O GALANTE COCAR
POR TEMPLE BAILEY
AUTORA DE THE TRUMPETER SWAN, THE TIN SOLDIER, Etc.
FRONTISPÍCIO DE C.E. CHAMBERS
GROSSET & DUNLAP EDITORES NOVA IORQUE Fabricado nos Estados Unidos da América
DIREITOS DE AUTOR 1921 PELA THE PENN PUBLISHING COMPANY
Fábrica de Manufatura Camden, N.J.
Fabricado nos E.U.A.
O Galante Cocar
Pela permissão de reimprimir algumas das histórias neste volume, a autora está em dívida para com a cortesia dos editores da Harper's Magazine, Scribner's Magazine, Collier's Magazine, Ladies' Home Journal, Saturday Evening Post, Good Housekeeping, e Harper's Bazar.
Índice
O GALANTE COCAR 7
A TERRA ESCONDIDA 33
BÉTULAS BRANCAS 84
O FANTASMA DO IMPERADOR 118
A VELA VERMELHA 132
MERCADORIAS DEVOLVIDAS 149
TORRADA QUEIMADA 165
PETRONELLA 187
A CAMA DE DOSSEL 205
SANDWICH JANE 223
LADY CRUSOE 272
UMA AVÓ REBELDE 310
ESPERA--PELO PRÍNCIPE ENCANTADO 327
MENDIGOS A CAVALO 351
O GALANTE COCAR
O GALANTE COCAR
Desde o momento em que Jimmie Harding entrou no escritório, ele criou uma atmosfera. Éramos um grupo cansado. A maioria de nós estava ao serviço do governo há anos, e tínhamos sido moídos finamente nos moinhos da monotonia departamental.
Mas Jimmie era jovem, e usava a sua juventude como um galante cocar. Ostentava-a perante os nossos rostos, e porque estávamos tão cansados dos nossos seres maçadores e ressequidos, pedimos-lhe emprestado, sem remorsos, cor e brilho até que, gradualmente, à luz da sua glória refletida, parecíamos um pouco mais jovens, um pouco menos cansados, um pouco menos petrificados.
Na sua juventude alegre e galante havia, contudo, uma qualidade que participava de tempos mais remotos. Ele deveria, sentíamos, ter usado uma pena no seu chapéu — e uma capa em vez do seu casaco Norfolk. Ele andava com um certo pavoneio, e ficava de pé com a mão na anca, como se a sua palma pressionasse o punho da sua espada. Se ele alguma vez se apaixonasse, dizíamos uns aos outros, ele, sem dúvida, cantaria serenatas e apostrofearia a lua.
Ele apaixonou-se antes de estar connosco há um ano. O seu caso amoroso foi um romance para todo o escritório. Ele vinha entre nós todas as manhãs glorificado; deixava-nos à tarde como um cavaleiro parte em demanda.
Ele falou-nos da rapariga. Imaginámo-la perfeitamente antes de a vermos, como uma pequena coisa, com uma cabeleira de caracóis castanhos; um rosto oval, tingido de pérola; olhos azuis e largos. Ele debruçou-se sobre todas as suas pequenas perfeições — as sobrancelhas que varriam a sua testa numa linha negra e fina, a transparência das suas mãos delgadas, o porte reto da sua cabeça sobre os ombros, a ligeira hesitação no seu discurso como a de uma criança encantadora.
Contudo, ela não era, de modo algum, uma criança. "Ela obriga-me a dar o meu melhor, Miss Standish", disse-me Jimmie; "ela diz que eu sei escrever."
Sabíamos que Jimmie tinha escrito algumas coisas, pequenos poemas alegres que ele nos mostrava de vez em quando nas revistas. Mas não os tínhamos levado a sério de todo. De fato, o próprio Jimmie não os tinha levado a sério.
Mas agora levava-os a sério. "Elise diz que eu posso fazer grandes coisas. Que tenho de sair do Departamento."
Para o resto de nós, sair do serviço do governo teria parecido uma aventura louca. Nenhum de nós teria tido a coragem de a considerar. Mas parecia uma coisa natural que Jimmie partisse pela estrada larga — um D'Artagnan moderno, um Quixote juvenil, um Alan Breck —!
Odiávamos deixá-lo partir. Mas ele tinha consolação. "Claro que vocês virão visitar-nos. Vamos voltar para a minha antiga casa em Albemarle. É uma cabana podre, mas a Elise diz que será um sítio fantástico para eu escrever. E todos vocês virão passar os fins de semana."
Sentíamos, tenho a certeza, que era bondoso da parte dele convidar-nos, mas nenhum de nós esperava que algum dia lá fôssemos. Tínhamos o pressentimento de que Elise não iria querer a madeira morta da antiga Divisão do Jimmie. Sei que, por mim, contentava-me em pensar no Jimmie feliz na sua casa antiga. Mas nunca esperei realmente vê-la. Tinha chegado ao ponto de não esperar nada exceto o trabalho do dia, o meu jantar no fim, uma noite de sono, e a mesma coisa repetida de manhã.
No entanto, Jimmie levou-nos a todos, pouco depois de se casar, para o que chamou de uma inauguração da casa. Ele tinha herdado alguns hectares agradáveis na Virgínia, e a casa tinha duzentos anos. Ele nunca tinha vivido nela até vir com Elise. Estava em condições bastante chocantes, mas Elise tinha conseguido torná-la habitável, fazendo-a esfregar muito bem, e retirando tudo o que não estivesse de acordo com a antiguidade e o pitoresco. O efeito resultante era despido, mas belo. Havia muitos livros, alguns retratos a óleo, aparadores e mesas de mogno e camas de colunas, velas em arandelas e candelabros ramificados. Casaram-se em abril, e quando fomos lá abaixo em junho, papoilas soprajavam nos vastos espaços de relva, e madressilvas corriam descontroladas sobre os baixos muros de pedra. Creio que todos nos sentimos como se tivéssemos passado pelo purgatório e entrado no céu. Sei que eu senti, porque este era o tipo de coisa com que eu tinha sonhado, e houve um tempo em que eu, também, tinha querido escrever.
O quarto onde Jimmie escrevia ficava numa pequena casa destacada, que tinha sido outrora o escritório do seu avô médico. Ele tinha a sua máquina de escrever lá fora, e uma secretária grande, e da janela em frente da sua secretária podia olhar para as encostas verdes e para o azul distante das cristas das montanhas.
Invejávamo-lo e dissemos-lho.
"Bem, não sei", disse Jimmie. "Claro que vou fazer muito trabalho. Mas vou sentir falta das vossas queridas cabeças velhas inclinadas sobre as outras secretárias."
"Não conseguirias trabalhar, Jimmie", lembrou-lhe Elise, "com outras pessoas na sala."
"Talvez não. Disse-vos, meus queridos velhos, que vou escrever uma peça?"
Isso era, parece, o que Elise tinha em mente para ele desde o princípio — uma grande peça!
"Ela nem sequer quis uma lua de mel" — o braço de Jimmie estava à volta dela; "ela trouxe-me para aqui, e preparou este quarto logo de início."
"Bem, ele não deve desperdiçar tempo", disse Elise, "pois não? O Jimmie é bastante maravilhoso, não é?"
Pareciam um par de bebés enquanto estavam ali de pé juntos. Elise trazia um vestido infantil cor-de-rosa, de uma só peça, com mangas acima do cotovelo, e uma faixa de organdi. Contudo, intuitivamente, a verdade veio-me à mente — ela era muito mais velha do que Jimmie, apesar dos seus vinte anos para os vinte e quatro dele. Ali não estava nenhuma Julieta, a arder até à lua — nenhuma amante cujo corcel galoparia por estradas varridas pelo vento para encontros à meia-noite. Ali estava, antes, o sangue frio que tinha sacrificado uma lua de mel — e, oh, ter uma lua de mel com Jimmie Harding! — em prol de um futuro ambicioso.
Ela falava-nos disso: "Podemos sempre ter uma lua de mel, o Jimmie e eu. Um dia, quando ele for famoso, tê-la-emos. Mas agora não devemos."
"Eu escolhi o lugar" — Jimmie estava ansioso — "um declive nas colinas, e grandes pinheiros — E depois a Elise não quis."
Fomos almoçar depois disso. A mesa estava adorável e a comida deliciosa. Havia pão de massa, lembro-me, e uma omelete, e ervilhas da horta.
Duncan Street e eu falámos durante todo o caminho de casa sobre Jimmie e a sua mulher. Ele não concordava comigo minimamente sobre Elise. "Ela será a sua construção. Tais esposas são sempre."
Mas eu sustentava que ele perderia algo — que ele não seria o mesmo Jimmie.
* * * * *
Jimmie escrevia peças e mais peças. Entre elas escrevia livros para ganhar a vida. Os livros de subsistência eram necessários, porque nenhuma das suas peças era aceite. Ele costumava parar no nosso escritório e brincar com isso.
"Se não fosse a fé da Elise em mim, Miss Standish, considerar-me-ia um pau seco. Claro, consigo ganhar dinheiro suficiente com os meus livros e coisas curtas para manter as coisas a funcionar, mas não é apenas dinheiro que qualquer um de nós procura."
Exceto quando Jimmie vinha ao escritório, víamos muito pouco dele. Elise reunia à sua volta os homens e mulheres que contariam para o futuro do Jimmie. Os fins de semana na casa velha e silenciosa atraíam não poucas pessoas famosas que detestavam a vulgaridade das atmosferas conviviais. Elise tinha flores antiquadas no seu jardim, comida deliciosa, uma biblioteca de livros antigos. Era uma mudança celestial para aqueles que estavam cansados de festas de cocktail, loucura de bridge, amores ilícitos. Nunca consegui ter a certeza se Elise amava realmente a vida digna pelo seu próprio valor, ou se era suficientemente discriminadora para reconhecer o tipo de isco que atrairia as almas nobres cuja presença dava à sua hospitalidade o selo da exclusividade.
Eles tinham um carro pequeno, e era quando Jimmie conduzia até Washington que o víamos. Ele tinha o hábito de nos levar a almoçar, dois de cada vez. Quando me convidava, geralmente convidava Duncan Street. Duncan e eu trabalhámos lado a lado durante vinte e cinco anos. Não há nada minimamente romântico sobre a nossa amizade, mas sentiria a falta dele se ele morresse ou se demitisse do cargo. Tenho pouco receio dessa última contingência. Apenas a morte, sinto, nos separará.
Nos nossos momentos de reunião, Jimmie falava sempre muito sobre si próprio. A grande peça estava, dizia ele, no fundo da sua mente. "Elise diz que eu posso fazê-lo", disse-nos um dia sobre as nossas ostras, "e começo a pensar que posso. Digo, porque é que vocês, queridos velhos do escritório, não podem vir cá abaixo no Natal, e eu ler-vos-ei o que escrevi."
Ficámos contentes por ir. Não haveria outros convidados, e descobri mais tarde que Elise raramente convidava qualquer dos seus amigos da moda para baixo no inverno. O lugar mostrava-se melhor no verão com o jardim, e as videiras a esconder todas as deficiências.
Chegámos numa tempestade de neve na véspera de Natal, e quando entrámos na casa havia um fogo a rugir na lareira. Eu não via um fogo como aquele há trinta anos. Podem imaginar como me senti quando me ajoelhei à frente dele e aqueci as minhas mãos.
As velas nas arandelas forneciam a única outra iluminação. Elise, movendo-se pela sala sombria, parecia atrair luz para si mesma. Usava um vestido de veludo cor de chama e o seu cabelo encaracolado estava preso numa rede de ouro. Penso que ela tinha planeado o efeito medieval deliberadamente, e foi um grande sucesso. Enquanto ela esvoaçava como um pássaro brilhante, os nossos olhos seguiam-na. Os meus olhos, de facto, bebiam dela, como vinho novo. Sempre adorei cor, e a minha vida tem sido monótona.
Falei do seu vestido quando ela me mostrou o meu quarto.
"Oh, gosta dele?" perguntou ela. "Jimmie odeia ver-me com coisas escuras. Ele diz que quando uso isto ele consegue ver a sua heroína."
"Ela é como tu?"
"Nem um pouco. Ela é bastante indomável. Jimmie faz dela muito bem. Ela galopa positivamente através da peça."
"E tu nunca galopas?"
Ela abanou a cabeça. "É uma sorte que eu não galope. Se o fizesse, Jimmie nunca escreveria. Ele diz que eu mantenho o nariz dele na mó. Não é isso, mas amo-o demasiado para o deixar desperdiçar o seu talento. Se ele não tivesse talento, eu amá-lo-ia sem ele. Mas, tendo-o, tenho de o sustentar."
Ela estava muito segura de si mesma, muito segura da retidão da sua atitude para com Jimmie. "Eu sei o quão grande ele é", disse ela, enquanto descíamos, "e as outras pessoas não. Por isso tenho de o provar."
* * * * *
Foi ao jantar que notei pela primeira vez uma mudança no Jimmie. Foi uma mudança difícil de definir. Contudo, senti falta de algo nele — o entusiasmo, a flutuabilidade, a radiação quase ofegante com que ele tinha reacendido os nossos fogos moribundos. Ainda assim, ele parecia suficientemente jovem e feliz enquanto estava sentado à mesa no seu casaco de veludo de estúdio, com o seu cabelo de ouro queimado e estaladiço a apanhar a luz das velas. Ele e a sua mulher eram um par bonito. A sua maneira de ser para com ela era perfeita. Não podia haver dúvida da sua adoração.
Depois do jantar tivemos a árvore. Era um pinheiro jovem montado numa das extremidades da longa sala de jantar, e iluminado à moda antiga por velas de cera vermelha. Havia presentes nela para todos nós. Jimmie deu-me um Mother Goose adoravelmente ilustrado.
"És a única outra criança aqui, Miss Standish", disse ele, ao entregar-mo. "Vi isto numa livraria, e não pude resistir."
Examinámos as imagens juntos. Eram encantadoras. Todos os sinos da velha Londres tocaram para um Whittington saudoso num casaco esfarrapado; Bo-Peep em cestas e fitas cor-de-rosa lamentava-se pelas suas ovelhas históricas; Mother Hubbard, pitoresca numa touca gigantesca, prosseguia a sua busca infrutífera por ossos. Havia, também, um Boy Blue fascinante que soprava a sua trompa, um querido robusto com as pernas plantadas bem afastadas e bochechas rosadas distendidas.
"Essa imagem vale o preço do livro todo", disse Jimmie, e debruçou-se sobre ela. Depois, de repente, endireitou-se. "Deveria haver crianças nesta casa velha."
Eu soube então o que tinha faltado na árvore. Elise tinha muitos presentes — pequenas coisas requintadas enviadas por amigos sofisticados — um jarro de vinho de vidro veneziano do século XVII, uma mala de brocado chinês com asas de marfim entalhado, um par de fivelas de prata antiga, uma caixa de laca rara cheia de doces orientais, um pendente de jade, uma bola de cristal sobre uma base de bronze — todas elas adoráveis, todas para serem exclamadas; mas as coisas que eu queria eram tambores e trompas e bengalas de rebuçado, e sacos de tarlatana, e colares de pipocas, e coisas que tinham de ser dadas à corda, e coisas que assobiavam, e coisas que grasnavam, e coisas que brilhavam. E Jimmie queria estas coisas, mas Elise não. Ela estava perfeitamente contente com as suas bugigangas elegantes.
Era tarde quando finalmente fomos para o estúdio. Havia neve por todo o lado, mas era uma noite clara com uma lua sobre os pinheiros. Um grande tronco queimava na lareira, um candeeiro com sombra lançava um círculo de ouro sobre o mogno brilhante. Parecia-me que as acomodações de escrita do Jimmie eram ainda mais atraentes em dezembro do que em junho.
Contudo, olhando para trás, posso ver que para Jimmie a pequena casa era uma espécie de prisão. Ele adorava homens e mulheres, o contacto com os seus semelhantes. Tinha até gostado do nosso escritório velho e sujo e dos nossos seres sombrios e secos. E aqui, dia após dia, ele sentava-se sozinho — como um artista deve sentar-se se quiser alcançar — es bildet ein Talent sich in der Stille.
Sentámo-nos à volta do fogo em cadeiras de couro profundas, todos exceto Elise, que tinha uma almofada no chão aos pés de Jimmie.
Ele leu com completa absorção, e quando terminou olhou para mim. "O que achas disto?"
Tive de dizer a verdade. "Não é a tua obra-prima."
Ele passou os dedos pelo cabelo com um gesto nervoso. "Eu disse à Elise que não era."
"Mas a rapariga" — o olhar de Elise continha um ressentimento quente — "é maravilhosa. Certamente consegues ver isso."
"Ela não parece totalmente real."
"Então Jimmie torná-la-á real." Elise colocou a sua mão levemente no ombro do marido. O seu vestido e a rede de ouro eram tudo chama e brilho, mas a sua voz era fria. "Ele torná-la-á real."
"Não" — pareceu-me que, enquanto falava, Jimmie se afastava da mão dela — "não vou reescrevê-la, Elise. Estou cansado dela."
"Jimmie!"
"Estou cansado dela--"
"Termina-a, e depois serás livre--"
"Serei alguma vez livre?" Ele levantou-se e virou a cabeça de um lado para o outro, como se procurasse alguma forma de fuga. "Serei alguma vez livre? Por vezes penso que tu e eu ficaremos presos a esta casa velha até nos tornarmos tão secos como o pó. Quero viver, Elise! Quero viver--!"
* * * * *
Mas Elise não estava pronta para deixar Jimmie viver. Para ela, Jimmie o artista era mais do que Jimmie o amante. Posso ter sido injusta, mas ela pareceu-me uma espécie de vampiro mental, que estava a sugar a juventude de Jimmie. Duncan Street bufou quando lhe disse o que pensava. Elise era uma mulher bonita, e uma mulher bonita aos olhos dos homens não pode fazer nada de errado.
"Verás", disse eu, "o que ela lhe fará."
A situação era para mim espantosa. Aqui estava a Vida a estender as suas mãos a Elise, a glória da juventude a exigir uma resposta gloriosa, e ela, incrivelmente, a recuar. Apesar do meu cabelo grisalho e da minha figura rígida, sou do tipo que galopa, e a minha alma seguiu a de Jimmie Harding na sua demanda por liberdade.
Mas havia uma coisa que Elise não podia fazer. Ela não podia fazer Jimmie reescrever a sua peça. "Chegarei lá um dia", dizia ele, "mas ainda não. Entretanto verei o que posso fazer com livros."
Ele fez muito com livros, de tal modo que escreveu vários best-sellers. Isso aliviou a situação financeira e eles poderiam ter tido mais tempo para as coisas. Mas Elise continuava a mantê-lo nisso. Ela queria ser a esposa de um grande homem.
Contudo, à medida que os anos passavam, Duncan e eu começámos a interrogar-nos se as esperanças dela seriam realizadas. Jimmie escrevia e escrevia. Ele era bem-sucedido num sentido comercial, mas a fama não chegava a ele. Havia cinza no seu cabelo de ouro queimado; os seus ombros adquiriram uma curvatura erudita, e ele usava óculos numa fita preta. Foi quando ele pôs óculos que comecei a sentir-me com mil anos. Contudo, sempre que ele estava longe de mim, pensava nele como o Jimmie cuja juventude tinha brilhado com uma radiação cegante.
A sua constância para com Duncan e para comigo começou a assumir uma qualidade bastante patética. Os outros no escritório foram-se afastando gradualmente da sua vida. Alguns deles morreram, alguns demitiram-se, alguns continuaram a trabalhar, paródias gordas ou enrugadas dos seus antigos eus. Eu estava mais corpulenta do que nunca, e mais rígida, e o topo da cabeça de Duncan era um cone brilhante. E a única coisa interessante nos nossos dias de outra forma sombrios era Jimmie.
"Vocês são uns queridos velhos", era a sua maneira agradável de colocar o assunto.
Mas Duncan desenterrou a verdade para mim. "Nós conhecêmo-lo antes de ele escrever. Ele volta a isso quando está connosco."
Eu tinha chegado a odiar Elise. Não era uma emoção agradável, e não tenho certeza se ela a merecia realmente. Mas Duncan odiava-a também. "Tens razão", disse ele um dia quando almoçámos com Jimmie; "ela sugou-o até ao fim." Jimmie tinha estado invulgarmente silencioso. Tinha rido pouco. Tinha batido na mesa com o dedo, e mantido os olhos no seu dedo. Tinha estado distraído. "Ela sugou-o até ao fim", disse Duncan, com grande calor.
Mas não tinha. Essa era a coisa surpreendente. Tal como todos nós estávamos a perder a esperança de Jimmie provar ser algo mais do que um escritor de encomenda, ele fez a coisa grande e a coisa maravilhosa que anos antes Elise tinha profetizado. A sua peça, "O Galante Cocar", foi aceite por um gerente de Nova Iorque, e após a primeira noite o mundo ficou louco por ela.
Eu tinha ajudado Jimmie com o nome. Tinha falado uma vez da juventude como um galante cocar. "Esse é um título fantástico", tinha dito Jimmie, e escreveu-o no seu caderno.
Quando a sua peça foi posta em ensaio, Duncan e eu lá estivemos para ver. Tirámos a nossa licença de um mês, viajámos para Nova Iorque, e ficámos numa pensão à moda antiga em Washington Square. Todos os dias íamos ao teatro. Elise estava sempre lá, parecendo mais jovem do que nunca nas peles compradas com os royalties antecipados de Jimmie, e com vários vestidos e chapéus que eram os subprodutos dos seus best-sellers.
O papel da heroína de "The Gay Cockade" foi desempenhado por Ursula Simms. Ela era, como aqueles de vós que a viram sabem, uma Rosalind que ganhara vida. Com uma franqueza quase infantil, combinava um sortilégio feminino. Tinha um cabelo ruivo vibrante, uma voz alegre e fresca, um temperamento ardente. Galopou pela peça como Jimmie pretendera que ela galopasse naquele primeiro esboço medíocre que nos lera em Albemarle, e foi quando vi Ursula nos ensaios que compreendi o que Jimmie tinha feito — ele tinha corporizado na sua heroína toda a juventude que perdera — ela representava tudo o que Elise lhe roubara — a selvajaria, a impetuosidade, a paixão que varria a prudência e ia, sem olhar a meios, ao encontro da realização.
Na verdade, toda a peça participava da loucura da juventude. Transbordava. Todos galopavam a um ritmo folgazão. Ríamo-nos até chorar. Mas havia mais do que riso nela. Havia a melancolia que pertence aos anos ternos, colocada num contraste requintado com a alegria predominante.
Jimmie teve muito que ver com os ensaios. Várias vezes desafiou a interpretação de Ursula para o papel.
"Não deves dar os teus beijos com tanta facilidade", disse-lhe ele numa ocasião; "a rapariga na peça nunca foi beijada."
Ela deu de ombros e ignorou-o. Ele insistiu novamente. "Ela é franca e livre", disse ele. "Torna-a assim. Torna-a assim. Os homens devem lutar pelos seus favores."
Ela lá chegou, por fim, ajudada por aquela qualidade semelhante a Rosalind nela própria. Era jovem, como ele queria que Elise fosse, de coração puro, alegre — a juventude no seu melhor.
Gradualmente, Jimmie deixou de sugerir. Sentava-se ao nosso lado na penumbra do auditório vazio e observava-a como se a bebesse. De vez em quando ria um pouco e dizia, em voz baixa: "Como é que eu a escrevi? Como é que isto aconteceu?"
Elise, do outro lado dele, disse por fim: "Eu sabia que eras capaz, Jimmie."
"Tu achavas que eu podia fazer grandes coisas. Nunca soubeste que eu podia fazer... isto..."
Foi perto do fim do mês que Duncan me disse uma noite, enquanto voltávamos para casa no topo de um autocarro: "Não suponhas que ele..."
"Elise acha que sim", disse eu. "Está a despertá-la."
Elise e Jimmie estavam casados há quinze anos e nunca tinham tido uma lua de mel, não no sentido que Jimmie desejava — uma aventura romântica, para algum lugar onde pudessem esquecer o mundo do trabalho, o mundo das coisas sórdidas, o mundo que estava a tornar Jimmie velho. Todos os verões Jimmie pedia por isso, e sempre Elise dizia: "Espera."
Mas agora era Elise quem começava a planear. "Quando a tua peça for produzida, fugiremos para algum lado. Lembras-te do lugar de que falavas sempre — lá nas colinas?"
Ele olhou para ela através dos seus óculos redondos. "Não consigo afastar-me disto" — acenou com a mão na direção do palco.
"Se for um sucesso, consegues, Jimmie."
"Será um sucesso. Ursula Simms é uma maravilha. Olha para ela, Elise. Olha para ela!"
Duncan e eu não conseguíamos olhar para mais nada. Por mais vezes que a tivesse visto no papel, abordava-o sempre com avidez. Era a sua grande cena — onde a rapariga, libertando-se de tudo o que a prendia, segura a mão do seu amante vagabundo e parte, deixando para trás a riqueza e um casamento de distinção, para que possa vaguear pelas charnecas e descer até às areias, com o vento selvagem no rosto, as estrelas como dossel!
Tocava-nos o coração. Tocaria, sabíamos, o coração de qualquer público. Era a natureza humana em todos nós que respondia. Não havia um de nós que não tivesse quebrado os laços. Oh, juventude, juventude! Existe algo igual em todo o vasto mundo?
Não creio que tenha tocado o coração de Elise. O seu coração não era assim. Era um coração de ficar em casa. Um coração de mundo de trabalho. Elise nunca, sob circunstância alguma, teria partido com um vagabundo numa noite selvagem.
Mas ali estava Ursula a fazê-lo todos os dias. Na noite do primeiro ensaio geral, ela usava roupas que mostravam o seu sentido de adequação. Como se, ao rejeitar restrições convencionais, renunciasse ao traje convencional; desceu até ao seu amante envolta num manto da cor púrpura profunda da urze da charneca, e havia uma pena de faisão no seu gorro.
"Que nunca te arrependas, minha querida, minha querida", disse o amante no palco.
"Amar-te-ei por um milhão de anos", disse Ursula, e sentimos que ela o faria, e que o amor era eterno, e que qualquer mulher poderia tê-lo se pusesse a sua mão na do seu amante e fugisse com ele numa noite selvagem!
E foi o génio de Jimmie Harding que nos fez sentir que a coisa podia ser feita. Ele inclinou-se para a frente na sua cadeira, com os braços sobre o encosto do assento à sua frente. "Júpiter!" continuava ele a dizer em voz baixa. "É a coisa real. É a coisa real..."
Quando a cena terminou, ele subiu ao palco e ficou ao lado de Ursula. Elise, do seu lugar, observava-os. Ursula tinha tirado o gorro com a pena de faisão. O seu cabelo glorioso brilhava como cobre, a mão estava na cintura, o seu pequeno pavoneio correspondia ao pavoneio que recordávamos no velho Jimmie. Perguntei-me se Elise se recordava.
* * * * *
Não tenho a certeza do que fez Ursula interessar-se por Jimmie Harding. Ele já não era uma figura de romance. Mas ela interessou-se. Foi, talvez, porque viu nele as coisas fundamentais que pertenciam a ambos, e que não pertenciam a Elise.
Com o passar dos dias, tive pena de Elise. Nunca teria acreditado que pudesse ter pena, mas tive. Jimmie era sempre pontualmente educado para com ela. Mas era apenas isso.
"Ela está a receber o que merece", disse Duncan, mas eu senti que ela estava, talvez, a receber mais do que merecia. Pois, afinal, foi ela quem manteve Jimmie na linha, e foi o seu mantê-lo na linha que trouxe o sucesso.
Nem Duncan nem eu conseguíamos dizer o que Jimmie sentia por Ursula. Mas o pensamento nela perturbava o meu sono. Despojada da sua arte, ela não era de todo a heroína da peça de Jimmie. Era de barro mais grosseiro, mais comum. E Jimmie era refinado. O medo que eu tinha era que ele pudesse vesti-la com as virtudes que tinha criado, e o pensamento, como disse, perturbou-me.
