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The Czar's Spy: The Mystery of a Silent Love

by William Le Queux · in Portuguese

O ESPIÃO DO CZAR

O Mistério de um Amor Silencioso

Pelo CAVALEIRO WILLIAM LE QUEUX Autor de "O Livro Fechado", Etc.

1905.

CONTEÚDO

CAPÍTULO

I. A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE BRITÂNICA

II. POR QUE O COFRE FOI ABERTO

III. A CASA "DO OUTRO LADO DA ÁGUA"

IV. EM QUE O MISTÉRIO AUMENTA

V. CONTÉM CERTAS CONFIDÊNCIAS

VI. A REUNIÃO DAS NUVENS

VII. CONTÉM UMA SURPRESA

VIII. A CONTRAPRESTAÇÃO DA VIDA

IX. SÃO FEITAS ESTRANHAS REVELAÇÕES

X. MOSTRO O MEU JOGO

XI. O CASTELO DO TERROR

XII. "O ESTRANGULADOR"

XIII. UM JOGO DUPLO E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

XIV. SUA ALTEZA É CURIOSA

XV. LOGO APÓS A STRAND

XVI. HOMENS MARCADOS

XVII. A VERDADE SOBRE O "LOLA"

XVIII. CONTÉM A HISTÓRIA DE ELMA

CONCLUSÃO

CAPÍTULO I

A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE BRITÂNICA

"Houve um caso misterioso ontem à noite, signore."

"Oh!" exclamei. "Algo que nos interesse?"

"Sim, signore", respondeu o alto e magro funcionário consular italiano, falando com um forte sotaque. "Um iate a vapor inglês encalhou na Meloria a cerca de dez milhas de distância, e foi descoberto por um barco de pesca que trouxe a notícia ao porto. O Almirante enviou dois torpedeiros, que conseguiram, após muitas dificuldades, trazer o iate em segurança, mas o Capitão do Porto suspeita que a tripulação estava a tentar desfazer-se da embarcação."

"Perdê-la, quer dizer?"

O fiel Francesco, cujo inglês fora adquirido maioritariamente junto de homens do mar e não era o vocabulário mais refinado, acenou e, toscano verdadeiro que era, colocou o dedo sobre os lábios cerrados, indicando silêncio.

"Parece curioso", comentei. "Desde que o Cônsul saiu de licença, as coisas parecem estar a fervilhar — duas brigas com facadas, oito marinheiros bêbados presos, um motim num cargueiro e agora um iate naufragado — uma lista bastante considerável! E, no entanto, algumas pessoas que ficam em casa queixam-se de que os cônsules britânicos só são pagos para serem ornamentais! Deviam passar uma semana aqui, em Livorno, e depressa mudariam de opinião."

"Sim, mudariam, signore", respondeu o velho de rosto magro com um sorriso, enquanto torcia o seu bigode cinzento e feroz. Francesco Carducci era uma figura bem conhecida em Livorno; intérprete do Consulado e guardião de uma casa de marinheiros, um homem honesto, de bom coração e tranquilo, que durante vinte anos ocupara o mesmo cargo sob meia dúzia de cônsules diferentes. Naquele momento, porém, veio do escritório exterior um lamento prolongado.

"Olá, o que é isso?" perguntei, sobressaltado.

"Apenas um foguista louco do Oleander, signore. O capitão trouxe-o para o senhor ver. Eles querem enviá-lo de volta para os seus amigos em Newcastle."

"Oh! um caso de loucura!" exclamei. "É melhor pedir ao Doutor Ridolfi que o veja. Não sou especialista em doenças mentais."

O meu velho amigo Frank Hutcheson, Vice-Cônsul de Sua Majestade Britânica no porto de Livorno, estava de licença em Inglaterra, tendo as suas funções sido delegadas ao jovem Bertram Cavendish, o pró-cônsul. Este último, porém, tinha caído de cama com um forte ataque de malária que apanhara na mortífera Maremma, e eu, como o único outro inglês em Livorno, fora solicitado pelo Cônsul-Geral em Florença para atuar como pró-cônsul até ao regresso de Hutcheson.

Estávamos em meados de julho, e o tempo estava abrasador na cidade mediterrânica, brilhante e branqueada pelo sol. Se conhece Livorno, provavelmente conhece o Consulado com o seu brasão preto e amarelo no exterior, um conjunto grande e elegante de escritórios enormes e arejados de frente para a catedral, e com vista para a praça principal, que é tão grande como Trafalgar Square e muito mais pitoresca. A legenda pintada na porta, "Horário de expediente, 10 às 3", e as persianas verdes fechadas contra o sol escaldante dão a ideia de um cargo fácil, mas tal não é certamente o caso, pois a vida de um cônsul num porto de descarga deve, necessariamente, ser muito ativa e os seus deveres nunca terminam.

Carducci tinha-me deixado com a correspondência durante meia hora ou mais, e confesso que não estava com disposição para escrever respostas naquele calor sufocante; por isso, sentei-me à grande mesa do cônsul, a fumar um cigarro e esticado preguiçosamente na cadeira do meu amigo, resolvido a escapar para o frescor de Inglaterra assim que ele regressasse na semana seguinte. A Itália é muito boa durante nove meses do ano, mas Livorno não é lugar para um inglês em meados de julho. Os meus pensamentos vagueavam pelos lagos ingleses e por uma caçada aos tetrazes com o meu tio na Escócia, quando o fiel Francesco voltou a entrar, dizendo:

"Enviei o capitão e o seu louco embora até esta tarde, signore. Mas há um signore inglês à espera para o ver."

"Quem é ele?"

"Não o conheço. Ele não dá o nome, mas quer ver o Signor Console."

"Está bem, faça-o entrar", disse eu preguiçosamente, e alguns momentos depois um inglês alto, elegantemente vestido, de meia-idade, com um fato de iatismo de sarja azul-marinho, entrou e, fazendo uma vénia, perguntou se eu era o Cônsul Britânico.

Quando ele se sentou, expliquei a minha posição, ao que ele disse:

"Não consegui entender muito bem o seu funcionário. Ele fala de forma muito truncada e eu não sei uma palavra de italiano. Mas talvez deva apresentar-me primeiro. O meu nome é Philip Hornby", e entregou-me um cartão com o nome e as moradas "Woodcroft Park, Somerset ------ Brook's". Depois acrescentou: "Estou a navegar a bordo do meu iate, o Lola, e ontem à noite, infelizmente, encalhámos na Meloria. Tenho um novo capitão que contratei há alguns meses e ele parece ser um tolo completo. Felizmente para nós, um barco de pesca viu a nossa situação e deu o alarme no porto. O Almirante enviou dois torpedeiros e um rebocador e, após cerca de três horas, conseguiram tirar-nos de lá."

"E agora estão no porto?"

"Sim. Mas a razão pela qual vim é para lhe pedir que me faça um favor e escreva uma carta de agradecimento em italiano ao Almirante e outra ao Capitão do Porto — cartas educadas que eu possa copiar e enviar-lhes. Sabe o tipo de coisa."

"Certamente", respondi, mais interessado nele devido à curiosa suspeita que as autoridades portuárias pareciam nutrir. Ele era, evidentemente, um cavalheiro e, depois de estar com ele dez minutos, afastei a ideia de que ele tinha tentado naufragar o Lola.

Peguei em algumas folhas de papel e rabisquei os rascunhos de duas cartas redigidas na fraseologia mais elegante, como é costume ao dirigir-se aos funcionários italianos.

"Felizmente, deixei a minha esposa em Inglaterra, ou ela teria ficado terrivelmente assustada", comentou ele pouco depois. "Soprava um vento desagradável toda a noite, e o tolo do capitão parecia aumentar o nosso perigo a cada ordem que dava."

"Está sozinho, então?"

"Tenho um amigo comigo", foi a resposta.

"E quantos tripulantes há?"

"Dezasseis, ao todo."

"Ingleses, suponho?"

"Nem todos. Acho que os franceses e os italianos são mais sóbrios do que os ingleses e comportam-se melhor no porto."

Examinei-o criticamente enquanto ele estava sentado à minha frente, e o simples facto de ele desejar enviar agradecimentos às autoridades convenceu-me de que ele era um cavalheiro bem-nascido. Tinha cerca de quarenta e cinco anos, com um rosto alegre, redondo e de bom natural, vermelho pelo sol do sul, olhos azuis e uma curta barba loira. A sua expressão era essencialmente a de um homem devoto ao desporto ao ar livre, pois estava ligeiramente sulcada e curtida pelo tempo, como a de um verdadeiro velejador. O seu discurso era refinado e culto e, enquanto conversávamos, ele deu-me a impressão de que, como um entusiasta amante do mar, tinha percorrido o Mediterrâneo muitas vezes desde Gibraltar até Esmirna. Nunca, porém, tinha entrado antes em Livorno.

Depois de combinarmos que o seu capitão viria ter comigo à tarde para fazer um relatório formal do acidente, saímos juntos pela praça branca e ensolarada até ao Nasi, o famoso pasteleiro, onde é hábito dos livorneses tomar o seu vermute antes do almoço.

Quanto mais via Hornby, mais gostava dele. Era falador e espirituoso, e tratava o seu acidente como uma grande piada.

"Estaremos aqui pelo menos uma semana, suponho", disse ele enquanto tomávamos o nosso vermute. "Estamos a caminho das Ilhas Gregas, já que o meu amigo Chater quer vê-las. O engenheiro diz que há algo de tenso que precisamos de reparar. Mas, a propósito", acrescentou, "porque não janta connosco a bordo esta noite? Venha. Podemos dar-lhe algumas coisas inglesas que podem ser uma mudança para si."

Aceitei este convite com gosto por duas razões. Uma era porque as suspeitas do Capitão do Porto tinham despertado a minha curiosidade, e a outra era porque, honestamente, tinha criado um grande apreço por Hornby.

O capitão do Lola, um escocês baixo e atarracado de Dundee, com uma cicatriz mal cicatrizada na face esquerda, passou pelo Consulado às duas horas e fez o seu relatório, que me pareceu muito pouco convincente. Deu-me a impressão de ser indigno da sua carta de marinheiro, pois estava evidentemente completamente fora da sua rota quando o acidente ocorreu. O proprietário e o seu amigo Chater estavam nos seus camarotes a dormir, quando de repente descobriu que o navio não estava a avançar. Tinham, de facto, corrido para o banco de areia perigoso sem se aperceberem. Um mar forte estava a correr com uma brisa rija e, embora a sua perícia náutica fosse fraca, ele era capaz o suficiente para reconhecer de imediato que estavam numa posição muito perigosa.

"Muito feliz por não ter sido mais grave, senhor", acrescentou ele, depois de me contar a sua história, que escrevi sob o seu ditado para benefício final da Junta de Comércio.

"Não enviou sinais de socorro?" indaguei.

"Não, senhor — nunca pensei nisso."

"E, no entanto, sabia que podia perder-se?" comentei com suspeita recorrente.

O cauteloso escocês, cujo nome era Mackintosh, hesitou alguns momentos e depois respondeu:

"Bem, senhor, como vê, o barco de pesca tinha-nos avistado e vimos que ele estava a voltar para o porto para pedir ajuda."

A sua desculpa era engenhosa. Provavelmente foi o seu descuido em não fazer sinais de socorro que tinha despertado as suspeitas do Capitão do Porto. Do princípio ao fim, a história do capitão do Lola era, na minha opinião, muito pouco satisfatória.

"Há quanto tempo está ao serviço do Sr. Hornby?" inquiri.

"Seis meses, senhor", foi a resposta do homem. "Antes de ele me contratar, estive com os Wilsons, de Hull, a navegar no Báltico."

"Como mestre?"

"Tenho a minha carta de mestre há quinze anos, senhor. Estive com os Bibbys antes dos Wilsons, e antes disso com a General Steam. Fiz oito anos no Mediterrâneo com eles, quando era imediato."

"E nunca tinha estado em Livorno antes?"

"Nunca, senhor."

Dispensei o capitão com uma clara impressão de que ele não me tinha dito toda a verdade. Aquela cicatriz não melhorava a sua aparência pessoal. Ele tinha deixado os seus certificados a bordo, disse, mas se eu quisesse, ele trazê-los-ia amanhã.

Seria possível que se tivesse tentado, de facto, naufragar o iate e que isso tivesse sido frustrado pelo mestre da falua, que avistara a embarcação encalhada? Havia certamente algum mistério em torno das circunstâncias, e o meu interesse no iate e no seu proprietário aumentava a cada hora. Como, perguntava-me eu, teria o capitão recebido aquele ferimento muito feio na face? Estive quase a perguntar-lhe, mas, após reflexão, decidi que era melhor não demonstrar uma curiosidade indevida.

Naquela noite, quando o sol ardente se punha na sua glória carmesim, banhando o mar vítreo com a sua luz cor de sangue e fazendo com que as ilhas de Gorgona e Capraja surgissem num roxo profundo contra o horizonte distante, apanhei um táxi pela antiga estrada costeira até ao porto onde, dentro da doca interior, encontrei o Lola, uma das mais magníficas embarcações privadas que jamais vira. As suas dimensões surpreenderam-me. Estava pintada de branco imaculado, com latão brilhante por toda a parte. À popa pendia flácida a bandeira britânica, enquanto no topo do mastro estava a insígnia do Esquadrão Real de Iates. A chaminé amarela não emitia fumo e, enquanto ela jazia calmamente no pôr do sol, uma multidão de vadios do cais e angariadores apoiava-se no parapeito, discutindo os seus méritos e perguntando-se quem poderia ser o rico inglês que se podia dar ao luxo de viajar num pequeno paquete só seu — pois o seu tamanho surpreendia até aqueles estivadores italianos, habituados como estavam a ver todo o tipo de embarcações entrar no porto movimentado.

Ao pisar o convés, Hornby, que tal como eu usava um fato limpo de linho branco como o traje de jantar mais sensato num clima quente, adiantou-se para me cumprimentar e levou-me até à popa onde, deitada numa longa cadeira de vime sob o toldo, estava um homem alto, de olhos escuros e rosto barbeado, de cerca de quarenta anos, também vestido de linho branco fresco. O seu rosto perspicaz dava a impressão de que era um advogado.

"O meu amigo, Hylton Chater — o Sr. Gordon Gregg", disse ele, apresentando-nos, e então, enquanto apertávamos as mãos, o homem de rosto barbeado exclamou, sorrindo agradavelmente:

"Prazer em conhecê-lo, Sr. Gregg. Não é de todo um estranho para o Hornby ou para mim. De facto, temos um par dos seus livros a bordo. Mas não fazia ideia de que vivia por aqui."

"Em Ardenza", disse eu. "A três milhas ao longo da costa. Amanhã espero que ambos venham jantar comigo."

"Encantado, com certeza", declarou Hornby. "Comer em terra é um verdadeiro prazer quando se está fechado a bordo há algum tempo. Portanto, aceitaremos, não aceitamos, Hylton?"

"Certamente", respondeu o outro; e então começámos a conversar sobre o perigo da noite anterior, com Hornby a contar-me como tinha copiado as duas cartas de agradecimento em italiano e as tinha enviado para os seus respetivos endereços.

"O Phil blasfemou como um capitão do Levante quando copiou aquelas palavras italianas!" riu-se Chater. "Ele teve de fazer três cópias de cada carta antes de conseguir colocar toda a linguagem de acordo com a sua cópia."

"Passei a tarde toda nelas — que se lixem!" declarou o proprietário do Lola com uma risada. "Mas, claro, não queria cometer erros ortográficos. Estes italianos são tão pontilhosos."

"Bem, fez certamente a coisa certa ao agradecer ao Almirante", disse eu. "É muito invulgar ele enviar torpedeiros para ajudar uma embarcação em perigo. Isso é geralmente deixado ao rebocador do porto."

"Sim, sinto que foi muito gentil da parte dele. Foi por isso que me dei ao trabalho de escrever. Não entendo uma palavra de italiano, nem o Chater."

"Mas têm italianos a bordo?" comentei. "Os dois marinheiros que me trouxeram a remar são genoveses, pelo sotaque."

Hornby e Chater trocaram olhares — olhares de clara inquietação, pensei.

Então o proprietário do Lola disse:

"Sim, são úteis para fazer arranjos e comprar coisas nos portos italianos. Temos um espanhol, um grego e um sírio, que atuam como intérpretes em diferentes lugares."

"E ganham uma boa quantia em comissões secretas, suponho?" ri-me.

"Claro. Mas para viajar com conforto, é preciso pagar e ser agradável", declarou o homem de barba loira. "Na Grécia e no Levante eles são mais rapaces do que em Nápoles, e os funcionários da Alfândega querem sempre um suborno, caso contrário estão sempre a vasculhar e a descobrir problemas onde não existem."

"Teve algum problema aqui?" indaguei.

"Eles não nos visitaram", disse ele com um sorriso, e ao mesmo tempo esfregou o polegar e o indicador, o gesto de quem sente dinheiro de papel.

Isto aumentou a minha surpresa, pois eu sabia que os funcionários da Alfândega de Livorno não eram nada dados à aceitação de subornos. Eram demasiado vigiados pelos seus superiores. Se o iate tinha realmente escapado a uma busca, então era algo muito invulgar. Além disso, que motivo poderia Hornby ter para evitar a visita da Alfândega? Eles, claro, selariam os seus vinhos e licores, mas mesmo que o fizessem, deixariam-lhe o suficiente para o consumo dele e dos seus amigos.

Não. Philip Hornby tinha algum motivo forte para pagar um pesado suborno para evitar a visita da dogana. Se realmente tinha pago, devia ter pago muito caro; disso estava convencido.

Seria possível que algum mistério estivesse escondido a bordo daquela embarcação magnificamente equipada?

Pouco depois, o gongo soou e descemos para o salão elegantemente decorado, onde estava posta uma mesa que brilhava com cristal lapidado e prata. À volta do centro, flores frescas tinham sido dispostas por alguma mão artística, enquanto no aparador, ao fundo, os gargalos das garrafas de vinho espreitavam dos baldes de gelo. Tanto o tapete como os estofos eram num azul pálido, enquanto em toda a parte era evidente que apenas um homem extremamente rico poderia pagar uma embarcação tão magnífica.

Hornby sentou-se na cabeceira da mesa e nós sentámo-nos de cada lado dele, conversando alegremente enquanto comíamos um dos jantares mais requintados e bem cozinhados que já tive a oportunidade de provar. Chater e eu bebemos vinho de uma marca que apenas um milionário poderia manter na sua adega, enquanto o nosso anfitrião, aparentemente um homem muito abstémio, tomou apenas um copo de água com gelo e Cinciano.

Os dois mordomos elegantes serviram de uma forma que mostrava estarem bem treinados para os seus deveres, e enquanto a luz da noite, filtrando através das cortinas de seda azul pálida sobre as vigias abertas, desaparecia lentamente, continuámos a tagarelar como homens tagarelam durante um jantar invulgarmente bom.

Pelos seus comentários, percebi que, ao contrário da minha primeira impressão, Hylton Chater era um velejador experiente. Possuía uma embarcação chamada Alicia e era membro do Cork Yacht Club. Vivia em Londres, disse-me, mas não me deu qualquer informação sobre a sua profissão. Poderia ser o direito, como eu tinha suposto.

"Já viu o nosso capitão burro, Sr. Gregg?" comentou ele pouco depois. "O que acha dele?"

"Bem", disse eu um pouco hesitante, "para dizer a verdade, não penso muito da sua perícia náutica — nem a Junta de Comércio pensará quando o seu relatório chegar lá."

"Ah!" exclamou Hornby, "Fui um tolo ao contratá-lo. Desde o início que desconfiei dele, apenas a minha esposa de alguma forma simpatizou com o indivíduo e, como sabe, se quer paz, tem de agradar sempre às mulheres. Neste caso, porém, a escolha dela quase me custou a embarcação e, talvez, as nossas vidas de bónus."

"Não sabia nada dele anteriormente?"

"Nada."

"E foi ele que contratou a tripulação?" perguntei.

"Claro."

"São todos marinheiros novos?"

"Todos, exceto o cozinheiro e os dois mordomos."

Fiquei em silêncio. Não gostava de Mackintosh. De facto, entretive uma clara suspeita tanto do mestre como da tripulação.

"O capitão parece ter um corte desagradável na face", comentei, ao que os meus dois companheiros trocaram novamente olhares rápidos e apreensivos.

"Ele caiu no outro dia", explicou Chater, com um sorriso um tanto doentio, pensei. "O seu rosto atingiu o bordo de uma escada de ferro na sala das máquinas e causou um corte desagradável."

Sorri por dentro, pois sabia muito bem que o ferimento feio no rosto do capitão nunca tinha sido infligido por uma queda no bordo de uma escada. Mas permaneci em silêncio, contente por eles tentarem enganar-me.

Depois de servida a sobremesa, levantámo-nos e, no crepúsculo de verão, quando todas as vigias foram abertas, Hornby levou-me a ver a embarcação. Por toda a parte havia luxo abundante — um verdadeiro palácio flutuante. A cada um dos camarotes do proprietário e dos seus convidados estava anexada uma casa de banho com água salgada ou doce, conforme desejado, enquanto o salão das senhoras, o boudoir, a biblioteca e a sala de fumo estavam ricamente decorados com um gosto requintado. Enquanto ele me conduzia do seu próprio camarote para o boudoir, passámos por uma porta que tinha sido aberta pelo vento e que ele se apressou a fechar, não, porém, antes de eu ter tempo de espreitar para dentro. Para minha surpresa, descobri que era uma armaria repleta de espingardas, revólveres e munições.

Não tinha sido planeado que eu visse aquele interior, e a razão pela qual os funcionários da Alfândega tinham sido subornados era agora evidente.

Passei sem comentar, fingindo que não tinha discernido nada de invulgar, e entrámos no boudoir, tendo Chater voltado ao salão para buscar charutos.

O delicado pequeno compartimento era estofado em seda cor-de-rosa cravo, com mobiliário de pau-rosa embutido, e trazia por toda parte o vestígio de ter sido arranjado por uma mão feminina, embora não houvesse passageira a bordo.

Assim que entrámos, e enquanto eu admirava o delicado ninho de luxo, Chater gritou para o seu anfitrião pedindo as chaves do armário dos charutos, e Hornby, desculpando-se, voltou pelo corredor para lhas entregar ao amigo, deixando-me assim sozinho por alguns momentos.

Fiquei a olhar em volta e, ao fazê-lo, os meus olhos pousaram numa quantidade de fotografias, emolduradas e sem moldura, que estavam espalhadas — evidentemente retratos dos amigos de Hornby. Sobre uma pequena mesa lateral, contudo, erguia-se uma pesada moldura de prata oxidada, mas vazia, enquanto, caído no chão, debaixo de um sofá, estava o retrato que ela conteria, o qual tinha sido aparentemente retirado à pressa, rasgado primeiro a meio e depois outra vez a meio, e deitado fora.

A curiosidade levou-me a inclinar-me, apanhar os quatro pedaços e juntá-los, momento em que descobri que formavam o retrato de gabinete de uma rapariga inglesa de dezoito ou dezanove anos, de aspeto doce e extremamente bonita, com uma expressão viva e sorridente, e vestindo uma blusa de manhã fresca de piqué branco. O seu cabelo estava penteado baixo e preso com um laço de fita preta, enquanto o broche na sua garganta tinha a forma de um coração debruado a pérolas. Se foi a sua expressão doce, ou se o olhar curioso nos seus olhos que atraiu a minha atenção e fixou o rosto na minha memória, não sei dizer. Talvez tenha sido o mistério de por que razão teria sido tão apressadamente arrancada da sua moldura e destruída que prendeu a minha atenção.

Parecia como se tivesse sido rasgada sub-repticiamente por alguém que estivera sentado naquele sofá, e que não tivera oportunidade de lançar os fragmentos pela vigia para dentro da água.

Olhei para o verso da fotografia rasgada e vi que tinha sido tirada por uma firma bem conhecida e elegante em New Bond Street.

Na expressão daquele rosto retratado havia algo que não consigo descrever — um olhar curioso nos olhos que era, ao mesmo tempo, atraente e misterioso. Naquele breve momento, as feições da rapariga ficaram indelevelmente gravadas na minha memória.

No segundo seguinte, porém, ouvindo os passos de Hornby a regressar, atirei os fragmentos apressadamente para debaixo do sofá onde os tinha descoberto.

Por que, interrogava-me, teria a imagem sido destruída — e por quem?

A face da moldura vazia tinha sido virada propositadamente para o painel, pelo que, quando ele entrou, não reparou que a imagem tinha sido destruída; mas, após uma breve pausa, explicando que aquele pequeno lugar acolhedor era o recanto particular da sua esposa, ele conduziu-me através do salão das senhoras e depois para o convés, onde nos atirámos para as cadeiras longas, tomámos o nosso café e certosina, aquele licor essencialmente toscano, e continuámos a fumar enquanto a lua subia e as luzes do porto começavam a cintilar na noite metálica.

Enquanto me sentava a conversar, os meus pensamentos voltavam àquela fotografia rasgada. Para mim, parecia como se algum visitante anterior naquele dia se tivesse sentado no sofá, destruído a imagem e lançado para onde eu a encontrei. Mas por que motivo? Quem era a rapariga de rosto alegre cuja imagem tinha despertado tal ciúme ou vingança?

Conduzi propositadamente a conversa para a família de Hornby e soube por ele que não tinha filhos.

"Suponho que mandará fazer as reparações nos seus motores na Orlando's?", comentei, nomeando a grande firma de construção naval de Livorno.

"Sim. Já dei a ordem. Estão contratadas para serem terminadas até à próxima quinta-feira, e depois partiremos para Zante e Chio."

Por que motivo, interrogava-me, recordando aquela formidável armaria a bordo. Já tinha visto o suficiente para me convencer de que o Lola, embora exteriormente um iate de recreio, era construído de aço, blindado nas suas partes mais vulneráveis e capaz de resistir a um fogo muito intenso.

As horas passaram, e sob a lua brilhante fumámos noite dentro, pois após o sol abrasador daquela cidade toscana, o vento fresco do mar à noite é muito refrescante. De onde estávamos sentados, tínhamos uma vista de toda a frente marítima de Livorno e Ardenza, com os seus brilhantes cafés-concerto ao ar livre e restaurantes em pleno funcionamento — toda a vida e alegria daquela popular estância balnear.

Pouco depois, quando Hornby se levantou para chamar um despenseiro e me deixou sozinho com Hylton Chater, este último sussurrou-me em confiança:

"Se acha o meu amigo Hornby um pouco estranho nos seus modos, Sr. Gregg, não deve ligar. Para dizer a verdade, ele é um homem que se tornou subitamente rico para além dos sonhos mais selvagens da avareza, e temo que isso tenha tido um efeito no seu cérebro. Ele faz coisas muito estranhas às vezes."

Olhei para o meu companheiro com surpresa. Ou ele estava a dizer a verdade, ou então estava a tentar dissipar as minhas suspeitas através de um estratagema extremamente inteligente. Ora, eu já tinha decidido que Philip Hornby não era um excêntrico, mas um homem particularmente sensato e prático. Portanto, cheguei instantaneamente à conclusão de que o indivíduo de rosto barbeado que tanto parecia um advogado de Londres tinha algum propósito distinto e ulterior ao despertar na minha mente a suspeita sobre a sanidade do seu anfitrião.

Passava da meia-noite quando, tendo dito adeus ao estranho par, fui levado a terra pelos dois marinheiros que me tinham trazido a remos e conduzi para casa ao longo da marginal, intrigado e perplexo.

Na manhã seguinte, à minha chegada ao Consulado, o velho Francesco, que tinha entrado apenas um momento antes, veio ao meu encontro com o rosto pálido, a arfar:

"Houve ladrões aqui durante a noite, signore! O cofre do Signor Console foi aberto!"

"O cofre!", gritei, precipitando-me para a sala privada de Hutcheson, e descobrindo para meu desânimo o grande cofre, onde os selos, cifras e outros documentos confidenciais eram guardados, aberto, e o seu conteúdo em desordem, como se uma busca apressada tivesse sido feita entre eles.

Seria possível que os ladrões estivessem atrás das cifras do Almirantado e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cópias das quais as Chancelarias de certas potências europeias estavam sempre a tentar obter? Sorri para comigo mesmo quando percebi quão amargamente desapontados os ladrões devem ter ficado, pois um Cônsul britânico, quando vai de licença para Inglaterra, leva sempre as suas cifras consigo e deposita-as no Ministério dos Negócios Estrangeiros para custódia. Hutcheson, naturalmente, tinha levado as suas, de acordo com os regulamentos.

Curiosamente, contudo, a porta do Consulado e a do cofre tinham sido abertas com as chaves que o meu amigo tinha deixado à minha guarda. De facto, o pequeno molho ainda permanecia na porta do cofre.

Num instante, a recordação passou-me pela mente de que tinha sentido as chaves no meu bolso enquanto jantava a bordo do Lola. Tê-las-ia perdido no meu caminho de regresso, ou teria sido furtado?

Carducci, com a loquacidade de um italiano, começou a lançar imprecações sobre as cabeças dos desconhecidos filhos de cães que se atreveram a mexer no cofre do seu patrão, e enquanto estávamos ocupados a pôr em ordem os papéis espalhados, a campainha da porta tocou e o funcionário foi atender quem chamava.

Em poucos momentos, ele regressou, dizendo:

"O iate inglês partiu subitamente na noite passada, signore, e o Capitão do Porto enviou alguém para perguntar se sabe para que porto se destina."

"Partiu!", arfei, espantado. "Ora, eu pensava que os seus motores estavam avariados!"

Um quarto de hora depois, eu estava sentado no escritório privado do astuto funcionário de cabelos grisalhos que me tinha enviado aquele mensageiro.

"Sabe, Signor Commendatore", disse ele, "algum mistério rodeia aquela embarcação. Não é o Lola, pois ontem telegrafámos para o Lloyd's, em Londres, e esta manhã recebi uma resposta de que nenhum iate desse tipo consta no seu registo, e que o nome é desconhecido. A polícia também telegrafou à vossa polícia inglesa a perguntar sobre o proprietário, Signor Hornby, com o mesmo resultado. Não existe tal lugar como Woodcroft Park, em Somerset, e nenhum membro do Brook's Club com o nome de Hornby."

Fiquei a olhar para o oficial, demasiado surpreendido para dizer uma palavra. Certamente eles não tinham deixado a relva crescer debaixo dos pés.

"Infelizmente, as respostas telegráficas de Inglaterra só chegaram esta manhã", continuou ele, "porque, pouco antes das duas da manhã, a polícia portuária, a quem ordenei especialmente que vigiassem a embarcação, viu um barco aproximar-se do cais contendo um homem e uma mulher. O par foi deixado em terra e afastou-se a pé em direção à cidade, parecendo a mulher caminhar com dificuldade considerável. O barco regressou e, uma hora depois, para total surpresa dos dois detetives, foi subitamente ligado o vapor e o iate virou e saiu diretamente para o mar."

"Deixando o homem e a mulher?"

"Deixando-os, naturalmente. Eles provavelmente ainda estão na cidade. A polícia está agora à procura de vestígios deles."

"Mas não poderiam ter detido a embarcação?", sugeri.

"Claro, se eu apenas soubesse, poderia ter proibido a sua partida. Mas, como o seu proprietário se tinha apresentado no Consulado e foi reconhecido como uma pessoa respeitável, senti que não podia interferir sem alguma informação tangível — e essa, ai de mim!, chegou demasiado tarde. A embarcação é veloz e já tem sete horas de avanço sobre nós. Pedi ao Almirante para enviar um par de torpedeiros atrás dela, mas, infelizmente, é impossível, pois a flotilha parte dentro de uma hora para assistir à revista naval em Spezia."

Contei-lhe como o cofre do Cônsul tinha sido aberto durante a noite, e ele ficou a ouvir de olhos bem abertos.

"Jantou com eles na noite passada", disse ele por fim. "Podem ter roubado as suas chaves sub-repticiamente."

"Podem", foi a minha resposta. "Provavelmente roubaram. Mas com que motivo?"

O Capitão do Porto elevou os ombros, exibiu as palmas das mãos e declarou:

"Todo o caso, do princípio ao fim, é um mistério completo e profundo."

CAPÍTULO II

POR QUE O COFRE FOI ABERTO

Aquele dia foi ativo na Questura, ou gabinete da polícia, de Livorno.

Detetives chamaram, examinaram o cofre e declararam sabiamente que era à prova de roubo, se os ladrões não tivessem possuído a chave. O Ministério dos Negócios Estrangeiros sabia disso, pois fornecem todos os cofres aos Consulados no estrangeiro, para que as preciosas cifras sejam mantidas longe dos olhares curiosos de espiões estrangeiros. O Questore, ou chefe da polícia, era da opinião de que tinham sido as cifras o que os ladrões procuravam, e ficou muito aliviado ao saber que estavam em lugar seguro, longe, em Downing Street.

A sua conjetura era a mesma que a minha, nomeadamente, que a razão da visita de Hornby a mim fora para determinar a situação do Consulado e o paradeiro do cofre, que, aliás, ficava num canto da sala privada do Cônsul. O Capitão Mackintosh também tinha tomado as suas direções, e provavelmente, enquanto eu jantava a bordo do Lola, as minhas chaves tinham sido roubadas e passadas ao escocês cicatrizado, que tinha ido prontamente para terra e saqueado o local enquanto eu permanecia com o seu mestre, a fumar e sem suspeitas.

Mas qual era o motivo? Por que tinham eles saqueado todos aqueles papéis confidenciais?

A minha própria ideia era que eles não estavam de todo à procura das cifras, mas queriam qualquer formulário em branco ou algo do género, ou então desejavam fazer uso do selo Consular. Este último, contudo, ainda permanecia no chão perto do cofre, como se tivesse caído e sido deixado sem atenção. Até onde Francesco e eu pudemos verificar, nada absolutamente tinha sido levado. Portanto, reorganizámos os papéis, trancámos novamente o cofre e resolvemos não telegrafar a Hutcheson e perturbá-lo indevidamente, pois dentro de poucos dias ele regressaria de Inglaterra, e haveria tempo suficiente então para explicar a notável história.

Um facto, porém, estabelecemos. O detetive de serviço na estação ferroviária recordava-se distintamente de um homem magro de meia-idade, acompanhado por uma senhora vestida de luto carregado, passar a barreira e entrar no comboio que partiu às três horas para Colle Salvetti para apanhar o expresso de Roma. Eram estrangeiros, por isso ele não lhes prestou a mesma atenção como se tivessem sido italianos. Inquirições na bilheteira mostraram, contudo, que nenhum passageiro tinha marcado bilhete direto para Roma pelo comboio em questão. Para Grossetto, Cecina, Campiglia e os outros locais na Maremma, os passageiros tinham comprado bilhetes, mas nem um tinha sido marcado para qualquer das grandes cidades. Portanto, era aparente que o misterioso par que tinha vindo a terra pouco antes da partida do iate tinha apenas comprado bilhetes para um destino falso, e tinha revalidado em Colle Salvetti, a junção com aquela longa linha principal que liga Génova a Roma.

A polícia estava intrigada. Os dois pescadores que avistaram o Lola e deram primeiro o alarme do seu perigo, declararam que quando se aproximaram e ofereceram assistência, o capitão ameaçou disparar sobre o primeiro homem que subisse a bordo.

"Eram ingleses!", comentaram os robustos trabalhadores do mar de rosto queimado, sorrindo com conhecimento. "E os ingleses, quando bebem o seu conhaque, não sabem o que fazem."

"Receberam alguma recompensa por regressarem ao porto e informarem?", perguntei.

"Recompensa!", ecoou um dos homens, o mais velho do par. "Nem um soldo! Os ingleses apenas nos amaldiçoaram por interferirmos. Foi por isso que acreditámos que estavam a tentar fugir com a embarcação."

A descrição do Lola, o seu proprietário, o seu convidado e o capitão foram circuladas pela polícia a todos os portos do Mediterrâneo, com um pedido de que o iate fosse detido. Contudo, se a embarcação fosse realmente uma de mistério, como parecia ser, o seu proprietário sem dúvida atravessaria para algum ancoradouro tranquilo na costa argelina, fora da rota das embarcações, e procederia calmamente a repintar, renomear e disfarçar o seu barco para que não fosse reconhecido em Marselha, Nápoles, Esmirna ou qualquer dos portos onde iates privados habitualmente escalam. Assim, desde o início, pareceu-me que Hornby e os seus amigos me tinham enganado muito inteligentemente para algum propósito misterioso, e depois engenhosamente evadido aos seus vigilantes e escapado limpos.

Se o Almirante italiano tivesse podido enviar um ou dois torpedeiros atrás dos fugitivos, eles sem dúvida teriam sido rapidamente alcançados, mas as circunstâncias impediram-no e o Lola tinha, consequentemente, escapado.

Para propósitos próprios, a polícia manteve o caso fora dos jornais, e quando Frank Hutcheson saiu da carruagem-cama vindo de Paris para a plataforma em Pisa, algumas noites depois, relatei-lhe a extraordinária história.

"Os patifes queriam estes, é evidente", respondeu ele, erguendo a pequena e forte mala de mão de couro que transportava, e que continha as suas cifras zelosamente guardadas. "Por Júpiter!", riu-se, "quão desapontados devem ter ficado!"

"Pode ser", disse eu, enquanto entrávamos no comboio da meia-noite para Livorno. "Mas a minha própria teoria é que eles estavam à procura de algum papel ou outro que você possui."

"O que podem os meus papéis preocupá-los?", exclamou o jovial Cônsul de rosto redondo, um homem cuja cortesia é conhecida por todo o capitão que trafega pelo Mediterrâneo, e que é talvez um dos homens mais cultos e populares no Serviço Consular Britânico. "Não guardo notas bancárias naquele cofre, sabe. Nós, funcionários do Serviço, não nadamos em ouro como o nosso público em casa parece pensar."

"Não. Mas pode ter algo lá dentro que possa ser de valor para eles. Você é muitas vezes o guardião de documentos valiosos pertencentes a ingleses no estrangeiro, sabe."

"Certamente. Mas não há nada lá dentro agora, exceto, talvez, os registos de nascimentos, casamentos e óbitos de súbditos britânicos, e os papéis relativos a um inquérito do Board of Trade. Não, meu caro Gordon, dependa disso, o iate ter ido parar à costa foi tudo uma manobra. Fizeram-no para poderem ter acesso ao Consulado, assegurar as cifras e partir alegremente. Parece-me, contudo, que eles lhe deram um jantar muito bom e não obtiveram nada em troca."

"Poderiam muito facilmente ter-me levado também", declarei.

"Talvez fosse melhor se o tivessem feito. Teria pelo menos a satisfação de saber qual era o seu joguinho, na verdade!"

"Mas o homem e a mulher que deixaram o iate uma hora antes de ela zarpar, e que fugiram para o campo algures! Pergunto-me quem seriam? Hornby disse-me distintamente que ele e Chater estavam sozinhos, e ainda assim estava evidentemente uma senhora e um cavalheiro a bordo. Adivinhei que havia uma mulher lá, pela forma como o boudoir e o salão das senhoras estavam dispostos, e certamente nenhuma mão de homem decorou uma mesa de jantar como aquela foi decorada."

"Sim. Isso é decididamente engraçado", comentou o Cônsul pensativo. "Foram para Colle Salvetti, diz você? Eles mudaram lá, naturalmente. Os expressos param lá, um indo para o norte e o outro para o sul, dentro de um quarto de hora após o comboio chegar de Livorno. Mostraram muita engenhosidade, de outra forma teriam ido diretamente para Pisa."

"Engenhosidade! Eu diria que sim! Todo o caso foi planeado de forma muito inteligente. Hornby teria enganado até você, meu caro velho amigo. Ele tinha o ar de um cavalheiro perfeito, e um olhar sobre o iate convenceu-me de que ele era um homem rico a viajar por prazer."

"Você disse algo sobre uma armaria."

"Sim, havia Maxims arrumadas num dos camarotes. Elas despertaram as minhas suspeitas."

"Elas não teriam despertado as minhas", respondeu o meu amigo. "Os iates transportam armas para proteção em muitos casos, especialmente se vão navegar ao longo de costas incivilizadas onde devem desembarcar para água ou provisões."

Contei-lhe sobre a fotografia rasgada, o que lhe causou uma reflexão profunda.

"Pergunto-me por que a imagem tinha sido rasgada. Teria havido uma briga a bordo — uma discussão ou algo assim?"

"Tinha sido destruída sub-repticiamente, penso eu."

"Pena que você não guardou os fragmentos no bolso. Poderíamos talvez ter descoberto junto do fotógrafo a identidade da original."

"Ah!", suspirei com pesar. "Nunca pensei nisso. Recordo-me do nome da firma, contudo."

"Terei de comunicar a Londres todo o ocorrido, visto que súbditos britânicos estão sob suspeita", disse Hutcheson. "Veremos se a Scotland Yard sabe algo sobre Hornby ou Chater. Muito provavelmente sabem. Não há muito tempo, uma descrição de homens a bordo de um iate foi circulada de Londres como sendo um par de ladrões bem conhecidos que andavam a navegar numa embarcação cheia de espólios de que não se atreviam a desfazer-se. Eles não são, contudo, os mesmos que os nossos amigos no Lola, pois ambos os homens procurados foram presos em Nova Orleães há cerca de oito meses, sem o seu iate, pois confessaram que o tinham afundado deliberadamente numa das ilhas no Pacífico Sul."

"Então estes tipos poderiam ser outro par de ladrões de Londres!", exclamou eu avidamente, à medida que a teoria surpreendente me ocorria.

"Poderiam ser. Mas, naturalmente, não podemos formar qualquer opinião até ouvirmos o que a Scotland Yard tem a dizer. Escreverei um relatório completo de manhã se você me der descrições minuciosas dos homens, bem como do capitão, Mackintosh."

Na manhã seguinte, entreguei a minha responsabilidade do Consulado ao Frank, e depois ajudei-o a verificar os papéis no cofre que tinham sido examinados pelos ladrões.

"Os rufiões parecem ter revistado tudo minuciosamente", comentou o Cônsul, desanimado, ao ver o estado desordenado dos seus papéis. "Parecem ter lido cada um deles deliberadamente."

"O que mostra que, se estivessem à procura dos livros de cifras, teriam procurado apenas por eles", comentei decisivamente. "O que, por amor de Deus, poderia interessar-lhes em todos estes relatórios de navegação secos e sem importância?"

"Só Deus sabe", respondeu o meu amigo. Depois, chamando Cavendish, um jovem alto e loiro, que tinha agora recuperado do seu ataque de febre e regressado ao Consulado, começou a verificar o número daqueles selos adesivos, um pouco maiores do que selos postais comuns, usados no serviço Consular para o registo de taxas recebidas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Os valores eram de seis pence a uma libra, e eram guardados numa pasta.

Após um longo cálculo, o Cônsul ergueu subitamente o rosto para mim e disse:

"Então, seis selos de dez xelins foram levados!"

"Porquê? Deve haver algum motivo!"

"Não servem para ninguém, exceto para Cônsules", explicou ele. "Talvez fossem necessários para afixar em algum certificado falso. Veja", acrescentou, abrindo a pasta, "havia seis selos aqui, e todos desapareceram."

"Mas teriam de ser anulados pelo selo Consular", observou Cavendish.

"Ah! Naturalmente", exclamou Hutcheson, tirando o carimbo de latão do cofre e examinando-o minuciosamente. "Por Júpiter!", gritou um segundo depois, "foi usado! Carimbaram algum documento com ele. Olhe! Usaram a almofada de tinta errada! Não vê que há violeta nele, enquanto nós usamos sempre a almofada preta!"

Peguei-o na mão e, de facto, vi vestígios de tinta violeta nele — a tinta da almofada do carimbo de data na mesa do Cônsul.

"Então, algum documento foi carimbado e selado!", exclamei, ofegante.

"Sim. E a minha assinatura falsificada nele, sem dúvida. Fabricaram algum certificado que, ostentando o selo, o carimbo e a assinatura do Consulado, será aceite como um documento legal. Pergunto-me o que será."

"Ah!", disse eu. "Eu também me pergunto!" E nós os três olhámos uns para os outros em total perplexidade.

"A razão pela qual os papéis estão todos revirados é porque, evidentemente, estavam à procura de algum formulário em branco, que esperavam encontrar", comentou o meu amigo. "Como diz, todo o caso foi planeado com muito cuidado e engenhosidade."

Atravessámos a grande praça banhada pelo sol juntos e entrámos na Questura, aquele antigo palácio caiado de sol com a sua longa e fresca galeria onde o sentinela caminha dia e noite. O Chefe de Polícia, a quem vimos, não tinha mais informações. O misterioso iate não tinha atracado em nenhum porto italiano. Dele, contudo, soubemos o nome do detetive que vira os dois estranhos deixarem Leghorn no comboio da manhã cedo e, uma hora depois, o oficial de polícia, um homem de olhos negros e estatura baixa, mas de aspeto inteligente, estava sentado no Consulado a responder às nossas perguntas.

"Tanto quanto pude perceber, signore", disse ele, "o homem era inglês, usava um chapéu de feltro preto macio e um fato de sarja azul-escura. Tinha o cabelo a começar a ficar grisalho, um pequeno bigode escuro e maçãs do rosto bastante salientes. Na mão, carregava uma pequena mala de couro castanho daquela forma quadrada inglesa. Parecia não ter pressa, pois fumava calmamente um cigarro enquanto se dirigia à bilheteira."

"E a sua companheira?", perguntou o Cônsul.

"Ela estava de preto. Bastante alta e esguia. O cabelo dela era loiro, notei, mas usava um véu preto que lhe escondia os traços."

"Era jovem ou velha?"

"Jovem — pela sua figura", respondeu o agente da polícia. "Ao passar por mim, os seus olhos encontraram os meus, e julguei ver neles um estranho brilho fixo — o olhar de uma mulher cheia de um horror indizível."

No dia seguinte, a cidade de Leghorn acordou para se encontrar alegre com bandeirinhas, as bandeiras italiana e inglesa a tremular lado a lado em todo o lado, e o estandarte Consular a esvoaçar sobre o Consulado na praça. Durante a noite, a frota britânica do Mediterrâneo, navegando desde Malta, tinha entrado na rada e, ao sinal da capitânia, manobrou e lançou âncora, formando uma longa linha de gigantescos couraçados, cruzadores rápidos, contratorpedeiros, torpedeiros, navios de despacho e outras embarcações que se estendiam por várias milhas ao longo da costa.

Sob a luz brilhante da manhã, a visão era pitoresca e imponente, pois de cada embarcação tremulavam bandeiras e, de vez em quando, o grande couraçado do Almirante dava sinais que eram repetidos por todos os outros navios, um por um. Repousando naquelas águas azuis e calmas estava uma força que um dia poderia fazer as nações vacilar, a força esmagadora que defendia o direito da Grã-Bretanha naquele mar frequentemente disputado.

Cerca de dois mil marinheiros britânicos estavam em terra com licença, os seus bonés brancos visíveis nas ruas por toda parte, enquanto caminhavam ordenadamente em grupos de três e quatro para inspecionar a cidade. Na praça, em frente ao Consulado, um destacamento da capitânia montava um coreto temporário, onde a banda do navio tocaria quando a noite caísse, enquanto Hutcheson, a transpirar no seu uniforme, conduzia com o Almirante para fazer as visitas de cortesia às autoridades que a etiqueta internacional exigia.

Eu próprio, tinha apanhado um barco para o Bulwark, o grande couraçado que ostentava a bandeira do Almirante, e estava sentado no convés com o meu velho amigo Capitão Jack Durnford, dos Royal Marines. Todos os anos, quando a frota entrava em Leghorn, éramos inseparáveis, pois em longos anos passados, em Portsmouth, tínhamos sido amigos próximos, e agora ele podia fazer-me visitas anuais na minha casa italiana.

Ele estava de serviço naquela manhã, por isso não pôde vir a terra antes do almoço.

"Jantarei contigo, claro, esta noite, meu velho", disse ele. "E tens de me contar todas as novidades. Estamos aqui por seis dias, e quase me apeteceu ir a casa. Dois dos nossos rapazes conseguiram licença do Almirante e partiram às três desta manhã para Londres — quatro dias no comboio e dois na cidade! Foram ver as suas namoradas, suponho."

O oficial da marinha britânica no Mediterrâneo adora atravessar a Europa por um dia em casa, se puder obter licença e os fundos permitirem. Geralmente considera-se que tal viagem custa cerca de duas libras por hora enquanto se está em Londres. E, no entanto, quando um homem está longe da sua noiva ou esposa por três anos inteiros, a sua ansiedade por regressar, mesmo que por um breve dia, é facilmente compreendida. Os mais jovens, contudo, vão por mero capricho — sempre que podem obter licença. Isto não acontece frequentemente, pois o Almirante tem opiniões muito firmes sobre o assunto.

"O teu tempo termina em breve, não é?", comentei, enquanto me recostava na confortável cadeira de convés e olhava para o porto branco e o seu pano de fundo de Apeninos púrpuras.

O homem moreno e de bom aspeto, no seu elegante uniforme de verão, debruçou-se sobre a amurada e disse, com um ligeiro suspiro, julguei —

"Sim. Esta é a minha última viagem a Leghorn, creio eu. Regresso em novembro, e realmente não ficarei arrependido. Três anos é muito tempo para estar longe de casa. Tu vais na próxima semana, dizes tu? Sortudo por seres o teu próprio senhor! Quem me dera sê-lo. Ano após ano neste convés torna-se terrivelmente cansativo, posso garantir-te, meu caro."

Durnford era um homem que escrevera muito sobre assuntos navais e era aceite como especialista em vários ramos do serviço. O Almirantado não encoraja os oficiais a escrever, mas no caso de Durnford reconhecia-se que ele possuía um conhecimento de tópicos navais que era útil e, portanto, permitia-se-lhe escrever livros e contribuir com artigos críticos para as revistas do serviço. Estudara as forças relativas das marinhas estrangeiras e, mantendo sempre os olhos abertos, fora, em muitas ocasiões, capaz de dar informações valiosas aos nossos adidos navais nas Embaixadas. Mais de uma vez, contudo, a sua crítica mordaz à ação dos lordes navais trouxera-lhe repreensões da sede; no entanto, o seu talento como especialista naval era tão universalmente reconhecido que escrever nunca lhe fora proibido, como o fora a certos outros.

"Como está o Hutcheson?", perguntou ele um momento depois, virando-se para mim.

"Em excelente forma. Acabou de regressar do seu mês de licença em casa. A mulher, contudo, ainda está na Escócia. Ela não suporta Leghorn no verão."

"Não admira. É uma fornalha perfeita quando o tempo começa a aquecer."

"Vou assim que zarpardes. Só fiquei porque prometi substituir o Frank", disse eu. "E, por Júpiter! aconteceu uma coisa engraçada enquanto estive no comando — um mistério de primeira classe."

"Um mistério — conta-me", exclamou ele, subitamente interessado.

"Bem, um iate — um iate pirata, creio eu — ancorou aqui."

"Um pirata! Que queres dizer?"

"Bem, era inglês. Ouve, e contar-te-ei todo o caso. Será algo novo para contar na messe, pois sei como vocês ficam sem assunto."

"Por Júpiter, sim! As coisas abrandam quando não recebemos correio. Mas continua — estou a ouvir", acrescentou, enquanto um ordenança se aproximava, prestava continência e lhe entregava um papel.

"Bem", disse eu, "vamos para o outro lado. Não quero que o sentinela ouça."

"Como quiseres — mas porquê tanto mistério?", perguntou ele enquanto caminhávamos juntos para o outro lado do impecável convés de vante do gigantesco couraçado.

"Compreenderás quando te contar a história." E então, parados juntos sob o toldo, relatei ao meu amigo todas as circunstâncias curiosas, exatamente como as registei nas páginas anteriores.

"Terrivelmente engraçado!", observou ele com os olhos escuros fixos nos meus. "Um mistério, por Júpiter, que o é! Que nome ostentava o iate?"

"O Lola."

"O quê!", exclamou, empalidecendo subitamente. "O Lola? Tens a certeza absoluta de que era o Lola — L-O-L-A?"

"Absolutamente certo", respondi. "Mas por que perguntas? Por acaso sabes alguma coisa sobre a embarcação?"

"Eu!", gaguejou ele, e pude ver que traíra involuntariamente a verdade, contudo, por alguma razão, ele desejava esconder o seu conhecimento de mim. "Eu! Como haveria de saber algo sobre tal embarcação? Eram ladrões a bordo, evidentemente — talvez piratas, como dizes."

"Mas o nome Lola é-te familiar, Jack! Tenho a certeza que sim, pelo teu modo de agir."

Ele hesitou um momento, e pude ver que esforço extenuante ele estava a fazer para evitar trair o seu conhecimento.

"É — bem..." disse ele hesitante, com um sorriso bastante doentio. "É um nome de rapariga — uma rapariga que conheci outrora. O nome traz-me certas memórias."

"Agradáveis, espero."

"Não. Amargas — muito amargas", disse ele num tom duro, caminhando pelo convés de um lado para o outro, e vi nos seus olhos um olhar estranho, metade de raiva, metade de profundo arrependimento.

Será que ele estava a dizer a verdade, perguntei-me. Algum romance trágico ou outro relacionado com uma mulher tinha, eu sabia, ensombrado a sua vida nos anos antes de nos conhecermos. Mas os factos reais ele nunca me revelara. Nunca antes se referira à amargura do passado, embora eu soubesse muito bem que o seu coração estava em segredo preenchido por algum sofrimento avassalador.

Exteriormente, ele era tão alegre quanto os outros homens que comandavam aquela enorme fortaleza flutuante; a bordo, ele era um típico oficial de fuzileiros elegante e, em terra, dançava, jogava ténis e flirtava tão vigorosamente quanto os outros. Mas um coração pesado batia sob o seu uniforme.

Quando ele regressou a onde eu estava, vi que o seu rosto mudara: tornara-se contraído e macilento. Ele tinha a aparência de um homem que fora atingido por um golpe que o fizera cambalear, esmagando toda a vida e esperança.

"O que se passa, Jack?", perguntei. "Vamos! Diz-me — que te aflige?"

"Nada, meu caro velho", respondeu ele roucamente. "Realmente nada — apenas um toque de melancolia por um momento", acrescentou, tentando arduamente sorrir. "Passará."

"O que te acabei de contar sobre aquele iate perturbou-te. Não podes negar."

Ele sobressaltou-se. A sua boca estava, vi, cerrada. Ele sabia algo sobre aquela misteriosa embarcação, mas não mo queria dizer.

O som de uma corneta veio da extremidade do navio e, imediatamente, os homens corriam pelo convés abaixo à medida que alguma ordem ou outra era obedecida com aquela precisão que caracteriza o "homem de mão".

"Por que estás em silêncio?", perguntei lentamente, com os olhos fixos no meu amigo oficial. "Contei-te o que sei, e quero descobrir o motivo da visita daqueles homens, e a razão pela qual abriram o cofre de Hutcheson."

"Como posso dizer-te?", perguntou ele com uma voz tensa e antinatural.

"Creio que sabes algo sobre eles. Vamos, diz-me a verdade."

"Admito que tenho certas suspeitas graves", disse ele finalmente, de pé com as pernas afastadas e as mãos atrás das costas, a sua espada arrastando-se no convés branco. "Dizes que o iate se chamava Lola — pintado de cinzento com uma chaminé preta."

"Não, branco baço, com uma chaminé amarela."

"Ah! Naturalmente", observou ele, como que para si mesmo. "Eles pintá-lo-iam e alterariam a sua aparência. Mas a sala de jantar. Havia um longo aparador de carvalho entalhado com uma cornija grande e pesada com três golfinhos dourados no centro — e não havia golfinhos dourados nas costas das cadeiras — um dispositivo heráldico?"

"Sim", gritei. "Tens razão. Lembro-me deles! De certeza que estiveste a bordo dele!"

"E há uma sala de senhoras e um pequeno boudoir cor-de-rosa ao lado, enquanto a sala de fumo é inteiramente de mármore devido ao calor?"

"Exatamente — o mesmo iate, sem dúvida! Mas o que sabes dele?"

"O capitão, que te deu o nome de Mackintosh, é um americano de pequena estatura e de um tipo bastante vulgar?"

"Tomei-o por escocês."

"Porque ele forçou um sotaque escocês", riu-se ele. "É um homem que pode falar uma dúzia de línguas de forma imperfeita e passar por italiano, alemão, francês, conforme desejar."

"E o... o homem que deu o nome de Philip Hornby?"

A boca de Durnford fechou-se com um estalido. Ele respirou fundo, os seus olhos tornaram-se ferozes e mordeu o lábio.

"Ah! Vejo que ele não é exatamente teu amigo", disse eu com segundas intenções.

"Tens razão, Gordon — ele não é meu amigo", foi a sua resposta lenta e significativa.

"Então por que não és direto e me contas tudo o que sabes sobre ele? Frank Hutcheson está ansioso por esclarecer o mistério porque eles adulteraram os selos Consulares e coisas do género. Além disso, seria creditado a ele se resolvesse o caso."

"Bem, para dizer a verdade, eu próprio estou perplexo. Ainda não consigo discernir o seu motivo."

"Mas, pelo menos, conheces os homens", argumentei. "Podes, pelo menos, dizer-nos quem eles são realmente."

Ele abanou a cabeça, ainda relutante, por alguma razão oculta, em revelar-me a verdade.

"Não viste nenhuma mulher a bordo?", perguntou ele subitamente, olhando fixamente nos meus olhos.

"Não. Hornby disse-me que ele e Chater estavam sozinhos."

"E, no entanto, uma hora depois de teres partido, um homem e uma mulher vieram a terra e desapareceram! Ah! Se apenas tivéssemos uma descrição daquela mulher, revelar-nos-ia muito."

"Ela era jovem e de cabelos escuros, segundo o detetive. Tinha um olhar fixo curioso nos olhos que o atraiu, mas usava um véu de motorista espesso, de modo que ele não pôde discernir claramente os seus traços."

"E o seu companheiro?"

"De meia-idade, prematuramente grisalho, com um pequeno bigode escuro."

Jack Durnford suspirou e acariciou o queixo.

"Ah! Exatamente como eu pensava", exclamou ele. "E eles estiveram realmente aqui, neste porto, há uma semana! Que amarga ironia do destino!"

"Não te compreendo", disse eu. "Tu és tão misterioso, e contudo não me dizes nada!"

"A polícia, tolos que são, permitiu que escapassem, e agora nunca serão apanhados. Ah! Tu não os conheces como eu! Eles são o par mais inteligente de toda a Europa. E têm a audácia de chamar à sua embarcação Lola — o Lola, de todos os nomes!"

"Mas, como sabes quem são e o que são os indivíduos, deverias, creio eu, em justiça para com Hutcheson, contar-nos algo", queixei-me. "Se são aventureiros, devem ser rastreados."

"O que posso eu fazer — um prisioneiro aqui a bordo?", argumentou ele amargamente. "Como posso agir?"

"Deixa tudo comigo. Estou livre para viajar atrás deles e descobrir a verdade, se ao menos me contares o que sabes sobre eles", disse eu ansiosamente.

"Gordon, deixa-me ser franco e aberto contigo, meu caro velho. Eu contar-te-ia tudo — tudo — se me atrevesse. Mas não posso — compreendes!" E as suas últimas palavras pareceram sufocá-lo.

Fiquei diante dele, de boca aberta de espanto.

"Queres realmente dizer... bem, que tens medo deles — eh?", sussurrei.

Ele assentiu lentamente, acrescentando: "Contar-te a verdade seria trazer sobre mim uma vingança rápida e implacável que me oprimiria e esmagaria. Ah! meu caro, tu não sabes — nem podes sonhar — o que trouxe aqueles homens desesperados a este porto. Posso adivinhar — posso adivinhar demasiado bem — mas só posso dizer-te que se alguma vez descobrires a terrível verdade — o que receio ser improvável — resolverás um dos mais estranhos e notáveis mistérios dos tempos modernos."

"Sobre o que versa o mistério?", perguntei, com ansiedade ofegante.

"Versa sobre uma mulher."

CAPÍTULO III

A CASA "DO OUTRO LADO DA ÁGUA"

O Esquadrão do Mediterrâneo, aquela magnífica demonstração de força naval que é a garantia de paz na Europa, após uma semana de festividades alegres em Leghorn, zarpou para Gaeta, enquanto eu, feliz por escapar do calor ofuscante, me encontrava de volta, mais uma vez, à querida e velha Londres.

Passa-se o tempo no sul bastante bem no inverno, mas, após um ano, até o mais ardente amante da Itália anseia por regressar ao seu próprio povo, mesmo que por tão breve espaço de tempo. O exílio durante um ano inteiro em qualquer cidade continental é, de facto, um exílio; portanto, embora eu vivesse em Itália por opção, eu, tal como tantos outros ingleses, conseguia sempre passar um mês ou dois no verão no nosso clima temperado, embora muito difamado.

Londres, a mesma querida e poeirenta velha Londres, talvez apenas mais querida e mais poeirenta do que nunca, era a minha cidade natal; por conseguinte, passava sempre algumas semanas nela, ainda que todo o mundo pudesse estar ausente no campo ou à beira-mar.

Tinha passado um mês agradável em Buxton, e de lá tinha ido para norte, para os Lagos, e foi numa noite quente de meados de agosto que me encontrei de novo em Londres, atravessando a St. James's Square vindo do Sports Club, onde tinha jantado, caminhando em direção a Pall Mall. A escuridão tinha acabado de cair, e havia aquela opressão sufocante no ar que pressagiava uma trovoada. O clube não estava alegre com vida e folia como o é na época alta, pois todos estavam fora, muitas das salas estavam fechadas para redecoração e a maior parte do mobiliário coberto com linho.

Eu estava a caminho de fazer uma visita a uma senhora que vivia em Hampstead, uma amiga da minha falecida mãe, e tinha acabado de virar para Pall Mall, quando uma voz ao meu lado exclamou subitamente em italiano —

"Ah, signore! — mas, na verdade, o meu padrone!"

