As Extraordinárias Aventuras de Arsène Lupin, Cavalheiro Ladrão
de Maurice Leblanc
Traduzido do francês por George Morehead
Índice:
I. A Prisão de Arsène Lupin II. Arsène Lupin na Prisão III. A Fuga de Arsène Lupin IV. O Viajante Misterioso V. O Colar da Rainha VI. O Sete de Copas VII. O Cofre de Madame Imbert VIII. A Pérola Negra IX. Sherlock Holmes Chega Tarde
I. A Prisão de Arsène Lupin
Foi um final estranho para uma viagem que havia começado de maneira muito auspiciosa. O navio a vapor transatlântico «La Provence» era uma embarcação rápida e confortável, sob o comando de um homem muito afável. Os passageiros constituíam uma sociedade seleto e delicada. O encanto dos novos conhecidos e dos divertimentos improvisados servia para fazer o tempo passar agradavelmente. Desfrutávamos da sensação prazerosa de estar separados do mundo, vivendo, como se fosse, em uma ilha desconhecida, e, consequentemente, obrigados a ser sociáveis uns com os outros.
Já parou para pensar quanta originalidade e espontaneidade emanam destes vários indivíduos que, na noite anterior, nem sequer se conheciam, e que agora, há vários dias, se veem condenados a levar uma vida de extrema intimidade, desafiando conjuntamente a ira do oceano, o terrível assalto das ondas, a violência da tempestade e a monótona agonia das águas calmas e sonolentas? Tal vida torna‑se uma espécie de existência trágica, com suas tormentas e seus grandioses, sua monotonia e sua diversidade; e é por isso, talvez, que embarcamos nessa curta viagem com sentimentos mistos de prazer e medo.
Mas, durante os últimos anos, uma nova sensação fora acrescentada à vida do viajante transatlântico. A pequena ilha flutuante agora está ligada ao mundo do qual antes era totalmente livre. Um vínculo os une, mesmo no coração das vastas águas do Atlântico. Esse vínculo é o telégrafo sem fio, por intermédio do qual recebemos notícias da maneira mais misteriosa. Sabemos perfeitamente que a mensagem não é transportada pelo meio de um fio oco. Não, o mistério é ainda mais inexplicável, mais romântico, e devemos recorrer às asas do ar para explicar esse novo milagre. Durante o primeiro dia da viagem, sentimos que estávamos sendo seguidos, escoltados, até precedidos, por aquela voz distante que, de tempo em tempo, sussurrava a um de nós algumas palavras do mundo que se afastava. Dois amigos falaram comigo. Dez, vinte outros enviaram palavras gaiosas ou sombrias de despedida a outros passageiros.
No segundo dia, a cinco‑cento milhas da costa francesa, no meio de uma violenta tempestade, recebemos a seguinte mensagem por meio do telégrafo sem fio:
«Arsène Lupin está a bordo, primeira cabine, cabelos loiros, ferida no antebraço direito, viajando sozinho sob o nome de R........»
Nesse instante, um terrível relâmpago rasgou o céu tempestuoso. As ondas elétricas foram interrompidas. O restante do despacho nunca nos alcançou. Do nome sob o qual Arsène Lupin se ocultava, soubemos apenas a inicial.
Se a notícia fosse de outro personagem, não tenho dúvida de que o segredo teria sido cuidadosamente guardado tanto pelo operador do telégrafo quanto pelos oficiais da embarcação. Mas tratava‑se de um dos eventos calculados para escapar à mais rigorosa discrição. No mesmo dia, de modo que ninguém soubesse como, o fato tornou‑se assunto de conversa corrente e todo passageiro soube que o famoso Arsène Lupin estava escondido entre nós.
Arsène Lupin entre nós! o ladrão irresponsável cujas façanhas foram narradas em todos os jornais nos últimos meses! o indivíduo misterioso com quem Ganimard, nosso detetive mais sagaz, mantinha um conflito implacável em meio a ambientes interessantes e pitorescos. Arsène Lupin, o excêntrico cavalheiro que opera apenas em castelos e salões, e que, numa noite, entrou na residência do Barão Schormann, mas saiu de mãos vazias, deixando, porém, seu cartão no qual raspou estas palavras: «Arsène Lupin, gentleman‑burglar, voltará quando o mobiliário for genuíno.» Arsène Lupin, o homem de mil disfarces: ora cocheiro, detetive, cambista, médico russo, toureiro espanhol, viajante comercial, jovem robusto, ou velho decrépito.
Então considere esta situação assombrosa: Arsène Lupin vagueava dentro dos limites restritos de um transatlântico; naquele mesmo cantinho do mundo, naquele salão de jantar, naquela sala de fumo, naquela sala de música! Arsène Lupin era, talvez, este cavalheiro… ou aquele… meu companheiro de mesa… o compartilho da minha cabine…
«E essa situação vai durar cinco dias!» exclamou a senhorita Nelly Underdow, na manhã seguinte. «É insuportável! Espero que ele seja preso.»
Então, dirigindo‑se a mim, acrescentou:
«E você, Monsieur d’Andrézy, tem intimidade com o capitão; certamente sabe de algo?»
Eu teria ficado encantado se possuísse qualquer informação que interessasse a senhorita Nelly. Ela era uma daquelas criaturas magníficas que inevitavelmente atraem atenção em toda assembleia. Riqueza e beleza formam uma combinação irresistível, e Nelly possuía ambas.
Educada em Paris sob os cuidados de mãe francesa, ela agora iria visitar seu pai, o milionário Underdown de Chicago. Estava acompanhada por uma de suas amigas, Lady Jerland.
A princípio, decidi iniciar uma flerte com ela; mas, na intimidade que crescia rapidamente ao longo da viagem, fui logo impressionado por seu modo cativante e meus sentimentos se tornaram profundos demais e reverentes para uma mera flerte. Além disso, ela aceitou minhas atenções com certo grau de favor. Concedeu‑se a rir de minhas sacadas e mostrou interesse por minhas histórias. Contudo, senti que tinha um rival na pessoa de um jovem de gostos quietos e refinados; e às vezes me pareceu que ela preferia o humor taciturno dele à minha frivolidade parisiense. Ele constituía um dos admiradores que cercavam a senhorita Nelly quando ela me dirigiu a pergunta anterior. Estávamos todos confortavelmente sentados em nossas cadeiras de deck. A tempestade da noite anterior limpara o céu. O tempo agora era agradável.
«Não tenho conhecimento definitivo, senhorita», respondi, «mas não poderemos nós mesmos investigar o mistério tão bem quanto o detetive Ganimard, inimigo pessoal de Arsène Lupin?»
«Oh! oh! você está progredindo muito rápido, monsieur.»
«De modo algum, senhorita. Em primeiro lugar, permita‑me perguntar: você acha o problema complicado?»
«Muito complicado.»
«Esqueceu‑se da chave que temos para a solução do problema?»
«Que chave?»
«Em primeiro lugar, Lupin se apresenta como Monsieur R-------.»
«Informação bastante vaga», respondeu ela.
«Em segundo lugar, viaja sozinho.»
«Isso lhe ajuda?», indagou ela.
«Em terceiro lugar, é loiro.»
«E então?»
«Então basta percorrermos a lista de passageiros e proceder por eliminação.»
Eu tinha essa lista no bolso. Retirei‑a e dei uma olhada. Então comentei:
«Descubro que há apenas treze homens na lista cujos nomes começam com a letra R.»
«Só treze?»
«Sim, na primeira cabine. E desses treze, nove deles estão acompanhados por mulheres, crianças ou criados. Restam apenas quatro que viajam sozinhos. Primeiro, o Marquês de Raverdan...»
«Secretário do Embaixador Americano», interrompeu a senhorita Nelly. «Conheço‑o.»
«Major Rawson», continuei.
«É meu tio», disse alguém.
«Monsieur Rivolta.»
«Aqui!», exclamou um italiano, cujo rosto estava encoberto por uma densa barba preta.
A senhorita Nelly riu alto e exclamou: «Esse cavalheiro dificilmente poderia ser chamado de loiro.»
«Muito bem, então», disse eu, «chegamos à conclusão de que o culpado é o último da lista.»
«Qual é o nome dele?»
«Monsieur Rozaine. Alguém o conhece?»
Ninguém respondeu. Mas a senhorita Nelly voltou‑se ao jovem taciturno, cujas atenções a ela me irritavam, e disse:
«Bem, Monsieur Rozaine, por que não responde?»
Todos os olhares recaíram sobre ele. Era loiro. Confesso que senti um sobressalto de surpresa, e o profundo silêncio que se seguiu à sua pergunta indicou que os demais presentes também observavam a situação com sensação de súbita alarmia. No entanto, a ideia era absurda, pois o cavalheiro em questão apresentava um ar de perfeita inocência.
«Por que não respondo?», disse ele. «Porque, considerando meu nome, minha condição de viajante solitário e a cor do meu cabelo, já cheguei à mesma conclusão, e agora penso que devo ser preso.»
Ele assumiu uma aparência estranha ao proferir essas palavras. Seus lábios finos estavam mais tensionados que o habitual e seu rosto estava pálido como a morte, enquanto os olhos estavam tingidos de sangue. É claro que brincava, porém sua aparência e atitude nos impressionaram de modo singular.
«Mas você não tem a ferida?», perguntou a senhorita Nelly, ingenuamente.
«É verdade», respondeu ele, «não tenho a ferida.»
Então puxou a manga, retirou o punho e mostrou‑nos o braço. Mas esse movimento não me enganou. Ele nos mostrou o braço esquerdo, e eu estava a ponto de chamar sua atenção para isso, quando outro incidente desviou nosso foco. Lady Jerland, amiga da senhorita Nelly, correu até nós num estado de grande excitação, exclamando:
«Minhas joias, minhas pérolas! Alguém as roubou todas!»
Não, não tinham desaparecido todas, como logo descobrimos. O ladrão tinha levado apenas parte delas; algo muito curioso. Dos solares de diamante, pendentes engastados, pulseiras e colares, o ladrão tomou, não os maiores, mas os mais finos e valiosos. As armações estavam sobre a mesa. Vi‑as ali, despojadas de seus adornos, como flores das quais as belas pétalas coloridas foram cruelmente arrancadas. E esse furto devia ter ocorrido enquanto Lady Jerland tomava seu chá; à luz do dia, numa cabine que se abria para um corredor muito frequentado; além disso, o ladrão teve de forçar a porta da cabine, procurar o cofre‑joia, que estava escondido no fundo de uma caixa de chapéu, abri‑lo, selecionar o saque e retirar as pedras dos montantes.
Obviamente, todos os passageiros chegaram à mesma conclusão; era a obra de Arsène Lupin.
Naquele dia, à mesa do jantar, os assentos à direita e à esquerda de Rozaine permaneceram vazios; e, durante a noite, correu o boato de que o capitão o havia colocado sob prisão, informação que gerou um sentimento de segurança e alívio. Respiramos novamente. À noite, retomamos nossos jogos e danças. A senhorita Nelly, especialmente, mostrou um espírito de alegria imprudente que me convenceu de que, se as atenções de Rozaine tivessem sido agradáveis a ela no início, já as havia esquecido. Seu charme e bom humor completaram minha conquista. À meia‑noite, sob uma lua brilhante, declarei minha devoção com um ardor que não pareceu desagradar-lhe.
Mas, no dia seguinte, para nossa surpresa geral, Rozaine estava em liberdade. Soubemos que as provas contra ele não eram suficientes. Ele produziu documentos perfeitamente regulares, que mostravam que era filho de um rico mercador de Bordeaux. Além disso, seus membros não traziam a menor marca de ferida.
«Documentos! Certidões de nascimento!», exclamaram os inimigos de Rozaine, «claro que Arsène Lupin lhes apresentará quantos quiserem. E quanto à ferida, ele nunca a teve, ou a removeu.»
Então provou‑se que, no momento do furto, Rozaine estava passeando pelo convés. Diante desse fato, seus inimigos responderam que um homem como Arsène Lupin poderia cometer um crime sem estar realmente presente. E então, para além de todas as demais circunstâncias, restou um ponto que nem o mais cético pôde responder: quem, além de Rozaine, viajava sozinho, era loiro e tinha um nome que começava com R? A quem apontava o telegrama, se não a Rozaine?
E quando Rozaine, poucos minutos antes do café da manhã, se aproximou ousadamente do nosso grupo, a senhorita Nelly e Lady Jerland se levantaram e se afastaram.
Uma hora depois, um folheto manuscrito foi passado de mão em mão entre marinheiros, comissários e passageiros de todas as classes. Anunciava que Monsieur Louis Rozaine oferecia uma recompensa de dez mil francos pela descoberta de Arsène Lupin ou outra pessoa em posse das joias roubadas.
«E se ninguém me ajudar, desmascarei o vilão eu mesmo», declarou Rozaine.
Rozaine contra Arsène Lupin, ou melhor, segundo a opinião corrente, Arsène Lupin contra Arsène Lupin; o duelo prometia ser interessante.
Nada se desenvolveu nos dois dias seguintes. Vimos Rozaine vagueando, dia e noite, procurando, interrogando, investigando. O capitão, também, demonstrou atividade louvável. Mandou que a embarcação fosse revistada de proa a popa; revistou cada cabine sob a plausível teoria de que as joias pudessem estar escondidas em qualquer lugar, exceto no próprio quarto do ladrão.
«Suponho que descobrirão algo em breve», comentou a senhorita Nelly para mim. «Ele pode ser um mágico, mas não pode tornar diamantes e pérolas invisíveis.»
«Certamente que não», respondi, «mas ele deveria examinar o forro de nossos chapéus e coletes e tudo o que carregamos.»
Então, exibindo minha Kodak, uma 9×12 com a qual eu havia fotografado a senhorita em várias poses, acrescentei: «Num aparelho não maior que esse, uma pessoa poderia esconder todas as joias da Lady Jerland. Poderia fingir que está tirando fotos e ninguém suspeitaria do truque.»
«Mas ouvi dizer que todo ladrão deixa alguma pista para trás.»
«Pode ser verdade em geral», respondi, «mas há uma exceção: Arsène Lupin.»
«Por quê?»
«Porque ele concentra seus pensamentos não só no furto, mas em todas as circunstâncias relacionadas que poderiam servir de pista para sua identidade.»
«Há alguns dias, você estava mais confiante.»
«Sim, mas desde então o vi em ação.»
«E o que pensa agora?», perguntou ela.
«Bem, na minha opinião, estamos desperdiçando o tempo.»
E, de fato, a investigação não produziu resultado. Entretanto, o relógio do capitão fora roubado. Ele ficou furioso. Acelerou os esforços e observou Rozaine mais de perto que antes. Mas, no dia seguinte, o relógio foi encontrado na caixa de colarinho do segundo oficial.
O incidente causou considerável espanto e revelou o lado humorístico de Arsène Lupin, ladrão embora fosse, mas também diletante. Ele combinava negócio com prazer. Lembrou‑nos o autor que quase morreu de rir com seu próprio ato. Certamente, era um artista em sua linha de trabalho particular, e sempre que via Rozaine, sombrio e reservado, e pensava no duplo papel que desempenhava, lhe concedia certa admiração.
Na noite seguinte, o oficial de vigia ouviu gemidos provenientes do canto mais escuro do navio. Aproximou‑se e encontrou um homem ali deitado, cabeça envolta em um grosso cachecol cinza e mãos atadas com uma corda pesada. Era Rozaine. Havera sido agredido, derrubado e roubado. Um cartão, prendido ao seu casaco, trazia estas palavras: «Arsène Lupin aceita com prazer os dez mil francos oferecidos por Monsieur Rozaine.» Na verdade, o caderninho roubado continha vinte mil francos.
É claro que alguns acusaram o infeliz de ter simulado o ataque contra si mesmo. Mas, além do fato de que não poderia ter se amarrado desse modo, ficou comprovado que a escrita no cartão era totalmente diferente da de Rozaine, mas, ao contrário, assemelhava‑se à caligrafia de Arsène Lupin conforme reproduzida em um antigo jornal encontrado a bordo.
Assim, apareceu que Rozaine não era Arsène Lupin; mas era Rozaine, filho de um mercador de Bordeaux. E a presença de Arsène Lupin foi novamente confirmada, e isso de forma alarmante.
Tal era o estado de pânico entre os passageiros que ninguém se dispunha a ficar só em uma cabine nem a vagar sozinho por partes desconhecidas da embarcação. Apegamo‑nos uns aos outros por segurança. E, ainda assim, as mais íntimas relações foram corroídas por um sentimento mútuo de desconfiança. Arsène Lupin era, agora, qualquer um e todos. Nossas imaginações exaltadas lhe atribuíam poderes miraculosos e ilimitados. Supunham‑nos que ele poderia assumir os disfarces mais inesperados; ser, por vezes, o altamente respeitável Major Rawson ou o nobre Marquês de Raverdan, ou ainda — pois já não parávamos na letra R — tal ou tal pessoa bem conhecida de todos nós, com esposa, filhos e servos.
Os primeiros despachos sem fio vindos da América não trouxeram notícias; ao menos, o capitão não nos comunicou nenhuma. O silêncio não trazia conforto.
Nosso último dia no navio parecia interminável. Vivíamos em medo contínuo de algum desastre. Desta vez, não seria um simples furto ou um ataque relativamente inofensivo; seria um crime, um assassinato. Ninguém imaginava que Arsène Lupin se restringiria a esses dois delitos insignificantes. Mestre absoluto da nave, autoridades impotentes, ele poderia fazer o que desejasse; nossos bens e vidas estavam à sua mercê.
Contudo, aqueles foram momentos deliciosos para mim, pois garantiram‑me a confiança da senhorita Nelly. Profundamente comovida pelos acontecimentos surpreendentes e sendo de natureza muito nervosa, ela buscou espontaneamente ao meu lado proteção e segurança, as quais gostei de lhe oferecer. Internamente, abençoei Arsène Lupin. Não teria ele sido o meio que nos aproximou, a mim e à senhorita Nelly? Graças a ele, pude agora me entregar a deliciosos sonhos de amor e felicidade — sonhos que, senti, não eram indesejados para a senhorita Nelly. Seus olhos sorridentes me autorizaram a fazê‑los; a suavidade de sua voz convidou‑me a ter esperança.
Ao nos aproximarmos da costa americana, a busca ativa pelo ladrão parecia abandonada, e aguardávamos ansiosos o momento supremo em que o misterioso enigma seria esclarecido. Quem era Arsène Lupin? Sob que nome, sob que disfarce ocultava‑se o famoso Arsène Lupin? E, finalmente, aquele momento supremo chegou. Se eu viver cem anos, não esquecerei os mínimos detalhes dele.
«Quão pálida está, senhorita Nelly», disse ao meu companheiro, enquanto ela se apoiava em meu braço, quase desmaiando.
«E você!», respondeu ela, «ah! que mudou!»
«Pense! Este é um momento muito excitante, e fico encantado em passá‑lo com você, senhorita Nelly. Espero que sua memória volte de vez em quando—»
Mas ela não ouvia. Estava nervosa e excitada. A escada de embarque estava posicionada, mas, antes que pudéssemos usá‑la, os oficiais de alfândega uniformizados subiram a bordo. A senhorita Nelly murmurou:
«Não ficaria surpresa ao ouvir que Arsène Lupin escapou do navio durante a viagem.»
«Talvez tenha preferido a morte à desonra, e mergulhado no Atlântico em vez de ser preso.»
«Oh, não ria», disse ela.
De súbito, eu me ergui e, respondendo à sua pergunta, disse:
«Vê aquele velhinho à beira da escada de embarque?»
«Com um guarda‑sol e um casaco verde‑oliva?»
«É Ganimard.»
«Ganimard?»
«Sim, o célebre detetive que jurou capturar Arsène Lupin. Ah! Agora entendo por que não recebemos notícias deste lado do Atlântico. Ganimard estava aqui! e ele sempre mantém seus negócios em segredo.»
«Então acha que ele prenderá Arsène Lupin?»
«Quem pode dizer? O inesperado sempre acontece quando Arsène Lupin está envolvido no caso.»
«Oh!», exclamou ela, com aquela curiosidade mórbida típica das mulheres, «gostaria de vê‑lo preso.»
«Terá de ser paciente. Não há dúvida de que Arsène Lupin já viu seu inimigo e não terá pressa de deixar o navio.»
Os passageiros já deixavam o navio. Apoiado em seu guarda‑sol, com ar de indiferente desprezo, Ganimard parecia não prestar atenção à multidão que descia apressada pela escadaria. O Marquês de Raverdan, o Major Rawson, o italiano Rivolta e muitos outros já haviam deixado a embarcação antes de Rozaine aparecer. Pobre Rozaine!
«Talvez seja ele, afinal», disse a senhorita Nelly a mim. «O que acha?»
«Acho que seria muito interessante ter Ganimard e Rozaine na mesma foto. Você pega a câmera. Eu estou carregado demais.»
Entreguei‑a a câmera, mas tarde demais para que a usasse. Rozaine já passava pelo detetive. Um oficial americano, atrás de Ganimard, inclinou‑se e sussurrou ao seu ouvido. O detetive francês deu de ombros e Rozaine seguiu adiante. Então, meu Deus, quem seria Arsène Lupin?
«Sim», disse a senhorita Nelly, em voz alta, «quem poderá ser?»
Não restavam mais de vinte pessoas a bordo. Ela as examinou uma a uma, receosa de que Arsène Lupin não estivesse entre elas.
«Não podemos esperar muito mais», eu lhe disse.
Ela dirigiu-se para a ponte de embarque. Eu a segui. Mas não havíamos dado dez passos quando Ganimard bloqueou nossa passagem.
«Bem, o que é isso?», exclamei.
«Um momento, monsieur. Qual a pressa?»
«Estou acompanhando a mademoiselle.»
«Um momento», repetiu ele, em tom de autoridade. Então, fitando meus olhos, disse:
«Arsène Lupin, não é?»
Ri e respondi: «Não, simplesmente Bernard d’Andrézy.»
«Bernard d’Andrézy morreu na Macedônia há três anos.»
«Se Bernard d’Andrézy estivesse morto, eu não estaria aqui. Mas o senhor se engana. Aqui estão meus documentos.»
«São dele; e posso dizer-lhe exatamente como vieram parar em sua posse.»
«O senhor é um tolo!», exclamei. «Arsène Lupin embarcou sob o nome de R---»
«Sim, outro de seus truques; uma pista falsa que os enganou em Havre. O senhor joga bem, meu rapaz, mas desta vez a sorte está contra você.»
Hesitei um momento. Então, ele me desferiu um golpe seco no braço direito, o que me fez soltar um grito de dor. Ele havia atingido o ferimento, ainda não cicatrizado, mencionado no telegrama.
Fui obrigado a me render. Não havia alternativa. Voltei-me para a senhorita Nelly, que ouvira tudo. Nossos olhares se cruzaram; então ela olhou para a Kodak que eu colocara em suas mãos e fez um gesto que me transmitiu a impressão de que ela entendia tudo. Sim, ali, entre as estreitas dobras de couro preto, no centro oco do pequeno objeto que eu tivera a precaução de colocar em suas mãos antes que Ganimard me prendesse, era lá que eu havia depositado os vinte mil francos de Rozaine e as pérolas e diamantes de Lady Jerland.
Oh! Juro, naquele momento solene, quando eu estava nas garras de Ganimard e seus dois assistentes, eu estava perfeitamente indiferente a tudo, à minha prisão, à hostilidade das pessoas, a tudo, exceto a esta única questão: o que a senhorita Nelly fará com as coisas que lhe confiei?
Na ausência dessa prova material e conclusiva, eu não tinha nada a temer; mas a senhorita Nelly decidiria fornecer essa prova? Ela me trairia? Agiria como uma inimiga que não pode perdoar, ou como uma mulher cujo desdém é suavizado por sentimentos de indulgência e simpatia involuntária?
Ela passou à minha frente. Não disse nada, mas fiz uma reverência muito profunda. Misturada aos outros passageiros, ela avançou para a ponte de embarque com minha Kodak na mão. Ocorreu-me que ela não ousaria me expor publicamente, mas poderia fazê-lo quando chegasse a um lugar mais reservado. Contudo, quando ela havia percorrido apenas alguns metros pela ponte, com um movimento de fingida falta de jeito, deixou a câmera cair na água entre o navio e o cais. Depois, desceu a ponte e rapidamente perdeu-se de vista na multidão. Ela havia passado pela minha vida para sempre.
Por um momento, permaneci imóvel. Então, para grande espanto de Ganimard, murmurei:
«Que pena eu não ser um homem honesto!»
Tal foi a história de sua prisão conforme narrada a mim pelo próprio Arsène Lupin. Os vários incidentes, que registrarei por escrito em data futura, estabeleceram entre nós certos laços... devo dizer de amizade? Sim, ouso acreditar que Arsène Lupin me honra com sua amizade e que é por amizade que ele ocasionalmente me visita e traz, ao silêncio da minha biblioteca, sua exuberância juvenil, o contágio de seu entusiasmo e o riso de um homem para quem o destino não tem senão favores e sorrisos.
Seu retrato? Como posso descrevê-lo? Eu o vi vinte vezes e cada vez ele era uma pessoa diferente; até ele mesmo me disse certa vez: «Já não sei quem sou. Não consigo me reconhecer no espelho.» Certamente, ele era um grande ator e possuía uma faculdade maravilhosa para se disfarçar. Sem o menor esforço, podia adotar a voz, os gestos e os trejeitos de outra pessoa.
«Por que», dizia ele, «por que deveria eu manter uma forma e feições definidas? Por que não evitar o perigo de uma personalidade que é sempre a mesma? Minhas ações servirão para me identificar.»
Então acrescentou, com um toque de orgulho:
«Tanto melhor se ninguém puder dizer com absoluta certeza: Ali está Arsène Lupin! O ponto essencial é que o público possa referir-se ao meu trabalho e dizer, sem medo de errar: Arsène Lupin fez isso!»
II. Arsène Lupin na Prisão
Não há turista digno desse nome que não conheça as margens do Sena e não tenha notado, ao passar, o pequeno castelo feudal de Malaquis, construído sobre uma rocha no centro do rio. Uma ponte em arco conecta-o à margem. Ao seu redor, as águas calmas do grande rio brincam pacificamente entre os juncos, e as alvéolas esvoaçam sobre as cristas úmidas das pedras.
A história do castelo de Malaquis é tempestuosa como seu nome, dura como seus contornos. Ele passou por uma longa série de combates, cercos, assaltos, rapinas e massacres. Um relato dos crimes que ali foram cometidos faria tremer o coração mais robusto. Existem muitas lendas misteriosas ligadas ao castelo, e contam-nos de um famoso túnel subterrâneo que antigamente levava à abadia de Jumièges e ao solar de Agnès Sorel, amante de Carlos VII.
Nessa antiga habitação de heróis e bandidos, vivia agora o Barão Nathan Cahorn; ou Barão Satã, como era chamado outrora na Bolsa, onde adquirira uma fortuna com incrível rapidez. Os senhores de Malaquis, absolutamente arruinados, tinham sido obrigados a vender o antigo castelo a um grande sacrifício. Ele continha uma admirável coleção de móveis, pinturas, entalhes em madeira e faianças. O Barão vivia ali sozinho, atendido por três velhos criados. Ninguém jamais entra nos aposentos. Ninguém jamais contemplara os três Rubens que ele possuía, seus dois Watteau, seu púlpito de Jean Goujon e os muitos outros tesouros que ele adquirira com um vasto dispêndio de dinheiro em leilões públicos.
O Barão Satã vivia em constante medo, não por si mesmo, mas pelos tesouros que acumulara com tão fervorosa devoção e com tanta perspicácia que o mais astuto mercador não poderia dizer que o Barão jamais se enganara em seu gosto ou julgamento. Ele os amava — seus bibelôs. Amava-os intensamente, como um avarento; zelosamente, como um amante. Todos os dias, ao pôr do sol, os portões de ferro em ambas as extremidades da ponte e na entrada do pátio de honra são fechados e trancados. Ao menor toque nesses portões, sinos elétricos tocam por todo o castelo.
Certa quinta-feira de setembro, um carteiro apresentou-se no portão na cabeceira da ponte e, como de costume, foi o próprio Barão que abriu parcialmente o pesado portal. Ele examinou o homem tão minuciosamente como se fosse um estranho, embora o rosto honesto e os olhos cintilantes do carteiro fossem familiares ao Barão há muitos anos. O homem riu, enquanto dizia:
«Sou apenas eu, Monsieur le Baron. Não é outro homem usando meu boné e blusa.»
«Nunca se sabe», resmungou o Barão.
O homem entregou-lhe vários jornais e então disse:
«E agora, Monsieur le Baron, aqui está algo novo.»
«Algo novo?»
«Sim, uma carta. Uma carta registrada.»
Vivendo como um recluso, sem amigos ou relações de negócios, o Barão jamais recebia cartas, e a que lhe era apresentada despertou imediatamente nele um sentimento de suspeita e desconfiança. Era como um mau presságio. Quem seria esse misterioso correspondente que ousava perturbar a tranquilidade de seu retiro?
«O senhor deve assinar o protocolo, Monsieur le Baron.»
Ele assinou; então tomou a carta, esperou até que o carteiro tivesse desaparecido após a curva da estrada e, depois de caminhar nervosamente de um lado para outro por alguns minutos, encostou-se no parapeito da ponte e abriu o envelope. Continha uma folha de papel, ostentando este cabeçalho: Prison de la Santé, Paris. Ele olhou para a assinatura: Arsène Lupin. Então leu:
«Monsieur le Baron:
«Há, na galeria de seu castelo, uma pintura de Philippe de Champaigne, de acabamento requintado, que me agrada sobremaneira. Seus Rubens também são do meu gosto, bem como seu menor Watteau. No salão à direita, notei a mesa de cadência Luís XIII, as tapeçarias de Beauvais, o guéridon do Império assinado ‘Jacob’ e o baú da Renascença. No salão à esquerda, todo o gabinete cheio de joias e miniaturas.
«Por ora, contentar-me-ei com os artigos que podem ser convenientemente removidos. Solicito, portanto, que os embale cuidadosamente e os envie para mim, com frete pago, para a estação de Batignolles, dentro de oito dias; caso contrário, ver-me-ei obrigado a removê-los eu mesmo durante a noite de 27 de setembro; mas, nessas circunstâncias, não me contentarei apenas com os artigos acima mencionados.
«Aceite minhas desculpas por qualquer inconveniente que eu possa lhe causar, e acredite ser seu humilde servo,
«Arsène Lupin.»
«P. S. — Por favor, não envie o maior Watteau. Embora tenha pago trinta mil francos por ele, é apenas uma cópia, tendo o original sido queimado, sob o Diretório, por Barras, durante uma noite de deboche. Consulte as memórias de Garat.
«Não me interesso pela chatelaine Luís XV, pois duvido de sua autenticidade.»
Aquela carta perturbou completamente o Barão. Se tivesse qualquer outra assinatura, ele teria ficado muito alarmado — mas assinada por Arsène Lupin!
Como leitor habitual de jornais, ele era versado na história dos crimes recentes e estava, portanto, bem familiarizado com os feitos do misterioso ladrão. Naturalmente, ele sabia que Lupin fora preso na América por seu inimigo Ganimard e estava atualmente encarcerado na Prison de la Santé. Mas ele sabia também que qualquer milagre poderia ser esperado de Arsène Lupin. Além disso, aquele conhecimento exato do castelo, a localização das pinturas e móveis, dava ao caso um aspecto alarmante. Como ele poderia ter adquirido aquela informação sobre coisas que ninguém jamais vira?
O Barão ergueu os olhos e contemplou os contornos severos do castelo, seu íngreme pedestal rochoso, a profundidade das águas circundantes e encolheu os ombros. Certamente, não havia perigo. Ninguém no mundo poderia forçar uma entrada no santuário que continha seus tesouros inestimáveis.
Ninguém, talvez, exceto Arsène Lupin! Para ele, portões, muros e pontes levadiças não existiam. De que serviriam os obstáculos mais formidáveis ou as precauções mais cuidadosas, se Arsène Lupin decidisse efetuar uma entrada?
Naquela noite, ele escreveu ao Procurador da República em Rouen. Anexou a carta ameaçadora e solicitou auxílio e proteção.
A resposta veio prontamente, informando que Arsène Lupin estava sob custódia na Prison de la Santé, sob vigilância rigorosa, sem oportunidade de escrever tal carta, que era, sem dúvida, obra de algum impostor. Mas, como ato de precaução, o Procurador submetera a carta a um perito em caligrafia, que declarou que, apesar de certas semelhanças, a escrita não era a do prisioneiro.
Mas as palavras «apesar de certas semelhanças» captaram a atenção do Barão; nelas, ele leu a possibilidade de uma dúvida que lhe pareceu suficiente para justificar a intervenção da lei. Seus medos aumentaram. Ele leu a carta de Lupin repetidas vezes. «Ver-me-ei obrigado a removê-los eu mesmo.» E então havia a data marcada: a noite de 27 de setembro.
Confiar em seus criados era um procedimento repugnante à sua natureza; mas agora, pela primeira vez em muitos anos, experimentava a necessidade de buscar conselho com alguém. Abandonado pelo funcionário legal de seu próprio distrito e sentindo-se incapaz de defender-se com seus próprios recursos, ele estava prestes a ir a Paris para contratar os serviços de um detetive.
