A FILHA DE ANDERSON CROW
por
GEORGE BARR MCCUTCHEON
Autor de Beverly of Graustark, Jane Cable, etc.
Com ilustrações de B. Martin Justice
Nova York Dodd, Mead and Company
1907
CONTEÚDO
CAPÍTULO I. ANDERSON CROW, DETETIVE II. A PERSEGUIÇÃO COMEÇA III. OS CULPADOS IV. ANDERSON RETIFICA UM ERRO V. O BEBÊ NA SOLEIRA DA PORTA VI. REFLEXÃO E DEDUÇÃO VII. O VISITANTE MISTERIOSO VIII. ALGUNS ANOS SE PASSAM IX. A RAINHA DO VILAREJO X. ROSALIE TEM SEUS PRÓPRIOS PLANOS XI. ELSIE BANKS XII. O CONCURSO DE SOLETRAÇÃO XIII. UMA SENSAÇÃO EM TINKLETOWN XIV. UM CASO DE IDENTIDADE EQUIVOCADA XV. ROSALIE DESAPARECE XVI. A CASA ASSOMBRADA XVII. WICKER BONNER, HARVARD XVIII. OS HOMENS NO TRENÓ XIX. COM OS SEQUESTRADORES XX. NA CAVERNA XXI. O ALÇAPÃO XXII. JACK, O MATADOR DE GIGANTES XXIII. A CONVULSÃO DE TINKLETOWN XXIV. A FUGA DOS SEQUESTRADORES XXV. À MEDIDA QUE O CORAÇÃO ENVELHECE XXVI. O VENTRÍCULO ESQUERDO XXVII. O RISO ZOMBETEIRO XXVIII. OS OLHOS DO CEGO XXIX. O INTERROGADOR MISTERIOSO XXX. O ROUBO DO TREM DO HEMISFÉRIO XXXI. "COMO LHE APROUVER" XXXII. A SORTE DE ANDERSON CROW XXXIII. BILL BRIGGS CONTA UMA HISTÓRIA XXXIV. ELSIE BANKS RETORNA XXXV. A HISTÓRIA É CONTADA XXXVI. A RENÚNCIA DE ANDERSON CROW
ILUSTRAÇÕES
Anderson Crow (Frontispício)
"'Seguro por um ou dois minutos, pelo menos', sussurrou ele"
"Um bebê, vivo e aquecido, jazia acomodado nos cobertores"
"Setembro trouxe Elsie Banks"
"A professora estava surpreendentemente bonita nesta noite memorável"
"'Qual é o significado de tudo isso?'"
A casa assombrada
Wicker Bonner
"Rosalie não era páreo para a mulher enorme"
"Ela recuou de outro golpe que parecia iminente"
"Deixou o jovem aos cuidados de uma excelente enfermeira"
"'Acho que entendo, Rosalie'"
"'Peço perdão', disse ele humildemente"
"Era um velho carvalho sábio e discreto"
"O enorme automóvel atingira a erosão"
CAPÍTULO I
Anderson Crow, Detetive
Ele era imponente, mesmo em sua contemplação. Não havia como negar o fato de que ele era uma personagem importante em Tinkletown, e para os moradores de Tinkletown isso significava muito, pois não era o vilarejo deles um monumento perpétuo à Revolução Americana? Até os historiadores mais generalistas eram obrigados a dedicar pelo menos um parágrafo à batalha de Tinkletown, enquanto alguns dos mais esclarecidos dedicavam uma página inteira e uma imagem do conflito que trouxe glória aos habitantes sonolentos, cujos ancestrais foram empreendedores o suficiente para aniquilar uma companhia inteira de casacas-vermelhas britânicos, certa vez.
Apesar de tudo isso, um visitante particularmente desagradável da cidade observou certa vez, na presença de meia dúzia de descendentes (após esperar vinte minutos na agência dos correios por dez centavos em selos), que Tinkletown era de fato um monumento, mas ele não conseguia entender por que os mortos haviam sido deixados sem sepultura. Havia um excelente motivo para ressentimento, mas o jovem e seus selos já estavam longe antes que toda a força da calúnia penetrasse nos cérebros dos ouvintes.
Anderson Crow era tão imponente e vigoroso quanto o mais alto fuste de mármore no pequeno cemitério na periferia da cidade. Ninguém questionava seu poder e autoridade, ninguém julgava mal sua estatura, e ninguém ignorava sua dignidade. Por vinte e oito anos, ele servira a Tinkletown e a si mesmo na capacidade tripla de delegado municipal, chefe dos bombeiros e comissário de ruas. Ele tinha um sistema de governo peculiarmente seu; e ninguém possuía o coração ou a temeridade para derrubá-lo, independentemente dos incentivos políticos. Teria sido como tentar melhorar as leis da natureza colocar um homem novo em seu lugar. Ele havia se tornado um acessório que apenas a dissolução poderia remover. Diga-se, contudo, que a dissolução não tinha seu significado comum e aceito quando aplicada a Anderson Crow. Por exemplo, ao discorrer sobre os hábitos detestáveis do libertino mais dissoluto da cidade — Alf Reesling —, Anderson aventurara mais de uma vez a opinião de que "ele estava levando sua dissolução longe demais".
E não teria Anderson Crow alcançado uma distinção além da local? Sua fama não teria corrido pela terra? Não só ele era o Delegado de Tinkletown com um salário de 200 dólares por ano, como também era presidente da Associação de Detetives Contra Ladrões de Cavalos do Condado e, ainda, um delegado vitalício da Convenção Estadual dos Filhos da Revolução. A esse respeito, acrescente-se que todos os pais em Tinkletown lamentavam o nascimento de uma filha, porque essa simples circunstância de origem roubava da lista da sociedade um novo nome.
Anderson Crow, aos quarenta e nove anos, tinha um orgulhoso registro oficial atrás de si e um futuro garantido pela frente. Sem dúvida, era nisso que ele pensava, enquanto se inclinava pensativo contra o poste de amarrar cavalos da cidade e mastigava, com cautela, a ponta de grama que pendia até abaixo das suíças que o acompanhavam há vinte anos. A expressão distante em seus olhos azul-aquosos dava prova de que ele era tão grande reminescente quanto era pessoalmente. Tão bem-sucedida fora sua carreira como preservador da lei que, nos últimos anos, nenhum malfeitor tivera a coragem de praticar seus jogos nefastos na comunidade. O bêbado da cidade, Alf Reesling, raramente aparecia nas ruas em sua condição habitual, porque, como ele observava lamentosamente, ele mereceria prisão e confinamento por "negligência criminosa", se não por outra coisa. A fama do delegado como detetive há muito escapara dos limites estreitos de Tinkletown. Ele era bem conhecido na sede do condado e, em não menos que três ocasiões, seu nome fora mencionado nos jornais da "cidade grande" em conexão com a prisão de notórios ladrões de cavalos.
E agora a cidade inteira tremia com uma nova agitação, devido ao reconhecimento concedido ao seu triplo oficial. Na segunda-feira de manhã, ele se aventurara fora de seu escritório na longa e deserta "cadeia", resplandecente com uma estrela niquelada novinha em folha. Ao meio-dia, todos na cidade sabiam que ele era um autêntico "detetive", membro da grande organização conhecida como Associação Imperial de Detetives de Nova York; e que uma nova honra chegara a Tinkletown por meio de uma geração pós-revolucionária. A beleza de tudo era que Anderson nunca perdia um fiapo de sua serenidade ao explicar como a associação o implorara para se juntar às suas forças, indo até o ponto de insistir para que ele fosse para a cidade de Nova York, onde poderia auxiliar e aconselhar em todas as suas grandes operações. E, além disso, ele fora obrigado a pagar apenas dez dólares de taxa de associação, além de comprar a estrela flamejante pela quantia irrisória de três dólares e vinte e cinco centavos.
Cada transeunte nesta brilhante manhã de primavera oferecia um respeitoso "Olá" a Anderson Crow, cujo único reconhecimento era um aceno lento e imponente da cabeça. Apenas uma vez ele foi forçado a abandonar sua atitude pensativa, e foi quando uma impertinente mosca-varejeira tentou descansar por um breve período sobre a estrela niquelada. Nunca mosca-varejeira foi posta em fuga com tanta energia.
Mas mesmo enquanto o Pooh-Bah de Tinkletown posava em supremacia repousante, assuntos do tipo que fazem época precipitavam-se sobre ele. Lá no céu claro e preguiçoso, um raio preparava-se para arremessar-se no próprio coração de Tinkletown, e diretamente sobre a cabeça de Anderson Crow.
Mais tarde, foi lembrado pelos cidadãos observadores que, pouco antes do meio-dia — sete minutos para as doze, de fato —, uma pequena nuvem, não maior que a proverbial mão, atravessou o sol apressadamente, como se tivesse medo de demorar. Naquele instante exato, um estranho aproximou-se do poste de amarrar cavalos, parando seu cavalo coberto de suor tão abruptamente em frente ao nariz do delegado que o chapéu daquela autoridade caiu para trás.
"Upa!", veio clara e inequivocamente dos lábios do estranho que segurava as rédeas. Meia dúzia de vadios nos degraus dos correios tinham certeza de que ele não disse mais nada, um fato que mais tarde valeria a pena lembrar.
"Aqui!", exclamou Anderson Crow irado. "Você sabe o que está fazendo, seu maldito?"
"Peço perdão", todos ao alcance da voz ouviram o jovem dizer. "Esta é a cidade de Tinkletown?" Ele disse "cidade", podiam jurar, todos eles.
"Sim, é", respondeu o delegado severamente. "E daí?"
"Nada. Eu só queria saber. Onde fica a loja?"
"Que loja?", bastante irritado. O estranho pareceu desconcertado com isso.
"Você tem mais de uma — oh, certamente. Eu deveria dizer, onde fica a loja mais próxima?", desculpou-se o estranho.
"Bem, essa é boa, imagino", disse o Sr. Crow laconicamente, indicando a agência dos correios e a loja de variedades.
"Você seria gentil o suficiente para segurar meu cavalo enquanto corro lá dentro por um minuto?", pediu calmamente o recém-chegado à cidade, saltando levemente da charrete salpicada de lama. Anderson Crow quase cambaleou diante dessa indignidade. A multidão ofegou e então esperou, sem fôlego, pelo processo de humilhação.
"Por que... por que, maldito seja, senhor, o que você acha que eu sou — um poste de amarrar?", explodiu nos lábios do novo detetive. Seu rosto estava vermelho como brasa.
"Você terá que me desculpar, meu caro, mas pensei ter visto um poste de amarrar quando cheguei. Ah, aqui está. Que descuido o meu. Mas diga, não ficarei na loja mais de um segundo, e não parece valer a pena amarrar este velho pangaré. Se você apenas cuidar dele — ou dela — por um minuto, ficarei muito grato, e..."
"Cuide do seu próprio cavalo", rugiu o delegado trovejante.
"Não fique irritado", gritou o jovem alegremente. "Valerá vinte e cinco centavos para você."
"Sabe quem eu sou?", exigiu Anderson Crow, roxo até as raízes de seu cavanhaque.
"Sim, senhor; sei perfeitamente, mas me recuso a revelar. Aqui, pegue a rédea, velho amigo, e segure o Dobbin por cerca de um minuto e meio", continuou o estranho implacavelmente; e antes que Anderson Crow soubesse o que acontecera, ele estava realmente segurando o pangaré ofegante pela rédea. O jovem subiu os degraus de três em três, quase derrubando o tio Gideon Luce, que não tinha sido tão ágil quanto os outros em abrir caminho para ele. A multidão teve tempo suficiente para estudar o rosto, as vestes e o modo desse jovem enérgico.
Que ele era da cidade, bonito e bem vestido, não havia dúvida. Ele era alto e seu rosto não tinha barba; isso podia ser visto num relance. De alguma forma, ele parecia estar rindo o tempo todo — um fato que foi lembrado mais tarde com alguma surpresa e não pouco horror. Na época, os vadios pensaram que seu sorriso era alegre, mas depois sustentaram firmemente que havia uma vilania absoluta naquele escárnio. Seu casaco estava muito empoeirado, provando que ele havia dirigido muito e rapidamente. Três ou quatro dos vadios seguiram-no para dentro da loja. Ele estava diante do balcão onde o Sr. Lamson servia sua água com gás. Em uma mão, ele segurava um envelope e, na outra, seu chapéu de palha. George Ray, mais observador que o resto, notou o fato de que era com o chapéu que ele se abanava vigorosamente.
"Uma de baunilha pura — por favor, apresse-se", ordenou o estranho. O Sr. Lamson, se possível mais lento que a própria cidade, mostrou sinais inconfundíveis de aceleração. Tomando o refrigerante de um gole só, o estranho secou os lábios com um lenço branco de bainha azul. "É aqui a agência dos correios?", perguntou ele.
"É", disse o Sr. Lamson, que era penúrico demais para desperdiçar palavras.
"Alguma coisa aqui para mim?", exigiu o recém-chegado.
"Vou ver", disse o mestre dos correios e, por força do hábito, começou a procurar na pilha de cartas sem perguntar o nome do homem. O Sr. Lamson conhecia todos no condado.
"Nada aqui", disse, tirando os óculos conclusivamente.
"Eu não achei que houvesse", disse o outro placidamente. "Dê-me um frasco de hamamélis, um pacote de grampos de cabelo invisíveis e uma caixa de fósforos de salão. Rápido; estou com pressa!"
"Você disse grampos de chapéu?"
"Não, senhor; eu disse grampos de cabelo."
"Não temos nenhum que não seja visível. Que tal alfinetes de segurança?"
"Não importa; dê-me o frasco e os fósforos", disse o outro, olhando para um relógio de ouro muito bonito. "O velho ainda está segurando meu cavalo?", perguntou a um cidadão perto da porta. Sete pescoços se esticaram simultaneamente para atendê-lo, e sete vozes responderam afirmativamente. O estranho abriu calmamente a caixa de fósforos, encheu sua cigarreira de prata e jogou a caixa de volta no balcão, um ato inaudito de desperdício naquelas partes. "Não precisa se preocupar em embrulhar o frasco", disse ele.
"Você não quer estes fósforos?", perguntou o Sr. Lamson com uma leve surpresa.
"Vou doá-los para a igreja", disse o outro, jogando uma moeda sobre o balcão e saindo apressado da loja. A multidão fluiu atrás dele. "Gentil como um cordeiro, não é?", chamou ele para Anderson Crow, que ainda segurava a rédea. "Muito grato, senhor; farei o mesmo por você algum dia. Se você estiver em Nova York, procure-me e cuidarei para que você se divirta. Que estrada pego para Crow's Cliff?"
"Vire à esquerda aqui", disse Anderson Crow antes de pensar. Depois, chamou a si mesmo de tolo por ser tão prestativo com o sujeito.
"Quão longe é daqui?"
"Uma milha e meia", respondeu novamente o Sr. Crow impotente. Desta vez, ele quase praguejou em voz baixa.
"Mas ele não pode chegar lá", voluntariou-se um dos espectadores.
"Por que não pode?", exigiu o delegado.
"A ponte sobre o Turnip Creek foi levada. Você esqueceu disso?"
"Claro que não", respondeu prontamente o Sr. Crow, que tinha esquecido; "Mas, droga, ele sabe nadar, não sabe?"
"Você diz que a ponte caiu?", perguntou o estranho, visivelmente agitado.
"Sim, e o riacho está muito cheio para atravessar também."
"Bem, como diabos vou chegar a Crow's Cliff?"
"Há outra ponte quatro milhas rio acima. Ela ainda está lá", disse George Ray. Anderson Crow lavara as mãos daquela questão com desprezo.
"Droga! Não tenho tempo para dirigir tanto. Tenho que estar lá às doze e meia. Já estou atrasado! Não há como atravessar esse riacho miserável?" Ele estava na charrete agora, chicote na mão, e seus olhos expressavam ansiedade. Alguns dos homens juraram mais tarde que ele parecia positivamente assustado.
"Há uma tora para pedestres alta e seca, e você pode atravessar a pé, mas não pode levar o cavalo e a charrete", disse um dos homens.
"Bem, é exatamente isso que terei que fazer. Diga, Sr. Oficial, suponha que você me leve até o riacho e depois traga o cavalo de volta aqui para um estábulo. Pagarei bem por isso. Preciso chegar a Crow's Cliff em quinze minutos."
"Não sou garoto de recados!", gritou Anderson Crow tão irado que dois ou três rapazes riram.
"Você é um velho rabugento, é isso que você é!", exclamou o estranho com raiva. Todos ofegaram, e o Sr. Crow cambaleou para trás contra a grade de amarrar.
"Veja aqui, jovem, nada disso!", ele gaguejou. "Você não pode falar assim com um oficial da lei. Eu vou..."
"Você não fará nada, está ouvindo? Mas se soubesse quem eu sou, você estaria fazendo algo muito rapidamente." Uma dúzia de homens o ouviu dizer isso, e eles se lembraram palavra por palavra.
"Vá se coçar!", retrucou Anderson Crow com desprezo. Supunha-se que fosse um desafio terrível, mas o estranho não prestou atenção.
"O que devo fazer com este cavalo e charrete?", rosnou ele, meio para si mesmo. "Comprei essa coisa maldita diretamente em Boggs City, só porque o dono do estábulo não me conhecia e não quis me alugar um equipamento. Agora suponho que terei que levar o velho pangaré até o riacho e afogá-lo para me livrar dele."
Ninguém protestou. Ele parecia um pouco perigoso com seus ombros largos e mandíbula quadrada.
"O que você me dá pelo conjunto, cavalo, charrete, arreios e tudo mais? Vendo barato se alguém fizer uma oferta rápida." Os espectadores olharam uns para os outros sem expressão, e finalmente o olhar concentrado caiu sobre o Pooh-Bah da cidade. O caso parecia ser um que exigia sua atenção; de fato, não parecia ser propriedade pública, essa proposta surpreendente.
"Por que você está tão ansioso para vender?", exigiu Anderson Crow, ouvindo à distância para ver se conseguia detectar uma falha na respiração do cavalo. De relance, a charrete parecia segura o suficiente.
"Estou ansioso para vender por dinheiro vivo", respondeu o estranho; e Anderson ficou atônito. O rapaz que riu desta vez teve motivos para se arrepender, pois o Sr. Crow prendeu-o meia hora depois por portar um estilingue. "Paguei cem dólares pelo conjunto em Boggs City", continuou o estranho nervosamente. "Alguém faça uma oferta — e rápido! Estou com pressa!"
"Dou cinco dólares!", disse um dos espectadores com uma risada de desculpa. Essa foi a faísca que acendeu o fogo nas mentes econômicas dos melhores cidadãos de Tinkletown. Antes que percebessem, eles estavam dando lances uns contra os outros com o verdadeiro instinto de "troca de cavalos", e as ofertas chegaram a 21,25 dólares quando o estranho encerrou a venda sem cerimônia gritando: "Vendido!" Não há como dizer quão alto os lances poderiam ter chegado se ele pudesse ter esperado meia hora ou mais. O tio Gideon Luce disse depois que ele poderia ter conseguido vinte e quatro dólares "tão facilmente quanto não". Eles estavam subindo vinte e cinco centavos de cada vez, e ninguém parecia disposto a desistir. O vencedor foi Anderson Crow.
"Você pode me pagar enquanto dirigimos. Suba!", gritou o estranho, olhando para o relógio com considerável agitação. "Tudo o que peço é que você me leve até a tora que atravessa o riacho."
CAPÍTULO II
A Perseguição Começa
Quinze minutos depois, Anderson Crow desfilava orgulhosamente pela cidade. Ele levara o estranho até o riacho e o vira correr pela tora para o lado oposto, munido de direções que o levariam à rota mais próxima através dos pântanos e bosques até Crow's Cliff. O estranho estava com o dinheiro de Anderson no bolso; mas Anderson tinha um conjunto de transporte muito respeitável para mostrar por isso. Sua esposa guardou o jantar para ele até as duas horas e, então, enviou o mais novo dos Crow para dizer ao pai que ele teria que ficar com fome até a hora da ceia.
Não é de admirar que Anderson não tenha chegado em casa a tempo para a refeição do meio-dia. Ele começou o caminho de volta corretamente, mas que progresso ele poderia fazer quando todos na cidade o paravam para perguntar sobre o negócio notável e dar uma olhada na compra. Sem uma única voz dissidente, Tinkletown dizia que Anderson tinha se dado muito bem no negócio. George Ray quis dizer algo bom quando disse: "Tolo para a sorte", mas foi obrigado a explicar minuciosamente o gracejo antes que o orgulhoso Sr. Crow pudesse se considerar satisfeito.
Não foi até que ele parou em frente ao estabelecimento do Weekly Banner para contar ao repórter "a notícia" que sua equanimidade sofreu o primeiro abalo. Ele estava bastante orgulhoso do negócio e, além disso, gostava de ver seu nome no jornal. Enquanto isso, quase todos em Tinkletown discutiam a terrível prodigalidade do estranho. Não ocorreu a ninguém perguntar por que ele estava com tanta pressa para chegar a Crow's Cliff, um local selvagem e desolado rio abaixo.
"O cavalo sozinho vale cinquenta dólares facilmente", voluntariou-se o Sr. Crow triunfante. O distintivo de detetive em seu peito estufado parecia brilhar de alegria.
"Diga, Anderson, não é um pouco estranho que ele tenha vendido tudo tão barato?", perguntou Harry Squires, o repórter local e alimentador da prensa.
"O que é isso?", exigiu Anderson Crow asperamente.
"Você acha que é realmente verdade que ele comprou o pangaré lá em Boggs City?", perguntou o cético. O Sr. Crow revirou seu bocado de tabaco impotente por um minuto ou dois. Ele podia sentir-se empalidecendo.
"Ele disse isso; não é o suficiente?", ele conseguiu esbravejar.
"Parece que foi", respondeu Harry, que frequentara a escola noturna em Albany por dois anos.
"Bem, então do que diabos você está falando?", exclamou Anderson Crow, chicoteando o cavalo.
"Aposto três dólares que é um conjunto roubado!"
"Vá para o inferno!", gritou Anderson, mas seu coração estava frio. Algo lhe dizia que Harry Squires estava certo. Ele dirigiu para casa em um estado de terrível incerteza e angústia. De alguma forma, seu entusiasmo havia desaparecido.
"Droga!", disse ele, sem motivo, enquanto desamarrava o cavalo no curral.
"Ei, Sr. Crow!", gritou uma voz estridente da rua. Ele olhou para cima e viu um menino vindo correndo.
"O que houve, Toby?", perguntou o Sr. Crow, todo trêmulo. Ele sabia!
"Acabaram de receber um telefonema de Boggs City", ofegou o menino, "lá na redação do Banner. Harry Squires diz para você correr para lá — charrete e tudo. Foi roubado."
"Meu Deus!", arquejou Anderson. Seu distintivo dançou diante de seus olhos e, em seguida, pareceu encolher.
Uma verdadeira multidão se reunira na redação do Banner. Houve um silêncio repentino quando o marechal chegou. Até o cavalo sentiu a intensidade do momento. Ele se assustou com um cachorro e chutou o painel, desfazendo a parca dignidade de Anderson Crow e quase fazendo o mesmo com o veículo.
"Você é um belo detetive!", zombou Harry Squires; e o pobre velho Anderson o odiou para sempre depois disso.
"O que você ouviu?", exigiu o marechal.
"Houve um assassinato terrível em Boggs City, só isso. O chefe de polícia acabou de telefonar para nós avisando que um fazendeiro chamado Grover foi encontrado morto em uma vala logo fora da cidade — baleado na cabeça, com os bolsos revirados. Sabe-se que ele saiu para a cidade para depositar quatrocentos dólares do dinheiro dos porcos no banco. O dinheiro sumiu, assim como seu cavalo e sua charrete. Um sujeito jovem foi visto nas redondezas hoje cedo — um estranho. A descrição do chefe corresponde ao homem que lhe vendeu aquela carroça. Sabe-se que o assassino fugiu nesta direção. As pessoas o viram indo a galope."
Não é necessário dizer que Tinkletown virou do avesso de tanta excitação. Toda a população logo estava nos correios, e todos tentavam suprir Anderson Crow com inteligência. Ele havia perdido a sua.
"Temos que pegar aquele sujeito", resolveu finalmente o marechal. Houve um silêncio mortal.
"Ele tem uma pistola", arriscou alguém.
"Como você sabe?", exigiu o Sr. Crow, astuto. "Você viu?"
"Ele não poderia ter matado aquele sujeito sem uma arma."
"É um fato", concordou Anderson Crow. "Bem, de qualquer jeito, temos que pegá-lo. Convoco voluntários! Quem se juntará a mim na busca?", gritou o marechal corajosamente.
"Eu detesto ir até Crow's Cliff atrás dele", disse George Ray. "É um lugar solitário, e tão escuro quanto a noite entre aquelas árvores e rochas."
"É nosso dever pegá-lo. Ele é um criminoso e, além disso, matou um homem", disse Crow severamente.
"E ele está com vinte e um dólares do seu dinheiro", acrescentou Harry Squires. "Eu vou com você, Anderson. Eu tenho um revólver."
"Cuidado aí!", rugiu Anderson Crow. "Essa coisa maldita pode disparar!", ele acrescentou, enquanto o repórter sacava um revólver brilhante de seis tiros do bolso.
O exemplo dado por um homem corajoso teve sua influência sobre a multidão. Mais de vinte se voluntariaram, apesar das objeções de suas esposas, e não demorou muito para que Anderson Crow estivesse liderando seu bando heterogêneo de investigadores pela trilha até a passarela sobre a qual o fora da lei havia passado uma hora antes.
Foi no início da caçada humana que vários cidadãos se lembraram de certas ações e características do estranho que os haviam deixado desconfiados desde o início. Sua disposição pródiga com a caixa de fósforos pareceu à maioria deles uma imprudência temerária; sua pressa, ansiedade e um único caso de profanação leve revelaram a outros sua perversidade. Um homem tinha certeza de ter visto a corrente do relógio do estranho em posse do fazendeiro Grover; e outro viu algo preto em seu polegar, que agora ele lembrava ser uma mancha de pólvora.
"Eu notei todas essas coisas", afirmou Anderson Crow, supremo mais uma vez.
"Mas o que, raios, ele queria com aqueles grampos de cabelo?", indagou George Ray.
"Não importa", disse Anderson misteriosamente. "Você descobrirá em breve."
"Você sabe, Anderson?", alguém perguntou.
"Claro que sei", respondeu o marechal, altivo.
"Bem, para que serviam, então?"
"Não estou dando pistas. Espere um pouco e veja se não tenho razão."
E eles ficaram satisfeitos por o detetive saber tudo sobre o assunto. Após atravessar a passarela, o grupo se dividiu sobre qual direção deveria tomar. O marechal disse que o homem havia corrido para o sudeste, mas, por alguma razão inexplicável, um bom número dos perseguidores queria caçá-lo no noroeste. Finalmente, decidiu-se separar em grupos de dez, todos para convergir em Crow's Cliff o mais rápido possível. Havia espingardas de cano duplo suficientes no grupo para ter conquistado uma tripulação de piratas.
Ao final de uma hora, Anderson Crow e sua delegação chegaram ao caminho estreito que levava ao cume de Crow's Cliff. Eles estavam muito corajosos a essa altura. Um menino pequeno dizia a eles que vira o fugitivo na hora do almoço "bem onde vocês estão parados agora".
"Ele estava com sangue nele?", exigiu Anderson Crow.
"Não, senhor; não a menos que fosse por baixo das roupas."
"Ele disse alguma coisa para você?"
"Ele me perguntou para onde ia esse caminho."
"Viram só, senhores!", gritou Anderson. "Eu sabia que estava certo. Ele queria..."
"Bem, para onde ele foi?", exigiu Harry Squires.
"Eu disse que ia para o topo do penhasco. E então ele disse: 'Como se chega ao rio?'. Eu disse a ele para seguir por este caminho lateral aqui e contornar a base da colina."
"Ele não subiu o penhasco?", exigiu o marechal.
"Não, senhor."
"Bem, que raios ele foi me perguntar onde era o penhasco se ele..."
"Então ele foi para o rio, é?", interrompeu Squires. "Vamos, homens; ele desceu por este mato e pelas terras baixas."
"Ele se perdeu, eu acho", sugeriu o menino.
"O quê!"
"'Porque ele gritou comigo depois que já tinha ido um pouco e perguntou... e perguntou..." O menino hesitou, indeciso.
"Perguntou o quê?"
"Ele me perguntou onde diabos estava o caminho."
"Pela barba, é ele mesmo, sem tirar nem pôr!", exclamou o Sr. Crow, excitado.
"'Depois ele disse que me daria um quarto de dólar se eu lhe mostrasse o caminho; então eu..."
"Ele lhe deu o quarto de dólar?", questionou um dos homens.
"Sim. Ele tinha um maço de notas do tamanho da minha perna." Todos ofegaram e pensaram no dinheiro dos porcos de Grover.
"Você foi ao rio com ele?", interrogou o repórter.
"Fui até a clareira, e então ele me disse para parar. Ele disse que conseguiria encontrar o caminho a partir dali. Depois disso, ele correu para a margem como se alguém estivesse atrás dele. Havia um barco esperando por ele sob o penhasco."
"Ele entrou nele?", gritou Squires.
"Ele me disse para não olhar ou quebraria meu pescoço", disse o menino. A patrulha tateou nervosamente seu arsenal.
"Mas você olhou?"
"Sim. Eu vi os dois claramente."
"Os dois? Havia mais de um?"
"Havia uma mulher no esquife."
"Não me diga!", ofegou Squires.
"Droga, não é o que ele está contando!", Anderson exclamou com desprezo.
O menino foi levado às pressas à frente da patrulha, que a essa altura havia sido reforçada. Ele liderou o caminho através dos arbustos lúgubres, contando sua história enquanto caminhavam.
"Ela era muito bonita, também", disse ele. "O sujeito acenou com o chapéu quando a viu, e ela acenou de volta. Ele correu e pulou no barco, e então... então..."
"Então o quê?", explodiu Anderson Crow.
"Ele a beijou!"
"O maldito assassino!", rugiu Crow.
"Ele pegou os remos e remou cruzando e descendo o rio. E ele sacudiu o punho para mim quando viu que eu estava observando", disse o jovem, pronto para choramingar agora que percebia que tipo de personagem desesperado ele havia enfrentado.
"Onde ele desembarcou do outro lado?", perseguiu o repórter ansioso.
"Ali perto daquelas salgueiras, uns oitocentos metros abaixo. Ali está o esquife amarrado a uma muda de árvore. Vocês não conseguem ver?"
De fato, a popa de um pequeno barco aparecia no rio largo e profundo, com a proa escondida pelos arbustos.
"Os dois subiram a colina correndo ali adiante, e foi a última coisa que vi deles", concluiu o rapaz.
Anderson Crow e seus caçadores de homens olharam impotentes para o rio largo e veloz, e então olharam um para o outro em desespero. Não havia nenhum barco à vista, exceto o do assassino, e não havia ponte num raio de dezesseis quilômetros.
Enquanto resmungavam, um destacamento atrasado de caçadores chegou à margem do rio, muito agitados.
"Uma mensagem telefônica acabou de chegar à cidade dizendo que haveria uma recompensa de mil dólares", anunciou um dos que chegaram por último; e instantaneamente houve uma exigência imperativa por barcos.
"Há uma balsa velha rio acima", disse o menino, "mas não sei quantas pessoas ela pode carregar. Eles a usam para transportar milho da fazenda do Sr. Knoblock para aquelas grandes casas de verão nas colinas ali adiante."
"Ela é segura?", exigiu Anderson Crow.
"Deve ser, ou não a usariam", disse Squires sarcasticamente. "Onde ela está, garoto?"
O menino liderou o caminho rio acima, com toda a companhia seguindo atrás.
"Sh! Não muito alto", advertiu Anderson Crow. Quinze minutos depois, uma embarcação bamba partiu para o mar, tripulada por uma equipe escolhida de cidadãos determinados de Tinkletown. Quando estavam no meio do rio, um grito alto veio da margem que haviam deixado para trás. Olhando para trás, Anderson Crow viu homens excitados correndo de um lado para o outro, a maioria deles apontando empolgadamente para as colinas do outro lado do rio. Após uma busca diligente, os olhos dos homens na balsa viram o que havia causado tal comoção na base de Crow's Cliff.
"Lá está ele!", gritou Anderson Crow em tons de reverência. Não havia como confundir a identidade do homem sem casaco na encosta. Uma dúzia de homens o reconheceu como o homem que perseguiam. Levando as mãos à boca, Anderson Crow berrou em tons que soavam mais a medo do que a comando:
"Ei!"
Não houve resposta.
"Você vai se render pacificamente?", chamou o capitão da embarcação.
Houve um momento de indecisão por parte do fugitivo. Ele olhou para sua companheira, e ela balançou a cabeça — todos a viram fazer isso.
Então ele gritou sua resposta de volta.
CAPÍTULO III
Os Culpados
"Embarcação à vista!", gritou o estranho sem casaco, com as mãos em concha.
"Renda-se ou vamos enchê-lo de chumbo!", chamou Anderson Crow.
"Quem são vocês — piratas?", respondeu o fugitivo com uma risada que gelou a medula dos homens na balsa.
"Vou te mostrar quem somos!", berrou Anderson Crow. "Levem-na para a margem, rapazes, rápido. O canalha maldito não deve nos escapar. Morto ou vivo, temos que pegá-lo."
Enquanto remavam em direção à margem, a mulher agarrou o homem pelo braço, arrastando-o para trás, entre as árvores. Foi observado por todos que ela estava muito aterrorizada. Além disso, ela era extremamente bela de se ver — jovem, formosa e uma companheira muito incongruente para o canalha sangrento que a tinha em seu poder. A balsa bateu contra a margem cheia de juncos, e Anderson Crow foi o primeiro a desembarcar.
"Vamos, rapazes; sigam-me! Vejam se suas armas estão prontas! Subam a colina agora, e espalhem-se um pouco para que possamos cercá-lo!", comandou ele em um tom agudo.
"Mas e se ele nos cercar?", ofegou um perseguidor cauteloso, no meio da subida da colina.
"É isso que temos que evitar", rebateu Anderson Crow. A patrulha varreu bravamente o gramado; mas a raposa havia ido embora. Não havia sinal nem som dele. É justo dizer que a fadiga foi responsável pelo suspiro profundo que veio de cada membro do grupo de perseguição.
"Para dentro da floresta atrás dele!", gritou Anderson Crow. "Cacem-no como a um rato!"
Enquanto isso, um jovem sem casaco e uma jovem extremamente sedutora fugiam por entre os carvalhos e arbustos, consumidos pela excitação e por um grau considerável de apreensão.
"Eles realmente parecem levar isso a sério, Jack", insistiu a jovem, para contrapor seus comentários um tanto sarcásticos.
"Como diabos você acha que eles descobriram?", ele gemeu. "Pensei que as pegadas estivessem perfeitamente cobertas. Ninguém suspeitou, tenho certeza."
"Eu lhe disse, querido, como isso acabaria", ela gritou com uma voz em pânico.
"Meu Deus, Marjory, não se volte contra mim! Tudo parecia tão fácil e tão certo, querida. Não havia um sopro de suspeita. O que vamos fazer? Vou parar e lutar contra todo o bando se você apenas soltar meu braço."
"Não, você não vai, Jack Barnes!", ela exclamou resolutamente, seus lindos olhos azuis arregalados de alarme. "Você não os ouviu dizer que o encheriam de chumbo? Eles tinham armas e tudo mais. Oh, querido! oh, querido! não é horrível?"
"O pior de tudo é que eles nos cortaram o caminho para o rio", disse ele, miseravelmente. "Se eu tivesse conseguido chegar ao barco antes deles, eles nunca teriam nos pegado. Eu poderia deixar aquela balsa velha para trás em um quilômetro."
"Eu sei que poderia, querido", ela gritou, olhando com admiração frenética para seus ombros largos e braços musculosos e nus. "Mas agora está fora de questão."
"Não se preocupe, querida; não deixe isso te perturbar tanto. Tudo vai dar certo, eu sei que vai."
"Oh, eu não consigo correr mais", ela arquejou, desesperada.
"Pobre coitadinha! Deixe-me carregar você?"
"Seu bobalhão!"
"Estamos a pelo menos cinco quilômetros da sua casa, querida, e cercados por perigos mortais. Você consegue subir em uma árvore?"
"Eu consigo — mas eu não vou!", ela recusou categoricamente, com as bochechas muito vermelhas.
"Então imagino que teremos que continuar desta maneira. É uma vergonha maldita — todo esse negócio. Justo quando pensei que tudo estava correndo tão bem. Estava tudo arranjado ao gosto de uma rainha — nada foi deixado de fora. Bracken deveria nos encontrar na casa de barcos do tio dele lá embaixo, e... meu Deus, houve um tiro!"
O estalo agudo de um rifle quebrou o ar calmo e balsâmico, como dizem nos romances de aventura, e os fugitivos olharam um para o outro com um pavor subitamente despertado.
"Os tolos!", rangeu o homem.
"O que eles querem dizer?", gritou a garota ofegante, muito pálida no rosto.
"Eles estão tentando nos assustar, só isso. Droga! Se eu ao menos conhecesse o terreno. Estou completamente perdido, Marjory. Você sabe exatamente onde estamos?"
"Nossa casa fica ao norte, a cerca de cinco quilômetros. Estamos quase em frente a Crow's Cliff — a parte mais selvagem do país. Não há casas ao longo desta parte do rio. Todas as casas de verão ficam mais acima ou do outro lado. É muito montanhoso aqui. Há uma ferrovia a cerca de dez quilômetros daqui. Não há casa de barcos ou cabana de pescador a menos de três quilômetros. O Sr. Bracken mantém seu barco no ponto — a pelo menos três quilômetros ao sul."
"Sim; é para lá que deveríamos ter ido — de barco. Droga! Por que deixamos o barco? Você nunca conseguirá atravessar todo esse mato até o lugar de Bracken; já é o máximo que posso fazer. Olhe para meus braços! Estão arranhados até..."
"Oh, querido! É terrível, Jack. Pobre rapaz, deixe-me..."
"Não temos tempo, minha querida. Por todos os trovões, eu não deixaria aqueles caipiras nos interceptar agora por nada neste condado. Os idiotas! Como eles puderam nos descobrir?"
"Alguém deve ter contado."
"Mas ninguém sabia, exceto os Bracken, você e eu."
"Aposto minha cabeça que Bracken está dizendo coisas horríveis lá embaixo no rio."
"Ele... ele... não fala palavrão, Jack", ela ofegou.
"Ora, você está pronta para cair! Não consegue dar mais um passo? Vamos parar aqui e enfrentá-los. Vou blefar e chegaremos a Bracken's de alguma forma. Mas não vou desistir do jogo! Nem por um milhão!"
"Então não podemos parar. Você esquece que pratico ginástica. Sou forte, só estou... estou um pouco nervosa. Oh, eu sabia que algo daria errado!", ela lamentou. Eles estavam agora parados como cervos encurralados em um pequeno arbusto, ouvindo sons de cães de caça.
"Você está arrependida, querida?"
"Não, não! Eu amo você, Jack, e passarei por tudo com você e por você. Realmente", ela gritou com uma bela demonstração de entusiasmo, "isso é uma diversão e tanto, não é? Ser perseguido como verdadeiros bandidos..."
"Sh! Abaixe-se, querida! Tem alguém passando acima de nós — ouviu?"
Eles rastejaram para um labirinto de arbustos de avelã com muito menos dignidade do que pressa. Dois homens passaram correndo um instante depois, ofegantes e resmungando.
"Seguros por um minuto ou dois, pelo menos", ele sussurrou enquanto os passos quebrando galhos desapareciam. "Eles não voltarão por este caminho, querida."
"Eles tinham armas, Jack!", ela sussurrou, aterrorizada.
"Eu não entendo, que me enforquem se eu entendo", ele disse, franzindo as sobrancelhas em uma carranca poderosa. "Eles estão atrás de nós como uma matilha de cães. Deve significar algo. Deus, parece que cutucamos um ninho de vespas!"
"Oh, querido, eu gostaria que estivéssemos seguros em..." ela parou.
"Em casa?", ele perguntou rapidamente.
"Em Bracken's", ela completou; e se algum dos perseguidores estivesse perto o suficiente, poderia ter ouvido a inconfundível sugestão de um beijo.
"Sinto-me melhor", ele disse, endireitando os ombros. "Agora, deixe-me pensar. Precisamos ser mais espertos que esses sujeitos, quem quer que sejam. Por Deus, lembro-me de um deles! Aquele velho que comprou o cavalo está com eles. É isso! O cavalo está misturado nisso, aposto minha cabeça." Eles sentaram-se no chão por vários minutos, ele pensando profundamente, ela ouvindo com suas lindas orelhas atentas.
"Será que eles deixaram alguém para guardar nosso barco?", ele disse de repente. "Vamos, Marjory; vamos investigar! Por Deus, seria bem a cara deles deixá-lo desprotegido!"
Mais uma vez, eles se moviam cautelosamente pelo mato, em direção ao rio. O Sr. Jack Barnes, quem quer que fosse e qualquer que fosse seu crime, era um jovem engenhoso e inteligente. Ele havia avaliado corretamente a inteligência dos perseguidores. Quando ele espiou pelo arbusto ao longo da margem do rio, viu o esquife nos juncos abaixo, exatamente como o haviam deixado. Lá estavam a cesta de piquenique, o pequeno baú com todas as suas etiquetas, uma sombrinha e uma bolsa pequena.
"Que bom, que bom!", Marjory gritou como uma criança feliz.
"Não se mostre ainda, querida. Vou ter certeza. Eles podem ter feito uma emboscada. Espere aqui por mim."
Ele desceu a margem e voltou antes que ela pudesse controlar totalmente o estrondoso bater que a audácia dele havia começado em seu lado esquerdo.
"Está são e salvo", ele sussurrou alegremente. "Os idiotas esqueceram o barco. Rápido, querida; vamos correr até ele! A balsa deles está a noventa metros rio acima, e também está deserta. Se conseguirmos atravessar bem o rio, podemos rir deles."
"Mas eles podem atirar em nós da margem", ela protestou enquanto corriam pelos juncos.
"Eles certamente não atirariam em uma mulher!", ele gritou alegremente.
"Mas você não é uma mulher!"
"E eu não tenho medo de ratos ou homens. Pule dentro!"
O esquife leve disparou para fora dos juncos. A água espirrou por um momento sob as remadas espasmódicas do remador, e então o pequeno barco cortou o rio como uma coisa viva. Marjory sentou-se na popa e manteve os olhos na margem que estavam deixando. Jack Barnes colocou cada vestígio de sua força na remada; de alguma forma, ele remava como um homem que havia aprendido como em uma tripulação universitária. Eles estavam na metade do largo rio antes de serem vistos das colinas. A meia dúzia de homens que permanecia na base de Crow's Cliff havia gritado o alarme para seus amigos do outro lado, e os fugitivos foram avistados mais uma vez. Mas era tarde demais. O barco estava bem fora do alcance dos tiros e fazendo progresso rápido rio abaixo, sob a proteção dos altos penhascos abaixo de Crow's Cliff. Jack Barnes estava pingando suor, mas sua remada não era nada mais fraca.
"Eles nos viram!", ela gritou.
"Não se mexa tanto, Marjory — equilibre o barco!", ele ofegou. "Eles não podem nos acertar, e nós podemos fazer dois quilômetros para cada um deles."
"E podemos chegar a Bracken's!", ela gritou triunfante. Um rubor profundo cobriu seu rosto bonito.
"Viva!", ele gritou com um sorriso de puro deleite. Longe, na margem oposta, Anderson Crow e seus investigadores estavam se reunindo, seus olhares frustrados voltados para o homem que havia escapado de suas garras. Os homens da patrulha apontavam para o barco e discutiam freneticamente; havia sinais claros de disputa entre eles. Finalmente, duas armas subiram, e então vieram as nuvens de fumaça, os estrondos e pequenos respingos de água perto do esquife em fuga.
"Oh, eles estão atirando!", ela gritou em pânico.
"E rifles também", ele rangeu, redobrando sua força nos remos. Outros tiros seguiram, todos caindo curtos. "Abaixe-se no fundo do barco, Marjory. Não fique sentada aí sendo..."
"Vou ficar exatamente onde estou", ela gritou desafiadoramente.
Anderson Crow acenou para os homens sob o Penhasco de Crow, e eles começaram a fazer seu árduo caminho ao longo da margem, seguindo o rastro do esquife. Parte da força policial armada correu para embarcar na balsa, enquanto outros seguiam a perseguição por terra.
"Chegaremos a Bracken's com uma milha de vantagem", gritou Jack Barnes.
"Se eles não atirarem em nós", ela respondeu. "Por que, oh, por que eles estão tão determinados a nos matar?"
"Eles não querem que você seja viúva e... parta... muitos corações", disse ele. "Se eles... me atingirem agora, você... não será... perigosa como... viúva."
"Oh, seu insensível! Como pode brincar com isso? Eu... eu entraria de luto, de qualquer maneira, Jack", ela concluiu, após pensar melhor. "Estamos praticamente casados, entende."
"É gentil... da sua parte dizer isso, querida... mas estamos a uma longa... distância de... Bracken's. Caramba! Essa passou perto!"
Uma bala espirrou na água a menos de três metros do barco. "Covardes! Eles estão realmente tentando nos matar!" Pela primeira vez, seu rosto assumiu um ar de alarme e seus olhos tornaram-se desesperados. "Não posso deixar que atirem em você, Marjory, querida! O que diabos eles querem, eu não sei, mas vou me render." Ele parou de remar e preparava-se para erguer seu lenço branco.
"Nunca!", ela gritou com olhos faiscantes. "Dê-me os remos!" Ela deslizou para o outro assento e tentou arrancar os remos dos toletes.
"Bravo! Eu poderia beijá-la mil vezes por isso. Vamos lá, seus peles-vermelhas! Você é uma querida, Marjory." Novamente os remos cortaram a água, e o lenço branco de Jack Barnes jazia no fundo do barco. Ele remava como se sua vida dependesse disso, e havia um sorriso em seu rosto.
A balsa ficou muito para trás e os atiradores foram postos fora de alcance com surpreendente facilidade. Quinze minutos depois, o esquife cruzou o rio e chegou ao ancoradouro da casa de barcos de Bracken, enquanto, uma milha atrás, no matagal, Anderson Crow e seus homens se arrastavam furiosamente em perseguição.
"Ei, Bracken! Jimmy!", gritou Jack Barnes, saltando para o pequeno cais. Marjory estendeu-lhe as mãos e foi puxada para a margem e para os braços dele. "Corra para dentro da casa de barcos, querida. Vou puxar essas coisas para terra. Onde diabos está o Bracken?"
A porta da casa de barcos abriu-se lentamente e um jovem sonolento espreitou.
"Pensei que nunca viriam", bocejou ele.
"Acorde, seu velho preguiçoso! Chegamos e estamos sendo perseguidos! Onde estão George e Amy?", gritou o Sr. Barnes, desempenhando um trabalho hercúleo como carregador de bagagens.
"Perseguidos?", gritou o jovem sonolento, despertando subitamente.
"Sim, e levaram tiros!", gritou Marjory, correndo por ele e para os braços de uma jovem bonita que emergia da casa.
"Não temos tempo a perder, Jimmy! Eles nos descobriram, Deus sabe como. Eles não estão mais do que dez minutos atrás de nós. Acabe logo com isso, Jimmy, pelo amor de Deus! Aqui, George, pegue esta mala!"
CAPÍTULO IV
Anderson Retifica um Erro
Em um instante, os fugitivos e seus pertences foram transferidos para o interior da espaçosa casa de barcos, as portas trancadas, e George Crosby postado em uma janela para atuar como vigia.
"É o seu pai?", perguntou o Rev. James Bracken, voltando-se para Marjory. A jovem Sra. Crosby observava ansiosamente.
"O Sr. Brewster está em casa e totalmente alheio a tudo isso", gritou Jack Barnes. "Não sei o que isso significa. Aqui está a licença, Jimmy. Você está pronto, Marjory?"
"Este é um negócio bastante delicado, Jack...", começou o jovem ministro em camisa de negligê. Ele estava vestindo o paletó enquanto fazia a observação.
"Oh, apresse-se, Jimmy; por favor, apresse-se!", gritou Marjory Brewster.
"Não espere um segundo, Jimmy Bracken!", gritou Amy Crosby, dançando de excitação. "Você não pode desistir deles agora!"
Três minutos depois, não havia mais Marjory Brewster, mas sim uma Sra. John Ethelbert Barnes — e ela beijava seu marido arrebatadoramente.
"Agora, conte-nos tudo", gritou a Sra. Crosby após as frenéticas congratulações. O Reverendo "Jimmy" Bracken, da Décima Primeira Igreja Presbiteriana, era o único que parecia incerto quanto à sua posição. Em primeiro lugar, o velho Juiz Brewster era um homem de influência na metrópole, de onde todos haviam fugido para uma estadia nas colinas. Ele e sua filha eram episcopais, mas isso não os tornava menos importantes aos olhos de "Jimmy" Bracken. Em segundo lugar, Jack Barnes era um advogado em dificuldades, no Ano do Senhor de 1880, e possuidor de uma pobreza condenável. Os jovens haviam sido colegas de quarto na faculdade. A amizade superara a discrição neste caso, pelo menos. Feito o ato, o jovem Sr. Bracken começava a se perguntar se não tinha ido longe demais, por assim dizer.
"Gostaria que alguém me dissesse!", exclamou Jack Barnes, com uma carranca perplexa. "Aqueles idiotas atiraram em nós e tudo o mais. Dir-se-ia que sou um fora da lei. E eles atiraram contra Marjory também, que inferno!"
Marjory, excitada demais para agir como uma noiva envergonhada, tomou a palavra e contou tudo o que havia acontecido. George Crosby ficou tão interessado que esqueceu de manter a guarda.
"Esta é uma confusão engraçada!", exclamou ele. "Há algo errado..."
"Ei, vocês!", veio um grito vindo de fora.
"Lá estão eles!", gritou Marjory, voando para o lado do marido. "O que vamos fazer?"
"Você quer dizer, o que eles vão fazer? Nós estamos casados, e eles não podem contornar isso, sabe. Deixe que venham!", gritou o noivo exultante. "Você não se arrepende, não é, querida?", perguntou ele bastante ansioso. Ela sorriu para os olhos dele, e ele sentiu-se muito seguro.
"O que vocês querem?", exigiu Crosby da janela. Anderson Crow estava de pé na margem do rio como um verdadeiro Napoleão, ladeado por três fuzileiros de confiança.
"Quem é você?", perguntou Anderson em resposta. Ele arquejava pesadamente, e suas pernas tremiam.
"Não é da sua conta! Saia destas propriedades imediatamente; são privadas!"
"Nada de insolência, agora, jovem; sou um oficial da lei, e um detetive para completar! Não toleraremos nenhuma bobagem. O local está cercado e ele não pode escapar! Onde ele está?"
"Isso é para você descobrir, se é um detetive tão bom! Este é o local de David Bracken, e você pode encontrá-lo em sua casa no topo da colina ali!"
"Pergunte a ele o que fizemos, George", sussurrou Barnes.
"Não estamos atrás do Sr. Bracken, rapaz, mas você sabe o que queremos! Ele está aí dentro — vocês estão protegendo-o — não vamos parlamentar por muito mais tempo! Enviem-no para fora!", disse Anderson Crow.
"Se você chegar um centímetro mais perto, será mandado direto para o reino dos céus!", gritou Crosby desafiadoramente.
Os ocupantes ofegaram, pois não havia uma arma de fogo no local.
"Cuidado!", avisou o Reverendo "Jimmy" nervosamente.
"Vão resistir, eh? Bem, nós vamos pegá-lo; não se preocupem; e aquela fêmea insuportável dele também!"
"Você ouviu isso?", exclamou Jack Barnes. "Deixe-me pegar aquele velho rato." Ele estava indo em direção à porta quando as duas mulheres obstruíram o caminho. Ambas estavam frenéticas de medo.
"Mas ele chamou você de fêmea!", rugiu ele.
"Bem, eu sou!", ela lamentou miseravelmente.
"Quem é que vocês querem?", perguntou Crosby da janela.
"Isso não importa", rugiu Anderson Crow; "apresentem-no imediatamente!"
"É este o sujeito?", e Crosby arrastou o Reverendo "Jimmy" para a vista deles. Houve um momento de inspeção do rosto cadavérico, e então os detetives balançaram a cabeça.
"Nem por um decreto!", disse o Sr. Crow. "Mas ele está aí dentro — Ike Smalley viu ele e sua comparsa subirem os degraus do ancoradouro! Não adiantará nada escondê-lo, rapaz; ele está..."
"Bem, deixe-me lhe dizer uma coisa. Vocês chegaram tarde demais — eles estão casados!", gritou Crosby triunfante.
"Não dou a mínima se eles estão casados e têm dezesseis filhos!", gritou o exasperado Crow, seu distintivo praticamente dançando. "Ele tem que se render!"
"Ah, tem, é?"
"Sim, senhor; ele tem que se entregar, vivo ou morto! Tragam-no para fora logo, agora!"
"Não me importo de dizer que o Sr. Barnes está aqui; mas gostaria de saber por que vocês estão caçando-o como uma fera selvagem, atirando nele e na Srta... digo, na Sra. Barnes. Isso é um ultraje!"
"Ah, nós não somos os únicos que podem matar e trucidar! Ela é tão ruim quanto ele, por sinal — e você também, e aquele outro fora da lei de queixo comprido aí dentro." O Reverendo "Jimmy" ofegou e ficou vermelho-vivo.
"Ele me chamou de... diga!", e ele empurrou Crosby para o lado. "Quero que entenda que sou um ministro do evangelho — sou o Reverendo James Bracken, de..."
Um rugido de risadas saudou sua tentativa de explicação; e houve alguns comentários tão pouco elogiosos que o homem do clero recuou em pura desesperança.
"Bem, vou dar a eles motivos para pensar que sou um tipo de fora da lei", rangeu o Reverendo "Jimmy", estufando o peito. "Se eles tentarem pôr os pés dentro da casa do meu tio, eu... eu esmagarei algumas cabeças."
"Bravo!", gritou a Sra. Crosby. Ela era sua prima e, até aquele momento, tinha pouca consideração por seu parente de modos suaves.
"Ele pode pregar o funeral!", gritou Ike Smalley. A essa altura, havia uma dúzia de homens na margem abaixo.
"Dou a vocês um aviso justo", gritou Anderson Crow de forma impressionante. "Vamos cercar a casa, e pegaremos aquele patife, mesmo que tenhamos que transformar as tábuas em serragem com tiros!"
"Mas o que ele fez, além de se casar?", chamou Crosby enquanto a força policial começava a se espalhar.
"Você acha que sou tolo o suficiente para lhe dizer se você não sabe?", disse Anderson Crow. "Tão certo quanto você estaria reivindicando a recompensa de mil dólares se soubesse que ela foi oferecida! Espalhem-se, rapazes, e mostraremos a eles bem rápido!"
Houve um silêncio mortal dentro da casa por um minuto inteiro. Todos os olhos estavam arregalados e todas as bocas estavam abertas em surpresa e consternação.
"Uma recompensa de mil dólares!", ofegou Jack Barnes. "Então, meu Deus, devo ter feito algo!"
"O que você tem feito, Jack Barnes?", gritou sua noiva, horrorizada.
"Devo ter assaltado um trem", disse ele desanimado.
"Bem, isso é sério, afinal", disse Crosby. "Não é um casal em fuga que eles estão procurando, mas um fora da lei."
"Um sequestrador, talvez", sugeriu sua esposa.
"O que vamos fazer?", exigiu Jack Barnes.
"Primeiro, velho amigo, o que você realmente fez?", perguntou o Reverendo "Jimmy".
"Nada que valha mil dólares, tenho certeza absoluta", disse Barnes positivamente. "Por Deus, Marjory, que bela confusão eu levei você a entrar!"
"Está tudo bem, Jack; estou mais feliz do que jamais estive na minha vida. Fugimos para nos casar, e irei para a cadeia com você se eles me levarem."
"Não é hora para beijos", objetou Crosby azedamente. "Precisamos descobrir o que tudo isso significa. Deixe comigo."
Estava ficando escuro na sala, e as sombras eram densas nas colinas. Enquanto os membros restantes do grupo sitiado sentavam-se em silêncio e deprimidos sobre barris e caixas, Crosby ficava na janela chamando o inimigo.
"Ele está pronto para se render?", trovejou Anderson Crow das sombras.
Seguiu-se um diálogo breve e inteiramente insatisfatório entre os dois porta-vozes. Anderson Crow estava firme em sua decisão de que o fugitivo não precisava ser informado do que havia feito; e George Crosby insistia igualmente que ele precisava ser informado antes que pudesse decidir se era culpado ou inocente.
"Vamos fazê-los passar fome!", disse Anderson Crow.
"Mas há senhoras aqui, meu bom homem; você não as sujeitará a tal tratamento!"
"Vocês são todos da mesma espécie — vamos levar o grupo todo!"
"O que você acha que acontecerá com você se estiver enganado quanto ao seu homem?"
"Não estamos enganados, maldito!"
"Ele poderia processá-lo por cada dólar que você possui. Eu sei, pois sou advogado!"
"Agora, estou certo de que você está envolvido nisso com ele. Suponho que tentará usar o truque da insanidade! É um ninho de ladrões e bandidos! Escute, darei cinco minutos para se renderem; se não o fizerem, vamos incendiar aquele barraco maldito!"
"Olhem aqui, rapazes", disse Jack Barnes subitamente, "não fiz nada e não tenho medo de ser preso. Vou me entregar." Claro, houve uma tempestade de protestos e uma enxurrada de lágrimas, mas o culpado estava firme. "Diga àquele fóssil que, se ele garantir minha segurança, eu me entrego!"
Anderson foi quase rápido demais em prometer proteção.
"Pergunte a ele se ele se renderá e fará uma confissão para mim — eu sou Anderson Crow, senhor!", foi a sugestão tática do marechal.
"Ele fará ambas, Sr. Crow!", respondeu Crosby.
"Temos que levar todo o grupo de vocês, rapaz. Vocês são todos culpados de conspiração, todo o bando!"
"Mas as senhoras, seu velho caipira maldito — elas não podem..."
"Olhe aqui, rapaz, você não pode ditar ordens para mim. Farei você..."
"Nós todas iremos!", gritou a Sra. Crosby calorosamente.
"Até o fim!", acrescentou a nova Sra. Barnes.
"O que seu pai dirá?", exigiu o noivo.
"Ele vai me deserdar de qualquer jeito, querido, então qual é a diferença?"
"É bastante irritante para um ministro...", começou o Reverendo "Jimmy", colocando seu chapéu.
"Nós imploraremos por você!", gritou a Sra. Crosby ironicamente.
"Mas eu também vou para a cadeia", terminou ele sombriamente.
"Tudo bem", chamou Crosby da janela; "lá vamos nós!"
E para fora marchou o quinteto desesperado, três rapazes robustos e duas jovens muito bonitas e nervosas. Eles foram recebidos por Anderson Crow e uma dúzia de homens armados de Tinkletown, cada um deles tremendo nas botas. A irreprimível Sra. Crosby disse "Bu!" de repente, e metade da força policial saltou como se alguém tivesse jogado uma bomba neles.
"Agora, exijo uma explicação deste ultraje", disse Jack Barnes selvagemente. "O que você quer dizer atirando em mim e na minha... na minha esposa, e nos prendendo, e tudo mais?"
"Você descobrirá cedo o suficiente quando for enforcado por isso", rosnou Anderson Crow. "E você vai me entregar aquele dinheiro que paguei pelo cavalo e pela charrete. Vou lhe ensinar como vender propriedade roubada para mim."
"Ah, sou um ladrão de cavalos, sou? Isso é ótimo. E eles vão me enforcar, eh? Da próxima vez, você vai me acusar de matar aquele fazendeiro lá perto de Boggs City."
"Bem, por Deus! Você é um sujeito frio!", exclamou Anderson Crow. "Suponho que você vai tentar o truque da insanidade."