E, olhando em volta, vi um homem de rosto magro de cerca de trinta anos, vestido com um preto elegante, mas bastante gasto, a quem reconheci instantaneamente como um homem que fora meu criado em Leghorn durante dois anos, após os quais partira para melhorar a sua vida.

"Ora, Olinto!", exclamei, surpreendido, enquanto parava. "Tu... em Londres... eh? Bem, e como te vais arranjando?"

"Muito excelentemente, signore", respondeu ele num inglês quebrado, sorrindo. "Mas é tão agradável para mim ver o meu generoso padrone novamente. Que fortuna é que eu deva passar aqui exatamente neste momento!"

"Onde estás a trabalhar?", perguntei.

"No Restaurant Milano, em Oxford Street — apenas um pequeno lugar, mas ganhamos discretamente, por isso não me devo queixar. Vivo em Lambeth e estou a caminho de casa."

"Ouvi dizer que te casaste depois de me deixares. É verdade?"

"Sim, signore. Casei-me com a Armida, que estava ao teu serviço quando entrei nele pela primeira vez. Lembras-te dela? Ah, bem!", acrescentou, suspirando. "A pobre! Lamento dizer que ela está muito doente. Não suporta o vosso clima inglês. O médico diz que morrerá se permanecer aqui. Mas o que posso eu fazer? Se voltarmos para Itália, apenas passaremos fome." E vi que ele estava em profunda angústia, e que a menção da sua esposa doente despertara nele pensamentos amargos.

Olinto Santini caminhou de volta ao meu lado em direção a Trafalgar Square, respondendo às perguntas que lhe fiz. Ele fora um bom criado, trabalhador, e fiquei contente por vê-lo de novo. Quando me deixou, fora como comissário num dos barcos da Anchor Line entre Nápoles e Nova Iorque, e essa fora a última coisa que ouvira dele até o encontrar ali em Londres, empregado de mesa num restaurante de segunda categoria.

Quando tentei deslizar algumas moedas de prata para a sua mão, ele recusou-se a aceitá-las e, com uma risada alegre, disse —

"Pergunto-me se ficarias ofendido, signore, se te contasse algo por que ansiei tanto e tanto?"

"De todo."

"Bem, o signore fuma os nossos charutos toscanos. Pergunto-me se, por acaso, terás um? Não os conseguimos arranjar em Londres, sabes."

Apalpei o meu bolso, rindo, e descobri que tinha um par daqueles charutos finos e compridos de um centavo que fumo sempre em Itália e que são tão caros ao paladar toscano. Entreguei-lhos e ele aceitou-os com deleite, como a maior iguaria que lhe poderia ter oferecido. Pobre rapaz! Como italiano exilado, apegava-se a cada pequena ninharia que o fizesse lembrar do seu amado país.

Quando parámos diante da National Gallery antes de nos separarmos, fiz mais algumas perguntas sobre Armida, a criada de olhos negros e boa aparência com quem ele se tinha casado.

— Ah, signore! — respondeu ele com a voz embargada pela emoção, passando para italiano. — É a única grande mágoa da minha vida. Trabalho arduamente desde o início da manhã até tarde da noite, mas de que serve quando vejo a minha pobre mulher a definhar gradualmente diante dos meus próprios olhos? O médico diz que não pode, de forma alguma, sobreviver ao próximo inverno. Ah! Como a pobre rapariga ficaria encantada se pudesse ver o padrone mais uma vez!

Senti pena dele. Armida tinha sido uma boa servida e servira-me bem durante quase três anos. A velha Rosina, a minha governanta, lamentara frequentemente o facto de ela ter sido obrigada a partir para cuidar da sua mãe idosa. Esta última, disse-me ele, tinha morrido e, depois disso, ele casara-se com ela. Há mais romance e tragédia na vida dos pobres italianos em Londres do que Londres alguma vez suspeita. Tendemos demasiado a considerar o italiano como uma pessoa sanguinária, dada ao uso ilegal da faca, enquanto, no geral, a colónia italiana em Londres é trabalhadora, poupada e cumpridora da lei, muito diferente, na verdade, daquelas colónias de estrangeiros do Norte da Europa que trazem continuamente imundície, doenças e imoralidade para o East End e são um peso inútil numa cidade já superpovoada.

Ele falou com tanta saudade de que a sua mulher pudesse ver-me mais uma vez que, não tendo nada de muito particular para fazer naquela noite e sentindo uma profunda simpatia pelo pobre rapaz nos seus problemas, decidi acompanhá-lo até à sua casa para ver se não poderia, de alguma forma, prestar-lhe uma pequena ajuda.

Ele agradeceu-me profusamente quando consenti em ir com ele.

— Ah, signor padrone! — disse ele, grato. — Ela ficará tão encantada. É muito bom da sua parte.

Chamámos um hansom e atravessámos a Westminster Bridge até ao endereço que ele me deu — uma rua sombria nas traseiras da York Road, uma daquelas vias estreitas e imundas nas quais o sol nunca brilha. Ah, quantas vezes os pobres italianos, esses filhos do sol, definham e morrem quando fechados nas nossas ruas lúgubres e sórdidas! A sujidade e a miséria não os afetam; é a humidade, o frio e a falta de sol que, muito rapidamente, se revelam fatais.

Um indivíduo de aspeto rasteiro e cara maligna abriu-nos a porta e rosnou um cumprimento a Olinto, que, riscando um fósforo, subiu as escadas gastas e sem alcatifa à minha frente, pedindo desculpa por passar à minha frente e dizendo em italiano:

— Vivemos no topo, signore, porque é mais barato e o ar é melhor.

— Muito bem — disse eu. — Muito bem. Continua. — E julguei ouvir o meu táxi a afastar-se.

Era um lugar sombrio, proibitivo e sem luz, no qual eu teria certamente hesitado em entrar se o meu companheiro não fosse o meu criado de confiança. Instintivamente, não gostei da aparência do indivíduo que abrira a porta. Ele era um daqueles vadios corpulentos do tipo peculiar de Lambeth. No entanto, lembrei-me de que os pobres estrangeiros não podem escolher onde residir.

Ao contrário das minhas expetativas, a sala de estar em que entrámos no último andar estava bastante confortavelmente mobilada, limpa e apresentável, ainda que fossem evidentes vestígios de pobreza. Um candeeiro barato estava aceso sobre a mesa, mas o apartamento estava desocupado.

Olinto, surpreendido, passou para a sala contígua, regressando um momento depois e exclamando:

— Armida deve ter saído para comprar algo. Ou talvez esteja com as pessoas, um compositor e a sua mulher, que vivem no andar de baixo. Eles são muito bons para ela. Vou procurá-la. Acomode-se numa cadeira, signore. — E puxou a melhor cadeira para mim e limpou-a com o seu lenço.

Permiti que ele fosse buscá-la, um tanto surpreendido por ela estar suficientemente bem para andar depois de tudo o que ele me tinha dito sobre a sua doença. No entanto, a tuberculose não mantém as pessoas na cama até às fases finais.

Enquanto ali estava, a olhar em redor da sala, não conseguia distinguir bem os cantos mais distantes, pois o candeeiro tinha uma sombra de papelão verde, que lançava uma zona de luz sobre a mesa e deixava o resto da sala na escuridão. Quando, contudo, os meus olhos se habituaram à luz ténue, discerni que o lugar estava poeirento e um tanto desarrumado. O sofá era, vi, uma cama de ferro dobrável com almofadas velhas e gordurosas, enquanto a alcatifa estava gasta e cheia de buracos. Quando puxei os velhos cortinados de rep para olhar pela janela, descobri que as portadas estavam fechadas, o que achei invulgar para uma sala situada a uma altura tão elevada.

Olinto regressou poucos momentos depois, dizendo que a sua mulher tinha evidentemente ido fazer compras a Lower-Marsh, pois é hábito dos habitantes daquela localidade ir "fazer compras" à noite entre as bancas dos vendedores ambulantes que alinham tantas das vias públicas. Os produtos perecíveis, o excedente dos mercados e das lojas, são mais baratos à noite do que de manhã.

— Espero que não tenha pressa, signore? — disse ele, desculpando-se. — Mas, naturalmente, a pobre rapariga não sabe da surpresa que a espera. Ela certamente não tardará.

— Então esperarei — disse eu, e atirei-me para a cadeira que ele tinha puxado para mim.

— Não tenho nada para lhe oferecer, signor padrone — disse ele, com uma risada. — Sabe, eu não esperava uma visita.

— Não, não, Olinto. Acabei de jantar. Mas diz-me como tens passado desde que me deixaste.

— Ah! — riu-se ele amargamente. — Tive muitos altos e baixos antes de me encontrar aqui em Londres. O mar não me serviu — nem o trabalho. Colocaram-me nos aposentos dos emigrantes e, consequentemente, não conseguia ganhar nada. Os outros criados eram napolitanos, por isso, como eu era toscano, relegaram-me para o pior posto. Ah, signore, não sabe o que é servir esses emigrantes! Fiz duas viagens, depois voltei e casei-me com Armida. Fui visitá-lo, mas Tito disse-me que o senhor estava em Londres. No início consegui trabalho num café em Viareggio, mas quando a estação terminou e fiquei desempregado, consegui arranjar trabalho de Génova até Londres. O meu primeiro emprego foi como ajudante de cozinha num restaurante em Tottenham Court Road, e depois tornei-me empregado de mesa na cervejaria do Monico, e consegui poupar o suficiente para enviar a Armida o dinheiro para se juntar a mim aqui. Depois fui para o Milano e espero entrar num dos grandes hotéis muito em breve — ou talvez na grelha do Carlton. Tenho um amigo que está lá, e eles ganham muito dinheiro — quatro ou cinco libras todas as semanas em gorjetas, dizem eles.

— Verei o que posso fazer por ti — disse eu. — Conheço vários gerentes de hotéis que podem ter uma vaga.

— Ah, signore! — exclamou ele, cheio de gratidão. — Se o senhor fizesse isso! Uma palavra sua garantir-me-ia uma boa posição. Eu sei trabalhar, o senhor sabe disso — e eu trabalho. Trabalharei — por causa dela.

— Prometi-te — disse eu, sucintamente.

— E como poderei agradecer-lhe o suficiente? — exclamou ele, parando diante de mim, enquanto nos seus olhos julguei detetar um estranho olhar selvagem, como nunca tinha visto lá antes.

— Serviste-me bem, Olinto — respondi — e quando descubro uma honestidade real e genuína, esforço-me por a apreciar. Há, infelizmente, muito pouca neste mundo.

— Sim — disse ele com uma voz rouca, a sua atitude mudando subitamente. — O senhor mostrou-me esta noite, signore, que é meu amigo e eu, em troca, mostrar-lhe-ei que sou o seu. — E agarrando subitamente as minhas duas mãos, puxou-me da cadeira em que eu estava sentado, perguntando ao mesmo tempo num sussurro baixo e intenso: — O senhor usa sempre um revólver aqui em Inglaterra, como faz em Itália?

— Sim — respondi, surpreendido com a sua ação e a sua pergunta. — Porquê?

— Porque há perigo aqui — respondeu ele com o mesmo tom baixo e sério. — Prepare a sua arma. Pode precisar dela.

— Não compreendo — disse eu, sentindo o meu Colt à mão no bolso de trás das calças para ter a certeza de que estava lá.

— Esqueça o que eu disse — tudo — tudo o que lhe contei esta noite, senhor — disse ele. — Não expliquei toda a verdade. O senhor está em perigo — em perigo mortal!

— Como? — exclamei, sem fôlego, surpreendido com a sua extraordinária mudança de atitude e o seu evidente receio de que algo me pudesse acontecer.

— Espere e verá — sussurrou ele. — Mas primeiro diga-me, signore, que me perdoará pela parte que desempenhei neste assunto cobarde. Eu, tal como o senhor, caí inocentemente nas mãos dos seus inimigos.

— Os meus inimigos! Quem são eles?

— São desconhecidos e, por agora, assim devem permanecer. Mas se duvida do seu perigo, observe — e pegando nas tenazes enferrujadas da lareira, colocou-as cuidadosamente em pé diante da profunda poltrona velha em que eu me sentara, e depois deixou-as cair contra o bordo do assento, afastando-se rapidamente ao fazê-lo.

Num instante, um clarão azul brilhante atravessou o lugar e os ferros caíram de lado, fundidos e retorcidos além de qualquer reconhecimento.

Fiquei estupefacto, totalmente incapaz por um momento de perceber suficientemente por um triz que tinha escapado à morte.

— Olhe! Veja aqui, por trás! — gritou o italiano, dirigindo a minha atenção para as pernas traseiras da cadeira, onde, ao inclinar-me com o candeeiro, vi, para meu espanto, que dois fios estavam ligados e seguiam pelo chão e para fora da janela, enquanto, escondida sob a alcatifa esfarrapada, em frente à cadeira, havia uma fina placa de aço onde os meus pés tinham repousado.

Aqueles que tão engenhosamente me tinham atraído para aquela sombria casa da morte tinham ligado a rede elétrica aérea àquela cadeira de aspeto inocente e, de algum ponto invisível, tinham conseguido ligar uma corrente de voltagem suficiente para matar cinquenta homens.

Fiquei imóvel, sem me atrever a mover por receio de entrar em contacto com algum fio escondido, cujo mais leve toque me traria a morte instantânea.

— Os seus inimigos prepararam esta terrível armadilha para si — declarou o homem que outrora fora o meu criado de confiança. — Quando entrei no assunto, não sabia que seria fatal. Não me deram qualquer indício da sua intenção cobarde. Mas não há tempo para permitir explicações agora, signore — acrescentou ele, sem fôlego, com uma voz baixa e desesperada. — Diga que não me julgará antecipadamente — implorou ele, fervorosamente.

— Não o julgarei antecipadamente até ter ouvido a sua explicação — disse eu. — Certamente devo-lhe a minha vida esta noite.

— Então depressa! Fuja desta casa neste instante. Se for parado, então use o seu revólver. Não hesite. Num momento eles estarão aqui em cima de si.

— Mas quem são eles, Olinto? Tem de me dizer — gritei em desespero.

— Dio! Vá! Vá! — gritou ele, empurrando-me violentamente para a porta. — Fuja, ou morreremos ambos — ambos nós! Corra escada abaixo. Tenho de fingir que corro atrás de si.

Virei-me e, vendo a sua ânsia desesperada, fugi precipitadamente, enquanto ele corria atrás de mim, proferindo imprecações ferozes em italiano, como se eu lhe tivesse escapado.

Um homem na passagem estreita e escura tentou derrubar-me enquanto eu corria, mas disparei diretamente contra ele e, alcançando a porta, destranquei-a e, um instante depois, encontrei-me na rua.

Foi a fuga da morte mais curta que alguma vez tive em toda a minha vida — certamente a aventura mais estranha e notável. O que, interroguei-me, significaria isto?

Na manhã seguinte, procurei de alto a baixo na Oxford Street pelo restaurante Milano, mas não o consegui encontrar. Perguntei a lojistas, carteiros e polícias; examinei o Diretório de Londres no bar do Oxford Music Hall e fiz todas as perguntas possíveis. Mas tudo foi em vão. Ninguém conhecia tal lugar. Havia restaurantes em abundância em Oxford Street, desde o Frascati até à humilde casa de café, mas ninguém tinha ouvido falar do "Milano".

Até Olinto me tinha enganado!

Fiquei cheio de desgosto, pois tinha confiado nele como honesto, íntegro e trabalhador; e fiquei intrigado por saber a razão pela qual ele me tinha enganado e por que razão me tinha atraído para o próprio precipício da sepultura.

Ele tinha-me dito que ele próprio tinha caído na armadilha preparada pelos meus inimigos e, no entanto, tinha-se recusado firmemente a dizer-me quem eles eram! A coisa toda era completamente inexplicável.

Conduzi até Lambeth e vagueei pelo labirinto de ruas desprezíveis perto da York Road, mas pela minha vida não conseguia decidir em que casa tinha sido levado. Havia uma dúzia que me pareciam poder ser a casa idêntica de onde tinha escapado por um triz com a minha vida.

Gradualmente, ficou gravado em mim que o meu ex-criado tinha de alguma forma obtido o conhecimento de que eu estava em Londres, que ele tinha observado a minha saída do clube e que toda a sua história piedosa sobre Armida era falsa. Ele era o enviado dos meus inimigos desconhecidos, que tinham tão engenhosamente e tão implacavelmente planeado a minha destruição.

Que eu tinha inimigos, sabia muito bem. O homem que acredita que não os tem é um tolo absoluto. Não há homem que respire que não tenha um inimigo, desde o indigente no asilo até ao rei no seu automóvel. Mas o inimigo invisível é sempre o mais perigoso; daí as minhas profundas reflexões apreensivas naquele dia, enquanto caminhava por aquelas ruas sórdidas das traseiras "do outro lado da água", como o londrino se refere ao distrito entre aquelas duas artérias principais de tráfego, as estradas de Waterloo e Westminster Bridge.

Os meus inimigos desconhecidos tinham assegurado os serviços de Olinto no seu plano cobarde para me matar. Com que motivo?

Interroguei-me, enquanto atravessava a ponte de Waterloo para o Strand, se Olinto Santini me abordaria novamente e faria a explicação prometida. Tinha dado a minha palavra de não o julgar antecipadamente até que ele me revelasse a verdade. No entanto, não podia, nas circunstâncias, depositar total confiança nele.

Quando os nossos inimigos são desconhecidos, a sensação de apreensão é sempre muito maior, pois na imaginação o perigo espreita em cada esquina e cada ação de um amigo encobre o estratagema de um inimigo suspeito.

Naquele dia, tratei dos meus negócios na cidade com uma desconfiança de todos, sem saber se não era seguido ou se aqueles que procuravam a minha vida não estavam a planear algum outro movimento igualmente engenhoso pelo qual eu pudesse caminhar inocentemente para a minha morte. Tentei descobrir Olinto por todos os meios possíveis durante aqueles dias sufocantes que se seguiram. O calor de Londres era, para mim, mais opressivo do que o sol ardente da Toscana do velho mundo, e todos os que podiam estar fora da cidade tinham partido para o campo ou para o mar.

O único rasto que encontrei do italiano foi que ele estava registado no escritório da Sociedade Internacional de Criados de Hotel, em Shaftesbury Avenue, como estando empregado na Adelaide Gallery de Gatti, mas, ao informar-me lá, descobri que ele tinha partido há mais de um ano e nenhum dos seus colegas empregados de mesa sabia do seu paradeiro.

Assim, derrotado em todas as perguntas e com os meus negócios finalmente concluídos em Londres, fui até Dumfries numa visita de dever que prestava anualmente ao meu tio, Sir George Little. Tendo conhecido Dumfries desde a minha infância mais tenra e tendo passado alguns anos da minha juventude lá, tinha muitos amigos nas redondezas, pois Sir George e a minha tia eram muito populares no condado e frequentavam o melhor círculo.

Cada vez que regressava do estrangeiro, era sempre um convidado bem-vindo em Greenlaw, como era chamada a sua propriedade fora da cidade de Burns, e esta ocasião não foi exceção, pois as casas de campo de Dumfries estão sempre alegres em agosto na expetativa da caça.

— Algumas pessoas novas alugaram o Castelo de Rannoch. Parecem bastante simpáticas — comentou a minha tia enquanto estávamos sentados juntos a almoçar no dia seguinte à minha chegada. — O nome deles é Leithcourt e pediram-me para o levar lá para jogar ténis esta tarde.

— Não sou grande jogador, sabe, tia. Em Itália não acreditamos no atletismo. Mas se é por educação, claro que irei.

— Muito bem — disse ela. — Então mandarei preparar o victoria para as três.

— Há várias raparigas simpáticas lá, Gordon — observou o meu tio, trocista. — Irá divertir-se, por isso não pense que se vai aborrecer.

— Sem medo disso — foi a minha resposta. E às três horas, Sir George, a sua esposa e eu partimos para aquele belo e histórico castelo que se ergue no alto de Bognie, debruçado sobre as águas de Cairn, para além de Dunscore, um dos baluartes dos Black Douglas naqueles tempos turbulentos de há muito, e agora uma esplêndida residência antiga com uma grande área de caça que era por vezes alugada para a época por uma renda muito elevada pelo seu proprietário aristocrata, embora um tanto necessitado.

Podíamos ver as suas grandes torres redondas, erguendo-se sombrias e cinzentas na encosta da colina, dominando todo o vale, muito antes de nos aproximarmos, e quando entrámos nos terrenos encontrámos um grupo alegre em trajes de verão reunido no antigo campo de bowling, agora transformado num moderno campo de ténis.

A Sra. Leithcourt e o seu marido, um homem alto, magro, de cabelos grisalhos e bem vestido, vieram ambos cumprimentar-nos e, após algumas apresentações, juntei-me a um jogo de ténis. Eles eram uma multidão alegre. Os Leithcourt estavam a entreter um grande grupo na casa, e a sua hospitalidade estava a um nível perfeitamente condizente com o belo lugar antigo que alugavam.

O chá foi servido no relvado pelos criados e, depois, cansado do jogo, dei por mim a passear com Muriel Leithcourt, uma rapariga brilhante, de olhos escuros, com o cabelo bem preso e vestindo uma blusa de algodão e uma saia de ténis de flanela.

Estava a pedir desculpa pelo meu jogo terrivelmente mau, explicando que não tinha prática em Itália, ao que ela disse:

— Conheço ligeiramente a Itália. Estive em Florença e Nápoles com a mãe na época passada.

E então começámos a discutir pinturas, esculturas e as atrações da Itália em geral. Discerni, pelas suas observações, que ela tinha viajado muito; de facto, disse-me que tanto o seu pai como a sua mãe nunca eram mais felizes do que quando se moviam de lugar para lugar em busca de variedade e distração. Entrámos no enorme salão apainelado do Castelo e subimos a pitoresca escadaria de pedra antiga até ao longo salão de banquetes com o seu teto de carvalho apainelado, que nestes dias modernos tinha sido transformado numa sala de estar brilhante e agradável, das cujas janelas se apresentava uma vista maravilhosa sobre a adorável Nithsdale e através das colinas cobertas de urze para além.

Era agradável relaxar ali, na velha sala fresca, depois do sol quente do lado de fora, e enquanto olhava em redor do lugar notei o quanto mais luxuoso e elegante estava agora do que nos dias em que tinha visitado o seu proprietário vários anos antes.

— Estamos terrivelmente contentes por estar aqui em cima — dizia a minha bonita companheira. — Tivemos uma época tão ocupada em Londres. — E depois continuou a descrever o baile da Corte e duas ou três das funções mais notáveis sobre as quais tinha lido no meu jornal inglês junto ao Mediterrâneo.

Ela atraiu-me devido à sua vivacidade brilhante, sagacidade rápida e agudo sentido de humor, por isso sentei-me a ouvir a sua conversa agradável. Exilado que estava numa terra estrangeira, raramente falava inglês, exceto com Hutcheson, o Cônsul, e mesmo aí falávamos geralmente italiano se houvesse outros presentes, para que os nossos companheiros compreendessem. Por isso, a sua bisbilhotice interessou-me e, enquanto o pôr do sol dourado inundava a bela sala antiga, sentei-me a ouvi-la, admirando interiormente a sua graça inata e o seu rosto bonito.

Eu não fazia ideia de quem ou o que era o seu pai — se um fabricante rico, como tantos que fazem caçadas dispendiosas e dão grandes entretenimentos para conseguirem entrar na Sociedade pela porta das traseiras, ou se era um cavalheiro de posses e de boa família. Pelo seu porte cavalheiresco e maneiras polidas, inclinei-me mais para a segunda hipótese. A sua aparência, alto e ereto, era a de um oficial reformado, e o seu rosto bem definido era de uma distinção notável.

Eu contava à minha bela companheira algo sobre a minha própria vida, como, por amar tanto a Itália, vivia na Toscana em vez de viver em Inglaterra, e como todos os anos vinha a casa durante um mês ou dois para visitar os meus parentes e manter-me a par das coisas.

De repente, ela disse:

"Estive uma vez em Livorno durante algumas horas. Estávamos a navegar pelo Mediterrâneo. Adoro o mar — e andar de iate é uma diversão terrivelmente boa, desde que se tenha um tempo decente."

A menção ao iatismo trouxe à minha mente a visita do Lola e o seu desfecho misterioso.

"O seu pai tem um iate, então?" comentei, com o menor interesse que pude demonstrar.

"Sim. O Iris. O meu tio está a fazer um cruzeiro com ele pelos fiordes noruegueses. Para nós, é uma mudança estarmos aqui, porque estamos muitas vezes embarcados. Fomos a Nova Iorque nele no ano passado e passámos momentos muito agradáveis — exceto por uma tempestade forte que nos deixou a todos um pouco nervosos. Mas Moyes é um capitão tão excelente que nunca sinto medo. A tripulação é toda composta por pescadores do Mar do Norte — o meu pai não contrata ninguém mais. Não o censuro."

"Então deve ter feito muitas longas viagens e visto muitos recantos estranhos do mundo, Srta. Leithcourt?" comentei, com o meu interesse por ela a aumentar, pois parecia extremamente inteligente e bem informada.

"Oh, sim. Estivemos no México e no Panamá, além de Marrocos, Egito e a Costa Ocidental de África."

"E desembarcou realmente em Livorno!" notei.

"Sim, mas não ficámos lá mais do que uma hora — para enviar um telegrama, creio eu. O meu pai disse que não havia nada para ver lá. Ele e eu fomos a terra, e devo dizer que fiquei um pouco desapontada."

"Tem toda a razão. A cidade em si é feia e desinteressante. Mas os arredores — San Jacopo, Ardenza e Antigniano são todos encantadores. Foi uma pena não os ter visto. Foi há muito tempo que lá atracaram?"

"Não faz muito tempo. Na verdade, não me recordo da data exata", foi a sua resposta. "Estávamos a caminho de casa, vindos de Alexandria."

"Alguma vez, em algum dos portos onde esteve, viu um iate chamado Lola?" perguntei ansiosamente, pois ocorreu-me que talvez ela pudesse dar-me informações.

"O Lola!" ela arquejou, e instantaneamente o seu rosto mudou. Um rubor cobriu as suas faces, sucedido no momento seguinte por uma palidez mortal. "O Lola!" repetiu ela com uma voz estranha e rouca, esforçando-se ao mesmo tempo para não demonstrar qualquer apreensão. "Não. Nunca ouvi falar de tal embarcação. É um iate a vapor? Quem é o dono?"

Observei-a com espanto e suspeita, pois vi que a menção ao nome tinha despertado nela um receio grave. Aquele olhar nos seus olhos escuros, ao fixarem-se em mim, era de um terror distinto e indescritível.

O que poderia ela saber sobre a misteriosa embarcação?

"Não sei o nome do proprietário", disse eu, ainda fingindo não ter notado o seu alarme e apreensão. "A embarcação encalhou na Meloria, um baixio perigoso fora de Livorno, e, devido à estupidez do seu capitão, esteve muito perto de se perder."

"Sim?" arquejou ela, num sussurro, inclinando-se para mim ansiosamente, incapaz de esconder suficientemente a terrível ansiedade que a consumia. "E você... foi a bordo?"

"Sim", foi a única palavra que pronunciei.

Um silêncio caiu entre nós e, enquanto os meus olhos se fixavam nela, vi que do seu rosto bonito e expressivo toda a luz e vida tinham desaparecido subitamente, e soube que ela estava secretamente na posse da chave para aquele enigma notável que tanto me intrigava.

De repente, a porta abriu-se e uma voz gritou alegremente:

"Ora, estive à tua procura por todo o lado, Muriel. Porque estás escondida aqui? Não vens?"

Ambos nos virámos e, ao fazê-lo, um grito baixo de consternação involuntária escapou-lhe.

No instante seguinte, saltei para os meus pés. A razão do seu grito era evidente, pois ali, na luz plena do pôr do sol dourado que entrava pelas longas janelas abertas, estava um homem de ombros largos, barba clara, com roupas de ténis e um chapéu Panamá — o fugitivo que eu conhecia como Philip Hornby!

Encarei-o, sem palavras.

CAPÍTULO IV

NO QUAL O MISTÉRIO AUMENTA

Nenhum de nós falou. Igualmente surpreendidos com o encontro inesperado, ficámo-nos a olhar um para o outro, estupefactos.

Hornby deu um sobressalto assim que os seus olhos pousaram em mim, e o seu rosto empalideceu até aos lábios, enquanto Muriel Leithcourt, rápida a notar a mudança súbita nele, levantou-se e apresentou-nos com a voz mais calma que pôde comandar.

"Creio que não se conhecem", disse-me ela com um sorriso. "Este é o Sr. Martin Woodroffe — Sr. Gordon Gregg."

Curvei-me perante ele com a súbita determinação de permanecer em silêncio, fingindo que duvidava se o homem à minha frente era realmente o meu anfitrião do Lola. Pretendia agir como se não estivesse suficientemente convencido para expressar abertamente a minha dúvida. Portanto, curvámo-nos, trocando saudações como estranhos, enquanto, observando cuidadosamente, vi o quanto as mentes de ambos ficaram aliviadas. Trocaram olhares significativos e, depois, como se tranquilizados pelo facto de eu estar mistificado e incerto, o homem que se chamava Woodroffe explicou à minha companheira:

"Estive em Newton Stewart com o Fred o dia todo e só cheguei há um quarto de hora. Não vais jogar mais hoje?"

"Acho que não", foi a sua resposta. "Estivemos lá fora a tarde toda e estou um pouco cansada. Mas eles ainda estão no relvado. De certeza que podes arranjar um jogo com alguém."

"Se tu não jogas, eu não jogo. Voltei para cumprir a promessa que fiz esta manhã", riu-se ele, parado diante da grande lareira aberta, segurando a sua raquete de ténis atrás das costas.

Examinei o seu rosto e fiquei mais convencido do que nunca de que ele era, de facto, o homem que me dera o nome de Hornby e o endereço falso em Somerset. O par parecia estar em termos familiares, e perguntei-me se estariam noivos. Em todo o caso, o homem parecia sentir-se perfeitamente à vontade ali.

Enquanto conversava com a filha da casa, lançou-me um olhar rápido e furtivo, e depois dirigiu um olhar significativo a ela — um olhar de confiança renovada, como se sentisse que tinha desviado com sucesso quaisquer suspeitas que eu pudesse ter tido.

Falámos sobre as perspetivas para o lagópode e o salmão, e, pelas suas observações, ele parecia ser tão entusiasta do desporto como, em tempos, tinha fingido ser do iatismo.

"O meu amigo Leithcourt tem uma sorte incrível em conseguir uma propriedade tão esplêndida como esta. Por todo o lado ouço relatos elogiosos sobre a quantidade de aves. O lugar foi bem preservado no passado e há boa cobertura."

"Sim", disse eu. "Gilrae, o proprietário, é um desportista entusiasta e, antes de ficar em dificuldades financeiras, gastou muito dinheiro na propriedade, que, creio eu, sempre foi considerada uma das melhores no sudoeste. Dizem que há salmão ali no vale — mas nunca tentei pescar nenhum."

"Certamente que há. Já vi vários. Espero tentar um destes dias. O vale é profundo e sombrio — um lugar ideal para o peixe. O único desapontamento aqui, pelo que percebi, é o número reduzido de galinhas-do-mato."

"Sim, mas a cada ano que passa elas tornam-se mais raras nesta parte da Escócia. Um belo galo-do-mato é um verdadeiro acontecimento hoje em dia", disse eu.

Enquanto falávamos, ou melhor, enquanto eu observava cuidadosamente o rápido funcionamento da sua mente, o próprio Leithcourt entrou e juntou-se a nós. Tinha estado a jogar ténis e viera descansar para arrefecer.

Anfitrião e convidado estavam, evidentemente, nos termos mais íntimos. Leithcourt tratava-o por "Martin" e começou a relatar uma discussão que o seu guarda-caça principal tinha tido naquele dia com um dos pequenos agricultores da propriedade a propósito da morte de alguns coelhos. E, enquanto falavam, Muriel sugeriu que déssemos um passeio até aos campos de ténis novamente, um convite que, por muito que lamentasse deixar os dois homens, fui obrigado a aceitar.

Parecia que ela queria deliberadamente tirar-me da presença daquele homem, temendo que, permanecendo ali mais tempo, as minhas suspeitas pudessem confirmar-se. Ela estava a agir em conluio com o homem que eu conhecera como Hornby.

Ainda havia muita gente a assistir ao jogo, pois era agradável naqueles jardins de estilo antigo à hora do pôr do sol. O fosso seco estava agora transformado num jardim cheio de rododendros e azaléias brilhantes, enquanto as altas e antigas sebes de faia, o curioso relógio de sol antigo com o seu lema: "Cada sombra que dás é um dia mais perto da morte", e as antigas balaustradas de pedra, cinzentas de líquen, falavam silenciosamente daqueles dias gloriosos em que os feroces cavaleiros dos Lairds de Rannoch eram temidos além da fronteira, e quando muitos prisioneiros do Black Douglas tinham definhado e morrido naquelas estreitas câmaras de pedra na severa torre norte, que ainda se erguia bem alto acima.

Entre o grupo que passeava e descansava ali antes da partida, havia muitas pessoas que eu conhecia, gente que tinha casas de caça nas redondezas e eram amigos do meu tio. Na Escócia, há sempre uma hospitalidade calorosa entre as gentes do desporto, e as leis de casta são muito menos rigorosas do que em Inglaterra.

Eu estava parado a conversar com duas senhoras que estavam prestes a despedir-se da sua anfitriã, quando Leithcourt regressou, mas sozinho. Hornby não o acompanhara. Seria porque ele temia voltar a encontrar-me?

Para descobrir algo sobre o homem que tinha fugido misteriosamente de Livorno, consegui, através do exercício de um pouco de diplomacia, sentar-me no relvado com uma jovem mulher casada chamada Tennant, esposa de um capitão de cavalaria, que era um dos convidados. Após algum tempo, consegui levar a conversa para os seus companheiros, e mais particularmente para o homem que eu conhecia como Hornby.

"Oh! O Sr. Woodroffe é divertidíssimo", declarou a mulher brilhante. "Está sempre a pregar partidas. Depois do jantar, ele é, normalmente, a alma da nossa festa."

"Sim", disse eu, "gosto do pouco que vi dele. Parece-me um bom rapaz. Ouvi dizer que está noivo da Muriel", arrisquei. "É verdade?"

"Claro. Estão noivos há quase um ano, mas ele esteve no estrangeiro até há muito pouco tempo. É bastante reservado quanto aos seus próprios assuntos e nunca fala das suas viagens e aventuras, embora um dia o Sr. Leithcourt tenha declarado que os seus salvamentos por um triz dariam um livro emocionante se alguma vez fossem escritos."

"Leithcourt e ele são, evidentemente, amigos muito íntimos."

"Oh, inseparáveis!" riu-se ela. "E o outro homem que está sempre com eles é aquele sujeito baixo, atarracado e de rosto vermelho que está ali com a senhora de azul claro, o Sir Ughtred Gardner. O Sr. Woodroffe apelidou-o de 'Sir Putrid'." E ambos rimos. "Claro, não diga que fui eu quem disse", sussurrou ela. "Não o chamam assim na cara, mas é tão fácil cometer um erro no nome dele quando ele não está por perto. Nós, mulheres, não gostamos dele, por isso a alcunha assenta-lhe que nem uma luva."

E ela continuou a tagarelar, contando-me muito do que eu desejava saber sobre o novo inquilino de Rannoch e os seus amigos, e mais especialmente sobre o homem que se tinha apresentado a mim, pela primeira vez, no Consulado em Livorno.

Meia hora depois, a carruagem do meu tio foi anunciada, e parti com a nítida impressão de que havia algum mistério profundo a rodear os Leithcourt. O que seria, contudo, não conseguia, pela minha vida, descobrir. Talvez fosse a relação íntima de Philip Leithcourt com o homem que me tinha enganado tão habilmente que incitava a minha curiosidade sobre ele; talvez fosse aquela intuição misteriosa, aquele curioso presságio de mal que por vezes vem a um homem como aviso de um perigo iminente. Seja qual for o motivo, eu estava cheio de graves apreensões. O mistério tornava-se mais profundo dia após dia e era inexplicável.

Durante a semana que se seguiu, procurei aprender tudo o que podia sobre as novas pessoas no castelo.

"Eles são aceites em toda a parte", declarou a minha tia quando a questionei. "Claro, sabíamos muito pouco sobre eles, exceto que tiveram uma caçada perto de Fort William há dois anos e que têm uma casa na cidade, na Green Street. São, evidentemente, gente bastante elegante. Não acha?"

"A julgar pelo grupo de convidados, sim", respondi. "São um grupo tão alegre como se poderia encontrar a norte de Carlisle neste momento."

"Exatamente. Há pessoas bem conhecidas entre eles, também", disse a minha tia. "Convidei-os para amanhã à tarde e eles aceitaram."

"Excelente!" exclamei, pois queria uma oportunidade para mais uma conversa com a rapariga de olhos escuros que estava noiva do homem cujo pseudónimo era Hornby. Desejava particularmente descobrir a razão do seu medo quando mencionei o Lola, e se ela possuía algum conhecimento sobre Hylton Chater.

A oportunidade surgiu a seu tempo, pois, na tarde seguinte, o grupo de Rannoch chegou em duas grandes carruagens e, com outras pessoas da vizinhança e uma banda de Dumfries, os terrenos da minha tia apresentavam um cenário alegre e animado. Havia o habitual ténis e croquet, enquanto alguns dos homens desfrutavam de um pouco de golfe no excelente campo que o meu tio, entusiasta do desporto, tinha recentemente criado.

Como esperava, Woodroffe não acompanhou o grupo. A Sra. Leithcourt, uma pequena mulher ligeiramente agitada, pediu desculpa pela sua ausência, explicando que ele tinha sido chamado a Londres repentinamente, alguns dias antes, mas que regressaria a Rannoch no final da semana.

"Não nos podíamos dar ao luxo de perdê-lo", declarou ela à minha tia. "Ele é tão terrivelmente bem-humorado — os seus ditos engraçados e palhaçadas mantêm-nos num riso constante todas as noites ao jantar. É um imitador perfeito."

Virei-me e fui passear com Muriel, inventando uma desculpa para lhe mostrar os belos terrenos do meu tio, não menos pitorescos do que os do castelo, e talvez um pouco mais bem cuidados.

"Só soube ontem do seu noivado, Srta. Leithcourt", comentei pouco depois, quando estávamos sozinhos. "Permita-me oferecer as minhas melhores felicitações. Quando me apresentou ao Sr. Woodroffe, no outro dia, não fazia ideia de que ele ia ser o seu marido."

Ela olhou para mim rapidamente e vi nos seus olhos escuros um olhar de suspeita. Depois, corou ligeiramente e, rindo-se com desconforto, disse, com uma voz vazia e dura:

"É muito gentil da sua parte, Sr. Gregg, desejar-me todas essas coisas tão agradáveis."

"E quando é que o feliz evento vai ter lugar?"

"A data não está exatamente marcada — no início do próximo ano, creio eu", e julguei vê-la suspirar.

"E provavelmente passarão muito tempo a navegar?" sugeri, com os meus olhos fixos nela para observar o resultado da minha observação incisiva. Mas ela controlou-se perfeitamente.

"Adoro o mar", respondeu ela brevemente, com os olhos postos em frente.

"O Sr. Woodroffe foi para a cidade, diz a sua mãe."

"Sim. Recebeu um telegrama e teve de partir imediatamente. Foi uma maçada terrível, pois tínhamos planeado ir fazer um piquenique à Abadia de Dundrennan ontem."

"Mas ele voltará para aqui, não é?"

"Realmente não sei. Parece bastante incerto. Recebi uma carta esta manhã que dizia que ele talvez tenha de ir a Hamburgo tratar de negócios, em vez de vir ter connosco."

Havia desapontamento na sua voz e, no entanto, ao mesmo tempo, não pude deixar de reconhecer como o homem com quem ela estava noiva tinha fugido da Escócia por causa da minha presença.

Como desejava perguntar-lhe diretamente o que ela realmente sabia sobre o velejador que estava envolvido em tanto mistério. No entanto, ao revelar qualquer ansiedade indevida, certamente anularia todos os meus esforços para resolver o enigma desconcertante; por isso, fui obrigado a contentar-me com perguntas engenhosamente disfarçadas e a tirar as minhas próprias conclusões a partir das suas respostas.

Enquanto caminhávamos por aqueles caminhos de gravilha, de alguma forma, ficou-me vividamente gravado que o seu casamento estava a ser forçado pelos seus pais. A sua maneira era a de alguém que escondia algum segredo estranho e terrível que temia que pudesse ser revelado. Havia um olhar distante de terror inefável naqueles olhos escuros, como se ela vivesse num constante e sempre presente receio. É claro que ela não me disse nada sobre os seus próprios sentimentos ou afeições; no entanto, reconheci, tanto nas suas palavras como no seu porte, uma apatia curiosa — uma falta do verdadeiro entusiasmo da afeição. Woodroffe, muito mais velho do que ela, era amigo do seu pai e, por isso, pareceu-me mais do que provável que Leithcourt estivesse a pressionar a filha para uma aliança matrimonial por algum motivo oculto. Na corrida louca por posição, poder e riqueza, os homens vendem impiedosamente as suas filhas no mercado matrimonial, e mães ambiciosas conspiram e intrigam para o seu próprio engrandecimento, à custa da felicidade das filhas, mais vezes do que o público imagina. A tragédia está, ai de mim!, escrita no rosto de muitas noivas cujo retrato aparece nas revistas de moda e cujo traje é tão fielmente registado no parágrafo abaixo. Na verdade, a rapariga da Sociedade a quem é permitida a livre escolha em matéria de marido é, infelizmente, hoje em dia a exceção, pois os pais que querem "subir" na escala social descobriram que as filhas bonitas são um produto comercializável, e muitos homens foram postos "de pé", tanto financeira como socialmente, pelo seu genro. Daí que o casamento de conveniência esteja a tornar-se rapidamente comum, enquanto, na mesma proporção, os pedidos de divórcio estão, infelizmente, a aumentar.

Li tragédia nos olhos escuros e luminosos de Muriel Leithcourt. Sabia que o seu jovem coração estava sobrecarregado por algum sofrimento secreto ou conhecimento culpado que ela me revelaria se tivesse coragem. As suas próprias palavras diziam-me que ela estava perplexa; que desejava confidenciar e procurar o conselho de alguém, mas que, devido a alguma circunstância oculta e inoportuna, os seus lábios estavam selados.

Tentei questioná-la mais sobre Woodroffe, que profissão exercia e sobre o seu passado.

Mas ela, evidentemente, suspeitava de mim, pois eu tinha, infelizmente, mencionado o Lola.

Ela queria falar comigo em confiança e, no entanto, não me revelava nada — absolutamente nada.

Martin Woodroffe não voltou a juntar-se ao grupo de Rannoch.

Embora eu tenha permanecido como convidado do meu tio muito mais tempo do que pretendia, na verdade durante toda a época de caça, para vigiar os Leithcourt, tanto quanto podíamos julgar, eles eram pessoas extremamente bem-educadas e muito hospitaleiras.

Trocámos muitas visitas e jantares e, enquanto o meu tio convidou várias vezes Leithcourt e os seus amigos para a sua caçada, com almoço ao ar livre, ao qual as senhoras se juntavam, o inquilino de Rannoch convidava-nos sempre de volta.

Assim, ganhei muitas oportunidades de conversar com Muriel e de a observar de perto. Tinha a reputação de ser um solteirão convicto e, por causa disso, parecia que ela não se opunha de forma alguma à minha companhia. Ela sabia manejar uma carabina tão bem como qualquer mulher e era, de facto, uma caçadora bastante razoável. Por isso, encontrávamo-nos muitas vezes sozinhos a caminhar pelas vastas charnecas abertas, ou ao longo daqueles vales encantadores de Nithsdale, gloriosos nos tons de outono da sua folhagem luxuosa.

O seu pai, por outro lado, parecia ver-me com considerável suspeita, e eu conseguia discernir facilmente que só era convidado para Rannoch porque era impossível convidar o meu tio sem me incluir a mim.

Leithcourt, que talvez pensasse que eu estava a cortejar a sua filha, estava sempre a tentar evitar-me e nunca me permitia caminhar sozinho com ele. Porquê? Perguntava-me eu. Temia-me ele? Teria Woodroffe contado sobre o nosso estranho encontro em Livorno?

A sua antipatia pronunciada por mim levava-me a observá-lo furtivamente, e com mais atenção do que talvez o devesse ter feito. Era um homem de temperamento sombrio, e frequentemente deixava os seus convidados para caminhar sozinho, meditando e remoendo pensamentos. Em diversas ocasiões segui-o em segredo e, para minha surpresa, descobri que, embora fizesse longos desvios em várias direções, chegava sempre ao mesmo local à mesma hora: as cinco da tarde.

O lugar onde ele parava ficava na orla de um bosque escuro, no cume de uma colina a cerca de três milhas de Rannoch — um bom sítio para caçar pombos-torcazes, pois vinham ali pernoitar. Ficava a pouco mais de duas milhas através das colinas a partir da estrada principal para Moniaive, e do quebrado muro cinzento onde ele tinha o hábito de se sentar para descansar e fumar, estendia-se o belo panorama de Loch Urr e as colinas cobertas de urze para lá dele.

Leithcourt nunca ia diretamente para o local, mas cronometrava sempre as suas caminhadas de modo a chegar exatamente às cinco e ali permanecia a fumar cigarros até às cinco e meia, como se estivesse à espera da chegada de alguém que aguardava. Umas duas vezes, os seus convidados sugeriram caçar pombos ao pôr do sol, mas ele tinha sempre alguma desculpa para se opor à proposta e, assim, o grupo, sem suspeitar da razão, era mantido afastado daquele lugar solitário em particular.

Na minha juventude, passei muitas horas tranquilas ali, na penumbra que escurecia, e abati muitos pombos; por isso, conhecia bem o bosque e era capaz de observar o inquilino de Rannoch de pontos onde ele menos suspeitava da presença de alguém.

Certa vez, quando estava a sós com Muriel, mencionei a propensão do seu pai para caminhar sozinho, ao que ela disse:

"Oh, sim, ele sempre gostou de caminhar. Costumava levar-me com ele quando chegámos aqui pela primeira vez, mas ele ia sempre tão longe que me recusei a ir mais."

Ela nunca mencionou Woodroffe uma única vez. Dei-lhe imensas oportunidades para o fazer, provocando-a sobre o seu futuro casamento para que ela pudesse referir-se a ele novamente. Mas o nome dele nunca passou pelos seus lábios. Entendi que ele tinha ido para o estrangeiro — era só isso.

Muitas vezes, quando sozinho, refletia sobre a minha curiosa aventura naquela noite em que conheci Olinto, e sobre a minha fuga por um triz das mãos dos meus inimigos desconhecidos. Perguntava-me se aquela tentativa engenhosa e cobarde contra a minha vida teria realmente alguma ligação com aquele estranho incidente em Livorno. À medida que os dias passavam, a minha mente enchia-se de suspeitas crescentes. O mistério rodeava-me por todos os lados.

Na verdade, apenas por um facto curioso, aumentou cem vezes.

Ao final de uma tarde, depois de ter passado o dia todo a caçar com o grupo de Rannoch, voltei para o castelo na carroça de Perth com outros três homens e encontrei as senhoras reunidas no grande salão com o chá pronto. Uma acolhedora fogueira de toros ardia na enorme lareira antiga, pois em outubro o tempo é frio e húmido na Escócia e um fogo é agradável ao cair da noite.

Muriel estava sentada no alto resguardo acolchoado da lareira — semelhante aos que existem nos clubes —, que formava sempre um local acolhedor para as senhoras, especialmente depois do jantar. Quando entrei, ela levantou-se rapidamente e entregou-me a chávena, exclamando enquanto olhava para mim:

"Oh, Sr. Gregg! Em que estado está!"

"Sim, estava atrás de narcejas e escorreguei num pântano", ri-me eu. "Mas foi logo de manhã cedo, e a lama já secou."

"Venha comigo e eu arranjo-lhe uma escova", insistiu ela. E segui-a pelos longos corredores e escadas acima até uma pequena sala de estar que era o seu pequeno santuário, onde trabalhava e lia — um lugarzinho acolhedor com duas janelas antigas e estranhas na parede colossal, um chão de carvalho polido e grandes vigas pretas por cima. Quando o proprietário ocupara a casa, aquela sala estivera em desuso, mas descobri que tinha sido agora completamente transformada e era um ninho de luxo muito requintado, com os seus chintzes brilhantes, os seus tapetes turcos e o seu fogo alegre na lareira de pedra antiga.

Ela riu-se quando expressei a minha admiração pela sua pequena toca e disse:

"Creio que era a sala de armas nos velhos tempos. Mas torna-se um boudoir bastante confortável. Posso fechar-me lá dentro e ficar bastante sossegada quando o grupo está demasiado barulhento", acrescentou ela alegremente.

Mas, enquanto os meus olhos vagueavam, pousaram subitamente num objeto que me fez sobressaltar com profundo espanto: uma fotografia de gabinete numa moldura de couro carmesim.

A imagem era a de uma jovem — uma duplicata do retrato que eu tinha encontrado rasgado e deitado de lado a bordo do Lola!

Os olhos alegres riam-se de mim enquanto eu permanecia a olhar fixamente para ela em total perplexidade.

"Que rapariga bonita!" exclamei rapidamente, escondendo a minha surpresa. "Quem é ela?"

A minha companheira ficou em silêncio por um momento, os seus olhos escuros encontrando os meus com um estranho olhar de indagação.

"Sim", riu-se ela, "toda a gente a admira. Foi minha colega de escola: Elma Heath."

"Heath!" ecoei. "Onde andou na escola com ela?"

"Em Chichester."

"Há muito tempo?"

"Há pouco mais de dois anos."

"Ela é muito bonita!" declarei, pegando na fotografia e descobrindo que ostentava o nome do mesmo fotógrafo bem conhecido em New Bond Street que eu tinha encontrado no tapete do Lola, no Mediterrâneo.

"Sim. Ela é realmente mais bonita do que na fotografia. Esta quase não lhe faz justiça."

"E onde está ela agora?"

"Por que é tão curioso, Sr. Gregg?" riu-se a bela rapariga. "Apaixonou-se realmente por ela através da sua fotografia?"

"Dificilmente sou dado a esse tipo de coisas, Srta. Leithcourt", respondi com um fingido tom de severidade. "Não creio que nem o meu pior inimigo me pudesse chamar namoradeiro, pois não?"

"Não. Dou-lhe o devido crédito", declarou ela. "Nunca namorisca. É por isso que gosto de si."

"Obrigado pela sua franqueza, Srta. Leithcourt", disse eu.

"Só", acrescentou ela, "parece que está arrebatado pelos encantos da Elma."

"Acho-a extremamente bonita", comentei, com a fotografia ainda na minha mão. "Vê-la alguma vez agora?"

"Nunca", respondeu ela. "Desde o dia em que saí da escola, nunca mais nos encontrámos. Ela era vários anos mais nova do que eu, e soube que, uma semana depois de eu deixar Chichester, os pais vieram e levaram-na. Onde ela está agora, não faço ideia. Os pais viviam algures em Durham. O pai era médico."

A sua resposta desapontou-me. Contudo, tinha, pelo menos, guardado o conhecimento do nome da pessoa original da fotografia e, através do fotógrafo, poderia talvez descobrir o seu endereço, pois parecia-me que ela estava de alguma forma intimamente ligada àqueles iatistas misteriosos.

O que Muriel me disse sobre ela, não duvidei por um único instante. Contudo, era certamente mais do que uma coincidência que uma cópia da imagem que tinha causado uma impressão tão profunda em mim estivesse guardada no seu próprio pequeno boudoir como recordação de uma amiga devota da escola.

"Então não ouviu absolutamente nada sobre a sua posição ou paradeiro atual — se ela é casada, por exemplo?"

"Ah!" exclamou ela, maliciosamente. "Trai-se pelas suas próprias palavras. Apaixonou-se por ela, acredito mesmo, Sr. Gregg. Se ela soubesse, ficaria muito lisonjeada — ou, pelo menos, deveria ficar."

Ao que sorri, preferindo que ela adotasse essa teoria em vez de qualquer outra.

Ela falou francamente, como falaria uma rapariga pura e honesta. Não estava ciumenta, mas, ainda assim, ressentia-se — como as mulheres se ressentem de tais coisas — de que eu me tivesse apaixonado pela fotografia de uma amiga.

Havia um mistério em torno daquela imagem rasgada; disso eu tinha a absoluta certeza. A lembrança daquela memorável noite em que jantei a bordo do Lola surgiu vividamente diante de mim. Porque teria o retrato da rapariga sido tão impiedosamente destruído e a moldura virada com a face para a parede? Havia uma razão — um motivo distinto e sério para isso. Teria Muriel dito a verdade, perguntei-me, ou estaria ela apenas a tentar proteger o homem suspeito que era o seu amante?

Hora a hora, o mistério em torno dos Leithcourt tornava-se mais inescrutável, mais intensamente absorvente. Procurei uma cópia do diretório de Londres no Station Hotel, em Carlisle, e descobri que nenhuma casa em Green Street estava registada como ocupada pelo inquilino de Rannoch; e, além disso, quando examinei a lista de convidados no castelo, descobri que eram pessoas realmente desconhecidas na sociedade. Eram meramente daquela classe de parasitas espirituosos e bem vestidos que se agarram sempre aos ricos e fingem ser elegantes e do *grande monde*. Rannoch era um lugar caro de manter, com todo aquele grande séquito de criados e guardas-florestais, e com aqueles jantares noturnos preparados por um chef francês; no entanto, Leithcourt parecia possuir bolsos fundos e sorria para aqueles parasitas, oficiais de comissões duvidosas e jovens rebentos da pseudo-aristocracia que o rodeavam, enquanto a sua esposa, de olhos vivos e porte soberbo, era pontual em todos os pontos de etiqueta e, ao mesmo tempo, incansável para que o seu grupo misto de convidados se divertisse a valer.

Mas eu não era a única pessoa que não os conseguia compreender. O meu tio foi o primeiro a abrir-me os olhos relativamente ao verdadeiro caráter de certos homens hospedados em Rannoch.

"Acho, Gordon, que um ou dois daqueles sujeitos com o Leithcourt são uns intrusos de marca maior", disse-me ele confidencialmente uma noite, depois de termos tido um dia árduo de caça e estarmos a jogar bilhar antes de nos retirarmos. "Um homem, que chegou ontem, conheço-o demasiado bem. Foi riscado da lista do Boodle's há três anos por batota no jogo — aquele homem de rosto fino e bigode louro chamado Cadby. Suponho que o Leithcourt não saiba, ou não o teria aqui entre gente respeitável." E o meu tio, mastigando a ponta do seu charuto, fungou com raiva, parecendo quase inclinado a dar ao seu amigo uma pequena dica de que o nome Cadby estava colocado fora do alcance da boa sociedade.

"Mais vale não dizer nada sobre isso", instei. "É assunto do próprio Leithcourt, tio — não nosso."

"Sim, mas se um homem estabelece uma posição no campo, não pode ter permissão para nos pedir que nos encontremos com tais sujeitos. Isto está a tornar-se um pouco demais, Gordon. Nós, homens, podemos tolerar as mulheres do grupo, mas os homens... bem, digo-te francamente, não aceitarei os seus convites para caçar novamente."

"Não, não, tio", protestei. "Provavelmente é devido à ignorância. Poderás, um pouco mais tarde, dar-lhe dicas valiosas. Ele é um bom tipo e só precisa de experiência na Escócia para se safar bem."

"Sim. Mas não gosto disto, meu rapaz, não gosto! Não é jogar um jogo limpo", declarou o rígido cavalheiro, corando de ressentimento. "Não vou retribuir o convite e convidar esse batoteiro, Cadby, para a minha casa — e digo-te isso claramente."

No dia seguinte, cacei com os Carmichael de Crossburn e, por volta das quatro da tarde, depois de um bom dia, despedi-me do grupo em Black Glen e parti sozinho para ir para casa a pé, uma distância de cerca de seis milhas. Já estava a escurecer e, sabia eu, estaria completamente escuro antes de chegar a casa do meu tio. O meu caminho mais direto era seguir o rio durante cerca de duas milhas e depois atravessar o grande bosque denso e, posteriormente, uma vasta charneca cheia de pântanos traiçoeiros e armadilhas para os incautos.

Com a minha espingarda ao ombro, caminhei durante cerca de quarenta e cinco minutos e tinha quase atravessado o bosque, a essa hora tão escuro que tive considerável dificuldade em encontrar o caminho, quando, de repente, imaginei distinguir vozes.

Parei. Sim. Homens falavam em tons baixos de confidência e, na calma daquela noite, pareciam-me mais próximos do que realmente estavam.

Escutei, tentando distinguir as palavras proferidas, mas não consegui perceber nada. Moviam-se lentamente juntos, nas proximidades de onde eu estava, pois os seus pés agitavam as folhas secas e eu podia ouvir os ramos a estalar à medida que se abriam caminho por entre eles.

De repente, enquanto ali permanecia sem ousar respirar para não trair a minha presença, um som estranho chegou aos meus ouvidos atentos.

No momento seguinte, percebi que estava naquele lugar onde Leithcourt mantinha tão insistentemente o seu encontro frustrado, tendo-me aproximado dele pelo interior do bosque.

O som alarmou-me, e ainda assim não foi nem uma explosão de armas de fogo nem um grito de socorro surpreendente.

Uma palavra chegou-me na escuridão — uma única palavra de amarga e devastadora reprovação.

Despreocupado com o risco que corria e com o perigo ao qual me expunha, lancei-me em frente com a determinação de penetrar no mistério, até chegar à brecha no muro de pedra tosco onde o hábito de Leithcourt era parar todos os dias ao pôr do sol.

Ali, na escuridão que caía, a visão que encontrou os meus olhos no local deixou-me rígido, horrorizado, estupefacto.

Naquele instante, percebi a verdade — uma verdade que era certamente a mais estranha alguma vez revelada a qualquer homem.

CAPÍTULO V

CONTÉM CERTAS CONFIDÊNCIAS

Enquanto me lançava em frente para a brecha no muro de delimitação do bosque, tropecei quase sobre uma forma deitada ao longo do caminho estreito.

Estava tão escuro por baixo das árvores que, ao princípio, não consegui distinguir claramente o que era, até me baixar e as minhas mãos tocarem nas vestes de uma mulher. O seu chapéu tinha caído, pois senti-o debaixo dos meus pés, enquanto a capa era de lã espessa.

Seria ela morta, perguntei-me? Aquele grito — aquela única palavra de reprovação — ecoava nos meus ouvidos, e parecia claro que ela tinha sido atingida impiedosamente após uma troca de palavras coléricas.

Procurei no bolso pelos meus fósforos, mas, infelizmente, a caixa estava vazia. No entanto, mesmo naquele momento, os meus ouvidos tensos captaram um som: o som de alguém a mover-se furtivamente entre as folhas caídas. Agarrando a minha espingarda, perguntei quem estava lá.

Não houve, contudo, resposta. No instante em que falei, o movimento cessou.

Tanto quanto podia julgar, a pessoa escondida estava dentro do bosque, a cerca de dez jardas de mim, separada por um matagal impenetrável. Contudo, como eu estava recortado contra o céu, a minha silhueta era, eu sabia, um alvo bem definido para qualquer pessoa com armas de fogo.

Parecia evidente que tinha ocorrido uma tragédia e que a vítima aos meus pés era uma mulher. Mas quem?

De repente, enquanto eu permanecia hesitante, culpando-me por estar sem fósforos, ouvi o movimento repetir-se. Alguém estava a retirar-se rapidamente — a escapar do local. Escutei novamente. O som não era o de folhas a roçar ou de ramos secos a estalar, mas o baque surdo dos pés de um homem a correr sobre terreno mais macio. Ele tinha saltado o muro de pedra tosco e estava no campo de nabos adjacente.

Saltei pela brecha, forçando os olhos na penumbra, e ao fazê-lo consegui distinguir apenas uma figura escura a retirar-se rapidamente por baixo do muro do bosque.

Num instante, lancei-me atrás dela. Mas a agilidade de quem quer que fosse o fugitivo, homem ou mulher, era maravilhosa. Considerava-me um corredor razoavelmente bom, mas correr através daqueles nabos ásperos e terreno pesado, recentemente arado, na escuridão e carregando a minha espingarda, logo me deixou ofegante. Contudo, a figura que eu perseguia era tão veloz de pés e tão ágil a trepar os muros altos e toscos que, logo de início, fui deixado para trás.

Desci a colina íngreme em direção a Scarwater, segui o fugitivo, atravessando a antiga ponte pedonal perto de Penpont, e depois subi por um vale selvagem e sinuoso em direção a Cairnsmore of Deugh. Durante um par de milhas ou mais, estive perto, até que, numa curva do vale escuro e arborizado, onde este se ramificava em duas direções, perdi todo o rasto da pessoa que fugia de mim. Quem quer que fosse, tinha-se escondido muito inteligentemente na vegetação rasteira de um ou outro dos dois vales — o que não consegui decidir.

Fiquei sem fôlego, o suor a escorrer-me, indeciso sobre como agir.

Teria sido o próprio Leithcourt quem eu tinha surpreendido?

Essa ideia ficou de alguma forma gravada em mim e resolvi subitamente ir corajosamente até Rannoch e verificar por mim mesmo. Por isso, com a desculpa de que me tinha atrasado na minha caminhada para casa, voltei pelo vale e, meia hora depois, entrei no grande salão bem iluminado do castelo, onde os convidados, prontos e vestidos, se reuniam antes do jantar.

Fui recebido calorosamente, como sempre era pelos homens do grupo, que, ao verem o meu estado lamacento, ofereceram-me de imediato um copo da bebida de desportista na Escócia, e enquanto eu lhe adicionava soda, o próprio Leithcourt juntou-se aos seus convidados, pronto e vestido com o seu casaco de jantar, tendo acabado de descer do seu quarto.