Dois dias se passaram; no terceiro dia, ele estava cheio de esperança e alegria ao ler a seguinte nota no ‘Reveil de Caudebec’, um jornal publicado em uma cidade vizinha:
«Temos o prazer de hospedar em nossa cidade, neste momento, o veterano detetive Monsieur Ganimard, que adquiriu reputação mundial por sua engenhosa captura de Arsène Lupin. Ele veio para cá em busca de descanso e recreação e, sendo um entusiasta pescador, ameaça capturar todos os peixes de nosso rio.»
Ganimard! Ah, eis o auxílio desejado pelo Barão Cahorn! Quem poderia frustrar os planos de Arsène Lupin melhor do que Ganimard, o paciente e astuto detetive? Ele era o homem ideal para o lugar.
O Barão não hesitou. A cidade de Caudebec ficava a apenas seis quilômetros do castelo, uma curta distância para um homem cujo passo era acelerado pela esperança de segurança.
Após várias tentativas infrutíferas de verificar o endereço do detetive, o Barão visitou a redação do ‘Reveil’, situada no cais. Lá encontrou o autor do artigo que, aproximando-se da janela, exclamou:
«Ganimard? Ora, o senhor certamente o verá em algum lugar no cais com sua vara de pescar. Encontrei-o lá e, por acaso, li seu nome gravado na vara. Ah, ali está ele agora, debaixo das árvores.»
«Aquele homenzinho, usando um chapéu de palha?»
«Exatamente. É um sujeito ríspido, de poucas palavras.»
Cinco minutos depois, o Barão aproximou-se do célebre Ganimard, apresentou-se e tentou iniciar uma conversa, mas isso foi um fracasso. Então, abordou o verdadeiro objeto de sua entrevista e relatou brevemente seu caso. O outro ouviu, imóvel, com sua atenção fixada na vara de pescar. Quando o Barão terminou sua história, o pescador virou-se, com um ar de profunda piedade, e disse:
«Monsieur, não é costume dos ladrões avisar as pessoas que estão prestes a roubar. Arsène Lupin, especialmente, não cometeria tal tolice.»
«Mas...»
«Monsieur, se eu tivesse a menor dúvida, acredite-me, o prazer de novamente capturar Arsène Lupin me colocaria à sua disposição. Mas, infelizmente, aquele jovem já está sob chaves.»
«Ele pode ter escapado.»
«Ninguém jamais escapou da Santé.»
«Mas, ele...»
«Ele, não mais do que qualquer outro.»
«Contudo...»
«Bem, se ele escapar, tanto melhor. Eu o pegarei novamente. Enquanto isso, vá para casa e durma profundamente. Isso bastará por ora. O senhor está assustando os peixes.»
A conversa terminou. O Barão retornou ao castelo, tranquilizado até certo ponto pela indiferença de Ganimard. Ele examinou os ferrolhos, vigiou os criados e, durante as quarenta e oito horas seguintes, convenceu-se quase totalmente de que seus medos eram infundados. Certamente, como Ganimard dissera, os ladrões não avisam as pessoas que estão prestes a roubar.
O dia fatídico estava próximo. Era agora vinte e seis de setembro e nada acontecera. Mas, às três horas, a campainha tocou. Um menino trouxe este telegrama:
«Nenhuma mercadoria na estação de Batignolles. Prepare tudo para a noite de amanhã. Arsène.»
Este telegrama jogou o Barão em tal estado de excitação que ele até considerou a conveniência de ceder às demandas de Lupin.
No entanto, apressou-se para Caudebec. Ganimard estava pescando no mesmo lugar, sentado em um banquinho de campanha. Sem uma palavra, ele entregou-lhe o telegrama.
«Bem, e daí?», disse o detetive.
«E daí? Mas é amanhã.»
«O que é amanhã?»
«O roubo! A pilhagem das minhas coleções!»
Ganimard pousou sua vara de pescar, voltou-se para o Barão e exclamou, em tom de impaciência:
«Ah! O senhor acha que vou me preocupar com uma história boba dessas!»
«Quanto o senhor pede para passar a noite de amanhã no castelo?»
«Nem um sou. Agora, deixe-me em paz.»
«Diga seu próprio preço. Sou rico e posso pagar.»
Esta oferta desconcertou Ganimard, que respondeu, calmamente:
«Estou aqui de férias. Não tenho o direito de assumir tal trabalho.»
«Ninguém saberá. Prometo manter segredo.»
«Oh! Nada acontecerá.»
«Vamos! Três mil francos. Isso será o suficiente?»
O detetive, após um momento de reflexão, disse:
«Muito bem. Mas devo avisá-lo de que o senhor está jogando seu dinheiro pela janela.»
«Não me importo.»
«Nesse caso... mas, afinal, o que sabemos sobre esse demônio Lupin! Ele pode ter um bando bastante numeroso de ladrões consigo. O senhor tem certeza de seus criados?»
«Ora...»
«É melhor não contar com eles. Enviarei um telegrama para dois dos meus homens para me ajudarem. E agora, vá! É melhor que não sejamos vistos juntos. Amanhã à noite, por volta das nove horas.»
* * * * *
No dia seguinte — a data marcada por Arsène Lupin — o Barão Cahorn arranjou toda a sua panóplia de guerra, poliu suas armas e, como um sentinela, caminhou de um lado para outro em frente ao castelo. Não viu nada, não ouviu nada. Às oito e meia da noite, dispensou seus criados. Eles ocupavam quartos em uma ala do edifício, em um local isolado, bem afastado da porção principal do castelo. Pouco depois, o Barão ouviu o som de passos se aproximando. Eram Ganimard e seus dois assistentes — sujeitos grandes e poderosos, com mãos imensas e pescoços de touro. Após fazer algumas perguntas relativas à localização das várias entradas e aposentos, Ganimard fechou cuidadosamente e barricou todas as portas e janelas pelas quais se poderia ganhar acesso aos aposentos ameaçados. Inspecionou as paredes, levantou as tapeçarias e, finalmente, instalou seus assistentes na galeria central, que ficava entre os dois salões.
«Sem bobagens! Não estamos aqui para dormir. Ao menor ruído, abram as janelas do pátio e chamem-me. Prestem atenção também ao lado da água. Dez metros de rocha perpendicular não são obstáculo para esses demônios.»
Ganimard trancou seus assistentes na galeria, levou as chaves consigo e disse ao Barão:
«E agora, ao nosso posto.»
Ele escolhera para si um pequeno quarto localizado na espessa parede externa, entre as duas portas principais, e que, em anos anteriores, fora o alojamento do vigia. Uma abertura de observação dava para a ponte; outra, para o pátio. Em um canto, havia uma abertura para um túnel.
«Acredito que o senhor me disse, Monsieur le Baron, que este túnel é a única entrada subterrânea para o castelo e que está fechado desde tempos imemoriais?»
«Sim.»
«Então, a menos que haja alguma outra entrada, conhecida apenas por Arsène Lupin, estamos bastante seguros.»
Ele colocou três cadeiras juntas, esticou-se sobre elas, acendeu seu cachimbo e suspirou:
«Realmente, Monsieur le Baron, sinto-me envergonhado de aceitar seu dinheiro por tal sinecura. Contarei a história ao meu amigo Lupin. Ele se divertirá imensamente.»
O Barão não riu. Ele estava ouvindo ansiosamente, mas não ouviu nada, exceto o bater de seu próprio coração. De tempos em tempos, debruçava-se sobre o túnel e lançava um olhar temeroso em suas profundezas. Ouviu o relógio bater onze, doze, uma hora.
De repente, ele agarrou o braço de Ganimard. Este saltou, despertado de seu sono.
«O senhor ouve?», perguntou o Barão, em um sussurro.
«Sim.»
«O que é?»
«Eu estava roncando, suponho.»
«Não, não, ouça.»
«Ah! Sim, é a buzina de um automóvel.»
«Bem?»
«Bem! É muito improvável que Lupin usasse um automóvel como aríete para demolir seu castelo. Vamos, Monsieur le Baron, retorne ao seu posto. Vou dormir. Boa noite.»
Esse foi o único alarme. Ganimard retomou seus sonos interrompidos e o Barão não ouviu nada, exceto o ronco regular de seu companheiro. Ao romper do dia, deixaram o aposento. O castelo estava envolto em uma calma profunda; era uma aurora pacífica no seio de um rio tranquilo. Subiram as escadas, Cahorn radiante de alegria, Ganimard calmo como de costume. Não ouviram nenhum som; não viram nada que despertasse suspeitas.
«O que eu lhe disse, Monsieur le Baron? Realmente, eu não deveria ter aceitado sua oferta. Estou envergonhado.»
Ele destrancou a porta e entrou na galeria. Sobre duas cadeiras, com as cabeças caídas e os braços pendentes, os dois assistentes do detetive estavam adormecidos.
«Tonnerre de nom d’un chien!», exclamou Ganimard. No mesmo momento, o Barão gritou:
«As pinturas! A credência!»
Ele gaguejava, engasgava, com os braços estendidos para os espaços vazios, para as paredes despidas onde nada restava senão os pregos inúteis e os cordões. O Watteau, desaparecido! O Rubens, levado! As tapeçarias arrancadas! Os armários, despidos de suas joias!
— E a minha candelabro de Luís XVI! E o lustre do Régente!... E a minha Virgem do século XII!
Corria de um canto a outro em desespero total. Recordava o preço de compra de cada artigo, somava os valores, contava suas perdas, desordenadamente, em palavras confusas e frases inacabadas. Pisava com furor; gemia de tristeza. Atuava como um homem arruinado cuja única esperança era o suicídio.
Se alguma coisa poderia consolá‑lo, teria sido a atônita estupefação exibida por Ganimard. O famoso detetive não se movia. Parecia petrificado; examinava o quarto de forma apática. As janelas?… fechadas. As trancas das portas?… intactas. Nenhum rasgo no teto; nenhum buraco no chão. Tudo estava em perfeita ordem. O roubo fora cometido metodicamente, segundo um plano lógico e inexorável.
— Arsène Lupin… Arsène Lupin — murmurou ele.
De repente, como se movido pela ira, avançou sobre os dois assistentes e os sacudiu violentamente. Não despertaram.
— O diabo! — exclamou. — Pode ser verdade?
Inclinou‑se sobre eles e, por sua vez, examinou‑os de perto. Estavam adormecidos; porém sua reação era antinatural.
— Foram drogados — disse ao barão.
— Por quem?
— Por ele, claro, ou por seus homens sob sua discrição. Essa obra traz seu selo.
— Nesse caso, estou perdido — nada pode ser feito.
— Nada — assentiu Ganimard.
— É terrível; é monstruoso.
— Registre uma queixa.
— De que adiantará isso?
— Ah; é bem tentar. A lei tem alguns recursos.
— A lei! Bah! é inútil. Você representa a lei e, neste instante, quando deveria estar à procura de pista e tentando descobrir algo, nem se mexe.
— Descobrir algo com Arsène Lupin! Por que, meu caro monsieur, Arsène Lupin nunca deixa pista alguma. Ele não deixa nada ao acaso. Às vezes penso que ele se colocou no meu caminho e simplesmente me permitiu prendê‑lo na América.
— Então, devo renunciar às minhas obras! Ele tomou as gemas da minha coleção. Daria uma fortuna para recuperá‑las. Se não houver outro meio, deixe‑o fixar seu próprio preço.
Ganimard observou o barão atentamente e disse:
— Agora isso faz sentido. Vai manter‑se firme?
— Sim, sim. Mas por quê?
— Uma ideia que tenho.
— Qual é?
— Discutiremos depois — se o exame oficial falhar. Mas, nenhuma palavra sobre mim, se quiser a minha assistência.
Adicionou, entre os dentes:
— É verdade que não tenho nada de que me orgulhar neste caso.
Os assistentes foram gradualmente recobrando a consciência com a ar‑air de quem sai de um sono hipnótico. Abriram os olhos e olharam ao redor, atônitos. Ganimard interrogou‑os; não lembravam de nada.
— Mas vocês devem ter visto alguém?
— Não.
— Não se lembra?
— Não, não.
— Tomaram alguma coisa?
Consideraram um momento e então um deles respondeu:
— Sim, bebi um pouco de água.
— Daquela jarra?
— Sim.
— Eu também — declarou o outro.
Ganimard cheirou e provou. Não tinha sabor particular nem odor.
— Venham — disse — estamos a perder tempo aqui. Não se resolve um caso de Arsène Lupin em cinco minutos. Mas, morbleau! Juro que o pegarei novamente.
No mesmo dia, foi feita a acusação de furto pelo Barão Cahorn contra Arsène Lupin, prisioneiro da Prison de la Santé.
* * * * *
O barão depois lamentou ter feito a acusação contra Lupin quando viu seu castelo entregue aos gendarmes, ao procureur, ao juiz de instrução, aos repórteres e fotógrafos de jornais, e a uma multidão de curiosos ociosos.
O caso logo se tornou assunto de geral discussão, e o nome de Arsène Lupin excitou a imaginação pública a tal ponto que os jornais encheram suas colunas com as histórias mais fantásticas de seus feitos, as quais encontraram pronta credibilidade entre os leitores.
Mas a carta de Arsène Lupin publicada no _Echo de France_ (ninguém jamais soube como o jornal a obteve), aquela carta na qual o Barão Cahorn foi imperiosamente avisado do iminente roubo, causou considerável alvoroço. As teorias mais fabulosas foram avançadas. Alguns recordaram a existência dos famosos túneis subterrâneos, e essa foi a linha de pesquisa seguida pelos oficiais da lei, que revistaram a casa de cima a baixo, interrogaram cada pedra, estudaram o rodapé e as chaminés, os caixilhos das janelas e as vigas nos tetos. À luz de tochas, examinaram as imensas adegas onde os senhores de Malaquis costumavam guardar munições e provisões. Soaram a fundação rochosa até o seu centro. Mas tudo foi em vão. Não descobriram trilha de túnel subterrâneo. Nenhum corredor secreto existia.
Mas o público ávido declarou que as pinturas e os móveis não podiam desaparecer como tantos fantasmas. São coisas substanciais, materiais, e requerem portas e janelas para suas saídas e entradas, assim como as pessoas que os retiram. Quem eram essas pessoas? Como obtiveram acesso ao castelo? E como o deixaram?
Os policiais de Rouen, convencidos de sua própria impotência, solicitaram a assistência da força policial parisiense. Mon. Dudouis, chefe da Sûreté, enviou os melhores investigadores da brigada de ferro. Ele próprio passou quarenta e oito horas no castelo, mas não obteve sucesso. Então enviou‑o chamar Ganimard, cujos serviços pretéritos se mostraram tão úteis quando tudo falhou.
Ganimard ouviu, em silêncio, as instruções de seu superior; então, balançando a cabeça, disse:
— Na minha opinião, é inútil vasculhar o castelo. A solução do problema está em outro lugar.
— Onde, então?
— Com Arsène Lupin.
— Com Arsène Lupin! Para sustentar essa teoria, devemos admitir sua intervenção.
— Admito. Na verdade, considero isso bastante certo.
— Venha, Ganimard, isso é absurdo. Arsène Lupin está na prisão.
— Concedo que Arsène Lupin está na prisão, bem guardado; mas ele deve ter grilhões nos pés, algemas nos pulsos e uma mordaça na boca antes que eu mude de opinião.
— Por que tão obstinado, Ganimard?
— Porque Arsène Lupin é o único homem da França de calibre suficiente para inventar e executar um plano de tal magnitude.
— Palavras vazias, Ganimard.
— Mas verdadeiras. Olhe! O que fazem? Procuram passagens subterrâneas, pedras que giram em pivôs e outras bobagens desse tipo. Mas Lupin não usa tais métodos antiquados. É um ladrão moderno, perfeitamente atualizado.
— E como procederia?
— Pediria sua permissão para passar uma hora com ele.
— Na cela dele?
— Sim. Na viagem de volta da América tornámo‑nos muito amigos, e ouso afirmar que, se ele puder me dar alguma informação sem se comprometer, não hesitará em me salvar de incorrer em transtorno inútil.
Era pouco depois do meio‑dia quando Ganimard entrou na cela de Arsène Lupin. Este, que jazia em sua cama, ergueu a cabeça e soltou um grito de aparente júbilo.
— Ah! Que surpresa real. Meu caro Ganimard, aqui!
— O próprio Ganimard.
— No meu retiro escolhido, sinto desejo por muitas coisas, mas meu mais profundo anseio era recebê‑lo aqui.
— Muito gentil da sua parte, tenho certeza.
— De modo algum. Sabes que te tenho em alta estima.
— Orgulho‑me disso.
— Sempre disse: Ganimard é o nosso melhor detetive. Ele é quase — veja como sou sincero — quase tão astuto quanto Sherlock Holmes. Mas lamento não poder oferecer nada melhor que este banco duro. E sem refrescos! Nem um copo de cerveja! Claro, me perdoará, pois aqui estou apenas temporariamente.
Ganimard sorriu, aceitou o assento oferecido. Então o prisioneiro prosseguiu:
— Mon Dieu, quão satisfeito estou por ver o rosto de um homem honesto. Estou cansado desses demônios de espiões que vêm aqui dez vezes ao dia revistando meus bolsos e minha cela para se convencerem de que não estou preparando fuga. O governo está muito solicitante a meu respeito.
— Isso é bastante justo.
— Por que tanto? Eu ficaria satisfeitos se me deixassem viver à minha maneira tranquila.
— À custa do dinheiro alheio.
— Exatamente. Isso seria tão simples. Mas aqui, estou a brincar, e você, sem dúvida, está com pressa. Portanto, vamos ao assunto, Ganimard. A que devo a honra desta visita?
— O caso Cahorn — declarou Ganimard, francamente.
— Ah! Espera, um momento. Vês que tive tantos casos! Primeiro, fixemos na mente as circunstâncias deste caso particular… Ah! sim, agora tenho. O caso Cahorn, castelo de Malaquis, Seine‑Inférieure… Dois Rubens, um Watteau e alguns artigos insignificantes.
— Insignificantes!
— Oh! ma foi, tudo isso tem pouca importância. Mas basta saber que o assunto lhe interessa. Como posso servi‑lo, Ganimard?
— Preciso lhe explicar que passos as autoridades tomaram no assunto?
— De modo nenhum. Li os jornais e afirmo francamente que avançaram muito pouco.
— E esse é o motivo de eu ter vindo vê‑lo.
— Estou inteiramente ao seu dispor.
— Em primeiro lugar, o caso Cahorn foi manejado por si?
— De A a Z.
— A carta de aviso? O telegrama?
— Todos meus. Devo ter os recibos em algum lugar.
Arsène abriu a gaveta de uma pequena mesa de madeira branca simples que, com a cama e o banco, constituía todo o mobiliário de sua cela, e tirou dela dois pedaços de papel que entregou a Ganimard.
— Ah! — exclamou o detetive, surpreso — pensei que estivesse rigorosamente vigiado e revistado, e descubro que lê jornais e coleciona recibos postais.
— Bah! essas pessoas são tão estúpidas! Abrem o forro da minha camisa, examinam as solas dos meus sapatos, sondam as paredes da cela, mas nunca imaginam que Arsène Lupin seria tolo o bastante para escolher um esconderijo tão simples.
Ganimard riu, dizendo:
— Que figura cômica! Realmente, deixa‑me perplexo. Mas, diga‑me, conte‑me sobre o caso Cahorn.
— Oh! oh! não tão rápido! Você me roubaria todos os segredos; exporia todos os meus truques. Isso é muito grave.
— Estive errado ao contar com sua complacência?
— Não, Ganimard, e como insiste…
Arsène Lupin percorreu a cela duas ou três vezes, então, parando diante de Ganimard, perguntou:
— O que pensa da minha carta ao barão?
— Acho que se divertiu brincando para a plateia.
— Ah! brincando para a plateia! Venha, Ganimard, pensei que me conhecia melhor. Será que Arsène Lupin alguma vez desperdiça seu tempo com tais puerilidades? Teria escrito aquela carta se pudesse roubar o barão sem escrever-lhe? Quero que entenda que a carta foi indispensável; foi o motor que pôs toda a máquina em movimento. Agora, vamos juntos elaborar um plano para o roubo do castelo de Malaquis. Está disposto?
— Sim, prossiga.
— Bem, suponhamos um castelo cuidadosamente fechado e barricado como o do Barão Cahorn. Devo abandonar meu plano e renunciar aos tesouros que covo, sob o pretexto de que o castelo que os guarda é inacessível?
— Evidentemente não.
— Devo lançar‑me ao ataque ao castelo à cabeça de uma bandeja de aventurinos como se fazia nos tempos antigos?
— Isso seria tolice.
— Posso obter entrada por astúcia ou disfarce?
— Impossível.
— Então há apenas um caminho aberto a mim. O dono do castelo deve convidar‑me.
— Esse é, sem dúvida, um método original.
— E quão fácil! Suponhamos que um dia o dono receba uma carta avisando‑o de que um notório ladrão chamado Arsène Lupin planeja roubá‑lo. O que fará?
— Enviará uma carta ao Procureur.
— Que o ridicularizará, pois o tal Arsène Lupin está, de fato, na prisão. Então, em sua ansiedade e medo, o homem simples solicitará a ajuda do primeiro que aparecer, não é?
— Muito provável.
— E se ler em um jornal de província que um detetive célebre está a passar férias numa cidade vizinha…
— Procurará esse detetive.
— Claro. Mas, por outro lado, suponhamos que, tendo previsto tal situação, o tal Arsène Lupin tenha pedido a um de seus amigos para visitar Caudebec, fazer a amizade do editor do “Réveil”, jornal ao qual o barão é assinante, e deixar que o editor entenda que tal pessoa é o detetive célebre — então, o que acontecerá?
— O editor anunciará no “Réveil” a presença do detetive em Caudebec.
— Exatamente; e acontecerá uma de duas coisas: ou o peixe — digo, Cahorn — não morderá, e nada acontecerá; ou, mais provável, ele cairá na isca. Assim, vede meu Barão Cahorn implorando a ajuda de um dos meus amigos contra mim.
— Original, sem dúvida!
— Claro, o pseudo‑detetive recusa‑se inicialmente a prestar auxílio. Sobre isso chega o telegrama de Arsène Lupin. O barão assustado corre outra vez ao meu amigo e oferece-lhe soma certa por seus serviços. Meu amigo aceita e convoca dois membros da nossa quadrilha, que, durante a noite, enquanto Cahorn está sob o olhar vigilante de seu protetor, retiram certos artigos pela janela e os descem por cordas num pequeno bote charterizado para a ocasião. Simples, não é?
— Maravilhoso! Maravilhoso! — exclamou Ganimard. — A ousadia do plano e a engenhosidade de todos os detalhes vão além de qualquer crítica. Mas quem é o detetive cujo nome e fama serviram de ímã para atrair o barão e puxá‑lo à sua rede?
— Só um nome pode fazer isso — só um.
— E qual?
— O inimigo pessoal de Arsène Lupin — o mais ilustre Ganimard.
— Eu?
— Você mesmo, Ganimard. E, realmente, isso é muito engraçado. Se você for lá, e o barão decidir conversar, descobrirá que será seu dever prender a si mesmo, assim como prendeu‑me na América. Hein! A vingança é realmente divertida: faço Ganimard prender Ganimard.
Arsène Lupin riu a gargalhadas. O detetive, muito irritado, mordeu‑se os lábios; para ele a piada não tinha humor algum. A chegada de um guardião da prisão deu a Ganimard oportunidade de recompor‑se. O homem trouxe o almoço de Arsène Lupin, providenciado por um restaurante vizinho. Após depositar a bandeja sobre a mesa, o guardião retirou‑se. Lupin quebrou o pão, comeu alguns bocados e prosseguiu:
— Mas, descanse tranquilo, meu caro Ganimard, não irá a Malaquis. Posso dizer-lhe algo que o deixará estupefato: o caso Cahorn está prestes a ser resolvido.
— Desculpe; acabei de ver o Chefe da Sûreté.
— O que disso? Mon. Dudouis conhece meus negócios melhor que eu? Saberá que o pseudo‑Ganimard ainda mantém ótimos termos com o barão. Este lhe autorizou negociar uma transação muito delicada comigo, e, neste momento, em troca de certa soma, é provável que o barão tenha recuperado a posse de suas pinturas e demais tesouros. E, ao retornarem, retirará a queixa. Assim, não há mais roubo, e a lei deve abandonar o caso.
Ganimard encarou o prisioneiro com ar perplexo.
— E como sabe tudo isso?
— Acabei de receber o telegrama que esperava.
— Recebeu um telegrama?
— Neste exato momento, caro amigo. Por cortesia, não quis lê‑lo à sua presença. Mas, se me permitir…
— Está a brincar, Lupin.
— Meu caro amigo, se for tão bondoso a quebrar este ovo, verá por si mesmo que não estou a brincar.
Mechanicamente, Ganimard obedeceu e quebrou a casca do ovo com a lâmina de uma faca. Exclamou de surpresa. Dentro da casca havia apenas um pequeno pedaço de papel azul. A pedido de Arsène, desdobrou‑o. Era um telegrama, ou melhor, parte de um telegrama cujas marcas postais haviam sido removidas. dizia assim:
— “Contrato fechado. Cem mil balas entregues. Tudo bem.”
— Cem mil balas? — disse Ganimard.
— Sim, cem mil francos. Pouco, mas então, sabe, são tempos difíceis… E tenho contas pesadas a pagar. Se soubesse do meu orçamento… viver na cidade custa caro.
Ganimard levantou‑se. Seu mau humor desaparecera. Refletiu por um momento, revendo todo o caso na busca de um ponto fraco; então, em tom e modo que trariam à tona a admiração que nutria pelo prisioneiro, afirmou:
— Felizmente, não temos uma dúzia de homens como você; se tivéssemos, teríamos de fechar o estabelecimento.
Arsène Lupin assumiu postura modesta, respondendo:
— Bah! o homem precisa de alguma distração para ocupar as horas de lazer, sobretudo quando está na prisão.
— O quê! — exclamou Ganimard — o seu julgamento, a sua defesa, o exame — não basta para ocupar a mente?
— Não, porque decidi não comparecer ao meu julgamento.
— Oh! oh!
— Não comparecerei ao meu julgamento.
— De verdade!
— Ah! meu caro monsieur, supõe que eu vá apodrecer sobre palha úmida? Insulta‑me. Arsène Lupin permanece na prisão enquanto lhe aprouver, e não um minuto a mais.
— Talvez fosse mais prudente ter evitado ir até aí — disse o detetive, ironicamente.
— Ah! monsieur brinca? Monsieur deve lembrar‑se de que teve a honra de efetuar minha prisão. Saiba, então, meu digno amigo, que ninguém, nem você, poderia ter posto a mão sobre mim se um evento muito mais importante não ocupasse minha atenção naquele instante crítico.
— Você me surpreende.
— Uma mulher me observava, Ganimard, e eu a amei. Entende bem o que isso significa: estar sob o olhar de quem se ama? Não me importava nada no mundo senão isso. E é por isso que estou aqui.
— Permita‑me dizer: esteve aqui muito tempo.
— Em primeiro lugar, quis esquecer. Não ria; foi uma aventura deliciosa e ainda é uma lembrança terna. Além disso, sofro de neurose. A vida está tão febril hoje que é preciso tomar a “cura de repouso” de tempos em tempos, e acho este canto um remédio soberano para meus nervos cansados.
— Arsène Lupin, não é um mau sujeito, afinal.
— Obrigado — respondeu Lupin. — Ganimard, hoje é sexta‑feira. Na próxima quarta, às quatro da tarde, fumarei meu cigarro em sua casa na rue Pergolese.
— Arsène Lupin, aguardarei por você.
Aperaram as mãos como dois velhos amigos que se estimam em seu valor real; então o detetive dirigiu‑se à porta.
— Ganimard!
— O que foi? — indagou Ganimard, voltando‑se.
— Esqueceu‑se do seu relógio.
— Meu relógio?
— Sim, entrou em meu bolso.
Ele devolveu o relógio, desculpando‑se.
— Perdoe‑me… um mau hábito. Porque tomaram o meu não há razão para eu tomar o seu. Além disso, tenho aqui um cronómetro que me satisfaz bastante bem.
Retirou da gaveta um grande relógio de ouro e pesada corrente.
— De cujo bolso veio isso? — perguntou Ganimard.
Arsène Lupin lançou um olhar rápido às iniciais gravadas no relógio.
— J.B… Quem diabos pode ser isso?… Ah! sim, lembro. Jules Bouvier, o juiz que conduziu minha entrevista. Um sujeito encantador!
O tribunal inteiro soltou uma exclamação. O juiz Bouvier, lívido de raiva, levantou-se e gritou:
— Guardas, tirem esse homem daqui!
Mas Lupin já tinha se recostado, com um ar de enfado e indiferença, enquanto os advogados tentavam, em vão, acalmar o magistrado. Ganimard, entretanto, permanecia imóvel, com os olhos fixos no prisioneiro. Parecia fascinado pelo mistério daquela audácia, e também por aquela fisionomia que, apesar dos sinais de definhamento, conservava, no brilho dos olhos, um lampejo de inteligência indomável.
— Sr. Ganimard — continuou o juiz, esforçando-se para recuperar a compostura —, o senhor concluiu o seu depoimento?
— Ainda não, senhor presidente. Gostaria apenas de acrescentar que, se o prisioneiro insiste em chamar-se Baudru, Désiré, e em fingir esse estado de prostração mental, é porque ele tem um plano. Arsène Lupin nunca deixa nada ao acaso.
Lupin, sem se mover, murmurou:
— Baudru… Désiré… é um nome honesto. Por que tanta hostilidade, caro Ganimard?
O riso que percorreu a sala foi sufocado pelo bater de martelo do juiz. O ambiente estava carregado. A sensação de que algo extraordinário estava prestes a acontecer pairava sobre todos. O escrivão começou a ler uma lista de bens apreendidos na residência secreta que, acreditava-se, pertencia a Lupin.
— Jóias, títulos ao portador, documentos confidenciais — lia o funcionário.
Lupin, de repente, ergueu a cabeça.
— Documentos? Que documentos?
— Documentos que provam suas relações com personagens da mais alta sociedade — respondeu o juiz, observando-o atentamente.
Lupin soltou uma gargalhada seca, um som que pareceu estranhamente desajustado naquele corpo envelhecido.
— Ah! Se o senhor abrir esses envelopes, senhor juiz, garanto que o seu tribunal ficará vazio em cinco minutos. Muitos dos presentes aqui hoje teriam motivos de sobra para desejar que eu tivesse escapado antes de este julgamento começar.
Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala. As senhoras da sociedade, antes tão ávidas por ver o famoso ladrão, agora pareciam inquietas, trocando olhares nervosos. O juiz, porém, não se deixou intimidar.
— Não nos desviaremos do assunto com ameaças vazias. A justiça seguirá seu curso.
— A justiça — repetiu Lupin, com um tom de escárnio — é como uma teia de aranha: os pequenos ficam presos, os grandes a rompem. E eu, Baudru, Désiré, sou apenas um pobre coitado que nada entende de teias.
Ele voltou a baixar a cabeça e, durante o resto da tarde, não disse mais uma palavra. O julgamento prosseguiu com a oitiva de outros dois inspetores, mas a atenção do público já havia se desviado. Todos observavam o prisioneiro, esperando o próximo movimento daquele jogo cujo tabuleiro parecia ser o próprio tribunal. Quando a sessão foi suspensa, ao final da tarde, a chuva continuava a cair, e o burburinho na saída era de uma intensidade febril. Arsène Lupin, o homem que havia prometido não estar presente na sua própria condenação, tornara-se, naquele momento, o centro absoluto do mundo parisiense.
Desde o princípio, as ações do veterano detetive pareciam estranhas e inexplicáveis. Estava nervoso e desconfortável. Várias vezes olhou para o prisioneiro, com evidente dúvida e ansiedade. Então, com as mãos apoiadas no corrimão à sua frente, recitou os acontecimentos nos quais havia participado, incluindo sua perseguição ao prisioneiro pela Europa e sua chegada à América. Foi ouvido com grande avidez, pois sua captura de Arsène Lupin era bem conhecida por todos por meio da imprensa. Ao aproximar‑se do fim do seu depoimento, depois de referir‑se às conversas com Arsène Lupin, parou, duas vezes, envergonhado e indeciso. Evidenciava estar possuído de algum pensamento que temia pronunciar. O juiz lhe dirigiu‑se, com simpatia:
“Se está enfermo, pode retirar‑se por ora.”
“Não, não, mas—”
Ele interrompeu, lançou um olhar cortante ao prisioneiro e disse:
“Peço licença para examinar o prisioneiro de perto. Há um mistério a ele que devo esclarecer.”
Aproximou‑se do acusado, examinou‑o atentamente por vários minutos, depois retornou ao banco das testemunhas e, numa voz quase solene, declarou:
“Juro, sob juramento, que o prisioneiro que está diante de mim não é Arsène Lupin.”
Um profundo silêncio seguiu à afirmação. O juiz, momentaneamente perplexo, exclamou:
“Ah! Que quer dizer? Isso é absurdo!”
O detetive prosseguiu:
“A primeira vista há certa semelhança, mas se considerar cuidadosamente o nariz, a boca, o cabelo, a cor da pele, verá que não é Arsène Lupin. E os olhos! Já teve ele aqueles olhos alcoólicos!”
