O CHAPÉU VINCULADO
OU
OS TEMPOS DE PATTY CANNON
Um Romance
POR GEORGE ALFRED TOWNSEND
"GATH"
NOVA YORK HARPER & BROTHERS, FRANKLIN SQUARE 1884
Registrado de acordo com o Ato do Congresso, no ano de 1884, por
HARPER & BROTHERS,
Na Secretaria do Bibliotecário do Congresso, em Washington.
Todos os direitos reservados.
AO
JUIZ GEORGE P. FISHER
DE DELAWARE
E AO
HONORÁVEL JOHN A. J. CRESWELL
DE MARYLAND
AMANTES DOS VELHOS TEMPOS
RECEBEDORES DA NOVA ERA
"Amigos! Não confieis no coração daquele homem para quem as Velhas Roupas não são veneráveis." — CARLYLE: Sartor Resartus
INTRODUÇÃO.
Certa vez, o autor despertou para uma reflexão dolorosa de que não conhecia bem lugar algum, embora sua ocupação o tivesse levado a muitos, e que, após vinte e cinco anos descrevendo localidades e sociedades, não seria identificado com nenhuma.
"Onde começarei a vaguear dentro de limites?", perguntou-se ele, sentindo os espaços vazios em sua natureza: a falta de todos aqueles pássaros, árvores florestais, hábitos domésticos, ervas daninhas, instintos dos riachos, e tons e matizes das espécies locais que repousam na bússola de alguma vizinhança, e completam a mente pastoral.
Numerosos distritos surgiram e disputaram entre si, cada um atraente por alguma cena marcante, ou contraste audacioso, ou rosto adorável; e uma política mais sábia poderia ter levado suas inclinações a um destes, redundante, talvez, em riqueza ou apreciação literária; contudo, o coração começou a voltar-se, como no primeiro amor, ou numa vadiagem quase tão doce, para a pequena e humilde região onde sua curta infância foi vivida, e onde as gerações desconhecidas de seu povo escureceram a areia — a península entre o Chesapeake e o Delaware.
Longe, nesta península, jaz a velha cidade de Snow Hill, na fronteira da Virgínia; ali, o peregrino entrou no tribunal e pediu para ver um antigo livro de testamentos, e nele voltou-se para o nome de um ancestral materno, de quem grandes contos lhe haviam sido contados por um parente idoso. Sua respiração quase cessou ao encontrar as seguintes disposições, datadas de 12 de fevereiro de 1800:
"Dou e deixo ao meu filho, Ralph Milbourn, O MEU MELHOR CHAPÉU, PARA ELE E SEUS CESSIONÁRIOS PARA SEMPRE, e nada mais do meu espólio.
"Dou a Thomas Milbourn a minha pequena chaleira de ferro, o meu alambique de aguardente, todos os meus atiçadores de ferro, o meu suporte de panela e quinze libras de título que ele deu à minha filha, Grace Milbourn."
No dia seguinte, um médico levou o autor em suas rondas através de "the Forest", como um trato vizinho era quase invidiosamente chamado, e através de uma fornalha de ferro deserta; uma aldeia quase da data destes testamentos.
Por onde quer que fosse, o Chapéu Vinculado parecia, ao estranho na terra de seus antepassados, aparecer nas vistas, como se algum ser estranho, reverendo e evitado estivesse usando-o pelas defiladas do tempo. Agora como Hester Prynne usando sua Letra Escarlate, e agora como Gaston em sua Máscara de Ferro, este ser assumiu ambos os sexos e diferentes personagens, conforme o autor pesava as probabilidades de sua existência. Por fim, começou a conhecê-lo e começou a retratá-lo em um pequeno conto.
A história rompeu seus limites como a geração de sua própria família havia rompido aquela floresta, e buscou um hemisfério maior; contudo, por onde quer que o místico Chapéu seguisse, sua fantasia errante também fora conduzida pela mão de sua mãe.
Muitas vezes ela lhe contara sobre a velha Patty Cannon e seu antro de sequestradores, e sua morte na cadeia de sua cidade natal. Ele descobriu que a lenda daquela mulher temida havia se fortalecido em vez de ter desaparecido com o tempo, e seus refúgios preservados, e testemunhas oculares de seus feitos ainda vivas.
Daí, este romance tem muita verdade local, e não é apenas a narração de um episódio, mas a história de uma grande região que compreende três jurisdições estaduais, e também daquele período em que a vida moderna surgiu sobre as ruínas da antiga casta colonial.
ÍNDICE.
CAPÍTULO PÁGINA
I. DOIS USUÁRIOS DE CHAPÉU 1 II. JUIZ E FILHA 6 III. OS FLORESTAIS 15 IV. DESCOBERTA DA RELÍQUIA DE FAMÍLIA 19 V. O TRATO DE MINÉRIO DE PÂNTANO 25 VI. OS CUSTISES ARRUINADOS 32 VII. FERRO DE FOGO-FÁTUO 40 VIII. O CHAPÉU ENCONTRA UM SUPORTE 45 IX. HA! HA! O CORTEJO DISSO 69 X. MESTRE NA COZINHA 83 XI. ORGULHO MORIBUNDO 89 XII. O PESSOAL DE PRINCESS ANNE 100 XIII. SOMBRA DA TELHA 121 XIV. A CASA DE MESHACH 129 XV. O SEQUESTRADOR 154 XVI. HOMEM DE COROA DE SINO 164 XVII. SABÁ E CANOA 179 XVIII. SOB UMA VELHA COFIA 192 XIX. OS NÍVEIS ESCUROS 210 XX. CASTA SEM TOM 218 XXI. LONGAS SEPARAÇÕES 239 XXII. O PESSOAL DE NANTICOKE 261 XXIII. A ILHA DE TWIFORD 269 XXIV. VELHAS CHAMINÉS 285 XXV. O LOCAL DE PATTY CANNON 298 XXVI. VAN DORN 318 XXVII. A BALSA DE CANNON 335 XXVIII. PACIFICAÇÃO 357 XXIX. INÍCIO DA INCURSÃO 360 XXX. ÁFRICA 365 XXXI. RUBOR DE PÊSSEGO 373 XXXII. JARARACAS 391 XXXIII. LUA DE MEL 405 XXXIV. A PROVAÇÃO 411 XXXV. A CASA COWGILL 424 XXXVI. DOIS WHIGS 433 XXXVII. ESPÍRITO DO PASSADO 441 XXXVIII. A FUGA DE VIRGIE 456 XXXIX. A FUGA DE VIRGIE--CONTINUAÇÃO 468 XL. HULDA CERCADA 486 XLI. O ÚLTIMO TRUQUE DA TIA PATTY 496 XLII. BICOS 510 XLIII. PRAZER ESGOTADO 515 XLIV. A MORTE DE PATTY CANNON 524 XLV. O JUIZ CASADO NOVAMENTE 542 XLVI. A MALDIÇÃO DO CHAPÉU 554 XLVII. FALHA E RESTITUIÇÃO 558
* * * * *
Uma imagem da Taverna do Sequestrador de Joe Johnson, como estava no ano de 1883, é dada na página de título.
O CHAPÉU VINCULADO.
CAPÍTULO I.
DOIS USUÁRIOS DE CHAPÉU.
Princess Anne, como seu nome real implica, é uma antiga sede de justiça e uma cidade de mentalidade gentil na Costa Leste. O antigo condado de Somerset, tendo sido dividido muitos anos antes da guerra revolucionária, e seus tribunais separados, o tribunal original desvaneceu-se do mundo, e os pinheiros da floresta ocultaram seu local. Duas novas cidades surgiram, e ainda florescem, em torno dos registros originais reunidos em seus simples escritórios de tijolos, e seria um visitante esquecido em Princess Anne aquele que não dissesse que ela possui a melhor sociedade. Ele obteria garantias disso das "melhores pessoas" que lá vivem; e garantias ainda mais solenes das duas igrejas veneráveis, Presbiteriana e Episcopal, cujas lápides, eretas ou reclinadas, ou em fileiras de família, dizem, em epitáfios latinizados, poéticos ou piedosos: "Nós pertencíamos à sociedade de Princess Anne." Essa, pelo menos, é a impressão deixada no visitante enquanto ele vaga entre suas murtas e trepadeiras, ou recebe, nas largas ruas de terra, as saudações dos advogados e de seus clientes.
Havia apenas dois homens excêntricos vivendo em Princess Anne na primeira metade do nosso século, e ambos eram identificados por seus chapéus.
O primeiro era Jack Wonnell, um pobre coitado de alguma origem remota que certa vez comparecera a um leilão e comprara um quarto de grossa de chapéus de castor. Embora isso tenha acontecido anos antes de nossa história começar, e as modas tivessem mudado, Jack não produzia um chapéu novo do estoque com mais frequência do que quando havia usado bem o seu antecessor e, à taxa de dois chapéus por ano, estava extinguindo o estoque muito lentamente. Como a maioria das pessoas que frequenta leilões, ele não era previdente, exceto em chapéus, e apresentava uma aparência surpreendente em suas vestes remendadas e encolhidas quando montava uma telha nova e brilhante e ia para a calçada. Seu nome tornou-se, em todas as classes sociais, "Coroa-de-Sino".
O outro cidadão excêntrico era o objeto de um verdadeiro mistério, e ainda mais burlesco. Ele usava um chapéu, aparentemente com mais de um século de idade, de coroa alta e pontiaguda, e aba rígida e ondulada, e quase duas vezes mais alto que os cilindros ou cartolas destes dias. Tinha sido esfregado, reformado, limpo e endireitado, até que sua aparência grotesca aumentasse infinitamente. Se o usuário tivesse saído da corte do Rei Jaime I diretamente para nossos tempos e presença, não poderia ter produzido um efeito mais singular. Ele não usava este chapéu em todas as ocasiões, nem todos os dias, mas sempre nos sábados e feriados, em funerais ou celebrações corporativas, em certos dias da igreja inglesa, e sempre que usava o restante de seu traje extra, que era igualmente do tipo fino-pobre, e terminado por polainas esverdeadas, quase a contrapartida, em cor, do chapéu. Para os negócios diários, ele usava um chapéu de abas largas barato e comum, mas, às vezes, por vários dias, por capricho ou método desconhecido, usava este chapéu pontiagudo, e os estranhos no local geralmente tinham a oportunidade de vê-lo.
Meshach Milburn, ou "Ponta-de-Estreia", era um homem penúrico, ávido, pouco social, de origem da vizinhança, mas de uma família geralmente sem sucesso e sem distinção, que se dizia estar morrendo há tantos anos que parecia ser sempre um remanescente, porém nunca totalmente extinto. Ele, sozinho entre os Milburns, elevou-se da região florestal de Somerset e estabeleceu-se na cidade e, pelo silêncio, frugalidade, negociações difíceis e, finalmente, por empréstimos de dinheiro, tornou-se uma pessoa de meios desconhecidos — ele mesmo quase desconhecido. Ele era, ostensivamente, um comerciante ou dono de loja, e negociava vários tipos de coisas, não mantendo nenhum balconista ou atendente, exceto um negro chamado Samson, que sabia tão pouco sobre sua mente e afeições quanto o restante da cidade. O negócio de Samson era limpar e produzir o chapéu misterioso, que ele sabia ser necessário toda vez que via seu mestre se barbear.
Assim que a tigela de espuma e a pedra de amolar eram agitadas, Samson, sem perguntas, ia até um grande baú verde no quarto acima da velha loja de madeira e tirava da caixa de chapéu de couro o chapéu de coroa alta, onde o próprio Meshach Milburn sempre o recolocava sagradamente. Então, o "Samson Chapéu", como os rapazes o chamavam, exercitava sua escova vigorosamente e colocava o estranho acessório de cabeça na forma mais formal possível, e ele silenciosamente cuidava de sua reabilitação através do chapeleiro da aldeia, nunca deixando a loja até que a telha tivesse sido reparada, e não permitindo que ninguém a manuseasse, exceto o mecânico. Além disso, Samson cozinhava a comida de seu mestre e realizava trabalhos pesados pela loja, mas não tinha outra qualificação conhecida para um servo de confiança, exceto sua força física.
Ele era agora velho, provavelmente com sessenta anos, mas ainda um pugilista muito formidável; e ele havia capturado, correndo a pé, o último cervo selvagem do condado. Embora não fosse um homem de beber, o Samson Chapéu nunca deixava um ano passar sem ter uma batalha pessoal com algum negro jovem, disposto e poderoso. Seu sistema físico e mental parecia exigir algum tipo de indulgência periódica, e ele media cada negro que chegava à cidade unicamente à luz de sua destreza. Ao aparecer algum atleta hercúleo ou de peito limpo, o olho de Samson brilhava, seu sorriso surgia, e sua saudação amigável era: "Você é um bom homem! Quase tão bom quanto eu!" Ele nunca foi espancado, dizia o boato, a não ser por um líder de classe negro inofensivo a quem ele desafiou e forçou a lutar.
"Por Deus, homem, eu nunca te vi antes! Eu me juntei à igreja! Eu não posso lutar! Eu nunca fiz isso!"
"Não posso evitar, irmão!", respondeu Samson. "Você é um homem bom demais para passar pelo Condado de Somerset. Prepare-se ou você vai apanhar!"
"Então, se eu devo, eu devo! Que o Senhor me perdoe!" e após uma tremenda batalha, o líder de classe saiu quase vitorioso.
Sempre que Samson se entregava às suas propensões gladiatórias, ele desaparecia na floresta de onde viera, e sendo um homem livre de independência mental igual à sua coragem, ele apenas esperava em sua cabana solitária até que Meshach Milburn lhe enviasse um recado para retornar. Então, silenciosamente, o velho negro retomava seu lugar, demonstrava contrição, aceitava as poucas palavras amargas e autoritárias de seu mestre em silêncio, e escovava o chapéu antigo.
Meshach mantinha-o respeitavelmente vestido, mas não lhe pagava salários; o negro tinha o que queria, mas queria pouco; em mais de uma ocasião, o tribunal impusera penalidades às perturbações da paz de Samson, e ele ficava na cadeia, sem preocupações e orgulhoso, até que Meshach Milburn pagasse a multa, o que fazia com relutância; pois o dinheiro era a única busca de Meshach, e ele não gastava nada consigo mesmo.
Sem um vício, parecia que Meshach Milburn não tinha uma emoção, quase nenhuma virtude. Ele não tinha piedade nem curiosidade, visitantes nem amigos, profissões nem desculpas. Duas ou três vezes ele foi convocado para um júri, quando vestiu seu melhor traje e sua coroa alta, e formalmente passou por sua tarefa. Ele comparecia ao culto episcopal todos os domingos e grandes feriados, usando inevitavelmente a antiga telha, que muitas vezes, por si só, atraía mais público do que o sermão. Ele dava uma quantia muito pequena de dinheiro e ocupava um banco barato, e lia em seu livro de orações muitas admoestações que ele não seguia.
Ele não era litigioso, mas não havia como escapar da perfeição de seus contratos. Seus olhos castanhos, grandes e investigadores, quase orgulhosos e bastante cruéis, e seu cabelo tipo indígena, eram os elementos principais de um rosto não grande, mas que parecia ser, como se a vontade enterrada de alguma família longamente frívola tivesse sido restaurada e concentrada neste homem e tivesse dado um poder bilioso às suas sobrancelhas, mandíbulas e olhares.
Sua excentricidade não tinha harmonia aparente com mais nada, nem qualquer sensibilidade especial sobre isso. Os meninos vaiavam seu chapéu, e as meninas pequenas muitas vezes se juntavam, gritando "Ponta-de-Estreia! Ele está usando! Meshach está solto!" Mas ele não prestava atenção em ninguém, até que uma vez, na época do tribunal, alguns rapazes festeiros contrataram Jack Wonnell para caminhar até Meshach Milburn e pedir para trocar uma coroa-de-sino nova pela velha e decrépita ponta-de-estreia. Olhando para Wonnell severamente no rosto, Meshach sibilou: "Seu vagabundo miserável! A natureza quis que você andasse de cabeça descoberta. Cuidado quando falar comigo novamente!"
"Eu estava com medo dele", disse Jack Wonnell, depois. "Ele parecia ter uma pistola carregada em cada olho."
Nenhum outro incidente, além do ridículo indiscriminado, foi registrado sobre este chapéu, exceto uma vez, quando um grupo de crianças pequenas em frente à casa do Juiz Custis começou a sussurrar e rir, e uma, mais audaciosa que as outras, a filha do Juiz, caminhou gravemente até o homem antissocial; era o primeiro de maio, e ele estava com seu melhor traje:
"Senhor", disse ela, "posso colocar uma rosa em seu velho chapéu?"
O homem áspero olhou para baixo para a pequena criança majestosa, em pé, reta e esguia, com uma expressão de compostura e cortesia no rosto. Então ele olhou para cima e além da residência do Juiz para ver se alguma pessoa travessa ou presunçosa havia incitado este ato. Ninguém estava à vista, e as outras crianças tinham fugido.
"Por que você me oferece uma flor?", disse ele, mas sem ternura.
"Porque pensei que um chapéu tão velho poderia melhorar com uma rosa."
Ele hesitou por um minuto. A menina, como se bem-nascida, recebeu seu olhar forte firmemente. Ele tirou o venerável acessório de cabeça e colocou-o na mão da pequena dama. Ela fixou uma rosa branca nele, e então ele colocou o chapéu e a rosa novamente em sua cabeça e tirou uma pequena moeda de ouro do bolso.
"Você aceitará isto?"
"Meu pai não me deixará, senhor!"
Meshach Milburn recolocou a moeda e não disse mais nada, mas caminhou pelas ruas, em meio a mais sorrisos do que o habitual, e a porta desgastada pelo tempo do pequeno armazém trêmulo fechou-se atrás dele.
CAPÍTULO II.
JUIZ E FILHA.
O Juiz Custis era o homem mais importante do condado. Ele pertencia à mais antiga família colonial de distinção, os Custises de Northampton, cuja fortuna, começando com o Rei Carlos II e seus créditos de taverna em Roterdã, terminou ao dotar o Coronel George Washington com a oferta de uma viúva. O Juiz em Princess Anne era o homem mais bonito, pai da mais fina família de filhos e filhas, o melhor em propriedades, o mais variado em conhecimento e o mais convivial dos Custises.
Naquela região da Costa Leste, há tão pouca diversidade de produções, o oceano e o barro contribuindo sozinhos para o homem, que o Juiz Custis tinha uma reputação exagerada como mineralogista.
Ele começara a fabricar ferro a partir dos minérios de pântano encontrados nos pântanos e colinas de um distrito vizinho, e, com os gostos de uma família proprietária de terras e escravos, erguera em torno de sua fornalha uma cidade considerável, com sua própria residência como proprietário conspícua no meio. Ali, ele passava uma grande parte do tempo, e nem sempre na companhia de sua família, entretendo amigos das cidades distantes, desfrutando das iguarias de cágado, pato e vinhos, e, como dizia o boato na floresta, todos os prazeres de um nobre russo ou alemão em uma propriedade isolada.
Ele podia deitar-se no chão com os florestais descalços, igual e familiar com eles, e conquistar seus sufrágios para o Senado Estadual ou a Assembleia. Em Princess Anne, ele era mais discriminador, elevando-se naquela sociedade à estatura de sua família, e cercado por alianças que exigiam o que se chama de "postura". Em suma, ele era o chefe da comunidade, e sua riqueza, originalmente considerável, fora aumentada pelo casamento, enquanto seu crédito estendia-se até Filadélfia e Baltimore.
Não muito tempo depois do ocorrido de sua jovem filha, Vesta, colocar a rosa no misterioso chapéu de Meshach Milburn, o Juiz Custis disse à sua esposa na mesa do café da manhã:
"Esse homem tem permissão para se fechar, como um cão, há tempo demais. Ele deve algo a esta comunidade. Vou descer ao canil dele, sob o pretexto de querer um empréstimo — e eu preciso de algum dinheiro para a fornalha!"
Ele pegou sua bengala após o café da manhã e saiu de sua grande mansão, e desceu a calçada da rua nivelada. Havia, como de costume, alguns negros em torno da pequena loja manchada pelo tempo de Milburn, e o Samson Chapéu, entre eles, apertou a mão do Juiz, sem se perturbar um pouco com a condescendência deste último.
"Juiz", disse Samson, olhando aquele cavalheiro grande e corpulento, "o senhor ainda é um bom homem. Mas a carne está um pouco macia em seu músculo, Juiz."
"Ah! Samson", respondeu Custis, "há um velho sujeito que está lutando com você."
"Tempo?", disse o negro; "não podemos lutar contra ele, certamente! Isso é um fato! Mas sou tão bom quanto qualquer homem em Somerset agora."
"Exceto o rapaz da minha filha, o líder de classe de Talbot."
"Aquele rapaz está em sua família", exclamou Samson, entusiasmando-se. "Eu caminharei até lá se ele me der outro arremesso."
O Juiz entrou na porta escancarada da loja de Meshach Milburn. Alguns negros e brancos pobres estavam no balcão, e Meshach estava medindo uísque para eles por doses baratas em troca de peles de guaxinim e ovos. Ele olhou para cima, um pouco surpreso com o advento do homem principal, e apenas disse, sem acenar:
"Bom dia!"
O Juiz Custis nunca se esquivou de ninguém, mas sua inteligência reconheceu nos olhos de Meshach um tipo de natureza que ele ainda não havia encontrado, embora fosse de conhecimento universal. Não era hostilidade, nem boas-vindas, nem indiferença. Não era exatamente espírito. Tão perto quanto o Juiz pôde formular, a expressão era de autoconfiança habitual, e se não de suspeita habitual, o sentimento mais próximo disso, que vem da impopularidade consciente.
"Sr. Milburn", disse o Juiz Custis, "quando estiver livre, deixe-me ter algumas palavras com o senhor."
O dono da loja virou-se para as pessoas pobres em sua pequena área e comentou com elas bruscamente:
"Podem voltar em dez minutos."
Todos saíram sem mais ordens. Milburn fechou a porta. O Juiz moveu uma cadeira e sentou-se.
"Milburn", disse ele, abandonando o "senhor" formal, "dizem-me que você empresta dinheiro, e que cobra bem por isso. Eu sou um tomador de empréstimos às vezes, e acredito em manter os juros em casa, em nossa própria comunidade. Você descontaria minha nota a juros legais?"
"Nunca", respondeu Meshach.
"Então", disse o Juiz, sorrindo, "você me causará algum inconveniente."
"Isso é mais do que juros legais", respondeu Milburn, resolutamente. "Você pagará os juros legais por onde for, e o inconveniente de ir custará algo também. Se você adicionar suas despesas tão liberalmente quanto as incorre quando vai a Baltimore, aos juros legais, você está sempre pagando um bom deságio."
"Onde você tem riscos", sugeriu o Juiz, "há alguma razão para um desconto pesado, mas minha propriedade enriquecerá este condado e todas as terras sobre as quais você detém hipotecas."
"Minério de pântano!", murmurou o agiota. "Nunca emprestei dinheiro sobre esse tipo de risco. Devo ler sobre isso! Dizem que a fabricação requer talento mecânico. Quanto você quer?"
"Três mil."
"Garantido sobre a fornalha?"
"Sim."
Meshach calculou em um pedaço de papel, e o Juiz, com curiosidade fácil, estudou seu rosto e figura singulares.
Ele era bastante baixo e atarracado, não pesando mais que sessenta quilos, com dedos longos e finos, de tal traçado e movimento independente que cada dedo parecia ter vontade e função próprias. Olhando apenas para as mãos dele, dir-se-ia: "Eis aqui um pianista, um calígrafo, uma mulher de habilidade definida ou um homem de peculiar delicadeza." Todos os dedos eram bem conformados, como se a mão, em vez do rosto, fosse destinada a ser o expoente da mente e a revelar seu retrato ali.
Contudo, o rosto de Meshach Milburn, se mais repelente, era incomum.
Os efeitos de uma dieta longa e de um clima invariável, de geração em geração, ambos humildes e pouco revigorantes, haviam conferido às suas maçãs do rosto, ao cabelo e aos olhos castanhos e resinosos uma forma e traços quase aborígenes. Das maçãs do rosto para cima, ele parecia um índio, e expressava um poder estólido e uma tez morena. Abaixo, caía um rosto grande, em proporção, sem nada notável a não ser o nariz, que era tão reto, proeminente e completo, e suas narinas tão sensíveis, que apenas o nariz em seu rosto parecia ser uma boa companhia para as mãos. Quando ele confrontava alguém, com a cabeça levemente jogada para trás, os olhos castanhos fixos em inquérito e o nariz quase senciente, o efeito era o de um selvagem hostil recém-saído da floresta.
Essa era, de fato, a sua condição.
"Olhe-o nos olhos", dizia o homem educado na cidade, "ele é um silvícola por inteiro!"
"Mas olhe para a mão dele", acrescentavam alguns poucos observadores.
Ah! Quem jamais havia apertado aquela mão?
Ela estava agora estendida ao Juiz, que tomou de seus dedos femininos os termos do empréstimo. O Juiz Custis surpreendeu-se com a moderação de Meshach e olhou alegremente para aquele rosto sempre sentinela, no qual poderia estar impresso um "qui vive?".
"Não é a bondade da garantia", disse Meshach, "eu a faço baixa para você, socialmente!"
O orgulho dos Custis subiu com um rubor aos olhos do Juiz, ao ter esse Shylock ostracizado e escarnecido insinuar que as relações deles poderiam ser mais do que as de um príncipe para com um agiota. Mas o Juiz era um político, com uma mente e um trato adaptáveis.
"Falando em coisas sociais, Milburn", disse ele, despreocupadamente, "nossa cidade não é tão grande a ponto de não nos vermos às vezes. Por que você usa esse chapéu desolado e feio?"
"Por que você usa o nome Custis?"
"Ora, eu herdei isso!"
"E eu herdei meu chapéu."
Houve uma pausa por um minuto, mas antes que o Juiz pudesse dizer se era uma pausa de raiva ou de constrangimento, o dono da loja disse:
"Juiz Custis, admito que você é o homem mais bem educado em Princess Anne. Onde você obteve autoridade para questionar outra pessoa sobre qualquer artigo decente de seu traje?"
"Estou corrigido, Milburn", disse o Juiz. "O bom sentimento por você, mais do que a curiosidade, me fez sugerir isso. E também posso observar, senhor, que quando você me emprestar dinheiro, fará sempre comercialmente e não socialmente."
"Muito bem", comentou Meshach Milburn, "e se algum dia eu entrar em sua porta, então tirarei meu chapéu."
* * * * *
Na manhã seguinte, Meshach Milburn surpreendeu Samson Hat ao dizer: "Rapaz, quando você tiver outra briga e se tornar um bárbaro novamente, lembre-se de trazer de volta, da fornalha de Nassawongo, cerca de um alqueire dos minérios de pântano!"
* * * * *
Os anos passaram sem muita mudança em Princess Anne. O pequeno rio Manokin trazia ostras da baía e levava o milho e os produtos. A grande academia de tijolos na vizinha "Lower Trappe" hospedava e educava os jovens mais brilhantes das melhores famílias da Península; e estes percebiam, à medida que os verões anuais traziam sua plenitude, que parte de sua beleza permanecia com Vesta Custis. Ela era como Helena de Troia, objeto de homenagem e disputa na infância, e tornou-se mulher, na consideração dos homens, quase imperceptivelmente. Enviada a Baltimore para ser educada, seu retorno foi seguido por pretendentes — não apenas jovens admiradores, mas homens maduros — e os rapazes da Península comentavam com desgosto: "Nenhum de nós tem chance! Algum grande nababo da cidade ficará com ela."
Mas os alunos da academia, os visitantes e os habitantes da cidade tinham uma oportunidade comum de vê-la e ouvi-la — quando ela cantava, todo sábado e dia de igreja, na igreja episcopal.
Sua voz era a expressão natural de sua beleza — doce, poderosa, livre e facilmente treinada. Um pássaro divino parecia escondido na velha igreja quando esta voz nobre, porém terna, irrompia; mas aqueles que se viravam para ver a cantora que havia feito tal Paraíso, olhavam quase para a própria Eva.
Ela era bastante esguia, alta e ganhando corpo lentamente a cada ano, como alguém em quem o crescimento foi precoce, porém longo, e que só amadureceria completamente perto da meia-idade. Sua cabeça, no entanto, era a perfeição, mesmo na juventude, não menos por suas proporções do que por seu porte: sua figura graciosa a sustentava como o suporte esguio, erguendo o primeiro esplendor do pêssego; uma cabeça de beleza vital e espiritual, onde pureza e luxúria, mulher e mente, habitavam em harmonia e alegria. Assim como parecia estar sempre amadurecendo, parecia nunca ter sido criança, mas, com faculdades e sentidos claros e não intimidados, nunca lhe faltou modéstia, nem foi acusada de falta de compostura. O Juiz Custis fazia dela seu amparo e orgulho; ela nunca reprovava seus erros, nem os tratava com familiaridade, mas governava a casa por um consentimento que todos prestavam apenas ao seu caráter. Mais de uma vez ela havia aparecido na mansão da fornalha quando a longa ausência do Juiz despertava algum ciúme ou desconfiança:
"Papai, por favor, vá para casa comigo! Quero que o senhor me leve de volta."
O Juiz, fácil e condescendente, fazia um leve protesto, mas diante da ordem suave e espirituosa: "Venha, senhor! O senhor não pode ficar mais aqui", dispensava seus companheiros e ocupava seu lugar à frente da sociedade de Princess Anne.
Vesta era quase uma morena, com as cores ricas de seu tipo — sobrancelhas como a asa do corvo, lábios vermelhos e maduros, e cabelos cuja escuridão e comprimento, soltos da coroa na qual ela os prendia, poderiam ter tecido suas vestes. Seus olhos eram de um azul-aço, nos quais as luzes tinham o efeito de preto. Ela era escura com o céu irrompendo, como o crepúsculo rico sobre a Chesapeake.
As pessoas admiravam-se de que, com tamanha beleza, desembaraço e talentos, ela não fosse orgulhosa; mas seu orgulho era etéreo demais para ser visto. Não era a consciência vã de dons e dotes, mas o senso sereno de dignidade, de saúde, honra e linhagem intactas, que a tornava gentil e atenciosa a um grau apenas inferior à piedade. Grata por sua posição social e parentesco, ela os adornava, mas não os esquecia. Os pretendentes que vinham buscá-la eram pesados nesta balança de mérito perfeito — serem filhos de tais pais e associados de suas irmãs casadas e cunhados. Nenhum havia sobrevivido ao teste, embora ninguém soubesse onde falhara.
"Vesta é boa demais para qualquer um deles", exclamava o Juiz, em mais de uma ocasião. "Quando eu deixar a fornalha em tal estado que ela funcione sozinha, levarei minha filha para a Europa e lhe darei uma educação musical."
Na verdade, o Juiz tinha expectativas quanto à filha; pois a reputação que ele alcançara como fabricante não deixava de ter seus inconvenientes. Ele mantinha dois estabelecimentos; sustentava um grande corpo de trabalhadores e dependentes, alguns dos quais ele havia trazido de lugares distantes sob contrato; o experimento no qual ele havia embarcado ainda era um experimento, e ele estava sujeito ao conhecimento e julgamento de seu gerente, sendo ele próprio antes o patrono do que o fabricante nas obras. Muitos dias, quando se supunha que ele estivesse testando a porcentagem e a mistura de seus minérios, ele estava caçando nos bancos de areia do oceano, pescando caranguejos em Whollop's Beach, ou buscando companhia questionável entre as garotas da floresta, ou ao redor das cabanas dos pescadores de ostras ou dos saqueadores de naufrágios. Ele tinha muitas propriedades e avalistas da família, no entanto, e raramente deixava de ter uma entrevista satisfatória com Meshach Milburn, que agora o ajudava, pelo menos uma vez por trimestre, a manter tanto o principal quanto os juros em casa.
O Juiz havia se tornado mais íntimo de Meshach, mas o dono da loja apenas ouvia e assentia, e não se dava ao trabalho de incorrer em outra crítica sobre seus motivos. Meshach usava seu grande chapéu, como sempre, na igreja e em dias festivos, e ele ainda era ridicularizado e tido como a maravilha da cidade. Vesta Custis via frequentemente o homenzinho estranho entrar na igreja enquanto ela cantava, e ela imaginava que suas orelhas grandes e grossas estavam voltadas para receber a música que ela fazia, e ela se lembrava vagamente de que uma vez ela segurara em suas mãos aquele chapéu maravilhoso com sua fivela de cobre na faixa, e aba rígida e larga, fluindo em uma onda. Mais do que isso, ela não sabia nada, exceto que o usuário era uma criatura de nascimento humilde e gananciosa — um silvícola sem propensões sociais, ou, na verdade, quaisquer apegos humanos. O negro que habitava sob seu teto era amado, comparado ao mestre sórdido, e todos os testemunhos concordavam que Meshach Milburn não merecia comiseração, amizade ou reconhecimento. Seu pai, no entanto, condescendente em todas as coisas, dizia que o agiota tinha uma boa mente e não era um servo.
Milburn havia parado de negociar com negros ou dispensar doses de bebida. Sua riqueza agora era conhecida por ser mais do que considerável. Ele também havia parado de emprestar dinheiro nas fazendas vizinhas, e rumores chegavam através da baía de que ele era um detentor de ações e hipotecas na Costa Ocidental, e em Baltimore e Pensilvânia. A pequena cidade de Princess Anne estava cheia de especulações sobre ele, e até sua idade era incerta; Jack Wonnell a havia medido por chapéus. Disse Jack:
"Comprei meus chapéus de copa alta no ano em que o pai e a mãe do velho Milburn morreram. Eles morreram da febre biliar aqui em Nassawongo, com poucos dias de diferença. Agora, eu uso dois chapéus de copa alta por ano. Saio todo Quatro de Julho e Natal. No outro dia, contei o que restou, e calculei que Meshach não poderia ter quarenta e cinco anos, na pior das hipóteses."
Vesta Custis tinha apenas vinte anos quando os habitantes da cidade achavam que ela devia ter vinte e cinco, há tanto tempo ela era a beldade de Somerset. Sua mãe sempre olhara com apreensão para o tempo possível em que sua filha se casaria e a deixaria; pois o Juiz Custis há muito deixara de ter a confiança total de sua senhora, cuja fortuna ele havia embarcado sem retorno em empreendimentos ainda em dúvida, e ele sempre evitava o assunto quando era abordado, ou comentava que nenhuma perda era possível em suas mãos enquanto a Sra. Custis vivesse.
CAPÍTULO III.
OS SILVÍCOLAS.
Uma tarde de sábado em outubro, Meshach Milburn tirou sua navalha, xícara e pedra de amolar, e preparou-se para se barbear, embora sua barba nunca passasse de uma penugem inofensiva. Por uma espécie de atração capilar, Samson Hat adivinhou seu propósito e, abrindo o grande baú verde, trouxe o chapéu misterioso.
"Pouse-o!" ordenou o agiota. "Vá lá fora e alugue-me uma carruagem com dois cavalos — dois cavalos, você me ouve!"
Samson deixou cair o chapéu, maravilhado.
"Torne-se apresentável", acrescentou Meshach; "quero que você dirija. Vá comigo e fique comigo: você entende?"
"Sim, senhor."
Quando o negro partiu, o próprio Meshach pegou o chapéu alto, verde e com fivelas, com a aba rígida, larga e pirata. Ele o examinou longa e atentamente.
"Vaidade, vaidade!" murmurou ele, "vaidade e hábito! Não ouso repudiar-te agora, porque eles te dão ridículo e, sem ti, eles não me dariam nada além de ódio!"
As pessoas ao redor da taverna e do tribunal viram, com surpresa grande demais para zombaria, o agiota passar em uma carruagem, conduzida por seu negro, e com dois cavalos! Jack Wonnell tirou seu castor brilhante para aplaudir. À medida que a equipe fenomenal se afastava, o velho grito percorreu, no entanto, a rua silenciosa: "Topo-de-torre! Ele está com ele! Meshach está solto!"
A carruagem seguiu pela estrada da floresta e logo entrou na região arenosa e coberta de pinheiros chamada Hard-scrabble, ou Dificuldade.
Ali, as estradas eram tão arenosas quanto os montes e colinas atrás da beira-mar, e os pinheiros baixos e magros cobriam as ondulações e cumes, enquanto em bacias planas ocasionais, onde o barro rígido estava exposto, a cabana sem pintura de algum silvícola ficava preta e fumegante na encosta, sem uma vidraça, um ornamento ou qualquer coisa para aliviar a vida de sua monotonia e isolamento.
Mas onde os riachos corriam para os pântanos contínuos, a folhagem irrompia em versatilidade esplendorosa. O bordo revelava-se em todas as suas harmonias claras e leves. A magnólia pendia suas borlas de marfim e perfumava a floresta com fragrância. A kalmia e o amieiro davam sub-bosque e brilho à folhagem. Grisalhos e verdes com a velhice precipitada, os ciprestes ficavam na umidade e pendiam suas barbas veneráveis de galhos angulares, o cipreste-calvo debruçado sobre seu parente perene, e olhando para os bosques pantanosos no outono, como algum artista eremita sobre os ricos pigmentos em sua paleta.
Mas nada parecia tão nobre quanto a goma doce, que se erguia como uma pluma gigante de amarelo e laranja, um chefe em trajes alegres, onde o cipreste era apenas um filósofo desbotado.
Ao lado de tal goma alta, Samson Hat parou, onde uma nascente brilhava no fundo de um cipreste oco. Ele pegou emprestado um balde da cabana do outro lado da estrada e deu água aos cavalos.
"Senhor", arriscou o negro, "eles dizem que seu avô cavou esta nascente."
"Sim", disse Milburn, "e construiu a cabana. Lá jaz ele, no monte junto àquele toco, lá no campo: ele e mais de nossa raça desperdiçada."
"E aquela mulher ali é uma Milburn", acrescentou o negro, socialmente. "Eu a conheço pelas mãos."
A mulher descalça que vivia na cabana — um cômodo e um sótão, e o chão a poucos centímetros do solo — gritou, insolentemente:
"Se eu pudesse ter dois cavalos, eu compraria um chapéu melhor!"
Milburn não respondeu, mas observou as espigas de milho pobres e pequenas não colhidas nos talos sem forragem, os arbustos de pessegueiros, dos quais o maior crescia sobre os túmulos de seus ancestrais, o pequeno carrinho para um cavalo ou boi, que era ao mesmo tempo carruagem da família e carroça da fazenda, e os poucos porcos e galinhas de raças atrofiadas ao redor dos pés da mulher.
"Siga, rapaz", exclamou ele; "o pior de tudo é que essas pessoas são felizes!"
"Isso é um fato, senhor", riu Samson Hat. "Eles não falariam com você em Princess Anne. Eles acham que todo mundo é orgulhoso e rico lá."
"Aqui o mar lançou outrora suas ondas sobre um banco de areia", disse Meshach Milburn, reflexivamente. "Aquele livro de geologia relata isso! Do Norte, os montes recuam em ondas, onde praias sucessivas se formaram à medida que o mar recuava lentamente. Dificilmente mais fundo do que uma cova humana, eles encontram água, abaixo da areia e do cascalho. Abaixo da água que bebem, não há nada além de lama preta, feita de grama grossa e decomposta. Não há cal no solo. Nenhum mineral existe em toda esta península baixa, feita de ondas, onde meu povo naufragou — exceto os maravilhosos minérios de pântano."
A natureza genial e maravilhada do negro irrompeu com assunção confortável.
"Isso deve estar na Bíblia", disse ele. "Senhor, os Milburns estão aqui há tanto tempo, devem ter naufragado com o velho Noé!"
"Todas as famílias naufragam", respondeu Meshach, distraidamente, "que lançam sua sorte em uma terra pouco gratificante e, tornando-se mais pobres, mais sombrias, de geração em geração, nunca podem deixá-la e, finalmente, nunca podem desejar ir."
"Senhor, há um que tem que ir algum desses dias. Sou eu — o pobre velho Samson!"
"Ha! Alguém o incitou a exigir seu salário?"
"Não, senhor, eu sou velho. É você por quem estou preocupado! Não há ninguém para remendar suas roupas, cozinhar para você, curar sua doença ou colocá-lo na sepultura."
Nada mais foi dito até que passassem a parte povoada da floresta e entrassem em um dos muitos corredores retos de céu e areia entre os pinheiros, que haviam sido abertos na grande extensão da fornalha do Juiz Custis. Ele tinha ali vários milhares de acres, e por quilômetros as estradas eram abertas em direção ao horizonte. A lua surgiu atrás deles quando entraram na vila da fornalha, e viram as luzes cintilarem através das portas abertas de muitas casas e as chamas da fornalha dardejarem sobre o proibitivo moinho-lago, onde nas profundezas crescia o minério de ferro, como uma criação vegetal, e acima da superfície, em raízes espalhadas e cônicas lavadas pelo lodo, as centenas de ciprestes fortes erguiam-se da água. Entre as margens íngremes de pinheiros de cor escura, mais altos do que o crescimento da floresta, este lago da fornalha jazia preto e branco e vermelho ardente conforme as sombras, ou o nascer da lua, ou as chamas incidiam sobre ele, e a água manchada espumava através do peitoril ou represa onde a antiga estrada cruzava entre pinheiros, ciprestes e gomas de estatura imponente.
Tawny, viscoso, frio e solene, o lago repetia as formas dos bosques que submergia; as sombras desgrenhadas adicionavam profundidade e pavor ao efeito; algumas aves estranhas ululavam enquanto mergulhavam suas asas na superfície e, voando para cima, pareciam também afundar para baixo. Quando Meshach sentiu o frio daquele lago, ele abaixou seu chapéu e abotoou seu casaco.
"Os primeiros tolos que reviraram os minérios de pântano em busca de riqueza", disse ele, "libertaram os miasmas que mataram todas as pessoas ao redor. Eles mataram toda a minha família, mas me libertaram."
CAPÍTULO IV.
DESCOBERTA DA RELÍQUIA.
O Juiz Custis estava em seu quarto, no segundo andar da grande mansão semelhante a uma estalagem no meio da vila, e ele estava apenas se recuperando dos efeitos de uma longa orgia. Em sua condição nervosa peculiar, ele sobressaltou-se com o som de rodas e, puxando suas cortinas, olhou para a longa sombra de uma figura que avançava, coroada com um chapéu de torre.
Esta sombra humana fortalecia-se e desvanecia-se na luz alternada, até que foi definida contra seu armazém, seu depósito, suas cabanas e a planície, e parecia também contra a parede de densos pinheiros da floresta. Então, passos subiram as escadas. Sua porta abriu-se e Meshach Milburn, com seu chapéu de feriado na cabeça, estava no limiar; seus olhos vigilantes e ousados como sempre, e toda a sua natureza indígena em destaque.
"Meu Deus, Milburn!" exclamou o Juiz, "por mais estranho que seja vê-lo aqui, estou aliviado. O velho Nick, pensei, estava vindo."
"Devo entrar?" perguntou Milburn.
"Sim; estou dormindo um pouco para aliviar o cansaço e os negócios. Deixe seu homem ficar lá fora na varanda. Puxe uma cadeira. É dinheiro, suponho, que o traz aqui?"
O agiota colocou cuidadosamente seu chapéu formidável sobre uma mesa, pegou uma cadeira distante, empurrou seus pés calçados à frente e colocou uma grande carteira ou bolsa de bolso em seu colo. Então, voltando toda a sua atenção para o anfitrião, ele parecia nunca piscar enquanto permanecia.
"Juiz Custis", disse ele, diretamente, "na primeira vez que você veio pedir dinheiro emprestado a mim, você disse que a fornalha de Nassawongo enriqueceria este condado e aumentaria o valor de minha terra."
"Sim, Milburn. Foi um empreendimento lento, mas está dando certo. Enviei mil toneladas no ano passado."
"Juiz Custis", continuou o agiota, "eu lhe disse, quando você fez o primeiro empréstimo, que eu investigaria este minério. Fiz isso há anos. Amostras foram enviadas por mim a Baltimore e testadas lá. Não contente com isso, estudei a fabricação de ferro por conta própria — a sociedade de Princess Anne não me negando bastante solidão! — e sei que cada tonelada de ferro que você produz custa mais do que você recebe por ela. O minério de pântano é fácil de fundir; mas é corrompido por fosfato de ferro e é mal comercializável."
O Juiz estava sentado com os olhos bem abertos e mais pálido do que antes.
"Você descobriu isso?" sussurrou ele. "Eu mesmo não sabia até este ano — que Deus me ajude!"
"Eu sabia antes de lhe fazer o segundo empréstimo."
"Por que você não me contou?"
"Porque você proibiu que nossas relações fossem outra coisa senão comerciais. Eu não era obrigado a trair meu conhecimento."
"Por que você, então, do ponto de vista comercial, me emprestou grandes somas de dinheiro repetidamente?"
"Porque", disse o agiota, friamente, "você tinha outra garantia. Você tem uma filha!"
O Juiz Custis soltou-se das cobertas da cama e avançou sobre Meshach Milburn.
"Pagão e diabo!" gritou ele, pegando o agiota pela garganta, "você se atreve a mencioná-la como parte de sua hipoteca?"
Eles lutaram juntos até que um par de mãos poderosas imobilizou o Juiz e o levou de volta para sua cama. Samson Hat era o homem.
"Juiz!" exclamou ele, gentil, mas firme, "o senhor é um bom homem, mas não tão bom quanto eu. Acalme-se, Juiz!"
"Eu esperava por esta cena", disse Meshach Milburn. "Não poderia ter sido evitada. Eu estava vinculado, por consciência e pelo bom senso, a lhe fazer a única proposta que poderia salvá-lo da ruína. Pois, Juiz Custis, o senhor é um homem arruinado!"
Dominado pela excitação e pela estimulação suspensa, o velho Juiz caiu para trás em seu travesseiro e começou a soluçar.
"Dê-lhe conhaque", disse Meshach Milburn, "aqui está a garrafa! Ele precisa disso agora."
O desgraçado cavalheiro bebeu avidamente o gole oferecido das mãos do negro. Sua fúria não reapareceu, e ele cobriu o rosto com as palmas das mãos e gemeu lamentavelmente.
"Juiz Custis", observou Meshach Milburn, "se a aparente distância social entre nós pudesse ser diminuída por qualquer argumento, eu poderia apresentar um. Pois a diferença reside apenas na aparência. A carne saudável que confere a você e aos seus estatura e beleza é uma questão puramente de alimentação. Minha linhagem sobreviveu a cinco gerações de uma dieta tal que curvou a coluna dos porcos da floresta e atrofiou os bois. Dinheiro e alegria familiar me darão filhos formosos novamente. Minha vida foi difícil, mas pura."
O velho Juiz sentiu o último reflexo inconsciente.
"Sim", ele pronunciou, solenemente, "sem dúvida o Céu me marcou para alguma degradação como esta, quando cedi a propensões baixas e busquei meu prazer e companhias nas cabanas da floresta!"
"O senhor reivindica descendência da Restauração Stuart: conheço a história. Um credor dos dois irmãos reais exilados, por diversos empréstimos e goles de taverna, obteve por sua obrigação um cargo na longínqua Virgínia. Apreensões, confiscos, o tráfico de escravos, casamentos — em suma, o longo jogo de vantagem — construíram a fortuna dos Custis, até que ela expirou em um certo Juiz, cujas notas promissórias um homem duro, nascido na floresta, manteve sobre a cabeça do Juiz sob condições que pareciam duras, mas condições nas quais havia toda qualidade de misericórdia, exceto consideração pelo seu orgulho."
O Juiz soltou uma risada que parecia um uivo.
"Misericórdia?" exclamou ele, "você não sabe o que é isso! Enredar minha filha inocente nas malditas malhas do seu principal e juros! Chame isso de malignidade — a visitação da sua ira antissocial sobre um homem e um anjo; mas não de misericórdia!"
"Então chamaremos de compensação", continuou Meshach Milburn: "por vinte anos neguei a mim mesmo tudo; o senhor não negou nada a si mesmo. Seus bens estão desperdiçados; renove-os com a abundância da minha parcimônia. Não foi com um desígnio maligno que me tornei seu credor, embora, à medida que os anos passavam e a solidão gelava meu coração, que sempre ansiou por amizade humana, eu não pudesse deixar de ver a glória incandescente da beleza de sua filha. Como os colegas de escola, os maridos casados — sim, como os escravos — eu tive que admirá-la. Então, sem saber quão profundamente o senhor estava envolvido, encontrei oferecido para venda o papel que o senhor negociou em Baltimore — papel, Juiz Custis, desonrosamente negociado!"
O agiota levantou-se e caminhou até a cama do homem triste, e segurou a mão, cheia daquelas notas, audaciosamente sobre ele.
"Foi desespero, Milburn!" gemeu o Juiz.
"E também foi minha resolução. Eu disse: 'Este cavalheiro altivo tentaria enganar a mim, seu vizinho, que sofri toda a contumélia desta boa sociedade, e que, com oportunidades míseras, recuperei lentamente a independência. Agora ele ocupará meu lugar na floresta, ou eu usarei meu chapéu à cabeceira da mesa de sua família'."
"Uma vingança terrível!" sussurrou Custis, com um calafrio. "Tal chapéu é pior que um pé fendido. Em nome de Deus! De onde veio esse chapéu agourento?"
Milburn pegou o chapéu e o segurou diante da luz da lâmpada, de modo que sua sombra se projetou gigantesca contra a parede.
"Quem diria", disse ele, sarcasticamente, "que um simples adorno de cabeça, elegante em sua época, poderia causar mais hostilidade do que uma cabeça ociosa? Vou lhe contar o segredo tolo disso. Quando vim da obscuridade da floresta, sensível e ansioso para trilhar meu caminho, e lentamente acumulei capital e conhecimento, uma pessoa em Nova York direcionou uma carta de consulta a mim. Ela contava como um certo Milburn, um puritano ou homem da Commonwealth inglesa, havia alcançado grande distinção naquela província, revolucionara seu governo e sofrera a pena de alta traição."
"Verdade suficiente", disse o Juiz Custis, servindo um segundo copo de conhaque; "Milburn e Leisler foram executados em Nova York durante a vida do primeiro Custis. Eles anteciparam a expulsão de Jaime II, foram encurralados por seus inimigos provinciais e tornados mártires políticos."
"O consulente", disse Meshach, "que havia obtido meu endereço no curso dos negócios, relatou que, após a morte de Milburn, seus irmãos e suas famílias haviam navegado para Chesapeake, onde os protestantes haviam revolucionado com sucesso para o Rei Guilherme e, fazendo escolha de terras pobres, tornaram-se obscuros. Ele me perguntou se os registros do tribunal faziam algum registro de seus testamentos."
"É claro que o senhor os encontrou?"
"Sim. Foi uma revelação para mim, e me deu a sensação honrosa de alguma origem e qualidade. Rastreei a mim mesmo até os primeiros fólios, no final do século XVII."
"Alguma propriedade, Milburn?" perguntou o Juiz, voluptuoso e reanimado novamente.
"Meu bisavô não tinha deixado ao filho nada além de um Chapéu."
"Não é incomum!" exclamou o Juiz Custis. "Nossos primeiros testamentos contêm pouco mais do que legados de vestuário, artigos domésticos, roupas de cama, potes e chaleiras, e os elementos da civilização."
"O testamento em registro dizia: 'Dou ao meu filho mais velho, Meshach Milburn, meu melhor Chapéu, e nada mais do meu patrimônio'."
"Ha, ha, ha!" riu o Juiz, alto. "Gentil até o fim! Um chapéu da moda, sem dúvida, feito em Londres; um tanto cerimonioso e vistoso demais para estas colônias. Ele o deixou para seu filho mais velho, en-chapelado, podemos dizer. Ho! ho!"
"Quando minha indignação passou, tive a mesma visão que o senhor, Juiz Custis, de que era um legado de dignidade, não de burlesco; e fiz algumas consultas sobre aquele melhor Chapéu. Era uma lenda entre meus parentes da floresta, tinha sido visto por pessoas muito velhas, era celebrado em sua época e usado por meu avô com gratidão. Ele o deixou para meu pai, ainda um chapéu de reputação—"
"Ainda en-chapelado ao filho mais velho! Ha, ha! Milburn."
"Meu pai vendeu o chapéu para Charles Wilson Peale, que era nativo de nossa península e conhecia as coisas antigas existentes aqui que o ajudariam a formar o Museu de Peale durante o século passado. Encontrei o chapéu naquele museu, cobrindo a figura de escárnio de Guy Fawkes!"
"Chapéu de conspirador; bravo!" exclamou o Juiz.
"Ele tinha sido usado para as cabeças de George Calvert e Shakespeare, mas em tempo de agitações religiosas foi proclamado como sendo o verdadeiro chapéu de Guy Fawkes. Eu o reclamei e o trouxe para Princess Anne, e em um momento de vaidade coloquei-o em minha cabeça e caminhei pela rua. Fui assaltado com gritos e galhofas."
"Era outra Túnica de Nesso, Milburn; ele envenenou sua vida, eh?"
"Talvez sim", respondeu Milburn, com intensidade. "Dizem que o que é bebida para um homem é veneno para outro. O senhor aceitará esse chapéu na cabeça de seu genro, ou não haverá mais bebida vinda da propriedade dos Custis!"
CAPÍTULO V.
O TRATO DE MINÉRIO DE PÂNTANO.
A resolução de caráter e o poder executivo haviam sido desperdiçados pelo Juiz Custis. O comerciante havia concluído sua entrevista com uma decisão e ferocidade que deixaram paralisia na mente do cavalheiro. Ele via, em triste fantasia, a execução sendo cumprida em seus móveis, o espanto de sua esposa, a palidez de sua filha, a indignação de seus filhos. Ele também encolhia diante da falência iminente de sua fornalha e o abandono do trato de minério de pântano, sobre o qual ele havia erguido tanta fama estatal e local; as pessoas diriam: "Custis era um tolo e enganou a si mesmo, enquanto o velho Steeple-top Milburn brincava com a vaidade dos Custis e os jogava na rua".
"Sem dúvida", pensou o Juiz, "aquele sujeito, Milburn, pode conseguir qualquer coisa quando conseguir minha casa. O voto dos pobres ele pode comandar, porque é da classe deles. Ele é um credor de muitos dos ricos. Quem poderia ter suspeitado de sua inteligência? Sua oratória, também? Ele me tratou como se eu fosse um florestal e ele um juiz. Um homem muito, muito notável!" concluiu o Juiz Custis, tomando o restante do conhaque.
Ele foi interrompido pela entrada de Samson Hat.
"Onde está seu mestre, rapaz?" perguntou o Juiz.
"Ele foi lá para a casa velha, Juiz, onde seu pai e sua mãe morreram. É o lugar onde eu me escondo depois das minhas brigas."
"Que a febre o atinja lá! Que o suor bilioso do açude do moinho seja forte esta noite, para que, como Judas de outrora, suas entranhas caiam para fora! Mas, não", continuou o homem irresoluto, "eu não tenho o direito de odiá-lo."
"Juiz", disse suavemente o velho negro, "meu senhor é um homem doente. Ele não é feliz como o senhor e eu. Ele é 'ambicioso. Ele é solitário. Isso é o suficiente para estragar anjos. Mas um homem melhor eu nunca conheci, exceto no espírito ímpio. Ele é orgulhoso como Lúcifer. Ele está cheio de ódio em Princess Anne e em todas as pessoas. Sua filha pode conseguir um homem melhor, não um mais puro."
"A pureza conta muito pouco", exclamou o Juiz, "no lado masculino dos contratos de casamento. Ela é sempre presumida e nunca esperada. Você não precisa lembrar, Samson, que eu expressei qualquer raiva contra seu mestre!"
"Todo o meu coração, juiz, é vê-lo feliz. Por mais duro que ele seja, esse homem tem poder para ser amado. Sua filha poderia ir mais longe e se dar pior! Não lhe desejo mal, Deus sabe!"
O negro disse um humilde boa-noite, e o Juiz deitou-se em sua cama para pensar nas alternativas terríveis da semana que se aproximava; mas, voluptuoso mesmo no desespero, ele adormeceu antes de ter chegado a qualquer conclusão.
Samson Hat caminhou pela lateral do açude do moinho em uma estrada de areia, separada da água por um denso crescimento de pinheiros. Os sapos-boi e insetos faziam uma serenata para a floresta; a chaminé da fornalha fumegava intensamente à meia-noite. À distância de oitocentos metros ou mais, uma cabana velha, em decadência, ficava em um campo arenoso perto da estrada; não tinha porta no portal oco, nem caixilho na única janela aberta; o degrau que levava à soleira estava quebrado, e parte da tábua de revestimento havia apodrecido do esqueleto. A chaminé lateral antiga, no entanto, a sustentava com firmeza, e os baixos suportes de tijolo sob os cantos permaneciam aprumados. Dentro havia um único cômodo com vigas expostas, uma espécie de escada de armário projetando-se sobre a lareira, e outra porta e janela ficavam nos fundos. Diante desta lareira, Meshach Milburn estava sentado em uma cadeira velha, claramente revelado pela luz de algumas das tábuas de revestimento em chamas que ele havia jogado na lareira. Na lareira havia um pequeno monte do minério de ferro de pântano e uma garrafa.
"Entre, Samson!" ele chamou. "Não pense que me tornei um bêbado porque estou tomando este uísque. Bebo-o para afastar a malária, e em parte como um cálice de comunhão; pois esta noite os fantasmas descalços que definharam e secaram aqui estão comigo em espírito."
"Eles eram todos bons Milburns que viveram aqui, senhor", disse o negro. "Eles tiveram tempos difíceis, mas não cometeram pecado. Eles tremiam com calafrios e febres, não com a consciência."
"Eu não tremerei com nenhum dos dois", disse o agiota. "Vá para o sótão e durma até ser chamado. Quero os cavalos cedo para Princess Anne!"
O negro obedeceu sem comentários e desapareceu atrás da porta em forma de armário. Milburn sentou-se diante do fogo e olhou para ele por muito tempo, enquanto uma procissão de pensamentos e fantasmas passava diante dele.
Ele viu uma família pobre de puritanos independentes partindo em datas diferentes dos portos ingleses. Alguns eram servos contratados, esperando por uma carreira; outros estavam evitando as guerras civis; outros eram pequenos malfeitores políticos, barulhentos contra as opressões de seu herói, Cromwell, e conspiradores contra seu poder; e, jogados por ele nas prisões inglesas, foram entregues apenas para serem vendidos como escravos, conduzidos pelas ruas das cidades comerciais, colocados em navios de tropa entre os conveses, entre os cavalos, e postos à venda em leilão em Barbados, como os negros; de onde, com o tempo, continuaram em direção ao oeste. Um, o possuidor afortunado de alguma competência, navegou seu próprio navio pelo Atlântico e entregou a Massachusetts seu governador e aristocracia. Outro, incapaz de ser suprimido, embora servo, tomou os destinos de uma colônia aristocrática e os manteve por um tempo, até que inimigos acumulados o derrubaram, e o casamento e a forca seguiram de perto. A pobreza não queria abrir mão de seu aperto sobre a raça; eles lutavam como torrões na lâmina do arado e caíam novamente no sulco.
Enquanto Meshach Milburn pensava nessas coisas, ele pegou uma porção do minério de pântano da lareira.
"Aqui está o ferro", disse ele, pensativo, "verdadeiro ferro, que torna o sangue vermelho, molda-se em formas infinitas, prega casas, une rodas e funde-se em canhões e balas. Mas este ferro correu para um pântano, formou combinações baixas e não teve outro molde senão o que galhos e folhas ofereciam. Sua origem vulcânica foi esquecida quando correu com areia e cascalho para longe do veio da montanha e do minério de terras altas ao longo da barra aluvial baixa, até que, como uma ostra, o ferro é dragado da poça estagnada, impuro, ineficaz, corrompido. Assim é com o homem, cujo espírito magnético segue o declive monótono para os bancos de areia estéreis do mundo e se aloja ali. Sou dos minérios de pântano; mas existe o que se fundirá comigo, limpará minha ferrugem e transmitirá minha melhor qualidade à posteridade. Ó, juventude, beleza e posição — adorável Vesta! por ti serei ferro!"
Milburn olhou ao redor do único cômodo, indagando. Ele colocou o dedo nas frestas do revestimento; abriu o pequeno armário sob as escadas, e uma doninha disparou para fora e passou pela porta; subiu as escadas íngremes e curtas, e com uma tocha examinou as telhas pretas, mas nada havia ali, exceto uma ninhada de corujas jovens, cujos pais haviam saído para caçar. Então, retornando, ele pesquisou em cada viga exposta e tábua podre, como se procurasse por uma escrita.
"Eles não sabiam escrever!" pensou ele. "Nada me resta, nem mesmo um sinal, ao longo de um século e meio, para dizer que tive pais!"
Enquanto falava, ele sentiu um objeto se mover atrás dele e, olhando para trás, a sombra do Chapéu En-chapelado estava dançando na parede. À medida que ele jogava a cabeça para trás, a sombra fazia o mesmo; à medida que ele se afastava, o chapéu aumentava, até que o pequeno cômodo mal podia conter sua sombra. Retirando-se novamente, ele o levantou de sua cabeça com amarga cortesia, e a sombra fez o mesmo. O homem e a sombra olharam cada um para um chapéu pontudo e o acariciaram.
"Isso é tudo", exclamou Milburn. "As cem cabeças humildes estão em repouso na areia; uma lápide zombaria de todas elas. Mas uma vez o cérebro da família se expandiu para um chapéu, e isso sobreviveu à raça. Sou o Quaker que respeita seu chapéu, o Cardeal que é coroado com ele; sim, e o bobo que deve usá-lo em seu canto!"
Então a imagem de seus pais surgiu em sua visão: um pai alegre, com dois ou três escravos velhos, arando na areia profunda, para deixar cair alguns grãos de milho murchos, ou consertando uma roda de moinho desordenada que movia a serra de um ferreiro. Sempre cheio de confiança em nada que pudesse aumentar, crédulo e sanguíneo, terno e trabalhador, o pai de Milburn cuidava de seus retalhos na floresta como se fossem ser, em breve, plantações ricas, e estava sempre "cotando" preços de negros, mulas, ferramentas e implementos, na expectativa de comprá-los. Nada poderia diminuir sua confiança, exceto a doença e a velhice. Ele ouviu falar da grande "melhoria" no trato da Fornalha e levou sua esposa obediente e sua ninhada para lá. À medida que os trabalhadores arrancavam os tufos e raízes, incrustados com ferro, do pântano e do riacho, a febre e o calafrio surgiram e golpearam ambos.
Quão miserável aquela cena quando, quase exaustos demais para se mover, pai e mãe, neste único cômodo nu onde Meshach sentava, gemendo em meio a seus muitos descendentes, viram a morte com fraqueza se aproximar um do outro — morte sem padre ou médico, sem resíduo ou limpeza — a morte que os milhões morrem em cabanas humildes, ainda assim, oh, quão difícil!
"Rápido, filhinho, bom menino", o pai assustado dissera, sem saber quão doente estava, em sua dependência da esposa; "pegue o cavalo e vá até Snow Hill para o médico. A pobre mamãe está terrivelmente doente!"
Então, montando o cavalo magro e velho, sem sela e com uma rédea de corda, Meshach havia avançado através da areia profunda, descalço e sem chapéu, e quase louco de excitação, até que entrou nas ruas brilhantes da cidade das dunas, e sensivelmente correu para o consultório do médico, gritando: "Papai e mamãe estão doentes, na Fornalha!" e disse seu nome, e virou-se, e fugiu.
Mas, enquanto o menino cavalgava para casa, mais lentamente, passando pelo rio cheio de vegetação, os mastros amarelos dos navios subindo acima da floresta, os campos planos de milho por toda parte limitados pela floresta, e as pequenas casas brancas dos melhores fazendeiros, e finalmente entrou na floresta murmurejante e queixosa, ele viu apenas uma coisa — sua mãe.
Ela desapareceria da clareira solitária e deixaria apenas a cabana e seus órfãos? ela, que mantinha o céu aqui embaixo, e era os santos, as artes, a tudo-suficiente para seu filho? Com ela não poderia haver pobreza; sem ela as riquezas seriam apenas mais areia. Com um pouco de melaço ela tornava o Natal real com um bolo. Ela podia nomear um pequeno frango de "Meshach", e cada ovo que ele punha era um novo brinquedo. Um tordo capturado no pântano tornou-se um da família por sua bondade; será que ele cantaria novamente? A religião que conheciam era toda dela. Os escravos pobres não viam diferença nas patroas enquanto ela era deles. Na doença ela estava em sua esfera — a própria saúde tinha chegado. E uma vez, a coisa mais terna da vida, quando seu pai e ela tinham brigado, e a luz do amor estando apagada tornou a escuridão da pobreza pela única vez visível, Meshach viu-a chorando, e ele não pôde confortá-la.
Então, cego pelas lágrimas, ele açoitou seu pônei e entrou pela porta baixa. Ela estava morta!
"Filhinho, a mamãe se foi!" o pai miserável gemeu; as crianças pequenas, amontoando-se em torno da forma, elevaram seu lamento; o tordo não conseguia encontrar nota para isso, e ficou em silêncio.
Milburn levantou-se; o fogo estava baixo. Ele caminhou até a porta, e havia um sinal do dia; as florestas de pinheiros que cercavam tudo ainda estavam escuras, mas na estrada de areia e no campo elevado alguma luz brilhava, como esperança contra a esperança; a fazenda não era mais arada; os séculos ingratos foram deixados para trás e abandonados, como velhos campos de batalha de floresta, tão estéreis que seus grandes eventos permanecem para sempre não visitados.
"Ho! Samson, rapaz! É hora!"
"Sim, senhor!" respondeu o negro no sótão.
Enquanto o negro se recompunha e descia as escadas, viu Meshach Milburn diante do fogo, mexendo as brasas. Saindo, Samson ficou um momento no portão e caminhou pela estrada, para não perder seu mestre. Enquanto ele estava lá, chamas explodiram da velha cabana e brilharam na floresta perene, iluminando o topo dos ciprestes musgosos no açude do moinho e revelando as formas dos campos arenosos. Antes que pudesse recuar, Samson viu a figura de seu mestre dar voltas e voltas ao redor da casa, iluminando o revestimento de lugar em lugar com uma tocha; e então a figura baixa, coberta com o chapéu longo, subiu a estrada como se estivesse em passos gigantescos, tão alongada pelo fogo.
"Não há necessidade de alarme, rapaz!" exclamou o incendiário filial. "De agora em diante meu único salão ancestral é aqui!"
Ele segurou a telha antiga no brilho do incêndio.
"Ah, senhor!" disse o negro, "seu chapéu nunca dará conforto como um lar, por mais fino que o chapéu possa ser, por mais humilde que seja o telhado! O chapéu nunca abrigará duas cabeças, e isso é o que traz a felicidade."
"O chapéu, pelo menos", respondeu Milburn, amargamente, "me cobrirá onde quer que eu vá. Tais telhados podres como aquele faziam prisioneiras as almas brilhantes."
Eles observaram o fogo em silêncio por alguns minutos.
"O senhor me deixou sem casa, chefe", disse o velho Samson, finalmente. "Eu não tenho nenhum lugar para ir e me esconder quando luto, agora. Isso me faz sentir solene."
"Paz!" respondeu Meshach Milburn. "Agora, pelos cavalos e Princess Anne!"
CAPÍTULO VI.
OS CUSTIS ARRUINADOS.
Vesta Custis, vestindo-se em seu quarto, ouviu rodas cedo no ar da manhã e, olhando através das persianas, viu uma parelha de cavalos subindo a estrada vinda de Hardship.
"Mãe", disse ela, "é o papai chegando, ali? Não, não é o cocheiro dele."
"Por que, Vesta!" exclamou a Sra. Custis, "aquele é o homem do velho Milburn."
"Chapéu de Sansão? Pois é ele mesmo. O que ele está fazendo com dois cavalos?"
Aqui Vesta riu alto e começou a saltitar em seus chinelos longos, finos e bordados, cujos peitos do pé mal dariam passagem a um rato que passasse correndo por baixo.
"Mamãe, é o próprio Milburn, em uma carruagem de luxo. Veja lá; o chapéu de copa alta, a fivela de cobre e tudo! Ele não é engraçado demais? Mas, meu Deus! Ele está olhando fixamente para esta janela. Vamos nos abaixar!"
Os braços longos e de cor de marfim de Vesta, separados de seus belos ombros apenas por uma renda, puxaram a mãe para baixo.
"Não tenha medo, querida! Ele não pode ver nada além das persianas. Talvez esteja procurando o Juiz."
Vesta levantou-se novamente em sua camisola branca, como um cervo levantando-se de um monte de neve. Um longo movimento trêmulo, resultado de sua risada contida, percorreu a coluna graciosa de suas costas.
"Ele senta ali como um índio passando em um desfile, mamãe! Você já viu um chapéu assim?"
"Acho que a esta altura deve estar cheio de percevejos", disse a mãe; e ambas se sacudiram de riso novamente. "A menos que", acrescentou a Sra. Custis, "os percevejos tenham morrido de fome".
"Pobre criatura solitária", disse Vesta, "ele só pode usar um chapéu desses por falta de entendimento".
"O entendimento dele é bom o suficiente, querida. Ele está com as polainas verdes."
Elas riram novamente, e o cabelo de Vesta, solto por sua alegria, caiu quase até seu chinelo, como a pele de algum animal negro como o carvão que tivesse saltado pelo tronco de um choupo.
"Ah! Bem", exclamou Vesta, enquanto sua criada entrava e começava a enrolar aquele cordame de cetim em sua cabeça, "o que os homens trazem em suas mentes, pode a mulher saber? As velhas senhoras, não raramente, usam seus chapéus antigos à moda de antigamente, muito tempo depois de terem saído de moda, mas é por necessidade. Este homem é dono de si mesmo e não é pobre. Seu companheiro é um negro, e seu gosto é um chapéu mofado, velho como a América. Quão felizes somos por não ser necessário penetrar em tais mentes! Um pouco de refinamento é a bênção que vem logo após a religião."
"A mente do seu pai também é um quebra-cabeça, Vesta. Ele tem tudo o que falta a esses habitantes da floresta — educação, sociedade, posição e conforto. Mas ele volta para a floresta, como um gambá, no momento em que você tira os olhos dele. Ele não pode ser rastreado como este homem, pelo chapéu. Acho que é uma vergonha para você, particularmente. Se ele não vier para casa hoje, mandarei chamar meu irmão e exigirei uma prestação de contas da minha propriedade ao Juiz Custis!"
A esposa sentou-se e começou a chorar.
"Vou pegar a carruagem depois do café da manhã, mamãe, e procurá-lo na Fornalha ou onde quer que ele esteja. Aqueles minérios de pântano têm lhe causado muitos problemas."
"Eu gostaria de nunca ter ouvido falar em minério de pântano", exclamou a Sra. Custis. "Quando o dinheiro estava no banco, não havia minério algum. Ele vai para a floresta parecendo um magistrado e um cavalheiro; ele sempre volta parecendo um carregador de pântano e um bêbado. Deve haver mulheres envolvidas nisso!"
Aqui, em um impulso de raiva fraca, a pobre senhora levantou-se, caminhou até o espelho e olhou para o seu rosto. Aparentemente satisfeita por tais encantos estarem sendo pisoteados, ela enxugou as lágrimas completamente e recomeçou:
"Ginny, saia da sala! (para a arrumada moça mulata). Vesta, minha querida filha, eu não mancharia você por nada neste mundo; mas a carne e o sangue gritarão. Se seu pai não melhorar, eu me separarei dele e deixarei Princess Anne!"
"Ora, mamãe!"
Os olhos brilhantes da filha estavam grandes e assustados agora, e seu tom azul-aço tornava-se mais evidente sob suas ricas sobrancelhas negras.
"Eu farei isso, se eu morrer, a menos que ele se reforme!"
"Ora, mamãe!"
Vesta permaneceu com os lábios entreabertos, e seus belos dentes apenas contornando o coral do lábio. Ela não pôde dizer mais nada por um longo momento. Levantando-se enquanto falava, com a cabeça jogada para trás, e sua forma mais cheia e uma palidez nas bochechas, ela parecia a Eva ouvindo pela primeira vez a repreensão do Criador.
"Uma separação nesta família?" sussurrou Vesta. "Isso escandalizaria todo o Maryland. Isso partiria meu coração."
"Querida filha, meu coração deve ser considerado às vezes. Eu era alguém antes de ser uma Custis. Eu também sou uma mulher."
Vesta, ainda pálida, atravessou até o lado da mãe e a beijou.
"Não, não, mamãe, nunca mais abrigue um pensamento como esse. Você, que tem sido tão corajosa e paciente por mais tempo do que eu vivi!"
"Ah, Vesta, é a duração da injúria que nos desgasta! E se algo nos acontecesse? Ninguém é tão incapaz de suportar a pobreza quanto nós."
"Nós não podemos ser pobres", disse a filha, consoladoramente. "Você não se lembra, mamãe, onde diz: 'Como teus dias, assim será tua força'?"
"Minha filha", respondeu a Sra. Custis, "seus dias são jovens. A vida parece cheia de esperança para você. Estou ficando velha, e onde está o braço em que eu deveria estar me apoiando? O que somos nós senão duas mulheres abandonadas? Há outra passagem em que penso frequentemente quando sentamos tantas vezes sozinhas: 'Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será tomada e a outra deixada!' Sou eu, ou é você? Escute, minha filha! É hora de você sentir a verdade melancólica! Os hábitos do seu pai o dominaram. Ele está além da redenção!"
Vesta estava ajoelhada, e ela levantou lentamente a cabeça e olhou para a mãe, com as narinas dilatadas. A Sra. Custis sentiu-se inquieta diante da mente despertada de sua filha.
"Não olhe para mim assim, Vesta", implorou a pobre senhora. "Pensei que você devesse saber."
"Como você ousa dizer isso do meu pai? Do Juiz Custis?"
Enquanto estavam nesse suspense de sentimento, ouviram-se rodas. A filha foi até a janela e olhou para baixo, depois voltou ao ouvido da mãe.
"Silêncio, mamãe, é o papai. Agora, lave seus olhos no toucador. Vamos recebê-lo alegremente. Nunca mais diga que ele está além da redenção, enquanto pudermos tentar!"
Um beijo suavizou o semblante da Sra. Custis. Vesta vestiu-se para o café da manhã em poucos instantes, desceu para a biblioteca e foi recebida nos braços do pai. Ele a segurou ali por um longo tempo, e a segurou firme, e em pequenos momentos renovou seu abraço, mas ela sentiu que a respiração dele estava febril e seus braços tremiam. Olhando para ele, viu, de fato, que ele estava corado, porém abatido e preocupado.
"Vessy", disse ele com uma tentativa fraca de sorrir, "eu quero um copo de conhaque. O meu acabou na Fornalha, e a cavalgada da manhã me enfraqueceu. Onde está a chave?"
Ela olhou para ele com um meio olhar, para que ele não suspeitasse, como se medisse sua necessidade de estimulante. Então, sem dizer uma palavra, ela liderou o caminho para a sala de jantar, abriu o armário de bebidas e virou as costas para que ele não bebesse sua necessidade por sensibilidade.
"Homem travesso", disse Vesta, afastando-se e olhando para ele quando ele terminou. "Eu ia até a Fornalha atrás de você depois do café da manhã. Não teremos mais esse comportamento de fugitivo. Mamãe e eu decidimos! Você deve voltar da Fornalha todas as noites e ir novamente pela manhã, como outros homens de negócios. Seja muito gentil com a mamãe esta manhã, senhor! Ela sente o seu descaso."
Vesta já havia chamado o criado do Juiz, que agora apareceu, tirou suas botas, forneceu seus chinelos e roupão, e liderou o caminho para seu banho. Em um quarto de hora ele reapareceu, parecendo melhor, e ele hesitou, virando-se novamente em direção à sala de jantar, sorrindo sugestivamente para Vesta.
"Não por esse caminho", disse ela. "Aqui está a mamãe, e estamos prontas para as orações. Aqui está o lugar na Bíblia."
Todos foram para a sala da família, onde as criadas de Vesta e de sua mãe aguardavam pelas orações matinais habituais. Vesta colocou a Bíblia aberta no colo de seu pai, e ele começou, de forma distraída e tropeçando, a ler. Era no livro de Samuel, e parecia ser alguma mitologia judaica antiga. Ele de repente chegou a um versículo que prendeu sua sensibilidade por seu pathos:
"'E Davi enviou mensageiros a Isbosete, filho de Saul, dizendo: Entrega-me minha esposa Mical... E Isbosete enviou e a tomou de seu marido, até de Paltiel, filho de Laís. E seu marido foi com ela chorando atrás dela... Então disse Abner a ele: Vai, volta. E ele voltou.'"
O Juiz Custis viu de uma vez a imagem que essa história compacta despertou. O implacável Davi, talvez, tivesse se casado com o amor de outro. Surgira a ocasião de amargar seus parentes, e eles a levaram de volta e a deram em felicidade ao seu amante saudoso. Mas, novamente, o homem de hábitos corretos triunfou sobre os filhos do rei, e enviou Abner para arrancar sua esposa dos braços de seu verdadeiro marido. O pobre Paltiel seguiu-a chorando, até ser ordenado a voltar — e ele voltou, para sempre desolado.
A cena lembrou a exigência brutal de seu credor sobre sua filha. Os olhos do Juiz transbordaram silenciosamente, e ele não pôde ver.
Vesta o observou atentamente, pois sua magistratura silenciosa detectou uma grande ansiedade ou doença em seu pai. Para que sua mãe também não percebesse, ela interveio na lição, como era seu hábito, lendo a forma episcopal de oração, na qual todos curvaram a cabeça. Uma ou duas vezes, enquanto ela continuava, ela detectou um soluço contido, especialmente no parágrafo: "Tu que conheces a fraqueza e a corrupção de nossa natureza, e as múltiplas tentações que encontramos diariamente, nós humildemente te suplicamos que tenhas compaixão de nossas enfermidades e nos dês a assistência constante de teu Santo Espírito, para que possamos ser efetivamente contidos do pecado e incitados ao nosso dever!"
Foram para a mesa do café da manhã, e o semblante do Juiz estava abatido. Ele mordeu um pouco de torrada e encheu a boca com chá, mas não conseguiu engolir. Uma mão tocou suavemente seu cotovelo e, olhando para lá, ele viu uma taça de vinho cheia de conhaque deslizar suavemente para o local. Quando ele olhou para cima e viu o rosto rico e cheio de anseio de sua filha de olhos escuros consultando ternamente sua fraqueza, seu coração explodiu; ele encostou a cabeça na mesa e chorou, entre a bebida e o luto:
"Querida, estamos arruinados!"
A Sra. Custis levantou-se imediatamente e olhou assustada para o Juiz. Vesta virou-se tão rapidamente para os servos e fez sinal para que saíssem.
"Não, deixem que eles ouçam!" rugiu o Juiz Custis, percebendo o movimento. "Eles estão interessados, como nós. Eles também devem ser vendidos. Servidores fiéis! Talvez isso possa avisá-los para escapar a tempo!"
Os servos, educados como damas, deixaram a sala silenciosamente.
A Sra. Custis, ficando mais pálida, exclamou:
"Daniel Custis, você perdeu tudo naquela fornalha?"
"Tudo!"
"E o meu dinheiro também?"
"Sim."
"Deus misericordioso!"
Antes que a fraca senhora pudesse cair, o braço de Vesta estava ao redor dela, e seu dedo na campainha da mesa. Servos entraram e a Sra. Custis foi levada para fora, com sua filha a seguindo.
Quando Vesta voltou, seu pai estava andando de um lado para o outro com seu longo lenço de seda nas duas mãos, chorando amargamente e falando sílabas partidas. Ela olhou para ele por um momento com toda a força de uma filha, chamada pela primeira vez a agir sozinha em uma grande crise. O sentimento que costumava ter por ele, de orgulho perfeito, tinha recebido um golpe na expressão de sua mãe: "Os hábitos do seu pai o dominaram além da redenção."
Seria isso verdade; que ele, o grande, o bondoso, o cavalheiro, estava abaixo do alcance do mergulhador, da sondagem do prumo, onde a luz não podia penetrar, nem a Esperança ultrapassar? Seu pai, o primeiro cavalheiro em Somerset, um bêbado, indo sempre para baixo em direção à sarjeta, e nenhum raio do céu para brilhar sobre seu túmulo!
Ela via seu perigo agora: estava escrito em seu rosto, onde a imagem de Deus brilhava fracamente, que uma vez fora coroada ali. Cabelo mais ralo e muito grisalho; os olhos ricos e escuros intimidados, como se a confiança masculina tivesse desaparecido; a pele não mais o pergaminho puro da vida regular escrito no fluido saudável do coração, mas desbotada, porém manchada com álcool; no nariz e nos lábios sinais de sensualidade mais grosseira; o grande esqueleto curvado e o temperamento nervoso destruído. Este pai tinha sido até este momento o anjo de Vesta. Agora, talvez não houvesse um anjo no universo para voar em seu resgate. Uma humildade profunda e terrível desceu sobre o espírito da filha.
"Deus me perdoe!" ela pensou, "quão cega e quão orgulhosa e pecadora eu tenho sido!"
Ela caminhou até seu pai ternamente e o beijou, e então, atraindo sua inclinação mais fraca pela dela, trouxe-o para um sofá, colocou um travesseiro para ele e o fez esticar ali sua forma outrora orgulhosa. Obtendo uma bacia de água, ela lavou seu rosto livre de lágrimas com um guardanapo e banhou-o em colônia. A natureza voluptuosa do Juiz cedeu ao perfume e à posição fácil, e ele soluçou até dormir como uma criança exausta.
Sentada ao lado do falido adormecido, observando seu peito subir e descer, e ouvindo seu ronco grosseiro, como se demônios lá dentro estivessem rosnando em rivalidade pela posse dele, Vesta sentiu que a vida que estava inconsciente ali era a fonte da sua própria, e, não amando mais ninguém, ela sentiu seu coração como um peixinho dourado daquela fonte, girar e girar palpitantemente.
Então surgiu pela primeira vez o desejo, frequentemente repetido na vida da mulher, de ter nascido homem e saber como ajudar seu pai. Isso sugeriu que ela tinha irmãos que deveriam ser convocados, e conferenciar com seu pai; mas agora ocorreu-lhe que cada um deles tinha se apoiado nele; e, embora consciente de que era perverso, Vesta sentiu seu orgulho levantar-se contra o pensamento de que qualquer ser fora daquela casa, até mesmo um irmão, devesse saber de sua desgraça.
O que ela poderia fazer? Ela pensou em todas as suas joias, sua égua de montaria, seu relógio, os presentes do próprio pai, e então o pensamento pereceu de que essas coisas pudessem ajudá-lo.
Ela não poderia ganhar algo com sua voz, que tinha cantado para tantos elogios? Ai! aquela voz tinha perdido o ingrediente da esperança, e ela temia abrir os lábios para que não saísse em agonia, gritando: "Deus, tenha piedade!"
"Eu não tenho nada", disse Vesta para si mesma; "exceto amor por esses dois mártires, meu pai e minha mãe. Não, nada pode ser feito até que ele acorde e me diga o pior. Enquanto isso, seria perverso da minha parte aumentar a agitação já existente aqui, e onde devo ser a consoladora."
CAPÍTULO VII.
FERRO JACK-O'-LANTERN.
A Sra. Custis não estava em situação de causar aborrecimento naquele dia, pois uma enxaqueca a atingiu e ela manteve seu quarto. Fraca de vontade, puramente social em suas relações conjugais, e nunca visando algo mais alto do que a respeitabilidade, ela sentia falta da marca grosseira de seu marido que, com todas as suas deficiências morais, provavelmente era seu igual moral, seu padrão vital mais alto, seu tom uma hipocrisia genial, e no fundo ele era um democrata.
A Sra. Custis não tinha discernimento nem variabilidade de caridade; sua mente, delimitada pela república municipal de Baltimore, que se estima o mundo, particularmente entre sua aristocracia mercantil, que vive como a antiga nobreza veneziana entre suas lagoas planas, e faz comércio principalmente com o turco nas Índias mais tórridas e instintivas e no Sul. Amável, social, com medo de novas ideias, frugal com dinheiro; se hospitaleira à mesa, com uma certa vivacidade que raramente é intelectual, mas uma beleza que atrai poderosamente, até que, pelas simpatias limitadas sob ela, o marido do mundo exterior discerne quão irremediavelmente a escravidão e a casta afundam em uma velha sociedade naval, o Baltimore que governava Chesapeake não tinha produto mais aperfeiçoado do que a Sra. Custis.
Sua modéstia e virtude eram tão naturais quanto seus preconceitos; ela acreditava que o casamento era o fechamento da ambição feminina, e casar seus filhos era a única inovação a ser permitida. Certas realizações ela achava devidas à mulher, mas nenhuma delas devia se tornar masculina em sua execução; uma mulher profissional ela evitava como a uma infiel ou uma abolicionista; a leitura era meritória até um ponto ortodoxo, mas uma paixão por novos livros era perigosa, provavelmente irreligiosa. Perder o próprio dinheiro era um crime; perder o dinheiro de outro, o pecado imperdoável, porque essa era a opinião pública de Baltimore, que ela achava ser a única opinião digna de consideração. Os velhos mercadores escoceses e irlandeses de lá tinham tornado lei que o empreendimento só era desculpável pelo sucesso, e que o sucesso apenas estigmatizava um inovador. Um bom padrão de sociedade, portanto, tinha mal permitido que o Juiz Custis se envolvesse na fabricação de minério de pântano, e, falhando nela, sua esposa pensava que ele não era melhor do que um jacobino.
Na Costa Leste, onde a sociedade foi formada antes que Glasgow e Belfast tivessem colonizado Chesapeake com suas fórmulas precisas de vida, uma benevolência mais gentil subia e descia ao solo todos os dias, como as evaporações daqueles mares prolíficos que adubam o solo fino infalivelmente. Religião e benevolência eram deposições em vez de dogmas lá; a pobreza moderada era a expectativa não indesejada, a riqueza um assunto de escrúpulos apreensivos, a bondade a lei, o orgulho a exceção, e a avareza esmagadora, como a de Meshach Milburn, era a marca do diabo entrando no vizinho e no semelhante.
O Juiz Custis era um representante de seus vizinhos, exceto em sua volúpia da Virgínia; seus vizinhos não eram puritanos nem hipócritas, e ele os respeitava mais do que a raça arrogante na velha terra de Accomac e nas penínsulas da Virgínia, cujos traços ele tinha quase perdido. Às vezes parecia-lhe que o último do estoque cavalheiresco era sua filha, Vesta. Dele tinha quase partido, e seu senso de falhas morais expandia seu coração e o tornava ternamente piedoso para com seus semelhantes, se não para com Deus. Ele admirava os recém-chegados, novos modos de negócios, e intrusos e ideias do Norte, sentindo que talvez a última evidência de sua aristocracia da natureza fosse uma resignação cavalheiresca. Os pinheiros estavam dizendo a ele: "Vós ireis como os índios, mas não sejais inospitalários com vossos sucessores, e deixai-lhes vossa bênção, para que a grande baía e seus rios possam ser esplêndidos com navios e homens, embora vós tenhais perecido para sempre." Uma percepção da energia de seus compatriotas, e um orgulho nela, sem qualquer reserva mesquinha, embora pudesse envolver sua humilhação pessoal, era a única reivindicação restante do Juiz Custis à magnanimidade do céu. Ainda assim, rico em natureza humana, ele era amado por sua filha com toda a sua alma.
Ele acordou muito depois do meio-dia, o corpo revigorado, e um copo de leite e uma narceja grelhada sobre torrada estavam prontos para ele comer, com alguns ramos de aipo novo do jardim para alimentar seus nervos. Ele fez essa pequena refeição silenciosamente, e Vesta disse, quando a bandeja foi removida:
"Agora, papai, antes de deixarmos esta sala, você deve me contar toda a injúria que sofreu, e o que todos nós podemos fazer para ajudá-lo; pois se você tivesse tido sucesso, a recompensa teria sido nossa, e devemos dividir as dores da sua desgraça com você sem qualquer arrependimento. Coragem, papai! e deixe-me entender isso."
O Juiz olhou debilmente para Vesta, depois vasculhou sua mente com os olhos baixos, e finalmente falou:
"Minha filha, sou vítima de boas intenções e autossatisfação. Sou menos que um canalha e pior que um tolo. Sou uma fraude, e você deve ser feita para ver isso, pois temo que você tenha se orgulhado de mim."
"Oh, pai, eu tive!" disse Vesta, com uma convulsão instantânea. "Você era meu Deus."
"Vamos jogar fora a idolatria, minha querida. É o primeiro de todos os pecados. Quão alto fala o primeiro mandamento para nós neste momento: 'Não terás outros deuses diante de mim'?"
"Eu o quebrei", soluçou Vesta, "eu amei você mais do que meu Criador."
"Vesta", falou o Juiz, "você é a única coisa de valor em toda a minha casa. O trabalho da natureza em você é tudo o que sobrevive ao longo edifício do nosso orgulho. O tesouro de sua beleza e amor ainda me faz rico para os ladrões, que jazem em emboscada ao nosso redor. Estamos em perigo, estamos sendo perseguidos. Ó Deus! piedade, piedade dos puros de coração!"
Enquanto o Juiz, sob sua forte sinceridade, tão rara nele ultimamente, abriu largamente seus braços, e levantou a testa em agonia, Vesta sentiu sua idolatria voltar. Ele era tão grandioso, parado ali em sua dor e desamparo não afetados, que parecia a ela algum Prometeu viril, que tinha trabalhado com fogo e ferro, para a exacerbação dos deuses invejosos. A admiração secou suas lágrimas, e ela esqueceu as referências de seu pai a si mesma.
"O que é ferro?", ela perguntou. "Diga-me por que você queria produzir ferro! Se eu puder entrar em sua mente e simpatizar com as esperanças que você teve, isso elevará minha alma do chão. Papai, eu deveria ter pedido por esta lição há muito tempo."
O Juiz caminhou de um lado para o outro até que ela repetisse a pergunta e o trouxesse de volta ao seu assento. Ele reuniu seus pensamentos e retomou seu tom mundano enquanto prosseguia, com sua antiga volubilidade cavalheiresca, para contar a história do ferro.
"Dupliquei empréstimos", disse ele finalmente, "sobre as mesmas propriedades, incorrendo, receio, em um estigma sobre minha família e caráter; bem como na ruína de nossa fortuna."
Vesta levantou-se com lábios pálidos e o coração a desfalecer.
"Oh, pai", sussurrou ela, em tom assustado, "quem sabe deste terrível segredo!"
"Apenas um homem", disse o Juiz, encolhendo-se até o carpete, com sua coragem e volubilidade imediatamente perdidas, "o velho Meshach Milburn sabe de tudo! Ele comprou as notas de protesto duplicadas e as mantém junto com as suas. Ele me tem em seu poder e me odeia. Ele vai me expor, a menos que eu me submeta a uma condição terrível."
"Qual é, pai?"
O Juiz olhou para cima, aterrorizado e, ao encontrar o olhar pálido, porém firme, de Vesta, escondeu o rosto e gemeu:
"Oh! É vergonhoso demais para contar. Isso partirá o coração de sua mãe."
"Diga-me imediatamente!" exclamou Vesta, em um tom baixo e oco. "Que desgraça maior pode este monstro nos infligir além de expor nossa desonra? Pode ele nos matar mais do que isso?"
"Não sei como te contar, Vessy. Poupe-me, minha querida! Escondo meu rosto por vergonha."
Houve uma pausa, enquanto Vesta, com a mente expandida para tocar cada ponto de sugestão, permanecia olhando para o pai, embora mal o visse. Ele não se moveu.
Vesta inclinou-se e ergueu o rosto do pai para encontrar alguma solução para sua evasiva misteriosa. Ele fechou os olhos como se ela o queimasse com seu olhar de indagação.
"Papai, olhe para mim neste instante! Você não será um covarde comigo."
Ele soltou-se de suas mãos e retirou-se para uma janela, olhando para ela, mas com um semblante tímido.
"Quero que você vá neste momento e encontre seu credor, o Sr. Milburn, e traga-o até mim. Você deve me obedecer, senhor!"
O pai ergueu as mãos como se fosse protestar, mas antes que pudesse falar, uma sombra caiu sobre a janela, e a figura de um homem pequeno e de pele morena, coberto por um chapéu de copa alta, avançou pelos degraus da frente.
"Salvador, tenha misericórdia!" murmurou o Juiz Custis, "o lobo está à porta."
Vesta tomou o pai nos braços e beijou-o uma vez, de forma reconfortante.
"Papai, vá enviar um criado para abrir a porta. Peça que o Sr. Milburn seja conduzido a esta sala para me aguardar. Vá e distraia minha mãe afetuosamente, e ambos permaneçam em seu quarto até que eu esteja pronta para chamá-los."
A proximidade do terrível credor quase paralisara o Juiz Custis, e ele deslizou para fora como um fantasma.
CAPÍTULO VIII.
O CHAPÉU ENCONTRA UM CABIDE.
Meshach Milburn trancara a loja após escrever algumas cartas e tomara a rua larga em direção ao portão do Juiz Custis. A notícia de seu desaparecimento em direção à Fundição, com um extravagante coche de aluguel, espalhara-se entre todos no círculo ao redor da taverna principal, e eles discutiam o motivo e as probabilidades do ato, com aquela profunda ignorância interior tão característica de uma sociedade instintiva. O velho Jimmy Phoebus, um homem enorme, de rosto largo e testa pequena, foi convocado para dar sua opinião.
"Não passa de um exibicionismo", disse Jimmy; "mais cedo ou mais tarde todo mundo se exibe--quer aparecer! Meshach está ficando maluco com dinheiro e precisa de um exibicionismo--dois cavalos e um negro. Se não for exibicionismo, não sei o que o aflige, nem que minha vida dependesse disso."
Um coro geral subiu: "Que me danem se eu souber, nem que minha vida dependesse disso!"
Levin Dennis, o comprador de cágados, fez um palpite ousado, como segue:
"Meshach, suponho, está entrando no negócio de cavalos. Ele já esteve em tudo, e agora se meteu com cavalos. Se não forem cavalos, não sei dizer, nem que minha vida dependesse disso!"
Todos os intelectos menores do grupo soltaram uma risadinha baixa, giraram pela metade sobre os calcanhares das botas e voltaram à posição, murmurando: "Nem que minha vida dependesse disso!"
Jack Wonnell, usando um dos novos chapéus de copa alta, descalço, e parecendo um vagabundo que experimentara o imponente chapéu de pele de urso de um granadeiro da milícia, soltou este adendo irrelevante:
"O velho Milbun vai ver uma moça. Primeira vez que um homem muda seu curso regular violentamente, é por causa de uma moça. Eu entrei nos meus chapéus de copa alta para arrumar uma moça. Milbun vai arrumar uma moça lá longe na floresta. Se não for isso, não sei dizer, nem que minha vida dependesse disso!"
Os de menor importância, não sendo treinados para a sugestão, sorriram, ficaram de bocas abertas, executaram a revolução sobre um calcanhar e ecoaram: "Que me danem se eu souber, nem que minha vida dependesse disso!".
"Ele está vindo, rapazes, viva!" exclamou Jimmy Phoebus. "Agora todos tiraremos nossos chapéus e seremos educados, pois, por fumaça! vai haver algum tipo de falcatrua em Princess Anne!"
O homem pequeno, com o chapéu à la Guy Fawkes e as velhas polainas esverdeadas, ultra-elegantes, caminhou em direção a eles com seus olhos ousados e resinosos voltados para a frente, seu nariz informando-o do que estava no ar como o de qualquer terrier sedoso, e ainda com uma palidez na pele como a de uma pessoa doente, e menos do que sua expressão diária de hostilidade para com Princess Anne.
"Ele está com febre", observou Levin Dennis, "são os tremores, chegando nele amanhã, se é que conheço as bolhas de cágado!"
Apenas a última parte da aproximação mais próxima da profanidade corrente naquela terra foi ouvida novamente, flutuando ao redor: "nem que minha vida dependesse disso!"
Dizia-se que Jimmy Phoebus descendia de um pirata, ou patriota, grego que se estabelecera na Costa Leste, e Phoebus ainda parecia sê-lo, com sua pele rica e morena, cabeça larga e olhos mediterrâneos. "Boa tarde, Sr. Milburn!" disse Jimmy, alto e descuidado.
"Boa tarde, Sr. Phoebus. Cavalheiros, boa tarde!"
Ao responder, com uma voz pouco cordial, mas apaziguadora, Milburn levantou seu antigo e formidável chapéu, e em um instante pareceu aproximar-se um século de seus vizinhos. Sua estatura reduziu-se, sua falta de sociabilidade pareceu modificada; ele agora parecia uma pessoa pequena e sem amigos, como se algum cão sem dono tivesse disparado pela rua e ouvido um chilro gentil na porta da taverna, onde sua recepção fora de pedras. Sua voz, com um leve tremor, encorajou Levin Dennis a falar também:
"Cuidado com a febre este mês, Sr. Milburn!"
Meshach inclinou a cabeça, deslizando como se estivesse timidamente ansioso para passar.
"Tempo bom para passear de carruagem!" acrescentou Jack Wonnell, tendo também tirado seu próprio chapéu de frivolidade para sentir o efeito; mas este comentário foi considerado pelo grupo como atrevido demais, e um coro baixo circulou: "Jack Wonnell não consegue evitar ser um tolo, nem que sua vida dependesse disso!"
Milburn disse a si mesmo, seguindo em frente: "Essas vozes estão mais gentis do que o habitual, ou estou mais tímido? O que há no ar que torna tudo tão agudo, e minhas bochechas formigarem? Estou doente, ou é Amor?"
A palavra o assustou, e a areia sob seus pés pareceu rachar; um pica-pau em uma árvore velha batia como se fosse o velho coração da árvore acelerado por algo; as casas ao redor pareciam objetos vivos, com suas janelas fixas em seu caminhar, como olhos de pessoas casadas. Quando ele avistou a residência do Juiz Custis, tão expressiva de antigo respeito e longas intenções, o agiota quase parou, tão suave e pacificamente ela parecia olhá-lo--tão imperturbável, enquanto ele palpitava.
"Por que esta dor?" pensou Milburn. "Estou com medo? Aquela casa é minha. Tenho medo de entrar na minha própria? E, no entanto, ela não tem medo de mim. Está lá há tanto tempo que não tem medos, e cada janela nela se volta benigna para a minha chegada. Os três frontões observam aquela paisagem florestal como três velhos magistrados no tribunal, administrando justiça a um condado onde nunca antes houve um raptor!"
O pensamento produziu um momento de orgulho intelectual nele, como o espasmo inquieto de um poder ilegal. "É a Floresta que esses gentis têm a temer hoje!" pensou ele, ressentido, e então parou, com outra imagem que sua palavra despertou:
"O que aquela floresta já sentiu de injúria ou ódio, com cada porta de cabana destrancada, nenhum ladrão temido por ninguém lá, as flores no pessegueiro do negro, os caquis maduros à beira da estrada, fartos para todas as crianças da floresta, e a humildade e o afeto tornando todos mais ricos, sem um dólar no mundo, do que eu, o arrivista mais rico da floresta, forçado a comprar afeto, como um escravo indiferente!"
Um cão grande na casa dos Custis, vendo-o caminhar tão devagar, desceu o caminho até o portão, também andando devagar, e não mostrou nem animosidade nem interesse, exceto mecanicamente caminhar atrás dele em direção à porta.
"O cão me conhece", pensou o coração acelerado de Meshach, "por me ver a vida toda, mas nunca abanou o rabo para mim em todo esse tempo. Poderia eu adquirir o coração até deste cão, ainda que pudesse comprá-lo? O passo do meu devedor ainda seria mais bem-vindo a ele, e ele comeria minha comida com estranheza e medo."
Milburn subiu os degraus e soou o substancial batedor de latão. Bateu quatro vezes, alto e profundo, e a quietude que se seguiu foi ainda mais alta, como a coisa desconhecida após a sentença ter sido proferida. Ele pareceu estar ali por muito tempo com o coração completamente vazio, como se o batedor do devedor tivesse afugentado todos os tagarelas de dentro dele, e ainda assim suas têmporas e ouvidos zumbiam. Ele pensava em tocar o batedor novamente, quando uma criada, parcialmente branca, puxou o ferrolho e curvou-se à sua pergunta se o Juiz estava em casa.
Ele entrou no amplo saguão daquela distinta residência e, retirando o Chapéu Vinculado da cabeça, pendurou-o finalmente, onde coberturas de cabeça melhores costumavam manter igual sociedade, em um cabide de mogno esculpido dos tempos coloniais. O objeto venerável, uma vez ali, deu um aspecto comum a tudo, como pensou Meshach, e aprofundou seu senso pessoal de indignidade. Ele tentou sentir-se irritado, mas a apreensão era forte demais para que até a paixão fosse simulada.
"Oh, Deus discriminador!" ele sentiu, interiormente, "não é o bastante nos criar tão desiguais que devemos também nos encolher em espírito, e reconhecê-lo! Eu esperava me sentir triunfante quando guardasse meu chapéu desprezado na casa deste homem, mas sinto-me mais insignificante do que antes."
A sala, cuja porta foi aberta pela criada, era a biblioteca, contendo três estantes volumosas de livros, e vários retratos a óleo, com molduras douradas profundas, um mapa da Virgínia e seus arredores a nordeste, incluindo toda a península ao sul do rio Choptank e do Cabo Henlopen; e perto da porta havia um relógio alto, em que um gigante poderia caber, marcando e acenando o tempo solenemente, dando a monotonia de uma noite eterna ao lugar, o que era aumentado pelo fogo crepitante de madeira nos altos atiçadores de latão, diante dos quais algumas poltronas de couro de encosto alto, largas e confortáveis, estavam dispostas, todas gastas em atitudes luxuosas, como se cada uma tivesse sido a pele do Juiz Custis e seus companheiros, recém-evacuada.
Uma cadeira de balanço feminina estava disposta entre elas, como se todas as outras cadeiras a ela cedessem. Este foi o primeiro artigo a prender a atenção de Milburn, tão diferente, tão sugestivo, quase uma coisa de superstição, equilibrada, como o instinto e a vontade de uma mulher, sobre nada firme, mas, como a esfera sobre a qual se movia, atravessando um arco maior do que um assento de gigante preencheria. Pureza e conquista, poder e boas-vindas, pareciam habitar dentro dela, como o trono vazio no Parlamento.
Milburn, sendo deixado sozinho, tocou a cadeira de balanço de fada com o pé. Ela começou tão fácil e graciosamente que, quando o movimento cessou, ele pressionou os lábios no topo dela, mais perto de onde o pescoço dela estaria, e sussurrou em voz alta, com sentimento: "Deus sabe que aquele beijo, pelo menos, era puro!"
Ele olhou para os retratos e, embora não estivessem inscritos, adivinhou todos eles, certos ou errados, pela intuição do conhecimento local ou interpretação invejosa.
"Aquele tratante atrevido, ganancioso e superprestável", pensou Meshach, "com vinho e carne em suas bochechas, e prata e prostituição em seu olhar, era o taverneiro irlandês de Roterdã, que mantinha uma conta pesada contra os príncipes banidos a quem o nome de Cromwell sempre fazia jurar e tremer, e eles o pagavam em um escritório distante em Accomac, onde nunca mais veriam ele e suas contas, e lá eles o deixaram roubar a maior parte da receita, e, claro, sua lealdade era proporcional ao seu espólio. Muitas vezes, sem dúvida, ele foi proxeneta para ambos os irmãos reais, Charles e James, fazendo de sua taverna seu prostíbulo, com Betty Killigrew, ou Lucy Walters, ou Katy Peg, ou mesmo Anne Hyde, a mãe de uma rainha--daquela que era a Princesa Anne, madrinha da nossa cidade honorável aqui. Não li em vão", concluiu Meshach, "porque meus nobres cidadãos me levaram para minha cela!"
O próximo retrato estava vestido em uniforme militar, com um tipo superior de virilidade, astuto e vigilante, mas magistral. "Aquele deve ser o Major-general John Custis", pensou Milburn, olhando para ele, "filho de John o taverneiro, e um sujeito casamenteiro e esquivo, que primeiro começou a grandeza como um fabricante de sal nestas ilhas oceânicas, até que o amigo de seu pai, Charles II, em um momento alegre, fez de Henry Bennet, sogro do filho bastardo do rei, Conde de Arlington e arrendatário da Virgínia. Toda a província por quarenta xelins por ano de aluguel! Aqueles eram tempos puros e econômicos, de fato, ao redor da corte. Então, o fabricante de sal John bajulou os capatazes de Arlington, nomeou sua fazenda de 'Arlington', caçou e denunciou os seguidores do rebelde puritano Bacon, depois virou-se e bajulou o Rei William também. Seus netos, todos bem providos, espalharam-se ao redor desta baía. Tanto para a política nas mãos de um comerciante!"
O tom do comentário de Meshach aumentou um pouco sua coragem, e um senso de interesse prazeroso na sala quente e nos arredores geniais levou-o a passar o tempo, que foi consideravelmente longo, bastante contente, até que o Juiz Custis estivesse pronto.
* * * * *
Enquanto isso, o chapéu de copa alta dava algum espanto silencioso aos criados da casa, reunidos para contemplá-lo do pé do saguão. A arrumadeira caprichosa, Virgie, levara a maravilhosa informação para a colunata de que o terrível credor havia chegado, e Roxy, a garçonete, levara-a da colunata para a cozinha, onde a calamidade comum produziu imediatamente uma revolução contra as boas maneiras.
"Ele está com aquele chapéu do diabo na cabeça, criança?", perguntou a Tia Hominy, largando o porrete com o qual batia a massa de biscoito no bloco.
"Sim, tia, ele deixou no cabide. Tenho medo de passar por ele para ir à porta."
Tia Hominy jogou o porrete sobre a massa borbulhante e retirou-se para a grande lareira preta, com um rosto expressivo de tanto medo e astúcia juntos que parecia prestes a ficar branco, mas apenas chegou a um franzir e espasmos.
"Deus tenha misericórdia!" exclamou Tia Hominy, "crianças, vamos queimar aquele chapéu no fogo! Talvez isso tire o problema desta casa. Nós temos o chapéu bem onde queremos, crianças. Roxy, menina, você vai buscá-lo para a Tia Hominy!"
A menina começou como se tivessem pedido que ela pegasse uma cobra: "Pelo amor de Deus, Tia Hominy, eu não tocaria nele nem que minha vida dependesse disso. Ninguém além do velho Sansão jamais fez isso!"
"Siga seu caminho, menina!" gritou Tia Hominy, "a senhorita Vessy não segurou aquele chapéu uma vez, e prendeu uma rosa branca nele? Ele não o fez, aquele terrível Meshach Milbun, ofereceu à senhorita Vessy um dólar de ouro, e ela não quis saber de nenhum de seu ouro? Isso ela fez! Virgie, você vai pegar aquele chapéu, criança! cutuque-o do cabide com meu gancho de panela aqui. Não vai te machucar, menina! Eu vou te aspergir primeiro com camomila e avelã que guardo no batente da chaminé."
Tia Hominy voltou-se para as laterais da chaminé, amplamente entalhadas, onde cinquenta artigos de farmácia negra eram mantidos--feixes de ervas, pimentas secas, bexigas de sementes e garrafas de toda potência mística.
"Tia", respondeu Virgie, "se eu não tivesse medo daquele Homem Mau, eu teria medo de mexer naquele chapéu, porque a senhorita Vessy ficaria mortificada. Pense nela me vendo tratando as coisas de um visitante desse jeito. Ora, eu preferiria ser vendida!"
"Aquele chapéu", persistiu Tia Hominy, "é a ruína desta família. Aquele chapéu, meninas, o diabo deu ao velho Meshach, e fez com que ele o usasse pelo dom de conseguir todo o ouro no Condado de Somerset. Eu não sei quando ele o usou pela primeira vez? Foi quando ele começou a conseguir todo o ouro. Antes disso ele era pobre como um lagarto, vendendo para negros, cozinhando para si mesmo, e sem valor, de qualquer maneira. Ele se sentava no sótão de sua velha loja lendo a Bíblia de cabeça para baixo para conseguir a amizade do diabo. O diabo veio uma noite, e disse ao velho Meshach: 'Aqui está meu chapéu! Vá, pegue-o, querido, e meça terra com ele, e toda a terra que você medir é sua, querido!' E Meshach mediu quase todo este condado. A terra do Juiz Custis é a última."
O relato afetou ambas as meninas consideravelmente, e o grupo de pequenos meninos e meninas negros ainda mais, que chegaram quase congelados de terror, para ouvir; mas produziu o maior efeito sobre a própria Tia Hominy, cuja imaginação, ampliada no esforço, excitou todos os seus próprios medos e deu vivacidade irresistível à sua lenda.
"Como o chapéu dele pode medir as terras das pessoas, Tia?", perguntou Virgie, puxando Roxy para si pela cintura para sua proteção mútua.
"Ora, criança, ele mede a terra com as grandes e longas sombras que o chapéu do diabo projeta. Meshach, ele fixa seus olhos em uma boa fazenda. Diz ele: 'Vou medir aquela!' Então ele sai lá em algum nascer ou pôr do sol, quando o sol está quase no chão, e cada árvore e cerca e coisa em pé vai longe pela terra, lançando sombras longas e tortas. Esse é o momento em que Meshach fica em pé, com aquele chapéu que o diabo lhe deu para torná-lo mais longo, apenas deitando-se nos campos como a sombra do grande campanário de uma igreja. Ele caminha ao longo da estrada antes da fazenda, e onde quer que aquele chapéu faça uma marca no chão, tudo entre ela e onde ele caminha é a terra do velho Meshach. É o que ele chama de sua hipoteca!"
As crianças estavam com as bocas bem abertas; as criadas ouviam com fé apenas menor do que o medo.
"Mas, Tia Hominy", falou Roxy, "ele nunca mediu a casa do Juiz Custis, e todos nós dentro dela, que deve ser vendida."
"Eu não o vi fazendo isso?" sussurrou Tia Hominy, inclinando-se como se fosse rastejar, na contração de seus próprios medos, e olhando para seus rostos com os punhos cerrados. "Ele tem vindo ao longo da cerca nas noites mais escuras e nubladas há muito tempo, como um homem que ia roubar alguma coisa, e espiando a janela da senhorita Vessy. Ele escolheu as noites escuras, quando as ruas de Princess Anne estavam livres de gente, e os cães estavam em suas alcovas, e nada circulando além dele e vento e frio e chuva. Uma noite, enquanto ele observava a janela da senhorita Vessy como um corvo negro, da sombra da árvore, eu o observava da janela da cozinha. A lua, que estivera toda escondida, veio bem de trás das nuvens de chuva de uma vez, meninas, e o assustou de certo modo. A lua estava baixa sobre a floresta, crianças, e enquanto o velho Meshach se virava e se afastava, a sombra do diabo dele varreu esta casa para dentro. Ele a mediu naquela noite. Tem sido dele desde então."
"Bem", exclamou Roxy, após uma pausa, "eu sei que não tocaria naquele chapéu agora."
"Estou quase com medo de olhar para ele", disse Virgie, "mas se a senhorita Vessy me dissesse para ir buscá-lo para ela, eu faria."
"Vamos todos juntos", aventurou-se Tia Hominy, "e dar uma espiada nele. Talvez não nos machuque, se todos formos."
Cientes de que o Juiz Custis e sua esposa não estavam por perto, o pequeno círculo de criados--Tia Hominy, Virgie, Roxy e as quatro crianças, de cinco a quatorze anos de idade--filou suavemente da cozinha através da colunata coberta, e de lá ao longo da passagem dos fundos até o fim do saguão, onde fizeram um grupo, olhando com admiração crente para o chapéu de King James.
Vesta Custis, tendo trocado seu robe matinal por um traje de passeio, rearranjado levemente o toucado e ajoelhado por algum tempo em silêncio para aceitar a vontade desconhecida do Céu, desceu finalmente as escadas a tempo de vislumbrar meia dúzia de criados encarando um estranho chapéu velho no cabide do saguão. Eles fugiram apressados com a sua aparição, mas a ideia do chapéu também foi transmitida à sua própria fantasia pelo comportamento incomum deles. Ela olhou por um instante para o objeto estranho e desbotado pendurado entre outros melhores, e com uma reminiscência da infância, de tê-lo segurado em suas mãos, desceu ao longo dos anos intermediários sobre a associação, o perfume de uma rosa e a impressão de um par de olhos ousados e assustados fitando os seus. Ela abriu a porta da biblioteca, e os mesmos olhos olhavam de volta da poltrona de seu pai.
"Sr. Milburn, suponho?" disse Vesta, caminhando até o visitante e estendendo a mão com doçura natural.
Ele se levantou e fez uma reverência, mal vendo a mão no olhar fervoroso que lhe dirigiu, como se ela o tivesse surpreendido e ele não soubesse como expressar sua timidez. Ela não retirou a mão até que ele a tomasse, e então ele não a soltou. Como seu olhar, mais forte do que ousado, persistia, ela baixou os olhos para a mão que segurava a sua suavemente, e então observou, por mais calma que estivesse, que a mão dele era a de um cavalheiro, com dedos longos e quase delicados, a textura branca, a palma quente e, como lhe pareceu, de uma pressão quase fraternal, respeitosa e gentil também.
Como ele não falou imediatamente, Vesta voltou a observar o rosto dele, muito menos convidativo, porém peculiar — o cabelo preto liso, as maçãs do rosto altas, sem barba real em lugar algum, o formato do rosto largo e poderoso, e os maxilares longos, enquanto os olhos castanho-amarelados, bem abertos e intensos, correspondiam às narinas abertas e quase observadoras na ponta de seu nariz reto e fino. Sua tez era escura e semelhante à de um silvícola, parecendo revelar uma dieta pobre e pouco nutritiva. Ele mal era mais alto que Vesta. Seus dentes eram bons, e a boca um tanto pequena. Ela pensou que ele estava incerto sobre o que dizer, ou confuso em sua mente, embora nenhum sinal de medo fosse visível. Vesta veio em seu socorro, retirando a mão naturalmente.
"Já o vi muitas vezes, Sr. Milburn, mas nunca aqui, creio eu."
"Não, senhorita, nunca estive aqui." Ele hesitou. "Nem em lugar nenhum em Princess Anne. A senhora é a primeira dama aqui a falar comigo."
Suas palavras, mas não seu tom, insinuavam uma inferioridade ou um desprezo. A voz era um pouco rígida, parecendo carecer de alguma inflexão correspondente, como a de um homem que aprendera um idioma sem ter tido o uso dele.
"O senhor vai se sentar, Sr. Milburn? O senhor deve esta visita há tanto tempo que não terá pressa hoje. Espero que não tenha sentido que fomos inóspitos. Mas cidades pequenas frequentemente encorajam círculos restritos e tornam as pessoas mais egoístas do que pretendem ser."
"A senhora jamais poderia ser egoísta, senhorita," disse Milburn, sem qualquer da suavidade de um elogio, ainda carregando aquele olhar selvagem e atento, como os olhos de um boi assustado.
Vesta corou levemente com a liberdade que ele tomou. Era um pouco embaraçoso para ela, também, encontrar aquele olhar ininterpretável de indagação e homenagem; mas ela sentiu sua necessidade, bem como sua boa educação, e relevou a falta de sofisticação de seu visitante. Ele era como um indígena diante de um espelho, em uma excitação estóica de apreensão e deleite. A coisa mais bela que ele já vira estava, enfim, ao alcance de sua visão plena, e ele não sabia se deveria detê-la pela força ou pela persuasão.
Seu cabelo escuro, sedoso como as borlas mais limpas do milho, caía tão naturalmente sobre sua cabeça perfeita quanto seus dentes, brancos como as fileiras de milho leitoso, moviam-se nas cerejas de maio de seus lábios. Os arcos delicados de suas sobrancelhas, sombreados por asas de melros, enriqueciam o céu claro de seus olhos harmoniosos, onde a misericórdia e a nobreza faziam companhia, como no céu.
"Como poderia saber que eu não sou egoísta, Sr. Milburn?"
"Porque a ouvi cantar."
"Ah, sim! O senhor me ouve em nossa igreja, lembro-me."
"Eu a ouvi todos os domingos em que a senhora cantou lá por anos," disse Meshach, quase sem mudança de expressão.
"O senhor gosta de música, Sr. Milburn?"
"Sim, gosto de tudo que já ouvi — pássaros e a senhora."
"Cantarei para o senhor, então," disse Vesta, aceitando o alívio para o qual a conversa a direcionava. Havia um piano em outro cômodo, mas, para evitar mudar de cenário, assim como para usar um acompanhamento mais simples para os ouvidos de um homem ignorante, ela trouxe seu violão e, colocando-o no colo, tocou as cordas e a melodia, sem esperar, com estas palavras ternas:
"Oh, por uma nota tristemente moribunda, A flutuar nesta hora silenciosa, Onde, remota do mundo agitado, A lira poderia despertar sua melodia! Um tênue acorde é tudo que pode brotar De minha concha quase deserta, Em acentos lamentosos ainda a contar Que seu menestrel não adormece.
"Há uma hora de profundo repouso, Que ainda se fechará sobre meu coração, Quando tudo que a natureza teme e conhece Irromperá sobre mim maravilhosamente; Oh, que eu possa então despertar, para sempre, Minha harpa para o alto esforço do êxtase; E, ao me separar da vã cena da terra, Estar perdida na Imortalidade."
Vesta cessou por alguns minutos e, como seu visitante não dizia nada, ela comentou, com emoção.
"Esses versos foram escritos na casa de meu avô, no Condado de Accomac, por um jovem clérigo de Nova York, que era o reitor de meu avô, o Reverendo James Eastburn. Ele tinha apenas vinte e dois anos quando morreu, no mar, de tuberculose. A dele é a única poesia de que já ouvi falar, Sr. Milburn, escrita aqui em nosso belo e velho país."
"Eu me perguntava se algum dia a ouviria cantar para mim," falou Milburn, após hesitar. "Agora que se realizou, sinto-me cético quanto a isso. A senhora está aí, Srta. Custis, não está?"
Vesta estava intrigada. Em outras circunstâncias ela teria se divertido, já que seu humor poderia fluir livremente como sua música. Pareceu-lhe vagamente que o pequeno homem estranho poderia estar com a cabeça perturbada.
"Sim, certamente, Sr. Milburn. Se fosse um sonho, eu não teria outra expressão o dia todo a não ser cantar. Acho que nunca me senti tão triste ao cantar quanto agora. Papai está doente. Mamãe está doente. Tornei-me a agente de negócios da família e ouvi, dentro desta última hora, que papai está profundamente envolvido. O senhor é credor dele, não é?"
Meshach Milburn fez uma reverência.
"Qual é a soma das notas e hipotecas de papai? É mais do que ele pode pagar com o sacrifício de tudo?"
"Sim. Ele não tem nada para vender em uma venda forçada que traga qualquer coisa, exceto os criados da casa aqui; estas empregadas da família são comercializáveis imediatamente. A senhora não gostaria de vendê-las?"
"Vender Virgie! Ela foi criada comigo; que direito tenho eu de vendê-la, mais do que ela tem de me vender?"
"Nenhum," disse Milburn, bruscamente, "mas há lei para isso."
"Vender Roxy também, e a velha Tia Hominy, e as crianças pequenas! Como eu poderia orar novamente se fossem vendidas? Oh! Sr. Milburn, onde estava seu coração, ao deixar papai desperdiçar seus abundantes bens em um experimento tão desesperador? Se meu canto na igreja lhe trouxe felicidade, por que isso não poderia movê-lo à misericórdia? Pense no desespero desta família, na generosidade impotente de meu pai, no acordo matrimonial de minha mãe que também se foi, e em todos os outros filhos e filhas separados deles!"
"Eu nunca encorajei um só momento os gastos do Juiz Custis," disse Meshach, "embora eu lhe tenha emprestado dinheiro. A primeira vez que ele veio a mim pedir um empréstimo, minha mente estava em uma disposição liberal, pois a senhora tinha acabado de entrar nela com suas atenções inocentes. Supus que ele queria uma acomodação temporária, e dei-lha com a taxa mais baixa que um cristão cobraria de outro."
"O senhor diz que eu o influenciei a emprestar dinheiro ao meu pai? Ora, senhor, eu era uma criança. Ele tem tomado emprestado do senhor desde minhas primeiras lembranças."
O credor tirou de seu bolso interno uma grande carteira de couro e, levantando-se, colocou seu conteúdo sobre a mesa. Ele abriu um pedaço de papel dobrado e dele retirou dois objetos; um, uma mecha de cabelo azul-preto como o seu, e o outro, uma rosa prensada e desbotada.
"Esta flor," disse Milburn, com reverência, "a filha do Juiz Custis prendeu em meu chapéu ridicularizado. Guardei-a até que estivesse morta, e a guardei com o cabelo de minha mãe, os dois objetos religiosos de minha vida. Aquela rosa desbotada fez de mim o credor de seu pai, Srta. Custis."
Vesta pegou a rosa e olhou para ele com surpresa e interrogação.
"Oh, por que esta flor não falou por nós?" disse ela; "abrir seus lábios depois daquilo, para salvar meu pai? Então o senhor se informou e sabia que ele estava correndo para a destruição, mas ainda assim deu-lhe dinheiro com juros mais altos."
Milburn olhou para ela com coragem diminuída, mas sinceridade, e respondeu: "Sua voz cantava entre nós, Srta. Custis, toda vez que ele vinha. Eu não admitia para mim mesmo o que era, mas o sentimento de que eu estava sendo atraído para perto da senhora ainda abria minha bolsa para seu pai, até que ele me drenou os lucros de anos, que eu lhe dei com uma fatalidade pródiga, embora agarrando cada centavo de cada fonte, exceto daquela. Eu sabia, então, que ele provavelmente não poderia me pagar, mas todo sábado na igreja a senhora cantava, e isso parecia alguma compensação. Eu estava enfeitiçado; visões indistintas de gratidão e reconhecimento da senhora enchiam a pregação com multidões de anjos, todos carregando sua imagem e pairando sobre mim. O preço que paguei por aquela esperança não proferida e sempre repelida foi principesco, mas nunca lamentado, e foi puro, acredito, ou o Céu teria me punido. Quanto mais eu me arruinava por seu pai, mais bem-sucedidos eram meus empreendimentos em todos os outros lugares; se a senhora foi minha tentação, ela teve o favor ou o perdão do Deus em cujo templo nasceu."
Vesta levantou-se também, com o espírito amedrontado.
"Eu o compreendo?" disse ela, com seus ricos olhos cinzentos bem abertos sob seus cílios assustados. "Meu pai falou de uma condição degradante? É amar o senhor?"
Pela primeira vez, Meshach Milburn baixou os olhos.
"Nunca supus possível que a senhora me amasse," disse ele, amargamente. "Pensei que Deus pudesse me permitir algum dia amá-la."
"O senhor sabe o que é o amor?" perguntou Vesta, com espanto.
"Não."
"Como veio, então, a interpretar meus bons atos tão vilmente, carregando até mesmo minha infância em sua imaginação maligna, e amaldiçoando a tristeza de meu pai com a ameaça da escravidão de sua filha?"
Milburn ouviu com perfeita humildade essas duras imputações.
"A senhora não amou, creio eu, Srta. Custis?" disse ele, com um leve rubor. "Eu acreditei que a senhora nunca o fez."
Ele levantou seus olhos novamente para o rosto dela.
"Eu amava meu pai acima de tudo," falou Vesta, hesitante. "Não via nenhum homem, além disso, admirando meu pai."
"Então eu não desloquei o direito de nenhum homem, cobiçando sua imagem. Às vezes parecia que a senhora estava sendo mantida livre por tanto tempo para recompensar minha adoração silenciosa. Não sei o que é o amor, mas conheço as dádivas de Deus, conforme florescem na natureza, não repelem a devoção de nenhum homem. As flores, os pássaros e a floresta deleitaram minha infância; minha juventude foi gasta no estudo de mim mesmo e do homem; enfim, uma criança bela apareceu para mim, falou seu caminho para dentro de minha alma, e ela nunca pôde expulsar sua presença gloriosa. Todas as coisas tornaram-se subordinadas a ela, até mesmo a avareza e o sucesso. Ela me manteve um cristão, ou eu teria me tornado totalmente egoísta; ela me manteve humilde, pois o que era minha riqueza quando eu não podia entrar na casa de seu pai! Estou aqui por um destino agora; o poder que chamou a senhora a este quarto, tão inesperadamente para mim, nos conduziu ao segredo que eu temia dizer-lhe. Ouso ir mais longe?"
Ela tentava conter seus sentimentos insultados e não dizer algo que pudesse enfurecer para sempre o credor de seu pai, mas a possibilidade de casar-se com ele era demasiado tremenda para responder.
"Este momento é grandioso," continuou Milburn, firmemente, "pois sinto que ele terminará minhas visões de felicidade, e de bondade também. A senhora se expressou tão indignada que vejo que nenhum pensamento sobre mim jamais se alojou em sua mente. Por que deveria ter se alojado? Embora eu quase tenha sonhado que sim, porque a senhora preencheu minha vida por tantos anos com sua rica imagem, pensei que a senhora pudesse ter me sentido, como uma aparição, esgueirando-me ao redor desta moradia frequentemente no escuro e na chuva, contente com o raio de luz que sua janela lançava sobre a rua deserta. Agora vejo que eu era um tolo fraco, cuja paixão a natureza não emprestou nervo algum para transmitir sequer ao seu conhecimento. Melhor para mim que eu tivesse abraçado a realidade aviltante do meu ouro e perdido meus olhos para tudo, exceto seu conforto!"
Ele olhou para a porta. Vesta sentou-se na cadeira de balanço e o deteve.
"O senhor me contou o sentimento que pensa ter tido, Sr. Milburn. Por mais pobres que nós, Custis, sejamos agora, não serve de nada ser orgulhoso. Como o senhor pôde pensar que esse sentimento poderia ser correspondido por mim? Minha juventude, minhas conexões, tudo, proibir-me-ia, sem altivez, de ver um pretendente no senhor. Então, o senhor não tomou meios de voltar minha atenção para si. O senhor poderia ter sido vizinho, se desejasse. O senhor nem sequer usava os emblemas mais comuns de um amante..."
Ela pausou. Milburn disse a si mesmo:
"Ah! Aquele chapéu maldito."
A interrupção agitou seu temperamento:
"Eu tive razões, também orgulhosas, Srta. Custis, para ser consistente com meu eu perpétuo aqui. Vou expor os méritos substanciais do meu caso à senhora, já que vejo que não sou provável de me tornar atraente de outra forma. Esta casa já é minha. A lei me colocará, em algumas semanas, na posse de toda a propriedade de seu pai. Vou mudar as circunstâncias externas com ele em Princess Anne. Ele é velho demais para adotar meus sacrifícios e recuperar sua situação; ele pode encontrar algum refúgio instável com seus filhos e filhas, mas, mesmo que seu espírito pudesse suportar essa dependência, seria muito desnecessário, quando, casando-se com seu credor, a senhora pode reter tudo o que ele tem agora para tornar sua família respeitável. Ofereço-lhe seu patrimônio como seu dote de casamento!"
Ele pegou da mesa as notas que seu pai havia negociado e colocou-as no colo dela.
Vesta sentou-se balançando lentamente, profundamente agitada. Ela tinha em sua boca o conforto e a honra de seus pais, que ela poderia conferir em uma única palavra. Era uma responsabilidade tão poderosa que a fazia tremer.
"Oh! O que direi?" pensou ela. "Será um pecado dizer 'Sim'. Dizer 'Não' seria um crime."
"A senhora reterá cada característica de seu lar — seus criados, sua mãe e sua parte não diminuída; sua liberdade no sentido mais pleno. Contribuirei para enviar seu pai para a legislatura ou para o congresso, para sustentar seu orgulho e mantê-lo bem ocupado. A Fornalha ele pode parecer ter vendido para mim, e eu aceitarei a impopularidade de fechá-la. Peço apenas para servi-la e habitar sua vida diária, como um desses negros a quem a senhora é gentil, e se eu for alguma vez áspero com a senhora, Srta. Vesta, juro entregá-la à sua família e partir para sempre."
Vesta balançou a cabeça.
"Não há separação senão uma," disse ela, "quando o Céu foi chamado à solenidade do casamento. É antes desse ato que devemos considerar tudo. Como eu poderia fazê-lo feliz? Minha própria felicidade eu dispensarei. A sua deve então compreender a minha. A bondade poderia me tornar grata, mas a gratidão não satisfará seu amor."
"Sim," exclamou Milburn, perseguindo sua vantagem com ardor trêmulo; "a longa fome do meu coração será grata por uma crosta seca e um copo de gelo. Aqui, junto à lareira, deixe-me sentar e aquecer, e ouvir o roçar de seu vestido, e crescer em sensibilidade celestial. A senhora redimirá um selvagem, a senhora salvará uma alma!"
"Não é o preço que devo pagar para fazer isso, eu gostaria que o senhor considerasse, senhor," respondeu Vesta, com sua atenção um tanto presa pela intensidade dele; "é o preço que o senhor está pagando — seu autorrespeito, talvez — pelos termos em que obtém a mim. Pode nunca ser conhecido fora desta família que me casei com o senhor por causa de meu pai e minha mãe. Mas como evitarei que o senhor se lembre disso, especialmente quando diz que eu sou a soma de seus desejos mais puros? Se seu interesse se consumisse depois de obtê-la, poderíamos, pelo menos, ser indiferentes; mas se ele crescesse em amor real, o senhor não se acusaria frequentemente?"
Meshach Milburn sentou-se, lançou seus grandes olhos castanhos no chão e ouviu em reflexão dolorosa.
"A senhora não consegue conceber que eu tenha tido qualquer amor real pela senhora?" exclamou ele, duvidosamente.
"O senhor me viu e me desejou como sua esposa; isso é tudo," disse Vesta, "que posso imaginar. O poder sem lei poderia fazer isso em qualquer lugar. Ser uma esposa obediente é o destino da mulher; mas o amor, tal como o senhor tem algum vislumbre, é um instinto místico tão mútuo, tão alegre, porém tão livre, que o cativeiro em que o senhor me coloca para me fazer cantar para si nos dividirá como os arames de uma gaiola."
"Não há pássaro que eu tenha capturado," disse Meshach Milburn, "que não tenha aprendido a confiar em mim. Sua comparação, portanto, não me desencoraja. E a senhora já cantou para mim, no dia mais triste de sua vida!"
Um leve toque de natureza nesta revelação de seu estranho pretendente chamou a atenção de Vesta para o estudo dele novamente. Com sua inteligência e senso de valor superior vindo em seu auxílio, ela pensou: "Deixe-me ver tudo o que há deste Tártaro, pois, talvez, possa haver outra maneira para sua misericórdia."
Conforme ela recuperava a compostura, no entanto, ela se tornava mais bela aos olhos dele, seus encantos escuros e sem igual preenchendo o quarto, seus olhos brilhantes transmitindo amor, sua pele como a da ameixa silvestre, e suas sobrancelhas de corvo e coroa de cabelo luxuriante erguendo-se sobre uma presença real digna do trono de uma imperatriz. Tal beleza quase fez Milburn sentir medo, mas as energias de seu caráter estavam todas concentradas para assegurá-la.
"Quem é o senhor?" perguntou ela, com um olhar calmo e perscrutador, lançado a partir de seu mais alto autorrespeito e inteligência alerta. "O senhor tem algum parente ou conexão digna de trazer aqui — a esta casa, a mim?"
"Nenhum que eu conheça," disse o silvícola. "Eu não sou nada além de mim mesmo, e do que a senhora fará de mim."
"Onde o senhor nasceu e foi criado?"
