A CASA VAZIA
E OUTRAS HISTÓRIAS DE FANTASMA
DE
ALGERNON BLACKWOOD
AUTOR DE
"JOHN SILENCE", "THE LOST VALLEY", ETC.
LONDRES EVELEIGH NASH COMPANY LIMITED
1916
Primeira impressão: 1906 Edição uniforme: 1915 Reimpresso: 1916
CONTEÚDO
A CASA VAZIA
UMA ILHA ASSOMBRADA
UM CASO DE ESCUTA
CUMPRINDO A PROMESSA
COM INTENÇÃO DE ROUBAR
O BOSQUE DOS MORTOS
SMITH: UM EPISÓDIO NUMA PENSÃO
UM PRESENTE SUSPEITO
AS ESTRANHAS AVENTURAS DE UM SECRETÁRIO PARTICULAR EM NOVA IORQUE
O LAGO DO ESQUELETO: UM EPISÓDIO NO ACAMPAMENTO
A CASA VAZIA
Certas casas, tal como certas pessoas, conseguem, de alguma forma, proclamar de imediato o seu caráter maligno. No caso destas últimas, não é preciso que nenhum traço em particular as traia; podem ostentar um semblante aberto e um sorriso ingénuo; e, contudo, um pouco da sua companhia deixa a convicção inalterável de que há algo radicalmente errado com a sua essência: que são más. Queiram ou não, parecem comunicar uma atmosfera de pensamentos secretos e perversos que faz com que aqueles na sua vizinhança imediata se afastem delas como de algo doente.
E talvez, com as casas, o mesmo princípio seja operante, e seja o aroma de atos malignos cometidos sob um determinado teto, muito depois de os próprios autores terem partido, que provoca arrepios e faz os cabelos eriçarem. Algo da paixão original do malfeitor, e do horror sentido pela sua vítima, penetra no coração do observador inocente, e ele torna-se subitamente consciente de nervos formigantes, pele a rastejar e um gelar do sangue. Ele fica tomado pelo terror sem causa aparente.
Manifestamente, não havia nada na aparência exterior desta casa em particular que confirmasse os relatos do horror que se dizia reinar lá dentro. Não era nem solitária nem descuidada. Erguia-se, espremida num canto da praça, e parecia exatamente como as casas de ambos os lados. Tinha o mesmo número de janelas que as vizinhas; a mesma varanda com vista para os jardins; os mesmos degraus brancos que levavam à pesada porta da frente preta; e, nas traseiras, havia a mesma faixa estreita de relvado, com orlas de buxo bem cuidadas, que ia até ao muro que a separava das traseiras das casas contíguas. Aparentemente, também o número de chaminés no telhado era o mesmo; a largura e o ângulo do beiral; e até a altura das grades sujas da cave.
E, contudo, esta casa na praça, que parecia precisamente semelhante às suas cinquenta vizinhas feias, era, de facto, inteiramente diferente — horrivelmente diferente.
Onde residia esta diferença marcada e invisível é impossível dizer. Não pode ser atribuída inteiramente à imaginação, porque pessoas que tinham passado algum tempo na casa, sem saber nada dos factos, tinham declarado positivamente que certas divisões eram tão desagradáveis que prefeririam morrer a entrar nelas novamente, e que a atmosfera de toda a casa produzia nelas sintomas de um terror genuíno; enquanto a série de inquilinos inocentes que tinham tentado viver nela e tinham sido forçados a fugir com o mínimo de aviso prévio era, na verdade, pouco menos do que um escândalo na cidade.
Quando Shorthouse chegou para passar um "fim de semana" com a sua tia Julia na sua pequena casa à beira-mar, na outra ponta da cidade, encontrou-a cheia até ao topo de mistério e entusiasmo. Ele só tinha recebido o telegrama dela nessa manhã, e tinha vindo a prever tédio; mas no momento em que tocou na sua mão e beijou a sua face enrugada como casca de maçã, apanhou a primeira onda do seu estado elétrico. A impressão aprofundou-se quando soube que não haveria outros visitantes, e que tinha sido telegrafado para um objetivo muito especial.
Algo estava no ar, e esse "algo" sem dúvida daria frutos; pois esta tia solteirona e idosa, com uma mania pela investigação psíquica, tinha cérebro e força de vontade, e, por meios lícitos ou ilícitos, conseguia habitualmente alcançar os seus fins. A revelação foi feita pouco depois do chá, quando ela se aproximou dele enquanto caminhavam lentamente ao longo da orla marítima ao anoitecer.
— Tenho as chaves — anunciou ela com uma voz deliciada, mas meio receosa. — Tenho-as até segunda-feira!
— As chaves da cabine de banho, ou...? — perguntou ele inocentemente, olhando do mar para a cidade. Nada a trazia tão rapidamente ao assunto como fingir estupidez.
— Nem uma nem outra — sussurrou ela. — Tenho as chaves da casa assombrada na praça — e vou lá hoje à noite.
Shorthouse sentiu um ligeiro tremor nas costas. Deixou o tom provocador. Algo na voz e no modo dela arrepiou-o. Ela falava a sério.
— Mas não podes ir sozinha... — começou ele.
— É por isso que te telegrafei — disse ela com decisão.
Ele virou-se para a olhar. O rosto feio, vincado e enigmático estava vivo de entusiasmo. Havia o brilho de um entusiasmo genuíno à sua volta como uma auréola. Os olhos brilhavam. Ele apanhou outra onda do entusiasmo dela, e um segundo tremor, mais marcado que o primeiro, acompanhou-o.
— Obrigado, tia Julia — disse ele educadamente; — muito obrigado.
— Não me atreveria a ir completamente sozinha — continuou ela, elevando a voz; — mas contigo divertir-me-ia imenso. Sei que não tens medo de nada.
— Muito obrigado — disse ele novamente. — Hum... é provável que aconteça alguma coisa?
— Já aconteceu muita coisa — sussurrou ela, — embora tenha sido abafado de forma muito inteligente. Três inquilinos vieram e foram-se nos últimos meses, e diz-se que a casa está vazia para sempre agora.
Apesar de si mesmo, Shorthouse ficou interessado. A sua tia falava muito a sério.
— A casa é muito antiga — continuou ela, — e a história — uma história desagradável — remonta a muito tempo. Tem a ver com um homicídio cometido por um cavalariço ciumento que teve um caso com uma criada da casa. Uma noite, ele conseguiu esconder-se na cave e, quando todos dormiam, subiu para os aposentos dos criados, perseguiu a rapariga até ao patamar seguinte e, antes que alguém pudesse vir em seu auxílio, atirou-a corporalmente sobre o corrimão para o átrio lá em baixo.
— E o cavalariço...?
— Foi apanhado, creio eu, e enforcado pelo homicídio; mas tudo aconteceu há um século, e não consegui obter mais detalhes da história.
Shorthouse sentiu agora o seu interesse completamente despertado; mas, embora não estivesse particularmente nervoso por si próprio, hesitou um pouco por causa da tia.
— Com uma condição — disse ele finalmente.
— Nada impedirá a minha ida — disse ela firmemente; — mas posso ouvir a tua condição.
— Que garantes o teu autocontrolo se acontecer algo realmente horrível. Quero dizer... que tens a certeza de que não ficarás demasiado assustada.
— Jim — disse ela com desdém, — não sou jovem, bem sei, nem os meus nervos; mas contigo não teria medo de nada no mundo!
Isto, claro, resolveu o assunto, pois Shorthouse não tinha pretensões de ser outra coisa senão um jovem muito comum, e um apelo à sua vaidade era irresistível. Ele concordou em ir.
Instintivamente, por uma espécie de preparação subconsciente, manteve-se a si próprio e às suas forças sob controlo durante toda a noite, forçando uma reserva cumulativa de controlo através daquele processo interior sem nome de guardar gradualmente todas as emoções e trancá-las à chave — um processo difícil de descrever, mas maravilhosamente eficaz, como bem compreendem todos os homens que passaram por provações severas do foro íntimo. Mais tarde, ser-lhe-ia útil.
Mas só às dez e meia, quando estavam no átrio, bem sob o brilho de luzes amigáveis e ainda rodeados por influências humanas reconfortantes, é que ele teve de recorrer a esta reserva de força acumulada. Pois, uma vez fechada a porta, e ao ver a rua deserta e silenciosa estender-se branca ao luar diante deles, ocorreu-lhe claramente que o verdadeiro teste daquela noite seria lidar com dois medos em vez de um. Teria de carregar o medo da sua tia, bem como o seu. E, ao olhar para o rosto de esfinge dela e ao perceber que poderia assumir um aspeto nada agradável num acesso de terror real, sentiu-se satisfeito com apenas uma coisa em toda a aventura: que tinha confiança na sua própria vontade e poder para resistir a qualquer choque que pudesse surgir.
Caminharam lentamente pelas ruas vazias da cidade; uma lua de outono brilhante prateava os telhados, projetando sombras profundas; não havia um sopro de vento; e as árvores nos jardins formais junto à orla marítima observavam-nos silenciosamente enquanto passavam. Às observações ocasionais da tia, Shorthouse não respondia, percebendo que ela estava simplesmente a rodear-se de amortecedores mentais — dizendo coisas comuns para se impedir de pensar em coisas extraordinárias. Poucas janelas mostravam luzes, e de quase nenhuma chaminé saía fumo ou faíscas. Shorthouse já tinha começado a reparar em tudo, até nos mínimos detalhes. Presentemente, pararam na esquina da rua e olharam para o nome na lateral da casa, banhada pelo luar, e, de comum acordo, mas sem comentários, viraram para a praça e atravessaram para o lado que estava na sombra.
— O número da casa é treze — sussurrou uma voz ao seu lado; e nenhum deles fez a referência óbvia, mas atravessaram a ampla faixa de luar e começaram a marchar pelo passeio em silêncio.
Foi mais ou menos a meio da praça que Shorthouse sentiu um braço passar-se, silenciosa mas significativamente, pelo seu, e soube então que a aventura deles tinha começado a sério, e que a sua companheira já estava a ceder impercetivelmente às influências contra eles. Ela precisava de apoio.
Alguns minutos depois, pararam diante de uma casa alta e estreita que se erguia diante deles na noite, de forma feia e pintada de um branco sujo. Janelas sem persianas, sem cortinas, olhavam para eles, brilhando aqui e ali ao luar. Havia marcas de intempéries na parede e fendas na tinta, e a varanda do primeiro andar projetava-se de forma um pouco antinatural. Mas, para além deste aspeto geralmente desolado de uma casa desocupada, não havia, à primeira vista, nada que distinguisse esta mansão em particular pelo caráter maligno que tinha, muito certamente, adquirido.
Olhando por cima do ombro para se certificarem de que não tinham sido seguidos, subiram corajosamente os degraus e ficaram diante da enorme porta preta que os confrontava de forma proibitiva. Mas a primeira onda de nervosismo já os atingira, e Shorthouse mexeu durante muito tempo na chave antes de conseguir encaixá-la na fechadura. Por um momento, se a verdade fosse dita, ambos esperaram que não abrisse, pois estavam presas de várias emoções desagradáveis enquanto ali estavam, no limiar da sua aventura fantasmagórica. Shorthouse, a mexer na chave e dificultado pelo peso constante no seu braço, sentiu certamente a solenidade do momento. Era como se o mundo inteiro — pois toda a experiência parecia, naquele instante, concentrada na sua própria consciência — estivesse a ouvir o ruído estridente daquela chave. Uma rajada de vento errante, descendo a rua vazia, provocou um roçar momentâneo nas árvores atrás deles, mas, tirando isso, este tilintar da chave era o único som audível; e, finalmente, ela virou-se na fechadura e a pesada porta abriu-se, revelando um abismo de escuridão lá dentro.
Com um último olhar para a praça banhada pelo luar, entraram rapidamente, e a porta fechou-se atrás deles com um estrondo que ecoou prodigiosamente pelos átrios e passagens vazias. Mas, instantaneamente, com os ecos, outro som fez-se ouvir, e a tia Julia inclinou-se subitamente tão pesadamente sobre ele que ele teve de dar um passo atrás para evitar cair.
Um homem tinha tossido perto deles — tão perto que parecia que eles deveriam ter estado realmente ao lado dele na escuridão.
Com a possibilidade de partidas na mente, Shorthouse balançou imediatamente o seu pesado bengala na direção do som; mas encontrou nada mais sólido do que o ar. Ouviu a tia dar um pequeno arquejo ao seu lado.
— Está alguém aqui — sussurrou ela; — ouvi-o.
— Fica quieta! — disse ele severamente. — Não foi nada além do barulho da porta da frente.
— Oh! arranja luz — depressa! — acrescentou ela, enquanto o sobrinho, a mexer numa caixa de fósforos, abriu-a ao contrário e deixou-os cair todos com um tilintar no chão de pedra.
O som, contudo, não se repetiu; e não havia sinal de passos a retirar-se. Num minuto tinham uma vela acesa, usando a extremidade vazia de uma caixa de charutos como suporte; e, quando o primeiro clarão diminuiu, ele ergueu a lâmpada improvisada e examinou a cena. E era desoladora o suficiente, em boa verdade, pois não há nada mais desolado em todas as habitações dos homens do que uma casa sem mobília, fracamente iluminada, silenciosa e abandonada, e contudo habitada, segundo os rumores, pelas memórias de histórias malignas e violentas.
Estavam num amplo átrio; à esquerda havia a porta aberta de uma espaçosa sala de jantar, e em frente o átrio seguia, estreitando-se, numa longa e escura passagem que levava, aparentemente, ao topo das escadas da cozinha. A ampla escadaria sem tapetes erguia-se em arco diante deles, envolta em sombras por toda a parte, exceto num único ponto, a meio caminho, onde o luar entrava pela janela e caía numa mancha brilhante nas tábuas. Este raio de luz projetava um brilho ténue acima e abaixo, conferindo aos objetos ao seu alcance um contorno enevoado que era infinitamente mais sugestivo e fantasmagórico do que a escuridão completa. O luar filtrado parece sempre pintar rostos na penumbra circundante, e, enquanto Shorthouse perscrutava o poço de escuridão e pensava nos inúmeros quartos e passagens vazias na parte superior da velha casa, deu por si a ansiar novamente pela segurança da praça banhada pelo luar, ou pela acolhedora e brilhante sala de estar que tinham deixado uma hora antes. Então, percebendo que esses pensamentos eram perigosos, afastou-os novamente e reuniu toda a sua energia para se concentrar no presente.
— Tia Julia — disse ele em voz alta, severamente, — temos agora de percorrer a casa de cima a baixo e fazer uma busca completa.
Os ecos da sua voz morreram lentamente por todo o edifício, e, no silêncio intenso que se seguiu, ele virou-se para a olhar. À luz da vela, viu que o rosto dela já estava mortalmente pálido; mas ela largou o braço dele por um momento e disse num sussurro, aproximando-se dele:
— Concordo. Temos de ter a certeza de que não está ninguém escondido. Isso é o primeiro.
Ela falou com um esforço evidente, e ele olhou para ela com admiração.
— Sentem-te bem segura de ti? Não é demasiado tarde...
— Penso que sim — sussurrou ela, com os olhos a desviarem-se nervosamente para as sombras atrás. — Muito segura, só uma coisa...
— O que é?
— Nunca me podes deixar sozinha por um instante.
— Desde que compreendas que qualquer som ou aparência deve ser investigado imediatamente, pois hesitar significa admitir medo. Isso é fatal.
— De acordo — disse ela, um pouco trémula, após um momento de hesitação. — Vou tentar...
Braço com braço, Shorthouse segurando a vela que pingava e a bengala, enquanto a tia carregava a capa sobre os ombros, figuras de comédia absoluta para todos, exceto para eles próprios, começaram uma busca sistemática.
Sorrateiramente, andando na ponta dos pés e sombreando a vela para que não traísse a sua presença através das janelas sem persianas, foram primeiro para a grande sala de jantar. Não se via uma peça de mobília. Paredes nuas, lareiras feias e grades vazias olhavam para eles. Tudo, sentiam, ressentia a sua intrusão, observando-os, por assim dizer, com olhos velados; sussurros seguiam-nos; sombras flutuavam silenciosamente para a direita e para a esquerda; algo parecia estar sempre às suas costas, observando, esperando uma oportunidade para lhes fazer mal. Havia a sensação inevitável de que operações que decorriam quando a sala estava vazia tinham sido temporariamente suspensas até que eles estivessem bem longe. Todo o interior escuro do velho edifício parecia tornar-se uma Presença maligna que se erguia, avisando-os para desistirem e tratarem da sua vida; a cada momento, a tensão nos nervos aumentava.
Da sombria sala de jantar, passaram por grandes portas de batente para uma espécie de biblioteca ou sala de fumo, envolta igualmente em silêncio, escuridão e pó; e a partir daqui recuperaram o átrio perto do topo das escadas das traseiras.
Aqui, um túnel negro como breu abria-se diante deles para as regiões inferiores, e — deve confessar-se — hesitaram. Mas apenas por um minuto. Com o pior da noite ainda por vir, era essencial não recuar perante nada. A tia Julia tropeçou no degrau superior da descida escura, mal iluminada pela vela bruxuleante, e até Shorthouse sentiu pelo menos metade da decisão sair-lhe das pernas.
— Vamos! — disse ele peremptoriamente, e a sua voz correu e perdeu-se nos espaços escuros e vazios lá em baixo.
— Estou a ir — disse ela, hesitante, agarrando o braço dele com uma violência desnecessária.
Desceram um pouco instavelmente os degraus de pedra, um ar frio e húmido encontrando-os no rosto, fechado e malcheiroso. A cozinha, para onde as escadas levavam ao longo de uma passagem estreita, era grande, com um teto alto. Várias portas abriam-se a partir dela — algumas para armários com frascos vazios ainda de pé nas prateleiras, e outras para horríveis pequenas dependências fantasmagóricas, cada uma mais fria e menos convidativa que a anterior. Besouros pretos corriam pelo chão e, uma vez, quando bateram contra uma mesa de madeira que estava num canto, algo do tamanho de um gato saltou com um ímpeto e fugiu, correndo pelo chão de pedra para a escuridão. Por toda a parte havia uma sensação de ocupação recente, uma impressão de tristeza e melancolia.
Deixando a cozinha principal, foram em direção à copa. A porta estava entreaberta e, ao empurrá-la para a abrir totalmente, a tia Julia soltou um grito lancinante, que tentou imediatamente abafar colocando a mão sobre a boca. Por um segundo, Shorthouse ficou imóvel, prendendo a respiração. Sentiu como se a sua espinha se tivesse tornado subitamente oca e alguém a tivesse enchido com partículas de gelo.
Virada para eles, diretamente no seu caminho entre os batentes da porta, estava a figura de uma mulher. Tinha o cabelo desgrenhado e olhos de espanto selvagem, e o seu rosto estava aterrorizado e branco como a morte.
Ela ficou ali imóvel durante o espaço de um único segundo. Então a vela bruxuleou e ela desapareceu — desapareceu completamente — e a porta não enquadrava nada além da escuridão vazia.
— Apenas a maldita luz da vela a saltar — disse ele rapidamente, com uma voz que parecia a de outra pessoa e que estava apenas meio sob controlo. — Vamos, tia. Não há nada aqui.
Ele puxou-a para a frente. Com um estrépito de pés e uma grande aparência de coragem, continuaram, mas sobre o seu corpo a pele movia-se como se formigas rastejantes a cobrissem, e ele sabia, pelo peso no seu braço, que estava a fornecer a força de locomoção para dois. A copa estava fria, nua e vazia; mais parecida com uma grande cela de prisão do que com qualquer outra coisa. Deram a volta, experimentaram a porta para o pátio e as janelas, mas encontraram-nas todas firmemente fechadas. A sua tia movia-se ao lado dele como uma pessoa num sonho. Os seus olhos estavam bem fechados, e ela parecia apenas seguir a pressão do braço dele. A coragem dela enchia-o de espanto. Ao mesmo tempo, notou que uma certa mudança estranha tinha ocorrido no rosto dela, uma mudança que, de alguma forma, escapava ao seu poder de análise.
— Não há nada aqui, tia — repetiu ele em voz alta e rapidamente. — Vamos subir e ver o resto da casa. Depois escolheremos um quarto para esperar.
Ela seguiu-o obedientemente, mantendo-se perto do seu lado, e eles trancaram a porta da cozinha atrás de si. Foi um alívio subir novamente. No átrio havia mais luz do que antes, pois a lua tinha viajado um pouco mais para lá das escadas. Cautelosamente, começaram a subir para o cofre escuro da parte superior da casa, as tábuas a ranger sob o seu peso.
No primeiro andar encontraram as grandes salas de estar duplas, cuja busca não revelou nada. Aqui também não havia sinal de mobília ou ocupação recente; nada além de pó, negligência e sombras. Abriram as grandes portas de batente entre a sala de estar da frente e a de trás e depois saíram novamente para o patamar e subiram as escadas.
Não tinham subido mais do que uma dúzia de degraus quando ambos pararam simultaneamente para ouvir, olhando um nos olhos do outro com uma nova apreensão através da chama trêmula da vela. Do quarto que tinham deixado há menos de dez segundos vinha o som de portas a fechar-se silenciosamente. Não restava qualquer dúvida; ouviram o ruído estrondoso que acompanha o fecho de portas pesadas, seguido pelo estalido agudo da lingueta.
— Temos de voltar e ver — disse Shorthouse brevemente, em tom baixo, voltando-se para descer as escadas novamente.
De alguma forma, ela conseguiu arrastar-se atrás dele, os pés a prenderem-se no vestido, o rosto lívido.
Quando entraram na sala de estar da frente, era evidente que as portas de batente tinham sido fechadas — meio minuto antes. Sem hesitar, Shorthouse abriu-as. Quase esperava ver alguém de frente para ele na sala das traseiras; mas apenas a escuridão e o ar frio o receberam. Percorreram ambas as divisões, não encontrando nada de invulgar. Tentaram de todas as maneiras fazer com que as portas se fechassem sozinhas, mas não havia vento suficiente sequer para fazer a chama da vela tremelicar. As portas não se moviam sem uma pressão forte. Tudo estava silencioso como uma sepultura. Inegavelmente, as salas estavam completamente vazias e a casa completamente imóvel.
— Está a começar — sussurrou uma voz ao seu cotovelo que ele mal reconheceu como sendo da sua tia.
Ele acenou em concordância, retirando o relógio para anotar a hora. Faltavam quinze minutos para a meia-noite; ele fez o registo de exatamente o que tinha ocorrido no seu bloco de notas, pousando a vela na sua base no chão para o fazer. Levou um momento ou dois para a equilibrar em segurança contra a parede.
A tia Julia declarou sempre que, nesse momento, não estava realmente a olhar para ele, mas tinha virado a cabeça para a sala interior, onde supôs ter ouvido algo a mover-se; mas, de qualquer modo, ambos concordaram positivamente que se ouviu um som de pés a correr, pesados e muito rápidos — e no instante seguinte a vela apagou-se!
Mas para o próprio Shorthouse tinha vindo mais do que isto, e ele agradeceu sempre à sua estrela da sorte que isso lhe tivesse acontecido apenas a ele e não também à sua tia. Pois, ao erguer-se da posição curvada em que equilibrava a vela, e antes de esta estar realmente extinta, um rosto impeliu-se para a frente, tão perto do seu que quase o poderia ter tocado com os lábios. Era um rosto contorcido pela paixão; o rosto de um homem, escuro, com traços grossos e olhos irados e selvagens. Pertencia a um homem comum e era, sem dúvida, maléfico na sua expressão normal, mas, como ele o viu, vivo com uma emoção intensa e agressiva, era um semblante humano maligno e terrível.
Não houve movimento de ar; nada além do som de pés a correr — pés calçados ou abafados; a aparição do rosto; e a extinção quase simultânea da vela.
Apesar de si mesmo, Shorthouse soltou um pequeno grito, quase perdendo o equilíbrio quando a sua tia se agarrou a ele com todo o seu peso num momento de terror real e incontrolável. Ela não emitiu qualquer som, apenas o agarrou fisicamente. Felizmente, contudo, ela não tinha visto nada, tinha apenas ouvido os pés a correr, pois o seu autocontrolo regressou quase de imediato, e ele conseguiu soltar-se e riscar um fósforo.
As sombras fugiram para todos os lados perante o clarão, e a sua tia abaixou-se e tateou à procura da caixa de cigarros com a preciosa vela. Descobriram então que a vela não tinha sido apagada pelo vento; tinha sido esmagada. O pavio estava pressionado contra a cera, que se encontrava achatada como se por algum instrumento liso e pesado.
Como a sua companheira superou tão rapidamente o seu terror, Shorthouse nunca compreendeu bem; mas a sua admiração pelo autocontrolo dela aumentou dez vezes e, ao mesmo tempo, serviu para alimentar a sua própria chama moribunda — pelo que estava inegavelmente grato. Igualmente inexplicável para ele foi a prova de força física que tinham acabado de testemunhar. Ele suprimiu de imediato a memória de histórias que ouvira sobre "médiuns físicos" e os seus fenómenos perigosos; pois, se estes fossem verdadeiros, e tanto a sua tia como ele próprio fossem, sem o saberem, um médium físico, isso significava que estavam simplesmente a ajudar a concentrar as forças de uma casa assombrada já carregada até ao limite. Era como caminhar com lâmpadas desprotegidas entre depósitos de pólvora destapados.
Assim, com o mínimo de reflexão possível, ele simplesmente voltou a acender a vela e subiu para o andar seguinte. O braço que segurava o seu tremia, é verdade, e o seu próprio passo era muitas vezes incerto, mas continuaram com determinação e, após uma busca que não revelou nada, subiram o último lanço de escadas até ao andar mais alto de todos.
Aqui encontraram um ninho perfeito de pequenos quartos de criados, com peças de mobiliário partidas, cadeiras sujas de assento de palhinha, cómodas, espelhos rachados e estrados de cama decrépitos. Os quartos tinham tetos baixos e inclinados, já decorados aqui e ali com teias de aranha, janelas pequenas e paredes mal rebocadas — uma região deprimente e lúgubre que ficaram contentes por deixar para trás.
Estava a bater a meia-noite quando entraram num pequeno quarto no terceiro andar, perto do topo das escadas, e prepararam-se para ficarem confortáveis durante o resto da sua aventura. Era absolutamente despido e dizia-se ser o quarto — então usado como roupeiro — para o qual o cocheiro enfurecido tinha perseguido a sua vítima e finalmente a apanhara. Do lado de fora, através do estreito patamar, começavam as escadas que levavam ao andar de cima, e aos aposentos dos criados onde tinham acabado de procurar.
Apesar da frialdade da noite, havia algo no ar daquele quarto que pedia uma janela aberta. Mas havia mais do que isso. Shorthouse só conseguia descrevê-lo dizendo que se sentia menos senhor de si ali do que em qualquer outra parte da casa. Havia algo que atuava diretamente sobre os nervos, cansando a determinação, enfraquecendo a vontade. Ele teve consciência deste resultado antes mesmo de estar no quarto há cinco minutos, e foi no curto período em que lá permaneceram que ele sofreu o esgotamento total das suas forças vitais, o que foi, para ele, o principal horror de toda a experiência.
Colocaram a vela no chão do armário, deixando a porta entreaberta alguns centímetros, de modo a que não houvesse clarão a confundir os olhos, nem sombras a moverem-se pelas paredes e pelo teto. Depois, estenderam a capa no chão e sentaram-se à espera, com as costas encostadas à parede.
Shorthouse estava a menos de um metro da porta que dava para o patamar; a sua posição permitia uma boa visão da escadaria principal que descia para a escuridão, e também do início das escadas dos criados que subiam para o andar de cima; o pesado bastão estava ao seu lado, ao alcance da mão.
A lua estava agora alta sobre a casa. Através da janela aberta podiam ver as estrelas reconfortantes, como olhos amigos a observar no céu. Uma a uma, as torres da cidade deram a meia-noite e, quando os sons morreram, o silêncio profundo de uma noite sem vento caiu novamente sobre tudo. Apenas o bramido do mar, longínquo e lúgubre, enchia o ar com murmúrios ocos.
Dentro da casa, o silêncio tornou-se terrível; terrível, pensou ele, porque a qualquer momento poderia ser quebrado por sons que pressagiavam terror. A tensão da espera pesava cada vez mais nos nervos; falavam em sussurros quando falavam, pois as suas vozes em voz alta soavam estranhas e antinaturais. Uma frialdade, nem toda devida ao ar noturno, invadiu o quarto e deixou-os gelados. As influências contra eles, quaisquer que fossem, estavam lentamente a roubar-lhes a autoconfiança e o poder de ação decisiva; as suas forças estavam a diminuir, e a possibilidade de um medo real assumiu um significado novo e terrível. Ele começou a tremer pela mulher idosa ao seu lado, cuja coragem dificilmente a poderia salvar além de um certo ponto.
Ele ouvia o sangue a cantar nas suas veias. Por vezes parecia tão alto que imaginava que o impedia de ouvir corretamente certos outros sons que começavam muito fracamente a tornar-se audíveis nas profundezas da casa. Sempre que concentrava a sua atenção nesses sons, eles cessavam instantaneamente. Certamente não vinham de mais perto. Contudo, não conseguia livrar-se da ideia de que havia movimento algures nas regiões inferiores da casa. O andar da sala de estar, onde as portas tinham sido tão estranhamente fechadas, parecia demasiado próximo; os sons estavam mais longe do que isso. Pensou na grande cozinha, com os escaravelhos a correr, e na lúgubre pequena copa; mas, de uma forma ou de outra, não pareciam vir de lá também. Certamente não estavam fora da casa!
Então, de repente, a verdade atravessou-lhe a mente e, durante um minuto, sentiu como se o seu sangue tivesse parado de correr e se tivesse transformado em gelo.
Os sons não estavam de todo no andar de baixo; estavam no andar de cima — no andar de cima, algures entre aqueles horríveis e sombrios quartinhos dos criados, com os seus pedaços de mobília partida, tetos baixos e janelas apertadas — no andar de cima, onde a vítima fora primeiramente perturbada e perseguida até à morte.
E no momento em que descobriu onde estavam os sons, começou a ouvi-los mais claramente. Era o som de pés, movendo-se furtivamente ao longo da passagem no andar de cima, entrando e saindo dos quartos e passando pelos móveis.
Ele virou-se rapidamente para roubar um olhar à figura imóvel sentada ao seu lado, para notar se ela partilhava a sua descoberta. A fraca luz da vela, passando pela fresta da porta do armário, projetava o seu rosto de traços fortes em relevo vívido contra o branco da parede. Mas foi outra coisa que o fez prender a respiração e olhar de novo. Algo extraordinário tinha surgido no seu rosto e parecia espalhar-se pelos seus traços como uma máscara; suavizava as linhas profundas e esticava a pele por todo o lado um pouco mais, de modo que as rugas desapareciam; trazia ao rosto — com a única exceção dos olhos velhos — uma aparência de juventude e quase de infância.
Ele olhou fixamente com um espanto mudo — um espanto que estava perigosamente próximo do horror. Era de facto o rosto da sua tia, mas era o rosto dela de há quarenta anos, o rosto vago e inocente de uma rapariga. Ele tinha ouvido histórias sobre aquele estranho efeito do terror que podia limpar um semblante humano de outras emoções, obliterando todas as expressões anteriores; mas nunca tinha percebido que pudesse ser literalmente verdade, ou que pudesse significar algo tão simplesmente horrível como o que via agora. Pois a terrível assinatura de um medo avassalador estava escrita claramente naquela vacuidade total do rosto juvenil ao seu lado; e quando, sentindo o seu olhar intenso, ela se virou para olhar para ele, ele instintivamente fechou os olhos com força para excluir a visão.
Contudo, quando se virou um minuto depois, com os seus sentimentos bem controlados, viu para seu intenso alívio outra expressão; a sua tia estava a sorrir e, embora o rosto estivesse mortalmente pálido, o véu terrível tinha-se levantado e o aspeto normal estava a regressar.
— Alguma coisa de errado? — foi tudo o que ele conseguiu pensar em dizer naquele momento. E a resposta foi eloquente, vinda de tal mulher.
— Sinto frio — e um pouco de medo — sussurrou ela.
Ele ofereceu-se para fechar a janela, mas ela agarrou-o e implorou-lhe que não deixasse o seu lado nem por um instante.
— É lá em cima, eu sei — sussurrou ela, com um estranho meio riso; — mas não posso de forma alguma subir.
Mas Shorthouse pensava de outra forma, sabendo que na ação residia a sua melhor esperança de autocontrolo.
Ele pegou na garrafa de conhaque e serviu um copo de espírito puro, forte o suficiente para ajudar qualquer um a superar qualquer coisa. Ela engoliu-o com um pequeno tremor. A sua única ideia agora era sair da casa antes que o colapso dela se tornasse inevitável; mas isso não podia ser feito em segurança virando as costas e fugindo do inimigo. A inação já não era possível; a cada minuto ele tornava-se menos senhor de si próprio, e medidas agressivas e desesperadas eram imperativas sem mais demora. Além disso, a ação devia ser tomada em direção ao inimigo, não para longe dele; o clímax, se necessário e inevitável, teria de ser enfrentado corajosamente. Ele podia fazê-lo agora; mas dentro de dez minutos poderia não ter a força necessária para agir por si próprio, muito menos pelos dois!
No andar de cima, os sons tornavam-se entretanto mais altos e mais próximos, acompanhados pelo ranger ocasional das tábuas. Alguém movia-se furtivamente, tropeçando de vez em quando desajeitadamente contra os móveis.
Esperando alguns momentos para permitir que a tremenda dose de álcool produzisse o seu efeito, e sabendo que isto duraria pouco tempo dadas as circunstâncias, Shorthouse levantou-se então silenciosamente, dizendo num tom determinado:
— Agora, tia Julia, vamos subir e descobrir o que é todo este barulho. Tem de vir também. Foi o que combinámos.
Ele pegou no seu bastão e foi ao armário buscar a vela. Uma forma flácida levantou-se trêmula ao seu lado a respirar com dificuldade, e ele ouviu uma voz dizer muito fracamente algo sobre estar "pronta para vir". A coragem da mulher espantou-o; era muito maior do que a sua própria; e, à medida que avançavam, segurando no alto a vela a gotejar, alguma força subtil exalava desta velha trêmula e de rosto pálido ao seu lado, que era a verdadeira fonte da sua inspiração. Continha algo de realmente grande que o envergonhava e lhe dava o apoio sem o qual ele se teria mostrado muito menos à altura da ocasião.
Atravessaram o patamar escuro, evitando com os olhos o espaço negro profundo sobre o corrimão. Depois começaram a subir a escadaria estreita para encontrar os sons que, minuto a minuto, se tornavam mais altos e próximos. A meio caminho das escadas, a tia Julia tropeçou e Shorthouse virou-se para a agarrar pelo braço, e exatamente nesse momento houve um estrondo terrível no corredor dos criados no andar de cima. Foi imediatamente seguido por um grito agudo e agonizante que era um grito de terror e um grito de socorro fundidos num só.
Antes que pudessem desviar-se, ou descer um único degrau, alguém veio a correr ao longo da passagem no andar de cima, tropegando horrivelmente, correndo loucamente, a toda a velocidade, três degraus de cada vez, pela própria escadaria onde eles estavam. Os passos eram leves e incertos; mas, logo atrás deles, soou o passo mais pesado de outra pessoa, e a escadaria pareceu abanar.
Shorthouse e a sua companheira tiveram apenas tempo para se encostarem à parede quando a confusão de passos apressados estava sobre eles, e duas pessoas, com o menor intervalo possível entre si, passaram a toda a velocidade. Era um verdadeiro turbilhão de som irrompendo no silêncio da meia-noite do edifício vazio.
Os dois corredores, perseguidor e perseguido, tinham passado diretamente através deles onde estavam, e já com um baque as tábuas lá em baixo tinham recebido primeiro um, depois o outro. Contudo, eles não tinham visto absolutamente nada — nem uma mão, ou braço, ou rosto, ou mesmo um trapo de roupa a voar.
Houve um segundo de pausa. Depois, o primeiro, o mais leve dos dois, obviamente o perseguido, correu com passos incertos para o pequeno quarto que Shorthouse e a sua tia tinham acabado de deixar. O mais pesado seguiu-o. Ouviu-se um som de luta, ofego e gritos abafados; e então, para o patamar, veio o passo — de uma única pessoa a caminhar pesadamente.
Seguiu-se um silêncio absoluto durante meio minuto, e depois ouviu-se um som de correria através do ar. Foi seguido por um baque surdo e estrondoso nas profundezas da casa, lá em baixo — no chão de pedra do hall.
Um silêncio total reinou depois. Nada se moveu. A chama da vela estava firme. Tinha estado firme o tempo todo, e o ar tinha estado imperturbado por qualquer movimento que fosse. Paralisada de terror, a tia Julia, sem esperar pelo seu companheiro, começou a tatear o caminho escada abaixo; chorava suavemente para si mesma e, quando Shorthouse passou o braço à volta dela e quase a carregou, sentiu que ela tremia como uma folha. Ele entrou no pequeno quarto e apanhou a capa do chão e, de braço dado, caminhando muito devagar, sem dizer uma palavra ou olhar uma vez para trás, marcharam pelos três lanços de escadas até ao hall.
No hall não viram nada, mas durante todo o caminho escada abaixo estavam conscientes de que alguém os seguia; passo a passo; quando iam mais depressa, ELE ficava para trás, e quando iam mais devagar, ELE alcançava-os. Mas nem uma vez olharam para trás para ver; e a cada curva da escadaria baixavam os olhos por medo do horror seguinte que poderiam ver nas escadas acima.