“Venha, venha, testemunha! Que quer dizer? Pretende dizer que estamos julgando o homem errado?”
“Em minha opinião, sim. Arsène Lupin, de alguma forma, conseguiu colocar esse pobre diabo em seu lugar, a menos que esse homem seja um cúmplice voluntário.”
Esse desfecho dramático provocou muitas risadas e excitação entre os espectadores. O juiz encerrou o julgamento e mandou chamar o mon. Bouvier, o carcereiro, e os guardas da prisão.
Quando o julgamento foi retomado, mon. Bouvier e o carcereiro examinaram o acusado e declararam que havia apenas uma leve semelhança entre o prisioneiro e Arsène Lupin.
“Pois bem!” exclamou o juiz, “Quem é esse homem? De onde vem? Por que está preso?”
Chamaram dois dos guardas da prisão, e ambos declararam que o prisioneiro era Arsène Lupin. O juiz respirou novamente.
Mas então um dos guardas disse:
“Sim, sim, eu acho que é ele.”
“O que!” gritou o juiz, impaciente, “você *acha* que é ele! O que quer dizer com isso?”
“Bem, vi muito pouco do prisioneiro. Ele foi posto sob meus cuidados à noite e, durante dois meses, raramente se mexeu, ficando deitado na cama com o rosto contra a parede.”
“E quanto ao tempo anterior a esses dois meses?”
“Antes disso ele ocupava uma cela em outra parte da prisão. Não estava na cela 24.”
Interveio então o chefe dos carcereiros, dizendo:
“Transferimos‑o para outra cela depois de sua tentativa de fuga.”
“Mas o senhor, monsieur, viu‑o nesses dois meses?”
“Não tive ocasião de vê‑lo. Estava sempre calmo e ordeiro.”
“E esse prisioneiro não é Arsène Lupin?”
“Não.”
“Então, quem é ele?” exigiu o juiz.
“Não sei.”
“Então temos diante de nós um homem que foi substituído por Arsène Lupin há dois meses. Como explica isso?”
“Não consigo.”
Em absoluta desespero, o juiz voltou‑se para o acusado e dirigiu‑se a ele em tom conciliador:
“Prisioneiro, pode dizer‑me como e desde quando se tornou interno da Prison de la Santé?”
O modo persuasivo do juiz visava desarmar a desconfiança e despertar a compreensão do homem acusado. Ele tentou responder. Finalmente, sob perguntas astutas e brandas, conseguiu formular algumas frases das quais se extraiu a seguinte história: há dois meses fora levado ao Dépôt, examinado e libertado. Ao sair do edifício, ainda livre, foi agarrado por dois guardas e colocado na van‑carrinha da prisão. Desde então ocupou a cela 24. Ficava satisfeito ali, com bastante comida, e dormia bem — portanto não reclamava.
Tudo isso parecia provável; e, em meio à alegria e ao entusiasmo dos espectadores, o juiz adiou o julgamento até que a história pudesse ser investigada e verificada.
*****
Os fatos seguintes foram imediatamente comprovados por exame dos registros prisionais: oito semanas antes, um homem chamado Baudru Désiré dormira no Dépôt. Foi libertado no dia seguinte e saiu do Dépôt às duas da tarde. No mesmo dia, às duas, depois de ser examinado pela última vez, Arsène Lupin deixou o Dépôt em uma van‑carrinha da prisão.
Teriam os guardas cometido um engano? Teriam sido enganados pela semelhança e substituído descuidadamente esse homem pelo seu prisioneiro?
Outra questão surgiu: a substituição teria sido planejada com antecedência? Nesse caso, Baudru teria sido cúmplice e teria provocado sua própria prisão com o objetivo expresso de tomar o lugar de Lupin. Mas então, por que milagre tal plano, baseado numa série de coincidências improváveis, teria sido bem‑sucedido?
Baudru Désiré foi entregue ao serviço antropológico; nunca tinham visto alguém como ele. Contudo, traçaram facilmente sua história passada. Foi conhecido em Courbevois, em Asnières e em Levallois. Vivia de esmolas e dormia numa das barracas de catadores de trapos perto da barrière de Ternes. Desaparecera de lá há um ano.
Teria sido atraído por Arsène Lupin? Não há evidência a esse respeito. E mesmo que assim fosse, não explicaria a fuga do prisioneiro. Isso continuava sendo um mistério. Entre vinte teorias que buscavam explicá‑lo, nenhuma se mostrou satisfatória. Quanto à fuga em si, não havia dúvida; era uma fuga incompreensível, sensacional, na qual o público, bem como os agentes da lei, podiam detectar um plano meticulosamente preparado, uma combinação de circunstâncias maravilhosamente entrelaçadas, cujo desfecho justificava plenamente a confiante previsão de Arsène Lupin: “Não estarei presente no meu julgamento.”
Após um mês de investigação paciente, o problema permaneceu sem solução. O pobre diabo que era Baudru não poderia ser mantido indefinidamente na prisão, e levá‑lo a julgamento seria ridículo. Não havia acusação contra ele. Consequentemente, foi libertado; porém o chefe da Sûreté decidiu mantê‑lo sob vigilância. Essa ideia originou‑se em Ganimard. Em seu ponto de vista não havia nem cumplicidade nem acaso. Baudru era um instrumento sobre o qual Arsène Lupin havia brincado com sua extraordinária habilidade. Baudru, quando posto em liberdade, os conduziria a Arsène Lupin ou, ao menos, a alguns de seus cúmplices. Os dois inspetores, Folenfant e Dieuzy, foram designados a assistir Ganimard.
Numa manhã enevoada de janeiro, os portões da prisão abriram‑se e Baudru Désiré saiu — livre. A princípio, parecia bastante embaraçado e caminhava como quem não tem ideia precisa de para onde vai. Seguiu pela rue de la Santé e pela rue Saint‑Jacques. Parou em frente a uma loja de roupas usadas, tirou o casaco e o colete, vendeu o colete obtendo alguns sous; depois, recolocando o casaco, prosseguiu. Atravessou o Sena. No Châtelet passou um bonde. Quis entrar, mas não havia lugar. O farejador sugeriu que garantisse um número, e ele entrou na sala de espera.
Ganimard chamou seus dois assistentes e, sem tirar os olhos da sala de espera, disse‑lhes:
“Pare um carro… não, dois. Isso será melhor. Irei com um de vós e o seguiremos.”
Os homens obedeceram. Contudo, Baudru não apareceu. Ganimard entrou na sala de espera. Estava vazia.
“Idiota que sou!” murmurou, “esqueci‑me que havia outra saída.”
Havia um corredor interno que ia da sala de espera até a rue Saint‑Martin. Ganimard correu por ele e chegou a tempo de observar Baudru no topo do bonde Batignolles‑Jardin de Plates, enquanto fazia a curva na rue de Rivoli. Correu e agarrou o bonde. Mas havia perdido seus dois assistentes. Tinha de prosseguir a perseguição sozinho. Em sua ira, sentiu‑se inclinado a agarrar o homem pelo colarinho sem cerimônia. Não seria, porém, com premeditação e por artifício engenhoso que seu suposto imbecil o separou dos assistentes?
Olhou para Baudru. Este
Seu marido lhe disse:
— Tenho um compromisso importante, minha querida, e não posso esperar mais tempo. Adeus.
Ele beijou‑a carinhosamente e foi embora. Sua esposa lhe devolveu alguns beijos e acenou com o lenço. O apito soou e o trem pôs‑se em movimento.
Nesse exato momento, e apesar dos protestos dos guardas, a porta foi aberta, e um homem precipitou‑se para o nosso compartimento. Minha companheira, que estava em pé ajeitando a bagagem, soltou um grito de terror e desabou no assento. Não sou covarde — longe disso —, mas confesso que tais intrusões de última hora são sempre desconcertantes. Possuem um aspecto suspeito, antinatural.
Contudo, a aparição do recém‑chegado modificou enormemente a impressão desfavorável produzida por sua ação precipitada. Vinha vestido de forma correta e elegante, usava uma gravata de bom gosto, luvas adequadas, e seu rosto era refinado e inteligente. Mas, onde, diabos, eu já tinha visto esse rosto? Porque, sem sombra de dúvida, eu o tinha visto. E ainda assim a lembrança era tão vaga e indistinta que me parecia inútil tentar recordá‑la naquele instante.
Então, dirigindo minha atenção à senhora, espantei‑me com o pálido e a ansiedade que vi em seu semblante. Ela olhava para a vizinha — ocupavam assentos do mesmo lado do compartimento — com uma expressão de intenso alarme, e percebi que uma das mãos trêmulas dela deslizava lentamente em direção a uma pequena bolsa de viagem que jazia no assento a cerca de cinquenta‑centímetros dela. Terminou por agarrá‑la e puxá‑la nervosamente para si. Nossos olhos se encontraram, e li em seus tanto ansiedade e medo que não pude evitar falar‑lhe:
— Está doente, madame? Quer que eu abra a janela?
Sua única resposta foi um gesto indicando que temia nosso companheiro. Sorri, como fizera o marido dela, encolhi os ombros e, em pantomima, expliquei‑lhe que não tinha nada a temer, que eu estava ali, e que, além disso, o cavalheiro parecia ser um indivíduo muito indefeso. Nesse instante, ele se voltou para nós, examinou‑nos de pé a cabeça, acomodou‑se então em seu canto e não nos deu mais atenção.
Depois de um breve silêncio, a senhora, como se tivesse reunido toda a sua energia para um ato desesperado, disse‑me, numa voz quase inaudível:
— Sabe quem está no nosso trem?
— Quem?
— Ele… ele… garanto…
— Quem é ele?
— Arsène Lupin!
Ela não tirou os olhos do nosso companheiro, e foram ele, e não eu, as sílabas daquele nome inquietante que proferiu. Ele puxou o chapéu sobre o rosto. Seria isso para ocultar a agitação ou, simplesmente, para se ajeitar para o sono? Então, eu lhe disse:
— Ontem, por contumácia, Arsène Lupin foi sentenciado a vinte anos de prisão em trabalhos forçados. Portanto, é improvável que ele fosse tão imprudente hoje, a ponto de se mostrar em público. Além disso, os jornais anunciaram sua aparição na Turquia desde a fuga da Santé.
— Mas ele está neste trem neste exato momento — proclamou a senhora, com a óbvia intenção de ser ouvida pelo nosso companheiro — meu marido é um dos diretores do serviço penitenciário, e foi o próprio chefe‑de‑estação que nos informou que se procurava Arsène Lupin.
— Podem ter‑se enganado…
— Não; ele foi visto na sala de espera. Comprou uma passagem de primeira classe para Rouen.
— Desapareceu. O guarda da porta da sala de espera não o viu passar, e supõe‑se que ele tenha entrado no expresso que parte dez minutos depois de nós.
— Nesse caso, terão certeza de prendê‑lo.
— A menos que, no último momento, ele tenha saltado desse trem para vir aqui, para o nosso trem… o que é bastante provável… o que é quase certo.
— Se for assim, será preso da mesma forma; pois os empregados e guardas, sem dúvida, observarão sua passagem de um trem ao outro e, quando chegarmos a Rouen, o prenderão ali.
— Ele — nunca! Encontrará algum meio de fuga.
— Nesse caso, desejo‑lhe «bon voyage».
— Mas, entretanto, pense no que ele pode fazer!
— O quê?
— Não sei. Pode fazer qualquer coisa.
Ela estava sobremaneira agitada, e, verdadeiramente, a situação justificava, até certo ponto, tal excitação nervosa. Senti‑me impelido a dizer‑lhe:
— Claro que há muitas coincidências estranhas, mas não precisa temer. Admitindo que Arsène Lupin está neste trem, ele não cometerá indiscrição; ficará mais que feliz em escapar do perigo que já o ameaça.
Minhas palavras não a tranquilizaram, porém ela permaneceu em silêncio por um tempo. Desdobrei meus jornais e li as reportagens do julgamento de Arsène Lupin, mas, como não continham nada de novo para mim, não me interessaram muito. Além do mais, eu estava cansado e sonolento. Senti as pálpebras fechar e a cabeça cair.
— Mas, monsieur, não vai dormir!
Ela agarrou meu jornal e olhou‑me com indignação.
— Certamente que não — respondi.
— Isso seria muito imprudente.
— Claro — assenti.
Lutei para permanecer acordado. Olhei pela janela a paisagem e as nuvens passageiras, mas em pouco tempo tudo se tornou confuso e indistinto; a imagem da senhora nervosa e do cavalheiro sonolento apagou‑se da memória, e eu mergulhei nas profundezas tranquilizadoras de um sono profundo. A serenidade da minha resposta foi logo perturbada por sonhos inquietantes, nos quais uma criatura que desempenhara o papel e que carregava o nome de Arsène Lupin ocupava lugar importante. Ele apareceu‑me com as costas carregadas de objetos de valor; saltava muros e saqueava castelos. Mas os contornos daquela criatura, que já não era mais Arsène Lupin, assumiram forma mais definida. Aproximou‑se de mim, crescendo cada vez maior, lançou‑se ao compartimento com incrível agilidade e pousou exatamente sobre o meu peito. Com um grito de medo e dor, despertei. O homem, o viajante, nosso companheiro, com o joelho sobre o meu peito, segurou‑me pela garganta.
Minha visão estava muito indistinta, pois meus olhos estavam banhados de sangue. Via a senhora, num canto do compartimento, convulsionando de medo. Tentei nem mesmo resistir. Além disso, não tinha força. As têmporas latejavam; eu estava quase estrangulado. Mais um minuto, e teria exalado o último suspiro. O homem deve ter percebido, pois afrouxou a pressão, mas não retirou a mão. Então tomou um cordão, no qual preparara um nó escorregadio, e amarrou meus pulsos. Num instante, estava atado, amordaçado e indefeso.
Certamente, realizou o truque com uma facilidade e habilidade que revelavam a mão de um mestre; era, sem dúvida, um ladrão profissional. Nem palavra, nem movimento nervoso; só frieza e audácia. E eu ali, deitado no banco, atado como uma múmia, eu — Arsène Lupin!
Não era nada de graça, e ainda assim, apesar da gravidade da situação, apreciei vivamente o humor e a ironia que lhe conferiam. Arsène Lupin capturado e atado como um novato! Roubado como se eu fosse um rústico inculto — pois, entenda‑se, o patife me havia privado da bolsa e da carteira! Arsène Lupin, vítima, enganado, vencido… que aventura!
A senhora não se moveu. Ele nem percebeu a presença dela. Contentou‑se em recolher a bolsa de viagem que havia caído ao chão e retirar dela os joias, a bolsa, e os adereços de ouro e prata que continha. A senhora abriu os olhos, tremeu de medo, tirou os anéis dos dedos e entregou‑os ao homem como se quisesse poupá‑lo de algum inconveniente. Ele pegou os anéis e olhou‑a. Ela desmaiou.
Então, totalmente impassível, reassentou‑se, acendeu um cigarro e passou a examinar o tesouro que havia adquirido. O exame lhe deu plena satisfação.
Mas eu não ficava tão satisfeito. Não falo dos doze mil francos dos quais fui indevidamente privado: foi apenas uma perda temporária, pois eu tinha certeza de que recuperaria aquele dinheiro após um breve atraso, bem como os papéis importantes contidos na minha carteira: projetos, especificações, endereços, listas de correspondentes e cartas comprometedoras. Mas, por ora, uma questão mais imediata e grave me inquietava: como terminaria esse caso? Qual seria o desfecho desta aventura?
Como pode imaginar, a perturbação causada por minha passagem pela estação Saint‑Lazare não escapou ao meu perceber. Ao visitar amigos que me conheciam sob o nome de Guillaume Berlat, e entre os quais minha semelhança a Arsène Lupin era motivo de muitas brincadeiras inocentes, não pude assumir disfarce, e minha presença foi notada.
Portanto, indubitavelmente, o comissário de polícia de Rouen, notificado por telégrafo e assistido por inúmeros agentes, aguardaria o trem, interrogaria todos os passageiros suspeitos e procederia à busca dos vagões.
É claro que eu havia previsto tudo isso, mas não me perturbou, pois estava certo de que a polícia de Rouen não seria mais astuta que a de Paris e que eu poderia escapar ao reconhecimento; bastaria eu exibir despreocupadamente meu cartão de «député», graças ao qual havia inspirado total confiança ao porteiro da Saint‑Lazare. — Mas a situação mudou drasticamente. Não estava mais livre. Era impossível tentar um dos meus truques habituais. Em um dos compartimentos, o comissário encontraria Mon Arsène Lupin, atado de mãos e pés, dócil como um cordeiro, pronto para ser atirado a um vagão‑carro de prisão. Bastaria aceitar a entrega da encomenda, como se fosse mercadoria ou uma cesta de frutas e legumes. Contudo, para evitar tal desfecho vergonhoso, o que poderia fazer? — atado e amordaçado, como eu estava? E o trem seguia rumo a Rouen, a única estação seguinte.
Apresentou‑se outro problema, que me interessava menos, mas cuja solução despertou minha curiosidade profissional. Quais eram as intenções do meu companheiro trapaceiro? Claro que, se estivesse só, poderia, ao chegarmos a Rouen, sair do vagão lenta e destemidamente. Mas a senhora? Assim que a porta do compartimento fosse aberta, a senhora, agora tão quieta e humilde, gritaria e pediria socorro. Esse era o dilema que me deixava perplexo! Por que ele não a reduzira a um estado de indeficiência semelhante ao meu? Isso lhe daria amplo tempo para desaparecer antes que seu duplo crime fosse descoberto.
Ele ainda fumava, com os olhos fixos na janela agora riscada por gotas de chuva. Num instante, virou‑se, pegou meu horário e o consultou.
A senhora teve de fingir continuação da inconsciência para enganar o inimigo. Mas ataques de tosse
Ah! Devo confessar que, ao percorrer os bulevares que circundam a velha cidade normanda, ao volante do meu veloz Moreau‑Lepton de trinta e cinco cavalos, experimentei um profundo sentimento de orgulho, e o motor respondeu, simpaticamente, aos meus desejos. À direita e à esquerda, as árvores voavam ao nosso passo com rapidez espantosa, e eu, livre, fora de perigo, tinha apenas de tratar dos meus pequenos assuntos pessoais com os dois honrados representantes da polícia de Rouen que se sentavam atrás de mim. Arsène Lupin estava à procura de Arsène Lupin!
Modestos guardiões da ordem social — Gaston Delivet e Honoré Massol — quão valiosa foi a vossa assistência! O que teria feito sem vós? Sem vós, muitas vezes, na encruzilhada, poderia ter tomado a rota errada! Sem vós, Arsène Lupin teria cometido um engano, e o outro teria escapado!
Mas o fim ainda não havia chegado. Longe disso. Ainda precisava capturar o ladrão e recuperar os papéis roubados. Sob nenhuma circunstância meus dois acólitos poderiam ver esses papéis, muito menos apoderar‑se deles. Esse era um ponto que poderia dar-me alguma dificuldade.
Chegámos a Darnétal três minutos após a partida do comboio. É verdade que tive a consolação de saber que um homem trajado com um sobretudo cinzento e colarinho de veludo preto tomara o comboio na estação. Comprara um bilhete de segunda classe para Amiens. Certamente, meu início como detetive fora promissor.
Delivet disse‑me:
— O comboio é expresso, e a próxima parada é Montérolier‑Buchy em dezenove minutos. Se não chegarmos lá antes de Arsène Lupin, ele poderá seguir para Amiens, ou mudar para o comboio que vai a Clères e, a partir daí, alcançar Dieppe ou Paris.
— Quão longe de Montérolier?
— Vinte e três quilómetros.
— Vinte e três quilómetros em dezenove minutos… Chegaremos antes dele.
Partimos novamente! Nunca antes meu fiel Moreau‑Repton respondeu à minha impaciência com tal ardor e regularidade. Participou da minha ansiedade. Endossou a minha determinação. Compreendeu a minha animosidade contra aquele infame Arsène Lupin. O patife! O traidor!
— Vire à direita — bradou Delivet —, depois à esquerda.
Voávamos quase sem tocar o chão. Os marcos kilométricos pareciam pequenas bestas tímidas que desapareciam ao nosso chegar. De súbito, numa curva da estrada, avistámos um vórtice de fumo. Era o Expresso do Norte. Por um quilómetro, foi um combate, lado a lado, porém desigual, cujo desfecho era certo. Ganhámos a corrida por vinte comprimentos.
Em três segundos estávamos na plataforma, em frente aos vagões de segunda classe. As portas abriram‑se, e alguns passageiros desembarcaram, mas não o meu ladrão. Fizemos a busca nos compartimentos. Nenhum sinal de Arsène Lupin.
— Sapristi! — exclamei —, ele deve ter me reconhecido no automóvel enquanto corríamos, lado a lado, e pulou do comboio.
— Ah! ali está agora! a cruzar os trilhos.
Lancei-me à perseguição do homem, seguido pelos meus dois acólitos, ou melhor, por um deles, pois o outro, Massol, revelou‑se corredor de velocidade e resistência excepcionais. Em poucos momentos, fez um ganho apreciável sobre o fugitivo. O homem notou‑o, saltou sobre uma sebe, correu pelos campos e entrou num bosque denso. Quando chegámos a esse bosque, Massol aguardava‑nos. Não foi mais além, temendo perder‑nos.
— Muito certo, meu caro amigo — disse eu —. Depois de tal corrida, a nossa presa deve estar sem fôlego. Vamos apanhá‑lo agora.
Examinei o entorno com a ideia de proceder sozinho à prisão do fugitivo, a fim de recuperar os meus papéis, sobre os quais as autoridades, sem dúvida, farão muitas perguntas desagradáveis. Depois voltei aos meus companheiros e disse:
— É tudo bem simples. Tu, Massol, ocupas o posto à esquerda; tu, Delivet, à direita. Dali podereis observar toda a linha posterior da mata, e ele não poderá fugir sem que vos vejam, exceto pela ravina, e eu a vigiarei. Se não sair voluntariamente, entrarei e empurrá‑lo para um ou outro de vós. Basta aguardarem. Ah! Esqueci‑me: caso eu precise de vós, um tiro de pistola.
Massol e Delivet afastaram‑se para os respectivos postos. Assim que desapareceram, entrei no bosque com a maior cautela, a fim de não ser visto nem ouvido. Encontrei matas densas, por onde haviam sido talhadas trilhas estreitas, mas os ramos pendentes forçaram‑me a adotar postura curvada. Uma dessas trilhas conduziu‑a a uma clareira onde encontrei pegadas na relva úmida. Segui‑as; levaram‑me à base de um monte coroado por um chalé abandonado e dilapidado.
— Deve estar ali — pensei —. É um refúgio bem escolhido.
Deslizei‑me cautelosamente ao lado do edifício. Um leve ruído informou‑me que ele estava lá; então, por uma abertura, avistei‑o. As costas estavam voltadas para mim. Em dois saltos, estava sobre ele. Tentou disparar um revólver que segurava na mão. Mas não teve tempo. Joguei‑o ao chão, de modo que os braços lhe ficaram sob o corpo, torcidos e impotentes, enquanto o segurava com o joelho sobre o peito.
— Ouve, meu rapaz — sussurrei ao ouvido dele —. Sou Arsène Lupin. Deves entregar‑me, imediatamente e com graça, a minha carteira e os bijuterias da senhora, e, em troca, salvarei‑te da polícia e admitir‑te‑e entre os meus amigos. Uma palavra: sim ou não?
— Sim — murmurou ele.
— Muito bem. A tua fuga, esta manhã, foi bem planeada. Congratulo‑te.
Levantei‑me. Ele remexeu no bolso, tirou uma grande faca e tentou golpear‑me com ela.
— Imbecil! — exclamei.
Com uma mão, aparo o ataque; com a outra, dou-lhe um golpe agudo na artéria carótida. Ele cai — atordoado!
Na minha carteira, recuperei os papéis e as notas de banco. Por curiosidade, tomei as dele. Sobre um envelope, endereçado a ele, li o nome: Pierre Onfrey. Surpreendeu‑me. Pierre Onfrey, o assassino da rue Lafontaine em Auteuil! Pierre Onfrey, quem degolou Madame Delbois e as duas filhas dela. Inclinei‑me sobre ele. Sim, eram esses os traços que, no compartimento, evocaram em mim a memória de um rosto que então não conseguia recordar.
Mas o tempo corria. Coloquei num envelope duas notas de cem francos cada, com um cartão contendo as palavras: “Arsène Lupin aos seus dignos colegas Honoré Massol e Gaston Delivet, como pequeno sinal da sua gratidão.” Depositei‑o num local de destaque na sala, onde eles certamente o encontrariam. Ao lado, pus a bolsa de Madame Renaud. Por que não a devolveria à senhora que me fizera amizade? Confesso que dela retirei tudo o que tivesse algum interesse ou valor, deixando apenas um pente de concha, um bastão de batom Dorin para os lábios e uma bolsa vazia. Mas, sabe, negócios são negócios. E, além disso, o marido dela exerce tal vocação desonrosa!
O homem começava a recobrar a consciência. O que fazer? Não podia salvá‑lo nem condená‑lo. Assim, tomei o revólver dele e disparei um tiro ao ar.
— Os meus dois acólitos virão e atenderão ao caso dele — disse a mim mesmo, enquanto fugia pela estrada através da ravina. Vinte minutos depois, encontrava‑me sentado no meu automóvel.
Às quatro horas, enviei um telegrama aos meus amigos em Rouen, informando que um acontecimento inesperado impediria a visita prometida. Entre nós, considerando o que os amigos agora sabem, a visita fica adiada indefinidamente. Uma cruel desilusão para eles!
Às seis horas eu já estava em Paris. Os jornais da noite informaram‑me que Pierre Onfrey fora finalmente capturado.
No dia seguinte — não desprezemos as vantagens de uma publicidade juiciosa — o *Echo de France* publicou a seguinte notícia sensacional:
“Ontem, perto de Buchy, após inúmeros incidentes excitantes, Arsène Lupin efetuou a prisão de Pierre Onfrey. O assassino da rue Lafontaine havia assaltado Madame Renaud, esposa do diretor do serviço penitenciário, num vagão da linha Paris‑Havre. Arsène Lupin devolveu a Madame Renaud a bolsa que continha suas joias e ofereceu generosa recompensa aos dois detectives que o assistiram nessa dramática captura.”
V. O Colar da Rainha
Duas ou três vezes por ano, em ocasiões de extraordinária importância, como os bailes na Embaixada Austríaca ou as soirées de Lady Billingstone, a Condessa de Dreux‑Soubise ostentava sobre os seus ombros alvos “O Colar da Rainha”.
Era, de fato, o famoso colar, o lendário colar que Bohmer e Bassenge, joalheiros da corte, criaram para Madame Du Barry; o verdadeiro colar que o Cardeal de Rohan‑Soubise pretendia dar a Maria Antonieta, Rainha da França; e o mesmo que a aventureira Jeanne de Valois, Condessa de La Motte, destroçou numa noite de fevereiro de 1785, com a ajuda do marido e do cúmplice Rétaux de Villette.
Para dizer a verdade, apenas a montagem era genuína. Rétaux de Villette a manteve, enquanto o Conde de La Motte e a sua esposa dispersavam pelos quatro ventos os belos cristais tão cuidadosamente escolhidos por Bohmer. Mais tarde, ele vendeu a montagem a Gaston de Dreux‑Soubise, sobrinho e herdeiro do Cardeal, que recomprou os poucos diamantes que ainda estavam na posse do joalheiro inglês Jeffreys; suplementou‑os com outras pedras do mesmo tamanho, porém de qualidade muito inferior, e assim restaurou o magnífico colar à forma que tinha quando saiu das mãos de Bohmer e Bassenge.
Por quase um século, a casa de Dreux‑Soubise se vangloriou da posse dessa joia histórica. Embora circunstâncias adversas tivessem reduzido grandemente a sua fortuna, preferiam cortar as despesas domésticas a desfazer‑se desse relicário real. Mais particularmente, o conde presente agarrava‑o como homem se agarra ao lar de seus antepassados. Por prudência, alugou um cofre no Crédit Lyonnais para guardá‑lo. Foi buscá‑lo pessoalmente na tarde do dia em que a esposa desejava usá‑lo, e ele mesmo o trouxe de volta na manhã seguinte.
Nessa noite específica, na recepção dada no Palais de Castille, a Condessa alcançou um sucesso notável; e o Rei Cristovão, em cuja honra a festa foi oferecida, comentou sobre a sua graça e beleza. As mil facetas do diamante cintilavam e reluziam como chamas ao redor do seu pescoço e ombros esculpidos, e pode‑se dizer que ninguém senão ela poderia suportar o peso de tal ornamento com tanta leveza e elegância.
Foi um duplo triunfo, e o Conde de Dreux ficou extremamente exultante ao regressarem ao seu quarto na velha casa do faubourg Saint‑Germain. Orgulhava‑se da esposa e, talvez, igualmente do colar que conferira brilho adicional à sua nobre casa por gerações. A esposa, também, considerava o colar com quase infantil vaidade, e não sem relutância retirava‑o dos ombros e entregava ao marido, que o admirava tão apaixonadamente como se nunca o houvesse visto. Então, colocando‑o em seu estojo de couro vermelho, estampado com as armas do Cardeal, adentrou uma sala adjacente que era simplesmente um alcova ou armário recortado de seu quarto, e que só podia ser ingressado por uma porta aos pés da cama. Como‑fora em ocasiões anteriores, escondeu‑o numa prateleira alta entre baús de chapéus e pilhas de linho. Fechou a porta e retirou‑se.
Na manhã seguinte, levantou‑se por volta das nove horas, pretendendo ir ao Crédit Lyonnais antes do pequeno‑almoço. Vestiu‑se, tomou uma chávena de café e foi aos estábulos dar as suas ordens. A condição de um dos cavalos o preocupou. Fez‑o exercitar na sua presença. Depois regressou à esposa, que ainda não havia deixado o quarto. A criada dela penteava-lhe o cabelo. Quando o marido entrou, ela perguntou:
— Vai‑se fora?
— Sim, até ao banco.
— Claro. Isso é sensato.
Ele entrou no armário; mas, após alguns segundos, e sem nenhum sinal de espanto, perguntou:
— Tomaste‑o, minha cara?
— O quê? … Não, não tomei nada.
— Deveria ter‑o movido.
— De modo algum. Nem sequer abri aquela porta.
Apareceu à porta, desconcertado, e gaguejou, numa voz quase incompreensível:
— Não… Não foste tu? … Então…
Ela apressou‑se a socorrê‑lo, e juntos fizeram uma busca minuciosa, atirando as caixas ao chão e revirando as pilhas de linho. Então o conde disse, bastante desanimado:
— É inútil procurar mais. Coloquei‑o aqui, nesta prateleira.
— Deve estar enganado.
— Não, não, estava nesta prateleira — em nenhum outro lugar.
Acenderam uma vela, pois o quarto estava bastante escuro, e então retiraram todo o linho e demais objetos que o aposentavam. E, quando o quarto ficou vazio, confessaram, desesperados, que o famoso colar havia desaparecido. Sem perder tempo em lamentações vãs, a condessa notificou o comissário de polícia, Mon. Valorbe, que chegou de imediato e, após ouvir a história, interrogou o conde:
— Tens certeza de que ninguém passou pelo teu quarto durante a noite?
— Absoluta certeza, pois sou um dorminhoco muito leve. Além disso, a porta do quarto estava trancada, e lembro‑me de a destrancar esta manhã quando a minha esposa chamou a criada.
— E não há outra entrada para o armário?
— Nenhuma.
— Nenhuma janela?
— Sim, mas está fechada.
— Vou olhar.
Acenderam‑se velas, e Mon. Valorbe observou de imediato que a metade inferior da janela estava coberta por uma grande prensa que, contudo, era tão estreita que não tocava a moldura de nenhum dos lados.
— Em que abre essa janela?
— Numa pequena corte interior.
— E há um piso acima disso?
— Dois; mas, ao nível do piso dos servos, há uma grade fechada sobre a corte. Por isso o quarto está tão escuro.
Quando a prensa foi movida, descobriram que a janela estava travada, o que não seria o caso se alguém tivesse entrado por ali.
— A menos — disse o conde —, que tenham saído pelo nosso quarto.
— Nesse caso, terias encontrado a porta destrancada.
O comissário considerou a situação um momento, então perguntou à condessa:
— Algum dos teus servos sabia que usavas o colar na noite passada?
— Certamente; não o escondi. Mas ninguém sabia que estava oculto naquele armário.
— Ninguém?
— Ninguém… a não ser…
— Esteja certa, madame, pois é um ponto muito importante.
Virou‑se para o marido e disse:
— Pensava em Henriette.
— Henriette? Ela não sabia onde o guardávamos.
— Tens a certeza?
— Quem é essa mulher Henriette? — perguntou Mon. Valorbe.
— Uma colega de escola, deserdada pela família por ter casado abaixo de sua condição. Após a morte do marido, ofereci‑lhe um apartamento nesta casa para ela e o filho. É habilidosa com a agulha e já fez algum trabalho para mim.
— Em que andar fica?
— No mesmo que nós… ao final do corredor… e acho que a janela da cozinha dela…
— Abre para esta pequena corte, não é?