"Olá, Gregg!" exclamou ele, cordialmente, estendendo a mão. "Teve um longo dia, evidentemente. Boa caçada com o Carmichael, eh?"

"Muito aceitável", disse eu. "Fiquei com ele mais tempo do que deveria e atrasei-me no caminho para casa, por isso passei aqui para um refresco."

"Muito bem", riu-se ele alegremente. "É sempre bem-vindo, sabe. Teria ficado aborrecido se soubesse que passou sem entrar."

E Muriel, uma figura bonita num vestido decotado de chiffon turquesa, de pé atrás do seu pai, sorriu secretamente para mim. Sorri-lhe em resposta, mas foi um sorriso estranho, receio, pois o conhecimento daquele mistério adicional dentro de mim — o mistério da mulher deitada inconsciente, ou talvez morta, lá em cima no bosque — deixava-me estupefacto.

Eu tinha suspeitado de Leithcourt por causa dos seus encontros constantes naquele local, mas tinha, pelo menos, provado que as minhas suspeitas eram inteiramente infundadas. Ele não poderia ter chegado a casa e vestido-se a tempo, pois eu tinha tomado o caminho mais curto para o castelo enquanto o fugitivo seria obrigado a fazer um grande desvio.

Fiquei apenas alguns minutos, depois saí novamente para a escuridão, totalmente indeciso sobre como agir. O meu primeiro impulso foi voltar para ajudar a mulher, pois ela poderia não estar morta afinal.

E, no entanto, quando me lembrei daquele grito rouco que ecoou na escuridão, soube demasiado bem que ela tinha sido atingida fatalmente. Foi esta última convicção que me impediu de voltar para o bosque. Talvez me culpe, mas o facto é que receava que, se lá fosse, a suspeita pudesse recair sobre mim, agora que o verdadeiro culpado tinha escapado tão engenhosamente.

Se a vítima estivesse morta, que ajuda poderia eu prestar? Uma faca tinha, creio, sido usada, pois o meu pé tropeçou nela quando comecei a correr atrás do fugitivo. A única dúvida na minha mente era se a infeliz mulher estava realmente morta, pois se não estivesse, então a minha relutância em voltar ao local da tragédia era culpável.

Se agi bem ou não em manter-me afastado do lugar, deixo a seu critério julgar à luz da verdade surpreendente que se seguiu depois.

Decidi caminhar diretamente de volta para casa do meu tio, e o jantar já tinha terminado antes de eu ter tomado o meu banho e me ter vestido. Por isso, fiz a minha refeição sozinho, Davis, o grave mordomo antigo, servindo-me com aquela imponência que sempre me divertia. Normalmente conversava com ele quando outros não estavam presentes, mas naquela noite permaneci em silêncio, com a mente cheia daquele estranho e surpreendente assunto do qual eu era o único detentor do conhecimento secreto.

No dia seguinte, o corpo seria certamente encontrado; então, toda a região ficaria cheia de horror e surpresa. Seria possível que Leithcourt, aquele homem calmo, bem arranjado e de aspeto distinto, detivesse algum conhecimento da verdade macabra? Não. O seu modo de ser enquanto estava no salão, a conversar alegremente comigo, certamente não era o de um homem com um segredo culpado. Fiquei firmemente convencido de que, embora a tragédia o afetasse muito de perto, e que tinha ocorrido no local que ele visitava todos os dias para algum propósito misterioso, até ao momento ele desconhecia o que tinha acontecido.

Mas quem era a mulher? Era jovem ou velha?

Mil vezes lamentei amargamente não ter fósforos comigo para que pudesse examinar as suas feições.

Um pensamento súbito que me ocorreu enquanto eu estava sentado à mesa fez-me pousar o garfo e parar num pasmo ofegante. Seria a vítima aquela jovem de rosto doce cujo retrato fora tão impiedosamente arrancado da sua moldura e destruído? A teoria era estranha, mas seria a verdade?

Anseava pela chegada do amanhecer, quando os guardas de Rannoch certamente a descobririam. Então, pelo menos, eu saberia a verdade, pois poderia ir ver o corpo por curiosidade sem despertar qualquer suspeita.

Tentei jogar a minha habitual partida de bilhar com o meu tio, mas a minha mão estava tão instável que o velho cavalheiro começou a troçar de mim.

"É a espingarda, suponho", comentei. "Andei com ela o dia todo e estou exausto. Vim a pé desde Crossburn."

"Ouvi dizer que os Carmichael são muito chegados aos Leithcourt", observou o meu tio. "É estranho não terem convidado Leithcourt para a sua caçada."

"Convidaram, mas ele tinha outro compromisso... em Kenmure Castle, creio eu."

Retirei-me para o meu quarto naquela noite, cheio de uma apreensão febril. Teria agido bem ao não regressar àquele local solitário na crista da colina? Teria feito o que um homem deve fazer ao guardar para mim aquele segredo trágico?

Abri a janela e contemplei a escuridão de Nithsdale, onde, na penumbra distante, a linha negra do bosque se erguia contra o céu tempestuoso. As estrelas já não brilhavam e as nuvens de chuva tinham-se acumulado. Fiquei ali, com o rosto voltado para o ponto escuro e indistinto que guardava o segredo, perdido em assombro.

Finalmente fechei a janela e deitei-me, mas o sono não veio aos meus olhos, tão cheia estava a minha mente dos acontecimentos surpreendentes daqueles últimos meses e da descoberta macabra que eu fizera.

Ter-me-ia o fugitivo reconhecido? Provavelmente a minha voz, quando chamei, traiu-me. Hora após hora fiquei a matutar, tentando encontrar uma solução para aquele problema intrincado que agora se apresentava. Muriel poderia dizer-me o que eu desejava saber. Disso eu tinha a certeza. Contudo, ela não ousava falar. Algum terror inexprimível mantinha-a muda... ela estava noiva do homem, Martin Woodroffe.

Levantei-me novamente, acendi o gás e tentei ler um romance. Mas não conseguia concentrar os meus pensamentos, que vagueavam sempre para aquele estranho mistério do bosque. Às seis fiz a barba, desci e saí com os cães para uma curta caminhada; mas ao regressar não ouvi nada de invulgar e fui forçado a permanecer inativo até perto do meio-dia.

Eu estava a atravessar o pátio das cavalariças, onde tinha ido pedir a carruagem para a minha tia, quando um cavalariço inglês, emergindo subitamente da sala de arreios, tocou no boné, dizendo:

"Já ouviu, senhor, o caso terrível lá em cima?"

"De quê?", perguntei rapidamente.

"Bem, senhor, parece que houve um homicídio ontem à noite lá no bosque de Rannoch", disse o homem rapidamente. "Holden, o jardineiro, acabou de voltar daquela aldeia e diz que o subguarda-florestal do Sr. Leithcourt, quando ia para casa às cinco desta manhã, encontrou um cadáver."

"Um cadáver!", exclamei, fingindo grande surpresa.

"Sim, senhor... um homem jovem. Foi esfaqueado no coração."

"Um homem!"

"Sim, senhor... é o que diz o Holden."

"Chame o Holden. Gostaria de saber tudo o que ele ouviu", disse eu. E, pouco depois, quando o jardineiro saiu da estufa de uvas, procurei saber dele todos os pormenores que tinha reunido.

"Não sei muito, senhor", foi a resposta do homem. "Fui à estalagem tomar um copo de cerveja às onze, como faço sempre, e ouvi-os falar sobre isso. Um jovem foi assassinado ontem à noite lá no bosque de Rannoch. O guarda-florestal pensou primeiro que tinha havido uma luta entre caçadores furtivos, mas, pelas roupas do morto, dizem que não é caçador furtivo de todo, mas um estranho nesta região."

"O corpo era o de um homem, então?", perguntei, tentando esconder o meu total desconcertamento.

"Sim... cerca de trinta anos, dizem. A polícia levou-o para a morgue em Dumfries, e dizem que os detetives estão lá em cima agora a analisar o local."

Um homem! E, no entanto, o corpo que eu encontrei era o de uma mulher... disso eu poderia jurar.

Depois do almoço, peguei na charrete e conduzi sozinho até Dumfries.

Quando perguntei ao polícia de serviço na morgue da cidade se me permitia ver o corpo do homem assassinado, ele olhou para mim, julguei, com considerável suspeita. O meu pedido era invulgar. Contudo, levou-me por um beco estreito, destrancou uma porta e encontrei-me na câmara fria e lúgubre da morte. De uma pequena janela suja no alto, a luz caía sobre um objeto que jazia numa grande laje de pedra cinzenta, coberto por um lençol manchado.

A visão era horrível e macabra; o corpo jazia ali, aguardando a investigação oficial sobre a causa da morte. O silêncio do túmulo não era interrompido, exceto pelos passos pesados do polícia que, tendo retirado o capacete na presença do morto, levantou a ponta do lençol, revelando-me um rosto branco e rígido, com os olhos fechados e o maxilar caído.

Recuei quando os meus olhos pousaram naquela face morta. Eu estava totalmente despreparado para tal revelação. A verdade deixou-me atordoado.

A vítima era o homem que tinha agido como meu amigo... o empregado de mesa italiano, Olinto.

Aproximei-me e examinei os traços finos e inanimados, quase incapaz de compreender o facto real. Mas os meus olhos não me tinham enganado. Embora a morte distorça a expressão facial de qualquer homem, não tive dificuldade em identificá-lo.

"Reconhece-o, senhor?", observou o agente. "Quem é ele? O nosso pessoal está muito ansioso por saber, pois até ao presente momento não conseguiram estabelecer a sua identidade."

Mordi os lábios. Tinha sido um tolo absoluto ao trair-me perante aquele homem. Contudo, tê-lo feito, vi que qualquer tentativa de ocultar o meu conhecimento teria, necessariamente, de recair sobre mim.

"Falarei com o seu inspetor", respondi com a maior calma que pude reunir. "Onde foi ferido o pobre rapaz?"

"Através do coração", respondeu o polícia, enquanto, virando o lençol mais para baixo, me mostrava o pequeno ferimento de faca que tinha penetrado o casaco e o colete da vítima, bem no peito.

"Esta é a arma", acrescentou, tirando de uma prateleira próxima um punhal longo e fino com um cabo de marfim, que me entregou.

Num instante, reconheci o que era e quão mortal. Era uma antiga *misericordia* florentina, uma lâmina longa, fina e triangular, com um quarto de polegada de largura na parte mais larga, afunilando até uma ponta de agulha, com um punho de marfim amarelo, a mais mortífera e fatal de todas as adagas e punhais da Idade Média. A lâmina, sendo afiada em três ângulos, produzia um ferimento que causava hemorragia interna e que nunca cicatrizava... daí o nome que lhe foi dado pelos florentinos.

Ainda estava manchada de sangue, mas, ao tomar a coisa mortal na mão, vi que a sua lâmina estava belamente damasquinada, um espécime muito elegante de uma arma medieval. No entanto, certamente ninguém senão um italiano usaria tal arma, ou teria uma pontaria tão certeira para penetrar o coração.

E, contudo, a pessoa atingida era uma mulher, e não um homem!

Um ferimento de uma *misericordia* prova ser sempre fatal, porque a forma da lâmina corta a carne em pequenas abas que, ao retirar a faca, se fecham e impedem o sangue de sair. Ao mesmo tempo, porém, nenhum poder pode fazê-las cicatrizar novamente. Um golpe de tal arma é tão certamente fatal como o punhal envenenado dos Bórgia ou dos Médici.

Entreguei o estilete de volta ao homem sem comentários. A minha determinação era dizer o menos possível, pois não tinha desejo de figurar publicamente no inquérito e, consequentemente, anular todos os meus esforços para resolver o mistério dos Leithcourt e de Martin Woodroffe.

Regressei ao local onde a figura jazia tão macabra e imóvel, e olhei novamente pela última vez para o rosto morto do homem que me tinha servido tão bem, e que, contudo, me tinha atraído tão perto da morte. Neste último incidente havia um mistério profundo. Ele tinha cedido no último momento, a tempo de me salvar dos meus inimigos secretos.

Poderia ser que os meus inimigos fossem os dele? Teria ele caído vítima pela mesma mão que tentara, tão engenhosamente, matar-me?

Porque ia Leithcourt tão regularmente ao bosque de Rannoch? Seria para encontrar o homem que ia ser atraído para uma armadilha e morto? O que estava Olinto Santini a fazer tão longe de Londres, se não tivesse vindo expressamente para encontrar alguém em segredo?

Ao olhar para baixo, para a face fria e inanimada onde o mistério estava escrito, fui tomado pelo arrependimento. Tinha sido um servo fiel e honesto, e mesmo que me tivesse atraído àquela casa fatal em Lambeth, recordei as suas palavras, como o tinha feito sob coação. Lembrei-me também de como ele me implorou para não o julgar antes de conhecer todos os factos.

Com a minha própria mão cobri novamente o rosto com o lençol e, interiormente, resolvi vingar o crime covarde.

Lamentei ser obrigado a revelar o nome do morto à polícia, mas vi que fazer alguma declaração era agora inevitável e, portanto, acompanhei o polícia até ao escritório do inspetor, a alguma distância, do outro lado da cidade.

Tendo sido apresentado ao homem grande, de cabelos claros e vestido com um fato de *tweed* grosseiro, que aparentemente dirigia as investigações sobre o caso, ele levou-me ansiosamente para uma pequena sala nas traseiras e começou a questionar-me. Eu estava, contudo, cauteloso para não me comprometer com nada além da identificação do corpo.

"O facto é", disse eu confidencialmente, "que deve omitir-me das testemunhas no inquérito."

"Porquê?", perguntou o detetive com suspeita.

"Porque se se soubesse que fui eu a identificá-lo, qualquer hipótese de chegar à verdade desapareceria imediatamente", respondi. "Vim aqui para lhe dizer, na mais estrita confiança, quem é realmente o pobre rapaz."

"Então sabe alguma coisa sobre o caso?", disse ele, com um forte sotaque das Terras Altas.

"Não sei nada", declarei. "Nada exceto o seu nome."

"Hum. E diz que ele é estrangeiro... um italiano... eh?"

"Esteve ao meu serviço em Livorno durante vários anos e, ao deixar-me, veio para Londres e obteve um emprego como empregado de mesa num restaurante. O seu pai vivia em Livorno; era porteiro na Prefeitura."

"Mas porque estava ele aqui, na Escócia?"

"Como posso eu saber?"

"O senhor sabe alguma coisa sobre o assunto. Quero dizer, suspeita de alguém, ou não teria objeções em testemunhar no inquérito."

"Não tenho suspeitas. Para mim, o assunto é um enigma tão grande como para si", apressei-me logo a explicar. "O meu único receio é que, se o assassino soubesse que eu o identifiquei, ele teria o cuidado de não se trair."

"Acha, portanto, que ele se vai trair?"

"Espero que sim."

"Pelo facto de o homem ter sido atacado com um estilete italiano, pareceria que o seu agressor era um compatriota", sugeriu o detetive.

"As provas apontam certamente para isso", respondi.

"Não estará por acaso a par de alguém... algum estrangeiro, quero dizer... que fosse, ou pudesse ser, seu inimigo?"

Respondi pela negativa.

"Ah", continuou ele, "estes estrangeiros andam sempre a lutar entre si e a usar facas. Fiz dez anos de serviço em Edimburgo e fiz muitas detenções por brigas com facas. Os italianos, tal como os gregos, são um lote perigoso quando o sangue lhes sobe à cabeça." Depois acrescentou: "Pessoalmente, parece-me que o homem assassinado foi atraído de Londres até àquele local e friamente eliminado... por algum motivo de vingança, muito provavelmente."

"Muito provavelmente", disse eu. "Uma *vendetta*, talvez. Vivo em Itália e, por isso, conheço bem os italianos", acrescentei.

Tinha-lhe dado o meu cartão e dito com quem estava hospedado.

"Onde esteve ontem, senhor?", inquiriu pouco depois.

"Estava a caçar... do outro lado de Nithsdale", respondi, e depois continuei a explicar os meus movimentos, sem, contudo, mencionar a minha visita a Rannoch.

"E embora conheça o homem assassinado tão intimamente, não tem suspeita de ninguém nesta região que o conhecesse?"

"Não conheço ninguém que o conhecesse. Quando ele deixou o meu serviço, nunca tinha estado em Inglaterra."

"Diz que ele estava ao serviço em Londres?"

"Sim, num restaurante em Oxford Street, creio eu. Encontrei-o acidentalmente em Pall Mall uma noite, e ele contou-me isso."

"Não sabe o nome do restaurante?"

"Ele disse-me, mas infelizmente esqueci-me."

O detetive soltou um suspiro profundo de arrependimento.

"Alguém que o esperava no limite daquele bosque saiu e matou-o... isso é evidente", disse ele.

"Sem dúvida."

"E a minha convicção é que foi um italiano. Houve dois estrangeiros que dormiram numa pensão comum há duas noites e seguiram a pé em direção a Glasgow. Telegrafámos à procura deles e esperamos encontrá-los. Escoceses ou ingleses nunca usam uma faca daquele tipo."

Com a sua última observação, concordei inteiramente. Na minha própria mente, esse era o argumento mais forte a favor da inocência de Leithcourt. Que o inquilino de Rannoch tinha mantido aquele encontro secreto em paciência diária, eu sabia pelas minhas próprias observações, contudo, para mim, dificilmente parecia viável que ele usasse uma arma tão peculiarmente italiana e, no entanto, tão terrivelmente mortífera.

E depois, quando refleti mais, recordando-me de que o corpo que eu tinha descoberto era o de uma mulher e não de um homem, fiquei atordoado e desconcertado pelo enigma absolutamente inexplicável.

Prometi ao detetive corpulento que, em troca do seu segredo relativamente à minha declaração, eu ajudá-lo-ia de todas as formas possíveis na resolução do problema.

"O verdadeiro nome do homem assassinado deve ser, a todo o custo, ocultado", insisti. "Não deve aparecer nos jornais, pois sinto-me confiante de que apenas fingindo que ele é desconhecido podemos chegar à verdade. Se o nome dele for dado no inquérito, então o assassino saberá certamente que eu o identifiquei."

"E depois?"

"Bem", disse eu com alguma hesitação, "enquanto se acreditar que estou na ignorância, teremos oportunidade de obter a verdade."

"Então, o senhor suspeita realmente?", disse ele, olhando-me de novo com aqueles olhos azuis frios.

"Não sei de quem suspeitar", declarei. "É um mistério porque é que o homem que foi outrora o meu servo fiel haveria de ser atraído para aquele bosque e esfaqueado no coração."

"Não há ninguém nas redondezas que o conhecesse?"

"Não que eu saiba."

"Poderíamos obter a morada dele em Londres através do pai em Livorno", sugeriu o agente.

"Escreverei hoje, se assim o desejar", disse eu prontamente. "Na verdade, pedirei ao meu amigo, o Cônsul Britânico, que vá ver o velho e telegrafe a morada, se a obtiver."

"Excelente!", declarou ele. "Se nos fizer este favor, ficar-lhe-emos muito gratos. É uma sorte termos estabelecido a identidade da vítima... caso contrário, poderíamos estar completamente no escuro. Um estrangeiro assassinado é sempre, mais ou menos, um mistério."

Portanto, ali mesmo, peguei numa folha de papel e escrevi ao meu velho amigo Hutcheson, em Livorno, pedindo-lhe que fizesse um inquérito imediato ao pai de Olinto sobre a morada do seu filho em Londres.

Não disse nada à polícia sobre a minha estranha aventura em Lambeth, nem sobre como o homem agora morto me tinha salvo a vida. Que os seus inimigos eram os meus, ele tinha-me dito muito distintamente; por isso, senti alguma apreensão de que eu próprio não estivesse a salvo. No entanto, no bolso traseiro das calças, trazia sempre o meu revólver... tal como fazia em Itália... e orgulhava-me um pouco da minha capacidade de atirar com precisão.

Sentámo-nos durante muito tempo a discutir o estranho caso. Para não trair qualquer pressa em ir embora, ofereci ao grande habitante das Terras Altas um charuto da minha cigarreira, e fumámos juntos. O inquérito seria realizado no dia seguinte, disse-me ele, mas, no que dizia respeito ao público, o corpo permaneceria como o de uma pessoa "desconhecida".

"E é melhor não vir a casa do meu tio, nem enviar ninguém", disse eu. "Se desejar ver-me, envie-me uma linha e encontrar-nos-emos aqui em Dumfries. Será mais seguro."

O agente olhou para mim com aqueles olhos perspicazes e disse:

"Realmente, Sr. Gregg, confesso que não consigo percebê-lo bem. Parece estar apreensivo quanto à sua própria segurança. Porquê?"

"Os italianos são um povo muito curioso", respondi rapidamente. "A sua *vendetta* estende-se muito, às vezes."

"Então tem razões para acreditar que o inimigo deste pobre Santini pode ser também seu inimigo?"

"Nunca se sabe a quem ofendemos quando vivemos em Itália", ri-me, o mais levemente que pude, tentando acalmar a sua suspeita. "Ele pode ter caído sob a faca do assassino por dar uma ofensa muito pequena e possivelmente inocente a alguém. Os métodos italianos não são ingleses, sabe."

"Por Júpiter, senhor, e estou muito contente por não serem!", disse ele. "Não penso que a vida de um polícia seja muito segura entre todas essas sociedades secretas de homicidas sobre as quais li."

"Ah! O que lê sobre elas é, muitas vezes, muito exagerado", assegurei-lhe. "É a *vendetta* que é uma mancha tão grande no carácter do italiano moderno; e conte com isto: este caso no bosque de Rannoch é o resultado de alguma vingança ou outra... provavelmente por causa de um caso amoroso."

"Mas o senhor vai ajudar-nos, senhor?", insistiu ele. "O senhor conhece a língua italiana, o que será de grande vantagem; além disso, a vítima era seu criado."

"Seja discreto", disse eu. "E, em troca, farei os meus maiores esforços para o ajudar a caçar o assassino."

E assim fizemos o nosso pacto. Meia hora depois, eu conduzia a charrete sob a chuva torrencial, subindo a colina para fora da velha e cinzenta Dumfries, em direção a casa do meu tio.

Ao descer da carruagem e entregá-la a um cavalariço, o velho Davis, o mordomo, aproximou-se, dizendo em voz baixa:

"A menina Leithcourt está à sua espera, Sr. Gordon. Está na sala de estar, há uma hora. Pediu-me para não dizer a mais ninguém que ela está aqui, senhor."

"Então a minha tia não a viu?", exclamei, sentindo o mistério nesta visita inesperada.

"Não, senhor. Ela deseja vê-lo a sós, senhor."

Caminhei pelo grande hall e ao longo do corredor até à sala que o velho tinha indicado.

E, ao abrir a porta e Muriel Leithcourt, vestida de preto simples, se levantou para me receber, vi claramente, pelo seu semblante branco e exausto, que algo tinha acontecido... que ela tinha sido forçada pelas circunstâncias a vir ter comigo na mais estrita confiança.

Seria ela, interroguei-me, que estava prestes a revelar-me a verdade?

CAPÍTULO VI

O ACUMULAR DAS NUVENS

"Sr. Gregg", exclamou a rapariga com agitação, enquanto estendia a sua mão enluvada de preto, "eu... suponho que sabe... que ouviu tudo sobre a descoberta de hoje lá no bosque? Não preciso de lhe dizer nada sobre isso."

"Sim, menina Leithcourt, eu só gostaria que me contasse sobre isso", disse eu gravemente, convidando-a a sentar-se numa cadeira e sentando-me eu próprio. "Ouvi uma história extraordinária sobre um homem encontrado morto, mas estive em Dumfries quase todo o dia. Quem é o homem?"

"Ah! Isso não sabemos", respondeu ela, pálida e ansiosa. A sua atitude era como se desejasse confiar em mim e, ainda assim, hesitasse em fazê-lo.

"Davis diz-me que tem estado à minha espera há bastante tempo. Lamento que o tenha feito. Se tivesse deixado recado a dizer que desejava ver-me, ter-me-ia deslocado a sua casa de imediato."

"Não. Queria vê-lo a sós... é por isso que estou aqui. Não devem saber em casa que estive aqui, por isso pedi propositadamente ao homem para não me anunciar à sua tia."

"Deseja ver-me em privado", disse eu com uma voz baixa e sincera. "Porquê? Existe algum serviço que lhe possa prestar?"

"Sim. Um serviço muito grande", respondeu ela com uma prontidão ansiosa. "Eu... bem... o facto é que reuni coragem para vir ter consigo e suplicar-lhe que me ajude. Estou em grande aflição... e não tenho um único amigo em quem possa confiar... a quem possa confidenciar."

"Considerarei a maior das honras se confiar em mim", disse eu com profunda seriedade. "Posso apenas assegurar-lhe que serei leal aos seus interesses e a si própria."

"Ah! Acredito que o será, Sr. Gregg!", declarou ela com entusiasmo, os seus olhos grandes e escuros voltados para mim — os olhos de uma mulher em puro e amargo desespero. O seu rosto era perfeito, um dos mais belos que alguma vez contemplei. Quanto mais a via, maior era o fascínio que exercia sobre mim.

Fez-se silêncio entre nós enquanto ela permanecia sentada, com as mãos enluvadas pousadas ociosamente no regaço. Os seus lábios moviam-se nervosamente, mas nenhum som saía deles, tão agitada estava ela, tão ansiosa por me contar algo; e, contudo, relutante em conceder-me a sua confiança.

"Bem?", perguntei finalmente em voz baixa. "Estou inteiramente pronto para lhe prestar qualquer serviço, se apenas me der ordens."

"Ah! Mas temo que o que peço lhe pareça tão invulgar... que hesitará em agir quando eu explicar que serviço exijo de si", disse ela com dúvida.

"Não o poderei dizer até ouvir os seus desejos", disse eu, sorrindo, embora intrigado com a sua atitude.

"Diz respeito à terrível descoberta feita em Rannoch Wood", disse ela finalmente com uma voz rouca e nervosa. "Aquele homem desconhecido foi assassinado... esfaqueado no coração."

"Bem?"

"Bem", disse ela, mal acima de um sussurro, "tenho suspeitas."

"Quanto à identidade do homem assassinado?"

"Não. Quanto ao assassino."

Lancei-lhe um olhar penetrante e vi a expressão intensa nos seus olhos escuros e bem abertos.

"Acredita que sabe quem desferiu o golpe?"

"Tenho uma suspeita... é só isso. Apenas quero que me ajude, se quiser."

"Com certeza", respondi. "Mas, se acredita que conhece o assassino, provavelmente sabe algo sobre a vítima?"

"Apenas que parecia um estrangeiro."

"Então, a senhora viu-o?", exclamei, muito surpreendido.

O meu comentário fez com que ela retivesse a respiração por um instante. Depois respondeu, de forma algo pouco convincente, pareceu-me:

"Vi-o quando os guardas trouxeram o corpo para o castelo."

Ora, de acordo com o relato que tinha ouvido, a polícia tinha transportado o morto diretamente do bosque para Dumfries. Seria possível, portanto, que ela tivesse visto Olinto antes de ele ter encontrado o seu fim súbito?

Tive receio de pressioná-la por uma explicação naquele momento, mas, ainda assim, a admissão de que o tinha visto pareceu-me um facto muito peculiar.

"Julga-o um estrangeiro?", comentei o mais casualmente que pude.

"Pelos seus traços e tez, adivinhei que fosse italiano", respondeu ela rapidamente, ao que fingi expressar surpresa. "Vi-o depois de os guardas o terem encontrado."

"Além disso", continuou ela, "o estilete era evidentemente italiano, o que faria quase parecer que um estrangeiro foi o assassino."

"Essa é a sua própria suspeita?"

"Não."

"Porquê?"

Ela hesitou um momento, depois, numa voz baixa e ansiosa, disse:

"Porque já vi essa faca de três gumes na posse de outra pessoa."

"Essa é uma prova bastante forte", declarei. "A pessoa em questão terá de provar que não estava em Rannoch Wood ontem à noite, ao cair do dia."

"Como sabe que foi feito ao cair do dia?", perguntou ela rapidamente com alguma surpresa, levantando-se parcialmente da cadeira.

"Apenas presumi que o fosse", respondi, censurando-me interiormente pela minha admissão inoportuna.

"Ah!", disse ela com um leve suspiro, "há mais mistério neste assunto do que aquele que ainda descobrimos, Sr. Gregg. O que, pergunto-me, trouxe o infeliz jovem até ao nosso bosque?"

"Um encontro, sem dúvida. Mas com quem?"

Ela abanou a cabeça, dizendo:

"O meu pai vai frequentemente àquele local caçar pombos ao fim da tarde. Disse-nos isso ao almoço de hoje. Que sorte ele não ter estado lá ontem à noite, ou poderia ser suspeito."

"Sim", disse eu. "É uma circunstância muito afortunada, pois não pode ser uma experiência agradável estar sob suspeita de ser um assassino. Ele esteve em casa ontem à noite, não esteve?", acrescentei casualmente.

"Claro. Não se lembra de que, quando o senhor nos visitou, ele conversou consigo? Fiz algum trabalho de dactilografia para ele no escritório e estivemos juntos toda a tarde... ou pelo menos até quase às cinco horas, quando fomos para o vestíbulo tomar o chá."

"Então, qual é a sua teoria sobre o caso?", indaguei, algo intrigado por ela apresentar tão decisivamente um álibi para o pai.

"Parece certo que o pobre rapaz foi ao bosque para um encontro e foi morto. Mas tem ido ao local desde a descoberta do corpo?"

"Não. A senhora tem?"

"Sim. O assunto interessou-me e, assim que reconheci a velha faca italiana na mão do guarda, fui lá e dei uma vista de olhos. Ainda bem que o fiz, pois encontrei algo que parece ter escapado à atenção dos detetives."

"E o que é?", perguntei ansiosamente.

"Bem, a cerca de três metros da poça de sangue onde o infeliz estrangeiro foi encontrado, existe outra pequena poça de sangue onde a erva e os fetos em redor estão todos esmagados, como se ali tivesse havido uma luta."

"Pode ter havido uma luta nesse local, e o homem pode ter cambaleado alguma distância antes de cair morto."

"Não se tivesse sido atingido no coração, como dizem. Ele cairia, não cairia?", sugeriu ela. "Não. A polícia parece muito obtusa e este facto evidente ainda não lhes ocorreu. A teoria deles é a mesma que o senhor sugere, mas a minha é algo bastante diferente, Sr. Gregg. Acredito que uma segunda pessoa também foi vítima", acrescentou num tom baixo e distinto.

Olhei para ela boquiaberto. Será que, interroguei-me, ela sabia a verdadeira verdade? Estaria ela ciente de que a mulher que ali tinha tombado desaparecera?

"Uma segunda pessoa!", ecoei, como se estivesse surpreendido. "Então, acredita que foi cometido um duplo homicídio?"

"Tiro a minha conclusão do facto de que o jovem, ao ser atingido no coração, não poderia ter percorrido uma distância tão grande como a que separa uma marca da outra."

"Mas ele poderia ter sido ligeiramente ferido... na mão ou no rosto... primeiro, e depois, no local onde foi encontrado, atingido fatalmente", sugeri.

Ela abanou a cabeça com dúvida, mas não respondeu ao meu argumento. A sua confiança nas suas próprias suposições tornava bastante evidente que, por algum meio desconhecido, ela tinha conhecimento da segunda vítima. De facto, momentos depois, disse-me:

"É por esta razão, Sr. Gregg, que o procurei em confiança. Ninguém pode saber que vim aqui ter consigo, ou suspeitariam; e se a suspeita recaísse sobre mim, trar-me-ia um destino pior do que a morte. Lembre-se, portanto, de que o meu futuro está inteiramente nas suas mãos."

"Não compreendo bem", disse eu, levantando-me e permanecendo diante dela no crepúsculo que se desvanecia, enquanto a chuva batia nos antigos vidros em forma de diamante. "Mas posso apenas assegurar-lhe que, qualquer que seja a confiança que deposita em mim, nunca a abusarei, Srta. Leithcourt."

"Eu sei, eu sei!", disse ela rapidamente. "Confio implicitamente no senhor neste assunto. Vim ter consigo por muitas razões, sendo a principal delas o facto de que, se uma segunda vítima caiu sob a mão do assassino, essa pessoa é, eu sei, uma mulher."

"Uma mulher! Quem?"

"Por agora não lhe posso dizer. Devo primeiro estabelecer os factos verdadeiros. Se esta mulher foi realmente abatida, então o seu corpo jaz escondido algures nas redondezas. Temos de encontrá-lo e levar o crime à porta do culpado."

"Mas, se tivermos sucesso em encontrá-lo, poderemos deitar a mão ao assassino?", perguntei, olhando diretamente para ela.

"Se o encontrarmos, o crime contará a sua própria história... condenará a pessoa em cuja mão vi aquela arma fatal", foi a sua resposta clara e ousada.

"Então deseja que eu a ajude nesta busca, Srta. Leithcourt?", disse eu, perguntando-me se as suas suspeitas recaíam sobre aquele misterioso iatista, Philip Hornby, o homem com quem ela estava noiva.

"Sim, rogar-lhe-ia que fizesse o seu melhor, em segredo, para tentar descobrir o corpo da segunda vítima. É uma mulher... disso tenho a certeza. Encontre-a, e seremos então capazes de levar o crime à porta do assassino."

"Mas a minha busca pode atrair suspeitas sobre mim", comentei. "Será difícil examinar todo o bosque sem despertar a curiosidade de alguém... do guarda ou da polícia."

"Já pensei nisso", disse ela. "Vou fingir amanhã que perdi esta pulseira-relógio no bosque", e ergueu o pulso fino para me mostrar o pequeno relógio esmaltado engastado na sua pulseira. "Depois, o senhor e eu procurá-la-emos diligentemente, e a polícia nunca suspeitará da verdadeira razão da nossa investigação. Amanhã escrever-lhe-ei contando-lhe sobre a minha perda, e o senhor virá a Rannoch e oferecer-se-á para me ajudar."

Fiquei em silêncio por um momento.

"O Sr. Woodroffe está de volta ao castelo? Ouvi dizer que regressaria hoje."

"Não. Recebi uma carta dele de Bordéus há uma semana. Ele ainda está no Continente. Acredito, aliás, que foi à Rússia, onde por vezes tem negócios."

"Fiz-lhe a pergunta, Srta. Muriel, porque pensei que, se o Sr. Woodroffe estivesse aqui, ele poderia opor-se a que pesquisássemos na companhia um do outro", expliquei, sorrindo.

As suas faces coraram ligeiramente, como se estivesse confusa com a minha referência ao seu noivado, e disse maliciosamente:

"Não vejo porque haveria de se opor, de todo. Se é tão amável a ponto de me ajudar a procurar a minha pulseira, ele deveria certamente estar-lhe muito agradecido."

Estava na ponta da língua explicar àquela rapariga de olhos escuros e belos as circunstâncias em que encontrei o seu amante na ensolarada costa do Mediterrâneo, contudo a prudência proibiu-me de referir o assunto, e aceitei imediatamente com agrado o seu convite para investigar o curioso desaparecimento do corpo da vítima que acompanhava o pobre Olinto.

Que conhecimento secreto poderia possuir aquela rapariga elegante e bela diante de mim? Que as suas suspeitas estavam na direção certa, sentia-me confiante; contudo, se a mulher morta tinha sido removida e escondida pelo assassino, deve ter sido após a descoberta feita por mim. O sujeito deve ter tido a audácia de regressar ao local e levar a vítima. Ainda assim, se ele tivesse feito isso, porque permitiu que o cadáver do italiano permanecesse e aguardasse a descoberta? Poderia, talvez, ter sido perturbado e forçado a garantir a sua fuga.

"Se a mulher foi realmente removida, o assassino deve certamente ter tido alguma assistência", apontei. "Ele não poderia ter transportado o corpo muito longe sem ajuda."

Ela concordou comigo, mas expressou a crença de que o duplo crime tinha sido cometido sozinho e sem auxílio.

"Tem alguma ideia quanto ao motivo?", perguntei-lhe, ansioso por ouvir a sua resposta.

"Bem", respondeu ela hesitante, "se a mulher foi vítima, o motivo tornar-se-á claro; mas se não, então o assunto terá de permanecer um mistério completo."

"Diz-me, Srta. Muriel, que suspeita da verdade, e ainda assim nega todo o conhecimento do homem assassinado!", exclamei num tom de leve reprovação.

"Até termos esclarecido o mistério da mulher, não posso dizer nada", foi a sua resposta. "Posso apenas dizer-lhe, Sr. Gregg, que, se o que suspeito for verdade, então o caso revelar-se-á um dos mais estranhos, mais surpreendentes e mais engenhosos estratagemas alguma vez concebidos por um homem contra a vida de outro."

"Então, pensa que um homem é o assassino?", exclamei rapidamente.

"Acredito que sim. Mas nem disso tenho a certeza. Temos primeiro de encontrar a mulher."

Ela parecia tão positiva de que uma mulher também tinha tombado sob aquela mortífera *misericordia* que me pus a pensar se ela, tal como eu, tinha descoberto o corpo e estava, portanto, certa de que um segundo crime tinha sido cometido. Mas não tentei questioná-la mais, com receio de que as suas próprias suspeitas pudessem ser despertadas. A minha própria política era permanecer em silêncio e esperar. A mulher sentada diante de mim era, ela própria, um mistério.

Depois, quando a chuva abrandou, disse a Davis que mandasse a sua carruagem subir um pouco a estrada principal, para que a minha tia e o meu tio não a vissem partir; e, depois de a ajudar com o seu casaco largo, saímos por uma das entradas dos criados, e eu acompanhei-a até à sua carruagem alta e permaneci de cabeça descoberta na estrada lamacenta enquanto ela partia para a escuridão.

* * * * *

Rannoch Wood já estava na sua glória dourada e acastanhada do outono, e enquanto eu estava com Muriel Leithcourt no limite do bosque, perto do local onde Olinto Santini tinha caído, o sol da manhã brilhava num céu sem nuvens.

Fiel à sua promessa, ela tinha-me enviado um bilhete por um dos cavalariços pedindo-me para ajudar a procurar a sua pulseira, e eu tinha conduzido imediatamente até Rannoch e encontrara-a sozinha à minha espera. O grupo de caça tinha ido para uma parte distante da propriedade, pelo que pudemos passear juntos colina acima e iniciar as nossas investigações sem letargo nem impedimento. Ela estava vestida sensatamente com uma saia curta de *tweed*, botas altas de caça e um gorro *tam-o'-shanter*, enquanto eu também vestia um fato de caça antigo e levava um bastão grosso e funcional com o qual podia sondar locais prováveis.

À chegada ao bosque, perguntei-lhe a sua opinião sobre qual seria o canto mais provável, mas ela respondeu:

"Conheço tão pouco este lugar, Sr. Gregg. O senhor conhece-o há anos, enquanto esta é apenas a minha primeira temporada aqui."

"Muito bem", respondi. "Coloquemo-nos na posição do assassino, que provavelmente conhecia o bosque e desejava esconder um corpo nas redondezas sem correr o risco de o transportar para longe. Deste lado, o esquerdo, o bosque foi desbastado durante quase oitocentos metros e, portanto, oferece pouca cobertura, enquanto aqui, à direita, declina suavemente para o vale e é muito denso e parcialmente impenetrável. Não pode, portanto, ter havido duas opções abertas para ele. Ele procuraria um lugar provável à direita. Comecemos aqui e façamos primeiro um pequeno círculo, examinando cada arbusto cuidadosamente. O corpo pode ter sido facilmente empurrado para debaixo de um matagal e escapar bem à observação."

E assim, juntos, depois de nos orientarmos, partimos, trabalhando o nosso caminho para o denso sub-bosque, batendo com os nossos bastões e fazendo um exame minucioso de cada arbusto ou monte de folhas mortas. Em certas partes, as grandes árvores frondosas bloqueavam a luz, tornando as nossas investigações muito difíceis; mas continuámos, a minha companheira avançando com uma ânsia que mostrava que o facto de o corpo da mulher estar ali não era uma mera suposição.

Durante toda a manhã caminhámos, com as mãos profundamente arranhadas por silvas. Nem mesmo as luvas grossas de Muriel a protegiam totalmente, e uma vez, quando recebeu um arranhão feio na face, ela parou e exclamou a rir:

"Que inverdade devo inventar agora para explicar isto?"

O meu próprio casaco estava muito rasgado, e mais de uma vez fui obrigado a abrir caminho através de matagais quase intransponíveis; contudo, não encontrámos qualquer rasto de algum intruso anterior e, tendo completado o nosso círculo, fomos forçados a admitir que a prova macabra do segundo crime não existia naquele local.

Mais de uma vez senti-me meio inclinado a dizer-lhe como tinha descoberto o corpo da mulher, mas, refletindo, previ que, em tais circunstâncias, o silêncio era o melhor. Se eu desejava resolver o enigma estranho e complicado que culminara num duplo crime, seria necessário guardar os meus próprios pensamentos e permanecer paciente e vigilante.

Quando Hutcheson respondesse de Livorno, e quando eu descobrisse onde Olinto estava empregado, poderia talvez seguir as pistas a partir dessa ponta. Poderia encontrar a sua esposa Armida e aprender algo de importante com ela. Por isso, estava esperançoso e, devido a essa esperança, permaneci em silêncio.

Muriel era incansável na sua atividade. Para cá e para lá ela ia, batendo os fetos altos e emaranhados de ervas daninhas, sondando com o seu bastão cada buraco e recanto, e indo cada vez mais fundo no bosque, na certeza de que o corpo lá estava escondido.

Pela minha parte, no entanto, não estava muito otimista quanto ao sucesso. A parte do bosque que já tínhamos esgotado parecia ser o ponto mais provável. Transportar o corpo para longe exigiria assistência e, na minha própria mente, acreditava que o crime tinha sido obra de uma só pessoa. Não havia caminho no bosque naquela direção, mas logo chegámos a uma ravina profunda e arborizada, cuja existência eu desconhecia. Era uma espécie de pequeno vale através do qual corria um riacho, mas as margens estavam cobertas por um denso sub-bosque impenetrável de onde brotavam muitas árvores antigas e belas, um lugar que aparentemente existia há séculos sem perturbações, pois aqui e ali um tronco gigante que tinha apodrecido e caído jazia atravessado na margem, ou tinha rebolado para o leito rochoso lá muito em baixo.

"Este é um lugar muito provável", declarou a minha pequena e elegante companheira à medida que nos aproximávamos. "Qualquer coisa poderia ser facilmente escondida naquele feto alto lá em baixo. Vamos pesquisar todo o vale de uma ponta à outra", gritou ela com entusiasmo.

Agindo segundo a sua sugestão e sem pensar no almoço, fizemos a descida da margem íngreme até alcançarmos o leito rochoso do riacho e, depois, saltando de pedra em pedra — por vezes escorregando para dentro da água, diga-se de passagem — começámos a bater os fetos e a examinar cuidadosamente cada arbusto. O progresso não era rápido. Uma vez, a rapariga, ágil e atlética como era, escorregou de uma pedra coberta de musgo para um buraco onde a água lhe chegava aos joelhos. Mas ela apenas riu alegremente do acidente e, torcendo a saia molhada, disse:

"Não importa minimamente, se apenas encontrarmos o que estamos à procura."

E depois, destemida, continuou, saltando de pedra em pedra e equilibrando-se com o seu bastão. Se pudéssemos apenas descobrir o corpo da mulher morta, então o resto estaria claro, declarou ela. Denunciaria abertamente o assassino.

À medida que avançávamos, revolvia na minha mente todas as circunstâncias curiosas em relação ao assunto surpreendente, e recordei as palavras do meu velho amigo Jack Durnford quando estávamos no convés do *Bulwark* e eu lhe tinha relatado a visita do iate misterioso. Eu também tinha deixado um esforço por tentar, e censurei-me por o ter ignorado. Não tinha solicitado àquele fotógrafo de Bond Street o nome e o endereço do original da fotografia que tinha sido mutilada e destruída... aquela rapariga com os olhos magníficos que tanto me tinham atraído.

A tarde passou e, ainda assim, não fomos bem-sucedidos. Eu estava fraco de fome e sede, mas a minha companheira não se queixou uma única vez. A sua energia era maravilhosa... e, contudo, não estava ela a caçar um criminoso? Não estava ela determinada a obter provas tais que lhe permitissem dizer a verdade sem medo, e com a confiança de que isso teria o efeito de condenar o culpado?

Lentamente, esforçámo-nos por subir o pitoresco pequeno vale durante quase dois quilómetros e meio. As suas belezas eram extraordinárias, e o silêncio não era quebrado, salvo pela ondulação musical da água sobre as pedras. Escondido ali, no centro daquele grande bosque, talvez ninguém o tivesse visitado durante anos, nem mesmo os guardas, pois nenhum caminho conduzia lá, e devido ao emaranhado de silvas e arbustos era totalmente inacessível. De facto, tinha arruinado as nossas roupas pesquisar ali, e à medida que avançávamos com tantas voltas e reviravoltas, ficámos completamente desorientados. Sabíamos que estávamos no centro do bosque, mas era tudo.

O sol tinha se posto, e o céu acima mostrava o carmesim do brilho longínquo, alertando-nos de que era hora de começarmos a pensar em como efetuar a nossa saída. Estávamos a contornar uma curva acentuada no vale, onde os penedos estavam tão densamente cobertos de musgo que os nossos pés caíam sem ruído, quando pensei ouvir uma voz e, levantando a mão, ambos parámos subitamente.

"Alguém está ali", sussurrei rapidamente. "Atrás daquela rocha." Ela acenou afirmativamente, pois também ela ouvira a voz.

Escutámos, mas o som não se repetiu. Que alguém estava do outro lado da rocha, eu sabia, pois numa árvore das redondezas um tordo saltava de galho em galho, soltando o seu grito de alarme e protestando por ser perturbado.

Por conseguinte, rastejámos silenciosamente para a frente, juntos, para verificar quem eram os intrusos. A única maneira, contudo, de obter uma visão para além da enorme rocha que, tendo caído sobre o riacho séculos atrás, desviara o seu curso, era trepar pelos seus lados musgosos até ao cume. Fizemo-lo com avidez e sem fôlego, sem trair a nossa presença pela pronúncia de uma única palavra.

Para alcançar o lado do penedo, fomos forçados a caminhar pela água rasa, mas Muriel, de todo destemida, saltou agilmente ao meu lado e, de comum acordo, subimos a rocha íngreme, agarrando a sua face escorregadia com as mãos e estendendo-nos rente ao chão ao chegarmos ao cume.

Então, juntos, espreitámos, apenas, contudo, a tempo de ver duas figuras escuras de homens a desaparecer no matagal do lado oposto do vale.

"Quem serão, pergunto-me?" perguntei. "Reconhece-os?"

"Não. São completos estranhos para mim", foi a sua resposta. "Mas parecem bastante bem vestidos. Talvez dois desportistas de algum grupo de caça na vizinhança. Provavelmente perderam o caminho."

"Mas não creio que carregassem armas", disse eu. "Um deles tinha algo sobre o ombro?"

"Não era uma arma? Pensei que fosse."

"Não, ele não a carregava como carregaria uma arma. Era curta — e parecia mais uma pá."

"Uma pá!" ela ofegou rapidamente em voz baixa. "Uma pá! Tem a certeza disso?"

"Não, de todo. Apenas tivemos um vislumbre instantâneo deles. Infelizmente, chegámos demasiado tarde para os ver face a face."

"As costas de um dos homens, o sujeito alto de fato castanho, eram largas e quadradas — as costas de alguém que me é familiar, só que, no momento, não consigo recordar de quem se assemelha." Ela falava apenas num sussurro, receando que fôssemos descobertos.

Ansiava por descer a correr e perseguir os intrusos, só que a convicção de que um deles carregava uma pá e o outro uma barra de ferro pareceu-me curiosa, enquanto, ao mesmo tempo, o meu olhar detetou uma parte do solo abaixo de nós, na base da rocha, que fora evidentemente perturbado recentemente.

"É uma pá que o homem carrega!" exclamei excitado. "Olhe lá para baixo! Eles acabaram de enterrar algo!"

Os seus olhos rápidos seguiram a direção que indiquei, e ela respondeu:

"Acredito mesmo que eles ocultaram algo!"

Então, quando permitimos que os homens se afastassem do alcance da audição, ambos descemos para o outro lado do penedo e ali descobrimos muitos sinais de que a terra fora escavada apressadamente e acabara de ser reposta.

Mais depressa do que leva a descrever o incidente excitante que se seguiu, partimos o ramo de uma árvore e com ele começámos a mover a terra recém-perturbada, que ainda estava macia e fácil de remover.

Muriel encontrou um ramo morto nas redondezas, e ambos pusemo-nos a trabalhar com vontade, ansiosos por averiguar o que estava ali escondido. Que algo fora certamente ocultado era, para nós, bastante evidente, mas o que era na realidade não podíamos supor. O buraco que cavaram não parecia grande o suficiente para admitir um corpo humano, contudo, folhas tinham sido cuidadosamente espalhadas sobre o local que, se abordado de qualquer outro ponto que não o alto de onde o tínhamos visto, não suscitaria qualquer suspeita de que o solo tivesse alguma vez sido mexido.

Cavar com um pedaço de madeira era um trabalho duro e laborioso e demorou muito tempo até removermos terra suficiente para fazer um buraco de qualquer dimensão. Mas Muriel exerceu toda a sua energia, e ambos trabalhámos num silêncio obstinado, cheios de admiração e antecipação. Com uma pá, teríamos conseguido investigar rapidamente, mas a terra, tendo aparentemente sido calcada com força antes da última cobertura ser colocada sobre ela, o nosso progresso foi muito lento e difícil.

Por fim, cerca de um quarto de hora depois de termos começado, Muriel, de pé no buraco e tendo cravado a sua estaca profundamente no chão, exclamou subitamente:

"Olhe! Olhe, Sr. Gregg! Ora... o que será aquilo?"

Inclinei-me para a frente conforme ela indicou, e os meus olhos encontraram um objeto tão inesperado que fiquei mudo e imóvel.

Pelo que tínhamos conseguido descobrir, o mistério aumentara em vez de diminuir.

Dei largas a uma exclamação de completo desnorteio e olhei, perplexo, para o rosto da minha companheira.

O enigma espantoso estava certamente completo!

CAPÍTULO VII

CONTÉM UMA SURPRESA

O primeiro objeto trazido à luz, a cerca de sessenta centímetros abaixo da superfície, foi um pedaço de tecido de lã cinzento-escuro que, quando a terra foi removida, provou ser parte da saia de uma mulher.

Com ânsia frenética, entrei no buraco que tínhamos feito e removi o solo com as minhas mãos, até que toquei subitamente em algo duro.

Um corpo jazia ali, dobrado e esmagado dentro do buraco profundo que os homens tinham cavado.

Juntos puxámo-lo para fora, quando, para minha surpresa, ao limpar a sujidade dos traços duros e cerosos, reconheci-o como o corpo de Armida, a mulher que fora minha criada em Leghorn e que depois casara com Olinto. Ambos tinham sido assassinados!

Quando Muriel fitou o rosto da mulher morta, soltou uma expressão de surpresa. O corpo não era, evidentemente, o da pessoa que ela esperava encontrar.

"Quem será ela, pergunto-me?" exclamou a minha companheira. "Não é uma dama, evidentemente, pelo seu vestido e mãos."

"Evidentemente que não", foi a minha resposta, pois ainda considerava melhor manter a minha própria opinião. Recordei a história que Olinto me contara sobre a sua esposa; da sua doença e do seu desejo de regressar a Itália. Contudo, o semblante da mulher morta devia ter sido saudável o suficiente em vida, embora as suas mãos fossem ásperas e duras, mostrando que ela realizava trabalho manual.

Armida tinha sido uma criada de servir particularmente boa, uma toscana de cabelos pretos e olhos pretos, rápida, asseada e cheia de um agudo sentido de humor. Foi um grande choque para mim encontrá-la ali morta. O peito do seu vestido estava manchado com sangue seco, que, ao examinar, descobri ter jorrado de uma ferida profunda e fatal sob a orelha, onde ela fora atingida por um golpe certeiro que cortara a artéria.

"Aqueles homens... aqueles homens que a enterraram! Pergunto-me quem seriam?" a minha companheira exclamou numa voz abafada. "Devemos segui-los e averiguar. São certamente os assassinos que regressaram em segredo e ocultaram as provas deste segundo crime."

"Sim", disse eu. "Vamos atrás deles. Eles não nos podem escapar."

Então, deixando o corpo exumado sob uma árvore, agarrei Muriel pela cintura e atravessei a vau o canal profundo cavado pelo riacho naquele ponto, após o que ambos subimos a margem íngreme onde o par desaparecera na escuridão do bosque.

Culpei-me mil vezes por não os ter seguido, contudo, as minhas suspeitas não tinham sido despertadas até depois de terem desaparecido. As costas do homem no fato cor de rapé eram, ela sentia-se confiante, familiares para ela. Ela repetiu o que já me tinha dito, contudo não conseguia lembrar-se de onde vira uma figura semelhante antes.

Seguimos através da floresta sombria, pois a luz tinha desvanecido e a noite aproximava-se agora. De tempos a tempos, parámos e escutámos. Mas havia um silêncio mortal, quebrado apenas pelo grito agudo de uma ave noturna e o roçar suave das folhas ao vento de outono. Os homens conheciam o seu caminho, ao que parecia, mesmo que o bosque fosse sem trilhos. Contudo, eles tinham quase vinte minutos de avanço sobre nós, e nesse tempo poderiam já estar em campo aberto. Conseguiriam eles escapar-nos? Mas mesmo que conseguissem, eu podia descrever o traje de um deles, enquanto o do seu companheiro era, tanto quanto consegui perceber, azul-escuro, de um corte algo náutico. Ele usava também um boné plano, com pala.

Seguimos em frente, dirigindo-nos diretamente para a charneca aberta que sabíamos limitar os bosques naquela direção, e antes que a luz tivesse desvanecido por completo, encontrámo-nos entre a urze com as colinas distantes a erguerem-se escuras contra o horizonte. Mas não vimos sinal dos homens que tinham tão secretamente ocultado o corpo da sua vítima.

"Levá-la-ei de volta ao castelo, Srta. Leithcourt", disse eu. "E depois continuarei para Dumfries e ver a polícia. Estes homens devem ser presos."

"Sim, faça isso", ela instou. "Entrarei na casa pelo pátio das cavalariças, pois não devem ver-me neste estado terrível."

O caminho era acidentado, por isso, a meu convite, ela tomou o meu braço, e ao fazê-lo senti que ela tremia.

"A senhorita está muito molhada", observei. "Espero que não se constipe."

"Oh! Estou habituada a ficar molhada. Conduzo e ando de bicicleta muito, sabe, e muitas vezes fico encharcada", foi a sua resposta. Depois, após uma pausa, ela disse: "Devemos descobrir quem era aquela mulher. Ela parece, pela sua compleição e cabelo, ser estrangeira, como o homem."

"Sim, creio que sim", foi a minha resposta. "Direi à polícia tudo o que descobrimos, e eles irão lá em breve e recuperarão o corpo."

"Se eles apenas conseguirem encontrar aqueles dois homens, então saberíamos a verdade", declarou ela. "Um deles — aquele de castanho — era invulgarmente largo de ombros, e parecia caminhar com uma ligeira curvatura."

"A senhorita esperava descobrir outra mulher, não era, Srta. Leithcourt?" perguntei pouco depois, enquanto caminhávamos através da charneca.

"Sim", respondeu ela. "Esperava encontrar uma pessoa completamente diferente."

"E se a tivesse encontrado, isso teria provado a culpa de alguém com quem a senhorita é familiarizada?"

Ela acenou afirmativamente.

"Então, o que encontrámos esta noite não lhe transmite a identidade dos assassinos?"

"Não, infelizmente não. Devemos, por enquanto, deixar o assunto nas mãos da polícia."

"Mas se a identidade da mulher morta for estabelecida?" perguntei.

"Poderia fornecer-me uma pista", exclamou ela rapidamente. "Sim, tente descobrir quem ela é."

"Quem era a mulher que esperava encontrar?"

"Uma amiga — uma amiga muito querida."

"Não me dirá o seu nome?" indaguei.

"Não, seria injusto para ela", respondeu ela decisivamente, uma resposta que para mim era particularmente atormentadora.

Seguimos em frente em silêncio, os nossos pensamentos demasiado cheios para palavras. Não seria estranho que o misterioso iatista fosse o seu amante, e mais estranho ainda que, ao reconhecer-me, ele tivesse escapado, não apenas da Escócia, mas para o Continente?

Não seria isso, por si só, prova de culpa e medo?

Estava bastante escuro quando me despedi da minha brilhante companheira, que, exausta e contudo sem se queixar, apertou a minha mão e desejou-me boa sorte nas minhas investigações.

"Esperarei por si amanhã à tarde. Venha e conte-me tudo, sim?"

Prometi, e então ela desapareceu no grande pátio das cavalariças atrás do castelo, enquanto eu continuei estrada abaixo, na escuridão, e depois atravessei os campos abertos para a casa do meu tio.

Às nove e meia daquela noite, parei a charrete diante da esquadra principal da polícia em Dumfries, e ao descer procurei imediatamente o grande e louro Highlander, Mackenzie, com quem tivera a consulta no dia anterior.

Quando estávamos sentados na sua sala sob o bico de gás sibilante, relatei a minha aventura e o resultado da minha investigação.

"O quê?" gritou ele, saltando. "Desenterrou outro corpo — o de uma mulher?"

"Fiz. E mais, consigo identificá-la", respondi. "Chama-se Armida, e era esposa do homem assassinado, Olinto Santini."

"Então tanto o marido como a mulher foram mortos?"

"Sem dúvida — uma dupla tragédia."

"Mas os dois homens que ocultaram o corpo! Descreva-mos, por favor."

Fi-lo, e ele escreveu conforme o meu ditado, comentando depois —

"Temos de os encontrar." E chamando um dos seus subinspetores, deu-lhe instruções para a circulação imediata da descrição a todas as esquadras da polícia no condado, dizendo que os dois homens eram procurados por uma acusação de homicídio voluntário.

Quando o oficial saiu novamente e ficámos a sós, Mackenzie virou-se para mim e perguntou —

"O que o levou a revistar o bosque? Por que suspeitou de um segundo crime?"

A sua pergunta deixou-me confuso por um momento.

"Bem, vê, eu tinha identificado o jovem Olinto, e sabendo que ele era casado e devotado à sua esposa, suspeitei que ela o tivesse acompanhado até aqui. Foi inteiramente uma suposição vaga. Perguntei-me se, caso o pobre rapaz tivesse caído vítima dos seus inimigos, ela também não teria sido abatida."

Os seus lábios estavam cerrados em clara insatisfação. Sabia que a minha explicação era muito pouco convincente, mas, a todo o custo, eu não podia envolver o nome de Muriel no caso. Tinha-lhe dado a minha promessa, e pretendia mantê-la.

"Então o corpo ainda está no vale, onde o deixou?"

"Sim. Se desejar, levá-lo-ei ao local. Posso levar o senhor e o seu assistente lá acima."

"Certamente. Vamos", exclamou ele, levantando-se imediatamente e tocando a campainha.

"Arranje três boas lanternas e alguns fósforos, e coloque-os na charrete deste cavalheiro lá fora", disse ele ao agente que respondeu ao seu chamado. "E diga a Gilbert Campbell que quero que ele vá comigo até Rannoch Wood."

"Sim, senhor", respondeu o homem; e a porta fechou-se novamente.

"É uma pena — mil penas, Sr. Gregg, que não tenha detido aqueles dois homens que enterraram o corpo."

"Eles já tinham atravessado o riacho e desaparecido no matagal antes de eu subir à rocha", expliquei. "Além disso, no momento, não tive suspeitas do que eles tinham estado a fazer. Acreditei que fossem retardatários de um grupo de caça vizinho que tinham perdido o caminho."

"Ah, o mais lamentável!" disse ele. "Espero que não nos escapem. Se são estrangeiros, não é provável que consigam fugir. Mas se são ingleses ou escoceses, então temo que haja pouca hipótese de os alcançarmos. Ontem, no inquérito, a identidade do homem assassinado foi estritamente preservada, e a averiguação foi adiada por quinze dias."

"Naturalmente o meu nome não foi mencionado?" disse eu.

"Naturalmente que não", foi a resposta do detetive. Depois perguntou: "Quando espera receber um telegrama do seu amigo, o Cônsul em Leghorn? Estou ansioso por isso, para que possamos começar as averiguações em Londres."

"Depois de amanhã, espero. Ele responderá certamente de imediato, desde que o pai do homem morto ainda possa ser encontrado."

E nesse momento um homem alto e magro, que se revelou ser o detetive Campbell, entrou, e cinco minutos depois estávamos os três a conduzir sobre os paralelos irregulares de Dumfries e para fora, na escuridão, em direção a Rannoch.

Estava nublado e sem estrelas, com uma névoa fria pairando sobre o vale; mas o cavalo do meu tio era veloz, e cedo começámos a subir a colina para lá do castelo, e depois, virando à esquerda, conduzimos ao longo de uma estrada secundária íngreme e irregular que conduzia ao sul do bosque e para fora, através da charneca. Quando chegámos a esta última, descemos todos, e eu conduzi o cavalo, pois devido aos muitos pântanos traiçoeiros não era seguro conduzir mais longe. Assim, com Mackenzie e Campbell a carregar lanternas, caminhámos cuidadosamente, contornando o bosque por quase uma milha até chegarmos ao muro irregular sobre o qual eu trepara com Muriel.

Reconheci o local e, tendo atado o cavalo, mergulhámos os três na escuridão total do bosque, seguindo em frente na direção do vale, e parando de vez em quando para escutar o murmúrio do riacho.

Por fim, após alguma dificuldade, descobrimo-lo, e procurando ao longo da margem com as nossas três lanternas potentes, detetei pouco depois o enorme penedo coberto de musgo sobre o qual eu estivera quando o par de fugitivos desaparecera.

