempo, como a flor antes do fruto; pela escolha, como o fruto antes da flor; pela originalidade, como o som antes da melodia. Destes quatro, o primeiro e o último mencionados são compreendidos com extrema dificuldade, os dois do meio, facilmente. Pois é uma visão rara e demasiado elevada contemplar a Tua Eternidade, ó Senhor, a fazer imutavelmente as coisas mutáveis; e, por isso, antes delas. E quem, de novo, é de entendimento tão perspicaz que seja capaz, sem grande esforço, de discernir como o som é, por isso, antes da melodia; porque uma melodia é um som formado; e uma coisa não formada pode existir; ao passo que o que não existe não pode ser formado. Assim, a matéria é antes da coisa feita; não porque a faz, visto que ela própria é antes feita; nem é antes por intervalo de tempo; pois não proferimos primeiro no tempo sons sem forma sem cantar, e subsequentemente adaptamo-los ou moldamo-los na forma de um canto, como a madeira ou a prata, das quais um baú ou vaso é moldado. Pois tais materiais precedem também pelo tempo as formas das coisas feitas deles, mas no cantar não é assim; pois, quando se canta, o seu som é ouvido; pois não há primeiro um som sem forma que é depois formado num canto. Pois cada som, logo que feito, passa, nem podes encontrar algo para recordar e, pela arte, compor. Assim, então, o canto está concentrado no seu som, o qual som é a sua matéria. E isto, de facto, é formado para que seja uma melodia; e, portanto (como eu disse), a matéria do som é antes da forma da melodia; não antes, por qualquer poder que tenha de a fazer uma melodia; pois um som não é de modo algum o mestre de obras da melodia; mas é algo corpóreo, sujeito à alma que canta, do qual se faz uma melodia. Nem é primeiro no tempo; pois é emitido juntamente com a melodia; nem primeiro na escolha, pois um som não é melhor do que uma melodia, sendo uma melodia não apenas um som, mas um som belo. Mas é primeiro na originalidade, porque uma melodia não recebe forma para se tornar um som, mas um som recebe uma forma para se tornar uma melodia. Por este exemplo, que entenda quem puder como a matéria das coisas foi primeiro feita, e chamada céu e terra, porque o céu e a terra foram feitos dela. Contudo, não foi feita primeiro no tempo; porque as formas das coisas dão origem ao tempo; mas aquilo estava sem forma, mas agora é, no tempo, um objeto de sentido juntamente com a sua forma. E, contudo, nada se pode relatar dessa matéria, senão como que anterior no tempo, ao passo que em valor é a última (porque as coisas formadas são superiores às coisas sem forma) e é precedida pela Eternidade do Criador: para que assim houvesse, do nada, de onde algo pudesse ser criado.

Nesta diversidade de opiniões verdadeiras, que a própria Verdade produza a concórdia. E o nosso Deus tenha misericórdia de nós, para que possamos usar a lei legalmente, o fim do mandamento, a caridade pura. Por isto, se o homem me pergunta: "Qual destas era a intenção do Teu servo Moisés?", não seria esta a linguagem das minhas Confissões, se eu não confessasse a Ti: "Não sei"; e, contudo, sei que esses sentidos são verdadeiros, excetuados aqueles carnais, dos quais disse o que parecia necessário. E até esses pequeninos esperançosos que assim pensam têm este benefício, que as palavras do Teu Livro não os assustam, entregando coisas altas humildemente, e com poucas palavras um significado copioso. E todos nós que, confesso, vemos e expressamos a verdade entregue naquelas palavras, amemos uns aos outros e amemos conjuntamente a Ti, nosso Deus, a fonte da verdade, se temos sede dela e não de vaidades; sim, honremos este Teu servo, o dispensador desta Escritura, cheio do Teu Espírito, de modo a crer que, quando por Tua revelação ele escreveu estas coisas, ele tencionou aquilo que entre elas excele tanto pela luz da verdade como pela fecundidade do proveito.

Assim, quando um diz: "Moisés pensou como eu"; e outro: "Não, mas como eu", suponho que falo mais reverentemente: "Por que não antes como ambos, se ambos forem verdadeiros?". E se houver um terceiro, ou um quarto, sim, se qualquer outro vir qualquer outra verdade naquelas palavras, por que não se pode crer que ele tenha visto todas estas, através de quem o Deus Único temperou as Santas Escrituras aos sentidos de muitos, que deveriam ver nelas coisas verdadeiras mas diversas? Pois eu certamente (e falo destemidamente do meu coração), se tivesse de redigir algo para ter autoridade suprema, preferiria escrever de tal modo que qualquer verdade que alguém pudesse apreender sobre esses assuntos pudesse ser transmitida nas minhas palavras, em vez de expor o meu próprio pensamento tão claramente a ponto de excluir os outros, que, não sendo falsos, não poderiam ofender-me. Não serei, pois, ó meu Deus, tão precipitado a ponto de não crer que concedeste tanto àquele grande homem. Ele, sem dúvida, quando escreveu aquelas palavras, percebeu e pensou em qualquer verdade que fomos capazes de encontrar, sim, e em tudo o que não fomos capazes, nem ainda somos, mas que pode ser encontrado nelas.

Por último, ó Senhor, que és Deus e não carne e sangue, se o homem viu menos, poderia algo estar oculto ao Teu bom Espírito (que me guiará para a terra da retidão), que Tu mesmo, por essas palavras, estavas prestes a revelar aos leitores em tempos vindouros, embora aquele por quem foram faladas, talvez entre muitos significados verdadeiros, tenha pensado em algum? O qual, se assim for, que seja esse em que ele pensou o mais elevado de todos. Mas a nós, ó Senhor, revela Tu esse mesmo, ou qualquer outro verdadeiro que Te apraza; para que assim, quer Tu nos descubras o mesmo que àquele Teu servo, quer outro por ocasião daquelas palavras, ainda assim possas alimentar-nos, e não o erro enganar-nos. Vê, ó Senhor meu Deus, quanto escrevemos sobre poucas palavras, quanto, eu Te rogo! Que força nossa, sim, que eras seriam suficientes para todos os Teus livros desta maneira? Permite-me então, nestes, confessar-me mais brevemente a Ti, e escolher algum sentido verdadeiro, certo e bom que Tu me inspires, embora muitos possam ocorrer, onde muitos podem ocorrer; sendo esta a lei da minha confissão, que se eu disser aquilo que o Teu ministro tencionou, isso é justo e melhor; pois por isto me deverei esforçar, o que se eu não alcançar, ainda assim direi aquilo que a Tua Verdade quis, pelas palavras dele, dizer-me, a qual revelou também a ele o que Ela quis.

LIVRO XIII

Invoco-Te, ó meu Deus, minha misericórdia, que me criaste e não te esqueceste de mim, esquecendo-me de Ti. Invoco-Te para a minha alma que, pelo desejo que Tu próprio inspiras nela, Tu preparas para Ti. Não me abandones agora que Te invoco, a quem Tu preveniste antes que eu invocasse, e me incitaste com grande variedade de chamamentos repetidos, para que eu Te ouvisse de longe, e fosse convertido, e invocasse a Ti, que chamaste após mim; pois Tu, Senhor, apagaste todos os meus maus merecimentos, de modo a não retribuir nas minhas mãos, com as quais caí de Ti; e Tu preveniste todos os meus bons merecimentos, de modo a retribuir a obra das Tuas mãos com a qual me fizeste; porque antes de eu ser, Tu eras; nem eu era algo a quem pudesses conceder o ser; e contudo, vê, eu sou, da Tua bondade, prevenindo tudo isto que Tu me fizeste, e de onde me fizeste. Pois nem Tu precisavas de mim, nem eu sou tal bem que pudesse ser útil a Ti, meu Senhor e Deus; não servindo-Te, como se Tu te cansasses de trabalhar; ou para que o Teu poder não fosse menor, se faltasse o meu serviço: nem cultivando o Teu serviço, como uma terra que deve permanecer inculta, a menos que eu Te cultivasse: mas servindo-Te e adorando-Te, para que eu pudesse receber um bem-estar de Ti, de quem provém que eu tenha um ser capaz de bem-estar.

Pois da plenitude da Tua bondade subsiste a Tua criatura, para que assim um bem, que de modo algum Te poderia lucrar, nem era de Ti (para que assim não fosse igual a Ti), pudesse contudo ser, visto que podia ser feito de Ti. Pois que mereceram de Ti o céu e a terra que criaste no Princípio? Que as naturezas espirituais e corpóreas que criaste na Tua Sabedoria digam em que mereceram de Ti depender (mesmo naquele seu estado inicial e sem forma, quer espiritual ou corpóreo, pronto a cair numa liberdade imoderada e numa dessemelhança muito distante de Ti; — o espiritual, embora sem forma, superior ao corpóreo embora formado, e o corpóreo embora sem forma, melhor do que se fosse totalmente nada), e assim depender da Tua Palavra, como sem forma, a menos que pela mesma Palavra fossem trazidas de volta à Tua Unidade, dotadas de forma e, de Ti, o Único Bem Soberano, fossem feitas todas muito boas. Como mereceram de Ti, sequer, estar sem forma, visto que não teriam sido nem isto, senão de Ti?