"A casa não existe que testemunhou essa miséria," falou Milburn, com um rubor de orgulho obstinado; "foi queimada na noite passada, não longe da fornalha que engoliu os bens de seu pai."
"Ora, eu teria medo do senhor, Sr. Milburn, se sua missão aqui não fosse tão prática. Presságios e maravilhas cercam o senhor. Pássaros esquecem sua vida natural por sua causa. O ferro deixa de ser oculto quando o senhor o pega. Seu local de nascimento neste mundo desaparece pelo fogo na noite anterior ao dia em que o senhor executa uma hipoteca sobre a filha de um cavalheiro. Toda essa feitiçaria é inseparável daquele Chapéu de necromante que o senhor usa em Princess Anne?"
Ela havia tocado o tópico sensível por uma abordagem habilidosa, contudo ele mudou de cor, como se a alusão o picasse.
"A natureza nunca censurou meu chapéu, senhorita Vesta, e a senhora é tão semelhante à natureza que isso não ocupará seus pensamentos. Recordo-me do dia em que a senhora decorou meu velho chapéu; eu disse: 'talvez esta cobertura de cabeça errante, após todas as suas injúrias e andanças, possa um dia encontrar um gancho sob o meu próprio teto, e a acolhida gentil de uma dama como aquela pequena senhorita'. Isso foi há vários anos, e hoje, pela primeira vez, meu chapéu está no suporte de seu saguão. O desejo longo do coração nem sempre é negado. Não somos responsáveis por ele. A única conspiração que tramei aqui foi a de não me opor às ocorrências mais naturais, todas convergindo para esta cena. Minha magia foi a esperança e a humildade. Ousei usar o chapéu de meu ancestral diante de um público provinciano desprezível e impertinente, e isso me deu o orgulho de perseverar até que eu pudesse trazê-lo para casa, para as honras e para um abrigo nobre. Se a senhora despreza meu chapéu, desprezará a mim."
"Oh, não, Sr. Milburn! Tento nunca desprezar nada. Se o senhor usou o chapéu de sua família por algum respeito filial, foi, em parte, piedade. Mas era, de fato, esse o seu motivo para ser tão excêntrico?"
Milburn sentiu-se inquieto novamente. Hesitou e disse:
"Em verdade absoluta, temo que não. Pode ter havido algo de vingança em minha mente. Eu havia sido grosseiramente insultado."
"Não é algo dessa vingança que o instiga aqui — mesmo nesta profissão de amor?", exclamou Vesta, judicialmente.
Meshach olhou para cima, e as sombras se dissiparam de seu rosto.
"Posso responder a isso com veracidade, dama. Em relação à senhora, nenhum pensamento indignado jamais se alojou em meu cérebro. Tem sido o oposto: proteção, adoração, sensibilidade terna."
"Essa caridade excepcional estendeu-se ao meu pai?"
"Não."
Vesta teria ficado exasperada, não fosse a sua franqueza.
"Meu pai jamais o insultou, senhor?"
"Não, ele me tratou com condescendência. Ele não quis causar mal, mas aquele velho chapéu desgastou um lugar profundo em meu cérebro por tê-lo carregado por tanto tempo, e é um assunto que me irrita mencionar. No entanto, devo ser coerente com minha única excentricidade. Onde quer que eu vá, lá vai meu chapéu; ele compõe minha identidade, minha inflexibilidade; ele concretiza minha promessa a mim mesmo de que os homens respeitarão meu chapéu antes que eu morra."
"Perdoe-me", disse Vesta, não desinteressada em seu caráter, "posso entender uma excentricidade fundada no respeito familiar. Éramos virginianos, e isso é quase uma religião lá. Os negros de nossa família compartilham disso conosco. O senhor tinha uma família, então?"
Milburn balançou a cabeça.
"Não; não uma família no sentido que a senhora quer dizer. Gerações de obscuridade, uma linhagem apenas virtuosa; nenhuma lápide em lugar algum, nenhum brasão ou lema, nem mesmo uma mentira autoenganadora de alguma antiga nobreza, moldada de mão em mão até cometer um furto contra a história e ostentar-se em um painel de carruagem! Éramos silvícolas. Surgimos, existimos e perecemos, como as famílias de formigas sobre os formigueiros de areia. Não migramos mais do que os pica-paus em suas árvores de sicômoro, e não fizemos soar eventos mais do que seu tamborilar insetívoro. Lá fora, além de Dividing Creek, nos matagais de carvalhos pequenos e pinheiros baixos, muitas pequenas fazendas, arranhadas da floresta devoradora, salpicando as planícies e ermos com cabanas e pequenos celeiros de troncos, outrora levaram o nome de Milburn por todas as localidades do Pocomoke até e além do grande Cypress Swamp. Eles estão morrendo, mas nunca mortos. Os poucos que vivem não esperam reconhecimento de mim e, felizes em sua pobreza, não me invejam nada do que acumulei. Meu nome tornou-se duro para eles, meu chapéu é objeto de suas superstições, minha ambição e sucesso me custaram sua simpatia sem me dar qualquer outra compensação social. A senhora contempla um homem desesperado, um credor impiedoso, uma touceira de minério dos pântanos de Nassawongo, contudo, um cujos únicos crimes foram adorá-la e usar o chapéu de seus antepassados."
"É esse orgulho, então, inteiramente sensibilidade insultada, Sr. Milburn?"
"Não posso dizer, Srta. Custis. A senhora pode sorrir, mas penso que é aristocracia."
"Eu também penso assim", exclamou Vesta, reflexiva; "o senhor é um homem orgulhoso. Meu pai, que teve motivos para ser orgulhoso, é menos aristocrata, senhor, do que o senhor."
O rubor de Milburn veio e permaneceu por um tempo considerável. Ele não ficou desgostoso com o elogio de Vesta, embora tivesse a natureza de uma acusação.
"O senhor é aristocrático", explicou Vesta, "porque adotou o chapéu obsoleto de seu povo. Seja qual for a vaidade que o levou a fazê-lo, creio que foi a satisfação de alguma origem."
Ela conteve-se, vendo que estava entrando nos assuntos dele com liberdade excessiva.
"Suponho que em algum lugar, algum dia", falou o estranho visitante, "alguma pessoa da minha linhagem tenha sido influente e próspera. De fato, disseram-me isso. Ele foi elevado tanto à magistratura quanto ao cadafalso, mas meu chapéu teve uma origem ainda mais antiga."
"Conte-me sobre esse ancestral", disse Vesta, a mágoa de sua missão maior instigando-a a adiá-la, enquanto ela ainda estava mal consciente de que o homem era original, se não interessante.
Ele contou uma história singular, traçando seu chapéu desde os tempos de Raleigh e através de Sir Henry Vane até a América, até que se tornou propriedade de Jacob Milborne, o mártir popular que foi executado em Nova York, e seus irmãos expulsos para Maryland, trazendo consigo o inofensivo chapéu como seu único patrimônio.
Antes de começar, Milburn endireitou sua figura compacta e abriu a porta para o saguão. O vento ou o ar de alguns dos grandes e frios aposentos da longa casa, entrando por alguma fresta ou janela aberta, deu quase um grito e espalhou o fogo na chaminé.
Vesta sentiu seu sangue gelar por um momento quando seu visitante reentrou com o chapéu antediluviano e o colocou sobre a mesa sob a lâmpada.
Ele tinha aquele aspecto de nobreza vitoriosa sobre a decadência, que sugeria a múmia de algum faraó, trazida para uma sala de visitas na noite de uma sociedade erudita. Vesta reprimiu um sorriso, surgindo através de sua dor, diante da gravidade do hóspede silvícola, que estava prestes a demonstrar sua aristocracia por meio daquele velho chapéu. Parecia-lhe, também, que os retratos dos Custis, na parede, empinavam narizes indignados no ar com seu conhecimento aparentemente consciente da presença de algum pretendente não enterrado, como se, na Abadia de Westminster, as efígies dos reis normandos tivessem se agitado levemente ao sentir Oliver Cromwell jazendo entre eles em estado.
O chapéu, Vesta percebeu, era flamengo, tal como era popular na Inglaterra enquanto os Países Baixos eram seus aliados contra a casa da Espanha, e, despojado de seus ornamentos, foi alongado para o chapéu dos puritanos.
Vesta tentou exercer sua liberalidade e perceber alguma beleza naquele chapéu, mas o máximo que pôde admitir foi a tirania da moda sobre a mente — parecia, sobre a própria alma, pois aquele velho chapéu, por mais inofensivo que fosse, pesava sobre seu espírito como um sino de mergulhador.
O homem, sem seu chapéu, havia de certa forma se redimido de conversas e ideias baixas, mas agora, que ele trazia aquele chapéu e associava sua pessoa a ele, ela recuou dele como se ele tivesse sido um judeu de três chapéus, mascateando pelas dependências.
O chapéu detestável também exercia alguma influência excitante sobre Meshach Milburn, se seu comportamento alterado pudesse ser atribuído àquele artigo, pois ele retomou seu olhar forte de homem selvagem, aprofundou e baixou sua voz e, sem esperar por qualquer pergunta ou expressão de sua ouvinte, contou a história.
CAPÍTULO IX.
HA! HA! O CORTEJO DISSO.
Era crepúsculo quando Meshach Milburn encerrou sua história, e o silêncio e a pálida tarde se aproximaram na sala de estar dos Custis, assemelhando-se às duas pessoas ali, pensando no matrimônio, uma tão grave quanto a consciência de serpente poderia torná-lo, a outra esvoaçando como o pássaro enfeitiçado. Vesta falou primeiro:
"Quão intensa deve ser sua cabeça para criar tantos objetos ao redor dela dentro do mundo de um chapéu! O senhor apenas trouxe a história um pouco para perto de nossos tempos."
"Comecei a história de Raleigh fora de proporção", disse Milburn, "e ela cresceu na mesma escala, como a paixão que concebi pela senhora tão intensamente no início, que no clímax desta noite mal comecei."
"No entanto, como Raleigh, vejo o cadafalso", disse Vesta, com uma tentativa de humor que pela primeira vez a fez desabar, e ela ergueu as mãos ao rosto para abafar a explosão de angústia. Não pôde ser reprimida, e um choro baixo, profundo com a sensação de deserção e cativeiro, soou através da sala que escurecia e golpeou o coração mais íntimo de Milburn. Ele obedeceu a um impulso que não sentia desde que sua mãe morreu, partindo em direção a Vesta, envolvendo-a com seus braços e puxando-a para o peito.
"Querida, querida", ele sussurrou, beijando-a como uma criança, "não chore agora, querida. Isso vai partir meu coração."
O ato da natureza raramente é mal interpretado; Vesta, tendo trabalhado por tanto tempo sozinha com aquele homem obstinado, suas jovens faculdades da mente tensionadas pelo primeiro encontro além de sua força, aceitou a amizade de sua simpatia e contrição, como se ele fosse seu pai. Em poucos momentos, o paroxismo de dor passou, e ela se desvencilhou de seus braços.
"O senhor não é impiedoso", disse Vesta. "Diga-me o que devo fazer! O senhor quebrou meu pai e ele não pode vir em meu auxílio. Tenha piedade da minha desigualdade e aconselhe-me!"
"Ai de mim! criança", disse Milburn, "meu conselho deve ser em meu próprio interesse, embora eu desejasse poder encontrar sua confiança. Sou uma criatura pobre e não sei como. É a senhora quem deve encorajar a fé que sinto começando em algum lugar nesta sala, como uma andorinha de chaminé que gostaria de voar para fora. Chirrie, chirrie para ela, e ela pode vir!"
Parando por um momento, tentando reunir seus pensamentos e falhando completamente, Vesta aceitou a confiança que ele lhe oferecia de braços abertos. Corando como nunca correra na vida, embora ele não pudesse saber disso na escuridão da noite, ela caminhou até ele e o beijou uma vez.
"Isso o encorajará a aconselhar-me como um amigo?", disse ela.
"Ai de mim! não", suspirou Milburn fervorosamente, "isso me torna ainda mais seu amante injusto. Não posso aconselhá-la a afastar-se de mim. Oh, deixe-me pleitear por mim mesmo. Eu a amo!"
"Então o que devo fazer", exclamou Vesta, em tons baixos, "se o senhor é incapaz de elevar-se à altura do meu amigo, e meu pai é seu escravo? Pensa que Deus pode abençoar sua prosperidade, quando é tão duro com seu devedor? Sobre mim cai o sacrifício total, embora eu nunca tenha estado em dívida com o senhor conscientemente, e nunca, que eu me lembre, desejei mal a ninguém."
"A senhora aceitaria a independência de seu pai às custas do homem mais desprezado em Princess Anne?" Milburn falou sem mudar seu tom gentil. "Deixaria que eu lhe desse o fruto de muitos anos de trabalho árduo e poupança cuidadosa, para que eu seja decepcionado no único motivo de ajudá-lo — o cortejo honroso de sua filha?"
Ela sentiu seu orgulho aumentar.
"As dívidas de seu pai para comigo são de dezenas de milhares de dólares", continuou Milburn. "Pede-me que presenteie essa soma à senhora e me retire para minha solidão, para fora desta luz brilhante de lar e família, calor e música, que a senhora criou? Esse é o teste ao qual a senhora submete meu amor: banimento de sua presença. Irá pedi-lo?"
"Não pedi seu dinheiro, senhor", disse Vesta. "No entanto, ouvi falar de Amor fazendo tanto quanto isso, aliviando a angústia de seu objeto e encontrando alegria suficiente no ato abnegado."
"Não creio que a senhora conheça pessoalmente qualquer caso assim, embora possa ter lido em um romance ou panfleto. Homens morreram e deixaram uma fortuna que não podiam mais manter para alguma dama querida; ou fizeram um sacrifício considerável por uma mulher bela e nobre; mas onde a senhora já ouviu, Srta. Vesta, de um amante faminto, rendendo cada dotação que poderia conquistar a incomparável, para ser ele mesmo devolvido à sua tristeza, torturado ainda pelo amor, e ridicularizado por seus vizinhos? O que Princess Anne diria de mim? Que fui feito de tolo e arremessariam novos epítetos atrás do meu chapéu?"
Vesta vasculhou sua mente, pensando que deveria encontrar algum exemplo assim, mas nenhum se adequava ao caso. Meshach aproveitou-se de seu silêncio:
"Os presentes de um amante são por toda parte passos para o amor, como entendi. Ele causa sua impressão com eles; eles são esperados. Nada cria felicidade como um presente, e é um ditado antigo que as bênçãos aguardam aquele que dá, e também aquela que recebe, e que buscar, pedir e bater são louváveis."
"Oh", disse Vesta, "mas ser comprada, Sr. Milburn? Ser pesada contra as dívidas de um pai — não é degradante?"
"Não onde houver tal respeito e apreço como o meu. Antes, exalte-se como mais valiosa para um avarento do que todos os seus empréstimos, e maior do que todas as perdas de seu pai como equivalente, e ainda assim colocando seu marido em dívida, sendo tão mais rica do que sua conta."
"Onde estará minha parcela de amor neste mundo, casada assim?", perguntou Vesta. "Amar é o próprio globo para uma mulher, sua juventude a mera atmosfera dele, sua viuvez o perfume daquela estrela extinta; e toda a minha mente esteve alerta para descobrir a imagem que servirei, o jovem brilhante pronto para mim, olhando um após o outro para ver se poderia ser ele, e de repente o senhor segura entre mim e minha fé um papel com as obrigações de meu pai e diz: 'Aqui está seu destino; este é seu romance inteiro; a senhora está hipotecada!' Como o senhor vai pegar um coração murcho como esse e encontrar companhia alegre nele? Não, o senhor ficará decepcionado. Isso recairá sobre mim que me vendi."
"A imagem pela qual a senhora esperou pode ter chegado", disse Milburn, inabalável, "mesmo em mim; pois o amor muitas vezes brota de uma emboscada, nem pode a senhora preparar o coração para ele como um campo. Recordo-me de uma fábula que li sobre um deus amando uma mulher, e ele irrompeu sobre ela em uma chuva de ouro; e o que era isso senão o cortejo de um homem rico? Conseguimos ouro para igualar a nobreza nas mulheres; a beleza é luxuosa e exige adorno e um cenário rico; o homem mais rico de Princess Anne não é bom o suficiente para a senhora, e os meros rapazes com os quais sua mente foi preenchida são mais indignos de serem seu marido do que o humilde credor de seu pai. Tal criação como a Srta. Vesta exigia um sacrifício e sucesso especiais no caráter de seu marido. A vida anual desta península não poderia ser páreo para a senhora, e um monstro teve que ser criado para levá-la embora."
"O senhor não é exatamente um monstro", observou Vesta, com compaixão natural, "e o senhor me elogia tão calorosamente que isso alivia um pouco a tensão deste encontro. Não chame a atenção de uma mulher para seus defeitos, pois ela poderia, de outra forma, ser encantada por sua voz."
"Isso também é parte de meu sacrifício", disse Meshach, "como o dinheiro que acumulei. Sem um professor, a não ser o amor e a esperança, eduquei-me para ser apto a conversar com a senhora. Tudo é grosseiro agora, como um corvo que ensinei a falar, mas o encorajamento me tornará confiante e atrevido, e a senhora esquecerá meu traje de corbã — até meu chapéu."
Uma frieza pareceu acompanhar essa conclusão, e Vesta tocou sua campainha. Virgie, entrando, recebeu as instruções de sua patroa: "Traga uma bandeja e chá, e luzes, e coloque o chapéu do Sr. Milburn no suporte!"
A garota olhou para o chapéu antigo com uma luz tímida em seu olho, mas a cabeça de sua patroa estava virada como se indicasse que ela deveria pegá-lo, embora pudesse estar em brasa. Virgie obedeceu e logo trouxe o chá.
"É um bom chá", falou Milburn, bebendo não da xícara, mas do pires, enquanto Vesta o observava de forma estranha, "e está frio esta noite. Deixe-me acender seu fogo!"
Ele estremeceu um pouco ao levantar-se e caminhar pela sala, e cutucando os troncos carbonizados até formarem uma chama; e, colocando mais lenha, ele fez as paredes saltarem em lampejos amarelos, entre os quais Vesta viu seus antepassados lançarem olhares frios para ela, em suas molduras douradas — no entanto, quão impotentes eles eram, com toda a sua respeitabilidade, para tirar seu corpo ou a honra de seu pai da penhora! — e ela sentiu pela primeira vez o vazio do poder familiar, exceto na armadura sempre preservada de uma posteridade solvente. Ela também fez uma longa e cuidadosa avaliação de seu pretendente, para ver se havia alguma desculpa para ele como marido.
Sua figura era baixa, mas com força e elasticidade nela; roupas melhores poderiam servir-lhe com elegância, e Vesta o re-vestiu em sua imaginação com luvas de pelica cor de lavanda sobre suas mãos pequenas, um anel em seu longo dedo mindinho, um selo de cornalina e uma fita em seu bolso de relógio, e babados em seu peito de camisa. Em vez de seu terno de tecido opaco, ela lhe daria um colete de couro e botões de pérola com anéis de ilhós, e polainas brancas em vez daquelas coisas verdes surradas sobre seus pés, e colocaria em sua cabeça um chapéu de seda elegante com aba estreita para aumentar sua altura de forma esguia, e deixaria um casaco de azeitona ou azul-escuro, e calças da mesma cor, aliviar seus ornamentos. Assim transformado, Vesta poderia conceber um homem peculiar, porém tolerável, por quem uma dama poderia tornar-se atenciosa através de muitas orações e esforços, e ela se perguntava, agora, como aquele homem havia conseguido acalmá-la já a tal ponto que ela o beijara voluntariamente. Ela teria medo de fazê-lo novamente, mas estava tão claramente registrado quanto o fato de que ela uma vez colocara uma flor em seu chapéu; e Vesta disse para si mesma:
"Ele tem poder de algum tipo! Aquela história, por pouco que ouvi dela, foi contada com uma confiança opinativa que gostaria que meu pobre pai tivesse um pouco. Eu poderia ser feliz com este homem, através do estudo e da piedade? Deus poderia abrir o caminho, mas parece fechado para mim agora."
"A noite avança, Srta. Custis", falou Meshach. "Suas recompensas já são grandes para mim. Quando posso retornar?"
"Creio que devemos determinar o que fazer esta noite, Sr. Milburn", disse Vesta, com determinação crescente. "Nem um ponto mais perto chegamos de qualquer solução para esta obrigação de meu pai. Consideramos isso até agora como minha obrigação, e isso pode tê-lo encorajado indevidamente. Senhor, posso trabalhar para meu sustento."
"A senhora trabalhar?", repetiu Milburn.
"Por que não? Amo meu pai. Como outras mulheres que ficam pobres trabalham para seus filhos ou um marido doente, por que não deveria eu para ele! A pobreza não tem terrores, mas — mas a perda do orgulho."
"A senhora arrisca isso, aconteça o que acontecer", disse seu pretendente, "mas não o perderá evitando o mal menor pelo maior. Ouvi falar de mulheres que fugiram para a pobreza por insatisfação com um marido, mas o orgulho sobreviveu e tornou a pobreza terrível. O orgulho em ambos os casos aumentou o descontentamento. A senhora deveria dar o passo que permitirá que o orgulho seja absorvido pelo dever, se não pelo amor."
"Dever?", pensou Vesta. "Essa é uma palavra repousante, melhor do que Amor. Sr. Milburn", disse ela em voz alta, "como é meu dever fazer o que o senhor pede?"
"Creio perceber que a senhora tem um coração leal, uma consciência que o engano não pode sequer abordar. Algo já a tornou lenta para o casamento, caso contrário, com suas maravilhas, eu não teria tido a chance de ser agora rejeitado pela senhora. O casamento tornou-se formidável demais, talvez, para a senhora, pela pureza de seu coração, tanto mais porque a senhora olhou para ele como sendo seu destino. É seu destino, mas a senhora contende contra ele. Olhe para ele, então, como um dever, tal como a senhora espera em outros — em sua escrava, por exemplo."
"Ai de mim!", disse Vesta, "ela pode casar-se livremente. Eu sou a escrava."
"Não, Srta. Vesta, ela tem sido livre, mas, vendida entre estranhos com os bens de seu pai, sentir-se-á tão carente de simpatia e proteção que o amor, em qualquer forma feia que venha, será a bênção de Deus para seu pobre coração. O que a senhora repele na reviravolta da fortuna — o jugo de um marido — milhões de mulheres curvaram-se como se fosse o próprio arco-íris da promessa posto no céu."
"Como sabe tanto sobre as provações das mulheres, Sr. Milburn? Teve irmãs ou outras damas para cortejar?"
"Tenho visto a natureza humana na minha pequena loja, não, como a sua natureza rara, refinada pela fortuna feliz e pela linhagem, mas de um tipo moderado, e lutando para baixo como uma águia ferida. Elas vieram a mim, no início, por artigos de necessidade mais baratos ou porções menores do que outras lojas venderiam, olhando-me com desprezo. Por fim, sacrificaram seu último escravo, seu último par de sapatos e, quando era tarde demais, seu falso orgulho rendeu-se para abrigar-se sob a cabana de um negro, ou dançar descalças em minha loja por uma dose de uísque."
"Senhor", exclamou Vesta indignada, levantando-se de sua cadeira de balanço, "o senhor lança este aviso para mim?"
Ao levantar-se, Meshach Milburn pensou que sua riqueza era meramente seixos e conchas diante da perfeição dela, agora animada com o espírito de uma rainha.
"Srta. Vesta", disse ele, "perdoe-me, mas acabei de emergir de muitas gerações de pobreza na floresta e, sabendo quão difícil é quebrar esse cativeiro, eu a impediria de dar o primeiro passo em direção a ele. O frescor em sua face, o molde do qual a senhora é o produto sem mácula, os gostos e pensamentos de uma dama casta, e a força e alegria inatas, são obra do favor de Deus para com sua família por gerações. Esse favor Ele continua ao colocar esses fardos familiares sobre os ombros de outro, para poupá-la do trabalho e da preocupação, da ansiedade e da lenta decadência que essa mudança violenta de circunstâncias significa. Seria um pecado recair dessa perfeição para essa penúria."
"Não consigo ver como uma pobreza honrada me tornaria menos mulher", exclamou Vesta.
"A senhora não teme a pobreza porque não a conhece", continuou Milburn. "Ela cresce nesta região como os pinheiros de campo antigo e os pequenos carvalhos sobre uma fazenda negligenciada. Houve um tempo em que havia um assentamento com tribunal em Dividing Creek, onde a justiça, a eloquência, o talento, a sagacidade e o heroísmo formavam o centro social de dois condados, mas transferiram o tribunal e a floresta rapidamente sufocaram o local. Agora, nem um eco permanece daquela antiga glória. A senhora pode salvar sua casa de ser engolida pela floresta."
"Casando-me com o herói da floresta?" Vesta disse, embora tenha se arrependido imediatamente.
"Sim", Milburn proferiu teimosamente, após uma pausa. "Encontrei a casa de Custis no caminho. Estou saindo da floresta enquanto eles estão entrando, a menos que o sacrifício seja mútuo."
"Não sejamos pessoais", Vesta implorou, com sua graça de tristeza; "sinto que o senhor é um homem gentil, pelo menos comigo, mas uma moça pobre deve lutar por si mesma."
Ela viu as lágrimas surgirem instantaneamente nos olhos dele e pressionou sua vantagem:
"Suas lágrimas são como as fontes que encontramos aqui, tão escondidas sob a areia sílica que ninguém suspeitaria delas, mas eu as vi brotar. Diga-me, agora, se eu não seria mais feliz ao assumir o fardo de meu pai e de minha mãe, e deixarmos que diminuamos e sejamos frugais, em vez de covardemente voarmos para a proteção de nosso credor, por uma união que o mundo, pelo menos, classificaria como mercenária. Meu pai poderia reerguer-se, de alguma forma."
"Não, Srta. Vesta. Seu pai não pode deter nenhuma propriedade enquanto qualquer parte de suas dívidas permanecer por pagar. O caminho mais fácil é mostrar ao mundo que nossa união não é mercenária, tentando amar um ao outro. Por toda a terra, o casamento é a reparação de famílias arruinadas — o caminho curto, e o mais natural, também. Rute era uma parente pobre, mas afastou-se do restolho da colheita que fazia sangrar seus belos pés para rastejar aos pés do velho Boaz e encontrar o descanso de uma esposa, e sua sabedoria de escolha nós cantamos nos salmos do Rei Davi, e ouvimos nos provérbios do Rei Salomão, filhos de seus filhos."
"Deus sabe que não estou pensando em mim!" disse Vesta. "Com prazer eu poderia ensinar em uma pequena escola, ou ser governanta em algum lugar, ou, como nossa parente, a mãe de Washington, cavalgar pelos campos com meu chapéu de palha e capota de sol e supervisionar os trabalhadores."
"Isso nunca fez o General Washington, Srta. Vesta. Foi o casamento que o emprestou ao mundo; primeiro, o casamento de seu meio-irmão com os Fairfax; depois, o dele próprio com a rica viúva de Custis. Se estivessem procurando apenas por aptidões naturais, algum Daniel Morgan ou Ethan Allen teria sido o comandante de Washington."
"Por que o senhor me atrai para si ao despertar o motivo do meu amor-próprio?" perguntou Vesta. "Esse não é o caminho para preservar meu coração como o senhor gostaria que ele fosse."
"De todas as maneiras que posso atraí-la para mim", falou Milburn, novamente tremendo de sinceridade, "sinto-me desesperado para tentar. Se é errado, nasce do meu senso de autopreservação. Sem a senhora, sou um fracasso desolador, e meu trabalho na vida é jogado fora."
"O senhor realmente acredita que me ama? Não é ambição de algum tipo; talvez uma ambição social?"
"Casar-se com uma Custis?" Milburn exclamou. "Não, é casar-se com a senhora. Eu preferiria que a senhora não fosse uma Custis."
"Ah! Entendo, senhor;" o rosto de Vesta corou com certa admiração pelo homem; "o senhor acha que seu nome de família é tão bom quanto. Assim o senhor deve fazer. Então o senhor me ama por uma paixão?"
"Parcialmente isso", respondeu Milburn. "Eu a amo com todo o meu temperamento, qualquer que seja ele; pelo brilho da juventude e o reflexo da maturidade, pela apreciação da senhora e pela adoração, também; pelo olhar e pela mente. Eu a amo na visão de um assentamento doméstico, na companhia do pensamento, na partilha da minha ambição, no meu instinto pelo cultivo. Eu a amo, também, com o ardor de um amante, mais forte que tudo, porque devo possuí-la para possuir a mim mesmo; porque a senhora acende uma chama em mim, e minha humanidade de piedade é pisoteada pela minha humanidade de desejo; não posso ouvir seu apelo para escapar! Sou surdo a sentimentos de honra e cortesia, se eles permitirem que a senhora me escape! Entregue-se a mim, e esses anjos melhores podem prevalecer, sendo talvez acessórios ao poderoso instinto que obedeço por ordem do Criador!"
À medida que ele prosseguia, Vesta viu brilhar no rosto de Meshach Milburn o próprio êxtase do amor. Seus olhos escuros e resinosos eram como lagoas da floresta brilhando à noite sob as tochas dos caçadores de guaxinins negros. Suas longas mãos de dama tremiam enquanto ele as estendia para ela para segurá-la, e ela viu em sua testa e em suas narinas abertas e boca firme a presença de uma vontade que raramente falha, quando exercida poderosamente, em reduzir a de uma mulher e fazê-la reconhecer seu senhor.
No entanto, com essa forte excitação do amor mental e animal, que geralmente anima o homem à eloquência, se não à beleza, algo cansado, quase como dor, marcava o intrépido invasor, e um tremor, não como o de vontade e coragem, percorreu seu corpo. Foi isso que tocou Vesta com a sensação de que talvez ela não fosse a única sofredora ali, e a piedade, que salva muitos amantes quando seus méritos não poderiam vencer, levou a filha do Juiz a uma determinação impulsiva.
"Sr. Milburn", disse ela finalmente, pressionando as mãos contra a cabeça, "as provações deste dia foram demais para o meu cérebro. Nunca, em toda a minha vida, tive realidades como estas para enfrentar. Estou exausta. Não, senhor, não me toque agora!" Ele tentara repetir sua investida simpática e acariciá-la em seus braços. "Vamos acabar com esse conflito de uma vez. O senhor diz que vai se casar comigo; quando?"
"Cabe à senhora dizer quando, Srta. Custis. Estou pronto a qualquer dia."
"E o senhor me dará todas as notas e obrigações de meu pai, para que a parte de minha mãe seja devolvida a ela integralmente, e esta casa, os servos e as terras sejam meus por direito próprio?"
"Sim", disse Milburn; "tenho tanta confiança na sua verdade e virtude que a senhora guardará estes papéis a partir deste momento até o dia do casamento."
"Não será daqui a muito tempo, então", disse Vesta, olhando para Milburn com uma vontade e autoridade plenamente iguais às dele. "O senhor me levará esta noite?"
"Esta noite?" ele repetiu. "Não esta noite, certamente?"
"Esta noite, ou provavelmente nunca."
Ele se aproximou, de modo a olhar para o rosto dela sob a forte luz do fogo. Coragem calma, que morreria, como Joana d'Arc nas chamas, encontrou sua indagação.
"Sim", disse Milburn, "sob sua ordem eu a levarei esta noite, embora seja uma surpresa para mim."
Ele vacilou um pouco, contudo, sua consciência estando inquieta, e o mesmo tremor que Vesta já havia observado percorreu seu corpo novamente.
"O que o mundo dirá do seu casamento após apenas um único dia de convivência comigo?"
"Nada", Vesta respondeu, "exceto que sou sua esposa. Isso, pelo menos, silenciará conselhos e impedirá intrusões. Se eu adiar, estes pressentimentos podem prevalecer, se não comigo, com minha família, alguns dos quais são de se temer."
Ele parecia não ter curiosidade sobre esse assunto, dizendo apenas:
"É na senhora, querida criança, que estou pensando — se esta pressa não será lamentada, ou se tornará um assunto de censura para a própria senhora. Para mim não pode ser, não tendo mundo, nem tribo — apenas eu e a senhora!"
Vesta adiantou-se e ergueu a mão dele, que estava fria.
"Acredito que o senhor me ame", disse ela. "Acredito que esta mão tenha os traços de um cavalheiro. Agora, vou confiar ao senhor uma confidência familiar. Os problemas desta casa são como um fogo que não há outra maneira de tratar senão apagá-lo de uma vez. Meu pai não será perturbado, além de sua dor secreta, com o passo que vou dar, pois ele aprecia seus talentos e sucesso. É por ele que darei este passo, se é que o darei, e ainda tenho uma hora para refletir. Mas minha mãe ficará ressentida, e seus irmãos e parentes em Baltimore expressarão uma raiva selvagem, em primeiro lugar, pelo fato de meu pai perder a parte dela; a seguir a isso, e espero que menos amargamente, eles se ressentirão do meu casamento com o senhor. Exposta à interferência deles, eu poderia ser impedida de ajudar meu pai; eles poderiam até me forçar a ir embora, e separar nossa família, deixando meu pai sozinho para enfrentar suas misérias."
"Entendo", disse Milburn; "a senhora me daria o direito legal de enfrentar o povo exaltado de sua mãe."
"Não apenas isso", disse Vesta; "eu tiraria dela e deles o poder de impedir o sacrifício que medito fazer. O pavor imediato de meu pai é a censura de minha mãe — que ele arriscou e perdeu o dinheiro dela. Isso já a enviou para a cama, doente e quase violenta. Poderia muito bem poupar ao pobre cavalheiro todo o seu sofrimento, se é para lhe poupar uma parte."
"Brava garota!" exclamou Meshach Milburn, em admiração. "É verdade, então, que o sangue fala. A senhora pretende dar à sua mãe o dinheiro que foi perdido, e silenciar sua reclamação antes que ela a faça?"
"Exatamente isso, Sr. Milburn, e dizer: 'É o presente de meu marido, e uma oferta de paz de todos nós'."
"Não é sua intenção, querida", perguntou o credor, "colocar a Sra. Custis em sua confiança antes deste casamento?"
Ela olhou para ele com a súplica de alguém em dúvida, que gostaria de ser resolvida. "Aconselhe-me", disse ela. "Quero fazer o melhor por todos, e evitar todas as palavras amargas, que tanto magoam. É necessário contar à minha mãe?"
"Não. A senhora é uma mulher livre. Sei sua idade — embora eu vá esquecê-la logo, logo." Esse primeiro vislumbre de humor até que caiu bem em seu rosto estranho. "Se a senhora contar a seu pai, é o suficiente."
"Espero estar fazendo o certo", disse Vesta, "e agora dedicarei minha hora à minha alma e ao meu Salvador. Senhor, o senhor reza alguma vez?"
Milburn recuou um pouco.
"Não rezo como a senhora", respondeu ele; "minhas orações são coisas secas. Eu digo uma pequena rima que minha mãe me ensinou na floresta."
"Tente rezar para que eu faça o certo", disse Vesta, "para que eu não faça este sacrifício e deixe uma consciência ferida. E agora, senhor, adeus. Às nove horas, vá à nossa igreja e espere. Se eu decidir ir, lá o senhor encontrará o reitor, e todos os preparativos feitos. Se eu não for, creio que não me verá mais."
"Oh, espírito belo", exclamou seu amante, "não me oprima com esse medo!"
"Se outro caminho me for mostrado claramente", disse Vesta, "seguirei esse caminho. Se meu dever me levar ao senhor novamente, o senhor será meu mestre. Senhor, embora sua tarefa aqui tenha sido severa, agradeço-lhe por sua sinceridade e pela consideração gentil que parece ter tido por mim há tanto tempo. Adeus."
"Anjo! Vesta! Querida!" Milburn gritou, "posso beijá-la?"
"Agora não", ela respondeu, fria como a superioridade, e interpondo a mão.
A porta estava escancarada, e a escrava, Virgie, estava nela, segurando o Chapéu Vinculado. Milburn, com um calafrio, pegou-o, cobriu-se e partiu.
CAPÍTULO X.
MESTRE NA COZINHA.
A cozinha tinha sido um cenário de tudo menos de paz e sabor culinário durante a longa visita do dono do chapéu.
A tia Hominy e as criancinhas negras tinham feito três visitas furtivas ao saguão para espiar a coisa terrível pendurada ali, como se fosse uma armadilha de algum tipo, sujeita a soltar uma mola e prender alguém, ou a explodir como um morteiro ou torpedo. À medida que hora após hora se passava, e a Srta. Vesta não reaparecia, e finalmente tocou seu sino para o chá, tia Hominy estava fora de si de superstição.
"Querida", exclamou ela para Virgie, "você apenas leve essa lagartixa seca e essa camomila, e deixe cair a lagartixa naquele chapéu velho, e polvilhe o chão onde o velho Meshach senta com a camomila, e diga 'Xô!'. Talvez isso estrague a medição que ele fez da Srta. Vessy."
"Não, tia, se o velho Meshach me medisse, eu não envergonharia a família diante dele. A Srta. Vessy é poderosamente sábia, e talvez ela leve a melhor sobre aquele chapéu maligno."
"Sim", disse Roxy, "ela é boa, tia Hominy, e faz suas orações todas as noites e manhãs. Ouvi dizer que as bruxas não podem ouvir o nome do Senhor, e ficar, de jeito nenhum. Talvez a Srta. Vessy diga no chapéu velho do Meshach: 'Mateus, Marcos, Lucas e João, abençoem a cama em que me deito'. Isso fará o velho diabo simplesmente voar para longe."
"Não, meninas", insistiu tia Hominy, "camomila é tudo o que o impedirá de nos medir. O velho Meshach não vai à igreja também, e tem um livro de orações e... ouça lá, querida! se ela não está cantando para ele!"
Enquanto Virgie atendia ao sino, tia Hominy pegou sua estimada camomila e polvilhou as crianças pequenas, e deu a cada uma um copo de cerveja de sassafrás para abençoar seus interiores.
"O Senhor os abençoe!" exclamou a velha senhora, "se o comprador de escravos vier, tia Hominy os levará para o mato e simplesmente se perderá, e viverá de bagas, olmo, espinheiros e castanhas. Não vamos ficar e deixar o velho Meshach nos esfomear como uma lagartixa."
"Tia Hominy", disse Roxy, "talvez, velha senhora, se você assar um bom pão federal, ou uma torta de caça, ou um pudim de caqui, e enviar para o velho Meshach, ele não nos venderá aos compradores de escravos. Ele nunca ganha nada de bom para comer, e nem sabe o que é. Um provar disso o fará querer mais."
"Roxy, menina", disse tia Hominy, "eu apenas gostaria de fazer um saco de bolinhos daquele chapéu de torre que ele tem. Quando eu descascasse o bolinho, o chapéu estaria bem estragado, crianças, e então o Juiz recuperaria suas terras que Meshach mediu. Pois o Juiz diria: 'Meshach, você não me mediu de forma justa. Onde está sua régua, velho diabo?' Então Meshach diria: 'O chapéu que usei para medir, foi queimado pela velha Hominy, fazendo seus pudins'. 'Então', diz o Juiz, 'você não me mediu direito. Não vou brincar. Leve tudo de volta!' Crianças, precisamos pegar aquele chapéu velho, ou os compradores de escravos nos levarão todos."
Elas começaram a dar outra espiada de cobiça e temor ao chapéu lendário, quando Virgie emergiu da porta da sala com o temido objeto na mão e, pendurando-o no gancho, entrou com medo supersticioso e alívio na colunata. Tia Hominy apressou-a para a cozinha, polvilhou-a com pó de ervas, agitou um chocalho de dentes de cobra dentro de uma traqueia de porco sobre sua cabeça, e terminou empurrando um doce pedaço de casca de melancia em conserva pela sua garganta.
"Doeu, querida?" perguntou tia Hominy, com os olhos cheios de excitação, referindo-se ao chapéu.
"'De fato, não sei, tia", respondeu Virgie; "tudo o que vi foi a Srta. Vessy, olhando para longe de mim, como se ela pudesse ficar envergonhada de mim, e eu peguei a coisa e a levei para o cabide; e tudo o que sei é que cheirava a velho, como alguns dos baús de roupas velhas lá no sótão, quando levantamos a tampa e espiamos dentro, e parece que são roupas de pessoas mortas."
Os pequenos negros, Ned, Vince e Phillis, ouviram isso com olhos brilhantes, e mergulharam suas cabeças sob as saias e o avental da tia Hominy, enquanto a velha exclamava:
"O Senhor tenha misericórdia!" e começou a soprar o que ela chamava de "pow-pow" nos dedos profanados da menina.
"Não acredito que seja nada, tia, apenas um chapéu velho, feio e nojento de gente morta", exclamou Virgie. "Ele só usa para atormentar as pessoas. Ele estava bebendo chá exatamente como a Srta. Vessy, mas achei que seus dentes batiam um pouco, como se ele tivesse cheirado o chapéu velho, e isso lhe deu um calafrio."
"Onde ele conseguiu o chapéu, tia Hominy?" Roxy perguntou. "Ele o desenterrou em algum lugar?"
A pergunta pareceu estimular a invenção fácil da cozinheira, e, após um olhar astuto, porém crédulo, para cima e para baixo na grande cozinha, onde a luz pálida nas janelas era invisível diante do fogo mais forte sob a grande chaminé, tia Hominy sussurrou:
"Ele desenterrou aquele chapéu no antigo cemitério da igreja arruinada de Rehoboff. Ele o encontrou na sepultura."
"Mas você disse esta tarde, tia, que o Homem Mau o deu a ele."
"O diabo o encontrou bem ali", insistiu tia Hominy, "naquele antigo cemitério coberto de vegetação, onde os hinos de Deus costumavam ser erguidos antes que o diabo o pegasse. Ele diz para Meshach: 'Eu o faço o sacristão aqui. Vá buscar a pá lá fora, onde costumava ser a casa dos mortos, e cave entre as sepulturas sob as videiras de murta, e encontre meu chapéu. Enquanto você mantiver o Senhor e o canto longe desta grande igreja abandonada, pode manter esse chapéu para medir as terras de todo mundo'. Por isso ninguém pode cantar ou rezar naquela igreja. Ninguém além de Meshach Milburn reza lá. Ele vai lá às vezes com seu presente de Natal na cabeça, e reza para o diabo."
Assim, uma moda incomum desperta visões incomuns, como se trouxesse para o dia de hoje os fantasmas que foram postos em repouso com ela, e eles caminharam para mentes simples, e produziram superstição nelas.
Tia Hominy nunca foi estimulada a invenções deste tipo, mas ela as absorvia imediatamente, e elas se tornavam crenças religiosas para ela. Seu comportamento, altamente animado por seu terror e crença, produzia mais e mais superstição nas mentes das meninas e crianças, e a conversa diminuiu — os pequenos negros vagando aqui e ali, incapazes de dormir, mas incapazes de atrair atenção suficiente de alguém, até que o Juiz Custis, que esperava há horas que seu credor fosse embora, desceu as escadas dos fundos em suas pantufas velhas, e veio para a cozinha entre o povo de cor por companhia.
Sua presença refinada, e seu tratamento familiar, se bem que superior, deram um novo aspecto imediatamente ao lado africano da casa.
Ele pegou todas as crianças aos pares ou trios, bagunçou seus cabelos, perseguiu-as, lançou-as para o alto, e expulsou as imagens lúgubres da mente da tia Hominy de seus espíritos, e então pegou as duas jovens meninas, e colocou Roxy em seu ombro, e pegou Virgie pela cintura, e finalmente as empilhou sobre a tia Hominy, que correu para trás de sua mesa de biscoitos, e ele amontoou todas as crianças sobre o grupo.
"O Senhor tenha misericórdia, Juiz!" exclamou tia Hominy, encantada, e mostrando seus dentes brancos, de qualquer lado que ela revelasse. "Siga seu caminho, Juiz, a Srta. Custis o pega! A Srta. Vessy está vindo, perante o Senhor!"
As crianças gritavam, entrando mais na algazarra enquanto fingiam tentar sair, invadindo as costas do Juiz e esfregando sua lã limpa em suas suíças, e as duas criadas arrumadas, criadas como filhas brancas em sua família, não estavam desacostumadas nem ao tratamento jovial nem ao carinho de seu senhor, o que ele comumente concluía com um presente de algum tipo.
"Velha", disse o Juiz à tia Hominy, "pode me dar um pouco de alguma coisa grelhada para o meu estômago? Quero comer aqui mesmo."
"Ha! yah! Num tem nada senão um frango novo, patrão! Talvez eu consiga um filhote de pombo do pombal na empena do telhado."
"É isso, Hominy!" exclamou o Juiz Custis; "um filhote tenro, uma torrada no creme, um copo de leite matinal e um maço de aipo fresco vão apenas elevar meu pulso e me dar coragem. Consiga, minha velha fiel; pode ser a última coisa que peço a você, pois o velho Samson Hat vai ser seu dono em breve."
"Eu? Não, senhor! Eu fujo de Princess Anne antes. O homem que limpa o chapéu diabólico do velho Meshach Milburn nunca há de me ter."
"Bem, será um de vocês. Se você não aceitar Samson, Roxy deve, ou Virgie. O velho será muito influente com nosso novo senhor, e, Hominy, estamos todos dependendo de você para deixá-lo tão confortável que ele simplesmente mantenha a família unida."
A sobriedade entrou nesta tentativa de espirituosidade, e a velha cozinheira viu uma película crescer nos olhos sorridentes do Juiz.
"Velho patrão!" ela exclamou, levantando as mãos, "o senhor está só sentado aí, e partindo seu pobre coração. Não sei eu quando o senhor está fingindo? Talvez esta noite seja a última que o veremos em sua própria cozinha quente e agradável, e nunca mais, querido velho patrão, Hominy poderá grelhar-lhe um pássaro ou temperar a sopa que o senhor gosta. Abençoado seja Deus, desta vez pegaremos o filhote, o aipo e a torrada, antes que o velho Meshach Milburn inventarie tudo o que temos!"
Enquanto as crianças engatinhavam ao redor dos joelhos do Juiz, soltando um lamento lúgubre ao vê-lo soluçar, as duas criadas arrumadas, esquecendo-se de qualquer contingência para si mesmas, soluçaram também, como suas próprias filhas, ao vê-lo desamparado; mas a tia Hominy apenas se sentiu desesperadamente enérgica com a chance de cozinhar a última ceia da casa dos Custis.
Ela acendeu um graveto de pinho no fogo e fez um dos rapazes do estábulo subir em uma escada, sob sua luz, para revirar o pombal, e em pouco tempo tanto um frango quanto uma ave estavam grelhados e colocados sobre a mesa da cozinha em uma toalha impecável, e o raminho de aipo branco como lírio e a torrada fumegante em creme aveludado aqueceram as narinas do Juiz e secaram suas lágrimas.
Roxy ficou atrás dele para atender aos seus desejos; Virgie conteve qualquer expressão de tristeza e consolou as crianças, e a pobre tia Hominy, com lágrimas silenciosas escorrendo por suas bochechas ao vê-lo comer e sofrer, manteve um barulho de conversa epicurista, para que ele não se virasse e a visse miserável. Ao terminar sua refeição, tirar seu palito de dente de ouro e sentir uma alegria confortável em tal miséria e simpatia, Vesta abriu a porta e disse:
"Papai!"
"Minha filha?"
"Deixe-me falar com você."
O Juiz Custis levantou-se e ergueu as mãos para a tia Hominy em reconhecimento silencioso pelo seu serviço; mas não foi até a porta se fechar atrás dele que o choro da velha cozinheira explodiu através de seus lábios trêmulos:
"Oh! crianças, crianças, ele nunca mais comerá nada como aquilo novamente. O velho Meshach o inventariou!"
CAPÍTULO XI.
ORGULHO MORIBUNDO.
Ao término da longa visita de Milburn, Vesta fora para seu próprio quarto, lera sua passagem na Bíblia, fizera sua oração e tentara pensar, mas a aplicação do dia fora grande demais para deixar sua mente com a energia matinal, quando a saúde, que é muito da decisão, era elástica em suas veias e cérebro.
Ela começou a ver seu dever surgir como uma coisa prodigiosa de um lado, empurrando qualquer outra consideração para fora do caminho, exceto uma — sua modéstia; e ameaçando aquilo que, como um pequeno rato, corria ao redor de sua mente, tímido, mas desamparado e sem um buraco de escape.
Ela deixaria de ser uma donzela dentro do circuito do relógio, ou abandonaria sua família, e conduziria aquele grande cão de caça do dever sobre o limiar de sua casa arruinada.
No primeiro caso jazia a devastação externa — os olhos vermelhos dos pais e servos que não dormiram a noite toda e olhavam para ela como sua refém obstinada, e os escrivães curiosos instalados nas dependências para ver que nada fosse contrabandeado, o toque do sino do leiloeiro e o manuseio por parte de rudes e velhas fofoqueiras dos itens estimados da família, até mesmo de suas relíquias, joias e meias; a vasta casa antiga um celeiro oco quando isso terminasse, e ela e sua mãe visitantes na prisão onde seu pobre pai olhava através das grades e baixava a cabeça em vergonha!
Então os servos, um após o outro, montados no bloco do tribunal, os velhos servidores grisalhos zombados, as criancinhas separadas, como bezerros pelo açougueiro, e as jovens sentindo as apreensões desesperadas de abuso e violação, que eram a outra alternativa a si mesma, para quem a pureza era como a brancura do lírio, valorizada mais do que sua beleza de forma ou seu perfume.
Ela olhou em seu espelho à luz que flamejava em sua grade de latão e viu os rubores subirem como virgens em fuga no saque de cidades, pelas muralhas brancas de seu pescoço e têmporas.
A forma que mudara tão pouco desde a infância, flexível e reta, e moldada à perfeição, deveria cair como a jovem nogueira no furacão de agosto, retorcida de seu bosque nativo. O hálito do homem a quem ela deveria entregar sua vida, irresistível e quente como aquela tempestade, ela já sentira quando ele a segurou por um momento em seus braços no transporte da paixão, e ouvira sua declaração destemida de desejo.
Casar com qualquer homem agora parecia difícil; casar com este era uma vergonha inexprimível, e ao pensar nisso ela não conseguia derramar uma lágrima, tal paralisia se apoderava dela. Ela lera sobre a recente revolução grega, onde damas elegantes de Quios e outras ilhas do Mar Egeu, educadas nos melhores seminários da Europa, haviam sido vendidas aos milhares como escravas comuns nos mercados de Constantinopla, e levadas para suas propriedades por turcos brutais, com toda a antecipação deleitante da luxúria e da tirania.
Neste episódio vívido começou uma procissão de todas as eras de mulheres que foram o esporte da conquista desde que sua mãe comum, Eva, perdeu o Paraíso por sua simplicidade: as donzelas judias levadas para a Babilônia, as virgens góticas arrastadas pelas caudas dos cavalos dos mouros, as filhas da Palestina e de Bizâncio consignadas aos sensualistas árabes, e forçadas a seguir suas tendas nômades, e as donzelas de olhos amendoados da China entregues por seus pais aos Kalmucks selvagens, para serem espancadas e famintas em cada planície fria da Ásia, até que a vida fosse abandonada sem esperança ou medo.
"Sou mais feliz do que milhões do meu sexo", disse Vesta; "meu captor não me despreza, pelo menos. Talvez ele me trate com mais gentileza do que penso, e me dê tempo para me aproximar dele sem esta dor mortal e vergonha."
Então ela quase se arrependeu de sua decisão precipitada de casar esta noite, em vez de após um conhecimento mais longo, o que o Sr. Milburn, sem dúvida, teria concedido, e suas palavras foram lembradas com acusação: "O que o mundo dirá sobre o seu casamento após um único dia de conhecimento de mim?" "Este pressa não será lamentada, ou se tornará um assunto de reprovação para você?" Era tarde demais para retirar suas palavras e pedir um adiamento?
"Não", pensou Vesta, "manterei, pelo menos, minha mente donzela e casta, em vez de brincar de coquete instável com isso. Não o deixarei começar a pensar que sou fraca e inconstante já agora."
Para ver se havia o menor lampejo de alívio com este casamento, Vesta atravessou para o quarto de sua mãe e encontrou a Sra. Custis com a cabeça envolta em lenços embebidos em colônia, e um frasco de láudano na mão, e em uma condição que beirava a histeria.
"Mamãe", disse a pobre Vesta, "você está com dor?"
"Oh!" gritou a Sra. Custis, "estou simplesmente morrendo aqui de crueldade e brutalidade. Seu pai é um vilão. Farei com que aquele patife, Milburn, seja morto. Vá buscar tinta e papel para mim, filha, e sente-se aqui e escreva uma carta para o meu irmão, Allan McLane, em Baltimore. Ele acertará as contas com o Juiz Custis por este roubo, e levará você e eu de volta para Baltimore, deixando seu pai ir para o asilo ou para a cadeia, não me importo com qual."
"Mãe", exclamou Vesta, "que pecado! abusar do pobre pai agora em todos os seus problemas!"
"Problemas!" ecoou a Sra. Custis, zombeteira, "que problema ele teve, eu gostaria de saber? Vivendo na floresta como um turco entre suas concubinas da floresta descalças! Gastando meu dinheiro, raspado e juntado pelo meu pobre pai na importação de açúcar, para fazer ferro de poça fora do pântano, e ser considerado um homem esperto! A família está desfeita. Somos indigentes, e agora 'é salve-se quem puder'. Cuidarei de você se puder, mas seu pai que morra de fome por qualquer ajuda que eu lhe der."
"Então ele terá a única ajuda ao meu alcance, mãe", disse Vesta, decisivamente.
"Sua ajuda!" exclamou a Sra. Custis. "O que você tem? Suas joias, suponho? Quanto tempo elas o manterão? É melhor você guardar suas joias, garota, para seu casamento, e que ele venha rapidamente, pois o casamento é agora sua única salvação."
"Minha última joia irá, então", disse Vesta, com uma resolução pálida que percorreu suas veias como gelo.
"Guarde suas joias", continuou a Sra. Custis, "e escolha um marido antes que essa coisa se espalhe! Você tem uma boa lista para escolher. Há seu primo, Chase McLane, louco por você, e com uma propriedade em Kent. Há aquele jovem tolo Carroll, com milhares de acres na costa oeste, e o viúvo Hynson de King George, Virgínia, com oitenta escravos e seus estábulos cheios de cavalos de corrida. Você pode se casar com qualquer um desses garotos Dennis, ou ficar com o Capitão Ringgold de Frederick, que vive com elegância em West Point, ou ser a senhora da mansão de Tench Purvience na Monument Square em Baltimore. Tudo o que você tem a fazer é escrever uma carta, dizendo: 'Espero por você', ou, o que é melhor, pegar o vapor de amanhã para Baltimore e usar a casa de seu tio Allan e ficar noiva e casada lá."
"Mamãe", Vesta falou sem repreensão, apenas com um sentimento triste e confirmado de seu destino, "eu seria capaz de enganar qualquer um desses cavalheiros se pudesse deixar meu pai tão cruelmente."
"Enganar!" comentou a Sra. Custis, enchendo a palma da mão e a testa com a colônia. "O que é todo o trabalho do homem com uma mulher senão engano? Cortejá-la pelo seu dinheiro, beijá-la para que ela tire seu dinheiro de boas hipotecas e coloque-o em minério de ferro de pântano? Dizer-lhe, quando passada a meia-idade, que ela não tem nada para viver, exceto a caridade do público, ou de seus amigos relutantes. Tudo isso por um experimento! A família Custis são todos patifes ou tolos. Seu pai é um monstro."
Vesta foi para o lado da mãe e banhou sua testa.
"Querida mamãe", disse ela, "deixe que você e eu façamos algo por nós mesmas, enquanto o papai olha ao redor e encontra algo para fazer. Podemos alugar uma casa em Princess Anne e abrir um seminário. Posso ensinar francês e música, você pode ser a matrona e fazer a correspondência e os negócios, e se papai estiver perdido por uma ocupação maior, ele pode dar palestras sobre história e ciência. Nossos amigos enviarão seus filhos para nós, e nunca seremos separadas. Desistirei do pensamento de casamento e viverei para vocês dois."
A Sra. Custis fez um gesto de impaciência.
"E ser uma solteirona!" ela disparou. "Isso é insuportável. Para que servem todas essas realizações e encantos senão para um marido, e para que serve ele senão para fornecer pão e roupas? Não seja tão louca quanto seu pai sem princípios! Não tente experimentos! Abandone a filantropia! O dinheiro é a base de toda respeitabilidade."
Vesta pensou consigo mesma: "Pode ser isso? Não justifica, então, o homem que me solicita em seus meios de obter dinheiro? Mãe" — Vesta falou — "você quer que eu me case, então?"
"Não há querer sobre isso", respondeu a Sra. Custis. "Você deve se casar!"
"Casar imediatamente?"
"Sim, quanto antes melhor, com um homem rico. Você escolheu um?"
"Dê-me sua bênção, e eu tentarei", disse Vesta; "acho que conheço um desses."
A Sra. Custis beijou sua filha, e gemeu sobre sua pobre cabeça e seu dote perdido, e Vesta partiu para procurar seu pai.
Ela o encontrou como descrito, no luxo de lágrimas e filhote de pombo, tão confortável entre seus servos negros quanto na legislatura estadual ou à frente da sociedade, e eles envolvidos em sua condescendência e infortúnios.
Ao ver a cena curiosa de tal democracia patriarcal na velha cozinha, Vesta perguntou-se se aquela dotação voluptuosa de seu pai não era a provisão feliz para tornar as uniões matrimoniais toleráveis, e as revoluções sociais filosóficas. Algo de arrependimento por não ter mais do lado animal cresceu fracamente em seu sorriso triste quando considerou que, onde quer que seu pai fosse, ele trazia boas-vindas e calor, como ela já sentia ao vê-lo, após se separar de sua mãe apática.
"Roxy", disse Vesta, ao sair da cozinha, "vá até minha mãe e fique com ela toda esta noite. Faça sua cama lá ao lado da cama dela. Virgie, coloque seu capuz e leve uma carta para mim — eu a escreverei na biblioteca."
Ela sentou-se diante de seu pai, ele também indeciso para falar, e vendo por sua expressão fixa que não era hora para loquacidade. Ela selou a carta com cera e, entrando Virgie, seu pai ouviu a direção que ela deu com curiosidade maior do que seu embaraço:
"Leve isto ao Rev. William Tilghman. Entregue a ele apenas, e veja que ele a leia, Virgie, antes de deixá-lo. Se ele lhe fizer alguma pergunta, diga-lhe por favor para fazer exatamente o que este bilhete diz, e, como ele é meu amigo, para não me desapontar."
Os passos da garota mal estavam fora do alcance da audição quando Vesta abriu a gaveta da mesa da biblioteca e tirou um pacote de papéis amarrados com um barbante. Ela o desamarrou, e seu pai reconheceu de onde estava sentado suas notas promissórias e hipotecas.
"Deus misericordioso, minha querida!" exclamou o Juiz Custis, "como você conseguiu esses papéis?"
"Eles serão meus esta noite, pai — em uma hora. No momento em que se tornarem meus, serão seus."
"Ora, Vessy", disse o Juiz, "se eles são seus mesmo que para manter por um minuto, o caminho mais curto com eles é chaminé acima!"
Ele deu um passo à frente para pegá-los de sua mão. Ela os colocou em seu colo e olhou para ele tão calmamente que ele parou.
"Você pode queimar a casa, papai", disse ela, "ela ainda é sua. Mas estes papéis você só poderia queimar com um crime. Seria enganar um homem honrado."
"Honrado! Quem?" exclamou o Juiz.
"Aquele que será meu marido."
"Você vai casar com Meshach Milburn!" gritou o Juiz, "Oh maldição de Deus! — não ele?"
"Sim, esta noite", respondeu Vesta; "eu o respeito. Eu detenho essas obrigações pela confiança dele em mim. Elas são meu anel de noivado."
O Juiz Custis soltou um uivo alto como um homem em quem um prego é cravado, e caiu aos pés de sua filha e agarrou seus joelhos.
"Isso é para me torturar", gritou ele; "ele não ousou lhe pedir, Vesta?"
"Sim, e minha palavra está dada, pai. Deve essa palavra, a palavra de um Custis, ser menor que a fé de um Milburn? Pelo amor que ele tinha por mim, o Sr. Milburn me deu essas dívidas como meu dote — uma fé rara em alguém tão prudente. Se eu não me casar com ele, elas serão devolvidas a ele esta noite."
"Então devolva-os, minha filha, e salve sua alma e sua pureza, para que eu não viva para ser amaldiçoado com a visão da vergonha de minha nobre filha? Este casamento será profano, e a censura que o seguirá será a falência de mais do que nossa propriedade — de nossa fama simples e respeito da antiga família. Temos amigos restantes que nos ajudariam. Se você se casar com Milburn, todos eles nos desprezarão e repudiarão."
"Eu não acredito nisso", disse Vesta. "O senso e a coragem daquele cavalheiro — ele é um cavalheiro, pois eu o vi, e um cavalheiro de muitos dons — compelirão o respeito mesmo onde o falso orgulho e a pretensão familiar parecem derrubá-lo. Quem que o subestima fará algum sacrifício considerável para nos ajudar? Seus filhos... eles o farão? Então, por que direito eles decidem minha escolha de casamento? Não, pai, eu apenas faço minha parte para apoiar nossa casa em sua extremidade, como estes cavalheiros e outros fizeram antes."
Ela apontou para os antigos retratos dos Custis na parede. Se algum deles parecia insatisfeito, ele encontrava um semblante tão altivo quanto o seu próprio.
"Vesta", chamou seu pai, "você sabe que não ama este homem?"
Olhando para trás por um minuto para o desejo em seu rosto, que agora trazia a solicitude de afeição pessoal, ela derreteu sob ele.
"Não, pai", disse ela, com uma explosão de lágrimas. "Eu amo você."
Ela jogou os braços ao redor dele e beijou-o longa e ternamente, ambos chorando juntos. Ele entrou em um ataque de tristeza que não admitia conversa até que estivesse parcialmente gasto, e finalmente deitou-se com seus cabelos grisalhos dobrados em seu peito arfante, onde a compensação de seu amor tornava seu sacrifício mais precioso.
"Sinto que estou fazendo a coisa certa, pai", disse ela ternamente. "Até agora tive minhas dúvidas. Nenhum outro coração jovem é prejudicado por eu dar este passo; nunca estive noiva, e agora parece providencial, pois eu não poderia ter ido em seu auxílio sem ferir a mim mesma e a outro; e suas dívidas são grandes demais para qualquer um, exceto este homem, resolvê-las. Sua vida tem sido um longo sacrifício por mim, e nenhuma nuvem escureceu sobre mim até este dia, dando-me a primeira chuva de tristeza, que confio refrescará minha alma e fará sua humildade crescer. Oh, pai, alegrar-me-ia tanto se você pudesse responder ao meu sacrifício com uma vida melhor!"
"Deus me ajude, eu irei!" ele soluçou.
"Isso é muito reconfortante para mim. Não enumerarei suas omissões, querido pai, mas se este passo importante em minha vida não prender algumas tendências tristes que vejo em você, a decepção pode me destruir. A intemperança em você — um juiz, um cavalheiro, um marido e um pai — é uma deformidade pior do que o chapéu honesto e fora de moda do Sr. Milburn. Você não se sente mais feliz que meu marido não deva ser um bêbado?"
"Ele não tem esse vício, graças a Deus!" admitiu o Juiz.
"Seja seu melhor exemplo, pai, pois espero vê-lo influenciá-lo a ser gentil comigo, e vê-lo caminhando para baixo aos olhos dele me degradará mais do que carregar seu nome ou compartilhar suas excentricidades. Oh, se você me ama, não deixe sua querida alma escapar do conhecimento de Deus!"
"Ore por mim, querida filha! Meus pés são escorregadios e meus joelhos são fracos."
"Comece a partir deste momento a apoiar-se no Céu", disse Vesta. "É melhor do que a consideração deste mundo. Oh, o que me fortaleceria agora senão a aprovação de Deus, embora eu vá para um cativeiro que não sonhei. Mesmo lá posso levar minha harpa sob os salgueiros, como eles na Babilônia, e louvar meu Criador."
Ela sentou-se ao seu piano e cantou o hino que o jovem tísico, Rev. Sr. Eastburn, compôs na casa de sua avó, tirando-o da coleção episcopal:
"Ó santo, santo, santo Senhor! Brilhante em Teus atos e em Teu nome, Para sempre seja Teu nome adorado, Tuas glórias deixe o mundo proclamar!
Ó Jesus, Cordeiro uma vez crucificado Para levar o nosso fardo de pecados, Tua seja a canção que rola sua maré Ao longo dos reinos do dia superior!
Ó Espírito Santo que vem do alto, Em correntes de luz e glória dado, Tu, fonte de êxtase e amor, Teus louvores ressoam pela terra e pelo céu!"
À medida que sua voz, com uma clareza e doçura quase sobrenaturais, preenchia os dois grandes salões e se esvaía em melodia, ela se levantou, beijou o pai novamente e disse: "Coragem, meu amor! ainda seremos felizes."
Bateram à porta e entrou o jovem clérigo que ela mandara chamar, uma pessoa de aparência juvenil, cabelos cor de areia e grandes olhos azuis, com uma pele clara que se salpicava facilmente de sardas, e um ar de cavalheirismo juvenil sob sua sincera humildade cristã.
"Boa noite, William", falou Vesta; "eu não esperava vê-lo até chegarmos à igreja. Mas sente-se, e eu responderei às suas perguntas. Pai, o senhor deve ir comigo à igreja — o senhor e Virgie. O Sr. Tilghman vai nos casar."
"Ora, Vesta", falou o jovem, enquanto o pai dela saía da sala, "com quem você vai se casar, prima, com tanta pressa assim?"
"Você deixou a igreja preparada, William, como eu pedi?"
"Deixei. O sacristão está lá agora, acendendo o fogo."
"Eu sabia que você era leal como sempre, William, e contei com você. Obrigada, querido amigo! Vou me casar com o Sr. Meshach Milburn às nove horas."
Uma nuvem cobriu o semblante sereno do jovem, embora seus traços retivessem sua doçura habitual.
"Posso casá-la, prima, mesmo que seja com Meshach Milburn", disse ele, "se esse é o seu desejo. Por que você se casa com ele?"
"Não é leal da sua parte perguntar, William, mas eu lhe darei esta resposta: ele me pediu. Ele também é devotado e rico. Para evitar alvoroço, possivelmente alguma oposição, embora fosse em vão, vamos nos casar sem mais avisos, e papai vai me entregar."
Em silêncio por um momento, o jovem reitor exclamou:
"Prima Vesta, vivi para ver você se tornar uma mulher mercenária? A riqueza declarada deste homem a encontrou fria o suficiente para desejá-la, quando o amor lhe foi tão generosamente oferecido por quase todos os jovens de posição nesta região, e de fora — até mesmo por mim?", disse ele, após uma pausa. "A cicatriz ainda está em meu coração, prima. Não, não acreditarei em tal coisa a seu respeito. Existe uma razão por trás do fato."
"William, se você me respeitasse como um dia disse que sempre respeitaria, como à sua irmã, você não acrescentaria esta noite o peso da sua dúvida aos meus outros fardos, mas tomaria minha mão com toda a força da sua, e me elevaria adiante."
"Eu o farei", disse o reitor, engolindo seco. "Embora tenha sido um tempo amargo aquele em que você me recusou, prima, a dor me conduziu aos meus votos no altar onde ministro, e lá tive a assistência da sua bela música, como o anjo que me parece ter visto reservado para mim, em seu lugar, sentada ao seu lado. E sei que este casamento é, da sua parte, puro como o da minha irmã. Não inquirirei mais — que penalidade você está pagando por outro, que mistério eu não posso penetrar."
Ele ergueu as mãos acima da cabeça dela: "A paz de Deus que excede todo o entendimento, permaneça com você, querida irmã, para sempre!"
Ele saiu com os olhos cheios de lágrimas, mas os dela estavam cheios de uma luz celestial, sentindo que sua bênção era justa.
CAPÍTULO XII.
O POVO DE PRINCESS ANNE.
A Taberna Washington, ou, melhor dizendo, a calçada de tijolos que chegava até suas portas e era o local de descanso para todos os vadios adultos em Princess Anne, estivera na maior atividade durante toda aquela tarde de sábado, desde que foi relatado por Jack Wonnell, que se encarregou de ser um espião dos afazeres de Meshach, que o chapéu-de-copa-alta desaparecera na ampla mansão do Juiz Daniel Custis.
Jack Wonnell tinha na cabeça um chapéu de copa alta gasto, exposto a todos os tipos de clima, já que ele tinha o hábito de pescar com esses chapéus de castor e nunca possuíra um guarda-chuva na vida. Ele morava perto de Meshach, na parte antiga de Princess Anne, perto da ponte, e era alvo do escárnio e desprezo do agiota, por tender a tornar ridícula uma excentricidade mútua. Milburn estivera disposto a ser odiado por causa de seu chapéu, mas Jack Wonnell tornava todos os chapéus intempestivos risíveis, tanto mais que ele era quase tão antigo quanto Milburn no uso de seus chapéus de copa alta. Embora não tivesse tais motivos de reverência e severa consistência como seu rico vizinho, ele parecia ter, em sua própria mente e na das pessoas comuns, uma defesa melhor para violar o padrão de gosto do vestuário.
As pessoas diziam que Jack Wonnell, sendo um homem pobre, não podia comprar todas as modas e estava apenas usando uma barganha até o fim; que ele sabia que era ridículo e não atribuía tal presunção ao seu absurdo como aquele sombrio Milburn; e elas preferiam apreciar ele interpretando o Dromio daquele Antífolo, e transformando em farsa a comédia do erro de Meshach.
Jack Wonnell abraçara parcialmente sua barganha pelo exemplo de Meshach. Um sujeito frívolo, sem ambições, infantil, que divertia as pessoas, prestava favores, fazia recados, dirigia diligências, cuidava de jardins, pescava, brincava com os rapazes, cortejava as empregadas brancas pobres, incontinente, inofensivo, ele fora levado a arrematar seu lote de chapéus velhos por Jimmy Phoebus, que dizia:
"Jack, preço de banana! Dura a vida toda! Chapéus melhores que os do velho Meshach Milburn. Você vai expulsar os dele da cidade."
Para sua infinita diversão e dignidade, sua aparição com os chapéus de copa alta atraiu o olhar severo de Milburn e fez a pequena cidade sorrir. A brincadeira continuou até que Jimmy Phoebus, o Juiz Custis e alguns outros incitaram Jack Wonnell, com a promessa de um galão de uísque, a pedir a Meshach que trocasse o chapéu de copa alta pelo de copa arredondada. O olhar intenso de ultraje e ódio, com a ameaça acompanhante que seu conterrâneo devolveu, realmente assustou Jack, e ele prudentemente evitara Milburn desde então, enquanto mantinha uma vigilância tão próxima sobre seus movimentos e paradeiro quanto sobre algum buldogue incitado, propenso a aparecer em qualquer lugar.
Dessa forma, Jack Wonnell seguira Meshach até a esquina do tribunal, onde ficava o banco de tijolos do Juiz Custis — que, ultimamente, fizera poucos descontos — e, do espaço aberto entre ele e o tribunal em seus fundos, ele espiou Milburn pela rua transversal principal, chamada Rua Príncipe William, que terminava exatamente no portão do Juiz Custis. Lá, na quietude do início da tarde, ele ouviu o som da aldrava, viu a porta se abrir e contemplou o Chapéu Vinculado desaparecer na grande entrada. Então, mal acreditando em si mesmo, Wonnell correu de volta para a taberna e exclamou:
"Que eu seja fulminado se o velho Meshach não entrou na casa do Juiz!"
"Você é um mentiroso!", disse Jimmy Phoebus, prontamente, pegando Jack pela nuca e empurrando seu chapéu de copa arredondada para baixo até que ele amassasse sobre seu nariz e olhos. "O que você quer dizer com contar uma lorota dessas?"
"Eu o vi, Jimmy", foi o grito sufocado do herói de chapéu arredondado; "se eu não vi, que eu morra!"
"Por que ele foi lá?"
"Não sei dizer, Jimmy, nem que minha vida dependesse disso!"
"Whoo-oo-p!", gritou Phoebus, balançando seu chapéu de palha velho, ele próprio quase fora de estação. "Se isso for mentira, Jack Wonnell, farei você comer um peixe cru. Levin" — para Levin Dennis — "você deslize até perto da casa do Custis e veja se o velho Meshach não passou pelo cercado, ou desceu pela Rua da Igreja e se escondeu no cemitério, onde ele às vezes vai. Eu ficarei aqui e farei Jack Wonnell prestar contas de tal mentira!"
Levin Dennis, um órfão juvenil, de cabelos cacheados e andar gracioso, subiu a rua transversal, passando pela viela da Igreja e pelo beco dos Fundos, e contornou lentamente a longa fachada de Teackle Hall, saindo pela rua paralela em direção à ponte mais baixa na estrada da Ilha do Diabo, até que pudesse se virar e ver os três edifícios de grandes chaminés de Teackle Hall levantando suas empenas e para-raios à sua vista no lado oposto, as árvores parcialmente despidas permitindo que aquele monte senhorial se destacasse em muito de sua extensão e proporções imponentes. Para não ser suspeito de curiosidade, Levin continuou até a ponte no atracadouro de Manokin e contou os gansos que saíram de um gramado em um cabo salgueiro ali, e foram para a água como uma frota de escunas brancas. Ele subiu a elevação além da ponte e olhou para ver se Meshach poderia ter dado um passeio pela estrada. Em seguida, retornando, ele varreu a vista traseira de Princess Anne, desde a baixa falésia de cedros em outro cabo habitado à direita, que margeava os pântanos de Manokin, até o vale do pequeno rio à esquerda, enquanto ele descia entre o armazém de Meshach e a antiga igreja presbiteriana de Head of Manokin, sentada entre suas lápides, entre seus postes de amarração e seu respeitável presbitério. Nada era visível do proprietário do chapéu distinto.
Então, Levin Dennis retornou mais lentamente ao redor da ala norte de Teackle Hall, olhando para cada janela, como se Meshach pudesse estar lá; mas ele não viu nada exceto o cachorro, que, aos olhos de Levin, parecia inquieto e correu para fora do portão para fazer amizade com ele.
"Então, Turk!", murmurou Dennis, acariciando a cabeça do cachorro, "não é de admirar que você esteja assustado, garoto, ao ver o velho Meshach Milburn entrar."
Teackle Hall, segundo os rumores, foi construído ao final da guerra revolucionária por um tio, ou tio-avô, do Juiz Custis, que veio da Virgínia, algures entre os condados de Accomac e Northampton, e entrou no negócio de construção naval no Manokin, acrescentando algum corso e também operações bancárias, e, uma vez, indo ao exterior, trouxe de alguma residência ducal a planta de Teackle Hall, como o Juiz Custis a encontrou ao tomar posse da propriedade.
Tinha quase sessenta metros de comprimento e teria feito três igrejas respeitáveis, alinhadas, com suas empenas pontiagudas voltadas para a frente, as alas ousadas conectadas ao centro mais ousado por cortinas habitáveis ou colunatas, nas quais painéis de ardósia ou pedra granulada formavam um andar de sótão acima das linhas das janelas, e vergas e soleiras da mesma pedra, com chaves altas, cobriam todas as janelas na superfície multifacetada de todo o bloco imponente, tudo construído com tijolos trazidos em navios da costa oeste, ou possivelmente do Norte, ou da Europa, e pintado na cor de pedra cinzenta.
Sua empena central tinha beirais esculpidos profundamente, e uma base de frontão para escoar a chuva, e uma grande janela circular nesse frontão. As duas poderosas chaminés daquele centro eram paralelas à cumeeira do telhado e erguiam-se quase do meio das duas encostas opostas, indicando quatro grandes lareiras abaixo, e um observatório plano e de galeria baixa sobre o telhado proporcionava vistas de porções da baía em dias claros.
As alas de Teackle Hall tinham chaminés semelhantes, mas mais baixas, a cavalo sobre seus telhados, e árvores da floresta — carvalho, goma, azevinho e pinheiro, com um grande salgueiro e alguns cedros amarelados, e arbustos de rosa e lilás — pontilhavam o gramado gramado. A trepadeira da Virgínia e a hera selvagem subiam aqui e ali até as janelas superiores, e uma porta alta, larga e com painéis, abrindo-se para uma plataforma de pórtico baixa e aberta com degraus, parecia dizer aos visitantes: "Homens de porte e consideração entram por este caminho, mas os inferiores entram por alguma das portas menores!"
Levin Dennis, que nunca soara aquela aldrava, embora tivesse levado muitas vezes seus cágados para a cozinha, olhou com preocupação para a porta onde foi relatado que Meshach Milburn havia entrado, e dificilmente teria ficado surpreso se aquele intruso tivesse aparecido agora em uma das três janelas profundas acima da porta com um tição na mão.
Levin murmurou para si mesmo: "Pessoas ricas, suponho, devem fazer um negócio. Talvez sejam cavalos — talvez não. Sei que não são chapéus."
Ele então virou para a Igreja Episcopal, a apenas um quarteirão de Teackle Hall, e em uma rua entre ela e a rua principal, embora em uma situação retirada, sua frente voltada para longe da cidade, e olhando sobre os campos e fazendas, como um bom pastor que se aquece na lareira com as mãos para trás.
Um edifício de um andar, longo e baixo, de tijolos britânicos, com seu coro semicircular próximo à rua e, adjacente ao coro, uma torre de tijolos mais modernos construída até uma cúpula de sino aberta e uma cúpula nervurada aberta, também de tijolos, encimada por uma cruz dourada; a hera estava densamente verde por todo o coro e corria ao longo do lado da igreja, onde Levin Dennis caminhava sob quatro janelas altas de topo redondo de vidro manchado e aramado, até chegar à empena final ou frente da igreja, parada em contemplação não mundana do cemitério e dos campos dos fundos.
Lá, desde o Congresso da Lei do Selo, ou quando Princess Anne não tinha meio século de existência, a velha igreja tomara seu lugar, de costas para a cidade, reclusa de suas fofocas. Entre suas altas portas redondas, com pequenas vidraças como óculos inseridos em seus painéis, a videira de hera erguia-se em forma semelhante à estampa de O Crucificado, estendendo seus caules e gavinhas para longe da única janela glorificada na empena, em cujas tintas vermelhas cintilava o triunfo de um semblante sangrento. As paredes musgosas, frequentemente raspadas, o pavimento coberto de musgo, os túmulos de mármore esverdeados sob os bordos e abetos mostravam o efeito da sombra, solidão e umidade sobre todas as coisas de tijolo neste clima, onde a madeira já estava ganhando favor como material de construção, mas para o detrimento do pitoresco e de toda a aparência de antiguidade.
Nenhum sinal do impopular habitante da cidade podia ser visto em lugar algum, mas, enquanto Levin Dennis espreitava ao redor da folhagem no pátio, ele avistou um homem que nunca observara antes, e de um exterior alto, barbudo, suspeito e brutal, deitado de bruços no topo de um cofre memorial, com a cabeça e os pés meio escondidos em alguns arbustos de cedro.
"Olá!", gritou Dennis.
"Por que você grita?", falou o homem; "você nunca vem a um cemitério para ter seus pecados perdoados?"
"Não", disse o descobridor de cágados, "não até que eu saiba que tenho alguns pecados."
"O que você está rondando a igreja então, de qualquer maneira?", exigiu o estranho, levantando-se em suas botas, nas quais as calças estavam enfiadas; e ele era um gigante tão ereto, de membros longos e ágil que Levin viu que nunca poderia fugir, mesmo que o intruso pretendesse mastigá-lo ali mesmo.
"Eu não estou rondando, amigo", respondeu Levin Dennis. "Eu estava apenas olhando."
"Olhando para quê, para qual, para quem?", disse o homem, dando um passo em direção a Dennis, que se sentiu não maior do que uma das pernas longas, saltadoras de valas e boas para vadear do outro.
"Bem, eu estava apenas seguindo um homem — isto é, amigo, não exatamente um homem, mas um chapéu."
"Um chapéu?" O homem caminhou até Dennis desta vez e ficou sobre ele como um pinheiro sobre um rebento. "Aqui está seu chapéu", puxando um artigo de palha velho, gasto demais, da cabeça de Dennis. "Nenhum vento está soprando para soprar chapéus para cemitérios. Ou você colocou seu chapéu sob uma galinha aqui dentro, por uma brincadeira?"
Dennis olhou para cima, rindo, embora não totalmente à vontade, mas sua amável falta de inteligência ou medo, que andam próximos, fez sua resposta mais natural ao intruso pertinaz ser um sorriso desarmante.
"Não, homem", disse Dennis, "era um chapéu na cabeça de um homem — o chapéu de copa alta do velho Meshach Milburn. Eu estava seguindo-o."
"Guarde sua conversa!", o homem colocou o chapéu de volta na cabeça de Levin. "Você é um pobre bobalhão, de qualquer forma. Há algum negro para vender por aqui?"
"Oh, esse é o seu negócio, comprar negros? Bem, há muito poucos negros para vender em Princess Anne. A menos que" — aqui um lampejo de inteligência brilhou nos olhos de Levin — "a menos que seja isso que levou o velho Meshach Milburn à casa do Juiz Custis. Ele não vai a lugar nenhum a menos que haja problemas ou dinheiro para ele."
"E onde fica a casa do Juiz Custis, seu paspalho?"
"Ali!", apontando para Teackle Hall.
"Ha! Aquilo é a casa de um Juiz? E negros? Quebrado, também! Bem, não é um gancho para um gatuno. Então, suma! Vá! Onde fica a taberna?"
"Estou indo direto para lá", respondeu Levin, muito aliviado. "O senhor deve ser um ianque, ou algum outro estrangeiro, senhor."
"Não, bobalhão! Estou voltando para Delaware vindo de Norfolk, por barco até a enseada de Somers. Mostre-me a taberna e eu pagarei sua bebida. Vou lhe pagar um trago."
Com a perspectiva de uma bebida, da qual ele gostava demais, Levin liderou o caminho até a Taberna Washington, onde havia um acréscimo material à frequência desde que Jimmy Phoebus gritara para todo transeunte que Meshach Milburn, pelo testemunho de Jack Wonnell, havia realmente ido e desaparecido na porta do Juiz Custis, e quase uma dúzia de habitantes da cidade agora discutiam o porquê e o para quê, quando, de repente, Levin Dennis saiu da Rua da Igreja com um homem com mais de um metro e oitenta de altura, de um par prodigioso de pernas e braços quase tão longos, com um par de olhos azuis frios, desafiadores e inquietos, e com barba e cabelos castanho-avermelhados, grossos e desgrenhados. Observou-se o negro livre, Samson Hat, estando um pouco afastado, lançar um olhar radiante de admiração às proporções atléticas do estranho, que parecia capaz de carregar um boi nos ombros ou ultrapassar um cavalo.
"Olá!", exclamou Jimmy Phoebus, observando o estranho com ousadia, mas com indiferença, finalmente. "Você está fazendo um alvoroço, Levin, também. Onde está Meshach?"
"Não consigo ver sinal dele, Jimmy. Acho que Jack Wonnell acertou, e ele entrou na casa do Juiz. Talvez ele esteja comprando os negros do Juiz Custis. Esse é o negócio deste cavalheiro."
Jimmy Phoebus, ele próprio não um espécime desprezível de homem, deu outra olhada no estranho com seus olhos como cerejas pretas e, aparentemente não mais satisfeito com a inspeção, não deu sinal de reconhecimento.
"Quem não é refinado demais para beber com um comprador de negros", disse o homem, independentemente, "pode entrar e pagar sua bebida, com a minha, pois estou cheio de dinheiro e podre de rico."
Houve uma pausa para alguém tomar a iniciativa, mas Jimmy Phoebus, voltando seu rosto grego grande e largo e testa pequena para o estranho, comentou:
"Eu nunca tomei um trago com um comprador de negros ainda, e, pelos céus! Acho que sou velho demais para começar."
O homem parou e mediu Jimmy com os olhos.
"Humph!", disse ele com um escárnio, "você parece ser um pouco mais do que meio negro também. Se eu estivesse falido, eu o levaria ao mercado e obteria meu preço por você."
"Sem dúvida nenhuma, no que lhe diz respeito", disse Jimmy, sem se alterar, enquanto o homem empurrava Levin Dennis para dentro do bar.
Quer o novo movimento de Meshach Milburn, quer o exemplo do homem estranho, deixaram Princess Anne em uma condição ébria naquele dia. O estranho estava cheio de dinheiro e pagando indiscriminadamente, e a calçada diante do hotel era continuamente assediada pelos vadios, e o bar recebia dinheiro e espalhava o mal. Então, quando, uma hora após o escurecer, o impopular habitante da cidade, evitando a multidão, passou pelo lado oposto da rua, mais perto de seu próprio alojamento, um dos gritos mais altos e unânimes que ele já ouvira em sua experiência ecoou da Taberna Washington.
"Copa-alta! Copa-alta! O velho Meshach está solto. Whoo-o-op!"
"Riam!", pensou Meshach, "até agora eu nunca soube o significado de 'deixe rir quem ganha'."
Ele se sentiu confirmado em sua ideia de se casar com o chapéu Raleigh, e quando viu Samson Hat, Milburn disse: "Rapaz, escove bem todas as minhas roupas. Depois volte para o estábulo e peça que uma charrete esteja pronta para você às dez horas. Àquela hora, parta para Berlin; e traga Rhody Holland de volta com você pela manhã."
"São mais de cinquenta quilômetros, patrão, e uma estrada de areia."
"Não importa. Vá devagar. Escreverei uma carta para você levar. Samson, vou me casar esta noite com a rosa de Princess Anne."
"Só tem uma", disse Samson. "Não a Srta. Vesty Custis?"
"Sim, Samson. Princess Anne agora pode ter algo com que uivar. A pobre garota pode estar solitária, já que, sem dúvida, ela será deixada de lado em todos os lugares por minha causa, e não consigo pensar em uma alma para ser a dama de companhia da minha jovem senhora, a menos que seja Rhody."
"Sim, Patrão, com todo o seu dinheiro o senhor é pobre em amigos; em amigas, o senhor está faminto."
"Você pode ir comigo à igreja", disse Meshach, "suponho que você queira me ver casado."
"Sim, senhor. Isso eu quero! Não perderia isso nem por meu presente de Natal. Suponho que aquela moça Virgie virá com a Srta. Vesty para a cerimônia, patrão."
"Talvez sim. Você não está pensando em amor também, Samson?"
"Bem, não sei, patrão. Virgie é uma bela moça, sem dúvida sou um pouco velho, Patrão Milburn, mas vou ter que cuidar de mim mesmo, suponho, agora que o senhor incendiou meu lugar de encontros. Há uma esposa chegando por aqui agora. Então, se o senhor não disser uma boa palavra a meu favor para alguma das moças da Srta. Vesty, estou praticamente acabado."
"Bem, rapaz", disse Meshach, "você teve a mesma chance que eu: a vantagem. Devo-lhe uma boa quantia em salários, e talvez você consiga comprar uma das criadas da casa Custis, libertá-la e casar-se com ela, ou ser seu dono. Você é um homem livre."
Samson balançou a cabeça gravemente.
"Isso não funciona entre os negros", disse ele. "Negros nunca podem jogar com a vantagem no amor, como os brancos. Eles têm que fazer isso pelo amor em si: pela bondade, patrão."
Antes das nove horas, Milburn e seu negro deixaram a antiga loja junto à ponte da cidade e, passando pela alameda do rio chamada Front Street, entraram na Church Street, caminharam por trás do hotel, evitando seus frequentadores ociosos, e chegaram à igreja em poucos minutos, sem serem notados. As janelas longas lançavam alguma luz, no entanto, mas como era noite de sábado, isso foi atribuído, pelos poucos que notaram, aos preparativos para a manhã de Sábado seguinte. Antes de partir, Samson Hat, observando seu empregador tremer um pouco, perguntou-lhe se um gole de uísque não seria apropriado.
"Não, rapaz; este é um casamento sem vinho. Precisarei de toda a minha inteligência para encontrar meus modos."
Ele entrou na igreja e encontrou-a aquecida, e o ministro já presente em sua sobrepeliz, ajoelhado sozinho no altar. O Sr. Tilghman levantou-se, com seu rosto jovem muito pálido e lágrimas nas faces, e, vendo seu paroquiano negligenciado e o criado, desceu o corredor.
"Sr. Milburn", disse ele, estendendo a mão, "espero felicitar, após esta cerimônia, um noivo de coração cristão, e alguém que cuidará com ternura do raro encargo que lhe coube. Meu esforço será amá-lo, senhor, se o senhor me permitir! A Srta. Vesta é a sacerdotisa de Princess Anne, e se o senhor a tirar de nossa vista e audição, temo que até mesmo as ministrações de Deus nesta igreja pareçam vazias."
"Para mim pareceriam", disse Milburn, "embora sem qualquer desrespeito ao nosso pastor."
"O senhor tem sido um paroquiano fiel", continuou Tilghman, "durante meu breve trabalho aqui, assim como em minha juventude, quando eu pouco sonhava que ocuparia aquela escrivaninha. O senhor sabe, talvez, que foi por causa do amor sem esperança por minha prima Custis que fugi para Deus em busca de consolo, e Ele me fez seu humilde ministro."
"Ouvi dizer que sim", disse Milburn; "ou, melhor dizendo, vi que sim."
"Perdoe-me por mencionar um assunto tão irrelevante para o senhor, mas, embora eu tenha renunciado a qualquer emoção vã por minha prima, a felicidade dela é parte da minha religião, e esta conclusão repentina de seu casamento, sobre a qual fiz apenas uma pergunta, levou-me a recorrer à sua simpatia."
"O que você pede, William Tilghman? Não importa — seu pedido está concedido."
"Como conquistei seu favor?", perguntou o jovem reitor, um tanto surpreso.
Milburn pegou mecanicamente seu chapéu de um banco e segurou-o um pouco para cima.
"Você foi o único garoto nesta vila que nunca chorou por causa deste chapéu."
"Então provavelmente foi algo que passou despercebido por mim. Eu era como os outros garotos, travesso, antes de meu espírito ter sido deprimido por um amor infeliz, e não sabia que era uma exceção aos hábitos deles."
"Foi gratificante ver essa exceção", disse Milburn; "pessoas hostilizadas fazem distinções refinadas."
"Oh, Sr. Milburn, perdoe os garotos! Eles são feitos para o riso, e pequenas causas o provocam, como cães que latem, por saúde e exercício — pouco mais do que isso. O pedido que faço é para que me deixe ser seu amigo, porque fui amigo de sua esposa! A franqueza condiz com minha vocação, e acho que o senhor precisa de um ambiente amigável e cordial para despertar sua utilidade e dar-lhe a liberdade que tirará a restrição de sua vida familiar e, sem diminuir suas boas sensibilidades, dissipará quaisquer outras mórbidas. Isso abrirá um caminho para que Vesta veja sua carreira doméstica, que, de outra forma, poderia se contrair tão rapidamente a ponto de decepcionar ambos. O senhor a viu como o ídolo de seu amplo círculo, livre como um pássaro, mimada pelos seus e pela Providência também, até que a alegria e a graça, a beleza e a saúde, a fé e a esperança vivam abundantes nela, e o senhor é o beneficiário de tudo isso. A sociedade dela, daqui em diante, o senhor deve controlar. Posso tornar-me seu amigo e deixar que meu amor por sua esposa me recomende à sua confiança, assim como o senhor à minha e às minhas orações?"
"Já tenho outro amigo?", exclamou Milburn, com a voz trêmula. "Que riqueza ela me traz nunca antes conhecida! William, você será sempre bem-vindo para mim."
Eles apertaram as mãos sobre isso, e o velho Samson Hat, sentado atrás, foi ouvido rir tão alto, uma risada tão calorosa, que a resposta de Meshach a isso, num súbito tremor pálido, pareceu ligeiramente fora de contexto. Ele foi chamado à realidade, no entanto, pela entrada do Juiz Custis com sua filha e sua criada, Virgie.
Vesta estava muito pálida, mas nem hesitante nem negativa. Pelo contrário, ela sustentava o pai em vez de receber seu apoio, e Milburn viu o rosto cansado e impotente do Juiz, com o orgulho desbotado, e a piedade pela filha absorvendo qualquer outro sentimento de depressão.
Ele vestia seu melhor terno de pano, com as abas do casaco caindo até os joelhos atrás, o corpo cortado quadrado até os quadris, e o colarinho erguido bem alto sobre seu lenço de pescoço de couro inglês esmaltado branco. Seu colete de botões baixos expunha os botões de camisa de cristal e dourado, e um babado, passado a ferro pelas mãos ágeis de Roxy, abria-se pelo meio como espuma do mar sobre uma concha, e babados semelhantes nos punhos eram presos por botões de corrente de pérola e prata. Seu colete era de tecido de Marselha estampado, e polainas do mesmo material cobriam parcialmente seus sapatos; e seu pesado sinete, com seu brasão de armas, pendia de uma fita pálida em seu bolso de relógio. Embora fosse um devedor e estivesse respondendo no tribunal da igreja a uma pesada condenação pessoal e familiar, suas linhas de corpo amplas e fluidas, o queixo profundamente esculpido, olhos cheios e estatura e graça naturais faziam dele uma presença notável e nobre em qualquer lugar.
Vesta Custis, deixando cair um manto de veludo azul ao toque de sua criada, estava com um vestido de festa de seda branca, com o pescoço, ombros e braços nus; e, enquanto ela parava um minuto no corredor, Virgie retirou as sandálias de pano das sapatilhas de seda branca de sua patroa e, removendo seu capuz de pano bordado à mão, um véu branco caiu até sua cauda. A luz baça das lâmpadas de óleo de baleia reunia-se, como os olhos maravilhados de filhos de gente pobre, ao redor do par de diamantes em suas orelhas delicadamente moldadas, mas alertas e generosas. Sua corrente de relógio de ouro fino, dependente duas vezes de seu pescoço, desaparecia na neve de seu busto, sobre cuja deriva ofegante nadava um botão e uma flor de magnólia, cada um com uma folha. O retrato de seu pai, em uma miniatura cuidadosa incrustada em pérolas, jazia mais alto em seu peito, preso por um colar de pérolas. Suas mãos estavam cobertas por luvas brancas, e seus braços estavam sem adornos. Seu cabelo, caindo em cachos escuros ao redor da testa e têmporas, era penteado para cima mais para trás, e então reunido ao redor de um pente de pérolas em tranças altas, e os laços abundantes caíam até seu ombro.
Milburn olhou para os tesouros de seus encantos corporais inigualáveis, nunca até agora revelados à sua vista, e seu esplendor quase o fez sentir medo.
Nunca estivera em um teatro, em um baile ou em qualquer lugar de onde pudesse ter previsto um pescoço de cisne e um busto esculpidos como aqueles, e braços tão brancos quanto os ramos do bordo-prateado, aquecidos com a vida nupcial e a modéstia.
Seus lábios, entreabertos e vermelhos, seus grandes olhos ricos através dos quais uma deusa poderia ter comandado, com suas sobrancelhas negro-corvo, como entradas para as cavernas da sibila de Cumas, sua pequena cabeça portada tão facilmente sobre o pescoço quanto uma pomba sobre um galho — tudo brilhou na alma emocionada e, ao mesmo tempo, vacilante de Milburn, como a revelação de uma divindade.
Enquanto ela avançava, ele falou com ela com aquele instinto ousado ou êxtase que ela observara quando ela se dirigiu a ele pela primeira vez na casa de seu pai, dez horas antes.
"Você se vestiu para mim?", disse ele.
"Senhor, tal como pude conseguir nesta necessidade, pensei em honrá-lo."
"Para mim, parecer tão bela! O que posso dizer? Você é muito adorável!"
"É gentil de sua parte elogiar-me. Devemos esperar, ou está pronto?"
Ele deu-lhe a mão, incapaz de falar novamente, e ela estava calma o suficiente para notar que a mão dele estava agora quente, como se ele estivesse com febre. Seu pai, ao lado dela, estendeu a mão também e pegou a outra mão do noivo:
"Milburn", disse ele, rouco, "isso não é obra minha. Minha filha tem meu consentimento apenas porque é a vontade dela."
"Mais nobre para mim por causa disso", falou Milburn, com o semblante estranhamente corado. "O que devemos fazer, minha senhora?"
"Dê-me seu braço; não esse. Este é o certo. Trouxe um anel, senhor?"
"Sim." Ele tirou do bolso do colete um pequeno e fino anel de ouro, valendo quase meio dólar.
"Era da minha pobre mãe", disse ele.
Sem outra palavra, ela caminhou para frente, seu braço puxando-o, Virgie seguindo atrás, e seu pai fechando a procissão. Samson Hat, sentindo-se desconfortável por não receber nenhuma parte na cerimônia, deslizou pelo corredor até o fogão grande e rígido no meio da igreja, atrás do qual encolheu o corpo, mas manteve a cabeça e as faculdades no centro dos acontecimentos.
O Sr. Tilghman precedera-os em sua sobrepeliz e, assumindo seu lugar no altar, com o semblante pálido como a morte, leu o exórdio com uma voz alterada: "Amados, estamos reunidos aqui, e diante desta companhia, para unir este homem e esta mulher em santo matrimônio."
"Que 'companhia' é esta?", pensou Vesta. "Não apenas estes pobres negros e meu pai; não, sinto atrás de mim, observando, as gerações de nosso orgulho e facilidade impotente, os dignos pretendentes mais jovens cujas considerações e méritos eu fui exigente e particular demais para ver, as horas douradas em que eu poderia ter aprimorado minha mente, com oportunidades brilhantes pelas quais não tive zelo, e que não serão mais minhas, porque não aparara minha lâmpada virgem; e assim dormi durante minha juventude, até que agora desperto ao clamor: 'O noivo vem', e eis! Sim, fui uma virgem tola, e estou surpresa quando meu destino está aqui! Talvez meu anjo da guarda também esteja atrás de mim, a cruz avançada que devo tomar, minha coroa oculta; mas em algum lugar, no meio desta jornada da vida, ela pode me dá-la e dizer: 'Muito bem!'"
"Esta 'companhia'", pensou Milburn, com a cabeça rodando, "reunida para me ver casar! Que companhia? Parece-me sentir, além desses negros, meus únicos espectadores, a floresta populosa observando, as gerações descalças, as ninhadas analfabetas, os pais instintivos, as sepulturas arenosas. Eles expelem minha tribo perdida, e todos gritam para mim: 'Vá, deixe-nos, orgulhoso! desprezador, vá!' No entanto, há uma que vejo, pura como minha noiva, branca como o busto de minha cativa, sua alma toda em seus olhos crentes, dizendo: 'Oh, meu filho, é uma mulher como eu que entrou em sua vida, e seu coração é muito terno, e, pelo amor agonizante de sua mãe! seja gentil com a pobre estranha que você comprou.'"
Ele respondeu: "Eu quero!", em voz alta, e pareceu uma coincidência quase milagrosa que fosse uma resposta à pergunta do ministro, até que ouviu a indagação correspondente feita à sua noiva nos tons baixos, porém mais gentis, do clérigo:
"Tu o obedecerás e o servirás, amarás, honrarás e guardarás, na doença e na saúde; e, renunciando a todos os outros, manter-te-ás apenas a ele, enquanto ambos viverem?"
"Eu quero!", disse a filha do Juiz, clara como música, e o Juiz deu um suspiro longo e profundo, saturado de lágrimas, como se viesse dos poços mais profundos do pesar.
Ele não pôde responder distintamente ao unir a mão dela à do ministro. O ministro perdeu seu ofício e fala por um momento, ao unir a mão dela à do noivo. A escrava irrompeu em um lamento que não pôde controlar, e apenas Vesta permaneceu calma como seu noivo, colocando sua mão fria e úmida na palma de fogo dele, e esperou para repetir a linguagem deliberada da Igreja.
Quando ambos fizeram essa promessa solene, ela alcançou o pequeno anel e entregou-o ao seu antigo amor, o ministro, e Virgie soltou sua luva. O Sr. Tilghman, com suas lágrimas caindo silenciosamente sobre seu livro, passou o anel para Meshach e viu seu minúsculo círculo contornar seu dedo branco, não maior que uma palha, porém formidável como a corrente do mártir. Suas orações foram ditas com profundo sentimento, e ele os declarou marido e mulher. Então, apertando a mão de Meshach, disse ele, com seu rosto juvenil brilhante como a fé poderia torná-lo:
"Meu amigo, posso receber meu beijo?"
Meshach acenou com a cabeça, mas seu rosto estava como uma bola de fogo, e ele mal sabia o que estava sendo pedido. O Sr. Tilghman beijou Vesta, dizendo:
"Prima, seu marido é meu amigo, e o amor e a amizade agora a cercam. Que sua felicidade seja, como sua bondade, mais segura quando você superar dificuldades, como aqueles pássaros que não podem flutuar com perfeita graça até que tenham lutado acima das nuvens."
"Posso beijá-la agora?", disse Milburn, fitando com um olhar selvagem seus olhos ricos.
Enquanto ela obedientemente erguia os lábios, um hálito estranho, quente e rouco, nem natural nem mesmo apaixonado, saiu de suas narinas. O Juiz, olhando para isso — cena nada agradável para ele, a mais bela Custis em duzentos anos sendo devorada diante de sua vista — exclamou em sua alma:
"Meshach está bebendo? Seus olhos parecem ardentes."
Então, após beijar sua filha também, e dizer: "Que Deus o recompense com triunfos e compensação além de nossos medos!", o Juiz disse:
"Milburn, suponho que, na conclusão repentina desta união, não tenha feito preparativos sobre para onde irá; então venha, é claro, para Teackle Hall, e faça dele seu lar."
"É esse o seu desejo, minha querida?"
Vesta respondeu: "Sim. Mas é seu o direito de escolher, senhor."
"Você tem alguns negócios com seu pai por uma hora", disse Milburn; "enquanto isso, preciso de algo em meu armazém e, como ainda é cedo na noite, posso deixá-la por um tempo?"
Ela inclinou a cabeça novamente e, enquanto procediam em direção à porta da igreja, demorando-se lá, Samson aproveitou a oportunidade para agarrar ambas as mãos de Virgie.
"Virgie", exclamou ele, "todo esse beijo está acontecendo e nós, negros, não recebemos nada? Venha aqui, moça bonita, e beije seu velho avô!"
Virgie consentiu sem resistência, até que Samson continuou: "Oh, que pêssego e mel, Virgie! Dê-me outro! Eu digo, Virgie, já que meu patrão e sua patroa foram embora e nos deixaram como dois órfãos, que tal pedirmos ao Sr. Tilghman que nos declare marido e mulher também?" Então Virgie se afastou.
"Samson Hat", disse ela, "o que é isso que você está dizendo? Você deveria ter vergonha de si mesmo. Você é velho o suficiente para ser meu pai!"
"Na verdade não sou, meu amor. Sou melhor que quatro desses novos tipos de pretendentes do Condado de Somerset. Sou um homem livre. Talvez eu liberte você também, Virgie — eu e meu patrão ali. Ele diz que é melhor nos casarmos. Na verdade, ele diz."
"Você é apenas um velho negro impertinente", respondeu a moça. "Você supõe que qualquer moça bem criada aceitaria um homem que ficou rico limpando o chapéu do Coisa Ruim? Você não passa do criado do diabo, senhor."
"Cuidado para que esse diabo não pegue você, então", disse Samson. "Sua criança pobre, tola e crente! Cuidado para que esses lindos olhos negros não chorem por Samson ainda. Ele está destinado a se casar com alguma franguinha, o velho Samson está, e acho que você seria a mais tenra, Virgie."
Virgie, indignada, mas agitada com seu primeiro pedido real, e de um dos homens mais ricos de sua cor em Princess Anne, apressou-se a calçar os sapatos de caminhada de sua jovem patroa e, enquanto todos saíam da feliz e velha igreja, onde a voz de Vesta tantas vezes perfurara, em seus voos de harmonia, uma bem-aventurança que parecia levar sua alma, como uma cotovia, ao portão do céu, aquela
"que, cantando, ainda voa e, voando, sempre canta",
ela viu cair sobre o pavimento do cemitério da igreja o longo e absurdo chapéu lançado pelo luar do noivo.
"Oh, o que ele fará com aquele chapéu agora que se casou comigo?", pensou Vesta. "Ele continuará a me afligir com ele?"
Seu coração afundou, de modo que ela se sentiu aliviada quando ele a beijou novamente no portão da igreja e, dizendo: "Voltarei logo, querida", foi, com seu homem, para Princess Anne.
"Sua charrete está pronta, Samson?", perguntou seu patrão, quando dobraram a esquina do tribunal.
"Sim, patrão."
Neste momento, uma grande multidão de homens, compreendendo toda a população ociosa da cidade, bem como muitos bacanais de sábado à noite do campo e da costa, alguns parados diante da taverna, outros nas calçadas opostas ou reunidos na esquina do tribunal, vendo a figura de chapéu de Meshach elevar-se contra o luar, levantou o grito disperso, que finalmente se transformou em um berro:
"Homem com o chapéu solto! Torre de igreja! Três vivas para o chapéu do velho Meshach!"
Com um minuto de hesitação, como se não soubesse se devia passar pela multidão, Milburn virou para a rua principal, atravessou-a e continuou pela calçada oposta, do mesmo lado de seu domicílio, com as zombarias e piadas ainda continuando.
"Há rum trabalhando nesta cidade a tarde toda, patrão", disse seu fiel negro, "desde que aquele homem alto veio do cemitério com Levin Dennis. Cuidado, patrão!"
Ele mal tinha falado, quando três homens foram vistos bloqueando o caminho, dois deles bêbados, o terceiro feio de bebida, emergindo de um bar que ficava do outro lado da rua da taverna, onde mais bebida lhes fora negada. O primeiro era Jack Wonnell. Ele soluçou, gritou "Torre de igreja!" e esgueirou-se para trás de uma amoreira. O segundo homem era Levin Dennis, mal conseguindo ficar de pé, e sentou-se no degrau do bar, sorrindo idiotamente para cima.
O terceiro homem, elevando-se como um gigante de suas botas, com os braços balançando como trepadeiras soltas, e seu rosto barbudo manchado com cusparadas de tabaco, exalando insolência e desprezo, trouxe a palma de uma das mãos diretamente sobre a copa da surpreendente cartola de Milburn, com as palavras:
"Olá! Aí vem o Cabeça-de-Ganso! Dê um sumiço nessa cartola, Velho Punho-Fechado!"
O chapéu, sendo a idade contra ele, murchou sobre os olhos de Meshach, e o golpe descuidado, inconscientemente poderoso, fê-lo cambalear.
Samson, que absorvera as qualificações do gigante com um instante de admiração, afastou-se imediatamente, vendo seu patrão insultado, e desferiu um golpe com o punho no estranho alto. O homem cambaleou, recuperou-se e tentou agarrar Samson. Aquele pugilista habilidoso dobrou os joelhos, deslizou os ombros para trás e, evitando a garra, levantou-se e lançou o tronco para a frente, com o golpe bem estudado, e plantou os nós dos dedos nos olhos do homem branco. O rufião alto caiu como se atingido por um raio.
Milburn viu tudo isso acontecer em um minuto de tempo, e seu olho, procurando algo para se defender, caiu sobre o pilar de tijolos sob os degraus do bar, onde Levin Dennis sentava-se, estupefato com a cena. Um tijolo no pilar estava solto, e Milburn caminhou em direção a ele. Nesse pequeno intervalo, o estranho robusto recuperou-se, cambaleou para ficar de pé e sacou uma faca.
"O rufião oly você!", ele berrou. "Derrubado! por um negro, ainda por cima! O inferno que te carregue, então!"
Enquanto avançava, ele descreveu um rápido círculo para trás e para baixo com a faca, visando girá-la através das entranhas de Samson, o que ele teria feito — aquele servo valoroso estando sem defesa, e não havendo nem mesmo uma pedra no solo nu para lhe dar ajuda — se Meshach, arrancando o tijolo solto do pilar, não o tivesse apontado para a parte exposta correspondente do corpo do assassino e atingido-o em cheio na boca do estômago. Os olhos do homem reviraram, e ele caiu, como se estivesse morto, sua faca cravada na calçada.
"Deixe-o aí", disse Meshach, com desprezo. "Não há perigo de um cão desses morrer! Se houver tempo, ele se recuperará na cadeia. Suba em sua charrete, rapaz, e fique fora do caminho."
O negro não precisou de aviso, pois a impiedade de atacar um homem branco era proibida em um livro maior do que a Bíblia — o livro da ignorância. Ele desapareceu entre as casas e já estava a uma milha de Princess Anne, conduzindo velozmente, antes que o homem novo tivesse erguido a cabeça do chão.
"Onde está o negro?", ele arquejou, seu rosto pálido pintado por seus olhos injetados. "Que espécie de sujeitos são vocês para deixar um sujeito negro lutar contra um homem branco? Vou arrancar o coração dele antes de sair desta cidade."
Ele olhou ao redor para o grupo que havia atravessado a rua vindo da taverna; Meshach havia desaparecido em sua loja na descida da estrada. Jimmy Phoebus foi o único a falar.
"Comprador de negros", disse ele, "se você estiver por esta cidade de agora até a meia-noite, ou depois da meia-noite de amanhã, domingo à noite, o velho Meshach Milburn o colocará naquela cadeia até a primavera. Pelos céus! Ele descobrirá seus antecedentes, para onde você vai, onde esteve, qual é a sua ostentação e todas as suas trapaças. Você mexeu com a Arca do Senhor desta vez — o Chapéu Vinculado do velho Milburn! Aceite meu conselho e viaje!"
O homem lavou o rosto na bomba da taverna, virou a esquina do banco e desapareceu na noite em direção a Teackle Hall.
CAPÍTULO XIII.
A SOMBRA DO TELHADO.
Enquanto Vesta e seu pai cruzavam a soleira de Teackle Hall, parecia muito querido, porém um tanto temível para eles, sendo recuperado novamente, mas sob a pena de um novo membro da família, e este um intruso. Vesta e seu pai foram para a biblioteca, e ele jogou um pouco de lenha no fogo baixo e acendeu a lâmpada e as velas; então, virando-se, tomou a filha em seus braços e soluçou amargamente, repetindo as palavras: "O que farei! Oh, o que farei!" Ela também cedeu ao luxo do luto, mas ficou sem fala até que ele disse:
"Minha querida, sonhei com o dia do seu casamento muitas vezes, mas não era como este. Música e alegria, desprendimento, um noivo jovem e bonito, todo o nosso círculo reunido aqui vindo do exército e da marinha, do Sul, do Oeste e do Norte, e todos felizes, exceto o pobre Daniel Custis, prestes a perder sua filha!"
"Sua filha não vai embora", Vesta sussurrou; "não é um consolo isso?"
"Eu não sei. É minha filha pura e pobre? Se eu a tivesse visto definhar de tuberculose, dia após dia, como uma lilás moribunda, com seus cachos diminuindo a cada ano até que secasse até a raiz, eu poderia ter chorado em santa compaixão e aprendido com você o caminho que não percorri. Mas, na sua flor da idade, ser colhida por um guarda-florestal, arrancada do meu caule e pisoteada na areia, seu orgulho reduzido, seus gostos ignorados, seu coração arrastado para a cabana de um selvagem e forçado a consultar sua vontade piegas... Oh, o que farei!"
"Não temo meu marido dessa maneira", disse Vesta, abrindo os braços dele. "Minha mente, creio eu, ele antes elevará para coisas sérias, para as quais tenho algum desejo, embora, temo, nenhum talento. Papai, algo me diz que esta vida antiga que levamos, fácil e feliz, confortável e independente, está passando. Nossa linhagem familiar deve aprender as novas lições da era se não quisermos vê-la aposentada e obscura. Não é assim?"
"Temo que seja a verdade de Deus, minha querida. A vida que levamos é apenas um remanescente da dignidade colonial, ou melhor, provincial, à qual a natureza deste governo republicano é hostil. O tabaco, que antes era nosso dinheiro, está desaparecendo desta costa, e trigo e milho não podemos cultivar como o rico e jovem Oeste, que os despeja através do canal que o falecido Governador Clinton viveu para inaugurar. O dinheiro está se tornando uma coisa e não apenas um nome, e captura todas as outras coisas — terra, distinção, talento, família, até mesmo beleza e pureza. O homem com quem você se casou entende a arte do dinheiro e nós não."
"Então não somos impostores, papai, se presumimos ser muito melhores do que nossos verdadeiros superiores? Certamente devemos perseverar naquelas coisas que a era exige, e nela sobressair, para sustentar nosso orgulho."
"Sim, se a raça é de galos de briga, aceitará qualquer desafio, não apenas guerra e política, mas mecânica, comércio, criação de gado, qualquer coisa!"
"Papai, se você pode ver essas coisas que estão por vir tão claramente, por que não pode tomar as medidas sensatas para plantar sua família no lado seguro?"
"Ah! nós, virginianos, sempre fomos os melhores estadistas, mas morremos pobres. Sem ofício manual, com pouca contabilidade e capacidade ilimitada para cargos, previmos tudo, menos nossa própria humilhação, e isso dificilmente admitíamos quando chegava, tanto éramos lisonjeados por nossos intelectos filosóficos. Nosso passatempo mais recente é explicar a constituição para aqueles que estão se saindo muito bem sob ela, embora nossos pais, que a criaram, como Jefferson e Madison, tenham morrido apenas ontem, sobrecarregados de dívidas, e o pobre Sr. Monroe fugiu para Nova York, dizem, para se esquivar dos oficiais de justiça da Virgínia."
"Bem, papai, eu o salvei desse medo. Aqui estão suas notas promissórias para o Sr. Milburn e outros. Sente-se e examine-as cuidadosamente para ver se estão todas aqui!"
Ele as pegou, com um alívio volátil rindo em seu rosto ainda marcado pelas lágrimas, e disse:
"Vamos queimá-las, Vessy."
"Não, senhor, não até que tenha visto todas. Uma única nota faltando lhe causaria a mesma perplexidade, e não há mais nenhuma filha para resolvê-la."
Ele olhou para ela com um sorriso, porém com aborrecimento.
"Você não pretende fazer um Meshach Milburn de mim?"
"Pare, senhor!" disse Vesta. "O senhor poderia fazer pior do que aprender com meu marido."
Algo estranho na expressão dela desconcertou o Juiz.
"Hã!" ele interrompeu, "já tenho um rival, filha? A conquista dele é tão completa assim?"
"Prometi honrá-lo há poucos momentos, e acredito que posso, papai. Tudo o que me diz acrescenta ao meu respeito por um homem que parece ser apenas o que é."
"Talvez você possa amá-lo também?" disse o Juiz, observando-a com uma apreensão um pouco parecida com espanto, um pouco parecida com ciúme.
"Oh, eu gostaria de poder, papai! Isso também prometi fazer, e vou tentar. Mas meu trabalho será um fracasso se você não se reconciliar com o Sr. Milburn. Foi por você que me casei com ele, e para salvar seu nome, sua paz, sua independência e as censuras que esperávamos de mamãe pela perda de seu dote. Ele agora é seu genro, ainda no auge da vida, com o treinamento empresarial que você lamenta não possuir. Comece agora mesmo, papai, e aprenda os hábitos dele. Conte e identifique essas notas!"
O Juiz Custis examinou-as separadamente, passou o número de notas que havia dado em sua mente e disse:
"Sim, ele fez uma restituição justa. Não falta nenhuma."
"Restituição implica que ele o roubou, papai. Um homem justo não falou aí! Cada centavo nessas dívidas está marcado com as feridas do Sr. Milburn e cunhado por seus sacrifícios. Você gastou o dinheiro dele lembrando disso?"
"Não, minha filha, suponho que não."
"Dê-me as notas, papai."
Ela as pegou e sentou-se pensativa por alguns momentos, em silêncio.
"Se eu fosse um homem, papai", disse ela por fim, "eu tentaria aprender senso comercial. Deve ser tão respeitável viver com a mente capaz de ajudar a própria segurança e a dos amigos, e preparar-se para a velhice ou doença enquanto se está forte e saudável. Agora, acho que não deixarei você queimar essas notas até que tenha pago o preço delas! Por favor, escreva uma transferência desta casa, dos servos e de sua mansão para mim, Vesta... sim, Vesta Milburn!"
Ela corou ao pronunciar pela primeira vez seu nome recém-adquirido.
"Ai de mim!" suspirou seu pai, "Vesta Custis não mais. Começo a sentir isso. Bem, Sra. Milburn — darei a você o título — em troca de quê devo transferir essas velhas propriedades para você?"
"Em consideração ao meu reembolso da soma da herança da minha mãe para você em nome dela, pela qual você não lhe deu garantia alguma. Isso não está previsto nessas notas. Tenho apenas a promessa do Sr. Meshach Milburn de que pagará a ela esse dinheiro, arriscado e perdido por você, pai, temo que de forma muito descuidada. É restituição, também, para o Sr. Milburn despojar-se para pagar suas dívidas à mamãe?"
"Não", disse o Juiz, sentindo-se culpado, "isso ele paga por causa de sua paixão por você. Ele pode enganar você nisso."
"Não acredito, porque ele tem sido fiel a mim por tantos anos antes mesmo de eu saber que ele me amava. Um homem que se mantém puro por uma mulher a quem não deve votos, pagará as dívidas de honra do pai dela quando tiver prometido."
O Juiz Custis achou o assunto quente demais para sua conveniência e, corando tanto quanto Vesta, sentou-se e redigiu uma escritura de transferência de sua propriedade para Vesta Milburn, por direito próprio, e em consideração a vinte e cinco mil dólares, pagos à Sra. Lucy Custis por conta de sentença confessada a ela por Daniel Custis.
"Pronto, minha querida", disse ele, entregando-a, "o que você quer com isso? Não tem certeza de um lar aqui enquanto viver, mesmo comigo como proprietário?"
"Não. A tragédia quase terminada aqui pode se repetir, papai, e todos nós ficarmos sem teto se você puder se endividar novamente. Não farei isso — nem mesmo pelo meu marido, e aqui ficará Teackle Hall para proteger a todos vocês do frio se tempos ruins voltarem."
"Você pagou um preço maior por isso, minha filha, do que vale, e você tem direito a isso."
"Além disso, querido pai, se o Sr. Milburn precisar de algum lembrete de sua promessa de reembolsar o dote da mamãe, isso lhe servirá. Ele pretendia que seu presente fosse meu dote de casamento, e se eu fosse transferi-lo para você, primeiro pediria seu consentimento; não em lei, talvez, mas em delicadeza."
"Oh, sim", disse o Juiz descuidadamente, "fico feliz que você tenha bons motivos. No entanto, minha linda, minha última filha... orgulho da minha linhagem! Odeio ver você tão pronta para este negócio — este cálculo e previsão. Não é próprio dos Custis. Temo que este homem, Milburn, tenha lançado sua rede sobre sua natureza em um único dia e anexado você à sua existência sórdida. Neste momento, a coisa redentora sobre você é que você não pode amá-lo."
"Querido pai, pensamentos assim me assaltam também — o orgulho da aristocracia, a lembrança do que foi; mas quero ser honesta e não enganar meu coração ou qualquer pessoa. Caímos de nossa altura; ele se elevou de sua condição; e não há decepção em minha conduta. Ele sabe que não o amo. Em vez de me apoiar em um coração obstinado, rezo a Deus para que derreta minha natureza e a molde à afeição dele!"
Observando-a por um momento com interesse crescente, o Juiz Custis aproximou-se e beijou sua testa.
"Amém, então!" disse ele. "Que você ame seu marido! Farei tudo o que puder para amá-lo também."
"Isso é falado como um homem verdadeiro", disse Vesta. "E agora, pai, boa noite! Esteja pronto aqui para a chegada do Sr. Milburn. Toque para uma garrafa e um pouco de bolo. Não lhe fará mal, após seu jejum, beber um copo de xerez com o noivo."
Ele a beijou e sentiu-a tremendo em seus braços. Quando ela começou a sair, voltou e agarrou-se a ele novamente. Seu rosto estava pálido de medo.
"Oh, Deus terrível!" ele murmurou, "visitar meus muitos pecados sobre este anjo imaculado! Para onde voarei?"
Um passo estava na varanda, e Vesta passou rapidamente pela escada.
O Juiz Custis foi até sua porta apreensivo e em lágrimas. Um homem estranho estava lá, com o olho machucado e sangue pingando em sua barba áspera, semelhante a uma corda. Ele estava embriagado, mas tão pálido que era aparente sob a luz das estrelas.
"Boa noite", disse o homem; "o senhor não me conhece, Juiz Custis? Não importa, sou Joe Johnson."
O Juiz, cujas lágrimas o haviam levado para longe de coisas de memória trivial, olhou para o homem e repetiu: "Joe Johnson. Não o Joe Johnson de Dorchester?"
"Sim, Juiz, Joe Johnson, o traficante de escravos. Já comprei muitos negros de um Custis quando era indelicado vendê-los, Juiz, então eles me deixavam fugir com eles e me amaldiçoavam por isso em público. E isso me tornou impopular, Juiz Custis, e essa é minha situação esta noite."
"Você tem estado brigando, Johnson, suponho", disse o Juiz, com desdém contido.
"Fui derrubado por um negro", disse o homem, com um brilho de ferocidade, retirando a mão do olho ferido, como se inflamasse sua lembrança do golpe ver as gotas de sangue pingarem de sua barba na varanda. "Esta cidade é muito elegante para tolerar um negociante do artigo constitucional, e então eles se voltaram contra mim, quando eu estava um pouco com a cabeça zonza de bebida, e enquanto o negro me socava no olho, um pequeno vilão branco com um chapéu de torre me acertou na boca do estômago com uma pedra. Vim aqui, Juiz, para me deitar na cozinha e dormir aquecido durante o domingo, pois os policiais ameaçam me levar, se me pegarem antes da meia-noite."
"Suponho que você saiba, Johnson, que sou um magistrado, e o refúgio adequado que dou aos perturbadores da paz é a cadeia."
"Não tenho medo desse limbo, Juiz Custis, quando venho até você. A velha Patty Cannon fez muitas boas ações pelo senhor com a gangue de Joe Johnson em épocas de eleição nos distritos superiores de Somerset. Patty sempre disse que o Juiz Custis era um cavalheiro de fibra que retribuía um favor."
O semblante do Juiz, por um instante vazio, iluminou-se com todo o sorriso de um caçador de votos, e ele disse:
"Joe, você é um sujeito terrível, mas a querida velha Tia Patty sempre me defendeu! Suspeito, Joe, que você tenha se chocado com Samson, o empregado de Meshach Milburn, que é um boxeador, embora eu me pergunte como ele conseguiu lidar com sua juventude e tamanho. Claro, não deixarei que lhe aconteça nenhum mal. Você não tem pregado suas peças nos negros de ninguém, Joe?"
"Não, palavra de honra, Juiz! Veja, levei uma carga do Egito pelo Nanticoke até Norfolk e os despachei para Orleens. Disse a mim mesmo: 'Voltarei pelo caminho de Eastern Shore e verei se há negros para pegar'. Então caminhei de Somers's Cove até Princess Anne, e molhei a goela em Kingston e Trappe até me sentir zonzo com a cachaça, e me deitei no cemitério para tirar um cochilo. Tendo acordado antes que meu sono passasse, senti-me mal e irritado, e os sujeitos da taverna, e o negro, e o sujeito com o chapéu de torre, todos me atacaram de uma vez."
"Bem, Joe, pelo bem da Tia Patty, cuidarei de você. Vá até a porta da cozinha, e eu passarei pela casa e direi à nossa Tia Hominy para lhe dar o jantar e o café da manhã, e um lugar para dormir um pouco. Mas você deve ficar fora do caminho e sair silenciosamente no domingo, pois tivemos um casamento na família hoje, Joe, e embora eu não consiga entender sua gíria peculiar, suspeito que o noivo seja o homem que lhe tirou o fôlego com a pedra."
O estranho levantou a mão de seu olho sangrento novamente e contou as gotas vermelhas respingando de sua barba. O Juiz Custis notou sua carranca.
"Ora, ora!" disse o Juiz, "você nunca conseguirá sua vingança desse homem. Ele é forte demais. Não me surpreende que ele o tenha incapacitado, e nunca se meta nas garras dele, Joe; pois se ele souber que você está aqui, serei forçado a enviá-lo para a cadeia esta mesma noite. Fique fora das mãos de Meshach Milburn! Ele tirou o fôlego de você, Sr. Johnson, mas há alguns cujos corações ele arrancou de seus corpos."
"Eu o encontrarei em algum lugar", murmurou Joe Johnson, "mas não em Princess Anne"; e ele puxou seu chapéu desleixado para cobrir os olhos e saiu a passos largos para encontrar a cozinha.
"Oh, o que um dia pode trazer", pensou o Juiz Custis, levantando as mãos para as estrelas de outubro: "Meshach do chapéu ominoso, o hóspede em minha sala: Joe Johnson, o genro de Patty Cannon, o convidado da minha cozinha!"
CAPÍTULO XIV.
O LAR DE MESHACH.
Vesta dormira não sabia por quanto tempo, mas era dia, e lentamente seus olhos se voltaram para o restante de sua cama para ver se estava ocupada.
O noivo não estava lá.
Ela enfiou o pé no chinelo ao lado da cama e, com um passo rápido, passou diante de seu espelho, sussurrando:
"Sonhei com tudo isso!"
A pele fresca e corada, e os contrastes radiantes do cabelo e dos olhos pareciam tão bem-vindos a ela em sua perfeita garantia de saúde, que ela sussurrou novamente:
"Eu sonhei? Ele não está aqui. Oh, estou livre?"
Então, um sentimento de reprovação veio a ela enquanto a mínima lembrança daquele ontem maravilhoso surgia em sua mente, e o voto que fizera de honrar e obedecer parecia ter sido arrependido com muita facilidade. Ela olhou para sua mão, e o pequeno, fino e patético fio de ouro reafirmou sua memória da aliança de casamento, e na sugestão seguinte um rubor percorreu seu ser como um pássaro vermelho nas flores de macieira: talvez ele tivesse escapado de seu aposento furtivamente como viera, enquanto ela, submersa em sono profundo, não percebera.
Um olhar no espelho novamente revelou aqueles rubores repetindo-se, como a Aurora no amanhecer do norte, até que, com uma consciência investigativa, e sua voz elevada acima do sussurro, ela disse:
"Fique quieta, menina tola!"
Abrindo a porta, encontrou Virgie deitada no tapete do lado de fora, envolta calorosamente no xale-cobertor de sua senhora, mas bem acordada.
"Virgie, ninguém passou?" perguntou Vesta.
"Não, senhorita Vessy. Ninguém poderia ter passado por cima de mim, pois minha mente esteve muito desperta, mesmo que eu tenha dormido um pouco. Talvez ele não venha, senhorita Vessy. Talvez esteja envergonhado!"
"Silêncio, Virgie", disse Vesta, "você está falando do seu mestre."
Jogando seu roupão matinal sobre os ombros, a noiva donzela caminhou silenciosamente até o apartamento de sua mãe; a porta estava aberta, a vela noturna flutuando em seu vaso, e a Sra. Custis estava dormindo com seu livro bancário sob o travesseiro.
"Devo acordá-la?" pensou Vesta. "Sim, se não preciso de sua experiência, preciso de sua confiança, e não lhe dar a minha pareceria engano agora."
Vesta beijou sua mãe suavemente e colocou a bochecha ao lado do perfil fino e respeitável daquela senhora enquanto ela acordava, e disse:
"Filha, misericórdia! ora, o que aconteceu com você? Parece que não vejo ninguém há dias, e queria expressar minha indignação até em meus sonhos. Onde você esteve?"
"Oh, mamãe", disse Vesta, tomando a cabeça da Sra. Custis em seus braços, "estive encontrando sua fortuna perdida, que nos preocupou tanto. Ela será devolvida a você, querida — meu marido prometeu fazê-lo."
"Seu marido? Quem você escolheu, que ele é tão liberal com seu dinheiro? Como você pôde receber notícias de Baltimore tão cedo? Agora, não me diga um monte de coisas, pensando em me consolar. Seu pai é um vilão, e meus parentes saberão disso."
A Sra. Custis tirou seu livro bancário debaixo da cabeça e começou a chorar, ao lançar um único olhar ao seu total anterior.
"Querida mamãe", disse Vesta, "vendo você tão miserável ontem por causa do fracasso do papai, e sua parte perdida com ele, aceitei uma proposta de casamento e tenho a promessa de um homem rico de que, acima de tudo, sua parte lhe será paga. Esta casa, e nossa mansão, e tudo como está — os servos, o estábulo e os móveis — pertencem a mim, em meu próprio nome, pagos com as notas promissórias do papai, e por ele transferidas a mim para serem nosso lar para sempre, para que uma reviravolta como a de ontem não volte a cruzar a soleira de nossa porta. Isso não merece um beijo, mamãe?"
"Não acredito em uma palavra disso", disse a Sra. Custis. "Este é outro truque para me enganar. Não a acuso disso, Vesta, mas você é vítima de alguém e de seu pai. Ora, quem pode ser este homem, tão generoso com seu dinheiro vivo? Não é o estilo em Baltimore prometer tão liberalmente quanto tudo isso. Você aceitou o jovem Carroll?"
"Não, nem pensei nele, mamãe."
"Então deve ser aquele tolo viúvo, Hynson, pronto para vender seus negros por uma segunda esposa como você."
"Ele não esteve aqui nem em corpo nem em espírito", disse Vesta; "nunca em meu espírito."
"Isso seria um casamento para dar o que falar: não seria típico de você conceder tanta beleza a um viúvo. Acho que há uma certa vulgaridade em uma garota elegante casar-se com um viúvo. Ela é tão refinada, e ele é geralmente tão polido e sensual. Você teve notícias de Charles McLane?"
"Nenhuma, mamãe; deixe-me aliviar sua mente dizendo que meu marido vive aqui em Princess Anne. Ele era credor do papai, o Sr. Meshach Milburn. Ele me amou em segredo por anos. Vi uma maneira de acabar com todo o escândalo e recriminação casando-me com ele imediatamente, para que a sociedade que conhecemos tivesse apenas um, e não dois, assuntos de curiosidade. Papai me viu casada ontem à noite com o Sr. Milburn, e carrego seu nome neste dia de sábado."
"Sua esposa? Meshach Milburn? O vulgar com aquele chapéu de ator de teatro? Aquele homem! Filha, você brinca com minha pobre cabeça. Ela está começando de novo. Oh-h-h!"
"Mãe, é verdade. Sou a Sra. Milburn. Meu marido é seu benfeitor."
Foi desnecessário dizer mais, pois a Sra. Custis realmente desmaiara.
"Pobre mãe!" pensou Vesta, "confirmo meu medo de que, se ela tivesse sido informada do meu propósito, teria se oposto amargamente."
Roxy foi chamada para ajudar Vesta, e depois que a Sra. Custis recuperou a consciência, suspirou e chorou histericamente, sua filha, sentada na poltrona de balanço da mãe, falou claramente:
"Mãe, compreendo sua decepção com meu casamento, embora eu devesse ser a que reclama e recebe simpatia, em vez de desencorajamento; mas não desejo isso; na verdade, não permitirei que ninguém menospreze meu marido, ou faça comparações odiosas entre minha pobreza e seus esforços. Se existem em meu corpo, ou em minha sociedade, quaisquer méritos para agradar a um homem, eles caíram para ele sob a lei da Providência, de que aquele que tem, receberá. Sinto muito por sua doença, querida mamãe, mas temo que o Sr. Milburn esteja doente também, pois ele não esteve aqui a noite toda, embora tenha me deixado no portão da igreja."
"Espero que a víbora esteja morta!" disse a Sra. Custis, com grande clareza, e deu ênfase sentando-se na cama. Roxy saiu do quarto.