"Olhem!" gritei. "É ali o local!" E rapidamente trepámos pela margem íngreme, descendo pelos ramos das árvores até chegarmos à água, na qual entrei, sendo seguido de perto pelos meus dois companheiros.

Ao ganhar o lado oposto, trepei para a base do penedo e baixei a minha lanterna para lhes revelar as provas macabras do segundo crime, mas no instante seguinte gritei —

"Ora! Desapareceu!"

"Desapareceu!" ofegaram os dois homens.

"Sim. Estava aqui. Olhem! Este é o buraco onde eles o enterraram! Mas eles evidentemente regressaram e, encontrando-o exumado, retomaram a posse dele e levaram-no!"

Os dois detetives fitaram o local onde indiquei, e depois olharam um para o outro sem trocar uma palavra.

Enquanto ali estávamos estupefactos com o desaparecimento do corpo, o olhar rápido do Highlander detetou algo, e curvando-se, apanhou-o e examinou o pequeno objeto com a ajuda da sua lanterna.

Dentro da sua palma vi repousar uma pequena cruz de ouro, com cerca de dois centímetros de comprimento, esmaltada a vermelho, enquanto no centro havia uma miniatura circular de um santo ajoelhado, um berloque elegante e belamente executado que poderia ter adornado a pulseira de uma dama.

"Esta é uma coisinha bonita!" comentou o detetive. "Poderá possivelmente levar-nos a algo. Mas, Sr. Gregg", acrescentou ele, voltando-se para mim, "tem a certeza absoluta de que deixou o corpo aqui?"

"Certeza?" ecoei. "Ora, olhe para o buraco que fiz. Não pensa que tenho qualquer interesse em levá-los aqui numa missão de tolos, pois não?"

"De modo algum", disse ele em tom de desculpa. "Apenas todo o caso parece tão inconcebível — quero dizer, que os homens, tendo uma vez livrado-se da prova do seu crime, dificilmente regressariam ao local e retomariam a posse dele."

"A menos que eles me tenham visto exumá-lo, e receassem as consequências se caísse nas vossas mãos", sugeri.

"Naturalmente, eles poderiam ter observado o senhor de trás das árvores, e quando partiu, vieram e levaram-no para outro lugar", comentou ele duvidosamente; "mas mesmo que tenham feito, deve estar neste bosque. Eles nunca arriscariam levar um corpo muito longe, e aqui é certamente o melhor lugar de ocultação em todo o condado."

"A única coisa que resta é revistar o bosque ao amanhecer", sugeri. "Se os dois homens regressaram aqui durante a minha ausência, podem ainda estar de vigia nas redondezas."

"Muito provavelmente estão. Devemos tomar todas as precauções", disse ele decisivamente. E então, com as nossas lanternas baixas, fizemos uma averiguação das redondezas, sem, contudo, descobrir mais nada que nos fornecesse uma pista. Enquanto eu estivera ausente, o corpo da infeliz Armida desaparecera — um facto que, sabendo tudo o que sabia, era duplamente misterioso.

O par tinha, sem dúvida, vigiado Muriel e a mim, e assim que nos tínhamos ido, tinham regressado e levado os restos mortais horríveis da pobre mulher que fora tão vilmente morta.

Mas quem eram os homens — o sujeito com os ombros largos que Muriel reconheceu, e o marinheiro esguio no seu casaco de piloto e boné de pala? O enigma a cada hora tornava-se cada vez mais inescrutável.

Ao amanhecer, Mackenzie, com quatro dos seus homens, fez uma averiguação minuciosa do bosque, mas embora continuassem até ao anoitecer, nada descobriram, nem se ouviu falar do misterioso marinheiro e do seu companheiro de fato de lã castanho.

Visitei Muriel como combinado, e expliquei como o corpo tinha desaparecido tão subitamente, ao que ela me fitou pálida, dizendo —

"Os assassinos devem ter-nos vigiado! Eles estão cientes, então, de que temos conhecimento do seu crime?"

"Claro", disse eu.

— "Sim."

Depois disto, ele recusou-se a dizer mais uma palavra. Tentei de todas as formas extrair dele a razão do medo que tinham de mim, mas ele manteve-se obstinadamente em silêncio. Deixei-o lá, perto de Royal Oak, e tomei um táxi de regresso ao hotel, sentindo-me mais perplexo do que nunca. A presença de Olinto, vivo e saudável em Londres, enquanto o seu duplo jazia frio e sem vida na distante Escócia, era um mistério que desafiava a própria razão. E a sua esposa, Armida, desaparecida na mesma altura em que o homem no bosque encontrou a morte?

As peças do puzzle pareciam encaixar-se de forma terrível. Leithcourt, a sua filha, o marinheiro, o homem de fato castanho, e agora esta estranha conexão com o restaurante polaco... tudo apontava para uma conspiração de proporções assustadoras. Senti uma mão invisível a apertar-se à volta da minha garganta. Eu era o alvo, e eles não hesitariam em eliminar qualquer um que se atravessasse no seu caminho.

Regressei ao meu quarto, exausto, com a mente a fervilhar. A única coisa certa era que eu não podia continuar a agir às cegas. Precisava de provas concretas contra Leithcourt, mas como obtê-las sem arriscar a minha própria vida ou a de Muriel? Pois, apesar de tudo, eu sentia que ela também estava encurralada, prisioneira do seu próprio pai e dos seus terríveis segredos.

Na manhã seguinte, decidi procurar novamente o detetive Mackenzie. Se ele estava em Londres, como eu suspeitava, talvez pudesse partilhar comigo o que os seus homens tinham descoberto nas vizinhanças do restaurante de Odinzoff. Saí cedo, caminhando pelas ruas ainda cobertas por uma névoa matinal, sentindo que, em cada esquina, um par de olhos me seguia.

À medida que o dia avançava, uma sensação de urgência dominava-me. Eu sabia que o tempo estava a esgotar-se. O "assassinato" no bosque tinha sido apenas o prelúdio de algo muito maior, e eu, infelizmente, tinha-me tornado, de alguma forma, o centro de toda aquela teia de intrigas e morte. Olinto sabia algo que podia salvar-nos a todos, mas o medo impedia-o de falar. O que seria que eles escondiam, capaz de levar homens ao homicídio sem qualquer remorso?

— Ele não é seu amigo. Estou perfeitamente ciente disso.

— E a filha dele? Ela está noiva, ouvi dizer.

— Creio que sim.

— Onde conheceu Leithcourt pela primeira vez?

— Conheço-o há vários anos. Quando nos conhecemos, ele era pobre.

— De repente tornou-se rico, eh?

— Comprou uma bela casa no campo; vive principalmente no Carlton quando ele, a esposa e a filha estão em Londres — embora eu acredite que agora tenham uma casa algures no West End — e ele faz frequentemente longos cruzeiros no seu iate a vapor.

— E como é que ele fez a sua fortuna?

Mais uma vez, Olinto encolheu os ombros, sem responder.

Se ele apenas me revelasse a razão pela qual tinha sido induzido a atrair-me para aquela casa, talvez eu pudesse chegar a alguma conclusão sobre os inquilinos de Rannoch e os seus amigos.

Quem era o homem que, tendo representado o homem que agora estava diante de mim, tinha sido morto por uma mão infalível? Seria possível que Armida tivesse sido chamada por telegrama para encontrar-se com o marido e, reconhecendo a fraude perpetrada contra ela, ameaçado revelá-la e, por essa razão, partilhado o mesmo destino que o impostor?

Esta foi a primeira teoria que me ocorreu; uma que eu acreditava ser a correta. O motivo era um mistério, contudo os factos pareciam-me bastante claros.

Como o jovem italiano se recusou a dar qualquer explicação satisfatória, resolvi esperar até que o corpo da infeliz mulher fosse recuperado antes de lhe revelar a verdade tenebrosa. Sem dúvida, ele tinha alguma razão para me ocultar os factos verdadeiros, quer porque temia que eu ficasse indevidamente alarmado, quer porque ele próprio estivesse profundamente implicado na conspiração. Das duas sugestões, estava inclinado a acreditar na última.

Ele caminhou comigo até ao fim de Bishop's Road, tentando, com toda a diplomacia requintada dos italianos, obter de mim o que eu sabia a respeito dos Leithcourt. Mas não lhe disse nada, nem revelei que tinha regressado da Escócia apenas naquela manhã. Por fim, separámo-nos e ele refez o caminho até ao pequeno restaurante em Westbourne Grove, enquanto eu entrei num hansom e dirigi-me ao conhecido fotógrafo em New Bond Street, cujo nome estava na fotografia rasgada da jovem de blusa de piqué branca e cabelo preso com um laço de fita preta, a fotografia que eu tinha encontrado a bordo do Lola naquela noite memorável no Mediterrâneo, e cuja duplicata eu tinha visto no quarto acolhedor de Muriel em Rannoch.

Recordei-me de que ela me tinha dito que o nome da pessoa da fotografia era Elma Heath, e que tinha sido colega dela em Chichester. Por isso, perguntei à empregada do fotógrafo se ela me poderia fornecer uma cópia do negativo.

Durante bastante tempo, ela procurou o nome nos seus livros e, finalmente, encontrou-o. Então disse:

— Lamento, senhor, que não possamos dar-lhe uma cópia, pois o cliente comprou o negativo na altura.

— Ah, lamento muito isso — disse eu. — Para que endereço o enviaram?

— O cliente que o encomendou era aparentemente estrangeiro — disse ela, enquanto virava o livro de registo para que eu pudesse ler. E vi que a entrada era: "Heath — Srta. Elma — 3 dúzias de retratos de gabinete e negativo. Endereço: Barão Xavier Oberg, Vosnesenski Prospect 48, São Petersburgo, Rússia."

— Este cavalheiro veio com a jovem quando o seu retrato foi tirado? — indaguei.

— Não lhe sei dizer, senhor — respondeu ela. — Só estou aqui há um ano, e veja a data — há mais de dois anos.

— O fotógrafo saberia, talvez?

— Ele é um homem novo, senhor. Só veio há um mês. De facto, o negócio mudou de mãos há um ano, e nenhum dos empregados anteriores permaneceu.

— Ah! isso é lamentável — disse eu, muito desapontado; e, tendo copiado o endereço para onde o negativo e as cópias tinham sido enviados, agradeci-lhe e saí.

Quem seria, perguntava-me eu, este Barão Oberg, e que relação tinha ele com Elma Heath?

A fotografia da rapariga de blusa branca exercia de alguma forma uma estranha atração sobre mim.

Nunca experimentou o fascínio de uma fotografia, inexplicável e, no entanto, forte — uma espécie de magnetismo do qual não se consegue libertar? Talvez tenha sido o facto curioso de alguém a ter tirado da moldura a bordo do Lola e destruído que despertou o meu interesse pela primeira vez; ou talvez tenha sido a descoberta dela no quarto de Muriel em Rannoch. De qualquer forma, tinha para mim um interesse absorvente, pois muitas vezes interrogava-me se a rapariga desconhecida que tinha desembarcado secretamente do iate quando eu o deixei não seria a própria Elma Heath.

Quem era este Barão Oberg? O nome era alemão, sem dúvida, mas ele vivia na capital russa. De Londres a Petersburgo é um longo caminho, mas resolvi que, se fosse necessário, viajaria até lá e investigaria.

Na Embaixada Alemã, em Carlton House Terrace, encontrei o meu amigo Capitão Nieberding, o segundo secretário, a quem perguntei se o nome do Barão Oberg era conhecido, mas, após consultar vários livros alemães na biblioteca de Sua Excelência, ele regressou e disse-me que o nome não aparecia nas listas da nobreza alemã.

— Ele pode ser russo — polaco, muito provavelmente — acrescentou o capitão, um sujeito alto e louro de óculos de ouro, que eu conhecia desde quando ele era terceiro secretário da Embaixada em Roma. A sua opinião era que não se tratava de um nome alemão, pois existia um pequeno lugar chamado Oberg, disse ele, na linha férrea entre Lodz e Lowicz.

Depois, após o almoço, fui até Albany Road, uma daquelas ruas melancólicas e antiquadas que eram agradáveis no início da era vitoriana, quando Camberwell era um subúrbio e Walworth Common ainda era um terreno baldio. Encontrei a casa onde Olinto vivia — uma pequena habitação geminada, enegrecida pelo fumo, situada atrás de uma minúscula faixa de jardim coberto de ervas daninhas, com uma varanda de madeira diante das janelas do primeiro andar. A casa, segundo a mulher que geria uma mercearia na esquina, era ocupada por duas famílias. Os "Eye-talians", como ela lhes chamava, viviam em cima, enquanto os Gibbons alugavam o rés-do-chão.

— Oh, sim, senhor. Os estrangeiros são bastante respeitáveis. Pagam-me sempre a pronto por tudo, menos pelo leite. Esse pagam-no semanalmente.

— Tenho ideia de que a esposa desapareceu. O que ouviu sobre isso?

— Dizem, senhor, que eles tiveram algumas palavras um com o outro no outro dia, e que a mulher se foi embora num acesso de raiva. Mas não se pode acreditar em tudo o que se ouve, sabe.

— Eles discutiam frequentemente?

— Não que eu saiba, senhor. Eram pessoas realmente muito calmas e respeitáveis para estrangeiros.

Passei novamente pela casa da mulher morta e, depois, recuperando a movimentada Camberwell Road, apanhei um autocarro de volta para o Hotel Cecil, no Strand, onde me tinha instalado, cansado e desapontado.

No dia seguinte, fui a Chichester e, após alguma dificuldade, encontrei o Cheverton College for Ladies, uma grande casa antiquada a cerca de oitocentos metros da cidade, na Drayton Road. O seminário era, evidentemente, de primeira classe, pois, ao entrar, notei como tudo estava bem conservado.

À diretora, uma senhora idosa com um aspeto um tanto severo, disse:

— Lamento, senhora, incomodá-la, mas estou à procura de informações que a senhora pode fornecer. É a respeito de uma certa Elma Heath que teve como aluna aqui, e que partiu, creio eu, há cerca de dois anos. Os pais dela viviam em Durham.

— Lembro-me dela perfeitamente — foi a resposta da mulher enquanto se sentava atrás da grande secretária, tendo aparentemente esperado, a princípio, que eu tivesse uma filha para matricular na escola.

— Bem — disse eu —, houve algum pequeno atrito na família, e estou a fazer perguntas em nome de outro ramo da mesma — uma tia que deseja averiguar o paradeiro da rapariga.

— Ah, lamento, senhor, que não lhe possa dizer isso. O Barão, o seu tio, veio aqui um dia e levou-a subitamente — para o estrangeiro, creio eu.

— Ela não tinha nenhuma amiga da escola a quem provavelmente escrevesse?

— Havia uma rapariga chamada Leithcourt — Muriel Leithcourt — que era amiga dela, mas que também já partiu.

— E mais ninguém? — perguntei. — As raparigas escrevem muitas vezes umas às outras depois de deixarem a escola, até se casarem, e depois a correspondência geralmente cessa.

A diretora ficou silenciosa e reflexiva.

— Bem — disse ela finalmente —, havia outra aluna que também tinha uma relação amigável com a Elma — uma rapariga chamada Lydia Moreton. Ela pode ter escrito para ela. Se realmente deseja saber, senhor, atrevo-me a dizer que poderia encontrar o endereço dela. Ela deixou-nos cerca de nove meses depois da Elma.

— Consideraria um grande favor se me desse o endereço dessa jovem — disse eu, ao que ela destrancou uma gaveta da sua secretária e tirou de lá um livro grosso, encadernado em couro, que consultou durante alguns minutos, exclamando finalmente:

— Sim, aqui está — "Lydia Moreton, filha de Sir Hamilton Moreton, K.C.M.G., Whiston Grange, Doncaster". E rabiscou-o a lápis num envelope e, entregando-mo, disse:

— Elma Heath era, receio, um pouco negligenciada pelos pais. Permaneceu aqui durante cinco anos e não teve férias como as outras raparigas. O seu tio, o Barão, veio vê-la várias vezes, mas em cada ocasião, depois de ele partir, encontrava-a a chorar em segredo. Ele era mesquinho e indelicado para com ela. Agora que me recordo, lembro-me de que a Lydia disse que tinha recebido uma carta dela; portanto, talvez ela lhe possa dar alguma informação.

E com isto despedi-me, agradecendo-lhe, e regressei a Londres.

Poderia Lydia Moreton fornecer alguma informação? Se sim, eu poderia encontrar esta rapariga cuja fotografia tinha despertado o ciúme irado do misterioso desconhecido.

O expresso de Edimburgo das dez horas, vindo de King's Cross, levou-me na manhã seguinte até Doncaster e, alugando uma carruagem velha e bolorenta na estação, conduzi três quilómetros para fora da cidade pela Rotherham Road, descobrindo que Whiston Grange era uma bela e antiga mansão elisabetana no centro de um grande parque, com chaminés antigas, altas e retorcidas, e jardins magnificamente cuidados.

Quando desci à porta e toquei, o criado não sabia se a Srta. Lydia estava. Ele olhou para mim com alguma suspeita, pensei, até que lhe entreguei o meu cartão e lhe sublinhei, de forma significativa, que tinha vindo de Londres propositadamente para ver a sua jovem senhora sobre um assunto muito importante.

— Diga-lhe — disse eu — que desejo vê-la a respeito da sua amiga, a Srta. Elma Heath.

— Srta. Elma 'Eath — repetiu o homem. — Muito bem, senhor. Quer caminhar por aqui?

E então segui-o através do grande e antigo vestíbulo com painéis de carvalho, repleto de troféus de caça e armas das guerras civis, para uma pequena sala com painéis à esquerda, cuja janela profunda, com vidros em forma de diamante, dava para o antigo campo de bowling e para o jardim de flores lá fora.

Pouco depois, a porta abriu-se e uma rapariga alta e de cabelos escuros, vestida de branco, entrou com uma expressão interrogativa no rosto, parando e fazendo uma vénia para mim.

— Srta. Lydia Moreton, creio eu? — comecei, e como ela respondeu afirmativamente, continuei: — Tenho, antes de mais, de pedir desculpa por vir incomodá-la, mas a Srta. Sotheby, a diretora da escola em Chichester, encaminhou-me a si para obter informações sobre o paradeiro atual da Srta. Elma Heath, que, creio eu, era uma das suas amigas mais íntimas na escola. — E acrescentei uma mentira, dizendo: — Estou a tentar, em nome de uma tia dela, descobri-la.

— Bem — respondeu a rapariga —, recebi apenas uma ou duas cartas. Ela está nas mãos do seu tio, creio eu, e ele não a deixa escrever, pobre rapariga. Ela receava deixar-nos.

— Porquê?

— Ah! ela nunca dizia. Tinha um terror profundo do seu tio, o Barão Oberg, que vivia em São Petersburgo e que vinha em longos intervalos vê-la. Mas possivelmente sabe a história toda?

— Não sei nada — exclamei ansiosamente. — Estará a promover os interesses dela, bem como a fazer-me um grande favor pessoal, se me disser o que sabe.

— É muito pouco — respondeu ela, recostando-se contra a borda da mesa e olhando para mim seriamente. — Pobre Elma! Os seus familiares trataram-na muito mal, de facto. Não lhe enviavam dinheiro e não lhe permitiam férias, e ainda assim ela era a rapariga mais doce e paciente de toda a escola.

— Bem — e a história a respeito dela?

— Supunha-se que os seus familiares em Durham não existiam — explicou ela. — Elma tinha vivido, evidentemente, a maior parte da sua vida no estrangeiro, pois falava francês e italiano melhor do que o próprio professor e, portanto, ganhava sempre os prémios. A turma revoltou-se e, então, ela não competiu mais. No entanto, ela nunca nos disse onde tinha vivido quando criança. Ela vinha de Durham, dizia ela — era tudo.

— Recebeu uma carta dela depois de o Barão vir e levá-la?

— Sim, de Londres. Ela disse que tinha ido a várias peças de teatro e concertos, mas que não gostava da vida na cidade. Havia demasiada agitação e ruído e estudo de roupas.

— E que outras cartas recebeu dela?

— Três ou quatro, creio eu. Eram todas de lugares no estrangeiro. Uma foi de Viena, outra de Milão e uma de um lugar com um nome impronunciável na Hungria. A última...

— Sim, a última? — arquejei ansiosamente, interrompendo-a.

— Bem, a última recebi-a apenas há quinze dias. Se esperar um momento, vou buscá-la. Foi tão estranha que não a destruí. — E ela saiu, e ouvi pelo roçar das suas saias que estava a subir as escadas.

Após cinco minutos de ansiedade de cortar a respiração, ela juntou-se a mim e, entregando-me a carta para ler, disse:

— Não está na caligrafia dela — pergunto-me porquê?

O papel era de fabrico estrangeiro, com linhas azuis marcadas em quadrados. Escrito com uma letra que era, evidentemente, estrangeira, pois os erros de ortografia eram muitos, estava a seguinte comunicação curiosa:

"Minha querida Lydia:

Talvez nunca recebas esta carta — a última que poderei enviar-te. De facto, corro grandes riscos ao enviá-la. Ah! tu não sabes o desastre horrível que me aconteceu, todos os terrores e as torturas que suporto. Mas ninguém me pode ajudar, e estou agora à espera do momento em que tudo terminará. Lembras-te dos nossos velhos dias de paz no jardim de Chichester? Penso neles sempre, sempre, e comparo essa doce paz do passado com os meus próprios sofrimentos terríveis de hoje. Ah, como gostaria de te ver mais uma vez; como gostaria de sentir a tua mão na minha testa e ouvir as tuas palavras de esperança e encorajamento! Mas a felicidade está-me agora vedada, e estou apenas a afundar-me na sepultura sob esta lenta tortura do corpo e da alma.

Isto passará por muitas mãos antes de chegar ao correio. Se, contudo, alguma vez for expedida e tu a receberes, far-me-ás um último favor — um favor a uma rapariga infeliz que não tem amigos nem ajuda, e que já não incomodará o mundo? É este: leva esta carta a Londres e visita o Sr. Martin Woodroffe, em 98 Cork Street, Piccadilly. Mostra-lhe a minha carta e diz-lhe, da minha parte, que, apesar de tudo, cumpri a minha promessa e que o segredo continua a salvo. Ele entenderá — e saberá também porque não posso escrever isto com a minha própria mão. Se ele estiver no estrangeiro, guarda-a até que ele regresse.

É tudo o que te peço, Lydia, e sei que, se isto chegar até ti, não me recusarás. Foste a minha única amiga e confidente, mas agora digo-te adeus, pois o desconhecido chama-me, e da sepultura não posso escrever. Mais uma vez adeus, e para sempre.

Tua amiga carinhosa e afetuosa,

Elma."

— Uma carta muito estranha, não é? — observou a rapariga ao meu lado. — Não a consigo entender. Vês que não há endereço, mas o carimbo postal é russo. Ela está evidentemente na Rússia.

— Na Finlândia — disse eu, examinando o selo e percebendo que a cidade de origem era Abo. — Mas já foste a Londres e cumpriste esta estranha missão?

— Não. Vamos lá na próxima semana. Pretendo visitar essa pessoa chamada Woodroffe.

Não fiz comentários. Ele estava, eu sabia, no estrangeiro, mas senti-me feliz por ter obtido duas pistas muito importantes: primeiro, o endereço do misterioso iatista, Woodroffe, alcunha Hornby, e, segundo, a constatação de que a jovem que eu procurava estava algures nas proximidades da cidade de Abo, o porto finlandês no Báltico.

— Pobre Elma, vês, fala na sua carta de algum segredo, Sr. Gregg — disse a minha companheira. — Ela diz que deseja que este Sr. Woodroffe, seja ele quem for, saiba que cumpriu a sua promessa e não o divulgou. Isto apenas confirma o que eu sempre suspeitei.

— Quais são as suas suspeitas?

— Bem, pelo seu comportamento profundo e pensativo, e por certos comentários que ela por vezes me fazia, acredito que a Elma está na posse de algum grande e terrível segredo — um segredo que o seu tio, o Barão Oberg, deseja conhecer. Sei que ela tem um medo mortal dele — ela tem terror de, inadvertidamente, lhe revelar a verdade!

CAPÍTULO IX

SÃO FEITAS ESTRANHAS REVELAÇÕES

A estranha carta de Elma Heath, combinada com o que Lydia Moreton me tinha dito, despertou em mim a determinação de investigar o mistério. Desde o momento em que desembarquei do Lola naquela noite quente e sem fôlego em Livorno, mistério sobre mistério tinha-se acumulado até ser tudo desconcertante.

Estava agora provado que a rapariga de rosto doce, a original da fotografia rasgada, detinha um segredo e que, pelas suas próprias palavras, ela sabia que a morte se aproximava. A tentativa incompreensível contra a minha vida, as estranhas ações de Hornby e Chater — que, aliás, pareciam ter desaparecido completamente —, o assassinato do homem que, ao disfarçar-se de empregado de mesa italiano, encontrou a morte, e o homicídio da esposa de Olinto eram todos problemas que exigiam solução.

Se não fosse pelo mistério de tudo aquilo — e o mistério desperta sempre a curiosidade humana — teria desistido de tentar chegar à verdade. Contudo, como um homem com algum tempo livre, e sabendo por aquela carta de Elma Heath que ela estava em grande sofrimento, redobrei os meus esforços para averiguar a razão de tudo aquilo.

O mistério do Lola continuava a ser um mistério ao longo do Mediterrâneo. Em todos os portos franceses e italianos, o nome falso do iate e a sua construção geral estavam registados nos livros da polícia, enquanto no Lloyd's o nome Lola estava marcado como uma das embarcações misteriosas no mar.

Chater estava desaparecido, enquanto Hornby estava no estrangeiro. Talvez ambos estivessem a navegar novamente, com o seu iate pintado de novo e com um nome fresco. Mas porquê? Qual teria sido o seu motivo?

Estimulado pelo mistério total que agora parecia envolver a infeliz rapariga, estabeleci para mim mesmo a tarefa de o elucidar. Até então, eu tinha permanecido passivo em vez de ativo, mas percebi agora, por aquela carta curiosa, que pelo menos a vida de uma mulher estava em jogo — que Elma Heath estava na posse de algum segredo.

Ao deixar Livorno, tinha perdido toda a esperança de localizar o misterioso iatista e tinha deixado o assunto nas mãos da polícia italiana. Mas, sem qualquer esforço da minha parte, parecia ter sido arrastado para uma verdadeira rede de incidentes estranhos, todos os quais combinados para formar o enigma mais completo e notável alguma vez apresentado na vida. Certamente, nenhum homem foi alguma vez confrontado por tantos mistérios ao mesmo tempo como eu estava neste momento.

Felizmente, tive o cuidado de não mostrar o meu jogo a ninguém, e isto, talvez, deu-me uma vantagem distinta. Na minha viagem de regresso a Londres, enquanto o comboio oscilava através de Peterborough e em direção às ricas terras planas em direção a Hitchin, recordei-me das palavras de Jack Durnford quando mencionei o Lola. O que seria, interrogava-me eu, que ele sabia?

No mês seguinte, em novembro, ele deveria regressar a Londres após os seus três anos de serviço na estação do Mediterrâneo. Então encontrar-nos-íamos dentro de poucas semanas, esperava eu. Será que ele me diria alguma coisa quando se apercebesse de tudo o que eu sabia? Ele possuía algum conhecimento secreto. Seria possível que o seu segredo fosse o mesmo que o da infeliz rapariga na distante e melancólica Finlândia?

Visitei a casa em Cork Street indicada por Elma e soube, pelo velho comissário que servia como ascensorista e porteiro, que os aposentos do Sr. Woodroffe estavam fechados.

"'Ele está quase sempre fora, senhor — no estrangeiro, creio eu", foi tudo o que consegui obter do velho soldado, que, como os da sua classe, era sem dúvida muito bem pago para manter a boca fechada.

Durante dois dias, vagueei por Westbourne Grove a observar o restaurante de Ferrari. Numa via tão movimentada e agitada, com tantas montras como desculpa para o ócio, a tarefa foi fácil. Vi que Olinto aparecia regularmente às dez horas da manhã, trabalhava arduamente todo o dia e saía às nove horas da noite, apanhando um autocarro para casa em Royal Oak. O seu exterior era calmo e indiferente, ao contrário do de um homem cuja esposa dedicada tinha desaparecido.

Eu tê-lo-ia abordado e explicado a terrível verdade, se não fosse pelo facto de o corpo da pobre mulher estar desaparecido.

Aqueles dias de setembro foram cheios de ansiedade para mim. Sozinho e sem auxílio, tentava resolver um dos maiores problemas, mergulhado como estava num verdadeiro mar de mistério. Queria ver Muriel Leithcourt e questioná-la mais a fundo sobre Elma Heath. Por isso, deixei novamente Euston e, viajando durante a noite, tomei o meu lugar à mesa do pequeno-almoço em Greenlaw na manhã seguinte.

Sir George, que estava sentado sozinho — não sendo hábito da minha tia aparecer cedo —, deu-me as boas-vindas e, com o seu jeito rude, fungou e exclamou:

"Bons acontecimentos lá em Rannoch! Já ouviste falar deles?"

"Não. O quê?", exclamei sem fôlego, olhando para ele.

"Bem, as minhas suspeitas de que aqueles Leithcourt eram uns estranhos totais revelaram-se bastante corretas."

"Porquê?"

"Bem, é uma história muito engraçada e há uma dúzia de versões distorcidas diferentes", disse ele. "Mas, pelo que consegui apurar, os factos verdadeiros são estes: por volta das sete horas da noite de anteontem, enquanto Leithcourt e os seus convidados se vestiam para o jantar, chegou um telegrama. A Sra. Leithcourt abriu-o e entrou imediatamente em histeria, enquanto o seu marido, com uma pressa ofegante, despia o seu traje de noite e vestia um velho fato de sarja azul, atirou algumas coisas para uma mala e foi até ao quarto de Muriel para a instar a preparar-se para uma fuga secreta."

"Fuga!", exclamei, pasmado. "Como, eles foram-se embora?"

"Ouve, e eu conto-te. Os criados descreveram todo o caso na aldeia, por isso não há dúvida nenhuma. Leithcourt mostrou o telegrama a Muriel e instou-a a fugir. A princípio ela recusou, mas, pelo bem do pai, foi induzida a preparar-se para o acompanhar. Claro que os convidados nada sabiam disto. A carruagem foi mandada preparar no pátio das cavalariças e não para ir à frente, enquanto a criada da Sra. Leithcourt tentava trazer a senhora de volta à razão. O próprio Leithcourt, ao que parece, corria de um lado para o outro, agarrando os estojos de joias da esposa e da filha e todos os objetos de valor que conseguia encontrar, enquanto a mãe e a filha vestiam os seus agasalhos. Ao correr pela escadaria principal em direção à biblioteca, onde o seu talão de cheques e algum dinheiro vivo estavam trancados no cofre, encontrou um estranho que tinha acabado de ser admitido e conduzido à sala. Leithcourt fechou a porta e enfrentou-o. O que aconteceu depois, contudo, é um mistério, pois duas horas mais tarde, depois de ele e as duas mulheres terem escapado, deixando os convidados entregues às suas próprias distrações, o estranho foi encontrado trancado num grande armário e insensível. A sensação foi tremenda. Cowan, o médico, foi chamado e declarou que o estranho tinha sido drogado e sofria os efeitos de algum narcótico. O criado que o admitiu declarou que o homem tinha dito que tinha uma marcação com o patrão e que não era necessário cartão. Ele deu, no entanto, o nome de Chater."

"Chater!", gritei, levantando-me. "Tens a certeza desse nome?"

"Só sei o que Cowan me disse", foi a resposta do meu tio. "Mas tu conheces o homem?"

"De todo. Só que já ouvi esse nome antes", disse eu. "Conheci um homem em Itália com o mesmo nome. Mas onde está o visitante agora?"

"No hospital de Dumfries. Levaram-no para lá, preferindo a deixá-lo sozinho em Rannoch."

"Sozinho?"

"Claro. Todos partiram, agora que o anfitrião e a anfitriã fugiram sem dizer adeus. Caso escandaloso, não é? Mas, meu rapaz, hás de lembrar-te que eu disse sempre que não gostava daquelas pessoas. Há algo de misterioso nelas, sinto-me certo. Aquele telegrama avisou-os da visita do homem Chater, podes contar com isso, e por alguma razão eles têm medo dele. Seria interessante saber o que aconteceu entre os dois homens na biblioteca. E estas são pessoas que foram aceites por toda a gente — meros aventureiros, eu chamar-lhes-ia!" E o velho Sir George fungou novamente ao pensar em tal escândalo a acontecer na vizinhança. "Se Gilrae tem de alugar Rannoch, então por que razão, em nome da Fortuna, não a aluga a gente respeitável e não ao primeiro tipo que responde ao seu anúncio no *The Field*? É simplesmente vergonhoso!"

"Certamente, é uma história extraordinária", declarei. "Leithcourt evidentemente queria escapar ao seu visitante, e é por isso que o drogou."

"Por que o envenenou, queres dizer. Cowan diz que o tipo está envenenado, mas que provavelmente recuperará. Ele já está consciente, ouvi dizer."

Decidi visitar o médico, que por acaso conhecia bem, e obter mais pormenores. Por isso, às onze horas, conduzi até Dumfries e entrei no seu consultório.

Era um homem magro, baixo, claro, um pouco calvo, e quando fui introduzido, ele recebeu-me calorosamente, falando com o seu pronunciado sotaque de Galloway.

"Bem, é um caso muito misterioso, Sr. Gregg", disse ele, depois de eu lhe ter dito o objetivo da minha visita. "O cavalheiro ainda está no hospital e tenho de mantê-lo muito sossegado. Ele foi envenenado, sem dúvida, e escapou por pouco à morte. A polícia teve conhecimento do caso e Mackenzie foi lá interrogá-lo. Mas ele recusou-se a fazer qualquer declaração, tratando o caso aparentemente com muita leviandade. A polícia, contudo, está intrigada quanto à razão da fuga repentina do Sr. Leithcourt e está ansiosa por chegar ao fundo deste estranho caso."

"Naturalmente. E mais especialmente após a tragédia em Rannoch Wood há pouco tempo", disse eu.

"É exatamente isso", disse o médico, removendo o seu *pince-nez* e limpando-o. "Mackenzie parece suspeitar de alguma ligação entre o desaparecimento súbito de Leithcourt e aquele caso misterioso. Parece muito evidente que o telegrama foi um aviso a Leithcourt da intenção do homem Chater de vir visitá-lo, e que este último foi introduzido precisamente no momento em que o fugitivo estava prestes a partir."

"Chater", repeti. "Sabe o seu nome próprio?"

"Hylton Chater. Ele é aparentemente um cavalheiro. É curioso que não nos diga nada sobre a razão da sua visita e sobre a cena que ocorreu entre eles."

Sabendo o que sabia, não fiquei surpreendido. Leithcourt tinha-o, sem dúvida, apanhado desprevenido, mas os cavaleiros da indústria nunca traem uns aos outros.

A minha visita seguinte foi a Mackenzie, por quem tive de esperar quase uma hora, pois ele estava ausente noutra parte da cidade.

"Ah, Sr. Gregg!", exclamou ele alegremente, ao entrar e encontrar-me sentado numa cadeira a ler pacientemente o jornal. "É a própria pessoa que eu desejo ver. Já ouviu falar deste estranho caso em Rannoch?"

"Já", foi a minha resposta. "O homem no hospital já fez alguma declaração?"

"Nenhuma. Recusa-se redondamente", respondeu o detetive. "Mas a minha ideia é que o caso tem uma ligação muito próxima com os dois mistérios do bosque."

"O primeiro mistério — o do homem — prova ser um mistério duplo", disse eu.

"Como? Explique-me."

"Bem, o empregado de mesa Olinto Santini está vivo e bem em Londres."

"O quê!", exclamou ele, saltando. "Então ele não é a pessoa que identificou?"

"Não. Mas ele estava a disfarçar-se de Santini — maquilhado para se assemelhar a ele, refiro-me, até ao sinal no rosto."

"Mas identificou-o positivamente?"

"Quando uma pessoa está morta, é muito fácil confundir fisionomias. A morte altera a fisionomia de forma muito acentuada."

"É verdade", disse ele pensativo. "Mas se o homem que enterrámos não é o italiano, então o mistério é consideravelmente aumentado. Porque é que a esposa do verdadeiro homem estava aqui?"

"E onde terá sido escondido o seu corpo? Essa é a questão."

"Novamente um mistério. Fizemos uma busca exaustiva durante quatro dias, sem descobrir qualquer vestígio. Em total confidencialidade, pergunto-me se este homem, Chater, sabe alguma coisa. É curioso, para dizer o mínimo, que os Leithcourt tenham fugido tão apressadamente com o aparecimento deste homem. Mas viu realmente Olinto Santini?"

"Sim, e falei com ele."

"Enviei ordens para Londres pedindo que fossem feitas investigações no restaurante em Bayswater, mas, até ao momento, não recebi qualquer relatório."

"Conversei com Olinto. A sua esposa desapareceu misteriosamente, mas ele ignora que ela esteja morta."

"Não lhe disse nada?"

"Nada."

"Ah, fez bem. Há uma conspiração generalizada aqui, pode crer, Sr. Gregg. Será um caso interessante quando chegarmos ao fundo de tudo isto. Só desejo que este tipo, Chater, nos dissesse a razão pela qual visitou Leithcourt."

"O que é que ele diz?"

"Apenas que não tem qualquer desejo de processar e que não tem qualquer declaração a fazer."

"Não o pode obrigar a dizer algo?", perguntei.

"Não, não posso. Essa é a dificuldade infernal. Se ele não quiser falar, então temos de continuar na ignorância, embora eu me sinta confiante de que ele sabe algo sobre o estranho caso no bosque."

E, embora eu estivesse em silêncio, partilhava a crença do detetive escocês.

A tarde estava fria e húmida enquanto subia a colina para Greenlaw.

O desaparecimento repentino dos inquilinos de Rannoch estava, descobri, na boca de todos em Dumfries. Na sala de fumadores do hotel da estação, três homens discutiam-no com muitas caretas e insinuações sinistras, e a jovem faladora atrás do balcão perguntou-me a minha opinião sobre os estranhos acontecimentos no Castelo.

Enquanto caminhava sozinho, com a linha escura dos bosques a coroar o cimo da colina diante de mim, o cenário daquela dupla tragédia, analisei novamente a situação com calma. Ansiava por ir ao hospital e ver Hylton Chater, mas, quando me lembrei do papel que ele tinha desempenhado com Hornby a bordo do *Lola*, hesitei naturalmente. Ele estava aliado a Hornby, aparentemente contra Leithcourt, embora este último fosse amigo de Hornby.

O que teria acontecido, perguntava-me, na biblioteca daquele castelo cinzento que se erguia ousadamente diante de mim, escuro e sombrio, enquanto eu seguia penosamente sob a chuva? Como tinha Leithcourt conseguido deixar o seu inimigo insensível e escondê-lo naquele armário? Acreditava ele que o tinha matado?

Se eu fosse ousadamente ter com Chater, isso seria apenas a minha própria traição. Não. Decidi que o homem que tinha fumado e conversado comigo tão afavelmente naquela noite quente e sufocante no Mediterrâneo deveria permanecer na ignorância da minha presença ou do meu conhecimento. Por isso, fiquei uma semana em Greenlaw com olhos e ouvidos sempre abertos, exercendo, contudo, o cuidado de que o paciente no hospital não estivesse ciente da minha presença.

Mackenzie viu-o em várias ocasiões, mas ele persistiu naquele silêncio torturante. O inquérito sobre a morte do homem não identificado em Rannoch Wood tinha sido retomado, e foi proferido um veredito de homicídio voluntário contra pessoa incerta, enquanto, sobre o segundo crime, o público não tinha conhecimento, pois o corpo não foi descoberto.

Vez após vez, procurei no bosque sozinho, sob o pretexto de caçar pombos, mas não descobri nada. Quando não praticava desporto na propriedade do meu tio, juntava-me a vários grupos na vizinhança, não porque a Escócia me atraísse naquela altura, mas porque desejava observar os acontecimentos.

Chater, assim que recuperou, deixou o hospital e foi para sul — para Londres, apurei —, deixando a polícia totalmente às escuras e cheia de suspeitas sobre os fugitivos de Rannoch.

Ansiava por saber o paradeiro de Muriel, esperando obter dela alguma informação sobre o visitante que tinha escapado por pouco à morte. Que ela estava ciente do objetivo da sua visita era evidente pelas declarações dos criados, todos os quais tinham sido deixados sem dinheiro ou ordens.

Um dia, visitei o castelo, cuja entrada principal encontrei fechada. Gilrae, o proprietário, tinha vindo de Londres, encontrou-se com o seu administrador ali e despediu todos os criados do antigo inquilino, mantendo apenas três dos seus, que serviam ali há vários anos. Ann Cameron, uma criada, era uma delas, e foi ela quem encontrei ao entrar pelo salão dos criados.

Ao questioná-la, descobri que estava muito disposta a descrever como estava no corredor fora do quarto da jovem patroa quando o Sr. Leithcourt irrompeu apressadamente com o telegrama na mão. Ela ouviu-o gritar: "Olha para isto! Lê, Muriel. Temos de ir. Veste-te imediatamente, minha querida. Não te preocupes com a bagagem. Cada minuto perdido é de importância. O quê!", gritou ele um momento depois. "Não vais? Vais ficar aqui — ficar aqui e enfrentá-los? Santo Deus! rapariga, estás louca? Não sabes o que isto significa? Significa que o segredo foi revelado — o segredo foi revelado, ouves! Temos de fugir!"

A mulher disse-me que ouviu distintamente a Srta. Muriel a soluçar, enquanto o seu pai caminhava de um lado para o outro no quarto, falando rapidamente em tom baixo. Depois, ele saiu novamente e regressou ao seu quarto de vestir, enquanto a Srta. Muriel presumivelmente trocava o seu vestido de noite por um vestido de viagem escuro.

"Ela disse-lhe alguma coisa?", perguntei.

"Apenas que tinham sido chamados subitamente, senhor. Mas", acrescentou a empregada, "a jovem estava muito pálida e agitada, e todas nós sabíamos que algo terrível tinha acontecido. A Sra. Leithcourt deu ordens para que nada fosse dito aos convidados, que jantaram sós, acreditando que o seu anfitrião e a sua anfitriã tinham ido à aldeia ver um velho que estava a morrer. Essa foi a história que lhes contámos, senhor."

"E, entretanto, os Leithcourt estavam no expresso a caminho de Carlisle?"

"Sim, senhor. Dizem em Dumfries que a polícia telegrafou atrás deles, mas eles tinham chegado a Carlisle e evidentemente mudaram de comboio ali, e assim escaparam."

Através da administração de uma gorjeta judiciosa, fui autorizado a subir ao quarto da Srta. Muriel, um pequeno compartimento elegantemente mobilado na frente do belo e antigo local, com uma janela funda e antiquada que dominava uma vista magnífica através do vasto Nithsdale.

O quarto tinha sido arrumado pelas criadas, mas permitido permanecer exatamente como ela o tinha deixado. Avancei para a janela, onde estava colocada a grande toucador com o seu espelho basculante e frascos de prata, e ao olhar para fora vi, para minha surpresa, que era a única janela que dava uma vista daquele canto de Rannoch Wood onde a dupla tragédia tinha ocorrido. De facto, qualquer pessoa que estivesse no local teria uma visão clara daquela janela distante, estando fora da vista de todas as outras. Uma luz podia ser colocada ali à noite como sinal, por exemplo; ou, de dia, uma toalha podia ser pendurada na janela como se fosse para secar e, mesmo assim, ser claramente vista àquela distância.

Outro objeto no quarto também atraiu a minha atenção — um par de binóculos de campanha. Teria ela usado estes para vigiar aquele local?

Peguei neles e foquei-os na orla do bosque, descobrindo que podia distinguir tudo muito claramente.

"Foi ali que encontraram o homem que foi assassinado", explicou a criada, que ainda permanecia à porta.

"Eu sei", respondi. "Estava apenas a experimentar os binóculos." Depois pousei-os e, ao voltar-me, vi sobre a prateleira da lareira um pequeno abajur de vela vermelho brilhante, que tomei na minha mão. Era feito, descobri, para encaixar no candeeiro de mesa elétrico.

"A Srta. Muriel gostava muito de uma luz vermelha", explicou a jovem; e, enquanto a segurava, perguntei-me se aquela luz tinha sido alguma vez colocada sobre a toucador e a persiana levantada — se teria alguma vez sido usada como aviso de perigo?

Como expressei o desejo de ver o boudoir da jovem, a criada Cameron levou-me à pequena sala luxuosa onde, no primeiro momento em que entrei, um facto me pareceu peculiar. A fotografia de Elma Heath já não estava lá. A fotografia tinha sido retirada da sua moldura e, no seu lugar, estava o retrato de um homem de sobrancelhas largas e barba completa num uniforme militar estrangeiro — uma imagem que, por estar suja e desbotada, tinha sido evidentemente colocada ali para preencher a moldura vazia.

De quem teria sido a mão que garantiu aquele retrato antes da fuga dos Leithcourt? Por que, de facto, deveria eu, pela segunda vez, descobrir a fotografia da infeliz rapariga desaparecida?

"O cavalheiro que visitou na noite do desaparecimento do Sr. Leithcourt voltou aqui desde que saiu do hospital?", perguntei, quando uma ideia súbita me ocorreu.

"Sim, senhor. Ele visitou aqui numa carruagem no dia em que saiu e, a seu pedido, levei-o pelo castelo. Ele entrou na biblioteca e passou meia hora a percorrer a sala, tirando medidas e examinando o grande armário onde foi encontrado insensível. Foi um caso estranho, senhor", acrescentou a jovem, "não foi?"

"Muito", respondi.

"O cavalheiro poderia estar lá dentro agora, se eu não tivesse entrado na biblioteca e encontrado muitos jornais ilustrados, que eu colocava sempre no armário para manter o lugar arrumado, atirados para o chão. Fui colocá-los de volta, mas descobri a porta trancada. A chave encontrei-a depois na grelha, onde o Sr. Leithcourt a tinha evidentemente atirado, e ao abrir a porta, imagine o choque que tive quando encontrei o visitante deitado, dobrado. Eu, claro, pensei que ele estivesse morto."

"E quando ele voltou aqui na sua recuperação, questionou-a?"

"Ah, sim. Perguntou pelos Leithcourt, e especialmente pela Srta. Muriel. Acredito que ele está um pouco encantado por ela, pelo modo como falou. E, na verdade, não houve senhora melhor ou mais bondosa que alguma vez respirou, tenho a certeza. Estamos todas muito tristes por ela."

"Mas ela não teve nada a ver com o caso."

"Claro que não. Mas ela partilha o escândalo e a desgraça. Deveria ter visto o efeito da notícia sobre os convidados quando souberam que os Leithcourt tinham partido. Foi um pandemónio total. Pediram o melhor champanhe das caves e beberam-no, os homens esvaziaram todas as caixas de charutos, e as mulheres remexeram nos roupeiros até parecerem um bando de lobos famintos. Toda a gente saiu com as malas cheias das coisas dos Leithcourt. Levaram o que puderam deitar a mão, e nós, os criados, não os pudemos impedir. Protestei com uma senhora que estava a meter na sua mala dois dos melhores vestidos de noite da Srta. Muriel, mas ela disse-me para cuidar da minha própria vida e sair do quarto. Um homem vi-o sair com quatro das armas do Sr. Leithcourt, e houve uma discussão real na sala de bilhar sobre um conjunto de botões de punho de pérola e esmeralda que alguém encontrou no seu quarto de vestir. Crane, o criado de quarto, diz que jogaram à sorte por eles."

"Vergonhoso!", exclamei. "Então, assim que o anfitrião e a anfitriã partiram, eles simplesmente varreram as divisões e limparam-nas?"

"Sim, senhor. Levaram tudo o que era mais valioso. Teriam levado a prata, se Mason não a tivesse atirado para a caixa de prata, toda suja como estava, trancado-a e escondido a chave. A prata era do Sr. Gilrae, sabe, senhor, e Mason era o responsável."

"Ele agiu sabiamente", disse eu, surpreendido com a história da criada. "Ora, os convidados agiram como um bando de ladrões."

"Eram, senhor. Eles correram por toda a casa como demónios à solta, e até roubaram algumas das nossas coisas. Perdi uma corrente de prata."

"E o que disse o estranho quando lhe contou isto?"

"Ele sorriu. Não pareceu surpreendê-lo nem um pouco, pois, afinal, a sua visita foi a causa da dissolução repentina do grupo, não foi?"

— E mostrou-lhe a casa toda? — inquiri.

— Sim, senhor — respondeu a criada. — Curiosamente, ele trazia consigo o que parecia ser uma planta detalhada do castelo, e, à medida que íamos de sala em sala, ele comparava-a com o seu plano. Esteve aqui durante horas e disse-me que pretendia fazer um exame minucioso do local e que não queria ser incomodado. Disse também que provavelmente alugaria o lugar para a próxima temporada, se gostasse. Penso, contudo, que só me disse isto porque achou que eu seria mais paciente enquanto ele tirava as suas medidas e fazia as suas investigações. Esteve aqui desde o meio-dia até quase às seis horas e percorreu todas as divisões, até às torres.

— Ele entrou nesta sala, suponho?

— Sim, senhor — respondeu ela, com o que me pareceu ser uma ligeira hesitação. — Esta foi a sala onde ele mais tempo permaneceu. Havia uma fotografia naquela moldura ali — acrescentou, indicando a moldura que continha o retrato de Elma Heath —, um retrato de uma jovem, que ele me implorou que lhe desse.

— E a senhora deu-lha? — exclamei rapidamente.

— Bem... sim, senhor. Ele insistiu tanto, dizendo que era o retrato de uma amiga sua.

— E ele deu-lhe uma quantia generosa por ela, eh?

A jovem, de quem eu sabia que não recusaria meio soberano, corou ligeiramente e sorriu.

— E quem colocou esse retrato no seu lugar? — perguntei.

— Fui eu, senhor. Encontrei-o no andar de cima.

— Ele não lhe disse quem era a jovem, suponho?

— Não, senhor. Apenas disse que aquela era a única fotografia que existia e que ela tinha morrido.

— Morta! — ofeguei, olhando fixamente para ela.

— Sim, senhor. Foi por isso que ele estava tão ansioso por ter a fotografia.

Elma Heath morta! Seria verdade? Aquele rosto doce e fotografado perseguia-me como nenhum outro rosto jamais se tinha gravado na minha memória. De alguma forma, parecia impelir-me a tentar penetrar no mistério, e, no entanto, Hylton Chater tinha declarado que ela estava morta! Lembrei-me da notável carta de Abo e da sua própria declaração de que o seu fim estava próximo. Aquela carta era, dizia ela, a última que escreveria ao seu amigo. Teria Hylton Chater conhecimento real da morte da rapariga? Teria ele estado a par do seu paradeiro durante todo o tempo? O que a jovem me contou deitou por terra todos os meus planos. Se Elma Heath estava realmente morta, então ela estava fora do alcance de qualquer descoberta, e a verdade ficaria oculta para sempre.

— Depois de ter guardado a fotografia no bolso, o cavalheiro fez uma busca minuciosa nesta sala — continuou a empregada. — Consultou o seu plano, tirou várias medidas e depois bateu no painel ao longo de toda esta parede, como se estivesse à procura de algum armário oculto ou esconderijo. Olhei para o plano e vi uma marca a tinta vermelha nele. Ele estava a tentar descobrir esse ponto e ficou muito desapontado por não o conseguir. Esteve aqui mais de uma hora e fez uma busca muito cuidadosa por toda a parte.

— E que explicação é que ele deu?

— Ele apenas disse: "Se eu encontrar o que quero, Ann, dar-lhe-ei de presente uma nota de dez libras". Isso, naturalmente, deixou-me ansiosa.

— Ele não fez qualquer outro comentário sobre a morte da jovem? — inquiri ansiosamente.

— Não. Apenas suspirou e olhou fixamente durante muito tempo para a fotografia. Vi os lábios dele a moverem-se, mas as suas palavras eram inaudíveis.

— Não tem ideia da razão pela qual ele procurou o Sr. Leithcourt, suponho?

— Pelo que ele disse, tirei as minhas próprias conclusões — foi a sua resposta.

— E qual é a sua opinião?

— Bem, sinto-me certa de que existe, ou existia, algo escondido nesta casa que ele está muito ansioso por obter. Veio exigi-lo ao Sr. Leithcourt, mas o que aconteceu na biblioteca, nós não sabemos. Ele, contudo, acredita que o Sr. Leithcourt não o levou e que, seja o que for, ainda está escondido aqui.

CAPÍTULO X

MOSTRO O MEU JOGO

No meu regresso a Londres, no dia seguinte, fiz perguntas no Almirantado e soube que o couraçado Bulwark estava fundeado em Palermo; por isso, telegrafei a Jack Durnford e, ao fim da tarde, recebi a sua resposta no Cecil:

"Chego a Londres dia vinte. Jante comigo no clube nessa noite — Jack."

O dia vinte! Isso significava quase um mês de inatividade. Nesse tempo, eu poderia atravessar até Abo, fazer perguntas lá e verificar, talvez, se Elma Heath estava realmente morta, como Chater tinha declarado.

Dois factos pareceram-me notáveis: dizia-se que o Barão Oberg era polaco, enquanto o proprietário de barba escura do restaurante em Westbourne Grove era também da mesma nacionalidade. Então, lembrei-me daquela bonita cruz esmaltada que Mackenzie tinha encontrado em Rannoch Wood, e ocorreu-me subitamente que poderia ser a miniatura de uma das ordens de cavalaria europeias. Na biblioteca do clube, à meia-noite, encontrei um exemplar de "Storia degli Ordini Cavallereschi", de Cappelletti, a obra de referência sobre o assunto, e, ao pesquisar as ilustrações, descobri finalmente uma imagem dela. Era uma ordem russa — a cobiçada Ordem de Santa Ana, concedida pelo Czar apenas a pessoas que prestaram serviços eminentes ao Estado e ao soberano. Um facto era agora certo: o proprietário daquela pequena cruz, a pequena réplica da distinta condecoração, devia ser uma pessoa de elevada posição oficial.

O dia seguinte passei-o a fazer perguntas com o objetivo de descobrir a casa que se dizia ser ocupada por Leithcourt. Como não constava nem no Diretório nem no "Blue Book", concluí que talvez a tivesse alugado mobilada e, após muitas perguntas e consideráveis dificuldades, descobri que era esse o facto. Ele ocupara a casa de Lady Heathcote, a poucos passos da Grosvenor Square, durante a temporada anterior, embora lá tivesse vivido muito pouco tempo.

Onde os fugitivos estavam escondidos, não fazia a mínima ideia. Desejava encontrar Muriel novamente e contar-lhe o que tinha descoberto, mas era evidente que o trio se escondia de Hylton Chater, que eu supunha estar agora de regresso a Londres.

Os dias de outono eram sombrios e chuvosos, e as ruas estavam enlameadas e desagradáveis, como sempre são nesta altura do ano. Forçado a permanecer inativo, vagueei pelo clube com a recordação daquele rosto fotografado sempre presente — o rosto da infeliz rapariga que desejava que a sua última mensagem fosse entregue a Philip Hornby. Qual seria, perguntava-me, o seu segredo? Qual seria, na verdade, o seu destino?

Esta última questão perturbou-me até que não a pude suportar mais. Senti que era meu dever ir à Finlândia e tentar saber algo sobre este Barão Oberg e a sua sobrinha. Frank Hutcheson tinha-me escrito declarando que o tempo em Livorno estava agora perfeito e expressando estranheza por eu não regressar. Eu era o seu único amigo inglês, e sabia quão aborrecido ele ficava quando estava sozinho. Até os cônsules de Sua Majestade sofrem, por vezes, de saudades de casa e anseiam pelo cheiro das sarjetas de Londres e por um copo de cerveja caseira.

Mas você, meu leitor, que viveu num país estrangeiro durante algum tempo, sabe bem quão penosa se torna a vida, por muito brilhante que seja, e quão doces são as recordações da nossa querida e velha Inglaterra cinzenta, com os seus campos verdes, as suas ruelas enlameadas e as ruas movimentadas das suas cidades cinzentas e sujas. Só se tem um "lar", e a Inglaterra continua a ser o seu lar, mesmo que se torne o mais obstinado dos cosmopolitas e que não tenha oportunidade de falar a sua língua materna durante todo o ano.

O dever — o dever de um homem que tinha descoberto factos estranhos e sabia que uma mulher indefesa era uma vítima — chamava-me à Finlândia. Por isso, com o meu passaporte devidamente visado e os meus documentos todos em ordem, parti certa noite de Hull para Estocolmo no serviço semanal da Wilson. Quatro dias de mau tempo no Mar do Norte e no Báltico levaram-me à capital sueca, de onde, no dia seguinte, apanhei o pequeno vapor que faz a ligação três vezes por semana à volta das Ilhas Aland e, depois, através do Golfo de Bótnia até Korpo, e pelos intrincados canais e entre aquelas ilhas baixas até à cinzenta e letárgica cidade de Abo.

Não era a primeira vez que pisava solo russo, e conhecia demasiado bem os incómodos da burocracia. A Finlândia, contudo, é talvez a mais severamente governada de todos os domínios do Czar, e tive a minha primeira prova do seu oficialismo severo e implacável no momento do desembarque no cais meio deserto.

No escritório de madeira dos passaportes, o funcionário uniformizado, ao examinar o meu passaporte, descobriu que, no Consulado-Geral da Rússia, se tinham esquecido de datar o visto que fora impresso com um carimbo de borracha. Estava assinado pelo Cônsul-Geral, mas faltava a data, pelo que o homem abanou a cabeça e devolveu-me o documento bruscamente, dizendo em russo, que eu compreendia bastante bem, embora falasse mal:

— Isto não está em ordem. Tem de ser devolvido a Londres e datado antes de poder prosseguir.

— Mas a culpa não é minha — protestei. — É culpa do funcionário no Consulado-Geral.

— Devia tê-lo examinado antes de partir. Tem de o enviar para Londres e regressar a Estocolmo no barco desta noite.

— Mas isto é um ultraje! — exclamei, enquanto ele já tinha pegado nos papéis de um passageiro atrás de mim e os observava com indiferença.

— Basta! — exclamou, olhando-me fixamente. — Regressará esta noite ou, se optar por ficar, será preso por desembarcar sem passaporte.

— Não voltarei! — declarei desafiante. — O vosso Cônsul-Geral visou o meu passaporte e exijo, ao abrigo do direito internacional, que me seja permitido prosseguir sem entraves.

— O vapor parte às seis horas — observou ele sem levantar os olhos. — Se estiver em Abo depois disso, será por sua conta e risco.

— Sou inglês, lembre-se — disse eu.

— Para mim, não importa o que é ou quem é. O seu passaporte, sem data, não vale nada.

— Vou queixar-me ao Embaixador em Petersburgo.

— O seu Embaixador não me interessa minimamente. Ele não é Embaixador aqui na Finlândia. Não há Czar aqui.

— Oh! Quem é o governante deste país, se me permite?

— Sua Excelência o Governador-Geral, um funcionário que não tem amor nem pela Inglaterra nem pelos porcos dos ingleses. Portanto, lembre-se disso.

— Sim — disse eu com um tom significativo —, eu lembrar-me-ei. — E virei-me e saí do pequeno escritório de madeira, guardando o meu passaporte na minha carteira.

Já me tinham indicado o hotel e fui a pé até lá, mas, ao fazê-lo, vi que já estava sob vigilância da polícia, pois dois homens à paisana que estavam à porta do escritório de passaportes seguiram-me, evidentemente para vigiar os meus movimentos. Verdadeiramente, a Finlândia estava sob o punho de ferro da autocracia.

Depois de me instalar no meu quarto, vagueei pela cidade plana e desinteressante, imaginando a melhor forma de começar a minha busca. Se eu tivesse pelo menos uma fotografia para mostrar às pessoas, isso dar-me-ia uma grande vantagem, mas não tinha nada. Na verdade, nunca tinha visto a infeliz rapariga.

Chegaram as seis horas. Ouvi a sirene a vapor do barco que partia para a Suécia, mas estava determinado a permanecer ali custasse o que custasse; por isso, regressei ao hotel e, às sete, jantei confortavelmente na companhia de um alemão que tinha sido meu companheiro de viagem desde Estocolmo.

Às oito horas, contudo, quando estávamos a terminar a sobremesa, dois agentes da polícia de casaco cinzento entraram e prenderam-me sob a grave acusação de desembarque sem passaporte.

Acompanhei-os até à esquadra da polícia, onde fui conduzido à presença do grande e cerdoso russo que mantinha a cidade de Abo sob terror, o Chefe de Polícia. Os funcionários que a Rússia envia para a Finlândia são selecionados pela sua disciplina severa e burocracia obstinada, e esta máquina humana de uniforme não era exceção. Se fosse o próprio Ministro do Interior, não poderia ter sido mais presunçoso.

— Bem? — disse ele bruscamente, olhando para mim enquanto eu era colocado à sua frente. — O seu nome é Gordon Gregg, inglês, vindo de Estocolmo. Sem passaporte e recusa-se a sair, mesmo tendo sido avisado, eh?

— Tenho um passaporte — disse eu com firmeza, apresentando-o.

Ele olhou para o documento e, apontando com o dedo, disse: — Não tem data e, portanto, não vale nada.

— A culpa não é minha, mas de um funcionário russo. Se deseja que seja datado, pode enviá-lo ao seu Consulado-Geral em Londres.

— Não o farei — gritou ele, olhando-me com raiva. — E, pelo seu insulto à lei, vou condená-lo a um mês de prisão. Talvez assim aprenda os costumes russos.

— Oh! Portanto, vai condenar um inglês a um mês de prisão, sem julgamento, eh? Isso é muito interessante! Talvez se tentar tal coisa, possam ter algo a dizer sobre isso em Petersburgo.

— Desafia-me!