Como mereceu a matéria corpórea de Ti, sequer, ser invisível e sem forma? Visto que nem isto seria, senão porque Tu a fizeste, e, portanto, porque não era, não poderia merecer de Ti ser feita. Ou como poderia a criatura espiritual inicial merecer de Ti, sequer, oscilar e fluir sombriamente como o abismo, — diferente de Ti, a menos que tivesse sido, pela mesma Palavra, voltada para Aquele por Quem foi criada, e por Ele assim iluminada, tornado-se luz; embora não igualmente, mas conformemente àquela Forma que é igual a Ti? Pois assim como num corpo, ser não é o mesmo que ser belo, de outra forma não poderia ser deformado; assim também para um espírito criado, viver não é o mesmo que viver sabiamente; de outra forma seria sábio imutavelmente. Mas bom é para ele apegar-se sempre a Ti; para que o que de luz obteve ao voltar-se para Ti, não perca ao voltar-se de Ti, e recaia numa vida que se assemelha ao abismo sombrio. Pois nós próprios, que quanto à alma somos uma criatura espiritual, voltados de Ti, nossa luz, éramos nessa vida por vezes trevas; e ainda trabalhamos em meio aos restos da nossa escuridão, até que no Teu Único nos tornemos a Tua justiça, como os montes de Deus. Pois temos sido os Teus juízos, que são como o grande abismo.

Aquilo que disseste no princípio da criação: "Faça-se a luz, e a luz foi feita", entendo-o, não inadequadamente, da criatura espiritual: porque havia já uma espécie de vida, que Tu poderias iluminar. Mas como ela não tinha direito a Ti para uma vida que pudesse ser iluminada, assim tampouco agora que era, tinha algum, para ser iluminada. Pois nem o seu estado sem forma poderia ser agradável a Ti, a menos que se tornasse luz, e isso não por existir simplesmente, mas por contemplar a luz iluminadora e apegar-se a ela; de modo que, o facto de viver e viver felizmente, não deve a nada senão à Tua graça, sendo voltada por uma melhor mudança para Aquilo que não pode ser mudado para pior ou melhor; o que Tu és apenas, porque Tu és apenas simplesmente; sendo para Ti não uma coisa viver, outra viver bem-aventuradamente, visto que Tu mesmo és a Tua própria Bem-aventurança.

Que poderia então faltar ao Teu bem, que és Tu mesmo, ainda que estas coisas nunca tivessem existido, ou permanecessem sem forma; que Tu fizeste, não por qualquer carência, mas pela plenitude da Tua bondade, restringindo-as e convertendo-as à forma, não como se a Tua alegria fosse preenchida por elas? Pois para Ti, sendo perfeito, a imperfeição delas é desagradável, e daí foram aperfeiçoadas por Ti, e agradam-Te; não como se fosses imperfeito e, pelo aperfeiçoamento delas, fosses também ser aperfeiçoado. Pois o Teu bom Espírito, na verdade, era levado sobre as águas, não sustentado por elas, como se sobre elas repousasse. Pois aqueles, sobre quem se diz que o Teu bom Espírito repousa, Ele faz repousar em Si mesmo. Mas a Tua vontade incorruptível e imutável, em si mesma autossuficiente, era levada sobre aquela vida que Tu tinhas criado; para a qual viver não é o mesmo que viver felizmente, visto que ela vive também, oscilando e fluindo na sua própria escuridão: para a qual resta ser convertida àquele por Quem foi feita, e viver cada vez mais pela fonte da vida, e na Sua luz ver a luz, e ser aperfeiçoada, e iluminada, e embelezada.

Eis que agora a Trindade aparece-me num espelho, em enigma, que és Tu, meu Deus, porque Tu, ó Pai, nAquele que é o Princípio da nossa sabedoria, que é a Tua Sabedoria, nascida de Ti mesmo, igual a Ti e coeterna, isto é, no Teu Filho, criaste o céu e a terra. Muito dissemos já sobre o Céu dos céus, e sobre a terra invisível e sem forma, e sobre o abismo tenebroso, em referência à instabilidade errante da sua deformidade espiritual, a menos que tivesse sido convertida àquele de Quem teve o seu então grau de vida, e pelo Seu esclarecimento se tornou uma vida formosa, e o céu daquele céu, que foi depois posto entre águas e águas. E sob o nome de Deus, eu retinha agora o Pai, que fez estas coisas, e sob o nome de Princípio, o Filho, em quem Ele fez estas coisas; e acreditando, como eu acreditava, que o meu Deus é a Trindade, pesquisei mais nas Suas santas palavras, e eis que o Teu Espírito se movia sobre as águas. Vê a Trindade, meu Deus, Pai, e Filho, e Espírito Santo, Criador de toda a criação.

Mas qual foi a causa, ó Luz que dizes a verdade? – para Ti elevo o meu coração, não me ensines vaidades, dissipa a sua escuridão; e dize-me, eu Te suplico, pela nossa mãe caridade, dize-me a razão, eu Te suplico, por que razão, após a menção do céu, e da terra invisível e sem forma, e da escuridão sobre o abismo, a Tua Escritura deveria então, finalmente, mencionar o Teu Espírito? Foi porque era adequado que o conhecimento d’Ele fosse transmitido como sendo "levado por cima"; e isto não poderia ser dito, a menos que se mencionasse primeiro aquilo sobre o qual se pode entender que o Teu Espírito foi levado. Pois nem Ele foi levado sobre o Pai, nem sobre o Filho, nem se poderia dizer corretamente que Ele foi levado por cima, se fosse levado sobre nada. Primeiro, então, devia falar-se daquilo sobre o qual Ele pudesse ser levado; e depois d’Aquele, de quem não era adequado falar de outra forma senão como sendo levado. Mas por que não era adequado que o conhecimento d’Ele fosse transmitido de outra forma, senão como sendo levado por cima?

Daqui, que aquele que pode, siga com o seu entendimento o Teu Apóstolo, onde ele assim fala: Porque o Teu amor é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado: e onde, acerca dos dons espirituais, ele nos ensina e nos mostra um caminho mais excelente da caridade; e onde ele dobra os joelhos diante de Ti por nós, para que possamos conhecer o conhecimento supereminente do amor de Cristo. E, portanto, desde o princípio, Ele foi levado supereminente sobre as águas. A quem direi isto? como falarei do peso dos maus desejos, para baixo, até ao abismo íngreme; e como a caridade nos eleva de novo pelo Teu Espírito que foi levado sobre as águas? a quem o direi? como o direi? Pois não é no espaço que nos afundamos e emergimos. O que pode ser mais, e contudo o que menos semelhante? São afeições, são amores; a impureza do nosso espírito fluindo para baixo com o amor das preocupações, e a santidade do Teu elevando-nos para cima pelo amor do repouso sem ansiedade; para que possamos elevar os nossos corações a Ti, onde o Teu Espírito é levado sobre as águas; e cheguemos a esse repouso supereminente, quando a nossa alma tiver atravessado as águas que não oferecem apoio.

Os anjos afastaram-se, a alma do homem afastou-se, e com isso assinalaram o abismo naquela profundidade sombria, pronto para toda a criação espiritual, se Tu não tivesses dito desde o princípio: "Haja luz", e houve luz, e toda a inteligência obediente da Tua Cidade celestial se apegou a Ti, e descansou no Teu Espírito, que é levado imutavelmente sobre todas as coisas mutáveis. De outro modo, até o céu dos céus teria sido em si mesmo um abismo tenebroso; mas agora é luz no Senhor. Pois mesmo naquela inquietação miserável dos espíritos, que se afastaram e descobriram a sua própria escuridão, quando despidos da veste da Tua luz, revelas suficientemente quão nobre fizeste a criatura racional; para a qual nada bastará para oferecer um repouso feliz, menos do que Tu; e assim, nem mesmo ela mesma. Pois Tu, ó nosso Deus, iluminarás a nossa escuridão: de Ti nasce a nossa veste de luz; e então a nossa escuridão será como o meio-dia. Entrega-Te a mim, ó meu Deus, restaura-Te a mim: eis que amo, e se for pouco, eu desejaria amar mais fortemente. Não consigo medir para saber quanto amor ainda me falta, antes que a minha vida possa correr para os Teus abraços, nem desviar-me, até que esteja escondida no lugar oculto da Tua Presença. Só isto sei, que ai de mim se não for em Ti: não apenas fora, mas dentro de mim também; e toda a abundância, que não é o meu Deus, é vazio para mim.

Mas será que nem o Pai, nem o Filho, foram levados sobre as águas? Se isto significa, no espaço, como um corpo, então nem o Espírito Santo o foi; mas se é a supereminência imutável da Divindade sobre todas as coisas mutáveis, então tanto o Pai, como o Filho, e o Espírito Santo foram levados sobre as águas. Por que então se diz isto apenas do Teu Espírito, por que se diz apenas d’Ele? Como se Ele estivesse num lugar, Ele que não está num lugar, de Quem apenas está escrito que Ele é o Teu dom? No Teu Dom descansamos; aí desfrutamos de Ti. O nosso repouso é o nosso lugar. O amor eleva-nos até lá, e o Teu bom Espírito eleva a nossa baixeza das portas da morte. No Teu beneplácito está a nossa paz. O corpo pelo seu próprio peso esforça-se para o seu próprio lugar. O peso não faz mover apenas para baixo, mas para o seu próprio lugar. O fogo tende para cima, uma pedra para baixo. São impelidos pelo seu próprio peso, procuram os seus próprios lugares. O óleo vertido abaixo da água é elevado acima da água; a água vertida sobre o óleo afunda-se abaixo do óleo. São impelidos pelos seus próprios pesos a procurar os seus próprios lugares. Quando fora da sua ordem, estão inquietos; restaurados à ordem, estão em repouso. O meu peso é o meu amor; por ele sou levado, para onde quer que seja levado. Inflamamo-nos, pelo Teu Dom somos acesos; e somos carregados para cima; brilhamos interiormente, e vamos para diante. Ascendemos as Tuas vias que estão no nosso coração, e cantamos um cântico de degraus; brilhamos interiormente com o Teu fogo, com o Teu bom fogo, e vamos; porque vamos para cima para a paz de Jerusalém: pois alegrei-me naqueles que me disseram: "Iremos à casa do Senhor". Ali o Teu beneplácito colocou-nos, para que não desejemos mais nada, senão habitar ali para sempre.

