O FIM DO MUNDO
POR
ROBERT CROMIE Autor de "A Plunge into Space", etc.
SEGUNDA EDIÇÃO
LONDRES DIGBY, LONG & CO. 18 BOUVERIE STREET, FLEET STREET, E.C. 1895
PREFÁCIO
As notas rascunhadas a partir das quais esta narrativa foi construída foram-me entregues pelo homem que conta a história. Por razões óbvias, alterei os nomes das personagens principais e transmito aqui a garantia que recebi, de que os originais daqueles que ainda vivem podem ser encontrados, caso se julgue desejável a sua descoberta. Esta alteração de nomes, a junção de memorandos algo desconexos e por vezes quase indecifráveis, e a redução da massa a uma forma consecutiva, são tudo o que me foi exigido ou que me teria sido permitido. A expedição ao Labrador mencionada pelo narrador não regressou, nem nunca foi definitivamente localizada. Ele não se compromete a provar que alguma vez partiu. Mas afirma que tudo o que se segue está verdadeiramente relatado, e deixa à humanidade a decisão de aceitar o aviso que lhe coube transmitir, ou de aguardar a prova da sua sinceridade que ele acredita que o fim do século produzirá.
ROBERT CROMIE.
BELFAST, Maio de 1895.
ÍNDICE
CAP. PÁG.
I. O UNIVERSO UM ERRO! 1
II. UMA EXPERIÊNCIA ESTRANHA 10
III. "É BOM ESTAR VIVO" 21
IV. GEORGE DELANY--FALECIDO 32
V. O CLUBE DO ASSASSÍNIO 41
VI. UM TELEGRAMA TELEPÁTICO 51
VII. CULPADO! 62
VIII. O MISTÉRIO DE WOKING 72
IX. CUI BONO? 81
X. FORÇA--UM REMÉDIO 93
XI. MORITURI TE SALUTANT 104
XII. "NENHUMA MORTE--EXCETO NA VIDA" 111
XIII. O PLANO DA SRTA. METFORD 123
XIV. ROCKINGHAM AOS TUBARÕES 133
XV. "SE NÃO FOR TARDE DEMAIS" 146
XVI. L5000 PARA RETER O NAVIO 160
XVII. "ESTA TERRA MORRERÁ" 174
XVIII. A FUGA 184
XIX. A CATASTRÓFE 197
XX. CONCLUSÃO 208
O FIM DO MUNDO
CAPÍTULO I.
O UNIVERSO UM ERRO!
"O Universo é um erro!"
Assim falou Herbert Brande, um passageiro no Majestic, a caminho do porto de Queenstown, numa noite do início do ano passado. Por mais insensatas que as palavras possam parecer, tiveram influência, em parte, para levar à minha terrível associação com ele, e a tudo o que é descrito neste livro.
Brande estava ao meu lado, a estibordo do navio. Tínhamos estado a discutir um ensaio astronómico atual, enquanto observávamos a linha azul nebulosa da costa irlandesa erguer-se no horizonte. Esta conversa foi interrompida por Brande, que disse, impaciente:
"Por que nos falam de estrelas tão distantes deste nosso mundo insignificante — tão insignificante que até os seus próprios habitantes falam dele com desrespeito — que seriam necessárias centenas de anos para enviar um telegrama a algumas delas, milhares a outras, e milhões às restantes? Por que limitar-se a um mero milhão de anos para uma ilustração dramática, quando existe uma estrela no espaço tão distante de nós que, se um telegrama partisse da Terra para ela esta mesma noite, e mantivesse para sempre a sua velocidade inicial, nunca chegaria a essa estrela?"
Disse isto sem qualquer esforço aparente em busca de efeito retórico; mas a rapidez com que me tinha apresentado uma verdade evidente sob uma nova luz tornou a conceção da vastidão do espaço absolutamente opressiva. Na esperança de mudar de assunto, respondi:
"Nada se ganha em deter-se nestas especulações científicas. A mente fica apenas aturdida. O Universo é inexplicável."
"O Universo!" exclamou ele. "Isso explica-se facilmente. O Universo é um erro!"
"O maior erro do século, suponho", acrescentei, um pouco irritado, pois pensei que Brande estava a zombar de mim.
"Diga, do Tempo, e concordo consigo", respondeu ele, indiferente ao meu espanto.
Não lhe respondi durante alguns momentos.
Este homem, Brande, era jovem em anos, mas de meia-idade na expressão do seu rosto pálido e intelectual, e velho — se a idade for sinónimo de conhecimento — nas suas ideias. O seu conhecimento, de facto, era tão exaustivo que as pilhérias científicas a que era propenso podiam sempre ser justificadas, dialeticamente pelo menos, por ele, quando era contradito. Aqueles que o conheciam bem não discutiam com ele. Eu estava sempre a cair em armadilhas intelectuais, pois só o conhecia desde que o vapor deixara Nova Iorque.
Quanto a mim, pouco há a dizer. A minha história antes de conhecer Brande era comum. Eu era apenas um inglês ativo e atlético, Arthur Marcel pelo nome. Tinha estudado medicina e era médico em tudo, menos no diploma. Este certificado fora dispensado devido a uma herança inesperada, ao receber a qual decidi dedicá-la à promoção da minha própria diversão. Na busca deste objetivo, visitei muitas terras e tornei-me familiarizado com a maioria das rotas habituais de viagem. Regressava a Inglaterra após uma ausência de três anos passados em vaguear sem rumo. Tinha trinta e um anos, e a minha característica marcante na altura era agarrar-me a tudo o que me interessava, até que o meu humor mudasse. As divagações de conversa de Brande tinham-me divertido durante a viagem. O seu comentário extraordinário sobre o Universo decidiu-me a cimentar o nosso conhecimento de bordo antes de chegar ao porto.
"Essa sua explicação", disse eu, acendendo um charuto novo e voltando a um assunto que tinha tentado deixar de lado há pouco, "não é um pouco vaga?"
"Por enquanto, tem de servir", respondeu ele, distraído.
Para o forçar a admitir que a sua frase era apenas uma exclamação irrefletida, ou induzi-lo a defendê-la, disse:
"Não serve qualquer propósito razoável. Não acrescenta nada ao conhecimento. Tal como está, não é nem académica nem prática."
Brande olhou para mim seriamente por um momento e depois disse com gravidade:
"O valor académico da explicação ser-lhe-á mostrado se se juntar a uma sociedade que fundei; e a sua praticabilidade será em breve tornada clara, quer se junte ou não."
"Como chama a esse seu clube?" perguntei.
"Não lhe chamamos clube. Chamamos-lhe uma Sociedade — a Sociedade Cui Bono", respondeu friamente.
"Gosto do nome", retorqui. "É sugestivo. Pode significar tudo — ou nada."
"Aprenderá mais tarde que a Sociedade significa algo; uma boa parte, de facto."
Isto foi dito no tom seco e sem emoção que descobri mais tarde ser o único sinal de desagrado que Brande se permitia mostrar. Os seus preparativos para desembarcar em Queenstown tinham sido feitos cedo no dia, mas deixou-me à procura da sua irmã, de quem eu tinha visto muito pouco durante a viagem. O tempo tinha estado agitado e, como ela não era uma boa navegadora, só tinha tido um vislumbre raro de uma rapariga muito morena e bonita, cuja companhia exercia sobre mim uma estranha atração, embora fôssemos então quase estranhos. De facto, lamentei profundamente, à medida que o tempo da nossa separação se aproximava, ter registado a minha bagagem (que consistia em grande parte em curiosidades e recordações das minhas viagens, das quais eu era muito cuidadoso) para Liverpool. O meu próprio tempo não tinha valor, e teria sido mais agradável para mim continuar a viagem com os Brande, não importava para onde fossem.
Havia um mar agitado quando chegámos à entrada do porto, pelo que o Majestic entrou entre os fortes Carlisle e Camden, e seguiu para as ancoradouros de navios de guerra, onde o batelão nos encontrou. Por esta altura, Brande e a sua irmã estavam prontos para desembarcar; mas como havia uma grande quantidade de correio para ser transbordada, ainda tínhamos uma hora à nossa disposição. Durante algum tempo, caminhámos pelo convés, trocando trivialidades sobre a viagem e confidências sobre os nossos planos futuros. Estava quase escuro, mas não escuro o suficiente para nos impedir de ver aquelas colinas maravilhosamente verdes que rodeiam o porto. Para mim, os bosques e colinas verdejantes eram encantadores após as planícies castanhas e as pradarias intermináveis onde tinha passado muitos meses. À medida que as luzes de Queenstown começavam a pontilhar a penumbra que lentamente se acumulava, a Srta. Brande pediu-me para apontar o Castelo de Rostellan. Não podia ser visto do navio, mas a lenda familiar foi facilmente recordada, e isto levou-nos a falar sobre a tradição irlandesa com o seu romance estranho e o seu pathos sempre presente. Isto interessou-a. Livre agora da lassidão do enjoo, a rapariga tornou-se mais fascinante para mim a cada momento. Tudo o que dizia valia a pena ser ouvido, para além da forma encantadora como era dito.
Declarar que ela era uma rapariga extremamente bonita não transmitiria a beleza estranha, quase sobrenatural, do seu rosto — tão intelectual como o do seu irmão — e do encanto da sua figura esguia, mas primorosamente moldada. Nos seus olhos escuros havia uma simpatia, uma compaixão, que era nova para mim. Emocionou-me com um sentimento diferente de tudo o que a minha vida, francamente feliz, mas até então totalmente egoísta, tinha conhecido. Havia apenas uma nota na sua conversa que me irritava. Ela tendia a deslizar para as visões extraordinárias sobre a vida e a morte que eram interessantes quando formuladas pelo seu excêntrico irmão, mas que me magoavam vindas dos seus lábios. Apesar disso, o objetivo que tinha contemplado de me juntar à Sociedade de Brande — evocado como tinha sido pela sua própria observação extravagante — tomou agora uma forma definida. Eu juntar-me-ia a essa Sociedade. Seria a melhor maneira de me manter perto de Natalie Brande.
O seu irmão voltou para nós para dizer que o batelão estava prestes a deixar o navio. Tinha-nos deixado durante meia hora. Não notei a sua ausência até que ele próprio a anunciou. Ao apertarmos as mãos, disse-lhe:
"Tenho pensado sobre essa sua Sociedade. Pretendo juntar-me a ela."
"Fico muito contente", respondeu ele. "Achá-la-á uma nova sensação, totalmente fora da rota batida, que conhece tão bem."
Havia um matiz de desprezo meio benevolente na sua voz, que me escapou no momento. Respondi alegremente, sabendo que ele não se ofenderia com o que foi dito por brincadeira:
"Tenho a certeza de que sim. Se todos os membros forem tão loucos como você, será a experiência mais interessante fora de Bedlam que qualquer homem poderia desejar."
Tive um antegozo desse interesse em breve.
Enquanto a Srta. Brande caminhava para a prancha, uma lâmpada brilhou intensamente sobre o seu rosto cigano. O cabelo azul-escuro, os olhos negros e uma rosa vermelha profunda que usava no seu chapéu pareceram-me um arranjo requintado de cor harmoniosa. E o pensamento ocorreu-me de forma muito vívida, por mais trivial que possa parecer aqui, quando escrito em palavras frias: "A rainha das mulheres, e a rainha das flores". Não é precisamente assim que o meu pensamento foi, mas não o consigo descrever melhor. As subtilezas mais finas do cérebro não suportam bem a luz do dia da linguagem.
Brande puxou-a de volta e sussurrou-lhe. Depois, o rosto doce, agora ligeiramente corado, voltou-se para mim novamente.
"Oh, obrigada por esse pensamento bonito", disse ela com um sorriso agradável. "É demasiado lisonjeiro. A 'rainha das flores' é muito verdade, mas a 'rainha das mulheres!' Oh, não!" Ela fez um gesto gracioso de discordância e passou pela prancha.
À medida que o batelão desaparecia na escuridão, um pequeno pedaço de renda acenou, e eu soube vagamente que ela estava a pensar em mim. Mas como ela leu o meu pensamento tão exatamente, não o consegui dizer.
Esse conhecimento foi o meu destino ganhar.
CAPÍTULO II.
UMA EXPERIÊNCIA ESTRANHA.
Pouco depois da minha chegada a Londres, visitei Brande, na morada que me tinha dado em Brook Street. Recebeu-me com a afabilidade agradável que um homem do mundo facilmente assume, e o seu pedido de desculpas por não poder passar a noite comigo em sua casa foi um modelo de estilo social. A dificuldade no caminho era praticamente uma impossibilidade. A sua Sociedade tinha uma reunião nessa noite, e era imperativo que ele estivesse presente.
"Porque não vem você?" disse ele. "É o que poderíamos chamar uma noite de convidados. Isto é, visitantes, se forem amigos de membros, são admitidos, e como este privilégio pode não ser concedido novamente a estranhos, deveria vir antes de decidir finalmente juntar-se a nós. Tenho de ir agora, mas Natalie" (ele não disse "Srta. Brande") "irá entretê-lo e trazê-lo ao salão. É muito perto — em Hanover Square."
"Ficarei realmente muito contente por trazer a Srta. Brande ao salão", respondi, alterando a frase para corrigir a expressão demasiado condescendente de Brande.
"A mesma coisa por palavras diferentes, não é? Se prefere dessa forma, por favor, que assim seja." A sua imperturbabilidade não foi afetada.
A Srta. Brande entrou então na sala. O seu irmão, com uma palavra de pedido de desculpas renovado, deixou-nos, e pouco depois vi-o atravessar a rua e chamar um táxi que passava.
"Não deve culpá-lo por fugir", disse a Srta. Brande. "Ele tem muito em que pensar, e a Sociedade depende quase inteiramente de si próprio."
Gaguejei que não o culpava de todo, e de facto a minha renúncia era absolutamente verdadeira. Brande não me poderia ter agradado mais do que tinha feito ao aliviar-nos da sua companhia.
A Srta. Brande fez chá, que fingi apreciar na esperança de lhe agradar. Sobre isto, conversámos mais como amigos velhos e bem comprovados do que como meros conhecidos de dez dias. Apenas uma ou duas vezes, o acorde misterioso que estragava a conversa encantadora da rapariga foi tocado. Ela mudou imediatamente de assunto ao observar a minha angústia. Digo angústia, pois uma palavra mais fraca não descreveria adequadamente a emoção que senti sempre que ela se enganava no disparate pseudo-científico que era a afetação favorita do seu irmão. Pelo menos, parecia disparate para mim. Eu não podia prever então que as teses que pareciam ser meras absurdidades teóricas seriam alguma vez provadas — como o foram — realidades muito terríveis. Em assuntos de interesse educacional comum, a minha anfitriã demonstrava tal conhecimento completo da questão e facilidade em lidar com ela, que eu escutava, fascinado, enquanto ela escolhesse continuar a falar. Era uma experiência nova e deliciosa ouvir uma rapariga tão bonita como uma obra-prima pictórica, e vestida como uma beleza da corte, discursar com o conhecimento, e na linguagem, do filósofo mais antigo. Mas esta era apenas uma das muitas combinações surpreendentes na sua personalidade complexa. O meu noviciado ainda estava na sua primeira fase.
O tempo para partir para a reunião chegou demasiado cedo para o meu gosto. Decidimos caminhar, a noite estando agradável e não muito quente, e a distância era apenas um passeio de dez minutos. Num cruzamento de rua, encontrámos uma multidão invulgarmente grande para aquela vizinhança. A Srta. Brande surpreendeu-me novamente. Ela estava a observar a multidão fervilhante e a passar. Os seus olhos escuros seguiam as pessoas com um olhar estranhamente admirado e piedoso que eu não compreendia. O seu rosto, requintado na sua expressão em todos os momentos, estava agora absolutamente transformado, beatificado. Brande tinha-me falado muitas vezes de mesmerismo, clarividência e assuntos semelhantes, e ocorreu-me que ele tinha usado a sua irmã como médium, uma clarividente. O seu cérebro não estava, portanto, sob controlo normal. Decidi instantaneamente dizer-lhe na primeira oportunidade que, se ele não quisesse ver a rapariga permanentemente prejudicada, teria de reduzir a sua influência hipnótica.
"É um espetáculo bastante emocionante", disse eu tão bruscamente à Srta. Brande que ela sobressaltou-se. Queria assustá-la, mas não consegui tanto quanto desejava.
"É um espetáculo muito terrível", respondeu ela.
"Oh, não há perigo", disse eu apressadamente, e puxei a mão dela para o meu braço.
"Perigo! Eu não estava a pensar em perigo."
Como ela não retirou a mão, não infringi o silêncio que se seguiu a isto, até que uma interrupção no trânsito nos permitiu atravessar a rua. Então disse:
"Posso perguntar em que estava a pensar agora, Srta. Brande?"
"Nas pessoas — nas suas vidas — no seu trabalho — na sua miséria!"
"Garanto-lhe que muitas são muito felizes", respondi. "Você tem uma visão mórbida. A miséria não é a regra. Estou certo de que a maioria é feliz."
"Que diferença isso faz?" disse a rapariga com um suspiro. "Qual é o fim de tudo isto — o significado de tudo isto? A sua felicidade! Cui Bono?"
Caminhámos em silêncio, enquanto eu ponderava no meu espírito o que ela tinha dito. Não consegui chegar a qualquer conclusão sobre isto, a não ser que a minha antipatia pelas suas aberrações enigmáticas se tornava mais intensa à medida que o meu gosto pela própria rapariga aumentava. Para mudar o curso dos seus pensamentos e dos meus, perguntei-lhe abruptamente:
"É membro da Sociedade Cui Bono?"
"Eu! Oh, não. As mulheres não têm permissão para se juntar — por enquanto."
"Estou encantado por ouvir isso", disse eu calorosamente, "e espero que a regra continue em vigor."
Ela olhou para mim com surpresa. "Porque se importaria? Você próprio está a juntar-se."
"Isso é diferente. Não aprovo que senhoras se envolvam nestas sociedades curiosas e talvez questionáveis."
O meu comentário divertiu-a. Os seus olhos brilharam com diversão simples. A mudança na sua maneira de ser foi muito agradável para mim.
"Eu poderia ter esperado isso." Para minha extrema satisfação, ela parecia agora quase maliciosa. "O Herbert disse-me que você era um pouco--"
"Um pouco quê?"
"Bem, um pouco — não ficará irritado? Isso é bom. Ele disse um pouco — medieval."
Isto diminuiu o meu apreço pelo seu sentido de humor, e mantive uma reticência digna, que infelizmente ela considerou como mera soturnidade, até chegarmos à sala da Sociedade.
O local estava bem cheio, e a companhia, apesar dos trajes extravagantemente modernos das mulheres mais jovens, que não consigo descrever melhor do que dizendo que havia pouca diferença entre eles e os do traje masculino comum, era bastante convencional na medida em que a troca de cortesias comuns decorria. Contudo, quando qualquer membro da Sociedade se misturava com um grupo de visitantes, a conversa era logo mudada para um novo canal. Segredos da ciência, que eu estava habituado a ver como indescobríveis, eram discutidos como as mais simples trivialidades da educação. O absurdo da individualidade e a subjetividade das emoções eram ambos insistidos sem nota do paradoxo, que para mim parecia extremo. Os Associados eram altruístas pelo bem do altruísmo, não pelo bem dos seus beneficiários. Eles não eram panteístas, pois não viam nem o bem universal nem Deus, mas sim o mal em todas as coisas — eles próprios incluídos. A sua conversa, contudo, era brilhante e, com tolerância pelos seus sentimentos irritantes, possuía algo do encanto indefinível que seguia Brande. As minhas reflexões sobre esta identidade de interesse foram interrompidas pelo próprio homem. Após uma palavra de boas-vindas, disse:
"Deixe-me mostrar-lhe a nossa grande experiência; aquela que toca o nível mais alto da conquista científica na história da humanidade. Não é muito em si mesma, mas é a pioneira de muitas maravilhas."
Levou-me a um suporte de metal, sobre o qual um pequeno instrumento construído de algum metal branco estava colocado. Um grande número de fios estava ligado a várias partes do mesmo, e estes fios passavam para a parede lateral do edifício.
Na aparência, esta maravilha da micrologia, no que diz respeito à ocular e às partes superiores, era como um microscópio comum, mas o seu poder de ampliação era para mim inacreditável. Ampliava o objeto sob exame muitos milhares de vezes mais do que o microscópio mais poderoso do mundo.
Olhei através da lente superior e vi um pequeno globo suspenso no meio de uma minúscula câmara cheia de luz azul suave, ou material transparente. Circulando à volta deste globo, quatro outras esferas giravam em órbitas, algumas quase circulares, algumas elípticas, algumas parabólicas. Enquanto olhava, Brande tocou numa tecla, e os pequenos glóbulos começaram a voar mais rapidamente à volta do seu primário, e a fazer movimentos mais amplos nas suas revoluções. Outra tecla foi pressionada, e as esferas giratórias abrandaram e aproximaram-se até eu mal conseguir distinguir qualquer movimento. Os glóbulos pareciam formar uma bola sólida.
"Preste atenção agora!" exclamou Brande.
Ele tocou na primeira tecla bruscamente. Uma pequena nuvem cinzenta obscureceu a luz azul. Quando se dissipou, os globos giratórios tinham desaparecido.
"O que acha disto?" perguntou ele descuidadamente.
"O que é isto? O que significa? É o sistema solar ou algum outro sistema ilustrado em miniatura? Lamento o contratempo."
"Você está parcialmente correto", respondeu Brande. "É uma ilustração de um sistema planetário, embora pequeno. Mas não houve contratempo. Eu causei o resultado um tanto perigoso que você testemunhou, o destroço não apenas da molécula de gás dos pântanos que você estava examinando — o que qualquer químico instruído poderia fazer tão facilmente quanto eu — mas o destroço de seus átomos constituintes. Esta é uma vitória científica que ofusca o trabalho de Helmholtz, Avogadro ou Mendelejeff. O imortal Dalton em pessoa" (a palavra "imortal" foi dita com um escárnio) "poderia erguer-se de sua sepultura para testemunhá-la."
"Átomos... moléculas! Do que você está falando?" perguntei, perplexo.
"Você estava observando a morte de uma molécula — uma molécula de gás dos pântanos, como já disse. Foi causada por um processo que eu descreveria a você se pudesse reduzir o trabalho de toda a minha vida — e o de cada amador científico que me precedeu desde que o mundo começou — a meia dúzia de frases. Como isso seria difícil, devo pedir que aceite minha garantia pessoal de que você testemunhou um fato, não uma ficção da minha imaginação."
"E o seu instrumento é tão perfeito que não apenas torna visíveis as moléculas e os átomos, mas a sua difusão? É uma impossibilidade microscópica. Pelo menos, é espantoso."
"Francamente!" exclamou Brande com impaciência. "Meu instrumento certamente amplia em uma extensão maravilhosa, mas não pelo antigo dispositivo do microscópio simples, que meramente focava uma grande área de raios luminosos em uma pequena. Um processo tão bruto jamais poderia mostrar um átomo ao olho humano. Eu acrescento muito a isso. Restauro aos raios a luminosidade que perderam em sua passagem através de nossa atmosfera. Devolvo-lhes todas as suas propriedades visuais e os volto com todo o seu brilho etéreo sobre o objeto sob exame. Por maior que seja essa conquista, nego que seja espantosa. Pode espantar um papua ver seus cílios ampliados ao tamanho de um arame, ou um inglês sem instrução ver um ácaro-do-queijo ampliado ao tamanho de um mosquito. Não deveria espantar você ver um processo simples um pouco mais desenvolvido."
"Onde entra o perigo de que você falou?" perguntei com uma pretensão de interesse. Francamente, eu não acreditava em uma única palavra que Brande dissera.
"Se você consultar um livro didático comum sobre a física do éter", respondeu ele, "descobrirá que um grão de matéria contém energia suficiente, se eterizado, para elevar cem mil toneladas a quase três quilômetros. Diante de tal potencialidade, não é sensato destruir imprudentemente sequer os átomos de uma molécula."
"E os limites para este tipo de experimento científico? Onde estão eles?"
"Não há limites", disse Brande decisivamente. "Ninguém pode dizer à ciência 'até aqui e não mais além'. Ninguém jamais foi capaz de fazê-lo. Ninguém jamais será!"
CAPÍTULO III.
"É BOM ESTAR VIVO."
Entre as cartas sobre minha mesa de café da manhã, poucos dias após o encontro, havia uma endereçada com uma letra desconhecida. A escrita era firme, formada como a de um homem. Havia um leve traço de perfume no envelope que eu reconheci. Abri-a primeiro.
Era, como eu esperava, da Srta. Brande. Seu irmão tinha ido para a propriedade deles na costa sul. Ela e sua amiga, Edith Metford, iriam naquele dia. A bagagem delas já estava na estação. Eu poderia enviar o que precisasse para uma curta visita e encontrá-las às onze horas na ponte sobre o Serpentine? Era o bastante para mim. Fiz uma mala grande às pressas, enviei-a para Charing Cross e passei o tempo de que dispunha no parque, que ficava perto do meu hotel.
Embora o convite que recebi me desse prazer, eu não conseguia remover totalmente da minha mente uma vaga sensação de inquietação em relação a Herbert Brande e sua Sociedade. As opiniões avançadas que ouvira, se extremas, não eram de todo alarmantes. Mas a maneira misteriosa com que o próprio Brande falara sobre a Sociedade, e o ar ainda mais misterioso que alguns dos membros assumiam quando questionados diretamente sobre seu objetivo, sugeriam muito. Não poderia ser um partido revolucionário envolvido em uma grave intriga — um ramo de algum corpo estrangeiro cujo propósito era tão perigoso que disfarces comuns não eram considerados suficientemente seguros? Não teriam eles adotado o jargão e fingido as opiniões de fanáticos científicos como uma capa para desígnios mais sinistros e sinceros? O experimento que testemunhei poderia ser quase um milagre ou meramente um truque. Pensando nisso dessa forma, não consegui chegar a uma opinião final e, quando me perguntei em voz alta: "Do que você tem medo?", não consegui responder à minha própria pergunta. Mas decidi que adiaria minha entrada na Sociedade aguardando mais informações.