— De modo algum. Apresentei o meu passaporte e exijo o mínimo de cortesia.

— O seu passaporte não vale nada, digo-lhe! — gritou ele. — Toma, é isso que vale para mim! — E, agarrando-o, rasgou-o ao meio e atirou os pedaços de papel azul à minha cara.

O meu sangue ferveu com este insulto, mas mordi os lábios e permaneci bastante calmo.

— Talvez me possa dizer amavelmente quem é? — perguntei com a voz o mais calma que pude comandar.

— Com prazer. Sou Michael Boranski, Chefe de Polícia da Província de Abo-Biornebourg.

— Ah! Bem, Michael Boranski, vou dar-lhe o trabalho de apanhar o meu passaporte, colá-lo novamente e pedir-me desculpa.

— Pedir desculpa! Eu pedir desculpa! — E o indivíduo riu-se às gargalhadas, enquanto os agentes da polícia de cada lado de mim sorriam de orelha a orelha.

— Recusa-se?

— Recuso? Certamente que recuso!

— Muito bem, então — disse eu, reabrindo a minha carteira e tirando uma carta aberta. — Talvez queira dar uma vista de olhos nisto. Está em russo, por isso pode lê-la.

Ele arrancou-ma das mãos com má vontade, mas não sem curiosidade. E depois, à medida que lia as linhas, o seu rosto mudou e ficou mais pálido. Erguendo a cabeça, ficou a olhar para mim de boca aberta, estupefacto.

— Peço desculpa a Vossa Excelência! — ofegou ele, pálido até aos lábios. — Peço as mais humildes desculpas. Eu... eu não sabia. O senhor não me disse nada!

— Talvez queira, por favor, remendar o meu passaporte e dar-lhe o devido visto.

Num instante, ele levantou-se da cadeira e, tendo recolhido o papel rasgado do chão, procedeu a colá-lo. No verso, atestou que tinha sido rasgado por acidente e, depois, deu-lhe o devido visto, apondo os selos.

— Confio, Excelência — disse ele, fazendo uma vénia profunda enquanto mo entregava —, confio que este assunto não o voltará a incomodar. Garanto-lhe que não tive qualquer intenção de o insultar.

— Sim, teve! — disse eu. — Insultou-me apenas porque sou inglês. Mas lembre-se no futuro de que o homem que insulta um inglês paga geralmente por isso, e não tenciono deixar isto passar. Existe um poder superior na Finlândia do que até o próprio Governador-Geral.

— Mas, Excelência — lamentou-se o tipo que, há apenas dez minutos, fora um rufia tão insultuoso —, perderei o meu cargo. Tenho uma esposa e seis filhos... a minha esposa é delicada, e o meu salário aqui não é muito elevado. Perdoará, não perdoará, Excelência? Pedi desculpa... peço as mais humildes desculpas.

E pegou na carta que eu lhe dera, segurando-a com cautela com dedos trémulos. E bem podia, pois o documento era encabeçado por:

"MINISTRO DA CASA IMPERIAL, PALÁCIO DE PETERHOF.

"O portador deste é Gordon Francis Gregg, súbdito britânico, a quem é Nossa vontade e ordem que seja Nosso convidado durante a sua viagem através do nosso domínio. E ordenamos por este meio a todos os Governadores de Províncias e funcionários menores que lhe concedam todas as facilidades que requeira, bem como privilégios e imunidades como Nosso convidado."

O decreto acima estava numa escrita cursiva muito cuidada em russo, enquanto abaixo estava a assinatura espalhada do governante de cento e trinta milhões de pessoas, aquela assinatura que era omnipotente desde o Golfo de Bótnia até ao Pacífico — "Nicolau".

O documento era o que me tinha sido fornecido um ano antes, quando, a convite do Governo russo, tinha ido numa missão de investigação ao estado das prisões para ver, em nome do público britânico, se as coisas eram tão negras como alguns escritores as tinham pintado. Tinha sido minha intenção visitar os distantes campos penais no Norte da Sibéria, mas, depois de ter passado por cerca de vinte prisões na Rússia Europeia, a minha saúde falhou e fui forçado a regressar a Itália para recuperar. O documento tinha, por isso, permanecido na minha posse porque tencionava retomar a minha viagem no verão seguinte. Foi para que me fosse permitido ir onde quisesse e ver o que quisesse sem entraves oficiais que Sua Majestade o Imperador me tinha dado, por instigação do Ministério do Interior, aquele documento valiosíssimo.

O vislumbre do mesmo transformou o Chefe de Polícia de um rufia grosseiro num cobarde lamuriento, pois ele viu que tinha rasgado o passaporte de um convidado do Czar, e a consequência seria gravíssima se eu me queixasse. Ele suplicou-me que o perdoasse, aduzindo todo o tipo de desculpas e humilhando-se perante mim, bem como perante os seus dois inferiores, que agora me olhavam com admiração.

— Reparei o insulto da forma que Vossa Excelência desejar — declarou o funcionário. — Servirei Vossa Excelência da forma que ele ordenar.

As suas palavras sugeriram uma ideia brilhante. Eu tinha este homem nas minhas mãos; ele temia-me.

— Bem — disse eu após alguma relutância —, existe um pequeno assunto no qual poderia ser de alguma ajuda. Se o fizer, reconsiderarei a minha decisão de me queixar a Petersburgo.

— E que assunto é esse, Excelência? — ofegou ele ansiosamente.

— Desejo saber o paradeiro de uma jovem senhora inglesa chamada Elma Heath — disse eu, e escrevi o nome para ele num pedaço de papel. — Idade cerca de vinte anos, e esteve na escola em Chichester, em Inglaterra. Ela é sobrinha de um certo Barão Oberg.

— Barão Oberg! — repetiu ele, olhando para mim de forma bastante estranha, pensei.

— Sim, como ela é estrangeira, estará registada nos seus livros. Ela está algures na sua província, mas onde, não sei. Diga-me onde ela está e não direi mais nada sobre o meu passaporte — acrescentei.

— Então, Vossa Excelência deseja ver a jovem senhora? — disse ele pensativo, com o papel na mão.

— Sim.

— Nesse caso, sendo ordenado pelo Imperador que eu sirva Vossa Excelência, farei diligências imediatas — foi a sua resposta. — Quando descobrir o seu paradeiro, ter-me-ei ao prazer de ir ao hotel de Vossa Excelência.

E deixei o indivíduo, muito satisfeito por ter transformado a sua excessiva oficialidade e ódio aos ingleses em muito bom proveito.

Naquela costa norte sombria e lúgubre, o longo inverno estava rapidamente a instalar-se. A pobre e oprimida Finlândia sofre sob um clima duro com geadas em agosto, um inverno de oito meses no norte e cinco meses de geada no sul. Vagueando na sonolenta Abo, onde os edifícios públicos eram tão medíocres e escassos e as casas, na sua maioria, construídas de madeira, vi por toda a parte o resultado desastroso da tentativa de russificação do país. A mão do opressor, aquele funcionário enviado de Petersburgo para esmagar e conquistar, estava sobre a honesta nação finlandesa. A burocracia russa estava a tentar destruir o seu vizinho mais fraco, porém mais bem-sucedido, e, para o conseguir, empregava os funcionários mais severos e inescrupulosos que podia importar.

"Venha," disse a freira, levantando a lanterna e movendo-se com um passo silencioso através de uma porta estreita que dava para um corredor de pedra, onde o ar era úmido e frio, saturado com o cheiro de mofo e de séculos de negligência. "Ela está no quarto acima. Mas, por favor, não faça ruído. A superiora é uma mulher rigorosa, e se ela a encontrar aqui, tanto a senhorita quanto eu estaremos perdidas."

Subimos uma escada em espiral, cujos degraus estavam gastos pelo uso, e finalmente ela parou diante de uma porta de carvalho reforçada com ferro. A freira bateu suavemente três vezes, de uma maneira ritmada e peculiar. Houve uma pausa, e então ouvimos o som de uma fechadura sendo destrancada.

A porta abriu-se alguns centímetros, revelando o rosto pálido e ansioso de uma jovem cujos olhos, grandes e luminosos, se arregalaram ao me ver. Ela estava vestida de forma simples, com um vestido escuro que parecia deslocado naquelas paredes frias e despojadas.

"Quem é você?" ela perguntou em inglês, com uma voz trêmula. "Por que você veio a este lugar maldito?"

"Meu nome é de pouca importância, senhorita Heath," respondi, falando o mais suavemente possível. "Vim de longe, a pedido de um amigo comum, para saber se você está em segurança."

Ela hesitou, olhando para a freira, que permanecia atrás de mim, com a lanterna projetando sombras longas e distorcidas nas paredes. "Segura?" repetiu ela amargamente. "Você chama isto de segurança? Eu sou uma prisioneira, vigiada por aqueles que servem ao meu próprio sangue."

"Seu tio, o Barão Oberg?" indaguei, tentando captar qualquer reação em seu semblante.

Ao ouvir aquele nome, ela empalideceu ainda mais, e suas mãos, que se agarravam ao batente da porta, tremeram visivelmente. "Ele não é meu tio," sussurrou ela, com uma intensidade que me gelou a espinha. "Ele é meu algoz. E se você veio aqui esperando encontrar respostas, saiba que cada palavra que eu disser pode ser a minha sentença de morte — e a sua também."

"Eu não temo pelo meu destino," afirmei com firmeza. "Preciso saber apenas uma coisa: a carta que você escreveu para sua antiga colega de escola... o segredo ao qual você aludiu. É esse o motivo de sua reclusão?"

Ela olhou para o corredor escuro atrás de nós e depois para a freira, que parecia indiferente, como se estivesse acostumada a presenciar tragédias humanas. "Entre," disse ela finalmente, abrindo a porta para que eu entrasse no aposento.

O quarto era pequeno, austero, com uma única janela gradeada que dava para o lago negro e desolado. Uma cama de ferro, uma mesa pequena e uma cadeira compunham todo o mobiliário. Era um lugar de isolamento absoluto, uma célula construída para silenciar o mundo exterior.

"Você é um estranho," disse ela, sentando-se na cama e olhando-me com uma mistura de desconfiança e esperança. "Como conseguiu entrar neste castelo? Nem mesmo o vento parece conseguir atravessar estas muralhas sem a permissão da polícia russa."

"O Chefe de Polícia de Abo deu-me acesso," expliquei, observando-a atentamente. "Ele tem seus próprios motivos para cooperar, suponho. Mas não perca tempo com explicações sobre como cheguei aqui. O que me trouxe foi a urgência de sua situação. Por que o Barão Oberg a mantém escondida?"

Ela soltou uma risada seca e sem alegria. "O Barão, como você o chama, é o homem mais poderoso desta terra, mas o seu poder é baseado em uma mentira monstruosa. Ele não me esconde por proteção, nem por laços familiares. Ele me mantém aqui porque eu possuo um documento, uma prova escrita que, se chegasse às mãos do Czar, destruiria não apenas a sua carreira, mas a sua própria vida."

"E esse documento?" perguntei, sentindo que o coração começava a bater mais rápido. "Onde ele está?"

"Aqui," respondeu ela, levando a mão ao pescoço, onde um pequeno cordão parecia ocultar algo sob o colarinho de seu vestido. "Mas você nunca o terá. Se eles souberem que você esteve aqui, a primeira coisa que farão será vasculhar este quarto e me destruir."

"Se você me entregar esse documento, eu posso tirá-la daqui," assegurei-lhe. "Tenho meios de levá-la para a Suécia ou para o continente. Você não precisa viver sob esta sombra."

Ela balançou a cabeça negativamente, e seus olhos brilharam com uma determinação triste. "Você não compreende, senhor. O Barão Oberg não é apenas um oficial. Ele é a própria personificação da repressão que sufoca este país. Ele controla as rotas, as fronteiras e até as consciências de quem nos vigia. Fugir é impossível."

De repente, ouvimos um som pesado vindo lá de baixo — o ranger de uma porta de ferro sendo aberta, seguido por vozes em russo que ecoaram sinistramente pelo poço da escada. A freira, que até então permanecia silenciosa, aproximou-se rapidamente e sussurrou:

"Alguém chegou. Eles não deveriam estar aqui a esta hora. É a guarda!"

Elma Heath levantou-se num salto, o terror estampado em seu rosto. "Eles vieram por mim!" exclamou. "Vá! Saia por onde veio, ou ambos seremos capturados!"

"Eu não posso deixá-la aqui," respondi, sentindo o perigo iminente.

"Você deve!" insistiu ela. "Se você for pego, a prova morre com você. Se você escapar, ainda haverá uma chance de a verdade ser revelada. Vá, pelo amor de Deus!"

O som dos passos subindo a escada tornou-se mais audível, acompanhado pelo tilintar de espadas e o som metálico de botas pesadas sobre a pedra. Não havia tempo para debates. Com um último olhar de angústia para a jovem, fui impulsionado pela freira para fora do quarto, enquanto a porta era trancada atrás de mim com uma rapidez quase sobre-humana.

"Corra!" sussurrou a freira, apagando a lanterna e mergulhando-nos na escuridão total do corredor.

"Terrível!" ofeguei, lançando um olhar em torno daquelas paredes de pedra escura que pareciam respirar um ar de tragédia e mistério. O antigo castelo tinha, suponho eu, sido transformado num convento, como muitos foram na Alemanha e na Áustria. Nos tempos feudais, sem dúvida, fora um lugar grandioso e antigo. "E está aqui há muito tempo?" perguntei.

"Apenas sete anos. Mas vou partir. Mesmo eu, habituada como estou a uma vida solitária, não aguento mais. Sinto que o seu silêncio frio e a sua tristeza me levarão à loucura. No inverno, o lugar é como um poço de gelo."

O facto de o Barão ser o governante da Finlândia surpreendeu-me, pois eu esperava, em parte, que ele fosse algum aventureiro astuto. No entanto, à medida que os eventos do passado atravessavam o meu cérebro, recordei-me de que em Rannoch Wood tinha sido encontrada a miniatura da Ordem Russa de Santa Ana, uma distinção que, com toda a probabilidade, lhe fora conferida. Se assim era, a coincidência, para dizer o mínimo, era notável. Questionei a minha companheira mais a fundo sobre o Barão.

"Ah, m'sieur", declarou ela, "chamam-lhe 'O Estrangulador dos Finlandeses'. Foi ele quem ordenou que os camponeses de Kasko fossem açoitados até que quatro deles morressem — e o Czar deu-lhe a Estrela da Águia Branca por isso —, ele que suprimiu metade dos jornais e colocou dezoito editores na prisão por publicarem o relatório de uma reunião dos suecos em Helsingfors; ele que encoraja a corrupção e o suborno entre os funcionários para a promoção dos interesses russos; ele que ordenou que o russo fosse a língua oficial, que restringiu a educação pública, que tributou excessivamente e esmagou o povo até que agora a mina está preparada, e a Finlândia está pronta para uma revolta aberta. As prisões estão cheias de inocentes; as mulheres são açoitadas; os pobres estão a passar fome, e 'O Estrangulador', como lhe chamam, informa o Czar de que a Finlândia está submissa e russificada!"

Eu tinha ouvido algo sobre este estado de coisas abominável de tempos a tempos através da imprensa inglesa, mas nunca tinha prestado atenção ao nome do opressor. Então, o tio de Elma Heath era "O Estrangulador da Finlândia", o homem que, em quatro anos, tinha reduzido um país próspero a um estado de ruína e revolta!

"Não a posso ver?" perguntei, sentindo que tínhamos permanecido tempo demais ali. Se a minha presença naquele lugar era perigosa, quanto mais cedo escapasse de lá, melhor.

"Sim, venha", disse ela. "Mas silêncio! Caminhe suavemente", e erguendo a velha lanterna de chifre para me dar luz, ela guiou-me de volta para o baixo corredor de pedra, conduzindo-me através de uma série de passagens intrincadas, todas nuas e sombrias, com as pedras gastas e côncavas pelos pés das eras. Avançámos silenciosamente para lá de várias portas baixas em arco, cravejadas com grandes pregos ao estilo de gerações passadas, depois, virando subitamente em ângulos retos, vi que estávamos num tipo de beco sem saída, diante da porta do qual, no fim, ela parou e colocou o dedo sobre os lábios. Depois, fazendo-me sinal para permanecer ali, ela entrou, fechando a porta atrás de si e deixando-me na escuridão total.

Agucei os ouvidos, mas não consegui ouvir som algum, exceto o de alguém que se movia lá dentro. Nenhuma palavra foi proferida, ou se foi, foi sussurrada tão baixo que não chegou até mim. Durante quase cinco minutos esperei com impaciência do lado de fora daquela porta fechada, até que novamente o trinco girou e a minha guia fez-me sinal, em silêncio, para entrar.

Entrei numa pequena câmara quadrada, cujo chão era alcatifado e onde, suspenso lá no alto, estava um candeeiro que lançava apenas uma luz ténue sobre o lugar pouco mobilado. Parecia-me ser uma espécie de sala de estar, com uma mesa de madeira simples e algumas cadeiras, mas não havia fogão, e o lugar parecia frio e desconfortável. Além, havia outra sala mais pequena na qual a velha freira desapareceu por um momento; depois, ela saiu conduzindo uma figura pequena, estranha e pálida, com um vestido cinzento, uma figura cujo rosto era o mais perfeito e adorável que eu alguma vez tinha visto. A sua abundância de cabelo castanho caía desgrenhada sobre os ombros e, enquanto as suas mãos estavam entrelaçadas diante de si, ela olhou diretamente para mim com surpresa enquanto era conduzida na minha direção.

Ela caminhava com dificuldade e o seu semblante era mortalmente pálido. O seu vestido, quando ela passou sob o candeeiro, era, vi eu, grosseiro, mas limpo, e as suas feições belas e regulares, que na sua fotografia me tinham fascinado tanto, eram ainda mais doces e inigualáveis do que eu tinha acreditado que fossem. Fiquei diante dela estupefacto de admiração.

Em silêncio, ela inclinou-se graciosamente e depois olhou para mim com espanto, aparentemente a questionar-se sobre o que eu, um completo estranho, pretendia dela.

"Menina Elma Heath, presumo?" exclamei finalmente. "Posso apresentar-me? O meu nome é Gordon Gregg, inglês de nascimento, cosmopolita por instinto. Vim aqui para lhe fazer uma pergunta — uma pergunta que lhe diz respeito. Lydia Moreton enviou-me até si."

Notei que os seus grandes olhos castanhos observavam os meus lábios e não o meu rosto.

Os seus próprios lábios moveram-se, mas ela olhou para mim com uma tristeza inexprimível. Som algum escapou dela.

Fiquei rígido diante dela como alguém transformado em pedra, pois, naquele instante, num clarão, na verdade, compreendi a terrível verdade.

Ela era surda e muda!

Ela ergueu as mãos entrelaçadas para mim em silêncio, mas com lágrimas a brotar nos seus olhos esplêndidos.

Vi que nos seus pulsos estavam um par de algemas de aço brilhante.

"Que lugar é este?" exigi à mulher com o hábito religioso, quando recuperei do choque da terrível aflição da pobre rapariga. "Onde estou?"

"Este é o Castelo de Kajana — o manicómio criminal da Finlândia", foi a sua resposta. "A prisioneira, como vê, perdeu a fala e a audição."

"Surda e muda!" gritei, olhando para a bela original daquela fotografia destruída a bordo do Lola. "Mas ela certamente nem sempre foi assim!" exclamei.

"Não. Penso que não sempre", respondeu a irmã calmamente. "Mas disse que pretendia interrogá-la, e não lhe disse eu que saber a verdade era impossível?"

"Mas ela pode escrever respostas às minhas perguntas?" argumentei.

"Infelizmente, não", foi a resposta sussurrada da velha. "A sua mente está afetada. Ela é, infelizmente, uma lunática sem esperança."

Olhei diretamente para aqueles olhos castanhos tristes, bem abertos, mas inabaláveis, completamente confundido.

Aqueles pulsos brancos presos em aço, aquele rosto pálido e lábios esbranquiçados, a inércia dos seus movimentos, tudo contava a sua própria história trágica. E, no entanto, aquela carta que eu tinha lido, ditada em segredo, muito provavelmente porque as suas mãos não estavam livres, certamente não era o desabafo de uma louca. Ela tinha falado de morte, é verdade, mas não seria de supor que ela estava a ser lentamente levada ao suicídio? Ela tinha guardado o seu segredo, e queria que o homem Hornby — o homem que ia casar com Muriel Leithcourt — soubesse.

O quarto onde estávamos era evidentemente um compartimento reservado para seu uso, pois além havia o minúsculo quarto de dormir; no entanto, a pequena janela alta estava fortemente gradeada, e a nudez fria da prisão era suficiente, de facto, para fazer qualquer pessoa ali confinada preferir a morte ao cativeiro.

Falei-lhe novamente de forma lenta e gentil, mas não houve resposta. Que ela era absolutamente muda era demasiado evidente. Mas, certamente, ela nem sempre tinha sido assim! Eu tinha ido à sua procura porque a beleza do seu retrato me tinha magnetizado, e agora tinha descoberto que ela era ainda mais adorável do que na sua imagem, mas, infelizmente, sofrendo de uma aflição que tornava a sua vida uma tragédia. A compreensão da terrível verdade abalou-me. Um rosto tão perfeito como o dela eu nunca tinha visto antes, tão belo, tão bem definido, tão refinado, tão eminentemente o semblante de alguém bem-nascido, e contudo tão inefavelmente triste, tão cheio de um desespero branco e inominável.

Ela colocou as mãos entrelaçadas na boca e fez sinais, abanando a cabeça, de que não podia compreender nem responder. Tirei, portanto, a minha carteira do bolso e escrevi num pedaço de papel, com letra grande, as palavras: "Venho da parte de Lydia Moreton. O meu nome é Gordon Gregg."

Quando o seu olhar ávido caiu sobre as palavras, ela encheu-se instantaneamente de entusiasmo e assentiu rapidamente. Depois, segurando os seus pulsos algemados de aço em minha direção, ela olhou para mim com melancolia, como se me implorasse para a libertar da terrível escravidão naquele túmulo silencioso.

Embora a mulher que me tinha guiado até ali tentasse impedi-lo, entreguei-lhe o lápis e coloquei o papel na mesa para ela escrever.

A freira tentou agarrá-lo, mas segurei o seu braço de forma gentil e firme, dizendo em francês:

"Não. Desejo ver se ela é realmente insana. Irá, pelo menos, permitir-me esta satisfação."

E enquanto discutíamos, Elma, com o lápis entre os dedos, tentou escrever, mas, devido ao facto de as suas mãos estarem tão atadas, foi incapaz. Por fim, contudo, após várias tentativas, conseguiu imprimir em maiúsculas irregulares a resposta:

"Conheço-o. Estava no iate. Pensei que o tivessem matado."

A velha de rosto magro viu a sua resposta — uma resposta que era certamente bastante racional — e as suas sobrancelhas contraíram-se de desagrado.

"Por que está aqui?" escrevi, não permitindo que a irmã visse a minha pergunta.

Em resposta, ela escreveu dolorosa e laboriosamente:

"Fui condenada por um crime que não cometi. Tire-me daqui, ou eu matar-me-ei."

"Ah!" exclamou a velha. "Vê, pobre rapariga, ela acredita que é inocente! Todas acreditam."

"Mas por que está ela aqui?" exigi ferozmente.

"Não sei, m'sieur. Não é meu dever investigar a história dos seus crimes. Quando estão doentes, trato delas; é só isso."

"E quem é o comandante desta fortaleza?"

"Coronel Smirnoff. Se ele soubesse que o deixei entrar, nunca sairia deste lugar vivo. Este é o Schusselburg da Finlândia — o lugar de aprisionamento para aqueles que conspiraram contra o Estado."

"A prisão dos conspiradores políticos, eh?"

"Infelizmente, m'sieur, sim! O lugar onde algumas das pobres criaturas são torturadas a fim de obter confissões e informações com tanta crueldade como nos dias negros da Inquisição. Estas paredes são espessas e os seus gritos não são ouvidos das masmorras abaixo do lago."

Eu tinha ouvido falar há muito tempo dos horrores de Schusselburg. Na verdade, quem não ouviu falar deles, quem já viajou pela Rússia? A própria menção da Bastilha moderna no Lago Ladoga, onde nunca se soube que um prisioneiro saísse vivo, é suficiente para fazer qualquer russo empalidecer. E eu estava no Schusselburg da Finlândia!

Virei a folha de papel e escrevi a pergunta —

"O Barão Oberg enviou-a para aqui?"

Em resposta, ela imprimiu as palavras —

"Acredito que sim. Fui presa em Helsingfors. Diga a Lydia onde estou."

"Conhece Muriel Leithcourt?" inquirir pelo mesmo meio, ao que ela respondeu que andaram juntas na escola.

"Viu-me a bordo do Lola?" escrevi.

"Sim. Mas não o pude avisar, embora tivesse ouvido as suas intenções. Levaram-me para terra depois de ter ido, para Siena. Após três dias, encontrei-me surda e muda — fizeram-me isso."

A sua alegação surpreendeu-me. Ela tinha sido propositadamente afligida!

"Quem o fez?"

"Um médico, suponho. Deram-me clorofórmio."

"Quem?"

"Pessoas que disseram ser meus amigos."

Virei-me para a mulher com o hábito religioso e gritei:

"Vê o que ela escreveu? Ela foi mutilada por alguns amigos que pretendiam que o segredo que ela detém fosse mantido. Temeram matá-la, por isso subornaram um médico para operar deliberadamente sobre ela, de modo a que não pudesse falar nem ouvir. E agora estão a levá-la ao suicídio!"

"M'sieur, estou estupefacta!" declarou a freira. "Sempre acreditei que ela não estava no seu perfeito juízo, contudo, certamente parece ser tão sã como eu, apenas mutilada deliberadamente por algum pretenso amigo que determinou que nenhuma outra palavra deveria passar pelos seus lábios."

"Uma mutilação vergonhosa foi cometida nesta pobre rapariga indefesa!" gritei com raiva. "E farei o meu dever descobrir e punir os perpetradores dela."

"Ah, m'sieur. Não aja precipitadamente, eu rezo-lhe", disse a mulher seriamente, colocando a mão sobre o meu braço. "Lembre-se de que está na Finlândia — onde o Barão Oberg é todo-poderoso."

"Não temo o Barão Oberg", exclamei. "Se necessário, apelarei ao próprio Czar. A mademoiselle é mantida aqui pela razão de que está na posse de algum segredo. Ela deve ser libertada — assumirei a responsabilidade."

"Mas não deve tentar libertá-la daqui. Significaria a morte para ambos. O Castelo de Kajana não conta segredos dos que morrem dentro das suas paredes, ou dos que são lançados de cabeça nas suas águas e esquecidos."

Voltei-me novamente para Elma, que estava em ansiosa dúvida sobre o assunto da nossa conversa, e tinha subitamente tomado a mão da velha freira e beijado-a afetuosamente, talvez para me mostrar que confiava nela.

Então, no papel, escrevi —

"O Barão Oberg é seu tio?"

Ela abanou a cabeça negativamente, mostrando que o temido Governador-Geral da Finlândia tinha apenas representado um papel em relação a ela, papel ao qual tinha sido forçada a concordar.

"Quem é Philip Hornby?" inquirir, escrevendo rapidamente.

"Meu amigo — pelo menos, acredito que sim."

Amigo! E eu, durante todo o tempo, tinha acreditado que ele era um aventureiro e um inimigo!

"Por que foi ele a Livorno?" perguntei.

"Por um propósito secreto. Havia um plano para o matar, só que consegui impedi-los", foram as palavras que ela imprimiu com muito esforço.

"Então devo-lhe a minha vida", escrevi. "E em troca farei o meu melhor para a resgatar daqui, se não teme colocar-se nas minhas mãos."

E a isto ela respondeu —

"Ficarei grata, pois não suporto mais este lugar horrível. Acredito que devem torturar as mulheres aqui. Irão torturar-me um dia. Faça o seu melhor para me tirar daqui e eu contar-lhe-ei tudo. Mas", escreveu ela, "temo que nunca consiga a minha libertação. Estou confinada aqui com uma sentença de prisão perpétua."

"Mas é inglesa, e se não teve julgamento, posso reclamar ao nosso Embaixador."

"Não, sou súbdita russa. Nasci na Rússia e fui para Inglaterra quando era rapariga."

Isso alterou o caso inteiramente. Como súbdita do Czar no seu próprio país, ela estava sujeita àquela mancha vergonhosa sobre a civilização que permite que uma pessoa seja enviada para a prisão por vontade de um alto funcionário, sem julgamento ou sem que lhe seja dada qualquer oportunidade de recurso. Vi, portanto, de imediato, uma dificuldade.

Contudo, ela prometeu contar-me a verdade se eu pudesse garantir a sua libertação!

Uma torrente de recordações do mistério espantoso passou pela minha mente. Mil perguntas surgiram dentro de mim, todas as quais eu desejava fazer-lhe, mas, ali, naquela casa de prisão nojenta, era impossível. Enquanto ali estava, um grito agudo de dor excruciante de uma mulher chegou até mim, apesar daquelas paredes ciclópicas. Alguma prisioneira infeliz estava, talvez, a ser torturada e a confissão arrancada dos seus lábios. Estremeci perante os horrores indescritíveis daquela fortaleza sombria.

Poderia eu permitir que esta rapariga refinada e indefesa permanecesse uma interna daquela Bastilha, cujos terrores eu ouvira homens na Rússia sussurrarem com a respiração suspensa? Eles tinham-na mutilado deliberadamente e privado tanto da audição quanto do poder da fala, e agora pretendiam que ela fosse levada à loucura por aquele silêncio e solidão que devem sempre terminar em demência.

"Decidi", disse subitamente, virando-me para a mulher que me tinha conduzido ali e que, tendo agora removido as algemas de aço da prisioneira com uma chave que transportava secretamente, estava de mãos postas na atitude calma da religiosa.

"Não agirá com precipitação?" implorou ela com rápida apreensão. "Lembre-se, a sua vida está em jogo, assim como a minha."

"Os seus inimigos pretendiam que eu, também, morresse!" respondi, olhando diretamente para aqueles olhos castanhos profundos e misteriosos que me prendiam como sob um feitiço. "Eles atraíram-na para o seu poder porque ela não tinha meios de defesa. Mas assumirei a posição de seu amigo e protetor."

"Como?"

"O homem está à minha espera no barco lá fora. Pretendo levá-la comigo."

"Mas, m'sieur, por que isso é impossível!" gritou a velha com uma voz rouca. "Se fosse descoberto pelos guardas que patrulham o lago tanto de noite como de dia, eles matá-los-iam a ambos."

"Vou arriscar", disse, e sem outra palavra corri para o minúsculo quarto de dormir e arranquei um velho cobertor castanho da estreita cama de campanha.

Depois, enlaçando o meu braço no da mulher cujo semblante adorável se tinha tornado, verdadeiramente, o sol da minha existência, fiz um sinal, convidando-a a acompanhar-me.

A irmã bloqueou a porta, instando-me a reconsiderar a minha decisão.

"Deixe-a em segredo e aja como quiser, apele ao Barão, ao Czar, mas não tente, m'sieur, resgatar uma prisioneira daqui, pois é uma impossibilidade. O homem que o trouxe de Abo não se atreverá a aceitar tal responsabilidade."

"Venha", disse a Elma, embora, infelizmente, ela não pudesse ouvir a minha voz. "Vamos, pelo menos, tentar a liberdade."

Ela reconheceu as minhas intenções num momento e permitiu ser conduzida pelo longo e intrincado corredor, caminhando furtivamente e não fazendo ruído.

Eu tinha agarrado a velha lanterna de chifre e, como a freira recuou, não se atrevendo a acompanhar-nos, avançámos sozinhos, voltando pelo corredor de pedra até reconhecer a porta do quarto para onde tinha sido conduzido inicialmente. Tudo estava silencioso, e enquanto nos arrastávamos na ponta dos pés, senti o aperto da rapariga no meu braço, um aperto que me dizia que ela depositava a sua fé em mim como seu libertador.

Confesso que foi um ato precipitado e obstinado, pois mesmo para lá do lago, como poderíamos esperar penetrar naquelas intermináveis florestas inóspitas, tão longe de qualquer esconderijo? No entanto, senti ser o meu dever tentar o resgate. E, além disso, a sua beleza maravilhosa não me tinha envolvido? Não tinha eu sentido, por alguma intuição inexplicável no primeiro momento em que nos encontrámos, que as nossas vidas estavam ligadas no futuro? Ela agarrou-se a mim como se temesse ser descoberta, enquanto avançávamos em silêncio ao longo daquele corredor escuro e baixo onde eu sabia que a porta forte na torre dava para o lago. Uma vez no barco, poderíamos remar de volta para onde os cavalos nos esperavam e, depois, partir. A mulher não tinha interrompido o nosso progresso nem dado o alarme, afinal. Uma vez eu desconfiei dela, mas agora via que o seu coração estava realmente cheio de pena pela pobre rapariga agora ao meu lado.

Sem um som, arrastámo-nos para a frente até estarmos a poucos metros daquela porta destrancada onde o barco nos esperava em baixo, quando, de repente, a luz incerta da lanterna caiu sobre algo que brilhou e uma voz profunda gritou da escuridão em russo:

"Pare! ou atiro!"

E, sobressaltados, encontrámo-nos a olhar para o cano de uma carabina carregada.

Um sentinela enorme estava de costas para a saída secreta, os seus olhos escuros brilhando sob o seu quepe, enquanto segurava a arma contra o ombro a menos de dois metros de nós.

O indivíduo grande e barbudo exigiu ferozmente quem eu era.

O meu coração afundou-se. Tinha agido de forma imprudente e caíra nas mãos de Sua Excelência, o Barão Xavier Oberg, o inescrupuloso Governador-Geral — caíra numa armadilha que, parecia, tinha sido muito habilmente preparada para mim.

Eu era um prisioneiro na terrível fortaleza de onde nunca se soube que uma única pessoa, exceto os guardas, emergisse — a Bastilha de "O Estrangulador da Finlândia!"

Vi que estava perdido.

O cano da carabina do sentinela estava a menos de um metro do meu peito.

"Fale!" gritou o indivíduo. "Quem é você?"

Num relance, percebi o perigo da situação e, sem um segundo de hesitação, lancei-me sobre o homem, por baixo da sua arma. Ele baixou-a, mas era tarde demais, pois agarrei-o pela cintura, tornando a sua arma inútil. Foi questão de um instante, pois eu sabia que o corpo a corpo era a minha única oportunidade.

Mas e se o barco não estivesse à espera atrás daquela porta fechada? Se o meu condutor finlandês não estivesse lá de prontidão, então eu estaria perdido. A infeliz rapariga que eu estava ali para resgatar recuou, assustada, contra a parede por um único segundo; depois, ao ver que eu tinha entrado em luta com o sujeito corpulento, ela saltou para a frente e, com ambas as mãos, agarrou a arma, tentando arrancá-la dele. Os dedos do homem tinham perdido o gatilho, e ele tentava recuperá-lo para disparar e, assim, dar o alarme. Vi isso e, com um velho truque aprendido em Uppingham, rasteirei-o, de modo que ele cambaleou e quase caiu.

Um palavrão escapou-lhe, mas, nesse momento, Elma conseguiu arrancar a arma das suas mãos vigorosas, que eu segurava agora com uma força nascida da consciência do meu perigo iminente. Todo o meu futuro, bem como o dela, dependia do meu sucesso naquele encontro desesperado. Ele era enorme e poderoso, com uma força que excedia em muito a minha, mas eu tinha sido considerado um bom lutador em Uppingham, e agora o meu conhecimento daquela forma de combate mais antiga servia-me bem.

O homem gritou por ajuda, a sua voz profunda e rouca ecoando pelos corredores de pedra. Se fosse ouvido pelos seus companheiros de armas, o alarme seria dado de imediato.

Lutámos desesperadamente, oscilando para a frente e para trás, ele tentando derrubar-me, enquanto eu, a cada volta, praticava nele os truques aprendidos na minha juventude. Parecia uma luta equilibrada, no entanto, pois ele mantinha-se de pé por pura força bruta, e os seus músculos pareciam duros e inquebráveis como aço.

De repente, porém, enquanto lutávamos tão vigorosa e desesperadamente, a rapariga inglesa passou por nós com a carabina na mão e, com um movimento rápido, arrastou a pesada porta que dava saída para o lago.

Nesse instante, cometi, infelizmente, um movimento em falso, e a sua mão fechou-se sobre a minha garganta como uma banda de aço. Lutei e debati-me para me soltar, exercendo cada músculo, mas, infelizmente! ele ganhou a vantagem. Ouvi um mergulho e vi que Elma já não segurava a arma do sentinela nas mãos, tendo-a atirado para a água.

Então, no mesmo momento, ouvi uma voz lá fora gritar em tom baixo: "Coragem, Excelência! Coragem! Vou ajudá-lo."

Era o fiel finlandês, que me aguardava na sombra profunda e, com algumas remadas, puxou o seu barco até à estreita e trôpega plataforma fora da porta.

"Leve a senhora!" consegui ofegar em russo. "Não se preocupe comigo", e vi com satisfação que ele guiava Elma para entrar no barco, que naquele momento passava pela pequena plataforma.

Lutei galhardamente, mas contra um homem de tal força bruta eu era impotente. Ele segurava a minha garganta, causando-me uma dor excruciante, e a cada momento sentia a minha oportunidade de vitória diminuir. A minha força estava a falhar. Enquanto eu segurava os seus braços junto ao corpo, podia mantê-lo seguro sem grande esforço, mas agora, com os seus dedos a pressionar a minha traqueia, eu não conseguia respirar.

Eu estava a ser lentamente estrangulado.

Ser vencido significava o encarceramento ali, talvez até a morte. A vitória significava a vida de Elma, bem como a minha. A minha era, portanto, uma luta pela vida. Uma ideia súbita passou-me pela mente e continuei a lutar, forçando, ao mesmo tempo, o meu inimigo gradualmente para trás, em direção à porta. Ele gritou por socorro, mas não foi ouvido. Amaldiçoou, jurou e gritou até que, com um esforço súbito e quase sobre-humano, rasteirei-o, fazendo com que a sua cabeça entrasse em contacto tão violento com a verga de pedra da porta que o som certamente poderia ser ouvido a uma distância considerável. Por um momento, ele ficou atordoado e, nesse breve segundo, libertei o seu aperto da minha garganta e lancei-o para trás, para além da porta.

Ouviu-se o som da madeira a partir-se quando a plataforma podre cedeu, um mergulho alto e, no instante seguinte, as águas escuras fecharam-se sobre o homem grande e barbudo que teria arrebatado Elma Heath de mim e me teria mantido prisioneiro naquele castelo de terrores. Ele afundou-se como uma pedra, pois, embora eu permanecesse à espera que ele emergisse, só pude distinguir a madeira a flutuar com a corrente.

Num momento, porém, mesmo enquanto eu estava ali horrorizado com o meu ato de autodefesa, o lugar ressoou subitamente com gritos de alarme, e na torre acima de mim o grande sino velho e enferrujado começou a balançar, ecoando a sua nota de bronze através da vasta extensão de águas.

O finlandês de barba clara disparou novamente o barco até onde eu estava, gritando:

"Salte, Excelência! Pela sua vida, salte! Os guardas estarão sobre nós!"

Atrás de mim, na passagem, vi uma luz e o brilhar de armas. Um tiro ecoou e uma bala passou por mim, mas permaneci ileso. Então saltei e quase virei o barco, mas, pegando num remo, comecei a remar pela vida, e à medida que nos afastávamos daquelas paredes sombrias e negras, o fogo irrompeu de três espingardas.

"Remem!" gritei, virando-me para ver se a minha companheira de olhos claros tinha sido atingida.

"Mantenha a calma, Excelência", pediu o finlandês. "Veja, lá ao fundo, na sombra. Podemos enganá-los, pois o barco de patrulha estará na foz do rio à espera para nos cortar o caminho."

Novamente os guardas dispararam sobre nós, mas na escuridão a sua pontaria era falha. Luzes apareceram nas janelas altas do castelo, e podíamos ver que a maior comoção tinha sido causada pela fuga do prisioneiro. Os homens na porta da torre gritavam para os barcos de patrulha, que não se viam em parte alguma, chamando-os para nos alcançar e capturar, mas, movendo os nossos remos rapidamente, atravessámos o lago diretamente até ficarmos sob a sombra profunda da margem oposta, e depois rastejámos gradualmente na direção de onde tínhamos vindo.

"Se encontrarmos os barcos, Excelência, temos de correr para terra e entrar nos bosques", explicou o finlandês. "É a nossa única hipótese."

Mal tinha ele falado quando, no centro do lago, pudemos distinguir um barco comprido com três remadores indo rapidamente em direção à entrada do rio, que tanto desejávamos alcançar.

"Olhe!" gritou o nosso guia, recuando o remo e trazendo o barco a uma paragem. "Eles andam à nossa procura! Se formos descobertos, eles vão disparar. São as ordens deles. Nenhum barco é permitido neste lago."

Elma estava sentada a observar os nossos perseguidores, mas ainda calma e silenciosa. Parecia confiar-se inteiramente a mim.

Os guardas remavam rapidamente, os remos soando nos toletes, evidentemente na crença de que nos tínhamos dirigido para o rio. Mas o finlandês tinha aparentemente previsto isto, e por essa razão estávamos deitados, seguros da observação, na sombra profunda de uma árvore pendente.

Um nevoeiro cinzento subia lentamente da água, e o finlandês, notando-o, esperava que pudesse favorecer-nos. Na Finlândia, no final do outono, os nevoeiros são muitas vezes tão espessos como os nossos proverbiais nevoeiros de Londres, apenas mais brancos, mais densos e mais gelados.

"Se desembarcarmos, seremos forçados a fazer um desvio de quatro dias completos na floresta, a fim de passar os pântanos", apontou ele num sussurro baixo. "Mas se pudermos entrar no rio, podemos ir a terra em qualquer lugar e chegar a pé a algum lugar onde a senhora possa ficar escondida."

"O que aconselha? Estamos inteiramente nas suas mãos. O Chefe de Polícia disse-me que podia confiar em si."

"Penso que será melhor arriscar", disse ele em russo após uma breve pausa. "Vamos amarrar o barco, e eu irei ao longo da margem ver o que os guardas estão a fazer. O senhor ficará aqui, e eu não serei visto. Os juncos e o mato são mais altos mais à frente. Mas se houver perigo enquanto eu estiver ausente, saia e vá diretamente para oeste até encontrar o pântano, depois siga ao longo das suas margens para sul", e puxando o barco para a margem, o sujeito astuto e de ossos largos desapareceu no mato escuro.

Não havia ainda sinais do romper do dia. De facto, as estrelas estavam agora escondidas, e o grande plano de água tornava-se cada momento mais indistinto enquanto nos sentávamos em silêncio. Os meus ouvidos estavam tensos para captar a batida de um remo ou uma voz, mas, além do bater da água debaixo do barco, não havia outro som. Peguei na mão da rapariga de rosto claro ao meu lado e apertei-a. Em resposta, ela apertou a minha.

Era a única forma pela qual podíamos trocar confidências. Aquela que eu tinha procurado durante todos aqueles meses estava ao meu lado, mas incapaz de proferir uma única palavra.

Ainda segurando as suas mãos nas minhas, apertei-as para lhe mostrar que pretendia ser o seu defensor, enquanto ela se voltava para mim com confiança, como se estivesse feliz por ser assim. Qual seria, perguntava-me, a sua história? Qual seria o mistério que a rodeava? O que poderia ser aquele segredo que causara que os seus inimigos a mutilassem tão brutalmente e, depois, a enviassem para aquela fortaleza sombria e terrível que ainda se erguia diante de nós na penumbra? Certamente que o seu segredo devia afetar alguém muito seriamente, ou meios tão drásticos nunca seriam empregues para garantir o seu silêncio.

Subitamente, ouvi um passo furtivo a aproximar-se e, no momento seguinte, uma voz baixa falou, a qual reconheci como sendo a do nosso amigo, o finlandês.

"Há perigo, Excelência — um perigo grave!" disse ele num sussurro baixo e semicerrado. "Três barcos andam à nossa procura."

E mal tinha ele proferido essas palavras quando houve o clarão de uma espingarda na bruma, um estrondo alto, e novamente uma bala passou perto, logo atrás da minha cabeça. Num instante, a verdade tornou-se aparente, pois vi a sombra escura de um barco a ser remado rapidamente, dirigindo-se diretamente a nós. O tiro tinha sido disparado como um sinal de que tínhamos sido avistados e éramos perseguidos. Outros tiros ecoaram, misturados com os gritos selvagens e exultantes dos guardas à medida que avançavam contra nós, e então soube que, apesar da nossa fuga, estávamos agora perdidos. Eles estavam demasiado perto de nós para permitir que os evitássemos. O perigo que temíamos tinha caído. A presença do finlandês na margem tinha sido evidentemente detetada por um barco encostado à margem, e ele tinha sido seguido até onde nos tínhamos deitado no que, tolamente, acreditávamos ser um esconderijo seguro. Nada mais restava a fazer senão enfrentar o inevitável. Três vezes o fogo vermelho de uma espingarda irrompeu zangadamente perante nós e, contudo, por sorte, nenhum de nós foi atingido. Mas sabíamos muito bem que a intenção dos nossos perseguidores era matar-nos.

"Depressa, Excelência! Fuja! Enquanto ainda há tempo!" ofegou o finlandês, agarrando a minha mão e puxando-me quase do barco, enquanto eu, por minha vez, colocava Elma na margem.

"Hoida! Por aqui! Rapidamente!" gritou o nosso guia, e nós os três, indiferentes às consequências, mergulhámos na escuridão impenetrável, exatamente quando os nossos ferozes perseguidores chegavam ao lado de onde nos tínhamos sentado há apenas um momento. Eles gritaram selvaticamente enquanto saltavam para terra atrás de nós, mas o nosso guia, que tinha nascido e crescido naquelas florestas, sabia bem como viajar em semicírculo e como se esconder. Era uma corrida pela liberdade — aliás, pela própria vida.

Tão escuro que mal podíamos ver um metro à nossa frente, fomos forçados a colocar as mãos à nossa frente para evitar a colisão com os troncos das grandes árvores, enquanto, de vez em quando, nos encontrávamos presos na massa de trepadeiras mortas e parasitas vegetais que formavam o denso mato. À nossa volta, de todos os lados, ouvíamos os gritos e as maldições dos nossos perseguidores, enquanto, acima dos outros, ouvíamos uma voz autoritária, evidentemente a de um sargento da guarda, gritar:

"Disparem sobre o homem, mas poupem a mulher! O Coronel quer que ela volte. Não a deixem escapar! Seremos bem recompensados. Portanto, continuem, camaradas! Mene edemmäski!"

Mas a rapariga trémula ao meu lado não ouviu nada e, talvez, fosse de facto melhor que não pudesse ouvir. O meu único medo era que os nossos perseguidores, que agora pareciam ser uma dúzia, se tivessem espalhado com a intenção de nos cercar. Eles, sem dúvida, conheciam cada centímetro daquela floresta gigante, com os seus numerosos pântanos, e se não nos descobrissem, sem dúvida nos conduziriam para um ou outro dos pântanos, onde a fuga era impossível.

O nosso galante guia, por outro lado, parecia ignorar completamente o perigo e continuava, estendendo de vez em quando a mão e ajudando a rapariga aflita que tínhamos resgatado daquele túmulo vivo. Seguimos em frente em linha reta, até que de repente começámos a sentir os nossos pés a afundar no solo macio, e então o finlandês virou para a esquerda, em ângulo reto, e encontrámo-nos num mato mais denso, onde na escuridão as nossas mãos e rostos ficaram gravemente arranhados.

Outra arma foi disparada como sinal, ecoando pela floresta, mas o som veio da direção oposta àquela em que estávamos a viajar; portanto, esperávamos que tivéssemos iludido aqueles cujo desejo sincero era capturar-nos pela recompensa. De repente, porém, uma segunda arma, um sinal de resposta, foi disparada diretamente à nossa frente, e isso revelou a verdade. Estávamos realmente entre os dois grupos, e eles estavam a fechar o cerco sobre nós! Eles tinham-nos conduzido até à borda do pântano. O finlandês reconheceu o nosso perigo tão rapidamente quanto eu, e parou.

"Vamos voltar diretamente para trás", instou ele, ofegante. "Podemos ainda iludi-los."

E então virámos novamente em ângulo reto, viajando tão rapidamente quanto podíamos de volta à margem do lago. Foi uma perseguição emocionante na escuridão, pois não sabíamos para onde íamos, nem em que armadilha, ravina ou pântano traiçoeiro poderíamos cair. Uma vez, vimos ao longe, através das árvores, a luz de uma lanterna segurada por um guarda, e a rapariga de rosto doce ao meu lado parecia cansada e terrivelmente fatigada. Mas apressámo-nos, esforçando-nos para não fazer ruído, e, no entanto, o estalar da madeira debaixo dos nossos pés parecia-nos soar como um trovão.

Finalmente, sem fôlego, parámos para ouvir. Já estávamos à vista do nevoeiro cinzento onde jazia o lago silencioso que guardava tantos segredos. Não havia um som. Os guardas tinham seguido em frente, acreditando que nos tinham conduzido àquele pântano mortal onde, se tivéssemos entrado, teríamos sido lentamente sugados e engolidos. Eles estavam a cercá-lo, sem dúvida, sentindo-se certos da sua presa.

Mas rastejámos ao longo da borda da água até que, na luz cinzenta, pudemos distinguir dois barcos vazios — o dos guardas e o nosso. Estávamos novamente no local onde tínhamos desembarcado.

"Vamos remar até à cabeceira do lago", sugeriu o finlandês. "Podemos então desembarcar e escapar-lhes." E, um momento depois, estávamos os três no barco dos guardas, remando com todas as nossas forças sob a sombra profunda da margem, para norte, na direção oposta à cidade de Nystad.

Mantivemos uma vigilância atenta para qualquer outro barco, mas não vimos nenhum. Os sinais em terra tinham atraído todos os guardas para aquele local para participarem na busca, e agora, tendo voltado atrás e embarcado novamente, estávamos a aumentar a cada momento a distância entre nós e os nossos perseguidores. Penso que devemos ter remado várias milhas, pois antes de desembarcarmos novamente, numa margem baixa, plana e estéril, o primeiro raio cinzento do dia aparecia no leste.

Elma notou-o e manteve os seus grandes olhos castanhos fixos nele, pensativa. Era o amanhecer para ela — o amanhecer de uma nova vida. Os nossos olhares encontraram-se; ela sorriu-me e depois olhou novamente para leste, cheia de significado silencioso.

Tendo desembarcado, puxámos o barco para terra e escondemo-lo no mato para que os guardas, ao procurarem, não soubessem a direção que tínhamos tomado, e depois seguimos diretamente para norte através das terras baixas, até onde a floresta se mostrava escura contra o cinzento da manhã. O nevoeiro tinha agora clareado um pouco, mas o ar estava cortante e gelado.

Esta floresta, descobrimos, era de altos pinheiros, onde caminhar não era difícil, um vasto deserto de árvores que, hora após hora, atravessámos na vã tentativa de encontrar o caminho difícil que o nosso guia nos disse levar cem milhas desde Alavo até Tammerfors, o centro industrial do país. Mas descobrir um caminho numa floresta de quarenta milhas de largura é uma questão de considerável dificuldade, e durante horas caminhámos sem parar, mas infelizmente! sempre em vão.

Fracos e famintos, ainda assim mantivemos a coragem. Felizmente, encontrámos uma pequena nascente, e nós os três bebemos avidamente com as mãos. Mas de comida não tínhamos nada, exceto um pequeno pedaço de pão de centeio duro que o finlandês tinha no bolso, os restos da sua refeição noturna; e demos isto a Elma, que, esfomeada, comeu-o rapidamente. Sabíamos muito bem que seria fácil morrer de fome naquela grande floresta sem trilhos, por isso continuámos sem desanimar, enquanto o sol amarelo de outono lutava através dos pinheiros escuros, brilhando nos troncos retos e cinzentos e refletindo uma luz dourada naquele silêncio morto e ininterrupto.

Quantas milhas caminhámos, não faço ideia. Era um consolo saber que agora não tínhamos perseguidores, mas que destino nos esperava, não sabíamos. Se pudéssemos apenas encontrar aquela estrada da floresta, poderíamos encontrar alguma cabana de lenhador, onde pudéssemos obter comida rudimentar de algum tipo, mas o nosso guia, acostumado como estava àquelas enormes florestas da Finlândia central, estava completamente perdido, e nenhum sinal de civilização atraía o seu olho rápido e experiente. A luz acima desvaneceu-se gradualmente, e sobre uma pedra afiada Elma tropeçou e rasgou o seu sapato.

Olhei para o meu relógio e descobri que já eram cinco horas. Dentro de uma hora estaria escuro, o início da longa noite do norte. Elma, que estava cansada e com os pés doridos, pediu por sinais para lhe ser permitido deitar-se e descansar. Por isso, recolhemos uma cama de folhas secas para ela, e ela deitou-se, e enquanto vigiávamos, ela adormeceu rapidamente. O finlandês, que declarou não sofrer do frio, removeu o seu casaco e colocou-o ternamente sobre os ombros dela.

Enquanto ainda havia um raio de luz, observei os seus traços brancos e refinados enquanto ela dormia, e fui gravemente tentado a curvar-me e imprimir um beijo naquela face suave e convidativa. Mas eu não tinha o direito de o fazer — nenhum direito de tirar tal vantagem.

A longa noite fria passou-se penosamente, e o uivo dos lobos levou-me a agarrar o meu revólver, mas ao amanhecer levantámo-nos revigorados e, apesar das terríveis dores de fome que agora roíam as nossas entranhas, estávamos preparados para renovar a nossa corrida desesperada pela liberdade.

Embora eu tivesse papel, não possuía lápis com que escrever, portanto só podia comunicar por sinais com a misteriosa prisioneira de Kajana, a bela rapariga de olhos escuros que me mantinha irrevogavelmente sob o feitiço da sua beleza. Todos os pequenos atos de homenagem que eu era capaz de realizar, ela aceitava com uma dignidade calma e silenciosa, enquanto nos seus olhos profundos e luminosos lia um mistério insondável.

O nevoeiro não tinha clareado, pois era logo após o amanhecer quando avançámos novamente, famintos, gelados e, contudo, esperançosos. Numa nascente obtivemos alguma água e, depois, em procissão silenciosa, avançámos em busca da trilha rudimentar dos lenhadores.

O sapato rasgado de Elma causava-lhe um incômodo considerável e, notando que ela manquejava, levei-a a sentar-se enquanto eu o retirava, esperando conseguir consertá-lo, mas, ao desamarrá-lo, vi que sobre a sua meia havia uma grande mancha de sangue coagulado, onde o próprio pé também fora cortado. Consegui endireitar os pregos do sapato com uma pedra, para que a sola não se perdesse, e ela reajustou-o, permitindo-me que o apertasse para ela enquanto sorria.

Seguimos em frente, sempre em frente, através daquela enorme floresta onde a miríade de troncos de árvores apresentava o mesmo cenário lúgubre em toda parte, uma floresta não trilhada senão por lenhadores selvagens e semibárbaros. Ao longo daquele dia cinzento e monótono marchamos, fracos de fome, embora sofrendo pouca dor, pois as primeiras pontadas já haviam passado, seguidas por uma leve tontura. O meu único medo era que fôssemos obrigados a passar outra noite sem abrigo, e qual o efeito que isso poderia ter sobre a jovem de criação delicada cuja mão eu segurava ternamente na minha. Certamente a minha posição era estranha. A sua terrível aflição parecia torná-la inteiramente dependente de mim.

De repente, exatamente quando a luz do sol amarela acima começara a desvanecer, o finlandês de rosto plano, cujo nome ele me dissera ser Felix Estlander, gritou alegremente:

— Polushaite! Olhem, Excelência! Ah! A estrada, finalmente!

E, enquanto olhávamos à nossa frente, vimos que os seus olhos rápidos e bem treinados tinham detectado, longe no crepúsculo, a certa distância, um caminho que atravessava a nossa vista entre os troncos de árvores cinzentos-esverdeados. Então, apressando-nos, encontramo-nos sobre uma trilha, na qual viramos à direita — uma trilha áspera e profundamente sulcada pelos troncos abatidos que eram arrastados por ela até ao rio mais próximo.

Elma fez um gesto de renovada esperança, e nós três redobramos o passo, esperando a cada momento encontrar alguma cabana de troncos, cujo proprietário certamente nos daria hospitalidade para a noite. Mas a escuridão caiu rapidamente, e ainda assim continuávamos a avançar. A pobre Elma manquejava, e eu sabia que o seu pé ferido a magoava, embora ela não me pudesse dizer nada.

Por fim, contudo, depois de caminhar durante quase quatro horas na quase impenetrável penumbra da floresta, sempre temendo que pudéssemos perder o caminho, os nossos corações bateram subitamente mais depressa ao ver à nossa frente uma luz a brilhar numa janela, e cinco minutos depois Felix batia à porta, pedindo em finlandês ao ocupante que desse hospitalidade a uma senhora perdida na floresta.

Ouvimos um rosnado baixo, como uma imprecação murmurada lá dentro, e quando a porta se abriu, surgiu no limiar um homem alto, barbudo e musculoso, numa camisa vermelha suja, com um grande revólver a brilhar na mão. Um olhar rápido para nós satisfez-o de que não éramos ladrões, e ele convidou-nos a entrar enquanto Felix explicava que tínhamos desembarcado do lago e, como o nosso barco se tinha desviado, fomos obrigados a embrenhar-nos na mata. O homem ouviu a história pitoresca do finlandês e, em seguida, disse-me algo que Felix traduziu para o russo.

— Vossa Excelência é bem-vindo a toda a pobre comida que ele tem. Ele cede a sua cama no quarto ali ao lado à senhora, para que ela possa descansar. Ele sente-se honrado com a presença de Vossa Excelência.

E enquanto ele dava esta explicação, o hercúleo lenhador de camisa vermelha mexia nas brasas onde um grande pote fervilhava, exalando um odor apetitoso, e em cinco minutos estávamos todos os três sentados perante um guisado de tetraz, com uma cerveja leve e espumante como bebida apropriada. Terminamos o prato com tamanha rapidez que o nosso anfitrião ferveu-nos vários ovos, o que, temo, esvaziou a sua despensa.

O lugar era humilde, com dois quartos baixos, construídos de pinheiros rústicos, com janelas duplas para o inverno e um alto fogão de tijolos. A limpeza não era exatamente a sua característica; contudo, passamos todos uma hora muito confortável e recebemos uma calorosa recepção do solitário ancião que passava a sua vida tão longe da civilização europeia, e cuja casa, disse-nos ele, era frequentemente coberta pela neve e cortada de todo o mundo por três ou quatro meses de cada vez.

Depois de terminarmos a nossa refeição, pedi ao robusto ancião um lápis, mas a coisa mais próxima que ele possuía era um pedaço de carvão grosso, e com isso era certamente difícil comunicar com a nossa bela companheira. Por isso ela levantou-se, deu-me a mão, fez uma vénia sorridente e depois passou para o quarto interior e fechou a porta.

O velho lenhador deu-nos um pouco de tabaco grosseiro e, depois de fumar e conversar durante uma hora, atirámo-nos exaustos aos bancos de madeira e dormimos profundamente.

De repente, contudo, ao amanhecer, fomos despertados por um forte bater à porta, o tropel de cascos e gritos autoritários em russo. O velho lenhador saltou e, olhando através de uma fresta nas pesadas persianas, virou-se para nós com o rosto pálido, sussurrando sem fôlego:

— A polícia! O que podem eles querer de mim?

— Abram! — gritaram os cavaleiros lá fora. — Abram em nome de Sua Majestade!

Felix e eu saltamos, encarando-nos um ao outro.

— Estamos encurralados!

Num instante, o nosso guia Felix correu para a porta do quarto interior onde Elma se tinha recolhido, mas no segundo seguinte reapareceu, ofegante em russo:

— Excelência! Mas a porta está aberta! A senhora partiu!

— Partiu! — gritei, consternado, correndo para o pequeno quarto, onde encontrei o leito de campanha vazio e a porta que dava para o exterior escancarada. Ela tinha, de fato, desaparecido!

A polícia bateu novamente na porta oposta, ameaçando ruidosamente arrombá-la se não fosse aberta imediatamente, momento em que o velho lenhador puxou o ferrolho e admitiu-os. Dois homens grandes e desajeitados, em pesados sobretudos de montaria e com espadas, entraram, enquanto outros dois permaneciam montados lá fora, segurando os cavalos.

— Os vossos nomes? — exigiu um dos indivíduos, olhando para nós enquanto estávamos juntos, expectantes.

O nosso anfitrião disse-lhes o seu nome e perguntou por que desejavam entrar.

— Estamos à procura de uma mulher que escapou de Kajana — foi a resposta. — Viram alguma mulher aqui?

— Não — respondeu o lenhador. — Nunca vemos qualquer mulher nestes bosques.

O oficial de polícia entrou no quarto interior, olhou em redor para se certificar de que ninguém estava escondido ali e, voltando para mim, perguntou: — Quem é você?

— Isso é assunto meu — respondi.

O mistério do desaparecimento de Elma enquanto dormíamos irritava-me. Ela parecia ter fugido de mim em segredo. Mas poderia ela ter recebido algum aviso de que a polícia estava à sua procura? Ela era surda, portanto não poderia ter ficado alarmada com as batidas na porta.

— A sua identidade é assunto meu — declarou o homem com a barba loira e cerdosa, um tipo comum do rude oficial de polícia.

— Quem é o seu chefe? — indaguei, quando um pensamento súbito me ocorreu.

— Melnikoff, em Helsingfors.

— Então este não é o distrito de Abo?

— Não. Mas que diferença faz? Quem é você?

— Gordon Gregg, súbdito britânico — respondi.