"Espero que ele tenha sido assassinado", disse a Sra. Custis, "e que o assassino nunca seja descoberto. Se houver algum espírito dos McLane restando em meus irmãos e sobrinhos, eles apagarão, em sangue, o insulto deste casamento entre minha filha e o homem que armou uma cilada para a honra de uma família respeitável."
Vesta levantou-se com um rosto pálido e perturbado, ainda que com um pouco do preconceito de sua mãe refletido de volta.
"Ele pode se defender, mamãe. Vou procurá-lo agora, já que ele é tão odiado por minha causa."
Ela voltou ao seu quarto, vestiu um traje de passeio e arrumou-se. Na biblioteca, Vesta encontrou seu pai cochilando em uma poltrona grande, com os pés sobre um sofá de couro e um lenço de seda estendido sobre sua testa, sob o qual estavam os leitos secos de lágrimas que haviam percorrido suas bochechas. Ela viu, com um toque de alegria, que o xerez no decantador estava intocado e os dois copos ainda estavam limpos: ele não havia recaído em seus hábitos, mesmo ao fazer uma vigília durante toda a noite para esperar o genro indesejado. Ele sobressaltou-se quando ela entrou, e então olhou para ela entre seus sentidos atordoados e uma pergunta muda que ela podia entender.
"Ele não veio, papai. E mamãe... oh! ela está severa."
Vesta, tremendo na garganta por um momento, correu para os braços abertos do pai e enterrou o soluço em seu peito.
"Pobre alma! Pobre cordeiro! Pobre criatura!" ele dizia, repetidas vezes, enquanto seu temperamento subia lentamente, o que raramente acontecia nos últimos anos, desde que o prazer e o descuido haviam tirado seu aguilhão masculino, mas Vesta sentiu seus tons mudarem enquanto ele a acariciava, e finalmente o ouviu dizer, roucamente:
"Por Deus!"
"Shiii!" ela sussurrou, levantando a mão para a boca dele.
"Eu vou matar alguém", ele continuou, terminando sua frase, e enquanto ela se afastava, ele caminhou pelo quarto de um lado para o outro, uma nobre exibição de paixão que tinha uma nobre origem, na piedade paternal.
"Não perca seu verdadeiro orgulho, papai, depois de ter perseverado por tanto tempo", disse Vesta. "É domingo. Você acha que ele virá? O que pode ter acontecido?"
"Ou ele virá ou lutará comigo", comentou o juiz Custis. "Tentei ser um homem pacífico e magistrado cristão, ainda que um pobre hipócrita em algumas coisas, mas fui empurrado longe demais. A mesquinhez da minha esposa é pior do que a insanidade e a maldade juntas. Entre ela e este demônio agiota, e minha filha negligenciada atraída para tal casamento, por Deus! Limparei minhas velhas armas de duelo e apelarei à própria injustiça para me igualar."
Se ele parecia elegante em seu pesar sincero, ele era três vezes mais atraente em seu espírito elevado e sincero. Vesta, admirando-o apesar de suas preocupações, não gostava de vê-lo nessa imprudência antinatural.
"Querido pai", disse ela, suavemente, "você não tem motivo para briga."
"Tenho todos os motivos", ele exclamou; "a proposta de casar-se com você foi um insulto, pelo qual eu deveria tê-lo desafiado, e atirado nele se ele recusasse. Agora ele se casou com você e fugiu, tratando você e a honra dos Custis com desprezo. Em meu tempo, eu era o melhor atirador da Virgínia Oriental. Posso matar um homem nesta causa tão facilmente quanto quebrei o braço de um homem, à escolha, nos meus tempos de cortejo. A opinião pública me absolverá sob esta provocação, e posso absolver minha própria consciência, por mais abominável que o duelo seja para mim. Meus genros saltariam para assumir a briga e livrar o mundo de Meshach Milburn."
"Essa é a ideia da mamãe, matar o devedor que tem sido especialmente gentil com ela. Ela diz que enviará chamar o tio Allan McLane, e está mais irracional do que nunca. Papai, seus sentimentos são injustos. Algo que não sabemos aconteceu ao Sr. Milburn. Ele não estava em si o tempo todo na igreja. Agora que me lembro, ele não estava ansioso para que o casamento fosse tão cedo. Fui eu quem apressou a hora. Vamos ser justos em tudo, tendo progredido tanto com a recuperação de nossas fortunas, e vamos aguardar o cumprimento dos eventos com esperança."
"Milburn estava bêbado na cerimônia, eu vi isso", disse o juiz Custis, "mas não era desculpa. Na verdade, que bem pode vir desta aliança violenta? Parece-me que pulamos da frigideira para o fogo. Sinto-me mal, minha filha, e não há como esconder isso."
"Então você está com disposição para falar com a mamãe esta manhã", disse Vesta, "enquanto tem um pouco de vontade e espírito incomuns. Essa hostilidade ressentida que ela está mostrando, temo mais do que sua emoção passageira, papai. Seja firme, porém gentil com ela, e eu irei procurar meu marido. Sim, esse é o meu lugar. Ele pode estar reclamando mais justamente da minha ausência agora, do que nós do seu descaso."
"Você não quer dizer que vai visitá-lo em seu covil?"
"Irei lá primeiro. Teria sido meu lar ontem à noite se ele tivesse exigido. Para dizer a verdade", disse Vesta, corando, "o pobre homem foi tão gentil comigo ontem, apesar de seu objetivo, e tão peculiar, e, ao que parecia, dependente de mim, que minha caridade foi recrutada para ele, e eu quase poderia ter me casado com ele por piedade."
O temperamento do juiz caiu um pouco ao estudar o rubor da filha.
"Maravilhoso! Maravilhoso!" pensou ele consigo mesmo; "aquele pobre sujeito criado no milho já causou mais impressão no orgulho desta garota do que cem galantes cavaleiros. Verdadeiramente, somos uma república, Vesta", continuou ele em voz alta, "e você deixa de lado o caráter dos Custis tão facilmente quanto nosso antigo parente, Lorde Fairfax, aceitou a democracia de seu agrimensor contratado, o Sr. Washington, antes de morrer."
"Deixei o nome Custis ontem", disse Vesta, "embora não seu caráter melhor, espero. Papai, só existe uma lei de casamento; é onde a esposa segue o marido."
Ela olhou para ele com um pouco de malícia, enxugando as lágrimas recentes, e embora ela possa não ter tido a intenção, ele foi lembrado de seu próprio medo de sua esposa.
A tia Hominy entrou agora, tendo sido avisada por Virgie para preparar café, e ela seguiu Roxy, que o trouxe para a biblioteca. A velha cozinheira tinha um olhar estranho, como de alguém que esteve acordado a noite toda em um incêndio, ou em uma "reunião prolongada", e ela enfiou a cabeça como se tivesse medo de chegar mais longe, até que Vesta saiu e a beijou gentilmente.
"Pobre tia Hominy! você pensou que eu fui vendida, ou maltratada, porque me casei? Querida tia velha, nunca deixarei você!"
A tia Hominy tinha uma fisionomia de melancolia profunda, quase vazia, misturada com um medo que, o juiz observou, "ele tinha visto nos rostos de negros que haviam roubado alguma coisa".
"Srta. Vessy", ela gaguejou, finalmente, "você foi medida pelo velho Meshach? Ele pegou você, querida? Isso ele fez, criança! Ele vai enterrar você debaixo daquele chapéu venenoso. Pobre menina! Pobre Srta. Vessy!"
"Oh, tia Hominy", disse Vesta, "ele será um mestre gentil apesar de seu chapéu estranho, e cuidará bem de você e de todas as crianças; pois ele é meu marido, e amará todos vocês por minha causa."
Um olhar mudo e aterrorizado aderiu ao rosto da velha mulher negra.
"Não, ele não será gentil com ninguém", ela ofegou. "Você foi perdida, Srta. Vessy. Você foi medida. Que o bom Deus tente e abençoe você! Hominy ainda não foi medida. Hominy se cobriu de camomila e bebeu chá de lagarto fervido. Hominy foi e virou Quaker."
"O que é Quaker, tia Hominy?"
"Quaker", repetiu a velha, recuando e olhando para baixo, "Quaker é o que o impede de me medir!"
Então, enquanto Vesta vestia seu chapéu e xale, tendo tomado seu café e torrada, a velha serva, deslizando de volta nas profundezas de Teackle Hall, soltou um lamento africano selvagem, como se fosse sobre os mortos, dando à sua voz uma inflexão musical como o tilintar da rima de Juba:
"Adeus, Srta. Vessy! Adeus, bebê da tia Hominy! Adeus, querida jovem patroa! Adeus, minha querida criança, para sempre, para sempre, e oh, para sempre, pequena Vessy Custis, oh criança, adeus!"
As lágrimas chovendo sobre suas bochechas, suas mãos selvagens retorcidas e braços erguidos e forma convulsa, Vesta lembrou por muito tempo, e pensou, ao deixar Teackle Hall com Virgie, que alguma superstição africana, com a ajuda de sonhos, atraíra para uma excitação passageira o cérebro da fiel serva.
Na esquina da antiga Front Street, e estendendo-se quase até a pequena ponte de Manokin, ficava a casa e loja de dois andares de Meshach Milburn, com uma porta para ambas as ruas. Embora plantada baixo, em um vale, ela se destacava como o semblante desafiador de Milburn, sem o apoio de nenhum vizinho.
"Não parece a de uma bruxa, senhorita?" disse Virgie, enquanto Vesta observava seus contornos não pouco pitorescos e carpintaria de tábuas brutas, o telhado apodrecido pelo tempo, a chaminé decrépita na extremidade, a única janela do sótão na empena afiada, as janelas pequenas e escassas nos andares de cima e as portas baixas para a areia.
"Pode ter sido o orgulho da cidade há cinquenta anos, Virgie. Passei por ela muitos dias, olhando com curiosidade travessa pelo chapéu de torre, para mostrar a algum amigo da cidade, sem pensar que um dia teria que entrar na casa. Mas ouça aquele pássaro voluntário cantando tão alto! Onde ele está?"
"Não sei dizer para salvar minha vida. Não está na árvore ali. É o primeiro pássaro a acordar esta manhã, Srta. Vessy, com certeza!"
"Aquela porta maior não está entreaberta, aquela com os quatro painéis?" perguntou Vesta. "Sim, está destrancada e parcialmente aberta."
O sangue deixou o coração de Vesta por um momento, enquanto o pensamento passava por sua mente: "Ele foi vigiado, seguido até em casa e assassinado!"
A ideia parecia explicar sua ausência na noite de núpcias e, como uma chama repentina vista pela primeira vez em um navio em chamas, iluminando o vasto oceano com seus terrores brilhantes, Vesta viu as relações infinitas de tal crime: seu casamento quase secreto, sua custódia das notas promissórias de seu pai, o registro delas nos livros de seu marido, sua última palavra no portão da igreja: "Voltarei logo, querida", e agora, esta morada silenciosa, com sua porta entreaberta ao amanhecer de domingo, antes que a cidade estivesse de pé — eles poderiam carregar a suspeita de um crime terrível pela arruinada casa devedora dos Custis contra seu credor sem amigos.
Este pensamento, pessoal para seu pai, foi imediatamente descartado pelo sentimento por um marido possivelmente assassinado. Se a ideia mal tocou seu senso de si mesma, de que seu tremendo sacrifício fora detido pelo Céu, e sua pureza salva entre o altar e as núpcias pelo derramamento de sangue de seu comprador pelas mãos de algum vingador mais humilde, embora não antes que ela tivesse redimido seu pai das garras de Milburn, essa ideia nunca passou do portal de sua mente; ela a repeliu, entrando, e começou a pensar na presa fácil que seu marido poderia ter sido, odiado por tantos, defendido por ninguém, conhecido por ser muito rico, nenhuma perda para a comunidade, como poderia pensar, em sua ignorância financeira, e seu único guarda um negro robusto notório por brigar.
Acreditando que Milburn merecia melhor do que sua fama atual, Vesta avançou em direção à porta da velha loja de madeira com um espírito de comiseração e reverência, e ainda assim o pássaro selvagem de algum lugar soltou um grito, uma risada, um hurra, o suficiente para transformar seu sangue em gelo.
Quando Vesta empurrou a velha porta temperada, ela arrastou-se pelo chão, e a barra de ferro solta e o cadeado, caindo, fizeram um som que trouxe um eco como o de uma tumba para fora do interior oco.
"De verdade, Srta. Vessy, estou com medo de entrar aí", disse Virgie.
"Você não deve entrar até que eu a chame. Mas ouça aquele pássaro se divertindo em canção! O Sr. Milburn cria pássaros?"
"Não sei dizer, Srta. Vessy. Aquele pássaro é um Mímico. Deve estar lá dentro em algum lugar. Oh, não vá, Srta. Vessy; algo vai pegar você, querida senhorita, com certeza."
Mas Vesta já se fora, seguindo o som penetrante do pássaro nativo, que parecia estar no sótão.
Ela viu um pequeno balcão de pinho, e uma escrivaninha de pinho construída nele, e fardos de peles, um pouco de madeira, uma pilha de madeira serrada e caixas, alguns barris de óleo ou bebidas, e poeira e teias de aranha espessas sobre tudo; e um pouco adiante da porta a luz e a escuridão criavam efeitos estranhos uma sobre a outra, aumentando as distâncias aparentes e mudando as formas; e o sol, agora nascido, fazia cilindros giratórios de poeira dourada em certos buracos de nós na empena oriental, através de cuja película ela viu dois camundongos magros parados no chão, não alarmados, e mansamente observando-a chegar.
O grito do pássaro era transmitido através do assoalho fino de cima com alta nitidez, e cada nota de coisas que cantam parecia ser imitada por ele, desde o grito triunfante do falcão até o alarme chilreado da andorinha, com a mais rápida versatilidade, e até pressa, como se a criatura estivesse experimentando todas as línguas de pássaros, com a esperança de encontrar uma que a humanidade pudesse entender. Era inútil esperar ser ouvida em meio a tal clamor, e Vesta, tendo batido no chão algumas vezes, dirigiu-se a uma espécie de armário, que poderia acabar sendo uma escada, e, com certeza, uma porta abriu-se em seu lado escuro, e a luz de cima cintilou para baixo.
Neste momento, as notas do pássaro cessaram abruptamente, e uma voz, diferente de qualquer coisa que ela já tivesse ouvido em sua vida, mas humana, falou em resposta a uma voz humana mais natural, ambas emitidas de cima.
A segunda voz parecia ser a de Milburn; a primeira voz era algo parecida com ela, mas não parecia nada vindo da garganta de um homem, e a superstição que ela estivera repreendendo em sua serva veio com uma influência emocionante sobre toda a sua natureza. Ela estava prestes a fugir, mas chamou uma palavra enquanto se detinha:
"Cavalheiros! Cavalheiros!"
A voz alta e inclassificável lá em cima respondeu imediatamente:
"Cav! Cav-cav-cav-al! t-chee, t-chee! Cav, tss-tss-tss! Ha! ha! Cavalheiros!"
"Posso subir?" Vesta gritou.
"Venha, p-chee! Venha chee! venha tsee! Veja-me! veja-me! veja-me! Venha p-chee! venha ver! venha me ver!"
A última acentuação, apesar da interferência do pássaro, foi suficientemente distinta para equivaler a um convite, e com um levantar de suas pálpebras uma vez dependente ao céu, Vesta subiu as escadas.
Ela colocou a cabeça em um cômodo grande e longo, que ocupava todo o conteúdo do segundo andar, e era iluminado em três lados pelas pequenas janelas que ela vira do lado de fora. Não tinha carpete ou cobertura de piso de qualquer tipo; o fogo havia se apagado na lareira da chaminé na extremidade, e a atmosfera, um pouco fria, estava derretendo diante do sol que agora entrava por ambos os lados da lareira e revelava claramente cada objeto no apartamento — alguns pinos de roupa, uma mesa de madeira com um prato azul, uma xícara e pires azuis e uma panela sobre ela, e um garfo e faca grosseiros; um grande baú verde, e uma caixa de chapéu de couro; um velho baú de cabelo com cinquenta anos de idade, e quase caindo aos pedaços; silhuetas pretas, em pequenas molduras redondas de ébano, de uma mulher e um homem penduradas sobre a lareira, e entre eles uma silhueta de um rosto que ela não teve dificuldade em reconhecer como pretendido para o seu próprio.
Esticado em uma cama de criança baixa, do tipo chamado cama de rodízio naqueles dias, que poderia ser empurrada para baixo da cama de pernas altas dos pais, jazia o noivo, em seu traje de casamento e sapatos com polainas, com seu chapéu de copa alta sobre a colcha de chita desbotada ao lado dele, e seu rosto tão vermelho quanto a febre ardente pudesse torná-lo.
Vesta apenas verificou os detalhes do inventário do alojamento de Milburn depois, sua atenção imediata sendo atraída para a forma imóvel de seu marido, cujo rosto corado parecia indicar uma morte por estrangulamento ou apoplexia. Ela avançou e colocou a mão sobre ele.
"Sr. Milburn!" ela falou.
"Milburn!" ecoou uma voz de força penetrante, embora mal articulada. Ela olhou ao redor com espanto, e não viu ninguém.
"Marido!" Vesta falou, mais alto, inclinando-se sobre ele.
"Rido! rido! Veja! veja!" gritou a voz lasciva, quase ao seu cotovelo.
Vesta, com uma das mãos na testa do homem indefeso, virou-se novamente, quase indignada, pois o tom parecia abordar algum senso de negligência ou vergonha nela, do qual ela não fora culpada. Ainda assim, nada era visível.
No canto distante do quarto havia uma escada de mão que levava a um buraco no sótão acima; mas este não era o local da interrupção, pois ela ouviu a voz agora vir como da chaminé na extremidade oposta do quarto, mais perto da cama, e acompanhada de um bater de asas e arranhões, como se algum espírito maligno, com as garras de um rato ou de um morcego, estivesse tentando entrar onde o homem prostrado jazia no leito do esquecimento.
"Meshach! Meshach!" soou o grito semi-humano, "Hoo! hoo! Vesty! Vesty! Doce! doce! doce! Ha, ha! Veja-me! Veja-me! Meshach, ele! Vesty, ela! Ela! ela! ela! Hoot! hoot! ha!"
Mudando rapidamente sua visão, com seus ouvidos não menos que seu coração formigando com o uso de seu próprio nome, Vesta viu na lareira de madeira empoeirada um pássaro comum de cor cinza, com traços de marrom e preto em suas asas, e um peito esbranquiçado, e ele estava muito agitado, como se pretendesse voar sobre ela ou sobre algum outro intruso que ela não podia ver.
Seus olhos, de pupilas negras sobre globos oculares amarelados, cintilavam com atividade nervosa. Ele lançou-se ao ar acima da cabeça dela, proferindo sons de tamanha riqueza suave e tal infinita fecundidade de modulação, que o velho casebre quase explodiu com um canto inebriado, combinando alegria, boas-vindas, medo, desafio, superstição, horror e epitalâmio, tudo junto, como um Orfeu enlouquecido que perde a continuidade de suas notas douradas.
A mandíbula superior do pássaro era recurvada como a de um falcão, a inferior era afiada como uma lança, e entre elas emitia-se aquela melodia enfurecida, a cadência e o epíteto que o espírito do velho Patrick Henry poderia ter migrado para dentro, vindo de seu túmulo nos bosques da Virgínia. De repente, ele lançou-se de seu vórtice de canção sobre a cama do homem doente, com um pulo espasmódico e um rápido abrir e fechar da cauda, como o leque de uma beldade perturbada, e de lá pousou sobre o chapéu de copa alta de Milburn, e com um esforço convulsivo de sua garganta e corpo, como se estivesse em trabalho de parto sobre-humano, trouxe à tona, tão distinto quanto um homem poderia falar, as palavras:
"'Sband! 'sband! Vesty! Vesty! Sweet! sweet! Come see! come see!"
Vesta, com um movimento rápido e experiente, agarrou o pássaro, alisou-o contra seu seio e acalmou sua excitação.
Ela tinha ouvido verificar o que Audubon professara, e que publicara recentemente na bela edição de suas obras à qual seu pai era assinante, que alguns diziam que o pássaro-zombeteiro americano podia imitar a voz humana, embora o naturalista observasse que ele mesmo nunca ouvira o pássaro fazê-lo.
A presente verificação, pensou Vesta, do poder supremo do pássaro-zombeteiro, poderia ter surgido de sua excitação diante da condição silenciosa e impotente de seu mestre — aquele mestre que dissera a Vesta que nenhum pássaro nos bosques jamais resistira a seus encantos e influência mística.
"Se isso for verdade", disse Vesta a si mesma, "não há perigo de este animal de estimação vociferante escapar se eu o colocar para fora da janela até que eu possa ver se seu mestre fala ou vive."
Então ela levantou a janela e lançou o pássaro-zombeteiro para o ar; ele desceu e caiu no velho salgueiro abaixo, e lá iniciou um concerto do qual a manhã de sábado poderia ter se orgulhado, quando, nos campos de milho, o Salvador de pés livres ia colhendo as espigas leitosas. Vesta não pôde deixar de parar um minuto e ouvir.
As notas líquidas perseguiam-se em círculos de harmonia vertiginosa, como se anjos estivessem brincando de esconde-esconde nos ramos azuis do ar, eludindo-se uns aos outros em pureza de coração, perseguindo-se com amor ávido, suspirando louvor e felicidade à medida que seus corações supernos emitiam música no brilho do êxtase, e carregando para o alto as mais adoráveis emoções da terra em simpatia anelante pela natureza. Nenhuma língua, agora, que Vesta pudesse identificar, estava entrelaçada naquele labirinto de canção matinal, que desafiava, com sua plenitude e peso dourado, as torrentes de sol, combinando luz com som, ambos espontâneos e rivais pelos favores da atmosfera suave. Cantando com todo o seu coração, superando tudo o que conhecia, esquecendo a imitação na improvisação selvagem, observando sua janela enquanto dançava sobre os galhos e flutuava no ar, consciente de que ela a ouvia enquanto gorjeava e tralhava em sua direção, e soava cada flauta e trombeta, virginal e clarim, oboé e castanhola, na orquestra de seu seio rústico, a ode do pássaro-zombeteiro parecia quase sobrenatural nesta manhã para Vesta, e ela pensou consigo mesma:
"Oh, que música de casamento na catedral de Baltimore poderia igualar isso? E este pobre homem a recebe como seu epitalâmio, sem custo, tão verdadeiramente como se a natureza estivesse saudando minha vinda a ele no espírito do velho poeta:
"'Agora tudo está feito; trazei a noiva de volta ao lar; Trazei o triunfo de nossa vitória; Trazei convosco a glória de seu ganho, Com alegria trazei-a e com júbilo: Cantai, vós doces anjos, cantai Aleluia, Para que todos os bosques possam responder, e vosso eco ressoar.'"
Aliviada da agitação do pássaro-zombeteiro, Vesta agora dedicou toda a sua atenção ao marido; e o calor elevado de seu cérebro e circulação, e seu resmungar, como delírio, pareciam indicar que ele tinha um ataque intenso de febre intermitente. Ela ouviu as palavras várias vezes repetidas por ele: "Eu virei logo, querida!" e a simplicidade de sua devoção a ela, por mais que não fosse amado, tinha tal sabor de pathos que as lágrimas brotaram nos olhos de Vesta.
"Pobre alma!" disse ela, "vai demorar muito até que eu possa amá-lo. Ali, sua fome deve ser duradoura. Mas meu dever não é menos claro de ficar ao seu lado e cuidar dele, como sua esposa."
Com essa conclusão, ela examinou Milburn cuidadosamente, para ver se algum ferimento ou sinal de violência, seja por acidente ou por um inimigo, aparecia nele, e não encontrando nenhum, e ele o tempo todo divagando em seu sono, ela subiu a escada e espiou no sótão, para ver se seu criado poderia estar lá. A cama de Samson, como ela supunha ser, não fora perturbada, e assim, descendo, ela levantou a janela sobre a porta maior pela qual entrara, e acenou para que Virgie subisse.
"Pegue esta caneca de estanho", disse ela à quadrumana, "e vá até a nascente, aqui perto, e traga-a para mim cheia de água."
Então, enquanto a menina saía saltitando, Vesta encontrou um pedaço de papel e escreveu um bilhete ao pai, dizendo-lhe para vir até ela; e para a menina, quando ela retornou, sua senhora disse:
"Quero que você pegue um rolo de carpete de retalhos novo em Teackle Hall e mande trazê-lo aqui, para estender neste chão. Envie-me, também, um par de nossos atiçadores de latão e embale em uma cesta um pouco de vidro, louça de mesa e linho. Diga ao papai para trazer uma de suas próprias camisas de dormir, e para tirar meu retrato na sala de costura, embrulhá-lo e mandá-lo enviar. Devo ter a caixa de remédios da mamãe e um carrinho de mão com gelo; e deixe Hominy fazer um chá forte e torrada com água quente. Virgie, não se esqueça de que este cavalheiro doente é meu marido e parte de nossa própria família!"
O rosto da menina preservou seu respeito com dificuldade ao ouvir a última parte da frase, mas ela respondeu ao que entendeu ser um aviso, dizendo:
"Senhorita Vessy, eu nunca conto histórias para ninguém."
"Não, querida, você não conta. Eu apenas temi que você pudesse esquecer a visão muito diferente que devemos ter do Sr. Milburn em relação à sua vida anterior aqui."
Sendo deixada sozinha novamente, Vesta pegou a caneca de estanho com água da nascente e, levantando a cabeça do homem perturbado, deu-lhe de beber, e, enquanto ele abria os olhos para ver quem era, ela o ouviu dizer, com um suspiro articulado:
"Paraíso."
Com o restante da água e seu lenço, ela lavou a pele quente dele e a manteve úmida, e murmúrios intermitentes, como "Querida!" "Anjo!" "Bela dama!", vinham de seu cérebro errante enquanto a percepção e o veneno lutavam por sua mente. O senso inato na mulher de felicidade após praticar boas ações e ser apreciada era acompanhado por uma certa exaltação intelectual, e até diversão, por ter testemunhado o que era totalmente novo para ela — a vida da classe mais humilde de pessoas brancas. Ela olhou para a silhueta destra de si mesma, cortada, provavelmente, de memória, há muito tempo, pelo homem, sem dúvida, que nunca a conheceu até ontem, e, adivinhando que os perfis companheiros eram sua mãe e seu pai, ela exclamou mentalmente:
"Não consigo ver nada de insincero na declaração deste homem para mim. Aqui estão todas as provas de seu profundo apego a mim muito antes de ele forçar meu nome sobre papai com tal aparente insolência. Se papai pudesse ver essas provas com o interesse de uma mulher, ele teria nelas um pedido de desculpas completo. Aqui, também, está o pássaro que canta meu nome. Que força de prepossessão o mestre deve ter tido para fazer o aluno emplumado repetir o som de 'Vesta' e me chamar de 'doce!' Que recursos, também, sem o uso de dinheiro ou ajudas sociais! Ele conhece a história do nosso início inglês, enquanto nós fazemos disso uma ostentação ociosa; mas para ele, Cromwell e Milton, Raleigh e Vane são homens de hoje. Ah!" pensou Vesta, "acho que vejo agora um daqueles puritanos em meu marido, dos quais ouvi dizer que estavam espalhados pela Virgínia. Nós somos os Cavaliers. Ali está o Roundhead, até mesmo com o chapéu de Rei James."
Enquanto era levada adiante nessas probabilidades, Vesta pegou o recatado chapéu velho e examinou-o sem qualquer superstição, e refletiu:
"Será que exageramos nas ninharias? Por que este homem deveria ser tão ridicularizado porque cobre a cabeça com um chapéu velho? E daí? Suponha que isso mostre alguma vaidade ou excentricidade, por que há mais mérito em encobrir isso do que em expressá-lo no traje? Os estilos que usamos hoje são a zombaria até dos jornais atuais, e o que será pensado deles daqui a cinquenta anos, quando as revistas de moda me mostrarem como pareço — a inveja do meu momento, o susto dos meus netos?"
Com o rosto corado, ela colocou o chapéu na caixa de couro e fechou-a.
O Juiz Custis subiu as escadas escuras pouco depois e, assim que olhou para Milburn, exclamou:
"As maldições voltam para casa para descansar! Foi apenas anteontem que eu disse, na presença do negro de Meshach: 'Que a febre o atinja e o suor bilioso da lagoa do moinho de Nassawongo!' Ele dormiu perto dela naquela noite, enquanto eu me revirava em miséria. Na noite seguinte foi a vez dele. Filha, ele tem a febre intermitente biliosa, o legado de todos os seus pais. Ele se expôs, suponho, extraordinariamente naquela noite, e ouvi dizer que ele queimou a velha cabana pela manhã. Agora ele vai queimar, em memória disso, pelas próximas dez semanas; pois ele tem, suspeito, pelo horário do dia em que a queima e o delírio ocorreram, o que é chamado de tipo quotidiano duplo da febre, com dois ataques nas vinte e quatro horas."
"Pobre homem!" exclamou Vesta.
"Agora posso explicar sua aparência na cerimônia de casamento ontem à noite. A febre estava nele, mas ele passou por ela com determinação, e, provavelmente, retornando aqui para obter algum alívio, ele simplesmente caiu sobre aquela cama, e sua cabeça o deixou por algumas horas. O paroxismo vai embora durante o sono e retorna pela manhã; então, antes que ele pudesse sair hoje, mesmo que pudesse andar, para se apresentar em Teackle Hall, outra febre veio, e uma furiosa também, e ele terá sorte se sobreviver a quarenta dias de febre, com provavelmente oitenta suores nesse tempo."
"Ele deve ser medicado imediatamente, papai."
"Bem, eu sou médico bom o suficiente para a febre biliosa. Ele precisa de muita limonada gelada, banhos frios e gelo para chupar quando a febre estiver nele. Quando os calafrios intervirem, ele precisa de cobertores, garrafas quentes nos pés e chá quente, ou algo mais forte. No descanso entre os ataques de febre e calafrio, ele precisa de calomelano e casca peruana, e se esses episódios delirantes continuarem, ele pode precisar tanto de sangria quanto de ópio."
"Aqui estão algumas das coisas de que ele precisa imediatamente, então", disse Vesta, enquanto um homem branco alto que ela nunca vira antes subia as escadas com Virgie, trazendo um pouco de gelo de Susquehanna em um cobertor, e um rolo de carpete, e outros artigos que ela havia pedido. O rosto do homem apresentava um grande hematoma que aumentava sua aparência selvagem.
"Juiz", exclamou o estranho, "estou fazendo um pouco de trabalho para pagar minha hospedagem. Quem é seu soprador? Ele vai me conhecer quando me vir na próxima vez."
Seguindo os olhos do estranho, Vesta e seu pai viram Meshach Milburn, meio levantado da cama baixa, olhando para Joe Johnson como se tentasse alcançá-lo. Seus lábios se moveram, ele articulou parcialmente:
"Peguem o... canalha... ele!"
"Joe", disse o Juiz, "saia! Ele reconhece você como o agressor de ontem. Não hesite: veja como ele encara você!"
"Oh, é o palhaço com o chapéu de torre, aquele que me acertou com o tijolo", disse o estranho, em voz baixa. "Então eu o encontrei. Ah! isso é perfeito!"
Enquanto o homem alto começava a sair, a fisionomia de Milburn relaxou, ele divagou novamente em sua cabeça e caiu de volta na cama.
"Eu lhe disse que ele era um odiador obstinado, Sr. Johnson", comentou o Juiz.
"Esses tremores são o equivalente pelo hematoma que ele me deu — isto é, até que ambos cicatrizemos. Ele pintou as bandeiras de todas as nações no meu estômago, Juiz. Mas um golpe é curado por um golpe!"
Com um olhar de cálculo admirado para a menina Virgie, Joe Johnson arrastou sua figura longa escada abaixo, como um poste.
"Que gigante brutal", disse Vesta; "e como ele veio fazer nossas tarefas?"
"Bem, a Tia Hominy não tinha ninguém para trazer a carga do carrinho de mão, e este homem disse que viria, e ele viria, Senhorita Vesty, então eu não pude dizer nada."
"Ele é um homem de muita influência", disse o Juiz, inquieto, "na parte alta do nosso condado, e em Delaware. Ontem à noite, depois do casamento, ele deu um tapa no chapéu de Meshach, e o velho Samson o derrubou, e ele teria matado Samson, ouvi dizer, se não fosse pelo seu noivo, que o derrubou com um tijolo oportuno. É uma equipe difícil de passar em uma estrada estreita — Meshach e Samson; hein, Virgie?"
"Estou feliz que o velho Samson o venceu, de qualquer maneira", disse a bonita quadrumana, mostrando seus dentes brancos.
"Oh, que problemas esse chapéu não nos trará!" pensou Vesta; e então falou: "Se o Sr. Milburn estivesse forte, acho que ele dificilmente deixaria aquele homem sair do condado antes da noite."
"Bem, filha, o que você vai fazer com esses artigos que ele trouxe?"
"Eles são para tornar este quarto confortável. Veja, ele tem meu retrato aqui, cortado por suas próprias mãos: quero colocar um melhor diante dele: ajude-me a pendurá-lo, papai!"
Em poucos minutos, o brilhante retrato a óleo, pintado recentemente pelo Sr. Rembrandt Peale, recebia a luz do sol em suas bochechas morenas quentes, à vista do noivo, e o espesso carpete de retalhos aquecia o chão, e Virgie fizera uma segunda viagem a Teackle Hall e trouxera de volta a cadeira de balanço da dama que Milburn tanto prezava, e artigos de toalete, e um pouco de pano escuro para esconder as tábuas nuas em alguns lugares, e o velho sótão logo assumiu uma aparência razoável de vida habitável. Virgie fez o fogo e os atiçadores de latão receberam a chama alegre, enquanto Vesta adoçava a limonada depois que seu pai cortara e espremera os limões, e adicionara um pouco de magnésia para fazer a bebida espumar.
"Realmente", disse o Juiz Custis, "esta toca miserável assume a forma rudimentar de um lar. Suponho que haja agora mais confortos à vista dele do que toda a raça de Meshach já coletou. Qual é o seu próximo passo, Vesta?"
"Ficar bem aqui, querido papai, até que seja seguro e conveniente levar o Sr. Milburn para casa."
"Oh, loucura! Isso vai causar escândalo e ser repulsivo aos meus sentimentos. Este sótão acima de um antigo bar não é lugar para você: a notícia se espalhará de Chincoteague a Arlington. Todo Custis que vive me censurará e a banirá."
"Acho melhor que o senhor veja o Sr. Tilghman antes do culto, papai, e faça o casamento ser anunciado do púlpito esta manhã: isso resolverá a agitação antes da noite. Quanto a ficar aqui, meu lar, o senhor sabe, é onde ele precisa de mim. Pela vontade dele, eu teria que ficar aqui completamente. Mas desejo fazer isso, querido pai. É da maior necessidade para minha natureza melhorar meu relacionamento com meu marido enquanto ele está doente, para que o casamento apressado que fizemos ainda possa ter seu período de conhecimento e bom entendimento. Quero sondar as possibilidades da minha felicidade. Ele será menos meu mestre agora do que em sua força e posse. Talvez..." a voz de Vesta caiu, e ela se virou para olhar o noivo, cuja febre ainda consumia seu juízo — "talvez eu possa influenciar seu traje — sua aparência."
"Você quer dizer o topo de torre!" exclamou o Juiz Custis, irritado.
Ao som alto desta palavra familiar, os ouvidos do homem febril foram perfurados como se através de algum ventrículo sempre aberto, como uma ferida antiga.
"Topo de torre! Quem gritou 'topo de torre'?" ele murmurou. "Oh, vocês não veem que estou casado? Ela ouve. Oh, poupem e tenham pena dela!"
Ele divagou de volta para o mundo miasmático, deixando-os todos tocados, porém oprimidos.
"Como a própria pedra de sílex se desgasta diante da gota d'água", disse finalmente o Juiz Custis; "seu coração obstinado foi machucado por aquele apelido. Em público, ele nunca pareceu recuar diante dele; mas você vê que isso infligiu uma ferida que nunca cicatriza. Quem não tem seu abutre?"
"E quão injusto perseguir este homem com tal inospitalidade frívola por tantos anos", exclamou Vesta, seus olhos esplêndidos brilhando. "Nenhuma consideração foi dada às suas razões privadas, sua piedade familiar ou seu gosto austero, talvez; pois ele deve ter um motivo para seu guarda-roupa, sendo esta, ao que parece, a única coisa sobre a qual não pode haver independência. O senhor ouviu, papai, o sentimento dele por mim ainda agora? Estranhamente, minha própria mente estava pensando naquele chapéu. Ele parece ser maior do que as próprias torres das igrejas: ele se ergue entre o povo e o culto, sim, entre nós e a Caridade, e a Fé — eu quase diria a Esperança também."
"O povo de cor diz que aquele chapéu ele tem que usar, porque o diabo faz com que ele o faça", disse a Virgie, ágil e de pés leves; "Tia Hominy diz que o Homem Mau não o deixaria ganhar mais dinheiro se ele não fosse à igreja com aquele chapéu. Algumas das pessoas brancas também dizem isso."
"Você não acredita nessas histórias tolas, Virgie?" perguntou Vesta.
"De fato, não acredito que nada que a senhora diga seja uma história, Senhorita Vessy. Hominy acredita. Ela está quase morrendo de medo sobre o Sr. Milburn vir para a casa, e ela deixou todas as crianças quase loucas de medo."
"Pobre alma escura e ignorante!" disse Vesta; "ela, no entanto, é mais desculpável do que esses homens adultos, cujos preconceitos contra um artigo de vestuário são tão pagãos em caráter quanto sua superstição de fetiche."
"Se ele é um bom homem para a senhora, Senhorita Vessy", disse a escrava, "eu vou pensar que o Homem Mau não tem nada a ver com ele. Se ele tratar a senhora mal, eu vou pensar que o Homem Mau tem."
"Às vezes sinto como se os homens devessem ter sido deixados selvagens, como os animais", disse o Juiz, enxaguando a boca de Milburn com um pedaço de gelo, "pois os obstáculos à liberdade levantados pela moda e pela civilização são asiáticos em seu despotismo. Pense nos impostos que pagamos à moda quando recusamos menos aos reis. Pense na aristocracia baseada no traje, depois de a termos formalmente extirpado por estatuto! Pense na influência que os fabricantes de botas e costureiras da Europa, procedentes das cortes que renunciamos, exercem sobre nossos Presidentes e Senadores e, através das mulheres deste país, sobre todos os homens da terra! Um milhão de mulheres que não sabem que existem duas câmaras do Congresso sabem exatamente que chapéu a Duquesa d'Angouleme está usando, e como Charles X. em Paris amarra sua gravata. Assim, o diabo sempre consegue um verme em cada maçã. A Revolução Francesa aboliu a feudalidade, títulos, grandes propriedades rurais, e apenas omitiu abolir a moda, e esse verme — um bicho-da-seda que é — está devastando o governo republicano em toda parte, usando as mulheres para nos infectar."
"No entanto, na natureza da mulher", disse Vesta, "está o amor pelo traje tão fortemente quanto o amor pela mulher está no homem. Algum propósito justo está nele, papai — ornamentarmo-nos como os pássaros, e deixar a arte nascer."
"Deus conhece seus próprios mistérios", disse o Juiz Custis. "Mas Vesta, vá para casa comigo para seu próprio lar confortável, e deixe Virgie ficar aqui para vigiar."
"Mestre, tenho medo de ficar aqui", exclamou a menina, aproximando-se de sua jovem senhora.
"Então eu ficarei e serei enfermeiro", disse o Juiz. "Não tema! Darei a ele apenas remédios saudáveis, qualquer veneno que ele tenha dado a mim e aos meus. Você fique em Teackle Hall, minha preciosa criança! Na verdade, devo ordenar isso."
Vesta sorriu tristemente e apontou para seu marido.
"Ele me comanda agora, papai. O senhor foi um mestre indulgente demais e me mimou. Não, Virgie e eu ambas permaneceremos, e o senhor concilie a mamãe. Tudo está indo bem. Realmente, estou feliz e grata ao meu Pai Celestial por Ele estar suavizando o caminho tão gentilmente, que eu pensei que seria tão difícil."
"Oh, as condições desta doença são repulsivas, minha filha. Você é uma dama."
"Não, eu sou uma mulher", disse Vesta; "aquele homem e eu devemos ver um ou o outro morrer. O senhor não sabe como é fácil para uma mulher cuidar de um homem. Embora o amor pudesse tornar a tarefa mais grata, a gratidão fará muito para adoçá-la. Ele me amou e tirou a sombra da sua velhice por minha causa. Devo deixá-lo aqui para sentir que o desprezo? Não."
Ela beijou o pai e entregou-lhe a bengala.
"Volte esta tarde, meu querido", disse ela a ele.
"Nada na terra é como você!" exclamou o velho. "Temo que você não seja minha."
"Sim", disse Vesta, "o senhor está cheio de bondade, por onde quer que tenha se desviado."
Enquanto o som de seus pés se afastava da porta lá embaixo, o homem doente, com um suspiro como de fogo ardente, abriu os olhos e olhou em volta. Eles caíram sobre o retrato dela.
"O que é aquilo?" ele murmurou; "eu não sonhei nada parecido com aquilo, agora há pouco."
"É o meu retrato. Estou aqui", disse Vesta, debruçando-se sobre ele. "Não me conhece?"
"Quem é você, cara senhora?" ele respirou, com as órbitas oculares enfraquecidas pela febre e a mente lutando para chegar aos seus olhos dilatados, "eu a conheço?"
"Sim, eu sou Vesta — eu era Vesta Custis. Eu sou sua esposa."
Seus olhos se abriram amplamente, como se ouvisse alguma notícia maravilhosa.
"Esposa? O que é isso? Minha esposa? Não."
"Sim, eu sou Vesta Milburn, sua esposa."
Ele pareceu se lembrar e, com compaixão por ele, ela se inclinou e o beijou.
"Deus a abençoe!" ele suspirou e mergulhou novamente nas sombras do Upas.
Nesse minuto, o tordo voou pela janela aberta, esvoaçou sobre a cama humilde, pousou na cabeceira e começou a cantar:
"'Sposo! 'sposo! veja! veja! Vesty, doce! Vesty, doce! Ha, ha! hurra!"
CAPÍTULO XV.
O SEQUESTRADOR.
Parecia ao Juiz Daniel Custis, enquanto caminhava ao sol de domingo, que ele nunca tinha visto um dia mais perfeito. As folhas estavam mudando nas grandes sicômoros, e os bordos ao longo da elevação na estrada vestiam suas vestes mais delicadas de algodão cru, enquanto algumas nogueiras jovens, carregadas de nozes, e uma alta goma, esplêndida em seus enfeites, acenavam para ele em seu caminho, através da ponte Manokin até a colina oposta, onde a igreja presbiteriana dominava a cidade.
O Juiz, cujos olhos estavam cheios de lágrimas felizes, em parte pelo verdadeiro alívio em suas circunstâncias alcançado pelo grande sacrifício de Vesta, e em parte pela cena que acabara de se encerrar, de sua honra natural e fidelidade ao homem que a forçara a proferir seus votos matrimoniais, tomou o caminho do norte e atravessou a pequena ponte, e enquanto subia a colina, os arredores da cidade e a própria cidade se estendiam atrás dele na quietude do Sabbath, e as codornas e os pássaros de outono assobiavam e cacarejavam baixo no milho e no restolho de grãos. Alguns gansos selvagens no sul voaram sobre os baixos bosques cinzentos em direção à baía; uma matilha de cães de caça em algum lugar uivava como música distante; ele ouviu os perus gorgolejarem em uma das fazendas adjacentes nas ondulações da paisagem pantanosa, onde a abundância, não denotada de outra forma, mostrava-se nas aves gordas que pousavam nas árvores como frutas vivas e falavam apopleticamente.
Enquanto ele bebia o vinho do outono no ar, que tinha um leve gosto de geada, como o primeiro ácido na cidra doce, ele viu uma ou duas carruagens virem pelas estradas planas em direção a Princess Anne, e o sino da igreja contava seu recado à medida que deixava cair na serenidade seu toque frutado, como uma maçã rolando do galho. Tão facilmente, tão musicalmente, tão regularmente ele soava, como a voz de algo puro, que era constante mesmo em suas alegrias, que o Juiz tirou seu chapéu de pele branco e largo, como se fosse para uma dama, e ouviu com algo entre cortesia e piedade.
À medida que o sino continuava, outras carruagens vinham em direção à cidade, e algumas passavam por ele, seus ocupantes todos fazendo uma reverência e, frequentemente, lançando um olhar para trás para ver o Juiz Custis novamente, o primeiro homem do condado.
Eles olhavam para um coração humilhado, uma alma alegre, que a mão aguda da aflição fizera sangrar, enquanto uma Providência imprevista em sua querida filha beijara a ferida para que ela adormecesse e sugara o veneno dela.
Erguendo a testa em direção ao céu azul brilhante, como se não pudesse erguê-la alto o suficiente para sentir mais daquele descanso celestial ali contido, o Juiz suspirou um desejo feliz, como o beijo de amor após uma briga, quando a dúvida é toda dissipada ou o erro perdoado:
"Ó, faze-me como uma criança pequena! Lava as minhas manchas! Guia-me no caminho que minha filha percorreu, ou eu nunca a verei na vida que há de vir!"
Seus lábios tremiam e seu peito arfava convulsivamente. Naquela ideia de ser impróprio para entrar onde sua filha iria, na vida mais abundante além da presente, ele recebeu um sermão distinto do púlpito há muito vazio da natureza e da consciência, e revelações interiores mais claras do que as Sagradas Escrituras; pois ele sentia a justiça da separação final do impuro do puro, e a fé da perseverança no bem para atrair em direção à própria santidade, e a perseverança na sensualidade e no egoísmo para deter o espírito em sua casca de porco. Sua agonia aumentou.
"Para onde irei à deriva se eu continuar", disse ele, "a bancar o magistrado elegante e chefe de família, e a gostar de escapar no escuro, como negros caçando guaxinins à noite? O que é escapar da descoberta diante da degradação crescente do meu próprio santuário, meu espírito criado? Posso encontrar o caminho pelo qual vagueei e refazer meus passos? Resta-me pouca vida para fazê-lo, mas, com a ajuda de Deus, tentarei! Sim, neste Sabbath dourado farei algo para começar. O que será?"
Ele colocou o chapéu e disse a si mesmo: "Vou à casa de reuniões metodista: eles trabalham diretamente sobre a consciência, aprofundam o senso de pecado e pregam uma purificação rápida como por uma luz que brilha. Lá eu posso me rastejar à vista dos homens e mulheres e surgir redimido. Mas, não. É o Sabbath em que o casamento da minha filha deve ser anunciado em nossa própria igreja, e seria covardia, para não dizer impróprio, fugir de um culto para outro agora. Se eu for à igreja esta manhã, deve ser à nossa. Existe alguma desculpa além da covardia para não ir?"
Ele olhou para sua natureza devedora, para ver o que devia a alguém, que pudesse ser reconhecido e resolvido neste dia.
Lenta e quase a seu desgosto, surgiu uma obrigação para com sua esposa — a obrigação de amor da qual ele a estava defraudando, se é que ele a amava com o ardor dos velhos tempos.
Ela tinha desgastado sua paixão em pequenas exigências por pequenas propriedades, e entendimento estreito, e subserviência a tradições sociais efeminadas. Ela irritava a saúde de seu intelecto com seus refinamentos não solidários e caridades piedosas, e medo de toda catolicidade. Ela era a própria delicadeza, sem a centelha da natureza, e acreditando que habitava as torres do castelo da exclusividade e da justiça social, ela fizera de seu lar a masmorra de seu cavalheirismo, ao mesmo tempo o aposento doméstico mais elevado e a prisão.
No entanto, ela era sua esposa, e algo de sua natureza devia estar em Vesta, embora o Juiz não o tivesse encontrado. Ele refletiu que sua própria inconstância poderia ter aguçado as peculiaridades dela e aumentado a distância entre suas mentes, até que, privada da orientação de um marido, a natureza feminina agitada dela abandonara as pastagens dos campos e do ar, e pousara em seu ninho e vegetara ali.
"Eu me afastei dela", disse ele, "e reclamo que ela não cresceu. Eu mesmo me excedi na dignidade e pretensão da aldeia, e dei a ela o exemplo de não respeitar nada mais. Eu tenho sido uma fraude, e me surpreendo que ela não seja mundana."
Ele achou sua vontade fraca muito obstinada contra fazer amor com sua esposa novamente, mas o pedido que acabara de fazer ao Céu, para guiá-lo pelos caminhos certos, convenceu-o a fazer seu culto em casa esta manhã.
"Sim", disse ele, "vou começar bem. Ela está doente e sozinha, e Vesta tirada dela. Vou enviar um bilhete ao reitor para anunciar o casamento, como Vesta pediu, e fazer meu culto em Teackle Hall neste dia."
O Manokin, alargando-se à medida que fluía para mais longe da cidade, e alargando-se de um riacho a um braço de rio, até umedecer franjas de pântano e cortar penhascos baixos nos campos, nunca pareceu convidá-lo tanto a caminhar ao longo de suas comportas como nesta manhã.
"Se minha esposa apenas caminhasse comigo pelo campo", disse ele, inquieto, "como teríamos sido mais companheiros um para o outro! Mas ela não consegue caminhar de jeito nenhum; todo intercâmbio masculino cessou entre nós há anos, e o alcance monótono e pequeno da conversa doméstica, e a fofoca dinástica das boas famílias, desgastam meu espírito. Mas eu tenho sido um marido truant, e minha língua está ressecada por errâncias poeirentas em caminhos pródigos. Deixe-me cortejá-la novamente com todas as minhas forças!"
Ele caminhou por Princess Anne, o culto agora tendo começado em todas as igrejas, e não viu ninguém na rua exceto um grupo dividido diante da taverna. Lá ele ouviu Jimmy Phoebus falar com Levin Dennis asperamente:
"Levin, o que você está fazendo com aquele comprador de negros? Você não tem nenhum orgulho Dennis sobrando em você?"
O Juiz viu que Joe Johnson, a salvo de processos civis no domingo, mesmo se seu inimigo não estivesse indefeso na cama, estava lavando a cabeça de Levin Dennis, enjoado de conhaque, sob a bomba da rua, operando a alavanca da bomba e massageando-o com mãos alternadas.
"Jimmy", respondeu Levin, quando se viu livre do jato, "este cavalheiro me deu um trabalho. Vou levá-lo para pescar tartarugas no Estreito. Ele vai me pagar por isso."
"Pescar tartaruga num domingo não é trabalho respeitável para um Dennis, de jeito nenhum", gritou Jimmy Phoebus, bruscamente; "e fazer isso com um comprador de negros é um belo esbanjamento para você, por fumaça! Não consigo ver onde está seu orgulho, Levin, para salvar minha vida."
Jack Wonnell, usando um chapéu de topo alto, observava com prazer tímido essa conversa direta, abrindo a boca para sorrir, fechando-a para estremecer.
O grande estranho, soltando Levin Dennis, caminhou em suas longas botas de montaria, nas quais suas calças grosseiras estavam enfiadas, direto para a frente de Jimmy Phoebus, e encarou-o através de seu olho inflamado e desagradável. Jimmy encontrou seu olhar com uma brandura que quase chegava ao desprezo.
"Escute aqui!" falou o estranho, "você tem estado a procurar uma briga comigo ontem o dia todo, e hoje está começando de novo. Você quer lutar?"
"Não", disse Jimmy, esculpindo um graveto; "não sou afeito a brigas, e nunca faço isso num domingo. Eu não seria culpado de lutar com você, por fumaça!"
"Eu já peguei um sujeito maior que você e cortei seus chutes até o fundo de sua moela, até que seus pulmões caíssem em minhas mãos. Então é faca ou faca entre nós, meu camarada!"
Ele colocou a mão no quadril, onde carregava uma faca de bainha.
"Levante essa mão", disse Jimmy Phoebus, com um movimento rápido de sua faca de esculpir em direção à garganta do gigante. "Levante-a ou, por fumaça! sua jugular vai embora."
Enquanto Phoebus falava, ele levantou um pé, de um tamanho prodigioso, tão habilmente quanto um elefante erguendo sua tromba, e chutou a mão do homem para longe do bolso do quadril sem mover seu próprio corpo ou expressão. Foi feito tão automaticamente que o outro se virou ferozmente para ver quem o chutara, e sua faca de bainha, parcialmente erguida, foi lançada pela força do chute a vários metros de distância.
"Pegue a faca dele, Levin", disse Jimmy, "ou ele vai se machucar com ela."
Neste momento, o Juiz Custis aproximou-se e separou os dois homens poderosos.
"Brigando num domingo em nossa rua pública", exclamou ele; "Phoebus, eu não teria pensado isso de você!"
"Este valentão aqui, Juiz", disse Jimmy calmamente, "começou a tomar Prencess Anne no primeiro dia, e o Samson do velho Meshach o nocauteou, e o próprio Meshach o terminou. Hoje ele começa a liderar aquele pobre imbecil, Levin Dennis, e, conforme expresso minha opinião sobre isso, ele saca sua faca para mim; então eu uso meu pé, Juiz, aquele que você já me viu desamarrar um nó com, e estrago o pulso dele com ele. Cuide da faca dele, Levin — ele é uma criatura pobre sem ela."
"Vamos resolver isso, cara a cara, ou que eu beba a gota da manhã!" rosnou o homem estranho.
"Esse tipo de linguagem não é compreendido em companhia honesta", disse Jimmy Phoebus; "suponho que seja jargão de ladrões, usado entre seus amigos, ou, talvez, palavras grandes com as quais você intimida estranhos, quando quer fazer uma ostentação. Agora, como você foi surrado por um negro e chutado por um homem branco, talvez você consiga entender minha linguagem! Escute você também, comprador de negros! Você sabe onde eu o vi primeiro?"
Pela primeira vez, um lampejo de fogo veio dos olhos de cereja preta do capitão do pungy, e seu rosto enorme e largo de cor escura expressou todo o seu caráter oriental:
"A última vez que o vi, Joe Johnson, não foi à espreita na cozinha do Juiz Custis por nenhum bem, nem insultando o outro visitante do Juiz, Milburn do topo da torre: foi abraçado ao poste de chicoteamento no verde público de Georgetown, Estado de Delaware, e o xerife a passar o chicote sobre suas costas; e depois que ele o colocou no pelourinho, eu peguei o ovo mais podre que pude encontrar, e o estourei bem no olho onde aquele negro o machucou ontem!"
O silêncio opressor, enquanto Joe Johnson se encolhia, desesperado de raiva, porém incapaz de negar, foi quebrado pela interjeição impensada de Jack Wonnell:
"Whoop, Jimmy! Hurra por Prencess Anne!"
"E por que eu peguei aquele ovo e fiz você cheirá-lo, Joe Johnson? Porque, por fumaça! você era um sequestrador fedorento, roubando a liberdade dos pobres negros livres, sabendo que eles não carregavam armas e não podiam fazer nenhuma defesa boa! Esse é o seu comércio, e é o mais mesquinho e covarde do mundo. É fazer o que os argelinos fazem em luta justa. Você é um bom cidadão americano, não é? Eu conheço sua gangue, e é sangrenta, mas você não pode olhar um homem branco nos olhos, porque você é um ladrão e um covarde!"
A natureza helênica do capitão da baía nunca tinha se exibido ao Juiz com essa plenitude, e ele sentiu uma admiração natural ao pegar Phoebus pelo braço.
"Bem, bem!" disse o Juiz, "deixe-o ir agora, Phoebus! Sr. Johnson, não me deixe vê-lo em Princess Anne novamente hoje. Continue sua jornada e não nos perturbe mais, ou eu imporei um processo criminal contra você, e você vê que temos agentes de polícia robustos em Somerset."
Enquanto conduzia Phoebus ao redor da esquina do banco, o Juiz disse:
"James, minha esposa está tão doente que preciso ficar em casa com ela esta manhã, e quero um bilhete deixado na igreja para o Sr. Tilghman. Você o levará?"
"Ora, com prazer, Juiz", respondeu o habitante despreocupado. "Não pareço muito bonito na igreja episcopal, mas farei um recado."
Enquanto o Juiz escrevia o bilhete com seu lápis de ouro em uma folha de seu caderno de notas, ele disse:
"James, você identificou aquele homem ontem?"
"Sim, eu o conheci assim que ele chegou à taverna. Esta manhã, vendo-o pela cidade, tive medo de que Samson Hat tropeçasse nele, e o comprador de negros o matasse pelo golpe de ontem. Penso comigo: 'Samson é um negro branco demais para ser morto desse jeito, por fumaça!' mas o preconceito contra um negro bater num homem branco é tal neste estado que Joe Johnson, sangrento como é, nunca teria esticado a corda por Samson Hat; então eu procurei uma briga com o comprador de negros para tirar a vontade de lutar dele antes que Samson chegasse. Ele não vai lutar com ninguém agora nesta cidade. A patifaria dele acabou aqui."
"Você correu um grande risco, Phoebus. Ele é um sujeito tão maligno em seus ressentimentos, que eu o deixei esconder e comer em meus aposentos por medo de alguma má retribuição se eu recusasse. Aquela gangue de Patty Cannon é a maldição da Costa Leste."
"E se você me perdoar, um homem mais jovem e mais pobre, Juiz, são exatamente cavalheiros como o senhor que deixam isso continuar. Vocês políticos dão a essas pessoas imunidade, e as deixam em paz porque elas lutam por vocês em tempos de eleição e são populares entre os florestais e a ralé, porque perseguem negros e pagam bebidas. O senhor sabe que as leis são contra as ações deles em ambos os lados da linha de Delaware, mas em Maryland elas são letra morta."
"Você fala a pura verdade, James Phoebus, corajosa como sua conduta. Mas os homens pobres devem criar um sentimento contra esses sequestradores, porque entre os pobres ignorantes eles encontram seus defensores e iguais."
"Juiz", disse o capitão do pungy, "eles estão fazendo um pandemônio de todo o distrito em torno de Patty Cannon. Por fumaça! é uma vergonha para a liberdade. Em plena luz do dia, eles levam negros livres, homens, mulheres e criancinhas também, para serem vendidos, que são tão livres quanto minha mãe e sua filha."
O Juiz Custis pensou dolorosamente na pouca liberdade que sua filha agora desfrutava. Jimmy Phoebus continuou:
"Agora aqui, estamos levantando uma confusão sobre os argelinos e tripolitanos capturando algumas pessoas cristãs e vendendo-as para a Turquia, e sobre os turcos escravizando os gregos cristãos. Henry Clay está fazendo uma grande ostentação sobre isso. Dinheiro está sendo arrecadado em todo o país para enviar a eles. O Comodoro Decatur foi um grande homem por acabar com isso. Por fumaça! eles estão vendendo mais pessoas livres para a morte e para o inferno ao longo da linha de Mason e Dixon do que em todo o seio do Mar Mediterrâneo."
O orador de pele morena estava mais excitado agora do que estivera durante toda a colisão com Joe Johnson.
"De fato, Phoebus, eles sequestraram vários milhares de pessoas, dizem os abolicionistas da Filadélfia, mas os relatórios devem ser exagerados. A demanda por negros é tão grande, desde que a máquina de descaroçar algodão e os mercados estrangeiros tornaram o algodão um grande produto, e a importação direta de escravos da África foi interrompida, que há uma grande procura por negros dos estados de fronteira, e pessoas de cor livres raramente conseguem justiça quando foram arrastadas para além da linha."
"Eles nunca conseguem justiça, Juiz Custis! Tenho vergonha do meu estado natal. Há apenas alguns anos, quando eu era menino, as pessoas aqui ao redor estavam libertando seus negros, e entendia-se que a escravidão morreria, e todos diziam: 'Deixem a coisa má ir embora'. Mas os negros começaram a valorizar muito; eles passaram a valer oitocentos dólares onde não valiam duzentos; e todos os políticos começaram a dizer: 'Negros não são aptos para serem livres. Negros são o junco, ou o baluarte, ou touro-alguma-coisa da nossa nação'. E então o sequestro de negros livres começou, e a próxima coisa que farão será sequestrar cidadãos americanos livres!"
"Tsc! tsc! James! nunca chegará a tanto."
"Não chegará? O que Joe Johnson me disse ontem à noite diante da taverna Washington? Ele disse: 'Eu já vendi negros mais brancos que você, eu mesmo. Posso levá-lo ao mercado e conseguir meu preço por você!'"
O marinheiro da baía tirou o chapéu.
"Olhe para mim!" ele continuou; "por fumaça! olhe para minha pele morena e olhos pretos e cabelos negros como carvão. De onde eles vieram? Eles vieram da Grécia, de onde Leônidas e Marky Bozarris e todos aqueles sujeitos vieram: foi o que meu pai disse. Ele sabia melhor do que eu. Não sou nada além de um pobre homem da Costa Leste navegando em minha pequena embarcação, mas sou um homem nascido livre, e digo-lhe, Juiz, é um tempo perigoso quando nada além de seu tom de cor protege um homem livre."
"James Phoebus", disse o Juiz, gravemente, "espero que acredite em mim quando digo que considero todas essas coisas ultrajes, e que elas decorrem do maior ultraje da própria escravidão. Estamos sendo governados por novos estados, chocados no Sudoeste a partir dos ovos de jacaré da velha escravidão, que cresceram em descrédito político e moral conosco em Maryland e Virgínia."
"Não tenho sangue de negro", disse Phoebus, colocando o chapéu, "mas levei a peito essas insinuações de que me pareço com um negro, e tomarei o partido de um negro quando ele for injustiçado, como se ele fosse parte do corpo e do sangue de meu Senhor Jesus. Agora ouça bem!"
"E você é corajoso o suficiente para falar sério, meu caro companheiro. Então, faça o meu recado, e bom dia, James."
CAPÍTULO XVI.
O HOMEM DO CHAPÉU DE COPA ALTA.
Quando o Juiz e Phoebus dobraram a esquina do banco, Samson Hat apareceu, conduzindo pela larga rua principal de Princess Anne uma jovem branca.
"Lá está o negro que colocou meu trunfo no limbo", resmungou o traficante de negros, "mas até ele passará hoje. Esta cidade maldita está cheia contra mim."
Ele lançou um longo olhar para Samson, no entanto, que o retribuiu suavemente da maneira mais respeitosa, como se nunca tivesse visto o estranho cavalheiro antes. "E agora, meus amigos", disse Joe Johnson, voltando-se para Levin Dennis e Jack Wonnell, "nós três vamos descer até a baía e eu providenciarei a bebida, e pagarei o sabão enquanto vocês pegam os cágados, e me deixem dormir minha bebedeira."
"Eu vou, sem dúvida!" gritou Jack Wonnell, que andava bebendo água da bomba em seu chapéu de copa alta. "Você também, Levin."
Levin Dennis hesitou; "Quero avisar minha mãe primeiro", disse ele, "talvez ela não goste que eu saia num domingo. Ela enviará Jimmy Phoebus atrás de mim."
Joe Johnson tirou uma bolsa de ouro de dentro de seu cinto, pendurada por uma alça, e ergueu uma moeda de cinco diante dos olhos brilhantes do rapaz:
"Aqui, moleque! Isso é seu se você não tiver mãe por perto. Venha comigo, bicho do mato, e encontre seu barco, e eu lhe pago essa bolada ao pôr do sol."
Os olhos crédulos de Levin brilharam, e com um olhar relutante em direção à casa de sua mãe, ele liderou o caminho para o campo.
Pouco foi dito enquanto caminhavam por uma hora ou mais em direção ao oeste, o estranho aparentemente remoendo suas indignações, e passando duas vezes a jarra de conhaque que Jack Wonnell fora obrigado a carregar, e antes do meio-dia chegaram a um riacho considerável, onde estava ancorada uma pequena embarcação que trazia em sua popa, em letras analfabetas e frequentemente invertidas, o nome: Ellenora Dennis.
"O que é aquele borrão ali?" perguntou Johnson, apontando para as letras.
"É o nome da mãe dele, patrão", disse Jack Wonnell, puxando as calças do estranho, "ela é viúva, e bonita como um pêssego."
"Você não tem papai, seu pobre órfão?" perguntou Johnson rudemente.
"Ele se foi desde que eu era um bebê", respondeu Levin; "ele partiu no corsário do tio do Juiz Custis, do qual nunca mais se ouviu falar. Não sabemos se os britânicos o capturaram e enforcaram, ou se o Ida afundou em algum lugar e o afogou, ou se ela ainda está navegando por aí. Tenho que cuidar da mamãe."
"Humph!" rosnou Joe Johnson; "filho de ganso e de uma leviana: garoto bonito, também -- tem as velhas famílias nele. Nada melhor para mim!"
Puxando um bote escondido sob um pouco de arbusto do pântano, o jovem Levin partiu para sua embarcação, arrumou-a com algumas mudanças, içou a vela de proa e trouxe-a para a margem.
"Sr. Johnson, eu nunca peguei cágados num domingo antes, mas acho que não há mal nenhum."
"Mal? O que é isso?" Joe Johnson zombou. "Escute aqui, rapaz, nada de covardia comigo agora! Quando começo com um moleque, começo direito. Se você acha que é pecado pegar cágados, bem, eu quero que sejam pegos. Se não se importa, você pode apenas içar sua vela e apontar para Deil's Island, e faremos disso uma viagem!"
Não muito certo quanto às suas instruções, Levin assumiu o leme, e Jack Wonnell, solícito demais, pegou a pinça para cágados e ficou na proa enquanto o barco deslizava pelo Monie Creek com uma boa brisa e uma maré favorável. A draga de corrente para cágados foi lançada pela borda, mas o barco estava com muita vela para que Wonnell pegasse mais do que um ou dois animais tardios com sua pinça, enquanto eles pairavam em torno do fundo transparente, preparando-se para sua descida de inverno na lama.
"Recolha sua draga", comandou Johnson em poucos minutos. "Isso nos faz ir devagar."
Jack Wonnell obedeceu, dando algumas voltas no molinete, e quando o saco subiu, dois cágados da então comum variedade de casco diamantado rolaram no convés, e um cágado de casco liso.
"Isso é o bastante de cágados", disse Johnson, "a menos que você tenha medo de estar fazendo algo errado, Levin. Diga, bobalhão! É pecado agora?"
O menino riu, um pouco pálido de rosto, e Johnson encerrou seu comentário com:
"Nada é pecado! Domingo é dia do lixeiro ser quebrado por heróis. Você acha que seu papai no corsário não bateria nos britânicos num domingo? O jeito de ficar rico, garoto, é quebrar todos os mandamentos no posto, e recolhê-los de novo na pontuação!"
"É esse o caminho, pode apostar. Viva! Johnson, você acertou em cheio!" riu Jack Wonnell, sem entender bem o que fora dito.
Levin Dennis sentiu um pequeno calafrio passar por ele, mas deu o leme ao estranho e, com a ajuda de Wonnell, içou a vela mestra, e o barco leve saiu voando através da Baía de Monie, espantando as aves aquáticas enquanto ziguezagueava entre elas.
"Aqui vai mais um gole para todos", exclamou Joe Johnson, "e então irei para baixo descansar uma hora, pois estou bêbado como uma coruja."
Levin bebeu novamente, e isso tirou o instinto de calafrio dele, e Joe Johnson gritou, enquanto desaparecia na pequena cabine:
"Lembre-se! Você aponta para a passagem de Deil's Island, e me acorde, amigos, no antigo acampamento, para jantar."
Os dois vizinhos de Princess Anne sentiram-se aliviados da companhia do homem alto, e Jack Wonnell deitou-se de costas na popa e sorriu para Levin como se houvesse uma grande piada ou coincidência desconhecida entre eles, finalmente sussurrando:
"Onde ele consegue todo aquele ouro?"
Levin balançou a cabeça:
"Não sei dizer, Jack, nem por toda a minha vida. Tráfico de negros, eu acho. Deve ser um negócio lucrativo, Jack."
"O melhor negócio do mundo. Quem dera eu tivesse um pouco do dinheiro dele, Levin. Hu-ue-oo!" dando um grito baixo, "então não conseguiria eu a minha garota!"
"Quem é a sua garota, Jack, para este inverno?"
"Você não vai contar para ninguém, Levin?"
"Não, que eu morra se contar!"
Jack colocou seu chapéu de copa alta ao lado da boca, deu outro sorriso, piscou um olho de forma astuta e sussurrou:
"A bela Roxy amarela, a garota do Juiz Custis."
"Ela não vai querer nada com você, Jack; ela é educada demais."
"Ela ainda não quis, Levin, mas estou seguindo-a por toda parte. Não há garota branca em Princess Anne tão bonita quanto aquelas duas garotas da casa do Juiz Custis."
"Bem, o que você pode fazer com uma negra, Jack? Você nunca vai poder casar com ela."
"Talvez eu possa comprá-la, Levin."
"Ela não está à venda, Jack. O Juiz Custis nunca vende negros. Você não pode comprar um negro nem por toda a sua vida. Quando alguns dos negros do Juiz Custis em Accomac fugiram, ele não deixou as pessoas caçarem por eles."
Jack Wonnell colocou seu chapéu de copa alta ao lado da boca novamente, sorriu de forma horrível e sussurrou:
"Você sabe guardar um segredo?"
Levin acenou que sim.
"Que morra se contar?"
"Que morra se contar, Jack."
"O Juiz Custis vai ser vendido por Meshach Milburn."
"Que mentira, Jack!"
Levin deixou o leme quase escapar, e o Ellenora Dennis girou e suas velas bateram como se tal notícia tivesse expulsado todo o vento delas.
"Jack", exclamou Levin, "Jimmy Phoebus diz que você se tornou um mentiroso convicto. Agora eu acredito nisso também."
"Que eu morra!" protestou Jack Wonnell, "eu nunca minto: é muito difícil encontrar mentiras para as coisas quando as pessoas vêm e te contam, ou você mesmo pode ver. Jimmy me chamou de mentiroso por dizer que Meshach Milburn tinha entrado pela porta da frente do Juiz, mas nós o vimos sair dela, não vimos?"
"Sim, isso foi verdade; mas essa aqui é uma mentira terrível."
"Bem, Levin, a bela Roxy amarela, ela me contou, e ela é bonita demais para contar mentiras. Eu amo aquela garota como pêssego e mel, Levin, e não me importo se ela é branca ou não. Ela é quase tão branca quanto eu, e muito melhor."
"Então você fala com a Roxy às vezes?"
"Levin, vou te contar tudo sobre isso, e você não vai contar para ninguém. Bem, eu colho magnólias e rosas silvestres e essas coisas bonitas para a Roxy dar à patroa dela, e a Roxy me dá bolo, e frango, e café na porta dos fundos, sabendo que eu não tenho muito com que comprá-los. Deus a abençoe! Ela nem imagina que eu não penso tanto naqueles bolos e lanches e café rico e quente, quanto penso nos lindos olhos dela. Ela é um anjo branco com um pouco de café no sangue, mas é o velho Javey do Governo e mais da metade creme!"
Aqui Levin riu alto e disse que Jack devia ter aprendido isso em algum livro.
"Oh", disse Jack, fechando um olho com força e juntando-se ao riso, "desde que me apaixonei, posso dizer muitas coisas inteligentes como essa. Eu vi a linda pequena Roxy crescer desde criança, e conforme ela começou a ficar mais encorpada e alta, eu disse: 'Negra ou não, ela é um anjo!' As garotas brancas todas me desprezaram, porque eu não estava ganhando nada, e eu fixei meus olhos em Roxy Custis e disse: 'O que posso fazer para que ela brilhe para mim?' Então continuei seguindo-a por toda parte, e vi-a um dia vindo pela estrada colhendo flores silvestres e com a mão cheia delas, e disse: 'Roxy, o que você está fazendo com essas flores?' 'São para a minha patroa, Srta. Vesty,' diz ela; 'ela vive de flores silvestres, e são tudo o que tenho para lhe dar, e quero que ela me ame tanto quanto a Virgie.' Você vê, Levin, a outra garota, Virgie, serve a Srta. Custis, e Roxy estava um pouco com ciúmes. Então eu digo: 'Roxy, eu posso conseguir flores para a sua patroa. Sei onde as magnólias estão florescendo mais brancas e perfumando o dia inteiro.' 'Sabe?' diz ela, 'Oh, Sr. Wonnell, eu gostaria de ter um buquê de magnólias para colocar na penteadeira da Srta. Vesty todos os dias.' 'Eu conseguirei para você, Roxy,' digo eu, 'porque sempre achei que você era uma pequena beleza.' Diz ela: 'Eu daria quase tudo para surpreender a Srta. Vesty com flores todos os dias -- flores silvestres de verdade!' 'Então,' digo eu, 'Roxy, eu conseguirei para você por um beijo!' E ela quase corou de sangue e saiu correndo."
"Foi o que eu te disse, Jack, ela é bem educada demais para conversar com rapazes brancos."
"Ninguém é bem educado demais", respondeu Jack Wonnell, "para ser surdo ao amor e à bondade. Disse para mim mesmo: 'Jack, você assustou aquela garota. Agora não diga mais nada sobre o beijo, e vá buscar as flores para ela todos os dias, e ela pensará mais em você!' Então fui até King's Creek e colhi as magnólias, e vim até a porta e pedi à velha Hominy para trazer Roxy por um minuto. Roxy veio, e ia sair correndo até ver minhas flores, e parou um minuto e eu disse: 'Consegui apenas para você, Roxy, porque te vi quando você era uma criancinha.' Ela as pegou e disse: 'Foi muito gentil da sua parte, senhor,' e fez uma reverência e desapareceu. No dia seguinte eu estava lá de novo, Levin, e disse, para parecer um comércio: 'Roxy, você pode me dar uma xícara de café?' 'Ora, sim!' ela diz, esquecendo seu rubor imediatamente. Então mantive o segredo sobre o amor e coloquei tudo na conta do café, e, Levin, eu trouxe flores silvestres sem parar até que aquela garota começou a me esperar na porta todos os dias, e eu me escondia e a via vir à janela e me procurar. Um dia ela diz, enquanto eu estava bebendo o café: 'Sr. Wonnell, por que você se dá a tanto trabalho para agradar uma pobre escrava que não é nem metade branca?' Pensei um minuto, para dizer algo que não a assustasse, e disse: 'Roxy, é porque sou um sujeito tão pobre e imprestável que as garotas brancas nem olham para mim!' As lágrimas vieram direto aos olhos dela, e ela diz: 'Sr. Wonnell, se eu fosse branca, eu olharia para você.' 'Acredito que sim,' digo eu, 'porque você tem um coração branco, Roxy.'"
"Jack, você é um amante muito esperto", disse Levin. "Eu não achava que você tivesse nenhum juízo."
"Fazer amor é o melhor juízo de todos", disse Jack, "é esse juízo que mantém a floresta cheia de música, onde os pássaros e abelhas estão chilreando e zumbindo e acasalando. O amor é o último sentido a chegar, depois que você pode ver, e ouvir, e sentir, e eles são dados às pessoas para encontrarem algo bonito para amar. O amor era o trabalho de todo o dia no jardim do Éden antes que o homem ficasse ocupado demais, e é todo o trabalho que faço, e espero fazê-lo bem."
"Agora, o que a Roxy te contou sobre Meshach Milburn e o Juiz Custis?"
"Você vê, Levin, conforme eu continuava dando flores, eu podia ver um pouco de amor começar na bela Roxy, mas ela não entendia, e eu tinha tanto cuidado para não assustá-lo como se fosse um pássaro da neve pulando para uma migalha de pão. Ela falava comigo sobre seus pequenos problemas, e eu ouvia tão atencioso quanto a mãe dela, porque as mulheres vivem de pequenas coisas, e um sedutor é apenas um sujeito paciente com suas conversas. Quanto mais eu ouvia, mais ela gostava de contar, e eu vi que Roxy estava pensando muito em mim, Levin, sem que ela ou eu deixássemos transparecer.
"Esta manhã ela veio à porta com os olhos recém-enxugados de tanto chorar. Disse eu: 'Roxy, pequena querida, o que a aflige?' 'Oh, nada,' diz ela, 'não posso te contar se houver algo.' 'Aqui estão suas flores silvestres para a Srta. Vesty,' digo eu, 'lindas de se ver!' 'Oh,' diz Roxy, 'a Srta. Vesty não precisará delas agora.' Disse eu: 'Roxy, você vai ficar com toda essa aflição na cabeça e não vai deixar que eu carregue um pouco dela?' 'Oh, meu amigo,' ela diz, 'eu devo te contar, pois você tem sido tão gentil comigo: não conte para ninguém! Mas meu mestre está endividado com Meshach Milburn, e ele se casou com a Srta. Vesty, e achamos que seremos todos vendidos ou obrigados a viver com aquele homem que usa o chapéu do diabo.' Disse eu: 'Roxy, querida, talvez eu possa te comprar.' 'Oh, eu gostaria que você fosse meu mestre,' disse Roxy. E exatamente naquele momento, o amor sendo incomumente forte em mim esta manhã, eu tomei o primeiro beijo da boca de Roxy, e ela não disse nada contra."
Aqui Jack Wonnell beijou o ar várias vezes com profunda unção, e terminou com um grito baixo e um assobio, e olhou para Levin Dennis com um olho fechado, como se quisesse a opinião de Levin sobre tudo isso.
"Bem", disse Levin, "eu nunca estive apaixonado ainda. Acho que deveria estar. Mas a mamãe é tudo de quem posso cuidar, e, pobre alma! ela está em tanta aflição por minha causa que não pode amar mais ninguém. Eu fico bêbado, e saio para navegar por tanto tempo, e gasto meu dinheiro tão descuidadamente, que se o Senhor não cuidasse dela, talvez ela passasse fome."
"Sim, Levin, você gosta de conhaque tanto quanto eu gosto das garotas. Você sai para buscar cágados, e batatas, e ostras, e os vende por Princess Anne, e então alguém te puxa para as tavernas e lá se vai seu dinheiro, e sua mãe não tem chá nem café."
"Jack", disse Levin, abruptamente, "você acredita em fantasmas?"
"Não sei, Levin. Se eu visse um, talvez acreditasse, mas sou insignificante demais para os fantasmas me verem."
"Bem, agora", disse Levin, "há um fantasma, ou algo assim, que cuida da mamãe quando estou bêbado ou fora, e ele deixa chá e café na janela para ela."
"Ora! Por que, Levin, esse é o Jimmy Phoebus! Ele está apaixonado por sua mãe há anos e ela não o quer, mas ele continua insistindo. Ele é o fantasma da sua mãe."
"Não, Jack. Eu pensei que fosse até que Jimmy veio a mim e perguntou quem eu achava que era. Ele estava um pouco com ciúmes, eu acho. Eu disse: 'É você, é claro, Jimmy!' 'Não,' diz ele, 'pelos céus! Eu não faço nenhum truque como esse. O que dou, eu vou e dou sem nenhuma covardia ou bisbilhotice sobre a pobreza da Ellanory.' Ele ficou bravo de verdade, mas não conseguiu descobrir nada. Então, acho que pode ser o fantasma do papai, afogado no mar, trazendo chá e café, e às vezes um vestido, e um par de sapatos também, para manter a mamãe aquecida."
Levin Dennis, de pé contra o leme, parecia a Jack Wonnell tão belo e espiritual quanto uma mulher, enquanto sua testa formosa e seus olhos grandes tornavam-se sérios com esse relato do destino misterioso de seu pai. Seu cabelo castanho-avermelhado, em cachos curtos repartidos ao meio, dava ao seu rosto bronzeado uma semelhança com algumas das velhas famílias gentis com as quais ele era aparentado, sendo seu pai filho de filhos mais novos, numa época em que a primogenitura prevalecia em toda essa região da baía; e, portanto, não possuindo nada, ele entrou na guerra contra a Inglaterra como marinheiro, e sua influência familiar obteve para ele o comando do novo corsário lançado no Manokin, o Ida, que partiu com uma boa tripulação e armamento superior, em meio às aclamações de todo Somerset, e, navegando além dos Cabos em direção ao oceano com todas as suas bandeiras tremulando, deslizou para o mundo distante em direção ao silêncio eterno e aos vapores do mistério.
Sua viúva esperou longa e pacientemente com este único filho, Levin, uma criança que mal balbuciava, e histórias de todos os tipos circulavam; que o capitão fora capturado e enforcado pelo inimigo, e o navio queimado ou condenado; que ele içara a bandeira negra e se tornara um pirata e abandonara o mundo ocidental pelas águas das Índias Orientais; e, finalmente, que o Ida afundara na costa da Guiana e todos a bordo haviam se afogado.
A viúva, uma mulher linda, negligenciada pelos parentes de seu marido, que estavam mal-humorados com a perda de seu investimento e seus lucros esperados com a embarcação, vivia na pequena casa que possuía antes de seu casamento, e afundou na classe mais simples das pessoas, quase perdendo sua identidade com as famílias dominantes às quais seu filho era parente, mas em sua classe mais humilde era altamente respeitada e solicitada em casamento.
Ela ainda era jovem e bela, e Jimmy Phoebus, um solteirão vigoroso e capitão de uma escuna comercial, esforçava-se para casar com ela há anos, e mantinha sua esperança pacientemente, exercendo muitos favores gentis para ela, embora seus meios fossem limitados e ele tivesse parentes pobres dependendo dele para ajuda. Ela temia que o amante ausente pudesse estar vivo e retornar para encontrá-la como esposa de outro.
Assim, seu filho, crescendo sem a disciplina de um pai, e sendo respeitável demais, supunha-se, para aprender um ofício ou ser aprendiz, vivia de atividades fugitivas em terra e na água, transportando e vendendo legumes e mantimentos por vezes; e agora, pelo presente de Jimmy Phoebus, ele navegava com seu pequeno saveiro ou barco de pesca principalmente para levar cágados para Baltimore. Conhecidos marinheiros rudes, a exposição, uma natureza crédula e facilmente influenciável, e a negligência quase total da escola em uma época em que a educação era um privilégio elevado, tornaram-no errático e muitas vezes intemperante, mas sem desenvolver quaisquer características egoístas ou cruéis, e sendo de um exterior agradável e disposição afável, ele se tornava presa de quaisquer estranhos que estivessem na cidade -- caçadores, compradores de negros, fazendeiros ociosos e capatazes em farra, muitos dos quais contratavam sua companhia e seu barco para fazer suas excursões; e, embora amasse sua mãe e fosse seu único apoio, ela o via escorregando cada vez mais para a idade adulta sem firmeza, educação ou princípios fixos, ou qualquer influência feminina para atraí-lo às restrições domésticas.
Sua figura esguia e flexível, as marcas de nobreza em seus membros, a testa bem formada e os olhos grandes e gentis pouco combinavam com roupas esfarrapadas, pés descalços e dependência absoluta de empregos casuais, este último tornando-se mais precário à medida que sua idade e estatura exigiam mais dinheiro por causa de seus falsos apetites.
— Jack — disse Levin Dennis — o que você quer dizer com conseguir dinheiro para comprar Roxy Custis? Você nunca consegue dinheiro nenhum.
— Ele não vai me dar? Ele? — Jack Wonnell indicou a escotilha por onde Joe Johnson havia descido. — Ele tem sacos cheios disso.
— Ele? Ora, Jack, quanto dinheiro você supõe que uma serva linda como Roxy vai custar?
— Esse bocado que ele vai lhe dar não compra ela?
— Cinco dólares? Ora, seu tolo, ela custará quinhentos dólares — talvez milhares. Esse traficante de negros, com todo o seu ouro, teria muita dificuldade, eu suponho, para comprar Roxy.
Jack pareceu abatido e não conseguiu piscar nem assobiar.
— Moças como ela — disse Levin — vão para amantes de homens ricos, e às vezes eles as educam, já ouvi dizer, para saber música, escrita, gramática e essas coisas.
— E um homem pobre que não abusaria de uma moça quase branca como essa, mas que a respeitaria e se casaria com ela também, Levin, eles fazem leis contra ele! Talvez eu possa roubar Roxy?
Aqui Jack assobiou baixinho, fechou um olho com profunda sabedoria e sorriu por trás de sua cartola.
— Oh, seu simplório! — disse Levin. — Para onde você poderia levá-la?
— Pensilvânia, Canadá, Turquia ou algum desses estados abolicionistas lá em cima — Jack Wonnell indicou o Norte com o dedo. — Não existe lugar onde um homem branco possa tratar uma escrava de pele clara como essa como se ambos fossem cristãos?
— Não — respondeu Levin —, não neste mundo.
O herói das cartolas ficou muito afetado, e Levin pensou que ele estava realmente choramingando, embora seu sorriso vago fosse uma moldura pobre para o pesar.
— Jack — disse Levin —, se o que Roxy Custis contou é verdade, a moça é escrava de seu inimigo particular, Meshach Milburn.
O usuário da espécie rival de chapéu ficou "bastante sóbrio", como Levin expressou mentalmente, diante dessa solução sombria de seus doces sonhos de amor. Ele se levantou e caminhou até a proa do barco, e olhou para as ondas rápidas sobre as quais o cat-boat saltava, como se pudesse buscar a solução de sua própria vida desconexa, porém inofensiva, no fundo do estreito, entre as rochas das ostras.
A água estava agora salpicada de canoas e pirogas, e pequenos barcos a vela vindos da pregação em Deil's Island, e diante deles erguiam-se da baía as ilhas baixas e arborizadas e os cabos que, com estreitos brancos entre eles, fecham, da longa nave azul de Chesapeake, o corredor recortado chamado Tangier Sound. Como pombos e carriças em torno de alguma catedral, as aves selvagens voavam nessas arquiteturas quase fantásticas de arquipélago e península que, situadas rente à água, ainda assim assumiam uma perspectiva irregular ali, como se algum construtor gótico tivesse lançado seus alicerces, mas não tivesse curvado os pinheiros altos, que cresciam acima em bosques semelhantes a palmeiras, para fazer os telhados e arcos nervurados de seu projeto.
Ali podiam ser vistas as águias-pescadoras, velejando em pares graciosos sobre os cardumes de arenques ou de peixes-velhos, tomando com elegância e consciência o alimento animal diário que até o homem exige, com todos os seus sentimentos e evangelhos. Lá, o pato-de-crista, em um pequeno bando, quebrava o sábado para mergulhar em busca do aipo selvagem que cresce sob o estreito. Naquela árvore, a águia-de-cabeça-branca estava começando seu trabalho argelino de veemência e piedade, para interceptar o falcão e roubar sua carga. O cisne selvagem poderiam ser aqueles pássaros tênues e distantes voando tão alto sobre Kedge's Straits, ao sul, e o mergulhão-preto, abrindo suas asas como um demônio, desaparece perto do cat-boat e não sobe mais até que a memória o tenha esquecido.
Levin Dennis navegou perto de um ponto onde costumava espalhar comida para os patos-pretos e atraí-los para a emboscada do caçador. Mergansos e mergulhões, galeirões e gaivotas, narcejas e mergulhões-pequenos aproveitavam o domingo, banhavam-se e escreviam sua caligrafia alada na folha branca de água.
O pobre Jack Wonnell, retornando com algo em seu rosto entre um sorriso e uma lágrima, disse:
— Levin, eu nunca fiz mal a ninguém?
— Não que eu tenha ouvido falar, Jack. Dizem que você não tem juízo nenhum, mas nunca briga com ninguém. Todo mundo consegue se dar bem com você, Jack!
— Não, não conseguem, Levin. Meshach Milburn odeia o chão que eu piso. Se ele soubesse que estou apaixonado pela pequena Roxy, ele a casaria com um negro.
— O que faz ele te odiar tanto, Jack?
— Porque eu uso minhas cartolas, e ele usa o chapéu de topo de torre. Ele acha que estou zombando dele. Levin, eu não tenho outro tipo de chapéu para usar. Meshach Milburn não precisa usar aquele chapéu, mas se eu não usar uma cartola, devo andar de cabeça descoberta. Comprei aquele lote de chapéus com o único dólar ou dois que já tive, como dizem que um tolo e seu dinheiro logo se separam. Os rapazes disseram que estavam muito baratos. Agora, não haveria nada de errado em minhas cartolas, se todo o pessoal não estivesse apontando para o Chapéu de Vínculo do velho Milburn, como eles chamam. Por que ele, rico como um judeu, não pode comprar um chapéu novo, ou comprar um para mim? Eu não quero zombar dele. Eu tenho medo dele! Ele olha para mim com aqueles olhos de pistola carregada e isso quase me faz chorar, porque eu não fiz nada. Sou tão pobre quanto aqueles patos inúteis — apontando para um par de mergulhões, que não tinham valor no mercado —, mas não tenho malícia.
— Não, Jack. Aquele negociante poderia lhe dar aquele saco de ouro para guardar e estaria seguro, porque não era seu.
— Suponho que terei que ir para o asilo de pobres algum dia, Levin; minha velha tia, que cuida de mim, não pode viver muito, e eu não sirvo para nada. Não consigo nenhum emprego e faço recados para todos de graça, mas o primeiro dinheiro que eu conseguir, vou comprar um chapéu novo. Desde que uso essas cartolas, Meshach me odeia, e espero que ele seja o único homem que me odeia, Levin. Não acho que Meshach possa ser um homem mau.
— Como ele pode ser bom, Jack?
— Ora, eu o vi na floresta quando ele não me viu, chamando os pássaros. Maldito seja se eles não vieram e pousaram nele! Ora, pássaros não vão pular em um homem que é um demônio, Levin. Você acredita que ele lida com o demônio?
— Acredito — disse Levin —; vejo coisas tão estranhas que acredito em quase qualquer coisa estranha. Estas tartarugas aqui têm inteligência, e não se parecem mais com isso do que uma pedra. Uma noite, quando não tínhamos nada para comer em casa, mamãe e eu, e ela estava sentada ali com lágrimas nos olhos, imaginando o que faríamos no dia seguinte, eu me lembrei, Levin, de que havia quatro tartarugas no porão — tartaruga preta, que tinham sido colocadas lá seis meses antes. Eu disse à mamãe: "Suponho que essas velhas tartarugas estejam mortas e famintas, mas vou verificar".
Encontrei-as sob a pilha de lenha, e não cheiravam nem nada, então levei as quatro até a mamãe e as coloquei na mesa da cozinha diante do fogo, e as perturbei de todas as maneiras para acordarem, rastejarem e mostrarem algum sinal de vida. Não, elas estavam mortas como pedras!
"Bem, mamãe", digo eu, "coloque sua água fervendo e veremos se tartaruga morta serve para comer!" Ela sorriu através de seu choro e colocou a água, e quando começou a borbulhar na panela, peguei uma daquelas tartarugas e a joguei na água fervendo, e Jack, serei amaldiçoado se aquelas outras três tartarugas não correram direto da mesa, caíram no chão e dispararam para a porta do porão!
Eu as peguei e cozinhei, e enquanto estávamos sentados ali comendo tartaruga ensopada sem sal, nem vinho xerez, nem café, ou mesmo pão de milho, ouvimos algo como papel arranhando na janela, e mamãe recuou, juntou as mãos e disse: "Ali, você ouve o fantasma?"
Corri para a porta e pulei no quintal, e não vi criatura viva alguma; mas lá na prateleira da janela havia pacotes de sal, café, chá e farinha, e meio dólar em prata! Corri de volta para a casa, branco como um fantasma, e gritei: "Mamãe, é o espírito do papai que voltou!"
Ela me fez ajoelhar e rezar com ela para dar conforto ao espírito do pobre papai em seu lar ou no céu!
"Esse é o pastor das ilhas", disse Levin; "ele começou os encontros religiosos na ilha Deil no ano passado, e seu pregador favorito morrendo bem quando ele terminou o local, o velho Pap Thomas, que mora aqui, às vezes aparece no palanque, chora um pouco e faz uma oração. Os gansos me assustaram, capitão."
"Empurre!" ordenou Joe Johnson; "meus dentes estão quase batendo com o frio que aquela enseada me deu."
Ele puxou a âncora, içou a bujarrona e demonstrou um nervosismo tão grande que Levin assumiu o comando do leme e navegou pelo canal, ou estreito, que, por uma certa distância, serpenteava ao redor do bosque das reuniões.
"Ali vem Jack Wonnell com a jarra e o jantar. Não vamos esperar por ele?"
"Ele está com a enseada do juízo final! Não; não pare por nada."
Mas o barco teve que parar, pois sua quilha raspou na lama no canal quase seco, e um homem simples da ilha, de rosto benevolente, quase crédulo, chamou-os, dizendo, gaguejando:
"V-v-vizinhos, n-não f-fiquem com m-medo desse jeito. Nós não somos h-h-he-eetenos aqui. O irmão Wonnell está trazendo suas batatas e pão."
"Venha logo, e que se dane!" Johnson gritou para Wonnell. "O que nós queremos com esse molho tolabon?"
"N-n-não j-j-jure de m-maneira n-nenhuma!" gritou o pastor das ilhas. "Isso n-não vai l-levantar vocês na m-maré b-baixa, irmão. Fiquem e comam, e c-conversem um pouco conosco. Ora, eu já vi esse r-rosto antes!"
"Nunca em um covil do evangelho antes," murmurou o traficante de escravos, com um palavrão.
"M-mas não pode ser ele," falou o pastor da ilha, com solenidade. "O velho Ebenezer Johnson m-morreu h-há v-vários anos."
"Quem era ele?" gritou o traficante de escravos, com um pouco de interesse respeitoso.
"Ebenez-z-zer Johnson," respondeu o Pastor Thomas, com uma expressão suave e crédula, "foi o homem mais perverso da Costa Leste por vinte anos. P-perdoe-me, irmão, por compará-lo a ele, mas algo em você a-a-aqui," passando a mão sobre seu crânio, "f-faz-me lembrar dele. Foi aqui que ele foi baleado" — ainda mantendo a mão sobre o crânio — "de lado a lado, e morreu a morte do pecador. Eu p-pus meu d-dedo através dos dois buracos por onde a b-bala entrou e saiu, e livrei este m-mundo de um d-d-demônio!"
A história parecia ter um fascínio pelo comprador de escravos, pensou Levin Dennis, e Johnson exclamou:
"Bem, raio, ele chegou a cruzar com você?"
"Ó s-sim," respondeu o afável exortador da ilha, com loquacidade solícita; "foi h-há v-vinte e s-sete anos que eu vi o velho Eben-nezer Johnson chegar ao acampamento de P-pungoteague com um bando de p-piratas para interromper a p-primeira reunião dos Metodistas já realizada por esses estreitos. Ele foi en-c-corajado pelo velho Rei Custis, p-pai do nosso Daniel Custis, de Princess Anne, que era um g-grande homem da Igreja Estabelecida e d-desprezava os Metodistas. Foi uma coisa covarde de se fazer, mas enquanto o Rei C-C-Custis ria e conversava durante a p-p-pregação, Eb-b-b-benezer Johnson começou uma briga. O pregador c-c-cortou os olhos e viu quem estava p-piscando para a interferência. Ele era um l-leão do L-lord, e portava a c-comissão de Immanuel. Ele sabia que estava fora do E-estado de Maryland e dentro do c-condado de Ac-c-comack, na V-v-virgínia, e que, se as l-leis eram um pouco mais t-tolerantes desde a guerra revolucionária, a ar-r-ristocracia de lá era b-tão amarga quanto sempre para com o povo do Senhor. Ele v-virou-se de sua pregação finalmente, direto para o Rei Custis, e apontou seu d-dedo para ele diretamente. O p-pregador era L-l-lorenzo Dow."
"Wheoo!" Jack Wonnell exclamou, com um sorriso de concordância; "eu já ouvi falar dele: um sujeito com cara de ianque, como uma mulher, com longas tranças e cachos de cabelo caindo ao redor de seu peito e costas, e um chapéu de palha velho, faça chuva ou faça sol."
"Esse era L-l-lorenzo Dow," disse o pastor das ilhas. "Ele se virou para o K-king Custis e gritou: 'Q-quem és tu? O Senhor te ferirá, s-sepulcro caiado, e z-zombará de ti nos f-filhos dos teus filhos, tu A-a-a-hab e tua J-j-jezebel!' Foi para a esposa do Rei Custis que ele apontou também, a maior dama e herdeira da V-v-virgínia. El-l-la f-f-desmaiou de m-medo ou r-raiva ao ouvir a profecia e o insulto dela. Então, virando-se para Eb-b-benezer Johnson, Lorenzo Dow gritou: 'Os cães serão enterrados mais seguros que seus ossos. Agarrai-o, irmãos!' E a-alguma coisa no t-toque de trombeta de Lorenzo Dow fez de cada M-metodista um gigante. Eles s-avançaram sobre Ebenezer Johnson, o valentão de t-três estados, e bateram nele até o chão, e correram com seu bando até os barcos, e então o j-jogaram em uma pequena c-cadeia que tinham no acampamento, p-para sua própria segurança."
"O que o Rei Custis fez então, Papai Thomas?" perguntou Levin.
"Ora, irmãos, o que ele fez senão usar sua influência f-f-familiar para p-pedir um mandado para o pregador e seus m-gerentes, sob a alegação de f-falsa prisão e c-calúnia! Lorenzo Dow conseguiu chegar em Maryland s-seguro do mandado, mas nosso p-presbítero foi colocado na cadeia até que pudesse p-pagar dois mil dólares de multa. Quase levou os pobres Metodistas daquela época à miséria para arrecadar tanto dinheiro, mas g-glória seja a D-deus! podemos arrecadar agora qualquer dia do ano, e na próxima g-geração poderemos comprar nossos p-perseguidores."
"Então Ebenezer Johnson, de acordo com o falatório do gritador de outono, levou um soco na cara, meu irmão de batina? Mas ele não subiu em escada nenhuma, subiu?"
O anfitrião gago pareceu não compreender essa exclamação sarcástica, e Levin Dennis disse:
"O Rei Custis não foi morto, foi, Papai Thomas?"
"Foi nos filhos dos filhos dele que o p-p-punimento foi prometido," disse o pastor da ilha, "e para o Senhor mil a-anos são apenas como d-dias."
"A maré está mais cheia, Levin," gritou Joe Johnson, "sua quilha está livre. Agora aponte para Manokin. Então, bingavast, meu amigo, e que você cante tudo sozinho quando eu me for!"
"Deus abençoe os rapazes!" gritou o ilhéu, "e m-mantenha-os longe do f-fogo eterno que está queimando em sua jarra. E s-estranho, lembre-se do fim de Eb-b-benezer Johnson, e arrependa-se!"
O velho, descalço, curvado, gaguejando, mas com uma corda de retórica natural em sua traqueia fina como uma corda de violino, ficou olhando para eles até que passassem pelo canal sob a vela de bujarrona, e Joe Johnson não disse uma palavra até que algum arbusto de pântano se interpusesse entre eles, estando ele aparentemente sob um resquício daquele pânico que o havia tomado no acampamento.
"Esse é um bom homem," disse Levin Dennis, entregando o leme a Jack Wonnell e içando a vela; "ele pregou para os britânicos quando partiram das Ilhas Tangier para tomar Baltimore, e disse-lhes que seriam derrotados e seu general morto. Ele fez todos os ostricultores daqui se juntarem às igrejas da ilha e guardarem o domingo. Aquele gaguejo o deixa quando ele prega, e quando ele puxa o brado nas reuniões é tão penetrante quanto uma trombeta."
"Ele é um maldito canalha cigano," murmurou Joe Johnson, "para me contar tal história! Mas, kirjalis! ele não me amaldiçoou!"
"Que língua é essa, Sr. Johnson? É holandês ou português?"
"É o que chamamos de cigano; alguns chamam de Quaker. É conveniente, Levin, quando você vai à Filadélfia, ou Washington, ou Nova York, ou alguma dessas grandes cidades, e quer conversar com homens de negócios sem que as codornas fiquem piando para você. Algum dia eu vou te ensinar se você for um bom rapaz."
Eles agora navegavam para fora do canal em direção à larga foz do Manokin, onde uma calmaria caiu sobre o ar e a água por um tempo, e eles podiam ouvir uma música abafada, como a de peixes-tambor sob a água, batendo, "thum! thum!", e caranguejos e savelhas subiam à superfície ao redor deles, perseguidos pelos peixes-alfaiate. O barco derivou para a foz de um riacho onde robalos e percas corriam no topo da água, e com as pinças Jack Wonnell levantou meia faneca de ostras em poucos mergulhos, e abriu-as para o grupo. Ao longo das margens, espinheiros bravos e ameixas bravas ainda aderiam aos arbustos, e as árvores de caqui de ramos rígidos carregavam milhares de seus frutos semelhantes a tomates. As perdizes chilravam no milho, os melros faziam um banquete fúnebre ao redor da forragem, algumas mansões antigas da orla estendiam seus longos lados e alojamentos de negros salpicados ao longo das enseadas, meio escondidos pelas nogueiras, e no ar planava o urubu, como um político voluptuoso, tirando beleza de nada além de sua posição elevada.
"A velha Costa Leste," disse Jack Wonnell, com sua vacuidade animada, "é cheia de coisas boas, Capitão Johnsin. Você pode cair borda fora em quase qualquer lugar e conseguir uma refeição completa. Você pode pegar um balde de caranguejos com um pedaço de vela antes do café da manhã, e atirar em um pato selvagem quase com os olhos fechados."
"Este país não serve para nada," disse Joe Johnson. "A Flórida é que é a terra! O que um negro pode ganhar aqui? Milho, batatas, melões: bah! O tabaco está acabando, o algodão não vingará aqui. Mas a Flórida é o El Dorado da terra."
"O que é o El Dorado?" perguntou Levin.
"Isso é espanhol ou português para negros baratos e algodão," gritou o negociante. "Algodão é o pássaro!"
"Eu pensei que algodão fosse lã," disse Levin.
"Não, rapaz, algodão é uma planta, crescendo como uma framboesa em um arbusto, tendo empurrado as flores para fora e estourado as vagens abaixo delas, e lá está ele para os negros colherem. Tem um ianque na Geórgia que fez um descaroçador de algodão para limpá-lo, e agora todo o mundo quer um pouco dele."
"Um pouco do descaroçador?" perguntou o irrelevante Wonnell.
"Não, um pouco do algodão, Doutor Green! Eles não conseguem o suficiente dele. A Europa está louca por isso, mas não há negros suficientes para colhê-lo todo. Então estou no comércio de negros e tentando ser útil ao meu país, e o que ganho com isso? Sou desprezado, e um negro é protegido por me atrapalhar! Mas não importa, ainda serei um figurão, e terei minha carruagem--na Flórida."
"Para que serve a Flórida?" perguntou Levin.
"Está cheia de negros índios, Seminoles, cada um deles vai ser capturado e marcado, e colocado para plantar algodão e tabaco, e pastorear porcos e vacas. Mais negros serão trazidos de Cuba, e todos os negros livres em Delaware e lá no Norte serão vendidos, e você e eu, Levin, vamos possuir um bando deles e ter um pomar de laranjas e mil acres de algodão em flor. Vamos manter nossas cabeças erguidas. Sua mãe será tratada como uma nababa. Minha esposa será uma dama em diamantes. Vamos desprezar Cambridge e Princess Anne, e não sobrará um negro livre na face da terra. Vamos brindar a isso!"
O Levin, de cabeça doente, mas cheio de fantasias, bebeu novamente e ouviu as histórias maravilhosas do negociante sobre frutas douradas em costas de anil, e palmeiras que abrigavam papagaios chamando os cervos selvagens. Jack Wonnell assumiu o leme quando Levin se deitou para dormir na pequena cabine, ainda embalado por histórias de riqueza e ousadia ilegal, e lá ele dormiu o sono profundo do náufrago, quando a embarcação encalhou ao anoitecer, ao som dos sinos da igreja da tarde, em Princess Anne.
"Deixe-o dormir," falou Joe Johnson; "aqui, Wonnell, eu lhe dou três de suas moedas para levar para a mamãe dele," entregando três moedas de ouro. "Não se esqueça! Aqui está um xelim para você," dando a Jack uma moeda de seis pence. "Você e eu nos separaremos em Princess Anne."
CAPÍTULO XVIII.
DEBAIXO DE UMA CAPOTA ANTIGA.
Vesta estava sentada há meia hora ao lado de seu marido inconsciente, ouvindo seu discurso entrecortado e pensando sobre a rapidez dos eventos uma vez iniciados em seu curso, como filhotes de águia mal ensinados a voar antes de atacarem e matarem, quando o som de rodas de carruagem, detidas à porta, chamou-a à janela, e Tom, o pássaro-zombeteiro, que estivera relativamente quieto desde que encontrou seu dono bem cuidado, começou a pular, voar no ar e cantar novamente:
"Doce--doce--doce! venha ver! venha ver!"
Vesta viu o homem de cor, ágil e deliberado de Meshach, descer e virar a cabeça dos cavalos, e lá desceu da carruagem, sem usar o degrau, com um salto e um pulo, um objeto feminino jovem cuja cabeça era invisível dentro de uma enorme capota de chita azul estampada. Por mais rápido que tenha executado o salto, Vesta observou que a recém-chegada esquecera de calçar suas meias.
Antes que Vesta pudesse se virar da janela, esse objeto singular disparou pelas escadas escuras do antigo armazém e lançou-se sobre a cama do homem delirante:
"Tio, Tio Meshach! o senhor está morto, tio? Acorde e beije sua Rhudy!"
Ela beijara seu tio abundantemente enquanto esperava o mesmo dele, e o ataque o deixou um pouco excitado, sem trazer sua mente a qualquer lembrança sustentada, embora Vesta tenha ouvido as palavras "querida criança", antes que ele virasse a cabeça e perseguisse as papoulas selvagens novamente. Então a jovem, exclamando,
"Senhor do céu! O tio não conhece sua Rhudy!" puxou seu avental preto sobre a cabeça e teve um choro silencioso--uma pequena convulsão no pescoço e nenhum suspiro audível além disso.
"Ela chora com certo refinamento," pensou Vesta; e observou também que a visitante era uma moça alta, de dedos longos, bastante atraente, de provavelmente dezessete anos, com roupas que a costureira não teria culpa, e uma capota de armação, tal como as pessoas velhas continuavam a fazer em memória das embarcações de convés alto que lhes trouxeram os últimos estilos quando seus ancestrais emigraram com tudo o que tinham, e para sempre, de uma terra de modas. A capota era um objeto notável para Vesta, embora tivesse visto algumas à distância, chegando nas cabeças do povo da floresta para a igreja Metodista. Assemelhava-se ao navio de convés alto de Colombo, que ele construíra tão alto de propósito, diziam as moças no seminário, para ter a vantagem de espionar o Novo Mundo primeiro; mas também se assemelhava aos longos carros Conestoga, em forma de arco e ocos, dos quais Vesta tinha visto tantos passarem por seu internato em Ellicott's Mills antes que a nova ferrovia tivesse chegado lá completamente. Como ela frequentemente espiava dentro daqueles vastos carros de corpo azul para ver que criaturas poderiam ser passageiras em suas profundezas, assim ela aproveitou a primeira oportunidade da capota azul ser sacudida pela enlutada para discernir o rosto lá dentro.
Era um rosto bonito, com um par de olhos castanhos sensíveis e também maliciosos, postos na atitude de admiração no momento em que observavam outra mulher no quarto. A pele era pálida, a boca generosa, o nariz longo, como o de Milburn, mas não tão enfático, e o pescoço, a testa e a forma do rosto longilíneos, e com algo fino em meio ao olhar selvagem, como de vaca, que ela fixou em Vesta, exclamando, em um sussurro,
"Senhor do céu! uma dama está aqui!"
Então ela jogou o avental sobre a capota Conestoga novamente, e segurou-o lá com seus dedos longos, e pulsos longos, gordinhos e manchados pelo tempo.
Vesta observou com os primeiros sintomas de diversão que sentira desde a manhã em que ela e sua mãe riram do chapéu de copa alta, enquanto olhavam das janelas de Teackle Hall para o homem que já era seu marido. Aquela manhã parecia ter sido há um ano; fora apenas ontem.
"Chapéus e capotas velhos," pensou Vesta, "não serão novidades para mim logo, logo. Esta família dos Milburn é cheia deles."
Então, dirigindo-se à recém-chegada, Vesta disse,
"Este é seu tio, então? Onde você mora?"
"Eu moro em Nu Ark," respondeu a senhorita, tirando o avental preto e olhando das profundezas da capota, como um porquinho-da-índia de sua toca.
"Se ela tivesse dito 'a Arca' sem o 'Nova'," pensou Vesta, "teria parecido natural."
"Seu tio está com febre alta," disse Vesta, gentilmente; "ele não corre perigo, nós achamos. Foi certo você vir, no entanto. Agora tire sua capota. Qual é o seu nome?"
"Rhudy--Eu sou Rhudy Hullin, senhora."
"Rhoda--Rhoda Holland, eu acho que você diz."
"Sim, senhora, Rhudy Hullin. Eu moro do outro lado do Pookamuke, no lado do Oceano, lá fora por Sinepuxin. Eu não moro em uma cidade grande como Princess Anne; eu moro em Nu Ark."
Nisso, a moça cuidadosamente extraiu sua cabeça da capota Conestoga, olhou por toda a capota com orgulho e ansiedade, e então cuidadosamente a colocou sobre a caixa de chapéus de seu tio.
"Tio Meshach me deu," ela disse, com uma inclinação astuta em direção ao leito do doente. "A senhora Somers fez. Tio, ele comprou todo o material; a senhora Somers desenhou. Você já viu algo parecido?"
"Nunca," disse Vesta.
"Bem, algumas pessoas lá em Sinepuxin disseram que era um pecado e uma vergonha--tanta extravagância; mas a senhora Somers disse que o Tio Meshach era rico e não tinha nada além de uma Rhudy. Não é tão grande quanto a capota da senhora Somers, mas é mais enfeitada."
Aqui Rhoda deu uma repetição do que Vesta já observara duas vezes antes--um fungar inaudível, e, sendo pega nisso, limpou o nariz no avental.
"Pegue meu lenço," disse Vesta, "você está com frio," e passou seu cambraia com uma borda de renda.
"Para que serve?" perguntou Rhoda, olhando para ele supersticiosamente. "Você não limpa o nariz nele, limpa? Senhor do céu! não é um pedaço do seu enfeite de pescoço?"
Vesta sentiu-se bem-humorada ao ver aquela erva da natureza virar o lenço e segurá-lo pelo polegar e dedo, como se pudesse tornar-se responsável por qualquer coisa que pudesse acontecer a ele.
"Eu tenho dois desses aqui," ela disse; "a senhora Somers fez de um vestido. Eles não têm esse engomado; são coisas bem grandes. Eu sempre esqueço deles. Meu nariz se limpa sozinho."
"Agora chegue perto do fogo e aqueça seus pés," disse Vesta; "pois sua viagem do lado do oceano, nesta manhã fria, através das florestas de Pocomoke, deve tê-la deixado gelada. Tire seu xale de manta."
Rhoda colocou o enorme xale preto e verde, que chegava aos seus pés, sobre o baú verde, e alisou-o com orgulho evidente.
"Tio Meshach comprou aquele em Wilmington," ela disse; "não é lindo! Eu nunca o uso, exceto quando venho aqui ou vou a Snow Hill. Snow Hill é um lugar tão orgulhoso!"
Ela tinha um jeito de rir, apenas franzindo as bochechas, sem som, exatamente como expressava a sensação de dor; a única diferença sendo no brilho de seus olhos; e Vesta achou que havia algo contagioso nisso. Ela ria largamente e em silêncio, como se tivesse sido colocada de castigo na igreja, e lá tivesse adotado uma careta para fazer as outras garotas rirem e salvar-se da suspeita.
Quando ela puxou suas saias até os pés, a observação de Vesta foi confirmada de que Rhoda não estava usando meias, e ela não pôde deixar de exclamar,
"Minha querida criança, o que a possuiu a cavalgar nesta manhã de outubro apenas meio vestida? Você pode pegar uma doença mortal."
Rhoda pegou o nariz no meio fungar, levantou e covinhou as bochechas em uma risada astuta, e gritou,
"Senhor do céu! você quer dizer minhas pernas? Ora, eu não tenho nada além de dois pares de meias, e a senhora Somers está usando um deles, e o par velho está na lavagem. É tão tedioso tricotar meias, e tão divertido andar descalça, que eu não as uso a menos que a senhora Somers descubra. Ora, os rapazes não conseguem me ver!"
Ela fez careta novamente de forma tão natural e envolvente que Vesta teve que rir alto, e viu enquanto isso que os sapatos frequentemente remendados da jovem cobriam um pé esguio que uma dama poderia ter invejado.
"Agora, Rhoda," disse Vesta, quase indignada, "por que você não pediu ao seu tio rico por umas boas meias de fio?"
"Ele? Ora, senhora, ele tem tantos parentes pobres, se ele começasse a dar meias a todos eles, ele mesmo andaria descalço."
"Ele tem outras sobrinhas como você?"
"Não." A moça sorriu quietamente, com seus olhos castanhos cheios de riso. "Tem muitas outras, mas nenhuma como Rhudy; a floresta está cheia dessas outras."
"Então você é a favorita? Agora, o que seu tio ia fazer com todo o seu dinheiro?"
"Senhor do céu!" Rhoda disse; "ele ia se casar com a Senhorita Vesty com ele. Foi o que a senhora Somers disse."
O pássaro-zombeteiro estivera começando uma ou duas vezes na conversa, e agora soltou sua nota alto:
"Vesta, ela! ela! ela! ela-ee-ee!"
Um formigamento daquela superstição que ela sentira mais de uma vez já, em seu breve conhecimento dessa família da floresta, percorreu as veias e nervos de Vesta, e ela comentou silenciosamente,
"Quão pouco uma moça sabe dos homens ao seu redor--quais sátiros estão tomando sua imagem para seus braços! Essas pessoas sabiam que ele me amava, quando eu nem sabia que ele jamais me vira."
Ela se dirigiu à sobrinha novamente:
"Rhoda, seu tio disse que amava a Senhorita Vesta?"
"Não, senhora. Ele nunca disse que amava nada; mas ouvi Tom, o pássaro-imitador, gritar 'Vesty', e vi o retrato de uma dama ali entre o vovô e a vovó, e contei para a Misc Somers, e ela disse: 'Seu tio Meshach está apaixonado!'. Oh, fiquei muito contente, porque ele era tão triste e solitário!"
A fonte da compaixão jorrou novamente no coração de Vesta, e ela sentiu que havia compensações que a riqueza e o status desconheciam em alianças humildes como a dela.
"Rhoda", disse ela, indo até a jovem e colocando a mão sobre seus macios cabelos castanhos, "você não notou o novo retrato de uma dama pendurado aqui, notou?"
"Não, senhora, ainda não. Tudo está tão estranho neste quarto desde a última vez que o vi, que não vi nada nele a não ser a senhora. Agora vejo o tapete, e os atiçadores de latão, e a louça, e... valha-me Deus! aquilo é um retrato? Ora, pensei que fosse a senhora."
"Sou eu, Rhoda. Eu sou Vesta; sou sua nova tia."
A moça soltou uma daquelas suas risadas cativantes, silenciosas e com covinhas, como se fosse novamente às escondidas, transformou-a num choro silencioso por uma reviravolta tão natural, e levantou-se e tomou Vesta em seus braços.
"Estou tão contente, que vou chorar um pouco", disse Rhoda com um sorriso afetado, os olhos todos úmidos; "oh, como a Misc Somers vai dizer: 'Fui eu quem descobriu primeiro!'"
Tom mantinha um grito sibilante e autocomplacente, como se tivesse seus próprios pensamentos:
"Doce! doce! doce! Vesty, veja! veja! veja!"
Vesta sentiu uma corrente de pensamentos felizes surgir em sua mente, que ela expressou tão francamente quanto a moça dos produtos da floresta havia falado, para que não retardasse o acolhimento dessas amizades singelas:
"Sim, Rhoda, sou grata por encontrar uma vida social aberta para mim onde parecia não haver caminho, e riachos e companheiros de brincadeira onde tudo parecia seco. Você vem aqui como um raio de sol, Deus a abençoe! Posso ouvi-la falar e ensinar-lhe o pouco que sei, e cuidaremos um do outro, vigiando-o."
Ela sentiu uma leve modificação de sua alegria com esse lembrete, mas o pássaro parecia ensinar-lhe paciência, enquanto sugeria, saltitando e voando no ar:
"Venha ver! venha ver! venha ver!"
"Sim", pensou Vesta, "venha e veja! É um bom conselho. Começo a sentir o despertar de um novo sentido, a curiosidade sobre os pobres e humildes. Minha educação parece ter fechado minha observação sobre as pessoas da minha própria raça, que diariamente pisavam quase nas minhas saias, e a quem eu nunca via — a quem era considerado respeitável não ver —, enquanto até meus servos de cor desfrutavam de toda a minha confiança por serem meus escravos. No entanto, na desventura, a essas pessoas brancas simples eu devo ter descido; e então Roxy e Virgie, vendidas a algum homem rico temporário, teriam estado acima de mim, escravas como continuariam sendo! Quão falsa, quão fatal, tanto a escravidão quanto a riqueza orgulhosa para os republicanos que fingimos ser! Compelida 'a ver' finalmente, não fecharei meus olhos nem endurecerei meu coração."
A criada de Newark, entretanto, inspecionara silenciosamente o tapete de retalhos, as tapeçarias de tecido, a cadeira de balanço de fada e todas as aquisições da morada de seu tio, e Vesta observou novamente que ela era de porte e movimento esguios e flexíveis, sem afetação em nada, nem atrevida nem agitada, e com aquele olhar astuto tão próximo do espírito pronto que ela conseguia fazer Vesta rir quase à vontade. Vesta mostrou-lhe como administrar a bebida refrescante e a esponja ao enfermo, e ele os viu juntos com um olhar de indagação que a ação febril logo afastou.
"Seus pais estão vivos, Rhoda?"
"Não, senhora; ambos estão mortos. Minha mãe era irmã do Tio Meshach, e ela se casou com um homem rico, que fervia sal e tinha navios e mantinha uma taverna. O pai Hullin morreu de pulmonia; a mãe morreu logo depois. A Misc Somers me criou onde costumava ser a taverna. Já não é mais um ponto de parada. O Tio Meshach é o dono."
"É um lugar agradável?"
"Agora não é tão agradável quanto costumava ser, Tia Vesty" — a moça deslizou facilmente sobre o que Vesta pensou ser uma palavra difícil — "já que os shows não param mais lá."
"Os shows? O que é isso?"
"As figuras de cera e os sopradores de vidro, e o homem mais forte do mundo. A senhora já o viu?"
Vesta disse: "Não, querida."
"Eu o vi", disse Rhoda, com uma compressão da boca e um brilho nos olhos. "Ele quebrou uma pedra com o punho e a Misc Somers guardou a pedra, e o que a senhora acha que era?"
"Mármore?"
"Não, senhora; giz! Ele apenas lavou o giz com um pouco de goma ou verniz ou algo assim, e, claro, ele quebrou bem fácil; então ele não era o homem mais forte do mundo de jeito nenhum, e se a Misc Somers o vir de novo, ela vai dizer isso a ele."
"É uma casa pequena ou grande, Rhoda?"
"Oh, é uma casa magnífica, duas vezes maior que esta, com o telhado curvado como as costas de um elefante, e três janelas nele — janelas mansardas de verdade, que parecem três olhos de um caranguejo, e uma empena de três fileiras de janelas de altura, e quatro chaminés altas. O equilibrista disse que era digna de ser um palácio real. Depois tem a cozinha e a colunata construídas nela. É a maior casa, creio eu, por Sinepuxent. Aquele equilibrista é um charlatão."
"Um charlatão? Você quer dizer um montambanco, um impostor?"
"Sim, senhora" — a boca se fechou e os olhos brilharam novamente. "Ele alegou que quebraria a corda depois de ter andado nela, e disse que não estava esticada o suficiente, e foi andando sentindo-a; e a Misc Somers descobriu que toda vez que ele a tocava, ele passava um pouco de água de vitríolo ou algo assim para apodrecê-la, então, é claro, ele a quebrou facilmente. Mas a Misc Somers vai dizer a ele, se ele vier de novo, que ele é um charlatão. Valha-me Deus! ela não tem medo."
"Então, já que deixou de ser uma taverna, querida, você não vê mais malabaristas?"
"O último show lá", disse Rhoda, "foi o dos canibais e o missionário. O missionário os havia convertido, e eles não comiam mais ninguém; mas ele contava como costumavam comer pessoas; e eles roubaram um pônei dos estábulos e correram para o pântano de Cypress, e lá eles acabaram sendo alguns cortadores de ripas que ele tinha acabado de pintar. A Misc Somers está esperando por ele. Valha-me Deus! ela não se importa."
"E então você era órfã, criada na velha hospedaria de beira de estrada em Newark? E quem é a Sra. Somers?"
"Misc Somers, ela é uma velha tia do Pai Hullin. Ela e eu moramos juntas desde que o pai e a mãe morreram de pulmonia. Oh, eu tenho um monte de pretendentes que me levam para o Oceano na praia de Sinepuxent, fora do caminho dos mosquitos, e lá nós vadeamos e velejamos, fervemos sal e assamos caranguejos. Tia Vesty, posso tirar quase qualquer moça de seu pretendente; mas, valha-me Deus! ainda não encontrei nenhum homem que eu ame."
"Fico feliz com isso", disse Vesta, "porque então você ficará satisfeita com Princess Anne. Dizem que seu tio ficará doente aqui por várias semanas, e podemos ajudar uma à outra a deixá-lo bem. Agora ele está acordando."
Milburn abriu os olhos e suspirou, e viu as duas juntas, e Rhoda conteve-se consideradamente enquanto a jovem esposa se aproximava da cama. Ele olhou para ela com uma dúvida confusa.
"Pensei que tivessem dito que você tinha ido para sempre", murmurou ele.
"Não, eu vim para sempre, ou até que você deseje que eu vá embora."
"Eu lhes disse isso", suspirou ele; "eu disse: 'Ela tem princípios elevados, embora não possa me amar'."
"Tio Meshach, dê tempo à Tia!" gritou Rhoda, com uma rápida adivinhação de algo não resolvido ou incompreendido. "Você não conhece sua Rhudy? Até eu tinha medo de você até ficar doente e você achar que era pulmonia e cuidar de mim."
"Você tem uma boa sobrinha", disse Vesta, enquanto seu marido beijava a estranha; "e nós nos amaremos, espero, e nos aperfeiçoaremos."
"Sim, isso será nobre", respondeu ele. "Ensine-lhe algo; eu nunca tive tempo. Oh, estou muito doente; em uma época como esta, ainda por cima!"
"Fique composto, Sr. Milburn", disse a noiva; "é apenas a Natureza tomando o tempo que você não quis lhe dar, e que ela pretende que usemos para melhorar nosso conhecimento quase violento. Ficarei muito feliz sentada aqui, e gostaria que deixasse sua sobrinha ficar comigo; eu desejo isso."
Ele tentou sorrir, embora o suor intenso que sucedeu a febre irrompesse nele, das mãos ao rosto.
"Ela é sua", disse ele; "a melhor dos meus pobres parentes. Não nos despreze!"
Vesta puxou Rhoda para seu braço e beijou-a, para que ele pudesse ver.
"Que bondade!", suspirou ele, e a abertura de seus poros, ao deixar a febre escapar, deu-lhe uma sensação de alívio sonolento que Vesta compreendeu.
"Agora vamos dobrar as cobertas sob as bordas, Rhoda", disse ela, "e colocar seu xale sobre ele, e ele terá um sono natural."
Ele se virou uma vez, como se para ver se ela estava lá, e fechou os olhos pacificamente como uma criança.
"Agora, Rhoda", disse Vesta, em poucos minutos, "ouço a carruagem do papai à porta, e, enquanto ele sobe, voltarei para ver minha mãe e pegar algumas coisas em casa."
"Quem é seu papai, Tia Vesty?"
"Você não o conhece? — O Juiz Custis, que mora em Princess Anne."
"Juiz Custis! Ora, valha-me Deus! ele não é seu pai, é? Tia Vesty, ele é um dos meus antigos pretendentes."
O Juiz trouxe consigo o Reverendo William Tilghman, e Vesta, ao se retirar, apresentou Rhoda a ambos:
"Esta é a Srta. Rhoda — sobrinha do Sr. Milburn."
O Juiz Custis, um pouco corado, tomou ambas as mãos de Rhoda:
"Ha, minha linda parceira e aluna de dança! Como vão nossos amigos em St. Martin's Bay e Sinepuxent? Quantas velejadas e festas de mariscos tivemos, Rhoda."
"O senhor é um enganador", gritou Rhoda, com covinhas em algum lugar entre a alegria e a acusação. "Vou processá-lo, Juiz, por não me dizer que era um homem casado. Meu coração está partido."
"Quem poderia lembrar-se do que era, Rhoda, sentado toda aquela noite ao seu lado em — onde foi mesmo?"
"Os sopradores de vidro boêmios", gritou Rhoda; "os únicos que já visitaram o Hemisfério Ocidental. Juiz", com súbita impetuosidade, "aquele pequeno, com os anéis de cobre nas orelhas, não era boêmio de jeito nenhum. Ele morava lá em Cape Henlopen, e a Misc Somers o viu lá quando estava comprando arenque. Ela vai dizer a ele, quando o pegar em Newark."
O jovem reitor observou o brilho daqueles olhos vivos seguindo as covinhas agradáveis, e os deslizes de ortografia pareceram-lhe nunca menos culpáveis vindo de tais lábios e dentes.
"William", disse Vesta, "venha esta tarde, e tenhamos nosso círculo de leitura de domingo habitual. O Sr. Milburn estará acordado e apreciará isso, já que ele é um de seus paroquianos mais regulares. Rhoda, você sabe ler?"
"Oh, sim, senhora. Misc Somers, ela é uma boa leitora. Ela lê o Antigo Testamento. Os nomes lá são quase longos demais para mim, mas leio os Salmos e os Provérbios muito bem."
"Muito bem, então, leremos versículo por versículo, para que o Sr. Milburn possa ouvir ambas as nossas vozes e a de seu ministro favorito também. Você virá, papai?"
"Sim, se eu puder. Tivemos uma festa de amor em Teackle Hall esta manhã, e sua irmã de Talbot está aqui, mas acho que posso escapar."
"Valha-me Deus!" disse Rhoda, olhando para o Sr. Tilghman com franqueza; "o senhor não é ministro agora? Não é um ministro do Evangelho?"
"Indignamente, sim, Srta. Rhoda."
"Bem, não vejo como o senhor era velho o suficiente para ser convertido e aprender tudo isso, a menos que fosse um milagre espiritual. Misc Somers viu um deles em Chincoteague. Chamavam-no de criança fenômeno. Ele exortava com cinco anos de idade, e aos sete deu seu testemunho."
"Raro, Srta. Rhoda", disse o reitor, mal conseguindo manter sua reverência diante da diversão com a impetuosidade dela.
"Oh, ele causou uma agitação selvagem, Tia Vesty. As mulheres davam umas às outras seus bebês para segurar enquanto se revezavam gritando. 'Aqui, Becky, segure meu bebê enquanto eu grito!', dizia uma. 'Agora, Nancy, segure o meu enquanto eu grito!' Ver aquele garotinho lá em cima contando seu testemunho era milagroso, e causou uma agitação como as marés altas em Chincoteague que os afogam. Mas, Tia Vesty, aquele pequeno fenômeno era um anão, de vinte anos, e a Misc Somers descobriu e contou sobre isso."
"Eu aposto que a Sra. Somers sabe!", exclamou o Juiz.
"Isso ela sabe", continuou Rhoda, seriamente, com uma leve fungada de um nariz bem modelado e covinhas que indicavam a Vesta algo por vir. "Misc Somers diz que o senhor segurou um daqueles bebês, Juiz, para deixar a mãe gritar, e fingiu estar sob uma convicção; e que o senhor retrocedeu logo ali e estava sussurrando para a outra mãe. Valha-me Deus! Misc Somers descobre tudo."
"Bem", disse o Juiz, achando o riso contra si, "nunca fiz melhor campanha eleitoral do que naquele dia. Por segurar aquele bebê cinco minutos, conquistei um voto, e a mãe o segurará vinte anos antes que faça um voto."
"Misc Somers diz, Juiz, que o senhor segura as mulheres por mais tempo do que seus bebês; mas eu lhe disse que o senhor estava em tal convicção que não sabia distinguir um do outro. 'Oh', ela diz, 'ele é astuto e seguro quando chega aqui no lado de Worcester'. Misc Somers, ela é terrivelmente direta."
William Tilghman, durante a continuação desse colóquio, olhou com interesse para as duas jovens: Vesta, a mais velha por dois ou três anos, e ricamente dotada com as luzes tanto da beleza quanto das realizações; a moça do lado do oceano, mais simples, e sem nenhum ornamento por dentro ou por fora; mas ele podia prever, sob a tutela de Vesta, uma mulher graciosa, com coquetismo e fascínio nem totalmente latentes ali; e, enquanto seus olhos encontravam os de Rhoda, ele interpretou o olhar que em certa época da vida quase toda donzela lança ao encontrar um jovem — "Ele é solteiro?". Ela disparou esse olhar de forma tão astuta, porém tão forte, que a flecha o feriu um pouco ao ricochetear. Ele sorriu, mas a consciência foi restaurada por um momento de que ele era um homem jovem ainda, bem como um sacerdote. O amor, que fechara uma porta como o portal de um túmulo contra ele, começou a emergir como um vaga-lume e piscar sua lâmpada através da escuridão.
"Ela deve vir à escola dominical", pensou ele, "se ela ficar em Princess Anne. Vamos polir essa pedra."
O pássaro-imitador, não estando satisfeito com qualquer pausa na conversa, "animou-se", ao ver Vesta se retirar, e gritou:
"'Sband! 'Sband! Meee--shack! Mee-ee-ee-shack! Veja-me! veja-me! Cavalheiros! cavalheiros! cavalheiros! genten! Doce! doce! doce! Hoo! hoo! Veja! veja! Vesty, ela! Ha! ha!"
Ele voou no ar sobre seu mestre agitado, como se duvidasse que tudo estivesse bem, já que a estranha senhora, que estivera tão quieta durante toda a manhã, havia partido.
"Esse pássaro quase fala", disse William Tilghman; "passei muitas horas ensinando-os, mas nunca consegui fazer um falar assim."
"Talvez o senhor tivesse coisas demais para ensiná-lo", disse Rhoda Holland; "não é sempre que eles podem falar, e não devem ter muita companhia para aprender bem. O Tio Meshach não teve companhia a não ser aquele pássaro por anos. Creio que o pássaro ficou bravo e solitário, e apenas disparou palavras para ele."
"O que ele está dizendo agora?", perguntou Tilghman. "Veja! está quase convulsivo em suas tentativas de dizer algo."
O pássaro cinzento, tão impressionante quanto um poeta pobre, parecia quase em estado de epilepsia para trazer à tona algum peso de som opressivo, e, enquanto o observavam, quase embriagado com o tóxico da fala, esvoaçando, dirigindo-se e golpeando no ar, de repente soltou uma nota líquida como neve borbulhando de um bico de bebedouro:
"A-a-amo-amor! amor! amor! Ha! ha! A-a-amor!"
"Muito bem, velho solteirão!", comentou o Juiz Custis, apesar de seu rosto cansado, pois a boa resolução e o desânimo de ontem haviam deixado-o ainda um tanto flácido e abatido. "Ele solta 'amor' como se tivesse feito um voto contra ele, mas a confissão tinha de vir. Muitos monges cantariam o mesmo se o instinto pudesse encontrar uma palavra ousada em seus corais. Esses imitadores de Maryland eram celebrados nas revistas britânicas cem anos atrás, e recordo-me de algumas linhas sobre eles."