Por fim, Duncan e eu tivemos de ir para casa, embora tenhamos prometido voltar para a noite de estreia. Ursula ofereceu-nos um jantar de despedida. Ela vivia sozinha com uma governanta e uma criada. O seu apartamento estava mobilado com bom gosto, talvez com um toque de ênfase excessiva. A mesa tinha velas púrpuras sem abajures e urze em pratos de vidro. Ursula vestia-se de verde floresta, com uma grinalda de urze sobre o seu cabelo glorioso. Elise estava de branco com pérolas. Tinha trinta e cinco anos, mas não parecia. Ursula era mais velha, mas seria sempre, num certo sentido, sem idade, como são essas mulheres — alguém sentiria arrepios por Sara Bernhardt, fosse ela adolescente ou setuagenária.
Jimmie parecia ter deixado cair os anos de cima de si. Estava muito confiante no sucesso da sua peça. "Não pode falhar", disse ele, "com Ursula a garantir o sucesso..."
Perguntei-me se foi Ursula ou Elise quem o garantiu. Poderia ele alguma vez tê-la escrito se Elise não o tivesse mantido na linha? Contudo, ela tinha roubado a sua juventude!
E agora Ursula estava a devolver-lhe a juventude! Ao ver o porte da sua cabeça, ouvir o toque da sua risada alegre, senti que poderia ser assim. E subitamente soube que não queria que Jimmie voltasse a ser jovem. Não se ele tivesse de receber a sua juventude das mãos de Ursula Simms!
Houve muitos brindes antes de o jantar terminar — e o último que Jimmie bebeu foi "À Ursula"! Ao levantar-se para o propor, os seus óculos pendiam da fita, os seus ombros estavam direitos. Na luz suave e sombreada, fomos poupados aos tons grisalhos do seu cabelo — era o velho Jimmie, alegre e galante!
"À Ursula!" disse ele, e as palavras faiscaram. "À Ursula!"
Olhei para Elise. Ela poderia ter sido o fantasma da mulher que flamejara na velha casa em Albemarle. No seu branco e pérolas, ela era sombria, insubstancial, quase espectral, mas levantou o seu copo. "À Ursula!" disse ela.
Durante todo o caminho de comboio, Duncan e eu falámos sobre isso. Estávamos assustados até à morte. "Oh, ele não deve, ele não deve", eu continuava a dizer, e Duncan bufava.
"Ele é um jovem tolo. Ela não é a mulher para ele..."
"Nenhuma delas é a mulher", disse eu, "mas Elise fez dele..."
"Nenhum homem foi alguma vez mantido pela gratidão."
"Ele odiaria Ursula num ano."
"Ele acha que viveria..."
"E perderia a sua alma..."
* * * * *
A peça de Jimmie estreou perante uma sala cheia. Houve publicidade extensiva e Ursula tinha um grande número de seguidores.
Elise, Duncan e eu tínhamos lugares num camarote superior. Elise sentou-se onde estava escondida pelas cortinas. Jimmie ia e vinha sem ser visto pelo público. Entre os atos, ele estava nos bastidores. Elise tinha pouco a dizer. Uma vez, estendeu a mão e pousou-a na minha.
"Eu... acho que estou assustada", disse ela, com um suspiro na voz.
"Não pode falhar, minha querida..."
"Não, claro. Mas é muito diferente do que esperava."
"O que é diferente?"
"O sucesso."
À medida que a grande cena se aproximava, parecia que eu prendia a respiração. Tinha tanto medo que o público não a visse como nós a tínhamos visto no ensaio. Mas viram-na, e foi uma coisa estupenda estar ali sentado e observar a multidão, e saber que o génio de Jimmie estava a fazer o seu coração bater cada vez mais depressa. Quando Ursula, no seu manto púrpura e pena de faisão, disse as suas falas no final do terceiro ato, "_Amar-te-ei por um milhão de anos_", a sala ficou em alvoroço. Homens e mulheres que nunca tinham amado por um momento rugiram por esta mulher que os tinha feito pensar que poderiam amar até à eternidade. Queriam-na de volta e tiveram-na. Queriam Jimmie e tiveram-no. Ursula fez um discurso; Jimmie fez um discurso. Vieram para inúmeras chamadas à cortina, de mãos dadas. A peça foi um sucesso!
O último ato foi, naturalmente, um anticlímax. Antes de terminar, Elise disse-me, com uma voz sufocada: "Tenho de voltar para o Jimmie."
Parecia significativo que Jimmie não tivesse ido ter com ela. Certamente não se tinha esquecido do papel que ela tinha desempenhado. Durante quinze anos ela tinha trabalhado para isto.
Encontrámo-nos pouco depois nos bastidores. O pano tinha caído, o público ainda gritava, todos estavam excitados, todos apertavam as mãos. O pessoal do palco agarrou Elise enquanto ela passava, e deteve-a para oferecer felicitações. Eu não fui detido e continuei até chegar onde Jimmie e Ursula estavam, um pouco separados do resto. Embora me tenha aproximado o suficiente para os tocar, estavam tão absorvidos um no outro que não me viram. Ursula olhava para Jimmie e a cabeça dele estava curvada para ela.
"Jimmie", disse ela, e a sua voz rica sobre o tumulto era clara como um sino, "sabes quão grande és?"
"Sim", disse ele. "Eu... sinto-me um pouco embriagado com isso, Ursula."
"Oh", disse ela, e agora as suas palavras tropeçaram, "eu... eu amo-te por isso. Oh, Jimmie, Jimmie, fujamos e amemo-nos por um milhão de anos..."
Tudo o que ele tinha desejado estava nas palavras dela — o impulso da juventude, a batida do vento, a canção do mar. O meu coração parou.
Ele recuou um pouco. Ele tinha desejado isto. Mas não o desejava agora — com Ursula. Eu vi isso e ela viu-o.
"Que piada seria", disse ele, "mas temos outras coisas para fazer, minha querida."
"Que coisas?"
O rugido da multidão chegou mais alto aos seus ouvidos. "Harding, Harding! Jimmie Harding!"
"Ouve", disse ele, e o brilho nos seus olhos não era para ela. "Ouve, Ursula, estão a chamar-me."
Ela ficou sozinha depois de ele a ter deixado. Tenho a certeza de que mesmo então ela não acreditava bem que era o fim. Ela não sabia como, ao longo de todos aqueles anos, a sua mulher o tinha moldado.
Quando ele satisfez a multidão, Jimmie abriu caminho até onde Elise, Duncan e eu estávamos juntos.
Elise estava envolta num grande manto de brocado prateado. Havia um toque de prata, também, no seu cabelo. Mas ela nunca me tinha parecido tão pequena, tão infantil.
"Oh, Jimmie", disse ela, quando ele se aproximou, "conseguiste!"
"Sim" — ele estava corado e a rir, com a cabeça erguida — "tu disseste sempre que eu conseguia. E voltarei a conseguir. Ouviste-os gritar, Elise?"
"Sim."
"Júpiter! Sinto-me como a velha da rima infantil: 'Ai de mim, serei eu?'" Ele estava excitado, ansioso, mas não era a velha ansiedade. Havia uma avidez, uma ganância.
Ela pousou a mão no braço dele. "Mereces um descanso, querido. Vamos para as colinas."
"Para as colinas? Oh, somos demasiado velhos, Elise."
"Vamos tornar-nos jovens."
"Esta noite dei a juventude ao mundo. Isso basta-me" — o brilho nos seus olhos não era para ela — "isso basta-me. Vamos ficar por Nova Iorque durante uma ou duas semanas, e depois voltaremos para Albemarle. Quero começar a trabalhar noutra peça. É um grande jogo, Elise. É um grande jogo!"
Ela soube então o que tinha feito. Ali estava um monstro da sua própria criação. Ela tinha sacrificado o seu amante no altar do sucesso. Jimmie já não precisava dela.
Não gostaria que pensasses nisto como um final infeliz. Elise tem tudo o que pediu, e Jimmie, com a fama como amante, já não é um cativo relutante na casa antiga. O prisioneiro ama a sua prisão, acolhe as suas correntes.
Mas Duncan e eu falamos por vezes do jovem Jimmie que veio há anos ao nosso escritório. O Jimmie Harding que trabalha em Albemarle, e que se pavoneia um pouco em Nova Iorque quando faz os seus discursos, é o fantasma do rapaz que conhecíamos. Mas ele ainda nos ama.
A TERRA ESCONDIDA
O mistério do desaparecimento de Nancy Greer nunca foi explicado. O homem com quem ela se deveria ter casado casou-se com outra mulher. Durante muito tempo, ele chorou por Nancy. Sempre manteve a teoria de que ela se afogou enquanto nadava, e o resto do mundo de Nancy concorda com ele. Ela tinha saído de casa uma manhã para o seu mergulho habitual. O nevoeiro estava a chegar, e a última pessoa a vê-la foi um pescador que regressava das suas redes. Ele tinha parado e observado-a a esvoaçar como uma aparição através da névoa. Relatou mais tarde que Nancy usava um fato de banho e touca cinzentos e trazia um manto azul.
"Tem a certeza de que ela trazia um manto?" foi a pergunta que foi repetidamente feita. Pois nenhum manto fora encontrado nas areias, e era improvável que ela o tivesse vestido dentro de água. O desaparecimento do manto azul era o único ponto que parecia contradizer a teoria do afogamento acidental. Havia quem defendesse que o manto pudesse ter sido levado por algum indivíduo ganancioso. Mas não era provável; os ilhéus são, por norma, honestos, e era demasiado tarde na estação para "forasteiros".
Eu sou a única que sabe a verdade. E como a verdade teria sido mais difícil para Anthony Peak suportar do que aquilo que ele acreditava ter acontecido, sempre a ocultei.
Havia, também, o medo de que, se eu contasse, eles pudessem tentar trazer Nancy de volta. Penso que Anthony teria procurado o mundo inteiro por ela. Não, talvez, por causa de qualquer necessidade grande e apaixonada dela, mas porque ele teria pensado que ela estaria infeliz no que tinha feito, e teria procurado salvá-la.
Sou vinte anos mais velha que Nancy, os seus pais estão mortos, e era em minha casa que ela sempre ficava quando vinha a Nantucket. Ela tem sangue da ilha nas suas veias, e Anthony Peak também. Por detrás deles estavam gente do mar, embora em primeiro plano estivesse uma geração ou duas de residência cosmopolita. Nancy tinha sido educada em França, e Anthony em Inglaterra. Os Peaks e os Greers possuíam, respetivamente, casas em Beacon Street e em Washington Square. Vinham todos os verões à ilha, e foi assim que Anthony e Nancy cresceram juntos, e acabaram por ficar noivos.
Como disse, sou vinte anos mais velha que Nancy, e sou sua prima. Vivo na velha casa dos Greer na Orange Street, pois é minha por herança, e deveria ter ido para Nancy à minha morte. Mas não irá para ela agora. Contudo, pergunto-me por vezes... será que o navio que a levou algum dia navegará de volta ao porto? Algum dia, quando ela for velha, caminhará pela rua e lamentará encontrar estranhos na casa?
Lembro-me distintamente do dia em que o iate ancorou pela primeira vez dentro da Ponta. Era uma manhã de domingo e Nancy e eu tínhamos subido ao topo da casa até à "Caminhada do Capitão", o quadrado de grades brancas no telhado que dava uma vista do porto e do mar.
Nancy tinha vinte e cinco anos, era esguia e graciosa. Usava naquela manhã um casaco curto de veludo cinzento sobre linho branco. O seu espesso cabelo castanho estava preso num nó baixo e a sua pele branca e fina tinha um toque de cor artificial. Os seus olhos eram de um azul claro. Ela era realmente muito adorável, mas senti que o casaco cinzento a apagava — que se ela não o tivesse usado, não teria precisado daquele toque de cor nas faces.
Ela acendeu um cigarro e ficou a olhar para longe, com a mão na grade. "É uma manhã divina, Ducky. E vais à igreja?"
Sorri para ela e disse: "Sim."
Nancy não ia à igreja. Ela praticava uma tolerância fácil. Os seus antepassados tinham sido, originalmente, Quakers. Em anos posteriores, tinham-se voltado para o Unitarianismo. E agora, nesta geração, Nancy, assim como Anthony Peak, tinham lançado fora os grilhões da observância religiosa.
"Mas vale a pena ter as igrejas só pelos sinos", admitiu Nancy nas manhãs de domingo, quando a sua música ressoava do campanário e da torre.
Valia a pena ter as igrejas por mais do que os sinos. Mas era inútil argumentar com Nancy. Os seus valores morais e os de Anthony eram irrepreensíveis. Isto é, do ponto de vista moderno. Jogavam cartas por pequenas apostas, bebiam quando lhes apetecia e, como indiquei, Nancy fumava. Ela também não estava por beijar quando Anthony lhe pediu em casamento. Estes não eram os ideais da minha juventude, mas Anthony e Nancy sentiam que tais pequenos vícios que cultivavam os salvavam da mentalidade estreita dos seus antepassados.
"Anthony e eu vamos dar um passeio", disse ela. "Trarei algumas flores para os teus vasos, Elizabeth."
Foi precisamente nessa altura que o iate entrou no porto — majestosamente, como um cisne de movimento lento. Identifiquei o nome com os meus óculos marítimos, _The Viking_.
Entreguei os óculos a Nancy. "Nunca ouvi falar dele", disse ela. "Tu ouviste?"
"Não", respondi. A maioria das embarcações que entravam eram familiares, e eu dava-lhes as boas-vindas todos os anos.
"Algum novo-rico, provavelmente", decidiu Nancy. "Ducky, tenho a sensação de que o dono do The Viking o comprou com os lucros de pílulas ou pós para dores de cabeça."
"Ou de porco."
Não tenho a certeza de que Nancy e eu estivéssemos justificadas no nosso desdém — o óleo de baleia talvez não tenha maior pretensão a distinção social do que o bacon, o presunto ou... pílulas.
Os sinos da igreja estavam a tocar, e eu tive de descer. Nancy ficou no telhado.
"Manda o Anthony subir se ele estiver aí", disse ela; "sentar-nos-emos aqui no alto como dois querubins e olhar para ti, e tu desejarás estar connosco."
Mas eu sabia que não deveria desejá-lo; que deveria ficar contente por caminhar pelas ruas sombreadas com os meus amigos e vizinhos, por passar pelos jardins que estavam amarelos de luz solar e alegres com esporinhas, dedaleiras e malvas-rosa, e por sentar-me no banco que era meu por herança.
Anthony estava no andar de baixo. Era um jovem alto, impecavelmente vestido, e cumprimentou-me com o seu jeito perfeito.
"A Nancy está no telhado", disse-lhe eu, "e ela quer que subas."
"Então vais à igreja? Reza por mim, Elizabeth."
No entanto, eu sabia que ele sentia que não precisava das minhas orações. Ele tinha a Nancy, mais dinheiro do que podia gastar, e a vida pela frente. O que mais, ele perguntaria, poderiam os deuses dar?
Dei as instruções finais às minhas criadas sobre o jantar e pus o meu chapéu. Era um chapéu bastante superlativo e viera da Quinta Avenida. Passo a primavera e o outono em Nova Iorque e compro as minhas roupas nos locais mais elegantes. As senhoras de Nantucket nunca foram provincianas nas suas modas. Os nossos antepassados faziam compras nos mercados do mundo. Quando os nossos capitães navegavam pelos mares, traziam para as suas mulheres os tesouros do tear e da agulha de Barcelona e Bordéus, de Bombaim e Calcutá, Londres, Paris e Tóquio.
E talvez por causa do meu contentamento com o meu chapéu novo, talvez por causa do agradável par de amantes que deixara para trás na casa antiga, talvez por causa da sombra e do sol, e dos jardins, talvez por causa dos sinos, o mundo parecia mais do que nunca bom para mim enquanto seguia o meu caminho.
O meu banco na igreja fica bem perto do meio. Os meus antepassados eram modestos, ou talvez assumissem essa virtude. Não queriam nem o lugar mais alto nem o mais baixo na sinagoga.
Acontece, portanto, que os estranhos que vêm sentam-se geralmente à minha frente. Tenho uma curiosidade viva e gosto de olhar para eles. No inverno não há estranhos e a minha mente está, imagino, nessas alturas, mais recetiva ao sermão.
Cheguei cedo e sentei-me quase sozinha na grande sala dourada, cuja contenção na decoração sugere a nudez primitiva dos primeiros tempos. Gradualmente, as pessoas começaram a entrar, e a minha atenção foi captada pela aparência um tanto invulgar de um homem que caminhava pelo corredor, precedido pelo rececionista.
Ele era de constituição bastante robusta, mas com bons ombros militares quadrados e ancas estreitas. Usava um casaco azul, calças brancas e trazia um boné de iatista. O seu perfil, enquanto passava para o seu banco, mostrava-o jovem, a pele ligeiramente bronzeada, os traços bons, embora um pouco pesados.
Contudo, quando ele se sentou e eu estudei a sua cabeça, o que parecia mais significativo nele era o seu cabelo. Era ruivo-dourado, espesso, encaracolado e ereto, como o cabelo na cabeça de uma criança adorável, ou na pintura de um Ticiano ou de um Tintoretto.
De certa forma, ele parecia deslocado. Jovens do seu tipo raramente iam à igreja sozinhos. De facto, raramente iam à igreja de todo. Ele parecia pertencer ao ar livre — a espaços amplos. Eu estava intrigada, também, por uma ténue sensação de já o ter visto antes.
Foi a meio do sermão que tudo se ligou. Anos atrás, um navio entrara no porto e eu tinha sido levada a vê-lo. Fiquei encantada com a figura de proa pintada de fresco — um jovem deus forte de algum conto nórdico antigo, com cabelo ruivo-dourado e uma túnica azul brilhante. E agora, no porto, estava O Viking, e aqui, à sombra de um púlpito perfeitamente ortodoxo, sentava-se aquele forte jovem deus, ainda mais glorioso do que a minha memória do seu protótipo de madeira.
Ele parecia estar absolutamente à vontade — sentava-se e levantava-se nos lugares certos, cantava os hinos num barítono delicioso que não era alto, mas que fazia soar uma nota clara acima dos esforços mais débeis do resto de nós.
Sempre foi meu costume dar as boas-vindas aos estranhos dentro dos nossos portões, e devo confessar uma preferência por aqueles que parecem prometer algo mais do que uma troca superficial.
Por isso, quando o meu jovem viking desceu o corredor, estendi-lhe a mão. "Estamos tão contentes por tê-lo connosco."
Ele parou de imediato, deu-me a mão e lançou sobre mim o seu olhar claro. "Obrigado." E então, imediatamente: "A senhora vive aqui? Em Nantucket?"
"Sim."
"O ano todo?"
"Praticamente."
"Isso é muito interessante." Novamente, o seu olhar claro avaliou-me. "Posso caminhar um pouco consigo? Não tenho amigos aqui e quero fazer muitas perguntas sobre a ilha."
A coisa que mais me impressionou enquanto falávamos foi a sua absoluta falta de autoconsciência. Ele entregava-se ao assunto em mãos como se fosse uma questão vital, e como se pusesse tudo o resto de lado. É uma qualidade possuída por poucos habitantes da Nova Inglaterra; é, de facto, uma qualidade possuída por poucos americanos. Por isso, quando ele se ofereceu para caminhar comigo, pareceu perfeitamente natural que eu o deixasse. Nem um em mil homens teria feito tal proposta sem uma ereção imediata, da minha parte, das barreiras da convencionalidade. Ter erguido qualquer barreira neste caso teria sido um insulto à minha perceção do tipo de homem com quem eu tinha de lidar.
Ele era um cavalheiro, individual e muito sincero; e mais do que tudo, era imensamente atraente. Havia charme naquele olhar azul claro de inocência. Contudo, era inocência somada a conhecimento, somada a algo que, até aquele momento, eu não conseguia analisar.
Ele deixou-me à porta de casa. Descobri que ele tinha vindo à ilha não para brincar durante o verão nos clubes de campo e na praia, mas para viver no passado — vê-lo como fora outrora — quando os seus homens iam para o mar em navios. E porque ainda havia tanto que tínhamos para dizer um ao outro, convidei-o para tomar uma chávena de chá comigo, "esta tarde, às quatro".
Ele aceitou de imediato, com o seu ar de pôr de lado tudo exceto o assunto em mãos. Entrei em casa com uma sensação de grande aventura. Eu não podia saber que estava a brincar ao destino, mudando naquele momento o curso do futuro da Nancy.
* * * * *
O jantar era à uma da tarde. Parece uma hora impossível para pessoas que jantam sempre à noite. Mas, no sábado, nós, os de Nantucket, comemos a nossa refeição principal quando regressamos da igreja.
Nancy e Anthony protestaram como de costume. "Claro que não podes esperar que nos vistamos."
Nancy sentou-se à mesa com o chapéu posto e sem o casaco de veludo. Estava um pouco despenteada e quente da caminhada. Tinha trazido um grande molho de ervilhaca azul e mostarda pálida, e pusemo-lo no centro da mesa num vaso de cerâmica cinzenta. A minha sala de jantar é em cinzento, branco e mogno antigo, e Nancy tinha tido olho para a sua coloração quando colheu as flores. Não teriam encaixado no esquema decorativo da minha biblioteca, que é ajustada, ou desajustada, a um vaso antigo de vidrado turquesa, ou à sala de estar, que é em Chippendale inglês com brocado cor de amora.
Tivemos um jantar excelente, servido pela minha pequena criada portuguesa. Nancy elogiou a sopa de lagosta e Anthony pediu uma segunda dose de pato assado. Fumaram os seus cigarros com o café.
Muito antes de chegarmos ao café, no entanto, Anthony tinha perguntado, à sua maneira agradável, sobre o serviço da manhã.
"Conta-nos sobre o sermão, Elizabeth."
"E o texto", disse a Nancy.
Tendo a esquecer o texto, e eles sabiam-no. Era sempre uma espécie de jogo entre nós ao jantar de domingo, no qual eles tentavam provar que a minha atenção se tinha desviado, e que eu teria feito muito melhor em ficar em casa, escapando assim à escravidão do dogma e de me arranjar.
Lembrei-me do texto e depois contei-lhes sobre Olaf Thoresen.
Nancy ergueu as sobrancelhas. "O homem das pílulas? Ou seria... porco?"
"Provavelmente não era nenhum dos dois. Não sejas uma esnobe, Nancy."
Ela encolheu os ombros. "Foste tu que disseste 'porco', Elizabeth."
"Ele vai vir tomar chá."
"Hoje?"
"Sim."
"Lamento", disse a Nancy. "Gostaria de o ver, mas prometi levar o Bob Needham a 'Sconset para um mergulho."
Anthony tinha feito o compromisso inicial — jogar ténis com Mimi Sears, "Desde que, claro, não tenhas outros planos para mim", tinha dito ele à Nancy, educadamente.
Ela não tinha planos, nem, dadas as circunstâncias, os teria forçado. Esse era o código deles — liberdade absoluta. "Seremos muito mais felizes se não nos prendermos um ao outro."
Para mim, era uma atitude espantosa. Nos meus tempos de juventude, os amantes passeavam nas tardes de domingo até ao antigo cemitério, ou pela charneca, ou ao longo da praia, e regressavam ao crepúsculo juntos, e sentavam-se juntos depois da ceia, de mãos dadas.
Não tenho a menor dúvida de que Anthony dava as mãos à Nancy, mas não havia nada de fixo nessas ocasiões. Tinham acabado com os carinhos no sentido antigo, e o que tinham substituído parecia satisfazê-los.
Anthony saiu por volta das três, e eu fui vestir algo leve e fresco, e descansar um pouco antes de receber o meu convidado. Ouvi a Nancy ao telefone a fazer os arranjos finais com os Drakes. Depois disso, adormeci e não soube de mais nada até Anita subir para anunciar que o Sr. Thoresen estava no andar de baixo.
O chá foi servido no jardim nas traseiras da casa, onde havia algumas cadeiras de vime profundas e rosas num tumulto de floração.
"Isto é... encantador..." disse Olaf. Ele não se sentou de imediato. Ficou a olhar à sua volta, para o relógio de sol, para a mandíbula de baleia a branquear sobre um pedestal de granito, e para as belas casas antigas que se erguiam à nossa volta. "É encantador. Sabe, tenho-me sentido muito afortunado desde que a senhora falou comigo na igreja esta manhã."
Depois disso, foi tudo muito fácil. Ele perguntava e eu respondia. "Sabe", explicou ele, finalmente, "tenho fome de tudo o que me fale sobre o mar. Três gerações atrás, éramos todos marinheiros — o meu bisavô e os seus pais antes dele na Noruega — e muito antes disso... os vikings." Ele respirou fundo. "Depois, o meu avô veio para a América. Estabeleceu-se no Oeste — no Dakota, e plantou cereais. Ganhou dinheiro, mas estava a mil milhas de distância do mar. Ele definhava por ele, mas queria dinheiro e, como disse, ganhou-o. E o meu pai ganhou mais dinheiro. Depois vim eu. O dinheiro levou-me para a escola no Leste — para a universidade. A minha mãe morreu e o meu pai também. E agora o dinheiro é meu. Comprei um iate e tenho vivido na água. Não me farto dela. Acho que estou a compensar tudo o que o meu pai e o meu avô se privaram."
Não consigo de todo descrever-lhe como ele o disse. Havia uma tensão, quase uma ferocidade, nos seus olhos azuis brilhantes. No entanto, terminou com uma pequena risada. "Vê", disse ele, "sou uma espécie de Holandês Voador — a navegar pelos mares eternamente, impelido não por qualquer força sinistra, mas pelo meu próprio deleite nisto."
"Vai sozinho?"
"Oh, tenho convidados... por vezes. Mas muitas vezes sou a minha própria... boa companhia..."
Ele parou e levantou-se. Nancy tinha aparecido à porta. Ela atravessou o alpendre e veio na nossa direção. Estava com o seu fato de banho e touca, novamente cinzentos, com uma linha de verde nas margens, e atirada sobre os ombros estava uma capa cinzenta. Ela estava a caminho das cavalariças — era antes do tempo dos automóveis na ilha, aqueles dias felizes e celestiais. A porta estava aberta e o seu cavalo atrelado e à sua espera. Ela não podia, claro, passar por nós sem falar, por isso apresentei o Olaf.
Anita tinha trazido o chá, e a Nancy ficou para comer uma fatia de pão fino com manteiga. "Com este ar, estamos sempre com fome", disse ela ao Olaf, e sorriu-lhe.
Ele não retribuiu o sorriso. Estava a avaliá-la com uma espécie de intensidade franzida. Ela falou sobre isso mais tarde: "Ele olha sempre assim?" Mas penso que, de certa forma, ela ficou satisfeita.
Ela conduzia o seu próprio cavalo, embrulhada na sua capa e com um total desprezo pela informalidade do seu traje. Ela iria, eu sabia, reunir os Drakes e o Bob Needham, igualmente trajados com fatos de banho, e todos tomariam chá do outro lado da ilha, como náiades e totalmente despreocupados. Eu não aprovava, mas a Nancy não cortava a sua vida para se ajustar ao meu padrão.
Quando ela se foi embora, Olaf disse-me, abruptamente: "Por que é que ela usa cinzento?"
"Oh, ela desenvolveu uma teoria de que a repressão na cor é uma evidência de civilização avançada. Os japoneses, por exemplo..."
"Por que deveria a civilização avançar? Já foi longe o suficiente... demasiado longe... E ela deveria usar uma capa azul — azul-marinho — a cor dos seus olhos..."
"E dos seus." Sorri para ele.
"Sim. São como os dela?"
Eram quase estranhamente iguais. Eu tinha reparado nisso quando os vi juntos. Mas aí a semelhança terminava.
"Ela pertence à ilha?"
"Vive em Nova Iorque. Mas cada gota de sangue nela é sangue marinheiro."
"Bom!" Ele sentou-se por um momento em silêncio, depois falou de outra coisa. Mas quando estava pronto para ir, incluiu a Nancy num convite. "Se a senhora e a Srta. Greer pudessem almoçar comigo amanhã no meu iate..."
Eu não tinha a certeza sobre os compromissos da Nancy, mas pensei que poderíamos. "Pode ligar-nos de manhã."
Nancy trouxe os Drakes e o Bob Needham de volta com ela para a ceia, e Mimi Sears estava com o Anthony. A ceia ao domingo é uma refeição informal — tudo na mesa e os criados de folga.