"É uma sorte para mim que eles o tenham pegado", disse Barnes enquanto o rebanho de prisioneiros seguia em direção à fila de barcos amarrados ao cais do Sr. Bracken.
"Cai fora!", exclamou Squires, o repórter, com desdém. "Nós conhecemos vocês, tudo bem, tudo bem."
"O quê! Você acha que sou o homem que... bem, santo Deus! Digam, vocês, pedras de túmulo, vocês nunca ouvem notícias aqui? Acordem! Eles pegaram o assassino em Billsport, a não mais de cinco milhas da sua cidadezinha de idiotas. Eu estava passando pela cidade quando o trouxeram. Foi isso que me atrasou, querida", virando-se para Marjory.
"Sim, e aposto minha alma que lá vem alguém com a notícia", gritou George Crosby, que não ouvira nada da tragédia até aquele instante.
Um barco a remo contendo três homens dirigia-se ao ancoradouro. De alguma forma, Anderson Crow e seu bando sentiram o chão afundar sob eles. Nenhum homem emitiu um som até que um dos recém-chegados gritou do barco:
"Anderson Crow está aí?"
"Sim, senhor; o que é?", exigiu Crow com uma voz trêmula.
"Sua esposa quer saber quando, pelo amor de Deus, você está voltando para casa." A essa altura, o esquife estava batendo contra o ancoradouro.
"Diga a ela para ir para o inferno!", retrucou Anderson Crow. "É só isso que você quer?"
"Eles pegaram aquele assassino lá em Billsport por volta das onze horas", disse Alf Reesling, o bêbado da cidade. "Pensamos em remar até aqui e contar para você, para que não ficasse caçando a noite toda pelo sujeito que... olá, você o pegou, eh?"
"Vocês estão mentindo?", gritou o pobre Anderson Crow.
"Nem por um decreto. Soubemos da captura lá na cidade apenas meia hora depois que você atravessou o rio esta tarde."
"Vocês... quatro horas atrás? Vocês... vocês...", balbuciou o marechal. "E por que não nos avisaram antes disso?"
"Havia um jogo de beisebol no terreno de Hasty, e...", começou um dos recém-chegados timidamente.
"Bem, que me leve o diabo!", ofegou Anderson Crow, sentando-se subitamente.
* * * * *
Uma hora e meia depois, o Sr. e a Sra. John Ethelbert Barnes foram levados para a propriedade rural do Juiz Brewster na charrete do Sr. David Bracken. Eles estavam acompanhados pelo Sr. e pela Sra. George Crosby, e estavam cumprindo os planos delineados no programa original.
"Onde está papai?", Marjory perguntou trêmula ao criado no corredor.
"Ele está esperando por vocês na biblioteca, senhorita... quero dizer, Sra. Barnes", respondeu o homem, um traço de excitação em seu rosto.
"Sra. Barnes!", exclamaram quatro vozes ao mesmo tempo.
"Quem lhe disse, William?", gritou Marjory, apoiando-se em Jack para se sustentar.
"Um tal de Sr. Anderson Crow esteve aqui não faz meia hora, senhora, para assegurar ao Sr. Brewster como seu novo genro não tinha ligação alguma com o assassinato lá na estrada. Ele disse que tinha investigado pessoalmente o caso, senhorita... senhora, e que o Sr. Brewster poderia confiar na palavra dele, o Sr. Jack não era o homem. Ele lhe contou como vocês se casaram na casa de barcos."
"Sim... e depois?", gritou Marjory ansiosamente.
"O Sr. Brewster disse que o Sr. Jack não nasceu para ser enforcado, e para eu colocar um prato extra na mesa para ele esta noite", concluiu William com um sorriso expressivo.
CAPÍTULO V
O Bebê na Soleira da Porta
Era meia-noite em Tinkletown, muitos meses após os eventos mencionados nos capítulos anteriores, e uma nevasca devastava a região. O vento de fevereiro rangia através das árvores nuas, gritava ao redor dos cantos das casas sem luz e abria caminho através da neve que corria com toda a fúria de um leão. A neve, devido ao frio amargo no ar, não voava em grandes flocos, mas zumbia como minúsculas balas, cortando a carne de homens e bestas como a picada de vespas. Era uma boa noite para se estar dentro de casa sobre uma lareira crepitante ou na cama entre cobertores extras. Ninguém, a menos que comandado por emergência, tinha a temeridade de estar ao ar livre naquela noite.
A família Crow cochilava confortavelmente, apesar dos gritos de calíope do vento. O lar do marechal da cidade estava coberto de paz e o vento não tinha terrores para seus ocupantes. Eles dormiam o sono dos justos. As janelas podiam ter batido um pouco, talvez, e as venezianas podiam ter batido um pouco impiedosamente demais, mas os Crow não seriam perturbados.
O grande relógio de estilo antigo no corredor lá embaixo batia meia-noite quando Anderson Crow acordou sobressaltado. Ele ficou surpreso, pois acordar no meio da noite era um procedimento inaudito para ele. Ele captou o clangor das últimas cinco batidas do relógio, no entanto, e estava se confortando com a crença de que eram cinco horas, afinal, quando sua esposa se mexeu nervosamente.
"Você está acordado, Anderson?", perguntou ela suavemente.
"Sim, Eva, e já está na hora de levantar. Acabou de bater cinco. Caramba, tem soprado cães e gatos lá fora, não tem?", bocejou ele.
"Cinco? São doze... agora, não me diga que você contou as batidas, porque eu mesma contei. Não é estranho que ambos tenhamos acordado a esta hora sobrenatural?"
"Bem", murmurou ele sonolento, agora que não eram cinco horas, "é uma hora muito boa para voltar a dormir novamente, eu acho."
"Achei que ouvi um barulho lá fora", persistiu ela.
"Não te culpo", disse ele, rindo. "Tem estado lá fora a noite toda."
"Quero dizer algo além do vento. Parecia alguém andando na varanda da frente."
"Agora, olhe aqui, Eva, você não vai me fazer sair lá fora nesta nevasca... de meias... procurando por ladrões..."
"Mesmo assim, Anderson, tenho certeza de que ouvi alguém. Talvez seja alguma pobre criatura congelando e em perigo. Se eu fosse você, iria dar uma olhada lá fora. Por favor, vá."
"Caramba, Eva, se você fosse eu, estaria dormindo em vez de procurar encrenca em uma noite como esta. Não há nada lá fora e você... mas, por mil raios! talvez você tenha razão. Supondo que haja algum pobre diabo lá fora procurando um lugar para dormir. Vou dar uma olhada"; e o Sr. Crow, o homem mais terno do mundo, saiu trêmulo, mas rapidamente, da cama quente. De meias — Anderson dormia de meias naquelas noites amargas — ele fez seu caminho pelas escadas da frente, resmungando, mas determinado. A Sra. Crow seguiu logo atrás, ansiosa para verificar a alegação que o tirou de seu ninho.
"Pode ser um ladrão", ela tremia, enquanto ele afastava a cortina da janela da frente. Anderson recuou apressadamente.
"Ora, por que raios você não disse isso antes?", ele arfou. "Puxa vida, Eva, não se faz uma coisa dessas! Ele podia ter disparado através da janela contra mim."
"Mas ele já deve estar na casa a esta altura, se é que era um ladrão", ela sussurrou. "Ele não ficaria parado na varanda a noite toda."
"É verdade", ele sussurrou em resposta. "Você é uma boa dedutora, afinal. Eu queria estar com a minha lanterna surda. Que diabos!" Ele bateu o dedo do pé na máquina de costura. Não há nada que doa mais do que um contato involuntário com uma máquina de costura. "Por que, em nome de tudo, você não acende uma luz, Eva? Como é que eu posso..."
"Escute!", ela sussurrou agudamente. "Ouviu isso? Anderson, tem alguém andando na varanda!"
"Valha-me Deus!", vacilou ele. "Tão certo quanto o Natal! Espere aqui, Eva, até eu subir e colocar meu distintivo e eu vou..."
"Eu não vou fazer nada disso. Você não vai me pegar ficando aqui embaixo sozinha", e ela agarrou as costas da camisola dele enquanto ele seguia para as escadas.
"Ora! Do que você tem medo? Eu vou pegar meu revólver também. Nunca vi uma bezerra tão medrosa como..."
Nesse instante, ouviu-se uma batida tremenda na porta da frente, seguida pelo ranger de passos na varanda congelada, um barulho de pés descendo os degraus e, então, o mesmo velho uivo do vento. Os Crow quase pularam para fora de suas parcas vestimentas e, em seguida, paralisaram como se estivessem congelados no lugar. Passou-se um minuto inteiro antes que Anderson recuperasse a voz — à frente da Sra. Crow, aliás, o que era mais do que maravilhoso.
"O que foi aquilo?", ele gaguejou.
"Uma batida!", ela arfou.
"Algum vizinho está doente."
"A velha Sra. Luce. Ai, meu Deus, como meu coração está batendo!"
"Por que você não abre a porta, Eva?"
"Por que você não abre? É sua obrigação."
"Mas, que raios, você não consegue ver — quero dizer, sentir — que eu não estou praticamente com nenhuma roupa? Eu pegaria uma pneumonia e, além disso..."
"Bom, eu não estou com tanta roupa assim. Você está de meias e..."
"Mas suponha que seja uma mulher", protestou ele. "Você não ia querer que uma mulher me visse desse jeito, ia? Vá em frente e..."
"Suponho que você gostaria que um homem me visse assim. Não estou acostumada a receber homens em... mas, diga, seja quem for, já foi embora. Não ouviu os passos? Abra a porta, Anderson. Veja o que é."
E assim, após muita insistência, Anderson Crow destrancou a porta da frente e girou a maçaneta. O vento fez o resto. Quase arrancou a porta das dobradiças, jogando o Sr. e a Sra. Crow contra a parede. Uma rajada de neve varreu sobre eles.
"Caramba!", arfou Anderson, encolhendo os dedos dos pés. A Sra. Crow estava espiando por baixo do braço dele.
"Olhe lá!", ela gritou. Perto da porta, um grande embrulho estava caído.
"Um presente de alguém!", especulou o Sr. Crow; mas alguns segundos se passaram antes que ele se abaixasse para pegá-lo. "Hora engraçada para o Papai Noel aparecer. Será que ele acha que o próximo Natal já chegou?"
"Cuidado, Anderson; pode ser uma máquina infernal!", gritou sua esposa.
"Bom, está carregado, valha-me Deus", ele resmungou enquanto se endireitava diante da ventania. "Feche a porta, Eva! Não vê que está nevando?"
"Aposto que foi Joe Ramsey deixando um saco de nozes-pecã para nós", disse ela ansiosamente, batendo a porta.
"É melhor trancar a porta. Ele pode mudar de ideia e voltar para buscá-las", observou o marido. "Não parece saco de nozes. Por que, Eva, é uma cesta — uma cesta de roupa suja, na verdade. Que raios..."
"Vamos acender uma luz junto ao fogo da cozinha. Está frio demais aqui."
Juntos, eles correram para a cozinha com a misteriosa oferenda trazida pela nevasca. Havia fogo no fogão, que Anderson alimentou, enquanto Eva começou a remover os cobertores e o embrulho da cesta, que ela havia colocado sobre a lareira. Anderson observava avidamente.
"Senhor!", caiu dos lábios de ambos quando o conteúdo da cesta foi exposto ao olhar deles.
Um bebê, vivo e quente, estava acomodado nos cobertores, dormindo profundamente e feliz. Por um tempo interminável, os Crow, em trajes de dormir, ficaram parados, olhando de boca aberta e maravilhados para o pequeno estranho. Dez minutos depois, após as exclamações e suposições, após as lágrimas e palavrões, após a casa inteira ter sido despertada, Anderson Crow mergulhava amigável, porém sem rumo, pela tempestade de neve em busca do infeliz sem coração que havia deixado a criança em sua soleira. Suas botas de cano alto corriam para cima e para baixo na rua, atravessando quintais e currais por uma hora, mas, apesar de carregar sua lanterna surda e seguir o rastro como um cão de caça indígena, não encontrou vestígio algum do visitante libertino. Enquanto isso, a Sra. Crow, auxiliada por toda a família, acomodou a criança, uma menina de seis semanas, em uma cama quente, atendendo da melhor maneira possível às suas parcas, porém vociferantes necessidades. Não houve mais sono no estabelecimento dos Crow naquela noite. O chefe da casa despertou meia dúzia de vizinhos de suas camas para lhes contar o acontecimento espantoso, com o resultado perfeitamente natural de que todos se apressaram em ir ver o bebê e ouvir os detalhes.
Na manhã seguinte, Tinkletown fervilhava com uma agitação tão violenta que ameaçava terminar em uma convulsão municipal. A casa de Anderson Crow foi sitiada. A neve em seu quintal dianteiro estava compactada até ganhar uma consistência gelada por uma miríade de pegadas que caíam sobre ela; o interior da casa estava "marcado" com lama e neve derretida, e três vidraças foram quebradas pelos narizes de espectadores curiosos, porém indesejados. Ao todo, foi uma sensação sem igual na história da vila. Durante tudo isso, o bebê piscava, chorava e arrulhava em perfeita paz, guardado pela Sra. Crow e pela prole fiel que havia sido deixada pela cegonha, e não por um estranho misterioso.
As sociedades missionárias queriam fazer algo heroico, mas a Sra. Crow as impediu; o círculo de costura preparou-se para assumir o controle dos assuntos, mas a Sra. Crow furou o projeto; figurativamente, as igrejas ansiavam pela chance de cuidar da criança, mas a Sra. Crow manteve-se entre elas. E toda Tinkletown clamava a Anderson Crow para resolver o mistério antes que ele completasse um dia.
"É bem difícil resolver um mistério que tem seis semanas de vantagem sobre mim", disse Anderson desesperadamente, "mas vou tentar, pode apostar. Essa coisa danada tem um pai ou uma mãe em algum lugar do universo, e eu vou localizá-los ou explodir alguma coisa. Eu mesmo tenho uma opinião particular sobre isso."
Qualquer que fosse essa opinião particular, ela não foi divulgada. Possivelmente, algo relacionado a ela poderia explicar o aborrecimento temporário sentido por quase todas as mulheres respeitáveis de Tinkletown. O marechal olhava para cada uma delas, independentemente de posição, condição ou idade, com um brilho tão acusador que as mais santas delas coravam e depois sentiam um frio na espinha. Tão conhecedores eram esses olhares equitativos que, antes da noite chegar, toda mulher na vila foi forçada a acreditar no pior de sua vizinha, e quase tão pronta a olhar com suspeita para si mesma.
Uma coisa era certa — os negócios estavam parados em Tinkletown. Os homens velhos esqueceram seus jogos de xadrez e damas na loja da esquina; os jovens negligenciaram seus romances; as mulheres esqueceram de falar umas das outras; as crianças congelavam as orelhas em vez de perder qualquer conversa que circulasse pelas ruas invernais; todos faziam a pergunta: "De quem é o bebê?"
Mas a maior sensação de todas veio no final do dia, quando a Sra. Crow, ao verificar as roupas usadas pelo bebê, encontrou um bilhete endereçado a Anderson Crow. Estava costurado no vestido do bebê e provava sem sombra de dúvida que o estranho visitante da noite anterior havia escolhido não apenas a casa, mas o indivíduo. O bilhete era direto. Dizia:
"18 de fevereiro de 1883.
"ANDERSON CROW: Aos seus bons e misericordiosos cuidados, uma criatura infeliz confia este bebê indefeso, embora muito amado. O mundo inteiro sabe que você é um homem e pai terno, amoroso e altruísta. A autora humildemente, em oração, implora que cuide deste bebê como cuidaria de um dos seus. É melhor que sua origem seja mantida em segredo. Cuide dela, estime-a como sua, e ao final de cada ano a soma de mil dólares lhe será paga enquanto ela viver em sua casa como um membro dela. Não tente encontrar seus pais. Seria uma jornada de tolo. Que Deus abençoe você e os seus, e que Deus cuide e proteja Rosalie — o nome que ela levará."
Obviamente, não havia assinatura e absolutamente nenhuma pista sobre a identidade da autora. Dois reparadores de linhas telegráficas que trabalhavam perto da casa de Crow durante a noite, consertando os danos causados pela nevasca, deram a notícia de que tinham visto uma mulher encapuzada e de aparência misteriosa parada perto da Igreja Metodista pouco antes da meia-noite, evidentemente ignorando a fúria da tempestade. A visão era tão incomum que os homens pararam e olharam para ela por vários minutos. Um deles estava prestes a abordá-la quando ela se virou e fugiu pela rua lateral ali perto.
"Ela estava carregando um grande embrulho?", perguntou Anderson Crow.
Os homens responderam negativamente.
"Então ela não podia ser a pessoa procurada. A pessoa que estamos perseguindo certamente tinha um grande embrulho."
"Mas, Sr. Crow, não é possível que esses homens a tenham visto depois que ela deixou a cesta em...", começou o ministro presbiteriano.
"Não é assim que eu deduzi", observou o detetive da cidade secamente. "Em primeiro lugar, ela não estaria parada por aí se o serviço tivesse terminado, estaria? Ela não estaria correndo para casa? Claro que estaria."
"Ela pode ter parado perto da igreja para ver se você levava a criança para dentro", insistiu o religioso.
"Mas ela não poderia ter visto minha varanda do fundo da igreja."
"Ninguém disse que ela estava atrás da igreja", disse o eletricista.
"O que é isso? Você não está querendo dizer isso?", gritou Anderson, saindo de uma dificuldade bravamente. "Isso faz toda a diferença do mundo. Por que você não disse que ela estava na frente da igreja? Não vê que perdemos tempo aqui só porque você não teve senso suficiente para..."
"Qualquer um deveria saber isso sem ser avisado, seu velho palerma", rosnou o eletricista, que era de Boggs City.
"Aqui, agora, senhor, isso já basta! Não vou permitir que nenhum homem..."
"Anderson, fique quieto!", advertiu a Sra. Crow. "Você vai acordar o bebê!" Isso deu início a uma nova linha de pensamento na mente perplexa de Anderson.
"Talvez ela estivesse esperando ali enquanto alguém — seu marido, por exemplo — deixava a cesta", voluntariou-se Isaac Porter humildemente.
"Não me amole, Ike; estou pensando em outra coisa", murmurou Anderson. "Marido, nada! Você acha que ela teria confiado aquele bebê a um marido tolo em uma noite terrível como aquela? Senhoras e senhores, este bebê aqui foi deixado por uma residente feminina desta própria cidade." Seus ouvintes arfaram e olharam para ele com os olhos arregalados. "Se ela tem marido, ele não sabe que é o pai deste bebê. Não veem que uma mulher não poderia ter carregado uma cesta pesada por uma grande distância? Ela não poderia ter trazido de Boggs City, ou Nova York, ou Baltimore, poderia? Ela não teria força suficiente. Não, senhor; ela não teve que vir de longe, pessoal. E ela era uma mulher, porque não é toda datilografia feita por mulheres? Vocês não ouvem falar de homens datilógrafos, ouvem? As pessoas não os aceitariam. Agora, a coisa a fazer primeiro é uma busca de casa em casa para ver se consigo localizar uma máquina de datilografia em algum lugar. Saia do caminho, Toby. Malditos garotos, de qualquer jeito, não veem que quero começar este trabalho?"
"Diga, Anderson", disse Harry Squires, o repórter, "gostaria de perguntar se há alguém em Tinkletown, homem ou mulher, que tenha condições de lhe pagar mil dólares por ano para cuidar dessa criança?"
"O que é isso?", escorreu lentamente dos lábios de Anderson.
"Você ouviu o que eu disse. Diga, você não sabe que pode criar uma criança nesta cidade por onze ou doze dólares por ano?"
"Você não sabe o que está dizendo", explodiu dos lábios indignados de Anderson, mas ele encontrou uma desculpa imediata para se retirar do círculo de especuladores. Poucos minutos depois, ele e sua esposa estavam relendo clandestinamente o bilhete, ambos cheios de medo de que dissesse $10,00 em vez de $1000.
CAPÍTULO VI
Reflexão e Dedução
"Puxa vida, está escrito mil", gritou Anderson, muito aliviado. "Harry Squires é um tolo. Ele disse agora mesmo que poderia ser feito por onze ou doze dólares. Você não acha, Eva, que a mãe desta criança sabe quanto custa criá-la? É claro que sabe. Quando eu a encontrar, provarei por seus próprios lábios que ela sabe. Mas não me amole mais, Eva; tenho que sair e rastreá-la. Este é o melhor trabalho que tive em anos."
"Veja bem, Anderson", disse sua esposa pensativa e um tanto furtiva, "vamos com calma nisso. Por que você quer encontrá-la?"
"Por que... por que, que raios, Eva, do que você está falando?", começou ele, espantado.
"Bom, é exatamente assim: não acho que possamos ganhar mil dólares por ano mais facilmente do que cuidando desta criança. Não vê? Suponha que a mantenhamos por vinte anos. Isso significa vinte mil dólares, não é? Supera uma pensão de longe."
"Bom, puxa vida!", arfou Anderson, compreendendo vagamente. "Cinquenta anos significariam cinquenta mil dólares, não é? Caramba, Eva!"
"Não imagino que possamos mantê-la por tanto tempo."
"Não", pensativo; "o mais provável é que ela queira se casar antes disso. Elas sempre..."
"Não é isso, Anderson. Você e eu teríamos que viver mais de cem anos."
"É verdade. Não somos mais uns garotões, somos, querida?"
Ela colocou sua mão dura e ossuda na dele e havia uma suspeita de umidade naqueles olhos bondosos e velhos.
"Adoro ouvir você me chamar de 'querida', Anderson. Nunca ficamos velhos demais para isso."
Ele tossiu e depois deu tapinhas na mão dela, bastante confuso. Anderson há muito esquecera o significado de sentimentalismo, mas ficou surpreso ao descobrir que não havia esquecido como amar sua esposa.
"Bobagem!", ele murmurou bravamente. "Vamos estar nos beijando como um par de jovens pombinhos a qualquer momento. Maldita seja, se não é engraçado como um bebê, mesmo que seja de outra pessoa, faz um sujeito ficar mais tolo do que ele pretende ser." De mãos dadas, observaram a inocente adormecida por vários minutos. Finalmente, o detetive sacudiu-se e falou:
"Bom, Eva, tenho que fazer uma encenação para descobrir de quem é o bebê, não tenho? Minha reputação está em jogo. Eu simplesmente tenho que investigar."
"Não vejo como algum mal possa vir disso, Anderson", ela respondeu, e nenhum dos dois percebeu o sarcasmo involuntariamente envolvido.
"Não perderei mais um minuto", ele anunciou prontamente. "Vou manter minha teoria de que os pais moram em Tinkletown."
"Bobagem!", bufou a Sra. Crow com desgosto, e então o deixou para cultivar a raiva colérica que sua exclamação havia inspirado.
"Puxa, queria não ter dado tapinhas na mão dela", lamentou-se. "Ela não mereceu. Droga, uma mulher está sempre fazendo algo para estragar as coisas."
E assim ele partiu com seus distintivos e estrelas, empenhado no dever, mas não na realização. Logo toda a cidade soube que ele estava seguindo uma pista, mas toda a cidade estava perdida quanto ao seu caráter, origem e plausibilidade. Uma dúzia de pessoas o viu parar a jovem Sra. Perkins na frente da loja de Lamson, e os mesmos espectadores viram suas penas murcharem enquanto ela descarregava sua ira sobre a cabeça dele e ia embora com o nariz empinado e as bochechas muito mais vermelhas do que quando Bóreas as beijou, e tudo em resposta a um único comentário voluntariado pelo fiel detetive. Ele entrou na loja de Lamson um momento depois, singularmente envergonhado e com o rosto vermelho.
"Puxa", observou ele, vendo que uma explicação era esperada, "ela deveria saber que eu estava apenas brincando."
Poucos minutos depois, ele estava com Alf Reesling, o bêbado da cidade, em um canto distante da loja, falando com ele de uma maneira muito peremptória. Pode ser bom mencionar que Alf havia se esquecido tanto de si mesmo a ponto de rir do desconforto temporário do marechal nas mãos da Sra. Perkins.
"Alf, você teve outro bebê na sua casa sem me avisar?", exigiu Anderson com firmeza.
"Anderson", respondeu Alf, lágrimas piegas começando em seus olhos, "não é gentil da sua parte remexer meus sentimentos assim. Você sabe que sou viúvo há três anos."
"Quero que entenda uma coisa, Alf Reesling. Um detetive nunca sabe de nada até provar. Deixe-me avisá-lo, senhor, você está sob suspeita. E agora, deixe-me dizer mais uma coisa. Maldita seja sua pele ordinária, nunca mais ria como fez agora ou eu vou..."
Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo e Edna Crow, a filha mais velha de Anderson, quase entrou na loja aos tropeços, o boné na mão, os olhos saindo da cabeça. Ela correra em velocidade máxima desde casa.
"Pai", ela arfou. "A mãe disse para você correr para casa! Ela disse para você correr!"
Anderson cobriu a distância entre a loja de Lamson e sua própria casa em tempo recorde. De fato, Edna, voando tão rápido quanto suas pernas finas podiam piscar, mal venceu o pai até a varanda da frente. Ficou bem claro para o Sr. Crow que algo incomum havia acontecido, ou a Sra. Crow não o teria convocado de forma tão peremptória.
Ela estava no corredor lá embaixo esperando sua chegada, visivelmente agitada. Antes de dizer uma palavra, ela o arrastou para a pequena sala de estar e fechou a porta. Eles estavam sozinhos.
"Morreu?", ele arfou.
"Não, mas o que você acha, Anderson?", ela perguntou excitada.
"Não tive tempo de pensar. Você não quer dizer que começou a falar e pode dizer quem é", ele vacilou.
"Céus, não — e só tem seis semanas."
"Bom, então, que raios aconteceu?"
"Um detetive esteve aqui."
"Meu Deus!"
"Sim, um detetive de verdade. Ele está lá na cozinha esquentando os pés perto do forno. Ele diz que está procurando um bebê de seis semanas. Anderson, vamos perder aqueles vinte mil."
"Não chore, Eva; talvez possamos encontrar outro bebê algum dia. Ele viu o... o... ele?" Anderson estava segurando o poste da escada para se apoiar.
"Ainda não, mas ele diz que entende que temos um aqui que não foi marcado — foi o que ele disse — 'marcado'. O que ele quer dizer com isso?"
"Ora... ora, não vê? Assim que ele marcar, é ele. Puxa, imagino se faria alguma diferença legal se eu marcasse primeiro."
"Ele é um sujeito de aparência estranha, Anderson. Diz que está disfarçado, e certamente parece um vigarista profissional."
"Vou dar uma olhada nele e pedir seu distintivo." O Marechal Crow desfilou ousadamente para a cozinha, onde o estranho estava presenteando os Crow mais jovens com conversas enquanto saboreava confortavelmente torta e outras coisas mais substanciais.
"Você é o Sr. Crow?", perguntou ele com indiferença, enquanto Anderson aparecia diante dele.
"Sou. Quem é você?"
"Sou Hawkshaw, o detetive", respondeu o homem, a boca cheia de torta de amora.
"Caramba!", arfou Anderson. "Eva, é o famoso Hawkshaw."
"Exato, senhor. Estou atrás da criança."
"Você terá que identificá-la", algo inspirou Anderson a dizer.
"Claro. Isso é fácil. É aquela que foi deixada na sua soleira ontem à noite", disse o homem com fluência.
"Bom, acho que você tem razão", começou Anderson desconsolado.
"Menino ou menina?", exigiu a Sra. Crow, sagaz e muito rapidamente. Ela estava inspecionando o homem mais de perto do que antes, e a intuição feminina estava lhe dizendo uma verdade que Anderson ignorou. O Sr. Hawkshaw não estava apenas muito maltrapilho, mas muito bêbado.
"Madame", respondeu ele altivamente, "não é nada além de uma mera criança."
"Vou lhe dar apenas um minuto para sair desta casa", disse a Sra. Crow bruscamente, para consternação de Anderson. "Se você não tiver ido embora, vou despejar esta chaleira de água fervente em você. Abra a porta dos fundos, Edna. Ele não vai levar seu ser imundo pela minha sala de novo. _Abra essa porta, Edna!_"
Edna, meio paralisada de espanto, abriu a porta da cozinha bem a tempo. O Sr. Hawkshaw não estava tão bêbado que não pudesse reconhecer um desastre quando este pairava por perto. Assim que ela levantou a chaleira fumegante do fogão, ele deu um salto em direção à porta. A lufada de ar que o seguiu enquanto ele disparava pela abertura quase tirou Edna do chão. Em dez segundos, o esfarrapado Hawkshaw estava escalando a cerca do jardim e abrindo caminho, de forma viva, porém imprecisa, através da plantação de repolhos do ano passado.
CAPÍTULO VII
O Visitante Misterioso
Toda a família Crow observou-o em estupor até que ele desapareceu pela trilha que levava ao bosque de Hapgood. Foi então, e somente então, que Anderson Crow respirou fundo.
"Meu Deus, Eva, o que você quer dizer com isso?", ofegou ele.
"Dizer?", ela quase gritou. "Anderson Crow, você não reconheceu aquele sujeito? Ele não é mais detetive do que você ou eu. É o mesmíssimo vagabundo que você pôs na cadeia na semana passada, e na anterior também. Eu achei que já tinha visto aquele rosto feio antes. Ele é..."
"Santo Deus!", rugiu o marechal da cidade. "Lembro-me dele agora. É aquele que disse que tinha sido exposto à varíola e queria ser mantido onde estivesse quente durante todo o inverno. Bem, eu vou ser... eu vou ser..."
"Não diga, papai. Ele disse isso por você quando pulou aquela cerca de arame farpado ali fora", gritou Edna, alegremente.
Vários dias de ansiedade e energia seguiram-se a este episódio interessante. Nesse período, dois vagabundos tentaram obter comida e abrigo na casa dos Crow, um sob o pretexto de ser o pai da criança desafortunada, o outro como um oficial do Orfanato de Boggs City. Três bebês foram deixados na porta da frente — dois em uma única noite —, com suas mães afetuosas confessando em cartas que apreciavam as bem conhecidas inclinações caridosas de Anderson e implorando-lhe que cuidasse de suas crias como se fossem suas próprias. O marechal, assediado, teve certa dificuldade em forçar as mães a levarem seus filhos de volta.
Em cada caso, ele foi insultado pelas estimáveis senhoras, todas as quais o acusaram de ser totalmente insensível. A Sra. Crow veio em seu socorro e disse às mães decepcionadas que a água fervente estava pronta para ser aplicada caso não levassem suas cestas de bebês embora imediatamente. Pode ser bom para a reputação de Tinkletown mencionar que uma das doadoras era a Sra. Raspus, uma lavadeira negra que trabalhava para os "dagos" contratados para construir a ferrovia ali perto; outra era a esposa de Antonio Galli, um membro da equipe de terraplanagem, e a terceira era a Sra. Pool, viúva de um pescador que recentemente se afogara na bebida.
É bem possível que Anderson pudesse ter ficado com os três bebês permanentemente se as mães não estivessem tão ansiosas para saber seu destino. Elas apareceram pessoalmente na manhã seguinte para ver se os bebês tinham morrido congelados na porta. A Sra. Pool chegou até a buscar algumas roupas extras de bebê que ela tinha esquecido de deixar com seu rebento. A Sra. Raspus veio buscar sua cesta, alegando que era a única que ela tinha para "carregar" a roupa dos homens.
Após esses incidentes irritantes, mas estimulantes, foi permitido a Anderson recuperar-se de seu atordoamento e descartar os sintomas de prostração nervosa. Tinkletown retomou sua atitude tranquila e os jogos de damas começaram a prosperar mais uma vez. A pequena Rosalie estava uma semana mais velha do que quando chegou, mas passaram-se cinco semanas antes que qualquer coisa acontecesse para perturbar o curso uniforme da vida do pai adotivo. Ele trabalhara diligentemente no esforço de descobrir os pais da bebê, mas sem resultado. Dois ou três maridos exasperados em Tinkletown ameaçaram estourar seus miolos se ele persistisse em questionar suas esposas daquela maneira insinuante, e uma das copeiras da estalagem da vila jogou uma bacia de lavar louça nele na ocasião de sua terceira visita de inquérito. Uma mulher de cor a serviço do ministro batista negou que Rosalie fosse sua filha, mas, quando ele insistiu, concordou com fina ironia em "ir dar uma olhada nela", após ele garantir que ela era perfeitamente branca.
"Eva, investiguei o caso minuciosamente", disse ele finalmente, "e não há solução para o mistério. A única coisa que posso deduzir é que a criança está aqui e teremos que cuidar dela. Agora, pergunto-me se aquela mulher realmente quis dizer o que disse quando falou que teríamos mil dólares no final de cada ano. Raios, quem dera o ano acabasse, só para ver."
"Teremos que esperar, Anderson, é só isso", disse a Sra. Crow. "Amo tanto a bebê que não pode importar muito. Estou feliz por você ter terminado as investigações. Tem sido muito desgastante para mim. Metade das mulheres da cidade não fala comigo."
Foi no final da quinta semana de Rosalie como membro da família que algo aconteceu. Tarde da noite, quando Anderson abriu a porta da frente para pôr o gato para fora, uma mulher fortemente velada subiu os degraus e o abordou. Com certa apreensão, ele recuou e teria fechado a porta não fosse por sua súplica ansiosa.
"Preciso vê-lo, Sr. Crow", gritou ela com uma voz baixa e agitada.
"Quem é você?", exigiu ele. Ela estava vestida inteiramente de preto.
"Vim vê-lo sobre a bebê."
"Isso não serve, madame. Já apareceram três vagabundos aqui para nos enganar e eu..."
"Preciso vê-la, Sr. Crow", suplicou a estranha, e ele ficou impressionado com a riqueza de sua voz.
"Muito estranho, parece-me", murmurou ele, hesitante. "Você é parente dela?"
"Estou muito interessada."
"Por Deus, acredito que é você quem a deixou aqui", gritou o detetive. "Você é datilógrafa?"
"Responderei às suas perguntas se permitir que eu entre. Está muito frio aqui fora."
Anderson Crow deu um passo para o lado e a figura alta e negra entrou no corredor. Ele a conduziu para a sala de estar aquecida e ofereceu-lhe uma cadeira diante do aquecedor.
"Aqui, Sr. Crow, está um envelope contendo duzentos e cinquenta dólares. Isso prova minha boa fé. Não posso lhe dizer quem sou nem que relação tenho com a bebê. Estou plenamente ciente de que o senhor não tentará me deter, pois não é uma tarefa fácil ganhar mil dólares por ano nesta parte do mundo. Vou para o exterior na próxima semana e não pretendo voltar por um longo, longo tempo. Por mais que tentasse, não poderia ir sem ver a criança. Não o manterei fora da cama dez minutos, e o senhor e sua esposa podem estar presentes enquanto seguro Rosalie em meus braços. Sei que ela está em boas mãos e não tenho intenção de levá-la embora. Por favor, chame a Sra. Crow."
Anderson estava atordoado demais para agir imediatamente. Ele começou a balbuciar interrogativamente, mas a visitante o interrompeu bruscamente.
"O senhor está perdendo tempo, Sr. Crow, ao tentar questionar minha autoridade ou identidade. Ninguém precisa saber que fiz esta visita. O senhor está perfeitamente seguro na promessa de ter mil dólares por ano; por que hesitaria? Enquanto ela viver com o senhor, o dinheiro é seu. Estou adiantando a quantia que o senhor agora possui para que suas necessidades imediatas possam ser supridas. Não é exigido que o senhor mantenha um registro do dinheiro pago. Existem meios de verificar imediatamente se ela está sendo bem cuidada e educada pelo senhor, e se ficar evidente que o senhor não está cumprindo seu dever, ela será removida de sua custódia. De tempos em tempos, o senhor poderá esperar instruções por escrito daquela... daquela que a ama."
"Só quero perguntar se a senhora mora em Tinkletown?", conseguiu dizer Anderson.
"Não moro", respondeu ela enfaticamente.
"Bem, então, levante seu véu. Se a senhora não mora aqui, eu não a conhecerei."
"Prefiro manter meu rosto coberto, Sr. Crow; acredite em mim e confie em mim. Por favor, deixe-me vê-la." O pedido era tão sincero que o coração de Anderson deu um grande salto de compreensão.
"Por Deus, você é a mãe dela!", ofegou ele. A Sra. Crow entrou nesse momento, e foi muito mais rápida em compreender a situação do que seu marido. Passou-lhe pela cabeça denunciar abertamente a mulher por sua insensibilidade, mas sua natural parcimônia interpôs-se. Ela não faria nada que pudesse remover a colher de ouro da boca da família.
O trio subiu as escadas e entrou no quarto aquecido. Ali, com Anderson Crow e sua esposa observando de um canto remoto do quarto, a mulher alta de preto ajoelhou-se ao lado do berço que abrigara uma geração de Crow. A adormecida Rosalie não sabia dos beijos suaves que varriam sua pequena face. Ela não sentiu as lágrimas que caíram quando a visitante levantou seu véu, nem ouviu os sussurros que subiram aos lábios da mulher.
"Isso é tudo", murmurou a estranha misteriosa finalmente, abaixando seu véu ao se levantar. Ela cambaleou ao começar a ir em direção à porta, mas recuperou-se instantaneamente. Sem uma palavra, ela deixou o quarto, com os Crow seguindo-a escada abaixo em silêncio. No pé da escada, ela pausou e então estendeu as mãos para o casal de idosos. Sua voz vacilou enquanto falava.
"Deixem-me segurar suas mãos e deixem-me dizer que meu amor e minhas orações são para sempre por vocês e por aquela pequenina lá em cima. Obrigado. Sei que serão bons para ela. Ela é bem-nascida. Seu sangue é tão bom quanto o melhor. Acima de tudo, Sra. Crow, ela não é ilegítima. O senhor pode facilmente suspeitar que seus pais são ricos, ou não poderiam pagar tão bem por seus cuidados. Algum dia, o mistério que a cerca será esclarecido. Pode não ser por muitos anos. Posso dizer com segurança que ela será deixada sob seus cuidados por vinte anos, pelo menos. Algum dia vocês saberão por que Rosalie não deveria existir. Deus os abençoe."
Ela se fora antes que pudessem proferir uma palavra. Observaram-na caminhar rapidamente para a escuridão; alguns minutos depois, o som de rodas de carruagem rompeu subitamente o ar. Anderson Crow e sua esposa ficaram diante do aquecedor, e havia lágrimas em seus olhos pensativos.
"Ela disse vinte anos, Eva. Vamos ver, este é 1883. O que isso daria?"
"Por volta de 1903 ou 1904, Anderson."
"Bem, acho que podemos esperar se outras pessoas podem", ponderou ele. Então, subiram lentamente as escadas e foram para a cama.
CAPÍTULO VIII
Alguns Anos Se Passam
Tinkletown, como um todo, apoiou Anderson em seu pedido de tutela. Eles foram protocolados imediatamente após a visita secreta da mulher misteriosa; o Tribunal de Circuito em Boggs City, após ouvir as evidências, nomeou imediatamente o Sr. Crow. Quando o tribunal perguntou com leve surpresa por que ele não adotava a criança, Anderson e Eva olharam um para o outro timidamente e ficaram em silêncio por um minuto inteiro. Então, Anderson falou com a voz um pouco rouca:
"Bem, veja, meritíssimo, o nome dela teria que ser Crow, e embora seja um bom nome e um nome honrado, não parece se ajustar muito bem à pequena. Ela parece ser mais uma canária do que um corvo, figurativamente falando, e Eva e eu decidimos que daríamos a ela um sobrenome diferente, se pudéssemos encontrar um. Parece-me que Rosie Canary seria um bom nome, mas Eva e as crianças são contra mim. Eles decidiram chamá-la de Rosalie Gray, e acho que isso resolve a questão. Se não se importar, creio que esse nome pode entrar nos registros. Além disso, o senhor deve se lembrar que ela pode ter muitas propriedades algum dia, e parece mais adequado que eu seja o tutor do que o pai adotivo se esse dia chegar. Será mais fácil dizer adeus se ela quiser nos deixar."
No mesmo dia, Anderson depositou duzentos e cinquenta dólares em sua conta no First National Bank, dizendo à esposa enquanto se afastava da janela do caixa: "Acho que Rosalie não pode morrer de fome até que o banco quebre, e talvez nem então."
É claro que Tinkletown sabia que uma quantia em dinheiro tinha sido paga a Anderson, mas ninguém sabia que ela tinha sido entregue a ele pessoalmente por uma parte interessada. Se Anderson e sua esposa tivessem sequer sussurrado que tal visita ocorrera, a cidade teria entrado em uma convulsão de ira; o pedestal do marechal teria sido arrancado debaixo dele sem remorso ou piedade. Eva advertiu-o a ser mais do que silencioso sobre o assunto, pelo bem da criança tanto quanto pelo deles, e Anderson viu sabedoria em seu conselho. Ele até hesitou em sua intenção declarada de desvendar o mistério ou morrer na tentativa. Um lembrete ácido na forma de uma nota no Banner restaurou suas energias, e ele assumiu novamente o caso com um vigor que surpreendeu até a si mesmo. Qualquer coisa na forma de vigor surpreendia sua esposa.
Harry Squires, o repórter, que zombava mais ou menos de Anderson de tempos em tempos porque ele tinha o "poder da imprensa ao seu lado", algumas semanas depois escreveu a seguinte nota sobre o "mistério do bebê", como ele o chamava, em letras grandes:
"Não há novidades a respeito da criança encontrada na porta de nosso estimado concidadão Anderson Crow, em fevereiro passado. O item sobre sua descoberta apareceu pela primeira vez nas colunas do Banner, como se lembrarão nossos muitos leitores. O detetive Crow prometeu desenvolvimentos algum tempo atrás, mas eles não apareceram. Rumores dizem que ele tem uma nova pista, mas não pode ser fundamentada. A impressão geral é que ele não sabe se é um menino ou uma menina. Aconselhamos o Sr. Crow a ir devagar. Ele não deveria esquecer o tempo em que prendeu o Sr. John Barnes, dois anos atrás, pelo assassinato do Sr. Grover, e depois descobriu que o jovem cavalheiro estava apenas fugindo com a filha do Juiz Brewster, o que não era crime. Nós vimos a moça. Aqueles de nossos leitores que estavam vivos na época sem dúvida recordam a excitação daquela caçada humana há dois anos. O Sr. Barnes, tão inocente quanto uma criança por nascer, veio à nossa pequena cidade engajado no passatempo inocente de se casar. Na mesma época, foi relatado que um assassinato havia sido cometido neste condado. O Sr. Crow teve suas suspeitas despertadas e perseguiu o Sr. Barnes rio abaixo e o prendeu. Foi um belo trabalho de detetive. Mas, infelizmente para o Sr. Crow, o verdadeiro assassino havia sido capturado nesse meio tempo. O Sr. Barnes era culpado apenas de roubar a filha do Juiz Brewster e se casar com ela. A última notícia que tivemos deles é que estão felizes em Nova York. Eles até perdoaram o Sr. Crow, segundo consta. Espera-se que nosso astuto detetive logo caia sobre os pais insensíveis desta criança inocente, mas também espera-se que ele pense pelo menos quatro vezes antes de saltar."
Dizer que o editorial acima perturbou a serenidade do temperamento do Sr. Crow seria não dizer nada. Na privacidade do quintal do celeiro, Anderson fez uma dança de guerra que envergonhou Tecumseh. Ele ameaçou aniquilar Harry Squires "da cabeça aos pés" por publicar a vil calúnia.
"Maldita seja sua pele", rugiu o pobre Anderson, "por dois centavos eu contaria tudo o que sei sobre ele estar bêbado em Boggs City três anos atrás. Ele não conseguia andar meio centímetro naquela época sem cambalear. De qualquer forma, eu não teria perseguido o Sr. Barnes naquela época se não fosse por Harry Squires. Ele me incitou, maldita seja sua pele. Se ele não tivesse aquele grande tipógrafo de Albany no escritório do Banner para apoiá-lo, eu iria lá e quebraria seu nariz por ele. Depois de todas as notícias que dei a ele, também. É esse o agradecimento que se recebe por conseguir notícias para esses repórteres malditos. Mas vou mostrar a ele! Imagino o que ele pensaria se eu rastreasse esse bebê direto até o seu próprio... O que foi isso, Eva? Bem, agora, você também não sabe nada sobre isso, então mantenha sua boca fechada. Harry Squires é um sujeito muito astuto. Talvez seja dele. Você não deve saber. Deixe-me fazer minhas próprias deduções. Não quero nenhuma mulher maldita me dizendo quem seguir. E você também, Edner; saia do caminho, dane-se! Da próxima vez, você vai estar me dizendo o que fazer — e eu sendo seu pai, ainda por cima!"
E é por isso que Anderson Crow retomou sua busca pelos pais de Rosalie Gray. Não que ele esperasse ou pretendesse encontrá-los, mas para compensar a influência perniciosa da "nota" de Harry. Por muitos dias, ele seguiu as pistas mais altamente impossíveis, algumas delas intratáveis, para fornecer uma palavra de descrição bastante incomum. Em outras palavras, elas reagiram com um vigor que muitas vezes o encontrava despreparado, porém sereno. As consequências incomodavam pouco Anderson naqueles dias de atividade desprezada.
Não é necessário deter-se nos incidentes dos anos seguintes, que viram Rosalie engatinhar da infância para a meninice e depois caminhar orgulhosamente pela adolescência com uma elasticidade que augurava o mal para o Pai Tempo. Regularmente, a cada fevereiro sucessivo, chegava a Anderson Crow um pacote de notas de vinte dólares totalizando mil dólares, sendo os correios inescrutáveis. A família Crow prosperou correspondentemente, mas havia uma frugalidade liberal por trás de tudo que significava algo bom para Rosalie quando chegasse o momento de um acerto de contas. Anderson e Eva "guardaram" uma boa parte do dinheiro para a criança, a quem amavam como se fosse de sua própria carne e sangue. As lições da escola distrital foram seguidas mais tarde por uma educação em colégio interno fora do Estado, e então vieram os toques finais no Miss Brown's, em Nova York.
Rosalie cresceu e tornou-se uma flor rara, tão delicada quanto a rosa, tão picante quanto a margarida. A marca inconfundível da alta linhagem brilhava em seu rosto, os finos traços de sangue azul adornavam cada movimento seu, cada tom e olhar. Na época em que ela, assim como todos os outros em Tinkletown, aliás, estava vinte anos mais velha do que quando chegou pela primeira vez à casa de Anderson, encontramo-la como a rainha da vila, sua única posse humana rica, sua única habitante verdadeiramente sofisticada. Anderson Crow e sua esposa sentiam tanto orgulho dela que esqueceram seu dever para com sua própria descendência; mas se os filhos dos Crow se ressentiam disso, não era exibido nas expressões de amor e admiração pela irmã adotiva. Edna Crow, a mais velha das meninas — Anderson a chamava de "Edner" —, era a escrava mais devota de Rosalie, enquanto Roscoe, o menino de doze anos, que compunha a retaguarda do pequeno exército de Anderson, ajoelhava-se tão constantemente diante de seu altar que ficava muito para trás em seus estudos, e permaneceu no terceiro livro de leitura por dois anos.
Anderson não tinha ficado ocioso em todos esses anos. Ele estava se aproximando rapidamente de seu septuagésimo aniversário, mas não estava um dia mais velho em espírito do que quando o conhecemos pela primeira vez. É verdade, seu cabelo estava mais ralo e mais branco, e suas suíças estavam um pouco mais descuidadas do que em outros tempos, mas ele era tão jovem e ativo quanto um rapaz de vinte anos. Tempos difíceis não o preocupavam, nem os problemas domésticos. A Sra. Crow admitia frequentemente que tentava o seu melhor para preocupá-lo, mas era como "jogar água nas costas de um pato". Ele seguia alegremente seu caminho, ganhando elogios para si mesmo e honras para Tinkletown. Não havia crime grave cometido na região para o qual ele não tivesse um plano bem definido para prender os autores. Suas "deduções" na loja de Lamson nunca falhavam em atrair e manter grandes audiências, e ninguém contestava suas teorias em público. O fato de ele ser responsável pela prisão de vários ladrões de porcos, cavalos e galinhas de tempos em tempos, e pela apreensão contínua dos dois bêbados da cidade, Tom Folly e Alf Reesling, mantinha sua reputação imaculada, apesar dos numerosos erros de comissão e omissão que se infiltraram pelo caminho.
O fato de os amigos misteriosos de Rosalie — ou inimigos, quem sabe — manterem uma vigilância próxima e precisa sobre ela era manifestado de tempos em tempos. Uma vez, quando Anderson estava muito doente com febre tifoide, o pacote de notas foi acompanhado por uma carta datilografada e sem assinatura. O remetente anunciava que o estado de saúde do Sr. Crow estava causando certa ansiedade por causa de Rosalie — a criança tinha então seis anos de idade — e que esperava que nada de grave resultasse disso. Em outra ocasião, o estranho escritor, em uma carta enviada de Paris, instruiu o Sr. Crow a enviar Rosalie para um determinado internato e a garantir que ela tivesse aulas de francês, alemão e música com instrutores competentes. Novamente, pouco antes de a menina ir para Nova York para sua estadia de dois anos na escola da Srta. Brown, chegou um pacote contendo 2.500 dólares para seu uso pessoal. Rosalie frequentemente falava com Anderson sobre esse misterioso remetente como a "fada madrinha"; mas o velho marechal tinha uma opinião mais profunda e significativa.
Talvez o período mais ansioso na vida de Anderson Crow tenha sido quando Rosalie tinha cerca de dez anos. Um novo xerife havia sido eleito no Condado de Bramble, e ele se apresentava como um reformador. Sua irmã lecionava em Tinkletown, e Rosalie era sua favorita. Ela se interessou pela criança de uma forma que quase arruinou a prosperidade do Sr. Crow. Imaginando que estava ajudando a menina, a professora apelou ao irmão, o xerife, insistindo que ele fizesse o que pudesse para solucionar o mistério de seu nascimento. O xerife viu uma chance de se distinguir. Ele obteve a ajuda de um promotor público agressivo, também novo, e começou a investigar o caso.
Os dois agentes da lei chegaram a Tinkletown um dia e começaram a fazer perguntas peremptórias. Eles agiram de uma maneira tão arrogante e prepotente que Anderson ficou alarmado e seu coração afundou como chumbo. Ele viu com os olhos da mente o colapso total de todas as suas esperanças, o arremesso para longe de sua taça de lazer e a desordem dos planos da "fada madrinha". Reunindo suas forças, ele se pôs a frustrar o ataque dos intrometidos. Se foi sua astúcia ao colocar obstáculos em seu caminho ou se ele coagiu os habitantes a bloquear a investigação do xerife, não importa. É apenas necessário dizer que o cavalheiro oficioso de Boggs City finalmente desistiu da busca com desgosto e retirou-se para o esquecimento habitual dos funcionários do condado que tentam ser progressistas. Passaram-se muitas semanas, no entanto, antes que Anderson dormisse profundamente. Ele estava mais uma vez feliz com a consciência de que Rosalie havia sido salva do desastre e que ele havia cumprido seu dever para com ela.
"Eu gostaria de saber como aqueles sujeitos desgraçados de Boggs City esperavam descobrir qualquer coisa sobre aquela criança quando eu não consegui", rosnou o Sr. Crow na loja de Lamson uma noite. "Se eles simplesmente mantiverem seus narizes malditos longe deste assunto, eu descobrirei quem são seus pais um dia. Leva tempo para rastrear coisas assim. Eu suponho que sei o que estou fazendo, não sei, rapazes?"
"Isso é o que você faz, Anderson", disse o Sr. Lamson, enquanto Anderson esticava a mão e pegava um punhado de balas de alcaçuz do pote no balcão.
CAPÍTULO IX
A Rainha da Vila
A primavera de 1903 trouxe Rosalie de volta a Tinkletown após seu segundo e último ano com a Srta. Brown na Cidade de Nova York. O sol parecia mais brilhante, os pássaros cantavam mais alegremente, as flores adquiriam uma nova fragrância e a vila se enfeitava como se o domingo fosse o único dia da semana. Os rapazes da cidade tremiam quando ela passava por eles, e não poucos deles ficaram magros e abatidos por falta de comida e sono, tendo perdido tanto o apetite quanto o repouso devido a uma recaída de amor. Seu sorriso era o mesmo de outrora, suas saudações alegres as mesmas, e ainda assim os galanteadores da vila permaneciam em reverência a essa jovem aristocrata fina por dias e dias. Gradualmente, caiu-lhes a ficha de que ela era humana, afinal, apesar de seu treinamento em Nova York, e eles lentamente retomaram o modo antigo de cortejar, que era exclusivamente com os olhos.
Alguns dos mais aventureiros — mas não os mais ardentes — convidaram-na para passear, andar de carruagem ou para as "confraternizações" da igreja, e havia uma rivalidade na cidade que ameaçava perturbar o comércio. Não havia teatro em Tinkletown, mas eles se deleitavam com suas descrições dos teatros magníficos em Nova York. O salão municipal parecia menor do que nunca para eles. Os comerciantes mais jovens e seus balconistas negligenciavam os negócios com uma imparcialidade encantadora, e o comércio ia "de mal a pior" até que Rosalie recusou-se a casar com George Rawlins, o filho do ministro. Ele era visto como o favorito; mas ela o recusou de uma maneira tão decisiva que todos os outros perderam a esperança e a coragem. Está registrado que, no dia seguinte à dispensa de George, Tinkletown entregou-se a uma completa cambalhota comercial. Nunca antes houvera tal atenção estrita aos clientes; comerciantes e balconistas, da mesma forma, conformaram-se ao inevitável e tentaram banir o rosto de Rosalie das etiquetas de preço e selos de troca de seu monótono claustro mercantil. Até Tony Brink, o aprendiz de ferreiro, caiu nos hábitos de indústria, mas com uma distração que o fez ser chutado através de uma divisória na forja quando tentou ferrar o boleto do potro do Sr. Martin em vez do casco.
A família Crow assumiu uma nova dignidade. Anderson doou cinquenta dólares para a Sociedade Missionária Estrangeira da Igreja Presbiteriana, alegando que uma educação estrangeira fizera muito por sua protegida; e a Sra. Crow conseguiu realizar dois grandes chás da tarde antes que Rosalie pudesse aplicar as rédeas.
Uma noite, Anderson ficou acordado até quase dez horas — um procedimento inédito para ele. Rosalie, com as filhas mais velhas de Crow, Edna e Susie, havia ido a uma reunião prolongada com um grupo de rapazes e moças. Os meninos e meninas mais novos estavam na cama, e a Sra. Crow bocejava prodigiosamente. Ela nunca se retirava até que Anderson estivesse pronto para fazer o mesmo. De repente, ela percebeu que ele estava excepcionalmente quieto e preocupado. Eles estavam sentados na varanda banhada pelo luar.
"O que houve, Anderson? Você não está bem?", ela perguntou finalmente.
"Não; estou apenas pensando", ele respondeu, bastante desolado. "Droga, eu não consigo tirar isso da cabeça, Eva."
"Não consegue tirar o quê?"
"Sobre a Rosalie."
"Bem, o que tem ela?"
"Isso é exatamente como uma mulher — sempre esquecendo as coisas mais importantes do mundo. Você não sabe que os vinte anos acabaram?"
"É claro que sei, mas não está me preocupando em nada. Ela ainda está aqui, não está? Ninguém veio buscá-la. Os mil dólares chegaram certinho em fevereiro passado, não chegaram? Bem, qual é o sentido de se preocupar?"
"Talvez você tenha razão, mas estou morrendo de medo de que alguém apareça e a reivindique, ou que um grande espólio seja liquidado, ou algo terrível assim. Não me importo com o dinheiro, Eva; eu só odeio pensar em perdê-la, agora que ela é um crédito para nós. Além disso, estou em um beco sem saída sobre o ano que vem."
"Bem, o que acontece então?"
"Droga se eu sei. É isso que está me preocupando."
"Não vejo por que você..."
"Certamente você não vê. Você nunca vê. Eu tenho que fazer todo o pensamento por esta família. No próximo ano ela tem vinte e um anos e é dona do próprio nariz, não é? Eu não sou mais seu guardião depois disso, sou? O que acontece então, eu gostaria de saber."
"Você só tem que se acertar com o tribunal, pagar a ela o que lhe pertence e guardar os mil a cada primavera exatamente da mesma forma. O pessoal dela, quem quer que sejam, está pagando a você para cuidar dela e não a ela para ficar aqui. Não é provável que ela queira deixar um bom lar como este, é? Não se preocupe até que chegue a hora, Anderson."
"Esse é exatamente o ponto. Ela morou em Nova York e se acostumou. Ela tem ideias refinadas; até suas roupas parecem vestir diferente. Agora, você supõe que aquela garota de aparência fina com todos os seus enfeites de Nova York vai ficar por perto em uma cidadezinha idiota como esta? Nem um pouco! Ela vai cair fora daqui assim que tiver uma chance; e ela vai viver exatamente onde seu coração lhe diz que ela pertence — na metrópole de Nova York. Ela não pertence a nenhuma cidadezinha de quinta categoria como esta. Droga, Eva, eu odeio vê-la ir!"
Havia um lamento de amargura tão grande na observação do velho condestável que a Sra. Crow sentiu as lágrimas brotarem em seus próprios olhos. Era a garota que ambos queriam, afinal — não o dinheiro. Rosalie, chegando em casa com seu grupo algum tempo depois, encontrou o velho casal ainda sentado na varanda. Os jovens não puderam esconder sua surpresa.
"Contando as estrelas, papai?", perguntou Edna Crow.
"Ele está esperando o eclipse", berrou o barulhento Ed Higgins, o balconista do armazém. "É esperado para o próximo inverno. Como vai, Anderson?"
"Como é?", foi a repreensão de Anderson.
"Quero dizer, Sr. Crow", corrigiu Ed, com um olhar nervoso para Rosalie, que fora sua companheira durante a noite.
"Oh, estou apenas mais ou menos", comentou Anderson, suavizado. "Como foi a festa?"
"Não foi uma festa, papai Crow", riu Rosalie, sentando-se à frente dele no corrimão da varanda. "Foi uma reunião de experiências. Alf Reesling se reformou novamente. Ele nos contou tudo sobre seu último ataque de delirium tremens."
"Não diga! Bem, senhor, eu nunca pensei que Alf pudesse encontrar tempo para se reformar de novo. Ele está ocupado demais ficando embriagado", refletiu Anderson. "Mas acho que se reformar pode se tornar um hábito como qualquer outra coisa."
"Acho que ele estava um pouco tonto hoje à noite", arriscou 'Rast Little.
"Um pouco o quê?"
"Bêbado", explicou 'Rast, sem desperdiçar palavras. 'Rast havia adquirido o sinônimo no carnaval dos homens de negócios em Boggs City no outono anterior. Às vezes ele substituía pelas palavras "completamente bêbado", "altinho", "iluminado", etc., apenas para mostrar sua mundanidade.
Depois que os jovens partiram e as garotas Crow subiram com a mãe, Rosalie saiu para a varanda e sentou-se no joelho de seu desconsolado guardião.
"Você está preocupado com algo, papai Crow", disse ela gentilmente. "Agora, fale, senhor. O que é?"
"É hora de você estar na cama", repreendeu Anderson, puxando as costeletas nervosamente.
"Oh, sou jovem, papai. Não preciso dormir. Mas você nunca esteve acordado até tão tarde desde que o conheço."
"Eu estive acordado até mais tarde que isso na época em que você teve coqueluche, pode apostar."
"O que está incomodando você, papai?"
"Oh, nada — nada mesmo. Droga, um homem não pode sentar em sua própria varanda sem que..."
"Perdoe-me, papai. Devo ir embora e deixá-lo?"
"Pelo amor de Deus, não!", ele ofegou. "É isso que está me preocupando — oh, você não quis dizer para sempre. Você apenas quis dizer hoje à noite? Céus, você me deu um susto!" Ele recuou com um grande suspiro de alívio.