Poucos minutos antes das onze, caminhei em direção à ponte sobre o Serpentine. Nenhuma dama parecia estar nela. Havia apenas um par de jovens elegantemente vestidos, um deles fumando um cigarro. Vagueei até que um dos rapazes, aquele que não fumava, olhou para cima e me chamou. Aproximei-me sem pressa, pois me pareceu que o rapaz teria demonstrado melhor educação se tivesse vindo em minha direção, considerando minha senioridade.
"Lamento não ter notado você mais cedo. Por que não se aproximou quando nos viu?", chamou-me o jovem mais baixo e esguio.
"Em nome de... Srta... Srta...", gaguejei.
"Brande; espero que não tenha esquecido meu nome", disse Natalie Brande friamente. "Esta é minha amiga, Edith Metford. Metford, este é Arthur Marcel."
"Como vai, Marcel? Fico feliz em conhecê-lo; ouvi 'menções favoráveis' a seu respeito por parte dos Brande", disse a segunda figura de calções com naturalidade.
"Como vai, senhor... senhora... quero dizer... Srta...", atrapalhei-me, e então, em desespero, perguntei à Srta. Brande: "Isto é um tableau vivant? Qual é o significado destes disfarces?" Meu constrangimento era tão grande que minha pergunta indelicada pode ser perdoada.
"Nosso traje! Certamente você já viu mulheres vestidas de forma racional antes!", respondeu a Srta. Brande com complacência, enquanto a outra moça observava meu espanto com evidente divertimento.
Esta segunda moça, Edith Metford, era uma jovem franca e bonita, mas diferente da beleza spirituelle de Natalie Brande. Ela era visivelmente mais alta que sua amiga e de figura mais cheia. Consequentemente, ela parecia, na minha opinião, ainda menos favorecida em seu traje excêntrico, ou traje racional, do que a Srta. Brande.
"Racionalmente vestidas! Oh, sim. Conheço a saia dividida, mas..."
A Srta. Metford interrompeu-me: "Você chama a atrocidade da saia dividida de traje racional?", perguntou ela incisivamente.
"Sobre minha honra, não chamo", respondi.
Essas moças eram avançadas demais em suas ideias sobre vestimenta para mim. Nem me senti à vontade durante essa conversa, que, contudo, não pareceu constrangê-las. Propus apressadamente pegar um táxi, mas elas objetaram. Estava um dia tão lindo, preferiam caminhar, pelo menos parte do caminho. Salientei que poderia haver desvantagens nessa emenda à minha proposta.
"Que desvantagens?", perguntou a Srta. Metford.
"Por exemplo, não é provável que sejamos todos presos pela polícia?", respondi.
"Bobagem! Não estamos na Rússia", exclamaram ambas.
"O que é uma sorte para vocês", refleti, enquanto começávamos o que para mim foi uma caminhada muito desagradável. Consegui colocá-las em um táxi antes do que elas desejavam. Na estação de trem, não me ofereci para comprar suas passagens. Fazer isso, senti, só causaria ofensa. Olhares críticos nos seguiram enquanto íamos para nossa cabine. Os londrinos estão se acostumando a variedades, se não a caprichos, nos trajes femininos, mas o vestir de minhas amigas era evidentemente um pouco fora do comum, mesmo para eles. A Srta. Metford estava girando a maçaneta da porta de uma cabine quando intervi, dizendo: "Este é um compartimento para fumantes."
"Estou vendo. Vou fumar — se você não se importar?"
"Não suponho que faria qualquer diferença se eu me importasse", disse, com uma aspereza inconsciente, pois, na verdade, esse excesso de modos livres estava me incomodando. A linha que a dividia da vulgaridade estava se tornando tão tênue que eu estava perdendo de vista o divisor. Contudo, ninguém, nem mesmo o mais exigente, poderia associar vulgaridade a Natalie Brande. Permanecia um ar de sinceridade não assumida sobre ela mesma e todas as suas ações, incluindo até seu traje, que a excluíam absolutamente de críticas hostis. Não pude, no entanto, estender esse julgamento leniente à Srta. Metford. As moças falavam e agiam — como haviam se vestido — de forma muito semelhante. Apenas, o que me parecia na uma uma excentricidade natural, parecia na outra uma afetação antinatural.
Vi o guarda passando e, chamando-o, dei-lhe meia coroa para que rotulasse o compartimento como "Reservado".
A Srta. Brande, que olhava pela janela, perguntou distraidamente minha razão para essa precaução. Respondi que queria o compartimento reservado para nós. Certamente não queria nenhum passageiro olhando fixamente ou sendo ofensivo de outra forma.
"Não queremos todos os assentos", ela insistiu.
"Não", admiti. "Não queremos os assentos extras. Mas pensei que vocês gostariam da privacidade."
"O desejo por privacidade é uma emoção arcaica", observou a Srta. Metford sentenciosamente, enquanto acendia um fósforo.
"Além disso, é tão egoísta. Podemos estar lotando os outros", disse a Srta. Brande calmamente.
Fiquei contente por ela não fumar.
"Não quero isso agora", disse a um carregador que se aproximava apressado com uma etiqueta. Às moças, comentei um pouco irritado: "Claro que vocês estão certas. Devem me desculpar por minha ignorância."
"Não, não é ignorância", objetou a Srta. Brande. "Você esteve fora por tanto tempo. Você quase não esteve na Inglaterra, você me disse, por anos, e..."
"E o progresso tem marchado na minha ausência", interrompi.
"Pelo que parece", observou a Srta. Metford de forma tão significativa que realmente não pude deixar de retrucar com tanta ênfase, compatível com a polidez, quanto pude comandar:
"Você vê que, portanto, sou incapaz de apreciar a Nova Mulher, de quem tanto ouvi falar desde que voltei para casa."
"A Nova Mulher convencional é um fóssil avozinhado", disse a Srta. Metford calmamente.
Isso me deixou sem palavras. Recostei-me em meu assento e fiquei rigidamente em silêncio.
Milhas de campos verdes pontilhados de margaridas e margeados por longas linhas de cercas vivas de espinheiro branco e vermelho passaram voando. O cheiro de feno recém-cortado enchia a cabine com seu doce perfume, pleno de antigas associações. Minha longa ausência diminuiu para um curto feriado. As amplas estradas do mundo estavam longe. Eu estava de volta aos campos ingleses. Meu leve aborrecimento passou. Caí em um agradável devaneio, que foi interrompido por uma voz suave, cuja cada ondulação eu já sabia de cor.
"Receio que você nos ache muito avançadas", murmurou ela.
"Muito", concordei, "mas conto com vocês para me trazerem até a atualidade."
"Oh, sim, pretendemos fazer isso, mas devemos proceder muito gradualmente."
"Vocês fizeram um excelente começo", acrescentei.
"Caso contrário, você ficaria apenas chocado."
"É bem possível." Disse isso com tanta convicção que as duas explodiram em risadas de mim. Não consegui pensar em mais nada para acrescentar, e senti alívio quando, com um grito de aviso, o trem entrou em um túnel. Quando emergimos novamente à luz do sol e à solidão da paisagem aberta, eu tinha pronto um improviso no qual estivera trabalhando na escuridão. Olhei diretamente para a Srta. Metford e disse:
"Afinal, é muito agradável viajar com moças como vocês."
"Obrigada!"
"Vocês não mostraram nenhum medo histérico de eu beijá-las no túnel."
"Por que diabos você faria isso?", respondeu a Srta. Metford com grande compostura, enquanto soprava um anel de fumaça.
Quando chegamos ao nosso destino, preparei-me para mais um ou dois minutos desagradáveis. Pois, se os grandes londrinos nos achavam pitorescos, certamente os ociosos da pequena estação rural jurariam que éramos dementes. Cruzamos a plataforma tão rapidamente que o espanto que criamos logo passou. Nossa bagagem foi cuidada por um servo, a cujos cuidados a confiei com uma descrição muito breve. A perda de um item dela não me parecia de tanta importância quanto nossa própria partida imediata.
Brande nos encontrou na porta de entrada. Sua casa era agradável, coberta por plantas trepadeiras floridas e cercada por florestas em miniatura. Na frente, havia um lago de quatrocentos metros de largura. Gramados bem aparados o margeavam. Eram produtos artificiais, sem dúvida, mas eram sucessos artificiais — ondulantes, com cheiro de terra, rolados novamente a cada manhã. Ali havia um arbusto isolado, acolá um denso banco de rododendros. E os botões, explodindo em carnaval floral, prometiam belos contrastes quando seu esplendor total chegasse. As pequenas ondas do lago tilintavam musicalmente em uma praia de seixos.
Nosso anfitrião não pôde nos entreter pessoalmente. Ele estava ocupado. A alegação era evidentemente sincera, não obstante que o negócio de um cavalheiro rural — que ele agora parecia ser — é algo menos exigente do que o lazer das pessoas ocupadas. Após um curto descanso e um almoço admiravelmente servido, fomos dispensados para os bosques para nossa melhor diversão.
Seguiu-se então para mim um dia estranhamente pacífico e idílico — tudo, exceto seu final. Olhando para trás, sei que o sol que se pôs naquela noite declinou sobre o último da minha felicidade. Mas tudo parece trivial agora.
Minhas companheiras eram botânicas talentosas e, aqui, pela primeira vez, encontrei-me em terreno comum com ambas. Discutimos cada flor silvestre familiar tão avidamente como se fôssemos naturalistas de campo professos. Ao caminhar ou escalar, minha assistência não foi nem solicitada nem necessária. Não ofereci, portanto, o que deve ter sido indesejado quando era supérfluo.
Descansamos finalmente sob a sombra de uma grande faia, pois o sol da tarde estava um tanto opressor. Era um local agradável para passar uma hora. Um riacho murmurante passava balbuciando, cantando para si mesmo enquanto viajava para o mar. Insetos zumbiam em voo atarefado. Havia um perfume de madressilva trazido até nós pelo vento de verão, que agitava a faia e farfalhava suas folhas jovens preguiçosamente, de modo que a luz do sol espreitava através da treliça verde e brilhava nos rostos dessas duas moças bonitas, estendidas em posturas graciosas sobre a relva fresca abaixo — seus dentes brancos brilhando em seu esplendor, enquanto seu riso suave fazia música para mim. Na plenitude do meu coração, disse em voz alta:
"É uma coisa boa estar vivo."
CAPÍTULO IV.
GEORGE DELANY — FALECIDO.
"É uma coisa boa estar vivo", repetiu Natalie Brande lentamente, contemplando, por assim dizer, muito longe através de suas pálpebras semicerradas. Então, virando-se para mim e olhando-me plenamente, com os olhos bem abertos, ela perguntou: "Uma coisa boa para quantos?"
"Para todos; para tudo o que está vivo."
"Faugh! Para poucas coisas que estão vivas. Para quase nada. Você diz que é uma coisa boa estar vivo. Quantas vezes você disse isso em sua vida?"
"Durante toda a minha vida", respondi firmemente. Minha constituição era boa e eu tinha vivido de forma saudável, embora resistente. Expressei a vitalidade supérflua de um corpo bem nutrido.
"Então você não sabe o que é sentir pelos outros."
Houve um grito no matagal perto de nós. Terminou em um guincho curto e sufocado. A moça empalideceu, mas continuou com calma exterior.
"Aquele falcão ou gato sente como você. Imagino o que aquele jovem coelho pensa sobre o problema da vida?"
"Mas não somos nem falcões, nem gatos, nem mesmo jovens coelhos", respondi calorosamente. "Não podemos carregar os fardos de todo o mundo animal. Os nossos são suficientes para nós."
"Você tem razão. Eles são mais do que suficientes."
Eu tinha feito um movimento falso e tentei recuperar o terreno perdido. Ela não me permitiu. A conversa, que correra por canais agradáveis durante duas horas felizes, estava encerrada. Daí em diante, apesar de meus esforços obstrutivos, foram introduzidos assuntos que não podiam ser conversados, mas deviam ser discutidos. Em cada um, a Srta. Brande tomou o partido do fraco contra o forte, alheia a qualquer consideração de política e até de ética, cuidadosa apenas em defender o fraco por causa de sua fraqueza. A Srta. Metford a apoiava nisso e ia além em sua revolta conjunta contra o senso comum. A Srta. Brande era argumentativa, suplicante. A Srta. Metford era desafiadora. Entre as duas, eu me dei mal.
É claro que a questão da Mulher foi logo introduzida, e nela fiz a melhor defesa dos costumes consagrados pelo tempo de que fui capaz. Mas minhas defesas caíram tão prontamente diante das vozes dessas jovens mulheres quanto caíram as muralhas de Jericó diante do toque da trombeta de chifre de carneiro. Nada do que eu tinha prezado me foi deixado. A mulher não queria mais a proteção do homem. ("Escravização" eles chamavam). Por que deveria, quando na evolução da sociedade não havia agora, ou presentemente não haveria, nada do que a proteger? ("Senhores de escravos competidores" era o que eles diziam). Quando você deseja ver protetores, você deve postular perigos. Os primeiros são inúteis, exceto como prevenção dos segundos. Ambos os males serão convenientemente dispensados. Tudo isso era novo para mim, tendo a maior parte da minha vida pensante sido passada em terras distantes, onde a ciência da ética é codificada em um estatuto simples — a vontade do mais forte.
Quando minha humilhação dialética estava a um ponto da conclusão, a Srta. Metford veio ao meu socorro. Por algum tempo, ela observou meu desconforto com uma neutralidade de bom humor, e quando eu estava metaforicamente em minha última trincheira, ela se levantou, esticou sua figura bem torneada, sacudiu algumas lâminas de grama que se prendiam ao seu traje e declarou que era hora de voltar. Brande era um homem de ciência, mas, como tal, ainda estava sujeito à pontualidade na questão do jantar.
No caminho de volta, fiquei discretamente em silêncio. Quando chegamos à casa, fui procurar Herbert Brande. Ele estava ocupado em seu escritório, e eu não poderia intrometermo nele lá. Fazê-lo seria infringir a única regra rígida em sua casa. Nem tive oportunidade de falar com ele a sós até depois do jantar, quando o induzi a dar uma volta comigo ao redor do lago. Fumei charutos fortes e fiz de um deles minha desculpa.
O sol estava se pondo quando começamos e, enquanto caminhávamos lentamente, as sombras do crepúsculo se aprofundavam rapidamente quando chegamos à margem distante. Brande estava de ótimo humor. Algum novo experimento científico, presumi, tinha sido bem-sucedido. Ele estava fora de si. Sua conversa era vulcânica. Agora roncava e rugia com fogos reprimidos. Logo depois, irrompia em flashes cintilantes e disparava fluxos de inteligência estimulante. Eu fui seu ouvinte nas três grandes épocas de sua vida, mas não creio que qualquer coisa que eu tenha recordado de suas declarações se iguale aos improvisos audaciosos, ao tratamento magistral de seu assunto favorito, o Universo, que brotou dele naquela noite. Eu não podia responder-lhe. Eu nem podia segui-lo, muito menos suprimi-lo. Mas eu tinha saído com um objetivo específico em vista, e não seria frustrado. E assim, como meu assunto precisava ser feito, melhor que fosse feito rapidamente. Aproveitando uma pausa que ele fez, literalmente para respirar, comecei abruptamente:
"Quero falar com você sobre sua irmã."
Ele se virou para mim surpreso. Então seu olhar mudou para um de tão completo desprezo e, ao mesmo tempo, seu porte sugeria tão claramente que ele sabia de antemão o que eu iria dizer, que disparei desafiadoramente, sem parar para escolher minhas palavras:
"Acho uma vergonha infernal que você, irmão dela, deva permitir que ela ande por aí fantasiada com essa moça Metford, bem-intencionada, mas excêntrica — devo dizer, Srta. Metford."
"Por que?", perguntou ele friamente.
"Porque é absurdo; e porque não é decente."
"Meu caro Abraham", disse Brande calmamente, "ou seu período é tão recente quanto o de Isaac ou Jacó? Minha irmã agrada a si mesma nessas questões e tem todo o direito de fazê-lo."
"Ela não tem. Você é irmão dela."
"Muito bem, eu sou irmão dela. Ela não tem direito de pensar por si mesma; não tem direito de viver senão com minha permissão. Então, eu graciosamente permito que ela pense, e permito que ela viva."
"Você se arrependerá dessa tolice mais cedo ou mais tarde — e não diga que eu não o avisei." A absoluta futilidade da minha última frase atingiu-me dolorosamente no momento, mas não consegui pensar em nenhuma maneira de melhorá-la. Era difícil raciocinar com tal homem, alguém que negava os princípios fundamentais da vida familiar. Eu estava pensando no que dizer a seguir, quando Brande parou e colocou a mão, de uma forma gentil, sobre meu ombro.
"Meu caro, o que isso importa? O que as ações de minha irmã significam mais do que as ações da irmã de qualquer outro homem? E quanto à Sociedade? Já se decidiu sobre entrar?"
"Já. Decidi duas vezes hoje", respondi. "Decidi de manhã que veria você e sua Sociedade no diabo antes de me juntar a ela. Desculpe minha franqueza; mas você mesmo é tão extremamente cândido que não se importará."
"Certamente, não me importo com franqueza. A grosseria é supérflua."
"E decidi esta noite", disse, um pouco menos agressivamente, "que me juntaria a ela mesmo que o próprio diabo já estivesse nela, como quase suspeito que esteja."
"Gosto disso", disse Brande gravemente. "Esse é o espírito que quero no homem que se junta a mim."
Ao que respondi: "Qual, sob o sol, é o objetivo desta sua Sociedade?"
"Proximamente, completar nossas investigações — já bem avançadas — sobre a origem do Universo."
"E ultimamente?"
"Não posso lhe dizer agora. Você não saberá disso até que se junte a nós."
"E se seu objetivo final não me agradar, posso retirar-me?"
"Não, seria tarde demais então."
"Como assim? Não estou moralmente vinculado por um juramento que faço sem pleno conhecimento de suas consequências e responsabilidades."
"Juramento! O juramento que você faz! Você não faz juramento algum. Imagina que está se juntando a uma sociedade de recabitas ou carmelitas, ou lixo medieval desse tipo? Não se mantenha tão penosamente atrás da época."
Pensei por um momento sobre o que aquele homem misterioso dissera, sobre os perigos ocultos nos quais suas quimeras loucas poderiam envolver o mais inocente cúmplice. Então pensei naquela jovem de olhos escuros e voz doce, enquanto ela estava deitada na grama verde sob a faia no bosque e me venceu em todos os argumentos. Muito subitamente, e, talvez, de uma maneira um tanto grandiosa, respondi-lhe:
"Entrarei para sua Sociedade para meus próprios fins, e a deixarei quando eu quiser."
"Você tem todo o direito", disse Brande descuidadamente. "Muitos fizeram o mesmo antes de você."
"Pode me apresentar a alguém que o tenha feito?", perguntei, com uma avidez que não podia ser dissimulada.
"Receio que não possa."
"Ou me dar um endereço?"
"Oh, sim, isso é simples." Ele folheou um caderno até encontrar uma página em branco. Então tirou o lápis de sua argola, levou a ponta aos lábios e fez uma pausa. Ele estava de pé, de costas para a luz que diminuía, então não pude ver a expressão de seu rosto móvel. Quando ele hesitou, soube que nenhuma dúvida comum o afligia. Ele ficou assim por quase um minuto. Enquanto esperava, observei um par de cisnes flutuarem como fantasmas sobre a superfície sedosa do lago. Entre nós e uma margem escura de bosque, as luzes da casa flamejavam em vermelho. O melancólico canto vespertino de um melro lamentou-se de um arbusto ao nosso lado. Então Herbert Brande escreveu em seu caderno e, arrancando a página, entregou-ma, dizendo: "Esse é o endereço do último homem que nos deixou."
A luz estava agora tão fraca que tive que segurar o papel perto dos meus olhos para ler as linhas. Eram estas:
GEORGE DELANY, Perto da Capela de Santa Ana, Cemitério de Woking.
CAPÍTULO V.
O CLUBE DO ASSASSINATO.
"Delany foi o último homem que nos deixou — você vê que uso sua expressão novamente. Eu gosto dela", disse Brande calmamente, observando-me enquanto falava.
Fiquei encarando o pedaço de papel que segurava na mão por alguns instantes antes de conseguir responder. Quando minha voz voltou, perguntei roucamente:
"Este homem, Delany, morreu subitamente depois de deixar a Sociedade?"
"Ele morreu imediatamente. O segundo evento foi contemporâneo ao primeiro."
"E em consequência disso?"
"Certamente."
"Todos os membros que se retiraram da sua lista tiveram a vida igualmente curta?"
"Sem exceção alguma."
"Então sua Sociedade, depois de toda a sua conversa pomposa sobre ela, é apenas um vulgar clube de assassinato", disse amargamente.
"Errado no fato e impertinente na expressão. Não é um clube de assassinato e... bem, você é o primeiro a descobrir sua vulgaridade."
"Chamo as coisas pelos seus nomes simples. Você pode chamar sua Sociedade do que quiser. Quanto a eu me juntar a ela diante do que você me contou..."
"O que é mais do que jamais foi contado a qualquer homem antes de se juntar — a qualquer homem vivo ou morto. E mais, você não precisa se juntar ainda, a menos que ainda deseje fazê-lo. Presumo que o que eu disse o impedirá."
"Pelo contrário, se eu tivesse qualquer dúvida, ou se houvesse qualquer possibilidade de eu hesitar antes desta entrevista, não há nenhuma agora. Entro imediatamente."
Ele teria tomado minha mão, mas isso eu não pude permitir. Deixei-o sem outra palavra, ou qualquer forma de cumprimento, e retornei à casa. Não apareci novamente no círculo doméstico naquela noite, pois já tinha o suficiente em mente sem me sobrecarregar ainda mais com pretensões sociais.
Sentei-me em meu quarto e tentei mais uma vez considerar minha posição. Era esta: por causa de uma garota que eu só conhecera umas vinte vezes; que às vezes agia, falava, vestia-se de uma maneira sugestiva de insanidade; que tinha gloriosos olhos escuros, uma figura perfeita e um rosto de beleza requintada — mas interrompo-me. Por causa dessa garota, e com o propósito manifestamente impossível de protegê-la de si mesma, assim como dos outros, eu me rendera à provável vingança de um bando de degoladores se eu os traísse, e à certa vingança da lei se eu não o fizesse. Brande, apesar de seu constante ceticismo, era escrupulosamente verdadeiro. Sua declaração de fatos devia ser considerada confiável. Suas opiniões eram outra questão. Como nada prático resultou de minhas reflexões, cheguei à conclusão de que me metera em uma bela enrascada por causa de um rosto bonito. Lamentava esse resultado, mas estava contente com a causa dele. Com isso, fui para a cama.
Na manhã seguinte, levantei cedo, pois precisava ver Natalie Brande sem demora, e sentia-me certo de que ela não seria preguiçosa naquele esplêndido dia de verão. Tentei o gramado entre a casa e a margem do lago. Não a encontrei lá. Encontrei sua amiga, a Srta. Metford. A garota estava passeando, balançando uma bengala descuidadamente. Ela ainda estava vestida de forma racional, mas observei com alívio que a parte racional de seu traje era mais no estilo da saia dividida do que os culotes simples do dia anterior. Ela me abordou alegremente pelo meu sobrenome e, para não ser superado por ela, disse calmamente:
"Como vai, Metford?"
"Muito bem, obrigada. Suponho que esperava Natalie? Veja que só tem a mim."
"Encantado", eu estava começando com um sorriso forçado, quando ela me interrompeu.
"Você parece estar. Mas isso não pode ser evitado. Natalie viu você saindo e me enviou para encontrá-lo. Devo cuidar de você por uma hora ou mais. Soube que se junta à Sociedade esta noite. Você deve estar muito satisfeito — e lisonjeado."
Não pude concordar com isso e, portanto, permaneci em silêncio. A garota tagarelava em seu estilo direto, o qual, agora que eu estava me acostumando, não achei tão desagradável quanto no início. Uma coisa era evidente para mim. Ela não tinha ideia da natureza vil da Sociedade de Brande. Ela não poderia ter falado tão descuidadamente se compartilhasse meu conhecimento sobre ela. Enquanto ela falava comigo, eu me perguntava se era justo com ela — uma garota simpática, apesar de suas afetações indesejáveis de opinião avançada, emancipação ou o que quer que ela chamasse — era justo permitir que ela se associasse a um bando de assassinos e não sussurrar sequer uma palavra de aviso? Sem dúvida, eu mesmo estava me associando ao bando; mas não estava na ignorância da responsabilidade assim incorrida.
"Srta. Metford", disse, sem me importar se a interrompia, "você está a par do segredo desta Sociedade?"
"Eu? Não no momento. Estarei mais tarde."
Parei e a encarei com uma expressão tão séria que ela me ouviu atentamente.
"Se você quiser seguir meu conselho sincero — e peço que não o negligencie —, você não terá nada a ver com isso ou com qualquer pessoa pertencente a isso."
"Nem mesmo Brande — quero dizer, Natalie? Ela é perigosa?"
Desconsiderei sua travessura e continuei: "Se você puder tirar a Srta. Brande de seu irmão e de seus conhecidos" (quase disse cúmplices), "e mantê-la longe, estaria fazendo a melhor e mais gentil coisa que já fez em sua vida."
A Srta. Metford ficou visivelmente impressionada com minha seriedade, mas, como ela mesma disse muito verdadeiramente, era improvável que ela pudesse interferir da maneira que eu sugerira. Além disso, meu aviso misterioso era vago demais para ser útil como guia para sua própria ação, muito menos para a de sua amiga. Eu não me atrevia a falar mais claramente. Só pude repetir, nas palavras mais enfáticas, minha ansiedade para que ela pensasse cuidadosamente sobre o que eu disse. Então fingi lembrar de um compromisso com Brande, pois estava em um espírito tão baixo que realmente tinha pouco gosto por qualquer companhia.