Ele então recitou:
"'Seu peito cujas plumas um branco alegre exibem, Suas asas trêmulas em sóbrio cinza se vestem, Certamente todas as Musas este pássaro inspiram, E ele sozinho é igual a um coro. Oh, doce músico! tu em muito excedes O canto suave da agradável Filomela: Doce é seu canto, mas em poucas notas confinado, Mas o teu, tu, mímico da espécie emplumada! Corre por todas as notas: tu só as conheces todas, Ao mesmo tempo a cópia e o original!'"
"Isso é magnífico!", exclamou Rhoda, com deleite silencioso; "quem é o 'fellow Mil', Juiz?"
"Oh, esse é o rouxinol britânico. Esses pássaros-imitadores americanos os superam como um dos nossos clippers da Costa Leste supera todas as potências navais da Europa."
"Já ouvi falar do 'Rouxinol Britânico'", disse Rhoda, com um brilho nos olhos; "ele era um homem cego com óculos verdes que cantou em Newark, ''ome, sweet 'ome' — é assim que ele pronunciava — e isso o afetou tanto, que ele teve de beber um copo inteiro de água, e a Misc Somers, espionando por aí para ver se ele era o verdadeiro rouxinol, descobriu que era gim naquele copo, e contou sobre isso."
Rhoda fez até o ministro rir, enquanto ela aprofundava as covinhas e lançava um olhar de ovelha para ele e para o Juiz. Ele se maravilhou que tal inglês da floresta pudesse ser tão pouco ressentido por sua mente, mas pensou:
"Não importa, ela pode não ter tido mais lições do que o pássaro, cuja dificuldade é até bela. Mas veja! O Sr. Milburn está totalmente acordado. Meu amigo, como você se sente?"
"Melhor, melhor!", murmurou Milburn. "Não posso ficar aqui deitado por mais tempo. Há dinheiro, dinheiro, cavalheiros, dependente de eu me levantar."
Ele começou a se levantar com a maior resolução e confiança, e caiu de cabeça antes mesmo de ter deixado os cobertores.
"Não, não!", disse o Juiz, enquanto ele e Tilghman pegavam Milburn e o arrumavam como antes. "Sua vontade foi superada desta vez, meu bravo genro! Você está de volta à cabana que consumiu, entre os incêndios dela, e a rajada vingadora da fornalha de Nassawongo queima em suas veias e o resfria no lago do moinho alternadamente. Deite-se aí e arrependa-se pela injúria que você fez a uma pessoa imaculada!"
Se Meshach ouviu isso, nunca se soube, mas a expressão inconsciente ou impulsiva fortaleceu a impressão em Tilghman e Rhoda de que o casamento de Vesta não foi totalmente voluntário, e produziu em ambos um sentimento de simpatia e respeito mais profundos por ela.
"Juiz", disse o jovem ministro, "faça o bem pelo mal, se mal houve! Eu lhe dei minha mão sinceramente; talvez você possa aliviar sua mente de alguma preocupação comercial."
"Sr. Milburn", disse o Juiz, quando viu os olhos resinosos rolarem em sua direção novamente daquele rosto sombrio, agora pálido de fraqueza, "estou sem trabalho agora, e posso trabalhar barato. Deixe-me fazer qualquer tarefa para você."
Um olhar de petulância, seguido por um de indagação, surgiu dos olhos de Milburn, e ele pressionou a cabeça entre os pulsos, como se para trazer de volta o sangue que pudesse impulsionar seu julgamento. Eles o ouviram murmurar:
"Sem prudência comercial — contudo plausível, persuasivo — poderia fazer bem."
O Juiz falou agora, com certa firmeza:
"Milburn, não adianta você se rebelar. Aqui você está e aqui você ficará até que a natureza faça sua restauração, assistida por este remédio que lhe trouxe. Você deve se submeter ao calomelano, e este quinino deve começar seu trabalho de várias semanas para romper a regularidade desses calafrios. Enquanto isso, como seus interesses também são os de Vesta, e os de Vesta são meus, deixe-me servi-la, se não a você."
O tom positivo influenciou o sistema enfraquecido do paciente. Ele olhou para todos os três observadores e disse a Tilghman: "William, eu poderia enviar você, mas por causa de sua vocação; deixe-me com o Juiz por um tempo, tanto você quanto Rhoda."
Rhoda pegou o capô Conestoga de cima da caixa do Chapéu Vinculado e vestiu-o, para o espanto excessivo do reitor.
"Deixe-me com o Juiz", repetiu Milburn, com uma nota de exaustão, embora um brilho de astúcia ainda habitasse seus olhos. "Vocês, jovens, têm o mundo diante de si; eu tenho apenas este leito e as memórias de um homem que construiu impérios com moedas de cobre."
"Como desejar, Sr. Milburn", respondeu Tilghman, oferecendo o braço a Rhoda com uma cortesia que mal disfarçava seu desconforto.
Assim que a porta se fechou atrás deles, o ambiente tornou-se pesado. O Juiz Custis, ainda de pé, observava o genro com uma mistura de piedade e a antiga animosidade que os anos não haviam conseguido apagar totalmente.
"Você quer que eu parta para Dover, não é, Milburn?" perguntou o Juiz, sua voz ecoando com uma autoridade que parecia estranha naquele quarto de mercador abastado.
"Exatamente", sussurrou o homem enfermo. "Aquele Clayton é a única chave. Se ele não estiver do nosso lado, o canal será apenas um monumento à minha ruína financeira. O tempo é curto, Juiz. O contrato está na caixa. Não permita que a arrogância da Filadélfia triunfe sobre a justiça da nossa terra."
"Eu farei o que for necessário pela honra da família", respondeu Custis, embora seu semblante permanecesse austero. "Mas saiba que não é por você que cavalgo, mas pelo que ainda resta de integridade neste negócio."
Milburn deu um sorriso de esguelha, um movimento que pareceu drenar o pouco de energia que lhe restava. "A motivação pouco importa, desde que o resultado me sirva. Vá. O cavalo está pronto na cocheira. Não desperdice nem mais um minuto com sentimentos."
Enquanto isso, lá fora, na brisa morna do fim de tarde, Rhoda e Tilghman caminhavam em silêncio. O capô, embora gracioso em Vesta, parecia uma relíquia anacrônica sobre a cabeça de Rhoda, mas ela o portava com uma dignidade ingênua que desarmava o rapaz.
"Ele é um homem estranho, não é, Sr. Tilghman?" disse ela finalmente, o olhar fixo no caminho poeirento. "Sinto que, mesmo quando ele fala de amor, está contando moedas."
Tilghman, contendo um suspiro, respondeu: "Ele é um homem de sua época, Rhoda. E nós, talvez, sejamos apenas observadores de uma mudança que não compreendemos inteiramente."
Eles continuaram a caminhar sob o olhar atento dos vizinhos, que observavam a estranha dupla passar – o jovem de família ilustre e a moça do antiquário, ambos envolvidos na teia de um destino que neither um nem outro havia escolhido. Na distância, o sabiá-da-laranjeira cantava, uma melodia estridente e zombeteira que parecia comentar a efemeridade das ambições humanas.
"Não há bom porto ali no lado do Oceano agora, a não ser a Enseada de Monroe, fora de Jinkotig. O restante deles fica cheio, e o 'kadgin' é a única maneira de passar por eles, diz a Srta. Somers."
"Ela quer dizer rebocar, ou puxar por cima de uma entrada rasa por meio de uma corda até uma âncora, à medida que a água levanta a embarcação."
"Sim, sabe, Sr. Tilghman", exclamou Rhoda, encantada; "isso é o kadgin — puxar pela barra com a linha da âncora. Você está todo encalhado, não consegue ir a lugar nenhum, está batendo na barra, e as ondas estão vindo terrivelmente contra seu lado: você vai se despedaçar todo se ficar ali. Então você pega a pequena âncora — a pequena é melhor do que qualquer uma grande demais — e coloca-a no escaler, rema através da barra e a ancora, e os que estão a bordo puxam conforme as ondas os levantam, e assim eles a mantêm apontada para dentro, e, kadging, kadging, batida após batida, finalmente você passa livre da barra e chega ao porto seguro em Sinepuxin."
"Sim, minhas irmãs", acrescentou o jovem ministro, "muitas vezes precisamos fazer o 'kedge' para casa, para nos puxar sobre as barras da vida, e a Esperança, em uma âncora por menor que seja, ajuda um pouco, se não perdermos a linha. Pequenas esperanças são muitas vezes melhores do que as grandes, pois esperanças grandiosas demais inundam pequenas embarcações. Até mesmo a esperança deve ser habilmente moldada e lançada com destreza para se prender aos fundos invisíveis da oportunidade. Todos nós já abrigamos esperanças onerosas, âncoras pesadas, que não nos seguraram contra as ondas; mas pode haver pequenas esperanças, carregadas à nossa frente, que nos conduzirão a enseadas e baías agradáveis."
"Devemos a você, Rhoda, essa esperança reconfortante", disse Vesta, "e, enquanto estiver conosco, ensinaremos você a ler com mais confiança."
Vesta então cantou o hino de Charles Wesley:
"'Jesus, em nós te revela! Os ventos se calam, o mar se aquieta, Se no barco Tu estás. Oh, manifesta Teu poder divino; Entra nesta Tua igreja que afunda, E habita em cada coração.'"
Os sons de seu canto chegaram às pessoas, que passeavam curiosas na tarde de domingo para ver os protagonistas do surpreendente casamento de que tinham ouvido falar pouco antes, e, ao terminar, o Sr. Milburn chamou-a, dizendo:
"É hora de você me deixar até amanhã."
"É esse o seu desejo?"
"É, gentil senhora. Tenho um criado, Samson, acostumado a todo o meu serviço, e você pode saber do meu estado através de suas escravas, indo e vindo. Quero que se sinta tão livre quanto antes, embora seja minha esposa, enfim. Não a busquei para nublar sua manhã, mas para compartilhar seu sol. Vá para Teackle Hall, e lá irei quando estiver mais forte. Em momento algum desejo que você durma neste velho estábulo."
"Posso vir sentar-me com o senhor amanhã?"
"Oh, faça isso! Preciso vê-la um pouco, dia após dia."
"Posso levar Rhoda comigo?"
"Sim, se você quiser fazê-lo. Ela é uma moça pobre, mas isso não é culpa dela."
Vesta inclinou-se e tocou a testa dele com os lábios, e, ao se afastar, ele ergueu a mão fria e colocou um pedaço de papel na dela.
"Apresente meu amor à sua mãe", disse ele, com um calafrio; "e devolva-lhe as perdas que o Juiz Custis nomeou para mim como sua parte na fundição de Nassawongo. O valor está neste cheque, que lhe dou, embora seja domingo, porque não representa negócio entre nenhum de nós, mas um ato de paz."
"O senhor é um homem honrado", disse Vesta; "custeio-lhe caro."
"É o bater de alguns anos na barra", respondeu Meshach, tentando sorrir; "seja você minha âncora em águas calmas, e tentarei ser atraído para você algum dia. Não é o preço que pago que me preocupa; é o preço que você está pagando."
"Estou profundamente interessada no senhor", disse Vesta; "se eu dissesse mais do que isso, não seria verdade agora."
"Obrigado por isso", disse Milburn; "mesmo sua piedade é um tesouro, e agradeço a Deus por ter feito tanto progresso. Antes de ir, deixe que meu pássaro entre, e então feche a janela, para evitar que os falcões noturnos e as corujas o encontrem."
Ele conseguiu, entre seus espasmos crescentes de calafrio, assobiar uma nota ou duas, e Tom voou para dentro da janela e esvoaçou viciosamente ao redor de sua cabeça, como se quisesse vingar-se do exílio, e então, saltando sobre a velha caixa de chapéu, começou uma apresentação, na qual estavam todo o zoológico da cidade e do campo, e, parando um pouco para ouvir o pássaro cantar seu nome novamente, Vesta e seus amigos retiraram-se.
A Sra. Custis foi encontrada em seu quarto, com o ânimo muito melhorado, mas altamente nervosa.
"Oh, meu ídolo pobre, martirizado, assassinado!" ela gritou, quando Vesta entrou; "você está viva? A fera está morta? Não me diga que ele ousa viver."
"Sim, mamãe, aqui estão os dentes dele", disse Vesta, depois de ter beijado sua mãe calorosamente. "Ele lhe enviou um cheque por todo o seu dinheiro perdido, e seu amor, e a mim para morar aqui com você em Teackle Hall. Liberdade, restituição, como você chama, e sua afeição por nós duas: ele não é um cavalheiro agora?"
A Sra. Custis pegou o cheque avidamente.
"Você acredita que é bom, preciosa? Talvez ele o tenha enviado para me enganar enquanto pudesse tirar vantagem de sua gratidão. Oh, esses habitantes da floresta são demônios! Eu queria ter o dinheiro por ele."
"É bom para tudo o que ele possui, mamãe. Não pagá-lo faria dele um falido. Ele me deu quase com galanteria. De fato, ele é o homem mais singular que já conheci."
"Esse é o caso com todos os piratas", disse a Sra. Custis; "algo na natureza feminina nos atrai para homens sem lei, que tomam o que querem — incluindo a nós mesmas. Nós fomos, suponho, originalmente, apenas capturadas e apropriadas, e estamos esperando pelo apropriador até hoje. Mas você, Vesta, com o sangue de Baltimore em suas veias, não espera representar a noiva sabina docilmente assim — para defender seu saqueador e reconciliá-lo com seus irmãos?"
"Eu estava pensando que foi o sangue de Baltimore que me fez apreciar o Sr. Milburn, mamãe. Os Custises não eram comerciantes."
"Bobagem! Os Custises eram libertinos, a menos que a história os desminta; de outra forma, não teriam popularidade na corte vigarista de Charley-over-the-water. Ele achava que a filha de qualquer cavalheiro em seu séquito era feita para ser sua amante, e uma grande porcentagem das referidas donzelas achava que ele estava certo."
"O Sr. Milburn não é um Cavalier, posso ver isso", disse Vesta; "sinto-me atraída por ele por elementos de tal força e simplicidade que imagino que ele seja um puritano."
"Puritano, uma ova!" disse a Sra. Custis, colocando o cheque de Milburn em seu seio e prendendo-o ali, olhando vigilantemente para o alfinete depois. "Agora, meu grande conforto, minha única McLane! Não idealize este habitante da floresta como tendo qualquer início, seja ele qual for. Está tudo errado. Milhares de condenados foram exportados para a Baía de Chesapeake das favelas de Londres, Bristol, Glasgow e outros lugares, e se propagaram aqui como ervas daninhas. Com instintos de furto e, possivelmente, um pouco de rebelião, seu homem roubou esta casa de sua pessoa; se ele também levar seu coração, a vergonha recairá sobre nós."
"Oh, mamãe, você é implacável!"
"Claro que sou; sou escocesa."
"Você não tem outro genro senão este que lhe devolveria a grande quantia que seu marido gastou mal — nenhum que pudesse fazê-lo sem um sacrifício que você não permitiria. Por você e papai, para restaurar sua fé um no outro, casei-me com nosso estranho credor, forçando-o ao altar em vez de ele a mim; e ele já provou ser de mais delicadeza do que você, se devo acreditar que você está em seu juízo perfeito. Não, eu não sou uma McLane."
"Você não é, se não usar a perseverança escocesa-irlandesa deles para levar a melhor sobre Meshach Milburn. Você obteve um acordo de casamento com ele, agora faça com que seja confirmado, e peça seu divórcio perante o Legislativo! Publicamente como você foi profanada, peça ao Estado de Maryland uma reparação. Os McLanes, os Custises e todos os seus parentes, do Rio Christine ao James, invadirão Annapolis, tornarão sua causa, se necessário, uma questão política, e os tribunais deste condado lhe darão indenização a partir da riqueza impopular desta fera."
Vesta olhou para sua mãe com espanto.
"O que aconteceria com meu autorrespeito, meu nome de solteira, se eu fizesse esse espetáculo de minhas mágoas particulares, mamãe?"
"Ora, você seria uma heroína. Todo antigo pretendente, dos quais há tantos elegíveis, sentiria seu zelo retornar. Um romance acompanharia seu nome onde quer que os jornais de Baltimore fossem lidos, e você seria uma heroína tão grande quanto Betty Patterson."
"Aquela moça desobediente?" Vesta, ainda espantada, exclamou.
"Eu a vi quando noiva de Jerome Bonaparte. Ela não era metade tão adorável quanto você! Se Jerome tivesse visto você — você não tinha nascido, então, e eu estava na sociedade — ele nunca teria olhado para Betty. Mas, veja, ela forçou um acordo do Imperador, administrou a renda dele, e ela é rica, e mais livre hoje do que se tivesse se tornado uma Bonaparte francesa."
"Fraca como possam ser em muitas coisas, sou uma Custis", Vesta falou, com desdém pálido. "Eu não arrastaria meu nome pelos saguões manchados de tabaco de Annapolis para usar a coroa de Josefina. A palavra que dei, por piedade de meus pais, ao homem que agora é meu marido, de me tornar sua esposa, eu não retiraria até o dia da minha morte, a menos que ele primeiro negasse sua palavra. Acredito que ainda exista tal coisa como a honra. Mamãe, você irrita meu pai com tais princípios."
"São os princípios de seu tio, Allan McLane."
"Um homem de quem me retraio", disse Vesta, "embora seja seu irmão. Sua respeitabilidade insensível, sua imutabilidade, sua falta de qualquer impulso que não seja o ódio, sua apropriação da honra de nossa família, como se fosse nosso legislador e alto-xerife, seu segredo, sua religião formal e prosperidade misteriosa, não aprecio, por mais que tenha tentado ser caridosa com ele. Não gosto de Baltimore como gosto da Costa Leste; é feroz, dura e suspeita."
"Você não vai falar mal de Baltimore na minha frente", gritou a Sra. Custis, calorosamente. "É um paraíso comparado a esta região; e comparar Meshach Milburn ao seu tio é blasfêmia."
"Estou usando no dedo, mamãe, o anel da mãe dele."
"Um objeto bonito ele é", disse a Sra. Custis, dando uma espiada nele e outra em seu cheque; "exige um microscópio para encontrá-lo. A próxima coisa será você caminhando por Baltimore em sua viagem de núpcias, seguida por uma multidão de garotinhos, para ver o velho chapéu de topo de torre de Meshach. Então, sentirei por você, Vesta."
O golpe cruel atingiu o alvo. A recepção de Vesta, tão inesperada, tão ácida, afetou-a com um sentimento de grossa ingratidão e com uma decepção maior — ela não conseguiu restaurar a alegria a seus pais através de seu sacrifício desesperado.
Ela começou a sentir que talvez tivesse agido errado. A visão ampla de seu ato, olhando para trás a partir dessa reversão momentânea, parecia uma enchente assustadora, como a foz de um dos pequenos rios da Costa Leste que se expande para um golfo no curso de um riacho. Na noite passada, ela viu em um instante os mal-entendidos e a ruína que poderia evitar com sua decisão rápida; agora ela via os mal-entendidos que nunca poderia corrigir, os preconceitos mais fortes que a simpatia parental, a ampla separação que seu casamento causou entre duas classes de seu dever — pensar com a afeição de seu marido e os interesses de sua mãe ao mesmo tempo.
Também lhe ocorreu que seu pai, o querido de seu pensamento, parecia lento em apreciar seu sacrifício matrimonial, e estava irritadiço com sua disposição de afrouxar o coração com seu cinto vestal em direção ao marido.
O dia inteiro havia passado com tanto alívio, tanta satisfação, que ela esperava terminar na tranquilidade de Teackle Hall, como uma jovem águia que retorna ao seu ninho com presa abundante para os pássaros velhos ali, desgastados pela tempestade e pelo tempo. Em vez de amor e natureza curativa, Vesta encontrou mundanismo, ressentimento, intriga e difamação, concluindo com uma referência ao único objeto que ela temia e do qual se retraía — o chapéu de herança sombria, a sombra sobre sua vida futura. Seus olhos se encheram, ela sussurrou em voz alta,
"Eu gostaria de ter ficado com meu marido!"
"Ele já se tornou tão necessário para você?" perguntou a Sra. Custis.
"Ele aprecia meu sacrifício", disse Vesta, e seus soluços baixos encheram o quarto. Em um momento, Virgie entrou, alerta às dores de sua companheira de brincadeiras, e lançou seus braços ao redor de sua senhora e a beijou como uma criança.
"Oh, senhorita", ela falou para a Sra. Custis, "fazê-la chorar depois do que ela fez por todos nós — salvar sua casa, salvar-me de ser vendida!"
Nenhum escrúpulo de raça fez Vesta rejeitar essa simpatia, preciosa para seu peito seco, apesar da mancha de sangue mestiço, como a areia dourada nos riachos da África, dando de uma vez riqueza e refrigério. Os braços longos e brancos da escrava, pouco menos pálidos do que o marfim — pois ela tinha entrado ao sinal de tristeza, enquanto fazia sua simples higiene — puxaram Vesta para seu colo e colocaram sua cabeça sobre o ombro da jovem donzela, como se fosse o de um bebê. Em tal ombro, apenas um tom mais escuro, Vesta muitas vezes tinha descansado na infância, e sugado o leite que era doce como o de Eva — a fonte comum de brancos e negros — no seio da mãe de Virgie. Aquela enfermeira fiel tinha partido; a ameixeira brava crescia sobre seu túmulo; mas Virgie herdou o instinto maternal e acrescentou a simpatia fraternal, e seu cabelo rico, meio solto, escorria pelas têmporas de Vesta entre os cachos escuros ali, enquanto ela procurava em seu próprio espírito por uma palavra para conter aquelas lágrimas, e a encontrou:
"As pessoas dirão que você esteve chorando, querida senhorita. O Senhor sabe que você fez o certo. Não deixe ninguém fazer você perder sua fé até que seu mestre, seu marido, faça algo errado com você; ele não gostaria de vê-la chorar."
Havia uma corda nervosa em algum lugar na garganta da escrava que tremia no tom do heroico, e suas narinas, levemente arredondadas, sua cabeça, livre de porte como a de um potro selvagem, e uma luz de seus olhos suaves que parecia refletida em seus cílios longos e sedosos, sustentavam um espírito domado pela servidão, que ainda podia se acender para tudo o que dizia respeito à mulher em seu direito de primogenitura.
Vesta beijou Virgie e parou de soluçar; ela se levantou e beijou sua mãe também.
"Foi muito errado da minha parte dizer o que não desejei dizer, sobre o Tio Allan, mamãe. Espero que papai tenha sido gentil com você hoje."
"Meu Deus!" a Sra. Custis exclamou; "tudo está virado de cabeça para baixo por causa daquele minério de ferro de pântano. Um novo elemento entrou na família para perturbá-la. Ninguém acredita em nada respeitável mais. Seu pai é um infiel, ou um radical, ou algo perverso; você está defendendo aqueles habitantes selvagens da floresta! O que acontecerá com a religião cristã, a sociedade e os bons princípios?"
"O que papai disse antes de sair de casa?"
"Ele agiu da maneira mais estranha, Vesta. Ele entrou direto e me beijou, como um grande bobalhão, e sentou-se e queria conversar sobre nossos tempos de namoro. Pensei primeiro que ele estivesse bêbado novamente, ou que os metodistas tivessem o pegado e alimentado com palha de acampamento. Como você explica isso?"
Virgie tinha saído assim que a conversa se tornou confidencial.
"Ele quer melhorar, querida mamãe. Responda à contrição e afeição dele! Se todos pudéssemos humilhar nossos corações, seria tão fácil começar a vida melhor e transformar este acidente em alegria e conforto. Já encontrei novos compromissos e alívios. Há uma jovem, sobrinha do Sr. Milburn, que trarei para casa esta noite e me ocuparei ensinando-a. Ela é órfã, sem o conhecimento de uma mãe, mal sabe ler, mas é bonita e peculiar."
"Trazer uma habitante da floresta aqui para dentro?" a Sra. Custis exclamou, tremendo de fato. "O que as filhas de Allan McLane dirão? Sua irmã de Talbot esteve aqui o dia todo, e você mal lhe deu uma hora. Entre este casamento fatal e seu descuido, ela partiu, com o marido, positivamente pálida de horror. Não sei o que se seguirá a este casamento. Já enviei uma carta ao meu irmão Allan, contando-lhe sobre sua traição por seu pai e este noivo. Todos os nossos parentes estarão em pé de guerra."
O coração de Vesta afundou novamente, mas ela não sentiu medo da capacidade de seu marido de enfrentar a oposição familiar, assegurado por lei e forma em seus direitos. Ela apenas temia que a hostilidade pudesse despertar nele severidade e desafio, o que neutralizaria sua influência atual sobre ele e mudaria sua disposição acomodada, quase gentil, como marido.
Pois, mais negro do que qualquer objeto em seu caminho futuro, ela viu uma coisa pequena e trivial, como um javali fechando sua excursão até então aventureira pela floresta onde seu marido cresceu — o chapéu que cobria sua cabeça!
A menção impensada de sua mãe sobre aquele objeto tornou-o formidável aos seus medos, como uma máscara de ferro trancada ao redor do rosto de seu marido, tornando o dia hediondo e o mundo uma masmorra para todos que tivessem que andar com ele.
Ela discerniu que seu espírito combativo saltaria para a defesa de seu chapéu se ele se tornasse objeto de rancor familiar, porque nenhum homem perdoa um insulto à sua aparência pessoal; e este artigo de vestuário tinha envolvido seu cérebro com gangrena, e a guerra feita contra ele seria combatida com guerra, enquanto Vesta esperava induzir o esquecimento da velha peça de azinhavre, encantar a lembrança dela e tê-la deixada de lado para sempre.
"Não sou filha do Tio McLane", Vesta protestou. "Sou, além disso, uma mulher, livre de minha minoridade. O Sr. Milburn dificilmente é o homem para se submeter a qualquer transgressão. Aviso-a, mamãe, para não colocar meu tio em desvantagem; pois meu marido já venceu papai, e ele sorrirá para seu irmão quando souber que não apoio nenhuma de suas pretensões."
"A primeira coisa", respondeu a Sra. Custis, teimosamente, "é ver que ele pague este cheque. Oh, meu querido dinheiro!" — ela o pressionou contra o coração — "como é delicioso vê-lo novamente. Ciência, amor, glória, ideias: como são vulgares sem dinheiro. Com este cheque pago, acho que nunca mais lerei um livro; e quanto aos minérios de pântano, ora, eu gritarei se houver um artigo de ferro na casa. Vesta, esta casa, acredito, é sua agora? Eu tinha esquecido. Bem, não é de admirar que você defenda o homem que tirou o teto de seu pai de cima de sua cabeça e deu a você!"
"Isso é indelicado, mamãe. Eu o valorizo apenas como um lar seguro para você e papai. Se eu o desse a ele, poderia estar em risco novamente."
"Mas suponha que você continue a defender este monstro de Milburn, ele e você podem precisar da casa inteira. Sou educada demais para ser convertida a qualquer de suas ideias ímpias. Sou de Baltimore e defendo minhas cores."
"Não falemos mais disso", disse Vesta, quase em desespero, "mas falemos do querido papai. Sei que ele a ama."
"É tarde demais", a Sra. Custis observou, solenemente, com outro afago em seu cheque; "ele me negligenciou por muito tempo. Espero sua atenção e respeito, e que ele se comporte; mas nada de 'queridinho' e 'docinho' para mim agora. A vida passou do meio-dia e do início da tarde para ele e para mim, e vivo para ser respeitável, para apreciar minha segurança, para manter os arrivistas à distância, para desfrutar minha vida em seu círculo designado, cuidando de minha renda e nunca — não, nunca! — dando a qualquer ser humano a oportunidade de me tornar uma mendiga novamente."
Vesta sentiu um aperto no coração, mas manteve a compostura, pois sabia que qualquer demonstração de fraqueza naquele momento seria interpretada como uma derrota. Ela conhecia a rigidez de sua mãe, forjada por anos de perdas financeiras e pelo medo constante de perder o status social que ainda lhes restava.
— O juiz Custis não deseja menos que isso, mamãe — respondeu Vesta, com voz suave. — Ele almeja a dignidade de um lar onde a cortesia prevaleça sobre a amargura. Se vivermos apenas para proteger nossa posição, acabaremos isoladas, prisioneiras de uma muralha que nós mesmas construímos. A felicidade, tal como a compreendo, é um compartilhamento, uma mão estendida antes que o abismo se feche.
Sua mãe desviou o olhar, voltando a observar o cheque sobre a mesa, como se aquele pedaço de papel fosse o único árbitro de sua existência. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com o peso das escolhas passadas e o medo do futuro.
— Se você insiste em tal sacrifício — disse a mãe finalmente, sem qualquer calor na voz —, que assim seja. Eu me conformarei, mas não espere que eu veja nesta união algo além de uma necessidade amarga. Se pudesse recomeçar, teria escolhido um caminho onde a aristocracia fosse apenas uma memória, e a paz, uma realidade cotidiana. Mas o destino, ao que parece, tem outros planos para nós.
Vesta sentiu que não havia mais nada a dizer. A barreira entre elas era feita de um orgulho que nenhuma súplica poderia derrubar. Ela se retirou da sala, deixando sua mãe em meio aos seus pensamentos, enquanto o peso de sua nova vida parecia cada vez mais real. O compromisso que assumira não era apenas com um homem, mas com uma rede complexa de expectativas e desapontamentos que agora a cercavam, transformando seus dias em uma constante negociação entre o que ela sentia ser o dever e o que o mundo esperava que fosse o seu papel.
Ela caminhou pelos corredores de Teackle Hall, sentindo-se, pela primeira vez, uma estranha na própria casa. Cada objeto, cada móvel, cada retrato na parede parecia observar sua mudança de status com uma desaprovação silenciosa. O casamento não era a liberdade que ela imaginara, nem o porto seguro para os seus; era, antes, uma renúncia, um ato de entrega que exigia o sacrifício de suas próprias vontades em prol de um arranjo que deveria, teoricamente, salvar a todos.
No entanto, à medida que a noite caía e as sombras se alongavam, Vesta encontrou uma estranha determinação brotando em seu interior. Se ela fora forçada a este papel, desempenhá-lo-ia com a força necessária para que, ao final, pudesse ao menos ter a consciência de que não falhara com ninguém. E assim, na solidão de seu aposento, ela se preparou para o que viria, sabendo que, embora o caminho fosse incerto, não havia mais volta para a menina que ela fora até ontem.
"Supondes que os abolicionistas se meteriam com uma pobre velha como aquela, cuja liberdade não seria um crédito para eles nem um conforto para ela? Não posso pensar tão mesquinhamente a respeito deles", refletiu Vesta. "Além disso, teria ela podido matar o meu cão?"
"Uma negra grosseira, ignorante e adoradora de fetiches mataria um cão, ou uma criança, ou qualquer coisa, quando está possuída pelo demônio", insistiu a Sra. Custis.
"Eu não acredito que ela tenha matado o Turk", comentou Roxy, ao sair da sala. "Havia um homem branco na cozinha na noite de sábado passado: creio que ele dormiu lá; o patrão deu-lhe permissão."
"Sim, senhorita", continuou Virgie, depois que Roxy saiu para obedecer às suas ordens; "ele era um homem terrível e olhou para mim de forma tão rude e familiar que tenho sonhado com ele desde então. Era o homem que o Sr. Milburn derrubou por ter amassado seu chapéu; ele estava com medo de que o Sr. Milburn o jogasse na cadeia, então pediu ao patrão para se esconder na cozinha. Mas Hominy já estava quase louca de medo do Sr. Milburn antes disso."
Vesta ergueu os braços belos com um ar de desespero.
"O que aquele pobre chapéu velho não trouxe sobre todos?" ela clamou. "Oh, quem ousa contestar o sol com o alfaiate e o chapeleiro? São os déspotas que nunca abdicarão nem morrerão."
"A ideia de seu pai deixar um vagabundo como aquele dormir na cozinha entre os escravos!" exclamou a Sra. Custis. "Que obrigação ele teria contraído ali, também, eu gostaria de saber! Teackle Hall tornou-se uma caverna de corujas e raposas; é hora de eu partir. Eis meu marido que se foi, cavalgando cinquenta milhas por seu pior inimigo, deixando-nos sem cozinheira e sem a assistência de um homem para descobrir onde o nosso foi parar. Sei o que farei: partirei hoje mesmo para Cambridge, para encontrar meu irmão, e visitarei os Goldsborough ali até que alguma ordem seja trazida a esta tentativa de plantar trigo e joio juntos."
Vesta parou um momento e beijou a mãe: "Essa é exatamente a coisa a fazer, querida mãe", disse ela. "Deixe-me endireitar as dificuldades aqui; vá, e volte quando tudo estiver feito, e você poderá ser você mesma novamente."
"Eu o farei, Vesta. O irmão Allan chega a Cambridge amanhã à tarde; irei até Salisbury hoje, e ou o encontrarei na estrada amanhã ou o encontrarei em Cambridge. Oh, que casa é Teackle Hall — cheia de silvícolas homens e mulheres, abolicionistas, fugitivos e radicais! Todos enlouquecidos pelos minérios de pântano e pelo chapéu de tolo!"
Ao descer para o pátio, Vesta encontrou Turk deitado em seu próprio sangue, suas mandíbulas de mastim e costados peludos manchados de vermelho e, ao que parecia, o uivo com o qual morrera ainda pairava no ar. O espírito da Virgínia surgiu nos olhos de Vesta:
"Quem quer que tenha matado este cão só precisava de coragem para matar homens!" exclamou ela. "James Phoebus, olhe aqui!"
O capitão da embarcação estava fora há horas, e os mastros de seu navio estavam apenas visíveis através do istmo pantanoso atrás de Teackle Hall. Ele tocou o chapéu e entrou.
"Bom dia, senhorita Vesty! Olá! Turk morto? Pelos diabos, isto é um pandemônio!"
"Ele está esfaqueado, Jimmy!" observou Sansão Hat, saindo da cozinha; "veja onde o punhal o atingiu, logo acima do coração! Isso o fez uivar e cair morto. Sua garganta não foi cortada tão repentinamente; está lacerada como se fosse com algo cego."
"Certo você está, negro! O corte de garganta foi uma encenação; a facada contará a história. Mas quem é este aqui, espreitando ao redor da porta da cozinha; se não for Jack Wonnell, que eu morra! Pega!"
Com isso, ágil como o cão estivera apenas ontem, Jimmy avançou sobre Jack Wonnell, perseguiu-o até a cerca e trouxe-o de volta pelo pescoço. Wonnell usava um chapéu de copa alta e sua mão estava cheia de flores de outono. Quando Wonnell observou o cão morto, a linda pequena Roxy saiu da cozinha e ficou corada, porém assustada, ao vê-lo.
"O que você está fazendo com essas florzinhas?" exigiu Jimmy. "Para quem são elas? O que você está fazendo espreitando ao redor de Teackle Hall tão cedo pela manhã, preguiçoso como sei que você é, Jack Wonnell?"
"São flores que ele traz todas as manhãs para mim", respondeu Roxy, adiantando-se com um sorriso bonito.
"Para você?" exclamou Vesta. "Você não está recebendo as atenções de homens brancos, Roxy?"
"Ele se ofereceu para buscar flores para mim, para que eu pudesse dar à senhorita flores tão bonitas quanto as de Virgie. Deixei que ele as trouxesse. Ele é um homem pobre e bondoso."
"Eu acabei de pegá-las, Jimmy", interrompeu Jack Wonnell, com sua piscadela e olhar oblíquo peculiar, "porque Roxy é a beldade de Princess Anne, e eu sou o chapéu de copa alta. Ela é minha pequena rainha, e não tenho vergonha dela."
"Cortejando negras, é?!" exclamou Jimmy, segurando Jack pelo colarinho novamente. "Agora, onde você foi o dia inteiro de domingo com Levin Dennis e o comprador de negros? Que trapaça você estava tramando?"
"Sr. Wonnell", Roxy teve a presença de espírito de dizer, "tenha cuidado para dizer a verdade, por minha causa! Tia Hominy partiu, com todas as crianças da cozinha, e o Sr. Phoebus suspeita de você!"
"Grandes vagalumes!" gritou Jimmy Phoebus. "Os negros roubaram, e o cão morto também?"
"Eu acho que o Juiz Custis os vendeu, Jimmy", implorou Jack Wonnell, torcendo-se para sair das mãos do capitão da baía. "Ele vai ser vendido por Meshach Milburn. Talvez ele apenas os tenha vendido e fugido."
"Onde está o Juiz Custis, senhorita Vesty?" perguntou Phoebus.
"Ele foi para Delaware, para ficar ausente por vários dias."
"O que esse tolo de chapéu alto diz é verdade, senhorita Vesty?"
"Não. Havia algum medo entre os criados da cozinha de serem vendidos; não havia tal necessidade quando fugiram, pois já estava resolvido."
"É lamentável que seu pai tenha ido embora. Ele foi visto com um mercador de negros. Esse mercador e ele desaparecem na mesma noite. O mercador vive perto de Delaware, também, senhorita Vesty."
O semblante de Vesta caiu, ao pensar na suspeita que poderia recair sobre seu pai. As grandes árvores antigas ao redor de Teackle Hall pareciam gemer juntas no ar, como se dissessem: "Ancestrais, isto é estranho de ouvir!"
"Quem lhe disse, Jack Wonnell", falou o marinheiro da baía, "que o Juiz Custis ia ser vendido?"
"Eu não lhe direi, Jimmy."
"Eu disse a ele", gritou Roxy, após um instante de hesitação, enquanto Jimmy Phoebus esmagava o chapéu rígido de copa alta contra o focinho sufocante de Wonnell. "Eu pensei que todos nós íamos ser vendidos, e não tinha ninguém para ter pena de mim a não ser aquele pobre homem branco, e eu disse a ele como um amigo."
"E eu nunca contei a ninguém no mundo a não ser a Levin Dennis ontem", gritou Jack, quando conseguiu recuperar o fôlego.
"Onde você foi, Jack, com o homem alto e Levin o dia todo ontem?" perguntou Sansão.
"Sim, onde você estava?" gritou Jimmy Phoebus, com um de seus paroxismos gregos de temperamento, enquanto sua pele escura e olhos de cereja preta flamejavam como um vulcão. "Onde você deixou o rapaz de Ellenora e aquele infernal comprador de almas? Fale, ou eu o estrangularei como a este cão!"
"Deixe-o em paz, senhor!" gritou a pequena Roxy, calorosamente, "ele não enganará ninguém; ele vai contar tudo o que sabe."
"Solte, Jimmy", disse Sansão; "não vê a senhorita Vesty aqui?"
"Não assuste o homem, Sr. Phoebus", acrescentou Vesta; "mas ordeno que ele conte tudo o que sabe, ou papai o enviará para a cadeia."
Jack Wonnell, ocupando seu lugar a alguns passos de Phoebus, e enxugando os olhos na manga, choramingando por alguns minutos, para grande agitação de Roxy, finalmente contou sua história.
"Sinto muito, Jimmy, que você me acusou diante desta bela dama e da minha bonita pequena Roxy — que Deus a abençoe! — de roubar os negros do Juiz Custis. Só há uma por quem já olhei com olhos de apaixonado, e ela está aqui, ouvindo cada palavra verdadeira que digo. Sou lixo pobre, e imagino que a cadeia seja tão boa quanto o asilo para mim, se quiserem me enviar para lá, pois é na cidade, e Roxy pode vir me ver através das grades todos os dias."
Roxy ficou tão afetada que levou o avental ao rosto, e Vesta e Phoebus tiveram que sorrir, enquanto Sansão Hat, olhando com indulgência, exclamou:
"Há amor por toda a floresta. Pombas e corvos não podem evitar. É mais profundo do que penas e garras."
"Aquele mercador de negros", continuou Jack Wonnell, com o chapéu de copa alta na mão, "contratou a mim e a Levin para levar um cágado para ele. Ele tinha uma bolsa de ouro daquele tamanho" — medindo com a mão dentro da copa do chapéu — "e ele deu a Levin um pouco dele, e eu levei para a mãe de Levin ontem à noite, e disse a ela que Levin não voltaria por uma semana, talvez. Eu pensei que o Sr. Johnson ia me dar um pouco de ouro também, para que eu pudesse comprar Roxy, mas aqui está tudo o que ele me deu. Todos me desapontam, Jimmy!"
Jack Wonnell mostrou uma velha moeda de prata de cinco centavos, e seu semblante era tão lúgubre que o marinheiro exclamou:
"Jack, ele lhe pagou bem demais para todo o juízo que você tem. Agora, onde Levin foi com a Ellenora Dennis?"
"Eu não sei, Jimmy. Ele fez Levin velejar com ela até o atracadouro logo abaixo da cidade, onde o pai de Levin, o Capitão Dennis, lançou a Idy quinze anos atrás. Deixei Levin lá, e ele disse: 'Jack, estou indo embora com o mercador de negros para conseguir um pouco do dinheiro dele para a mãe!'"
"Pobre rapaz miserável!" exclamou Phoebus; "ele é conduzido tão facilmente quanto seu pobre pai. O homem com quem ele foi, senhorita Vesty, é negro como o inferno. Joe Johnson é conhecido por todos os ladrões da baía, todos os ciganos da costa. Ele rouba negros livres quando não pode comprar escravos, fora do estado de Delaware. Ele às vezes foge com escravos de Maryland para agradar seus mestres hipócritas que não podem vendê-los publicamente, e Johnson e o dono enlutado dividem o preço. Entre na casa, garota amarela!" Jimmy Phoebus virou-se para Roxy, que obedeceu instantaneamente. "Jack Wonnell, você vá também; terminei com você!" (Jack esgueirou-se pela casa e fez as pazes com Roxy antes de partir.) "Você não precisa ir, Sansão; sei que você é verdadeiro como aço!"
"Preciso ir fazer o café da manhã, Jimmy", disse o negro, entrando.
"Agora, senhorita Vesty" — Phoebus voltou-se para a patroa de Teackle Hall — "Joe Johnson pegou a velha Hominy e as crianças negras, pelos diabos! Essa parte desta trapaça é bem certa! Ele os roubou e os atraiu, ou foram vendidos a ele pelo Juiz Custis ou por Meshach Milburn?"
"Por nenhum dos dois, arriscarei minha vida. O Sr. Milburn foi levado para sua cama na noite de sábado, e no domingo papai foi para Delaware a negócios legais para meu marido."
"Esse é Meshach Milburn, ouvi dizer", comentou o marinheiro da baía, com um olhar penetrante. "Devo ir vê-lo sobre este assunto dos negros?"
"Não", respondeu Vesta; "ele está muito doente, e é um assunto delicado para mencionar a ele. Minhas garotas, Virgie e Roxy, acham que a velha Hominy fugiu por um medo supersticioso que tinha do Sr. Milburn, que se tornara o senhor de Teackle Hall pelo casamento."
"Sim, pelos diabos! Cada negro na cidade, grande e pequeno, tem medo do chapéu de Milburn."
"Ele não tem posse sobre esses criados, nem meu pai tem agora. Vou lhe dizer, James — confiando em sua prudência — que Hominy pertencia a mim, assim como aquelas três crianças, tendo passado de meu pai para meu marido e daí para mim e de volta para meu pai, e dele para mim novamente na própria hora do meu casamento. Temo que tenham sido persuadidos a ir embora, para serem maltratados e vendidos fora de Maryland."
Jimmy Phoebus olhou para as árvores que suspiravam e sobre a larga fachada de Teackle Hall, e exclamou "pelos diabos!" várias vezes antes de chegar às suas conclusões.
"Senhorita Vesty", disse ele, finalmente, "mande chamar seu pai para voltar imediatamente. As pessoas não entenderão como Joe Johnson, fora da lei como é, ousou roubar os criados domésticos de um juiz de Maryland, sendo o próprio Johnson um habitante de Maryland, a menos que tivessem algum entendimento. Seu casamento repentino, e os embaraços de seu papai, serão somados, pelos diabos! E há quem seja rude o suficiente para dizer que, quando o Juiz Custis está em dificuldades, ele arranjará dinheiro de qualquer jeito!"
A acusação, feita com a falta de jeito de um homem honesto, derrubou todas as explicações.
"Confesso", disse Vesta. "A ida de papai em um domingo, e o desaparecimento dessas pessoas na noite de domingo, poderia suscitar comentários ociosos. Poderia ser dito que ele tentou vender parte de sua propriedade antes que seu credor pudesse apreendê-la."
"Eu a vejo por aqui desde que você era um bebê, Vesty, e Ellenora diz que você é de melhor índole e coração do que esses aristocratas, por quem nunca me importei! É por isso que tomo a liberdade de chamá-la de Vesty. Agora, deixe-me contar sobre seus negros. Se eles estivessem indo para a liberdade sob o cuidado de um homem branco, eu não os impediria para ser capitão de um navio de guerra. Mas Joe Johnson, supondo que ele os tenha, é um demônio. Você vê a facada naquele cão? bem, é feita com uma daquelas pistolas de baioneta que os sequestradores carregam — pistolas de cavalaria, com um punhal de mola no cano; e, quando eles chegam ao combate corpo a corpo, esfaqueiam com elas. Johnson matou seu cão; conheço suas marcas. Ele navega por toda esta baía, e talvez ele tenha levado esses negros para Washington, ou para Norfolk, e os vendido para o sul. Não adianta segui-lo a qualquer um desses lugares, se ele o fez, com o vento e a vantagem que ele tem, e a influência de seu papai perdida para nós por sua ausência. Mas há uma chance de interceptar o ladrão."
"Qual é ela, James?" disse Vesta, seriamente. "Eu realmente quero salvar aquelas pobres pessoas do abuso de um homem que pôde matar meu pobre e dócil cão."
"Joe Johnson mantém uma armadilha infernal — um verdadeiro pandemônio, perto da cabeceira do Rio Nanticoke. É o quartel-general de seu bando, e um bando negro eles são. Ele teve bom vento" — o capitão da embarcação olhou para cima e notou a brisa — "para sair de Manokin na noite passada, e entrar no Estreito; mas ele deve subir o Nanticoke o dia todo, e podemos interceptá-lo por terra, se esse for seu destino, antes que ele chegue a Vienna, e fazê-lo mostrar sua carga. Então, com um mensageiro para seguir o Juiz Custis e fazê-lo voltar, podemos jurar esses negros contra Johnson — e, você vê, não podemos fazer tal juramento até termos as provas — e então, pelos diabos! traremos a velha Hominy e as pobres crianças de volta para Teackle Hall."
"Aqui está alguém a quem você ama servir, James", disse Vesta, enquanto a Viúva Dennis entrava pelo portão.
"Vim encontrá-lo no atracadouro, James", disse a viúva de olhos azuis e voz doce, com o passo tímido e o rubor fácil. "Levin foi embora por uma semana com um mercador de negros; ele me envia tanto dinheiro, que temo que ele esteja sob uma tentação incomum, e Wonnell diz que o mercador está lhe dando bebida. O que devo fazer?"
"Faça-me pai dele, Ellenory, e isso me dará um interesse sobre ele, e você me comandará. Você quer um primeiro imediato em sua tripulação. Levin pode fazer um tolo de mim se eu for persegui-lo agora, e não posso medir dinheiro com um mercador de negros, pelos diabos!"
"Oh! James", falou a viúva, "você sabe que meu coração seria seu se eu pudesse controlá-lo. Quando meu caminho estiver livre, você só terá que pedir. Vá e encontre Levin!"
"Norah, suspeitamos que o mesmo mercador tenha levado Hominy, nossa cozinheira, e as crianças da cozinha, no barco de Levin."
A viúva ouviu Vesta e caiu em prantos. "Ele será cúmplice do crime", soluçou ela. "Oh, é isto que eu sempre temi. James Phoebus, você sempre teve a melhor influência sobre Levin. Se você me ama, prenda-o antes que a lei tome conhecimento deste ato desenfreado. Para onde ele foi?"
Virgie apareceu no gramado para dizer que a Sra. Custis queria saber quem deveria levá-la até Salisbury, onde ela poderia conseguir um escravo de seu genro para continuar com ela até Cambridge.
"Estou pensando durante toda a manhã onde posso encontrar um homem confiável para ir buscar papai", respondeu Vesta; "há alguns escravos na Fundição, mas o tempo é precioso."
"Aqui está Sansão", disse Virgie, "e ele tem uma mula que monta por todo o condado. Deixe-o ir."
"Ir para onde, meu amor?" perguntou Sansão.
"Para Dover, em Delaware", respondeu Vesta. "Você pode cavalgar até Laurel antes do escurecer, Sansão, e chegar a Dover amanhã à tarde."
"E eu posso cavalgar com ele até Salisbury", disse Jimmy Phoebus, "e sair para o Nanticoke de alguma forma; pois vejo que Ellenora chorará até que eu vá."
"Você pode fazer melhor do que isso, James", disse Vesta, pensando rapidamente. "Sansão pode levá-lo até a Igreja de Spring Hill ou Barren Creek Springs, com um pequeno desvio, e nas Fontes você estará a apenas três milhas do Nanticoke. Até mesmo mamãe poderia seguir com a carruagem esta noite até as Fontes, ou até Vienna."
"Se dois deles vão", exclamou Virgie, "um pode dirigir a senhorita Custis e o outro cavalgar a mula."
Sansão balançou a cabeça.
"Dizem que um negro livre acaba sendo apanhado naquele estado de Delaware. Maryland é bom o suficiente para mim. Gosto mais das garotas claras de Maryland", olhando para Virgie.
"Vá agora, Sansão, para agradar a senhorita Vesty", disse Virgie, "e tentarei amá-lo um pouco, negro e mau como você é."
"Tenho medo do estado de Delaware", repetiu Sansão, rindo lentamente. "Joe Johnson, aquele em quem coloquei aquela marca, vai me pegar onde ele mora se eu for lá, talvez."
"Não", intrometeu-se Phoebus, "estarei de olho nele nas margens do Nanticoke, Sansão, enquanto você se mantém bem na estrada principal de Laurel a Georgetown, e segue para Dover. Joe Johnson foi açoitado no pelourinho e banido de Delaware para sempre, e não ousa mais ir lá."
"Se você for, Sansão", colocou a pequena Roxy, tendo reaparecido, "Virgie se sentirá lisonjeada. Tudo o que agrada a senhorita Vesty conta para Virgie."
"Se você é um homem livre", exclamou a própria Virgie, sua figura esguia, nervosa e flexível expandindo-se, "você tem medo de ir para um estado mais livre do que Maryland? Se eu fosse livre, eu gostaria de ir para o estado mais livre de todos. Comporte-se como um homem livre, Sansão Hat, ou o que vale a liberdade para você?"
"Vale tanto, garota bonita, que não quero perdê-la, mente, eu lhe digo, exceto para minha esposa quando ela me quiser."
Sansão observou as feições delicadas e aristocráticas da mulata, sua pele quase mais pálida que a de sua jovem patroa, sua figura como a do cravo após um inverno rigoroso — tanto mais ativa quanto um pouco franzina — sua cabeça pequena, e suas mechas macias como a plumagem do graúno preto, e a lealdade que residia em seus grandes olhos, como uma paixão forte, por sua patroa, transformou-se em orgulho, e quase desprezo, quando eles o ouviam.
"Um escravo, a senhorita Vesty diz" — Virgie falou quase com ferocidade — "não é alguém que é possuído, nem de longe tanto quanto alguém que se vende — à bebida forte, ou ao egoísmo, ou ao medo. Você não é um homem livre, Sansão, se você tem medo, e é como esses negros escravos baixos que não ousam nada se puderem apenas conseguir um pouco de prazer barato. Tudo o que pode tornar um homem negro branco, aos meus olhos, é o empreendimento de um homem branco."
Vesta sentiu, como muitas vezes sentira, a alma capaz de sua serva, e não se ressentiu de seu espírito como impróprio para uma escrava, mas sentiu sim cordas responsivas em sua própria natureza, como se, de fato, Virgie fosse a mais imperiosa das duas. Chegando agora à plenitude da feminilidade, seus elementos raciais encontrando sua composição, seu caráter sem restrições por ninguém em Teackle Hall, Virgie era a portadora do escudo de sua jovem patroa, como Davi para o principesco Jônatas.
"Ora, Virgie", respondeu Sansão, com humildade, "eu nunca quis não ir, dama garota, depois que a esposa do patrão me pediu, eu só queria que você me implorasse bastante, e talvez eu conseguisse um beijo antes de começar."
"Espere até voltar, e veja se cumpre bem sua tarefa", falou Virgie novamente. "Não vou beijá-lo agora."
"Eu vou", gritou a pequena Roxy, para diversão de todos, dando a Sansão um estalo forte com sua boca pequena e amuante; "e agora que você conseguiu, pense que é o beijo de Virgie, e vá tomar seu café da manhã e comece!"
Enquanto eles iam para suas habitações para se preparar, Jimmy Phoebus encontrou Jack Wonnell jogando bolinhas de gude com os rapazes na esquina do tribunal.
"Jack", disse ele, "vou procurar Levin e aquele traficante de negros. Posso me meter num monte de encrencas lá em cima, no Nanticoke. Diga a todos os barqueiros de pungy aonde vou, e por quê."
"Não posso fazer algo por você, Jimmy? Não posso te dar um dos meus chapéus de coroa alta? Tem um monte deles sobrando."
"Aceite meu conselho, Jack, e amarre uma pedra em todos esses chapéus e afunde-os no Manokin. O chapéu do velho Meshach causou mais confusão do que o Banco de Somerset. Pobre e tolo como você é, talvez seus velhos chapéus de coroa alta acabem com você."
A estrada para Salisbury — aberta em 1667, quando "Cecil, Lorde de Maryland e Avalon", ergueu um condado "em honra de nossa querida irmã, a Lady Mary Somerset" — seguia as represas de castores através das cabeceiras dos pequenos rios, cortava os pinhais planos e as fazendas abertas, e passava por dois pequenos vilarejos, antes que nossos viajantes vissem os largos moinhos e as ruas ladeadas por álamos e amoreiras da cidade mais ativa — embora sem um tribunal — na península inferior. Jimmy Phoebus, conduzindo os dois cavalos e a carruagem da família, e Samson, seguindo em sua mula, desceram ao vale de Salisbury na hora do jantar e pararam no hotel. O ronco dos moinhos de grãos, o ruído das serras de moinho, o fluxo de água de cor de pinho em direção ao desfiladeiro do vilarejo, as árvores de cipreste da floresta invadindo impudentemente as ruas radialmente oblíquas, a umidade da hera e das trepadeiras sobre muitas das antigas casas de chaminés em empena, os longos pátios de madeira refletidos no porto pantanoso entre as canoas, pungies e sharpies ali ancoradas, as pequenas casas dispostas lateralmente às ruas arenosas, as maiores subindo as colinas de areia, o velho buxo nos jardins prateados, as pontes próximas umas das outras e o cheiro de alcatrão e serragem agradavelmente inalado pelos pulmões, formavam uma combinação como uma caravana ao redor de algum poço no Deserto do Nilo.
"Se houver alguma chance de pegar meus negros", disse a Sra. Custis, "irei logo após o jantar. Samson, envie Dave, o rapaz da minha filha, até mim imediatamente; ele está trabalhando neste hotel."
Samson descobriu que Dave não era outro senão o líder de classe negro que ele não conseguira vencer no início de nossa narrativa, mas mudanças eram visíveis naquele indivíduo que Samson não esperava. De ter um semblante limpo, piedoso e modesto, condizente com suas profissões, Dave agora exibia um olhar azedo e maligno; seus olhos estavam injetados de sangue, e seus ombros e peito retos e viris, que outrora despertaram a admiração e a inveja de Samson, estavam curvados para se conformar com uma tosse que ele soltava de tempos em tempos, vinda do fundo de seu corpo.
"Dave", disse Samson, "a mãe da sua patroa quer você, rapaz, para levá-la a Vienny. O que há com você, Dave, desde que te ensinei a lutar?"
"Você é o homem?" Dave exclamou, roucamente; "então que o Senhor te perdoe, porque eu nunca poderei. Aquela surra que quase te dei me tornou um tolo pobre, perverso e desviado."
"Ora, Dave, eu apenas vi que você era um bom homem; não quis te fazer mal, rapaz."
"Você me arruinou, negro livre", repetiu o enorme escravo, com uma expressão carregada, em parte de vingança e em parte de remorso. "Você alimentou minha presunção de que eu sabia lutar. Eu nunca tinha batido numa criança até aquele dia; depois daquilo, saí por aí arranjando brigas com negros maiores, e homens brancos de baixa extração me apoiavam para lutar. Fui expulso da minha igreja; dei as costas ao Senhor; o uísque se apoderou de mim, Samson. O diabo entrou no Líder de Classe Dave."
"Oh, irmão, acorde e faça melhor. Aqui, te dou um dólar e quero ser seu amigo, Davy, rapaz."
"Vou comprar bebida com isso", murmurou Dave, afastando-se; e, ao passar pela porta do estábulo, olhou para trás, para Samson, ferozmente, e exclamou: "Que Satanás queime seu corpo como queimará minha alma. Eu te odeio, homem, enquanto você viver!"
Jimmy Phoebus comentou, alguns momentos depois, que Dave, dividindo uma dose de destilado com um garoto mulato magro e pequeno, colocou uma moeda nas mãos do menino, que então saiu rapidamente do pátio da taverna montado em um veloz pônei de Chincoteague.
Às duas horas, eles seguiram viagem novamente, com o homem Dave conduzindo a carruagem e Jimmy Phoebus sentado ao seu lado, enquanto Samson mantinha-se facilmente ao lado em sua velha mula ruça, a estrada tornando-se mais arenosa à medida que subiam o planalto entre o Wicomico e o Nanticoke, e a carruagem avançando com dificuldade.
"Se for tarde demais para continuar além de Vienna esta noite", disse a Sra. Custis, "pararei lá com meus amigos, os Turpins, e partirei novamente, depois do café, pela manhã, e chegarei a Cambridge para o café da manhã."
"Vou virar em Spring Hill", disse Samson, "e posso alimentar minha mula ao pôr do sol em Laurel e ir dormir."
Em uma hora, eles avistaram a antiga igreja de Spring Hill, uma venerável relíquia da Igreja Estabelecida colonial, nas fontes de um riacho chamado Rewastico; e antes de cruzarem o riacho, o condutor, Dave, gritou "Hô, hô!" com uma voz tão desnecessariamente alta que a Sra. Custis o repreendeu bruscamente. Dave saltou do assento e parecia estar examinando alguma parte da cilha, embora Samson lhe garantisse que estava tudo bem. Quando Dave terminou seu exame, ergueu as duas mãos acima da cabeça duas vezes e esticou-se até a altura de sua estatura enquanto estava na crista de uma pequena colina.
"Missy Custis", desculpou-se ele, ao voltar, "estou muito cansado esta tarde. Aquele estábulo me mantém acordado metade da noite."
"O licor te cansa mais, David", disse a Sra. Custis, bruscamente; "e aquela taverna não é lugar para te contratar, com seu apetite pela bebida, como direi ao seu senhor."
Neste momento, Jimmy Phoebus observou o garoto mulato magro e pequeno que havia deixado o hotel sair de um local pantanoso na estrada e trocar um olhar de entendimento com Dave enquanto cavalgava passando por eles no pônei.
"Rapaz", gritou Samson, "é essa a estrada para Laurel?"
O menino não respondeu, mas, olhando para trás uma vez, timidamente, cravou os calcanhares nos flancos do pônei e disparou para o mato em direção a Salisbury.
"Samson", disse Dave, "você vê aquela velha na carroça ali?" — ele apontou para uma figura subindo a elevação do terreno além do riacho — "Eu a conheço, e ela está indo direto para Laurel. Ela mora lá. São dezesseis quilômetros a partir deste desvio, e ela conhece todas essas estradas de mato."
"Adeus, então, e que você encontre a Tia Hominy e as crianças pequenas, Jimmy, e traga todos eles para casa em Prencess Anne, longe daquele Joe Johnson!" gritou Samson, e trotou com sua mula pelo pântano e partiu. Jimmy Phoebus o viu alcançar a velha na carroça e começar a falar com ela enquanto o matagal os engolia.
"O que foi aquilo que ele disse sobre Joe Johnson?" observou Dave, após um mau ataque de tosse, enquanto passavam pela velha igreja e entravam nos pinhais arenosos.
A Sra. Custis falou mais prontamente do que Jimmy Phoebus desejava, e contou ao negro sobre a fuga de Hominy e das crianças, e a esperança do Sr. Phoebus de interceptar o grupo enquanto subiam o Nanticoke em direção à divisa com o estado de Delaware.
"O senhor não quer se meter com os homens de Joe Johnson, patrão?" disse o negro de olhos vermelhos; "eles mandam em todo este país aqui, em ambos os lados da divisa do estado. Tudo o que não está com eles tem medo deles."
"Quão longe é desta estrada até Delaware, Dave?" perguntou Phoebus.
"Estamos bem perto da pedra fundamental do estado de Delawaw neste exato minuto. Não dá nem um quilômetro de onde estamos. A esquina é tão quadrada quanto a pedra que assenta sobre ela, e está esculpida com uma imagem da coroa do rei."
"Linha de Mason e Dixon, é como chamam", interpretou a Sra. Custis.
"Você conhece Joe Johnson, Dave?"
"Sim, Mestre Phoebus, pode apostar que conheço. Ele está em Salisbury, está em Vienna, está aqui em Crotcher's Ferry, ele está em todo o país, mas não vai mais a Delawaw à luz do dia. Ele foi surrado lá e banido do estado sob pena de forca. Mas ele mora logo deste lado da linha de Delawaw, para que não possam pegá-lo em Delawaw. Ele chama o lugar dele de Cruzamento de Johnson: a velha Patty Cannon também mora lá. Ela está com medo de ficar em Delawaw agora."
"Ora, qual é a ocupação dessas pessoas terríveis atualmente?" perguntou a Sra. Custis.
Não houve resposta por um minuto, e então Dave disse, em voz baixa e assustada, enquanto lançava um olhar para ambos os seus companheiros com seus olhos ardentes e marcados:
"Sequestro, eu suspeito."
"É tudo o que faz o Pandemônio", explicou Jimmy Phoebus; "aquela velha, Patty Cannon, passou toda uma vida perversa, pelos fumos! — ou desde que veio de Cannady para Delaware, como noiva do pobre Alonzo Cannon — transformando os jovens que conseguia capturar em ladrões e cães de caça. Alguns ela coloca para roubar o correio, outros para fabricar e passar dinheiro falso, mas a maioria ela coloca para roubar negros livres do estado de Delaware; e, quando é seguro, eles roubam escravos também. Ela primeiro fez de Ebenezer Johnson, o pirata de Broad Creek, um instrumento, e ele morreu em seus rastros lutando por ela. Depois, ela se apoderou de seus filhos, Joe Johnson e o jovem Ebenezer, e transformou ambos em foras da lei e sequestradores, e casou Joe com sua filha, quando Bruington, seu primeiro genro, foi enforcado. Quando Samson Hat, que é o negro mais correto que já encontrei, derrubou Joe Johnson em Princess Anne, anteontem à noite, ele atingiu o pior homem em nossa península."
Dave ouviu este relato com tal interesse profundo que sua respiração, forte com uísque de maçã, tornou-se curta e quente, e suas mãos tremiam enquanto guiava os cavalos. Às últimas palavras, ele exclamou:
"Samson derrubou Joe Johnson? Então o diabo o pegou, e pretende pagar na mesma moeda!"
"O que é isso?" gritou Jimmy Phoebus.
O suor escorria da testa do grande escravo, como se sua imaginação estivesse terrivelmente possuída, mas antes que pudesse explicar, a Sra. Custis interrompeu:
"Acho que foi dito que a velha Patty Cannon corrompeu Jake Purnell, que cortou a própria garganta em Snow Hill cinco anos atrás. Ele era um negro livre que contratava escravos para roubar outros escravos e trazê-los para ele, e ele os entregava aos sequestradores brancos por dinheiro; e ninguém conseguia explicar sua prosperidade até que um negro que havia sido espancado até a morte foi encontrado no Rio Pocomoke, e três escravos que haviam sido vistos em sua companhia foram presos pelo assassinato. Eles confessaram que haviam roubado o negro morto e ele escapou deles, e foi tão espancado com porretes, para torná-lo tratável, que quando o entregaram a Purnell sua vida já tinha ido embora. Então ele foi jogado no rio, mas seu corpo subiu depois de afundar, e a confissão dos miseráveis instrumentos explicou aos donos de escravos para onde todos os seus negros desaparecidos tinham ido. Eles marcharam e cercaram a cabana de Purnell, e ele foi descoberto escondido embaixo dela. Trouxeram os cães e fogo para expulsá-lo, e enquanto ele saía, cortou a própria garganta com golpes desesperados de orelha a orelha."
Durante esta narrativa, o homem Dave ouviu com crescente excitação nervosa, revirando os olhos como se estivesse em forte tormento interior, até que as palavras finais inspiraram tal terror nele que ele largou as rédeas, jogou a cabeça para trás e gritou, com grandes gotas de suor em toda a testa:
"Misericórdia! Misericórdia! Tenham misericórdia! Salvem-me, oh, meu Senhor!"
"Ele está tendo um ataque, eu suponho", gritou Jimmy Phoebus, agarrando prontamente as rédeas enquanto os cavalos disparavam com o grito, e prendendo Dave ao assento da carruagem com a perna. Nesse momento, a estrada desceu para o vale de Barren Creek e, saltando no antigo Hotel Mineral Springs, um local de veraneio daquela época, Phoebus humanitariamente conseguiu água e refrescou o rosto do negro que arquejava.
"Declaro, estou quase com medo de confiar em mim mesma com este homem", observou a Sra. Custis, com mais desgosto do que inquietação.
"Todo negro nesta região", exclamou Jimmy Phoebus, "acha que o Pandemônio está descendo ao ouvir o nome temido de Patty Cannon; e este negro está quase arruinado, de qualquer maneira."
"Oh, mestre", exclamou o escravo, recuperando a fala e olhando freneticamente ao redor, "não fui sempre o pobre pecador que o rum e as brigas fizeram de mim. Servi ao Senhor toda a minha juventude; louvei Seu nome e mantive o caminho para o céu; e pensando no naufrágio que fiz de uma boa consciência, e ouvindo a patroa contar o fim de Jake Purnell, isso me fez gritar ao bom Senhor por misericórdia, misericórdia, oh, minha alma!"
Sua agitação assustadora aumentou, e Jimmy Phoebus o acalmou, dizendo bondosamente:
"Sra. Custis, acho que é melhor deixar que ele entre na taverna e tome um pouco de destilado; vai fortalecer seus nervos e fazê-lo dirigir melhor."
Enquanto bebiam no bar do antigo resort de verão, na época no auge de sua celebridade e o único spa na península, ao sul de Brandywine Springs, Phoebus falou baixo ao negro:
"Dave, algo não está certo e justo acontecendo aqui, pelos fumos! Estou de olho em você, negro, e pode ter certeza que assim vai ficar. Você sabe da minha missão aqui, Dave: salvar uma pobre mulher negra, ignorante e iludida, do bando de Joe Johnson. Agora, você esteve gritando 'Misericórdia!' Quero que demonstre misericórdia me dizendo onde devo alcançar e revistar o barco de Levin Dennis se ele subir o Nanticoke esta noite com aquelas pessoas e Joe Johnson a bordo!"
Tendo engolido seu licor avidamente, o homem de cor respondeu, com seu semblante sombrio anterior e olhos evasivos:
"O senhor não pode fazer nada rio abaixo como em Vienny, porque o Nanticoke é largo demais lá, e se o senhor atravessar na balsa de Vienny, então terá o Norfwest Fork entre o senhor e o Cruzamento de Johnson, com uma balsa sobre aquele, em Crotcher's, e Joe Johnson é dono de todo aquele lugar. Mas o senhor pode ficar deste lado do Nanticoke, Mestre Phoebus, a mesma distância daqui até Vienny, até o ponto onde o Norfwest Fork entra. Às vezes, Joe Johnson navega por aquele grande braço para chegar ao cruzamento dele. Em geral, ele segue direto pelo outro braço até o cais de Betty Twiford, bem na linha divisória."
"Quão longe é isso?"
"São oito quilômetros daqui até Vienny, e oito quilômetros daqui até um desembarque oposto ao Norfwest Fork. Seis quilômetros mais adiante o senhor estará em Sharptown, e lá o senhor pode ver a casa de Betty Twiford na margem, a três quilômetros através do Nanticoke."
"Quatorze quilômetros, então, até Sharptown! Ele teve a maré contra ele desde que entrou no Nanticoke, e ela ainda não virou. Pelos fumos! Vou procurar um meio de transporte!"
"O senhor pode ir comigo até o primeiro desembarque", falou um homem de aparência nobre, chicote na mão; "e depois de demorar um pouco lá, seguirei para a balsa de Sharptown e atravessarei o rio."
Phoebus aceitou o convite imediatamente e, advertindo a Sra. Custis a falar com menos liberdade naquela parte do país, despediu-se dela e ocupou o lugar vago na charrete do estranho.
Quando a Sra. Custis chegou à balsa de Vienna, e os cavalos e a carruagem subiram na chata para serem remados até o pequeno e antigo assentamento portuário daquele nome, o negro Dave, parado à frente dos cavalos, trocou algumas frases com o balseiro.
"Dave", chamou a Sra. Custis, um pouco mais tarde, "você não tem nenhum amor, vejo, pelo velho Samson."
"Ele me transformou em um lutador e em um homem mau, patroa."
"Você conhece o homem para quem ele trabalha — Meshach Milburn?"
"Não, patroa. Nunca o vi."
"Ele usa um chapéu peculiar — nada parecido com os chapéus dos cavalheiros hoje em dia: é um chapéu entre mil."
"Nunca vi, patroa."
"Você não pode confundi-lo com nenhum outro chapéu no mundo. Ora, Samson é o único servo e vigia na loja do Sr. Milburn, e ele cuida daquele chapéu vergonhoso. Se você puder um dia tirá-lo dele, Dave, e destruí-lo, estará fazendo um ato útil, e eu o recompensarei bem."
O negro mal-humorado levantou os olhos de suas órbitas brutalizadas pelo remorso e disse:
"Roubá-lo?"
"Oh, não, não aconselho um roubo, David — embora um chapéu tão miserável não possa ter valor legal. É uma aflição para minha filha e para o Juiz Custis e para todos nós, e você pode encontrar alguma maneira de destruí-lo — é só isso."
"Eu o pegarei algum dia", murmurou o negro; e conduziu a carruagem para o antigo porto de tabaco de Vienna.
CAPÍTULO XXII.
GENTE DO NANTICOKE.
Um mapa estaria fora de lugar em uma história, contudo, há provavelmente alguns que percebem que esta é uma história com realidade; e se tais pessoas pegarem qualquer atlas e abrirem nos "Estados Médios" da república americana, verão que o pequeno estado de Delaware está encaixado tão perfeitamente em um nicho quadrado de Maryland como se fosse uma lâmpada, ou uma peça de estatuária, sobre uma lareira. Ele permanece ali sobre uma prateleira de lareira com cerca de sessenta quilômetros de largura, e eleva-se a mais de três vezes essa altura, formando uma linha perfeitamente reta de norte a sul, em ângulos retos com sua base. Assim entalhado em Maryland, sua linha oriental esfarrapada é formada pelo Oceano Atlântico e pela larga Baía de Delaware.
O único rio considerável dentro desta estreita faixa ou Hermes de um estado é o Nanticoke, que, como uma rachadura na parede — e o mesmo golpe fraturou a imagem na lareira —, flui com largura e fluxo de maré desde a Baía de Chesapeake através da Costa Oriental de Maryland para dentro de Delaware, e ali é formado por duas fontes de maré, a do norte continuando a ser chamada de Nanticoke, e a do sul — um fluxo quase tão imponente — chamada Broad Creek.
A Natureza, portanto, como se antecipando a algumas fronteiras políticas tolas por parte do homem, preparou um dreno e canal de entrada no canto sudoeste de Delaware para a esplêndida baía da Virgínia.
Ao redor daquele canto da pequena comunidade de Delaware, em um solo plano, pobre, arenoso e coberto de pinheiros, Jimmy Phoebus cavalgou ao lado do estranho na tarde de outubro, com o sol, uma hora alto no oeste, brilhando sobre suas bochechas e pescoço escuros e gregos, e ele ouvindo as aves do outono assobiarem e cacarejarem nos restolhos amadurecidos e nos matagais dourados.
O estorninho, o deleite dos rapazes, estava colhendo sementes, cascalho e ovos de insetos nos campos — grande e semelhante a uma perdiz, com o peito lavado de amarelo do bico até os próprios joelhos, exceto na garganta, onde pende uma brilhante rede de marrom-acinzentado; sua cabeça e costas são de cores de gavião — âmbar, marrom e cinza — e em seu porte há algo de galo de rinha. Ele voa alto, às vezes sozinho, às vezes em bando, e é nosso visitante de inverno, amando os campos antigos que a imprevidência abandonou, e emitindo, enquanto se alimenta, os sons altos de desafio, como se gritasse: "Abandonado pelo homem; ocupado por mim!"
Jimmy Phoebus também ouviu o pica-pau ousado e galhofeiro, de cabeça vermelha, cujo mestre-escola é o esquilo, e cujas táticas de manter uma árvore entre ele e seu inimigo foram adotadas pelos combatentes de indígenas. Ele imita o grito da rã-arborícola e migra após outubro, como outros voluptuosos, que precisam do ano redondo quente, e fruta e ovos sempre no mercado. Vestido em seu casaco de cauda preta salpicada, com sua longa pena na boca e seu peito de camisa impecavelmente branco, o pica-pau trabalha como um Balzac em seu sótão, tornando a copa das árvores viva enquanto esgrime com seus colegas boêmios; e estando ele mesmo seguro de uma árvore, e agarrando-se a ela com a cauda e com as garras, estima todo o resto que vive nela como um inseto contra o qual pode correr seu bico ou cuspir sua língua — aquela língua que está enraizada no próprio cérebro.
Na tigela dourada e oca da noite ecoante, o marinheiro notou, também, o flicker, em asas douradas riscadas e costas de âmbar salpicado e peito manchado de branco, com colarinho preto como carvão e pescoço e cabeça de canela. Sua cauda dourada pende muito abaixo de seu poleiro e, correndo para baixo ao longo do tronco da árvore, brilha no ar como um cetro sobre os piolhos de madeira que devora com seu bico de picareta. "Vai ter com a formiga, ó preguiçoso!" era uma instigação ao assassinato para o flicker, que ama as formigas jovens tanto quanto as cerejas bravas ou o milho, e é capaz de levar qualquer sátira desse tipo a sério sobre coisas para comer. Não tão elfo e diabólico quanto o pequeno pica-pau preto, ele é cheio de brincadeiras mais ousadas.
O pássaro-vermelho, como o sangue não reclamado de Abel, voou para as pequenas árvores que cresciam baixas, como se para cobrir o altar de Abel; a narceja chilreava nos pontos pantanosos, como um estudante de teologia, sobre suas pernas longas e limpas, sondando com o bico e o olhar crítico as Escrituras dos campos; a codorniz assobiava como um velho solteiro com preocupações familiares, finalmente, enquanto guiava sua companheira para onde as sementes bravas eram melhores; e pelo ar cruzavam vozes de pássaros abandonados ou em missões de médicos, gritando "Phoebe? Phoebe?" ou "Matou ele! Matou ele!"
"O senhor é um negociante?", perguntou o cavalheiro a Jimmy Phoebus.
"Só um pouco por esse caminho", disse Jimmy, cautelosamente, "quando consigo arranjar algo barato."
O estranho tinha um par de olhos aguçados e dançantes, e um rosto longo, eloquente e cinza-prateado que poderia ter servido a um grande general, tamanha era a sua autoridade, e ainda assim dançando estreitamente nos olhos, como aranhas em um poço, perturbando o espelho ali existente.
"Ha!", riu o homem, como se seus olhos tivessem rido, tão mal aquele som representava sua estatura senhorial e seu olhar de espírito elevado — "ha! é isso que traz todos eles ao meu vizinho Johnson: um quociente justo!"
"Quociente?", repetiu Jimmy.
"Johnson é um grande fator por aqui", continuou o homem de aparência militar, voltando seus olhos bonitos para o capitão da baía, como se houvesse um segredo comercial entre eles, e olhando ao mesmo tempo de forma travessa e nobre; "ele faz o quociente para servir. Ele deixa o suttle grande e nunca economiza no cloff."
"Ele não corta o sujeito até o pano que ele tem, senhor?", assentiu Jimmy, duvidoso.
"Por que haveria de fazer? Sua equação é simples: suponho que saiba qual é."
"Não exatamente", respondeu Phoebus, erguendo as orelhas para aprender.
"Bem, é a força e a simpatia de classe contra uma quantidade morta: leis que não têm consignatários, gado que não tem advogado nem língua, direitos que caducaram por sua afirmação ter sido suspensa, até que a oferta e a procura, como um par de buldogues, despedacem o que resta. Armado com seu ca. sa., meu vizinho Johnson compensa o fi. fa. de todos, executa seu mandado primeiro e faz para cavalheiros como você um quociente satisfatório. Mas ele não faz estripulias com Isaac e Jacob Cannon!"
"Imagino agora que o senhor seja Jacob Cannon?", comentou o marinheiro bronzeado, sem ter entendido uma palavra do que precedeu. "Se for esse o caso, fico feliz em saber seu nome e agradeço por me dar esta carona."
Com um leve aceno, apenas inteligível, o Sr. Cannon indicou que o palpite estava correto; e ainda meditando em voz alta, à sua maneira pequena e grandiosa, continuou:
"Deixamos que o vizinho Johnson e sua sogra algo peculiar façam o comércio que lhe convier, contanto que ele se esforce para não nos causar inconveniências. Essa é a sua equação; com o quociente dele não temos preocupação, exceto nosso leve interesse em seu desperdício, como quando a Madame Cannon desce para trocar uma nota e deixa uma ordem de suprimentos — rum, principalmente, eu acredito. Cavalheiros como você entram neste país para negociar, retomar bens, ou o que seja, e dizemos a todos vocês: 'Não nos pisem — isso é tudo'. Não vasculharemos seus pacotes, nem ficaremos acordados à noite para ouvir alarmes; mas prejudiquem Isaac e Jacob Cannon em um centavo e levari facias, fi. fa.!"
"E fee-fo-fum", exclamou Jimmy, alegremente; "já ouvi isso antes."
Olhando novamente com certa curiosidade para seu companheiro, Phoebus viu que ele não passava de cinquenta anos de idade, de uma figura esguia e alta — pelo menos um metro e noventa e três de altura — sentado ereto e gracioso como um indígena, suas roupas bem cortadas, seu semblante e feições tanto austeros quanto refinados; cada traço aperfeiçoado, e tudo aguçado sem ser duro ou anguloso — e ainda assim Jimmy não gostou dele. Parecia ter sido feito um comodoro ou um general — alguém destinado a feitos de cavalaria e grande filantropia; e ainda assim, ao redor e entre os olhos dançantes, linhas de aranha estavam traçadas, como se o cérebro fino e elevado de Jacob Cannon tivesse deixado de lado assuntos que o igualavam e não se intrometido com nada que ascendesse mais alto acima do mundo do que a longa ponte branca de seu nariz. Seus sentimentos aparentemente não caíam mais para o coração do que isso; seu cérebro pertencia à ponte de seu nariz.
"Outro Meshach Milburn, pelos céus!", concluiu Jimmy.
Após uma pequena pausa, Phoebus indagou sobre o caráter das pessoas nesta região aparentemente nova do país.
"O quociente de muito plantio incorreto e chicana é a terra no Nanticoke", falou o Apolo de nariz cinzento; "o pedaço de terra diretamente diante de nós, na retaguarda dos cruzamentos do meu vizinho Johnson, foi uma antiga reserva indígena por setenta anos, e assim foram três mil acres à nossa direita, em Broad Creek. O indígena é um fator ruim para civilizar seus vizinhos brancos; ele não conhece o luxo da lei, aquele grande artifício para fazer a equação entre o homem de negócios e a manada. Ha, ha!"
O Sr. Cannon riu como se ele, pelo menos, apreciasse a lei, e virou a bela ponte equina de seu nariz, toda cinzenta com o brilho dançante dos olhos, de forma prazerosa para o Sr. Phoebus.
"Os indígenas foram por muito tempo impostos, e quando partiram, à beira da Guerra Revolucionária, deixaram uma raça branca desmoralizada; e outros que se mudaram para as terras desertas dos Nanticokes eram, se possível, mais indígenas que os indígenas. Esta península nunca produziu um grande indígena, mas quando Ebenezer Johnson estabeleceu-se em Broad Creek, possuía um selvagem maior que Tecumseh. Ele tomava o que queria e apelava à natureza, como o indígena. Ele não roubava nada; ele apenas tomava. Ele servia, com qualquer coisa conveniente, desde seus punhos até um bacamarte, seu fi. fa. e seu ca. sa. sobre a humanidade espantada, porém submissa. Preciso dizer que isso foi antes do dia perfeito de Isaac e Jacob Cannon?"
"Eles teriam dado o troco nele, suponho", exclamou Jimmy, de forma concordante.
O Sr. Jacob Cannon deu um sorriso terno, tal como o cavalo cinzento emite perante a perspectiva de aveia, e continuou:
"Tal foi o multiplicando para fazer a raça futura. Aqui, também, enfureceu-se o debate da linha de fronteira entre Penns e Calverts, com ocasionais incursões e cabeças quebradas, e um nobre processo em chancelaria de cinquenta anos, até que o título de nenhum homem era conhecido, e, em vez de melhorar suas terras, nossos voluptuosos predecessores melhoraram principalmente suas oportunidades. Você cortava várias cordas de lenha e as levava para o desembarcadouro, e Ebenezer Johnson calmamente as transportava de barca para seu paraíso na foz de Broad Creek. Você tinha um pequeno grupo de negros, mas os navios de guerra britânicos, em duas guerras sucessivas, ficavam na foz do rio e os chamavam. Não tendo interesse em qualquer propriedade certa, os florestais do Nanticoke prefeririam negociar com o inimigo a lutar por ideias tolas; e assim esta região era mais da metade Tory, e ainda é metade passiva, a outra metade predatória. A nenhuma dessas metades de tal quociente pertence a casa de Isaac e Jacob Cannon!"
Suas narinas incharam um pouco com espírito militar, e ele ergueu a ponte do nariz delicadamente, virando-se para observar seu companheiro instintivo.
"Se for algum mal, não perguntarei", falou o marinheiro descontraído, "mas são vocês dois Cannons algum parente da velha Patty Cannon?"
O Sr. Cannon sorriu.
"Em Adão todos pecaram — aí podemos ter sido parentes", disse ele. "A pergunta que você faz pode um dia ser acionável, senhor. Os Cannons são um povo numeroso em nossa região, de bens razoáveis, tais como os que temos, mas eles não mostraram nada para variar a equação da subsistência aqui até que surgiu a mãe de Isaac e Jacob Cannon. Ela foi uma mulher notável; sem auxílio, ela obteve o alvará para a Balsa de Cannon, e fez o assentamento portuário desse nome pela importância que sua balsa adquiriu; e quando ela morreu, foram encontrados em sua casa novecentos dólares em prata — pois ela nunca aceitava qualquer papel-moeda — os ganhos daquela balsa isolada, para iniciar seus filhos em sua carreira. Ela conhecia o caráter peculiar de alguns de seus vizinhos — quão levemente o meum e tuum repousava sobre seus medos ou consciências — mas ela não mantinha guarda exceto seus próprios bons olhos cinzentos e coração destemido sobre aquela pilha acumulada de pequenas moedas, pois havia apenas um espírito tão audacioso quanto ela em toda esta região do mundo —"
"E essa, imagino", observou Jimmy Phoebus, "era a própria velha Patty Cannon."
O Sr. Jacob Cannon inclinou levemente a cabeça e falou em voz alta de uma comunhão interior:
"Perdoa-me, mãe, que eu faça a comparação! Teu óleo frugal, que ardia com chama pura e solitária de viúva na janela da Balsa de Cannon, o viajante saudava com conforto em seu coração, e abençoava o empreendimento. Mas para compor a equação, outra quantidade desconhecida de força feminina surgiu ao lado da lâmpada de minha mãe. Um certo jovem Cannon, distantemente de nossa linhagem, precisou ir ver o mundo, e retornou com uma bela demônia de noiva, e estabeleceu-se, também, na Balsa de Cannon. Ele viveu para ver a maravilhosa serpente que havia aquecido em seus braços, e morreu, dizem, da picada. Mas ela viveu, e, retirando-se para a floresta para uma pequena fazenda que os filhos de minha mãe alugaram para ela, ela acendeu ali um Fogo-fátuo que muitos viajantes perseguiram que nunca retornaram para contar. Com a progênie de Ebenezer Johnson e suas próprias irmãs sereias, que seguiram a Madame Cannon para o Nanticoke, o núcleo de um assentamento começou, e tem existido por vinte anos, que apenas o venire facias do Todo-Poderoso pode explorar."
"Essa é minha missão, Jacob Cannon", observou calmamente Jimmy Phoebus. "Sou um homem pobre de Princess Anne. Se me tomou por um traficante de negros, fez-me um elogio tão pobre quanto quando perguntei se era parente de Patty Cannon. Mas tenho apenas uma garota para amar e apenas uma vida a perder, e se Deus me levar até lá, estou indo para o cruzamento de Johnson."
O Sr. Jacob Cannon virou-se e examinou seu companheiro com algum cuidado cintilante, mas não demonstrou preocupação pessoal.
"Cada homem deve ser sua própria segurança, meu amigo de pele escura, até que possa encontrar um fiador. Esse lugar eu nunca ocupo — nem o do devedor nem o do fiador. A firma de Isaac e Jacob Cannon não permite invasão, e além disso não se preocupa. Mas estamos no Nanticoke."
"Agradeço pela carona, Sr. Jacob Cannon", disse Jimmy, saltando, "e espero que nunca ache inconveniente ter deixado tal bando de lobos usar sua vizinhança para invadir a natureza humana."
CAPÍTULO XXIII.
ILHA DE TWIFORD.
Algumas pilhas de lenha e um cais antigo ficavam à beira do rio, e uma pequena barcaça, meio cheia de água, e com apenas um pedaço quebrado de remo dentro, era o único barco que o capitão da pungy pôde encontrar. O buggy do comerciante logo saiu de vista, e o largo Nanticoke cinzento, com várias centenas de metros de largura, e tornado mais largo por um rio caudaloso que nele desaguava através de baixos penhascos e planícies logo em frente, estava recebendo as sombras fortes da noite que se aproximava, e a maré subia violenta e profunda.
Longas linhas de bosques melancólicos fechavam ambos os rios; uma águia-pescadora atingiu subitamente a superfície da água, como um homem se afogando, e subiu como se tivesse escapado de algum demônio na enchente; o silêncio que seguiu seu mergulho era mais profundo do que nunca, até que um noitibó, silenciosamente fazendo sua caça em zigue-zague, gritou, como se saído de uma escuridão eterna, sua ordem solene para "Açoitar o pobre Will". Essas notas repetidas — como por algum escravo ordenando que seu irmão fosse açoitado ou uma alma solidária na perdição tornando-se o marcador de tempo da miséria de outro — flutuavam na luz da tarde como se os remos de Caronte ecoassem no Estige, e corações partidos estivessem atravessando.
Sozinho, não intimidado, mas não totalmente confortável, Jimmy Phoebus procedeu a esvaziar a velha barcaça, e desejou ter aceitado um dos chapéus de Jack Wonnell para realizar a tarefa, e, quando terminou, as estrelas e nuvens manobravam ao redor umas das outras no céu, com as nuvens sendo as mais agressivas, e finalmente algumas gotas de chuva perfuraram os longos e nus músculos da maré entrante, fazendo um retículo de pequenas marcas, como uma rede de contas nas madeixas flutuantes das mulheres. À medida que a noite avançava, algo ofegante subia pelo corredor largo e negro deste rio florestal, e lentamente o barco a vapor de Norfolk passou roncando, com passageiros para a diligência de Filadélfia. Então o silêncio puxou um lençol de neblina ao seu redor e entrou em um torpor frio de repouso, afetado apenas pelas ondas que lambiam as margens com sede intermitente.
O barqueiro, arrependendo-se um pouco de não ter tomado sua posição em Vienna, onde assistência humana poderia ter sido obtida, e pensando que os ares venenosos poderiam também afligi-lo com as queixas de Meshach Milburn, lutou contra o sono até a meia-noite, forçando seus olhos e ouvidos de tempos em tempos em busca de sinais de alguma vela; mas nada se aproximou, e ele fechara insensivelmente as pálpebras e poderia ter entrado em sono profundo em breve, não fosse ter ouvido, entre seus sonhos e este mundo, algo como um bebê chorando na noite.
Ele sentou-se na barcaça úmida, onde estivera deitado, e ouviu com todos os seus sentidos bem abertos, e mais uma vez o choro foi levado pelas brisas do rio, e antes que morresse, o remo do marinheiro estava na água, e sua frágil e desajeitada embarcação disparava através da maré.
Ele viu, na noite negra, o que ninguém além dos olhos de um marinheiro teria visto, uma coisa não visível, mas adivinhada, vindo ao longo do seio do rio; e seus ouvidos viram-na mais claramente à medida que aquele pequeno choro continuava — agora parado, agora sufocado, agora subindo, agora quase perfurante; e então houve um rosnado, momentâneo e alto, e um ruído como de pés sobre madeira, e um golpe ou baque, ou colisão pesada, e então uma coisa branca ergueu-se contra a tinta universal e avançou sobre a pequena barcaça, sugando água à medida que vinha — o cat-boat sob vela cheia.
Phoebus remara para a margem oposta do rio para impedir que o objeto de sua busca escapasse pelo Northwest Fork, mas para estar em seu caminho caso ele subisse pelo fork principal, e, por um lance de cálculo instintivo, ele correra quase sob as proas do cat-boat.
"Ahoy, aí!", gritou Jimmy, levantando-se em seu skiff instável; "ahoy o Ellenory Dennis! Estou subindo a bordo."
E com isso, o remo ainda em sua mão, e seus joelhos e pés quase sensientes em sua providência de usos, o marinheiro lançou-se sobre a borda baixa, e deixou que ela deslizasse por suas palmas até que pudesse ver o homem no leme.
Não havia luz que pudesse ser chamada de tal, mas o timoneiro ainda era percebido pelos olhos experientes do marinheiro, e ele agarrou a borda com mais firmeza, e, preparando-se para se lançar a bordo, gritou roucamente:
"Você, Levin Dennis, eu o vejo, pelos céus! Você sabe que Jimmy Phoebus é seu amigo, e saia desse Pangymonum e pare de partir o coração de sua mãe! Oh, eu o vejo, meu filho!"
Se ele via Levin Dennis, Levin não via Jimmy Phoebus, nem aparentemente o ouvia, mas permanecia imóvel no leme como um homem congelado, olhando fixamente na noite. O aparelho de manobra fez um pequeno bater, o leme rangeu em seus ganchos, mas todo som humano estava quieto como a sepultura agora, e o rapaz no leme parecia petrificado e surdo e cego.
O temperamento do capitão da pungy subiu, sua superstição não sendo igual à da maioria das pessoas, e ele gritou novamente:
"Você é uma desgraça para a mulher que o gerou. O inferno está esperando pelo seu pobre corpo e alma ternos. Heave ahoy e largue essa retranca, e leve-me a bordo, Levin!"
Ainda silenciosa e passiva como uma pedra, a figura juvenil no leme não parecia respirar, e o cat-boat cortava a água como uma águia-pescadora.
Um clarão de fogo brilhante iluminou a lateral da embarcação, um tiro de pistola alto soou, e as mãos do marinheiro soltaram-se da borda e agarraram o ar, e ele sentiu a noite negra cair sobre ele como se tivesse derrubado suas colunas de ébano sobre sua cabeça.
Ele não soube de mais nada por horas, até que sentiu-se deitado em água fria e viu a manhã cinzenta surgindo através dos galhos das árvores sobre sua cabeça. Ele tinha uma sensação de sede e dor em algum lugar, e por alguns minutos não se moveu, mas ficou ali deitado sobre seu ombro, segurando algo e adivinhando o que poderia ser, e onde poderia estar fazendo sua cama nesta aurora fria de outono.
Sua mão estava segurando a tábua da popa da velha barcaça, e estava tão rígida que ele não pôde, por algum tempo, abri-la. A barcaça estava encalhada em uma margem pantanosa, na qual cresciam algumas árvores grandes, que eram as franjas de um bosque que se aprofundava mais atrás.
"Pelos céus!", murmurou Jimmy, "se você não é hokey-pokey. Mas suponho que não estou morto, de qualquer forma."
Com isso ele levantou a outra mão, que estivera esticada sob sua cabeça, e também estava dormente de cãibra e frio, e ela estava cheia de sangue.
"Bem", disse Jimmy, "aquele sujeito me atingiu; mas, se ele me emprestar sua pistola, dispararei uma bala mais reta que a dele. Gostaria de saber onde ela está."
Sentindo ao redor de sua cabeça, o capitão chegou a um ponto cru, cujo toque lhe causou dor aguda, e fez o sangue fluir novamente enquanto retirava a mão, e ele mal podia dizer as palavras, "Água, ou eu vou...", quando desmaiou.
O sol estava alto e brilhando alegremente nas copas das árvores quando Phoebus, que era o portador do nome, recuperou os sentidos novamente, e ele banhou o rosto, ainda deitado, e arrancou um pedaço de sua vestimenta para um curativo, e, pelo espelho de uma poça de água verde e parada, examinou seu ferimento, que era na parte carnuda de sua bochecha — um pequeno sulco ou canal, agora obstruído com sangue quase seco, onde a bala abrira uma linha. Provavelmente atingira um osso, mas não o quebrara, e isso o atordoara.
"Eu era tão feio antes que Ellenory mal olharia para mim", refletiu Jimmy, "e agora, imagino, ela nunca beijará essa bochecha."
Ele então enfaixou sua bochecha grosseiramente, sentando-se, e fez uma pesquisa do cenário.
O rio era aqui bem um quarto de milha de largura, na margem oposta escarpado, e em lugares ousado, mas, no lado onde Phoebus derivara com a maré, agarrando sua velha barcaça com aperto mortal, estendia-se uma ponta de bosques planos e pântano ou "cripple", como se pela ação de alguma água de retorno, e este terreno baixo parecia ter uma área considerável, e não era em lugar algum cultivado ou cercado, nem dava sinais de ser visitado.
Mas a margem oposta ou norte era bem diferente; lá o rio tinha uma larga curva ou reentrância para receber dois riachos consideráveis, e mudava seu curso quase abruptamente de oeste para sudoeste, proporcionando uma vista grandiosa de seu largo seio pela distância de mais de duas milhas para dentro de Maryland; e a perspectiva era fechada naquela direção por algo de aparência esbranquiçada, como pilhas de cal ou conchas, erguendo-se contra o fundo de bosques pálidos e penhascos.
Bem em frente ao local onde Phoebus encalhara, uma fazenda desmatada chegava ao Nanticoke, oferecendo uma frente de apenas um único campo, na crista de um considerável penhasco de areia — elevações que pareciam magnificadas aqui, onde a natureza é tão plana; e em uma extremidade deste campo, que estava plantado com milho que agora se agarrava seco aos talos nus, uma antiga trilha descia para um cais pavimentado de conchas de uma forma quadrada e atarracada; e quase na outra extremidade, ou oeste, do desmatamento ficava uma respeitável casa de fazenda de idade considerável, com um telhado de quatro águas e três curiosas janelas de mansarda deslizando pela metade mais íngreme abaixo, e duas chaminés, não construídas fora da casa, como era a moda geral, mas naturalmente erguendo-se dos antigos frontões de tijolos ingleses. Tudo entre os frontões era construído de madeira; uma varanda de um andar ocupava quase metade do centro daquele lado da casa voltado para o rio; e à direita, contra a casa e atrás dela, ficavam cozinha, defumadouro, celeiros de milho e outros pequenos casebres, em um conjunto pitoresco; enquanto à esquerda agachava-se um antigo edifício baixo na beira da água, parecendo um alambique de aguardente ou um pequeno armazém. A estrada do cais e da trilha passava ao longo de uma praia, e parcialmente através da água do rio, para entrar por um portão entre este galpão e a habitação; e do jardim ou gramado, no penhasco diante desta última, erguiam-se duas árvores altas e elegantes, uma acácia-mel e uma amoreira robusta.
"Ora, nunca estive por estas bandas antes", resmungou Jimmy Phoebus, "mas, pelos céus! Aquela casa parece-me o cais de Betty Twiford e, se minha vida depende disso, não consigo deixar de pensar que aquelas manchas brancas ali adiante, na margem do rio, são Sharptown. Sendo esse o caso, em que estado estou eu?"
Ele ergueu-se, esvaziou a chata, que estava quase cheia de água, e começou a remar ao longo da costa. Vendo algo branco, desembarcou, afastou os arbustos e descobriu tratar-se de uma pedra de mármore azulado, ostentando de um lado a letra M e do outro a letra P, com uma coroa real também esculpida nela.
"Eis uma das pedras de limite de Lord Baltimore", exclamou Phoebus. "Agora veja a patifaria desses sequestradores! Aquela casa, eu sei, é a de Twiford, porque fica quase na linha divisória do estado, mas, tenho vergonha de dizer, fica um pouco em Maryland. E aquela viela, que desce até o cais, é o meu caminho para o Pangymonum de Joe Johnson em seu cruzamento."
Um som, como se alguém estivesse cantando, parecia vir dos bosques próximos e Phoebus, escutando, concluiu que vinha de mais adiante, ao longo da água, então remou suavemente até que uma pequena enseada ou poça levava ao pântano, cujas margens em lugar algum ofereciam um desembarque seco; contudo, havia marcas de passos recentes profundamente pisadas no lodaçal, revelando o caminho pela encosta para dentro dos bosques, e de sua direção parecia vir o cântico misterioso.
"Minha cabeça está ensanguentada e estou molhado como um rato-do-almíscar, então suponho que não tenho medo de ficar um pouco enlameado", e com isso o navegador saiu da chata no pântano quase até a cintura e puxou-se pela encosta com força bruta.
"Creio em minha alma que isto aqui é uma ilha", observou Jimmy; "uma ilha cercada de lama, o que é pior para se alcançar do que uma ilha de água."
As árvores altas aumentavam de tamanho conforme ele avançava e entrava em um nobre bosque de pinheiros, através de cujo rugido, como um órgão acompanhado por uma voz humana, o canto era ouvido cada vez mais perto e, seguindo o rastro de pés anteriores, que quase haviam formado um caminho, Phoebus chegou a um espaço onde um machado derrubara os arbustos menores ao redor de um grande pinheiro loblolly, cujos galhos se espalhavam como um telhado a apenas alguns pés do chão; e lá, presa por uma corrente ao tronco, que lhe permitia dar voltas e mais voltas na árvore e pisar em um lugar quase nu sobre as agulhas de pinheiro, sentava-se uma mulher negra, cantando em um lamento longo, cansado e com a garganta dolorida. Jimmy ouviu algumas linhas:
"Aprofunda a ferida que Tuas mãos fizeram Nesta alma fraca e desamparada, Até que a misericórdia, com seu auxílio poderoso, Desça para me tornar inteira; Sim, Senhor! Desça para me tornar inteira."
Uma pequena criança negra, talvez com três anos de idade, jazia adormecida no chão aos pés da mulher, envolta em um cobertor cinzento, velho e esfarrapado, que poderia ter sido descartado de um estábulo. Perto da criança havia uma caixa de madeira, na qual estavam um pão de milho grosseiro e algumas tiras de bacon, e uma gamela de madeira, escavada em um tronco, continha água. O rosto da mulher estava arranhado e machucado e, conforme ela chegava a certos sons dentais em seu cântico, seus dentes eram revelados, com vários faltando na frente, e seus lábios estavam inchados e as gengivas, em carne viva e com bolhas.
Ela olhou para cima quando Phoebus surgiu, fitou-o por um minuto em curiosidade inexpressiva, como se não soubesse que tipo de animal ele era, e então continuou seu canto, cansadamente, como se o estivesse entoando por dias e sua mente tivesse se entregado a ele e estivesse fora de seu controle. Conforme ela movia os pés de tempos em tempos, a corrente tilintava em seus tornozelos.
"Bem", disse Jimmy, "se isto não é o Pangymonum, suponho que o encontrarei no cruzamento de Johnson! Levante-se daí, moça, e deixe-me ver o que lhe aflige."
A mulher levantou-se mecanicamente, ainda cantando no tom agudo, rachado e cansado e, ao levantar-se, o bebê acordou e começou a chorar; ela se abaixou, pegou-o e, acariciando-o com as mãos, continuou a cantar, como se fosse adormecer cantando, mas não conseguia.
A corrente, forte e enferrujada, fora soldada muito recentemente aos seus pés por um ferreiro; o rebite fresco atestava isso, e havia também pedaços de carvão nas agulhas de pinheiro, como se fogo tivesse sido trazido ali para uso de ferreiro. Jimmy Phoebus agarrou a corrente e examinou-a elo por elo até que ela dependia de um poderoso grampo pregado no coração do pinheiro; embora enferrujada, estava perfeita em todas as partes, e a condição do grampo mostrava que era retido permanentemente em sua posição, como se para prender pessoas variadas e sucessivas, enquanto o próprio grampo fora pregado acima do alcance das mãos, como por um homem em pé sobre alguma plataforma ou nos ombros de outro.
Phoebus tomou a corrente em seus braços curtos e poderosos e, dando uma pequena corrida a partir da raiz da árvore, lançou toda a força de seu corpo compacto e pesado em um solavanco e deixou seu peso cair sobre ela, mas não produziu a menor impressão.
"Há apenas duas pessoas que podem soltar esta corrente", exclamou Jimmy, ofegante e amassando as palmas das mãos, após dois esforços desses, "uma delas é um ferreiro e a outra é um lenhador. Moça, como você veio parar aqui?"
A mulher, uma pessoa jovem e outrora formosa de cerca de vinte e oito anos de idade, cantou por um momento como se não compreendesse a pergunta, até que Phoebus a repetiu com um tom mais gentil:
"Pobre criatura abusada, diga-me como a um amigo! Não sou nenhum desses sequestradores. Reúna seu juízo pobre e disperso e diga a um amigo de todas as mulheres e criancinhas como ele pode ajudá-la, pois o tempo vale um dólar por segundo e abutres sangrentos estão por perto. Fale, Mary!"
O nome universal pareceu oportuno para esta mulher; ela interrompeu seu cântico e caiu em pranto.
"Meu marido me trouxe aqui", disse ela, entre seus longos soluços. "Ele me vendeu. Dei-lhe tudo o que tinha e também o amava, e ele me vendeu — a mim e ao meu bebê."
"Suponho que você não pertença a estas bandas, Mary? Você não fala como se fosse."
"Não, senhor; pertenço à Filadélfia. Eu era uma mulher livre e viúva; meu marido me deixou um pouco de dinheiro, uma casinha e esta criança; outro homem veio e me cortejou, um mulato bonito, quase tão branco quanto o senhor. Ele me disse que tinha uma fazenda em Delaware e queria que eu fosse sua esposa; prometeu-me tanto e estava tão ansioso por isso que o escutei. Oh, ele era um belo orador, e eu me sentia solitária e queria amor. Deixei que ele vendesse minha casa, dei-lhe o dinheiro e parti há uma semana para vir para o meu novo lar. Oh, ele me enganou tanto; ele dizia que me amava profundamente."
Ela começou a chorar novamente e sua mente parecia divagar, pois a frase seguinte era desconexa. Jimmy pegou o bebê em seus braços e beijou-o sem escrúpulos, e os grandes olhos negros da criança fitaram os dele como se ele pudesse ser seu próprio pai, enquanto ele o ninava ternamente.
"As raposas vieram e latiram para mim duas noites", disse a mulher; "elas queriam o bacon, eu acho. As cobras-d'água rastejaram por aqui durante o dia, e os urubus voaram bem para baixo, diante de mim, e olharam para cima, como se pensassem que eu deveria estar morta. Mas eu não tive medo: aquele homem a quem dei meu amor era tão pior do que eles que eu apenas cantava e deixava que olhassem para mim."
"Você diz que ele a vendeu, Mary?"
A mulher esfregou os olhos cansados e lentamente recordou onde havia parado.
"Levamos nossas coisas em um navio para Delaware e subimos um riacho até uma pequena cidade nos pântanos, e de lá partimos para a fazenda do meu marido. Ele disse que tínhamos chegado nela durante a noite. Eu não podia saber, mas vi uma casa no bosque e estava tão cansada que adormeci com meu bebê lá, e à noite encontrei homens no quarto, e um deles, um homem branco, estava amarrando meus pés."
Um corvo grasnou com um som de pavor nas copas dos pinheiros, e esquilos corriam mansamente por toda parte enquanto ela hesitava.
"Pensei então nos sequestradores de Delaware, pois já tinha ouvido falar sobre eles, e saltei da cama e lutei pela minha vida. Eles me derrubaram e a corda ao redor dos meus pés me fez tropeçar; mas lutei com meus dentes depois que minhas mãos também foram amarradas, e mordi os joelhos daquele homem branco, e então ele pegou uma pá de fogo, ou algo de ferro, e arrancou meus dentes. Minha última esperança estava quase perdida quando vi meu marido entrando e gritei para ele: 'Salve-me! Salve-me, querido!' Ele tinha uma corda na mão e, antes que eu pudesse entender, ele a passou pelo meu pescoço e me estrangulou."
"Seu próprio marido? Não consigo acreditar, se minha vida depende disso!"
"Eu também não acreditava, até ouvi-lo dizer, quando afrouxaram o nó corrediço que me estrangulou — a voz era a dele, em quem eu tanto confiava; nunca poderia esquecê-la! — 'Eben', disse ele, 'eu tomei nota de cada pinta e marca no corpo dela e posso jurar por elas, pois as aprendi de cor, e você não terá trabalho nenhum em vendê-la, já que ela não pode testemunhar'."
"O diabo de Pangymonum!" exclamou Jimmy. "Ele se casou com você para anotar suas marcas e por elas jurar que você é uma escrava!"
"O homem branco tentou me vender a um fazendeiro, e então contei o que os tinha ouvido dizer. Ele acreditou em mim e disse a eles que o prefeito da Filadélfia já tinha uma recompensa por eles, por sequestrar pessoas livres. Então eles conversaram entre si — estavam um pouco assustados — e me amarraram de novo, trouxeram-me em uma carroça pelo bosque até o rio, levaram-me para cá, acorrentaram-me e disseram que, se eu algum dia dissesse a outro homem que era livre, eles venderiam meu bebê e me afogariam no rio."
Ela terminou com um tremor frio e um lamento baixo como o de uma criança, mas o marinheiro passou-lhe o bebê para ocupá-la e disse:
"O Senhor ainda está contando seus pardais, ou eu não estaria nesta missão, pelos céus! Derivar até aqui, pendurado inconsciente naquela velha chata, deve ter sido para salvá-la, Mary. Esta é uma ilha onde eles acorrentam a propriedade, creio eu, que está sendo seguida de perto demais. O tempo é muito precioso, Mary, mas tenho uma faca de marinheiro aqui e ficarei para cortar o grampo deste velho pinheiro, mesmo que venham e me matem. Pegue e lave meu rosto naquela gamela enquanto eu mordo um pedaço do bacon."
Ele tomou a criança novamente e divertiu-a enquanto a mulher limpava cuidadosamente seu ferimento e o enfaixava novamente para que ele pudesse respirar, enxergar e comer, embora as dobras de algodão envolvessem grande parte de seu rosto como uma máscara. Ele então examinou a corrente novamente, especialmente onde estava rebitada nos pés, e levantou uma grande bola de ferro pesando vários quilos, que também estava afixada ao seu tornozelo, para que ela não pudesse subir na árvore. Ele encontrou o tornozelo dela com bolhas devido ao rebite em brasa, forjado tão barbaramente perto da carne.
"Não me deixe, oh! não me deixe aqui para morrer", a mulher implorou, quando ele começou a entrar no bosque.
"Ficarei com você e morreremos juntos, se for preciso; mas não é minha intenção morrer de forma alguma, Mary. Vou trazer aquela chata para a margem enquanto corto uma nogueira, se encontrar uma, para quebrar esta corrente."
Mergulhando novamente na lama quase até a cintura, Phoebus puxou a chata para dentro do bosque e mal havia se escondido quando viu sair do riacho abaixo da casa de Twiford um cat-boat como o Ellenora Dennis, indo em direção à ilha no sapal.
"A maré está contra eles e eles devem dar um bordo para chegar aqui", murmurou Jimmy; "mas temo que esta faca terá que ir ao coração de algum filho de Pangymonum em dez minutos, ou Ellenory Dennis nunca mais será incomodada por seu amante feio."
Ele foi tomado por um certo frenesi de força e discernimento diante do perigo em que se encontrava e, enquanto carregava a chata para frente e através da ilha arborizada, pesada como era, ele também notou uma única nogueira pequena na margem mais distante, jogou-se contra ela, dobrou-a e cravou sua faca nas fibras tensionadas, de modo que ela estalou e lascou em sua mão. Ele saltou para a árvore e escalou-a como costumava escalar um mastro, enfiou a muda sob o grampo, aparando a ponta com a faca enquanto agarrava a árvore com os joelhos e então, prendendo a jovem nogueira como uma alavanca, desceu pelo tronco do pinheiro, colocou o ombro sob a muda e lançou o peso do corpo desesperadamente contra ela. O grampo dobrou-se para cima na árvore, mas não se soltou.
Naquele instante, ouviu-se o raspar de um barco na lama e a mulher negra caiu de joelhos.
"Ore, mas faça-o baixinho", sussurrou Jimmy; "e nem um pio da criança, ou haverá um assassinato!"
Ele havia aparado rapidamente os galhos da haste da nogueira enquanto falava, para que pudesse penetrar na folhagem da árvore por cima, e escalando mais alto, como um gato, trabalhou a ponta da alavanca para baixo dentro do grampo agora torto, e jogou-se da árvore contra a muda, que se dobrou como um arco quase ao meio, mas não quebrou; e, quando o grampo cedeu e voou para fora, a corrente e o libertador caíram juntos sobre o leito macio de agulhas de pinheiro.
"Escute!" exclamou uma voz através do bosque.
"O que foi?" perguntou outra voz.
"Venha!" murmurou Phoebus, reuniu a mulher, a criança, a corrente e a bola e caminhou, longo e silencioso como os saltos de um coelho, através dos pinheiros envoltos em pavor, carregando todo o peso sobre seus ombros.
Ele os colocou na chata, que afundou até as bordas, e, coberto por uma ponta de bosque saliente, afastou-se para o rio profundo, guiando a frágil embarcação pelas laterais da correnteza, longe da influência da maré vazante. Quando a chata contornou a primeira curva ou cotovelo do rio, começou a afundar.
"Se você fizer um som, será escrava pela vida toda", sussurrou o barqueiro, enquanto escorregava borda fora e começava a nadar, com a mão na popa. Ao fazer isso, tensionando cada músculo do rosto para se manter à tona, o ferimento em sua bochecha começou a sangrar novamente e ele sentiu sua força se esvaindo. Ele começou a afundar, afundar, até que a água atingiu suas narinas, e a mulher o ouviu suspirar enquanto ele afundava:
"Eu faria isso — e morreria — de novo — por — Ellenory. Deus a abençoe!"
A chata, agora cheia de água, virou de cabeça para baixo e jogou mãe e filho na correnteza; a criança desapareceu sob a superfície antes que a mulher pudesse agarrar-se a um galho submerso de uma árvore enraizada; e, enquanto ela arquejava ali, o corpo do capitão de pungy passou por ela, ela o pegou pelos cabelos e ele a agarrou com o instinto de afogado, e eles foram ao fundo juntos, como marido e mulher, no desprezo da natureza pelas distinções entre vermes vivos.
Eles foram até o fundo, mas não para se afogarem; pois a velha árvore, tendo caído onde cresceu em outros anos, sustentava-se sobre seus galhos e criava um caminho invisível, porém seguro, até a margem. A longa corrente e a bola de ferro presas ao pé da mulher de cor, no entanto, privaram-na por alguns momentos de qualquer poder para caminhar ao longo do tronco escorregadio e submerso e, com sua alma cheia de agonia pelo filho, que ela não via mais, ela estava prestes a soltar o corpo de seu libertador e lançar-se também ao rio, para morrer com eles, quando a velha chata, tendo se esvaziado da água, reapareceu na superfície e atingiu a mulher com um golpe flutuante que alterou o curso de seu pensamento.
"Pobre homem corajoso", arquejou a mulher. "Ele tem uma esposa, talvez. Ele disse: 'Deus a abençoe', e deu sua vida por uma criatura pobre como eu. Deus levou meu bebê. Não posso fazer nada por ele agora, mas talvez eu possa salvar a vida deste homem antes de morrer."
Indiferente ao seu destino pessoal, ela obteve inteligência de seu espírito de sacrifício, que é a única coisa melhor do que o aprendizado. Ela empurrou a chata para baixo e sob Phoebus com a mão que lhe restava, até que ela a aliviou de uma parte do peso do corpo dele, e levantou-se, meio carregando a forma do marinheiro de rosto bronzeado, animando seu propósito generoso com o sorriso honesto e feliz que ele ostentava no rosto, mesmo no vestíbulo do palácio eterno. Então, reunindo as longas malhas da corrente de ferro desde sua terminação em seus pés, ela jogou a maior parte dela dentro da chata, para que não ficasse mais emaranhada nos galhos transversais e nós abaixo, e ela pôde também levantar a bola de ferro o suficiente para deslizar os pés ao longo da árvore.
Com dor e dificuldade, diminuídas pelo esquecimento de si mesma, ela empurrou a chata e o corpo até o pé da árvore e, tateando ao redor de suas raízes velhas em busca de mais apoio, os cágados de olhos vermelhos surgiram e nadaram ao seu redor, perturbados em suas posses; mas ela não temia mais répteis, uma vez que a Morte, o poderoso crocodilo, havia devorado o bebê que ela amamentara ainda esta manhã.
Ela tinha discernimento suficiente para pensar em todas as precauções que seu libertador havia tomado e, quando arrastou o corpo dele para a margem, para dentro do bosque denso e rasteiro, ela também puxou a pequena chata e amontoou alguns arbustos mortos sobre ela; mal havia se escondido quando ouviu vozes vindas do rio, o estalo de uma vela girando em torno de sua retranca e pés em um convés. As vozes diziam:
"Se ela escapou para Delaware, Joe Johnson não terá muito tempo para ficar em sua visita; pois todos os tiras se reunirão atrás dele e serão iniciados por John M. Clayton."
"Sinto muito pelo Joe", respondeu outra voz; "ele esperava fazer mais uma grande colheita nesta viagem e deixar os Corners de vez."
"Vamos navegar pelo poleiro do velho Ebenezer Johnson na foz de Broad Creek e espreitar ambos os braços do rio", disse a outra voz, afastando-se; "é apenas uma milha e meia. Se não descobrirmos nada, desceremos o rio e perguntaremos nos desembarcadouros até Vienny."
A mulher de cor trabalhou agora com todas as suas forças para reviver o marinheiro insensível, rolando-o, esfregando seu corpo até que seus cotovelos parecessem quase estar caindo e, então, esfregando seu peito grande e largo com sua cabeça, rosto e pescoço. Ela soprou em sua boca o sopro que o céu concedeu a Hagar tão generosamente quanto a Sarah e, torcendo partes de suas vestes e pendurando-as em exposições ensolaradas para secar, ela as substituiu, em seus intervalos de exaustão, pelas roupas molhadas do homem; e, enquanto trabalhava, com um coração vazio e desolado, ela soluçava:
"Senhor, dai-me a vida deste homem! Ó Senhor, que levou meu filho, eu terei esta vida de volta!"
Chorando e soluçando, desmaiando e trabalhando, os momentos, pareciam as próprias horas, passaram e ainda ele não acordava; e ainda, com toda aquela força nobre que faz os campos dos homens brancos crescerem e florescerem sob o trabalho não agradecido do negro, a viúva sem filhos lutava por este pedaço frio de irmão da natureza.
Ele aqueceu, ele respirou, ele gemeu, ele falou!
Sua voz era como um suspiro feliz, de alguém perturbado perto do final de um reconfortante cochilo matinal de verão:
"Você aí, Mary?"
Ele olhou em volta com dificuldade, seu rosto ferido agora coagulado e manchado de sangue, e seus olhos em seguida buscaram uma pergunta tão gentil e apreensiva que ela a respondeu, para poupar-lhe o fôlego:
"O bebê se afogou. Deus sabe o que faz!"
Ele estendeu a mão para a dela — ela estava quase nua até a cintura, tendo sacrificado tudo o que possuía, sendo a maior de todas a modéstia, para trazer de volta aquela vida nele que veio ao mundo nua e sem vergonha — e ele pôs sua pequena força no aperto.
"Mary", ele exalou, "por que você não pegou o bebê e me deixou ir?"
"Oh, por mais que eu o amasse", respondeu a mulher, "estou feliz que você tenha voltado sob minhas mãos. Você pode fazer o bem: você é um homem branco. O bebê teria sido apenas um escravo pobre, ou um negro livre por quem ninguém se importaria."
"Pretendo fazer o bem, se o Senhor me permitir", suspirou o marinheiro; "pretendo ir e morrer de novo pela natureza humana em Johnson's Cross-roads."
CAPÍTULO XXIV.
CHAMINÉS VELHAS.
O dia estava bem avançado quando Jimmy Phoebus sentiu-se forte o bastante para levantar-se, caminhar e deixar o refúgio nos bosques. Ele aconselhou a mulher de cor a rastejar pelos pinheiros ao longo da margem, enquanto ele remava na velha chata na sombra da floresta, que agora se estendia pesada sobre o seio do rio.
À distância de cerca de uma milha, Broad Creek, como um rio tributário, desaguava no Nanticoke vindo do leste, com quase quatrocentos metros de largura, e meia milha rio acima, uma casa velha, baixa, extensa e enegrecida pelo tempo dava para o rio, e parecia sorrir de suas costelas quebradas e órbitas vazias de janelas como o crânio de um traidor descolorido em uma forca. Estava se desfazendo, e ao longo da cumeeira de seu telhado uma linha de corvos se equilibrava e grasnava, como se tivessem belas histórias a contar e opiniões estranhas a proferir sobre os antigos habitantes da morada.
"Ali, ouvi dizer", disse Jimmy, enquanto encostava na margem, levava a mulher para dentro da chata e começava a rebocá-la pela praia, vadeando na água, "ali, ouvi dizer, viveu o pirata de Broad Creek, o velho Ebenezer Johnson, que foi baleado logo após a guerra de 1812 na casa de Twiford, lá adiante."
"Por sequestrar pessoas livres?", perguntou a mulher, sem interesse, a pergunta vindo de seu coração desolado.
"Naqueles dias eles não sequestravam muito; estava apenas começando. A guerra de 1812 quebrou tudo na baía, queimou meia dúzia de cidades, manteve os homens brancos escondidos e vigiando, fez de metade deles vagabundos, e trouxe voluntários ruins e milícias para cá para brincar com as moças pobres, e alguns desses estranhos ficaram por aqui depois que a guerra acabou. Não sei de onde veio o velho Ebenezer; alguns dizem uma coisa, outros, outra. Tudo o que sabemos é que ele e as irmãs Hanlen, uma delas Patty Cannon, eram os principais demônios durante e depois da guerra."
"É uma casa velha de aparência ruim, senhor. Veja, ali está um guaxinim correndo para fora da porta. Oh! Ouço meu filho chorando em todos os lugares que olho."
"Os britânicos começaram a levar os negros na guerra. Os negros queriam ir com eles. Os britânicos encheram as ilhas em Tangier aqui com acampamentos de negros; eles iam tomar toda esta península, e reunir e treinar um exército de negros nela para derrubar a América. Quando a guerra acabou, os britânicos partiram da baía de Chesapeake com milhares dessas pessoas de cor, e então o povo daqui começou a odiar os negros livres."
"Por amarem a liberdade?", a mulher suspirou, olhando para a bola que havia ferido seu tornozelo, deixando-o ensanguentado.
"Eles odiavam os negros livres como se fossem todos legalistas e não amassem a América. Então, vendo que os negros livres não tinham amigos, esses Johnsons e Patty Cannon começaram a roubá-los, porrada! Havia apenas um milhão de negros em todo o país; a Louisiana estava rugindo por eles; cada negro valia vinte cavalos ou trinta juntas de bois, ou duas boas fazendas por aqui, e esses sequestradores faziam dinheiro como fumaça, compravam os advogados, entravam na política, e ficaram com tanta autoridade que tentaram assassinar os traficantes de negros da Geórgia e de lá, que vinham para cá cheios de ouro para comprar pessoas livres. Isso lhes deu um revés, e enforcaram alguns do bando de Patty--alguns em Georgetown, alguns em Cambridge."
"Se meu bebê foi transformado em branco no céu, temo que não o reconhecerei", disse a mulher, balançando a cabeça, divagando em seus pensamentos.
"Finalmente os habitantes de Delaware marcharam sobre Johnson's Cross-roads e limparam aquele seu Pandemônio, e o escoltaram, junto com dezesseis negros pobres acorrentados que ele havia sequestrado, até a cadeia de Georgetown. O jovem John M. Clayton foi pago pelos Quakers da Filadélfia para conseguir sua condenação. Johnson era forte no condado--estamos nele agora, Sussex--e se Clayton não tivesse assustado o júri quase até a morte, eles teriam discordado. Ele os manteve sobre o inferno fervente, e os mergulhou lá até que o tribunal parecesse uma reunião de avivamento metodista, com metade daquele júri chorando 'Salva-me, salva-me, Senhor!', enquanto alguns deles tinham o dinheiro de Joe Johnson nos bolsos. Joe foi surrado no poste, banido do estado, e tão assustado que ficou na moita por um tempo, indo para algum lugar--para o Missouri, ou Flórida, ou Alabama. Mas Patty Cannon nunca vacilou; ela treinou os rapazes por aqui para serem seus cães de caça e irem roubar para ela; e, até ela morrer, é mais seguro ser uma galinha do que um negro livre. Eles roubaram você, pobre criatura da Filadélfia, e eles os roubam em Jersey e longe na Carolina do Norte; pois Joe Johnson é um sujeito esperto para negócios, e Patty Cannon é profunda como a morte e a sepultura."
Phoebus olhou para a mulher sentada na chata e viu que ela estava em sono profundo; sua história não teve poder para despertar seus sentidos, agora exaustos por cada imposição.
"Preciso tirar essa bola e corrente", disse o marinheiro; "mas ferro, nessas partes velhas e arenosas, é escasso como ouro."
Ele a tirou da chata, deitou-a à sombra e começou a explorar a casa velha. Para sua alegria, encontrou o guindaste de ferro ainda pendurado na chaminé, e sinais de fogo recente.
"Esses velhos guindastes aqui já foram valiosos", disse Jimmy, "e nos testamentos eles os deixavam para seus filhos como fazendas, e processos eram movidos por causa das panelas ferventes e as maiores caldeiras. Quebrava o coração de uma mulher receber uma panelinha, e a garota da caldeira grande era simplesmente importunada por pretendentes. Mas, porrada! estamos fabricando ferro agora na América! Caldeiras são baratas, e é por isso que este guindaste foi deixado por ladrões e ciganos depois que o usaram."
Ele torceu o guindaste para fora dos tijolos nos quais estava articulado, e parte da ombreira da lareira caiu.
"Olá!", gritou Jimmy, "o que é isso rolando aqui? Um xelim, por Deus! Digo, por Deus, desta vez porque o retrato do velho George III está nele. Talvez haja mais deles."
Ele puxou alguns tijolos da ombreira e vasculhou o espaço oco dentro com a mão, e trouxe à tona uma bolsa de aço de fabricação inglesa, cheia de xelins em uma ponta, e quinze guinéus de ouro na outra; eles rolaram através da filigrana apodrecida, enferrujados, provavelmente, pela chuva que percola através da chaminé, e a bolsa esfarelou-se em ferrugem em sua mão.
"'O Senhor é meu pastor'", disse o marinheiro, reverentemente; "'nada me faltará. Ele me guia pelas águas tranquilas.' Como é bonito quando Ellenory diz isso. Olhe ali para as águas do Nanticoke, bonitas como prata. Senhor, torna-as águas puras e livres, para cada pobre criatura!"
"Para quem! Para quem!", gritou uma voz vinda da chaminé oca.
"Bem", respondeu Jimmy, pouco excitado, "não sou exigente. Ha! Achei que o conhecia, Barney", continuou ele, enquanto uma coruja agitava-se e pulava por uma escadaria em ruínas.
"Agora, dinheiro britânico não é cunhado pelo Tio Sam; qual é a data? Consigo distinguir os números facilmente: 'Mil oitocentos e quinze!' Eu estava prestes a cometer a injustiça com Ebenezer Johnson de dizer que ele havia vendido seu país para o velho Almirante Cockburn, mas a guerra já havia terminado quando este dinheiro foi cunhado. De quem era?"
Ele removeu mais cuidadosamente alguns dos tijolos, para colocar a mão no depósito oco deixado ali, e, apalpando em volta e mais acima, trouxe o punho de bronze de uma espada, no qual havia um nome.
"Quem teria pensado que esta era uma casa de aprendizado?", disse Jimmy, duvidoso. "Não consigo ler isso. Porrada! Talvez tenham assassinado alguém aqui. Acho que ele era britânico. Ellenory pode ler isso, se eu viver para vê-la novamente."
Não havia mais nada, e, quando ele deixou a velha casa apodrecida, um estrondo e uma nuvem de fumaça subiram atrás dele, e a chaminé caiu no meio do piso.
Com a ponta de ferro forjado afiada do guindaste e a longa alavanca, o capitão da escuna conseguiu, após esforços tediosos, quebrar os elos da corrente e também remover a bala de canhão ligada do pé da mulher, mas ele não conseguiu remover a banda de ferro e o elo ao redor de seu tornozelo.
"Deus o abençoe!", exclamou a mulher. "É pecado dizer isso, mas sinto como se pudesse voar desde que esse peso terrível saiu. Oh, quero voar, pois sonhei com meu bebê, e ele sorriu para mim do céu como se dissesse: 'Estou feliz, mamãe!'"
"Você não me deve nada, Mary. Eu amo uma viúva, como você é, e ela me implorou que viesse aqui. Quando você chegar a Princess Anne, onde quero que você vá, encontre Ellenory Dennis e diga a ela que vi seu menino, e que o trarei de volta se eu puder."
"Princess Anne? Onde é?"
"É talvez a quarenta milhas daqui, Mary; meio caminho entre o nascer e o pôr do sol."
"Bem ao sul, senhor?"
"É isso. Agora vou lhe dizer como chegar lá. Pegue esta velha estrada de madeira ao longo de Broad Creek e caminhe até Laurel, cinco milhas; é uma pequena cidade no riacho. Mantenha-se dentro dos bosques, mas não perca a estrada, pois cada centímetro dela é perigoso para negros. Você pode chegar lá, talvez, ao escurecer. Não conheço ninguém lá, Mary, e não sei escrever, pois nunca aprendi. Mas você vai direto à casa de algum pregador do Evangelho e conte uma mentira."
Mary abriu os olhos.
"Eu não pediria que você contasse uma mentira para ninguém a não ser para um homem bom", continuou Phoebus, "pois então ela está tão perto do Senhor que não irá longe nem envenenará muitos, como as mentiras sempre fazem. Você deve dizer àquele pregador que você é a escrava fugitiva do Juiz Custis de Princess Anne, e que se arrepende de ter fugido, e quer ir para casa."
"Oh, senhor, você não é como meu marido perverso, tentando me vender também?"
"Não, Mary, por mais mal que tenham lhe tratado, a fé é sua única amiga segura. Se você dissesse ao pregador que foi sequestrada, ele talvez tivesse medo de ajudá-la. Eles são um grupo tímido aqui embaixo sobre qualquer assunto relacionado a negros; esses pregadores ajudarão a salvar as almas dos negros, mas nunca resgatarão seus corpos pobres e quebrados. Quando você lhe disser que é escrava de um homem rico como o Juiz Custis, ele agarrará a chance de fazer um favor ao Juiz e lhe dirá que você faz bem em voltar para seu senhor. É aí que ele é um mentiroso, Mary--então ele riscará sua mentira."
"Eles me levarão de volta a Princess Anne, e talvez não me reconheçam."
"Não se você fizer isto, Mary. Faça-os levá-la até a filha do Juiz Custis--aquela que acabou de se casar. Diga a ela que quer falar com ela em particular. Então diga a ela que o homem de pele de negro--eu sou ele--que ela mandou embora com sua mãe, encontrou você onde estava acorrentada nos bosques. Leve este elo da corrente para mostrar a ela. Diga a ela que quer ser sua cozinheira até que aquele que fugiu seja encontrado."
"Farei isso, senhor. Não tenho casa para onde ir, agora."
"Diga a ela tudo o que se lembra. Diga a ela para não contar a Ellenory nenhum dos meus problemas. Diga a ela que estou partindo para o Pandemônio e, se eu morrer, não passa de um solteiro mantendo sua própria companhia solitária. Aqui está uma moeda de ouro e três moedas de prata que encontrei, Mary, para pagar sua jornada. Adeus."
"Não vai me dar sua faca?", perguntou a mulher.
"Para quê, Mary?"
"Para me matar se eles me sequestrarem de novo."
"Não tenho mais nada para lutar pela minha vida", disse Phoebus. "Não, você não deve fazer isso. Fique nos bosques até Laurel."
Ela caiu no chão e beijou seus joelhos, e banhou-os com suas lágrimas.
"Eu tenho fé, mestre", disse ela, "fé suficiente para ser sua escrava."
"Eu choraria um pouco também", disse Jimmy, piscando os olhos, enquanto a mulher desaparecia na floresta, "se soubesse como fazer isso; mas, porrada! o vento na baía secou minhas fontes de lágrimas. Vou enterrar essas curiosidades bem aqui, com esta corrente e bola, e colocar alguns tijolos velhos em volta delas, da chaminé de onde vieram."
Ele cavou um buraco com sua faca, cortando cuidadosamente um pedaço do gramado e restaurando-o sobre os itens enterrados; e, após marcar algumas árvores para identificar o local, empurrou a chata novamente para dentro de Broad Creek e desceu o Nanticoke na maré vazante até o cais de Twiford.
Arrastando a chata pelo leito de um riacho para escondê-la, ele descobriu outra pedra de limite. Uma praia levava sob a cobertura de um barranco arenoso até o portão do rio da casa confortável de Twiford, e ele entrou corajosamente na alameda e no gramado, dizendo para si mesmo:
"Acho que um sujeito pode pedir para comprar uma refeição decente por dia em um país livre, pois estou com fome."
Mesmo naquela época, a casa provavelmente tinha setenta anos, coberta por um telhador artístico em linhas como renda antiga, os telhados curtos sobre as três bonitas claraboias como aventais rendados, as molduras das janelas em pequenos quadrados de vidro escuro, o telhado espaçoso como as costas de um tatu ou de uma tartaruga terrestre; mas metade dele era quase tão reta quanto as paredes, e os pequenos tijolos estrangeiros nas empenas, envidraçados de preto e vermelho escuro alternadamente, foram assentados por trabalhadores conscienciosos, e prometiam durar mais cem anos, enquanto fumavam suas tubulações de chaminé arrumadas a partir dos estômagos fartos das lareiras abaixo.
Parado sob a árvore de acácia no portão do gramado, o marinheiro contemplou uma extensa perspectiva do rio Nanticoke, curvando-se em uma bela curva, como a borda de uma bandeja de prata, em direção ao sul, a perspectiva azul dos bosques circundantes desaparecendo nos penhascos azuis na margem distante, onde, como ele agora identificou, o povoado de Sharptown assumia o mistério e a semelhança de uma cidade pelo encantamento da distância. Um grande brigue estava subindo o rio sob a brisa da tarde, carregando a bandeira inglesa em seu mastro de ré. As aves selvagens, voando em linhas em forma de V, como Híades perdidas, tremeluziam na bandeja do rio como moscas domésticas. Alguns pescadores apareceram ao longe, humanos, porém quase estacionários, como se para animar um sonho, e as abelhas em uma fileira de colmeias continuavam zumbindo nas proximidades, aumentando a sensação de descanso no coração e nos ouvidos.