"Por que, eu nunca espero deixá-lo para sempre", ela exclamou, acariciando seu cabelo ralo. "Você não poderia me expulsar. Este é o meu lar, e você tem sido bom demais para mim todos esses anos. Posso querer viajar depois de um tempo, mas sempre voltarei para você, papai Crow."
"Estou... estou muito feliz em ouvir você dizer isso, Rosie. Veja bem... veja bem, eu e sua mãe meio que aprendemos a amar você, e..."
"Ora, papai Crow, seu velho bobo! Você está quase chorando!"
"O que é isso? Agora, não fale assim comigo, sua garotinha insolente, ou você vai para a cama rápido. Eu nunca chorei na minha vida", rosnou Anderson em um grande alarde.
"Bem, então, vamos falar sobre outra coisa — sobre mim, por exemplo. Você sabe, papai Crow, que sou forte demais para viver uma vida ociosa? Não há razão para eu não ter uma ocupação. Quero trabalhar — realizar algo."
Anderson ficou em silêncio por um longo tempo, recuperando os nervos. "Você não gostaria de ser uma detetive mulher, gostaria?", ele perguntou secamente.
CAPÍTULO X
Rosalie Tem Planos Próprios
"Seja sério, papai. Quero fazer algo que valha a pena. Eu poderia ensinar na escola ou..."
"Nem um pouco! Você não foi feita para esse trabalho. Você não sabe que todo mundo odeia professores quando cresce? Jerusalém, como eu ainda odeio a velha Rachel Kidwell! E, no entanto, ela está morta há quase trinta anos. Ela foi minha primeira professora. Você não nasceu para ser odiada por todos os rapazes do distrito. Não vejo o que colocou a ideia de trabalhar na sua cabeça. Você tem cerca de oito mil dólares no banco e..."
"Mas insisto que o dinheiro é seu, papai. Minha fada madrinha pagou a você para me manter, vestir e educar. Não é meu."
"Você fala como se eu fosse um internato em vez de ser seu guardião. Não, senhorita; é seu dinheiro, e isso é o fim da história. Você o recebe quando tiver vinte e um anos."
"Veremos, papai", ela respondeu, uma luz obstinada em seus olhos escuros. "Mas quero aprender a fazer algo que valha a pena. Se eu tivesse um milhão, seria exatamente a mesma coisa."
"Você terá algo para fazer quando se casar", observou ele asperamente.
"Absurdo!"
"Suponho que você vá dizer que nunca espera se casar. Todas dizem isso — e depois pegam o primeiro sujeito que aparece."
"Eu não peguei o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro, nem o..."
"Espere! Pelo amor de Deus, você teve tantos? Bem, por que você não entra no negócio de agência matrimonial? Essa é uma ocupação."
"Oh, nenhum deles era sério, papai", ela disse ingenuamente.
"Você poderia ter todos os homens do condado!", ele declarou orgulhosamente. "Apenas", ele acrescentou rapidamente, "não pareceria justo e apropriado."
"Havia uma garota na escola da Srta. Brown um ano atrás que tinha muito dinheiro e, ainda assim, declarou que ia ter uma ocupação. Ninguém sabia muito sobre ela ou por que ela deixou a escola repentinamente no meio de um semestre. Eu gostava dela, pois ela foi muito gentil comigo quando cheguei lá, uma estranha. O Sr. Reddon — você já me ouviu falar dele — era devotado a ela, e tenho certeza de que ela gostava dele. Só ontem recebi notícias dela. Ela vai ensinar na escola neste município no próximo inverno."
"E ela tem dinheiro?"
"Tenho certeza de que ela tinha naquela época. É a coisa mais estranha do mundo que ela venha para cá ensinar na escola nº 5. O congressista Ritchey garantiu a nomeação para ela, diz ela. O administrador do município — seja lá qual for o nome dele — por muito tempo insistiu que ele deveria nomear um professor de Tinkletown e não uma pessoa de fora. Fico feliz que ela venha para cá porque — bem, papai, porque ela é como as garotas que conheci na cidade. Ela me pediu para procurar um lugar para morar no próximo inverno. Você conhece alguém, papai, que poderia alugar um quarto bom para ela?"
"Aposto minhas orelhas que você gostaria que sua mãe a acolhesse bem aqui. Mas não vejo como isso pode ser feito, Rosie-posie. Há tantos de nós agora, e..."
"Oh, eu não quis dizer isso, papai. Ela não poderia vir para cá. Mas você não acha que a Sra. Jim Holabird a aceitaria para o inverno?"
"Talvez. Ela é viúva. Ela pode deixar que ela fique com o quarto do Jim agora que há uma vaga. Você poderia ir lá e perguntar a ela sobre isso amanhã. É bom que ela seja sua amiga, Rosalie, porque se não fosse, eu teria que lutar contra sua nomeação."
"Por que, papai!", repreendeu ela.
"Bem, ela é estrangeira, e não acho certo dar a ela um emprego quando temos tantos produtos locais que querem a vaga e que parecem impopulares o suficiente para preencher o requisito. Sou a favor da indústria local sempre, e especialmente porque essa garota não parece precisar da vaga. Não vejo que negócio o congressista Ritchey tem em se meter no nosso sistema escolar de qualquer maneira. Ele deveria estar reduzindo as tarifas ou aumentando as pensões lá em Washington."
"Concordo plenamente com você, papai Crow", disse Rosalie com uma diplomacia que sempre ganhava a seu favor. Ela sabia exatamente como lidar com seu guardião, e foi por isso que ela venceu onde as próprias filhas dele falharam. "E agora, boa noite, papai. Vá para a cama e não se preocupe comigo. Você me terá em suas mãos por muito mais tempo do que pensa ou quer. Que horas são?"
Anderson deu tapinhas na cabeça dela, pensativo, enquanto retirava solenemente seu enorme relógio de prata de um bolso não localizado. Ele o estendeu sob o luar brilhante.
"Céus!", ele exclamou. "São quarenta e nove minutos para as doze!" A política de Anderson Crow era sempre olhar para as coisas através da extremidade menor do telescópio.
O verão lento e quente passou, e para Rosalie foi o mais longo que ela já experimentara. Ela estava cansada da tagarelice incessante de Tinkletown, seu fluxo de "missões", "confraternizações", "cavalos de charrete", "o novo terno de George Rawlins", "colheita" e "política" — pois até as crianças falavam de política. Nem as atenções assíduas dos jovens da vila possuíam o poder de encurtar os dias para ela — e certamente alongavam as noites. Ela gostava deles porque eram seus amigos desde o início — e Rosalie não era uma esnobe. Por nada no mundo ela teria ferido os sentimentos de uma alma pobre, humilde e adoradora em Tinkletown; e, embora seu sorriso não fosse menos doce, sua risada não menos alegre, em seu coração havia o desejo oculto que sorria apenas nos sonhos. Ela ansiava pelo dia que traria Elsie Banks para morar com a Sra. Holabird, pois com ela viria um sopro do mundo que ela conhecera por dois anos e que aprendera a amar tão bem.
Em três meses, sete homens haviam pedido sua mão em casamento. Dos sete, apenas um tinha os meios ou a perspectiva de meios para sustentá-la. Ele era um viúvo com cinco filhos adultos. Anderson aproveitou a ocasião para avisá-la contra viúvos.
"Por que", disse ele, "eles são exatamente como as viúvas. Você conhece Dave Smith que dirige a taverna na rua de baixo, não conhece? Bem, droga se ele não foi e casou com uma viúva com sete filhos e um marido, e ele tem levado uma vida de cão desde então."
"Sete filhos e um marido? Papai Crow!"
"Sim. O marido dela, droga, não queria ficar divorciado quando descobriu que Dave poderia sustentar uma família daquele tamanho. Ele achou que seria tão fácil cuidar de oito quanto de sete, então ele se anexou educadamente à cozinha de Dave e começou a comer até morrer. Dave ia pedir à esposa que entrasse com outro pedido de divórcio e deixasse o nome em branco, para que ele pudesse colocar qualquer um dos maridos se chegasse ao ponto, mas eu o convenci a desistir. Ele finalmente se livrou do sujeito pedindo-lhe um dia para varrer o escritório. Ele conseguia comer bem, mas não era natural para ele trabalhar, então ele caiu fora. Da próxima vez que ouvi falar dele, ele havia se casado com uma viúva que estava recebendo uma pensão porque seu primeiro marido lutou pelo seu país. O governo cortou a pensão assim que ela se casou de novo, e então aquele sujeito maldito começou a lavar roupa para ela. Ele ficava longe de casa nos dias de lavagem, mas como todo dia era dia de lavagem para ela, ele não a via à luz do dia por três anos. Ela morreu, e agora ele está de volta à taverna de Dave novamente. Ele chama Dave de seu marido-por-lei."
Foi necessária toda a diplomacia social e oficial de Anderson para evitar uma reunião de indignação quando foi anunciado que uma estranha, a Srta. Banks, havia sido selecionada para ensinar na escola nº 5. Houve algum falatório sobre linchar o administrador do município e o Conselho de Comissários do Condado, mas Anderson obteve os nomes dos faladores mais virulentos e ameaçou "prendê-los" por conspiração.
"Por que, Anderson", lamentou quase George Ray, "aquela garota é da cidade. O que ela sabe sobre gramática, história e tudo mais? Eles não ensinam nada além de francês e italiano nas cidades e você sabe disso."
"Ora!", fungou Anderson. "Eu odeio gramática e sempre odiei. Eu consigo falar italiano melhor do que gramática agora mesmo, e espero que a Srta. Banks ensine a cada criança do distrito como falar francês. Você deveria ouvir Rosalie falar. Além disso, Rosie diz que ela é uma boa garota e... e precisa do emprego." Anderson mentiu bravamente, mas engoliu em seco duas vezes ao fazê-lo.
O mês de setembro trouxe Elsie Banks para fazer a vida valer a pena para Rosalie. As duas moças estavam constantemente juntas, conversando sobre os velhos tempos e sobre o que os novos trariam, especialmente para a Srta. Gray, que havia retomado a escultura em madeira como uma ocupação temporária. A Srta. Banks estava mais relutante do que nunca a discutir seus próprios assuntos, e Rosalie, após algumas tentativas, foi diplomática o suficiente para respeitar seu apelo silencioso. É duvidoso que qualquer uma das moças tenha mencionado o nome do alto e belo Tom Reddon — Tom, que havia remado na equipe de seu colégio; mas é seguro dizer que ambas pensaram nele mais de uma vez naquelas longas e suaves noites de outono — noites em que os pretendentes de Tinkletown quase tropeçavam em si mesmos no esforço de fazer a vida em Nova York parecer uma sombra frágil em comparação.
CAPÍTULO XI
Elsie Banks
Anderson Crow estava ao longe — entre as árvores sombrias e sem folhas de Badger's Grove — e contemplava pensativo, até mesmo seriamente, a pequena escola de tijolos com sua chaminé alta e telhado coberto de neve. Um vento cortante de janeiro atravessava suas costeletas e aquecia seu nariz até um tom de vermelho quase assado. Na lapela de seu sobretudo brilhavam seus distintivos sociais e oficiais, acrescidos por um novo e particularmente brilhante emblema de respeito concedido pelos cidadãos de Tinkletown.
A princípio, a vontade da cidade era erguer um monumento em reconhecimento ao seu papel na captura da gangue de ladrões de cavalos do Condado de Bramble, mas um comitê de cinco membros, econômico e atencioso, substituiu-o por um distintivo de ouro sofisticado com inscrições adequadas em ambos os lados, exaltando-o aos céus "muito antes de ele mesmo ir para lá" (para citar o Tio Gideon Luce, cujo dom de percepção era um profeta teimoso quando se tratava de escolher o local do paraíso do Sr. Crow). Por meia hora inteira, o marechal de Tinkletown esteve parado entre as árvores, observando a escola no sopé da encosta. Se suas bochechas congeladas e olhos lacrimejantes ansiavam pelo calor que impelia as espirais de fumaça a subir do topo da chaminé, sua postura não revelava o fato. Ele estava observando e pensando, e quando Anderson pensava em uma coisa, ele nunca pensava em outra ao mesmo tempo.
"Logo será hora do recreio", refletiu ele. "Então, descerei até lá e fingirei fazer uma visita social à professora. Puxa vida, acredito que é ela mesma! Vai exigir um trabalho dos diabos descobrir a verdade sobre ela, mas acho que dou conta. A única coisa contra a qual preciso me prevenir é deixar que qualquer outra pessoa saiba do mistério que a cerca. Puxa! Isso vai surpreender algumas pessoas por aqui, especialmente Rosalie. E talvez o administrador municipal não lamente ter dado a escola este ano a uma moça estranha em vez de a Jane Rankin ou Effie Dickens! O congressista Ritchey não tinha o direito de enfiar o nariz em nossos assuntos de qualquer maneira, não importa se esta professora é amiga da família dele. Ele tem algum tipo de influência sobre esses administradores — puxa vida, eu gostaria de saber o que é. Ele pode simplesmente tê-los na palma da mão e fazê-los nomear quem ele quiser. Deve ser política. Ali, é o recreio! Vou simplesmente sair e fazer uma visitinha à escola."
Dentro de um bolso espaçoso e oficial do casaco do Sr. Crow repousava uma carta de um escritório de advocacia de Chicago. Perguntava se, nos últimos dois anos, uma jovem havia se candidatado a uma vaga de professora nas escolas municipais de Tinkletown. Uma descrição acompanhava a consulta, mas admitia-se que ela poderia ter se candidatado sob um nome que não era o seu, que era Marion Lovering. Em explicação, a carta dizia que ela havia deixado sua casa em Chicago sem o consentimento de sua tia, imbuída da ideia de que preferia sustentar-se a depender da caridade daquela parente digna, embora rica. A tia havia falecido recentemente, e os advogados do espólio estavam tentando obter provas sobre as ações e o paradeiro da Srta. Lovering desde sua partida de Chicago.
A jovem frequentemente dizia que se tornaria professora, preceptora, governanta ou acompanhante, e sabia-se que ela havia se dirigido àquela parte do mundo presidida por Anderson Crow — embora os distintos advogados não tenham usado essas palavras. Uma recompensa de quinhentos dólares por informações positivas sobre a "vida da moça" enquanto estivesse "naquela ou em qualquer outra comunidade" foi prometida.
A nomeação da Srta. Banks veio por intermédio do congressista do distrito, em cuja casa ela havia trabalhado como governanta por um período. Além disso, ela correspondia à descrição por ser jovem, bonita e refinada. Anderson Crow sentiu que estava no caminho certo; ele estava agora envolvido em um caso de investigação tão bom quanto qualquer outro que já tivesse lhe cabido, e não iria estragá-lo com pressa e excesso de confiança.
Por que Anderson Crow deveria "seguir" a escola em vez do lugar onde a professora morava temporariamente, ninguém poderia ter sabido além dele mesmo — e é duvidoso que ele soubesse. Ele decidiu não responder à carta de Chicago até que estivesse pronto para apresentar a moça e a prova desejada.
"Eu seria um tolo de marca maior se lhes desse minhas suspeitas e depois deixasse que me enganassem tirando a recompensa", refletiu ele astutamente. "Não se pode confiar naqueles advogados de Chicago nem um centímetro. Droga, nunca vou esquecer aquele sujeito que tirou minha carteira no Central Park naquela época. Ele me disse categoricamente que era um advogado de Chicago e tinha um escritório no prédio da A.C.M. E a ideia de ele me dizer que queria ver se minha carteira tinha um couro melhor que o dele!"
O fato de as crianças da escola, grandes e pequenas, amarem a Srta. Banks não exercia nenhuma influência sobre seus anciãos do sexo feminino. Elas torciam o nariz de Tinkletown e desprezavam-na porque ela era uma "criatura vaidosa", que pensava mais em "atrair os homens do que em qualquer outra coisa na terra". E tudo isso apesar do fato de ela ser amiga íntima da deusa da cidade, Rosalie Gray.
Todos na escola nº 5 com mais de sete anos estavam profunda e ciumentamente apaixonados pela Srta. Banks. Muitas bolas de neve congeladas fizeram seu trabalho mortal a partir de emboscadas por causa desse ciúme impotente.
Mas a rivalidade mais alegre era a que se desenvolveu entre Ed Higgins, o dândi de Tinkletown, e 'Rast Little, cujo pai possuía a maior fazenda no Condado de Bramble. Se ela se divertia com os esforços frenéticos de cada pretendente para superar o outro, era diplomática demais para demonstrar sua emoção. Talvez ela estivesse ainda mais entretida pela maneira como a feminilidade de Tinkletown emparelhava seu veneno com a admiração masculina.
"Bom dia, Srta. Banks", foi a saudação de Anderson enquanto ele entrava ruidosamente na sala. Ele esqueceu que já havia dado bom-dia a ela quando ela parou para ver Rosalie a caminho da escola. As crianças interromperam seu jogo ao ar livre e espiaram ansiosamente pelas janelas, conscientes de que a visita daquele dignitário era de suma importância. A Srta. Banks olhou para cima dos papéis que estava corrigindo, o vinco desaparecendo de sua bela testa como se por mágica.
"Bom dia, Sr. Crow. O que está fazendo aqui no campo? Jimmy" — para um menino pequeno — "por favor, feche a porta." Anderson a havia deixado aberta, e era um vento cortante de janeiro que o seguiu para dentro da sala.
"Desculpe-me", murmurou ele. "Parece que não tenho juízo suficiente nem para fechar uma porta. Minha esposa diz... mas você não se importa de ouvir sobre isso, não é? Ah, eu só dei uma passada", respondeu finalmente à pergunta dela. Ele pegou um banco perto do grande fogão e estendeu as mãos diante do calor do ferro. "Olhando um pequeno caso, só isso. Bastante frio, não é?"
"Muito." Ela estava do lado oposto do fogão, intrigada com aquela visita inesperada, olhando para ele com curiosidade indisfarçável.
"Já esteve em Chicago?" perguntou Anderson de repente, esperando pegá-la desprevenida.
"Ah, sim. Eu morei lá", respondeu ela prontamente. Ele mudou as pernas duas vezes e deu um puxão apressado em suas costeletas.
"Foi o que pensei. Por que você não volta para lá?"
"Porque estou dando aulas aqui, Sr. Crow."
"Bem, acho que essa é uma boa desculpa. Pensei que talvez você tivesse uma diferente."
"O que quer dizer?"
"Ah, não sei. Eu só perguntei."
"O senhor é um detetive, não é?" perguntou a Srta. Banks, sorrindo de forma brilhante e compreensiva.
"Ah, de vez em quando faço um pouco de detecção. Viu meu distintivo?"
"Sou suspeita de um crime hediondo?" ela perguntou tão abruptamente que ele ofegou. "O senhor não vai tirar o chapéu, Sr. Crow?" Ele o removeu timidamente.
"Deus, não!" exclamou ele, confuso. "Quero dizer o crime — não o chapéu. Bem, acho que vou indo. A aula vai começar, suponho. Até mais, Srta. Banks." Ele recolocou o chapéu em seu lugar habitual e começou a caminhar em direção à porta, um pouco atordoado e confuso.
"O que é que o senhor deseja descobrir, Sr. Crow?" ela chamou de repente para ele. Ele parou e virou-se tão rapidamente que sua resposta veio como um tiro de arma de fogo.
"Estou à procura de uma garota — e ela será tão rica quanto os Crows se eu apenas conseguir encontrá-la. Não me atrevo a dizer o nome dela agora", continuou ele, refazendo lentamente seus passos, "porque não quero que as pessoas — ou ela, por falar nisso — descubram meu plano. Mas espere só." Ele estava parado muito perto dela agora e olhando-a bem no rosto. "Tem certeza de que não sabe nada sobre ela?"
"Ora, como eu deveria saber? O senhor não me disse nada."
"Você tem roupas muito boas para uma professora comum", disparou ele em um tom agressivo e impertinente, mas a cor quente que subiu rapidamente às bochechas dela forçou-o a recordar suas palavras, pois ele rapidamente as suavizou com: "Ou, pelo menos, é o que todas as mulheres dizem."
"Ah, então alguém tem falado sobre meus assuntos? Algumas de suas excelentes mulheres querem saber mais sobre mim do que..."
"Não se exalte, Srta. Banks", interrompeu ele; "as mulheres não têm nada a ver com isso — quero dizer, não é nada para elas. Eu..."
"Sr. Crow", ela interrompeu, "se há algo que o senhor ou qualquer pessoa em Tinkletown queira saber sobre mim, terá de deduzir por si mesmo. Acredito que seja isso que chamam de... deduzir? E agora adeus, Sr. Crow. O recreio acabou", disse ela incisivamente; e o Sr. Crow saiu arrastando os pés enquanto as crianças entravam galopando.
Naquela noite, Ed Higgins e 'Rast Little vieram visitá-la, mas ela se desculpou por causa de sua correspondência. Em seu pequeno quarto no andar de cima, ela escreveu carta após carta, uma em particular sendo volumosa. A Sra. Holabird, ao passar por sua porta, ouviu-a claramente rir em voz alta. Foi um ponto a ser lembrado depois com não pouca consideração. Mais tarde, ela desceu, agasalhada, para uma caminhada até a agência dos correios. Ed Higgins ainda estava na sala conversando com a família. Ele rapidamente apresentou sua petição para acompanhá-la, e foi concedida de forma distraída. Então, ele subreptícia e triunfalmente olhou pela janela, a cena lá fora agradando-o audivelmente. 'Rast estava parado no portão da frente conversando com Anderson Crow. A Srta. Banks notou, ao passarem pela dupla confusa no portão, que Anderson carregava sua lanterna escura.
"Algum vestígio da herdeira, Sr. Crow?" perguntou ela alegremente.
"Droga", murmurou Anderson, "ela vai entregar todo o jogo!"
"O que é isso?" perguntou 'Rast.
"Nada demais", disse Anderson, reparando o dano. "Ed venceu você no tempo hoje à noite, 'Rast, só isso!"
"Eu poderia tê-la levado para passear hoje à noite se quisesse", mentiu 'Rast prontamente. "Vou levá-la ao concurso de soletração amanhã à noite na escola."
"Ela disse que iria com você?"
"Ainda não. Eu estava justamente indo convidá-la hoje à noite."
"Talvez Ed esteja convidando-a agora."
"Puxa vida, é verdade! Talvez ele esteja", quase chorou 'Rast; e Anderson sentiu pena dele enquanto ele se afastava do portão e de seu guardião apaixonado.
CAPÍTULO XII
O Concurso de Soletração
O jovem Sr. Higgins encontrou sua companheira borbulhando de vivacidade. Seu belo queixo estava erguido e cada palavra trazia a promessa de uma risada. Mais tarde, ele se recordou de um pequeno incidente de sua caminhada pela noite gelada e repetiu-o para Anderson Crow com mais admiração do que parecia necessário. Eles estavam passando pela bomba de água da cidade a caminho dos correios. A rua estava escura e deserta.
"Puxa!" disse Ed, "aposto que a bomba da cidade congelou!"
"Não parece estar muito frio", disse ela alegremente.
"Nossa! Está abaixo de zero! Aposto que 'Rast acha que está muito frio aí perto do seu portão."
"Pobre 'Rast! A mãe dele deveria mantê-lo dentro de casa em noites como esta." Ed riu alto e por muito tempo, e um formigamento de felicidade percorreu seu corpo outrora trêmulo. "Não estou nem um pouco com frio", continuou ela. "Veja — sinta minha mão. Nem estou usando luvas."
Ed Higgins segurou cautelosamente a pequena mão, mas ela foi retirada de imediato. Ele a encontrou quente como torradas. Palavras de amor surgiram em seus lábios humildes; seus joelhos sentiram uma tendência a se abaixar precipitadamente na calçada congelada; ele estava pronto para rastejar aos pés dela — e perguntou-se se eles estariam tão quentes quanto torradas. Mas 'Rast Little apareceu naquele instante e a chance foi perdida.
"Droga!" escapou inconsciente, mas amargamente, dos lábios de Ed.
"Posso ser sua companhia para o concurso de soletração amanhã à noite, Srta. Banks?" irrompeu sem cerimônia dos lábios do recém-chegado.
"Obrigada, 'Rast. Eu estava justamente pensando em como chegaria à escola. O senhor é muito gentil. Iremos no trenó com os Holabirds."
"Droga!" veio quase como um lamento do pobre Ed. Ele poderia ter matado 'Rast pela risada triunfante que se seguiu.
Enquanto isso, Anderson Crow se preparava para rastejar entre os lençóis gelados em casa. A Sra. Crow estava "cuidando" da velha Sra. Luce, que estava doente na casa ao lado.
"Ela é uma garota com um passado", refletiu Anderson. "Ela é um mistério, é o que ela é; mas vou desvendá-la. Ela teve um motivo muito bom para me dispensar hoje. Eu estava chegando perto demais de casa. Ela viu que eu estava prestes a encurralá-la. Puxa vida, espero que ela não suspeite de nada! Ela descobriu que Ed Higgins tem um bom emprego na loja de Lamson, e ela está jogando seu charme para cima dele. Isso mostra que ela prefere morar na cidade do que no campo — então está tudo acabado para o 'Rast. Isso prova que ela é de Chicago ou de algum outro lugar grande. Ed está ganhando oito dólares por semana lá no Lamson. Puxa vida, aquele rapaz está indo bem! Eu costumava pensar que ele não daria em nada. Isso mostra que os melhores de nós são enganados por um sujeito de vez em quando. Amanhã à noite, vou ao concurso de soletração e, quando surgir a chance, vou chegar de fininho perto dela e sussurrar o nome verdadeiro dela no ouvido. Aposto quatro dólares e meio que isso a trará para cá bem rápido. Droga, estes lençóis estão gelados! Está quarenta abaixo de zero bem aqui nesta cama."
Anderson Crow logo dormiu, mas não sonhou com a tragédia que a noite seguinte traria a Tinkletown, nem com o teste que sua proeza teria de suportar.
A noite seguinte e o "concurso de soletração" na escola nº 5 chegaram rapidamente. Estava terrivelmente frio e estrelado. Às oito horas, a escola aquecida estava confortavelmente cheia com os "soletradores" da vizinhança, seus números aumentados por competidores da própria Tinkletown. Na multidão havia homens e mulheres que, vez após vez, haviam vencido grupos inteiros e que estavam ávidos pelo conflito. Eles haviam "estudado" sua soletração durante dias em antecipação a uma dura batalha com as palavras. A Sra. Borum e a Sra. Cartwill, ambas famosas por suas vitórias e pela rivalidade que existia entre elas, foram selecionadas como capitãs dos lados opostos, e a própria Srta. Banks deveria "ditar" as palavras. As capitãs selecionaram suas forças, escolhendo alternadamente da ansiosa multidão de adultos. Não havia crianças ali, pois entendia-se que seriam ditadas palavras difíceis — palavras que as crianças não conseguiriam pronunciar, muito menos soletrar.
A professora estava surpreendentemente bonita naquela noite memorável. Ela estava vestida como nenhuma outra mulher no Condado de Bramble, exceto Rosalie Gray, poderia ter se vestido — simples, elegante, delicadamente. Seu rosto estava corado e ansioso, e a alegria de viver brilhava em cada traço. Ed Higgins e 'Rast Little ficaram sem sentidos, sem forças diante dessa visão de saúde e beleza. Anderson Crow admitiu furtivamente para si mesmo que ela era uma estranha em uma terra estranha; ela não era de Tinkletown ou de qualquer lugar parecido.
Justo quando as capitãs estavam completando suas seleções de soletradores, a porta se abriu e três estranhos entraram na sala de aula, agasalhados e peludos até as pontas do nariz — dois homens e uma mulher. Quando a Srta. Banks correu para cumprimentá-los — ela evidentemente os esperava — a multidão assustada prendeu a respiração e encarou. Para o espanto ainda maior de todos, Rosalie correu para o seu lado e juntou-se às efusivas boas-vindas. Cada palavra de saudação alegre foi ouvida pelos ouvintes maravilhados, e cada palavra dos estranhos era distinta. Certamente os recém-chegados eram amigos de longa data. Quando seus pesados agasalhos foram removidos, o trio destacou-se diante de uma audiência tão curiosa quanto qualquer uma que já tenha ficado hipnotizada. Os homens eram jovens, bem vestidos e bonitos; a mulher era uma beldade do tipo mais elegante. Os melhores soletradores de Tinkletown tremiam de emoção.
"Senhoras e senhores", disse a Srta. Banks, sua voz tremendo de ansiedade, "deixem-me apresentar meus amigos, a Sra. Farnsworth, o Sr. Farnsworth e o Sr. Reddon. Eles vieram de carro para assistir ao concurso de soletração." Ed Higgins e 'Rast Little observaram com o coração apertado que era o Sr. Reddon quem ela conduzia pela mão, e amaldiçoaram-no interiormente pelo olhar que ele lhe lançou — porque ela corou sob o efeito dele.
"Vocês não moram em Boggs City", comentou o Sr. Crow, nomeando-se porta-voz. "Posso deduzir isso, porque vocês estão carregando sacolas e valises."
"O Sr. Crow é um detetive famoso", explicou a Srta. Banks. Anderson tentou assumir uma pose descontraída, mas, ao se inclinar para trás, perdeu a extremidade do banco e caiu estatelado no colo da Sra. Harbaugh. Como a Sra. Harbaugh tinha pouco ou nenhum colo para falar, seu curso descendente foi desviado, mas não detido. Ele aterrissou no chão com um grunhido que rompeu simultaneamente com o guincho da dama; uma fração de segundo depois, um rugido de riso varreu a sala. Passaram-se muitos minutos até que a quietude fosse restaurada e o "concurso" pudesse começar. A Sra. Cartwill escolheu a Sra. Farnsworth, e sua rival selecionou o marido da jovem deslumbrante. O Sr. Reddon anunciou firme e significativamente sua determinação de sentar-se perto da professora "para manter a ordem" e não entrar na disputa de palavras.
Possivelmente foi a presença dos estranhos que desconcertou e tirou o ânimo dos famosos soletradores de ambos os lados, pois não demorou muito para que as fileiras tivessem diminuído quase a nada. Três ou quatro competidores arrogantes permaneceram e valentemente soletraram palavras como "Popocatepetl", "Tschaikowsky", "terpsicóreo", "Yang-tse-Kiang", "Yseult" e dezenas de palavras que mal podiam ser pronunciadas pela própria professora. Mas, finalmente, exatamente quando os observadores sonolentos começavam a cochilar e bocejar com mais força, a Sra. Cartwill permaneceu sozinha e vitoriosa, seu único oponente tendo caído na palavra "sassafrás". Anderson Crow tinha "caído" cedo no concurso ao soletrar "querosene" como "queri-sin". Ed Higgins seguiu com "cerisin", e 'Rast Little, explosivamente, disse "óleo-de-pedra".
Durante o tumulto resultante da dispersão das multidões reunidas, a Srta. Banks dirigiu-se ao lado de 'Rast Little e informou-o de que os Farnsworth iriam levá-la para a casa da Sra. Holabird em seu grande trenó. 'Rast ficou arrasado. Quando ele começou a protestar, alegando ser sua "companhia", o grande Tom Reddon interveio e afastou a Srta. Banks da ira de seu amante.
"Mas sinto muito por ele, Tom", ela protestou arrependida. "Ele me trouxe até aqui — de certa forma."
"Bem, eu a levarei para casa de outra forma", disse o belo Sr. Reddon. Também foi notado que Rosalie Gray tinha muito de confidencial para dizer à Srta. Banks enquanto se separavam para a noite, ela para ir para casa no novo trenó de Blucher Peabody.
'Rast e Ed Higgins quase chegaram às vias de fato junto ao suporte de cavalos, onde este último começou a provocar seu rival desconcertado. Anderson Crow manteve-os separados.
"Eu vou matar aquele grandalhão", rosnou 'Rast. "Ele não tem nada que vir aqui e criar caso entre mim e ela. Pode anotar o que eu digo, vou dar um jeito nele antes que a noite acabe, raio de sorte a dele!"
Pelo menos uma dúzia de homens, incluindo Alf Reesling, ouviu essa ameaça, e nenhum deles a esqueceria tão cedo. Anderson Crow notou que o trenó de passeio da Sra. Holabird partiu sem a Srta. Banks nem 'Rast Little em seu interior espaçoso. A Srta. Banks anunciou que seus três amigos da cidade e ela ficariam para trás para fechar a escola, deixando tudo em ordem. Era sexta-feira à noite, e não haveria aula até a segunda-feira seguinte. O Sr. Crow estava com muito sono para um detetive. Ele roncou durante todo o caminho de volta para casa.
Na manhã seguinte, dois fazendeiros dirigiram loucamente até Tinkletown com a notícia espantosa de que alguém havia sido assassinado na escola nº 5. Ao passar pelo local logo após o amanhecer, notaram sangue na neve à beira da estrada. A porta da sala de aula estava entreaberta e eles entraram. Sangue em grandes quantidades manchava o piso perto do fogão, mas não havia sinal de humanidade, viva ou morta. O lenço da Srta. Banks foi encontrado no chão, encharcado.
Além disso, a professora estava desaparecida. Ela não havia retornado à casa da Sra. Holabird na noite anterior. Para tornar o horror ainda mais terrível, Anderson Crow, apressando-se para a escola, identificou positivamente o sangue como sendo o da Srta. Banks.
CAPÍTULO XIII
Uma Sensação em Tinkletown
As sensações vieram rápida e intensamente em Tinkletown durante as horas seguintes. A investigação provou que 'Rast Little não podia ser encontrado em lugar nenhum. Ele não havia retornado à sua casa após o concurso de soletração, nem tinha sido visto desde então. A Sra. Holabird passou por ele na estrada a caminho de casa no "trenó". Em resposta à sua ordem para "subir", ele disse de forma carrancuda que ia para casa a pé por um "atalho" através da floresta. Um fazendeiro tinha visto o elegante trenó Farnsworth dirigindo para o norte furiosamente às onze e meia, os ocupantes encolhidos em um grupo como se para se proteger do ar cortante. A testemunha não conseguiu dizer "quem era quem" no trenó, mas acrescentou interesse à situação ao afirmar solenemente que uma das pessoas no banco de trás estava "mais agasalhada" que as outras e, evidentemente, não conseguia sentar-se ereta.
De acordo com seu relato, a figura estava deitada sobre o outro ocupante do assento. Ele também estava convicto de que havia três figuras no banco da frente! Quem era a pessoa extra? Era a pergunta que passava pela mente dos ouvintes. Um garotinho chegou à escola às nove horas da manhã com o chapéu-coco novo de 'Rast Little. Ele o tinha pegado na beira da estrada, não muito longe da escola e na direção tomada pelo grupo Farnsworth.
Anderson deu ordens para que nenhuma palavra da catástrofe fosse levada a Rosalie, que estava relatada como estando doente com febre na manhã seguinte ao concurso de soletração. Ela estava com tosse, e o médico dissera que nada deveria ser dito ou feito para excitá-la.
A multidão na escola aumentou à medida que a manhã passava. Todos falavam em sussurros; todos estavam mistificados além da conta. Todos os olhos se voltaram para Anderson Crow, que permanecia à parte, ponderando como nunca havia ponderado antes. Em uma mão, ele segurava o lenço ensanguentado da Srta. Banks e, na outra, um livro didático comum de fisiologia. Seus distintivos e estrelas pareciam deleitar-se com sua própria importância.
"Não o importunem com perguntas", avisou Isaac Porter, dirigindo-se a Alf Reesling, o bêbado da cidade, que acabara de chegar.
"Mas eu tenho algo que quero dizer a ele", insistiu Alf ansiosamente. Dois ou três homens fortes o contiveram.
"Trovão, Alf", sussurrou Elon Jones, "não consegue ver que ele está calculando algo? Você é capaz de tirá-lo completamente do caminho se disser uma palavra a ele."
"Bem, isso é algo que ele deveria saber", quase choramingou Alf, esfregando suas orelhas congeladas.
"Psiu!", murmuraram os espectadores, e o pobre Alf se calou. Ele foi levado sem cerimônia para o fundo à medida que o Sr. Crow se afastava da janela em direção ao grupo.
"Cavalheiros", disse Anderson gravemente, "há algo errado aqui." É pouco provável que isso fosse novidade para a multidão, mas, de comum acordo, eles coletiva e individualmente trocaram olhares de apreciação. "Estive lendo um pouco sobre o corpo humano e provei uma coisa com certeza em minha própria mente."
"Com certeza provou, Anderson", disse Elon Jones. "Está tudo resolvido. Vamos para casa."
"Resolvido nada!", disse o marechal. "Está apenas começando. Eis o que eu deduzo: a Srta. Banks foi vítima de um crime hediondo. Não é este o sangue dela, e ela não usou seu próprio lenço individual para estancá-lo? É sangue vindo direto do coração dela, cavalheiros!"
"Não vejo como..." começou Ed Higgins; mas Anderson o silenciou com um olhar.
"Claro que você não vê, mas veria se fosse um detetive há tanto tempo quanto eu. O que, diabos, você supõe que eu ganhei esses distintivos e essas medalhas? Por não ver como? Não, senhor! Eu ganhei por ver como; é isso!"
"Mas, Andy..."
"Não me chame de 'Andy'", ordenou o Sr. Crow.
"Bem, então, Anderson, eu gostaria de saber como, diabo, ela poderia usar seu próprio lenço se tivesse sido esfaqueada no coração", protestou Ed. Ele estava chorando metade do tempo. Anderson ficou atordoado por um momento.
"Ora... ora... veja bem, Ed Higgins, não tenho tempo para explicar as coisas para um idiota como você. Todos os outros entendem como, não entendem?", e ele se virou para a multidão. Todos disseram que sim. "Bem, isso mostra que tolo você é, Ed. Não me incomode mais. Tenho trabalho a fazer."
"Diga, Anderson", começou Alf Reesling do círculo externo, "tenho algo importante para contar..."
"Quem é esse? Alf Reesling?", gritou Anderson furiosamente.
"Sim; quero vê-lo em particular, Anderson. É importante", implorou Alf.
"Quantas vezes eu tenho que te repreender, Alf Reesling?", explodiu Anderson. "Raios, eu gostaria de saber como um homem pode resolver mistérios se tem que ficar parado metade do tempo ouvindo brigas de família. Diga à sua esposa que eu..."
"Isso não é briga de família. Além disso, eu não tenho esposa. É sobre isto aqui..."
"Já chega, Alf! Nem mais uma palavra de você!", ordenou Anderson severamente.
"Mas, raio de você, Anderson", explodiu Alf, "eu tenho que te contar..."
Mas Anderson ergueu uma mão.
"Não jure na presença dos mortos", disse ele solenemente. "Você está bêbado, Alf; vá para casa!" E Alf, notícias e tudo, foi expulso da escola por um comitê de dez pessoas autoindicadas.
"Agora, vamos procurar o corpo", anunciou Anderson. "Saia da frente, Bud!"
"Não estou pisando nele", protestou Bud Long, de doze anos.
"Bem, você está pisando muito perto dessas manchas de sangue e..."
"Sim, e o sangue não é parte do corpo?", retrucou Isaac Porter com desprezo; ao que Bud desapareceu para o círculo externo.
"Primeiro, vamos olhar o porão", disse o Sr. Crow. "Onde fica o porão?"
"Não existe nenhum", respondeu Elon Jones.
"O quê? Sem porão? Bem, onde, diabos, esconderam o corpo, então?"
"Tem um sótão", arriscou Joe Perkins.
Um grupo de busca liderado por Anderson Crow subiu a escada para o sótão baixo. Nenhum vestígio de corpo foi encontrado, e os buscadores desceram sentindo-se bastante aliviados. Então, sob a direção do Sr. Crow, eles vasculharam as pilhas de lenha, os bosques e os campos por muitos metros em todas as direções. Ao meio-dia, reuniram-se na escola. Alf Reesling estava lá.
"Achou?", disse ele com a voz pastosa, com um olhar astuto. Ele andara bebendo. Anderson sentiu a tentação de espancá-lo, mas, em vez disso, mandou-o para casa com Joe Perkins, recusando-se terminantemente a ouvir o que o bêbado da cidade tinha a dizer.
"Bem, você vai desejar ter me ouvido", soluçou Alf de forma sinistra; e então, como uma provocação final, "eu não te contaria agora nem por dezoito dólares em dinheiro. Você pode ir para o inferno!" Era lesa-majestade, mas a multidão não fez nada além de encarar o ofensor.
Antes de seguir a trilha do trenó grande, Anderson enviou esta mensagem por telegrama aos advogados em Chicago:
"_Encontrei a garota que vocês querem, mas o corpo está perdido. Vocês se contentariam com ela morta em vez de viva?_
"ANDERSON CROW."
Em um trenó grande, o marechal e um sexteto escolhido de homens partiram à uma hora da tarde na estrada pela qual o trenó havia viajado muitas horas antes. Anderson não havia relatado o suposto crime ao xerife em Boggs City e estava trabalhando sozinho no mistério. Ele disse que não queria ninguém da cidade interferindo em seus assuntos.
"Diga, Andy... Anderson", disse Harry Squires, agora editor do Banner, "talvez estejamos caçando o corpo errado e as pessoas erradas."
"O que você quer dizer?"
"Bem, 'Rast Little não está desaparecido? Talvez ele tenha sido morto, hein? E diga, não há chance de que ele tenha cometido o assassinato? Ele não disse que ia matar aquele sujeito da cidade? Bem, supondo que ele tenha feito isso. Estamos no caminho errado, não estamos?"
"Raio de você, Harry, isso não se encaixa nas minhas deduções", lamentou Anderson. "Eu gostaria que você me deixasse em paz. 'Rast pode ter cometido o assassinato, mas é nosso dever encontrar o corpo, não é? Quem quer que tenha sido morto foi levado ontem à noite no trenó. Supondo que fosse o Sr. Reddon! Bem, droga, ele não tem um corpo como qualquer outra pessoa? Nós só precisamos encontrar o corpo de alguém, é isso. Precisamos provar o *corpus delicti*. Dirija, Bill!"
Com uma perseverança que falava bem da resistência do detetive, mas mal de sua inteligência, o trenó seguia sem rumo. Era ridículo pensar em rastrear um trenó em uma estrada bem movimentada, e só quando chegaram ao cruzamento é que Harry Squires sugeriu que fossem feitas perguntas aos fazendeiros da vizinhança. Após esforço diligente, descobriu-se um fazendeiro que disse ter ouvido os guizos do trenó à meia-noite e, olhando pela janela, teve um vislumbre do grupo virando para o sul no cruzamento.
"Exatamente como eu pensei!", exclamou Anderson. "Eles foram para o sul para evitar Boggs City. Rapazes, eles estão com o corpo dela, ou o corpo de 'Rast, ou o corpo daquele outro sujeito com eles, e estão correndo por esta estrada para chegar à ponte grande. Minha ideia é que eles pretendiam jogar o corpo no rio, que não está completamente congelado."
"Caramba! Não esperamos ter que procurar por todo o fundo do rio, esperamos, Anderson?", tremia Isaac Porter, o consertador de bombas.
"Eu não", disse o líder, "mas posso delegar quem eu quiser."
E assim eles correram para a ponte de seis vãos que cruzava o rio carregado de gelo. Enquanto permaneciam em silêncio, maravilhados e tremendo no vão central, olhando para a água negra com sua frota de pedaços de gelo rodopiantes, até o coração de Anderson Crow esfriou e enfraqueceu.
"Rapazes", disse ele, "perdemos o rastro! Nem mesmo um cão de caça poderia segui-los nessa água."
"Cão de caça?", bufou Harry Squires. "Um hipopótamo, você quer dizer."
Eles estavam com fome e frio, e prontos para voltar para casa. Anderson disse que "achava" que entregaria o trabalho ao xerife e seus homens. Claramente, ele estava com muita fome para continuar rastreando. Além disso, por mais de uma hora ele estivera pensando na lareira quente em casa. Bill Rubley estava aplicando o chicote aos cavalos quando um homem a cavalo chegou da extremidade oposta da ponte. Ele viera de longe e com pressa, e reconheceu Anderson Crow.
"Diga, Anderson!", chamou ele, "alguém invadiu a casa de veraneio do Coronel Randall ontem à noite e eles ainda estão lá. Acenderam fogo em todos os fogões e estão fazendo uma festa daquelas. Eles não têm nada que estar lá, porque o lugar está fechado para o inverno. Aleck Burbank foi lá para ordenar que saíssem; um dos sujeitos disse que quebraria a cabeça dele se ele não desse o fora. Acho que é uma gangue!"
Uma entrevista apressada revelou os fatos. Os invasores tinham chegado em um trenó grande muito antes do amanhecer, e... mas isso era o suficiente. Anderson e seus homens voltaram para a caça, ansiosos e certos de sua presa. A escuridão já caíra quando avistaram a propriedade rural do Coronel Randall nas colinas. Havia luzes nas janelas e as pessoas estavam se divertindo dentro de casa; enquanto do lado de fora, a Nêmesis perseguidora e seus homens imaginavam como e onde atacar a fortaleza.
"Vou apenas caminhar até lá e bater na porta", disse Anderson Crow, "fingindo ser um andarilho. Vou pedir algo para comer e um lugar para dormir. Enquanto eu estiver lá na cozinha comendo, vocês podem chegar furtivamente e nos cercar. Então vocês podem fingir que estão procurando por mim porque roubei um galinheiro ou algo assim, e isso os deixará desprevenidos. Uma vez que todos estejamos dentro da casa com essas espingardas, teremos eles onde queremos. Então farei com que produzam o corpo."
"Nós não vamos ganhar nada para comer também?", perguntou Isaac Porter fracamente.
"Os cavalos não comeram nada, Ike", disse Anderson. "Você não é tão bom quanto um cavalo?"
CAPÍTULO XIV
Um Caso de Identidade Trocada
O detetive Crow achou pouca dificuldade em ganhar admissão na casa de veraneio do Coronel Randall. Ele havia escondido seu distintivo, e era de fato um andarilho de aparência lamentável que pediu um pedaço de comida na porta da cozinha.
Três ou quatro jovens estavam ocupadas com pratos de servir neste departamento da casa, e alguns jovens de boa aparência estavam observando e incomodando-as com atenções. Na parte da frente da casa, vinte pessoas riam e se divertiam.
"Caramba!", disse o novo andarilho, torcendo as costeletas do queixo, "quantos de vocês existem?"
"Oh, há muitos mais em casa como nós", cantarolou uma das jovens alegremente. "Você chegou na hora certa, seu pobrezinho, para comer um pouco do bolo da noiva."
"Acho que estou na casa errada", murmurou Anderson confuso. "É um casamento?"
"Não; mas haverá um antes de muitos dias. É apenas uma reunião. Como eu gostaria que Rosalie Gray estivesse aqui!", gritou outra garota.
Nesse momento, houve uma batida na porta e, um instante depois, Isaac Porter entrou à frente da patrulha.
"Mãos ao alto!", chamou Anderson, dirigindo-se à patrulha, cujos membros pararam em total espanto. Alguns deles gentilmente levantaram as mãos. "O que vocês querem aqui?"
"Nós... nós... estamos procurando um andarilho que disse que roubou um galinheiro", gaguejou Isaac Porter.
"Qual é o significado de tudo isso?", chamou uma voz forte da sala de jantar, e os atônitos habitantes de Tinkletown se viraram para enfrentar o próprio Coronel Randall, o dono da casa.
"Derrubado se eu sei!", murmurou Anderson Crow; e ele dizia a verdade.
"Ora, é Anderson Crow!", gritou uma voz jovem e alegre.
"Santo Josafá!", exclamou o detetive; "é o corpo!"
"A professora!", exclamaram os surpreendidos habitantes de Tinkletown, enquanto com os olhos procediam a revistar a figura à sua frente em busca de manchas de sangue. Mas não tão logo as palavras em coro escaparam de seus lábios, eles perceberam quão miseravelmente comum era sua expressão desajeitada em comparação com a fraseologia impecavelmente profissional de seu líder; e, sobrecarregada de mortificação, a patrulha ansiava por retirá-las; pois o fato de que o termo técnico correto havia sido aplicado por alguém treinado por anos no vernáculo de sua vocação era um consolo pequeno para essas almas sensíveis, agora consumidas pela inveja.
Enquanto isso, a presa, se nos permitem designá-la assim, estava diante deles tão linda quanto uma imagem. Ao seu lado estava Tom Reddon, e uma dúzia de convidados da casa caíram atrás deles.
"Rosalie contou a vocês?", exigiu a Srta. Banks. "Que coisa má! Ela disse que não contaria."
"Ro... Rosalie!", ofegou Anderson; "contar-me o quê?", nervosamente.
"Que eu estava... estava vindo para cá com Tom. Ela não contou?"
"Eu diria que não. Se ela tivesse me contado, você não supõe que eu teria dirigido até aqui com este clima por nada, supõe? Trovão! Ela sabia sobre isso?"
"Certamente, Sr. Crow. Ela ajudou com os planos."
"Bem, bom Deus todo-poderoso! E nós estávamos escondendo dela a notícia terrível por medo de que lhe causasse um retrocesso."
"Notícia terrível! O que você quer dizer? Oh, você me assusta terrivelmente!"
"Raio! Não acredito que Rosalie estivesse doente", continuou Anderson, ignorando completamente a impaciência de seus ouvintes; "ela só queria evitar responder perguntas. Ela simplesmente deixou todo mundo acreditar que você tinha sido massacrada, e nunca abriu a boca."
"Massacrada!", gritaram meia dúzia de pessoas.
"Claro! Vocês não ouviram sobre o assassinato?"
"Assassinato?", apreensivamente dos excitados nova-iorquinos.
"Sim... a professora da escola nº 5 foi brutalmente massacrada na... na... noite passada... por..."
"Vá devagar, Anderson! É melhor segurar seus cavalos!", advertiu Harry Squires. "Não se esqueça de que o corpo está vivo e..." e parando bruscamente, na esperança de que seu deslize pudesse escapar à atenção da professora, ele substituiu confusamente, "e aqui."
O queixo de Anderson caiu, mas o movimento foi mal perceptível, o desconforto temporário, pois para a mente analítica do grande detetive, o fato de que um assassinato havia sido cometido estava plenamente estabelecido pela descoberta do sangue. Que um corpo era obviamente necessário para a continuação de investigações futuras, ele reconhecia francamente para si mesmo; e nem por um instante qualquer suposição ou explicação que não fosse o assassinato seria tolerada. E foi com convicção inabalável que ele declarou:
"Bem, alguém foi morto, não foi? Isso é tão claro quanto o nariz na sua cara. Não me contradiga, Harry Squires. Acho que Anderson Crow conhece sangue quando vê."
"Você quer me dizer que esteve nos rastreando o dia todo na crença de que um de nós tinha matado alguém?", exigiu Tom Reddon.
Harry Squires explicou a situação, Anderson estando muito longe para intervir. Pode ser interessante dizer que o detetive de Tinkletown era a sensação do momento. A multidão, alegre mais uma vez, o elogiou até os céus pela maneira como os supostos culpados haviam sido rastreados, e a pompa do marechal cresceu quase até o ponto de estourar.
"Mas e quanto àquele sangue?", ele exigiu.
"Sim", disse Harry Squires com um sorriso astuto, "foi positivamente identificado como sendo seu, Srta. Banks."
"Bem, é a primeira vez que fui enganado", confessou Anderson com desenvoltura. "Terei que admitir. O sangue realmente pertencia a 'Rast Little. Rapazes, os charutos são por minha conta."
"Não, são por minha conta", exclamou Tom Reddon, produzindo uma caixa de Perfectos.
"Mas, Srta. Banks, você é procurada em Chicago", insistiu Anderson. Reddon o interrompeu.
"Correto, meu caro Sherlock, e eu vou levá-la para lá assim que puder. Foi por isso que vim para o Leste."
"Não... quer dizer, você não era a Srta. Lovering?", murmurou Anderson Crow.
"Bom Deus, não!", gritou a Srta. Banks. "Quem é ela... uma ladra de lojas?"
"Vou lhe contar a história, Sr. Crow, se vier comigo", disse o Sr. Farnsworth, aproximando-se com uma piscadela.
Na biblioteca, ele contou à patrulha de Tinkletown que Tom Reddon havia conhecido a Srta. Banks enquanto ela estava na escola em Nova York. Ele era filho de um milionário de Chicago e ela era filha de pessoas ricas de Nova York. Sua mãe estava ansiosa para que os jovens se casassem, mas a garota, na época, imaginava estar apaixonada por outro homem. Num acesso de despeito, ela deixou a escola e partiu para ganhar sua própria vida. Um ano de dificuldades como governanta na família do congressista Ritchey e a subsequente desilusão como professora rural trouxeram-na a si mesma e ela percebeu que se importava com Tom Reddon, afinal. Ela e a Srta. Gray prepararam juntas a carta que dizia a Reddon onde ela poderia ser encontrada, e aquele jovem ansioso fez o resto. Ele esperava há meses por apenas uma mensagem dela. Na noite do concurso de soletração, ele a convenceu a vir à casa do Coronel Randall, e agora todo o grupo, incluindo a Srta. Banks, partiria no dia seguinte para Nova York. O casamento aconteceria em poucas semanas.
"Aceitarei sua explicação", disse o Sr. Crow calmamente enquanto pegava um punhado de charutos. "Bem, acho que vou começar a voltar. Está ficando um pouco tarde."
Havia um telegrama na cocheira para ele quando chegou àquele refúgio de calor e descanso em Tinkletown por volta do amanhecer do dia seguinte. Era de Chicago e marcado "Cobrança a cobrar".
"A que moça e a que corpo", dizia, "você se refere? A Srta. Lovering está morta há dois anos, e estamos liquidando o espólio em nome dos outros herdeiros. Estávamos tentando estabelecer seu local de residência. Não se importe com o corpo que você perdeu."
* * * * *
"Caramba", disse Anderson, rindo alto, "essa foi uma piada muito boa sobre o 'Rast, não foi?"
Os cavalariços ficaram em volta e olharam para ele com os queixos caídos, impotentes. O ar parecia carregado de uma incerteza sombria que ainda não tinha conseguido penetrar na natureza do Marechal Crow.
"É dela?", perguntou finalmente Ike Smith com a voz rouca, os lábios tremendo.
"De qual dela?"
"Rosalie."
"Trovão, não! É dos meus advogados em Chicago."
"Você não--você não ouviu falar disso?", gemeu Ike pela metade, afastando-se como se esperasse algo calamitoso.
"O que diabos vocês estão tentando dizer?", exigiu Anderson. O restante de sua tropa abandonou o fogão em brasa e se aproximou com a sensação instintiva de que algo terrível havia acontecido.
"Ro--Rosalie está desaparecida desde o início da noite passada. Ela foi agarrada por um sujeito perto da casa da Sra. Luce, jogada dentro de uma carroça grande e levada às pressas para fora da cidade antes que Ros Crow pudesse soltar um grito. Roubaram ela na cara dura--cuidado! Peguem ele, Joe!"
Anderson caiu mole nos braços de um cavalariço.
CAPÍTULO XV
Rosalie Desaparece
Coisas aconteceram em Tinkletown naquela noite. Alf Reesling finalmente encontrou alguém que ouvisse sua história. Ele contou ao pastor e o pastor alarmou a cidade. Para ser breve, Alf admitiu que 'Rast Little estava em sua casa nos arredores da vila, de cama com um braço quebrado e um corte profundo no topo da cabeça.
"Ele veio rastejando até minha casa por volta das seis horas da manhã", explicou Alf, "e eu acolhi o pobre coitado. Era isso que eu queria dizer a Anderson, mas o velho teimoso não quis me ouvir. Parece que 'Rast ficou esperando perto da escola na noite passada para dar um jeito naquele sujeito da cidade. A Srta. Banks e seus três amigos ficaram sentados ao redor do fogão na escola por cerca de uma hora depois que a multidão saiu, e 'Rast ficou com tanto frio que quase morreu ali no galpão de madeira.
"Logo todos saíram, e 'Rast atravessou o terreno para entrar na casa pelo fogo. Ele estava com tanto frio que não sentia vontade de bater em ninguém. Quando eles não estavam olhando, ele entrou sorrateiramente. Bem na hora em que estava se preparando para abraçar o fogão, ouviu a Srta. Banks e um dos homens voltando. Ele subiu a escada para o sótão bem a tempo. Eles entraram e o sujeito acendeu uma lamparina. 'Rast podia ouvi-los conversando. Ela disse adeus à escola para sempre, e o sujeito a beijou algumas vezes. 'Rast quase jurou em voz alta com aquilo. Depois ela disse que deixaria um bilhete na sua mesa para os curadores, renunciando ao seu cargo, ou seja lá como ela chamava. Ele a ouviu ler o bilhete para o homem, e dizia algo sobre ir embora inesperadamente para se casar. 'Rast diz que se Anderson tivesse olhado na mesa, teria encontrado o bilhete.
"Então ela empacotou alguns livros e ela e o sujeito saíram. 'Rast ficou paralisado. Ele ouviu os guizos do trenó tocarem e então ele voltou a si. Ele começou a descer a escada tão rápido que perdeu o apoio e foi direto ao chão. Caramba, se ele não caiu de cabeça também. Ele não sabe quanto tempo ficou lá, mas finalmente foi ressuscitado o suficiente para rastejar até o fogão. Seu braço estava quebrado e ele estava sangrando como um porco abatido. A Srta. Banks tinha deixado seu lenço na mesa, e ele diz que tentou enfaixar a cabeça com ele, mas era infernalmente pequeno. De alguma forma ele saiu e vagou por muito tempo quase louco, finalmente parando na minha casa, quase congelado até a morte e tão fraco que não conseguia mais andar. Ele tinha perdido seu chapéu, seus protetores de orelha e o rumo, tudo ao mesmo tempo. Se Anderson tivesse me deixado falar esta manhã, ele teria sabido que não houve assassinato. Foi apenas um encontro."
Horas se passaram antes que Anderson voltasse a ser ele mesmo e fosse capaz de compreender os detalhes da história que envolvia o desaparecimento de sua protegida. Filtrou-se lentamente em sua mente, enquanto ele se sentava com os olhos arregalados e entorpecido diante do fogo da cozinha, que aquele fora o meio que seu povo misterioso usara para removê-la de sua custódia. Os vinte anos haviam expirado, e eles tinham vindo buscar o que era deles. Havia tristeza na casa de Anderson Crow--tristeza tão densa que a morte pareceria brilhante em comparação. A Sra. Crow estava prostrada, Anderson em um estado de colapso mental e físico, as crianças histéricas.
Toda Tinkletown permaneceu por perto e serviu silenciosamente à miséria dos enlutados, mas não fez esforço para seguir ou frustrar os sequestradores. A cidade parecia tão impotente quanto o marechal, não por vontade ou conhecimento próprio, mas porque o conhecia há tanto tempo como líder que ninguém possuía a temeridade de ocupar seu lugar, mesmo em uma hora de emergência.
Um estado de paralisia sombria caiu sobre os cidadãos, grandes e pequenos. Era como se uma paralisia universal tivesse sido ordenada para apertar os membros e os cérebros de Tinkletown até que chegasse a hora da reabilitação do próprio Anderson Crow. Ninguém sugeriu um movimento em qualquer direção--na verdade, ninguém sentia vontade de se mover de forma alguma. Tudo permaneceu imóvel enquanto Anderson lentamente se recuperava; tudo esperava silenciosamente que sua própria condição comatosa fosse dissipada pelo homem que fora atingido com mais força.
Não foi até o final da tarde que Blucher Peabody, o farmacêutico, acordou de sua letargia e se moveu como se pretendesse tomar a iniciativa. "Blootch" era o admirador mais persistente de Rosalie. Ele herdara a boticaria e loja de variedades de seu pai, e era considerado um dos melhores partidos da cidade. Ele se aproximou da multidão meio congelada que se aglomerava perto do portão da frente da velha Sra. Luce. Nessa multidão estavam alguns dos homens proeminentes da cidade, jovens e velhos; eles deixavam seus locais de trabalho a cada meia hora mais ou menos e vagavam sem rumo até o agora histórico local, como se atraídos por um ímã. Por que exatamente eles se reuniam ali, ninguém conseguia explicar e ninguém tentava fazê-lo. Presumivelmente, era porque toda a cidade centrava sua mente em um dos dois lugares--o local onde Rosalie foi agarrada ou a casa de Anderson Crow. Quando não estavam no portão da Sra. Luce, estavam caminhando pelo jardim da frente de Anderson e entrando em sua casa.