Com mãos trêmulas, Shorthouse abriu a porta da frente, e eles saíram para o luar e respiraram fundo o ar fresco da noite que soprava do mar.
Mas a porta não se abriu. A figura permaneceu ali por um momento, imóvel como uma estátua, e depois, com uma lentidão que me gelou o sangue, a maçaneta começou a girar. O som do metal a ranger no ferrolho foi para mim como o troar de um canhão no silêncio da noite. A porta, contudo, estava trancada, e a pessoa do lado de fora parecia não estar a tentar forçá-la, mas sim a verificar, com uma precisão desapaixonada, se ela cedia ou não. Após um intervalo que pareceu durar uma eternidade, a figura afastou-se da porta e, com o mesmo passo furtivo e silencioso, contornou a casa em direção à cozinha.
Eu não me movi. A minha mão mantinha-se firme no rifle, mas o meu corpo parecia não me pertencer. A curiosidade, uma forma gélida e desapegada de curiosidade, substituíra o medo. Eu sabia, com uma certeza que transcendia a lógica, que nenhum esforço físico da minha parte poderia alterar o curso do que estava a acontecer. Aquilo não era uma invasão de homens de carne e osso; era uma manifestação de algo que existia para além dos limites da minha compreensão, e eu era o único espectador forçado naquele teatro de sombras.
Ouvi os passos contornarem a varanda e pararem junto à porta da cozinha. Houve um momento de silêncio absoluto, tão profundo que o bater do meu próprio coração parecia um rufar de tambores. Então, ouvi o ranger da madeira quando alguém subiu os degraus da cozinha. O ferrolho daquela porta, que eu verificara pessoalmente, foi testado da mesma forma deliberada. O som da maçaneta a girar ecoou, e depois, um suspiro — um som longo, indistinto e carregado de uma tristeza milenar — pareceu filtrar-se através das frestas da porta.
Subitamente, a casa inteira pareceu vibrar. Não foi um tremor de terra, mas uma oscilação na própria atmosfera, como se a estrutura estivesse a ser submetida a uma pressão psíquica insuportável. Os móveis na sala de estar emitiram estalidos secos, e o papel sobre a mesa sibilou como se soprado por um vento invisível. Eu sentia uma presença a infiltrar-se pelas paredes, algo que não precisava de portas nem de chaves, algo que preenchia o espaço com uma densidade opressiva.
A minha respiração tornou-se curta e difícil. Eu estava no centro de um vórtice de solidão, isolado não apenas do mundo, mas da própria realidade. A escuridão dentro da sala, que antes me parecia apenas ausência de luz, revelava-se agora habitada. Formas imprecisas, mais densas que o breu, começaram a delinear-se nos cantos. Não eram figuras humanas, mas sugestões de movimento, contornos que se desfaziam assim que os meus olhos tentavam fixá-los.
O pânico, que eu tinha conseguido manter à distância, começou a subir-me pela garganta. Percebi, com uma clareza aterrorizante, que a minha presença ali, naquele lugar, fora um erro; que eu violara um território que nunca me fora destinado. O silêncio da noite foi subitamente quebrado por um som que me fez gelar até à medula: o chiar de uma canoa a ser arrastada pela areia, seguido por vozes, não de homens, mas murmúrios ininteligíveis que pareciam vir de todas as direções ao mesmo tempo.
Eu não podia mais ser um espectador. A necessidade de fuga, instintiva e selvagem, apoderou-se de mim. Com um movimento brusco, soltei o rifle, que caiu ao chão com um baque surdo, e corri. Não sabia para onde, apenas sabia que precisava de sair daquela casa, de me afastar daquelas paredes que, a cada segundo, pareciam fechar-se mais sobre mim. A porta da frente, que estivera trancada, cedeu sob o meu peso como se nunca tivesse estado fechada. Lancei-me para o exterior, para a escuridão da noite, correndo cegamente pelo caminho entre as árvores, sem olhar para trás, enquanto atrás de mim o silêncio da ilha se fragmentava num coro de sussurros que me chamavam pelo nome.
"Há mais alguém neste andar?", perguntou ele.
Ela olhou para ele de forma estranha com os seus olhos desbotados antes de responder.
"Nenhum dos meus hóspedes jamais me colocou tais perguntas antes", disse ela; "mas suponho que o senhor seja diferente. Ora, não há ninguém aqui, exceto um velho cavalheiro que se hospeda aqui há pelo menos cinco anos. Ele está ali", apontando para o final do corredor.
"Ah! Compreendo", disse Shorthouse fracamente. "Então estou sozinho aqui em cima?"
"Suponho que sim, praticamente", respondeu ela com voz anasalada, terminando a conversa abruptamente ao virar as costas ao seu novo "hóspede" e descendo as escadas lenta e deliberadamente.
O trabalho no jornal mantinha Shorthouse fora durante quase toda a noite. Três vezes por semana ele chegava a casa à 1 da manhã, e três vezes às 3 da manhã. O quarto revelou-se bastante confortável, e ele pagou por uma segunda semana. Os seus horários invulgares tinham, até então, impedido o encontro com quaisquer outros ocupantes da casa, e nenhum som tinha sido ouvido do "velho cavalheiro" que partilhava o andar com ele. Parecia uma casa muito sossegada.
Certa noite, por volta de meados da segunda semana, ele chegou a casa cansado depois de um longo dia de trabalho. A lâmpada que habitualmente permanecia acesa a noite toda no corredor tinha-se apagado, e ele teve de subir as escadas às apalpadelas no escuro. Fez um barulho considerável ao fazê-lo, mas ninguém pareceu incomodar-se. A casa toda estava absolutamente silenciosa, e provavelmente todos estavam a dormir. Não havia luzes sob nenhuma das portas. Tudo estava na escuridão. Já passava das duas horas.
Depois de ler algumas cartas em inglês que tinham chegado durante o dia, e de folhear um livro por alguns minutos, sentiu-se sonolento e preparou-se para dormir. No momento em que estava prestes a entrar entre os lençóis, parou por um instante e escutou. Ergueu-se na noite, enquanto ele o fazia, o som de passos algures na casa, em baixo. Ouvindo atentamente, percebeu que era alguém a subir as escadas — um passo pesado, e o dono não se dava ao trabalho de andar silenciosamente. Subia as escadas, trambolhão, trambolhão, trambolhão — evidentemente o passo de um homem grande, e alguém com alguma pressa.
Imediatamente, pensamentos relacionados de alguma forma com incêndios e polícia passaram pela cabeça de Jim, mas não havia sons de vozes com os passos, e ele refletiu no mesmo instante que só poderia ser o velho cavalheiro a chegar tarde e a tropeçar pelas escadas na escuridão. Ele estava no ato de apagar o gás e entrar na cama, quando a casa retomou a sua quietude anterior com os passos a pararem subitamente logo à porta do seu quarto.
Com a mão no gás, Shorthouse hesitou um momento antes de o apagar para ver se os passos continuariam, quando foi sobressaltado por uma batida forte na sua porta. Instantaneamente, em obediência a um instinto curioso e inexplicado, ele apagou a luz, deixando-se a si mesmo e ao quarto na escuridão total.
Mal tinha dado um passo pelo quarto para abrir a porta, quando uma voz do outro lado da parede, tão próxima que quase soou no seu ouvido, exclamou em alemão: "És tu, pai? Entra."
O falante era um homem no quarto ao lado, e a batida, afinal, não tinha sido na sua própria porta, mas na da câmara adjacente, que ele supunha estar vazia.
Quase antes de o homem no corredor ter tido tempo de responder em alemão, "Deixa-me entrar imediatamente", Jim ouviu alguém atravessar o soalho e destrancar a porta. Depois, esta foi fechada com um estrondo, e era audível o som de passos pelo quarto, e de cadeiras a serem puxadas para uma mesa e a baterem contra a mobília pelo caminho. Os homens pareciam totalmente indiferentes ao conforto do seu vizinho, pois faziam barulho suficiente para acordar os mortos.
"Bem mereço por ter alugado um quarto num buraco tão barato", refletiu Jim na escuridão. "Gostava de saber a quem ela alugou o quarto!"
Os dois quartos, a senhoria dissera-lhe, eram originalmente um só. Ela tinha colocado uma divisória fina — apenas uma fila de tábuas — para aumentar o seu rendimento. As portas eram adjacentes, e apenas separadas pela viga vertical maciça entre elas. Quando uma era aberta ou fechada, a outra chocalhava.
Com total indiferença pelo conforto dos outros ocupantes da casa, os dois alemães tinham, entretanto, começado a falar ambos ao mesmo tempo e no topo das suas vozes. Falavam enfaticamente, até mesmo com raiva. As palavras "Pai" e "Otto" eram usadas livremente. Shorthouse compreendia alemão, mas enquanto permanecia a ouvir durante o primeiro ou segundo minuto, um bisbilhoteiro contra a sua vontade, era difícil entender o início ou o fim da conversa, pois nenhum queria ceder ao outro, e a mistura de sons guturais e frases inacabadas era totalmente ininteligível. Então, muito subitamente, ambas as vozes baixaram juntas; e, após um momento de pausa, o tom profundo de um deles, que parecia ser o "pai", disse, com a máxima clareza:
"Queres dizer, Otto, que te recusas a consegui-lo?"
Ouviu-se o som de alguém a arrastar-se na cadeira antes de a resposta vir. "Quero dizer que não sei como consegui-lo. É tanto, pai. É demasiado. Uma parte disso..."
"Uma parte disso!" gritou o outro, com um juramento irritado, "uma parte disso, quando a ruína e a desgraça já estão na casa, é pior que inútil. Se consegues metade, consegues tudo, seu tolo miserável. Meias medidas apenas condenam todos os envolvidos."
"Tu disseste-me da última vez..." começou o outro firmemente, mas não foi autorizado a terminar. Uma sucessão de juramentos horríveis abafou a sua frase, e o pai continuou, com uma voz a vibrar de raiva:
"Sabes que ela te dará o que quiseres. Estão casados há apenas alguns meses. Se pedires e deres uma razão plausível, podes obter tudo o que queremos e mais. Podes pedir temporariamente. Tudo será pago de volta. Isso restabelecerá a firma, e ela nunca saberá o que foi feito com isso. Com essa quantia, Otto, sabes que posso recuperar todas estas perdas terríveis, e em menos de um ano tudo será reembolsado. Mas sem isso... Tens de o conseguir, Otto. Ouve-me, tens de o fazer. Hei de ser preso pelo uso indevido de dinheiro de fundos? O nosso nome honrado há de ser amaldiçoado e cuspido?" O velho engasgou-se e gaguejou na sua raiva e desespero.
Shorthouse permaneceu a tremer na escuridão e a ouvir contra a sua vontade. A conversa tinha-o arrastado consigo, e ele tinha, por alguma razão, medo de deixar que a sua presença fosse notada. Mas, neste ponto, percebeu que tinha ouvido durante demasiado tempo e que devia informar os dois homens de que podiam ser ouvidos em cada sílaba. Por isso, tossiu ruidosamente e, ao mesmo tempo, fez chocalhar o puxador da sua porta. Pareceu não ter efeito, pois as vozes continuaram tão altas como antes, o filho a protestar e o pai a ficar cada vez mais irritado. Tossiu novamente de forma persistente, e também conseguiu propositadamente, na escuridão, tropeçar contra a divisória, sentindo as tábuas finas cederem facilmente sob o seu peso, e fazendo um barulho considerável ao fazê-lo. Mas as vozes continuaram despreocupadas, e mais altas do que nunca. Seria possível que não tivessem ouvido?
A esta altura, Jim estava mais preocupado com o seu próprio sono do que com a moralidade de ouvir escândalos privados dos seus vizinhos, e saiu para o corredor e bateu energicamente à porta deles. Instantaneamente, como que por magia, os sons cessaram. Tudo mergulhou num silêncio absoluto. Não havia luz sob a porta e nem um sussurro podia ser ouvido no interior. Ele bateu novamente, mas não recebeu resposta.
"Cavalheiros", começou ele finalmente, com os lábios próximos da fechadura e em alemão, "por favor, não falem tão alto. Consigo ouvir tudo o que dizem no quarto ao lado. Além disso, é muito tarde e eu desejo dormir."
Ele pausou e ouviu, mas nenhuma resposta foi dada. Rodou o puxador e descobriu que a porta estava trancada. Nenhum som quebrava a quietude da noite, exceto o leve sussurro do vento sobre a claraboia e o ranger de uma tábua aqui e ali na casa abaixo. O ar frio de uma madrugada muito adiantada deslizava pelo corredor e fazia-o tremer. O silêncio da casa começou a impressioná-lo de forma desagradável. Ele olhou para trás e ao seu redor, esperando, e contudo temendo, que algo quebrasse a quietude. As vozes ainda pareciam ecoar nos seus ouvidos; mas aquele silêncio súbito, quando ele bateu à porta, afetou-o muito mais desagradavelmente do que as vozes, e colocou pensamentos estranhos no seu cérebro — pensamentos que ele não gostava nem aprovava.
Movendo-se furtivamente para longe da porta, espreitou pelo corrimão para o espaço abaixo. Era como um cofre profundo que poderia esconder nas suas sombras qualquer coisa que não fosse boa. Não era difícil imaginar que via um movimento indistinto para lá e para cá abaixo dele. Seria aquilo uma figura sentada nas escadas a espreitar obliquamente para ele com olhos horríveis? Seria aquele o som de sussurros e arrastar de pés lá em baixo, nos corredores escuros e patamares abandonados? Seria algo mais do que o murmúrio inarticulado da noite?
O vento fez um esforço acima, cantando sobre a claraboia, e a porta atrás dele chocalhou e fê-lo sobressaltar-se. Ele virou-se para voltar ao seu quarto, e a corrente de ar fechou a porta lentamente no seu rosto como se houvesse alguém a pressionar do outro lado. Quando ele a empurrou e entrou, uma centena de formas sombrias pareciam lançar-se rápida e silenciosamente de volta aos seus cantos e esconderijos. Mas no quarto adjacente, os sons tinham cessado inteiramente, e Shorthouse logo se enfiou na cama, e deixou a casa com os seus ocupantes, acordados ou a dormir, a tomarem conta de si mesmos, enquanto ele entrava na região dos sonhos e do silêncio.
No dia seguinte, fortalecido pelo senso comum que a luz do sol traz, decidiu apresentar uma queixa contra os ocupantes ruidosos do quarto ao lado e fazer com que a senhoria lhes pedisse para moderar as suas vozes a horas tão tardias da noite e da manhã. Mas aconteceu que ela não foi vista nesse dia, e quando ele regressou do escritório à meia-noite era, naturalmente, demasiado tarde.
Olhando sob a porta enquanto subia para a cama, notou que não havia luz e concluiu que os alemães não estavam dentro. Tanto melhor. Adormeceu por volta da uma hora, plenamente decidido de que, se eles subissem mais tarde e o acordassem com os seus barulhos horríveis, ele não descansaria até ter acordado a senhoria e tê-la feito repreendê-los com aquele tom anasalado autoritário, no qual cada palavra era como o açoite de um chicote metálico.
No entanto, revelou-se não ser necessária tal medida drástica, pois Shorthouse dormiu pacificamente a noite toda, e os seus sonhos — principalmente sobre campos de cereais e rebanhos de ovelhas nas quintas distantes da herdade do seu pai — puderam seguir o seu curso fantasioso ininterruptamente.
Duas noites depois, porém, quando ele chegou a casa exausto, após um dia difícil, molhado e fustigado por uma das tempestades mais cruéis que alguma vez tinha visto, os seus sonhos — sempre sobre os campos e as ovelhas — não estavam destinados a ser tão ininterruptos.
Ele já tinha adormecido naquele brilho delicioso que se segue à remoção da roupa molhada e ao aconchego imediato sob cobertores quentes, quando a sua consciência, pairando na fronteira entre o sono e a vigília, foi vagamente perturbada por um som que se erguia indistintamente das profundezas da casa e, entre as rajadas de vento e chuva, chegava aos seus ouvidos com uma sensação acompanhante de inquietação e desconforto. Erguia-se no ar noturno com alguma pretensão de regularidade, morrendo novamente no rugido do vento para se reafirmar à distância nas pausas profundas e breves da tempestade.
Durante alguns minutos, os sonhos de Jim foram coloridos apenas — tingidos, por assim dizer — por esta impressão de medo que se aproximava de algures insensivelmente sobre ele. A sua consciência, a princípio, recusava-se a ser puxada de volta daquela região encantada onde tinha vagueado, e ele não acordou imediatamente. Mas a natureza dos seus sonhos mudou de forma desagradável. Ele viu as ovelhas correrem subitamente amontoadas, como se assustadas pela proximidade de um inimigo, enquanto os campos de milho ondulante se agitavam como se algum monstro se movesse desajeitadamente entre os caules apinhados. O céu tornou-se escuro, e no seu sonho um som terrível veio de algum lugar das nuvens. Era, na realidade, o som lá em baixo a tornar-se mais distinto.
Shorthouse mexeu-se inquieto na cama com algo semelhante a um gemido de angústia. No minuto seguinte, acordou e encontrou-se sentado direito na cama — a ouvir. Teria sido um pesadelo? Teria ele estado a sonhar sonhos malignos, para que a sua carne se arrepiasse e o cabelo se movesse na sua cabeça?
O quarto estava escuro e silencioso, mas lá fora o vento uivava lúgubremente e conduzia a chuva com ataques repetidos contra as janelas que chocalhavam. Como seria bom — o pensamento passou pela sua mente — se todos os ventos, como o vento oeste, se deitassem com o sol! Faziam barulhos tão diabólicos à noite, como o choro de vozes irritadas. Durante o dia tinham um som tão diferente. Se apenas...
Escuta! Não era um sonho afinal, pois o som estava momentaneamente a tornar-se mais alto, e a sua causa estava a subir as escadas. Ele viu-se a especular fracamente o que poderia ser esta causa, mas o som ainda era demasiado indistinto para lhe permitir chegar a qualquer conclusão definida.
A voz de um relógio da igreja a bater as duas fez-se ouvir acima do vento. Era exatamente a hora em que os alemães tinham começado a sua atuação três noites antes. Shorthouse decidiu que, se eles começassem novamente, ele não toleraria por muito tempo. Contudo, estava já horrorosamente consciente da dificuldade que teria em sair da cama. As cobertas estavam tão quentes e reconfortantes contra as suas costas. O som, ainda a aproximar-se constantemente, tinha a essa altura sido diferenciado do clamor confuso dos elementos, e tinha-se resolvido nos passos de uma ou mais pessoas.
"Os alemães, raio deles!" pensou Jim. "Mas que raio se passa comigo? Nunca me senti tão estranho em toda a minha vida."
Ele estava a tremer por todo o corpo, e sentia-se tão frio como se estivesse numa atmosfera gelada. Os seus nervos estavam bastante estáveis, e não sentia qualquer diminuição de coragem física, mas estava consciente de uma curiosa sensação de mal-estar e trepidação, tal como se sabe que até os homens mais vigorosos experimentam quando sob o primeiro aperto de alguma doença horrível e mortal. À medida que os passos se aproximavam, esta sensação de fraqueza aumentava. Sentia uma lassidão estranha a rastejar sobre ele, uma espécie de exaustão, acompanhada por um crescente torpor nas extremidades, e uma sensação de sonolência na cabeça, como se talvez a consciência estivesse a deixar o seu lugar habitual no cérebro e a preparar-se para atuar noutro plano. Contudo, estranhamente, à medida que a vitalidade era lentamente retirada do seu corpo, os seus sentidos pareciam tornar-se mais aguçados.
Entretanto, os passos já estavam no patamar no topo das escadas, e Shorthouse, ainda sentado direito na cama, ouviu um corpo pesado roçar pela sua porta e ao longo da parede exterior, quase imediatamente a seguir a batida forte de nós dos dedos de alguém na porta do quarto adjacente.
Instantaneamente, embora até agora nenhum som tivesse procedido do interior, ele ouviu, através da divisória fina, uma cadeira ser empurrada para trás e um homem atravessar rapidamente o soalho e abrir a porta.
"Ah! és tu", ouviu ele na voz do filho. Teria o sujeito, então, estado sentado silenciosamente ali durante todo este tempo, à espera da chegada do pai? Para Shorthouse, não veio como uma reflexão agradável de forma alguma.
Não houve resposta a esta saudação duvidosa, mas a porta foi fechada rapidamente, e então houve um som como se um saco ou embrulho tivesse sido atirado para uma mesa de madeira e tivesse deslizado alguma distância sobre ela antes de parar.
"O que é isso?" perguntou o filho, com ansiedade no tom.
"Poderás saber antes de eu ir", respondeu o outro rispidamente. De facto, a sua voz era mais do que ríspida: denunciava uma paixão mal reprimida.
Shorthouse estava consciente de um forte desejo de parar a conversa antes que ela prosseguisse, mas de alguma forma a sua vontade não estava à altura da tarefa, e ele não conseguia sair da cama. A conversa prosseguiu, cada tom e inflexão audíveis acima do ruído da tempestade.
Em voz baixa, o pai continuou. Jim perdeu algumas das palavras no início da frase. Terminou com: "... mas agora eles partiram todos, e eu consegui subir até ti. Sabes para que vim." Havia uma ameaça distinta no seu tom.
"Sim", respondeu o outro; "eu estive à espera."
"E o dinheiro?" perguntou o pai impacientemente.
Sem resposta.
"Tiveste três dias para o conseguir, e eu consegui evitar o pior até agora — mas amanhã é o fim."
Sem resposta.
"Fala, Otto! O que tens para mim? Fala, meu filho; pelo amor de Deus, diz-me."
Houve um momento de silêncio, durante o qual os acentos vibrantes do velho pareciam ecoar pelos quartos. Então veio em voz baixa a resposta:
"Não tenho nada."
"Otto!" gritou o outro com paixão, "nada!"
"Não consigo obter nada", veio quase num sussurro.
"Tu mentes!" gritou o outro, com uma voz semi-abafada. "Juro que mentes. Dá-me o dinheiro."
Ouviu-se uma cadeira a arrastar pelo soalho. Evidentemente, os homens tinham estado sentados à mesa, e um deles tinha-se levantado. Shorthouse ouviu o saco ou embrulho ser arrastado pela mesa, e depois um passo como se um dos homens estivesse a cruzar em direção à porta.
"Pai, o que está aí dentro? Tenho de saber", disse Otto, com os primeiros sinais de determinação na sua voz. Deve ter havido um esforço por parte do filho para ganhar posse do embrulho em questão, e por parte do pai para o reter, pois entre eles caiu ao chão. Um chocalhar curioso seguiu-se ao seu contacto com o soalho. Instantaneamente houve sons de uma luta. Os homens estavam a lutar pela posse da caixa. O homem mais velho com juramentos, e imprecações blasfemas, o outro com arquejos curtos que indicavam a força dos seus esforços. Foi de curta duração, e o homem mais jovem tinha evidentemente vencido, pois um minuto depois ouviu-se a sua exclamação irritada.
"Eu sabia. As joias dela! Seu canalha, nunca as terás. É um crime."
O homem mais velho soltou uma risada curta e gutural, que gelou o sangue de Jim e fez a sua pele arrepiar-se. Nenhuma palavra foi dita, e pelo espaço de dez segundos houve um silêncio vivo. Então o ar tremeu com o som de um baque, seguido imediatamente por um gemido e o estrondo de um corpo pesado a cair sobre a mesa. Um segundo depois houve um balanço da mesa para o chão e contra a divisória que separava os quartos. A cama vibrou um instante com o choque, mas o feitiço profano foi levantado da sua alma e Jim Shorthouse saltou da cama e atravessou o soalho num único salto. Ele sabia que um homicídio horrível tinha sido cometido — o homicídio de um filho pelo pai.
Com dedos trémulos mas um coração determinado, acendeu o gás, e a primeira coisa na qual os seus olhos corroboraram o testemunho dos seus ouvidos foi o detalhe horrível de que a porção inferior da divisória se projetava de forma não natural para dentro do seu próprio quarto. O papel de parede berrante com que estava coberta tinha rachado sob a tensão e as tábuas por baixo dele curvavam-se para dentro na sua direção. Que carga hedionda estaria por trás delas, ele estremeceu ao pensar.
Tudo isto ele viu em menos de um segundo. Desde o solavanco final contra a parede, nem um som tinha procedido do quarto, nem mesmo um gemido ou um passo. Tudo estava calmo, exceto o uivo do vento, que para os seus ouvidos tinha uma nota de horror triunfante.
Shorthouse estava prestes a sair do quarto para despertar a casa e chamar a polícia — de fato, a sua mão já estava no puxador da porta — quando algo no quarto chamou a sua atenção. Pelo canto do olho, pensou ter visto algo a mover-se. Tinha a certeza disso, e ao virar o olhar na direção, descobriu que não se enganara.
Algo rastejava lentamente na sua direção ao longo do chão. Era algo escuro e de forma serpentina, e vinha do lugar onde a divisória estava abaulada. Ele inclinou-se para examinar com sentimentos de intenso horror e repugnância, e descobriu que aquilo se movia em direção a ele vindo do outro lado da parede. Os seus olhos estavam fascinados, e, por um momento, foi incapaz de se mover. Silenciosa, lentamente, de um lado para o outro como um verme espesso, a coisa arrastou-se para dentro do quarto perante os seus olhos assustados, até que, finalmente, não pôde suportar mais e estendeu o braço para lhe tocar. Mas, no instante do contato, retirou a mão com um grito abafado. Era viscosa — e estava quente! E viu que os seus dedos estavam manchados de um carmesim vivo.
Um segundo depois, Shorthouse estava no corredor com a mão na porta do quarto seguinte. Estava trancada. Atirou-se contra ela com todo o seu peso e, cedendo a fechadura, caiu de cabeça num quarto que estava em breu total e muito frio. Num instante, estava de pé novamente a tentar penetrar a escuridão. Nem um som, nem um movimento. Nem mesmo a sensação de uma presença. Estava vazio, miseravelmente vazio!
Do outro lado do quarto, podia distinguir o contorno de uma janela com a chuva a escorrer pelo lado de fora, e as luzes desfocadas da cidade ao longe. Mas o quarto estava vazio, assustadoramente vazio; e tão silencioso. Ele estava lá, frio como o gelo, a olhar fixamente, a tremer, a ouvir. De repente, ouviu-se um passo atrás de si e uma luz brilhou no quarto, e quando ele se virou rapidamente com o braço levantado como se para aparar um golpe terrível, encontrou-se frente a frente com a senhoria. Instantaneamente, a reação começou a surgir.
Eram quase três da manhã, e ele estava lá de pés descalços e pijama às riscas num quarto pequeno, que, à luz misericordiosa, percebeu estar absolutamente vazio, sem tapetes, sem qualquer móvel, ou mesmo uma persiana. Lá estava ele a olhar para a desagradável senhoria. E lá estava ela também, a olhar fixamente e em silêncio, num roupão preto, a cabeça quase careca, o rosto branco como giz, protegendo uma vela que chisporroteava com uma mão ossuda e espreitando por cima dela para ele com os seus olhos verdes que piscavam. Ela parecia positivamente medonha.
"Waal?" arrastou ela finalmente, "Ouvi-o bem o suficiente. Imagino que não conseguisse dormir! Ou apenas a rondar por aí um pouco — é isso?"
O quarto vazio, a ausência de quaisquer vestígios da tragédia recente, o silêncio, a hora, o seu pijama às riscas e os pés descalços — tudo isto combinado privou-o momentaneamente da fala. Ele olhou para ela inexpressivamente, sem dizer uma palavra.
"Waal?" retiniu a voz terrível.
"Minha senhora," explodiu ele finalmente, "aconteceu algo terrível..." Até aqui o levou o seu desespero, mas não mais longe. Ele ficou literalmente preso no substantivo.
"Oh! Não aconteceu nada," disse ela lentamente, ainda a espreitar para ele. "Eu suponho que só tenha visto e ouvido o que os outros fizeram. Nunca consigo manter pessoas neste andar por muito tempo. A maioria acaba por perceber mais cedo ou mais tarde — isto é, aqueles que são um pouco rápidos e sensíveis. Só que, como você é inglês, pensei que não se importaria. Nada acontece realmente; é só uma questão de pensar."
Shorthouse estava fora de si. Sentia-se pronto para agarrá-la e atirá-la pelo corrimão abaixo, vela e tudo.
"Olhe ali," disse ele, apontando a um centímetro dos olhos dela com os dedos que tinham tocado o sangue a escorrer; "olhe ali, minha boa mulher. Isso é apenas uma questão de pensar?"
Ela olhou por um minuto, como se não soubesse ao que ele se referia.
"Imagino que sim," disse ela finalmente.
Ele seguiu o olhar dela e, para seu espanto, viu que os seus dedos estavam tão brancos como de costume, e completamente livres da mancha terrível que lá estivera dez minutos antes. Não havia sinal de sangue. Nenhuma quantidade de esforço visual o faria regressar. Teria ele perdido o juízo? Teriam os seus olhos e ouvidos pregado tais partidas? Teriam os seus sentidos tornado-se falsos e pervertidos? Ele passou pela senhoria, saiu para o corredor e alcançou o seu quarto em dois passos. Ufa! ... a divisória já não estava abaulada. O papel não estava rasgado. Não havia nenhuma coisa rastejante no velho tapete desbotado.
"Já passou tudo," arrastou a voz metálica atrás dele. "Vou voltar para a cama."
Ele virou-se e viu a senhoria a descer lentamente as escadas, ainda protegendo a vela com a mão e olhando de vez em quando para cima enquanto se movia. Um objeto negro, feio e insalubre, pensou ele, enquanto ela desaparecia na escuridão abaixo, e o último clarão da sua vela projetava uma sombra de forma estranha ao longo da parede e pelo teto.
Sem hesitar um momento, Shorthouse vestiu-se e saiu da casa. Preferia a tempestade aos horrores daquele andar superior, e caminhou pelas ruas até ao amanhecer. À noite, disse à senhoria que partiria no dia seguinte, apesar das garantias dela de que nada mais aconteceria.
"Nunca volta," disse ela — "isto é, não depois de ele ter sido morto."
Shorthouse ofegou.
"Você deu-me muito pelo meu dinheiro," rosnou ele.
"Waal, não é o meu espetáculo," arrastou ela. "Não sou médium. Você corre riscos. Alguns dormem a noite toda e nunca ouvem nada. Outros, como você, são diferentes e apanham a coisa toda."
"Quem é o velho cavalheiro? — ele ouve isso?" perguntou Jim.
"Não há cavalheiro nenhum," respondeu ela com frieza. "Disse-lhe isso apenas para se sentir à vontade, caso ouvisse alguma coisa. Você estava completamente sozinho no andar."
"Diga agora," continuou ela, após uma pausa em que Shorthouse não conseguiu pensar em nada para dizer a não ser coisas impublicáveis, "diga agora, diga-me lá, sentiu-se um pouco frio quando o espetáculo estava a acontecer, um pouco cansado e fraco, quero dizer, como se estivesse prestes a morrer?"
"Como posso dizer?" respondeu ele selvaticamente; "o que senti, só Deus sabe."
"Waal, mas Ele não vai contar," arrastou ela. "Só que eu estava a imaginar como é que você realmente se sentiu, porque o homem que teve aquele quarto antes foi encontrado uma manhã na cama..."
"Na cama?"
"Ele estava morto. Era o que estava antes de si. Oh! Não precisa de ficar tão transtornado. Você está bem. E tudo aconteceu realmente, dizem eles. Esta casa costumava ser uma residência privada há uns vinte e cinco anos, e uma família alemã com o nome de Steinhardt vivia aqui. Eles tinham um grande negócio em Wall Street, e estavam muito bem na vida."
"Ah!" disse o seu ouvinte.
"Oh sim, estavam, mesmo no topo, até que um belo dia tudo faliu e o velho fugiu com a massa..."
"Fugiu com a massa?"
"É isso mesmo," disse ela; "escapou com todo o dinheiro, e o filho foi encontrado morto na sua casa, suicídio, pensou-se. Embora houvesse quem dissesse que ele não podia ter-se apunhalado e caído naquela posição. Disseram que foi assassinado. O pai morreu na prisão. Tentaram imputar-lhe o homicídio, mas não havia motivo, ou não havia provas, ou qualquer outra coisa. Já não me lembro bem."
"Muito bonito," disse Shorthouse.
"Vou mostrar-lhe algo extremamente estranho, de qualquer maneira," arrastou ela, "se vier lá acima um minuto. Já ouvi os passos e as vozes muitas vezes; não me perturbam nada. Preferia ouvir tantos cães a ladrar. Encontrará a história toda nos jornais se procurar — não o que acontece aqui, mas a história dos alemães. A minha casa estaria arruinada se contassem tudo, e eu processaria por danos."
Chegaram ao quarto, e a mulher entrou e levantou a ponta do tapete onde Shorthouse tinha visto o sangue a impregnar-se na noite anterior.
"Olhe ali, se lhe apetecer," disse a velha bruxa. Inclinando-se, ele viu uma mancha escura e baça nas tábuas que correspondia exatamente à forma e à posição do sangue tal como ele o tinha visto.
Naquela noite, dormiu num hotel e, no dia seguinte, procurou novas acomodações. Nos jornais arquivados no seu escritório, após uma longa busca, encontrou a história detalhada de há vinte anos, substancialmente como a mulher tinha dito, sobre a falência da Steinhardt & Co., a fuga e subsequente detenção do sócio principal, e o suicídio, ou assassínio, do seu filho Otto. A pensão da senhoria tinha sido, anteriormente, a residência privada deles.
CUMPRINDO A SUA PROMESSA
Eram onze horas da noite, e o jovem Marriott estava trancado no seu quarto, a estudar tanto quanto podia. Ele era um "Aluno do Quarto Ano" na Universidade de Edimburgo e tinha reprovado neste exame em particular tantas vezes que os seus pais tinham declarado categoricamente que não podiam mais fornecer os fundos para o manter lá.
Os seus quartos eram baratos e sombrios, mas eram as propinas das aulas que consumiam o dinheiro. Por isso, Marriott recompôs-se finalmente e decidiu definitivamente que passaria ou morreria na tentativa, e, durante algumas semanas, tem lido tanto quanto um homem mortal pode ler. Estava a tentar compensar o tempo e o dinheiro perdidos de uma forma que mostrava conclusivamente que não entendia o valor de nenhum dos dois. Pois nenhum homem comum — e Marriott era, em todos os sentidos, um homem comum — pode permitir-se forçar a mente como ele tinha estado a forçar a sua, sem mais cedo ou mais tarde pagar o custo.
Entre os estudantes, ele tinha poucos amigos ou conhecidos, e esses poucos tinham prometido não o incomodar à noite, sabendo que ele finalmente estava a estudar a sério. Foi, portanto, com sentimentos muito mais fortes do que uma mera surpresa que ele ouviu a sua campainha tocar nesta noite em particular e percebeu que ia ter um visitante. Alguns homens teriam simplesmente abafado a campainha e continuado tranquilamente o seu trabalho. Mas Marriott não era desse tipo. Ele era nervoso. Tê-lo-ia incomodado e roído a mente durante toda a noite não saber quem era o visitante e o que ele queria. A única coisa a fazer, portanto, era deixá-lo entrar — e sair novamente — o mais rapidamente possível.
A senhoria ia para a cama às dez horas em ponto, hora após a qual nada a faria fingir que ouvia a campainha, por isso Marriott saltou dos seus livros com uma exclamação que augurava mal para a receção do seu visitante, e preparou-se para o deixar entrar com as suas próprias mãos.
As ruas da cidade de Edimburgo estavam muito silenciosas a esta hora tardia — era tarde para Edimburgo — e na vizinhança tranquila da Rua F----, onde Marriott vivia no terceiro andar, quase nenhum som quebrava o silêncio. Enquanto atravessava o quarto, a campainha tocou uma segunda vez, com um clamor desnecessário, e ele abriu a porta e passou para o pequeno corredor com uma ira e um aborrecimento consideráveis no coração pela insolência da dupla interrupção.
"Os rapazes todos sabem que estou a estudar para este exame. Por que carga de água vêm incomodar-me a uma hora tão estranha?"
Os habitantes do edifício, além dele próprio, eram estudantes de medicina, estudantes gerais, pobres advogados, e alguns outros cujas vocações talvez não fossem tão óbvias. A escadaria de pedra, fracamente iluminada em cada andar por um bico de gás que não passava de uma certa altura, serpenteava até ao nível da rua sem qualquer pretensão de tapete ou corrimão. Em alguns níveis, era mais limpa do que noutros. Dependia da senhoria do nível em questão.
As propriedades acústicas de uma escada em espiral parecem ser peculiares. Marriott, de pé junto à porta aberta, livro na mão, pensava a cada momento que o dono dos passos apareceria. O som das botas era tão próximo e tão alto que pareciam viajar desproporcionalmente à frente da sua causa. Perguntando-se quem poderia ser, ficou pronto com todo o tipo de saudações ríspidas para o homem que ousava assim interromper o seu trabalho. Mas o homem não apareceu. Os passos soavam quase debaixo do seu nariz, mas ninguém era visível.
Uma estranha sensação repentina de medo passou por ele — um desfalecimento e um arrepio pela espinha abaixo. Passou, no entanto, quase tão depressa quanto veio, e ele estava apenas a debater se chamaria em voz alta pelo seu visitante invisível, ou se bateria a porta e voltaria para os seus livros, quando a causa da perturbação virou a esquina muito lentamente e apareceu.