"Por que a natureza humana não pode ser feliz aqui, especialmente com sua garota--alguém como Ellenory?", Phoebus pensou; "por que deve se tornar cruel e desesperada por dinheiro, olhando para esta água dançante, e querer transformar este transe em um Pandemônio?"
Ele atravessou a alameda até uma estrutura velha e atarracada de tijolos à beira da água e espiou para dentro.
"Um alambique, porrada!", ele disse. "Se não for conhaque de maçã, que eu esqueça minha bússola! Não, é conhaque de pêssego. Bem, de qualquer forma, está quente o bastante; e isto, suspeito, é o que iniciou o Pandemônio."
Ele tomou um gole forte, e isso reanimou seu sistema enfraquecido, e ele banhou a cabeça com seu álcool forte. Ele então retornou ao gramado e caminhou ao redor da casa, espiando as salas inferiores--das quais havia duas no edifício principal, sendo a cozinha um anexo--mas não viu ninguém. A varanda nos fundos estendia-se por toda a largura da casa, ao contrário do telheiro menor na frente, que cobria apenas duas portas, situadas curiosamente lado a lado.
Completamente abrigado pela varanda mais longa, Phoebus, olhando por uma janela, viu ali uma mesa já posta com uma toalha limpa, pão e frango frio, e uma jarra de leite cremoso, com um pedaço de gelo flutuando nela. De cada lado de uma grande lareira ao lado da mesa havia uma porta, uma aberta, levando por uma pequena escada em caracol ao andar de cima. Havia também uma cama no quarto, que dava por uma janela para o gramado e o rio, e pela outra para a fazenda, os celeiros de milho e os pequenos galpões e currais.
Com os pés silenciosos e deslizantes de um marinheiro, Jimmy entrou no saguão baixo, e um pássaro-gato, em uma gaiola ali, começou imediatamente uma série tão estridente de gritos que seus passos não foram ouvidos por ele mesmo.
"Não estando ninguém aqui", pensou Jimmy, "e as moscas atacando as vitualhas, acho que farei como gostaria que fizessem comigo."
Então ele começou a comer, e logo ouviu uma voz feminina, muito próxima, vindo das escadas, como se estivesse recitando para outra pessoa.
"Tia Patty diz que o primeiro marido da tia Betty, o Capitão Twiford, era um capitão de mar e viúvo, e ela era uma das belas garotas Hanley, criadas pelo velho Ebenezer Johnson em sua casa do outro lado de Broad Creek; e lá o Capitão Twiford cortejou-a e a trouxe para viver aqui. Ele morreu cedo--todos os maridos das minhas tias morreram cedo--e está enterrado na cripta aqui atrás do curral, onde você pode entrar e vê-lo em sua mortalha, deitado ao lado da tia Betty. O próximo marido dela, John Gillis, a deixou, e então ela viveu com William Russell, um traficante de negros. Tia Patty governava todas as suas irmãs e os meninos Johnson também. Oh, como eu a temo quando ela olha para mim às vezes com seus olhos negros e ousados: não posso evitar."
Outra voz, não de mulher, porém quase tão gentil, agora parecia fazer uma pergunta; mas o pássaro-gato, comportando-se como um detetive e fofoqueiro, fez um grito tão furioso ao ver um estranho bebendo o leite, que Phoebus não conseguiu ouvir bem. A agradável voz feminina falou novamente:
"Sim, ele foi morto no quarto abaixo deste, antes de eu nascer, diz tia Patty; e às vezes ela gosta de contar histórias tão sombrias e sangrentas, e ri de alegria ao ver que estou assustada com elas. Tia Betty endividou-se, e esta casa e fazenda foram vendidas sob execuções e compradas por um homem de Maryland, que roubou uma oportunidade quando os homens estavam fora, colocou seus pertences na casa e colocou os pertences da tia Betty do lado de fora no gramado. Fica a apenas uma milha, ou pouco mais, daqui até a casa de Ebenezer Johnson, e a notícia da apreensão foi enviada para lá."
Jimmy arrancou um pedaço de frango com os dentes, ouvindo vorazmente.
"Você ouviu alguma coisa?", continuou a voz; "achei que tivesse ouvido. Os cães estão acorrentados no defumadouro, e pessoas más estão sempre vindo aqui; vou soltar os cães."
"Que eu seja amaldiçoado se você fizer isso!", refletiu Jimmy. "Esse é o pássaro-gato mais desprezível que já vi, pois agora ele se calou de propósito."
Algo soou familiar ao hóspede não convidado na voz que parecia atrasar essa intenção; mas o pássaro-gato, com seu humor pouco cooperativo, interrompeu novamente. Então a mulher continuou:
"Enquanto os homens — que haviam chegado armados, esperando confusão — removiam os pertences da Tia Betty do quarto, atirando muitos deles pelas janelas para que pudessem ficar com a posse exclusiva, um som foi ouvido no cômodo de baixo, onde sua refeição está agora pronta, como uma pantera saltando e chicoteando o rabo; e, antes que os homens pudessem respirar, o velho Ebenezer Johnson estava no topo da escada atacando a todos. Seus olhos estavam cheios de fúria assassina. Um homem saltou direto por aquela janela e rolou pela varanda; outro ele atirou escada abaixo; o terceiro era um rapaz, Joe King, mal crescido — ele vive não muito longe desta casa agora — e Ebenezer Johnson também o arremessou escada abaixo e foi atrás dele. Durante toda a sua vida, o rapaz fora ensinado a temer aquele homem terrível, e agora estava em suas mãos, ou fugindo dele; e, enquanto cambaleava pelo cômodo de baixo, para fora da porta que dá para a varanda dos fundos, os olhos do rapaz, na agonia do medo da morte, avistaram um rifle encostado ali."
"Seria uma coisa muito boa se estivesse lá agora!", Jimmy observou para si mesmo, terminando o frango e ainda sentindo fome.
"Oh, há um barulho em algum lugar nesta casa", exclamou a voz; "nunca conto essa história sem me assustar com cada som. O rapaz, ao girar passando, agarrou o rifle longo, trouxe-o ao ombro e, com a habilidade de um jovem voluntário — pois estivera treinando para lutar contra os britânicos — ele colocou as duas balas no cérebro daquele velho. Ambas as balas entraram acima da sobrancelha esquerda, e uma atravessou a cabeça e foi encontrada na parede; a outra nunca foi encontrada.[3] O gigante fora da lei teve um movimento trêmulo pelo corpo, seus olhos se vidraram e ele afundou morto no chão sem um som — o ímpio cessara de perturbar! Tia Betty, Tia Patty e Tia Jane, três irmãs moldadas por ele em alma, caíram sobre seu corpo e choraram e quase rezaram, mas era tarde demais. Enterraram-no perto de Tia Betty, no campo atrás do curral."
Tentando levantar-se da cadeira, Jimmy Phoebus fez um rangido alto no chão, e a faca de mesa caiu com um som metálico.
"Quem está aí?", gritou uma voz, e acrescentou: "Eu sabia que os cães deveriam estar soltos."
"Quem está aí?", perguntou também a outra voz, com algo muito familiar para Phoebus em seu som.
"E-b-e-n-e-z-e-r John-son!", respondeu Jimmy, em seus tons de baixo mais profundos, considerando mentalmente que um fantasma poderia causar mais terror do que um ladrão, depois daquele conto.
Um pequeno grito se seguiu, e uma consulta sussurrada, e então os pés descalços de uma jovem, magnificamente moldados, desceram lentamente a escada íngreme, e logo um corpo esguio e gracioso apareceu, e finalmente um rosto, delicioso como um pêssego maduro, olhou uma vez para o intruso lá embaixo, e toda a cor rosada e brilhante desbotou dele ao ver, parado ali, onde Ebenezer Johnson havia entregado a alma, uma efígie robusta, enfaixada em branco por toda a cabeça, e sobre o olho e a bochecha esquerdos, onde o pirata de rio morto recebera sua bala dupla, o sangue estava horrivelmente emaranhado e ainda não totalmente estancado. Ela afundou lentamente nos degraus e não viu mais nada.
"Agora, se eu não sair, os cães serão soltos", murmurou Jimmy, enquanto desaparecia pela trilha da fazenda e colocava o celeiro e o curral entre ele e a casa; e mal tinha feito isso quando Levin Dennis apareceu descendo as escadas, totalmente inconsciente da aparição, e, encontrando a bela jovem insensível, levantou-a em seus braços e roubou um beijo.
Pagando por seu único ato de engano ao perder o objetivo principal de sua busca, Jimmy Phoebus parou um minuto junto ao túmulo de Ebenezer Johnson.
Em um campo plano de areia profunda — sendo o solo aqui o mais pobre da região — e entre o curral de gado e os pinheiros, que eram por toda parte ciumentos de seu outro irmão nativo, o milho, um antigo lote de sepultamento da família jazia sob alguns cedros baixos, com arbustos de frutas silvestres crescendo por toda parte. Havia várias pequenas pedras sobre os Twifords que tinham morrido cedo, e um grande monte de areia, plantado com algumas flores, que poderia ter coberto um cavalo favorito, mas que Phoebus acreditava ser o local de descanso do bucaneiro do rio; e havia também um jazigo de tijolo e reboco, com a pequena porta entreaberta, onde visitantes lascivos, eles mesmos com a curiosidade egoísta de Saul de ressuscitar os mortos, tinham cutucado e espiado até que as tampas dos caixões fossem puxadas para trás e o par morto exposto ao ar seco da península.
O capitão da baía olhou para dentro e viu seu predecessor, Capitão Twiford, que também navegava pela baía, deitado em sua mortalha — não em roupas completas, como os homens são enterrados agora, pois as roupas eram valiosas demais no país escassamente povoado para alimentá-las aos vermes. Twiford jazia encolhido, mortalha e carne formando uma única pele, o rosto da cor de uma noz, o cabelo completo, os dentes sãos, e uma dignidade severa não relaxada pela exposição a que fora condenado por sua aliança maligna com Betty Hanley.
Ela também jazia exposta, aquela que vivera tão vergonhosamente, não respeitando o molde de beleza que Deus lhe dera, até que agora os homens olhavam com malícia para seu seio quase seco pelo calor, colado em sua mortalha, e a glória de seu cabelo, que tinha sido manuseado por fora da lei zombeteiros, e em uma onda ondulante de carvão não alvejado cobria a coqueteria sorridente de seu crânio.
"Aqueles que zombam de Deus serão zombados por Ele", disse Jimmy Phoebus, fechando a porta e colocando alguns dos tijolos espalhados do jazigo contra ela. "Agora, creio eu, posso chegar ao cruzamento um pouco depois de escurecer."
CAPÍTULO XXV.
NA CASA DE PATTY CANNON.
Phoebus passou ao longo da margem de um grande açude de moinho, sombreado por ciprestes pretos, encontrou a pedra de limite novamente, e tomou o ângulo de sua face norte como um ponto de bússola, e, seguindo nessa direção, logo encontrou uma espécie de caminho cego, dificilmente viável para rodas, que corria quase na linha entre os estados de Maryland e Delaware, passando à vista de várias dessas antigas pedras de limite. Nenhuma habitação era visível enquanto ele prosseguia, nem mesmo uma clareira, nem um riacho, exceto uma mera valeta na areia, nem um homem, mal um animal ou um pássaro; os pinheiros da areia, monótonos, baixos demais para gemer, espessos demais para se expandir, secos demais para dar sombra, ainda assim cresciam e cresciam, como crianças de cabeça arenosa de gente pobre, e faziam companhia apenas a alguns carvalhos arbustivos que tinham se perdido por ali, até que pinhas e bolotas pareciam ter se cruzado entre si, e os porcos selvagens desprezavam a prole.
"Talvez eu seja morto aqui neste Pangymonum", refletiu Jimmy; "e embora eu suponha que não faça diferença onde você planta seus ossos, eu não quero crescer em pinheiros velhos. Pinheiros bons, grandes, do tipo que pregam, que estão um pouco acima do mundo, e dizem 'Santo, rolante, melancólico, cuide da sua alma' — eu poderia entrar em sua seiva e resinas muito bem. Mas morrer aqui e nunca ser encontrado nestes desertos é um resgate pobre para um homem que viveu entre as velas brancas da baía, e amou uma mulher elegante como Ellenory."
Estava escuro, e ele mal conseguia ver seu caminho em meia hora. Às vezes um corvo grasnava, para ouvir sons estranhos passarem, como o chocalho de um velho vigia movido por uma engrenagem. As estrelas se tornaram brilhantes, no entanto, e a lua era nova, e quando Phoebus chegou a uma grande abertura limpa entre os pinheiros, os céus luzentes irromperam e banharam os campos de areia com prata, e mostraram uma casa grande e alta no meio da clareira, com chaminés externas, uma mais espessa que a outra, e uma varanda de dois andares voltada para o leste.
Embora não fosse uma casa grande, era grande para aqueles dias e para aquela região pouco frequentada, e seu telhado parecia a Phoebus notavelmente íngreme e longo, e ainda assim, embora envolvesse tanto espaço, não tinha uma única janela de sótão. O frontão sul estava voltado para o intruso, e nele havia duas pequenas janelas no topo, espremidas entre a chaminé espessa e a inclinação do telhado. Os dois andares principais eram bem iluminados, no entanto, e a varanda era fechada na extremidade mais distante, criando um quarto externo duplo ali. Nenhum galpão, cozinha ou estábulo estava ligado às instalações, mas um poço de vara antigo, como uma catapulta, erguia sua longa vara em meio ângulo entre a bifurcação de outra árvore. Estradas, marcadas por altas cercas de minhoca, cruzavam o nível da vista onde esta casa alta presidia, e a quatrocentos metros além do cruzamento, a nordeste, havia outra casa, muito menor, e de telhado de duas águas, como a de Twiford, erguendo-se em uma viela e cercada por pequenos estábulos, celeiros, pomar e jardim.
"Eu nunca esperei vir aqui", observou Jimmy Phoebus, "mas ouvi dizer muito sobre este lugar. A casa grande com telhado de celeiro é a taverna de Joe Johnston para o entretenimento dos negociantes de negros da Geórgia que vêm buscar seus bens roubados. Fica no cruzamento, a cinco quilômetros da balsa de Cannon, onde os passageiros que vêm de baixo atravessam o Nanticoke para Easton e o norte, e as carruagens de Cambridge pela estrada do Rei encontram-nos ali na taverna. A taverna fica no Condado de Dorchester, com uma língua de Caroline chegando logo à frente dela, e o estado de Delaware a quase vinte metros da varanda. Não há um tribunal num raio de trinta quilômetros, nem uma cidade em dezesseis, exceto Crotcher's Ferry, onde todo domingo de manhã as pessoas que vão à igreja podem recolher uma cesta cheia de orelhas, olhos, narizes, dedos e cabelos arrancados a mordidas numa briga na tarde de sábado. Eles chamam o país ao redor de Crotcher de 'Wire Neck', porque não resta pescoço lá que possa ser torcido; o país na parte baixa de Car'line chamam de 'Puckem', porque as colheitas são todas franzidas. Dizem que Joe é um grande homem entre seus vizinhos, e pode ir para a Legislatura. A outra casa nos campos é a da própria Patty Cannon, onde ela fez todas as suas diabruras por vinte anos, até que Joe ficou rico o suficiente para construir seu palácio."
Com a execução rápida de um homem que planeja apenas com os pés e as mãos, o marinheiro da baía observou que havia um bosque de madeira alta e boa — carvalhos e pinheiros — a apenas alguns metros do cruzamento e à direita, sob cuja cobertura ele poderia se aproximar da taverna. Enquanto prosseguia para alcançar sua sombra, ele ouviu sons extraordinários de turbulência vindo da frente da taverna, o grito de homens, o latido de cães, juras e risadas, e, ouvindo enquanto atravessava o espaço intermediário, ele caiu em uma vala inadvertidamente, quase na borda da madeira.
"Olá!", gritou Jimmy, deitado bem quieto para recuperar o fôlego, já que a vala estava agora perfeitamente seca, "esta vala me parece apontar direto para aquela taverna."
Ele, portanto, rastejou ao longo de seu leito seco até que cruzou sob uma estrada por um bueiro de madeira ou pequena ponte de algumas tábuas.
O barulho na taverna era agora como uma briga, e, enquanto Phoebus continuava a rastejar para frente, ele ouviu vinte vozes gritando:
"Arranca o olho dele, Owen Daw!" "Bate nele de novo, Cyrus James!" "Mastiga ele todo!" "Abram espaço, rapazes!"
Tendo rastejado para o que julgou ser o ponto mais próximo de aproximação oculta, Phoebus perdeu o momento para dar apenas um único vislumbre, e, puxando seu velho chapéu caído sobre o rosto para esconder a bandagem, ele murmurou: "Agora é a minha vez", e rastejou para a parte de trás da multidão, que estava toda voltada para dentro em um círculo, e não o percebeu.
Um homem totalmente crescido, ao que parecia, estava tendo uma briga com um rapaz de quase quinze anos; mas o rapaz era o mais imprudente e corajoso dos dois, enquanto o homem, com três vezes a força do rapaz, não tinha coragem ou confiança para tirar proveito disso; e, tendo derrubado o rapaz, estava agora sendo virado por este último, em meio a gritos de "Três para dois em Owen Daw!" "Arranca o nariz dele, Owen Daw!" "Cinco para dois que Cyrus James tem o olho arrancado por Owen Daw!"
O rapaz com um rosto céltico e corpo flexível estava cheio de zelo para merecer favor e infligir ferimentos, e, enquanto o círculo de vagabundos e foras da lei de todas as idades oscilava de um lado para o outro, Phoebus, despercebido por ninguém, colocou a cabeça entre o resto e procurou nos rostos pelos de Levin Dennis ou Joe Johnson.
Nenhum estava lá, e o único rosto que prendeu sua atenção foi o de uma mulher, parada na porta do espaço fechado na extremidade da varanda, em ângulos retos com a porta central da taverna, e logo ao lado dela. Todo o edifício estava sem pintura, e manchado pelo tempo, mas o quarto na varanda era manifestamente mais novo, como se tivesse sido um pensamento tardio, e suas duas janelas revelavam alguns dos apetrechos crus de um bar de bebidas, conforme um fogo em algum lugar dentro brilhava e o iluminava.
Pelo fogo, o rosto da mulher também foi revelado, e ela estava tão interessada na briga que virou todas as partes de seu semblante para a luz do fogo, batendo as mãos, rindo como um homem, soltando seus palavrões nos lugares certos e gritando:
"Eu aposto meu dinheiro no pequeno Owen Daw! Cy James não vale nada, por Deus! Aqui tem uísque de sobra para Owen Daw se ele arrancar o olho dele. Dá nele, Owen Daw! Que vergonha de você, Cy James!"
Havia ocasional servidão e deferência a esta mulher por parte dos membros da multidão, por mais que estivessem absortos na briga. Ela era o que se chama de mulher "robusta", baixa e grossa, com uma pele rosada, testa baixa, mas agradável, cabelo preto como carvão, um jeito balançante de se mover e se balançar, um par de grandes olhos pretos, ao mesmo tempo ousados, furtivos e familiares, e um pescoço grande e peito grande, unindo o buldogue e a mãe, crueldade e plena feminilidade.
Atrás desta mulher, que Phoebus pensava ser a própria Patty Cannon, o luar dos fundos entrava pela porta no edifício mais velho e principal, brilhando através de toda a casa, e Phoebus viu que a porta dos fundos também estava aberta e não estava guardada.
Ele aproveitou a primeira chance, portanto, de desviar pelo canto do bar, pretendendo passar pelo frontão norte da casa e subir as escadas pela porta não vigiada; mas ele mal tinha saído de vista quando um hurra alto irrompeu da multidão, enquanto uma voz fraca foi ouvida gritando "Chega, chega!", seguido por zombarias aproximando-se rapidamente.
A grande chaminé externa, onde Phoebus estava agora, tinha uma cavidade em arco nela grande o suficiente para conter um homem, sendo a chaminé de dois cômodos diferentes dentro, cujas fumaças, unindo-se mais acima, ascendiam através de uma única haste. Dentro desta cavidade Phoebus se esquivou, a tempo de evitar a parte derrotada da briga, o homem adulto, que cambaleava cegamente em direção a um poço, seu rosto gotejando sangue, e ele soluçava como um bebê; mas o marinheiro escondido ouviu-o dizer, em um tom lamurioso:
"Ela instigou ele contra mim; eu vou fazer ela pagar por isso."
Vários dos partidários ou atormentadores deste covarde o seguiram, e o próprio Jimmy seguiu na retaguarda e, em vez de ir com o resto em direção ao poço, onde o perdedor estava lavando o rosto, Phoebus subiu suavemente o baixo degrau da porta dos fundos, estando as costas da mulher voltadas para ele, e, como ele havia previsto, uma escada ascendia ali de um cômodo grande, que servia aos propósitos de sala e corredor, sala de jantar e sala de jogos, como Jimmy absorveu em um relance, ao ver mesas, pratos e cartas, garrafas e chicotes, armas e selas. Esta escada não tinha balaustrada e não era segura no escuro para estranhos à casa.
Satisfazendo-se por uma observação interna, como suspeitara externamente, de que não havia porão sob a taverna de Johnson, o marinheiro subiu as escadas, determinado a descobrir onde a propriedade do Juiz Custis e o filho rebelde de Ellenora tinham sido escondidos. O segundo andar tinha um corredor, que abria apenas para a frente da casa e para a varanda superior, e quatro portas neste corredor indicavam quatro quartos. Um deles estava entreaberto, e, espiando, Phoebus viu, estendido em uma cama, alheio a toda a briga e barulho lá fora, Joe Johnson, o negociante de negros, sua forma revelada por uma lâmpada e o fogo aberto.
Um impulso, imediatamente reprimido, veio ao marinheiro de sacar sua faca e esfaquear Johnson no coração, como provavelmente o vilão que tinha atirado nele do barco. O negociante de negros virou cansadamente seu longo corpo na cama, e Phoebus deslizou de volta pelo corredor para a única porta além daquela que não estava fechada, levando ao cômodo no canto sul dos fundos da casa.
Esta porta rangeu alto ao ser aberta, e um homem com forma e vestimenta de bandido, que estava deitado sobre um colchão lá dentro, revelado pelo luar brilhante que entrava pelas duas janelas, meio que se levantou enquanto Jimmy se agachava à porta, onde uma divisória, como a de um guarda-roupa muito grande, ocupando quase metade do cômodo, erguia-se entre o intruso e o ocupante.
"Quem está aí?", exclamou uma voz, com um leve ceceio.
Jimmy descobriu que havia um alçapão ou porta baixa perto do chão, abrindo para este guarda-roupa notável, e ele deslizou para dentro e sacou sua faca novamente. O homem foi ouvido movendo-se pelo quarto estreito, e ele finalmente pareceu sair para o corredor e descer as escadas.
Apalpando seu guarda-roupa, que estava na mais absoluta escuridão, Phoebus encontrou uma indentação profunda nele, como a de um guarda-roupa menor, e o som de vozes cantarolantes vinha de cima.
"Pela fumaça!", exclamou Jimmy mentalmente, "este grande guarda-roupa não é nada além de um disfarce para uma escada no pequeno guarda-roupa subir para a masmorra sob o grande telhado."
Ele saiu novamente e encontrou o luar agora brilhando sobre um colchão vazio e o vigia corpulento desaparecido, e brilhando, também, sobre uma porta maior no guarda-roupa oposta à indentação que ele havia sentido, esta porta presa por um cadeado através de um grampo prendendo uma barra de ferro. A chave estava no cadeado, e Jimmy virou-a, tirou o cadeado e soltou a barra.
No momento em que ele abriu a porta, um cheiro quase insuportável veio de uma escotilha rasa lá dentro, onde se apoiava uma escada de mão rústica, móvel e de construção robusta.
"Esse cheiro", disse Phoebus, entrando e puxando a porta para fechar atrás de si, "poderia ser lã, ou camelo, ou uma galeria moral dos jardins reais da Europa, mas eu acho que é negro."
Ele subiu os degraus íngremes com alguma dificuldade, pois foram feitos para passar apenas uma pessoa, e no topo ele entrou em um grande sótão, dividido em dois por uma pesada divisória de pinho amarelo, com uma porta no meio dela, e de trás desta divisória vinham os sons de cantarolar e balbuciar que ele tinha ouvido.
A noite brilhante, brilhando através de uma pequena janela de frontão, revelou esta metade externa do sótão vazia, e sem móveis ou outro apetrecho além do buraco no chão por onde ele subira, e a porta para o lugar de lamentação além, que estava presa por um longo espigão de ferro caindo em um grampo que passava sobre uma pesada barra de madeira. Enquanto ele deslizava o espigão e tirava a barra, Phoebus ouviu alguém no cômodo de baixo murmurar, e trancar o grande cadeado na outra porta, impedindo efetivamente sua fuga por aquela saída.
"Devemos aceitar as coisas como elas vêm", pensou Jimmy, severamente, "particularmente em Pangymonum, onde estou agora."
Ele também refletiu que os arranjos deste curral de sequestradores, simples como pareciam, eram bastante suficientes. Se a autoridade exigisse revistar a casa, o guarda-roupa duplo abaixo, com a escada puxada para o sótão, tornava-se um armário inofensivo pendurado com assuntos de vestuário, e o guarda-roupa interno um depósito para artigos de volume; e nenhum ser humano poderia subir ou descer sem passar por dois andares habitados e três portas diferentes, além da porta para o curral de escravos.
Esta última porta Phoebus agora abriu e caminhou para dentro do próprio curral, curvando a cabeça para evitar a entrada baixa.
Por alguns minutos ele não conseguiu ver absolutamente nada do conteúdo na escuridão total que prevalecia, já que não havia janela alguma naquele curral ou antro, mas ouviu várias vozes e inalou o ar forte e viciado de muitas respirações africanas exaurindo o suprimento de oxigênio, e soube que correntes e ferros estavam sendo arrastados contra as tábuas do chão.
"Nao tem nada pra fazê aqui", Jimmy comentou, suavemente, "a não ser se agachar e se aclimatar, como dizem sobre os estranhos à nossa costa biliosa, e acostumar os olhos ao escuro. Mas eu diria que isso aqui é tanto uma patifaria quanto um Pandemônio, por fumo!"
Um homem em alguma parte do antro estava rezando de uma maneira altamente nervosa e excitada, babando suas frases agonizantes, insistindo fortemente em suas vogais mais abertas e mantendo vários outros prisioneiros em simpatia ou miséria igual, enquanto eles assobiavam em resposta aos seus apóstrofes:
"Senhor, des-ça! Des-ça, ó meu Senhor. Eu não te deixarei ir; não, ó meu Senhor! Vem, salva-me! Sim, meu Senhor! Vem caminhando sobre as águas! Vem para fora do túmulo de Lázaro! Vem na carruagem de fogo! Vem no poder! Des-ça agora, ó meu Senhor!"
A entrada de Phoebus não causou alvoroço, e ele se agachou para esperar que seus olhos se fortalecessem para enxergar ao seu redor. O lugar parecia ter quase sete metros e meio quadrados, e era coberto por tábuas tanto no sentido da empena quanto sob o telhado inclinado, cujos beirais eram vedados a um ou dois palmos acima do chão; no meio, qualquer homem podia ficar de pé e mal tocar a viga mestra com as mãos, mas ao longo das laterais inclinadas mal conseguia sentar-se ereto.
Como o homem continuava a expressar sua absoluta sujeição de espírito em um frenesi de palavras, e várias criancinhas choravam e gritavam em resposta, Phoebus ordenou que o homem parasse, após pedir-lhe gentilmente que o fizesse várias vezes; e, como a ordem foi desobedecida, ele deu um tapa no homem que rezava com a mão aberta, e o pobre coitado rolou em uma espécie de ataque de fraqueza.
Uma criancinha em algum lugar continuava a chorar, Phoebus tomou-a nos braços e segurou entre ela e a luz das estrelas, na porta entreaberta, um dos xelins que havia obtido na velha cabana em Broad Creek algumas horas antes. A criança, vendo algo brilhar, agarrou-o e segurou firme, e Phoebus em seguida passou a mão sobre o rosto de um homem que dormia, que roncava calma e vigorosamente no chão ao seu lado. Ele abriu espaço para que a luz fraca brilhasse sobre o rosto negro do adormecido e exclamou, em um momento:
"Se não é Samson Hat, espero que eu seja engolido por uma baleia!"
Chamando seu nome, "Samson! Samson!", Phoebus observou uma pessoa mulata muito abatida, que estava deitada nas sombras, arrastar-se para frente, sacudindo seus grilhões. Esse homem, quando interpelado, respondeu com tanto refinamento e precisão, embora seu rosto denotasse grande miséria interior, que o marinheiro fez um exame tão cuidadoso quanto o luar permitia, entrando por aquela única janela estreita do sótão. Ele era um homem que havia se barbeado recentemente, e suas suíças escuras e encaracoladas, seus lábios limpos, o tufo de cavanhaque na cova do queixo e a testa alta e inteligente pareciam totalmente deslocados naquele ninho sombrio dos tristes e desamparados.
"Ele é seu amigo, senhor?", perguntou este homem, virando-se para Samson. "Ele deve ter uma boa consciência se for, pois dormiu logo após ter sido trazido para cá, e nunca soltou uma única queixa."
"E você soltou, eu suponho?", disse o barqueiro.
"Oh, sim, senhor; fui tratado com tamanha ingratidão. Partiria o coração de qualquer cavalheiro ouvir minha história. Quem é seu amigo, senhor?"
"Samson, acorde, seu velho brutamontes!", gritou Phoebus, sacudindo o adormecido vigorosamente; "você não se entregou para um ou dois, por fumo!"
"É você, Jimmy?", o velho negro finalmente disse, com uma expressão tímida; "ora, vizinho, fico feliz em vê-lo, mas também estou triste. Um homem negro eles não querem matar, porque podem vendê-lo, mas um homem branco como você eles não querem manter, e não ousam deixá-lo ir."
"Um homem branco aqui?", exclamou a pessoa de aspecto superior; "o que eles podem querer dizer com isso?"
"Estou tão pesado de ferro, Jimmy", continuou Samson, "que não consigo nem me sentar direito. Minhas mãos estão atadas com corda, meus pés estão em um grilhão de ferro, e uma bola está acorrentada ao grilhão."
"Dê-me suas mãos", exclamou Jimmy; "vou resolver essas cordas, por fumo!"
Em um minuto ele havia cortado as cordas nos pulsos, e o inteligente homem amarelo implorou que um favor semelhante fosse feito para ele, ao que o marinheiro aquiesceu sem relutância.
"Jimmy", disse Samson, "se isso algum dia for sabido em Prencess Anne -- como suspeito que nunca será, pois estamos em mãos ruins, vizinho -- haverá uma risada em vez de um choro, por causa do velho Samson boxeador, que foi sequestrado e trazido para a cadeia por uma mulher!"
"Você apanhou de uma mulher, Samson?"
"Sim, Jimmy, uma mulher sozinha me derrubou, amarrou minhas mãos e pés, e me trouxe para este sótão. Não vi ninguém além dela e desse pessoal aqui, desde que fui pego."
"Ha!", exclamou o mulato abatido, "esse é um feito favorito de Patty Cannon. Ela é a única mulher já vista em uma eira que consegue ficar de pé em uma medida de meio alqueire e levantar cinco alqueires de grãos de uma só vez sobre os ombros, pesando trezentos quilos."
"Eu não sou metade disso", Samson sorriu, calmamente, "e ela me manuseou, com certeza. Você se lembra, Jimmy, quando te deixei perto da velha igreja de Spring Hill, para ir buscar uma mulher em uma carroça para me mostrar o caminho para Laurel?"
"Ora, foi apenas ontem, Samson!"
"Aquela era a mulher, Jimmy. Ela era uma mulher troncuda, de estrutura pesada, bem bonita de se ver, e talvez com cinquenta anos. Ela foi a mulher mais simpática que quase já vi. Ela me fez descer da mula e andar na carroça com ela, e tomar um gole de seu próprio aguardente de maçã -- ela disse que destilava na sua fazenda. Ela disse que conhecia o Juiz Custis, e me fez perguntas sobre Prencess Anne, e queria que eu trabalhasse para ela de alguma forma. Estávamos passando por um campo pobre de pinheiros, muito pior que Hardship, de onde o Sr. Milburn veio, e não tínhamos visto ninguém na estrada até chegarmos a um riacho que ela disse se chamar ramal Tussocky, onde ela desceu da carroça para dar água ao seu cavalo. Naquele lugar ela veio até mim e diz: 'Samson, vou lutar com você!' 'Vá embora', digo eu, 'eu não posso lutar com nenhuma mulher como você.' 'Você tem que lutar', ela diz, xingando como um homem, e agarrando-me exatamente como um homem luta. Senti vergonha, e não sabia o que fazer, e, antes que eu pudesse piscar, Jimmy, aquela mulher me deu uma rasteira e me empurrou com um golpe como o coice de um boi, e estava em cima das minhas costas com um joelho como ferro me prendendo."
"A terrível megera do Pandemônio!"
"A primeira ideia que tive foi que ela era um homem vestido de mulher. Comecei como um raio a pular, e minhas pernas se prenderam uma na outra; ela tinha carregado a corda para me amarrar sob seu vestido, e a enrolou em mim em um minuto. Enquanto eu corria para ela e caía com força, ela puxou o nó corrediço com força e dançou ao meu redor como uma bruxa gorda, me enrolando todinho na corda. O suor começou a escorrer da minha cabeça, eu gritei e lutei e caí de novo, e, enquanto eu estava lá com a língua de fora como um bezerro no carro do açougueiro, ela sussurrou para mim: 'Talvez você seja o último negro que a velha Patty Cannon amarrará!'
"Ao ouvir aquele nome, eu simplesmente rezei ao Senhor, mas era tarde demais. Ela me colocou na carroça e me amordaçou para que eu não pudesse dizer uma palavra, e sangue saiu da minha boca. Eu a ouvi falando com pessoas enquanto passávamos por uma cidade e sobre uma ponte. Ninguém olhou na carroça onde eu estava deitado coberto, até chegarmos a uma balsa na noite, e lá nós passamos, e eu a ouvi falando com um homem deste lado da balsa. Ele veio para o lado da carroça e espiou para mim, deitado lá impotente, meus olhos simplesmente suplicando a ele -- e ele tinha um olhar elegante na cabeça, Jimmy. Ele diz suavemente para si mesmo: 'Isto não é uma remessa, manifestamente, para Isaac e Jacob Cannon', e ele me cobriu de novo, e a mulher me trouxe aqui, colocou os ferros e me empurrou para este buraco no sótão."
"Acho que aquele era Isaac Cannon, o outro Levita que nunca vê nada que não esteja em seu quociente."
"Como estão as moças bonitas, Jimmy? Vou vê-las nos meus sonhos, suponho, se eu for vendido para o Sul. Não tenho muito tempo para ficar, de qualquer maneira, Jimmy, pois tenho quase sessenta anos. Se você conseguir sair, diga ao meu mestre para comprar aquela moça Virgie, e torná-la livre. Ela não serve para ser escrava."
"Moças têm seu lugar", disse Phoebus, "mas não onde os homens têm que lutar pela liberdade. Quantos homens de combate somos aqui?"
"Suponho que você seja o único, Jimmy; estamos todos acorrentados; esses negociantes de negros são todos ferreiros e mantêm bolas, algemas, ganchos e grilhões, e nos carregam com ferro."
"Quem é aquela mulher lá atrás tão estranha e quieta?"
"Ora, Jimmy, você não conhece a Tia Hominy, a velha cozinheira do Juiz Custis? Eles a trouxeram esta manhã com duas criancinhas da cozinha de Teackle Hall; uma delas você deu aquela prata -- o pequeno Ned. Hominy não disse uma palavra desde que chegou."
Jimmy Phoebus foi até o canto do antro onde a velha mulher se encolhia, e chamou seu nome em muitos sotaques diferentes e com garantias gentis:
"Hominy, velha mulher, você não conhece o Jimmy da Ellenory? O Juiz Custis está vindo buscar você, tia. Estou aqui para levá-la para casa."
Ela não falou absolutamente nada, e Phoebus a levantou sem resistência para mais perto do luar. Seus lábios balbuciavam ininteligivelmente, seus olhos estavam baços, ela não parecia conhecê-los.
Samson arrastou-se para frente, e também chamou seu nome gentilmente:
"Tia Hominy, a Srta. Vesty mandou buscar você. Este aqui é Jimmy Phoebus."
O garotinho Ned agora se manifestou:
"A Tia Hominy não fala desde que aquele homem Quaker matou a pequena Phillis."
"Jimmy", sussurrou solenemente Samson, "a Tia Hominy perdeu o juízo."
"Sim", falou o prisioneiro mulato abatido e elegante, "ela se tornou uma idiota. Às vezes eles ficam assim."
Phoebus inclinou o rosto para perto da pobre criatura velha, sentada ali em seu turbante xadrez e brincos de prata, limpa e arrumada como os servos dos velhos tempos, e estudou seu semblante vago, seus olhos desabitados, seus lábios movendo-se sem conexão ou relevância, e sentiu que a crueldade havia infligido sua última lesão milagrosa -- expulsou sua mente de sua venerável residência, e deixou seu corpo ainda para sofrer as dores da vida sem a compreensão delas.
"Oh, vergonha! Vergonha!", gritou o marinheiro, lágrimas finalmente caindo de seus olhos, "enganar e roubar este pobre e confiante intelecto! Roubar da cozinheira a pequena xícara de lata cheia de miolos que ela usa para conseguir comida para gente má e para gente boa! Ora, os demônios no Pandemônio não tratariam desse jeito o coração gentil que grelhava para eles."
"O homem comprido disse que era um homem Quaker", exclamou Vince, o menino maior, "e ele veio levar Hominy para o país livre. Hominy foi vendida, ela disse, e deve ir. O homem comprido tinha um barco -- o barco do Sr. Dennis -- e na noite a pequena Phillis acordou e chorou. Ninguém conseguia pará-la. O homem comprido pegou a pequena Phillis pela perna e esmagou seu crânio contra o chão. A Tia Hominy nunca mais falou nada."
"Você ouviu o homem comprido falar depois disso, Vince?"
"Sim, senhor. Ouvi o homem comprido dizer ao Sr. Dennis que, se ele não conduzisse o barco e fechasse a boca, ele atiraria nele. Ouvi a pistola disparar, mas o Sr. Dennis não foi morto, pois o vi conduzindo depois."
"Graças a Deus!", falou o marinheiro, beijando a criança. "O menino de Ellenory era inocente, por fumo! Aquele traficante de negros atirou em mim e ameaçou a vida de Levin se ele me ouvisse chamando por ele. O barulho que ouvi foi o assassinato do bebê, cujos gritos traíram a chegada da embarcação. Samson, tem havido traição desde que deixamos Salisbury, e aquele negro Dave é parte disso."
"Ele disse que me odiava porque eu o ensinei a lutar boxe. Talvez minha luta tenha sido minha punição, Jimmy, mas nunca dei um golpe sujo em um homem."
"E qual foi sua patifaria?", o capitão do pungy gritou para o homem que estava fazendo tanto barulho religioso. "Eles te venderam por nunca saber onde parar uma coisa boa?"
O homem explicou roucamente, ele mesmo interessado pelas revelações e pela fraternidade ao seu redor:
"Eu era escravo de um pregador local em Delaware, e o sacristão da igreja. Era a capela do velho Barrett, aqui entre Dover e Murderkill -- a igreja onde o Bispo Coke e Francis Asbury se encontraram pela primeira vez nas escadas do púlpito. Meu mestre e eu éramos ambos membros dela, mas ele amava muito o dinheiro, e eu deveria ser livre quando chegasse aos vinte e cinco anos de idade, de acordo com o testamento de seu pai Quaker, que me deixou para ele. No domingo passado à noite eles tiveram uma longa reunião de classe lá, e quando não restou ninguém na igreja a não ser meu mestre e eu, ele me diz: 'Rodney, vamos você e eu fazer mais uma oração juntos antes de você apagar aquela última lâmpada. Reze você, Rodney!' Eu me ajoelhei e rezei pelo mestre depois que eu tivesse que deixá-lo para ser livre no próximo ano, e, enquanto eu rezava alto, pessoas entraram na igreja e me amarraram, e o mestre tinha ido embora."
"Ele te vendeu para a vida inteira para aqueles sequestradores, rapaz, porque você ia ser livre no próximo ano. Sua Bíblia não te diz para vigiar e rezar?"
"Sim, mestre."
"Bem, então, rapazes, é tudo vigilância esta noite e nada mais de reza", gritou Jimmy Phoebus, alegremente. "Aqui estão quatro homens, amantes da liberdade, decididos a tê-la ou morrer. Tem um deles com uma faca, e o primeiro sequestrador que cruzar aquele umbral, homem ou mulher -- pois não confiaremos mais em mulheres, Samson -- recebe a faca até o cabo! A luz abençoada que brilhou sobre o Calvário e Bunker Hill está brilhando na lâmina. Livrem-se de seus ferros, se puderem; eu conseguirei vigas deste telhado para vocês espetarem se não puderem fazer nada melhor. Vocês estão todos comigo?"
"Estou, Jimmy", respondeu Samson, calmamente.
"Eu morrerei com vocês também", exclamou o homem que rezava, com espírito reacendido.
"Seremos todos assassinados, cavalheiros", protestou o mulato abatido. "Eu conheço essas pessoas desesperadas."
"Então você se arrasta para o canto", ordenou Phoebus, "e veja três homens lutarem por você. Não queremos nenhum negro metido a besta para estragar sua beleza para nós."
O homem arrastou-se de volta para a escuridão do antro novamente, e Phoebus começou a procurar na metade aberta do sótão por implementos de guerra. Ele encontrou dois pedaços longos de corrente, com os quais homens determinados poderiam esmagar o cérebro de um adversário.
"Agora, rapazes", Jimmy expressou-se, "não perdi a cabeça ontem nem hoje também, por fumo! Vou matar a primeira pessoa que vier aqui, e pegar as chaves deste antro com ele, e trancar todos vocês lá dentro com firmeza, e o sequestrador morto também. Então eles não chegarão até vocês para embarcá-los até que eu possa chegar a Seaford, aqui em Delaware -- não dá mais do que dez quilômetros -- onde conheço três capitães de pungies, e todos eles estão no porto lá agora -- todos amigos de Jimmy Phoebus, todos bem armados, e suas tripulações suficientes para lidar com o Pandemônio!"
Um barulho foi ouvido na fechadura da porta inferior, e Phoebus escorregou para dentro do antro fechado e tomou sua posição logo dentro da porta.
"Lembrem-se", ele sussurrou, "eu começo a luta."
A fechadura estalou na porta abaixo da escada, o ferrolho caiu, e a luz de uma lâmpada brilhou escada acima e sobre o telhado nu, e através das frestas do curral do sótão de tábuas.
A faca do marinheiro estava na bolsa de seu cinto, onde ele a carregava sobre o quadril. Ao se abaixar para olhar através de uma fresta na porta baixa, ele sentiu uma mão vinda da escuridão atrás dele tocá-lo.
Instintivamente ele tateou por sua faca, e ela havia sumido.
"Capitão", gritou a voz do mulato abatido, enquanto a porta do curral se abria e o estranho com aparência de bandido aparecia com a lâmpada, "tem um homem branco aqui que vai te matar. Tirei a faca dele e salvei sua vida. É uma rebelião, capitão!"
"Socorro! Patty! Joe!", gritou o homem, com voz alta, enquanto Jimmy Phoebus se jogava sobre ele e apagava a lâmpada, e os dois homens poderosos rolaram no chão juntos em um aperto de combate mortal.
Phoebus era um homem de grande poder, mas seu antagonista era forte e escorregadio também, e um lutador de briga de rua cheio de espírito.
O capitão do pungy estava por cima, o homem bandido o mantinha preso com braços e pernas, e tentava esfaqueá-lo no lado, enquanto Phoebus sentia o cabo de um canivete, que parecia demorar a obedecer sua mola, atingi-lo repetidamente em torno da virilha, em golpes que teriam matado, infligidos pela lâmina.
Phoebus tentou arrastar o homem para a escotilha e forçá-lo a descer, enquanto os dois assistentes negros de Phoebus espancavam o traidor negro com suas correntes, e o revistavam inutilmente atrás da faca que ele havia roubado.
No final Phoebus prevaleceu, e seu antagonista rolou escotilha abaixo, dois metros ou mais, ainda mantendo seu aperto desesperado em Phoebus, e arrastando-o junto; e ambos poderiam ter rachado o crânio, não fosse por uma mulher justamente no ato de subir apressadamente a escada, contra quem seus dois corpos se lançaram e foram amortecidos sobre ela.
O choque, no entanto, atordoou ambos, e quando Phoebus se lembrou de si mesmo, ele estava amarrado de mãos e pés e deitado no chão do sótão novamente, e sobre ele estava Joe Johnson, ostentando um couro cru.
As ataduras haviam sido novamente arrancadas do rosto de Phoebus, e ele estava sangrando pelo ferimento superficial na bochecha, e sem fôlego devido ao seu conflito. Uma mulher havia jogado um recipiente de água em seu rosto, e isso o havia reanimado.
O outro homem, chamado "capitão", tinha, entretanto, com a ajuda desta mulher -- a mesma que Phoebus vira lá embaixo -- subjugado e amarrado os insurgentes negros, e ambos estavam ostentando seus chicotes sobre as costas e cabeças dos prisioneiros, grandes e pequenos, de modo que o sótão era um reflexo nada pequeno do lugar de tormento eterno, enquanto as sombras dos monstros, sob a luz fraca, chicoteavam e dançavam contra as vigas e telhas, e gritos e brados de "Misericórdia!" se misturavam em dissonância hedionda.
A mulher agora virou sua lâmpada para o rosto áspero, moreno e ferido do marinheiro, e olhou-o de cima a baixo com seus olhos escuros e ousados:
"Joe, este é um negro, por Deus!"
Johnson e o capitão também o examinaram cuidadosamente, e, proferindo um juramento, o primeiro chutou o homem prostrado com sua bota pesada.
"Eu prendi esse sujeito ontem à noite", disse ele, "e pensei que a cura da megera o tivesse pego. Ele é um caranguejo do mar brincando de entregador para negros. Ele cantou para mim em Princess Anne. Eu disse a ele lá que ele passaria por um negro, Patty, e nós vamos vendê-lo como um para Georgey!"
"Tudo é peixe que vem à nossa rede, Joe", a mulher riu; "ele vai ser vendido caro, também."
"Aquele homem branco", falou a voz de Samson, dentro do curral, suas correntes chacoalhando, "tem centenas de amigos procurando por ele, e vocês vão se dar mal se não o soltarem."
"Que latitat canta aí?", Joe Johnson perguntou a Patty Cannon.
"Aquele é o meu negro, Joe", a mulher respondeu.
"Traga-o para a luz."
O capitão escorou Samson, e Joe Johnson olhou fixamente em seu rosto, e então o derrubou com o cabo de seu chicote pesado.
"Patty", ele rosnou, "aquele negro é treinado; ele é o campeão de briga de Somerset. Ele me derrubou, e eu o marquei por isso; e agora, por Deus! Vou queimá-lo vivo na ilha de Twiford."
Ele jurou um juramento, meio blasfemo, meio canalha, e o capitão murmurou, com um ceceio:
"O homem branco é a única testemunha. Tenham certeza dele!"
Trouxeram-se grilhões, e o capitão rapidamente prendeu as mãos de Phoebus em um grampo, amarrou seus pés e colocou-o, sem brutalidade, no cercado, e, além disso, acorrentou-o ali a um anel na viga abaixo. Assim que a porta foi fechada e trancada, uma voz vinda da escuridão do cercado gritou:
"Tia Patty, deixe-me sair: eu salvei a vida do capitão; eu tomei a faca do homem branco. Servirei a senhora fielmente se apenas me deixar ir."
"Ele abriu o bico", disse Joe Johnson, "mas isso não lhe servirá de nada."
"Zeke", gritou a mulher, "não adianta. Você vai para Georgey com o próximo grupo — você e o negro branco ali."
O homem atirou-se ao chão, gemeu e rezou, enquanto a luz da lamparina desaparecia e o alçapão deslizava ruidosamente sobre a escada, e os trincos inferiores eram puxados. Enquanto ele jazia ali em horror e em meio ao desprezo, uma voz deteve seus ouvidos por perto, cantando, com espírito musical e leve, tão baixo que parecia um hino, vindo dos caminhos e campos muito abaixo:
"Aprofunda a ferida que tuas mãos fizeram Nesta alma fraca e desamparada."
O homem ouviu com temor e silêncio, como se um espírito cantarolasse a melodia, e esqueceu por um momento seu destino de escravidão na angústia mais profunda de um coração traiçoeiro que aquele simples hino agitava. Era apenas Jimmy Phoebus, pensando no que poderia dizer para punir mais severamente aquele traidor duplo, que dera as costas à sua raça e à gratidão, e Jimmy lembrara-se da pobre mulher acorrentada à árvore na ilha de Twiford, e de seu hino tantas vezes repetido; e a conclusão surgiu em sua mente de que o miserável mulato que a atraíra e a vendera não era outro senão seu colega de prisão renegado, por sua vez transformado em mercadoria por ser perigoso demais para ser deixado em liberdade no provável clamor por ela.
"Pobre Mary!" Phoebus falou lentamente, em seus tons mais profundos, com cadência solene.
O homem miserável ouviu e tremeu.
"O espírito de Mary está chamando 'Zeke'!" continuou Phoebus, terrível em sua inflexão.
O coração do miserável agenciador parou com as palavras, e seus globos oculares reviraram em tormento.
"Venha, Zeke! A pobre Mary está esperando por você!" gritou o marinheiro, subitamente, com uma voz de trovão, e tão subitamente recaiu no canto baixo do hino silencioso novamente:
"Aprofunda a ferida que tuas mãos fizeram Nesta alma fraca e desamparada, Até que a misericórdia, com seu auxílio poderoso, Desça para me tornar inteira; Sim, Senhor! Desça para me tornar inteira."
O elegante Iscariotes, ao trovão da invocação, alcançara um lugar entre duas das telhas de cipreste no telhado, onde escondera a faca do marinheiro, a lâmina estando pressionada fora da vista, e apenas o cabo ao seu alcance. Tinha sido esquecida nas cenas excitantes dos poucos minutos anteriores, e agora recorreu à sua mente, enquanto paixões supersticiosas rolavam como meteoros terríveis através do abismo negro e sem esperança de sua alma desesperada.
Quando o zumbido baixo do hino que ele ouvira sua vítima cantar para seu bebê, quando sua fé nele era pura e infantil, cruzou seus ouvidos enlouquecidos novamente, ele soltou um grito de "Misericórdia!" ao qual nenhuma resposta veio, e passou a lâmina pela garganta e caiu morto no covil dos sequestradores.
CAPÍTULO XXVI.
VAN DORN.
Uma fina camada de geada cobria as terras agrícolas planas, e as folhas de açafrão e laranja caíam quase audivelmente das árvores, enquanto Levin Dennis acordava na quarta-feira, na casa longa e baixa situada mais atrás nos campos, a partir do cruzamento de Johnson, e absorvia a manhã fresca e estimulante, o sol já tendo feito seu primeiro revezamento, e sua corneta de postilhão soprava da velha taverna que erguia sua forma tão amplamente e, ainda assim, tão íngreme à vista.
Levin fora trazido do cais de Twiford na noite anterior pela bonita criada que Jimmy Phoebus tanto assustara, e este era seu primeiro dia de sensação de descanso, tendo dormido após os vapores de bebida do domingo, as vigílias excitantes da segunda-feira, e o prazer e a dor misturados, doença e interesse, amor e remorso, da terça-feira.
Ele já sentira os primeiros espasmos de afeição juvenil pela jovem com quem passara o dia em Twiford, enquanto jazia doente lá, devido a um estômago desordenado e sistema nervoso, e sua amabilidade e encantos, mais do que a tentação do dinheiro profano, haviam mudado seu propósito de escapar em Twiford e dar informações sobre o dano infligido à propriedade do Juiz Custis.
Quase não parecia real que ele tivesse sido cúmplice de um crime e testemunha de um assassinato — o roubo dos escravos domésticos de um cavalheiro e o esmagamento do mais pequeno e indefeso deles, quase diante de seus olhos; no entanto, assim acontecera, e ele sentia o perigo em que estava, mas hesitava sobre como agir. Ele aceitara o dinheiro do negociante e passara pelo mais nobre amigo de sua mãe no rio sem reconhecimento, enquanto uma bala covarde provavelmente terminara a carreira do pobre Phoebus. Para todos esses atos, ele era a única testemunha branca, a única sobre cujo testemunho a reparação poderia ser aplicada.
Sentia, portanto, que era um prisioneiro, e sua vida dependia de suas relações cordiais com o sangrento negociante de negros e seu bando; e Johnson reiterara sua promessa de que, se Levin se juntasse a eles em igual fraternidade, ele ganharia dinheiro rapidamente e se tornaria um proprietário de plantação.
Ao cair da noite, um ataque aos negros livres em Delaware seria realizado pelo bando em força, e disseram a Levin que ele deveria ser um dos sequestradores, e sua cooperação franca naquela noite o livraria para sempre de quaisquer suspeitas de deserção e má-fé.
"Roube um negro, Levin", dissera Joe Johnson, "e então, se algum dia for pego, você nunca mais terá problemas!"
Levin interpretou essa linguagem de ladrões como significando que ele deveria cometer um crime para obter a confiança dos sequestradores.
O poder desse bando ele adivinhara um pouco quando, em pontos ao longo do rio, especialmente perto de Vienna, houve intercâmbio misterioso entre Joe Johnson e pessoas na margem, realizado em imitações de sons de animais; e o balseiro negro daquela velha aldeia de Dorchester falara com Johnson apenas meia hora antes do encontro do negociante com Jimmy Phoebus no meio da corrente, ocasião em que o passageiro sombrio sacou sua pistola e notificou Levin:
"Agora, meu companheiro gatuno, honra é o que espero de você, e, para lembrá-lo disso, Levin, vou apontar este ferro falante para seu bico, de modo que, se você abrir a boca para tagarelar, uma bala azul descerá direto pela sua garganta."
Ele tentara então evitar alguém esperado no rio e, em um ataque de raiva pelo despertar e choro da criança, silenciara-a para sempre, e então abatera Phoebus.
A pobre Hominy acreditara sinceramente que a gíria peculiar de Johnson era a linguagem dos bons Quakers, seguidores de Elias Hicks, que abrigavam escravos fugitivos e falavam com "tu" e "vós" e "em verdade", e esse estranho mal-entendido em sua mente ignorante o astuto negociante usara para atraí-la para a embarcação de Levin e levá-la para um país distante.
"Nós não a roubamos, Levin", disse Johnson; "ela queria fugir de um bom mestre, e nós apenas vendemos a mulata trapaceira e acertamos as contas."
Quando a tia Hominy, tendo sob seus cuidados protetores as criancinhas, subiu a bordo do Ellenora Dennis em Manokin Landing, Levin estava dormindo e não soube do roubo até que fosse tarde demais para protestar, e o próprio Johnson navegara o barco para águas abertas. Então, atravessando o Estreito de Kedge, ele navegara pela baía aberta, fora da vista da costa de Somerset, e entrara no Nanticoke ao anoitecer pelo Estreito de Harper, e subira na maré noturna; mas o instinto de Jimmy Phoebus o interceptara nas bifurcações do Nanticoke e impelira outro crime ao velho registro suspeito de Johnson. Ele nunca fora indiciado por assassinato, embora se pensasse que o assassinato não era um crime muito formidável para ele.
Havia um sabor de aventura nessa missão culpada que, não fosse pelo seu crime, teria agradado Levin moderadamente bem, a gota errante em seu sangue expandindo-se para essa associação selvagem; e ele sabia pouco comparativamente sobre os sequestradores de Delaware, não lendo nada, e naqueles dias pouco se publicava sobre o bando de Patty Cannon, exceto em jornais distantes como o Niles's Register ou o Genius of Emancipation de Lundy. Levin nunca navegara pela região de Nanticoke antes, e sua paisagem era agradável à sua vista, enquanto seu coração apenas tremulava no primeiro voo de sentimento pela criatura interessante que ele tão inesperadamente e, como ele pensava, tão estranhamente descobrira ali.
Chegando a Twiford à noite, Johnson mandara-o para a cama lá e seguira em frente com a propriedade negra para o cruzamento de Johnson; e, quando acordou tarde no dia seguinte, Levin encontrara uma linda flor silvestre de uma jovem sentada junto ao seu colchão, olhando em seus grandes olhos suaves com seus próprios globos cinzentos e úmidos de cílios longos, e acariciando seus cachos castanhos escuros com a mão. Enquanto ele olhava para cima com admiração, ela lhe dissera:
"Nunca vi um homem antes com o cabelo repartido ao meio, mas acho que sonhei com um."
"Quem é você?" perguntou Levin.
"Eu! Oh, sou Hulda. Sou neta de Patty Cannon."
"Aquela mulher perversa!" exclamou Levin. "Oh, eu não posso acreditar nisso!"
"Nem eu, às vezes, até que a verdade pecaminosa chega até mim de seus próprios lábios ousados. Oh, senhor, eu não sou tão perversa quanto ela!"
"Como você pode ser perversa", perguntou Levin, "quando parece tão boa? Eu confiaria na sua face na prisão."
"Confiaria? Como isso me faz feliz, ser confiada por alguém! Ninguém parece confiar em mim aqui. Minha mãe nunca foi gentil comigo. O Capitão Van Dorn é gentil, mas gentil demais; eu me encolho diante dele."
"Onde está sua mãe agora?"
"Ela foi para o sul com seu marido, para viver na Flórida pelo resto de sua vida, e todos nós iremos para lá depois que o pai conseguir mais uma leva de escravos. Você é um dos homens do pai, suponho?"
"Quem é seu pai?"
"Joe Johnson."
"Aquele homem", murmurou Levin. "Oh, não, é horrível demais."
"Não me odeie. Seja um pouco gentil, se o fizer, pois observei você aqui durante horas, quase esperando que você nunca acordasse, tão bonito e puro você parecia dormindo."
"E você... é assim que você parece, Huldy. Como você pode parecer assim e ser filha dele."
"Eu não sou filha dele, graças a Deus! Ele é meu padrasto."
"Qual é o seu nome, então, além de Huldy?"
A garota corou profundamente e hesitou. Seus belos olhos cinzentos estavam voltados para seus belos pés descalços, brancos como o rio que brilhava sob a janela.
"Hulda Bruinton", disse ela, engolindo um suspiro.
"Bruinton... onde ouvi esse nome?" perguntou Levin; "alguma história me foi contada, creio eu, sobre ele?"
"Sim, todo mundo sabe", disse Hulda, com uma voz de dor; "ele foi enforcado por assassinato em Georgetown quando eu era uma criança pequena."
Levin não conseguia falar de espanto.
"Eu poderia muito bem lhe contar", disse ela, "pois outros contarão, se eu esconder. Mal consigo me lembrar do meu pai. Minha mãe logo se casou com Joe e me negligenciou, e a tia Patty, minha avó, me criou. Ela era gentil comigo, mas, oh, quão cruel ela pode ser com os outros!"
"Você fala como se soubesse ler, Huldy", disse Levin, desejando mudar um tópico tão duro; "sabe?"
"Sim, sei ler e escrever tão bem como se tivesse ido à escola. Alguém me ensinou as letras perto da taverna... alguns dos negociantes de negros: acho que foi o Coronel McLane; e eu tinha um dom para isso, creio eu, porque comecei a ler muito cedo, e então a tia Patty me fazia ler livros para ela... oh, livros tão terríveis!"
"Quais eram eles, Huldy?"
"As vidas de piratas e os julgamentos de assassinos... sobre o bando de Murrell e os envenenamentos de Lucretia Chapman, a execução de Thistlewood e as viagens do Capitão Kidd; o último que li para ela foi a história de Burke e Hare, que sufocaram pessoas até a morte no Canongate de Edimburgo no ano passado para vender seus corpos aos médicos."
"Você tem que ler essas coisas para ela?"
"Acho que essa é a única influência que tenho sobre ela. Às vezes ela olha tão horrivelmente para mim, e murmura tais ameaças, que temo que ela vá me matar, e então me apresso a pegar seus livros favoritos e ler para ela os crimes sombrios de homens e mulheres desesperados, e ela ri e ouve como alguém que ouve histórias agradáveis. Minha alma adoece, mas vejo que ela está fascinada, e continuo lendo, tentando fechar minha mente para a narrativa cruel."
"Huldy, você é um demônio bonito me atraindo para fora do meu coração para me arruinar?"
"Não, não; oh, não acredite nisso! Suponho que todos os homens sejam cruéis, e todos os que já conheci eram negociantes de negros, ou eu acreditaria que você é gentil demais para viver desse trabalho brutal. Olhei para você deitado nesta cama, e a piedade e o amor me tomaram ao vê-lo, tão jovem e belo, iniciando esta vida de traição e pecado."
Levin olhou para ela intensamente, e então se levantou e olhou ao seu redor, e espiou pelas velhas águas-furtadas para o quintal verde, e o rio caudaloso passando com tanta nobreza.
"Estamos sendo vigiados?" ele perguntou.
"Por ninguém nesta casa. Todos os homens estão fora, preparando-se para a caçada amanhã à noite. O rio é vigiado, e você não seria deixado escapar muito longe, mas nesta casa eu sou sua carcereira. Joe me disse que me venderia se eu deixasse você escapar."
Levin ouviu e olhou mais uma vez ardente e maravilhado para ela, e caiu de joelhos aos seus pés descobertos.
"Então, Huldy, ouça-me, dama com olhos tão bonitos... eu devo acreditar neles, por mais perverso que tudo o que você observa tenha sido! Nunca roubei nada na minha vida, nem pisei em um verme se pudesse sair do seu caminho... que as orações da minha pobre mãe me ajudem! Huldy, como posso me salvar desses homens perversos e das leis que nunca quebrei até domingo? Oh, diga-me o que fazer!"
"Faça qualquer coisa, menos cometer os crimes deles", ela respondeu. "Prometa-me que nunca fará isso! Vamos começar, e ser os amigos que eu desejei que pudéssemos ser, antes mesmo de ouvir você falar. Qual é o seu nome?"
"Levin... Levin Dennis. Meu pai está perdido para mim, e minha mãe também."
"Então o Céu respondeu às minhas muitas orações, Levin, para me dar algo para acalentar e proteger. Sou quase uma mulher: oh, qual é o meu destino terrível?... tornar-me uma mulher aqui entre esses lobos de homens, que se encontram ao redor da taverna do meu padrasto para comprar o sangue e as almas de pessoas nascidas livres. Joe Johnson vende tudo; ele frequentemente ameaçou me vender para algum negociante cujos olhos ousados e perversos olhavam para mim tão grosseiramente, e eu os ouvi falar de um preço, como se eu fosse a mercadoria a ser transferida... eu, em cujas veias cada gota de sangue é de uma mulher branca."
"Eu quero que você cuide de mim, Huldy: sou um pobre rapaz bêbado, meu barco fretado para Joe Johnson por uma semana e pago. Diga-me o que fazer, e eu farei."
"Primeiro", ela disse, "você deve comer algo e beber leite... nada mais forte. A aguardente deles, que eles mesmos destilam, incendeia as pessoas. Vou arrumar a mesa para você."
Foi depois que a mesa foi arrumada que Jimmy Phoebus entrou e devorou o leite e a carne, ouvindo a continuação da conversa recém-citada; e quando seus movimentos desajeitados perturbaram esses novos jovens amigos, Hulda desmaiou na escada diante da aparição que Levin não viu, e ele roubou o beijo que foi como colher uma flor vermelho-pálida do jardim de algum dragão.
Naquela noite, dois cavalos sem sela vieram para levá-los ambos para o cruzamento de Johnson, e Levin acordou na antiga residência de Patty Cannon na fazenda vizinha.
Ele olhou pela pequena janela no telhado baixo para um pequeno jardim, onde uma mulher curta, robusta, de constituição poderosa, descalça, estava tirando algumas flores de seus canteiros para colocá-las em caixas de terra.
"Aqui, Huldy", exclamou essa mulher, "coloque todas elas sob as coberturas de vidro, querida, para que a vovó tenha algumas flores para seu chapéu no próximo inverno. Eles não conheceriam a velha Patty lá em Cannon's Ferry se ela não chegasse com flores em seu chapéu."
Um gaio-azul travesso estava em uma grande cerejeira, aparentemente domesticado ali, e ele se ocupava imitando sobre a cabeça da mulher os gritos alternados de um passarinho em terror e o grito de vitória de um falcão.
"Cale a boca, seu ladrão!" falou a mulher, olhando para cima. "Esses gaios-azuis, garota, os negros têm medo deles, e os matam, como bisbilhoteiros e fofoqueiros do Velho Nick. É por isso que os mantenho perto de mim. Eles são melhores que um cão de guarda para latir para estranhos, e, como eles roubam a vida toda, eu os amo. Gaio-azul, por Deus! é o pássaro da velha Pat Cannon."
"Vovó", disse Hulda, "eu gostaria que você tivesse um jardim grande e elegante. Você ama flores."
"Coisas bonitas eu sempre quis ter", exclamou a mulher de corpo de buldogue, com um palavrão; "coisas brilhantes que eu amava quando era garota, e trocava o que tinha por elas. Assim que cresci, troquei coisas feias por elas, como negros. Eu daria um navio cheio de negros por um avental cheio de rosas."
"A Flórida, dizem, é linda, vovó, e as flores estão por toda parte lá."
"Sim, garota, dizem isso; mas eu nunca espero ir para lá. Margaretty, sua mamãe, gosta de lá. Delaware é meu lar; alguns deles me odeiam aqui, e os malditos advogados tentam me indiciar, mas viverei na linha até que me empurrem para o outro lado, onde fui a dona da situação desde que era garota."
Enquanto Hulda, também descalça, mas moldada como as flores, de modo que seus pés pareciam naturais como raízes nuas, levava as caixas ao redor dos canteiros de vidro que circundavam uma chaminé — dálias, açafrões de outono, crisântemos tricolores ou flores-de-ouro, e as calêndulas cor de laranja — a mulher mais velha, descansando em sua enxada, cheirou a terebintina de uma fileira de girassóis altos e arrancou um, colocando-o em seu chapéu de palha de abas largas.
"Quando eu dançar no cabo de aço", Levin a ouviu rir, "uma dessas flores grandes aqui deve morrer comigo."
Ela desapareceu no pomar de pêssegos, que tingia o jardim com seus ramos rosados, e Levin aproveitou a chance para olhar a casa e a paisagem.
Era uma mera fazenda, plana como um assoalho, parte de uma clareira maior nas matas primordiais, onde apenas o fogo ou o tempo haviam atacado desde que o homem chegara; e, embora parecesse haver mais terra do que pertencia a esta propriedade, nenhuma outra casa Levin pôde ver em toda a perspectiva, exceto a forma ousada e manchada do castelo de Johnson, deslizando sua longa varanda para a frente na base daquele telhado alto, vazio e inexpressivo que parecia suspenso como a cortina cinzenta de um teatro entre as torres de chaminés solenes; a chaminé norte larga e enorme, e assentada sobre um arco; a chaminé sul mais magra, mas ereta como uma sentinela perpétua na estrada do Rei.
A casa onde Levin Dennis agora olhava era uma cabana dupla de madeira, de três cômodos, com camas em todos os cômodos, exceto na cozinha, e o telhado inclinado dava uma acomodação considerável no sótão, sendo os cômodos todos pequenos, como era geral naquela época. Ao redor da casa estendia-se um belo jardim, com algumas cerejeiras e ameixeiras e pêssegos silvestres ao longo de seus limites, e os campos ao redor continham muitos tocos, mostrando que a clareira fora feita não muitos anos antes, enquanto aqui e ali alguns montes de galhos foram deixados acumular em vez de serem queimados.
Enquanto Levin olhava para um desses montes de galhos em um lugar baixo, um par de urubus circulou lenta e desajeitadamente acima dele e, voando baixo, deram voltas e voltas como se estivessem criando seus filhotes ali e odiassem ir longe; e, por muito tempo depois, Levin os viu pairando alto acima do local em atenção parental.
Ele puxou a cabeça pela janela da águas-furtadas e preparava-se para descer para o café da manhã que sentia sendo preparado abaixo, quando seu próprio nome foi pronunciado no jardim, e ele parou e ouviu.
"Você mente!" exclamou a voz da velha. "Vou esmagar você no chão!"
"Ele disse isso, vovó, de fato ele disse."
Levin deu uma espiada das profundezas do sótão e viu que a Sra. Cannon estava de pé, com a enxada que estivera usando erguida sobre a cabeça de Hulda, enquanto uma expressão demoníaca de raiva distorcia suas feições, que não eram desagradáveis.
Levin caminhou imediatamente até a janela e assobiou, como se para o pássaro na árvore. A mulher mais velha largou a enxada imediatamente e gritou para Levin:
"Ei, filho! não está quase morrendo de fome pelo seu café da manhã? Está tudo pronto para você, e Huldy está esperando você descer."
Levin desceu imediatamente a escada curta e sinuosa até uma mesa posta na extremidade da cozinha, e a velha soprou uma buzina de estanho em direção à encruzilhada de Johnson, como se convocasse outros hóspedes, e então disse a Levin, com um semblante muito agradável:
"Filho, esse povo sem valor vai ficar te fazendo perguntas para te incomodar, e eu não quero que nenhum mal te aconteça, Levin; então diga a todo mundo que você vir aqui que Levin Cannon é o seu nome, e eles vão pensar que você é apenas um dos meus, e não vão te perguntar mais nada."
Hulda ergueu levemente os olhos, o que Levin interpretou como assentimento, e ele disse:
"Cannon é bom o bastante para alguém tão pobre quanto eu."
"Você vai com Joe hoje à noite, não vai?"
"Sim, senhora, creio que sim."
"Isso é bom, primo. Você ainda vai ficar rico e ter sua carruagem. O capitão Van Dorn vai liderar o grupo. Como Levin Cannon, o pobre primo da velha Patty, ele cuidará de você, filho. Agora coma um pouco dos meus bolinhos, e bochecha com ovos, e o melhor café de Cannon's Ferry. Huldy, menina, ajude seu primo Levin! Ele não vai ser seu namorado se você não o alimentar bem."
O café da manhã foi trazido por um homem branco com o rosto arranhado e mordido, e um olho cheio de sangue congestionado.
"Cy", gritou Patty Cannon, "aqueles bolinhos, eu suspeito, você teve trabalho para virar com esse olho vermelho que Owen Daw lhe deu."
"Eu ainda vou dourar os dois lados dele, quando eu preparar a chapa para ele", exclamou o homem, quase soluçando.
"Antes que você crie coragem para isso, o pequeno Owen vai arrancar seus olhos, Cy, como um corvo; ele tem audácia suficiente para enfrentar a forca. Você pode se vingar dele lá, Cy."
O homem voltou seu semblante covarde e servil para Levin, de forma inquisitiva, e olhou para Hulda com desânimo e vergonha, a qual observou:
"Cyrus, você não serve para os meninos grosseiros da taberna do meu pai, que sempre se aproveitam de você. Por favor, não vá lá de novo."
"Para onde mais ele pode ir?", perguntou Patty Cannon, severamente; "não sobrou nenhuma igreja por perto, desde que Chapel Branch apodreceu por falta de pagamento aos pastores. Deixe-o ir à taberna e aprender a lutar como um homem, e se os meninos baterem nele, deixe-o matar alguns deles. Então Joe e o Capitão poderão fazer algo de Cy James, e o pessoal por aqui o respeitará. Ora, Capitão, querido, não está com fome?"
Isso foi dirigido a um homem com vários hematomas na testa e um enorme bigode de cor de linho, de textura tão macia quanto o cabelo de uma criança — um homem vestindo botas delicadas com polainas flamengas altas, que se curvavam e mostravam meias femininas cheias de cor vermelha, sobre as quais estavam presas calças de veludo cotelê cor de açafrão, cobrindo apenas suas coxas, e presas acima dos quadris por um cinto de couro. Sua camisa era de um tecido azul estampado, e seu casaco largo e desabotoado era uma espécie de jaqueta de marinheiro de veludo preto manchado. Ele pendurou um chapéu de abas largas de uma cor bege-amarelada, macio, como todas as suas roupas, em um gancho na parede, e cumprimentou Hulda primeiro com um sorriso de boas-vindas, Madame Cannon de forma cavalheiresca, e Levin com uma reserva graciosa que desviou a atenção do rapaz da mulher notória na cabeceira da mesa, e o manteve interessado durante toda a refeição.
"Bela Hulda, eu a saúdo! Patty, buenos dias! Espero que a encontre bem, amigo!" — a última parte para Levin.
Ao pegar seu garfo e faca, Levin observou um anel, com um diamante branco puro nele, brilhar na mão do Capitão. Ele era um homem de olhos azuis, com um rubor e um ceceio ao mesmo tempo, como alguém tímido, mas, às vezes, ele olhava direta e audaciosamente para alguém do grupo, e então parecia perder sua delicadeza e tornar-se grosseiro e frio. Um desses olhares ele lançou a Hulda, que baixou os olhos diante dele e pouco mais olhou para ele.
Para Levin, este homem exercia o maior fascínio, em parte por seu traje extraordinário — semelhante aos figurinos que Levin vira no teatro em Baltimore, onde os piratas no palco usavam uma jaqueta, camisa aberta e cinto de corte similar, embora não de material — e em parte por seu semblante, no qual havia algo muito familiar para o rapaz, embora ele tenha forçado sua memória em vão pelo tempo e lugar. O estranho tinha pouco mais de quarenta a quarenta e cinco anos de idade, mas a dona da casa tratava-o com todas as carícias de um marido.
"Querido Capitão! pobre querido!", ela disse; "ter seu lindo cabelo amarelo arrancado pelo gavião negro! Querido, ele caiu sobre mim, e eu pensei que um touro tivesse me dado uma cabeçada no estômago."
"Ele não quebrou nenhum osso, Patty", o capitão ceceou, alimentando-se de forma refinada — e Levin observou que seu garfo era de prata, e sua faca era um canivete com cabo de prata, que ele tirara do bolso — "Chis! chis! se ele tivesse quebrado meu braço, a caravana teria que ter partido sem mim esta noite. Estou dolorido, no entanto, pois Senor era um lutador valente."
"Ele receberá seu pagamento, querido, quando o colocarem para trabalhar na Geórgia e o açoitarem bem, e nós gastarmos o preço dele com ponche. He, he! amorzinho!"
"Eu tirei isso dele hoje quando o revistei cuidadosamente", disse o capitão, entregando a Patty Cannon uma moeda de prata.
A mulher, embora parecesse ter pouco mais de cinquenta anos de idade, tirou óculos de prata de um velho estojo de couro e, colocando-os, soletrou a moeda:
"George—três—dezoito—mil oitocentos e quinze!"
Ela jogou a cabeça para trás tão rapidamente que os óculos caíram de seu nariz, e Hulda os apanhou, e então a Sra. Cannon virou-se para Hulda com uma expressão feroz e arrancou os óculos de sua mão.
"Onde o diabo conseguiu isso?", perguntou Patty Cannon.
"Ah! quem sabe?", o Capitão ceceou com pálida nonchalance, dando um daqueles olhares fortes e penetrantes que ele às vezes proporcionava, direto nos olhos da anfitriã. "Pode ser uma coincidência: chis! chito! Um xelim de um certo ano não é algo raro. Mas, Madame Cannon, torna-se levemente curioso quando seis xelins desses, todos numerados com aquele ano significativo, saíram do mesmo bolso!"
Com isso, ele passou cinco xelins de aparência idêntica para a anfitriã, e ela colocou seus óculos novamente e olhou para todos eles, e deixou-os cair em seu colo com uma expressão cansada, porém assustada, e murmurou:
"Van Dorn, quem ele pode ser?"
"Isso é de menos importância, minha querida, do que saber se podemos nos dar ao luxo de vendê-lo."
O Capitão estava agora olhando para Hulda com a mesma forte intensidade, mas os olhos dela estavam em seu prato; e, embora Madame Cannon também olhasse para ela, com interesse e aversão, Hulda continuou a comer silenciosamente, alheia ao olhar deles.
"Ora!", disse a mulher; "as pessoas podem se assustar todos os dias se quiserem. Nós o pegamos, e, se ele sabe de alguma coisa, está tudo naquela cabeça de negro. Então coma e dane-se!"
"Meu anjo da guarda", observou o Capitão, com um rubor e um ceceio mais forte, "você pode não ter notado que eu nunca parei de comer, enquanto você perdeu o apetite imediatamente. O que você fará com os xelins?"
A Sra. Cannon pegou-os do colo e levantou-se como se pretendesse jogá-los pela janela, seu rosto irritado carregando essa interpretação.
"Pare, mulher notável", disse o Capitão, puxando seu bigode macio e cor de linho com a mão que brilhava o diamante, "deixe seus recursos fecundantes pararem e aconselharem, pois estou apenas cuidando da sua felicidade, que abençoou tão abundantemente minha vida e baniu toda superstição do meu coração até que eu não acredite nem em fantasmas, nem em Deus, nem no diabo, enquanto você acredita em todos eles, e se dá muitos desses amigos e intrusos desnecessários. Chito! chito! como dizem os cubanos, e ouça minha sugestão antes de jogar fora esses xelins!"
"Cuidado com como você zomba de mim!", gritou Patty Cannon, com seus olhos escuros e ousados furtivos, como alguém ao mesmo tempo irritado e perturbado, e suas bochechas rosadas cheias de sangue turvo.
"Sente-se! Dê os xelins para a bela Hulda ali."
"Para ela?"
"Ya, ya! para a agradável Hulda; pois o que nos preocupará então, sendo seu seio sem pecado o depósito seguro deles, e seus olhos de cílios longos derretendo nossos fantasmas em ar cinzento?"
Com um olhar de forte aversão, a mulher deu a Hulda os xelins, dizendo:
"Se você mostrar um deles para mim, menina, eu farei você engoli-lo."
Hulda pegou as moedas de prata e olhou para elas por um momento com deleite juvenil:
"Oh, vovó, como você é gentil! Por que você fala tão brava comigo quando me dá essas coisas bonitas? Elas parecem quase quentes no meu seio enquanto as coloco lá, como coisas com vida. Deixe-me beijá-la por elas!"
Ela levantou-se da cadeira e aproximou-se da dona da casa, que estava sentada em um terror estranho, não proibindo o abraço, mas quase estremecendo enquanto Hulda se inclinava e pressionava seus lábios puros e jovens no rosto pálido e dissipado de Patty Cannon.
O Capitão olhou para o beijo com seu olhar peculiar, forte e frio, e sorriu para Hulda graciosamente e disse:
"Lá, senhoras, descansem na confiança uma da outra! Alguns xelins por um beijo desses é um pagamento vergonhoso, Tia Patty. Você se lembra tão bem quanto eu, Madame Cannon, de que uma vez você perdeu algum dinheiro, e pensou que sua mãe o tinha roubado, e procurou por toda parte por ele, e ele nunca veio à luz?"
"Sim", gritou Patty Cannon, "eu me lembro", e praguejou um juramento de homem.
"Você acha que o Senor esteve naquela direção? Acho que esteve, pois Melson e Milman subiram de Twiford com a notícia de que a última pele de Zeke rompeu sua corrente e fugiu, e toda a parte baixa de Nanticoke não dá vestígios dela, e Zeke passou pelos portões celestiais."
O Capitão passou as costas de seu canivete de prata pela garganta, sorrindo, e colocou sobre a mesa uma faca de bainha de marinheiro.
"Zeke apenas foi desamarrado; foi uma omissão generosa demais", disse ele. "A mulher da Filadélfia, o Senor diz que ele a libertou, e que ela foi iniciar um alarme contra nós. O Senor é um homem frio: ele me contou isso, riu e rugiu, e diz que viverá para nos ver todos em um porta-retratos. Ayme, ayme, Patty!"
Com o rosto ficando cada vez mais longo, a mulher ouviu essas frases quase ininteligíveis — totalmente ininteligíveis para os mais jovens — e para Levin parecia que ela envelhecia de repente e mais ainda, até que suas bochechas, há pouco florescentes, pareciam mortas e enrugadas, e, de manter a aparência de apenas cinquenta anos, e bonitas por sinal, ela agora parecia ter mais de sessenta anos de idade, e triste e indefesa.
"Van Dorn, estou morrendo", ela murmurou, enquanto seus olhos se envidraçavam, e ela se acomodou em sua cadeira como um pedaço de massa.
"Ha! O hala hala! mãos longe, bela Hulda", gritou o Capitão, alegremente, já que Hulda tinha se movido para aliviar a pobre velha; "ninguém ajudará nessas cerimônias de expiação, exceto Van Dorn, cujos direitos sobre a Sra. Cannon são de prioridade. Ela está hidrópica, e se apressando para a perdição cedo demais, o que devo deter e deixá-la me confortar ainda mais. Doce consoladora! Jovem cavalheiro, você deve me ajudar."
Levin segurou os pés de Patty Cannon e descobriu que ela parecia feita de osso, tão resistentes eram seus tendões, e Van Dorn levantou facilmente seus ombros largos, e assim ela foi colocada em uma cama no quarto ao lado, onde o elegante Capitão foi visto esfregando seus membros, e até manuseando uma garrafa de sanguessugas, uma das quais ele permitiu que rastejasse sobre a mão que usava o diamante, fazendo-a parecer um rubi derretendo ou em movimento vivo. Enquanto esse voraz amante de sangue saciava-se ao redor dos tornozelos retos da anfitriã, o delicado Capitão a segurava em seus braços como um amante ardente.
"Querido", suspirou a mulher, "meu aluguel está vencendo, e Jake Cannon nunca espera. Pegue Huldy e esse novo recruta, meu primo Levin Cannon, e leve-os à balsa — e vigie esse menino, Van Dorn: quero que ele seja amansado! Dê-lhe uma pistola e uma faca, e faça-o cortar alguém. Coloque a marca de sangue nele e ele é nosso."
"Grande mulher!", o Capitão ceceou, prolífico em seus beijos, "Maria Theresa! Semiramis! Agrippina! Cleopatra! sempre fecunda em grandes ideias e rejuvenescendo com beladona, alto! quedo! mas eu te amo!"
"Estou um pouco jovem ainda, querido?", perguntou Patty Cannon. "Oh, não me engane, Van Dorn! Meus olhos podem expressar amor e ódio, como nos velhos tempos?"
"Si! quiza! Cada vez mais, anjo das trevas, entrando na idade negra como tochas em uma caverna, vejo seus olhos profundos flamejarem; mas nunca eles me agradam, Patty, como quando eles brilham com alguma ideia nova e perversa, como esta de marcar o menino para a vida. Quem é ele?"
"Ele é um Cannon, um dos descendentes a quem meu homem de Delaware pertencia. A mãe dele olhou para mim de cima por eu ter entrado na família deles: eu me lembrei dela."
"Você quer que seu jovem primo seja feito um criminoso, então?"
"Sim, querido, quero que ele seja marcado, para que o diabo saiba que ele é dele."
O Capitão alcançou os pés da dama, puxou a sanguessuga e a segurou contra sua palma côncava, cheia de sangue da bela paciente.
"Veja, Patty! O menino beberá sangue como este, até que, embriagado com ele, ele não consiga mais se segurar, e caia em nosso destino como neste frasco."
Enquanto falava, ele deixou a sanguessuga cair no frasco, onde seu reflexo no vidro parecia respingar sangue.
"Ha, ha! Van Dorn, eu te amo!", gritou a mulher, e sufocou-o com carícias.
CAPÍTULO XXVII.
CANNON'S FERRY.
Quando foi anunciado a Levin e Hulda, que entretanto estiveram conversando no jardim, perigosamente perto do assunto do amor, que eles receberiam uma carona até Cannon's Ferry com o Capitão Van Dorn, a pedido especial da Tia Patty Cannon — que também lhes enviou um punhado de meios-centavos para gastar — eles ficaram encantados, embora Hulda tenha dito:
"Querido Levin, se fôssemos apenas nós dois indo embora para sempre, quão felizes poderíamos ser! Eu poderia morar com sua linda mãe e trabalhar para ela, e, sabendo que estou sempre lá, você traria seu dinheiro para casa em vez de desperdiçá-lo."
"Não podemos fazer isso de alguma forma?", perguntou Levin. "Oh, eu queria ter algum juízo! Eu queria que Jimmy Phoebus estivesse aqui, Huldy, para me levar lá no jardim e me açoitar como meu pai. Mas, se eu não tivesse vindo aqui, como eu poderia ter visto você, Huldy?"
"Como eu poderia ter passado uma noite tão celestial de paz e esperança se você não tivesse vindo, querido? O Ser Superior deve ter levado você até mim."
"Huldy", disse Levin, depois de pensar até o limite de seu conhecimento, "talvez haja uma agência de correios em Cannon's Ferry, e você pode escrever uma carta para Jack Wonnell por mim."
"Por que não para sua mãe, Levin?"
"Oh, eu tenho vergonha de contar a ela; isso a mataria."
"Se fôssemos descobertos, Levin, a Tia Patty me mataria. Não há papel aqui, não há tinta que eu possa conseguir, o porte de uma carta é quase dezenove centavos, e, olhe! a esses meios-centavos faltam exatamente dois para a soma."
"Eu tenho ouro", gritou Levin, pensando no resíduo da recompensa de Joe Johnson.
Ele colocou a mão no bolso, mas o dinheiro não estava mais lá.
"Silêncio!", gritou Hulda, "você foi roubado. Todo mundo é roubado que dorme aqui. Vovó consegue cheirar ouro como o rato que encontra queijo amarelo."
O indivíduo que servira o café da manhã foi visto vindo em direção a eles, um homem em tamanho, com uma testa baixa, sem queixo de que se falar, um longo pescoço de garça e um rosto terrivelmente arranhado e inflamado.
"Senhor", ele disse a Levin, "venha me ajudar a atrelar os cavalos; estou tão acabado que não consigo ver como."
Levin começou imediatamente, sugerindo a Hulda que procurasse seu dinheiro desaparecido, e, quando eles estavam no pequeno estábulo, o homem observou, em um sussurro, para Levin:
"Pela fumaça!"
Levin continuou colocando as rédeas e a sela nos cavalos, quando o homem disse novamente, com um sorriso insinuante:
"Pela fumaça!"
"Ei?", exclamou Levin.
"Pela fumaça!", o homem observou novamente, com uma ênfase muito ardente.
"Você deve ter estado em Princess Anne", disse Levin, "para jurar 'pela fumaça'."
O homem malcriado, com tal cabeça inferior e pescoço de garça, agora escorregou para a frente de Levin, olhou para ele e sussurrou:
"Hokey-pokey!"
A ideia cruzou a mente de Levin de que o lacaio de Patty Cannon devia ter enlouquecido.
"Onde você aprendeu essas palavras, Cy?", perguntou Levin.
"Hokey-pokey!", respondeu Cy James, com um sopro mais misterioso e impressionante; "Hokey-pokey! Pela fumaça! e Pangymonum, também!"
"Por que, Cy! o que você quer dizer? Jimmy Phoebus nunca jura a não ser com essas palavras. Você conhece Jimmy Phoebus?"
"Pangymonum, também!", sibilou Cy James, com toda animação. "Hokey-pokey, três! e Pela fumaça, um!"
Ele colocou seus braços longos nos joelhos, curvou-se como um grande ganso e olhou nos olhos de Levin.
"Eu nunca tive juízo suficiente", disse Levin, "para adivinhar um enigma, Cy Jeems. Essas palavras eu ouvi um bom homem — amigo da minha mãe — usar tantas vezes que elas me assustam. Minha mente tem pensado nele dia e noite. Oh, ele está morto?"
"Pela fumaça! Hokey-pokey! e Pangymonum, também!", o sujeito longo, magro e excitado sussurrou, com a maior solenidade.
"São as palavras diárias de Jimmy Phoebus, querido Cyrus. Ele foi morto no rio anteontem; eu o vi cair; é meu pecado e minha miséria."
"Ele não está morto", sussurrou Cy James, muito baixo e cuidadosamente. "Eu não vou te dizer onde ele está até que você faça Huldy gostar de mim."
"Como posso fazer isso, Cy?"
"Ela acha que sou um covarde e apanho de Owen Daw. Diga a ela que não sou covarde. Diga a ela que vou fritar todo esse povo na minha chapa — todos, menos Huldy. Diga a ela que estou apenas fingindo covardia até conseguir todos eles em massa e a chapa untada, e então serei o valentão da encruzilhada!"
"Você me odeia, Cy Jeems? Eu não lhe fiz nada. Sou um prisioneiro aqui até conseguir meu barco de volta de Joe e ir para Princess Anne."
"Eu não vou te odiar se você conseguir fazer Huldy me amar", respondeu Cy James. "Diga a ela que não sou covarde; que vou ser livre, e rico também." Ele baixou as palmas das mãos para os joelhos novamente e sussurrou: "pois eu sei onde a velha Patty enterra seu ouro e prata!"
"Venham com esses cavalos, rapazes ociosos", ouviu-se a voz ceceante do Capitão chamar. "Ya, ya! aí, luego! a manhã passa."
"Tudo pronto", respondeu Cy James, e enquanto deixavam a porta do estábulo, ele sussurrou mais uma vez, e olhou significativamente em direção à encruzilhada de Johnson:
"Pela fumaça! Hokey-pokey! e Pangymonum, também!"
O Capitão, parecendo um cavalheiro das eras cavalheirescas deslocado neste covil da floresta, segurou as rédeas em pé no chão e ajudou Hulda a subir no assento ao lado do seu com uma graça, um rubor e uma risada ceceante que, pensou Levin, eram muito fascinantes.
"Agora, Mestre Cannon, tome seu lugar na parte de trás do veículo", disse o Capitão, curvando-se para Levin e lançando um daqueles olhares frios e grosseiros para ele, que ele concedia apenas por um momento, como um gato macio que tem toda a natureza do coelho, exceto o brilho do tigre.
O veículo era uma carroça velha sem molas, e o assento de Levin era um pedaço de tábua, enquanto o de Hulda tinha encosto, e o Capitão o tinha acolchoado com uma pele de urso. Ele olhou com a maior atenção delicada para Hulda, corou quando ela olhou para ele e, mal notando os cavalos, embora os tivesse sob um controle quase automático, ele saiu da estrada de Patty Cannon e virou para a floresta.
Levin lançou um longo e perscrutador olhar para a taverna de Johnson, desejando ter o dom de enxergar através de suas tábuas manchadas pelo tempo e de seu telhado alto e vazio, e então observou a estrada, de areia dura ou detritos de pinheiro, com aqui e ali um buraco de lama ou um sulco longo e lamacento, desenrolar-se como uma fita atrás das rodas por entre os pinheiros espessos.
Ele também observou a habilidade com que o Capitão manejava seu longo chicote de couro de boi, uma simples tira de couro cru presa a um bastão, desajeitada em outras mãos; mas Van Dorn conseguia espantar uma mosca de qualquer um dos cavalos de Delaware, baixos e peludos, com ele, mal olhando para onde atingia ou incomodando o animal, e conseguia desferir um golpe com tal destreza que fazia o bicho cambalear e tremer com a dor súbita.
Em um pequeno riacho arenoso, o único que cruzaram, uma longa cobra d'água tentou escapar antes que a carroça veloz pudesse atingi-la, mas o Capitão levantou-se rápida e felinamente, e projetou a longa ponta do chicote para a beira da estrada, e a cobra contorceu-se e saltou no ar quase cortada ao meio. Então, sentando-se novamente e inclinando-se tão perto de Hulda que seu longo bigode de penugem dourada tocou sua bochecha, Van Dorn disse, suavemente:
"Que hermoso! Jovem flor do campo, permite que eu tire uma cobra do seu caminho também?"
"Qual delas, Capitão?"
"Não importa. Nomeie qualquer uma."
"Ai de mim!" disse Hulda, "eu sou uma delas; como posso desejar mal ao meu padrasto e à minha avó? Eles não são o que eu desejo, mas recebi a ordem de honrá-los."
"Por quem, bela Hulda?"
"Por Deus. Li isso no Livro depois de ouvir de um escravo."
"Donde esta! Que escravo que conhecemos era tão versado em Deus?"
"O pobre Dave, o bêbado. Ele era um bom homem antes de nos conhecer. Ele me contou todos os Mandamentos por um gole de conhaque, e eu os escrevi e depois os encontrei em um livro."
"Chis! chito! quão graciosa é a sua mente, Hulda! Ela emerge da vacuidade absoluta da sua condição e descobre coisas, como a jovem águia-pescadora, sem nunca ter sido ensinada, sabe onde mergulhar atrás de peixes. Quem que vem ao Cruzamento de Johnson traz a Bíblia?"
"Coronel McLane."
"Ele? O crocodilo santimonioso! Ele lhe deu o Livro?"
"Sim. Ele me disse que Joe e a vovó eram boas pessoas — 'pessoas conservadoras de bem', acho que ele chamou assim; mas disse que você não acreditava em nada, e que não havia base, acho que ele disse, para 'bem conservador' em você."
"O hala hala! Mas isto é bom", comentou o Capitão suavemente, acariciando seu bigode dourado com a mão que portava o anel lustroso. "Patty Cannon pode ser salva; eu devo ser condenado; e Allan McLane se sentará no tribunal. Não, eu não acredito em nada, porque tais como eles acreditam!"
"É por isso que ninguém gosta de você", observou Hulda francamente, "por mais agradável que você seja."
"E você consegue acreditar em algo depois dos arredores da sua infância, tocando o crime como a ninféia que cresce entre as cobras d'água?"
"O lírio não tem culpa disso, e é tão branco como se tivesse crescido sob vidro, porque..."
"Porque o lírio não tem nada do sangue da cobra?" o capitão falou com um leve ceceio. "Você entra com essa alegação?"
"Não", disse Hulda; "eu sei que nasci de pais perversos, uma filha do crime, meu pai enforcado, minha mãe de origem terrível, mas nunca senti que Deus me considerasse responsável pelas obras deles se eu mantivesse meu coração humilde e minhas mãos longe do pecado; e nunca fui tentada, vindo de dentro da minha própria natureza, a desfrutar um único momento de tal egoísmo hediondo. E agradeço ao meu bondoso Criador que algo para amar e em que acreditar, embora tão infeliz quanto eu, tenha descido pela triste trilha que observei por tantos anos, e me encontrado esperando por ele."
Sem resposta, o Capitão guardou seus próprios pensamentos por vários minutos e, finalmente, suspirou:
"Eu conheço uma coisa na qual eu poderia acreditar, linda criança."
"Oh, então abrace-a", disse Hulda, "e dê à sua fé uma única palha à qual se agarrar."
A mão de Van Dorn deslizou pela cintura dela, e suas bochechas coradas e olhos azuis dobraram-se sob seu chapéu de palha:
"Eu a encontro aqui, talvez, Hulda. Devo abraçar sua juventude com minha forte paixão? Temo que a amo."
"Sim", ela respondeu, olhando para cima com seus olhos de cílios longos de um cinza fascinante; "beije-me se isso lhe der esperança!"
O rubor e a cor intensa desapareceram de seu rosto enquanto ele encarava aqueles grandes orbes cinzentos e passivos, bem abertos sob seus lábios carnudos, efeminados e emburrados e, enquanto ele hesitava, Hulda repetiu:
"Beije-me, se isso o fará ter esperança!"
"Não, não", ele respondeu; "de todos os lugares, sou mais desesperançado ali."
"Eu sabia que você não me beijaria", disse Hulda, com um tom superior ao dele, "se eu lhe desse o direito por qualquer objetivo puro. O beijo que você me daria não vê seu par na minha alma."
"Você me odeia, então?" disse Van Dorn.
"Não, eu sinto pena de você; eu rezo por você também."
"Por mim? Que interesse você tem em mim?"
"Eu não sei", disse Hulda. "Muitas vezes me perguntei o que me fazia pensar em você tão frequentemente e, ainda assim, nunca com admiração. Você é a única pessoa aqui que parece ter perdido algo por estar aqui; alguma parte de você parece ter desaparecido; senti que você poderia ter sido um cavalheiro, embora nunca possa ser novamente. Eu me encolho diante de você e, ainda assim, sinto pena de você. Mas, com todos os seus jeitos bonitos, eu nunca o amaria, enquanto o pobre rapaz que está viajando conosco, eu amei assim que ele chegou."
"Chis! chito! Você pode se encolher diante de mim e não diante de uma Cannon também? Ora, menina, você o colocou em meu poder."
"Estou em seu poder há muito tempo, Capitão Van Dorn, e você olhou para mim com olhos ousados e malignos muitas vezes, mas nunca chegou mais perto. Quando eu olho para você como fiz agora, você foge de mim. Aquele rapaz que eu amo está tão seguro quanto eu, em suas mãos."
"Por que, querida presunçosa? Diga-me."
"Porque eu o amo, e você precisa da minha piedade. Enquanto você proteger aquele pobre menino órfão, carregarei seu nome até Deus por perdão; se você algum dia lhe fizer mal, minhas orações por você serão mudas para sempre."
"Oh! ayme! ayme!" riu suavemente Van Dorn, seu rubor não aparecendo agora; "você esquece, Hulda, que eu não acredito em nada."
Eles mal tinham percorrido seis quilômetros quando uma pequena cidade de casas quadradas, espalhadas como blocos de brinquedo entre pares de chaminés vermelhas externas, sentava-se, na suave e úmida manhã de outubro, ao longo da margem de um riacho pantanoso que, contornando o povoado, fluía para o rio Nanticoke a poucos quilômetros, em seu curso, acima do cais de Twiford. Duas ruas, formadas por duas estradas, terminavam em uma terceira rua ao longo da margem arenosa e plana do rio, e ali havia quatro ou cinco habitações maiores, como seus humildes vizinhos, construídas de madeira, mas com chaminés mais ousadas e maiores, erguendo-se no ar como se em rivalidade com quatro grandes navios e brigues que jaziam ancorados ou ao lado dos dois cais, e lançavam seus mastros e vergas nas nuvens veleiras, fazendo a floresta baixa que fechava o rio e a aldeia curvar-se à sua humildade. Mas o belo rio, com frequentes penhascos de areia e bosques, fluindo duzentos metros de largura em uma maré imponente, e carregando até a Balsa de Cannon barcos de pesca e embarcações, escunas ianque e chatas de madeira, e os sinais de vida, por mais humildes que fossem, que flutuavam em fumaça azul de muitas lareiras, ou soavam em remos, cordames e carregamentos, pareciam a Hulda alegria e poder humanos, e ela gritou para Levin:
"Levin, oh, olhe! Você já viu um lugar tão grande quanto este? Ali está a estrada para Seaford, exatamente tão longe quanto viemos! Os grandes navios estão levando milho para as Índias Ocidentais e trazendo açúcar e melaço. Aquela é a balsa, e do outro lado são apenas oito quilômetros até Laurel."
"Você gosta de viajar por essa estrada?" perguntou o Capitão, com seu ceceio agradável e rubor voltando novamente.
"Isso me deixa triste", respondeu Hulda; "mas eu não murmuro quando passo pelo local, como a vovó."
"Que local?" perguntou Levin.
"Onde o pai matou o viajante", disse Hulda. "Ele morreu vergonhosamente por isso. Você quase poderia ver o lugar, se não fosse pelos bosques ali, onde a estrada para Laurel sobe a colina de areia."
"O que é isso?" disse Van Dorn, vendo uma pequena multidão ao redor de uma das cabanas de um só andar, e virando sua parelha para a rua paralela.
Um homem muito alto e de aparência grandiosa torreava acima dos outros, e parecia incapaz de ficar ereto na cabana baixa com suas proporções, de modo que ocupou seu lugar na areia gramada do lado de fora e deu suas instruções a alguém lá dentro:
"Penhore a roda de fiar! Simplifique a equação! Fique de prontidão com seu *fi. fa.!* Não seja covarde, policial — ela já teve o equivalente; agora ela vê o quociente também."
Van Dorn olhou e viu uma roda de fiar sair pela porta, e um pouco de lã em um saco atrás dela. Jacob Cannon colocou o pé na roda e enfiou a cabeça na porta.
"Vejo um machado e um moinho de café ali, policial: penhore-os com seu *distringas*. *Experientia docet stultos!* Passe aquele par de sapatos para fora!"
Ouviu-se a voz de uma mulher chorando, e Van Dorn e Levin pularam para fora para olhar.
Hulda também desceu e desapareceu.
Uma mulher, mal conseguindo ficar de pé, e branca como a doença e a angústia podiam deixá-la, cambaleou até a porta para implorar que seus sapatos fossem devolvidos, e apontou para seus pés nus.
"Agora ela saiu da cama, penhore isso!" gritou a figura militar com o rosto longo e eloquente e olhos cintilantes; "empurre para fora pela janela. Cuidado com seu *fi. fa.* e eu cuidarei do quociente."
"Tenha piedade!" gritou a mulher; "meu filho nasceu apenas na semana passada."
"Jogue fora aquela boa cadeira ali, policial. Penhore o baú verde! Você não vê uma colcha ou cobertor inteiro em lugar nenhum! Não permita nem tara nem peso líquido ao servir um mandado para Isaac e Jacob Cannon!"
"Onde deitarei com meu bebê?" gritou a pobre mulher, olhando ao redor para a cabana nua, onde nem cama, nem cobertor, nem cadeira, nem baú, nem roda de fiar restavam.
"Li-vari facias! e fi-eri facias! Se houver um erro, uma ação de busca e apreensão cabe, mas nenhum erro é cometido por Isaac e Jacob Cannon. Policial, acho que vejo um pote de ferro naquele guindaste!"
"Tem carne nele, senhor — carne fervendo", respondeu o policial.
"Despeje a carne! Penhore o pote! Torne o quociente preciso! Elimine o pote da equação!"
O pote saiu, enquanto o material fervendo nele apagava o fogo de outubro, e foi jogado na pilha miscelânea aos pés de Jacob Cannon.
"Agora leve o berço, homem de coração duro", gritou a mulher, "e jogue o bebê no fogo também, já que não posso cozinhar nada para fazer leite nos meus seios."
"O berço vale alguma coisa, policial?" perguntou o homem de aparência magnífica com os brilhos cinzentos prateados ao redor de seu nariz equino; "se vale a pena levar, eu quero. Pessoas que não podem pagar suas dívidas devem viver solteiras como Jacob Cannon, e não ser confiscadas."
Um rapaz, com o rosto arranhado e a dissipação instalada nele, saltou subitamente para dentro do grupo atônito de espectadores, e deu um mergulho vicioso para recuperar os pertences aos pés de Jacob Cannon, mas aquele digníssimo pegou-o pelo colarinho e, erguendo-o, largou-o sobre uma cerca como um inseto:
"Owen Daw, aqui estão testemunhas de um *assault insultus*, acionável como uma invasão *vi*, cujo quociente são danos ou o equivalente na cadeia de Georgetown. Prestem atenção, bons cidadãos, e especialmente observo você, Capitão Van Dorn."
"Eu vou matá-lo", gritou o jovem valentão do Cruzamento de Johnson, e recente confiscardor do perfil de Cyrus James, Esquire, agarrando um porrete feio.
"Justificável como *son assault demesne*", comentou o credor, descuidadamente, enquanto arrancava a bobina da roda de fiar e derrubava o rapaz com ela.
Sua maneira imponente e a mão pronta operaram para abater este último e, profundamente magoado com a cena, Levin Dennis gritou fervorosa e impulsivamente para Van Dorn:
"Oh, Capitão! Você não pode pagar as dívidas dela! Eu darei tudo o que Joe vai me dar, para reembolsá-lo. Veja como ela jaz no chão nu! Ouça o filho dela chorando por ela! Oh! Acho que ouço a voz da minha mãe me chamando para casa enquanto ouço isso."
Van Dorn, sentindo as mãos de Levin agarrarem as suas com simples confiança, ouviu e não virou a cabeça, enquanto rubores como rosas floresciam sucessivamente em suas bochechas frescas e efeminadas. Ele não repeliu as mãos do rapaz, no entanto, mas olhou para a cena com curiosidade mundana e impiedosa.
"Pagar os confiscos de Isaac e Jacob Cannon", murmurou ele, suavemente, "manteria um pobre traficante de escravos pobre. Você deve se acostumar com esses gritos: eu tive que fazê-lo. Aprenda a amar o dinheiro como aquele comerciante e eu, e você os achará música."
"Oh, quando choramos a Deus por misericórdia, capitão, talvez nossos gritos soem como aquele! Não suporto ouvir."
"Você disse à mãe, Jake Cannon, quando ela alugou esta velha casa", exclamou o rapaz, Owen Daw, "que ela não precisava pagar o aluguel, se não quisesse, até o dia do juízo final."
"Eu tenho o juízo", respondeu Jacob Cannon, seus olhos esbranquiçados parecendo rir até a ponte do nariz, "e este é o dia em que ele vence. Todos os dias legais são 'dias de juízo' para Isaac e Jacob Cannon."
"Meu filho, meu filho", a voz da mulher lamentou-se para Owen Daw, "eu vejo o fim de você frequentar Patty Cannon: meu bebê para a cova, eu para o asilo, e você para a forca."
"Capitão, Capitão", Levin gritou, "oh, pague a dívida por mim! Mamãe nunca foi tão pobre assim. Pague, e eu trabalharei para você em qualquer lugar, querido capitão."
"Quanto é a dívida", perguntou Van Dorn, com ceceio.
"Dez dólares", falou o policial, também levado à vergonha.
"Cannon, você vai me aceitar por isso?"
"Aceitarei seu título de dívida ou o dinheiro, Capitão Van Dorn, nada menos."
"Devolva as coisas dela", disse o capitão, apertando levemente a mão de Levin, como se dissesse: "Isto é para você" — "devolva as coisas dela e eu acertarei com Isaac Cannon."
"Deus o abençoe!" gritou a mulher, pegando seu bebê do berço e acalmando sua fome em seu seio; "eles o chamam de homem perverso, mas bênçãos sobre você por todo o bem que faz!"
"Chito! chito!" sorriu Van Dorn. "Eu fiz isso por este rapaz tolo; não tenho pena de ninguém."
Hulda havia recorrido à praia, ou rua do rio da Balsa de Cannon, onde havia dois armazéns, e ela havia pegado emprestado pena e tinta, e escrito uma carta endereçada a "Sra. Ellenora Dennis, Princess Anne, Condado de Somerset, Maryland", dizendo:
"_Senhora, Levin, seu filho, está perto deste lugar contra sua vontade, entre homens perigosos e em grande tentação, mas encontrou um amigo. Em uma semana, este amigo tentará escrever novamente e, se não houver notícias, procure por Levin Dennis no Cruzamento de Johnson_."
Esta carta, escrita com toda a sua velocidade inábil, tinha acabado de ser dobrada, selada com obreia e endossada, e ela tinha depositado um dos xelins de 1815 para pagar a postagem, quando uma sombra caiu sobre o balcão da loja, e a carta foi retirada de sua mão; Van Dorn estava ao seu lado.
"Chis! chito! Es posible? Uma espiã, talvez. Agora você vai amar Van Dorn, ou a Vovó Cannon ouvirá sua carta sendo lida!"
"Devolva-me, Capitão", implorou Hulda; "ela me matará se a ler."
"Se ela fosse enviada, pomarosa, todos nós poderíamos morrer. Não, você é perigosa demais."
Ele olhou, sem seu rubor, para o xelim que ela estava colocando de volta em seu seio, e seu olho estava frio e feroz. O coração de Hulda afundou.
"Irmão Isaac", gritou Jacob Cannon para um homem de altura fina e elegante, que estava na escrivaninha — um homem um pouco mais baixo que Jacob, e não tão rei em aparência, mas com os mesmos olhos esbranquiçados dançando ao redor da ponte do nariz, e uma testa mais dissimulada e pensativa — "Irmão Isaac, o Capitão Van Dorn é covarde e quer acertar a dívida da Viúva O'Day, ou Daw."
"Em dinheiro ou nota de juízo, capitão?"
"Dinheiro", respondeu Van Dorn, modestamente; "tire desta moeda de vinte dólares, com o aluguel da Sra. Cannon para sua fazenda."
"Há uma árvore — uma árvore de abelhas, Irmão Jacob, acho que você disse — derrubada do campo da Sra. Cannon?"
"Sim, acionável sob estatuto feito e providenciado, deliberadamente para estragar ou destruir qualquer madeira ou outras árvores, raízes, arbustos ou plantas; valor da referida árvore de abelhas três dólares; levari facias! O quociente é insatisfatório para Isaac e Jacob Cannon."
Os olhos do irmão mais velho e menor tentaram ter uma introdução um ao outro através da ponte do nariz.
"Oh, Irmão Jacob", ele riu, "que ajuda executiva você é! Capitão, ele não é um perfeito Marius?"
"A Sra. Cannon", observou o capitão, "entrega a fazenda com este pagamento, senhores. Ela já mudou seus pertences para o outro lado da linha, para o genro Johnson. Sobre a árvore de abelhas, não sei de nada."
"Irmão Jacob", falou Isaac Cannon, "Moore assume a fazenda! Que ele seja notificado de que seu aluguel começa sem data."
"Execução feita, Irmão Isaac", respondeu o Marius da família. "Esta manhã, percebendo que Patty Cannon estava prestes a mudar seus pertences, meu oficial de justiça apreendeu seu arado como garantia pela referida árvore de abelhas estragada, mutilada e destruída, e Moore já está arando para colocar seu trigo com ele. Tempo é dinheiro para Isaac e Jacob Cannon."
"Ha, ha! que conforto executivo! O Irmão Jacob nunca adiciona um item a lucro e perda."
"Senhores", disse Van Dorn, "recomendo que não cobrem árvores de abelhas de inquilinos nas proximidades do Cruzamento de Johnson. É um item incomum, e estamos criando rapazes lá que podem não entender isso."
"Capitão", disse o Cannon mais velho, rindo como se ainda admirasse a sutileza de Marius, "lembro-me agora de que nosso balseiro trouxe um homem de Laurel esta manhã com algumas notícias. Uma mulher com uma algema quebrada apresentou-se lá na noite passada, e disse que era escrava de Daniel Custis de Princess Anne: ela veio de Broad Creek."
"Para onde ela foi?"
"Um pregador metodista a colocou em sua charrete e partiu para a casa do mestre dela com ela."
"Então ela vencerá o vento", disse Van Dorn; "esses pregadores são todos jóqueis, e podem superar o diabo em trocas. Hola! ya, ya! Devo cuidar disso."
Ele saiu a passos largos, com um olhar frio lançado para Hulda.
"Venham, jovens", falou o grande chefe Jacob Cannon para Levin e Hulda; "eu lhes mostrarei meu museu."
Ele liderou o caminho para um armazém que pendia sobre o rio, destrancou uma porta e disse-lhes para caminharem com cuidado até que pudessem ver na escuridão do interior.
Levin manteve a mão de Hulda na sua enquanto viam emergir lentamente das sombras uma grande variedade de coisas diferentes amontoadas, até que a casa mal pudesse conter o vasto agregado de potes e chaleiras, rodas de fiar e berços, estrados de cama e camas, grades e arados, cadeiras e grelhas, ancinhos e enxadas, silhuetas e molduras, colchas de retalhos feitas à mão e travesseiros de penas de ganso depenadas em casa, redes de pescadores e remos — tudo o que compunha a substância da vida em um país antigo sem minerais e manufaturas, no início do século dezenove.
"Onde o senhor conseguiu isso?" perguntou Levin.
"Executei-os", disse a estatura e a cabeça guerreira de Jacob Cannon; "dei o bote neles; satisfiz juízos sobre eles. Fi. fa.! Chamamos isto de Museu de Peale Número Dois, ou o Quociente Variegado."
"Tudo isso tirado dos pobres?" perguntou Hulda. "Quantas misérias eles contam!"
"Sr. Cannon", disse Levin, "o que o senhor pode fazer com isso? As pessoas não vão comprar. Estão apenas apodrecendo aos pedaços."
"Nós os guardamos para mostrar a todos aqueles que invadem os domínios de Isaac e Jacob Cannon", respondeu Marius, com uma grandiosidade fácil, "que existe um dia de juízo!"
Os olhos cinzentos de cílios longos de Hulda, com um olhar de mais do que desprezo infantil, acompanharam suas palavras:
"Eu deveria pensar que você temeria aquele dia, Sr. Cannon, quando você diz a oração: 'Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido'."
O vento do rio parecia curvar o velho armazém, e o barulho que fazia pelas frestas e ao redor dos cantos, movendo levemente a pilha de confortos de cabana e choupana, parecia despertar lamentos baixos entre eles, como quando foram arrancados do lado da lareira e da família.
"Onde está meu bebê?", o berço parecia dizer, "que recebi e embalei aquecido do ventre da dor? Oh, estou faminto pelo seu pequeno sorriso!"
"Por que descanso minha roda ocupada?", a fiandeira parecia chiar, "quando sei que meus filhos estão sem meias? Quem me mantém aqui ociosa enquanto a Mãe pergunta por mim?"
"Onde está a velha cabeça grisalha", suspiravam as penas, peneirando na brisa vinda de uma fronha rasgada, "que todas as noites e nas tardes cochilava sobre nosso saco de penugem, e nos escolhia uma vez por ano, e fazia suas preces em nós? Oh, estará ela dormindo no chão frio e nu, e nós tão inúteis!"
A panela fervilhava para a chaleira: "É hora do jantar, e os garotinhos estão chorando por comida, e ainda não há ninguém para me levantar no guindaste e acender o fogo sob mim! O que pensarão de mim, eles que se reuniram ao meu redor por tantos anos e me viram ferver, e enfiaram seus dedinhos para provar a carne cozida? Eu quero ir! Eu quero ir!"
A chaleira respondeu à panela: "Eu nunca cantei desde que o oficial de justiça me forçou a sair da mão da vovó, e a roubou da xícara de chá."
A velha colcha de muitos quadrados tremulava na corrente de ar: "Levem-me à jovem esposa que me costurou e me exibiu com tanto orgulho, pois temo que ela esteja com frio desde que seu jovem marido morreu!"
Esses sons domésticos os jovens amantes emocionados, parados tão pobres e à beira do que não conheciam, pareciam ouvir com reverência, e aproximaram-se um do outro, como os jovens Eva e Adão no grande destroço do Paraíso e à voz de Deus.
De mãos dadas, eles saíram para a luz brilhante do dia e caminharam ao longo da rua arenosa sob as altas acácias, bordos e ailantos que cresciam em linha ao longo dos jardins frontais dos irmãos Cannon. Quatro grandes casas ficavam de lado, ponta a ponta, ali: primeiro, a casa comercial de Cannon; depois, a confortável casa de Isaac Cannon, onde ele morava, um homem casado; e, terceiro, a elegante mansão de madeira, com chaminés altas e arejadas, de Jacob Cannon, o solteiro, cuja casa, construída para uma noiva, nunca fora aquecida por um fogo; finalmente, a antiga habitação baixa, de teto arqueado, da mãe dos Cannon, em frente à qual ficava o cais da balsa, e Van Dorn conversando com o balseiro negro.
"Levin", disse a bela Hulda, não triste, mas muito grave, "esta nobre casa é como aquele Sr. Cannon de aparência nobre, oca e fria. Ele mora com seu irmão Isaac e mantém sua própria moradia vazia e trancada, porque amava dinheiro demais para encontrar uma esposa."
"Vamos amar um ao outro, Huldy", disse Levin; "é tudo o que temos."
"É tudo o que há para conseguir, meu amor", respondeu Hulda. "Sim, eu amo você, Levin. Tentarei salvá-lo, se puder, porque amo você, embora o sofrimento possa vir para mim."
"Não", gritou Levin, "eu não posso deixar você, querida. Se eu pudesse agora atravessar na balsa, eu não faria isso; devo voltar com você."
Enquanto o Capitão Van Dorn subia do cais, corando como um estudante, e batendo seus dentes brancos sob o longo linho de seu bigode, sua atenção foi presa por uma proclamação colada em um poste:
"Quinhentos Dólares de Recompensa, por
JOSEPH MOORE JOHNSON, SEQUESTRADOR.
"_A recompensa acima será paga por mim a qualquer pessoa ou pessoas--e elas ficarão isentas de detenção--que me entregarem o corpo do malfeitor acima nomeado, para que ele possa ser levado a julgamento na Pensilvânia_.
"JOSEPH WATSON, Prefeito da Filadélfia."
"Chis! he!", suspirou Van Dorn; "o fim deve estar próximo. Agora, jovens, venham!"
Enquanto passavam pela propriedade de Cannon, saindo da cidade, a voz familiar de Jacob foi ouvida a gritar:
"Owen Daw escapou, Irmão Isaac; mas nós o pegaremos em um _de bonis non_. Nunca tirarei meus olhos dele enquanto eu viver."
"Irmão Jacob, que ajuda executiva você é!"
Enquanto Van Dorn conduzia os cavalos pela pequena subida na retaguarda da balsa, passando por uma antiga casa dupla de toras ali, com um arco no centro, a jovem Hulda--que agora usava sapatos e meias, e um vestido apresentável de tecido inglês, e parecia bem a mulher através de seus olhos sinceros e às vezes orgulhosos e eloquentes--disse a ele, enquanto apontava para trás:
"Capitão, foi ali que meu pai matou o viajante, onde vemos a estrada além da balsa entrar nos pinheiros."
"Sim", disse Van Dorn, dando-lhe um olhar frio; "poderíamos ver o lugar, não fosse o bosque. Fica em uma colina, a uma curta milha da Nanticoke."
"Conte a Levin sobre isso, capitão."
"Quedo, quedo! Não seria agradável."
"Sim", disse Hulda; "se fosse verdade, eu posso ouvir: quero que Levin ouça também, para que não haja engano entre nós."
Seu cabelo liso e úmido, olhos cinzentos e úmidos, compleição nascida entre a rosa e o orvalho, e figura reta e ágil, e ar de dignidade e verdade, impressionaram Van Dorn curiosamente:
"Como você se torna ousada, flor do campo! Você não pode se curvar para me recriar? Eu, também, viveria sem engano. Mas não lhe contarei essa história."
"Você está com medo", falou Hulda, sentindo que nada além deste homem e três milhas de estrada plana a separava da vingança de Patty Cannon, e que ela deveria se impor fortemente sobre ele.
"Ya, ya! Você não é dura? Lembre-se, você pode ser açoitada pela sua avó."
"Não, você me açoitara, ou me matará, se for para ser feito. Você não se atreve a me entregar a ela para punir."
"Não se atreve, novamente? Por quê?"
"Porque você é meu guardião. Entre nós há um instinto diferente do amor, mas forte; eu o sinto. Eu me inclino para você, mas não dependo de você. O que é isso?"
"O Dios!", balbuciou Van Dorn, seu rubor suspenso e seus olhos azuis quentes fascinados por ela. "Isso é uma criança ou um Eco?"
"Conte-me sobre o crime de meu pai. Quero que Levin saiba a coisa miserável pela qual ele tem afeição."
"Ayme! ah! Bem, ouçam, jovens amantes; e vejam que coisas horríveis caminham nestes pinheiros! Havia um homem chamado Brereton; chamam-no de Bruington aqui, onde seus narizes são torcidos e seus queixos fracos. Ele veio da velha Lewes, lá para o leste, perto do Cabo Henlopen, e de uma família robusta, na qual havia um grão de maldade sempre fumegando pelo sangue. Você às vezes o sente, Hulda?"
"Não, não maldade como aquela."
"Ele foi aprendiz de ferreiro e segurava o ferro enquanto o mestre batia. Um dia, um homem entrou na oficina, cujo cavalo havia perdido uma ferradura, para ser ferrado, e, quando pagou por isso, tirou um punhado de dinheiro do bolso, e uma peça--um dólar--caiu na fuligem macia da oficina, despercebida, exceto pelo menino: chis! ele a cobriu com o pé."
O chicote de Van Dorn cobriu firmemente uma mosca enorme na orelha do cavalo e a deixou morta.
"Quando o homem partiu, o menino levantou o pé e descobriu o dólar; seu mestre disse: 'Menino esperto!' Eles dividiram o dólar roubado."
"Jimmy Phoebus diz que o primeiro passo é metade da jornada", observou Levin.
"O garoto do ferreiro olhou com avareza para os viajantes dali em diante, que poderiam possuir um dólar. Ele assumiu a oficina vazia do primeiro marido de Patty Cannon, anos depois que aquele santo morreu, e trabalhou em correntes, grampos e correntes para prender os artigos de comércio sequestrados. Naturalmente, ele também sequestrava, e, enquanto ela ainda era criança, a filha de Patty tornou-se esposa de Brereton, concedida pela mãe afetuosa e apreciadora. Mestre Levin, se você cair no caminho dele, a filha de Brereton pode ser concedida a você. Hola! contemple-a em Hulda."
"Não consigo ver nada desse pecado em Hulda, Capitão; ela nem tem vergonha."
"Não", afirmou Hulda, olhando sinceramente para Van Dorn; "é verdade demais para me deixar envergonhada. Sinto como se a mão de Deus me cobrisse como o dólar de prata sob o pé de meu pai, porque ele me deixou sobreviver a tais pais."
Enquanto ela falava, ela pegou um dos xelins de prata de 1815 e cobriu-o com a mão, à vista de Van Dorn. Van Dorn continuou a falar rapidamente:
"Havia dois irmãos chamados Griffin de Cambridge, em Maryland; garotos mimados que se dedicaram ao comércio de carne humana, e roubavam homens e apostavam os lucros, e Brereton era o líder deles. Um dia, um viajante veio da Carolina, caçando escravos contrabandeados, e ele era do seu tipo fanfarrão, e deixou escapar a dica de que tinha quinze mil dólares em seu corpo para investir. Não mais tarde ele havia falado do que sentiu sua loucura, pelos olhos ardentes ao seu redor e bocas babando dizendo-lhe para dormir ali e escravos seriam trazidos; então ele partiu em pânico para Laurel, via Cannon's Ferry, pretendendo depositar seu dinheiro ou fazer com que eles negociassem com ele lá. A palavra foi passada a Brereton por sua esposa ou sogra, e por Brereton aos Griffin, para montar e interceptar o ouro. Alguns dizem", balbuciou Van Dorn, "que a Sra. Cannon, vestida com roupas de homem, comandou o bando."
Um interesse profundo e risonho, como o som de um riacho escondido, acompanhou o relato de Van Dorn, e ele estava corando como uma menina.
"Em Slabtown, um local indefinido a uma milha acima de Cannon's, o bando de marcha leve atravessou em um barco a remo; eles empilharam arbustos e dobraram mudas na estrada do viajante, onde ele deveria quase alcançar a crista da colina em seu buggy, e quando o mercador de carne parou no obstáculo, chis, hola! eles dispararam de ambos os lados, e enviaram estalactites ao seu coração. Ele sacou uma pistola, mas com uma mão moribunda. 'Away!', gritaram os assassinos; 'ele não está morto.' Seu cavalo, assustado com o fogo de armas nas sombras da noite, saltou as barreiras de arbustos e galopou para Laurel, e entregou lá uma efígie de rosto cinzento, por cuja barba o corante vermelho de sua vida gotejava audivelmente, enquanto ele se sentava rígido na morte no buggy. Seu nome foi apenas adivinhado; quão feliz ele por isso!"
"E qual foi o destino dos assassinos?", perguntou Hulda, com menos horror do que Levin demonstrava.
"Três deles foram presos; um dos Griffin expôs seu irmão e o Capitão Brereton; esses dois morreram na forca em Georgetown, o jovem Brereton esforçando-se sob o laço para evitar que seu companheiro imprudente dissesse muito sobre a inigualável Patty Cannon e suas belas irmãs, e pensando em seus interesses mais do que nesta criança viva. Ha! Hulda Brereton?"
"O outro Griffin também sofreu a morte?", sugeriu Hulda, com um semblante pálido e não evasivo.
"Sim, sua querida vovó, então em seus encantos flamejantes, atraiu-o para seu bando novamente com a isca da mão da viúva Brereton; ele matou um oficial de justiça para se recomendar melhor, e morreu na forca em sua Cambridge natal. Hala hala! ela deu sua mãe, a flor do campo Hulda, para Joe Johnson em seguida como esposa."
"É uma história horrível", disse Levin, "mas Hulda nunca a viu."
"Eu me lembro de meu pai", disse Hulda; "um homem grande e forte, com um rosto lento e pesado, mas ele nunca sorriu para mim."
"Bem, aqui está o cruzamento", disse Van Dorn. "O que devo fazer com esta carta, má flor do campo?"
"Leia-a, se quiser, ou pegue este xelim inglês e envie-a pelo correio."
Van Dorn recuou, rejeitando o dinheiro.
"Você não vai comprá-la de volta, Hulda", ele sussurrou, "com amor?"
"Nunca."
"Você pode pagar por esta carta esta noite com sua vida ou modéstia!"
"Você não se atreve a me matar", disse Hulda.
"Você verá", disse Van Dorn.
CAPÍTULO XXVIII.
PACIFICAÇÃO.
Princess Anne sentira falta por vários dias de alguns cidadãos proeminentes, como Daniel Custis e esposa, Capitão Phoebus, Levin Dennis e o negro livre Samson--grandes componentes de uma pequena cidade; mas também ganhara o que todos admitiam ser a mulher mais bonita do local, exceto a Sra. Vesta Milburn--a sobrinha de olhos castanhos, alta e travessa de Meshach Milburn, a quem Vesta fizera uma dama nas aparências, corrigira alguns de seus defeitos, como a fungação, e estava diariamente ensinando-lhe os mistérios da gramática e da oratória, auxiliada pelo reitor da paróquia, cujo coração foi despertado para uma animação parcial novamente pela jovem visitante.
Lealmente, William Tilghman pressionara sua amizade sobre o marido semi-social de Vesta, determinado a gostar dele, e encontrando pouca resistência ali, e, felizmente, nenhuma suspeita; e isso foi tão grato a Vesta que ela alimentou a esperança de que seu primo e antigo amante encontrasse compensação por sua perda em Rhoda Holland.
O amor surgiu facilmente como um tópico de conversa onde Rhoda, com sua preferência não convencional por esse assunto, o introduzia.
"Sr. William"--ela chegara tão longe em direção ao inevitável "William"--disse Rhoda, certa noite em Teackle Hall, enquanto sentavam na biblioteca, "os pregadores amam só como outras pessoas? A Misc Somers diz que eles são uns dissimulados terríveis. Ela diz que havia um pregador aqui em Girdle Tree Hill que pregava que o 'Meal-an-the-Yum' ia acontecer logo."
"Milênio", sugeriu Tilghman.
"Talvez. Misc Somers chama de 'o Meal-an-the-Yum', eu pensei. De qualquer forma, eles iam todos subir, logo, e ele com eles. Senhor do céu! eles tinham babados colocados em suas camisolas para subir. E na noite anterior a eles subirem, aquele patife fugiu com uma viúva e sua filha, abandonou a viúva e casou-se com a filha; e eles não puderam subir em Girdle Tree Hill porque o pregador não estava lá, e eles não sabiam quando."
"E suponho que a Sra. Somers conte isso sobre ele?", acrescentou William Tilghman.
"Isso ela faz. Agora, você já esteve apaixonado, Sr. William?"
"Tenho pensado, Rhoda, que quando você for uma boa aluna, e a avó e você passarem a gostar uma da outra, como acredito que acontecerá, eu poderia me apaixonar por você."
"Senhor do céu! Eu amada por um pregador? Será que eu nunca poderia ficar em casa em vez de ir à pregação? Mas então, ouvir seu próprio velho latindo para as outras garotas, acho que seria muito bom!"
O assunto tinha agora chegado a tal ponto que, em poucos dias, para a leve indignação da avó Tilghman, Rhoda chamava o reitor de "William", e ele respondia: "Querida Rhoda".
A tripla viúva, no entanto, tinha um caminho para sua consideração, pelo qual a astuta Rhoda se desviava assim que via o portão entreaberto.
"Misc Tilghman", disse ela um dia, "tenho olhado para você. Acho que você foi uma verdadeira beleza. Se você não fosse um pouco estranha, ninguém veria que você é uma velha agora."
"Eu fui uma bela", falou a cega senhora, enfaticamente. "O general John Eager Howard disse que preferia conversar comigo do que ouvir um discurso de Fisher Ames. Charles Carroll, de Carrollton, pediu-me em casamento quando eu já tinha idade para ser sua avó, e depois que Susan Decatur, a viúva do comodoro, tentara em vão obter uma proposta dele. Disse eu: 'Carroll, isso é outra Declaração de Independência? Não', disse eu, 'Carroll, não reduzirei o último signatário, talvez, à obediência de uma esposa que está ficando cega. Isso seria uma escravidão pior do que a de George III!' Ele disse que eu era uma viúva espartana."
"Toda viúva que eu já vi era uma viúva namoradeira", concluiu Rhoda ingenuamente, ao que a Sra. Tilghman teve que se juntar à risada, e não houve sentimento ruim.
Jack Wonnell agora ocupava o cargo temporário de cozinheiro e cortador de lenha em Teackle Hall, e Roxy o via todos os dias, costurava suas roupas esfarrapadas, colocava os germes do autorrespeito nele, e fazia Vesta dizer ao marido, enquanto estavam sentados no salão de seu armazém certa tarde, no intervalo de seu calafrio e suor:
"Tais mudanças rápidas ocorreram aqui, Sr. Milburn, que perturbaram meu julgamento, e agora mal sei se meu preconceito mais antigo está assegurado, ao ver aquele homem branco como o feliz servo doméstico da minha pura escrava. Ela parece não ter maior afeição do que piedade e interesse por ele, enquanto ele é tornado mais homem por sua devoção não disfarçada a ela. Nenhum homem poderia trabalhar melhor do que ele faz agora."
"O amor é tão grande, tão oculto", disse o marido, seus olhos castanhos examinando o rosto da esposa, "que suas combinações têm séculos de duração antes que vençam todo preconceito, e provem, apesar do pecado e da dispersão, que de um só sangue são feitas todas as nações."[4]
CAPÍTULO XXIX.
INÍCIO DA BATIDA.
A batida em Delaware estava toda organizada quando Levin e Hulda foram levados à taverna de Johnson, e a chegada de Van Dorn provocou aplausos e gritos, enquanto aquele digno corado jogava sua figura esbelta e atlética para fora da carroça e se curvava para Joe Johnson, na varanda da taverna:
"O hala hala! você vai, genro?"
"Eu irei com vocês, Capitão, uma parte do caminho de Maryland, mas de jeito nenhum para Delaware! Não irei mais lá. Ficarei com você, no entanto, pelos ganhos que lhe dou e pelo meu esconderijo."
"Quedito!", balbuciou Van Dorn; "nós nunca deixamos seus interesses de fora, genro. Como está Tia Patty?"
"Ela fez um ponche para a população, e pede ao jovem Levin ali para beber com ela."
"Levarei o meu comigo", gritou Levin, "e beberei no frio da noite."
"Não", ordenou a voz de Patty Cannon; "está esperando por você, filho: uma boa tigela forte de maçã e açúcar. Daquele que perde suas bebidas aqui nós não fazemos conta."
Enquanto Van Dorn e Levin empurravam através da multidão heterogênea na pequena varanda para dentro do bar, onde a Sra. Cannon administrava, ela colocou diante deles duas tigelas ardentes, e gritou:
"Venha aqui, Coronel McLane, e junte-se ao meu ponche e ao meu jovem primo Levin."