Bendita criatura, que sendo ela mesma outra que Tu, não conheceu outra condição, senão que, logo que foi feita, ela foi, sem qualquer intervalo, pelo Teu Dom, que é levado sobre todas as coisas mutáveis, elevada por esse chamamento pelo qual disseste: "Haja luz", e houve luz. Enquanto que em nós isto aconteceu em tempos diferentes, na medida em que éramos escuridão e somos feitos luz: mas dela apenas se diz o que ela teria sido, se não tivesse sido iluminada. E, isto é dito como se ela tivesse sido instável e tenebrosa antes; para que a causa pela qual ela foi feita de outra forma pudesse aparecer, a saber, que sendo voltada para a Luz infalível tornou-se luz. Quem puder, que entenda isto; que peça a Ti. Por que me haveria de incomodar, como se eu pudesse iluminar qualquer homem que vem a este mundo?

Quem de nós compreende a Trindade Todo-Poderosa? E ainda assim, quem não fala d’Ela, se é que de fato é Ela? Rara é a alma que, enquanto fala d’Ela, sabe do que fala. E contendem e esforçam-se, contudo, sem paz, nenhum homem vê essa visão. Eu desejaria que os homens considerassem estes três, que estão neles mesmos. Estes três são, na verdade, bem outros que a Trindade: apenas digo onde se podem exercitar, e aí provar e sentir quão distantes estão. Ora, os três de que falei são: Ser, Conhecer e Querer. Pois Eu Sou, e Conheço, e Quero: Sou Conhecendo e Querendo: e Conheço-me a mim mesmo Ser e Querer: e Quero Ser e Conhecer. Nestes três, então, que discirna aquele que pode quão inseparável uma vida é, sim, uma vida, uma mente, e uma essência, sim, por fim, quão inseparável distinção é, e contudo uma distinção. Certamente um homem tem isso diante de si; que olhe para dentro de si mesmo, e veja, e me diga. Mas quando ele descobre e pode dizer algo sobre isto, não pense, portanto, que encontrou aquilo que está acima destas coisas: o Imutável, que É imutavelmente, e Conhece imutavelmente, e Quer imutavelmente; e se, por causa destes três, há em Deus também uma Trindade, ou se todos os três estão em Cada um, de modo que os três pertencem a Cada um; ou se de ambas as formas ao mesmo tempo, maravilhosamente, simplesmente e contudo multiplicadamente, sendo Ele mesmo um limite para Si mesmo dentro de Si mesmo, contudo ilimitado; pelo qual Ele é, e é Conhecido a Si mesmo e basta-se a Si mesmo, imutavelmente o Mesmo, pela abundante grandeza da sua Unidade — quem pode conceber isto prontamente? quem poderia de alguma forma expressá-lo? quem iria, de alguma forma, pronunciar-se temerariamente sobre isso?

Prossegue na tua confissão, dize ao Senhor teu Deus, ó minha fé, Santo, Santo, Santo, ó Senhor meu Deus, em Teu Nome fomos batizados, Pai, Filho e Espírito Santo; em Teu Nome batizamos, Pai, Filho e Espírito Santo, porque entre nós também, no Seu Cristo, Deus fez o céu e a terra, a saber, o povo espiritual e carnal da Sua Igreja. Sim, e a nossa terra, antes de receber a forma da doutrina, era invisível e sem forma; e estávamos cobertos com a escuridão da ignorância. Pois Tu castigaste o homem pela iniquidade, e os Teus juízos foram como o grande abismo para ele. Mas porque o Teu Espírito era levado sobre as águas, a Tua misericórdia não abandonou a nossa miséria, e Tu disseste: "Haja luz", "Arrependei-vos, porque o reino dos céus é chegado". Arrependei-vos, haja luz. E porque a nossa alma estava perturbada dentro de nós, lembramo-nos de Ti, ó Senhor, desde a terra do Jordão, e daquele monte igual a Ti, mas pequeno por nossa causa: e a nossa escuridão desagradou-nos, voltamo-nos para Ti e houve luz. E, eis que éramos por vezes escuridão, mas agora somos luz no Senhor.

Mas ainda pela fé e não pela visão, pois pela esperança somos salvos; mas a esperança que se vê não é esperança. Ainda o abismo chama o abismo, mas agora pela voz das Tuas trombas d’água. Ainda aquele que diz: "Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais", mesmo ele ainda não pensa ter apreendido, e esquece as coisas que atrás ficam, e estende-se para as que estão diante, e geme sob o peso, e a sua alma suspira pelo Deus Vivo, como o cervo pelas correntes das águas, e diz: "Quando virei?", desejando ser revestido da sua casa que é do céu, e chama por este abismo inferior, dizendo: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente". E: "Não sejais meninos no entendimento, mas na malícia, sede meninos, para que no entendimento sejais perfeitos"; e: "Ó insensatos gálatas, quem vos encantou?". Mas agora já não com a sua própria voz; mas com a Tua, que enviaste o Teu Espírito do alto; através d’Aquele que subiu às alturas, e abriu as comportas dos Seus dons, para que a força dos Seus riachos pudesse alegrar a cidade de Deus. Por Ele suspira este amigo do Esposo, tendo já as primícias do Espírito guardadas com Ele, contudo gemendo ainda dentro de si mesmo, esperando a adoção, isto é, a redenção do seu corpo; por Ele suspira, um membro da Esposa; por Ele tem zelo, como sendo um amigo do Esposo; por Ele tem zelo, não por si mesmo; porque na voz das Tuas trombas d’água, não na sua própria voz, chama ele por aquele outro abismo, sobre quem tendo zelo ele teme, que, como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim as suas mentes fossem corrompidas da pureza que está no nosso Esposo, o Teu único Filho. Ó, que luz de beleza será essa, quando virmos Aquele como Ele é, e aquelas lágrimas tiverem passado, que foram o meu alimento dia e noite, enquanto eles diariamente me dizem: "Onde está agora o Teu Deus?"

Eis que eu também digo, ó meu Deus, onde estás Tu? Vê, onde estás Tu! Em Ti respiro um pouco, quando derramo a minha alma por mim mesmo na voz de júbilo e louvor, o som daquele que celebra o dia santo. E contudo, novamente é triste, porque recai, e torna-se um abismo, ou melhor, percebe-se ainda ser um abismo. A ela fala a minha fé, que Tu acendeste para iluminar os meus pés na noite: "Por que estás triste, ó minha alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor; a Sua palavra é uma lanterna para os teus pés: espera e suporta, até que a noite, a mãe dos ímpios, até que a ira do Senhor, passe, da qual também nós fomos outrora filhos, que éramos por vezes escuridão, relíquias da qual trazemos em nós no nosso corpo, morto por causa do pecado; até que o dia rompa, e as sombras fujam. Espera tu no Senhor; pela manhã estarei na Tua presença, e contemplar-Te-ei: confessar-Te-ei para sempre. Pela manhã estarei na Tua presença, e verei a saúde da minha face, o meu Deus, que também vivificará os nossos corpos mortais, pelo Espírito que habita em nós, porque Ele em misericórdia foi levado sobre o nosso abismo interior tenebroso e flutuante: de Quem recebemos nesta peregrinação um penhor, de que devêssemos agora ser luz: enquanto somos salvos pela esperança, e somos os filhos da luz, e os filhos do dia, não os filhos da noite, nem das trevas, as quais ainda por vezes fomos. Entre os quais e nós, nesta incerteza do conhecimento humano, Tu apenas divides; Tu, que provas os nossos corações, e chamas à luz, dia, e às trevas, noite. Pois quem nos discerne, senão Tu? E que temos nós, que não tenhamos recebido de Ti? Da mesma massa são feitos vasos para honra, dos quais outros são feitos também para desonra.

Ou quem, senão Tu, nosso Deus, fez para nós esse firmamento de autoridade sobre nós na Tua Divina Escritura? Como é dito: "Pois o céu será dobrado como um livro"; e agora está estendido sobre nós como uma pele. Pois a Tua Divina Escritura é de mais eminente autoridade, desde que aqueles mortais por quem Tu a dispensas a nós, sofreram a mortalidade. E Tu sabes, Senhor, Tu sabes, como Tu com peles vestiste os homens, quando eles pelo pecado se tornaram mortais. Donde Tu estendeste como uma pele o firmamento do Teu livro, isto é, as Tuas palavras harmonizadoras, que pelo ministério de homens mortais espalhas sobre nós. Pois pela própria morte deles, aquele sólido firmamento de autoridade, nos Teus discursos apresentados por eles, foi mais eminentemente estendido sobre todos os que estão debaixo dele; o que, enquanto eles viviam aqui, não era tão eminentemente estendido. Tu não tinhas ainda espalhado o céu como uma pele; Tu não tinhas ainda alargado em todas as direções a glória das suas mortes.

Olhemos, ó Senhor, para os céus, obra dos Teus dedos; limpa dos nossos olhos essa nuvem, que Tu estendeste debaixo deles. Ali está o Teu testemunho, que dá sabedoria aos pequeninos: aperfeiçoa, ó meu Deus, o Teu louvor da boca dos meninos e lactentes. Pois não conhecemos outros livros, que destruam tanto o orgulho, que destruam tanto o inimigo e o defensor, que resiste à Tua reconciliação defendendo os seus próprios pecados. Não sei, Senhor, não sei quaisquer outras palavras tão puras, que me persuadam tanto a confessar, e tornem o meu pescoço flexível ao Teu jugo, e me convidem a servir-Te de graça. Deixa-me entendê-las, bom Pai: concede isto a mim, que estou colocado debaixo delas: porque para aqueles colocados debaixo delas, Tu as estabeleceste.