— Sim, bem em frente à nossa.
Mon. Valorbe então pediu para ver Henriette. Foram ao apartamento dela; ela estava a costurar, enquanto o filho Raoul, de cerca de seis anos, sentava‑se ao seu lado a ler. O comissário ficou surpreso ao ver o miserável apartamento fornecido à mulher. Consistia numa única divisão sem lareira, e numa cozinha muito pequena. O comissário prosseguiu ao interrogá‑la. Ela pareceu sobrecarregada ao saber do furto. Na noite anterior, ela própria vestira a condessa e pôs o colar nos seus ombros.
— Bom Deus! — exclamou —, não pode ser!
— E não tens a menor suspeita? Não há suspeita alguma? É possível que o ladrão tenha passado pelo teu quarto?
Riu‑se de bom grado, nunca suspeitando que poderia ser objeto de suspeição.
— Mas eu não deixei o meu quarto. Nunca saio. E, talvez, não viste?
Abriu a janela da cozinha e disse:
— Vês, há pelo menos três metros até a borda da janela oposta.
— Quem te disse que supúnhamos que o roubo poderia ter sido cometido assim?
— Mas… o colar estava no armário, não estava?
— Como sabes isso?
— Ah, sempre soube que ficava lá à noite. Foi mencionado na minha presença.
O rosto, ainda jovem, trazia indícios inconfundíveis de tristeza e resignação. Agora assumia uma expressão de ansiedade, como se algum perigo a ameaçasse. Puxou o filho para perto. A criança segurou‑a a mão e beijou‑a carinhosamente.
Quando ficaram sós novamente, o conde disse ao comissário:
— Não suponho que suspeites de Henriette. Posso responder por ela. Ela é a própria honestidade.
— Concordo plenamente — respondeu Mon. Valorbe. — No máximo, pensei que pudesse haver uma cumplicidade inconsciente. Mas confesso que até essa teoria deve ser abandonada, pois não ajuda a resolver o problema que agora temos diante de nós.
O comissário da polícia abandonou a investigação, que passou a ser conduzida e concluída pelo juiz de instrução. Interrogou os servos, examinou o estado do ferrolho, experimentou a abertura e o fechamento da janela do armário, e explorou a pequena corte de cima a baixo. Tudo foi em vão. O ferrolho permanecia intacto. A janela não podia ser aberta nem fechada por fora.
As indagações concentraram‑se sobretudo em Henriette, pois, apesar de tudo, sempre se voltavam para ela. Fizeram uma investigação minuciosa de sua vida passada e constataram que, nos últimos três anos, saiu de casa apenas quatro vezes, e suas saídas foram adequadamente justificadas. De fato, atuava como criada e costureira da condessa, que a tratava com grande rigidez e até severidade.
Ao fim de uma semana, o juiz de instrução não obteve informação mais concreta que o comissário. O juiz disse:
— Admitindo que conhecemos o culpado, o que não fazemos, confrontamo‑nos com o fato de que não sabemos como o furto foi cometido. Deparamos‑nos com dois obstáculos: uma porta e uma janela — ambas fechadas e travadas. É, pois, um mistério duplo. Como alguém poderia entrar e, sobretudo, como poderia escapar, deixando atrás de si uma porta trancada e uma janela travada?
Ao fim de quatro meses, a opinião secreta do juiz foi de que o conde e a condessa, pressionados financeiramente — situação normal para eles — haviam vendido o Colar da Rainha. Encerrou a investigação.
A perda da famosa joia foi um golpe severo para os Dreux‑Soubise. Seu crédito, já não sustentado pelo fundo de reserva que tal tesouro representava, viu‑se confrontado a credores mais exigentes e a agiotas. Foram obrigados a cortar tudo ao ponto de vender ou hipotecar cada artigo que possuísse algum valor comercial. Em suma, teria sido sua ruína, se duas grandes legiões de parentes distantes não os tivessem salvado.
O orgulho também sofreu um declínio, como se tivessem perdido um quadrante de seu escudo. E, curiosamente, foi sobre sua antiga colega de escola, Henriette, que a condessa descarregou sua irritação. Para ela, a condessa exibiu os sentimentos mais rancorosos, acusando‑a abertamente. Primeiro, Henriette foi relegada aos quartos dos servos e, no dia seguinte, dispensada.
Por algum tempo, o conde e a condessa levaram uma vida tranquila. Viajaram muito. Apenas um incidente notável ocorreu nesse período. Alguns meses após a partida de Henriette, a condessa foi surpreendida ao receber e ler a seguinte carta, assinada por Henriette:
— Madame,
— Não sei como agradecer‑lhe; pois foi você, não foi, que me enviou isso? Não poderia ter sido ninguém mais. Só você sabe onde eu moro. Se estiver enganada, perdoe‑me e aceite os meus sinceros agradecimentos pelos favores passados…
— O que significava a carta? Os favores presentes ou passados da condessa consistiam, principal‑mente, em injustiça e descaso. Por que então essa carta de agradecimento?
Quando lhe pediram explicação, Henriette respondeu que recebera uma carta, pelos correios, contendo dois bilhetes de mil francos cada. O envelope, que ela juntou à resposta, trazia o carimbo da postagem de Paris e estava endereçado numa caligrafia evidentemente disfarçada. De onde, então, vinham aqueles dois mil francos? Quem os enviara? E por que os enviara?
Henriette recebeu carta semelhante e soma igual doze meses depois. E uma terceira vez; e uma quarta; e a cada ano, durante seis anos, com a diferença de que, no quinto e sexto anos, a quantia foi dobrada. Houve outra divergência: as autoridades postais, tendo apreendido uma das cartas sob o pretexto de não estar registrada, enviaram as duas últimas devidamente segundo as normas postais, a primeira datada de Saint‑Germain, a outra de Suresnes. O escritor assinou a primeira “Anquety” e a outra “Péchard”. Os endereços que deu eram falsos.
Ao fim de seis anos, Henriette morreu, e o mistério ficou sem solução.
* * * * *
Todos esses fatos são de conhecimento público. O caso foi um daqueles que despertam o interesse da gente, e foi uma curiosa coincidência que esse colar, que causara grande alvoroço na França ao fim do século XVIII, criasse outro ao fim do século seguinte. Mas o que estou prestes a relatar é conhecido apenas das partes diretamente interessadas e de poucos outros, a quem o conde exigiu promessa de sigilo. Como é provável que, algum dia, essa promessa se quebre, não hesito em rasgar o véu e revelar a chave do mistério, a explicação da carta publicada nos jornais matinais há dois dias; uma carta extraordinária que aumentou, se possível, as névoas e sombras que envolvem esse drama inescrutável.
Há cinco dias, vários convidados jantavam com o conde de Dreux‑Soubise. Havia entre eles várias damas, incluindo as duas sobrinhas e a prima dele, e os seguintes cavalheiros: o presidente de Essaville, o deputado Bochas, o cavaleiro Floriani, que o conde conhecera na Sicília, e o general Marquês de Rouzières, antigo amigo de clube.
Após a refeição, as damas serviram o café, concedendo aos cavalheiros permissão para fumar seus cigarrinhos, desde que não abandonassem o salão. A conversa era geral e, finalmente, um dos convidados ousou mencionar crimes célebres. Isso deu ao Marquês de Rouzières, que se deleitava ao provocar o conde, oportunidade de citar o caso do Colar da Rainha, tema que o conde detestava.
Cada um manifestou sua própria opinião sobre o caso; e, claro, suas várias teorias eram não só contraditórias, mas impossíveis.
— E você, senhor — disse a condessa ao cavaleiro Floriani —, qual é a sua opinião?
— Ah! Eu… eu não tenho opinião, madame.
Todos os convidados protestaram; pois o cavaleiro acabara de relatar, de forma entretenida, várias aventuras nas quais participou com seu pai, magistrado em Palermo, o que estabelecia seu juízo e gosto para tais situações.
— Confesso — disse ele — que às vezes consegui desvendar mistérios que os detetives mais astutos abandonaram; porém não pretendo ser Sherlock Holmes. Além disso, sei muito pouco sobre o caso do Colar da Rainha.
Todos se voltaram então para o conde, que se viu, relutantemente, obrigado a narrar todas as circunstâncias ligadas ao roubo. O cavaleiro ouviu, refletiu, fez algumas perguntas e afirmou:
— É muito estranho… à primeira vista, o problema parece muito simples.
O conde encolheu os ombros. Os demais se aproximaram do cavaleiro, que prosseguiu num tom dogmático:
— Como regra geral, para encontrar o autor de um crime ou roubo, é preciso determinar como tal crime ou roubo foi cometido, ou ao menos como poderia ter sido cometido. No caso presente, nada é mais simples, porque estamos cara a cara não com várias teorias, mas com um fato positivo, isto é: o ladrão só poderia entrar pela porta da câmara ou pela janela do gabinete. Agora, ninguém pode abrir uma porta trancada por fora. Portanto, ele deve ter entrado pela janela.
— Mas ela estava fechada e trancada, e nós a encontramos trancada depois — declarou o conde.
— Para fazer isso — continuou Floriani, ignorando a interrupção — ele precisaria simplesmente construir uma ponte, uma tábua ou uma escada, entre a sacada da cozinha e a beirada da janela, e como o cofre‑de‑joias…
— Mas repito que a janela estava trancada — exclamou o conde, impaciente.
Dessa vez, Floriani foi obrigado a responder. Fez‑o com a maior tranquilidade, como se a objeção fosse o assunto mais insignificante do mundo.
— Admito que estava; mas não há um vão na parte superior da janela?
— Como sabe disso?
— Em primeiro lugar, isso era costume em casas daquela época; e, em segundo, sem tal vão o roubo não pode ser explicado.
— Sim, há um, mas estava fechado, como a janela. Por isso, não lhe demos atenção.
— Foi um erro; pois, se o tivesse examinado, teria descoberto que fora aberto.
— Mas como?
— Presumo que, como os demais, se abra por meio de um arame com um anel na extremidade inferior.
— Sim, mas não vejo…
— Agora, por um buraco na janela, uma pessoa poderia, com a ajuda de algum instrumento, digamos um cutelo com gancho na ponta, segurar o anel, puxar para baixo e abrir o vão.
O conde riu e disse:
— Excelente! Excelente! Seu plano está muito bem construído, mas esquece uma coisa, senhor, não há buraco na janela.
— Havia um buraco.
— Besteira, teríamos visto.
— Para ver, tem de procurar, e ninguém procurou. O buraco está lá; deve estar lá, ao lado da janela, na massa. Na vertical, claro.
O conde levantou‑se. Ficou muito agitado. Percorreu a sala duas ou três vezes, nervosamente; depois, aproximando‑se de Floriani, afirmou:
— Ninguém entrou nessa sala desde então; nada foi alterado.
— Muito bem, senhor, pode comprovar facilmente que minha explicação está correta.
— Não concorda com os fatos estabelecidos pelo juiz examinador. Você não viu nada, e ainda assim contradiz tudo o que vimos e sabemos.
Floriani não deu atenção à petulância do conde. Apenas sorriu e disse:
— Mon Dieu, senhor, apresento minha teoria; basta. Se estou errado, pode provar facilmente.
— Farei isso imediatamente… confesso que sua segurança…
O conde murmurou mais algumas palavras; então, subitamente, correu até a porta e saiu. Não se ouviu palavra em sua ausência; e esse profundo silêncio conferiu à situação um ar de quase trágica importância. Finalmente, o conde retornou. Estava pálido e nervoso. Dirigiu‑se aos amigos, com voz trêmula:
— Perdoem‑me… as revelações do cavaleiro foram tão inesperadas… nunca imaginei…
Sua esposa indagou‑o, ansiosa:
— Fale… o que há?
Ele gaguejou: — O buraco está lá, bem no ponto, ao lado da janela…
Agarrou o braço do cavaleiro e lhe disse, em tom imperioso:
— Agora, senhor, prossiga. Admito que tem razão até aqui, mas agora… não termina… continue… conte‑nos o resto.
Floriani soltou o braço delicadamente e, após um instante, prosseguiu:
— Bem, a meu ver, foi assim. O ladrão, sabendo que a condessa usaria o colar naquela noite, preparou sua passagem ou ponte durante sua ausência. Observou‑a pela janela e viu‑a esconder o colar. Depois, quebrou o vidro e puxou o anel.
— Ah! mas a distância era tão grande que seria impossível alcançar o travamento da janela através do vão.
— Então, se não pôde abrir a janela alcançando o vão, deve ter rastejado pelo vão.
— Impossível; é pequeno demais. Nenhum homem poderia passar por ele.
— Então não foi homem — declarou Floriani.
— O quê!
— Se o vão é pequeno demais para admitir um homem, deve ter sido uma criança.
— Uma criança!
— Não disse que sua amiga Henriette tinha um filho?
— Sim; um filho chamado Raoul.
— Então, muito provavelmente, foi Raoul quem cometeu o roubo.
— Que prova tem disso?
— Que prova! Muitas… Por exemplo—
Ele parou, refletiu um momento e continuou:
— Por exemplo, aquela passagem ou ponte. É improvável que a criança a trouxesse de fora da casa e a levasse embora sem ser observada. Teria usado algo próximo. Na pequena sala que Henriette usava como cozinha, havia prateleiras contra a parede onde guardava panelas e louças?
— Duas prateleiras, ao que me lembro.
— Tem certeza de que essas prateleiras estavam realmente fixadas aos suportes de madeira que as sustentavam? Pois, se não estavam, poderíamos supor que a criança as retirou, juntou‑as, formando assim a ponte. Talvez, também, como havia fogão, pudéssemos encontrar o cutelo curvado que usou para abrir o vão.
Sem dizer palavra, o conde saiu da sala; e, desta vez, os presentes não sentiram a ansiedade que antes os dominava. Confiavam que Floriani estava certo, e ninguém se surpreendeu quando o conde regressou e declarou:
— Foi a criança. Tudo o prova.
— Viu as prateleiras e o cutelo?
— Sim. As prateleiras foram desparafusadas, e o cutelo ainda está lá.
Mas a condessa exclamou:
— Melhor dizer que foi a mãe. Henriette é a culpada. Deve ter obrigado o filho—
— Não — declarou o cavaleiro — a mãe nada teve a ver.
— Besteira! moravam no mesmo quarto. A criança não poderia fazer isso sem o conhecimento da mãe.
— Verdade, viviam no mesmo quarto, mas tudo aconteceu no cômodo ao lado, durante a noite, enquanto a mãe dormia.
— E o colar? — disse o conde. — Teria sido encontrado entre as coisas da criança.
— Perdão! Ele estava fora. Na manhã em que o encontraram lendo, acabara de chegar da escola, e talvez o comissário de polícia, em vez de perder tempo com a inocente mãe, teria sido melhor procurar na escrivaninha da criança entre os cadernos escolares.
— Mas como explicar os dois mil francos que Henriette recebeu a cada ano? Não seriam prova de sua cumplicidade?
— Se fosse cúmplice, agradeceria-lhe por esse dinheiro? E não estava sob vigilância? Mas a criança, livre, podia ir a uma cidade vizinha, negociar com algum comerciante e vender um ou dois diamantes, como quisesse, desde que o dinheiro fosse enviado de Paris, e o procedimento repetido ano após ano.
Uma ansiedade indescritível oprimia o conde de Dreux‑Soubise e seus convidados. Havia algo na entonação e atitude de Floriani — algo a mais que a segurança do cavaleiro, que desde o início incomodava o conde. Existia um traço de ironia, que parecia mais hostil que simpático. Mas o conde fingiu rir e disse:
— Tudo isso é muito engenhoso e interessante, e congratulo‑o pela sua imaginação viva.
— Não, de modo algum — respondeu Floriani, com a maior gravidade — não imagino nada. Apenas descrevo os fatos como devem ter ocorrido.
— Mas o que sabe a respeito?
— O que o senhor mesmo me contou. Imagino a vida da mãe e do filho ali, no campo; a doença da mãe, as artimanhas e invenções do filho para vender as pedras preciosas a fim de salvar a vida da mãe, ou ao menos aliviar seus últimos momentos. Sua doença a vence. Ela morre. Os anos passam. O filho torna‑se homem; e então — e agora dou livre vazão à minha imaginação — suponhamos que o homem sinta o desejo de regressar à casa da infância, o faça, e lá encontre certas pessoas que suspeitam e acusam sua mãe… percebe a tristeza e o sofrimento de tal entrevista na própria casa onde o drama original se desenrolou?
Suas palavras ecoaram por alguns segundos no silêncio que se seguiu, e podia‑se ler nos rostos do conde e da condessa de Dreux um esforço perplexo para compreender seu sentido e, ao mesmo tempo, o medo e a angústia de tal compreensão. Por fim, o conde falou:
— Quem é o senhor, monsieur?
— Eu? O cavaleiro Floriani, que conhecestes em Palermo, e a quem tendes a boa vontade de convidar à vossa casa em várias ocasiões.
— Então, que significa esta história?
— Ah! nada! É simplesmente um passatempo, no que me diz respeito. Esforço‑me para retratar o prazer que o filho de Henriette, se ainda vive, teria ao dizer que foi o culpado, e que o fez porque a mãe estava infeliz, pois estava prestes a perder o emprego de criada, pelo qual vivia, e porque o filho sofria ao ver a dor da mãe.
Falou com emoção contida, levantou‑se parcialmente e inclinou‑se à condessa. Não restava dúvida de que o cavaleiro Floriani era filho de Henriette. Sua postura e palavras o proclamavam. Além disso, não era esse o seu óbvio intento e desejo de ser reconhecido como tal?
O conde hesitou. Que ação tomaria contra o ousado convidado? Um anel? Provocar escândalo? Desmascarar o homem que um dia o roubara? Mas isso foi há muito tempo! E quem acreditaria naquela história absurda do filho culpado? Não; melhor aceitar a situação e fingir não compreender o verdadeiro sentido. Então o conde, voltando‑se a Floriani, exclamou:
— Sua história é muito curiosa, muito divertida; gostei muito. Mas o que pensa que aconteceu ao jovem, esse filho modelo? Espero que não tenha abandonado a carreira na qual fez tão brilhante estreia.
— Ah! Certamente não.
— Depois de tal estreia! Roubar o Colar da Rainha aos seis anos; o famoso colar cobiçado por Maria‑Antoineta!
— E roubar, comentou Floriani, entrando no clima do conde, — sem lhe causar o menor incômodo, sem que ninguém pensasse em examinar a condição da janela, ou observar que o peitoril da janela estava demasiado limpo — esse peitoril que ele limpou para borrar as marcas que deixara na espessa poeira. Admitimos que bastava virar a cabeça de um menino daquela idade. Foi tudo tão fácil. Bastava desejar o objeto e estender a mão para apanhá‑lo.
— E ele estendeu a mão.
— As duas mãos — respondeu o cavaleiro, rindo.
Os companheiros ficaram atônitos. Que mistério cercava a vida do tal Floriani? Quão maravilhosa devia ser a vida daquele aventureiro, ladrão aos seis anos, que hoje, em busca de emoção ou, ao menos, para satisfazer um sentimento de ressentimento, ousou enfrentar sua vítima em sua própria casa, audaciosamente, ingenuamente, porém com toda a graça e delicadeza de um hóspede cortês!
Levantou‑se e aproximou‑se da condessa para despedir‑se. Ela recuou, inconscientemente. Ele sorriu.
— Ah! Madame, tem medo de mim! Exagerei meu papel de mágico de salão?
Ela se conteve e respondeu, com a habitual leveza:
— De modo algum, senhor. A lenda daquele filho obediente me intrigou muito, e fico satisfeita ao saber que meu colar teve destino tão brilhante. Mas não acha que o filho daquela mulher, Henriette, foi vítima de influência hereditária na escolha da sua vocação?
Ele estremeceu, sentindo o ponto, e respondeu:
— Tenho certeza; e, além disso, sua tendência natural ao crime devia ser muito forte, senão teria sido desencorajado.
— Por que assim?
— Porque, como deve saber, a maioria dos diamantes era falsa. Os únicos genuínos eram os poucos comprados ao joalheiro inglês; os demais foram vendidos, um a um, para atender às cruéis necessidades da vida.
— Ainda assim era o Colar da Rainha, senhor — replicou a condessa, altiva — e isso é algo que o filho de Henriette não poderia apreciar.
— Ele podia apreciar, madame, que, fosse real ou falso, o colar não passava de objeto de ostentação, emblema de orgulho sem sentido.
O conde fez gesto ameaçador, mas a esposa o deteve.
— Monsieur — disse ela — se o homem a que alude tem o menor senso de honra—
Interrompeu‑se, intimidada pela frieza de Floriani.
— Se esse homem tem o menor senso de honra — repetiu ele.
Sentiu que não ganharia nada falando assim com ele e, apesar da ira e indignação, tremendo de orgulho humilhado, dirigiu‑se a ele quase educadamente:
— Monsieur, a lenda conta que Rétaux de Villette, quando esteve em posse do Colar da Rainha, não desfigurou o cravo. Entendeu que os diamantes eram apenas o ornamento, o acessório, e que o cravo era a obra essencial, a criação do artista, e o respeitou por isso. Crê que esse homem sentiu o mesmo?
— Não duvido que o cravo ainda exista. A criança o respeitou.
— Pois bem, senhor, se algum dia o encontrar, dirá-lhe que ele mantém injustamente posse de uma relíquia que é propriedade e orgulho de certa família, e que, embora as pedras tenham sido removidas, o Colar da Rainha ainda pertencerá à casa de Dreux‑Soubise. Pertence a nós tanto quanto nosso nome ou nossa honra.
O cavaleiro respondeu, simplesmente:
— Direi isso, madame.
Curvou‑se perante ela, saudou o conde e os demais convidados e retirou‑se.
* * * * *
Quatro dias depois, a condessa de Dreux encontrou sobre a mesa do seu quarto um estojo de couro vermelho, ostentando o brasão do cardeal. Abriu‑o e descobriu o Colar da Rainha.
Mas, como tudo deve, na vida de quem busca unidade e lógica, convergir para o mesmo fim — e como um pequeno anuncio nunca faz mal —, no dia seguinte o Echo de France publicou estas linhas sensacionais:
— O Colar da Rainha, a famosa joia histórica roubada da família Dreux‑Soubise, foi recuperado por Arsène Lupin, que se apressou a devolvê‑lo ao legítimo dono. Não podemos elogiar o suficiente tal ato delicado e cavalheiresco.
VI. O Sete de Copas
Sou frequentemente questionado: “Como conheceu Arsène Lupin?”
Minha ligação com Arsène Lupin era bem conhecida. Os detalhes que reuni sobre esse homem misterioso, os fatos irrefutáveis que apresento, as novas provas que produzo, a interpretação que atribuo a certos atos dos quais o público só viu as manifestações exteriores sem conseguir descobrir os motivos secretos ou o mecanismo invisível, tudo isso estabelece, se não intimidade, ao menos relações amistosas e confidências regulares.
Mas como cheguei a conhecê‑lo? Por que fui escolhido como seu historiador? Por que eu, e não outra pessoa?
A resposta é simples: o acaso foi o único que presidiu à minha escolha; meu mérito não foi considerado. Foi o acaso que me colocou em seu caminho. Foi por acaso que participei de uma de suas aventuras mais estranhas e misteriosas; e por acaso que fui ator num drama do qual ele foi o maravilhoso diretor de palco; um drama obscuro e intrincado, repleto de acontecimentos tão excitantes que sinto certa vergonha ao me aventurar a descrevê‑lo.
O primeiro ato desenrola-se durante aquela memorável noite de 22 de junho, sobre a qual já tanto se disse. E, da minha parte, atribuo a conduta anômala da qual fui culpado naquela ocasião ao estado de espírito incomum em que me encontrava ao retornar para casa. Eu jantara com alguns amigos no restaurante Cascade e, durante toda a noite, enquanto fumávamos e a orquestra tocava valsas melancólicas, falávamos apenas de crimes e roubos, e de intrigas sombrias e terríveis. Essa é sempre uma péssima abertura para uma noite de sono.
Os Saint-Martin foram embora em um automóvel. Jean Daspry — aquele Daspry encantador e negligente que, seis meses depois, foi morto de forma tão trágica na fronteira do Marrocos — Jean Daspry e eu voltamos a pé através da noite escura e quente. Quando chegamos em frente à pequena casa em que eu vivia há um ano em Neuilly, no boulevard Maillot, ele me disse:
— Você está com medo?
— Que ideia!
— Mas esta casa é tão isolada... sem vizinhos... terrenos baldios... Realmente, não sou um covarde, e ainda assim...
— Bem, devo dizer que você é muito animador.
— Oh! Digo isso como diria qualquer outra coisa. Os Saint-Martin me impressionaram com suas histórias de bandidos e ladrões.
Apertamos as mãos e desejamos boa noite. Tirei minha chave e abri a porta.
— Bem, isso é bom — murmurei —, Antoine esqueceu de acender uma vela.
Então recordei-me do fato de que Antoine estava ausente; eu lhe dera uma curta licença. Imediatamente, fui desagradavelmente oprimido pela escuridão e pelo silêncio da noite. Subi as escadas na ponta dos pés e cheguei ao meu quarto o mais rápido possível; então, ao contrário do meu hábito habitual, girei a chave e passei o ferrolho.
A luz da minha vela restaurou minha coragem. No entanto, tive o cuidado de tirar meu revólver do coldre — uma arma grande e poderosa — e colocá-lo ao lado da minha cama. Essa precaução completou minha tranquilidade. Deitei-me e, como de costume, peguei um livro na minha mesa de cabeceira para ler até adormecer. Então, recebi uma grande surpresa. Em vez do corta-papel com o qual havia marcado minha página no dia anterior, encontrei um envelope, fechado com cinco selos de cera vermelha. Agarrei-o avidamente. Estava endereçado a mim e marcado: "Urgente".
Uma carta! Uma carta endereçada a mim! Quem poderia ter colocado aquilo naquele lugar? Nervosamente, rasguei o envelope e li:
"A partir do momento em que abrir esta carta, aconteça o que acontecer, ouça o que ouvir, não se mova, não solte um grito. Caso contrário, você está condenado."
Não sou um covarde e, tão bem quanto qualquer outro, posso enfrentar o perigo real ou sorrir diante dos perigos visionários da imaginação. Mas, repito, eu estava em uma condição mental anômala, com meus nervos à flor da pele pelos eventos da noite. Além disso, não havia, em minha situação atual, algo surpreendente e misterioso, capaz de perturbar o espírito mais corajoso?
Meus dedos febris agarravam a folha de papel, e li e reli aquelas palavras ameaçadoras: "Não se mova, não solte um grito. Caso contrário, você está condenado."
"Bobagem!", pensei. "É uma piada; obra de algum idiota alegre."
Eu estava prestes a rir — uma boa gargalhada alta. Quem me impediu? Que medo persistente comprimiu minha garganta?
Pelo menos, eu apagaria a vela. Não, eu não conseguia fazer isso. "Não se mova, ou você está condenado", eram as palavras que ele escrevera.
Essas auto-sugestões são frequentemente mais imperiosas do que as realidades mais positivas; mas por que eu deveria lutar contra elas? Eu só precisava fechar meus olhos. Fiz isso.
Naquele momento, ouvi um leve ruído, seguido por estalos, vindo de uma sala grande que eu usava como biblioteca. Uma pequena sala ou antecâmara estava situada entre a biblioteca e meu quarto.
A aproximação de um perigo real me excitou muito, e senti o desejo de me levantar, pegar meu revólver e correr para a biblioteca. Não me levantei; vi uma das cortinas da janela esquerda se mover. Não havia dúvida sobre isso: a cortina havia se movido. Ela continuava se movendo. E vi — oh! vi muito distintamente — no espaço estreito entre as cortinas e a janela, uma forma humana; uma massa volumosa que impedia as cortinas de caírem retas. E é igualmente certo que o homem me viu através das grandes malhas da cortina. Então, entendi a situação. Sua missão era me vigiar enquanto os outros levavam seu espólio. Deveria eu me levantar e pegar meu revólver? Impossível! Ele estava lá! Ao menor movimento, ao menor grito, eu estaria condenado.
Então veio um ruído terrível que sacudiu a casa; seguido por sons mais leves, dois ou três juntos, como os de um martelo que ricocheteava. Pelo menos, essa foi a impressão formada em meu cérebro confuso. Estes se misturavam a outros sons, criando assim um verdadeiro alarido que provava que os intrusos não eram apenas ousados, mas sentiam-se seguros contra interrupções.
Eles tinham razão. Eu não me movi. Foi covardia? Não, antes fraqueza, uma total incapacidade de mover qualquer parte do meu corpo, combinada com discrição; pois por que eu deveria lutar? Atrás daquele homem, havia dez outros que viriam em seu auxílio. Deveria eu arriscar minha vida para salvar algumas tapeçarias e bibelôs?
Ao longo da noite, minha tortura perdurou. Tortura insuportável, angústia terrível! Os ruídos haviam parado, mas eu estava em constante medo de que se renovassem. E o homem! O homem que me vigiava, arma na mão. Meus olhos aterrorizados permaneciam fixos em sua direção. E meu coração batia! E uma transpiração profusa brotava de cada poro do meu corpo!
De repente, experimentei um imenso alívio; uma carroça de leite, cujo som me era familiar, passou pelo boulevard; e, ao mesmo tempo, tive a impressão de que a luz de um novo dia tentava esgueirar-se pelas persianas fechadas.
Finalmente, a luz do dia penetrou no quarto; outros veículos passaram pelo boulevard; e todos os fantasmas da noite desapareceram. Então, coloquei um braço para fora da cama, lenta e cautelosamente. Meus olhos estavam fixos na cortina, localizando o ponto exato em que eu deveria disparar; fiz um cálculo preciso dos movimentos que deveria fazer; então, rapidamente, peguei meu revólver e disparei.
Saltei da minha cama com um grito de libertação e corri para a janela. A bala atravessou a cortina e o vidro da janela, mas não atingiu o homem — pelo simples motivo de que não havia ninguém lá. Ninguém! Assim, durante toda a noite, eu fui hipnotizado por uma dobra da cortina. E, durante esse tempo, os malfeitores... Furiosamente, com um entusiasmo que nada poderia ter detido, girei a chave, abri a porta, atravessei a antecâmara, abri outra porta e corri para a biblioteca. Mas o espanto me deteve no limiar, ofegante, atônito, mais surpreso do que estivera com a ausência do homem. Todas as coisas que eu supunha terem sido roubadas, móveis, livros, quadros, tapeçarias antigas, tudo estava em seu devido lugar.
Era inacreditável. Eu não podia acreditar nos meus olhos. Apesar daquele alarido, daqueles ruídos de remoção... Fiz uma ronda, inspecionei as paredes, fiz um inventário mental de todos os objetos familiares. Nada faltava. E, o que era mais desconcertante, não havia pista dos intrusos, nem sinal, nem uma cadeira fora do lugar, nem o rastro de uma pegada.
— Ora! Ora! — disse a mim mesmo, pressionando as mãos sobre minha cabeça confusa —, certamente não estou louco! Ouvi alguma coisa!
Centímetro a centímetro, fiz um exame cuidadoso da sala. Foi em vão. A menos que eu pudesse considerar isto como uma descoberta: sob um pequeno tapete persa, encontrei uma carta — uma carta de baralho comum. Era o sete de copas; era como qualquer outro sete de copas nos baralhos franceses, com esta leve, mas curiosa exceção: a ponta extrema de cada um dos sete pontos vermelhos ou copas estava perfurada por um buraco, redondo e regular como se feito com a ponta de um furador.
Nada mais. Uma carta de baralho e uma carta encontrada em um livro. Mas não seria isso suficiente para afirmar que eu não tinha sido o joguete de um sonho?
Ao longo do dia, continuei minhas buscas na biblioteca. Era uma sala grande, grande demais para as necessidades de tal casa, e cuja decoração atestava o gosto bizarro de seu fundador. O chão era um mosaico de pedras multicoloridas, formando grandes desenhos simétricos. As paredes eram cobertas por um mosaico semelhante, organizado em painéis, alegorias pompeianas, composições bizantinas, afrescos da Idade Média. Um Baco montado em um barril. Um imperador usando uma coroa de ouro, uma barba fluida, e segurando uma espada na mão direita.
Bem no alto, ao estilo do estúdio de um artista, havia uma janela grande — a única na sala. Sendo essa janela sempre aberta à noite, era provável que os homens tivessem entrado por ela, com a ajuda de uma escada. Mas, novamente, não havia provas. A base da escada teria deixado algumas marcas na terra macia sob a janela; mas não havia nenhuma. Nem havia vestígios de pegadas em qualquer parte do quintal.
Eu não tinha ideia de informar a polícia, porque os fatos que eu tinha diante de mim eram tão absurdos e inconsistentes. Eles ririam de mim. No entanto, como eu era então repórter da equipe do "Gil Blas", escrevi um longo relato da minha aventura e ele foi publicado no jornal dois dias depois. O artigo atraiu alguma atenção, mas ninguém o levou a sério. Consideraram-no uma obra de ficção em vez de uma história da vida real. Os Saint-Martin zombaram de mim. Mas Daspry, que se interessava por tais assuntos, veio me ver, fez um estudo do caso, mas não chegou a nenhuma conclusão.