Nancy, vestida com algo branco e requintado, serviu a salada. "Então o teu jovem viking não ficou, Elizabeth?"
"Eu não o convidei."
Foi então que ela falou do seu olhar franzido. "Ele olha sempre assim?"
Anthony, interrompendo, exigiu: "Ele olhou para a Nancy?"
Acenei com a cabeça. "Eram os olhos dela."
Todos olharam para mim. "Os olhos dela?"
"Sim. Ele disse que a capa dela deveria ter combinado com eles."
Anthony corou. Ele tem um código bastante crítico para os estranhos. Evidentemente, Olaf tinha transgredido.
"O homem é um costureiro?"
"Claro que não, Anthony."
"Então por que haveria ele de falar sobre a roupa da Nancy?"
"Bem", observou a Nancy, "talvez quanto menos se disser sobre a minha roupa, melhor. Eu estava de fato de banho."
Anthony estava irritável. "Bem, por que não? Tinhas o direito de vestir o que quisesses, mas ele não tinha o direito de fazer comentários sobre isso."
Saí em defesa de Olaf. "Compreenderias melhor se pudesses vê-lo. Ele é bastante diferente, Anthony."
"Não gosto de pessoas diferentes", e nessa frase estava um resumo dos preconceitos de Anthony. Ele e a Nancy misturavam-se com os da sua própria espécie. Os amigos de Anthony eram os homens que tinham frequentado as escolas certas, que viviam nas ruas certas, pertenciam aos clubes certos e conheciam as pessoas certas. Dentro desses limites, a humanidade podia fazer o que quisesse; fora deles, era desprezível e não digna de consideração.
Depois da ceia, os cinco iam dar um passeio de barco. Havia luar, e toda a maravilha que isso traz.
Anthony não estava entusiasmado com o plano. "Oh, olha lá, Nancy", queixou-se ele, "já fizemos o suficiente por um dia..."
"Eu não."
Claro que isso resolveu o assunto. Anthony encolheu os ombros e submeteu-se. Ele não partilhava a adoração quase idólatra da Nancy pelo mar. Era a única coisa fundamental sobre ela. Ela banhava-se nele, nadava nele, navegava nele, e nunca estava totalmente feliz longe dele.
Ouvi o Anthony mais tarde no corredor, a protestar. Eu tinha ido à biblioteca buscar um livro, e as suas vozes chegaram até mim.
"Pensei que tu e eu pudéssemos ter uma noite sem os outros."
"Oh, não sejas estúpido, Anthony."
Acho que o meu coração perdeu uma batida. Ali estava um amante a pedir à sua amada um momento — e ela riu-se dele. Não encaixava nas minhas ideias de romance juvenil.
No entanto, tarde daquela noite, ouvi o murmúrio das suas vozes e olhei para a noite branca. Estavam juntos junto ao relógio de sol, e o braço dele estava à volta dela, a cabeça dela no ombro dele. E não era a primeira vez que um par de amantes estava junto àquele relógio sob a lua.
Voltei para a cama, mas não conseguia dormir. Acendi o meu candeeiro de cabeceira e li *Vanity Fair*. Acho o Thackeray um excelente corretivo quando estou emocionalmente agitada.
Nancy, também, estava acordada; eu podia ver a sua luz a brilhar através do corredor. Ela entrou, finalmente, e sentou-se ao fundo da minha cama.
"O teu viking estava a cantar enquanto passávamos pelo barco dele..."
"A cantar?"
"Sim, hinos, Elizabeth. Os outros riram-se, o Anthony e a Mimi, mas eu não me ri. A voz dele é... maravilhosa..."
Ela estava com um roupão de crepe branco, e não havia cor nas suas bochechas. A sua pele tinha a suavidade branca de uma pétala de rosa. Os seus olhos eram como estrelas. Enquanto estava ali deitada a olhar para ela, perguntei-me se eram os beijos de Anthony ou a memória do canto de Olaf que tinham feito os seus olhos brilhar daquela maneira.
Eu tinha-o ouvido cantar, e disse-o, "na igreja".
Os seus braços abraçaram os seus joelhos. "Não é estranho que ele vá à igreja e cante hinos?"
"Por que estranho? Eu vou à igreja."
"Sim. Mas tu és diferente. Pertences a outra geração, Elizabeth, e ele não parece pertencer."
Eu sabia o que ela queria dizer. Tinha pensado a mesma coisa quando o vi pela primeira vez a caminhar pelo corredor. "Ele convidou-nos para almoçar com ele amanhã no seu barco."
Foi a primeira vez que o mencionei. De alguma forma, não tinha tido vontade de falar sobre isso perante o Anthony.
Ela mostrou a sua surpresa. "Tão cedo? Isso não soa um pouco... abusado?"
"Soa como se ele fosse atrás de uma coisa quando a quer."
"Sim, soa. Acredito que gostaria de aceitar. Mas não posso amanhã. Há um *clambake* e prometi à multidão."
"Ele vai convidar-te outra vez."
"Será? Então podes dizer 'sim' por quarta-feira. E eu cumprirei."
"Não tenho a certeza se devemos aceitar."
"Por que não?"
"Bem, há o Anthony."
Ela deslizou da cama e ficou a olhar para mim. "Achas que ele não gostaria?"
"Receio que não. E, afinal, estás noiva dele, Nancy."
"Claro que estou, mas ele não é o meu carcereiro. Ele faz o que quer e eu faço o que quero."
"No meu tempo, os amantes gostavam de fazer a mesma coisa."
"Gostavam? Não acredito. Eles apenas fingiam, e não há fingimento entre o Anthony e eu" — ela inclinou-se e beijou-me — "eles apenas fingiam, Elizabeth, e a razão pela qual amo o Anthony é porque nós não fingimos."
Depois disso, senti que não precisava de temer nada. Nancy e Anthony — liberdade e autoconfiança — por que deveria eu tentar comparar os ideais deles com os meus de ontem? Contudo, enquanto deixava o meu livro de lado, resolvi que Olaf deveria saber sobre o Anthony.
Tive a minha oportunidade no dia seguinte. Olaf veio sentar-se no meu jardim e, novamente, tomámos chá. Ele ficou muito satisfeito quando soube que a Nancy e eu seríamos suas convidadas na quarta-feira.
"Venham cedo. Sabem nadar? Podemos levar a lancha até à praia — ou, melhor ainda, mergulhar na água mais profunda perto do meu barco."
"A Nancy nada", disse-lhe eu. "Eu não. E não tenho a certeza de que possamos ir cedo. A Nancy e o Anthony costumam jogar golfe de manhã."
"Quem é o Anthony?"
"Anthony Peak. O homem com quem ela se vai casar."
Ele hesitou um momento, depois disse: "Traga-o também." O seu olhar direto encontrou o meu, e a sua pergunta direta seguiu-se. "Ela ama-o?"
"Claro."
"Nem sempre é 'claro'." Ele parou e falou de outras coisas, mas, de uma forma subtil, apercebi-me de que a minha notícia tinha sido um choque para ele, e de que ele estava a tentar ajustar-se a ela, e à diferença que isso devia fazer na sua atitude para com a Nancy.
* * * * *
Quando disse à Nancy que o Anthony tinha sido convidado, ela perguntou: "Como é que o Olaf Thoresen soube dele?"
"Disse-lhe que estavas noiva."
"Mas porquê, Elizabeth? Porquê gritar isso aos quatro ventos?"
"Bem, não queria que ele ficasse magoado."
"Estás a tomar muitas coisas como garantidas."
Encolhi os ombros. "Não vamos discutir, e um grupo de quatro é muito mais agradável do que de três."
Como veio a verificar-se, no entanto, o Anthony não pôde ir. Foi chamado de volta a Boston por motivos de trabalho. Foi aí que o Destino interveio novamente. Tenho a certeza de que foram aqueles três dias de ausência do Anthony que fizeram pender a balança do destino da Nancy. Se ele estivesse connosco naquela primeira manhã no barco, o Olaf não se teria atrevido...
A Nancy vestiu o seu linho branco e o seu casaco de veludo cinzento, e um chapéu com uma asa de gaivota. Levava o seu fato de banho. "Ele pretende, evidentemente, entreter-nos à sua maneira."
O iate do Olaf era moderno, mas havia um toque de barbárie no seu mobiliário. O camarote para onde fomos conduzidas e onde a Nancy se ia mudar era de madeira estranhamente entalhada, e havia uma pele de lobo no chão, em frente à cama baixa. A colcha era de um tecido de seda vermelha de trama fina, pesado devido a uma orla de fios de ouro e prata. Na parede pendia um quadrado de tapeçaria que mostrava um navio antigo e estranho com velas azuis, vermelhas e verdes, e com cabeças de dragão douradas na proa e na popa.
A Nancy, ao atravessar o limiar, disse ao Olaf, que nos tinha aberto a porta: "É como entrar noutro mundo; como se tivesse montado o cenário, levantado o pano e a peça tivesse começado."
"Gosta? Foi um capricho meu copiar uma descrição que encontrei num livro antigo. O Rei Olaf, o Robusto, mobilou um quarto como este para a sua noiva."
Olaf, o Robusto! A frase assentava perfeitamente a este homem forte, atarracado e de olhos azuis, que sorria radiantemente para nós enquanto fechava a porta e nos deixava sós.
A Nancy ficou no meio do quarto, olhando à sua volta. "Gosto disto", disse ela, com um estranho tremor na voz. "Não gostas, Elizabeth?"
Eu gostava tanto que senti que era sensato esconder o meu prazer sob um fingimento de indiferença. "Bem, é original, no mínimo."
Mas era mais do que original, era poético. Era — Melisande no bosque — uma das melodias inesquecíveis de Sinding, uma antiga Saga capturada e fixada na cor e no entalhe.
Neste quarto resplandecente, a Nancy, com o seu branco e cinzento, era uma figura fria e incongruente, e quando finalmente vestiu a sua touca baça e a capa baça que usava sobre o seu traje de banho, parecia uma sombra fantasmagórica da noiva brilhante que aquele outro Olaf tinha trazido — há mil anos — para o seu estranho navio antigo.
Compreendo que o que se segue neste registo deve parecer exagerado para quem não tem imaginação. Mesmo agora, ao olhar para trás, tem uma qualidade de sonho, como se nunca pudesse ter acontecido, ou como se, tal como a Nancy dissera, fosse parte de uma peça, que terminaria quando o pano fosse descido e os atores regressassem ao lugar-comum.
Mas os atores deste drama nunca regressaram ao lugar-comum. Ou regressaram? Alguma vez saberei? Espero nunca saber, se a Nancy e o Olaf perderam o glamour dos seus sonhos.
Bem, encontrámos o Olaf no convés à nossa espera. Numa túnica azul-marinho, com braços brancos e fortes, e a brancura deslumbrante do seu pescoço robusto, ele era mais do que nunca como a figura de proa do antigo navio que eu tinha visto na minha infância. Ele carregava sobre o braço uma capa do mesmo azul-marinho. Foi esta capa que, mais tarde, desempenhou um papel importante no mistério do desaparecimento da Nancy.
O seu olhar rápido percorreu a Nancy — a fantasmagórica Nancy em cinzento, com apenas o azul dos seus olhos e aquele toque de rosa artificial nas bochechas para a redimir da monotonia. Ele abanou a cabeça com um gesto de impaciência.
"Não gosto disso", disse ele, abruptamente. "Por que matas a tua beleza com cores baças?"
Os olhos da Nancy desafiaram-no. "Se está morta, como sabes que é beleza?"
"Posso mostrar-te?" Novamente, aquela tensão excitante que eu tinha notado no jardim.
"Não sei o que queres dizer", mas, naquele momento, a cor subiu do seu pescoço até ao queixo; as manchas cor-de-rosa fixas perderam-se numa onda de adoráveis rubores flamejantes.
Pois, com um movimento súbito, ele tinha-lhe arrancado a touca e atirado a capa à volta dela. A transformação estava completa. Era como se ele tivesse agitado uma varinha mágica. Ali estava ela, as duas tranças longas e espessas, que ela usava presas por baixo da touca, caindo pesadamente como metal fundido até aos joelhos, a capa azul cobrindo-a — de uma cor celestial, a condizer com os seus olhos, a condizer com o mar, a condizer com o céu, a condizer com os olhos do Olaf.
Creio que devo ter soltado uma exclamação aguda, pois o Olaf voltou-se para mim. "Vês", disse ele, triunfante, "eu sempre soube. Soube-o da primeira vez que a vi no jardim."
A Nancy tinha recuperado a compostura. "Mas não posso andar pelas ruas com uma capa azul e o cabelo solto."
Ele riu-se com ela. "Oh, não, não. Mas a cor é apenas um símbolo. A vida moderna roubou-te as coisas vivas. Até as tuas emoções. Estás... com medo..." Ele conteve-se. "Podemos falar disso depois do nosso mergulho. Acho que teremos mil coisas sobre as quais conversar."
A Nancy estendeu a mão para apanhar a sua touca, mas ele não lha quis dar. "Por que te preocupas se o teu cabelo ficar molhado? O vento e o sol secá-lo-ão..."
Fiquei espantada quando vi que ela o estava a deixar fazer o que queria. Nunca, por um momento, o Anthony a tinha dominado. Pela primeira vez na sua vida, a Nancy era dominada por uma vontade que era mais forte do que a sua.
Sentei-me no convés e observei-os enquanto nadavam como dois jovens deuses marinhos, o cabelo cor de bronze da Nancy brilhando sob o sol. A crista ruiva dourada do Olaf...
A capa azul jazia sobre o meu joelho. A Nancy tinha-a deixado cair quando desceu para a lancha. Examinei-a e descobri que era de lã macia e espessa, com bordados de um tipo estranho e primitivo em cores desbotadas. No entanto, o material da capa não tinha desbotado, ou, se tinha, restava aquele azul claro, como o manto da Virgem nas pinturas antigas.
Eu sabia agora por que é que o Olaf queria a Nancy a bordo, por que é que queria nadar com ela no mar que era tão azul como os seus olhos e os dele próprios. Era para a revelar a si mesmo como o par das mulheres das Sagas. Encontrei esta descrição mais tarde num dos livros antigos na biblioteca do navio:
* * * * *
Então mandaram chamar Hallgerd, e ela veio com duas mulheres. Ela usava um manto tecido de azul... o cabelo caía-lhe até à cintura de ambos os lados, e ela metia-o por baixo do cinto.
E havia, também, este relato de uma dona de casa no seu "kyrtil":
A cauda do vestido arrastava, A saia tinha um tom azulado; A sua testa era mais brilhante, O seu pescoço era mais branco Do que a neve pura recém-caída.
Por outras palavras, aquele único olhar para a Nancy no jardim, quando ele se levantou à entrada dela, revelou ao Olaf o que havia de fundamental nela. Ele tinha-a reconhecido como uma donzela do mar. E ela não o sabia, nem eu, nem o Anthony.
* * * * *
O almoço foi servido no convés. Fomos servidos por nórdicos de cabelos claros, mas muito modernos. A tripulação do Viking era toda escandinava. A maioria deles falava inglês, e não parecia haver nada de invulgar em nenhum deles. No entanto, no estado de espírito do momento, não me sentiria surpreendida se nos tivessem servido em peles de animais selvagens, ou se tivessem içado velas como piratas, com nós as duas como cativas a bordo.
Confessarei, também, um sentimento de exaltação que toldou o meu discernimento. Eu sabia que o Olaf se estava a apaixonar pela Nancy, e suspeitava que a Nancy pudesse estar a apaixonar-se pelo Olaf, contudo sentei-me ali e deixei-os fazer isso. Se o Anthony soubesse! Mas como poderá ele saber? Ao ponderar agora, não tenho a certeza de que tenha algo com que me reprovar, pois o fim, por vezes, justifica os meios, e a teoria jesuítica teve a sua origem, talvez, no conhecimento profundo de que o Destino nem sempre usa métodos justos para alcançar os seus fins.
Não consigo começar a dizer-vos sobre o que falámos. A Nancy tinha secado o cabelo, e ele estava preso, frouxamente, no topo da cabeça. A capa azul estava sobre os seus ombros, e ela era a coisa mais adorável que espero alguma vez ver. Pelo fogo nas suas bochechas e pela luz nos seus olhos, apercebi-me de uma exaltação que correspondia à minha. Ela também foi arrebatada para a atmosfera de excitação que o Olaf criava. Ele não conseguia tirar os olhos dela. Perguntei-me o que teria dito o Anthony se pudesse ter vislumbrado por um momento esta feiticeira de azul e ouro.
Quando o café foi servido, não houve cigarros nem charutos. A Nancy tinha a sua própria carteira de prata pendurada no cinto. Eu sabia que ela fumaria, e não tentei impedi-la. Ela fumava sempre depois das refeições e ficava inquieta sem isso.
Foi o Olaf quem a parou. "Vais odiar os meus maus modos", disse ele, com o seu olhar a prender o dela, "mas gostava que não o fizesses."
Ela estava a acender o seu pequeno fósforo de cera e olhou com surpresa.
"O meu cigarro?"
Ele assentiu. "És demasiado adorável."
"Mas certamente não és tão... antiquado."
"Não. Talvez seja tão... moderno que a minha razão te tiraria o fôlego." Ele riu-se, mas não explicou.
A Nancy ficou indecisa enquanto o fósforo ardia inutilmente. Depois disse: "Claro que és o meu anfitrião..."
"Não o faças por essa razão. Fá-lo porque" — ele parou, riu-se novamente e continuou — "porque és uma deusa — uma mulher de uma nova raça..."
Com os lábios entreabertos, ela olhou para ele, depois tentou forçar-se a voltar à sua atitude de leve indiferença.
"Oh, já crescemos para lá disso tudo."
"De tudo o quê?"
"Mulheres-deusas. Somos apenas simpáticos e humanos uns com os outros."
"Tu és simpática e humana. Mas és mais do que isso."
A Nancy voltou a guardar o cigarro por acender na sua carteira. "Guardá-lo-ei para a próxima vez", disse ela, com um toque de desafio.
"Não haverá próxima vez", foi a sua resposta segura, e os seus olhos prenderam os dela até que, com um esforço, ela desviou o olhar.
Depois ele levantou-se, e os seus homens colocaram cadeiras fundas para nós num canto abrigado, de onde podíamos olhar através do azul para as colinas baixas da charneca. Havia uma pele sobre a minha cadeira, e afundei-me, grata, no calor dela.
"Com um vento como este nos velhos tempos", disse o Olaf, enquanto estava ao meu lado a olhar para a água cintilante, "como as velas teriam sido abertas, e agora não há nada senão vapor, gasolina e eletricidade."
"Por que não tens velas, então", desafiou-o a Nancy, "em vez de vapor?"
"Tenho um navio. Queres que te mostre a fotografia dele?"
Ele saiu para a ir buscar, e a Nancy disse-me: "Querida, beliscas-me?"
"Queres dizer que não parece real?"
Ela assentiu.
"Bem, talvez não seja. Ele disse que era uma espécie de Holandês Voador."
"Odiaria pensar que ele não era real, Elizabeth. Ele é tão vivo como uma... brasa viva."
O Olaf voltou com as fotografias do seu navio, uma embarcação limpa e bela, muito atual, exceto pelas cabeças de dragão na proa e na popa.
"Se eu pudesse ter feito à minha maneira", disse-nos ele, "teria-o construído como o navio na tapeçaria ali dentro — mas não era prático — não temos mão-de-obra para os remos nestes dias."
Ele tinha outras fotografias — de uma casa estranha, ou, melhor dizendo, de um conjunto de edifícios dispostos sob a forma de um quadrilátero, e fechado por muros baixos. Havia grandes portões de madeira entalhada com ferro forjado e vistas do interior — um salão amplo com lareiras — uma plataforma elevada, com assentos entalhados que davam um efeito de trono. A casa erguia-se numa espécie de península alta com uma floresta atrás, e o mar estendendo-se para lá dela.
"A casa parece antiga", disse o Olaf, "mas fui eu que a planeei."
Ele tinha, explicou, durante uma das suas viagens, descoberto um porto escondido. "Há apenas uma aldeia piscatória e alguns pequenos barcos no local de desembarque, mas as pessoas afirmam ser descendentes dos vikings. Estão totalmente isoladas, mas são um povo temente a Deus e resistente."
"É estranhamente isolado do resto do mundo. Chamo-lhe 'A Terra Escondida'. Não está em nenhum mapa. Procurei e não a encontrei."
"Mas porquê", perguntou a Nancy, "construíste aí?"
Era uma pergunta, creio eu, pela qual ele tinha esperado. "Algum dia poderei dizer-te, mas não agora, exceto isto — que amo o mar, e terminarei os meus dias onde, quando abrir os meus portões, os meus olhos possam descansar sobre ele... onde as suas tempestades possam bater no meu telhado, e onde os homens à minha volta o naveguem, e tirem dele o seu sustento."
"Disse à tua prima", continuou ele, "algo sobre a vida do meu avô e do meu pai. Com todo o seu sangue marinho, estiveram fechados durante duas gerações longe do mar. Consegues compreender o significado disso para mim? — o legado de anseios reprimidos? Acho que o meu pai deve ter sentido isso como eu, pois bebia muito antes de morrer. O meu avô procurou uma saída na fundação da fortuna da família. Mas quando eu vim, não havia a força coerciva da pobreza para me fazer trabalhar, e tive perante mim o aviso dos excessos do meu pai. Mas esta loucura pelo mar! Conduziu-me cada vez mais longe, e finalmente conduziu-me aqui." Ele parou, depois retomou o tema à sua maneira tensa e excitante: "Conduzir-me-á de novo."
"Por que deveria conduzir-te?"
Quando a Nancy fez essa pergunta, soube o que tinha acontecido. O frémito da sua voz foi a resposta de um pássaro ao seu companheiro. Quando penso nela, vejo-a sempre como estava então, a capa azul a cair à volta dela, o cabelo ao vento, as bochechas flamejantes com uma cor adorável.
Vi os seus dedos apertarem o braço da cadeira como que num esforço de autocontrolo. Depois ele disse: "Talvez te diga isso também. Mas não agora." Levantou-se abruptamente. "Está mais quente lá dentro, e podemos ouvir música. Tenho a certeza de que deves estar cansada de me ouvir falar de mim próprio."
Ele tocou para nós, de forma magistral, a suíte Peer Gynt, e depois disso uma composição sua. Por fim, cantou, com todo o balanço do mar na voz e no acompanhamento, e a canção arrancou-nos os corações.
A Nancy estava muito silenciosa enquanto voltávamos do cais, e foi enquanto eu me vestia para o jantar que ela entrou no meu quarto.
"Elizabeth", disse ela, "não tenho a certeza se estivemos num reavivamento metodista ou num drama musical de Wagner..."
"Nem uma coisa nem outra", disse-lhe eu. "Não há nada de artificial nele. Perguntaste-me lá atrás se ele era real. Acredito que ele é totalmente real, Nancy. Não é uma pose. Estou convencida de que não é uma pose."
"Sim", disse ela, "essa é a coisa estranha. Ele não está... a fingir... e faz com que todos os outros pareçam... secos e superficiais — como fantasmas — ou... sombras..."
* * * * *
Li Vanity Fair até tarde da noite, e a manhã já se aproximava antes de tentar dormir. Acordei e encontrei a Nancy de pé junto à minha cama.
"O barco dele desapareceu."
"Desapareceu?"
"Sim. Partiu há uma hora. Vi do telhado."
"Do telhado?"
"Sim. Levantei-me... cedo. Eu... eu não conseguia dormir. E quando olhei... tinha desaparecido — os teus óculos mostravam-no quase fora de vista."
Ela estava enrolada na capa azul. O Olaf tinha-a obrigado a trazê-la consigo. Ela tinha protestado. Mas ele tinha sido insistente.
"Encontrei isto no bolso", disse a Nancy, e estendeu um cartão no qual o Olaf tinha escrito: "Quando ela levantou os braços, abrindo a porta, uma luz brilhou sobre eles vinda do mar, e o ar e todo o mundo iluminaram-se para ela."
"O que é que isto significa, Elizabeth?"
"Acho que sabes, minha querida."
"Que ele se importa?"
"O que é que tu achas?"
Os seus olhos eram como estrelas. "Mas como pode ele? Viu-me... duas vezes..."
"Alguns homens são assim."
"Se tu apenas não lhe tivesses falado do Anthony."
"Estou contente por lhe ter falado."
"Oh, mas ele podia ter ficado."
"Bem?"
"E eu podia ter-me apaixonado por ele." Ela continuava a brilhar com os fogos que o Olaf tinha acendido nela.
"Mas tu vais casar-te com o Anthony."
"Sim", disse ela, "vou casar-me com o Anthony. Vou flertar e fumar cigarros e deixá-lo... flertar... quando podia ter sido uma... deusa."
Foi depois do pequeno-almoço do mesmo dia que recebi uma carta, entregue nas minhas próprias mãos por um mensageiro. Era do Olaf, e ele deixou ao meu critério se a Nancy a devia ver. Cobria muitas páginas e abalou a minha alma, mas não a mostrei à Nancy.
Houve noites depois disso em que achei difícil dormir, noites em que pensava no Olaf a navegar em direção à terra escondida, segurando no seu coração uma esperança que estava no meu poder coroar com a realização ou deitar por terra. Contudo, tinha a felicidade da Nancy em que pensar, e, num certo sentido, a do Anthony. Parecia quase incrível que eu tivesse de carregar, também, sobre o meu coração, o fardo da felicidade de Olaf Thoresen.
Quando o Anthony voltou, ele e a Nancy foram apanhados numa teia de compromissos, e vi muito pouco deles. Claro que eles apareciam aqui e ali com o seu grupo habitual, e tratavam-me, por assim dizer, como uma amostra da vida moderna. Exceto por duas coisas, eu teria julgado que a Nancy tinha afastado todos os pensamentos sobre o Olaf, mas estas duas coisas eram significativas. Ela tinha deixado de fumar, e já não tocava nas suas bochechas com o brilho artificial.
O espanto do Anthony, quando lhe ofereceu um cigarro e ela recusou, tinha um toque de irritação. "Mas, minha querida, porquê não?"
"Bem, tenho de pensar na minha pele, Tony."
Acho que ele sabia que não era isso e estava perplexo. "Nunca te vi com melhor aspeto na minha vida."
Ela usava um cinto azul com o seu branco claro e estaladiço, e a sua brancura era encantadora. Ela tinha, de facto, o aspeto que pertence às jovens católicas dedicadas à Virgem que usam as suas cores.
Não foi, no entanto, até o Anthony estar em casa há uma semana que ele viu a capa azul. Estávamos todos na praia — Mimi Sears, Bob Needham e os Drakes, eu própria e o Anthony. A Nancy estava atrasada, tendo um jogo de quatro para terminar no campo de golfe. Chegou finalmente, abrindo caminho alegremente através da multidão de banhistas. Ela estava sem a sua touca, e o seu cabelo estava enrolado numa trança espessa à volta da cabeça. Vi as pessoas a voltarem-se para olhar para ela como nunca se tinham voltado quando ela usava o seu cinzento sombrio.
"Grande canhão!", disse um homem atrás de mim. "Que beleza!"
Um rubor profundo manchou o rosto de Anthony, e eu soube de imediato que ele não gostou daquilo. Era como se, tendo afinado o seu gosto pelo refinamento de uma gravura japonesa, tivesse sido chamado a admirar um Fra Angelico. Ele detestava o óbvio, e a formosura de Nancy, naquele momento, era tão definida quanto a formosura do céu, do mar, da lua, das estrelas. Mais tarde, viria a saber que o gosto de Anthony era por uma Nancy sofisticada, uma Nancy trocista, uma criatura esguia e misteriosa, cujos encantos eram caviar para a plebe.
Mas Bob Needham falou das profundezas da sua alma honesta e pouco exigente. "Céus! Nancy. Onde arranjaste isso?"
"Arranjar o quê?"
"Essa capa."
"Gostas dela?"
"Se gosto...! Oxalá o Tony se fosse embora enquanto eu te digo."
Anthony, forçando um sorriso, perguntou: "Onde a arranjaste, Nan?"
"Deram-ma." Ela sentou-se na areia e sorriu para ele.