"Não, Patty", respondeu uma voz da sala ao lado; "eu bebi minha parte. Não há nada como um curso conservador."
Enquanto Patty colocava a cabeça nesta sala interna, Levin Dennis, vendo uma janela aberta ao seu lado, jogou todo o seu licor por cima do ombro no quintal e estalou os lábios calorosamente, dizendo,
"Bom!"
"Ha!", exclamou Van Dorn, evidentemente notando o engano de Levin; "pessoas espertas estão ao nosso redor, Patty. Cuidado!"
Ele tirou do bolso a fatídica carta e olhou para seu endosso, e, ao fazer isso, Levin ouviu uma exclamação no quintal de um homem que havia recebido todo o conhaque de maçã e açúcar em seu rosto, e estava furioso; mas assim que pareceu reconhecer quem o jogara, murmurou, desculpando-se:
"Hokey-pokey! Pelas fumaças! e Pangymonum também!"
Quando Levin olhou para Van Dorn novamente, o rubor estava em seu rosto, mas a carta havia desaparecido.
"Cuidado com o curso conservador, Coronel", balbuciou Van Dorn, "exceto quando a generosa Patty faz o ponche; pois ela mantém tal medida dele que não vê nossas fraquezas."
"Querido", gritou Patty Cannon para Levin, dando-lhe um abraço afetuoso, "você engoliu seu licor tão esperto assim? Ora, eu adoro ver um garoto legal beber."
"Mas nada mais para ele agora, cajela", protestou o Capitão; "dois desses o farão cair do cavalo. Bebamos, Patty! _Esta excelente!_"--bebendo.
"Como o Capitão diz essas coisas de forma bonita", a senhora gritou para o cavalheiro dentro. "Talvez ele esteja zombando de sua velha namorada. Oh, Van Dorn, se eu pensasse que você poderia me esquecer, eu o mataria!"
Levin notou o temperamento rápido e o rosto demoníaco desta dama não pouco atraente enquanto ela falava, sua natureza inteira mudando de rumo como um morcego voando, e da plausibilidade para um ciúme instantâneo, e depois para uma maré escura de fúria terrível, levou apenas um pensamento.
"Que disparate! hala o he!", Van Dorn balbuciou, docemente, dando um tapinha no queixo da anfitriã; "mas eu adoro ver-te assim, tu, encantadora da minha vida. Nunca te deixarei, Patty, enquanto puderes sofrer."
Suas nuvens escuras passaram lentamente enquanto Levin se afastava do lugar, mas sua pequena cabeça e abundante cabelo cor de corvo mostravam o sangue perturbado até as raízes, e os olhos, outrora ricos com profundidades da meia-noite, agora envidraçados com o passar do tempo, como velhas vidraças, pela idade, examinavam o rosto do bandido com um medo estranho:
"Van Dorn, o tempo e o prazer não podem matá-lo: quão bem você parece hoje. Acho que você é um menino, para ser arruinado novamente toda vez que me ama, você cora tão modestamente. Onde está aquele pote de cor com o qual você pinta suas bochechas até mesmo diante de mim, cujos rubores ninguém consegue recordar? Por que você me ama?"
"Ó, Deus!", disse Van Dorn; "eu te amo por esses feitiços de esplendor, noite sombria e paixão do meio-dia, as alternâncias da terra e do inferno que eclipsam o céu por completo. Amo ver-te temer, embora não temendo nada aqui, porque não vejo nada que temas além do túmulo. Tu odeias este rapaz?"
"Eu o odeio mais do que rugas. Que ele não venha a mim como uma criança amanhã; que ele veja fantasmas enquanto viver."
"Como estão os prisioneiros, Patty?"
"Ora, o criado branco, pombinho, está doente hoje; a perda de sangue e as bolhas lhe deram febre. Meu negro, que eu amarrei -- ha! ha! um bom trabalho para Patty Cannon, na sua idade! -- diz que o outro é um pobre marinheiro de cabotagem chamado Jimmy Phoebus."
"Joe deve estar pronto para uma partida rápida", exclamou o Capitão, "quando voltarmos de Dover: é um empreendimento audacioso, e todo o pequeno estado será despertado como uma cobra preta desenrolando-se no bolso de alguém."
A mulher apontou do seu ombro em direção ao quarto interior, e falou ainda mais baixo do que antes:
"Van Dorn, tenho um cliente."
"Para negros?"
"Não, para Huldy. Ele a terá."
* * * * *
Enquanto Levin Dennis estava na encruzilhada lá fora, viu um homem estranho arando na fazenda tão recentemente abandonada por sua anfitriã para a encruzilhada mais alegre. A luz da tarde caía sobre os campos arenosos e arrancava um brilho da relha do arado, e, enquanto o lavrador passava novamente pelo local cheio de silvas, os urubus circulavam lentamente, como se protestassem que ele chegava perto demais dos seus filhotes.
O criado longo e magro, que havia servido à mesa do café da manhã, saiu até Levin e observou seus olhos.
"Arando, arando", disse ele. "Levin, eu posso te mostrar como arar: eu não consigo fazer isso, mas você é o homem."
"Cyrus, Huldy não te odeia. Ela diz que você é o mais próximo de um amigo que ela tem."
"Oh, eu a amo como cana-de-açúcar", disse o criado magro de cabeça redonda. "Diga a ela que vou ser um grande homem. Vou estragar o jogo. Eles me batem, mas Cy Jeems tem coragem, Levin."
"Cyrus, conte a Huldy tudo o que está acontecendo contra ela. Nós não sabemos de nada. Você pode ir e vir e ninguém te vigia. Huldy ficará grata por isso."
Colocando seus braços longos sobre os joelhos e curvando-se, o ajudante de cozinha encarou de perto os olhos de Levin e sussurrou, olhando em direção ao campo:
"Arando! arando!"
Então, virando-se parcialmente e observando a velha taverna com um olhar de sabedoria, Cy James sussurrou novamente:
"Hokey-pokey! Pelos fumos! e Pangymonum também!"
"Eu acho que ele é louco", pensou Levin, enquanto o sujeito estranho se virava e fugia.
Eram cerca de três horas quando a cavalhada foi revista pelo Capitão Van Dorn da varanda do hotel, e consistia em cerca de vinte pessoas, brancas e negras; algumas montadas em mulas, outras em cavalos, e havia uma carroça na fila -- a mesma que tinha sido conduzida para Cannon's Ferry -- destinada a Levin, Joe Johnson e o Capitão. Van Dorn estava ali, corando, puxando seu longo bigode cor de linho e apoiando-se em seu chicote de couro cru.
"Dave", chamou ele para um negro poderoso, "desça dessa mula; você está bêbado demais para ir. Pule no lugar dele, Owen Daw!"
O filho da viúva saltou alegremente sobre o animal.
"Sorden", continuou Van Dorn, "você conhece todas as estradas: lidere o caminho! Whitecar, vá com ele! Nós nos reuniremos em Punch Hall às oito horas. A ordem de marcha é em pares, com um quarto a meia milha de distância. Se algum homem agir em qualquer coisa sem ordens, ou gritar na estrada, ele pode receber esta chicotada ou pode receber minha faca."
"Capitão, onde nos alimentamos?" perguntou um mulato pequeno e ágil.
"Bebam água em Federalsburg", respondeu Van Dorn; "alimentem-se em Punch Hall."
Eles partiram em pares em intervalos de dez minutos; o veículo de Van Dorn foi por último. Um momento antes de partir, Cy James tocou a manga do Capitão e sussurrou: "Huldy". Virando-se para ver se não era observado, Van Dorn seguiu até a chaminé de arco profundo no frontão norte e dispensou seu guia com um olhar.
"Capitão Van Dorn", disse Hulda, com seus grandes olhos cinzentos tensos de ternura e coragem nervosa, "não faça mal a esse rapaz Levin: eu o amo! Que Deus perdoe todos os seus pecados, tantos quantos sejam, se você desobedecer às ordens cruéis da vovó sobre o meu querido!"
"Ha! flor selvagem, você tem escutado?"
"Não, eu apenas observei: conheço as maneiras carinhosas da tia Patty quando ela pretende arruinar, e vigio seus lampejos negros de astúcia entre elas: ela não é prima de Levin; ele é o gentil prisioneiro de Joe; o próprio nome dele ela o fez esconder quando viu você chegar esta manhã."
"Creo que si: Hulda, deixe-me beijá-la!"
"Sim, se você se atrever."
Ela deu a ele aquele olhar puro, impulsionado pela alma, de criança forte novamente, exercendo toda a influência que ela sempre sentiu exercer sobre ele.
No entanto, ele a beijou pela primeira vez:
"Hoje, bonito, eu me atrevo a beijar-te. Acredita em mim, meu beijo é terno."
"Sim, senhor. Há algo como um pai nele. Oh, meu pai, estás no céu?"
"Se existe tal lugar, flor selvagem, penso que ele está lá."
"Oh, obrigada, Capitão Van Dorn. Possa você também estar lá e encontrar a fé que sinto no meu único dia de amor na terra. Rezo por você todos os dias."
"Ayme, pobre fraca! Reze agora por ti mesma: se puderes salvar-te sem pecado por um dia ou dois, pode ser bom para ti e para Levin. Tua avó está terrível em suas alegrias esta noite."
"Eu posso morrer", disse Hulda, "se Levin for salvo."
Ele a beijou novamente, e algo molhado caiu sobre suas bochechas coradas.
"Amor eterno!" ele suspirou; "eu o perdi."
CAPÍTULO XXX.
ÁFRICA.
O Capitão assumiu o seu lugar nas rédeas, sua jaqueta de veludo pitoresca, chapéu largo, cabelo brilhante e camisa alegre, polainas, cinto e botas, merecendo todos os elogios de Patty Cannon enquanto fazia um adeus polido e lançava seu chicote como um raio, e um brado surgiu dos voluntários descartados que vagueavam pela taverna enquanto ele levava Joe Johnson e Levin embora.
A estrada era quase perfeitamente nivelada por cinco milhas, mas, sendo a antiga estrada percorrida de Laurel e do sul para Easton, e apontando em direção a Baltimore, numerosas fazendas e clareiras eram vistas, e campos de tabaco alternavam com o milho seco e os retalhos de trigo recém-arado. Aqui e ali, como uma medida de ouro derramada sobre o solo, as espigas amarelas jaziam nas fileiras de milho esguias, para se tornarem a farinha moída do escravo e a substância de inverno do gado. A popularidade de Joe Johnson era evidente em toda parte, e muitos gritos foram ouvidos: "Boa sorte para você, Joe!" "Traga um negro de volta de Delaway para nós, Joe!" "Não seja muito duro com aqueles galos pretos da Blue Hen, Joe!"
Van Dorn estava longe demais da compreensão de seus vizinhos, ou, na verdade, de qualquer pessoa, para ser tratado com familiaridade, mas "o homem de Patty Cannon" era o termo de inferioridade ferida para ele depois que ele passava.
Em Federalsburg, eles cruzaram o braço do Nanticoke que perfura o centro do estado de Delaware, e viram uma grande casa de tijolos de aparência colonial dominando o pequeno vilarejo de madeira, e aqui, como geralmente dentro da linha de Maryland, caçar negros era a "brincadeira" ou a ocupação séria de muitos sujeitos ociosos ou empreendedores, que treinavam seus batedores negros como um cão de parar, ou mais frequentemente como um spaniel, e cruzavam a linha em noites designadas tão ardorosa e cautelosamente quanto o comerciante branco na África segue as trilhas do interior em busca de presas humanas.
"Joe", disse Van Dorn, "qual será a sua disposição dos prisioneiros que temos?"
"Todos vão comigo para Norfolk, menos um — o boxeador negro; eu o queimo vivo na ilha de Twiford. Se o sujeito branco for difícil demais de vender, eu o jogarei ao mar; ele não é seguro."
"Ea! sus! é coisa de menino queimar o velho rapaz. Eu já levei muitas pancadas de um negro, e facada também. Um cachorro te morde se você o laçar."
"Nenhum negro pode me derrubar e se safar da venda."
"Então você é um mau comerciante. O preço do negro é tudo o que o negro é; por que torná-lo seu igual odiando-o?"
"Eu sou um rapaz de Delaware", disse Joe Johnson, "e é meu orgulho não dar chance a nenhum negro. Em Maryland vocês os mimam, como o velho Coronel Ned Lloyd ali no Wye; ele deu ao seu cocheiro negro um relógio e corrente de ouro porque ele é seu filho! Que tolo! Algum dia ele vai criar um negro que estará fazendo discursos políticos, e aí eu não quero viver mais."
"Chito! Desde que o advogado de Delaware o enviou para o pelourinho, genro, você está carrancudo. Eu tive que comer com príncipes negros, dançar com suas rainhas e ser cerimonioso como se tivessem sido anjos."
"Seria o reino da Rainha Dick para mim! Eu não poderia fazer isso, de jeito nenhum."
"E, a propósito, Joseph, talvez eu veja seu amigo, o advogado Clayton, em Dover, esta noite: ele pode me enviar para o pelourinho também; e temo que nenhum governador de Delaware remova o corte das minhas orelhas, como foi feito com você em patriotismo estadual."
"Cuidado com aquele diabinho de Tolobon!" murmurou Joe Johnson. "Como eu queria que você pudesse matá-lo, Van Dorn. Ele está prestes a ser senador; algum dia ele será juiz-chefe de Delaware: então, quanto valerão os negros lá?"
"Imagino, Joseph, que você poderia ser um legislador em Delaware se suas inclinações fossem nessa direção?"
"Fácil o suficiente, mas eu faço legisladores. Minha esposa, Margaretta — a irmã do primeiro marido dela é esposa do chanceler."
"Hola! oh! Como veio essa grande aliança?"
"Ela era governanta; ele era um velho solteirão fechado e precisou quebrar uma perna. 'Bem', ela diz, 'você é um papai; a justiça é o seu negócio, e eu preciso tê-la'. Então, de ser sua favorita, ela se torna a madame; mas ela inventou o filho."
"Eu nunca estive em Dover; como saberei onde o advogado Clayton mora?"
"É na praça no meio da cidade, perto da casa do governo — uma casa longa e rústica na esquina, de três andares, com duas portas; a porta próxima à casa do governo é o seu escritório. Passe pela casa do governo, que tem uma cúpula, e você verá o barril e o pelourinho. Ele os mantém à mão para você."
Levin ouviu com todas as suas atenções. O licor já estava bem fora do seu sistema, e ele agradeceu a Deus por ter recusado o drinque ardente de Patty Cannon, caso contrário poderia ser nesta noite — ele pensou nisso com remorso — o companheiro imprudente de Owen Daw, cuja própria mãe havia previsto a forca para ele.
"E agora, Van Dorn, eu volto", disse Joe Johnson; "tenho um trabalho a fazer na Península. McLane tornou-se dono de uma garota lá, e quer que ela seja contrabandeada. Levo o negro Dave comigo, e quando eu voltar, meu barco estará pronto e minha carga embalada. Então, viva a Flórida!"
Ele soltou seu cavalo na traseira da carroça, montou-o e voltou pelo riacho. Van Dorn tocou seus cavalos e entrou na floresta densa em um caminho secundário para o norte.
"Suba aqui, Mestre Levin, e ande comigo", disse o Capitão, pouco tempo depois, e ele levantou o velho chapéu de Levin de sua cabeça e olhou para seu cabelo brilhante repartido ao meio, seus olhos finos e grandes, precisando da luz do conhecimento, e sua tez macia e marcas de boa origem.
"Onde está teu pai, Levin, para te deixar andar tão esfarrapado, com membros e pés tão graciosos como estes?"
"Naufragado", disse Levin; "afundou, suspeito, no corsário."
"Um marinheiro, ele era? Bem, ele deveria estar em casa para te vestir e ver que você não trapaceia. Notei como o ponche da Madame Cannon foi jogado pela janela."
"Pensei que o senhor não iria querer que eu ficasse bêbado ao seu lado a noite toda, e assim eu poderia aproveitar a sua companhia. Não quero beber mais nenhum licor."
"Você gosta da minha companhia?"
"Sim, senhor."
O Capitão corou e perguntou:
"Por que você gosta de mim?"
"Não por nada que o senhor faça, senhor. Gosto do senhor por algo nas suas maneiras; acho que o senhor é um homem inteligente."
"Si, señor, isso eu sou. Ganhei o mundo inteiro e perdi dois."
"Dois mundos, senhor?"
"Sim, dois mundos imortais; isto é, dois mundos inexplicáveis. Eu não sou cristão."
"Talvez o senhor seja chinês ou maometano, então, senhor; suspeito que todo mundo tenha uma religião."
"Eu fui maometano para fins comerciais", disse Van Dorn. "Tendo me tornado um escravagista, não era nada ser um renegado. Roubando a alma de um homem todos os dias, não dei valor à minha. Sim, Maomé é o profeta de Deus: você também é."
"O senhor esteve na África, suspeito", sugeriu Levin.
"Poucos anos apenas, mas tempo suficiente para ser rico e ser arruinado. Conheço a costa africana da Gâmbia ao Cabo Palmas, e para o interior até Timbo. Tive uma rainha africana e a febre africana: fui para conquistar a África e tornei-me um escravo."
"Na África, suspeito, Capitão", observou Levin, sem inferência, "um comerciante de negros é respeitável."
Van Dorn balançou a cabeça.
"Duvido que esse comércio seja respeitável em qualquer lugar deste globo, a menos que seja aqui. Não, direi para essas pessoas também que, embora façam isso com uma homenagem de lábios, elas o desprezam. Eu já fui o maior convidado em Timbo, hospedado com seu príncipe absoluto, atendido pelo meu séquito, parecendo um embaixador, e ele me chamava de 'seu filho' e me puxava para o peito. Proclamações foram feitas de que eu deveria ser respeitado como tal, ainda assim todo objeto humano fugia diante de mim. Enquanto eu cavalgava sozinho para ver os jardins e os campos de mandioca, as cabras e bois errantes, e as ricas paisagens montanhosas, e via as garotas de olhos amendoados banhando-se nos riachos, o grito corria: 'O comprador de carne está chegando', e as cabanas eram abandonadas, os campos esquecidos, os patriarcas grisalhos e as crianças pequenas corriam, e eu ficava sozinho com os animais mudos, desprezado, abominado."
"Eles não têm escravidão lá, senhor?"
"Sim, escravidão imemorial, ainda assim o comprador de escravos não é mais respeitável do que o proxeneta. A moeda da África, seu único meio, era o escravo. Ele pagava a dívida da guerra, do luxo e dos negócios. No entanto, a alma do homem, no estudo familiar de tal escravidão universal, rasteja com ela, e não aponta mais para o destino brilhante com a cabeça erguida: eu morri na África."
"O senhor não está no negócio agora, senhor?"
"Agora sou apenas um ladrão da floresta e homem do mato, Levin. Aquele que começa um comércio base levanta cedo para a sua plenitude, e na vida subsequente deve ser um lobo pobre rejeitado da matilha, roubando onde pode se esgueirar. Tal é o sequestrador prolongando os dias decadentes do escravagista; tal é o voluptuoso arruinado, vivendo finalmente dos ganhos de alguma mulher sem vergonha; tal sou eu: contemple-me!"
Os olhos de Van Dorn voltaram-se para Levin em sua luz fria e sem coração e, ainda assim, ele corou, como de costume.
"O senhor deveria ser um cavalheiro, Capitão. O que fez o senhor quebrar as leis assim e ser um homem mau?"
"Ayme! ayme!" refletiu Van Dorn, "devo te contar? Foi a África. Eu era um jovem de mente elevada, frio e ousado, e com um fio de prazer em mim. Fui para o mar em um comércio viril e, sendo a sorte lenta, sussurraram-me, nas Índias Ocidentais, que meu clipper era exatamente a coisa para o comércio de escravos, e fiz o primeiro empreendimento fora da virtude, que é toda a viagem. Na África, tornei-me presa da vida voluptuosa que um homem branco leva lá, à qual os próprios missionários nem sempre são exceções. Jovem, pálido, gentil, gracioso, corajoso, meus rubores instantâneos como minhas paixões, a intriga incessante daquele clima quente circulava ao meu redor como uma dança no harém ao redor do jovem intruso: esqueci minha terra natal e cada obrigação nela; fui escravizado pela África às suas alegrias desmaiadas; fui lá como a serpente e fui picado pela mulher."
"Eles não são todos bem pretos e feios na África, Capitão?"
"O mundo não tem iguais à Senegâmbia em beleza", disse Van Dorn. "As belezas Fullah são frequentemente quase brancas, e a mistura negra não é mais do que verniz na árvore de bordo. E mesmo aqui, meu rapaz, onde a civilização constrói uma parede de fogo social ao redor do escravo, você frequentemente nota a idolatria da cabeça branca à África cativa."
"O senhor ganhou dinheiro?"
"Por alguns anos ganhei, muito; mas a degradação em meio ao prazer pesava no meu espírito. A coisa chamada honra havia voado de sobre mim como a pomba celestial, e em seu lugar cem pássaros pintados reuniam-se alegremente, as criaturas deslumbrantes daquele mundo impensado. Oh, que eu pudesse ter nascido lá ou nunca tê-la visto! Finalmente comecei a voltar para casa, mas o mundo havia adotado um novo mandamento: 'Não negociarás com o homem'. Tomaram meu navio e toda a sua carga negra, e eu voltei para casa nu. Então meu coração se partiu, e tornei-me sequestrador."
"O lar é o melhor lugar", disse Levin; "suspeito que é, mesmo se as pessoas forem pobres. Quando Jimmy Phoebus me deu um barco, pensei que era rico como um judeu."
"Qual é esse nome?" perguntou Van Dorn.
"James Phoebus: ele é o namorado da mamãe."
"Ce ce ce!" refletiu o Capitão; "sua mãe vive, então?"
"Sim, senhor. Ela é pobre, mas Jimmy a ama, e o fantasma do papai a alimenta."
"Quedo! um fantasma? que tipo de coisa é essa? Tia Patty os vê: eu nunca vejo."
"Ele vem e coloca açúcar e café na janela, e às vezes um par de sapatos e um vestido. A mamãe diz que é o papai: eu acho que é."
"Ó Deus!" sussurrou Van Dorn. "Esse Phoebus, ele é um bom homem?"
"Corajoso como um leão, senhor; pobre como qualquer capitão de chata; o melhor amigo que já tive. Eu esperava que a mamãe se casasse com ele, ele tem esperado por ela há tanto tempo. Ela tem medo de que o papai não esteja morto."
"O hala, hala! as mulheres são tão esperadoras; mas este homem pode esperar também. Ele é forte?"
"Ele chegou muito perto de dar uma surra em Joe Johnson no domingo passado, senhor, em Princess Anne. Ele odeia um comerciante de negros. Ele e Samson Hat, um sujeito preto, pensam um do outro como dois irmãos."
"E ele te deu um barco?"
"Sim, senhor: Joe Johnson o alugou de mim, mas eu não sabia que ele ia contrabandear negros. Ele pegou meu barco e arruinou meu crédito, eu suspeito, em Princess Anne, e o que a mamãe fará quando eu for para a cadeia?"
"Ora, este outro homem, Phoebus, está lá para casar com ela ou cuidar dela."
"Oh, Capitão", soluçou Levin, colocando suas mãos nos joelhos de Van Dorn, e apoiando sua cabeça órfã lá também, "o pobre Jimmy está morto: Joe Johnson atirou nele."
O Capitão não se moveu nem falou.
"Eu tenho sido um bêbado, Capitão", soluçou Levin novamente, na confiança de uma criança; "é aí que vem toda a nossa miséria. Não tenho nada além do meu barco, e as pessoas o alugam para caçar e pescar e farrear, e eles levam licor com eles, e eu bebo. Deus me ajude; nunca mais farei isso, antes morrer!"
"Você não tem medo de se apoiar em mim?" sussurrou Van Dorn.
"Não, senhor."
"Eu também matei pessoas."
"Que o Senhor o perdoe, senhor; eu sei que o senhor não me matará."
Um suspiro escapou dos lábios do bandido, em vez de seu suave sussurro habitual, e foi seguido por uma gota quente de água, como das folhas da floresta agora banhadas na noite, que respingou no pescoço de Levin.
"Ó Deus", disse uma voz suave, "posso eu não morrer?"
Então Levin sentiu as mesmas gotas quentes caírem muitas vezes sobre ele, e sua natureza abriu-se como as plantas para a chuva.
"Eu encontrei um amigo, Capitão", falou o rapaz, após vários minutos, mas sem olhar para cima; "eu sinto o senhor chorar."
"Chito! chito!" sussurrou Van Dorn; "aqui é Punch Hall."
Levin levantou a cabeça e não viu nada além de uma casa velha parada entre as árvores, com uma luz fraca saindo da porta, e ouviu a hilaridade baixa dos homens bebendo. Todo o bando saiu para receber as ordens de Van Dorn.
"Uma hora aqui para alimentar e descansar!" exclamou Van Dorn. "Que durmam aqueles que podem. Que qualquer um que se disperse ou faça tumulto que ouse!"
CAPÍTULO XXXI.
RUBOR DE PÊSSEGO.
O Juiz Custis, que deixamos saindo de Princess Anne na tarde de domingo, seguiu direto para o norte, atravessou a parte inferior de Delaware no início da noite e foi dormir em Laurel, em Broad Creek, algumas milhas ao sul de Cannon's Ferry.
Ao amanhecer, ele estava novamente a cavalo, mal sentindo a rigidez pelo esforço, e sentindo as alegrias crescentes de um estômago e um cérebro que se tornavam mais claros do que em anos, de todas as formas de álcool. Sua mente fora banhada no sono e na temperança, os dois grandes médicos, e enxugada, como os pés do Príncipe dos sofredores, com cabelos de mulheres. O exercício, natural a um virginiano, despertou novamente seu espírito fluído, e ele imaginou que o ar se tornava mais puro à medida que avançava para o norte, embora quase não houvesse mudança perceptível de elevação. O país tornou-se mais seco, contudo, à medida que ele contornava as cabeceiras do grande pântano de ciprestes — o contrapeso do Dismal Swamp da Virgínia —, afastava-se das águas de Chesapeake e aproximava-se dos afluentes do Atlântico. Às nove horas, ele entrou no aglomerado de edifícios do tribunal de Georgetown, um pequeno lugar de algumas centenas de pessoas, situado quase no centro do condado uma geração antes, ou cerca de dez anos após a independência do país.
Era um lugar nivelado de casas de tábuas de madeira, reunidas em torno de uma praça arenosa, na qual havia olmos e álamos italianos; e um tribunal de madeira de dois andares ficava no lado oposto, cercado por pequenas cabanas para os funcionários do condado, situadas aqui e ali, e na parte de trás havia uma cadeia de dois andares, com apartamentos familiares abaixo, e a janela da masmorra, a sala dos devedores e um quarto de dormir familiar acima; e perto da cadeia e do tribunal ficava o tronco de castigo, como uma bomba desmontada, com um estrado de pelourinho a alguns metros do chão.
Áceres jovens, amoreiras e tulipieiros, e ailantos cresciam bravamente para fazer sombra ao longo das duas ruas que cortavam a praça, e as quatro ruas que eram paralelas aos seus lados — vielas bonitas sendo inseridas entre elas, para onde corriam os jardins de terra fértil; e, quando o Juiz parou na taverna perto do tribunal, disseram-lhe que era o "dia da decisão", e que o lugar logo estaria cheio de eleitores reunidos para ouvir como "ela tinha ido" — ela, como o Juiz bem sabia, significando o Condado de Sussex, e "ido" indicando sua decisão expressa nas urnas.
"Ela foi para Adams e Clayton, não foi, Jonathan Torbert?", perguntou o estalajadeiro.
"Sim", falou um homem simples e com aparência religiosa, o caixa do banco; "Johnny Clayton manteve Sussex e Kent na linha para Adams; Jeems Bayard e os McLanes capturaram Newcastle: Clayton vai para o senado, Louis McLane para o gabinete, o país para os jacarés."
"Hurrah para Jackson!", respondeu o anfitrião; "ele me agrada desde que deu uma surra nos britânicos."
No café da manhã, o Juiz Custis reconheceu um cavalheiro à sua frente, vestindo culotes e com o cabelo preso em uma fila, que falou sem outra expressão que não uma bondade passiva:
"Juiz."
"Ah! Chanceler!"
O Chanceler tinha quase setenta anos, exibindo um olhar humilde, meditativo, porém gracioso, como alguém cujas relações com este mundo eram as de uma administração, e cujo traje quase obsoleto era a insígnia, não de orgulho mundano, mas de alegrias e contemporâneos perecidos. Seu semblante inalterado parecia dizer: "Eu o visto porque é inútil deixar o que ninguém mais usará, quando em breve não precisarei de nada além de uma mortalha."
O Juiz Custis observou o manso velho atentamente, sentado ao seu prato como um irmão leigo em algum mosteiro ou enfermaria, indiferente a conversas, notícias ou assuntos; e a lembrança do que ele fora — astuto, acumulador, com paixões juvenis retidas por muito tempo, e o homem exuberante sob a guarda do juiz — impressionou o virginiano a dizer para si mesmo:
"O que é, então, o homem! Finalmente, a velhice se afirma e dobra o templo de bronze de seu semblante, como Sansão, em um remorso quase piedoso. Ali estão vinte e cinco anos de administração de equidade; atrás dela, trinta anos de vida alegre e variada. Nenhum jornal jamais registrará isso, porque nenhum é impresso aqui; ele é indiferente a esse esquecimento e a todos os outros, porque as fontes da vida estão secas em seu corpo, e ele não desfruta mais."
"O senhor está viajando para o norte, Juiz Custis?", perguntou o velho, por educação.
"Sim, para Dover."
"Há um assento em minha carruagem; é muito bem-vindo a ele."
"Aceitarei uma parte do caminho, pelo menos, para sentir o privilégio de sua companhia, Chanceler."
O velho deu um lento meneio de cabeça para o lado.
"Tarde demais, tarde demais", disse ele, "para me lisonjear. Eu gostava disso uma vez. Também fui um lisonjeador."
O menino negro do Chanceler foi colocado no cavalo do Juiz, e os dois homens, em um veículo simples, feito no campo, leve e quadrado, contornaram a esquina do tribunal para o norte. Ao passarem pela porta, ouviram o xerife vender dois escravos a um comprador, gritando:
"Sua propriedade, senhor, até que tenham vinte e cinco anos de idade."
"Ha, ha!", riu, com uma grande risada de cavalo, um aldeão quase sem queixo; "diga até que a velha Patty Cannon possa pegá-los!"
O comprador deu um sorriso astuto e autoconvicente ao chanceler que passava, cujo olhar de resignação apenas se aprofundou e tornou-se mais humilde. O Juiz tinha alguma lembrança vaga que o levou a mudar de assunto.
"Nós nos vemos pouco, Chanceler, embora dividamos a mesma pequena herança de terra. Suponho que seu povo seja todo orgulhoso de Delaware."
"Sim", disse o velho; "sendo um aventureiro tão pequeno, um mero enjeitado no bando de estados, nosso povo tem o orgulho de sua independência. As leis são administradas, algumas fazendas a mais são abertas na floresta a cada ano, flores desabrocham, e velhos morrem e são enterrados em suas fazendas, e seus ossos respeitados por alguns anos. Nossa história é tão pastoral que devemos mostrar algum temperamento quando ela é atacada, ou poderíamos deixar transparecer nossa ignorância sobre ela."
Eles cavalgaram em silêncio por algumas horas através de um país mais antigo, mais assentado e mais aberto, com algumas grandes lagoas de moinho e uma classe melhor de benfeitorias agrícolas, e a sensação de alguma grande água próxima era misticamente sentida.
O Juiz seguiu os olhos do velho em um lugar, vendo que se elevavam com uma expressão de satisfação tranquila, como uma piedade envelhecida, e uma bela paisagem de pântano verde suave jazia sob seu olhar a partir de uma leve elevação que haviam alcançado, mostrando gado e ovelhas vagando por ele, bosques altos onde vacas e cavalos encontravam sombra ao meio-dia, e riachos sinuosos, carregando velas de barcos escondidos, como se estivessem em um cruzeiro mágico sobre a verdura de veludo. Palheiros e assentamentos agrícolas destacavam-se nos longos níveis, e pássaros que velejavam salpicavam o ar. Ao longe jazia algo como mais pântano, mas também como as nuvens.
"É a Baía de Delaware", disse o Chanceler.
Eles logo entraram em uma pequena cidade bem construída em um riacho navegável, com uma grande lagoa de moinho, serrarias, vários navios sendo construídos nos estaleiros, e um ar de vitalidade superior a tudo o que o Juiz Custis vira em Delaware. Aqui o Chanceler apontou a antiga casa do pai do Senador Clayton e, depois que os cavalos foram alimentados, eles continuaram ainda para o norte, passando por outra pequena cidade em um riacho perto dos pântanos e, um pouco além, chegaram a uma venerável igreja de tijolos, um pouco afastada da estrada, em um bosque de carvalhos e árvores da floresta.
"Aqui é a capela de Barrett", disse o Chanceler; "célebre pela conspiração da campanha entre os pregadores nativos e ingleses de Wesley para a conquista da América assim que a coroa a perdeu."
Eles olharam para cima, para o edifício de empenas largas, ao estilo Quaker, com sua porta larga e baixa, telhado alto, dois andares de janelas e uma janela mais alta na empena, fileiras organizadas de tijolos em arco sobre a porta e as janelas, e alvenaria em cinta; e ouviram as árvores altas acalmá-la para dormir como um bebê deixado aos seus cuidados. Com quase cinquenta pés quadrados e provavelmente cinquenta anos de idade, parecia que duraria mais cem anos.
"Minha família em Accomac foi dura com os metodistas devido a um conservadorismo equivocado", disse o Juiz Custis. "Eles são um bom povo; parecem se adaptar a esta península como o pessegueiro."
Um pequeno cortejo fúnebre estava entrando na capela de Barrett, e o Chanceler interrogou um dos seguidores mais indiferentes sobre a pessoa morta. Tendo mencionado o nome, o cidadão disse:
"Sua morte foi misteriosa. Ele era metodista e um bom homem, mas parece que a avareza estava corroendo seus princípios. Um menino escravo, prestes a tornar-se livre por lei, desapareceu de sua posse, e ele espalhou que o menino havia fugido. Mas, de repente, nosso vizinho começou a beber e a exibir dinheiro, e dizem que ele mandou sequestrar o menino. Ele morreu como alguém com um ataque de desespero."
Enquanto eles se voltavam novamente para o norte, na tarde amena, o Juiz Custis disse:
"Que estigma para ambos os lados, Chanceler, é esse sequestro!"
O velho olhou humildemente para baixo e não respondeu. O Juiz Custis, sentindo que havia alguma sensibilidade sobre este e assuntos correlatos, embora não conseguisse se lembrar do porquê, continuou, sob o impulso de seus sentimentos:
"Na noite antes de eu deixar Princess Anne, Joe Johnson, um dos seus piores sequestradores, veio ousadamente à minha casa pedir hospedagem. Por que deixei que ele ficasse lá é um motivo de espanto e desprezo para mim mesmo. Mas lá estava ele, talvez quando saí."
"Não é uma coisa prudente de se permitir", gemeu o velho.
"Eu sabia que sua esposa era a viúva de um condenado à forca, um Brereton — o nome é ianque. Ele foi enforcado por roubo na estrada."
Um som abafado escapou do sóbrio cavalheiro de Delaware.
"O senhor deveria se lembrar do assassinato, Chanceler. Aconteceu neste estado. Esse Brereton matou um comprador de escravos pelo que ele trazia consigo aqui para comprar os libertos sequestrados e os escravos aprendizes. Brereton era genro de Patty Cannon, aquela infame alcoviteira entre Delaware e o Sul."
O velho Chanceler olhou para cima.
"Desejo antecipá-lo", disse ele, "no que o senhor poderia dizer ainda com verdade, mas talvez não saiba completamente. O assassino, Brereton, era genro de Patty Cannon, é verdade; mas ele também era meu cunhado."
"Impossível!", disse o Juiz Custis.
"Sim, senhor; eu me casei com a irmã dele."
O velho Chanceler voltou a baixar os olhos para o chão.
"Grandes céus!", exclamou o Juiz; "quantas coisas curiosas pode haver em um estado tão pequeno!"
Foi no meio da tarde que o Juiz Daniel Custis cavalgou até uma pequena cidade em uma planície ondulada, em torno de dois lados da qual, a quase oitocentos metros de distância, corria um riacho através de um belo vale arborizado, e um terceiro lado era limitado por um braço do mesmo riacho, tudo serpenteando através de moitas, lírios-d'água, flores de lótus e pântanos até a Baía de Delaware.
No centro da cidade, na elevação ou crista de solo aluvial, de fundação de solo arenoso claro, uma praça pública oblonga, dividida por uma rua norte-sul, continha as principais habitações do local, uma das quais era o Capitólio do Estado de Delaware, um edifício de tijolos vermelhos, um pouco mais antigo que a Constituição Americana, com uma cúpula em forma de sino acima de seu centro, e de lá podia-se ver a Baía de Delaware.
Perto do edifício do estado ficava o tronco de castigo no canto, humilde como um poste de amarração, e a cadeia de tijolos escondida também ali, como um servo inapresentável sempre se encolhendo perto da companhia de seu mestre. Vários edifícios, geralmente antigos, cercavam esta praça primorosa e estilo Quaker, alguns de tijolos e com portais baixos, outros elegantes e remodelados para se adequar aos tempos; alguns eram meros escritórios de madeira ou cabanas, com longas águas-furtadas caindo da cumeeira do telhado quase até os beirais, como uma pena suja caindo de uma coroa de chapéu, com uma joia na ponta; e um era um antigo hotel de telhado íngreme, pintado de amarelo, com um lado comprido e relaxante.
Nos cantos diagonais desta praça, tão distantes quanto seu espaço permitia, duas veneráveis casas de médicos ainda permaneciam, as quais haviam dado mais fama à pequena capital de Delaware do que seus juristas ou estadistas — a antiga residência de Sykes, o cirurgião, e Miller, o patologista e escritor.
Foi na primeira dessas casas, uma casa alta de tijolos rebocados, de frente lateral e muitas janelas, com escritório lateral e porta central, que o Juiz Custis parou e amarrou seu cavalo a um suporte perto do edifício do estado adjacente. O som de pássaros piando vinha dos grandes olmos, salgueiros e áceres na praça, e Custis podia ver os tordos correndo na grama.
Da porta do escritório lateral de dois andares, o som de um violino vinha ternamente, e o Juiz esperou até que a música terminasse, quando exclamações altas de prazer, palmas e batidas de pés mostraram que o violinista não estava sozinho.
Apresentando-se à porta, o Juiz Custis foi imediatamente confrontado por um homem grande e alto, com mais de um metro e oitenta de altura, com um semblante forte e cabelos ruivos, que carregava o violino e o arco na mão, e com a outra mão segurou o Juiz Custis quase afetuosamente e o puxou para dentro, gritando:
"Ora, como está meu velho amigo? Goy! como ele passa? Quem poderia esperar o senhor nesta ocasião simples? Sente-se ali e tome minha própria cadeira! Não aquela pequena — não, a poltrona grande para meu velho amigo! Goy!"
Enquanto o Juiz Custis lançava seu olhar ao redor, para notar a companhia, o anfitrião demonstrativo, com um brilho em seus olhos cinza-azulados, sussurrou:
"Quem é ele? quem é ele?"
"Um Custis", sussurrou uma pessoa mal beneficiada por seus tragos; "Eu suponho que seja, pelos lábios e pela pele."
"Goy!", falou rapidamente o violinista. "Amigo Custis — eu sei que meu coração não me engana! — deixe-me apresentá-lo à própria essência da grande e pequena Delaware: aqui está Bob Frame, o espírito ardente da nossa advocacia; este é James Bayard, nosso injustiçado favorito democrata; aqui está Charley Marim e o Secretário Harrington, e meu estimado amigo Senador Ridgely, e meu primo, o Chefe de Justiça Clayton. Estamos todos aqui, e todos honrados por um convidado tão raro. Goy!"
Enquanto o Juiz passava pelo processo de aperto de mãos, o anfitrião alto e bem alimentado inclinou-se novamente para a pessoa convivial e, com a mão ao lado da boca e um ar de astúcia solene, sussurrou:
"De onde?"
"Accomac, ou Somerset, eu presumo", murmurou o outro.
"Agora", exclamou o anfitrião, pegando ambas as mãos do Juiz Custis, "como passam todos os nossos queridos amigos em Somerset e Accomac? Onde o senhor chama de lar agora, Amigo Custis? Como estão nossos velhos amigos Spence e Upshur, e Polk e Franklin e Harry Wise? Goy! como amo nossos vizinhos do sul."
Havia uma força de articulação e ênfase física no orador que o Juiz notou imediatamente, e era acompanhada por um brilho nos olhos e uma fina fortaleza das grandes mandíbulas que o tornavam quase magnético.
"E este é John M. Clayton?", disse o Juiz. "Não estamos tão longe que não tenhamos ouvido falar plenamente do senhor. E agora, já que pertenço a uma família numerosa, deixe-me identificar-me, Clayton, como Daniel Custis, ex-Juiz na Costa Leste."
"Juiz Custis! Daniel Custis! Amigos", olhando ao redor, "que honra! Pensem nisso! O eminente fabricante americano! O criador de nossas indústrias! O amigo do Sr. Clay e da política interna! Bayard, não precisa balançar a cabeça! Ridgely, perdoe meu entusiasmo patriótico! Olhem para *um homem*, meus amigos, finalmente! Goy!"
Enquanto o Juiz ouvia várias afirmações de boas-vindas, o Sr. Clayton, com um olho piscando e o outro pousado no Advogado Frame, o espírito ardente da advocacia, fez o movimento com os lábios:
"Cambridge?"
"Não; Princess Anne."
"E a querida e velha Princess Anne, como ela passa?" — ele havia se voltado novamente para o Juiz — "como está o pequeno rio Wicomico — não, quero dizer Manokin — como ele flui? Flui benevolentemente? Abunda nas melhores ostras que já provei? em tartaruga, também? Como ela está agora? Goy!"
"O senhor está a caminho do norte, Irmão Custis, ou voltando para casa?", perguntou o Chefe de Justiça de olhos negros e aguçados.
"Não, minha jornada terminou. Vim a Dover para conhecer o Sr. Clayton."
"Tia Braner. Hyo! Venha aqui, Tia Braner!", o anfitrião gritou alto, e uma velha mulher negra entrou, seguida de perto por alguns de seus netos, que ficaram parados, olhando, à porta. "Pegue este cavalheiro e dê a ele o melhor quarto em minha casa. O melhor não é bom o suficiente para ele! Leve-o direto para cima, dê-lhe água e faça seu filho escová-lo, e nós lhe enviaremos o melhor julepe do Condado de Kent. Goy!"
"O melhor quarto era o da Srta. Sally, Sr. Clayton", respondeu a velha.
Uma mudança repentina ocorreu no rosto altamente rápido e sanguíneo do anfitrião; ele hesitou, vagou com os olhos e se pegou nas palavras:
"Não, dê a ele o quarto do Presidente Chew: esse será o que melhor lhe serve."
Enquanto o Juiz seguia o servo para fora, o jovem Senador esvaziou a boca de um grande pedaço de tabaco em uma escarradeira monstruosa que um cego mal poderia errar e, com um rosto ainda longo e silencioso, e muito em desacordo com sua espontaneidade anterior, perguntou distraidamente:
"O que ele pode querer? o que ele pode querer?"
Uma das pequenas crianças negras, entretanto, entrara aos tropeços pela porta e, com olhos grandes e líquidos em seu rosto solene e desejoso, colocou as mãos no violino e olhou para o Sr. Clayton.
"Abençoada seja a criancinha!", ele disse de repente. "Quer uma música? Bem!"
Colocando-se em uma cadeira grande, o jovem Senador inclinou-a para trás até que sua cabeça dura e quadrada descansou contra a lareira, e ele tateou as cordas quase sem propósito, até que o ar triste surgiu:
"Ó margens e encostas de bonnie Doon! Como podeis florescer tão belas? Como podeis cantar, ó passarinhos, E eu tão cheio de cuidado?
Tu quebrarás meu coração, ó bonnie pássaro, Que canta ao lado de tua companheira; Pois assim eu me sentei, e assim eu cantei, E não sabia do meu destino."
Ele fechou os olhos com as notas, e um nó na garganta, e o movimento de seu peito largo e atlético, enquanto continuava a melodia, mostraram que ele estava interiormente sofrendo com alguma forte emoção.
Seu primo, o Chefe de Justiça, fez um sinal com o chapéu, e um a um os presentes saíram para a praça silenciosamente e seguiram seus caminhos, deixando o jovem tocando, com a criança negra ao seu joelho, inclinada ali como se para espiar a voz viva em seu violino.
Outras crianças vieram à porta — crianças brancas da praça, crianças negras do jardim — e algumas se aventuraram um pouco para dentro para ouvir o terno cortejo das cordas simpáticas. Ele movia seu arco mecanicamente, mas a música brotava como se soubesse que sua irmã, a Tristeza, estava esperando nos acordes. Finalmente, uma criança mais ousada que as outras veio e empurrou seu cotovelo e disse:
"Papai!"
"Meu menino, meu querido menino!", o violinista gritou, enquanto lágrimas escorriam por suas bochechas, e ele levantou o rapaz para seu coração e o beijou.
O Juiz Custis, embora nenhuma palavra tenha sido trocada sobre o assunto, viu o cancro solitário no coração do Senador — a forma morta de sua esposa no antigo cemitério presbiteriano.
Logo ficou claro para o Juiz Custis, a partir disso e de outras coisas silenciosas, que um motor de energia alegre, afetuoso, forte, porém feminino, constituía o jovem advogado-político de Delaware. Astuto, sagaz, impulsivo, esperançoso, seus pés provincianos, sua cabeça entre os pássaros, ele combinava facilidade e seriedade em relações quase mercuriais entre si, e o Juiz viu que essas deveriam constituir um notável advogado de júri.
Seu rosto era barbeado rente; sua garganta e queixo mostravam uma tendência precoce à carne; o equilíbrio de sua cabeça e o movimento pensativo de seus olhos e a ligeira aqualinidade de seu nariz indicavam alguém que amava a ação mental e a competição, mas extraía esse amor de um corpo grande e saudável que precisava ser vigiado para não recair na indolência. A perda de sua esposa tão logo após o casamento fora seguida por uma indiferença quase completa às mulheres, e ele fizera da política sua única consolação e amante, atrelando-a como uma égua jovem ao seu velho pangaré da lei, e conduzindo-os juntos nos confins estreitos de seu principado, e então trancando a lei entre seus estudantes de escritório para levar a política à arena nacional em Washington.
"O senhor precisa ser muito cordial, Clayton, em um pequeno distrito como este?", indagou o Juiz, enquanto passeavam pela praça na noite suave.
"Temos o melhor povo do mundo em Delaware, amigo Custis: poucos comerciantes, pouca lei, quase nenhuma violência, e eles são fáceis de agradar; mas é uma ofensa grave neste estado não ser o que chamam de 'um homem inteligente'. O senhor deve parar, qualquer que seja seu recado, e sorrir e perguntar a cada homem em seu portão por cada membro individual de sua casa. O tempo perdido nesse tipo de intercurso gentil e trivial é, no total, imenso. Mas, Goy! eu amo esse povo."
"Parece-me que você incentiva essa extorsão."
"Bem, eu incentivo. Como propagandista eleitoral, posso me safar com qualquer um deles. Goy! Ora, Jim Whitecar, que Deus abençoe sua alma querida!" — isso foi endereçado a um homem atarracado, de cabelos cor de areia e aparência incerta que estava prestes a retirar-se para o Capitol Tavern — "o que o traz à cidade, Jim?"
"É um país livre, suponho", exclamou o homem de aparência suspeita.
"Goy! É verdade, Jimmy. Estamos todos felizes em vê-lo em Dover comportando-se bem, Jim. Agora não me cause problemas este ano, amigo Jimmy. Comporte-se e seja uma honra para seus bons pais, de quem gosto tanto. Faça-me esse favor, agora!"
Enquanto se viravam para atravessar o meio da praça, Clayton disse:
"Eu o farei abraçar aquele tronco de castigos um dia desses."
"Quem é ele?"
"Um sequestrador aqui de Sockum, e dos maus: um sujeito perigoso, também. Ouvi dizer que ele afirma que, se eu o levar à extremidade de seu colaborador, Joe Johnson — a quem enviei ao tronco e depois salvei de ter as orelhas cortadas —, ele me matará. Goy!" — o Sr. Clayton olhou ao redor um tanto apreensivo — "Estou pronto para ele."
"O sequestro em Delaware é uma grande instituição", disse Custis.
"Tem uma antiguidade e uma extensão que você dificilmente acreditaria, amigo Custis. Muito antes de nossa independência, no ano de 1760, os estatutos de Delaware tiveram que prever leis contra isso. Nossas leis nunca permitiram o comércio doméstico de escravos com outros estados."
O pequeno lugar parecia ter uma boa sociedade, e a beleza das jovens sentadas às portas ou caminhando ao cair da noite mostrava algo da pele florida do Norte da Europa, olhos batavos e figuras arredondadas holandesas ou quacres.
Ao retornarem à praça pública, um quarto na taverna, quase brilhantemente iluminado para aquele dia de velas, exibiu suas janelas ao olhar de Clayton, que exclamou:
"Goy! Aquele é certamente John Randel, Junior."
"Aquele engenheiro ilustre?" observou seu visitante, que estivera esperando a noite toda para abordar o assunto de sua missão. "Tenho a maior admiração por ele. Vamos visitá-lo?"
"Ora, sim, sim", respondeu Clayton, duvidoso; "não tenho medo dele. Eu... goy! Não lhe devo nada. Ele é um sujeito tão litigioso, no entanto; tão persistente com isso; barataria, champertia, incorrigibilidade louca: é o homem mais selvagem de gênio que existe. Mas vamos lá!"
Batendo a uma porta no segundo andar, uma resposta afiada e pronta veio de dentro:
"Entre!"
Um homem de estatura média, com uma cabeça grande e ombros largos, e polainas de pano abotoadas até acima do joelho, estava sentado em um quarto quase vazio e sem tapetes, escrevendo, sua mesa cercada por velas de cera acesas, e sua expressão era orgulhosa e intensa. O Sr. Clayton correu até ele e segurou sua mão:
"Como está meu amigo Randel? O litigante incansável, o brilhante engenheiro, para quem as ideias, goy! são como caquis na árvore, abundantes, mas raramente maduros, e só bons quando geados. Como ele está agora e o que está fazendo?"
"Fique aí", falou o engenheiro, "e olhe para mim enquanto leio a sentença que eu estava terminando sobre John Middleton Clayton de Delaware."
"Manda ver, Randel! Agora, Custis, ele vai colocar um pavio em mim e me incendiar. Goy!"
"'É a maldição dos advogados'", leu o estranho incansável, "'alugar seu julgamento, desde o início da maturidade, a clientes fáceis, ou reprimi-lo nas necessidades rastejantes da política popular: daí que esse resíduo e fruto de todos os talentos, a convicção honesta da sagacidade mais corajosa de um homem, perece nas almas dos advogados antes que metade de seus poderes estejam prontos: eles se tornam os registros de outros homens, não pensam mais do que cera.'"
Aqui, o Sr. Randel apagou uma das velas. A ilustração era convincente. O Sr. Clayton acendeu-a novamente com outra vela.
"Há método na loucura dele, Custis", disse ele, com uma piscadela. "Posso apresentar meu grande amigo a você, Randel?"
"Pare aí", o engenheiro repetiu, severamente, "até que eu tenha lido minha sentença. 'Raramente um advogado de habilidades úteis, em uma comunidade tão isolada e pastoral quanto o Estado de Delaware, tem uma causa que apele à sua masculinidade, ao seu gênio e à sua avareza, como esta de John Randel, Junior, engenheiro civil! Nenhuma obra pública igual será provavelmente construída no Estado de Delaware durante a vida do dito Clayton. Nenhum honorário que ele possa ganhar em seu estado natal terá sido a recompensa de um advogado lá como o dele, que for bem-sucedido com o processo de John Randel, Junior, contra a Companhia do Canal. Nenhum princípio merece mais a vindicação de um grande advogado do que o de que essas corporações, em sua infância, não devem pisotear os direitos privados de um cavalheiro e tratar sua erudição e serviços como o trabalho de um escravo.'"
"Bem dito e muito bem pensado", interveio o Juiz Custis.
"'O dito Clayton'", continuou John Randel, ainda lendo, "'recusa a ajuda de suas habilidades a um estranho e a um cavalheiro tratado de forma inóspita no Estado de Delaware.'"
"Não, não", gritou Clayton; "essa é uma acusação contra mim que não permitirei."
"'O dito Clayton'", leu Randel, inflexivelmente, "'com as possibilidades de luz, riquezas e honra para si mesmo, e justiça para um semelhante, escolhe a covardia, a mediocridade — e a escuridão. Ele extingue as minhas esperanças e as dele.'"
Com isso, o Sr. Randel, por um singular abano de suas mãos e um sopro de sua respiração, apagou todas as velas de uma vez e deixou o quarto inteiro na escuridão.
O Juiz Custis foi o primeiro a falar após esta extraordinária ilustração:
"Clayton, acredito que ele tem um bom caso."
"Esse não é o ponto agora", disse o Sr. Clayton, com espírito e ênfase crescentes. "O ponto agora é: 'Sou culpado de inospitalidade?' Goy! Isso me toca como um habitante de Delaware, e é uma ofensa grave neste pequeno estado. É verdade que este requerente é um estranho. Ele vem a mim com uma introdução de meu brilhante jovem amigo, o Sr. Seward, de Nova York, que responde por ele. Mas a corporação que ele ameaça também tem direito à hospitalidade: é, em sua essência, capital da Filadélfia. O próprio Girard, aquele cidadão frugal, porém útil, é um de seus promotores. Meu próprio estado, e Maryland também, têm interesses nesta obra. É parte da hospitalidade tirar vantagem de nossa pequena geografia interposta e deter, através de nossos tribunais locais, um empreendimento jovem, em dificuldades e, de fato, nacional?"
"Que os tribunais de seu estado, que são puros, decidam entre nós", disse John Randel, Junior, reacendendo as velas com sua pederneira.
"Nenhum advogado deve recusar o julgamento de tal causa pública por causa de escrúpulos estaduais", interveio o Juiz Custis, de sua maneira mais grandiosa. "Isso não é nacional; não é Whig, Irmão Clayton." O Juiz aqui deu toda a sua força familiar à sua energia facial, e expressou o virginiano e o patrício em seu tratamento ao burguês e plebeu de Delaware. "Concedido que esta corporação é jovem e inexperiente: que seja disciplinada a tempo, para que possa evitar erros mais dispendiosos no futuro. Nenhuma causa, para um verdadeiro advogado, é como uma causa humana; pode chegar o dia em que o talento da ordem dos advogados americana será o parasita de corporações e monopolistas, mas é muito cedo para essa degradação para você e para mim, Senador Clayton. Os direitos de um homem envolvem todo o progresso; o progresso, de fato, é para o homem, não o homem para o progresso. Como filho de Maryland, se ele viesse desamparado e sem um tostão para mim, eu não deixaria este cavalheiro ser sacrificado."
"Se eu fosse um homem rico, Clayton aceitaria meu caso", disse o engenheiro; "minha pobreza é minha desqualificação aos olhos dele."
Ele tentou novamente, de uma maneira dramática, apagar as velas, mas sua respiração falhou; suas mãos ficaram moles e, então, cobriram apressadamente seus olhos, e ele afundou sobre a mesa com um gemido, e colocou a cabeça sobre ela convulsivamente.
"Cavalheiros", disse ele, com uma voz comovente por seu sofrimento, "oh! cavalheiros, a vida profissional — minha arte — é, de fato, uma tragédia."
A sensibilidade fácil do Juiz Custis foi imediatamente comovida. O Senador Clayton, olhando de um para o outro em indecisão nervosa, vendo os olhos úmidos de Custis e o colapso orgulhoso de Randel, foi ele mesmo levado pela emoção e gritou:
"Ah, goy! Isso é uma conspiração. Mas, Randel, aceitarei seu caso; não consigo ver um homem chorar. Goy!"
Enquanto todos se levantavam simpatizando e apertavam as mãos, houve uma batida na porta, e chamaram pelo Sr. Clayton. Ele retornou em poucos minutos, com uma expressão um tanto sombria, e disse:
"Randel, acabei de recusar um grande honorário para defender justamente o processo que suas lágrimas e as do Irmão Custis me persuadiram a processar. Mas, goy! uma lágrima sempre me roubou um dólar."
"Esta simpatia hoje fará de você um homem independente para toda a vida", exclamou o engenheiro.
"Fiz bem a primeira tarefa de Milburn", pensou o Juiz Custis; "cinco minutos de atraso teriam sido fatais."
CAPÍTULO XXXII.
COBRAS-LISA.
Em Princess Anne, Vesta tinha levado seu marido para Teackle Hall, e ele ocupava o quarto de seu pai e parecia estar melhorando, embora o médico dissesse que seria melhor enviá-lo para as colinas em algum lugar.
A mulher livre, Mary, que Jimmy Phoebus enviou a Vesta, chegara muito oportunamente e ocupara o lugar da Tia Hominy na cozinha, onde todos os ecos das crianças tinham desaparecido, o próprio luto da pobre mulher sensibilizando os ouvidos de Virgie, Roxy e da própria Vesta; mas, infelizmente! seu relato não era um testemunho legal, porque ela era um pouco negra.
Jack Wonnell encontrou um favor inesperado aos olhos de Meshach Milburn e foi designado para dormir na loja e vigiá-la; e lá Roxy descia ao entardecer e, com mais pena do que afeição, ouvia-o tecer a ilusão de seu amor por ela, disposta a ser entretida por isso, porque era tão sincero nele; pois Jack era todo amante, humilde e astuto, ousado e doméstico, suave e proscrito, como o gato Thomas sem-teto que faz das cercas autoestradas e atrai a gatinha mais recatada pela magia de seu ronronar.
"Roxy", disse Jack, "vou te libertar, garota, pois espero que Meshach Milburn me dê uma pilha de dinheiro por vigiar a loja. Então vamos para o Canadá, onde, ouvi dizer, a cor não é veneno, e vamos amar como as pombas brancas e as marrons, que ambas fazem o mesmo arrulho, de tão felizes que são."
"Jack", disse a donzela de olhos suaves e piedosos, "você é um pobre tolo, mas gosto de ouvir você falar. Suponho que não haja mal em você. Virgie também está apaixonada por um homem branco, mas você não deve sussurrar sobre isso."
"Nunca", disse Jack, fazendo movimentos solenes com os olhos e aconchegando-se mais perto em absoluta seriedade de simpatia. "Espero morrer! Não posso contar, nem para salvar minha vida! Who-oop! Conte-me, Roxy!"
"Pobre irmã Virgie, ela foi feita para amar e, embora seja sem esperança, acho que ela ama o Sr. Tilghman, nosso ministro, porque ele amou a Srta. Vesty uma vez, e Virgie adora a Srta. Vesty como sua irmã."
* * * * *
Vesta contou a história de Mary, a mulher livre, ao seu marido, que ouviu atentamente e disse:
"Conheço apenas uma coisa, minha querida, que fará com que tal ignorância e crueldade desapareçam nas florestas desta península: uma estrada de ferro. Uma coisa nova, chamada locomotiva, acaba de ser feita por um inglês, um tal George Stephenson, e um exemplar dela foi enviado a Nova York, onde mandei examiná-la. A tarefa que seu pai foi fazer por mim, ele fez bem. Vou enviá-lo a Annapolis em seguida, para obter uma concessão para uma ferrovia subindo esta península que passará dentro da linha de Maryland, e penetrará em cada assentamento de sequestradores escondido lá, e a luz, o intercurso e a lei exterminarão tais depósitos de escravos como o de Johnson."
Vesta ficou feliz em ouvir seu pai ser elogiado por seu marido, e esperanças reacenderam de uma reunião familiar mais feliz, quando ela sentisse a dor no coração morrer dentro dela, que agora ardia intermitentemente durante sua lua de mel vestal. Uma carta chegou no quarto dia que destruiu essas esperanças, e era a seguinte:
"CONDADO DE DORCHESTER, MD., Outubro de 1829.
"Querida Sobrinha, — Ídolo do meu coração, deixe-me começar implorando-lhe que tome um rumo conservador quando eu lhe der a triste notícia da morte de minha querida irmã, Lucy, em Cambridge, ontem, de doença cardíaca. Ela era a estrela da casa de McLane. Ela se foi. 'A vingança é minha', diz o Senhor, e tomarei um rumo conservador, embora consistente, com as partes que infligiram este dano a você, minha querida sobrinha, e ao seu calmo e controlado, se bem que atingido, tio.
"'O Senhor opera de maneira misteriosa, seus prodígios para realizar', e seus humildes instrumentos precisam apenas ser *inflexíveis e conservadores* para fazer todas as coisas bem. Tenha certeza de que a justiça será feita sobre os adversários de nossa família, e isso bem rapidamente. Meu próprio pesar é composto na satisfação que terei, e na garantia de que sua mãe santificada está onde os perversos param de perturbar.
"Os arranjos financeiros de minha querida irmã foram do caráter mais conservador e elevado, como se esperava dela.
"Você pode estar desejosa, minha ultrajada, mas, espero, ainda espirituosa, ídolo, de ouvir os detalhes da morte de Lucy. Ela não chegou a Cambridge até perto da meia-noite, tendo feito a longa viagem de Princess Anne sem companheiros adequados, e, no estado excitado de seus sentimentos, depois que ela deixou Vienna à noite, uma depressão de espírito, acompanhada por uma palpitação do coração, apareceu e aumentou rapidamente, e, quando chegou à casa de nossos parentes, ela estava quase morta de apreensão nervosa e fraqueza. Ao me ver, ela se recuperou o suficiente para fazer seu testamento da maneira mais fraternal e conservadora.
"Um médico foi procurado, mas ele pronunciou seu sistema tão debilitado e desenergizado que era pouco provável que sobrevivesse ao choque, com os centros nervosos deprimidos e a atrofia começando.
"Ela falou incessantemente sobre o Chapéu Vinculado, e disse que era uma sombra permanente e peso sobre seu coração, e me fez prometer esmagá-lo, se pudesse ser feito conservadoramente.
"Li para minha querida irmã o Livro dos Livros e tentei compor seus sentimentos, mas ela irrompeu vez ou outra: 'Oh, Irmão Allan! pensar que criei filhos para serem comprados e vendidos, e casados com habitantes da floresta e lixo.' Ela era profundamente sensível quanto ao que seria dito sobre isso em Baltimore.
"Pouco antes de morrer, ela disse: 'Não me enterre em Princess Anne, onde aquele demônio pode chegar perto de mim com seu Chapéu assustador! Leve-me para Baltimore, onde não há minérios de pântano, nem velhos bens de família, para perturbar a respeitabilidade da morte. Peça desculpas por minha filha e faça-lhe justiça.'
"E assim morreu esta grande mulher, na confiança de uma imortalidade abençoada, deixando-nos para vindicar seus motivos e continuar seu rumo conservador, e nos encontrar em seu funeral na próxima sexta-feira, em nossa igreja em Baltimore, onde o Rev. John Breckenridge fará o sermão fúnebre sobre esta santa assassinada.
"Com conservador, porém orgulhoso, pesar, "Afetuosamente, seu tio, "ALLAN McLANE."
"Oh, senhor!" Vesta exclamou, virando-se cegamente para seu marido; "mamãe morreu. Para onde posso me voltar?"
"Para onde, senão para mim, pobre alma!" respondeu Milburn, não sabendo nada dos sentimentos recentes da Sra. Custis contra ele. "Seu pai será notificado, e sou capaz de comparecer ao funeral com você."
"É em Baltimore", Vesta soluçou.
"Bem, querida, lá é onde fui ordenado pelo médico a ir, e ficar acima da linha da malária, nas colinas. Posso fazer o esforço agora."
Seu pesar e solidão a privaram da vontade de recusá-lo. Roxy foi escolhida para ser a criada de sua patroa na viagem, e William Tilghman e Rhoda Holland deveriam levá-los na carruagem da família até o porto de Whitehaven para o vapor da noite.
Jack Wonnell, em zelo oficioso de ser útil, colheu flores e circulou por Teackle Hall para fazer recados; e, para não exasperar o marido de Vesta, apareceu de cabeça descoberta enquanto o grupo partia, sendo a caixa de chapéu de Milburn um dos artigos de viagem, e Milburn concedendo estas palavras a Jack:
"Aqui está um dólar para você, Sr. Wonnell. Conto com você para vigiar minha antiga loja e se comportar como um homem."
"Eu farei isso", respondeu Jack, sorrindo e corando; "espero morrer! Adeus, Srta. Vesty. Linda Roxy, não se esqueça de mim aí longe em Balt'mer. Vou ensinar Tom a cantar seu nome antes que você me veja novamente."
Ele acenou com os braços, com lágrimas reais obscurecendo sua visão, e Roxy fingiu derramar algumas lágrimas também, enquanto acenava para Virgie, cujos olhos se voltaram com dor melancólica para o belo rosto de sua patroa que se afastava ao longo da vista. Vesta mandou um beijo para ela e reclinou a cabeça no ombro do marido.
Naquela noite, uma hora antes de a carruagem retornar, Virgie e a mulher livre, Mary, caminharam juntas até a loja de Milburn, para ver se Jack Wonnell estava de guarda. Enquanto caminhavam na grama macia e na areia sob o antigo armazém, viram o chapéu de copa alta — um novo, trazido do estoque antigo naquele mesmo dia — brilhando lustroso na cabeça alta e excêntrica de Wonnell, enquanto ele se sentava na janela oca do antigo armazém e falava com o pássaro-zombador, que ele alimentava com uma concha de amêijoa cheia de batata cozida e ovo, e algumas bagas azuis.
"Tom, diga 'Roxy', e eu te dou um pouco, Tommy! Agora, garoto! 'Roxy, Roxy, linda Roxy! linda Roxy! Pobre velho Jack! pobre velho Jack!'"
O pássaro voou ao redor da cabeça de Wonnell, bicando o chapéu que se mantinha em tal elegância irrelevante ao restante de seu traje, e gritou: "Meshach, he! he! he! Vesty, ela! Vesty, Meshach! Vesty, Meshach!", mas não disse nada que o vagabundo da aldeia pudesse ensiná-lo. Ele mostrou a paciência que a ociosidade pode bem pagar e, alimentando-o um pouco, ou retendo a comida por um tempo, continuou a implorar e a ensinar:
"'Roxy, Roxy, linda Roxy! Pobre, pobre Jack! pobre Jack!' Agora, Tom, diga 'Roxy, Roxy, pobre Jack!'"
O pássaro voou e atacou, e cantou um pouco, muito mesquinhamente, e assim, enquanto as luzes no oeste afundavam e desbotavam, o amante ocioso continuou em vão a buscar dar ao pássaro uma nota a mais do que o mágico, seu mestre, havia ensinado.
As estrelas apareceram modestamente nos céus macios, e Princess Anne reuniu seus telhados como um acampamento de camelos no deserto e, com um balido, latido ou som humano ocasional, parecia cochilar na noite suave de outono, absorvida, talvez, na notícia que se espalhava da morte da Sra. Custis e da viagem de núpcias de Vesta, que teve que ser feita finalmente.
"Srta. Virgie", disse a mulher Mary — dez anos mais velha que ela, mas ainda formosa —, "você já amou como eu? Oh, eu tive um marido gentil e, desamparada como eu era, tentei amar mais uma vez. Talvez tenha sido um pecado."
"Eu amo minha patroa como se fosse eu mesma", disse Virgie; "sinto como se, no céu, antes de virmos aqui, eu estivesse com ela, Mary! Eu amo o pai dela, também, como se ele não fosse meu mestre, mas meu amigo. Oh, como eu amo todos eles! Mas o que posso fazer para mostrar meu amor — pobre escrava nua que sou? Dizem que logo me libertarão. Mary, como as pessoas se sentem quando são livres?"
"Elas não apreciam", suspirou Mary. "Elas vão e se colocam em cativeiro novamente, como coisas egoístas: elas se apaixonam."
"Mas amar e ser livre!" disse Virgie, seu peito brilhando com o pensamento até que seus olhos ricos parecessem derramar calor e luz das estrelas no rosto de sua companheira; "dar seu próprio amor livre a alguém e sentir que ele é grato por isso: que presente e que alegria é isso! Ele poderia ser grato por isso e, vendo quão puro era, ele poderia me respeitar."
"Quem é, Virgie?" disse Mary.
"Quem quer que me amasse como a uma garota branca!" a escrava ardente exclamou suavemente. "Deve ser alguém que não me despreze. Ouço o namorado da Srta. Vesta, Mestre William, ler o belo serviço, com seu rosto doce e submisso, e penso comigo mesma: 'Como ele poderia ter livremente meu coração para confortar o dele, se ele o aceitasse como um cavalheiro!' Eu seria sua escrava para fazê-lo feliz, se ele pudesse me amar puramente, como minha mãe! Oh, minha mãe, cujo nome eu não sei! onde está o laço que me prende ao céu? Meu pai me amou?"
"Pobre Jack! pobre Jack! Cante 'Roxy, Roxy, Roxy', Tom!" coaxou Wonnell acima para o pássaro sonolento.
"Virgie," disse Vesta, "a prova do amor de um pai não reside no que ele concede, mas no que ele preserva. O meu amor por ti, se puderes aceitar o de uma irmã, é o que te restará nesta vida, pois temo que os homens, em sua ganância, sejam cegos para o que tu és em espírito."
O marido de Vesta, observando-a, parecia captar o peso daquela tristeza, embora seus próprios olhos, ora sombrios e distantes, voltassem a repousar sobre o relógio de bolso que ele consultava com uma frequência quase febril.
"A morte de minha mãe," continuou Vesta, "deixou-me um vácuo onde antes havia um refúgio. Sinto como se o mundo, que parecia tão sólido sob meus pés, tivesse se tornado um pântano de sombras e incertezas. Aquele homem, Allan McLane... temo que seu interesse por ti, Virgie, não seja apenas o de um administrador de bens."
"Ele me olha como se eu fosse um objeto de troca," sussurrou Virgie, com um estremecimento que percorreu seu corpo esguio. "Como se o sangue em minhas veias não fosse o mesmo que flui nas dos homens brancos, mas apenas um preço a ser pago em algum mercado distante."
"Não deixarei que isso aconteça," assegurou Vesta, embora um traço de dúvida, uma névoa de impotência, passasse pelo seu rosto. Ela olhou para o marido, esperando encontrar nele a força que lhe faltava, mas o homem apenas sorriu — um sorriso curto, que não chegava às profundezas dos seus olhos.
"O destino de todos nós está escrito," disse ele com uma calma artificial. "Os bens, as pessoas, as posses... tudo segue o curso que a lei e o tempo ditam. Não devemos nos afligir com o que ainda não ocorreu, querida Vesta."
Virgie, sentindo o ambiente tornar-se pesado, retirou-se para a penumbra do quarto adjacente, onde a única luz vinha da lua crescente, que espreitava pelas cortinas. Ela se ajoelhou, não por hábito religioso, mas por um desespero que a empurrava para o chão, como se a terra fosse o único lugar onde ela pudesse encontrar estabilidade.
"Se eu sou apenas uma sombra," murmurou ela para o silêncio, "que a escuridão me esconda daqueles que desejam possuir minha luz."
Lá fora, o vento soprava através das árvores, trazendo consigo o canto longínquo e melancólico de um pássaro noturno, um som que, na mente de Virgie, confundia-se com o chamado de sua própria alma, perdida entre a esperança de um reconhecimento que nunca viria e o medo de um cativeiro que, como a noite, parecia infindável.
Pela primeira vez ela estava a sós com ele e, à medida que as sombras estreitavam o aposento e eles se sentavam sem outra luz além de um pouco de lenha que ardia lentamente na lareira, ele aproximou-se dela e começou a falar da infância e de sua própria mãe, das pequenas tristezas que sua mãe compartilhara com ele, de desentendimentos domésticos e da feliz renovação do amor; de como os homens se sentem quando a companheira da vida é arrebatada, e as crianças não conhecem o significado da Morte, que fez algo tão terrível à criatura inofensiva; mas, acima de tudo, brilha, disse Meshach, a estrela da maternidade, iluminando fracamente o nosso caminho, suavizando nossas almas e banhando-se sobre as águas.
À medida que ele continuava, e ela não podia vê-lo, mas apenas ouvir a melancolia de sua voz, tornou-se reconfortante ouvi-lo falar, e ela tornou-se mais passiva, um sentimento de resignação caiu sobre seu coração, e de gratidão a ele que podia adivinhar sua perda de forma tão comovente; e, como uma criança, ela descansou ao lado dele, sobre seu joelho e, finalmente, em seus braços. Nem apaixonada nem infatuada, mas cedendo e aquiescendo, aceitando seu destino como uma miríade de mulheres que não são nem oprimidas nem ternas, mas que, com relutância, cedem, ela passou do luto para a vida de esposa, como alguém cansada e em um sonho.
Visitas de consolação foram feitas por alguns velhos amigos durante um ou dois dias seguintes. O reverendo Henry Lyon Davis, ex-presidente da faculdade em Annapolis, veio, trazendo seu belo filho de doze anos, o mestre Harry Winter Davis. O procurador-geral de Maryland, o Sr. Roger Taney, veio com o Sr. George Brown, o banqueiro. A viúva do comodoro Decatur enviou um sinal de luto, e o honorável William Wirt trouxe o Sr. Robert Smith, outrora secretário de estado em Washington.
Estes e outros, olhando para Meshach Milburn de forma um tanto estranha, descobriram, ao conhecê-lo, ser um homem de bom senso; mas os McLane que fizeram visitas eram ou arrogantes ou evitavam estudadamente o noivo.
Um convite veio de Arlington House para Vesta, para que trouxesse o Sr. Milburn para lá; e, enquanto seguiam pela estrada de Washington em uma carruagem particular, observaram o carro de rodas de fricção do Sr. Ross Winans, com quase quarenta pessoas dentro, fazendo sua viagem experimental atrás de um cavalo a galope. Na Relay House, onde os cavalos da ferrovia eram trocados, Milburn comentou, olhando para o vale do Patapsco:
"Minha esposa, estamos aqui no nascimento desta pequena estrada de ferro. Se nossa visão fosse grande o suficiente, poderíamos ver as coisas poderosas que podem acontecer nela: insurreição servil, guerra regional, grandes exércitos cavalgando para grandes batalhas, milhares de imigrantes atraídos para o Oeste. Nós morreremos, mas gerações após nós esta estrada crescerá e continuará, como uma veia de ferro, cuja extensão e usos nenhum homem pode medir."
A estrada para Washington era boa em alguns pontos e frequentemente desviava para o meio dos pinheiros. Em Riverdale, viram os cervos do Sr. George Calvert, um descendente de um dos Lordes Baltimore, pastando em seu parque, e sua grande carruagem de quatro cavalos estava entrando pelos portões da propriedade após uma visita oficial aos Custis. Passando direto para Georgetown vindo de Bladensburg, encontraram o general Jackson, fazendo seu passeio noturno a cavalo, e viram o abismo do novo canal sendo escavado ao longo do Potomac, e então, atravessando a balsa de Mason, foram deixados em Arlington House uma hora depois do anoitecer.
O hospitaleiro e inofensivo proprietário deu-lhes as boas-vindas no enorme edifício, meio templo, meio celeiro, entre seus elaborados borrões de pinturas, e móveis e relíquias dos tempos de Custis e Washington. Ele tinha quase cinquenta anos de idade, de feições indígenas, mas rosto um tanto fraco, como alguém cuja única substancialidade estava em seus ancestrais, e Vesta, colocando-o ao lado de seu marido, refletiu que um cruzamento semelhante produzira uma semelhança nos dois homens, ambos de uma palidez biliosa e macilenta; mas Milburn, ao lado de seu parente Custis, era como um lobo audaz ao lado de uma ovelha de semblante vazio.
No entanto, esses homens gostaram um do outro imediatamente; a inteligência e o dinheiro de Milburn, e a real reverência pelo grande homem que adotara o Sr. Custis, deram-lhe admissão à fantasia deste último.
Eles passearam por aqueles belos bosques, um dia destinados a se tornarem um bosque de sepulturas para um exército de mortos, enquanto Vesta, na habitação, conversava com seus primos e com o gracioso tenente Lee, que cortejava Mary Custis.
Era uma vida doméstica feliz, e nas veias do anfitrião corria o sangue dos Calvert, embora não da linhagem legítima.
Sugeriu-se ir ao Capitólio, e o Sr. Milburn, sentindo-se cada dia melhor na região montanhosa, foi também, e usou seu chapéu de abas altas, para grande edificação do Sr. Custis, que se deleitava com tais antiguidades. Vesta ouviu as senhoras sussurrando, quando retornaram, que um bando de meninos e negros seguira o chapéu, rindo e zombando, e finalmente expulsara o grupo para sua carruagem. Isso, e a impaciência de seu marido em retornar aos seus negócios, apressou a partida deles de Arlington.
Eles pegaram o vapor descendo o Potomac e, ao saírem da foz do rio St. Mary, Milburn colocou seu chapéu de Raleigh novamente e ficou no convés, olhando para as luzes ao redor da antiga Casa do Padre, onde a capital de Lord Baltimore jazia, uma planície nua e alguns resquícios famintos, dentro da reentrância de uma ponta arenosa que dava para o arquipélago da Costa Leste.
"Meu chapéu", disse Milburn para si mesmo, "é tão antigo quanto aquela cidade, e mais bem preservado. Os Calvert e os Milburn casaram-se com parentes da Sra. Washington. Será que minha esposa me ama?"
CAPÍTULO XXXIV.
A PROVAÇÃO.
Quando Levin Dennis acordou no fundo da velha carroça, ela estava sendo conduzida rapidamente, e a voz de Van Dorn do assento do cocheiro pôde ser ouvida dizendo, sem seu habitual ceceio e interjeição espanhola:
"Whitecar, seu irmão em Dover tem certeza da caça?"
"Certeza absoluta, Capitão. Encurralou todos! O melhor estoque doméstico da cidade, e as garotas amarelas mais bonitas: eu sei que isso lhe agrada, Capitão!"
"Eles estão armados?"
"Nem um gatilho. Nós os prendemos em um de seus 'festivais'. Não, senhor, negros não vão brigar."
"Nos reuniremos na casa de Devil Jim Clark", disse Van Dorn, e passou com um estalo de seu chicote.
Levin, a quem alguma mão amiga envolvera em um casaco de pele de urso — ele vira um igual em Van Dorn — ouviu em seguida o traficante falar com outro grupo que ele alcançara:
"Melson?"
"Ay yi!"
"Milman?"
"Ah! garoto."
"Você recebe suas ordens na casa de Devil Jim Clark!"
As estrelas estavam fora, mas a noite era rica em nuvens grandes e felpudas, como se o céu também estivesse se apressando. Levin estava deitado de costas, sacudido pela carroça rude, mas, estando perfeitamente sóbrio agora, ele era mais racional e corajoso, e seu amor recém-descoberto impelia-o à autopreservação. Ele poderia ter rolado para fora do veículo e entrado na floresta, e pelo menos salvado a si mesmo de cometer mais crimes, mas como ele veria Hulda novamente — Hulda, talvez em perigo? Assim, mesmo para a ignorância, o amor traz entendimento, e Levin começou a perguntar a si mesmo a causa de sua própria miséria. Ele sabia que era a bebida, mas o que o fazia beber se não uma disposição fácil demais de ser levada? Mesmo agora ele estava sob sujeição quase voluntária ao bandido na carroça, cuja voz ele ouviu comandar suavemente novamente a algum par que ele alcançara:
"Tindel?"
"Pegue-os, Capitão Van! Pegue-os!"
"Vocês não devem correr perigo esta noite, então mantenham o ânimo. Espero que vocês cuidem das cordas, mordaças e amarras em geral!"
"Pegue-os, Capitão; oh, pegue-os!"
"Você e Buck Ransom ali..."
"Polidamente, Capitão; polidamente, senhor!", exclamou uma voz insinuante de um cavaleiro negro.
"Devem nos encontrar todos na casa de Devil Jim!"
"Pegue-os, Capitão!"
"Polidamente, Capitão!"
Enquanto Van Dorn abria caminho para a frente da linha, Levin olhava silenciosamente para o campo plano de floresta e algumas fazendas pobres, drenadas imperfeitamente por algumas valas do Choptank. Ele supunha que deveria ser quase meia-noite, pela posição daquelas brilhantes constelações que brilhavam igualmente sobre sua mãe e sobre ele — ela em sua inocência e ele em sua ansiedade — e brilhavam, também, talvez, sobre a tumba de seu pobre pai na ilha ou no oceano.
Dentro de uma hora sangue seria derramado, sem dúvida, e rapina feita, e ele não conhecia a estrada para escapar nem o buraco para se esconder. No entanto, naquela hora ele tinha que fazer sua escolha — lutar pela liberdade, ou ir para a cadeia, para o poste de açoite, ou, talvez, para a forca.
Levin considerou com pesar seu passado de vagabundo, e quão pouco poderia ser dito em sua atenuação em um tribunal de justiça, exceto pela fé de sua mãe, que não era mais evidência do que o juramento de um negro.
Uma vez surgiu em sua mente surpreender Van Dorn, vencê-lo, jogá-lo em uma vala e dirigir até uma das pequenas casas de fazenda e descansar, até que o dia lhe desse sua localização e remédio.
Levin não era um covarde, e seus músculos eram duros, e seus pés podiam agarrar-se a uma tábua lisa como os de um pássaro a um galho; mas seu coração suavizou-se para com o homem feroz e suave que estava sentado de forma tão desprevenida de costas para ele, quando Levin refletiu que ele deveria, talvez, pôr um fim à vida de Van Dorn com sua faca de marinheiro, se eles lutassem, e este dia expirante Van Dorn pagara uma dívida por ele à viúva cujo filho fora o próximo a ser alcançado, e que gritou, de forma intrometida, sem ser abordado:
"Van Dorn, o que você vai me dar se eu pegar um negro?"
"Isto!", disse Van Dorn, sem hesitar, atingindo o garoto com um golpe medido com a ponta de seu chicote no ombro, o que o fez literalmente cair da mula e rastejar de dor.
"Disciplina é o que sua mãe falhou em lhe dar, reprobo. Modos eu lhe ensinarei. Vá para a retaguarda!"
Owen Daw rastejou desesperadamente em sua mula e obedeceu sem parlamentar, mas sua audácia logo se recuperou o suficiente para forçar seu animal até a parte traseira da carroça e abrir comunicações sussurradas com Levin ali.
Nada passara por eles durante horas que Levin tivesse visto, quando de repente um cavaleiro a um galope rápido parou a carroça, e uma voz rouca de negro murmurou:
"Como vai, agora? Olhe para mim! olhe para mim!"
"Derrick Molleston?", falou Van Dorn.
"Olhe para mim! olhe para mim!"
"Desça e ande comigo. Levin, você está acordado?"
"Sim, Capitão."
"Pegue o cavalo deste homem e monte nele. John Sorden está à frente. Vai esticar seus membros frios."
"Posso ir com ele?", perguntou Owen Daw, em seu sotaque céltico, bastante servil agora.
"Não, a menos que ele queira."
"Venha, então", disse Levin prestativo.
Enquanto os dois jovens ainda estavam demorando perto da carroça, ouviram estas palavras:
"Você arranjou tudo com Whitecar e Devil Jim?"
"Olhe para mim! olhe para mim!" — aparentemente significando: "Conte comigo".
"Greenley está pronto para fazer a diversão se algum ataque for feito contra nós?"
"Olhe para mim! olhe para mim! A forca dele está pronta e ele queimaria o mundo."
"Este advogado Clayton?"
"Olhe para mim! olhe para mim! Ele dá uma grande festa, a tia Braner me disse. Um juiz está lá de Prencess Anne, e bebida de sobra. Olhe para mim! olhe para mim!"
"As pessoas brancas absolutamente longe da Cowgill House?"
"Olhe para mim! Fica quase a oitocentos metros da cidade. Tem quarenta mil dólares, se tem um centavo, naquele festival: garotas mais do que meio brancas, homens que sabem ler e pregar: o creme do Condado de Kent. Olhe para mim! olhe para mim!"
"E nenhuma suspeita da nossa chegada?"
"Olhe para mim! Oh, olhe para mim!", disse o negro roucamente; "inocente como o nascituro. Esta noite é a última noite deles!"
Levin tremeu quando essas palavras impiedosas chegaram aos seus ouvidos, mas Owen Daw pareceu esquecer sua ofensa com as notícias, e riu para Levin enquanto trotavam para longe:
"Aposto que pego um negro melhor que você!"
"Oh, vergonha, Owen Daw! Sua mãe foi salva hoje de ser expulsa de casa pela minha piedade. Pense em roubar a liberdade desses negros! O que eles fizeram?"
"Foram negros!", exclamou Owen Daw. "Isso é o suficiente!"
"O que você vai fazer, Owen, para ajudar sua pobre mãe?"
"Espere até que eu cresça o suficiente, por Deus, e mate o velho Jake Cannon pelo trabalho de hoje."
Enquanto cavalgavam, chegaram ao homem chamado Sorden, cavalgando como guia da coluna invasora, uma pessoa de modos mais elegantes do que qualquer um sob Van Dorn, e jovem, flexível e brincalhão.
"Minha pele!", disse ele. "Agora, rapazes, Van Dorn não deveria ter trazido vocês. Vocês são muito delicados para este trabalho bruto. Eu amo o Capitão mais do que alguma vez amei uma fêmea, mas ele não deveria estragar os rapazes."
"Van Dorn me disse para vir", Owen Daw gritou. "Sou grande o suficiente para derrubar um negro."
"Eu o amo mais do que alguma vez amei uma fêmea", disse Sorden, desculpando-se. "Quem é o outro jovem infrator?"
"Sou um estranho em suas partes", respondeu Levin. "A Sra. Cannon me fez vir. Eu não queria."
"Você está com medo?"
"Sim", disse Levin.
"Bem, eu amo o Capitão mais do que alguma vez amei uma fêmea. Mas rapazes são rapazes, e eu odeio vê-los estragados. Se vocês fossem rapazes negros, eu não me importaria nem um centavo; mas branco é minha cor, e eu não quero negociar com ela."
Eles pararam em uma pequena casa de tijolos de empena pontuda, de um andar e uma cozinha e sótão, à esquerda da estrada, à qual o canto de um pedaço de floresta de carvalho e nogueira chegava abrigando, enquanto na retaguarda vários pequenos celeiros e cercados fechavam o triângulo de um campo. Uma porta no meio, voltada para Maryland, parecia ter um limiar muito alto, e janelas baixas gradeadas ficavam na adega de cada lado dos degraus.
O lugar tinha uma aparência suspeita, e uma matilha de cães de caça em pleno latido correu da cozinha e, enquanto estavam prestes a pular o estrado e as cercas, foram detidos quase no meio do ar por uma voz abafada gritando de dentro:
"Hya! Abaixo! Spitch!"
A matilha inteira recuou mansamente para a casa, ganindo baixo, e alguns golpes de uma vara e uivos curtos lá dentro completaram a excitação.
"Que lugar é este?", perguntou Owen Daw.
"Casa de Devil Jim Clark", disse Sorden.
A habitação ficava a cerca de quarenta metros da estrada, atraindo quase para a cobertura da floresta, e seu pequeno quintal era tornado cavernoso por amoreiras-de-papel e bordos plantados densamente, enquanto uma linha de cerejeiras e um antigo poço de vara subiam ao longo da estrada e da sebe. Enquanto cavalgavam para a parte de trás da casa, uma pequena janela de sótão, como um caracol, rastejava baixo ao longo do telhado, e uma luz brilhava dela.
"Escritório de negócios de Devil Jim", acenou Sorden.
"Qual é o negócio dele?", perguntou Levin, de forma nova.
"Negros. Ele os mantém lá em cima entre o sótão e o telhado — às vezes na adega."
"Ele quer um escritório de negócios para isso?"
"Ele é um empreiteiro no canal também, Jim é — cria cavalos de corrida, cultiva a terra, joga um pouco, mas correr com negros é seu melhor jogo. Minha pele! Lá vem o Capitão Van Dorn. Eu o amo como nunca amei uma fêmea."
"Van Dorn", falou uma voz de dentro da casa, "lembre-se de que minha família é exigente. Seus homens devem ir para o celeiro. Entre!"
"Conhaque com especiarias no celeiro!" — uma observação silenciosa de algum lugar — foi suficiente para levar a manada para longe, e, dando a ordem de "dar água e forragem", Van Dorn passou para a cozinha, de lá através de um quarto para o cômodo principal da casa, e subiu uma pequena escada em caracol para um pedaço de corredor ou galeria com quase sessenta centímetros de largura.
O homem que liderava apontou para um alçapão acima de uma extremidade deste corredor e exclamou: "Negros ali! família acolá!" — a última referência a uma porta fechando a pequena passagem.
Ele então abriu uma guarita na lateral do corredor, admitindo Van Dorn em um armário ou quarto de sótão extremamente pequeno, mal grande o suficiente para os homens se sentarem, e iluminado por uma lâmpada na pequena janela de sótão vista de baixo.
"Beba!", disse o homem, abrindo uma garrafa de champanhe; "Eu a deixei pronta para você."
Ele serviu o vinho espumante e colocou a garrafa em uma espécie de escrivaninha ou mesa, e então olhou ansiedade e avareza juntas para fora de seus olhos negros líquidos e rosto largo e pesado.
"Buena suerte, señor!", Van Dorn ceceou, enquanto bebiam juntos.
"Hya! spitch!", murmurou Clark nervosamente, cortando suas próprias botas de cano alto com um chicote de cachorro. "Eu queria estar fora do negócio: o risco é muito grande. Minha esposa é religiosa — rezando, talvez, agora, lá dentro. Minhas filhas estão nos seminários, gastando dinheiro como a Companhia do Canal com os advogados. Nada paga como roubar negros, mas está abaixo de você e de mim, Van Dorn."
"A la verdad! Esta é minha última incursão, Don Clark. O prazer me manteve pobre por toda a vida. Hoje fiz um pequeno sacrifício, e isso cresce em mim."
"Se eles me pegassem e me colocassem no pelourinho, Van Dorn, pelo que você faz esta noite, hya! spitch!" — ele cortou seus joelhos — "isso quebraria o coração da Sra. Clark."
"Eu quero este dinheiro esta noite", disse Van Dorn, "para fazer dois jovens felizes. Eles tomarão minha parte, e me levarão com eles para fora das planícies de Puckem."
"Oh, é um negócio nervoso" — os olhos de Clark de geleia rica tornaram a palidez em seu rosto largo como uma mortalha — "hya! spitch! Os Quakers estão me vigiando. O velho Zekiel Jinkins aqui por perto, o velho Warner Mifflin lá na fábrica, esses malditos Hunns no Wildcat — eles olham através de mim toda vez que me pegam na estrada. Mas o contrato do canal não paga como negros; meu povo deve manter a cabeça erguida no mundo; Sam Ogg não me deixa manter fora da tentação."
"Você tem medo de mim, Devil Jim?"
"Hya! spitch! Não. Se todos no comércio fossem como você, eu poderia dormir confiante. Se você sair dele, eu também sairei."
"Então esta noite, penitente! faremos nossos poucos milhares e pararemos. Desista de suas cartas e eu das minhas doncellitas, e poderemos pelo menos viver."
Eles apertaram as mãos e beberam outro copo, e então Van Dorn disse:
"Envie para mim, hermano! o rapaz que responderá pelo nome de Levin. Com ele falarei enquanto você dá as direções! Pobre covarde!", disse Van Dorn, depois que seu anfitrião desceu as escadas, "ele nunca pode ser menos que um ladrão com aquele incômodo sob tal competência justa."
Naquele momento, uma bela criada ou mulher, em sua camisola branca, estava na pequena porta, com olhos tão parecidos com a riqueza dos seus que acabara de ir que devia ser sua filha. Ela fugiu ao reconhecer um estranho, e Van Dorn perseguiu até que uma porta fosse fechada em seu rosto.
"Pobre tola!", disse ele, afundando-se em sua cadeira novamente; "Eu nunca serei mais honesto do que qualquer mulher pode me fazer!"
Quando Levin entrou no pequeno corredor, Van Dorn sorriu:
"Aqui está um copo de vinho real para inspirá-lo, junco."
"Não, Capitão. Eu prefiro morrer a bebê-lo."
"Você se arrepende de ter vindo comigo?"
"Oh, amargamente, Capitão. Eu não quero roubar pessoas pobres e indefesas se elas são negras."
"Agora, ouça, rapaz!" — o rosto de Van Dorn parou de corar e o olhar grosseiro veio aos seus olhos azuis — "a excursão desta noite é para seu lucro. Gosto de sua inclinação gentil por mim, e dos bons atos que você solicitou de mim, e da confiança que você me mostrou quanto ao seu amor pela linda Hulda. Junte-se a mim neste trabalho voluntariamente, e eu darei a ela, para o seu acordo de casamento, toda a minha parte."
"Nunca", exclamou Levin.
Van Dorn sacou sua faca e levantou-se.
"Levin", ele ceceou, "eu prometi a Patty Cannon que traria você de volta manchado de crime ou morto. Agora escolha qual será."
"Morrer, então", gritou Levin, com uma mão afastando o cabelo longo e sedoso de seus olhos e com a outra sacando sua própria faca; "mas lutarei pela minha vida."
Van Dorn agarrou o pulso de Levin em um aperto de torno, mas, ao fazê-lo, jogou sua própria faca no chão.
"Oh! huérfano, órfão", Van Dorn murmurou, enquanto seu rubor retornava, "tenha cuidado para sempre dizer 'Não' com coragem como essa, quando a covardia ou a aquiescência fraca extorquiriam seu 'Sim'. Neste momento, se você tivesse consentido, seu coração estaria na minha faca, jovem Levin!"
Ele tirou a faca da mão de Levin e colocou-a em seu casaco esfarrapado novamente, e sentou o menino em seu joelho como se ele tivesse sido uma criancinha.
"Oh, graças a Deus que não o matei, senhor", soluçou Levin, suas lágrimas seguindo rapidamente sua coragem; "duas vezes pensei em fazê-lo hoje."
"Eu jamais o teria submetido a esse teste, meu pobre rapaz, se não tivesse visto sua consciência trabalhar durante todo este dia sob o estímulo do amor virtuoso. Não pense em mim. Construa seu próprio caráter sobre algum bom exemplo e, por mais doce que a vida seja, lute por ela nas próprias fronteiras de seu caráter. Morra jovem, mas renda-se apenas quando for velho."
"Capitão", disse Levin, "como posso conseguir caráter? Meu pai está morto. Todo mundo me dobra conforme sua vontade."
"Então pense em algum homem simples, forte e fiel que você conheça e refira cada ato de seu caráter a ele. Pergunte a si mesmo o que ele faria em seu dilema, então vá e faça o mesmo."
"Eu conheço um homem assim", disse Levin, após um momento; "É Jimmy Phoebus, o pretendente da minha pobre e bela mãe."
"El rayo ha caido!", falou Van Dorn, baixo e calmo; "sim, Levin, qualquer homem digno de sua mãe servirá."
"Capitão, volte comigo! É tarde demais?"
"Tarde demais há muitos anos, jovem senhor. Liderarei a guerra na África esta noite novamente na Cowgill House."
Ele se levantou e terminou o vinho.
"Clark lhe dará um cavalo, Levin. Eu o presenteio a você. Siga com Sorden na liderança e, a uma milha daqui, na cidade de Camden, tome seu próprio caminho. Boa noite!"
Lançando um único olhar ao bando miserável de brancos e negros reunidos no celeiro, revelados pela luz de uma lanterna na excitação da bebida e da avareza, ou na familiaridade do medo e do vício — alguns inspecionando mordaças de sabugo de milho e cepos de nogueira, outros aparando porretes de madeira preta com as raízes presas; outros carregando suas pistolas de sela e lubrificando os estojos de adaga nelas; alguns afiando suas facas de abater porcos em arreios, outros cortando cordas e barbantes nos comprimentos necessários para atar os pés dos homens —, Levin foi colocado no cavalo que trotava, o mesmo que já vinha montando, por Clark, o hospedeiro, e logo encontrou Sorden na estrada.
"Onde está Van Dorn?", perguntou Sorden; "Eu o amo como nunca amei um homem."
"Ele me enviou a Camden com um recado", respondeu Levin; "é longe?"
"Cerca de uma milha. Três milhas, então, até Dover. Por minha pele! como seu animal está disposto; não é o de Dirck Molleston? Pensei que fosse. Então ele vai querer virar em Cooper's Corners."
"Derrick mora lá?"
"Sim. É onde ele detém as bifurcações de ambas as estradas vindas de baixo e vigia a lei em Dover. Espero que Van Dorn consiga escapar com o espólio e não seja pego, pois eu o amo como nunca amei um homem."
O cavalo de Levin, em seu passo fácil, logo deixou Sorden muito para trás, e os estranhos eventos da noite, e seu espanto sobre o que fazer a seguir, mantiveram o cérebro de Levin girando até que ele viu a forma de algumas casas surgir entre as árvores, e uma linha de arvoredo indicar uma estrada principal de norte a sul. O perfume como de águas frias e largas e pântanos preenchia a noite.
"Aqui é Camden", pensou Levin; "para onde devo ir? Se eu virar para o sul, não conseguirei cama nem comida a noite toda e serei apanhado de manhã como um sequestrador. Não posso voltar. O grande rio ou o oceano, creio eu, estão diante de mim. O que faria Jimmy Phoebus?"
Ele segurou o animal enquanto fazia essa pergunta e parou no cruzamento da grande estrada estadual.
A ideia espalhou-se lentamente por toda a sua existência de que James Phoebus, no lugar de Levin, cavalgaria imediatamente para Dover e daria o alarme.
Levin tentou imaginar Phoebus em um estado de espírito para dar algum outro conselho, mas, à medida que a forma do resoluto capitão de pungy parecia cavalgar a mente do jovem, ela se erguia cada vez mais altiva e parecia conduzir em direção a Dover, onde tantas almas pobres, nas alegrias da interação e da liberdade, eram como passarinhos inconscientes dos gaviões acima deles, e nenhum homem no mundo, exceto Levin Dennis, poderia salvá-los da morte ou do cativeiro.
James Phoebus, com sua natureza de leão, hesitaria algum dia no dever de um cidadão e um cristão sob tais circunstâncias, ou perdoaria outro homem por reter informações que poderiam significar vida, liberdade e misericórdia?
No entanto, havia Van Dorn a ser traído. O que Van Dorn faria no lugar de Levin?
As palavras de Van Dorn, proferidas há menos de um quarto de hora, soaram alto na consciência ecoante de Levin: "Não pense em mim. Refira cada ato a algum homem fiel e vá e faça o mesmo!"
Levin olhou para cima, e as próprias nuvens, agora inchadas e escuras apesar do brilho das estrelas, pareciam correr para Dover. As aves noturnas clamavam "Misericórdia! misericórdia!", os lagartos e as rãs-das-árvores pareciam cruzar as vozes uns dos outros, assobiando "Tempo! tempo! tempo!"
"Huldy!", sussurrou Levin, e deixou as rédeas soltas, e seu animal disparou através da cidade de Camden para o norte.
Ele havia passado pelas pequenas casas de estrutura de madeira, a reunião Quaker, os armazéns, as residências periféricas, quando de repente seu cavalo desviou para passar por um grande objeto escuro na estrada à frente, e um cavaleiro atravessou o caminho de Levin, forçando seu animal a recuar sobre os jarretes.
"Grandes feitos, amigo!", uma voz de homem falou de forma áspera; "estou preocupado contigo!"
"Saia do meu caminho ou eu o esfaqueio!", gritou Levin, entre seu novo ardor em cumprir seu dever e a ideia de que já havia sido interceptado pelo bando de Patty Cannon.
"Ha, amigo! Estou menos preocupado comigo do que contigo. Tu não esfaquearias um cidadão da cidade de Camden à sua própria porta?"
"Pelo amor de Deus, deixe-me ir, então!", suplicou Levin. "Os sequestradores estão chegando a Dover em poucos minutos. Quero avisar o advogado Clayton!"
Imediatamente a outra pessoa, um homem alto e magro, girou e disparou atrás do objeto escuro à frente, que Levin, seguindo também com dificuldade, descobriu ser uma grande carroça coberta — algo entre o dearborn do fazendeiro e a carruagem de família.
"Bill", o Quaker chamou o cocheiro, "não poupes teu chicote até que Dover tenha ficado bem para trás. Aqui está alguém que diz que sequestradores estão invadindo até a capital de Delaware. Estou preocupado contigo!"
O cocheiro começou a chicotear seus cavalos em galope, e gritos, como de várias pessoas, vieram de dentro do veículo de cortinas fechadas.
"O que há aí dentro?", perguntou Levin ao Quaker, que o havia alcançado; "negros?"
"Não, amigo", respondeu o Quaker secamente, "apenas cristãos."
Eles atravessaram um riacho de moinho, e logo depois um curso d'água menor, sem falar, e chegaram a uma pequena cabana de troncos e madeira em uma bifurcação da estrada, onde o cavalo de Levin tentou entrar.
"Ha, amigo! Não é o saltador de Derrick Molleston que tens — o mesmo que ele obtém do Diabo Jim Clark? O que és tu, então? Sinto-me preocupado contigo."
"Um cristão também, espero", respondeu Levin, forçando seu pangaré estrada acima.
"Então tu és melhor do que um jovem nesta moradia que passamos agora", disse o Quaker, apontando para uma casa de tijolos à esquerda; "pois lá viveu um juiz cujo filho amarrou um pobre violinista negro no porão de seu pai e o entregou a Derrick Molleston para ser vendido como escravo. Ouço dizer que o pobre homem conta isso em sua distante casa de cativeiro."
"O que é isso?", indagou Levin, vendo uma estranha estrutura de vigas em um promontório ou elevação à direita, à vista das formas escuras de uma cidade na próxima crista adiante.
"Uma forca", disse o Quaker, "na qual um ladrão de cavalos será enforcado amanhã. Roubar um cavalo é morte; roubar um semelhante não é nada."
Enquanto ele falava, a carruagem misteriosa virou em uma rua transversal de Dover e esgueirou-se para a obscuridade da cidade.
"Ha! ha!", exclamou o Quaker; "se Joe Johnson não tivesse parado para alimentar no Diabo Jim's, ele poderia ter alcançado a carroça do meu irmão cheia de escravos fugidos. Eu te digo, amigo, porque mal estou preocupado contigo agora."
CAPÍTULO XXXV.
COWGILL HOUSE.
Muito depois da meia-noite, Dover estava na cama, exceto em uma grande casa no gramado do Capitólio, onde a luz brilhava através das frestas e rachaduras de cortinas e venezianas, e algum cão de guarda, talvez, corria curioso para ver o porquê.
As estrelas e nuvens no céu um tanto conturbado olhavam através das árvores despidas para a bela cidade e o St. Jones's Creek que circulava por ela, e mal notaram uma longa faixa de homens e animais rastejantes roubarem-se do ramo da Meeting House, passando pelo curtume e pela academia, e mergulharem nas ruas dos fundos do lugar, evitando a praça pública.
Uma fila virou para o riacho e atravessou-o, para retornar mais acima, cortando toda fuga pela estrada norte, enquanto uma segunda fila deslizava silenciosamente através e ao redor do pequeno e compacto vilarejo e esperava que a outra chegasse, quando ambas cercaram uma antiga moradia de tijolos situada afastada da estrada, em um quintal verde e venerável, a quase meia milha das partes habitadas de Dover.
Esta casa estava brilhantemente iluminada, e as roseiras e árvores de sombra estavam todas definidas enquanto se destacavam acima das ondulações de verde verdura e dos caminhos ornamentais e canteiros de flores.
Uma majestosa tulipeira estendia seus longos ramos quase até o portal da pitoresca moradia, e um crescimento exuberante de hera, começando entre as janelas do porão, subia até a carpintaria com cornija dos beirais, e fazia painéis quase sólidos de videira dos espaços entre as quatro grandes janelas com chaves de arco em dois andares, que ficavam à direita da porta larga e atarracada.
Esta porta, no topo de um lance de degraus, estava colocada tão perto do ângulo da empena da casa que dava a impressão de ser apenas uma ala de uma mansão originalmente projetada para ter o dobro de seu comprimento e tamanho.
Entre esta empena — que dava para a estrada e tinha quatro linhas de janelas, além de uma fileira no subsolo — e a porta dos fundos ou da cidade, como descrito, havia uma janela quadrada e espaçosa, fora de relação com todas as outras, e talvez a doze pés acima do chão. Isso, como se poderia adivinhar, ficava no patamar da escada interna; pois, sendo a grande porta e a frente da residência no lado oposto, todo o espaço na empena voltada para a cidade, com uma largura de dezessete pés, era um nobre saguão de cerca de quarenta pés de comprimento, alto, com pilastras em estilo arquitetônico, e iluminado por duas grandes janelas na empena e a janela quadrada na escadaria.
A escadaria em si era uma bela peça de trabalho e proporção, elevando-se do chão em dez degraus com corrimão até o patamar na janela quadrada, onde um espaço de vários pés quadrados dominava tanto a grande porta da frente quanto as janelas na empena, e também o quintal atrás; de lá, em ângulos retos, o lance de degraus subia ao longo da parede dos fundos até um segundo patamar sobre a porta atarracada dos fundos e, por um terceiro salto, retornava em ângulos retos ao andar de cima, fazendo com que o que é chamado de poço da escadaria fosse extremamente espaçoso, e abria-se para o andar do sótão.
Sem dúvida, este saguão grande e fresco foi projetado para ser o centro de uma grande mansão, ainda assim não perdera nada em agradabilidade ao se tornar, em vez disso, o maior cômodo da casa, recebendo abundante luz do dia, e era grande o suficiente para uma festa ou culto público, e tal era seu uso frequente.
Construída por um homem tirânico e excêntrico no início do século, ela passou por várias famílias até que um Quaker chamado Cowgill, que mais tarde se tornou metodista, e que não mantinha escravos e era gentil com os negros, tornou-a sua propriedade e supervisionou um curtume e um moinho à vista dela.
Ele estava frequentemente ausente por semanas, especialmente na estação biliosa do outono, e permitia que seus domésticos reunissem seus amigos e a raça em geral, em momentos ímpares, no grande saguão, para tais desfrutes racionais que eles pudessem selecionar.
Na verdade, o dono da casa desejava que ela ganhasse uma reputação mais alegre; pois os negros, em particular, consideravam-na assombrada.
O primeiro dono, dizia-se, divertia-se no grande saguão fazendo seus próprios filhos ficarem nas pontas dos pés, chicoteando seus pés quando eles desciam sobre as solas por dor ou fadiga; e seu próprio filho finalmente atirou nele através da grande porta norte com um rifle ou pistola, deixando a marca até hoje, para ser vista por um pequeno painel inserido no pinho original. O terceiro dono, um advogado, frequentemente entretinha clérigos viajantes aqui; e, em uma ocasião, o excêntrico Reverendo Lorenzo Dow encontrou um estranho na escada e curvou-se para ele, e mais tarde assustou a família do anfitrião contando o fato, já que eles não tinham conhecimento de nenhum estranho na casa. O cômodo sobre a grande porta sempre foi considerado o refúgio de pessoas peculiares, que não molestavam ninguém vivo, mas apareciam lá em algum afazer silencioso, e desapareciam quando pressionadas.
Esta porta principal em si tinha um caráter de igreja, e era batente ou construída pela metade, de modo que a parte superior pudesse ser aberta como uma janela, e ainda assim a fechadura nessa parte superior tinha um pé e meio de comprimento, e a chave pesava uma libra.
Esta porta ponderosa, em carpintaria elaborada, abria-se para um lance de degraus e para um jardim de flores cercado por olmos, abetos e árvores Paulownia, estas últimas de odor e natureza de feijão. Uma parte de serviço inferior da moradia, em dois andares, estendia-se até os campos e tinha uma traseira coberta por varanda.
Van Dorn chamou um negro:
"Buck Ransom!"
"Polidamente, Capitão", respondeu a voz insinuante do negro.
"Vá até a porta da frente e bata. Ao entrar, veja se está livre para abrir de supetão. Então, ao passar pelo saguão, abra as janelas."
"Polidamente, Capitão"; o negro curvou-se e partiu.
"Owen Daw!"
"Vossa honra!"
"Suba na grande tulipeira suavemente e pegue este mosquete que irei lhe alcançar. Aponte-o para a janela da escadaria e dispare apenas se vir resistência lá."
O rapaz subiu na árvore com todos os seus instintos viciosos cheios de luta.
"Melson!"
"Ai, ai!"
"Milman!"
"Ah! garoto."
"Coloquem-se sob as duas grandes janelas no saguão e sirvam de degraus para o grupo de Sorden. Eu assaltarei a porta principal. Assim que entrarmos lá, Sorden, ordene que seus homens passem por cima de Melson e Milman para dentro das janelas que Ransom levantou."
"Eu o amo", murmurou Sorden, admirado, "como nunca amei um homem", e reuniu seu grupo.
"Whitecar, você e seu irmão segurem a porta dos fundos com seus porretes. Se for forçada, Miles Tindel..."
"Dê neles, Cap'n Van!"
"Jogará seu pó de pimenta vermelha nos olhos de qualquer um que sair."
"Oh, dê neles, Cap'n Van!"
"Derrick Molleston!"
"Veja-me, ó veja-me!", murmurou o poderoso negro.
"Leve Herron e Vincent, e mais dois, e guarde a cozinha e a frente da moradia principal. Derrube qualquer criatura, exceto — ayme! ay! — as jovens donzelas, cujos medos logo as farão tropeçar no chão."
"Veja-me, veja-me!", disse o negro roucamente.
"Assim que entrarmos pela porta, eu gritarei: 'Patty Cannon chegou!' Então saltem pelas janelas e vençam a oposição. Relampaguea! Ransom é lento."
O batedor na grande porta soou, e ela se abriu e rapidamente bateu novamente, e um som abafado e estranho se seguiu, como de uma briga.
Van Dorn, ágil como uma pantera, saltou nas costas de Milman e olhou para uma janela na empena, retirando o rosto para não ser visto na noite.
O interior brilhante estava cheio de pessoas, sentadas contra o lambri, como se estivessem ouvindo um sermão, enquanto pelo meio do imponente saguão estendia-se uma mesa iluminada por lâmpadas de óleo de baleia e muitas pequenas velas, e cheia dos restos de um banquete. A escadaria no canto Van Dorn não podia ver, e lá a plateia sombria estava toda voltada, como se estivesse diante do pregador. Parecia haver algo fora do comum no tipo de atenção que os ocupantes estavam prestando, mas os olhos de Van Dorn estavam absortos na visão de várias donzelas quadroon de olhos de pomba, tristes e ainda assim quase assustadas, e ele apenas notou que o espião, Ransom, não podia ser visto.
"Sorden", disse Van Dorn, descendo, "será que Ransom nos traiu? Chis! eles todos parecem como se uma sentença de morte estivesse sendo lida."
"Por minha pele! Não, Capitão. Estão todos lá?"
"Todos", disse Van Dorn; "vejo trinta mil dólares de carne à vista."
"E negros não brigam de jeito nenhum", falou Whitecar. "Vamos espancá-los quase até a morte."
"Venham então", disse Van Dorn, suavemente; "se as janelas não estiverem abertas, quebrem-nas."
Ele torceu, com força bruta, um painel das cercas perto da casa, e liderou o caminho para a grande porta da frente. Uma dúzia de mãos desesperadas agarrou o painel pesado e correu com ele. A porta voou aberta, mas naquele momento todas as luzes na Cowgill House se apagaram.
"Há fantasmas lá dentro", a voz rouca de Derrick Molleston foi ouvida dizer, e o elemento negro parou e encolheu-se.
"Tindel, sua tocha!", exclamou Van Dorn, e, após um momento de atraso — a velha casa e o quintal sombreado enquanto isso iluminados por relâmpagos, e sons de trovão rolando no céu — um tição de pinho em chamas, todo preparado, foi obtido, e Van Dorn, segurando-o na mão esquerda, e com nada além de seu chicote rústico na direita, saltou pela porta, gritando:
"Patty Cannon chegou!"
Ao nome temido, houve alguns gritos contidos, e as grandes janelas no lado da empena caíram para dentro com um estrondo enquanto os sequestradores entravam aos borbotões.
O olhar rápido de Van Dorn captou a situação enquanto ele agitava sua tocha, e ela iluminou o teto e a pilastra, as portas fechadas à esquerda e o grande poço da escadaria além, cheio de formas negras em atitude de defesa.
"Patty Cannon chegou!", ele gritou novamente; "sigam-me!"
Apenas um instante o levou à base da escadaria, e o relâmpago piscando nas janelas abertas e na porta caída revelou-o a seus seguidores, com seu cabelo amarelo ondulando e seu longo bigode de seda como chama dourada.
Um poderoso grito surgiu do bando encorajado enquanto eles se formavam atrás dele, com porretes e soqueiras de ferro, cassetetes e fundas, e tudo o que pudesse incapacitar, mas falhasse em matar.
Van Dorn, muito à frente, fez três golpes assassinos de seu chicote através dos objetos humanos acima e, com um arremesso daquela arma formidável, empunhou-a e disparou.
No momento, explosões altas, fumaça e gritos preencheram o lugar ecoante, enquanto uma salva de armas de fogo irrompeu do patamar, varrendo a linha das janelas e percorrendo o saguão. O bando no andar de baixo parou, e alguns estavam caídos, gemendo e praguejando.
"Eles estão armados; é traição", gritou uma voz, em pânico, e os assaltantes covardes correram para lugares de refúgio, alguns rastejando pelo portal, alguns caindo das janelas, e outros ficando atrás da escadaria, fora de tiro, e buscando desesperadamente destrancar os ferrolhos da porta menor ali.
"Patty Cannon chegou!", Van Dorn repetiu, lançando-se contra o corpo dos defensores, que, aterrorizados com sua bravura, começaram a recuar escada acima ao redor dos ângulos dos degraus.
Um homem, no entanto, não recuou, nem golpeou, mas envolveu o corpo de Van Dorn em um par de braços longos e poderosos, e o levantou do patamar com força bruta, dizendo:
"Grandes feitos, amigo! Estou preocupado contigo."
Van Dorn sentiu no aperto que estava vencido. Ele tentou alcançar sua faca, mas seus braços estavam fechados nos do estranho desconhecido, que, tendo-o agarrado por trás, procurou empurrá-lo através da janela quadrada no patamar para o quintal de grama abaixo, onde a chuva caía e o relâmpago fazia uma exibição brilhante entre as ervas e samambaias.
Enquanto o sequestrador se preparava para cair, com todas as suas juntas e músculos relaxados, o garoto, Owen Daw, deitado sedento de sangue ao longo do galho da velha tulipeira, apontou seu mosquete, de acordo com as instruções de Van Dorn, para as formas que contendiam lá, e gananciosamente puxou o gatilho.
Os braços do Quaker, ao envolverem Van Dorn, apresentavam, na manga de seu casaco, um grande botão de aço ou metal, e a bala vinda da árvore, atingindo-o, ricocheteou e entrou na garganta de Van Dorn.
"Ayme Guay!", murmurou Van Dorn, e foi jogado da janela para a terra, tudo mole e amontoado, até que John Sorden o carregou, murmurando:
"Eu o amava como nunca amei um homem."
O grupo desesperado sob a escadaria finalmente arrombou a porta dos fundos e saiu, apenas para receber punhados de pó de pimenta vermelha atirados por Miles Tindel, enquanto ele gritava:
"Dê neles, Cap'n Van!"
Eles gritavam de angústia e rolavam na grama molhada, e ainda assim, com medos mais fortes do que a dor, buscavam a estrada na cegueira, e algum meio de deixar a cidade.
O jovem Owen O'Day, ou Daw, desceu rastejando da árvore e, vendo Van Dorn nos braços de Sorden junto à carroça, disse com desdém, enquanto montava em sua mula e desaparecia:
"Creio que ele nunca mais vai me disciplinar."
Derrick Molleston, lamentando a perda de seu cavalo galopador, carregou até a carroça um objeto que encontrara tentando escapar da varanda no lado da cozinha, embora com uma mordaça na boca e um espeto entre os cotovelos e as costas.
"Veja-me, veja-me!", falou o sequestrador negro, roucamente. "Ele é meu e do Devil Jim Clark. Eu o peguei."
"Ora, é Buck Ransom", disse Sorden.
"E eu vou vendê-lo também", murmurou o negro, agarrando as rédeas. "Você me vê agora! Talvez ele nos tenha enganado. De qualquer forma, ele foi pego."
A velha carroça partiu em disparada através da chuva torrencial, a vítima negra deitada indefesa de costas, e Van Dorn sangrando nos braços de Sorden, que continuava a gemer:
"Eu o amava como nunca amei um homem!"
Van Dorn fez vários esforços para falar e tossiu frequentemente de forma dolorosa, e finalmente, ao chegarem a um portão de estrada secundária, articulou:
"A do Chanceler?"
"Sim, é esta", disse Derrick Molleston. "Veja-me, Capitão Van. Estou todo aqui."
À medida que avançavam por uma alameda sombria, o fogo de algum lugar começou a fazer uma certa iluminação, apesar da forte tempestade.
"É Bill Greenley. Ele pôs fogo na cadeia", exclamou o negro. "Veja-me, oh, veja-me!"
O incêndio dava uma luz vermelha vaporosa a uma habitação isolada à qual agora se aproximavam, em um gramado arborizado, e Sorden viu uma mulher de aspecto severo olhando pela janela para o fogo.
"Qual o significado desta invasão tão tarde da noite?", ela chamou. "São ladrões? Meu velho marido está dormindo."
"Senhora", respondeu Sorden, "aqui está o marido da Sra. Patty Cannon. Ela era a sogra de seu irmão. Eu amo este homem como nunca amei um homem. Ele está ferido, e queremos que seja acolhido até que possa ter um médico."
"Levem-no para a cadeia, então, se não é ela que está queimando ali", exclamou a mulher, com desprezo. "Devo fazer da casa do Chanceler de Delaware um hospital para os homens de Patty Cannon como recompensa por ela ter enviado meu irmão para a forca?"
Ela fechou a janela e a persiana, e deixou-os sozinhos na tempestade.
"Dirija, Derrick, para o seu covil em Cooper's Corners, rápido, então", disse Sorden.
Ao deixarem a alameda, um clarão de relâmpago, tão próximo, tão branco, que pareciam estar dentro do volume e da cratera dele, envolveu a carroça. Um cavalo caiu sobre as ancas e o outro empinou e se soltou de seu arreio, enquanto a carroça tombava.
O negro pegou seu indefeso companheiro africano e levantou-o nas costas, partindo em uma mistura de avareza e terror, e dizendo:
"Derrick está indo para casa, com certeza. Veja-me, veja-me!"
Van Dorn colocou o dedo na garganta, onde o sangue escorria o tempo todo e, com uma tosse suave, extorquiu os sons:
"Deixe-me... sob um arbusto... para... morrer."
"Não", gritou Sorden, levantando Van Dorn também em suas costas; "Eu o amo como nunca amei um homem."
O fogo da cadeia em chamas iluminou seu retorno aos arredores de Dover e à colina da forca, onde ficava o cadafalso, fendido pelo relâmpago da viga transversal até o alçapão da morte. Quando pararam em frente a ele para descansar, um cavalo e seu cavaleiro passaram tropeçando, e Molleston, largando sua carga, gritou:
"Bill Greenley, esse é o nosso cavalo. Nós o queremos."
"O dele é o cavalo que está montado nele", gritou o ladrão de cavalos fugitivo, olhando com desprezo para sua própria forca enquanto açoitava seu animal cego na chuva.
"Anime-se, Capitão Van", disse John Sorden, encharcado pela chuva; "não falta muito agora para Cooper's Corners."
CAPÍTULO XXXVI.
DOIS WHIGS.
"Goy! Olhe para as árvores, amigo Custis", disse John M. Clayton, parado diante de seu escritório enquanto o sol nascente atingia inocentemente as copas das árvores na praça pública de Dover.
O Juiz Custis, sentado em uma janela superior, observou que muitos nobres olmos e acácias haviam sido fendidos pelo raio, ou despedaçados pelo vento e pelas inundações de chuva trazidas pelo vento.
"Que noite!", exclamou Custis; "a cadeia queimou, o raio foi apavorante, e achei ter ouvido armas de fogo também."
O Juiz Custis ouviu Clayton dizer, ao entrar na sala:
"Então o velho Derrick Molleston, Tia Braner, perguntou-lhe sobre meu jantar, foi? E foi Bill Greenley quem queimou a cadeia? Goy! E o povo negro derrotou os sequestradores na Cowgill House?"
"Isso eles fizeram, louvado seja o Senhor!", exclamou Tia Braner, fervorosamente.
Clayton voltou-se para um jovem à mesa, agora vestido com um traje limpo e bom, e disse, enquanto a velha cozinheira deixava a sala:
"Agora, amigo Dennis, conte sua história. Goy!"
O rapaz, que o Juiz ficou surpreso ao reconhecer, começou imediatamente:
"Juiz Custis, o sequestrador que o senhor deixou na cozinha roubou a Tia Hominy e seus pequenos negros. Eles estavam no cruzamento de Johnson na noite passada. Talvez já tenham ido embora antes disso. Meu barco foi alugado para levá-los embora, e eu tive que ir junto, mas fugi do bando e dei o aviso ontem à noite ao Sr. Clayton aqui."
Antes que o Juiz pudesse responder, Clayton exclamou:
"Agora, Irmão Custis, permita-me agora! Deixe meu nobre antigo constituinte e colega Whig, Jonathan Hunn, retomar!"
"Amigo", pronunciou um homem nervoso, magro e de pele saudável, "este jovem me surpreendeu ontem à noite com a notícia de que teus amigos de Maryland estavam marchando sobre a própria capital de Delaware, para roubar homens. Eu estava na estrada àquela hora tardia por outro propósito cristão, e o Senhor me recompensou com este bom: trouxe o amigo Dennis até a porta dos fundos de John Clayton, e ele nos emprestou todas as suas armas de fogo. Na pequena mercearia de tijolos de William Parke, logo após a Cowgill House — onde me disseram que ele vende bebidas alcoólicas aos negros contrariando a lei, e assim recebe o nome entre eles de 'Kind Parke' — encontrei vários de nossos negros livres de Delaware, temo que sem bons propósitos. Então comentei: 'Se William Parke, contrariando a lei, tem te vendido conhaque dentro de uma casca de ovo, como se não soubesse o conteúdo, eu o pagarei para repetir a vil tentação rapidamente, pois vós que sois do mundo deveis lutar esta noite.'"
"Goy!", disse Clayton, entusiasmando-se; "os Quakers instigam outras pessoas, não é? Goy!"
"Outras armas de pólvora foram obtidas lá, e barricamos a Cowgill House de modo a torná-la ao mesmo tempo uma isca e um ninho de vespas. Desprezo a guerra e os homens de guerra tanto que estudei um pouco suas campanhas, e sugeri, amigo Clayton, que a escadaria era uma boa posição tática defensiva — é esse o termo vão? — para enviar uma saraivada pela porta principal, e um fogo de flanco em cada porta e janela nas laterais do salão de Cowgill. Também dominava o quintal por uma janela na escadaria. Uma porta sob a escadaria foi barricada. Havia um festival, ou festa, dado naquela noite, com a permissão do ausente amigo Cowgill, por esse pessoal de cor de Dover. Eu não me surpreenderia se foi planejado ou descoberto por esses canalhas na tua linha de estados, amigo Custis. Disse aos homens armados para deixarem todas as suas mulheres lá embaixo no salão de festas até que o ataque começasse, e então deixá-las escapar pela escadaria, e defender essa escada como homens pecadores. Mas primeiro um espião negro bateu na porta, e um laço foi jogado sobre seu pescoço, e dois dos rapazes negros o amordaçaram. Então o ataque foi feito e, sob minha ordem, todas as luzes foram apagadas."
"Oh, Juiz", Levin Dennis interrompeu, "foi curto e terrível! O Capitão Van Dorn tinha chegado ao pé da escada, quando os negros na metade do caminho dispararam sobre sua cabeça e derrubaram quase tudo. O homem Quaker aqui então imobilizou o capitão e o jogou, ferido, pela janela alta. Tenho pena de Van Dorn, mas ele diz que está metido em um mau negócio. Espero que ele não esteja morto."
"Quem é este Van Dorn?", perguntou o Juiz Custis. "Ouvi falar de tal demônio, mas ele nunca importunou Princess Anne."
"Corri e me escondi nos beirais profundos do sótão", continuou Levin, "que é construído como armários, e as vespas lá, entrando para sugar as flores nas vinhas que cresceram através dos beirais pelo lado de fora, voavam no escuro entre as moças amarelas que estavam se escondendo e rezando, e nunca sentindo as vespas picá-las, pensando naqueles sequestradores. Creio, cavalheiros, que os sequestradores nunca mais virão a Dover."
"Duas coisas me surpreendem", disse Clayton; "que Joe Johnson se arriscaria a atacar a própria Dover depois da surra que lhe dei; e que negros livres pudessem fazer tal defesa."
"Ah! John Clayton", falou Jonathan Hunn, "havia uma testemunha branca lá, para afirmar que eles apenas defenderam suas vidas."
"Foi o Capitão Van Dorn quem atacou Dover", disse Levin; "Joe Johnson é um covarde."
"Juiz Custis", disse o Sr. Clayton, "o senhor e eu podemos salvar esta península, pelo menos, das agitações seccionais que estão por vir. O senhor deve entregar a Delaware a velha Patty Cannon e sua família. Ela agora vive do seu lado da linha. Venha comigo ao escritório do Governador, e eu conseguirei um mandado de busca contra ela pelos negócios da noite passada. O jovem Dennis aqui conhece o bando; o amigo Hunn viu o ataque."
O rosto do Juiz Custis tornou-se subitamente perturbado.
"Clayton", disse ele, "eu preferiria não aparecer neste assunto. Na verdade, o senhor deve me desculpar."
"O quê!", disse Clayton; "hesitar em fazer uma pequena coisa como esta, depois das opiniões livres que o senhor expressou?"
Houve uma longa e estranha pausa. O Quaker levantou-se e, olhando atentamente para o Juiz Custis, disse:
"Ninguém além do Deus Todo-Poderoso conhece os segredos da mente de um proprietário de escravos. Nenhum filho de Adão é digno de ser absoluto sobre qualquer criatura humana."
"Amém!", disse o Juiz Custis, humildemente.
* * * * *
As notícias de Princess Anne confirmaram a perda dos escravos de Vesta Custis. O Juiz Custis foi avisado para voltar para casa e tomar medidas para sua recuperação, mas ele estava estranhamente apático. No dia seguinte ao ataque, Levin Dennis desapareceu, com Clayton dizendo apenas:
"Quem teria pensado que aquele rapaz de olhos suaves já estava fascinado por esses sequestradores? Ele pegou seu cavalo e voltou para Patty Cannon."
O processo contra a Canal Company exigia muita pesquisa, já que os livros de direito eram escassos na época, e os precedentes para quebras de contrato contra corporações não eram muitos; sendo essa forma de vida jurídica comparativamente moderna naqueles dias, como o alvorecer da era floral, ou antes que megatérios pastassem acima das árvores ou iguanodontes nadassem nos canais. Clayton e Custis caminhavam, comiam e deitavam-se juntos, comparando conhecimentos e sugestões, e a mente litigiosa de John Randel, Junior, era bastante irritante para ambos, de modo que, para se livrarem de sua companhia em Dover, os dois advogados, entretanto supridos de dinheiro pela letra de câmbio de Meshach Milburn, resolveram visitar o canal, que ficava a cerca de trinta milhas de distância.
Os três homens partiram juntos em uma carruagem, após o café da manhã, em uma manhã suave, porém geada, como a que muitas vezes confere a esta região um brilho de inverno e uma suavidade semelhante ao clima da Flórida. Passaram por vários riachos de maré, como o Duck e o Little Duck, o Blackbird e o Apoquinimink, e, à medida que avançavam, os celeiros tornavam-se maiores, as cercas vivas mais elegantes e aparadas como as dos Países Baixos franceses, os pomares de pessegueiros sem folhas estendiam-se como as plantações de chá na China. Duas ou três pequenas cidades pontilhavam a beira da estrada, os bosques deram lugar totalmente a fazendas menores e, em um fundo íngreme chamado Fiddler's Bridge, atravessaram os campos em direção a uma antiga mansão de quatro chaminés e galerias, no final de uma longa alameda, e perto de uma grande lagoa estagnada, onde John Randel, Junior, como se nomeava plenamente em todas as ocasiões, tinha um farto jantar espalhado.
Após o jantar, lançaram-se no riacho em um barco a remo e vela, para apreensão do Sr. Clayton, e navegaram através de acres de lírios-d'água, ratos-almiscarados e tartarugas incontáveis, e muitas aves selvagens, até o Canal de Chesapeake e Delaware, que se estendia por várias milhas através de uma enorme lagoa ou alimentador, como uma vala dentro de um bayou.
O remador negro amarrou seu barco atrás de uma embarcação que passava, que os rebocou até as eclusas no Rio Delaware, em um ponto oposto a uma ilha cheia de salgueiros, e onde uma "cidade" embrionária havia sido iniciada nos pântanos, e lá esperaram pelo pacote vindo da Filadélfia. O Sr. Randel levou seu empregado negro, uma pessoa de semblante triste, porém inexpressivo, para ser uma espécie de piano ou modelo sobre o qual tocar seus gestos ferozes.
"Clayton", disse ele, sentado em uma eclusa de pedra no crepúsculo da noite, "eu deveria ter sido advogado. Não que eu não seja o maior engenheiro teórico do país, mas meu gênio jurídico se interpõe, e eu processo os vilões que me empregam."
Aqui ele deu um sacolejo violento no negro melancólico, que o aceitou tão estaticamente quanto uma garrafa de remédio sacudida pelo médico.
"Sim, você processou o Juiz Ben Wright e ele o desconsiderou."
"Eu lhe digo um novo axioma, Clayton", gritou o engenheiro entusiasmado, colocando o negro sobre seus calcanhares e sentando-se sobre ele; "quem quer que empregue o gênio tem que ser um canalha. Na natureza de suas relações, é assim. Ele desvia o gênio de sua plena expressão, absorve a virtude dele e é uma fraude."
Aqui ele chutou o negro sob ele, que mal protestou.
"Bem, então", falou o Juiz Custis, "como Clayton é um homem de gênio, e você o emprega..."
"Sou um canalha, é claro", exclamou Randel. "Seu senso de lei e direito deve ceder às minhas ideias. Agora olhe para este canal! Se eu não tivesse sido obrigado a ceder à corporação sem alma que me empregou, eu o teria cavado até a profundidade que as marés das duas baías teriam preenchido, em vez de represar os riachos para alimentadores e bombear água para dentro dele por bombas a vapor. Então os navios de guerra do país poderiam passar, e o canal seria purgado a cada maré."
Ele se levantou e colocou o pé sobre o negro, para divertimento dos rapazes que se reuniam ao redor.
"John Fitch, o engenheiro", disse John M. Clayton, "deixou um testamento curioso; começa: 'Para William Rowan, meu fiel amigo, deixo meu Chapéu de Castor.'"
O semblante do Juiz Custis caiu, pensando em outro chapéu que havia entrado em sua família.