Algumas manhãs depois, a campainha tocou, e Antoine veio me informar que um cavalheiro desejava me ver. Ele não quis dar seu nome. Instruí Antoine a deixá-lo subir. Era um homem de cerca de quarenta anos de idade, com uma tez muito escura, feições vivas e cujas roupas corretas, ligeiramente desgastadas, proclamavam um gosto que contrastava estranhamente com suas maneiras um tanto vulgares. Sem qualquer preâmbulo, ele me disse — em uma voz áspera que confirmou minha suspeita quanto à sua posição social:
— Monsieur, enquanto estava em um café, peguei uma cópia do "Gil Blas" e li seu artigo. Interessou-me muito.
— Obrigado.
— E aqui estou.
— Ah!
— Sim, para falar com você. Todos os fatos relatados por você estão corretos?
— Absolutamente.
— Bem, nesse caso, posso, talvez, lhe dar algumas informações.
— Muito bem; prossiga.
— Não, ainda não. Primeiro, devo ter certeza de que os fatos são exatamente como você os relatou.
— Dei-lhe minha palavra. Que outra prova você quer?
— Devo permanecer sozinho nesta sala.
— Não entendo — disse eu, com surpresa.
— É uma ideia que me ocorreu ao ler seu artigo. Certos detalhes estabeleceram uma coincidência extraordinária com outro caso que chegou ao meu conhecimento. Se estou enganado, não direi mais nada. E o único meio de verificar a verdade é eu permanecer na sala sozinho.
O que havia no fundo dessa proposta? Mais tarde, recordei-me de que o homem estava extremamente nervoso; mas, ao mesmo tempo, embora um tanto espantado, não encontrei nada de particularmente anormal no homem ou no pedido que ele fizera. Além disso, minha curiosidade foi despertada; então respondi:
— Muito bem. De quanto tempo você precisa?
— Oh! três minutos — não mais. Três minutos a partir de agora, me juntarei a você.
Saí da sala e desci as escadas. Tirei meu relógio. Um minuto se passou. Dois minutos. Por que me sentia tão deprimido? Por que aqueles momentos pareciam tão solenes e estranhos? Dois minutos e meio... Dois minutos e três quartos. Então ouvi um tiro de pistola.
Subi as escadas aos saltos e entrei na sala. Um grito de horror escapou-me. No meio da sala, o homem estava deitado sobre seu lado esquerdo, imóvel. Sangue fluía de um ferimento em sua testa. Perto de sua mão estava um revólver, ainda fumegante.
Mas, além desse espetáculo terrível, minha atenção foi atraída por outro objeto. A dois pés do corpo, no chão, vi uma carta de baralho. Era o sete de copas. Peguei-a. A extremidade inferior de cada um dos sete pontos estava perfurada com um pequeno buraco redondo.
Meia hora depois, chegou o comissário de polícia, depois o legista e o chefe da Sûreté, Mon. Dudouis. Tive o cuidado de não tocar no cadáver. A investigação preliminar foi muito breve e não revelou nada. Não havia papéis nos bolsos do falecido; nenhum nome em suas roupas; nenhuma inicial em sua roupa de cama; nada para dar qualquer pista de sua identidade. A sala estava na mesma ordem perfeita de antes. Os móveis não tinham sido perturbados. No entanto, este homem não viera à minha casa apenas com o propósito de se matar, ou porque considerava meu lugar o mais conveniente para seu suicídio! Deve ter havido um motivo para seu ato de desespero, e esse motivo era, sem dúvida, o resultado de algum novo fato constatado por ele durante os três minutos em que esteve sozinho.
Qual era esse fato? O que ele vira? Que segredo terrível fora revelado a ele? Não houve resposta para essas perguntas. Mas, no último momento, ocorreu um incidente que nos pareceu de considerável importância. Enquanto dois policiais levantavam o corpo para colocá-lo em uma maca, a mão esquerda sendo assim perturbada, uma carta amassada caiu dela. A carta trazia estas palavras: "Georges Andermatt, 37 Rue de Berry."
O que aquilo significava? Georges Andermatt era um rico banqueiro em Paris, fundador e presidente da Bolsa de Metais que dera tal impulso às indústrias metálicas na França. Ele vivia em estilo principesco; era possuidor de numerosos automóveis, carruagens e um caro estábulo de corrida. Seus círculos sociais eram muito seletos, e Madame Andermatt era notada por sua graça e beleza.
— Pode ser esse o nome do homem? — perguntei.
O chefe da Sûreté inclinou-se sobre ele.
— Não é ele. Mon. Andermatt é um homem magro e ligeiramente grisalho.
— Mas por que este cartão?
— Você tem telefone, monsieur?
— Sim, no vestíbulo. Venha comigo.
Ele procurou no diretório e, então, pediu o número 415.21.
— Mon. Andermatt está em casa?... Por favor, diga-lhe que Mon. Dudouis deseja que ele venha imediatamente ao 102 Boulevard Maillot. Muito importante.
Vinte minutos depois, Mon. Andermatt chegou em seu automóvel. Depois que as circunstâncias lhe foram explicadas, ele foi levado para ver o cadáver. Ele demonstrou considerável emoção e falou, em tom baixo e aparentemente sem vontade:
— Etienne Varin — disse ele.
— Você o conhece?
— Não... ou, pelo menos, sim... apenas de vista. O irmão dele...
— Ah! ele tem um irmão?
— Sim, Alfred Varin. Ele veio me ver uma vez por algum assunto de negócios... Esqueci qual era.
— Onde ele mora?
— Os dois irmãos moram juntos — rue de Provence, creio eu.
— Você conhece alguma razão pela qual ele deveria cometer suicídio?
— Nenhuma.
— Ele segurava um cartão na mão. Era o seu cartão com seu endereço.
— Não entendo isso. Deve ter estado lá por algum acaso que será revelado pela investigação.
Um acaso muito estranho, pensei; e senti que os outros tinham a mesma impressão.
Descobri a mesma impressão nos jornais no dia seguinte, e entre todos os meus amigos com quem discuti o caso. Em meio aos mistérios que o envolviam, após a dupla descoberta do sete de copas perfurado com sete buracos, após os dois eventos inescrutáveis que haviam acontecido em minha casa, aquele cartão de visita prometia lançar alguma luz sobre o caso. Através dele, a verdade poderia ser revelada. Mas, ao contrário de nossas expectativas, Mon. Andermatt não forneceu nenhuma explicação. Ele disse:
— Eu lhes disse tudo o que sei. O que mais posso fazer? Estou muito surpreso que meu cartão tenha sido encontrado em tal lugar, e espero sinceramente que o ponto seja esclarecido.
Não foi. A investigação oficial estabeleceu que os irmãos Varin eram de origem suíça, tinham levado uma vida instável sob vários nomes, frequentando resorts de apostas, associando-se a um bando de estrangeiros que fora dispersado pela polícia após uma série de roubos nos quais sua participação foi estabelecida apenas por sua fuga. No número 24 da rue de Provence, onde os irmãos Varin tinham morado seis anos antes, ninguém sabia o que tinha acontecido com eles.
Confesso que, da minha parte, o caso parecia-me tão complicado e tão misterioso que não achei que o problema seria algum dia resolvido, por isso decidi não perder mais tempo com ele. Mas Jean Daspry, que eu encontrava frequentemente naquela época, tornou-se cada dia mais interessado nele. Foi ele quem me apontou aquela nota de um jornal estrangeiro que foi reproduzida e comentada por toda a imprensa. Era a seguinte:
"O primeiro teste de um novo modelo de barco submarino, que se espera revolucionar a guerra naval, será dado na presença do antigo Imperador em um lugar que será mantido em segredo até o último minuto. Uma indiscrição revelou seu nome; chama-se 'O Sete-de-Copas'."
O Sete-de-Copas! Isso apresentava um novo problema. Poderia uma conexão ser estabelecida entre o nome do submarino e os incidentes que relatamos? Mas uma conexão de que natureza? O que acontecera aqui não poderia ter nenhuma relação possível com o submarino.
— O que você sabe sobre isso? — disse-me Daspry. — Os efeitos mais diversos frequentemente procedem da mesma causa.
Dois dias depois, a seguinte notícia estrangeira foi recebida e publicada:
"Diz-se que os planos do novo submarino 'Sete-de-Copas' foram preparados por engenheiros franceses que, tendo buscado, em vão, o apoio de seus compatriotas, subsequentemente entraram em negociações com o Almirantado Britânico, sem sucesso."
Não desejo dar publicidade indevida a certos assuntos delicados que outrora provocaram considerável agitação. No entanto, uma vez que todo perigo de dano decorrente deles chegou ao fim, devo falar sobre o artigo que apareceu no *Echo de France*, que despertou tantos comentários naquela época, e que lançou considerável luz sobre o mistério do Sete-de-Copas. Este é o artigo conforme foi publicado sob a assinatura de Salvator:
"O CASO DO SETE-DE-COPAS.
"UM CANTO DO VÉU LEVANTADO.
"Seremos breves. Dez anos atrás, um jovem engenheiro de minas, Louis Lacombe, desejando dedicar seu tempo e fortuna a certos estudos, renunciou ao cargo que então ocupava e alugou o número 102 do boulevard Maillot, uma pequena casa que tinha sido recentemente construída e decorada para um conde italiano. Por meio da agência dos irmãos Varin de Lausanne, um dos quais ajudou nos experimentos preliminares e o outro agiu como agente financeiro, o jovem engenheiro foi apresentado a Georges Andermatt, o fundador da Bolsa de Metais.
"Após várias entrevistas, ele conseguiu interessar o banqueiro em um barco submarino no qual estava trabalhando, e foi acordado que, assim que a invenção estivesse aperfeiçoada, Mon. Andermatt usaria sua influência junto ao Ministro da Marinha para obter uma série de testes sob a direção do governo. Por dois anos, Louis Lacombe foi um visitante frequente na casa de Andermatt, e submeteu ao banqueiro as várias melhorias que fez em seus planos originais, até que um dia, estando satisfeito com a perfeição de seu trabalho, pediu a Mon. Andermatt que se comunicasse com o Ministro da Marinha. Naquele dia, Louis Lacombe jantou na casa de Mon. Andermatt. Ele saiu de lá por volta das onze e meia da noite. Não foi visto desde então.
"Uma leitura dos jornais daquela data mostrará que a família do jovem fez com que todas as investigações possíveis fossem realizadas, mas sem sucesso; e foi a opinião geral que Louis Lacombe — que era conhecido como um jovem original e visionário — tinha partido silenciosamente para partes desconhecidas.
"Aceitemos essa teoria — improvável, embora o seja — e consideremos outra questão, que é de suma importância para nosso país: O que aconteceu com os planos do submarino? Louis Lacombe os levou embora? Estão destruídos?"
“Depois de fazer uma investigação minuciosa, somos capazes de afirmar, positivamente, que os planos existem, e agora estão na posse dos dois irmãos Varin. Como adquiriram tal posse? Essa é uma pergunta ainda não determinada; nem sabemos por que não tentaram vendê-los antes. Temiam que seu direito sobre eles fosse colocado em dúvida? Se assim for, perderam esse medo, e podemos anunciar definitivamente que os planos de Louis Lacombe são agora propriedade de potência estrangeira, e estamos em posição de publicar a correspondência que passou entre os irmãos Varin e o representante dessa potência. O ‘Seven‑of‑Hearts’ inventado por Louis Lacombe foi realmente construído por nosso vizinho.
“Será que a invenção cumprirá as expectativas otimistas daqueles que se preocuparam com esse ato traiçoeiro?”
E um pós‑scriptum acrescenta:
“Depois. — Nosso correspondente especial informa‑nos que o teste preliminar do ‘Seven‑of‑Hearts’ não foi satisfatório. É bastante provável que os planos vendidos e entregues pelos Varin não incluam o documento final que Louis Lacombe carregou para o Sr. Andermatt no dia de seu desaparecimento, um documento indispensável para a compreensão completa da invenção. Ele continha um resumo das conclusões finais do inventor, e estimativas e cifras que não constam nos outros papéis. Sem esse documento, os planos são incompletos; por outro lado, sem os planos, o documento é inútil.
“Chegou a hora de agir e recuperar o que nos pertence. Pode ser um assunto difícil, mas contamos com a assistência do Sr. Andermatt. Será do interesse dele esclarecer sua conduta, que até então tem sido tão estranha e inescrutável. Ele explicará não só por que ocultou esses fatos no momento do suicídio de Etienne Varin, mas também por que nunca revelou o desaparecimento do papel — fato bem conhecido por ele. Ele dirá por que, nos últimos seis anos, pagou espiões para vigiar os movimentos dos irmãos Varin. Esperamos dele, não só palavras, mas atos. E imediatamente. Caso contrário —”
A ameaça foi claramente expressa. Mas de que consistia? Que chicote Salvator, o escritor anônimo do artigo, segurava sobre a cabeça do Sr. Andermatt?
Um exército de repórteres atacou o banqueiro, e dez entrevistadores anunciaram o modo desprezível como foram tratados. Então, o _Echo de France_ anunciou sua posição com estas palavras:
“Quer o Sr. Andermatt queira ou não, ele será, doravante, nosso colaborador na obra que empreendemos.”
* * * * *
Daspry e eu jantávamos juntos no dia em que esse anúncio apareceu. Naquela noite, com os jornais espalhados sobre a minha mesa, discutimos o caso e examinamo‑lo de todos os ângulos, com aquela exasperação que alguém sente ao caminhar no escuro e tropeçar continuamente nos mesmos obstáculos. De repente, sem nenhum aviso, a porta se abriu e uma senhora entrou. Seu rosto estava escondido atrás de um véu espesso. Levantei‑me imediatamente e aproximei‑me dela.
“É a senhora, monsieur, que mora aqui?” ela perguntou.
“Sim, madame, mas não compreendo —”
“A porta não estava trancada”, explicou‑se.
“Mas a porta do vestíbulo?”
Ela não respondeu, e me ocorreu que ela havia usado a entrada dos servos. Como soube o caminho? Então houve um silêncio bastante constrangedor. Ela olhou para Daspry, e eu fui obrigado a apresentá‑lo. Pedi‑lhe que se sentasse e explicasse o motivo da visita. Ela levantou o véu, e vi que era uma morena de traços regulares e, embora não fosse bonita, era atraente — principalmente, por causa dos olhos tristes e escuros.
“Sou Madame Andermatt”, disse ela.
“Madame Andermatt!” repeti, admirado.
Após breve pausa, continuou com voz e modo bastante fáceis e naturais:
“Vim vê‑la sobre esse caso — sabe. Achei que poderia obter alguma informação —”
“Mon Dieu, madame, não sei nada além do que já apareceu nos jornais. Mas se me indicar de que modo posso ajudá‑la …”
“Não sei … não sei.”
Só então suspeitei que sua postura calma era fingida, e que alguma dor pungente se ocultava sob aquele ar de tranquilidade. Por um momento, ficamos em silêncio e constrangidos. Então Daspry avançou e disse:
“Permite‑me fazer‑lhe algumas perguntas?”
“Sim, sim”, exclamou ela. “Responderei.”
“Responderá … quaisquer que sejam as perguntas?”
“Sim.”
“Conhecia Louis Lacombe?” ele perguntou.
“Sim, através do meu marido.”
“Quando foi a última vez que o viu?”
“Na noite em que jantou connosco.”
“Nessa ocasião, havia algo que a fizesse crer que jamais o veria novamente?”
“Não. Mas ele falara de uma viagem à Rússia — de forma vaga.”
“Então esperava vê‑lo novamente?”
“Sim. Ele deveria jantar connosco dois dias depois.”
“Como explica o desaparecimento dele?”
“Não consigo explicá‑lo.”
“E o Sr. Andermatt?”
“Não sei.”
“Entretanto o artigo publicado no _Echo de France_ indica —”
“Sim, que os irmãos Varin tiveram algo a ver com o seu desaparecimento.”
“É essa a sua opinião?”
“Sim.”
“Em que baseia a sua opinião?”
“Quando saiu de nossa casa, Louis Lacombe levava uma bolsa contendo todos os papéis relativos à sua invenção. Dois dias depois, meu marido, em conversa com um dos irmãos Varin, soube que os papéis estavam em sua posse.”
“E ele não os denunciou?”
“Não.”
“Por que não?”
“Porque havia outra coisa na bolsa — algo além dos papéis de Louis Lacombe.”
“O que era?”
Ela hesitou, à beira de falar, mas acabou permanecendo silenciosa. Daspry prosseguiu:
“Presumo que por isso seu marido vigia de perto os movimentos deles, em vez de informar a polícia. Ele esperava recuperar os papéis e, ao mesmo tempo, aquele artigo comprometedor que permitiu aos dois irmãos exercerem sobre ele ameaças de exposição e chantagem.”
“Sobre ele, e sobre mim.”
“Ah! Sobre você também?”
“Sobre mim, particularmente.”
Ela pronunciou as últimas palavras com voz oca. Daspry observou; ele caminhou de um lado para o outro por um momento, então, voltando‑se para ela, perguntou:
“Já escreveu a Louis Lacombe?”
“Claro. Meu marido tinha negócios com ele —”
“Além dessas cartas de negócios, escreveu a Louis Lacombe … outras cartas? Desculpe a insistência, mas é absolutamente necessário que eu conheça a verdade. Escreveu outras cartas?”
“Sim”, respondeu ela, corando.
“E essas cartas foram apreendidas pelos irmãos Varin?”
“Sim.”
“O Sr. Andermatt sabe disso?”
“Ele não as viu, mas Alfred Varin lhe contou da existência deles e ameaçou publicá‑las se meu marido tomasse qualquer medida contra ele. Meu marido temia … um escândalo.”
“Mas ele tentou recuperar as cartas?”
“Acho que sim; mas não sei. Vê‑se, depois daquela última entrevista com Alfred Varin, e depois de algumas palavras duras entre mim e meu marido, nas quais ele me cobrou contas — vivemos como estranhos.”
“Nesse caso, como não tem nada a perder, o que temia?”
“Posso estar indiferente a ele agora, mas sou a mulher que ele amou, a que ainda amaria — oh! Tenho plena certeza disso”, murmurou, em voz fervorosa, “ele ainda me amaria se não tivesse tomado aquellas malditas cartas —”
“O que! Ele conseguiu? … Mas os dois irmãos ainda o desafiaram?”
“Sim, e vangloriavam‑se de ter um esconderijo seguro.”
“E então?”
“Acredito que meu marido descobriu esse esconderijo.”
“Ah! Onde era?”
“Aqui.”
“Aqui!” gritei alarmado.
“Sim. Sempre suspeitei disso. Louis Lacombe era muito engenhoso e divertia‑se nas horas vagas, construindo cofres e fechaduras. Não há dúvida de que os irmãos Varin sabiam disso e usaram um dos cofres de Lacombe para esconder as cartas … e outras coisas, talvez.”
“Mas não moravam aqui”, disse eu.
“Antes de chegar, quatro meses atrás, a casa estava desocupada há um tempo. E podem ter pensado que sua presença aqui não interferiria nos seus planos quando quisessem os papéis. Mas não contaram com meu marido, que chegou aqui na noite de 22 de junho, arrombou o cofre, pegou o que buscava e deixou seu cartão para informar os dois irmãos de que não os temia mais, e que suas posições estavam invertidas. Dois dias depois, depois de ler o artigo no ‘Gil Blas’, Etienne Varin veio aqui, ficou só neste quarto, encontrou o cofre vazio e… suicidou‑se.”
Depois de um momento, Daspry disse:
“Uma teoria muito simples… O Sr. Andermatt lhe falou desde então?”
“Não.”
“Sua atitude para consigo mudou? Aparece mais melancólico, mais ansioso?”
“Não, não notei mudança.”
“E ainda assim acha que ele garantiu as cartas. Na minha opinião, ele não tem essas cartas, e não foi ele quem veio aqui na noite de 22 de junho.”
“Quem foi, então?”
“O indivíduo misterioso que conduz este
“Mas tenho algo a dizer-lhe, e este é um bom momento para o fazer.”
“Deixe-me passar.”
“Não, não passará.”
Varin recuou diante da atitude resoluta do banqueiro, enquanto murmurava:
“Bem, então, seja breve.”
Uma coisa me espantou; e não tenho dúvidas de que os meus dois companheiros sentiram o mesmo. Por que é que Salvator não estava ali? Não seria ele uma parte necessária nesta conferência? Ou estaria satisfeito em deixar que estes dois adversários resolvessem o assunto entre si? De qualquer modo, a sua ausência foi uma grande decepção, embora não tenha diminuído a força dramática da situação.
Após um momento, o Sr. Andermatt aproximou-se de Varin e, frente a frente, olho no olho, disse:
“Agora, depois de todos estes anos e quando já não tem nada a temer, pode responder-me com sinceridade: O que fez com Louis Lacombe?”
“Que pergunta! Como se eu soubesse algo sobre ele!”
“Você sabe! Você e o seu irmão eram os seus companheiros constantes, quase viviam com ele nesta mesma casa. Sabiam tudo sobre os seus planos e o seu trabalho. E na última noite em que vi Louis Lacombe, quando me despedi dele à minha porta, vi dois homens a esgueirarem-se pela sombra das árvores. Disso, estou pronto a jurar.”
“Bem, o que é que isso tem a ver comigo?”
“Os dois homens eram você e o seu irmão.”
“Prove-o.”
“A melhor prova é que, dois dias depois, você mesmo me mostrou os papéis e os planos que pertenciam a Lacombe e ofereceu-se para os vender. Como é que esses papéis vieram parar à sua posse?”
“Já lhe disse, Sr. Andermatt, que os encontrámos na mesa de Louis Lacombe, na manhã seguinte ao seu desaparecimento.”
“Isso é mentira!”
“Prove-o.”
“A lei prová-lo-á.”
“Por que é que não recorreu à lei?”
“Porquê? Ah! Porquê...”, gaguejou o banqueiro, com uma ligeira manifestação de emoção.
“Sabe muito bem, Sr. Andermatt, que se tivesse a menor certeza da nossa culpa, a nossa pequena ameaça não o teria detido.”
“Que ameaça? Aquelas cartas? Supõe que alguma vez dei um momento de atenção a essas cartas?”
“Se não se importava com as cartas, por que ofereceu milhares de francos pela sua devolução? E por que mandou seguir o meu irmão e a mim como feras selvagens?”
“Para recuperar os planos.”
“Disparate! Queria as cartas. Sabia que, assim que tivesse as cartas na sua posse, poderia denunciar-nos. Oh! não, eu não podia desfazer-me delas!”
Ele riu-se com vontade, mas parou subitamente e disse:
“Mas, chega disto! Estamos apenas a repetir o passado. Não avançamos. É melhor deixarmos as coisas como estão.”
“Não as deixaremos como estão”, disse o banqueiro, “e já que se referiu às cartas, deixe-me dizer-lhe que não sairá desta casa até que entregue essas cartas.”
“Sairei quando me apetecer.”
“Não sairá.”
“Tenha cuidado, Sr. Andermatt. Aviso-o...”
“Eu digo que não sairá.”
“Já veremos isso”, gritou Varin, num acesso de fúria tal que a Madame Andermatt não conseguiu suprimir um grito de medo. Varin deve tê-lo ouvido, pois tentou forçar a sua saída. O Sr. Andermatt empurrou-o para trás. Então, vi-o levar a mão ao bolso do casaco.
“Pela última vez, deixe-me passar”, gritou ele.
“As cartas, primeiro!”
Varin sacou de um revólver e, apontando-o ao Sr. Andermatt, disse:
“Sim ou não?”
O banqueiro baixou-se rapidamente. Ouviu-se o som de um disparo. A arma caiu da mão de Varin. Fiquei espantado. O tiro foi disparado perto de mim. Foi Daspry quem o disparou contra Varin, fazendo-o largar o revólver. Num instante, Daspry estava entre os dois homens, de frente para Varin; disse-lhe, com um escárnio:
“Teve sorte, meu amigo, muita sorte. Disparei à sua mão e atingi apenas o revólver.”
Ambos olharam para ele, surpreendidos. Depois, ele virou-se para o banqueiro e disse:
“Peço-lhe perdão, monsieur, por me meter nos seus negócios; mas, na verdade, o senhor joga uma partida muito fraca. Deixe-me segurar as cartas.”
Virando-se novamente para Varin, Daspry disse:
“É entre nós dois, camarada, e jogue limpo, por favor. Copas são trunfo, e eu jogo o sete.”
Então, Daspry ergueu, diante dos olhos perplexos de Varin, a pequena placa de ferro, marcada com os sete pontos vermelhos. Foi um choque terrível para Varin. Com as feições lívidas, olhos fixos e um ar de intensa agonia, o homem parecia hipnotizado ao vê-la.
“Quem é você?” arquejou ele.
“Alguém que se mete nos negócios dos outros, até ao fundo.”
“O que quer?”
“O que trouxe aqui esta noite.”
“Não trouxe nada.”
“Trouxe, sim, ou não teria vindo. Esta manhã, recebeu um convite para vir aqui às nove horas e trazer consigo todos os papéis que possui. Está aqui. Onde estão os papéis?”
Havia na voz e no modo de Daspry um tom de autoridade que eu não compreendia; o seu comportamento era geralmente bastante suave e conciliador. Completamente conquistado, Varin colocou a mão num dos seus bolsos e disse:
“Os papéis estão aqui.”
“Todos eles?”
“Sim.”
“Todos os que tirou a Louis Lacombe e depois vendeu ao Major von Lieben?”
“Sim.”
“São cópias ou originais?”
“Tenho os originais.”
“Quanto quer por eles?”
“Cem mil francos.”
“Você é louco”, disse Daspry. “Ora, o major deu-lhe apenas vinte mil, e isso foi como dinheiro atirado ao mar, já que o barco foi um fracasso nos ensaios preliminares.”
“Eles não entenderam os planos.”
“Os planos não estão completos.”
“Então, por que mos pede?”
“Porque os quero. Ofereço-lhe cinco mil francos — nem mais um cêntimo.”
“Dez mil. Nem menos um cêntimo.”
“Feito”, disse Daspry, que se virou para o Sr. Andermatt e disse:
“O monsieur terá a gentileza de assinar um cheque pelo valor.”
“Mas... eu não tenho...”
“O seu talão de cheques? Aqui está ele.”
Atónito, o Sr. Andermatt examinou o talão de cheques que Daspry lhe entregou.
“É meu”, arquejou ele. “Como é que isso aconteceu?”
“Sem palavras inúteis, monsieur, se faz favor. Só tem de assinar.”
O banqueiro tirou a sua caneta-tinteiro, preencheu o cheque e assinou-o. Varin estendeu a mão para o receber.
“Baixe a mão”, disse Daspry, “há algo mais.” Depois, ao banqueiro, disse: “O senhor pediu umas cartas, não foi?”
“Sim, um maço de cartas.”
“Onde estão elas, Varin?”
“Eu não as tenho.”
“Onde estão elas, Varin?”
“Não sei. O meu irmão é que estava encarregado delas.”
“Estão escondidas nesta sala.”
“Nesse caso, o senhor sabe onde estão.”
“Como havia de saber?”
“Não foi você que encontrou o esconderijo? Parece estar tão bem informado... como Salvator.”
“As cartas não estão no esconderijo.”
“Estão.”
“Abra-o.”
Varin olhou para ele, desafiante. Não seriam Daspry e Salvator a mesma pessoa? Tudo apontava para essa conclusão. Se assim fosse, Varin não arriscava nada ao revelar um esconderijo já conhecido.
“Abra-o”, repetiu Daspry.
“Não tenho o sete de copas.”
“Sim, aqui está ele”, disse Daspry, entregando-lhe a placa de ferro. Varin recuou, aterrorizado, e gritou:
“Não, não, eu não farei isso.”
“Não importa”, respondeu Daspry, enquanto caminhava em direção ao rei barbudo, subiu para uma cadeira e aplicou o sete de copas na parte inferior da espada, de tal modo que os bordos da placa de ferro coincidiram exatamente com os dois gumes da espada. Depois, com a ajuda de um furador que introduziu alternadamente em cada um dos sete orifícios, pressionou sete das pequenas pedras de mosaico. Ao pressionar a sétima, ouviu-se um estalido e todo o busto do Rei girou sobre um eixo, revelando uma grande abertura revestida de aço. Era, na verdade, um cofre à prova de fogo.
“Pode ver, Varin, o cofre está vazio.”
“Vejo. Então, o meu irmão tirou as cartas.”
Daspry desceu da cadeira, aproximou-se de Varin e disse:
“Agora, sem mais disparates comigo. Existe outro esconderijo. Onde está ele?”
“Não existe nenhum.”
“É dinheiro que quer? Quanto?”
“Dez mil.”
“Sr. Andermatt, essas cartas valem dez mil francos para si?”
“Sim”, disse o banqueiro, com firmeza.
Varin fechou o cofre, pegou no sete de copas e colocou-o novamente na espada, no mesmo ponto. Enfiou o furador em cada um dos sete orifícios. Ouviu-se o mesmo som de estalido, mas desta vez, estranho é dizê-lo, foi apenas uma parte do cofre que girou no eixo, revelando um cofre bem pequeno que estava embutido na porta do maior. O maço de cartas estava ali, atado com uma fita e selado. Varin entregou o maço a Daspry. Este virou-se para o banqueiro e perguntou:
“O cheque está pronto, Sr. Andermatt?”
“Sim.”
“E tem também o último documento que recebeu de Louis Lacombe — aquele que completa os planos do submarino?”
“Sim.”
A troca foi feita. Daspry meteu o documento e os cheques no bolso e ofereceu o maço de cartas ao Sr. Andermatt.
“Aqui tem o que queria, monsieur.”
O banqueiro hesitou por um momento, como se tivesse medo de tocar naquelas cartas malditas que tanto procurara. Depois, com um movimento nervoso, pegou nelas. Perto de mim, ouvi um gemido. Segurei a mão de Madame Andermatt. Estava fria.
“Creio, monsieur”, disse Daspry ao banqueiro, “que os nossos negócios terminaram. Oh! nada de agradecimentos. Foi apenas por um puro acaso que pude fazer-lhe um favor. Boa noite.”
O Sr. Andermatt retirou-se. Levava consigo as cartas escritas pela sua esposa a Louis Lacombe.
“Maravilhoso!” exclamou Daspry, encantado. “Tudo corre a nosso favor. Agora, só temos de encerrar o nosso pequeno assunto, camarada. Tem os papéis?”
“Aqui estão — todos eles.”
Daspry examinou-os cuidadosamente e depois guardou-os no bolso.
“Muito bem. Manteve a sua palavra”, disse ele.
“Mas...”
“Mas o quê?”
“Os dois cheques? O dinheiro?” disse Varin, ansioso.
“Bem, tem muita lata, meu homem. Como se atreve a pedir tal coisa?”
“Peço apenas o que me é devido.”
“Pode pedir pagamento pela devolução de papéis que roubou? Bem, penso que não!”
Varin estava fora de si. Tremia de raiva; os seus olhos estavam injetados de sangue.
“O dinheiro... os vinte mil...” gaguejou ele.
“Impossível! Eu próprio preciso dele.”
“O dinheiro!”
“Vamos, seja razoável e não se excite. Não lhe fará qualquer bem.”
Daspry agarrou-lhe o braço com tanta força que Varin soltou um grito de dor. Daspry continuou:
“Agora, pode ir. O ar far-lhe-á bem. Talvez queira que lhe mostre o caminho. Ah! sim, iremos juntos ao terreno baldio aqui perto, e mostrar-lhe-ei um pequeno monte de terra e pedras e, debaixo dele...”
“Isso é falso! Isso é falso!”
“Oh! não, é verdade. Aquela pequena placa de ferro com os sete pontos veio de lá. Louis Lacombe trazia-a sempre consigo, e você enterrou-a com o corpo — e com algumas outras coisas que provarão ser muito interessantes para um juiz e um júri.”
Varin cobriu o rosto com as mãos e murmurou:
“Está bem, estou derrotado. Não diga mais nada. Mas quero fazer-lhe uma pergunta. Gostaria de saber...”
“O que é?”
“Havia uma pequena caixa no cofre grande?”
“Sim.”
“Estava lá na noite de 22 de junho?”
“Sim.”
“O que continha ela?”
“Tudo o que os irmãos Varin lá tinham posto — uma coleção muito bonita de diamantes e pérolas apanhados aqui e ali pelos ditos irmãos.”
“E o senhor tirou-a?”
“Claro que sim. Culpa-me por isso?”
“Compreendo... foi o desaparecimento dessa caixa que levou o meu irmão a suicidar-se.”
“Provavelmente. O desaparecimento da sua correspondência não era um motivo suficiente. Mas o desaparecimento da caixa... É tudo o que deseja perguntar-me?”
“Mais uma coisa: o seu nome?”
“Pergunta isso com a ideia de procurar vingança.”
“Parbleu! O jogo pode virar. Hoje, o senhor está por cima. Amanhã...”
“Será você.”
“Espero que sim. O seu nome?”
“Arsène Lupin.”
“Arsène Lupin!”
O homem cambaleou, como se estivesse atordoado por um golpe pesado. Aquelas duas palavras tinham-lhe roubado toda a esperança.
Daspry riu-se e disse:
“Ah! imaginou que um Monsieur Durand ou Dupont poderia gerir um caso como este? Não, era necessária a perícia e a astúcia de Arsène Lupin. E agora que tem o meu nome, vá e prepare a sua vingança. Arsène Lupin esperará por si.”