Era um estranho. Viu um homem um tanto jovem, de figura baixa e muito larga. O seu rosto era da cor de um pedaço de giz e os olhos, que eram muito brilhantes, tinham linhas pesadas por baixo. Embora as faces e o queixo estivessem por barbear e a aparência geral desleixada, o homem era evidentemente um cavalheiro, pois estava bem vestido e portava-se com certo ar. Mas, o mais estranho de tudo, não usava chapéu, e não trazia nenhum na mão; e embora a chuva tivesse caído constantemente durante toda a noite, ele parecia não ter nem sobretudo nem guarda-chuva.
Cem perguntas surgiram na mente de Marriott e acorreram aos seus lábios, entre as quais a principal era algo como "Quem é você?" e "O que raio quer você de mim?". Mas nenhuma destas perguntas encontrou tempo para se expressar em palavras, pois quase de imediato o visitante virou a cabeça um pouco, de modo que a luz do gás no corredor caiu sobre os seus traços a partir de um novo ângulo. Então, num flash, Marriott reconheceu-o.
"Field! Meu caro! És tu?" ele ofegou.
O Aluno do Quarto Ano não carecia de intuição, e percebeu imediatamente que ali estava um caso para tratamento delicado. Ele adivinhou, sem qualquer processo real de pensamento, que a catástrofe muitas vezes prevista tinha finalmente acontecido, e que o pai daquele homem o tinha expulsado de casa. Eles tinham estado juntos numa escola privada anos antes, e embora quase não se tivessem encontrado uma única vez desde então, a notícia não tinha deixado de chegar a ele de tempos a tempos com detalhes consideráveis, pois a família vivia perto da sua e entre certas irmãs havia grande intimidade. O jovem Field tinha enlouquecido mais tarde, lembrou-se de ouvir falar de tudo isso — bebida, uma mulher, ópio, ou algo do género — ele não se conseguia lembrar exatamente.
"Entra," disse ele imediatamente, a sua raiva a desaparecer. "Algo correu mal, posso ver. Entra, conta-me tudo sobre isso e talvez eu possa ajudar..." Ele quase não sabia o que dizer, e gaguejou muito mais além disso. O lado negro da vida, e o horror dela, pertencia a um mundo que ficava remoto da sua própria pequena atmosfera selecionada de livros e devaneios. Mas ele tinha um coração de homem, apesar de tudo.
Ele liderou o caminho através do corredor, fechando a porta da frente cuidadosamente atrás de si, e notou, ao fazê-lo, que o outro, embora certamente sóbrio, estava instável nas pernas, e evidentemente muito exausto. Marriott poderia não ser capaz de passar nos seus exames, mas pelo menos conhecia os sintomas de fome — fome aguda, a menos que estivesse muito enganado — quando eles lhe encaravam a cara.
"Vem daí," disse ele alegremente, e com genuína simpatia na voz. "Fico contente por te ver. Eu ia comer qualquer coisa, e chegaste a tempo de te juntares a mim."
O outro não fez nenhuma resposta audível, e arrastou os pés tão debilmente que Marriott segurou-lhe o braço como forma de apoio. Notou pela primeira vez que as roupas pendiam nele com uma folga piedosa. A estrutura larga era literalmente pouco mais do que uma estrutura. Ele estava tão magro quanto um esqueleto. Mas, ao tocá-lo, a sensação de desfalecimento e medo regressou. Durou apenas um momento, e depois passou, e ele atribuiu-a, não de forma não natural, ao sofrimento e ao choque de ver um antigo amigo num estado tão lastimável.
"É melhor deixares-me guiar-te. Está vergonhosamente escuro — este corredor. Estou sempre a queixar-me," disse ele levemente, reconhecendo pelo peso sobre o seu braço que a orientação era extremamente necessária, "mas a velha gata nunca faz nada a não ser prometer." Ele levou-o até ao sofá, perguntando-se todo o tempo de onde ele tinha vindo e como tinha descoberto o endereço. Deviam ter passado pelo menos sete anos desde aqueles dias na escola privada em que costumavam ser amigos tão próximos.
"Agora, se me perdoares por um minuto," disse ele, "vou preparar o jantar — o que há. E não te incomodes a falar. Apenas descansa no sofá. Vejo que estás morto de cansaço. Podes contar-me sobre isso depois, e faremos planos."
O outro sentou-se na ponta do sofá e olhou em silêncio, enquanto Marriott tirava o pão escuro, scones e o enorme pote de marmelada que os estudantes de Edimburgo mantêm sempre nos seus armários. Os seus olhos brilhavam com um brilho que sugeria drogas, pensou Marriott, lançando-lhe um olhar furtivo de trás da porta do armário. Ele ainda não queria olhar de frente. O indivíduo estava num mau estado, e teria sido muito parecido com um exame olhar fixamente e esperar por explicações. Além disso, ele estava evidentemente quase exausto demais para falar. Por isso, por razões de delicadeza — e por uma outra razão também que ele não conseguia formular exatamente para si próprio — ele deixou o seu visitante descansar aparentemente despercebido, enquanto se ocupava com o jantar. Acendeu o candeeiro de espírito para fazer cacau, e quando a água estava a ferver, puxou a mesa com as boas coisas para o sofá, para que Field não tivesse sequer o incómodo de se mudar para uma cadeira.
"Agora, vamos comer," disse ele, "e depois fumaremos um cachimbo e conversaremos. Estou a estudar para um exame, sabes, e como sempre qualquer coisa a esta hora. É agradável ter companhia."
Ele olhou para cima e apanhou os olhos do seu convidado dirigidos diretamente para os seus. Um arrepio involuntário percorreu-o da cabeça aos pés. O rosto à sua frente estava mortalmente branco e exibia uma expressão terrível de dor e sofrimento mental.
"Por Deus!" disse ele, saltando, "Esqueci-me completamente. Tenho algum uísque algures. Que asno que sou. Nunca lhe toco quando estou a trabalhar assim."
Ele foi ao armário e serviu um copo forte que o outro engoliu de um só gole e sem qualquer água. Marriott observou-o enquanto ele bebia, e ao mesmo tempo notou outra coisa também — o casaco de Field estava cheio de pó, e num dos ombros havia um bocado de teia de aranha. Ele estava perfeitamente seco; Field chegou numa noite de chuva torrencial sem chapéu, guarda-chuva ou sobretudo, e ainda assim perfeitamente seco, até empoeirado. Portanto, ele tinha estado sob cobertura. O que significava tudo aquilo? Teria estado escondido no edifício? ...
Era muito estranho. Ainda assim, ele não se ofereceu para nada; e Marriott tinha, a esta altura, decidido que não faria perguntas até que ele tivesse comido e dormido. Comida e sono eram obviamente o que o pobre diabo precisava mais e primeiro — ele estava satisfeito com os seus poderes de diagnóstico rápido — e não seria justo pressioná-lo até que ele tivesse recuperado um pouco.
Comeram o seu jantar juntos enquanto o anfitrião mantinha uma conversa contínua de um lado só, principalmente sobre si próprio e os seus exames e a sua "velha gata" de senhoria, para que o convidado não tivesse de proferir uma única palavra a menos que realmente desejasse — o que evidentemente não desejava! Mas, enquanto ele brincava com a comida, não sentindo qualquer desejo de comer, o outro comia vorazmente. Ver um homem esfomeado devorar scones frios, biscoitos de aveia velhos e pão escuro carregado de marmelada era uma revelação para este estudante inexperiente que nunca tinha sabido o que era estar sem pelo menos três refeições por dia. Ele observava, apesar de si próprio, perguntando-se porque é que o indivíduo não se engasgava no processo.
Mas Field parecia estar tão sonolento quanto faminto. Mais de uma vez a sua cabeça caiu e ele parou de mastigar a comida que tinha na boca. Marriott teve de o sacudir positivamente antes que ele continuasse a refeição. Uma emoção mais forte superará uma mais fraca, mas esta luta entre o aguilhão da fome real e o ópio mágico do sono avassalador era uma visão curiosa para o estudante, que a observava com uma mistura de espanto e alarme. Ele tinha ouvido falar do prazer que era alimentar homens famintos e vê-los comer, mas nunca tinha testemunhado isso na realidade, e não fazia ideia de que fosse assim. Field comia como um animal — engolia, empanturrava-se, devorava. Marriott esqueceu a sua leitura e começou a sentir algo muito parecido com um nó na garganta.
"Receio que tenha havido muito pouco para lhe oferecer, meu velho", conseguiu ele balbuciar quando, finalmente, o último scone desapareceu e a refeição rápida e unilateral chegou ao fim. Field continuava sem responder, pois estava quase a dormir no seu lugar. Ele apenas olhou para cima, cansado e agradecido.
"Agora tem de dormir um pouco, sabe", continuou ele, "ou vai desmoronar-se. Vou passar a noite toda a estudar para este bendito exame. A minha cama é toda sua. Amanhã tomaremos um pequeno-almoço tardio e... e veremos o que se pode fazer... e faremos planos... sou muito bom a fazer planos, sabe", acrescentou ele com uma tentativa de leveza.
Field manteve o seu silêncio de "morto de sono", mas pareceu aquiescer, e o outro abriu caminho para o quarto, pedindo desculpa, enquanto o fazia, a este filho de um baronete meio esfomeado — cuja própria casa era quase um palácio — pelo tamanho do quarto. O hóspede exausto, no entanto, não fez qualquer fingimento de gratidão ou cortesia. Ele apenas se apoiou no braço do seu amigo enquanto cambaleava pelo quarto e, então, com toda a roupa vestida, deixou cair o seu corpo exausto na cama. Em menos de um minuto, estava, a todas as aparências, profundamente adormecido.
Durante vários minutos, Marriott permaneceu na porta aberta a observá-lo, rezando fervorosamente para que nunca se encontrasse numa situação semelhante, e depois começou a pensar no que faria com o seu hóspede não convidado no dia seguinte. Mas não parou muito tempo para pensar, pois o apelo dos seus livros era imperativo e, acontecesse o que acontecesse, ele tinha de garantir que passava naquele exame.
Tendo trancado novamente a porta para o corredor, sentou-se junto aos livros e retomou as suas notas sobre matéria médica onde as tinha deixado quando a campainha tocou. Mas foi difícil, durante algum tempo, concentrar a mente no assunto. Os seus pensamentos continuavam a vaguear para a imagem daquele sujeito de rosto pálido e olhos estranhos, esfomeado e sujo, deitado com as suas roupas e botas na cama. Recordou os seus dias de escola juntos antes de se terem afastado, e como tinham jurado amizade eterna — e tudo o resto. E agora! Que situação horrível em que estar. Como poderia qualquer homem deixar que o amor pela dissipação se apoderasse dele de tal forma?
Mas um dos seus votos conjuntos Marriott, ao que parecia, tinha esquecido completamente. Por agora, pelo menos, jazia demasiado longe no fundo da sua memória para ser recordado.
Através da porta entreaberta — o quarto dava para a sala de estar e não tinha outra porta — vinha o som de uma respiração profunda e prolongada, a respiração regular e constante de um homem cansado, tão cansado que, só de ouvi-la, Marriott quase queria dormir ele próprio.
"Ele precisava disto", refletiu o estudante, "e talvez tenha vindo mesmo a tempo!"
Talvez; pois lá fora o vento amargo que vinha de além do Forth uivava cruelmente e empurrava a chuva em correntes frias contra os vidros das janelas e pelas ruas desertas. Muito antes de Marriott se instalar novamente de forma adequada para a sua leitura, ele ouvia ao longe, por assim dizer, através das frases do livro, a respiração pesada e profunda do adormecido na sala ao lado.
Duas horas mais tarde, quando ele bocejou e trocou de livros, ainda ouvia a respiração e foi cautelosamente até à porta para espreitar.
Ao princípio, a escuridão do quarto deve tê-lo enganado, ou então os seus olhos estavam confusos e deslumbrados pelo brilho recente do candeeiro de leitura. Durante um minuto ou dois, não conseguiu distinguir absolutamente nada, a não ser vultos escuros de mobiliário, a massa da cómoda junto à parede e a mancha branca onde a sua banheira estava no centro do chão.
Depois, a cama apareceu lentamente à vista. E nela viu o contorno do corpo adormecido ganhar forma gradualmente diante dos seus olhos, crescendo estranhamente na escuridão, até se destacar em relevo marcado — a longa forma negra contra a colcha branca.
Ele dificilmente conseguiu evitar sorrir. Field não se tinha movido um centímetro. Observou-o por um momento ou dois e depois voltou para os seus livros. A noite estava cheia das vozes cantantes do vento e da chuva. Não havia som de tráfego; nenhum hansom batia sobre os paralelepípedos, e ainda era demasiado cedo para as carroças do leite. Ele trabalhou de forma constante e conscienciosa, parando apenas de vez em quando para trocar um livro, ou para bebericar um pouco daquela coisa venenosa que o mantinha acordado e tornava o seu cérebro tão ativo, e nessas ocasiões a respiração de Field era sempre distintamente audível no quarto. Lá fora, a tempestade continuava a uivar, mas dentro de casa tudo era silêncio. A sombra do candeeiro de leitura lançava toda a luz sobre a mesa cheia de papéis, deixando a outra extremidade do quarto numa escuridão comparativa. A porta do quarto ficava exatamente em frente a ele, onde se sentava. Não havia nada para perturbar o trabalhador, nada além de uma rajada ocasional de vento contra as janelas e uma leve dor no seu braço.
Esta dor, no entanto, que ele não conseguia explicar, tornou-se uma ou duas vezes muito aguda. Incomodava-o; e tentou lembrar-se de como, e quando, se poderia ter nódoas negras tão severas, mas sem sucesso.
A certa altura, a página à sua frente tornou-se de amarela para cinzenta, e ouviram-se sons de rodas na rua lá em baixo. Eram quatro horas. Marriott recostou-se e bocejou prodigiosamente. Depois, puxou as cortinas. A tempestade tinha diminuído e o Castle Rock estava envolto em nevoeiro. Com outro bocejo, afastou-se da vista lúgubre e preparou-se para dormir as quatro horas restantes até ao pequeno-almoço no sofá. Field continuava a respirar pesadamente na sala ao lado, e ele primeiro caminhou na ponta dos pés pelo chão para dar outra vista de olhos nele.
Espreitando cautelosamente pela porta entreaberta, o seu primeiro olhar caiu sobre a cama, agora claramente discernível na luz cinzenta da manhã. Ele olhou fixamente. Depois esfregou os olhos. Depois esfregou os olhos novamente e enfiou a cabeça mais para além da borda da porta. Com os olhos fixos, olhou ainda mais fixamente, e mais ainda.
Mas não fez diferença nenhuma. Ele estava a olhar para um quarto vazio.
A sensação de medo que sentira quando Field apareceu pela primeira vez em cena regressou subitamente, mas com muito maior força. Ficou consciente, também, de que o seu braço esquerdo estava a latejar violentamente e a causar-lhe grande dor. Ficou ali a perguntar-se, a olhar fixamente e a tentar organizar os seus pensamentos. Estava a tremer da cabeça aos pés.
Por um grande esforço de vontade, abandonou o apoio da porta e caminhou corajosamente para dentro do quarto.
Ali, sobre a cama, estava a marca de um corpo, onde Field se tinha deitado e dormido. Ali estava a marca da cabeça na almofada, e a ligeira indentação ao pé da cama onde as botas tinham repousado sobre a colcha. E ali, mais nítida do que nunca — pois ele estava mais próximo dela — estava a respiração!
Marriott tentou recompor-se. Com um grande esforço, encontrou a sua voz e chamou o seu amigo em voz alta pelo nome!
"Field! É você? Onde está?"
Não houve resposta; mas a respiração continuou sem interrupção, vindo diretamente da cama. A sua voz tinha um som tão pouco familiar que Marriott não quis repetir as perguntas, mas pôs-se de joelhos e examinou a cama por cima e por baixo, puxando finalmente o colchão para fora e retirando as cobertas separadamente, uma a uma. Mas, embora os sons continuassem, não havia sinal visível de Field, nem havia qualquer espaço em que um ser humano, por mais pequeno que fosse, se pudesse ter escondido. Puxou a cama para longe da parede, mas o som manteve-se onde estava. Não se moveu com a cama.
Marriott, achando o autocontrolo um pouco difícil na sua condição de cansaço, começou imediatamente uma busca exaustiva pelo quarto. Revistou o armário, a cómoda, o pequeno nicho onde a roupa pendurava — tudo. Mas não havia sinal de ninguém. A pequena janela perto do teto estava fechada; e, de qualquer forma, não era grande o suficiente para deixar passar um gato. A porta da sala de estar estava trancada pelo lado de dentro; ele não poderia ter saído por aquele caminho. Pensamentos curiosos começaram a preocupar a mente de Marriott, trazendo consigo sensações indesejadas. Ficou cada vez mais agitado; revistou a cama novamente até ela se assemelhar ao cenário de uma luta de almofadas; revistou ambos os quartos, sabendo a todo o momento que era inútil — e então revistou novamente. Um suor frio rompeu por todo o seu corpo; e o som da respiração pesada, durante todo este tempo, nunca deixou de vir do canto onde Field se tinha deitado para dormir.
Então, tentou outra coisa. Empurrou a cama de volta exatamente para a sua posição original — e ele próprio deitou-se nela exatamente onde o seu hóspede se tinha deitado. Mas, no mesmo instante, saltou novamente num único impulso. A respiração estava bem ao lado dele, quase na sua bochecha, e entre ele e a parede! Nem uma criança se poderia ter espremido naquele espaço.
Voltou para a sua sala de estar, abriu as janelas, acolhendo toda a luz e ar possíveis, e tentou pensar sobre todo o assunto de forma calma e clara. Homens que liam demasiado e dormiam demasiado pouco, ele sabia, eram por vezes perturbados por alucinações muito vívidas. Mais uma vez, reviu calmamente cada incidente da noite; as suas sensações precisas; os detalhes vívidos; as emoções despertadas nele; o banquete terrível — nenhuma alucinação isolada poderia combinar tudo isto e cobrir um período de tempo tão longo. Mas, com menos satisfação, pensou na recorrência da fraqueza e na curiosa sensação de horror que o atingira uma ou duas vezes, e depois nas dores violentas no seu braço. Eram totalmente inexplicáveis.
Além disso, agora que começava a analisar e examinar, havia uma outra coisa que o atingiu como uma revelação súbita: _Durante todo o tempo, Field não tinha, na verdade, proferido uma única palavra!_ No entanto, como se fosse um escárnio às suas reflexões, vinha sempre daquele quarto interior o som da respiração, longa, profunda e regular. A coisa era inacreditável. Era absurda.
Assombrado por visões de febre cerebral e insanidade, Marriott colocou o seu boné e o seu impermeável e saiu de casa. O ar matinal em Arthur's Seat limparia as teias de aranha do seu cérebro; o perfume da urze e, acima de tudo, a visão do mar. Vagueou pelas encostas húmidas acima de Holyrood durante algumas horas e não regressou até que o exercício tivesse sacudido um pouco do horror dos seus ossos e lhe desse um apetite voraz como bónus.
Ao entrar, viu que havia outro homem na sala, de pé junto à janela, de costas para a luz. Reconheceu o seu colega estudante Greene, que estava a estudar para o mesmo exame.
"Estudei muito a noite toda, Marriott", disse ele, "e pensei em passar por aqui para comparar notas e tomar o pequeno-almoço. Saiu cedo?" acrescentou ele, como forma de pergunta. Marriott disse que tinha uma dor de cabeça e que uma caminhada tinha ajudado, e Greene acenou com a cabeça e disse "Ah!". Mas, quando a rapariga pôs o porridge a fumegar sobre a mesa e saiu novamente, ele continuou com um tom um tanto forçado: "Não sabia que tinhas amigos que bebiam, Marriott?"
Isto era obviamente uma tentativa, e Marriott respondeu secamente que também não sabia.
"Parece exatamente como se algum tipo estivesse a 'curar a bebedeira' ali dentro, não parece, no entanto?", insistiu o outro, com um aceno na direção do quarto, e olhando curiosamente para o seu amigo. Os dois homens olharam firmemente um para o outro durante vários segundos, e então Marriott disse seriamente:
"Então você ouve também, graças a Deus!"
"Claro que ouço. A porta está aberta. Lamento se não era para eu ouvir."
"Oh, não me refiro a isso", disse Marriott, baixando a voz. "Mas sinto-me imensamente aliviado. Deixe-me explicar. Claro, se você também ouve, então está tudo bem; mas a sério, isso assustou-me mais do que consigo dizer. Pensei que estava a ter uma febre cerebral, ou algo do género, e sabe quanta coisa depende deste exame. Começa sempre com sons, ou visões, ou algum tipo de alucinação bestial, e eu..."
"Tretas!" exclamou o outro impacientemente. "Do que é que estás a falar?"
"Agora, ouve-me, Greene", disse Marriott, tão calmamente quanto podia, pois a respiração ainda era claramente audível, "e eu dir-te-ei o que quero dizer, apenas não interrompas." E logo a seguir, relatou exatamente o que tinha acontecido durante a noite, contando tudo, até à dor no seu braço. Quando terminou, levantou-se da mesa e atravessou a sala.
"Ouves a respiração agora claramente, não ouves?" disse ele. Greene disse que sim. "Bem, vem comigo e revistaremos o quarto juntos." O outro, no entanto, não se moveu da sua cadeira.
"Eu já lá entrei", disse ele timidamente; "Ouvi os sons e pensei que fosses tu. A porta estava entreaberta — por isso entrei."
Marriott não fez comentários, mas empurrou a porta para abri-la o máximo que podia. À medida que ela se abria, o som da respiração tornava-se cada vez mais distinto.
"Alguém deve estar lá dentro", disse Greene em voz baixa.
"Alguém está lá dentro, mas onde?" disse Marriott. Mais uma vez, insistiu com o seu amigo para entrar com ele. Mas Greene recusou categoricamente; disse que já lá tinha estado uma vez e tinha revistado o quarto e não havia lá nada. Ele não voltaria a entrar por nada.
Fecharam a porta e retiraram-se para o outro quarto para discutir tudo com muitos cachimbos. Greene questionou o seu amigo muito minuciosamente, mas sem resultados esclarecedores, uma vez que as perguntas não podem alterar os factos.
"A única coisa que deveria ter uma explicação lógica e adequada é a dor no meu braço", disse Marriott, esfregando aquele membro com uma tentativa de sorriso. "Dói tanto infernalmente e lateja até lá acima. Não me lembro de o ter magoado, no entanto."
"Deixa-me examiná-lo por ti", disse Greene. "Sou muito bom em ossos, apesar da opinião dos examinadores em contrário." Foi um alívio brincar um pouco, e Marriott tirou o casaco e arregaçou a manga.
"Pela minha alma, no entanto, estou a sangrar!" exclamou ele. "Olha aqui! O que raio é isto?"
No antebraço, bem perto do pulso, havia uma fina linha vermelha. Havia uma pequena gota de sangue aparentemente fresco nela. Greene aproximou-se e olhou atentamente para ela durante alguns minutos. Depois, sentou-se na sua cadeira, olhando curiosamente para o rosto do seu amigo.
"Arranhaste-te sem saberes", disse ele pouco depois.
"Não há sinal de contusão. Deve ter sido outra coisa que fez o braço doer."
Marriott ficou muito imóvel, a olhar silenciosamente para o seu braço como se a solução de todo o mistério estivesse ali realmente escrita na pele.
"Qual é o problema? Não vejo nada de muito estranho num arranhão", disse Greene, com um tom de voz pouco convincente. "Foram provavelmente os teus botões de punho. Ontem à noite na tua agitação..."
Mas Marriott, branco até aos lábios, tentava falar. O suor estava em grandes gotas na sua testa. Finalmente, inclinou-se para a frente, perto do rosto do seu amigo.
"Olha", disse ele, numa voz baixa que tremia um pouco. "Vês aquela marca vermelha? Refiro-me por baixo do que chamas de arranhão?"
Greene admitiu que via uma coisa ou outra, e Marriott limpou o local com o seu lenço e disse-lhe para olhar novamente com mais atenção.
"Sim, estou a ver", respondeu o outro, levantando a cabeça após um momento de inspeção cuidadosa. "Parece uma cicatriz antiga."
"É uma cicatriz antiga", sussurrou Marriott, com os lábios a tremer. "Agora tudo me volta à memória."
"Tudo o quê?" Greene inquietou-se na sua cadeira. Tentou rir, mas sem sucesso. O seu amigo parecia à beira do colapso.
"Shh! Fica quieto e... eu conto-te", disse ele. "Foi Field que fez essa cicatriz."
Durante um minuto inteiro, os dois homens olharam-se um ao outro diretamente na cara sem falar.
"Foi Field que fez essa cicatriz!" repetiu Marriott por fim, com uma voz mais alta.
"Field! Queres dizer... ontem à noite?"
"Não, não foi ontem à noite. Há anos... na escola, com a sua faca. E eu fiz uma cicatriz no braço dele com a minha." Marriott falava agora rapidamente.
"Trocámos gotas de sangue nos cortes um do outro. Ele pôs uma gota no meu braço e eu pus uma no dele..."
"Em nome do céu, para quê?"
"Era um pacto de rapazes. Fizemos uma promessa sagrada, um acordo. Lembro-me de tudo perfeitamente agora. Tínhamos estado a ler um livro horrível e jurámos aparecer um ao outro — quero dizer, quem morresse primeiro jurou mostrar-se ao outro. E selámos o pacto com o sangue um do outro. Lembro-me de tudo tão bem — aquela tarde quente de verão no recreio, há sete anos — e um dos professores apanhou-nos e confiscou as facas — e nunca mais pensei nisto até ao dia de hoje..."
"E queres dizer..." gaguejou Greene.
Mas Marriott não deu resposta. Levantou-se e atravessou a sala e deitou-se cansado no sofá, escondendo o rosto nas mãos.
O próprio Greene ficou um pouco desconcertado. Deixou o seu amigo sozinho durante algum tempo, pensando em tudo novamente. De repente, uma ideia pareceu ocorrer-lhe. Foi até onde Marriott ainda jazia imóvel no sofá e acordou-o. De qualquer forma, era melhor enfrentar o assunto, houvesse ou não uma explicação. Desistir era sempre a saída estúpida.
"Diz-me, Marriott", começou ele, enquanto o outro virava o seu rosto pálido para ele. "Não vale a pena ficar tão perturbado com isto. Quero dizer... se é tudo uma alucinação, sabemos o que fazer. E se não for... bem, sabemos o que pensar, não sabemos?"
Marriott acenou com a cabeça.
"Só há uma coisa que me ocorre", continuou Greene, "e é, tens a certeza absoluta de que... de que ele realmente comeu assim — quero dizer, de que ele realmente comeu alguma coisa?" terminou ele, deixando escapar todo o seu pensamento.
Marriott olhou para ele por um momento e depois disse que poderia facilmente ter a certeza. Falou calmamente. Após o choque principal, nenhuma surpresa menor o poderia afetar.
"Eu próprio guardei as coisas", disse ele, "depois de termos terminado. Estão na terceira prateleira daquele armário. Ninguém lhes tocou desde então."
Apontou sem se levantar, e Greene seguiu a sugestão e foi ver.
"Exatamente", disse ele, após uma breve inspeção; "exatamente como eu pensava. Foi parcialmente alucinação, de qualquer forma. As coisas não foram tocadas. Vem ver tu mesmo."
Juntos examinaram a prateleira. Lá estava o pão escuro, o prato de scones velhos, o biscoito de aveia, tudo intocado. Até o copo de whisky que Marriott tinha servido estava lá com o whisky ainda dentro.
"Estavas a alimentar... ninguém", disse Greene. "Field não comeu nem bebeu nada. Ele não estava lá de todo!"
"Mas a respiração?" insistiu o outro em voz baixa, olhando com uma expressão atordoada no rosto.
Greene não respondeu. Caminhou até ao quarto, enquanto Marriott o seguia com os olhos. Abriu a porta e escutou. Não eram precisas palavras. O som da respiração profunda e regular vinha flutuando pelo ar. Não havia alucinação sobre isso, de qualquer forma. Marriott conseguia ouvi-lo onde estava, do outro lado da sala.
Greene fechou a porta e voltou. "Só há uma coisa a fazer", declarou com decisão. "Escrever para casa e informar-se sobre ele e, entretanto, vir terminar a sua leitura nos meus aposentos. Tenho uma cama extra."
"Acordado", respondeu o Estudante do Quarto Ano; "não há alucinação quanto a esse exame; tenho de passar, aconteça o que acontecer."
E foi isso que fizeram.
Passou cerca de uma semana quando Marriott recebeu a resposta da sua irmã. Leu parte dela a Greene--
"É curioso", escreveu ela, "que na tua carta tenhas perguntado pelo Field. Parece algo terrível, mas sabes que há pouco tempo a paciência do Sir John esgotou-se e ele expulsou-o de casa, dizem que sem um centavo. Bem, o que achas? Ele matou-se. Pelo menos, parece suicídio. Em vez de sair da casa, desceu para a adega e simplesmente deixou-se morrer à fome. . . . Estão a tentar abafar o caso, claro, mas ouvi tudo da minha criada, que soube pelo lacaio deles. . . . Encontraram o corpo no dia 14 e o médico disse que ele tinha morrido cerca de doze horas antes. . . . Estava terrivelmente magro. . . ."
"Então ele morreu no dia 13", disse Greene.
Marriott assentiu.
"É precisamente a noite em que ele te foi ver."
Marriott assentiu de novo.
COM INTENÇÃO DE ROUBAR
Dormir num celeiro solitário quando os melhores quartos da casa estavam à nossa disposição parecia, no mínimo, desnecessário, e senti que devíamos uma explicação ao nosso anfitrião.
Mas Shorthouse, descobri logo, tinha tratado de tudo isso; o nosso empreendimento seria tolerado, não acolhido, pois o dono da casa reprimia este tipo de coisas com mão firme. E depois, quão pouco consegui que este homem, Shorthouse, me contasse. Havia muito que eu queria perguntar e ouvir, mas ele cercava-se de barreiras intransponíveis. Era ridículo; ele estava certamente a pedir-me muito, e ainda assim dava tão pouco em troca, e a sua razão — que era para meu bem — podia ser perfeitamente verdadeira, mas não me trazia qualquer conforto. Dava-me, contudo, algumas migalhas de vez em quando para manter a minha curiosidade, até que logo me apercebi de que cresciam lado a lado dentro de mim um interesse genuíno e um medo igualmente genuíno; e algo de ambos é provavelmente necessário para toda a verdadeira excitação.
O celeiro em questão ficava a alguma distância da casa, do lado dos estábulos, e eu tinha passado por ele em várias das minhas idas e vindas, admirado com o seu aspeto desolado e desprovido de alcatrão sob um regime onde tudo era tão impecável; mas nunca me tinha ocorrido como possível que eu viesse passar uma noite sob o seu teto com um conhecido recente e sofresse ali uma experiência pertencente a uma ordem de coisas que eu sempre tinha, de certa forma, ridicularizado e desprezado.
No momento, só consigo recordar parcialmente o processo pelo qual Shorthouse me persuadiu a fazer-lhe companhia. Como eu, ele era um convidado nesta festa de outono e, onde havia tantos para tagarelar e gracejar, penso que a sua taciturnidade de modos me atraiu pelo contraste, e que eu desejava retribuir algo do que lhe devia. Havia, sem dúvida, lisonja nisso também, pois ele tinha mais do dobro da minha idade, um homem de uma experiência incrivelmente vasta, um explorador de todos os cantos do mundo onde o perigo espreitava e — a mais subtil lisonja de todas — de longe o melhor atirador de todo o grupo, incluindo o nosso anfitrião.
No início, contudo, resisti um pouco.
"Mas certamente esta história que contas", disse eu, "tem a paternidade comum a todos esses contos — um coração supersticioso e um cérebro imaginativo — e cresceu agora por repetição frequente numa autêntica história de fantasmas? Além disso, este jardineiro-chefe de há meio século", acrescentei, vendo que ele continuava a limpar a sua arma em silêncio, "quem era ele e que informação positiva tens sobre ele além do facto de ter sido encontrado enforcado nas vigas, morto?"
"Ele não era um mero jardineiro-chefe, este homem que se fazia passar por tal", respondeu ele sem levantar os olhos, "mas um sujeito de educação esplêndida que usava este disfarce curioso para os seus próprios fins. Parte deste mesmo celeiro, do qual ele guardava sempre a chave, foi descoberta como tendo sido equipada como um laboratório completo, com atanor, alambique, cucúrbita e outros aparelhos, alguns dos quais o dono destruiu de imediato — talvez para melhor — e sobre os quais só consegui fazer suposições..."
"Artes Negras", ri-me.
"Quem sabe?", replicou ele calmamente. "O homem possuía sem dúvida conhecimento — conhecimento sombrio — que era muito invulgar e perigoso, e não consigo descobrir meios pelos quais ele o obteve — nenhum meio comum, isto é. Mas encontrei muitos factos no caso que apontam para o exercício de uma vontade desesperada e sem escrúpulos; e os estranhos desaparecimentos na vizinhança, bem como os ossos encontrados enterrados na horta, embora nunca realmente ligados a ele, parecem-me cheios de sugestões terríveis."
Ri-me de novo, talvez um pouco desconfortável, e disse que fazia lembrar a história de Gilles de Rais, marechal de França, de quem se dizia ter morto e torturado até à morte em poucos anos nada menos que cento e sessenta mulheres e crianças para fins de necromancia, e que foi executado pelos seus crimes em Nantes. Mas Shorthouse não "entrou no jogo" e apenas voltou ao seu assunto.
"O seu suicídio parece ter sido mesmo a tempo de escapar à detenção", disse ele.
"Um mágico de baixa estirpe, então", observei cético, "se o suicídio foi a sua única forma de escapar à polícia rural."
"À polícia de Londres e de São Petersburgo, melhor dizendo", respondeu Shorthouse; "pois a sede desta bela companhia ficava algures na Rússia, e o seu aparelho ostentava todo as marcas do fabrico estrangeiro mais habilidoso. Uma mulher russa então empregada na casa — governanta, ou algo do género — desapareceu também por volta da mesma altura e nunca foi apanhada. Ela era, sem dúvida, a mais inteligente do grupo. E lembra-te, o objetivo deste grupo aterrador não era o ganho vulgar, mas um tipo de conhecimento que exigia as mais elevadas qualidades de coragem e intelecto aos seus buscadores."
Admito que fiquei impressionado com a convicção da voz e dos modos do homem, pois há algo muito convincente na força da crença de um homem sério, embora eu ainda fingisse zombar educadamente.
"Mas, como a maioria dos Magos Negros, o sujeito só conseguiu concluir a sua própria destruição — a das suas ferramentas, melhor dizendo, e escapar ele próprio."
"Para que pudesse realizar melhor os seus objetivos *noutro lugar e de outra forma*", disse Shorthouse, dedicando, enquanto falava, a atenção mais minuciosa à limpeza da fechadura.
"Noutro lugar e de outra forma", ofeguei.
"Como se a casca que ele deixou pendurada na viga do celeiro de modo algum impedisse o espírito do homem de continuar o seu trabalho terrível sob novas condições", acrescentou ele calmamente, sem notar a minha interrupção. "A ideia é que ele por vezes revisita o jardim e o celeiro, principalmente o celeiro..."
"O celeiro!", exclamei; "para que fim?"
"Principalmente o celeiro", terminou ele, como se não me tivesse ouvido, "isto é, quando lá está alguém."
Olhei para ele sem falar, pois sentia curiosidade em saber o que ele acrescentaria a isto.
"Quando ele quer material fresco, isto é — ele vem roubar dos vivos."
"Material fresco!", repeti horrorizado. "Roubar dos vivos!" Mesmo então, em plena luz do dia, estava tolamente consciente de uma sensação de arrepio nas raízes do cabelo, como se uma brisa fria passasse sobre o meu crânio.
"A forte vitalidade dos vivos é o que este tipo de criatura precisa mais", continuou ele imperturbável, "e onde ele trabalhou, pensou e lutou antes é o lugar mais fácil para ele a obter. As condições anteriores são, de alguma forma, mais facilmente reconstruídas..." Parou subitamente e dedicou toda a sua atenção à arma. "É difícil de explicar, sabes, de certa forma", acrescentou pouco depois, "e, além disso, é muito melhor que não saibas até depois."
Fiz um ruído que era o início de uma série de perguntas e de outras tantas frases, mas não passou de um mero ruído, e Shorthouse, claro, interveio de novo.
"O teu ceticismo", acrescentou ele, "é uma das qualidades que me induzem a pedir-te que passes a noite lá comigo."
"Naqueles dias", continuou ele, em resposta à minha insistência por mais informações, "a família estava muito no estrangeiro e viajava frequentemente durante anos a fio. Este homem era inestimável na sua ausência. O seu maravilhoso conhecimento de horticultura mantinha os jardins — franceses, italianos, ingleses — em perfeita ordem. Tinha carta branca em matéria de despesas e, claro, selecionava todos os seus subordinados. Foi o regresso repentino e inesperado do mestre que surpreendeu as histórias espantosas dos campos antes que o sujeito, com toda a sua astúcia, tivesse tempo para se preparar ou esconder."
"Mas não há provas, nenhuma prova mais recente, para mostrar que algo provavelmente acontecerá se lá ficarmos acordados?", perguntei, pressionando-o ainda mais, e creio que para seu agrado, pois mostrava pelo menos que eu estava interessado. "Aconteceu algo lá ultimamente, por exemplo?"
Shorthouse levantou os olhos da arma que limpava tão assiduamente, e o fumo do seu cachimbo enrolou-se numa volta estranha entre mim e a barba negra e o rosto oriental, bronzeado pelo sol. O magnetismo do seu olhar e da sua expressão trouxe-me mais sentido de convicção do que eu tinha sentido até então, e percebi que tinha havido uma pequena mudança súbita na minha atitude e que estava agora muito mais inclinado a participar na aventura com ele. Pelo menos, pensei, com um homem assim, estaríamos seguros em qualquer emergência; pois ele é determinado, engenhoso e alguém em quem se pode confiar.