A Sra. Drake, sentindo a espessura e a maciez, exclamando sobre o bordado, disse finalmente: "É uma coisa esplêndida. Como o manto de uma rainha."
"Ainda não nos disseste", insistiu Anthony, "onde a arranjaste."
"Não? Bem, a Elizabeth dir-vos-á. É uma história um pouco longa. Vou entrar na água. Anda, Bob."
Ela deixou a capa comigo. Anthony seguiu-a, assim como os outros. Sentei-me sozinha debaixo de um grande guarda-sol cor de laranja e perguntei-me se Anthony me perguntaria sobre a capa.
Ele não perguntou, e quando Nancy voltou finalmente, com o cabelo solto a esvoaçar ao vento para secar, Anthony estava com ela. A nuvem desaparecera do seu rosto; na batalha com os artigos, ele esquecera a sua contrariedade.
Mas lembrou-se quando viu a capa. "Conta-me sobre ela, Nancy."
"Arranjei-a com o viking da Elizabeth."
Foi essa a forma calma como ela o disse.
"Ele não é o meu viking", disse-lhe eu.
"Bem, tu foste responsável por ele."
"Queres dizer", perguntou Anthony, "que aceitaste um presente desses de um homem que não conhecias?"
Nancy, abraçando-se na capa, disse: "Senti que o conhecia muito bem."
"Quanto tempo ele esteve aqui?"
"Três dias. Vi-o duas vezes."
"Não acho que goste muito da... ideia...", começou Anthony, depois interrompeu-se. "É claro que tens o direito de fazer o que quiseres."
"É claro", disse Nancy, com uma chama na face.
"Mas agradar-me-ia muito se a devolvesses a ele."
"Se eu quisesse", disse-lhe ela, "não poderia."
"Porquê?"
"Podes enviar encomendas pelo correio para o... Holandês Voador? Ou expedir coisas para... para Odin?"
"Não faço a mínima ideia do que estás a falar, Nancy."
"Bem, ele navegou para dentro e navegou para fora. Não deixou qualquer endereço. Deixou a capa... e uma memória bastante intrigante, Anthony."
Foi toda a satisfação que ela lhe deu. E não tenho a certeza de que ele merecesse mais da parte dela. O acordo entre eles fora... liberdade absoluta.
Estou convencida de que, se não fosse pela festa no jardim, eu nunca teria mostrado a carta de Olaf a Nancy. A festa no jardim é um evento anual. Realizamo-la sempre em agosto, quando os visitantes dos hotéis enchem a ilha e quando o dinheiro é mais abundante do que em qualquer outra altura do ano.
Nancy estava encarregue da lagoa dos peixes. Ajudei-a a fazer os peixes, que eram objetos alegres de papel pintado, numerados para indicar um pacote de prêmio correspondente, destinados a serem pescados com uma linha pendente de uma piscina artificial decorada com lírios.
O dia da festa no jardim foi glorioso — com o ar tão límpido que as bandeiras das barracas decoradas e os vestidos das mulheres ganhavam brilho e beleza com a atmosfera resplandecente.
Nancy usava um chapéu azul largo que combinava com os seus olhos, um dos seus vestidos brancos imaculados e um lenço de seda do mesmo azul do chapéu. Ela adorava crianças, e enquanto esteve de pé num círculo delas durante toda a tarde, incansável, entusiasmada — inclinando-se para elas, prendendo os peixes na linha pendente —, distribuindo os prêmios, sorrindo para os rostos ruborizados e ansiosos, ajudando os mais pequeninos a conseguir uma captura, eu sentei-me numa cadeira não muito longe dela e observei. Vi Anthony chegar e partir, insistindo para que ela deixasse outra pessoa tomar o seu lugar, apresentando uma dúzia de razões para ela abandonar a tarefa e, quando ela recusava, voltando para se queixar a mim:
"Tais coisas são um tédio mortal."
"Não para a Nancy."
"Mas costumavam ser. Ela mudou, Elizabeth."
"Mudou maravilhosamente."
"Não tenho a certeza. Ela sempre foi tão boa companheira."
"E não é agora?"
"Ela está diferente", corrigiu-se ele, "mas, claro... adorável."
Mimi Sears juntou-se a nós, e ela e Anthony afastaram-se juntos. Bob Needham ficou por perto de Nancy até que ela o mandou embora. Finalmente chegou a hora da peça ao ar livre, que era uma atração especial, e as multidões acorreram ao recinto. As barracas ficaram desertas, e apenas uma criança extasiada permaneceu junto à lagoa dos peixes.
Nancy sentou-se e levantou a criança para o seu colo. Tinha tirado o chapéu e o seu lenço azul caía à sua volta. Algo puxou pelo meu coração enquanto a olhava. Com aquela cabecinha na curva do seu braço, ela era a mãe eterna.
Vi Anthony a aproximar-se. Parou, e apanhei as suas palavras: "Tens de vir agora, Nancy. Estou a guardar-te um lugar."
Ela abanou a cabeça e olhou para a criança. "Disse à ama dele para ir e ele está quase a dormir."
Ele afastou-se dela e veio ter comigo. "Tenho bons lugares para ambas no recinto. Mas a Nancy não quer ir."
Levantei-me e fui com ele, embora me contentasse em ficar ali, junto à lagoa dos peixes, a deliciar os meus olhos com a Nancy.
"É perfeitamente estúpido da parte dela ficar", queixou-se Anthony enquanto caminhávamos juntos.
"Mas ela adora as crianças."
"Eu detesto crianças."
Tenho a certeza de que ele não falava a sério. O que ele detestava era o fato de que a criança, por um momento, a tinha retido longe dele. Era como se, olhando para o futuro, ele pudesse ver momentos semelhantes e se colocasse contra o pensamento de qualquer interrupção do que poderia ser, de outra forma, uma parceria livre e independente. Ele tinha, penso eu, pouca inveja no que dizia respeito a outros homens. Estava disposto a dar rédeas à Nancy e deixá-la partir, acreditando que ela inevitavelmente voltaria para ele. Talvez não estivesse tão disposto a confiar nela com laços que pudessem revelar-se mais absorventes do que ele próprio.
Se eu não tivesse a carta de Olaf, talvez não tivesse avaliado a atitude de Anthony com tanto cuidado, mas, perante aquelas palavras ardentes e a sua compreensão da divindade e beleza da natureza da minha Nancy, a queixa rabugenta de Anthony soou fria.
Acho que foi então, enquanto caminhávamos em direção ao recinto, que tomei a decisão de deixar a Nancy ouvir o que Olaf tinha para lhe dizer.
Ela ficou fora até tarde naquela noite — houve um jantar e um baile — e Anthony trouxe-a a casa. Confesso que me senti uma traidora ao ouvir o murmúrio da sua voz no corredor.
Mas, quando ele se foi embora e Nancy passou pela minha porta a caminho do seu quarto, chamei-a, e ela entrou.
Eu estava na cama e tinha a carta na mão. "Quero que a leias", disse eu. "É do Olaf Thoresen."
Ela olhou para ela e perguntou: "Quando chegou?"
"Há dois meses. No dia em que ele partiu."
"Porque não ma mostraste?"
"Não conseguia decidir-me. Nem agora sei se faço bem em deixar-te vê-la. Mas sinto que tens o direito de a ver. És tu quem deve responder. Não eu."
Quando ela se foi embora, voltei ao capítulo do meu livro onde Becky chora lágrimas de crocodilo pelo pobre Rawdon Crawley na véspera de Waterloo. Não há cena na literatura moderna que se compare. Mas não conseguia concentrar-me. Nancy estava a ler a carta de Olaf!
Fiquei com uma cópia, e aqui está ela:
"Soube quando a vi pela primeira vez no jardim que ela era a Única Mulher. Eu queria sangue do mar, e quando ela apareceu, pronta para um mergulho, pareceu um sinal. A gente sabe estas coisas de alguma forma, e eu soube. Não tentarei explicá-lo.
"Quando me falaste do amante dela, senti que o Destino me tinha pregado uma partida. Não podia agora, com honra, perseguir a mulher que estava prometida a outro. No entanto, permiti-me aquele dia — o dia no meu barco.
"Aprendi naquelas horas que passei com ela que ela tinha sido moldada pelo homem com quem se vai casar e que, nos anos que virão, ela diminuirá até à medida das exigências que ele lhe impuser. Ela é suficientemente feminina para ser influenciada pela vontade masculina. Isso é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fraqueza. Amando um homem que a ame pela maravilha da sua feminilidade, ela cumprirá o seu maior destino. Amando, por outro lado, alguém que aspira apenas a encaixá-la num esquema social atenuado, ela murchará e definhará. Acho que sabes que isto é verdade, que não me acusarás de ser injusto com ninguém.
"E agora, posso dizer-te quais têm sido os meus sonhos para ela?
"Não sou jovem. Quero dizer que já passei daqueles anos quentes e precoces em que os homens brincam aos... Romeus. O sonho que é meu é um que veio a um homem de trinta anos que, tendo visto o mundo, o pesou e quer... algo mais.
"Falei-te da minha casa naquela terra escondida que é banhada pelo mar. Quero passar o resto dos meus dias lá, e esperava que se pudesse encontrar uma mulher cujo amor pela vida, cujo amor pela aventura, cujo amor por mim, pudesse ser tão forte que ela não visse nada de estranho no meu pedido de que ela abandonasse todos os outros e se apegasse apenas a mim.
"Ao abandonar todos os outros, quero dizer, literalmente, o que digo. Eu gostaria de a cortar inteiramente de todos os laços anteriores. Deixar que alguém entrasse no nosso segredo, revelar aquela terra escondida a um mundo boquiaberto, seria destruí-la. Seríamos seguidos, rastreados pelos jornais, descritos, julgados como excêntricos... loucos. E eu não quero ser julgado de todo. A minha separação do meu semelhante teria nela mais do que um capricho egoísta, uma obsessão pela solidão. Quero voltar à civilização primitiva. Quero que os meus filhos enfrentem um mundo mais simples do que aquele que enfrentei. Sabes o que significa para um homem herdar dinheiro, sem nada por trás durante duas gerações a não ser trabalho árduo, embora por trás disso existissem, talvez, reis? Significa que tive, sem ajuda, de me adaptar a um esquema social tão complexo que ainda não dominei as suas complexidades. Não quero dominá-las. Não quero que os meus filhos as dominem. Quero que encontrem na vida uma coisa do trabalho do dia, da adoração do dia, dos prazeres ao ar livre do dia. Quero que tenham tempo para pensar e para sonhar. E depois, um dia, eles virão se quiserem desafiar a civilização — jovens profetas, talvez, saídos do deserto — vendo uma nova visão de Deus e do homem por causa do seu distanciamento de tudo o que os poderia ter cegado.
"Tenho o pressentimento de que a tua Nancy poderia, se soubesse disto, sonhar comigo uma nova raça, elevando-se ao nível das necessidades de um novo mundo. Ela poderia ver-se como a mãe de tal raça... abrigada na minha terra escondida, navegando os mares comigo, mantida perto do meu coração. Acho que sou um homem dominador, mas seria dominador apenas para a manter no seu melhor. Se ela vacilasse, eu fortalecê-la-ia. E eu faria dela feliz. Sei que a poderia fazer feliz. E, para mim, nunca haverá outra.
"Deixo ao teu critério decidir se lhe vais mostrar isto. Quero que ela o veja, porque me parece que ela tem o direito de decidir entre a vida que lhe posso oferecer e a vida que terá de viver se se casar com Anthony Peak. Mas tudo isto envolve um ponto de honra que sinto não ter imparcialidade suficiente para decidir. Por isso, amanhã irei embora. Navegarei para longe nos dois meses que me darei antes de voltar. E quando eu vier, dir-me-ás se devo voltar-me uma vez mais para os mares sem rumo, ou ficar para encontrar a minha felicidade."
Esta carta, quando a li pela primeira vez, comoveu-me profundamente, como penso que teria comovido qualquer homem ou mulher que tenha ansiado, em meio às complexidades da existência moderna, encontrar alguma terra de sonhos. Até à minha ilha, comparativamente intocada pelos problemas da existência em centros populosos, chegam ecos de discórdia, de inquietação social, de convulsões políticas, de ganância comercial. Nesta terra escondida de Olaf, a vida seria despida da sua sordidez, o amor livre da mácula do cinismo e da desilusão — a fé, firme na sua proximidade com Deus e na maravilha das Suas obras. Invejei a Olaf a sua terra escondida como invejei a Nancy a sua oportunidade. O meu sangue é o mesmo que o da Nancy, e eu amo o mar. E, à medida que envelhecemos, as nossas almas aventuram-se!
Quando Nancy veio ter comigo, tinha vestido o seu peignoir branco e tinha a carta de Olaf na mão.
"Querida", disse ela, e a sua voz tremia, "li-a duas vezes... e... não me atreveria a pensar que ele falava a sério."
"Por que não?"
"Eu gostaria de ir, Elizabeth."
"E deixar o mundo para trás?"
"Oh, eu não tenho mundo nenhum. Poderia ser diferente se a mãe fosse viva, ou o pai. Só restarias tu, querida, minha querida, querida querida." Ela agarrou a minha mão e segurou-a.
"E o Anthony..."
"O Anthony superaria isso" — bruscamente. "Não superaria, Elizabeth? Sabes que ele superaria."
"Minha querida, não sei."
"Mas eu sei. Se eu não tivesse entrado na vida dele, a Mimi Sears teria entrado, tal como o Bob Needham teria entrado na minha vida se não fosse o Anthony. Não há qualquer questão entre o Anthony e mim de... uma mulher para um homem. Tu sabes disso, Elizabeth. Mas com o Olaf... se ele não me tiver, não haverá mais ninguém... nunca. Ele... ele navegará para sempre... sozinho..."
"Minha querida, como sabes?"
Ela atirou-se para junto de mim, uma rosa branca, cheia de fragrância. "Não sei" — começou a chorar. "Como sou estúpida", soluçou ela contra o meu ombro. "Eu... não sei nada sobre ele, pois não, Elizabeth...? Mas seria maravilhoso ser amada... assim."
Durante toda a noite, ela dormiu sobre o meu braço, com a mão enrolada na curva do meu pescoço, como dormia quando criança. Mas eu não dormi. A minha mente saltou para o futuro e vi o meu mundo sem ela.
* * * * *
Nancy ficou comigo durante setembro. As férias de Anthony terminaram no dia a seguir à festa no jardim, e ele voltou para Boston, mantendo contato com a Nancy à maneira moderna, por telegrama, correio registado e telefone de longa distância.
Foi numa noite de tempestade, com vento e chuva forte, que Nancy me contou que Anthony estava a insistir para que ela se casasse com ele em dezembro.
"Mas eu não posso, Elizabeth. Vou escrever-lhe esta noite."
"Quando será?"
"Quem sabe? Eu... eu não estou pronta. Se ele não puder esperar... pode deixar-me ir."
Ela não ficou para ouvir o meu comentário sobre a sua revolta — saiu da biblioteca e sentou-se ao piano na outra sala, compondo um quadro de si mesma entre as altas velas brancas que iluminavam o mogno escuro e os brocados cor de amora.
Inclinei-me na cadeira e observei-a, os seus dedos brancos vagueando pelas teclas, as suas mangas azuis finas a escorrerem pelos seus braços brancos. De vez em quando, apanhava uma melodia familiar entre os acordes e, uma vez, percebi o ritmo e o balanço das ondas na canção que Olaf tinha cantado.
Ela não a terminou. Levantou-se e vagueou até à janela, afastando a cortina e olhando para a noite tempestuosa.
"É uma tempestade horrível, querida."
"Sim, minha querida. Em noites como esta, penso sempre nos velhos tempos em que os homens estavam no mar e as mulheres esperavam."
"Preferiria pensar no meu homem no mar, mesmo que tivesse de esperar por ele, querida, do que fechada num escritório, a estagnar."
A campainha tocou de repente. Era uma noite terrível para alguém estar fora, mas Anita, imperturbável e impecável no seu avental e touca brancos, atravessou o corredor. Uma voz fez uma pergunta, e o sangue começou a pulsar no meu corpo. As coisas ficaram turvas por um momento e, quando a minha visão clareou... vi Olaf no brilho das velas na sala ao lado, com Nancy esmagada contra ele, a sua cabeça brilhante inclinada, o azul puro do vestido dela envolvendo-o — o arco da porta emoldurando-os como as figuras de santos no vidro colorido de uma janela de igreja!
Soube então que a tinha perdido. Mas ela não se rendeu de imediato.
"Amo-o, é claro. Mas uma mulher não podia fazer uma coisa dessas", foi como ela mo explicou na manhã seguinte.
Senti, contudo, que Olaf a dominaria. Vontade contra vontade, mente contra mente. E finalmente ela mostrou-lhe o caminho. "Há mil anos, ter-me-ias levado."
Posso vê-lo agora enquanto ele captou a ideia e se riu dela. "Quer vás por tua própria vontade ou quer eu te leve, serás feliz." Ele levantou-a nas suas mãos fortes como se ela fosse uma pena, segurou-a, beijou-a e lançou um olhar para mim. "Vês como seria fácil, e há um capelão a bordo."
Não há muito mais a dizer. Nancy desceu uma manhã à praia para o seu banho... e o nevoeiro engoliu-a. Muitas vezes perguntei-me se ela o tinha planeado, ou se, sabendo que ela estaria lá, ele tinha vindo na sua lancha e a tinha levado embora, lutando, mas não, tenho a certeza, contra a vontade. Seja como for que tenha acontecido, a capa foi com ela, e gosto de pensar que ela estava nos braços dele, envolta nela, quando chegaram ao navio.
Gosto de pensar, também, na minha Nancy na sala resplandecente com as peles de lobo e a estranha tapeçaria antiga... e as tempestades a baterem impotentes contra a sua felicidade.
Gosto de pensar nela em segurança naquela terra escondida, onde a maioria de nós desejaria segui-la... a senhora daquela mansão guardada, a esposa de um jovem deus do mar, a mãe de uma nova raça.
Mas, acima de tudo, gosto de pensar nas crianças. E tenho apenas um desejo para uma vida longa, que poderia de outra forma pesar-me, que os anos tragam de volta ao mundo aqueles profetas de uma terra escondida, aquelas vozes jovens a clamar no deserto... os filhos de Olaf e de Nancy Greer.
BÉTULAS BRANCAS
I
Uma mulher que, sob sentença de morte, pudesse planear imediatamente uma viagem ao circo, poderia parecer, à primeira vista, incrivelmente leviana.
Era preciso, contudo, conhecer Anne Dunbar e os dez anos da sua vida conjugal para compreender. O seu marido era quinze anos mais velho do que ela, e ele tinha poucas ilusões. Apaixonara-se por Anne devido a uma certa juventude alegre nela, que perdurara ao longo dos dias de uma operação terrível e de uma lenta convalescença. Ele fora o seu cirurgião e, apoiada na cama, os olhos cinzentos de Anne tinham brilhado sobre ele, os caracóis ruivos do seu cabelo curto tinham-lhe dado um ar de beleza quase juvenil, e esta nota de jovialidade fora enfatizada pela esbelteza reta da figura delineada sob os lençóis brancos.
Anne casara-se com Ridgeley Dunbar porque o amava. E o amor, para Anne, fora todo fogo, chama e espírito. Não demorou muito a aprender que o seu marido encarava o amor e a vida como questões de carne, sangue... e ossos. Gradualmente, o seu materialismo impôs-se a Anne. Ela admirava Ridgeley imensamente. Venerava, de facto, o prodígio do seu trabalho diário. Ele curava os doentes, sarava os coxos e os cegos, e escarnecia das superstições de Anne: "Consigo igualar cada um dos teus milagres da Bíblia. Não tem nada que saber, minha querida. A morte é a morte e a vida é a vida; por isso, tira o máximo proveito dela."
Anne tentou tirar o máximo proveito. Mas achou difícil. Em primeiro lugar, o seu marido era um homem muito ocupado. Parecia estar perfeitamente feliz com a sua cirurgia, os seus livros de medicina e os artigos que escrevia sobre o intricado mecanismo interior que nos compõe e que marca as horas do nascimento até à morte. De vez em quando, ia ao teatro com a esposa ou jantar com amigos. Mas, regra geral, ela ia sozinha. Tinha uma limusina, um motorista, um automóvel de turismo de chassis baixo e um carro elétrico. O seu cabelo ruivo continuava maravilhoso e vestia-se com bastante discernimento em cinzentos, brancos e verdes. Se não usava habitualmente o seu ar de alegria juvenil, este reavivava-se de vez em quando, quando algo a agradava ou entusiasmava. E os seus olhos brilhavam como tinham brilhado no hospital, quando Ridgeley Dunbar se debruçara pela primeira vez sobre a sua cama.
Brilharam para Christopher Carr quando este regressou da guerra. Ele era amigo do seu marido. Ou melhor, enquanto estudante na faculdade de medicina, ouvira as preleções do homem mais velho, decidira conhecê-lo pessoalmente e, assim, por pura persistência, entrelaçara as suas vidas.
Anne nunca o conhecera. Ele estivera na Índia quando ela se casara com Ridgeley, e depois houve uns anos no Egito, onde estudara um germe estranho, cujo nome ela nunca conseguia recordar. Tinha muito dinheiro, pelo que não estava preso a um consultório. Mas quando a guerra começou, oferecera os seus serviços e fizera um historial brilhante. "Ele é um dos grandes homens do futuro", dissera Ridgeley Dunbar.
Mas quando Christopher regressou com um braço infetado, que lhe podia causar problemas, não era altura de falar de futuros. Foi convidado a passar o mês de julho na casa de campo dos Dunbar, em Connecticut, e Ridgeley levou-o lá no fim de semana.
A propriedade de Connecticut consistia numa casa de pedra espaçosa, um jardim à moda antiga e, para lá do jardim, um bosque de bétulas brancas.
"Que lugar paradisíaco", disse Christopher, perto do final do jantar; "como é que conseguiste encontrá-lo?"
"Oh, foi a Anne. Ela conduziu durante semanas e comprou-o por causa das bétulas."
Os olhos de Anne brilhavam. "Vou mostrar-tas depois do jantar."
Decidira imediatamente que gostava de Christopher. Ele ainda usava o uniforme e tinha o aspeto de um soldado. Mas não era isso; eram as coisas que ele vinha a dizer desde que a sopa fora servida. Ninguém falara da guerra como ele falava. Tinham existido outros médicos cujas mentes estavam nos braços e pernas — amputados; nas feridas e no choque traumático — E tinham existido alguns que se tinham tornado sentimentais. Mas Christopher não parecia ressentir-se com a atrocidade nem preocupar-se com as consequências morais ou espirituais. Encontrara em tudo isso uma certa beleza de que falava com entusiasmo: "Um amanhecer prateado e um grupo de Blue Devils como fumo contra ele —;" ... "Um pôr do sol cor de sangue e muitos aviadores a passar em bando —"
Ele pintava quadros, de tal modo que Anne via as batalhas como se um grande pincel as tivesse salpicado numa tela invisível. Eram apenas quatro à mesa — os dois homens, Anne e a sua prima em segundo grau, Jeanette Ware, que vivia todo o ano na casa de Connecticut e tinha sessenta anos e era ligeiramente surda, mas que vestia roupas modernas e tinha uma mente moderna.
Ainda não estava escuro e a luz das velas nos candelabros e na mesa encontrava-se com a luz ametista que entrava pela treliça escancarada. O vestido de verão de Anne era de algo muito fino em cinzento e ela usava um colar indiano de contas de prata perfuradas. Christopher enviara-lho como presente de casamento e ela sempre gostara dele.
Quando se levantaram da mesa, Christopher disse: "Agora, as bétulas."
Algures à distância, o telefone tocou e uma criada veio dizer que o Dr. Dunbar era necessário. "Não esperem por mim", disse ele, "eu irei ter convosco."
Jeanette Ware detestava o ar noturno e levou o seu livro para o candeeiro no alpendre telado, e assim aconteceu que Anne e Christopher chegaram sozinhos ao bosque, onde os corpos brancos das bétulas brilhavam como ninfas esguias através do crepúsculo. Um pequeno vento agitava as suas folhas.
"Não admira", disse Christopher, olhando para Anne, "que quisesses isto — mas diz-me precisamente porquê."
Ela tentou explicar-lhe, mas achou difícil. "Parece que encontro aqui algo que pensei ter perdido."
"Que coisas?"
"Bem — anjos da guarda — acreditas neles?" Ela falou de forma leve, como se não fosse de todo sério, mas ele sentiu que era.
"Acredito em todas as coisas belas —"
"Eu costumava pensar, quando era pequena, que eles estavam à minha volta quando eu adormecia —
'Mateus, Marcos, Lucas e João — Abençoai a cama em que me deito —'"
o seu riso foi um pouco ofegante — "mas já não acredito neles. O Ridgeley não acredita, sabes. E parece mesmo parvo —"
"Oh, não, não é —"
"O Ridgeley acha que é um pouco mórbido — e talvez tenha razão. Ele diz que devemos comer, beber e... ser alegres", ela atirou as mãos com um pequeno gesto de protesto, "mas ele, na verdade, não é alegre —"
"Compreendo. Ele apenas come e bebe?" Ele sorriu para ela.
"E trabalha. E o seu trabalho é — maravilhoso."
Sentaram-se num banco de pedra que fora talhado na rocha cinzenta sólida. "Gostaria que o Ridgeley tivesse tempo para brincar", disse Anne; "seria bom para ambos —"
A luz ametista tinha desaparecido e o crepúsculo descera. O vestido cinzento de Anne fundiu-se com o cinzento da rocha. Ela parecia apenas voz, contorno fantasmagórico e uma ténue fragrância de rosa. Christopher reconheceu o perfume. Ele tinha-lhe enviado um frasco precioso numa caixa de sândalo. Nada parecia bom demais para a esposa do seu velho amigo Dunbar.
"A vida para ti e para o Ridgeley", disse-lhe ele, "deveria ser algo mais do que trabalho ou diversão — deveria ser uma aventura infinita."
"Sim. Mas o Ridgeley não tem tempo para aventuras."
"Oh, ele pensa que não tem —"
À medida que Christopher falava depois disso, Anne não tinha a certeza de que ele estivesse a ser sincero. Ele queixou-se de que o romance caíra em descrédito. "Com todas as histórias modernas — conheces a fórmula — uma dose de sordidez, um toque de sensacionalismo, uma pitada de sexo —" Era preciso olhar para trás para encontrar a coisa real — Aucassin e Nicolette, e tudo o resto. "É por isso que não me casei."
"Bem, muitas vezes interroguei-me."
"Se eu amasse uma mulher, gostaria de tornar a sua vida feita de brilho e cor — e a minha — com ela —"
Os olhos de Anne brilhavam. Que rapaz grande e agradável ele era. Parecia tão jovem. Tinha o hábito de passar os dedos pelo cabelo. Ela estava consciente do gesto no escuro. Sim, ela gostava dele. E sentiu-se subitamente alegre e despreocupada, como se sentira nos dias em que conhecera o Ridgeley.
Conversaram até que as estrelas brilharam nas pontas das bétulas. Ridgeley não apareceu e, quando regressaram a casa, descobriram que ele fora chamado a Nova Iorque para um caso urgente. Não regressaria até à sexta-feira seguinte.
Anne e Christopher ficaram assim sozinhos durante uma semana para se conhecerem. Com apenas a velha Jeanette Ware para manter as conveniências.
II
Não demorou muito a Christopher a concluir que Ridgeley já não estava apaixonado pela sua mulher. "Claro que ele lhe chamaria amor. Mas conseguiria viver perfeitamente sem ela. Ele transformou-se numa máquina."
Falou com Dunbar uma noite sobre Anne. "Achas que ela está perfeitamente bem?"
"Porque não estaria?"
"Há um toque de falta de fôlego quando caminhamos. Tens a certeza quanto ao coração dela?"
"Ela nunca foi forte —" e pareceu ser o fim do assunto.
Mas não foi o fim para Christopher. Observou Anne de perto e, uma vez, quando subiram uma colina juntos e ela ficou exausta, carregou-a até ao topo. Conseguiu encostar o ouvido ao coração dela e o que ouviu drenou o sangue do seu rosto.