Depois, empurrou o atordoado Varin para fora da porta.
“Daspry! Daspry!” gritei, afastando a cortina. Ele correu para mim.
“O quê? O que se passa?”
“Madame Andermatt está doente.”
Ele apressou-se a ir ter com ela, fez-lhe inalar alguns sais e, enquanto cuidava dela, interrogou-me:
“Bem, o que causou isto?”
“As cartas de Louis Lacombe que entregou ao marido dela.”
Ele bateu na testa e disse:
“Será que ela pensou que eu seria capaz de tal coisa!... Mas, é claro que pensaria. Imbecil que eu sou!”
Madame Andermatt estava agora reanimada. Daspry tirou do bolso um pequeno pacote exatamente igual ao que o Sr. Andermatt tinha levado consigo.
“Aqui estão as suas cartas, Madame. Estas são as cartas verdadeiras.”
“Mas... as outras?”
“As outras são as mesmas, reescritas por mim e cuidadosamente redigidas. O seu marido não encontrará nada de censurável nelas e nunca suspeitará da substituição, uma vez que foram tiradas do cofre na presença dele.”
“Mas a caligrafia...”
“Não há caligrafia que não possa ser imitada.”
Ela agradeceu-lhe com as mesmas palavras que teria usado com um homem do seu próprio círculo social, pelo que concluí que ela não tinha assistido à cena final entre Varin e Arsène Lupin. Mas a revelação surpreendente causou-me um considerável embaraço. Lupin! O meu companheiro de clube não era outro senão Arsène Lupin. Eu não conseguia acreditar. Mas ele disse, bastante à vontade:
“Pode dizer adeus a Jean Daspry.”
“Ah!”
“Sim, Jean Daspry vai fazer uma longa viagem. Vou enviá-lo para Marrocos. Lá, poderá encontrar uma morte digna dele. Posso dizer que essa é a sua expectativa.”
“Mas Arsène Lupin ficará?”
“Oh! Decididamente. Arsène Lupin está apenas no limiar da sua carreira e espera...”
Senti-me impelido pela curiosidade a interrompê-lo e, levando-o para longe do alcance dos ouvidos de Madame Andermatt, perguntei:
“Descobriu o cofre mais pequeno sozinho — aquele que guardava as cartas?”
“Sim, depois de muitos problemas. Encontrei-o ontem à tarde, enquanto dormia. E, no entanto, Deus sabe que era simples o suficiente! Mas as coisas mais simples são as que geralmente nos escapam.” Depois, mostrando-me o sete de copas, acrescentou: “Claro que tinha adivinhado que, para abrir o cofre maior, esta carta devia ser colocada na espada do rei do mosaico.”
“Como adivinhou isso?”
“Muito facilmente. Através de informações privadas, sabia desse facto quando vim aqui na noite de 22 de junho...”
“Depois de me deixar...”
“Sim, depois de virar o tema da nossa conversa para histórias de crime e roubo que certamente o deixariam num estado nervoso tal que não sairia da cama, mas permitir-me-ia completar a minha busca sem interrupções.”
“O plano resultou na perfeição.”
“Bem, eu sabia quando vim aqui que havia uma caixa escondida num cofre com uma fechadura secreta, e que o sete de copas era a chave dessa fechadura. Tive apenas de colocar a carta no ponto que estava obviamente destinado para ela. Uma hora de exame mostrou-me onde era esse ponto.”
“Uma hora!”
“Observe o tipo no mosaico.”
“O velho imperador?”
“Esse velho imperador é uma representação exata do rei de copas em todas as cartas de jogar.”
“É verdade. Mas como é que o sete de copas abre o cofre maior de uma vez e o cofre menor de outra? E por que abriu apenas o cofre maior na primeira instância? Quero dizer, na noite de 22 de junho.”
“Porquê? Porque eu colocava sempre o sete de copas da mesma forma. Nunca mudei a posição. Mas, ontem, observei que, ao inverter a carta, ao virá-la ao contrário, a disposição dos sete pontos no mosaico era alterada.”
“Parbleu!”
“Claro, parbleu! Mas uma pessoa tem de pensar nessas coisas.”
“Há mais uma coisa: o senhor não sabia a história dessas cartas até Madame Andermatt...”
“Falar delas à minha frente? Não. Porque encontrei no cofre, além da caixa, nada mais do que a correspondência dos dois irmãos que revelava a sua traição em relação aos planos.”
“Então foi por acaso que foi levado, primeiro, a investigar a história dos dois irmãos, e depois a procurar os planos e documentos relativos ao submarino?”
“Simplesmente por acaso.”
“Com que propósito fez a busca?”
“Mon Dieu!” exclamou Daspry, rindo-se, “como está profundamente interessado!”
“O assunto fascina-me.”
“Muito bem, dentro de momentos, depois de eu levar a Madame Andermatt a uma carruagem e enviar uma pequena história para o Echo de France, voltarei e contar-lhe-ei tudo sobre isso.”
Ele sentou-se e escreveu um daqueles artigos curtos e incisivos que serviam para divertir e mistificar o público. Quem não se recorda da sensação que esse artigo produziu em todo o mundo?
“Arsène Lupin resolveu o problema recentemente submetido por Salvator. Tendo adquirido a posse de todos os documentos e planos originais do engenheiro Louis Lacombe, colocou-os nas mãos do Ministro da Marinha e encabeçou uma lista de subscrição com o objetivo de oferecer à nação o primeiro submarino construído a partir desses planos. A sua subscrição é de vinte mil francos.”
“Vinte mil francos! Os cheques do Sr. Andermatt?” exclamou, quando ele me entregou o jornal para ler.
“Exatamente. Era muito justo que Varin redimisse a sua traição.”
* * * * *
E foi assim que fiz o conhecimento de Arsène Lupin. Foi assim que aprendi que Jean Daspry, um membro do meu clube, não era outro senão Arsène Lupin, o ladrão-cavalheiro. Foi assim que formei laços muito agradáveis de amizade com aquele homem famoso e, graças à confiança com que me honrou, como me tornei o seu muito humilde e fiel historiador.
VII. O cofre da Madame Imbert
Às três da manhã, ainda havia meia dúzia de carruagens em frente a uma daquelas casas pequenas que formam apenas o lado do boulevard Berthier. A porta dessa casa abriu-se e vários convidados, homens e mulheres, saíram. A maioria deles entrou nas suas carruagens e partiu rapidamente, deixando para trás apenas dois homens que desceram a Courcelles, onde se separaram, pois um deles vivia nessa rua. O outro decidiu voltar a pé até à Porte-Maillot. Era uma bela noite de inverno, clara e fria; uma noite em que uma caminhada rápida é agradável e revigorante.
Mas, ao fim de alguns minutos, teve a impressão desagradável de que estava a ser seguido. Voltando-se, viu um homem a esgueirar-se por entre as árvores. Ele não era cobarde; contudo, sentiu que seria aconselhável aumentar o passo. Então, o seu perseguidor começou a correr; e ele achou prudente sacar do seu revólver e enfrentá-lo. Mas não teve tempo. O homem lançou-se sobre ele e atacou-o violentamente. Imediatamente, travaram uma luta desesperada, na qual ele sentiu que o seu agressor desconhecido tinha vantagem. Pediu ajuda, lutou e foi atirado para cima de um monte de gravilha, agarrado pelo pescoço e amordaçado com um lenço que o seu agressor forçou dentro da sua boca. Os seus olhos fecharam-se e o homem que o sufocava com o seu peso levantou-se para se defender contra um ataque inesperado. Um golpe de bengala e um pontapé de bota; o homem soltou dois gritos de dor e fugiu, coxeando e praguejando. Sem se dignar a perseguir o fugitivo, o recém-chegado debruçou-se sobre o homem prostrado e perguntou:
“Está ferido, monsieur?”
Ele não estava ferido, mas estava atordoado e incapaz de se manter de pé. O seu salvador arranjou uma carruagem, colocou-o nela e acompanhou-o até à sua casa na avenue de la Grande-Armée. À sua chegada, já recuperado, ele cobriu o seu salvador de agradecimentos.
“Devo-lhe a vida, monsieur, e não o esquecerei. Não desejo alarmar a minha mulher a esta hora da noite, mas, amanhã, ela terá o prazer de o agradecer pessoalmente. Venha tomar o pequeno-almoço connosco. O meu nome é Ludovic Imbert. Posso perguntar o seu?”
“Certamente, monsieur.”
E entregou ao senhor Imbert um cartão com o nome: “Arsène Lupin.”
* * * * *
Naquela época, Arsène Lupin não gozava da celebridade que o caso Cahorn, a sua fuga da Prison de la Santé e outros feitos brilhantes lhe granjearam mais tarde. Nem sequer tinha usado o nome de Arsène Lupin. O nome foi inventado especialmente para designar o salvador do senhor Imbert; isto é, foi nesse caso que Arsène Lupin foi batizado. Totalmente armado e pronto para a refrega, é verdade, mas carecendo dos recursos e da autoridade que comandam o sucesso, Arsène Lupin era então apenas um aprendiz numa profissão na qual se tornaria, em breve, mestre.
Com que arrepio de alegria ele recordou o convite que recebeu naquela noite! Finalmente, tinha atingido o seu objetivo! Finalmente, tinha empreendido uma tarefa digna da sua força e perícia! Os milhões dos Imbert! Que banquete magnífico para um apetite como o seu!
Preparou uma toilette especial para a ocasião; uma sobrecasaca gasta, calças largas, uma cartola de seda puída, colarinho e punhos usados, tudo de forma bastante correta, mas ostentando o cunho inconfundível da pobreza. A sua gravata era uma fita preta presa com um diamante falso. Assim equipado, desceu as escadas da casa onde vivia, em Montmartre. No terceiro andar, sem parar, bateu numa porta fechada com o punho da sua bengala. Caminhou até aos boulevards exteriores. Um elétrico passava. Embarcou nele, e alguém que o seguia tomou lugar ao seu lado. Era o inquilino que ocupava o quarto do terceiro andar. Um momento depois, este homem disse a Lupin:
“Bem, patrão?”
“Bem, está tudo combinado.”
“Como?”
“Vou lá tomar o pequeno-almoço.”
“Vai tomar o pequeno-almoço... lá!”
“Certamente. Por que não? Salvei o senhor Ludovic Imbert da morte certa pelas suas mãos. O senhor Imbert não carece de gratidão. Convidou-me para o pequeno-almoço.”
Houve um breve silêncio. Depois, o outro disse:
“Mas não vai desistir do plano?”
“Meu caro rapaz”, disse Lupin, “quando organizei aquele pequeno caso de agressão, quando me dei ao trabalho, às três horas da manhã, de te bater com a minha bengala e te dar um toque com a minha bota, correndo o risco de ferir o meu único amigo, não era minha intenção abdicar das vantagens a obter de um resgate tão bem arranjado e executado. Oh! não, de modo algum.”
“Mas os rumores estranhos que ouvimos sobre a fortuna deles?”
“Não te preocupes com isso. Há seis meses que trabalho neste caso, investiguei-o, estudei-o, interroguei os criados, os agiotas e os homens de palha; há seis meses que sigo o marido e a mulher. Consequentemente, sei do que estou a falar. Se a fortuna lhes veio do velho Brawford, como eles fingem, ou de outra fonte qualquer, não me interessa. Sei que é uma realidade; que existe. E um dia será minha.”
“Bigre! Cem milhões!”
“Digamos dez, ou até cinco — é suficiente! Têm um cofre cheio de títulos, e o diabo que me carregue se não conseguir pôr-lhes as mãos em cima.”
O elétrico parou na Place de l’Etoile. O homem sussurrou a Lupin:
“O que devo fazer agora?”
“Nada, por enquanto. Terás notícias minhas. Não há pressa.”
Cinco minutos depois, Arsène Lupin subia a magnífica escadaria da mansão Imbert, e o senhor Imbert apresentou-o à sua mulher. Madame Gervaise Imbert era uma mulher baixa, rechonchuda e muito faladora. Deu a Lupin uma receção cordial.
“Fiz questão de que estivéssemos sós para receber o nosso salvador”, disse ela.
Desde o início, trataram “o nosso salvador” como um velho e estimado amigo. À hora da sobremesa, a sua amizade estava bem cimentada e confissões privadas estavam a ser trocadas. Arsène contou a história da sua vida, a vida do seu pai como magistrado, as mágoas da sua infância e as suas dificuldades atuais. Gervaise, por sua vez, falou da sua juventude, do seu casamento, da bondade do idoso Brawford, dos cem milhões que herdara, dos obstáculos que a impediam de obter o usufruto da sua herança, do dinheiro que fora obrigada a pedir emprestado a taxas de juro exorbitantes, das suas infindáveis contendas com os sobrinhos de Brawford, e dos litígios! das injunções! de facto, de tudo!
“Pense só, monsieur Lupin, os títulos estão ali, no escritório do meu marido, e se destacarmos um único cupão, perdemos tudo! Estão ali, no nosso cofre, e não nos atrevemos a tocar-lhes.”
O senhor Lupin estremeceu só com a ideia da sua proximidade com tanta riqueza. Contudo, sentia-se bastante seguro de que o senhor Lupin nunca sofreria da mesma dificuldade que a sua bela anfitriã, que declarava não se atrever a tocar no dinheiro.
“Ah! estão ali!” repetia para si mesmo; “estão ali!”
Uma amizade formada sob tais circunstâncias conduziu rapidamente a relações mais estreitas. Quando discretamente questionado, Arsène Lupin confessou a sua pobreza e aflição. Imediatamente, o infortunado jovem foi nomeado secretário particular dos Imbert, marido e mulher, com um ordenado de cem francos por mês. Deveria ir a casa todos os dias receber ordens para o seu trabalho, e um quarto no segundo andar foi reservado como o seu escritório. Este quarto ficava diretamente por cima do escritório do senhor Imbert.
Arsène cedo percebeu que a sua posição de secretário era essencialmente uma sinecura. Durante os primeiros dois meses, teve apenas quatro cartas importantes para copiar e foi chamado apenas uma vez ao escritório do senhor Imbert; consequentemente, teve apenas uma oportunidade para contemplar, oficialmente, o cofre dos Imbert. Além disso, notou que o secretário não era convidado para os eventos sociais do empregador. Mas não se queixou, pois preferia permanecer, modestamente, na sombra e manter a sua paz e liberdade.
No entanto, não perdia tempo. Desde o início, fez visitas clandestinas ao escritório do senhor Imbert e apresentou os seus respeitos ao cofre, que estava hermeticamente fechado. Era um bloco imenso de ferro e aço, frio e severo na aparência, que não podia ser aberto pelas ferramentas comuns do ofício de ladrão. Mas Arsène Lupin não se desencorajou.
“Onde a força falha, a astúcia prevalece”, dizia para si mesmo. “O essencial é estar no local quando a oportunidade surgir. Entretanto, devo observar e esperar.”
Fez imediatamente algumas preparações preliminares. Após cuidadosas sondagens feitas no soalho do seu quarto, introduziu um cano de chumbo que penetrava no teto do escritório do senhor Imbert num ponto entre as duas molduras da cornija. Por meio deste cano, esperava ver e ouvir o que se passava na sala de baixo.
Daí em diante, passava os dias estendido de corpo inteiro no chão. Via frequentemente os Imbert em consulta diante do cofre, a investigar livros e papéis. Quando giravam a fechadura de combinação, tentava aprender os números e o número de voltas que davam para a direita e para a esquerda. Observava os seus movimentos; tentava apanhar as suas palavras. Havia também uma chave necessária para completar a abertura do cofre. O que faziam com ela? Escondiam-na?
Um dia, viu-os sair da sala sem trancar o cofre. Desceu as escadas rapidamente e entrou ousadamente na sala. Mas eles tinham voltado.
“Oh! desculpem-me”, disse ele, “enganei-me na porta.”
“Entre, monsieur Lupin, entre”, gritou Madame Imbert, “não está em casa? Queremos o seu conselho. Que títulos devemos vender? Os títulos estrangeiros ou as anuidades do governo?”
“Mas a injunção?” disse Lupin, com surpresa.
“Oh! não abrange todos os títulos.”
Ela abriu a porta do cofre e retirou um maço de títulos. Mas o marido protestou.
“Não, não, Gervaise, seria uma tolice vender os títulos estrangeiros. Estão a subir, enquanto as anuidades estão o mais alto que alguma vez estarão. O que acha, meu caro amigo?”
O caro amigo não tinha opinião; contudo, aconselhou o sacrifício das anuidades. Então ela retirou outro maço e, dele, tirou um papel ao acaso. Provou ser uma anuidade de três por cento no valor de dois mil francos. Ludovic colocou o maço de títulos no bolso. Nessa tarde, acompanhado pelo seu secretário, vendeu as anuidades a um corretor da bolsa e obteve quarenta e seis mil francos.
Independentemente do que Madame Imbert pudesse ter dito sobre o assunto, Arsène Lupin não se sentia em casa na residência dos Imbert. Pelo contrário, a sua posição ali era peculiar. Soube que os criados nem sequer sabiam o seu nome. Chamavam-lhe “monsieur”. Ludovic falava sempre dele da mesma maneira: “Dirá ao monsieur. O monsieur já chegou?” Porquê essa apelação misteriosa?
Além disso, após o seu primeiro surto de entusiasmo, os Imbert raramente lhe falavam e, embora o tratassem com a consideração devida a um benfeitor, davam-lhe pouca ou nenhuma atenção. Pareciam considerá-lo como uma personagem excêntrica que não gostava de ser incomodada, e respeitavam o seu isolamento como se fosse uma regra rigorosa da sua parte. Numa ocasião, enquanto passava pelo vestíbulo, ouviu Madame Imbert dizer a dois cavalheiros:
“Ele é tão bárbaro!”
“Muito bem”, disse ele para si mesmo, “sou um bárbaro.”
E, sem procurar resolver a questão do seu comportamento estranho, prosseguiu com a execução dos seus próprios planos. Decidira que não podia depender do acaso, nem da negligência de Madame Imbert, que carregava a chave do cofre e que, ao trancá-lo, invariavelmente dispersava as letras que formavam a combinação da fechadura. Consequentemente, tinha de agir por si próprio.
Finalmente, um incidente precipitou as coisas; foi a campanha veemente instituída contra os Imbert por certos jornais que acusavam os Imbert de burla. Arsène Lupin esteve presente em certas conferências familiares quando esta nova vicissitude foi discutida. Decidiu que, se esperasse muito mais, perderia tudo. Durante os cinco dias seguintes, em vez de sair de casa por volta das seis horas, de acordo com o seu hábito habitual, fechou-se no seu quarto. Pensava-se que tinha saído. Mas ele estava deitado no chão a observar o escritório do senhor Imbert. Durante essas cinco noites, a oportunidade favorável que esperava não surgiu. Deixou a casa por volta da meia-noite por uma porta lateral da qual possuía a chave.
Mas no sexto dia, soube que os Imbert, impelidos pelas insinuações malévolas dos seus inimigos, se propunham a fazer um inventário do conteúdo do cofre.
“Farão isso esta noite”, pensou Lupin.
E, na verdade, após o jantar, Imbert e a sua mulher retiraram-se para o escritório e começaram a examinar os livros de contabilidade e os títulos contidos no cofre. Assim, uma hora após a outra passava. Ouviu os criados subirem para os seus quartos. Já ninguém restava no primeiro andar. Meia-noite! Os Imbert ainda estavam a trabalhar.
“Tenho de ir ao trabalho”, murmurou Lupin.
Abriu a sua janela. Dava para um pátio. Lá fora, tudo estava escuro e silencioso. Tirou da sua secretária uma corda com nós, prendeu-a à varanda em frente da sua janela e desceu silenciosamente até à janela de baixo, que era a do escritório dos Imbert. Permaneceu na varanda por um momento, imóvel, com o ouvido atento e o olho vigilante, mas as cortinas pesadas ocultavam eficazmente o interior da sala. Empurrou cautelosamente a janela dupla. Se ninguém a tivesse examinado, deveria ceder à mais leve pressão, pois, durante a tarde, tinha ajustado o ferrolho de tal modo que não entraria no encaixe.
A janela cedeu ao seu toque. Então, com infinito cuidado, empurrou-a o suficiente para admitir a sua cabeça. Afastou as cortinas alguns centímetros, olhou para dentro e viu o senhor Imbert e a sua mulher sentados diante do cofre, profundamente absorvidos no seu trabalho e falando baixinho um com o outro a raros intervalos.
Calculou a distância entre ele e eles, considerou os movimentos exatos que precisaria de fazer para os subjugar, um após o outro, antes que pudessem pedir ajuda, e estava prestes a precipitar-se sobre eles, quando Madame Imbert disse:
“Ah! a sala está a ficar bastante fria. Vou deitar-me. E tu, meu querido?”
“Ficarei e terminarei.”
“Terminar! Ora, isso levar-te-á a noite toda.”
“De modo algum. Uma hora, no máximo.”
Ela retirou-se. Vinte minutos, trinta minutos passaram. Arsène empurrou a janela um pouco mais. As cortinas abanaram. Empurrou mais uma vez. O senhor Imbert virou-se e, vendo as cortinas agitadas pelo vento, levantou-se para fechar a janela.
Não houve um grito, nem um vestígio de luta. Com alguns movimentos precisos, e sem lhe causar o menor ferimento, Arsène atordoou-o, envolveu-lhe a cabeça com a cortina, amarrou-o de pés e mãos, e fê-lo tudo de tal maneira que o senhor Imbert não teve oportunidade de reconhecer o seu agressor.
Rapidamente, aproximou-se do cofre, agarrou dois maços que colocou debaixo do braço, saiu do escritório e abriu o portão dos criados. Uma carruagem estava estacionada na rua.
“Leve isto primeiro — e siga-me”, disse ele ao cocheiro. Voltou ao escritório e, em duas viagens, esvaziaram o cofre. Então Arsène foi para o seu próprio quarto, removeu a corda e todos os outros vestígios do seu trabalho clandestino.
Poucas horas depois, Arsène Lupin e o seu assistente examinaram os bens roubados. Lupin não ficou desapontado, pois previra que a riqueza dos Imbert tinha sido grandemente exagerada. Não consistia em centenas de milhões, nem sequer em dezenas de milhões. Contudo, ascendia a uma soma muito respeitável, e Lupin expressou a sua satisfação.
“Claro”, disse ele, “haverá uma perda considerável quando chegarmos à altura de vender os títulos, uma vez que teremos de os vender sub-repticiamente a preços reduzidos. Entretanto, descansarão tranquilamente na minha secretária à espera de um momento propício.”
Arsène não viu razão para não ir à casa dos Imbert no dia seguinte. Mas uma leitura dos jornais da manhã revelou este facto surpreendente: Ludovic e Gervaise Imbert tinham desaparecido.
Quando os funcionários da lei apreenderam o cofre e o abriram, encontraram lá o que Arsène Lupin tinha deixado — nada.
* * * * *
Tais são os factos; e soube o seguimento deles, um dia, quando Arsène Lupin estava com disposição confidencial. Caminhava de um lado para o outro no meu quarto, com um passo nervoso e um olhar febril que não eram habituais nele.
“Afinal de contas”, disse-lhe eu, “foi o seu empreendimento de maior sucesso.”
Sem dar uma resposta direta, ele disse:
“Existem alguns segredos impenetráveis ligados a esse caso; alguns pontos obscuros que escapam à minha compreensão. Por exemplo: O que causou a fuga deles? Por que não aproveitaram a ajuda que eu lhes dei inconscientemente? Teria sido tão simples dizer: ‘Os cem milhões estavam no cofre. Já não estão lá, porque foram roubados.’”
“Perderam a coragem.”
“Sim, é isso — perderam a coragem... Por outro lado, é verdade...”
“O que é verdade?”
“Oh! nada.”
Qual era o significado da reticência de Lupin? Era bastante óbvio que ele não me tinha contado tudo; havia algo que ele relutava em dizer. O seu comportamento intrigou-me. Teria de ser, de facto, um assunto muito sério para causar a um homem como Arsène Lupin até uma hesitação momentânea. Lancei algumas perguntas ao acaso.
“Viu-os desde então?”
“Não.”
“E nunca sentiu o mais leve grau de piedade por aquelas pessoas infortunadas?”
“Eu!” exclamou ele, sobressaltado.
A sua súbita agitação espantou-me. Tê-lo-ia tocado num ponto sensível? Continuei:
“Claro. Se não os tivesse deixado sozinhos, poderiam ter sido capazes de enfrentar o perigo ou, pelo menos, feito a sua fuga com os bolsos cheios.”
“O que quer dizer?” disse ele, indignado. “Suponho que tem a ideia de que a minha alma deveria estar cheia de remorsos?”
“Chame-lhe remorso ou arrependimentos — qualquer coisa que queira...”
“Não valem isso.”
“Não tem arrependimentos ou remorso por ter roubado a fortuna deles?”
“Que fortuna?”
“Os maços de títulos que tirou do cofre deles.”
“Oh! roubei os títulos deles, foi? Privai-os de uma parte da sua riqueza? É esse o meu crime? Ah! meu caro rapaz, não conhece a verdade. Nunca imaginou que esses títulos não valiam o papel em que estavam escritos. Esses títulos eram falsos — eram contrafeitos — cada um deles — entende? ERAM CONTRAFEITOS!”
Olhei para ele, atónito.
“Contrafeitos! Os quatro ou cinco milhões?”
“Sim, contrafeitos!” exclamou ele, num ataque de raiva. “Apenas tantos pedaços de papel! Não consegui arranjar um sou com todos eles! E pergunta-me se tenho algum remorso. Eles é que deveriam ter remorso e piedade. Fizeram-me de tolo; e eu caí na armadilha deles. Fui a sua última vítima, o seu mais estúpido ingénuo!”
Ele estava afetado por uma raiva genuína — o resultado da malícia e do orgulho ferido. Continuou:
“Do início ao fim, fui eu quem saiu a perder. Sabe o papel que desempenhei nesse caso, ou melhor, o papel que eles me fizeram desempenhar? O de André Brawford! Sim, meu rapaz, essa é a verdade, e eu nunca suspeitei. Só mais tarde, ao ler os jornais, é que a luz finalmente se fez no meu cérebro estúpido. Enquanto eu me fazia passar pelo seu ‘salvador’, como o cavalheiro que arriscara a vida para resgatar o senhor Imbert das garras de um assassino, eles faziam-me passar por Brawford. Não foi esplêndido? Aquele indivíduo excêntrico que tinha um quarto no segundo andar, aquele bárbaro que era exibido apenas à distância, era Brawford, e Brawford era eu! Graças a mim, e à confiança que inspirei sob o nome de Brawford, eles puderam pedir dinheiro emprestado aos banqueiros e outros agiotas. Ah! que experiência para um novato! E juro-lhe que aproveitarei a lição!”
Ele parou, agarrou-me o braço e disse-me, num tom de exasperação:
“Meu caro companheiro, neste preciso momento, Gervaise Imbert deve-me mil e quinhentos francos.”
Não pude conter o riso, a sua raiva era tão grotesca. Ele estava a fazer uma tempestade num copo de água. Num momento, ele próprio riu e disse:
“Sim, meu rapaz, mil e quinhentos francos. Deve saber que não recebi um sou do meu salário prometido e, mais do que isso, ela tinha-me pedido emprestada a quantia de mil e quinhentos francos. Todas as minhas poupanças de juventude! E sabe porquê? Para dedicar o dinheiro à caridade! Estou a contar-lhe uma história verdadeira. Ela queria-o para algumas pessoas pobres que ela estava a ajudar — sem o marido saber. E o meu dinheiro, ganho a pulso, foi-me extorquido por esse pretexto estúpido! Não é divertido, hein? Arsène Lupin enganado em mil e quinhentos francos pela bela dama a quem roubou quatro milhões em títulos contrafeitos! E que vasta quantidade de tempo, paciência e astúcia eu gastei para alcançar esse resultado! Foi a primeira vez na minha vida que me fizeram de tolo, e confesso francamente que fui enganado dessa vez à grande e à francesa!”
VIII. A Pérola Negra
Um toque violento na campainha acordou a porteira do número nove, avenue Hoche. Ela puxou o cordel da porta, resmungando:
“Pensei que toda a gente já estivesse em casa. Devem ser três horas!”
“Talvez seja alguém para o médico”, murmurou o marido.
Nesse momento, uma voz inquiriu:
“Doutor Harel.... que andar?”
“Terceiro andar, esquerda. Mas o doutor não sai de noite.”
“Ele tem de sair esta noite.”
O visitante entrou no vestíbulo, subiu ao primeiro andar, ao segundo, ao terceiro e, sem parar à porta do médico, continuou até ao quinto andar. Lá, tentou duas chaves. Uma delas encaixou na fechadura.
«Ah! Bom!» murmurou ele, «isso simplifica o negócio maravilhosamente. Mas, antes de começar o trabalho, é melhor tratar da minha retirada. Deixem-me ver... terei tido tempo suficiente para acordar o doutor e ser dispensado por ele? Ainda não... mais alguns minutos.»
Ao fim de dez minutos, desceu as escadas, resmungando ruidosamente sobre o médico. O porteiro abriu-lhe a porta e ouviu-a bater atrás de si. Mas a porta não trancou, pois o homem tinha rapidamente inserido um pedaço de ferro na fechadura, de tal modo que o ferrolho não podia entrar. Então, silenciosamente, entrou de novo na casa, sem que o porteiro desse por isso. Em caso de alarme, a sua retirada estava assegurada. Sem ruído, subiu ao quinto andar mais uma vez. Na antecâmara, à luz da sua lanterna elétrica, pousou o chapéu e o sobretudo numa das cadeiras, sentou-se noutra e cobriu os sapatos pesados com chinelos de feltro.
«Ufa! Aqui estou eu – e que simples que foi! Pergunto-me porque é que mais pessoas não adotam a ocupação lucrativa e agradável de ladrão. Com um pouco de cuidado e reflexão, torna-se uma profissão encantadora. Não demasiado silenciosa e monótona, claro, pois então tornar-se-ia enfadonha.»
Desenrolou um plano detalhado do apartamento.
«Deixem-me começar por me localizar. Aqui, vejo o vestíbulo onde estou sentado. De frente para a rua, a sala de estar, o boudoir e a sala de jantar. Inútil perder tempo ali, pois parece que a condessa tem um gosto deplorável... nem um bibelô que valha alguma coisa!... Agora, vamos ao que interessa!... Ah! aqui está um corredor; deve levar aos quartos de dormir. A uma distância de três metros, devo chegar à porta do guarda-roupa que comunica com o quarto da condessa.» Dobrou o seu plano, apagou a lanterna e seguiu pelo corredor, contando a distância, assim:
«Um metro... dois metros... três metros... Aqui está a porta... Mon Dieu, como é fácil! Apenas um pequeno e simples ferrolho separa-me agora do quarto, e sei que o ferrolho está localizado exatamente a um metro e quarenta e três centímetros do chão. Assim, graças a uma pequena incisão que estou prestes a fazer, poderei em breve livrar-me do ferrolho.»
Tirou do bolso os instrumentos necessários. Então, ocorreu-lhe a seguinte ideia:
«Suponhamos, por acaso, que a porta não está trancada. Vou experimentar primeiro.»
Rodou a maçaneta e a porta abriu-se.
«Meu bravo Lupin, certamente a fortuna favorece-te... O que fazer agora? Conheces a situação dos quartos; conheces o lugar onde a condessa esconde a pérola negra. Portanto, para garantir a pérola negra, tens simplesmente de ser mais silencioso que o silêncio, mais invisível que a própria escuridão.»
Arsène Lupin esteve ocupado durante bem meia hora a abrir a segunda porta – uma porta de vidro que dava para o quarto da condessa. Mas fê-lo com tanta habilidade e precaução que, mesmo que a condessa estivesse acordada, não teria ouvido o menor som. De acordo com o plano dos quartos que ele segurava, só tinha de contornar uma chaise-longue e, para lá dela, uma pequena mesa junto à cama. Sobre a mesa, havia uma caixa de papel de carta, e a pérola negra estava escondida nessa caixa. Abaixou-se e rastejou cautelosamente pelo tapete, seguindo os contornos da chaise-longue. Quando chegou à extremidade, parou para reprimir a pulsação do seu coração. Embora não fosse movido por qualquer sentimento de medo, achou impossível vencer a ansiedade nervosa que se sente habitualmente em pleno silêncio profundo. Essa circunstância surpreendeu-o, porque já tinha passado por momentos muito mais solenes sem o menor vestígio de emoção. Nenhum perigo o ameaçava. Então, porque é que o seu coração batia como um sino de alarme? Seria aquela mulher adormecida que o afetava? Seria a proximidade de outro coração a pulsar?