"Aí é que está o ponto", respondeu ele lentamente; "pois houve aparentemente uma nova erupção — um ataque quase, parece — muito recentemente. Há provas, claro, muitas, ou não sentiria o interesse que sinto, mas..." hesitou um momento, como se considerasse quanto deveria deixar-me saber, "mas o facto é que três homens este verão, em ocasiões separadas, que entraram naquele celeiro após o anoitecer, foram abordados..."
"Abordados?", repeti, traído pela interrupção pela sua escolha de uma palavra tão singular.
"E um dos moços de estrebaria — um recém-chegado e completamente ignorante da história — que teve de ir lá uma noite tarde, viu uma substância escura pendurada numa das vigas e, quando subiu, a tremer todo, para a cortar — pois disse que sentia ter a certeza de que era um cadáver — a faca passou por nada mais do que ar, e ele ouviu um som sob os beirais como se alguém estivesse a rir. No entanto, enquanto ele cortava, e depois também, a coisa continuava a balançar ali diante dos seus olhos e a girar lentamente com o seu próprio peso, como um enorme pedaço de carne num espeto. O homem declara, também, que tinha um rosto grande e barbudo, e que a boca estava aberta e puxada para baixo como a boca de um enforcado."
"Podemos interrogar esse sujeito?"
"Ele foi-se embora — despediu-se de imediato, mas não antes de eu o ter interrogado muito de perto."
"Então isto foi muito recente?", disse eu, pois sabia que Shorthouse não estava na casa há mais de uma semana.
"Há quatro dias", respondeu. "Mas, mais do que isso, apenas há três dias, um par de homens estava lá dentro junto em plena luz do dia quando um deles se sentiu subitamente mortalmente fraco. Disse que sentiu um impulso irresistível de se enforcar; e procurou uma corda e ficou furioso quando o seu companheiro tentou impedi-lo..."
"Mas ele impediu-o?"
"Mesmo a tempo, mas não antes de ele ter trepado para uma viga. Ele estava muito violento."
Eu tinha tanto para dizer e perguntar que não conseguia tirar nada a tempo, e Shorthouse continuou de novo.
"Tenho tido uma espécie de mandato de vigilância para este caso", disse ele com um sorriso, cujo verdadeiro significado, contudo, me escapou completamente na altura, "e um dos aspetos mais desagradáveis é a forma deliberada como os criados inventaram desculpas para ir ao local, e sempre após o anoitecer; alguns deles que não têm o direito de ir lá, e nenhuma ocasião real de todo — provavelmente nunca lá estiveram na vida — e agora, de repente, mostraram o desejo e a determinação mais agudos de ir lá ao anoitecer, ou pouco depois, e com as desculpas mais banais e tolas do mundo. Claro", acrescentou, "eles foram impedidos, mas o desejo, mais forte que o seu medo supersticioso, e que eles não conseguem explicar, é muito curioso."
"Muito", admiti, sentindo que o meu cabelo começava a levantar-se de novo.
"Vês", continuou ele pouco depois, "tudo aponta para volição — de facto, para um arranjo deliberado. Não é um mero fantasma de família que acompanha todas as casas com hera em Inglaterra de uma certa idade; é algo real, e algo muito maligno."
Ele levantou o rosto do cano da arma e, pela primeira vez, o seu olho encontrou o meu em cheio. Sim, ele falava muito a sério. Além disso, sabia muito mais do que pretendia contar.
"Vale a pena tentar — e lutar, penso eu", disse ele; "mas quero um companheiro comigo. Estás disposto?" O seu entusiasmo contagiou-me sem dúvida, mas eu ainda queria esquivar-me um pouco.
"Sou muito cético", argumentei.
"Tanto melhor", disse ele, quase como se fosse para si mesmo. "Tu tens a coragem; eu tenho o conhecimento..."
"O conhecimento?"
Ele olhou em volta cautelosamente como se para ter a certeza de que não havia ninguém ao alcance da voz.
"Já estive no local", disse ele num tom de voz mais baixo, "muito recentemente — de facto, apenas há três dias — o dia em que o homem ficou estranho."
Fiquei a olhar.
"Mas... fui obrigado a sair..."
Continuei a olhar.
"Rapidamente", acrescentou significativamente.
"Entraste na coisa de forma bastante exaustiva", foi tudo o que consegui dizer, pois tinha quase decidido ir com ele, e não tinha a certeza de querer ouvir demasiado de antemão.
Ele assentiu. "É uma chatice, claro, mas tenho de fazer tudo exaustivamente — ou não fazer de todo."
"É por isso que limpas a tua própria arma, suponho?"
"É por isso que, quando há algum perigo, corro o menor número de riscos possível", disse ele, com o mesmo sorriso enigmático que notara antes; e depois acrescentou com ênfase: "E é também por isso que te peço para me fazeres companhia agora."
Claro, a seta atingiu o alvo, e dei a minha promessa sem mais delongas.
Os nossos preparativos para a noite — um par de mantas e um cantil de café preto — não foram elaborados, e não encontrámos dificuldade, por volta das dez horas, em ausentarmo-nos da sala de bilhar sem atrair curiosidade. Shorthouse encontrou-me conforme combinado debaixo do cedro no relvado das traseiras, e percebi de imediato com vivacidade que diferença existe entre fazer planos durante o dia e executá-los no escuro. O bom senso de alguém — pelo menos em assuntos deste tipo — é reduzido ao mínimo, e a imaginação com todos os seus duendes assistentes usurpa o lugar do discernimento. Dois e dois já não fazem quatro — fazem um mistério, e o mistério não perde tempo a crescer e a tornar-se uma ameaça. Neste caso particular, contudo, a minha imaginação não ganhou asas muito prontamente, pois sabia que o meu companheiro era o mais inabalável dos homens — um bloco de homem sólido e sem emoções que nunca perderia a cabeça e, em qualquer estado de coisas concebível, tomaria sempre o caminho certo, assim como o mais forte. Por isso, a minha fé no homem deu-me uma falsa coragem que era, no entanto, muito consoladora, e esperei pela aventura da noite com um apetite genuíno.
Lado a lado, e em silêncio, seguimos o caminho que contornava os Bosques Este, como eram chamados, e depois conduzia através de dois campos de feno, e por outro bosque, até ao celeiro, que ficava assim a cerca de oitocentos metros da Quinta Inferior. À Quinta Inferior, de facto, pertencia propriamente; e isto fez-nos perceber mais claramente quão engenhosas devem ter sido as desculpas dos criados do Hall que sentiam o desejo de visitá-lo.
Tinha chovido durante o final da tarde, e as árvores ainda pingavam pesadamente de todos os lados, mas no momento em que deixámos o segundo bosque e saímos para o descampado, vimos uma clareira com as estrelas por cima, contra as quais o celeiro se delineava numa sombra negra e lúgubre. Shorthouse liderou o caminho — ainda sem uma palavra — e rastejámo-nos por uma porta baixa e sentámo-nos num monte macio de feno no canto extremo.
"Agora", disse ele, falando pela primeira vez, "vou mostrar-te o interior do celeiro, para que saibas onde estás, e o que fazer, caso algo aconteça."
Um fósforo acendeu-se na escuridão, e com a ajuda de mais dois que se seguiram vi o interior de um celeiro alto e algo trôpego, erguido sobre uma parede de pedras cinzentas que corria à volta e se estendia até uma altura de talvez um metro e vinte. Acima desta alvenaria erguiam-se os lados de madeira, subindo para o habitual telhado abobadado, e suportados por uma camada dupla de maciças vigas de carvalho, que se estendiam de parede a parede e eram intersectadas por vigas verticais ocasionais. Senti como se estivéssemos dentro do esqueleto de algum monstro antediluviano cujas enormes costelas negras nos envolviam completamente. A maior parte disto, claro, apenas se esboçou ao meu olho na luz incerta dos fósforos que vacilavam, e quando disse que tinha visto o suficiente, e os fósforos se apagaram, ficámos de imediato envolvidos numa atmosfera tão densamente negra como qualquer coisa que eu alguma vez tenha conhecido. E o silêncio igualava a escuridão.
Instalámo-nos confortavelmente e falámos em vozes baixas. As mantas, que eram muito grandes, cobriam as nossas pernas; e os nossos ombros afundavam-se numa cama de suavidade realmente luxuosa. No entanto, nenhum de nós parecia estar com sono. Eu certamente não estava, e Shorthouse, abandonando a sua brevidade habitual que pouco faltava para ser brusca, mergulhou num fluxo fácil de conversa que tomou a forma, após algum tempo, de reminiscências pessoais. Isto tornou-se rapidamente numa narrativa vívida de aventura e viagem em países distantes, e em qualquer outra altura ter-me-ia deixado absorver completamente pelo que ele contava. Mas, infelizmente, nunca fui capaz por um único instante de esquecer o verdadeiro propósito do nosso empreendimento, e consequentemente senti todos os meus sentidos mais aguçados do que o habitual, e a minha atenção consequentemente mais ou menos distraída. Foi, de facto, uma revelação ouvir Shorthouse abrir-se desta forma, e para um jovem era claro duplamente fascinante; mas os pequenos sons que pontuam sempre até o silêncio mais profundo ao ar livre reivindicavam alguma parte da minha atenção, e à medida que a noite avançava, logo me apercebi de que os seus contos pareciam algo desconexos e abruptos — e que, de facto, ouvia apenas parte deles.
Não era tanto que eu ouvisse outros sons, mas que esperava ouvi-los; era isto que roubava a outra metade da minha escuta. Não havia vento nem chuva para quebrar a quietude, e certamente não havia presenças físicas na nossa vizinhança, pois estávamos a oitocentos metros da Quinta Inferior; e do Hall e dos estábulos, pelo menos a um quilómetro. No entanto, a quietude estava a ser continuamente quebrada — talvez perturbada seja uma palavra melhor — e foi a estas perturbações muito remotas e minúsculas que me senti compelido a dedicar pelo menos metade das minhas faculdades de escuta.
De vez em quando, contudo, fazia um comentário ou pedia uma explicação, para mostrar que estava a ouvir e interessado; mas, num certo sentido, as minhas perguntas pareciam sempre tender numa direção e levar a um resultado, nomeadamente, a experiência anterior do meu companheiro no celeiro quando tinha sido obrigado a sair "rapidamente".
Aparentemente, não conseguia evitar a questão, pois esta era realmente a única curiosidade consumidora que eu tinha; e o facto de ser melhor para mim não a saber tornava-me mais ansioso por saber tudo, até o pior.
Shorthouse compreendia isto ainda melhor do que eu. Pude percebê-lo pela forma como ele se esquivava, ou ignorava por completo, as minhas perguntas, e esta simpatia subtil entre nós mostrava claramente, se eu fosse capaz na altura de refletir sobre o seu significado, que os nervos de ambos estavam numa condição muito sensível e exaltada. Provavelmente, a confiança absoluta que eu sentia na sua capacidade de enfrentar o que quer que acontecesse, e o grau em que eu também contava com ele para a minha própria coragem, impediram o exercício das minhas faculdades comuns de reflexão, enquanto deixavam os meus sentidos livres para um grau de atividade superior ao habitual.
As coisas devem ter continuado desta forma durante uma boa hora ou mais, quando fiz a descoberta repentina de que havia algo de invulgar nas condições do nosso ambiente. Isto soa a um modo de expressão indireto, mas, na verdade, não sei de que outra forma o exprimir. A descoberta quase irrompeu em mim. Por direito, éramos dois homens à espera, num suposto celeiro assombrado, que algo acontecesse; e, como dois homens que confiavam um no outro implicitamente (embora por razões muito diferentes), deveriam estar duas mentes vivamente alertas, com os sentidos comuns em cooperação ativa. Algum grau ligeiro de nervosismo, também, poderia ter existido, mas, além disso, nada. Foi, portanto, com um certo desalento que fiz a descoberta repentina de que havia algo mais, e algo que eu deveria ter notado muito mais cedo do que realmente o fiz.
O facto era que o fluxo de conversa de Shorthouse era totalmente antinatural. Ele estava a falar com um propósito. Não queria ser encurralado pelas minhas perguntas, é verdade, mas tinha outro propósito, ainda mais profundo, e cresceu em mim, como uma dedução desagradável da minha descoberta, que este homem forte, cínico e impassível ao meu lado estava a falar — e estivera a falar todo este tempo — para atingir um fim particular. E este fim, senti logo claramente, era convencer-se a si próprio. Mas de quê?
Quanto a mim, à medida que as horas avançavam em direção à meia-noite, não estava ansioso por encontrar a resposta; mas, no final, tornou-se impossível evitá-la, e soube, enquanto ouvia, que ele estava a verter este fluxo constante de recordações vívidas de viagens — Mares do Sul, caça grossa, exploração russa, mulheres, aventuras de todos os tipos — porque desejava que o passado se reafirmasse com a exclusão completa do presente. Ele estava a tomar as suas precauções. Ele estava com medo.
Senti uma centena de coisas, uma vez que isto ficou claro para mim, mas nenhuma delas mais do que o desejo de me levantar imediatamente e sair do celeiro. Se Shorthouse já estava com medo, o que raio me iria acontecer nas longas horas que ainda faltavam? ... Apenas sei que, nos meus esforços ferozes para negar a mim mesmo a evidência do seu colapso parcial, surgiu a força que me permitiu desempenhar o meu papel corretamente, e até me apanhei a ajudá-lo por meio de observações animadas sobre as suas histórias e por perguntas mais ou menos judiciosas. Também o ajudei ao afastar da minha mente qualquer desejo de investigar a verdade da sua experiência anterior; e foi bom tê-lo feito, pois, se ele a tivesse libertado sobre mim, com aqueles grandes poderes de descrição convincente que tinha ao seu dispor, creio verdadeiramente que nunca teria saído daquele celeiro com vida. Assim, pelo menos, senti naquele momento. Era o instinto de autopreservação, e isso trouxe um juízo sensato.
Aqui, então, pelo menos, com motivos diferentes, alcançados, também, por caminhos opostos, estávamos ambos de acordo numa coisa: que, temporariamente, iríamos esquecer. Tolos fomos nós, pois uma emoção dominante não se afasta tão facilmente, e estávamos sempre a recorrer a ela de uma centena de maneiras diretas e indiretas. Um medo real não pode ser tão facilmente tratado com leviandade, e enquanto brincávamos à superfície com milhares e milhares de palavras — meras palavras — as nossas atividades subconscientes estavam a ganhar força constantemente e, dentro de pouco tempo, teriam de ser devidamente reconhecidas. Não conseguíamos fugir disso. Finalmente, quando ele terminou a narração de uma aventura que o levou perto o suficiente de uma morte horrível, admiti que, na minha vida sem acontecimentos, nunca tinha estado cara a cara com um medo real. Escapou-me inadvertidamente e, claro, sem intenção, mas a tendência nele, na altura, era forte demais para ser resistida. Ele viu a brecha e lançou-se nela a toda a velocidade.
"O mesmo acontece com todas as emoções", disse ele. "As experiências dos outros nunca dão um relato completo. Até que um homem se tenha virado deliberadamente e enfrentado sozinho os demónios que o perseguem ao longo dos anos, não tem conhecimento do que eles são realmente, ou do que podem fazer. Os autores criativos podem escrever, os moralistas podem pregar e os académicos podem criticar, mas estão sempre a lidar com uma moeda cujo valor real ignoram. O seu ouvinte recebe uma sensação — mas não a verdadeira. Até que tenhas enfrentado estas emoções", continuou ele, com a mesma corrida de palavras que tinha saído dele durante toda a noite, "e as tenhas tornado tuas, tuas escravas, não tens ideia do poder que reside nelas — a fome, que mostra luzes a acenar para além do túmulo; a sede, que enche com uma mistura de gelo e fogo; a paixão, o amor, a solidão, a vingança e..." Ele fez uma pausa por um minuto, e embora eu soubesse que estávamos à beira do abismo, fui impotente para o deter. "... e o medo", continuou ele — "o medo... Creio que a morte por medo, ou a loucura por medo, deve resumir num segundo o total de todas as sensações mais terríveis que é possível a um homem conhecer."
"Então você próprio sentiu algo deste medo", interrompi; "pois disse agora mesmo..."
"Não me refiro ao medo físico", respondeu ele; "pois isso é mais ou menos uma questão de nervos e vontade, e é a imaginação que torna os homens cobardes. Refiro-me a um medo absoluto, um medo físico, poder-se-ia chamar, que atinge a alma e definha cada faculdade que se possui."
Ele disse muito mais, pois também ele era totalmente incapaz de conter a torrente assim que ela se soltou; mas esqueci-o; ou, melhor dizendo, misericordiosamente não o ouvi, pois tapei os ouvidos e apenas ouvi as palavras ocasionais quando tirava os dedos para saber se ele tinha chegado ao fim. A seu tempo, ele chegou ao fim, e foi aí que deixámos o assunto, pois eu sabia então positivamente o que ele já sabia: que algures aqui na noite, e dentro das paredes deste mesmo celeiro onde estávamos sentados, havia algo de uma malignidade terrível e de grande poder à espera. Algo que ambos poderíamos ter de enfrentar antes da manhã, e algo que ele já tinha tentado enfrentar uma vez e falhara na tentativa.
A noite passou lentamente; e tornou-se gradualmente cada vez mais claro para mim que eu não podia ousar confiar como ao princípio no meu companheiro, e que as nossas posições estavam a passar por um lento processo de inversão. Agradeço aos Céus que isto não me tenha sido imposto de forma demasiado repentina; e que tive, pelo menos, tempo para me reajustar um pouco às novas condições. A preparação era possível, ainda que não fosse muita, e procurei por todos os meios ao meu alcance reunir todos os farrapos da minha coragem, para que pudessem, juntos, fazer uma corda decente que aguentasse a tensão quando ela surgisse. A tensão surgiria, isso era certo, e eu estava perfeitamente consciente — embora, pela minha vida, não consiga pôr em palavras as razões do meu conhecimento — de que a concentração do material contra nós estava a prosseguir algures na escuridão com determinação e, além disso, com uma perícia horrível.
Shorthouse, entretanto, falava sem parar. A grande quantidade de feno em frente — ou palha, creio que era o que realmente era — parecia abafar o som da sua voz, mas o silêncio também se tinha tornado tão opressivo que acolhi a sua torrente e até temi o momento em que ela pararia. Ouvi, também, o tique-taque suave do meu relógio. Cada segundo proferia a sua voz e caía num abismo, como se iniciasse uma viagem de onde não havia regresso. Uma vez, um cão ladrou algures à distância, provavelmente na Quinta Inferior; e uma vez, uma coruja piou mesmo ali fora e pude ouvir o silvo das suas asas enquanto passava por cima. Por cima de mim, na escuridão, conseguia distinguir apenas o contorno do celeiro, sinistro e negro, as filas de vigas a estenderem-se de parede a parede como braços malignos que pressionavam o feno. Shorthouse, imerso numa história complicada dos Mares do Sul que pretendia ser cheia de alegria e sol, e que, contudo, só conseguia fazer uma mistura medonha de coloração antinatural, parecia pouco se importar se eu ouvia ou não. Ele não fez qualquer apelo a mim, e eu fiz uma ou duas observações completamente irrelevantes que passaram por ele e provaram que ele estava apenas a emitir sons. Ele, também, tinha medo do silêncio.
Comecei a perguntar-me quanto tempo um homem conseguiria falar sem parar... Depois, pareceu-me que estas palavras dele iam caindo no mesmo abismo onde os segundos caíam, só que eram mais pesadas e caíam mais depressa. Comecei a persegui-las. De repente, uma delas caiu muito mais depressa do que as outras, e eu persegui-a e encontrei-me quase imediatamente numa terra de nuvens e sombras. Elas levantaram-se e envolveram-me, pressionando as pálpebras... Deve ter sido precisamente aqui que adormeci, algures entre a meia-noite e a uma da manhã, porque, enquanto perseguia esta palavra a uma velocidade tremenda pelo espaço, sabia que tinha deixado as outras palavras muito, muito atrás de mim, até que, finalmente, já não as conseguia ouvir de todo. A voz do contador de histórias estava fora do alcance da audição; e eu caía com uma rapidez cada vez maior através de um vazio imenso.
Um som de sussurros despertou-me. Duas pessoas falavam em voz baixa mesmo ao meu lado. As palavras, na sua maioria, escaparam-me, mas apanhei de vez em quando frases cortadas e meios enunciados aos quais, contudo, não conseguia atribuir qualquer significado inteligível. As palavras eram muito próximas — mesmo ao meu lado, de facto — e uma das vozes soava tão familiar que a curiosidade superou o pavor, e virei-me para olhar. Não me enganei; era Shorthouse a sussurrar. Mas a outra pessoa, que devia estar logo um pouco mais além dele, estava perdida na escuridão e invisível para mim. Pareceu-me então que Shorthouse virou imediatamente o rosto e olhou para mim e, por qualquer meio que não me causou surpresa na altura, distingui facilmente os traços na escuridão. Eles tinham uma expressão que eu nunca tinha visto ali antes; ele parecia angustiado, exausto, esgotado, e como se estivesse prestes a desistir após uma longa luta mental. Ele olhou para mim, quase suplicante, e os sussurros da outra pessoa morreram.
"Estão atrás de mim", disse ele.
Achei impossível responder; as palavras ficaram presas na minha garganta. A sua voz era fina, lamentosa, quase como a de uma criança.
"Vou ter de ir. Não sou tão forte como pensava. Eles chamar-lhe-ão suicídio, mas, claro, é realmente um assassinato." Havia uma angústia real na sua voz, e isso aterrorizou-me.
Um silêncio profundo seguiu-se a estas palavras extraordinárias, e de alguma forma compreendi que a Outra Pessoa estava prestes a continuar a conversa — até imaginei ver lábios a formarem-se logo acima do ombro do meu amigo — quando senti um golpe forte nas costelas e uma voz, desta vez uma voz grave, soou no meu ouvido. Abri os olhos e o sonho miserável desapareceu. Contudo, deixou para trás uma impressão de uma realidade forte e bastante invulgar.
"Tenta não voltar a adormecer", disse ele severamente. "Pareces exausto. Sentiste-o?" Havia uma nota na sua voz que não acolhi bem — menos do que alarme, mas certamente mais do que um simples zelo.
"Sinto-me terrivelmente sonolento de repente", admiti, envergonhado.
"Podes sentir", acrescentou ele muito seriamente; "mas conto contigo para te manteres acordado, nem que seja para vigiar. Estiveste a dormir durante meia hora, pelo menos — e estavas tão quieto — pensei em acordar-te..."
"Porquê?", perguntei, pois a minha curiosidade e nervosismo eram demasiado fortes para serem resistidos. "Pensas que estamos em perigo?"
"Acho que eles estão por aqui agora. Sinto a minha vitalidade a desaparecer rapidamente — esse é sempre o primeiro sinal. Tu durarás mais do que eu, lembra-te. Vigia atentamente."
A conversa parou. Tive medo de dizer tudo o que queria dizer. Teria sido demasiado inequivocamente uma confissão; e intuitivamente compreendi o perigo de admitir a existência de certas emoções até ser positivamente forçado a tal. Mas, pouco depois, Shorthouse começou de novo. A sua voz soava estranha, e como se tivesse perdido o poder. Era mais parecida com a voz de uma mulher ou de um rapaz do que a de um homem, e lembrava a voz do meu sonho.
"Suponho que tens uma faca?", perguntou ele.
"Sim, uma faca de bolso grande; mas porquê?" Ele não respondeu. "Não pensas que uma partida é provável? Ninguém suspeita que estamos aqui", continuei. Nada era mais significativo dos nossos sentimentos reais esta noite do que a forma como brincávamos com as palavras e nunca ousávamos mais do que contornar as coisas que estavam nas nossas mentes.
"É melhor estar preparado", respondeu ele evasivamente. "É melhor ter a certeza absoluta. Vê em que bolso está — para estares pronto."
Obedeci mecanicamente e disse-lhe. Mas mesmo este pedaço de conversa provou-me que ele se afastava cada vez mais de mim na sua mente. Ele seguia uma linha que me era estranha e, à medida que ele se distanciava, senti que a simpatia entre nós se tornava cada vez mais tensa. *Ele sabia mais*; não era que eu me importasse tanto — mas que ele estava disposto a comunicar menos. E na medida em que perdi o seu apoio, temi o seu silêncio crescente. Não de palavras — pois ele falava mais voluvelmente do que nunca, e com um propósito mais feroz — mas o seu silêncio em não dar qualquer pista sobre o que ele devia saber que estava realmente a acontecer a todo o momento.
A noite estava perfeitamente calma. Shorthouse continuava a falar firmemente, e eu cutucava-o de vez em quando com observações ou perguntas para me manter acordado. Ele, contudo, não prestava atenção a nenhuma.
Cerca das duas da manhã, caiu uma chuva curta, e as gotas bateram ruidosamente no telhado como chumbo. Fiquei contente quando parou, pois abafou completamente todos os outros sons e tornou impossível ouvir qualquer outra coisa que pudesse estar a acontecer. Algo estava a acontecer, também, a todo o momento, embora, pela minha vida, não conseguisse dizer o quê. O mundo exterior tinha ficado bastante ténue — o grupo da casa, os caçadores, a sala de bilhar e os incidentes diários comuns da minha visita. Todas as minhas energias estavam concentradas no presente, e a tensão constante de vigiar, esperar, ouvir, era excessivamente reveladora.
Shorthouse ainda falava das suas aventuras, algures num país oriental agora, e de forma menos articulada. Estas aventuras, reais ou imaginárias, tinham um certo sabor das Mil e Uma Noites, e não tornavam de modo algum mais fácil para mim manter o meu controlo sobre a realidade. O peso mais leve afetará o equilíbrio em tais circunstâncias, e, neste caso, o peso da sua conversa estava na balança errada. As suas palavras eram muito rápidas, e achei esmagadoramente difícil não as seguir para aquele grande abismo de escuridão onde todas corriam e desapareciam. Mas isso, eu sabia, significava dormir de novo. Contudo, era estranho que eu me sentisse sonolento quando, ao mesmo tempo, todos os meus nervos estavam a formigar. Cada vez que ouvia o que parecia ser um passo lá fora, ou um movimento no feno em frente, o sangue parava por um momento nas minhas veias. Sem dúvida, a tensão incessante afetou-me mais do que eu percebia, e isso era duplamente grande agora que eu sabia que Shorthouse era uma fonte de fraqueza em vez de força, como eu tinha contado. Certamente, uma curiosa sensação de languidez crescia em mim cada vez mais, e eu tinha a certeza de que o homem ao meu lado estava envolvido na mesma luta. A febre da sua conversa provava isto, se mais nada o provasse. Era terrivelmente difícil manter-me acordado.
Mas desta vez, em vez de cair no abismo, vi algo emergir dele! Chegou ao nosso mundo por uma porta na parte do celeiro mais distante de mim, e entrou com cautela e em silêncio e moveu-se para a massa de feno em frente. Ali, por um momento, perdi-o, mas pouco depois apanhei-o novamente mais acima. Estava agarrado, como um grande morcego, à parede do celeiro. Algo arrastava atrás de si, não conseguia perceber o quê... Rastejou pela parede de madeira e começou a mover-se ao longo de uma das vigas. Um terror entorpecido abateu-se sobre mim enquanto o observava. A coisa que arrastava atrás de si era aparentemente uma corda.
O sussurro começou de novo nessa altura, mas as palavras que consegui apanhar pareciam não ter significado; era quase como outra língua. As vozes estavam por cima de mim, sob o telhado. De repente, vi sinais de movimento ativo a decorrer logo para além do lugar onde a coisa jazia sobre a viga. Havia outra coisa lá em cima com ela! Seguiu-se então um arquejo, como a respiração rápida que acompanha o esforço, e no minuto seguinte uma massa negra caiu pelo ar e ficou pendurada na ponta da corda.
Instantaneamente, tudo me passou pela cabeça. Saltei para os pés e corri desabaladamente pelo chão do celeiro. Como me movi tão rapidamente na escuridão, não sei; mas, mesmo enquanto corria, passou-me pela mente que nunca conseguiria chegar à minha faca a tempo de cortar a coisa, ou então que descobriria que ela me tinha sido tirada. De uma forma ou de outra — a Deusa dos Sonhos sabe como — subi pelos fardos de feno e balancei-me ao longo da viga. Estava pendurado, claro, pelos braços, e a faca já estava entre os meus dentes, embora não tivesse recordação de como lá chegou. Estava aberta. A massa, pendurada como uma fatia de bacon, estava apenas a alguns metros à minha frente, e eu podia ver claramente a linha escura da corda que a prendia à trave. Notei então, pela primeira vez, que ela balançava e girava no ar, e que, à medida que eu me aproximava, parecia mover-se ao longo da trave, de modo que a mesma distância era sempre mantida entre nós. A única coisa que eu podia fazer — pois não havia tempo para hesitar — era saltar na sua direção através do ar e golpear a corda enquanto caía.
Agarrei a faca com a mão direita, dei um grande impulso com o meu corpo com as pernas e saltei para a frente através do ar. Horrores! Estava mais perto de mim do que eu pensava, e mergulhei de encontro a ela, e o braço com a faca falhou a corda e cortou profundamente alguma substância que era macia e cedente. Mas, enquanto eu passava por ela, a coisa teve tempo de girar metade da sua largura, de modo que balançou e ficou virada para mim — e eu poderia ter jurado, enquanto passava por ela pelo ar, que ela tinha os traços de Shorthouse.
O choque disto trouxe o pesadelo vil a um fim abrupto, e acordei pela segunda vez na cama de feno macio para descobrir que o amanhecer cinzento se infiltrava, e que eu estava extremamente frio. Afinal, falhei em manter-me acordado, e o meu sono, uma vez que estava a clarear, deve ter durado pelo menos uma hora. Uma hora inteira fora da guarda!
Não havia som de Shorthouse, para quem, claro, os meus primeiros pensamentos se voltaram; provavelmente o seu fluxo de palavras tinha cessado há muito, e ele também tinha cedido às persuasões do deus sedutor. Virei-me para o acordar e obter o conforto da companhia pelo horror do meu sonho, quando, para meu extremo desalento, vi que o lugar onde ele estivera estava vago. Ele já não estava ao meu lado.
Não tinha sido um choque pequeno anteriormente descobrir que o aliado em quem depositava toda a minha fé e dependência estava, na verdade, assustado, mas é perfeitamente impossível descrever as sensações que experimentei quando me apercebi de que ele tinha ido embora completamente e que eu estava sozinho no celeiro. Por um ou dois minutos, a minha cabeça girou e senti-me presa de um terror impotente. O sonho, também, ainda parecia meio real, tão vívido tinha sido! Estava completamente assustado — ora quente, ora frio — e agarrei o feno ao meu lado em punhados, e por alguns momentos não tive a menor ideia do que deveria fazer.
Desta vez, pelo menos, estava inequivocamente acordado e fiz um grande esforço para me recompor e enfrentar o significado do desaparecimento do meu companheiro. Nisto, tive sucesso o suficiente para decidir fazer uma busca minuciosa pelo celeiro, por dentro e por fora. Foi uma tarefa terrível, e não me sentia nada seguro de ser capaz de a levar a cabo, mas sabia muito bem que, a menos que algo fosse feito imediatamente, eu simplesmente colapsaria.
Mas, quando tentei mover-me, descobri que o frio, o medo e, não sei que outra coisa profana, combinavam-se para tornar isso quase impossível. Percebi subitamente que uma ronda de inspeção, durante a qual as minhas costas estariam expostas a ataques, estava fora de questão. A minha vontade não era capaz disso. Qualquer coisa poderia saltar sobre mim a qualquer momento dos cantos escuros, e a luz crescente era suficiente apenas para revelar cada movimento que eu fizesse a quem quer que estivesse a observar. Pois, mesmo então, e enquanto eu ainda estava meio atordoado e estúpido, sabia perfeitamente bem que alguém me observava o tempo todo com a maior atenção. Eu não tinha apenas acordado; eu tinha sido acordado.
Decidi tentar outro plano; chamei por ele. A minha voz tinha um som fraco e fino, distante e completamente irreal, e não houve resposta. Escuta, contudo! Havia algo que poderia ter sido uma voz muito ténue perto de mim!
Chamei novamente, desta vez com maior clareza: "Shorthouse, onde estás? consegues ouvir-me?"
Houve certamente um som, mas não era uma voz. Algo estava a mover-se. Era alguém a arrastar os pés, e parecia ser fora do celeiro. Tive medo de chamar de novo, e o som continuou. Era um som bastante comum, sem dúvida, mas chegou-me naquele momento como algo invulgar e desagradável. Os sons comuns permanecem comuns apenas enquanto não os ouvimos; sob a influência de uma escuta intensa, tornam-se invulgares, agourentos e, portanto, extraordinários. Assim, este som comum chegou-me como algo incomum, desagradável. Transmitia, também, uma impressão de furtividade. E com ele havia outro, um som mais ligeiro.
Nesse preciso minuto, o vento trouxe fracamente sobre o campo o som do relógio do estábulo, a uma milha de distância. Eram três horas; a hora em que as pulsações da vida batem mais baixo; quando as pobres almas, deitadas entre a vida e a morte, acham mais difícil resistir. Lembro-me vividamente deste pensamento a atravessar o meu cérebro com um estrondo de trovão, e percebi que a tensão nos meus nervos estava a aproximar-se do limite, e que algo teria de ser feito imediatamente se eu quisesse recuperar o meu autocontrolo.
Ao refletir depois sobre os acontecimentos desta noite terrível, sempre me pareceu estranho que o meu segundo pesadelo, tão vívido no seu terror e na sua proximidade, não me tivesse dado qualquer indício do que estava realmente a acontecer durante todo este tempo; e que eu não tivesse sido capaz de juntar as peças, ou de descobrir mais cedo do que descobri o que era este som e de onde vinha. Posso muito bem acreditar que a vil maquinação por detrás de toda a experiência achou uma ninharia fácil desviar a minha audição; embora, claro, possa igualmente ter sido devido à condição confusa da minha mente na altura e à tensão nervosa geral de que eu estava, sem dúvida, a sofrer.
Mas, qualquer que fosse a causa da minha estupidez inicial ao não conseguir traçar o som até à sua fonte adequada, só posso dizer aqui que foi com um choque de horror inigualável que o meu olhar se voltou subitamente para cima e avistou a figura a mover-se nas sombras acima da minha cabeça entre as vigas. Até este momento, tinha pensado que era alguém fora do celeiro, a rastejar pelas paredes até chegar a uma porta; e a onda de horror que congelou o meu coração quando olhei para cima e vi que era Shorthouse a rastejar furtivamente ao longo de uma viga é algo totalmente acima do poder das palavras descrever.
Ele estava a olhar fixamente para mim, e soube imediatamente que era ele quem me observava.
Este ponto foi, penso eu, para mim o clímax de sentimento em toda a experiência; eu era incapaz de qualquer outra sensação — isto é, qualquer outra sensação na mesma direção. Mas aqui o caráter abominável do assunto mostrou-se mais claramente, pois apresentou subitamente um aspeto inteiramente novo para mim. A luz caiu sobre a imagem de um novo ângulo, e galvanizou-me para uma nova capacidade de sentir quando pensava que um torpor misericordioso tinha tomado conta de mim. Pode não parecer muito na letra impressa, mas chegou-me quase como se tivesse sido uma extensão da consciência, pois a Mão que segurava o lápis tocou subitamente, com um efeito fantasmagórico de contraste, o elemento do ridículo. Nada poderia ter sido pior naquele momento. Shorthouse, o espírito autoritário, tão intrépido nos assuntos da vida quotidiana, cujo poder aumentava em vez de diminuir perante o perigo — este homem, a rastejar de mãos e joelhos ao longo de uma viga num celeiro às três da manhã, a observar-me o tempo todo como um gato observa um rato! Sim, era distintamente ridículo, e enquanto me dava uma medida com a qual avaliar a emoção de medo que causava a sua aberração, agitou algures nas profundezas do meu interior as cordas de um riso vazio.
Um daqueles momentos veio então a mim, que se diz virem por vezes sob o stress de uma grande emoção, quando num instante a mente se torna deslumbrantemente clara. Uma lucidez anormal tomou o lugar da minha confusão de pensamentos, e entendi subitamente que os dois sonhos que tomei por pesadelos devem ter-me sido enviados, e que me foi permitido por um momento olhar para além da borda do que estava por vir; o Bem estava a ajudar, mesmo quando o Mal estava mais determinado a destruir.
Via tudo claramente agora. Shorthouse tinha sobrestimado a sua força. O terror inspirado pela sua primeira visita ao celeiro (quando ele tinha falhado) tinha despertado toda a natureza do homem para vencer, e ele tinha-me trazido para desviar o fluxo mortal do mal. Que ele tinha novamente subestimado o poder contra ele era evidente assim que entrou no celeiro, e a sua conversa desenfreada, e a recusa em admitir o que sentia, deviam-se a este desejo de não reconhecer o medo insidioso que crescia no seu coração. Mas, finalmente, tornou-se forte demais. Ele tinha deixado o meu lado enquanto eu dormia — tinha sido ele próprio vencido, talvez, primeiro no seu sono, pelo terrível impulso. Ele sabia que eu iria interferir, e a cada movimento que fazia, observava-me fixamente, pois a mania estava sobre ele e estava determinado a enforcar-se. Ele fingiu não me ouvir a chamar, e eu sabia que qualquer coisa que se interpusesse entre ele e o seu propósito encontraria toda a força da sua fúria — a fúria de um maníaco, de alguém, por aquele momento, verdadeiramente possuído.