A barca em que embarcaram tinha numerosos passageiros e logo chegou a uma pequena cidade de eclusas e ponte giratória e, alguns quilômetros além, entrou em uma séria obra, deixando o leito de um riacho, do qual o canal havia se aproveitado anteriormente, e cortando o baixo cume da península, que, para o Juiz Custis, parecia quase montanhoso. Ele era daquela opulência patriótica, pouco aquém da imaginação, que se alegrava com obras públicas, e este pequeno canal, de apenas catorze milhas de extensão, era, com duas ou três exceções, a única obra realizada na União, excluindo estradas e pontes. Construído pelo governo nacional, por três dos estados que conectava e por assinatura privada, envolvera dois milhões e um quarto de dólares de despesa — não um peso leve quando a população era, pelo censo anterior, menos de oito milhões de brancos em toda a terra.
Os problemas familiares do Juiz Custis desapareceram de sua mente enquanto ele olhava para o corte profundo, com quase setenta pés de altura de margens, com areias amarelas e verdes, manchas de ferro e estratos de marga, alguns dos quais haviam caído de volta na escavação e ameaçavam novamente a navegação; e, quando viu uma ponte, chamada Buck, saltar o abismo noventa pés acima, por um vão que então parecia a própria sublimidade, ele tocou em Clayton e disse:
"Não se importe com meus fracassos! Graças a Deus, sou um Whig."
"Goy! não há nada igual", disse Clayton.
Não muito longe deste ponto, o canal passava por uma antiga igreja e cemitério em uma ponte onde o Sr. Clayton disse que seu homônimo, o governador revolucionário de Delaware, estava enterrado. Aqui o transporte simples de Randel os pegou, e ao luar eles dirigiram por algumas milhas até a propriedade do Sr. Randel, perto das margens de um rio, sob uma longa mesa-montanha de argila estéril e manchas de ferro, na margem mais distante.
"Aqui", disse Randel, "está minha futura propriedade de Randalia. Aqui verei todo o comércio do canal passando, e penhorarei cada embarcação que pagar meus pedágios à Canal Company."
"Randel", perguntou o Sr. Clayton, "quais eram aquelas estacas que vi há alguma distância, correndo de norte a sul através dos campos?"
"Uma pesquisa ferroviária."
"Quem está fazendo isso?"
"Dizem que Meshach Milburn, de Princess Anne."
"Goy!", exclamou Clayton, "eu vou vencê-lo."
* * * * *
Por dois ou três dias, os três homens, ainda estudando o processo do canal, dirigiram por um campo pitoresco, visitando a antiga mansão dos Labadistas e seu patrono boêmio, Augustine Herman, a casa do falecido ministro do tratado, Bayard, e as antigas igrejas batistas galesas entre as colinas de Elk e Christiana, onde alguns dos guerreiros de Cromwell jaziam. Era a terra favorita de Whitefield, e na vizinhança havia um forno de ferro que o Juiz Custis examinou com interesse melancólico, como um dos investimentos do pai do General Washington mais de cem anos antes, quando os índios faziam o ferro. Também foram a Turkey Point, onde o exército britânico desembarcou para capturar a Filadélfia, e a divisão de Knyphausen obliterou a história de Delaware ao levar seus registros para longe de Newcastle. Retornando de uma dessas viagens agradáveis, duas mensagens de pontos diferentes queimaram os olhos do Juiz Custis:
"Sua esposa morreu em Cambridge." "Sua filha está muito doente em Wilmington."
"Para Wilmington!", gritou o Juiz Custis, cambaleando. "Oh, minha filha! Eu a matei."
CAPÍTULO XXXVII.
ESPÍRITOS DO PASSADO.
"O que dizem, William, sobre Jack Wonnell ter sido encontrado morto a tiros?"
"Geralmente dizem que ele foi morto pelos negros por galanteios à cor deles. Alguns falam em prender a pequena Roxy Custis."
"O que você diz, William Tilghman?"
"Não posso dizer nada. Na noite em que levei Virgie para Snow Hill, passei por cima do corpo do pobre Wonnell. Um negro estranho foi visto aqui — um inimigo de seu servo, Samson. O novo cozinheiro de Teackle Hall acha que foi ele quem disparou o tiro."
O jovem reitor sentiu o olhar inquisidor daqueles olhos de floresteiro resinoso fitando-o através da alma.
"Aquele tiro era para mim, William Tilghman."
"Talvez sim."
"Foi o tiro de um assassino contratado, que confundiu os chapéus incomuns de Wonnell com os meus, que não foram bem descritos para ele, ou cuja descrição sua memória bêbada e excitada não reteve."
"Sr. Milburn, por favor, poupe Vesta desta suspeita."
"Oh! aquela alma pura não poderia saber disso", continuou Milburn, com um momento de gentileza; "mas alguns de seus parentes orgulhosos, para quem sou menos que um cachorro, enviaram o assassino. Acho que adivinho quem é o homem."
"Não se precipite a uma conclusão! Lembre-se, Vesta sofreu tanto pelos erros dos outros."
"Ele foi morto nesta sala, onde Wonnell nunca veio antes. O ferimento mostra que o tiro veio de um ponto abaixo, de onde nada além do chapéu de Wonnell, e não suas feições, poderia ser visto. O erro da copa alta pelo topo em forma de torre mostra que foi um trabalho de um estranho: o pobre tolo morreu por mim. Agora, de onde veio o trapalhão que me matou por procuração?"
"Serei franco com o senhor, senhor. Joe Johnson, o sequestrador, também esteve aqui: Mary diz isso. Para salvar Virgie dele, ajudei-a a fugir."
"Agora", disse Milburn, "que inimigo meu delegou ao sequestrador a tarefa de procurar um assassino?"
Ele esperou um momento sem resposta e respondeu, em tom baixo, à sua própria pergunta:
"O homem está no cruzamento de Johnson: cartas de Cambridge me dizem isso. Era o irmão da falecida Sra. Custis, Allan McLane."
"Peço-lhe novamente que pense em Vesta e seus muitos sacrifícios!"
"Eu penso. Prometi a ela que ela nunca receberia uma palavra cruel de mim. Mas não pouparei meus assassinos. Para eles, serei como alguém que eles mataram, e cujo sangue fumega, por vingança. Possuo o único mandado que pode expulsá-los de Maryland."
Ele colocou um maço de notas bancárias sobre a mesa de forma sugestiva.
"Nenhuma riqueza é acumulada em vão", disse Meshach Milburn, com as narinas delicadas dilatadas e a mão fina apontando para as notas bancárias. "Agora, guerra em Johnson's Cross Roads!"
Ele atravessou o velho cômodo sobre a loja e, abrindo o baú verde, tirou o Chapéu Vinculado, tomando-o nas mãos com um sorriso sombrio.
"Eis algo que pensei em deixar de lado por causa da minha esposa", falou ele. "O povo dela me obriga a usá-lo! Pensei que toda a malícia contra este pobre chapéu terminaria com o meu triunfo social aqui. Mas não sou um homem que se assusta. Que me matem, mas será sob a minha aba ancestral."
"Oh! Ouça seu rouxinol cantar novamente como fazia: 'Vesta--Meshach--Amor!' Onde está o pássaro?"
Meshach Milburn balançou a cabeça e colocou o Chapéu Vinculado sobre ela. "Tom deixou-me", disse ele, "quando começaram a disparar balas contra o meu Chapéu."
* * * * *
O instinto feminino de Vesta já havia encontrado a explicação para a morte de Wonnell.
Desde o momento em que conheceu seu marido, seu chapéu fatal fora a sombra no caminho de sua vida. Sua pessoa nunca lhe fora ofensiva, e algo atraente ou moderador nele a levara, ainda criança, a oferecer uma flor ao seu chapéu, para dar-lhe uma consonância com ele mesmo, que parecia merecer menos maldade.
Um insulto imaginário ao seu chapéu fizera-o brigar com seu pai, uma briga que envolveu sua conquista, não pelo cortejo, mas pelo tratado de guerra. O mesmo chapéu inspirara a superstição que levou os criados de sua cozinha a deixar seu lar confortável, e fora o obstáculo insuperável para o consentimento de sua mãe ao casamento. Causara as únicas palavras amargas que já haviam passado entre ela e seu pai. Por fim, derramara sangue, e seu tio, ela bem sabia, por sua natureza implacável, incitara os rufiões, e ela sabia tão bem quanto que seu marido o descobrira.
Sua inteligência, que de outra forma seria motivo de orgulho para ela, tornou-se objeto de medo, envolvida com seu chapéu.
Então, a perda de Virgie não foi menos severa para Vesta do que a de sua própria mãe.
Era verdade que Roxy, bonita e amorosa, agora derramava toda a sua devoção aos pés de sua senhora, mas havia algo em Virgie que Roxy nunca poderia alcançar — uma dignidade e autossuficiência quase iguais às de uma mulher branca. Vesta derramou lágrimas amargas com a notícia da fuga daquela querida consoladora e, de joelhos, rezando pela delicada jovem andarilha, sentiu a convicção de Deus sobre os pecados da escravidão. Ai! Milhares sentiam o mesmo, mas não admitiam a convicção, e davam desculpas que soldaram em uma nação, enfim, os milhões sensíveis que não podiam concordar com um sacrifício menor, mas estavam dispostos a dar guerra.
Um pequeno bilhete de Snow Hill dizia a Vesta que sua criada já havia partido e só escreveria novamente a partir de solo livre.
Assim, o chapéu censurado foi usado mais vezes do que antes, e Vesta teve de sofrer muita humilhação por causa dele. Seu marido agora agia ativamente para organizar sua ferrovia, e visitava as cidades de Maryland na península, levando-a consigo, e usando na viagem sua cartola ao estilo Rei Jaime, agora envolta em crepe de luto.
Em Cambridge, que se banhava nas águas como uma Veneza inglesa, ele aplicou os nervos da guerra a um sentimento público apático, e a imprensa do condado começou a pedir a expulsão de Joe Johnson e a rendição de Patty Cannon ao Estado de Delaware. Em Easton, deitada entre as águas sobre seus tesouros de marga, como uma ostra perlífera, as pessoas saíram para ver o homenzinho de chapéu pontudo, com a bela dama ao seu lado; e Vesta sentia mais dor pelo marido do que por si mesma, ao sentir que seu traje outre prejudicava sua ferrovia, já que os negócios, não menos que a beleza, revoltam-se contra qualquer afetação exterior. Nos antigos lares aristocráticos no Rio Wye, mais carrancas do que sorrisos eram conferidas ao parvenu excêntrico; e em Chestertown, de onde se originaram os Peales que levaram este chapéu para seu museu, os rapazes queimaram barris de alcatrão na praça do mercado e marcharam, com chapéus feitos de embalagens de açúcar mascavo, como o de Meshach, diante da morada do anfitrião de Vesta.
Quanto maior a oposição, mais indomável Milburn se tornava para superá-la. Ele escreveu ao pai dela para ir a Annapolis e trabalhar por uma concessão ferroviária e auxílio estatal, e começou a nivelar o terreno para sua linha nas proximidades de sua antiga loja em Princess Anne, lançando a primeira pá de terra ele mesmo, com o chapéu imemorial sobre sua cúpula. Desta vez não houve gritos, e ele quase se arrependeu, parecendo sentir que as zombarias não carregam malícia profunda, enquanto o silêncio é ódio.
Leal aos seus menores votos, e desejando amar e obedecer-lhe plenamente em espírito, Vesta sentia que a própria natureza bondosa dele estava sendo obscurecida novamente por sua obstinação sobre este único ponto de um chapéu obsoleto.
Ele parecia, em seu círculo noturno em Teackle Hall, uma pessoa mais jovem e mais cavalheiresca, em um terno de roupas modernas e chinelos presenteados por Vesta. Sua mão delicada combinava bem com o anel que ela colocou nela, e, quando ele falava com alto entusiasmo e bom senso, e estava pronto para apoiá-los com coragem e dinheiro, Vesta pensava que a seu marido só faltava uma coisa para torná-lo igual ao seu suposto parente, o mártir democrático do século XVII, e isso era outro adorno para a cabeça. Ela quase temia abordar o assunto, sabendo que uma ferida antiga é sempre a mais sensível, e sendo direta e franca demais para insinuar ou praticar qualquer artimanha com ele.
Ela estava bordando um gorro noturno de veludo para ele certo dia, quando a Sra. Tilghman enviou uma caixa de chapéu, e dentro havia um chapéu novo e fino do estilo atual. Ele respondeu à carta dela educadamente, colocou o chapéu novo no cabideiro de Teackle Hall e nunca mais o tocou.
Depois, Rhoda Holland, sua sobrinha, obtendo de algum namorado do campo uma pele de castor — e castores estavam se tornando escassos e caros naquela península — mandou fazer-lhe um gorro elegante para o tempo frio que se aproximava; mas ele apenas a beijou e colocou-o no cabideiro, e lá ele tentou a traça.
Seus calafrios e febre continuavam em momentos intermitentes, mas mais regular tornou-se a antipatia e a oposição da antiga classe social à medida que ele se aventurava a ser o promotor de sua região. Eles consideravam isso uma audácia pior que um crime: ele os superara em riqueza e agora minava sua importância. Muitos declararam que nunca viajariam em uma ferrovia construída por tal homem; outros esperavam que isso o arruinasse; alguns tomaram posição aberta contra seu trabalho e escreveram cartas a Annapolis para prejudicá-lo junto ao Legislativo, onde o interesse de Baltimore já clamava alto que uma ferrovia na Costa Leste significava levar o comércio e o dinheiro de Maryland para a Filadélfia. Meshach respondeu ferozmente que, a menos que a ferrovia seguisse a linha dos condados de Maryland, o estado de Delaware a construiria e a levaria para Newcastle em vez de Elkton, onde Meshach pretendia unir-se a um sistema projetado em Baltimore. Estimando prudentemente a escassez de sua fortuna para executar cem milhas de aterro e ferrovia, Milburn ainda mantinha uma exibição de agrimensores e niveladores em vários condados, e seu patriotismo local tinha pelo menos a apreciação do pequeno círculo de Vesta.
Nesse meio tempo, a contínua ausência de Samson o surpreendia, e as cartas do Juiz Custis eram irregulares e demoravam a chegar à medida que ele ia mais para o norte, enquanto duas cartas recebidas pela Viúva Dennis eram tão místicas quanto tranquilizadoras: uma, em letra feminina, dizia-lhe que seu filho Levin estava sendo vigiado ternamente, e outra, em escrita masculina, continha algum dinheiro e dizia que seu filho logo estaria em casa. A Sra. Dennis estava longe de ser feliz nesse estado de espírito indefinido, e seu coração lhe dizia, também, que a ausência de James Phoebus era uma tensão diferente. Ela amava aquele ausente já demais para perdoar seu silêncio.
Um dia, antes de novembro, Vesta disse ao marido:
"O ar e o céu ainda estão quentes e brilhantes, e as rosas estão desabrochando. Você trabalha demais entre seu caso do canal e sua ferrovia. Vamos encher as duas carruagens e dirigir até a antiga Rehoboth, e comer nosso jantar lá."
Ele consentiu, e levaram com eles a Avó Tilghman e William, Rhoda Holland, Roxy e a Sra. Dennis, e também a pobre mulher livre, Mary, a quem Jimmy Phoebus libertara de suas correntes.
A estrada passava à vista do local de nascimento do leão da independência em Maryland, Samuel Chase, que forçou aquele estado hesitante, por ameaças e até tumultos, a declarar-se pela separação permanente da Inglaterra, assim como Henry Winter Davis, pelos mesmos meios, oitenta e cinco anos depois, forçou seus rebeldes contra a União a mostrar as cartas.
Perto do local de nascimento de Chase, no glebe, erguia-se a antiga Washington Academy, em campo aberto, erguida naquele início de dia republicano quando uma febre generosa pela educação, seguindo o ato de tolerância, fez algumas casas escolares nobres que o crescimento das cidades finalmente desencorajou. Com quatro grandes chaminés acima de seu telhado cônico, e frontões e cúpula, e dois andares amplos, e subsolo alto, tudo feito em tijolo sóbrio e escuro, a academia ainda tinha um aspecto fúnebre e negligenciado, como se, tal como o homem, estivesse ruminando sobre os tempos mais brutalizados e a diminuição da iluminação que os falsos sistemas sempre exigem.
"Ah!" disse o marido de Vesta, "quantos meninos pobres tu enviaste dali mutilados para a vida, querida, como os amantes da abelha rainha."
"Como é isso?" Vesta inquiriu.
"Você nunca ouviu falar da abelha rainha? As mulheres, quando morrem, podem se transformar em abelhas e reverter suas condições difíceis nesta vida. A abelha rainha não tem rival na colmeia; todas as outras fêmeas lá são imaturas, e todos os machos estão morrendo pela rainha. Ela tem quinhentos amantes, tão apaixonados por ela que nunca trabalham, e quarenta vezes mais criadas, como as de Penélope, todas bordando favos e cera."
"Como isso foi provado?"
"Colocando as abelhas em uma casa de vidro e observando-as. Para Deus, toda a humanidade também pode estar em uma colmeia de vidro, e a biografia secreta de cada zangão ser mantida."
"E a lua de mel da abelha rainha?"
"Dela deriva essa palavra. Ela voa alto no ar e encontra um amante por acaso; ela tem tantos que um com certeza será encontrado; ela o beija naquele redemoinho de cristal de sol e, no transporte, ele é ferido no coração. Quantos jovens zangões da academia já te viram uma vez e desmaiaram para a vida!"
"Mas a abelha rainha também tem um destino algum dia, senhor?"
"Sim. Ela deixa a colmeia antiga enfim e se instala em alguma árvore florestal feia, e todos os que a amam a seguem: a erva há muito negligenciada torna-se ocupada com música e doçura, e o brilho de asas prateadas, até que em algum cone de árvore de goma o fazendeiro reúne o enxame, e é o seu lar."
Vesta olhou para a ilustração poética e viu o chapéu cônico de seu marido, no qual ela havia sido colhida, e seus olhos caíram para suas vestes de luto.
"Oh, meu pai!" pensou ela; "ele manteve suas boas resoluções! É tudo o que me resta esperar."
Eles viajaram pelos corredores da floresta plana, às vezes as azevinhos, em sua folhagem verde e frutos vermelhos, às vezes o verde limpo do pinheiro, enriquecendo a concavidade marrom dos carvalhos; e no povoado espalhado de Kingston, o candidato a governador pelo Partido Jackson, o Sr. Carroll, curvou-se de sua porta. Cruzando o Morumsco Creek, viraram para o leste e logo viram, em uma planície, o ainda animado povoado eclesiástico de Rehoboth, estendendo suas duas antigas igrejas através da visão.
A estrada corria para a margem do Rio Pocomoke, onde uma balsa ainda era mantida para a margem oposta e a terra de Accomac, na Virgínia, e a maré fria, sem uma vela, serpenteava para um estuário ostrícola da baía, onde a lama no fundo era tão macia que as embarcações encalhadas nele ainda podiam continuar navegando, como no globo lodoso em que Noé chegou à costa.
Perto dali, havia cascas de ostra tão altas quanto um penhasco natural, feitas pelos gourmands indígenas antes da viagem de navegação de John Smith.
Vesta foi deixada na grande igreja episcopal em ruínas que, como um castelo de tijolos, fazia o portal de Rehoboth; enquanto William Tilghman e Rhoda passeavam pela porta aberta da igreja presbiteriana de tijolos mais adiante, e Milburn guardou os cavalos na taverna.
"William", perguntou Rhoda, "esta foi a primeira igreja presbiteriana feita aqui?"
"A primeira na América, Rhoda. Esta foi a igreja do Rev. Francis Makemie. Ele vivia na Virgínia, não longe daqui, onde nenhum outro culto era permitido senão o nosso, então ele atravessou o Pocomoke e ergueu uma igreja de troncos neste ponto, e este é o terceiro ou quarto edifício de igreja no local. Rehoboth tornou-se então um ponto para o culto de tal forma que a Igreja Estabelecida ergueu ali aquele nobre edifício antigo, como se para intimidar esta calvinista, em 1735."
"É uma casa velha e estranha", disse Rhoda. "As portinhas que se abrem do vestíbulo para as galerias laterais enviavam uma corrente de ar direto nas costas do pregador no fim, e quando ele anunciava o hino, 'Toquem a trombeta, toquem', ele sempre assoava o nariz duas vezes. Então eles taparam as galerias e baixaram o teto, e se subirmos lá, podemos ver o outro teto redondo antigo, William."
Então eles subiram as escadas estreitas da porta e entraram nos tubos das galerias todos fechados para a congregação, e lá, sentando-se na obscuridade, o pregador passou o braço pela cintura de Rhoda.
"Cuidado", disse ela; "talvez você estivesse predestinado a ser perdido aqui. Tenho medo de estar aqui metade no escuro, mesmo com um homem bom."
No entanto, ela chegou um pouco mais perto dele e olhou nos olhos dele com os seus próprios, astutos e recatados. O jovem reitor beijou-a subitamente.
"Você trouxe isso sobre si mesma, Rhoda, por parecer tão bonita neste lugar austero de credos e catecismos. Você poderia me amar se eu lhe pedisse?"
"Você não poderia me amar de verdade, William. Seu coração está na outra igreja velha entre os morcegos e raposas, onde a tia Vesty está sentada neste minuto."
"Não, minha dor está lá, Rhoda. Estou tentando construir um ninho para meu coração. Todos nós precisamos amar."
"William, não acho que um jovem apaixonado possa se lembrar de tanta história quando está sentado no escuro ao lado de sua garota."
"O amor entre as ruínas é sempre melancólico, Rhoda."
"Sim, William, e seu amor sai delas: as ruínas do seu antigo primeiro amor. Eu não poderia fazê-lo feliz."
"Tente", disse William; "minha fantasia vacila em sua direção. Você é uma garota linda."
"Sim", disse Rhoda, de forma prática, "já está na hora de eu me casar. Acho que vou levá-lo para um teste e observar a tia Vesty para ver se ela tem ciúmes de mim."
Todas as diferenças de educação desapareceram quando, parando por um momento com esta garota alta e esguia em seus braços, sua natureza ardente no rubor da incerteza, sua própria coqueteria languidecendo, como a saúde tomando a religião como cativa, o reitor de Princess Anne sentiu que não há remédio para o amor senão o amor.
Eles caminharam juntos ao redor do quadrado edifício antigo, entre os túmulos dos Tilghmans, Drydens, Revells e Beauchamps, e viram as janelas de topo redondo e portas duplas em tijolo arqueado e, voltando pela estrada, entraram no recinto da grande e antiga igreja episcopal, que tinha quase oitenta pés de comprimento e apresentava seu lado largo de tijolo enegrecido, e uma dupla fileira de janelas espaçosas, ao abandono absoluto deste lugar de floresta.
O cemitério era um bosque de brotos de árvore de goma e choupo, e arbustos de frutas, com macieiras e cedros e cerejeiras silvestres logo acima, e mais alto ainda os sicômoros úmidos e bordos, crescendo fora de murta quase na altura do joelho sobre as ondas de túmulos antigos.
Em bela carpintaria, as treze janelas neste lado maciço sustentavam em suas caixilhos trabalhados à mão mais de quatrocentas vidraças de vidro fosco, e duas grandes janelas na empena tinham cinquenta vidraças cada, e permaneciam firmes, embora a parede entre elas, de cinquenta pés de largura, tivesse caído e sido substituída por mão de obra mais pobre. Na empena oposta havia outra porta que fora forçada, e, ao pisarem sobre o soleira, um estalo, como gelo pisado pela primeira vez, dividiu o longo e elevado vazio com estrondos de aviso.
Agora todo o interior, em fina perspectiva, permanecia exposto, pelo menos setenta e cinco por cinquenta pés, como um majestoso salão ininterrupto por quaisquer galerias laterais, e com duplos andares de janelas lançando uma luz nebulosa, e, na extremidade distante, um púlpito baixo, com altar espaçoso. As paredes deste templo negligenciado tinham dois pés de espessura, e seu teto alto era impedido de cair por dez suportes de madeira rudes de carpintaria recente; os bancos eram coisas imponentes, de cerca alta, numerados em letras brancas sobre fundo preto, e cada um quadrilátero, para conter dez pessoas; as almofadas de damasco apodrecidas em muitos deles falavam de uma aristocracia anterior, enquanto agora toda a congregação poderia ser reunida em um único banco, e o culto era desconhecido, exceto uma vez por ano, quando o bispo vinha ler sua liturgia para o pó e a desolação.
Assim, no cabo ocidental oposto da baía de Chesapeake, tremiam os padres romanos da fundação de Calvert, no deserto da antiga St. Mary's; os rebanhos haviam deixado os pastores, e apenas cinquenta pessoas vinham cultuar na igreja dos primeiros presbiterianos.
Dois fogões altos, outrora considerados elegantes, ficavam quase na metade do caminho do assoalho rachado da igreja; e Mary, a mulher livre, fizera fogo em um deles, e a madeira de pinho estava rugindo, e o longo comprimento do cano estava fumegando. Assustado pelo fogo, um gambá venerável saiu de um dos bancos e balançou-se pelo corredor, como um devoto cinzento que dissera suas orações e não temia homem algum.
Vesta estava lendo seu livro de orações em voz alta perto do fogão para a bela viúva e a Avó Tilghman. Em poucos momentos, o jovem reitor emergiu de uma curiosa galeria antiga para pessoas negras, junto à porta, usando sua sobrepeliz; e ele leu o serviço na mesa, lamentoso e simples, Milburn e seu grupo respondendo no cômodo em que mil poderiam ter cultuado.
"Prima Vesta", disse o ministro, após o serviço, "a Srta. Holland vai tentar me amar. Sr. Milburn, posso cortejá-la?"
"Ela é uma peça voluntariosa", disse Meshach; "você deve educá-la primeiro. Deixe minha esposa dar meu consentimento."
Vesta foi até ambos e beijou-os:
"Sinto-me tão encorajada, queridos Rhoda e William, ao ver o amor começando ao meu redor. Agora, Norah, se você pudesse ser justa com James Phoebus, que está provando seu amor por você, talvez, com sua vida!"
"Sim, esse é um par que aprovo", disse a Avó Tilghman, "mas não quero que Bill se case. Homens desapontados fazem seleções precipitadas."
"Oh", disse Rhoda, "não o parabenize cedo demais; ainda não o aceitei. Ele vai me ensinar com os livros, e eu vou ensiná-lo com a floresta."
Eles caminharam juntos até a margem do rio, e a Sra. Dennis fez a pobre mulher, Mary, contar as aventuras de Jimmy Phoebus para salvá-la da escravidão. Todos ficaram profundamente comovidos.
"Agora, Norah", disse a Avó Tilghman, "no momento em que aquele homem voltar, você vá até ele e beije-o, e diga: 'James, você tem sido o único pai para meu filho. Você quer que eu seja sua esposa?' Este mundo é feito para casar, Norah. As mulheres não têm outra carreira. A natureza não valoriza o cérebro de Shakespeare, mas mantém a semente de cada planta errante quente, e casa tudo."
"Bem", disse Vesta, "Norah ama James Phoebus; não ama, Norah?"
A viúva corou.
"Aceite-o, minha linda vizinha", disse Milburn.
Enquanto todos olhavam para ela, ela exclamou de repente:
"Eu quero, de fato. Teria feito isso antes, mas sou supersticiosa. Quem é que me alimenta tão misteriosamente?"
"Ele tem vindo ultimamente?", perguntou a Sra. Tilghman.
"Não, não desde que vocês se casaram, Vesta."
"Então acho que não virá mais", disse Milburn. "Você esperou mais tempo do que eu."
Seus olhos buscaram os da esposa. Ele acrescentou:
"Serei algum dia mais do que seu marido?"
"Sim", disse a Avó Tilghman, com um esforço especial, "quando você usar um chapéu do qual uma jovem esposa não se envergonhe."
Todos sentiram um frio na espinha com essas palavras da mulher cega. Milburn disse, gravemente:
"Como pode saber sobre chapéus, se não pode vê-los?"
"Oh," disse a Avó, ela mesma um pouco assustada, "esse chapéu, acho que posso senti-lo pelo cheiro."
* * * * *
Naquela mesma noite, em Princess Anne, a Sra. Dennis, em sua pequena casa, despiu-se à luz de um fragmento de fogo na lareira que, de vez em quando, reluzia sobre o retrato de seu marido, como ele a deixara dezesseis anos antes, quando Levin era um bebê — um homem rico, loiro, jovial, vestido em uniforme naval, como Decatur, cujo local de nascimento era tão próximo do seu.
Seus cabelos dourados encaracolavam-se sobre a testa, seus olhos azuis estavam cheios de uma audácia elegante, e sua boca vermelha e carnuda era como a de uma mulher; sobre o braço, segurava um bicórnio, dragonas enfeitavam seus ombros, sua rica casaca azul era cortada com ouro ao longo das lapas largas e mantinha-se rígida em volta do pescoço, do colarinho felpudo e dos babados em forma de leque da camisa. Ele parecia ser apenas um rapaz, mas do tipo que fazia dos oficiais e corsários americanos de seus dias os únicos prêmios do republicanismo dos mares contra o domínio de outra forma universal da Inglaterra.
Este retrato, o último dos bens de sua família, foi o presente de despedida do jovem marinheiro para ela quando ele partiu no Ida, deixando-a como uma mera menina, com seu filho sobre o peito. O quadro pendia acima da porta humilde, cujo ferrolho nunca era trancado naquela sociedade serena, e raramente o é até hoje.
A Sra. Dennis ajoelhou-se no chão nu e ergueu seus braços delgados, brancos como seu espírito, para o amante de sua juventude:
"Oh, tu a quem adorei desde que Deus me deu a sentir a beleza e a força do homem em minha infância, se jamais olhei para outro homem senão tu com amor ou hesitação, repreende-me agora pela ofensa que estou prestes a cometer, se é que assim se pode chamar, ao escolher outro pai para teu filho!"
Um lamento baixo pareceu ser soprado sobre a meia-noite de algum lugar próximo, e a tosse de um homem doente pareceu romper o silêncio perfeito. A mão da viúva instintivamente cobriu seu seio enquanto ela escutava, e, imersa no espírito de sua prece, ela continuou:
"Oh, Bowie, se tu vives, deixa-me saber! Que eu não viva para ver-te chegar e encontrar-me nos braços de outro; teu olhar me mataria. Se estás detido por inimigos, por gente selvagem ou por um amor estrangeiro, não importa quais sejam teus erros, serei sempre fiel! Dá-me algum sinal, pelo Deus que te tem sob sua guarda, se jazes no leito do oceano ou se observas das estrelas. Se estás morto, amor da minha juventude, assegura-me, oh, eu te rogo!"
O lamento e a tosse seca pareceram repetir-se muito perto. Um passo pareceu aproximar-se.
A porta escancarou-se e, ao luar, estava um homem, pálido como um fantasma, com aparência de bandido, com trajes de aspecto espanhol e a cabeça e o pescoço envolvidos por faixas, como os feridos nas cobertas dos navios de guerra.
Ele fixou nela os olhos do retrato acima da porta. Quão mudado! quão parecido! Parecia haver sobre sua garganta a mancha de sangue.
A viúva, fascinada, paralisada, deixou cair seus braços de marfim e, enquanto contemplava, seu belo pescoço, tenso de horror e espanto, recebeu sobre sua alvura o arrebatamento do brilho de Diana.
A efígie, tão semelhante ao seu marido, porém tão alterada, estendeu em sua direção a mão, na qual um diamante capturou a lua e pareceu bebê-la. Um lamento, como os outros que ela ouvira, rompeu de seus lábios e disse as palavras:
"Perder esses encantos! Perder esse coração! Ó Deus!"
Enquanto ele ali estava, cadavérico e suplicante, como se fosse cair e morrer em seu limiar, outra mão surgiu ao luar e puxou a porta entre eles. Uma voz que ela não ouvira exclamou ternamente:
"Eu o amo como nunca amei um homem!"
"É o espírito do meu marido", a viúva murmurou. "Não posso me casar."
Ela desmaiou no chão, diante do fogo agonizante.
CAPÍTULO XXXVIII.
A FUGA DE VIRGIE.
Snow Hill, quando Virgie olhou para ela, quase parecia construída sobre neve, uma areia branca compondo as ruas, jardins e campos, embora o ar úmido trouxesse vegetação até disso, e trepadeiras subiam, salgueiros pendiam, flores floresciam, na beira do inverno, e grandes sicômoros salpicados, como gigantes sardentos, e carvalhos nobres erguiam-se a alturas que indicavam rica nutrição em suas raízes.
O calor, a umidade e o sal tornaram a terra habitável, e o vento de um mar recuado acumulou a areia há muito tempo em montes agora cobertos de verdura, aos quais o capricho ou o carinho do dono da mansão chamaram de colina, dando-lhe o seu próprio nome, talvez com lembranças da antiga Snow Hill em Londres.
Sobre este aparente banco ou colina, duas igrejas veneráveis erguiam-se, ambas de tijolos ingleses, a Episcopal, coberta de hera, e a Presbiteriana, que dera seu nome ao primeiro sínodo da Igreja no novo mundo, e agora ficava, cercada por lápides, onde o visitante poderia ler nomes escoceses deixados para órfãos em Worcester, como ali no cemitério episcopal, nomes deixados para órfãos ingleses na mesma maré crescente de sangue; e Worcester era o nome do condado, como o tribunal e a cadeia poderiam dizer.
Escondido na areia, como a taça de Benjamim no saco de milho duro, um brilho dourado ainda parecia trair Snow Hill, à medida que o sol subia em suas árvores antigas, acordava os pássaros de garganta líquida e, finalmente, fazia os tijolos velhos e as casas caiadas ainda mais velhas brilharem e exalarem uma fumaça suave e azul. Virgie ouviu um som como de cascos sobre uma ponte e viu, através do rio cercado de lírios, a carruagem Custis serpenteando por uma estrada dourada.
"Sozinha!" disse Virgie; "o amor se foi. Agora devo viver pela liberdade."
"Café da manhã, senhorita", falou uma mulher asseada, de rosto gentil e pronto, do mesmo porte e cor de Virgie; "meu marido vai levá-la para fora da cidade antes que qualquer um dos brancos se levante para vê-la."
À mesa estava um homem mulato, a quem a mulher apresentou como seu marido.
"Sra. Hudson", disse Virgie, "você está fazendo tanto por mim! Que o bom Deus lhe pague!"
"Oh, não", respondeu a mulher, "estou sempre de pé a esta hora. Trabalho duro, porque estou tentando comprar minha mãe, que ainda é escrava."
"Como você conseguiu sua liberdade?" Virgie perguntou, melancolicamente.
"Salvei a vida de um cavalheiro doente, e ele me comprou por isso e me deu minha liberdade. Veja, tenho um salvo-conduto que diz a cor dos meus olhos e da minha pele, meu peso e tudo mais. Com isso posso ir para Delaware e para os estados livres. Quem dera você tivesse um, Srta. Virgie."
"Oh, Sra. Hudson, eu gostaria muito de ter. Deixe-me ler. Ora, eu quase poderia passar por você, por esta descrição."
"De fato poderia", disse a dona da casa; "não temos a mesma idade, mas os brancos não leem um salvo-conduto com muito cuidado."
"Como eu amaria alguém que pudesse me conseguir um desses!"
"Dei minha palavra de honra de que jamais o emprestaria. Por mais que eu goste de ajudar os da minha cor a conseguir a liberdade, não posso quebrar minha palavra. Amanhã tenho de ir a Delaware com meu salvo-conduto para cuidar de uma senhora."
"Você cuida de doentes, Sra. Hudson?"
"Sim, tenho uma espécie de chamado para isso, Srta. Virgie. Desde menina colhia ervas e as testava em mim mesma, e estudava como 'atender' as pessoas, observando suas mentes, que é grande parte da doença, e como enrolá-las e massageá-las. Meu marido caça ostras lá nas enseadas. Aqui está a carroça dele."
"Que o Senhor se lembre de você na necessidade, querida Sra. Hudson."
A carroça velha, um veículo aberto para vender ostras e peixes, foi conduzida pela cidade para o sul e logo estava em campo aberto, indo em direção à Virgínia. Um cheiro de baía salgada parecia estar no ar; os ninhos de gaviões em árvores mortas indicavam o elemento que sustentava tudo, e as árvores nos campos eram frequentemente majestosas em tamanho, embora areia e pequenos bosques de carvalhos e pinheiros raramente estivessem fora de vista. Ao virarem em uma viela perto de um pequeno local de culto à beira da estrada, um jovem branco passou a cavalo e, vendo Virgie, puxou as rédeas e gritou:
"Bonita, bonita, bonita como pêssegos e creme! Sangue da velha Virgínia corre nesses olhos, pelo Alferes!"
O homem de cor resmungou: "Siga seu caminho, Sr. Wise!"
"Pelo Alferes agora", continuou o homem, que era jovem, mas de semblante cadavérico, "se é uma meretriz de Maryland, ela é maravilhosa. Qual o nome, garota angelical?"
"Ela é a Srta. Spence. Estou levando-a para casa", o mulato interpôs apressadamente, e entrou no portão, enquanto o cavaleiro, com um grito como alguém embriagado, galopava em direção ao norte.
"Sinto muito que ele tenha visto você, de verdade!" o condutor disse; "aquele é Henry A. Wise, o grande advogado de Accomac. Talvez ele pergunte em Snow Hill, para onde está indo para o tribunal."
"Que casa é esta, Sr. Hudson?" Virgie perguntou, vendo no final da curta viela uma casa robusta e uma varanda, com pequenas dependências agrícolas ao redor.
"Essa é a velha Spring Hill, construída pelo primeiro dos Milburns; pelo que fez o testamento deixando seu chapéu e nada mais para o filho. Tem as extremidades de tijolo. Imagino que tinham dinheiro quando vieram para cá, Virgie."
O espírito aguçado da garota notou que ele havia parado de chamá-la de "Senhorita".
"Agora", disse Hudson, "vou deixá-la aqui com minha irmã até eu ver sobre conseguir um barco. Se você for rastreada até Snow Hill, descobrirão que você veio por este caminho agora. As enseadas correm ao longo da costa aqui, passando pela linha de Delaware. Vou levá-la de barco além de Snow Hill novamente e dobrar sobre eles. Sim, Srta. Virgie, vou tirá-la daqui se custar tudo o que juntei."
Uma luz agitada parecia brilhar em seus olhos.
Virgie foi colocada em um sótão acima da cozinha da casa e deixada com suas contemplações. O lugar estava quase escuro, e ela estava exausta pela falta de sono, a excitação da noite anterior tendo abalado seu sistema nervoso, e logo ela começou a cochilar de forma irregular, e a sonhar quase acordada.
Ela viu Meshach Milburn, que parecia ter se tornado uma criança pequena de rosto envelhecido, estendendo a mão para uma pessoa mais velha, muito parecida com ele em traços, e pegando um chapéu de abas altas de sua mão. Esta criança mais velha estendeu a mão para trás e pegou um chapéu semelhante de outro, ainda mais velho; e então os dois primeiros desapareceram, e dois velhos estavam dando e recebendo o chapéu.
Então nada restou além do chapéu sozinho, que era um objeto enorme com fogo saindo dele, e, perto da chama, um círculo de feiticeiros girava em torno com uma alegria vertiginosa, todos usando chapéus de forma semelhante, mas mais altos, mais altos, até atingirem o céu e as estrelas, e cada um cuspindo chamas.
Entre esses feiticeiros arruaceiros, ela reconheceu as feições do sequestrador alto e do Juiz Custis; e Vesta também estava lá, e a velha Tia Hominy, todos dando um olhar apressado de vergonha, tristeza ou severidade para ela, até que ela, temendo, porém fascinada, saltou para dentro do círculo e dançou em volta com os outros, até que seus pés fizeram um caminho de fogo e sua cabeça ficou ardendo de calor, e finalmente ela perdeu o equilíbrio e caiu dentro do grande chapéu, cujas paredes altas, como montanhas, a cercavam, e nada ela podia ver no fundo da velha peça de feltro senão uma pequena sepultura, e espiando dela estava o rosto da criança assassinada que o sequestrador levara embora.
"Venha", disse uma voz, e Virgie acordou, com febre nas têmporas e mãos quentes, para ver a cabeça de seu condutor olhando para o sótão como se tivesse globos oculares em brasa.
Ela só sabia que estava indo novamente na velha carroça, e um menino estava nela, e que depois de certo tempo, ela não sabia dizer quanto, foi ajudada a descer em um velho ancoradouro, onde a estrada terminava, e foi colocada a bordo de uma espécie de chata, que a brisa, carregada de mosquitos, levava para uma água larga e salpicada de ilhotas.
O homem Hudson estava sondando a água e observando a vela, enquanto o menino guiava, e Virgie estava deitada, doente e fria, no meio do esquife, coberta pelo casaco grande do homem.
Parecia-lhe ser tarde e o oceano estar próximo em algum lugar, pois ouvia um trovão baixo, como ondas quebrando; e uma vez, quando ela se levantou, de forma entorpecida, para olhar, havia objetos familiares em ambas as margens, e ela pensou que fosse a praia da Cidade Velha perto da enseada de Snow Hill.
Pouco depois, o homem lhe trouxe ostras e um pouco de costela de porco fria, com pão de milho, para comer, e as margens estreitaram-se e, finalmente, pareceram quase se encontrar, enquanto o esquife, raspando o fundo, disparava por um estreito canal.
Então as estrelas brilhavam sobre ela, e as águas tornaram-se largas novamente e, deitada em um transe de luzes e imagens voadoras, ela pensou ter sentido seus lábios beijados e uma voz dizer "Querida!"
Finalmente, sentiu-se erguida e carregada e, quando pôde compreender a situação, viu-se deitada sobre uma pilha de telhas em um velho cais, e o homem, ao seu lado, chorava enquanto observava o barco recuando por um corredor de ondas ao luar.
"Meu menino, minha pobre velha", ela ouviu seu condutor murmurar, "nunca mais poderei voltar para você!"
"Por quê?" falou Virgie, mal percebendo o que dizia.
"Porque... porque... foi você quem fez isso!" o homem exclamou, com olhos ardentes vistos através de suas lágrimas correntes.
"Oh, diga-me onde estou!" Virgie disse. "Falta muito para a liberdade agora?"
Ela olhou para o céu, todo agitado com nuvens e estrelas movendo-se umas sobre as outras, e parecia o mundo mais próximo de todos.
"Meu pai está lá?" pensou Virgie, "meu querido pai branco? Pode ele me ver aqui, doente e solitária, e me odiar?"
"Estamos no ancoradouro de Shingle; ali é St. Martin's", disse o negro, cautelosamente; "há duas estradas perto de onde estamos, indo para o Norte, querida Virgie; uma é a estrada da diligência e a outra é a trilha das telhas através do Pântano de Ciprestes."
"Pegue a estrada que é mais segura para a Liberdade", Virgie suspirou.
Em poucos momentos, caminhando pelo solo, chegaram a um local onde a trilha da carroça cruzava uma estrada de areia e seguia além dela, ao longo da margem de um pequeno riacho. O homem andou alguns passos pela estrada melhor, indeciso, e de repente puxou Virgie de volta para os arbustos, mas não rápido o suficiente para não ser observado por dois homens que vinham em uma carroça velha e barulhenta.
"Pela minha pele!" gritou o homem que dirigia, um homem jovem, de olhos aguçados, mas não cruéis, "lá está uma garota esperta. Venha aqui e mostre-se!"
Virgie sentiu os olhos do homem repousarem sobre ela, mas não com o ardor grosseiro de seu companheiro, que usava um chapéu largo de abas caídas e camisa vermelha, e estava enfaixado em volta da cabeça e da garganta, mas de seu rosto mortalmente pálido, como a morte, no qual algum sangue parecia estar manchado e manchar a faixa em seu pescoço, emanava um olhar lascivo e grosseiro, e ele fez um beijo com a boca para ela e proferiu:
"O flexuosa! esquisita! É elegante, Sorden!"
"Agora, se estivéssemos indo na outra direção, Van Dorn", o motorista disse, "poderíamos dar-lhes uma carona. Rapaz, o que você está fazendo fora? Onde estão seus salvo-condutos?"
"Aqui estão eles. Somos minha esposa e eu, indo cuidar de uma senhora em Delaware."
"Deixe-me ver!" Ele soltou a fumaça de seu charuto sobre o papel e exclamou: "Prissy Hudson? Ora, pela minha pele! Essa é a enfermeira da minha esposa. E aquela não é a mesma mulher! Onde você conseguiu este salvo-conduto?"
"Siga, Sorden!" tossiu o outro homem, "estou sangrando. Deixe-me deitar."
Seus olhos haviam perdido o fogo lascivo e estavam encovados e vítreos. O motorista o pegou em seus braços e proferiu as gentis palavras:
"Eu o amo como nunca amei um homem!"
"Devolva-me os salvo-condutos!" exclamou o homem mulato, enquanto a carroça partia para o sul.
"Não", gritou o motorista, "vou mantê-los como prova contra Prissy Hudson por ajudar uma fugitiva!"
"Perdido! perdido!" murmurou o mulato. "Agora, querida, o pântano é nossa única estrada!"
Ele a agarrou em sua fuga e a puxou pela trilha de carroça ao longo do braço pantanoso.
"O que você fez?" gritou Virgie.
"Venha! venha!" respondeu o homem. "Aqui não é lugar para conversar."
Com a febre tornando-a forte e intensificando, porém nublando, suas impressões, de modo que o tempo parecia extinto e o próprio medo absorvido pelo frenesi, a garota seguiu o homem na areia profunda da trilha e mal notou os melancólicos ciprestes erguendo-se ao redor deles a partir de poças que sugavam veneno da luz das estrelas, aquecendo-se ali ao lado dos répteis.
Flores, com tons tão ricos que a noite mal as escurecia, enviavam seus perfumes almiscarados para cima, e trepadeiras, em festões silenciosos, pendiam das pontas altas das árvores gigantes como os construtores ambiciosos de Babel, repelidos e tornados mudos. Caíam todas flácidas e, penduradas ali na morte, suas barbas ainda pareciam crescer na vitalidade cadavérica de um sonho imortal.
Os sons de animação inquieta, mais intensos na noite, como se a lua fosse a senhora aqui, e despertasse cada cérebro e língua de inseto para o trabalho, tornavam-se prodigiosos nos ouvidos da garota doente e pareciam abafar cada palavra que seu companheiro masculino tinha a dizer, e, como enormes pêndulos de som, os grilos errantes e os anfíbios balançavam para lá e para cá suas contradições, como megeras condenadas a esperar pela eternidade, e cada uma insistia em ter a última palavra:
"Você fez!" "Você não fez!" "Você fez!" "Você não fez, você não fez, você não fez!" "Você fez, você fez!"
Assim, a briga eterna, iniciada antes que Heitor e os gregos nascessem, enfurecera-se no Pântano de Ciprestes e aumentava em volume a cada noite, até que, nos ouvidos da escrava em fuga, soava como Deus e Satanás disputando por sua alma.
À medida que essa ideia aumentava em sua imaginação, ela ouvia as próprias palavras que esses poderes em guerra lançavam de um lado para o outro, enquanto agora as miríades de anjos aplaudiam juntas: "Aleluia! Aleluia!" e, como um exército de aranhas reunidas no pântano, um refrão profundo de "Inferno, inferno, inferno!" gemia de volta.
"Aleluia!" "Inferno!" "Aleluia!"
Ela viu-se chorando, enquanto tropeçava, "Aleluia! aleluia!"
O pântano aumentava em profundidade e solenidade à medida que se aproximavam das comportas agitadas do Pocomoke e as acompanhavam, sendo a trilha agora apenas uma vala e uma cadeia de troncos flutuantes onde nenhum veículo poderia passar, e o próprio homem parecia assustado enquanto liderava o caminho de tronco para flutuador e de poça para caminhos de madeira, às vezes equilibrando-se em um tronco giratório, ou outra vez mergulhando quase até a cintura na lama vegetal; mas a garota de pés leves atrás tinha o passo de um pássaro e saltava como se de galho em galho, e parecia deslizar onde ele afundaria; e o homem frequentemente voltava-se em terror, quando caía de cabeça de algum poleiro traiçoeiro, para ver seus pés delgados, em sandálias crescentes, brincarem na selva iluminada pela lua como mãos sobre uma harpa.
Ele olhava para ela com espanto, mas com muita melancolia. As sarças pendiam sobre a abertura, e videiras, como cabos de navios afundados, caíam muitos braços através das ondas cristalinas da noite; mas a Estrela do Norte parecia encontrar um jeito de espiar através de tudo, e Virgie ouviu as palavras de Hudson, uma vez, de--
"Logo depois deste braço, um pouco, estamos em Delaware!"
Então os grilos e as pererecas, os sapos-boi e os bacuraus, as corujas e tudo mais, pareciam abafar sua voz e gritar por horas: "Estamos em Delaware! estamos, estamos! estamos em Dela-ware!"
Uma pequena luz quente e gentil finalmente começou a iluminar sua trilha, como se algum predecessor gentil, com um enxó dourado, tivesse lascado as árvores funerárias e feito com que sorrissem uma recepção. Pequenos fogos queimavam no húmus vegetal ou na vegetação rasteira, e a opacidade da floresta cedeu à chama bonita que dançava e quase cantava em um estalo doméstico, como uma jovem apaixonada cantarolando melodias enquanto acende o fogo.
O poderoso pântano agora crescia distinto, porém mais inacessível, à medida que suas bordas internas pareciam transparentes na linha dos fogos, como cortinas de renda contra as vidraças da meia-noite. A trepadeira da Virgínia, leve como os babados de uma dama, girava para cima, como se em uma dança; as árvores gigantes caídas eram ricas em musgo pendente; louro e jasmim apareciam além da superfície borbulhante do longo pântano verde, onde a vida de algum tipo parecia virar-se confortavelmente no calor crescente, como pessoas dormindo na cama.
Subitamente, o homem tomou Virgie nos braços e carregou-a através de um riacho de águas correntes, acastanhadas pelo tanino do pântano.
"Estamos em Delaware", disse ele, pouco depois, ao chegarem a um acampamento de fabricantes de telhas de madeira, todo deserto e iluminado pelo fogo; as lascas douradas estavam espalhadas por toda parte e a serragem, semelhante a farinha de milho, que a Virgie fazia lembrar os bons e quentes bolos de milho de Teackle Hall.
Ela colocou os pés, encharcados com a água do pântano, junto a um tronco em brasa para aquecer, e mal viu uma cobra mocassim deslizar ao redor do fogo e parar, como se fosse dar o bote nela, e deslizar para longe; pois a mente de Virgie atribuía aquele fogo amável à presença da Liberdade.
"Oh, eu gostaria de deitar aqui e dormir", disse ela, languidamente; "estou tão cansada."
O homem Hudson, ensopado com as dificuldades da jornada, passou os braços ao redor dela e puxou-a para o seu peito úmido, porém ardente.
"Dormiremos aqui, então", sussurrou ele nos lábios dela; "eu amo você!"
A incoerência de tudo cedeu a essas palavras repentinas, e sobre a natureza sobressaltada da jovem donzela veio uma realidade que ela não havia compreendido: seu guia estava ébrio de paixão.
Ela lutou nos braços dele com todas as suas forças, mas era como um graveto nas mãos de um maníaco.
"Eu roubei o salvo-conduto da minha velha por você", suspirou o rufião apaixonado; "você disse que amaria o homem que conseguisse um para você, Virgie. Você é minha!"
Uma sensação sufocante e um calor, mais do que a natureza animal, pareciam envolvê-los. A moça lutou para se soltar, sua figura ágil exercendo toda a sua força moribunda para preservar sua modéstia.
"Hudson", ela gritou, "eu contarei à sua esposa! Que Deus o perdoe por insultar uma pobre, doente e indefesa moça neste pântano selvagem!"
"Minha esposa está morta para mim, Virgie. Você é a única esposa que tenho agora. Aqui dormiremos e esqueceremos meus filhos e meu pequeno lar que era suficiente para mim, garota, até que sua beleza viesse e me tirasse dele."
"Pare!" chamou a moça, com o rosto empalidecido mesmo em sua febre, embora não de medo, enquanto seu sangue branco se erguia com orgulho. "Se você não se afastar, eu me jogarei naquele poço profundo e me afogarei. Prefiro morrer a enganar sua boa esposa como você fez."
"Não há nada aqui", disse o negro, "exceto você, eu e o Amor. Eu não deixaria você se afogar. Você é bela demais. Chegaremos aos estados livres juntos e viveremos um para o outro. Beije-me!"
Ele lançou-se sobre ela novamente e curvou sua cabeça clara para trás pelas tranças caídas de seu cabelo sedoso.
A floresta alta encheu-se de luz majestosa; algo rugiu como se os ventos tivessem se perdido e estivessem correndo em direção a eles.
"Ouça!" gritou Virgie. "Deus está vindo para puni-lo."
Enquanto ela falava, o solo ao lado deles irrompeu em chamas e fumaça negra. Os braços do homem relaxaram; ele olhou ao redor e exclamou:
"É o fogo subterrâneo. Corra por sua vida!"
Ele liderou o caminho, correndo para o norte, como eles estavam indo. Em um momento, o fogo, como uma parede dourada, ergueu-se em seu caminho.
Eles voltaram de onde tinham vindo, e o fogo ali era como um lago de lava, e sobre ele as árvores enormes pareciam aquecer as mãos, e pelas trepadeiras secas, como macacos de chama, os espíritos bifurcados da terra ardente esquivavam-se e perseguiam uns aos outros.
"Garota, não posso deixar você perecer", gritou o homem desesperado; "você deve me amar ou morreremos juntos."
Ele jogou seu sobretudo molhado ao redor da cabeça dela, para que ela não pudesse respirar a fumaça nem estragar sua beleza, e lançou-se no fogo à frente deles.
* * * * *
Virgie despertou, deitada no chão, as estrelas ainda presentes no céu, mas alguns traços de luz no leste prenunciando o amanhecer.
Suas mãos estavam cheias de fuligem, suas saias estavam queimadas, algumas dores lancinantes estavam em suas pernas e pés, mas ela conseguia andar.
"Onde está aquele homem pobre e iludido?" pensou ela.
Um gemido veio do chão, e ali jazia algo quase nu, enterrando o rosto em uma poça de água do pântano.
"Agradeça ao Senhor por não estar morto", disse a moça, "mas por ter vivido para se arrepender e ser um homem melhor."
Ele se levantou e olhou para ela com um rosto todo enegrecido, em carne viva e horrível de se ver.
"Senhor misericordioso!" exclamou Virgie; "o que aflige você, pobre homem?"
"O Senhor me puniu pela minha maldade", ele gemeu. "Virgie, você deve me guiar agora; fiquei cego."
CAPÍTULO XXXIX.
A FUGA DE VIRGIE (continuação).
"Você consegue andar, Hudson?" perguntou Virgie, quando seu horror permitiu.
"Sim, criança, eu suponho que consigo andar; mas ambos os meus olhos foram queimados. Oh, minha pobre velha esposa: ela poderia cuidar de mim tão bem. Eu a perdi."
A moça consolou o homem cego e guiou-o adiante, indiferente ao perigo. Ele atravessou os lugares profundos, onde a água acalmava seus ferimentos e enchia suas órbitas empoladas com lama fria.
"Bem-aventurados os puros de coração", murmurou ele, ao chegarem a um solo arenoso e se afundarem. "Você, Virgie, pode ver a Deus; eu nunca poderei."
O grande Pântano Cypress de Delaware — contraparte do Pântano Dismal na Virgínia — cuja borda norte eles haviam alcançado agora, provavelmente fora outrora uma grande enseada ou baía rasa na barra de areia invasora da península, e estava repleta de ostras e peixes, que com o tempo foram aprisionados e tornaram-se o adubo de uma floresta de ciprestes que logo surgiu quando fontes de água fluíram sob a areia e umedeceram as sementes; e por eras essas florestas haviam crescido, tombado, e deixado cair suas folhas e galhos no leito da grande enseada, até que uma massa lenhosa profunda de material combustível elevou cada vez mais o nível do pântano, e, secada com mais eras de tempo do que as que secaram as múmias dos Faraós, abriu frequentemente túneis para o fogo subterrâneo, que em algum ponto de seu curso cuspia e iluminava as árvores ocas, e rugia por semanas. Tal fogo eles haviam atravessado.
Virgie, à luz do início do dia, encontrou um menino pequeno e moreno, conduzindo uma pequena carroça e um boi.
"Você é um menino de cor?" perguntou Virgie.
"Não", respondeu o menino, orgulhosamente. "Sou índio do Indian River; suponho que seja um pequeno negro."
"Leve este pobre homem e eu pagarei a você. Para onde você vai?"
"Para o desembarcadouro de Dagsborough, atrás de sal."
"Deixe-me em Dagsborough, na antiga casa dos Clayton", falou o cego; "está vazia. Posso morrer lá ou conseguir um médico."
Antes que as pessoas estivessem de pé, eles entraram em um pequeno povoado, naquela estrada de diligências da qual haviam feito o desvio noturno, e viram algumas casas pequenas e uma igrejinha de tábuas de madeira nas proximidades, entre os bosques, e uma casa grande de aparência deserta estava no extremo da cidade. O homem disse: "Este é o local de nascimento de John M. Clayton: minha esposa costumava trabalhar aqui."
"Virgie!" exclamou uma voz familiar.
A moça virou-se, seus ouvidos ainda zumbindo com os ecos do pântano, e viu um rosto que conhecia, e correu para o peito sob ele, gritando:
"Samson Hat! Oh, amigo, ame-me como minha mãe. Estou muito doente."
"Pobre criança querida", disse Samson; "nenhum amor eu lhe oferecerei novamente senão o de um pai. Por que você está tão longe de casa?"
"Fui vendida, Samson: estou tentando ser livre. Os sequestradores estão atrás de mim. Oh, salve-me!"
"Acabei de escapar deles, Virgie. A velha, Patty Cannon, libertou-me. Prometi a ela que sequestraria alguém mais jovem que o velho Samson. Abençoado seja o Senhor! Vim por este caminho!"
Ele a levou para os carvalhos do antigo bosque da igreja, onde o culto inglês havia sido celebrado há apenas cem anos; e ela lhe deu dinheiro para comprar remédios e buscar um médico para o cego, e para comprar-lhe um xale na loja. Então Virgie afundou em um sono febril sob os velhos carvalhos e, quando teve mais consciência, estava deslizando em um barco que Samson navegava por uma larga extensão de água, e sua cabeça estava em seu colo.
"Você ainda é pura como um anjo, minha pequena criatura", disse Samson; "e agora estou levando você pelo Indian River até a Rehoboth Bay; e depois de escurecer, levarei você pela praia até Cape Henlopen, e talvez eu possa comprar uma passagem para você em um daqueles barcos de pedra que estão construindo o novo quebra-mar lá, e que voltam para o Norte."
"Oh, Samson, se eu pudesse amar algum homem, seria você", disse Virgie; "mas não posso amar ninguém agora, exceto meu querido pai branco. Quem é ele?"
"O Senhor, suponho, tem sua linhagem, Virgie."
"Estou morrendo, Samson?" perguntou a moça, com saudade, com seus olhos brilhantes cheios de febre. "Oh, amigo, deixe-me morrer tão bem que a Srta. Vesty e meu pai possam vir e me beijar!"
"Conte-me sobre Princess Anne e meu querido velho Mestre Meshach Milburn, que deixei há tanto tempo, Virgie!" disse o velho pugilista, enxugando as lágrimas dos olhos.
Ela começou a tentar lembrar, mas rostos e eventos misturavam-se, e ela sentiu que sua mente estava divagando, mas não conseguia trazê-la de volta; e assim o barco, navegando à vista do oceano e dos navios imponentes ali, encalhou após o meio-dia quase ao alcance do som da arrebentação.
Abrigada em um pedaço de bosque por algumas horas, Virgie viu-se, ao anoitecer, carregada nos braços do velho Samson por uma praia do mar onde a areia era cedente e raramente firme, exceto bem na beira da arrebentação, que rolava de forma ameaçadora e às vezes tornava-se um rugido, e frequentemente varria a margem baixa e pantanosa. Relâmpagos jogavam pelo mar negro, erguendo-o, ao que parecia, e mostrando navios saindo ou entrando, e finalmente o trovão irrompeu sobre a confusão crescente, e Samson disse:
"Há um canhão naquele trovão!"
O próximo clarão de relâmpago mostrou um navio perto da costa, vindo rapidamente com o sudeste, e seu canhão foi disparado novamente, e gritos fracos foram ouvidos; mas a tempestade rompeu-se de uma vez, e uma onda jogou Samson ao chão e quase levou Virgie de volta com ela para o mar fervilhante; mas o fiel velho lutou por ela, e ela correu ao seu lado, sem proferir nenhuma queixa, até que uma vez, ao pararem para recuperar o fôlego, e o fogo celestial trouxe à vista cada centímetro, ao que parecia, daquele vasto oceano, bombardeando-o também com majestosa artilharia, a moça suspirou:
"A liberdade é linda!"
"Oh, Virgie", respondeu Samson, cobrindo-a com seu próprio casaco, "se eu pudesse comprar sua liberdade, pobre criança, eu quase entraria na escravidão para salvar você desta noite."
"Posso morrer ali dentro", disse Virgie, apontando para as ondas; "eles não devem me pegar."
Um lamento veio da tempestade, tão perto à frente que silenciou ambos, e o relâmpago levantou diante de seus olhos um navio encalhado, tão perto, parecia, que poderiam tocá-lo, e estava cheio de pessoas, gritando, mas não em qualquer língua inteligível.
À medida que a noite negra caía sobre esse esboço de lanterna mágica, ouviram um estrondo de onda e madeira, e mastros caindo e gritos horríveis, e, quando veio o próximo clarão vívido de relâmpago, nada era visível senão substância flutuante, e gritos borbulhantes vinham do seio do mar, e um homem negro, arremessado, como se fosse por um canhão, sobre uma onda que encharcou esses andarilhos, atingiu o solo a seus pés e olhou nos olhos de Samson enquanto a convulsão da morte tomava seu peito e pés.
Antes que pudessem falar um com o outro, a praia estava cheia de cadáveres semelhantes, um momento antes vivos como eles mesmos, e cada um estava nu e negro.
"É um navio negreiro, naufragado aqui", gritou Samson.
Ele agarrou um escaler que passava por ele, entre as muitas coisas que derivavam ao redor de seus pés, e Virgie viu pintada em sua proa a palavra "Ida".
"Samson", disse ela, sentindo todas as influências de Princess Anne novamente e esquecendo sua própria miséria, "é o marido da Sra. Dennis que voltou para casa e naufragou."
* * * * *
Quando Virgie se lembrou novamente, ela estava em uma vasta colina de areia, perto de um farol que foi construído sobre ela, e piscava suas lentes sonolentamente sobre um amanhecer sombrio, as luzes mútuas mostrando os topos das árvores erguendo-se da areia, onde uma floresta havia sido enterrada viva, como pequenos galhos em âmbar.
Quase nu por ter lutado contra a tempestade, Samson Hat dormia ao seu lado, pacífico como a idade madura e a virtude podiam desfrutar o bálsamo do esquecimento na vida.
"Felizes os negros", pensou a moça doente, "que não pensam nas coisas que este sangue branco em mim torna tão grandes: na liberdade e em meu pai. Pai, ame-me antes que eu morra!"
Ela ajoelhou-se no grande monte de areia perto de Cape Henlopen e rezou até que, também, perdesse o conhecimento de si mesma, e estava dormindo novamente ao lado de Samson. Ela sonhou com incontáveis anjos voando ao seu redor, e ainda assim suas vozes eram tão ásperas que a acordaram finalmente, e ainda esses serafins estavam voando durante o dia. Ela viu suas asas e moveu o velho ao seu lado para dizer:
"Samson, por que esses anjos não podem cantar?"
O velho olhou para cima e sorriu fracamente:
"Pobre Virgie, são aves selvagens, todas confusas por causa da tempestade: gansos e cisnes. Eles não podem cantar como anjos."
"Sim", disse a moça; "algo canta, eu sei. O que é?"
"Jesus, talvez", respondeu o negro, olhando para ela, seus olhos cheios de lágrimas.
* * * * *
O grande Quebra-mar, que exigiu quarenta anos e quase um milhão de toneladas de pedra para ser construído, estava apenas começando, e onde deveria ficar, dentro da enseada rasa de Henlopen, eles viram os destroços de muitos navios, alguns afundados, alguns despedaçados em colisões, alguns encalhados no pântano, provando as necessidades do comércio para tal obra, e também a fúria da tempestade que havia desaparecido tão inocentemente, como um tigre adormecido após sua refeição sangrenta.
Sob o sol suave flutuava a bandeira americana em vários navios ali — a bandeira que beijou a brisa pela primeira vez naquele local no ano de 1776, quando Esek Hopkins ergueu sobre o Alfred as cores de pêssego e creme no centro de sua pequena esquadra. E ali, ao longo da baixa escarpa do Kill, ainda jazia a cidade de Lewes, feita de tábuas de madeira, no torpor de quase duzentos anos, ou desde que o holandês De Vries a colonizara em 1631. Lord Delaware, Argall, e o sueco, Penn, Barba Negra, Paul Jones, Lord Rodney, mil heróis, a conheciam bem; os pilotos, como gaivotas, tinham seus ninhos ali; os habitantes de Maryland a invadiram, os legalistas a tomaram, piratas foram amamentados ali; e agora os tribunais e advogados a abandonaram, para ir para o interior, para Georgetown.
"Virgie", disse Samson, "tentarei convencer alguns dos capitães dos barcos de pedra a levá-la para a Filadélfia."
Ele atravessou o Kill, carregando-a, e deixou-a em uma antiga igreja presbiteriana na periferia de Lewes, obteve remédios para ela e, em seguida, trabalhou em vão quase todo o dia para conseguir sua passagem para um estado livre. A resposta era invariável: "Não posso correr o risco do pelourinho e do poste de chicotadas por causa de nenhum negro. Não posso perder um longo trabalho como trazer pedras para o Quebra-mar para salvar um negro."
No hotel, um homem de cor chamou Samson de lado — um homem de boa aparência, da cor de pão de gengibre — e eles entraram no pequeno e antigo tribunal desativado, no meio de uma rua, onde havia um fogo.
"Irmão", disse o estranho, "vejo por suas ações que você está tentando conseguir uma passagem para o Norte. É para você?"
"Não", disse Samson, fazendo um inventário do belo peito e força do outro, e desejando mentalmente ter uma chance com ele; "sou um homem livre e posso ir a qualquer lugar; mas tenho uma amiga."
"Ora, velho", falou o outro, francamente, "sou o agente da nossa sociedade neste ponto."
"O que é isso?" perguntou Samson, cauteloso.
"A Sociedade de Proteção. Eles me educaram bem aqui. Fui à escola com meninos brancos. Agora, onde está sua amiga?"
"O que você pode fazer por ela?" perguntou Samson.
"É uma garota, não é? Ora, posso simplesmente colocá-la em meu buggy, feito e preparado para o propósito, e levá-la para o assentamento Quaker."
"Onde fica isso?"
"Camden — a apenas trinta milhas daqui. Tenho salvo-condutos livres todos prontos. Não se preocupe mais, irmão."
Samson olhou para a pessoa atraente por muito tempo e com atenção. O homem suportou o olhar modestamente.
"Oh, se eu tivesse algum conhecimento!" falou Samson; "eu poderia muito bem ser um escravo se não sei nada. Não sei ler. Gostaria de poder ler o seu coração!"
"Gostaria que pudesse", disse o homem; "então você confiaria em mim."
"Qual é o seu nome?"
"Samuel Ogg."
"Quero que você levante sua mão e jure, Sam Ogg, que nunca fará mal à pobre criança que lhe trarei. Diga: 'Senhor, deixe meu corpo apodrecer vivo, e que nenhum homem tenha piedade de mim, se eu não agir corretamente com ela'."
"É um juramento severo", disse o estranho, "mas vejo seu interesse gentil na moça. Na verdade, estou apenas cumprindo meu dever."
Ele repetiu as palavras, no entanto, e Samson acrescentou: "Deus lide com você, Sam Ogg, conforme você cumprir esse juramento. Agora venha comigo!"
A moça foi encontrada dormindo, mas delirante, seus olhos grandes, nos quais os tons azul e marrom se encontravam em uma espécie de cor de lago, estando bem abertos, e quase perdidos em seus longos cílios, enquanto a enchente e o fogo, o sol e a geada, haviam fustigado o delicado invólucro de sua vida gentil, que ainda marcava o tempo como algum relógio de Paros salvo de um incêndio, em cujo painel de cristal o pêndulo dourado ainda se move, embora os ponteiros apontem errado no rosto mutilado.
Seus dentes apareciam através dos lábios amorosos que ela entreabria em seus sonhos tempestuosos, como ondas agitando as velas de alabastro do náutilo, ou como uma espiga de milho exposta na ventania que sopra através do campo decorado.
Sua vestimenta, parcialmente arrancada dela, mostrava sua figura flexível e pescoço, e, sob sua massa de cabelo sedoso, seu braço branco, como uma serpente de marfim, sustentava sua cabeça; seus belos pés eram finos e de linhagem nobre, como a alma que saltava em sua ambição de donzela.
Houve dias em que tais como ela afastavam Antônio de sua esposa, e César de seu egoísmo clássico; quando em muitos tronos orientais tal beleza como esta agitava para uma glória murmurante exércitos incalculáveis, e batia os címbalos de conquistas prodigiosas. Ela jazia nas almofadas do altar da igreja, como o jovem Isaac no altar de seu pai, e onde os carpideiros se ajoelhavam para rezar pela reconciliação de Deus, a crueldade de sua lei brilhava sobre ela como a faca supersticiosa de Abraão.
Não tinha preço esta jovem criatura, em mãos nobres, como esposa ou filha, alimento humano ou bela divindade, e todos os mistérios preciosos da mulher despertavam nela para o amor e a conjugalidade, como canção e semente no pássaro da primavera; ainda assim, um preconceito duro e metálico a excluía de todas as instituições e igualdade, deixava que todo crime fosse perpetrado contra ela, fazia o cheiro da liberdade em suas narinas pior do que o incentivo do ladrão, e sobreviveu a ela por meio século, e ainda é hipócrita e inflexível.
Naquele antigo cemitério que a envolvia dormiam oficiais revolucionários, que ajudaram a conquistar a liberdade: eles poderiam estar dispostos a se levantar com ela, não a serem enterrados no mesmo recinto.
Quão pequena é a religião, quão falsa a democracia, quão distantes estão os julgamentos do céu! Havia sobre o púlpito uma inscrição, ela mesma presunçosa com a aristocracia, dizendo: "Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro"; como se aqueles verdadeiramente mortos na humildade de Cristo não preferissem ressuscitar por último!
Samson observava seu novo amigo atentamente, cuja expressão era profundamente piedosa, e seus dentes e lábios fizeram um "Tut-tut!". Satisfeito com o homem, Samson ajoelhou-se ao lado de Virgie e beijou-a uma vez.
"Pobre rosa da escravidão", disse Samson, "perdoe-me por ter cortejado você como uma garota, em vez de como um anjo. Sou velho e sinto vergonha de mim mesmo. Querida flor enlameada, talvez nunca mais nos encontremos. Que o Senhor, se este é seu templo sagrado, mantenha você pura e encontre um lar, Virgie. Adeus!"
"Venha", disse o homem, enquanto Samson estava curvado e chorando, "o buggy está pronto; vou embrulhá-la bem, Srta."
"Liberdade!" falou a moça, despertando; "oh, devo encontrá-la."
A próxima coisa que Virgie soube foi que estava no sótão de uma cabana, e vozes eram ouvidas falando em um aposento abaixo.
"Olhe para mim!", disse um; "nós te vendemos, isso é certo! Olhe para mim agora! Você tire o melhor proveito disso. Sam Ogg aqui, nós fomos vendidos vinte e duas vezes. Sam será vendido com você e lhe ensinará o jogo de Murrell."
"Educadamente, cavalheiros", disse uma voz feminina; "não sei se tenho estômago para isso. Minha ocupação tem sido casá-los. É verdade que o clamor público tornou esse ramo monótono, mas eu tinha grande talento para isso."
"O sequestro", disse uma terceira voz, "está em baixa. Ele cerca toda a faixa escravagista, de Illinois a Delaware. As leis de Illinois foram feitas em nosso interesse até que o Governador Harrison, cujo homem livre foi sequestrado, causou um alvoroço por lá seis anos atrás. Newt Wright, Joe O'Neal e Abe Thomas foram os sequestradores mais espertos ao longo da linha de Kentucky. Mas Joe Johnson, que está se preparando para ir para o sul, será o último homem de iniciativa no negócio. A ideia de John A. Murrell é dividir honestamente com os negros, vendê-los e roubá-los de volta, e acho que é sagaz. De qualquer forma, é mais seguro do que o outro plano de Patty Cannon."
"Qual é esse, Sr. Ogg?", disse o negro de voz feminina.
"Dar fim aos mercadores de negros, dizem eles."
"Olhe para mim! Olhe para mim!", exclamou a primeira voz. "Eles vão enforcá-la um dia por causa disso."
"Agora", retomou o Sr. Ogg, "um homem de inteligência como você e eu, Sr. Ransom — perdão, senhor, o seu grilhão o incomoda? Vou estofá-lo com um pouco de lã..."
"Educadamente, Sr. Ogg; estou acorrentado um pouco apertado demais."
"Digo, Sr. Ransom, você e eu sempre podemos fazer o proprietário de escravos médio de tolo. Ora, mal entro em qualquer família antes de fazer amor com algum membro dela, e se não me mando com uma moça negra, é com a patroa dela."
"Ah, Sr. Ogg, eles são perfeitamente diabólicos ao se ressentirem disso!"
"Claro, mas há um grande toma lá dá cá percorrendo toda a natureza. Ora, senhor, os prazeres do extremo Sul, para um homem de arte e iniciativa como você, superam em muito esta região pobre e simples. Tire o teto da escravidão e os negros levam a melhor; os brancos pensariam assim se pudessem ver o que está acontecendo."
"Educadamente, Sr. Ogg; a instituição inteira não vai um dia explodir por conta própria, como um daqueles barcos a vapor do Oeste?"
"Sem dúvida, Sr. Ransom. Quando nos tivermos livrado de você, e você puder ver o país por si mesmo, observe quão sensível é a escravidão! Mil ansiedades residem nela. Eles acreditam em insurreições, estupros e incendiários. Um sono perfeito eles mal conhecem, mas andam rondando dia e noite, impulsionados por suas suspeitas. Isso os torna belicosos, porém infelizes, e os escravos comem a terra até a escassez. Além disso, eles têm inimigos terríveis nos mercadores de negros, a quem desprezam socialmente, e na verdade os empurram para a simpatia com os negros. O Sr. Murrell, por exemplo, tem um grande plano para uma insurreição de escravos. Ele diz que a sociedade branca está toda contra ele, e ele vai se vingar."
"Olhe para mim, olhe para mim!", entoou roucamente outra voz. "A escravidão está muito assustada, com certeza! Joe Leonard Smith, católico, lá na costa oeste, acabou de libertar doze negros. O Governador Charley Ridgely libertou duzentos e cinquenta. John Randolph, dizem, vai libertar mais de trezentos. Há cinquenta sociedades abolicionistas na Carolina do Norte, onze em Maryland, oito na velha Virgínia, duas em Delaware. Ho, ho! Eles os libertam e nós os roubamos de volta! O velho Derrick Molleston nunca ficará sem carne de porco e dinheiro!"
"Educadamente, cavalheiros", disse o indivíduo com o grilhão. "Vocês ouviram falar da proclamação incendiária emitida em Boston por David Walker, dizendo a todos os escravos que é seu dever religioso se rebelar?"
"Sim, e eles se rebelarão, mas para quê? Será um grande susto, mas nenhuma guerra. A próxima coisa que farão será parar a leitura entre todos os escravos, impedir a emancipação por lei e vigiar as casas de reunião dos negros. O fogo será enterrado sob a quantidade de combustível, mas tudo estará lá."
"Sr. Ogg, sua experiência é notável. E você foi vendido e fugiu em quase todos os estados escravagistas? Educadamente, senhor, eles não estão sequestrando homens brancos também? Quem é esse Morgan que foi roubado no ano passado no Estado de Nova York?"
"Oh, esse é um maçom renegado, Sr. Ransom. Fazem tanto alvoroço por causa dele como se não roubássemos cem pessoas livres todos os dias. Isso só mostra que o sequestro de todos os tipos está se tornando impopular. Se um novo partido político pode ser criado com o roubo de um Morgan branco, você não acha que outro partido um dia surgirá com o roubo de vários milhões de Morgans negros?"
"Olhe para mim! Olhe para mim!", exclamou a voz rouca, subitamente.
"Escapando, está?", gritou a segunda voz.
"Educadamente, cavalheiros, educadamente!", ouviu-se a terceira voz, a alguma distância no escuro, e então passos de perseguição se seguiram, e Virgie se levantou e espiou lá embaixo.
Um fogo ardia em uma chaminé de barro ao lado de uma mesa, sobre a qual havia carne e bebida. A garota se balançou para fora do sótão até o térreo e, agarrando a carne e o pão, correu silenciosamente para a noite.
Ela mal sabia o que estava fazendo até atravessar uma ponte e chegar à beira de uma pequena cidade, ao redor da qual tomou uma estrada à direita que levava a outra estrada rural, e esta ela seguiu por uma milha ou mais, até ver uma pequena casa de tijolos, perto de um estrado de passagem e um poço de alavanca, na beira do bosque.
A luz de uma pequena janela de sótão brilhava tão intensamente que encantou a alma de Virgie com o fascínio do calor e do lar, e, sem pensar, ela atravessou o estrado, banhou suas têmporas quentes no poço e entrou na cozinha diante do fogo.
"Liberdade!", disse Virgie, de forma errante; "eu cheguei a ela?" Ela caiu sobre o tapete de retalhos diante do fogo, dizendo: "Pai, querido pai", e não se moveu.
"Bem", falou um homem de ventre grande e olhos de cobra preta, sentado ali, "não é sempre que pessoas em busca de liberdade entram na casa do Diabo Jim Clark!"
"Ela é branca", exclamou uma mulher, olhando com compaixão para a estranha, "e ela está morrendo."
"Não", retrucou o homem, "ela é bonita demais para ser branca. Esta é a moça clara com quem Sam Ogg foi visto. Ela pertence a Allan McLane, e há uma recompensa de quinhentos dólares por ela, mas ela renderá dois mil em Nova Orleans como amante."
"Cale-se!", disse a mulher; "você pode trazer um julgamento sobre suas filhas."
"Joe Johnson está prestes a zarpar", observou o Diabo Jim Clark; "ele a levará com ele."
A garota ouvira aquele nome através das densas câmaras do esquecimento. Ela se levantou, gritou e correu para os braços da mulher:
"Salve-me, mãe, salve-me daquele homem!"
O coração da mulher foi atravessado pelo grito, e ela abraçou Virgie ao peito e a beijou, dizendo:
"Ela dormirá na cama de nossa filha e descansará seus pés pobres esta noite — nossa filha, James, que enterramos."
A boca do homem se contraiu um pouco; ele parecia inquieto e levou o lenço aos olhos.
"Vocês estão todos contra mim! Vocês estão todos contra mim!", ele berrou, e saiu correndo do aposento.
* * * * *
A esposa do Diabo Jim Clark era uma metodista piedosa e, com sua filha de olhos ricos, passou o dia seguinte à cabeceira de Virgie, ouvindo seus murmúrios interrompidos por amor paternal e pela querida lembrança de Vesta.
"Seu pai saiu para fazer travessuras", disse a Sra. Clark. "Monte em seu cavalo de sela, minha filha, e cavalgue até a casa da Viúva Brinkley, logo após a linha de Camden. Diga a ela para mandar buscar esta garota."
"Mamãe, dizem que ela é abolicionista."
"É por isso que a envio. É uma corrida entre você e seu pai. Esteja comigo ou com ele!"
A garota amarrou seu capuz, pegou seu chicote de montaria e partiu.
Em uma hora ela retornou com uma mulher negra asseada, a quem a Sra. Clark levou ao quarto de Virgie.
"Meu coração sangra por esta pobre garota", disse a anfitriã. "Dizem que seu filho leva negros para o Norte. O Sr. Clark diz isso. Não lhe pergunto se é verdade, mas, de mãe para mãe, entrego-lhe esta garota. Ela é branca demais para ser vendida. Ela se parece com uma filha minha que morreu."
"Bill não deve chegar em casa até o pôr do sol. Se ela estiver viva até aquela hora, ele tem exatamente o tempo necessário para levá-la ao navio do Sr. Zeke Hunn na foz do riacho, que fica lá a cada viagem uma hora..."
"Para deixar fugitivos embarcarem?"
"Nunca fui acusada de ajudá-los, Sra. Clark."
A esposa do mercador deslizou uma nota bancária na mão da mulher negra.
"Empreste ao Senhor!", ela disse. "Dependo de você para nos poupar do pecado de vender esta garota."
* * * * *
Chegaram à pequena casa preta que espreitava perto do bosque dois cavalos de montaria, que pararam no estrado.
"Espere aqui!", disse a voz do Diabo Jim Clark. "Você a levará se ela ainda estiver delirando?"
"Bingavast! Por que não? Eu mesmo estou delirando, Jim, pois é minha noite de núpcias. Vou deixá-la descansar em Punch Hall."
O rufião hercúleo procedeu calmamente a preparar algumas cordas de sela para amarrar sua vítima diante dele em seu cavalo. Ele foi interrompido por uma mulher:
"Venha ver seu trabalho, Joe Johnson!"
Subindo as curtas escadas do armário, o sequestrador foi apontado para um objeto na cama, com o rosto afilado e pés finos, enquanto jazia branca como cal, com os cílios fechados e os braços esticados ao longo do corpo.
"Leve-a para Patty Cannon agora", disse a Sra. Clark, "que só serve para companhia de mortos."
"A garota está morta e sem vida?", exclamou o rufião, recuando ligeiramente do corpo; "talvez ela esteja fingindo. Vou revistar seus bolsos. Mas, escute!"
Uma carroça e cascos foram ouvidos.
"Joe", sussurrou o marido da mulher, "você está a apenas quatro milhas de Dover. Talvez sejam mandados para nós dois?"
"Vaza, então!", sibilou o assassino pálido; "o mundo está contra mim", e ele escapou com seu companheiro.
* * * * *
"Agora, Bill Brinkley", sussurrou a esposa do Diabo Jim, enquanto um rapaz negro de aparência alta e ingênua entrava no aposento, "você chegou na hora certa. Ela tomou láudano suficiente para mantê-la quieta; minha filha a maquiou; deixe-me beijá-la uma vez antes que ela vá."
Enquanto a mulher partia, o rapaz negro, olhando ao redor, murmurou:
"Onde está aquele sótão? Já ouvi falar dele."
Alguns movimentos acima na habitação baixa direcionaram sua atenção para um pequeno alçapão e, em pé em um banquinho, ele o destravou e empurrou para cima, sussurrando:
"Algum passageiro para Filadélfia? A passarela está sendo recolhida!"
Primeiro uma cabeça lanosa, depois outra, e em seguida dois pares de pernas apareceram acima.
"Segure aqui e leve a mulher doente para a charrete", disse o rapaz, sem se perturbar nem um pouco, enquanto dois negros assustados desciam do sótão, com algemas neles.
* * * * *
Na noite clara, uma carroça corria em direção ao leste, através dos pântanos de açafrão, pisoteando as ervas daninhas e a vara-de-ouro, e, enquanto as pessoas nela se encolhiam, o cocheiro negro cantava, tão despreocupado como se fosse o senhor da região:
"O povo de Tuckyhoe É tão preguiçoso e folgado, Não costura botões em suas roupas, E anda sem usá-los; Então a natureza lhes dá botões, Para crescerem direto de suas peles, Para que levem a vida fácil, E não comprem botões além disso.
"Mas o povo de Tuckyhoe Recusa-se a abotoar suas verrugas, A menos que recebam um salário Pela prática de tais artes; Como os soldados da milícia, Que correm para botões e pagamento, O pessoal é verdadeiramente desleixado, No lado de Tuckyhoe da baía."
Uma vela foi vista à luz das estrelas, erguendo-se dos pântanos em um antigo desembarcadouro na última curva do Jones's Creek, e mal os fugitivos tinham sido postos a bordo quando a âncora foi levantada e o paquete partiu para a larga Delaware, seu capitão um negro, seu proprietário um Quaker.
A garota foi despertada pelo ar frio da baía atingindo seu rosto.
"Liberdade!", ela murmurou; "deve ser isto. Oh, estou fraca, preciso dos braços do pai para me segurar."
* * * * *
Era Teackle Hall o que Virgie contemplava — um quarto quadrado e brilhante, sua cama ao lado de uma janela e, abaixo dela, ruas de paralelepípedos e tijolos, telhados de casas, estendendo-se até pântanos verdes cheios de vacas, e um rio que parecia azul como o céu, que o bebia lá de cima como um menino bebendo de cabeça para baixo em uma nascente? Que lindo! Deve ser a liberdade, pensou Virgie, mas por que ela estava com tanto frio? Seus olhos, olhando ao redor do quarto, caíram sobre uma senhora de touca, lendo um folheto para um homem grande, barbeado e de maxilar quadrado, e essa mulher era de uma beleza prateada, como se sua mente tivesse transbordado para seu coração e, sem afetá-lo, tivesse tornado seu rosto de prata e lírio, leite e brilho.
"O que diz o Irmão Elias, Lucretia?"
"Ele diz, Thomas: 'Este nobre testemunho, de se recusar a participar dos despojos da opressão, reside com os queridos jovens de hoje. Podemos esperar pouco dos idosos, que se acostumaram a essas coisas, como uma segunda natureza. Sem justiça não pode haver virtude. Oh, justiça, justiça, como és abusada em toda parte! Os homens fazem da justiça, como um nariz de cera, para satisfazer seus desejos. Se a alma é possuída pelo amor, há quietude.'"
"Sim", disse a garota, da cama, pensando em voz alta; "o amor é quietude. O pai virá?"
Ela sonhou e ouviu e olhou novamente para a colina que descia para o rio, as velas imponentes, a margem distante, tão parecida com sua região natal, e perguntou com os olhos em que terra poderiam estar.
"Wilmington", disse a bela mulher. "Esta é a casa de Thomas Garrett, o amigo dos escravos. Quando você puder ser movida, será para as colinas verdes de Brandywine, onde todos são livres."
"Colinas? O que são elas?", ponderou Virgie, olhando para sua mão definhada. "Devo escalar mais alguma? Devo atravessar os pântanos novamente? Eu sei que tenho um pai em algum lugar."
Ela sonhou e chorou inconscientemente, e contou muitas coisas em Teackle Hall, sendo, de fato, uma criancinha novamente, brincando com sua pequena patroa, Vesta. As estrelas estavam no céu bem acima de seu travesseiro, e ela falava com elas, e algumas parecia conhecer, como o pequeno Vince, ou a pequena Roxy, ou o Mestre Willy Tilghman, todos companheiros de sua infância; mas, vez ou outra, estes desapareciam, e a jovem mulher Quaker estava lendo novamente os sermões de Elias Hicks, e as palavras eram: "O amor é quietude"; "Apenas a luz pode qualificar a alma"; "Se eu não for, o Consolador não virá a vós".
"Que Consolador?", suspirou Virgie, e pareceu haver um grande vazio, e então ela ouviu um grito — teria sido ela quem gritou tanto? — e ela estava tentando com todas as suas forças chegar a algum lugar, e estava desmaiando no esforço, mas tentando de novo e de novo, e então uma calma que era como uma reverência gentil, estranha por ser tão indolor, espalhou-se em sua natureza, e ela apenas ouviu.
"Minha filha", disse uma voz, "minha própria criança! Chame-me de 'pai' e diga que fui perdoado."
"Pai! perdoado!", ela murmurou, e sentiu um rosto quente, que ainda assim não podia aquecer o seu, derramando lágrimas e beijando-a, e perto dele seus braços foram lançados com força, como se ela nunca pudesse soltar, e tudo era música, mas maravilhoso.
Ela temia cair se não se agarrasse a ele. Quem era aquele que a chamava de "filha"? Por que aquelas estrelas frias vieram tão perto, como se para espioná-lo?
Oh, pureza sagrada, que se segurava tão firme e não sabia, mas confiava no abraço trêmulo da natureza! Ela lutou com algo, como uma rocha de gelo, para mover seus olhos e ver, ou antes de ser lançada para baixo para sempre, os olhos que jorravam por ela. Eram os de seu mestre.
"Mestre", ela disse, "de quem sou eu?"
"Minha diante de Deus. Pura para meu coração como sua irmã branca, Vesta! Branca como o amor jovem, em carinho e confiança para sempre!"
"E a mãe?", borbulharam as notas baixas da garota; "onde ela está?"
"Ali", disse o Juiz, "no Céu, que me julgará, para onde ela voou ao te dar à luz para mim!"
Uma luz feliz brilhou sobre o rosto de Virgie. Ela beijou seu pai duas vezes, como se o segundo beijo fosse destinado à sua irmã mais feliz, e, erguendo os braços em direção ao céu para o qual ele apontava, sussurrou: "Liberdade!" e morreu em seu peito.
CAPÍTULO XL.
HULDA CERCADA.
Owen Daw trouxe a notícia da repulsa da Cowgill House e do ferimento do Capitão Van Dorn.
"Onde está o pirralho, Levin?", perguntou Patty Cannon, furiosamente.
"Preso, eu acho", gritou O'Day, audaciosamente; "Van Dorn foi atingido na garganta."
"Ele não falará muito, então", murmurou a mulher; "a hora dele tinha que chegar. Onde encontrarei outro amante na minha idade? Ora, querido", ela riu para si mesma, em um espelho, "aquele filho dele pode voltar. Ele se interessou por Huldy: por que não por mim?"
Com a ideia, outro pensamento hediondo veio à sua mente: resolver o destino de Hulda na ausência de seu jovem amante e monopolizar o poder corruptor sobre Levin Dennis, se ele algum dia vivesse para ver as Encruzilhadas de Johnson novamente.
À medida que os fugitivos individuais retornavam, confirmando a repulsa decisiva do bando, o rosto de Patty Cannon escureceu, e seus juramentos ficaram baixos e profundos; Cyrus James a ouviu dizer:
"Se eu pudesse apenas enforcar alguém por isso! Joe Johnson é o covarde de sangue frio que não quis ir. Eu já enforquei um genro melhor."
"Tia Patty, eu amo sua neta, Huldy", Cy James se aventurou a dizer. "O Capitão está ferido e Joe está indo embora para a Flórida. Talvez eu consiga outro bando para você."
Sem um instante de consideração por essa proposta ambiciosa, a Sra. Cannon jogou Cy James, por força bruta, pela janela de seu bar, dentro de sua cozinha, e ele berrou como um bebê, mas saiu de sua dor murmurando: "Arando, arando! Eu vou transformá-la em massa e fritá-la ainda."
Com essa reflexão, o Sr. James se escondeu pelo restante da tarde em alguma parte isolada do Hotel Johnson.
A Sra. Cannon, no entanto, havia retomado instantaneamente seu monólogo sobre negócios.
"Eles todos pensam em ignorar a velha: um homem doente não serve para nada, e há aquela esposa do Van Dorn esperando para pegá-lo ainda. Por Deus! ela não o terá em sua mortalha. Não; vou recrutar material jovem. Arruíne-os quando são meninos, e, enquanto você puder mimá-los, eles farão seu trabalho! Tenho um negro no sótão que Joe quer queimar: ele é meu negro, e vou soltá-lo para me trazer mais negros. Dinheiro é o que preciso para manter uma fachada corajosa: Huldy deve trazer isso!"
Com essa resolução, Patty Cannon subiu as escadas para um quarto no segundo andar e, sem bater, abriu caminho.
Um homem de forma e rosto voluptuosos, como alguém superalimentado, mas com o que há de melhor, e com ombros militares rígidos, e de cores quentes no tom, porém frias na expressão, olhos azuis e bochechas e lábios ricos, tingidos de vinho, que ainda pareciam duros e autocomplacentes, falou de imediato:
"Sempre bata, Patty! É mais conservador. Meu caminho na vida é atingir meu objetivo, mas respeitar todas as formas. O que você quer?"
"Quando você parte para Baltimore, Coronel McLane?"
"Assim que Joe retornar com a propriedade da minha querida irmã: amanhã, espero."
"Você pode levar Huldy Bruington se pagar meu preço por ela: dois mil dólares à vista. Se não quiser dar, ela será casada com algum jovem sequestrador, que trará o dobro dessa pilha por ela em negros. Eles lutarão com o peso de gatos selvagens negros para consegui-la."
"Proposta muito, muito abrupta, Patty; nada conservadora. O que há com você, dama, hoje? Van Dorn não teve sorte, hein?"
Ele deu a ela um sorriso vítreo e a observou sobre seu ventre redondo, no qual um selo de relógio de cristal pendia, como um olho mais humano que o seu próprio. A cor dela começou a subir.
"Estou furiosa", disse Patty Cannon; "não me aborreça; não tente me enganar! Você se importa? Sim, Van Dorn foi surrado — por negros, inclusive. Você vai pagar meu preço ou não?"
"Tut, tut, boa mulher! O que eu poderia querer com uma garota branca? Não pareceria nada conservador em Baltimore."
Patty Cannon bateu o pé.
"Não me desperte com nenhuma de suas hipocrisias, Cunnil McLane! Por que você tem ensinado aquela criança a ler e escrever — usando sua Bíblia, inclusive? Por que você lhe traz presentes e fica rondando a gente quando sabemos que você despreza a todos nós, exceto pelos negros que podemos lhe vender barato? Não fui eu vendida a homens como você várias vezes antes de ser mulher, e não conheço eu as dores dissimuladas que os velhos sentem para parecerem benevolentes quando a juventude e a beleza estão à venda; e como eles a mimam para mantê-la pura para seu próprio deleite egoísta? Deus sabe que conheço!"
"Patty, você me choca!" observou o cavalheiro rubicundo. "Sempre a achei conservadora antes. Agora, vá e mande a doce Hulda aqui e, pelo amor de Deus, Patty, não revele este negócio a ela."
"É um negócio, Cunnil?"
"É, se ela puder ser convencida a aceitá-lo."
"Isso ela será, ou fará sua cama na floresta, onde a beleza não é segura perto de você."
Hulda foi encontrada em uma janela, olhando para sua antiga casa e para um lavrador que quase terminara os sulcos em um grande campo, poupando apenas alguns locais baixos amontoados com arbustos, sobre um dos quais alguns urubus circulavam, elevados, porém atentos como pescadores observando suas linhas. Por mais difícil que aquele lar tivesse sido para Hulda, ela se arrependia de tê-lo deixado por aquela taverna de homens, onde o temperamento atrevido de sua avó encontrava tantos incentivos para a bravata, e sua cautela, que precisava ser exercida em Delaware, era totalmente desnecessária no lado de Maryland da fronteira.
Na pequena casa branca de telhado curvo, Hulda sentira uma sensação de privacidade agradável para sua vida em crescimento, e sua habilidade de ler muitas vezes encantava Patty Cannon a uma quietude que era como o sono da hiena, e até a tornava aquiescente e cordial.
Mas onde ela encontrava homens sozinha, sem ser modificada pelo exemplo de mulheres modestas, a tendência ousada de Patty era superar os homens e conduzi-los a audácias que eles teriam medo de seguir se não fosse por sua coragem e política; pois ela podia persuadir tanto naturezas jovens quanto rudes, tão bem quanto podia forçar.
Esses feitos de força e astúcia, política e desespero, lembravam Hulda de um livro que lera sobre os cavaleiros normandos na Inglaterra sequestrando e roubando os pobres saxões; e uma descrição do Rei Guilherme, o Conquistador, sugeriu a Hulda que ele talvez fosse uma Patty Cannon em seus tempos, já que seu corpo e pernas eram curtos e poderosos, como os dela, e ele podia dobrar um arco montado a cavalo que nenhum outro cavaleiro conseguia dobrar a pé com as pernas plantadas firmemente. Ele não sabia ler nem escrever, e era supersticioso, porém cruel como a sepultura. Tudo isso era verdade sobre Patty Cannon, cujo feito de ficar de pé dentro de uma medida de alqueire e colocar trezentos quilos de grãos em seus ombros foi relatado.
Ela frequentemente lutava e prendia, sem ajuda, homens negros fortes que lutavam por suas liberdades. Ela podia cavalgar, sentada como os homens, de uma maneira que fazia Joana d'Arc parecer uma donzela de puro enfeite.
Hulda estava vestida com suas melhores roupas, seu cabelo estava preso em tranças largas, seus traços finos e grandes olhos cinzentos, ternos, porém indagadores, nunca tinham sido voltados para Patty Cannon tão diretamente.
Sua avó abandonou em um momento a tentativa de ser complacente e ordenou severamente que ela atendesse ao quarto do Coronel McLane.
"Não posso mais sustentar você, vadia", disse a mulher de olhos escuros, suas bochechas cheias de sangue. "Apresse-se para encontrar uma vida fácil ou Joe arranjará um marido para você. Estamos arruinados. Você precisa ganhar dinheiro, está ouvindo!"
"Aqui está dinheiro, vovó!" disse Hulda, produzindo alguns dos xelins de 1815.
Ao primeiro vislumbre deles, Patty Cannon empalideceu, mas, num instante, o sangue quente subiu ao seu rosto novamente, e ela proferiu um juramento terrível e perseguiu Hulda, com as mãos levantadas, para dentro do quarto de Allan McLane.
"Ah, Hulda, inflamando sua pobre avó novamente!" disse aquele cavalheiro cuidadosamente vestido e bem alimentado. "Ora, ora, linda menina, isso não é conservador. Honra teu pai e tua mãe, e tua avó, é claro; não fui eu quem te ensinei isso?"
"O que é ser conservador?" perguntou Hulda, sentando-se diante da lareira, enquanto o Coronel percorria seus pés retos e sua figura alta e esguia, e parava, um pouco esfriado por seus olhos claros e orvalhados.
"Conservador? Ora, é nunca se precipitar em nada; opor-se à precipitação; ser... ser um baluarte contra inovações. Preferir algo que você experimentou e conhece."
"Como você?" perguntou Hulda.
"Sim, seu benfeitor, em vez de ter alguma paixão impulsiva. É claro, você nunca amou neste lugar?"
"É o único lugar que conheço. Para ser conservadora, como você chama, devo tomar minha vida e oportunidade como as encontro, como algo que experimentei e conheço."
"Ah, Hulda! Vejo que você tem algo radical e perverso em você, para torcer meu significado tão de perto. Você não pertence a este lugar vil, exceto por consanguinidade. Seria perfeitamente conservador da sua parte procurar um assentamento melhor."
"Você já insinuou isso antes", disse Hulda, serena em sua presença como uma jovem acostumada a propostas. "Eu quero mudar esta vida, mas não posso fazê-lo e ser conservadora. Devo me prender a um impulso livre, uma chance natural de algum tipo. Deus manteve meu coração puro neste lugar terrível onde nasci. Por que você está aqui, se é conservador? Não é um refúgio de cavalheiros."
Ele ficou um pouco irritado com essa estocada, mas ela continuou a olhá-lo calmamente, sem saber que estava sendo impertinente.
"Muitas vezes tenho negócios, Hulda, com Joe e Patty; os negros estão muito caros, e devemos comprá-los onde puderem ser encontrados. Mas um crescente interesse religioso em você frequentemente me atrai aqui."
"Por que religioso, além de conservador, senhor?"
"Tenho receio de que as cenas que você vê aqui, após as boas instruções que lhe dei, possam torná-la uma infiel."
"O que é um infiel?"
"Alguém que, sendo incapaz de explicar certos males na vida, recusa-se a acreditar em qualquer coisa. Esse é o caso de Van Dorn, um homem muito mau. O padrasto Joe é sempre conservador nesse assunto. Por mais que ele se desvie, ele nunca deixa de acreditar. A tia Patty, também, errática como é, mantém uma posição conservadora sobre uma Grande Causa Primeira."
Aqui McLane tirou seus óculos de ouro, folheou sua Bíblia e apontou para Hulda um lugar para ler, começando: "O insensato disse no seu coração: Não há Deus." Ao comando dele, ela leu, com fé, porém observação, sua mente estando totalmente alerta para o aviso que Van Dorn lhe deixara, de que, em sua ausência, sua grande provação chegaria.
McLane vestia um terno inglês cinza, com uma barriga redonda e cheia, lustroso por todo o corpo, seu cabelo um pouco grisalho, seus óculos de ouro balançando na mão, chinelos de verniz e meias de seda, e um lenço de seda com um alfinete de camafeu nele, e um camafeu de sua falecida irmã em seu anel de dedo, marcando seu traje; seus olhos, de um tipo saltado, muito à frente, e azuis como porcelana antiga, e ainda assim um azul animal, não espiritual — o tom de azul de lavanderia, não de distância; um lábio leporino em algum lugar em sua fala, embora a plenitude de seus lábios muito vermelhos mal permitisse espaço para isso; e seu nariz e sobrancelhas severos e militares, como se ele fosse um pudim estampado com o selo de um imperador romano ou do General Jackson.
Ele a observava lendo com censura, porém desejo, patronato e oleosidade juntos.
Olhando para cima quando ela leu o suficiente, Hulda pensou que ele a olhava como se ela fosse algum tipo mais raro de negra.
"Lido lindamente, Hulda! Nunca vou a lugares como teatros, mas você poderia ser, eu diria, uma atriz. Não pense nisso, no entanto! Profissão muito pouco conservadora! Tenho muito orgulho de você, minha linda menina; suponha que eu leve você para casa comigo!"
Ele caminhou até o banco dela e colocou sua mão quente no pescoço dela, ficando atrás dela; ela não se moveu nem mudou de cor.
"Algo aconteceu comigo, Coronel McLane", disse Hulda, clara como um sino saindo de uma prisão, "para tornar até Johnson's Cross Roads bom e feliz. Pode adivinhar o que é?"
Ela inclinou a cabeça para trás e olhou destemidamente para ele, como se ele fosse o negro agora.
"Não êxtase religioso?" ele disse. "Não espero que seja reunião de acampamento ou conversão de reavivamento. Isso é vil."
"Não, Coronel. É conhecer um jovem puro, cujo amor por mim é natural e altruísta."
"Grande Deus!" falou McLane, removendo a mão. "Não algum sequestrador?"
"Não", disse Hulda, "nenhum traficante de escravos de qualquer tipo. Eles não podem torná-lo assim. Ele é perfeitamente conservador, Coronel, quanto a essa vilania. Acredito que ele seja um cavalheiro também."
"Você deve ter muita experiência nesse artigo", ele zombou, parecendo irritado com ela.
"Eu vi você e meu amante; você tem as melhores roupas e professa mais. Ele tem uma natureza que as suas oportunidades trariam um refinamento real. Ele me respeita, por mais miserável que eu seja; leio isso em seus olhos. Você está procurando uma maneira de me degradar nos meus próprios sentimentos, e ainda assim me enganar. Você pode ser um cavalheiro?"
Ela estava serena como se não tivesse dito nada, embora se levantasse e ficasse de um lado da lareira, oposta a ele; entre eles havia uma gravura do General Jackson cavalgando sobre os britânicos.
Naquele momento, Allan McLane sentiu que a garota estava barata pelo preço de sua avó.
Ele sempre a concebera como uma criança flexível e peculiar; em poucos minutos ela envelhecera anos e se tornara uma mulher rara e quase majestosa, não mais para ser moldada, mas para ser tentada com propostas grandes e mundanas.
"Posso perguntar quem é esse amante de quem sou tão inferior, Hulda — eu, que lhe ensinei as realizações com as quais você me castiga? Eu a encontrei areia; eu a tornei cristal."
Ele tirou um grande lenço de pongee e realmente deixou cair algumas lágrimas nele. Ela continuou, fria e impassível:
"Meu amor é Levin Dennis, de Princess Anne. Não tenho medo de dizer isso."
"Por quê?"
"Porque quero que o perigo dele e o meu sejam plenamente conhecidos por ele, e que isso o torne um homem."
O Coronel dobrou seu pongee e veio novamente para o lado de Hulda.
"Aquele rapaz dissipado! Oh, Hulda, onde está seu orgulho real? Ele abandonou sua mãe. Ele é um pobre cigano. Não, devo salvá-la de tal erro. É meu dever fazê-lo."
"Agradeço por me ensinar, o que quer que tenha feito você fazê-lo. Se eu pudesse despertar em você algum altruísmo em relação a mim e ao meu novo amor, senhor, seria a maior gratidão que eu poderia lhe mostrar. Você esconde tantas coisas duras e más sob sua palavra 'conservador', que os sentimentos gentis, como o perdão, o abandonaram, temo eu."
"Não", disse o Coronel, rigidamente, seus ombros tornando-se mais militares, "insultos à minha honra eu nunca perdoo. Pessoas que não se ressentem não têm princípio conservador."
"Eu perdoo, como espero ser perdoada, Joe, Tia Patty, Van Dorn e você. Espero que a piedade, a misericórdia e o amor doce e altruísta, como penso que o meu é, possam crescer em todos vocês! Oh, Coronel" — ela se voltou para ele sinceramente e, levantando as mãos para impressioná-lo, ele apenas notou a elegância de seus pulsos e braços morenos — "a compra e venda desses seres humanos torna todos insensíveis. É roubar suas almas e corpos, sejam eles comprados no tribunal ou sequestrados nas estradas. Meu sonho de alegria é ter um marido que trabalhe com suas próprias mãos livres e cultive seu pequeno campo, e veleje sua embarcação, sem um escravo. Acima disso, não espero e não peço nada ao querido Deus que há tanto tempo tem sido meu protetor neste antro de crime."
"Quente ou fria, intimidante ou terna, você é esplêndida, Hulda", disse McLane, seu rosto bastante refulgente. "Agora deixe-me mostrar-lhe um retrato conservador de seus verdadeiros merecimentos. Sou solteiro. Mantenho uma casa elegante em Baltimore. Minha mesa é suprida com o que há de melhor no mercado; meus criados são meus escravos e nunca me desobedecem; minhas pinturas são célebres; livros eu nunca procuro — são coisas radicais — mas posso comprá-los; minha carruagem é a melhor de Rahway, e meus cavalos são Diomeds. No condado de Frederick tenho uma propriedade, à vista das montanhas. Como um ato cristão, vou tirá-la deste local, ao qual você parece apenas meio aparentada, e torná-la minha esposa."
"Você me pede em casamento?"
"Conservadoramente; isto é, continue a ser minha pupila e obedeça-me. Trarei sua mente de sua ignorância, seu corpo de trapos, suas associações do crime. Cuidarei de você, conforme você for obediente, enquanto eu viver e depois que eu morrer. Você viajará comigo e verá cidades brilhantes — Nova Orleans, Charleston, Havana. Se você permanecer aqui, será outra Patty Cannon ou irá para a cadeia. Pronto! Olhe para isso conservadoramente: calor, riquezas, prazer, atenção, mudança, vestidos para lhe cair bem, um relógio e joias, contra vilania e baixeza de todo tipo."
"Como você será recompensado por isso?"
"Pelo seu amor."
"Mas não é meu para dar; Levin o tem."
"Puf! isso é inferior a você."
"Mas ele se foi; não consigo recuperá-lo; ele não voltará."
"Dê-me a si mesma", disse McLane, puxando-a para perto de si; "os refinamentos não me importam. Seja minha!"
A garota permitiu ser trazida quase para o seu lado e, enquanto ele se inclinava para beijá-la com seus lábios grandes e complacentes, ela deslizou de suas mãos.
"Eu nunca poderia me rebaixar", disse Hulda, "a ser sequer a esposa de um negociante de negros."
Ele corou até os olhos, embora com admiração por sua compostura quase aristocrática.
"Você não poderia se rebaixar a mim?" ele disse. "Não vindo da forca de seu pai?"
"Não; ele era um ladrão, mas um audaz. Você apenas recebe as mercadorias."
Ela se fora; e ele ficou ali, com luzes malignas no rosto, mas sem vergonha. Ele bebeu um pouco de conhaque de um cantil e murmurou: "Agora tenho um insulto para vingar, além de um capricho para ser gratificado; o pai dela deve ter sido um patife frio. Bem, tudo tem que ser feito pela força aqui; Patty Cannon verá meu ouro."
CAPÍTULO XLI.
O ÚLTIMO TRUQUE DA TIA PATTY.
Em frente ao quarto de McLane ficava o vestíbulo para o cercado de escravos no sótão, um quarto em que Van Dorn geralmente dormia. Com suas emoções profundamente excitadas, embora não as tivesse revelado — sua modéstia tendo recebido uma punhalada que agora trazia lágrimas amargas aos seus olhos, e rubores, invisíveis exceto pelos anjos, cujas asas brancas os haviam escondido de seu tentador — Vesta fugiu para este quarto para deliberar sobre sua terrível extremidade.
Três pessoas estavam agora na casa, cada uma delas uma parte interessada em sua ruína; o homem que ela deixara, e Cy James, que estava cheio de paixão covarde por ela, e Patty Cannon, que, em seu atual estado de espírito, regozijaria ao ver a virtude de Hulda sacrificada como algo inconsequente, alegre e sem coração.
"Talvez eu possa voar para nossa antiga casa do outro lado da fronteira do Estado e me refugiar com o novo inquilino lá", pensou Hulda. "Oh! Eu gostaria que Van Dorn estivesse aqui; ele é tão corajoso; e quando ele me deixou, seu beijo foi como o de meu pai."
Correntes tilintaram e o zumbido de hinos baixos desceu pelo alçapão do cercado de escravos.
"Há um homem branco lá em cima", refletiu Hulda; "ouso subir para ver?"
Ela destrancou o cadeado e subiu a escada. Na porta do cercado ela espiou, mas não conseguiu distinguir nada na escuridão. Então ela puxou o pino do ferrolho e entrou no odor doentio da prisão.
"Quantos estão aqui?" perguntou Hulda. "Ouço vocês, mas não consigo ver."
"Três homens, uma velha e algumas coisinhas, perfazem o conteúdo atual do Pangymonum", falou uma voz áspera e alegre, "e, por fumaça! é o suficiente."
"É o homem branco que fala?"
"Ele diz que é branco, mas eles acham que vai ser fácil enganá-lo para passar por um nigger."
Seus olhos logo reconheceram o falante enquanto ele dizia: "Por fumaça! senhorita, você não é muito parecida com uma Johnson. Acho que você é a Huldy."
"Sim, e você, senhor?"
"Eu era Jimmy Phoebus antes de ser um nigger."
A garota foi rapidamente até ele e colocou seus braços ao redor dele.
"Graças a Deus!" ela disse, "você não está morto. Levin Dennis, meu caro amigo, chorou ao pensar que você estava no fundo do rio. Mas, rápido, senhor; posso ser pega aqui. Vocês são todos leais uns aos outros?"
"Sim, o traidor cortou a própria garganta. Fale, Huldy!"
"Ouvi Patty Cannon murmurar que ela ia libertar seu homem negro para sequestrar para ela. Ouça! Devo voar."
Hulda desceu a escada a tempo de surpreender Cy James subindo. Ele curvou seu pescoço de ganso enquanto apoiava as mãos nos joelhos e, olhando para o rosto dela, exclamou:
"Hokey-pokey! Por fumaça! E Pangymonum, também."
* * * * *
"Samson", disse Jimmy Phoebus, assim que Hulda desapareceu, "prepare-se para ser um mentiroso de primeira classe; quero que você aceite a oferta de Patty Cannon."
"E deixá-lo aqui sozinho, Jimmy? Não posso fazer isso."
"Não seja tolo, Samson. Acorrentados aqui, não podemos ajudar ninguém. Vá para Seaford e Georgetown, e contorne o Pântano Cypress até Prencess Anne. Alerte os capitães de pungy; pois Johnson tentará nos transportar por vela, suponho, pela baía até Norfolk. Tenho uma lima que aquele sujeito de cabeça de abóbora me deu, e suponho que sairei das minhas correntes na hora em que você chegar ao Juiz Custis. Pronto! A velha Patty está vindo."
"Vá, Samson", falou o homem de cor de Delaware. "Sou mais jovem que você e lutarei de coração sob as ordens do Sr. Phoebus."
A voz da Tia Hominy veio em monólogo vazio do fundo:
"Ele pegou o chapéu daquele diabo, crianças, e nos mediu com a pequena Vessy."
* * * * *
Naquela noite houve uma longa e livre conferência entre Samson e Patty Cannon, em sua cozinha, ao lado do bar, onde Hulda ouviu risadas e convites para beber, e todos os sons de perfeita igualdade, os ditados picantes e a bonhomie do negro parecendo desarmar e agradar a mulher astuta, cuja familiaridade era ao mesmo tempo sua influência e sua fraqueza, e ela esbanjou sua natureza sociável em negros e brancos. Samson era tão destemido e observador que não revelou nenhum interesse em escapar, e entrou lentamente no alcance de seu temperamento; mas, quando Hulda espiou, perto da meia-noite, na cozinha, ela viu o velho Samson batendo gentilmente o juba, enquanto Patty executava uma dança bêbada.
Assim que a última caiu sobre um colchão de palha que ela tinha lá e adormeceu, o homem de cor levantou silenciosamente a tranca e saiu da varanda da taverna.
* * * * *
No amanhecer, cavalos e vozes foram ouvidos por Hulda, e ela reconheceu os passos de Joe Johnson na casa. Ele sacudiu Patty Cannon, mas não conseguiu acordá-la; então olhou para o quarto de Van Dorn e encontrou Hulda, aparentemente dormindo profundamente, e ouviu seu nome ser chamado por Allan McLane do outro lado do corredor:
"Joe! não tão alto. Seja conservador. Entre; estou esperando por você. Está tudo feito e trazido?"
"O sujeito com o chapéu pontudo nunca vai escapar", falou o rufião.
"Bom, bom, Joe! A vingança é minha, e é um ditado conservador. Minha querida irmã está em paz."
"As duas frangas amarelas escaparam de você; a camareira fugiu para o funeral com sua sobrinha, e a outra donzela deve ter nos farejado e pulado fora."
"Linguagem nada elegante, Joe. Não entendo você. Onde estão as duas moças brilhantes, Virgie e Roxy?"
"Roxie está em Baltimore; Virgie fugiu."
"Fugiu? Onde? Não brinque comigo, Joe Johnson! Conservador como sou, não gosto disso, senhor. Para onde ela poderia ter fugido?"
"Não há maneira de ela escapar de nós a não ser pela água ou pelo Pântano Cypress, Coronel. Ela não está segura deste lado da ponte de Cantwell. A palavra foi dada, e cada estrada está vigiada."
"Mas Van Dorn foi repelido; ele não fez uma única captura; os negros o expulsaram de Dover com armas de fogo, e ele está ferido em algum lugar."
O alto sequestrador empalideceu e, em seguida, consignou a sombra de Van Dorn ao tormento eterno.
"Não blasfeme diante de mim, senhor!" exclamou McLane, também irritado. "Não é conservador, e não permitirei. Como sei que Meshach Milburn está morto? Quem o fez?"
"Black Dave disparou a arma e viu que o serviço estava feito."
"Mande-o vir aqui!"
O negro entrou, com os olhos vermelhos e a voz rouca devido aos pulmões doentes, e ficou parado, os destroços de um homem que já fora gigantesco e bem-proporcionado.
"Dê-me um trago," resmungou ele; "estou quase morto de miséria e frio."
"Diga a este homem o que você fez," falou Joe Johnson; "você esperou até ver o chapéu na janela, disparou e derrubou chapéu e homem?"
Engolindo um dedal de conhaque de McLane, o negro grunhiu "Sangue!" e olhou trêmulo para as próprias mãos.
"Que formato tinha o chapéu?" perguntou McLane, sacudindo o negro selvagemente; "era como este?" moldando seu próprio chapéu de abas moles até formar uma ponta.
Black Dave olhou e balançou a cabeça.
"Não como este? Maldição!"
"Sem palavrões, Coronel, diante de nós, conservadores," arriscou Joe Johnson; "como era o chapéu, Dave? Você está bêbado."
"Como isto, eu suponho." Ele moldou a copa com o dedo, dando-lhe a forma de um sino.
Joe Johnson e McLane olharam-se por um minuto com mútua acusação e confusão, e o primeiro, sem cerimônia, derrubou o negro com seu enorme punho.
"Nenhum ouro meu para este trabalho, Joe Johnson," disse Allan McLane; "no seu conservadorismo para salvar a própria pele, você permitiu que seu instrumento matasse um homem inocente."
Ele acenou com a mão, com toda a sua força de vontade, em direção à porta, e fechou-a na cara do sequestrador. Então, em altiva emoção, não como medo, mas como orgulho e vingança frustrados, McLane sentou-se, olhou ao redor como se para determinar o próximo movimento e, instintivamente, alcançou sua Bíblia, que abriu em uma página marcada, e leu suavemente, até que lágrimas de vingatividade frustrada e humildade fingida lhe travassem a voz, como se segue:
"'Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar... Deus requer o que se passou... o homem não tem preeminência sobre os animais, porque tudo é vaidade... o homem deve alegrar-se nas suas obras; porque esta é a sua porção: pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?'"
Quando as lágrimas de piedosa vingatividade encerraram a leitura, o Coronel McLane estendeu seu lenço de seda sobre o chão nu e ajoelhou-se em uma prece silenciosa e confortavelmente assegurada.
* * * * *
Black Dave arrastara-se para o quarto onde Hulda ouvira parte destas revelações, e entrara no grande armário sob o poço oculto que dava para o curral da prisão, onde seus gemidos e agonia mental tocaram a comiseração de Hulda. Ela abriu o alçapão e rastejou para lá também.
"Shh, Dave!" sussurrou ela. "O que o deixa tão miserável?"
"Senhorita, eu matei um homem. Eles me fizeram fazer isso. Vou queimar no tormento. Senhor, salve-me!"
"Dave," disse Hulda, "meu pobre pai morreu por suas ofensas. Você não pode fazer mais nada; mas, como ele, você pode se arrepender."
"Oh, senhorita, eu sou negro. Rum e brigas me arruinaram. Não há como melhorar. A lei não me deixa testemunhar contra as pessoas que me incitaram. Como posso me arrepender a menos que confesse meu pecado? A lei não me deixa confessar."
"Confesse sua alma pobre e atormentada a mim, Dave. O Senhor o ouvirá, embora você não ouse voltar seu rosto para Ele."
"Senhorita, uma vez eu andei no caminho do Senhor. Minhas mãos estavam limpas, meu rosto claro, meu estômago não queimado pela bebida. Eu não entrava no caminho de ninguém; na igreja, eles me colocavam à frente. Minha alma era feliz. Um dia eu bati em um homem maior que eu. Isso me deixou orgulhoso e atrevido. Eu me desviei e não servia mais para ser contratado por pessoas sérias; então as tabernas me pegaram, e depois os sequestradores me usaram, e agora o sangue de Caim e Abel está na minha testa para sempre."
Hulda ajoelhou-se ao lado do assassino e rezou com todo o seu coração; não a prece autoconsciente e cheia de súplicas especiais que fizera do outro lado do corredor, mas a humilde prece do penitente no Calvário: "Senhor, nós, desta cova de criminosos, pedimos para estar contigo no Paraíso."
* * * * *
Todo o dia seguinte foi gasto em preparativos para a fuga por Patty e seu genro.
Um barco de tamanho suficiente e uma tripulação para operá-lo tiveram que ser obtidos rio abaixo, e isso exigiu duas viagens, uma de Patty, até Cannon's Ferry, e outra de Joe, até Vienna e o cais de Twiford.
Durante a ausência deles, Cy James estava igualmente concentrado em algo, e Hulda viu-o no campo arado perto da antiga casa de Delaware, sob os urubus que sobrevoavam, dirigindo o agricultor sobre onde guiar seu arado, e pareceu, pouco tempo depois, que um dos cavalos caíra em um buraco ali.
Mais tarde, Hulda observou Cy James, com uma pá, cavando em vários lugares perto da antiga casa de Patty Cannon.
"Todos estão trabalhando para si mesmos," pensou Hulda, "exceto Levin e eu. Quantas vezes vi Tia Patty deslizar para lugares secretos na noite, ou ao amanhecer, quando ela examinava cada janela para ver se estava sendo vigiada. Suas colmeias eram seu maior cuidado."
Um pensamento súbito fez Hulda ficar imóvel e tirou a cor de suas bochechas.
"Eles estão todos indo embora. Eu serei levada também, ou mantida aqui para um mal pior. Minha mãe, na Flórida, me odeia; ela já me disse isso. Eu sei o casamento que Allan McLane planeja para mim — ser sua escrava branca! Levin é pobre, e sua mãe também é pobre; dizem que Patty Cannon enterrou ouro. Talvez Deus me mostre onde está."
Ela deslizou pela estrada de Seaford e caminhou pela trilha nos campos que conhecia tão bem. Não havia ninguém na casa de telhado mansarda. Hulda foi até os galpões e começou a inspecionar as colmeias, feitas de seções de troncos de árvores, e os grandes vasos de flores de madeira que Patty Cannon deixara para trás.
Ela só foi interrompida por um tiro disparado no campo arado, e viu os pertinazes urubus caírem mortos do ar ao irritarem o lavrador.
* * * * *
"Eu terei uma diversão em Maryland antes de partir," ouviu Hulda seu padrasto dizer, enquanto passava por seu leito para subir pelo alçapão pela manhã, "e é queimar o negro que me assaltou. Hoje é o dia dele."
Quase imediatamente ele desceu a escada, praguejando, seguido por uma risada zombeteira vinda de cima e o grito: "Todos nós veremos você enforcado ainda, pela fumaça! e esmagaremos outro ovo na sua cara, comprador de negros!"
Em um momento ou dois, uma tremenda briga estava acontecendo no andar de baixo entre o sequestrador e a mãe de sua esposa, e Hulda acreditou que estavam assassinando um ao outro; ao espiar uma vez para ver, contemplou Johnson segurando Patty no chão e enfiando seu cabelo elegante, que fora arrancado na confusão, na boca dela.
"Eu serei a sua morte, velha cerca, antes que eu vá," ele gritou; "o veredito seria: 'eu prestei um serviço ao condado'."
"Afaste-se daí!" gritou Allan McLane, empurrando Hulda e passando entre os combatentes. "Que vergonha, Joe! Apanhar sua avó dificilmente é conservador. Aqui está um recado que lhe pagará bem: minha criada Virgie foi capturada."
O sequestrador soltou a mulher e virou-se para seu convidado.
"Boas notícias!" ele disse; "se isso colocar meu pescoço na corda, eu a trarei para você."
Sua fisionomia começara a assumir uma expressão sensual, quando Patty Cannon, a quem ele dava as costas, avançou sobre ele como um tornado, levantou-o do chão, jogou-o através da porta dos fundos no quintal e trancou-o do lado de fora. McLane retirou-se pela outra porta.
"Graças ao céu!" refletiu Hulda, olhando para baixo com terror, "ninguém foi assassinado ainda, e eu tenho mais um dia de graça para esperar por Levin."
* * * * *
"Coronel McLane," disse Patty Cannon, em seu quarto naquela noite, "que interesse você tem na garota quarteirona e em Huldy também? Você não quer as duas, Coronel?"
"Não, Tia Patty. Todas as minhas visões são conservadoras. Exatamente! Hulda eu quero reformar e moldar às minhas necessidades. Ela me ornamentará. Ao tirar a garota Virgie da minha sobrinha Vesta, desejo puni-la por consentir com a degradação da nossa família e se casar com o guarda-florestal, Milburn. Ela ama esta quarteirona; portanto, quero privá-la da garota: Joe deve trazê-la para mim, entende?"
Seu rosto expressava a indiferença que ele sentia quanto à segurança de Virgie no caminho, e a sugestão grosseira deu a Patty Cannon sua oportunidade:
"Coronel, há apenas três na casa esta noite; eu sou um."
"Eu sou dois, Patty."
"E três é a bonita Huldy, Coronel!"
Eles olharam um para o outro por alguns minutos em silêncio.
"São dois contra um," disse Patty Cannon, com uma risadinha. "Não temos vizinhos que não estejam acostumados com barulhos aqui."
O silêncio foi restabelecido enquanto os dois produtos do tráfico de pessoas liam as fisionomias um do outro.
"Eu fiz uma proposta muito conservadora e liberal a ela, Patty, e ela me insultou, embora belamente. Mas eu guardo um rancor por isso."
"Insultou você, Coronel? A ingrata atrevida! Você não pode insultá-la de volta? Ela nunca ousou me desobedecer. Uma vez que seu orgulho seja quebrado, ela será como as outras garotas, suponho."
"Isso é verdade, sem dúvida. Mas, Patty, você não tem um pouco de remorso sobre isso, considerando que ela é sua neta?"
"Minha mãe não teve nenhum por mim, querido," a velha riu, familiarmente.
"Qual é aquela história que ouvi sobre sua origem, Patty?"
"Não sei mais do que isso, Coronel, do que uma garota pobre e ignorante saberia, você sabe. Ouvi dizer que meu avô era um lorde. Uma mulher cigana seduziu seu filho e ele se casou com ela. Seu pai expulsou-o de casa, e sua esposa o levou com o dinheiro dela para o Canadá, onde ela entrou no negócio de contrabando em St. John's, a meio caminho entre Montreal e os Estados Unidos."
"E ele foi enforcado lá por assassinar um amigo que o descobriu?"
"Dizem que sim, querido. De qualquer forma, ele foi enforcado. Nós, garotas, éramos bonitas. Minha mãe dizia: 'É um mundo duro, mas não deixem que ele as vença, garotas! Casem-se se puderem. De qualquer forma, vocês precisam viver, e não podem viver às custas das mulheres.' Eu me casei com um homem de Delaware e assim parei de ser Martha Hanley e me tornei Patty Cannon."
"E que carreira você levou, Tia Patty! Tivesse vivido em qualquer lugar que não neste antigo bolsão entre as baías, você teria a reputação do Capitão Kidd. Diga-me agora, conservadoramente, não foi sua própria infância desamparada a causa de seus erros, e isso nunca faz você sentir pena de outros passarinhos como Hulda?"
A mulher de cabelos pretos, com um certo pensamento maligno, como alguém que fora duramente criticada, finalmente cravou seus olhos pretos e audazes nos de McLane e respondeu, rindo:
"Não sei se faz, Coronel. Antes que minha mãe me apontasse o caminho, eu amava os homens. Eu os amava quando eram maus. A mamãe nos pegou enquanto seguíamos o fluxo. E quanto a Huldy aqui, sua mãe a joga para mim; ela não é como os Cannons e os Johnsons; ela é cheia de orgulho e," com um palavrão, "que seja arrancado dela! Você pagará meu preço?"
Ele hesitou.
"Não é o preço, Patty; é o jeito. Não é covardia?"
"Sim," disse Patty, atrevida, "é sequestro. Esse é o negócio aqui. Pague o dinheiro, Coronel, e este quarto nu brilhará para ser seu quarto de núpcias. Ora! você é um homem!"
Suas palavras despertaram as visões que o amor-próprio pode relutantemente repelir, e que, entretidas por um instante, tornam-se irresistíveis.
A forma flexível, amadurecendo e arredondada de Hulda pisou no escabelo de sua mente, tocou seu joelho e exalou o aroma de sua juventude como um almíscar sutil, até que ele se recostou languidamente, como se fumasse um cachimbo e em sua cumbuca o busto dela estivesse pintado, e todas as suas modéstias se dissolvessem na embriaguez. A brutalidade em si tornou-se natural a essa visão, como uma alegria mais feroz e um substituto para o engano que ele já não conseguia praticar. A criança fugira dele no instante em que ele a agarrava, como uma borboleta pálida, mas restava onde ela flutuara uma essência sedosa e núbil, fada e humanidade em um só, vestida em pensamentos puros e doce respeito, cuja profanação seria um jogo tão raro quanto a luta de Satanás com a alma de Eva.
Sua inocência e espírito, autoestima e consciência feminina despertada, fraqueza e sensibilidade, coragem e beleza apresentavam-se por turnos; e o quarto frio e de madeira, a taverna negligenciada, o vento noturno de outono descendo pela chaminé e atiçando o fogo, tudo parecia instintivo, como ele, com malícia, como se a alma de Patty Cannon voasse montada em uma vassoura e liderasse cem bruxas.
McLane tinha cinquenta anos; sua família era uma família comercial rígida, que geralmente se mantinha recatada, embora ávida, e praticava o conservadorismo de que ele também se gabava, mas do qual se desviara: ele era o fora da lei da casa, embora elevando seus dogmas a um shibboleth agressivo, tanto mais porque prosperava com o antiprogressismo.
Ele era um financiador de traficantes de escravos domésticos e investia seu dinheiro em formas de ganho nas quais os homens hesitavam; não apenas no meio-fio, por usura, mas atrás de penhores e apostadores, em empresas de loteria e casas de bebidas e, diziam, no comércio aberto de escravos também, cujos navios rápidos ocasionalmente escapavam da Baía de Chesapeake em supostas missões comerciais para as Índias Orientais, e voltavam para casa sem nada além de frutas das Índias Ocidentais.
Ele se esforçava para manter seu crédito por ostensiva aversão a novidades e heterodoxias, e a todas as agitações liberais, e tinha a audácia sublime de carregar sua Bíblia para cada fossa de vergonha, como se fosse a bagagem natural de um cavalheiro, e esperada com ele; e ele repreenderia a "blasfêmia" enquanto dava lances em leilões de escravos ou sentado em um bar cheio de sequestradores, entre muitos dos quais ele passava por um padrão religioso.
Nenhuma porção daquela Bíblia lhe dava qualquer prazer ou ocupação, no entanto, exceto o Antigo Testamento, com seus códigos completos de servidão, concubinato e olho-por-olho. Ele conhecia as leis judaicas melhor do que os Escribas e Fariseus no tempo de Herodes e João, e convencera-se de que o apoio mental e, sempre que possível, a prática destas constituíam um crente firme. Vingança, intolerância, formalidade e autocomplacência tornaram-se tanto sua teoria que ele não sabia se era capaz de fazer o mal, desde que quisesse algo.
Não particularmente corajoso, ele era tão desprovido de sensibilidade que não sentia medo em lugar nenhum; e, geralmente andando entre seus inferiores brancos, ele tinha o hábito de ser admirado e preferia sua companhia. Sobre tudo ele tinha uma opinião, e não permitia que nenhum estranho em Baltimore tivesse outra. O espírito de rebelião, tão cedo e tão frequente naquela cidade, repousava sobre tais pragas sociais abutres e autoconscientes como ele, sempre alegando ser o tom público de Maryland.
"Patty," disse Allan McLane, em sua voz de lábio leporino e suave, porém dura, como angu comido com uma faca bowie, "posso lhe pagar esse dinheiro e você pode falhar em entregar a propriedade. Ela será tratável?"
"Coronel, eu vou assustá-la quase até a morte. Ela se esconderá de mim aqui perto da sua lareira, e minha voz do lado de fora da porta a manterá aqui até o dia."
McLane foi até sua mala de mão, destrancou-a e tirou maços de notas e uma bolsa de pele de veado com ouro.
O brilho amarelo pareceu cintilar nos olhos negros e ricos de Patty Cannon, como a lua acima em um poço.
"Como brilha bonito, Coronel!" ela disse. "Nada é como ele para um amigo. Juventude e beleza têm que andar juntas para serem fortes, mas, por Deus! o ouro pode ir sozinho."
Ele contou duas pilhas, uma de notas e uma de ouro, usando seus óculos de ouro em seu nariz de falcão para fazê-lo, e disse:
"Patty, comprei muitas netas com a velha, mas esta é a primeira criança que compro da avó. Agora cumpra seu contrato e ganhe seu dinheiro!"