"Diga", disse "Blootch" tão alto que a multidão sentiu vontade de protestar contra ele, "qual é o uso de tudo isso?"
Ninguém respondeu. Ninguém estava à altura disso com um aviso tão curto.
"Temos que fazer algo além de ficar por aí sussurrando", disse ele. "Temos que encontrar Rosalie Gray."
"Mas pelo amor de Deus!", exclamou Isaac Porter, "eles têm quase um dia de vantagem sobre nós."
"Bem, isso não importa. Anderson faria o mesmo por nós. Vamos nos mexer."
"Mas para onde, pelo trovão, vamos caçar?", murmurou George Ray.
"Até o fim do mundo", anunciou Blootch, estufando o peito e batendo nele violentamente, um procedimento estranhamente pessoal que passou despercebido. Ele chegara à conclusão de que sua chance de ser um herói estava à mão e não deveria ser desprezada. Aqui estava a oportunidade de superar todos os seus competidores na corrida pelo favor de Rosalie. Pode-se confessar que, com todas as suas boas intenções, seus planos eram irremediavelmente vagos. O grupo se animou um pouco ao som de suas palavras heroicas.
"Mas a maldita coisa é redonda", foi a única coisa que Ed Higgins conseguiu dizer. Ed, tão inconstante quanto o vento, estava mais uma vez profundamente apaixonado por Rosalie, tendo mudado da Srta. Banks imediatamente após a visita ao Coronel Randall.
"Ah, vá para a Guiné!", foi a resposta insultuosa de Blootch. Nada poderia ser mais depreciativo do que isso, mas Ed não conseguiu retaliar. "Vamos nomear um comitê para esperar por Anderson e descobrir o que ele acha que deveríamos fazer."
"Mas Anderson não está...", começou alguém. Blootch calmamente o silenciou.
"O que ele quer é encorajamento, e não um monte de sopa, caldo e limonada. Ele não está doente. Ele é tão capaz fisicamente quanto eu. Toda mulher na cidade levou sopa para ele hoje ao meio-dia. Ele precisa de um bom gole de uísque e um comitê para animá-lo. Levei uma garrafa para 'Rast Little ontem à noite e ele agiu como outro homem."
Finalmente, decidiu-se que um comitê deveria primeiro esperar por Anderson, verificando seus desejos no caso, e então prosseguir para chegar ao fundo do mistério. Ao formar este comitê, os homens sábios da cidade ignoraram o Sr. Peabody, e ele poderia ter sido deixado de fora completamente se não tivesse se intrometido e se nomeado presidente.
Os cinco homens bons e verdadeiros desceram sobre o marechal no final da tarde, meio temerosos do resultado, mas resolutos. Eles o encontraram emergindo lentamente de seu período de lassidão. Ele os cumprimentou com um aceno solene de cabeça. Desde o início da manhã, ele estava consciente de um longo fluxo de simpatizantes passando pela casa, mas só agora ele se sentia capaz da tarefa de reconhecer qualquer um deles.
Seu filho Roscoe tinha acabado de terminar de lhe contar a história do sequestro. Os tons de espanto e os olhos avermelhados de Roscoe tinham grande peso, e pela décima vez naquele dia ele fez suas irmãs chorarem. Com cada repetição sucessiva, os detalhes cresciam até que, finalmente, restava pouco do evento original, um fato que sua própria família ignorava adequadamente.
"Cavalheiros", disse Anderson, como se saísse de repente de um transe, "isso não foi obra de bandidos de Tinkletown." Ao que o comitê sentiu-se muito aliviado. O marechal exibiu sinais de uma energia renovada que augurava bem para o empreendimento. Depois que o presidente anunciou de forma impressionante que algo devia ser feito, e que ele estava disposto a liderar seu pequeno bando até as portas da morte--e além, se necessário--o Sr. Crow frustrou pateticamente todas as suas esperanças dizendo que há muito esperava tal calamidade, e que nada poderia ser feito.
"Eles escolheram a própria noite em que eu não estava aqui para protegê-la", lamentou ele. "Mostra que eles estiveram me vigiando o tempo todo. O trabalho foi feito por pessoas que estavam a serviço de sua família, e ela foi levada secretamente para me impedir de descobrir quem e o que eram seus pais. Não veem? Sua mãe--ou pai, para esse efeito--não podia se dar ao luxo de vir a público e dizer que queria seu filho depois de todos esses anos. O único jeito era levá-la embora sem se revelar. Tem sido o plano o tempo todo. Não há uso em caçá-la, cavalheiros. Ela está em Nova York a esta altura, e talvez esteja pronta para uma viagem à Europa."
"Mas eu deveria pensar que ela te telegrafaria", disse Blootch.
"Telegrafar sua avó! Você supõe que eles a teriam roubado se pretendessem deixá-la telegrafar para alguém? Nem um pouco. Eles estão a levando embora até que seu espólio seja resolvido. Depois de um tempo tudo aparecerá, e vocês verão se eu não estou certo. Mas ela se foi. Eles a tiraram de mim e--e temos que aguentar, é só isso. Eu--eu--não suporto pensar nisso. Isso partiu meu coração quase--quase completamente. Não se importem se--eu--chorar, rapazes. Vocês também chorariam se fossem eu."
Como o comitê partiu logo depois sem qualquer plano de ação surgindo da entrevista com o marechal deprimido, pode ser bom familiarizar o leitor com a história do sequestro, conforme contada por Roscoe Crow e seu amigo íntimo, Bud Long, completamente expurgada.
De acordo com as instruções, ninguém na família Crow mencionou o estranho desaparecimento de Elsie Banks para Rosalie. Nem lhe foi dito sobre a perseguição pelo marechal e sua tropa. A garota, longe de estar aflita com uma febre, mantinha-se agora em seu quarto por causa da tristeza pela partida de sua amiga e companheira. Ela chorou durante toda aquela noite e no dia seguinte, sofrendo intensamente com sua perda. Rosalie não sabia que a professora ia deixar Tinkletown furtivamente até depois do concurso de soletração. O anúncio tímido e corado veio como um choque, mas ela era leal à sua amiga, e nem uma palavra de exposição escapou de seus lábios. É claro, ela não sabia nada dos desenvolvimentos sensacionais que se seguiram à fuga desnecessária de Elsie Banks.
Pouco depois que os pratos do jantar foram limpos, Rosalie desceu as escadas e anunciou que ia ler para a velha Sra. Luce, que estava acamada. A ausência de seu guardião não lhe foi explicada, e ela não suspeitou nem um pouco que ele passara o dia todo em uma missão tola. Roscoe e Bud a acompanharam até a porta da frente da Sra. Luce, fortemente ligados por promessas de manter suas línguas sobre a Srta. Banks.
"Nós a deixamos lá na velha Sra. Luce", relatou Roscoe, "e depois fomos até o lago Robertson para patinar. Ela nos disse para passar lá para buscá-la por volta das nove horas, não foi, Bud? Ou eram oito?" Ele viu a necessidade de precisão.
"Dez", corrigiu Bud deliberadamente.
"Bem, papai, nós passamos para buscá-la, e--e--"
"Pare de choramingar, Roscoe", ordenou Anderson tão duramente quanto pôde.
"E a pegamos", concluiu Roscoe. "Ela colocou seu xale e luvas e disse que correria uma corrida conosco até em casa. Todos nós nos preparamos para começar bem na frente do portão da velha Sra. Luce. Bud parou e disse: 'Lá vem Tony Brink'. Todos nós olhamos em volta, e com certeza, um sujeito robusto estava vindo em nossa direção. Parecia o Tony, mas quando ele chegou até nós vi que não era ele. Ele nos perguntou se poderíamos dizer onde o Sr. Crow morava--"
"Ele devia ser um estranho", deduziu Anderson mecanicamente.
"--e Bud disse que você morava logo adiante, onde estavam os postes de luz. Bem nessa hora, um grande trenó saiu da pista atrás da casa da Sra. Luce e dirigiu até onde estávamos parados. Bud estava parado exatamente assim--eu aqui e Rosalie um pouco de lado. Supondo que esta cadeira fosse ela e--"
"Sim--sim, continue", de Anderson.
"O trenó parou, e havia dois sujeitos nele. Havia dois assentos também."
"Frente e trás?"
"Sim, senhor."
"Entendo. Era de assento duplo", deduziu novamente o marechal.
"E então, por goma, antes que pudéssemos dizer Jack Robinson, um dos sujeitos pulou e agarrou Rosalie. O sujeito no chão, ele veio e me deu um golpe na orelha. Eu caí, e Bud também--"
"Ele me bateu no topo da cabeça", corrigiu Bud, azedo.
"Eu ouvi Rosalie começar a gritar, mas no minuto seguinte eles tinham um cobertor sobre sua cabeça e ela foi jogada no banco de trás. Tudo acabou em um segundo. Eu me levantei, mas antes que pudesse correr, um sujeito gritou: 'Peguem ele!'. E outro sujeito pegou. 'Não deixe eles escaparem', disse o motorista em tons baixos e sibilantes--"
"Vilões comuns", jurou Anderson.
"Sim, senhor. 'Não deixe eles escaparem ou vão acordar a cidade.' 'O que faremos com eles?', perguntou o sujeito que nos segurava a ambos. 'Matá-los?' Caramba, eu estava com medo. Nenhum de nós podia gritar, porque ele nos segurava pelo pescoço, e ele era poderosamente forte. 'Jogue-os aqui e eu cuido deles', disse o motorista. A próxima coisa que soubemos é que estávamos na frente do trenó, e toda a tralha saiu como um fugitivo. Eles disseram que nos matariam se fizéssemos barulho, e não fizemos. Eu queria ter tido meu rifle, caramba! Eu teria mostrado a eles."
"Eles dirigiram como um trovão em direção a Boggs City por cerca de dois milhas", disse Bud, que estivera em silêncio o máximo que a natureza humana permitia. "Então eles pararam e nos jogaram na estrada. 'Vão para casa, seus demônios, e não contem a ninguém sobre nós ou voltarei aqui algum dia e darei um chute nas suas costelas'."
"Costelas?", murmurou Anderson.
"Isso é abreviação para costelas", explicou Bud com arrogância.
"Bem, por que ele não poderia ter dito costelas e ter acabado com isso?", reclamou Anderson.
"Então eles chicotearam e viraram para o oeste na estrada", retomou Bud. "Corremos todo o caminho para casa e contamos ao Sr. Lamson, e ele--"
"Onde estava Rosalie durante todo esse tempo?", perguntou Anderson.
"Deitada no banco de trás coberta com um cobertor, exatamente como se estivesse morta. Eu os ouvi dizer algo sobre clorofórmio nela. Com que cheiro é o clorofórmio, Sr. Crow?"
"Igual a qualquer remédio. Tem drogas nele. Eles usam para arrancar dentes. Bem, o que aconteceu depois?"
"Bem", interpôs Roscoe, "o Sr. Lamson deu o alarme, e quase todo mundo na cidade saiu da cama. Eles telegrafaram para Boggs City e por toda parte, mas não parecia adiantar nada. Aqueles cavalos iam mais rápido que os telégrafos."
"Vocês já viram aqueles sujeitos antes?"
"Não, senhor; mas acho que os reconheceria com as máscaras tiradas."
"Eles estavam mascarados?"
"Seus rostos estavam."
"Oh, minha pobre pequena Rosalie!", soluçou o velho Anderson, desesperado.
CAPÍTULO XVI
A Casa Assombrada
Dias se passaram sem palavra ou sinal da garota desaparecida. O marechal assombrava os correios e a estação ferroviária, esperando com todo o seu pobre coração velho que chegasse alguma notícia dela; mas a carta não estava lá, nem havia um telegrama na estação quando ele caminhava até aquele lugar. Os funcionários do condado em Boggs City desceram e começaram uma investigação superficial, mas as opiniões enfáticas, embora tristes, de Anderson os deixaram bastante confusos, e eles desistiram da busca. Não havia nada a fazer senão sentar e esperar.
Naqueles três dias, Anderson Crow ficou mais grisalho e mais velho, embora mantivesse uma exibição esplêndida de resignação. Ele havia feito uma oferta superficial de recompensa por Rosalie, morta ou viva, mas sabia o tempo todo que seria infrutífera. Mark Riley, o cartazista, colou os avisos de recompensa gritantes tão longe quanto os postes de telégrafo no Condado de Clay. O mundo ficou sabendo que uma recompensa de US$ 1000 seria paga pelo retorno de Rosalie ou por informações que levassem à apreensão e captura de seus sequestradores.
Havia um ponto muito misterioso em conexão com o caso--algo tão estranho que beirava o sobrenatural. Nenhum ser humano no Condado de Bramble, exceto os dois meninos, tinha visto o trenó de assento duplo. Ele tinha desaparecido como se engolido pela própria terra.
"Bem, não adianta chorar sobre o leite derramado", disse Anderson corajosamente. "Ela se foi, e eu só espero que ela não esteja sendo maltratada. Não vejo por que deveriam machucá-la. Ela nunca fez mal a ninguém. Como não, ela deve ter sido levada para um lugar confortável em Nova York, e ouviremos falar dela assim que ela se recuperar do choque. Não há uso em caçá-la, eu sei, mas simplesmente não consigo evitar farejar um pouco. Talvez eu consiga algum rastro dela. Eu daria tudo o que tenho neste mundo para saber que ela está sã e salva, não importa se eu nunca mais a veja."
O olhar faminto em seus olhos se aprofundou, e ninguém troçava com ele como era costume nos dias que se foram.
* * * * *
Não havia muitos vagabundos praticando naquela seção do Estado. Anderson Crow anunciou orgulhosamente que eles evitavam Tinkletown por causa de sua proeza; mas a gentalha vagabunda tinha uma visão totalmente diferente da questão. Eles não infestavam a parte superior do Estado pela razão simples, porém eloquente, de que significava fome para eles. Os fazendeiros obrigavam o viajante cansado a trabalhar o dia todo como um cavalo emprestado por uma única refeição na "segunda mesa". Não existia tal coisa como uma "esmola", como é conhecida no vocabulário do vagabundo. Não é extraordinário, portanto, que os vagabundos achassem a comunidade tão pouco atraente que eles alegremente caminhavam quilômetros para evitá-la. Um vagabundo particularmente bem informado caracterizou uma vez o fazendeiro do interior como sendo tão "pão-duro que ele nunca fazia a barba porque era um desperdício de cabelo".
Não é necessário declarar, perante a atitude tanto do fazendeiro quanto do vagabundo, que o errante equivocado que por ali vagueava era objeto de curiosidade distinta, se não distinta, pelo menos notável. Nas estradas rurais, ele era encarado com uma malevolência que lhe gelava o apetite, não importava há quanto tempo ele o estivesse cultivando em solo árido. Nas ruas de Tinkletown, e até mesmo na sede do condado, ele era um objeto de tal preocupação surpreendente que se afastava furtivamente em pura aflição. Era, de fato, um vagabundo pouco sofisticado aquele que pensava em prosperar no Condado de Bramble, mesmo que por um dia e uma noite. Em frente ao armazém geral e à agência dos correios em Tinkletown, havia um poste sinalizador, no qual Anderson Crow havia pintado estas palavras:
"Proibida a entrada de vagabundos ou gado nestas ruas. Por ordem de A. CROW, Marechal."
O gado ignorava a ordem, mas o vagabundo levava o aviso a sério. Em raras ocasiões, ele pode ter atravessado algumas das casas de Tinkletown, mas se atravessou as ruas, ninguém ficou sabendo. Anderson Crow, solene, porém estudiosamente, interceptava-o nos arredores, e ele tomava outra direção. Duas vezes em sua carreira, ele expulsou vagabundos que haviam assaltado as casas de cidadãos proeminentes em plena luz do dia, mas o que importava isso, desde que os "hoboes" fossem impedidos de profanar a rua principal da cidade? A estrela oficial do Sr. Crow, juntamente com seu distintivo da agência de detetives de Nova Iorque, seu broche dos Filhos da Revolução e sua insígnia do G.A.R., faziam dele uma pessoa a ser temida. Se o tempo ficasse quente demais para paletó e colete, o orgulhoso dignitário prendia os distintivos aos seus suspensórios, e sua presença glorificava os, de outra forma, humildes "suspensórios".
No quarto dia após o rapto, o Marechal Crow foi subitamente despertado de sua letargia pela notícia de que a paz e a segurança da vizinhança estavam sendo perturbadas.
"Ora, o que você diz!" observou ele, abandonando o aperto perpétuo em suas ralas costeletas.
"Sim, senhor", respondeu o pequeno menino excitado, que, com dois companheiros, havia corrido até perder o fôlego por toda a cidade antes de encontrar o oficial na ferraria de Harkin.
"Bem, malditos sejam!" disse o Sr. Crow de forma impressionante.
"Estávamos patinando no pântano quando os ouvimos claramente como o dia", disse o outro menino. "Pode apostar que nunca mais vou chegar perto daquela casa."
"Ora! Bud, não existe essa coisa de fantasmas", disse o Sr. Crow; "são vagabundos."
"Você sabe que aquela casa é assombrada", protestou Bud. "A velha Sra. Rank não foi morta lá pelo genro? Ela não foi cortada em pedaços e enterrada ali mesmo no seu próprio porão?"
"Trovões, garoto, isso foi há trinta anos!"
"Bem, ninguém morou na casa assombrada desde então, morou? O Jim Smith não tentou dormir lá uma vez por uma aposta, e não ouviu ruídos tão terríveis que quase enlouqueceu?" insistiu Bud.
"Eu me lembro que o Jim correu dois quilômetros além de sua própria casa antes de conseguir parar, ele estava com tanta pressa de sair daquele lugar. Mas o Jim não viu nada. Além disso, isso foi há vinte anos. Fantasmas não ficam rondando um lugar quando não há nada para assombrar. O genro dela foi enforcado, e ela não tem mais ninguém para importunar. Eu digo que são vagabundos."
"Bem, nós só pensamos em lhe contar, Sr. Crow", disse o primeiro menino.
Em poucos minutos, soube-se em todo o centro comercial de Tinkletown que vagabundos estavam fazendo da casa assombrada no rio o seu lar, e que Anderson Crow sairia em sua bicicleta para expulsá-los. A casa assombrada ficava a três milhas da cidade e na seção mais desolada das terras baixas. Era acessível apenas através do pântano traiçoeiro de um lado ou por meio do rio do outro. Somente após o assassinato de sua proprietária e construtora, a velha Johanna Rank, surgiu uma explicação para a existência de um lar em uma localidade tão insalubre.
As autoridades federais descobriram que ela e seu genro, Dave Wolfe, estavam à frente de uma grande quadrilha de falsificadores, e que eles trabalhavam lá em cima com segurança por anos, produzindo moedas falsas aos milhares. Uma noite, Dave levantou-se e matou sua sogra, e foi enforcado por seu bom feito antes que pudesse ser punido por seus maus feitos. Por trinta anos, a cabana velha, maltratada pelo tempo e em ruínas no pântano, permaneceu desocupada, exceto por pássaros, lagartos e outros habitantes da solidão — sempre, é claro, incluindo o fantasma da velha Sra. Rank.
Como Dave a cortou em pequenos pedaços e os enterrou no porão, enquanto sua própria filha segurava a lanterna, não estava fora de questão que certos átomos da não lamentada Johanna nunca tenham sido desenterrados pelos investigadores. Acreditava-se geralmente na comunidade que o espírito da Sra. Rank voltava de tempos em tempos para fuçar na sujeira do porão em busca de partes de seu corpo que não haviam sido respeitosamente enterradas no cemitério da aldeia.
Ruídos misteriosos haviam sido ouvidos pelo lugar na hora morta da noite, e luzes fantasmagóricas haviam passado pelas janelas do porão. Toda Tinkletown concordava que o lugar era assombrado e mantinha uma distância muito respeitosa. Os três meninos que despertaram o Marechal Crow de sua prostração tinham ido ao rio para patinar em vez de ir à escola. Eles juraram que o som de vozes abafadas vinha do interior da cabana, perto da qual haviam vagado inadvertidamente. Embora Dave Wolfe estivesse morto há trinta anos, um dos mais jovens dos rapazes estava certo de que reconheceu a voz do fora da lei. E imediatamente o trio fugiu do "local amaldiçoado" e trouxe a notícia horripilante para Anderson Crow. O detetive foi imediatamente chamado para resolver o mistério fantasmagórico.
O Marechal Crow primeiro foi para sua casa e vestiu seu casaco azul, transferindo as estrelas e distintivos para a lapela gordurosa da vestimenta. Ele também pegou sua lanterna escura e a bengala oficial da aldeia, mas por que ele deveria carregar uma bengala em uma expedição de bicicleta, só ele sabia. Seguido por uma horda de meninos pequenos e alguns cidadãos representativos de Tinkletown em bicicletas antiquadas, o Sr. Crow pedalou majestosamente para o sul. Contornando o pântano, o grupo aproximou-se da casa assombrada pelo caminho estreito que corria ao longo da margem do rio. Assim que avistaram a cabana em ruínas, que parecia se esconder cada vez mais nas sombras densas do final da tarde, com toda a timidez do sobrenatural, o marechal ordenou uma parada e anunciou seus planos.
"Vocês, garotos, subam e digam àqueles sujeitos que eu quero vê-los", comandou ele. Os meninos recuaram e prepararam-se para choramingar.
"Eu não quero", protestou Bud.
"Por que você não vai e diz a eles você mesmo, Anderson?" exigiu Isaac Porter, o reparador de bombas.
"Trovões, Ike, quem está comandando isto?" retrucou Anderson Crow. "Eu tenho o direito de delegar qualquer pessoa para fazer qualquer coisa a qualquer momento. Você não supõe que eu saiba como lidar com um trabalho como este? Eu tenho minhas próprias ideias de como emboscar esses patifes, e acho que estou no ramo de detetive há tempo suficiente para saber como lidar com um vagabundo, não estou? Como é? Quem diz que não estou?"
"Ninguém disse nada, Anderson", observou mansamente Jim Borum.
"Bem, eu pensei que alguém disse. E eu não quero ninguém interferindo com um oficial, também. Bud, você e aqueles dois garotos Heffner subam e digam àqueles vadios para descerem aqui bem rápido ou eu subirei lá e verei o que acontece."
"Puxa, Sr. Crow, estou com medo!" choramingou Bud. Os garotos Heffner começaram a correr para casa a toda velocidade.
"Com medo?" bufou Anderson. "E seu bisavô estava na Revolução, também. Raios, se você fosse meu filho, eu lhe daria algo de que ter medo! Agora, Bud, nada pode acontecer com você. Eu não estou aqui?"
"Mas e se eles não quiserem vir quando eu lhes disser?"
"Sim, e supondo que não sejam vagabundos, mas fantasmas?" voluntariou-se o Sr. Porter, afastando-se com sua bicicleta. Já estava bem escuro e ameaçador ali onde a cabana ficava. Como resultado de meia hora de discussão, todo o grupo avançou lentamente em direção à casa, Anderson Crow na liderança, sua lanterna escura em uma mão, sua bengala na outra. No meio do caminho para a casa, ele parou bruscamente e virou-se para Bud.
"Maldito seja, Bud! Eu não acredito que você ouviu qualquer ruído lá dentro! Não há utilidade em continuar com isso, cavalheiros. Os malditos garotos estavam mentindo. Nós poderíamos muito bem ir para casa." E ele teria partido para casa se Isaac Porter não tivesse soltado um gemido terrível e cambaleado para trás contra um caniço do pântano em busca de apoio, seus olhos horrorizados fixos em uma janela na casa de troncos. O caniço foi insuficiente, e Isaac caiu para trás.
Por um minuto inteiro, a companhia encarou estupidamente a pequena janela indistinta, a paralisia atacando todos os sentidos, exceto o da visão. Ao expirar outro minuto, o lugar estava deserto, e Anderson Crow foi o primeiro a alcançar as bicicletas bem longe na margem do rio. Cada rosto estava branco como giz, e cada voz tremia. A dignidade do Sr. Crow afirmou-se justamente quando o valoroso grupo preparava-se para "montar" nas bicicletas em fuga frenética.
"Esperem!" ele arfou. "Eu perdi minha lanterna escura lá embaixo. Volte e pegue-a, Bud."
"Meu Deus! Você já viu algo parecido?" ofegou Jim Borum, tentando montar na bicicleta de um menino de dez anos em vez da sua própria.
"Eu gostaria que alguém me dissesse que não existem essas coisas de fantasmas", balbuciou o Tio Jimmy Borton, que sempre dissera que não existiam. "Solte aí! Ai!" O comando e a exclamação subsequente foram os resultados inevitáveis de sua tentativa malsucedida de montar na mesma bicicleta com Elon Jones.
"O que eu lhe disse, Anderson?" exclamou Isaac Porter. "Eu não disse que eram fantasmas? Vagabundos nada! Um vagabundo não duraria um segundo naquela casa. Ela tem sido assombrada por trinta anos e fica pior o tempo todo. O que vamos fazer a seguir?"
Até mesmo o valoroso Sr. Crow aprovou um retorno imediato a Tinkletown, e o grupo estava tentando desembaraçar sua coleção de bicicletas quando uma interrupção veio de um lugar inesperado — uma voz masculina profunda surgiu do rio coberto de gelo ali perto, quase diretamente abaixo daquela seção da margem em que Anderson e seus amigos estavam reunidos. O resultado foi surpreendente. Cada homem saltou um pé no ar e cada cabelo ficou em pé; as bicicletas tilintaram e chocaram-se, e Ed Higgins, irremediavelmente confuso, começou a correr na direção da casa assombrada.
CAPÍTULO XVII
Wicker Bonner, Harvard
"Olá, aí em cima!" foi o que a voz masculina profunda gritou do rio. Anderson Crow foi o primeiro a distinguir a forma do orador, e não demorou muito para decidir que estava longe de ser fantasmagórica. Com uma palavra de comando, ele tirou suas forças desorganizadas do caos e reuniu-as como se para resistir ao ataque.
"Qual é o seu problema?" ele exigiu, dirigindo-se aos seus homens em um tom alto. "Não fiquem nervosos!"
"Você está falando comigo?" chamou a voz fresca de baixo.
"Quem é você?" exigiu o Sr. Crow em resposta.
"Ninguém em particular. O que está acontecendo aí em cima? Qual é a confusão?"
"Suba e descubra." Então, o Sr. Crow, observando que o homem lá embaixo estava se preparando para obedecer, virou-se e dirigiu-se ao seu esquadrão em tons baixos e sinceros. "Este sujeito merece ser observado. Ele está envolvido nisso de alguma forma. Se não, por que ele está vagando por aqui perto da casa? Vou interrogá-lo."
"Por Deus, ele não é nenhum fantasma!" murmurou Ed Higgins, observando o recém-chegado enquanto ele subia a margem. "Diga, você me viu há um minuto? Se vocês tivessem vindo, eu ia direto procurar naquela casa de cima a baixo. Vocês estavam todos com medo de vir?"
"Ah, você!" disse Anderson Crow com profundo desprezo.
No instante seguinte, um jovem robusto estava diante do marechal, que o observava intensamente, até imperiosamente. O rosto bonito e de traços fortes do recém-chegado estava iluminado por um sorriso de amizade suprema.
"É solitário como o trovão aqui embaixo, não é? Feliz em vê-los, cavalheiros. O que está acontecendo — uma corrida de bicicletas?"
"Não, senhor; temos um pequeno negócio aqui em cima, só isso", respondeu Anderson Crow diplomaticamente. "O que você está fazendo aqui?"
"Patinando. Meu nome é Wicker Bonner, e estou visitando meu tio, o congressista Bonner, do outro lado do rio. Você o conhece, eu suponho. Tenho ficado por aqui durante uma semana de caça, e não tive uma gota de sorte durante todo esse tempo. É terrível! Aha, vejo que você é um oficial, senhor — um detetive, também. Por Deus, será possível que você esteja procurando por alguém? Se estiver, deixe-me participar. Estou morrendo de vontade de sentir emoção."
O rosto do jovem estava ansioso e sua voz soava verdadeira. Além disso, ele era um rapaz alto e atlético, com braços musculosos e costas largas. Ao todo, ele faria um recruta esplêndido, pensou Anderson Crow. Ele estava vestido com calções de veludo cotelê, o casaco grosso abotoado até o pescoço abafado. Um gorro de lã caía sobre suas orelhas e um par de patins balançava em seu braço.
"Sim, senhor; sou um detetive, e estamos aqui fazendo uma pequena investigação. Você é de Chicago, vejo."
"O que o faz pensar assim?"
"Não pode me enganar. Eu sempre sei. Você disse 'I've bean hangin'', em vez de 'I've ben hangin''. Entende? Eles dizem 'bean' em Chicago. Ha! ha! Você não pensou que eu poderia deduzir isso, pensou?"
"Confesso que não", disse o Sr. Bonner com um sorriso seco. "Sou de Boston, no entanto."
"Claro", interpôs Isaac Porter; "é de lá que vêm os feijões, Anderson."
"Bem, isso não vem ao caso", disse o Sr. Crow, mudando apressadamente de assunto. "Estamos perdendo tempo."
"Ficando aqui, você quer dizer?" perguntou Ed Higgins, bastante pronto para partir. Involuntariamente, os olhos do grupo voltaram-se para a casa entre os salgueiros. O estranho viu o olhar conjunto e perguntou. Ao que o Sr. Crow, assistido por sete homens e cinco meninos pequenos, contou ao Sr. Wicker Bonner, ex-aluno de Harvard, o que os trouxera de Tinkletown para a casa assombrada, e o que eles haviam visto em sua chegada. O rosto do jovem Bonner brilhou com a alegria da excitação.
"Ótimo!" ele gritou, fixando seus olhos felizes na coisa odiada entre as árvores. "Vamos vasculhar o lugar. Por Deus, isso é glorioso!"
"Nem pensar!" disse Ed Higgins. "Você não pode me levar para dentro daquela casa. É bem provável que um sujeito nunca saia vivo de lá."
"Bem, homens melhores do que nós já morreram", disse o Sr. Bonner tranquilamente. "Vamos lá; eu entrarei primeiro. É tudo bobagem sobre o lugar ser assombrado. De qualquer modo, fantasmas não ficam brincando a esta hora do dia. Mal está escurecendo."
"Mas, maldito seja", explodiu Anderson Crow, "nós vimos!"
"Eu vi primeiro", disse Isaac Porter orgulhosamente.
"Mas eu ouvi primeiro", piou o jovem Bud.
"Vocês todos beberam cidra forte ou refrigerante ou algo assim", disse o zombador musculoso.
"Agora, veja aqui, você está ficando atrevido, e..." começou o marechal, inflando-se como um pombo.
"Cuidado atrás!" gritou o Sr. Bonner, e Anderson saltou quase fora de seus sapatos, além de rasgar sua camisa nas costas, ele se virou tão de repente.
"Rio Jeemses!" ele arfou.
"Nunca vire as costas para um perigo desconhecido", aconselhou o jovem serenamente. "Esteja pronto para enfrentá-lo."
"Se você estiver virado para o outro lado, pode conseguir um começo mais rápido se quiser correr", sugeriu Jim Borum, preparando-se com uma nova mastigação de tabaco.
"Que horas são?" perguntou Wicker Bonner.
Anderson Crow olhou através das copas das árvores sem folhas em direção ao sol poente; então ele olhou para a sombra de uma muda na margem.
"São cerca de sete minutos depois das cinco — da tarde", disse ele conclusivamente. Bonner foi indelicado o suficiente para puxar seu relógio para verificação.
"Você está um minuto adiantado", observou ele; mas olhou para Anderson com uma nova e respeitosa admiração.
"Ele pode detectar qualquer coisa debaixo do sol", disse Porter com uma risada fraca de sua própria piada.
"Bem, vamos subir e vasculhar aquela velha cabana", anunciou Bonner, começando em direção aos salgueiros. A multidão recuou. "Eu irei sozinho se vocês estiverem com medo de vir", continuou ele. "É minha firme convicção que vocês não viram nada e o ruído que vocês, garotos, ouviram foi o vento soprando através das árvores. Agora, digam a verdade, quantos de vocês viram?"
"Eu vi", veio de todas as gargantas tão unanimemente que o juramento suplementar de Jim Borum destacou-se sozinho e vigoroso como um clímax.
"Então vale a pena investigar", anunciou o homem de Boston. "É certamente um caso muito misterioso, e você, pelo menos, Sr. Marechal da Cidade, deveria me apoiar no esforço de resolvê-lo. Diga-me novamente exatamente o que foi que você viu e com o que se parecia."
"Não deixarei nenhum homem me dizer quais são meus deveres", bufou Anderson, suas estrelas tremendo de orgulho ferido. "É claro que vou resolver o mistério. Temos que ver o que há dentro daquela casa. Pensei que fossem vagabundos no começo."
"Bem, lidere então; eu seguirei!" disse Bonner com um sorriso.
"Pensei que você estivesse tão ansioso para ir primeiro!" exclamou Anderson com tato refinado. "Vá em frente você mesmo, se você é tão corajoso. Eu o desafio."
Bonner riu alto o suficiente para despertar todos os fantasmas do Condado de Bramble e então caminhou rapidamente em direção à casa. Anderson Crow seguiu lentamente e o resto seguiu atrás, todos alertas para o primeiro sinal de resistência.
"Eu gostaria de poder encontrar aquela maldita lanterna", disse Anderson, procurando diligentemente na grama profunda enquanto caminhava, enquanto isso permitia que Bonner alcançasse a entrada sombria da velha casa bem à sua frente.
"Venha!" chamou o líder intrépido, vendo que todos, exceto o marechal, haviam parado. "Você não precisa da lanterna. Ainda é luz do dia, velho amigo. Nós descobriremos o que foi que vocês viram na janela."
"Esse é o fim dele", murmurou Isaac Porter, enquanto as costas largas desapareciam pela baixa abertura que era chamada de porta. Não havia caixilhos ou vidros de janela na casa, e a porta havia apodrecido nas dobradiças há muito tempo.
"Ele nunca sairá. Vamos para casa", acrescentou Ed Higgins conclusivamente.
"Vocês estão vindo?" cantou Bonner do interior da casa. Sua voz soava profeticamente sepulcral.
"Maldito seja, você não pode esperar um minuto?" respondeu Anderson Crow, ainda corajosamente, mas consistentemente procurando pela tão necessária lanterna escura.
"Está tudo bem aqui dentro. Não há um ser humano na casa há anos. Venha para dentro; está ótimo!"
Anderson Crow finalmente aventurou-se até a porta e espiou. Bonner estava parado perto da lareira em ruínas, acendendo placidamente um cigarro.
"Este é um ótimo trabalho que você armou para mim", ele rosnou. "Eu pensei que haveria algo acontecendo. Não há uma alma aqui, e não houve também."
"Trovões, homem, você não pode ver fantasmas quando eles não querem que você os veja!" disse Anderson Crow. "Era um fantasma, isso está decidido. Eu sabia o tempo todo. Nada humano jamais pareceu com isso, e nada vivo jamais gemeu como ele gemeu."
A esta altura, o restante do grupo havia chegado à porta da cabana. Os menos tímidos aventuraram-se para dentro, enquanto outros se contentaram em olhar através das pequenas janelas.
"Bem, se você tem certeza de que realmente viu algo, é melhor fazermos uma busca completa na casa e nos arredores", disse Bonner, e imediatamente começou a fuçar nos dois cômodos.
Os assoalhos estavam bambos e o lugar tinha um odor de madeira podre. Mofo agarrava-se às paredes semi-rebocadas, teias de aranha emaranhavam os tetos e fungos apodrecidos cobriam a sujeira nos cantos. Ao todo, era um buraco dos mais desagradáveis, no qual nenhum fantasma que se prezasse teria feito seu lar. Quando chegou a hora de subir para o pequeno sótão, os seguidores de Bonner rebelaram-se. Ele foi compelido a ir sozinho, carregando a lanterna que um dos garotos encontrara. Esta parte da casa era ainda mais repugnante do que a de baixo, e seria impossível descrever sua condição. Ele não viu sinal de vida e retirou-se em total desgosto. Então veio a ida ao porão. Novamente ele não teve seguidores, com os homens de Tinkletown recusando-se enfaticamente a descer onde o corpo da velha Sra. Rank fora enterrado. Bonner riu deles e desceu sozinho. Estava nauseante devido à idade e ao cheiro de terra úmida, mas era mais limpo ali do que nos andares de cima. O porão era menor do que qualquer uma das salas de estar e só podia ser alcançado através da cozinha. Não havia saída que levasse diretamente para o exterior da casa, mas havia uma pequena janela na extremidade sul. Bonner examinou o cômodo cuidadosamente e então juntou-se ao grupo. Por alguma razão, a patrulha havia se retirado para o ar livre assim que ele os deixou para ir lá embaixo. Ninguém sabia exatamente o porquê, mas quando um começou a sair, os outros seguiram com mais ou menos presteza.
"Você viu alguma coisa?", exigiu o marechal.
"Como era a velha Sra. Rank quando estava viva?", perguntou Bonner com um ar maravilhosamente misterioso. Ninguém respondeu; mas houve um súbito movimento de pés para trás, enquanto uma expressão de indagação alarmada surgia em cada rosto. "Não recuem para aquele poço aberto", advertiu o jovem divertido na porta. Anderson Crow olhou bruscamente para trás e corou indignado ao ver que o poço estava a pelo menos cinquenta pés de distância. "Vi algo lá embaixo que parecia o dedo do pé de uma mulher", continuou Bonner muito seriamente.
"Bom Deus! O que eu lhes disse?", gritou o marechal, voltando-se para seus amigos. Pelo que podiam se lembrar, eles não conseguiam recordar que Anderson lhes tivesse dito nada, mas, por unanimidade, todo o grupo assentiu em aprovação.
"Imagino que fosse o fantasma de um dedo do pé, no entanto, pois quando tentei pegá-lo, ele se contorceu e fugiu, e acho que deu uma risadinha. Ele desapareceu--qual é o problema? Aonde vocês estão indo?"
É apenas necessário declarar que o marechal e sua patrulha recuaram em boa ordem para um local distante onde não estava tão escuro, para ali aguardar a aproximação de Wicker Bonner, que calmamente, mas rindo, inspecionou o exterior da casa e os terrenos adjacentes. Não encontrando nada fora do comum, exceto quanto à dilapidação, ele juntou-se ao grupo com palpável desagrado no rosto.
"Bem, acho que vou voltar para o gelo", disse ele; "aquele lugar é tão silencioso quanto um túmulo. Vocês são um belo grupo de brincalhões, e admito que a risada é por minha conta."
Mas Bonner estava confuso, incerto. Ele havia revistado a casa minuciosamente de cima a baixo e não vira nada de incomum, mas aqueles homens e meninos estavam tão convictos que ele não podia acreditar que os olhos de todos tivessem sido enganados.
"Isso me interessa", disse ele por fim. "Vou dizer o que faremos, Sr. Crow. Você e eu viremos aqui hoje à noite, armaremos uma barraca de algum tipo e nos revezaremos na vigília até de manhã. Se houver algo para ser visto, descobriremos o que é. Vou pegar um par de colchões de palha no nosso abrigo de barcos e--"
"Eu tenho reumatismo, Sr. Bonner, e seria minha morte dormir neste pântano", objetou Anderson apressadamente.
"Bem, eu virei sozinho, então. Não estou com medo. Não quero dizer que dormirei naquele barraco velho, mas vou acampar aqui nos bosques. Nenhum ser humano conseguiria dormir naquele lugar. Alguém se voluntaria para me fazer companhia?"
Silêncio.
"Não os culpo. É preciso coragem, confesso. Minha única estipulação é que vocês venham aqui da vila cedo amanhã de manhã. Posso ter algo de importância para lhes contar, Sr. Crow."
"Encontraremos o cadáver dele", gemeu o velho Sr. Borton.
"Diga, senhor", apitou uma voz estridente, "eu ficarei com você." Foi Bud quem falou, e toda Tinkletown ressoaria mais tarde com histórias de sua bravura. O menino vinha admirando silenciosamente o audacioso esportista da cidade de Boston, e estava pronto para unir seu destino ao dele nesta aventura. Ele vibrou de prazer quando o grande herói deu-lhe tapinhas nas costas e chamou-o de o único homem na multidão.
Às oito horas daquela noite, Bonner e o determinado, porém trêmulo, Bud subiram a margem do rio e montaram uma barraca entre as árvores perto da casa mal-assombrada. Do trenó no rio lá embaixo, eles trouxeram sua roupa de cama e seus suprimentos. Bud tinha uma velha espingarda de cano único, uma faca e um cachimbo, que estava apenas começando a aprender a fumar; Bonner trouxe um cobertor Navajo, um revólver e uma bengala pesada. Ele também tinha um frasco grande de uísque e o cachimbo com o qual se formara em Harvard.
Às nove horas, ele colocou na cama, em um dos ninhos frios, um menino muito doente, que odiava admitir que o cachimbo era forte demais para ele, mas que se sentiu muito aliviado ao encontrar-se enrolado confortavelmente nos cobertores com a cabeça enfiada totalmente fora de vista. Bud passara a hora presenteando Bonner com a história do sequestro de Rosalie Gray e sua própria conduta heroica em conexão com o caso. Ele confessou que havia derrubado um dos vilões, mas eles eram numerosos demais para ele. Bonner ouviu educadamente e então--colocou o herói na cama.
Bonner cochilou à meia-noite. Cerca de uma hora depois, ele sentou-se subitamente ereto, totalmente acordado e alerta. Teve a vaga impressão de que estava mortalmente frio e que seu cabelo estava em pé.
CAPÍTULO XVIII
Os Homens no Trenó
Voltemos à noite em que Rosalie foi agarrada e levada do portão da frente da Sra. Luce, apesar da valente resistência de seus jovens defensores.
Rosalie havia lido Thackeray para a velha senhora até que ambas estivessem cochilando, e foi, de fato, um alívio bem-vindo que veio com as batidas retumbantes de Roscoe na porta da frente. A Sra. Luce era velha demais para se assustar com algo que lhe tirasse um ano de vida, mas é perfeitamente seguro concordar com ela que o barulho lhe custou pelo menos três meses.
Desesperadamente triste com a deserção de Elsie Banks, Rosalie encontrara pouco para tornar sua noite alegre dentro de casa, mas o ar fresco e cortante fez seus ânimos dispararem no instante em que ela fechou a porta da Sra. Luce pelo lado de fora. Temos apenas que nos referir à narrativa vívida de Roscoe para provar o que aconteceu quase instantaneamente. Ela foi agarrada, sua cabeça envolta firmemente em uma capa ou cobertor grosso; então foi jogada em um trenó e não soube mais nada, exceto uma sensação de sufocamento e o odor de clorofórmio.
Quando recuperou a consciência, estava deitada no chão, ao ar livre, com a noite escura ao seu redor. Três homens estavam parados nas proximidades, mas não havia nenhum veículo à vista. Ela tentou se levantar, mas, devido às suas amarras, estava impotente para fazê-lo. A fala foi impedida pelo pano que fechava seus lábios firmemente. Depois de um tempo, ela começou a entender o significado das palavras murmuradas que passavam entre os homens.
"Você conseguiu levar o trenó, Bill--tem certeza de que ninguém ouviu ou viu você?", foram as primeiras perguntas que ela conseguiu distinguir, evidentemente surgindo de um relato ou explicação anterior.
"Certo. Todo mundo nestas bandas vai para a cama ao pôr do sol. Eles não têm nada para fazer a não ser dormir por aqui."
"Ninguém sabe que pegamos o trenó e os cavalos daquele sujeito--ninguém jamais saberá", disse o homem grande, evidentemente o líder. Ela notou que eles o chamavam de Sam.
"A próxima coisa é levá-la para o outro lado do rio sem deixar rastros. Não estamos em uma estrada percorrida agora, parceiros; temos que ser cuidadosos. Eu a carregarei até a margem; mas certifiquem-se de pisar exatamente em minhas pegadas--vai parecer que foram feitas por um homem só. Entenderam?"
"O rio está congelado e não podemos ser rastreados no gelo. Está escuro demais, também, para alguém nos ver. Vá em frente, Sammy; está um frio do cão aqui."
O homem grande a ergueu do chão como se ela fosse uma pena, e ela teve a consciência de ser carregada rapidamente através de um trecho de floresta inclinada até a margem do rio, uma jornada de duzentos ou trezentos metros, ao que parecia. Aqui o grupo parou por muitos minutos antes de se aventurar na ampla extensão do rio congelado, evidentemente certificando-se de que o caminho estava livre. Rosalie, com os sentidos totalmente restaurados a essa altura, começou a analisar a situação com uma clareza e calma que, posteriormente, foram objeto de considerável surpresa para ela. Em vez de estar histérica de medo, ela estava realmente experimentando a emoção de um sentimento real. Ela não tinha dúvidas de que seus sequestradores eram pessoas contratadas por aqueles ligados à sua história inicial e, por estranho que pareça, ela não conseguia acreditar que um dano físico seria seu destino após todos esses anos de atenção secreta por parte daqueles tão profundamente, embora remotamente, interessados.
De alguma forma, correu por seu cérebro a convicção estimulante de que, finalmente, o mistério de sua origem seria esclarecido, e com ele tudo o que fora como um livro fechado. Nenhum pensamento de morte entrou em sua mente naquele momento. Mais tarde, ela sentiria que a morte seria muito bem-vinda, não importando como viesse.
Seus captores fizeram a travessia do rio em silêncio mortal. Não havia lua e a noite era preta como tinta. As partes expostas de seu rosto formigavam de frio, mas ela estava tão pesadamente envolta no cobertor que seu corpo não sentia os efeitos do clima abaixo de zero.
Por fim, o trecho gelado foi superado e, após descansar alguns minutos, Sam prosseguiu para ascender a margem íngreme com ela em seus braços. Por que ela não foi autorizada a andar, ela não sabia então nem depois. É possível, até provável, que os homens pensassem que sua carga estava inconsciente. Ela não fez nada para que pensassem o contrário. Novamente eles passaram por entre árvores, com os companheiros de Sam seguindo em suas pegadas como antes. Outra parada e um breve comando para Davy ir à frente e ver se o caminho estava livre vieram após uma longa e tortuosa luta através da vegetação rasteira. Duas vezes eles pareceram ter perdido o rumo na escuridão, mas eventualmente chegaram a um descampado.
"Aqui estamos!", resmungou Sam enquanto atravessavam a clareira. "Uma noite de trabalho duro, parceiros, mas acho que estamos tranquilos agora. Vá em frente, Davy, e abra o alçapão!"
Davy praguejou um juramento poderoso, porém sibilante, e forçou sua figura espessa e feia à frente dos outros.
Um momento depois, os fora da lei e sua vítima passaram por uma porta para dentro de uma escuridão ainda mais negra do que a de fora. Davy estava batendo cuidadosamente no chão do cômodo em que estavam. De repente, uma luz fraca espalhou-se por todo o cômodo e uma voz rouca e estridente sussurrou:
"Você a pegou?"
"Saia do caminho--estamos quase congelados", respondeu Davy bruscamente.
"Desça aí, Bill, e pegue-a; estou cansado de carregar estes cinquenta e cinco quilos", rosnou Sam.
No instante seguinte, Rosalie teve a consciência de estar sendo baixada através de um alçapão no chão e, então, de estar sendo carregada rapidamente através de uma passagem longa e estreita, iluminada esporadicamente pelos raios de uma lanterna nas mãos de um quarto e, até então, invisível membro do bando.
"Pronto!", disse Bill, deixando cair indelicadamente sua carga sobre uma pilha de palha no canto da caverna bastante extensa no final da passagem; "será que a pequena tola está morta? Ela deveria estar recobrando os sentidos a esta altura."
"Ela está com os olhos bem abertos", pronunciou a voz rouca no lado oposto; e Rosalie virou os olhos naquela direção. Ela olhou por um minuto inteiro como se estivesse fascinada pelo terror, seu olhar centrado no rosto humano mais repulsivo que ela já vira--o rosto da mãe de Davy.
A mulher era uma giganta, uma criatura enorme e hedionda com o rosto de um homem, peludo e inchado. Seu cabelo despenteado era cinza quase até o branco, seus dentes eram tocos e seus olhos estavam quase escondidos sob a sobrancelha espessa. Havia um brilho de satisfação brutal neles que horrorizou a garota.
Pela primeira vez desde que a aventura começou, seu coração falhou e ela estremeceu visivelmente quando suas pálpebras caíram.
"Que diabo você está assustando ela assim, mãe", rosnou Davy. "Não olhe para ela assim, ou--"
"Olha aqui, meu filho, não fale assim comigo se você não quiser que eu chute sua cabeça para longe onde você está. Eu sou sua mãe, Davy, e--"
"Chega disso. Esta não é hora de discutir", murmurou Sam. "Estamos feitos. Arranje-nos algo para comer e algo para beber, velha; dê um pouco para a garota também. Ela desmaiou, eu acho. Depressa; quero dormir."
"Melhor desamarrar as mãos dela--veja se ela não congelou", acrescentou Bill selvagemente.
Rudemente, a velha cortou as amarras das mãos e pés da garota e então olhou de soslaio para Sam, que estava de pé se aquecendo as mãos sobre um fogareiro de querosene não muito longe. Ele acenou com a cabeça, e ela instantaneamente desamarrou o pano que cobria a boca de Rosalie.
"Não vai adiantar gritar, garota. Ninguém vai te ouvir além de nós--e nós somos seus amigos", sibilou a velha.
"Deixe-a gritar se ela quiser, Maude. Pode aliviá-la um pouco", disse Sam, pretendendo ser gentil. Instintivamente, Rosalie olhou em volta à procura da pessoa chamada Maude. Havia apenas uma mulher no bando. Maude! Esse era o nome da criatura. Em vez de chorar ou gritar, Rosalie riu abertamente.
Ao som do riso, a mulher recuou apressadamente.
"Por Deus!", ela ofegou; "a--ela ficou maluca!"
Os homens voltaram-se para elas com espanto em seus rostos. Bill foi o primeiro a compreender. Ele viu o rosto da garota ficar sóbrio com um esforço e percebeu que ela estava contendo sua diversão porque ela certamente ofenderia.
"Ah", ele sorriu, "não a culpo por rir! Diga o que quiser, Maude, seu nome não combina com você."
"É tão bom quanto qualquer nome--" começou a velha bruxa, olhando fixamente para ele; mas Sam interpôs com uma ordem para que ela lhes arranjasse um café quente enquanto ele tinha uma conversa com a garota. "Sente-se!", ele disse bruscamente, dirigindo-se a Rosalie. "Não vamos machucar você."
Rosalie lutou para ficar em uma posição sentada, seus membros e costas rígidos pelo frio e pela inação. "Não faça perguntas, porque elas não serão respondidas. Eu só quero lhe dar alguns conselhos sobre como você deve agir enquanto for nossa convidada. Você deve ser como uma da família. Talvez fiquemos aqui um dia, talvez uma semana, mas não será nada mais do que isso."
"Você se importaria de me dizer onde estou e o que tudo isso significa? Por que você cometeu este ultraje? O que eu fiz--" ela encontrou voz para dizer. Ele levantou a mão.
"Você esquece o que eu disse sobre fazer perguntas. Não há nada para lhe dizer, isso é tudo. Você está aqui e isso é o suficiente."
"Bem, quem é que tem o poder de responder perguntas, senhor? Tenho algum direito de fazê-las. Você tem--"
"Chega disso, agora!", ele rosnou. "Vou colocar a mordaça de volta em você se continuar com isso. Para que você não se preocupe, quero lhe dizer isto: seus amigos não sabem onde você está, e eles não conseguiriam encontrá-la se tentassem. Você vai ficar aqui mesmo nesta caverna até recebermos ordens para movê-la. Quando chegar a hora, levaremos você para onde quer que sejamos ordenados, e então teremos terminado com você. Alguém mais terá a palavra final. Você não será ferida aqui, a menos que tente escapar--não lhe fará bem gritar. Não é um palácio, mas é melhor do que um túmulo. Portanto, seja sensata. Tudo o que temos que fazer é entregá-la às partes apropriadas no momento apropriado. É só isso."
"A pessoa de quem você fala é minha--minha mãe ou meu pai?", perguntou Rosalie com a respiração suspensa.
CAPÍTULO XIX
Com os Sequestradores
Sam olhou para ela, e havia algo como um espanto real em seus olhos.
"Sua mãe ou pai?", ele repetiu interrogativamente. "O que--que diabo eles podem ter a ver com este caso? Acho que eles mesmos estão fazendo muitas perguntas a esta altura."
"O Sr. e a Sra. Crow não são meus pais", ela disse; e então acrescentou astutamente, "e você sabe disso, senhor."
"Já ouvi aquele ditado sobre uma criança nunca conhecer seu próprio pai, mas este negócio de tanto o pai quanto a mãe é uma novidade para mim. Acho que é o clorofórmio. Dê-nos aquela bebida, Bill. Ela ainda está lesada."
Ele tentou induzi-la a engolir um pouco do uísque, mas ela recusou firmemente, até que finalmente, com um rosnado maligno, Sam ordenou à giganta que a segurasse enquanto ele forçava o líquido ardente garganta abaixo. Houve uma breve luta, mas Rosalie não era páreo para a mulher enorme, cujos braços enormes a envolviam; e, enquanto o líquido escorria sobre sua língua, ela ouviu, acima das risadas brutais dos aspirantes a médicos, a voz rouca de Bill gritando:
"Não a machuque, Sam! Deixe-a em paz!"
"Cale a boca! Não se meta nisso, Bill Briggs. Eu vou--bem, você sabe. Beba isso, droga!"
Engasgando e sufocando, seu coração batendo descontroladamente de medo e raiva, Rosalie foi jogada de volta sobre a palha pela mulher. Sua garganta ardia devido aos efeitos do uísque e seus olhos estavam cegos pelas lágrimas de raiva e impotência.
"Não venha com seus ares de superioridade para cima de mim, sua gatinha", gritou a velha, esfregando um joelho que Rosalie chutara em suas lutas.
"Fique quieta aí", acrescentou Sam. "Não queremos machucar você, mas você tem que fazer o que eu lhe disser. Entendeu? Nem uma palavra, agora! Dê-me aquele bule de café, Davy. Vá ver se tudo está trancado e vamos nos deitar para a noite. Maude, você fique acordada e mantenha vigília. Se ela fizer um barulho, dê-lhe um soco."
"Pode apostar que darei. Ela verá que não está participando de um piquenique de escola dominical."
"Nada de bebedeira!", foi a ordem de Sam enquanto ele distribuía pequenas porções de uísque. Então o bando comeu vorazmente o bacon e o feijão e bebeu xícara após xícara de café. Mais tarde, os homens jogaram-se sobre as pilhas de palha e logo todos estavam roncando. A mulher grande encheu a lanterna e pendurou-a em um gancho na parede da caverna; então ela assumiu seu posto perto da porta quadrada que levava à passagem subterrânea, seu trono um barril de uísque virado, suas costas contra a parede da caverna. Ela olhava fixamente para Rosalie através da semiescuridão, dirigindo-se a ela frequentemente com as invectivas mais vis proferidas cautelosamente--e tudo porque sua vítima tinha olhos lindos e era incapaz de fechá-los no sono.
O coração de Rosalie afundou enquanto ela examinava os arredores com a mente mais uma vez clara e composta. Após sua recuperação do choque do contato com a velha e Sam, ela encolheu-se em um estado de lassidão mental que prenunciava o desespero que viria mais tarde. Ela não dormiu naquela noite. Seu cérebro estava cheio de pensamentos giratórios de fuga, especulações sobre o que seria dela, medos miseráveis de que o fim não fosse o que as primeiras impressões haviam feito parecer e, acima de tudo, um horror muito intenso da velha, que cochilava, mas a vigiava como nenhum dragão jamais vigiou nos dias de muito tempo atrás.
A caverna na qual estavam abrigados tinha de nove a doze metros de um lado ao outro, de formato quase circular, com um teto baixo que se inclinava até o piso rochoso. Aqui e ali havia nichos nas paredes, e no lado oposto à entrada da passagem havia uma pequena abertura negra, que levava, sem dúvida, ao mundo exterior. O fato de não ter sido usada em momento algum durante sua estadia na caverna a levava a acreditar que não tinha utilidade prática. Dois ou três fogareiros de querosene eram usados para aquecer a caverna e para fins culinários. Havia várias lanternas, uma série de ferramentas (tais como pás, machados, pés de cabra, marretas e assim por diante), bancos improvisados com barris, uma mesa tosca, que servia para todos os propósitos conhecidos da sala de jantar, cozinha, copa e até mesmo quarto. Sam dormia sobre a mesa. Cobertores de cavalo eram jogados pelo chão em desordem. Serviam como roupa de cama quando o bando dormia. Em outras ocasiões, poderiam muito bem ter sido chamados de capachos. Um dos nichos na parede era usado como local de repouso para ossos ou restos que pudessem atingi-lo ao serem arremessados naquela direção pelos ocupantes. Ninguém se dava ao trabalho de guardar cuidadosamente nada no buraco do lixo, e ninguém fingia limpar o que o outro sujava. O lugar tinha um cheiro fétido, era quente e quase sufocante com os vapores dos fogareiros, para os quais parecia não haver saída.
Horas depois, embora parecessem ter se estendido por anos, os homens começaram a respirar naturalmente, e um silêncio estranho reinou na caverna. Estavam acordados. A venerável Maude emergiu de seu cochilo, olhou apreensivamente para Sam, cutucou o canto para ver se o prêmio não havia desaparecido e, então, começou pesadamente a fazer os preparativos para uma refeição, supostamente o café da manhã. Abluções parcas, tais como eram, foram realizadas na "sala de estar", com um balde de água servindo como bacia comum. Ninguém havia tirado as roupas durante a noite, nem mesmo os sapatos. Parecia-lhe que o bando estava em uma condição sempre pronta para evacuar o lugar a qualquer momento.
Rosalie não queria comer, nem queria banhar o rosto na água que havia sido usada pelo quarteto antes dela. Bill Briggs, com algum senso de delicadeza em sua natureza, trouxe um pouco de água fresca do extremo da passagem. Por este ato, foi insultado por seus companheiros.
"Não é um trabalho fácil conseguir água aqui, Briggs", rugiu Sam. "Temos que ser econômicos com ela."
"Bem, não deixe que isso o machuque", retrucou Bill. "Eu vou buscá-la no rio hoje à noite. Você não terá que fazer isso."
"Ela não é melhor do que eu", bufou Maude, "e ninguém sai para me trazer um banho particular, notei bem. Levante-se e coma alguma coisa, sua rata! Quer que a gente force você a engolir?"
"Se ela não quer comer, não a force", disse Sam. "Ela logo vai superar isso. Nós só fomos contratados para trazê-la aqui e tirá-la daqui novamente, e não para fazê-la comer ou até mesmo se lavar. Isso não nos diz respeito."
"Bem, ela tem que comer ou vai morrer, e você sabe, Sam Welch, que isso não pode acontecer", retrucou a velha.
"Ela vai comer antes de morrer, Maudie; não se preocupe."
"Eu nunca vou comer uma migalha sequer!", gritou Rosalie, com uma luz corajosa e teimosa nos olhos. Ela estava de pé no canto distante, secando o rosto com o lenço.
"Oho, você pode falar de novo, é? Viva! Agora vamos ouvir a história da vida dela", riu o grande Sam, com a boca cheia de bacon e pão. Rosalie corou e as lágrimas brotaram em seus olhos.
O dia todo ela sofreu provocações e escárnios do bando. Ela passou a temer os olhares feios de Davy mais do que as palavras brutais dos outros. Quando ele se aproximava, ela encolhia-se contra a parede; quando ele falava, ela se retraía; quando ele tentava tocá-la, ela gritava. Foi esse ato que trouxe a ira de Sam sobre a cabeça de Davy. Ele ganhou algo parecido com gratidão da moça ao ordenar, de forma profana, que Davy limitasse seu amor a olhares e não a atos.
"Ela não deve ser prejudicada", foi o decreto de Sam. "Isso é um aviso."