Escutou e pensou que conseguia discernir a respiração rítmica de uma pessoa a dormir. Isso deu-lhe confiança, como a presença de um amigo. Procurou e encontrou a poltrona; depois, com movimentos lentos e cautelosos, avançou em direção à mesa, tateando à sua frente com o braço estendido. A sua mão direita tocou num dos pés da mesa. Ah! agora, só tinha de se levantar, pegar na pérola e fugir. Foi uma sorte, pois o seu coração saltava no peito como uma fera selvagem e fazia tanto barulho que temia que acordasse a condessa. Com um esforço poderoso de vontade, subjugou a pulsação selvagem do seu coração e estava prestes a levantar-se do chão quando a sua mão esquerda encontrou, caído no chão, um objeto que reconheceu como um castiçal – um castiçal derrubado. Um momento depois, a sua mão encontrou outro objeto: um relógio – um daqueles pequenos relógios de viagem, revestidos a couro.-------
Bem! O que tinha acontecido? Ele não conseguia compreender. Aquele castiçal, aquele relógio; porque é que esses artigos não estavam nos seus lugares habituais? Ah! o que tinha acontecido no silêncio terrível da noite?
De repente, escapou-lhe um grito. Tinha tocado – oh! em alguma coisa estranha, inenarrável! «Não! não!» pensou, «não pode ser. É alguma fantasia do meu cérebro excitado.» Durante vinte segundos, trinta segundos, permaneceu imóvel, aterrorizado, com a testa banhada em suor, e os seus dedos ainda conservavam a sensação daquele contacto horrível.
Fazendo um esforço desesperado, aventurou-se a estender o braço novamente. Mais uma vez, a sua mão encontrou aquela coisa estranha e inenarrável. Sentiu-a. Tinha de a sentir e descobrir o que era. Descobriu que era cabelo, cabelo humano, e um rosto humano; e esse rosto estava frio, quase gelado.
Por mais assustadoras que sejam as circunstâncias, um homem como Arsène Lupin controla-se e domina a situação assim que descobre do que se trata. Por isso, Arsène Lupin usou rapidamente a sua lanterna. Uma mulher estava deitada diante dele, coberta de sangue. O seu pescoço e ombros estavam cobertos de feridas abertas. Debruçou-se sobre ela e fez um exame mais minucioso. Ela estava morta.
«Morta! Morta!» repetiu ele, com um ar atordoado.
Fitou aqueles olhos fixos, aquela boca cerrada, aquela carne lívida e aquele sangue – todo aquele sangue que tinha escorrido pelo tapete e coagulado ali em manchas espessas e negras. Levantou-se e acendeu as luzes elétricas. Então, viu todos os sinais de uma luta desesperada. A cama estava em grande desordem. No chão, o castiçal e o relógio, com os ponteiros a marcar vinte minutos depois das onze; depois, mais afastada, uma cadeira derrubada; e, por toda a parte, havia sangue, manchas de sangue e poças de sangue.
«E a pérola negra?» murmurou ele.
A caixa de papel de carta estava no seu lugar. Abriu-a, ansioso. O estojo das joias estava lá, mas estava vazio.
«Fichtre!» resmungou. «Gabaste-te da tua boa sorte demasiado cedo, meu amigo Lupin. Com a condessa fria e morta e a pérola negra desaparecida, a situação é tudo menos agradável. Sai daqui o mais depressa que puderes, ou podes meter-te em sarilhos graves.»
No entanto, ele não se moveu.
«Sair daqui? Sim, claro. Qualquer pessoa o faria, exceto Arsène Lupin. Ele tem algo melhor a fazer. Agora, para proceder de forma ordenada. De qualquer modo, tens a consciência tranquila. Suponhamos que és o comissário de polícia e que estás a proceder a um inquérito sobre este assunto... Sim, mas para isso, preciso de um cérebro mais lúcido. O meu está confuso como um cozinhado.»
Atirou-se para uma poltrona, com as mãos cerradas pressionadas contra a testa a arder.
* * * * *
O assassínio na avenue Hoche é um daqueles que surpreenderam e intrigaram recentemente o público parisiense e, certamente, eu nunca teria mencionado o assunto se o véu de mistério não tivesse sido removido pelo próprio Arsène Lupin. Ninguém sabia a verdade exata do caso.
Quem não conhecia – de a ter encontrado no Bois – a bela Léotine Zalti, a outrora famosa cantora, esposa e viúva do Conde d’Andillot; a Zalti, cujo luxo deslumbrou toda a Paris há cerca de vinte anos; a Zalti que adquiriu uma reputação europeia pela magnificência dos seus diamantes e pérolas? Dizia-se que ela usava sobre os ombros o capital de várias casas bancárias e as minas de ouro de numerosas companhias australianas. Joalheiros habilidosos trabalhavam para Zalti como outrora tinham trabalhado para reis e rainhas. E quem não se lembra da catástrofe em que toda essa riqueza se perdeu? De toda aquela coleção maravilhosa, nada restava exceto a famosa pérola negra. A pérola negra! Ou seja, uma fortuna, se ela tivesse querido desfazer-se dela.
Mas ela preferiu guardá-la, viver num apartamento comum com a sua dama de companhia, a cozinheira e um criado, em vez de vender aquela joia inestimável. Havia uma razão para isso; uma razão que ela não tinha medo de revelar: a pérola negra era o presente de um imperador! Quase arruinada e reduzida à existência mais medíocre, permaneceu fiel à companheira da sua juventude feliz e brilhante. A pérola negra nunca saiu da sua posse. Usava-a durante o dia e, à noite, escondia-a num lugar conhecido apenas por ela.
Todos estes factos, sendo republicados nas colunas da imprensa, serviram para estimular a curiosidade; e, estranhamente, mas muito óbvio para aqueles que têm a chave do mistério, a detenção do presumível assassino apenas complicou a questão e prolongou a excitação. Dois dias depois, os jornais publicaram o seguinte artigo:
«Chegou ao nosso conhecimento a detenção de Victor Danègre, o criado da Condessa d’Andillot. As provas contra ele são claras e convincentes. Na manga de seda do seu colete de libré, que o chefe detetive Dudouis encontrou no seu sótão entre os colchões da sua cama, foram descobertas várias manchas de sangue. Além disso, faltava um botão forrado a tecido nessa peça de vestuário, e esse botão foi encontrado debaixo da cama da vítima.
«Supõe-se que, após o jantar, em vez de ir para o seu próprio quarto, Danègre esgueirou-se para o guarda-roupa e, através da porta de vidro, viu a condessa esconder a preciosa pérola negra. Isto é apenas uma teoria, ainda não verificada por qualquer prova. Existe, também, outro ponto obscuro. Às sete horas da manhã, Danègre foi à tabacaria no Boulevard de Courcelles; o porteiro e o dono da loja confirmam este facto. Por outro lado, a dama de companhia e a cozinheira da condessa, que dormem ao fundo do corredor, declaram ambas que, quando se levantaram às oito horas, a porta da antecâmara e a porta da cozinha estavam trancadas. Estas duas pessoas estão ao serviço da condessa há vinte anos e estão acima de qualquer suspeita. A questão é: como saiu Danègre do apartamento? Teria ele outra chave? São assuntos que a polícia irá investigar.»
De facto, a investigação policial não lançou qualquer luz sobre o mistério. Ficou-se a saber que Victor Danègre era um criminoso perigoso, um bêbado e um libertino. Mas, à medida que prosseguiam com a investigação, o mistério aprofundava-se e surgiam novas complicações. Em primeiro lugar, uma jovem, a Srta. De Sinclèves, prima e única herdeira da condessa, declarou que a condessa, um mês antes da sua morte, lhe tinha escrito uma carta na qual descrevia a forma como a pérola negra estava escondida. A carta desapareceu no dia seguinte ao que ela a recebeu. Quem a tinha roubado?
Mais uma vez, o porteiro relatou como tinha aberto a porta a uma pessoa que tinha perguntado pelo Doutor Harel. Ao ser questionado, o doutor testemunhou que ninguém tinha tocado à sua campainha. Então, quem era essa pessoa? Um cúmplice?
A teoria de um cúmplice foi então adotada pela imprensa e pelo público, e também por Ganimard, o famoso detetive.
«Lupin está no fundo deste assunto», disse ele ao juiz.
«Bah!» exclamou o juiz, «tem o Lupin no cérebro. Vê-o em toda a parte.»
«Vejo-o em toda a parte, porque ele está em toda a parte.»
«Diga antes que o vê sempre que encontra algo que não consegue explicar. Além disso, esquece-se de que o crime foi cometido às onze horas e vinte minutos da noite, como é mostrado pelo relógio, enquanto a visita noturna, mencionada pelo porteiro, ocorreu às três horas da manhã.»
Os agentes da lei formam frequentemente uma convicção apressada sobre a culpa de uma pessoa suspeita e, depois, distorcem todas as descobertas subsequentes para se conformarem à sua teoria estabelecida. Os antecedentes deploráveis de Victor Danègre, criminoso habitual, bêbado e libertino, influenciaram o juiz e, apesar de nada de novo ter sido descoberto em corroboração das pistas iniciais, a sua opinião oficial permaneceu firme e inabalável. Encerrou a sua investigação e, algumas semanas depois, começou o julgamento. Revelou-se lento e tedioso. O juiz estava apático e o ministério público apresentou o caso de forma descuidada. Nessas circunstâncias, o advogado de Danègre teve uma tarefa fácil. Apontou os defeitos e as inconsistências do caso da acusação e argumentou que as provas eram manifestamente insuficientes para condenar o arguido. Quem tinha feito a chave, a indispensável chave sem a qual Danègre, ao sair do apartamento, não poderia ter trancado a porta atrás de si? Quem tinha visto tal chave e o que tinha acontecido com ela? Quem viu a faca do assassino e onde está ela agora?
«De qualquer modo», argumentou o advogado do prisioneiro, «a acusação deve provar, para além de qualquer dúvida razoável, que o prisioneiro cometeu o homicídio. A acusação deve mostrar que o indivíduo misterioso que entrou na casa às três horas da manhã não é o culpado. É certo que o relógio indicava onze horas. Mas e daí? Sustento que isso não prova nada. O assassino poderia rodar os ponteiros do relógio para qualquer hora que quisesse e, assim, enganar-nos em relação à hora exata do crime.»
Victor Danègre foi absolvido.
Saiu da prisão na sexta-feira ao anoitecer, fraco e deprimido pelos seus seis meses de reclusão. O interrogatório, a solidão, o julgamento, as deliberações do júri, combinaram-se para o encher de um medo nervoso. À noite, era atormentado por pesadelos terríveis e perseguido por visões estranhas do cadafalso. Ele era um farrapo mental e físico.
Sob o nome falso de Anatole Dufour, alugou um pequeno quarto nas alturas de Montmartre e vivia de biscates onde quer que os pudesse encontrar. Levava uma existência miserável. Três vezes conseguiu um emprego fixo, apenas para ser reconhecido e depois despedido. Por vezes, tinha a ideia de que homens o seguiam – detetives, sem dúvida, que tentavam apanhá-lo e denunciá-lo. Quase conseguia sentir a mão forte da lei a agarrá-lo pelo colarinho.
Certa noite, enquanto jantava num restaurante próximo, um homem entrou e sentou-se à mesma mesa. Era uma pessoa de cerca de quarenta anos e usava uma sobrecasaca de limpeza duvidosa. Pediu sopa, legumes e uma garrafa de vinho. Depois de terminar a sua sopa, virou os olhos para Danègre e olhou-o atentamente. Danègre estremeceu. Tinha a certeza de que aquele era um dos homens que o seguia há várias semanas. O que é que ele queria? Danègre tentou levantar-se, mas não conseguiu. Os seus membros recusaram-se a sustentá-lo. O homem serviu-se de um copo de vinho e depois encheu o copo de Danègre. O homem ergueu o seu copo e disse:
«À sua saúde, Victor Danègre.»
Victor sobressaltou-se em alarme e gaguejou:
«Eu!... Eu!... não, não... juro-lhe...»
«Jura o quê? Que não é quem é? O criado da condessa?»
«Que criado? O meu nome é Dufour. Pergunte ao proprietário.»
«Sim, Anatole Dufour para o proprietário deste restaurante, mas Victor Danègre para os agentes da lei.»
«Isso não é verdade! Alguém lhe mentiu.»
O recém-chegado tirou um cartão do bolso e entregou-o a Victor, que leu nele: «Grimaudan, ex-inspetor da força de detetives. Negócios privados tratados.» Victor estremeceu ao dizer:
«O senhor tem ligações com a polícia?»
«Não, agora não, mas tenho gosto pelo negócio e continuo a trabalhar nele de uma forma mais... rentável. De tempos a tempos, deparo-me com uma oportunidade de ouro – tal como o seu caso apresenta.»
«O meu caso?»
«Sim, o seu. Garanto-lhe que é um caso muito promissor, desde que esteja disposto a ser razoável.»
«E se eu não for razoável?»
«Oh! meu caro, não está em posição de me recusar o que quer que seja que eu peça.»
«O que é que... o senhor quer?» gaguejou Victor, temeroso.
«Bem, informá-lo-ei em poucas palavras. Sou enviado pela Srta. de Sinclèves, a herdeira da Condessa d’Andillot.»
«Para quê?»
«Para recuperar a pérola negra.»
«Pérola negra?»
«Que o senhor roubou.»
«Mas eu não a tenho.»
«O senhor tem-na.»
«Se a tivesse, então eu seria o assassino.»
«O senhor é o assassino.»
Danègre mostrou um sorriso forçado.
«Felizmente para mim, senhor, o Tribunal de Assizes não foi da sua opinião. O júri proferiu um veredito unânime de absolvição. E quando um homem tem a consciência tranquila e doze bons homens a seu favor...»
O ex-inspetor agarrou-o pelo braço e disse:
«Sem frases bonitas, meu rapaz. Agora, ouça-me e pese bem as minhas palavras. Descobrirá que são dignas da sua consideração. Ora, Danègre, três semanas antes do homicídio, o senhor subtraiu a chave da cozinheira para a porta dos criados e mandou fazer uma chave duplicada por um serralheiro chamado Outard, 244 rue Oberkampf.»
«É mentira – é mentira!» rosnou Victor. «Ninguém viu essa chave. Não existe tal chave.»
«Aqui está ela.»
Após um silêncio, Grimaudan continuou:
«O senhor matou a condessa com uma faca comprada por si no Bazar de la République no mesmo dia em que encomendou a chave duplicada. Tem uma lâmina triangular com um sulco que vai de uma ponta à outra.»
«Isso é tudo disparate. O senhor está apenas a adivinhar algo que não sabe. Ninguém viu a faca.»
«Aqui está ela.»
Victor Danègre recuou. O ex-inspetor continuou:
«Há algumas manchas de ferrugem nela. Quer que lhe diga como lá foram parar?»
«Bem!... o senhor tem uma chave e uma faca. Quem pode provar que me pertencem?»
«O serralheiro e o empregado a quem comprou a faca. Já lhes refresquei a memória e, quando os confrontar, não poderão deixar de o reconhecer.»
O seu discurso era seco e duro, com um tom de firmeza e precisão. Danègre tremia de medo e, contudo, lutava desesperadamente para manter um ar de indiferença.
«É essa toda a prova que tem?»
«Oh! não, de modo nenhum. Tenho muito mais. Por exemplo, depois do crime, o senhor saiu pelo mesmo caminho por onde tinha entrado. Mas, no centro da sala de guarda-roupa, tomado por um medo súbito, o senhor apoiou-se na parede para se sustentar.»
«Como é que sabe isso? Ninguém poderia saber tal coisa», argumentou o homem desesperado.
«A polícia não sabe nada sobre isso, claro. Eles nunca pensam em acender uma vela e examinar as paredes. Mas se o tivessem feito, teriam encontrado no reboco branco uma mancha vermelha ténue, bastante distinta, no entanto, para nela traçar a marca do seu polegar que o senhor tinha pressionado contra a parede enquanto ela estava molhada de sangue. Ora, como o senhor bem sabe, sob o sistema Bertillon, as marcas dos polegares são um dos principais meios de identificação.»
Victor Danègre estava lívido; grandes gotas de suor rolavam pelo seu rosto e caíam sobre a mesa. Fitava, com um olhar selvagem, o homem estranho que tinha narrado a história do seu crime tão fielmente como se tivesse sido uma testemunha invisível dele. Vencido e impotente, Victor baixou a cabeça. Sentiu que era inútil lutar contra aquele homem maravilhoso. Então, disse:
«Quanto é que me dá, se eu lhe der a pérola?»
«Nada.»
«Oh! está a brincar! Ou quer dizer que eu deveria dar-lhe um artigo que vale milhares e centenas de milhares e não receber nada em troca?»
«O senhor receberá a sua vida. Isso não é nada?»
O infeliz estremeceu. Então, Grimaudan acrescentou, num tom mais suave:
«Vamos, Danègre, essa pérola não tem valor nas suas mãos. É perfeitamente impossível para o senhor vendê-la; por isso, para que serve guardá-la?»
«Existem casas de penhores... e, um dia, serei capaz de obter alguma coisa por ela.»
«Mas esse dia pode ser tarde demais.»
«Porquê?»
“Porque, a essa altura, poderá estar nas mãos da polícia e, com as provas que posso oferecer – a faca, a chave, a marca de polegar – que será de si?”
Victor apoiou a cabeça nas mãos e refletiu. Sentiu‑se perdido, irremediavelmente perdido, e, ao mesmo tempo, uma sensação de cansaço e depressão o invadiu. Murmurou, a sós:
“Quando devo entregá‑la a vós?”
“Esta noite — dentro de uma hora.”
“Se eu recusar?”
“Se recusar, enviarei esta carta ao Procureur da República; nela, Mademoiselle de Sinclèves o denunciará como assassino.”
Danègre serviu duas taças de vinho, que bebeu em rápida sucessão, então, ao levantar‑se, disse:
“Quite a conta e vamos embora. Já tive bastante desta desgraçada aventura.”
A noite havia caído. Os dois homens caminharam pela rue Lepic e seguiram os boulevards exteriores na direção da Place de l’Etoile. Progrediram em silêncio; Victor mantinha uma carruagem curvada e um semblante abatido. Ao alcançarem o Parc Monceau, disse:
“Estamos perto da casa.”
“Parbleu! Só saiu da casa uma vez, antes da prisão, e isso foi para ir à tabacaria.”
“Aqui está,” disse Danègre, com voz monótona.
Passaram pela parede‑jardim da casa da condessa e atravessaram uma rua cujo canto ostentava a tabacaria. A poucos passos adiante, Danègre parou; os membros tremiam sob ele, e ele desabou num banco.
“Então! E agora?” exigiu o companheiro.
“Está aqui.”
“Onde? Venha logo, sem frescuras!”
“Aqui — bem à nossa frente.”
“Onde?”
“Entre duas pedras de calçada.”
“Qual?”
“Procure‑a.”
“Quais pedras?”
Victor não respondeu.
“Ah; entendo!” exclamou Grimaudan, “quer que eu pague pela informação.”
“Não… mas… temo morrer de fome.”
“Então! É por isso que hesita. Bem, não serei duro. Quanto deseja?”
“Suficiente para comprar um bilhete de terceira classe para a América.”
“Está bem.”
“E cem francos para me manter até arranjar trabalho lá.”
“Terá duzentos. Agora, fale.”
“Conte as pedras de calçada à direita do bueiro. A pérola está entre a décima‑segunda e a décima‑terceira.”
“No esgoto?”
“Sim, próximo ao passeio.”
Grimaudan olhou ao redor para ver se alguém observava. Alguns bondes e pedestres passavam. Mas, bah, não suspeitarão de nada. Abriu o canivete de bolso e enfiou‑o entre a décima‑segunda e a décima‑terceira pedra.
“E se não estiver lá?” disse a Victor.
“Deve estar, a menos que alguém me tenha visto curvar‑me e esconder‑a.”
Será possível que a pérola negra tenha sido lançada na lama e na imundície do esgoto para ser recolhida pelo primeiro que ali chegasse? A pérola negra — uma fortuna!
“Quão fundo?” perguntou.
“Cerca de dez centímetros.”
Ele cavou a terra úmida. A ponta da faca atingiu algo. Alargou o buraco com o dedo. Então extraiu a pérola negra de seu sujo esconderijo.
“Bom! Eis os seus duzentos francos. Enviarei o bilhete para a América.”
No dia seguinte, esse artigo foi publicado no _Echo de France_, e cópiado pelo principal conjunto de jornais do mundo:
“Ontem, a famosa pérola negra entrou nas mãos de Arsène Lupin, que a recuperou do assassino da Condessa d’Andillot. Em pouco tempo, fac‑símiles da preciosíssima joia serão exibidos em Londres, São Petersburgo, Calcutá, Buenos Aires e Nova Iorque.
“Arsène Lupin terá prazer em considerar todas as proposições submetidas a ele por meio de seus agentes.”
* * * * *
“E assim o crime é sempre punido e a virtude recompensada,” disse Arsène Lupin, depois de me contar a história da pérola negra.
“E assim o senhor, sob o nome assumido de Grimaudan, ex‑inspector de detetives, foi escolhido pelo destino para privar o criminoso do benefício de seu crime.”
“Exatamente. E confesso que o caso me dá infinita satisfação e orgulho. Os quarenta minutos que passei no apartamento da Condessa d’Andillot, após saber de sua morte, foram os mais excitantes e absorventes da minha vida. Nesses quarenta minutos, envolvido numa situação de extremo perigo, estudei calmamente a cena do assassinato e concluí que o crime devia ter sido cometido por um dos criados da casa. Decidi também que, para obter a pérola, esse criado deveria ser preso, e deixei o botão do cômodo; fora ainda necessário possuir evidência convincente de sua culpa, por isso levei a faca que achei no chão e a chave que encontrei na fechadura. Fechei e tranquei a porta, e apaguei as marcas de dedo do reboco no armário‑guarda‑roupa. Na minha opinião, isso foi um daqueles lampejos—”
“De gênio,” interrompi.
“De gênio, se preferir. Mas, engano‑me, não teria ocorrido à mente do mortais comum. Estruturar, imediatamente, os dois elementos do problema — uma prisão e uma absolvição; usar a formidável maquinaria da lei para esmagar e humilhar minha vítima, reduzindo‑a a uma condição em que, quando livre, ela inevitavelmente cairia na armadilha que eu lhe preparava!”
“Pobre diabo—”
“Pobre diabo, diz? Victor Danègre, o assassino! Poderia ter descido às profundezas mais baixas do vício e do crime, se tivesse retido a pérola negra. Agora vive! Pense nisso: Victor Danègre está vivo!”
“E o senhor tem a pérola negra.”
Ele tirou‑a de um dos bolsos secretos da carteira, examinou‑a, olhou‑a ternamente, acariciou‑a com dedos amorosos e suspirou ao dizer:
“Que príncipe russo frio, que rajá vaidoso e insensato, poderá um dia possuir este tesouro incomparável! Ou, talvez, algum milionário americano destine‑se a ser dono deste fragmento de beleza exímia que outrora adornou o gracioso seio de Leontine Zalti, a Condessa d’Andillot.”
IX. Sherlock Holmes Chega Tarde
“É realmente notável, Velmont, quão grande semelhança tem vossa figura com Arsène Lupin!”
“Como sabe isso?”
“Ah! como todos, por fotografias, nenhuma igual à outra, mas cada qual deixa a impressão de um rosto… algo como o vosso.”
Horace Velmont exibiu certa vexação.
“Assim é, minha cara Devanne. E creia que não és a primeira que notou isso.”
“É tão marcante,” persistiu Devanne, “que se não me tivesse recomendado meu primo d’Estevan, e se não fosse o célebre artista cujas vistas marinhas admire tanto, não teria doubtado avisar a polícia da sua presença em Dieppe.”
Esse comentário foi recebido com explosão de risos. O amplo salão de jantar do Château de Thibermesnil continha nesta ocasião, além de Velmont, os seguintes convidados: o padre Gélis, pároco, e uma dúzia de oficiais cujos regimentos estavam alojados nas proximidades e que aceitaram o convite do banquero Georges Devanne e sua mãe. Um dos oficiais então observou:
“Entendo que uma descrição exata de Arsène Lupin foi fornecida a toda a polícia desta costa desde sua audaciosa façanha no expresso Paris‑Havre.”
“Supõe‑se,” disse Devanne. “Foi há três meses; e uma semana depois conheci nosso amigo Velmont no cassino, e, desde então, ele tem me honrado com várias visitas — um agradável preâmbulo a uma visita mais séria que ele me pagará um dia — ou melhor, numa dessas noites.”
Esse discurso provocou outro conjunto de gargalhadas, e os convidados passaram então para a antiga “Sala dos Guardas”, imensa câmara com teto alto, que ocupava toda a parte inferior da Tour Guillaume — Torre de Guillaume — e onde Georges Devanne havia reunido os incomparáveis tesouros que os senhores de Thibermesnil acumularam ao longo de séculos. Continha arcáveis antigos, credências, brasas e candelabros. As paredes de pedra estavam cobertas de magníficos tapeçários. As profundas alcovas das quatro janelas tinham bancos, e as janelas góticas eram compostas de pequenos vidros coloridos emoldurados em chumbo. Entre a porta e a janela da esquerda erguia‑se uma imensa estante renascentista, cujo frontão, em letras douradas, exibia a palavra “Thibermesnil”, e, abaixo dela, o orgulhoso brasão da família: “Fais ce que veulx” (Faze o que quiseres). Quando os convidados acenderam seus charutos, Devanne retomou a conversa.
“E lembre‑se, Velmont, que não tem tempo a perder; de fato, esta noite é a última oportunidade que terá.”
“Como assim?” indagou o pintor, que parecia tratar o assunto como uma piada. Devanne prestes a responder, sua mãe lhe pediu silêncio, mas a excitação do momento e o desejo de interessar seus convidados o impulsionaram a falar.
“Bah!” murmurou. “Já posso contar. Não fará mal.”
Os convidados aproximaram‑se, e ele começou a falar com a satisfação de um homem que tem um importante anúncio a fazer.
“Na tarde de amanhã, às quatro horas, Sherlock Holmes, o famoso detetive inglês, para quem o mistério não existe; Sherlock Holmes, o mais notável solucionador de enigmas que o mundo já conheceu, aquele maravilhoso homem que parece a criação de um romancista romântico — Sherlock Holmes será meu convidado!”
Imediatamente Devanne foi alvo de inúmeras perguntas ansiosas. “Sherlock Holmes vem mesmo?” “É tão sério assim?” “Arsène Lupin está realmente por cá perto?”
“Arsène Lupin e sua quadrilha não estão longe. Além do roubo do Barão Cahorn, lhe credita‑se os furtos de Montigny, Gruchet e Crasville. E agora é a minha vez.”
“Ele lhe enviou um aviso, como fez ao Barão Cahorn?”
“Não,” respondeu Devanne, “não pode repetir o mesmo truque duas vezes.”
“O que então?”
“Mostrarei.”
Ele se levantou, e apontando para um pequeno espaço vazio entre os dois enormes folios de uma das prateleiras da estante, disse:
“Havia um livro ali — um livro do século XVI intitulado ‘Chronique de Thibermesnil’, que continha a história do castelo desde sua construção pelo Duque Rollo sobre o sítio de uma antiga fortaleza feudal. O livro trazia três gravuras: uma vista geral da propriedade; outra, o plano dos edifícios; e a terceira — chamo a vossa atenção, particularmente — a terceira era o esboço de uma passagem subterrânea, cuja entrada está fora da primeira linha de muralhas, enquanto o outro extremo da passagem está aqui, nesta mesma sala. Pois bem, esse livro desapareceu há um mês.”
“O inferno!” exclamou Velmont, “isso parece grave. Mas não parece razão suficiente para chamar Sherlock Holmes.”
“Certamente, isso por si só não bastava, mas outro incidente deu ao desaparecimento do livro um significado especial. Existia outra cópia desse livro na Bibliothèque Nationale de Paris, e os dois livros divergiam em certos detalhes relativos à passagem subterrânea; por exemplo, cada um continha desenhos e anotações, não impressas, mas escritas a tinta e mais ou menos apagadas. Eu sabia desses fatos, e sabia que a localização exata da passagem só poderia ser determinada mediante comparação dos dois livros. Logo, no dia seguinte ao desaparecimento do meu livro, a obra foi requisitada na Bibliothèque Nationale por um leitor que a levou, e ninguém sabe como o roubo foi efetuado.”
Os convidados exclamaram surpresa.
“Certamente, o caso parece sério,” comentou um.
“Bem, a polícia investigou e, como de costume, não encontrou pista alguma.”
“Nunca encontram quando Arsène Lupin está envolvido.”
“Exatamente; e por isso decidi solicitar a assistência de Sherlock Holmes, que respondeu que estava pronto e ansioso para entrar em competição com Arsène Lupin.”
“Que glória para Arsène Lupin!” disse Velmont. “Mas se o nosso ladrão nacional, como o chamam, não tem planos malévolos contra o vosso castelo, Sherlock Holmes terá sua viagem em vão.”
“Há outras coisas que o interessarão, como a descoberta da passagem subterrânea.”
“Mas diseste que um extremo da passagem fica fora das muralhas e o outro nesta mesma sala!”
“Sim, mas em que parte da sala? A linha que representa a passagem nos mapas termina aqui, com um pequeno círculo marcado pelas letras ‘T.G.’, que sem dúvida significam ‘Tour Guillaume.’ Mas a torre é redonda, e quem poderá dizer o ponto exato onde a passagem toca a torre?”
Devanne acendeu um segundo charuto e serviu‑se um copo de Benedictine. Seus convidados o pressionavam com perguntas e ele se mostrava satisfeito com o interesse que seus comentários despertavam. Prosseguiu então:
“O segredo está perdido. Ninguém o conhece. A lenda diz que os antigos senhores do castelo transmitiam o segredo de pai para filho em leitos de morte, até que Geoffroy, o último da linhagem, foi decapitado durante a Revolução aos dezenove anos.”
“Isso foi há mais de um século. Alguém já o procurou desde então?”
“Sim, mas falharam em encontrá‑lo. Depois de comprar o castelo, fiz uma busca diligente, mas sem sucesso. Deve‑se lembrar que a torre está rodeada por água e ligada ao castelo apenas por uma ponte; consequentemente, a passagem deve estar sob o antigo fosso. O plano que constava no livro da Bibliothèque Nationale mostrava uma série de escadas com quarenta e oito degraus, o que indica uma profundidade superior a dez metros. Vês, o mistério reside nas paredes desta sala, e, no entanto, reluto em derrubá‑las.”
“Não há nada que indique onde está?”
“Nada.”
“Monsieur Devanne, devemos voltar nossa atenção às duas citações,” sugeriu o padre Gélis.
“Oh!” exclamou Mons. Devanne, rindo, “nosso digno padre é aficionado por memórias e arquivos empoeirados do castelo. Tudo que concerne a Thibermesnil interessa‑o profundamente. Mas as citações que menciona só servem para complicar o enigma. Ele leu em algum lugar que dois reis da França conheceram a chave do quebra‑cabeça.”
“Dois reis da França! Quem foram?”
“Henrique IV e Luís XVI. E a lenda segue assim: na véspera da batalha de Arques, Henrique IV passou a noite neste castelo. Às onze da noite, Louise de Tancarville, a mais bela mulher da Normandia, foi trazida ao castelo pela passagem subterrânea sob ordens do Duque Edgard, que ao mesmo tempo informou ao rei sobre a passagem secreta. Depois, o rei confiou o segredo ao seu ministro Sully, que, por sua vez, relata a história em seu livro, ‘Royales Economies d’Etat’, sem fazer comentário, mas inserindo a frase incompreensível: ‘Volte um olho para a abelha que treme, o outro olho levará a Deus!’”
Após breve silêncio, Velmont riu e disse:
“Certamente, não lança luz deslumbrante sobre o assunto.”
“Não; mas o padre Gélis afirma que Sully escondeu a chave do mistério nessa estranha frase para manter o segredo dos secretários a quem ditou suas memórias.”
“É uma teoria engenhosa,” comentou Velmont.
“Sim, e pode não ser nada; não vejo como isso esclareça o enigma.”
“E foi também para receber a visita de uma dama que Luís XVI fez a passagem ser aberta?”
“Não sei,” respondeu Mons. Devanne. “Só sei que o rei passou aqui numa noite de 1784, e que o famoso Cofre de Ferro encontrado no Louvre continha um papel com estas palavras escritas à mão pelo rei: ‘Thibermesnil 3‑4‑11.’”
Horace Velmont riu alto, e exclamou:
“Finalmente! E agora que temos a chave mágica, onde está o homem que a encaixe na fechadura invisível?”
“Ria o quanto quiser, senhor,” disse o padre Gélis, “mas estou confiante de que a solução está contida nessas duas frases, e algum dia encontraremos um homem capaz de interpretá‑las.”
“Sherlock Holmes é esse homem,” disse Mons. Devanne, “a menos que Arsène Lupin o antecipe. Qual a sua opinião, Velmont?”
Velmont levantou‑se, pousou a mão sobre o ombro de Devanne, e declarou:
“Acho que a informação fornecida pelo seu livro e pelo da Bibliothèque Nationale carecia de um detalhe muito importante que o senhor agora apresentou. Agradeço‑lhe por isso.”
“O que é?”
“A chave que falta. Agora que a tenho, posso pôr‑me a trabalhar de imediato,” disse Velmont.
“Claro; sem perder um minuto,” respondeu Devanne, sorrindo.
“Nem um segundo!” replicou Velmont. “Esta noite, antes da chegada de Sherlock Holmes, devo saquear o seu castelo.”
“Não tem tempo a perder. Ah! a propósito, posso conduzi‑lo esta noite.”
“A Dieppe?”