Por um ou dois minutos sentei-me ali e olhei fixamente. Vi então, pela primeira vez, que havia um pedaço de corda a arrastar-se atrás dele, e que era isso que causava o som de farfalhar que eu tinha notado. Shorthouse, também, tinha parado. O seu corpo estava estendido ao longo da viga como um animal agachado. Ele olhava fixamente para mim. Aquela mancha esbranquiçada era o seu rosto.
Não posso reivindicar nenhuma coragem no assunto, pois devo confessar que, num certo sentido, estava assustado quase para além do controlo. Mas, ao mesmo tempo, a necessidade de uma ação decidida, se eu quisesse salvar a sua vida, veio a mim com um alívio intenso. Não importa o que o animasse naquele momento, Shorthouse era apenas um homem; era carne e osso que eu tinha de enfrentar e não os poderes intangíveis. Apenas algumas horas antes, tinha-o visto a limpar a sua arma, a fumar o seu cachimbo, a bater nas bolas de bilhar com uma imperfeição muito humana, e a imagem passou pela minha mente com o efeito mais salutar.
Então, corri pelo chão do celeiro e saltei sobre os fardos de feno como um prelúdio para subir pelas laterais até à primeira viga. Era muito mais difícil do que no meu sonho. Por duas vezes escorreguei de volta para o feno, e enquanto me arrastava pela terceira vez, vi que Shorthouse, que até então não tinha feito som ou movimento, estava agora ocupado a fazer algo com as mãos na viga. Ele estava na extremidade mais distante, e devia haver pelo menos quatro metros e meio entre nós. Ainda assim, vi claramente o que ele estava a fazer; ele estava a prender a corda à viga. A outra extremidade, vi, já estava à volta do seu pescoço!
Isto deu-me imediatamente a força necessária, e num segundo balancei-me para cima de uma viga, gritando em voz alta com toda a autoridade que podia colocar na minha voz —
"Seu tolo, homem! O que raio estás a tentar fazer? Desce imediatamente!"
As minhas ações e palavras enérgicas combinadas tiveram um efeito imediato sobre ele pelo qual abençoei o Céu; pois ele levantou os olhos da sua tarefa horrível, olhou fixamente para mim por um ou dois segundos, e depois veio a contorcer-se como um grande gato para me interceptar. Ele veio numa série de saltos e passadas e a um ritmo espantoso, e a maneira como se movia de alguma forma inspirou-me um horror renovado, pois não parecia o movimento natural de um ser humano, mas mais, como disse, como o de algum animal selvagem ágil.
Ele estava perto de mim. Eu não tinha uma ideia clara do que exatamente pretendia fazer. Podia ver o seu rosto claramente agora; ele estava a sorrir cruelmente; os olhos eram positivamente luminosos, e a expressão ameaçadora da boca era muito angustiante de se ver. Caso contrário, era o rosto de um homem de giz, branco e morto, com toda a semelhança do ser humano vivo extraída dele. Entre os dentes, ele segurava a minha canivete, que deve ter tirado de mim enquanto eu dormia, e com um clarão recordei a sua ansiedade em saber exatamente em que bolso ela estava.
"Larga essa faca!" gritei para ele, "e larga-te tu mesmo a seguir--"
"Não te atrevas a parar-me!" sibilou ele, com a respiração a passar entre os lábios sobre a faca que segurava nos dentes. "Nada no mundo me pode parar agora — eu prometi — e tenho de o fazer. Já não consigo aguentar mais."
"Então larga a faca e eu ajudo-te," gritei de volta na sua cara. "Eu prometo--"
"Não serve de nada," gritou ele, rindo um pouco, "tenho de o fazer e não podes parar-me."
Ouvi um som de riso, também, algures no ar atrás de mim. No segundo seguinte, Shorthouse veio sobre mim com um único salto.
Até hoje não sei bem como aconteceu. Ainda é uma confusão selvagem e uma febre de horror na minha mente, mas de algum lugar tirei mais do que a minha porção habitual de força, e antes que ele pudesse ter percebido bem o que eu pretendia fazer, eu tinha a sua garganta entre os meus dedos. Ele abriu os dentes e a faca caiu imediatamente, pois dei-lhe um aperto que ele nunca precisaria de esquecer. Antes, os meus músculos pareciam papel ensopado; agora recuperaram a sua força natural, e ainda mais. Consegui arrastarmo-nos ao longo da viga até que o feno estivesse debaixo de nós, e então, completamente exausto, larguei a minha preensão e balançámo-nos juntos e caímos sobre o feno, ele a arranhar-me no ar mesmo enquanto caíamos.
A luta que começou com a minha luta pela sua vida terminou num esforço selvagem para salvar a minha própria, pois Shorthouse estava completamente fora de si, e não tinha ideia do que estava a fazer. De facto, ele sempre afirmou que não se lembra de nada de toda a experiência da noite depois do momento em que me acordou pela primeira vez do sono. Uma espécie de névoa mortal instalou-se sobre ele, declara ele, e perdeu todo o sentido da sua própria identidade. O resto foi um vazio até que recuperou os sentidos debaixo de uma massa de feno comigo em cima dele.
Foi o feno que nos salvou, primeiro ao amortecer a queda e depois ao impedir os seus movimentos para que eu pudesse evitar que ele me estrangulasse até à morte.
O BOSQUE DOS MORTOS
Um verão, nas minhas deambulações com uma mochila, almoçava na sala de uma estalagem de beira de estrada no país ocidental, quando a porta se abriu e entrou um velho rústico, que atravessou o espaço perto da minha ponta da mesa e sentou-se muito calmamente no lugar junto à janela em arco. Trocámos olhares, ou, falando com propriedade, acenos, pois no momento não levantei realmente os olhos para o seu rosto, tão preocupado estava com o importante negócio de satisfazer um apetite ganho por caminhar doze milhas sobre um terreno difícil.
A chuva fina e quente das sete horas, que desde então tinha subido numa espécie de névoa luminosa sobre as copas das árvores, flutuava agora bem acima num céu azul profundo, e o dia assentava num brilho de luz dourada. Era um daqueles dias peculiares a Somerset e North Devon, quando os pomares brilham e os prados parecem adicionar uma radiação própria, tão brilhantemente suaves são as colorações da relva e da folhagem.
A filha do estalajadeiro, uma pequena donzela com uma beleza campestre simples, entrou pouco depois com uma caneca de estanho espumante, inquiriu sobre o meu bem-estar e saiu novamente. Aparentemente, ela não tinha notado o velho sentado no banco junto à janela em arco, nem ele, da sua parte, tinha virado sequer uma vez a cabeça na nossa direção.
Em circunstâncias normais, provavelmente não teria pensado neste outro ocupante da sala; mas o facto de ser suposto estar reservada para o meu uso privado, e o facto singular de ele estar sentado a olhar sem rumo pela janela, sem qualquer tentativa de me envolver em conversa, atraiu os meus olhos mais do que uma vez com alguma curiosidade sobre ele, e cedo dei por mim a perguntar porque se sentava ali tão silenciosamente, e sempre com a cabeça voltada.
Ele era, vi, um velho bastante curvado em trajes rústicos, e a pele do seu rosto estava enrugada como a de uma maçã; calças de bombazina estavam presas com um cordão abaixo do joelho, e ele usava uma espécie de casaco de fustão castanho que estava muito desbotado. A sua mão fina descansava sobre uma bengala robusta. Ele não usava chapéu e não carregava nenhum, e notei que a sua cabeça, coberta de cabelo prateado, era finamente moldada e dava a impressão de algo nobre.
Embora um pouco picado pelo seu desdém estudado pela minha presença, cheguei à conclusão de que ele provavelmente tinha algo a ver com a pequena estalagem e tinha todo o direito de usar esta sala com liberdade, e terminei o meu almoço sem quebrar o silêncio e depois tomei o banco oposto para fumar um cachimbo antes de seguir o meu caminho.
Pela janela aberta vinham os aromas das árvores de fruto em flor; o pomar estava encharcado de sol e os ramos dançavam preguiçosamente na brisa; a relva lá em baixo brilhava com margaridas brancas e amarelas, e as rosas vermelhas que trepavam em profusão sobre a moldura da janela misturavam o seu perfume com o odor docemente penetrante do mar.
Era um lugar para perder tempo, para deitar e sonhar uma tarde inteira, observando as borboletas sonolentas e ouvindo o coro de pássaros que parecia encher cada canto do céu. De facto, eu já debatia na minha mente se deveria demorar-me e desfrutar de tudo isso em vez de seguir o caminho extenuante sobre as colinas, quando o velho rústico no banco oposto virou subitamente o rosto para mim pela primeira vez e começou a falar.
A sua voz tinha uma nota calma e sonhadora que estava em perfeita harmonia com o dia e a cena, mas soava distante, pensei, quase como se viesse de fora, onde as sombras teciam a sua eterna teia de sonhos sobre o chão do jardim. Além disso, não havia vestígio nela da qualidade áspera que se poderia naturalmente esperar, e, agora que vi o rosto completo do orador pela primeira vez, notei com algo semelhante a um sobressalto que os olhos profundos e gentis pareciam muito mais em sintonia com o timbre da voz do que com a aparência áspera e muito campestre das roupas e dos modos. A sua voz colocou ondas agradáveis de som em movimento na minha direção, e as palavras reais, se me lembro bem, foram —
"É um estranho nestas partes?" ou "Não é esta parte do país estranha para si?"
Não houve "senhor", nem qualquer sinal exterior e visível da deferência habitualmente paga pelas verdadeiras gentes do campo ao visitante criado na cidade, mas no seu lugar uma gentileza, quase uma doçura, de simpatia educada que era muito mais um elogio do que qualquer um deles.
Respondi que estava a deambular a pé por uma parte do país que era totalmente nova para mim, e que estava surpreendido por não encontrar um lugar de tal beleza idílica marcado no meu mapa.
"Vivi aqui toda a minha vida," disse ele, com um suspiro, "e nunca me canso de voltar a ele."
"Então já não vive nas redondezas imediatas?"
"Mudei-me," respondeu ele brevemente, acrescentando após uma pausa em que os seus olhos pareciam vaguear nostálgicos para a riqueza das flores para além da janela; "mas estou quase arrependido, pois em nenhum outro lugar encontrei o sol a repousar tão calorosamente, as flores a cheirar tão docemente, ou os ventos e riachos a fazer música tão terna. . ."
A sua voz desvaneceu-se num fluxo fino de som que se perdeu no farfalhar das folhas de rosa que trepavam na janela, pois ele virou a cabeça para longe de mim enquanto falava e olhou para o jardim. Mas era impossível esconder a minha surpresa, e levantei os olhos em franco espanto ao ouvir uma expressão tão poética vinda de tal figura de homem, embora ao mesmo tempo percebesse que não era minimamente inapropriada, e que, de facto, nenhum outro tipo de expressão poderia ter sido adequadamente esperado dele.
"Tenho a certeza de que tem razão," respondi finalmente, quando ficou claro que ele tinha parado de falar; "pois há algo de encantamento aqui — de verdadeiro encantamento de fadas — que me faz pensar nas visões dos dias de infância, antes de se saber qualquer coisa de — de —"
Tinha sido estranhamente atraído para a sua veia de fala, alguma força interior a obrigar-me. Mas aqui o feitiço passou e não consegui captar os pensamentos que tinham aberto, um momento antes, uma longa vista perante a minha visão interior.
"Para dizer a verdade," concluí de forma frouxa, "o lugar fascina-me e estou na dúvida sobre continuar..."
A moça hesitou, as mãos apertando a forquilha contra o peito, e depois, com um riso vibrante que parecia ecoar por todo o campo, saltou. O rapaz apanhou-a com um movimento ágil, mas, em vez de a colocar no chão, conservou-a nos braços por um momento, apertando-a contra si, enquanto ambos trocavam um olhar de tal intensidade de vida e alegria que senti um nó apertar-me a garganta.
Houve um momento de silêncio absoluto na floresta. O meu companheiro, ao meu lado, inclinou-se para a frente, e senti que ele observava o par com uma emoção que transbordava do seu ser, como se estivesse a ver algo que ele próprio tinha, outrora, possuído e perdido.
"Vês?" sussurrou ele, e a sua voz era agora tão suave que quase não se distinguia do sussurro das agulhas de pinheiro acima de nós. "É a vida, a doce e breve vida que se renova. E, contudo, o destino já está a traçar o caminho que eles hão de seguir. Ela não sabe, ele não sabe... mas o tempo já os marcou."
A minha consciência, até então tão aguda, começou a obscurecer-se sob uma onda de um estranho torpor. O sol, que até ali parecia incrivelmente brilhante, começou a desvanecer-se numa névoa dourada. O rapaz e a moça, o carro de feno, os cavalos, tudo começou a perder os contornos, como uma pintura deixada à chuva.
"Quem são eles?" perguntei, sentindo um pavor súbito de perder a visão daquele idílio.
"Eles são o que tu foste e o que tu serás," respondeu o velho, a voz agora distante, como se estivesse a caminhar para longe de mim. "O que eu vim buscar... o que se deve mover..."
Senti uma mão, fria e firme, pousar-me sobre o ombro. O toque não era de carne, mas de algo mais fundamental, como o toque do próprio destino. Tentei virar-me para ver o seu rosto, para lhe implorar que ficasse, que me explicasse o enigma, mas os meus olhos não obedeciam. A escuridão da floresta, que antes era um refúgio, tornou-se de repente impenetrável.
O som do carro a afastar-se, o riso da moça, o estalido das rodas no caminho, tudo foi absorvido pelo silêncio, um silêncio vasto e antigo, que parecia conter em si todas as vozes que já tinham existido. Quando recuperei os sentidos, estava deitado sob o pinheiro mais alto da orla do bosque. O sol da manhã brilhava intensamente sobre o campo, mas o carro de feno tinha desaparecido.
Levantei-me, tonto, com as roupas cobertas de agulhas de pinheiro. O meu corpo pesava, trazendo de volta a consciência das dores e das limitações da carne. Olhei em volta; a floresta parecia agora uma floresta comum, composta apenas por árvores, sombra e silêncio. Não havia sinal do velho, nem daquele momento de revelação terrível e magnífica.
Caminhei de volta para a estalagem em estado de choque. A vila acordava para mais um dia de trabalho. As pessoas cruzavam-se comigo, trocando cumprimentos matinais sobre o tempo ou a colheita, alheias ao que eu tinha testemunhado. Entrei na estalagem e a filha do estalajadeiro veio ter comigo, com o mesmo sorriso doce e banal, perguntando-me se o pequeno-almoço seria servido no mesmo lugar.
"Ainda por aqui, senhor?" perguntou ela, com uma nota de surpresa genuína. "Pensei que o senhor tivesse partido antes do amanhecer, pois vi a sua porta aberta."
Olhei para ela, tentando encontrar no seu rosto algum vestígio do que eu tinha visto no campo. "Vi algo, esta manhã," disse eu, a voz rouca. "No bosque. Vi um carro de feno, um rapaz, uma moça..."
Ela parou, a bandeja a tremer nas suas mãos. "Mas, senhor," disse ela, baixando a voz num sussurro tenso, "não há colheita de feno nos campos daquela colina. O campo está em pousio há anos, desde a morte do velho."
Senti o chão fugir-me sob os pés. "Mas eu vi," insisti, embora a convicção começasse a escapar-me, desfeita pela luz fria da realidade.
"O senhor deve ter sonhado," disse ela, com uma compaixão que me pareceu mais cruel do que o desdém. "Muitos que ficam aqui na estalagem acabam por sonhar com o velho, ou com o bosque. É o lugar, dizem..."
Não respondi. Paguei a conta e parti. Enquanto me afastava pela estrada que serpenteava para além da colina, olhei uma última vez para o Bosque dos Mortos. As árvores mantinham-se imóveis, sentinelas de um segredo que eu não voltaria a decifrar. O vento soprava, levando consigo o perfume de resina e de terra, e, por um instante, pareceu-me ouvir, muito ao longe, um riso de moça e o murmúrio de uma voz profunda, ensinando-me algo que a minha mente já não conseguia reter, algo sobre o propósito da vida e a inelutável brevidade do nosso lugar no tempo.
"Oh, oh," ela riu-se, e a sua voz soou-me como o riso mais feliz e alegre que alguma vez ouvira sair da garganta de uma rapariga. "Oh, oh! Tudo muito bem. Mas lembra-te de que sou a Rainha do Feno, e tenho de cavalgar!"
"Então tenho de ir cavalgar ao teu lado," gritou ele, e começou imediatamente a subir pelo lugar do cocheiro. Mas, com um trinado de riso prateado, ela escorregou facilmente sobre as costas do feno para lhe escapar, e correu um pouco ao longo da estrada. Podia vê-la muito claramente, e notei a graça encantadora e natural dos seus movimentos, e a expressão amorosa nos seus olhos ao olhar por cima do ombro para se certificar de que ele a seguia. Evidentemente, ela não desejava escapar por muito tempo, certamente não para sempre.
Em duas passadas, o grande pretendente castanho estava atrás dela, deixando os cavalos fazerem o que bem entendessem. Mais um segundo e os seus braços teriam apanhado a cintura esguia e pressionado o pequeno corpo contra o seu coração. Mas, precisamente nesse instante, o velho ao meu lado soltou um grito peculiar. Era baixo e arrepiante, e atravessou-me como uma espada afiada.
ELE tinha-a chamado pelo seu próprio nome — e ela tinha ouvido.
Por um segundo ela deteve-se, olhando para trás com olhos assustados. Então, com um breve grito de desespero, a rapariga desviou-se e mergulhou rapidamente entre as sombras das árvores.
Mas o jovem viu o movimento súbito e gritou-lhe apaixonadamente —
"Não por esse caminho, meu amor! Não por esse caminho! É o Bosque dos Mortos!"
Ela lançou-lhe um olhar risonho por cima do ombro, e o vento apanhou-lhe o cabelo e estendeu-o numa nuvem castanha sob o sol. Mas no minuto seguinte ela estava perto de mim, deitada no peito do meu companheiro, e tive a certeza de ouvir as palavras proferidas repetidamente com muitos suspiros: "Pai, tu chamaste, e eu vim. E venho de livre vontade, pois estou muito, muito cansada."
De qualquer forma, foi assim que as palavras me soaram, e misturada com elas pareceu-me captar a resposta naquele sussurro profundo e arrepiante que eu já conhecia: "E tu dormirás, minha filha, dormirás por muito, muito tempo, até que seja hora de começares a jornada novamente."
Nesse breve segundo de tempo, reconheci o rosto e a voz da filha do estalajadeiro, mas no minuto seguinte um lamento terrível rompeu dos lábios do jovem, e o céu tornou-se subitamente tão escuro como a noite, o vento levantou-se e começou a agitar os ramos à nossa volta, e toda a cena foi engolida por uma vaga de negrume absoluto.
Novamente os dedos frios pareceram agarrar a minha mão, e fui guiado pelo caminho por onde viera até à orla do bosque, e atravessando o campo de feno ainda adormecido sob a luz das estrelas, rastejei de volta para a estalagem e fui para a cama.
Um ano mais tarde, aconteceu estar na mesma parte do país, e a memória da estranha visão de verão regressou-me com a suavidade acrescida da distância. Fui à velha aldeia e tomei chá sob as mesmas árvores do pomar na mesma estalagem.
Mas a pequena criada da estalagem não mostrou o rosto, e aproveitei a ocasião para perguntar ao pai sobre o seu bem-estar e o seu paradeiro.
"Casada, sem dúvida," ri-me, mas com um sentimento estranho que me apertou o coração.
"Não, senhor," respondeu o estalajadeiro tristemente, "não casada — embora estivesse prestes a sê-lo — mas morta. Teve uma insolação nos campos de feno, poucos dias depois de o senhor ter estado aqui, se bem me lembro, e partiu de nós em menos de uma semana."
SMITH: UM EPISÓDIO NUMA PENSÃO
"Quando eu era estudante de medicina," começou o doutor, voltando-se a meio para o seu círculo de ouvintes à luz do lume, "cruzei-me com um ou dois seres humanos muito curiosos; mas houve um sujeito de quem me lembro particularmente, pois causou-me as emoções mais vívidas, e creio que as mais desconfortáveis, que alguma vez conheci.
"Durante muitos meses, conheci Smith apenas pelo nome como o ocupante do andar acima do meu. Obviamente, o seu nome não significava nada para mim. Além disso, estava ocupado com aulas, leituras, clínicas e afins, e tinha pouco lazer para conceber planos de tentar travar conhecimento com qualquer dos outros hóspedes da casa. Depois, o acaso juntou-nos curiosamente, e este sujeito Smith deixou uma profunda impressão em mim como resultado do nosso primeiro encontro. Na altura, a força desta primeira impressão pareceu-me totalmente inexplicável, mas olhando agora para o episódio a partir de um ponto de vista de maior conhecimento, julgo que o facto foi que ele despertou a minha curiosidade a um grau invulgar, e ao mesmo tempo despertou o meu sentido de horror — o que quer que isso seja num estudante de medicina — tão profunda e permanentemente quanto estas duas emoções eram capazes de ser despertadas no sistema e conjunto de nervos chamado EU.
"Como ele sabia que eu estava interessado no estudo de línguas era algo que nunca consegui explicar, mas um dia, sem aviso, entrou calmamente no meu quarto à noite e perguntou-me diretamente se eu sabia hebraico suficiente para o ajudar na pronúncia de certas palavras.
"Ele apanhou-me pela linha de menor resistência, e fiquei muito lisonjeado por ser capaz de lhe dar a informação desejada; mas foi apenas quando ele me agradeceu e se foi embora que me apercebi de que estivera na presença de uma individualidade invulgar. Pela minha vida que não conseguia captar e rotular as peculiaridades do que sentia ser uma personalidade muito marcante, mas ficou gravado em mim que ele era um homem à parte dos seus semelhantes, uma mente que seguia uma linha que se afastava do convívio humano comum e dos interesses humanos, e para regiões que deixavam na sua atmosfera algo remoto, rarefeito, gelado.
"No momento em que ele se foi embora, tornei-me consciente de duas coisas — uma curiosidade intensa de saber mais sobre este homem e quais eram os seus verdadeiros interesses, e em segundo lugar, o facto de a minha pele estar a arrepiar-se e o meu cabelo ter tendência a levantar-se."
O doutor fez uma pausa por um momento aqui para dar uma passa forte no seu cachimbo, que, contudo, se tinha apagado irremediavelmente sem a ajuda de um fósforo; e no silêncio profundo, que testemunhava o interesse genuíno dos seus ouvintes, alguém atiçou o lume para uma pequena chama, e um ou dois outros olharam por cima dos ombros para as distâncias escuras do grande salão.
"Ao olhar para trás," continuou, observando as chamas momentâneas na lareira, "vejo um homem baixo e atarracado de talvez quarenta e cinco anos, com ombros imensos e mãos pequenas e esguias. O contraste era notável, pois lembro-me de pensar que tal estrutura de gigante e tais ossos de dedos finos dificilmente pertenciam um ao outro. A sua cabeça, também, era grande e muito longa, a cabeça de um idealista sem dúvida alguma, mas com um desenvolvimento invulgarmente forte do maxilar e do queixo. Aqui, novamente, havia uma contradição singular, embora seja agora mais capaz de apreciar o seu pleno significado, com uma maior experiência em julgar os valores da fisionomia. Pois isto significava, naturalmente, um idealismo entusiasta equilibrado e mantido sob controlo pela vontade e pelo julgamento — elementos habitualmente deficientes nos sonhadores e visionários.
"De qualquer forma, aqui estava um ser com provavelmente uma gama muito vasta de possibilidades, uma máquina com um pêndulo que muito provavelmente tinha um comprimento de oscilação invulgar.
"O cabelo do homem era extremamente fino, e as linhas à volta do nariz e da boca estavam talhadas como com um instrumento de aço delicado na cera. Os seus olhos deixei para o fim. Eram grandes e bastante variáveis, não apenas na cor, mas no caráter, tamanho e forma. Ocasionalmente pareciam os olhos de outra pessoa, se me entendem, e ao mesmo tempo, nos seus tons mutáveis de azul, verde, e um tipo sem nome de cinzento escuro, havia uma luz sinistra neles que conferia a todo o rosto um aspeto quase alarmante. Além disso, eram os órgãos visuais mais luminosos que creio ter visto em qualquer ser humano.
"Ali, então, sob o risco de uma descrição cansativa, está Smith como o vi pela primeira vez naquela noite de inverno nos meus modestos quartos de estudante em Edimburgo. E ainda assim a parte real dele, naturalmente, deixei intocada, pois é simultaneamente indescritível e inalcançável. Já falei de uma atmosfera de aviso e distanciamento que ele carregava consigo. É impossível analisar mais a série de pequenos choques que a sua presença comunicava sempre ao meu ser; mas havia algo nele que me deixava instantaneamente em alerta na sua presença, cada nervo atento, cada sentido tenso e em vigilância. Não quero dizer que ele sugerisse deliberadamente perigo, mas antes que trazia forças no seu rasto que avisavam automaticamente os centros nervosos do meu sistema para estarem de guarda e alertas.
"Desde os dias do meu primeiro conhecimento com este homem, vivi outras experiências e vi muito que não posso pretender explicar ou entender; mas, até agora na minha vida, só uma vez me cruzei com um ser humano que sugerisse uma familiaridade desagradável com coisas profanas, e que me fazia sentir estranho e 'arrepiado' na sua presença; e esse indivíduo pouco invejável era o Sr. Smith.
"Qual era a sua ocupação durante o dia, nunca soube. Penso que dormia até ao pôr do sol. Ninguém o via nunca nas escadas, ou o ouvia mover-se no seu quarto durante o dia. Era uma criatura das sombras, que aparentemente preferia a escuridão à luz. A nossa senhoria ou não sabia nada, ou não dizia nada. De qualquer forma, ela não encontrava falhas, e desde então pergunto-me muitas vezes por que magia este sujeito era capaz de converter uma senhoria comum de uma pensão comum numa pessoa discreta e pouco comunicativa. Isto, por si só, era um sinal de génio de algum tipo.
"'Ele está aqui comigo há anos — muito antes de o senhor vir, e eu não interfiro nem faço perguntas sobre o que não me diz respeito, desde que as pessoas paguem a renda,' foi o único comentário sobre o assunto que alguma vez consegui obter daquela parte, e certamente não me disse nada nem me deu qualquer incentivo para pedir mais informações.
"Exames, no entanto, e a excitação geral da vida de um estudante de medicina por um tempo puseram o Sr. Smith completamente fora da minha cabeça. Durante um longo período, ele não me chamou novamente, e da minha parte, não senti coragem para retribuir a sua visita não solicitada.
"Precisamente então, no entanto, veio uma mudança na sorte daqueles que controlavam o meu rendimento muito limitado, e fui obrigado a deixar o meu andar térreo e mudar-me para cima, para quartos mais modestos no topo da casa. Aqui, eu estava diretamente acima de Smith, e tinha de passar pela sua porta para chegar à minha.
"Aconteceu que, por esta altura, era frequentemente chamado a todas as horas da noite para os casos de maternidade que um estudante do quarto ano assume num certo período dos seus estudos, e ao regressar de uma destas visitas por volta das duas da manhã, fiquei surpreendido ao ouvir o som de vozes ao passar pela sua porta. Um odor doce peculiar, também, não muito diferente do cheiro de incenso, penetrava no corredor.
"Subi as escadas muito silenciosamente, perguntando-me o que se passava ali àquela hora da manhã. Tanto quanto sabia, Smith nunca tinha visitas. Por um momento hesitei fora da porta com um pé nas escadas. Todo o meu interesse neste homem estranho reavivou-se, e a minha curiosidade subiu a um ponto não muito longe da ação. Finalmente poderia aprender algo sobre os hábitos deste amante da noite e da escuridão.
"O som das vozes era claramente audível, o de Smith predominando tanto que nunca consegui captar mais do que pontos de som da outra, penetrando de vez em quando o fluxo constante da sua voz. Nem uma única palavra me chegou, pelo menos, nem uma palavra que pudesse entender, embora a voz fosse alta e distinta, e foi apenas depois que me apercebi de que ele devia estar a falar numa língua estrangeira.
"O som de passos, também, era igualmente distinto. Duas pessoas moviam-se pelo quarto, passando e voltando a passar pela porta, uma delas uma pessoa leve e ágil, e a outra ponderosa e um tanto desajeitada. A voz de Smith continuava incessantemente com o seu zumbido estranho e monótono, ora alto, ora suave, enquanto ele cruzava e voltava a cruzar o chão. A outra pessoa também estava em movimento, mas de uma forma diferente e menos regular, pois ouvi passos rápidos que pareciam terminar por vezes em tropeços, e movimentos rápidos e súbitos que terminavam num balanço violento contra a parede ou a mobília.
"Enquanto eu ouvia a voz de Smith, além disso, comecei a sentir medo. Havia algo no som que me fazia sentir intuitivamente que ele estava num beco sem saída, e um impulso agitou-se fracamente em mim — muito fracamente, admito — de bater à porta e perguntar se ele precisava de ajuda.
"Mas muito antes de o impulso se poder traduzir num ato, ou mesmo antes de ter sido devidamente pesado e considerado pela mente, ouvi uma voz perto de mim no ar, uma espécie de sussurro abafado que tenho a certeza ser Smith a falar, embora o som não parecesse ter-me chegado através da porta. Estava perto no meu próprio ouvido, como se ele estivesse ao meu lado, e deu-me tal sobressalto, que agarrei o corrimão para me salvar de dar um passo atrás e fazer um estrépito nas escadas.
"'Não há nada que possas fazer para me ajudar,' disse ele distintamente, 'e estarás muito mais seguro no teu próprio quarto.'
"Sinto vergonha até hoje do ritmo a que cobri o lanço de escadas na escuridão até ao último andar, e da mão trémula com que acendi as minhas velas e tranquei a porta. Mas é assim mesmo, tal como aconteceu.
"Este episódio da meia-noite, tão estranho e ainda assim tão trivial em si mesmo, inflamou-me com mais curiosidade do que nunca sobre o meu companheiro de casa. Também me fez ligá-lo na minha mente a um sentido de medo e desconfiança. Nunca o vi, contudo estava frequentemente, e de forma desconfortável, consciente da sua presença nas regiões superiores daquela pensão sombria. Smith e o seu modo de vida secreto e atividades misteriosas, de alguma forma, conseguiram despertar no meu ser uma linha de reflexão que perturbou a minha confortável condição de ignorância. Nunca o vi, como disse, e não troquei qualquer tipo de comunicação com ele, contudo parecia-me que a sua mente estava em contacto com a minha, e algumas das estranhas forças da sua atmosfera filtraram-se para o meu ser e perturbaram o meu equilíbrio. Aqueles andares superiores tornaram-se assombrados para mim depois de escurecer, e, embora exteriormente as nossas vidas nunca tenham entrado em contacto, tornei-me involuntariamente envolvido em certas atividades nas quais a sua mente estava centrada. Senti que ele estava de alguma forma a fazer uso de mim contra a minha vontade, e por métodos que ultrapassavam a minha compreensão.
"Eu estava naquela altura, além disso, no pesado estado de materialismo inquestionável que é comum aos estudantes de medicina quando começam a entender algo da anatomia humana e do sistema nervoso, e saltam imediatamente para a conclusão de que controlam o universo e seguram nos seus fórceps a última palavra da vida e da morte. Eu 'sabia tudo', e encarava a crença em qualquer coisa para além da matéria como os devaneios de mentes fracas, ou, na melhor das hipóteses, destreinadas. E esta condição de mente, naturalmente, somou-se à força deste medo perturbador que emanava do andar de baixo e começou lentamente a tomar posse de mim.
"Embora não tenha guardado notas dos eventos subsequentes neste assunto, eles fizeram uma impressão demasiado profunda para que eu alguma vez esquecesse a sequência em que ocorreram. Sem dificuldade, posso recordar o passo seguinte na aventura com Smith, pois aventura tornou-se rapidamente."
O doutor parou um momento e pousou o cachimbo na mesa atrás de si antes de continuar. O lume tinha ardido baixo, e ninguém se moveu para o atiçar. O silêncio no grande salão era tão profundo que quando o cachimbo do orador tocou na mesa o som acordou ecos audíveis no extremo oposto, entre as sombras.
"Certa noite, enquanto eu lia, a porta do meu quarto abriu-se e Smith entrou. Ele não fez qualquer tentativa de cerimónia. Eram mais de dez horas e eu estava cansado, mas a presença do homem galvanizou-me imediatamente para a atividade. As minhas tentativas de cortesia comum ele pôs de lado de imediato, e começou a pedir-me para vocalizar, e depois pronunciar para ele, certas palavras hebraicas; e quando isto foi feito, ele perguntou abruptamente se eu não era o possuidor afortunado de um Tratado Rabínico muito raro, que ele nomeou.
"Como ele sabia que eu possuía este livro intrigou-me imensamente; mas fiquei ainda mais surpreendido ao vê-lo atravessar o quarto e tirá-lo da minha estante quase antes de eu ter tido tempo para responder afirmativamente. Evidentemente, ele sabia exatamente onde era guardado. Isto excitou a minha curiosidade para além de todos os limites, e comecei imediatamente a fazer-lhe perguntas; e embora, por puro respeito pelo homem, as colocasse muito delicadamente, e quase a título de mera conversa, ele tinha apenas uma resposta para todas. Ele olhava para mim a partir das páginas do livro com uma expressão de total compreensão nas suas características extraordinárias, inclinava um pouco a cabeça e dizia muito gravemente —
"'Essa, naturalmente, é uma pergunta perfeitamente adequada,' — que era absolutamente tudo o que alguma vez consegui dele.
"Nesta ocasião particular, ele ficou comigo talvez dez ou quinze minutos. Depois desceu rapidamente para o seu quarto com o meu Tratado hebraico na mão, e ouvi-o fechar e trancar a porta.
"Mas alguns momentos depois, antes de ter tido tempo para me instalar novamente no meu livro, ou de recuperar da surpresa que a sua visita me causara, ouvi a porta abrir-se, e lá estava Smith mais uma vez ao lado da minha cadeira. Ele não deu qualquer desculpa para a sua segunda interrupção, mas inclinou a cabeça para o nível do meu candeeiro de leitura e espreitou através da chama diretamente para os meus olhos.
"'Espero,' sussurrou ele, 'espero que nunca sejas perturbado à noite?'
"'Eh?' gaguejei, 'perturbado à noite? Oh não, obrigado, pelo menos, não que eu saiba —'
"'Fico contente,' respondeu ele gravemente, parecendo não notar a minha confusão e surpresa com a sua pergunta. 'Mas, lembra-te, caso alguma vez seja o caso, por favor avisa-me imediatamente.'
"E ele foi-se escadas abaixo e para o seu quarto novamente.
"Por alguns minutos fiquei a refletir sobre o seu comportamento estranho. Ele não era louco, argumentei, mas era a vítima de algum delírio inofensivo que tinha crescido gradualmente nele como resultado do seu modo de vida solitário; e a partir dos livros que ele usava, julguei que tinha algo a ver com magia medieval, ou algum sistema de misticismo hebraico antigo. As palavras que ele me pediu para pronunciar para ele eram provavelmente 'Palavras de Poder', que, quando proferidas com a veemência de uma vontade forte por trás delas, deveriam produzir resultados físicos, ou criar vibrações no próprio ser interior que tinham o efeito de um levantamento parcial do véu.
"Fiquei sentado a pensar sobre o homem, e o seu modo de vida, e os efeitos prováveis a longo prazo das suas experiências perigosas, e consigo recordar perfeitamente a sensação de desapontamento que se apoderou de mim quando me apercebi de que tinha rotulado a sua forma particular de aberração, e que a minha curiosidade já não seria, portanto, excitada."
"A minha atitude para com o assunto era, pois, uma mistura de desprezo intelectual e de um estranho e relutante fascínio. Mas, apesar de ter chegado a esta conclusão sobre a natureza das ocupações de Smith, a verdade é que, durante muitos dias após aquela noite, senti-me incapaz de recuperar o meu equilíbrio habitual. Sentia-me, se me permitem a expressão, um homem cuja própria essência tinha sido deslocada, um homem cujas fundações tinham sido abaladas.
"Não foi, portanto, com surpresa que, cerca de uma semana depois, descobri que Smith tinha abandonado o seu alojamento. Voltei para casa uma noite e encontrei a sua porta aberta, o quarto vazio e a sua senhoria, uma mulher de semblante severo, a declarar com grande indignação que o 'cavalheiro do terceiro andar' tinha partido sem deixar rasto nem aviso, deixando apenas para trás um cheiro a químicos que ela não conseguia identificar e que, segundo ela, impregnava as paredes e o chão de tal forma que seria necessário um esforço hercúleo para o remover.
"Tentei, nos dias que se seguiram, retomar a minha vida como se nada tivesse acontecido. Voltei ao meu trabalho, às minhas rondas, às minhas leituras. Mas o fantasma daquela experiência pairava sobre mim. Por vezes, na quietude da noite, quando o silêncio da casa era quase palpável, parecia-me ouvir de novo aquele murmúrio, aquele sibilar de ar, aquele aviso urgente. E, mais do que isso, via-me constantemente a observar o meu próprio reflexo no espelho, procurando sinais daquela palidez, daquela lassidão que o 'ser' me tinha infligido.
"Foi o início de uma obsessão da qual não me consegui livrar durante anos. O que era Smith? Que forças ele controlava? E, mais importante ainda, que parte de mim tinha sido tocada por aquelas entidades? Muitas vezes, nos meus momentos de solidão, pergunto-me se o que vi foi apenas uma projeção da minha própria mente, um colapso nervoso sob o peso da exaustão e do isolamento, ou se, por um breve momento, os véus que separam a nossa realidade de outras ordens de existência se tinham, de facto, rasgado.