Outras águas há acima deste firmamento, creio que imortais, e separadas da corrupção terrena. Que elas louvem o Teu Nome, que elas Te louvem, o povo supercelestial, os Teus anjos, que não têm necessidade de olhar para este firmamento, ou por meio da leitura conhecer a Tua Palavra. Pois eles sempre contemplam a Tua face, e ali leem sem quaisquer sílabas no tempo, o que quer a Tua vontade eterna; leem, escolhem, amam. Estão sempre lendo; e nunca passa aquilo que leem; pois escolhendo, e amando, leem a própria imutabilidade do Teu conselho. O seu livro nunca é fechado, nem o seu rolo dobrado; vendo que Tu mesmo és isto para eles, e és eternamente; porque Tu os ordenaste acima deste firmamento, que Tu firmemente estabeleceste sobre a enfermidade do povo inferior, onde eles pudessem olhar para cima e aprender a Tua misericórdia, anunciando no tempo a Ti que fizeste os tempos. Pois a Tua misericórdia, ó Senhor, está nos céus, e a Tua verdade alcança as nuvens. As nuvens passam, mas o céu permanece. Os pregadores da Tua palavra passam desta vida para outra; mas a Tua Escritura está espalhada sobre o povo, até ao fim do mundo. Contudo, o céu e a terra também passarão, mas as Tuas palavras não passarão. Porque o rolo será enrolado; e a erva sobre a qual estava estendido, passará com a sua formosura; mas a Tua Palavra permanece para sempre, que agora nos aparece sob a imagem sombria das nuvens, e através do espelho dos céus, não como ela é: porque nós também, embora amados do Teu Filho, ainda não apareceu o que seremos. Ele olha através da grade da nossa carne, e falou-nos ternamente, e acendeu-nos, e corremos após os Seus perfumes. Mas quando Ele aparecer, então seremos semelhantes a Ele, pois v’Lo-emos como Ele é. Como Ele é, Senhor, será a nossa visão.

Pois inteiramente, como Tu és, Tu apenas sabes; que és imutavelmente, e conheces imutavelmente, e queres imutavelmente. E a Tua Essência Conhece, e Quer imutavelmente; e o Teu Conhecimento É, e Quer imutavelmente; e a Tua Vontade É, e Conhece imutavelmente. Nem parece justo aos Teus olhos, que assim como a Luz Imutável se conhece a Si mesma, assim deva ser conhecida pela coisa iluminada, e mutável. Portanto, a minha alma é como uma terra onde não há água, porque, assim como não pode por si mesma iluminar-se, assim não pode por si mesma satisfazer-se. Pois assim é a fonte da vida contigo, como na Tua luz veremos a luz.

Quem reuniu os amargurados numa só sociedade? Pois todos eles têm um fim, uma felicidade temporal e terrena, para alcançar a qual fazem todas as coisas, embora vacilem para cima e para baixo com uma inumerável variedade de cuidados. Quem, Senhor, senão Tu, disseste: "Ajuntem-se as águas num só lugar, e apareça a terra seca, que suspira por Ti"? Pois o mar também é Teu, e Tu fizeste-o, e as Tuas mãos prepararam a terra seca. Nem é a amargura das vontades dos homens, mas o ajuntamento das águas, chamado mar; pois Tu refreias os desejos ímpios das almas dos homens, e estabeleces-lhes os seus limites, até onde lhes seja permitido passar, para que as suas ondas se quebrem umas contra as outras: e assim fazes Tu dele um mar, pela ordem do Teu domínio sobre todas as coisas.

Mas as almas que têm sede de Ti, e que aparecem diante de Ti (estando, por outros limites, separadas da sociedade do mar), Tu regas com uma fonte doce, para que a terra possa produzir o seu fruto, e Tu, Senhor Deus, assim ordenando, a nossa alma pode brotar obras de misericórdia segundo a sua espécie, amando o nosso próximo no alívio das suas necessidades corporais, tendo em si mesma semente segundo a sua semelhança, quando, pelo sentimento da nossa enfermidade, nos compadecemos a ponto de socorrer os necessitados; ajudando-os, como gostaríamos de ser ajudados se estivéssemos em igual necessidade; não apenas em coisas fáceis, como na erva que dá semente, mas também na proteção da nossa assistência, com a nossa melhor força, como a árvore que dá fruto: isto é, o bem-fazer ao resgatar aquele que sofre injustiça, das mãos do poderoso, e dando-lhe o abrigo da proteção, pela força poderosa do justo juízo.

Assim, Senhor, assim, rogo-Te, que brote, como Tu fazes, como Tu dás alegria e capacidade, que a verdade brote da terra, e a justiça olhe lá do céu, e que haja luzes no firmamento. Partamos o nosso pão com o faminto, e tragamos os pobres sem abrigo para a nossa casa. Vistamos o nu, e não desprezemos aqueles que são da nossa própria carne. As quais frutas tendo brotado da terra, vê que é bom: e que a nossa luz temporária rompa; e nós mesmos, desta frutificação inferior da ação, chegando à delícia da contemplação, obtendo a Palavra de Vida acima, apareçamos como luzes no mundo, apegados ao firmamento da Tua Escritura. Pois ali nos instruis a distinguir entre as coisas intelectuais e as coisas do sentido, como entre o dia e a noite; ou entre almas entregues quer às coisas intelectuais, quer às coisas do sentido, de modo que agora não apenas Tu, no segredo do Teu juízo, como antes de o firmamento ser feito, divides entre a luz e as trevas, mas os Teus filhos espirituais, também postos e classificados no mesmo firmamento (agora que a Tua graça está aberta por todo o mundo), possam dar luz sobre a terra, e dividir entre o dia e a noite, e serem para sinais dos tempos, de que as coisas velhas já passaram, e, eis que todas as coisas se fizeram novas: e que a nossa salvação está mais próxima do que quando cremos: e que a noite está quase finda, e o dia é chegado: e que Tu coroarás o Teu ano com bênção, enviando os trabalhadores da Tua bondade para a Tua colheita, na semeadura da qual outros trabalharam, enviando também para outro campo, cuja colheita será no fim. Assim concedes Tu as orações daquele que pede, e abençoas os anos do justo; mas Tu és o mesmo, e nos Teus anos que não falham, preparas um celeiro para os nossos anos passageiros. Pois Tu, por um conselho eterno, concedes nas suas devidas estações bênçãos celestiais sobre a terra. Pois a um é dada pelo Espírito a palavra da sabedoria, como que a luz menor: a outro a fé; a outro o dom com a luz da verdade perspicaz, como que para o governo do dia. A outro a palavra da ciência pelo mesmo Espírito, como que a luz menor: a outro a fé; a outro o dom de curar; a outro a operação de milagres; a outro a profecia; a outro o discernimento de espíritos; a outro a diversidade de línguas. E todas estas como que estrelas. Pois todas estas opera o um e o mesmo Espírito, repartindo a cada um o seu como Ele quer; e fazendo com que as estrelas apareçam manifestamente, para proveito comum. Mas a palavra da ciência, na qual estão contidos todos os Sacramentos, que são variados nas suas estações como que a lua, e aquelas outras noções de dons, que são enumeradas em ordem, como que estrelas, na medida em que ficam aquém daquela claridade da sabedoria que alegra o dia supramencionado, são apenas para o governo da noite. Pois são necessárias àqueles a quem o Teu servo mais prudente não podia falar como a espirituais, mas como a carnais; ele mesmo, que fala sabedoria entre os que são perfeitos. Mas o homem natural, como que uma criança em Cristo e alimentado com leite, até que seja fortalecido para o alimento sólido e o seu olho seja habilitado a contemplar o Sol, não habite ele numa noite abandonada de toda a luz, mas contente-se com a luz da lua e das estrelas. Assim falas Tu a nós, nosso Deus Todo-Sábio, no Teu Livro, o Teu firmamento; para que possamos discernir todas as coisas, numa admiração contemplativa; embora ainda em sinais e em tempos, e em dias, e em anos.

Mas primeiro, lavai-vos, purificai-vos; tirai a maldade das vossas almas, e de diante dos meus olhos, para que a terra seca apareça. Aprendei a fazer o bem, julgai o órfão, pleiteai pela viúva, para que a terra possa produzir a erva verde para alimento, e a árvore que dá fruto; e vinde, raciocinemos juntos, diz o Senhor, para que haja luzes no firmamento do céu, e elas brilhem sobre a terra. Aquele homem rico perguntou ao bom Mestre, o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. Que o bom Mestre lhe diga (a quem ele pensava não ser mais do que homem; mas Ele é bom porque é Deus), que lhe diga, se ele quisesse entrar na vida, deve guardar os mandamentos: que tire de si a amargura da malícia e da maldade; não matar, não cometer adultério, não furtar, não dar falso testemunho; para que a terra seca apareça, e produza a honra do pai e da mãe, e o amor ao nosso próximo. Tudo isto (diz ele) tenho guardado. De onde então tantos espinhos, se a terra é frutífera? Vai, arranca as moitas espalhadas da cobiça; vende o que tens, e sê preenchido com fruto, dando aos pobres, e terás um tesouro no céu; e segue o Senhor se quiseres ser perfeito, associado àqueles entre os quais Ele fala a sabedoria, Ele que sabe o que distribuir ao dia, e à noite, para que tu também o saibas, e para ti haja luzes no firmamento do céu; o que não será, a menos que o teu coração esteja lá: nem isso também será, a menos que lá esteja o teu tesouro; como ouviste do bom Mestre. Mas aquela terra estéril entristeceu-se; e os espinhos sufocaram a palavra.