— E você é o condutor de drosky de Abo — observou o sujeito, virando-se para Felix. — Exatamente como pensei. Vocês são a dupla que subornou a freira em Kajana e conseguiu libertar a inglesa. Em nome do Czar, prendo-os!

O velho lenhador ficou pálido como a morte. Estávamos certamente em grave perigo, pois previa o risco de cair nas mãos do Barão Oberg, o Estrangulador da Finlândia. Contudo, tínhamos a satisfação de saber que, fosse qual fosse o mistério, Elma escapara.

— E sob que acusação, peço-lhe, presume prender-me? — indaguei com a maior calma possível.

— Por ajudar uma prisioneira a escapar.

— Então, desejo dizer, primeiro, que não tem autoridade para me prender; e, segundo, que se deseja que eu lhe dê satisfação, estou perfeitamente disposto a fazê-lo, desde que me acompanhe primeiro até Abo.

— Fica fora do meu distrito — rosnou o sujeito, mas percebi que a sua hesitação se devia à incerteza sobre quem eu poderia realmente ser.

— Desejo que me leve ao Chefe de Polícia Boranski, que fará todos os esclarecimentos necessários. Até termos uma entrevista com ele, recuso-me a dar qualquer informação sobre mim — disse eu.

— Mas tem um passaporte?

Tirei-o do bolso, dizendo:

— Prova, creio, que o meu nome é o que lhe disse.

O sujeito, de pernas abertas, leu-o e devolveu-mo.

— Onde está a mulher? — exigiu ele. — Diga-me.

— Não sei — foi a minha resposta.

— Talvez me conte — disse ele, virando-se para o velho lenhador com uma expressão sinistra no rosto. — Lembre-se, estas fugitivas foram encontradas na sua casa e o senhor está sujeito a prisão.

— Não sei — na verdade não sei! — protestou o velho, tremendo sob a ameaça do oficial. Como todos da sua classe, temia a polícia e mantinha-a em pavor.

— Ah, suponho que não se lembra! — sorriu ele. — Bem, talvez a sua memória seja refrescada por um ou dois meses na prisão. O senhor também está preso.

— Mas, Vossa Excelência, eu...

— Basta! — trovejou o oficial de barba cerdosa. — O senhor deu abrigo a conspiradores. Conhece a penalidade na Finlândia para isso, certamente?

— Mas estes cavalheiros certamente não são conspiradores! — protestou o pobre velho. — Sua Excelência é inglês, e os ingleses não conspiram.

— Veremos depois — riu-se ele. E então, virando-se para o agente de polícia ao seu lado, deu-lhe ordens para revistar cuidadosamente a cabana de troncos, uma investigação na qual um dos homens de fora se juntou. Eles reviraram tudo e espreitaram em toda parte.

— Podem encontrar papéis ou cartas — disse o oficial. — Revistem minuciosamente. E em cada canto remexeram, até levantarem várias tábuas no quarto interior que Elma tinha ocupado. Mas não encontraram nada.

Uma dúzia de vezes o velho lenhador foi questionado, mas ele teimosamente recusou-se a admitir que tinha visto Elma, enquanto eu insistia no meu direito de regressar a Abo e ver Boranski. Eu sabia, é claro, pelo que tínhamos ouvido dizer aos guardas da prisão, que o Governador-Geral estava extremamente ansioso por recapturar a jovem por quem, admito francamente, eu me tinha apaixonado tão perdidamente. E parecia que nenhum esforço estava a ser poupado para nos procurar. De fato, toda a polícia nas províncias de Abo e Helsingfors parecia estar ativamente a realizar uma busca casa por casa.

Mas qual poderia ser a verdade sobre o desaparecimento de Elma? Teria ela fugido por vontade própria, ou teria caído mais uma vez vítima de algum complô engenhoso e vil? Aquele seu vestido cinzento poderia, recordei-me, traí-la se ela se aventurasse perto de qualquer cidade, enquanto a sua aflição seria, por si só, uma evidência clara de identificação. Tudo o que eu esperava era que ela tivesse ido esconder-se na floresta em algum lugar nas proximidades para esperar até que o perigo de recaptura tivesse passado.

Durante quase meia hora discuti com o oficial de polícia, cuja intenção era levar-me preso para Helsingfors. Uma vez lá, no entanto, eu sabia muito bem que a minha liberdade estaria provavelmente perdida para sempre. Qualquer que fosse o motivo do Barão para manter a pobre jovem prisioneira, seria também o seu motivo para me silenciar. Eu sabia demasiado para o seu gosto.

— Recuso-me a ir para Helsingfors — disse desafiadoramente. — Sou um súbdito britânico e exijo ser levado de volta ao porto onde o meu passaporte foi vistado. Este argumento repeti-o várias vezes, até que finalmente consegui convencê-lo de que tinha realmente o direito de ser levado para Abo e de procurar a ajuda do Vice-Cônsul britânico, se necessário.

Durante o máximo de tempo possível, consegui atrasar a nossa partida, mas, finalmente, quando o sol amarelo começou a lutar através das nuvens cinzentas, nós os três fomos obrigados a partir numa triste procissão.

O que, perguntávamos nós, tinha realmente acontecido a Elma? Era evidente que ela não tinha caído nas mãos da polícia; contudo, o fato de a porta do quarto interior estar aberta levava-os a olhar para a declaração do lenhador com distinta suspeita e descrença.

Os nossos captores pareciam bastante conscientes de todas as circunstâncias da nossa fuga de Kajana e estavam, consequentemente, cheios de desgosto por Elma, a pessoa que eles tanto desejavam recapturar, lhes ter escapado por entre os dedos. Enquanto a polícia montava, fomos obrigados a caminhar à frente deles e, após caminhar dez milhas ou mais pela floresta, encontrámos outro pequeno destacamento de polícia, que aparentemente estava à nossa procura, pois expressaram alegria quando nos viram sob custódia.

— Onde está a mulher? — perguntou um oficial ao outro.

— Ainda em liberdade — respondeu o homem que nos mantinha como prisioneiros. — Escondida vinte verstas atrás, creio eu.

— Ah, havemos de encontrá-la dentro em breve — disse ele com confiança. — Dentro de doze horas teremos revistado toda a floresta. Ela não nos pode escapar.

Os nossos captores explicaram quem éramos e, então, fomos empurrados para a frente novamente, contornando um grande e largo lago chamado Nasjarvi, ao longo da costa arborizada do qual caminhamos durante todo o dia até que, ao pôr do sol, chegamos a uma pitoresca cidadezinha construída de troncos, de frente para a água, chamada Filppula. Aqui obtivemos uma refeição apressada e, depois, apanhamos o comboio para Abo, onde chegamos na manhã seguinte, após uma viagem muito desconfortável e sem sono.

Às nove horas, eu estava no grande escritório nu de Michael Boranski, onde, poucos dias antes, tínhamos tido uma discussão tão acalorada. Assim que o Chefe de Polícia entrou, reconheceu-me sob custódia e dispensou os meus guardas com um aceno de mão — todos exceto o oficial que me tinha trazido. O condutor finlandês e o velho lenhador estavam noutro quarto, portanto fiquei sozinho com o oficial de polícia de Helsingfors e o Chefe de Polícia em Abo. Este último ouviu a história do oficial sobre a minha prisão sem dizer uma palavra.

— O prisioneiro, Vossa Excelência, desejou ser trazido aqui até si antes de ser levado para Helsingfors. Ele disse que o senhor estaria a par dos fatos.

— E estou — observou Boranski, com um sorriso. — Não há conspiração. Deve libertar imediatamente este cavalheiro e os outros dois prisioneiros.

— Mas, Excelência, o Governador-Geral emitiu ordens para a prisão do prisioneiro e deportação para Helsingfors.

— Isso pode ser. Mas eu sou o Chefe de Polícia em Abo, e eu liberto-o.

O oficial olhou para mim com tal espanto que não resisti a sorrir.

— Estou bem a par do motivo da visita deste inglês ao norte — acrescentou Boranski. — Não é preciso dizer mais nada. A senhora foi presa?

— Não, Vossa Excelência. Todos os esforços estão a ser feitos para a encontrar. O Coronel Smirnoff já foi dispensado do seu posto como Governador de Kajana, e muitos dos guardas estão presos por cumplicidade no plano para permitir que a mulher escapasse.

— Ah, sim. Vejo pelos despachos que é oferecida uma recompensa pela sua recaptura.

— O Governador-Geral está determinado a que ela não escape — observou o outro.

— Ela está provavelmente escondida na floresta, em algum lugar.

— Com certeza. Estão a fazer uma busca minuciosa em cada versta dela. Se ela estiver lá, será certamente encontrada.

— Sem dúvida — observou Boranski, recostando-se na sua cadeira almofadada e olhando para mim significativamente através da mesa coberta de papéis. — E agora desejo falar com este inglês em particular, por favor, deixe-nos. Informe também os outros dois prisioneiros de que estão em liberdade.

— Mas Vossa Excelência faz isto sob a sua própria responsabilidade — disse ele ansiosamente. — Lembre-se de que os trouxe até si sob custódia.

— E eu liberto-os inteiramente por minha própria discrição — disse ele. — Como Chefe de Polícia desta província, tenho permissão para usar a minha jurisdição e exercê-la-ei neste assunto. Está livre para reportar isso em Helsingfors, se assim o desejar, mas sugeriria que não dissesse nada a menos que seja absolutamente obrigado — entende?

A maneira como Boranski falou aparentemente decidiu o meu captor, pois após um momento de hesitação ele disse, saudando:

— Se esse é realmente o seu desejo, então obedecerei. — E saiu.

— Excelência! — exclamou o Chefe de Polícia, levantando-se rapidamente e caminhando na minha direção assim que a porta se fechou e ficámos a sós, — o senhor teve um livramento muito estreito — muito. Fiz o meu melhor para o ajudar. Consegui subornar os guardas da água em Kajana para que pudesse garantir a libertação da senhora. Mas parece que exatamente no momento em que estava prestes a escapar, um dos guardas tornou-se informador e alertou o governador do castelo, com o resultado de que vocês os três quase perderam a vida. Todo o assunto foi-me reportado oficialmente e — acrescentou ele com um sorriso sombrio — os meus homens estão agora a procurar por toda parte por si.

— Mas por que é que o Barão Oberg está tão extremamente ansioso por recapturar a Srta. Heath? — perguntei seriamente.

— Não faço ideia — foi a sua resposta. — As ordens secretas de Helsingfors para mim são prendê-la a todo o custo — viva ou morta.

— O que significa que o Barão não lamentaria se ela estivesse morta — observei, ao que ele assentiu afirmativamente.

Contei-lhe dos serviços fiéis de Felix, o finlandês, ao que ele disse simplesmente:

— Disse-lhe que poderia confiar nele implicitamente.

— Mas agora que se mostrou meu amigo — disse eu, — ajudará a Srta. Heath a escapar deste homem, que deseja mantê-la prisioneira naquele lugar horrível. Eles estão a levá-la à loucura.

— Farei o meu melhor — respondeu ele, abanando a cabeça com dúvida. — Mas deve recordar-se de que o Barão Oberg é Governador-Geral da Finlândia, com todos os poderes do próprio Czar.

— E se Elma Heath cair novamente nas suas mãos inescrupulosas, ela morrerá — declarei.

— Ah! — suspirou ele, olhando-me diretamente na face, — temo que o que diz seja demasiado verdade. Ela evidentemente detém algum segredo que ele teme que ela revele. Ele deseja prendê-la novamente para — bem — acrescentou em tom baixo, — para fechar-lhe os lábios. Não seria a primeira vez que pessoas foram silenciadas em segredo em Kajana. Muitos acidentes fatais acontecem naquela fortaleza, sabe.

CAPÍTULO XII

"O ESTRANGULADOR"

Onde estava Elma? Qual a causa do seu inexplicável desaparecimento para a floresta sombria enquanto dormíamos?

Regressei ao hotel onde tinha ficado na minha chegada, um lugar confortável chamado Phoenix, e almocei lá sozinho. Tanto Felix, o finlandês, como o meu anfitrião, o lenhador, tinham recebido as suas gorjetas e partido, mas ao último tinha dado instruções para regressar a casa imediatamente e reportar por telégrafo qualquer notícia da minha perdida.

Mil pensamentos conflitantes surgiram em mim enquanto estava sentado naquela salle-à-manger lotada, cheia de uma multidão voraz de homens de negócios de Abo. Eu tinha, reconheci, agora de lidar com o homem mais poderoso daquele país, e sofria uma desvantagem distinta por desconhecer a razão pela qual ele mantinha aquela doce jovem inglesa prisioneira. A tragédia da maneira vil como ela tinha sido deliberadamente mutilada fazia o meu sangue ferver. Nunca acreditei que neste civilizado século vinte tais coisas pudessem existir.

Michael Boranski tinha dado a sua palavra de me ajudar, contudo tinha-me explicado muito claramente os seus receios. O Barão estava determinado a colocar Elma novamente em seu poder. Seria sob as suas ordens, perguntei-me, que a jovem de rosto doce fora privada da fala e da audição? Teria ela caído vítima inocente dos seus infames planos?

À minha volta, homens comiam pratos estranhos e falavam em finlandês, enquanto outros fumavam e bebiam a sua vodka; mas eu não estava com disposição para observações. O meu único pensamento era sobre aquela que agora estava perdida para mim.

Porque ela desaparecera sem aviso, eu não conseguia imaginar, mas só podia supor que a sua fuga fora obrigatória. Algumas mulheres possuem um misterioso sentido de intuição, uma faculdade curiosa e indescritível de saber quando o mal as ameaça, que apresenta um problema estranho e intrigante aos nossos cientistas. É inexplicável, e ainda assim muitas mulheres possuem-no em grau muito acentuado. Seria, portanto, possível que Elma tivesse acordado e, sendo avisada do seu perigo, fugido sem nos despertar? A sugestão era possível, mas temia que improvável.

Outro aspecto muito curioso no caso era a maneira súbita pela qual Michael Boranski exercera o seu poder e influência para me prestar aquele serviço. Ele tinha, de facto, subornado os guardas de Kajana; tinha instruído o fiel Felix, tinha providenciado o nosso barco e ordenara à freira que me abrisse a comporta. Porquê?

Havia, sentia-me convencido, algum motivo oculto em toda aquela súbita e marcada amabilidade. Que ele realmente odiava os ingleses, vira claramente quando nos encontrámos pela primeira vez, e eu só o obrigara a servir-me ao apresentar a ordem assinada pelo Imperador, que me tornava seu hóspede dentro dos domínios russos. Nem mesmo aquele documento explicava até onde ele tinha ido para garantir a libertação da mulher que eu agora amava em segredo. Quanto mais pensava nisto, mais ansioso me tornava. Não conseguia discernir qualquer motivo para a sua amabilidade e, para dizer a verdade, desconfio sempre daqueles que são demasiado amigáveis. Que linha de ação direta e decidida deveria eu tomar? Analisei cuidadosamente todos os estranhos eventos que tinham acontecido em Inglaterra e, embora ansioso por obter alguma solução para o espantoso problema, não conseguia convencer-me a deixar a Finlândia e permitir que Elma caísse nas garras daquele alto funcionário que tão persistentemente buscava o seu fim. Não. Eu iria ter com ele e enfrentá-lo-ia. Estava ansioso por ver que tipo de homem era "O Estrangulador da Finlândia". Portanto, naquela mesma noite deixei Abo e viajei de comboio até ao entroncamento de Toijala, de onde, após uma espera de seis horas, retomei a minha lenta viagem para Helsingfors. Instalei-me no Kamp's, um hotel elegante na longa esplanada com vista para o porto, e descobri que a cidade, com as suas belas ruas e praças espaçosas, era um lugar muito melhor do que eu acreditava. Quando perguntei ao diretor francês do meu hotel pela residência de Sua Excelência, o Governador-Geral, ele olhou para mim com alguma surpresa, dizendo:

"O Barão vive no Palácio, m'sieur — aquele grande edifício em frente ao Salutong. O cocheiro do seu drosky indicar-lho-á."

"Sua Excelência está em Helsingfors neste momento?" perguntei.

"O Barão nunca sai do Palácio, m'sieur", respondeu o homem. "Este é um país estranho, sabe", acrescentou ele, com um sorriso. "Diz-se que Sua Excelência vive no medo constante de um assassinato."

"Talvez não sem razão", comentei em voz baixa, ao que ele levantou os ombros e sorriu.

Ao meio-dia, desci de um drosky diante de um edifício longo, cinzento e maciço, sobre cuja grande porta existia um brasão de grandes dimensões com as armas russas gravadas em ouro, e ao entrar, onde um sentinela estava de cada lado, um porteiro colossal em libré azul-brilhante e ouro veio ao meu encontro, perguntando em russo:

"A quem deseja ver?"

"Sua Excelência, o Governador-Geral."

"Tem marcação?"

"Não."

"Sua Excelência não recebe ninguém sem marcação", disse-me o homem com certa rispidez.

"Não estou aqui a negócios públicos, mas por uma questão privada", expliquei. "Talvez eu possa ver o secretário de Sua Excelência?"

"Se desejar, mas repito que Sua Excelência não recebe ninguém sem uma marcação prévia."

Eu sabia isto muito bem, pois o "Estrangulador da Finlândia", temendo o assassinato, era tão inacessível como o próprio Czar. Seguindo as instruções do porteiro, no entanto, atravessei um grande pátio vazio e, subindo uma larga escadaria de pedra, fui confrontado por um criado que, ao ouvir o meu pedido, levou-me para uma sala de espera e saiu com o meu cartão para o Coronel Luganski, a quem ele me informou ser o secretário particular do Barão.

Após uns dez minutos, o homem regressou, dizendo:

"O Coronel recebê-lo-á se fizer o favor de vir por aqui", e, seguindo-o, ele conduziu-me aos aposentos privados ricamente mobiliados do Palácio, através de um grande salão cheio de belas pinturas e, depois, por uma longa passagem com alcatifa espessa até uma pequena sala elegante, onde um homem alto, calvo e de uniforme militar estava à minha espera.

"O seu nome é M'sieur Gregg", exclamou ele em muito bom francês, "e compreendo que deseja uma audiência com Sua Excelência, o Governador-Geral. Lamento, contudo, que ele nunca dê audiência a estranhos."

"O assunto sobre o qual desejo ver Sua Excelência é de natureza puramente privada e confidencial", disse eu, pois, habituado como estava aos costumes do funcionalismo estrangeiro, falei com a mesma cortesia firme que ele.

"Lamento muito, m'sieur, mas receio que será necessário, nesse caso, que escreva a Sua Excelência e marque a sua carta como 'pessoal'. Irá então para as próprias mãos do Governador-Geral."

"O que tenho a dizer não pode ser colocado por escrito", foi a minha resposta. "Tenho de ver o Barão Oberg sobre um assunto que o afeta pessoalmente e que não admite atrasos."

Ele olhou para mim rapidamente e, depois, em voz baixa, perguntou:

"É com relação a uma... bem, uma conspiração?"

A sua pergunta sugeriu-me instantaneamente um estratagema e respondi afirmativamente.

"Então pode colocar os fatos perante mim sem a menor hesitação", disse ele, indo até à porta e deslizando o ferrolho na fechadura. "Qualquer coisa dita ao meu ouvido é como se fosse dita ao de Sua Excelência."

"Lamento muito, M'sieur Coronel, que eu tenha de ver o Barão pessoalmente."

"O complô tem como objetivo o assassinato... ou a revolta?" perguntou ele diretamente.

"Isso explicá-lo-ei apenas ao Barão."

"Mas digo-lhe que ele não o verá. Temos tantas pessoas aqui com informações secretas sobre conspirações finlandesas contra o nosso governo russo. Ora, se Sua Excelência recebesse todos os que desejam vê-lo, seria obrigado a dar audiência vinte e quatro horas por dia."

Num relance, vi que este elegante Coronel, que parecia ter o maior orgulho na sua pessoa primorosamente cuidada e no seu uniforme impecável, não pretendia dar-me a satisfação de uma audiência com aquele funcionário mais odiado do Czar. Este último vivia com medo do punhal, da pistola ou da bomba e, consequentemente, cercava-se de pessoas do tipo do Coronel — corteses, diplomáticas, mas totalmente inflexíveis. Após alguma discussão adicional, disse finalmente em tom firme:

"Desejo impressioná-lo com a extrema importância da informação que tenho para transmitir e só posso repetir que é uma questão que diz respeito a Sua Excelência em privado. Far-me-á, portanto, o favor de levar o meu nome a ele?"

"Sua Excelência recusa ser incomodado com os nomes de estranhos", foi a sua resposta fria, enquanto ele virava o meu cartão na mão.

"Mas se eu escrever nele a natureza do meu negócio e o colocar num envelope, levar-lho-á então?" sugeri.

Ele hesitou por algum tempo, torcendo o bigode, e depois respondeu com grande relutância:

"Bem, se está tão decidido, pode escrever o seu negócio no seu cartão."

Tirei então um e, no verso, escrevi em francês as palavras que eu sabia que teriam o efeito de me garantir uma audiência:

"Para dar informações sobre a Srta. Elma Heath."

Coloquei isto no envelope que ele me entregou quando, tocando uma campainha, o entregou ao lacaio que apareceu, com ordens para o levar a Sua Excelência e aguardar uma resposta. A resposta veio em poucos minutos.

"Sua Excelência dará audiência ao m'sieur inglês."

Então levantei-me e segui o lacaio através de vários corredores largos cheios de palmeiras e flores, que formavam uma espécie de jardim de inverno, até atravessarmos uma antecâmara com alcatifa vermelha, onde dois sentinelas estatuários estavam de guarda, e o homem que me conduzia bateu nas grandes portas de mogno polido da sala seguinte.

Uma voz respondeu, a porta foi aberta e encontrei-me numa sala alta, belamente pintada, com janelas longas adornadas com seda azul-pastel com franjas douradas pesadas, uma alcatifa azul-pastel e, na parede oposta, um grande dossel de veludo roxo rico ostentando a águia de duas cabeças bordada a ouro. O apartamento estava esplendidamente decorado e, no centro do chão de parquet, de costas para a luz, estava a figura magra e nervosa de um homem idoso com um fraque fúnebre, na lapela do qual se via a fita vermelha e amarela da Ordem de Santa Ana. As suas mãos estavam atrás das costas e ele permanecia propositadamente numa posição tal que, quando entrei, não consegui ver a princípio o seu rosto contra a luz forte e cinzenta de trás.

Mas quando o lacaio se curvou e se retirou e ficámos sozinhos, ele virou-se ligeiramente, e vi então que o seu rosto ossudo, com maçãs do rosto salientes, suíças cinzentas e curtas, boca dura e olhos pretos muito próximos um do outro, era um que trazia a marca do mal — o semblante astuto e sinistro de alguém que poderia agir sem qualquer remorso e sem arrependimento. Verdadeiramente, ninguém se surpreenderia com qualquer ação cruel e vil de um homem com tal rosto — o rosto de um opressor.

"Bem?" cortou ele em francês com uma voz aguda. "Quer ver-me a respeito daquela rapariga inglesa louca? Que mentiras pitorescas pretende contar-me sobre ela?"

"Não tenho a intenção de contar quaisquer inverdades sobre ela", foi a minha resposta rápida, enquanto o enfrentava sem vacilar. "Ela contou-me o suficiente para..."

"Ela contou-lhe algo! Ah! Eu suspeitava tanto. Eu esperava isto!" E vi que o seu rosto magro e astuto empalideceu, enquanto os seus olhos olhavam maldosamente para mim. Ele acreditava que ela me tinha revelado o seu segredo. Colocou a mão nas costas de uma cadeira onde estava escondido um botão elétrico e, no instante seguinte, um homenzinho atarracado, vestido de preto maltrapilho, apareceu como que por magia através de uma porta secreta escondida no painel escuro da câmara de audiência — o homem que era a sua guarda pessoal contra os complôs para o seu assassinato.

Sua Excelência falou, e as palavras que proferiu deixaram-me atordoado. Fiquei horrorizado.

"Prendam esse homem!" gritou ele, apontando para mim. "Ele está armado! Ele acabou de ameaçar matar-me! Ele é o homem contra quem fomos avisados recentemente — o inglês!"

"Ah!" gritei, parando diante do funcionário de rosto magro do Czar, o homem inescrupuloso que esmagara a Finlândia sob o calcanhar de ferro da Rússia e que, pela sua alegação mentirosa, me mantinha agora em seu poder. "Vejo o seu objetivo, Barão Oberg! Pretende prender-me como conspirador!"

"Revistem o sujeito. Ele tem um revólver ali no bolso de trás", declarou o Governador-Geral, e num instante o homenzinho de olhos de furão passou as mãos pelo meu corpo e sentiu a minha arma.

Puxei-a e entreguei-lha, dizendo:

"É muito bem-vindo a ela se teme que eu esteja aqui com qualquer motivo sinistro."

"Ele obteve a entrada por um estratagema inteligente", explicou o Barão ao agente da polícia. "E depois ameaçou-me."

"É mentira", protestei calorosamente. "Apenas vim para vê-lo a respeito da jovem inglesa, Elma Heath — a infeliz senhora que consignou à fortaleza de Kajana."

"A mulher louca, quer dizer!" riu-se ele.

"Ela não é louca", gritei, "mas tão sã como o próprio senhor. É o senhor quem pretendia que os horrores do castelo a levassem à loucura, e assim o seu segredo seria guardado!"

"O que sugere?" exigiu ele, dando alguns passos em minha direção.

"Quero dizer, Xavier Oberg, que mataria Elma Heath se tivesse coragem para o fazer", respondi claramente, enquanto o enfrentava sem vacilar.

"Vê?" riu-se ele, voltando-se para o homem atarracado ao meu lado. "O sujeito está louco. Não sabe do que está a falar. Ah, meu caro Malkoff, escapei por pouco! Ele veio aqui com a intenção de me disparar."

"Não vim", protestei. "Estou aqui para exigir satisfação em nome da Srta. Heath."

"Oh! — bem, se a senhora quiser vir aqui ela própria, dar-lhe-ei a satisfação que ela deseja", foi a sua resposta astuta.

"A senhora escapou-lhe e, portanto, é pouco provável que volte voluntariamente a Helsingfors", disse eu.

"Foi o senhor quem conseguiu, atirando o guarda à água, raptá-la do castelo", observou ele. "Mas", acrescentou com um sorriso zombeteiro e sinistro, "presumo que a sua galanteria tenha sido motivada por afeição — eh?"

"Isso é assunto meu."

"Uma mulher surda e muda certamente não é uma companhia muito alegre!"

"E quem causou a ela essa aflição?" gritei calorosamente. "Quando ela estava em Chichester, possuía a fala e a audição como as outras raparigas. De fato, ela não estava aflita quando estava a bordo do Lola no porto de Leghorn há apenas alguns meses. Talvez se recorde do perigo que o iate correu nas areias de Meloria?"

Os seus olhos encontraram os meus e vi pelo seu rosto tenso e sobrancelhas cerradas que as minhas palavras lhe causavam a maior consternação. O meu objetivo era fazer com que ele acreditasse que eu sabia mais do que realmente sabia — mantê-lo sob medo, de fato.

"Talvez o homem a quem alguns conhecem como Hornby, ou Woodroffe, pudesse contar uma história interessante", continuei. "Ele fá-lo-á, sem dúvida, quando encontrar Elma Heath e descobrir a terrível aflição da qual ela foi vítima."

O seu rosto magro e ossudo estava descorado, a sua boca tremia e as suas sobrancelhas cinzentas contraíram-se rapidamente.

"Não faço a menor ideia do que quer dizer, meu caro senhor", gaguejou ele. "Tudo o que diz é inteiramente enigmático para mim. O que tenho eu a ver com os assuntos desta inglesa louca?"

"Mande sair este homem", disse eu, apontando para o detetive Malkoff, que tinha aparecido de trás do painel da câmara de audiência. "Mande-o sair e eu dir-lhe-ei."

Mas o representante do Czar, sempre tão temeroso do assassinato quanto o seu mestre imperial, recusou. Vi que o que eu tinha dito o perturbara e que ele não tinha de todo claro o quanto ou o quão pouco dos fatos verdadeiros eu sabia.

A ligação entre a pequena cruz em miniatura da Ordem de Santa Ana e aquela fita vermelha e amarela na sua casa de botão atingiu-me fortemente naquele momento e disse:

"Não tenho qualquer desejo de fazer declarações perante uma segunda pessoa. Vim aqui para vê-lo em privado e em privado falarei. Tenho certas informações que, estou confiante, serão do maior interesse para o senhor — a respeito de outra mulher, Armida Santini."

Os seus lábios ficaram cerrados e notei como ele estremeceu quando pronunciei o nome daquela mulher que eu encontrara morta em Rannoch Wood e cujo corpo tinha desaparecido tão misteriosamente.

"E o que, diabos, pode essa mulher ter a ver comigo?" perguntou ele, com uma tentativa corajosa de se manter calmo, falando ainda em francês.

"Apenas que o senhor a conhecia", foi a minha breve resposta. Depois, com os meus olhos ainda fixos nos seus, perguntei: "Não pedirá agora a este cavalheiro que se retire?"

Ele hesitou um momento e, depois, com um aceno de mão, dispensou o homem que convocara para o seu auxílio. Um momento depois, o protetor pessoal do "Estrangulador" desapareceu através daquela porta secreta no painel pela qual tinha entrado.

"Bem?" perguntou o Barão, voltando-se rapidamente para mim de novo, os seus olhos escuros e malignos tentando sondar as minhas intenções.

"Bem?" perguntei. "E o que, por favor, pode lucrar ao denunciar-me como assassino? Lembre-se, Barão, de que o seu segredo é meu", disse eu com uma voz clara e cheia de significado.

"E a sua intenção é chantagem — eh?" cortou ele, caminhando até à janela e voltando. "Quanto quer?"

"A minha intenção não é nada desse tipo. O meu objetivo é vingar a ultrajante injúria a Elma Heath."

"Claro. Isso é apenas natural, m'sieur, se se apaixonou por ela", disse ele. "Mas não serão as suas intenções um tanto mal aconselhadas, considerando a posição dela como uma lunática criminosa?"

"Ela não é nenhuma das duas coisas", protestei rapidamente.

"Muito bem. Sabe melhor do que eu", riu-se ele. "A ofensa pela qual ela foi condenada ao confinamento numa fortaleza foi a tentativa de assassinato da Madame Vakuroff, esposa do General que comanda a Divisão Militar de Uleaborg."

"Assassinato!" gritei. "Enviou-a realmente para a prisão como assassina?"

"Eu não. O Tribunal Criminal de Abo fê-lo", disse ele secamente. "A ofensa provou-se, desde então, ter sido o resultado de uma conspiração política, e o Ministro do Interior em Petersburgo assinou na semana passada uma ordem para o transporte da prisioneira para a ilha de Saghalien."

"Ah!" comentei com os dentes cerrados. "Porque teme que ela escreva o seu segredo."

"Está a ser insultuoso! Evidentemente não sabe o que está a dizer", exclamou ele ressentido.

"Sei muito bem o que estou a dizer. Pediu a remoção dela para Saghalien para que a verdade nunca seja conhecida. Mas Barão Oberg", acrescentei com polidez simulada, "pode fazer o que quiser, pode enviar Elma Heath para a sua sepultura, pode manter-me prisioneiro se tiver coragem, mas ainda existem testemunhas do seu crime que se levantarão contra o senhor."

Num instante ele ficou mortalmente pálido, e soube que o meu tiro no escuro tinha atingido o alvo. O homem à minha frente era culpado de algum crime, mas o que era, só a própria Elma poderia dizer. Que ele a tivesse prendido por uma tentativa de assassinato político só mostrava quão engenhosamente e astutamente o governante sem coração daquele país arruinado tinha traçado os seus planos. Ele temia Elma e, portanto, conspirara para a enviar para aquela sombria ilha penal no longínquo Pacífico.

"Não teme a prisão, m'sieur?" perguntou ele, como se com alguma surpresa.

"Nem um pouco — pelo menos, não a prisão pelo senhor. Pode ser o representante do Imperador na Finlândia, mas mesmo aqui existe justiça para os inocentes."

Um sorriso sinistro brincou nos lábios finos e cinzentos do homem cujo nome era odiado através do grande império do Czar e era sinônimo de opressão, injustiça e tirania sem coração.

"Tudo o que posso repetir", disse ele, "é que se trouxer a jovem inglesa aqui, estarei bem preparado para ouvir o seu recurso." E riu-se asperamente.

"Pede isso porque sabe que é impossível", disse eu, ao que ele se riu de novo na minha cara — um riso que me fez perguntar se Elma não tinha já caído nas suas mãos. A incerteza do seu destino mantinha-me num suspense terrível.

"Apenas desejo impressioná-lo com o fato de que não tenho o menor interesse, seja ele qual for, na pessoa em questão", disse ele friamente. "Parece ter formado algum apego romântico por esta jovem que tentou envenenar a Madame Vakuroff, e ter conseguido resgatá-la de Kajana. Ignora depois o fato de que está sujeito a uma longa pena de prisão, e tem a audácia de procurar audiência comigo e fazer todo o tipo de insinuações e sugestões de que mantive a mulher como prisioneira para os meus próprios fins!"

"Não só repito isso, Barão Oberg", disse eu rapidamente. "Como também alego que foi por sua instigação que, em Siena, foi realizada uma operação na infeliz rapariga que a privou da fala e da audição."

"Por minha instigação?"

"Sim, pela sua!"

Ele riu-se novamente, mas inquieto, um riso forçado, e apoiou-se na beira da grande mesa de escrita perto da janela.

"Bem, o que se segue?" perguntou ele, fingindo estar interessado nas minhas alegações. "O que quer de mim?"

"Desejo que dê à Mademoiselle Heath a sua completa liberdade", disse eu.

"É só isso?"

"Tudo — por enquanto."

"Mas o futuro dela não está nas minhas mãos. O Ministro em Petersburgo decretou a sua remoção para Saghalien como uma pessoa perigosa para o Estado."

"O que significa que ela será maltratada — açoitada até à morte, talvez."

"Não usamos o chicote nas prisões russas hoje em dia", disse ele brevemente. "Sua Majestade decretou a sua abolição."

"Mas adotam a tortura em Kajana e Schusselburg em vez disso."

"O meu tempo é demasiado limitado para discutir o nosso sistema penal, m'sieur", exclamou ele impacientemente, enquanto eu via claramente que ele estava ansioso por escapar antes que eu fizesse mais acusações contra ele. Eu já lhe tinha mostrado que Elma tinha falado, e ele temia que ela tivesse dito a verdade. Embora isto o tornasse amargo contra ela e o levasse a tentar silenciá-la a todo o custo, era, naturalmente, do meu próprio interesse que ele temesse quaisquer revelações que eu pudesse fazer.

"Fez-se passar em Inglaterra pelo tio de Elma Heath, e ainda assim mantém-na aqui prisioneira. Por que razão?", exigi eu.

"Ela está mantida prisioneira pelo Estado — por conspiração contra o governo russo — não por mim pessoalmente."

"Quem a atraiu aqui? Por que, você mesmo. Quem conspirou para lançar sobre ela a culpa desta tentativa de homicídio da esposa do general? Você — você, o homem a quem chamam 'O Estrangulador da Finlândia'! Mas eu vingarei a cruel e abominável aflição que lhe impôs. O segredo dela — o seu segredo, Barão Oberg — será publicado ao mundo. Você é inimigo dela — e, portanto, meu!"

"Muito bem", rosnou ele entre os dentes, avançando na minha direção ameaçadoramente, com os punhos cerrados de raiva. "Lembre-se, m'sieur, de que me insultou. Lembre-se de que sou o Governador-Geral da Finlândia."

"Se fosse o próprio Czar, não hesitaria em denunciá-lo como o tirano e mutilador de uma pobre mulher indefesa."

"E a quem, peço-lhe, contará esta sua história romântica?", riu-se ele roucamente. "Às paredes da sua prisão abaixo do lago em Kajana? Sim, M'sieur Gregg, irá para lá, e uma vez dentro da fortaleza nunca mais verá a luz do dia. Ameaça-me — o Governador-Geral da Finlândia!", riu-se ele num tom estranho e agudo enquanto se atirava para uma cadeira e rabiscava algo rapidamente num papel, apensando a sua assinatura na sua letra pequena e trêmula.

"Eu não ameaço", disse eu em desafio aberto, "eu agirei."

"E eu também", disse ele com um sorriso maligno no seu rosto ossudo enquanto secava o que tinha escrito e o pegava, acrescentando: "Na escuridão e no silêncio do seu túmulo vivo, pode contar as histórias estranhas que quiser sobre mim. Eles estão habituados a idiotas para onde vai", acrescentou ele severamente.

"Oh! E para onde vou eu?"

"De volta a Kajana. Esta ordem consigna-o ao confinamento lá como um perigoso conspirador político, como alguém que me ameaçou — consigna-o às celas abaixo do lago — para toda a vida!"

Ri-me em voz alta, e a minha mão procurou a minha carteira onde estava aquele documento todo-poderoso — a ordem do Imperador que me dava, como hóspede imperial, imunidade de prisão. Eu produzi-la-ia como o meu trunfo.

No segundo seguinte, no entanto, prendi a respiração, e creio que devo ter empalidecido. O meu bolso estava vazio! A minha carteira tinha sido roubada! Caí de forma total e desamparada nas mãos do tirano do Czar.

O seu próprio interesse pessoal seria consignar-me a um túmulo vivo naquela lúgubre fortaleza de Kajana, cujos horrores eram indescritíveis. Eu tinha visto o suficiente durante a minha inspeção das prisões russas como jornalista para saber que lá, na Finlândia estrangulada, eu não seria tratado com a mesma consideração ou humanidade que em Petersburgo ou Varsóvia. O Governador-Geral consignou-me a Kajana como um "político", o que era sinónimo de uma sentença de morte naqueles úmidos e escuros calabouços subaquáticos, tão horríveis quanto os da Bastilha de Paris.

Encarámo-nos, e eu olhei diretamente para o seu rosto cinzento e ossudo, e respondi num tom de desafio:

"É Governador-Geral, é verdade, mas penso que refletirá antes de me consignar, um inglês, à prisão sem julgamento. Sei muito bem que os ingleses são odiados pela Rússia, contudo garanto-lhe que em Londres não nutrimos qualquer amor pela sua nação ou pelos seus métodos."

"Sim", riu-se ele, "tem toda a razão. A Rússia não tem qualquer utilidade para um aliado decadente como a Inglaterra."

"Decadente ou poderoso, o meu país ainda é capaz de apresentar um ultimato quando a diplomacia o exige", disse eu. "Portanto, não tenho medo. Envie-me para a prisão, e digo-lhe que a responsabilidade recai sobre si mesmo." E cruzando os braços, mantive os meus olhos fixos nos dele, para que ele não visse que eu hesitava.

"Quanto à responsabilidade, certamente não a temo, m'sieur", disse ele.

"Mas a exposição que resultará — está preparado para enfrentar isso?", perguntei. "Talvez não saiba que outros além de mim — um outro, na verdade, que é diplomata — está ciente da minha viagem até aqui? Se eu não regressar, o seu Ministério dos Negócios Estrangeiros em Petersburgo será pressionado por uma explicação."

"A qual eles não darão."

"Então, se não derem, a verdade virá a lume", disse eu rindo asperamente, pois vi o quão determinado ele se tinha tornado em manter-me prisioneiro. "Vamos, chame o seu capanga e envie-me para Kajana. Será o primeiro passo para a sua própria ruína."

"Veremos", rosnou ele.

"Ah! Certamente não pensa que eu, após dez anos de serviço no corpo diplomático britânico, me atreveria a vir à Finlândia nesta demanda — me atreveria a enfrentar a burocracia podre e corrupta que a Rússia colocou dentro deste país — sem antes tomar alguma precaução adequada? Não, Barão. Portanto, desafio-o, e parto de Helsingfors esta noite."

"Não partirá. Está sob detenção."

Ri-me cordialmente e estalei os dedos, dizendo:

"Antes de me entregar à sua polícia, primeiro telegrafe ao seu Ministro das Finanças, Monsieur de Witte, e pergunte-lhe quem e o que sou."

"Não o compreendo."

"Tem apenas de enviar o meu nome e descrição ao Ministro e pedir uma resposta", disse eu. "Ele dar-lhe-á instruções — ou, se assim desejar, pergunte ao próprio Sua Majestade."

"E por que, peço-lhe, Sua Majestade se preocupa consigo?", perguntou ele, de imediato intrigado.

"Saberá mais tarde, depois de eu estar confinado em Kajana e o seu segredo ser conhecido em Petersburgo."

"O que quer dizer?"

"Quero dizer", disse eu, "quero dizer que tomei todas as medidas necessárias para estar prevenido contra si. No dia em que for encarcerado por sua ordem, toda a verdade será conhecida. Eu não serei o sofredor — mas você será."

As minhas palavras, propositadamente enigmáticas, induziram-no em erro. Ele viu o rumo do meu argumento e, estando, claro, alheio a quanto eu sabia, ele ainda temia-me. A minha única incerteza era o destino real da pobre Elma. A minha carteira tinha sido roubada — com um propósito, sem dúvida — pois o ladrão privou-me daquele que era o mais importante de todos os documentos, o abre-te sésamo de todas as portas fechadas, o ucaze do Czar.

"Desafia-me!", disse ele roucamente, voltando-se para a janela com a ordem escrita para a minha prisão como político ainda na sua mão. "Mas veremos."

"Governa a Finlândia", disse eu num tom duro, "mas não tem poder sobre Gordon Gregg."

"Tenho poder, e pretendo exercê-lo."

"Para a sua própria ruína", comentei com um sorriso autoconfiante. "Pode dar ordens aos seus torturadores para me matarem — ordens de que um acidente fatal ocorra dentro da fortaleza — mas digo-lhe francamente que a minha morte não apagará nem ocultará as suas próprias ofensas. Há outros, longe em Inglaterra, que estão cientes delas, e que, para vingar a minha morte, dirão a verdade. Lembre-se de que, embora Elma Heath tenha sido privada tanto da audição como da fala, ela ainda pode escrever os factos verdadeiros a preto e branco. O Czar pode ser o seu patrono, e você o seu favorito, mas Sua Majestade não tolera funcionários que são culpados daquilo de que você é culpado. Fala em prender-me!", acrescentei com um sorriso. "Ora, deveria antes pôr-se de joelhos e implorar o meu silêncio."

Ele ficou pálido de raiva com o meu sarcasmo cortante. Ele literalmente fervia, pois via que eu estava perfeitamente calmo e não tinha medo dele ou do castigo terrível ao qual ele pretendia consignar-me. Além disso, ele estava cheio de espanto relativamente à quantidade exata de informação que Elma me tinha transmitido.

"Existem certas pessoas", continuei, "para quem seria de imenso interesse saber a verdadeira razão pela qual o iate a vapor Lola aportou em Livorno; por que fui entretido a bordo dele; por que o cofre do Consulado Britânico foi assaltado, e por que a infeliz rapariga, mantida prisioneira a bordo, foi levada para terra pouco antes da partida apressada da embarcação. E existem outros mistérios que a polícia inglesa está a tentar resolver, nomeadamente, a razão pela qual Armida Santini e um homem disfarçado de seu marido morreram na Escócia pela mão de um assassino. Mas certamente não preciso de dizer mais nada. É certamente suficiente para o convencer de que, se a verdade fosse dita, as revelações seriam distintamente embaraçosas."

"Para quem?", perguntou ele, abrindo os olhos.

"Para si. Vamos, Barão", disse eu, "ainda não podemos falar francamente?"

Mas ele ficou em silêncio por um momento, um facto que era por si só a prova de que o meu argumento incisivo o tinha levado a reconsiderar a sua intenção de me enviar sob escolta de volta para aquele castelo de terror.

Se a minha viagem até lá fosse para encontrar o meu amor, eu não me importaria. Era a ignorância do seu paradeiro ou do seu destino que me mantinha numa ansiedade tão profunda e devoradora. Cada hora que passava aumentava a minha afeição terna e profunda por ela. E ainda assim, que ironia do destino! Ela tinha sido cruelmente arrebatada de mim no preciso momento em que a liberdade tinha sido nossa.

Penso que foi bom ter assumido aquele ar de desafio com o homem que tinha esmagado a Finlândia sob o seu calcanhar. Ele não estava habituado a isso. Ninguém ousava ir contra a sua vontade, ou proferir insultos ou ameaças contra ele. Ele era supremo, com todos os poderes de um imperador — o poder, na verdade, de vida e morte. Portanto, ele não tinha o hábito de ser frustrado ou criticado, e eu podia ver que as minhas palavras tinham despertado dentro dele um tumulto fervilhante de ressentimento e raiva. Não lhe disse nada sobre a perda da minha carteira ou do documento precioso que ela continha. O meu desafio era meramente por princípio.

"Prenda-me se quiser. Denuncie-me por meio de qualquer mentira que surja nos seus lábios, mas lembre-se de que a verdade é conhecida para além das fronteiras do Império Russo, e por essa razão procurar-se-ão pistas sobre mim e exigir-se-á uma explicação completa. Tomei precauções, Xavier Oberg", acrescentei, "portanto faça o seu pior. Repito novamente que o desafio!"

Ele percorreu a grande sala, as suas mãos finas como garras ainda cerradas, os seus dentes amarelos a ranger, os seus olhos escuros e profundos fixos diretamente à frente. Se ele tivesse ousado, ter-me-ia derrubado aos seus pés. Mas ele não ousou. Vi demasiado claramente que, embora a minha carteira tivesse desaparecido, eu ainda detinha o trunfo — que ele temia-me.

A menção que fiz do Ministro das Finanças, contudo, pareceu causar-lhe uma hesitação considerável. Aquele alto funcionário tinha o ouvido do Imperador, e se eu fosse um amigo, poderiam haver inquéritos. Enquanto eu estava perante ele, apoiado numa pequena mesa buhl, observei todos os complexos funcionamentos da sua mente, e tentei ler o motivo misterioso que o tinha levado a consignar a pobre Elma a Kajana.

Ele era um valentão orgulhoso, possuindo nem piedade nem remorso, um espécime comum do alto funcionário russo, um burocrata limitado, um escravo da etiqueta e possuindo um verniz de polimento. Mas por baixo de tudo isso vi que ele era um cobarde com um medo mortal de ser assassinado — um cobarde que temia que algum segredo fosse revelado. Aquela porta escondida no painel com o guarda armado à espreita atrás era prova suficientemente clara de que ele não era o Governador-Geral destemido que popularmente se supunha. Ele, "O Estrangulador da Finlândia", tinha esmagado a nação galante até à submissão, arruinando o seu comércio, enfraquecendo o país ao recrutar a sua juventude para o exército russo, proibindo o uso da língua finlandesa, e tributando o povo até que as fábricas tinham sido forçadas a encerrar enquanto o campesinato morria de fome. E agora, à beira da revolta, tinha surgido um bando de patriotas que ressentiam a ruína, e que já tinham avisado Sua Majestade por carta que se o Barão Oberg não fosse removido do seu posto, ele morreria.

Estes e outros pensamentos correram pela minha mente no silêncio que se seguiu à nossa acalorada discussão, pois vi bem que ele estava em verdadeiro medo de mim. Eu tinha-o levado a acreditar que sabia tudo, e que o seu futuro estava nas minhas mãos, enquanto ele, por sua vez, estava ansioso por me manter prisioneiro, e ainda assim não ousava fazê-lo.

A minha carteira tinha sido provavelmente roubada por algum espião da polícia à espreita, pois agentes russos abundam em toda a parte na Finlândia, denunciando conspirações que não existem e rotulando inocentes como "políticos".

O Barão tinha parado, e estava a olhar através de uma das grandes janelas para o pátio abaixo onde as sentinelas caminhavam. O palácio era para ele uma prisão dourada, pois ele não ousava sair para um passeio num ou noutro parque ou para um sopro de ar na água em direção a Hogholmen ou Dagero, sendo forçado a permanecer lá durante meses sem se mostrar publicamente. Pessoas em Abo tinham-me dito que quando ele saía às ruas de Helsingfors era à noite, e ele geralmente disfarçava-se com o uniforme de um soldado raso da guarda, escapando assim ao reconhecimento por aqueles que, levados ao desespero pela injustiça, procuravam a sua vida.

Um longo silêncio caiu entre nós, e ocorreu-me então tirar partido da sua hesitação. Portanto, disse num tom firme, em francês —

"Penso, Barão, que a nossa entrevista chegou ao fim, não é? Portanto, desejo-lhe um bom dia."

Ele voltou-se para mim subitamente com um brilho maligno nos seus olhos escuros, e uma imprecação rosnada em russo nos seus lábios. A sua mão ainda segurava a ordem que me consignava à fortaleza.

"Mas antes de sair, destruirá esse documento. Pode cair noutras mãos, sabe", e caminhei em direção a ele com rápida determinação.

"Não farei nada desse género!", rebateu ele.

Sem mais palavra, arranquei o papel dos seus dedos finos e brancos e rasguei-o diante da sua cara. O seu semblante tornou-se lívido. Não creio ter visto alguma vez a cara de um homem assumir tal expressão de vingança demoníaca. Era como se naquele instante o inferno tivesse sido solto dentro do seu coração.

Mas voltei as costas e saí, passando pelas sentinelas na antecâmara, ao longo dos corredores cheios de flores e através do pátio até à entrada principal, onde o magnífico porteiro me saudou enquanto eu saía para a praça.

Eu tinha escapado por meio da minha própria diplomacia e firmeza. O representante do Czar — o homem que governava aquele país — temia-me, e por essa razão não me manteve prisioneiro. Contudo, quando recordei aquele olhar maligno de vingança na minha partida, não pude evitar que certos sentimentos de grave apreensão surgissem dentro de mim.

Regressando ao meu hotel, fumei um charuto no meu quarto e ponderei. Onde estava Elma? era a questão principal que surgia na minha mente. Ao permanecer em Helsingfors, não poderia alcançar mais nada, agora que tinha feito o conhecimento do opressor, ao passo que se voltasse a Abo, poderia, porventura, ser capaz de obter alguma pista sobre o paradeiro do meu amor. Chamo-lhe o meu amor porque tanto sentia pena como amava a pobre rapariga aflita que era tão indefesa e desamparada.

Portanto, tomei o comboio da meia-noite de volta a Abo, chegando ao hotel na manhã seguinte. Após uma hora de descanso, parti ansiosamente em busca de Felix, o condutor de drosky. Encontrei-o na sua casa construída de troncos no bairro de Ludno, e quando ele me convidou a entrar, vi, pelo seu rosto, que ele tinha notícias para transmitir.

"Bem?", indaguei. "E quanto à senhora? Foi encontrada?"

"Ah! Sua Excelência. É uma pena que não estivesse aqui ontem", disse ele com um suspiro.

"Porquê? Diga-me rapidamente. O que aconteceu?"

"Tenho estado a ajudar a polícia como espião, Excelência, como muitas vezes faço, e vi-a."

"Vi-a! Onde?", exclamei com rápida ansiedade.

"Aqui, em Abo. Ela chegou ontem de manhã de Tammerfors acompanhada por um inglês. Ela tinha mudado de roupa, e estava toda de preto. Almoçaram juntos no Restaurant du Nord em frente ao cais de desembarque, e uma hora depois partiram de navio para Petersburgo."

"Um inglês!", exclamei. "Não informou o Chefe da Polícia, Boranski?"

"Sim, Sua Excelência. Mas ele disse que, estando os seus passaportes em ordem, era melhor permitir que a senhora prosseguisse. Atrasá-la poderia significar a sua re-detenção na Finlândia", acrescentou ele.

"Então os seus passaportes foram visados aqui ao embarcar?", exclamei. "Qual era o nome no do inglês?"

"Tenho-o aqui escrito, Excelência. Não consigo pronunciar os vossos difíceis nomes ingleses." E ele produziu um pedaço de papel sujo onde estava escrito em caligrafia russa o nome —

"Martin Woodroffe."

CAPÍTULO XIII

UM JOGO DUPLO E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

Fui à estação de comboios, e a partir do horário concluí que se partisse de Abo de comboio ao meio-dia, poderia estar em Petersburgo uma hora antes do meio-dia do dia seguinte, ou cerca de quatro horas antes da chegada do navio no qual a rapariga silenciosa e o seu companheiro eram passageiros. Decidi fazer isto, mas antes de partir fiz uma visita ao meu amigo, Boranski, que, para minha surpresa e deleite, me entregou a minha carteira com a carta do Czar intacta, dizendo que tinha sido encontrada com um ladrão alemão que tinha sido detido no porto na noite anterior. O tipo tinha, sem dúvida, roubado-a do meu bolso acreditando que eu transportava o meu dinheiro em papel na aba.

"O caso da senhora inglesa é extraordinário", comentou o Chefe da Polícia, brincando com a sua caneta enquanto se sentava à sua grande mesa. "Ela parece ter encontrado este inglês lá em Tammerfors, ou nalgum local mais a norte, contudo é curioso que o seu passaporte esteja em ordem, mesmo que ela tenha fugido tão precipitadamente de Kajana. Existe um mistério ligado ao seu desaparecimento da cabana do lenhador que confesso não conseguir desvendar."

"Nem eu", disse eu. "Conheço o homem que está com ela, e não posso evitar temer que ele seja o seu inimigo mais amargo — que esteja a agir em conluio com o Barão."

"Então por que a leva ele para a capital — para além da jurisdição do Governador-Geral?"

"Vou direto a Petersburgo para verificar", disse eu. "Só vim agradecer-lhe pela sua gentileza neste assunto. Para dizer a verdade, fiquei algo surpreendido por se ter interessado por mim", acrescentei, olhando diretamente para o oficial uniformizado.

"Não foi por si, mas por ela", respondeu ele, algo enigmaticamente. "Sei algo sobre o assunto, mas era o meu dever como homem ajudar a pobre rapariga a escapar daquele lugar terrível. Ela foi, sei-o, injustamente condenada pela tentativa de assassínio da esposa de um General — condenada com um propósito, claro. Tal coisa não é incomum na Finlândia."

"Abominável!", exclamei. "Oberg é um verdadeiro demónio."

Mas o homem apenas encolheu os ombros, dizendo —

"As ordens de Sua Excelência o Governador-Geral têm de ser obedecidas, quaisquer que sejam. Muitas vezes lamentamos, mas não ousamos recusar cumpri-las."

"O domínio russo é uma desgraça para a nossa civilização moderna", declarei calorosamente. "Tenho total simpatia por aqueles que lutam pela liberdade."

"Ah, não está sozinho nisso", suspirou ele, falando num sussurro baixo, e olhando em volta. "Sua Majestade ordenaria reformas e melhoraria a condição do seu povo, se apenas fosse possível. Mas ele, tal como os seus funcionários, são impotentes. Aqui falamos da grande revolta com a respiração suspensa, mas nós, infelizmente! sabemos que ela deve vir um dia — muito em breve — e a Finlândia será a primeira a tentar quebrar os seus laços — e o Barão Oberg o primeiro a cair."

Sentei-me com ele durante quase uma hora, surpreendido ao descobrir como, embora o seu exterior fosse tão rude e grosseiro, o seu coração sangrava verdadeiramente pelas pobres pessoas famintas que ele era constantemente forçado a oprimir.

"Arruinei esta cidade de Abo", declarou ele, com toda a franqueza. "Do meu conhecimento, quinhentas pessoas inocentes foram para a prisão, e outras duzentas foram exiladas para a Sibéria. Contudo, o que fiz foi apenas sob ordens diretas de Helsingfors — ordens severas, impiedosas e injustas. Homens foram arrancados das suas famílias e enviados para as minas, mulheres foram presas sem qualquer ofensa e enviadas para Saghalien, e meras crianças foram lançadas na prisão sob acusações de conspiração política com os seus mais velhos — a fim de russificar a província! Apenas", acrescentou ele ansiosamente, "espero que nunca repita o que lhe digo. Perguntou-me por que ajudei a Mademoiselle inglesa a escapar de Kajana, e expliquei-lhe a razão."

Comemos uma refeição farta em companhia no Sampalinna, um restaurante construído como um chalé suíço, e ao meio-dia entrei no comboio para a primeira etapa da minha lenta e tediosa viagem através das grandes florestas silenciosas e ao longo das margens dos lagos do Sul da Finlândia, passando por Tavestehus e Viborg, até Petersburgo.

Eu estava sozinho na carruagem e sentei-me, melancólico, a observar o panorama de madeira e rio enquanto serpenteávamos lentamente pelas subidas tortuosas e descíamos as encostas íngremes. Eu nem sequer tinha um jornal para passar o tempo, apenas os meus próprios pensamentos apreensivos sobre para onde o meu amor indefeso estava a ser levado.

Certamente, nunca foi apresentado a homem nenhum um problema tão complicado como aquele que eu estava agora a tentar resolver tão vigorosamente. Eu amava Elma Heath. Quanto mais refletia, mais profundamente o seu semblante doce e a sua graça terna se imprimiam no meu coração. Eu amava-a, portanto, esforçava-me por alcançá-la.

O vapor, soube, faria escala em Hango e Helsingfors. Será que, interroguei-me, desembarcariam em qualquer um desses lugares? Estaria o homem que eu conhecera como Hornby, o proprietário do Lola, a levá-la para a colocar novamente nas mãos diabólicas de Xavier Oberg? O simples pensamento disso fez-me suster a respiração.

A luz do dia chegou finalmente, fria e cinzenta, sobre aqueles pântanos lúgubres e intermináveis onde a caça, especialmente a narceja, parecia abundante, e numa pequena estação na cabeceira de um lago chamado Davidstadt tomei o meu copo de chá matinal; depois retomámos a nossa viagem até Viborg, onde um russo baixo e atarracado da classe comercial, mas algo janota, entrou na minha carruagem, e partimos no expresso para Petersburgo.

Tínhamos passado por uma pequena estação chamada Galitsina, perto da qual havia muitas vivendas ocupadas no verão por famílias de Petersburgo, e viajávamos através dos densos e sombrios bosques de pinheiros, quando o meu companheiro de viagem, tendo pedido permissão para fumar, começou a conversar afavelmente. Parecia um sujeito agradável e contou-me que era um comerciante de lã e que tinha passado umas férias agradáveis a pescar trutas no Vuoski, acima das quedas de Imatra, onde as poças entre as corredeiras abundam em peixe.

Ele contou-me que, devido ao facto de a margem estar tão cheia de ervas daninhas e da clareza da água, a pesca a partir das margens era quase uma impossibilidade, e como tinham de se habituar a pescar à linha de um barco tão pequeno que apenas acomodava o remador e o pescador.

Depois, comentou subitamente:

"O senhor é inglês, suponho — possivelmente de Helsingfors?"

"Não", respondi. "De Abo. Atravessei de Estocolmo e vou para Petersburgo."

"E eu também. Vivo em Petersburgo", acrescentou. "Talvez nos encontremos um dia. Conhece a capital?"

Expliquei que a tinha visitado uma vez antes e que tinha feito o circuito habitual de turismo. A sua maneira era expedita e direta, como convinha a um homem de negócios, mas quando parámos em Bele-Ostrof, no lado oposto do pequeno rio sinuoso que separa a Finlândia da Rússia propriamente dita, o funcionário da alfândega que veio examinar a nossa bagagem trocou um olhar curioso e significativo com ele.

O meu companheiro de viagem acreditou que eu não tinha observado, contudo, estando eu agora atento, fui sagaz em detetar o menor sinal ou olhar, e decidi imediatamente não contar mais nada ao sujeito sobre os meus próprios negócios. Ele era, sem dúvida, um espião do "Estrangulador", que me seguira durante todo o caminho desde Abo e só tinha entrado na minha carruagem para a etapa final da viagem.

Esta revelação causou-me alguma inquietação, pois mesmo que eu conseguisse evitar o homem à chegada a Petersburgo, ele poderia, sem dúvida, obter rapidamente notícias do meu paradeiro junto da polícia, para quem o meu passaporte teria de ser enviado. Fingi cochilar e recostei-me com os olhos semicerrados a observá-lo. Quando ele percebeu que eu não estava disposto a conversar mais, pegou no jornal que tinha comprado e ficou absorvido nele, enquanto eu, por minha parte, tentava traçar algum plano com o qual pudesse enganar e escapar à sua vigilância.

O sujeito tencionava fazer mal — eu sabia disso. Se Elma fugia em segredo e ele me vigiava, ele saberia que ela estava em Petersburgo. A todo o custo, pelo bem do meu amor, bem como pelo meu, vi que tinha de escapar-lhe. A engenhosidade e a inteligência dos espiões de Oberg eram proverbiais por toda a Finlândia, portanto ele poderia não estar sozinho, ou, em qualquer caso, à chegada a Petersburgo obteria assistência para manter a vigilância sobre mim. Eu sabia que o Barão desejava a minha morte e que, portanto, não podia ser demasiado cauteloso com as armadilhas. Aquela cadeira fatal tão engenhosamente preparada para mim em Lambeth ainda estava vividamente na minha memória.

À medida que passávamos por Lanskaya e atravessávamos os subúrbios de Petersburgo, o meu companheiro de viagem tornou-se inquisitivo sobre para onde eu ia, mas eu fui algo reticente e ocupei-me com a minha mala até entrarmos no grande terminal ecoante, de onde podia ver o Neva a brilhar sob a luz pálida do sol e a cidade para além. O sujeito não fez qualquer tentativa de me seguir — ele era um agente secreto demasiado esperto para isso. Desejou-me apenas um "sdravstvuite", levantou o chapéu educadamente e desapareceu.

Um carregador levou a minha mala para fora da estação e eu conduzi através da ponte até ao grande hotel onde tinha ficado antes, o Europe, na esquina da Nevski Prospect com a Michael Street. Lá, aluguei um quarto virado para a frente, com vista para a larga Nevski, lavei-me e depois fiquei à janela a vigiar o aparecimento do espião. Eu já tinha umas boas quatro horas antes de o vapor de Abo ser esperado, e pretendia certificar-me se estava ou não a ser seguido.