"Hoje, ao olhar para trás, sinto que a resposta é irrelevante. O que importa é que a experiência me marcou de forma indelével. Tornei-me um homem que caminha com cautela, que escuta os espaços vazios entre os sons, que olha para as sombras não como a ausência de luz, mas como presenças que aguardam. Smith desapareceu, talvez tenha encontrado o seu fim na busca de algo que não deveria ser procurado, ou talvez tenha apenas passado para um plano onde a minha compreensão não pode segui-lo.
"Quanto a mim, o resto da minha vida tem sido uma tentativa de reconciliar o que a minha razão me diz ser impossível com o que os meus sentidos, naquele terrível quarto de Edimburgo, me forçaram a aceitar. E, embora o fogo na lareira se apague, como a própria vida, não posso deixar de sentir que, por vezes, a porta entreaberta ainda não se fechou por completo."
O doutor calou-se. O fogo na lareira era agora pouco mais do que cinzas brilhantes. Na sala, o silêncio era absoluto, carregado com o peso daquela história estranha e sombria. Nenhum de nós ousou falar durante algum tempo, sentindo que, após o que tínhamos ouvido, qualquer palavra seria trivial e desprovida de significado perante a imensidão do que nos tinha sido revelado.
"Mas mal tinha eu começado a felicitar-me por este resultado, e a reunir os meus sentidos dispersos, quando, soltando um grito alto, vi-o saltar para fora do círculo e lançar-se ao ar — como me pareceu, ao ar vazio. Então, mesmo enquanto prendia a respiração pelo medo do choque que ele inevitavelmente sofreria contra o chão, vi-o atingir com um baque surdo um corpo sólido no meio do ar, e no instante seguinte ele lutava com algo pesado que era absolutamente invisível para mim, e o quarto tremia com a luta.
"Eles oscilavam de um lado para o outro, por vezes inclinando-se numa direção, por vezes noutra, e sempre numa proximidade horrível de mim, enquanto eu me encostava, a tremer, à parede e observava o encontro.
"Durou, no máximo, um minuto ou dois, terminando tão subitamente como tinha começado. Smith, com um movimento inesperado, ergueu os braços com um grito de alívio. No mesmo instante, ouviu-se um guincho selvagem e dilacerante no ar ao meu lado e algo passou por nós a correr com um ruído semelhante à passagem de um bando de pássaros grandes. Ambas as janelas estalaram como se fossem soltar-se dos seus caixilhos. Então, uma sensação de vazio e paz apoderou-se subitamente do quarto, e eu soube que tudo tinha terminado.
"Smith, com o rosto extremamente branco, mas de resto estranhamente composto, voltou-se para mim imediatamente.
"'Deus! — se não tivesses vindo — Tu desviaste a corrente; quebraste-a —' sussurrou ele. 'Tu salvaste-me.'"
O doutor fez uma longa pausa. Pouco depois, tateou à procura do seu cachimbo na escuridão, apalpando a mesa atrás de nós com ambas as mãos. Ninguém falou por um momento, mas todos temiam o brilho súbito que viria quando ele riscasse o fósforo. O fogo estava quase apagado e o grande salão estava na escuridão total.
Mas o contador de histórias não riscou esse fósforo. Ele estava apenas a ganhar tempo por alguma razão oculta sua. E logo continuou com o seu conto numa voz mais contida.
"Esqueço-me completamente", disse ele, "de como voltei para o meu próprio quarto. Só sei que fiquei deitado com duas velas acesas durante o resto da noite, e a primeira coisa que fiz de manhã foi avisar a senhoria de que deixaria a sua casa no fim da semana.
"Smith ainda tem o meu Tratado Rabínico. Pelo menos, ele não mo devolveu na altura, e nunca mais o vi desde então para o pedir."
UM PRESENTE SUSPEITO
Blake estivera em sérias dificuldades financeiras durante meses — quase submerso parte do tempo — devido a circunstâncias que ele gostava de dizer que não eram culpa sua; e enquanto se sentava a escrever no seu quarto no "terceiro andar das traseiras" de uma pensão de Nova Iorque, parte da sua mente estava ocupada a perguntar-se quando é que a sua sorte voltaria a mudar.
Era o seu quarto apenas no sentido de que ele pagava a renda. Dois amigos, um pequeno francês e o outro um dinamarquês grande, partilhavam-no com ele, ambos esperando eventualmente contribuir com algo para as despesas, mas até agora não tendo alcançado esse resultado. Tinham apenas duas camas, sendo a terceira um colchão no qual dormiam à vez, uma semana de cada vez. Uma boa parte da sua "alimentação" irregular consistia em aveia, batatas e, por vezes, ovos, tudo o que cozinhavam num utensílio estranho que tinham conseguido adaptar ao bico do gás. Ocasionalmente, quando o jantar falhava por completo, engoliam um pouco de arroz cru e bebiam água quente da casa de banho por cima, e depois corriam desenfreadamente para a cama para adormecerem enquanto a sensação de falsa saciedade ainda lá estava. Pois o sono e a fome são conhecidos de longa data, como eles bem sabiam. Felizmente, todas as casas de Nova Iorque são abastecidas com ar quente, e eles apenas tinham de abrir uma grelha na parede para obter uma quantidade abundante, se não saudável, de calor.
Embora a solidão numa cidade grande seja um castigo real, como eles tinham aprendido individualmente à sua custa, as suas experiências, três num quarto pequeno durante vários meses, tinham-lhes revelado horrores de um tipo bem diferente, e os seus nervos tinham sofrido de acordo com o temperamento de cada um. Mas, nesta noite em particular, enquanto Blake se sentava a rabiscar junto da única janela que não estava rachada, o dinamarquês e o francês, os seus companheiros na adversidade, estavam com uma sorte maravilhosa. Ambos tinham sido convidados para jantar num restaurante com um amigo que também oferecia a um deles uma oportunidade de trabalho e remuneração. Não voltariam até tarde, e quando viessem, era quase certo que trariam mantimentos de um tipo ou de outro. Pois o francês nunca conseguia resistir à oferta de um copo de absinto, e isso significava que ele seria capaz de se servir abundantemente dos balcões de almoço gratuito, com os quais todos os bares de Nova Iorque estão equipados, e aos quais qualquer comprador de uma bebida tem o direito de se servir e devorar no local ou levar casualmente na mão para consumo noutro lugar. Milhares de homens desafortunados obtêm o seu único sustento desta forma em Nova Iorque, e a experiência ensina rapidamente onde, pelo preço de uma única bebida, um homem pode levar quase uma refeição de batatas fritas, salsicha, pedaços de pão e até ovos. O francês e o dinamarquês conheciam o caminho, e Blake esperava um jantar mais ou menos substancial antes de puxar o seu colchão do armário e de se deitar no chão para a noite.
Entretanto, ele podia desfrutar de uma noite calma e solitária com o quarto todo para si.
Durante o dia, ele era repórter num jornal vespertino de hábitos sensacionalistas e mentirosos. O seu trabalho era principalmente nos tribunais criminais; e nas suas horas vagas à noite, quando não estava demasiado cansado ou demasiado vazio, escrevia esboços e histórias para revistas que raramente viam a luz do dia nas suas frases impressas e pagas. Nesta ocasião em particular, ele estava mergulhado num conto muito intrincado de carácter psicológico, e tinha acabado de se esforçar por escrever uma frase, ou conjunto de frases, que o confundia e baralhava completamente.
Ele estava claramente fora da sua zona de conforto, e o seu cérebro estava demasiado mal nutrido para inventar uma saída. A história teria sido interessante se ele a tivesse escrito simplesmente, mantendo-se fiel aos factos e sentimentos, e não mergulhando numa análise difícil de motivos e carácter que estava muito além dele. Pois era em grande parte autobiográfica, e destinava-se a descrever as aventuras de um jovem inglês que tinha fracassado da forma habitual numa quinta canadiana, tinha subsequentemente tornado-se empregado de bar, subeditor de uma revista metodista, professor de francês e alemão para funcionários por vinte e cinco cêntimos por hora, modelo para artistas, figurante no teatro e, finalmente, um errante para os campos de ouro.
Blake coçou a cabeça, mergulhou a caneta no tinteiro, olhou através das janelas sem persianas e suspirou profundamente. Os seus pensamentos continuavam a divagar para a comida, bife e vegetais a fumegar. O cheiro da cozinha que vinha de um andar inferior através das janelas partidas era um tormento constante para ele. Ele recompôs-se e atacou novamente o problema.
". . . pois com algumas pessoas", escreveu ele, "a imaginação é tão vívida que chega a ser quase uma extensão da consciência. . . ." Mas aqui ele bloqueou absolutamente. Ele não tinha a certeza do que queria dizer com as palavras, e como terminar a frase confundiu-o até à inação total. Era um ponto difícil de decidir, pois parecia surgir apropriadamente nesta parte da sua história, e ele não sabia se a devia deixar como estava, mudá-la um pouco, ou retirá-la por completo. Poderia apenas arruinar as suas hipóteses de ser aceite: os editores eram homens tão inteligentes. Mas reescrever a frase era uma tarefa árdua, e ele estava tão cansado e com sono. Afinal, o que importava? As pessoas que fossem inteligentes forçariam um significado nela; as pessoas que não fossem inteligentes fingiriam — ele não conhecia outras classes de leitores. Ele deixá-la-ia ficar e continuaria com a ação da história. Ele pôs a cabeça entre as mãos e começou a pensar profundamente.
A sua mente passou rapidamente do pensamento ao devaneio. Começou a interrogar-se sobre quando é que os seus amigos encontrariam trabalho e o aliviariam do fardo — ele reconhecia-o como tal — de os sustentar, e de deixar outro homem usar as suas melhores roupas em domingos alternados. Perguntou-se quando é que a sua "sorte" mudaria. Havia uma ou duas pessoas influentes em Nova Iorque a quem ele poderia ir ver se tivesse um fato de cerimónia e os outros uniformes convencionais. Os seus pensamentos corriam muito à frente e, ao mesmo tempo, por um tipo de processo duplo, muito atrás também. A sua casa no "velho país" surgiu diante dele; viu o relvado e os cedros sob a luz do sol; olhou através das janelas familiares e viu os quartos limpos e varridos. A sua história começou a sofrer; a obra-prima psicológica não faria grandes progressos a menos que ele parasse e arrastasse os seus pensamentos de volta para a mó. Mas ele já não se importava; uma vez que tinha chegado tão longe como aquele cedro com o sol sobre ele, nunca conseguia voltar atrás. Por ele, a frase problemática podia fugir e entrar nas páginas de outra pessoa, ou ser extinta por completo.
Ouviu-se uma batida suave à porta, e Blake sobressaltou-se. A batida repetiu-se mais forte. Quem poderia ser a uma hora tão tardia da noite? No andar de cima, recordou-se, vivia outro inglês, uma criatura tola e de segunda categoria, que por vezes vinha e se tornava desagradável com uma tagarelice interminável e estúpida. Mas ele era um inglês, apesar de tudo, e Blake tentava sempre tratá-lo com polidez, compreendendo que ele se sentia sozinho numa terra estranha. Mas esta noite, de todas as pessoas do mundo, ele não queria ser aborrecido com a tagarelice de Perry, como ele lhe chamava, e o "Entre" que ele deu em resposta à segunda batida não tinha um tom de boas-vindas muito cordial.
No entanto, a porta abriu-se em resposta, e o homem entrou. Blake não se virou imediatamente, e o outro avançou para o centro do quarto, mas sem falar. Então Blake soube que não era o seu inimigo, Perry, e virou-se.
Viu um homem de cerca de quarenta anos de pé no meio do tapete, mas de lado, de modo que não apresentava o rosto de frente. Usava um sobretudo abotoado até ao pescoço, e no chapéu de feltro que segurava à frente brilhavam gotas de chuva frescas. Na outra mão carregava uma pequena mala preta. Blake deu-lhe uma boa olhadela e chegou à conclusão de que poderia ser um secretário, ou um escriturário-chefe, ou um homem de confiança de algum tipo. Era uma pessoa de aspeto respeitável mas gasto. Este foi o total da primeira impressão, ganha no momento em que os seus olhos registaram que não era Perry; a segunda impressão foi menos agradável, e relatou imediatamente que algo estava errado.
Embora de resto jovem e inexperiente, Blake — graças, ou por maldição, à formação nos tribunais criminais — sabia mais sobre a canalhice criminosa comum do que a maioria dos homens de cinquenta anos, e reconheceu que havia em algum lugar uma sugestão deste mundo indesejável em relação ao homem. Mas havia mais do que isso. Havia algo singular nele, algo muito fora do comum, embora, pela sua vida, Blake não conseguisse dizer onde residia. O indivíduo estava fora do habitual, e de alguma maneira muito indesejável.
Tudo isto, que demora tanto a descrever, Blake viu com o primeiro e segundo olhar. O homem começou imediatamente a falar com uma voz calma e respeitosa.
"É o senhor Blake?" perguntou ele.
"Sou."
"O senhor Arthur Blake?"
"Sim."
"O senhor Arthur Herbert Blake?" insistiu o outro, com ênfase no nome do meio.
"Esse é o meu nome completo," respondeu Blake simplesmente, acrescentando, ao lembrar-se das suas maneiras; "mas não quer sentar-se primeiro, por favor?"
O homem avançou com um movimento curioso de lado, como um caranguejo, e sentou-se na beira do sofá. Pôs o chapéu no chão aos seus pés, mas continuou a manter a mala na mão.
"Venho até si da parte de um bem-querente," continuou ele em tons untuosos, sem levantar os olhos. Blake, na sua mente, percorreu rapidamente todas as pessoas que conhecia em Nova Iorque que poderiam possivelmente ter enviado tal homem, enquanto esperava que ele fornecesse o nome. Mas o homem tinha chegado a um ponto final e estava também à espera.
"Um bem-querente meu?" repetiu Blake, sem saber bem que mais dizer.
"Exatamente," respondeu o outro, ainda com os olhos no chão. "Um bem-querente seu."
"Um homem ou..." sentiu-se a corar, "ou uma mulher?"
"Isso," disse o homem secamente, "não lhe posso dizer."
"Não me pode dizer!" exclamou o outro, perguntando-se o que viria a seguir, e quem no mundo poderia ser este misterioso bem-querente que enviava um mensageiro tão discreto e misterioso.
"Não lhe posso dizer o nome," respondeu o homem firmemente. "Essas são as minhas instruções. Mas trago-lhe algo desta pessoa, e devo entregá-lo a si, obter um recibo por ele, e depois ir-me embora sem responder a quaisquer perguntas."
Blake olhou fixamente. O homem, contudo, nunca levantou os olhos acima do nível do segundo puxador de porcelana na cómoda em frente. O ato de dar um recibo soava a dinheiro. Seria possível que alguns dos seus amigos influentes tivessem ouvido falar da sua situação? Havia possibilidades que faziam o seu coração bater. Por fim, contudo, encontrou a voz, pois esta criatura estranha estava aparentemente determinada a não dizer mais nada até que o tivesse ouvido.
"Então, o que tem para mim, por favor?" perguntou ele bruscamente.
Como resposta, o homem procedeu a abrir a mala. Tirou um embrulho envolto vagamente em papel pardo, e com o tamanho de um livro grande. Estava atado com um fio, e o homem pareceu demorar desnecessariamente a desatar o nó. Quando finalmente o fio foi removido e o papel aberto, apareceram uma série de pacotes mais pequenos no interior. O homem tirou-os muito cuidadosamente, quase como se estivessem vivos, pensou Blake, e colocou-os numa fila sobre os seus joelhos. Eram notas de dólar. Blake, todo agitado, esticou o pescoço um pouco para tentar perceber a sua denominação. Leu claramente os algarismos 100.
"Há dez mil dólares aqui," disse o homem calmamente.
O outro não pôde suprimir um pequeno grito.
"E são para si."
Blake simplesmente ofegou. "Dez mil dólares!" repetiu, uma sensação estranha a crescer na sua garganta. "Dez mil. Tem a certeza? Quero dizer... quer dizer que são para mim?" gaguejou. Sentia-se bastante tolo com a excitação, e sentia-se mais a cada minuto, à medida que o homem mantinha um silêncio perfeito. Não seria um sonho? O homem não os voltaria a pôr na mala dentro em breve e diria que fora um erro, e que eram para outra pessoa? Ele não podia acreditar nos seus olhos ou nos seus ouvidos. No entanto, num certo sentido, era possível. Ele tinha lido sobre tais coisas em livros, e até se tinha cruzado com elas na sua experiência dos tribunais — o filantropo errático e generoso que está determinado a fazer a sua boa ação e a não obter agradecimento ou reconhecimento por ela. Ainda assim, parecia quase incrível. Os seus problemas começaram a derreter-se como bolhas ao sol; pensou nos outros colegas quando chegassem, e no que teria de lhes dizer; pensou na senhoria alemã e nos atrasos da renda, na comida regular e na roupa limpa, nos livros e na música, na hipótese de entrar num negócio respeitável, de... bem, de tantas coisas quantas é possível pensar quando a excitação e a surpresa escancaram as portas da imaginação.
O homem, entretanto, começou calmamente a contar os pacotes em voz alta de um a dez, e depois a contar as notas em cada pacote separado, também de um a dez. Sim, eram dez pequenos montes, cada um contendo dez notas de cem dólares de denominação. Isso fazia dez mil dólares. Blake nunca tinha visto tanto dinheiro junto em toda a sua vida; e durante muitos meses de privação e desconforto, não tinha sentido o "toque" de uma nota de vinte dólares, muito menos de uma de cem. Ouviu-as estalar sob os dedos do homem, e era como um riso estaladiço nos seus ouvidos. As notas eram evidentemente novas e não usadas.
Mas, lado a lado com a excitação causada pelo choque de tal evento, a cautela de Blake, adquirida por um ano de experiência vívida em Nova Iorque, começava entretanto a afirmar-se. Tudo parecia um pouco demasiado fora da ordem provável das coisas para estar bem. Os tribunais criminais tinham-lhe ensinado a incrível engenhosidade da mente criminosa, bem como algo das tramas e dispositivos pelos quais os incautos são atraídos para lugares escuros onde a chantagem pode ser cobrada com impunidade. Nova Iorque, de facto, exatamente naquela altura, estava literalmente minada com os caminhos secretos dos chantagistas, dos homens do "green-goods", e outras abominações protegidas pela polícia; e o único ponto fraco na suposição de que isto fazia parte de um tal procedimento era a seleção de si próprio — um pobre repórter de jornal — como vítima. Parecia absurdo, mas toda a coisa era tão fora do comum, e o pensamento, uma vez que tinha entrado na sua mente, não era tão facilmente afastado. Blake resolveu ser muito cauteloso.
O homem, entretanto, embora nunca parecesse levantar os olhos do tapete, tinha-o estado a observar atentamente o tempo todo.
"Se me der um recibo, deixarei o dinheiro imediatamente," disse ele, com apenas um vestígio de impaciência no seu tom, como se estivesse ansioso por levar o assunto a uma conclusão o mais rapidamente possível.
"Mas diz que é absolutamente impossível para si dizer-me o nome do meu bem-querente, ou porque é que ela me envia uma quantia tão grande de dinheiro desta forma extraordinária?"
"O dinheiro ser-lhe-á enviado porque precisa dele," respondeu o outro; "e é um presente sem condições de qualquer tipo. Apenas tem de me dar um recibo para satisfazer o remetente de que chegou às suas mãos. O dinheiro nunca lhe será pedido de volta."
Blake notou duas coisas a partir desta resposta: primeiro, que o homem não podia ser apanhado a trair o sexo do bem-querente; e segundo, que ele tinha alguma pressa em completar a transação. Pois ele estava agora a dar razões, razões atraentes, pelas quais ele deveria aceitar o dinheiro e passar o recibo.
Subitamente, passou-lhe pela mente que, se ele aceitasse o dinheiro e passasse o recibo perante uma testemunha, nada de muito desastroso poderia resultar do caso. Protegê-lo-ia contra chantagem, se isto fosse, afinal, uma trama de algum tipo com chantagem; enquanto que, se o homem fosse um louco, ou um criminoso que se estivesse a livrar de uma parte dos seus ganhos ilícitos para desviar a suspeita, ou se qualquer outra explicação improvável se revelasse a verdadeira, não haveria grande mal feito, e ele poderia guardar o dinheiro até que fosse reclamado, ou anunciado nos jornais. A sua mente percorreu rapidamente estas possibilidades, embora, claro, sob o stress da excitação, ele fosse incapaz de as avaliar adequadamente; depois voltou-se para o seu estranho visitante novamente e disse calmamente—
"Aceitarei o dinheiro, embora deva dizer que me parece uma transação muito invulgar, e dar-lhe-ei por ele um recibo como penso ser adequado nas circunstâncias."
"Um recibo adequado é tudo o que quero," foi a resposta.
"Quero dizer com isso um recibo perante uma testemunha adequada..."
"Perfeitamente satisfatório," interrompeu o homem, os seus olhos ainda no tapete. "Apenas, deve ser datado, e encabeçado com a sua morada aqui da forma correta."
Blake não via qualquer objeção possível a isto e, de imediato, procedeu para obter a sua testemunha. A pessoa que tinha em mente era um tal Sr. Barclay, que ocupava o quarto acima do seu; um cavalheiro idoso que se reformara dos negócios e que, segundo a senhoria sempre dizia, era um avarento que guardava grandes somas escondidas no seu quarto. Era, de qualquer modo, um homem perfeitamente respeitável e seria uma testemunha admirável para uma transação deste género. Blake pediu desculpa e levantou-se para o ir buscar, atravessando a sala em frente do sofá onde o homem estava sentado, a fim de chegar à porta. Ao fazê-lo, viu pela primeira vez o outro lado do rosto do seu visitante, o lado que estivera sempre tão cuidadosamente virado para o lado oposto ao seu.
Havia uma larga mancha de sangue na pele, desde a orelha até ao pescoço. Reluzia à luz do gás.
Blake nunca soube como conseguiu abafar o grito que lhe saltou aos lábios, mas abafou-o. Num segundo, estava à porta, com os joelhos a tremer e a mente num súbito e terrível tumulto.
O seu principal objetivo, tanto quanto conseguia recordar-se depois, era escapar da sala como se não tivesse notado nada, para não despertar as suspeitas do outro. Os olhos do homem estavam sempre fixos no tapete e, provavelmente, esperava Blake, ele não tinha notado a consternação que devia estar claramente escrita no seu rosto. De qualquer modo, ele não tinha soltado qualquer grito.
No segundo seguinte, ele estaria no corredor, quando subitamente encontrou um par de olhos malignos e arregalados, fixos intensamente e com um sorriso astuto nos seus. Era o rosto do outro no espelho, a observar calmamente cada movimento seu.
Instantaneamente, todos os seus poderes de reflexão voaram pelos ares e ele pensou apenas na conveniência de obter ajuda imediatamente. Subiu as escadas a correr, com o coração na boca. Barclay tinha de vir em seu auxílio. Este assunto era sério — talvez horrivelmente sério. Aceitar o dinheiro, ou dar um recibo, ou ter qualquer tipo de envolvimento com aquilo tornou-se uma impossibilidade. Aquilo era um crime. Sentia-o com certeza.
Em três saltos, alcançou o patamar seguinte e começou a martelar na porta do velho avarento como se a sua própria vida dependesse disso. Durante muito tempo não obteve resposta. Os seus punhos pareciam não fazer ruído. Poderia estar a bater em algodão, e o pensamento atravessou-lhe o cérebro de que tudo aquilo não passava do terror de um pesadelo.
Barclay, evidentemente, estava ainda fora ou então a dormir profundamente. Mas o outro simplesmente não podia esperar mais um minuto em suspense. Rodou a maçaneta e entrou no quarto. A princípio, não viu nada por causa da escuridão e teve a certeza de que o dono do quarto estava fora; mas, no momento em que a luz do corredor começou a dissipar um pouco a penumbra, viu o velho, com imenso alívio, a dormir na cama.
Blake abriu a porta ao máximo para obter mais luz e depois caminhou rapidamente até à cama. Viu agora a figura mais claramente e notou que estava vestida e deitada apenas por cima da colcha. Impressionou-o, também, que ele estivesse a dormir numa posição muito estranha, quase antinatural.
Algo agarrou o seu coração quando olhou mais de perto. Tropeçou numa cadeira e encontrou os fósforos. Chamando por Barclay o tempo todo para acordar e descer com ele, tateou pelo chão, com um pensamento terrível na mente, e acendeu o gás sobre a mesa. Parecia estranho que não houvesse movimento ou resposta aos seus gritos. Mas já não pareceu estranho quando, por fim, se virou, sob o brilho total do gás, e viu o velho deitado, amontoado num monte macabro sobre a cama, com a garganta cortada de orelha a orelha.
E, por todo o tapete, jaziam notas de dólar novas, estaladiças e limpas como as que ele tinha deixado lá em baixo, espalhadas em pequenos montes.
Por um momento, Blake ficou imóvel, privado de todo o poder de movimento. No momento seguinte, a sua coragem regressou e ele fugiu do quarto e desceu as escadas a correr, subindo e descendo cinco degraus de cada vez. Chegou ao fundo e correu ao longo do corredor até ao seu quarto, determinado, em todo o caso, a agarrar o homem e a impedir a sua fuga até que a ajuda chegasse.
Mas, quando chegou ao fim do pequeno patamar, descobriu que a sua porta tinha sido fechada. Agarrou a maçaneta, mexendo nela com violência. Parecia escorregadia e continuava a girar sob os seus dedos sem abrir a porta, e passou bem meio minuto antes que cedesse e o deixasse entrar de cabeça.
À primeira vista, viu que o quarto estava vazio e o homem tinha ido embora!
Espalhadas pelo tapete jaziam várias notas e, ao lado delas, meio escondidas debaixo do sofá onde o homem se sentara, viu um par de luvas — luvas de couro grossas — e uma faca de talhante. Mesmo à distância onde estava, as manchas de sangue em ambas eram facilmente visíveis.
Atordoado e confuso pelas descobertas terríveis dos últimos minutos, Blake ficou no meio do quarto, sobrecarregado e incapaz de pensar ou de se mover. Inconscientemente, deve ter passado a mão pela testa num gesto natural de perplexidade, pois notou que a pele parecia húmida e pegajosa. A sua mão estava coberta de sangue! E, quando correu em pânico para o espelho, viu que havia uma larga mancha vermelha atravessada no seu rosto e na testa. Então, lembrou-se da maçaneta escorregadia da porta e soube que tinha sido cuidadosamente humedecida!
Num instante, toda a conspiração tornou-se clara como a luz do dia, e ele ficou tão enfeitiçado de horror que uma espécie de torpor tomou conta dele e esteve muito perto de desmaiar. Estava numa condição de total impotência e, se alguém tivesse entrado no quarto naquele minuto e o tivesse chamado pelo nome, ele teria simplesmente caído no chão num monte.
"Se a polícia entrasse agora!" O pensamento atravessou-lhe o cérebro como um trovão e, no mesmo instante, quase antes de ter tempo de avaliar um quarto do seu significado, ouviu-se uma batida alta na porta da frente, lá em baixo. A campainha tocou com um clamor terrível; ouviram-se vozes de homens a falar excitadamente e, pouco depois, passos pesados começaram a subir as escadas na direção do seu quarto.
Era a polícia!
E tudo o que Blake conseguia fazer era rir-se tolamente para si próprio — e esperar até que estivessem sobre ele. Não conseguia mover-se nem falar. Estava face a face com a prova do seu horrível crime, com as mãos e o rosto manchados com o sangue da sua vítima, e ali estava ele quando a polícia arrombou a porta e entrou ruidosamente no quarto.
"Aqui está ele!" gritou uma voz que ele conhecia. "Terceiro andar, ao fundo! E o tipo apanhado em flagrante!"
Era o homem com a mala, a conduzir os dois polícias.
Dificilmente sabendo o que estava a fazer, sob o terrível peso de emoções conflituosas, deu um passo em frente. Mas, antes que tivesse tempo de dar um segundo passo, sentiu a mão pesada da lei descer sobre ambos os ombros ao mesmo tempo, enquanto os dois polícias se moviam para o agarrar. No mesmo momento, uma voz de trovão gritou-lhe ao ouvido:
"Acorda, homem! Acorda! Aqui está o jantar, e boas notícias também!"
Blake virou-se num sobressalto na cadeira e viu o dinamarquês, muito vermelho no rosto, de pé ao seu lado, com uma mão em cada ombro, e, um pouco mais atrás, viu o francês a olhar para ele, feliz, sobre o fundo da cama, com uma garrafa de cerveja numa mão e um pacote de papel na outra.
Esfregou os olhos, olhando de um para o outro, e depois levantou-se sonolento para ajustar o dispositivo de arame no bico de gás para ferver água e cozinhar os ovos que o francês estava em risco iminente de deixar cair no chão.
AS ESTRANHAS AVENTURAS DE UM SECRETÁRIO PARTICULAR EM NOVA IORQUE
I
Nunca me ficou muito claro como Jim Shorthouse conseguiu o seu cargo de secretário particular; mas, uma vez obtido, manteve-o e, durante alguns anos, levou uma vida estável e pôs dinheiro na caixa económica.
Certa manhã, o seu patrão mandou chamá-lo ao escritório e era evidente para os sentidos treinados do secretário que havia algo de invulgar no ar.
"Sr. Shorthouse," começou ele, um pouco nervoso, "ainda não tive a oportunidade de observar se possui ou não coragem pessoal."
Shorthouse ofegou, mas não disse nada. Estava a habituar-se às excentricidades do seu chefe. Shorthouse era um homem de Kent; Sidebotham fora "criado" em Chicago; Nova Iorque era o atual local de residência.
"Mas," continuou o outro, com uma lufada do seu charuto muito preto, "devo considerar-me um mau juiz da natureza humana no futuro, se essa não for uma das suas qualidades mais fortes."
O secretário particular fez uma pequena vénia tola em modesto agradecimento por tão incerto elogio. O Sr. Jonas B. Sidebotham observou-o atentamente, como dizem os romancistas, antes de continuar as suas observações.
"Não tenho dúvidas de que é um tipo corajoso e..." Hesitou, e deu uma lufada no charuto como se a sua vida dependesse de o manter aceso.
"Não creio ter medo de nada em particular, senhor — exceto de mulheres," interpôs o jovem, sentindo que era altura de fazer uma observação de qualquer tipo, mas ainda completamente às escuras quanto ao propósito do seu chefe.
"Hum!" resmungou ele. "Bem, não há mulheres neste caso, tanto quanto sei. Mas pode haver outras coisas que... que magoam mais."
"Quer um serviço especial de algum tipo, evidentemente," foi a reflexão do secretário. "Violência pessoal?" perguntou em voz alta.
"Possivelmente (lufada), de facto (lufada, lufada), provavelmente."
Shorthouse cheirou um aumento de salário no ar. Teve um efeito estimulante.
"Já tive alguma experiência desse artigo, senhor," disse ele secamente; "mas estou pronto a realizar qualquer coisa que seja razoável."
"Não posso dizer quanta razão ou desrazão possa vir a provar-se neste caso em particular. Tudo depende."
O Sr. Sidebotham levantou-se, trancou a porta do seu escritório e baixou as persianas de ambas as janelas. Depois, tirou um molho de chaves do bolso e abriu uma caixa de metal preta. Vasculhou entre papéis azuis e brancos durante alguns segundos, envolvendo-se, enquanto o fazia, numa nuvem de fumo de tabaco azul.
"Sinto-me já como um detetive," riu-se Shorthouse.
"Fale baixo, por favor," respondeu o outro, olhando à volta da sala. "Devemos observar o máximo segredo. Talvez tivesse a gentileza de fechar os registos," continuou, com uma voz ainda mais baixa. "Registos abertos já traíram conversas antes de agora."
Shorthouse começou a entrar no espírito da coisa. Caminhou na ponta dos pés pelo chão e fechou as duas grelhas de ferro na parede que, nas casas americanas, fornecem ar quente e são chamadas de "registos". O Sr. Sidebotham tinha, entretanto, encontrado o papel que procurava. Segurou-o à sua frente e bateu-lhe uma ou duas vezes com as costas da mão direita, como se fosse uma carta de teatro e ele próprio o vilão do melodrama.
"Esta é uma carta de Joel Garvey, o meu antigo sócio," disse finalmente. "Já me ouviu falar dele."
O outro fez uma vénia. Sabia que, muitos anos antes, a Garvey & Sidebotham tinha sido bem conhecida no mundo financeiro de Chicago. Sabia que a rapidez espantosa com que acumularam uma fortuna só fora superada pela rapidez espantosa com que tinham desaparecido imediatamente a seguir no espaço. Estava ainda consciente — a sua posição oferecia facilidades — de que cada sócio estava ainda, de certa forma, no poder do outro e que cada um desejava, muito devotamente, que o outro morresse.
Os pecados dos primeiros anos do seu patrão não lhe diziam respeito, contudo. O homem era bondoso e justo, embora excêntrico; e Shorthouse, estando em Nova Iorque, não investigou para descobrir mais particularmente as fontes de onde o seu salário era tão regularmente pago. Além disso, os dois homens tinham aprendido a gostar um do outro e havia um sentimento genuíno de confiança e respeito entre eles.
"Espero que seja uma comunicação agradável, senhor," disse ele em voz baixa.
"Muito pelo contrário," respondeu o outro, mexendo nervosamente no papel enquanto estava de pé em frente da lareira.
"Extorsão, suponho."
"Precisamente." O charuto do Sr. Sidebotham não estava a arder bem; acendeu um fósforo e aplicou-o à extremidade irregular, e a sua voz falou pouco depois através de nuvens de fumo rodopiante.
"Existem documentos valiosos na minha posse que contêm a sua assinatura. Não o posso informar sobre a sua natureza; mas são extremamente valiosos _para mim_. Eles pertencem, na verdade, tanto a Garvey como a mim. Só que eu os tenho..."
"Compreendo."
"Garvey escreve que quer que a sua assinatura seja removida — quer cortá-la com a sua própria mão. Ele dá razões que me levam a considerar o seu pedido..."
"E gostaria que eu lhe levasse os documentos e visse que ele o faz?"
"E que os trouxesse de volta consigo," sussurrou ele, estreitando os olhos numa careta astuta.
"E que os trouxesse de volta comigo," repetiu o secretário. "Compreendo perfeitamente."
Shorthouse sabia, por experiência infeliz, um pouco mais do que o necessário sobre os horrores da extorsão. A pressão que Garvey estava a exercer sobre o seu antigo inimigo devia ser extremamente forte. Isso era bastante claro. Ao mesmo tempo, a comissão que lhe estava a ser confiada parecia um tanto quixotesca na sua natureza. Já tinha "desfrutado" de mais do que uma experiência da excentricidade do seu patrão e, agora, deu por si a perguntar se essa mesma excentricidade não ia, por vezes, mais longe do que a excentricidade.
"Não posso ler-lhe a carta," explicava o Sr. Sidebotham, "mas vou entregá-la nas suas mãos. Provará que é o meu... hã... o meu representante acreditado. Vou também pedir-lhe que não leia o maço de documentos. A assinatura em questão encontrará, naturalmente, na última página, no fundo."
Houve uma pausa de vários minutos durante a qual a extremidade do charuto brilhava eloquentemente.
"As circunstâncias obrigam-me," continuou ele finalmente, quase num sussurro, "ou nunca faria isto. Mas compreende, naturalmente, que a coisa é um estratagema. Cortar a assinatura é um mero fingimento. Não é nada. O que Garvey quer são os próprios documentos."
A confiança depositada no secretário particular não foi mal aplicada. Shorthouse era tão fiel ao Sr. Sidebotham como um homem deveria ser à esposa que o ama.
A comissão em si parecia muito simples. Garvey vivia na solidão, na parte remota de Long Island. Shorthouse devia levar-lhe os documentos, testemunhar o corte da assinatura e estar especialmente atento a qualquer tentativa, forçada ou outra, para obter a posse deles. Parecia-lhe uma aventura um tanto ridícula, mas ele não sabia todos os factos e talvez não fosse o melhor juiz.
Os dois homens conversaram em voz baixa durante mais uma hora, ao fim da qual o Sr. Sidebotham subiu as persianas, abriu os registos e destrancou a porta.
Shorthouse levantou-se para sair. Os seus bolsos estavam cheios de documentos e a sua cabeça de instruções; mas, quando chegou à porta, hesitou e virou-se.
"Bem?" disse o seu chefe.
Shorthouse olhou-o diretamente nos olhos e não disse nada.
"A violência pessoal, suponho?" disse o outro. Shorthouse fez uma vénia.
"Não vejo Garvey há vinte anos," disse ele; "tudo o que lhe posso dizer é que creio que ele está, ocasionalmente, com a mente perturbada. Ouvi rumores estranhos. Vive sozinho e, nos seus intervalos de lucidez, estuda química. Foi sempre um passatempo seu. Mas as probabilidades são de vinte para um contra ele tentar violência. Só quis avisá-lo... no caso... quero dizer, para que possa estar atento."
Entregou ao seu secretário um revólver Smith and Wesson enquanto falava. Shorthouse meteu-o no bolso de trás das calças e saiu da sala.
* * * * *
Uma chuva fria e miudinha caía sobre campos cobertos de neve semi-derretida quando Shorthouse se encontrou, no final da tarde, na plataforma da solitária estação de Long Island e observou o comboio que acabara de deixar desaparecer na distância.