Ele guardou os óculos no bolso, esticou suas pantufas com polainas diante do fogo, olhou o relógio e deixou o selo de cristal cair sobre seu abdômen liso, e seus olhos vítreos, azul-esverdeados, encheram-se de cor como vasos gêmeos na vitrine de uma farmácia. Ele estava pronto e ansioso para substituir o rufião pelo tentador.
Patty Cannon, olhando para o dinheiro na mesa e carregando uma lâmpada, partiu imediatamente pela casa, chamando "Huldy! Huldy!"
Nada respondeu ao nome.
Ela procurou de quarto em quarto, espreitando em todos os lugares, deu a volta duas vezes e, pegando uma lanterna, saiu na noite ventosa e contornou os limites da antiga taverna.
A casa era facilmente explorada, não tendo porão nem dependências, e o alçapão para o curral de escravos estava trancado. O xale e o chapéu da garota também tinham sumido.
"Ela nos ouviu, suponho," a velha resmungou; "ela fugiu e me arruinou. Joe é cruel comigo; Van Dorn foi embora; sem ouro, vou para o asilo. McLane é impiedoso..."
Ela remoeu a sentença e, com apenas um instante de hesitação, voltou para a taverna e abotoou a porta externa.
Sob sua cama de penas, ela estendeu a mão e retirou um objeto grande, pegou um chifre da lareira e polvilhou-o com algo contido ali, e então, em um andar masculino e audaz, batendo forte, subiu novamente as escadas abertas na escuridão, falando, enquanto avançava, alto, complacente ou severamente, como se para algum fugitivo que ela estava coaxando ou forçando. Finalmente, no quarto de McLane, ela bateu forte, gritando:
"Abra, Coronel! Aqui está a criatura tímida! Ela não ousa desobedecer mais. Saia e beije-a, Coronel!"
"Ha!" disse McLane, abrindo sua porta, da qual a luz plena do fogo e das velas brilhava, "conservadora, ela é? Bem, deixe-a entrar!"
Ao dar um passo para penetrar na escuridão com seus olhos ofuscados, Patty Cannon silenciosamente empurrou contra o coração dele uma enorme pistola de cavalo e puxou o gatilho: um flash de fogo da pederneira afiada contra a pólvora fresca na caçoleta iluminou o corredor por um instante, e o corpo pesado do convidado caiu para trás diante de sua cadeira, e sobre ele inclinou-se a mulher por um momento, imóvel como a morte, com a pistola pesada usada como porrete, pronta para golpear se ele se movesse.
Ele não se moveu, apenas sangrou pelos lábios grossos, macabro e sem protestar, e os olhos azuis frios pareciam tão naturais quanto na vida.
Patty Cannon pegou a cadeira e contou o dinheiro.
CAPÍTULO XLII.
OS BICOS.
O vento soprava em rajadas, como multidões movidas durante um argumento, ora mudo como o temor, ora murmurante, e às vezes amotinado e feroz, quando Hulda, tendo ouvido apenas algumas palavras da proposta de sua avó, deslizou da antiga taverna e seguiu para a noite, aterrorizada, mas não sem pensar, até chegar a alguns grandes pinheiros que pareciam dizer sobre sua cabeça, lá no alto, em direção ao céu: "Para onde agora, oh onde, oh-h-h on-d-de, no fri-i-io, fri-i-io s-e-e-ertão do m-u-u-undo?"
"Para qualquer lugar!" respondeu Hulda, não temendo o frio ou a natureza, tão intensa se tornara sua necessidade de fugir de homens e mulheres. "Ainda assim, para onde? Poderia ir até Cannon's Ferry e contar minha história àqueles mercadores de coração duro, ou a Seaford e implorar um abrigo em algum lugar por lá; mas primeiro tentarei nossa antiga casa de campo novamente."
Ela subiu a trilha do campo tão silenciosamente que os cães não poderiam tê-la ouvido, e, ao se aproximar da pequena casa, viu luzes nela, e logo ouviu vozes e viu figuras se movendo lá dentro.
Conhecendo cada buraco de nó e rachadura da pequena habitação, Hulda logo teve uma visão perfeita do conteúdo da casa ao ficar na escuridão, a uma pequena distância de uma das janelas baixas e pequenas.
Uma mesa ficava no meio do cômodo principal, sobre a qual havia um velho baú mofado com a terra ainda grudada nele, e ao lado do baú estavam ossos e trapos de roupas sobre a tampa fendida do baú.
"Você jura que o testemunho que você dá será a verdade, toda a verdade e nada além da verdade, assim lhe ajude Deus!" exclamou uma pessoa baixa, atarracada e com aparência irlandesa, apresentando um livro para ser beijado por um rapaz magricela, sem queixo e pescoço de ganso, a quem Hulda reconheceu imediatamente como Cyrus James.
"Devo levá-lo, Doutor Gibbons?", perguntou um homem de aparência fina e modos desembaraçados ao magistrado.
"Sim, Sr. Clayton."
"Você conhece a natureza de um juramento? O que é?"
"Serei frito como um bolinho na chapa do diabo se eu não disser a verdade", choramingou Cy James, zeloso.
"Não, não será; pelo menos, não primeiro. Se você não me disser a verdade, mandarei cortar suas duas orelhas no pelourinho, e nenhum bolinho entrará nesse seu estômago faminto por um mês. Goy!"
Ele olhou para Cy James como se tivesse a intenção de arrancar-lhe o nariz apenas como um começo.
"Agora, Hollyday Hicks, você e Billy Hooper e os outros oficiais levem embora esta caixa, que cheira forte demais aqui, assim que a testemunha tiver jurado sobre ela. Quando você viu esta caixa pela última vez, James?"
"Há uns dez anos, senhor, quando eu estava a serviço de Patty Cannon há quatro anos, creio eu, vi Patty e Joe Johnson e Ebenezer, seu irmão, todos carregando este baú para o campo e enterrando-o."[8]
"O que você viu eles colocarem naquele baú?"
"Um homem morto — um traficante de escravos. Não sei dizer se seu nome era Bell ou Miller; ela matou dois homens perto daquela época, e eu era tão pequeno que os confundi."
"Você a viu matar este homem?"
"Não, senhor, eu não estava em casa. Cheguei em casa a tempo de vê-los colocando-o na caixa. Ouvi Patty contar aos rapazes como ela o matou. Oh! ela estava orgulhosa disso, senhor, porque não teve ajuda alguma."
Meia dúzia de cabeças de oficiais, alguns dos quais Hulda conhecia, inclinaram-se para a frente ao mesmo tempo para ouvir a testemunha, enquanto outros removiam os restos desagradáveis. O Sr. Clayton continuou:
"Como ela disse que o matou?"
"Ela disse que ele veio à taverna de Joe com um cavalo emprestado de East New Market, onde ele disse às pessoas que estava comprando negros, e que levaria quinze mil dólares em mercadoria se conseguisse. Ele foi seguido, e Ebenezer Johnson chegou à frente dele. Disseram-lhe que a taverna estava cheia e que ele seria melhor cuidado na pequena fazenda de uma boa mulher ali perto. Fizeram-no pensar, disse ela, que um cavalheiro com muito dinheiro nem sempre estava seguro na taverna. Tia Patty serviu-lhe o jantar. Ele sentou-se à mesa depois, limpando os dentes. Ela pegou sua pistola e foi para o jardim sachar suas flores. Uma vez ela se aproximou dele pela janela para atirar, mas ele se virou rápido, e ela lhe disse: 'Oh, senhor, eu só queria ver se o senhor não precisava de mais alguma coisa.' 'Não, não', disse ele; 'fiz um jantar realmente bom.' 'Eu amo minhas flores', diz Tia Patty, 'e gosto de sachá-las ao pôr do sol, para que possam dormir bem e macias.' 'É mesmo?', diz ele; 'acho que a senhora é uma mulher gentil.' Ele se virou novamente e começou a examinar sua carteira. Ela sachava e sachava, e cantarolava uma pequena melodia. De repente, ela se aproximou furtivamente, e eu a ouvi dizer: 'Rapazes, dei cabo dele direitinho, bem na nuca, e ele caiu sobre a mesa, e a água que ele estava bebendo ficou vermelha como vinho de groselha.'"
"James Moore, vou juramentá-lo a seguir", disse o magistrado ao novo inquilino da fazenda; e este homem procedeu a testemunhar sobre a descoberta do baú enquanto arava em um local úmido onde havia removido alguns arbustos.
Cy James, sendo chamado novamente, deu testemunho sobre outros corpos enterrados, principalmente de crianças massacradas por crueldade ou ciúme, ou para evitar perseguição.
"Leve este rapaz, Joe Neal", disse o oficial Hicks,[9] "e segure-o firme."
"Goy!", disse Clayton, com uma carranca terrível para Cy James, "talvez tenhamos que enforcá-lo ainda! O conhecimento culposo desses crimes por tantos anos, e a exposição apenas agora por um ressentimento pessoal, constituem cumplicidade. Sorte sua, jovem depravado, se você tivesse possuído os princípios deste jovem cavalheiro!"
O senador colocou a mão sobre uma figura sentada, e surgiu aos olhos de Hulda a imagem de seu amante, Levin Dennis.
"Oficiais", disse o Dr. Gibbons, o magistrado, "entregarei seus mandados agora. As autoridades de Maryland propõem, sem esperar pelos procedimentos de extradição, entregar seus prisioneiros na divisa do estado."
"Goy!", disse Clayton, "eles podem ter amigos nos gabinetes executivos em Annapolis. Não, rapazes, ajam juntos, como patriotas, assim como os rapazes de Maryland e Delaware serviram na mesma brigada revolucionária. Joe Johnson deve chegar aqui ao meio-dia de amanhã: tenham cuidado para não perturbar a velha Patty nem despertar suas suspeitas até que ele chegue. Ela quase não tem mais forças para fazer o mal, mas ele ainda tem uma vida inteira pela frente para fazê-lo."
"Oficial Neal, eu os empurrarei para o outro lado da divisa para você!", disse o oficial de Maryland.
"Oficial Wilson, cuidado quando for abordar a velha Patty: ela pode estar armada e disparar", exclamou o oficial de Delaware.
"Doutor John Gibbons", falou Clayton, "não perca tempo com eles na audiência em Seaford, mas consiga cavalos e mande-os direto para a cadeia de Georgetown; eles são escorregadios como enguias. Goy!"
Enquanto Cy James era levado para um lugar seguro no sótão, ele se virou para Levin Dennis, muito abatido e desanimado.
"Oh, Levin", disse ele, "Huldy não vai querer saber de mim agora, eu sei. Você não vai me apoiar, Levin? Ela vai se casar com você, e eu lhe darei tudo o que encontrei."
"Huldy!", exclamou Levin; "oh, devo deixá-la ali na taverna por mais uma noite?"
"Não", respondeu Hulda, aproximando-se; "estamos ambos preservados, meu amigo. Mas eu teria feito minha cama na floresta esta noite se Deus não tivesse me guiado até você."
Enquanto eles se abraçavam afetuosamente, o senador Clayton exclamou,
"O quê? Pombas entre as cascavéis. Goy!"
CAPÍTULO XLIII.
O PRAZER ESGOTADO.
O amanhecer ainda não havia rompido quando aquele viajante veloz, Joseph Johnson, antecipando seus inimigos por horas, amarrou silenciosamente seus cavalos na taverna que ele havia erguido, e quase caiu nos braços de Owen Daw.
"Joe", disse aquele patife, "há gente estranha rondando você. Dizem que um baú azul foi desenterrado no campo ali, com ossos dentro. Acho que estão procurando por você, Joe."
"Vou lhe dar um trabalho, Owen", disse Johnson, ágil nos pés como o rapaz. "Coloque estes cavalos na minha carroça enquanto pego umas tralhas antes de bater em retirada."
Escorregando para os fundos da casa, ele entrou e olhou no quarto de Patty — ela não estava lá; um leve cheiro de pólvora parecia pairar no corredor. Subindo rapidamente as escadas, Johnson viu uma luz brilhar no quarto de McLane, e ele chutou a porta escancarando-a, exclamando:
"Má sorte em toda parte; a garota está morta como uma pedra; os tiras estão ao nosso redor. Acorde, McLane!"
"Joe!", disse uma voz, e Patty Cannon jogou os braços ao redor dele.
"Para o fogo ardente com você!", berrou o filho filial. "Tire seus braços de mim!"
"Vamos nos entender, Joe! Todo mundo fugiu de nós. Huldy também se foi. McLane está morto."
"Morto? Morto onde?"
"Ali" — ela apontou para um colchão de penas deitado no chão, cujos contornos pareciam incomumente pontiagudos e rígidos para penas, embora estivesse costurado dentro de seus próprios cobertores e colchas. Joe Johnson tocou-o com o pé e recuou.
"Gata do inferno!", ele gritou, "é um dos seus truques?"
"Fiz por você, Josie. Ele mesmo provocou isso. Há sua mala cheia de dinheiro para pagar nossas despesas de viagem. Ele está costurado de forma bela, e na baía você pode deixá-lo no fundo."
O rosto de Joe Johnson tornou-se quase lívido de pálido, e, avançando sobre Patty Cannon com as duas mãos levantadas, ele a derrubou no chão e colocou sua bota sobre ela.
"Se eu tivesse tempo, tiraria sua vida", ele sibilou. "Mas isso faria o entregador perder o emprego. Esta noite eu deixo você para sempre. Margaretta, sua filha, não deseja vê-la nunca mais. Fique com este berço e o sangue que você ainda deve derramar para manter seu velho coração aquecido, e leve minha maldição para engasgá-la na forca!"
Ele saiu correndo e deu um assobio baixo na janela; Daw e o irmão de Joe, Ebenezer, um ser de nível mais baixo e mais sinistro, subiram as escadas aos pulos, soltaram e conduziram à sua frente o pequeno grupo de cativos.
"Uma palavra de você, negro branco, em toda esta jornada de hoje, e espalho seus miolos na floresta!"
Joe Johnson sacou uma pistola enquanto falava, e Jimmy Phoebus viu sua determinação nervosa com clareza demais para provocá-la.
"Agora, coloque esse embrulho na carroça", disse Johnson, referindo-se à cama, e ela foi carregada pelos irmãos, e a mala do homem morto foi jogada ao lado dela.
"Joe! Joe!", veio a voz de Patty Cannon, do quarto de hóspedes, "leve a pobre velha que te criou junto."
"Guarde seu lamento!", ele respondeu; "nós vamos ser cavalheiros em uma terra onde você nos marcaria de negro. Nada de cruzamentos e aventuras amorosas; crie outro Joe Johnson, se puder, para manter esta velha carcaça cheia de negócios: eu lhe dou isso."
Ele se foi na alvorada vaga. Ela caiu de rosto sobre o pequeno balcão e gemeu:
"Uma pobre, pobre, pobre velha!"
Quanto tempo ela ficou ali encostada, ela não sabia, até que sons familiares chegaram aos seus ouvidos e, olhando para cima com um grito de reconhecimento, ela gritou:
"Van Dorn! Deus te abençoe, Van Dorn! Você está vivo de novo?"
O capitão era sustentado nos braços de outra pessoa, que o levou, mortalmente pálido, para o pequeno balcão e o deitou em seu próprio colchão, murmurando:
"Eu o amava como nunca amei um homem."
* * * * *
A manhã estava bem avançada, e o sol fazia a velha taverna esguia e íngreme erguer-se como um mamute das terras baixas, e enchia seus cômodos frontais superiores com vinho dourado de luz, enquanto Patty Cannon sentava-se em um deles, junto a uma janela próxima ao terraço, e falava com Van Dorn, a quem ela havia lavado e vestido ternamente, colocando-o em sua própria e confortável cadeira de balanço de junco, com os pés elevados, como todos os americanos sem afetação gostam, e cobertos, sobre uma segunda cadeira.
Suas mágoas e o alívio dele tornaram Patty sociável, porém terna, e os instintos de seu sexo haviam retornado, de ser mimada e amada.
"Oh, Capitão", disse ela, ternamente, "como você parece limpo e doce, como meu bom homem de novo. Não seja grosseiro comigo, Van Dorn! Meu coração está triste."
"Chito, Patty! chito! Ora! você triste? Gosto de vê-la atrevida e desafiadora. Não nos arrependamos! Então Joe a deixou?"
"Com maldições cruéis. Minha filha me odeia, ele diz, e pretende ser uma dama onde eu não possa envergonhá-la. Oh, querido! criar uma criança e tê-la odiando e desprezando você custa caro, mesmo que eu tenha sido má. Não me resta nada agora a não ser você, Van Dorn; oh, não morra!"
Ele tossiu cuidadosamente, como se tossir fosse um luxo a ser exercido muito suavemente, e limpou um pouco de sangue de sua língua e lábio.
"Tentarei não morrer até que eu possa confortá-la um pouco, Marta delicioso! A bala está na minha traqueia, e, quando o sangue escorre, faz-me tossir, e devo ter cuidado com as emoções, diz o cirurgião, para que não caia no meu pulmão e rompa um vaso sanguíneo por alguma tosse muito espasmódica. Portanto, não seja bela demais ou eu poderia perecer."
Ele acariciou seu longo bigode amarelo com a mão de dedos adornados por diamantes, e puxou seu gorro de veludo de fumar apertado sobre seus cachos sedosos, mas ele estava pálido demais para corar como anteriormente, embora falasse com um ceceio, como um rapaz modesto.
"Capitão", disse a mulher, satisfeita até o rubor, "você é tão mais esperto do que eu que tenho medo de você. Ainda sou um pouco bela? Eu lhe agrado? Sei que você zomba de mim."
"O hala hala!", suspirou Van Dorn. "Você é a estrela da minha vida. Tudo o que sou, você me fez. Patty, eu a adoro. Quando você se for, a natureza humana respirará e se maravilhará. Você se lembra de quando nos conhecemos?"
"Um pouco, Capitão. Conte-me novamente. Elogie-me se puder. Estou quase desolada."
Seu lábio tremeu, e ela olhou para os campos do outro lado, onde habitara por tanto tempo, onde, como lhe parecia, mais vida do que nunca era visível hoje, embora ela não olhasse com atenção.
"Quantos anos se passaram, Patty, não diremos. Eu estava voltando da África com um imigrante, um britânico, meu capturador, na verdade — aquele oficial no esquadrão de bloqueio naquela costa que apreendeu meu corsário, o Ida, com toda a sua tripulação de escravos da Guiné. O nome dele foi tudo o que tirei dele — você ficou com o resto — Van Dorn!"
Ela lançou-lhe um olhar assustado com seus olhos atentos, como se aquela pudesse ser uma conversa desagradável, mas ele a desviou com um elogio.
"Chis! Dios! Que família de belezas vocês eram! Betty, com seu ar de moleca, e Jane, com sua riqueza de encantos, e Patty, com seus olhos ousados e ricos e sua vontade conquistadora. Navegamos para o Nanticoke por engano em vez do Manokin. Meu amigo lamentava minhas infortúnios e gostava da minha companhia, e, quando ele me quebrou como traficante de escravos — tendo já sido quebrado como corsário — disse: 'Dennis, esse país que você elogia tão bem me fascinou; pedirei demissão da minha comissão e comprarei um pequeno navio, e me estabelecerei na América com você por causa da minha querida filha, Hulda Van Dorn.' Ayme! aquela pobre flor selvagem: onde ela passou a noite fria ontem, Patty, você pode me dizer?"
Ele tossiu novamente, muito cuidadosamente, e seu olho, mais brilhante por causa de seus pulmões irritados, nunca deixou sua anfitriã, como se temesse que ela pudesse ignorar algum aspecto agradável de sua história. Ela batia o pé e murmurou:
"Você me deixou com ciúmes dela: passei a odiá-la e temê-la, querido."
"Voluptuosos como dois jovens viúvos após uma longa viagem, ficamos entre vocês, sereias, eu quase no limiar da minha casa, onde minha esposa me acreditava morto, mas esperava ansiosamente e espera nesta manhã, querida Patty. Dios da fe! Meu amigo, envolvido com a alegre Betty, sentiu mais cedo remorso pelo espetáculo de sua filhinha tão mal acariciada, e chamou-me para ir embora; mas ele havia mostrado seu ouro, e podia ser poupado melhor do que o imprudente eu. Você conhece o jogo frio e profundo, querida Pat. Hala ha! Fui feito para comprar o veneno que vocês, irmãs, deram a Van Dorn, e parecer o cúmplice em sua morte: nunca até esta semana aquele assassinato deu um testemunho — a parte da moeda do homem morto que sua mãe roubou e escondeu, a qual Hulda herdou finalmente. Verdad es verde! Fiquei com medo de deixá-la: estou aqui na morte com você, minha velha encantadora."
Um estalo percorreu a casa de madeira vazia, o que a fez levantar-se; Van Dorn, como era chamado, aproveitou seu desconforto, como uma máscara pálida pintada com um sorriso.
"Capitão", disse ela, "quantas pessoas vejo lá fora nos campos! Talvez vá haver uma caçada à raposa."
"Sente-se, Patty! Deixe-me beber, nestes meus últimos dias de vida, as borras de vinho da sua memória. Você é tão cara para mim! Gire ao sol dourado, para que eu possa demorar-me naquele rosto sobre o qual as cinzas do outono caem, embora através das folhas mortas eu veja as cores avermelhadas ainda arderem! Quão ousada era sua juventude: o pobre ferreiro fazendeiro, cujo nome você transmitirá para sempre, irritava-a com sua doença e seus escrúpulos, e, he aqui! você o silenciou com a mesma taça que misturou para o marido de Betty. A filha dele você deu em casamento ao seu aprendiz, um homem forte e estóico, capaz de heroísmo, Patty, pois ele morreu por você, sua querida enganadora, no patíbulo vergonhoso, embora toda a multidão soubesse quem era sua instigadora; mas, como um homem, ele morreu e nunca contou."
"Van Dorn, você me machuca", Patty irrompeu; "não consigo rir hoje, e essas histórias me deprimem, querido. Para onde iremos quando você estiver bem?"
"La gente pone, y Dios dispone! Fique ainda, e converse um pouco. Eu não gostaria, por nada no mundo, vê-la desanimada — você, anjo insondável! que, neste canto sarnento do globo, olhava para o mundo como Catarina, de seu trono estéril, sobre as vastas estepes, e movia guerra contra as esperanças do homem. Como você incomodou o Tio Sam, grande Patty, roubando suas malas por anos entre Baltimore e Brandywine! O jovem Nichols ainda cumpre sua sentença por aquele truque astuto que você lhe ensinou, de cortar as bolsas de correspondência enquanto ele sentava, com os cocheiros corrompidos, na diligência lotada, jogando furtivamente as cartas valiosas na estrada, para serem recolhidas por um cavaleiro que vinha atrás.[10] Es admirable! O jovem Perry Hutton, criado por você para sequestrar, depois para dirigir a diligência e roubar suas cartas — um rapaz de Delaware, também — pereceu na forca por matar um condutor de correspondência mais escrupuloso do que ele mesmo, que o detectou sob sua máscara.[11] O jovem Moore — era seu parente, querida? — parando a diligência no Gunpowder Forge, caiu sob o chumbo do condutor.[12] E Hare—"
"Capitão", chamou Patty, "vejo homens e rapazes por todos os campos lá fora, correndo e cavando e arrastando os arbustos. Será que esses meus velhos enterros estão sendo suspeitados?"
"Pshaw! querida, é sua imaginação fértil, e a falta de gentileza de Joe. Eu a faria feliz com a memória de seus atos ousados. Que maravilha! Em seus pequenos acessos de raiva você extinguia uma vida, quando outra mulher apenas bateria o pé. Houve aquela manhã em que seu fogo não queria acender, e uma pequena criança negra berrou com o frio e a irritou; se seu corpo for algum dia desenterrado onde foi colocado, o crânio rachado com o pedaço de lenha contará a história. Você uma vez suspeitou de mim de deslealdade aos seus encantos — Quedo, quedo! dama exigente — e a prole pálida da pobre Hagar você jogou sobre a lenha em brasa, e sombriamente observou queimar. As crianças perseguidas cujos gritos você não pôde silenciar, que ainda estão silenciados até que o inferno tenha voz, nem mesmo você pode contar. Evangelistas, ó Patty, mergulhando suas penas no sangue dos santos para escrever seus crimes, tornariam a próxima era infiel, onde você parecerá impossível, e todos nós, mitologia!"
"Cale-se!", gritou a mulher, levantando-se e caminhando, com seu andar oscilante, para observar as coisas lá fora que agitavam sua mente mais do que a recitação de seu amante; "que bem podem essas histórias lhe fazer, Capitão? Meu Deus! as estradas estão cheias de gente, e todos estão olhando para cá. É para mim, Van Dorn?"
Ele tossiu dolorosamente, ainda observando-a, contudo, e respondeu:
"Apenas uma corrida de cavalo, eu acho, querida Pat! O quê! você está com medo, na sua idade?"
"Não", gritou Patty Cannon, desafiadoramente, tirando algo de seu seio; "aqui está a mesma dose que dei ao meu marido, se o pior acontecer."
"Bravo, Patty! você apenas se torna envelhecida, como um bronze antigo, que é endurecido pelo tempo e pela oxidação. Eu era um cavalheiro, e ainda assim você me dominou. Que estranho nos ver juntos aqui sitiados, eu pela morte, e você pela lei! Ora, nós desafiamos ambos! Deixe-os vir! Você acredita no fogo eterno? — que cada ferimento é uma brasa viva para assar a alma? Sei que você acredita; e, se acredita, quão bela será sua grade rosada, encantadora durona, com meninos estragados no botão, e maridos na flor da idade, com famílias de homens livres separadas, e crianças, nascidas tão livres quanto a bandeira de seu país, enviadas para a servidão perpétua e o chicote. Poca barba, poca vergueenza![13] Quem além de uma mulher poderia ter colocado isso na cabeça de William Bouser, quando ela o havia sequestrado e a trinta negros a mais, e vendido todos a Austin Woolfolk, em Baltimore, para se rebelar no mar no navio de Woolfolk, e massacrar os oficiais, apenas para ser enforcado no final, e tudo para tornar Woolfolk um cliente melhor!"[14]
"Há pessoas ao redor da casa, Van Dorn. Eu os ouço nas escadas e nos quartos. Tenha misericórdia!"
"Demônios, ou homens, Patty? Ambos são seus cortesãos, lembre-se, e talvez eles se amontoem. O que nos importa? Que contento estoy! Talvez eu seja indiferente porque não há sangue em minhas mãos, traficante vil embora eu seja! Joe Johnson e seu irmão de testa baixa você podia ensinar a matar; a mim, nada pior do que roubar e acariciá-la. Patty, você acredita no inferno. Eu também sou um crente; pois acredito no céu."
"Ó Van Dorn; como você fala!"
"Desde que você prendeu meu filho, o jovem Levin Dennis--chito! quedito! não se assuste, bela demônia--para fazer com que seu pai o transformasse em outro Johnson, eu descobri, através da menina, a bela donzela de agora, Hulda Van Dorn, o pecado com o qual você pretendia me macular; e, escute, Patty! foi meu filho, rico com a lealdade e o amor de sua mãe--querida esposa guardiã, que nunca saberá da minha ruína aqui, nem me verá mais!--foi meu Levin, libertado por mim, quem deu a notícia em Dover e nos fez recuar."
Ele se levantara parcialmente enquanto falava, e o esforço parecia sufocá-lo. A mulher sentou-se em silêncio terrível, observando as veias saltarem em seu rosto pálido e obstinado. Ele agarrou a garganta com os dedos e, por um momento, não pôde mais falar.
"Patty", disse ele, por fim, entre seus ataques de tosse, "volto a acreditar, pois vi minha esposa, verdadeira como um anjo, bela como uma criança, em oração por mim. Um homem honesto espera minha morte para amá-la melhor e ser o pai do meu filho. Hala o hala! Tive a filha do meu amigo assassinado para me beijar e abençoar, e para amar meu filho. Meu filho me deu sua confiança, sem saber quem eu era, e mostrou-me um coração corajoso e puro. Yo soy amado! Suas orações podem bater por mim na porta eterna. Mas tu, a assassina da minha juventude, nenhum coração rezará por ti. Acredita no inferno, e morre; ha! hala! ho!"
Ele apontou seu dedo branco para ela em êxtase, com um sorriso zombeteiro em seus olhos azuis, como estrelas que se apagam ao amanhecer, e então a manhã rosada fluiu por toda a sua boca, enquanto a bala, deslocada por sua emoção, caiu em direção ao pulmão e despertou a hemorragia; e, até o último de suas forças, ele apontou para ela, e então caiu para trás, em linho carmesim, ainda sorrindo na morte.
Aterrorizada com a cena incomum de um falecimento natural naquele antro de violência, a patroa apenas sentou-se, a imagem da paralisia, até que sua porta se abriu lentamente e entraram, de mãos dadas, o jovem Levin Dennis e Hulda Van Dorn.
"Levin", disse a jovem, composta como alguém para quem a vida respeitável e as exéquias eram familiares, "ouvi as sentenças moribundas deste homem desencaminhado, forte e desapontado. Vamos nos ajoelhar, querido amigo, e dizer uma oração. Ele era nosso pai, Levin; não Van Dorn--esse é meu nome, a filha de seu amigo--mas o Capitão Oden Dennis, do corsário Ida."
Enquanto se ajoelhavam, de olhos fechados, a sala encheu-se lentamente, e os braços de Patty Cannon foram agarrados por dois oficiais de justiça, e o mandado foi lido para ela. Ela ouviu com humildade, não dando outra resposta senão esta:
"Outrora eu tinha dinheiro e muitos amigos; meu dinheiro se foi, e meus amigos também; não há mais luta na pobre e velha Patty Cannon."
CAPÍTULO XLIV.
A MORTE DE PATTY CANNON.
Quando Patty Cannon saiu da taverna, o cruzamento estava cheio de pessoas, dando seu último olhar ao local onde ela triunfara por quase vinte anos.
Ninguém pensou em olhar para Van Dorn, nem perguntar o que tinha acontecido com ele, e seu amigo Sorden removeu seu corpo, sem ser visto, para um local nos bosques de pinheiros, onde sua cova sem marca foi cavada, e, em pé ao redor dela, estavam apenas três enlutados, e Sorden disse as palavras finais com lágrimas singelas:
"Eu o amei como nunca amei um homem."
O oficial de justiça de Maryland levou Patty Cannon até a pequena ponte de tábuas por onde corria o fosso quase na divisa do Estado, e a tradição ainda acredita na invenção de que Joe Johnson, naquele momento, estava escondido sob ela.
Lá, conduzida através da fronteira como a vaca de algum morador da divisa, a rainha dos sequestradores foi agarrada pelo oficial de justiça de Delaware, colocada em uma pequena carroça rural e, seguida por um grande grupo montado, a estrada foi tomada para o pequeno vilarejo de Seaford, a oito quilômetros de distância.
Ela observou os pequenos cedros funerários e os álamos monumentais surgirem estrangulados do matagal, os riachos marrom-escuros fluindo para moinhos de águas tintas, os pinheiros pequenos e densos, mal grandes o suficiente para gemer, mas tentando fazê-lo em um tom infantil, e seus olhos voltaram-se para a areia, onde ela logo estaria. Nem agonia, nem arrependimento, nem qualquer esperança de fuga agitaram seu coração frio, mas apenas um sentimento de ser ingratamente abandonada por seus amigos e maltratada por seus iguais e vizinhos, que tão raramente a haviam advertido ou evitado; nenhum pregador viera dizer-lhe o evangelho nu, e alguns haviam feito reverências respeitosas a ela, e até pedido aveia e feito contribuições de sua prata mal adquirida.
Seaford era um lugar arenoso sobre um penhasco do Nanticoke e, quando a procissão chegou, um grupo de agrimensores, trabalhando para a ferrovia de Meshach Milburn, parou para zombar da velha sequestradora. Ela envelhecera subitamente e nunca levantou a voz, que sempre fora tão audaz, para dar uma resposta.
O magistrado, Dr. John Gibbons, fora um jovem irlandês instruído que desembarcara de um navio em Lewes e, casando-se com uma dama de Maryland, perto de Patty Cannon, tornou-se o espírito legal da pequena cidade. Seu escritório, uma mera cabana em uma esquina perto de sua casa, sendo pequeno demais para o propósito, o interrogatório foi transferido para a taverna, ao pé da colina, perto de onde o riacho do moinho cavava seu caminho para o Nanticoke. Ao redor da taverna, alguns caminhos de buxo foram feitos na areia, e salgueiros margeavam a fria margem do rio e, nas pausas da audiência, ouvia-se aves selvagens brincarem e piar na maré vazante.
O testemunho de Cy James e outros companheiros covardes em seus pecados foi rapidamente dado, e a procissão partiu através dos bosques e areias para Georgetown, vinte quilômetros a leste, onde Patty Cannon foi recebida por toda a cidade, que esperava por ela, e a cadeia imediatamente a encerrou.
* * * * *
"Não entendi exatamente o que aquele sujeito cabeça-de-abóbora fez por aquilo", comentou Jimmy Phoebus, no porão de uma antiga embarcação de ostras, onde se encontrava com seu amigo mulato, a Tia Hominy e as crianças, "mas a lima que ele me trouxe fez seu trabalho finalmente. Você, Whatcoat", dirigindo-se ao seu companheiro de prisão, "pegue esta faca que o mesmo sujeito me passou e corte estas cordas". De pé e livre novamente, o Sr. Phoebus comentou ainda:
"Whatcoat, somos dois aqui. Pelos fumos! somos três."
O dócil homem de cor abriu os olhos.
"Ele!" exclamou o marinheiro, indicando a cama de penas no porão, com seu conteúdo rígido e invisível; "Joe vai jogá-lo ao mar aqui em águas profundas em algum lugar. Agora, para um pouco de truque; acho que vou entrar lá eu mesmo e deixar Joe vender o outro sujeito como um negro."
O poder de Phoebus sobre seus companheiros de prisão--incluindo as crianças pequenas e a idiota Hominy--era agora perfeito, e ele começou a explorar o porão velho e apodrecido, que continha ancinhos de ostra, linhas de pesca e os utensílios habituais de uma draga, e logo descobriu que poderia ser feita uma passagem livre para rastejar através dela, do castelo de proa até a cabine, removendo algumas tábuas.
"Aqui, Hominy", disse ele, "ponha-se a trabalhar com sua agulha, velha garota; vou levar você para casa."
* * * * *
Com um bom começo, um vento favorável e maré baixa, Johnson estava fora de Vienna às oito horas.
"Dezesseis quilômetros para percorrer, e eles não podem me pegar com um cavalo de corrida", disse ele, "depois que eu passar pelo cais de Chicacomico e ficar atrás dos pântanos. Estou com sono. Há dois nesta tripulação que não conheço, e devo ser o timoneiro. Bingavast! Farei meu negro trabalhar pela passagem."
Ele caminhou até a escotilha sobre o porão e, deslizando-a, desceu e, com alguns golpes certeiros de ferreiro profissional, libertou Whatcoat, apenas olhando de relance para onde Phoebus jazia de bruços, roncando alto.
"Sujeito de sangue frio", disse Johnson, "ele será demais para mim em uma negociação; terei que sufocá-lo!" Então, ordenando que o mulato fosse para a popa, Johnson deu-lhe o leme e sentou-se por perto, cochilando, até que o segundo cais a estibordo foi ultrapassado.
"Agora Gabriel não pode me alcançar", exclamou Johnson; "não há mais estrada no lado de Dorchester, e as estradas de Somerset estão todas cortadas por riachos e bloqueadas por portões de fazenda. Vou afundar aquele idiota e o corpo rígido."
Ele chamou dois marinheiros de convés e retirou o corpo do porão. Phoebus ainda dormia placidamente de bruços, e Johnson olhou para ele com uma inveja peculiar após um olhar apressado para o morto. Algumas cordas foram colocadas ao redor da cama, e ganchos de arrasto anexados a elas, e todo o peso foi jogado sem cerimônia ao mar na ponta de Hungry Neck, e o traficante comentou, em tom de desculpa:
"Lá se vai um grande hipócrita, senhores; ele não estava acima da pirataria, se pudesse fazer outro homem levantar a bandeira negra por ele. Acho que ele será 'conservador' o suficiente depois disso. E agora vou tirar uma soneca. Guie-a para Ragged Point, lá longe, Whatcoat, e quando chegar lá me acorde. É uma enseada aberta o caminho todo; e lembre-se, negro, eu durmo e atiro, em gatilhos sensíveis!"
Com suas pistolas nas mãos, Johnson deitou-se na cabine a poucos metros do timoneiro e tentou ver e dormir ao mesmo tempo. Ele estava sem descanso há muitas noites, e o sono logo o prendeu em seus próprios grilhões.
Quando ele acordou, tão profundo fora seu sono que não conseguiu se lembrar por um momento de onde estava. O leme estava sem comando, as estrelas brilhavam na escotilha da cabine, uma corrente de água de porão fria soprava através do velho casco e, enquanto ele se arrastava para cima pelos degraus, viu bosques altos por perto e ouviu a voz de pinheiros solenes.
A embarcação estava encalhada; gansos selvagens faziam gritos jubilosos enquanto cortavam a água com suas asas felpudas, como gravação em camafeu; o fora da lei olhou e olhou, e finalmente murmurou:
"Ilha do Diabo, ou sou um bobalhão! Corri dela da última vez que estive aqui, e meu sangue gela ao estar aqui de novo; meu pai recebeu sua maldição deste acampamento."
Ganhando velocidade com suas apreensões, Johnson deslizou a escotilha para trás e saltou para o porão, a luz das estrelas e do luar seguindo-o, e nada revelaram ali exceto um homem, dormindo pacificamente de bruços, como Phoebus tinha sido visto pela última vez.
O sequestrador sacudiu seu cativo, mas ele não acordou. Ele virou o homem, e lá encontrou seus olhos o olhar azul frio, o nariz romano e os lábios sangrando de Allan McLane, aparentemente retornado do fundo do rio.
Com um grito, o fora da lei saltou para o convés e correu para a proa da embarcação.
"Ajude-me!" veio um grito fraco do castelo de proa e, espiando, Joe Johnson reconheceu um de seus próprios comparsas que ele havia embarcado em Cannon's Ferry, amordaçado, como seu companheiro, e amarrado firmemente. O homem mal conseguira articular.
"Agora, que me leve o diabo!" falou o capitão, aliviando o homem, "que os rufiões o carreguem! quem fez isso?"
"O negro branco fez tudo, Joe. Ele rastejou pelas estais até a cabine e pegou suas pistolas primeiro; pelo menos, encontramos ele e o sujeito amarelado no leme em cima de nós, subindo o castelo de proa, e depois os outros dois homens se juntaram a eles. Eles disseram que o velho Sansão tinha dado o sinal a eles. Nós dois fomos amarrados e jogados aqui, e se você tivesse acordado, havia um homem para apunhalá-lo no coração, postado sobre você."
"A pasta?" gritou Johnson.
"Essa se foi, eu acho. Eles costuraram você em um homem de penas e conchas de ostra em uma tábua para jogar ao mar; foi o que disseram. Eles seguiram para a Ilha do Diabo e deixaram o Pastor da Ilha aqui para vigiar para que você não tirasse a embarcação, e acho que eles estão na metade do caminho para Princess Anne."
Joe Johnson não ouviu mais nada. Ele libertou suas criaturas de suas amarras, levou o corpo morto na canoa da embarcação e deu o comando:
"Remem para a baía aberta! Atingiremos o Condado de St. Mary ou a Virgínia. Bingavast! Vamos! Nunca mais colocarei os pés nesta Costa Leste."
* * * * *
Em Georgetown, Jimmy Phoebus, Sansão e Levin Dennis se encontraram novamente, e Levin contou o mistério do desaparecimento de seu pai.
"Nunca diga à sua mãe, Levin, que o Capitão Dennis morreu naquele Pandemônio; isso partiria seu coração, e ela nunca mais confiaria em homem nenhum."
"Jimmy", falou Sansão, "deixe-a entender que ele naufragou no Ida. Parece um pouco ruim, mas o tráfico de escravos soa melhor do que sequestro."
"Dizem que Allan McLane era dono daquele navio de escravos", acrescentou Phoebus; "mas ele não viveu para conhecer sua perda. Ele encontrará seus pagãos no Tribunal do Juízo."
"Quem alimentou a mãe?" Levin perguntou. "Hulda não pode explicar isso."
"Eu posso, Levin", disse Sansão Hat, timidamente. "Fui eu. O bom e velho Meshach Milburn, de quem todo mundo fala mal, teve pena daquela pobre mulher e fez com que eu colocasse coisas que ela precisava em sua janela. Ele disse que se eu contasse a alguém, ele me demitiria."
"Cachorro da minha pele!" observou Jimmy Phoebus, "o próximo homem que chamar o velho Meshach de 'topo de torre' eu vou esmagar! Mas, vamos, meu filho, enterrei em Broad Creek as relíquias da família de sua esposa. Vamos alugar uma carroça e dirigir até a velha igreja episcopal de Broad Creek no caminho, e lá farei você se casar com Huldy."
O punho da espada e as moedas foram desenterrados e, naquele antigo edifício de pinho rígido, onde o culto de sua raça inglesa era celebrado há muito tempo, a filha do oficial naval tornou-se a esposa do filho de seu amigo voluptuoso e pervertido. Quando Jimmy Phoebus os beijou, ele disse:
"Levin, quando sua mãe disser 'Sim', nós quatro nos estabeleceremos no Oeste. Illinois tornou-se um estado livre, após uma luta difícil, e acho que isso nos servirá."
* * * * *
Por um tempo, Patty Cannon, por sua afabilidade e tristeza, teve tempos fáceis na cadeia e foi autorizada a comer com a família do carcereiro; mas, à medida que o interrogatório prosseguia perante o grande júri e seus lacaios se apressavam em lançar sua responsabilidade em tantos crimes apenas sobre ela, uma opinião externa exigiu que ela fosse tratada com mais rigor, e algumas das correntes com as quais ela algemara seus cativos foram rebitadas em seus próprios tornozelos. Muito logo, a hidropisia começou a aparecer em suas pernas e pés e, depois que ficou evidente para ela que nem dinheiro nem amigos viriam em sua defesa, ela caiu em um desespero passivo.
As frequentes conferências entre Jimmy Phoebus e Cy James levaram à crença de que não apenas Hulda havia recuperado partes do dinheiro e valores de seu pai, escondidos nas colmeias e vasos de flores que a velha Patty cuidara tão assiduamente, mas que Phoebus havia se apoderado de propriedades indicadas pelo informante, e ficaria com o que restasse delas após conseguir a libertação deste último.
Este resultado foi apressado pela morte de Patty Cannon, que aconteceu, para grande alívio de muitas pessoas respeitáveis daquela região, que temiam desde o início que ela fizesse uma confissão minuciosa, complicando todos que haviam lidado com seu bando.
Entre eles estava o Juiz Custis, que abriu seu esqueleto no armário para John M. Clayton em um dia primaveril. Clayton havia pressionado silenciosamente a condenação de Patty Cannon, mas o ciúme do interesse escravagista o tornava cauteloso quanto a qualquer aparição pública contra ela.
Eles estavam sentados na pequena sala de estar da casa paroquial metodista, uma pequena casa de estrutura com um pórtico de teto cônico e uma grande chaminé lateral, um pouco afastada da praça pública, para onde tinham ido enviar o pastor para atender ao idoso Chanceler, que adoecera no tribunal e estava deitado no hotel.
"Clayton", disse o Juiz Custis, em tom de voz baixo, "o que esta mulher pode fazer ou dizer, você não pensaria que me preocupasse, mas vou lhe mostrar quão profunda sua influência alcançou, bem como explicar-lhe por que não perseguiria meus próprios servos até o covil dela. Nisso, humilho-me diante de você, como devo fazer, se é para me tornar seu cliente."
"Você andava negociando com Patty Cannon; eu adivinhei tanto."
"Tal era o caso. Quando eu era estudante em Yale, voltando para casa em um feriado, apaixonei-me por uma bela quadra, propriedade de meu tio, no Condado de Northampton. Ela era uma mulher elegante, com uma boa educação, e fora minha companheira de brincadeiras. Eu era ardente e atraente, e facilmente encontrei abrigo em seu coração; mas a conquista de seus encantos foi longa e agonizante com estima sincera. Você deve acreditar em mim quando declaro que fiquei perigosamente doente porque fui recusado por ela e, fazendo de meu médico um confidente, ele disse à garota que ela deveria escolher entre minha morte e sua rendição. A piedade, então, prevaleceu, até mesmo sobre a religião. Eu era feliz em todos os pontos, menos em um--o dano que o ocultamento causava à sua autoestima; pois, Clayton, minha amante era minha própria prima."
"Goy!"
"Nunca desejei casar, embora nenhum filho tivesse nascido em minha relação patriarcal; mas, no decorrer dos anos, meu tio ficou pressionado por dívidas e apelou a mim para salvar minha bela serva da venda, ele sendo totalmente solidário com minha relação com ela, porque ela era sua filha."
"I goy!"
"O caso era urgente. Eu possuía alguns negros, o legado de minha mãe. Vendê-los publicamente seria um estigma tanto para minha humanidade quanto para meu crédito. Adotei o estratagema covarde de deixar um sequestrador levá-los embora e aceitar uma grande comissão por seu trabalho. Salvei minha dama, mas ao custo de um segredo."
"E esse segredo Joe Johnson usou, Custis, quando ele foi subitamente levado para sua casa e encontrou seu velho servo já desmoralizado pelo anúncio de seu genro?"
"O canalha aproveitou sua vantagem; e ele viu, além disso, minha filha--não Vesta, mas sua meia-irmã, Virgie--e, entre sua perseguição a ela e a vingança de meu cunhado, a pobre Virgie foi literalmente caçada até o chão e para dentro dele; ela está em sua sepultura."
O Juiz Custis caiu em um longo acesso de soluços, e Clayton, que notara seu semblante abatido desde a separação, passou um braço ao redor dele, dizendo:
"Não se importe, agora! Não se importe, velho amigo! Johnson fugiu; McLane, sussurram, nunca foi visto desde que entrou na taverna de Johnson. Seu testamento foi encontrado lá, e sua filha recupera a propriedade e os servos de sua mãe."
"Devo terminar minha história", disse o Juiz Custis, estancando suas lágrimas. "Pelo declínio de cada família com sentimentos naturais e refinamento, sob o que o Sr. Pinkney chamou de 'a maldição contaminante de servos relutantes', nós também nos tornamos pobres. Para salvar os outros, era necessário que eu me casasse e obtivesse dinheiro por minha própria prostituição. Meu Deus, como somos recompensados! Uma noiva foi encontrada para mim em Baltimore, a irmã de Allan McLane, e uma beleza.
"Comecei minha vida de casado com as melhores intenções; minha pobre amante ela mesma aconselhou-me a voltar para minha esposa e me tornar um homem verdadeiro. Ela me disse isso com o coração partido. No céu, onde ela habita com meu pobre filho, ela me ouve agora e sabe que falo a verdade!"
O Juiz Custis desmoronou novamente e encostou sua cabeça convulsionada no peito terno de Clayton, cujo próprio pesar de viúvo jorrou em resposta.
"Filhos nasceram em Teackle Hall; minha servidão estava se ajustando a mim, quando Allan McLane, em seu amor pela vingança e pela baixa respeitabilidade formal, concebeu que minha pobre quadra precisava de algum castigo por ter sido a rival de sua irmã, e ele montou uma armadilha para comprá-la. Fui forçado a tê-la comprada, para protegê-la e trazê-la aos meus cuidados novamente, e assim nossa paixão foi revivida e, dando à luz Virgie, ela morreu. Criadas juntas e inconscientes de seu parentesco, essas filhas amavam-se tão profundamente quanto quando, no céu, se esconderão no brilho uma da outra e cobrirão meus pecados com suas asas angelicais."
"Levante-se, velho amigo!" gritou Clayton; "suas transgressões estão, pelo menos, lavadas em lágrimas sinceras. Ouça os pássaros ao nosso redor amando e perdoando, e enchendo o ar de louvor. Saia!"
Ao pisarem na Praça de Georgetown, viram John Randel, Jr., liderando um grupo de agrimensores para localizar a ferrovia de oposição à de Meshach Milburn. Estes e muitos outros pressionavam em direção ao pelourinho e à coluna de chicotadas, na parte de trás do tribunal, onde estava, exposta pelo xerife, a mulher mulata limpa que recebera Virgie em Snow Hill na primeira noite de sua fuga.
"Esta mulher livre, Priscilla Hudson", gritou o xerife, "ficará uma hora no pelourinho pelo crime de emprestar seu passe a uma escrava. Trinta chicotadas a que fora sentenciada, o Governador graciosamente perdoou. Ela será vendida, fora do estado, ao fim de uma hora, pelo termo de sua vida natural, ao maior lance."
A pobre mulher estava ali, de braços nus e com o peito quase descoberto, delicada e adorável de se ver, e mãe de filhos livres, tendo suas roupas sido parcialmente removidas antes que o perdão das chibatadas lhe fosse anunciado.
Sua cabeça e braços foram enfiados através dos orifícios de uma das folhas do pelourinho e, assim, projetada para a frente, seu pudor foi exposto ao olhar devasso da multidão, enquanto, do outro lado da mesma plataforma elevada, exposta da mesma maneira, estava uma ladra de galinhas, impudente, indiferente, mascando fumo e cuspindo-o no chão do pelourinho.
Enquanto Clayton e Custis viam esta cena a caminho da taverna, um ovo, atirado de uma janela da cadeia dos devedores, quer destinado à Sra. Hudson ou não, atingiu-a no rosto, e seu conteúdo corrupto escorreu por seu seio branco e trêmulo.
"Vergonha! Vergonha!" gritou o povo, ao ver a mulher chorar, e, olhando para a janela da cadeia, ao ver outro rosto feminino aparecer ali, transformaram seus gritos em maldições:
"Enforquem-na! Enforquem-na!"
Pela última vez na vida, o rosto audaz e formoso de Patty Cannon inchou novamente com sangue apaixonado até as raízes dos cabelos negros e brilhantes, e os poucos que viram seus olhos ricos e escuros, inflamados de raiva, disseram que suas pupilas estavam dilatadas como as de um gato selvagem. Ela desapareceu num momento, e o xerife enxugou o rosto e o peito da Sra. Hudson com um lenço passado por uma mulher de cor.
Dois homens andavam agora ativamente pela multidão, chapéu na mão, solicitando contribuições para comprar a mulher; o primeiro, um cego cujos olhos estavam enfaixados, e um homem branco o guiava, gritando em voz alta:
"Os abolicionistas arrecadaram trezentos dólares para comprar a liberdade desta mulher. Precisamos de cem a mais, pois algumas pessoas mesquinhas podem elevar o preço. Este homem, marido dela, roubou seu passe para ajudar uma amiga a fugir. Não pudemos apresentar a prova, mas é a pura verdade de Deus, senhores! A mulher amamentou minha esposa e fez um monte de bem; e ela veio para cá, por sua própria vontade, de Maryland, para cuidar do Chanceler."
Pouco dinheiro foi arrecadado naquela multidão, já que havia pouco a dar, e, dirigindo-se aos dois ilustres estranhos, Sorden, o pregoeiro, exclamou:
"O quê, senhores, deixarão os irmãos Hunn e Tommy Garrett e os Motts darem trezentos dólares por uma mulher que nunca viram, e nós, que a vemos sempre fazendo o bem, não daremos nada?"
"Piedade! Piedade!" soluçou o cego. "Estou tão queimado que ninguém me comprará, mas roubei o passe dela para ajudar uma escrava por quem me apaixonei a fugir."
O Juiz Custis deixou o lado de Clayton e esperou até que a hora no pelourinho terminasse e, após uma disputa feroz, viu Sorden sair vitorioso no leilão, embora isso tenha custado cada dólar que o Juiz pôde levantar em Georgetown com seu crédito pessoal.
"Qual é o nome da moça a quem você deu o passe?" perguntou o Juiz ao mulato cego.
"Virgie, senhor."
"Meu coração me dizia isso", exclamou o Juiz. "Seu crime foi punido o suficiente. Eu o enviarei para sua esposa."[15]
* * * * *
John Randel, Jr., observou naquela noite:
"O Diabo Jim Clark seguiu o exemplo de Patty Cannon e quadrou o círculo."
"Não morto?" perguntou Clayton.
"Sim, morto e enterrado. Ele estava limpando seu contrato no canal e confundiu os trabalhadores irlandeses brancos de lá com negros sequestrados. Eles caíram sobre ele, bateram nele e o assustaram de tal forma que ele nunca se recuperou. Dizem que ele foi 'convertido' em seu leito de morte; ou, como dizem, 'ele morreu triunfante'; mas os negros relatam que o diabo desceu direto com uma carruagem e o levou embora."
"Esse sujeito, Whitecar, estou reservando", disse Clayton, "para punir quando puder usá-lo para sustentar um argumento a favor da admissão de testemunho negro em casos de sequestro.[16] Sem essa admissão, esses sequestradores não podem ser condenados: até Patty Cannon aqui pode escapar de nós, embora tenha matado homens brancos."
Sorden interveio, sendo ele do grupo:
"Uma doença chamada lepra surgiu na cabana do velho Derrick Molleston; Sam Ogg também a pegou, e dizem que ele a trouxe do quebra-mar. Ninguém chega perto deles. O Preto Dave está morto; ele disse que matou um homem em Princess Anne: a jovem esposa de Levin Dennis, que acabou sendo uma dama, ficou e rezou com ele até o fim, e ele partiu humilde e feliz. Mas, minha pele! Outro sequestrador já alugou a taverna de Johnson."
"A ferrovia limpará todos esses males", exclamou Randel. "Eu coloquei isso em poesia", e começou a recitar:
"Para a floresta escura de Naswaddox fugiu O assassino do continente, E com a lontra repousou a cabeça Entre o pântano e a cana: 'Aqui nada pode perseguir meu ouvido, Dos caminhos percorridos desviado; Esquecerei, de ano em ano, O mundo além da baía!'
"O homem caçado certa manhã ouviu Um assobio próximo e forte, E na noite uma luz ardente Pelos matagais brilhou entre: O demônio da locomotiva avançou Sobre vigas em chamas-- O cão que o assassino afugentara, O caminho do fora da lei era o Vapor!"
* * * * *
O grito de ódio da multidão ao redor do poste de açoite, ao despertar a última ira de Patty Cannon, também determinou seu último crime.
O medo era relativo nela: ela não tinha medo de homens nem de vergonha, e apenas da morte no que envolvia um além. Se esse além era uma convicção latente em sua mente, ou a advertência vívida da culpa e dos olhos de homens mortos espreitando sobre seus sonhos e nas vigílias silenciosas e solitárias das meias-noites assombradas, quem poderá dizer? Não há análise de uma depravação nativa e antiga: ela foi semeada na medula, fortalece-se no osso e, com uma astuta e audaciosa autoafirmação, aposta na fé de viver e de não morrer. Seus próprios medos impulsionam-na ao crime e fazem-na zombar cruelmente do seu próprio destino, como covardes que se inclinam sobre os muros dos cemitérios e gritam, com um tremor interno: "Saiam — eu desafio vocês!"
Assim, esta mulher, consciente de seus merecimentos, intimidou a justiça eterna através de seus longos adiamentos, nunca duvidando, embora sempre vexando, o Espírito de Deus, até que o número de seus crimes lotou a tábua de sua memória e, do horrível abismo de sua vida passada, contemplou rostos sem nomes e atos sem memorandos; uma procissão tanto mais longa quanto mais estranhos nela estavam, e, encolhendo-se diante dela, embora pressionando adiante, exclamavam seu nome ou apenas gritavam "'É ela!", como se seu nome não fosse nada diante de sua maldição.
Dormindo em suas correntes, havia olhos de crianças observando-a de cantos distantes, como se dissessem: "Dê-nos a vida inteira que teríamos vivido, se não fosse por você!"
Enquanto seus membros inchados apodreciam nas ferros, havia choros de bebês flutuando no ar, que pareciam aproximar-se de seus seios como se para buscar alimento, e subitamente convulsionavam ali em gritos de dor, afastando-se com os sons de sufocamento que ela ouvira quando eles expiravam.
Toda a noite havia visitantes para ela, e quem eles eram ninguém podia dizer; mas a família do carcereiro via seus lábios se moverem e seus olhos consultarem o ar, como se ela estivesse tentando, fracamente, a bravata contra certos fantasmas falantes de negócios que vieram com contas vencidas há muito tempo e exigiam pagamento, saindo apenas para voltar de novo e de novo.
Alguns desses visitantes místicos ela escarnecia e desafiava, batendo os pés, como se eles não tivessem direitos em equidade contra sua alma, tendo estado em missões viciosas quando encontraram seus fins, e falidos no tribunal da piedade; mas, de repente, algo indefeso aparecia e a paralisava com seu pequeno lamento, como uma mãe sem bebê ou um bebê sem mãe, e, com a testa suada de agonia, ela fingia rir e sussurrava: "Nada além de negros! Nada mais!"
O dia trazia-lhe algum alívio, mas também outros cuidados, e o principal deles era o cuidado com o dinheiro. Ela fora uma esbanjadora toda a sua vida e roubara da humanidade a vida e a liberdade para desfrutar da dissipação egoísta de gastar o dinheiro do sangue deles; e o que ela comprara com isso? Nada, nada. Apenas para gastá-lo, ela arruinara seu sexo e sua alma; para gastá-lo em tais ninharias que as crianças querem — doces e ornamentos comuns, uma dança e uma guloseima, um presente para algum rústico ou guarda-florestal ou mesmo negro que ela estava desencaminhando, ou para estabelecer uma reputação boba de generosidade: generosa às custas da felicidade humana e de roubar das pessoas a liberdade e a vida, meramente para ter dinheiro para gastar!
Agora ela não tinha nada para apaziguar as ganâncias devoradoras do hábito intensificado pela necessidade real: nenhum dinheiro para comprar iguarias ou mesmo bebida; nenhum dinheiro para gastar com a família do carcereiro e manter viva a reputação de bondade; nenhum dinheiro para trajes decentes para aparecer no tribunal; nenhum para corromper a lei ou contratar testemunhas e advogados.
Os dois demônios que ela criara alternadamente tomavam o dia e a noite: o demônio do dinheiro atormentava-a o dia todo, o demônio do assassinato perseguia-a a noite toda.
Todas as manhãs ela tinha necessidades insaciáveis; todas as noites ela tinha visitantes implacáveis; e, bem à frente, a forca preenchia a vista, com o Diabo amarrando o nó corrediço.
Esse Diabo ela via claramente, tão ocupado na forca, ajustando suas cordas e mortalhas e longos capuzes de morte, e ele a evitava, como se não tivesse comércio com ela agora.
Ele era um homem frio e ansioso, perfeitamente feliz com a perspectiva de tê-la, e não ansioso por isso, tão certo estava ele de sua posse próxima e completa.
Ele estava sempre no pátio da cadeia quando ela olhava para lá, consertando suas cordas, deslizando os nós, examinando a forca, como um carpinteiro consciencioso; e em seu sorriso complacente havia um terror terrível que a deixava muda: ele parecia tão impessoal, tão alegre, tão trabalhador, como se tivesse esperado por ela como um credor de longa data, e composto os juros de seus pecados até que a soma infernal fizesse dele um milionário em tormentos.
Era um Diabo, real como um homem — um mestre de escravos para cujo amor silencioso à crueldade a morte eterna não bastava; um homem cuja idade sem cicatrizes, antiga como o sol nascente, ainda ia e vinha em imortal jovialidade e satisfação, mas, por ora, esquecendo outros devedores no aperto que ele tinha sobre ela, como sua majestosa expiação por suas próprias faltas.
Ele parecia um comerciante, um homem de contas, um sequestrador cosmopolita que conhecia um bom artigo e o tinha agora. Ela estava tão aterrorizada que queria gritar para ele e ver se ele não remitiria aquele método de negócios e se tornaria mais humano, e retrucaria.
Mas não; quanto mais ela observava, menos ele olhava para ela, embora ela soubesse que seu sorriso não significava mais ninguém. Pendurar-se em sua corda era muito pouco; ir com ele depois que ela estivesse esticada, pelas grades ardentes do inferno, e vê-lo tão frio e ocupado em sua miséria, era o abutre roedor em seu coração.
Em vão ela tentou lançar a responsabilidade de seus pecados sobre uma ascendência e paternidade vagas e falsas, e dizer que fora criada para o roubo e o vício; algo em seu coração respondia: "Não, você tinha beleza e saúde e amantes castos que você rejeitou ou tentou, e uma mente que sempre foi clara e conhecia o certo do errado. A consciência nunca desistiu de você, embora encharcada em sangue inocente. O monitor frequentemente assassinado revivia e gritava alto como o bater de um relógio, mas nunca era obedecido!"
Assim assombrada, abandonada, espiada pelo além, atormentada com necessidades vãs, suas saídas fechadas para qualquer fuga ou subterfúgio, a própria vingança morta e a doença auxiliando a consciência a banir o sono, a miserável mulher rastejou até sua janela um dia e viu a efígie indefesa de seu sexo exposta ali por ter feito um ato de humanidade; e instantaneamente um instinto que ela obedeceu imediatamente exigiu dela um último ato familiar e cruel, para mostrar à multidão que até ela, Patty Cannon, a assassina, "não tinha respeito por um negro".
Essa doutrina sobreviveu muito a ela, embora ela a tenha achado antiga quando chegou entre eles.
Ela mirou um ovo no peito de seu sexo e, com um sorriso descarado, viu-o atingir e estourar. No momento seguinte, a multidão a reconhecera e a desafiara.
Na exasperação de seu grito, e de não ser mais elogiada nem mesmo por insultar um negro, uma convulsão de raiva desesperada dominou a assassina.
Muito indefesa para retrucar de qualquer outra forma, mas em um descuido incontrolável, ela exclamou: "Eles nunca me verão enforcada, então!" e engoliu o arsênico que escondia em seu peito.
Naquela noite, ela morreu em tormentos horríveis.
* * * * *
O venerável Chanceler, deitado no hotel perto da esquina do poste de açoite, vigiado pela libertada Sra. Hudson, que amanhã deveria partir do estado para sempre, ouviu naquela noite vozes na praça, dizendo:
"Patty Cannon está morta. Dizem que ela tomou veneno."
Uma dor imensa apoderou-se do coração do Chanceler, e os gemidos altos que ele deu chamaram um estranho para o quarto.
"Aquela mulher terrível está morta?" suspirou o Chanceler.
"Sim; ela nunca mais atormentará Delaware, senhor."
"Graças a Deus!" o velho gemeu. "Justiça e assassinato não são mais parentes."
Disseram que ele morreu naquele instante de doença cardíaca.
CAPÍTULO XLV.
O JUIZ CASADO NOVAMENTE.
Vesta encontrou seu círculo reunido, embora com muitos ausentes, em Princess Anne.
A tia Hominy assumiu seu lugar na cozinha e cozinhou com toda a sua arte anterior, mas sua voz e compreensão tinham ido embora, e ela nunca passava do Chapéu Vinculado, e ainda o considerava, tanto quanto se podia entender, como a causa de todos os seus erros e perigos, embora parecesse admitir seu domínio inevitável.
A pobre mulher, Mary, encontrando Samson Hat, com o tempo, desejando ter uma parceira no antigo armazém, onde ele se tornara o único residente, teve fé suficiente para fazer seu terceiro casamento com ele; e seus meios não apenas compensaram a propriedade que ela perdera, como o vigoroso velho presenteou-a com um menino, que recebeu o nome de Meshach Phoebus, e sobre o qual o Juiz Custis observou sabiamente que ele "deveria ter sido um negro ruivo, tendo tanto a fornalha ardente quanto o sol flamejante em seu nome".
Com a morte de Samson Hat, que resultou de reumatismo chegando ao seu coração, sua viúva juntou-se ao seu libertador da escravidão, James Phoebus, no Oeste, onde viveu feliz com seu noivo e enteado, e frequentemente escrevia para casa sobre um amigo que tinha lá chamado Abe Lincoln, que fazia viagens de balsa com ele pelo Mississippi. Tanto Ellenora Phoebus quanto Hulda Dennis criaram famílias ocidentais que desempenharam papéis eficazes no drama da civilização.
Vesta não perdeu tempo em libertar cada escravo em Teackle Hall e nas fazendas, com a aprovação de seu pai e de seu marido também, e Roxy tornou-se a esposa de Whatcoat, o liberto resgatado, e a substituta, ao lado de sua patroa, da pobre Virgie, cujo corpo foi trazido para casa e enterrado pela igreja onde ela tinha sido a dama de honra de sua irmã branca. A dor de Vesta por Virgie foi silenciosa, mas longa, e como a de uma igual, não de uma patroa, embora ela pudesse nunca ter sabido quão igual.
Nas fatalidades que se aglomeravam em torno de seu casamento, Vesta observou uma bênção notável — a completa reforma dos hábitos de seu pai.
Ele não bebia absolutamente nada, suprindo com frutas os prazeres do vinho, e com exercício e negócios, por ordem de seu genro, as excursões vadias que ele outrora fazia na floresta por política e amores.
Ciente de sua natureza sociável e voluptuosa, Vesta desejava vê-lo casado novamente, para completar e garantir sua reforma; e, enquanto ela ainda estava quebrando a cabeça para pensar em uma esposa que lhe conviesse, ele resolveu o problema sozinho ao arrancar Rhoda Holland das atenções de William Tilghman.
Rhoda tinha aprendido rapidamente e corrigira sua gramática sem perder seu humor e seu gosto por vestidos, e seu espírito livre e caloroso logo a tornou uma mulher elegante, em quem, feliz ou infelizmente, uma ambição mundana muito decidida germinou — ao mesmo tempo a prova e a justificação das arrivistas.
Ela pode ter se espelhado no tio, ou pode ter emanado de sua linhagem familiar ambiciosa, que, nele e ao redor dele, despertara para o vigor de um século anterior; mas era tão diferente da natureza de Vesta que, embora isso apenas tornasse mais nobre sua alma de tranqüila piedade e facilidade de dama, Vesta interessava-se pelo arbítrio e pela coqueteria de negócios de Rhoda.
Uma vitalidade mais elevada do que a de Vesta, Rhoda Holland logo mostrou, nos sentidos superficiais, mais acuidade de visão e percepção, intuições mais rápidas, mais amor-próprio, embora não egoísmo, menos escrúpulos, talvez, em lidar com seus amantes, e, com fidelidade e virtude, um espírito ambicioso que Vesta apenas suavemente reprovava, já que ela fazia a concessão de que era em parte inspirada por si mesma.
"Cuidado, querida", disse Vesta um dia, "para que você não se afaste do seu coração. Com todo o progresso, há um crescimento que gera a doença do coração. Você ama o primo William Tilghman? Ele é um homem verdadeiro demais para ter seus sentimentos feridos. Nada neste mundo, Rhoda, é um substituto para o princípio na mulher."
"Não quero perder o princípio, tia", disse Rhoda; "mas tenho medo de amar a vida demais para ser esposa de um pastor. Nunca vi o mundo por tanto tempo que estou louca nele. Quero ir, olhar e ver, em toda parte. Sinto que meu coração está em minhas asas, e devo ir sentar em um ninho? Srta. Somers..."
"A questão é, querida, você ama?"
"Tia, eu acho que amo William tanto quanto ele me ama."
"Mas ele é dedicado, Rhoda."
"Se eu pensasse que tinha todo o coração pleno de William, Tia Vesta, e que isso lhe causaria dor real decepcioná-lo, eu me casaria com ele. Mas eu o observei como um gato observa um rato. Ele quer se casar comigo para fazer outras pessoas além de si mesmo felizes; para reconciliar você e o tio mais; para levar o tio mais para sua família ao casar-se com sua sobrinha. William está tentando amar o Tio Meshach como um bom cristão, mas, Tia Vesta, ele pensa mais no seu dedinho do pé do que em todo o meu corpo."
A cor carmesim veio às bochechas de Vesta tão involuntariamente, tão subidamente, que ela se sentiu envergonhada disso e, em vez da raiva que muitas esposas tão expostas teriam mostrado, ela derramou algumas lágrimas silenciosas.
"Rhoda, você não sabe que sou a esposa de seu tio."
Rhoda jogou os braços ao redor dela.
"Perdoe-me, querida! Quando você me disser, Tia Vesta, que William me ama carinhosamente, eu me casarei alegremente com ele. Eu apenas quero, tia, não tornar a felicidade impossível, quando esperar seria melhor."
Vesta perguntou-se o que Rhoda queria dizer, mas, beijando sua amiga ternamente de novo, Rhoda sussurrou:
"Tia, não é egoísmo que me faz agir assim. De fato, eu amo William; é um sacrifício deixá-lo ir."
Vesta olhou para cima e encontrou os olhos de Rhoda desta vez cheios de lágrimas.
"Estranha, terna garota!" exclamou Vesta. "O que faz você chorar?"
Ainda assim, por algumas razões não ditas, talvez desconhecidas, ambas derramaram juntas as lágrimas de um respeito mais profundo uma pela outra.
Logo depois, o Juiz Custis, sendo enviado a Annapolis por Milburn, foi solicitado a levar Rhoda junto, como parte de sua educação, e Vesta foi também, por desejo de seu marido.
Ela temia que seu pai, devotado como se tornara aos interesses comerciais de seu marido, ainda o detestasse e guardasse ressentimento dele; e Vesta desejava ver não apenas a reconciliação exterior, mas a interior daqueles dois homens, de um dos quais ela tirou seu ser, e em relação ao outro começou a sentir laços sagrados, porém terríveis, que se prendiam à vida e à morte.
Eles foram levados ao desembarque pelo Sr. Milburn e pelo jovem reitor, e lá, conforme o barco a vapor se aproximava, Tilghman disse:
"Rhoda, seu tio consentiu. Ele deseja que nos casemos. Peço-lhe, diante de todos eles, que considere minha proposta enquanto estiver fora e volte para casa com sua resposta."
A moça impetuosa lançou os braços em torno dele e beijou-o em silêncio, e, cobrindo o rosto com o véu, aguardou em lágrimas incontroláveis o barco a vapor que a levaria ao mundo mais poderoso que ela jamais vira, além da baía.
Depois que ela alcançou o vapor, sua quietude e pesar continuaram, e ao deitar-se naquela noite, ela voltou o rosto, descolorido pelas lágrimas, para que Vesta a beijasse, como uma criança, e balbuciou:
"Tia, não pense que não tenho princípios. Na verdade, tenho alguns."
* * * * *
Annapolis, meio século mais velha que Baltimore, e a primeira cidade a criar raízes em toda a terra de Chesapeake, tinha agora quase cento e cinquenta anos, e era o monumento austero do protetorado de Cromwell. Seu punhado de puritanos expulsos da Virgínia, compelidos a organizar seu condado sob o nome da romanista Anne Arundel, içou o estandarte da Comunidade, avermelhado com o sangue de um rei tirano, contra o exército invasor de Lord Baltimore, e, gritando "Deus é nossa força: ataquem, homens!", aniquilou a Maryland feudal, para nunca mais reviver; e, após a revolução similar do Rei Guilherme na Inglaterra, a "cidade da Providência" tomou o nome de sua irmã rainha, Annapolis, como a Princesa Anne do outro lado da baía.
Annapolis tornou-se um lugar de moda e corte, com corridas de cavalos, teatro, uma imprensa, um clube, clérigos caçadores de raposas, uma grandiosa sede do governo, as residências urbanas dos plantadores, as belas de Maryland, e o centro da guerra contra os franceses, a coroa britânica e a insurreição dos senhores de escravos.
Encontrava-se agora em um estado de declínio confortável, tendo cedido a Baltimore e a Washington sua outrora superior influência e sociedade; mas um grupo de pressão, o maior em magnitude já visto nesta província, havia se reunido em nome de canais e ferrovias para competir pelo auxílio financeiro da Legislatura, e o Juiz Custis liderava a esperança perdida da Costa Oriental por parte do subsídio tão liberalmente despejado sobre o corvo, Baltimore.
O Juiz Custis foi instruído a fazer lobby em Annapolis por um milhão de dólares, ou apenas um oitavo das concessões feitas pelo estado, e deveria recorrer a Meshach Milburn para obter fundos, que, entrementes, continuava com seus recursos privados a terraplenar e comprar direitos de passagem para cento e trinta milhas de ferrovia.
A aventura era gigantesca para o capital privado daquela época, e a impopularidade do aventureiro em casa logo foi atestada na capital do estado.
Vesta, cuja carruagem fora trazida, olhava com um gentil patriotismo — sendo ela mesma dividida em simpatias entre Maryland e Virgínia — para a pequena capital peninsular, com suas velhas casas espaçosas de tijolos coloniais, seus círculos e triângulos nas vias públicas, e os nomes inalterados de ruas como King George, Prince George e Duke of Gloucester; mas Rhoda estava excitada ao ápice do orgulho estadual por tudo o que via, e, com forte faculdade, apoderou-se das relações históricas e políticas de Annapolis, até que o Juiz Custis disse:
"Vesta, aquela moça é da velha linhagem rebelde dos Milburn, eu sei. Ela absorve tudo como um pato selvagem mergulhando em busca de aipo-da-baía."
Com duas mulheres tão belas para falar em seu nome, a ferrovia da Costa Oriental parecia a princípio ter muitos amigos, mas não estava na natureza dos elementos empreendedores de Baltimore ceder um ponto, por mais complacentes que pudessem parecer.
Vesta não frequentava a sociedade em geral, mas sua influência era exercida suavemente em seus quartos no grande hotel antigo, e em sua carruagem enquanto fazia excursões com tempo agradável aos rios Sul e Oeste, à "Floresta" de Prince George e aos prósperos Quakers de Montgomery. Ela escrevia e recebia uma carta diária, sendo seu marido atencioso e terno, apesar de suas crescentes preocupações, como prometera ser naquele dia severo em que fez sua corte a ela.
Mas a história de seu sacrifício, vergonhosamente exagerada, com toda aquela intensidade de expressão habitual em uma sociedade pró-escravidão sempre que o dinheiro está em jogo e a denúncia é o jogo, foi usada para prejudicar os interesses de seu marido.
O Sr. Milburn era descrito como um vil tipo ianque de avarento e trapaceiro, que conspirara contra a fortuna de um cavalheiro e a virtude de sua filha por uma longa série de anos impiedosos.
A oposição local afirmava que ele usaria a ferrovia para arruinar outros nobres e oprimir sua região natal, e que ele era um emissário da Filadélfia e um abolicionista, tramando a criação de um novo estado a partir das três jurisdições do outro lado da baía.
O Juiz Custis, com sua grande popularidade, não escapou da censura; diziam que ele havia feito vista grossa à entrega de sua filha por dinheiro e ambição, e que havia partido o coração de sua estimável esposa após ter perdido a fortuna dela em um forno de ferro.
O Senador Clayton, cuja mãe era originária das proximidades de Annapolis, fez uma visita de Washington e foi induzido a dizer que Delaware forneceria todas as instalações ferroviárias necessárias para a Costa Oriental, e que duas ferrovias ali nunca seriam lucrativas.
Finalmente, o Juiz Custis escreveu ao seu genro para que viesse a Annapolis e confrontasse essas inverdades pessoalmente.
Milburn veio, e tendo seu orgulho irritado pela natureza da oposição, ele usou na cena do combate seu chapéu ancestral.
Ele tornou-se imediatamente a figura mais notada em Maryland.
Em uma parte do estado, ele era caricaturado em desenhos e versos como o homem genérico da Costa Oriental, usando tal chapéu por não ter ouvido falar de nenhum estilo mais recente.
A associação de um homem com um chapéu do século passado a algo tão progressista quanto uma ferrovia parecia excitar a hilaridade de todos. Sua ferrovia era chamada de Linha do Chapéu, mesmo nos debates, e pessoas grosseiras e negros eram contratados por espertalhões no lobby para comparecer à Legislatura com petições pela ferrovia da Costa Oriental, com toda a delegação usando chapéus antigos e grotescos, recolhidos de todos os velhos condados e das lojas de roupas usadas de Baltimore; e, naquela época, chapéus estranhos eram muito comuns, já que peles de animais de grande resistência ainda eram usadas para fabricá-los.
De Somerset, a palavra foi enviada de que Milburn mantinha seu chapéu não por fraqueza amável ou excentricidade, mas porque fizera um voto de nunca abandoná-lo até ter posto todo superior sob seus pés; e que ele era vítima de uma grosseira superstição florestal, e fizera um pacto com o diabo, que o permitia prosperar enquanto ele desafiasse a sociedade com aquele chapéu.
Os empregados do hotel riam enquanto ele entrava e saía; os ostricultores e lenhadores chamavam jocosamente uns aos outros enquanto ele passava; pessoas respeitáveis diziam que ele não poderia ter consideração pela esposa para degradá-la, atraindo o escárnio da cidade. O Juiz Custis finalmente observou:
"Milburn, resolvi, há muitos anos, nunca mais dirigir-me a você sobre o assunto de seu traje. Meu dever me faz quebrar essa resolução: seu chapéu é o pior inimigo de sua ferrovia."
Vesta, no entanto, era a maior vítima do Chapéu Vinculado. Ele pesava sobre seu espírito como uma mortalha. Nervosa e apreensiva como se tornara, a admoestação e o atrito perpétuos deste artigo levaram-na ao silêncio e à melancolia, envenenaram o ar e bloquearam a luz do sol, fizeram de sair à rua um constante passar por um corredor polonês, da hospitalidade uma comédia, e da observação humana um olhar perplexo.
O chapéu era a coisa silenciosa e não indicada que se interpunha entre ela e seu marido e o resto do mundo. Ela nunca o mencionava, pois via que era um terreno proibido. Gentil e liberal como seu marido era em tudo o mais, ela não ousava aludir a um assunto que se tornara o centro de sua organização nervosa, como uma ferida endurecida; e, no entanto, ela via, por considerações que não eram egoístas, que este chapéu era seu próprio pior inimigo.
Algum vício positivo — e ele não tinha nenhum —, alguma conspiração calculista — e ele era direto como o dia —, algum divertimento vil ou hábito oculto ou doença acre o manteriam em cativeiro e perverteriam seu coração menos do que esta simples aberração de comportamento. Se ele fosse corcunda, os homens teriam ignorado; um bócio ou verruga hedionda eles não teriam ressentido; mas a extrema gentileza ou a cortesia de alta linhagem não podiam conter o impulso de olhar uma segunda vez para um homem com uma bela dama em seu braço e um chapéu de torre sobre a cabeça.
A existência de qualquer assunto sobre o qual marido e mulher não devam conversar, que é, contudo, um ingrediente diário de conforto e exibição, desarranja por si só sua economia e acaba tornando-se o intruso crônico de seu lar; e, quando é uma ninharia, parece ainda mais um obstáculo, porque não há como raciocinar sobre isso.
Este Chapéu há muito deixara de ser externo: ele era usado sobre o coração de Milburn e sufocava o latejar saudável ali. Ele fazia dele dois homens — o exterior e o do lar — e, como os irmãos corsos, eles estavam sempre conscientes um do outro, e uma palavra para um despertava a sensibilidade clarividente do outro.
"Se as pessoas apenas não o observassem", dizia Vesta, "acho que ele deixaria o chapéu de lado; mas isso é impossível, e todo o seu orgulho está no conflito interminável com uma lei da sociedade eterna. Quem define uma moda, nós não sabemos; quem ousa definir uma que é obsoleta deve ser um mártir; independência ninguém pode praticar, exceto um lunático. Oh, que tirania existe que nenhuma lei pode alcançar, e quanto da sociedade é mera formalidade!"
Vesta tinha pena de seu marido, mas a doença estava além de sua cura. Ela antecipara alguma compensação por seu casamento, em uma vida e sociedade mais amplas, e no exercício de sua mente, especialmente na arte e na música; contudo, estas eram coisas puramente sociais para a mulher, e o chapéu nefasto estava sempre escurecendo seu limiar e fechando a vista de qualquer outro. Ela meditava escapar disso com uma visita à Europa, que seu pai lhe prometera antes de seus embaraços, e que fora mencionada pelo Sr. Milburn como algo que lhe era devido em termos de perfeição musical.
"Tio", disse Rhoda Holland um dia, "por favor, tire esse chapéu velho. A tia Vesta poderia amá-lo muito mais! As pessoas acham que é cruel, tio. Oh, ouça o coração de sua esposa e não o seu orgulho."
"Pare!" disse Milburn. "Mais uma referência ao meu chapéu honesto e você será enviada de volta para Sinepuxent e para a Sra. Somers."
Pode ter sido essa ameaça terrível, ou a ambição crescente, ou os fascínios da posição, atenções e galanteria notável do Juiz Custis, que dispôs Rhoda a voltar sua sagacidade mundana para o pai de sua amiga.
A visita a Annapolis ocupou todo o inverno; à medida que avançava, o Juiz Custis, suprimindo as tentações da mesa, e sentindo suas responsabilidades tardias pensativamente, e desejoso de um assentimento fixo em um lar novamente, sentiu uma paixão poderosa por possuir Rhoda Holland.
Ele lutou contra isso em vão. A beleza e a coqueteria dela, e a ambição também, apoderaram-se de seu capricho e trabalharam fortemente sobre sua imaginação. Ele a vira crescer de uma rosa da floresta para ser a mais nobre flor do jardim, soberba em saúde, rica em cores, alta, brilhante e calorosa, e facilmente consciente de suas conquistas, e com um toque e incentivo mágicos. Ela começou a conduzi-lo por mera malícia. Ele era sábio e observador das mulheres, e lançou-se no lugar de seu instrutor e cortesão. Ela tornou-se sua aluna, e uma exigente, impulsionando suas energias, exigindo sua atenção total, estimulando sua mente; e Vesta logo viu que seu pai era um cativo cego nas malhas frescas, porém auto-agitadas, de sua conexão.
"Existe alguma lei, marido", perguntou Vesta, "para impedir Rhoda de se casar com o Juiz Custis?"
"Creio que não. Não há consanguinidade. Em uma sociedade onde todo grau de primos se casa entre si, seria tão gratuito interferir em tal casamento quanto proibir meu chapéu por lei."
"Ele está tão enamorado dela", disse Vesta, "que temo os resultados de ela recusá-lo sobre seus hábitos. Papai é um homem melhor do que jamais foi: uma esposa que possa reter seu interesse agora o manterá estável por toda a vida."
O encerramento da Legislatura estava próximo; outro ano, e talvez anos em número imprevisto, seriam ocupados na mesma busca lenta e ilusória.
O Juiz Custis encontrou-se uma manhã cedo acima da cúpula da antiga sede do governo, onde ele frequentemente ia àquela hora com Rhoda Holland, para olhar a baía e a cidade e "a onda prateada de Severn refletida".
Ele virou-se para ela com um brilho de humor, mas um rubor nas bochechas, e disse:
"Minha menina, qual será sua resposta à proposta de casamento do Pastor Tilghman?"
"Não pode ser."
"Então estou livre para pedir por outra. Rhoda, você viu que sou tolo por você. Eu era seu admirador quando você era uma pobre menina da floresta..."
"E quando você era um homem casado", interrompeu Rhoda. "Como você era esplêndido e astuto! Mas, mesmo então, eu ficava encantada que um grande homem como você pudesse até flertar comigo. Talvez você vá agir da mesma maneira novamente?"
"Não, Rhoda. Esta é minha última oportunidade. Dedicarei a você o resto da minha vida. Tenho cinquenta e cinco anos, mas são os melhores cinquenta e cinco de Maryland. Você terá a devoção de vinte e cinco."
"Quero ser levada a Washington", disse Rhoda. "Acho que poderia me casar com um homem velho se ele me levasse para lá."
"Concorrei ao Congresso, então. Você se tornará uma grande mulher na vida pública. Não lhe peço que me ame, mas que me deixe amá-la. Oh, minha criança, o casamento tem sido uma tragédia para mim. Serei um marido arrependido e carinhoso. Ouça meu egoísmo falar e faça o sacrifício."
"Se eu disser 'Sim'", disse Rhoda, "não é para me acomodar e cuidar de você. Você deve ser o que tem sido este inverno: um galanteador, e um cavalheiro sempre afetuoso e galante."
"Sim, enquanto o tempo me permitir."
"Então não diga mais nada sobre isso", respondeu Rhoda, com um pouco de palidez; "se os outros estiverem dispostos, uma pobre garota como eu não o recusará, mas direi, como Rute: 'Estende a tua capa sobre a tua serva; pois tu és um parente próximo.' Eu amo sua filha."
Meshach Milburn, não mais do que meio satisfeito com o rumo que os acontecimentos tomaram, apressou-se para Princess Anne com antecedência e procurou William Tilghman.
"Querido amigo", disse ele, "espero que seu coração não estivesse comprometido com minha sobrinha rebelde?"
"Ela se comprometeu com outro, Primo Meshach?"
"Sim, com o Juiz Custis. Você sabe que jeito cativante ele tem com as garotas. Não foi minha escolha, William."
Milburn olhou para o jovem e não viu decepção em seu rosto — antes, um brilho de espírito.
"Primo Meshach", disse ele, alegremente, "achei que poderia fazer Rhoda feliz; achei que a interpretei corretamente. Já que me enganei, é melhor que ela tenha sido sincera. Não, meu coração continua sendo de um solteiro e de um sacerdote. Veja, primo! O bispo mandou me chamar para assumir um campo maior."
Ele uniu Rhoda e o Juiz, como ele havia casado seu primeiro amor — com outro; ela estava pálida e em lágrimas; ele a beijou no altar, e deu a mão ao Juiz calorosamente:
"Sei que você será um cristão melhor, Primo Daniel. Deus lhe deu muito amor na terra. Nossas orações por você foram atendidas."
Vesta ficou desapontada, esperando ver William feliz em um casamento com Rhoda.
CAPÍTULO XLVI.
A MALDIÇÃO DO CHAPÉU.
À medida que a primavera irrompia sobre Princess Anne em flores de cerejeira e flores de corniso, em arenques e sáveis pesando as redes do rio, e ninhadas de pintinhos e pessegueiros pullulando, e à medida que o tempo das frutas, do milho e do melão precoce se seguia, a vida nas veias humanas também se desdobrava em fruto infantil, e Vesta tornou-se mãe.
A floresta e a corte harmonizaram-se na prole, e o menino recebeu o nome de Custis Milburn.
Saudável e formoso, como se a Sociedade tivesse feito a combinação para a Natureza, o infante floresceu sem um dia de doença, e cresceu aos olhos de seus pais como um milagre, tendo a simetria e a beleza da mãe, e o semblante ousado e desafiador do pai; e para Meshach trouxe a satisfação de uma posteridade aprimorada, e um herdeiro para seu sucesso; para Vesta, a compensação pela perda da sociedade mundana.
Ela encontrou mais alegria em Teackle Hall, com este produto maravilhoso de seu sacrifício e dor, do que com a admiração de todas as boas famílias em Maryland; e um senso de calor e gratidão surgiu em sua consciência em direção ao pai deste dom inigualável.
"Não lhe dei minha lealdade total", ela refletiu, com piedade exigente; "deixei que trivialidades ficassem diante de meus votos."
Consequentemente, quando Milburn, tomado pelo remorso e acusando-se de condições severas ao exigir um casamento sem amor, veio um dia, com toda a magnanimidade de um novo pai, diante de sua esposa para fazer alguma restituição, ela o surpreendeu levantando-se e beijando-o.
"Senhor, fui muito orgulhosa e teimosa. Perdoe-me!"
Ele a pressionou contra seu peito, enquanto suas lágrimas corriam sobre o rosto dela.
"Querida", disse ele finalmente, "que zombaria meu crime contra você tem sido — pensar que você poderia algum dia me amar! Não, eu lhe darei a liberdade. Por mais caro que seu cativeiro seja para mim, sua gaiola se abrirá e você voará."
Vesta recuou diante dessas palavras estranhas e esperou que ele explicasse. Ele continuou:
"Enviarei você para a Itália com nosso filho. Seu pai irá também, se você desejar. Vá longe de mim e dessas condições não amadas, desta ligação e restrição odiosas" — suas lágrimas correram rápido novamente, mas ele as deixou cair sem ressentimento — "encontre em sua música e em sua mente nobre o esquecimento deste casamento indigno. Posso viver na lembrança da bênção que você tem sido para mim."
"O quê!" disse Vesta; "você me ordena que o deixe?"
"Sim. Que assim seja. Sei o quanto você é conscienciosa, minha querida, mas é seu dever ir. Uma luta dura está diante de mim: estou profundamente embarcado em um negócio não testado. Agora posso poupar o dinheiro. Vá e encontre felicidade em uma terra mais feliz."
Ela foi até ele novamente e colocou os braços em torno dele.
"Deixá-lo?" ela disse. "O que eu fiz para ser expulsa? Como eu poderia me reconciliar em deixá-lo viver sozinho? 'Para o melhor ou para o pior', eu disse. Deus tornou isso melhor e melhor a cada dia."
Ele segurou a cabeça dela entre as palmas das mãos e olhou em seus olhos, para ver se ela falava do coração.
"Marido", ela sussurrou, "eu te amo."
* * * * *
As mentes de marido e mulher, após esta reconciliação, voltaram-se para o chapéu perturbador como o assunto de seu estranhamento até então.
Disse Milburn para si mesmo: "Que pecador tenho sido por afligir aquela pobre criança com meu chapéu miserável! Na primeira oportunidade que ela me der, eu o deixarei de lado para sempre."
Disse Vesta a seu pai e sua noiva: "Que coração perverso mantive, ao me opor ao meu marido em uma coisa tão pequena quanto seu bom e velho chapéu — o emblema de sua reverência à sua família e de sua bravura para com uma era impertinente. Deixei que ele descolorisse minha vida de casada e toda a luz do sol. Mas meu bebê derreteu meu coração obstinado. Venham, unam-se a mim, e vamos mostrar a ele que tudo o que ele usa nós adotaremos orgulhosamente."
Portanto, quando Milburn saiu da próxima vez, sua esposa veio com um rosto radiante e passo elástico e colocou em sua cabeça seu chapéu de torre. Ele olhou para ela gravemente, mas ela interrompeu seu protesto com um beijo.
Ele pensou em apresentar o assunto ao Juiz Custis, mas aquele noivo apaixonado interrompeu com:
"Milburn, você é um homem corajoso. Foi imprudente da minha parte dizer uma palavra sobre seu chapéu. Eu mesmo comprarei um igual se conseguir encontrar. Ora, ora, homem! Ele combina com você. Não diga mais nada sobre isso."
Milburn tentou fazer a explicação à sua sobrinha, mas antes que pudesse começar bem, ela exclamou:
"Tio Meshach, a Tia Vesta está simplesmente apaixonada pelo seu chapéu! Ela não quer nem ouvir falar de você usar outro. Todos nós vamos apoiá-lo, tio."
Um homem escolhe seu próprio veredito por um longo curso de comportamento; a austeridade na família gera medo; uma afetação, seja de loucura ou ressentimento, é por fim creditada à natureza; raramente é permitido ao homem escapar da armadilha de seu próprio temperamento.
Assim, Meshach Milburn nunca obteve a oportunidade de se livrar da aflição com a qual afligira os outros. Como um impostor que estabeleceu a alegação de surdez, e a humanidade berra em seu ouvido, o espectro de chapéu sentia-se desconfortável quando tirava o seu adorno — sua coerência estava imediatamente em julgamento. Ele era como um menino que havia picado uma cruz na mão com tinta da China e, ao tornar-se um homem com bom gosto e posição, vê o anúncio indelével de sua vulgaridade sempre que aperta uma mão humana.
Ter colocado qualquer outro chapéu tê-lo-ia submetido a novas vaias e comentários, e feito ele mesmo sorrir publicamente de sua própria tolice; ele teria que ter subido ao pelourinho para explicar a mudança e pedir desculpas; a sociedade que ele enfrentara em desafio parecia, de repente, unida para lhe recusar um status sem o seu Chapéu Vinculado, e teria sido necessária a coragem de descartar um pseudônimo de toda uma vida e viver sob um nome esquecido para aparecer em Princess Anne com um novo e contemporâneo adereço de cabeça.
Milburn viu que teria de usar seu velho chapéu pela vida toda; ele curvou-se sob a servidão e era agora o único a ser vítima dela.
CAPÍTULO XLVII.
FRACASSO E RESTITUIÇÃO.
A luta ferroviária foi renovada ano após ano.
A Legislatura era anualmente cercada por fortes forças de lobby, e uma disputa amargurada entre o Canal do Potomac e a maior companhia ferroviária, para estrangular uma à outra, deixou a ferrovia de Eastern Shore fora de cogitação. Locomotivas de invenção nativa começaram a surgir; a ferrovia para Washington foi finalmente aberta e, em seguida, para Harper's Ferry, à medida que o menino de Vesta se tornava um jovem cavaleiro e aprendia a ler. O venerável tribunal de Princess Anne, com seus oitenta e sete anos de memórias, queimou durante esses procedimentos, e um pânico estendeu-se pela antiga região de Patty Cannon ao sussurro de outra rebelião de Nat Turner entre os escravos; mas nenhuma menção aos milhares de sequestros ali feitos foi registrada na convenção antimassônica em Baltimore, onde Samuel S. Seward e Thaddeus Stevens nomearam o Sr. Wirt para Presidente, porque um homem branco havia sido roubado. O assassinato de Jacob Cannon por Owen Daw produziu algum comentário distante um pouco mais tarde, principalmente devido à apatia da sociedade de Delaware em perseguir o assassino.
Por um longo curso de usura e perseguição legal, os irmãos Cannon tornaram-se detestados em sua própria comunidade, e quando processaram O'Day, ou Daw, por cortar uma árvore de abelhas em uma de suas fazendas que ele cultivara, e então executaram o julgamento de dez dólares, Daw — agora um homem em crescimento e de vingança celta — carregou sua arma e partiu para Cannon's Ferry, e emboscou Jacob justamente quando ele conduzia seu cavalo para fora da balsa.
"Você vai me devolver aqueles dez dólares, seu velho patife?" gritou O'Day.
"Afaste-se! afaste-se!" respondeu o longo Jacob; "o quociente estava correto; a lex loci e a lex terrae foram discutidas. A lex talionis—"
"Tome!" gritou o vilão, disparando habilmente sua espingarda no peito do mercador, de modo a não ferir sua besta mais humana.
Jacob Cannon cambaleou até a cerca na entrada do cais, agarrou-se ali por um momento e caiu morto.
"Seu patife", gritou Isaac Cannon da janela, "matar meu irmão, meu conforto executivo."
"Sim", respondeu O'Day, "e darei o outro cano a você!"
Enquanto Isaac Cannon se barricava, Owen O'Day recolheu seus pertences sem pressa e retirou-se para as terras selvagens do Missouri.
Cannon's Ferry caiu em decadência quando a ferrovia em Seaford levou embora sua importância comercial, mas ainda podem ser vistos a mansão nunca habitada do noivo desapontado e as lápides que mostram como o destino de Jacob assustou Isaac Cannon para um túmulo apressado.
Nesse meio tempo, John M. Clayton fizera uso dos medos de Calhoun e seus nulificadores, que eram ameaçados com as penas de traição pelo presidente, para aprovar um grande projeto de lei tarifária protetora com a ajuda deles, estabelecendo assim as manufaturas no mesmo período das ferrovias.
Este triunfo no senado deixou-o livre para conduzir o processo de Randel contra a Companhia do Canal, que ocupou tantos anos quanto o empreendimento ferroviário de Meshach Milburn.
O bárbaro sistema de "alegações" estava então em plena voga, embora logo fosse eliminado até mesmo em sua terra natal, a Inglaterra, e a lei passasse a ser um julgamento de fatos em vez de contestações, objeções, exclusões, réplicas e tréplicas, batidas do leite desnatado das palavras. As alegações de Clayton exigem uma mente ousada e entediante para serem lidas agora, mas ele cansou seus adversários, e seu primo, o Juiz-Chefe Clayton, que tinha ciúmes dele, ainda teria de decidir a seu favor.
Então, após o passar dos anos, a questão foi a julgamento na antiga cidade holandesa-inglesa de New Castle, e devido à magnitude dos danos reivindicados, ao peso e número de advogados, e à novidade de julgar uma grande corporação, interessou aos advogados e sobrecarregou os jornais, sendo popularmente suposta como pertencente à classe das reclamações de espoliação francesa, ou problemas de quadratura do círculo — algo que estaria em curso no fim dos tempos.
"Não se importe, Bob Frame! Walter Jones é um grande advogado, mas, puxa! ele não conhece um júri de Delaware. Vou conseguir minha casa de campo, aqui nas colinas de New Castle, com este caso", disse Clayton, enquanto jogava quoits com seus colegas advogados de Washington e Filadélfia, na bateria verde onde o vapor da Filadélfia chegava com os passageiros do Sul para a pequena ferrovia de soleira de pedra.
John Randel, Jr., arruinara um bom engenheiro, para se tornar um homem litigante por toda a sua vida.
Ele processou seu sucessor e colega nova-iorquino, o engenheiro Wright, e foi desqualificado. Ele penhorou os oficiais do canal, sitiou a Legislatura por legislação corretiva e ameaçou o próprio Clayton com danos; no entanto, tinha tal fundo de experiência e tal vitalidade que mantinha o público externo acuado, como a condução de feras para dentro do círculo dos caçadores. Ele havia mapeado a grande cidade de Nova York e planejado suas ruas acima da nova Prefeitura. Ferrovias elevadas foram sua projeção meio século antes de se concretizarem. Ele agora olhava para a engenharia com indiferença e considerava que havia nascido para a lei.
No meio de muitos outros deveres, Clayton, com o passar do tempo, condenou Whitecar por sequestro, com base em testemunho negro, tendo obtido uma decisão para esse fim de seu primo, o juiz-chefe; e um constituinte chamado Sorden (não a personagem de nosso conto), sendo processado por sequestro, para irritar Clayton, foi absolvido por ele em Georgetown após uma exibição maravilhosa de eloquência de júri, e retribuiu a obrigação, anos após nossa história terminar, quebrando um impasse partidário na Legislatura de Delaware, onde se tornou membro, e enviando o Sr. Clayton pela quarta vez ao senado americano.
* * * * *
O Chapéu Vinculado tornou-se mais comum nas ruas de Annapolis do que em Princess Anne, à medida que Milburn pressionava seu projeto de assistência ano após ano, sendo atingido pelas costas com calúnias vindas de casa e empurrado pela frente por uma oposição avassaladora.
O Juiz Custis entrou na disputa para o Congresso na questão ferroviária, e foi eleito, através do voto de Forest, e sua esposa passou uma temporada em Washington com tanta dignidade quanto prazer, poucos suspeitando que ela não era socialmente igual ao Juiz.
O chapéu ancestral desafiava toda a hostilidade mundana, mas tornou-se o capacete de ferro a curvar as costas de seu portador. Ele orava em segredo para algum anjo piedoso quebrar o feitiço que o prendia a ele, mas ninguém concebia que ele o deixaria ir.
Seu menino cresceu forte e passou a considerar o traje do pai como algo natural; sua esposa insistia com ele sobre o ornamento nauseante que ele adotara por tanto tempo; uma ampla conspiração parecia ter sido formada para levar sua cabeça para aquele wigwam hereditário, e ele não conseguia escapar.
Até a Avó Tilghman, que agora era uma residente de Teackle Hall, na ausência de anos de William, esqueceu tudo sobre o chapéu estranho e regozijou-se consigo mesma que "Bill" não havia se casado com "aquela garota política".
Milburn mantivera sua solvência financeira por turnos e investidas que até seus inimigos admiravam, mas uma ferrovia construída ao longo da espinha dorsal de um homem e terminada por um depósito com torre em sua cabeça deveria, finalmente, desgastar o indivíduo não aliviado.
Os bancos em Baltimore começaram a falir; distúrbios ferozes ocorreram; a dívida estadual havia aumentado, através de auxílio a obras públicas, para quinze milhões de dólares; a ferrovia de Eastern Shore obteve, tarde demais, o voto do subsídio esperado, e o tesoureiro estadual não conseguiu encontrar fundos para pagá-lo.
As gazetas anunciaram a falência de Meshach Milburn, Esq., de Eastern Shore.
Sem um instante de hesitação, Vesta entregou sua própria propriedade, e ela e Rhoda Custis abriram uma escola seleta em uma parte de Teackle Hall, e alugaram o restante para residências.
"Por que você faz este sacrifício?" perguntou seu marido; "ninguém esperava isso."
"Podem dizer que nos casamos para proteger meus pais", Vesta respondeu, "mas não que foi para me garantir. Meu filho terá um nome limpo."
Sua falência encerrou a vida ativa de Meshach Milburn; demasiado atencioso com sua família para renovar seus antigos esforços baixos, ele tornou-se um escriturário nos cargos do condado, através da influência do Juiz Custis, e usava seu chapéu para o trabalho assalariado com a regularidade, mas não com os instintos rebeldes, dos velhos tempos, tornando-se, em vez disso, vítima de um certo transe religioso ou apatia, que se aprofundou com o tempo.
Vesta viu que o infortúnio de Milburn extinguia o último resquício de animosidade na mente de seu pai, e os dois homens andavam juntos, como dois velhos meninos que haviam sido prisioneiros de guerra e estavam curados da ambição.
Milburn retomou suas caminhadas na floresta e a domesticação de pássaros, todos os traços de ambição abandonaram seu semblante, e ele estava tão morto para as coisas de negócios como se nunca tivesse se elevado acima de sua origem florestal.
Ele frequentemente falava de William Tilghman e parecia desejar vê-lo, embora sem nenhum propósito aparente.
A cólera asiática, tendo começado a fazer visitas anuais aos Estados Unidos, escolheu, um dia, o portador do chapéu obsoleto e colocou à prova mais severa de afeição e humanidade a casa em Teackle Hall.
Seja pelo respeito que seus propósitos firmes lhes haviam dado, ou pela devoção natural em uma sociedade isolada, nenhuma alma deixou seu lado.
Mas isso trouxe a visitação final da pobreza sobre Vesta. Sua escola foi fechada em um dia. Ela mesma a encerrou e sentou-se calmamente ao lado da cama de seu marido, para acalmar sua fraqueza mortal e aguardar a providência de Deus.
Ele passou rapidamente pelos estágios de cãibras e colapso, um pulso quase extinto e a aparência cadavérica de alguém já morto, mas seu intelecto, pela lei da doença, vivia intacto.
"O riacho não pode subir acima da fonte", ele falou, roucamente; "tudo o que podemos obter da vida é o amor. Minha querida, você o derramou sobre mim e esteve sedenta todos os seus dias."
"Fui feliz no meu dever", Vesta disse; "você sempre foi gentil comigo. Não temos nada a lamentar."
Ele divagou um pouco, embora olhasse para ela e parecesse pensar em sua mãe.
"Para onde podemos ir?" ele murmurou, lamentavelmente; "eu queimei a velha cabana querida. Teria sido um teto para meu menino."
Seu queixo tremeu, como se estivesse prestes a chorar, e suspirou:
"Papai e mamãe brigaram; o tordo não canta. Corram pelo médico! corram rápido! Oh! oh! tarde demais, criancinhas! Estão ambos mortos!"
Ele retornou ao conhecimento perfeito em um momento e fixou seus olhos em Vesta, dizendo:
"Deixo você pobre. Tentei muito. Talvez—"
Seu olho foi aqui detido por algum conflito na porta, onde a Tia Hominy, apesar de seu juízo imperfeito, estava tentando manter guarda.
"O diabo está medindo ele para dentro! Medindo ele para dentro, finalmente!" a velha disse; "a Srta. Vessy está quase livre!"
"Admita-me!" falou uma voz clara e familiar, "eu preciso vê-lo. O Sr. Clayton ganhou o processo, e duzentos e vinte e seis mil dólares em danos! O primo Meshach está rico novamente."
"Aquela voz amigável", falou Meshach, com uma luz feliz em seus olhos; "oh, eu queria ouvi-la novamente!"
No entanto, ele levantou a mão com toda sua pequena força para afastar o intruso, que teria beijado-o, e sussurrou:
"Não. A cólera!"
"É o bispo, tio!" gritou a Sra. Custis; "Bispo Tilghman, do Oeste."
"Eu não o conheço?" Milburn sussurrou, com voz e forças decadentes. "Homem honesto! Bispo da nossa igreja! Bispo no Oeste livre! Deus o abençoe!"
Ele perdeu-se novamente, como se tivesse desmaiado, por algum tempo, e, todos ajoelhados, o jovem bispo fez uma oração.
Quando se levantaram, Milburn parecia mudo, no entanto, tentou levantar a mão e, Vesta vindo em seu auxílio, seus dedos longos e magros fecharam-se ao redor dos dela, e ele sinalizou para William Tilghman com os olhos.
O bispo aproximou-se e, por um esforço doloroso, Milburn colocou a mão de sua esposa na de seu primo. Seus lábios formaram uma palavra sem som:
"Restituição."
"Glória a Deus!" exclamou de repente a Avó Tilghman, que parecia ver sem visão tudo o que estava acontecendo.
"Eu sabia que seria assim, se ambos esperassem", suspirou Rhoda para seu marido, através de suas lágrimas.
Ainda havia algo na mente de Milburn, embora ele fosse incapaz de explicá-lo. Todas as tentativas foram feitas para interpretar seu desejo, mas em vão, até que a Tia Hominy rompeu o silêncio murmurando:
"Ele quer o chapéu daquele diabo!"
Vesta viu os olhos de seu marido cintilarem como se tivesse ouvido a palavra, e isso lhe deu um pensamento. Ela saiu do quarto e retornou com seu menino, um belo jovem, obediente ao seu desejo. Em sua mão estava o chapéu de seu pai.
"O que você fará se o papai nos deixar, Custis?" Vesta falou, alto, para que o moribundo pudesse ouvir.
"Eu usarei o chapéu de meu antepassado, papai!" disse a criança.
O moribundo baixou os olhos, como se dissesse "Não", e olhou fervorosamente para seu filho e cansadamente para o velho adereço de cabeça.
Vesta colocou-o em seu travesseiro e esperou para saber seu próximo desejo.
Ele fez um sinal, que interpretaram como significando:
"Levante-me!"
Ele foi levantado, lívido como um morto, e ergueu os olhos em direção à sua testa.
Sua esposa colocou o Chapéu Vinculado sobre suas têmperas.
"Enterrem-no!" ele disse, em um sussurro distinto, e partiu.
O FIM.
BAKER (W. M.) Carter Quarterman. Ilustrado. $ 60 Inside: a Chronicle of Secession. Ilustrado. 75 The New Timothy 12mo 1 50 4to, Brochura 25 The Virginians in Texas. 75 BLACK A Daughter of Heth. 35 12mo 1 25 A Princess of Thule. 50 12mo 1 25 Green Pastures and Piccadilly. 50 12mo 1 25 In Silk Attire. 35 12mo 1 25 Kilmeny. 35 12mo 1 25 Macleod of Dare. Ilustrado. 12mo 1 25 Ilustrado. 60 4to, Brochura 15 Madcap Violet. 50 12mo 1 25 Shandon Bells. Ilustrado. 12mo 1 25 Ilustrado. 4to, Brochura 20 Sunrise. 12mo 1 25 4to, Brochura 15 That Beautiful Wretch. Ilustrado. 12mo 1 25 Ilustrado. 4to, Brochura 20 The Maid of Killeena, and Other Stories. 40 The Monarch of Mincing-Lane. Ilustrado. 50 The Strange Adventures of a Phaeton. 50 12mo 1 25 Three Feathers. Ilustrado. 12mo 1 25 White Wings. Ilustrado. 12mo 1 25 4to, Brochura 20 Yolande. Ilustrado. 12mo 1 25 Ilustrado. 4to, Brochura 20 BLACKMORE Alice Lorraine. $ 50 Christowell. 4to, Brochura 20 Clara Vaughan. 4to, Brochura 15 Cradock Nowell. 60 Cripps, the Carrier. Ilustrado. 50 Erema. 50 Lorna Doone. 25 centavos; 12mo 1 00 Mary Anerley. 16mo, Tecido, $1 00; 4to, Brochura 15 The Maid of Sker. 50 Tommy Upmore. 16mo, Br., 35 cts.; Tec., 50 cts.; 4to, Br. 20 BENEDICT John Worthington's Name. 75 Miss Dorothy's Charge. 75 Miss Van Kortland. 60 Mr. Vaughan's Heir. 75 My Daughter Elinor. 80 St. Simon's Niece. 60 BREAD-WINNERS, THE 16mo, Tecido 1 00 BULWER Alice. 35 A Strange Story. Ilustrado. 60 12 mo 1 25 Devereux. 40 Ernest Maltravers. 35 Eugene Aram. 35 Godolphin. 35 Harold, the Last of the Saxon Kings. 60 Kenelm Chillingly. 50 12mo 1 25 Leila. 25 12mo 1 00 Lucretia. 40 My Novel. 75 2 vols. 12mo 2 50 Night and Morning. 50 Paul Clifford. 40 Pausanias the Spartan. 25 12mo 75 Pelham. 40 Rienzi. 40 The Caxtons. 50 12mo 1 25 The Coming Race. 12mo, Brochura 50 Tecido 1 00 The Disowned. 50 The Last Days of Pompeii. 25 4to, Brochura 15 The Last of the Barons. 50 The Parisians. Ilustrado. 60 Ilustrado. 12mo 1 50 BULWER The Pilgrims of the Rhine. $ 20 What will He do with it? 75 Zanoni. 35 BRADDON (Srta.) An Open Verdict. 35 A Strange World. 40 Asphodel. 4to, Brochura 15 Aurora Floyd. 40 Barbara; ou, Splendid Misery. 4to, Brochura 15 Birds of Prey. Ilustrado. 50 Bound to John Company. Ilustrado. 50 Charlotte's Inheritance. 35 Dead Men's Shoes. 40 Dead Sea Fruit. Ilustrado. 50 Eleanor's Victory. 60 Fenton's Quest. Ilustrado. 50 Flower and Weed. 4to, Brochura 10 Hostages to Fortune. Ilustrado. 50 John Marchmont's Legacy. 50 Joshua Haggard's Daughter. Ilustrado. 50 Just as I Am. 4to, Brochura 15 Lost for Love. Ilustrado. 50 Mistletoe Bough, 1878. Editado por M. E. Braddon. 4to, Brochura 15 Mistletoe Bough, 1879. Editado por M. E. Braddon. 4to, Brochura 10 Mount Royal. 4to, Brochura 15 Phantom Fortune. 4to, Brochura 20 Publicans and Sinners. 50 Strangers and Pilgrims. Ilustrado. 50 Taken at the Flood. 50 The Cloven Foot. 4to, Brochura 15 The Lovels of Arden. Ilustrado. 50 To the Bitter End. Ilustrado. 50 Under the Red Flag. 4to, Brochura 10 Vixen. 4to, Brochura 15 Weavers and Weft. 25 BRONTE (Charlotte) Jane Eyre. 40 Ilustrado. 12mo 1 00 4to, Brochura 15 Shirley. 50 Ilustrado. 12mo 1 00 The Professor. Ilustrado. 12mo 1 00 Villette. 50 Ilustrado. 12mo 1 00 (Anna) The Tenant of Wildfell Hall. Ilustrado. 12mo 1 00 (Emily) Wuthering Heights. Ilustrado. 12mo 1 00 CRAIK (Srta. G. M.) Dorcas. 4to, Brochura 15 Mildred. 30 Anne Warwick. 25 Fortune's Marriage. 4to, Brochura 20 CRAIK (Srta. G. M.) Hard to Bear. $ 30 Sydney. 4to, Brochura 15 Sylvia's Choice. 30 Two Women. 4to, Brochura 15 COLLINS Antonina. 40 Armadale. Ilustrado. 60 Man and Wife. 4to, Brochura 20 My Lady's Money. 32mo, Brochura 25 No Name. Ilustrado. 60 Percy and the Prophet 32mo, Brochura 20 Poor Miss Finch. Ilustrado. 60 The Law and the Lady. Ilustrado. 50 The Moonstone. Ilustrado. 60 The New Magdalen. 30 The Two Destinies. Ilustrado. 35 The Woman in White. Ilustrado. 60 COLLINS Edição Ilustrada da Biblioteca 12mo, por vol. 1 25 After Dark, and Other Stories.--Antonina.--Armadale.-- Basil.--Hide-and-Seek.--Man and Wife.--My Miscellanies.-- No Name.--Poor Miss Finch,--The Dead Secret.--The Law and the Lady.--The Moonstone.--The New Magdalen.--The Queen of Hearts.--The Two Destinies.--The Woman in White. DICKENS ROMANCES. Ilustrados. A Tale of Two Cities. 50 Tecido 1 00 Barnaby Rudge. 1 00 Tecido 1 50 Bleak House. 1 00 Tecido 1 50 Christmas Stories. 1 00 Tecido 1 50 David Copperfield. 1 00 Tecido 1 50 Dombey and Son. 1 00 Tecido 1 50 Great Expectations. 1 00 Tecido 1 50 Little Dorrit. 1 00 Tecido 1 50 Martin Chuzzlewit. 1 00 Tecido 1 50 Nicholas Nickleby. 1 00 Tecido 1 50 Oliver Twist. 50 Tecido 1 00 Our Mutual Friend. 1 00 Tecido 1 50 Pickwick Papers. 1 00 Tecido 1 50 4to, Brochura 20 Pictures from Italy, Sketches by Boz, and American Notes. 1 00 Tecido 1 50 The Old Curiosity Shop. 75 Tecido 1 25 The Uncommercial Traveller, Hard Times, and Edwin Drood. 1 00 Tecido 1 50 Harper's Household Dickens, 16 vols., Tecido, em caixa, $22 00. O mesmo em 8 vols., Tecido, $20 00; Imitação de Meio Marroquim, $22 00; Meio Bezerro, $40 00. DE MILLE A Castle in Spain. Ilustrado. 50 Ilustrado. Tecido 1 00 DE MILLE Cord and Creese. Ilustrado. $ 60 The American Baron. Ilustrado. 50 The Cryptogram. Ilustrado. 75 The Dodge Club. Ilustrado. 60 centavos; Tecido 1 10 The Living Link. Ilustrado. 60 centavos; Tecido 1 10 DISRAELI (Conde de Beaconsfield) Endymion. 4to, Brochura 15 The Young Duke. 12mo 1 50 4to, Brochura 15 ELIOT (George) Romances. Edição de Biblioteca. Ilustrado 12mo, por vol. 1 25 Adam Bede.--Daniel Deronda, 2 vols.--Felix Holt, the Radical.--Middlemarch, 2 vols.--Romola.--Scenes of Clerical Life, and Silas Marner.--The Mill on the Floss. ELIOT (George) Romances. Edição Popular. Ilustrado 12mo, por vol. 75 Adam Bede.--Daniel Deronda, 2 vols.--Felix Holt, the Radical.--Middlemarch, 2 vols.--Romola.--Scenes of Clerical Life, and Silas Marner.--The Mill on the Floss. ELIOT (George) Amos Barton. 32mo, Brochura 20 Brother Jacob.--The Lifted Veil. 32mo, Brochura 20 Daniel Deronda. 50 Felix Holt, the Radical. 50 Janet's Repentance. 32mo, Brochura 20 Middlemarch. 75 Mr. Gilfil's Love Story. 32mo, Brochura 20 Romola. Ilustrado. 50 Scenes of Clerical Life. 50 The Mill on the Floss. 50 GASKELL (Sra.) A Dark Night's Work. 25 Cousin Phillis. 20 Cranford. 16mo 1 25 Mary Barton. 40 4to, Brochura 20 Moorland Cottage. 18mo 75 My Lady Ludlow. 20 North and South. 40 Right at Last, etc. 12mo 1 50 Sylvia's Lovers. 40 Wives and Daughters. Ilustrado. 60 HARRISON (Sra.) Helen Troy. 16mo, Tecido 1 00 Golden Rod. 32mo, Brochura 25 HAY (M. C.) A Dark Inheritance. 32mo, Brochura 15 A Shadow on the Threshold. 32mo, Brochura 20 Among the Ruins, and Other Stories. 4to, Brochura 15 At the Seaside, and Other Stories. 4to, Brochura 15 Back to the Old Home. 32mo, Brochura 20 Bid Me Discourse. 4to, Brochura 10 Dorothy's Venture. 4to, Brochura 15 HAY (M. C.) For Her Dear Sake. 4to, Brochura $ 15 Hidden Perils. 25 Into the Shade, and Other Stories. 4to, Brochura 15 Lady Carmichael's Will. 32mo, Brochura 15 Missing. 32mo, Brochura 20 My First Offer, and Other Stories. 4to, Brochura 15 Nora's Love Test. 25 Old Myddelton's Money. 25 Reaping the Whirlwind. 32mo, Brochura 20 The Arundel Motto. 25 The Sorrow of a Secret. 32mo, Brochura 15 The Squire's Legacy. 25 Under Life's Key, and Other Stories. 4to, Brochura 15 Victor and Vanquished. 25 HUGO Ninety-Three. Ilustrado. 25 centavos; 12mo 1 75 The Toilers of the Sea. 50 centavos; Ilustrado. Tecido 1 50 JAMES (Henry, Filho) Daisy Miller. 32mo, Brochura 20 An International Episode. 32mo, Brochura 20 Diary of a Man of Fifty, and A Bundle of Letters. 32mo, Brochura 25 As quatro obras mencionadas acima em um volume 4to, Brochura 25 Washington Square. Ilustrado. 16mo, Tecido 1 25 JOHNSTON (R. M.) Dukesborough Tales. Ilustrado. 4to, Brochura 25 Old Mark Langston. 16mo, Tecido 1 00 LAWRENCE Anteros. 40 Brakespeare. 40 Breaking a Butterfly. 35 Guy Livingstone. 12mo, $1 50; 4to, Brochura 10 Hagarene. 35 Maurice Dering. 25 Sans Merci. 35 Sword and Gown. 20 LEVER A Day's Ride. 40 Barrington. 40 Gerald Fitzgerald. 40 Lord Kilgobbin. Ilustrado. 50 Luttrell of Arran. 60 Maurice Tiernay. 50 One of Them. 50 Roland Cashel. Ilustrado. 75 Sir Brook Fosbrooke. 50 Sir Jasper Carew. 50 That Boy of Norcott's. Ilustrado. 25 The Bramleighs of Bishop's Folly. 50 The Daltons. 75 The Dodd Family Abroad. 60 The Fortunes of Glencore. 50 LEVER The Martins of Cro' Martin. $ 60 Tony Butler. 60 McCARTHY Comet of a Season. 4to, Brochura 20 Donna Quixote. 4to, Brochura 15 Maid of Athens. 4to, Brochura 20 My Enemy's Daughter. Ilustrado. 50 The Commander's Statue. 32mo, Brochura 15 The Waterdale Neighbors. 35 MACDONALD Alec Forbes. 50 Annals of a Quiet Neighborhood. 12mo 1 25 Donal Grant. 4to, Brochura 20 Guild Court. 40 Warlock o' Glenwarlock. 4to, Brochura 20 Weighed and Wanting. 4to, Brochura 20 MULOCK (Srta.) A Brave Lady. Ilustrado. 60 centavos; 12mo 1 25 A French Country Family. Traduzido. Ilustrado. 12mo 1 50 Agatha's Husband. 35 centavos; Ilustrado. 12mo 1 25 A Hero, etc. 12mo 1 25 A Life for a Life. 40 centavos; 12mo 1 25 A Noble Life. 12mo 1 25 Avillion, and Other Tales. 60 Christian's Mistake. 12mo 1 25 Hannah. Ilustrado. 35 centavos; 12mo 1 25 Head of the Family. 50 centavos; Ilustrado. 12mo 1 25 His Little Mother. 12mo, $1 25; 4to, Brochura 10 John Halifax, Gentleman. 50 centavos; Ilustrado. 12mo 1 25 4to, Brochura 15 Mistress and Maid. 30 centavos; 12mo 1 25 Motherless. Traduzido. Ilustrado. 12mo 1 50 My Mother and I. Ilustrado. 40 centavos; 12mo 1 25 Nothing New. 30 Ogilvies. 35 centavos; Ilustrado. 12mo 1 25 Olive. 35 centavos; Ilustrado. 12mo 1 25 The Laurel Bush. Ilustrado. 25 centavos; 12mo 1 25 The Woman's Kingdom. Ilustrado. 60 centavos; 12mo 1 25 Two Marriages. 12mo 1 25 Unkind Word, and Other Stories. 12mo 1 25 Young Mrs. Jardine. 12mo, $1 25; 4to, Brochura 10 MURRAY (D. C.) A Life's Atonement. 4to, Brochura 20 A Model Father. 4to, Brochura 10 By the Gate of the Sea. 4to, Brochura, 15 centavos; 12mo, Brochura 15 Hearts. 4to, Brochura 20 The Way of the World. 4to, Brochura 20 Val Strange. 4to, Brochura 20 NORRIS Heaps of Money. 15 Mademoiselle de Mersac. 4to, Brochura 20 No New Thing. 4to, Brochura 25 Thirlby Hall. Ilustrado. 4to, Brochura 25 OLIPHANT (Sra.) Agnes. 50 A Son of the Soil. 50 Athelings. 50 Brownlows. 50 Carita. Ilustrado. 50 Chronicles of Carlingford. 60 Days of My Life. 12mo 1 50 For Love and Life. 50 Harry Joscelyn. 4to, Brochura 20 He That Will Not when He May. 4to, Brochura 20 Hester. 4to, Brochura 20 Innocent. Ilustrado. 50 It was a Lover and His Lass. 4to, Brochura 20 John: a Love Story. 25 Katie Stewart. 20 Lady Jane. 4to, Brochura 10 Lucy Crofton. 12mo 1 50 Madonna Mary. 50 Miss Marjoribanks. 50 Mrs. Arthur. 40 Ombra. 50 Phoebe, Junior. 35 Sir Tom. 4to, Brochura 20 Squire Arden. 50 The Curate in Charge. 20 The Fugitives. 4to, Brochura 10 The Greatest Heiress in England. 4to, Brochura 10 The House on the Moor. 12mo 1 55 The Ladies Lindores. 16mo, Tecido, $1 00; 4to, Brochura 20 The Laird of Norlaw. 12mo 1 50 The Last of the Mortimers. 12mo 1 50 The Minister's Wife. 50 The Perpetual Curate. 50 The Primrose Path. 50 The Quiet Heart. 20 The Story of Valentine and his Brother. 50 The Wizard's Son. 4to, Brochura 25 Within the Precincts. 4to, Brochura 15 Young Musgrave. 40 PAYN (James) A Beggar on Horseback. 35 A Confidential Agent. 4to, Brochura 15 A Grape from a Thorn. 4to, Brochura 20 A Woman's Vengeance. 35 At Her Mercy. 30 Bred in the Bone. 40 By Proxy. 35 Carlyon's Year. 25 Cecil's Tryst. 30 PAYN (James) For Cash Only. 4to, Brochura $ 20 Found Dead. 25 From Exile. 4to, Brochura 15 Gwendoline's Harvest. 25 Halves. 30 High Spirits. 4to, Brochura 15 Kit. Ilustrado. 4to, Brochura 20 Less Black than We're Painted. 35 Murphy's Master. 20 One of the Family. 25 The Best of Husbands. 25 The Canon's Ward. Ilustrado. 4to, Brochura 25 Thicker than Water. 16mo, Tecido, $1 00; 4to, Brochura 20 Under One Roof. 4to, Brochura 15 Walter's Word. 50 What He Cost Her. 40 Won--Not Wooed. 35 READE Romances: Edição Doméstica. Ilustrado 12mo, por vol. 1 00 A Simpleton and the Wandering Heir. A Terrible Temptation. A Woman-Hater. Foul Play. Good Stories. Griffith Gaunt. Hard Cash. It is Never Too Late to Mend. Love me Little, Love me Long. Peg Woffington, Christie Johnstone, etc. Put Yourself in His Place. The Cloister and the Hearth. White Lies. READE (Charles) A Hero and a Martyr. 15 A Simpleton. 30 A Terrible Temptation. Ilustrado. 25 A Woman-Hater. Ilustrado. 30 centavos; 12mo, Brochura 20 Foul Play. 30 Good Stories of Man and Other Animals. Ilustrado. 4to, Brochura 20 Griffith Gaunt. Ilustrado. 30 Hard Cash. Ilustrado. 35 It is Never Too Late to Mend. 35 Jack of all Trades. 16mo, Brochura 15 Love Me Little, Love Me Long. 30 Multum in Parvo. Ilustrado. 4to, Brochura 15 Peg Woffington, etc. 35 Put Yourself in His Place. Ilustrado. 35 The Cloister and the Hearth. 35 The Coming Man. 32mo, Brochura 20 The Jilt. 32mo, Brochura 20 The Picture. 16mo, Brochura 15 The Wandering Heir. Ilustrado. 20 White Lies. 30 RICE & BESANT All Sorts and Conditions of Men. 4to, Brochura 20 By Celia's Arbor. Ilustrado. 3vo, Brochura 50 RICE & BESANT Shepherds All and Maidens Fair. 32mo, Brochura $ 25 "So they were Married!" Ilustrado. 4to, Brochura 20 Sweet Nelly, My Heart's Delight. 4to, Brochura 10 The Captains' Room. 4to, Brochura 10 The Chaplain of the Fleet. 4to, Brochura 20 The Golden Butterfly. 40 'Twas in Trafalgar's Bay. 32mo, Brochura 20 When the Ship Comes Home. 32mo, Brochura 25 ROBINSON (F. W.) A Bridge of Glass. 30 A Girl's Romance, and Other Stories. 30 As Long as She Lived. 50 Carry's Confession. 50 Christie's Faith. 12mo 1 75 Coward Conscience. 4to, Brochura 15 For Her Sake. Ilustrado. 60 Her Face was Her Fortune. 40 Little Kate Kirby. Ilustrado. 50 Mattie: a Stray. 40 No Man's Friend. 50 Othello the Second. 32mo, Brochura 20 Poor Humanity. 50 Poor Zeph! 32mo, Brochura 20 Romance on Four Wheels. 15 Second-Cousin Sarah. Ilustrado. 50 Stern Necessity. 40 The Barmaid at Battleton. 32mo, Brochura 15 The Black Speck. 4to, Brochura 10 The Hands of Justice. 4to, Brochura 20 The Man She Cared For. 4to, Brochura 20 The Romance of a Back Street. 32mo, Brochura 15 True to Herself. 50 RUSSELL (W. Clarke) Auld Lang Syne. 4to, Brochura 10 A Sailor's Sweetheart. 4to, Brochura 15 A Sea Queen. 16mo, Tecido, $1 00; 4to, Brochura 20 An Ocean Free Lance. 4to, Brochura 20 Jack's Courtship. 4to, Brochura 25 Little Loo. 4to, Brochura 20 My Watch Below. 4to, Brochura 20 Round the Galley Fire. 4to, Brochura 15 The "Lady Maud:" Schooner Yacht. Ilustrado. 4to, Brochura 20 Wreck of the "Grosvenor". 30 centavos; 4to, Brochura 15 SHERWOOD (Sra. John) A Transplanted Rose. 12mo, Tecido 1 00 TABOR (Eliza) Eglantine. 40 Hope Meredith. 35 Jeanie's Quiet Life. 30 Little Miss Primrose. 4to, Brochura 15 Meta's Faith. 35 St. Olave's. 40 TABOR (Eliza) The Blue Ribbon. $ 40 The Last of Her Line. 4to, Brochura 15 The Senior Songman. 4to, Brochura 20 THACKERAY (Srta.) Bluebeard's Keys. 35 Da Capo. 32mo, Brochura 20 Miscellaneous Works. 90 Miss Angel. Ilustrado. 50 Miss Williamson's Divagations. 4to, Brochura 15 Old Kensington. Ilustrado. 60 Village on the Cliff. Ilustrado. 25 THACKERAY (W. M.) Denis Duval. Ilustrado. 25 Henry Esmond, and Lovel the Widower 12 Ilustrações. 60 Henry Esmond. 50 centavos; 4to, Brochura 15 Lovel the Widower. 20 Pendennis. 179 Ilustrações. 75 The Adventures of Philip. 64 Ilustrações. 60 The Great Hoggarty Diamond. 20 The Newcomes. 102 Ilustrações. 90 The Virginians. 150 Ilustrações. 90 Vanity Fair. 32 Ilustrações. 80 THACKERAY Obras: Edição Doméstica. 12mo, por vol. 1 25 Romances: Vanity Fair.--Pendennis.--The Newcomes.--The Virginians.--Philip.--Esmond, and Lovel the Widower. 6 vols. Ilustrado. Miscelânea: Barry Lyndon, Hoggarty Diamond, etc.--Paris and Irish Sketch-Books, etc.--Book of Snobs, Sketches, etc.--Four Georges, English Humorists, Roundabout Papers, etc.--Catharine, etc. 5 vols. Ilustrado. TOWNSEND (G. A.) The Entailed Hat. 16mo, Tecido 1 50 TROLLOPE (Anthony) An Eye for an Eye. 4to, Brochura 10 An Old Man's Love. 4to, Brochura 15 Ayala's Angel. 4to, Brochura 20 Brown, Jones, and Robinson. 35 Can You Forgive Her? Ilustrado. 80 Castle Richmond. 12mo 1 50 Cousin Henry. 4to, Brochura 10 Doctor Thorne. 12mo 1 50 Doctor Wortle's School. 4to, Brochura 15 Framley Parsonage. 4to, Brochura 15 Harry Heathcote of Gangoil. Ilustrado. 20 He Knew He was Right. Ilustrado. 80 Is He Popenjoy? 4to, Brochura 20 John Caldigate. 4to, Brochura 15 Kept in the Dark. 4to, Brochura 15 Lady Anna. 30 Marion Fay. Ilustrado. 4to, Brochura 20 Miss Mackenzie. 35 Mr. Scarborough's Family. 4to, Brochura 20 Orley Farm. Ilustrado. 80 TROLLOPE (Anthony) Phineas Finn. Ilustrado. $ 75 Phineas Redux. Ilustrado. 75 Rachel Ray. 35 Ralph the Heir. Ilustrado. 75 Sir Harry Hotspur of Humblethwaite. Ilustrado. 35 The American Senator. 50 The Belton Estate. 35 The Bertrams. 4to, Brochura 15 The Claverings. Ilustrado. 50 The Duke's Children. 4to, Brochura 20 The Eustace Diamonds. Ilustrado. 80 The Fixed Period. 4to, Brochura 15 The Golden Lion of Granpere. Ilustrado. 40 The Lady of Launay. 32mo, Brochura 20 The Last Chronicle of Barset. Ilustrado. 90 The Prime Minister. 60 The Small House at Allington. Ilustrado. 75 The Three Clerks. 12mo 1 50 The Vicar of Bullhampton. Ilustrado. 80 The Warden, and Barchester Towers. Em um volume 60 The Way We Live Now. Ilustrado. 90 Thompson Hall. Ilustrado. 32mo, Brochura 20 Why Frau Frohman Raised her Prices, etc. 4to, Brochura 10 WALLACE (Lew) Ben-Hur. 16mo, Tecido 1 50 WAVERLEY NOVELS: THISTLE EDITION: 48 Vols., Tecido Verde, com 2000 Ilustrações, $1 00 por vol.; Meio Marroquim, Topos Dourados, $1 50 por vol.; Meio Marroquim, Extra, $2 25 por vol. HOLYROOD EDITION: 48 Vols., Tecido Marrom, com 2000 Ilustrações, 75 centavos por vol.; Meio Marroquim, Topos Dourados, $1 50 por vol.; Meio Marroquim, Extra, $2 25 por vol. POPULAR EDITION: 24 Vols. (dois vols. em um), Tecido Verde, com 2000 Ilustrações, $1 25 por vol.; Meio Marroquim, $2 25 por vol.; Meio Marroquim, Extra, $3 00 por vol. 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