Em vinte minutos, o sujeito passeava-se do lado oposto da estrada, exatamente como eu esperava. Ele tinha mudado de roupa e apresentava um aspeto tão diferente que, à primeira vista, não o reconheci. Ele sabia que eu tinha ido para lá de carro e pretendia seguir-me se eu saísse. A minha posição era de extrema dificuldade, pois se eu descesse até ao cais, ele seguir-me-ia certamente.

Tendo observado os seus movimentos durante uns dez minutos, desci até à grande salle-à-manger e almocei lá, conversando com o empregado francês enquanto isso. Sentei-me propositadamente num nicho, para estar longe das outras pessoas que almoçavam ali, e para que pudesse falar com o empregado sem ser ouvido.

Assim que acabei a refeição, e ele me entregava a conta, inclinei-me para ele e perguntei:

"Quer ganhar vinte rublos?"

"Bem, m'sieur", respondeu ele, olhando para mim com alguma surpresa. "Seriam aceitáveis. Sou um homem casado."

"Bem, quero escapar deste lugar sem ser observado. Há um assunto desagradável relacionado com uma dama, e receio um conflito com um homem que me aguarda lá fora, na Nevski." Então, vendo que ele hesitava, assegurei-lhe que não tinha cometido nenhum crime e que voltaria para buscar a minha bagagem naquela noite.

"Poderia passar pela cozinha e sair pela entrada de serviço", disse ele, após um momento de reflexão. "Se m'sieur assim o desejar, eu conduzi-lo-ei para fora. A saída é numa rua das traseiras que dá para o Canal Catarina."

"Excelente!", disse eu. "Vamos. Claro que não dirá nada?"

"Nem uma palavra, m'sieur", e ele recolheu as notas mais vinte rublos com que paguei a minha conta, e pegando no meu chapéu, segui-o até ao fim da salle-à-manger, atrás de um biombo de madeira alto, através da enorme cozinha e depois por um longo corredor de pedra, no fim do qual estava sentado um velho porteiro carrancudo. O meu guia disse-lhe uma palavra, a porta abriu-se e encontrei-me num beco estreito e pobre, com o canal logo adiante.

A minha primeira visita foi a uma loja de roupa, onde comprei e vesti um novo sobretudo leve, e depois a um chapeleiro para um chapéu de formato diferente daquele que eu usava. Levei o chapéu de volta para um beco tranquilo que tinha notado e troquei rapidamente o que usava por ele, deixando o meu chapéu velho num canto. Depois, entrei num café para passar as horas até que o navio da Finlândia fosse esperado.

Às quatro horas, estava no cais, esforçando os olhos para o mar à procura de qualquer sinal de fumo, mas não via nada. O sol estava a pôr-se e a larga extensão de água a poente dançava como ouro líquido. A luz desvaneceu-se lentamente, o cinzento frio da noite aproximou-se. Um vento gelado surgiu e varreu o cais, fazendo-me tremer. Perguntei a um estivador se o vapor costumava atrasar-se, ao que ele me respondeu que muitas vezes estava cinco ou seis horas fora de tempo, dependendo do atraso em Helsingfors.

O crepúsculo aprofundou-se em noite e a chuva caiu intensamente, ainda assim continuei a caminhar pelas lajes molhadas com paciência, os meus olhos sempre voltados para o mar à procura da luz da embarcação que eu esperava que trouxesse o meu amor. A minha presença ali despertou alguma especulação entre os ociosos, penso eu; contudo, esperei com a mais profunda ansiedade para saber se, afinal, Elma e Hornby não teriam desembarcado em Helsingfors.

Pouco depois das dez horas, uma luz brilhou ao longe e o movimento da polícia e dos carregadores no cais disse-me que era a embarcação. Depois, após mais um quarto de hora ansioso, ela chegou, entre grandes gritos e imprecações mútuas, lentamente ao longo do cais, e os passageiros começaram finalmente a desembarcar sob a chuva torrencial.

Um após outro, caminharam pela rampa, entrando no escritório de passaportes e seguindo para a Alfândega, pessoas de todos os tipos e de todos os graus — suecos, alemães, finlandeses e russos — até que, de repente, avistei duas figuras — uma, um homem num grande casaco de viagem de tweed e um gorro de golfe, e a outra, a figura esguia de uma mulher com uma longa capa escura e um gorro de lã. Os raios elétricos caíram sobre eles enquanto subiam a rampa molhada juntos, e ali, mais uma vez, vi o rosto doce da mulher silenciosa que eu tinha começado a amar com tal desespero fervoroso. O homem atrás dela era o mesmo que me tinha entretido a bordo do Lola — o homem que se dizia ser o amante da fugitiva Muriel Leithcourt.

Sem trair a minha presença, observei-os passar pelo escritório de passaportes e pela Alfândega, e então, ao ouvir o endereço que Martin Woodroffe deu ao isvoshtchik, pus-me de lado, encharcado até aos ossos, e vi-os partir.

Às onze horas do dia seguinte, encontrei-me instalado no Hotel de Paris, uma estalagem confortável na Little Morskaya, tendo conseguido evitar a vigilância do espião que tão habilmente me tinha seguido desde Abo, e levar a minha mala do Hotel Europe.

Eu estava sob o mesmo teto que Elma, embora ela desconhecesse a minha presença. Ansioso por comunicar com ela sem o conhecimento de Woodroffe, aguardava agora a minha oportunidade. Ele, ao que parecia, tinha-lhe alugado um quarto agradável virado para a frente, com uma sala de estar adjacente no primeiro andar, enquanto ele próprio ocupava um quarto no terceiro andar. Os aposentos que ele tinha contratado para ela eram os mais caros do hotel e, tanto quanto pude apurar do empregado francês a quem dei uma gorjeta judiciosa, ele parecia tratá-la com toda a consideração e gentileza.

"Ah, pobre jovem!", exclamou o homem enquanto estava no meu quarto a responder às minhas perguntas, "Que aflição! Ela escreve todos os seus pedidos — pois não consegue proferir uma única palavra."

"O inglês recebeu algum visitante?", perguntei.

"Um homem — um russo — um funcionário da polícia, penso eu."

"Se ele receber mais alguém, informe-me", disse eu. "E quero que entregue à Mademoiselle uma carta minha em segredo."

"Bien, m'sieur."

Voltei-me para a pequena secretária e rabisquei algumas linhas apressadas para o meu amor, anunciando a minha presença e pedindo-lhe que me concedesse uma entrevista em segredo assim que Woodroffe estivesse ausente. Avisei-a também da busca por ela instigada pelo Barão e instei-a a enviar-me uma linha em resposta.

O bilhete foi entregue na sua mão, mas embora eu tivesse esperado em suspense quase todo o dia, ela não enviou qualquer resposta. Enquanto Woodroffe estivesse no hotel, não me atrevi a mostrar-me para que ele não me reconhecesse, portanto fui forçado a fingir indisposição e a fazer as minhas refeições sozinho no meu quarto.

Tanto os meios pelos quais ela tinha conhecido Martin Woodroffe como o motivo eram igualmente um enigma. Pela carta que ela tinha escrito à sua colega de escola, era evidente que ela tinha algum segredo dele, pois não teria ela querido enviar-lhe uma mensagem de tranquilização de que não tinha revelado nada? Isto pareceria indicar que eram amigos próximos; contudo, por outro lado, algo parecia dizer-me que ele estava a agir de forma falsa e que era, na verdade, um aliado do Barão.

Por que a tinha trazido para Petersburgo? Se ele tivesse desejado resgatá-la, tê-la-ia levado na direção oposta — para Estocolmo, onde ela estaria livre — enquanto ele a levou, uma prisioneira fugitiva, para o próprio meio do perigo. Era verdade que o seu passaporte estava em ordem, mas lembrei-me de que tinha sido emitida uma ordem para a sua deportação para Saghalien, e agora, uma vez presa, ela estaria perdida para mim para sempre. Este pensamento encheu-me de uma ansiedade feroz. Ela estava em Petersburgo, aquela cidade onde os espiões da polícia abundam e onde cada nova chegada é notada e os seus antecedentes averiguados. Nenhuma tentativa tinha sido feita para disfarçar quem ela era, portanto, em breve, a polícia viria indubitavelmente prendê-la como a criminosa fugitiva de Kajana.

Durante várias horas, sentei-me à janela a observar a vida e o movimento na rua abaixo, com a mente cheia de espanto e presságios sombrios. Estaria Martin Woodroffe a enganá-la?

Pouco depois das seis e meia da tarde, o empregado entrou e, entregando-me um bilhete num tabuleiro, disse:

"A Mademoiselle, creio, só conseguiu escrever em segredo neste momento."

Abri-o e li o seguinte:

QUERIDO AMIGO. — _Estou tão surpreendida. Pensei que ainda estivesse em Abo. Woodroffe tem um compromisso às oito horas no outro lado da cidade, portanto venha ter comigo às 8.15. Preciso de o ver, e imediatamente. Estou em perigo._ — ELMA HEATH.

O meu amor estava em perigo! Era exatamente como eu tinha temido. Agradeci à Providência por ter sido enviado para ajudá-la e retirá-la daquele destino terrível a que "O Estrangulador da Finlândia" a tinha condenado.

À hora que ela marcou, depois de o empregado ter vindo ter comigo e anunciado a partida do inglês, desci até à sua sala de estar e entrei sem bater, pois se tivesse batido, ela não poderia, infelizmente, ter ouvido.

O aposento era espaçoso e confortável, densamente alcatifado, com mobiliário pesado e dourado. Diante da janela comprida estavam desenhadas cortinas de pelúcia verde-escura, e de um lado estava o alto fogão de porcelana branca com faixas de latão brilhante, enquanto da sua espreguiçadeira baixa, uma figura esguia e pálida levantou-se rapidamente e veio ao meu encontro, estendendo ambas as mãos e sorrindo alegremente.

Peguei nas suas mãos com as minhas e segurei-as firmemente em silêncio durante alguns momentos, enquanto olhava seriamente para aqueles olhos maravilhosamente brilhantes dela. Ela virou-se a rir, um leve rubor subindo às suas faces na sua confusão. Depois, conduziu-me a uma cadeira e fez-me sinal para me sentar.

O nosso foi um encontro silencioso, mas os seus gestos e a expressão dos seus olhos eram certamente mais eloquentes do que meras palavras. Eu sabia bem o prazer que aquele reencontro lhe causava — prazer igual ao que me dava a mim.

Até aquele momento, eu nunca tinha amado verdadeiramente. Tinha admirado e flirtado com mulheres. Que homem não o fez? De facto, eu tinha admirado Muriel Leithcourt. Mas nunca até agora tinha experimentado no meu coração a verdadeira chama de uma afeição ardente. A doçura da sua expressão, a carícia terna daquelas mãos macias e afiladas, o olhar profundo e misterioso naqueles olhos magníficos e a incomparável graça de todos os seus movimentos combinavam-se para torná-la a mulher mais perfeita que eu já tinha conhecido — perfeita em tudo, infelizmente! exceto na fala e na audição, das quais, com tal devassidão cobarde, ela tinha sido privada.

Ela tocou nos seus lábios vermelhos com a ponta do indicador, abriu as mãos e encolheu os ombros com um gesto triste de pesar. Depois, voltando-se rapidamente para algum papel na pequena mesa ao seu lado, escreveu algo com uma lapiseira de ouro e entregou-me. Dizia:

"Certamente a Providência enviou-o aqui! O Sr. Woodroffe deve ter seguido o senhor desde Inglaterra. Ele é o meu inimigo. Deve levar-me daqui e esconder-me. Eles tencionam enviar-me para o exílio. Já esteve em Petersburgo antes? Conhece alguém aqui?"

Então, quando li, ela entregou-me a sua lapiseira e abaixo escrevi:

"Farei o meu melhor, querida amiga. Já estive uma vez em Petersburgo. Mas não será melhor fugirmos imediatamente da Rússia?"

"Impossível por agora", escreveu ela. "Seríamos ambos presos na fronteira. Seria melhor esconder-nos aqui em Petersburgo. Acreditei que Woodroffe fosse meu amigo, mas descobri apenas hoje que ele é o meu inimigo. Ele sabia que eu estava em Kajana e estava em Abo quando soube da minha fuga. Ele foi com outros dois homens à nossa procura e descobriu-nos naquela noite quando procurámos abrigo na cabana do lenhador. Sem revelar a sua presença, esperou lá fora até que estivesse a dormir, e depois veio e espreitou pela minha janela. A princípio fiquei alarmada, mas rapidamente vi que ele era um amigo. Ele disse-me que a polícia estava nas proximidades e tencionava invadir a cabana, por isso fugi com ele, primeiro até Tammerfors e depois para Abo, e para aqui. Naquela altura, não vi a armadilha cobarde que ele tinha montado para me tirar das garras do Barão e arrancar-me o meu segredo. Se eu confessar, ele tenciona entregar-me à polícia, que me enviará para as minas."

"O seu segredo diz respeito a ele?", perguntei por escrito.

"Sim", escreveu ela em resposta. "Seria igualmente do interesse dele, bem como do Barão Oberg, se eu fosse enviada para Saghalien e a minha identidade apagada. Sou uma súbdita russa, como já lhe disse, portanto, com uma ordem ministerial contra mim, estou em perigo mortal."

"Confie em mim", escrevi rapidamente. "Agirei conforme qualquer sugestão que me dê. Tem alguma amiga em quem possa confiar para a esconder até que este perigo passe?"

"Há uma amiga — uma amiga verdadeira. Pode levar-lhe um bilhete?", escreveu ela, ao que acenei instantaneamente de forma afirmativa.

Depois, levantando-se, obteve alguma tinta e uma pena e escreveu uma carta, cujo conteúdo ela não me mostrou antes de a selar. Sentei-me a observá-la, a sua cabeça bela inclinada sob a luz sombreada do candeeiro, captando o seu perfil e notando como era eminentemente elegante, soberba e imaculada na sua juventude feminina.

Observei-a escrever o sobrescrito no envelope: "Madame Olga Stassulevitch, modiste, Scredni Prospect, 231, Vasili Ostroff." Sabia que o distrito ficava do lado oposto da cidade, perto da Pequena Neva.

"Tome um droshky imediatamente, veja-a e aguarde uma resposta. Entretanto, preparar-me-ei para estar pronta quando regressar", escreveu ela. "Se Olga não estiver em casa, peça para ver o Padre Vermelho — em russo, 'Krasny-pastor'. Regresse depressa, pois temo que Woodroffe possa voltar. Se tal acontecer, estou perdida."

Assegurei-lhe que não perderia um único instante, e cinco minutos depois eu seguia a toda a velocidade pela Morskaya num droshky, ao longo do canal e através da Ponte Nicolau em direção ao endereço no envelope.

A casa era, descobri, um pouco mais pequena do que as vizinhas, mas não alugada em apartamentos como as outras. Na porta havia uma grande placa de latão com o nome "Olga Stassulevitch: modes." Pressionei o botão elétrico e, em resposta, um criado russo alto e de rosto rapado abriu a porta.

"Madame não está em casa", foi a sua breve resposta à minha pergunta.

"Então verei o Padre Vermelho", disse eu num tom mais baixo. "Venho da parte de Elma Heath." Ato contínuo, sem mais uma palavra, o homem admitiu-me no corredor comprido e escuro e fechou a porta com um pedido de desculpas por o gás não estar aceso. Mas, riscando um fósforo, conduziu-me pela larga escadaria até uma divisão pequena, acolhedora e bem mobilada no segundo andar, evidentemente a sala de estar de alguém estudioso, a julgar pelos livros e revistas críticas espalhados.

Esperei ali durante alguns minutos, até que a porta se reabriu e entrou um homem de estatura média, com uma cabeleira branca como a neve e uma barba quase patriarcal, cujos olhos escuros, que a idade esmorecera, brilharam para mim com um olhar de curiosa indagação, e cujos movimentos eram os de alguém que não estava muito à vontade.

"Telefonei em nome da Mademoiselle Elma Heath, para entregar esta carta à Madame Stassulevitch, ou, se ela estiver ausente, para a colocar nas mãos do Padre Vermelho", expliquei no meu melhor russo.

"Muito bem, senhor", respondeu o velho num inglês bastante bom. "Sou a pessoa que procura", e, tomando a carta, abriu-a e leu-a toda.

Vi pela expressão no seu rosto sulcado que o conteúdo lhe causava a maior consternação. A sua face, já pálida, empalideceu até aos lábios, enquanto nos seus olhos se disparava um fogo de rápida apreensão. A mão fina, quase transparente, que segurava a carta tremia visivelmente.

"Conhece a Mademoiselle — eh?", perguntou ele com uma voz rouca e tensa enquanto se voltava para mim. "Irá ajudá-la a escapar?"

"Arriscarei a minha própria vida para salvar a dela", declarei.

"E a sua devoção por ela é motivada por quê?", indagou ele desconfiado.

Fiquei em silêncio por um momento. Depois, confessei a verdade.

"O meu afeto."

"Ah!", suspirou ele profundamente. "Pobre jovem! Ela, que tem inimigos por toda a parte, precisa tristemente de um amigo. Mas podemos confiar em si — não tem medo?"

"De quê?"

"De ser implicado na próxima revolução na Rússia? Lembre-se de que sou o Padre Vermelho. Nunca ouviu falar de mim? O meu nome é Otto Kampf."

Otto Kampf!

Fiquei diante dele de boca aberta. Quem na Rússia não tinha ouvido falar daquela misteriosa pessoa desconhecida que dirigira uma centena de conspirações contra o Autocrata Imperial, e cuja identidade a polícia nunca conseguira descobrir. Acreditava-se que Kampf fora outrora professor de química na Universidade de Moscovo e que inventara aquele terrível e destrutivo explosivo usado pelos revolucionários. Os ingredientes do poderoso composto e o modo de o detonar eram o segredo apenas dos niilistas — e Otto Kampf, o líder misterioso, cuja personalidade era desconhecida até dos próprios conspiradores, dirigia aquelas tentativas constantes que mantinham o Imperador e o seu Governo num tal terror hora a hora.

Recompensas sem número tinham sido oferecidas pelo Ministério do Interior pela traição e prisão do homem invisível cujo poder na Rússia, permeando todas as classes, era maior do que o do próprio Imperador — a cuja palavra, um dia, o povo se levantaria em massa e destruiria os seus opressores.

O Imperador, os Ministros, a polícia e os burocratas sabiam disto, mas eram impotentes — sabiam que o misterioso professor que desaparecera de Moscovo quinze anos antes e nunca mais fora visto estava apenas à espera da sua oportunidade para desferir um golpe que faria estremecer e esmagar o Império de uma ponta à outra — contudo, sobre o seu paradeiro, eram de uma ignorância total.

"Está surpreendido", riu-se o velho, notando o meu espanto. "Bem, não é um dos nossos, mas não preciso de lhe incutir a necessidade absoluta, por causa da Mademoiselle, de preservar o segredo da minha existência. É porque não é membro da 'Vontade do Povo' que nunca ouviu falar do 'Padre Vermelho' — vermelho porque escrevi o meu ultimato ao Czar com o sangue de uma das suas vítimas açoitadas na fortaleza de Pedro e Paulo, e padre porque prego o evangelho da liberdade e da justiça."

"Não direi nada", disse eu, contemplando a figura estranhamente marcante diante de mim — o homem desconhecido que dirigia a grande agitação que iria revolucionar a Rússia. "O meu único desejo é salvar a Mademoiselle Heath."

"E está preparado para o fazer com o risco da sua própria liberdade — da sua própria vida? Ah! disse que a ama. Não seria este um teste ao seu afeto?"

"Estou preparado para qualquer teste, desde que ela escape à armadilha que os seus inimigos lhe prepararam. Consegui salvá-la de Kajana, e pretendo salvá-la agora."

"Foi o senhor que entrou realmente em Kajana e a arrebatou daquele túmulo!", exclamou ele, e apertou-me a mão entusiasticamente, acrescentando: "Não preciso de duvidar mais de si." E voltando-se para a mesa, escreveu um endereço num pedaço de papel, dizendo: "Leve a Mademoiselle para lá. Ela encontrará um lugar seguro para se esconder. Mas vá depressa, pois cada momento coloca-os a ambos em perigo mais mortal. Esconda-se lá também."

Agradeci-lhe e parti imediatamente, mas ao sair da casa e entrar de novo no droshky, vi bem perto, à espreita na sombra, o espião do "Estrangulador da Finlândia", que tinha viajado comigo de Abo.

Os nossos olhos cruzaram-se, e ele reconheceu-me, apesar do meu sobretudo leve e chapéu novo.

Então, com o coração a afundar-se, a verdade horrível ocorreu-me. Tudo fora em vão. Elma estava perdida para mim.

CAPÍTULO XIV

SUA ALTEZA É INQUISITIVA

Instantaneamente o perigo tornou-se aparente e, em vez de conduzir de volta ao hotel, gritei ao homem para me levar à estação ferroviária de Moscovo, a fim de despistar o espião. Sabia que ele me seguiria, mas como estava a pé, sem nenhum droshky à vista, eu conseguiria chegar à estação antes dele e lá iludi-lo.

Chocalhámos sobre as pedras, deixando o agente à espreita parado na sombra profunda, mas ao olhar para trás vi-o correr pela estrada em direção a uma rua secundária, onde, com toda a probabilidade, teria um transporte à espera.

Depois, após termos atravessado a Neva, revoguei a minha ordem ao homem, dizendo:

"Não vá até à estação. Vire para a Liteinoi Prospect à esquerda e deixe-me lá. Conduza depressa e pagar-lhe-ei o dobro da tarifa."

Ele fustigou os cavalos e virámo-nos para aquele labirinto de ruas escuras, mal iluminadas e estreitas que jaz entre a Vosnesenski e a Nevski, virando e serpenteando até emergirmos finalmente de novo na via principal, e então, finalmente, virámo-nos para a rua que eu tinha indicado — uma estrada larga de edifícios elegantes onde eu sabia que certamente conseguiria obter outro droshky instantaneamente. Atirei o dinheiro ao homem, desci e, dois minutos depois, seguia em direção à Ponte Alexandre, viajando em círculo de volta ao hotel. Vez após vez olhava para trás, mas não via nada do espião do Barão, que tinha ido evidentemente para a estação a toda a velocidade, esperando que eu estivesse a deixar a capital.

Encontrei Elma no seu quarto, pronta e vestida para sair, usando uma capa de viagem comprida e, na mão, uma pequena mala de toucador. Ela estava pálida e cheia de ansiedade até eu lhe mostrar o pedaço de papel que Otto Kampf me dera com o endereço escrito, e então apressámo-nos a sair juntos.

A casa para a qual nos dirigimos era, descobrimos, uma casa grande de frente para o Canal Fontanka, um dos melhores bairros da cidade, e ao descer perguntei ao dvornick de libré por Madame Zurloff, o nome que o "Padre Vermelho" tinha escrito.

"Refere-se à Princesa Zurloff", comentou o homem através da sua barba ruiva. "Quem devo dizer que deseja vê-la?"

"Tome isto", disse eu, entregando-lhe o pedaço de papel que, além do endereço, ostentava uma marca de cifra curiosa como três triângulos unidos.

Ele fechou a porta, deixando-nos no hall largo e alcatifado, cujas estátuas nos mostravam que era um lugar ricamente mobilado, e quando, alguns minutos depois, ele regressou, conduziu-nos escadas acima até um belo salão dourado, onde uma senhora idosa de cabelos brancos, vestida de preto, estava gravemente à nossa espera.

"Permita-me apresentar a Mademoiselle Elma Heath, Princesa", disse eu, falando em francês e fazendo uma vénia, e depois dizendo-lhe o meu próprio nome.

A nossa anfitriã deu as boas-vindas à minha amada com um discurso gracioso, mas eu disse:

"A Mademoiselle sofre infelizmente de uma aflição terrível. Ela é surda-muda."

"Ah, quão muito, muito triste!", exclamou ela com simpatia. "Pobre rapariga! pobre rapariga!", e colocou a mão ternamente sobre o ombro de Elma e olhou nos seus olhos. Depois, voltando-se para mim, disse: "Então o Padre Vermelho enviou-vos ambos a mim! Estão em perigo de prisão, suponho — desejam que vos esconda aqui?"

"Pediria apenas santuário para a Mademoiselle", foi a minha resposta. "Quanto a mim, não tenho medo. Sou inglês e, portanto, não sou membro do Partido."

"A Mademoiselle teme a prisão?"

"Existe uma ordem assinada para o seu banimento para Saghalein", disse eu. "Ela esteve presa em Kajana, a fortaleza longe na Finlândia, mas consegui libertá-la."

"Ela esteve realmente em Kajana!", ofegou a Princesa. "Ah! já ouvimos todos o suficiente sobre os horrores daquele lugar. E o senhor libertou-a! Ora, ela é a única pessoa que alguma vez escapou daquele túmulo vivo para o qual Oberg envia as suas vítimas."

"Acredito que sim, Princesa."

"E posso assumir, monsieur, que a razão pela qual arriscou a sua vida por ela é porque a ama? Perdoe-me por sugerir isto."

"Adivinhou corretamente", respondi. Depois, sabendo que Elma não podia ouvir, acrescentei: "Eu amo-a, mas não somos amantes. Não lhe contei do meu afeto. A dela é uma história longa e estranha, e talvez ela lhe conte algo sobre isso por escrito."

"Bem", exclamou a senhora de cabelos brancos sorrindo, conduzindo a minha amada através do luxuoso quarto, cuja atmosfera estava cheia com o perfume das flores, e tirando-lhe a capa com as suas próprias mãos, "está segura aqui, minha pobre criança. Se espiões não a seguiram, então permanecerá minha hóspede durante o tempo que desejar."

"Tenho a certeza de que é muito gentil da sua parte, Princesa", disse eu com gratidão. "A Miss Heath é vítima de uma conspiração vil e cobarde. Quando lhe disser que ela foi afligida como está pelos seus inimigos — que uma operação foi realizada nela em Itália enquanto estava inconsciente — verá facilmente em que perigo mortal ela se encontra."

"O quê!", gritou ela. "Os seus inimigos fizeram realmente isto? Horrível!"

"Ela talvez lhe conte o estranho romance que a rodeia — um mistério que ainda não consegui decifrar. Ela é uma súbdita russa, embora tenha sido educada em Inglaterra. O próprio Barão Oberg é, creio eu, o seu pior e mais amargo inimigo."

"Ah! o Estrangulador!", exclamou ela com um brilho rápido nos seus olhos escuros. "Mas o seu fim está próximo. O Movimento está ativo em Helsingfors. A qualquer momento agora poderemos desferir o nosso golpe pela liberdade."

Ela era uma revolucionária entusiasta, eu podia ver, insuspeita, contudo, pela polícia devido à sua elevada posição na sociedade de Petersburgo. Foi ela que, como descobri mais tarde, fornecera as grandes somas de dinheiro a Kampf para a continuação da propaganda revolucionária e, de facto, dedicara secretamente a maior parte das suas receitas das suas vastas propriedades em Samara e Kazan à causa niilista. O seu marido, ele próprio um entusiasta da liberdade, embora da alta nobreza, tinha morrido devido a uma queda do seu cavalo seis anos antes, e desde esse tempo ela retirara-se da sociedade e vivia ali tranquilamente, fazendo do movimento revolucionário a sua única ocupação. As autoridades acreditavam que a sua reforma se devia à dolorosa perda que sofrera e não tinham qualquer suspeita de que era o seu dinheiro que permitia ao misterioso "Padre Vermelho" completar lenta, mas seguramente, a conspiração para a revolta geral.

Ela obrigou-me a tirar o casaco e foi servido chá por um criado tártaro, cuja família, explicou ela, tinha sido serva dos Zurloffs durante três séculos, e então Elma trocou confidências com ela por meio de papel e lápis.

"Quem é este homem Martin Woodroffe, de quem ela fala?", perguntou a Princesa pouco depois, voltando-se para mim.

"Encontrei-o duas vezes — apenas duas vezes", respondi, "e sob circunstâncias estranhas." Depois, continuando, contei-lhe algo sobre os incidentes do iate Lola.

"Ele pode estar apaixonado por ela e desejar forçá-la ao casamento", sugeriu ela, expressando espanto com a narrativa curiosa que eu relatara.

"Penso que não, por várias razões. Uma é porque sei que ela detém algum segredo sobre ele, e outra porque ele está noivo de uma rapariga inglesa chamada Muriel Leithcourt."

"Leithcourt? Leithcourt?", repetiu a Princesa, franzindo as sobrancelhas com um ar intrigado. "Por acaso sabe o nome do pai dela?"

"Philip Leithcourt."

"E ele viveu realmente na Escócia?"

"Sim", respondi com ansiedade rápida. "Ele alugou um campo de tiro chamado Rannoch, perto de Dumfries. Um incidente misterioso ocorreu na sua propriedade — um duplo homicídio, ou homicídio e suicídio; o que não é muito claro — mas pouco depois apareceu uma noite na casa um homem chamado Chater, Hylton Chater, e toda a família fugiu imediatamente e desapareceu."

A Princesa Zurloff sentou-se com os lábios pressionados um contra o outro, olhando diretamente para a rapariga silenciosa diante dela. Elma tinha tirado o chapéu e a capa e estava agora sentada numa poltrona funda de seda amarela, com a luz do candeeiro a brilhar no seu cabelo castanho, composta e calma como se já estivesse perfeitamente à vontade. Sorri para mim mesmo ao pensar no desgosto de Woodroffe quando regressasse e encontrasse a sua vítima desaparecida.

"Sua Alteza conhece evidentemente os Leithcourts", arrisquei, após um breve silêncio.

"Já ouvi falar deles", foi a sua resposta insatisfatória. "Vou a Inglaterra por vezes. Quando o Príncipe era vivo, estivemos muitas vezes no Claridge's durante a estação. O Príncipe foi durante cinco anos adido militar na Embaixada sob o comando de de Staal, sabe. O que sei dos Leithcourts não abona a favor deles. Mas diz-me que houve um incidente misterioso antes da sua fuga. Explique-mo."

Nesse momento, as longas portas brancas do belo salão foram abertas pelo fiel servidor tártaro, e entrou um homem cujo cabelo caía sobre a gola do seu pesado sobretudo, mas a quem, num instante, reconheci como Otto Kampf.

Tanto Elma como eu saltámos para os nossos pés, enquanto, avançando para a Princesa, ele curvou-se e galantemente beijou a mão que ela lhe estendeu. Depois, apertou a mão a Elma e, reconhecendo as minhas próprias saudações, tirou o casaco e atirou-o para uma cadeira com o ar de um visitante habitual.

"Venho, Princesa, a fim de lhe explicar", disse ele. "A Mademoiselle teme uma nova prisão, e a única casa em Petersburgo que a polícia nunca suspeita é esta. Portanto, envio-a para si, sabendo que com a sua generosidade a ajudará na sua angústia."

"Está tudo arranjado", foi a resposta de Sua Alteza. "Ela permanecerá aqui, pobre rapariga, até que seja seguro para ela sair da Rússia." Então, após alguma conversa adicional, e depois de a minha bem-amada ter feito sinais de sincera gratidão ao homem conhecido de uma ponta à outra do império russo como "O Padre Vermelho", a Princesa virou-se para mim, dizendo:

"Gostaria muito de saber o que ocorreu antes de os Leithcourts deixarem a Escócia."

"Os Leithcourts!", exclamou Kampf com total surpresa. "Conhece os Leithcourts — e o oficial inglês Durnford?"

Olhei para os seus olhos com espanto absoluto. Que ligação poderia Jack Durnford, dos Fuzileiros, ter com o aventureiro Philip Leithcourt? Recordei-me, contudo, das palavras de Jack, quando eu descrevera a visita do Lola a Livorno, e recordei-me ainda de que muito em breve ele estaria de volta a Londres do seu período de serviço no Mediterrâneo.

"Bem", disse eu após uma pausa, "acontece que conheço o Capitão Durnford muito bem, mas não fazia ideia de que ele fosse amigo de Leithcourt."

O Padre Vermelho sorriu, acariciando a sua barba branca.

"Explique a Sua Alteza o que ela deseja saber, e eu lhe direi."

Os meus olhos cruzaram-se com os de Elma, e vi quão intensamente ansiosa e interessada ela estava, observando o movimento dos meus lábios e tentando perceber que palavras eu pronunciava.

"Bem", disse eu, "uma tragédia misteriosa ocorreu na orla de um bosque perto da casa alugada por Leithcourt — uma tragédia que intrigou a polícia até aos dias de hoje. Um italiano chamado Santini e a sua esposa foram encontrados assassinados."

"Santini!", ofegou Kampf, levantando-se. "Mas certamente ele não está morto?"

"Não. Essa é a parte curiosa do caso. O homem que foi morto era um homem disfarçado para representar o italiano, enquanto a mulher era, na verdade, a própria esposa do criado. Acontece que conheço bem o homem Santini, pois tanto ele como a sua esposa estiveram durante alguns anos ao meu serviço."

A Princesa e o diretor do movimento revolucionário russo trocaram olhares rápidos. Era como se Sua Alteza implorasse a Kampf que me revelasse a verdade, enquanto ele, pela sua parte, estava relutante em fazê-lo.

"E sobre quem recai a suspeita?", perguntou Sua Alteza.

"Pelo que pude perceber, a polícia não tem qualquer pista, exceto uma. No local foi encontrada uma minúscula cruz de uma das ordens de cavalaria russas — a Cruz de Santa Ana."

"Não há qualquer suspeita sobre Leithcourt?", perguntou ela com alguma ansiedade indevida, pensei eu.

"Não."

"Ele recebeu algum convidado no pavilhão de caça?"

"Uns quantos."

"Nenhum estrangeiro entre eles?"

"Nunca conheci nenhum. Pareciam todos pessoas de Londres — um grupo elegante na sua maioria."

"Então por que é que os Leithcourts desapareceram tão subitamente?"

"Por causa do aparecimento do homem Chater", respondi. "É evidente que eles temiam-no, pois tomaram todas as precauções contra serem seguidos. De facto, fugiram deixando um grande grupo de amigos na casa. O homem Woodroffe, agora no Hotel de Paris, é amigo de Leithcourt assim como de Chater."

"Ele não era um convidado de Leithcourt quando este homem que representava Santini foi assassinado?", perguntou Kampf, acariciando de novo a barba.

"Não. Assim que Woodroffe me reconheceu como visitante, ele partiu — para Hamburgo."

"Ele estava com medo de o enfrentar por causa do arrombamento do cofre do Cônsul Britânico em Livorno", observou a Princesa, que, no mesmo momento, tomou a mão de Elma ternamente na sua e olhou para ela. Depois, virando-se para mim, disse: "O que nos contou esta noite, Sr. Gregg, lança uma nova luz sobre certos incidentes que até agora nos intrigavam. O mistério de tudo isto é um mistério grande e inescrutável — o mistério desta pobre rapariga desafortunada, o maior de todos. Mas ambos nos esforçaremos para o ajudar a elucidá-lo; ajudaremos a pobre Elma a esmagar os seus inimigos — estes vilões cobardes que a mutilaram."

"Ah, Princesa!", exclamei. "Se apenas a ajudar e proteger, estará a praticar um ato de misericórdia para com uma mulher indefesa. Eu amo-a — admito-o. Fiz o meu melhor: esforcei-me por resolver o mistério sombrio, mas até ao presente não tive sucesso, e permaneci apenas, até hoje, vítima da circunstância."

— Deixe-a ficar comigo — respondeu a bondosa senhora, sorrindo ternamente para o meu amor. — Ela estará segura aqui e, entretanto, esforçar-nos-emos por descobrir a verdadeira e real verdade.

E, em resposta, tomei a mão da Princesa e apertei-a fervorosamente. Embora aquele homem notável de cabelos brancos e a mulher de negro, algo rígida e formal, fossem os líderes do grande e todo-poderoso movimento na Rússia conhecido em todo o mundo civilizado como "O Terror", eram, apesar disso, nossos amigos. Tinham-se comprometido a ajudar-nos a frustrar os nossos inimigos.

Rabisquei algumas palavras apressadas num papel e entreguei-o a Elma. E, como resposta, ela sorriu satisfeita, olhando-me nos olhos com uma expressão de confiança, devoção e amor.

CAPÍTULO XV

NAS PROXIMIDADES DE STRAND

Passara uma semana. O Nord Express trouxera-me a toda a velocidade através da Europa, de Petersburgo até Calais, e eu estava de novo em Londres. Deixara Elma ao cuidado da Princesa Zurloff, que eu sabia que a esconderia da horda de agentes da polícia que agora a procurava.

O mistério tinha aumentado tanto que agora se tornara absolutamente desconcertante. Quanto mais tentava sondá-lo, mais inexplicável o achava. O meu cérebro andava à roda enquanto eu estava sentado na carruagem-cama, correndo através daquelas planícies vastas e intermináveis que se estendem entre a capital russa e Berlim, e pelos vales verdes entre as terras do Reno e o mar. O labirinto de mistério deixava-me totalmente incapaz de apreender um único facto sólido e tangível, tão intimamente entrelaçado estava cada incidente do estranho drama da vida em que, por puro acaso, desempenhava agora um papel principal. Eu estava consciente de apenas um facto: que amava Elma com toda a minha alma, embora não soubesse quem ela realmente era — ou a história da sua estranha vida. O seu rosto doce, com aqueles olhos castanhos suaves, tão ternos e intensos, surgia sempre diante de mim, quer estivesse a dormir ou acordado. Cada momento em que o expresso corria para sul aumentava a distância entre nós, contudo, não estaria eu a caminho de Inglaterra com um propósito claro e distinto? Agarrei-me a qualquer pista, por mais pequena que fosse, com uma avidez desesperada, como um homem que se afoga se agarra a uma palha.

O espião de Abo vira-me na plataforma da estação ferroviária aquando da minha partida de Petersburgo. Tinha-me ouvido comprar um bilhete para Londres e, antes de entrar no comboio, sorrira-lhe com um triunfo alegre. A minha viagem era demasiado longa para ele me seguir, e eu sabia que, finalmente, o tinha superado. Ele esperava ver Elma comigo, sem dúvida, e a sua deceção foi claramente notória. Mas de Woodroffe não vira nem ouvira nada.

* * * * *

Era uma noite de novembro, fria mas seca, em Londres, e eu jantava com Jack Durnford a uma pequena mesa na grande e bem iluminada sala do Junior United Service Club. Descontraído e alegre como sempre, o meu amigo transbordava de bom humor, encantado por estar de volta à cidade depois de três anos a navegar pelo Mediterrâneo, de Gibraltar a Esmirna, sempre em manobras, mas sem nunca ter oportunidade de combate. O seu rosto bem barbeado trazia a marca dos sóis do sul, e as costas das mãos estavam bronzeadas pelo calor e pelo mar. Ele era, de facto, um oficial tão elegante como qualquer outro no Junior, pois os fuzileiros são proverbiais pela sua elegância, e os seus homens a bordo do Bulwark tinham recebido muitos elogios agradáveis do Almirante.

— Estou contente por estar de volta! — exclamou ele, enquanto se servia de um "peg". — Acho que sim, meu velho. Sabes como a vida lá fora se torna terrivelmente cansativa. Há muita coisa a acontecer em Palermo, Malta, Monte Carlo ou em Argel, e, no entanto, nunca temos oportunidade de lá estar. Estamos sempre à vista dos lugares alegres e nunca desembarcamos. Não culpo os rapazes por fugirem de Livorno por dois dias para virem aqui à cidade sempre que podem. Três anos são uma fatia maior da vida de um homem do que qualquer um poderia supor. Mas, a propósito, vi o Hutcheson no outro dia. Atracámos em Spezia e ele veio ver o Almirante — penso que trazia despachos para ele. Parece tão alegre como sempre. Almoçou no refeitório e disse o quanto lamentava que tivesses abandonado Livorno.

— Não o abandonei propriamente — disse eu. — Mas, na verdade, não o amo como ele ama.

— Não. Um ou dois anos do azul do Mediterrâneo são mais do que suficientes para durar uma vida inteira a qualquer um. Eu não viveria em Livorno se pudesse escolher. Preferiria algures nas montanhas, para lá de Pisa, ou nos arredores de Florença, onde se pode passar bons momentos no inverno.

Depois, um silêncio instalou-se entre nós e continuei a comer até ao fim da refeição, a matutar sobre como abordar a questão que tanto desejava colocar-lhe.

— Vou tentar ver se consigo o serviço de recrutamento em casa durante algum tempo — disse ele passado pouco tempo. — Há uma vaga em Glasgow e vou tentar consegui-la. Será melhor, pelo menos, do que a China ou o Pacífico.

Estava prestes a mudar a conversa para a visita da misteriosa Lola a Livorno, quando dois homens que ele conhecia entraram na sala de jantar e, ao reconhecê-lo, atravessaram a sala para lhe dar as boas-vindas a casa. Um dos recém-chegados era o Major Bartlett, de quem me lembrei imediatamente por ter sido convidado de Leithcourt em Rannoch, e o outro era um homem mais jovem que Durnford me apresentou como Capitão Hanbury.

— Oh, Major! — exclamei, levantando-me e apertando-lhe a mão. — Não o vejo desde a Escócia e o extraordinário final da sua festa em casa.

— Não — riu ele. — Foi um caso espantoso, não foi? Depois de os Leithcourt terem partido, foi como se o pandemónio se tivesse soltado; os convidados apoderaram-se de tudo o que puderam! É um milagre que aquele caso vergonhoso não tenha ido parar aos jornais.

— Mas onde está o Leithcourt agora? — perguntei ansiosamente.

— Não faço a mínima ideia — respondeu o Major, de pernas abertas e mãos nos bolsos. — O jovem Paget, do nosso regimento, disse-me no outro dia que viu a Muriel a conduzir na Terminus Road em Eastbourne, mas ela não o reparou nele. Eles eram uma gente um tanto estranha, esses Leithcourt — acrescentou.

— Olá! O que estão a dizer sobre os Leithcourt, Charley? — exclamou Durnford, virando-se rapidamente para Hanbury. — Conheço algumas pessoas com esse nome — Philip Leithcourt, que tem uma filha chamada Muriel.

— Bem, soam muito semelhantes. Mas se os conhece, meu caro velho, não invejo em nada as suas amizades — declarou o Major com uma risada.

— Por que não?

— Bem, o Gregg dir-lhe-á — disse ele. — Ele sabe, talvez, mais do que eu. Mas — acrescentou — podem não ser, claro, as mesmas pessoas.

— Encontrei-os pela primeira vez a velejar em Argel — disse o Jack. — E depois de novo em Malta, onde pareciam ter muitos amigos. Tinham um iate a vapor, o Iris, e andavam frequentemente pelo Mediterrâneo.

— Têm de ser as mesmas pessoas — declarou o Major. — O Leithcourt falou uma ou duas vezes do seu iate, mas todos nós achámos que era uma embarcação inexistente, porque ele estava sempre a exagerar sobre as suas aventuras.

— E como é que conheceu o Leithcourt? — perguntei ao Major com avidez.

— Oh, não sei. Alguém o trouxe ao refeitório e começámos a conhecer-nos à mesa. Parecia um bom sujeito e, quando me convidou para caçar, aceitei. À chegada a Rannoch, contudo, uma coisa pareceu-me bastante estranha, e foi o facto de, entre as pessoas que fui convidado a conhecer, estar um dos piores vigaristas da cidade. Ele chamava a si próprio Martin Woodroffe lá — embora eu o conhecesse no antigo Corinthian Club como Dick Archer. Acreditava-se então que ele era um dos membros de um bando inteligente de ladrões internacionais.

— Quando o conheci pela primeira vez, ele deu-me o nome de Hornby — disse eu. — Foi em Livorno, onde ele estava a bordo de um iate chamado Lola, do qual se dizia ser o proprietário.

— Ele deixou Rannoch muito subitamente — observou Bartlett. — Entendemos que ele estava noivo da Muriel. Se assim for, lamento por ela, a pobre rapariga.

— Quê! — gritou Durnford, levantando-se. — Esse homem a casar com a Muriel Leithcourt?

— Sim — disse eu. — Porquê?

Mas o seu semblante tinha ficado pálido e ele não respondeu à minha pergunta.

— Se esses mesmos Leithcourt são realmente seus amigos, Durnford, meu velho, lamento ter dito qualquer coisa contra eles — exclamou o Major num tom apologético. — Só que o fim da minha visita foi tão abrupto e tão extraordinário, e a companhia tão heterogénea, que... bem, para dizer a verdade, as pessoas são um grupo misterioso no seu todo.

— Talvez os nossos Leithcourt não sejam os mesmos que o Jack conhece — observei, para escapar a uma situação um tanto difícil; ao que Durnford, como se estivesse ansioso por esconder a sua surpresa, disse com um riso forçado: — Oh! provavelmente não — e voltou a sentar-se à mesa. Depois, o Major mudou rapidamente de assunto e, pouco tempo depois, ele e o seu amigo passaram pela nossa mesa e sentaram-se para comer.

Não pude deixar de notar que o Jack Durnford estava perturbado com o que tinha aprendido, contudo, hesitei em fazer-lhe qualquer pergunta naquele momento. Decidi abordar o assunto mais tarde, de modo a dar-lhe tempo para me questionar se assim o desejasse.

Depois de fumarmos durante uma hora, fomos ao Empire, onde passámos a noite no círculo principal, encontrando muitos homens que conhecíamos e passando um momento bastante agradável entre velhos conhecidos. Se um homem que viveu a vida de clubes de Londres regressa do estrangeiro, pode sempre encontrar alguém que conhece no círculo do Empire por volta das dez da noite. O Jack, contudo, não era o mesmo que fora antes do jantar. A sua testa estava agora pesada e pensativa, e ele parecia profundamente imerso em algum problema intrincado, pois os seus olhos fixavam-se no vazio sempre que lhe era dada oportunidade de pensar, e parecia desejar evitar os amigos em vez de os cumprimentar.

Depois do teatro, convenci-o a vir ao Cecil, e na cadeira de vime no grande pórtico antes da entrada, sentámo-nos para fumar os nossos últimos charutos. É um dos meus locais favoritos quando estou em Londres, pois à tarde, quando a banda de cordas toca e os americanos e outros cosmopolitas tomam chá, há um contínuo ir e vir, um pequeno panorama de vida que, para um estudioso dos homens como eu, é intensamente interessante. E à noite é igualmente divertido sentar-se ali na sombra e observar as pessoas a regressar dos teatros ou dos bailes e especular sobre quem são e o que são. Naquele pequeno canto de Londres, mesmo ao lado de Strand, vê-se mais variedade de homens e mulheres do que talvez em qualquer outro lugar. Todas as classes passam diante de si, desde o impetuoso empresário americano interessado numa patente farmacêutica, até ao orgulhoso Rajá indiano com o seu séquito de turbantes; desde a atriz de variedades até à filha de um par do reino, ou a esposa de um milionário vendedor de carne de porco que anda pela Europa.

— Estás um pouco em baixo esta noite, Jack — disse eu passado algum tempo, depois de termos estado a observar as carruagens a chegar, deixando os foliões que regressavam do Savoy ou do Carlton.

— Sim — suspirou ele. — E certamente tenho motivos para isso — depois do que ouvi do Bartlett.

— Quê! Os factos que ele nos contou trouxeram-te más notícias? — perguntei com fingida ignorância.

— Sim — disse ele com a voz rouca, após uma breve pausa. Depois acrescentou: — O Bartlett disse que tu me poderias contar o que aconteceu na Escócia, onde o Leithcourt tinha terrenos de caça. Conta-me tudo — acrescentou com o ar de um homem em quem toda a esperança está morta.

— Bem — comecei eu —, os Leithcourt alugaram o Castelo de Rannoch, perto da propriedade do meu tio, perto de Dumfries. Conheci-os, é claro, e muitas vezes cacei com o grupo dele. Um dia, porém, fiquei espantado ao notar numa das salas a fotografia de uma senhora, o duplicado exato daquela imagem que, recordo-me, te disse quando estava em Livorno que tinha encontrado rasgada a bordo do Lola. Lembras-te do que narrei sobre a minha estranha aventura, não te lembras?

— Lembro-me de cada palavra — foi a sua resposta. — Continua. O que fizeste?

— Nada. Calei-me. Mas quando descobri que o sujeito que se chamava Woodroffe — o homem que se tinha apresentado como proprietário do Lola e que, sem dúvida, tinha tido uma mão no arrombamento do cofre do Hutcheson no Consulado — estava noivo da Muriel, fiquei cheio de suspeitas.

— Bem?

— O Woodroffe, depois de me conhecer, desapareceu — foi para Hamburgo, disseram, em negócios. Depois aconteceram outras coisas. Um homem e uma mulher foram encontrados assassinados no bosque a cerca de uma milha e meia do castelo. O homem estava caracterizado para representar o meu homem Olinto — penso que o viste em Livorno?

— Quê! Mataram o Olinto? — arquejou ele, levantando-se da cadeira.

— Não. O sujeito estava caracterizado muito à semelhança dele. Mas a sua esposa, Armida, foi morta.

— Mataram a mulher e acreditaram que também tinham matado o seu marido, eh? — disse ele amargamente entre os dentes, e vi que as suas mãos fortes agarraram os braços da cadeira com firmeza. — E o Martin Woodroffe está noivo da Muriel Leithcourt. Tens a certeza disto?

— Sim; tenho a certeza absoluta.

— E não há qualquer suspeita sobre quem é o assassino da mulher Santini e deste homem misterioso que se fazia passar pelo seu marido?

— Nenhuma.

Durante algum tempo, Jack Durnford fumou em silêncio, e eu conseguia distinguir o seu rosto branco e endurecido na luz ténue, pois já era tarde, as grandes lâmpadas elétricas tinham sido apagadas e estávamos na penumbra.

— Esse sujeito nunca casará com a Muriel — declarou ele com uma voz feroz e rouca. — O que acabaste de me contar revela a verdade. Encontraste o Chater?

— Ele apareceu subitamente em Rannoch e os Leithcourt fugiram precipitadamente e não se ouviu mais falar deles.

— Ah, não admira! — comentou ele com uma risada seca. — Não admira! Mas olha aqui, Gordon, não vou ficar de braços cruzados e deixar que aquele patife do Woodroffe case com a Muriel.

— Tu amas a Muriel, talvez? — arrisquei.

— Sim, eu amo-a — admitiu ele. — E, por Deus! — gritou. — Vou dizer a verdade e esmagar todo o seu engenhoso plano. Já conheceste a Elma Heath? — perguntou ele.

— Sim — disse eu com rápida ansiedade.

— Então ouve — disse ele numa voz baixa e séria. — Ouve, e vou contar-te uma coisa.

— Há um mistério maior a rodear aquele iate, o Lola, do que alguma vez imaginaste, meu caro velho — declarou Jack Durnford, olhando-me diretamente nos olhos. — Quando me contaste sobre isso no convés, naquele dia ao largo de Livorno, estive quase para te contar o que sabia. Apenas um facto me impediu — a minha relutância em revelar os meus próprios segredos. Eu amava a Muriel Leithcourt, contudo, embarcado como estava, nunca a podia ver — não conseguia obter dos seus próprios lábios a explicação que desejava. Mas não a queria julgar antecipadamente — não, e não o farei agora! — acrescentou com uma resolução feroz.

— Eu amo-a — continuou ele —, e ela retribui o meu amor. O nosso é um noivado secreto feito em Malta há dois anos, e tu dizes-me que ela se comprometeu com aquele sujeito Woodroffe — o homem conhecido aqui em Londres como Dick Archer. Não posso acreditar nisso — não posso mesmo, meu velho. Ela nunca poderia escrever-me como tem escrito, pedindo paciência e segredo até ao meu regresso.

— A menos, claro, que ela desejasse ganhar tempo — sugeri.

Mas o meu amigo manteve-se em silêncio; as suas sobrancelhas estavam profundamente franzidas.

— O Woodroffe está neste momento em Petersburgo — disse eu. — Acabei de regressar de lá.

— Em São Petersburgo! — arquejou ele, surpreendido. — Então ele está com aquele oficial vilão, o Barão Oberg, o Governador-Geral da Finlândia.

— Não; o Oberg vive fechado no seu palácio em Helsingfors, receando sair para não ser assassinado — foi a minha resposta.

— E a Elma? O que aconteceu com ela?

— Ela está escondida em Petersburgo, à espera do momento em que eu a consiga tirar em segurança da Rússia — e então, continuando, expliquei como ela tinha sido mutilada e tornada surda e muda.

— Quê! — gritou ele ferozmente. — Fizeram mesmo isso à pobre rapariga? Então temiam que ela revelasse a natureza do seu plano, pois ela tinha visto e ouvido.

— Visto e ouvido o quê?

— Sê paciente; elucidaremos este mistério e o motivo desta terrível imposição sobre ela. A Muriel escreveu-me a dizer que a pobre Elma, a sua amiga, tinha desaparecido, e que temia que algum mal lhe tivesse acontecido também. Por isso, o Oberg enviou-a para a sua fortaleza — a sua própria Bastilha privada — o lugar para onde, com falsas acusações de conspiração contra a Rússia, ele envia aqueles que o frustram para um túmulo vivo.

— Eu vi-o e desafiei-o — disse eu.

— Viste! Homem, tem cuidado! Ele não é um sujeito que se detenha por ninharias — disse Jack num tom de aviso.

— Não tenho medo — respondi. — Os inimigos da Elma também são os meus.

— Então presumo, meu velho, que, apesar da sua aflição, estás realmente apaixonado por ela?

— Pretendo resgatá-la e casar com ela — respondi com toda a franqueza.

— Mas primeiro temos de rasgar este véu de mistério e averiguar todos os factos relativos a ela — disse ele. — De momento, só conheço um ou dois detalhes muito vagos. O barão certamente não é o seu tio, como ele se faz passar, mas parece certo que ela é filha de pais anglo-russos, nasceu na Rússia e foi trazida para Inglaterra quando era criança.

— Mas de quem esperas que eu possa obter os factos verdadeiros sobre ela e a razão do desejo do barão em mantê-la em silêncio?

— Ah! — disse ele, torcendo o bigode pensativamente. — Essa é precisamente a questão. Para uma solução do problema, devemos primeiro sondar o motivo dos Leithcourt e a razão pela qual fugiram com medo daquele sujeito, o Chater. Que a Muriel é inocente de qualquer cumplicidade no plano deles, seja ele qual for, sinto-me convencido. Ela pode ser a vítima daquele vigarista Woodroffe que, como o Bartlett te disse, é um dos mais experientes burlões de Londres, e que já cumpriu duas penas de trabalhos forçados.

— Mas qual foi o motivo de arrombar o cofre do Cônsul, se não obter as cifras do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou do Almirantado? Talvez quisessem roubá-las e vendê-las a um governo estrangeiro?

— Não; esse não era o seu objetivo. Pensei nisso muitas e muitas vezes desde que mo contaste, e sinto-me convencido de que o Woodroffe é um sujeito demasiado astuto para não saber que nenhum Cônsul sai de licença e permite que as suas cifras permaneçam para trás. Quando ele deixa o seu posto, deposita sempre esses livros preciosos no Ministério dos Negócios Estrangeiros aqui, ou no seu Consulado-Geral, ou num Consulado noutro porto. Eles certamente averiguariam tudo isso antes de fazerem o ataque, podes apostar. O caso era arriscado e o Dick Archer é conhecido como um homem de muitas precauções.

— Mas ele tem relações extremamente amigáveis com a Elma. Foi ele quem conseguiu encontrá-la na Finlândia e levá-la para além da esfera de influência do Oberg, para Petersburgo.

— Então é certamente apenas uma amizade fingida, com algum motivo sinistro por detrás.

— Ela escreveu uma carta da sua prisão na ilha para uma antiga colega de escola chamada Lydia Moreton, pedindo-lhe que visse o Woodroffe nos seus aposentos em Cork Street e lhe dissesse que, apesar de tudo o que estava a sofrer, ela tinha mantido a sua promessa para com ele e que o segredo continuava a salvo.

— Exatamente. E agora o sujeito teme que, como tu estás tão ativamente a procurar a verdade, ela possa ceder às tuas exigências e explicar tudo. Ele, portanto, pretende silenciá-la.

— Quê! Queres dizer matá-la? — arquejou, com rápida apreensão.

— Bem, ele poderia fazê-lo, a fim de se salvar, vês? — respondeu o Jack, acrescentando: — Ele certamente não teria qualquer escrúpulo se pensasse que isso não seria imputado a ele. Apenas ele, sem dúvida, teme-te, porque a encontraste e estás apaixonado por ela.

— Sim, ele teme-te, e teme-me, e acima de tudo, teme a Elma. Mas vamos a Londres, depressa. Não podemos perder mais tempo aqui. O caso de Muriel é urgente, e, se o que dizes for verdade, a tua própria vida está em jogo a cada momento que passas nesta terra maldita.

Assim, passámos o resto da noite num estado de ansiedade febril, com o Jack a planear a nossa partida e eu a tentar compreender a teia de intrigas em que nos tínhamos deixado envolver. Ele parecia conhecer cada recanto das artimanhas daqueles homens, e, no entanto, havia uma sombra de hesitação na sua voz que me inquietava.

— Lembra-te — disse ele, enquanto preparávamos a bagagem na penumbra do quarto — que, uma vez em Londres, o perigo não terminará. Pelo contrário, será aí que a verdadeira batalha começará. O Chater e os seus comparsas têm ramificações em toda a parte.

Concordei em silêncio. A viagem de regresso foi uma sucessão de imagens desfocadas de estações e rostos anónimos. O pensamento de que a minha amada estava ali, algures, sob o domínio de forças que eu mal podia conceber, dava-me uma determinação fria.

Ao chegarmos à estação, o ar de Londres pareceu-me pesado, carregado de presságios. O Jack parecia mais alerta do que nunca, os seus olhos varrendo a multidão com uma precisão quase predatória. Separamo-nos pouco depois, com a promessa de nos encontrarmos na manhã seguinte para traçar o nosso próximo movimento.

Enquanto caminhava sozinho pelas ruas escuras, sentia os olhares invisíveis de perseguidores que eu não via, mas cujas intenções eu pressentia. O caso de Elma, o mistério de Muriel, e a sombra constante de Oberg — tudo se fundia num único pesadelo.

Cheguei ao hotel exausto, mas o sono não veio. A cada ruído no corredor, a minha mão procurava instintivamente o revólver no bolso. Eu sabia, com uma certeza absoluta, que a noite seria longa e que o destino de todos nós dependia do que descobriríamos amanhã.

O Jack tinha razão. A verdade era um abismo, e estávamos prestes a dar o passo decisivo para dentro dele. Se eu encontrasse a Muriel, se pudesse arrancar-lhe a confissão que mantinha o segredo de Elma, talvez houvesse esperança. Mas, por enquanto, tudo o que eu tinha era a escuridão e a promessa de um amanhã que poderia ser o último.

O Policial 462A relata que, às 2h07 da manhã, enquanto estava de serviço em frente à National Gallery, ouviu um disparo de revólver, seguido pelo grito de um homem. Correu até a esquina da Suffolk Street, onde encontrou um cavalheiro caído na calçada, sofrendo de um grave ferimento à bala no peito e totalmente inconsciente. Obteve a assistência dos Policiais 218A e 343A, e o cavalheiro, que não foi identificado, foi levado ao Hospital Charing Cross, onde o cirurgião residente expressou dúvidas sobre se ele conseguiria sobreviver. Nenhum dos policiais se lembra de ter notado qualquer pessoa com aparência suspeita nas proximidades. "JOHN PERCIVAL, Inspetor."

Não esperei por mais nada, mas corri para o hospital de táxi e, cinco minutos depois, fui levado até a ala onde identifiquei o pobre Jack deitado na cama, pálido e inconsciente.

"O médico esteve aqui há um quarto de hora", sussurrou a enfermeira-chefe. "E ele teme que o paciente esteja definhando."

"Ele não pronunciou nenhuma palavra?", perguntei ansiosamente. "Não fez nenhuma declaração?"

"Nenhuma. Ele nunca recuperou a consciência e temo, senhor, que nunca a recupere. É um caso de assassinato premeditado, disseram-me os policiais logo cedo esta manhã."

Cerrei os punhos e jurei uma vingança feroz por aquele ato covarde. E, enquanto permanecia ao lado da cama estreita, percebi que o que Olinto havia dito a respeito do meu próprio perigo era a mais pura verdade. Eu era um homem marcado. Será que eu nunca penetraria naquele mistério insondável e cada vez maior?

CAPÍTULO XVII

A VERDADE SOBRE O "LOLA"

Durante a longa noite, liguei várias vezes para o hospital, mas a resposta era sempre a mesma. Jack não havia recuperado a consciência e o médico considerava seu caso sem esperanças.

Pela manhã, dirigi-me em grande pressa para Bassett Road, Notting Hill, e no endereço que Olinto havia me dado encontrei Muriel. Quando ela entrou na sala de portas de correr para onde eu havia sido conduzido, vi que estava pálida e apreensiva, pois não nos víamos desde a sua fuga e, sem dúvida, ela não sabia como se explicar. Mas não a pressionei por uma explicação. Apenas lhe disse que o italiano Santini me dera o seu endereço e que eu vinha como portador de notícias infelizes.

"O que houve?", ela arquejou rapidamente.

"Diz respeito ao Capitão Durnford", respondi. "Ele foi ferido na rua e está no Hospital Charing Cross."

"Ah!", ela exclamou. "Entendo. Você não explica a verdade. Pelo seu rosto, posso dizer que há algo mais. Ele está morto! Diga-me o pior."

"Não, Srta. Leithcourt", disse gravemente, "não está morto, mas os médicos temem que ele possa não se recuperar. Seu ferimento é perigoso. Ele foi baleado por uma pessoa desconhecida."

"Baleado!", ela repetiu, caindo em pranto. "Então eles o seguiram, afinal! Eles me enganaram e agora, como pretendem tirá-lo de mim, eu mesma o protegerei. Você, Sr. Gregg, esteve em perigo de vida, isso eu sei, mas os inimigos de Jack são seus também, e eles não ficarão impunes. Posso vê-lo?"

"Receio que não, mas perguntaremos no hospital." E, após a troca de algumas explicações adicionais, pegamos um hansom de volta para Charing Cross.