Ela ficou desapontada e disse isso de sua maneira direta habitual. Não estava no poder de qualquer profecia sombria oprimi-la por muito tempo. O olhar sério que minhas palavras trouxeram ao seu rosto passou rapidamente, e foi com sua maneira natural que ela me deu bom-dia, dizendo:
"É um pouco aborrecido, pois eu esperava uma hora ou duas agradáveis levando você por aí."
Adiei meu café da manhã por falta de apetite e, como a casa de Brande era o melhor exemplo de "Liberty Hall" que já encontrara, não ofereci desculpas pela minha ausência durante todo o dia quando me juntei ao meu anfitrião e à anfitriã à noite. O intervalo passei nos bosques, pensando muito e não decidindo nada.
Após o jantar, Brande me apresentou a um homem a quem chamou de Edward Grey. Natalie me conduziu à sala na qual eles estavam ocupados. Pela massa de correspondência em que este homem, Grey, estava absorto, e a confusão de papéis ao seu redor, era evidente que ele devia estar na casa muito antes de eu conhecê-lo.
Grey entregou-me um livro, que descobri ser um registro dos nomes dos membros da Sociedade de Brande, e apontou o lugar para minha assinatura.
Quando escrevi meu nome na lista, disse a Brande: "Agora que me nomeei, suponho que você me apoiará?"
"Não é necessário", respondeu ele; "você já é um membro. Seu comentário à Srta. Metford esta manhã fez de você um de nós. Você a aconselhou, lembra-se, a ter cuidado conosco."
"Aquela garota!", exclamei, horrorizado. "Então ela é uma de suas espiãs? É possível?"
"Não, ela não é uma de nossas espiãs. Não temos nenhuma, e ela não sabia nada do propósito para o qual foi usada."
"Então, peço permissão para dizer que você fez um uso vergonhoso dela."
No calor do momento, esqueci minhas maneiras com meu anfitrião e formei a resolução de denunciar a Sociedade à polícia no momento em que retornasse a Londres. Brande não se ofendeu com minha violência. Não havia um traço de raiva em sua voz quando disse:
"A informação da Srta. Metford foi transmitida telepaticamente à minha irmã."
"Então foi sua irmã..."
"Minha irmã sabe tão pouco quanto a outra. Por sua vez, recebi a informação telepaticamente dela, sem o conhecimento de nenhuma das duas. Eu estava contando isso a Grey quando você entrou na sala."
"E", disse Grey, "sua intenção de ir direto desta casa para a Scotland Yard, para lá nos denunciar à polícia, foi recebida telepaticamente por mim mesmo."
"Meu Deus!", gritei, "um homem não tem mais o direito aos seus próprios pensamentos?"
Grey continuou sem notar minha exclamação: "Qualquer ação ostensiva ou oculta de sua parte, no sentido de realizar sua intenção, será transmitida telepaticamente a nós, e nosso executivo..." Ele deu de ombros.
"Eu sei", disse, "Cemitério de Woking, perto da Capela de Santa Ana. Vocês têm terreno lá."
"Sim, temos que dispensar..."
"Diga assassinar."
"Dispensar", repetiu Grey bruscamente, "qualquer membro cuja lealdade seja questionável. Este não é nosso desejo; é nossa necessidade. É o único meio pelo qual podemos garantir a imunidade absoluta da Sociedade enquanto aguardamos a realização de seu objetivo. Para dispensar qualquer homem vivo, só precisamos desejar que ele morra."
"E agora que sou um membro, posso perguntar qual é este objetivo, cujo segredo vocês guardam com um zelo demoníaco?", exigi furiosamente.
"A restauração de um tumor etéreo local à sua formação original."
"Já estou cansado desse jargão de Brande", interrompi. "O que você quer dizer?"
"Queremos tentar a redução do sistema solar ao seu éter elementar."
"E vocês realizarão essa trivialidade por meio do cometa de Huxley, suponho?"
Eu mal podia controlar minha indignação. Essa palhaçada, como pensei que fosse, pareceu-me um insulto. Nem Brande nem Grey pareceram notar meu ressentimento agudo. Grey respondeu-me em um tom calmo e sério.
"Tentaremos destruindo a Terra. Podemos falhar na realização completa de nosso projeto, mas, de qualquer forma, teremos pelo menos a certeza de reduzir este planeta ao éter de que é composto."
"Claro, claro", concordei zombeteiramente. "Vocês pelo menos terão certeza disso. Vocês também descobriram como fazer, não tenho dúvida?"
"Sim", disse Grey, "nós descobrimos."
CAPÍTULO VI.
UM TELEGRAMA TELEPÁTICO.
Deixei a sala e corri para fora sem nenhum plano positivo para meus movimentos. Meu cérebro estava em tal redemoinho que não conseguia formar um fio de pensamento conectado. Esses homens, cuja conversa era um jargão adequado apenas para lunáticos, provaram que podiam ler minha mente com a facilidade de um operador de telégrafo recebendo uma mensagem de um fio. Que eles, além disso, possuíam poderes maravilhosos, se não milagrosos, sobre forças naturais ocultas, dificilmente poderia ser duvidado. A rede na qual eu me emaranhara voluntariamente estava se fechando ao meu redor. Um impulso irresistível de fugir — de abandonar Natalie e salvar-me — tomou conta de mim. Deixei isso de lado imediatamente. Era indigno e imprudente. Pois para onde eu fugiria? Os confins da Terra não seriam longe o suficiente para me salvar, as profundezas do mar não seriam profundas o suficiente para me esconder daqueles que matavam desejando que suas vítimas morressem.
Por outro lado, se meus sentidos tivessem apenas sido enganados, e os Srs. Brande e Grey não passassem de espertos trapaceiros, o portão do parque seria longe o suficiente, e o policial mais próximo teria força suficiente para me salvar de sua vingança. Mas a garota — Natalie! Ela era clarividente. Eles praticavam isso nela. Meu diagnóstico da estranha expressão de ver-sem-ver de seus olhos estava, então, correto. E ficou claro para mim que, independentemente de em quem ou no que Brande e Grey acreditavam ou deixavam de acreditar, eles certamente acreditavam em si mesmos. Podia-se contar com eles para não poupar nada nem ninguém em seu projeto, quão ridículo ou louco que fosse seu propósito. O que, então, adiantava minha proteção mesquinha quando a própria garota era uma vítima voluntária e os homens eram onipotentes? No entanto, se eu falhasse eventualmente em servi-la, eu poderia pelo menos fazer o meu melhor.
Ficou claro que eu devia ficar ao lado de Natalie Brande.
Enquanto eu refletia, a seguinte conversa ocorreu entre Brande e Grey. Encontrei uma nota sobre isso em um diário que Brande mantinha de forma esparsa. Ele escreveu isso de forma tão irregular que nenhuma informação contínua pode ser colhida dele sobre sua vida. Como o diário chegou às minhas mãos, será visto mais tarde. O memorando está escrito assim:
Grey — Nosso novo membro? Por que você o apresentou? Você diz que ele não pode ajudar com dinheiro. É evidente que ele não pode ajudar com cérebros.
Brande — Ele interessa a Natalie. Ele é o que os incultos chamam de boa-praça. Ele gosta de fazer coisas altruístas, sem saber que é pelo egoísta objetivo da sensação agradável assim assegurada. Além disso, eu mesmo gosto dele. Ele me diverte. Fazê-lo membro era a única maneira segura de mantê-lo tanto tempo perto de nós. Mas Natalie é a razão principal. Tenho medo de que ela hesite, apesar de minha influência hipnótica. Em uma garota de sua natureza intensamente emocional, o sentimento de amor sem esperança criará uma melancolia profunda. Dominada por isso, ela está segura. Parece cruel à primeira vista. Não é realmente. Não é cruel reconciliá-la com um destino do qual ela não pode escapar. É misericordioso. Quanto ao resto, o que importa? Será tudo a mesma coisa em...
Grey — Daqui a seis meses.
Brande — Acredito que estremeci. A hereditariedade tem muito pelo que responder.
Essa é a totalidade da entrada. Não li as palavras até que a mão que as escreveu fosse pó.
Natalie professou certa decepção quando anunciei meu retorno imediato à cidade. Fui obrigado a inventar uma desculpa para uma partida tão apressada e, assim, recorri a um antigo compromisso que eu realmente esquecera e que realmente me chamava. Mas ele teria chamado por muito tempo sem uma resposta se não fosse pelo próprio Brande, seu amigo Grey e suas insanidades. Minha mente estava fixada em uma questão saliente: como tirar Natalie Brande da má influência de seu irmão. Isso seria melhor alcançado quando eu mesmo estivesse fora do alcance de sua influência extraordinária. E assim, parti sem demora.
Por algum tempo após meu retorno a Londres, andei visitando antigos locais e amigos. Logo me cansei disso. Os locais tinham perdido o interesse. Os amigos tinham mudado, ou eu tinha mudado. Não conseguia retomar as amizades que tinham sido interrompidas. A corrente de conexão tinha sido quebrada e os elos não se soldariam facilmente. Então, após alguns esforços fúteis para retornar ao círculo que eu abandonara há muito tempo, desisti e aceitei minha exclusão com serenidade. Não tenho certeza de que desejava os antigos relacionamentos restabelecidos. E como minha longa ausência impedira qualquer novo broto de amizade de ser enxertado, encontrei-me sozinho em Londres. Não preciso dizer mais nada.
Certa noite, eu estava caminhando pelas ruas em um estado de espírito desalentado, como se tornara meu hábito. Por acaso, li o nome de uma rua na qual eu tinha entrado para evitar uma via mais movimentada. Era aquela em que morava a Srta. Metford. Eu sabia que ela tinha retornado à cidade, pois ela me comunicara brevemente o fato em um cartão-postal escrito alguns dias antes.
Aqui havia uma chance de distração. A alegria espontânea desta garota, que achei inicialmente desagradável, era o que eu precisava para me ajudar a sacudir o lúgubre íncubo de pensamento que me oprimia. Dificilmente estava dentro das conveniências visitá-la a tal hora, mas não podia importar muito, quando as próprias ideias da garota eram tão pouco convencionais. Ela tinha meios independentes e vivia separada de sua família para se livrar das limitações domésticas. Ela tinha me dito que carregava uma chave — na verdade, ela a mostrara para mim com um floreio de triunfo — e que se deleitava com modos livres. Modos livres, ela teve o cuidado de acrescentar, não significavam maus modos. Para mim, os termos eram sinônimos. Quando em frente ao seu número, decidi chamar e, tendo batido à porta, fui informado de que a Srta. Metford estava em casa.
"Olá, Marcel! Fico feliz em vê-lo", exclamou ela, com um tom um tanto estridente para o meu gosto. Seu vestido era bastante masculino, como de costume. Em vez da sua túnica de passeio, ela usava um smoking. Quando entrei, ela estava sentada em uma poltrona, com os pés sobre um banco de piano. Ela levantou-se tão apressadamente que o banco tombou e ficou onde caiu.
"O que houve?", perguntou ela, preocupada. "Você viu um fantasma?"
"Creio que vi muitos fantasmas ultimamente", respondi, "e eles não têm sido boa companhia. Eu estava passando pela sua porta e entrei em busca de consolo."
Ela atravessou a sala e serviu um pouco de uísque de um decanter que estava sobre um aparador. Então, abriu uma garrafa de água com gás com uma facilidade que sugeria prática. Senti-me aliviado ao pensar que não era Natalie quem me recebia. Entregando-me o copo, ela disse peremptoriamente:
"Beba isso. Isso mesmo. Dê-me o copo. Agora fume. Será que permito que fumem aqui? Pah! Eu mesma fumo aqui."
Acendi um charuto e sentei-me ao lado dela. As nuvens começaram a se dissipar do meu cérebro e a flutuar nas volutas de fumaça azul. Conversamos sobre assuntos triviais sem que eu notasse, nem por um momento, a habilidade com que foram introduzidos pela Srta. Metford. Jamais pensei na passagem do tempo até que o toque de um minúsculo relógio sobre a lareira — um exemplo requintado do mobiliário de bom gosto de toda a sala — me avisou que minha visita durava duas horas. Levantei-me relutante.
Ela zombou da minha ingratidão. Eu chegara em um estado deplorável. Agora estava restaurado. Ela não era mais útil, portanto, eu a deixava. E assim por diante, até que eu disse com uma solenidade sem dúvida lúgubre:
"Sou muito grato, Srta. Metford. Não sei dizer o quanto sou grato. Você não entenderia..."
"Oh, por favor, deixe minha pobre compreensão em paz e diga-me o que aconteceu com você. Eu gostaria de ouvir. E, além disso, eu gosto de você." Ela disse isso tão descuidadamente que não me senti embaraçado. "Agora, então, a história toda, por favor." Dizendo isso, ela sentou-se novamente.
"Você realmente não sabe nada mais sobre a Sociedade de Brande do que admitiu quando falei com você sobre isso pela última vez?", perguntei, sem tomar a cadeira que ela puxou para mim.
"Isto é tudo o que sei", respondeu ela, com a voz rimada de uma jovem aluna declamando um trecho de uma recitação pouco compreendida e menos ainda apreciada. "A sociedade tem noites muito interessantes. Brande mostra experimentos belíssimos que, ouso dizer, seriam incrivelmente instrutivos se alguém estivesse inclinado a isso, o que não é o meu caso. Os homens são, em sua maioria, criaturas de cabelos compridos e óculos. Alguns são até bonitos. Todos são completamente loucos. E minha amiga — quero dizer, a única garota que eu jamais suportaria como amiga — Natalie Brande, é louca por eles."
"Nada mais que isso?"
"Nada mais."
O relógio soou agora as nove horas, cujo toque de aviso me sobressaltara.
"Há algo mais do que isso?", perguntou a Srta. Metford com certa impaciência.
Pensei por um momento. A menos que meus próprios sentidos tivessem me enganado naquela noite na casa de Brande, eu corria um grande risco de compartilhar o destino de George Delany se permanecesse onde estava por muito mais tempo. E suponha que eu lhe contasse tudo o que sabia, isso não traria o mesmo perigo para ela também? Então tive que responder:
"Não posso lhe dizer. Agora sou um membro."
"Então você deve saber mais do que qualquer mero estranho como eu. Suponho que não seria justo perguntar. De qualquer forma, você voltará para me ver em breve. A propósito, qual é o seu endereço?"
Dei-lhe meu endereço. Ela anotou em uma caderneta de capa prateada e comentou:
"Está tudo bem. Passarei aí qualquer noite dessas."
Enquanto dirigia para o meu hotel, senti que o truque mesmerizante, ou qualquer artifício que tivesse sido praticado contra mim por Brande e Grey, assumira agora suas verdadeiras proporções. Ri dos meus medos e fiquei grato por não tê-los descrito à jovem de mente forte à cuja sociedade gentil eu devia tanto. Que idiota ela teria me achado!
Um criado encontrou-me no saguão.
"Telegrama, senhor. Acabou de chegar neste momento."
Peguei o telegrama e subi as escadas com ele fechado em minha mão. Um estranho medo tomou conta de mim. Não tive coragem de abrir o envelope. Eu sabia de antemão quem era o remetente e qual seria o teor da mensagem. Eu estava certo. Era de Brande.
"Peço que seja mais cauteloso. Sua discussão com a Srta. M. esta noite poderia ter sido desastrosa. Pensei que tudo tivesse acabado às nove horas.
"BRANDE."
Sentei-me estupefato. Quando meus sentidos retornaram, olhei para a mesa onde eu havia jogado o telegrama. Ele não estava lá, nem no quarto. Chamei o homem que mo entregara, e ele veio imediatamente.
"Sobre aquele telegrama que você me deu agora pouco, Phillips..."
"Peço perdão, senhor", o homem interrompeu, "eu não lhe entreguei nenhum telegrama esta noite."
"Quero dizer, quando você falou comigo no saguão."
"Sim, senhor. Eu disse 'boa noite', mas o senhor não deu atenção. Desculpe-me, senhor, achei que o senhor parecia estranho."
"Ah, eu estava pensando em outra coisa. E lembro-me agora, foi Johnson quem me deu o telegrama."
"Johnson partiu ontem, senhor."
"Então foi ontem que eu estava pensando. Pode ir, Phillips."
Portanto, o poder telepático de Brande era objetivo tanto quanto subjetivo. Meu próprio cérebro, não acostumado a ser impressionado por outra mente "a não ser pelos canais reconhecidos dos sentidos", havia fornecido a autoridade mais provável para sua mensagem. A mensagem foi devidamente entregue, mas o telegrama era uma ilusão.
CAPÍTULO VII.
CULPADO!
Quanto a proteger Natalie Brande de seu irmão e dos fanáticos com quem ele se associava, era agora evidente que eu estava impotente. E que garantia eu tinha de que ela mesma não estava ciente de seu propósito nefasto; de que ela não simpatizava com ele? Esse último pensamento passou pela minha mente um dia, e a pontada de dor que se seguiu foi tão intolerável que decidi instantaneamente provar sua falsidade ou veracidade.
Enviei um telegrama a Brande avisando que passaria um ou dois dias com ele, e segui minha mensagem sem esperar por uma resposta. Ainda tenho uma lembrança muito distinta daquela viagem, apesar de muito do que poderia muito bem tê-la apagado da minha memória. Cada quilômetro percorrido parecia marcar uma barreira a mais ultrapassada no meu caminho para um destino estranho; cada momento que me aproximava desta garota incompreensível de olhos mágicos era uma época de impossibilidade de que eu voltasse voluntariamente. E agora que tudo acabou, estou feliz por ter seguido firmemente até o fim.
Brande recebeu-me com a afabilidade fácil de um homem para quem a boa criação deixara de ser um hábito e se tornara um instinto. Apenas uma vez algo passou entre nós referente à relação extraordinária que ele estabelecera comigo — a relação de vitorioso e vítima, como eu considerava. Ficamos sozinhos por alguns instantes, e eu disse, assim que os outros ficaram fora do alcance da voz:
"Recebi sua mensagem."
"Eu sei que recebeu", respondeu ele. Foi tudo. Houve uma pausa embaraçosa. Ela precisava ser quebrada de alguma forma. Qualquer saída da dificuldade era melhor do que continuar nela.
"Você já viu isto?", perguntei, entregando a Brande um exemplar de um romance que eu apanhara em uma banca de jornal da estação. Quando digo que era novo e popular, entender-se-á que era indecente.
Ele olhou para o título e disse indiferente: "Sim, eu vi, e para apreciar essa classe de ficção de forma justa, cheguei até a tentar lê-la. Por que você pergunta?"
"Porque achei que estaria na sua linha. É muito avançado." Disse isso para ganhar tempo.
"Avançado... avançado? Receio não compreender. O que você quer dizer com 'avançado'? E como poderia estar na minha linha? Presumo que você queira dizer com isso, no meu plano de pensamento?"
"Por 'avançado', quero dizer atualizado. O que você quer dizer com isso?"
"Se eu usasse a palavra, diria educado, evoluído. Isto é evoluído? É sequer educado? Nem sempre é gramatical. Não tem estilo. Em motivo, é anterior a Boccaccio."
"Você desaprova."
"Certamente que não."
"Então você aprova, apesar da sua condenação imediata?"
"De modo algum. Eu nem aprovo nem desaprovo. Representa apenas uma fase da humanidade — o propósito deliberado de assegurar dinheiro ou notoriedade para o indivíduo, independentemente do bem-estar da comunidade. Não há nada a admirar nisso. Seria odioso culpá-lo quando todo o esquema social é igualmente errado e desprezível. A propósito, que interesse você acha que as mercadorias de qualquer alcoviteiro literário, de ambos os sexos, poderiam ter para mim, um estudioso — ainda que equivocado — da ciência?"
"Não achei que o livro possuiria o menor interesse para você, e suponho que você já esteja ciente disso?"
"Ah, não! Meu poder telepático é reservado para propósitos mais sérios. Seu exercício custa-me demais para gastá-lo com ninharias. Consequentemente, não sei por que você mencionou o livro."
A isso respondi candidamente: "Mencionei-o para me tirar de uma dificuldade de conversação — sem muito sucesso."
Natalie foi reservada comigo no início. Ela se dedicou desnecessariamente a um rapaz chamado Halley que estava hospedado com eles. Grey fora para Londres. Seu lugar fora ocupado por um Sr. Rockingham, de quem não gostei. Havia algo sinistro em sua expressão, e ele raramente falava, exceto para dizer algo cínico e, consequentemente, desagradável. Ele "conhecera a vida", isto é, tudo o que é deletério e destrutivo para ela. Sua ligação com Brande era claramente um rebote, o rebote do desprezo. Não havia nada de louvável nisso. Minha primeira impressão dele foi, portanto, desfavorável. Minha última lembrança dele é um item adequado no pesadelo que o contém.
O jovem Halley teria me interessado sob circunstâncias comuns. Seu rosto era tão bonito e refinado quanto o de uma garota bonita. Sua figura, também, era esguia e sua voz efeminada. Mas ali a minha própria vantagem, como eu a considerava, sobre ele cessava. Intelectualmente, ele era um aluno de Brande que fazia jus ao mestre. Tendo feito essa descoberta, não a segui. Minha mente estava fixada demais em uma questão definida para ficar mais do que temporariamente interessada nos epigramas de um cientista de bochechas de pêssego.
A tarde estava bem avançada antes que eu tivesse a oportunidade de falar com Natalie. Quando ela veio, não parei para quebrar a cabeça com uma escolha de frases.
"Desejo falar com você a sós sobre um assunto de extrema importância para mim", disse apressadamente. "Você virá comigo à beira-mar? Seu tempo, eu sei, está totalmente ocupado. Eu não pediria isso se minha felicidade não dependesse disso."
A filósofa olhou para mim com olhos graves e gentis. Mas o coração de mulher dentro dela fez o sangue vermelho incendiar suas bochechas. Foi então que me foi dado sondar a profundidade mais baixa da estupidez grosseira que eu já havia atingido.
"Eu não quis dizer isso", exclamei, "eu não me atreveria..."
O rubor em sua bochecha queimou mais profundamente enquanto ela jogava a cabeça orgulhosamente para trás e dizia diretamente, sem qualquer demonstração de defesa ou sombra de ocultação:
"O erro foi meu. Fico feliz em saber que fui injusta com você. Você é meu amigo, não é?"
"Acredito que tenho o direito de reivindicar esse título", respondi.
"Então o que você pede está concedido. Venha." Ela colocou a mão corajosamente na minha. Apertei os dedos esguios, dizendo:
"Sim, Natalie, algum dia provarei a você que sou seu amigo."
"A prova é desnecessária", respondeu ela, com uma voz baixa e triste.
Partimos para o mar. Nem uma palavra foi dita no caminho. Nem nossos olhos se encontraram. Estávamos em uma posição estranha. Era esta: o homem que jurara ser amigo da mulher — que não pretendia se esquivar da prova de sua promessa, e nunca a contestou — pretendia pedir à mulher, antes que o dia terminasse, que se livrasse de se associar conscientemente a uma quadrilha de assassinos científicos. A mulher adivinhara vagamente seu propósito e não podia se livrar da acusação.
Quando chegamos à costa, ocupamo-nos inconsequentemente. Caçamos peixinhos até que as botas delicadas de Natalie estivessem encharcadas. Examinamos habitantes pitorescos das águas rasas até que suas luvas estivessem estragadas. Saltamos de rocha em rocha e evitamos a arremetida das ondas espumantes. Criamos aquedutos para intercomunicação entre piscinas profundas. Banhamos-nos ao sol e ouvimos o gemido profundo do mar, e o murmúrio solene das conchas. Bebemos o fôlego profundo do oceano e, por um breve espaço, fomos como crianças felizes.
O fim veio logo para essa felicidade efêmera. Era apenas uma daquelas moedas brilhantes arrancadas da mão avarenta do Tempo que sempre devem ser pagas de volta com encargos usurários. Pagamos com juros cruéis.
De pé em uma rocha plana, lado a lado, preparei-me para fazer a esta garota a mesma pergunta que fizera à sua amiga, Edith Metford, o quanto ela sabia da extraordinária e absurda Sociedade — como eu ainda tentava considerar — que Herbert Brande fundara. Ela parecia tão franca, tão refinada, tão gentil, que mal me atrevi a fazer minha pergunta brutal a uma garota inocente, a quem eu vira estremecer com o sofrimento de um pássaro ferido e empalidecer até os lábios com o grito de morte de um coelho. Desta vez não havia possibilidade de consequência adversa na pergunta, exceto para mim mesmo — pois certamente a garota estava a salvo de seu próprio irmão. E eu mesmo preferia arriscar as consequências a suportar por mais tempo o pensamento de que ela pertencia voluntariamente a um clube vil de assassinos. No entanto, a pergunta não saía. Uma coisa simples a trouxe à tona. Natalie, após olhar para o mar silenciosamente por alguns minutos, disse simplesmente:
"Quanto tempo vamos ficar aqui, eu me pergunto?"
"Até você responder a esta pergunta. O quanto você sabe sobre a Sociedade do seu irmão, na qual entrei para meu intenso arrependimento?"
"Sinto muito que você se arrependa de ter entrado", respondeu ela gravemente.
"Você não sentiria muito", disse eu, "se soubesse tanto sobre ela quanto eu", esquecendo que eu ainda não tinha resposta para minha pergunta, e que a extensão de seu conhecimento era desconhecida para mim.
"Acredito que sei tanto quanto você." Havia um tremor em sua voz e um olhar de súplica ansiosa em seus olhos. Esse olhar me enlouqueceu. Por que ela me suplicaria, a menos que fosse culpada? Bati o pé na rocha sem notar que, ao fazê-lo, chutei toda a nossa coleção de conchas para dentro da água.