“Sim. Irei encontrar‑me com Monsieur e Madame d’Androl e uma jovem conhecida deles que chegarão de trem à meia‑noite.”
Então, dirigindo‑se aos oficiais, Devanne acrescentou:
“Senhores, espero ver todos vós ao pequeno‑almoço amanhã.”
O convite foi aceito. A companhia dispersou‑se, e poucos momentos depois Devanne e Velmont corriam em automóvel rumo a Dieppe. Devanne deixou o artista diante do Casino e seguiu até a estação de trem. Ao meio‑dia, seus amigos desembarcaram do comboio. Trinta minutos depois o automóvel chegou à entrada do castelo. À uma hora, após um leve jantar, retiraram‑se. As luzes foram apagadas, e o castelo ficou envolto na escuridão e silêncio da noite.
* * * * *
A lua apareceu por uma fenda nas nuvens, e encheu a sala de estar com sua luz branca e intensa. Mas só por um instante. Então a lua recuou novamente por atrás de seus véus etéreos, e a escuridão e o silêncio dominaram supremos. Não se ouvia outro som senão o tique‑taque monótono do relógio. Ele marcou duas, e então prosseguiu nas intermináveis repetições dos segundos. Então, três horas.
Subitamente algo clicou, como a abertura e fechamento de um disco de sinal que avisa o trem que passa. Um fino feixe de luz varreu cada canto da sala, como uma flecha que deixa atrás de si um rastro luminoso. Emanou do fluir central de uma coluna que sustentava o frontão da estante. Parou um instante no painel oposto como um círculo cintilante de prata polida, então disparou em todas as direções como um olho culpado que perscruta toda sombra. Desapareceu por um breve período, mas ressurgiu quando toda a seção da estante girou sobre um pivô e revelou uma grande abertura como uma câmara.
Um homem entrou, carregando uma lanterna elétrica. Seguiu‑o um segundo homem, que trazia um rolo de corda e várias ferramentas. O líder inspeccionou a sala, ouviu‑a por um momento, e disse:
“Chamem os outros.”
Então oito homens, corpulentos, de rostos resolutos, adentraram a sala e, imediatamente, começaram a remover os móveis. Arsène Lupin passava rapidamente de um móvel a outro, examinava‑os, e, conforme seu tamanho ou valor artístico, ordenava aos seus homens que os levassem ou os deixassem. Se ordenado a ser levado, era carregado até a boca escancarada do túnel e, impiedosamente, lançado às entranhas da terra. Esse foi o destino de seis poltronas, seis cadeiras pequenas de Luís XV, quantidade de tapeçarias de Aubusson, alguns candelabros, quadros de Fragonard e Nattier, um busto de Houdon e algumas estatuetas. Por vezes, Lupin demorava‑se diante de um cofre belo ou de um quadro magnífico e suspirava:
“É pesado demais… grande demais… que pena!”
Em quarenta minutos a sala fora desmontada; e o fez de modo tão ordenado e com tão pouco ruído, como se os objetos tivessem sido embalados e almofadados para a ocasião.
Lupin dirigiu‑se ao último homem que partia pelo túnel:
“Não precisas voltar. Entendes que, assim que a van‑automóvel estiver carregada, deves seguir para a granja em Roquefort.”
“Mas vós, patrono?”
“Deixai‑me a motocicleta.”
Quando o homem desapareceu, Arsène Lupin empurrou a seção da estante de volta ao seu lugar, apagou cuidadosamente os vestígios das pegadas dos homens, levantou uma cortina e entrou em uma galeria, que era o único meio de comunicação entre a torre e o castelo. No centro dessa galeria havia um armário de vidro que atraíra a atenção de Lupin. Continha uma valiosa coleção de relógios, caixas de rapé, anéis, correntes de cintura e miniaturas de raro e belo lavor. Ele forçou a fechadura com um pequeno pé de cabra e sentiu um grande prazer ao manusear aqueles ornamentos de ouro e prata, aquelas obras de arte requintadas e delicadas.
Ele carregava um grande saco de linho, especialmente preparado para a remoção de tais bugigangas. Encheu-o. Depois, encheu os bolsos de seu paletó, colete e calças. E estava justamente colocando sobre o braço esquerdo uma quantidade de bolsas de pérolas quando ouviu um leve som. Ele escutou. Não, ele não se enganara. O ruído continuou. Então lembrou-se de que, em uma das extremidades da galeria, havia uma escadaria que levava a um apartamento desocupado, mas que provavelmente estava ocupado naquela noite pela jovem que o Sr. Devanne trouxera de Dieppe com seus outros visitantes.
Imediatamente apagou sua lanterna e mal alcançara o abrigo amistoso de um vão de janela quando a porta no topo da escadaria foi aberta e uma luz fraca iluminou a galeria. Ele podia sentir — pois, oculto por uma cortina, não podia ver — que uma mulher descia cautelosamente os degraus superiores da escada. Ele esperava que ela não se aproximasse mais. No entanto, ela continuou a descer e até avançou certa distância na sala. Então, ela soltou um grito fraco. Sem dúvida, descobrira o armário arrombado e esvaziado.
Ela avançou novamente. Agora ele podia sentir o perfume e ouvir o palpitar de seu coração à medida que ela se aproximava da janela onde ele estava escondido. Ela passou tão perto que sua saia roçou na cortina da janela, e Lupin sentiu que ela suspeitava da presença de outro, atrás dela, na sombra, ao alcance de sua mão. Ele pensou: “Ela está com medo. Ela vai embora”. Mas ela não foi. A vela, que ela carregava na mão trêmula, brilhou mais. Ela virou-se, hesitou um momento, pareceu escutar, então subitamente puxou a cortina.
Ficaram face a face. Arsène ficou estupefato. Murmurou, involuntariamente:
— Você… você… mademoiselle.
Era a Srta. Nelly. A Srta. Nelly! Sua companheira de viagem no vapor transatlântico, que fora objeto de seus sonhos naquela memorável viagem, que fora testemunha de sua prisão e que, em vez de denunciá-lo, lançara à água o Kodak no qual ele ocultara as notas bancárias e os diamantes. A Srta. Nelly! Aquela criatura encantadora, a lembrança de cujo rosto por vezes alegrara, por vezes entristecera as longas horas de encarceramento.
Era um encontro tão inesperado aquele que os colocava face a face naquele castelo a tal hora da noite, que eles não podiam mover-se, nem proferir uma palavra; estavam maravilhados, hipnotizados, cada qual com a súbita aparição do outro. Tremendo de emoção, a Srta. Nelly cambaleou até um assento. Ele permaneceu de pé diante dela.
Gradualmente, ele percebeu a situação e concebeu a impressão que devia ter causado naquele momento, com os braços carregados de bugigangas, e seus bolsos e um saco de linho transbordando de espólio. Ele foi tomado pela confusão e chegou a corar ao encontrar-se na posição de um ladrão pego em flagrante. Para ela, doravante, ele era um ladrão, um homem que põe a mão no bolso alheio, que se esgueira pelas casas e rouba as pessoas enquanto dormem.
Um relógio caiu no chão; depois outro. Seguiram-se outros artigos que escorregaram de seu alcance um a um. Então, movido por uma decisão súbita, ele deixou cair os outros objetos em uma poltrona, esvaziou seus bolsos e desfez seu saco. Ele sentiu-se muito desconfortável na presença de Nelly e deu um passo em direção a ela com a intenção de falar-lhe, mas ela estremeceu, levantou-se rapidamente e fugiu em direção ao salão. A cortina fechou-se atrás dela. Ele a seguiu. Ela estava de pé, tremendo e maravilhada com a visão da sala devastada. Ele disse-lhe, imediatamente:
— Amanhã, às três horas, tudo será devolvido. Os móveis serão trazidos de volta.
Ela não respondeu, então ele repetiu:
— Eu prometo. Amanhã, às três horas. Nada neste mundo poderia me levar a quebrar essa promessa... Amanhã, às três horas.
Seguiu-se então um longo silêncio que ele não ousou quebrar, enquanto a agitação da jovem causava-lhe um sentimento de genuíno pesar. Calmamente, sem uma palavra, ele virou-se, pensando: “Espero que ela vá embora. Não suporto sua presença”. Mas a jovem falou de repente e gaguejou:
— Escute… passos… ouço alguém…
Ele olhou para ela com espanto. Ela parecia estar sobrecarregada pelo pensamento de um perigo iminente.
— Não ouço nada — disse ele.
— Mas você deve ir… você deve escapar!
— Por que deveria ir?
— Porque… você deve. Oh! Não fique aqui mais um minuto. Vá!
Ela correu, rapidamente, para a porta que levava à galeria e escutou. Não, não havia ninguém lá. Talvez o ruído fosse do lado de fora. Ela esperou um momento, depois retornou tranquilizada.
Mas Arsène Lupin desaparecera.
* * * * *
Assim que o Sr. Devanne foi informado do saque de seu castelo, disse a si mesmo: Foi Velmont quem o fez, e Velmont é Arsène Lupin. Essa teoria explicava tudo, e não havia outra explicação plausível. E, contudo, a ideia parecia absurda. Era ridículo supor que Velmont fosse outra pessoa senão Velmont, o famoso artista e companheiro de clube de seu primo d'Estevan. Portanto, quando o capitão da gendarmaria chegou para investigar o caso, Devanne nem pensou em mencionar sua teoria absurda.
Durante toda a manhã houve uma viva comoção no castelo. Os gendarmes, a polícia local, o chefe de polícia de Dieppe, os aldeões, todos circulavam de um lado para o outro nos corredores, examinando cada recanto que estava aberto à sua inspeção. A aproximação das tropas em manobra, o crepitar do fogo dos fuzis, acrescentavam um caráter pitoresco à cena.
A busca preliminar não forneceu qualquer pista. Nem as portas nem as janelas mostravam sinais de terem sido violadas. Consequentemente, a remoção dos bens deve ter sido efetuada por meio da passagem secreta. Todavia, não havia indicações de pegadas no chão, nem marcas incomuns nas paredes.
Suas investigações revelaram, contudo, um fato curioso que denotava o caráter caprichoso de Arsène Lupin: a famosa Chronique do século XVI fora restaurada ao seu lugar habitual na biblioteca e, ao lado dela, havia um livro semelhante, que não era outro senão o volume roubado da Biblioteca Nacional.
Às onze horas, os oficiais militares chegaram. Devanne os recebeu com sua habitual alegria; pois, por mais desgosto que pudesse sofrer pela perda de seus tesouros artísticos, sua grande riqueza permitia-lhe suportar sua perda filosoficamente. Seus convidados, Monsieur e Madame d'Androl e a Srta. Nelly, foram apresentados; e notou-se então que um dos convidados esperados não chegara. Era Horace Velmont. Ele viria? Sua ausência despertara as suspeitas do Sr. Devanne. Mas às doze horas ele chegou. Devanne exclamou:
— Ah! Aqui está você!
— Ora, não sou pontual? — perguntou Velmont.
— Sim, e estou surpreso que o seja… depois de uma noite tão agitada! Suponho que saiba das novidades?
— Que novidades?
— Você roubou o castelo.
— Bobagem! — exclamou Velmont, sorrindo.
— Exatamente como eu previ. Mas, primeiro, acompanhe a Srta. Underdown até a sala de jantar. Mademoiselle, permita-me…
Ele parou, ao notar a extrema agitação da jovem. Então, recordando o incidente, disse:
— Ah! É claro, você conheceu Arsène Lupin no navio, antes de sua prisão, e está admirada com a semelhança. É isso?
Ela não respondeu. Velmont estava diante dela, sorrindo. Ele fez uma reverência. Ela aceitou o braço oferecido. Ele a conduziu ao seu lugar e sentou-se à frente dela. Durante o café da manhã, a conversa versou exclusivamente sobre Arsène Lupin, os bens roubados, a passagem secreta e Sherlock Holmes. Foi apenas ao final da refeição, quando a conversa derivou para outros assuntos, que Velmont tomou parte nela. Então, ele foi, alternadamente, divertido e grave, falante e pensativo. E todas as suas observações pareciam ser dirigidas à jovem. Mas ela, bastante absorta, não parecia ouvi-las.
O café foi servido no terraço com vista para o pátio de honra e o jardim de flores em frente à fachada principal. A banda do regimento tocava no gramado, e dezenas de soldados e camponeses vagavam pelo parque.
A Srta. Nelly não esquecera, por um só momento, a promessa solene de Lupin: “Amanhã, às três horas, tudo será devolvido”.
Às três horas! E os ponteiros do grande relógio na ala direita do castelo marcavam agora vinte para as três. Contra sua vontade, seus olhos vagavam para o relógio a cada minuto. Ela também observava Velmont, que balançava calmamente em uma confortável cadeira de balanço.
Dez para as três!… Cinco para as três!… Nelly estava impaciente e ansiosa. Seria possível que Arsène Lupin cumprisse sua promessa no horário marcado, quando o castelo, o pátio e o parque estavam cheios de gente, e no exato momento em que os oficiais da lei prosseguiam com suas investigações? E, no entanto… Arsène Lupin dera-lhe sua promessa solene. “Será exatamente como ele disse”, pensava ela, tão profundamente impressionada estava com a autoridade, energia e segurança daquele homem notável. Para ela, não assumia mais a forma de um milagre, mas, pelo contrário, de um incidente natural que deveria ocorrer no curso ordinário dos eventos. Ela corou e virou a cabeça.
Três horas! O grande relógio bateu lentamente: uma… duas… três… Horace Velmont tirou o relógio, olhou para o relógio da torre, depois guardou o relógio no bolso. Alguns segundos passaram em silêncio; e então a multidão no pátio abriu-se para dar passagem a duas carroças, que acabavam de entrar pelo portão do parque, cada uma puxada por dois cavalos. Eram carroças do exército, como as usadas para o transporte de provisões, tendas e outros suprimentos militares necessários. Elas pararam em frente à entrada principal, e um sargento intendente saltou de uma das carroças e perguntou pelo Sr. Devanne. Um momento depois, aquele cavalheiro emergiu da casa, desceu os degraus e, sob as coberturas de lona das carroças, contemplou seus móveis, quadros e ornamentos cuidadosamente embalados e arranjados.
Quando questionado, o sargento produziu uma ordem que recebera do oficial de dia. Por aquela ordem, a segunda companhia do quarto batalhão fora comandada a prosseguir até o cruzamento de Halleux, na floresta de Arques, recolher os móveis e outros artigos depositados lá, e entregá-los ao Monsieur Georges Devanne, proprietário do castelo de Thibermesnil, às três horas. Assinado: Cel. Beauvel.
— No cruzamento — explicou o sargento —, encontramos tudo pronto, deitado sobre a grama, guardado por alguns transeuntes. Parecia muito estranho, mas a ordem era imperativa.
Um dos oficiais examinou a assinatura. Declarou-a uma falsificação; mas uma imitação inteligente. As carroças foram descarregadas, e os bens restaurados aos seus devidos lugares no castelo.
Durante essa comoção, Nelly permanecera sozinha na extremidade do terraço, absorta em pensamentos confusos e distraídos. De repente, ela observou Velmont aproximando-se dela. Ela teria evitado, mas a balaustrada que circundava o terraço cortava sua retirada. Ela estava encurralada. Ela não podia mover-se. Um raio de sol, passando através da folhagem escassa de um bambu, iluminava seu belo cabelo dourado. Alguém falou-lhe em voz baixa:
— Não cumpri minha promessa?
Arsène Lupin estava perto dela. Ninguém mais estava por perto. Ele repetiu, com voz calma e suave:
— Não cumpri minha promessa?
Ele esperava uma palavra de agradecimento, ou pelo menos algum leve movimento que denunciasse seu interesse no cumprimento de sua promessa. Mas ela permaneceu em silêncio.
Sua atitude desdenhosa aborreceu Arsène Lupin; e ele percebeu a vasta distância que o separava da Srta. Nelly, agora que ela descobrira a verdade. Ele teria se justificado de bom grado aos olhos dela, ou pelo menos alegado circunstâncias atenuantes, mas percebeu o absurdo e a futilidade de tal tentativa. Finalmente, dominado por uma onda crescente de lembranças, ele murmurou:
— Ah! Como isso faz tempo! Você se lembra das longas horas no convés do ‘Provence’? Então, você carregava uma rosa na mão, uma rosa branca como a que você carrega hoje. Eu a pedi para você. Você fingiu que não me ouviu. Depois que você foi embora, eu encontrei a rosa — esquecida, sem dúvida — e a guardei.
Ela não respondeu. Ela parecia estar muito longe. Ele continuou:
— Em memória daqueles dias felizes, esqueça o que você aprendeu desde então. Separe o passado do presente. Não me considere o homem que você viu ontem à noite, mas olhe para mim, se apenas por um momento, como você fazia naqueles dias distantes quando eu era Bernard d'Andrezy, por um curto tempo. Você poderia, por favor?
Ela levantou os olhos e olhou para ele como ele pedira. Então, sem dizer uma palavra, ela apontou para um anel que ele usava no dedo indicador. Apenas o anel era visível; mas o engaste, que estava voltado para a palma de sua mão, consistia em um magnífico rubi. Arsène Lupin corou. O anel pertencia a Georges Devanne. Ele sorriu amargamente e disse:
— Você tem razão. Nada pode ser mudado. Arsène Lupin é agora e sempre será Arsène Lupin. Para você, ele não pode ser nem mesmo uma lembrança. Perdoe-me… eu deveria ter sabido que qualquer atenção que eu possa lhe oferecer agora é simplesmente um insulto. Perdoe-me.
Ele deu um passo de lado, chapéu na mão. Nelly passou diante dele. Ele inclinou-se para detê-la e suplicar seu perdão. Mas sua coragem falhou, e ele contentou-se em segui-la com os olhos, como fizera quando ela desceu a rampa para o cais em Nova York. Ela subiu os degraus que levavam à porta e desapareceu dentro de casa. Ele não a viu mais.
Uma nuvem obscureceu o sol. Arsène Lupin ficou observando as marcas de seus pés minúsculos na areia. De repente, ele deu um sobressalto. Sobre a caixa que continha o bambu, ao lado do qual Nelly estivera parada, ele viu a rosa, a rosa branca que ele desejara, mas não ousara pedir. Esquecida, sem dúvida — ela, também! Mas como — propositalmente ou por distração? Ele a agarrou avidamente. Algumas de suas pétalas caíram no chão. Ele as recolheu, uma a uma, como relíquias preciosas.
— Vamos! — disse ele a si mesmo. — Não tenho mais nada a fazer aqui. Devo pensar em minha segurança, antes que Sherlock Holmes chegue.
* * * * *
O parque estava deserto, mas alguns gendarmes estavam posicionados no portão do parque. Ele entrou em um bosque de pinheiros, saltou sobre o muro e, como atalho para a estação ferroviária, seguiu por um caminho através dos campos. Após caminhar cerca de dez minutos, chegou a um local onde a estrada se estreitava e corria entre dois barrancos íngremes. Nesse barranco, ele encontrou um homem viajando na direção oposta. Era um homem de cerca de cinquenta anos, alto, barbeado e vestindo roupas de corte estrangeiro. Ele carregava uma bengala pesada, e uma pequena bolsa estava presa sobre seu ombro. Quando se cruzaram, o estranho falou, com um leve sotaque inglês:
— Com licença, monsieur, este é o caminho para o castelo?
— Sim, monsieur, siga em frente e vire à esquerda quando chegar ao muro. Estão esperando por você.
— Ah!
— Sim, meu amigo Devanne nos disse ontem à noite que você viria, e estou encantado em ser o primeiro a lhe dar as boas-vindas. Sherlock Holmes não tem admirador mais ardente do que… eu mesmo.
Havia um toque de ironia em sua voz do qual ele rapidamente se arrependeu, pois Sherlock Holmes o examinou da cabeça aos pés com um olho tão agudo e penetrante que Arsène Lupin experimentou a sensação de ser capturado, aprisionado e registrado por aquele olhar de forma mais completa e precisa do que jamais fora por uma câmera.
“Meu negativo foi tirado agora”, pensou ele, “e será inútil usar um disfarce com esse homem. Ele veria através dele. Mas, pergunto-me, será que ele me reconheceu?”
Eles fizeram uma reverência um ao outro como se estivessem prestes a se separar. Mas, naquele momento, ouviram um som de patas de cavalos, acompanhado pelo tilintar de aço. Eram os gendarmes. Os dois homens foram obrigados a recuar contra o aterro, entre os arbustos, para evitar os cavalos. Os gendarmes passaram, mas, como seguiam uns aos outros a uma distância considerável, levaram vários minutos para passar. E Lupin pensava:
“Tudo depende daquela questão: ele me reconheceu? Se sim, ele provavelmente aproveitará a oportunidade. É uma situação difícil.”
Quando o último cavaleiro passou, Sherlock Holmes saiu e limpou a poeira de suas roupas. Então, por um momento, ele e Arsène Lupin olharam um para o outro; e, se alguém pudesse tê-los visto naquele momento, seria uma visão interessante, e memorável como o primeiro encontro de dois homens notáveis, tão estranhos, tão poderosamente equipados, ambos de qualidade superior, e destinados pelo destino, através de seus atributos peculiares, a lançarem-se um contra o outro como duas forças iguais que a natureza opõe, uma contra a outra, nos reinos do espaço.
Então o inglês disse: — Obrigado, monsieur.
— Disponha — respondeu Arsène Lupin.
Eles se separaram. Lupin foi em direção à estação ferroviária, e Sherlock Holmes continuou seu caminho para o castelo.
Os oficiais locais tinham desistido da investigação após várias horas de esforços infrutíferos, e as pessoas no castelo aguardavam a chegada do detetive inglês com uma viva curiosidade. À primeira vista, ficaram um pouco desapontados devido à sua aparência comum, que diferia tanto das imagens que tinham formado dele em suas próprias mentes. Ele não se parecia em nada com o herói romântico, o personagem misterioso e diabólico que o nome de Sherlock Holmes evocara em suas imaginações. No entanto, o Sr. Devanne exclamou com muito gosto:
— Ah! Monsieur, você está aqui! Estou encantado em vê-lo. É um prazer adiado por muito tempo. Realmente, mal lamento o que aconteceu, já que me proporciona a oportunidade de conhecê-lo. Mas, como você veio?
— De trem.
— Mas enviei meu automóvel para buscá-lo na estação.
— Uma recepção oficial, eh? Com música e fogos de artifício! Oh! Não, não para mim. Esse não é o modo como faço negócios — resmungou o inglês.
Este discurso desconcertou Devanne, que respondeu, com um sorriso forçado:
— Felizmente, o negócio foi muito simplificado desde que escrevi para você.
— De que maneira?
— O roubo aconteceu ontem à noite.
— Se você não tivesse anunciado minha visita pretendida, é provável que o roubo não tivesse sido cometido ontem à noite.
— Quando, então?
— Amanhã, ou algum outro dia.
— E nesse caso?
— Lupin teria sido capturado — disse o detetive.
— E meus móveis?
— Não teriam sido levados.
— Ah! Mas meus bens estão aqui. Foram trazidos de volta às três horas.
— Por Lupin.
— Por duas carroças do exército.
Sherlock Holmes colocou seu boné e ajustou sua bolsa. Devanne exclamou, ansiosamente:
— Mas, monsieur, o que você vai fazer?
— Vou para casa.
— Por quê?
— Seus bens foram devolvidos; Arsène Lupin está longe — não há nada para eu fazer.
— Sim, há. Preciso de sua assistência. O que aconteceu ontem, pode acontecer novamente amanhã, pois não sabemos como ele entrou, ou como ele escapou, ou por que, poucas horas depois, ele devolveu os bens.
— Ah! Você não sabe…
A ideia de um problema a ser resolvido acelerou o interesse de Sherlock Holmes.
— Muito bem, vamos fazer uma busca — imediatamente — e sozinhos, se possível.
Devanne entendeu e conduziu o inglês ao salão. Com uma voz seca e precisa, em frases que pareciam ter sido preparadas de antemão, Holmes fez uma série de perguntas sobre os eventos da noite anterior, e indagou também sobre os convidados e os membros da casa. Depois examinou os dois volumes da “Chronique”, comparou as plantas da passagem subterrânea, pediu uma repetição das frases descobertas pelo Padre Gélis, e então perguntou:
— Foi ontem a primeira vez que você falou essas duas frases para alguém?
— Sim.
— Você nunca as tinha comunicado então a Horace Velmont?
— Não.
— Bem, peça o automóvel. Tenho de partir em uma hora. — Em uma hora? — Sim; dentro desse intervalo, Arsène Lupin resolveu o problema que lhe coloquei diante. — Eu… coloquei diante dele— — Sim, Arsène Lupin ou Horace Velmont—mesma coisa. — Eu já imaginava. Ah! o patife! — Agora, vejamos — disse Holmes — na noite passada, às dez horas, você forneceu a Lupin a informação que lhe faltava, e que ele buscava há muitas semanas. Durante a noite, encontrou tempo para resolver o problema, reunir seus homens e assaltar o castelo. Serei tão expeditivo quanto ele. Ele percorreu o salão de ponta a ponta, pensativo, então sentou‑se, cruzou as longas pernas e fechou os olhos. Devanne aguardou, bastante constrangido. Pensou: “O homem está dormindo? Ou apenas meditando?” Contudo, saiu da sala para dar algumas ordens e, ao voltar, encontrou o detetive ajoelhado, examinando o tapete ao pé da escada na galeria. — O que é isso? — perguntou ele. — Olhe… lá… manchas de vela. — Está certo—e ainda frescas. — E também as encontrará no topo da escada e ao redor do armário que Arsène Lupin arrombou, do qual tirou os bibelôs que depois depositou nesta poltrona. — Que conclui disso? — Nada. Esses fatos provavelmente explicariam a causa da restituição, mas isso é um detalhe que não pretendo investigar agora. A questão principal é a passagem secreta. Primeiro, diga‑me, há uma capela a dois ou três cem metros do castelo? — Sim, uma capela em ruínas, que contém o túmulo do duque Rollo. — Diga ao seu cocheiro para nos aguardar perto daquela capela. — Meu cocheiro não voltou. Se tivesse retornado, teria me informado. Você acha que a passagem secreta leva até a capela? Que razão teria— — Eu lhe perguntaria, monsieur — interrompeu o detetive — que me providenciasse uma escada e uma lanterna. — O quê! Você quer uma escada e uma lanterna? — Certamente, ou eu não deveria tê‑las pedido. Devanne, um tanto desconcertado por essa lógica crua, soou a campainha. Os dois objetos foram entregues com a rigidez e precisão de ordens militares. — Posicione a escada contra a estante, à esquerda da palavra Thibermesnil. Devanne colocou a escada conforme instruído, e o inglês prosseguiu: — Mais à esquerda… à direita… Lá!… Agora, suba… Todas as letras estão em relevo, não estão? — Sim. — Primeiro, gire a letra I num sentido ou no outro. — Qual? São duas. — A primeira. Devanne segurou a letra e exclamou: — Ah! Sim, gira para a direita. Quem lhe disse isso? Sherlock Holmes não respondeu à pergunta, mas prosseguiu com as instruções: — Agora, pegue a letra B. Mova‑a para frente e para trás como se fosse um parafuso. Devanne fez o que lhe foi pedido e, para sua grande surpresa, ouviu um clique. — Muito bem — disse Holmes — Agora iremos ao outro extremo da palavra Thibermesnil, testaremos a letra I e veremos se ela se abre como um guichê. Com certa solenidade, Devanne agarrou a letra. Ela abriu, mas Devanne caiu da escada, pois toda a seção da estante, situada entre a primeira e a última letras das palavras, girou sobre um pivô e revelou a passagem subterrânea. Sherlock Holmes disse, friamente: — Não se feriu? — Não, não — disse Devanne, ao se levantar — não ferido, apenas atordoado. Não consigo entender agora… essas letras giram… a passagem secreta se abre… — Certamente. Não concorda exatamente com a fórmula dada por Sully? Gire um olho na abelha que treme, o outro olho conduzirá a Deus. — Mas Luís XVI? — perguntou Devanne. — Luís XVI foi um mestre ferreiro engenhoso. Li um livro que ele escreveu sobre fechaduras combinadas. Foi boa ideia, por parte do proprietário de Thibermesnil, mostrar a Sua Majestade um engenhoso mecanismo. Como auxílio à sua memória, o rei escreveu: 3‑4‑11, ou seja, a terceira, a quarta e a décima‑primeira letras da palavra. — Exatamente. Entendo. Isso explica como Lupin saiu da sala, mas não explica como entrou. E é certo que ele veio de fora. Sherlock Holmes acendeu sua lanterna e adentrou a passagem. — Olhe! Todo o mecanismo está exposto aqui, como o funcionamento de um relógio, e a face inversa das letras pode ser alcançada. Lupin acionou a combinação por esse lado — isso é tudo. — Que prova há disso? — Prova? Basta observar aquele poço de óleo. Lupin previu que as rodas precisariam ser lubrificadas. — Ele sabia da outra entrada? — Tanto quanto eu a conheço — disse Holmes — Sigam‑me. — Para aquela passagem escura? — Está com medo? — Não, mas tem certeza de que conseguirá achar a saída? — Com os olhos fechados. Primeiro, desceram doze degraus, depois mais doze, e mais adiante, duas outras escadarias de doze degraus cada. Em seguida caminharam por um longo corredor, cujas paredes de tijolo exibiam as marcas de restaurações sucessivas e, em alguns pontos, pingavam água. O solo também estava muito úmido. — Estamos passando por baixo do lago — disse Devanne, um tanto nervoso. Finalmente, chegaram a uma escadaria de doze degraus, seguida por três outras de doze degraus cada, que subiram com dificuldade, e então encontraram‑se numa pequena cavidade escavada na rocha. Não podiam avançar mais. — Droga! — murmurou Holmes — nada senão paredes nuas. Isso é irritante. — Vamos voltar — disse Devanne — já vi o suficiente para me satisfazer. Mas o inglês ergueu o olhar e soltou um suspiro de alívio. Ali viu o mesmo mecanismo e a mesma palavra de antes. Bastava operar as três letras. Fez‑o, e um bloco de granito deslizou de seu lugar. Do outro lado, esse bloco de granito formava a lápide do duque Rollo, e a palavra “Thibermesnil” estava gravada em relevo sobre ela. Agora estavam na pequena capela em ruínas, e o detetive disse: — O outro olho conduz a Deus; isso significa, à capela. — É maravilhoso! — exclamou Devanne, maravilhado com a clarividência e vivacidade do inglês — Pode ser que tão poucas palavras fossem suficientes para ti? — Bah! — declarou Holmes — nem eram necessárias. No quadro do livro da Biblioteca Nacional, o desenho termina à esquerda, como sabes, num círculo, e à direita, como não sabes, numa cruz. Essa cruz deve referir‑se à capela onde agora nos encontramos. O pobre Devanne não pôde acreditar no que ouvia. Tudo lhe parecia tão novo, tão inesperado. Exclamou: — É incrível, milagroso, e ainda de uma simplicidade infantil! Como é que ninguém jamais resolveu o mistério? — Porque ninguém jamais reuniu os elementos essenciais, isto é, os dois livros e as duas frases. Ninguém, senão Arsène Lupin e eu. — Mas o Padre Gélis e eu sabíamos tudo sobre essas coisas, e, igualmente— Holmes sorriu e disse: — Monsieur Devanne, nem todo mundo pode resolver enigmas. — Tenho tentado há dez anos alcançar o que você fez em dez minutos. — Bah! Estou acostumado a isso. Saíram da capela e encontraram um automóvel. — Ah! há um carro à nossa espera. — Sim, é meu — disse Devanne. — Seu? Você disse que seu cocheiro não havia retornado. Aproximaram‑se da máquina, e o Sr. Devanne interrogou o cocheiro: — Edouard, quem lhe deu ordens para vir aqui? — Por quê, foi o Monsieur Velmont. — Monsieur Velmont? Encontrou‑o? — Perto da estação de trem, e ele me disse para vir à capela. — Vir à capela! Por quê? — Para esperar por você, senhor, e seu amigo. Devanne e Holmes trocaram olhares, e o Sr. Devanne disse: — Ele sabia que o mistério seria simples para você. É um elogio delicado. Um sorriso de satisfação iluminou por um momento os traços sérios do detetive. O elogio o agradou. Ele balançou a cabeça, como dizia: — Um homem astuto! Eu sabia disso quando o vi. — Você já o viu? — Encontrei‑o há pouco tempo — a caminho da estação. — E você soube que era Horace Velmont — quero dizer, Arsène Lupin? — Isso mesmo. Pergunto como surgiu— — Não, mas suponho que foi— — E você o deixou escapar? — Claro que sim. E ainda assim tinha tudo ao meu favor, como cinco gendarmes que nos ultrapassaram. — Sacrableu! — exclamou Devanne. — Você deveria ter aproveitado a oportunidade. — Realmente, monsieur — disse o inglês, altivo — quando encontro um adversário como Arsène Lupin, não dependo de oportunidades aleatórias, eu as crio. Mas o tempo apertava, e como Lupin fora tão cortês ao enviar o automóvel, decidiram aproveitá‑lo. Sentaram‑se na confortável limusine; Edouard ocupou o volante, e partiram em direção à estação de trem. De repente, os olhos de Devanne pousaram num pequeno pacote em um dos