"Ah, vá para o...", começou Davy beligerantemente.
"O que foi?", rosnou Sam, girando sobre ele com um olhar fulminante. Davy esgueirou-se atrás da mãe e retribuiu o olhar. Bill moveu-se para o lado de Sam. Por um momento, o ar ficou pesado com sinais de uma briga. Rosalie agachou-se em seu canto, com a mão sobre as orelhas e os olhos fechados. Havia intenção de assassinato no rosto de Davy. "Vou quebrar cada osso do seu corpo!", acrescentou Sam; mas Bill laconicamente o conteve com uma palavra.
"Ratos!" Foi breve, mas trouxe o irado Sam de volta a si. O problema foi evitado por enquanto.
"Davy não tem medo dele", gritou a mãe do rapaz, estridentemente.
"Pode apostar que não tenho!", acrescentou Davy após uma longa série de palavrões. Sam sorriu de forma cruel.
"Não há nada pelo que lutar, eu acho", disse ele, embora não parecesse. "Seríamos tolos se brigássemos. Tudo a perder e nada a ganhar. Tudo o que tenho a dizer, Davy, é que você não deve tocar nessa moça."
"Quem vai tocar nela?", rugiu Davy, eriçando-se bravamente. "E você também não deve tocá-la", acrescentou.
O dia passou, embora fosse sempre noite na caverna sem janelas, e novamente o trio de homens dormiu, com Maude de guarda. Exausta e fraca, Rosalie caiu em um sono profundo. Na manhã seguinte, ela comeu pouco do bacon e do pão e bebeu um pouco de café fumegante, para o deleite zombeteiro da bruxa.
"Teve que ceder, é?", ela coaxou. "Teve que alimentar essa cara bonita, afinal. Acho que somos todos iguais. Somos todos de carne e osso, minha senhora."
A velha nunca ofereceu abertamente violência pessoal à moça. Ela tinha certo temor do líder — não temor físico, mas a estranha homenagem que um bruto presta ao seu mestre. Secretamente, ela sentia um deleite selvagem em pisar nos dedos dos pés da moça ou em beliscar seus braços e pernas, torcer seu cabelo, derramar café quente em suas mãos, amaldiçoá-la baixinho e perpetrar todos os tipos de pequenas indignidades que não podiam ser repelidas, pelo simples motivo de que não podiam ser provadas contra ela. A palavra dela valia tanto quanto a de Rosalie.
A cada hora, a tensão crescia cada vez mais. A moça ficou doente e febril de medo, repulsa e incerteza. Seus ouvidos zumbiam com os horrores de sua lascívia, seus olhos passaram a ver pouco, pois ela os mantinha fechados pela própria dor do que provavelmente presenciaria. Em seu coração, crescia uma oração constante por libertação de suas garras. Ela era forte o suficiente e saudável demais para rezar pela morte, mas sua mente cambaleava com os pensamentos da vingança que ela exigiria.
O terceiro dia encontrou o bando mal-humorado e agressivo. O confinamento era tão incômodo para eles quanto para ela. Eles se irritavam e se preocupavam, xingavam e rosnavam. Ao cair da noite de cada dia, Sam se aventurava através da passagem e saía para a noite. Cada vez, ele ficava fora por duas ou três horas, e cada retorno subsequente à caverna vil deixava o bando em uma fúria mais profunda. A notícia que eles esperavam não chegava, o comando do verdadeiro mestre não era dado. Eles jogavam cartas o dia todo e, finalmente, começaram a beber mais do que era sensato. Duas lutas desesperadas ocorreram entre Davy e Sam no terceiro dia. Bill e a velha os separaram depois que ambos foram espancados selvagemente.
"Ela está doente, Sam", rosnou Bill, parando sobre a prisioneira encolhida e de rosto pálido perto do fim do quarto dia. Sam estivera fora quase toda a noite anterior, retornando sombriamente sem notícias da sede. "Ela vai morrer neste lugar maldito e nós também, se não sairmos logo. Olhe para ela! Ora, ela está branca como um lençol. Vamos dar um pouco de ar fresco a ela, Sammy. É seguro. Leve-a para a cabana por um tempo. Hoje à noite podemos levá-la para fora do lugar. Pelo amor de Deus, Sammy, eu tenho um pouco de coração! Não posso vê-la morrer neste buraco. Olhe para ela! Não consegue ver que ela está quase acabada?"
Após considerável discussão, a favor e contra, decidiu-se que seria seguro e certamente sensato deixar a moça respirar ar fresco de vez em quando. Naquela manhã, Sam a levou para a cabana através da passagem. A meia hora ao ar frio e fresco a revigorou, fortaleceu-a perceptivelmente. Seu ânimo deu um salto. Ela começou a fazer perguntas e, por alguma razão, ele começou a prestar atenção nelas. Pode ter sido o tédio da situação, seu próprio desejo de ir embora, sua raiva contra a pessoa que não cumpriu a promessa feita antes do sequestro, que o levaram a falar com bastante liberdade.
CAPÍTULO XX
Na Caverna
"Não é minha culpa que ainda estejamos aqui", rosnou ele em resposta ao seu apelo patético. "Eu a ouvi rezando para que Daddy Crow venha e a leve embora. Bem, é uma sorte para ele que ele não saiba onde você está. Faríamos carne moída daquele velho idiota em três minutos. Não faça mais orações. Orações são como sonhos — você as tem à noite e se pergunta o porquê no dia seguinte. Agora, olhe aqui, Srta. Gray, nós não fizemos este trabalho podre pelo amor à emoção. Estamos tão ansiosos para sair disso quanto você."
"Eu apenas pergunto por que estou sendo mantida aqui e o que será de mim?", disse Rosalie resignada. Ela estava de pé do outro lado da mesa onde ele se sentava fumando seu grande cachimbo preto. Os outros membros do bando estavam descansando por perto, mal-humorados e carrancudos, irritados interiormente com o atraso em sair da caverna.
"Eu não sei por que você foi mantida aqui. Só sei que é uma demora maldita. Eu largaria o trabalho se não houvesse tanto dinheiro nele para mim."
"Mas o que será de mim? Não posso suportar isso por muito mais tempo. Está me matando. Olhe! Estou roxa de tanto me beliscarem. A velha nunca perde uma oportunidade de me machucar."
"Ela tem inveja de você porque você é bonita, é só isso. Mulheres são todas iguais, que se danem! Eu não estaria nesse tipo de trabalho se não fosse por uma esposa ciumenta."
Ele fumou seu cachimbo melancolicamente por um longo tempo, evidentemente revirando algum problema em sua mente. Por fim, soltando um suspiro profundo e precedendo suas observações com um palavrão, ele esclareceu o mistério. "Vou te colocar a par do serviço. Não posso dar nomes; não seria justo. Veja bem, é assim: você não é bem-vinda neste país. Não sei o porquê, mas você não é."
"Não sou bem-vinda neste país?", ela gritou atônita. "Eu não estou no caminho de ninguém. Minha vida e meu amor são para o lar pacífico de onde vocês me tiraram. Não peço por mais nada. Você não diria isso ao seu empregador por mim? Se eu for libertada, nunca interferirei nos planos de..."
"Não é isso, eu acho. Você deve ser muito importante para alguém, ou todo esse trabalho não teria sido feito. A parte engraçada é que não devemos machucá-la. Você não deve ser morta, entende. Essa é a parte estranha, não é?"
"Admito que tem um som agradável para mim", disse Rosalie, com uma sombra de sorriso em seus lábios trêmulos. "Parece horrível, no entanto."
"Bem, de qualquer forma, faz parte do plano de alguém tirá-la deste país de uma vez por todas. Você deve ser levada embora em um navio, através do oceano, eu acho. Paris ou Londres, talvez, e você nunca deve voltar para os Estados Unidos. Nunca, é isso que me disseram."
Rosalie ficou sem fala, atordoada. Seus olhos se arregalaram com a miséria da dúvida e do horror, seus lábios se moveram como se formassem palavras que não saíam. Antes que ela pudesse produzir um som de sua garganta contraída, a voz rouca da velha Maude interrompeu:
"O que você está contando para ela, Sam Welch? Não consegue manter essa boca fechada?", ela chamou, avançando sobre ele com um olhar ameaçador.
"Ah, não é nada com você", ele retrucou, mas uma expressão desconfortável surgiu repentinamente em seu rosto. Uma discussão alta e raivosa seguiu-se, com todo o bando participando. Três contra um era a proporção contra o líder, que foi forçado a admitir, secretamente se não publicamente, que não tinha o direito de falar livremente sobre o assunto para a moça. Em vão ela implorou e prometeu. Suas lágrimas foram inúteis, uma vez que Sam decidiu manter a boca fechada. Irritado consigo mesmo por ter que se submeter às exigências dos outros, furioso porque ela viu sua rendição, Sam, sem uma palavra de aviso, golpeou-a repentinamente na lateral da cabeça com a palma de sua mão larga, enviando-a para o canto. Atordoada, ferida e meio inconsciente, ela caiu de joelhos, incapaz de ficar de pé. Com um olhar piedoso nos olhos, ela se encolheu diante de outro golpe que parecia iminente. Bill Briggs segurou o braço de seu líder e o puxou para longe, xingando e rosnando.
No final da tarde, Bill recebeu permissão para conduzi-la até a cabana acima, por alguns minutos ao ar livre, e para um vislumbre da luz do sol que se punha. Ela mal havia se posicionado diante da pequena janela quando foi puxada apressadamente para longe, mas não antes de pensar ter percebido uma multidão de homens, aglomerados entre as árvores não muito longe dali. Um grito de socorro começou em seus lábios; mas a mão pesada de Bill o deteve efetivamente. Seu braço robusto a enviou em direção ao alçapão; e um segundo depois ela estava abaixo, machucada pela queda e quase desmaiando de desapontamento e desespero.
Por mais breve que tivesse sido o vislumbre, ela estava positiva de que reconhecera dois rostos na multidão de homens — os de Anderson Crow e Ed Higgins. Isso significava, se seus olhos não a enganassem, que os buscadores estavam por perto, e que o querido e velho Daddy Crow os estava liderando. Suas esperanças voaram alto e ela não conseguiu conter o olhar triunfante que varreu a multidão assustada quando Bill, sem fôlego, deu a notícia.
Silêncio absoluto reinou na caverna depois disso. Maude intimidou a prisioneira para o silêncio com a ameaça de cortar sua língua se ela desse um grito. Mais tarde, o tropel de pés pôde ser ouvido no assoalho da cabana. Houve um som de vozes, gargalhadas altas e, em seguida, o ruído feito por alguém no porão que servia de esconderijo em uma das extremidades da cabana. Depois disso, silêncio mortal. Ao cair da noite, Sam aventurou-se furtivamente para fazer o reconhecimento. Ele voltou com o relato de que os bosques e pântanos estavam limpos e que os buscadores, se eram eles, haviam ido embora.
"A casa, desde que os ossos da avó de Davy foram guardados naquele porão por algumas luas, sempre foi considerada mal-assombrada. Os tolos provavelmente pensaram que viram um fantasma — e eles ainda estão correndo."
Então, pela primeira vez, Rosalie percebeu que estava na cabana mal-assombrada no pântano, o lugar mais temível de todos no mundo para Tinkletown, grandes e pequenos. Não a mais de cinco quilômetros de sua própria lareira! Não a mais de meia hora de caminhada de Daddy Crow e outros, no calor de cujo amor ela vivera por tanto tempo!
"Está ficando quente demais aqui para nós", rosnou Sam no jantar. "Nós temos que fazer alguma coisa. Vou sair esta noite para ver se há alguma notícia do... do grupo. Esses caras não são todos tolos. Alguém pode farejar o alçapão antes de muito tempo e vai ser um inferno. Eles não voltarão antes de amanhã, eu acho. Por todos os trovões, deveria haver notícias do... do chefe a essa altura. Fiquem quietos, todo mundo; estarei de volta antes do amanhecer. Desta vez vou descobrir algo com certeza ou saberei o motivo. Estou me cansando desse negócio. Nunca sei em que minuto o jogo acaba, nem quando o balão estoura."
Novamente ele se esgueirou para a noite, deixando seus companheiros mais ou menos inquietos quanto ao resultado, após os eventos surpreendentes da tarde. Hora após hora passou, e a cada minuto, os ouvidos de Rosalie se esforçavam para captar o primeiro som dos socorristas se aproximando. Seu ânimo caiu, mas suas esperanças eram altas. Ela sentia que os homens lá fora tinham visto seu rosto e que finalmente haviam descoberto o lugar onde ela era mantida. Seria apenas uma questão de tempo até que descobrissem o segredo desconcertante do alçapão. Seu único medo residia na possibilidade de ser removida por seus captores antes que os socorristas pudessem realizar sua libertação. Seus olhos brilhantes, febris e ansiosos, brilhando nas faces brancas encovadas, apelavam a Bill Briggs mais do que ele estava disposto a admitir. O rufião, menos endurecido do que seus companheiros, começou a sentir pena dela.
Às onze horas, o trio estava ansioso e agressivo em sua inquietação. Não havia sono para eles. Davy visitou o alçapão mais de cem vezes naquela noite. Sua mãe, rompendo os limites da moderação, abraçou o jarro de uísque, dando gole após gole conforme a vigília se arrastava. Por fim, Davy, levado ao limite, insistiu em ter sua parte. Bill bebeu pouco, e não demorou muito para que Rosalie observasse o olhar esquivo e nervoso em seus olhos. De tempos em tempos, ele sorrateiramente se apropriava de certos itens, deixando-os cair no bolso de seu casaco. Seus protetores de orelha, cachecol, luvas, fósforos, tabaco e muitos pedaços de pão e bacon foram guardados furtivamente nos bolsos de seu casaco. Por fim, ela percebeu que Bill estava se preparando para desertar. A esperança residia nele, então. Se ele pudesse ser convencido a dar a ela uma chance igual de escapar!
Mãe e filho tornaram-se sentimentaloides em seus — não copos, mas jarro; mas Davy teve o bom senso de beber com mais cautela, um fato que parecia irritar o nervoso Bill.
"Eu preciso de ar — ar fresco", Rosalie gemeu de repente de seu canto, a tensão provando ser demais para seus nervos. Bill caminhou até lá e olhou para a forma trêmula por um minuto inteiro. "Leve-me para fora por apenas um minuto — apenas um minuto, por favor. Estou morrendo aqui dentro."
"Deixe-me levá-la para fora", cacarejou a velha Maude. "Vou dar a ela todo o ar que ela quiser. Quero um pouco de ar também. Deixe-me dar ar a ela, Bill. Tome um pouco de ar por minha conta, parceiro. Deixe-me..."
"Cale a boca, Maude!", rosnou Bill, olhando inquieto pela caverna. "Eu a levarei para a cabana por alguns minutos. Não há perigo."
Davy protestou, mas Bill prevaleceu, simplesmente porque estava sóbrio e sabia de seu poder sobre a dupla meio estupefata. Davy deixou que eles saíssem pelo alçapão, prometendo esperar lá embaixo até que estivessem prontos para retornar.
"Você vai embora?", sussurrou Rosalie, enquanto passavam para a noite fria e negra.
"Psiu! Não fale, droga!", ele sibilou.
"Deixe-me ir também. Eu conheço o caminho de casa e você não precisa ter medo de mim. Eu gosto de você, mas odeio os outros. Por favor, por favor! Pelo amor de Deus, deixe-me ir! Eles não podem me pegar se eu tiver uma pequena vantagem."
"Eu gostaria, mas eu... eu não me atrevo. Sam me caçaria e me mataria — ele certamente faria isso. Eu mesmo estou indo — não aguento mais isso."
"Tenha piedade! Não me deixe sozinha com eles. Oh, Deus, se você..."
Gemendo piedosamente, ela implorou a ele; mas ele estava irredutível, principalmente devido ao medo das consequências. Em seu coração, ele poderia estar disposto a dar a ela a chance, mas sua cabeça via o perigo para si mesmo e era firme.
"Vou te dizer o que farei", ele sussurrou no final. "Vou levá-la de volta para lá e então irei dizer aos seus amigos onde você está e como ajudá-la. Honesto! Honesto, eu farei. Sei que é seis por meia dúzia, mas prefiro fazer desse jeito. Eles estarão aqui em algumas horas e você estará livre. Ninguém saberá de nada. Maldição, pare de choramingar! Cale a boca! Droga, volte lá para dentro! Não me entregue para o Davy, e eu juro que vou ajudar você a sair desta."
Um ou dois minutos depois, ele a arrastou de volta para dentro da cabana, gemendo, suplicando e chorando devido à dor de um golpe repentino. Dez minutos depois, ele saiu novamente, desta vez ostensivamente para encontrar Sam; mas Rosalie sabia que ele se fora para sempre.
CAPÍTULO XXI
O Alçapão
Uma lua nova doentia lançava feixes vagos e fantasmagóricos sobre o pântano ladeado por salgueiros, além da pequena cabana que se erguia em sua margem. Através da vegetação rasteira densa e, bem no alto, entre as copas das árvores esqueléticas, sombras feias brincavam umas com as outras, enquanto uma orquestra sepulcral de vento e galhos gritava um canto fúnebre que se achatava nos ouvidos de Bonner; mas não era a música estranha do pântano que enviava o calafrio de terror real através da estrutura do grande atleta.
Uma série de gemidos abafados e de partir o coração, como os de uma mulher com dores terríveis, chegou aos seus ouvidos. Ele sentiu o suor frio começar a brotar pelo seu corpo. Seus nervos ficaram tensos de trepidação, seus olhos arregalados de horror. Instintivamente, seus dedos agarraram o revólver ao seu lado e seu olhar dirigiu-se para a coisa preta e quadrada que marcava a presença da casa mal-assombrada. A orquestra da noite pareceu encerrar seu canto fúnebre; um interlúdio frio de silêncio se seguiu. Os gemidos morreram em soluços sufocados, e os ouvidos de Bonner não podiam ouvir mais nada. Um pensamento repentino atingindo-o, ele rolou para fora de sua cama e dirigiu-se à pilha de cobertores de Bud. Mas a solução não estava lá. O rapaz estava profundamente adormecido e nenhum som emanava de seus lábios. Os gemidos vinham de outra fonte, humana ou não, lá fora na noite crepitante.
Saindo cuidadosamente da tenda, sua coragem mais uma vez restaurada, mas sua carne ainda tremendo, Bonner olhou atentamente em busca de manifestações na casa negra de Johanna Rank. Ele meio que esperava ver uma luz fantasmagórica passar por uma janela. Estava intensamente escuro no matagal, mas o pântano sombrio além silhuetava a casa em um relevo negro. Ele estava de quatro atrás de uma espessa pilha de arbustos, tirando nervosamente seu cachimbo do bolso, consciente de que precisava dele para acalmar seus nervos, quando um som novo, elevando-se acima dos soluços fracos, chegou aos seus ouvidos. Então, a voz baixa de um homem veio de algum lugar na escuridão, e estas palavras soaram distintamente:
"Maldita seja!"
Ele recuou involuntariamente, pois a voz parecia estar ao lado de seu cotovelo. Os soluços cessaram subitamente, como se sufocados por uma mão poderosa.
A inclinação do ouvinte era seguir o exemplo de Anderson Crow e correr loucamente para a noite. Mas por baixo desse pânico natural estava a alma da cavalaria. Algo lhe dizia que uma mulher ali na solidão precisava dos braços de um homem; e seu sangue começou a esquentar novamente. Pouco depois, o silêncio foi quebrado por um grito agudo de desespero:
"Tenha piedade! Oh, Deus..." gemeu a voz que enviava arrepios pelo seu corpo — a voz de uma mulher, terna, refinada, esmagada. Seus dedos agarraram o revólver com novo vigor, mas quase instantaneamente o farfalhar de folhas secas chegou aos seus ouvidos: o homem e sua vítima estavam seguindo em direção à casa.
Bonner agachou-se entre os arbustos como se paralisado. Ele começou a compreender a situação. De uma forma vaga, ele se lembrou de ter ouvido falar sobre a sensação em Tinkletown na casa de seu tio, onde ele estava morando com alguns criados para um mês de caça. A atmosfera estivera cheia da sensacional história de rapto por vários dias — o rapto de uma bela jovem e a atitude impotente dos parentes e amigos. Como um furacão, toda a situação espalhou-se diante dele; deixou-o fraco. Ele havia encontrado a gangue e sua vítima neste canto esquecido do mundo, longe da cidade para a qual deveriam ter fugido. Ele tinha a solução em suas mãos e estava cheio do fogo dos antigos.
Uma luz apareceu na porta baixa e a figura atarracada de um homem segurou uma lanterna no alto. Um instante depois, outro homem arrastou a garota indefesa através do limiar e para dentro da casa. Mesmo quando Bonner se preparou para correr em direção a eles, a luz desapareceu e a escuridão caiu sobre a cabana. Houve um som de passos no chão, um ranger de dobradiças e o fechamento furtivo de uma porta. Então, houve silêncio absoluto.
Bonner era sábio, além de corajoso. Ele viu que correr agora para a casa poderia provar a sua própria ruína, bem como a dela. Na escuridão, os bandidos teriam todas as vantagens. Por um momento, ele encarou a sombra negra à frente, seu cérebro trabalhando como um relâmpago.
"Aquela pobre moça!", ele murmurou vagamente. "Bestas malditas! Mas eu vou dar um jeito neles, por Deus! Não vai demorar, meus rapazes."
Sua ponderação trouxe resultados rápidos. Rastejando até o catre de Bud, ele o despertou de um sono profundo. Em dois minutos, o rapaz estava correndo através da floresta em direção à cidade, com instruções para trazer Anderson Crow e uma grande força de homens ao local o mais rápido possível.
"Eu ficarei de guarda", disse Wicker Bonner.
À medida que os minutos passavam, os pensamentos de Bonner concentravam-se cada vez mais intensamente na pobre garota aprisionada na cabana. Seu sangue carregava sua razão e ele mal podia controlar o impulso de invadir o local contra os miseráveis. Então, ele se conteve com um solavanco. Onde ele os encontraria? Ele não havia revistado a casa naquela manhã e não havia sinal de vida a ser encontrado? Ele ficou atordoado com essa memória. Por muitos minutos, ele permaneceu com seus olhos perplexos na casa antes que uma solução lhe viesse.
Ele agora sabia que havia um compartimento secreto na casa antiga e um meio secreto de entrada e saída. Com essa explicação firmemente impressa em sua mente, Wicker Bonner decidiu começar sua própria campanha pela libertação de Rosalie Gray. Levaria horas até que o lento Anderson Crow aparecesse; e Bonner não era do tipo que deixaria uma mulher em perigo se estivesse em seu poder ajudá-la. Além disso, o povo do campo o havia enchido com histórias sobre a beleza da Srta. Gray, e eles o encontraram em uma idade impressionável e com o coração livre. A emoção do romance o dominou e ele estava pronto para ousar.
Ele rastejou até a porta e ouviu. A razão lhe dizia que o caminho estava livre; a necessidade de um sentinela não existia, tão habilmente os desesperados estavam escondidos. Após alguns momentos, ele rastejou para dentro do cômodo, prendendo a respiração, enquanto seguia em direção à escada do porão. Ele não tinha percorrido alguns metros quando o som de vozes chegou até ele. Esgueirando-se para um canto, ele aguardou os acontecimentos. Os sons vinham de baixo, mas não do porão, como ele o havia localizado. Um momento depois, um homem rastejou para dentro do cômodo, vindo através de um buraco no chão, exatamente como ele havia suspeitado. Uma luz fraca vinda de baixo revelou a figura sinistra claramente, mas Bonner sentiu-se completamente escondido. O homem no cômodo falou com alguém lá embaixo.
"Voltarei em meia hora, Davy. Vou esperar pelo Sam lá fora na Ponta. Ele deveria ter algumas notícias da sede a esta altura. Não vejo por que temos que ficar pendurados neste lugar para sempre. Ela já deveria estar a meio caminho de Paris a esta altura."
"Eles não querem arriscar, Bill, até que a excitação diminua."
"Bem, você e sua mãe apenas mantenham suas mãos longe dela enquanto eu estiver fora, é só isso", avisou Bill Briggs.
O alçapão foi fechado, e Bonner ouviu o outro ocupante do cômodo arrastar-se para a noite. Ele não demorou a decidir o que fazer. Ali estava a chance de se livrar de um dos bandidos, e ele não tardou a aproveitá-la. Houve um encontro no matagal alguns minutos depois, e Bill estava "fora de combate" por enquanto. Wicker Bonner o derrubou com um golpe de marreta, e quando ele retornou à cabana, Bill estava deitado amarrado e amordaçado na tenda, um cativo indefeso.
Seu conquistador, imensamente satisfeito, supriu-se com as pontas excedentes de "cordas de sustentação" da tenda e calmamente sentou-se para aguardar a aproximação daquele chamado Sam, ele que sem dúvida havia ido a um encontro "em busca de notícias". Ele bem podia se dar ao luxo de esperar. Com dois dos desesperados eliminados em emboscada, ele poderia ter uma chance razoavelmente equilibrada com o homem chamado Davy.
Pareceram horas até que ele ouvisse a aproximação furtiva de alguém movendo-se através dos arbustos. Ele estava rígido de frio e irritado com a demora interminável, mas a aproximação do perigo real acelerou seu sangue mais uma vez. Houve outra luta curta, rápida e silenciosa perto da entrada, e mais uma vez Wicker Bonner estava vitorioso sobre um bandido desavisado e agora inconsciente. Sam, um homem grande e poderoso, logo foi amarrado e amordaçado e seu corpo arrastado para a tenda entre os arbustos.
"Agora é a vez do Davy", murmurou Bonner, esticando seus grandes braços no puro prazer do poder. "Haverá algo acontecendo em torno de seu coração, Srta. Donzela-da-Floresta, em poucos minutos."
Ele riu enquanto rastejava para dentro da cabana, depois de ter ouvido atentamente por sons. Por alguns minutos, ele ficou quieto com o ouvido no chão. Nesse tempo, ele resolveu um dos problemas que o confrontavam. O homem Davy era filho do assassino da velha Sra. Rank, e a "velha" que mantinha vigília com ele era sua mãe, esposa do histórico David. Foi ela quem segurou a lanterna, sem dúvida, enquanto David Wolfe cortava sua própria mãe em pedaços. Isso explicava a presença da gangue na casa mal-assombrada e seu conhecimento do cômodo subterrâneo.
A inspiração de Bonner começou a desaparecer. A pura sorte o havia ajudado até este estágio, mas enfrentar David em seu covil era outra história completamente diferente. Sua única esperança era encontrar o homem dormindo. Ele não estava levando a velha em consideração de forma alguma. Se ele soubesse, ela era a mais perigosa de todas.
Sua chance, ele pensou, residia na estratégia. Era impossível abrir o alçapão por cima, ele havia descoberto por investigação. Havia apenas uma maneira de chegar à Srta. Gray, e era por meio de um estratagema ousado. Confiando na sorte, ele bateu gentilmente no chão no local onde a memória lhe dizia que o alçapão estava situado. Seu coração batia violentamente.
Houve um movimento abaixo dele, e então o som de alguém manipulando os ferrolhos na porta. Bonner recuou, esperando contra toda esperança que uma luz não fosse mostrada. Em uma mão, ele segurava seu revólver pronto para uso; na outra, sua pesada bengala. Seus planos estavam totalmente desenvolvidos. Após um momento, o alçapão foi levantado parcialmente e uma corrente de ar quente saiu sobre ele.
CAPÍTULO XXII
Jack, o Matador de Gigantes
"É você, Sam?", sussurrou quase uma voz masculina. Não havia luz.
"Psiu!", sibilou Bonner, abafando sua voz. "Todos estão dentro?"
"Bill está esperando por você lá fora. Mamãe e eu estamos aqui. Venha para baixo. O que houve?"
"Como está a garota?"
"Berrando como um bebê. Mamãe está com ela na caverna. Apresse-se! Isso aqui é pesado."
Em resposta, Bonner agarrou a borda da porta com a mão esquerda, primeiro empurrando seu revólver no bolso da calça. Então, ele silenciosamente balançou a bengala pesada pelo ar e para baixo, uma luz muito fraca vinda de baixo revelando a cabeça despenteada de Davy na abertura. Foi um golpe poderoso e certeiro. O corpo de Davy caiu longe do alçapão, e um segundo depois Bonner caiu pelo buraco. Ele deixou o alçapão bem aberto caso o recuo fosse necessário. Parando tempo suficiente para se certificar de que o homem estava inconsciente e sangrando profusamente, e para arrancar o grande revólver da pessoa de Davy, Bonner voltou sua atenção para o ambiente.
Talvez a cem pés de distância, no final de uma longa e baixa passagem, ele viu o brilho de uma luz. Sem hesitar um segundo, ele começou a caminhar em direção a ela, sentindo que o pior da aventura havia passado. Uma sombra cruzando entre ele e a luz, ele pausou em sua aproximação. Essa sombra resolveu-se na forma de uma mulher, uma criatura gigantesca, que espreitava atentamente pela passagem.
"Qual é o problema, Davy?", ela chamou em tons roucos. "Seu idiota maldito, você não consegue fazer nada sem quebrar o pescoço? Acho que você caiu da escada? É você, Sam?"
Não recebendo resposta, a mulher agarrou a lanterna e avançou audaciosamente sobre Bonner, que estava longe na passagem, surpreso e irresoluto. Ela parecia mais formidável para ele do que qualquer um dos homens, então ele se preparou para uma luta.
"Pare!", ele gritou, quando ela estava a dez pés de distância dele. "Não resista; você está cercada!"
A mulher parou como se tivesse levado um tiro, encarou à frente como se o visse pela primeira vez, e então soltou um grito terrível de fúria. Jogando a lanterna no chão, ela levantou o braço e disparou um revólver à queima-roupa em Bonner, apesar do fato de que sua pistola estava cobrindo-a. Ele ouviu a bala colidir contra as madeiras podres perto de seu ouvido. Ao contrário de seu plano, a lanterna não foi extinta. Em vez disso, ela ficou crepitando, mas eficaz, sobre o chão.
Antes que Bonner pudesse decidir atirar na mulher, ela estava sobre ele, disparando novamente enquanto vinha. Ele não teve tempo de retaliar. A estrutura enorme esmagou-o e sua pistola voou de sua mão. Como a sorte quis, sua mão livre agarrou o revólver dela, e ela foi impedida de explodir seus miolos com os tiros subsequentes, todos os quais foram errados.
Então veio uma luta desesperada. Bonner, um atleta treinado, percebeu que ela era ainda mais forte do que ele, mais desesperada em seu frenesi e com assassinato em seu coração. Enquanto eles avançavam e recuavam, seus xingamentos e gritos em seu ouvido, ele começou a sentir o desespero da derrota. Ela estava o derrotando com um braço poderoso, golpes esmagadores, cada um deles. Então veio o som que mudou o rumo da batalha, pois o encheu com um frenesi igual ao dela. O grito de uma mulher veio pela passagem, piedoso, aterrorizado.
Ele sabia o destino daquela pobre garota se sua adversária o derrotasse. O pensamento deixou seu sangue quente e frio ao mesmo tempo. Enfurecido, ele exerceu sua força fina, e a maré mudou. Ofegante e rosnando, a mulher grande foi espancada. Ele a jogou pesadamente no chão e então saltou para trás para pegar seu revólver, esperando uma renovação do ataque. Pela primeira vez, ele estava consciente de uma dor intensa em sua perna esquerda. A mulher fez um esforço violento para se levantar, e então caiu para trás, gemendo e xingando.
"Você conseguiu! Você me pegou!", ela gritou. "Minha perna está quebrada!" Então ela gritou por Davy, Bill e Sam, chovendo maldições sobre a lei e sobre o traidor que tinha sido sua ruína.
Bonner, com sua própria perna balançando e coberta de sangue, tentou acalmá-la, mas sem sucesso. Ele viu que ela estava totalmente indefesa, sua perna torcida sob seu corpo pesado. Seus gritos de dor enquanto ele a virava provaram conclusivamente que ela não estava fingindo. Seu quadril estava deslocado. O jovem teve senso suficiente para retornar a Davy antes de se aventurar na caverna onde a Srta. Gray estava sem dúvida desmaiada. O homem estava respirando, mas ainda inconsciente devido ao golpe na cabeça. Bonner rapidamente amarrou suas mãos e pés, prevenindo-se contra emergências no caso de sua própria incapacitação como resultado do ferimento de bala em sua perna; então ele mancou com a lanterna, passando pela amazona que gemia, em busca de Rosalie Gray. Não lhe ocorreu até depois que, sozinho, ele havia derrotado um bando de criminosos extremamente desesperados, tão simplesmente tudo havia funcionado até o momento do encontro com a mulher.
Alguns metros além de onde a velha estava gemendo, ele chegou à caverna na qual os bandidos faziam seu lar. Segurando a lanterna acima de sua cabeça, Bonner espiou ansiosamente para dentro da caverna. No canto mais distante, uma garota estava agachada, seus olhos aterrorizados fixos no estranho.
"Como vai, Srta. Gray", veio a saudação alegre de seus lábios. Ela ofegou, passou a mão sobre os olhos e tentou piedosamente falar. As palavras não saíam. "O resgate tão rezado chegou. Você está livre — isto é, assim que encontrarmos nosso caminho para fora deste lugar. Deixe-me apresentar-me como Jack, o Matador de Gigantes — olá! Não faça isso! Oh, diabo!" Ela havia tombado em um desmaio profundo.
Como Wicker Bonner, com sua perna ferida, fraco pela perda de sangue e desmaiado pela reação, a carregou da caverna através da passagem e do alçapão e para dentro da tenda só pode ser imaginado, não descrito. Ele apenas sabia que era necessário removê-la do local e que sua força logo se esgotaria. O sol estava tingindo o leste antes que ela abrisse os olhos e estremecesse. Enquanto isso, ele havia estancado o fluxo de sangue na parte carnuda de sua perna, amarrando o membro firmemente com um pedaço de corda. Era um corte feio e superficial feito por uma bala de grande calibre, e com certeza o colocaria de muletas por algum tempo. Mesmo agora, ele mal conseguia mover o membro. Por uma hora, ele vinha descarregando sua ira sobre o lento Anderson Crow, que deveria estar no local muito antes disso. Dois de seus cativos, agora totalmente conscientes, estavam encarando seus companheiros na tenda com ódio em seus olhos.
Rosalie Gray, pálida, despenteada, mas mais bonita do que os relatos haviam previsto, não podia no início acreditar que estava livre das garras dos bandidos. Levou muitos minutos — muitos minutos dolorosos — para convencê-la de que não era um sonho e que, na verdade, ele era Wicker Bonner, cavalheiro. Sentado com as costas contra um poste da tenda, de frente para a cabana através da aba, com um revólver em sua mão trêmula, ele contou-lhe das aventuras da noite e foi recompensado dez vezes pela gratidão que brilhava em seus olhos e tremia em sua voz. Em troca, ela lhe contou de sua captura, das experiências terríveis na caverna e das ameaças que a tinham levado quase ao limite da resistência.
"Oh, oh, eu poderia amar você para sempre por isso!", ela gritou na plenitude de sua alegria. Um sorriso arrebatador brilhou nos olhos de Bonner.
"O sempre começa neste instante, Srta. Gray", ele disse; e sem qualquer razão aparente, os dois apertaram as mãos. Depois, eles pensariam neste ato trivial e prometeriam que foi verdadeiramente o começo. Eles eram jovens, de corações livres e cheios do romance da vida.
"E aqueles homens horríveis estão realmente capturados — e a mulher?", ela gritou, após outro relato emocionante dele. Sam e Bill rosnaram francamente. "Suponha que eles se soltem?" Seus olhos se arregalaram com o pensamento disso.
"Eles não podem", ele disse laconicamente. "Eu gostaria que o marechal e seu exército de bicicletas se apressassem. Aquela mulher e Davy precisam de atenção. Eu odiaria como o diabo que qualquer um deles morresse. A gente não quer matar pessoas, sabe, Srta. Gray."
"Mas eles estavam me matando aos poucos", ela protestou.
"Ai!", ele gemeu, sua perna lhe dando uma fisgada poderosa.
"O que é?", ela gritou em alarme. "Por que deveríamos esperar por aqueles homens? Vamos, Sr. Bonner, leve-me para a aldeia — por favor, leve. Estou louca, absolutamente louca para ver o Papai Crow e a mamãe. Posso caminhar até lá — quão longe é? — por favor, venha." Ela estava falando ansiosamente nesse tom até que viu o olhar de dor em seu rosto — o olhar que ele tentou tanto esconder. Ela estava em pé, reta, forte e ansiosa diante dele, e ele estava muito pálido sob o bronzeado.
"Não posso, Srta. Gray. Sinto muito, sabe. Veja! Onde há fumaça há fogo — quero dizer, onde há sangue há uma ferida. Estou acabado, em outras palavras."
"Acabado? Oh, você não está — não vai morrer! Você está ferido? Por que não me contou?" Ao que ela se ajoelhou ao lado dele, seus olhos escuros examinando-o intensamente, o desespero neles até que o sorriso vitorioso lutou para retornar ao dele. Os cativos riram audivelmente. "O que posso — o que devo fazer? Oh, por que aqueles homens não vêm! Deve ser meio-dia ou —"
"São mal seis da manhã, Srta. Gray. Não se preocupe. Estou bem. Um corte na perna; a velha me atingiu. Não posso andar, sabe — mas —"
"E você me carregou até aqui e fez tudo aquilo e nunca disse uma palavra sobre — oh, quão bom, corajoso e nobre você é!"
Quando Anderson Crow e metade de Tinkletown, convocados em massa por Bud, apareceram na cena uma ou duas horas depois, encontraram Wicker Bonner estendido em um colchão, com a cabeça no colo de Rosalie. A jovem segurava o revólver dele na mão, e havia um olhar em seu rosto que dizia que ela atiraria em qualquer um que viesse molestar seu protegido. Dois desesperados indefesos jaziam praguejando no canto da tenda.
Anderson Crow, após uma hora de deliberação e explicação, caiu sobre os bandidos amarrados e indefesos e bravamente transportou todo o grupo para a "cadeia" da cidade. Wicker Bonner e sua enfermeira foram levados para a cidade, e a notícia do resgate voou pelo condado e, eventualmente, para os quatro cantos da terra, pois o sobrinho do congressista Bonner era uma pessoa de destaque.
Bonner, enquanto passava pela rua principal no trenó de Peabody a caminho da casa de Anderson Crow, era o centro das atenções. Ele era o herói da hora, pois não era a própria Rosalie Gray, pálida e doente com a tortura, sua escrava mais devotada? O que mais Tinkletown poderia fazer senão prestar homenagem quando via a cabeça de Bonner contra o ombro dela e Anderson Crow gritando aprovação do trenó que carregava os sequestradores. Os quatro bandidos, dois deles muito maltratados pelo contato noturno com Wicker Bonner, foram amontoados no xadrez, um bando de fantasmas tristemente abatidos.
"Eu lhe devo mil dólares", disse Anderson a Bonner quando pararam em frente à casa do marechal. Toda Tinkletown estava lá para ver como a Sra. Crow e a família reagiriam quando Rosalie fosse devolvida a eles. O quintal estava cheio de moradores boquiabertos, e houve um brado tímido quando a Sra. Crow correu para fora e praticamente arrastou Rosalie do trenó. "Blootch" Peabody galantemente interveio e se prontificou a entregar a moça com a graça de um Chesterfield. Mas a Sra. Crow teve a sua maneira.
"Vou cobrar em comida e alojamento", sorriu Wicker Bonner para Anderson enquanto dois homens fortes o tiravam do trenó.
"Onde está Bud?", perguntou Anderson depois que os outros entraram na casa.
"Ele ficou lá na 'cadeia' para guardar os prisioneiros", disse "Blootch". "Ninguém conseguiu encontrar a chave da porta e ninguém mais quis ficar. Eles não estão trancados, mas Bud está com dois revólveres e diz que eles só poderão escapar por cima do seu cadáver."
CAPÍTULO XXIII
A Convulsão de Tinkletown
Anderson Crow era ele mesmo mais uma vez. Ele estava vinte anos mais jovem do que quando foi para a cama na noite anterior. Sua alegria e orgulho tinham atingido o ponto de ruptura — a dignidade, por si só, evitou a catástrofe.
"O que o senhor espera fazer com o bando, Sr. Crow?", perguntou Bonner, reclinando-se com amável conforto na cadeira Morris do marechal. Ele estava se sentindo muito bem, apesar dos pontos do "Dr." Smith; e não pôde deixar de reconhecer, com um brilho maior ou menor em seu coração, que era bom fazer o papel de herói para tal heroína.
"Bem, vou protegê-los, é claro. Ninguém pode linchá-los enquanto eu for o marechal desta cidade", disse Anderson, esquecendo-se do fato de que não tinha estado perto da cadeia, onde o jovem Bud ainda tinha total encargo dos assuntos, sem chave, mas determinado. "Acho que terei de entregá-los ao xerife do condado hoje ou amanhã. Esta maldita cadeia nossa não é nada segura. Esse é um bando extremamente desesperado que capturamos. Não me lembro de ter prendido tal multidão antes."
"Passou pela sua cabeça, Sr. Crow, que capturamos apenas os mercenários? O patrão deles, quem quer que seja, está à solta e provavelmente rindo de nós. Não há alguma maneira de acompanharmos o caso e pegarmos o líder?"
"'Puxa vida, o senhor tem razão", disse Anderson. "Pensei nisso esta manhã, mas saiu da minha cabeça desde então. Foi aí que o erro foi cometido, Sr. Bonner. Provavelmente já é tarde demais agora. O senhor deveria ter pensado no líder. Parece-me —"
"Ora, papai Crow", exclamou Rosalie, com um rubor quente nas faces mais uma vez, "o Sr. Bonner não fez a sua parte? Ele não os enfrentou sozinho e não me salvou de algo pior que a morte?"
"Não estou lançando insinuações sobre ele, Rosalie", retrucou Anderson, muito severamente para o seu padrão. "Como pode falar assim?"
"Não estou ofendido, Srta. Gray", riu Bonner. "Todos nós cometemos erros. Ocorre-me, contudo, que o Sr. Crow talvez ainda possa descobrir quem é o líder. Os prisioneiros podem ser interrogados, creio eu."
"O senhor está certo de novo, Sr. Bonner. É engraçado como consegue ler meus pensamentos. Eu estava justamente indo à cadeia para colocá-los na cela de suor."
"Cela de suor? O senhor quer dizer câmara de suor, Sr. Crow", disse Bonner, rindo apesar de si mesmo.
"Não, senhor; é uma cela. Não conseguimos encontrar uma câmara grande o suficiente. Uso a cela reservada para prisioneiras. Talvez algum dia o conselho da cidade instale uma câmara de verdade, mas, até agora, a cela tem servido bem. Voltarei na hora da ceia, Eva. Cuide de Rosalie. Faça-a dormir um pouco e acho melhor você dar a ela um pouco de quinino e —"
"Acho que sei o que dar a ela, Anderson Crow", ressentiu-se sua esposa. "Vá embora. O senhor deveria estar cuidando daqueles sequestradores há três horas. Aposto que o Bud está quase exausto de guardá-los. Ele está lá desde as nove horas, e já são duas e meia agora."
"Roscoe está ajudando ele", murmurou Anderson, envergonhado.
Nesse instante, houve uma correria de passos pela varanda da frente e entraram Ed Higgins e "Blootch" Peabody, ofegantes de excitação.
"Depressa, Anderson — desça para a cadeia", sibilou o primeiro; e então ele se foi como o vento. "Blootch", determinado a não perder nada, girou para segui-lo ou ultrapassá-lo, se possível. Ele teve tempo de gritar por cima do ombro enquanto saía sem fechar a porta:
"A velha se linchou!"
Seria agora supérfluo notar, após todas as convulsões que Tinkletown experimentara em menos de vinte e quatro horas, que a população desmoronou completamente diante desta última experiência angustiante do Destino. Em uníssono, a aldeia tombou como se atingida por uma salva de tiros e jazia, figurativamente falando, contorcendo-se em seu próprio sangue. A estupefação atacou a cidade. Então, uma a uma, as mentes das pessoas se arrastaram para fora das cinzas, lenta mas seguramente, apenas para se perguntar onde o raio atingiria a seguir. Não desde os dias da Revolução Americana a cidade experimentara tal sucessão incessante de incidentes. Nem o Dia do Juízo Final, com as explosões clarinadas de Gabriel, poderia superar esta hora produtiva em emoções.
Era verdade que a velha Maude cometera suicídio na cadeia. Ela fora colocada em um catre no escritório da prisão e o Dr. Smith fora chamado imediatamente após sua chegada; mas ele estava fazendo uma visita no campo. Bud Long, apoiado por meia dúzia de rapazes armados com mosquetes da Revolução, que não disparariam a menos que carregados, estava em frente à pequena cadeia com suas paredes de madeira e barras de ferro, guardando os prisioneiros zelosamente. A cadeia fora construída para abrigar andarilhos e bêbados, não para conter desesperados. Mesmo enquanto o heroico Bud vigiava com fidelidade perseverante, seus encargos planejavam reduzir sua prisão a estilhaços e, no momento apropriado, escapar para os bosques e colinas. Eles sabiam que a porta gradeada estava destrancada, mas imaginavam que o local estivesse completamente cercado por aldeões vingativos, que os cortariam como ratos se se aventurassem a sair. Se soubessem que Bud estava sozinho, é muito provável que tivessem saído, livrado-o de suas armas, dado-lhe uma surra e partido, sem serem incomodados, para o campo.
Durante toda a manhã, a velha Maude estivera gemendo e xingando no escritório, onde jazia sem assistência. Bud contava aos seus amigos como a derrubara duas vezes na caverna, depois que ela atirara seis vezes e tentara golpeá-lo com seu punhal, quando uma súbita cessação dos gemidos do interior atraiu a atenção de todos. "Doc" Smith chegou naquele momento e encontrou os rapazes ouvindo atentamente por uma retomada da profanação pitoresca. Levou algum tempo até que a multidão se tornasse grande o suficiente para inspirar uma visita ao interior da cadeia. Como convinha à sua dignidade, Bud liderou o caminho.
A velha, incapaz de suportar a dor por mais tempo, e sabendo muito bem que seus dias terminariam na prisão, conseguira, de alguma forma, enforcar-se em uma barra da janela ao lado de sua cama, usando um lençol retorcido. Ela estava morta quando "Doc" fez o exame. Um comitê geral partiu imediatamente para notificar Anderson Crow. Por um minuto, pareceu que a cadeia seria deixada inteiramente sem vigilância, mas Bud lealmente retornou ao seu posto, reforçado por Roscoe e o médico.
Com a chegada do Sr. Crow à cadeia, os assuntos assumiram algum aspecto de ordem. Ele primeiro trancou as portas gradeadas, mantendo assim o impetuoso David longe de ver sua mãe antes que a retirassem de lá. Um mensageiro foi enviado para o legista em Boggs City, e então o grande corpo foi liberado de seu último local de suspensão.
"Caramba, mas este é um dia movimentado para mim!", disse Anderson. "Não terei tempo de interrogar aqueles sujeitos até esta noite. Mas acho que eles aguentam. O que é isso, Blootch?"
"Eu estava apenas perguntando ao Bud se eles ainda estão lá dentro", disse Blootch.
"Estão, Bud?", perguntou Anderson em rápido alarme.
"Claro", respondeu Bud com o peito estufado. Até Blootch o invejou.
"Ela morreu há exatamente uma hora e sete minutos", observou Anderson, tocando cautelosamente o pulso da mulher morta. "Caramba, estou feliz por uma coisa!"
"O que é, Anderson?"
"Não teremos que ajustar o quadril dela. Economizamos despesa."
"Mas vamos ter que enterrá-la, provavelmente", disse Isaac Porter.
"Sim", disse Anderson pensativo. "Ela terá que ser enterrada. Mas — mas —" e aqui seu rosto se iluminou de alívio — "não por um dia ou dois; então para que se preocupar."
Quando o legista chegou, logo depois das seis horas, um júri foi empossado e testemunhas juramentadas. Em dez minutos, um veredito de suicídio foi retornado e o legista estava a caminho de Boggs City. Ele nem sequer soube que um quadril fora deslocado. Anderson insistiu em um exame post-mortem, mas foi ridicularizado pelo médico intrometido.
"Votei naquele tolo em novembro passado", disse Anderson furiosamente, enquanto o legista se afastava, "mas podem me chutar para fora daqui se eu fizer isso de novo. Cuidado aí, Bud! O que raios você está fazendo com essas pistolas? Caramba, você não tem juízo? Apontando elas desse jeito. Ora, você é capaz de atirar em alguém —"
"Ah, essas não são pistolas", zombou Bud, com a boca cheia de algo. "São salsichas bolonhesas. Não como nada desde ontem à noite e estou com fome."
"Bem, está escuro aqui fora", explicou Anderson, entrando repentinamente na cadeia. "Acho que vou colocar aqueles sujeitos na câmara de suor."
"No quê?", perguntou George Ray.
"Na câmara de suor — c-â-m-a-r-a, câmara. Não consegue ouvir?"
"Pensei que o senhor usasse uma cela."
"Porcaria, não! Ninguém além de caipiras chama aquilo de cela", disse Anderson com fino desdém.
Os três prisioneiros franziram a testa para ele tão ferozmente e rosnaram tão vingativamente quando perguntaram se seriam deixados morrer de fome, que o pobre Anderson correu para casa e ordenou que sua esposa preparasse "uma cesta de pão com manteiga e outras coisas para os prisioneiros". Eram nove horas antes que ele pudesse se decidir a voltar à cadeia com sua cesta. Passou as horas seguintes contando a Rosalie e Bonner sobre o incidente chocante na cadeia e absorvendo conselhos do sensato jovem de Boston.
"Gostaria de ir com o senhor para ver esses sujeitos, Sr. Crow", foi o lamento pesaroso de Bonner. "Mas o médico diz que devo ficar quieto até que esta coisa maldita cure um pouco. Juntos, acho que poderíamos extrair toda a história daqueles canalhas."
"Oh, não se preocupe", disse o marechal; "vou aprender tudo o que há para se aprender. Pergunte ao Alf Reesling que tipo de interrogador eu sou."
"Quem é Alf Reesling?"
"O senhor não ouviu falar dele em Boston? Ora, todo conferencista de temperança que vem aqui diz que ele é o maior bêbado do mundo. Eu supus que a reputação dele já tivesse chegado a Boston a esta altura. Ele só ficou sóbrio uma vez em vinte e cinco anos."
"É possível?"
"Foi quando a esposa dele morreu. Ele disse que se sentia tão bem que não era necessário ficar bêbado. Bem, contarei tudo sobre isso quando voltar. Não se preocupe mais, Rosalie. Descobrirei quem está por trás desse negócio e então saberemos tudo sobre você. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe."
"Aqueles prisioneiros devem estar quase morrendo de fome a esta altura, Anderson", alertou a Sra. Crow.
"Caramba, é verdade!", ele gritou, e saiu apressado para a noite.
A cadeia estava quase totalmente escura — totalmente, se não fosse pela única lâmpada que queimava no escritório onde o corpo da velha estava deitado. Dois ou três cidadãos tímidos estavam longe, em frente ao pátio de forragem de Thompson, olhando com temor para o calabouço. Os passos de Anderson tornaram-se mais lentos e vacilantes à medida que se aproximavam da entrada do proibitivo quadrado de escuridão. A neve rangia sonoramente sob seus calcanhares e o vento frio beliscava suas orelhas sem proteção com uma maldade que irritava. De fato, ele ficou tão irritado que pousou a cesta e bateu nas orelhas vigorosamente por alguns minutos antes de retomar seu progresso lento. Ele detestava o pensamento de entrar onde a mulher morta jazia.
De repente, ele decidiu que uma confissão dos homens seria inútil a menos que tivesse testemunhas auditivas para comprová-la no tribunal. Sem mais deliberações, ele refez seus passos apressadamente até a loja de Lamson, onde, após meia hora de conversa sobre os tópicos do dia, ele convocou toda a multidão para acompanhá-lo à cadeia.
"Onde está Bud?", perguntou ele bruscamente.
"Em casa na cama, pobre criança", disse o velho Sr. Borton.
"Bem, caramba, por que ele não está aqui para —", começou Anderson, mas conteve-se a tempo de evitar que a multidão visse que ele esperava que Bud atuasse como líder na expedição. "Eu queria que ele anotasse as notas", substituiu ele. O editor Squires voluntariou-se para atuar como secretário, ponto, intérprete e tudo o mais que sua língua sarcástica pudesse proferir.
"Bem, vá em frente, então", disse Anderson, empurrando-o para a frente. Harry liderou o grupo pela rua escura com mais rapidez do que parecia necessário; poucos na multidão conseguiam acompanhá-lo. A maioria ficou irremediavelmente para trás, de fato.
Harry entrou direto no escritório, seguido de perto por Blootch e o marechal. Maude, parecendo um monumento de lençóis, ainda ocupava o centro do chão. Sem uma palavra, o grupo passou pela coisa horrível e silenciosa para o corredor da prisão. Estava escuro como o Erebo na seção gradeada da prisão; uma corrente de ar frio soprou nos rostos dos visitantes.
"Venham aqui, seus sujeitos!", chamou Anderson bravamente para a escuridão; mas não houve resposta dos prisioneiros.
Pela muito boa razão de que, algumas horas antes, eles haviam calmamente removido uma janela de seus encaixes e, a esta altura, estavam longe demais para responder a perguntas.
CAPÍTULO XXIV
A Fuga dos Sequestradores
Partes de busca foram organizadas e enviadas para vasculhar o campo, por mais tarde que fosse. Cavaleiros velozes deram o alarme ao longo de cada estrada, e o agente da estação telegrafou a notícia para cada seção da terra. Em Boggs City, o xerife, repreendendo Anderson Crow por ser um tolo e Tinkletown por ser um hospício ao ar livre, enviou seus deputados para ajudar na perseguição. O próprio marechal se encarregou de liderar cada posse separada e distinta. Ele estava tão sobrecarregado pela magnitude de seu infortúnio que não é de admirar que seu cérebro girasse amplamente o suficiente para abranger todo o empreendimento.
Seja dito em crédito a Tinkletown, seus cidadãos fizeram todos os esforços razoáveis para recapturar os homens. As poucas centenas de homens aptos da cidade reuniram-se para apoiar seu marechal e a lei, e não houve um que se recusasse a sair na noite fria para uma busca abrangente pelos bosques e campos.
Rosalie, que fora despertada no início da noite pelos preparativos barulhentos do Sr. Crow para a perseguição, desceu as escadas e instantaneamente perdeu todo o desejo de dormir. Bonner estava deitado em um sofá na "sala de estar", que agora servia como quarto temporário.
"Se o senhor pudesse apenas me entregar esses revólveres, Sr. Crow", disse ele, indicando as duas grandes automáticas que ele tirara de Davy e Bill, "eu montarei guarda sobre a casa da melhor forma que puder enquanto o senhor estiver fora."
"Montar guarda? Para quê? Ninguém vai roubar a casa."
"Não devemos esquecer que esses mesmos patifes podem decidir voltar pelo mesmo caminho e tentar levar a Srta. Gray embora novamente. Com ela em sua posse, eles receberão seu pagamento; sem ela, seu trabalho terá sido em vão. É um bando desesperado, e eles podem pensar que o plano pelo menos vale a tentativa."
O olhar agradecido e radiante de Rosalie enviou um tremor que não era de dor através do corpo de Bonner.
"Não se preocupe com isso", disse o marechal. "Nós os teremos baleados em pedaços em uma hora e meia."
"Anderson, quero que você tenha muito cuidado com essa pistola de cavalo", disse sua esposa nervosamente. "Ela não dispara desde a guerra, e é bem provável que mate você por trás."
"Caramba, Eva!", rugiu Anderson, "você não supõe que eu saiba qual ponta atirar?" E ele saiu apressado, muito ofendido.
Edna Crow sentou-se na janela da frente, vigiando por horas. Ela informava aos outros membros da casa cada bando de buscadores que passava pelo lugar. Bonner ordenou que Rosalie ficasse longe das janelas, temendo um tiro de fora. De tempos em tempos, Roscoe reabastecia a grande chama na lareira. Era aconchegante na sala de estar à moda antiga, mesmo que a tensão sobre seus ocupantes fosse extrema.
Grande excitação veio a eles quando a figura de um homem foi vista caindo na calçada perto do portão da frente. A princípio, temeu-se que um dos bandidos, ferido pelos perseguidores, tivesse caído para morrer, mas os pedidos lamentosos de ajuda que logo vieram da calçada eram mais ou menos tranquilizadores. A figura prostrada tinha o hábito peculiar de, de vez em quando, levantar-se o suficiente para espiar entre as estacas da cerca, e cada grito subsequente parecia mais vigoroso que os outros. Finalmente, eles ficaram impacientes e, depois, cheios de raiva. Era evidente que o estranho ressentia a inospitalidade da casa.
"Quem é você?", chamou Edna, abrindo a janela bem pouco. Ao que o homem no portão desabou no chão e gemeu com esplêndida miséria.
"Sou eu", respondeu ele.
"Quem é 'eu'?"
"'Rast — 'Rast Little. Acho que estou morrendo."
Houve uma consulta apressada dentro de casa, e então Roscoe aventurou-se bravamente até a calçada.
"Você está baleado, 'Rast?", perguntou ele em tons trêmulos.
"Não; estou apenas ferido. Rosalie está aí dentro?"
"Sim. Ela está —"
"Acho que vou entrar, então. Droga! É uma longa caminhada da nossa casa até aqui. Acho que vou ficar a noite toda. Se eu não melhorar amanhã, terei que ficar mais tempo. Eu deveria ser cuidado, também."
"Rosalie está fazendo o papel de enfermeira para o Sr. Bonner", voluntariou-se Roscoe, ainda bloqueando o portão pelo qual 'Rast estava tentando se espremer.
"Sr. quem?"
"Bonner."
"Bem," disse 'Rast após um momento de reflexão, "ele deveria ser levado para um hospital. Deixe-me apoiar em você, Roscoe. Mal consigo andar, meu braço dói tanto."
O Sr. Little, com suas bandagens e seu caminhar claudicante, havia se juntado à expedição e não se deixou dissuadir até que a fraqueza o venceu e ele caiu à beira do caminho. Foi levado para dentro e acomodado em uma cadeira quente diante da lareira. Um longo olhar para Bonner e o recém-chegado caiu em um bico obstinado. Gemeu ocasionalmente e fez muito alarde sobre sua condição, mas ressentiu-se asperamente de qualquer tentativa de simpatia. Finalmente, adormeceu na cadeira, sendo sua última fala no sentido de que voltaria para casa cedo pela manhã, mesmo que tivesse que se arrastar cada centímetro do caminho. Claramente, 'Rast havia esquecido a Srta. Banks na súbita renovação de afeto por Rosalie Gray. O curso do amor verdadeiro não corria suavemente em Tinkletown.
Os que faziam as buscas chegaram de mãos vazias. O início da manhã encontrou a maioria deles dormindo em suas casas, aconchegados por esposas gratas e com promessas de cafés da manhã tardios. No dia seguinte, os negócios demoraram a reivindicar sua atenção pública. A Tinkletown masculina cochilava enquanto a feminina tagarelava à vontade. Havia muito sobre o que falar e mais ainda o que antecipar. As autoridades em todos os condados contíguos haviam lançado suas redes e esperava-se, a qualquer momento, a notícia de que os fugitivos haviam caído em suas mãos.
Mas não naquele dia, nem no seguinte, nem em nenhum dia, na verdade, chegaram notícias de sua captura, então Tinkletown foi obrigada a se acomodar novamente em um estado de tranquilidade. Algum pequeno interesse foi despertado quando o conselho municipal ordenou o reparo da cadeia, e houve uma onda de entusiasmo ligada ao funeral do único sequestrador em cativeiro. Foi necessário adiar o jantar de ostras na Igreja Metodista, mas houve algum consolo no conhecimento de que logo seria verão e os africanos ignorantes não precisariam do dinheiro para roupas de inverno. A recepção na casa do ministro foi um fracasso. Ele foi avisado a tempo, no entanto, e foi sua própria culpa que ele não recebeu mais do que uma jarra de vinagre, dois pães e uma libra de mel como resultado de suas expectativas. Foi a primeira vez que uma festa de "libra" se provou um empreendimento perdedor.