Havia algo mais a perguntar, mas fiquei em silêncio e carrancudo. Os bosques acima da praia estavam corais com vozes de pássaros. Eram odiosos para mim. A canção do mar das ondas agitadas era horrível. Amaldiçoei a luz amarela do pôr do sol brilhando em suas cristas nevadas. Uma mão minúscula foi colocada sobre meu braço. Eu me contorci sob seu toque mortal, ainda que delicioso. Mas não pude afastá-lo, nem deixar de me virar para o rosto doce ao meu lado, para marcar mais uma vez seu apelo mudo — agora mais do que um simples apelo; era súplica que estava em seus olhos. Seus lábios vermelhos estavam entreabertos como se expressassem uma oração não dita. Finalmente, uma oração passou deles para mim.
"Não me julgue até que me conheça melhor. Não me odeie sem causa. Não sou perversa, como você pensa. Eu... eu... estou tentando fazer o que acho que é certo. Pelo menos, não sou egoísta ou cruel. Confie em mim mais um pouco."
Olhei para ela por um momento e, então, com um soluço, eu a envolvi em meus braços e gritei:
"Meu Deus! nomear assassinato e aquele rosto de anjo em uma mesma frase! Criança, você foi enganada. Você não sabe de nada."
Por um segundo, ela permaneceu em meu abraço. Então, ela gentilmente afastou meus braços e, olhando para mim, disse destemida, mas tristemente:
"Não posso mentir — nem mesmo pelo seu amor. Eu sei de tudo."
CAPÍTULO VIII.
O MISTÉRIO DE WOKING.
Ela sabia de tudo. Então ela era uma assassina — ou simpatizante de assassinos. Meus braços caíram dela. Recuei tremendo. Não me atrevi a olhar para seus olhos mentirosos, que pediam piedade quando seu coração vil não conhecia misericórdia. Certamente agora eu havia resolvido o enigma enlouquecedor que o caráter desta garota, até então, me apresentara. No entanto, a verdadeira solução estava tão longe de mim quanto sempre. De fato, eu não poderia estar mais longe dela do que naquele momento.
Enquanto caminhávamos de volta, Natalie fez duas ou três tentativas fracassadas de me tirar do silêncio que era, certamente, mais eloquente da minha parte do que qualquer palavra que eu pudesse ter usado. Uma vez, ela começou:
"É difícil explicar..."
Interrompi-a asperamente. "Nenhuma explicação é possível."
Nisso, ela levou o lenço aos olhos, e um soluço meio contido sacudiu sua figura esguia. Sua tristeza me perturbava. Mas o que eu poderia dizer para atenuá-la?
À porta do saguão, parei e disse: "Adeus".
"Você não vai entrar?"
Havia uma franqueza e ênfase na pergunta que não me escaparam.
"Eu?" O horror em minha própria voz surpreendeu-me, e certamente não passou sem que ela notasse.
"Muito bem; adeus. Não somos exatamente escravos da convenção aqui, mas você é avançado demais nesse sentido até para mim. Esta é a sua segunda partida surpreendente de nós. Espero que você me poupe da humilhação acarretada pela condescendência de sua futura amizade."
"Dê-me uma hora!", exclamei horrorizado. "Você não leva em conta o enigma em que tudo está envolto. Eu disse que era seu amigo quando pensava que você era de boa reputação. Dê-me uma hora — apenas uma hora — para dizer se ficarei com minha promessa, agora que você mesma alegou que sua reputação não é boa, mas má. Pois é isso o que você protestou. Peço demais? Ou sua generosidade é mais limitada até do que a minha?"
"Ah, não! Eu não gostaria que você pensasse isso. Leve uma hora, ou um ano — apenas uma hora, se você se importa com a minha felicidade."
"Combinado", disse eu. "Levarei a hora. A discrição pode ficar com o ano."
Então eu a deixei. Não podia entrar. Um teto me sufocaria. Dê-me os gramados abertos, os bosques frondosos, o sopro do vento de verão. Longe, então, para o silêncio da noite que se aproxima. Por uma hora, deixe-me com meus pensamentos. Sua indignidade agora era mais do que suspeita. Era admitida. Minha miséria estava completa. Mas eu não me separaria dela; eu não poderia. Inocente ou culpada, ela era minha. Devo sofrer com ela ou por ela. A resolução à qual me mantive fiel foi formada enquanto eu vagava solitário pelos bosques.
Quando cheguei ao meu quarto naquela noite, encontrei um bilhete de Brande. Receber uma carta de um homem em cuja casa eu era hóspede não me surpreendeu. Eu já passara dessa fase. Não havia nada de misterioso na carta, exceto sua conclusão. Era simplesmente um convite para uma reunião pública da Sociedade, que seria realizada naquela mesma semana no salão em Hanover Square, e o aspecto especial da carta — vendo que não desapareceu como o telegrama, mas permaneceu como uma folha de papel comum — estava em sua frase final. Isso me instava a não permitir que nada impedisse meu comparecimento. "Você talvez entenda depois que não somos nem conspiradores políticos nem lunáticos, como você pensou."
Pensou! O poder misterioso do homem estava se tornando cansativo. Era demais para mim. Desejei nunca ter visto seu rosto.
"Acha que entendo?" perguntei, com uma risada amarga. "Você deseja que eu acredite que toda essa sua organização, com seus métodos de silenciamento e suas coincidências fatais, é apenas uma tentativa benevolente de melhorar a humanidade?"
Ele não respondeu diretamente. Seus olhos vagaram para além de mim, como se estivesse observando algo que apenas ele pudesse ver. "A benevolência, tal como a entende, é apenas um dos muitos erros de percepção que mencionei hoje. O que chamamos de remédio, para a Natureza, é apenas uma mudança de estado."
Edith Metford puxou meu braço com força, impaciente. "Por favor, vamos embora. Sinto como se o ar aqui estivesse carregado de uma eletricidade que me faz querer gritar."
Acompanhei-a para fora. Enquanto caminhávamos pelas ruas silenciosas de Londres, a névoa noturna envolvia os lampiões de gás, transformando-os em esferas pálidas e fantasmagóricas. A mente me girava com as palavras de Brande. Se ele estava certo, se a existência era apenas esse ciclo atômico de sofrimento sem fim, então a moralidade, a lei, a própria ideia de justiça eram apenas ilusões tolas inventadas por criaturas que, por um breve momento, tinham consciência de sua própria insignificância.
"Ele é um demônio," sussurrou Edith, interrompendo meus pensamentos. "Não me importa o que a ciência ou a filosofia digam. Há algo naquilo que ele faz que não pertence a este mundo."
"Eu tentei encontrar uma explicação lógica," respondi, sentindo o peso da evidência que eu mesmo buscara em Brookwood. "Mas não há lógica na morte de Delany. Há apenas o frio cálculo de um homem que acredita estar acima das leis da vida."
Chegamos ao meu alojamento e ela me deixou na porta, recusando-se a entrar. "Cuidado, meu caro amigo. Natalie pode amá-lo, mas ele não ama nada. Nem mesmo a ela."
Passei o resto da noite acordado, ouvindo o tique-taque do relógio, cada batida soando como um lembrete do tempo que se esgotava. Brande não era apenas um palestrante; ele era um arquiteto do desespero. Se eu queria salvá-la, teria de enfrentar não apenas o irmão, mas a própria lógica implacável que ela parecia ter aceitado como sua nova religião. Eu tinha o conhecimento, eu tinha a prova da morte de Delany, mas, diante daquela filosofia colossal e terrível, sentia-me como uma criança tentando impedir o avanço de uma maré com um punhado de areia. Ainda assim, a resolução de não abandoná-la permanecia, estranha e inabalável, no centro do meu ser.
A própria ideia de que eu poderia convencê-la a abandonar aquela loucura parecia agora um exercício de futilidade. Eu a observei caminhar de volta para o lado de Brande, que a aguardava com uma paciência predatória. Era evidente que a rede havia se fechado; o que eu antes considerava uma organização de fanáticos, mostrava-se agora uma entidade muito mais coesa e formidável. Havia algo na forma como Brande falava, uma ausência total de dúvida, que era mais aterradora do que qualquer ameaça verbal.
Naquela noite, a Esmeralda deslizava pelo oceano como uma lâmina silenciosa. Eu não conseguia dormir. O ar da cabine parecia rarefeito, impregnado com uma eletricidade estática que fazia meus nervos vibrarem. Saí para o convés, onde a lua, um crescente pálido, mal iluminava o vasto deserto de água. Encontrei-me com Rockingham, que observava a esteira do navio com um sorriso enigmático, quase divertido.
"A beleza da destruição, meu caro", disse ele, sem que eu precisasse dizer uma palavra. "Você ainda se prende à moralidade da preservação. É uma falha de perspectiva que, temo, o acompanhará até o fim."
"A destruição não é beleza", retruquei, sentindo o peso da minha impotência. "É apenas o fim de algo que não podemos recriar."
Rockingham riu, um som seco que se perdeu no rugido das ondas. "Você fala como se a criação tivesse algum valor intrínseco. Brande nos ensinou que a matéria é apenas uma ilusão temporária, um arranjo de éter que aguarda a sua libertação. O que você chama de crime, ele chama de alívio."
Afastei-me dele, incapaz de suportar aquela dialética de niilismo. Voltei para o convés principal e vi que Natalie estava lá, sozinha, olhando para o horizonte. Ela parecia uma sombra entre as sombras. Ao me ver, ela não recuou, mas seus olhos, úmidos sob a luz das estrelas, revelaram uma angústia que ela tentava esconder a todo custo.
"Você não deveria estar aqui, Marcel", murmurou ela, sua voz mal audível sobre o vento. "Quanto mais você souber, mais difícil será para mim... para nós."
"O que é que você espera de mim, Natalie?" perguntei, aproximando-me. "Que eu assista, de braços cruzados, enquanto você e seu irmão transformam o mundo em cinzas?"
"Eu espero que você sobreviva", disse ela, com uma intensidade que me gelou. "Pois, quando o experimento final for concluído, não restará nada para julgar, nada para lamentar e, certamente, nada para salvar."
Eu queria segurá-la, sacudi-la, forçá-la a despertar daquele transe ideológico, mas ela se afastou, deixando-me sozinho na imensidão da noite. O navio continuava sua marcha inexorável em direção ao desconhecido, e eu percebi, com um horror crescente, que a minha presença a bordo não era mais a de um observador, mas a de um prisioneiro de um destino que eu mesmo havia escolhido seguir.
"Quem é esse homem sem sistema nervoso de quem você fala?" perguntei friamente. Eu não lamentava ter a oportunidade de lhe dar uma lição que poderia ser colocada em contraponto aos muitos insultos que me foram dirigidos, principalmente sob a forma de encolher de ombros, elevações de sobrancelha e coisas do gênero.
"Você, é claro. Não pretendo ofender — você é magnífico. Sou honesto ao dizer que o admiro. Gostaria de ser como você em altura, peso, musculatura — e ausência de sistema nervoso."
"Você manteria seu próprio cérebro, suponho?" perguntei.
"Sim, eu manteria esse."
"E eu manterei meu próprio sistema nervoso", respondi. "E a diferença entre o meu e o seu é esta: enquanto meu senso de perigo é, ou era, tão aguçado quanto o seu, eu tenho minha reserva de força nervosa — ou a tinha — com a qual se poderia contar para me sustentar em uma emergência súbita. Essa reserva você gastou em seu cérebro. Existem dois tipos de covardes: o covarde egoísta que não se importa com nenhum interesse a não ser o seu próprio; o covarde altruísta que não se importa consigo mesmo, mas que não consegue enfrentar um perigo porque não ousa. E existem dois tipos de homens corajosos: o homem sem nervos de quem você falou, que simplesmente enfrenta o perigo porque não o avalia, e o homem que enfrenta o perigo porque, embora o tema, ele o desafia. Não tenho dificuldade em colocá-lo nesta lista."
"Você me coloca..."
"Um covarde porque você não pode evitar. Você está meramente em desarmonia com seu ambiente. Você deveria trazer consigo um suprimento de 'ambiente', já que não pode fabricá-lo prontamente como eu. Desejo ficar só. Bom dia."
"Antes de ir, Marcel, direi isto." Havia lágrimas em seus olhos. "Essas pessoas não o conhecem de verdade, com todo o seu poder telepático. Você não é... não é..."
"Não sou tão tolo quanto pensam. Obrigado. Pretendo provar isso a eles algum dia."
Com isso, afastei-me dele, embora sentisse que ele teria ficado alegremente por mais tempo comigo.
Enquanto o Esmeralda varria as longas ondulações do Mediterrâneo, ouvi Brande palestrar pela segunda vez. Foi um interlúdio adequado entre seu primeiro e terceiro discursos. Eu poderia classificá-los assim — o primeiro, crítico; o segundo, construtivo; o terceiro, executivo. Seu terceiro discurso foi o último que ele fez no mundo.
Estávamos reunidos no salão. Teria sido mais agradável no convés superior, devido ao calor, mas o orador não teria sido facilmente ouvido ali no ruído do vento e das ondas. Eu mal podia acreditar que era Brande quem se levantava para falar, tão mudada estava sua expressão. O ceticismo franco, que recentemente havia degenerado em cinismo, ainda temperado com um ar meio gentil de superioridade fácil, havia desaparecido. Em seu lugar, havia um olhar de propósito concentrado e implacável que dominava o próprio homem e todos que o viam. Ele começou com frases diretas e contundentes, com apenas uma eloquência levemente reminiscente que era parte de si mesmo, e da qual ele não poderia, sem um esforço consciente, ter libertado seu estilo. Mas todo o porte do homem tinha pouco rastro do acadêmico diletante que todos nós lembrávamos.
"Quando dirigi a palavra a esta Sociedade pela última vez", começou ele, "eu trabalhava sob uma dificuldade em chegar à verdade última que era de minha própria fabricação. Pressupus, como se lembrarão, a indestrutibilidade do átomo e, em consequência lógica, fui forçado a admitir a conservação do sofrimento, a eternidade da miséria. Mas, naquela noite, muitos dos meus ouvintes não eram instruídos nos rudimentos do pensamento último, e alguns ainda estavam céticos quanto à boa-fé do nosso propósito e à nossa capacidade de atingir seu objetivo. Para eles, em sua inépcia da época, o que direi agora teria sido ininteligível. Pois, da mesma maneira que as ondas de luz ou som que excedem um certo máximo não podem ser transferidas ao cérebro por olhos e ouvidos embotados, as pulsações do meu pensamento teriam escapado daqueles ouvintes em virtude de sua própria falta de resposta. Esta noite estou livre da limitação que sofri então, porque não há ninguém ao meu redor agora que não tenha conhecimento suficiente para captar o que apresentarei."
"Lembram-se de que tracei para vocês a história da evolução em sua jornada do átomo à estrela. E mostrei-lhes que a hipótese da indestrutibilidade do átomo era simplesmente um credo de crueldade escrito em letras garrafais. Agora prossigo nas linhas da ciência verdadeira para mostrar-lhes como essa hipótese é falsa; que, como o átomo é destrutível — como viram pelos nossos experimentos (o último dos quais resultou em um clímax não pretendido por mim) — todo o esquema do que é chamado de criação desmorona. Assim como o átomo foi o primeiro erro etéreo, o Universo material é o grande equívoco etéreo."
"Ao considerar a sucessão maravilhosa e miserável de erros resultante do remédio atômico meretrício adotado pelo éter para curar suas feridas locais, deve-se primeiro dizer do próprio éter que há éter demais. O espaço não é suficiente para ele. Assim, as partículas de éter — aquelas entidades imponderáveis que vibram através de um bloco de mármore ou de um disco de aço martelado com apenas um movimento embotado, não aniquilado, estão por sua própria e tumultuada abundância mais compactadas do que desejam. Digo desejam, pois se toda a consciência e sensibilidade material são fundadas na consciência atômica, então, por sua vez, a consciência atômica é fundada e dependente da consciência etérica. Essas partículas de éter, portanto, quando pressionadas demais por seus vizinhos, ressentem o impacto e, ao fazê-lo, iniciam redemoinhos etéreis, de cujas vastas perturbações partem derivas estupendas. Em seu poder gigantesco, essas avalanches esmagam as partículas que as impedem, forçam o meio resistente para fora de seu estágio normal, destroem a homogeneidade de seus constituintes e os aglomeram em comunidades individualistas cujas vibrações brincam com maior liberdade quando se sincronizam. As tendências etéricas homogêneas recuam e finalmente se determinam."
"Eis um milagre! Um átomo nasce!"
"Por um processo semelhante — que posso comparar ao de adiar um dia mau que em algum momento deve ser suportado — os átomos se agrupam em moléculas. Por sua vez, as moléculas saem para a guerra, capturando ou sendo capturadas; as vibrações dos escravos sendo sempre forçadas a se sincronizar com as de seus conquistadores. O núcleo do gás de um metal primal está agora completo, e a fundação de um sistema solar — mera molécula do Universo como é — está lançada. Depois disso, o resto é facilmente acompanhado. Está descrito em seus livros escolares e não deve me ocupar agora."
"Mas uma palavra interpolarei que pode servir para explicar uma crença humana curiosa e interessante. Vocês estão cientes de como, em tempos passados, homens de absolutamente nenhum discernimento científico mantinham firmemente a ideia de que um elixir da vida e uma pedra filosofal poderiam ser descobertos, e que esses dois objetos eram quase sempre buscados contemporaneamente. Esse é, em minha opinião, um exemplo extraordinário da força da consciência atômica. A ideia em si estava absolutamente correta; mas os homens que a seguiram tinham pouco conhecimento de sua unidade e nenhum conhecimento de sua busca adequada. Eles teriam trabalhado em suas linhas especiais até a eternidade antes de avançar um único passo em direção ao seu objetivo. E isso porque eles não sabiam o que era a vida, e o que era a morte, e o que os metais significavam ultimamente, que eles, tolos cegos, tentaram tão mal-sucedidamente transmutar. Mas nós sabemos mais do que eles. Sem dúvida, subimos nos apoios que eles esculpiram, e alcançamos o cume que eles apenas viram na miragem da esperança. Pois sabemos que não há vida, não há morte, não há metais, não há matéria, não há emoções, não há pensamentos; mas que tudo o que chamamos por esses nomes é apenas o éter em várias condições. Vida! Eu poderia viver tanto quanto esta terra se submeterá à existência humana se tivesse estudado esse problema mesquinho. Metais! O navio em que vocês navegam foi comprado com ouro fabricado em meus cadinhos."
"Os ininteligentes — ou devo dizer os grosseiramente ignorantes — mantêm há muito tempo sobre as cabeças dos pioneiros da ciência estas duas grandes acusações: nenhum homem jamais transmutou um metal; nenhum homem jamais provou o elo de ligação entre a vida orgânica e a inorgânica. Digo vida, pois presumo que esta companhia admita que uma placa de granito está tão viva quanto qualquer homem ou mulher que vejo diante de mim. Mas eu fabriquei ouro, e poderia ter fabricado protoplasma se tivesse dedicado minha vida a esse objetivo. Meus estudos foram quase inteiramente no plano inorgânico. Daí a 'pedra filosofal' ter surgido em meu caminho, mas não o 'elixir da vida'. As moléculas de protoplasma são apenas um pouco mais complexas do que as moléculas de hidrogênio ou nitrogênio ou ferro ou carvão. Vocês podem fundir o ferro, vaporizar a água, misturar os gases; mas as moléculas de tudo mudam pouco em tal metamorfose. E vocês podem matar vinte mil homens em Waterloo ou Sedan, ou dez mil gerações podem ser contadas com o pó, e nem uma onça de protoplasma jaz morta. Todas as moléculas são meramente arranjos de átomos feitos sob diferentes graus de pressão e de diferentes idades. E todos os átomos são construídos de constituintes idênticos — o éter, como eu disse. Portanto, o éter, que foi desde o princípio, é agora, e sempre será, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre, é a origem da força, da matéria, da vida."
"Ele está vivo!"
"Seus filhos estelares são tantos que as areias da beira-mar não podem ser usadas como similitude para sua multidão; e eles se estendem tão longe que a distância não pode ser nomeada em relação a eles. Eles estão tão acima de nós e tão abaixo de nós que não há nem altura nem profundidade neles. Não há nem leste nem oeste neles, nem norte e sul neles. Nem há começo ou fim para eles. O tempo larga sua foice e fica horrorizado diante daquela hoste terrível. O número não se aplica às suas multidões eternas. A distância perde-se no espaço ilimitado. E de todas as estrelas que cravejam as cavernas do Universo, incha este coro terrível: Falha! Falha e futilidade! E o éter é o culpado!"
"O sofrimento heterogêneo é mais agudo do que o homogêneo, porque a agonia é intensificada por ser localizada; porque o conforto dos confortáveis só é comprável pela miséria multiplicada dos miseráveis; porque o lazer aristocrático exige que os pobres estejam sempre com ele. Não há, portanto, alegria sem seu sofrimento desproporcional. Não há bem sem mal mais intenso. Não há morte senão na vida."
"De volta, então, deste sofrimento longo, desequilibrado e injusto, desta existência insuficiente. De volta ao Nirvana — o éter! E eu liderarei o caminho."
"O agente que empregarei me custou toda a vida para descobrir. Ele liberará os vastos estoques de energia etérica trancados no enorme armazém atômico deste planeta. Remediarei o grande erro apenas em um grau que seria absurdo chamar até de microscópico; mas quando tiver feito o que posso, estou isento de culpa pelo resto. Na devida época, todo o erro será curado pelos mesmos meios que usarei, e todo o experimento hediondo terá acabado, e o descanso eterno ou quase descanso substituirá o magnífico fracasso da existência material. Esta terra, pelo menos, e, sou encorajado a esperar, todo o sistema solar, será por minha instrumentalidade restaurado ao éter do qual nunca deveria ter emergido. Uma vez antes, na história do nosso sistema, um esforço semelhante ao meu foi feito, infelizmente sem sucesso."
"Desta vez não falharemos!"
Um murmúrio baixo surgiu da plateia quando o palestrante concluiu, e um sussurro abafado perguntou:
"Onde foi feito aquele outro esforço?"
Brande virou-se momentaneamente e disse calma, mas distintamente:
"No planeta que ficava onde os Asteroides estão agora."
CAPÍTULO XIII.
O PLANO DE MISS METFORD.
Abastecemo-nos de carvão em Port Said como qualquer navio a vapor comum. Embora eu tivesse feito a viagem pelo Mar Vermelho mais de uma vez, nunca antes tinha tido o menor interesse no abastecimento de carvão do navio em que eu era passageiro. Desta vez, tudo estava diferente. Aquilo que me interessava antes parecia trivial agora. E aquilo que antes parecia trivial era agora absorvente. Observei o abastecimento de carvão — por mais comum que fosse o espetáculo — com vívida curiosidade. As luzes vermelhas, os demônios fuliginosos trabalhando, cada saco de carvão que carregavam e todas as nuvens de poeira de carvão que criavam eram episódios adequados em uma viagem como a nossa. Levamos uma quantidade enorme de carvão a bordo. Fiquei acordado quase toda a noite em um estado de espírito que eu pensava que ninguém poderia invejar. Eu mesmo teria menosprezado se soubesse o que ainda estava reservado para o Esmeralda e sua companhia. Era quase manhã quando me deitei. Quando acordei, estávamos nos aproximando do Mar Vermelho.
No convés, a conversa do nosso grupo era sempre excêntrica, mas deve ser dito a seu favor: às vezes havia um brilho cintilante nela que quase cegava alguém para seu absurdo extremo. A demonstração de bom humor que era muito geral era, em sua maior parte, não afetada. Quanto ao resto, era claramente assumido. Mas aqueles que assumiam seus papéis o faziam com um poder histriônico que era ainda mais surpreendente quando se lembra que a origem de sua excelente atuação estava centrada em seus próprios medos. Mantive uma atitude neutra. Não me aventurei em nenhum ato ostensivo de insubordinação. Isso teria significado apenas minha destruição, sem qualquer vantagem compensatória no sentido de frustrar um empreendimento no qual eu era um participante muito relutante. E pretender o que eu não sentia era uma tarefa que eu não tinha estômago para empreender nem capacidade para realizar com sucesso. Consequentemente, mantive meu conselho — e o de Edith Metford.
Brande era o maníaco mais fácil de abordar que já tinha conhecido. Sua afabilidade continuou absolutamente consistente. Aproveitei isso para dizer-lhe em uma oportunidade conveniente: "Por que você trouxe essas pessoas com você? Todas elas devem ser inúteis, e muitas delas pouco melhores do que um incômodo!"
"Marcel, você está melhorando. Você alcançou o poder telepático? Você leu minha mente." Isso foi dito com um sorriso agradável.
"Eu não posso ler sua mente", respondi; "eu apenas diagnostico."
"Seu diagnóstico está correto. Respondo-lhe em uma frase. Todas elas são simpáticas, e a simpatia humana é necessária para mim até que meu propósito seja cumprido."
"Você não espera de mim qualquer medida dessa simpatia, suponho?"
"Não espero. Você é antipático."
"Sou."
"Mas necessário, mesmo assim."
"Que assim seja, até que o momento adequado chegue."
"Ele nunca chegará", disse Brande com firmeza.
"Veremos", respondi tão firmemente quanto ele.
Na noite seguinte, enquanto navegávamos pelas águas azuis — azul profundo, sempre me pareciam — do Mar Vermelho, eu estava sentado no convés de vante fumando e tentando pensar. Não notei como o tempo passou. O que me pareceu uma hora no máximo, devia ter sido três ou quatro. Com exceção dos homens da tripulação que estavam de serviço, eu estava só, pois o calor era intenso, e a maioria do nosso pessoal estava deitado em suas cabines prostrado, apesar das velas de vento que estavam estendidas de cada vigia para pegar a brisa. Minhas meditações eram, como de costume, sombrias e desalentadoras. Elas foram interrompidas por Miss Metford. Ela se juntou a mim tão silenciosamente que eu não percebi sua presença até que ela colocou a mão no meu braço. Assustei-me com seu toque, mas ela sussurrou um aviso agudo, tão cheio de emoção contida que recuperei instantaneamente uma aparência de indiferença.