Mas vós, geração eleita, vós coisas fracas do mundo, que abandonastes tudo, para que possais seguir o Senhor; ide após Ele, e confundis os poderosos; ide após Ele, vós belos pés, e brilhai no firmamento, para que os céus possam declarar a Sua glória, dividindo entre a luz dos perfeitos, ainda que não como os anjos, e as trevas dos pequeninos, ainda que não desprezados. Brilhai sobre a terra; e que o dia, iluminado pelo sol, profira ao dia, o discurso da sabedoria; e a noite, brilhando com a lua, mostre à noite, a palavra da ciência. A lua e as estrelas brilham para a noite; contudo, a noite não as obscurece, visto que elas a iluminam no seu grau. Pois eis Deus dizendo, como que: Haja luzes no firmamento do céu; veio subitamente um som do céu, como se fosse o impetuoso de um vento forte, e apareceram línguas repartidas como de fogo, e pousou sobre cada um deles. E foram feitas luzes no firmamento do céu, tendo a palavra da vida. Correi por toda a parte, vós fogos santos, vós belos fogos; pois vós sois a luz do mundo, nem sois postos debaixo de um alqueire; Aquele a quem vós estais apegados, é exaltado, e exaltou-vos. Correi por toda a parte, e sede conhecidos a todas as nações.

Que o mar também conceba e produza as vossas obras; e que as águas produzam o ser movente que tem vida. Pois vós, separando o precioso do vil, sois feitos a boca de Deus, por quem Ele diz: Produzam as águas, não o ser vivente que a terra produz, mas o ser movente que tem vida, e as aves que voam acima da terra. Pois os Teus Sacramentos, ó Deus, pelo ministério dos Teus santos, moveram-se entre as ondas das tentações do mundo, para santificar os gentios no Teu Nome, no Teu Batismo. E entre estas coisas, muitas grandes maravilhas foram feitas, como que grandes baleias: e as vozes dos Teus mensageiros voando acima da terra, no firmamento aberto do Teu Livro; sendo postos sobre eles, como a sua autoridade sob a qual eles haviam de voar, para onde quer que fossem. Pois não há fala nem língua, onde a sua voz não seja ouvida: visto que o seu som se espalhou por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo, porque Tu, Senhor, multiplicaste-os pela bênção.

Falo falsamente, ou misturo e confundo, e não distingo entre o conhecimento lúcido destas coisas no firmamento do céu, e as obras materiais no mar ondulante, e debaixo do firmamento do céu? Pois daquelas coisas das quais o conhecimento é substancial e definido, sem qualquer aumento por geração, como que luzes de sabedoria e ciência, contudo, mesmo delas, as operações materiais são muitas e diversas; e uma coisa crescendo de outra, elas são multiplicadas pela Tua bênção, ó Deus, que refrescaste a fastidiosidade dos sentidos mortais; para que assim uma coisa no entendimento da nossa mente, possa, pelos movimentos do corpo, ser de muitas maneiras exposta, e expressa. Estes Sacramentos produziram as águas; mas na Tua palavra. As necessidades do povo estranhado da eternidade da Tua verdade, produziram-nos, mas no Teu Evangelho; porque as próprias águas lançaram-nos para fora, cuja amargura doentia foi a causa, pela qual eles foram enviados na Tua Palavra.

Agora, todas as coisas são belas que Tu fizeste; mas eis que Tu mesmo és inefavelmente mais belo, que fizeste todas; de quem se Adão não tivesse caído, a salinidade do mar nunca teria fluído dele, isto é, a raça humana tão profundamente curiosa, e tempestuosamente inchada, e inquietamente rolando para cima e para baixo; e então não teria havido necessidade dos Teus dispensadores trabalharem em muitas águas, de uma maneira corpórea e sensível, fazeres e dizeres misteriosos. Pois tais parecem-me significar agora aqueles seres moventes e voadores, pelos quais pessoas sendo iniciadas e consagradas por Sacramentos corpóreos, não progrediam mais, a menos que a sua alma tivesse uma vida espiritual, e a menos que depois da palavra de admissão, olhasse em frente para a perfeição.

E por isto, na Tua Palavra, não a profundidade do mar, mas a terra separada da amargura das águas, produz, não o ser movente que tem vida, mas a alma vivente. Pois agora não tem ela mais necessidade de batismo, como os pagãos têm, e como ela própria tinha, quando estava coberta com as águas; (pois não há outra entrada para o reino dos céus, desde que Tu designaste que esta deveria ser a entrada): nem procura ela a maravilha dos milagres para operar a crença; pois não é tal, que a menos que veja sinais e maravilhas, não acreditará, agora que a terra fiel está separada das águas que eram amargas com a infidelidade; e as línguas são para um sinal, não para os que creem, mas para os que não creem. Nem então precisa aquela terra que Tu fundaste sobre as águas, daquele tipo voador, que à Tua palavra as águas produziram. Envia Tu a Tua palavra para dentro dela pelos Teus mensageiros: pois falamos do seu trabalho, contudo és Tu que operas neles para que eles possam operar uma alma vivente nela. A terra produz-na, porque a terra é a causa de que eles operem isto na alma; como o mar era a causa de que eles operassem sobre os seres moventes que têm vida, e as aves que voam debaixo do firmamento do céu, dos quais a terra não tem necessidade; embora se alimente daquele peixe que foi tirado do abismo, sobre aquela mesa que Tu preparaste na presença dos que creem. Pois por isso foi Ele tirado do abismo, para que pudesse alimentar a terra seca; e a ave, embora criada no mar, é contudo multiplicada sobre a terra. Pois das primeiras pregações dos Evangelistas, a infidelidade do homem foi a causa; contudo os fiéis são também exortados e abençoados por eles multiplicadamente, de dia para dia. Mas a alma vivente toma o seu começo da terra: pois beneficia apenas aqueles que já estão entre os Fiéis, a conterem-se do amor deste mundo, para que assim a sua alma possa viver para Ti, que estava morta enquanto vivia em prazeres; em prazeres mortíferos, Senhor, pois Tu, Senhor, és o deleite vivificante do coração puro.

Agora pois, que os Teus ministros trabalhem sobre a terra, -- não como sobre as águas da infidelidade, pela pregação e fala por milagres, e Sacramentos, e palavras místicas; onde a ignorância, a mãe da admiração, poderia estar atenta a eles, por uma reverência para com aqueles sinais secretos. Pois tal é a entrada para a Fé para os filhos de Adão esquecidos de Ti, enquanto eles se escondem da Tua face, e se tornam um abismo sombrio. Mas -- que os Teus ministros trabalhem agora como em terra seca, separada dos redemoinhos do grande abismo: e que eles sejam um modelo para os Fiéis, vivendo diante deles, e estimulando-os à imitação. Pois assim os homens ouvem, de modo a não ouvir apenas, mas a fazer também. Buscai o Senhor, e a vossa alma viverá, para que a terra possa produzir a alma vivente. Não vos conformeis com este mundo. Contendei-vos dele: a alma vive evitando aquilo por que morre ao afetar. Contendei-vos da selvageria desenfreada do orgulho, da voluptuosidade preguiçosa do luxo, e do falso nome da ciência: para que assim as feras sejam domadas, o gado posto sob o jugo, as serpentes, inofensivas. Pois estes são os movimentos da nossa mente sob uma alegoria; isto é, a altivez do orgulho, o deleite da luxúria, e o veneno da curiosidade, são os movimentos de uma alma morta; pois a alma não morre de modo a perder todo o movimento; porque ela morre abandonando a fonte da vida, e assim é captada por este mundo transitório, e é conformada a ele.

Mas a Tua palavra, ó Deus, é a fonte da vida eterna; e não passa: por isso este desvio da alma é restringido pela Tua palavra, quando nos é dito: Não vos conformeis com este mundo; para que assim a terra possa na fonte da vida produzir uma alma vivente; isto é, uma alma feita continente na Tua Palavra, pelos Teus Evangelistas, seguindo os seguidores do Teu Cristo. Pois isto é segundo a sua espécie; porque o homem costuma imitar o seu amigo. Sede (diz ele) como eu sou, porque eu também sou como vós sois. Assim, nesta alma vivente haverá boas bestas, na mansidão da ação (pois Tu ordenaste: Segue com os teus negócios na mansidão, assim serás amado por todos os homens); e bom gado, que nem se comer, terá sobreabundância, nem, se não comer, terá qualquer falta; e boas serpentes, não perigosas para fazer mal, mas sábias para se acautelarem; e fazendo apenas tanta busca nesta natureza temporal, quanto possa bastar para que a eternidade seja claramente vista, sendo entendida pelas coisas que são feitas. Pois estas criaturas são obedientes à razão, quando, sendo restringidas de prevalecerem mortalmente sobre nós, elas vivem, e são boas.