Era um campo desolado que Joel Garvey, Esq., anteriormente de Chicago, tinha escolhido para a sua residência e, naquela tarde em particular, apresentava uma aparência mais lúgubre do que o habitual. Uma extensão de campos planos cobertos de neve suja estendia-se por todos os lados até que o céu descia para os encontrar. Apenas edifícios agrícolas ocasionais quebravam a monotonia, e a estrada serpenteava ao longo de vielas enlameadas e por baixo de árvores pingantes envoltas no nevoeiro frio e cru que varria como um manto de mortos vindo do mar.
Eram seis milhas da estação até à casa de Garvey, e o condutor da carruagem trêmula que Shorthouse encontrara na estação não era comunicativo. Entre a paisagem lúgubre e o condutor ainda mais lúgubre, ele recuou para os seus próprios pensamentos que, não fosse o toque de aventura que estava prometido, teriam sido eles próprios ainda mais lúgubres do que qualquer um deles. Decidiu que não perderia tempo com a transação. No momento em que a assinatura fosse cortada, ele faria as malas e partiria. O último comboio de regresso para Brooklyn era às 7:15; e ele teria de caminhar as seis milhas de lama e neve, pois o condutor da carruagem tinha recusado terminantemente esperar por ele.
Para fins de segurança, Shorthouse tinha feito o que se lisonjeava de ser uma coisa bastante inteligente. Tinha feito um segundo maço de documentos, idêntico na aparência exterior ao primeiro. A inscrição, o envelope azul, a banda elástica vermelha e até um borrão no canto inferior esquerdo tinham sido exatamente reproduzidos. Lá dentro, naturalmente, estavam apenas folhas de papel em branco. A sua intenção era trocar os maços e deixar que Garvey o visse colocar o falso na mala. Em caso de violência, a mala seria o ponto de ataque, e ele pretendia trancá-la e deitar a chave fora. Antes que pudesse ser forçada e a deceção descoberta, haveria tempo para aumentar as suas hipóteses de fuga com o maço real.
Eram cinco horas quando o Jehu silencioso parou em frente a um portão meio partido e apontou com o chicote para uma casa que ficava nos seus próprios terrenos entre árvores e era apenas visível na penumbra crescente. Shorthouse disse-lhe para levar a carruagem até à porta da frente, mas o homem recusou.
"Não ando a correr riscos," disse ele; "tenho uma família."
Esta observação enigmática não era encorajadora, mas Shorthouse não parou para a decifrar. Pagou ao homem e, depois, empurrou o portão velho e trêmulo que oscilava numa única dobradiça e começou a subir a entrada que jazia escura entre árvores muito próximas. A casa logo apareceu por completo. Era alta e quadrada e tinha sido, evidentemente, branca, mas agora as paredes estavam cobertas de manchas sujas e havia largas listas amarelas onde o estuque tinha caído. As janelas olhavam pretas e intransigentes para a noite. O jardim estava coberto de ervas daninhas e erva alta, erguendo-se em manchas feias sob o peso da neve húmida. Reinava um silêncio total sobre tudo. Não havia sinal de vida. Nem sequer um cão ladrava. Apenas, à distância, podiam ouvir-se as rodas da carruagem que se afastava, tornando-se cada vez mais fracas.
Shorthouse, agora sozinho, sentiu o peso opressivo daquele silêncio. Aproximou-se da janela e tentou espreitar para fora, mas o vidro estava tão embaciado e a escuridão lá fora tão densa que nada pôde distinguir. O seu reflexo, pálido e ansioso, olhava-o de volta como um estranho. Recuou, sentindo uma estranha inquietação, como se a própria casa estivesse a observar os seus movimentos, aguardando algo. O ar na sala parecia ter-se tornado mais pesado, carregado com o cheiro a tabaco, mas também com um leve odor a algo químico, acre e acre, que emanava da porta por onde Garvey saíra.
Ele tentou distrair-se, percorrendo com o olhar as lombadas dos livros dispostos nas estantes. Eram volumes de capa dura, muitos deles em línguas que ele não reconhecia, com títulos gravados a ouro que brilhavam fracamente à luz das lâmpadas. Ocupavam cada centímetro disponível, criando um ambiente de erudição quase claustrofóbica. Perguntou-se que tipo de homem dedicaria tanto tempo a uma biblioteca tão vasta e a uma ocupação tão obscura como a química, naquele isolamento absoluto. A conversa que tivera com Garvey voltava-lhe à mente, fragmentada; as palavras do anfitrião soavam agora, na solidão, menos como uma explicação e mais como uma justificação ensaiada.
Passaram-se minutos que pareciam horas. O silêncio era tão profundo que o simples estalar de um pedaço de carvão na lareira o fez sobressaltar. Começou a arrepender-se de ter aceitado o convite. O conforto da sala, que antes lhe parecera um refúgio, começava a revelar-se como uma armadilha dourada. Onde estaria o tal Marx? O homem que o recebera na porta, com os seus olhos evasivos e o porte fúnebre, parecia ter evaporado. Por que razão a casa era mantida naquele estado de abandono exterior enquanto o interior ostentava tal luxo?
Um ruído suave, quase imperceptível, veio do corredor. Shorthouse esticou-se, tenso, na poltrona. Era o som de passos arrastados, um roçar de tecido contra as paredes nuas do hall. Ele levantou-se, a pulsação a acelerar. Estaria Garvey a regressar? O som parou subitamente à porta da biblioteca. Shorthouse manteve os olhos fixos na maçaneta, esperando que ela girasse, mas o silêncio instalou-se novamente, mais denso do que antes. A sua intuição, aguçada pelo isolamento, gritava-lhe que algo não estava certo, que ele era um intruso num território onde as leis comuns não se aplicavam.
"Garvey?" chamou ele, com a voz ligeiramente trêmula, apesar de tentar manter a compostura.
Não houve resposta. O silêncio, porém, não era o de um lugar vazio. Era um silêncio atento, expectante. Shorthouse deu um passo em direção à porta, a intenção de partir, de caminhar os seis quilómetros na escuridão, a ganhar forma na sua mente. O medo era preferível àquela sensação insidiosa de ser observado por olhos invisíveis. No entanto, a lembrança das palavras de Garvey sobre a tempestade lá fora e a inutilidade da sua partida reteve-o. Ele voltou para junto da lareira, sentindo-se pequeno sob a luz das lâmpadas que, agora, lhe pareciam brilhar com uma intensidade artificial, quase doentia.
Garvey retornou pouco depois. "Faremos o melhor que pudermos por si", disse, deixando-se cair na poltrona profunda do outro lado da lareira. "Marx é um bom criado se o vigiar a todo o momento. No entanto, é preciso estar sempre em cima de um judeu se quiser que as coisas sejam bem feitas. São astutos e incertos, a menos que estejam a trabalhar para o seu próprio interesse. Mas admito que Marx poderia ser pior. Está comigo há quase vinte anos — cozinheiro, criado de quarto, empregado doméstico e mordomo, tudo num só. Antigamente, sabe, ele era escriturário no nosso escritório em Chicago."
Garvey continuou a falar e Shorthouse ouviu-o, acrescentando observações ocasionais. O primeiro parecia satisfeito por ter alguém com quem conversar e o som da sua própria voz era, evidentemente, música para os seus ouvidos. Após alguns minutos, dirigiu-se ao aparador e pegou novamente no decantador de uísque, segurando-o contra a luz. "Desta vez, vai juntar-se a mim", disse agradavelmente, servindo dois copos, "abrir-nos-á o apetite para o jantar", e desta vez Shorthouse não recusou. A bebida era suave e aveludada, e os homens beberam dois copos cada um.
"Excelente", observou o secretário.
"Fico contente por apreciar", disse o anfitrião, estalando os lábios. "É um uísque muito velho e raramente lhe toco quando estou sozinho. Mas esta", acrescentou, "é uma ocasião especial, não é?"
Shorthouse estava no ato de pousar o copo quando algo atraiu subitamente os seus olhos para o rosto do outro. Uma nota estranha na voz do homem chamou-lhe a atenção e comunicou alarme aos seus nervos. Uma nova luz brilhou nos olhos de Garvey e, momentaneamente, cruzou os seus traços fortes a sombra de algo que fez os nervos do secretário formigar. Uma névoa espalhou-se diante dos seus olhos e a convicção inexplicável ergueu-se forte nele de que estava a fitar o rosto de um animal indomado. Perto do seu coração, sentia algo selvagem, feroz, brutal. Um arrepio involuntário percorreu-o e pareceu dissipar aquela estranha fantasia tão repentinamente como tinha surgido. Ele encontrou o olhar do outro com um sorriso, cujo homólogo no seu coração era um horror vívido.
"É uma ocasião especial", disse, o mais naturalmente possível, "e, permita-me acrescentar, um uísque muito especial."
Garvey parecia encantado. Estava a meio de um relato sinuoso descrevendo como o uísque tinha chegado originalmente à sua posse quando a porta se abriu atrás deles e uma voz áspera anunciou que o jantar estava pronto. Seguiram a forma sotaina de Marx através do corredor sujo, iluminado apenas pelo feixe de luz que os seguia da porta da biblioteca, e entraram numa sala pequena onde uma única lâmpada repousava sobre uma mesa posta para o jantar. As paredes estavam despidas de quadros e as janelas tinham persianas venezianas sem cortinas. Não havia lume na lareira e, quando os homens se sentaram frente a frente, Shorthouse notou que, enquanto o seu próprio lugar estava posto com a devida proporção de copos e talheres, o seu companheiro não tinha nada diante de si a não ser um prato de sopa, sem garfo, faca ou colher ao lado.
"Não sei o que há para lhe oferecer", disse ele; "mas tenho a certeza de que Marx fez o melhor que pôde com tão pouco aviso. Só como um prato ao jantar, mas, por favor, coma devagar e desfrute da sua refeição."
Marx colocou pouco depois um prato de sopa diante do convidado, mas tão repugnante era a presença imediata daquele velho servo hebreu que as colheradas desapareceram um tanto lentamente. Garvey sentou-se e observou-o.
Shorthouse disse que a sopa estava deliciosa e engoliu corajosamente outra colherada. Na realidade, os seus pensamentos estavam centrados no seu companheiro, cujas maneiras davam provas de uma mudança gradual e curiosa. Havia uma diferença clara no seu comportamento, uma diferença que o secretário sentiu primeiro, em vez de ver. A calma autoconfiança de Garvey estava a dar lugar a um grau de excitação contida que parecia, até aquele momento, inexplicável. Os seus movimentos tornaram-se rápidos e nervosos, o seu olhar inquieto e estranhamente brilhante, e a sua voz, quando falava, traía um profundo tremor ocasional. Algo invulgar agitava-se dentro dele e exigia, evidentemente, uma manifestação mais vigorosa a cada momento que a refeição prosseguia.
Intuitivamente, Shorthouse sentia medo daquela crescente excitação e, enquanto tentava cortar umas costeletas de porco invulgarmente duras, tentou levar a conversa para o tema da química, do qual fora um estudante entusiasta nos seus tempos de Oxford. O seu companheiro, contudo, não quis saber. Parecia ter perdido o interesse e mal se dignou a responder. Quando Marx regressou pouco depois com um prato de ovos e bacon fumegantes, o assunto morreu por si mesmo.
"Um prato de jantar inadequado", disse Garvey, assim que o homem se retirou; "mas melhor do que nada, espero."
Shorthouse comentou que era extremamente apreciador de bacon com ovos e, ao olhar para cima com a última palavra, viu que o rosto de Garvey estava a contrair-se convulsivamente e que ele quase se contorcia na cadeira. Acalmou-se, contudo, sob o olhar do secretário e observou, embora evidentemente com esforço:
"Muito gentil da sua parte dizer isso. Quem me dera poder juntar-me a si, mas nunca como esse tipo de coisas. Só como um prato ao jantar."
Shorthouse começou a sentir alguma curiosidade sobre qual seria a natureza desse prato único, mas não fez mais comentários e contentou-se em notar mentalmente que a excitação do seu companheiro parecia estar a crescer rapidamente para além do seu controlo. Havia algo de sinistro naquilo e começou a desejar ter escolhido a alternativa da caminhada até à estação.
"Fico contente por ver que nunca fala quando Marx está na sala", disse Garvey pouco depois. "Tenho a certeza de que é melhor não o fazer. Não acha?"
Parecia esperar ansiosamente pela resposta.
"Sem dúvida", disse o perplexo secretário.
"Sim", continuou o outro rapidamente. "Ele é um homem excelente, mas tem um senão — um verdadeiramente horrível. Pode... mas, não, dificilmente o teria notado ainda."
"Não é bebida, espero", disse Shorthouse, que preferiria ter discutido qualquer outro assunto que não aquele judeu odioso.
"Muito pior do que isso", respondeu Garvey, esperando evidentemente que o outro o incitasse. Mas Shorthouse não estava com disposição para ouvir nada de horrível e recusou-se a cair na armadilha.
"Os melhores criados têm os seus defeitos", disse friamente.
"Dir-lhe-ei o que é, se quiser", continuou Garvey, ainda falando muito baixo e inclinando-se sobre a mesa de modo a que o seu rosto ficasse perto da chama da lâmpada, "só temos de falar baixo, caso ele esteja a ouvir. Dir-lhe-ei o que é — se acha que não ficará assustado."
"Nada me assusta", riu ele. (Garvey tinha de entender isso, a todo o custo.) "Nada me pode assustar", repetiu.
"Fico contente com isso; pois a mim assusta-me bastante, por vezes."
Shorthouse fingiu indiferença. No entanto, estava consciente de que o seu coração batia um pouco mais depressa e de que sentia uma sensação de frio nas costas. Esperou em silêncio pelo que viria.
"Ele tem uma predileção horrível por vácuos", continuou Garvey pouco depois, com a voz ainda mais baixa e aproximando o rosto da lâmpada.
"Vácuos!" exclamou o secretário, apesar de si mesmo. "O que quer dizer com isso, por amor de Deus?"
"O que digo, claro. Ele está sempre a cair dentro deles, de modo que não o consigo encontrar nem lá chegar. Esconde-se lá durante horas a fio e, pela minha vida, não consigo perceber o que ele faz lá dentro."
Shorthouse fixou o olhar nos olhos do seu companheiro. Do que raio estaria ele a falar?
"Supõe que ele vai lá para mudar de ares, ou... ou para escapar?" continuou ele, com a voz mais alta.
Shorthouse teria rido às gargalhadas, não fosse a expressão no rosto do outro.
"Não creio que haja muito ar de qualquer tipo num vácuo", disse calmamente.
"É exatamente o que eu sinto", continuou Garvey com uma excitação cada vez maior. "Essa é a parte horrível. Como raio é que ele vive lá? Vê..."
"Já alguma vez o seguiu até lá?" interrompeu o secretário. O outro recostou-se na cadeira e deu um suspiro profundo.
"Nunca! É impossível. Veja, não o posso seguir. Não há espaço para dois. Um vácuo só comporta um confortavelmente. Marx sabe disso. Ele fica fora do meu alcance assim que entra. Ele conhece o melhor lado de um negócio. É um judeu autêntico."
"Isso é um inconveniente para um criado, claro..." Shorthouse falou lentamente, com os olhos no seu prato.
"Um inconveniente", interrompeu o outro com uma risada sinistra, "eu chamo-lhe uma extração, é isso que lhe chamo."
"Uma extração parece um termo mais preciso", concordou Shorthouse. "Mas", continuou ele, "eu pensava que a natureza horrorizava-se com o vácuo. Horrorizava-se, quando eu andava na escola — embora talvez... faça tanto tempo..."
Ele hesitou e olhou para cima. Algo no rosto de Garvey — algo que sentira antes de olhar — travou-lhe a língua e congelou as palavras na garganta. Os seus lábios recusaram-se a mover e tornaram-se subitamente secos. Novamente, a névoa subiu diante dos seus olhos e a sombra aterradora lançou o seu véu sobre o rosto à sua frente. Os traços de Garvey começaram a arder e a brilhar. Depois, pareceram tornar-se grosseiros e, de alguma forma, confundirem-se. Fitou por um segundo — pareceu apenas um segundo — o rosto de um animal feroz e abominável; e então, tão subitamente como viera, a sombra imunda da besta passou, a névoa derreteu-se e, com um esforço imenso sobre os seus nervos, forçou-se a terminar a frase.
"Vê, faz tanto tempo que não presto atenção a essas coisas", gaguejou. O coração batia-lhe rapidamente e uma sensação de opressão acumulava-se sobre ele.
"É o meu estudo peculiar e especial, por outro lado", retomou Garvey. "Não passei todos estes anos no meu laboratório em vão, posso assegurar-lhe. A natureza, sei como um facto", acrescentou com um calor antinatural, "não se horroriza com o vácuo. Pelo contrário, é extraordinariamente afeiçoada a eles, demasiado afeiçoada, ao que parece, para o conforto da minha pequena casa. Se houvesse menos vácuos e mais horror, dar-nos-íamos melhor — muito melhor, na minha opinião."
"O seu conhecimento especializado, sem dúvida, permite-lhe falar com autoridade", disse Shorthouse, a curiosidade e o alarme em conflito com outros sentimentos mistos na sua mente; "mas como é que um homem pode cair dentro de um vácuo?"
"Bem pode perguntar. É exatamente isso. Como pode? É absurdo e não consigo entender de todo. Marx sabe, mas não mo quer dizer. Os judeus sabem mais do que nós. Pela minha parte, tenho razões para acreditar..." Parou e escutou. "Psiu! Aí vem ele", acrescentou, esfregando as mãos como se estivesse alegre e inquietando-se na cadeira.
Ouviram-se passos a descer o corredor e, à medida que se aproximavam da porta, Garvey pareceu entregar-se completamente a uma excitação que não conseguia controlar. Os seus olhos estavam fixos na porta e começou a agarrar a toalha de mesa com ambas as mãos. Novamente, o seu rosto foi ocultado pela sombra repugnante. Tornou-se selvagem, lupino. Como através de uma máscara, que ocultava, mas que era suficientemente fina para deixar passar uma sugestão da besta agachada por detrás, saltou para o seu semblante o estranho olhar do animal no humano — a expressão do lobisomem, do monstro. A mudança, em toda a sua vileza, ocorreu rapidamente sobre os seus traços, que começaram a perder o contorno. O nariz achatou-se, caindo com narinas largas sobre lábios grossos. O rosto arredondou-se, encheu-se e tornou-se atarracado. Os olhos, que, felizmente para Shorthouse, já não procuravam os seus, brilhavam com a luz de um apetite indomado e de uma ganância bestial. As mãos deixaram o pano e agarraram as bordas do prato, para logo depois voltarem a agarrar o pano.
"Este é o meu prato que chega agora", disse Garvey, com uma voz gutural profunda. Estava a tremer. O lábio superior estava parcialmente levantado e mostrava os dentes, brancos e reluzentes.
Um momento depois, a porta abriu-se e Marx apressou-se a entrar na sala e a colocar um prato à frente do seu amo. Garvey levantou-se parcialmente para o receber, esticando as mãos e sorrindo horrivelmente. Com a boca, fez um som como o rosnado de um animal. O prato diante dele estava a fumegar, mas o ligeiro vapor que subia denunciava pelo seu odor que não tinha nascido de um fogo de brasas. Era o calor natural da carne aquecida pelos fogos da vida apenas acabados de extinguir. No momento em que o prato pousou na mesa, Garvey empurrou o seu próprio prato para longe e puxou o outro para perto, sob a sua boca. Depois, agarrou a comida com ambas as mãos e começou a rasgá-la com os dentes, grunhindo enquanto o fazia. Shorthouse fechou os olhos, com uma sensação de náusea. Quando voltou a olhar, os lábios e o maxilar do homem à sua frente estavam manchados de carmesim. O homem inteiro estava transformado. Um tigre a banqueteá-se, esfomeado e voraz, mas sem a graça de um tigre — era o que ele observava há vários minutos, paralisado de horror e nojo.
Marx já se tinha retirado, sabendo evidentemente o que não era bom para os olhos verem, e Shorthouse soube, finalmente, que estava sentado frente a frente com um louco.
A refeição horrível terminou em tempo incrivelmente curto e não restou nada a não ser uma pequena poça de líquido vermelho que endurecia rapidamente. Garvey recostou-se pesadamente na cadeira e suspirou. O seu rosto manchado, retirado agora do brilho da lâmpada, começou a retomar a sua aparência normal. Pouco depois, olhou para o seu convidado e disse com a sua voz natural:
"Espero que tenha comido o suficiente. Não gostaria disto, sabe", com um olhar para baixo.
Shorthouse encontrou os seus olhos com uma repulsa interior e foi impossível não mostrar parte da repugnância que sentia. No rosto do outro, contudo, pensou ver uma expressão submissa e acovardada. Mas não encontrou nada a dizer.
"Marx virá em breve", continuou Garvey. "Ou está a ouvir, ou num vácuo."
"Ele escolhe alguma altura particular para as suas visitas?" o secretário conseguiu perguntar.
"Geralmente vai depois do jantar; exatamente a esta hora, de facto. Mas ainda não foi", acrescentou, encolhendo os ombros, "pois creio ouvi-lo vir."
Shorthouse perguntou-se se "vácuo" seria possivelmente sinónimo de adega, mas não deu expressão aos seus pensamentos. Com arrepios de horror ainda a percorrerem-lhe as costas, viu Marx entrar com uma bacia e uma toalha, enquanto Garvey erguia o rosto tal como um animal levanta o focinho para ser acariciado.
"Agora tomaremos café na biblioteca, se estiver pronto", disse, no tom de um cavalheiro dirigindo-se aos seus convidados após um jantar.
Shorthouse pegou na mala, que estivera todo aquele tempo entre os seus pés, e passou pela porta que o seu anfitrião lhe segurava aberta. Lado a lado, atravessaram o corredor escuro juntos e, para seu nojo, Garvey enlaçou um braço no seu e, com o rosto tão perto do ouvido do secretário que ele sentiu o hálito quente, disse com uma voz grossa:
"É extraordinariamente cuidadoso com essa mala, Sr. Shorthouse. Certamente deve conter algo mais do que o pacote de papéis."
"Nada além dos papéis", respondeu, sentindo a mão a arder no seu braço e desejando estar a quilómetros de distância da casa e dos seus abomináveis ocupantes.
"Tem a certeza?" perguntou o outro com uma risada odiosa e sugestiva. "Há alguma carne nela, carne fresca... carne crua?"
O secretário sentiu, de alguma forma, que ao menor sinal de medo a besta no seu braço saltaria sobre ele e o despedaçaria com os dentes.
"Nada desse género", respondeu vigorosamente. "Não caberia lá o suficiente para alimentar um gato."
"Verdade", disse Garvey com um suspiro vil, enquanto o outro sentia a mão no seu braço contrair-se para cima e para baixo, como se estivesse a apalpar a carne. "Verdade, é pequena demais para ser de qualquer utilidade real. Como diz, não caberia lá o suficiente para alimentar um gato."
Shorthouse foi incapaz de suprimir um grito. Os músculos dos seus dedos, também, relaxaram apesar de si mesmos e ele deixou cair a mala preta com um baque no chão. Garvey retirou instantaneamente o braço e virou-se com um movimento rápido. Mas o secretário recuperara o seu controlo tão subitamente como o perdera e encontrou os olhos do maníaco com um olhar fixo e agressivo.
"Aí está, vê, é bastante leve. Não faz nenhum barulho apreciável quando a deixo cair." Pegou nela e deixou-a cair de novo, como se a tivesse deixado cair pela primeira vez de propósito. O estratagema foi bem-sucedido.
"Sim. Tem razão", disse Garvey, ainda parado à porta e a fitá-lo. "De qualquer modo, não caberia lá o suficiente para dois", riu-se. E enquanto fechava a porta, o riso horrível ecoou no corredor vazio.
Sentaram-se junto a uma lareira a arder e Shorthouse sentiu-se contente por sentir o seu calor. Marx trouxe pouco depois o café. Um copo do velho uísque e um bom charuto ajudaram a restaurar o equilíbrio. Durante alguns minutos, os homens sentaram-se em silêncio a fitar o lume. Depois, sem olhar para cima, Garvey disse com voz calma:
"Suponho que tenha sido um choque para si ver-me comer carne crua daquela maneira. Devo pedir desculpa se foi desagradável para si. Mas é tudo o que consigo comer e é a única refeição que faço nas vinte e quatro horas."
"O melhor alimento do mundo, sem dúvida; embora eu ache que possa ser um pouco forte para alguns estômagos."
Tentou levar a conversa para longe de um assunto tão desagradável e continuou a falar rapidamente sobre os valores dos diferentes alimentos, sobre o vegetarianismo e os vegetarianos, e sobre homens que passaram longos períodos sem qualquer alimento. Garvey ouviu aparentemente sem interesse e não teve nada a dizer. Na primeira pausa, saltou ansiosamente.
"Quando a fome é realmente grande em mim", disse, ainda a fitar o lume, "simplesmente não me consigo controlar. Tenho de ter carne crua — a primeira que conseguir obter..." Aqui levantou os seus olhos brilhantes e Shorthouse sentiu o cabelo a começar a eriçar-se.
"Também me aparece de repente. Nunca sei quando esperar por ela. Há um ano, a paixão ergueu-se em mim como um turbilhão e Marx estava fora e não consegui carne. Tive de conseguir qualquer coisa ou teria mordido a mim próprio. Mesmo quando se estava a tornar insuportável, o meu cão saiu debaixo do sofá. Era um spaniel."
Shorthouse respondeu com um esforço. Dificilmente sabia o que estava a dizer e a sua pele arrepiou-se como se um milhão de formigas se movessem sobre ela.
Houve uma pausa de vários minutos.
"Já mordi o Marx por todo o lado", continuou Garvey pouco depois na sua estranha voz calma, e como se estivesse a falar de maçãs; "mas ele é amargo. Duvido que a fome alguma vez me pudesse levar a fazê-lo outra vez. Provavelmente, foi isso que o levou primeiro a refugiar-se num vácuo." Riu-se hediondamente ao pensar nesta solução para os desaparecimentos do seu criado.
Shorthouse agarrou no atiçador e mexeu no lume como se a sua vida dependesse disso. Mas quando o barulho e o estrépito terminaram, Garvey continuou as suas observações com a mesma calma. A frase seguinte, contudo, nunca foi terminada. O secretário tinha-se posto de pé subitamente.
"Pedir-lhe-ei permissão para me retirar", disse numa voz determinada; "estou cansado esta noite; terá a gentileza de me mostrar o meu quarto?"
Garvey olhou para ele com uma curiosa expressão servil, por detrás da qual brilhava o vislumbre de uma paixão astuta.
"Certamente", disse, levantando-se da cadeira. "Teve uma viagem cansativa. Devia ter pensado nisso antes."
Pegou na vela da mesa e acendeu-a, e os dedos que seguravam o fósforo tremiam.
"Não precisamos de incomodar o Marx", explicou. "Aquela besta já deve estar no seu vácuo a esta hora."
Atravessaram o átrio e começaram a subir a escada de madeira sem alcatifa. Encontravam-se no poço da casa e o ar cortava como gelo. Garvey, com a vela tremeluzente na mão a projectar um contorno forte do seu rosto, liderou o caminho através do primeiro patamar e abriu uma porta perto da entrada de um corredor escuro. Um quarto agradável saudou os olhos do visitante, e ele rapidamente absorveu os seus pormenores enquanto o seu anfitrião se aproximava e acendia duas velas que estavam sobre uma mesa ao pé da cama. Uma lareira ardia intensamente na grelha. Havia duas janelas, que abriam como portas, na parede oposta, e uma cama alta com dossel ocupava a maior parte do espaço à direita. Painéis percorriam toda a volta do quarto, chegando quase ao tecto, e conferiam um aspecto quente e acolhedor a todo o conjunto; enquanto os retratos que se encontravam em painéis alternados sugeriam, de alguma forma, a atmosfera de uma antiga casa de campo em Inglaterra. Shorthouse ficou agradavelmente surpreendido.
"Espero que encontre tudo o que precisa", dizia Garvey na ombreira da porta. "Se não, só tem de tocar naquela campainha junto à lareira. O Marx não a ouvirá, é claro, mas ela toca no meu laboratório, onde passo a maior parte da noite."
Depois, com um breve boa-noite, saiu e fechou a porta atrás de si. No instante em que ele se foi, o secretário particular do Sr. Sidebotham fez uma coisa peculiar. Colocou-se no meio do quarto com as costas voltadas para a porta e, sacando a pistola rapidamente do bolso das calças, apontou-a sobre o seu braço esquerdo na direcção da janela. Permanecendo imóvel nesta posição durante trinta segundos, voltou-se então subitamente para a direita e ficou virado na outra direcção, apontando a pistola directamente para a fechadura da porta. Seguiu-se imediatamente um som de arrastar de pés lá fora e de passos a retirar-se pelo patamar.
"De joelhos à fechadura", foi a reflexão do secretário. "Exactamente como pensei. Mas ele não esperava olhar pelo cano de uma pistola e isso fê-lo saltar um pouco."
Assim que os passos desceram as escadas e se perderam pelo átrio, Shorthouse aproximou-se e trancou a porta, enfiando um pedaço de papel amarrotado na segunda fechadura que viu imediatamente acima da primeira. Depois disso, fez uma busca minuciosa ao quarto. Mal compensou o trabalho, pois não encontrou nada de invulgar. No entanto, ficou contente por a ter feito. Aliviou-o constatar que não havia ninguém escondido debaixo da cama ou no fundo armário de carvalho; e esperava sinceramente que não fosse aquele o armário em que o infeliz spaniel encontrara a sua morte vil. As janelas francesas, descobriu, davam para uma pequena varanda. Dava para a frente, e havia uma queda de menos de vinte pés até ao solo lá em baixo. A cama era alta e larga, macia como penas e coberta com lençóis níveos — muito convidativa para um homem cansado; e ao lado da lareira a arder estavam duas poltronas profundas.
No geral, era muito agradável e confortável; mas, por muito cansado que estivesse, Shorthouse não tinha intenção de se deitar. Era impossível ignorar o aviso dos seus nervos. Nunca o tinham traído antes, e quando aquela sensação de horror angustiante se instalava nos seus ossos, ele sabia que havia algo no ar e que uma bandeira vermelha tremulava sobre o futuro imediato. Algum instrumento delicado no seu ser, mais subtil do que os sentidos, mais preciso do que um mero pressentimento, tinha visto a bandeira vermelha e interpretado o seu significado.
Novamente pareceu-lhe, enquanto se sentava numa poltrona junto ao lume, que os seus movimentos estavam a ser cuidadosamente vigiados a partir de algum lugar; e, não sabendo que armas poderiam ser usadas contra si, sentiu que a sua verdadeira segurança residia num controlo rígido da sua mente e dos seus sentimentos e numa recusa firme em admitir que estava minimamente alarmado.
A casa estava muito silenciosa. À medida que a noite avançava, o vento acalmou. Apenas rajadas ocasionais de granizo contra as janelas o lembravam de que os elementos estavam acordados e inquietos. Uma ou duas vezes as janelas chocalharam e a chuva sibilou na lareira, mas o rugido do vento na chaminé tornou-se cada vez menor e o edifício solitário foi finalmente envolvido numa grande quietude. As brasas estalavam, acomodando-se mais profundamente na grelha, e o ruído das cinzas a cair com um pequeno estalo no monte macio de cinzas acumuladas era o único som que pontuava o silêncio.
Na medida em que o poder do sono crescia sobre ele, o medo da situação diminuía; mas tão imperceptivelmente, tão gradualmente e tão insinuantemente que ele mal se apercebia da mudança. Pensava que estava tão desperto para o seu perigo como sempre. O sucesso em excluir as horríveis imagens mentais do que tinha visto, ele atribuía ao seu controlo rigoroso, em vez da sua verdadeira causa, o avanço sobre ele das suaves influências do sono. Os rostos nas brasas eram tão calmantes; a poltrona era tão confortável; tão doce o hálito que gentilmente pressionava as suas pálpebras; tão subtil o crescimento da sensação de segurança. Acomodou-se mais profundamente na cadeira e, no momento seguinte, teria adormecido quando a bandeira vermelha começou a agitar-se violentamente de um lado para o outro e ele sentou-se hirto, como se tivesse sido esfaqueado nas costas.
Alguém subia as escadas. As tábuas rangiam sob um peso furtivo.
Shorthouse saltou da cadeira e atravessou o quarto rapidamente, posicionando-se ao lado da porta, mas fora do alcance da fechadura. As duas velas ardiam irregularmente na mesa ao pé da cama. Os passos eram lentos e cautelosos — pareciam decorrer trinta segundos entre cada um — mas a pessoa que os dava estava muito perto da porta. Já tinha chegado ao topo das escadas e arrastava-se quase silenciosamente pelo bocado de patamar.
O secretário enfiou a mão no bolso da pistola e recuou mais contra a parede, e mal tinha completado o movimento quando os sons cessaram abruptamente e ele soube que alguém estava parado mesmo à porta e a preparar-se para uma observação cuidadosa através da fechadura.
Não era, de forma alguma, um cobarde. Em acção, nunca tinha medo. Era a espera, a especulação e a incerteza que poderiam ter abalado um pouco os seus nervos. Mas, de alguma forma, uma vaga de horror intenso percorreu-o por um segundo ao pensar no maníaco bestial e no seu judeu atendente; e preferiria ter enfrentado uma matilha de lobos do que ter de lidar com qualquer um daqueles homens.
Algo a roçar gentilmente contra a porta fez os seus nervos formigar de novo e fê-lo apertar a preensão sobre a pistola. O aço estava frio e escorregadio nos seus dedos húmidos. Que ruído terrível faria quando puxasse o gatilho! Se a porta se abrisse, quão perto estaria da figura que entrasse! No entanto, sabia que estava trancada por dentro e que não podia possivelmente abrir. Novamente algo roçou o painel ao seu lado e, um segundo depois, o pedaço de papel amarrotado caiu da fechadura para o chão, enquanto a ponta de arame fino que tinha conseguido este resultado mostrou a sua ponta por um momento no quarto e foi então rapidamente retirada.
Alguém estava evidentemente a espreitar agora pela fechadura, e ao perceber este facto, o espírito de ataque entrou no coração do homem cercado. Erguendo o braço direito, fê-lo descer subitamente com um estrondo retumbante sobre o painel da porta junto à fechadura — um estrondo que, para o bisbilhoteiro agachado, deve ter parecido um trovão num céu limpo. Ouviu-se um arquejo e uma ligeira oscilação contra a porta, e o ouvinte da meia-noite levantou-se sobressaltado e alarmado, pois Shorthouse ouviu claramente o andar de pés pelo patamar e escada abaixo até se perderem nos silêncios do átrio. Apenas, desta vez, pareceu-lhe que eram quatro pés em vez de dois.
Enfiando rapidamente o papel de volta na fechadura, estava no momento de caminhar de volta para a lareira quando, por cima do ombro, vislumbrou um rosto branco pressionado em contorno contra o exterior da janela. Estava desfocado nos fluxos de granizo, mas o branco dos olhos em movimento era inconfundível. Virou-se instantaneamente para o enfrentar, mas o rosto foi retirado como um relâmpago, e a escuridão precipitou-se para preencher a lacuna onde tinha aparecido.
"Vigiado de ambos os lados", reflectiu.
Mas ele não se deixaria surpreender por qualquer acção súbita, e caminhando calmamente para a lareira como se não tivesse visto nada de invulgar, mexeu nas brasas por um momento e depois passeou descontraidamente até à janela. Açoitando os seus nervos, que tremeram um momento apesar da sua vontade, abriu a janela e saiu para a varanda. O vento, que ele pensava ter acalmado, passou por ele para dentro do quarto e extinguiu uma das velas, enquanto uma saraivada de chuva fria e fina irrompeu por todo o seu rosto. Ao princípio não conseguia ver nada, e a escuridão chegava perto dos seus olhos como uma parede. Avançou um pouco mais na varanda e puxou a janela atrás de si até que esta bateu. Depois, ficou parado e esperou.
Mas nada lhe tocou. Ninguém parecia estar ali. Os seus olhos habituaram-se à escuridão e conseguiu distinguir o parapeito de ferro, as formas escuras das árvores lá fora e a luz ténue que vinha da outra janela. Através desta, espreitou para o interior do quarto, percorrendo o comprimento da varanda para o fazer. É claro que ele estava num feixe de luz e quem quer que estivesse agachado na escuridão lá em baixo podia vê-lo claramente. Lá em baixo? — Que pudesse estar alguém em cima não lhe ocorreu até que, mesmo quando se preparava para entrar novamente, se apercebeu de que algo se movia na escuridão por cima da sua cabeça. Olhou para cima, erguendo instintivamente um braço protector, e viu uma longa linha preta a baloiçar contra a parede sombria da casa. As portadas da janela do andar seguinte, de onde pendia, estavam abertas e moviam-se para trás e para a frente ao sabor do vento. A linha era evidentemente uma corda um tanto grossa, pois, enquanto olhava, foi puxada para dentro e a extremidade desapareceu na escuridão.
Shorthouse, tentando assobiar para si próprio, espreitou sobre a borda da varanda como se calculasse a distância que teria de saltar, e depois caminhou calmamente para dentro do quarto novamente e fechou a janela atrás de si, deixando o trinco de forma a que o mais leve toque a faria abrir-se. Voltou a acender a vela e puxou uma cadeira de encosto direito para junto da mesa. Depois, colocou carvão na lareira e avivou-o até formar uma chama real. Teria voluntariamente fechado as portadas sobre aquelas janelas fixas às suas costas. Mas isso estava fora de questão. Teria sido cortar o seu caminho de fuga.