A moça estava muito branca e nervosa. Esse contraste com sua habitual equanimidade era inquietante. Ela agarrou-se a mim histericamente enquanto ofegava:
"Marcel, é uma misericórdia que eu tenha encontrado você sozinho, e que haja um homem são neste navio cheio de lunatas."
"Receio que você não esteja totalmente certa", disse eu, enquanto colocava uma cadeira para ela perto da minha. "Dificilmente posso estar são quando sou um passageiro voluntário a bordo desta embarcação."
"Você realmente acha que eles querem dizer o que dizem?" ela perguntou apressadamente, sem notar meu comentário.
"Eu realmente acho que eles descobriram o segredo de forças naturais extraordinárias, tão poderosas e tão terríveis que ninguém pode dizer o que podem ou não podem realizar. E essa é a razão pela qual implorei para você não vir nesta viagem."
"Qual era o objetivo de me pedir para não vir sem me dar alguma razão?"
"Se eu tivesse feito isso, eles poderiam tê-la matado como fizeram com outros antes."
"Você poderia ter arriscado isso, vendo que provavelmente terminará desse jeito."
"E eles certamente teriam me matado."
"Ah!"
Pensei sobre a súbita intensidade do suspiro agudo da moça quando disse isso, e maravilhei-me também, como ela, que sempre fora tão masculina, aninhou-se perto de mim e permitiu que sua cabeça afundasse em meu ombro. Senti pena da natureza de força de vontade e autoconfiante que havia cedido sob alguma tensão da qual eu ainda teria que ser informado. Então, inclinei-me e toquei sua bochecha com meus lábios de uma maneira amigável, ao que ela olhou para mim com olhos semicerrados e sussurrou com uma voz estranhamente suave e feminina para ela:
"Se eles precisam nos matar, desejo que nos matem agora."
Acariciei sua bochecha macia gentilmente e insisti em uma visão menos desesperadora. "Mesmo que o pior aconteça, podemos viver o quanto pudermos."
Ao que, para minha surpresa, ela, tendo lançado um rápido olhar em meus olhos, afastou meu braço e puxou sua cadeira para longe da minha. Sua cabeça estava virada para longe de mim, mas não pude deixar de notar que seu seio subia e descia rapidamente. Logo ela se virou novamente, acendeu um cigarro, colocou as mãos no bolso de sua jaqueta e os pés em outra cadeira, e disse indiferentemente:
"Você tem razão. Mesmo que o pior aconteça, podemos viver o quanto pudermos."
Essa súbita mudança em sua maneira me surpreendeu. Eu sabia que não tinha jeito para lidar com mulheres, então deixei passar sem comentários e olhei para o mar vítreo.
Após alguns minutos de silêncio, a moça falou comigo novamente.
"Você sabe alguma coisa sobre os planos reais desses maníacos?"
"Não. Só sei o propósito absurdo deles."
"Bem, eu sei como será feito. Natalie estava inquieta ontem à noite — você sabe que compartilhamos a mesma cabine — e ela delirou um pouco. Mantive-a em seu beliche por pura força, mas permiti que ela falasse."
Isso era sério. Puxei minha cadeira para perto da de Miss Metford e sussurrei: "Pelo amor de Deus, fale baixo." Então me lembrei do poder de Brande e torci minhas mãos em impotência inútil. "Você esquece Brande. Neste momento, ele está anotando cada palavra que dizemos."
"Ele não está fazendo nada disso."
"Mas você esquece..."
"Eu não esqueço. Por acidente, coloquei morfina no tônico que ele toma, e ele está agora fora da telepatia por algumas horas, pelo menos. Ele está dormindo profundamente. Suponho que se eu não tivesse feito isso por acidente, ele saberia o que eu estava fazendo e, portanto, teria recusado o remédio. De qualquer forma, acidente ou não, eu fiz isso."
"Graças a Deus!" exclamei.
"E esse precioso agente desintegrador! Parece que eles não o têm com eles. Fabricá-lo em quantidade suficiente seria impossível em qualquer país civilizado sem medo de detecção ou interrupção. Brande tem a receita, fórmula — como você chama? — e se você pudesse pegar o papel e..."
"Jogar ao mar!"
"Bobagem! Eles fariam tudo de novo."
"O que então?" sussurrei.
"Roubar o papel e... não serviria colocar um x ou y extra, ou enfiar um par de dígitos adicionais em qualquer vaga adequada? Você não acha que eles continuariam com o esquema e..."
"E?"
"E fariam uma bagunça com isso!"
"Miss Metford", disse eu, levantando-me da minha cadeira, "quer dizer Metford, sei que você gosta de ser tratada como um homem — ou costumava gostar."
"Sim, eu costumava", ela assentiu friamente.
"Vou tomá-la em meus braços e beijá-la."
"Estou enforcado se você o fizer!" exclamou ela, tão bruscamente que fiquei subitamente embaraçado. Minha pretendida intimidade e sua expressão pareceram grotescas, embora poucos minutos antes ela estivesse tão amistosa. Mas não podia desperdiçar um tempo precioso estudando os caprichos de uma moça, por isso perguntei de imediato:
"Como posso conseguir esse papel?"
"Eu disse roubá-lo, se bem se lembra." Sua voz agora era dura, quase áspera. "Você pode consegui-lo na cabine de Brande, se não for medroso nem ciumento."
"Não sou muito medroso, e vou tentar. O que quer dizer com ciumento?"
"Quero dizer, você, para salvar Natalie Brande — pois eles certamente conseguirão explodir a si mesmos, se ninguém mais o fizer —, consentiria em que ela se casasse com outro homem, digamos aquele jovem lunático Halley, que está sempre a rondá-la quando você não está?"
"Sim", respondi, após refletir. Pois as atenções de Halley para com Natalie tinham sido tão marcantes que a menção claramente inconsequente dele a este assunto não me surpreendeu. "Se isso for necessário para salvá-la, é claro que consentiria. Por que pergunta? No meu lugar, você faria o mesmo."
"Não. Eu veria o navio e todos os seus preciosos passageiros no fundo do mar antes."
"Ah! Mas você não é um homem."
"Verdade! E, além disso, estou contente por isso." Então, olhando para a parte racional de seu traje, acrescentou secamente: "Não voltarei a usar estas coisas."
CAPÍTULO XIV.
ROCKINGHAM AOS TUBARÕES.
À uma hora da manhã levantei-me, vesti-me apressadamente, calcei um par de chinelos de feltro e pus um revólver no bolso. Era então hora de pôr à prova a proposta de Edith Metford, e ela estaria à minha espera no convés para saber se eu tinha sido bem-sucedido. Tínhamos nos separado algumas horas antes em termos algo frios. Eu tinha concordado em seguir sua sugestão, mas não podia preocupar meu cérebro cansado com suposições sobre a causa de seus humores.
Estava muito escuro. Havia apenas luz suficiente para me permitir encontrar o caminho ao longo do corredor, do qual davam os camarotes ocupados por Brande e seus imediatos. Todos os que dormiam estavam inquietos devido ao calor terrível. À medida que eu passava furtivamente, uma palavra abafada, um suspiro ou um movimento nos beliches faziam-me parar a cada passo com o coração a bater. Tendo escutado até que tudo estivesse quieto, movi-me novamente sem ruído. Eu estava quase no fim do corredor. Tão concentrado estive em manter o silêncio perfeito, que não me ocorreu logo que eu estava à procura de uma porta específica. Eu tinha esquecido o número de Brande!
Não conseguia pensar nele tanto quanto alguém consegue recordar o nome de um conhecido meio esquecido encontrado subitamente na rua. Poderia ter sido catorze, ou quarenta e um; ou cento e cinquenta. Cada número era tão provável quanto improvável. Tentei em vão concentrar minha mente. O resultado foi nada. O número perdido não dava nenhuma pista. Entrar na sala errada naquele navio àquela hora significava a morte para mim. Disso eu tinha certeza. Deixar a sala certa sem entrar nela entregava minha primeira chance na batalha desigual contra Brande. Então, como sabia que minha primeira chance seria provavelmente a última, se não aproveitada, virei-me para a porta mais próxima e experimentei silenciosamente a maçaneta. A porta não estava trancada. Entrei no camarote.
"O que você quer?" Foi a voz de Halley que veio do beliche.
"Perdoe-me", sussurrei, "um erro. O calor, sabe. Fui ao convés e entrei por engano no seu quarto."
"Oh, tudo bem. Quem é você?"
"Brande."
"Boa noite. Você não errou por muito;" isto sonolento.
Saí e fechei a porta silenciosamente. Tinha ganho algo. Estava a uma porta do meu destino, pois sabia que Halley estava alojado entre Rockingham e Brande. Mas não sabia de que lado ficava o quarto de Brande, e não me atrevi a perguntar. Experimentei a porta seguinte, indo para a frente. Abriu-se como a outra. Entrei.
"Olá, aí!" Desta vez, nenhum homem sonolento ou descuidado me desafiou. Era a voz de Rockingham.
"Não posso entrar no meu próprio quarto?" sussurrei.
"Este não é o seu quarto. Você é?" Rockingham saltou no seu beliche, mas antes que pudesse sair dele, eu estava sobre ele.
"Sou Arthur Marcel. E este anel de ferro que pressiono contra sua orelha esquerda é o cano do meu revólver. Fale, mova-se, respire acima da sua respiração natural e seus miolos atravessam essa vigia. Agora, solte o meu braço e venha comigo."
"Seu tolo!" sibilou Rockingham. "Você não se atreve a disparar. Você sabe que não se atreve."
Ele estava prestes a gritar, mas minha mão esquerda fechou-se sobre sua garganta, e um suspiro gorgolejante foi tudo o que saiu dele.
Depus o revólver e encostei a orelha do homem que se estrangulava junto à minha boca. Tive pouco tempo para pensar; mas o pensamento voa rápido quando um perigo tão mortal ameaça o pensador como aquele que eu teria de enfrentar se não conseguisse chegar a um acordo com o homem que estava em meu poder. Eu sabia que, apesar de sua natureza intensamente desagradável, se ele desse sua promessa, seja por palavra falada ou sinal equivalente, eu poderia depender dele. Não havia mentirosos na Sociedade de Brande. Mas a palavra, eu não podia confiar que ele a dissesse. Eu precisava do seu sinal. Sussurrei:
"Você sabe que não desejo matá-lo. Nunca terei outro dia feliz se me obrigar a isso. Não tenho escolha. Você deve ceder ou morrer. Se você ceder e ficar ao meu lado em vez de contra mim no que se seguirá, escolha a vida tirando sua mão direita do meu pulso e tocando no meu ombro esquerdo. Não o farei mal enquanto isso. Se escolher a morte, toque-me com a esquerda."
O suor escorria pela minha testa em grandes gotas enquanto esperava pela sua escolha. Foi feita logo. Ele soltou a mão esquerda e colocou-a firmemente no meu ombro direito.
Ele tinha escolhido a morte.
Portanto, o homem era apenas um covarde físico — ou talvez tivesse feito apenas uma escolha de alternativas.
Disse lentamente e em grande agonia: "Que Deus tenha piedade da sua alma — e da minha!" ao que os músculos do meu braço esquerdo enrijeceram. O grande bíceps — uma herança dos meus dias de atletismo — engrossou, e desviei os olhos do rosto moribundo, meio escondido pela escuridão. Suas lutas foram muito terríveis, mas com o meu peso sobre seus membros inferiores e meu aperto sobre sua traqueia, aquele estertor de morte foi tão silencioso quanto horrível. O fim veio lentamente. Não podia suportar mais o horror daquilo. Tinha de acabar com isso e terminar. Coloquei meu braço direito sob os ombros do homem e levantei a parte superior do seu corpo do beliche. Então, um puxão desesperado com o braço esquerdo, e houve um estalo surdo como o de um galho seco. Estava acabado. O pescoço de Rockingham estava quebrado.
Limpei a espuma ensanguentada que escorria da boca aberta e tentei compor decentemente a figura contorcida. Cobri o rosto. Então parti para a minha última missão, pois agora eu sabia a porta. Tinha comprado o conhecimento caro, e pretendia usá-lo para o meu próprio propósito, sem me importar com a violência que pudesse ser necessária para alcançar meu fim.
Quando entrei no camarote de Brande, encontrei a luz elétrica totalmente acesa. Ele estava sentado a uma escrivaninha com a cabeça apoiada nos braços, que pendiam cruzados sobre a mesa. O adormecido respirava tão profundamente que era evidente que o efeito da morfia ainda era forte sobre ele. Uma mão agarrava um pergaminho dobrado. Seus dedos apertavam-no sem força, e só precisei forçá-los a abrir um por um para retirar o manuscrito. Enquanto fazia isso, ele gemeu e moveu-se na cadeira. Não tive medo de que acordasse. Minha mão tremia enquanto desdobrava o pergaminho que inconscientemente manuseava com tanto cuidado como se a própria coisa fosse tão mortal quanto a destruição que poderia ser causada por sua orientação.
Para mim, todo o documento era uma massa de fórmulas ininteligíveis. Minha enferrujada educação universitária não podia tirar nada daquilo. Mas não podia perder tempo tentando resolver o enigma, pois não sabia a que momento outro visitante poderia chegar para ver como Brande passava. Primeiro examinei com um microscópio de bolso a tinta do manuscrito e, depois, fazendo um risco com a caneta de Brande numa página do meu bloco de notas, comparei os dois. As cores eram idênticas. Era a mesma tinta.
Em vários lugares onde um espaço estreito tinha sido deixado vago, pus 1 na frente dos algarismos que se seguiam. Não tinha razão para fazer esta alteração em particular, exceto que o algarismo 1 é mais facilmente falsificado do que qualquer outro, e a falsificação é, consequentemente, mais difícil de detectar. As minhas adições, quando a tinta secasse, só poderiam ter sido descobertas por alguém que fosse informado de que o documento tinha sido adulterado. Era provável que uma gaveta que estava aberta com as chaves na fechadura fosse o lugar onde Brande guardava este papel; onde ele procuraria por ele ao acordar. Tranquei-o na gaveta e pus as chaves no bolso dele.
Havia algo mais a fazer com o homem adormecido, cujo cérebro abrangia poderes tão maravilhosos. Sua faculdade telepática devia ser destruída. Eu devia mantê-lo seriamente doente, sem matá-lo. Enquanto ele permanecesse vivo, seus amigos nunca questionariam seus cálculos, e o fiasco que era possível sob quaisquer circunstâncias estaria então assegurado. Eu tinha comigo uma droga oriental, que comprei de um faquir indiano uma vez em Murzapoor. O homem era um impostor, cujos truques não me enganaram. Mas a droga, de qualquer forma que ele a tivesse conseguido, era confiável. Era um veneno que produzia uma forma leve de cerebrite que entorpecia, mas não matava, os poderes mentais. Agia quase identicamente quer administrado por via subcutânea ou, claro, em dose maior, internamente. Trouxe-a para casa com a intenção de dá-la a um amigo que estava interessado em vivissecção. Não pensei que eu mesmo seria o primeiro e o último a experimentar com ela. Serviu bem ao meu propósito.
No momento em que piquei sua pele, Brande moveu-se no assento. Minha mão estava sobre sua garganta. Ele aninhou a cabeça novamente sobre os braços e deu um suspiro profundo. Tivesse ele se movido de novo, aquele suspiro teria sido o seu último. Eu tinha sido tão influenciado pelo que já tinha feito naquela noite, que teria tirado sua vida sem a menor hesitação, se o sacrifício parecesse necessário.
Quando minha operação terminou, saí do quarto e movi-me silenciosamente ao longo do corredor até chegar à escada que levava ao convés. Edith Metford estava à minha espera como tínhamos combinado. Ela estava tremendo, apesar do calor terrível.
"Você fez?" ela sussurrou.
"Fiz", respondi, sem dizer o quanto tinha feito. "Agora você deve retirar-se — e descansar tranquila. A fórmula não funcionará. Coloquei tanto ela quanto o próprio Brande fora de serviço."
"Graças a Deus!" ela arquejou, e então uma fraqueza súbita tomou conta dela. Passou rapidamente, e assim que ela ficou suficientemente recuperada, implorei-lhe que descesse. Ela alegou que não conseguia dormir e pediu-me para ficar com ela no convés. "Seria absurdo supor que qualquer um de nós pudesse dormir esta noite", disse ela, muito verdadeiramente. Ao que fui obrigado a dizer-lhe claramente que ela devia descer. Eu tinha mais o que fazer.
"Posso ajudar?" perguntou ela ansiosamente.
"Não. Se pudesse, eu pediria, pois você é uma moça corajosa. Tenho algo agora para resolver que não é trabalho de mulher."
"Seu trabalho é o meu trabalho", respondeu ela. "O que é?"
"Tenho de baixar um corpo ao mar sem que ninguém me observe."
Não havia tempo para discussão, por isso disse-lhe de imediato, sabendo que ela não cederia de outra forma. Ela sobressaltou-se com as minhas palavras, mas disse firmemente:
"Como fará isso sem ser observado pela 'guarda'? Desça e traga o seu... traga-o. Manterei os homens ocupados." Ela foi para a frente, e eu voltei-me novamente para a escada.
Quando voltei ao camarote de Rockingham, peguei numa folha de papel e escrevi: "Calor — Louco!", não fazendo nenhuma tentativa de imitar a sua escrita. Simplesmente rabisquei as palavras com uma caneta grossa, na esperança de que passassem como uma mensagem de um homem que estava histérico quando as escreveu. Depois voltei-me para o beliche e peguei o corpo. Não era uma coisa agradável de fazer. Mas tinha de ser feita.
Demorei muito tempo a chegar ao convés, pois os braços e as pernas balançavam para lá e para cá, e eu tinha de me mover cautelosamente para que não batessem na madeira por onde tinha de passar. Levei-o em segurança para cima e apressei-me para a popa com ele. Edith, eu sabia, arranjaria forma de manter os homens de vigia ocupados até que eu me tivesse livrado da minha carga. Peguei num rolo de corda e prendi-o ao pescoço do morto. Dando uma volta com a corda em torno de um turco de barco, empurrei a coisa por cima do parapeito. Pretendia soltar a corda no momento em que o peso ligado a ela estivesse em segurança no mar, e assim baixei silenciosamente, soltando a linha sem tensão excessiva devido ao apoio do turco em torno do qual a tinha enrolado. Não tive de esperar tanto tempo, pois assim que o corpo balançava sobre a esteira espumosa do vapor, um pequeno raio de luar disparou de trás de um banco de nuvens e iluminou o navio com um brilho súbito. Fiquei assustado com isso e segurei, temendo que algum olho vigilante pudesse ver meus movimentos curiosos. Por um minuto inclinei-me sobre o parapeito e observei o rastro do vapor como se tivesse subido ao convés para tomar ar. Houve uma investida rápida perto da popa do navio. Algo escuro saltou da água, e houve um estalo agudo — um estalo. Os membros inferiores tinham ido nas mandíbulas de um tubarão. Soltei a corda horrorizado, e o corpo caiu com um mergulho naquele esconderijo horrível. Doente de morte, virei-me.
"Desça rapidamente", disse Edith Metford ao meu ouvido. "Eles ouviram o mergulho, por mais leve que fosse, e estão vindo para este lado." Seu aviso era quase um soluço.
Descemos a escada o mais rápido que nos atrevemos e ouvimos os comentários da guarda lá em cima. Logo ficaram convencidos de que nada de importante tinha acontecido e retomaram seus postos.
Antes de nos separarmos naquela noite horrível, Edith disse com voz trêmula: "Você fez seu trabalho como um homem corajoso."
"Diga antes, como um falsificador e assassino", respondi.
"Não", sustentou ela. "Muitos homens antes de você fizeram muito pior por uma boa causa. Você não é um falsificador. Você é um diplomata. Você não é um assassino. Você é um herói."
Mas eu, sendo novo neste trabalho de matança e engano, só pude desaprovar sua simpatia e afastar-me. Sentia que a minha própria presença perto dela era uma poluição. Eu estava impuro, e disse-lhe que o estava. Ao que, sem hesitação, ela pôs seus braços ao redor do meu pescoço e disse, agarrando-se estreitamente a mim:
"Você não está impuro — você está livre de culpa. E... Arthur... eu vou beijá-lo agora."
CAPÍTULO XV.
"SE NÃO FOR TARDE DEMAIS!"
Quando subi ao convés na manhã seguinte, a costa da Arábia erguia-se, um fio fino de azul nebuloso entre o cinza de chumbo do mar e o cinza suave do céu. A manhã estava nublada, e a luz do sol flamejante estava velada em gaze atmosférica. Mal tinha posto o pé no convés quando Natalie Brande correu ao meu encontro. Fiquei hesitante e culpado.
"Pensei que você nunca viria. Há notícias terríveis!" ela gritou.
Murmurei algumas palavras incoerentes, às quais ela não deu atenção, mas continuou apressadamente:
"Rockingham atirou-se ao mar num ataque de histeria, provocado pelo calor. Os marinheiros ouviram o mergulho..."
"Eu sei que ouviram." Isto escapou-me sem querer, e imediatamente prevariquei: "Já me tinham dito sobre isso."
"Você sabe que Herbert está doente?"
Eu poderia ter respondido conscientemente a esta pergunta afirmativamente também. Sua simpatia repentina por um contratempo humano irritou-me, como tinha feito uma vez antes, quando pensei no objetivo ostensivo do cruzeiro. Disse asperamente:
"Então Rockingham está em descanso, e seu irmão está a caminho dele." Foi um discurso brutal. Teve um efeito muito diferente daquele que pretendi.
"Verdade", disse ela. "Mas pense nas consequências terríveis se, agora que Rockingham se foi, Herbert ficar seriamente doente."
"Eu penso nisso", disse rigidamente. Na verdade, mal podia evitar acrescentar que eu tinha providenciado isso.
"Você deve ir ter com ele imediatamente. Tenho fé em você." Isto deu-me uma pontada. "Não tenho fé em Percival" (o médico do navio).
"Você está cuidando do seu irmão?" disse com indiferença fingida.
"Claro."
"O que Percival está dando a ele?"
Ela descreveu o tratamento, e como isto era exatamente o que eu próprio teria receitado para corrigir minha própria interferência anterior, prometi ir imediatamente, dizendo:
"É bastante evidente que Percival não entende o caso."
"Isso é exatamente o que eu pensei", concordou Natalie, conduzindo-me à cabine de Brande. Encontrei sua vitalidade mais baixa do que eu esperava, e ele estava muito impaciente. Todo o propósito de sua vida estava em jogo, dependente de manter um corpo saudável, do qual, por sua vez, depende uma mente vigorosa.
"Quanto tempo até você me colocar de pé?" perguntou ele bruscamente, quando meu exame fingido terminou.
"Eu diria um mês, no máximo."
"Isso seria muito longo", gritou ele. "Você deve fazê-lo em menos."
"Não depende de mim..."
"Depende de você. Eu conheço a própria vida. Você conhece a ciência insignificante da vida orgânica. Não tive tempo para tal estudo trivial. Cure-me dentro de três dias, ou..."
"Estou cuidando disso."
"Pelo controle sobre a imaginação de minha irmã que ganhei, eu a matarei na quarta manhã a partir de agora."
"Você não... o fará."
"Digo-lhe que o farei", gritou Brande, saltando no seu beliche. "Eu poderia fazê-lo agora."
"Você não... poderia."
"Homem, sabe o que está dizendo? Você a trocar palavras comigo! Um tolo de cérebro de barro a desafiar um homem de ciência! Homem de ciência, ora essa! Seus homens de ciência são para mim tão entorpecidos de cérebro, tão desprovidos de cérebro, como aquela mosca que eu esmago... assim!"
O inseto zumbidor estava de fato morto. Mas eu era algo mais do que uma mosca. Finalmente, eu estava em terreno plano com este mágico científico ou louco. E em terreno plano eu não tinha medo dele.
"Você está se agitando desnecessária e prejudicialmente", disse eu no meu melhor tom profissional. "E se persistir em fazê-lo, fará do meu um mês, três."
Com uma voz de desprezo não disfarçado, Brande exclamou, sem notar a minha interrupção:
"Afrontado por uma criatura cuja pequena mente é para mim como a página aberta de um livro para ler quando o humor me toma." Então, com um olhar feroz para mim, ele gritou:
"Eu li a sua mente antes. Posso lê-la agora."
"Você não... pode."
Ele atirou-se de volta para o seu beliche e esforçou-se por concentrar a mente. Por quase cinco minutos ele ficou imóvel, e então disse suavemente:
"Você tem razão. Tem, então, um poder superior ao meu?"
"Não; um inferior!"
"Um inferior! O que quer dizer?"
"Quero dizer que apenas paralisei o seu cérebro — que por muitos meses virá ele não será restaurado ao seu poder normal — que ele nunca atingirá seu poder normal novamente a menos que eu escolha."
"Então tudo está perdido... perdido... perdido!" ele lamentou. "O fim está tão longe, e a jornada tão longa, e o caminho tão difícil, como se eu nunca tivesse lutado. E o tributo das lágrimas humanas será exigido até o fim. Minha vida foi em vão!"
A agonia absoluta em sua voz, a nota de sofrimento e desespero quase sobre-humanos, era tão intensa que, sem pensar sobre o que aquele homem estava a lamentar, dei por mim a dizer, em tom consolador:
"Não, não! Nada está perdido. É apenas o seu próprio sistema nervoso sobrecarregado que envia estes pesadelos fantásticos ao seu cérebro. Em breve fá-lo-ei recuperar, se quiser ouvir a razão."
Ele voltou-se para mim com o olhar mais suplicante que alguma vez vira em olhos humanos, salvo uma vez — quando Natalie me implorou.
"Eu tinha-me esquecido", disse ele, "a questão agora está nas suas mãos. Escolha corretamente. Escolha a misericórdia."
"Escolherei", respondi secamente, pois o seu pedido trouxe-me de volta, com um solavanco, ao motivo que o movia.
"Então, far-me-á recuperar assim que a sua perícia o permitir?"