Quanto a Anne, pensou em como ele era forte — e em como o seu cabelo era claro com o sol a incidir sobre ele, pois ele tinha metido o boné no bolso.
Naquela noite, Christopher falou novamente com Ridgeley. "A Anne está num estado grave." Contou-lhe a caminhada até ao topo da colina.
Ridgeley ouviu desta vez e, no dia seguinte, levou Anne ao seu consultório e fez-lhe exames. "Mas não percebo porque estás a fazer tudo isto", queixou-se ela, enquanto ele enfiava instrumentos estranhos nos ouvidos e a fazia respirar fundo enquanto escutava.
"O Christopher diz que te cansas quando caminhas."
"Bem, canso. Mas não há nada realmente errado, pois não?"
Havia muito de errado, mas não havia qualquer indício disso na sua maneira de agir. Se ela não fosse sua esposa, ele provavelmente ter-lhe-ia dito a verdade — que ela tinha alguns meses, talvez alguns anos pela frente. Ele costumava ser franco com os seus pacientes. Mas não foi franco com Anne. Tencionava dizê-lo a Christopher imediatamente. Mas Christopher esteve fora durante uma semana.
Na semana em que esteve separado dela, Christopher aprendeu que amava Anne; que estava apaixonado por ela desde o momento em que ela estivera entre as bétulas — como uma delas na sua esbelteza branca — e lhe falara de anjos da guarda; "_Mateus, Marcos, Lucas e João_!"
Ele não acreditava em santos, nem nos anjos cujas asas pareciam envolver Anne, mas acreditava na beleza — e a de Anne parecia iluminada por dentro, como uma lâmpada de alabastro.
Contudo, ela era muito humana — e a rapariga nela e o rapaz nele tinham-se encontrado nas semanas que ele passara com ela. Encontraram muitas coisas para fazer — pescaram em riachos castanhos pouco profundos, cavalgaram por quilómetros de campos adoráveis. Saíram em busca de aventura e encontraram-na; em cerejas numa árvore à beira da estrada, e ele trepou à árvore e atirou-as para ela, e ela pendurou-as nas orelhas — Ele ordenhou uma vaca num pasto enquanto passavam, e beberam-na com as suas sandes, e ataram uma nota no lenço fino de Anne e deram um nó no cabresto da gentil Guernsey de orelhas douradas.
Mas encontraram mais do que aventura — encontraram romance — a brilhar sobre eles em toda a parte. "Se eu fosse um cigano a seguir a estrada, e ela pudesse segui-la comigo", meditava Christopher enquanto estava sentado no comboio a caminho de Anne.
Mas havia o marido de Anne, e amigo de Christopher — e mais do que tudo, havia todos os espectros da vida moderna — todas as rodas hediondas que tinham de girar se Anne alguma vez fosse sua — traição a Ridgeley — o tribunal de divórcio — e depois, ele próprio e Anne, a viver as consequências de tudo isso, enfrentando, talvez, a desilusão —
"Oh, não isso", dizia Christopher a si próprio, "ela nunca diminuiria — nunca seria nada menos do que é — se pudesse, alguma vez, importar-se —"
Pois ele não sabia se Anne se importava ou não. Podia adivinhar o que quisesse — mas não houve uma palavra entre eles.
Mais uma vez o pensamento surgiu, "Se eu fosse um cigano a seguir a estrada —"
À medida que o seu comboio atravessava o campo, ele tornou-se consciente de cartazes flamejantes — um circo exibia-se nas cidades — as cercas brilhavam com carruagens douradas, bestas selvagens, deuses e deusas baratos, palhaços com golas folheadas e chapéus de bico. Lembrou-se de um dia glorioso que passara quando era rapaz!
"Vou levar a Anne", foi a sua decisão súbita.
Ri-se sozinho e passou o resto do caminho a imaginá-la lá. Bebiam limonada cor-de-rosa, haveria bolas de pipocas — o cheiro fascinante a serradura — a batida da banda. Esperava que houvesse um tom-tom e algumas das pessoas de pele escura do Extremo Oriente.
Chegou ao seu destino às sete horas. Dunbar encontrou-o na estação. Anne estava sentada com o marido e Jeanette estava no banco de trás. Christopher teve, portanto, uma visão lateral de Anne enquanto ela se virava um pouco para lhe falar. O brilho do seu cabelo claro sob o chapéu desportivo cinzento, a luz de boas-vindas nos seus olhos —!
"Vou levar-te ao circo amanhã. Ridgeley, tu também vais?"
Dunbar abanou a cabeça. "Tenho de voltar à cidade de manhã. E não tenho a certeza de que a excitação seja boa para a Anne."
"Porque não?" rapidamente. "Não estás bem, Anne?"
Ela encolheu os ombros. "O Ridgeley parece achar que não. Mas o circo não me pode fazer mal."
Não se disse mais nada sobre o assunto. Christopher decidiu perguntar a Ridgeley mais tarde. Mas a oportunidade não surgiu até Anne ter subido para o andar de cima e Dunbar e Christopher estarem a fumar um último charuto no alpendre.
"O que se passa com ela?", perguntou Christopher.
Dunbar disse-lhe: "Ela não pode recuperar."
III
Anne, a preparar-se para dormir, na noite da chegada de Christopher, sentia-se inexplicavelmente cansada. A presença dele fora, talvez, um pouco estimulante demais. Era bom tê-lo de volta. Dificilmente se atrevia a admitir para si própria o quão bom. Depois do jantar, ela, Ridgeley e Christopher tinham caminhado até ao bosque de bétulas. Havia uma lua nova, e ela e Ridgeley tinham-se sentado no banco de pedra com Christopher aos seus pés. Ela encostara a cabeça ao ombro do marido, e ele passara o braço por ela na escuridão e puxara-a para si. Ele raramente era efusivo e a sua ternura, esta noite, por alguma razão, tinha-a magoado. Ela aprendera a viver sem ela.
Ela falara muito pouco, mas Christopher falara bastante. Ela contentara-se em ouvir. Ele contava coisas verdadeiramente maravilhosas — deu-lhe esta noite a história completa das suas contas de prata, e como tinham sido surripiadas de um templo antigo — e ele comprou-as ao ladrão. "Até te ver usá-las, tive sempre a sensação de que deveriam voltar ao templo — para o deus que talvez as tivesse usado durante mil anos. Se eu soubesse qual o deus, talvez as tivesse levado de volta. Mas o ladrão não me quis dizer."
"Não teria servido de nada levá-las de volta", dissera Ridgeley, "e ficam bem à Anne." A sua mão grande deu palmadinhas no ombro da esposa.
"Oh", Christopher estava impaciente, "quero que ouças os sinos do templo algum dia, Anne. Porque não a levas, Dunbar? No próximo inverno — larga o teu trabalho e iremos todos —"
"Tenho uma grande hipótese de ir."
"Não ganhaste dinheiro suficiente?"
"Não é dinheiro. Tu sabes disso. Mas os meus pacientes fariam um alarido —"
"Deixa-os fazer alarido. Tens uma vida própria para viver, e a Anne também."
Dunbar hesitou por um momento — então, "A Anne está melhor aqui."
Anne, pensando nestas coisas enquanto despia o seu vestido de jantar e vestia uma negligé transparente de renda e azul ténue, perguntava-se porque pensaria Ridgeley que ela estava melhor. Ela queria ver as coisas de que Christopher lhe falara — ouvir os sinos do templo no crepúsculo — a batida do tom-tom nas noites brancas.
Ficou à janela a olhar para a lua. Decidiu que não conseguia dormir. Desceria para buscar um livro que deixara na mesa. Os homens estavam ao ar livre, no alpendre; ela ouvia o murmúrio das suas vozes.
As vozes eram distintas quando ela estava na biblioteca, e as palavras de Christopher chegaram-lhe: "O que se passa com a Anne?"
Depois, a explicação técnica do seu marido, o nome científico que nada significava para ela, depois o clímax devastador: "Ela não pode recuperar."
Ela soltou um grito rápido e, quando os homens entraram na sala, ela estava encolhida no chão.
O seu marido chegou primeiro até ela. "Minha querida", disse ele, "ouviste?"
"Sim. Queres dizer que eu vou... morrer, Ridgeley?"
Não havia, claro, forma de evitar. "Significa, minha querida, que tenho de cuidar muito bem de ti. O teu coração está mal."
Christopher interveio. "As pessoas vivem anos com um coração como esse."
Mas os seus olhos procuraram os do marido. "Quanto tempo vivem?"
"Muitos meses — talvez anos — sem excitação —"
Esta tinha sido, então, a razão da sua ternura. Ele sabia que ela ia morrer e estava arrependido. Mas, durante dez anos, ela desejara o que ele lhe poderia ter dado — o que ele não lhe podia dar agora — a vida tal como a sonhara.
Ela soltou um suspiro trémulo — "Não é muito justo — pois não?"
Não parecia justo. Os dois médicos tinham enfrentado muita injustiça do tipo daquela de que ela se queixava. Mas era a primeira vez que, para qualquer um deles, chegava tão perto.
Tinham pouco consolo para lhe dar, embora tentassem certos lugares-comuns, e pouco depois Ridgeley levou-a para o seu quarto.
IV
Ela insistiu na manhã seguinte em ir ao circo com Christopher. Não dormira bem e havia sombras sob os seus olhos. O médico em Christopher guerreava com o homem. "Devias descansar", disse ele ao pequeno-almoço. Dunbar tinha ido para Nova Iorque de acordo com a sua agenda habitual. Havia outras vidas em que pensar; e Anne, quando ele a tinha visitado naquela manhã, parecera quase chocantemente insensível.
"Não, não quero ficar na cama, Ridgeley. Vou ao circo. Vou seguir a tua receita — comer, beber e ser alegre —"
"Não creio ter colocado as coisas exatamente dessa maneira, Anne."
"Colocaste. Exatamente. 'A morte é a morte e a vida é a vida — por isso, tira o máximo proveito dela.'"
Talvez ela fosse cruel. Mas ele sabia, também, que ela estava com medo. "Minha querida", disse ele gentilmente, "se consegues obter algum conforto das tuas próprias ideias, talvez fosse melhor."
"Mas tu acreditas que são apenas as minhas próprias ideias — não acreditas que sejam verdade?"
"Gostaria de pensar que eram verdade."
"Devias descansar", disse Christopher à mesa do pequeno-almoço.
"Não devia. Não deve haver mais deveres — nunca —"
Ele assentiu como se compreendesse, apoiando os cotovelos na mesa.
"Vou encher os dias" — continuou ela. "Porque não? Só terei alguns meses — e depois — aniquilação —" Ela lançou a sua pergunta através da mesa. "Tu acreditas nisso, não acreditas?"
Ele evadiu-se. "Dormimos — 'talvez para sonhar'."
"Eu não quero sonhar. Podem ser sonhos horríveis —"
E então Jeanette desceu, serviu o café e perguntou pelas notícias no jornal da manhã.
Vestida para a sua ida ao circo, Anne parecia uma rapariga na adolescência — saia branca e casaco curto verde — sapatos desportivos robustos e chapéu branco. Usava as suas contas de prata e Christopher disse: "Não tenho a certeza se usaria se fosse tu."
"Porque não?"
"Numa multidão dessas."
Mas ela manteve-as.
Foram de carro para o recinto do circo e entraram do clarão branco para a frescura sombria da tenda, como se tivessem mergulhado da superfície brilhante do mar. Mas aí a semelhança terminava. Ali não havia silêncio, mas ruído estridente — rugido, tagarelice e gritos, a batida do tom-tom, o assobio fino de uma flauta — o estrondo de uma banda. Mas foi o assobio fino que Christopher seguiu, guiando Anne com a mão no seu braço.
Seguindo a nota lamentosa, chegaram finalmente ao encantador de serpentes — um velho com um turbante branco. As serpentes estavam num cesto tapado. Ele sentou-se com as pernas dobradas por baixo de si e tocou.
Christopher falou-lhe numa língua estranha. O assobio cessou abruptamente e o homem respondeu com avidez. Houve uma rápida troca de frases.
"Conheço a sua aldeia", disse Christopher; "ele vai mostrar-lhe as suas serpentes."
Uma multidão reuniu-se, mas o encantador de serpentes só via o homem grande que falara ao seu coração nostálgico e a rapariga com as contas de prata. Ele conhecia outra rapariga que tivera um colar de contas como aquele — e elas tinham-lhe trazido sorte — uma rapariga de pele escura, a sua filha. O marido dera-lhe as contas na noite de núpcias e o seu primeiro filho fora um rapaz.
Ele levou a flauta fina aos lábios e soprou nela. As serpentes levantaram as cabeças. Ele puxou-as para fora do cesto e fê-las executar os seus passos fantásticos. Depois, pôs de lado a flauta, fechou-as no cesto e falou com Christopher.
"Ele diz que nenhum mal te pode ensinar enquanto usares as contas", disse Christopher a Anne.
O velho, com os olhos postos no rosto atento dela, falou de novo. "O que pensas que é o mal — não pode ser mal", interpretou Christopher. "Os deuses sabem o que é melhor."
Dirigiram-se para a tenda interior.
"Estás cansada?" perguntou Christopher. "Não temos de ficar."
"Quero ficar", e assim entraram, e pouco depois, com um toque de trombetas, começou o grande desfile. Observavam homens e mulheres em carros romanos, homens a cavalo, mulheres a cavalo, em elefantes, em camelos — damas pintadas em liteiras, damas pintadas em cadeiras de arruador — Cleópatra, Pompadour — a história reduzida a pantomima, cor imposta sobre cor, brilho sobre brilho, a batida do tom-tom, o estrondo da banda, o assobio fino, enquanto o encantador de serpentes de turbante branco se exibia no meio da multidão.
Os olhos de Christopher pousaram em Anne. Ela estava inclinada para a frente, com uma mão a segurar as contas de prata. Ele daria muito para saber o que lhe ia na mente. Quão pequena e jovem ela era. E como ele queria afastá-la daquela coisa que pairava sobre ela como uma espada de gume afiado.
Mas afastá-la — como? Ele nunca a conseguiria afastar dos seus pensamentos. A menos que...
De repente, ouviu-a rir. Dois palhaços atuavam com um grupo de cãezinhos. Um dos cães era um caniche que fazia de tolo. "Que querido", dizia Anne.
Havia mais do que conseguiam ver — cada picadeiro parecia um circo separado — era preciso ter mais do que um par de olhos. Christopher estava cego para tudo — exceto quando Anne insistia: "Olha — olha!"
Seis acrobatas estavam no picadeiro — quatro homens e duas mulheres. Os seus fatos justos eram de um azul brilhante e límpido, com calções prateados. Não se conseguia distinguir as mulheres dos homens, exceto pelos cabelos encaracolados e pela estatura mais pequena. Eram fortes, saudáveis, vigorosos. Christopher conhecia a qualidade daquela saúde — corações que bombeavam como máquinas — músculos obedientes sob peles de cetim. Uma das mulheres rodopiou numa série de mortais, como um balão azul — o seu corpo tão fluido como mercúrio. Se ele pudesse pedir emprestada um décimo daquela resistência para Anne — talvez a pudesse manter por anos.
Depois vieram Pantaleão, Arlequim e Colombina. O velho era engraçado, mas o rapaz e a rapariga eram requintados — ele, salpicado de diamantes e magro como um lagarto, ela em saias de tule e com uma grinalda de flores. Fizeram todos os truques antigos das máscaras e das varas de bater, da perseguição e da fuga, mas fizeram-no tão belamente que Anne e Christopher ficaram fascinados — o que viam não eram dois atores inteligentes num palco de serradura, mas o amor na sua primavera — rapariga e rapaz — sonhos, arrebatamento, radiância.
Então, num momento, Colombina morreu, e Arlequim chorou sobre ela — a geada tinha matado a flor — o amor e a vida tinham chegado ao fim.
Christopher respirava fundo. Anne estava tensa. Mas agora — Colombina estava de pé, e Arlequim mandava beijos à plateia!
"Vamos sair daqui", disse Christopher, quase bruscamente, e guiou Anne para fora das bancadas e para a tenda exterior quase deserta. Procuraram o encantador de serpentes, mas ele tinha ido embora. "A comer arroz em qualquer lado ou a dizer as suas orações", supôs Christopher.
"Como podia ele saber sobre os deuses?" perguntou Anne, enquanto conduziam de volta a casa.
"Eles sabem muito — estes velhos do Oriente", disse-lhe Christopher, e passou o resto do caminho a falar sobre as gentes estranhas entre as quais passara tantos anos.
V
Ridgeley não voltou para o jantar. Telefonou a avisar que se atrasaria. O tempo estava abafado e quente. Christopher, sentado com Anne e Jeanette na varanda, decidiu que uma tempestade se preparava.
Anne estava inquieta. Desceu ao jardim e Christopher seguiu-a. Ela vestia de branco e ele estava atento ao aroma da rosa. Colheu uma rosa para ela enquanto atravessavam o jardim. "Inclina a cabeça e eu coloco-a no teu cabelo."
"Não posso usar cor-de-rosa."
"É branca na penumbra..." Ele pousou as mãos nos ombros dela, deteve-a e prendeu a rosa atrás da orelha. Depois, soltou-a.
Chegaram ao bosque de bétulas e sentaram-se no banco de pedra. Escurecera e os relâmpagos, disparando do horizonte, conferiam às bétulas uma brancura espectral — Anne era uma estátua de prata.
"Foi estranho", disse ela, "o que se passou com o velho no circo."
"Sobre as contas?"
"Sim. Pergunto-me o que ele quis dizer, Christopher? 'O que pensas que é o mal — não pode ser mal'? Achas que ele se referia... à Morte?"
Ele não respondeu de imediato, depois disse, abruptamente: "Anne, como aconteceu que tu e Ridgeley vos afastaram?"
"Oh, é difícil dizer."
"Mas diz-me."
"Bem, quando nos casámos, eu esperava tanto... coisas com que as raparigas sonham — que ele me tivesse sempre nos seus pensamentos e que as nossas vidas fossem tecidas juntas. Acho que ambos tentámos arduamente que fosse assim. Eu costumava acompanhá-lo nas suas rondas e ele contava-me sobre os seus pacientes. E à noite eu esperava por ele, tínhamos algo para comer, e era... celestial. Ridgeley era tão... nobre. Mas a sua prática tornou-se tão grande e, por vezes, ele não dizia uma palavra quando eu ia com ele... E chegava tão tarde a casa, e telefonava a dizer que era melhor eu ir deitar-me... E, bem, esse foi o começo. Não acho que seja realmente culpa dele ou minha... é apenas... a vida."
"Não é a vida, e tu sabes disso", disse ele apaixonadamente. "Anne, se te tivesses casado comigo... achas que...?" Ele estendeu a mão na escuridão e segurou a dela. "Oh, minha querida, mais vale falarmos disto abertamente."
Ela retirou a mão. "Falar sobre o quê?"
"Tu sabes. Aprendi a importar-me muito contigo. Tinha planeado ir-me embora. Mas não posso ir agora... não posso deixar-te enfrentar as coisas sozinha."
Ele ouviu a respiração rápida dela. "Mas eu tenho de as enfrentar."
"Mas não sozinha. Anne, lembras-te do que disseste... esta manhã? Que ias encher os dias? E não podes fazer isso sem alguém que te ajude. E Ridgeley não ajudará. Anne, deixa-me fazê-lo. Deixa-me levar-te para longe daqui... para longe de Ridgeley. Iremos para onde possamos ouvir os sinos dos templos. Cavalgaremos pelo deserto... içaremos as nossas velas para portos estranhos. Amar-nos-emos até nos esquecermos de tudo, menos do dia, da hora... do momento! E quando chegar o tempo dos sonhos sem fim..."
"Christopher..."
"Anne, escuta."
"Não deves dizer-me coisas dessas... não deves...!"
"Tenho de o fazer. Quero que tenhas felicidade. Encheremos uns poucos meses curtos com mais vida do que algumas pessoas têm numa vida inteira. E tens direito a isso."
"Seria felicidade?"
"Por que não? De certa forma, estamos todos a empurrar a morte à nossa frente. Quem sabe se estará vivo amanhã? Há este meu braço... há todas as possibilidades de ter problemas com ele. E um acidente de automóvel pode arruinar uma lua de mel. Tens tanto tempo como milhares que contam com mais."
O relâmpago brilhou e mostrou as bétulas a contorcerem-se.
"Mas depois, Christopher, depois...?"
"Bem, se for o Céu, teremos um ao outro. E se for o Inferno... houve Paolo e Francesca... e se for o sono, sonharei eternamente contigo! Anne... Anne, amas-me o suficiente para o fazer?"
"Christopher, por favor!"
Mas a tempestade estava sobre eles — chuva e vento, e o trovão como um canhoneio. Christopher, trazido finalmente ao conhecimento da sua ameaça, pegou em Anne ao colo e correu para procurar abrigo. Quando chegaram a casa, encontraram Ridgeley lá. Ele estava severo. "Foi um mau negócio mantê-la fora. Ela tem medo de tempestades."
"Tiveste medo?" perguntou-lhe Christopher, enquanto Ridgeley ia tratar dos toldos.
"Esqueci-me da tempestade", disse ela, e não encontrou os olhos dele.
VI
Deitada, acordada na sua cama larga, Anne pensava sobre o assunto. Ainda estava abalada pela veemência de Christopher. Acreditara que ele era o seu amigo e descobrira que era o seu amante — e oh, ele trouxera-lhe a juventude de volta. Se ele a deixasse agora, como poderia ela suportar aquilo — os dias sem ninguém a não ser Jeanette Ware, e o conhecimento, que abala a alma, do que estava por vir?
E Ridgeley não se importaria... muito. Em uma semana, seria absorvido pelo seu trabalho...
Tentou ler, mas achou difícil. Em cada página, as frases de Christopher flamejavam... "Cavalgaremos pelo deserto... içaremos as nossas velas para portos estranhos..."
Era isso que o velho quis dizer no circo... "O que pensas que é o mal — não pode ser mal"? Dar-lhe-ia Christopher tudo o que ela esperava de Ridgeley? Se vivesse até aos oitenta anos, ela e Ridgeley... arrastar-se-iam. Estaria Christopher certo — "Terás mais felicidade em poucos meses do que algumas pessoas numa vida inteira"?
Ouviu o marido a mover-se no quarto ao lado, a água a rugir na sua banheira. Uma linha fina de luz mostrava-se debaixo da sua porta.
Fechou o livro e apagou o candeeiro. A tempestade tinha amainado e a lua surgira. Através da janela aberta, conseguia ver, para lá do jardim, o bosque de bétulas.
Até então, o pensamento daquele pequeno bosque fora como o de um santuário. Apercebeu-se, subitamente, de que se tornara um lugar de forças em conflito. Teriam sido os anjos da guarda expulsos...?
Mas não havia anjos da guarda! Ridgeley dissera que eram tolices. E Christopher não acreditava neles. Desejou que a sua mãe pudesse ter vivido para conversar sobre isso. A sua mãe não tivera dúvidas.
A porta do quarto do marido abriu-se e ele ficou silhuetado contra a luz. Aproximando-se da lateral da cama, encontrou-a de olhos bem abertos.
"Não consegues dormir, minha querida?"
"Não."
"Não quero dar-te nada."
"Não quero nada."
Ele sentou-se ao lado da cama. Estava com o seu roupão azul e o colarinho aberto mostrava a sua garganta branca e forte. "Minha querida", disse ele, "tenho pensado no que disseste esta manhã — sobre a minha falta de fé e o efeito que teve na tua. E... lamento."
"Lamentar não ajuda em nada, pois não, Ridgeley?"
"Gostaria de pensar que tinhas as tuas velhas fés para... te confortar."
Ela não teve resposta para isso e, pouco depois, ele disse: "Estás quente o suficiente?" e trouxe uma manta extra, porque o ar estava fresco após a tempestade, e depois inclinou-se e beijou-lhe a testa. "Fecha os olhos e dorme, se puderes."
Mas, é claro, ela não conseguia dormir. Ficou ali deitada durante horas, pesando o que ele lhe dissera contra o que Christopher dissera. Cada homem estava a oferecer-lhe algo — Christopher, a vida à custa de todos os seus escrúpulos. Ridgeley, a ressurreição de crenças extintas.
Ela estremeceu um pouco sob a manta. Seria celestial ouvir os sinos dos templos — com a juventude ao seu lado. Beber o vinho da vida de um cálice transbordante. Mas, durante todo o tempo, ela teria medo, nada poderia tirar-lhe esse medo... — Nada, nada, nada.
Ficou contente por o marido estar acordado. A linha fina de luz ainda se mostrava debaixo da sua porta. Seria terrível estar sozinha... na escuridão. Finalmente, não pôde suportar mais. Saiu da cama, enrolou-se num roupão que jazia ao pé dela e abriu a porta.
"Posso deixá-la aberta?"
Quando o marido se virou na sua cadeira, viu a mão dele ir rapidamente, como se tentasse cobrir o papel no qual escrevia. "Claro, minha querida. Estás com medo?"
"Tenho sempre medo, Ridgeley. Sempre..."
Ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Ele veio rapidamente na sua direção e tomou-a nos braços. "Shh", disse ele, "nada te pode magoar, Anne."
VII
Quando acordou de manhã, foi com a lembrança da ternura dele. Bem, é claro que ele sentia pena dela. Qualquer pessoa sentiria. Mas Christopher também sentia pena. E Christopher tinha algo para lhe oferecer — mais do que Ridgeley — sim, era mais...
Sentia quase receio de descer as escadas. Christopher estaria a tomar o pequeno-almoço na varanda. Jeanette estaria lá, a servir café, e talvez Ridgeley, se não tivesse chamadas. E Christopher falaria com a sua voz jovem e alegre — e Ridgeley leria o jornal, e ela e Christopher fariam os seus planos para o dia...
Levantou-se e começou a vestir-se, mas viu-se subitamente em pânico com o pensamento dos planos que Christopher poderia fazer. Se saíssem de carro juntos, ele falar-lhe-ia como falara no bosque de bétulas — dos sinos dos templos, e do deserto, e dos portos estranhos — e como poderia ela ter a certeza de que seria forte o suficiente para resistir — e se ela ouvisse, e o deixasse seguir o seu caminho?
Decidiu tomar o pequeno-almoço na cama e tocou a campainha. Um bilhete veio de Christopher. "Não fiques no andar de cima. Ridgeley saiu há horas e eu não desfrutarei da minha torrada e bacon se não estiveres à minha frente. Colhi uma rosa branca para pôr ao lado do teu prato. E tenho mil coisas para te dizer..."
As palavras dele tiveram um efeito tónico. Oh, por que não...? Que diferença faria isso na terra? E não teria Browning dito algo parecido — "_Quem sabe se o mundo não acabará esta noite_?"
Não tinha a certeza se fora exatamente assim que Browning o dissera, e pensou que gostaria de ter a certeza — quase conseguia ver-se a dizê-lo a Christopher.
Então, foi ao quarto do marido para buscar o livro.
Os livros de Ridgeley estavam na prateleira acima da sua secretária. Não tinham nada a ver com a sua biblioteca médica — essa estava lá em baixo, no seu consultório, e de vez em quando ele trazia um grande volume. Mas ele tinha um lado literário e revelara parte dele a Anne nos dias anteriores a estar demasiado ocupado. O seu Browning estava marcado e não foi difícil encontrar "A Última Cavalgada". Abriu na página certa e ficou a ler — uma figura incongruente entre os pertences masculinos de Ridgeley, na sua negligé transparente de um azul ténue.
Fechou o livro, colocou-o de volta na prateleira e estava a afastar-se quando os seus olhos foram atraídos por duas palavras — "Para Anne", no topo de uma folha de papel que jazia na secretária de Ridgeley. A página inteira estava preenchida com a letra profissional e arrumada de Ridgeley, e num flash o gesto que ele fizera na noite anterior voltou-lhe à mente, como se ele estivesse a tentar esconder algo do olhar dela.
Ela inclinou-se e leu...
Oh, seria esta a forma como ele passara as horas da noite? À procura de palavras que pudessem confortá-la, pudesse dissipar as suas dúvidas, pudesse trazer esperança ao seu coração?