Pois eis, ó Senhor, nosso Deus, nosso Criador, quando as nossas afeições foram restringidas do amor do mundo, pelo qual morremos através do mau viver; e começamos a ser uma alma vivente, através do bom viver; e a Tua palavra que Tu disseste pelo Teu apóstolo, é feita boa em nós: Não vos conformeis com este mundo: segue-se aquilo também, que Tu acrescentaste imediatamente, dizendo: Mas sede transformados pela renovação da vossa mente; não agora segundo a vossa espécie, como que seguindo o teu próximo que foi antes de ti, nem como vivendo segundo o exemplo de algum homem melhor (pois Tu não disseste: "Seja feito o homem segundo a sua espécie", mas: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança), para que pudéssemos provar qual é a Tua vontade. Pois com este propósito disse aquele Teu dispensador (que gerou filhos pelo Evangelho), para que ele não os tivesse para sempre como crianças, a quem ele deve ser forçado a alimentar com leite, e acarinhar como uma ama; sede transformados (diz ele) pela renovação da vossa mente, para que possais provar qual é aquela boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Por onde não dizes Tu: "Seja feito o homem", mas: Façamos o homem. Nem disseste Tu: "segundo a sua espécie"; mas, à nossa imagem e semelhança. Pois sendo o homem renovado na sua mente, e contemplando e entendendo a Tua verdade, não precisa do homem como seu diretor, de modo a seguir a sua espécie; mas pela Tua direção prova qual é aquela boa, agradável e perfeita vontade Tua: sim, Tu ensinas-lhe, agora feito capaz, a discernir a Trindade da Unidade, e a Unidade da Trindade. Por onde àquilo dito no plural: Façamos o homem, é ainda acrescentado no singular: E Deus fez o homem: e àquilo dito no plural: À nossa semelhança, é acrescentado no singular: À imagem de Deus. Assim é o homem renovado no conhecimento de Deus, à imagem dAquele que o criou: e sendo feito espiritual, julga todas as coisas (todas as coisas que devem ser julgadas), contudo ele mesmo não é julgado por ninguém.

Mas que ele julga todas as coisas, isto responde a ele ter domínio sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre todo o gado e feras, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que rasteja sobre a terra. Pois isto ele faz pelo entendimento da sua mente, pelo qual percebe as coisas do Espírito de Deus; enquanto que, de outra forma, sendo o homem colocado em honra, não tinha entendimento, e é comparado às bestas brutas, e tornou-se como elas. Na Tua Igreja, portanto, ó nosso Deus, segundo a Tua graça que Tu concedeste a ela (pois nós somos a Tua obra criada para boas obras), não apenas aqueles que estão espiritualmente postos sobre ela, mas eles também que estão espiritualmente sujeitos àqueles que estão sobre eles -- pois desta maneira fizeste Tu o homem macho e fêmea, na Tua graça espiritual, onde, segundo o sexo do corpo, não há macho nem fêmea, porque nem Judeu nem Grego, nem servo nem livre. -- As pessoas espirituais (quer sejam as que estão postas sobre, quer sejam as que obedecem); julgam espiritualmente; não daquele conhecimento espiritual que brilha no firmamento (pois eles não devem julgar quanto a tão suprema autoridade), nem podem julgar do Teu Livro mesmo, ainda que algo ali não brilhe claramente; pois submetemos o nosso entendimento a ele, e temos por certo, que mesmo o que está fechado à nossa vista, é contudo corretamente e verdadeiramente falado. Pois assim o homem, embora agora espiritual e renovado no conhecimento de Deus à imagem dAquele que o criou, deve ser um fazedor da lei, não um juiz. Nem julga ele daquela distinção de homens espirituais e carnais, que são conhecidos aos Teus olhos, ó nosso Deus, e não se descobriram ainda a nós pelas obras, para que pelos seus frutos os pudéssemos conhecer: mas Tu, Senhor, conheces-os mesmo agora, e dividiste-os e chamaste-os em segredo, antes mesmo que o firmamento fosse feito. Nem julga ele, embora espiritual, o povo inquieto deste mundo; pois que tem ele que ver com julgar os que estão fora, não sabendo qual deles virá doravante para a doçura da Tua graça; e qual continuará na amargura perpétua da impiedade?

O homem, pois, a quem criaste à Tua própria imagem, não recebeu domínio sobre as luzes do céu, nem sobre aquele céu oculto em si mesmo, nem sobre o dia e a noite, que chamaste antes da fundação do céu, nem sobre a reunião das águas, que é o mar; mas recebeu domínio sobre os peixes do mar, e as aves do céu, e sobre todo o gado, e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra. Pois ele julga e aprova o que encontra de correto, e desaprova o que encontra de errado, seja na celebração daqueles Sacramentos pelos quais tais pessoas são iniciadas, conforme a Tua misericórdia as busca em muitas águas: ou naquilo em que aquele Peixe é apresentado, o qual, tirado do abismo, a terra devota consome: ou nas expressões e sinais das palavras, sujeitas à autoridade do Teu Livro — sinais tais como os que procedem da boca e ressoam, voando como que sob o firmamento, ao interpretar, expor, discorrer, disputar, consagrar ou orar a Ti, de modo que o povo possa responder, Amém. A pronúncia vocal de todas essas palavras é ocasionada pelo abismo deste mundo e pela cegueira da carne, que não pode ver os pensamentos; de modo que é necessário falar em voz alta aos ouvidos; de forma que, embora as aves que voam se multipliquem sobre a terra, elas derivam o seu começo das águas. O homem espiritual julga também, aprovando o que é correto e desaprovando o que encontra de errado, nas obras e vidas dos fiéis; as suas esmolas, como que a terra produzindo fruto, e da alma vivente, vivendo pela domesticação das afeições, na castidade, no jejum, nas santas meditações; e daquelas coisas que são percebidas pelos sentidos do corpo. Sobre todas estas coisas se diz agora que ele julga, nas quais ele tem também o poder de correção.

Mas que é isto, e que espécie de mistério? Eis que abençoas o gênero humano, ó Senhor, para que cresça, se multiplique e encha a terra; não nos dás com isso uma pista para entendermos algo? Por que não abençoaste também a luz, que chamaste dia; nem o firmamento do céu, nem as luzes, nem as estrelas, nem a terra, nem o mar? Eu poderia dizer que Tu, ó Deus, que nos criaste à Tua Imagem, eu poderia dizer que foi do Teu agrado conceder esta bênção peculiarmente ao homem; se não tivesses, de modo semelhante, abençoado os peixes e as baleias, para que crescessem, se multiplicassem e enchessem as águas do mar, e que as aves fossem multiplicadas sobre a terra. Eu poderia dizer, do mesmo modo, que esta bênção pertencia propriamente a tais criaturas que são geradas da sua própria espécie, se eu a tivesse encontrado dada às árvores frutíferas, e às plantas, e aos animais da terra. Mas agora, nem às ervas, nem às árvores, nem aos animais, nem às serpentes é dito: Crescei e multiplicai-vos; não obstante todos estes, assim como os peixes, as aves ou os homens, aumentarem pela geração e continuarem a sua espécie.

Que direi então, ó Verdade, minha Luz? "Que foi dito ociosamente, e sem sentido?" Não assim, ó Pai de piedade, longe de um ministro da Tua palavra dizer tal coisa. E se não compreendo o que queres dizer com essa frase, que os melhores do que eu, isto é, aqueles de mais entendimento do que eu, façam melhor uso dela, conforme Tu, meu Deus, deste a cada homem para compreender. Mas que a minha confissão também seja agradável aos Teus olhos, na qual confesso a Ti, que creio, ó Senhor, que não falaste assim em vão; nem suprimirei o que esta lição me sugere. Pois é verdade, nem vejo o que me impediria de entender assim os ditos figurados da Tua Bíblia. Pois sei que uma coisa é significada de múltiplas maneiras por expressões corpóreas, a qual é entendida de uma só forma pela mente; e aquilo entendido de muitas maneiras na mente, que é significado de uma só forma por expressão corpórea. Eis que o único amor a Deus e ao nosso próximo, por quantos múltiplos sacramentos, e inumeráveis línguas, e em cada língua individual, em quão inumeráveis modos de falar, é corporealmente expresso. Assim crescem e se multiplicam os frutos das águas. Observa de novo, tu que lês isto; eis que o que a Escritura entrega, e a voz pronuncia de uma só maneira, No princípio criou Deus o céu e a terra; não é compreendido de múltiplas formas, não através de qualquer engano de erro, mas por vários tipos de sentidos verdadeiros? Assim crescem e se multiplicam os frutos do homem.

Se, portanto, concebemos as naturezas das coisas em si mesmas, não alegoricamente, mas propriamente, então a frase crescei e multiplicai-vos concorda com todas as coisas que vêm de semente. Mas se tratamos das palavras como ditas figurativamente (o que suponho ser antes o propósito da Escritura, que certamente não atribui de forma supérflua esta bênção aos frutos dos animais aquáticos e ao homem apenas); então encontramos a "multidão" pertencente a criaturas espirituais assim como corpóreas, como no céu e na terra; e a justos e injustos, como na luz e nas trevas; e a santos autores que foram os ministros da Lei para nós, como no firmamento que é estabelecido entre as águas e as águas; e à sociedade de pessoas ainda na amargura da infidelidade, como no mar; e ao zelo das almas santas, como na terra seca; e às obras de misericórdia pertencentes a esta vida presente, como nas ervas que dão semente e nas árvores que dão fruto; e aos dons espirituais expostos para edificação, como nas luzes do céu; e às afeições formadas para a temperança, como na alma vivente. Em todas estas instâncias encontramos multidões, abundância e aumento; mas o que crescerá e se multiplicará de tal maneira que uma coisa possa ser expressa de muitas maneiras, e uma expressão compreendida de muitas maneiras; não encontramos, exceto em sinais corporealmente expressos, e em coisas mentalmente concebidas. Por sinais corporealmente pronunciados entendemos as gerações das águas, necessariamente ocasionadas pelo abismo da carne; por coisas mentalmente concebidas, as gerações humanas, devido à fecundidade da razão. E para este fim acreditamos que Tu, Senhor, disseste a estes tipos: Crescei e multiplicai-vos. Pois nesta bênção, concebo que nos concedeste um poder e uma faculdade, tanto para expressar de várias maneiras o que entendemos de uma só, quanto para entender de várias maneiras o que lemos ser obscuramente entregue de uma só. Assim são reabastecidas as águas do mar, que não são movidas senão por várias significações: assim com o aumento humano é a terra também reabastecida, cuja secura aparece no seu anseio, e a razão governa sobre ela.