"Mantê-lo-ei na sua condição atual até ter a sua mais solene garantia de que não irá mais longe, nem instigará outros a prosseguir com este seu projeto absurdo."
"Bah!", exclamou Brande com desprezo, e recostou-se com uma súbita satisfação. "O meu cérebro está certamente desordenado, caso contrário não me teria esquecido — até as suas palavras o recordarem — da expedição ao Labrador."
"A expedição ao Labrador?"
"Sim. No dia em que partimos para o Mar de Arafura, Grey partiu com outro grupo para o Labrador. Se falharmos em agir antes de 31 de dezembro do ano de 1900, ele prosseguirá. E o fim do século será a data do fim da terra. Vou dar-lhe o sinal agora."
O seu rosto mudou subitamente. Por um momento, pensei que estivesse morto. Então, o facto terrível impôs-se-me. Ele estava a telegrafar telepaticamente a Grey. Portanto, o assassínio que pesava sobre a minha alma tinha sido em vão. Então, outra vida teria de ser tirada. Melhor um duplo crime do que uma tragédia sem resultado. Fui poupado a isto.
Brande abriu os olhos cansadamente e suspirou como se estivesse exausto. O esforço, por mais breve que fosse, devia ter sido intenso. Ele estava prostrado. A sua voz era baixa, quase um sussurro, ao dizer:
"Teve sucesso além do que se possa acreditar. Nem sequer consigo enviar-lhe um sinal, muito menos trocar ideias." Com isto, desviou o rosto de mim e caiu instantaneamente num sono profundo.
Deixei a cabine e fui para o convés. Como de costume, estava bastante salpicado de passageiros, mas, devido ao vento forte de proa causado pela velocidade do vapor, havia um pequeno recanto na proa onde ninguém me aborrecia com companhia indesejada.
Sentei-me num braço da âncora de estibordo e tentei pensar. O jogo, que parecia quase ganho, tinha de ser jogado todo de novo desde a primeira jogada. Se eu tivesse matado Brande — o que certamente teria sido justificável —, a outra expedição continuaria de onde ele parou. E como os encontraria eu? E quem acreditaria na minha história quando regressasse a Inglaterra?
Brande tem de continuar. A sua tentativa de destruir a terra, mesmo que o poder que ele reivindicava não fosse sobrestimado, falharia. Pois, se os compostos de um explosivo comum precisam de ser tão precisamente equilibrados como requerem, certamente a adição dos algarismos que fiz na sua fórmula desequilibraria os constituintes num agente tão delicado, embora tão poderoso, como aquele que ele inventou. Quando o mestre falhasse, era mais do que provável que o pupilo desconfiasse da invenção e regressasse a Londres para novas experiências. Então, uma limpeza total teria de ser feita em todo o grupo. Entretanto, era evidente que a Brande devia ser dada a oportunidade de falhar. E este seria o meu dever arriscado de supervisionar.
Regressei à cabine de Brande com a minha decisão tomada. Ele estava acordado e olhou para mim avidamente, mas esperou que eu falasse. A nossa conversa foi breve, pois eu tinha pouca simpatia pelo meu paciente, e a única ansiedade que senti sobre a sua saúde foi a esperança de que ele não morresse antes de ter servido o meu propósito.
"Decidi que se levante", disse eu secamente.
"Decidiu bem", respondeu ele, com igual frieza.
Essa foi a entrevista completa — da qual tanto dependia.
Depois disto, não falei com Brande sobre qualquer assunto que não fosse o dos seus sintomas, e não passou muito tempo até que ele pudesse vir ao convés. O mês de que falei como a duração da sua doença foi um exagero intencional da minha parte.
Rockingham foi esquecido com uma rapidez e totalidade que era quase fantasmagórica. A Sociedade alegava ter melhorado a velha máxima de não falar nada dos mortos a não ser o que é bom. Dos mortos, não falavam de todo. É um credo insensível, mas, neste caso, agradou-me bastante.
Não parámos em Aden, e fiquei contente por isso. As poucas atrações do lugar, os rapazes que mergulham e coisas do género, podem ser um alívio em viagens marítimas comuns, mas eu estava demasiado absorvido na minha experiência com Brande para suportar com paciência qualquer atraso que servisse para adiar a crise do meu plano. Eu tinha-o tratado bem, no que dizia respeito à sua saúde física, mas continuei deliberadamente a manipular o seu cérebro, de modo a que qualquer regresso do seu poder telepático fosse assim prevenido. De facto, o próprio Brande não estava ansioso por tal regresso. O poder era sempre exercido sob uma tensão nervosa extrema, e era agora, dizia ele, desnecessário para o seu propósito.
Em consequência desta determinação, modifiquei as doses já diminutas do fármaco que lhe estava a dar. Isto refletiu-se rapidamente e com vantagem na sua saúde. A sua melhoria física restaurou parcialmente a sua confiança em mim, de modo que ele seguiu as minhas instruções fielmente. Ele reconhecia evidentemente que estava em meu poder; que, se eu não escolhesse restaurá-lo totalmente, nenhum outro homem poderia fazê-lo.
Dos oficiais do navio, Anderson, que estava no comando, e Percival, o médico, eram homens de alguma individualidade. O capitão era um bom marinheiro e um excelente homem de negócios. Na primeira capacidade, era firme, exigente e escrupulosamente consciencioso. Na segunda, a sua consciência era mais elástica quando via um caminho claro para a sua própria vantagem. Ele tinha certas regras rígidas de conduta que se orgulhava de observar à risca, sem suspeitar por um momento que a sua raison d'etre residia nos seus próprios interesses. A sua moralidade comercial apenas exigia que se mantivesse dentro da lei. O seu contrato final comigo foi, admito, fielmente cumprido, mas os seus termos não teriam descreditado o mais predatório homem de negócios na cidade de Londres.
Percival era o polo oposto de tal caráter. Era um homem inteligente, que poderia ter subido na sua profissão não fosse a sua indolência despreocupada. Passei muitas horas na sua cabine. Era um desportista e um contador de histórias habilidoso. As suas anedotas ajudavam a passar o tempo cansativo. Ele exagerava persistentemente, mas isto não me perturbava. Além disso, se nas suas narrativas ele alongava a caçada uma dúzia de milhas e aumentava o peso do peixe para um número impossível, fazia da parelha uma dúzia e do barco de dez toneladas um navio de guerra, não era porque fosse deliberadamente mentiroso. Ele olhava para os seus feitos através do telescópio de uma memória fortemente amplificadora. Era-me mais agradável ouvi-lo gabar-se da sua destreza do que tê-lo a indagar sobre a saúde e o tratamento do meu paciente Brande. Sobre este assunto, ele era naturalmente muito curioso, e eu muito reservado.
Que Brande não confiava inteiramente em mim era evidente pela sua confusão quando o surpreendi uma vez a ler a sua fórmula. A sua ansiedade em convencer-me de que era apenas um memorando comum era quase ridícula. Fiquei contente por vê-lo ansioso com aquele documento. Quanto mais cuidadosamente ele o preservava, e quanto mais fielmente aderia às suas condições, melhor para a minha experiência. Um sentimento de segurança seguiu-se a este incidente. Não durou muito. Terminou nessa mesma noite.
Após um dia de calor quase insuportável, fui ao convés para respirar um pouco de ar. Estávamos bem dentro do Oceano Índico, e sondagens estavam a ser tentadas por alguns dos nossos naturalistas. Sentei-me sozinho e observei o sol afundar-se no oceano vítreo, no qual a nossa embarcação apressada era a única coisa que se movia. À medida que a escuridão daquela noite quente e imóvel se acumulava, lampejos estranhos de fósforo rompiam da proa do vapor e seguiam-se atrás de nós em longas linhas de brilhos cintilantes. Onde a ondulação causada pela passagem do navio se elevava em vagas curvas, estas, ao chapinharem em ondas artificiais, explodiam em chuvas de luz flamejante. A água do tubo de descarga vertia numa cascata que brilhava como prata. Cada volta da hélice lançava mil clarões de ambos os lados, e o lançamento da sonda era como o voo de um meteoro, ao mergulhar com um rasto luminoso muito lá em baixo nas profundezas escuras e insondáveis.
O meu nome foi pronunciado suavemente. Natalie Brande estava ao meu lado. O encanto estava completo. O glamour sobrenatural da cena mágica tinha sido arquitetado por ela. Ela tinha-o invocado e poderia dispersá-lo com um esforço da sua vontade. Forcei a minha mente a libertar-se daquela fantasmagoria tola.
"Tenho boas notícias", disse Natalie em voz baixa. Os seus tons eram suaves, musicais; o seu modo carinhoso. A felicidade estava em todo o seu porte, ternura nos seus olhos. O medo oprimiu-me. "Herbert está agora bem de novo."
"Ele tem estado bem há algum tempo", disse eu, com o coração a bater depressa.
"Ele ainda não está completamente restabelecido. Mas esta noite ele foi capaz de receber uma mensagem minha através das ondas de pensamento. Ele pensa que você está a tramar feri-lo. O seu cérebro ainda não é suficientemente forte para mostrar quão tola é esta fantasia passageira. Talvez você fosse ter com ele. Ele está a preocupar-se com isto. Você pode tranquilizá-lo."
"Posso — e farei — se não for demasiado tarde", respondi.
CAPÍTULO XVI.
5000 LIBRAS PARA RETER O NAVIO.
Brande dormia quando entrei na sua cabine. A sua secretária estava coberta com pedaços de papel nos quais ele tinha andado a rabiscar. O meu nome estava em cada pedaço, precedido ou seguido por uma frase inacabada, assim: "Marcel está a pensar — Quando eu estava doente, Marcel pensou — Marcel tenciona —" Tudo isto recolhi cuidadosamente e pus no meu bolso. Depois, inoculei-o com uma solução tão forte do fármaco que estava a usar nele quanto era compatível com a segurança da sua vida. O perigo imediato sendo assim evitado, decidi não correr nenhum risco semelhante novamente.
Por muitos dias depois disto, a nossa viagem foi monótona. O segredo mortal partilhado por Edith Metford e por mim aproximou-nos gradualmente à medida que o tempo passava. Ela compreendia-me, ou, pelo menos, dava-me a impressão de que me compreendia. Pouco a pouco, aquele humor caprichoso que descrevi anteriormente mudou para um de simpatia duradoura. Com uma exceção trivial, isto durou até ao fim. Sem a sua ajuda, a minha mente dificilmente teria resistido à pressão dos eventos que estavam agora próximos, cujas sombras lívidas eram projetadas no fogo crescente dos olhos implacáveis de Brande.
Brande parecia perder o interesse gradualmente na companhia do seu navio. Tornava-se diariamente mais e mais absorvido nos seus próprios pensamentos. Natalie era sempre gentil, até terna. Mas eu irritava-me com a barreira impalpável que estava sempre entre nós. Por vezes, pensava que ela se teria voluntariamente colocado do meu lado. Algum poder oculto retinha-a. Quanto aos outros, comecei a gostar do rapaz Halley. Ele era adorável, se não atlético. A sua devoção a Natalie, que nunca diminuiu, não me perturbava agora. Era apenas uma amizade, e eu acolhia-a. Se tivesse sido algo mais, não era provável que ele tivesse prevalecido contra a vontade de um homem que cometera um assassínio pela sua amante. Navegámos através do Arquipélago Malaio, dirigindo-nos para norte, sul, este, oeste, como se fosse ao acaso, até que apenas os oficiais de navegação e o diretor da Sociedade sabiam como seguia o nosso curso. Estávamos à procura de uma ilha sobre cuja localização, descobriu-se, tinha sido cometido algum erro. Não sei se o grande poeta laureado alguma vez navegou estes mares. Mas sei que as suas gloriosas ilhas de flores e ilhas de fruto, com toda a sua imagética deliciosa, eram aqui eclipsadas pelas nossas próprias ilhas de folhagem. As longas lagoas, as baías de azul profundo, os peixes coloridos cintilantes que nadavam em cardumes visíveis lá em baixo, entre os bosques de coral submersos por cima dos quais passávamos, as algas de tons ricos e as anémonas brilhantes, as praias amarelas e as falésias íngremes, a folhagem exuberante que varria do céu até ao azul do mar; todas estas belezas naturais pareciam clamar por mim com vozes vivas — por mim, condenado a um cruzeiro de morte universal.
Após um longo período de navegação aparentemente sem rumo, mas gloriosa, uma pequena ilha foi avistada a bombordo. O Esmeralda foi dirigido diretamente para ela, e lançámos âncora num profundo porto natural na sua costa sul. Os preparativos para o desembarque tinham decorrido durante o dia, e tudo estava pronto para deixar o navio.
Foi aqui que surgiu a minha primeira oportunidade para fazer uso do ouro que tinha trazido comigo. Anderson foi chamado por Brande, que lhe fez um curto discurso elogioso e terminou-o ordenando ao seu oficial que regressasse a Inglaterra, onde mais instruções lhe seriam dadas. Esta ordem foi recebida num silêncio respeitoso. O capitão Anderson tinha sido tratado demasiado generosamente para objetar se o Esmeralda tivesse sido ordenado para o Polo Sul.
Brande desceu por alguns minutos e, assim que ele desapareceu, fui ter com Anderson e chamei-o nervosamente, pois não havia um momento a perder.
"Anderson", disse apressadamente, "deve ter notado que o Sr. Brande é um excêntrico —"
"Perdoe-me, senhor; não é da minha conta comentar sobre o meu armador."
"Não lhe pedi que comentasse sobre ele, senhor", disse eu asperamente. "Sou eu quem comentará sobre ele, e cabe a si dizer se se comprometerá a ganhar o meu dinheiro esperando neste porto até que eu esteja pronto para navegar de volta consigo para Inglaterra."
"Tem mais alguma coisa a dizer, senhor?", perguntou Anderson com rigidez.
"Presumo que tenha dito o suficiente."
"Se não tem mais nada a dizer, devo pedir-lhe que deixe a ponte, e, se não fosse pelo facto de estar a deixar o navio neste momento, adverti-lo-ia a não ser impertinente comigo novamente."
Ele apitou, e um despenseiro correu para a frente.
"Johnson, trate da bagagem do Sr. Marcel fora de bordo imediatamente." Para mim, disse secamente: "Deixe o meu navio, senhor."
Esta exibição trivial de temperamento, que, na verdade, tinha sido provocada pelo meu próprio discurso precipitado, transformou a minha impaciência em fúria.
"Antes de deixar o seu navio", disse eu, com ênfase, "dir-lhe-ei como o senhor mesmo o deixará. Fá-lo-á entre dois polícias se desembarcar em Inglaterra, e entre dois fuzileiros se pensar em manter-se em alto mar. Antes de partirmos, enviei uma declaração detalhada deste navio, a natureza desta viagem nefasta, e os nomes dos passageiros — ou tantos quantos conhecia — a um amigo que os entregará em mãos próprias se algo me acontecer. Regresse sem mim e explique a perda daquela frota pesqueira francesa que foi afundada exatamente na noite em que partimos. É uma coincidência estranha para ser explicada por um homem que regressa de uma viagem desconhecida tendo perdido toda a sua lista de passageiros. Não pode estar ciente do que este homem Brande tenciona, ou pelo menos manter-se-ia ao nosso lado enquanto a sua própria segurança permitisse. Em qualquer caso, não pode regressar em segurança sem nós."
Anderson, após refletir por um momento, pediu desculpa pelas suas palavras peremptórias e concordou em ficar ao lado, dia e noite, com as caldeiras a fogo brando, até que eu, e todos os que eu pudesse persuadir a regressar comigo, estivéssemos de volta ao seu navio. Não havia perigo de ele ficar sem carvão. Um navio que era praticamente um transatlântico a carvão como lastro demoraria um tempo considerável a queimar a sua própria carga. Mas ele insistiu num grande pagamento em dinheiro adiantado. Eu tinha mencionado, tolamente, que tinha pouco mais de 5000 libras em ouro. Isto ele reivindicou sob o pretexto de que "por dever para consigo mesmo" — uma frase favorita sua — não poderia aceitar menos. Mas penso que o seu sentido de dever era limitado apenas pelo facto de eu não ter quase mais um centavo no mundo. Dadas as circunstâncias, ele poderia ter dispensado toda a remuneração. Como ele estava firme, e como eu não tinha tempo para regatear, concordei em dar-lhe o dinheiro. O nosso negócio só ficou concluído quando Brande regressou ao convés.
Era estranho que, numa ilha como aquela em que estávamos a desembarcar, houvesse um verdadeiro exército de nativos à espera para nos ajudar com a bagagem, e os cavalos selados que estavam prontos pareciam deslocados numa natureza selvagem e primitiva. Um inglês aproximou-se e, saudando Brande, disse que tudo estava pronto para a partida para as colinas. Isto explicou o enigma. Um agente avançado tinha tornado tudo confortável. Para Brande, a sua irmã e a Srta. Metford foram selecionados os cavalos mais bem equipados. Eu, como médico do chefe, tive um. O corpo principal teve de fazer a jornada a pé, o que fizeram em etapas muito fáceis, devido ao calor e à trilha primitiva que formava a única estrada. A sua jornada não foi muito longa — talvez dez milhas em linha reta.
Montados como estávamos, era muitas vezes necessário curvarmo-nos para escapar às massas densas de crescimento parasita que pendiam em festões verdes de cada ramo das árvores de ambos os lados. Sob esta sombra espessa, toda a vegetação exuberante dos trópicos lutara pela vida e esforçara-se pela luz e pelo ar até que a riqueza da sua morte luxuriante tinha forrado o sub-bosque com um depósito espesso de folhagem fumegante. À medida que subíamos a altura, cada milha de distância trazia mudanças nos crescimentos botânicos, que poderiam ter passado despercebidas ao observador comum ou ao pioneiro ignorante. Todos foram notados e comentados por Brande, cujo olho era ainda tão aguçado como o seu cérebro tinha sido brilhante. O seu comportamento habitual e sério mudou subitamente. Ele corria à nossa frente como um rapaz da escola de férias. Ao contrário de um rapaz, no entanto, ele estava sempre à procura de novos conhecimentos e transmitindo-os a nós com prazer inalterado. Ele assemelhava-se mais a um mestre que tinha encontrado novo terreno e novo material para a sua classe. Natalie entregou-se como ele a este desfrute do momento. Edith Metford e eu captámos parcialmente o glamour do seu bom humor contagiante. Mas, com ambos, isso era temperado pelo conhecimento do que estava guardado.
Quando chegámos ao nosso destino, desmontámos, a pedido de Brande, e atámos os cavalos a ramos convenientes. Ele seguiu em frente e, afastando o sub-bosque com ambas as mãos, gesticulou para que o seguíssemos até que ele parou numa saliência de rocha que dominava uma cavidade na montanha. O desfiladeiro abaixo era a clareira mais bonita que alguma vez contemplei.
Era um paraíso de folhagem. Aqui e ali, uma árvore caída formara uma ponte pitoresca sobre o riacho da montanha que serpenteava através dele. Bem lá em baixo, havia uma queda de água, onde fetos arbóreos deslumbrantes se erguiam em caramanchões naturais, enquanto outros, mais longe ainda, se debruçavam sobre o riacho coberto de lótus, as suas folhas gigantes arrastando-se na corrente de movimento lento. Massas emaranhadas de fetos cresciam em abundância selvagem sobre um relvado verde aveludado, ensombrado por magnólias ondulantes. Através das árvores, pássaros de plumagem brilhante esvoaçavam de ramo em ramo num voo sem canto, faiscando as suas cores brilhantes através das folhas ensolaradas. Em certos lugares, a água salpicava sobre rochas cobertas de musgo em poços profundos. Cada borrifo de nuvem que derivava lançava sobre o vale uma nova luz, aprofundando as sombras sob os grandes fetos.
Foi aqui neste glorioso conto de fadas; aqui nesta ilha, onde antes de nós nenhum pé branco tinha pisado; cujas gentes sem nome representavam os tipos mais simples de existência humana, que Herbert Brande ia pôr à prova a sua experiência diabólica. Maravilhei-me por ele ter selecionado um lugar tão belo para um propósito tão terrível. Mas os papéis que encontrei mais tarde entre os efeitos do homem no Esmeralda explicam muito do que era então incompreensível para mim.
O nosso acampamento foi rapidamente formado, e a nossa vida era exteriormente tão feliz como se fôssemos uma companhia comum de turistas. Digo exteriormente, porque, enquanto caminhávamos, escalávamos e recolhíamos espécimes de interesse botânico ou geológico, permanecia aquele pavor latente que nos seguia sempre, e que dominava os mais frívolos do nosso grupo, sobre todos os quais caíra uma nova solenidade. Para mim, o facto de a hora da prova para a minha própria experiência estar a aproximar-se diariamente e tornar-se mais inevitável, era suficiente para explicar a minha constante e extrema ansiedade.
Brande não se juntou a nenhuma das nossas excursões. Ele estava sempre a trabalhar no seu laboratório improvisado. As caixas de material que tinham sido trazidas do navio enchiam-no quase do chão ao teto, e, pela rapidez com que eram esvaziadas, era evidente que o seu conteúdo tinha sido sistematizado antes do embarque. Em vez da coleção variada de substâncias, crescia dentro da sala um cone de matéria composta na qual todas estavam misturadas. Este cone era mais pequeno, admitiu Brande, do que o que pretendia. O fornecimento de fulminantes subordinados, embora várias vezes superior ao que era necessário, revelou-se consideravelmente escasso. Mas, como tinha permitido uma larga margem — sendo tudo numa escala muito superior ao mínimo que os seus cálculos tinham apontado como suficiente — esta deficiência não lhe causou mais do que um incómodo temporário. Assim, ele continuou a trabalhar.
Quando estávamos há três semanas na ilha, achei a incerteza maior do que conseguia suportar. A crise estava próxima, e o meu coração falhou-me. Decidi fazer um último apelo a Natalie, para que fugisse comigo para o navio. Edith Metford acompanhar-nos-ia. Os outros poderiam assumir o risco a que tinham consentido.
Encontrei Natalie de pé sobre a rocha alta de onde se podia obter a vista mais encantadora do vale, e, ao aproximar-me dela silenciosamente, ela não se apercebeu da minha presença até que coloquei a mão no seu ombro.
"Natalie," disse eu com melancolia, pois os olhos da rapariga estavam cheios de lágrimas, "importas-te que eu me retire agora deste empreendimento, no qual não posso ser da mínima utilidade, e do qual desaprovo profundamente?"
"A Sociedade não te permitiria retirar. Não o podes fazer sem a sua permissão, e esperar viver a menos de mil milhas dela," respondeu ela gravemente.
"Não me importaria de viver a dez mil milhas dela. Teria tentado colocar e manter o diâmetro da Terra entre mim e ela."
Ela olhou para cima com uma expressão de tal dor que o meu coração se comoveu. "E quanto a mim? Não consigo viver sem ti agora," disse ela suavemente.
"Não vivas sem mim. Vem comigo. Livra-te desta infame associação de lunáticos, cujo objetivo eles próprios não conseguem realmente apreciar, e cujos meios são assassinos..."
Mas aí ela interrompeu-me. "O meu irmão poderia encontrar-me nos confins da Terra se eu o abandonasse, e tu sabes que não pretendo abandoná-lo. Quanto a ti — não tentes desertar. Não faria diferença. Não acredites que qualquer consideração me faria voluntariamente causar-te um momento de dor, ou que eu recuaria de me sacrificar para te salvar." Com uma das suas mãos pequenas e brancas, ela pressionou suavemente a minha cabeça contra si. Os seus lábios tocaram a minha testa, e ela sussurrou: "Não me deixes. Em breve terminará. Eu... eu... preciso de ti."
Enquanto regressava desanimado após o meu apelo infrutífero a Natalie, encontrei Edith Metford, a quem eu tinha infelizmente mencionado a minha proposta de fuga.
"Está combinado? Quando partimos?" perguntou ela ansiosamente.
"Não está combinado, e não partimos," respondi em desespero.
"Disseste-me que irias com ela ou sem ela," gritou ela apaixonadamente. "É vergonhoso — indigno."
"É certamente ambos se eu realmente disse o que me contas. Eu não estava em mim naquele momento, e a minha língua deve ter-me caluniado. Fico até ao fim. Mas tu irás. O Capitão Anderson receber-te-á..."
"Como hei de ter a certeza disso?"
"Paguei-lhe a tua passagem, e tenho o recibo."
"E pensas realmente que eu iria e deixaria... deixaria..."
"Natalie? Penso que estarias perfeitamente justificada."
A isto, a rapariga bateu com o pé apaixonadamente no chão e desatou a chorar. Nem permitiu qualquer das ligeiras carícias que ofereci. Pensei que os seus antigos caprichos estavam a regressar. Ela afastou o meu braço rudemente e deixou-me atordoado.
CAPÍTULO XVII.
"ESTA TERRA HÁ DE MORRER."
A minha memória não me serve bem nas cenas que precederam imediatamente o fecho do drama em que Brande era o ator principal. É sem dúvida o interesse transcendental da situação final que embota a minha recordação do que ocorreu pouco antes. Não diminuí nem um pouco a minha determinação de levar a cabo a minha aventura sem hesitar, mas as minhas ações foram provavelmente mais automáticas do que racionais, à medida que o tempo do nosso último encontro se aproximava. No geral, a luta tinha sido justa. Brande usou a sua vantagem sobre mim para o seu próprio propósito enquanto ela permaneceu consigo. Eu usei a vantagem assim que ela passou para mim para o meu. As condições tinham sido, assim, igualadas quando, pela terceira e última vez, eu iria ouvi-lo dirigir-se à sua Sociedade.
Desta vez, o homem estava fraco de saúde. A sua vitalidade estava a esvair-se rapidamente, mas a sua maravilhosa inspiração estava forte dentro dele, e, apoiado por ela, ele lutou virilmente contra a doença que eu tinha fabricado para ele. A sua sala de conferências era o vale encantado; o seu dossel, os céus.