Anderson Crow mantinha uma busca incansável pelos desesperados. Ele se recusava a aceitar a teoria de Wicker Bonner de que eles estavam seguros na cidade de Nova York. Era sua própria opinião de que eles ainda estavam na vizinhança, esperando uma chance de exumar o corpo da mãe de Davy e fugir com ele.
"Não tente me dizer, Sr. Bonner, que até um patife como ele não tem amor pela própria mãe", argumentou ele. "Davy pode não ser um grande modelo, mas tinha um sentimento pela mulher que o gerou, e não se esqueça disso."
"Ora, Papai Crow, ele era o bruto mais sem coração do mundo!" exclamou Rosalie. "Eu o vi derrubá-la mais de uma vez — e chutá-la também."
"Um lapso de memória, só isso. Ele provavelmente estava pensando na esposa, se é que tem uma."
Em uma reunião pública, o conselho municipal foi condenado por sua falha em reforçar a cadeia na época em que Anderson fez sua exigência, três anos antes.
"Qual é a utilidade de eu pegar ladrões, e tudo o mais, se a cadeia não os segura?" declarou Anderson. "Não posso me dar ao luxo de perder tempo perseguindo personagens desesperados se o conselho municipal não vai impedi-los de escapar assim que o sol se põe. Qual é a utilidade, eu gostaria de saber? Onde está a justiça? Não quero que se espalhe por aí que a única maneira de segurarmos um prisioneiro é fazendo com que ele cometa suicídio assim que é preso. Por dois centavos eu me demitiria agora mesmo."
Naturalmente, ninguém quis ouvir sobre isso. Como resultado, quase quinhentos dólares foram votados dos fundos da corporação para fortalecer e modernizar a "cadeia". Foi o senso da reunião que uma "caixa de suor" deveria ser instalada sob a supervisão do Sr. Crow, e que o salário do marechal deveria ser aumentado em cinquenta dólares por ano. Após a adoção desta resolução popular, o Sr. Crow levantou-se e informou solenemente ao povo que sua fé nele não estava equivocada. Ele lançou a reunião em um estado de grande excitação ao anunciar que os sequestradores logo estariam nas garras da justiça mais uma vez. Em resposta a perguntas ansiosas, ele apenas declarou que tinha uma pista valiosa, que não poderia ser divulgada sem prejuízo à causa. Todos foram para casa naquela noite com a garantia de que os fugitivos logo seriam capturados. Anderson prometeu ao conselho municipal que ele não os pegaria até que a cadeia fosse reparada.
Passou-se quase uma quinzena antes que Wicker Bonner pudesse andar com muletas. O ferimento em sua perna era feio e cicatrizava lentamente. Seu tio, o congressista, enviou um cirurgião de Nova York, mas esse dignatário aprovou os métodos do "Doc" Smith e deixou abruptamente o jovem aos cuidados de uma excelente enfermeira, Rosalie Gray. Os servos do congressista Bonner vinham a cada um ou dois dias com livros, jornais, doces e suprimentos frescos da cidade, mas era impossível para eles obter qualquer satisfação do jovem em resposta às suas perguntas sobre quando ele esperava retornar à grande casa do outro lado do rio. Bonner estava começando a odiar a ideia de desistir das leituras de Rosalie, de suas ministrações e do desenvolvimento nada incerto de suas próprias opiniões sobre a atratividade pessoal dela.
"Não sei quando serei capaz de andar, Watkins", disse ele ao caseiro. "Temo que meu coração esteja afetado."
A presença forçada de Bonner na casa de Anderson Crow era fonte de extremo aborrecimento para os jovens da cidade. "Blootch" Peabody criou um escandaloso alvoroço ao ficar bêbado como um gambá no final da semana, tão grande era seu abatimento. Como foi sua primeira bebedeira real, ele não se recuperou do efeito por três dias. Ele então assinou o compromisso de abstinência e falou sobre os males da bebida forte com tanto sentimento na reunião de oração que as mulheres da cidade iniciaram um movimento para parar a venda de bebidas alcoólicas na cidade. Como a farmácia de Peabody era o único lugar onde o uísque podia ser obtido, "Blootch" logo viu o erro de seus caminhos e desceu de seu pedestal para corrigi-los.
Bonner era um amigo nas horas difíceis para Anderson Crow. Os dois ficavam em consulta metade do tempo, e as opiniões do jovem não podiam ser ignoradas. Ele apresentou uma teoria sobre os motivos do líder na trama para enviar Rosalie a um exílio do qual não se esperava que ela retornasse. Era sua crença que a pessoa que a abandonou quando bebê foi motivada pelo desejo de possuir uma fortuna que deveria ter sido da criança. As condições que acompanhavam a disposição final desta fortuna, sem dúvida, eram tais que tornavam imprudente destruir a vida da garota. O conspirador, qualquer que fosse sua relação com a criança, deve ter sentido que poderia chegar um momento em que a existência da verdadeira herdeira seria necessária. Ou tal medo era a inspiração, ou o relacionamento era tão caro que o coração do arquiconspirador estava cheio de amor pela vítima inocente.
"Quem pode dizer, Srta. Gray", disse Bonner uma noite enquanto estavam sentados diante da lareira, "que a mulher que a deixou com o Sr. Crow não era sua própria mãe? Suponha que um vasto patrimônio devesse ser seu em fideicomisso após a morte de algum parente rico, digamos, um avô. Isso significaria naturalmente que outra pessoa se ressentia deste legado, e provavelmente com alguma justiça. A propriedade deveria tornar-se sua quando você atingisse uma certa idade, digamos. Você não vê que o dia roubaria da pessoa deserdada toda esperança de reter a fortuna? Até mesmo uma mãe poderia ser tentada, por razões ambiciosas, a tomar medidas extremas para garantir a fortuna para si mesma. Ou ela poderia ter sido influenciada por uma vontade mais forte que a sua — a vontade de um homem inescrupuloso. Há muitas contingências, todas prováveis, à medida que você escolhe analisá-las."
"Mas por que essa pessoa desejaria me banir do país completamente? Não sou mais perigosa aqui do que seria em qualquer lugar da Europa. E então pense nos meios que teriam empregado para me tirar de Tinkletown. Não estive perdida para o mundo por anos? Por que..."
"Verdade; mas estou bastante convencido, e acho que o Sr. Crow concorda comigo, de que a recente mudança foi necessária pelas exigências de alguém cujo coração não está interessado, mas cuja mão empunha o cetro do poder sobre o amor que tenta protegê-la. Qualquer outro teria ceifado sua vida desde o início."
"Essa é a minha ideia", concordou Anderson solenemente.
"Eu não quero a fortuna!" gritou Rosalie. "Sou feliz aqui! Por que não podem me deixar em paz?"
"Eu lhe digo, Srta. Gray, a menos que algo aconteça para impedir, essa mulher algum dia lhe devolverá o que é seu — sua fortuna e seu nome."
"Não posso acreditar nisso, Sr. Bonner. É muito parecido com um sonho para mim."
"Bem, droga, Rosalie, sonhos não duram para sempre!" interrompeu Anderson Crow. "Você tem que acordar em algum momento, não vê?"
CAPÍTULO XXV
À medida que o coração envelhece
A ânsia de Bonner em começar a investigar o mistério crescia à medida que sua força voltava. Ele se ofereceu para interessar seu tio no assunto e, por meio dele, iniciar um esforço sistemático para desvendar as pontas emaranhadas da vida de Rosalie. Dinheiro não seria poupado; tempo e inteligência seriam dedicados à causa. Ele sabia que Rosalie era, na realidade, uma criatura de boa linhagem e digna do nome que qualquer homem poderia buscar conferir a ela — um nome dado em amor por um homem à mulher que o compartilharia com ele para sempre.
Os dias e as noites estavam ensinando a ele a sacralidade de um apego crescente. Ele não estava fechando os olhos para a verdade. Era tão impossível para o grande e mundano Wick Bonner estar perto dela e não se tornar uma vítima, quanto era para o jovem humilde e bruto de Tinkletown. Seu coração era tão frágil quanto o deles quando se expunha ao ataque dela. Sua beleza o atraía, seu refinamento natural de caráter o atraía; sua pureza, sua ternura, sua bondade causavam estragos em suas impressões. Fresca, brilhante, de mente tão clara quanto o sol de junho, ela era uma revelação para ele — para Bonner, que conhecia o sexo dela em todos os seus ambientes. Seu coração estava cheio dela, dia e noite; pois dia e noite ele se perguntava se ela poderia cuidar dele como ele sabia que estava começando a cuidar dela.
Um dia ele recebeu um telegrama. Era de sua mãe e sua irmã, que acabavam de chegar a Boston vindas das Bermudas, e trazia a breve, embora enfática, informação de que estavam partindo para Tinkletown para cuidar dele. Bonner entrou em pânico. Ele percebeu no instante que seria impossível para elas irem para a casa do Sr. Crow, e sabia que não poderiam ser enganadas quanto à sua real condição. Sua mãe insistiria naturalmente para que ele fosse imediatamente para Bonner Place, do outro lado do rio, e para Boston assim que pudesse; sua irmã inteligente veria através de seus motivos como um flash de relâmpago. O jovem Sr. Bonner as amava, mas estava distintamente entediado com a perspectiva de sua chegada. Com alguma pressa e confusão, mandou chamar o "Doc" Smith.
"Doutor, em quanto tempo serei capaz de navegar?" perguntou ele ansiosamente.
"Agora mesmo."
"Não diga! Não me sinto forte, sabe."
"Bem, sua perna está indo bem e todo o perigo passou. Claro, você não estará tão ágil quanto o habitual por algum tempo, e não pode andar sem muletas, mas não vejo sentido em você ficar vagando por aqui por causa disso. Você estaria seguro para ir a qualquer momento, Sr. Bonner."
"Olha aqui, doutor, tenho medo de trocar de médico. Você lidou com este caso muito bem, e se eu fosse a outro sujeito, ele poderia desfazer tudo. Tomei a decisão de deixar que você cuide de mim até que este ferimento esteja completamente curado. Está tudo bem, agora. Sei do que estou falando. Não vou correr riscos. Quanto tempo levará até que esteja completamente curado?"
"Algumas semanas, suponho."
"Bem, vou ficar bem aqui e deixar que você olhe todos os dias. É um assunto sério demais para eu brincar. Aliás, minha mãe está vindo, e arrisco dizer que ela vai querer que eu vá para Boston. Nosso médico da família é um fóssil velho e não gosto de confiar nele com isso. Você me fará um favor, doutor, se me mantiver aqui até que eu esteja completamente bem. Pretendo dizer à minha mãe que não será sensato me mover até que todo o perigo de envenenamento do sangue tenha passado."
"Envenenamento do sangue? Não há perigo agora, senhor."
"Nunca se sabe", disse Bonner sabiamente.
"Mas eu seria um perfeito tolo, Sr. Bonner, se ainda houvesse perigo disso", reclamou o médico. "Que tipo de médico eles considerariam que eu sou?"
"Eles certamente lhe dariam crédito por ser cuidadoso, e é isso que apela a uma mãe, sabe", disse Bonner ainda mais sabiamente. "Além disso, a perna é minha, doutor, e quero que ela seja tratada do meu jeito. Acho que mais algumas semanas sob seus cuidados me colocarão em forma. Minha mãe tem que me considerar, só isso. Gostaria que você passasse amanhã e trocasse essas bandagens, doutor; se não se importar..."
"Doc" Smith não era lento. Ele viu mais do que Bonner pensava, então piscou para si mesmo enquanto atravessava para seu escritório. Na esquina, encontrou Anderson Crow.
"Diga, Anderson", disse ele, meio rindo, "aquele jovem Bonner teve uma recaída."
"Trovões!"
"Ele não pode ser movido por uma semana ou duas."
"Você terá que cortá-la?"
"A perna?"
"Certamente. Essa é a única coisa que o incomoda, não é?"
"Acho que não. Vou colocar o coração dele em uma tipoia", disse Smith, rindo alegremente do que ele pensou que seria tomado como uma brilhante piada. Mas ele errou. Anderson foi para casa em um grande alvoroço e advertiu privadamente cada membro da família, incluindo Rosalie, para tratar Bonner com toda consideração, já que seu coração estava fraco e propenso a lhe causar muitos problemas. Acima de tudo, ele os advertiu para manter as notícias angustiantes longe de Bonner. Isso o desencorajaria muito. Por uma semana inteira, Anderson observou Bonner com olhos ansiosos, contorcendo-se cada vez que o grandalhão se esforçava, gemendo quando ele soltava sua risada calorosa.
"Você ouviu alguma coisa?" perguntou Bonner com regularidade fiel quando Anderson chegava em casa a cada noite. Ele se referia à perseguição aos fugitivos.
"Nada que valha a pena", respondeu Anderson desanimado. "O tio Jimmy Borton recebeu uma carta de Albany hoje, e seu genro disse que três homens estranhos foram vistos na estação de Albany no outro dia. Pedi ao tio Jimmy que escrevesse e perguntasse se ele tinha visto alguém que correspondesse à descrição, sabe. Mas os três homens de quem ele falou pegaram um trem para Nova York, então suponho que estejam perdidos a esta altura. É o caso mais desconcertante em que já trabalhei."
"Ocorreu-lhe que o verdadeiro líder estava nesta vizinhança na época? Em Boggs City, digamos. De acordo com a história de Rosa... da Srta. Gray, o homem Sam saía todas as noites para receber instruções. Bem, ele ou ia para Boggs City ou para um local de encontro acordado entre ele e seu superior. É possível que ele tenha visto essa pessoa na própria noite da minha aventura. Agora, o que precisamos fazer é descobrir se um estranho foi visto por estas partes naquela noite. Os registros dos hotéis em Boggs City podem nos dar uma pista. Se você não se importar, Sr. Crow, farei com que este detetive de Nova York, que virá amanhã, dê uma olhada nesta fase do caso. Não interferirá nos seus planos, interferirá?" perguntou Bonner, sempre atencioso com os sentimentos do marechal bondoso e simples.
"De forma alguma, e eu o ajudarei o quanto puder, senhor", respondeu Anderson magnanimamente. "Aqui, Eva, aqui está uma carta para Rosalie. É a segunda que ela recebe de Nova York em três dias."
"É da Srta. Banks. Elas se correspondem, Anderson", disse a Sra. Crow.
"E diga, Eva, decidi uma coisa. Temos que calcular que vamos ter que nos virar sem aqueles mil dólares depois disso."
"Ora, An... der... son Crow!"
"Sim. Vamos encontrar a família dela, não importa se teremos que desistir dos mil. É o mais correto. Ela fará vinte e um anos em março, e terei que resolver a questão da tutela de qualquer maneira. Mas, droga, Sr. Bonner, ela diz que não vai aceitar o dinheiro que guardamos para ela."
"Ela me disse o mesmo, Sr. Crow. Acho que ela está parcialmente certa. Se ela aceitar meu conselho, dividirá com vocês. Vocês têm direito a tudo, sabe — deveria ser o pagamento de vocês — e ela não quer ouvir seu plano de dar tudo a ela. Ainda assim, sinto que ela não deveria estar sem um centavo neste momento. Ela pode nunca precisar disso — certamente não precisará enquanto vocês estiverem vivos — mas parece uma coisa sensata para ela estar protegida contra emergências. Mas arrisco dizer que vocês podem resolver isso entre si. Não tenho o direito de interferir. Houve alguma correspondência para mim?"
"Sim. Quase esqueci de entregar. Aqui está uma de sua mãe, imagino. Esta é de sua irmã, e aqui está uma da sua... sua namorada, eu suponho. Deduzo tudo isso avaliando o..." e ele continuou a contar como chegou às suas conclusões, todas erradas. Eram convites para eventos sociais em Boston. "Mas tenho algo importante para lhe dizer, Sr. Bonner. Acho que uma armadilha está sendo montada para mim pelos desesperados que estamos perseguindo. Acho que estou ficando quente demais em seu rastro. Recebi uma carta anônima hoje."
"Uma o quê?"
"Carta anônima. Você nunca ouviu falar de uma? Esta foi escrita com o propósito expresso de me atrair para uma armadilha. Eles querem me tirar do caminho. Mas eu os enganarei. Não prestarei atenção a ela."
"Meu Deus, Anderson, aposto que você ainda será assassinado!" gritou sua pobre esposa. "Gostaria que você parasse de perseguir as pessoas."
"Posso dar uma olhada na carta, Sr. Crow?" perguntou Bonner. Anderson tirou furtivamente o envelope quadrado do bolso interno e o passou.
"Eles têm que levantar bem cedo para me pegar dormindo", disse ele orgulhosamente. Bonner tirou o conteúdo do envelope. Enquanto lia, seus olhos brilharam e os cantos de sua boca se contraíram, mas seu rosto estava educadamente sério quando entregou a missiva de volta ao marechal. "Parece uma armadilha, não parece?" disse Anderson. "Você vê, não há assinatura. Os patifes tiveram medo de assinar um nome."
"Eu não diria nada à Srta. Gray sobre isso se fosse você, Sr. Crow. Pode perturbá-la, sabe", disse Bonner.
"Isso inclui você também, Eva", comandou Anderson por sua vez. "Não preocupe a garota. Ela não deve saber nada sobre isso."
"Não acho que seja uma armadilha", comentou Eva enquanto terminava de ler a missiva. Bonner aproveitou esta oportunidade para rir de coração. Ele a segurou o máximo que pôde. O que Anderson descreveu como uma carta "anônima" não passava de um convite educado e formal para comparecer a uma "festa de inauguração" na casa do Coronel Randall, do outro lado do rio. Dizia:
"O Sr. e a Sra. D.F. Randall solicitam a honra de sua presença em uma festa de inauguração, sexta-feira à noite, 30 de janeiro de 190--, às oito horas. Rockden-of-the-Hills."
"Está endereçada a mim também, Anderson", disse sua esposa, apontando para o envelope. "É a casa nova que terminaram no outono passado. Carta anônima! Conversa fiada! Aposto que há uma no correio para cada uma das meninas."
"Roscoe pegou parte da correspondência", murmurou o marechal, acanhado. "Onde está aquele garoto infernal? Ele deveria levar uma surra bem dada por reter cartas como esta", rosnou ele, ansioso para mudar o assunto para outro rumo. Depois de refletir a noite toda, ele reuniu coragem e pediu a Bonner que não contasse a ninguém sobre seu erro em relação ao convite. Roscoe apresentou convites para sua irmã e Rosalie. Além disso, anunciou que metade das pessoas na cidade os recebera.
"Chegará um telegrama para o senhor daqui a pouco, Sr. Bonner", disse ele. "Bud está entregando um ao Sr. Grimes e vai passar aqui no caminho de volta. Eu estava na estação quando chegou. É da sua mãe, e diz que ela virá de Boggs City amanhã cedo."
"Obrigado, Roscoe", disse Bonner com um olhar divertido para Rosalie; "você me poupou o trabalho de lê-lo."
"Eles virão amanhã", disse Rosalie muito tempo depois, enquanto os últimos dos Crow se arrastavam para a cama. "O senhor terá de ir embora com eles, não terá?"
"Sou um incômodo terrível por aqui, imagino, e você ficará feliz em se livrar de mim", disse ele suavemente, com o olhar fixo na "lenha de fundo" em chamas.
"Não mais do que o senhor ficará em ir", disse ela com tanta frieza que o orgulho dele sofreu um choque nítido. Ele lançou um olhar tímido para o rosto da garota à sua frente. Estava tão calmo e sereno quanto uma manhã de maio. Os olhos dela também fitavam as chamas, e seus dedos brincavam distraidamente com a franja do braço da poltrona.
"Por Deus!", pensou ele, uma fraqueza assaltando seu coração de repente; "não acredito que ela se importe um pingo!"
CAPÍTULO XXVI
O Ventrículo Esquerdo
No dia seguinte, a Sra. Bonner e a Srta. Bonner chegaram a Tinkletown. Vieram de Boggs City em um automóvel, e sua chegada causou um novo frisson de excitação na cidade. Metade das mulheres de Tinkletown encontrou uma desculpa para passar em frente à casa do Sr. Crow durante o dia, e não poucas delas fizeram uma visita para apresentar seus respeitos à Sra. Crow, quer devessem ou não, para grande desconforto daquela estimável senhora.
A mãe de Wicker era uma mulher bonita e aristocrática, com uma linhagem que remontava à Babilônia ou a algum outro ponto de partida histórico. Seus ancestrais eram legalistas na época da Revolução Americana, e ela se orgulhava disso. É verdade que os antepassados de seu marido haviam atirado em alguns britânicos naqueles dias e perseguido com sucesso alguns de seus próprios ancestrais até Long Island, mas isso não importava nestes dias do século vinte. O Sr. Bonner já havia partido para o túmulo há muito tempo; e sua viúva, aos cinquenta anos, era praticamente a rainha de tudo o que contemplava, o que não era pouco. Os Bonner eram ricos em bens mundanos, ricos em posição social, ricos em tradições. A filha, recém-apresentada à sociedade, era uma garota bonita, vários anos mais jovem que Wicker. Ela era o ídolo de seu coração. Aquela moça esguia sempre fora para ele a garota mais brilhante, espirituosa e bonita de todo o mundo. Agora, ele se perguntava como a outra garota, que não era sua irmã, se compararia a ela quando estivessem lado a lado diante dele.
Naturalmente, a Sra. Crow e suas filhas entraram em pânico nervoso assim que essas mulheres elegantes de Boston puseram os pés dentro da casa humilde. Perderam o pouco de compostura que haviam conseguido adquirir e atrapalharam-se miseravelmente nos preparativos.
Mas calma, doce e composta como a pessoa mais exigente exigiria, Rosalie cumprimentou as visitantes sem uma sombra de confusão ou um sinal de falta de jeito. Bonner sentiu uma pontada de alegria e orgulho ao notar o olhar de surpresa que surgiu no rosto de sua mãe — uma surpresa que não diminuiu à medida que a garota passava por seu teste inconsciente.
"Por Deus!", exclamou ele jubilante para si mesmo, "ela é alguém de quem se orgulhar — ela é uma rainha!"
Mais tarde, no mesmo dia, após o almoço humilde, porém imponente (o paradoxo era permissível em Tinkletown), a Sra. Bonner encontrou tempo e oportunidade para expressar sua surpresa e sua aprovação a ele. Com a percepção da verdadeira aristocrata, ela não era cega aos encantos da garota, que florescia como uma rosa neste recanto esquecido da natureza. O tato que levou Rosalie a retirar-se, levando consigo todos os Crow da casa para dar aos Bonner a oportunidade de ficarem juntos sem serem perturbados, não escapou à inteligente mulher do mundo.
"Ela é notável, Wicker. Conte-me sobre ela. Por que ela vive nesta cidade miserável e entre essas pessoas?"
Ao que Bonner mergulhou em um histórico detalhado e um tanto longo da misteriosa Srta. Gray, repetindo-o como chegara a ele através dos lábios francos dela, mas com adornos próprios que teriam levado o rubor às bochechas dela, caso pudesse ouvi-los. O interesse de sua mãe não era fingido; sua irmã estava fascinada pelo relato.
"Quem sabe", exclamou ela, com seus olhos escuros brilhando, "ela pode ser uma herdeira de milhões!"
"Ou uma princesa de sangue real!", corrigiu sua mãe com um entusiasmo incomum. "Apenas o sangue fez desta garota o que ela é. O céu sabe que bilhões ou trilhões não teriam superado as influências de uma vida inteira passada em... em Winkletown — ou esse é o nome? Não importa, Wicker — qualquer nome servirá. Francamente, estou interessada na garota. É um crime permitir que ela vegete e morra em um lugar como este."
"Mas, mãe, ela ama essas pessoas", protestou Bonner sem entusiasmo. "Eles foram gentis com ela todos esses anos. Foram pais, protetores..."
"E foram muito bem pagos por isso, meu filho. Por favor, não me entenda mal, não estou planejando tirá-la de suas mãos. Não vou reconstruir sua esfera na vida. De forma alguma. Estou apenas dizendo que é um crime ela ser confinada para o resto da vida neste... neste deserto. Duvido muito que sua ascendência venha a ser conhecida, e talvez seja melhor que não seja. Ainda assim, estou interessada."
"Mamãe, acho que seria muito gentil convidá-la para ir a Boston por uma ou duas semanas, não acha?", sugeriu Edith Bonner, calorosa, mas hesitante.
"Excelente!", exclamou Wicker, esquecendo em sua empolgação que era um inválido. "Faça com que venha passar um tempo com você, Ede. Será um grande agrado para ela e, por Deus, estou inclinado a pensar que talvez seja um tanto benéfico para nós."
"Seu entusiasmo é lindo, Wicker", disse sua mãe, perfeitamente imperturbável. "Não tenho dúvidas de que você acha que Boston também seria beneficiada."
"Agora, sabe, mãe, não é muito parecido com você ser mordaz", disse ele com naturalidade. "Além disso, depois de viver um tempo em outras partes do mundo, estou começando a sentir que a população não é a única coisa sobre Boston que pode ser ampliada. É tudo muito bonito pavimentar nossas ruas com intelecto para que não possamos nos desviar de nossos próprios passos, mas gosto um pouco da ideia de me perder, de vez em quando, mesmo que eu tenha que olhar para o mesmo céu comum e antigo lá em cima que o resto do mundo olha, sabe? Aprendi recentemente que o mesmo sol que brilha sobre Boston também irradia para o resto do mundo."
"Sim, brilha em Tinkletown", concordou sua mãe serenamente. "Mas, meu querido..." virando-se para a filha, "acho que seria melhor esperar um pouco antes de estender o convite. Não há desculpa para correr em direção ao desconhecido. Deixe o tempo agir."
"Por Júpiter, mãe, às vezes você fala como Anderson Crow. Ele costuma dizer coisas assim", exclamou Wicker, encantado.
"Ora, ora! Como você pode dizer uma coisa dessas, Wicker?"
"Bem, você gostaria do velho Anderson. Ele é uma joia!"
"Ouso dizer — uma esmeralda. Não, não — isso não foi justo nem gentil, Wicker. Retiro o que disse. O Sr. Crow e todos eles foram bons com você. Perdoe-me pelo sarcasmo. O Sr. Crow é perfeitamente impossível, mas eu gosto dele. Ele tem coração, e isso é mais do que a maioria de nós pode dizer. E agora vamos retornar à terra mais uma vez. Quando você estará pronto para partir para Boston? Amanhã?"
"Céus, não! Não poderei ser movido por um bom tempo — perigo de gangrena ou algo do tipo. É surpreendente, mãe, como esses médicos do interior são capazes. O Dr. Smith é uma espécie de prodígio. Ele... ele... salvou minha perna."
"Meu filho... você não quer dizer que..." estava dizendo sua mãe, com a voz trêmula.
"Sim; é exatamente isso o que quero dizer. Estou bem agora, mas, é claro, serei muito cuidadoso por algumas semanas. Nunca se sabe, sabe. Envenenamento do sangue e toda aquela história. Mas não falemos disso — é macabro."
"De fato, é. Você deve ser extremamente cuidadoso, Wicker. Prometa-me que não fará nada imprudente. Não use sua perna até que o médico... mas tenho algo melhor. Vamos enviar o Dr. J... Ele pode vir de Boston duas ou três vezes..."
"Nada disso, mãe! Absurdo! Smith sabe mais em um minuto do que J... em um mês. Ele está cuidando do caso exatamente como eu quero que ele faça. Deixe como está, digo eu. Você sabe que J... sempre quer amputar tudo o que pode ser cortado ou serrado. Pelo amor de Deus, não deixe que ele tente isso em mim. Eu preciso das minhas pernas."
Não é necessário dizer que a Sra. Bonner foi completamente convencida por este argumento. Ela ordenou que ele permanecesse onde estava até que fosse perfeitamente seguro ser levado para o outro lado do rio, onde ele poderia se recuperar antes de se aventurar na cidade de seu nascimento. Além disso, anunciou que Edith e ela permaneceriam em Boggs City até que ele estivesse totalmente fora de perigo, dirigindo até lá todos os dias em seu automóvel alugado. De repente, ocorreu a Bonner que seria necessário subornar o "Doc" Smith e toda a família Crow, se ele quisesse manter sua posição como inválido.
Quando colocado à prova, o "Doc" Smith mentiu habilmente em nome de seu cliente (ele se recusava a chamá-lo de paciente), e a Sra. Bonner ficou convencida. O Sr. Crow e Eva protestaram vigorosamente que o jovem não seria "um pingo de trabalho" e que ele poderia ficar o tempo que quisesse.
"Ele é um cavalheiro, Sra. Bonner", anunciou o marechal, como se a mãe estivesse tomando conhecimento do fato pela primeira vez. "A Sra. Crow e eu conversamos sobre isso, e sei do que estou falando. Ele é um perfeito cavalheiro."
"Obrigada, Sr. Crow. Fico feliz em ouvi-lo dizer isso", disse a Sra. Bonner, com grande tato. "Você não se importará se ele ficar aqui mais um tempo, então?"
"Nem um pouco. Se ele aceitar o trabalho, eu o nomeio delegado adjunto."
"Eu gostaria de uma foto sua com o distintivo e o uniforme, Wick", disse Edith com uma brincadeira bem-humorada.
Pouco antes de as duas senhoras partirem para Boggs City naquela noite, Bonner conseguiu dizer algo a Edith.
"Diga, Ede, acho que seria incomumente gentil de sua parte convidar a Srta. Gray para vir a Boston nesta primavera. Você vai gostar dela."
"Wicker, se não fosse algo tão terrivelmente comum, eu riria pelas costas", disse ela, examinando-o com um olhar calmo que o desconcertou. "Não nasci ontem, sabe. Mamãe, talvez, mas não sua querida irmãzinha. Anime-se, irmão. Você vai superar isso, exatamente como todos os outros. Vou convidá-la para vir, mas... Por favor, não franza a testa assim. Vou suspeitar de algo."
Durante os muitos pequenos passeios de automóvel que as duas moças desfrutaram durante aqueles poucos dias em Tinkletown, a Srta. Bonner encontrou muito o que amar em Rosalie, muito a estimar e muito a antecipar. Propositadamente, ela começou a aprender por "dedução" quais eram exatamente os sentimentos de Rosalie pelo irmão mais velho. Ela não teria ficado surpresa ao descobrir os sinais reveladores de um afeto real, mas secreto, por parte de Rosalie, mas, pelo contrário, ficou surpresa e não pouco chagrinada ao ver a jovem moça encontrar cada avanço com uma candura alegre, que descartava definitivamente qualquer possibilidade de amor pelo irmão supostamente irresistível. A mente da Srta. Edith estava bastante tranquila, mas, com o orgulho arrogante de uma irmã, ela se ressentia do fato de que alguém pudesse conhecer esse querido irmão e não ser vítima dele. Perversamente, ela teria odiado Rosalie se a tivesse flagrado, em um único momento de descuido, revelando um sentimento mais terno do que um interesse amigável por ele.
Sofisticada e conhecedora do mundo, a alegre e descuidada Srta. Bonner lia suas páginas rapidamente — ela as examinava superficialmente —, mas via muita coisa nas entrelinhas. Se sua mãe tivesse sido igualmente perspicaz, aquela estimável senhora poderia ter se sentido imensamente aliviada em certos aspectos.
Bonner estava tendo dificuldades nestes dias. Era pior que a miséria ficar dentro de casa, e era totalmente fora de questão ele se aventurar a sair. Sua perna estava cicatrizando com uma rapidez repugnante, mas seu coração estava entrando em uma doença que desprezaria as curas dos homens. E se sua despedida de sua mãe e da jovem de rosto rosado cheirava a alívio, ele deve ser perdoado. Um peito dolorido não respeita pessoas.
Elas estavam voltando para o centro no trem da manhã cedo de Boggs City, e ficou entendido que Rosalie iria até elas em junho. Diga-se a verdade, tanto a Sra. Bonner quanto sua filha ficaram encantadas com a promessa dela. Se sentiram alguma inquietação quanto à possibilidade de revelações desagradáveis em relação ao seu nascimento, vendaram os olhos propositalmente e se entregaram ao jogo das consequências.
A Sra. Bonner estava esperando no automóvel, tendo se despedido de Wicker.
"Vou ficar de olho nele, Sra. Bonner", prometeu Anderson, "e lhe mandarei um telegrama se a condição dele mudar um pingo. Pedi ao 'Doc' Smith hoje que me dissesse a verdade sobre ele, e..."
"A verdade? O que você quer dizer?", ela exclamou, em novo alarme.
"Não se preocupe, senhora. Ele está melhorando muito bem, diz o 'doc'. Ele me disse que ele estaria fora de perigo quando voltasse para Boston. O coração dele está preocupando o 'doc' um pouco. Pedi que ele falasse claro e me dissesse o quão afetado está. Ele disse: 'No momento, apenas o ventrículo esquerdo — seja lá o que for isso — apenas o esquerdo está perfurado, mas o direito parece precisar de uma mudança de ares'."
CAPÍTULO XXVII
O Sorriso Zombeteiro
"Gosto de sua mãe", disse Anderson a Wicker, mais tarde à noite. "Ela é uma perfeita dama. Puxa vida, é um alívio ver uma mulher rica que sabe ser uma dama. Ela não é nada esnobe e, ainda assim, é uma aristocrata de verdade. Eu já lhe contei o que aconteceu com a esposa do juiz Courtwright? Não? Bem, foi há muito tempo, aqui mesmo em Tinkletown. O juiz concluiu que este seria um bom lugar para uma casa de veraneio — então ele e ela construíram uma residência grandiosa lá no penhasco do rio. Era o único lugar de veraneio deste lado do rio. Bem, é claro que a Sra. Courtwright teve que assumir e ser a líder das mulheres deste lugar. Ela mandava em todas e dava a entender que era uma rainha ou algo assim e que elas não passavam de camponesas. E as mulheres, como umas tolas, deixaram que ela fizesse isso também. Parece que seu bisavô era um 'esquire' na Inglaterra, e ela tinha o direito de ser importante. Bem, ela reinou por dois verões e ninguém conseguia chegar perto dela sem uma permissão especial do Todo-Poderoso. Ela não olhava para ninguém; seu queixo era tão alto no ar que ela tinha que olhar através do nariz.
"Seu marido era tão velho quanto Matusalém — isto é, era tão velho quanto Matusalém era quando menino, por assim dizer — e ela o mantinha aterrorizado. Mas eu dei um jeito nela. Ao final do segundo verão, ela estava pronta para empacotar e ir embora, duque ou não duque. Deixe-me lhe dar uma dica, Wick. Se você quiser trazer uma rainha ao seu nível, basta que ela saiba que você está rindo dela. Bem, senhor, a esposa do juiz costumava levantar o nariz para mim até que eu começasse a me sentir pequeno demais para ser visto. Meu orgulho estava chafurdando na poeira. Finalmente, pensei em um plano para dar um jeito nela. Toda vez que eu a via, eu sorria para ela — sem dizer uma palavra, entenda, apenas olhando para ela como se ela me parecesse engraçada. Bem, senhor, mantive isso firme e forte. A primeira coisa que notei foi que ela começou a parecer como se uma abelha a tivesse picado e ela não conseguisse encontrar o lugar. Eu a pegava roubando olhares astutos para mim e ela sempre me encontrava com um sorriso no rosto — um sorriso saudável, aliás.
"Não havia nada do que rir, entenda, mas ela não sabia disso. Ela começou a arrumar o cabelo e a parecer preocupada com suas roupas. Então, ela limpava o rosto para ver se o pó estava reto, o tempo todo se perguntando o que diabos eu estava rindo. Se ela passasse em sua carruagem, ela olhava para trás para ver se eu estava rindo; e eu sempre estava. Nunca falhei. Todo esse tempo eu não dizia uma palavra — apenas sorrindo como se ela me divertisse até a morte. Gradualmente, comecei a ser científico a respeito. Cheguei ao ponto em que, quando ela me flagrava rindo, eu tentava o meu melhor para esconder o sorriso. Claro, isso tornava tudo pior. Ela se agitava, se contorcia e ficava vermelha no rosto até parecer que estava em conserva. Puxa vida, ela não começou a negligenciar seus negócios de bisneta! Ela não tinha tempo para mandar em suas camponesas. Ela estava ocupada demais tentando descobrir o que eu estava rindo.
"Então, ela começou a parecer pálida e magra. Parecia que estava vendo fantasmas o tempo todo. Aquele meu sorriso maldito a perseguia a cada minuto. Claro, ela não podia reclamar disso. Isso não daria certo de forma alguma. Ela apenas tinha que suportar sem reclamar. Não havia nada a dizer. Finalmente, ela começou a ficar longe das reuniões e quase parou de passar pela cidade. Todos notaram a mudança nela. As pessoas diziam que ela estava ficando louca por causa de seu cabelo. Ela perdeu quinze quilos se preocupando antes de agosto, e quando chegou setembro, o juiz teve que levá-la para um tratamento de repouso. Eles nunca voltaram a Tinkletown, e o juiz teve que vender o lugar pela metade do preço que lhe custou. Por dois anos, ela quase entrava em histeria quando alguém ria. Mas fez bem a ela. Mudou suas ideias. Superou seus modos arrogantes, dizem, e ouvi dizer que ela é uma das senhoras mais gentis e doces de Boggs City hoje em dia. Mas Blootch Peabody diz que, até hoje, ela fica perturbada quando alguém nota seu cabelo. Deus sabe que eu não estava rindo do cabelo dela. Não vejo por que ela pensou nisso, vê?"
Bonner riu longa e alegremente da experiência; mas Rosalie expressou vigorosamente sua desaprovação aos métodos do marechal.
"É a única coisa realmente má que já ouvi o senhor fazer, papai Crow!", ela exclamou. "Foi cruel!"
"Claro que você tomaria o partido dela, sendo mulher", disse ele serenamente. "A Sra. Crow também tomou, quando contei a ela sobre isso há vinte anos. As mulheres não têm muito senso de humor, têm, Wick?" Ele o chamava de Wick agora; e o jovem apreciava a familiaridade.
Chegaram os dias em que Bonner podia caminhar com sua bengala, e ele não tardou a tirar proveito do privilégio que isso lhe proporcionava. Significava passeios agradáveis com Rosalie, e significava a elevação de seu espírito a tais alturas que os céus não formavam limites para eles. A cidade não demorou a tirar conclusões. Todos diziam que seria um "casamento". Era certo que o interessante homem de Boston havia conquistado terreno livre. Os pretendentes de Tinkletown desistiram em desespero e abandonaram a disputa com a esperança de que a recuperação completa de seus ferimentos pudesse não apenas banir Bonner da aldeia, mas também dos pensamentos de Rosalie Gray. A maioria dos jovens tomou seu remédio filosoficamente. Sabiam desde o início que suas chances eram pequenas. Blootch Peabody e Ed Higgins, por causa da rivalidade pessoal entre eles, continuaram a ter esperança e tornaram-se mais amargurados um com o outro, em vez de contra Bonner.
Anderson Crow e Eva estavam encantados e as senhoritas Crow, após esforços fúteis para interessar o jovem em seus próprios atributos, juntaram-se aos velhos e sussurraram exuberantemente ao mundo que "seria perfeitamente glorioso". Roscoe não era tão caridoso. Ele estava profundamente enojado com a ideia de perder seu amigo Bonner nos odiosos laços do matrimônio. Do seu ponto de vista juvenil, era um destino que um bom sujeito como Bonner não merecia. Até Rosalie não era boa o suficiente para ele, disse ele a Bud Long; mas Bud, que adorava Rosalie com uma devoção sem esperança durante a maior parte de sua curta vida, fez objeções fortes, embora tímidas, à observação. Parecia tudo muito decidido nas mentes de todos, menos de Bonner e da própria Rosalie. Eles seguiam de forma constante, feliz, talvez sonhadora, deixando o presente e o futuro cuidarem de si mesmos o melhor que podiam, fazendo montanhas do passado — montanhas tão altas e íngremes que não podiam ser superadas em retirada.
Bonner estava irremediavelmente apaixonado — tanto, de fato, que diante disso, ele perdeu a coragem que o havia levado através de assuntos triviais do passado, e o deixou debatendo-se vagamente em mares que pareciam antigos e, ainda assim, eram novos. A cada hora, ele procurava pelo primeiro sinal de amor nos olhos dela, pelo primeiro toque de sentimento; mas se havia um ponto de fraqueza em sua defesa, não era revelado à percepção faminta do aspirante a conquistador. E assim eles flutuaram através do frio de fevereiro, que lhes parecia quente, através das horas claras e das escuras, rápida e seguramente até o dia que deveria declará-lo curado de um mal e, ainda assim, dolorosamente afligido por outro.
Durante tudo isso, ele dizia a si mesmo que não importava qual poderia ter sido o nascimento dela, desde que ela vivesse nesta hora de sua vida, e ainda assim uma voz calma e silenciosa sussurrava procrastinação com uma persistência constante através de cada via de seu cérebro. "Espere!", dizia a voz fria do preconceito. Seu coração não ouvia, mas seu cérebro sim. Um olhar de submissão de seus olhos ternos e seu cérebro teria se tornado surdo à voz pequena e fria — mas seus olhos mantiveram sua posição e a voz sobreviveu.
O dia estava se aproximando rapidamente em que seria necessário para ele deixar a casa do Sr. Crow. Ele não podia mais invadir a hospitalidade e a boa natureza do marechal — especialmente porque havia recusado a nomeação oferecida para se tornar marechal adjunto da cidade. Juntos, eles discutiram todos os lados possíveis do mistério do sequestro e lançaram as bases para uma tentativa sistemática de solução. Não havia mais nada para eles fazerem. Fiel à sua promessa, Bonner colocou o caso nas mãos de um dos maiores detetives do país, juntamente com todos os pontos conhecidos na história da moça. Tinkletown não deveria fornecer a solução, embora contivesse o mistério. Sobre esse ponto não poderia haver dúvida; então, o Sr. Bonner foi relutantemente compelido a admitir para si mesmo que não tinha desculpa plausível para continuar. O grande detetive de Nova York viera à cidade, reunira todos os fatos sob o manto do mais estrito segredo, percorrera todas as sombras possíveis de uma pista em Boggs City, e retornara à metrópole, lá para começar a busca vinte e um anos atrás.
"Quatro semanas", Bonner estava dizendo a ela reflexivamente, enquanto voltavam para casa de sua última visita ao moinho abandonado em Turnip Creek. Era uma manhã de fevereiro brilhante e quente, sugestiva de primavera e carregada com a fragrância de algo muito mais doce. "Quatro semanas de ociosidade e alegria para mim — quase uma vida inteira no desperdício dos anos. Parece longo para você, Srta. Gray — oh, eu me lembro, devo chamá-la de Rosalie."
"Parece que o conheço desde sempre em vez de há quatro semanas", ela disse gentilmente. "Foram semanas felizes, não foram? Meu... nosso único medo é que você não tenha se sentido confortável em nossa pobre casinha. Não é o que você está acostumado..."
"Lar é o que as pessoas do lar fazem dele", disse ele, esforçando-se para citar um vago ditado antigo. Ele estava vagamente consciente de um sorriso contido da parte dela e sentiu-se um tolo. "De qualquer forma, eu estava mais do que confortável. Eu estava feliz — nunca tão feliz. Toda a minha vida será construída em torno deste único mês — meu passado termina com ele, meu futuro começa. Você, Rosalie", ele continuou rapidamente, seus olhos brilhando com o amor que não podia ser negado, "é o espírito da vida como a conhecerei a partir deste dia. É você quem fez de Tinkletown um reino, um de seus lares um palácio. Não desvie o rosto, Rosalie."
Mas ela virou o rosto para ele e seus olhos escuros não vacilaram enquanto encontravam os dele, ali naquele bosque antigo e desolado.
"Não, por favor, não, Wicker", ela disse suavemente, firmemente. Sua mão tocou o braço dele por um instante. "Você vai entender, não vai? Por favor, não!" Havia um mundo de significado nisso.
Seu coração tornou-se frio como gelo, o sangue deixou seu rosto. Ele entendeu. Ela não o amava.
"Sim", disse ele, com a voz morta e rouca, "acho que entendo, Rosalie. Tomei as coisas como garantidas demais, tolo que sou. Bah! O egoísmo de um tolo!"
"Você não deve falar assim", ela disse, seu rosto contraído pela dor e pela piedade. "Você é o homem mais maravilhoso que já conheci — o melhor e o mais verdadeiro. Mas..." e ela pausou, com um sorriso pálido e triste nos lábios.
"Eu entendo", ele interrompeu. "Não diga. Quero pensar que algum dia você sentirá vontade de dizer outra coisa, e quero ter esperança, Rosalie, de que nem sempre será assim. Vamos falar sobre outra coisa." Mas nenhum dos dois se importou em falar pelo que pareceu uma hora. Eles estavam à vista de casa antes que o silêncio pétreo fosse quebrado. "Posso vir de Bonner Place para vê-la?", ele perguntou finalmente. Ele atravessaria o rio no dia seguinte para uma estadia de uma ou duas semanas na casa de seu tio.
"Sim... muitas vezes, Wicker. Vou querer vê-lo todos os dias. Sim, todos os dias; tenho certeza disso", ela disse melancolicamente, um olhar faminto em seus olhos que ele não viu, pois estava olhando fixamente para frente. Se ele tivesse visto aquele olhar ou captado o tom verdadeiro em sua voz, o mundo poderia não ter parecido tão escuro para ele. Quando ele olhou para ela novamente, seu rosto estava calmo, quase ao ponto da serenidade.
"E você virá a Boston em junho da mesma forma?"
"Se sua irmã e... e sua mãe ainda quiserem que eu vá."
Ela estava pensando em si mesma, a sem nome, na casa de seu povo; ela estava pensando nas dúvidas, nas especulações... até nos medos que formariam o pano de fundo de sua recepção naquela casa orgulhosa. Rosalie Gray não se via mais como a filha adotiva feliz e despreocupada de Anderson Crow; ela estava se vendo apenas como a náufraga, a indesejada, e o mundo estava se tornando amargo para ela. Mas Bonner estava cego para tudo isso; ele não poderia, não deveria saber.
"Você sabe que elas querem que você vá. Por que você diz isso?", ele perguntou rapidamente, uma perspectiva estranha e vaga surgindo diante dele por um instante, apenas para desaparecer antes que pudesse ser analisada.
"Sempre se diz isso", ela respondeu com um sorriso. "É a penalidade de ser convidada. Sua irmã escreveu a carta mais querida para mim, e eu respondi. Nós nos amamos, ela e eu."
"Rosalie, eu vou escrever para você", disse ele de repente; "você vai responder?"
"Sim", ela lhe disse simplesmente. Seu coração acelerou, mas hesitou, e perdeu-se. "Recebi uma longa carta de Elsie Banks hoje", ela continuou com uma indiferença que gelou.
"Oh", ele disse; "ela é sua amiga que estava ou vai se casar com Tom Reddon, eu creio. Eu o conhecia em Harvard. Diga-me, eles se casaram?"
"Não. Não deveria acontecer até março, mas agora ela escreve que sua mãe está doente e precisa ir para a Califórnia por vários meses. O Sr. Reddon quer se casar imediatamente, ou pelo menos antes que eles vão para o Oeste; mas ela diz que não pode consentir enquanto sua mãe exigir tanto dela. Não sei como isso vai terminar, mas presumo que eles se casarão e todos irão para a Califórnia. Esse parece o caminho simples e justo, não é?"
"Qualquer caminho parece justo, eu diria", disse ele. "Eles se amam, então qual é o problema? Você conhece bem Reddon?"
"Eu o vi muitas vezes", ela respondeu com aparente evasividade.
"Ele é um..." mas aqui ele parou como se a paralisia o tivesse tomado repentinamente. A verdade disparou em seu cérebro como um raio mortal. Tudo estava claro como o dia para ele agora. Ela se abaixou para pegar um junco fino e quebrado que cruzava seu caminho, e seu rosto estava desviado. "Deus!", foi o grito que quase escapou de seus lábios. "Ela ama Reddon, e ele vai se casar com a melhor amiga dela!" Suor frio começou a brotar de cada poro de seu corpo. Ele havia encontrado a condenação do amor — o fim da esperança.
"Ele sempre a amou", disse Rosalie tão calmamente que ele ficou chocado com sua coragem. "Espero que ela não peça para ele esperar."
Rosalie nunca entendeu por que Bonner olhou para ela com espanto e disse:
"Por Júpiter, você é uma... uma maravilha, Rosalie!"
CAPÍTULO XXVIII
Os Olhos do Homem Cego
Bonner foi embora sem outra palavra de amor para ela. Ele viu a futilidade de esperar, e ele era nobre o suficiente para respeitar seu apelo por silêncio sobre o assunto que parecia desagradável para ela. Ele foi como um homem conquistado e subjugado; ele foi com o ferro em seu coração pela primeira vez — profundamente incrustado e atormentador.
Bonner veio duas vezes do lugar do outro lado do rio. Anderson observou que ele parecia "abatido", e Rosalie confundiu o olhar faminto e pálido em seu rosto com a emaciação natural do confinamento em ambientes fechados. Ele estava mais branco do que de costume, e havia um olhar obstinado e teimoso crescendo em torno de seus olhos e boca que teria sido compreendido pelos sofisticados. Era a primeira indicação da batalha que seu amor travaria nos dias que viriam. Ele não viu sinal de enfraquecimento em Rosalie. Ela não o deixaria olhar dentro de seu pequeno e corajoso coração, e assim ele deu as costas ao campo e fugiu para Boston, meio derrotado, mas inconscientemente coletando suas forças para o conflito de outro dia. Ele não sabia disso então, nem ela, mas seu amor não estava vencido; ele tinha encontrado sua primeira rejeição, isso era tudo.
Tinkletown ficou triste ao vê-lo partir, mas prosperou com sua promessa de retornar. Todos piscavam maliciosamente pelas suas costas, pois, é claro, Tinkletown entendia tudo. Ele voltaria muitas vezes e depois não voltaria mais — pois o ímã iria embora com ele no final. Os bisbilhoteiros, bem-humorados, mas loquazes, não precisaram ensaiar a história até o fim; teria sido supérfluo. Diga-se aqui, no entanto, que Rosalie não demorou a colocar muitos dos especuladores em ordem em suas mentes. Parecia improvável que não fosse como haviam pensado e esperado. A notícia logo chegou a Blootch Peabody e Ed Higgins, e, ambos ansiosos por reviver uma esperança arruinada, em alto astral, foram visitar Rosalie na mesma noite. Registra-se que nenhum deles pronunciou duas dúzias de palavras entre oito e dez horas, tão amargamente a presença do outro era ressentida.
Março chegou, e com ele, para o espanto intenso de Anderson Crow, os sempre misteriosos mil dólares, algumas semanas atrasados. Em um determinado dia, o velho marechal levou Rosalie a Boggs City, e os procedimentos de tutela foram legalmente encerrados. Sem entusiasmo, ela aceitou metade do dinheiro que ele havia economizado, tendo se recusado a ficar com tudo. Ela agora era sua própria dona, muito para seu pesar, se não para o dele.
"Posso continuar morando com o senhor, papai Crow, não posso?", ela perguntou melancolicamente enquanto voltavam para casa através da nevasca de março. "Isso não significa que não posso ser sua garotinha depois de hoje, significa?"
"Não fale assim, Rosalie Gray, ou vou te mandar para a cama sem um pingo de jantar", rosnou ele em seus tons mais ameaçadores, mas as lágrimas rolavam por suas bochechas naquele momento.
"Sabe, papai, honestamente espero que o grande detetive da cidade não descubra quem eu sou", ela disse após um longo período de reflexão.
"Por que?"
"Porque, se ele não descobrir, o senhor não terá desculpa para me expulsar."
"Não só vou mandar você para a cama, como vou te dar uma surra daquelas se você falar assim..."
"Mas eu tenho vinte e um anos. O senhor não tem o direito", disse ela tão alegremente que ele estalou o chicote sobre as costas do cavalo e assoou o nariz duas vezes para medir a gratidão.
"Bem, não ouvi nada daquele detetive metido ultimamente, e estou começando a achar que ele não é tão melhor assim do que eu", disse ele orgulhosamente.
"Ele não é nem metade tão bom!", ela exclamou.
"Digo como detetive", ele acrescentou desculpando-se.
"Eu também", ela concordou seriamente; mas foi perdido para ele.
Havia uma carta em casa para ela de Edith Bonner. Trazia a notícia de que Wicker estava indo para o Sul para se recuperar. Seu organismo tinha "desandado" desde o acidente, e os ventos de março o estavam expulsando temporariamente. O coração de Rosalie doeu naquela noite, e havia um medo silencioso e frio em suas profundezas que afastava o sono. Ele não tinha escrito para ela, e ela começara a temer que o mês deles tivesse sido uma ninharia para ele, afinal. Agora ela estava perturbada e entristecida por ter nutrido esse medo. Edith continuou dizendo que seu irmão tinha visto o detetive de Nova York, que ainda estava irremediavelmente no escuro, mas lutando na crença de que o acaso abriria o caminho para ele.
Rosalie, por mais que se esforçasse para evitá-lo, ficou pálida e o arredondamento deixou sua bochecha com o passar das semanas. Cada pensamento seu estava com o homem que tinha ido para o Sul. Ela o amava como amava a vida, mas não podia confessar a ele então ou depois, a menos que a Providência tornasse clara a pureza de seu nascimento para ela e para todo o mundo. Quando finalmente chegou a ela uma carta longa, amigável e até digna do extremo Sul, as rosas começaram a lutar para voltar às suas bochechas e o calor ao seu coração. Sua resposta trouxe uma resposta pronta dele, e as rosas cresceram mais rápido que a própria primavera. Amizade, doce e leal, marcou cada palavra que passou entre eles, mas havia um mundo querido em cada epístola — para ela, pelo menos, um mundo de conforto e esperança. Ela estava orando, faminta, ansiando pelo mês de junho — o doce junho e seu toque terno — junho com seu agridoce e nuvens de sol. Agora ela estava esquecendo o desejo que tinha sido expresso a Anderson Crow na viagem de volta de Boggs City. Em seu lugar cresceu a esperança feroz de que o outrora desprezado detetive pudesse esclarecer o mistério e lhe dar o direito de ficar entre os outros sem vergonha e desespero.
"Recebendo notícias do Wick bem regularmente, não é, Rosalie?", perguntou Anderson maliciosamente, uma noite enquanto Blootch estava lá. O pretendente moveu-se inquieto, e Rosalie lançou um olhar de reprovação a Anderson, um olhar cheio de malícia também.
"Ele escreve ocasionalmente, papai."
"Eu não sabia que vocês se correspondiam regularmente", disse Blootch.
"Eu não disse regularmente, Blucher."
"Ele escreve coisas doces de arrasar, aposto", disse Blootch com um desdém que não sentia.
"Que bom adivinhador você é!", ela exclamou atormentadoramente.
"Bem, acho que vou indo", explodiu Blootch raivosamente; "está ficando tarde."
"Ele não vai dormir muito hoje à noite", disse Anderson, com um brilho no olho, enquanto o portão batia violentamente atrás do visitante. "Diga, Rosalie, há algo que tem me deixado inquieto há um bom tempo. Vou soltar logo e acabar com isso. Você está apaixonada por Wick Bonner?"
Ela estremeceu, e por um instante olhou para ele com os olhos bem abertos; então eles hesitaram e caíram. Sua respiração veio em um suspiro assustado e surpreso e suas bochechas ficaram quentes. Quando ela olhou para cima novamente, seus olhos estavam suaves e suplicantes, e seus lábios tremeram levemente.
"Sim, papai Crow, eu o amo", ela quase sussurrou.
"E ele? Como é com ele?"
"Não posso responder isso, papai. Ele não me disse."
"Bem, ele deveria, diabo de homem!"
"Eu não poderia permitir que ele o fizesse se ele tentasse."
"O quê! Você não permitiria? O que diabos você quer dizer?"
"O senhor esquece, papai, eu não tenho direito ao amor dele. Seria errado... tudo errado. Boa noite, papai", ela exclamou, beijando-o impulsivamente e saindo apressada antes que ele pudesse impedi-la, mas não antes que ele captasse o som de um meio soluço. Por um longo tempo ele sentou-se e olhou para o fogo na lareira. Então ele bateu no joelho vigorosamente, endireitou os ombros e travou o maxilar como um torno. Levantando-se, ele subiu as escadas e bateu na porta dela. Ela a abriu um centímetro ou dois e espiou para ele — uma figura patética em branco.
"Não se preocupe, Rosalie", ele engoliu em seco. "Vai ficar tudo bem e nos conformes. Acabei de fazer um juramento solene lá embaixo."
"Um juramento, papai?"
"Sim, senhor; jurei por tudo que é bom e sagrado que descobriria quem são seus pais mesmo que levasse até o dia do juízo final. Você será posta em seu devido lugar aos olhos de todos. Agora, se eu fosse você, iria direto dormir. Não há nada com que se preocupar. Tenho outra pista."
Ela sorriu amorosamente enquanto ele caminhava para longe. A confiança do pobre velho Anderson em si mesmo só era superada por seu grande amor por ela.
Finalmente, junho sorriu para Rosalie e ela partiu para Boston. Seus vestidos eram de Albany e sua felicidade do céu — de acordo com uma impressão reverente de Tinkletown. Por duas semanas após sua partida, Anderson Crow falou até ficar rouco para ouvidos dispostos, sempre exaltando a beleza de sua antiga protegida enquanto ela aparecia diante do círculo familiar em cada um daqueles vestidos maravilhosos.
Esta narrativa humilde não trata das glórias e fraquezas da vida social de Boston. Ela trata das aventuras de Anderson Crow e Rosalie Gray na medida em que pertencem a um lugar chamado Tinkletown. As alegrias e prazeres que Rosalie experimentou durante aquele mês de junho não foram incomuns em caráter. A solidão de Anderson Crow não era uma novidade, se alguém parar para considerar como o mundo gira para todos os outros. Basta dizer que os Bonner, mãe, filho e filha, esforçaram-se para tornar o mês inesquecível para a moça — e eles conseguiram. A habitual alegria, o mesmo antigo turbilhão de experiências, veio a ela como vem a qualquer outro mortal que está sendo entretido, festejado e admirado. Ela foi um sucesso — um prazer em todos os sentidos — não apenas para seus anfitriões, mas para si mesma. Se havia uma nuvem pairando sobre sua cabeça durante todos esses dias e noites, o mundo não sabia de nada; o lado prateado estava sempre visível.
Certa vez, enquanto passeava de carro com os Bonner, ela viu um homem que conhecia, mas que não esperava encontrar nunca mais. Ela não podia estar enganada a respeito dele. Era Sam Welch, o chefe dos sequestradores. Ele a observava de uma esquina movimentada, mas desapareceu completamente antes que Bonner pudesse colocar a polícia em seu encalço.
O Dia da Formatura em Cambridge trouxe de volta centenas dos antigos alunos — homens famosos em todos os ramos do estudo e do atletismo. Entre eles estava o belo Tom Reddon. Ele foi vê-la na casa dos Bonner. Elsie Banks deveria retornar de Honolulu em setembro, e eles se casariam no outono. Wicker Bonner procurou ansiosamente pela confusão do amor nos olhos dela, mas nada apareceu. Naquela noite, ela lhe disse, em resposta a um pedido impulsivo, que não se importava com Reddon, que nunca sentira a menor ternura por ele.
"Você já esteve apaixonada, Rosalie?", perguntou ele, implacável.
"Sim", disse ela após um momento, olhando-o bravamente nos olhos.
"E você jamais poderia aprender a amar mais alguém?"
"Creio que não, Wicker", disse ela, muito suavemente.
"Peço perdão", disse ele humildemente, com o rosto pálido e os lábios contraídos. "Eu não deveria ter perguntado."
E assim ele permaneceu o cego, com a luz brilhando intensamente em seus olhos.