Eu diria também, ó Senhor meu Deus, o que a Escritura seguinte me recorda; sim, direi, e não temerei. Pois direi a verdade, inspirando-me Tu mesmo com o que desejaste que eu entregasse a partir daquelas palavras. Mas por nenhuma outra inspiração que não a Tua, creio falar a verdade, vendo que Tu és a Verdade, e todo homem é mentiroso. Aquele, portanto, que fala a mentira, fala do que é seu; para que, portanto, eu possa falar a verdade, falarei das Tuas. Eis que nos deste como alimento toda erva que dá semente que está sobre toda a terra; e toda árvore, em que há o fruto de uma árvore que dá semente. E não apenas a nós, mas também a todas as aves do céu, e aos animais da terra, e a todos os répteis; mas aos peixes e às grandes baleias, não lhos deste. Ora, dissemos que por estes frutos da terra eram significadas, e figuradas em alegoria, as obras de misericórdia que são providas para as necessidades desta vida a partir da terra frutífera. Tal terra foi o devoto Onesíforo, a cuja casa deste misericórdia, porque ele frequentemente refrescou o Teu Paulo, e não se envergonhou das suas cadeias. Assim fizeram também os irmãos, e tal fruto produziram, os que da Macedônia supriram o que lhe faltava. Mas como ele se entristeceu por algumas árvores, que não lhe ofereceram o fruto devido, onde ele diz: Na minha primeira defesa ninguém me assistiu, antes todos me desampararam. Rogo a Deus que não lhes seja imputado. Pois estes frutos são devidos àqueles que nos ministram a doutrina espiritual a partir do seu entendimento dos mistérios divinos; e são devidos a eles, como homens; sim, e devidos a eles também, como alma vivente, que se dá como exemplo, em toda continência; e devidos a eles também, como criaturas aladas, pelas suas bênçãos que são multiplicadas sobre a terra, porque o seu som saiu por todas as terras.

Mas eles são alimentados por estes frutos, que se deleitam com eles; nem se deleitam com eles aqueles cujo Deus é o seu ventre. Pois nem naqueles que os dão, as coisas dadas são o fruto, mas com que mente as dão. Aquele, portanto, que serviu a Deus, e não ao seu próprio ventre, vejo claramente por que se alegrou; vejo-o, e alegro-me com ele. Pois ele tinha recebido dos Filipenses o que eles lhe tinham enviado por Epafrodito: e ainda assim percebo por que ele se alegrou. Pois naquilo em que ele se alegrou, disso ele se alimentou; pois, falando em verdade, alegrei-me (diz ele) muito no Senhor, que agora, finalmente, a vossa preocupação comigo floresceu de novo, na qual vós também vos preocupáveis, mas tinha-se tornado fastidiosa para vós. Estes Filipenses, então, tinham-se secado com um longo cansaço, e murchado, por assim dizer, quanto a dar este fruto de uma boa obra; e ele alegra-se por eles, que floresceram de novo, não por si mesmo, que eles supriram as suas necessidades. Portanto, acrescenta ele, não que fale por necessidade, pois aprendi a contentar-me em qualquer estado em que esteja. Sei ser humilhado, e sei também ter abundância; em toda a parte e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome; tanto a ter abundância como a padecer necessidade. Tudo posso nAquele que me fortalece.

Em que te alegras então, ó grande Paulo? Em que te alegras? De que te alimentas, ó homem, renovado no conhecimento de Deus, à imagem d'Aquele que te criou, tu, alma vivente, de tanta continência, tu, língua como aves aladas, falando mistérios? (Pois a tais criaturas é devido este alimento;) o que é que te alimenta? A alegria. Ouçamos o que se segue: contudo, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. Nisto ele se alegra, disto se alimenta; porque eles fizeram bem, não porque a sua angústia foi aliviada, ele que diz a Ti: Tu me dilataste quando estava em aperto; pois que ele sabia ter abundância e padecer necessidade, em Ti, que o fortaleces. Pois vós, Filipenses, também sabeis (diz ele), que no princípio do Evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma Igreja comunicou comigo no tocante a dar e receber, senão vós somente. Pois também em Tessalônica enviastes uma e outra vez à minha necessidade. Nestas boas obras ele agora se alegra que retornaram; e se regozija que floresceram de novo, como quando um campo frutífero retoma o seu verde.

Foi pelas suas próprias necessidades, porque ele disse: Enviastes à minha necessidade? Alegra-se ele por isso? Verdadeiramente não por isso. Mas como sabemos isto? Porque ele mesmo diz imediatamente: não porque desejo dádiva, mas desejo fruto. Aprendi de Ti, meu Deus, a distinguir entre uma dádiva e um fruto. A dádiva é a coisa em si mesma que ele dá, que reparte estes bens necessários a nós; como dinheiro, comida, bebida, vestuário, abrigo, ajuda: mas o fruto é a boa e reta vontade de quem dá. Pois o Bom Mestre não disse apenas: Aquele que recebe um profeta, mas acrescentou: em nome de profeta: nem disse apenas: Aquele que recebe um homem justo, mas acrescentou: em nome de justo. Assim, verdadeiramente, o um receberá o galardão de profeta, o outro, o galardão de justo: nem diz Ele apenas: Aquele que der de beber um copo de água fria a um dos meus pequeninos; mas acrescentou: em nome de discípulo: e assim conclui: Em verdade vos digo, não perderá o seu galardão. A dádiva é receber um profeta, receber um homem justo, dar um copo de água fria a um discípulo: mas o fruto, fazer isto em nome de profeta, em nome de justo, em nome de discípulo. Com fruto foi Elias alimentado pela viúva que sabia que alimentava um homem de Deus, e por isso o alimentou: mas pelo corvo foi ele alimentado com uma dádiva. Nem o homem interior de Elias foi assim alimentado, mas apenas o exterior; o qual poderia também, por falta desse alimento, ter perecido.

Direi então o que é verdadeiro aos Teus olhos, ó Senhor, que quando homens carnais e infiéis (para ganhar e iniciar os quais os Sacramentos iniciatórios e as grandes obras de milagres são necessários, os quais supomos serem significados pelo nome de peixes e baleias) empreendem o refresco corporal, ou de outra forma socorrem o Teu servo com algo útil para esta vida presente; enquanto eles ignoram por que isto deve ser feito, e para que fim; nem eles alimentam estes, nem estes são alimentados por eles; porque nem os primeiros o fazem por uma intenção santa e reta; nem os últimos se alegram com as suas dádivas, cujo fruto eles ainda não contemplam. Pois é disso que a mente se alimenta, do que ela se alegra. E, portanto, não se alimentam os peixes e as baleias de tais comidas, como a terra não produz senão depois de ter sido separada e dividida da amargura das ondas do mar.

E Tu, ó Deus, viste tudo o que tinhas feito, e, eis que era muito bom. Sim, nós também vemos o mesmo, e eis que todas as coisas são muito boas. Dos vários tipos das Tuas obras, quando disseste "sejam", e elas foram, viste cada uma que era boa. Sete vezes contei estar escrito que viste que o que fizeste era bom: e esta é a oitava, que viste tudo o que tinhas feito, e, eis que não era apenas bom, mas também muito bom, sendo agora tudo em conjunto. Pois separadamente, eram apenas boas; mas em conjunto, tanto boas quanto muito boas. Todos os corpos belos expressam o mesmo; pela razão de que um corpo constituído de membros todos belos é muito mais belo do que os mesmos membros por si sós, cuja mistura bem ordenada aperfeiçoa o todo; não obstante os membros, separadamente, também serem belos.

E procurei atentamente encontrar se sete ou oito vezes viste que as Tuas obras eram boas, quando elas Te agradaram; mas no Teu ver não encontrei tempos, pelos quais eu pudesse entender que viste tantas vezes o que fazias. E disse: "Senhor, não é esta Tua Escritura verdadeira, já que Tu és verdadeiro, e sendo a Verdade, a estabeleceste? Por que então me dizes: 'que no Teu ver não há tempos'; enquanto esta Tua Escritura me diz que, o que fazias a cada dia, viste que era bom: e quando os contei, encontrei quantas vezes?" A isto Tu me respondes, pois és o meu Deus, e com uma voz forte dizes ao Teu servo no seu ouvido interior, rompendo a minha surdez e clamando: "Ó homem, o que a Minha Escritura diz, Eu digo: e contudo ela fala no tempo; mas o tempo não tem relação com a Minha Palavra; porque a Minha Palavra existe em igual eternidade Comigo. Assim, as coisas que vós vedes através do Meu Espírito, Eu vejo; como o que falais pelo Meu Espírito, Eu falo. E assim, quando vedes essas coisas no tempo, Eu não as vejo no tempo; como quando falais no tempo, Eu não as falo no tempo."

E ouvi, ó Senhor meu Deus, e bebi uma gota de doçura da Tua verdade, e entendi que há certas pessoas que não gostam das Tuas obras; e dizem que muitas delas Tu fizeste, compelido pela necessidade; como a fábrica dos céus e a harmonia das estrelas; e que não as fizeste do que era Teu, mas que foram criadas alhures e de outras fontes, para que Tu as reunisses e compactasses e combinasses, quando dos Teus inimigos vencidos levantaste as paredes do universo; para que elas, presas pela estrutura, não pudessem novamente rebelar-se contra Ti. Quanto a outras coisas, dizem que nem as fizeste, nem as compactaste, como toda a carne e todas as criaturas muito minúsculas, e tudo o que tem a sua raiz na terra; mas que uma mente em inimizade Contigo, e outra natureza não criada por Ti, e contrária a Ti, engendrou e formou estas coisas nestes estágios inferiores do mundo. Enlouquecidos estão eles que dizem assim, porque não veem as Tuas obras pelo Teu Espírito, nem Te reconhecem nelas.