Não posso dar a substância deste discurso, ou qualquer parte dele, palavra por palavra como em ocasiões anteriores, pois não tenho o manuscrito. Duvido que Brande tenha escrito o seu último discurso. Metódico como eram os seus hábitos, é provável que as suas palavras finais não tenham sido premeditadas. Elas irromperam dele num delírio que dificilmente poderia ter sido estudado. O seu belo frenesim dificilmente poderia ter tido origem em frases ponderadas, embora a sua linguagem, considerada como mera oratória, fosse magnífica. Era aterradora à luz através da qual a li.
Ele estava sozinho sobre a rocha que dominava o vale. Organizámo-nos nos grupos que se adequavam às nossas inclinações, num terreno elevado abaixo. As grandes árvores agitavam-se por cima, num murmúrio baixo. A cascata salpicava de forma lúgubre. Em baixo, nem um sussurro era trocado. Em cima, o homem derramava o seu triunfante canto de morte em períodos sonoros. Em baixo, um grande medo dominava todos. Em cima, o louco exultava freneticamente.
No início a sua voz era fraca. À medida que avançava, ganhava força e profundidade. Ele aludiu ao seu primeiro discurso, no qual tinha insinuado que o Universo material não era exatamente um sucesso; ao seu segundo, no qual tinha declarado audaciosamente que era um fracasso absoluto. Esta, a sua terceira declaração, era para nos dizer que o remédio, na medida em que ele, um homem mortal, o podia aplicar, estava pronto. O fim estava próximo. Aquela noite veria a consumação da sua obra de vida. O sol de amanhã nasceria — se é que nasceria — sobre a Terra restaurada ao espaço.
Um calafrio passou perceptivelmente pelas pessoas, preparadas como estavam para este anúncio há muito previsto. Edith Metford, que estava ao meu lado, à minha esquerda, meteu a sua mão na minha e apertou os meus dedos com força. Natalie Brande, à minha direita, não se moveu. Os seus olhos estavam dilatados e fixos no orador. O antigo olhar de clarividente estava no seu rosto. As suas pupilas escuras estavam cegas, exceto para a sua luz interior. Ela estava inconsciente ou apenas parcialmente consciente. Agora que a hora tinha chegado, aqueles que tinham acreditado que a sua coragem era segura, sentiram-na murchar. Eles, as pessoas connosco, imploraram por mais um pouco de tempo para se prepararem para a grande crise — o mergulho numa eternidade da qual não haveria ressurreição, nem da matéria nem da mente.
Brande não lhes deu atenção.
"Esta noite," disse ele, com entusiasmo culminante, "as torres coroadas de nuvens, os palácios magníficos, os templos solenes, dissolver-se-ão. Para este grande globo em si — esta partícula insignificante de menos importância no espaço do que uma gota de orvalho num oceano — e toda a sua dor e sofrimento, as suas provações e tentações, todo o pathos e bathos da nossa trágica farsa humana, o fim está próximo. O caminho foi difícil, e a jornada demasiado longa, e o fardo muitas vezes para além da força do homem. Mas esse sofrimento prolongado agora cessará. As lágrimas serão enxugadas. O fardo cairá de ombros cansados. Pois a plenitude do tempo chegou. Esta Terra há de morrer! E a morte é paz.
"Eu estou," gritou ele com uma voz estridente, erguendo o braço para o alto, "posso dizer, com um pé no mar e outro na terra, pois possuo o segredo elemental de ambos. E juro pelo deus vivo — a Ciência encarnada — que o sofrimento dos séculos acabou, que para esta Terra e tudo o que ela contém, a partir desta noite e para sempre, o Tempo deixará de existir!"
Um grande grito surgiu das pessoas. "Dá-nos outro dia — apenas outro dia!"
Mas Brande respondeu: "Agora é demasiado tarde."
"Demasiado tarde!" lamentaram as pessoas.
"Sim, demasiado tarde. Avisei-vos há muito tempo. Ainda não estão prontos? Dentro de duas horas o agente desintegrador começará o seu trabalho. Nenhum poder humano o poderia parar agora. Nem se cada partícula do material que compus fosse separada e espalhada aos ventos. Antes de colocar o meu pé nesta rocha, apliquei a chave que libertará a sua energia inerente. Eu próprio estou impotente."
"Impotentes," soluçaram os auditores.
"Impotentes! E se eu tivesse dez mil vezes o poder que invoquei do elemento universal, usá-lo-ia para o resultado que previ."
Depois disso, ele afastou-se. A condenação soava nas suas palavras. A mão da Morte colocou dedos frios sobre nós. A força de Edith Metford falhou finalmente. Tinha sido severamente testada. Ela caiu nos meus braços.
"Coragem, coração verdadeiro, o nosso tempo chegou," sussurrei. "Partimos para o vapor imediatamente. Os cavalos estão prontos." As minhas providências tinham sido já tomadas. O meu plano tinha sido tão cuidadosamente amadurecido como qualquer outro feito pelo próprio Brande.
"Quantos cavalos?"
"Três. Um para ti; outro para Natalie; o terceiro para mim. Os outros devem aceitar o destino que escolheram."
A rapariga estremeceu ao dizer: "Mas a tua interferência na fórmula? Tens a certeza de que destruirá o efeito?"
"Tenho a certeza de que o resultado particular no qual Brande calcula não ocorrerá. Mas, tirando isso, ele ainda tem matéria explosiva suficiente armazenada para causar um terramoto. Não estamos seguros dentro de um raio de cinquenta milhas. Será uma corrida contra o tempo."
"Natalie não virá."
"Não voluntariamente. Tens de pensar num plano. O teu cérebro é rápido. Não temos um momento a perder. Ah, ali está ela! Fala com ela."
Natalie estava a atravessar o terreno aberto que levava do vale ao laboratório de Brande. Ela não nos observou até que Edith a chamou. Então aproximou-se apressadamente e abraçou a sua amiga com visível emoção. Mesmo a mim, ela ofereceu a face sem reservas.
"Natalie," disse eu rapidamente, "há três cavalos selados e à espera no palmar. O Esmeralda ainda está no porto onde desembarcámos. Virás connosco. De facto, não tens escolha. Tens de vir, mesmo que eu tenha de te carregar para o teu cavalo e te amarrar à sela. Não me forçarás a impor-te essa indignidade. Para os cavalos, então! Vamos!"
Como resposta, ela chamou o seu irmão em voz alta pelo nome. Brande apareceu imediatamente à porta do seu laboratório e, quando percebeu de quem vinha o chamamento, juntou-se a nós.
"Herbert," disse Natalie, "o nosso amigo está a desertar. Ele ainda deve agarrar-se ao pensamento de que o teu propósito pode falhar, e espera escapar a cavalo do destino da Terra. Argumenta com ele ainda um pouco mais."
"Não há tempo para argumentar," interrompi. "Os cavalos estão prontos. Esta rapariga (apontando enquanto falava para Edith Metford) leva um, eu outro, e tu o terceiro — quer o teu irmão concorde ou não."
"Certamente não perdeste a razão? Esqueceste-te da gota de água no Canal da Mancha?" disse Brande calmamente.
"Brande," respondi, "quanto mais cedo convenceres a tua irmã a vir comigo, melhor; e quanto mais cedo convenceres estes teus amigos maníacos a sair daqui, melhor, pois o teu empreendimento falhará."
"É tão certo como a lei da gravitação. Com a minha própria mão misturei os ingredientes de acordo com a fórmula."
"E," disse eu, "com a minha própria mão alterei a tua fórmula."
Se o coração de Brande tivesse parado de bater, o seu rosto não poderia ter ficado mais distorcido e lívido. Ele aproximou-se de mim e, fixando os meus olhos, sibilou:
"Tu alteraste a minha fórmula?"
"Alterei," respondi imprudentemente. "Multipliquei os teus números por dez onde me pareceram insuficientes."
"Quando?"
Avancei ainda mais para ele e olhei-o diretamente nos olhos enquanto falava.
"Naquela noite no Mar Vermelho, quando Edith Metford, por acidente, misturou morfina na tua medicina. Na noite em que injetei um veneno subtil, que apanhei na Índia uma vez, no teu sangue enquanto dormias, frustrando assim algumas das funções do teu cérebro extraordinário. A noite em que, a dormir, te mexeste uma vez, e se te tivesses mexido duas vezes, eu ter-te-ia matado, ali mesmo, tão impiedosamente como tu matarias a humanidade agora. A noite em que matei o teu tenente, Rockingham, e atirei o seu corpo ao mar para os tubarões."
Brande não falou por um momento. Depois, disse com uma voz gentil e sem queixas:
"Assim, agora cabe a Grey. O fim será o mesmo. A expedição ao Labrador terá sucesso onde eu falhei." Para Natalie: "É melhor ires. Haverá apenas uma explosão. A ilha provavelmente desaparecerá. Será apenas isso."
"Tu ficas?" perguntou ela.
"Sim. Pereço com o meu fracasso."
"Então pereço contigo. E tu, Marcel, salva-te — tu, cobarde!"
Estremeci como se tivesse sido atingido na cara. Depois disse a Edith: "Tem cuidado para te manteres no caminho. Leva o cavalo baio. Sellei-o para mim, mas podes montá-lo em segurança. Não percas tempo, e cavalga rápido para a costa."
"Arthur Marcel," respondeu ela, tão suavemente que os outros não ouviram, "o teu trabalho no mundo ainda não terminou. Existe a expedição ao Labrador. Ainda agora, quando a minha força falhou, sussurraste 'coragem'. Sê fiel a ti próprio! Meia hora passou."
Afinal, algum vislumbre de sentimento humano despertou em Brande. Ele disse com uma voz baixa e abstraída: "A minha vida termina adequadamente agora. Manter-te, Natalie, seria apenas um assassinato vulgar." A antiga força de vontade parecia ter voltado a ele. Ele olhou para os olhos da rapariga e disse lenta e severamente: "Vai! Eu ordeno-o."
Sem mais uma palavra, ele afastou-se de nós. Quando desapareceu no laboratório, Natalie suspirou e disse sonhadoramente:
"Estou pronta. Vamos."
CAPÍTULO XVIII.
A FUGA.
Levei as raparigas apressadamente para os cavalos. Quando estavam montadas nos póneis, entreguei as rédeas do cavalo baio — cujo tamanho e força eram necessários para o meu peso extra — a Edith Metford, e pedi-lhe que esperasse por mim até que eu anunciasse o provável fracasso de Brande às pessoas, e aconselhasse um *sauve qui peut*.
Logo após o meu aviso, seguiu-se uma estranha metamorfose na multidão, que, após a fraqueza passageira durante a conferência, tinha caído de novo na indiferença estoica, ou talvez no desespero. A possibilidade de fuga galvanizou-os com o desejo de vida. Gritos de aflição e orações por ajuda encheram o ar. Homens e mulheres corriam de um lado para o outro como ovelhas assustadas, sem concerto ou qualquer esforço sensato para escapar, desperdiçando em lutas fúteis o pouco tempo que lhes restava. Pois mais meia hora tinha passado, e em sessenta minutos o terramoto ocorreria.
"Sigam-nos!" gritei, enquanto com as minhas companheiras cavalgava lentamente através do acampamento. "Mantenham o caminho para o mar. Terei os barcos do vapor prontos para todos os que conseguirem chegar à costa vivos."
"Os cavalos! Agarrem os cavalos!" surgiu num grito alto, e a turba lançou-se sobre nós, como se três animais pudessem carregar todos.
Quando vi a investida, gritei: "Senta-te firme, Natalie; vou bater no teu cavalo." Dizendo isto, bati no pónei com um golpe seco do meu chicote de montar transversalmente no flanco. Ele saltou como um veado, e depois disparou pelo caminho difícil.
"Agora tu, Edith!" Bati no seu pónei da mesma forma; mas ele apenas empinou e quase a derrubou. Não conseguiu escapar. Já havia mãos em ambas as rédeas. Não havia como evitar. Tirei o meu revólver e disparei uma, duas e três vezes — pois falhei o segundo disparo — e então o animal enlouquecido saltou para a frente, libertado das mãos que o seguravam.
Era agora altura de cuidar de mim. Estava no meio de uma dúzia de maníacos loucos de medo. Esporeei desesperadamente, e o baio deu coices com as patas traseiras. Um casco atingiu o jovem Halley na testa. Ele caiu morto, o seu crânio em fragmentos. Mas os outros recusaram-se a quebrar o círculo. Então esvaziei a minha arma sobre eles, e o meu cavalo irrompeu pela abertura, seguido por imprecações desesperadas. No momento em que estava livre, guardei o meu revólver no estojo e ajustei-me na sela, pois, levado para fora do caminho certo como tinha sido, havia um banco íngreme para saltar antes que pudesse retomar o caminho para a costa. Devido à escuridão, o cavalo recusou-se a saltar, e quase caí sobre a sua cabeça. Com um pouco de luta consegui voltar ao meu lugar, e depois trotei ao longo do banco por cem jardas. Neste ponto, o banco desapareceu, e não havia nada entre mim e o caminho aberto para o mar.
Uma vez no caminho, coloquei o baio a galope, e muito em breve alcancei um homem e uma mulher que se apressavam. Eles corriam de mãos dadas, o homem um pouco à frente, arrastando a sua companheira à força. Era evidente para mim que a mulher não conseguiria aguentar muito mais tempo. O homem, Claude Lureau, chamou-me enquanto passava.
"Ajuda-nos, Marcel. Não te vás embora de nós."
"Não posso salvar ambos," respondi, parando.
"Então salva a Mademoiselle Veret. Eu arrisco-me."
Este discurso direto comoveu-me, ainda mais especialmente porque o homem era francês. Não podia permitir que ele me apontasse o caminho do dever — a mim, um inglês.
"Ajuda-a a subir, então. Agora, Mademoiselle, ponha os seus braços à volta de mim e segure-se com força pela sua vida. Lureau, pode segurar o meu estribo se concordar em largá-lo quando se cansar."
"Fá-lo-ei," prometeu ele.
Obstaculizado assim, apenas lentamente ganhei vantagem sobre Natalie e Edith, cujos póneis tinham galopado uma milha antes que pudessem ser parados.
"Em frente, em frente!" gritei quando estava ao alcance. "Não esperem por mim. Cavalguem a toda a velocidade. Batam nos vossos póneis com as rédeas."
Estávamos todos a mover-nos agora a um trote suave, pois não podia ir rápido enquanto Lureau segurasse o meu estribo, e as raparigas à frente não pareciam ansiosas por me deixar muito para trás. Além disso, o mato emaranhado e as trepadeiras suspensas tornavam a cavalgar difícil e perigoso. Os póneis eram mantidos curtos, mas apesar disso, o meu cavalo foi ficando para trás gradualmente na corrida, e o martelar dos cascos à frente tornou-se mais fraco. O fôlego do corredor no meu estribo vinha em grandes soluços. Ele estava a sufocar, mas lutou um pouco mais. Então ergueu a mão e arquejou:
"Estou acabado. Segue, Marcel. Mereces escapar. Não abandones a rapariga."
"Que Deus me abandone se o fizer," respondi. "E tu continua enquanto puderes. Talvez chegues à costa, afinal."
"Segue... salva-a!" arquejou ele, e depois, por puro esgotamento, caiu para a frente sobre a face.
"Fique quieta, Mademoiselle," gritei, puxando os braços da rapariga francesa à volta de mim a tempo de a impedir de se atirar propositadamente do cavalo. Depois, esporeei com força e, estando agora livre do aperto de Lureau, alcancei os póneis.
Durante cinco minutos, cavalgámos todos lado a lado. E então a escuridão começou a dissipar-se, e uma aurora estranha cintilou sobre as copas das árvores, embora a hora da meia-noite estivesse ainda por chegar. Uma luz vermelha e selvagem, como a de um pôr do sol incandescente numa tarde de verão enevoada, espalhou-se pelo céu noturno. As estrelas trémulas empalideceram. Constelação após constelação, foram apagadas até que todo o arco do céu fosse um brilho vermelho baço. Os cavalos, consternados com aquele fenómeno estranho, sacudiam a espuma dos seus focinhos espumantes enquanto galopavam agora, sem necessidade de esporas, à sua velocidade máxima. Pássaros que não conseguiam cantar encontraram voz, chilreando e gritando enquanto se lançavam de árvore em árvore num voo sem rumo. Morcegos enormes arrojavam-se pelo ar, cegos pela luz invulgar. Do denso matagal, estranhos habitantes dos bosques, perturbados na sua ronda noturna, saltavam para fora e corriam guinchando entre os cascos galopantes, indiferentes a tudo exceto ao seu próprio medo. Tudo o que havia de vivo na ilha estava em movimento, e o medo era o motor de todos eles.
Até ao momento, não vimos nativos. A sua ausência não me surpreendeu, pois não tinha tempo para pensar. Seria explicada mais tarde.
O pónei de Edith Metford tornou-se logo incontrolável no seu pânico. Desapertei uma espora e entreguei-lha, ordenando-lhe que a segurasse na mão, pois é claro que ela não a podia prender à bota, e que a cravasse no animal quando este se desviasse. Ela pegou na espora e, quando o seu pónei, num dos seus saltos laterais, quase saltou para fora do caminho, ela atingiu-o com força nas costelas. Ele disparou e voou bem à nossa frente.
A luz tornou-se mais forte.
Se os raios não fossem vermelhos, estaria agora tão claro como o dia. Estávamos a perseguir as nossas sombras, pelo que a luz devia estar diretamente atrás de nós. Mademoiselle Veret reparou nisto primeiro e chamou-me a atenção. Olhei para trás e o meu coração afundou-se ao ver a cena. No terror que aquilo inspirou, lamentei ter-me sobrecarregado com a rapariga que jurara salvar.
A ilha estava em chamas!
"É o fim do mundo", disse Mademoiselle Veret com um estremecimento. Ela agarrou-se mais a mim. Podia sentir o seu hálito quente na minha face. O arrependimento pouco viril, que por um momento me tinha tocado, passou.
Os póneis pareciam agora ter descoberto que a sua segurança residia em galopar a direito, em vez de darem saltos assustados de um lado para o outro. Esticaram-se como cavalos de corrida e deram ao meu baio, com a sua carga dupla, uma vantagem considerável. O ritmo tornou-se terrível, considerando a natureza do terreno que percorríamos.
Finalmente, o porto surgiu à vista. Mas o meu cavalo, eu sabia, não aguentaria mais uma milha, e a costa ainda estava a duas ou três de distância. Esporreei-o com força e aproximei-me quase ao nível dos póneis, para que a minha voz pudesse ser ouvida por ambos os cavaleiros.
"Sigam em frente", gritei, "e chamem o vapor, para que não haja atraso quando eu chegar. Este cavalo está exausto e não aguentará este ritmo. Vou aliviar o passo. Vão logo para bordo e enviem o barco de volta por nós." Depois, aliviei o baio, mas, apesar disso, ultrapassei imediatamente Edith Metford, que tinha parado.
Cortei-lhe as recriminações dizendo: "Se este cavalo fizer a distância, será mantendo a liderança durante todo o percurso. E vou dar-lha." Assim, partimos juntos.
Natalie esperava por nós um pouco mais à frente. Falei com ela, mas ela não respondeu. Desde o momento em que Brande lhe ordenara que nos acompanhasse, a sua atitude permanecera absolutamente passiva. O que eu ordenava, ela obedecia. Era tudo. Em vez de ficar alarmada com os horrores da cavalgada, ela não parecia sequer interessada. Não tive tempo, contudo, para refletir sobre isto. Pela primeira vez em toda a corrida, ela falou connosco.
"Não seria melhor se a Edith seguisse em frente?", disse ela. "Eu posso tomar o seu lugar. Parece inútil sacrificá-la. Para mim, não importa. Já não consigo sentir medo."
"Eu tenho medo, mas fico", disse Edith resolutamente.
O solo sob nós começou a ondular. Acres inteiras oscilavam desconexas. Galopávamos sobre fragmentos oscilantes, que tremiam sob nós como troncos a flutuar sob rapazes a brincar. Saltar estas fendas — por vezes um banco ascendente, outras vezes uma queda profunda, para além da largura da abertura, tinham de ser ultrapassadas — esgotou os cavalos que já falhavam, e a esperança que nos restava desapareceu por completo.
O brilho da luz vermelha atrás tornou-se ainda mais feroz, e um estrondo baixo, como de trovão distante, começou a murmurar à nossa volta. O ar tornou-se difícil de respirar. Já não era ar, mas um fedor mefítico que nos sufocava com fumos repugnantes. Então, um grande choque abalou a terra e, bem à nossa frente, abriu-se uma fenda que devia ter uns quinze pés de largura. Natalie foi a primeira a vê-la. Observou-a tarde demais para parar.
Da mesma forma mecânica como agira antes, acomodou-se na sela, atingiu o pónei com a mão e lançou-o em direção ao abismo. Ele saltou-o com pouco espaço de sobra. O de Edith fê-lo a seguir com menos ainda. Depois chegou a minha vez. Antes que eu pudesse incitar o meu cavalo cansado, Mademoiselle Veret disse rapidamente:
"O senhor já fez o suficiente. Permitir-me-á agora desmontar. Desta vez o cavalo não pode saltar com os dois."
"Ele saltará com os dois, Mademoiselle, ou saltará lá para dentro", respondi. "Não olhe para baixo quando estivermos a atravessar."
O cavalo conseguiu passar, mas caiu sobre os joelhos e nós caímos para a frente sobre o seu ombro. A cabeça da rapariga bateu com força numa laje de rocha, e um gemido ténue foi tudo o que me disse que ela estava viva, enquanto eu me levantava meio atordoado. O meu primeiro pensamento foi para o cavalo, pois dele dependia tudo. Ele estava aparentemente ileso, mas quase incapaz de se manter de pé devido ao choque e ao esforço da fadiga.
Edith Metford tinha desmontado e apanhara-o; segurava o freio com a mão esquerda e estremeceu como se sentisse dor quando, acidentalmente, toquei no seu ombro direito. Atei o cavalo a uma palmeira jovem e implorei à rapariga que seguisse viagem. Ela obedeceu-me relutantemente. Natalie teve de a ajudar a voltar a montar, por isso ela devia estar ferida. Quando a vi em segurança na sela, corri de volta para Mademoiselle Veret.
O abismo estava a alargar-se rapidamente. De ambos os lados, grandes fragmentos partiam-se e caíam com um rugido de rochas soltas a colidirem, até que, lá bem no fundo, o som se abafava num estrondo oco. Isto terminou num murmúrio gutural que rosnava de uma profundidade abismal. Mademoiselle Veret, ou o seu corpo sem vida, jazia agora mesmo na extremidade da fenda, e tive de endurecer o meu coração antes de me conseguir aproximar. Mas eu tinha dado a minha palavra, e não havia condições na promessa quando a fiz.
Fui poupado ao calvário. Assim que dei um passo em frente, a laje de rocha sobre a qual a rapariga jazia partiu-se diante de mim e, inclinando-se, tombou para o abismo. Lá em baixo, pude ver o brilho do vestido da rapariga enquanto o seu corpo mergulhava naquele poço terrível. E, lembrando-me da sua coragem generosa e da sua oferta de autossacrifício, senti as lágrimas subirem-me aos olhos. Mas não havia tempo para lágrimas.
Saltei para o baio e levei-o ao que se aproximava de um galope, gritando aos outros para continuarem, pois eles estavam agora a voltar. Quando os alcancei, Edith Metford disse com um estremecimento:
"A rapariga?"
"Está no fundo do poço. Siga em frente."
Chegámos finalmente à costa; e a nossa presença ali produziu a explicação para a ausência dos nativos no caminho para o mar. Eles estavam lá antes de nós. Prostrados na praia às centenas, erguiam parcialmente os seus corpos das areias, como uma ressurreição dos que já estavam mortos, e então soou no ar noturno um som como os meus ouvidos nunca antes tinham ouvido na vida, tal que, rezo a Deus, nunca mais voltem a ouvir. Não sei o que aquele terrível lamento de morte significava em palavras, apenas que tocou as profundezas mais baixas do horror humano. Por toda a praia, aquele coro temível dos condenados lamentava-se e ecoava das rochas e falésias. O grito por misericórdia não podia ser confundido — a súplica misturada com o desespero. Rezavam a nós — os seus espíritos malignos, pois este mal tinha-lhes sido causado pela nossa chegada, se não por nós próprios.
Não me posso deter na cena. Não a conseguiria descrever. Não o faria se pudesse.
O vapor ainda estava no seu ancoradouro; a sua proa apontava para o mar aberto. Ordens ruidosas ecoaram sobre a água. O rugido da corrente a correr através do escovém e o pesado salpicar não podiam ser confundidos. Anderson tinha soltado o cabo. Depois, o tilintar do telégrafo na ponte foi seguido quase instantaneamente pelo primeiro golpe estrondoso da hélice.
O Esmeralda estava em movimento!
CAPÍTULO XIX.
A CATÁSTROFE.
O Esmeralda estava a sair para o mar quando pensei num último expediente para atrair a atenção do seu capitão. Enchendo o meu revólver com cartuchos que tinha soltos nos bolsos, disparei todas as câmaras o mais depressa que pude premir o gatilho.
Os meus sinais foram ouvidos e Anderson provou ser fiel ao seu trato. Inverteu imediatamente os motores e, quando recuou para o mais perto que considerou seguro, enviou um barco a terra por nós. Entrámos nele sem qualquer obstrução dos nativos acobardados, que apenas se encolhiam de horror perante nós, agora que as suas orações não tinham conseguido demover-nos. No momento em que o nosso barco foi preso aos turcos do vapor e fomos puxados da água, "velocidade máxima" foi ordenado a partir da ponte. Fomos içados para o convés enquanto a embarcação ganhava velocidade.
Rastejei penosamente pela escada até à ponte, pois estava a ficar rígido devido às nódoas negras da queda do cavalo. Anderson recebeu-me friamente e ouviu com indiferença os meus agradecimentos. Um acordo como o nosso dificilmente me preparara para a sua lealdade.