A princípio, a enfermeira-chefe recusou-se a permitir que Muriel visse o paciente, mas ela implorou tão sinceramente que, por fim, a mulher consentiu, e a jovem angustiada, de casaco e chapéu pretos, caminhou na ponta dos pés até a cabeceira da cama.

"Ele esteve consciente por um quarto de hora, mais ou menos", sussurrou a enfermeira que estava sentada ali. "Ele perguntou por uma senhora chamada Muriel."

A jovem ao meu lado explodiu em soluços baixos.

"Diga-lhe", disse ela, "que Muriel está aqui — que ela o viu e está esperando que ele se recupere."

Não nos foi permitido demorar ali e, ao deixar o hospital, levei-a de volta a Notting Hill, prometendo mantê-la bem informada sobre a condição de Jack. Ele havia recuperado a consciência, portanto, agora havia uma tênue esperança de sua recuperação.

Dia após dia se passou e, embora eu não tivesse permissão para visitar meu amigo, fui informado de que ele progredia muito lentamente. Fiquei ocioso no Hotel Cecil, ansiando diariamente por notícias de Elma. Apenas uma vez recebi uma carta dela, um bilhete breve e bem escrito do qual parecia que ela estava muito bem e feliz, embora desejasse poder sair. A Princesa era muito gentil com ela e, acrescentou, estava fazendo preparativos secretos para a sua fuga através da fronteira russa para a Alemanha.

Eu sabia o que aquilo significava. Seria feito uso de certos funcionários russos que estavam secretamente aliados aos revolucionários para garantir sua passagem segura para além do poder daquela ordem de exílio do tirano de Plehve. Escrevi para ela sob os cuidados da Princesa, mas ainda não havia tido tempo para uma resposta.

Vi Muriel muitas vezes, mas nem uma única vez ela mencionou Rannoch ou sua partida repentina. Seu único pensamento era o homem que ela amava.

"Sempre acreditei que você estava noiva do Sr. Woodroffe", disse eu um dia, quando a procurei para contar o último boletim de Jack.

"É verdade que ele me pediu em casamento", respondeu ela. "Mas havia razões pelas quais não aceitei."

"Razões ligadas ao passado dele, hein?"

Ela sorriu e então disse:

"Ah, Sr. Gregg, é tudo uma história estranha e muito trágica. Preciso ver o Jack. Quando você acha que me permitirão ir até ele?"

Expliquei que o médico temia causar ao paciente qualquer excitação indevida, mas que em dois ou três dias havia a esperança de ela poder visitá-lo. Várias vezes a polícia me questionou, mas eu nada podia dizer. Eu não conseguia, por nada deste mundo, lembrar-me de onde já vira o rosto daquele homem que passara na escuridão.

Certa tarde, dez dias após o atentado contra Jack, permitiram-me sentar ao lado de sua cama e interrogá-lo.

"Ah, Gordon, meu velho!", disse ele fracamente, "escapei por pouco — por Deus! Depois que o deixei, caminhei rapidamente em direção ao clube quando, de repente, dois canalhas saltaram da Suffolk Street e um deles disparou um revólver diretamente contra mim. Depois, não me lembro de mais nada."

"Mas quem eram os homens? Você os reconheceu?"

"Não, de forma alguma. Esse é o pior de tudo."

"Mas Muriel sabe quem eles eram!", eu disse.

"Ah, sim! Traga-a aqui, quer?, o pobre rapaz implorou, "estou morrendo de vontade de vê-la mais uma vez."

Então contei-lhe como ela o observara enquanto ele estava inconsciente e como eu lhe levava o boletim diário. Conversamos por uma hora, exortando-o a melhorar logo para que pudéssemos nos unir na investigação do mistério e levar à justiça os responsáveis pelo ato covarde.

"Muriel sabe, e se ela o ama, sem dúvida nos ajudará", disse eu.

"Oh, ela me ama, Gordon, eu sei disso", disse o homem prostrado, sorrindo contente, e quando saí, prometi levá-la lá no dia seguinte.

Assim o fiz, mas, tendo-a conduzido até a cama no final da ala, retirei-me discretamente. O que ela lhe disse, não sei, é claro. Tudo o que sei é que, uma hora depois, quando retornei, encontrei o casal mais feliz que se possa conceber, e vi claramente que a confiança de Jack nela não estava mal depositada.

Mas e Elma? Nenhuma outra palavra viera dela, e comecei a ficar inquieto. Os dias se passaram. Escrevi duas vezes, mas nenhuma resposta surgiu. Por fim, não suportei mais o suspense e comecei a cogitar o retorno à Rússia.

Jack, quando finalmente recebeu alta do hospital, veio para o Cecil e morou comigo, preferindo-o ao "Junior". Ele estava muito fraco no início, e eu cuidava dele, enquanto todos os dias Muriel vinha e comia conosco, alegrando nossas vidas com sua conversa inteligente e alegre. Ela sabia que eu amava Elma e também estava ciente dos eventos emocionantes na Rússia, já que Jack lhe contara tudo durante seus longos passeios de hansom quando ele saía com ela para tomar um ar.

Um dia recebi um breve bilhete da Princesa em Petersburgo, pedindo-me que permanecesse paciente e dizendo que Elma estava muito bem e a salvo. Havia razões, no entanto, pelas quais ela não podia escrever, acrescentou. Quais seriam, eu me perguntava? No entanto, só podia esperar até receber notícias para viajar de volta à Rússia e trazê-la para casa. A Princesa prometera providenciar tudo.

Chegou dezembro e ainda permanecíamos no hotel. Uma vez, Olinto escreveu-me repetindo seu aviso, mas não lhe dei atenção. De alguma forma, eu desconfiava daquele sujeito.

Jack, agora totalmente recuperado, visitava quase diariamente Bassett Road e frequentemente trazia Muriel ao Cecil para chá ou almoço. Muitas vezes perguntei pelo paradeiro de seu pai e de Hylton Chater, mas ela declarou-se em total ignorância e acreditava que eles estivessem no exterior.

Certa tarde, pouco antes do Natal, enquanto estávamos ociosos no bar americano do hotel, meu amigo disse-me que Muriel nos convidara para tomar chá na casa de sua prima naquela tarde e, consequentemente, fomos lá em companhia.

A sala de estar para onde fomos conduzidos era familiar para mim, pois era o apartamento onde eu contara a Muriel sobre a tentativa contra a vida de seu amante.

Enquanto sentávamos juntos, Muriel, uma figura elegante em um vestido azul-pálido, serviu-nos chá e conversou de forma mais alegre, pensei, do que nunca. Ela parecia rápida e nervosa, mas cheia de felicidade, como de fato deveria estar, pois Jack Durnford era um dos melhores rapazes do mundo, e sua restauração à saúde, nada menos que milagrosa.

"Gordon", disse-me ele com uma seriedade repentina quando o chá terminou e pousamos as xícaras. "Quero lhe contar algo — algo que sempre desejei lhe dizer e agora tenho o consentimento da querida Muriel. Quero lhe contar sobre o pai dela e seus amigos."

"E sobre Elma também?", perguntei com avidez repentina. "Sim, conte-me tudo."

"Não, não tudo, pois eu mesmo não sei. Mas o que sei, explicarei da forma mais breve possível e deixarei que você tire suas próprias conclusões. É", ele continuou, "uma história estranha, a mais surpreendente. Quando tomei conhecimento do mistério pela primeira vez, eu estava a bordo da nau capitânia Renown, sob o comando do Almirante Sir John Fisher. Estávamos em Malta quando chegou o iate inglês Iris, de propriedade do Sr. Philip Leithcourt, e entre aqueles que estavam a bordo cruzando por prazer estavam o Sr. Martin Woodroffe, o Sr. Hylton Chater e a esposa do proprietário e sua filha Muriel.

"Muriel e eu nos conhecemos primeiro em uma partida de tênis e, depois, frequentemente em várias casas em Malta, pois qualquer um que vá lá e receba visitas logo é recebido em troca. Um afeto mútuo surgiu entre Muriel e eu", disse ele, colocando a mão ternamente sobre a dela e sorrindo, "e nos encontrávamos frequentemente em segredo e fazíamos longas caminhadas, até que, de repente, Leithcourt disse que era necessário velejar para Esmirna para buscar alguns amigos que viajavam pela Palestina. Na noite em que partiram, uma grande consternação foi causada na ilha com a notícia de que o cofre no escritório do Superintendente do Almirante fora aberto por arrombadores especialistas e certos documentos secretos da maior importância haviam sido roubados."

"Bem?", perguntei, muito interessado.

"Novamente, dois meses depois, quando a villa do Príncipe de Montevachi, em Palermo, foi invadida e todas as famosas joias da Princesa foram roubadas, foi um fato muito estranho que o Iris estivesse no momento naquele porto. Mas não foi até a terceira ocasião, quando o iate estava em Villefranche e nosso esquadrão estava em Toulon, que consegui quatro dias de licença para ir ao longo da Riviera, que minhas suspeitas foram despertadas, pois no exato momento em que eu jantava no London House, em Nice, com Muriel e uma colega de escola dela, Elma Heath — que passava o inverno lá com uma senhora que era prima do Barão Oberg —, um grande roubo foi cometido em um dos grandes hotéis em Cimiez, com a esposa de um milionário americano perdendo joias avaliadas em trinta mil libras. Então, os roubos, coincidentes com a visita do iate, despertaram minha forte suspeita. Notei a natureza daqueles documentos roubados em Malta e reconheci que eles só poderiam ser úteis a um governo estrangeiro. Depois veio o incidente de Livorno sobre o qual você me falou. O nome do iate fora mudado para Lola, e ele fora repintado. Fiz investigações minuciosas e descobri que, na noite em que ele foi propositalmente encalhado para estabelecer uma amizade no Consulado, uma canhoneira russa estava nas proximidades. O cofre do cônsul foi saqueado, e o esquema certamente era transferir tudo o que fosse obtido dele para a canhoneira russa."

"Mas o que havia no cofre?", perguntei.

"Felizmente, nada. Mas veja, eles sabiam que nosso esquadrão era esperado em Livorno e que alguns despachos extremamente importantes estavam a caminho do Almirante — ordens secretas baseadas na decisão do Gabinete Britânico quanto à questão espinhosa dos navios russos que passam pelos Dardanelos — eles esperavam que fossem guardados no cofre até a chegada do esquadrão, como sempre são. Ficaram, no entanto, amargamente desapontados porque os despachos não haviam chegado."

"E então?"

"Bem, o único russo que parecia ter qualquer conexão com eles era o Barão Oberg, o Governador-Geral da Finlândia, cujo hábito era passar parte do inverno no Mediterrâneo. Pela conversa de Elma Heath no jantar daquela noite em Nice, entendi que ela e seu tio haviam sido convidados no Iris em várias ocasiões, embora eu deva dizer que Muriel era extremamente reticente quanto a tudo o que concernia ao iate."

"Claro", ela disse rapidamente. "Agora que lhe contei a verdade, Jack, não acha que foi algo natural?"

"Certamente, querida", ele respondeu, ainda segurando a mão dela. "O seu não era um segredo que você pudesse muito bem me contar até que pudesse confiar plenamente em mim, especialmente porque seu pai estivera envolvido no roubo daqueles documentos de Malta. A verdade é", disse ele, voltando-se para mim, "que Philip Leithcourt foi o tempo todo o joguete do Barão Oberg. Há alguns anos, ele era um agiota bem conhecido na cidade e, nessa qualidade, conheceu o Barão, que, estando em desgraça, precisava de um empréstimo. Ele também tinha o hábito de realizar certas transações obscuras com aquela gangue ousada de ladrões continentais da qual Dick Archer e Hylton Chater eram líderes. Por esse motivo, ele comprou um iate para uso deles, para que pudessem não apenas usá-lo com o propósito de armazenar os bens roubados, mas para velejar de lugar em lugar sob o disfarce de ingleses ricos viajando por prazer. Naquela embarcação, de fato, estavam armazenadas milhares e milhares de libras em joias e objetos de valor, os lucros de muitos grandes roubos na Inglaterra, França e Bélgica. Às vezes viajavam com o propósito de se desfazer das joias em várias cidades do interior onde as pedras, tendo sido lapidadas novamente, não eram reconhecidas, enquanto em outras ocasiões, Chater e Archer, assistidos por Mackintosh, o capitão, e Olinto Santini, o comissário, velejavam para um porto, desembarcavam, cometiam um roubo e depois partiam novamente, sem serem suspeitos, como ingleses ricos."

"E a tripulação?", perguntei, após uma pausa.

"Eram, claro, bem pagos e mantidos na ignorância do que o suposto proprietário e seus amigos faziam em terra."

"Mas a conexão de Oberg com isso?", perguntei, surpreso com aquelas revelações.

"Ah!", exclamou Muriel. "A engenhosidade daquele vilão astuto é diabólica. Antes de conquistar o favor do Czar, ele devia ao meu pai uma grande soma e, então, procurou como evitar o pagamento. Por meio de seus espiões, ele descobriu o verdadeiro propósito dos cruzeiros do Iris — pois eu era frequentemente levada a bordo com uma camareira para dissipar qualquer suspeita que pudesse surgir se apenas homens estivessem a bordo. Então, ele não apenas forçou meu pai a cancelar a dívida, mas forçou a embarcação e aqueles que a possuíam e navegavam para o serviço secreto da Rússia. Uma dúzia de vezes tentamos obter papéis secretos de estaleiros italianos, franceses e ingleses, mas apenas uma vez no caso de Malta e uma vez em Toulon tivemos sucesso. Ah! Sr. Gregg", acrescentou ela, "você não sabe toda a ansiedade que sofri, como a cada hora estávamos em perigo de traição ou captura, e das cem vezes em que escapamos por pouco de oficiais da alfândega revistando o iate em busca de contrabando. Você sem dúvida se lembrará da sensação causada pelo roubo das joias da Princesa Wilhelmine de Schaumbourg-Lippe da camareira no rapide entre Cannes e Les Arcs, o roubo da filial de Marselha do Crédit Lyonnais e o grande carregamento de prataria do castelo de Bardon, o milionário de Paris, perto de Arcachon."

"Sim", disse eu, pois eram todos roubos dos quais eu lera nos jornais alguns anos antes.

"Bem", disse ela, "todos foram cometidos por Archer ou Woodroffe e sua gangue — com cúmplices em terra, claro — e nunca pareceu que qualquer suspeita recaísse sobre nós. Enquanto a polícia freneticamente revistava daqui para lá, costumávamos levantar âncora e navegar calmamente com nosso espólio a bordo. Tínhamos conosco um velho lapidário holandês, e uma das cabines estava equipada como uma oficina, onde ele alterava a aparência das pedras e as preparava prontas para a venda, enquanto o ouro era derretido em um cadinho e colocado em terra para ser enviado a agentes em Hamburgo."

"Mas naquela noite em Livorno?", eu disse. "O que aconteceu com a pobre Elma?"

"Eu não sei", foi a resposta de Muriel. "Estávamos ambas a bordo juntas e, paradas na fresta da porta, observamos você sentado para jantar naquela noite. Elma me disse que acreditava que havia uma conspiração contra sua vida, mas por que, ela não quis me dizer. Ela evidentemente sabia do planejado saqueio do cofre no Consulado. O próprio Oberg também estava a bordo, trancado em sua própria cabine. Elma deve ter ouvido alguma conversa entre o Barão e um dos outros, pois ela ficou com muito medo o tempo todo de que pudessem lhe ferir. No entanto, parecia, afinal, que a ideia deles era sempre a mesma, infiltrar-se em sua confiança. No instante, porém, em que você foi para terra, Chater, Woodroffe — a quem você chamava de Hornby — e Mackintosh, o capitão — que, a propósito, era um ex-detento em liberdade condicional — foram para terra e, claro, arrombaram o Consulado. Então, assim que retornaram, Elma veio à minha cabine, acordou-me e disse que o Barão a estava levando para terra e que eles viajariam por terra de volta a Londres. Ela estava pronta e vestida para ir, portanto, eu a beijei e, prometendo encontrá-la em breve, nos separamos. Essa foi a última vez que a vi. O que aconteceu com ela depois, só ela pode nos dizer."

"Mas ela não é sobrinha do Barão?", eu disse.

"Não. Há algum mistério", declarou Muriel. "Ela detém algum segredo que ele teme que ela possa divulgar. Mas de que natureza, eu desconheço."

"Então você diz que seu pai nunca participou ativamente dos roubos?", observei.

"Não. Ele começou emprestando dinheiro e acumulou uma fortuna considerável. Então, a avareza o dominou, como acontece com tantos homens, e, ao entrar em contato com Archer e seus amigos, ele percebeu que a ideia do iate era segura e lucrativa. Portanto, comprou a embarcação e a colocou à disposição dos ladrões e, posteriormente, sob compulsão, a serviço secreto da Rússia, como já descrevi para você. Os lucros eram colossais. Em um ano, a parte do meu pai foi de oitenta mil libras."

"E onde está seu pai agora?", perguntei.

"Ah!", exclamou ela tristemente, com o rosto pálido e abatido.

"Ouvi dizer que a embarcação foi afundada em algum lugar no Báltico."

"Isso é verdade. Tendo o propósito de Oberg sido cumprido, ele exigiu metade da propriedade a bordo, ou daria aviso às autoridades navais russas de que o iate pirata estava em atividade. Ele tentou chantagear meu pai, como já o fizera tantas vezes, mas seu esquema foi frustrado. Meu pai, por causa de seu tratamento desumano à pobre Elma, desafiou-o, quando parece que Oberg, que estava em Helsingfors, telegrafou ao almirante da frota russa no Báltico. A tripulação do Iris foi imediatamente desembarcada em Riga, e apenas Mackintosh e meu pai voltaram ao mar. Ah! meu pai estava desesperado, pois conhecia o caráter impiedoso daquele homem de quem fora vítima por tanto tempo. Eles observaram um cruzador russo avançando sobre eles quando, exatamente no momento em que se aproximava, fugiram em um bote e explodiram o iate, que afundou em três minutos com sua riqueza mal obtida a bordo."

"E seu pai?"

Ela silenciou, e vi lágrimas em seus olhos.

"Houve uma tragédia", explicou Jack com uma voz baixa e rouca. "Ele e o capitão, infelizmente, não se afastaram o suficiente do iate quando o explodiram, e afundaram com ele."

E olhei em silêncio para Muriel, que estava com a cabeça baixa e o rosto branco coberto pelas mãos.

Quase no mesmo instante houve uma batida suave na porta, e a criada anunciou:

"Sr. Santini, senhorita."

"Ah!" exclamou Jack rapidamente, enquanto Olinto entrava na sala. "Então você recebeu meu bilhete! Pedimos que viesse aqui para nos revelar essa trama covarde que parece ter sido formada contra o Sr. Gregg e contra mim. Como você sabe, escapei por pouco."

"Eu sei, signore. E o Signor Commendatore também está ameaçado."

"Por quem?"

"Por aqueles que mataram minha pobre esposa, e que pretendiam também me silenciar", foi sua resposta.

"Os mesmos que o obrigaram a me levar àquela casa onde a cadeira fatal estava preparada, eh?"

"Foi Archer, que, temendo que você viesse a Londres em busca deles, arquitetou aquele artifício diabólico", disse ele em seu inglês truncado. Então, continuando, ele prosseguiu ferozmente: "Agora que descobri por que minha pobre Armida foi morta, direi a verdade, e não os pouparei. Desde que você deixou a Escócia, signore, estive em Dumfries e descobri vários fatos que provam que, por algum motivo conhecido apenas por ele mesmo, Leithcourt, enquanto estava em Rannoch, escreveu para Armida e para mim separadamente, marcando um encontro para nos ver ao mesmo tempo naquele local na orla da floresta, pois tinha alguma missão secreta para nos confiar. A carta endereçada a mim aparentemente caiu nas mãos de outra pessoa — provavelmente um dos agentes secretos do Barão Oberg, que estavam sempre vigiando as ações de Leithcourt, e ele, ansioso por saber o que se pretendia, disfarçou-se para parecer comigo e compareceu ao encontro em meu lugar. Armida, tendo recebido a carta sem que eu soubesse, foi até a Escócia e também estava lá no horário marcado. O que realmente aconteceu só pode ser conjecturado, no entanto, parece que Leithcourt tinha o hábito de ir até aquele local e ficar rondando por lá à noite para se encontrar com Chater em segredo, já que este último estava escondido em um pequeno hotel em Dumfries. Portanto, aqueles que formaram o complô devem ter tentado lançar suspeitas sobre Leithcourt. É claro, no entanto, que como tanto eu quanto Armida conhecíamos a gangue, era do interesse deles se livrar de nós, porque as suspeitas da polícia tinham finalmente despertado. A pobre Armida foi, portanto, deliberadamente atraída para a morte, enquanto o homem curioso que o assassino tomou por mim também foi abatido."

"Por quem?"

"Não por Chater, pois ele estava em Londres naquela noite."

"Então por Woodroffe?" disse Durnford.

"Sem dúvida. Foi tudo muito inteligentemente planejado. Era do interesse dele, e de mais ninguém, fechar nossas bocas, porque naquela mesma cadeira fatal em Lambeth, o velho Jacob Moser, o corretor de barras de ouro judeu de Hatton Garden, encontrou a morte — um crime dos mais covardes, com o qual nenhum de seus amigos estava associado, e do qual apenas nós tínhamos conhecimento. Ele, portanto, escreveu para nós como se fosse Leithcourt, chamando-nos para Rannoch, a fim de desferir os golpes na escuridão", acrescentou ele em seu peculiar modo italiano. "Além disso, ele temia que contássemos ao signore a verdade."

"Você não contou à polícia?"

"Eu não me atrevo, signore. Certamente, quanto menos a polícia souber sobre este assunto, melhor; caso contrário, a Signorina Leithcourt sofrerá pela ganância e pelas maldades de seu pai."

"Sim", gritou Jack ansiosamente. "Isso mesmo, Olinto. A polícia não deve saber de nada. As represálias devemos fazer nós mesmos. Mas quem foi que atirou em mim em Suffolk Street?"

"O mesmo homem, Martin Woodroffe."

"Então o assassino voltou da Rússia?"

"Ele seguiu de perto o Signor Commendatore. Markoff, um agente secreto habilidoso do Barão Oberg, veio com ele."

Então, pela primeira vez, lembrei-me de que o homem que eu reconhecera no Strand era um sujeito que eu tinha visto descansando na antecâmara do palácio do Governador-Geral da Finlândia. A dupla, temendo que eu revelasse o que sabia, estava sem dúvida em Londres para tirar minha vida em segredo. Agora que Leithcourt estava morto, Woodroffe unira forças com Oberg e pretendia me silenciar porque temiam que Elma, além de escapar deles, também tivesse revelado seu segredo.

"Confio que a Signorina Leithcourt tenha explicado a história do iate e de sua tripulação", observou Olinto. "E também tenha lhe mostrado como fui implicado. Você perceberá, portanto, a razão pela qual até agora temi lhe dar qualquer explicação."

"Sim", eu disse, "a Srta. Leithcourt me contou muita coisa, mas não tudo. Ainda não consigo entender por que ela e seu pai fugiram de Rannoch."

"Então eu lhe direi", disse Muriel rapidamente. "Meu pai suspeitava que Woodroffe fosse o assassino em Rannoch Wood, pois sabia que ele havia rompido o pacto original e agora se aliara a Oberg. No entanto, também era o objetivo do meu pai parecer estar com medo deles, porque ele estava apenas esperando uma oportunidade para traçar planos para o resgate da pobre Elma na Finlândia. Portanto, certa noite, Woodroffe apareceu, e meu pai o encontrou na alameda e o admitiu com sua própria chave por uma das portas laterais do castelo, levando-o depois para o escritório. Ele sabia que ele viera tentar fazer um acordo por Oberg, portanto viu que precisava fugir imediatamente para Newcastle, onde o Iris estava atracado, embarcar e zarpar.

"Com alguma desculpa, ele o deixou no escritório e então avisou minha mãe e a mim para nos prepararmos para partir. Mas enquanto fazíamos as malas, parece que Chater, que o seguira, foi conduzido ao escritório pelo mordomo, ou melhor, ele mesmo entrou lá, estando bem familiarizado com a casa. Assim, os dois homens, agora inimigos mortais, se encontraram. Uma discussão feroz deve ter ocorrido, e Chater foi envenenado e escondido, com Woodroffe, é claro, acreditando tê-lo matado. Meu pai entrou no escritório novamente e, vendo apenas Woodroffe lá, não sabia o que tinha acontecido. Algumas palavras provavelmente surgiram, quando meu pai se virou e saiu novamente. Então fugimos para Carlisle e depois para Newcastle, e na manhã seguinte estávamos a bordo do iate em pleno Mar do Norte, desembarcando depois em Roterdã. Esses", acrescentou ela, "são, brevemente, os fatos, como meu pobre pai os relatou para mim."

"E quanto à pobre Elma — e ao seu segredo? Quando, eu me pergunto, a verei?" gritei em desespero.

"Você a verá agora, signore", respondeu Olinto. "Um criado da Princesa Zurloff a trouxe para Londres esta tarde, e eu acabei de trazê-la da estação. Ela está no quarto ao lado, sem saber, no entanto, que você está aqui."

E sem outra palavra, corri alegremente e escancarei as portas de correr que me separavam do meu amor silencioso.

Silencioso, sim! Mas ela poderia, no entanto, contar sua história — certamente a mais estranha que qualquer mulher já viveu para contar.

CAPÍTULO XVIII

CONTÉM A HISTÓRIA DE ELMA

Diante de mim estava meu amor, uma figura esguia, trágica e um tanto pálida em um pesado sobretudo escuro de viagem e um toque de feltro, seus lábios doces entreabertos e um olhar de espanto perplexo em seu rosto quando entrei tão repentinamente nela.

Em silêncio, segurei sua mão pequena enluvada de preto e, então, também em silêncio, levei-a apaixonadamente aos meus lábios ávidos. Seus olhos escuros e suaves — aqueles olhos que falavam embora ela fosse muda — encontraram os meus, e neles havia um olhar que eu nunca tinha visto antes — um olhar que, tão claramente quanto quaisquer palavras, me dizia que minha paixão selvagem e febril era correspondida.

Ela olhou além, para a sala onde os outros estavam reunidos, e então olhou para mim interrogativamente, ao que eu a conduzi para onde eles estavam, e Muriel caiu sobre ela e a beijou com lágrimas escorrendo de seus olhos.

"Preparei essa surpresa para você, Sr. Gregg", disse Muriel, rindo através de suas lágrimas de alegria. "Olinto soube que ela estava a caminho de Londres, e eu o enviei para encontrá-la. A Princesa conseguiu magnificamente, não foi?"

"Sim. Graças a Deus ela está livre!" exclamei. "Mas devemos induzi-la a nos contar tudo."

Muriel já estava ajudando meu amor a tirar seu pesado casaco russo, uma vestimenta cara forrada de zibelina, e quando, depois de cumprimentar Jack e Olinto, ela estava confortavelmente sentada, peguei um pouco de papel de carta da pequena escrivaninha junto à janela e escrevi a lápis as palavras:

"Não preciso escrever o quanto estou encantado por você estar a salvo — que o Todo-Poderoso ouviu minhas orações por você. Jack e Muriel me contaram tudo sobre Leithcourt e seus associados canalhas. Eu sei também, querida — pois posso chamá-la assim, não posso? — o quanto você deve ter sofrido terrivelmente em silêncio durante tudo isso. Leithcourt está morto. Ele afundou o iate com toda a propriedade roubada a bordo, mas, por acidente, foi ele mesmo engolido."

Inclinando-se e observando atentamente enquanto eu escrevia, ela recuou em horror e surpresa com as palavras. Então acrescentei: "Nós quatro estamos determinados a que os culpados não fiquem impunes, e que a aflição imposta a você seja adequadamente vingada. Você é meu próprio amor — sou ousado o suficiente para chamá-la assim. Algum vínculo forte, mas misterioso, de afinidade entre nós me levou a procurá-la, e seu rosto fotografado parecia me chamar para o seu lado, embora eu não soubesse do seu perigo. Fui enviado a você pelo poder invisível para libertá-la das mãos de seus inimigos. Portanto, conte-nos tudo — tudo o que você sabe — sem medo, pois agora que estamos unidos nenhum mal pode nos atingir."

Ela pegou o lápis e, segurando-o em seus dedos brancos, ficou olhando primeiro para nós e depois olhando hesitante para o papel branco à sua frente. Sua posição, em meio a cem emoções conflitantes, era de extrema dificuldade. Parecia que, mesmo agora, ela relutava em nos revelar a verdade absoluta.

Muriel, em pé atrás de sua cadeira, acariciou ternamente a riqueza de cabelos castanhos de sua testa branca. Sua tez era perfeita, embora seu rosto estivesse pálido e cansado, e seus olhos pesados, consequência de sua longa e cansativa jornada desde o Norte agora congelado.

Logo, quando por sinais tanto Jack quanto Olinto a instaram a escrever, ela se inclinou repentinamente, e seu lápis começou a correr velozmente sobre o papel.

Todos nós ficamos trocando olhares em silêncio, nenhum olhando por cima dela, mas cada um determinado a esperar com paciência até o fim. Uma vez iniciado, porém, ela não parou. Folha após folha ela cobriu. O silêncio por um longo tempo foi completo, interrompido apenas pelo rápido correr do lápis sobre a superfície áspera do papel. Ela aparentemente fora tomada por uma determinação repentina de explicar tudo, agora que via que estávamos falando sério, de fato e de verdade.

Observei seu rosto doce inclinado tão atentamente e, enquanto a luz do fogo caía sobre ele, achei-o incomparável. Sim; ela era afligida pela perda da fala, era verdade, mas era certamente inexpressivamente doce e feminina, inigualável acima de todas as outras.

Com um suspiro profundo, ela finalmente terminou e, com a cabeça ainda baixa em uma atitude de humilhação, ao que parecia, ela me entregou o que havia escrito.

Com ansiedade ofegante, li o seguinte:

"É verdade, meu querido amor — pois chamo você assim em retribuição — que você foi impelido em minha direção pela mão misteriosa que dirige todas as coisas? Você veio em minha busca, e você arriscou sua vida pela minha em Kajana, portanto você tem o direito de saber a verdade. Você, como meu campeão, e a Princesa como minha amiga, conseguiram efetivar minha liberdade. Se não fosse por você, eu já estaria a caminho de Saghalien, para o túmulo ao qual Oberg tão engenhosamente conseguiu me consignar. Ah! você não sabe — você nunca poderá saber — tudo o que sofri desde que era uma menina."

Aqui a declaração foi interrompida e recomeçou da seguinte forma:

"Para que você entenda a verdade, é melhor eu começar do princípio. Meu pai era um comerciante inglês em Petersburgo, e minha mãe, Vera Bessanoff, que, antes de seu casamento com meu pai, era celebrada na Corte por sua beleza e era uma das damas de honra da Czarina. Ela era a única filha do Conde Paul Bessanoff, ex-Governador de Kharkoff, e antes de se casar com meu pai, ela tinha sido, com sua mãe, uma figura bem conhecida na sociedade. Imediatamente após seu casamento, seu pai morreu, deixando-a na posse de uma fortuna ampla, o que, com a própria riqueza de meu pai, os colocou entre os mais ricos e influentes em Petersburgo.

"Entre os amigos mais íntimos de meu pai estava o Barão Xavier Oberg — que, naquela época, ocupava uma posição muito subordinada no Ministério do Interior — e, desde minhas primeiras lembranças, posso me lembrar dele vindo frequentemente à nossa casa e sendo convidado para os brilhantes entretenimentos que minha mãe dava. Quando eu tinha treze anos, porém, meu pai morreu de um resfriado contraído enquanto caçava javalis em sua propriedade em Kiev, e, dentro de alguns meses, um novo desastre aconteceu conosco. Certa noite, enquanto eu estava sentada sozinha lendo em voz alta para minha mãe, dois estranhos foram anunciados e, ao serem conduzidos para dentro, prenderam minha querida mãe sob a acusação de cumplicidade em um complô revolucionário contra o Czar que fora descoberto em Peterhof. Fiquei desafiadora e indignada, pois minha mãe certamente não era niilista, contudo disseram que a bomba fora introduzida no palácio pela Condessa Anna Shiproff, uma das damas de companhia, que era amiga íntima de minha mãe e costumava visitá-la frequentemente. Alegaram que a conspiração fora tramada em nossa casa, sendo dada cor a essa teoria pelo fato de que, um ano antes, um conhecido russo com quem meu pai tivera muitos negócios fora provado ser o autor do complô pelo qual o trem do Czar foi explodido perto de Lividia. Eles arrancaram minha mãe de mim e a colocaram naquele furgão cinzento de prisão, cuja visão nas ruas de Petersburgo causa terror ao coração de todo russo, pois uma pessoa, uma vez naquele veículo barulhento, está, como você sabe, perdida para sempre para o mundo. Observei-a da janela sendo colocada naquele transporte fatal e, então, acho que devo ter desmaiado, pois não me lembro de mais nada até me encontrar no chão, com o amanhecer cinzento se espalhando, e toda a verdade horrível voltou para mim. Minha mãe tinha ido embora para sempre!

"Em desespero total, fui ao Ministério do Interior e busquei uma entrevista com o Barão, que, quando lhe contei sobre o desastre, pareceu muito preocupado e foi imediatamente ao Departamento de Polícia para fazer perguntas. No dia seguinte, porém, ele veio até mim com a notícia de que a acusação contra minha mãe fora provada por uma declaração da própria mulher Shiproff, e que ela já tinha partido em sua longa jornada para a Sibéria — ela tinha sido exilada para um daqueles temidos assentamentos árticos além de Yakutsk, um lugar onde é quase inverno eterno, e onde as condições de vida são tais que metade dos condenados está insana. O Barão, contudo, declarou que, como amigo de meu pai, era seu dever agir como meu guardião, e que como meu pai era inglês, eu deveria ser colocada em uma escola inglesa. Portanto, com seu título de tio autoproclamado, ele me levou para Chichester. Por anos permaneci lá, até que um dia ele veio repentinamente e me buscou, levando-me para Helsingfors — pois o Czar agora o nomeara Governador-Geral da Finlândia. Lá, pela primeira vez, ele me apresentou ao seu filho Michael, um tenente de cavalaria de rosto cheio de espinhas, e disse de uma maneira muito decisiva que eu deveria me casar com ele. Eu, naturalmente, recusei me casar com um homem de quem sabia tão pouco, ao que, encontrando-me obstinada, ele rapidamente alterou suas táticas e tornou-se a própria bondade, dizendo que, como eu era jovem, ele me permitiria um ano para me decidir.

"Uma semana depois, enquanto morava no palácio em Helsingfors, ouvi uma conversa entre o Governador-Geral e seu filho, que me revelou uma verdade chocante que eu nunca suspeitara. Foi o próprio Oberg quem denunciou minha mãe ao Ministro do Interior e fizera aquelas acusações cruéis e sem fundamento contra ela! Então percebi a razão. Ela estando exilada, sua fortuna, assim como a de meu pai, veio para mim. A razão pela qual eles estavam tramando para que Michael se casasse comigo era para obter o controle do meu dinheiro. Vi imediatamente o quão desamparada eu estava nas mãos daquela dupla inescrupulosa, e reconheci, também, o suficiente dos métodos do Barão como 'O Estrangulador da Finlândia', para me mostrar que tipo de caráter ele era por baixo daquela exterioridade calma, eminentemente respeitável e de casaco preto. Depois de deliberadamente enviar minha pobre mãe para a Sibéria, ele assumira o papel de meu guardião para que pudesse, quando eu atingisse a maioridade, obter o controle da minha herança, a ideia sem dúvida sendo que eu deveria me casar com Michael e, então, após as formalidades legais necessárias, eu deveria, sob uma acusação forjada de conspiração, compartilhar o mesmo destino que minha mãe tivera."

"O canalha infernal!", exclamei, quando li suas palavras, enquanto de Jack, que estivera olhando por cima do meu ombro, escapou um voto feroz e contundente de vingança.

"O Barão me levou com ele para Petersburgo quando foi tratar de negócios oficiais, e permanecemos lá quase um mês", continuou a narrativa. "Enquanto estava lá, recebi uma mensagem secreta de 'O Padre Vermelho', o poder invisível e desconhecido do niilismo, que por tantos anos desconcertou a polícia. Fui vê-lo, e ele me revelou como Oberg conseguira banir minha mãe sob uma acusação falsa. Ele me alertou contra o homem que fingira ser amigo de meu pai, e também me disse que conhecera meu pai intimamente, e que se eu entrasse em qualquer outra dificuldade, deveria me comunicar com ele e ele me ajudaria. Oberg me levou de volta para Helsingfors alguns meses depois, e no verão fomos para a Inglaterra. Ele era um diplomata maravilhosamente inteligente. Suas táticas ele podia mudar à vontade. Quando eu estava na escola, ele era rude e brutal em seu comportamento comigo, como era com todos; mas agora parecia estar tentando inspirar minha confiança tratando-me com consideração gentil e afabilidade agradável."

"Em Londres, no Claridge's, encontramos minha antiga colega de escola Muriel e seu pai -- um amigo de Oberg -- e, em resposta ao convite deles, fomos fazer um cruzeiro em seu iate, o Iris, a partir de Southampton. Nosso grupo era muito agradável e incluía Woodroffe e Chater, enquanto nosso cruzeiro pelo Golfo da Biscaia e ao longo da costa portuguesa revelou-se encantador. Certa noite, enquanto estávamos ancorados ao largo de Lisboa, Woodroffe e Chater, junto com Olinto, foram a terra, e quando retornaram nas primeiras horas da manhã, acordaram-me ao cruzar o convés acima da minha cabeça. Então ouvi alguém fora da porta da minha cabine trabalhando como se estivesse com uma chave de fenda, desaparafusando um parafuso da marcenaria. Isso despertou meu interesse e, no dia seguinte, fiz um exame minucioso do painel, onde, em uma parte, encontrei dois pequenos parafusos de latão que, evidentemente, haviam sido removidos recentemente. Portanto, consegui obter uma chave de fenda na oficina do carpinteiro e, na noite seguinte, quando todos estavam dormindo, saí sorrateiramente e desparafusei o painel, quando, para minha surpresa, vi que a cavidade secreta atrás dele estava cheia de belas joias, colares de diamantes, tiaras, gargantilhas, pérolas finas, esmeraldas e turquesas, tudo jogado lá dentro indiscriminadamente.

"Recoloquei o painel e mantive uma vigilância cuidadosa. Em Marselha, onde fizemos escala, mais joias e uma sacola pesada cheia de prataria foram trazidas a bordo e escondidas atrás de outro painel. Então eu soube que os homens eram ladrões.

"Mas certamente", continuou a estranha história que meu amor mudo havia escrito, "não preciso descrever tudo o que ocorreu naquela memorável viagem, exceto para lhe contar um incidente muito curioso que aconteceu. Eu havia conversado confidencialmente com Muriel a respeito das minhas suspeitas sobre os homens que eram nossos colegas de hóspedes, e quando, em segredo, mostrei a ela vários lugares a bordo do iate onde os objetos de valor eram escondidos, ela também se convenceu de que os homens eram ladrões especialistas aos quais seu pai, por algum motivo inexplicável, prestava assistência e refúgio. Ela me disse que, desde que deixara a escola, fizera vários cruzeiros e que o mesmo grupo sempre acompanhava seu pai. Ela, no entanto, nunca havia suspeitado da verdade até que eu a apontei para ela. Bem, em uma noite quente de verão estávamos ancorados ao largo de Nápoles e, como havia uma grande festa em terra e haveria uma apresentação de gala no teatro, Leithcourt reservou um camarote e todo o grupo foi levado a remo para a costa. A tripulação também recebeu licença para ir a terra durante a noite, mas como o forte calor me deixara indisposta, recusei-me a acompanhar o grupo ao teatro e permaneci a bordo com um marinheiro chamado Wilson para compor a guarda. Estávamos ancorados a cerca de oitocentos metros da terra e, no início da noite, o Barão havia ido a terra para enviar telegramas para a Rússia e não havia retornado.

"Por volta das dez horas, desci para tentar dormir, mas tive um leve ataque de febre e não consegui. Portanto, vesti-me novamente e sentei-me com a luz apagada, olhando através da baía estrelada. Logo, pela minha vigia, vi um barco vindo da terra e reconheci nele o Barão com um estranho bem vestido. Ambos subiram a bordo e o barqueiro, tendo sido pago, remou de volta para a costa. Então, o Barão e seu amigo -- um homem de meia-idade, moreno, de barba cheia, evidentemente uma pessoa refinada -- desceram para o salão e, após alguns instantes, chamaram o homem Wilson que estava de guarda, e deram-lhe um copo de uísque com água, que ele levou para o convés para beber à vontade.

"O caráter incomum dos meus companheiros de hóspedes a bordo daquela embarcação era tal que minha suspeita estava constantemente em alerta; portanto, a curiosidade tentou-me a rastejar e espiar pela fresta da porta que estava entreaberta. Uma visão mais próxima revelou o fato de que o estranho era um alto funcionário russo a quem eu havia sido apresentada uma vez no Palácio do Governo em Helsinque, o Conselheiro Privado e Senador Paul Polovstoff. Eles estavam fumando juntos e discutiam em russo os meios pelos quais ele, Polovstoff, havia arranjado para obter planos de algumas novas fortificações britânicas em Gibraltar. Pelo que ele disse, parecia que uma mulher russa, casada com um inglês, um capitão da guarnição, havia sido forçada a entrar no serviço secreto contra sua vontade, mas que ela, para salvar a si mesma, prometera obter as fotografias e os planos que eram necessários. Ouvi o nome do inglês e resolvi tomar algumas medidas para informá-lo em segredo sobre as intenções do agente russo.

"Logo, os dois homens pegaram charutos novos, subiram ao convés e se jogaram nas longas cadeiras de vime a meia-nau. Ainda com toda a curiosidade de ouvir mais detalhes sobre a engenhosa peça de espionagem contra minha própria nação, tirei meus sapatos e rastejei até um local onde pudesse me agachar escondida e ouvir a conversa deles, pois a noite italiana estava calma e serena. Eles falavam principalmente sobre assuntos na Finlândia, e Polovstoff arriscou discordar de algumas das expressões de opinião de Oberg. Isso despertou a raiva do Barão, e eu soube, pelo sarcasmo frio de suas observações e pelo tom peculiarmente duro de sua voz, que ele estava mais irritado do que aparentava externamente. Ele se levantou e ficou de costas para a amurada, de frente para seu amigo, que ainda estava sentado, recostado em sua cadeira de convés, insistindo em suas próprias opiniões. Ele estava bastante calmo e nem um pouco perturbado pelo brilho maligno nos olhos do Barão. Talvez ele não o conhecesse tão bem quanto eu. Ele não sabia o que aquele olhar significava. De repente, enquanto o Conselheiro Privado estava recostado em sua cadeira, tragando pensativamente seu charuto, houve um clarão brilhante, vermelho-sangue, um estampido surdo e o grito curto e agonizante de um homem. Assustada, inclinei-me ao redor da esquina da cabine do convés quando, para meu horror absoluto, vi sob os raios elétricos o Conselheiro Privado do Czar deitado de lado em sua cadeira com parte do rosto arrancado. Então, a verdade hedionda tornou-se aparente em um instante. O charuto que Oberg havia lhe oferecido lá embaixo, no salão, havia explodido, e o pequeno projétil escondido dentro do dispositivo diabólico havia passado para cima, atingindo seu cérebro. Por um momento, fiquei completamente estupefata, mas, ao olhar, vi o Barão, em um paroxismo de raiva, sacudir o punho diante do rosto do homem morto e gritar com uma imprecação terrível: 'Seu cão! Você tramou para me substituir nas graças do Czar. Você pretendia se tornar Governador-Geral da Finlândia! Você sabia de certos fatos que pretendia levar ao conhecimento de Sua Majestade, sabendo que as revelações resultariam em minha desgraça e queda. Mas, seu cão maldito, você não sabia que aqueles que tentam frustrar Xavier Oberg morrem por acidente ou vão para o resto da vida para Kajana ou para as minas!' E ele chutou o corpo com o pé e riu para si mesmo enquanto se vangloriava de seu crime covarde.

"Observei sua raiva, incapaz de pronunciar uma única palavra. Vi-o, depois de revistar os bolsos do morto, levantar o corpo inerte com seu rosto horrível e sem feições e arrastá-lo para a amurada. Então corri para a frente e o confrontei.

"Em um instante, ele saltou sobre mim e eu gritei. Mas nenhuma ajuda veio. O homem Wilson estava dormindo profundamente na proa, pois o uísque que ele lhe dera havia sido batizado", continuou o relato. "Em seu rosto havia uma expressão feroz e assassina como eu nunca tinha visto antes. 'Você!' ele gritou, seus olhos escuros saltando das órbitas ao perceber que eu fora testemunha de seu crime covarde. 'Você me espionou, garota!' ele sibilou, 'e você morrerá também!' Caí de joelhos implorando que me poupasse, mas ele apenas riu da minha súplica. 'Veja!' ele gritou, 'já que você viu como ele aproveitou seu charuto, você também pode ver isto!' E com esforço, ele levantou o corpo morto em seus braços, equilibrou-o por um momento na borda da embarcação e, então, com uma risada rouca de triunfo, jogou-o ao mar. Houve um mergulho e, então, estávamos sozinhos. 'E você!' ele gritou com uma voz feroz -- 'você que me espionou -- você seguirá o mesmo caminho! A água ali fechará sua boca tagarela!' Eu gritei, implorei e supliquei, mas suas mãos trêmulas estavam em minha garganta. Primeiro ele me arrastou para ficar de pé, depois me jogou de joelhos e, finalmente, com aquela brutalidade sombria que o caracteriza, ele ordenou que eu fosse buscar um esfregão e um balde no convés de vante e removesse as manchas vermelho-escuras da cadeira e do convés. Ele realmente me forçou a fazer isso, deleitando-se com meu horror enquanto eu removia para ele os vestígios de seu crime covarde. Então, com a mão em meu ombro, ele disse: 'Garota! Lembre-se de manter segredo sobre o trabalho desta noite. Se não, você morrerá de uma morte mais dolorosa do que a que aquele cachorro teve -- uma na qual você experimentará todas as torturas dos condenados. Lembre-se, nem uma palavra -- ou a morte! Agora, vá para sua cabine e nunca mais se meta em meus assuntos.'

"Voltei para minha cabine como me foi ordenado e sentei-me sem palavras em horror absoluto. As ações diabólicas do homem que era meu guardião me assustavam. E, no entanto, eu estava completamente desamparada. O que eu poderia fazer? Quem na santa Rússia me ouviria? Oberg era um poder no Império; o próprio Czar confiava nele. Se eu falasse, quem acreditaria em mim; quem daria atenção às palavras de uma garota indefesa que ele imediatamente declararia ser histérica? Assim, esperei sozinha na escuridão, observando as luzes do porto brilhando através das águas plácidas até quase uma hora da manhã, quando o alegre grupo retornou e o Barão os cumprimentou alegremente como se nada tivesse acontecido. Mas meu coração estava congelado dentro de mim pela lembrança do crime horrível que havia sido cometido."

* * * * *

"Ora! Agora eu me lembro!", gritou Muriel, espantada. "Lembro-me muito bem daquela noite, de quão pálida você estava quando veio à minha cabine e pediu permissão para dormir em meu beliche vago. Você não me contou nada e apenas disse que estava doente. Nenhum de nós tinha ideia de que uma tragédia tão terrível havia ocorrido. Mas, é claro, o Barão havia planejado tudo, pois foi por sua instigação, eu me lembro, que a tripulação recebeu licença para ir a terra. Mackintosh sugeriu que apenas metade da tripulação fosse, mas ele declarou que se apenas Wilson fosse deixado, seria suficiente."

"Eu também me lembro muito bem do caso", declarou Jack, puxando o bigode, totalmente espantado com a estranha história do meu amor. Era uma declaração simples de fatos duros e surpreendentes, e ela agora estava ali, agarrada a mim, olhando ansiosamente em meus olhos, lendo cada pensamento que passava pela minha mente. "Uma grande sensação foi causada quando o corpo foi descoberto. A esquadra estava ancorada ao largo de Nápoles cerca de uma semana depois que o Iris partiu, e enquanto estávamos lá, o corpo foi trazido pela maré perto de Sorrento. A princípio, pouca atenção foi dada a ele, mas pelas marcas na roupa de cama do homem morto, descobriu-se que ele era Polovstoff, um dos mais altos funcionários russos que, dizia-se, havia sido avisado em várias ocasiões pelos niilistas. Concluiu-se, portanto, que sua morte fora devida à vingança niilista."

Elma apontou para o papel e fez um sinal para que eu continuasse lendo. Fiz isso, e a declaração dizia o seguinte:

"A verdadeira razão pela qual o Barão poupou minha vida foi porque, se eu morresse, minha fortuna passaria para um primo distante que vivia em Durham. No entanto, sua maneira comigo era agora muito educada e agradável -- uma mudança que senti não ser um bom presságio. Ele pretendia obter meu dinheiro casando-me com seu filho Michael, cuja má reputação como jogador era bem conhecida em Petersburgo. Viajamos de volta para a Finlândia no outono e, no inverno, ele me levou para ficar com sua irmã em Nice. No entanto, quase diariamente ele se referia àquela tragédia em Nápoles e me ameaçava de morte se eu algum dia pronunciasse uma única palavra, ou mesmo admitisse que já havia visto o homem que era seu rival e sua vítima."

"No último mês de junho", começou outro parágrafo, "estávamos em Helsinque, quando um dia o Barão me chamou repentinamente e me disse para me preparar para uma viagem. Cruzaríamos para Estocolmo e de lá para Hull, onde o Iris nos aguardava, pois o Sr. Leithcourt e Muriel nos haviam convidado para um cruzeiro de verão pelas ilhas gregas. Embarcamos no iate muito contra a minha vontade, no entanto, eu estava impotente e não ousava alegar os fatos que eu já havia estabelecido sobre nossos companheiros de hóspedes. Muriel e eu, ao que parece, fomos levadas apenas para enganar os guardas portuários e os funcionários da alfândega quanto à verdadeira natureza da embarcação, que, quando em segurança fora do Canal, foi repintada e renomeada como Lola, até que seu exterior apresentasse uma aparência bem diferente da do Iris.

"O porto de Livorno foi nosso primeiro local de escala e, por algum motivo, encalhamos propositalmente em um banco de areia e fomos rebocados por barcos torpedeiros italianos. Na noite seguinte, você veio a bordo e jantou, com Muriel e eu tendo ordens estritas de não nos mostrarmos. Nós, porém, observamos você, e eu vi você pegar minha fotografia que eu havia rasgado naquele dia. Então, imediatamente após você ter saído, Woodroffe, Chater e Mackintosh foram a terra e ficaram fora por algumas horas no meio da noite. Pouco antes de retornarem, o Barão bateu à porta da minha cabine dizendo que precisava ir a terra e me dizendo para me vestir e acompanhá-lo. Ele nunca me permitia o luxo de uma criada, temendo, suponho, que ela pudesse aprender demais. Em obediência, levantei-me e me vesti, e quando saí, ele me disse para pegar minha capa de viagem e minha bolsa, acrescentando que era obrigado a ir para o norte, pois continuar o cruzeiro ocuparia muito tempo. Ele deveria retornar aos seus deveres oficiais, disse ele. Assim que terminei de arrumar as malas, os três homens retornaram à embarcação, todos parecendo sombrios e desapontados. Woodroffe sussurrou algumas palavras ao Barão, após o que fui à cabine de Muriel e me despedi dela, e fomos para a terra, pegando o trem primeiro para Colle Salvetti, de lá para Pisa e, depois, para a bela e antiga cidade de Siena, que eu tanto ansiava ver. Um dos meus dentes me causou dor e o Barão, depois de alguns dias no Hotel de Sienne, levou-me a um velho italiano de aparência estranha -- um dentista que, segundo ele, desfrutava de uma excelente reputação. Fui rápida em notar que os dois homens já se conheciam, e enquanto eu estava sentada na cadeira e o gás me foi administrado, vi-os trocar olhares significativos. Em alguns momentos, fiquei inconsciente, mas quando acordei uma hora depois, fiquei atônita ao sentir uma dor curiosa em meus ouvidos. Minha língua também parecia paralisada e, em poucos momentos, a verdade horrível surgiu em mim. Eu havia ficado surda e muda!

"O Barão fingiu estar muito preocupado comigo", continuou o texto, "mas logo percebi que eu havia sido vítima de um complô vil e covarde, e que ele o havia concebido, temendo que eu pudesse contar a verdade sobre o Conselheiro Privado Polovstoff, pois ele vivia em constante medo de ser exposto. Acabar com minha vida seria contra seus próprios interesses, pois ele perderia minha fortuna, então ele me silenciou para que eu não revelasse a verdade terrível sobre ele e seus associados. Ele não era rico, e tenho razões para acreditar que, de tempos em tempos, ele dava informações sobre pessoas que possuíam joias valiosas e, assim, participava do saque obtido por aqueles no iate.

"Da Itália, viajamos para Berlim, de lá para Petersburgo e de volta para a sombria Helsinque, viajando o mais rápido que podíamos, mas nunca me dando a oportunidade de estar com estranhos. Tanto meus ouvidos quanto minha língua estavam muito doloridos, mas não disse nada. Ele era certamente um demônio de casaco preto, e meu único pensamento agora era como escapar dele. Desde o momento em que aquele chamado dentista arruinou minha audição e me privou do poder da fala, ele me manteve afastada de todos. O medo de que eu revelasse tudo aparentemente cresceu até assombrá-lo, e ele concebeu aquele modo terrível de silenciar meus lábios. Mas a verdadeira profundidade de sua vilania ainda não era aparente até que eu estivesse de volta à Finlândia.

"Na noite de nossa chegada, ele chamou seu filho, que havia viajado conosco de Petersburgo, e por escrito exigiu novamente que eu me casasse com ele. Escrevi minha resposta -- uma recusa firme. Ele bateu na mesa com raiva com o punho e escreveu dizendo que eu deveria me casar com seu filho ou morrer. Então, no dia seguinte, enquanto caminhava sozinha para fora da cidade de Helsinque, como costumava fazer, fui presa sob a falsa acusação de uma tentativa contra a vida de Madame Vakuroff e transportada, sem julgamento, para a terrível fortaleza de Kajana, alguns dos horrores da qual você mesmo vivenciou. A acusação contra mim era necessária antes que eu pudesse ser encarcerada lá, mas, uma vez dentro, o plano do Governador-Geral era obter meu consentimento para o casamento por meio de ameaças e dos constantes terrores do lugar. Ele até chegou ao ponto de obter uma ordem ministerial para meu banimento para Sacalina e a trouxe para mim em Kajana, declarando que se em um mês eu não consentisse, ele permitiria que eu fosse enviada para o exílio. Enquanto eu estava em Kajana, ele sabia que seu segredo estava seguro, portanto, por todos os meios ao seu alcance, ele me instou a consentir com a união odiosa.

"Todo o resto é conhecido por você -- como a Providência o direcionou a mim como meu libertador, e como Woodroffe o seguiu em segredo e, fingindo ser meu amigo, levou-me com ele para Petersburgo. Ele havia aprendido sobre minha fortuna com o Barão e pretendia se casar comigo. Mas agora que tudo acabou, parece-me um sonho terrível. Nunca acreditei que tanta iniquidade existisse no mundo, ou que homens pudessem lutar contra uma mulher indefesa com tanta duplicidade e engenhosidade cruel. Ah! As torturas que sofri em Kajana estão além da concepção humana. No entanto, certamente Oberg e Woodroffe receberão o que merecem -- se não neste mundo, então no mundo vindouro. Não somos ensinados pelas Sagradas Escrituras a perdoar nossos inimigos? Portanto, perdoemos."

* * * * *

Ali terminou a estranha história do meu amor silencioso. Uma narrativa direta e nua que nos deixou a todos por alguns momentos absolutamente sem palavras -- uma das histórias mais estranhas e surpreendentes já reveladas.

Ela observou cada expressão do meu rosto e então, quando terminei de ler e coloquei meu braço ternamente ao redor de sua cintura esguia, ela levantou seu belo rosto para o meu para receber o beijo apaixonado que imprimi naqueles lábios macios e cheios.

"Isso, é claro, torna tudo claro", exclamou Jack. "Polovstoff era um funcionário de mente muito aberta e íntegro, que gozava de grande favor do Czar, e um sério rival de Oberg, cujos métodos drásticos e impiedosos na Finlândia não eram exatamente aprovados pelo Imperador. O Barão estava bem ciente disso e, ao atraí-lo engenhosamente a bordo do Iris, ele conseguiu, ao entregar aquela pequena bomba escondida em um charuto -- um dispositivo niilista que provavelmente havia sido apreendido por sua polícia na Finlândia --, libertar-se do rival que estava destinado a ocupar seu cargo."

"Sim", eu disse com um suspiro. "O mistério foi esclarecido, é verdade, mas minha pobre Elma ainda é a vítima." E beijei meu amor apaixonadamente, repetidas vezes, nos lábios.

CONCLUSÃO

Quase dois anos se passaram agora.

Houve mudanças na santa Rússia -- muitas mudanças grandes e surpreendentes decorrentes da guerra e de seus desastres. A Rússia já não é a grande potência que outrora se supunha ser. Muitos eventos que surpreenderam o mundo ocorreram desde aquele dia em que pela primeira vez envolvi meu amor silencioso em meus braços. Um deles é conhecido por todos vocês.

Lestes nos jornais, sem dúvida, como o Barão Xavier Oberg, o perseguidor da Finlândia, o inimigo da educação, o implacável antagonista dos indefesos, o homem que ordenou que mulheres fossem açoitadas até a morte em Kajana, o funcionário sem coração a quem os finlandeses chamavam de "O Estrangulador", foi feito em pedaços por uma bomba lançada sob a sua carruagem enquanto se dirigia à estação ferroviária em Helsingfors, a caminho de uma audiência com o Imperador.

A verdade secreta era que o "Padre Vermelho" decretou que Oberg deveria morrer, e a conspiração foi rapidamente posta em execução; e, embora quinhentas prisões tenham sido feitas, a polícia desconhece até hoje a identidade da pessoa que a dirigiu, ou de quem lançou o projétil fatal. De um lado para o outro, os revolucionários foram caçados pelos cães de fila da polícia, contudo, o "Padre Vermelho" ainda vive tranquilamente em Petersburgo, e a Princesa Zurloff, ainda insuspeita, dedica a maior parte de sua enorme renda à causa da liberdade.

Sobre Jack e Muriel, só preciso dizer que se casaram cerca de três meses após o retorno de Elma da Rússia, e atualmente vivem nos arredores de Glasgow, onde Jack garantiu o cargo em terra que tanto cobiçava.

Por algum meio — exatamente como, não é de todo certo — a polícia descobriu que Dick Archer, vulgo Woodroffe, vulgo Hornby, estava envolvido no astuto roubo de uma mala de viagem, contendo as joias da viúva Lady Lancashire, subtraída de seu lacaio na plataforma de Euston, e, após uma longa busca, encontraram-no escondido em um hotel em Liverpool. Quando, porém, foram prendê-lo, ele riu na cara dos detetives, colocou algo rapidamente na boca e engoliu antes que pudessem impedi-lo — então, dez minutos depois, caiu morto. Ele sabia que revelações terríveis seriam feitas se prestássemos depoimento contra ele, e preferiu, portanto, a morte pelas próprias mãos àquela que se seguiria a uma sentença judicial.

Chater, embora um dos mais especialistas ladrões de joias da Europa, nunca fora realmente culpado de qualquer crime mais grave, e quando soubemos que ele estava em São Francisco, onde abrira um pequeno bar e tentava viver honestamente, resolvemos permitir que lá permanecesse. De fato, Jack escreveu-lhe há cerca de nove meses, avisando-o para nunca mais pisar em solo inglês sob pena de prisão.

Olinto Santini abriu recentemente um pequeno restaurante em Western Road, Brighton, e, creio eu, está se saindo muito bem.

E nós! Bem, o que posso realmente dizer-vos? Meras palavras falham em descrever a plenitude da nossa felicidade. É idílico — isso é tudo o que posso dizer.

O meu pedido de casamento foi feito a Elma poucos dias depois de ela ter escrito a sua história surpreendente e romântica, e, há um ano, numa pequena igreja de aldeia em Hertfordshire, tornamo-nos marido e mulher, estando presente no nosso casamento Madame Heath, a mãe da minha noiva, a quem, pelos meus esforços junto dos círculos oficiais em Petersburgo, foi estendida a clemência do Czar, sendo ela libertada daquela longínqua prisão ártica para a qual fora enviada com tamanha injustiça cruel.

Dois dos maiores especialistas de Londres trataram continuamente a minha querida esposa e, sob os cuidados deles, ela já recuperou a fala — até tal ponto, de fato, que pode agora sussurrar com uma voz suave e baixa. Mas eles dizem-me que estão esperançosos de que, em breve, a sua voz se torne mais forte e a fala praticamente restaurada. Já, também, ela pode começar a ouvir.

Após todas as tempestades e perigos do passado, as nossas vidas estão agora, de fato, plenas de uma calma e doce paz. Na nossa pequena e confortável casa, com a sua varanda em treliça coberta de rosas e madressilvas, que dá para o azul do Canal em St. Margaret's Bay, além de Dover, levamos uma vida de mútua confiança e amor sem limites. Estamos supremamente contentes — o par mais feliz de todo o mundo, pensamos nós.

Muitas vezes, quando nos sentamos juntos ao entardecer, contemplando os grandes navios que passam sombriamente em direção ao misterioso crepúsculo, as nossas mãos unem-se mutuamente num silêncio mais eloquente do que as palavras, e, enquanto olhamos nos olhos um do outro, ocorre-nos a injunção Divina: "O QUE DEUS UNIU, NÃO O SEPARE O HOMEM."

FIM

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