O sono, por enquanto, estava em desvantagem. O seu cérebro estava cheio de sangue e cada nervo formigava. Sentia como se inúmeros olhos estivessem sobre ele e dezenas de mãos manchadas se estendessem dos cantos e fendas da casa para o agarrar. Figuras agachadas, figuras de judeus hediondos, estavam em toda a parte ao seu redor onde houvesse abrigo, rastejando para a frente das sombras quando ele não estava a olhar e retirando-se rápida e silenciosamente quando ele virava a cabeça. Onde quer que olhasse, outros olhos encontravam os seus e, embora se dissolvessem sob o seu olhar firme e confiante, ele sabia que aumentariam e se fechariam sobre ele no instante em que o seu olhar enfraquecesse e a sua vontade vacilasse.
Embora não houvesse sons, ele sabia que no poço da casa havia movimento e preparação. E este conhecimento, na medida em que lhe chegava irresistivelmente e através de canais outros e mais subtis do que os dos sentidos, mantinha a sensação de horror fresca no seu sangue e tornava-o alerta e desperto.
Mas, por maior que seja o medo no coração, o poder do sono acabará por vencê-lo. A natureza exausta é irresistível e, à medida que os minutos passavam e a meia-noite ia ficando para trás, ele percebeu que a natureza se estava a afirmar vigorosamente e o sono estava a rastejar sobre ele a partir das extremidades.
Para diminuir o perigo, pegou no seu lápis e começou a desenhar os artigos de mobiliário do quarto. Elaborou com detalhe o armário, a lareira e a cama, e a partir destes passou para os retratos. Sendo dotado de perícia genuína, achou a ocupação suficientemente absorvente. Mantinha o sangue no seu cérebro, e isso mantinha-o acordado. Os quadros, além disso, agora que os considerava pela primeira vez, eram extraordinariamente bem pintados. Devido à luz ténue, centrou a sua atenção nos retratos ao lado da lareira. À direita estava uma mulher, com um rosto doce e gentil e uma figura de grande requinte; à esquerda estava uma figura de corpo inteiro de um homem grande e bonito com uma barba cheia e vestindo um traje de caça de data antiga.
De tempos a tempos, virava-se para as janelas atrás de si, mas a visão do rosto não se repetiu. Mais do que uma vez, também, foi à porta e ouviu, mas o silêncio era tão profundo na casa que ele gradualmente passou a acreditar que o plano de ataque tinha sido abandonado. Uma vez saiu para a varanda, mas o granizo picou-lhe o rosto e só teve tempo de ver que as portadas de cima estavam fechadas, quando foi obrigado a procurar novamente o abrigo do quarto.
Desta forma, as horas passaram. O lume esmoreceu e o quarto ficou frio. Shorthouse tinha feito vários esboços das duas cabeças e começava a sentir-se extraordinariamente cansado. Os seus pés e mãos estavam frios e os seus bocejos eram prodigiosos. Pareciam eras e eras desde que os passos tinham vindo escutar à sua porta e o rosto o tinha vigiado da janela. Um sentimento de segurança tinha, de alguma forma, chegado até ele. Na realidade, ele estava exausto. O seu único desejo era cair sobre a cama branca e macia e entregar-se ao sono sem mais luta.
Levantou-se da cadeira com uma série de bocejos que se recusavam a ser sufocados e olhou para o seu relógio. Estava perto das três da manhã. Decidiu que se deitaria vestido e dormiria um pouco. Era suficientemente seguro, a porta estava trancada por dentro e a janela estava fechada. Colocando a mala na mesa perto da almofada, apagou as velas e deixou-se cair com uma sensação de descuidada e deliciosa exaustão sobre o colchão macio. Em cinco minutos, estava a dormir profundamente.
Mal tivera tempo para os sonhos aparecerem quando se viu deitado de lado na cama, com os olhos bem abertos a fitar a escuridão. Alguém lhe tinha tocado, e ele tinha-se contorcido durante o sono como se fosse algo impuro. O movimento tinha-o acordado.
O quarto estava simplesmente negro. Nenhuma luz vinha das janelas e o fogo tinha-se apagado tão completamente como se água tivesse sido vertida sobre ele. Fitou uma folha de escuridão impenetrável que chegava perto do seu rosto como uma parede.
O seu primeiro pensamento foi para os papéis no seu casaco e a sua mão voou para o bolso. Estavam seguros; e o alívio causado por esta descoberta deixou a sua mente instantaneamente livre para outras reflexões.
E a percepção que imediatamente lhe veio com um toque de consternação foi que, durante o seu sono, alguma mudança definitiva tinha sido efectuada no quarto. Sentiu isto com aquela certeza intuitiva que equivale a conhecimento positivo. O quarto estava totalmente silencioso, mas a corroboração que lhe foi trazida rapidamente pareceu encher imediatamente a escuridão com uma vida sussurrante e secreta que lhe gelou o sangue e fez com que o lençol parecesse gelo contra a sua face.
Escuta! Era isto; chegou aos seus ouvidos, nos quais o sangue já zumbia com um clamor de aviso, um murmúrio surdo de algo que subia indistintamente do poço da casa e se tornava audível para ele sem passar por paredes ou portas. Não parecia haver superfície sólida entre ele, deitado na cama, e o patamar; entre o patamar e as escadas, e entre as escadas e o átrio lá fora.
Ele sabia que a porta do quarto estava aberta! Portanto, tinha sido aberta por dentro. No entanto, a janela estava fechada, também por dentro.
Mal isto foi percebido, o silêncio conspiratório da hora foi quebrado por outro som, mais definido. Um passo vinha pelo corredor. Uma certa nódoa negra na anca dizia a Shorthouse que a pistola no seu bolso estava pronta a ser usada e ele sacou-a rapidamente e engatilhou-a. Depois, teve apenas tempo de deslizar para fora da cama e agachar-se no chão quando o passo parou no limiar do quarto. A cama ficava, assim, entre ele e a porta aberta. A janela estava às suas costas.
Esperou na escuridão. O que lhe pareceu peculiar nos passos foi que não parecia haver qualquer desejo particular de se mover furtivamente. Não havia extrema cautela. Moviam-se de uma forma bastante descuidada e soavam como chinelos macios ou pés com meias. Havia algo de desajeitado, irresponsável, quase imprudente no movimento.
Por um segundo, os passos pararam no limiar, mas apenas por um segundo. Quase imediatamente entraram no quarto e, ao passarem da madeira para a alcatifa, Shorthouse notou que se tornaram totalmente silenciosos. Esperou em suspenso, sem saber se o caminhante invisível estava do outro lado do quarto ou perto dele. De repente, levantou-se e esticou o seu braço esquerdo à sua frente, tateando, procurando, sentindo num círculo; e atrás dele segurava a pistola, engatilhada e apontada, na sua mão direita. Quando se levantou, um osso estalou no seu joelho, as suas roupas farfalharam como se fossem jornais, e a sua respiração parecia audível por todo o quarto. Mas nem um som veio trair a posição do intruso invisível.
Então, exactamente quando a tensão se tornava insuportável, um ruído aliviou o silêncio opressivo. Era madeira a bater contra madeira, e vinha da extremidade mais distante do quarto. Os passos tinham-se movido para a lareira. Um som de deslizamento seguiu-se quase imediatamente e depois o silêncio fechou-se novamente sobre tudo como um sudário.
Durante mais cinco minutos, Shorthouse esperou, e depois o suspense tornou-se demasiado. Ele não podia suportar aquela porta aberta! As velas estavam perto dele e acendeu um fósforo e acendeu-as, esperando no clarão súbito receber pelo menos um golpe terrível. Mas nada aconteceu, e ele viu imediatamente que o quarto estava totalmente vazio. Caminhando com a pistola engatilhada, espreitou para a escuridão do patamar e depois fechou a porta e rodou a chave. Depois, procurou no quarto — cama, armário, mesa, cortinas, tudo o que pudesse ter escondido um homem; mas não encontrou qualquer rasto do intruso. O dono dos passos tinha desaparecido como um fantasma nas sombras da noite. Não fosse por um facto, ele poderia ter imaginado que estivera a sonhar: _a mala tinha desaparecido_!
Não houve mais sono para Shorthouse naquela noite. O seu relógio apontava para as 4 da manhã e ainda faltavam três horas para o amanhecer. Sentou-se à mesa e continuou os seus esboços. Com determinação fixa, continuou com o seu desenho e começou um novo contorno da cabeça do homem. Havia algo na expressão que o iludia continuamente. Não teve sucesso com ela, e desta vez pareceu-lhe que foram os olhos que causaram o seu desconforto. Ergueu o seu lápis perante o rosto para medir a distância entre o nariz e os olhos e, para seu espanto, viu que uma mudança tinha ocorrido nas feições. Os olhos já não estavam abertos. As pálpebras tinham-se fechado!
Por um segundo ele ficou numa espécie de espanto estupefacto. Um empurrão tê-lo-ia derrubado. Depois, saltou para os pés e aproximou uma vela do quadro. As pálpebras oscilaram, as pestanas tremeram. Então, mesmo perante o seu olhar, os olhos abriram-se e fitaram diretamente os seus. Dois buracos foram cortados no painel e este par de olhos, olhos humanos, encaixava-lhes exatamente.
Como por um efeito curioso de magia, o medo intenso que o dominava desde a sua entrada na casa desapareceu num segundo. A raiva precipitou-se no seu coração e o seu sangue gelado subiu subitamente ao ponto de ebulição. Pousando a vela, deu dois passos atrás, para dentro do quarto, e depois lançou-se com toda a sua força contra o painel pintado. Instantaneamente, e antes que o estrondo ocorresse, os olhos foram retirados, e dois espaços negros mostraram onde tinham estado. O velho caçador estava sem olhos. Mas o painel estalou e fendeu-se para dentro como uma folha de cartão fino; e Shorthouse, com a pistola na mão, enfiou um braço pela abertura irregular e, agarrando uma perna humana, arrastou para dentro do quarto — o judeu!
As palavras precipitaram-se em tal torrente para os seus lábios que o sufocaram. O velho hebreu, branco como giz, estava trémulo diante dele, o cano brilhante da pistola em frente aos seus olhos, quando um volume de ar frio invadiu o quarto, e com ele um som de passos apressados. Shorthouse sentiu o seu braço ser empurrado para cima antes de ter tempo de se virar, e no mesmo segundo Garvey, que de alguma forma tinha conseguido arrombar a janela, interpôs-se entre ele e o trémulo Marx. Os seus lábios estavam entreabertos e os seus olhos reviravam-se estranhamente no seu rosto distorcido.
"Não dispares sobre ele! Dispara para o ar!" gritou ele. Agarrou o judeu pelos ombros.
"Seu cão maldito," rugiu ele, sibilando na sua cara. "Portanto, apanhei-te finalmente. É aí que está o teu vácuo, não é? Conheço finalmente o teu esconderijo vil." Sacudiu-o como a um cão. "Andei atrás dele toda a noite," gritou, virando-se para Shorthouse, "toda a noite, digo-te, e finalmente apanhei-o."
Garvey levantou o lábio superior enquanto falava e mostrou os dentes. Reluziam como as presas de um lobo. O judeu viu-os evidentemente também, pois soltou um grito horrível e debateu-se furiosamente.
Diante dos olhos do secretário, uma névoa pareceu subir. A sombra hedionda saltou novamente para o rosto de Garvey. Ele previu uma batalha terrível e, cobrindo os dois homens com a sua pistola, recuou lentamente para a porta. Se ambos eram loucos, ou ambos criminosos, não se deteve a indagar. O único pensamento presente na sua mente era que quanto mais cedo escapasse, melhor.
Garvey ainda sacudia o judeu quando ele chegou à porta e girou a chave, mas, ao sair para o patamar, ambos os homens pararam a sua luta e viraram-se para o enfrentar. O rosto de Garvey, bestial, repulsivo, lívido de raiva; o do judeu, branco e cinzento de medo e horror; — ambos se viraram para ele e juntaram-se num grito selvagem e horrível que despertou os ecos da noite. No segundo seguinte, perseguiam-no a toda a velocidade.
Shorthouse bateu a porta na cara deles e estava no fundo das escadas, agachado na sombra, antes que eles saíssem para o patamar. Eles desceram as escadas aos gritos e passaram por ele, para o átrio; e, totalmente despercebido, Shorthouse subiu as escadas novamente, atravessou o quarto e saltou da varanda para a neve fofa.
Enquanto corria pela entrada, ouviu atrás de si, na casa, os gritos dos maníacos; e quando chegou a casa, várias horas depois, o Sr. Sidebotham não só aumentou o seu salário, como também lhe disse para comprar um chapéu e um sobretudo novos e enviar-lhe a conta.
LAGO ESQUELETO: UM EPISÓDIO NO ACAMPAMENTO
A solidão absoluta do nosso acampamento de alces no Lago Esqueleto tinha-nos impressionado desde o início — nos confins de Quebec, a cinco dias de trilho e canoa da civilização — e talvez o nome singular contribuísse um pouco para a sensação de estranheza que se fazia sentir no círculo do acampamento assim que o sol se punha e as névoas do final de outubro começavam a subir do lago e a serpentear por entre os troncos das árvores.
Pois, nestas regiões, todos os nomes de lagos, colinas e ilhas têm a sua origem em algum acontecimento real, assumindo o nome de um participante principal, como Smith's Ridge, ou reivindicando um lugar no mapa ao perpetuar alguma característica especial da viagem ou da paisagem, como Long Island, Deep Rapids ou Rainy Lake.
Todos os nomes têm, portanto, o seu significado e são geralmente de aquisição bastante recente, enquanto a maioria é autoexplicativa e sugere relações humanas e pioneiras. O Lago Esqueleto, portanto, era um nome cheio de sugestão, e embora nenhum de nós conhecesse a origem ou a história do seu nascimento, todos estávamos conscientes de uma certa atmosfera lúgubre que assombrava as suas margens e ilhas, e não fosse pelas evidências de vestígios recentes de alces nas suas redondezas, provavelmente teríamos montado as nossas tendas noutro lugar.
Por várias centenas de quilómetros em qualquer direção, conhecíamos apenas um outro grupo de brancos. Tinham viajado de comboio connosco, entrando em North Bay, e vinham da zona de Boston. Um objetivo e propósito comuns serviram de apresentação. Mas o conhecimento progrediu pouco. Este ianque barulhento e agressivo não nos agradava muito como possível vizinho, e foi apenas uma ligeira intimidade entre o seu guia principal, Jake o Sueco, e um dos nossos homens que manteve a coisa viva. Acamparam em Beaver Creek, a cinquenta milhas e mais para oeste de nós.
Mas isso foi há seis semanas, e parecia ter sido há seis meses, pois os dias e as noites passam lentamente nestas solidões e a escala do tempo muda maravilhosamente. Os nossos homens pareciam sempre saber por instinto muito bem "por onde aqueles outros tipos andavam a mover-se", mas no intervalo ninguém se tinha cruzado com os seus rastos, ou sequer ouvido os tiros das suas espingardas.
O nosso pequeno acampamento consistia no professor, a sua esposa, uma excelente atiradora e uma entusiasta da vida na floresta, e eu próprio. Tínhamos um guia cada um, e caçávamos diariamente em pares desde antes do nascer do sol até ao anoitecer.
Era a nossa última noite na floresta, e o professor estava deitado na minha pequena tenda em forma de cunha, discutindo os perigos de caçar sozinho em pares desta maneira. A aba da tenda estava aberta e deixava entrar odores perfumados de comida cozinhada sobre uma fogueira de lenha ao ar livre; por toda a parte havia azáfama e preparação, e uma canoa já estava carregada com chifres de alce, com a proa apontada para o sul.
"Se um acidente acontecesse a um deles," dizia ele, "a história do sobrevivente quando regressasse ao acampamento seria uma prova totalmente sem suporte, não seria? Porque, vê tu..."
E continuava a ditar regras à maneira dos professores, até que me senti tão entediado que a minha atenção começou a vaguear para imagens e memórias dos cenários que estávamos prestes a deixar: Garden Lake, com as suas cem ilhas; as corredeiras de Round Pond; as inúmeras vistas da floresta, carmesim e dourada à luz do sol de outono; e as noites estreladas que tínhamos passado a vigiar, em posições frias e apertadas, o cauteloso alce em lagos solitários entre as colinas. O zumbido da voz do professor tornou-se com o tempo mais calmante. Um aceno ou um grunhido era toda a resposta que ele esperava. Felizmente, ele detestava interrupções. Acho que quase poderia ter adormecido debaixo do seu próprio nariz; talvez tenha adormecido durante um breve intervalo.
Depois, tudo aconteceu tão rapidamente, e a tragédia foi tão inesperada e dolorosa, lançando o nosso acampamento pacífico numa confusão momentânea, que agora tudo parece ter acontecido com a rapidez inquietante de um sonho.
Primeiro, houve a cessação abrupta da voz monótona, e depois a corrida de passos rápidos sobre as agulhas de pinheiro, e a confusão de vozes de homens; e no instante seguinte a esposa do professor estava à porta da tenda, sem chapéu, com o rosto branco, as suas calças de caça desajeitadas, uma espingarda na mão, e as suas palavras a atropelarem-se umas às outras.
"Rápido, Harry! É o Rushton. Eu estava a dormir e isso acordou-me. Alguma coisa aconteceu. Tens de tratar disso!"
Num segundo estávamos fora da tenda com as nossas espingardas.
"Meu Deus!" ouvi o professor exclamar, como se tivesse feito a descoberta pela primeira vez. "É o Rushton!"
Vi os guias a ajudar — a arrastar — um homem para fora de uma canoa. Seguiu-se um breve espaço de profundo silêncio, no qual ouvi apenas as ondas da canoa a lavar a areia; e então, imediatamente a seguir, veio a voz de um homem a falar com uma rapidez espantosa e com estranhos hiatos entre as palavras. Era o Rushton a contar a sua história, e os tons da sua voz, agora a sussurrar, agora quase a gritar, misturados com soluços e juramentos solenes e apelos frequentes à Divindade, de alguma forma soaram falsos desde o início, e antes que qualquer um de nós adivinhasse ou soubesse de alguma coisa. Algo movia-se secretamente entre as suas palavras, uma sombra a velar as estrelas, destruindo a paz do nosso pequeno acampamento, e tocando-nos a todos pessoalmente com um sentido indefinível de horror e desconfiança.
Posso ver aquele grupo até hoje, com todos os detalhes de uma boa fotografia: parado a meio caminho entre a luz da fogueira e a escuridão, uma ligeira névoa a subir do lago, as estrelas geladas, e os nossos homens, num silêncio que era todo compaixão, a arrastar Rushton através das rochas em direção à fogueira. Os seus mocassins rangiam na areia e escorregavam várias vezes nas pedras sob o peso do corpo inerte e exausto, e ainda consigo ver cada centímetro do ramo de cedro aparado que ele tinha usado como remo naquela viagem solitária e terrível.
Mas o que mais me impressionou, como impressionou a todos nós, foi a exaustão inerte do seu corpo comparada com a força da sua dicção e o fluxo desenfreado das suas palavras. Havia um vigoroso poder motriz em ação, forçando a história a sair, fervente e pulsante, cheia de discrepâncias e das mais estranhas contradições; e a natureza deste poder motriz comecei a apreciá-la quando o elevaram para o círculo da luz da fogueira e vi o seu rosto, cinzento sob o bronzeado, o terror nos olhos, as lágrimas também, o cabelo e a barba desalinhados, e ouvi o fluxo selvagem de palavras a verter sem parar.
Acho que todos compreendemos então, mas foi apenas após muitos anos que alguém se atreveu a confessar o que pensava.
Lá estava Matt Morris, o meu guia; Silver Fizz, cujo nome verdadeiro era desconhecido, e que ostentava o título da sua bebida favorita; e o enorme Hank Milligan — todo ouvidos e boa intenção; e lá estava Rushton, a despejar a sua história preparada, com olhos sempre inquietos, virando-se de rosto em rosto, procurando confirmação de detalhes que ninguém tinha testemunhado senão ele próprio — e um outro.
Silver Fizz foi o primeiro a recuperar do choque da coisa, e a perceber, com o sentido natural de cavalheirismo comum à maioria dos verdadeiros habitantes da floresta, que o homem estava numa desvantagem terrível. De qualquer forma, ele foi o primeiro a começar a pôr o assunto em pratos limpos.
"Não te preocupes em contar isso agora," disse ele com uma voz rouca, mas com verdadeira gentileza; "come primeiro qualquer coisa e depois deixa o resto para mais tarde. É melhor beberes também um gole de uísque. Acho que ainda não está tudo arrumado."
"Não conseguia comer ou beber nada," gritou o outro. "Meu Deus, não vês, homem, que preciso de falar com alguém primeiro? Quero tirar isto de mim para alguém que possa responder — responder. Não tive nada senão árvores com que falar durante três dias, e não posso carregar isto sozinho por mais tempo. Aquelas malditas árvores silenciosas — contei-lhes isto mil vezes. Agora, olha aqui, foi assim. Quando saímos do acampamento..."
Ele olhou temerosamente à sua volta, e percebemos que era inútil detê-lo. A história tinha de vir, e veio.
Agora, a história em si não tinha nada de especial; tais contos são contados às dezenas à volta de qualquer fogueira onde homens que andam pela floresta se sentam em círculo. Foi a maneira como ele a contou que nos fez arrepiar. Ele esteve perto da verdade o tempo todo, mas estava a roçá-la, e essa superficialidade retirava o creme que poderia ter salvo a sua alma.
Claro que ele a sufocou em palavras — palavras estranhas também — melodramáticas, poéticas, invulgares, que jazem mesmo no limite do frenesim. Claro, também, que ele continuava a perguntar-nos a cada um, por sua vez, examinando os nossos rostos com aqueles seus olhos inquietos e assustados: "O que teriam vocês feito?", "Que mais poderia eu fazer?" e "Foi culpa minha?". Mas isso não era nada, pois ele não era um tipo molengas que lidava com dicas e sugestões; ele contou a sua história corajosamente, impondo-nos as suas conclusões como se fôssemos tantos cilindros de cera de um fonógrafo que repetissem exatamente o que nos fora dito, e estas perguntas que mencionei ele usava-as para enfatizar qualquer ponto especial que parecesse requerer tal ênfase.
O facto era, contudo, que a imagem do que tinha realmente acontecido era ainda tão vívida na sua própria mente que chegou à nossa por um processo de telepatia que ele não podia controlar ou impedir. Através das suas palavras verdadeiras-falsas, esta imagem erguia-se em detalhes terríveis contra as sombras atrás dele. Ele não conseguia velar, muito menos obliterar, isso. Nós sabíamos; e, sempre pensei, ele sabia que nós sabíamos.
A história em si, como disse, era suficientemente vulgar. Jake e ele próprio, numa canoa de nove pés, tinham virado no meio de um lago, e tinham segurado as mãos através da embarcação virada durante várias horas, cortando eventualmente buracos nas suas nervuras para enfiarem os braços e segurarem as mãos, para que o entorpecimento da água fria não os vencesse. Estavam a milhas da margem, e o vento empurrava-os para uma pequena ilha. Mas quando chegaram a algumas centenas de jardas da ilha, perceberam com horror que, afinal, iriam passar por ela.
Foi então que começou a discussão. Jake queria deixar a canoa e nadar. Rushton acreditava em esperar até que tivessem realmente passado a ilha e estivessem abrigados do vento. Depois, poderiam chegar facilmente à ilha a nado, canoa e tudo. Mas Jake recusou-se a ceder, e após uma curta luta — Rushton admitiu que houve uma luta — soltou-se da canoa — e desapareceu sem um único grito.
Rushton aguentou-se e provou a correção da sua teoria, e finalmente chegou à ilha, canoa e tudo, depois de estar na água mais de cinco horas. Descreveu-nos como se arrastou até à margem, e desmaiou de imediato, com os pés a ficarem meio dentro de água; como se sentiu perdido e aterrorizado ao recuperar a consciência no escuro; como a canoa tinha derivado e a sua sorte extraordinária em encontrá-la novamente presa no fim da ilha por um ramo de cedro saliente. Disse-nos que o machado pequeno — outra pitada de verdadeira sorte — tinha ficado preso na travessa quando a canoa virou, e como a pequena garrafa no seu bolso contendo os fósforos de emergência estava intacta e seca. Fez uma fogueira flamejante e procurou a ilha de ponta a ponta, chamando por Jake na escuridão, mas sem obter resposta; até que, finalmente, tantos homens meio afogados pareciam sair da água para as rochas, e desaparecer entre as sombras quando ele chegava perto deles, que ele perdeu a coragem completamente e regressou para se deitar junto à fogueira até que o dia rompeu.
Depois cortou um ramo para substituir os remos perdidos, e após mais uma busca inútil pelo seu companheiro perdido, entrou na canoa, temendo a cada momento que se voltasse a virar, e atravessou para o continente. Ele sabia aproximadamente a posição do nosso local de acampamento, e depois de remar dia e noite, e fazer muitas portagens cansativas, sem comida ou cobertura, chegou até nós dois dias depois.
Esta, mais ou menos, foi a história, e nós, sabendo de onde ele falava, sabíamos que cada palavra era literalmente verdadeira, e ao mesmo tempo contribuía para a construção de uma mentira horrível e prodigiosa.
Assim que o recital terminou, ele colapsou, e Silver Fizz, após uma expressão geral de simpatia do resto de nós, veio novamente ao resgate.
"Mas agora, Senhor, tens mesmo de comer e beber, tenhas vontade ou não."
E Matt Morris, o cozinheiro daquela noite, logo tinha a truta frita e o bacon, e os bolos de trigo e café quente a passar por um círculo bastante silencioso e oprimido. Por isso comemos à volta da fogueira, vorazmente, como tínhamos comido todas as noites nas últimas seis semanas, mas com esta diferença: que havia um entre nós que estava mais do que voraz — e ele empanturrou-se.
Apesar de todos os nossos estratagemas, ele de alguma forma manteve-se o centro das atenções. Quando a sua caneca de estanho estava vazia, Morris passava instantaneamente o balde de chá; quando ele começou a limpar a gordura do bacon com a massa no seu garfo, Hank estendeu a mão para a frigideira; e a lata de batatas cozidas a fumegar estava sempre ao seu lado. E havia outra diferença também: ele estava doente, terrivelmente doente antes da refeição terminar, e esta náusea súbita após a comida era mais eloquente do que palavras sobre o que o homem tinha passado na sua terrível, sem comida, assombrada por fantasmas viagem de quarenta milhas até ao nosso acampamento. Na escuridão, ele pensou que ia ficar louco, disse ele. Havia vozes nas árvores, e figuras estavam sempre a erguer-se fora da água, ou de trás de rochedos, para olhar para ele e fazer sinais terríveis. Jake espreitava-o constantemente através do mato, e por toda a parte as sombras moviam-se, com olhos, passos e formas a seguir.
Tentámos arduamente falar de outras coisas, mas não valeu a pena, pois ele estava a rebentar com o ensaio da sua história e recusou-se a permitir-se as hipóteses que estávamos tão dispostos e ansiosos por lhe conceder. Após uma boa noite de descanso, ele poderia ter tido mais autocontrolo e melhor julgamento, e provavelmente teria agido de forma diferente. Mas, tal como estava, achámos impossível ajudá-lo.
Assim que os cachimbos foram acesos, e os pratos limpos, era inútil fingir por mais tempo. As faíscas dos troncos a arder ziguezagueavam para cima, em direção a um céu brilhante de estrelas. Estava tudo maravilhosamente calmo e pacífico, e os odores da floresta flutuavam até nós no ar cortante de outono. A fogueira de cedro cheirava bem e podíamos ouvir apenas o lavar suave das pequenas ondas ao longo da margem. Tudo estava calmo, belo e remoto do mundo dos homens e da paixão. Era, de facto, uma noite para tocar a alma, e ainda assim, creio, nenhum de nós deu atenção a estas coisas. Um alce macho poderia quase ter colocado a sua grande cabeça sobre os nossos ombros e ter escapado despercebido. A morte de Jake o Sueco, com o seu cenário sinistro, era a presença real que detinha o centro do palco e obrigava à atenção.
"Talvez não queiras vir, Senhor," disse Morris, como forma de começar; "mas acho que vou com um dos rapazes aqui e fazer uma busca por ele."
"Certo," disse Hank. "Jake e eu fizemos algumas viagens grandes juntos nos velhos tempos, e farei isso por ele."
"É água funda, dizem-me, à volta daquelas ilhas," acrescentou Silver Fizz; "mas vamos encontrá-lo, com certeza — se estiver lá."
Todos falavam do corpo como "ele".
Houve um minuto ou dois de silêncio pesado, e então Rushton explodiu novamente com a sua história nas palavras quase idênticas que tinha usado antes. Era quase como se a tivesse aprendido de cor. Ele falhou totalmente em apreciar os esforços dos outros para o deixar em paz.
Silver Fizz apressou-se, esperando detê-lo, Morris e Hank seguindo de perto o seu exemplo.
"Eu conheci uma vez outro companheiro de viagem dele," começou ele rapidamente; "costumava viver lá para os lados de Moosejaw Rapids..."
"É verdade?" disse Hank.
"Tipo de um sujeito bastante útil," interveio Morris.
Tudo o que os homens pretendiam era deter o falatório antes que as discrepâncias se tornassem tão evidentes que fôssemos forçados a notá-las e a fazer perguntas. Mas seria o mesmo que tentar deter um alce furioso em plena corrida, ou impedir que Beaver Creek congelasse no meio do inverno atirando seixos perto da margem. A coisa escapou! E, embora a discrepância desta vez fosse insignificante, de alguma forma ela nos colocou a todos, num segundo, face a face com o inevitável e temido clímax.
"E assim eu andei por toda aquela pequena ilha, esperando que ele pudesse, de alguma forma, ter entrado sem que eu soubesse, e sempre pensando que ouvia aquele terrível último grito dele na escuridão — e então a noite caiu impenetravelmente, como um maldito cobertor espesso vindo do céu, e..."
Todos os olhares desviaram-se do rosto dele. Hank atiçou as achas com a bota, e Morris agarrou uma brasa com os dedos nus para acender o cachimbo, embora este já estivesse a expelir nuvens de fumo. Mas o professor apanhou a bola no ar.
"Julguei que tivesse dito que ele se afundou sem um grito", comentou ele calmamente, olhando diretamente para o rosto assustado à sua frente, e então despedaçando impiedosamente a explicação confusa que se seguiu.
O efeito cumulativo de todas estas forças, até então tão rigorosamente reprimidas, fez-se agora sentir, e o círculo desfez-se espontaneamente, movendo-se todos ao mesmo tempo por um instinto comum. A esposa do professor deixou o grupo abruptamente, com desculpas sobre um início cedo na manhã seguinte. Ela primeiro apertou a mão a Rushton, murmurando algo sobre o seu conforto durante a noite.
A questão do seu conforto, contudo, recaiu por força das circunstâncias sobre mim, e ele partilhou a minha tenda. Pouco antes de me embrulhar nos meus cobertores duplos — pois a noite estava amargamente fria — ele virou-se e começou a explicar que tinha o hábito de falar enquanto dormia e que esperava que eu o acordasse caso o perturbasse ao fazê-lo.
Bem, ele falou enquanto dormia — e perturbou-me muito, de facto. A raiva e a violência das suas palavras permanecem comigo até hoje, e ficou claro num minuto que ele estava a reviver alguma parte da cena no lago. Escutei, horrorizado, por um momento ou dois, e então compreendi que estava perante uma de duas alternativas: deveria continuar a ser um ouvinte involuntário, ou deveria acordá-lo. A primeira era impossível para mim, contudo, recuei perante a segunda com a maior repugnância; e no meu dilema vi a única saída para a dificuldade e aceitei-a de imediato.
Por mais frio que estivesse, rastejei furtivamente para fora do meu saco-cama quente e deixei a tenda, com a intenção de manter o velho fogo aceso sob as estrelas e passar as horas restantes até ao amanhecer ao relento.
Assim que saí, notei imediatamente outra figura a mover-se silenciosamente ao longo da margem. Era Hank Milligan, e era bastante claro o que ele estava a fazer: estava a examinar os buracos que tinham sido cortados nas ripas superiores da canoa. Ele pareceu meio envergonhado quando me aproximei dele, e murmurou algo sobre não conseguir dormir por causa do frio. Mas, ali, parados juntos ao lado da canoa virada, vimos ambos que os buracos eram pequenos demais para a mão e o braço de um homem e não poderiam, de forma alguma, ter sido cortados por dois homens a lutar pela vida em águas profundas. Aqueles buracos tinham sido feitos depois.
Hank não me disse nada e eu não disse nada a Hank, e pouco depois ele afastou-se para recolher achas para o fogo, que precisava de ser reabastecido, pois era uma noite de frio cortante e havia muitos graus de geada.
Três dias depois, Hank e Silver Fizz seguiram com passos tropeçantes o velho trilho indígena que conduz de Beaver Creek para o sul. Uma rede estava suspensa entre eles, e pesava muito. Contudo, nenhum dos homens se queixou; e, na verdade, a conversa entre eles era quase nula. Os seus pensamentos, porém, estavam extremamente ocupados, e o terrível segredo dos bosques que formava o seu fardo pesava muito mais do que a massa bruta e instável que jazia na rede oscilante e puxava tão severamente pelos seus ombros.
Eles tinham encontrado "aquilo" a quatro pés de água, a não mais de dois metros da margem protegida da ilha. E na parte de trás da cabeça havia um ferimento longo e terrível que nenhum homem poderia, de forma alguma, ter infligido a si mesmo.
Impresso por MORRISON & GIBB LIMITED, Edimburgo.
John Silence
de Algernon Blackwood
"Desde os dias de Poe que não líamos nada no seu género peculiar que pudesse ser comparado a este livro notável... Ele traz para o seu trabalho um conhecimento extraordinário de formas estranhas e invulgares de fenómenos espiritualistas, e mergulha as suas páginas numa atmosfera de terror e expectativa reais."--Observer.
"Quando se diz que o trabalho do Sr. Blackwood se aproxima do génio, a frase não é usada de forma leviana. Este livro muito notável é uma adição considerável e duradoura à literatura do nosso tempo."--Morning Post.
"Estas são as histórias de fantasmas mais assombrosas e originais desde que 'Uncle Silas' apareceu."--Morning Leader.
"No campo que escolheu, o Sr. Blackwood não tem rival entre os escritores contemporâneos."--Manchester Guardian.
"Tão original, tão poderoso e tão artisticamente escrito como aquela pequena obra-prima de Lytton, 'The Haunters and the Haunted'. Ele suporta uma comparação favorável com Le Fanu... Um volume que tem um poder de fascínio extraordinário."--Birmingham Daily Post.
"A história é absolutamente cativante no seu poder imaginativo."--Daily Telegraph.
EDIÇÃO UNIFORME
3s. 6d. líquido
EVELEIGH NASH COMPANY LIMITED
36 King Street, Covent Garden, Londres, W.C.
The Lost Valley
de Algernon Blackwood
"Numa das histórias, 'The Wendigo', o autor dá-nos, talvez, uma das mais bem-sucedidas incursões no sombriamente estranho; silenciosa mas seguramente, ele faz com que o seu leitor caia sob a influência do sinistro, até que as páginas sejam viradas com hesitação sob o feitiço de um fascínio temível. O Sr. Blackwood escreve como um verdadeiro artista."--Daily Telegraph.
"O livro de um escritor notavelmente dotado."--Daily News.
"As histórias são inesquecíveis. Através de todas elas, também, percorre o encanto de um estilo consumado... O Sr. Blackwood, de facto, saiu-se bem."--Pall Mall Gazette.
"Quer se preocupe com a beleza ou o terror, com o facto ou com a fantasia, há uma individualidade no trabalho do Sr. Blackwood que não pode ser ignorada, e há também um poder que provém, pensamos nós, não tanto da fertilidade de uma imaginação abrangente, mas da espantosa convicção do poder de expressão do autor, e uma qualidade literária raramente encontrada em histórias contemporâneas de mistério e imaginação."--Globe.
"No seu método de tocar as fontes do medo, da piedade e do horror, o Sr. Blackwood exibe frequentemente poderes que só podem ser devidamente chamados de magistrais. À sua maneira, o seu trabalho promete tornar-se clássico... uma arte superior à de Bulwer-Lytton, pelo menos tão refinada como a de Le Fanu, e dificilmente, ou de forma alguma, inferior à exibida pelos supremos mestres vivos do conto, o Sr. Kipling e o Sr. James."--Birmingham Daily Post.
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The Listener
de Algernon Blackwood
"Estas histórias são literatura... boas histórias, bem imaginadas, cuidadosamente modeladas, devidamente proporcionadas... 'The Insanity of Jones' é talvez o mais notável *tour de force* neste livro notável... Se o Sr. Blackwood se mantiver ao seu nível atual, um ou dois autores muito célebres terão de cuidar dos seus louros."--Daily Chronicle.
"Nem mesmo Edgar Allan Poe sugeriu mais habilmente uma atmosfera de horror do que o Sr. Blackwood na sua história titular, ou novamente na sua descrição de 'The Willows'."--F.G. BETTANY no Sunday Times.
"Dizer que as últimas histórias do Sr. Blackwood revelam um forte instinto dramático é uma forma aborrecida de expressar a série de arrepios que a sua leitura provoca. Sem dúvida, o Sr. Blackwood está destinado a ocupar um lugar elevado como um autor capaz de despertar a atenção do seu leitor na primeira página, e de a manter até que a última tenha sido virada... Um génio distinto."--Pall Mall Gazette.
"Cheio de imaginação, e bem contado."--Daily News.
"O Sr. Blackwood é claramente um mestre na arte da história de sensação genuína."--Liverpool Courier.
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