E ele encontrara coisas como esta: "Minha irmãzinha, a Morte", dizia o bom S. Francisco; ... "_A escuridão não é escuridão contigo, mas a noite é tão clara como o dia; a escuridão e a luz para ti são ambas iguais..." "Sim, ainda que eu ande pelo Vale da Sombra da Morte..." Estes e muitos outros, verdades que outrora tinham sido parte dela.
Leu, avidamente. Oh, ela estava sedenta — disto! Com fome disto! E Ridgeley...! As lágrimas pingavam de tal forma que ela mal conseguia ver as linhas. Encostou a face contra o papel e as suas lágrimas borrifaram-no.
Levou-o para o seu quarto. O bilhete de Christopher ainda estava na sua almofada. Leu-o novamente, mas não tinha ouvidos agora para o seu chamamento. Tocou a campainha para a sua criada. "Ficarei na cama e escreverei algumas cartas."
Escreveu a Christopher, após muitas tentativas. "Temos sido tão, tão bons amigos. E não devemos estragar isso. Talvez se pudesses ir embora por algum tempo, fosse o melhor para ambos. Vou acreditar que um dia encontrarás uma grande felicidade. E nunca terias encontrado felicidade comigo, terias encontrado apenas... medo. E sei agora o que o velho queria dizer sobre as contas — 'O que pensas que é o mal — não pode ser mal'. Christopher, a morte não é um mal, se não for o fim das coisas. E vou acreditar que não é o fim..."
Christopher foi para a cidade antes do almoço e, mais tarde, Anne sentou-se sozinha no banco de pedra no seu bosque de bétulas. Estavam serenos e imóveis no ouro da tarde. Contudo, na noite passada, tinham-se contorcido na tempestade. Ela, também, fora varrida por uma tempestade... Sentia falta do seu companheiro de brincadeiras — mas sentia um alívio na ausência do seu amante tempestuoso.
Ridgeley chegou a casa naquela noite com a notícia da partida repentina de Christopher. "Ele encontrou telegramas. Disse-me para te dizer 'adeus'."
"Lamento", disse Anne, e foi sincera. Lamentava que tivesse de ser assim — mas lamentar não podia mudá-lo.
Depois do jantar, Ridgeley tinha uma visita a fazer e Anne subiu para se deitar. Mas estava acordada quando o marido entrou e a linha fina de luz apareceu. Esperou até ouvir o rugido da água na sua banheira, e depois saiu da cama e abriu a porta de ligação. Estava apoiada nas almofadas quando ele reapareceu no seu roupão azul.
"Olá", chamou ele, "precisavas de mim?"
"Sim, Ridgeley."
Ele entrou. "Passa-se alguma coisa?"
"Não. Não estou doente. Mas quero conversar."
"Sobre quê?"
"Sobre isto..." Mostrou-lhe o papel com o título "Para Anne".
"Ridgeley, escreveste isto porque eu estava... com medo?" A mão dela estendeu-se para ele.
A mão dele cobriu a dela. "Acho que escrevi porque eu estava com medo."
"Tu?"
O aperto dele quase a magoou. "Minha querida, minha querida, não tenho acreditado nas coisas. Como poderia... com todos os factos com que homens como eu têm de lidar? Mas quando enfrentei... perder-te...! o amor tem de ser eterno..."
"Ridgeley."
"Eu não vou... perder-te. Oh, eu sei. Afastamo-nos. Não sei como um homem pode evitar isso... neste maldito redemoinho... Mas tu estiveste sempre certa... aqui... Senti que poderia... ter-te, se alguma vez tivesse tempo..." a voz dele quebrou-se.
"E eu pensava que não te importavas."
"Tive medo disso e, de alguma forma, não conseguia voltar... para onde começámos. Estava sempre a pensar que o faria... E então isto aconteceu...
"Sempre odiei matar as coisas em que acreditavas, Anne. Pensava que tinha de ser honesto... que seria melhor para ti enfrentar a verdade... Mas qual de nós conhece a Verdade? Nenhum homem entre nós. E encontrei isto... '_Insensato, aquilo que semeias não é vivificado se primeiro não morrer_....' Somos todos insensatos — até os mais sábios entre nós..."
Ela estendeu-lhe os braços e ele abraçou-a com força. Sentiu que tinham passado mil anos desde que rezara, ainda assim ouviu-se a falar... E quando ele a deitou de volta nas almofadas, ela estava consciente de que, juntos, tinham alcançado alguma altura da qual nunca mais desceriam.
"Vou deixar a porta aberta", disse ele, ao deixá-la. "Vou ler e podes ver a luz."
Parecia que a luz do quarto dele inundava o mundo. Os quatro pilares da sua cama estavam mais uma vez coroados com santos brilhantes! Ela virou-se na almofada — para lá do jardim, o bosque de bétulas brancas estava mergulhado numa radiância celestial.
"Minha irmãzinha, a Morte", disse o bom S. Francisco.
Com a mão sob a face, adormeceu finalmente, tão pacificamente como uma criança.
O FANTASMA DO IMPERADOR
I
Não conhecia Tom Randolph há sequer uma semana quando percebi que a vida, para ele, não era real. Todo o seu mundo era um palco, sendo ele mesmo o ator principal. Dramatizava tudo — ações, emoções, rendimentos. Assim, tornava a pobreza pitoresca, o amor uma coisa das estrelas, o trabalho do dia uma tragédia ou, se os professores se mostrassem gentis, uma comédia. Comia e bebia, por assim dizer, ao som de música, penteava o cabelo e engraxava as botas sob o brilho da ribalta; fazia entradas e saídas de um tipo desconhecido para homens como eu, que careciam do seu sentido histriónico.
Ele era sulista e cavalheiresco. As suas tradições prendiam-se com o chapéu tirado e o joelho dobrado. Colocava a mulher num pedestal e mantinha-a lá. Nenhum homem, defendia ele, era digno dela — o que ela dava era pela graça da sua própria e doce caridade!
Ver-se-á que, em tudo isto, ele perdia a nota moderna. Quando rapaz, fora alimentado com Scott, e as suas leituras posteriores não o tinham despojado do seu sentido da vida como um espetáculo extravagante.
Veio ter connosco à faculdade com uma mesada miserável proveniente de uma propriedade empobrecida pertencente ao seu avô, um coronel da Confederação, que, após a guerra, se retirara com a sua filha viúva para as suas terras sem valor. A seu tempo, a filha morrera e o seu filho crescera num mundo de sombras. Com nada por ano, o coronel conseguira, de alguma forma milagrosa, preservar certos costumes hospitaleiros de outrora. Convidados ilustres ainda se sentavam à sua mesa e comiam patos cozinhados no ponto certo de malpassado, e tartaruga num recipiente de aquecimento, com um toque de xerez velho. Se entre estes banquetes havia fome, o mundo nunca o soube.
Foi talvez do coronel que Randolph aprendeu a tornar a pobreza pitoresca. As suas roupas eram velhas e os seus sapatos eram gastos. Mas a sua força residia no facto de não se considerar pobre. Ele tinha tanto, entende, que o resto de nós não tinha. Ele era um Randolph. Tinha nome, posição, ascendência. Ele era, em suma, um cavalheiro!
Não creio que ele considerasse qualquer um de nós cavalheiro, não no sentido da Old Dominion. Ele tinha vindo para a nossa pequena faculdade do Médio-Oeste porque era barata e as suas finanças não permitiam uma educação em mais lado nenhum.
Num homem mais velho, os seus preconceitos teriam sido insuportáveis, mas a sua juventude e encanto tornaram-nos lenientes. Contentávamo-nos em chamá-lo de "Vossa Alteza" e ficávamos sempre lisonjeados quando nos convidava para os seus aposentos.
O seu ponto forte era a hospitalidade. Estava-lhe no sangue, é claro. Quando a sua mesada chegava, gastava-a a proporcionar ao resto de nós um bom momento. O seu quarto era tão gasto quanto ele próprio — uma mesa, uma secretária manchada de tinta, um sofá com uma capa de má fama, uma gravura de Washington, meia dúzia de livros e um recipiente de aquecimento.
O recipiente de aquecimento era o centro e a alma das suas festividades. Ele fazia *rarebits* e iguarias temperadas com um ar que fora transmitido por gerações de epicuristas. Posso vê-lo agora, com o seu cabelo preto numa madeixa ondulante na testa, em chinelos gastos e um casaco de bombazina desbotado, sentado na ponta da mesa a fumar um cachimbo comprido, visualizando-se como o senhor de um castelo — e o resto de nós como vassalos de uma espécie bastante agradável e inteligente!
Era perfeitamente natural que ele encenasse a sua primeira aventura amorosa e, quando foi rejeitado, que dramatizasse o seu desespero. Durante dias após Madge Ballou ter declarado a sua preferência por Dicky Carson, Randolph andou com melancolia. Veio aos meus aposentos e sentou-se, um Hamlet muito jovem e bonito, no meu banco da lareira, com o queixo na mão.
"Porque haveria ela de gostar mais do Dicky?"
"Ela não tem imaginação."
"Mas o Dicky é um... animal..."
"Com uma conta bancária gorda."
"O dinheiro não contaria para a Madge."
"Não tenho tanta certeza..."
"As mulheres não são assim, MacDonald."
Vi, à medida que ele prosseguia com os seus argumentos, que ela se tornara para ele uma Ofélia, debilmente conduzida. As mulheres, no seu léxico de romance, podiam ser fracas, mas nunca mercenárias. Acho que ele finalmente a derrubou na sua mente com um "Vai para um convento!". Sei que queimou a fotografia dela; mostrou-me as cinzas numa caixa de selos de prata.
Ele tinha, é claro, os seus heróis — havia momentos em que inconscientemente os imitava. Foi depois de um debate que os rapazes começaram a chamar-lhe "Bonaparte". Ele tinha defendido o Pequeno Cabo e, ao defendê-lo, tinha-o personificado. Com aquela madeixa escura sobre a testa, os braços cruzados, atirara o desafio aos deputados e, por aquele momento, não fora Tom Randolph, mas o próprio Imperador.
Ganhou o debate, entre muitos aplausos, e quando desceu até nós, confesso que senti, o que creio que os outros partilhavam, uma alma dentro do seu corpo que não lhe pertencia. Tom Randolph era, claro, Tom Randolph, mas a voz que nos tinha falado tinha ressoado com o poder daquela outra voz que fora silenciada em Santa Helena!
Os dias que se seguiram dissiparam a ilusão, mas o nome colou-se a ele. Acho que ele gostava e enfatizava a semelhança. Deixou o cabelo crescer, afundou a cabeça entre os ombros, tornou-se rápido e imperioso no seu discurso.
Depois veio a guerra. A Bélgica devastada, a França invadida. Randolph ficou logo inflamado.
"Vou para lá."
"Mas, meu caro amigo..."
"Temos a nossa dívida para com Lafayette."
Com a decisão tomada, não havia quem o movesse. O resto de nós hesitou. As nossas imaginações não captaram de imediato a necessidade que o mundo tinha de nós.
Mas Randolph via-se como um Henrique de Navarra — plumas brancas; um Ricardo Coração de Leão — cruzadas e cruzes vermelhas; um Cyrano sem o nariz — "Estes são cadetes da Gasconha..."
"Vês, MacDonald", disse ele, ardente, "nós, os Randolph, sempre o fizemos."
"Fizeram o quê?"
"Lutámos. Houve um Randolph em cada guerra aqui, e antes disso numa longa linhagem de batalhas..."
Ele contou-me muito sobre os antigos Randolph e a forma como tinham lutado em corcéis ajaezados com lanças.
"A guerra hoje é diferente", avisei-o. "Não é tão pictórica."
Mas eu sabia, mesmo então, que ele a tornaria pictórica. Ele usaria o seu cáqui como uma cota de malha.
Ele deu-nos um banquete de despedida no seu quarto. Era a época dos esquilos jovens e ele fez-nos um ensopado de Brunswick. Foi a melhor coisa que alguma vez provei, com pimentos vermelhos e cebolas, e serviu-o com uma concha de prata antiga que tinha trazido de casa.
Enquanto comíamos, ele falava da guerra, de por que razão os homens deviam lutar — "pela tua própria honra e pela do teu país".
Havia pacifistas entre nós e desafiaram-no. Ele repeliu-os; os seus protestos morreram perante a sua paixão.
"Somos homens, não lacaios!"
Ninguém se riu dele. Mostrava o seu poder sobre nós o facto de nenhum de nós se rir. Simplesmente sentámo-nos e ouvimos enquanto ele nos dizia o que pensava de nós.
Por fim, alguém que era mais corajoso do que o resto gritou: "Força, Bonaparte!"
Numa mudança súbita e cintilante, Randolph curvou os ombros, colocou o seu chapéu descaído de lado, baixo sobre as sobrancelhas, envolveu-se na capa do sofá como se fosse um manto. O seu olhar varreu a sala. Não havia raiva nele, apenas uma espécie de zombaria triunfante enquanto proferia o famoso discurso a Berthier.
"Enviam-nos um desafio no qual a nossa honra está em jogo — algo que um francês nunca recusou — e uma vez que uma bela rainha deseja ser testemunha do combate, sejamos corteses, e para não a fazer esperar, marchemos sem dormir até à Saxónia...!"
Não vos sei dizer o efeito que teve em nós. Ficámos com as gargantas apertadas e a sala estava tão silenciosa que nos ouvíamos respirar. Quatro dos rapazes partiram no dia seguinte com Randolph. Acho que ele poderia ter levado todos nós se não tivéssemos sido aconselhados e retidos pelos protestos dos nossos professores, que falavam da guerra com horror.
II
Três anos depois, vi-o novamente, em França. O nosso próprio país tinha entrado na luta nessa altura e eu fui apanhado na primeira convocatória. Tinha tido notícias de Randolph de vez em quando. Trabalhara durante quase três anos com o Corpo de Ambulâncias e estava agora a lutar pela democracia com os seus companheiros.
Tínhamos estado a tremer à chuva durante uma semana numa das cidades francesas recapturadas quando um grupo de oficiais experientes foi enviado para nos colocar em forma. Entre os outros oficiais estava Randolph, e quando ele me encontrou, soltou um grito de boas-vindas.
"Bom velho MacDonald — finalmente!"
Confesso que o seu "finalmente" carregava um ferrão, e lembro-me de sentir a injustiça da nossa patente igual, ao comparar os seus anos de privação e dificuldades com as minhas poucas semanas num campo de treino.
Ele ficou muito contente por me ver e, logo na primeira noite, fez-me um ensopado de Brunswick. Desta vez não havia esquilos, mas ele pediu coelhos jovens ao casal de idosos que tinha sido criado no castelo onde estávamos alojados. Eles tinham regressado penosamente assim que os alemães se retiraram e estavam a aproveitar o melhor possível as condições alteradas.
Não havia, é claro, nenhum recipiente de aquecimento, e o ensopado foi cozinhado num pote de ferro que pendia sobre uma fogueira na cozinha antiga. Antes de venderem os coelhos, os idosos tinham imposto uma condição:
"Se pudermos ter um pouco para a *mademoiselle*...?"
"Para a *mademoiselle*?"
"Ela está aqui connosco, senhor. Ela não tem estado bem. Temos guardado os coelhos para ela."
Randolph fez o grande gesto que eu tão bem me lembrava.
"Minha boa gente — se ela quiser jantar connosco...?"
A velha abanou a cabeça. Não tinha a certeza. Iria ver.
Talvez ela tenha dito coisas agradáveis sobre nós, talvez a *mademoiselle* estivesse solitária. Mas seja qual for a razão, a *mademoiselle* consentiu em jantar, saindo da sua reclusão, muito magra, morena e pequena, mas composta.
Muitas vezes perguntei-me o que pensou ela, naqueles primeiros momentos de encontro, de Randolph, enquanto com uma colher por cetro, e o jeito de um rei, ele presidia ao banquete. Ela falava muito bem inglês, mas precisava que muitas coisas lhe fossem explicadas.
"Os cavalheiros cozinham no seu país?"
Randolph descreveu a vida como a conhecera na plantação do seu avô — negros para fazer tudo, exceto quando os cavalheiros desejavam o contrário.
Ela fechou-se no seu manto de desagrado. "Homens negros? Eu não gostaria disso."
Bem, vi antes que a noite terminasse que Randolph tinha encontrado o seu par. Para cada um dos seus preconceitos aristocráticos, ela correspondia com uma dúzia. E ele adorou-a por isso! Finalmente, aqui estava uma dama que apertaria a sua armadura, vigiaria o seu escudo, ataria o seu emblema na sua manga!
Ele sentou-se na ponta da mesa na sua atitude favorita — ombros encolhidos, braços cruzados. O seu cabelo estava cortado demasiado curto agora para a madeixa escura, mas mesmo sem ela, vi o olhar dela nele, de vez em quando, de uma forma perplexa, como se pesasse alguma memória familiar.
Mas foi um dos camponeses quem o verbalizou — o velho, ao levar os restos do ensopado, murmurou entre as sombras para a sua mulher:
"É Napoleão."
A *mademoiselle* susteve a respiração. "Sim, Gaston." Depois para mim, em inglês: "Vê?"
"Sim. Chamávamos-lhe assim na escola."
"Bonaparte?"
"Sim."
Ela já não estava magra e morena — estava iluminada, a cor a manchar-lhe as faces. "Oh, se ele estivesse aqui — para salvar a França!"
Protestei. "Um imperador contra um imperador?"
"Ele era um grande democrata — ele amava o povo comum. Durante pouco tempo o poder corrompeu-o — mas ele amava o povo. E os Bourbon não os amavam — Luís ria-se deles — e perdeu a cabeça. E Napoleão nunca se riu. Ele amava a França — se tivesse vivido, teria-nos salvo."
Das sombras, a velha falou. "Dizem que ele voltará."
"Sim, Margot." A *mademoiselle* estava de pé, com a mão no coração. Os olhos de Randolph devoravam-na. Ele não tinha tomado parte na conversa. Era quase estranho vê-lo sentado ali, em silêncio, braços cruzados, ombros encolhidos, olhos cintilantes a não perderem nada. "É verdade", disse-nos a *mademoiselle* seriamente, "que a tradição diz que ele voltará — quando a França precisar dele — os soldados falam disso."
"Em quase todos os países", disse eu, "há uma história como essa, de heróis que voltarão."
"Mas Napoleão, senhor — certamente ele não falharia à França?"
O que se seguiu foi inevitável. Randolph e a *Mademoiselle* Julie apaixonaram-se. Ele atraiu-a como nos tinha atraído na escola. Ela não era uma Madge Ballou, mundana e mercenária; era antes uma Heloísa, uma Nicoleta, uma Joana d'Arc, abnegada, apaixonada. Ela encontrou Randolph em terreno igual. Elevaram-se juntos — misturaram o amor ao país com o amor dos amantes. Levantavam-se ao amanhecer para adorar o sol, saíam ao crepúsculo para adorar juntos a lua crescente.
E durante todo o tempo a guerra estava às portas; podíamos ouvir o estrondo dos grandes canhões. A ofensiva da primavera estava em curso e os alemães estavam a regressar.
Nunca esquecerei a noite em que Randolph e eu fomos destacados para a frente. A *mademoiselle* tinha vindo com as mãos cheias de violetas. Randolph, encontrando-a pela primeira vez após um dia agitado, tomou-lhe as mãos e as flores frágeis no seu aperto ansioso. Ele era um amante quase perfeito — Aucassin se quiserem — Abelardo no seu melhor.
"Violetas", disse ele. "Posso ter três?"
"Por que três, senhor?"
"Por amor, *mademoiselle*, e pela verdade e constância."
Ele tirou o seu livro de orações do bolso e ela deu-lhe as violetas. Ele tocou-as aos lábios dela, depois esmagou-as contra os seus. Eu vi — sentado nas sombras. Eu nunca teria pensado em beijar uma rapariga daquela maneira. Mas era bastante maravilhoso.
Ele fechou as violetas no pequeno livro.
Sentaram-se muito tarde naquela noite junto à lareira. Entrei e saí, sem os incomodar. Vi-o ajoelhar-se aos pés dela ao despedir-se, e ela inclinou-se e beijou-lhe a testa.
Ele falou muito dela depois disso. Mais do que eu teria falado sobre o amor, mas a sua necessidade de uma audiência levava-o a confidências. Sentia que tinha de se tornar digno dela — regressar a ela como algo menos do que um herói pareceria diminuí-la. Não tenho a certeza de que ele fosse mais corajoso do que outros homens, mas o seu sentido do efeito dava-lhe uma espécie de coragem imprudente. O aplauso era parte do jogo — ele não podia passar sem ele.
E assim veio aquela noite em que um pequeno grupo de nós foi isolado do resto. Estávamos entrincheirados atrás de uma pequena elevação que nos escondia dos nossos inimigos, com pouca esperança de escapar por muito tempo à sua observação. Tinha estado húmido e frio, e não havia comida quente há dias. Nós, franceses e americanos, tínhamos lutado muito e duramente; não estávamos em condições de suportar o suspense, contudo, não havia nada a fazer senão esperar por um movimento do outro lado, um movimento que só poderia terminar de uma forma — baionetas e mãos nuas, e eu, pessoalmente, detestava isso.
Acho que os outros também detestavam, todos exceto Randolph. A chuva tinha parado e a lua inundava o mundo. Ele virou o rosto para ela e sonhou.
O conhecimento veio a nós antes da meia-noite de que os hunos nos tinham encontrado. Tornou-se apenas uma questão de momentos até estarem sobre nós, a coisa aconteceria que detestávamos — baionetas e mãos nuas, com as probabilidades a favor do inimigo!
Algures entre os nossos homens surgiu um lamento de medo, e depois outro. Veem, eles estavam com frio e fome e alguns estavam feridos, e estavam isolados da esperança. Não era cobardia. Não chamo a nenhum homem cobarde. Tinham enfrentado a morte mil vezes, alguns deles. Contudo, havia perigo nos seus medos.
Randolph estava ao meu lado. "Meu Deus, MacDonald", disse ele, "eles perderam a coragem..."
Não houve um segundo a perder. Vi-o a fazer algo ao seu chapéu.
Como disse, havia lua. Iluminava aquele mundo marcado pela batalha com uma espécie de beleza selvagem, e de repente, num espaço aberto acima de nós na pequena colina, uma figura apareceu, imóvel contra a noite branca e calma — uma figura pequena mas imponente, chapéu tricórnio puxado para baixo — oh, já o viram em imagens mil vezes — Napoleão de Marengo, de Austerlitz, de Jena, de Friedland — mas acima de tudo, Napoleão de França!
É claro que os alemães dispararam sobre ele. Mas quando subiram a colina, foram recebidos por franceses que tinham visto um fantasma. "É o Imperador! É o Imperador!", tinham ofegado. "Ele regressa para nos liderar."
Lutaram como demónios, e — bem, o resto de nós lutou também, e durante todo o tempo, durante o sangrento negócio, tive diante de mim aquela visão de Randolph sozinho ao luar. Ou seria Randolph? Quem sabe? Será que as grandes almas encontram tempo para tais pequenos negócios? E seria pequeno?
As suas medalhas foram, claro, enviadas ao coronel. Mas as violetas no pequeno livro voltaram para a *mademoiselle*. E o chapéu velho, esmagado na forma de tricórnio, voltou. E contei-lhe o que ele tinha feito.
Ela escreveu-me no seu inglês rígido:
"Eu amei um grande homem. Para mim, senhor, é o suficiente. As suas almas unem-se na vitória!"
Muito antes de os conhecer, ele costumava arranjar coisas — coisas que teriam transformado este quarto pobre no palácio de Aladino. Houve aquela véspera de Natal na casa dos Dalton. Tinha sido ideia sua iluminar o grande salão com mil velas quando trouxeram o tronco de Natal, e atirar ramos perfumados para a lareira.
Ele voltou para o fogão redondo e a pequena árvore. — Gosto de arranjar coisas — disse ele. — Era uma vez...
Elas inclinaram-se para a frente, ansiosas com aquele começo.
— Naturalmente, sabem que não é verdade — previu ele.
— É claro que não podia ser verdade — Pussy era reconfortantemente cética —, as coisas que nos contas não podiam acontecer realmente... nunca...
— Bem, era uma vez uma árvore numa grande casa junto a um grande rio, e estava colocada num grande salão com quadrados de mármore preto e branco no chão, e com uma fonte com peixes dourados a nadar no seu tanque, e havia papagaios vermelhos e azuis em poleiros, e laranjeiras em vasos de porcelana, e a árvore em si não era um pinheiro, nem um abeto ou um cedro; era uma coisa estranha, redonda e aparada de teixo, e tinha bolas vermelhas, azuis e cor de laranja, e, em vez de um anjo de cera no topo, havia um Buda dourado, e não havia velas — mas a luz brilhava para fora, como a luz que brilha da lua.
— Era uma árvore de Natal? — perguntou Pussy, quando ele fez uma pausa.
— Sim, mas as pessoas que a decoraram e as que vieram vê-la não acreditavam nos Reis Magos, nem no Menino na Manjedoura, nem nos pastores que vigiavam os seus rebanhos durante a noite — elas apenas adoravam a beleza e a arte — e outros deuses — mas era uma árvore fantástica...
— Usas palavras tão engraçadas — Pussy riu-se, extasiada. — Quem já ouviu falar de uma árvore fantástica?
Ele sorriu-lhe com condescendência. Estava mais quente agora e, ao recostar-se na cadeira e desabotoar o casaco, pareceu fundir-se subitamente em algo que era bastante cavalheiresco na pose e no contorno. — Bem, era realmente uma árvore fantástica, Pussy.
— O que é um Buda? — perguntou Milly, fazendo de si própria uma jovem Madona enquanto se inclinava sobre o bebé.
— Um deus gentil que metade do mundo adora — disse Ostrander —, mas as pessoas que o puseram na árvore não adoravam nada — puseram-no lá porque era de ouro e marfim e era uma coisa adorável de se ver...
— Oh — disse Pussy, com a boca redonda a dizê-lo —, oh, como falas de forma engraçada, Sr. Tony! — Ela riu-se, com as suas mãozinhas a bater nos joelhos.
Entretanto, ela estava muito séria enquanto punha a mesa. Havia pouca formalidade no serviço. Apenas três pratos e um pouco de pão.
Milly, tendo levado o bebé para o outro quarto, foi hesitantemente hospitaleira. — Não quer jantar connosco, Sr. Tony?
Ele queria. Havia um cheiro saboroso quando Milly levantou o tacho do fogão. Mas ele sabia que só haveria três batatas — uma para Pussy, uma para Milly e uma para a mãe que estava quase a chegar, e haveria bastante molho. Como parecia estranho que a sua mente se detivesse no molho!
— As cebolas estão tão caras — dissera Milly, enquanto mexia o tacho. — Tive de pôr apenas um pedacinho.
Ele recusou apressadamente e afastou-se.
No corredor, encontrou a mãe delas a entrar. Era uma mãezinha ocupada e não aprovava Ostrander. Não aprovava nenhum ser humano que não quisesse trabalhar.
— Um feliz Natal — disse-lhe ele, parado de forma algo melancólica acima dela nas escadas.
Ela sorriu com isso. — Oh, Sr. Tony, Sr. Tony, precisam de um homem na loja. Seria uma boa maneira de começar o Ano Novo.
— Minha cara senhora, nunca trabalhei numa loja — e não me queriam lá depois do primeiro minuto...
Os olhos intrigados dela estudaram-no. — Por que não o queriam?
— Não sou... fiável...
— Quantos anos tem? — perguntou ela abruptamente.
— O dobro da sua idade...
— Disparate...
— Talvez não em anos — mas vivi... oh, como vivi...!
Ele endireitou os ombros e passou os dedos pelo cabelo. Ela teve uma visão súbita do que ele poderia ser se se livrasse da sua pobreza. Havia algo de *debonair* — acabado — uma graça quase juvenil — um toque de maneiras...
Ela suspirou. — Oh, que desperdício!
— De quê?
Ela inflamou-se. — De si!
Depois entrou e fechou a porta.
Ele ficou incerto no corredor. Então, mais uma vez, enfrentou o frio.
Ao virar da esquina ficava uma loja onde compraria a vela vermelha. Os dez cêntimos que pagaria deveriam ter sido para o seu pequeno-almoço. Tinha sacrificado o jantar para não passar fome na manhã de Natal. Planeava um par de pãezinhos e uma garrafa de leite. Parecia-lhe que poderia enfrentar uma noite escassa com a promessa destes.