CAPÍTULO XXIX
O Questionador Misterioso
Julho trouxe o fim da visita de Rosalie, e mais uma vez Tinkletown banhou-se em seus sorrisos e, ainda assim, perguntava-se por que eram tão tristes e melancólicos. Ela e Bonner estavam muito mais próximos, muito mais caros um ao outro do que nunca, e, contudo, nenhum esforço fora feito para transpor o abismo do silêncio sobre a coisa que ocupava o primeiro lugar em suas mentes. Ela apenas sabia que Anderson Crow não tinha "descoberto" sua pista, nem o detetive de Nova York se reportara por semanas. Indubitavelmente, este último desistira da busca, pois a última notícia dele fora quando partira para a Europa com a esposa para uma viagem de prazer de duração desconhecida. Tudo parecia tão sombrio e sem esperança para ela. Se Bonner tivesse insistido em suas exigências ao final da visita em Boston, é possível — mais do que possível — que ela tivesse vacilado em sua resolução. Afinal, por que deveria privar-se da felicidade se ela lhe era oferecida com a promessa de que nunca terminaria?
O verão tornou-se sufocante nas terras baixas ao redor de Tinkletown, mas, nas grandes colinas do outro lado do rio, o ar era fresco, brilhante e revigorante. As pessoas começaram a correr para suas casas de campo vindas das cidades distantes. Antes que o mês ficasse velho, uma vintena ou mais de belos lugares foram abertos e preenchidos com os filhos e filhas dos ricos. Preguiçosamente, eles passeavam, dirigiam e caminhavam pelas colinas maravilhosas, famosas em todo o mundo, e preguiçosamente perguntavam-se por que o resto do mundo vivia. Nas colinas, agora, estavam os Randall, os Farnsworth, os Bracken, os Brewster, os Van Wagenen, os Rolfe e uma multidão de outros. Tinkletown via-os ocasionalmente enquanto passavam em suas charretes, carruagens e automóveis — mas é extremamente duvidoso que eles vissem Tinkletown ao passar.
Anderson Crow inchava e florescia no brilho de sua própria importância. Na velhice, estava tornando-se exigente. Somente na privacidade de seu próprio quintal ele saía sem o paletó de alpaca preta; começava a desprezar os outros dias, em que andava sem paletó do amanhecer ao anoitecer, na rua ou fora dela. Seus distintivos eram presos cuidadosamente à lapela e não às alças das calças, como nos tempos de outrora. Sua dignidade era a mesma, mas o antigo senso de irritação estava muito modificado. Nestes novos dias, ele era atencioso — e condescendente. Não era ele um dos homens mais ricos da cidade — com seus seis mil dólares guardados? Não era ele seu cidadão mais honrado, sem excluir o prefeito e os vereadores? Não era ele, acima de tudo, um amigo íntimo dos Bonner?
Os Bonner passariam agosto na casa do congressista do outro lado do grande rio. Este fato isolado era o suficiente para agitar o estabelecimento Crow até suas raízes mais infinitesimais. Rosalie seria uma das convidadas na reunião social, mas suas irmãs adotivas não eram do tipo que sentia inveja. Elas se deleitavam com ela nos preparativos para aquela nova estação de prazer.
Com a vinda dos Bonner, Anderson mais uma vez reviveu sua resolução de desvendar o mistério que envolvia o nascimento de Rosalie. Por alguns meses, essa ambição estivera adormecida, mas agora, com a aproximação do homem que ela amava, a devoção do velho marechal pegou fogo e ele jurava diariamente que o mistério deveria ser esclarecido "quisesse ele ou não".
Ele submeteu o pobre e velho Alf Reesling ao "interrogatório" repetidas vezes, e o inútil Tom Folly teve muitas noites infelizes, perguntando-se por que o marechal o seguia tão persistentemente.
"Alf", exigiu Anderson durante uma das sessões, "onde você estava na noite de 18 de fevereiro de 1883? Não hesite. Fale logo. Onde você estava? Aha, você não pode responder. Isso parece suspeito."
"Pode apostar que posso responder", disse Alf bravamente, piscando seus olhos remelentos. "Eu estava em Tinkletown."
"O que você estava fazendo naquela noite?"
"Eu estava dormindo."
"A que horas? Cuidado agora, não minta."
"A que horas da noite eles a deixaram na sua varanda?", exigiu Alf por sua vez.
"Foi exatamente às onze e meia."
"Você está certo, Anderson. Essa é exatamente a hora em que eu estava dormindo."
"Você pode provar? Tem testemunhas?"
"Sim, mas elas não se lembram da noite."
"Então as coisas podem ficar difíceis para você. Alf, ainda acredito que você teve algo a ver com esse caso."
"Não tive, Anderson, que Deus me ajude."
"Bem, droga, alguém teve", rugiu o marechal. "Se não foi você, quem foi? Responda a isso, senhor."
"Ora, que se dane, Anderson Crow, eu não tinha crianças sobrando para deixar em degraus de porta. Sempre tive problemas para não me deixar ali. Além disso, foi uma mulher que a deixou, não foi? Bem, que se dane, eu não sou uma mulher, sou? Olhe para meus bigodes, puxa vida! Eu..."
"Eu não disse que você deixou a cesta, Alf; eu apenas disse que você teve algo a ver com isso. Lembro-me de que havia um forte cheiro de bebida por perto naquela noite." Em um instante, Anderson farejava o ar. "Que se dane, o mesmo cheiro de agora — você está bêbado."
"Tom Folly também bebe", protestou Alf. "Ele bebe coquetéis Martini."
"Você não?"
"Não mais. A última vez que pedi um foi em um restaurante holandês lá em Boggs City. O garçom não sabia falar uma palavra de inglês, e esse é o motivo de eu ter ficado tão cheio. Toda vez que eu pedia 'dry Martini', ele me trazia três. Ele não sabia como soletrar. Não, senhor, Anderson; eu não sou a mulher que você quer. Eu estava em casa dormindo naquela noite. Lembro-me tão bem quanto qualquer coisa, que disse antes de ir para a cama que era uma boa noite para dormir. Lembro-me de olhar para o relógio da cozinha e ver que eram exatamente dezoito minutos após as onze. Aí eu disse..."
"Isso será tudo por hoje, Alf", interrompeu o questionador, seu olhar subitamente centrado em algo rua abaixo. "Você me contou isso seiscentas vezes nos últimos vinte anos. Venha, vejo os rapazes jogando ferraduras perto da ferraria. Vou apostar uma partida com você pelos charutos."
"Eu não posso pagar se perder", protestou Alf.
"Eu sei", disse Anderson; "não espero que pague."
O primeiro dia em que Bonner dirigiu até lá no automóvel, para transpor Rosalie para o lugar do outro lado do rio, encontrou Anderson cheio de uma nova e surpreendente sensação. Ele atraiu sorrateiramente o grande e bronzeado jovem para o estábulo, longe da casa. De alguma forma, apesar de seus sorrisos, Bonner parecia mais velho e mais sério. Havia uma expressão determinada e rígida em sua boca e olhos que soou como novidade para Anderson.
"Diga, Wick", começou o marechal misteriosamente, "estou num beco sem saída."
"O quê? Outro?"
"Não; exatamente o mesmo. Quase encontrei o rastro de algo hoje — não faz duas horas. Encontrei um homem lá perto do cruzamento que tenho certeza de ter visto por aqui por volta da época em que Rosalie foi deixada na varanda. E a parte engraçada disso é que ele me parou e me perguntou sobre ela. Droga, queria ter perguntado o nome dele."
"Você não está falando sério!", exclamou Bonner, todo interessado. "Perguntou sobre ela? Ele era um estranho?"
"Acho que era. Pelo menos, disse que não andava por aqui há mais de vinte anos. Veja bem, foi assim. Eu estava na casa de Lem Hudlow para perguntar se ele teve algum porco roubado ontem à noite — Lem mora perto do asilo, você sabe. Ele disse que não sentiu falta de nenhum e me perguntou se algum porco fora encontrado. Eu disse a ele que não, que eu soubesse, mas apenas pensei em perguntar; pensei que talvez tivessem roubado alguns dele. Nunca se sabe, entende, e compensa estar atento aos negócios o tempo todo. Bem, eu estava dirigindo devagar voltando quando um sujeito montado a cavalo apareceu. Era um homem de boa aparência, com uns cinquenta anos, creio eu, e estava vestido com todas aquelas roupas de montaria modernas. 'Não é o Sr. Crow, meu velho amigo, o detetive?', disse ele. 'Sim, senhor', disse eu. 'Acho que você não se lembra de mim', diz ele. Eu disse que lembrava, mas menti. Não pegaria bem ele pensar que eu não o conhecia, sendo eu um detetive, não entende?
"Conversamos sobre o tempo e as colheitas, ele cavalgando ao lado da charrete. Droga, o rosto dele era familiar, mas não consegui identificá-lo. Finalmente, ele se inclinou e disse, com tom solene: 'Você ainda tem a menina que foi deixada na sua varanda?' Pode apostar que pulei quando ele disse isso. 'Sim', digo eu, 'mas ela não é mais uma menina. Ela cresceu.' 'Ela é bonita?', ele perguntou. 'Sim', digo eu, 'bonita como um filhote pintado!' 'Gostaria de vê-la', disse ele. 'Ouvi dizer que ela era um bebê lindo. Espero que ela seja muito, muito feliz.' 'O que é isso para você?', digo eu, de forma ríspida. 'Estou muito interessado nela, Sr. Crow', respondeu ele. 'Pobre criança, tenho pensado nela há muito tempo', continuou ele, muito solene. Comecei a suspeitar logo de cara que ele tinha muito a ver com os assuntos dela. De alguma forma, não pude deixar de pensar que o vira em Tinkletown por volta da época em que ela foi deixada — abandonada, quero dizer.
"'Você lhe deu uma boa educação, espero', disse ele. 'Sim, ela teve a melhor da cidade', disse eu. 'Os mil dólares chegaram direitinho todo ano?' 'Todo mês de fevereiro.' 'Eu gostaria de vê-la algum dia, se puder, sem que ela saiba, Sr. Crow.' 'E por que dessa maneira, senhor?', exigi eu. 'Provavelmente a incomodaria se ela achasse que estou olhando-a como um objeto de curiosidade', disse ele. 'Diga a ela por mim', continuou ele, preparando-se para acelerar, 'que ela tem um amigo desconhecido que daria tudo o que tem para ajudá-la.' Puxa, ele chicoteou o cavalo e galopou antes que eu pudesse dizer mais uma palavra. Eu ia fazer um monte de perguntas a ele também."
"Você não consegue se lembrar de onde e sob quais circunstâncias o viu antes?", gritou Bonner, muito animado.
"Vou tentar pensar nisso hoje à noite. Ele era um sujeito com aparência de rico e tinha uma faixa preta pesada em volta de uma das mangas do paletó. Wick, aposto que ele é o homem que queremos. Decidi que ele é o pai dela!"
Bonner, impacientemente, extraiu todas as informações possíveis do marechal, especialmente quanto à aparência do estranho, sua voz, a direção que tomou quando se separaram, e então concluiu desolado que uma excelente oportunidade havia sido irremediavelmente perdida. Anderson disse, no interrogatório, que o estranho lhe dissera que "estava partindo imediatamente para Nova York e depois indo para a Europa". Sua mãe falecera recentemente.
"Vou tentar interceptá-lo em Boggs City", disse Bonner; e meia hora depois ele partia em velocidade máxima no grande carro para a sede do condado, um caminho sinuoso para Bonner Place. O trem de Nova York já partira, mas ninguém vira um homem que correspondesse à descrição dada pelo entrevistador de Anderson.
"Sinto muito, Rosalie", disse Bonner algum tempo depois. Ele a estava levando para um passeio no automóvel. "Foi uma esperança vã, e também é bem provável que as impressões do Sr. Crow estejam erradas. O homem pode não ter absolutamente nenhuma conexão com o assunto. Admito que parece interessante, sua maneira e suas perguntas, e há uma chance de ele saber a verdadeira história. De qualquer forma, ele não foi para Nova York hoje e não pode pegar outro trem até amanhã. Vou buscar o Sr. Crow pela manhã e subiremos aqui para dar uma olhada nele, caso apareça."
"Acho que é uma busca inútil, Wicker", disse Rosalie, desesperançada. "Papai Crow já fez coisas assim antes."
"Mas isso parece diferente. As ações do homem foram curiosas. Ele deve ter tido algum motivo para estar interessado em você. Estou absolutamente louco de ansiedade para resolver esse mistério, Rosalie. Significa a vida para mim."
"Oh, se você ao menos pudesse fazê-lo", ela exclamou com tanto fervor que o coração dele saltou de pena por ela.
"Eu te amo, Rosalie. Daria minha vida inteira para te fazer feliz. Ouça, querida — não se afaste de mim! Você tem medo de mim?" Ele quase chorava isso em seu ouvido.
"Eu... eu estava apenas pensando no perigo, Wicker. Você não está olhando para a estrada", disse ela, corando um vermelho intenso. Ele riu alegremente pela primeira vez em meses.
"É uma estrada larga e limpa", disse ele exultante. "Estamos sozinhos e estamos apenas flutuando. A máquina está viva de felicidade. Rosalie... Rosalie, eu poderia gritar de alegria! Você me ama? Você será minha esposa?"
Ela estava pálida, silenciosa e fraca com a alegria de tudo aquilo e a dor de tudo aquilo. Alegria pelo pleno conhecimento de que ele a amava e falara apesar da nuvem que a envolvia; dor pela certeza de que ela não poderia aceitar o sacrifício. Por muito tempo ela ficou sentada, olhando fixamente para a estrada larga sobre a qual eles rodavam.
"Wicker, você não deve me pedir agora", disse ela finalmente, bravamente e sinceramente. "É doce saber que você me ama. É a vida para mim — sim, a vida, Wicker. Mas, não entende? Não, não! Você não deve esperar por isso. Você não deve pedir. Não, não, querido!", ela clamou, afastando-se enquanto ele se inclinava para ela, com paixão nos olhos e triunfo no rosto.
"Mas nós nos amamos!", ele gritou. "O que importa o resto? Eu quero você — você!"
"Você considerou? Você pensou? Eu sim, mil vezes, mil pensamentos amargos. Eu não posso, eu não serei sua... sua esposa, Wicker, até que..."
Em vão ele argumentou, implorou, comandou. Ela estava firme e sentia que estava certa, se não justa. Por baixo de tudo espreitava o medo, o terrível medo de que ela pudesse ter sido uma criança do amor, a descendência ilegítima da paixão. Era o peso que a esmagava quase até a imobilidade; era a barra sinistra.
"Não, Wicker, eu falo sério", disse ela no final, resoluta. "Não até que eu possa lhe dar um nome em troca do seu."
"Seu nome será um dia Bonner, mesmo que eu tenha que destruir o sistema social de todo o universo para descobrir outro para você."
O automóvel estivera parado, por algum acaso extraordinário, à sombra fresca de um grande carvalho por dez minutos ou mais, mas era um carvalho velho, sábio e discreto.
CAPÍTULO XXX
O Roubo do Trem do Hemisfério
Anderson Crow morava no extremo sul da principal via de Tinkletown. A "cadeia" estava situada na extremidade oposta da Main Street, pelo menos meia milha separando a casa da lei e a casa dos fora da lei. O amor inato do marechal Crow pelo espetacular explica, por si só, a falta de vizinhança entre os dois estabelecimentos. Ele sentia uma glória interior ao percorrer a pé ou a cavalo toda a extensão da rua, e certamente não tinha motivos para suspeitar que a população ignorasse a glória exterior que ele apresentava.
O plano original dos comerciantes contemplava a construção da cadeia em estreita proximidade à casa de seu principal oficial, mas o Sr. Crow colocou seu pé firme e pesadamente sobre o esquema. Com a dignidade que o tornava notável, ele disse que "ficaria possesso se quisesse que as pessoas viessem à sua própria porta para serem presas". Pelo que se pode inferir que ele esperava que o malfeitor escolhesse seu próprio local de prisão.
O Sr. e a Sra. Crow estavam tornando-se econômicos, em vista da perspectiva que os confrontava, a saber: o possível casamento de Rosalie e o corte dos pagamentos anuais. Como ela estaria ausente por um mês inteiro ou mais, Anderson concebeu a ideia de anunciar um quarto para alugar. Ao tirar Roscoe de sua cama, eles obtiveram um quarto vago que dava para os canteiros de peônias além do "pórtico" lateral.
O Sr. Crow estava preguiçosamente torcendo seus parcos bigodes no queixo uma manhã, logo após a partida de Rosalie. Ele estava encostado na bomba d'água da cidade em frente aos correios, o sol refletindo impotente no distintivo brilhante na lapela de seu paletó de alpaca. Um estranho saiu dos correios e aproximou-se do marechal.
"Este é o Sr. Crow?", perguntou ele, com considerável deferência.
"É, senhor."
"Disseram-me que o senhor aluga quartos."
"Depende."
"Meu nome é Gregory, Andrew Gregory, e estou aqui para percorrer a vizinhança no interesse da Human Life Insurance Company de Penobscot. Se precisar de referências, posso obtê-las de Nova York ou Boston."
O estranho era um homem alto, de rosto magro, de quarenta ou quarenta e cinco anos, bem vestido, com um modo de falar brusco, porém agradável. Seu bigode e barba eram pretos e bastante espessos. O Sr. Crow observou-o calmamente por um momento.
"Não creio que pedirei referências. Nossas taxas são seis dólares por semana, com pensão e quarto. Crianças incomodam o senhor?"
"De forma alguma. O senhor tem alguma?"
"Algumas, mais ou menos. Estão quase todas crescidas."
"Ficarei com pensão e quarto por duas semanas, pelo menos", disse o Sr. Gregory, que parecia ser um homem de ação.
Por quase uma semana, o agente de seguros exerceu sua vocação assiduamente, porém infrutiferosamente. Os fazendeiros e os cidadãos de Tinkletown demoravam a fazer seguros. Eles conversavam sobre colheitas e política com o prestativo Sr. Gregory, mas era só isso. E, no entanto, sua suavidade conquistou-lhe muitos admiradores. Não foram poucos os que prometeram dar-lhe seus seguros caso decidissem "fazer algum". Apenas um homem na cidade estava disposto a ser segurado, e ele era velho demais para ser reconfortante. O Sr. Calligan era considerado como tendo cento e três anos de idade; e ele queria o plano de dotação de vinte anos. Gregory tornou-se popular na casa dos Crow ao pagar seu quarto adiantado. Além disso, ele era um sujeito afável com um fundo de boas histórias vindas direto da Broadway. Nos correios e na loja de Lamson, ele logo se estabeleceu como um grande favorito. Até as mulheres que vinham fazer compras à noite — um costume até então desconhecido — permaneciam fora do círculo na varanda, deliciando-se com a segunda edição das "Mil e Uma Noites".
"Nosso amigo, o detetive aqui", disse ele, uma noite ao final da primeira semana, "diz-me que teremos um espetáculo na cidade na próxima semana. Não vi nenhum cartaz."
"Mark Riley está para colocar esses avisos desde anteontem", disse Anderson Crow, com exasperação na voz, "e ele ainda não o fez. O agente da trupe os deixou aqui e contratou Mark, mas ele é tão terrivelmente lento que não os colará até que o espetáculo já tenha ido embora. Darei uma palestra a ele amanhã."
"Que tipo de espetáculo é?", perguntou Jim Borum.
"Alguma coisa como um circo, só que não é um", disse Anderson. "Eles não fingem ter animais."
"Não carregam uma menagerie, vejo", comentou Gregory.
"'Parece que é assim", disse Anderson, analisando lentamente a palavra.
"Entendo que é uma performance de palco sob uma tenda", ofereceu o mestre de correios.
"É isso mesmo," disse Harry Squires, o editor, com um ar de superioridade. "Eles apresentam 'Como Gostais', de Shakespeare. É um baita espetáculo. Nós imprimimos os folhetos lá na redação. Eles serão distribuídos na cidade amanhã, e um grande lote deles será enviado para as estâncias de veraneio do outro lado do rio. O agente de divulgação diz que é uma performance de alta classe e que atrairá particularmente o pessoal rico da cidade que está nas montanhas. É uma espécie de evento ao ar livre, sabe." E então o Sr. Squires foi obrigado a explicar aos seus concidadãos todos os detalhes conhecidos relacionados com a iminente performance de "Como Gostais" pela Companhia Boothby, agendada para Tinkletown na noite da quinta-feira seguinte. Hapgood's Grove fora escolhido pelo agente como o local em que a performance deveria ser realizada.
"Eles não fazem uma sessão à tarde?", perguntou a Sra. Williams.
"Com certeza não", disse Harry secamente. "Não é um museu."
"Claro que não", acrescentou Anderson Crow, pensativo. "É uma trupe."
Na manhã seguinte, bem cedo, Mark Riley saiu com cola e pincel. Antes do meio-dia, as cercas de madeira, celeiros e paredes vazias de Tinkletown flamejavam com grandes letras vermelhas e azuis, entrelaçando-se em torno dos retratos de Shakespeare, do gerente Boothby, de Rosalind, de Orlando e de um rei extra ou dois em trajes reais. Uma dúzia de meninos espalhou os folhetos das prensas do Banner, e Tinkletown foi agitada pela excitação de uma sensação que não era experimentada desde que o circo de Forepaugh visitou a sede do condado três anos antes. Não era preciso dizer que o gerente Boothby apresentaria "Como Gostais" com um "elenco inigualável". Ele tinha "uma produção com todas as estrelas", vinda diretamente dos "principais teatros do universo".
Quando Mark Riley saiu novamente à tarde para uma segunda excursão com cola e pincel, "colando" pequenos cartazes com uma presteza que denotava extremo interesse de sua parte, a população atônita temeu que ele estivesse anunciando um adiamento da performance. Em vez disso, no entanto, ele estava anunciando o fato de que a Hemisphere Trunk Line and Express Company pagaria alegremente uma recompensa de dez mil dólares pela "apreensão e captura" dos homens que roubaram um de seus trens mais ricos algumas noites antes, apreendendo como espólio mais de sessenta mil dólares em dinheiro, além de matar dois mensageiros a sangue frio. O grande assalto ao trem ocorreu na parte oeste do Estado, a centenas de quilômetros de Tinkletown, mas quase todos os seus cidadãos leram relatos do crime no jornal semanal de Boggs City.
"Eu vi a nota sobre isso no jornal de Nova York do Sr. Gregory", disse Anderson Crow para a multidão no Lamson's.
"Caramba, deve ter sido um achado!", disse Isaac Porter, de boca aberta e ávido por detalhes. Ao que o Marechal Crow relatou a história do crime que estupefez o mundo na manhã de 31 de julho. O expresso fora detido em um local isolado por meia dúzia de homens mascarados. Um cofre fora estilhaçado e o conteúdo confiscado, com os perpetradores desaparecendo tão completamente como se tivessem sido auxiliados pelo próprio Satanás. As autoridades estavam perplexas. Uma enorme recompensa foi oferecida na esperança de que pudesse induzir algum subordinado descontente do bando a expor seus camaradas.
"Você vai atrás deles, Anderson?", perguntou o velho Sr. Borton, com fé inabalável no oficial-chefe da cidade.
"Esses sujeitos já estão na Ásia a esta altura", garantiu o Sr. Crow com desprezo, esquecendo que menos de uma semana se passara desde o roubo. Ele espantou uma mosca de seu distintivo de detetive e então golpeou violentamente o mesmo inseto quando ele atacou prontamente seu emblema do G.A.R.
"Duvido", disse o Sr. Lamson. "Capaz de estarem bem aqui neste Estado, talvez neste condado. Não se pode saber sobre esses espertalhões. Olá, Harry! Houve mais alguma notícia dos ladrões de trem?" Harry Squires aproximou-se do grupo com algo parecido com notícias em seu rosto.
"Eu diria que sim", disse ele. "Os malditos roubaram o State Express ontem à noite em Vanderskoop e levaram treze mil dólares. Digo, eles são uns prodígios! O engenheiro diz que são apenas cinco deles."
"Ora, raios, Vanderskoop é apenas a quarta estação a oeste de Boggs City!", exclamou Anderson Crow, aguçando o ouvido oficial. "Como diabos você acha que eles chegaram aqui em tão pouco tempo?"
"Eles provavelmente pararam no caminho de volta da Ásia", observou secamente o Sr. Lamson; mas passou despercebido.
"Você ouviu mais alguma coisa sobre o show, Harry?", perguntou Jim Borum. "É certo que eles virão?" Com o que Tinkletown se importava com os ladrões de trem quando um "show" estava a caminho?
"Claro. Os comentários da imprensa são muito favoráveis", disse Harry. "Todos dizem que a Srta. Marmaduke, que interpreta Rosalind, é ótima. Temos uma foto dela e, diga, ela é uma beldade. Já me vejo sentado na primeira fila na próxima quinta-feira à noite, direitinho."
"Diga, Anderson, acho uma vergonha o Mark Riley sair por aí colando aqueles cartazes de recompensa sobre as fotos do show", rosnou Isaac Porter. "Ele não tem um pingo de juízo."
Por um acordo comum, a multidão se virou para inspecionar dois cartazes adjacentes. Mark, maligna ou insanamente, colou os avisos de recompensa sobre as extremidades inferiores de Rosalind, conforme ela deveria aparecer na Floresta de Arden. Houve um período de reflexão por parte de um eleitorado ultrajado.
"Não vejo como ele vai remover aqueles cartazes de recompensa sem raspar as pernas dela ao mesmo tempo", ponderou Anderson Crow, perplexo. Duas donas de casa de Tinkletown abandonaram repentinamente o grupo e entraram na loja. E foi assim que os ladrões de trem foram esquecidos por enquanto.
Mas a reputação do Marechal Crow como capturador de ladrões de cavalos e repressor geral do crime o recriminava constantemente. Parecia exigir que ele tomasse providências para a captura dos ladrões de trem. Durante toda a tarde ele refletiu. Tinkletown, vendo seu humor, absteve-se de interrompê-lo. Ele teve permissão para acariciar suas barbas em paz e pensar o quanto quisesse. Ao cair da noite, seu rosto tornou-se uma máscara inescrutável, e então soube-se que o Presidente da Associação de Detetives de Ladrões de Cavalos do Condado de Bramble estava determinado a desvendar o grande problema. Sorrateiramente, ele subiu ao grande sótão de sua casa e inspecionou seus "disfarces". Em algum período distante de sua carreira oficial, ele comprara a mais incrível coleção de barbas postiças, perucas e roupas que qualquer comediante abandonado já se desfizera por um preço de sacrifício. Ele experimentou cada artigo separadamente, buscando o melhor efeito individual; depois, experimentou-os coletivamente. Teria sido certamente impossível reconhecê-lo como Anderson Crow. Na verdade, ninguém poderia tê-lo identificado com segurança como um ser humano.
"Vou atrás desses patifes", anunciou ele a Andrew Gregory e a toda a família, ao descer tarde para ocupar seu lugar na cabeceira da mesa de jantar.
"Você não vai deixá-los se apresentar aqui, pai?", perguntou Roscoe, aflito.
"Apresentar aqui? Do que você está falando?"
"Ele se refere aos ladrões de trem, Roscoe", explicou a mãe do rapaz. O menino respirou aliviado.
"Eles são um bando perigoso", ofereceu Gregory, que estava em Albany há dois dias. "Os jornais estão cheios de seus feitos. Degoladores da pior espécie."
"Eu deixaria eles em paz, Anderson", implorou sua esposa. "Se você encurralá-los, eles atirarão, e seria bem sua cara segui-los direto para o covil deles."
"Raios, Eva, você não supõe que eu também sei atirar?", bufou Anderson. "O que você acha que andei mantendo aqueles revólveres carregados lá no celeiro durante todos esses anos? Apenas como enfeite? Nem um pouco! Eles servem para atirar, se alguém lhe perguntar. Mil raios, Sr. Gregory, o senhor não tem ideia de como um sujeito pode ser prejudicado por uma esposa tímida e um monte de filhos tolos. Tenho quase medo de me virar por medo de que eles morram de susto pela minha segurança."
"Você se cortou com uma navalha uma vez quando a mamãe disse para você não tentar fazer a barba atrás do pescoço sozinho", disse uma das filhas. "Ela queria que você deixasse o Sr. Beck fazer, mas você não quis desse jeito."
"Você supõe que eu quero que um agente funerário faça minha barba? Não estou tão ansioso para ser barbeado. Beck é o agente funerário, Sr. Gregory."
"Bem, ele também administra a barbearia", insistiu a garota.
Durante os três dias seguintes, Tinkletown viu pouco de seu marechal, chefe dos bombeiros e comissário de ruas. Esse personagem triplo estava fora a negócios de grande importância. Cedo, a cada manhã, ele fugia misteriosamente para a floresta, rio acima ou abaixo, carregando um pacote estranho sob o assento de sua "charrete". Dois revólveres, nenhum dos quais disparado há dez anos, repousavam em uma caixa fixada ao painel. Anderson recusou-se solene, mas positivamente, a permitir que alguém o acompanhasse, nem permitiria que alguém o questionasse. Os fazendeiros que chegavam à cidade falavam de vê-lo nas vielas e na floresta, mas ele piscava gentilmente quando perguntavam o que ele estava seguindo.
"Ele está atrás dos ladrões de trem", explicou toda Tinkletown com sobriedade. Ao que os fazendeiros e suas esposas não invejavam Anderson Crow pelos jantares de frango que ele comera com eles, nem o culpavam por incomodar os homens nos campos. Era suficiente que ele encontrasse desculpa para dormir na sombra de suas árvores durante sua caçada silenciosa.
"Conseguiu algum rastro deles?", perguntou George Ray certa noite, parando no portão dos fundos de Anderson para observar o marechal desatrelar seu animal grato. A paciência deixara de ser uma virtude para George.
"Algum rastro de quem?", perguntou o Sr. Crow com uma bela demonstração de inocência.
"Dos ladrões."
"Eu não estive rastreando ladrões, George."
"O que diabos você esteve rastreando por todo o país todos os dias, então?"
"Estou domando este potro", respondeu calmamente o marechal, com uma piscadela poderosa para a velha Betty, que ele dirigia na mesma charrete há vinte anos. Enquanto George partia com um bufo de insulto, Andrew Gregory saiu do celeiro, onde aguardava o retorno do Sr. Crow.
"Estou prestes a descobrir algo grande", anunciou ele em tom baixo, olhando primeiro em todas as direções para ver se ninguém estava ouvindo.
"Caramba! Você conseguiu pegar o Sr. Farnsworth?"
"Não tem nada a ver com seguro", explicou apressadamente o agente. "Ouvi algo de vasta importância para você."
"Você não quer dizer que a trupe quebrou?"
"Não... não; é em relação a... com..." e aqui o Sr. Gregory inclinou-se para frente e sussurrou algo no ouvido de Anderson. O Sr. Crow parou prontamente em seus rastros, seus olhos saltando. Betty, que estava sendo levada para o bebedouro, sendo cega e não tendo ordem para parar, procedeu a colidir fortemente contra a estrutura de seu mestre.
CAPÍTULO XXXI
"Como Gostais"
"Você... não... me... diga! Upa! Maldita! Você não consegue ver por onde anda, sua velha carcaça?" Betty foi puxada até parar. "O que você ouviu?", perguntou Anderson, sua voz tremendo de interesse.
"Não posso lhe contar aqui fora", disse o outro cautelosamente. "Guarde a égua e depois encontre-me no pasto ali fora. Podemos nos sentar e conversar sem sermos ouvidos."
"Não levarei nem um minuto. Aqui, você Roscoe! Alimente a Betty e dê água a ela primeiro. Mexa-se agora. Diga à sua mãe que voltaremos para o jantar quando estivermos bem prontos."
Anderson e Andrew Gregory atravessaram o portão do pasto e foram longe no prado verde. Uma vez completamente fora de alcance, Gregory parou e ambos se sentaram em um pequeno montículo. O agente estava evidentemente suprimindo uma considerável excitação.
"Aqueles ladrões de trem estão nesta vizinhança", disse ele, quebrando um longo silêncio. Anderson olhou para trás involuntariamente. "Não quero dizer que eles estão neste pasto, Sr. Crow. Você tem sido um bom amigo para mim, e estou inclinado a compartilhar o segredo com você. Se formos juntos, podemos dividir a recompensa de dez mil dólares, porque tenho certeza de que podemos pegar aqueles sujeitos."
"Qual é o seu plano?", perguntou Anderson, ficando um pouco pálido com o pensamento. Antes de prosseguir com o assunto, Gregory perguntou a Anderson se ele assinaria um documento concordando em dividir a recompensa igualmente com ele. Este ponto foi facilmente resolvido, e então o homem do seguro revelou seu segredo.
"Tenho uma dica quente de um amigo em Nova York e ele não me levaria pelo caminho errado. A verdade sobre ele é esta: ele trabalhava para nossa empresa, mas pegou algum dinheiro que não lhe pertencia. Isso lhe rendeu uma sentença na cadeia. Ele acabou de sair e sabe muito sobre esses ladrões. Alguns deles estiveram em Sing Sing com ele. O líder queria que ele se juntasse ao bando e ele meio que consentiu. O dever dele é manter o bando informado sobre o que os oficiais em Nova York estão fazendo. Entende?"
"Claro", suspirou Anderson.
"Bem, meu amigo quer se reformar. Tudo o que ele pede é uma fatia da recompensa. Se capturarmos o bando, podemos pagar a ele uns mil ou mais, não podemos?"
"Claro", foi a resposta digna.
"Aqui está a carta dele para mim. Vou lê-la para você." No crepúsculo crescente, Gregory leu a carta para o marechal de Tinkletown. "Agora, você vê", disse ele, ao final da epístola surpreendente, "isso significa que, se observarmos sigilo estrito, poderemos ter o jogo em nossas mãos. Ninguém deve ouvir uma palavra disso. Eles podem ter espiões bem aqui em Tinkletown. Só poderemos ter sucesso mantendo nossas bocas seladas."
"Mais apertadas que cera de abelha", prometeu Anderson Crow.
Resumidamente, a carta para Andrew Gregory era uma exposição dos planos da grande gangue de ladrões de trem, juntamente com seu paradeiro em um determinado dia futuro. Eles deveriam cair sobre Tinkletown na noite da performance ao ar livre de "Como Gostais", e seu golpe mais desesperado seria o resultado. O esquema era deter e roubar toda a plateia enquanto a performance estivesse acontecendo. Anderson Crow estava suando frio. A performance ocorreria em apenas três dias, e ele sentia que precisava de três meses para se preparar.
"Como diabos vamos capturar essa gangue terrível, apenas eu e você?", perguntou ele, expressando suas dúvidas e medos.
"Teremos que contratar ajuda, é só isso."
"Precisaremos de um regimento."
"Não pense nisso. Anime-se, velho amigo, não tenha medo."
"Medo? Eu? Não sei o que é estar assustado. Você nunca ouviu falar de como eu peguei aqueles sujeitos que sequestraram minha filha Rosalie? Bem, você apenas pergunte a alguém que saiba sobre isso. Hum! Acho que isso foi uma recomendação de bravura. Mas esses sujeitos estarão prontos para nós, não estarão?"
"Podemos enganá-los facilmente. Estive pensando em um plano a tarde toda. Não sabemos exatamente onde eles estão agora, então não podemos pegá-los esta noite. Teremos que esperar até que eles venham até nós. Meu plano é ter meia dúzia de detetives particulares competentes vindo de Nova York. Podemos espalhá-los pela plateia na próxima quinta-feira à noite, e quando chegar a hora certa, poderemos cair sobre cada um desses sujeitos como gaviões sobre pintinhos na primavera. Conheço o chefe de uma grande agência particular em Nova York, e acho que o melhor plano é pedir que ele envie alguns bons homens. Não custará muito, e prefiro ter esses homens práticos e destemidos aqui do que todos os caipiras que você pudesse nomear. Um deles vale dez de seus concidadãos, Sr. Crow, pedindo perdão pela observação. Você e eu podemos guardar o segredo e podemos fazer a coisa certa, mas seríamos burros se confiássemos em mais burros de Tinkletown. Se você concordar, escreverei ao Sr. Pinkerton esta noite. Ele pode ter seus homens aqui, disfarçados e prontos para o trabalho, até a tarde de quinta-feira. Se não se importar, gostaria que você assumisse o comando do assunto, porque você sabe exatamente como lidar com ladrões, e eu não. O que me diz?"
Anderson estava pronto e ansioso para concordar com qualquer coisa, mas hesitou muito tempo antes de decidir assumir o comando supremo do empreendimento. O Sr. Gregory implorou imediatamente que ele assumisse o comando. Significava o sucesso da empreitada; qualquer outra coisa significava fracasso.
"Mas como diabos vou saber quem são os ladrões quando eu os vir?", exigiu o marechal, puxando nervosamente a grama pelas raízes.
"Você saberá quem eles são, tudo bem", disse Andrew Gregory. A quinta-feira chegou e com ela a "trupe". Anderson Crow não dormira por três noites, ele estava tão cheio de emoções e responsabilidade. Bem cedo naquela manhã, ele estava à procura de personagens suspeitos. Gregory deveria encontrar os detetives de Nova York às sete e meia da noite. Por acordo prévio, esses estranhos deveriam se reunir casualmente na Tinkletown Inn, perfeitamente disfarçados de cavalheiros, prontos para instruções. Os dois arqui-conspiradores tinham cuidadosamente traçado um plano de ação. Gregory riu secretamente quando pensou na sensação que Tinkletown iria experimentar -- e pensou nisso com frequência também.
Os principais membros da All Star Company de Boothby "hospedaram-se" na Inn, que era tão humilde que cambaleava sob esse peso incomum de dignidade. A bela Srta. Marmaduke (na realidade, Srta. Cora Miller) estava lá, e também a Srta. Trevanian, Srta. Gladys Fitzmaurice, Richmond Barrett (em particular Jackie Blake), Thomas J. Booth, Francisco Irving, Ben Jefferson e outros. A Inn foi glorificada. Toda Tinkletown olhava para a desprezada e velha "casa de comer" com uma reverência que não era relutante.
O gerente, uma pessoa ocupada e preocupada, que parecia ser o mais humilde mercenário do grupo, veio à Inn ao meio-dia e espalhou a notícia de que os assentos reservados estavam esgotados e havia promessa de um bom público. Ao que houve regozijo entre o Elenco All Star, pois as últimas etapas do empreendimento seriam materialmente fortalecidas.
"Não teremos que voltar para casa a pé", anunciou o Sr. Jackie Blake, aquele belo rapaz que interpretava Orlando.
"Glorioso Shakespeare, tu voltaste à vida novamente", disse Ben Jefferson, um ator itinerante há cinquenta anos. "Eu estava começando a pensar que você era um morto."
"E ninguém confiscará nossos baús por causa da hospedagem", acrescentou a Srta. Marmaduke alegremente. Ela era uma jovem muito bonita e desesperadamente apaixonada pelo Sr. Orlando.
"Se alguém confiscasse os baús de Orlando, eu não poderia aparecer em público hoje à noite", disse o Sr. Blake. "Orlando possui apenas um par de baús."
"Você poderia usar uma capa de chuva", sugeriu o Sr. Booth.
"Ou pedir baús emprestados das árvores", acrescentou o Sr. Irving.
"Eles partiram", rosnou o Sr. Jefferson, que odiava os trocadilhos que ele não fazia.
"Vamos deslumbrar a cidade, Cora", disse Jackie Blake; e antes que Tinkletown pudesse dar seu segundo suspiro de alívio, o ator e a atriz principais estavam caminhando lentamente pela principal e única via pública.
"Por Deus! ela é uma bela, não é?", murmurou Ed Higgins, único balconista no Lamson's. Ele ficou na porta até que ela estivesse fora de vista e permaneceu lá por quase uma hora aguardando seu retorno. Os homens de Tinkletown deram apenas uma olhada na bela jovem, mas aquela única olhada foi contínua e ininterrupta.
"Se esta cidadezinha consegue levantar dinheiro suficiente hoje à noite para evitar que fiquemos na miséria, tirarei meu chapéu para ela para sempre", disse Jackie Blake.
"Boothby diz que a casa está lotada", disse a Srta. Marmaduke, uma sombra de ansiedade em seus olhos escuros. "Oh, como eu gostaria que estivéssemos em casa novamente."
"Eu preferiria morrer de fome em Nova York a festejar nas altas colinas", disse ele com saudade. Os ídolos aos quais Tinkletown prestava homenagem eram apenas humanos, afinal. Durante dois meses, a Companhia Boothby fora jogada de um lado para o outro, lutando arduamente para manter a cabeça fora da água, sempre esperando o colapso. As "estrelas" não passavam de jovens atores esforçados, que eram mantidos tocando durante o período de calor com este empreendimento incerto, apenas porque a necessidade estava no comando de seus destinos. Não era para eles desfrutar de um verão com facilidade e indolência.
"Não se importe, querido", disse ela, virando seu guarda-sol verde para que ele obstruísse o olhar intenso, mas elogioso, de nada menos que uma dúzia de homens; "nossa sorte mudará. Não seremos atores itinerantes para sempre."
"Temos uma coisa pela qual agradecer, pequena", disse Jackie, seu rosto iluminando-se. "Sairemos novamente neste outono na mesma companhia. Isso é sorte, não é? Nos casaremos assim que voltarmos para Nova York e não teremos que nos separar por uma temporada inteira, pelo menos."
"Não é adorável de se pensar, querida Jackie? Uma temporada inteira e depois outra, e todas as que virão depois? Oh, meu bem, não será doce?" Era o jovem sonho de amor para ambos.
"Olá, o que é isto?" exclamou Orlando, o Milésimo, pausando diante de um cartaz que cobria os membros inferiores de sua parceira pictórica. "Dez mil dólares de recompensa! Por todos os diabos, Cora, eu não gostaria de capturar esses sujeitos? Ótimo, hein? Mas é uma quadrilha desesperada! A pior de todas!"
Justamente então, ambos se tornaram conscientes do fato de que alguém os examinava atentamente por trás. Eles se viraram e contemplaram Anderson Crow, seus distintivos brilhando.
"Como vai, oficial?" disse Jackie alegremente. A Srta. Marmaduke, em sua felicidade, abriu um sorriso para o homem austero de costeletas no queixo. Anderson já passara dos setenta, mas aquele sorriso causou tal aspiração de ar que quase o levantou do chão.
"De primeira, obrigado; como vai você? Lendo o aviso de recompensa? Deixe-me lhe dizer uma coisa. Vai acontecer algo terrivelmente em breve que vai deixar esses sujeitos atônitos se--" mas aqui Anderson parou com um solavanco, percebendo que estava prestes a trair um grande segredo. Com medo de confiar em si mesmo em uma conversa contínua, ele disse abruptamente: "Boa tarde", e saiu rua abaixo, com as orelhas formigando.
"Sujeito estranho, não é?" observou Jackie, e imediatamente o esqueceu enquanto passeavam adiante.
Naquela noite, Tinkletown fervilhava de estranhos. O tempo estava bom, e dezenas dos moradores de verão nas colinas do outro lado do rio vieram ver a apresentação, como o agente de divulgação havia previsto. O Bluff Top Hotel enviou uma grande delegação de pessoas em busca da variedade da vida. Havia automóveis, carruagens, vitórias, carroças de feno e "sundowns" estacionados por toda a rua nas proximidades de Hapgood's Grove. Seria, na linguagem expansiva do assessor de imprensa, "uma plateia culta composta pela elite da comunidade".
No final da tarde, um pensamento paralisante atingiu o cérebro do marechal. Ocorreu-lhe que esse bando de ladrões também poderia estar empenhado em raptar Rosalie Gray. Afinal, poderia ser a grande razão dominante para sua descida sobre a comunidade. Coberto por um suor que não era causado pelo calor, ele abordou Wicker Bonner, no minuto em que aquele cavalheiro chegou à cidade. Rosalie foi, é claro, à casa dos Crow para uma breve visita à família.
"Diga, Wick, quero que me faça um favor", disse Anderson ansiosamente, levando o jovem de lado. "Não posso lhe contar tudo, porque estou preso por um juramento eterno. Mas escute, receio que algo vá acontecer esta noite. Há muitos estranhos aqui, e estou nervoso quanto a Rosalie. Alguém pode tentar roubá-la na agitação. Agora, quero que você tome muito cuidado com ela. Não a deixe sair de sua vista, e não deixe ninguém tirá-la de você. Também ficarei de olho nela. Prometa-me."
"Certamente, Sr. Crow. Cuidarei dela. É o que espero fazer pelo resto de--"
"Algo pode acontecer", interrompeu o Sr. Crow, e então se retirou silenciosamente.
Bonner riu facilmente dos medos do velho e os considerou parte de sua natureza extravagante. Mais tarde, ele viu o velho perto da entrada enquanto o grupo passava para dentro do recinto. O grupo Bonner ocupava assentos proeminentes na frente, reservados pelo marechal. Havia dez no grupo, meia dúzia de jovens de Boston completando a comitiva.
As paredes laterais de um pavilhão cercavam a seção mais bonita do bosque. Em uma extremidade estavam os assentos, enchendo-se rapidamente com pessoas. Na extremidade oposta, sobre o tapete verde da Mãe Terra, ficava o palco, iluminado fracamente por meio de holofotes suaves e algumas estrelas auxiliares no alto. Não havia cenário, exceto aquele fornecido pela própria Natureza. Uma orquestra de violinos rompeu o zumbido constante de vozes ansiosas.
O coração de Anderson Crow estava dentro do recinto encantado, mas sua pessoa estava em outro lugar. Simultaneamente, com o início da apresentação de "Como Vos Aprouver", ele estava no sótão de seu celeiro, enfrentando Andrew Gregory e os cinco assistentes barbudos da cidade de Nova York. Gregory havia encontrado os detetives na pousada e os guiara até o celeiro do marechal, onde as instruções finais seriam dadas. Por meia hora, o grupo discutiu planos com Anderson Crow, falando em tons baixos e misteriosos que soaram nos ouvidos do marechal até seu último dia de vida.
"Localizamos esses sujeitos", afirmou o Sr. Gregory firmemente. "Não pode haver erro. Eles já estão na plateia ali, e a um sinal começarão a trabalhar para assaltar toda a multidão. Devemos surpreendê-los, Sr. Crow. Não faça isso! Você não precisa de um disfarce. Mantenha essas costeletas amarelas no bolso. O resto de nós usará disfarces. Estes homens vieram aqui disfarçados porque os ladrões os reconheceriam em um minuto se não estivessem. Eles conhecem o rosto de cada detetive na terra. Se não fossem essas barbas e perucas, eles teriam identificado os homens de Pinkerton há muito tempo. Agora, você conhece seu papel no caso, não conhece?"
"Sim, senhor", respondeu respeitosamente Anderson, sua costeleta no queixo balançando pateticamente.
"Então estamos prontos para prosseguir. É preciso um pouco de coragem, só isso, mas logo teremos esses ladrões exatamente onde queremos", disse Andrew Gregory.
O segundo ato da peça estava bem encaminhado quando Orlando, no "camarim", comentou com o diretor de cena:
"O que aquele velho caipira está fazendo aqui atrás, Ramsay? Por que, droga, homem, ele está carregando um par de armas. Isto é um assalto?" No mesmo instante, Rosalind e duas das mulheres vieram correndo de sua tenda de vestir, alarmadas e indignadas. A Srta. Marmaduke, com os olhos brilhando, confrontou o diretor de cena.
"O que isto significa, Sr. Ramsay?" ela gritou. "Aquele velho ordenou que saíssemos de nosso camarim sob a mira de um revólver, e-- veja! Lá está ele agora fazendo o mesmo com os homens."
Era verdade. Anderson Crow, com um par de pistolas de cavalaria, estava empurrando os atores em direção ao centro do palco. Com uma voz trêmula, ele ordenou que permanecessem lá e arcassem com as consequências. Um momento depois, o marechal de Tinkletown entrou sob os holofotes com seu arsenal, enfrentando uma plateia atônita e temporariamente divertida. Sua voz, num tom agudo pela excitação, alcançou os cantos mais remotos do recinto. Atrás dele, os atores observavam, boquiabertos e perplexos. Para eles, ele surgia como o temido oficial de justiça designado para confiscar seus bens pessoais. A plateia, se a princípio riu dele como uma piada, logo mudou sua visão. A comoção seguiu-se ao seu discurso de abertura.
CAPÍTULO XXXII
A Sorte de Anderson Crow
"Ninguém tente sair desta tenda!" comandou o Sr. Crow, posicionando-se bravamente com seus revólveres nivelados. A orquestra tornou-se o menor possível, pois uma das armas oscilava perigosamente. "Não se alarmem, senhoras e senhores. Os ladrões de trem estão entre vocês."
Houve alguns gritos femininos, um volume de "O quês!" masculinos, uma risadinha hesitante e incerta, e um virar geral de cabeças.
"Permaneçam em seus assentos!" comandou Anderson. "Eles não podem escapar. Eu os cerquei. Agora convoco todos os ladrões presentes a se renderem em nome da lei. Rendam-se pacificamente e não sofrerão danos; resistam e os mandaremos para o inferno, mesmo correndo o risco de ferir mulheres e crianças. A lei não respeita pessoas. Mãos ao alto!"
Ele esperou de forma impressionante, mas, seja por estupor ou obstinação, os ladrões não levantaram as mãos.
"Vocês estão encurralados, seus canalhas malditos!" gritou Anderson Crow, "e é melhor desistirem! Vinte homens da Pinkerton estão aqui da cidade de Nova York, e vocês não podem escapar! Mãos ao alto!"
"O velho tolo maldito está falando sério", engasgou o juiz Brewster, do outro lado do rio.
"Ele está louco!" gritou o congressista Bonner.
"Que todos nesta multidão levantem as mãos!" chamou uma voz firme e clara na entrada. No mesmo instante, cinco indivíduos barbudos apareceram como que por mágica com revólveres em punho, dominando a situação completamente. O orador era Andrew Gregory, o agente de seguros.
"Agora, o que vocês têm a dizer?" gritou Anderson alegremente. "Acho que eu e os detetives encurralamos vocês, não é?"
A plateia estava estupefata, paralisada. Enquanto tudo isso acontecia do lado de dentro, um único detetive do lado de fora estava furtivamente furando os pneus de todos os automóveis da coleção, exceto o enorme carro de turismo do Sr. Bracken por razões que seriam vistas mais tarde.
"Céus!" gemeu o velho juiz Brewster. Meia dúzia de mulheres desmaiaram e cem homens suaram frio.
"Mãos ao alto, todos!" comandou Andrew Gregory. "Não podemos arriscar. Os ladrões de trem estão nesta plateia. Eles vieram para assaltar toda a multidão, mas fomos rápidos demais para vocês, meus belos pássaros. O lugar está cercado!"
"Sr. Gregory, o seguro..." começou Anderson Crow, mas foi interrompido.
"O Sr. Crow merece grande crédito por este trabalho de detetive. Sua mera presença é uma garantia de segurança para aqueles de vocês que não são ladrões. Todos estão com as mãos levantadas? Obrigado. Sr. Crow, por favor, mantenha esses atores quietos. Agora, senhoras e senhores, nem sempre é uma questão fácil distinguir ladrões de homens honestos. Primeiro, darei aos desesperados uma chance de se renderem pacificamente. Ninguém se adianta? Muito bem. Mantenham as mãos levantadas, todos vocês. O homem que baixar as mãos será instantaneamente considerado um desesperado e pode levar uma bala no corpo por sua tolice. Os inocentes devem sofrer com os culpados. Sr. Crow, devemos prosseguir com a busca?"
"Sim, senhor; vá em frente, e seja rápido", respondeu Anderson Crow.
"Muito bem, então, em nome da lei, meus homens começarão a busca. Eles passarão entre vocês, senhoras e senhores, e qualquer esforço para retardar seu progresso será recebido com instantânea... bem, vocês sabem."
Antes que a plateia petrificada pudesse perceber totalmente o que estava acontecendo, três dos detetives passavam rapidamente de pessoa em pessoa, despindo as mulheres de suas joias, os homens de seu dinheiro e seus relógios. Um protesto hesitante foi levantado para Anderson Crow, mas foi contido sumariamente pela "equipe de busca". Foi bom para o pobre marechal que ele nunca soubesse o que a plateia pensava dele naquele momento horrível.
Tudo terminou em cinco minutos. Os detetives haviam revistado todas as pessoas de aparência próspera na plateia, sob o próprio nariz e armas do marechal Crow, e estavam se despedindo sardonicamente da multidão a partir da porta oscilante na parede lateral. Andrew Gregory dirigiu-se à multidão, sorrindo amplamente.
"Encontramos muito mais ladrões na multidão do que poderíamos controlar convenientemente, senhoras e senhores. Na verdade, nunca encontrei uma coleção tão rara de assaltantes fora de Wall Street. O único homem perfeitamente honesto em Tinkletown hoje à noite é Anderson Crow, seu estimado marechal. Acreditem em mim, ele é ridiculamente honesto. Ele pode ser um tolo, mas é honesto. Não o culpem. Agradecendo a todos e a cada um por sua ajuda generosa em nossa busca pelos ladrões de trem, damos a vocês um afetuoso adeus. Podemos nos encontrar novamente se vocês viajarem extensivamente em trens expressos. Boa noite!"
Com uma risada provocadora, Andrew Gregory soltou a aba e saltou atrás de seus companheiros. O motorista de Bracken estava inconsciente na beira da estrada, e um dos "detetives" estava em seu assento. Mesmo quando a plateia abriu sua boca coletiva para gritar sua raiva e surpresa, o grande carro de turismo, com seis homens armados a bordo, saltou com pressa. Pela estrada escura, ele voou como um trem expresso, seu próprio ruído abafando os gritos da multidão, muito atrás.
Bonner, recuperando-se de seu estupor e raiva, liderou a perseguição, primeiro ordenando a Rosalie que corresse para casa com as mulheres e se trancasse em segurança.
Anderson Crow, percebendo o quão enganado ele tinha sido nas mãos dos espertos canalhas, estava coberto de medo e vergonha. A multidão ultrajada poderia tê-lo matado se sua fuga não tivesse sido feita sob a cobertura da escuridão. Tremendo e gemendo em miséria absoluta, o orgulho de Tinkletown fugiu sem ver, sem pensar, para a floresta ao longo do rio. Ele não saberia até depois que seus "detetives" haviam despido os ricos visitantes de pelo menos dez mil dólares em dinheiro e joias. Não é necessário dizer que a apresentação de "Como Vos Aprouver" teve um fim abrupto, porque não foi como eles gostaram. Todos sabiam a essa altura que haviam visto os célebres "ladrões de trem".
Jackie Blake estava meio vestido quando saltou de pé com uma exclamação tão alta que as que a precederam foram sussurros.
"Santo Deus!" caiu de seus lábios; e então ele correu pelo gramado até a tenda de vestir das mulheres. "Cora! Cora! Saia!"
"Eu não posso", veio em tons abafados.
"Então adeus; estou partindo!" ele gritou. Isso a trouxe, parcialmente vestida, para fora da tenda. "Diga, você se lembra da estrada do rio pela qual caminhamos hoje? Bem, aqueles sujeitos foram naquela direção, não foram? Você não vê? Não está ligando os pontos? O desmoronamento! Se eles não sabem disso, todo o bando está no fundo da ravina ou no rio agora mesmo! Bico calado! Há uma chance, querida; a recompensa dizia 'vivo ou morto!' Estou partindo!"
Ela tentou chamá-lo de volta, mas era tarde demais. Com seu próprio revólver na mão, o meio Orlando, meio Blake, correu pela estrada do rio, raramente percorrida, em direção ao sul. Atrás dele, Tinkletown delirava e lamentava sobre a grande calamidade, mas geralmente permanecia impotente diante de tudo. Mas poucos se sentiram inclinados a perseguir os ladrões. Blake logo ficou sozinho na corrida. Havia uma milha ou mais até o desmoronamento na estrada, mas a excitação o deixou ágil para o teste. A estrada passava pela floresta e ao longo do alto penhasco que dava para o rio. Ele não sabia, mas esta mesma estrada era um "atalho" para a estrada de macadame mais ao sul. Ao tomar essa rota, os ladrões deram uma ampla volta em Boggs City.
A mente de Blake estava cheia das possibilidades de desastre para os fugitivos excessivamente confiantes. O desmoronamento era recente, e ele contava com a chance de que eles não estivessem cientes de sua existência. Se eles o atingissem mesmo a meia velocidade, todo o grupo seria lançado a cem pés de altura até a beira do rio ou no próprio curso da água. Nesse caso, alguns, senão todos, seriam seriamente feridos.
Ao se aproximar da curva na estrada, com seu caminho apontado pelas estrelas acima, ele foi assustado quase fora de suas botas pelo aparecimento repentino de um homem, que cambaleou para fora da estrada e se afastou dolorosamente, implorando por misericórdia.
"Pare, ou atiro!" chamou Jackie Blake, e a figura patética não apenas parou, mas sentou-se no meio da estrada.
"Pelo amor de Deus, não atire!" gemeu uma voz rouca. "Eu não estava mancomunado com eles. Eles me enganaram... eles me enganaram." Era Anderson Crow, e ele teria continuado interminavelmente se Jackie Blake não o tivesse interrompido bruscamente.
"Você é o marechal, hein? O caipira idiota..."
"Sim, sou eu. Chame-me do que quiser, só não atire. Quem é você?" gemeu Anderson, levantando-se sobre os joelhos. Ele estava segurando seus revólveres pelos canos. "Não importa quem eu sou. Não tenho tempo. Diga, é melhor você vir comigo. Talvez possamos interceptar aqueles vilões. Eles vieram por aqui e..."
"Mostre-os para mim", rugiu Anderson, reconhecendo um amigo. A raiva surgiu e expulsou a vergonha de sua alma. "Vou enfrentar todo o bando, malditos sejam!" E ele falava sério também.
Blake não parou para explicar, mas começou a seguir, ordenando ao Sr. Crow que o seguisse. Com rara previdência, o marechal colocou sua barba amarela enquanto ofegava na trilha do ágil jovem ator. Este último lembrou que as chances estavam fortemente contra ele. O marechal poderia ser uma ajuda valiosa em caso de resistência, desde que, é claro, eles encontrassem os ladrões na situação que ele esperava.
"Onde diabos você está indo?" chiou o marechal, levantando muita poeira na retaguarda. O outro não respondeu. Toda sua alma estava envolvida na esperança de que o desmoronamento tivesse capturado os ladrões. Ele estava quase rezando para que fosse assim. A recompensa poderia ser dividida com o pobre velho marechal se...
Ele deu um grito de alegria, um momento depois, e então começou a pular para cima e para baixo como um louco. Anderson Crow parou tão abruptamente que seus joelhos ficaram rígidos por semanas. O sonho selvagem de Jackie Blake tornou-se realidade. O enorme automóvel havia atingido o desmoronamento, e agora estava deitado na base do penhasco, destruído em pedaços sobre as rochas! Pela luz fraca vinda dos céus, Blake podia ver a carcaça preta lá embaixo, mas estava escuro demais para distinguir outros objetos. Ele estava prestes a descer até a margem do rio quando Anderson Crow chegou.
"O que houve, homem?" ofegou ele.
"Eles estão lá embaixo, você não vê? Eles caíram do penhasco bem aqui... venha. Nós os pegamos!"
"Espere!" exclamou Anderson, segurando seu braço. "Não corra lá para baixo como um tolo. Se eles estiverem vivos, podem te encher de balas em pouco tempo. Vamos ser cuidadosos."
"Por todos os trovões, você tem razão. Você é uma velha coruja sábia, afinal. Nunca pensei nisso. Vamos reconhecer o terreno."
Formigando de excitação, os dois perseguidores, estranhamente unidos, desceram furtivamente por um caminho indireto. Eles subiram sobre rochas e rastejaram pelo mato até que finalmente chegaram a um ponto claro a vinte pés de onde a grande máquina estava, bem na beira da correnteza profunda e veloz. Eles ouviram gemidos e gritos fracos, com um juramento piedoso de vez em quando. De seu esconderijo, eles contaram as formas de quatro homens deitados sobre as rochas, como se estivessem mortos. Os dois mantiveram uma consulta de guerra sussurrada, resultando em um plano de ação.