Mas aqueles que pelo Teu Espírito veem estas coisas, Tu vês neles. Portanto, quando eles veem que estas coisas são boas, Tu vês que elas são boas; e todas as coisas que por Tua causa agradam, Tu agradas nelas, e o que através do Teu Espírito nos agrada, elas agradam-Te em nós. Pois qual homem conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós (diz ele) recebemos não o espírito deste mundo, mas o Espírito que é de Deus, para que pudéssemos conhecer as coisas que gratuitamente nos são dadas por Deus. E sou advertido: "Verdadeiramente, as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus: como então nós também sabemos que coisas nos são dadas por Deus?" Resposta me é feita: "porque as coisas que conhecemos pelo Seu Espírito, mesmo estas ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Pois, como é corretamente dito àqueles que haviam de falar pelo Espírito de Deus: não sois vós que falais: assim é corretamente dito àqueles que conhecem através do Espírito de Deus: 'Não sois vós que conheceis'. E não menos então é corretamente dito àqueles que veem através do Espírito de Deus: 'Não sois vós que vedes'; assim, tudo o que através do Espírito de Deus eles veem ser bom, não são eles, mas Deus que vê que é bom." Uma coisa é, pois, para um homem pensar que é mau o que é bom, como fazem os supraditos; outra, que o que é bom, um homem deve ver que é bom (como as Tuas criaturas agradam a muitos, porque são boas, a quem contudo Tu não agradas nelas, quando preferem desfrutá-las a Ti); e outra, que quando um homem vê que uma coisa é boa, Deus nela deve ver que é boa, de tal modo, nomeadamente, que Ele seja amado naquilo que fez, Aquele que não pode ser amado, senão pelo Espírito Santo que Ele deu. Porque o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado: por Quem vemos que tudo o que em algum grau existe, é bom. Pois d'Ele é, que Ele mesmo não existe em grau, mas o que Ele É, É.

Graças a Ti, ó Senhor. Contemplamos o céu e a terra, seja a parte corpórea, superior e inferior, ou a criatura espiritual e corpórea; e no adorno destas partes, das quais a massa universal do mundo, ou melhor, a criação universal consiste, vemos a luz criada e dividida das trevas. Vemos o firmamento do céu, seja aquele corpo primário do mundo, entre as águas espirituais superiores e as águas corpóreas inferiores, ou (visto que isto também é chamado céu) este espaço de ar pelo qual vagueiam as aves do céu, entre aquelas águas que são levadas em vapores acima delas, e nas noites claras destilam em orvalho; e aquelas águas mais pesadas que fluem ao longo da terra. Contemplamos uma face de águas reunidas nos campos do mar; e a terra seca, tanto vazia quanto formada de modo a ser visível e harmonizada, e até mesmo a matéria das ervas e árvores. Contemplamos as luzes brilhando do alto, o sol para bastar ao dia, a lua e as estrelas para alegrar a noite; e que por tudo isto, os tempos sejam marcados e significados. Contemplamos por todos os lados um elemento úmido, repleto de peixes, feras e aves; porque a densidade do ar, que sustenta os voos das aves, torna-se espessa pela exalação das águas. Contemplamos a face da terra ornamentada com criaturas terrenas, e o homem, criado à Tua imagem e semelhança, mesmo através dessa Tua própria imagem e semelhança (isto é, o poder da razão e do entendimento), colocado sobre todas as criaturas irracionais. E como em sua alma existe um poder que tem domínio dirigindo, outro feito sujeito, para que possa obedecer; assim foi para o homem, corporalmente também, feita uma mulher, que na mente de seu entendimento racional deveria ter uma paridade de natureza, mas no sexo de seu corpo, deveria estar da mesma maneira sujeita ao sexo de seu marido, assim como o apetite de fazer anseia por conceber a habilidade de bem-fazer a partir da razão da mente. Estas coisas contemplamos, e são individualmente boas, e todas juntas muito boas.

Que as Tuas obras Te louvem, para que possamos amar-Te; e que amemos a Ti, para que as Tuas obras possam louvar-Te, as quais desde o tempo têm começo e fim, nascer e pôr, crescimento e decadência, forma e privação. Têm, pois, a sua sucessão de manhã e tarde, parte secretamente, parte aparentemente; pois foram feitas do nada, por Ti, não de Ti; não de qualquer matéria que não fosse Tua, ou que fosse anterior, mas de matéria cocriada (isto é, ao mesmo tempo criada por Ti), porque ao seu estado sem forma, Tu, sem qualquer intervalo de tempo, deste forma. Pois vendo que a matéria do céu e da terra é uma coisa, e a forma outra, fizeste a matéria meramente do nada, mas a forma do mundo a partir da matéria sem forma: contudo ambas juntas, de modo que a forma seguisse a matéria, sem qualquer intervalo de atraso.

Examinamos também o que quiseste que fosse prefigurado, seja pela criação, ou pela relação das coisas em tal ordem. E vimos que as coisas isoladamente são boas, e juntas muito boas, em Tua Palavra, em Teu Unigênito, tanto o céu quanto a terra, a Cabeça e o corpo da Igreja, em Tua predestinação antes de todos os tempos, sem manhã e tarde. Mas quando começaste a executar no tempo as coisas predestinadas, para que pudesses revelar coisas ocultas, e retificar nossas desordens; pois nossos pecados pairavam sobre nós, e tínhamos afundado no abismo escuro; e Teu bom Espírito era levado sobre nós, para nos ajudar no devido tempo; e Tu justificaste os ímpios, e os divides dos iníquos; e fizeste o firmamento da autoridade do Teu Livro entre aqueles colocados acima, que deveriam ser dóceis a Ti, e aqueles sob eles, que deveriam estar sujeitos a eles: e reuniste a sociedade dos descrentes em uma conspiração, para que o zelo dos fiéis pudesse aparecer, e eles pudessem produzir obras de misericórdia, distribuindo aos pobres suas riquezas terrenas, para obter as celestiais. E depois disto acendeste certas luzes no firmamento, Teus Santos, tendo a palavra da vida; e brilhando com uma autoridade eminente posta no alto através de dons espirituais; depois disso novamente, para a iniciação dos gentios descrentes, produziste da matéria corpórea os Sacramentos, e milagres visíveis, e formas de palavras de acordo com o firmamento do Teu Livro, pelas quais os fiéis deveriam ser abençoados e multiplicados. Em seguida, formaste a alma vivente dos fiéis, através de afeições bem ordenadas pelo vigor da continência: e depois disso, a mente sujeita somente a Ti e não precisando imitar nenhuma autoridade humana, renovaste à Tua imagem e semelhança; e sujeitaste as suas ações racionais à excelência do entendimento, como a mulher ao homem; e a todos os Ofícios do Teu Ministério, necessários para o aperfeiçoamento dos fiéis nesta vida, quiseste que, para seus usos temporais, coisas boas, frutíferas para eles mesmos no tempo por vir, fossem dadas pelos mesmos fiéis. Todas estas coisas vemos, e são muito boas, porque Tu as vês em nós, Tu que nos deste o Teu Espírito, pelo qual poderíamos vê-las, e nelas amar-Te.

Ó Senhor Deus, dá-nos a paz: (pois Tu nos deste todas as coisas;) a paz do descanso, a paz do Sábado, que não tem tarde. Pois todo este belíssimo conjunto de coisas muito boas, tendo terminado os seus cursos, há de passar, pois nelas houve manhã e tarde.

Mas o sétimo dia não tem tarde, nem tem pôr; porque Tu o santificaste para uma continuação eterna; para que aquilo que Tu fizeste após as Tuas obras que eram muito boas, descansando no sétimo dia, embora as tenhas feito em descanso ininterrupto, que a voz do Teu Livro nos anuncie de antemão, que nós também após as nossas obras (portanto muito boas, porque Tu nos deste), descansaremos em Ti também no Sábado da vida eterna.

Pois então descansarás em nós, como agora trabalhas em nós; e assim será esse o Teu descanso através de nós, como estas são as Tuas obras através de nós. Mas Tu, Senhor, sempre trabalhas, e estás sempre em descanso. Nem vês no tempo, nem és movido no tempo, nem descansas em um tempo; e contudo fazes as coisas vistas no tempo, sim, os próprios tempos, e o descanso que resulta do tempo.

Nós, portanto, vemos estas coisas que Tu fizeste, porque elas são: mas elas são, porque Tu as vês. E vemos por fora, que elas são, e por dentro, que elas são boas, mas Tu as viste lá, quando feitas, onde Tu as viste, ainda por fazer. E nós fomos em um tempo posterior movidos a fazer o bem, após nossos corações terem concebido o Teu Espírito; mas no tempo anterior fomos movidos a fazer o mal, abandonando-Te; mas Tu, o Único, o Bom Deus, nunca cessaste de fazer o bem. E nós também temos algumas boas obras, por Teu dom, mas não eternas; após elas confiamos descansar na Tua grande santificação. Mas Tu, sendo o Bem que não precisa de bem, estás sempre em descanso, porque o Teu descanso és Tu mesmo. E que homem pode ensinar o homem a entender isto? ou que Anjo, um Anjo? ou que Anjo, um homem? Que seja perguntado a Ti, buscado em Ti, batido à Tua porta; assim, assim será recebido, assim será encontrado, assim será aberto. Amém.

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