Não havia velas vermelhas na loja. Havia brancas, mas uma vela vermelha era uma vela vermelha — com um aspeto especial de alegria natalícia. Ele não aceitaria outra.
A viragem de uma segunda esquina levou-o à grande praça. Normalmente, evitava-a. O clarão de ouro no lado oeste era o clube.
Uma fila de automóveis alinhava-se no passeio. Havia a limusina de Baxter e o carro francês de Fenton. Ele conhecia-os todos. Lembrava-se de quando o seu próprio carro francês ofuscava o Ford de Fenton.
Havia coroas de flores esta noite nas janelas do clube e, quando Sands abria as portas, havia uma massa de poinsétias contra o espelho do corredor.
Como parecia quente com todo aquele ouro e vermelho!
Na cave ficava o *grill*. Era uma noite em que se podia pedir algo pesado e quente. Um bife na tábua — com ostras picantes no início e uma salada no final.
E agora outro automóvel enfiava o nariz contra o passeio. E Whiting saiu, um urso num grande casaco de pele.
O carro de Whiting era fechado. E ficaria ali durante uma hora. Ostrander conhecia os hábitos daquele homem. Do escritório para o clube, e do clube — para casa. Whiting era metódico até ao minuto. Às sete em ponto, as portas abrir-se-iam e deixá-lo-iam sair.
O relógio na torre dos correios marcava as seis!
Havia um polícia na esquina leste, batendo com os braços contra o frio. Ostrander não bateu com os braços. Encolheu-se, gelado, na sombra de um grande edifício até que o polícia passou.
Depois, atravessou a rua a correr e entrou no carro de Whiting!
Whiting, saindo quarenta minutos depois, descobriu que o seu carro tinha desaparecido. Sands, o porteiro, disse que não tinha notado nada. O polícia na esquina não tinha notado.
— Normalmente fico mais tempo — disse Whiting —, mas esta noite queria chegar a casa. Tenho muitas coisas para os miúdos.
— As coisas estavam no carro? — perguntou o polícia.
— Sim. Brinquedos e tudo isso...
Ostrander, com a mão no volante, os pés nos travões, deslizou pelas ruas movimentadas sem ser incomodado. Tinha sido fácil abrir o carro. Aprendera muitas coisas nestes últimos anos.
Passaram vários minutos antes de se aperceber de fragrâncias ténues — fragrâncias tropicais quentes de flores, frutos e especiarias — fragrâncias de Natal que o levaram de volta à grande cozinha onde os criados da sua avó cozinhavam e preparavam iguarias.
Ele parou o carro e tocou num botão. A luz revelou o saque. Não esperava isto. Queria o carro por uma hora, sentir a emoção dele sob os seus dedos, saborear novamente o luxo do seu calor e suavidade. Tinha a intenção de o devolver incólume — sem nada mais do que o fantasma inquieto dos seus pobres desejos para assombrar Whiting quando este voltasse a entrar nele.
Mas agora ali estavam brinquedos e coisas que Whiting, num auge de generosidade, tinha colhido da pastelaria e do merceeiro, da florista, da frutaria e do doceiro.
Apagou a luz e seguiu caminho. Ainda tinha meia hora para a sua aventura.
Bastaram apenas três dos trinta minutos para deslizar até ao passeio em frente ao alto cortiço. Fez três viagens para dentro e até ao último andar. Arriscou muito, mas o Destino estava com ele e não encontrou ninguém.
O Destino estava com ele, também, quando deixou o carro numa esquina perto do clube e saiu dele como uma sombra, e de lá, como uma sombra, voltou para a loja para onde os seus passos se tinham dirigido antes das suas aventuras.
Quando regressou ao alto cortiço, a pequena família no primeiro andar tinha terminado o jantar e a mãe tinha voltado ao trabalho. O bebé estava a dormir. Milly e Pussy, agasalhadas até às orelhas, abraçavam o calor decrescente do pequeno fogão.
— Sr. Tony, conseguiu a vela? — perguntou Pussy quando ele entrou.
— Sim. Mas estive a pensar — o seu modo era misterioso — não quero pô-la na prateleira. Quero-a na janela — para brilhar para fora...
— Para brilhar para fora — porquê?
— Bem, sabes, há o São Nicolau.
— Oh...
— Ele devia vir aqui, Pussy. Por que não viria aqui? Por que deveria ir para a zona alta da cidade, e mais para cima, e levar todas as coisas para crianças que têm mais do que querem?
Milly era filosófica. — O São Nicolau são os pais e as mães...
Mas Pussy não tinha tanta certeza. — Achas que ele viria — se nós o fizéssemos? Achas mesmo, de verdade, que ele viria?
— Acho que poderia vir...
A vela colocada na janela fazia um belo espetáculo visto da rua. Todos saíram para olhar para ela. Ao entrar, sentaram-se juntos à volta do fogão.
Pussy puxou a sua cadeira muito para perto de Ostrander. Pousou a mão no joelho dele. Era uma mão pequena com dedos curtos e gordinhos. Apesar da vida pobre, Pussy tinha conseguido manter-se gordinha. Ela tinha covinhas adoráveis.
Ostrander, olhando para a mãozinha gorda, começou: — Era uma vez... uma boneca — uma boneca *Fluffy Ruffles*, num vestido cor-de-rosa...
— Oh! — Pussy bateu com a mão pequena e gorda no joelho dele.
— E chinelos cor-de-rosa — e viajou milhas para encontrar alguém que... a amasse. E finalmente disse ao São Nicolau: "Oh, querido São Nicolau, quero encontrar uma menina que não tenha nenhuma boneca..."
— Como eu? — disse Pussy.
— Como tu...
— E o São Nicolau disse: "Vais manter os teus chinelos cor-de-rosa limpos e o teu bonito vestido cor-de-rosa limpo se eu te der a uma menina pobre?" e a boneca *Fluffy Ruffles* disse "Sim", então o São Nicolau procurou e procurou por uma menina pobre, e finalmente chegou a uma janela — com uma vela vermelha...
A mãozinha gorda estava imóvel e Pussy respirava com dificuldade.
— Com uma vela vermelha, e havia uma menina que... não tinha nenhuma boneca...
Pussy lançou-se sobre ele fisicamente. — É verdade? É verdade? — gritou ela.
Milly, um pouco corada e entusiasmada com a história, tentou dizer serenamente: — É claro que não é verdade. Não podia ser... verdade...
— Vamos desejar que seja verdade — disse Ostrander —, todos nós os três, com os olhos fechados...
Com esta cerimónia concluída, as meninas foram aconselhadas gravemente a ir para a cama. — Se a *Fluffy Ruffles* e o velho São Nicolau passarem e vos encontrarem acordadas, eles não pararão...
— Não?
— Claro que não. Devem fechar a porta e rastejar para baixo do vosso edredão e tapar a cabeça, e se ouvirem um barulho não devem olhar.
Milly olhou para ele duvidosa. — Acho uma vergonha contar à Pussy tais...
— Coisas fantásticas? — Ele levantou o queixo dela com um dedo leve e olhou para os seus olhos inocentes. — Oh, Milly, Milly, era uma vez uma Princesa, com olhos como os teus, e ela vivia num jardim onde cisnes negros nadavam num lago, e ela usava vestidos verde-pálidos e havia papoilas no jardim. E um Tolo amava-a. Mas ela fechou-o fora do jardim. Ele não era bom o suficiente nem para se ajoelhar aos pés dela, por isso ela fechou-o fora e casou-se com um Príncipe com uma pena branca no chapéu.
Ele teve uma sensação divertida de Whiting como o Príncipe de pena branca. Mas os olhos de Milly estavam nublados. — Não gosto de pensar que ela fechou o pobre Tolo fora do jardim.
Por um momento, ele segurou o rosto perturbado dela entre as suas duas mãos. — Minha querida miúda. — Depois, ao virar-se, descobriu que os seus próprios olhos estavam húmidos.
Quando ele começou a subir as escadas, Pussy espreitou por ele.
— Não seria... fantástico... ver uma boneca *Fluffy Ruffles* — a caminhar pela rua?
Numa caixa bonita lá em cima, a boneca *Fluffy Ruffles* encarava-o. Ela era tão adorável como um sonho, e tão cara quanto as fazem. Havia outra boneca em azul, também tão cara, também tão adorável. Ostrander conseguia ver Milly com a boneca azul a combinar com os seus olhos.
Havia brinquedos, também, para o bebé. E havia um ramo de violetas. E caixas de bombons. E livros. E havia coisas para comer. Além das frutas, um grande bolo, e um cesto de marmeladas e geleias e garrafas com selo de ouro e pastas de carne em frascos de porcelana, e coisas importadas em vidro, e bolachas em latas.
Ostrander, após alguma consideração, abriu a lata de bolachas e, mastigando, escreveu um bilhete. Não tendo papel, arrancou o embrulho de uma das caixas. Tinha o resto de um lápis, e o resultado foi um rabisco.
— MEU CARO WHITING:
— Fui eu que pedi emprestado o seu carro — e que fugi com a sua tralha. Ponho o meu endereço no cabeçalho disto, para que, se a quiser de volta, possa vir buscá-la. Mas talvez não a queira de volta.
— Tenho a sensação de que para si e para a sua mulher estou morto. Se pensa em mim, é, tenho a certeza, para ter pena de mim. No entanto, imagino que não precise. Estou na miséria e a viver com dez dólares por mês. Foi tudo o que consegui quando o desastre aconteceu — é tudo o que alguma vez conseguirei. Pago quatro dólares por mês pelo meu quarto e vinte cêntimos por dia por comida. Às vezes pago menos de vinte cêntimos quando me vejo a precisar de outros — luxos. No entanto, há uma aventura nisto, Whiting. Uma boa mulher que vive nesta casa implora-me para trabalhar. Mas nunca trabalhei. E porquê começar? Tenho uma herança de maus hábitos, e não se deseja parecer superior aos nossos antepassados.
— Os invernos são o pior. Passo os verões na estrada aberta. Pergunte à Marion se ela se lembra dos dias em que líamos Stevenson juntos no jardim? Diga-lhe que é como aquilo — sob as estrelas — Diga-lhe que estou a tirar mais proveito disso do que ela — consigo —
— Mas os invernos trazem-me de volta à cidade — e neste inverno o Destino trouxe-me a uma casa velha numa rua degradada, um pouco atrás do Clube. No primeiro andar há uma pequena família. Três miúdos e uma jovem mãe que trabalha para manter o lobo longe da porta. Há uma Pussy-Miúda, e uma Milly-Miúda, e um bebé, e eles adotaram-me como um amigo.
— E neste Natal não tinha nada para lhes dar — a não ser uma vela vermelha para iluminar o seu quarto.
— Quando entrei no seu carro foi apenas pela aventura. Para respirar por um momento o ar que outrora respirei — para imaginar que o fantasma de Marion poderia sentar-se ao meu lado por um pequeno momento, como ela se sentará ao seu lado até ao fim dos seus dias.
— Desempenhei todos os papéis, menos o de ladrão — mas quando vi as coisas que tinha comprado com o dinheiro de Marion para os filhos de Marion — subiu-me à cabeça — e quis-as imenso para aqueles pobres miúdos — que não têm bonecas nem jantares de Natal.
— Estou a fazer de Pai Natal para eles esta noite. Vou levar as coisas lá para baixo e deixá-las nos seus quartos pobres. Caberá a si vir e levá-las embora. Caberá a si, também, entregar este bilhete à polícia e roubar a minha liberdade.
— Costumava ser um bom desportista, Whiting. Não tenho nada contra si, exceto que roubou a Marion — talvez isto acerte as nossas contas. E se os seus filhos, por minha causa, estiverem sem as suas bonecas amanhã, pode lembrar-se disto: que os miúdos estão felizes lá em baixo — já que Dick Turpin habita lá em cima!
— Do resto, escolhi para mim uma garrafa baixa, uma caixa de bolachas e uma lata das pequenas salsichas importadas que me ensinou a gostar.
— Bem, meu caro, dias felizes! Amanhã de manhã tomarei o pequeno-almoço à sua custa, a menos que decida que devo tomar o pequeno-almoço atrás das grades.
— Se vier esta noite, encontrará na janela uma vela vermelha a brilhar. Puseram-na lá para guiar o São Nicolau e uma certa boneca *Fluffy Ruffles*!
— Sempre seu, Tony.
Ele encontrou um envelope, selou-o e endereçou-o. Depois, pôs-se a trabalhar.
Fez quatro viagens escadas abaixo. Quatro vezes entrou na ponta dos pés no quarto sombrio, onde a longa vela vermelha ardia. E quando se virou para dar uma última vista de olhos, ali na mesa ao lado da árvore estava a boneca azul para Milly e a boneca *Fluffy Ruffles* para Pussy e os guizos, anéis e blocos para o bebé, e nas cadeiras e na prateleira acima da árvore estavam as outras coisas — o grande bolo e a fruta e o cesto grande e as caixas de bombons.
E para a mãezinha havia as violetas e um bilhete:
"A vela vermelha piscou à sua janela e trouxe-me para dentro. É inútil procurar por mim — pois de vez em quando um Príncipe passa e segue caminho. E ele não deixa de ser Príncipe só porque você não o conhece."
E agora havia aquele outro bilhete para entregar. Mais uma vez no frio, descobriu que a lua tinha desaparecido e a neve estava a cair. Ao passar pelo santo na velha igreja, pareceu sorrir para ele. As torres e os telhados estavam cobertos de branco. Os seus passos não faziam ruído nas ruas acolchoadas.
Deixou o bilhete à porta de Whiting. Imaginou que, quando o criado o segurou, viu Marion a brilhar nas escadas!
Ficou contente depois disso por chegar a casa e ir para a cama, e para o calor do seu cobertor. Havia o calor, também, do vinho.
Em pouco tempo estava a dormir. Na mesa junto à sua cama desarrumada estava a caixa de bolachas e a garrafa e a lata das pequenas salsichas.
Se tudo corresse bem, banqueteava-se como um lorde na manhã de Natal!
MERCADORIA DEVOLVIDA
Talvez o momento mais humilhante da infância de Dulcie Cowan tenha sido quando Mary Dean lhe chamou "dadora indiana". Dulcie era uma criança de abastança. Tinha sempre tido tudo o que queria; mas não tinha sido mimada. Tinha sido educada magnificamente e ensinada a considerar os direitos dos outros. Vivia numa parte antiquada de uma cidade antiga, e a sua família era religiosa e conscienciosa. De facto, tão bem treinada era a consciência de Dulcie que muitas vezes lhe causava grande infelicidade. Parecia-lhe que a sua vida era composta em grande parte por negar a si mesma as coisas que queria. Estava ligada tão rigidamente à regra de ouro que os seus próprios direitos eram constantemente submersos na consideração dos direitos dos outros.
Assim, tinha acontecido que, quando deu a Mary Dean uma certa boneca adorável, porque a sua mãe tinha sugerido que Dulcie tinha tantas e Mary tão poucas, Dulcie passou uma noite de solidão agonizante. Depois, foi ter com Mary.
— Quero a minha Peggy de volta.
— Tu deste-ma.
— Mas eu não sabia o quanto a amava, Mary. Compro-te uma boneca nova e bonita, mas quero a minha Peggy de volta.
Foi então que Mary lhe chamou "dadora indiana". Mary tinha sido uma coisinha robusta com cabelo castanho entrançado apertado. Tinha usado naquela ocasião histórica um vestido de guingão azul simples com um colarinho branco. Ao olho comum, parecia apenas uma criança sardenta do dia a dia, mas para Dulcie ela tinha sido um pequeno diabo dançante, enquanto esticava o dedo indicador e zombava: "Dadora indiana!"
Dulcie manteve o seu ponto de vista e levou a sua Peggy em triunfo. Mary, com a sua independência característica, recusara aceitar a boneca linda que Dulcie comprara com o último cêntimo da sua mesada e trouxera como oferenda de paz. Com o passar dos anos, tornaram-se amigas bastante boas. Poderiam, de facto, ter sido íntimas, se não fosse pelo dinheiro de Dulcie e pela aversão de Mary a tudo o que soubesse a condescendência.
Foi a independência quase masculina de Mary que atraiu Mills Richardson para ela. Mills escrevia livros e era editor de uma pequena revista. Veio viver para casa da mãe de Mary por causa da tranquilidade do bairro. Era bastante bonito, com um estilo moreno e esguio. Tinha os instintos de um poeta e não era minimamente prático. Precisava de um apoio em que se encostar, e Mary tornou-se, gradualmente, esse apoio.
Ela já lecionava nessa altura, mas ajudava a mãe com os hóspedes. Quando Mills chegava tarde a casa, à noite, ela tinha sempre algo para ele na sala de jantar — ostras, uma sanduíche americana ou um bule de café — e ela, a mãe e Mills passavam momentos agradáveis. A seu tempo, Mills pediu-a em casamento, e os seus sonhos tinham a ver com um maior aconchego e proteção contra o mundo exterior.
Estavam noivos há três meses quando Dulcie regressou da universidade. Não havia nada de independente ou prático em Dulcie. Era uma verdadeira senhora romântica e atraía Mills pelo seu lado estético. Ele viu-a pela primeira vez na igreja, com a luz a incidir sobre ela através de um vitral. A meio dessa mesma semana, a Sra. Cowan deu uma festa no jardim como celebração do regresso da filha. Dulcie vestia branco bordado e um chapéu de abas largas, e os seus olhos, quando falava com Mills, eram de adoração.
Ele viu-se, por fim, dominado por uma grande paixão. Pensava em Dulcie de dia e sonhava com ela de noite. Depois, encontrou-a por acaso, uma tarde, na Connecticut Avenue, e caminharam juntos até ao Speedway, onde os salgueiros agitavam-se ao vento e a água estava encrespada; e ali, com a cidade brilhante atrás deles e as colinas da Virgínia à frente, Mills, em chamas, declarou a sua paixão, e Dulcie, a tremer, confessou que também sentia o mesmo.
Mills tornou-se trágico: "Oh, minha amada, será que cheguei demasiado tarde?"
Dulcie não ouvira falar do seu noivado com Mary. Mills contou-lho, e isso resolveu a questão. Ela tinha ideias muito decididas sobre tais assuntos. Um homem não tinha o direito de se apaixonar por duas mulheres. Se tal acontecesse, só havia uma saída. Ele tinha dado a sua palavra e devia cumpri-la. Ele suplicou, mas não conseguiu demovê-la. Ela importava-se muito, mas não o tiraria a Mary.
Mary não sabia nada do que tinha acontecido; pensava que Mills estava a trabalhar demasiado. Ela própria estava a trabalhar arduamente, mas estava muito feliz. Tinha um baú de enxoval e ficava acordada até tarde a costurar.
Antes de Mary e Mills casarem, a mãe de Dulcie morreu e Dulcie foi para o estrangeiro viver com uma tia. Cinco anos depois, casou com um americano que vivia em Paris. Ele era muito mais velho do que ela, e dizia-se que ela não era feliz. Dez anos após o seu casamento, regressou a Washington viúva.
Foi imediatamente evidente que ela tinha mudado. Usava roupas charmosas, mas sofisticadas, feitas com cortes juvenis, de modo que parecia mais perto dos vinte e cinco do que dos trinta e cinco anos. O seu cabelo continuava suave e brilhante. Tinha sido uma rapariga bonita, era uma mulher bela. Mas a maior mudança estava na sua atitude perante a vida. Em Paris, a sua filosofia de "fazer aos outros" fora virada do avesso.
Por isso, quando encontrou Mills e viu as antigas chamas acesas nos seus olhos, remexeu as cinzas do seu romance morto e descobriu uma faísca. Era agradável, depois disso, conversar com ele em cantos escuros nas casas das pessoas. De vez em quando, convidava-o a ele e a Mary para a sua casa grande com muitos outros convidados, para que não dessem pela sua falta se ela caminhasse com Mills no jardim. Não queria fazer mal e, na verdade, gostava de Mary.
Os anos não tinham sido tão gentis com Mills como com Dulcie. Tinham roubado um pouco da sua esbelteza, e o seu cabelo estava ralo na parte de trás. Mas ele escrevia livros melhores, e foi Mary quem o tinha ajudado a escrevê-los. Ela tinha feito da sua casa um lar. Ela continuava a ser a mesma alma robusta. A sua cor viva tinha desvanecido e o seu cabelo estava grisalho. A vida com Mills não tinha sido um caminho fácil de percorrer. Tinha-o percorrido com perda de juventude, talvez, mas sem perda de amor-próprio. Ela sabia que o seu marido era, em certa medida, quem era por causa dela. Tinha mantido os filhos longe da porta do seu escritório; tinha garantido que ele fosse alimentado e sustentado. Tinha-o estimulado, por vezes, a atividades crescentes. Ele tinha ressentido o estímulo, mas este resultara numa continuidade de esforço que tinha aumentado os seus rendimentos.
Dulcie entrou na vida de Mary como algo muito fresco e estimulante. Ela falou disso a Mills.
"É quase como se eu tivesse estado no estrangeiro ao ouvi-la falar. Ela teve experiências tão interessantes."
Não eram as experiências de Dulcie que interessavam a Mills; era a beleza do seu perfil, o brilho do seu cabelo, a juventude nela, o impulso renovado da juventude nele próprio.
Priscilla Dodd viu o que tinha acontecido. Priscilla era a tia com quem Dulcie tinha vivido em Paris; e era uma mulher velha e sábia, ainda que mundana. Viu rochedos à frente de Dulcie.
"Ele está apaixonado por ti, minha querida."
Dulcie, num roupão de cetim cor-de-rosa que brilhava ricamente à chama da lareira da tia Priscilla, não se perturbou.
"Eu sei. Mary não o satisfaz, tia Cilla."
"E tu satisfazes?"
"Sim."
"Quanto menos o vires, melhor."
"Não tenho a certeza disso."
"Por que não?"
"Posso inspirá-lo, ser a tocha para iluminar o seu caminho."
"Portanto, é assim que tu própria o vês! Mas como é que a Mary vai gostar disso?"
"Oh, Mary" — Dulcie moveu-se inquietamente — "não quero magoar a Mary. Não quero magoar a Mary", disse ela novamente, após um longo silêncio, "mas, afinal, tenho o direito de salvar a alma do Mills para ele, não tenho, tia Cilla?"
"É melhor deixar a salvação das almas para aqueles que fazem disso a sua profissão."
"Refiro-me à sua alma poética." Dulcie estudou as pontas dos seus chinelos cor-de-rosa. "Um homem não pode viver só de pão."
No entanto, Mills tinha prosperado muito bem com o pão que Mary lhe tinha dado, e havia algo a dizer sobre Mills: ele gostava muito da sua esposa. Ela não era o amor da sua vida, mas tinha sido uma companheira durante muitos anos. Ele sentia que devia muitas coisas à sua afeição e força. Tal como Dulcie, ele evitava torná-la infeliz.
Foi por causa de Mary, portanto, que os amantes se demoraram. Caso contrário, diziam um ao outro, Mills livrar-se-ia das suas correntes, pediria a sua liberdade, e então ele e Dulcie voariam para Paris, onde ninguém investigava passados e onde poderiam tornar os seus sonhos realidade.
Encontraram muitas formas de se verem. Dulcie tinha um pequeno carro citadino, e buscava Mills a todas as horas e levava-o em longos e adoráveis passeios, dos quais ele voltava em êxtase, com flores silvestres no casaco e o conhecimento de trabalho por fazer.
As bisbilhotices começaram a correr. A tia Priscilla avisou Dulcie.
"É uma coisa perigosa de se fazer, minha querida. As pessoas vão falar."
"Que nos importamos nós, o Mills e eu, com as pessoas? Oh, se não fosse pela Mary..." Ela tinha acabado de chegar de um passeio com Mills, e os seus olhos brilhavam.
"Gostaria que não jantássemos lá hoje à noite", disse a tia Priscilla. "Pergunto-me como é que a Mary consegue fazer um jantar para oito com apenas uma criada."
"Ela é tão esplêndida e competente, tia Cilla. O Mills diz isso. Todos o dizem. As coisas são fáceis para ela, que seriam difíceis para outras pessoas."
"Pergunto-me o que é que ela pensa de ti."
Dulcie, tirando as luvas, meditou.
"Imagino que ela goste de mim. Sei que a amo, mas não tanto quanto amo o Mills."
Há quinze anos, Dulcie teria morrido antes de admitir o seu amor por um homem casado. Mas desde então, vira a vida através dos olhos de um marido velho e mundano, e isso fizera a diferença.
Ao jantar, nessa noite, Dulcie estava requintada em tule cor de orquídea, com um colar de pérolas que lhe chegava aos joelhos. O seu cabelo era como milho maduro, ondulado e repartido ao lado com um nó juvenil atrás. A sua pele era tão fresca como a de um bebé. Mary estava de rede preta. Tinha estado muito ocupada a ajudar a cozinheira e tivera pouco tempo para dedicar ao seu cabelo. Parecia dez anos mais velha do que Dulcie, e a sua mente estava completamente no jantar. O jantar estava, de facto, muito bom. Mills tinha estado extremamente ansioso com isso. Tinha telefonado à Mary do centro da cidade para lhe dizer que estava a levar espargos frescos. Queria que fossem servidos como um prato extra com molho holandês. Mary protestou, mas cedeu. Foi o molho holandês que a impediu de encaracolar o cabelo.
Havia orquídeas para o centro da mesa — em harmonia com o vestido de Dulcie. De facto, todo o jantar parecia afinado para Dulcie. Os convidados eram, na sua maioria, gente literária, a quem Mills queria exibir a sua Egeria. Após o jantar, Dulcie cantou para eles. Tinha posto música às palavras de um dos poemas de Mills, e foi muito aplaudida.
Depois de todos terem ido embora, Mary foi para a cama com uma dor de cabeça. Estava contente por ser sábado, pois o domingo prometia um descanso. Decidiu enviar os filhos para casa da mãe e ter um dia tranquilo com Mills. Nem sequer iria à igreja de manhã. Havia um serviço à tarde; talvez ela e Mills pudessem ir juntos.
Mas Mills tinha outros planos. Caminhou até à porta da igreja com Mary e deixou-a lá. Mary não ficou triste por ser deixada; a sua dor de cabeça tinha regressado e ela estava contente por se sentar sozinha na penumbra pacífica. Mas a dor revelou-se, finalmente, demasiado forte para ela, então ela saiu discretamente e foi para casa.
Tinham surgido nuvens, e ela apressou-se antes do aguaceiro. Era um verdadeiro aguaceiro de abril, vento com um ímpeto e uma chuva prateada. Mary, entrando na sala de estar escura, atirou-se para o sofá num canto distante e puxou uma manta para cima de si. O sofá estava encostado a uma mesa que continha um candeeiro e uma fileira de livros. Mary tinha uma certa sensação de contentamento na forma como a mobília parecia envolvê-la. Não havia som senão o da chuva a bater nas janelas.
Adormeceu, por fim, e acordou para descobrir que Mills e Dulcie tinham entrado. Não havia luzes acesas; a sala estava na penumbra do crepúsculo.
Mills tinha encontrado Dulcie à porta da frente dela. "Como foi querido da tua parte vires", tinha-lhe dito ela.
Ele tinha falado da sua deserção em relação a Mary. "Mas este dia foi feito para ti, Dulcie."
Tinham caminhado juntos, sem prestar atenção para onde iam, e quando a tempestade os apanhou, estavam mais perto da casa de Mills do que da de Dulcie, por isso ele levou-a para lá. Tinham entrado na sala aparentemente vazia.
"A Mary ainda está na igreja. Vem secar os teus pezinhos ao pé da minha lareira, Dulcie." Mills ajoelhou-se e abanou a chama.
Mary, regressando lentamente dos seus sonhos, ouviu isto e outras coisas, e, por fim, a voz de Dulcie em protesto:
"Querido, temos de pensar na Mary."
"Pobre Mary!"
Ora, a coisa que Mary mais odiava em todo o mundo era a pena. Através de todo o choque da revelação espantosa de que Mills e Dulcie se amavam, veio a picada da sua simpatia. Ela sentou-se, uma sombra entre as sombras.