"Oh, quanto a isso", interrompeu ele, "quando faço um negócio, a minha palavra é o meu compromisso. Nesta ocasião, estou inclinado a pensar que o contrato será definitivo."
O seu negócio era duro, mas, tendo-o feito, ele cumpriu fielmente as suas condições. Era honesto, portanto, à sua maneira.
"A que distância consegue chegar em quinze minutos?", perguntei.
"Talvez consigamos fazer seis ou sete nós. Mas de que serve isso? Haverá um terramoto naquela ilha numa escala generosa — numa escala tal que este navio teria muito poucas hipóteses na vaga que nos seguirá se estivéssemos a cinquenta milhas em mar aberto."
"Tomou todas as precauções, é claro..."
Anderson olhou-me com desprezo e, com um ar de admiração sarcástica, disse:
"Adivinhou à primeira. É precisamente isso que fiz."
"Pff! Não se ofenda por ninharias numa altura destas", disse eu, irritado. "Se soubesse tanto sobre aquele terramoto como eu, não estaria com disposição para trocar palavras."
"Poderia perguntar quanto sabe realmente sobre isso? Não poderia ter previsto o problema mais claramente se o tivesse causado você mesmo."
"Não o causei eu mesmo, mas conheço os meios que o homem que o fez empregou e, se não fosse por mim, aquele terramoto teria destruído esta terra."
Anderson não deu resposta direta a isto, mas disse seriamente:
"O senhor vai agora lá para baixo. Está exausto. Roberts levá-lo-á ao médico."
"Não estou exausto e tenciono ver isto até ao fim", retorqui obstinadamente. O meu sistema nervoso estava completamente desequilibrado e apoderou-se de mim um ataque de estupidez obstinada que tornava intolerável qualquer interferência nas minhas ações.
"Então não pode ver isto até ao fim na minha ponte", disse Anderson. O tom determinado com que falou apenas aumentou a minha fúria impotente.
"Muito bem, voltarei ao convés e, se algum dos seus homens tentar interferir comigo, fá-lo-á por sua conta e risco." Com isso, balancei o meu revólver para o ter pronto à mão. Estava fora de mim. A minha conduta já era má o suficiente, mas tornei-a pior antes de deixar a ponte.
"E se você, Anderson, desobedecer às minhas ordens — às minhas ordens, ouviu bem? — uma explosão como a que ocorreu no meio do Canal da Mancha ocorrerá no meio deste navio."
"Pelo amor de Deus, saia da ponte. Preciso de ter o juízo em dia e não tenho intenção de ganhar outra demonstração das suas diabruras."
"Então tenha cuidado para não me incomodar novamente." Assim, depois de ter passado por muito perigo com um espírito não impróprio — como espero — para um cavalheiro inglês, agi, quando o pior tinha passado, como um rapazinho rabugento. Envergonho-me da minha conduta nesta pequena questão e espero que passe sem muita atenção na narrativa de eventos de maior importância.
No convés, Natalie Brande, Edith Metford e Percival estavam juntos, com os olhos fixos na ilha. O rosto de Edith estava mortalmente pálido, mesmo no brilho avermelhado que agora cobria a terra e o mar. Quando vi a sua palidez, o meu mau temperamento passou.
"Seria impossível estar perfeitamente bem", disse-lhe eu ansiosamente; "mas aconteceu alguma coisa desde que a deixei? Está muito pálida."
"Oh, não", respondeu ela, "estou bem; um pouco fraca depois daquela cavalgada. Estarei melhor em breve."
Natalie voltou os seus olhos estranhos para mim e disse com a voz oca que tínhamos ouvido uma vez antes — quando ela nos falou na ilha —: "Essa é a maneira dela de lhe dizer que o seu cavalo partiu o seu braço direito quando ela o segurou para si. Ela segurou-o, lembra-se, com a mão esquerda. O médico tratou o membro. Ela não sofrerá por muito tempo."
"Que o Céu nos ajude nesta noite terrível", gritou Edith. "Como sabe disso, Natalie?"
"Sei muito agora, mas saberei mais em breve." Depois disto, ela não voltou a falar.
Com toda a pressão de vapor que as caldeiras do Esmeralda podiam suportar sem rebentar, estávamos agora a mergulhar através das grandes vagas do Mar de Arafura. Tudo tinha sido, de facto, feito para colocar o navio em condições. Estava preparado para a ação, por assim dizer. E travou um combate galante quando a questão se tornou premente. Quando a hora da meia-noite devia estar perto, olhei para o meu relógio. Faltava um minuto para as doze horas.
Trinta segundos mais!
A estupenda coroa de chamas que pairava sobre a ilha foi perfurada por longas linhas de fumo que se estendiam muito acima do brilho e agarravam com dedos fuliginosos as estrelas, que agora, à nossa distância, voltavam a aparecer intermitentemente. O estrondo do trovão interno tornou-se mais forte.
Quinze segundos agora!
Estrondos terríveis despedaçaram a atmosfera. Vastas línguas de fogo projetavam-se em direção ao céu. Os elementos deviam estar a derreter naquele calor fervente. As entranhas em chamas da terra estavam a verter-se.
Doze, meia-noite!
Uma reverberação trovejou, sacudindo a terra sólida, e um hálito infernal de chamas e fumo rugiu, tão terrível na sua pavorosa magnificência que qualquer homem que o visse e vivesse para contar a história poderia justamente ter afirmado ter visto a perdição. Naquele furacão de matéria incandescente, a ilha foi apagada para sempre do mapa deste mundo.
Não obstante a velocidade do Esmeralda, ele era um bicho-preguiça quando comparado com a velocidade da vaga de tal terramoto. Do brilho da iluminação à escuridão perfeita, o contraste foi súbito e extremo. Mas a negrura do oceano foi rapidamente embranquecida pelas plumas nevadas da avalanche de água que nos perseguia agora, ainda longe na popa, mas a ganhar terreno rapidamente. Eu, que não tinha nada a fazer no navio que exigisse a minha presença em qualquer parte especial, decidi esperar no convés e atar-me à parte da frente, que seria praticamente o lado de sotavento de uma casa do convés. Persuadimos Edith Metford a ir lá para baixo, para que não corresse o risco de mais ferimentos no seu braço fraturado. Quando nos deixou, sussurrou-me: "Então a Natalie estará consigo no fim, e eu..." um soluço interrompeu-a. E ocorreu-me naquele momento que esta rapariga tinha agido muito nobremente, e que eu mal tinha apreciado ela e tudo o que fizera por mim.
Natalie recusou-se a deixar o convés. Atei-a em segurança ao meu lado. Juntos, aguardámos o fim. Quando o rugido da vaga que nos seguia se aproximou, tão perto que as vozes dos oficiais do navio já não podiam ser ouvidas, Natalie falou. O som oco já não estava na sua voz. Os seus próprios tons suaves e doces tinham voltado.
"Arthur", perguntou ela, "é este o fim?"
"Temo que seja", respondi, falando perto do seu ouvido para que ela pudesse ouvir.
"Então temos pouco tempo, e tenho algo que devo dizer, que me tens de prometer recordar quando... quando eu já não estiver contigo."
"Estarás sempre comigo enquanto vivermos. Acho que mereço isso, finalmente."
"Sim, mereces isso e mais. Estarei contigo enquanto viver, mas não será por muito tempo."
Eu estava prestes a interrompê-la quando ela colocou a sua mão pequena e suave sobre os meus lábios e disse:
"Ouve, há muito pouco tempo. É tudo um engano. Quero dizer, o Herbert estava errado. Podia muito bem ter-me deixado ter o meu quinhão terreno de felicidade ou loucura — chama-lhe o que quiseres."
"Vês isso agora — graças a Deus!"
"Sim, mas vejo-o tarde demais. Não o sabia até... até estar morta. Cala-te!" Tentei novamente interrompê-la, pois pensei que a sua mente estava a divagar. "Morri psiquicamente com o Herbert. Foi quando vimos a luz pela primeira vez na ilha. Desde então, vivi mecanicamente, mas foi apenas uma vida numa forma tão baixa que agora não sei o que aconteceu entre aquele momento e este. E não poderia agora falar como estou a falar, exceto por uma força de vontade que me está a custar muito caro. Mas é a única voz que poderias ouvir. Por isso, não conto o custo. O cérebro do meu irmão superou tanto o meu que primeiro absorveu e finalmente destruiu a minha vitalidade mental. Removida esta influência, sou um navio sem leme no mar — destinado a perecer."
"Que os seus tormentos durem para sempre. Que o poço mais profundo do inferno o receba!", disse eu com um gemido de agonia.
Mas Natalie disse: "Cala-te! Eu poderia ter prolongado um pouco mais a minha existência, mas escolhi concentrar a força vital que me teria durado mais alguns anos senis nos minutos necessários para esta mensagem minha para ti — uma mensagem que não te poderia ter dado se ele não estivesse morto. E estou a morrer para que a possas ouvir. A morrer! Meu Deus! Já estou morta."
Ela parecia lutar contra alguma força que batalhava com ela, e o rugido de muitas águas era mais alto à nossa volta antes que ela conseguisse falar novamente.
"Inclina-te mais, Arthur; as minhas forças estão a falhar e ainda não disse aquilo para que estou aqui. Mais ainda.
"Disse que é tudo um engano — um engano horrível. A existência tal como a conhecemos é efémera. O sofrimento é efémero. Não há nada de duradouro exceto o amor. Não há nada de eterno exceto a mente. A tua mente é a minha. O teu amor é o meu. A tua vida humana pode pertencer a quem quiseres. Deveria pertencer àquela rapariga corajosa lá em baixo. Não lho recuso, pois tenho-te a ti. Nós dois estaremos juntos através das eras — para todo o sempre. Coração do meu coração, lutaste varonilmente e bem, e se não conseguiste totalmente salvar a minha carne da corrupção prematura, contenta-te por teres a minha alma. Ah!"
Ela pressionou as mãos contra a cabeça como se sentisse uma dor terrível. Quando voltou a falar, a sua voz saiu em breves arquejos.
"O meu cérebro anda à roda. Não sei o que estou a dizer", exclamou ela, perturbada. "Não sei se estou a dizer o que é verdade ou apenas o que imagino ser verdade. Não sei nada, a não ser isto. Fui hipnotizada. Tenho estado assim há dois anos. Se não fosse por isso, teria sido feliz no teu amor — pois eu era uma mulher antes de esta influência hedionda me entorpecer. Disseram-me que o que perdi foi apenas um paraíso de tolos. Mas só sei que o perdi. Perdi-o — e a escuridão da morte abate-se sobre mim."
Cessou de falar. Um tremor convulsionou-a, e depois a sua cabeça tombou suavemente sobre o meu ombro.
Nesse momento, a grande onda quebrou sobre o navio, fazendo-o rodopiar, indefeso como uma rolha nas ondulações de um tanque de moinho; açoitou-o com golpes poderosos; varreu-o em cataratas gigantescas da popa à proa; destruindo, rasgando tudo; inundando-o com torrentes sibilantes; esmagando-o com avalanches de espuma furiosa. Então, o tornado oceânico passou e deixou o Esmeralda para trás, com metade da tripulação incapacitada e muitos perdidos, os seus conveses uma massa de destroços, os seus mastros perdidos. O navio aleijado mal flutuava. Quando a última torrente de espuma passou e eu pude olhar para Natalie, a sua cabeça tinha pendido sobre o peito. Ergui o seu rosto suavemente e olhei para os seus olhos bem abertos.
Ela estava morta.
CAPÍTULO XX.
CONCLUSÃO.
Pegando no corpo da minha amada nos braços, tropecei pelo convés coberto de destroços e levei-o para o camarote que ela ocupara na viagem de ida. Percival estava demasiado ocupado a tratar dos marinheiros feridos para ser interrompido. Os seus serviços, eu sabia, eram agora inúteis, mas eu queria que ele refutasse ou corroborasse uma convicção que o meu próprio conhecimento médico me tinha imposto. O pensamento era tão repulsivo que me agarrei a qualquer esperança que pudesse levar à sua dispersão. Esperei sozinho com a minha morta.
Percival veio após uma hora, que me pareceu uma eternidade. Gaguejou algumas palavras incoerentes de simpatia assim que olhou para o meu rosto. Mas não foi para isso que o afastei dos seus deveres urgentes noutras partes. Fiz um gesto em direção à rapariga morta. Ele atendeu-o imediatamente. Observei atentamente e tomei cuidado para que a luz incidisse sobre o seu rosto, para que eu pudesse ler nos seus olhos em vez de ouvir as suas palavras.
"Ela desmaiou!", exclamou ele, ao aproximar-se da figura rígida. Não disse nada até que ele se virasse e ficasse de frente para mim. Então li nos seus olhos. Ele disse lentamente: "Tens consciência, Marcel, de que... de que ela está morta?"
"Tenho."
"De que ela está morta... há várias horas?"
"Tenho."
"Mas deixa-me pensar. Foi apenas há uma hora..."
"Não; não penses", interrompi. "Há coisas nesta viagem que não suportam ser pensadas. Agradeço-te por teres vindo tão depressa. Perdoar-me-ás por te incomodar quando tens tanto que fazer noutros lugares. E agora deixa-nos a sós. Quero dizer, deixa-me a sós."
Ele apertou-me a mão e foi-se embora sem uma palavra. Eu sou amigo daquele homem.
Enterraram-na no mar.
Eu estava alegremente inconsciente na altura, e assim fui poupado a essa cena. Edith Metford, fraca e sofrendo como estava, passou por tudo aquilo. Não me disse nada sobre o assunto, exceto que foi feito. Mais do que isso, eu não suportaria. E tenho suportado muito.
A viagem de regresso foi um episódio lúgubre. Há pouco mais a dizer, e deve ser dito rapidamente. Percival foi gentil, mas angustiou-me constatar que ele me considerava agora claramente um homem de espírito fraco devido ao peso do meu infortúnio. Uma vez, no auge da minha miséria, comecei um relato das minhas aventuras para ele, pois queria a sua ajuda. O olhar no seu rosto foi suficiente para mim. Não cometi o mesmo erro novamente.
A Anderson fiz as pazes pelo meu extravagante acesso de temperamento. Recebeu-me mais gentilmente do que eu esperava. Já não pensava no dinheiro que tinha passado entre nós. E, para lhe fazer justiça tardia, não creio que ele também pensasse nisso. Pelo menos, não ofereceu devolver nada. Os seus escrúpulos, suponho, eram conscienciosos. Na verdade, eu já não valia a inimizade de um homem. A simpatia era agora a única indignidade que me podia ser imposta. E Anderson não transgrediu nessa direção. A minha miséria estava, pensei, completa. Uma nota ainda tinha de ser tocada nessa longa discórdia de desespero.
Navegávamos ao longo da costa sul de Java. Durante muitas horas, os penhascos escarpados e as rochas gigantes que protegem a ilha contra o ataque do Oceano Índico passaram diante de nós como numa revista, e nós — Edith Metford e eu — sentámo-nos no convés silenciosamente, com muitos pensamentos em comum, mas sem a troca de uma palavra falada. O aspeto severo e proibitivo daquela costa de ferro aumentou a melancolia que se instalara no meu cérebro. Os seus baluartes de rochedos solitários, encharcados pelo mar, deprimiram-me abaixo do zero mental que era agora habitual em mim. O sol pôs-se num clarão vermelho, que não me comoveu. O curto crepúsculo passou rapidamente, mas não notei nada. Depois veio a noite. O mar inquieto desapareceu na escuridão. A grande marcha das estrelas silenciosas começou. Mas eu não sabia nem me importava.
Um sussurro suave agitou-me.
"Arthur, pelo amor de Deus, anima-te! Estás a remoer demasiado. Isso vai destruir-te."
Sem entusiasmo, coloquei a minha mão na dela e apertei-lhe os dedos suavemente.
"Suporta-me!", implorei.
"Suportar-te-ei para sempre. Mas tens de continuar a lutar. Ainda não venceste."
"Não, nem nunca vencerei. Lutei a minha última batalha. A vitória pode ir para quem a desejar."
Nisto ela chorou. Eu não podia suportar que ela sofresse com a minha miséria e, por isso, protegendo cuidadosamente o seu braço ferido, puxei-a para perto de mim. E então, da escuridão da noite, muito longe sobre a solidão do mar, chegou até nós o som de uma voz. Essa voz era o lamento de uma mulher. A rapariga ao meu lado estremeceu e recuou. Não lhe perguntei se tinha ouvido. Eu sabia que ela tinha ouvido.
Levantámo-nos e ficámos afastados sem qualquer explicação. A partir desse momento, uma carícia teria sido um sacrilégio. Não voltei a ouvir aquele som estranho, nem mais nada durante uma hora ou mais, exceto o rebentar das ondas nos rochedos de Java.
Não guardei registo dos lugares-comuns da nossa viagem depois disso. Resta-me apenas dizer que cheguei a Inglaterra com a saúde debilitada e a fortuna falida. Brande não deixou dinheiro. A sua fórmula para a transmutação dos metais é ininteligível para mim. Não posso fazer uso dela.
Edith Metford continua a ser minha amiga. Separarmo-nos completamente depois do que sofremos juntos está além das nossas forças. Mas entre nós existe uma sombra sem nome, reminiscente daquela noite terrível no Mar de Arafura, quando a morte esteve muito perto de nós. E nos meus ouvidos há sempre o eco daquela voz que ouvi junto às margens de Java, quando a fronteira enevoada entre a vida e a morte parecia clara.
A minha história está contada. Não posso provar a sua veracidade, pois há muito nela de que sou a única testemunha viva. Não posso provar se Herbert Brande era um mágico científico possuidor de todos os poderes que reclamava, ou apenas um físico louco encarregado de um novo e terrível explosivo; nem se Edward Grey partiu alguma vez para o Labrador. O fardo da prova disto último deve ser suportado por outros — a menos que seja deixado ao próprio Grey mostrar se o meu testemunho é falso ou verdadeiro. Se for deixado a ele, alguns anos decidirão a questão.
Estou contente por esperar.
O FIM.
IRISH STEW. Por JAMES J. MORAN, Autor de "A Deformed Idol", "The Dunferry Risin'", "Runs in the Blood", etc. Crown 8vo, capa litografada, preço 1s.
O WEEKLY SUN diz:--"O SR. MORAN é o 'Barrie' da Irlanda... Num distrito remoto no oeste da Irlanda, ele criou um Thrums irlandês."
LA LECSINSKA. Um romance poderoso e inteligente. Por HARRIET BUCKLEY. Crown 8vo, capa de papel, 1s. [Acabado de sair.
THAT OTHER FELLOW. Um romance original e absorvente. Por Sra. LOUISA LE BAILLY. Crown 8vo, capa de papel, 1s. [Acabado de sair.
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SÉRIE DE ROMANCES POPULARES DA DIGBY.
_Em encadernação de tecido elegante, com letras a ouro, Cr. 8vo, 320 págs. Preço 2s. 6d. cada, ou em capas ilustradas, Preço 2s. cada._
POR JEAN MIDDLEMASS. | POR DR. A. KENEALY. THE MYSTERY OF CLEMENT | Dr JANET OF HARLEY STREET. Por DUNRAVEN. Por o Autor | o Autor de "Molly and de "A Girl in a | her Man-o'-War", etc. Thousand", etc. (SEGUNDA | (SÉTIMA EDIÇÃO.) Com EDIÇÃO.) | Retrato. | POR DORA RUSSELL. | POR HUME NISBET. A HIDDEN CHAIN. Por o | THE JOLLY ROGER. Por o Autor de "Footprints in | Autor de "Bail Up", etc. the Snow", etc. (SEGUNDA | Com Ilustrações do EDIÇÃO.) | Autor. (QUINTA EDIÇÃO.)
NOTA.--Outras obras na mesma série oportunamente.
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DIVERSOS.
A HISTORY OF THE GREAT WESTERN RAILWAY FROM ITS INCEPTION TO THE PRESENT TIME. Por G. A. SEKON. Revisto por F. G. SAUNDERS, Presidente da Great Western Railway. Demy 8vo, 390 páginas, tecido, 7s. 6d. Com numerosas ilustrações.
[***] Prospecto ilustrado, porte pago. [Segunda Edição.
O TIMES, 12 de abril de 1895.--"O volume do Sr. Sekon é pleno de interesse e constitui um capítulo importante na história do desenvolvimento ferroviário em Inglaterra."
O STANDARD (Editorial), 4 de abril de 1895.--"Uma excelente adição à literatura das nossas vias férreas."
O DAILY TELEGRAPH, 13 de abril de 1895.--"O Sr. G. A. Sekon prestou um serviço ao público. O seu livro é pleno de interesse e é evidentemente o resultado de uma grande quantidade de investigação minuciosa... O seu livro torna-se ainda mais valioso por várias imagens de locomotivas, colisões, a Ponte de Saltash, a Antiga Estação de Bath e o Túnel de Box; e será bem-vindo por todos os interessados na história e na extraordinária expansão das nossas vias férreas."
THREE EMPRESSES. Josephine, Marie-Louise, Eugenie. Por CAROLINE GEARY, Autora de "In Other Lands", etc. Com retratos. Cr. 8vo, tecido, 6s. (SEGUNDA EDIÇÃO.)
O PALL MALL GAZETTE diz:--"Este livro encantador... Escrita de forma graciosa e gráfica, a história de cada Imperatriz é contada de forma clara e completa... Este livro delicioso."
WINTER AND SUMMER EXCURSIONS IN CANADA. Por C. L. JOHNSTONE, Autor de "Historical Families of Dumfriesshire", etc. Com ilustrações. Crown 8vo, tecido, 6s.
O DAILY NEWS diz:--"Há muito que não líamos um livro da sua classe que merecesse tanta confiança. Os futuros colonos fariam bem em estudar o livro do Sr. Johnstone."
THE AUTHOR'S MANUAL. Por PERCY RUSSELL. Com observações prefaciais do Sr. GLADSTONE. Crown 8vo, tecido, 3s. 6d. líquido. (OITAVA EDIÇÃO E MAIS BARATA.) Com retrato.
O WESTMINSTER REVIEW diz:--"... O livro do Sr. Russell é um manual e guia muito completo para jornalistas e autores. Não é uma obra meramente prática — é literária e aprecia a literatura no seu melhor sentido; ... temos pouco mais que elogios para o volume."
A GUIDE TO BRITISH AND AMERICAN NOVELS. Desde o período mais antigo até ao final de 1894. Por PERCY RUSSELL, Autor de "The Author's Manual", etc. Crown 8vo, tecido. Preço 3s. 6d. líquido. (SEGUNDA EDIÇÃO CUIDADOSAMENTE REVISTA.)
O SPECTATOR diz:--"A familiaridade do Sr. Russell com todas as formas de romance é espantosa, e os seus resumos de enredos e comentários sobre eles são tão breves e lúcidos quanto variados."
SIXTY YEARS' EXPERIENCE AS AN IRISH LANDLORD. Memórias de JOHN HAMILTON, D.L. de St Ernan's, Donegal. Editado, com Introdução, pelo Rev. H. C. WHITE, antigo Capelão em Paris. Crown 8vo, tecido, 6s. Com Retrato.
O TIMES diz:--"Muita luz valiosa sobre a verdadeira história da Irlanda e da questão agrária irlandesa no presente século é lançada por um volume muito interessante intitulado 'Sixty Years' Experience as an Irish Landlord'... Este volume muito instrutivo."
NIGH ON SIXTY YEARS AT SEA. Por ROBERT WOOLWARD ("Old Woolward"). Crown 8vo, tecido, 6s. Com Retrato. (SEGUNDA EDIÇÃO.)
O TIMES diz:--"Leitura muito divertida. O Capitão Woolward escreve de forma sensata e direta, e conta a sua história com a franqueza de um velho lobo do mar. Tem um apurado sentido de humor, e as suas histórias são intermináveis e muito divertidas."
WHOSE FAULT? The Story of a Trial at Nisi Prius. Por ELLIS J. DAVIS, Advogado. Em elegante encadernação pictórica. Crown 8vo, tecido, 3s. 6d.
O TIMES diz:--"Uma tentativa engenhosa de transmitir à mente leiga uma ideia precisa e completa da origem, progresso e todas as circunstâncias essenciais de uma ação judicial comum. A ideia é certamente boa, e executada de uma forma muito divertida... O pequeno livro instrutivo do Sr. Davis."
BORODIN AND LISZT. I.--Vida e Obras de um Compositor Russo. II.--Liszt, esboçado nas cartas de Borodin. Por ALFRED HABETS. Traduzido com um Prefácio por ROSA NEWMARCH. Com Retratos e Fac-símiles. [Acabado de sair.
FRAGMENTS FROM VICTOR HUGO'S LEGENDS AND LYRICS. Por CECILIA ELIZABETH MEETKERKE. Crown 8vo, tecido, 7s. 6d.
O WORLD diz:--"A mais admirável tradução de poesia francesa para inglês que chegou ao nosso conhecimento desde a tradução de 'La Chant du Cosaque' pelo Padre Prout."
DO AUTOR DE "SONG FAVOURS."
MINUTIAE. Por CHARLES WILLIAM DALMON. Royal 16mo, tecido elegante, preço 2s. 6d.
O ACADEMY diz:--"A sua canção tem uma nota rara e doce. O pequeno livro tem cor e fragrância, e não é menos bem-vindo porque a fragrância é delicada, evanescente; as cores do branco e cinza prateado e alfazema, em vez de brilhantes e exuberantes... A genuína arte do Sr. Dalmon. Nos seus sonetos ele mostra um toque hábil, particularmente no belo 'Ecce Ancilla Domini'. No entanto, afinal, é nas líricas que ele é mais individual... Que ele tome coragem, pois certamente a canção que ele tem para cantar vale a pena ser cantada."
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[***] _Um catálogo completo de romances, viagens, biografias, poemas, etc., com uma nota crítica ou descritiva de cada um, gratuito pelo correio mediante solicitação._
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LONDRES: DIGBY, LONG & CO., EDITORES, 18 Bouverie Street, Fleet Street, E.C.