"Rendam-se!" gritou Jackie Blake, posicionando-se à frente. Ele e Anderson estavam com suas pistolas apontadas para os ladrões prostrados. Como resposta, houve gemidos mais altos, um juramento mais feroz ou dois, e então uma voz fraca e dolorida veio até eles:
"Pelo amor de Deus, tirem esta máquina de cima das minhas pernas. Estou morrendo. Socorro! Socorro! Nós nos rendemos!"
Dez minutos depois, os jubilantes captores haviam libertado o miserável Andrew Gregory de sua posição sob a máquina, e haviam amarrado com sucesso as mãos e os pés de cinco homens meio inconscientes. As pernas de Gregory estavam esmagadas e o crânio de outro estava rachado. O sexto homem não foi encontrado em lugar nenhum. O desastre fora total, a queda dos grandes ladrões de trem inglória. Olhando para o rosto de Anderson Crow, Gregory sorriu através de sua dor e disse roucamente:
"Sorte maldita; mas se tínhamos que ser pegos, fico feliz que tenha sido você, Crow. Você é um bom tolo, de qualquer maneira. Mas, pelo amor de Deus, leve-me a um médico."
"Droga! Sinto muito por você, Sr. Gregory..." começou Anderson, pronto para chorar.
"Não perca seu tempo, velho. Preciso do médico. Os outros estão mortos?" ele gemeu.
"Não sei", respondeu Jackie Blake. "Alguns parecem estar. Não podemos carregá-lo até aquele morro, mas faremos a próxima melhor coisa. Marechal, ficarei aqui e guardarei os prisioneiros enquanto você corre para a vila em busca de ajuda... e médicos."
"E corra rápido, Anderson", acrescentou Gregory. "Você sempre foi terrivelmente lento. Não ande... trote."
Logo depois, quando Anderson, exausto, mas radiante, entrou mancando na vila, a multidão excitada estava pronta para linchá-lo, mas com suas primeiras palavras, a atmosfera mudou.
"Onde está Jackie Blake?" soluçou uma jovem bonita, agarrando o braço do orgulhoso marechal e sacudindo-o violentamente.
"Droga se eu sei, madame. Ele foi roubado?"
Ela o fez entender, e juntos, seguidos pelos atores, pela plateia e pela cidade inteira, eles lideraram o caminho até o desmoronamento, com a bela Rosalind arrastando o herói sobrecarregado da hora a um passo que ameaçava ser sua ruína.
Mais tarde, depois que os cinco bandidos foram levados para a vila, Jackie Blake informou alegremente à sua amada que eles poderiam navegar tranquilamente com os sete mil dólares que esperava. Anderson Crow concordou em levar apenas três mil dólares por sua parte na captura. Um dos ladrões estava morto. O corpo do sexto foi encontrado no rio semanas depois.
"Fico contente por ter sido o primeiro no local", disse Blake, na expectativa da recompensa que acabaria por lhe ser entregue. "Mas Anderson Crow revelou-se um trunfo verdadeiro, afinal de contas. Ele é um espetáculo!" Ele falava com Wicker Bonner e uma multidão de nova-iorquinos.
Tinkletown começou a falar num monumento a Anderson Crow, mesmo enquanto ele vivia. A opinião geral era a de que deveria ser erigido enquanto ele ainda fosse capaz de o apreciar e não após a sua morte, quando já não saberia nada sobre o seu tamanho e custo.
"Ora bolas! Foi uma grande captura!" estufando visivelmente. "Eu sabia que eles não me podiam escapar. Malditos! Eles não contavam comigo, pois não? Puxa! Foi ridículo da parte deles pensarem que me podiam enganar completamente, embora eu tenha de confessar que me enganaram ao princípio. Era um bando desesperado e muito matreiro."
"Você trabalhou muito bem, Anderson", disse George Ray. "Sabia do desmoronamento?"
"Se eu sabia?" bufou Anderson de forma cortante. "Ora, por todos os santos, não quase que corri até quase perder as pernas para chegar lá a tempo de derrubar a barricada antes que eles pudessem chegar com o automóvel do Sr. Bracken? Raios! Que pergunta estúpida!"
CAPÍTULO XXXIII
Bill Briggs Conta uma História
Tinkletown fervilhava de entusiasmo. Finalmente, os olhos do mundo estavam postos nela. A notícia da grande sensação foi transmitida até aos confins da terra; cada detalhe foi analisado com uma minuciosidade angustiante. A Hemisphere Company anunciou por telégrafo que estava pronta a entregar os dez mil dólares; e o xerife do Condado de Bramble, com todos os delegados do marechal dos Estados Unidos ao alcance, correu imediatamente para Tinkletown para meter a sua colherada.
Na manhã seguinte ao "grande roubo do pavilhão", como foi chamado no Banner, Anderson Crow e Bonner saíram cedo para dar uma vista de olhos aos bandidos feridos, que estavam todos em segurança sob guarda na cadeia reencarnada. Cinquenta homens armados tinham estado de guarda durante toda a noite, apesar do facto de um dos ladrões estar morto e os outros tão gravemente feridos que não se esperava que sobrevivessem ao dia.
Um cavaleiro passou pelo marechal e pelo seu amigo perto da estação dos correios, cavalgando rapidamente para norte. Ele acenou com a sua chibata agradavelmente para eles e Bonner retribuiu. Anderson parou estático e tentou falar, mas não conseguiu durante um minuto inteiro; estava mudo de excitação.
"É ele!" conseguiu ele balbuciar. "O sujeito que vi no outro dia... o homem a cavalo!"
"Aquele?" gritou Bonner, rindo-se com vontade. "Ora, esse é John E. Barnes, o advogado e provavelmente um futuro senador dos Estados Unidos algum dia. Pelos céus, Sr. Crow, desta vez fez um mau palpite! Ele está hospedado com o Juiz Brewster, o seu sogro."
"O quê! Bem, por todos os diabos! Eu pensei que o conhecia", gritou Anderson. "Eles não me podem enganar por muito tempo, Wick... nenhum deles. Ele é o mesmo sujeito que fugiu com a filha do Juiz Brewster há mais de vinte anos. Puxa, eu estava exatamente neste local da primeira vez que o vi. Ele vendeu-me um cavalo e uma charrete... mas eu recuperei o dinheiro. Prendi-o no mesmo dia."
"Prendeu John Barnes?" em espanto.
"Sim... por homicídio... só que ele não era o assassino. Seguimo-lo rio abaixo... ele e a rapariga... até à propriedade de Bracken, mas eles já estavam casados antes de lá chegarmos. Maldito, aquele foi um dia atarefado! Algum trabalho de detetive de primeira também foi feito. Eu..."
"E o Sr. Barnes estava interessado em Rosalie?" perguntou Bonner subitamente. "Como poderia ele saber alguma coisa sobre ela?"
"É isso que me intriga. Ela veio para aqui cerca de dois anos depois da fuga, mais ou menos, mas não me lembro de alguma vez o ter visto depois dessa altura."
"É muito estranho, Sr. Crow", refletiu Bonner sobriamente. "Ele tem um filho, eu sei. A sua esposa morreu um ano ou dois após o nascimento do rapaz. O jovem Barnes tem cerca de vinte e um anos, penso eu, nesta altura. Por todos os santos! Ouvi dizer que Barnes e a sua esposa não se davam muito bem. Dizem que ela morreu de desgosto. Ouvi a minha mãe falar disso muitas vezes. Pergunto-me... grandes céus, não será possível que Rosalie possa estar relacionada de alguma forma com John Barnes? Anderson Crow, eu... pergunto-me se existe uma possibilidade?" Bonner tremia de excitação, espanto... e descrença.
"Estou a trabalhar nessa pista", disse Anderson tão calmamente quanto os seus tremores permitiam. Ele estava entusiasmado com a mera sugestão, mas era uma segunda natureza para ele agir como se cada descoberta fosse sua. "Desde que o vi na estrada lá em cima, tenho andado a segui-lo. Digo-lhe, Wick, ele é o meu homem. Tenho isto quase resolvido. Assim que estes malditos ladrões forem transferidos para Boggs City, ou enterrados, vou lá e tiro a verdade ao Sr. Barnes. Andei à caça dele durante vinte e um anos." Anderson, claro, esquecia-se de que Barnes lhe tinha saído completamente da cabeça até Bonner cutucar a sua memória para a vida.
"É um assunto delicado, Sr. Crow. Temos de agir com cuidado", disse Bonner severamente. "Se o Sr. Barnes está realmente interessado nela, não o podemos descobrir por meios desajeitados; se ele não está interessado, não nos podemos dar ao luxo de o arrastar para isto. Exigirá tato..."
"Raios, não acha que eu sei isso?" explodiu Anderson. "Os detetives estão sempre a usar de tato. Têm de o fazer, percebe, se vão seguir meia dúzia de pistas de uma vez. Ora essa, Wick, deixe isto comigo! Chegarei ao fundo disto num instante."
"Espere alguns dias, Sr. Crow", argumentou Bonner, ganhando tempo. "Não se apresse. Já temos muito que fazer agora para cuidar dos sujeitos que você e aquele jovem ator capturaram ontem à noite." O plano do jovem era manter Anderson completamente fora do rasto e entregar a pista aparentemente impossível à posse da agência de Nova Iorque.
"Não sei o que teria feito se não fosse por aquele jovem", disse o marechal. "Ele foi uma ajuda e tanto para mim ontem à noite." Bonner, que sabia a verdadeira história, suprimiu um sorriso e não gostou menos do velho homem pela sua leve deceção.
Entraram na "cadeia", que agora tinha todas as aparências e odores de um hospital. Meia dúzia de médicos tinham tornado os quatro homens feridos o mais confortáveis possível. Estavam estendidos em colchões na sala de jantar da cadeia, vigiados por uma horda curiosa de cidadãos.
"Aquele é o Gregory!" sussurrou Anderson, à medida que se aproximavam do grupo sofredor. Ele apontou para o catre mais distante. "É exatamente da maneira que ele praguejou ontem à noite. Ele deve ter-se barbeado no automóvel ontem à noite", embora Gregory tivesse apenas descartado as barbas falsas que usara durante dias.
"Espere!" exclamou Bonner, parando bruscamente ao lado do primeiro catre. Ele inclinou-se e observou atentamente o rosto do bandido ferido. "Por todos os santos!"
"O que se passa?"
"Pela minha vida, Sr. Crow, este sujeito era um dos elementos do bando que raptou Rosalie Gray no inverno passado. Posso jurar. Não se lembra daquele por quem ela tentou interceder? Briggs! É isso! Briggs!"
O homem ferido abriu lentamente os olhos enquanto o nome era quase gritado. Um sorriso doentio espalhou-se lentamente pelo seu rosto marcado pela dor.
"Ela tentou interceder por mim, foi?" murmurou ele debilmente. "Ela disse que o faria. Ela foi justa."
"Você foi meio decente para com ela", disse Bonner. "Como é que veio parar a este bando? Outro esquema de rapto em curso?"
"Não... não que eu saiba. Não é você o tipo que nos apanhou? Diga, falando sério, eu ia ser correto com ela naquela noite. Eu estava a tentar escapar ao bando quando você me deu a pancada. Honestamente, senhor, eu ia avisar os amigos dela. Olhe, não sei quão gravemente estou ferido, mas se alguma vez for a julgamento, faça o que puder por mim, chefe. Falando sério, eu era amigo dela."
Bonner viu pena no rosto de Anderson e arrastou-o rudemente para longe, embora o apelo de Bill não fosse dirigido ao velho marechal.
"Espere por mim aqui fora, Sr. Crow", disse ele quando chegaram ao escritório. "Você está perturbado. Eu vou falar com ele." Ele voltou imediatamente para o catre do homem ferido.
"Olhe aqui, Briggs, farei o que puder por si, mas receio que não ajude muito. O que dizem os médicos?"
"Se não estiverem a mentir, estarei de pé e a andar dentro de algumas semanas. Ombro e algumas costelas rachadas e as minhas pernas moídas. Não me consigo mexer. Deus, aquela foi uma queda horrível!" Ele estremeceu ao recordar o salto do automóvel.
"O Sam ou o Davy estão neste bando?"
"Não; o Davy está em Blackwell's Island, e o Sam disse-me que ia para o Canadá para cuidar da sua saúde. Jim Courtney é o líder deste bando. Ele navegou sob o nome de Gregory. É aquele a praguejar contra os matutos."
"O que tem de fazer é abrir o jogo, Briggs. Será mais fácil para si."
"Tornar-me testemunha do Estado? Que bem fará isso quando fomos todos apanhados com a boca na botija?"
"Se nos contar todos os factos internos relativos ao rapto, garanto que algo poderá ser feito para aliviar a sua sentença. Sou o sobrinho do congressista Bonner."
"É? Pensei que você fosse o assaltante mais elegante que conheci, naquela noite lá nos bosques. Você faria jus ao próprio Sam Welch. Vou contar-lhe tudo o que sei, parceiro, mas não é grande coisa. Não me trará qualquer benefício manter a boca fechada agora, e, se você disser que sim, pode ajudar-me a abrir o bico. Mas, pelo amor de Deus, peça a um destes médicos podres que me dê algo para me fazer dormir. Eles não sabem para que serve a morfina?"
Rosnando e praguejando contra os médicos, Bill foi levado para o escritório. Anderson entrou da sala de jantar nessa altura, visivelmente excitado.
"Tenho uma confissão do Gregory", disse ele. "Ele confessa que devia ser enforcado."
"O quê!"
"Foi o que ele disse, bolas. Aqui estão as suas próprias palavras, claras como o dia: 'Eu devia ser enforcado meia dúzia de vezes'. 'Porquê?', perguntei eu. 'Por ser um burro tão grande', disse ele. 'Mas isso não é uma ofensa passível de enforcamento', disse eu. Sabe, eu até gosto do Gregory, apesar de tudo. 'É o pior crime do mundo', disse ele. 'Então confessa que o cometeu?', disse eu, ansioso por o prender a isso, sabe. 'Podes crer que sim. Se me enforcarem será porque sou um idiota balbuciante, e não porque disparei contra um ou dois no meu tempo. Ninguém exceto um asno poderia ser apanhado nisto, e é por isso que me sinto tão infernalmente culpado. Olhe aqui, Sr. Crow, cada vez que vir um sujeito que se provou ser um asno de primeira, leve-o e linche-o. Ele merece, é tudo o que tenho a dizer. O maior crime do mundo é a negligência criminosa'. Não me incomode agora, Wick; vou escrever isso e pedir-lhe que assine."
"Olhe aqui, parceiro", disse Bill Briggs, interrompendo laboriosamente a sua conversa; "quero fazer o que é correto para consigo e para com ela, tanto quanto puder. Você foi bom para mim, e não me esquecerei disso. Além disso, disse que facilitaria as coisas para mim se lhe contasse o que sabia sobre aquele trabalho no inverno passado. Bem, é melhor contá-lo agora, porque corro o risco de esticar o pernil antes que estes médicos acabem comigo. E, além disso, vão levar-me para a sede do condado dentro de um ou dois dias. Agora, isto é a pura verdade, que lhe vou dar. Talvez não o ajude em nada, mas dar-lhe-á uma pista."
"Continue", gritou Bonner sem fôlego.
"Bem, o Sam Welch veio ter comigo ao Branigan's numa noite... isso é na Quarta Avenida... e disse que tinha um grande trabalho. Fomos a casa do Davy Wolfe e encontrámos ele e a sua mãe... a velha fada, lembra-se. Bem, para encurtar a história, o Sam disse que era um trabalho de rapto e que os Wolfe iam participar porque costumavam viver nesta vizinhança e fizeram muito trabalho por aqui lá atrás, nos anos setenta. Havia cinco mil dólares no trabalho se levássemos aquela rapariga em segurança a bordo de um navio com destino à Europa. O Sam disse-nos que o tipo que engendrou o jogo era uma pessoa elegante e um grande nome na política, finanças, sociedade e tudo o resto. Ele podia pagar, mas não queria ser visto no trabalho. Ninguém exceto o Sam viu a sua cara. O Sam costumava estar na política. Pouco antes de deixarmos Nova Iorque para vir para aqui, o sujeito elegante aparece em casa do Davy com outro tipo para as ordens finais. Percebe? Estava tão frio quanto o diabo... e ambos estavam tão abafados que não conseguimos vislumbrar as suas caras. Um deles era velho... mais de cinquenta, suponho... e o outro era um tipo jovem. Tenho a certeza disso.
"Eles disseram que um ou outro estaria nesta vizinhança quando o trabalho fosse executado; que mil dólares seriam pagos quando começássemos; outros mil quando a tivéssemos na caverna; e o resto quando a tivéssemos no cais em Nova Iorque... viva e sem ferimentos. Percebe? Ficámos a entender que ela teria de viajar pelo resto da sua vida por causa da sua saúde. Lembro-me de uma coisa claramente: O velho disse ao jovem: 'Ela não pode saber nada disto, ou arruinará tudo'. Ele não se referia à rapariga, também. Havia outra mulher no caso. Pareciam muito ansiosos por realizar o trabalho sem que esta mulher descobrisse.
"Bem, preparámo-nos para começar, e os dois sujeitos largaram as mil pratas... isto é, o jovem entregou-as ao Sam quando o velho lho mandou. O Sam ficou com trezentas e o resto de nós com duzentas cada um. Quando eles estavam a olhar pela janela para ver se ninguém nas ruas vigiava a casa, perguntei ao Sam se ele conhecia algum deles pelo nome. Ele jurou que não, mas acho que mentiu. Mas pouco antes de saírem da casa, aconteceu eu olhar para dentro do chapéu do velho... ele tinha um chapéu rígido. Havia uma grande letra dourada no topo dele."
"Qual era essa letra?" exigiu Bonner ansiosamente.
"Era um B."
Bonner olhou para Anderson como se o chão lhe estivesse a ser retirado debaixo dos pés.
"O jovem disse algo baixo ao velho sobre apanhar o comboio noturno de volta para a Universidade e voltar a descer no sábado."
"Para a Universidade? Qual delas? Mencionou o nome?" gritou Bonner.
"Não. Foi tudo o que ele disse."
"Grandes céus, se fosse!", disse Bonner como se para si mesmo.
"Bem, viemos para aqui e fizemos o trabalho. Você sabe disso, suponho. O Sam viu o jovem uma noite lá em Boggs City, e recebeu instruções dele. Ele ia ajudar-nos a tirá-la daqui num automóvel, e o velho ia atravessar o oceano com ela. É tudo o que sei. Não correu pelo caminho deles dessa vez, mas o Sam diz que vai acontecer."
Bonner, cheio de ansiedade e entusiasmo, olhou rapidamente à volta à procura de Anderson, mas o marechal tinha deixado o quarto sub-repticiamente. Então, indo até à porta, chamou por Anderson Crow. Bud Long estava lá.
"O Anderson saiu há cinco minutos, Sr. Bonner, a correr como um louco", disse ele. "Ele foi à caça de um sujeito chamado Barnes. Disse-me para lhe dizer quando você saísse."
CAPÍTULO XXXIV
Elsie Banks Regressa
Bonner, consideravelmente incomodado e alarmado com as ações do marechal, fez todos os esforços para o fazer voltar antes que ele pudesse arruinar tudo com um encontro com o Sr. Barnes. Enviou homens em bicicletas e cavalos para o alcançar; mas o esforço foi malsucedido. O Sr. Crow tinha conseguido uma "boleia" num automóvel que tinha trazido dois correspondentes de jornais de Boggs City. Eles aceleraram furiosamente para apanhar um comboio para Nova Iorque, mas concordaram em deixar o marechal na grande ponte, a não mais de uma milha da propriedade do Juiz Brewster.
Chateado para lá de qualquer expressão, preparou-se para seguir Anderson com toda a pressa no seu próprio veículo. Rosalie apressadamente terminou os preparativos para o acompanhar. Ela ia juntar-se à festa da casa nesse dia, estava consumida pelo entusiasmo sobre a situação, e tão ansiosa quanto Bonner para impedir as operações intempestivas do pobre velho Anderson Crow.
O marechal tinha mais de meia hora de avanço sobre eles. Bonner era o seu próprio motorista e foi um imprudente hoje. A sorte estava contra ele desde o início. O vigoroso velho detetive, inspirado para uma velocidade real, pela primeira vez na sua vida indolente, deixou os homens do jornal na ponte quase três quartos de hora antes de Bonner passar pelo mesmo local, conduzindo furiosamente colina acima em direção ao Juiz Brewster.
"Se o seu incómodo velho pai puser os olhos no Barnes antes que eu o possa travar, querida, o caso estará perdido", gemeu Bonner, as primeiras palavras que tinha dito em milhas. "Barnes estará de prevenção e pronto para tudo. O velho... perdoe-me por o dizer... o velho palerma devia saber o valor da discrição num caso como este."
"Pobre velho papá", suspirou ela, compaixão no seu coração. "Ele pensa que está a fazer pelo melhor. Wicker, espero que seja... que não seja o Sr. Barnes", acrescentou ela, expressando um pensamento que andava a lutar na sua mente há muito tempo.
"Por que não, querida?"
"Significaria uma de duas coisas. Ou ele não quer reconhecer-me como sua filha... ou não pode, o que é ainda pior. Wicker, não quero saber a verdade. Tenho medo... tenho medo."
Ela tremia como uma folha e havia um sofrimento positivo nos seus olhos, olhos semicobertos por pálpebras tensas de alarme.
"Não sinta assim em relação a isso, querida", gritou ele, recuperando do seu espanto e compreendendo instantaneamente a situação tal como ela lhe devia ter aparecido. "Para dizer a verdade, não acredito que o Sr. Barnes seja relacionado consigo de forma alguma. Se ele está ligado ao caso, é na capacidade de advogado."
"Mas ele deveria ser um homem honrado."
"Verdade, e ainda acredito que o seja. Não parece possível que ele possa estar envolvido em tal trabalho como este. Estamos a ir totalmente por suposição... juntando dois mais dois, não sabe, e esperando que resultem. Mas, em qualquer caso, não devemos deixar escapar nenhuma oportunidade. Se ele está interessado, temos de o trazer à responsabilidade. Pode significar o desenrolar de todo o novelo, querida. Não pareça tão angustiada. Seja corajosa. Não importa o que aprendamos no fim, eu amo-a da mesma forma. Você será a minha esposa."
"Eu amo-o, Wicker. Amá-lo-ei sempre."
"Querida pequena namorada!"
Eles giraram até ao portão da portaria na propriedade do Juiz Brewster finalmente, a máquina pulsante parando rapidamente. Antes de chamar o porteiro, Bonner impulsivamente levou a mão sem luva dela aos seus lábios.
"Nada pode fazer diferença agora", disse ele.
O porteiro, em resposta à pergunta ansiosa de Bonner, informou-os de que o Sr. Barnes tinha saído há dez ou quinze minutos com um velho que alegava ser um detetive, e que tinha colocado o grande advogado sob detenção.
"Meu Deus!" arquejou Bonner com o coração nas mãos.
"É um ultraje, senhor! O Sr. Barnes é o melhor homem do mundo. Ele nunca prejudicou ninguém, senhor. Há um erro horrível, senhor", gemeu o porteiro. "O Juiz Brewster está em Boggs City, e o homem não quis esperar pelo seu regresso. Ele nem sequer quis dizer ao Sr. Barnes de que é que ele era acusado."
"Já ouviu falar de algo tão idiota?" rugiu Bonner. Rosalie estava branca e vermelha à vez. "Que direção tomaram?"
"O agente disse ao Sr. Barnes que ele teria de ir a Tinkletown com ele imediatamente, senhor, mesmo que tivesse de ir a pé todo o caminho. O velho disse qualquer coisa, senhor, sobre um homem que lá estava e que o poderia identificar à primeira vista. O Sr. Barnes teve de rir, senhor, e pareceu encarar tudo com bom humor. Disse que iria com ele, mas que não iria a pé. Por isso, tirou o seu próprio automóvel, senhor, e partiram juntos. Seguiram pelo atalho, senhor, pela estrada da balsa, em direção a Tinkletown. O Sr. Barnes disse que estaria de volta antes do meio-dia, senhor — se não fosse linchado."
"Está tudo acabado", gemeu Bonner, abatido. Algo tinha escapado debaixo dos seus pés e ele estava a balançar no vazio, figurativamente falando. "Não há nada a fazer, Rosalie, exceto segui-los. O Sr. Crow arruinou tudo. Vou deixá-la em Bonner Place com a mãe e a Edith, e vou correr de volta para Tinkletown."
A excitação era demasiado para os nervos de Rosalie. Ela estava num estado de colapso físico quando ele a deixou na casa de verão do seu tio, meia hora depois. Deixando-a a explicar a situação aos amigos curiosos, ele partiu novamente a toda a velocidade para Tinkletown, amaldiçoando interiormente Anderson Crow por ser um velho tolo e intrometido.
Entretanto, Tinkletown olhava de boca aberta para uma nova sensação. A corrida entre Anderson e Bonner mal tinha começado quando, pela rua principal da cidade, surgiu uma parelha cansada e um *surrey*. Atrás do cocheiro sentava-se uma jovem bonita com uma expressão ansiosa no rosto pálido, o olhar fixo na curva da rua que escondia a casa de Anderson Crow. Ao lado da jovem, sentava-se outra mulher da sua espécie, muito mais velha e, ao que tudo indicava, num estado de saúde precário. Os jovens ao longo da rua ofegaram de espanto e depois aventuraram-se a tirar os seus chapéus tímidos para a jovem, quase como se estivessem a saudar um fantasma. Poucos deles receberam um aceno de reconhecimento de Elsie Banks, outrora a rainha de todos os seus corações.
Roscoe Crow saltou para o portão quando viu quem estava na carruagem, gritando primeiro para a mãe e para as irmãs, que estavam dentro de casa a receber felicitações e condolências dos vizinhos.
A Srta. Banks perguntou imediatamente se podia ver Rosalie.
"Ela não está aqui", disse Roscoe. "Ela foi-se embora por um mês — lá para os Bonner. Ele é o namorado dela, sabe. Mãe! Aqui está a Srta. Banks! Edner! Sue!" A Sra. Crow e as raparigas correram para o portão, balbuciando a sua surpresa e saudações.
"Esta é a minha mãe", apresentou a jovem. "Acabámos de vir de Nova Iorque, Sra. Crow. Embarcamos para Inglaterra esta semana e preciso de ver a Rosalie antes de irmos. Como podemos chegar à casa do Sr. Bonner?"
"É do outro lado do rio, a cerca de doze milhas daqui", disse a Sra. Crow. "Entrem e descansem. Não precisam de voltar hoje, pois não? Ainda não se casou?"
"Não, Sra. Crow", respondeu Elsie, com um sorriso rígido e superficial. "Obrigada, não podemos parar. É necessário que regressemos a Nova Iorque esta noite, mas preciso de ver a Rosalie antes de partir. Sabe, Sra. Crow, não espero voltar à América. Receio que vamos viver em Londres para sempre. Pode ser a última oportunidade que terei de ver a Rosalie. Tenho de seguir para Bonner Place hoje. Mas, meu Deus, estou tão cansada e com tanto calor, e é tão longe para conduzir", exclamou ela, pesarosa. "Conhece o caminho, cocheiro?" O cocheiro admitiu, com aspereza, que não. Roscoe resolveu prontamente a dificuldade, oferecendo-se para servir de guia.
A princípio, a Sra. Banks tentou dissuadir a filha de empreender a longa viagem, mas a rapariga foi obstinada. A mãe recusou-se então categoricamente a acompanhá-la, queixando-se da cabeça e do coração. No final, a senhora mais velha decidiu aceitar o convite da Sra. Crow para permanecer na casa até ao regresso de Elsie.
"Trarei a Rosalie comigo, mãe", disse Elsie enquanto se preparava para partir. A Sra. Banks, frágil e pálida, inclinou a cabeça sem ânimo e virou-se para seguir a anfitriã para dentro de casa. Com Roscoe no banco ao lado do cocheiro, a carruagem partiu rapidamente pela rua sombreada, em direção à estrada da balsa e a Bonner Place.
Voltando a Anderson Crow e à sua precipitação. Tal como o guarda da propriedade tinha dito, o marechal, a pé e empoeirado, abateu-se sobre o Sr. Barnes sem cerimónias. O grande advogado passeava pelos terrenos quando o seu velho inimigo chegou. Reconheceu a figura estranha à medida que esta se aproximava por entre as árvores.
"Olá, Sr. Crow!", chamou ele alegremente. "Vem prender-me outra vez?" Aproximou-se para apertar a mão.
"Sim, senhor; o senhor é meu prisioneiro", disse Anderson, ofegante, mas severo. "Conheço-o, Sr. Barnes. Não lhe servirá de nada negar."
"Entre e sente-se. Parece cansado", disse Barnes gentilmente, encarando as suas palavras como uma piada; mas Anderson manteve-se orgulhosamente na sua posição.
"Não tente nenhuma partida comigo. Não lhe serve de nada ser educado, meu homem. Desta vez não escapa."
"Não quer dizer que esteja a falar a sério, pois não?", exclamou Barnes.
"Nunca brinco quando estou em serviço. Venha comigo. Pode falar depois. O seu criado está na cadeia e pode identificá-lo; por isso, não resista."
"Espere um momento, senhor. Qual é a acusação?"
"Ainda não sei. O senhor sabe melhor do que eu o que é."
"Olhe aqui, Sr. Crow. O senhor prendeu-me na primeira vez que o vi e agora puxa-me de novo, depois de todos estes anos. Não tem mais nada para fazer senão prender-me por engano? É essa a sua única ocupação?"
Anderson resmungou indignado. Pressionado, informou John Barnes de que ele estava acusado de rapto, tentativa de homicídio, poligamia, abandono de menores e quase tudo o resto debaixo do sol. Barnes, inicialmente indignado, acabou por desatar numa gargalhada. Concordou magnanimamente em acompanhar o seu captor até Tinkletown. Não só isso, como forneceu o meio de transporte. Para consternação intensa dos criados, partiu alegremente com o Sr. Crow, um prisioneiro a conduzir o seu próprio veículo de patrulha. Os dois fumavam os melhores charutos do cativo.
"É muito simpático da sua parte, Sr. Barnes, deixar-nos usar o seu automóvel", disse Anderson, soltando fumo benignamente enquanto seguiam pelo pó. "Teria sido uma longa caminhada. Direi uma palavra a seu favor por causa disto."
"Não tem de quê, meu caro. Até gosto. Tem sido extraordinariamente monótono por aqui. Não saí tão cedo como esperava, como vê. Então, estou acusado de ser o pai da Rosalie, é? E de a abandonar? E de a raptar? Por Júpiter, eu devia ser enforcado por tudo isto!"
"Não é nada para rir, meu amigo. Devia ter vergonha de si mesmo. Eu apanhei-o no dia em que me mandou parar na estrada e perguntou por ela. Que tolo que foi. Foi um descuido total."
"Veja lá, Sr. Crow, não gosto de frustrar as suas esperanças e cálculos", disse Barnes com seriedade. "Fiz isso uma vez antes, lembra-se? Foi há anos. O senhor estava enganado na altura e está enganado agora. Quer que lhe diga porque é que estou interessado nessa sua bela órfã?"
"Não é necessário", protestou o marechal.
"Vou dizer-lhe na mesma. O meu filho conheceu-a em Nova Iorque enquanto estava na escola. Ouviu a história dela através de amigos comuns e contou-ma. Fiquei naturalmente interessado e interroguei-o. Ele disse que ela era muito bonita. Essa é a história toda, meu caro senhor."
"Tudo isso é muito bonito, mas e quanto ao 'B' no seu chapéu?"
"Não compreendo. Oh, refere-se à abelha política?"
"Política, uma ova! Refiro-me à inicial que o Briggs viu. Não; espere! Não responda. Não diga nada que o possa incriminar."
"Nunca tive uma inicial no meu chapéu e não conheço o Briggs. Sr. Crow, o senhor é louco como uma cabra." Preparou-se para parar a máquina. "Vou para casa. Pode voltar comigo ou sair e seguir a pé, como preferir."
"Espere! Não faça isso! Eu garanto que lhe pagam pelo uso da máquina. Além disso, raio do homem, o senhor é meu prisioneiro." Isto foi demasiado para Barnes. Ele riu-se longa e alto, e não deu meia-volta.
Logo após a balsa, desviaram-se para permitir a passagem de uma carruagem. Um rapaz que ia no assento do cocheiro gritou freneticamente para eles, e o próprio Anderson tentou parar a máquina.
"Pare!", gritou ele; "aquele é o Roscoe, o meu rapaz. Espere! Quem é aquela com ele? Ora, porra, é a Srta. Banks! Caramba, será que ela voltou para dar aulas outra vez? Oh! Dê a volta, Sr. Barnes. Eles estão a fazer sinal para voltarmos. Parece ser importante, também."
Barnes, prestável, deu a volta e regressou ao local onde a carruagem estava parada. Uma hora depois, o automóvel entrou na entrada de Bonner Place e Anderson Crow, com um triunfo glorioso no rosto, entregou a Srta. Banks do banco traseiro aos braços de Rosalie Gray, que, a princípio, tinha confundido o automóvel com outro. Pomposo ao ponto de explodir, Anderson acenou com a mão ao grupo reunido na varanda, passeou-se até ao lugar do Sr. Barnes e acendeu o seu charuto com uma despreocupação que quase venceu o seu antigo prisioneiro, e depois disse, aparentemente para todo o mundo, pois não se dirigiu a ninguém em particular:
"Eu sabia que podia resolver a raio da questão se apenas me dessem tempo."
CAPÍTULO XXXV.
A História é Contada
Elsie Banks tinha uma audiência pequena e seleta no quarto da Sra. Bonner, no andar de cima. Ela tinha vindo de Nova Iorque — ou da Califórnia, estritamente falando — para fornecer a narrativa que iria sossegar a mente de Rosalie Gray para todo o sempre. Não foi uma tarefa agradável; não foi um sacrifício fácil para esta rapariga enérgica que conhecera o luxo toda a sua vida. Os seus ouvintes fascinados eram a Sra. Bonner e Edith, Wicker Bonner, Anderson Crow, Rosalie e John E. Barnes, que, longe de ser um cativo da lei, era agora o advogado da Srta. Gray, contratado algumas horas antes pelo seu antigo captor.
"Eu liberto-o, senhor", tinha dito Anderson, depois de ouvir a declaração da Srta. Banks na estrada. "O senhor já não é um prisioneiro. Tem algo a dizer, senhor?"
"Nada, Sr. Crow, exceto oferecer os meus serviços jurídicos ao senhor e à sua pupila nesta matéria extraordinária. Coloque o caso nas minhas mãos, senhor, e ela em breve terá o que é seu, graças a esta jovem. Posso acrescentar que, como não tenho o hábito de angariar clientes, não é minha intenção, neste caso, cobrar honorários à sua pupila. Os meus serviços são inteiramente gratuitos, oferecidos em troca, Sr. Crow, pela forma magnânima como o senhor me tratou desde que nos conhecemos. É uma honra ter sido preso pelo senhor; sinceramente, não é desonra nenhuma."
Na privacidade da sala de estar da Sra. Bonner, Elsie Banks, de olhos secos e amargos, contou a história da sua vida. Não a posso contar como ela fez, pois ela foi capaz de levar lágrimas aos olhos dos seus ouvintes. Cabe-me apenas relatar os factos puros, colocando-os nas suas palavras tão fielmente quanto possível. Rosalie Gray, atordoada de espanto e incredulidade, com um nó na garganta que não desfazia e lágrimas nos olhos, recostou-se numa poltrona e observou a sua amiga infeliz.
"Fornecerei ao Sr. Barnes provas de tudo o que digo", disse a Srta. Banks. "Não pode haver dificuldade, querida Rosalie, em confirmar tudo o que tenho a dizer. Se me permitirem contar a história sem interrupções e, depois, deixarem-me seguir o meu caminho sem piedade nem desprezo, serei, oh, tão grata a todos vós — especialmente a ti, querida Rosalie. Acredita que te amo com toda a minha alma.
"Vim até ti voluntariamente, e a minha mãe, que está em Tinkletown, ao resignar-se aos apelos da consciência, está agora mais feliz do que alguma vez esteve. Uma influência mais poderosa do que a sua própria vontade ou a sua própria honra, uma influência que era má até ao âmago, inspirou-a a compactuar com este terrível erro. Também anulou todos os bons impulsos que ela possa ter tido para o desfazer nos anos seguintes. Essa influência veio de Oswald Banks, um monstro vil com quem a minha mãe casou quando eu tinha um ano de idade. A minha mãe era filha do Lord Abbott Brace, mas casou com o meu pai, George Stuart, que era um escritor de jornal brilhante, mas radical, em Londres, contra a vontade do seu pai. Por causa disso, ele renegou-a e deserdou-a. O avô odiava-o a ele e às suas opiniões, e não conseguiu perdoar a minha mãe mesmo depois de o meu pai ter morrido, o que aconteceu dois anos após o casamento.
"Lord Richard Brace, o único irmão da minha mãe, casou com a filha da Duquesa de B----. Tu, Rosalie, és Lady Rosalie Brace de Brace Hall, W--shire, Inglaterra, a verdadeira neta do General Lord Abbott Brace, um dos homens mais nobres e ricos do seu tempo. Por favor, deixem-me continuar; não suporto as interrupções. A prova absoluta e inalterável do que digo será estabelecida através da confissão da minha própria mãe, em cuja posse estão todos os documentos necessários para te devolver aquilo que ela teria dado a mim.
"A tua mãe morreu poucas semanas depois de tu nasceres, e Sir Richard, que amava a minha mãe apesar do desagrado do seu pai, colocou-te sob os seus cuidados, enquanto ele partia, de coração partido, para encontrar consolo no Egito. Diz-se que ele te odiava porque tu foste a causa da morte dela. No dia seguinte ao teu nascimento, o velho Lord Brace alterou o seu testamento e legou-te uma vasta quantidade de propriedades não vinculadas, para serem mantidas em fideicomisso pelo teu pai até que tivesses vinte e um anos de idade. Eu tinha quase dois anos na altura e o velho, inesperadamente compassivo, inseriu uma cláusula que, no caso de morreres antes dessa idade, dava todo este dinheiro a mim no meu vigésimo primeiro aniversário. Os juros desse dinheiro, que ascendiam a cinco mil libras anuais, deviam ser-te pagos regularmente, num caso, ou a mim, no outro. Oswald Banks era um americano, que a minha mãe conhecera em Londres vários anos antes do seu primeiro casamento. Ele era o representante em Londres de uma grande empresa de manufacturas da Pensilvânia. Era ambicioso, sem escrúpulos e inteligente além de qualquer imaginação. Ele ainda é tudo isso e muito mais, pois agora é um cobarde.
"Bem, foi ele que engendrou o plano diabólico para um dia obter a posse da tua herança. Coagiu a minha pobre mãe à aquiescência, e ela tornou-se o seu mísero instrumento em vez de uma esposa e companheira honrada. Numa noite, quando tu tinhas três semanas de vida, a casa onde vivíamos foi reduzida a cinzas, tendo os ocupantes escapado por pouco. A fuga foi, de facto, tão estreita que se disse que tu tinhas sido deixada para trás na confusão, e foi dito ao mundo, no dia seguinte, que a neta de Lord Brace tinha sido destruída pelas chamas.
"A verdade, no entanto, não foi contada. O meu padrasto não se atreveu a ir tão longe ao ponto de te matar. Foi ele quem causou o incêndio, mas ele tinha-te removido para um pequeno hotel noutra parte da cidade algumas horas antes, secretamente, claro, mas aos cuidados de uma criada de confiança. A minha mãe foi a responsável por isto. Ela não queria ouvir falar do seu plano horrível de te deixar na casa. Mas podias ter morrido na mesma. Ninguém soube de nada e tu foste dada como perdida. Uma semana depois, a minha mãe e o Sr. Banks partiram para a América. Tu e eu íamos com eles, mas tu foste como filha de uma criada — Ellen Hayes.
"Esta é a história como a minha mãe me contou depois de todos estes anos. O plano do meu padrasto, claro, era colocar-te onde nunca pudesses ser encontrada, e depois certificar-se de que o nosso avô não conseguia alterar o seu testamento. Além disso, ele estava decidido e determinado a que ele próprio fosse nomeado administrador — quando a fortuna viesse com a morte de Lord Brace. Essa parte correu exatamente como ele tinha calculado. Deixem-me avançar alguns meses na minha história. Lord Brace morreu, o testamento foi devidamente homologado e as disposições cumpridas. Brace Hall e as propriedades foram para o teu pai e o legado veio para mim, pois tu eras considerada morta. O meu padrasto foi nomeado administrador. Ele prestou caução em Inglaterra e na América, creio eu. Em qualquer caso, a fortuna seria minha quando eu atingisse os vinte e um anos, mas todos os anos o rendimento, cerca de vinte e cinco mil dólares, devia ser pago ao meu padrasto como administrador, para ser por ele investido em segurança. O nome da minha mãe não foi mencionado no documento, exceto uma vez, para me identificar como beneficiária. Só posso acrescentar a esta fase da conspiração odiosa que, durante dezanove anos, o meu padrasto recebeu este rendimento e usou-o para estabelecer a sua própria fortuna. Ao investir o que supostamente era o meu dinheiro, ele conquistou o seu caminho para a riqueza.
"O Sr. Banks decidiu que as operações seriam mais seguras deste lado do Atlântico. Ele e a minha mãe estabeleceram residência em Nova Iorque, e tem sido a sua casa desde então. Ele passou a primeira metade do ano após a tua suposta morte em Londres, apenas com o propósito de se estabelecer nas boas graças de Lord Brace. Dentro de um ano após a morte de Lord Brace, o teu pai foi morto por um caçador furtivo na propriedade. Ele tinha regressado recentemente do Egito e estava em pleno controlo das terras e propriedades ligadas a Brace Hall. Se o meu padrasto tinha planos para Brace Hall, eles falharam, pois as terras e o título foram imediatamente para o primo do teu pai, Sir Harry Brace, o atual lord.
"Tanto quanto às condições em Inglaterra, na altura e agora. Volto agora àquela parte da história que mais te interessa e te diz respeito. A minha pobre mãe foi obrigada, quinze dias depois de desembarcarmos em Nova Iorque, a entregar a perigosa infante que pairava sempre como uma nuvem entre a fortuna e a honra. A criada foi bem paga pelo seu silêncio. A propósito, ela morreu misteriosamente pouco tempo depois de chegar à América, mas não sem antes dar à minha mãe um documento assinado expondo claramente cada detalhe na medida em que incidia sobre a sua ligação à odiosa transação. A consciência estava sempre a trabalhar no coração da minha mãe; a honra lutava constantemente para vir à superfície, apenas para ser retida pelo medo e pela lealdade ao homem que ela amava.
"Decidiu-se que a forma mais humana de te fazer desaparecer seria deixar-te à porta de alguma pessoa bem-intencionada, longe de Nova Iorque. O meu padrasto e a minha mãe partiram deliberadamente nesta chamada missão de misericórdia. Vieram para norte e, por acaso, encontraram um residente de Boggs City enquanto estavam na estação em Albany. Estavam a discutir que caminho seguir para o passo seguinte. A minha mãe estava firme na resolução de que tu devias ser deixada aos cuidados de pessoas honestas, fiáveis e de bom coração, que não abusariam da confiança que ela iria depositar. O homem de Boggs City disse que tinha estado em Albany para tratar de um projeto de lei na legislatura, que deveria providenciar a construção de um monumento em Tinkletown — onde tinha sido travada uma batalha revolucionária. Foi ele quem falou de Anderson Crow, e foram as suas histórias sobre a tua bondade e generosidade, Sr. Crow, que os levaram a selecionar-te como o homem que ficaria com a Rosalie e, com ela, a soma de mil dólares por ano para o teu trabalho e as necessidades dela."
A descrição que a minha mãe fez daquela noite de tempestade em fevereiro, há mais de vinte e um anos, é a coisa mais piedosa que alguma vez ouvi. Juntos, dirigiram-se a Tinkletown, alugando um veículo em Boggs City para esse fim. O Sr. Banks deixou o cesto na vossa varanda enquanto a minha mãe esperava muito abaixo na rua, meio congelada e de coração destroçado. Depois, apressaram-se a sair da cidade e logo seguiram em segurança para Nova Iorque. Foi enquanto o meu padrasto estava em Londres, mais tarde, que a minha mãe veio ver Rosalie e fazer aquele primeiro pagamento memorável ao Sr. Crow. Como isso continuou durante anos, todos vós sabeis. Foi a astúcia do meu padrasto que tornou tão impossível descobrir a fonte de onde provinha o dinheiro misterioso.
Viajávamos constantemente, encontrando sempre novos locais de interesse onde a consciência da minha mãe pudesse ser aliviada pelo contacto com a beleza e a agitação. Gradualmente, ela tornou-se insensível às condições, pois, afinal, não era a sua própria filha que ia ser enriquecida pelo roubo e pelo engano? O Sr. Banks forçava constantemente esse facto sobre o seu amor maternal e a sua vaidade. Apesar de tudo, contudo, nunca foste negligenciada nem esquecida. A minha mãe tinha sempre o teu bem-estar em mente. Foi ela quem providenciou para que tu e eu fôssemos colocadas na mesma escola em Nova Iorque, e foi ela quem viu que a tua formação, de certa maneira, era tão boa quanto possível sem despertar suspeitas.
Naturalmente, eu não sabia nada disto. Eu vivia rodeada de riqueza e luxo, mas não de felicidade. Instintivamente, eu detestava o meu padrasto. Ele era duro, cruel, irracional. Foi por causa dele que deixei a escola e, mais tarde, procurei ganhar a minha própria vida. Tu sabes, Rosalie, como Tom Reddon entrou na minha vida. Ele era filho de William Reddon, o sócio comercial do meu padrasto, que estava encarregado da sucursal ocidental da empresa em Chicago. Vivemos em Chicago durante vários anos, a estabelecer o negócio. O Sr. Banks foi, até recentemente, presidente da Banks & Reddon Iron Works. No ano passado, sem dúvida sabes, a fábrica foi vendida ao grande consórcio e a antiga empresa deixou de existir. Este ato foi o resultado de uma exigência de Inglaterra para que o fundo sob o qual ele servia fosse encerrado e eliminado dos registos. Era o seu plano resolver o assunto, passar-me a herança de acordo com a lei e, depois, impor-se à minha inexperiência para todo o sempre. O dinheiro, embora meu literalmente, deveria ser dele em termos de posse.
Mas ele tinha feito contas sem o filho do seu sócio. Tom Reddon, de alguma forma, descobriu o segredo e ele foi forçado a admitir o jovem em todos os seus planos. Isto aconteceu há cerca de três anos, enquanto eu estava na escola. Eu tinha conhecido Tom Reddon em Chicago. Ele conquistou o meu amor. Não o posso negar, embora hoje o despreze mais profundamente do que alguma vez espero odiar de novo. Ele era ainda mais desprezível do que o meu padrasto. Sem o menor toque de piedade, ele começou a obliterar todas as hipóteses que a Rosalie poderia ter tido para uma restituição. O tempo começou a provar-me que ele não era o homem que eu pensava que fosse. A sua natureza revelou-se; e descobri que não podia casar com ele. Além disso, a minha mãe estava a começar a arrepender-se. Ela acordou do seu estupor de indiferença e esforçou-se de todas as formas para contornar a conspiração dos dois conspiradores, no que me dizia respeito. A tensão acabou por a afetar, e fomos para a Califórnia logo após a minha ridícula fuga de Tinkletown no inverno passado. Não foi senão depois dessa aventura que comecei a ver o fundo da alma miserável de Tom Reddon.
Depois veio a parte mais vil de toda a conspiração. Reddon, sabendo muito bem que a exposição era possível a qualquer momento, instou o meu padrasto a raptar-te e a levar-te apressadamente para alguma parte do mundo onde nunca pudesses ser encontrada. Nem mesmo Reddon teve a coragem de te matar. Nenhum deles teve coração para cometer um assassínio real. Foi enquanto estávamos na propriedade do Coronel Randall que o rapto ocorreu, recordas-te. O Sr. Banks e Tom Reddon tinham contratado os seus homens em Nova Iorque. Estes desesperados vieram a Boggs City enquanto Tom estava aqui a vigiar as suas operações. Durante todo o tempo em que o Sr. Crow nos perseguia, Reddon ria-se por dentro, pois sabia o que iria acontecer durante a ausência do marechal. Sabes quão bem ele conseguiu o trabalho. Foi culpa do meu padrasto que não tenha tido sucesso.
A minha mãe, lá em Nova Iorque, levada ao extremo, tinha finalmente voltado-se contra ele e exigido que fizesse restituição a Rosalie Gray, como tínhamos chegado a conhecê-la. Naturalmente, houve uma cena e quase uma catástrofe. Ele estava tão preocupado com a posição que ela estava a tomar, que falhou em levar a cabo a sua parte dos planos, que eram banir Rosalie para sempre deste país. Tu deverias ter sido levada para Paris, querida, e mantida para sempre num daqueles sanatórios horríveis. São piores que a sepultura. Entretanto, o atraso deu ao Sr. Bonner uma oportunidade de te resgatar dos raptores.
Pouco depois de chegar a Nova Iorque, discuti com Thomas Reddon, e a minha mãe e eu fugimos para a Califórnia. Ele seguiu-nos e procurou uma reconciliação. Eu detestava-o tanto a esta altura, que apelei à minha mãe. Foi então que ela me contou esta história miserável, e é por isso que estamos em Tinkletown hoje. Soubemos de alguma forma do plano para te raptar e te colocar onde não pudesses ser encontrada. O esquema desumano do meu padrasto e do seu conselheiro era fazer com que a minha mãe fosse declarada insana e confinada num asilo, onde as suas afirmações verdadeiras nunca poderiam ser ouvidas pelo mundo, ou se fossem, como os desvarios de uma mulher louca.
No dia em que chegámos a Nova Iorque, a minha mãe colocou os documentos e cada partícula de prova na sua posse nas mãos do Cônsul Britânico. A história foi-lhe contada e também a certos advogados. Um membro do seu escritório visitou o meu padrasto e confrontou-o com as acusações. Nessa mesma noite, o Sr. Banks desapareceu, deixando atrás de si um bilhete, no qual dizia que nunca mais veríamos o seu rosto. Tom Reddon foi para a Europa. A minha mãe e eu esperamos zarpar esta semana para Inglaterra, e eu vim pedir à Rosalie que nos acompanhe. Quero que ela esteja finalmente no solo que sabe que ela é Rosalie Brace. A fortuna que era minha na semana passada é dela hoje. Não somos pobres, querida Rosalie, mas não somos tão ricas como éramos quando tínhamos tudo o que pertencia a ti.
CAPÍTULO XXXVI
A demissão de Anderson Crow
Alguns dias depois, Anderson Crow regressou a Tinkletown vindo de Nova Iorque, onde tinha visto Rosalie Bonner e o seu marido partirem para Inglaterra, acompanhados pela Sra. Banks e Elsie, que tinham embarcado no mesmo vapor. Ele estava trajado com um fato novo de sarja azul, um chapéu panamá e sapatos de verniz que lhe magoavam os pés. Além disso, trazia uma bengala nova com uma grande cabeça de ouro e havia um enorme alfinete de pérola na sua gravata. Para além de tudo isto, o seu cabelo e barba tinham sido aparados à perfeição por um barbeiro do Holland House. Todas as manhãs, a sua esposa era obrigada a passar um ferro sobre as suas calças para perpetuar o vinco. No geral, Anderson era uma revelação não só para a sua família e para a cidade em geral, mas também para si próprio. Ele oscilava bastante cada vez que vislumbrava a sua imagem nas montras das lojas.
Durante todo o dia, passeava pela rua, de loja em loja, ou encostava-se de forma imponente a todos os postes que se apresentavam convenientemente. Naturalmente, ele era o assunto da cidade.
"Caramba!" exclamou Alf Reesling, avistando-o tarde no dia. "É aquele o presidente?"
"É o Anderson Crow", explicou Blootch Peabody.
"Quem morreu?" perguntou Alf.
"O que é que isso tem a ver com o assunto?"
"Bem, de quem é a roupa que ele está a vestir?" continuou Alf, totalmente superado pela imagem.
"É melhor não o deixares ouvir-te dizer isso", advertiu Isaac Porter. "Ele arranjou-as em Nova Iorque. Ele diz que o jovem Sr. Bonner lhas deu como presente de casamento. A Rosalie deu-lhe um penduricalho de pérola para usar na gravata, e, danado se ele não tem de usar colarinho o tempo todo agora. Aquele advogado Barnes deu-lhe a bengala. Caramba! Ele parece um rei, não parece?"
Naquele momento, Anderson aproximou-se do grupo em frente à loja de Lamson. Ele caminhava com uma majestade que parecia significar mais dor nas extremidades inferiores do que dignidade mais acima.
"Até onde é que achas que eles já vão a esta hora, Blootch?" perguntou ele seriamente.
"'Mais ou menos dez milhas mais longe do que quando perguntaste há pouco", respondeu Blootch, consultando o seu relógio.
"Bem, então isso deve levá-los a Liverpool em breve. Apanharam um navio extremamente rápido. Faz a viagem em menos de seis dias, dizem eles. Vejamos. Partiram anteontem. Devem estar fora da vista de terra a esta hora."
"Sim, a menos que estejam a passar por algumas ilhas", concordou Blootch.
"Trovões! Do que é que estás a falar?" disse Anderson com desprezo. "Cuba e Porto Rico já foram ultrapassadas há muito tempo. Essas ilhas não ficam longe de Boston. Não te lembras de quão assustado o povo de Boston estava durante a guerra com a Espanha? Com medo que os obuses espanhóis pudessem ir um pouco alto e destruir a cidade? Ilhas, nada! Eles já estão longe em águas profundas a esta hora, rapazes. Por Deus, estou ansioso pela Rosalie. Supondo que aquele barco danado atingisse uma rocha ou virasse ou algo assim! Eles nunca conseguiriam nadar até à margem."
"Oh, não há perigo, Anderson", disse o Sr. Lamson. "Esses barcos são perfeitamente seguros. Suponho que eles te vão telegrafar quando chegarem."
"Não, eles vão enviar um cabo, diz o Wick. Raios, estou contente que tudo esteja resolvido. Não sabes o quão arduamente trabalhei todos estes anos para descobrir quem eram os seus pais. Claro que eu sabia que eles eram estrangeiros o tempo todo, mas a Rosalie nunca teve sotaque, por isso podes ver como fui desviado do trilho. Ela falava um americano tão bom quanto nós. Fiquei muito contente quando finalmente encontrei a Srta. Banks." A multidão não estava em posição de discutir o ponto com ele. "Essa Srta. Banks é uma boa rapariga, rapazes. Ela fez a coisa certa. E também a minha Rosalie--quero dizer, Lady Rosalie. Ela obrigou a Elsie a ficar com algum do dinheiro. O Sr. Barnes vai a Inglaterra na próxima semana para ajudar a resolver o assunto para Lady Rosalie. Ele diz que ela tem quase um milhão de dólares preso algures. É caminho andado, no entanto, porque a Sra. Banks diz que sim. Ouviram o que a Rosalie disse quando se convenceu de que era uma dama inglesa?"
"Não; o que é que ela disse?"
"Ela apenas levantou aquele nariz danado dela e disse: 'Serei americana enquanto viver.'"
"Viva!" gritou Alf Reesling, atirando o chapéu novo de Isaac Porter para o ar. A multidão juntou-se aos vivas.
"Já vos disse como eu sabia o tempo todo que tinha sido um homem que deixou a Rosalie na varanda?" perguntou Anderson.
"Bem, tu disseste-me sempre que tinha sido uma mulher", disse Alf. "Acusaste-me de ser ela."
"Treta! Mulher, nada! Eu sabia que era um homem. Aqui está algo que tu não sabes, Alf. Eu avaliei as pegadas nos degraus da minha frente logo depois de ela--quero dizer, ele--deixar o cesto. Os dedos dos pés apontavam para fora, claro como o dia, ali mesmo na neve." Ele fez uma pausa para deixar a afirmação assentar nos seus cérebros perplexos. "Não sabes que cem por cento das mulheres apontam os dedos dos pés para dentro quando sobem as escadas? Para evitar prender nas suas saias? Trovões, também devias ter pensado nisso!"
Alguém tinha informado o Anderson sobre este traço peculiarmente feminino, e ele estava a tirar o melhor partido disso. Incidentalmente, pode dizer-se que cada homem em Tinkletown fez observações pessoais a fim de se satisfazer.
"Alguém viu o Pastor MacFarlane?" continuou Anderson. "Wick Bonner deu-me uma nota de cem dólares para lhe dar por ter realizado a cerimónia lá em nossa casa naquela noite. Sai para lá, Ed Higgins! Não vou andar por aí a mostrar essa nota às pessoas. Se os ladrões soubessem que a tenho, provavelmente tentariam roubá-la. Não me importa se não viste tanto dinheiro de uma vez só. Isso não é problema meu. Diz-me, vais à reunião da câmara esta noite?"
Estavam todos na reunião do conselho da cidade naquela noite. Foi realizada, como de costume, no Odd Fellows' Hall, acima da loja de artigos secos de Peterson, e não havia nem sequer lugar para estar de pé quando o secretário leu a ata da última reunião. Tinha corrido a notícia de que algo de invulgar iria acontecer. Não era um boato vago, pois logo após a sessão ter começado, Anderson Crow levantou-se para se dirigir ao conselho.
"Cavalheiros", disse ele, com a voz a tremer de emoção, "compareci perante vós como vos notifiquei que faria. Apresento aqui a minha demissão como marechal de Tinkletown, comissário de ruas e chefe do departamento de bombeiros--e qualquer outro cargo que eu possa ter que me tenha escapado da memória. Sugiro agora que nomeiem o Sr. Ed Higgins para o meu lugar. Ele queria o cargo há algum tempo, e diz que não interferirá nos seus negócios mais do que interferiu nos meus. Trabalhei arduamente todos estes anos e sinto que deveria ter um descanso. Além disso, chegou-se ao ponto em que ladrões e outros criminosos não visitam Tinkletown por minha causa, e penso que a cidade está a ser retida consideravelmente dessa maneira. Qual é o uso de ter um marechal e uma prisão se ninguém vem aqui cometer crimes? Eles têm de os cometer na cidade de Nova Iorque ou Chicago hoje em dia, apenas porque é mais seguro lá do que aqui. Olhem para este último caso que tive. Não foi arranjado em Nova Iorque? Bem, não deveria ser assim. Até os ladrões de comboios planeiam o seu trabalho em Nova Iorque. Sinto que os melhores interesses da cidade seriam servidos se eu me demitisse e desse uma oportunidade aos criminosos. Todos vós conheceis o Ed Higgins. Ele irá apanhá-los se alguém conseguir. Proponho que ele seja nomeado."
A moção prevaleceu, tal como o voto de agradecimento, que foi vociferantemente pedido em nome de Anderson Crow.
"Honrais-me", disse o ex-marechal, quando os "sim" morreram. "Prometo ajudar o Marechal Higgins de todas as formas possíveis. Dir-lhe-ei exatamente o que fazer em tudo. Desejo dizer que não vou sair do negócio de detetive, no entanto. Vou abrir a minha própria agência aqui. Todo o tipo de negócio de detetive será feito a preços razoáveis. Mandei imprimir estes cartões no escritório do Banner hoje, e o Sr. Squires vai publicar um anúncio para mim durante um ano no jornal."
Ele entregou orgulhosamente um cartão ao presidente do conselho e depois disse à multidão que cada pessoa presente poderia ter um, pedindo-o ao seu filho Roscoe, que estaria à espera no corredor após a reunião. O cartão dizia:
"Anderson Crow, Detetive. Todo o tipo de casos aceites e satisfação garantida. Mistérios de berço uma especialidade."
A Sra. Bonner, ao ouvir a sua demissão no dia seguinte, precisamente quando estava de partida para Boston, comentou secamente ao congressista:
"Continuo a sustentar que Anderson Crow é absolutamente impossível."
Sem dúvida, o mundo inteiro, à parte a aldeia de Tinkletown, concorda com ela nessa opinião.