"Não devo ficar, Mills", declarava Dulcie.
"Por que não?"
"Sinto-me como uma... ladra..."
"Absurdo, estamos apenas a tomar o que é nosso, Dulcie. Devíamos tê-lo tomado há anos. Amando-te, nunca me deveria ter casado com a Mary."
"Eu tinha consciência naquela altura, Mills, e tu tinhas prometido."
"Mas agora vês as coisas de forma diferente, Dulcie?"
"Talvez."
Mills estava de joelhos ao lado da cadeira de Dulcie, beijando-lhe as mãos. O fogo iluminava-os. Era como uma peça de teatro, com Mary como uma espetadora desolada na escuridão da plateia.
"Deixa-me ir agora, Mills."
"Espera até a Mary vir... dir-lhe-emos."
"Não, oh, pobre Mary!"
Pobre Mary, de facto!
"De qualquer forma, tens de ficar, Dulcie, e cantar para mim, e quando a Mary voltar, ela preparar-nos-á a ceia e eu ler-te-ei os meus novos versos."
Entre as sombras, Mary teve um momento de alegria trágica. Depois, colocou os pés no chão e falou:
"Lamento, Mills, mas não conseguiria cozinhar a ceia esta noite nem que a minha vida dependesse disso..."
Do seu círculo brilhante de luz, eles olharam para ela.
"Oh, minha pobre querida!" disse Dulcie.
"Não sou pobre", disse-lhe Mary, "mas estou cansada, morta de cansada, e a minha cabeça dói-me terrivelmente, e se queres o Mills, podes ficar com ele."
"Ficar com ele?" sussurrou Dulcie.
"Sim. Eu não o quero."
Mills explodiu.
"O quê?"
"Não te quero, Mills. Estou cansada de ser um apoio; estou cansada de planear as tuas refeições, estou cansada de decidir se deves ter cogumelos com o teu bife ou... cebolas. Podes ficar com ele, Dulcie. Sei que pensas que perdi o juízo." Ela avançou para dentro do raio da luz. "Mas não perdi. Enquanto pensei que o Mills se importava, consegui aguentar. Mas aprendi esta noite que ele te amava antes de casar comigo. Tu deste-mo, Dulcie, e agora queres recebê-lo de volta."
Dadora indiana! Como um relâmpago, a mente de Dulcie voltou à pequena Mary das tranças e do dedo indicador em riste.
"Tu queres o Mills e podes ficar com ele. Talvez se o tivesses levado há anos ele pudesse ter sido diferente. Não sei. Talvez até agora ele consiga estar à altura de todas as coisas lindas, lindas de que tu e ele estão sempre a falar. Mas eu tive de falar com o Mills sobre o que ele gosta de comer e o que temos de pagar pelas coisas; tive de o empurrar, estimular e elogiar, e tem sido um trabalho árduo. Se o queres, podes ficar com ele, Dulcie."
Mills tinha um olhar atordoado.
"Não me amas, Mary?"
"Penso que provei isso", disse ela calmamente; "mas não poderia continuar a amar-te agora. Tens a Dulcie para te amar, e uma mulher basta para qualquer homem. Não sei o que planeias fazer, mas não precisas de fugir ou fazer algo espetacular. Tornar-te-ei tudo tão fácil quanto possível. E agora, se não te importas, vou subir e tomar um pó para a dor de cabeça; a minha cabeça está a explodir."
Deixados sozinhos, tentaram recuperar o seu ar de alto romance.
"Pobre Mary!"
Mas as palavras soaram ocas. Não se podia chamar pobre a uma mulher que tinha dado tanto com um simples gesto.
Tentaram conversar sobre isso, mas não encontraram nada para dizer. Por fim, Mills levou Dulcie a casa. Ela convidou-o a entrar e ele foi. A tia Priscilla estava fora, e foi servido chá para os dois a partir de um carrinho de chá laqueado — chá Orange Pekoe e bolachas japonesas. Era delicioso, mas insubstancial. Dulcie, sem o casaco, parecia um espírito da floresta em verde folha. O seu cabelo era ouro, os seus olhos violetas húmidas; mas faltava algo ao Mills. Ele tinha a sensação de que queria chegar a casa e conversar sobre as coisas com Mary.
Por fim, levantou-se, e foi então que Dulcie pousou a mão no braço dele.
"Mills, não posso."
"Não podes o quê?"
"Deixar-te abandonar a Mary."
"Por que não?"
"Não seria correto."
"Seria tão correto como sempre foi, Dulcie."
"Sei como deve parecer-te, mas... mas eu sabia a todo o tempo que o mal é mal. Pensei que era uma Dulcie diferente da rapariga de há muito tempo, mas não sou. Ainda tenho consciência; não posso tirar-te à Mary."
"Não me estás a tirar. Ouviste o que ela disse — ela não me quer."
E Dulcie não o queria! Ele viu isso naquele momento! As coisas que Mary tinha dito assustaram-na. Ela não queria estimular, empurrar e elogiar. Ela não queria decidir o que ele deveria comer ao jantar. Ela não queria pesar os méritos de bife com cogumelos ou bife com cebolas — cebolas!
Sentiu-se subitamente velho, gordo, careca! O brilho tinha desvanecido de tudo. Ele não protestou nem tentou persuadi-la. Pegou no chapéu, beijou-lhe a mão e foi-se embora.
A tia Priscilla, ao entrar, encontrou Dulcie em lágrimas junto à lareira.
"Desisti dele, tia Cilla."
"Porquê?"
"Bem, não seria correto."
Mais tarde, foi ao quarto da tia Priscilla conversar sobre isso. Estava com o roupão cor-de-rosa. Falou em voltar para Paris.
"Será melhor para ambos. Afinal, tia Cilla, somos o que somos fundamentalmente, e nós, puritanos, não conseguimos fugir às nossas consciências, pois não?"
"Alguns de nós", disse a tia Priscilla, "não conseguem."
A velha senhora ficou acordada muito tempo naquela noite, a pensar nisso. Estava contente por Dulcie ter parado com a coisa a tempo. Mas tinha a sensação de que a solução da situação não podia ser atribuída a uma consciência despertada. Esperava que, um dia, Dulcie lhe dissesse a verdade.
* * * * *
Continuava a chover quando Mills chegou a casa. A casa estava escura, o fogo tinha baixado. Subiu as escadas. Os rapazes estavam na cama. Havia uma luz no quarto de Mary. Abriu a porta. Mary estava apoiada nas suas almofadas a ler um livro.
Parou, incerto, no limiar.
"Entra", disse ela, "a minha cabeça está melhor."
Ele atravessou o quarto e parou ao lado dela.
"Oh, Mary", disse ele, e o seu rosto contraiu-se. Ajoelhou-se junto à cama e chorou como uma criança.
Ela pousou a mão na cabeça dele e alisou o seu cabelo ralo.
"Pobre Mills!" disse ela suavemente; "pobre velho Mills!" Então, após um momento, alegremente: "Fará bem a ambos tomarmos um café. Vai andando, Mills, e liga a cafeteira; descerei num minuto para preparar a ceia."
TORRADA QUEIMADA
I
Perry Cunningham e eu éramos amigos há anos. Eu era mais velho do que ele, e tinha-lhe dado aulas no seu último ano de faculdade. Depois disso, tínhamos viajado pelo estrangeiro, frugalmente, como convinha aos nossos meios. A única queixa que tinha do destino era que Perry era pobre. O dinheiro ter-lhe-ia dado o contexto que lhe pertencia — ele era um tipo principesco, de cabeça erguida. Tinha sangue do Sul nas veias, o que explicava talvez um charme de maneiras quase antiquado, como se mantivesse uma tradição cavalheiresca.
Percorremos as galerias de arte juntos. Não poderia ter havido nada melhor do que aqueles dias com ele — o Louvre, os Uffizi, o Palazzo Pitti. A busca de Perry pela beleza era quase sem fôlego. Varremos desde Filippo Lippi até Botticelli e Bellini, depois para Ghirlandajo, Guido Reni, Correggio, Del Sarto — o incomparável Leonardo.
"Se eu tivesse vivido então", dizia Perry, radiante, "em Florença ou em Veneza!"
E eu, sorrindo ao seu entusiasmo, tinha uma visão dele entre aqueles pintores dourados, a sua própria beleza jovem realçada por vestes de cores claras, a sua sede de beleza saciada pelos ambientes sumptuosos daquela era de romance.
Depois, quando os grandes modernos nos confrontaram — Sorolla e os outros — Perry queixou-se: "Por que estudei direito, Roger, quando poderia estar a fazer coisas como esta?"
"Não é demasiado tarde", disse-lhe eu.
Sentia que ele não devia ser contido, que o seu interesse apaixonado poderia desabrochar e florescer em génio se lhe fosse dada uma saída adequada.
Assim, aconteceu que ele decidiu pintar. Ficaria em Paris um ano ou dois num ateliê, e testaria o seu talento.
Mas a sua família não queria nem ouvir falar disso. Havia advogados na sua família há gerações. Desde a Guerra Civil que seguiam carreiras mais ou menos bem-sucedidas. O próprio pai de Perry não tinha ganho dinheiro, mas a mãe de Perry estava obcecada com a ideia de que a fortuna da família dependia da continuidade do seu filho na prática do pai.
Assim, Perry voltou para casa e abriu um escritório. O seu coração não estava naquilo, mas ganhava o suficiente para viver e, finalmente, ganhou dinheiro suficiente para se casar. Tê-la-ia desposado quer tivesse o suficiente para viver ou não. Ela era uma artista e tinha vinte anos quando Perry a conheceu. Nós tínhamos passado um mês no Maine, numa ilha tão encantadora quanto barata. Rosalie estava lá com um tio-avô e uma tia. Ela estava a pintar o mar no dia em que Perry a viu pela primeira vez e usava uma bata verde-jade. O seu cabelo era ruivo, puxado com bastante firmeza da testa, mas formando ondas sobre as orelhas. Com o vermelho das suas bochechas e o vermelho dos seus lábios, tinha algo do aspeto das adoráveis damas de Lorenzo Lotto, exceto por uma certa esbelteza marcada, uma esbelteza que vinha, como viria a saber mais tarde, de uma total indiferença às exigências do apetite. Ela era uma daquelas pessoas que vendem pão para comprar jacintos.
Falo disto aqui porque a indiferença quase ascética de Rosalie pelas questões materiais, em direto contraste com o prazer vívido de Perry pelas coisas boas da vida, viria a ter um significado trágico em dias posteriores. Perry adorava uma lareira quente no inverno, um alpendre fresco no verão. Ele tinha a apreciação epicurista dos sulistas pela bela arte de banquetear. A mesa farta tinha sido a sua herança de um conjunto jovial e folgazão de ancestrais ingleses, para quem jantar era uma cerimónia bastante esplêndida. Na mesa da sua mãe havia peixe e caça da baía de Chesapeake, frutas e legumes dentro e fora da estação — cordeiro assado quando os preços subiam muito na primavera, morangos assim que chegavam da Flórida. Sempre houve dinheiro para isto no tesouro dos Cunningham, quando não havia dinheiro para mais nada.
Rosalie, por outro lado, comia uma laranja de manhã, uma fatia de pão torrado ao meio-dia, uma costeleta e talvez uma salada ao jantar. Sentia-se que ela poderia ter passado igualmente bem com orvalho e néctar. Ela não tinha absolutamente nenhum interesse no que lhe era posto à frente e, depois de casar com Perry, esta atitude mental permaneceu inalterada.
Ela era uma cozinheira miserável e não fez qualquer esforço para adquirir perícia. Ela e Perry viviam num bangalô pequeno, mas bem construído, a alguns quilómetros da cidade, e não podiam pagar uma criada. Quando eu jantava com eles, compensava depois as deficiências do seu menu com uma refeição reforçada no clube. Não havia hipótese de Perry compensar, e eu perguntava-me, à medida que os anos passavam, como é que ele aguentava aquilo.
Ele parecia aguentar bastante bem, exceto que, com o tempo, passou a ter aquele mesmo aspeto de delicadeza acentuada que acrescentava uma nota espiritual ao viço rico de Rosalie. Ele iluminava-se sempre que falava da sua esposa e estava sempre a insistir para que eu os fosse visitar. Devo admitir que, exceto pelas refeições, eu gostava de ir. O sucesso de Rosalie na pintura tinha sido negligenciável, mas o seu amor pela beleza expressava-se na atmosfera que dava à sua pequena casa; ela tinha alcançado resultados bastante triunfantes nos fundos e na decoração.
Lembro-me de um crepúsculo de primavera. Eu estava lá para o fim de semana e jantámos tarde. A pequena casa ficava numa colina e, com as janelas francesas escancaradas, parecíamos pairar sobre um abismo de céu púrpura, cortado por uma fina meia-lua. Velas brancas iluminavam a mesa e havia lilases brancos. Havia uma fita prateada à volta do cabelo ruivo de Rosalie.
Não havia muito para comer e Perry pediu desculpa: "A Rose odeia preocupar-se com a comida com tempo quente."
Rosalie, tão misteriosa naquela luz como a lua nova, sorriu de forma sonhadora.
"Porque é que se há de pensar em tais coisas — quando há tanto mais no mundo?"
Perry retirou os pratos e fez o café. Rosalie não bebia café. Ela passeou-se pelo jardim e voltou com três violetas, que beijou e espetou no casaco de Perry.
Na manhã seguinte, quando desci, Rosalie estava a cortar pão para torrar. Ela era sempre requintadamente asseada e, no seu linho branco e na sua cozinha de azulejos brancos, parecia indubitavelmente doméstica. Eu estava com fome e tinha esperanças nos seus esforços.
"O Peer está a pôr a mesa", disse-me ela.
Ela chamava-lhe sempre "Peer". Ela tinha a sua própria maneira de encontrar nomes para as pessoas. Eu nunca era "Roger", mas "Jim Crow". Quando questionada sobre a sua razão para a alcunha, ela decidiu vagamente que poderia ser alguma conexão de ideias — danças — Sir Roger de Coverley — e não dançava alguém o "Jim Crow"?
"Não te importas, pois não?", tinha ela perguntado, e eu respondi que não.
Não confessei o quanto gostava disso. Sempre tinha sido tratado de uma forma distintamente distante e digna pela minha família e amigos, pelo que a suposição fácil de intimidade de Rosalie era deliciosa.
Bem, fui para o alpendre e deixei Rosalie com os seus engenhos culinários. Encontrei o jornal da manhã e, quinze minutos depois, surgiu relvado acima uma figura radiante.
Rosalie, ouvindo o apelo do jardim, tinha deixado a responsabilidade de lado — e os seus braços estavam cheios de narcisos!
Tínhamos pão torrado queimado ao pequeno-almoço! Rosalie tinha-se esquecido dele e Perry não o tinha resgatado até estar bem chamuscado. Não havia pão para fazer mais, por isso tivemos de o comer.
Quanto ao resto, tivemos café e fruta. Era uma época cara para ovos e Rosalie estava de olho num bocado de brocado antigo que deveria iluminar um canto do seu estúdio. Ela tomou o pequeno-almoço contente com toranja, mas Perry estava bastante silencioso e vi pela primeira vez uma sombra no seu rosto. Perguntei-me se, por um momento, a sua mente tinha vagueado pelo passado e pela mesa da sua mãe, com waffles de domingo, omelete, bacon grelhado. No entanto — não tinha havido pedaços de brocado alegre para iluminar a monotonia vitoriana da sala de jantar da sua mãe, nem narcisos numa manhã radiante, nem lilases brancos num crepúsculo púrpura, nem uma deusa esguia, misteriosa como a lua.
Foi a meio do inverno seguinte que comecei a aperceber-me de que Perry não estava bem. Tinha chegado a casa numa noite de neve, cansado e gelado até aos ossos. Ele estava atrasado e Rosalie tinha mantido o jantar à espera dele. Foi um caso bastante lamentável quando foi servido. Perry empurrou a cadeira para trás e não comeu. Eu tinha tão pouco apetite quanto ele, mas fiz o meu melhor. Tinha chegado num comboio mais cedo, com algumas gravuras antigas que queria mostrar-lhe. Rosalie e eu olhámos para elas depois do jantar, mas Perry encolheu-se junto ao lume e tossia de tempos a tempos.
Finalmente, não consegui aguentar mais.
"Ele precisa de leite quente, de um escalda-pés e de ser metido na cama."
Rosalie olhou para mim por cima das gravuras. "O Perry?"
"Sim. Ele não está bem."
"Não sejas agourento, Jim Crow."
Mas eu sabia do que estava a falar. "Vou levá-lo para a cama. Podes ter o leite pronto quando eu descer."
Verificou-se que não havia leite. Caminhei oitocentos metros até um restaurante de beira de estrada e trouxe ostras e uma garrafa de natas. Cozinhei-as eu mesmo na cozinha de azulejos brancos e servi-as a fumegar numa tigela com bolachas.
Perry, apoiado na cama, comeu como um pássaro esfomeado.
"Nunca provei nada melhor", disse ele; e, aquecido e alimentado, dormiu passado um pouco tão profundamente como um bebé satisfeito.
Foi enquanto ele comia as ostras que Rosalie veio à porta e olhou para ele. Ele não era um objeto estético — tenho de admitir que nenhum homem doente o é — e vi desagrado no seu olhar, como se algum instinto delicado nela se encolhesse perante o espetáculo.
Quando desci, encontrei-a sentada em frente ao lume, envolta num roupão chinês de preto e dourado. Podem imaginar o efeito daquilo com o ruivo do seu cabelo e o vermelho das suas bochechas e lábios. Os seus pés, em chinelos de cetim preto, estavam sobre uma almofada verde-jade, e atrás da sua cabeça estava a faixa de brocado que ela tinha comprado com o dinheiro das despesas da casa. Era uma peça magnífica, que repetia a cor da almofada e com um toque de azul que combinava com os seus olhos.
Ela queria que eu lhe mostrasse o resto das gravuras. Tentei falar-lhe da saúde de Perry, mas ela não quis.
"Não sejas agourento, Jim Crow", disse ela de novo.
Ao olhar para trás, para nós os dois junto ao lume naquela noite, sinto-me como alguém que tivesse sido cúmplice de um crime. O charme de Rosalie era indubitável. A sua rapidez de espírito, a sua alegria, a sua paixão por tudo o que era adorável na arte e na Natureza — tornavam-na indescritivelmente interessante. Fiquei até tarde. E nem uma única vez, após a minha primeira tentativa, falámos de Perry.
II
Foi em março que fiz o Perry ir ao médico. "Nada de orgânico", foi o relatório de Perry. Além disso, ele permaneceu em silêncio. Por isso, fui eu mesmo ao médico.
"O que é que ele tem?"
"Ele não está a receber a nutrição adequada", disse-me o médico. "Ele precisa de muitos ovos e leite, e de boa carne vermelha."
Parecia fácil o suficiente, mas não era. Rosalie não conseguia compreender o facto de que a dieta, no caso de Perry, era importante. Pela primeira vez, vi uma estranha espécie de obstinação nela.
"Oh, o meu pobre Peer!" E ela riu levemente. "Será que querem fazer de ti um porco empalhado?"
Bem, simplesmente não se conseguia meter na cabeça dela que Perry precisava do pão que ela vendia para comprar jacintos. Ela cozinhava bifes e costeletas para ele e servia-os com um ar de protesto que lhe tirava o apetite.
Claro que restavam os ovos e o leite, mas ele não gostava deles. O que Perry precisava realmente era de três boas refeições por dia, de acordo com a tradição da casa da sua mãe.
Mas ele não as podia ter. A sua mãe tinha morrido e a casa fora desfeita. O pequeno bangalô, com os seus brocados antigos, o seu vidro veneziano, as suas esculturas florentinas, o seu relógio de sol e o seu jardim, era o melhor que a vida lhe podia oferecer. E devo confessar que ele parecia achar aquilo muito bom. Ele adorava Rosalie. Quando, em momentos de rebelião contra a sua aparente indiferença, eu sugeria que lhe faltavam qualidades domésticas, ele sorria e mudava de assunto abruptamente.
Uma vez ele disse: "Ela alimenta — a minha alma."
Claro que ela o amava. Mas amor para ela significava o que tinha significado naqueles primeiros dias na costa do Maine, quando o tinha visto, esguio e forte, o seu cabelo castanho a soprar para trás da sua pele bronzeada pelo sol; significava aqueles primeiros dias na sua nova casa quando, bonito e elegante no casaco de veludo que ela o obrigava a vestir, ele acrescentava um brilho intenso ao quadro que ela tinha feito da sua casa.
Este novo Perry, pálido e a tossir — a tremer no calor da lareira — não encaixava no quadro. Os seus sonhos de futuro não incluíam um homem cansado que trabalhava para ganhar a vida e que estava a morrer por falta de cuidados inteligentes.
Colocar isto em palavras frias faz com que soe macabro. Mas é claro que Rosalie não era realmente isso. Ela estava apenas absorta nas suas próprias teorias exaltadas e não era maternal. Penso que, quando a comparei, sem pensar, à lua nova, estava subconscientemente consciente da sua semelhança com a "donzela orbitante" cujo fogo branco não aquece ninguém.
Ela tentou fazer o seu melhor e tenho a certeza de que Perry nunca soube a verdade — que ele poderia ter sido salvo se ela tivesse podido deixar as suas alturas por um momento e tornar-se feminina e esposa. Se ela o tivesse mimado um pouco — derramado a sua ternura sobre ele — oh, o meu pobre Perry. Ele amava-a demasiado para o pedir, mas eu sabia o que significaria para ele.
Durante toda a sua última doença, Rosalie agarrou-se a mim. Penso que se tornou um horror para ela vê-lo, descarnado e exausto, no quarto poente. Ele teve uma boa enfermeira, perto do fim, e boa comida. Eu tinha herdado uma pequena fortuna, tarde demais, de um parente distante. Paguei a cozinheira e a enfermeira e enviei flores a Rosalie para que ela pudesse levá-las a Perry e deixar que os seus olhos famintos se alimentassem dela.
Foi no inverno que ele morreu e, depois de tudo acabado, Rosalie e eu saímos e ficámos juntos no pequeno alpendre. Havia neve no chão e as estrelas brilhantes pareciam presas nos ramos dos pinheiros.
Rosalie tremeu e soluçou.
"Eu odeio — a morte", disse ela. "Oh, Jim Crow, porque é que Deus deixou o meu pobre Peer morrer?" Ela estava completamente descontrolada. "A morte é tão — feia."
Eu disse: "Não é feia. O Peer viverá de novo — como os narcisos na primavera."
"Acreditas nisso, Jim Crow?"
Eu acreditava e disse-lho — que até agora o seu Peer estava forte e bem; e penso que isso a confortou. Devolveu-lhe o seu amante, por assim dizer, na glória da sua juventude.
Ela não vestiu luto, ou, melhor, vestiu um luto que não era como o usado por nenhuma outra mulher. As suas vestes eram de púrpura. Ela manteve a fotografia de Perry na mesa e, fora da moldura, os seus olhos jovens riam-se de nós, de modo que, gradualmente, a visão daquela figura devastada no quarto poente desvaneceu-se.
Eu ia vê-la uma vez por semana. Parecia a única coisa a fazer. Ela estava totalmente sozinha, sem outra família além do tio-avô e da tia que tinham estado com ela quando conheceu Perry. Ela era uma criança em questões de negócios e Perry tinha-me deixado a mim a tarefa de administrar os assuntos da sua pequena herança. Rosalie tinha o seu pequeno bangalô, o seguro de Perry, e voltou o seu conhecimento de pintura para fins práticos. Fazia coisas bastante especiais em abajures e biombos, e era bem paga por isso.
Eu ia, como disse, uma vez por semana. Uma amiga partilhava parte da sua casa, mas tendia a estar fora, por isso eu via Rosalie geralmente sozinha. Eu vivia agora no clube e mantinha um carro. Rosalie jantava frequentemente comigo, mas raramente eu comia no bangalô. De vez em quando, à tarde, ela fazia-me uma chávena de chá, muito mais, tenho a certeza, pelo serviço pitoresco com a sua estimada prataria Sheffield do que por qualquer desejo de contribuir para a minha alegria ou conforto.
E assim, gradualmente, eu cresci na vida dela e ela cresceu na minha. Eu tinha quarenta e cinco anos, ela vinte e cinco. No fundo da minha mente estava sempre a consciência da enormidade da sua ofensa contra Perry. Nos meus momentos de maior calor, dizia a mim mesmo que ela tinha sacrificado a vida dele ao seu egoísmo; ela poderia ter sido uma Bórgia ou uma Médici.
No entanto, quando estava com ela, o meu ressentimento desvanecia-se; seria tão difícil guardar rancor a uma criança.
Assim passaram os meses e foi no outono, lembro-me, que ocorreu uma conversa que abriu novas perspetivas. Ela tinha-me estado a mostrar um abajur de pergaminho que tinha pintado. Havia um pavão com a cauda aberta e, enquanto ela segurava o abajur sobre a lâmpada, a luz brilhava através dele e transformava cada olho das penas numa joia cintilante. Rosalie usava um dos seus roupões púrpura e consigo vê-la agora, ao fechar os olhos, tão radiante e magnífica como algumas daquelas obras-primas inigualáveis no Palácio Pitti.
"Jim Crow", disse ela, "a seguir vou fazer um papagaio — todo vermelho e azul, com anéis brancos à volta dos olhos."
"Nunca farás nada melhor do que esse pavão."
"Não achas?" Ela deixou o abajur sobre a lâmpada e sentou-se. "Acham que vou pintar pavões e papagaios para o resto da minha vida, Jim Crow?"
"O que gostarias de fazer?", perguntei-lhe.
"Viajar." Ela estava ansiosa. "Sabes, nunca estive na Europa? O Perry costumava falar-me sobre isso — Botticelli e Rafael — e Miguel Ângelo —"
"Tivemos um grande momento", disse eu, lembrando-me de tudo — daquela busca ofegante pela beleza.
"Ele prometeu que um dia ele e eu iríamos — juntos."
"Pobre Perry!"
Ela levantou-se inquietamente.
"Oh, leva-me a algum lado, Jim Crow! Sinto como se esta pequena casa me fosse sufocar."
Fomos de carro ao clube de campo. Ela usava a cor que agora adotara, um pequeno chapéu justo e um vestido reto. As pessoas olhavam para ela. Acho que ela estava consciente da admiração delas e gostava.
Ela sorriu-me ao sentar-se à mesa. "Adoro vir sempre contigo, Jim Crow."
"Porquê?"
"Tu fazes as coisas tão bem e és um querido."
Não creio que tivesse a intenção de ser lisonja. Tenho a certeza de que ela o dizia a sério. Ela estava feliz por causa das luzes e da adorável sala antiga com a sua lareira cavernosa e os seus chintzes ingleses; e da sua felicidade ela falou.
Ela não podia, é claro, saber o efeito das suas palavras sobre mim. Ninguém me tinha chamado querido ou tinha pensado que eu fazia as coisas bem.
Ela costumava, também, dizer-me coisas sobre o meu aspeto. "Serias como um daqueles cavalheiros distintos de Vandyke se usasses um folho e deixasses os teus óculos."
Pergunto-me se sabem como parecia ter uma criança como aquela a dizer tais coisas. Pois ela era mais do que uma criança, era uma mulher bela, e tudo o que a rodeava era belo. E tinham havido muitos anos cinzentos antes de conhecer Perry e antes do dinheiro chegar, o que tornou possível uma vida agradável.
"Gosto de ti porque és forte", foi outro dos seus tributos.
"Como sabes que sou forte?"
"Bem, tens esse aspeto. E não muitos homens teriam conseguido carregar-me tão facilmente escadas acima."
Ela tinha torcido o tornozelo ao sair do meu carro na noite em que tínhamos jantado no clube de campo. Ela usava chinelos de salto alto e tinha pisado uma pedra.
Foi nessa noite que enfrentei pela primeira vez o facto de que gostava dela. Nos meus braços, ela agarrou-se a mim como uma criança, o seu cabelo roçou a minha face, havia o perfume de violetas.
Eu não queria gostar dela. Lembrei-me de Perry — o pão torrado queimado que parecia marcar o início da sua tragédia — aqueles últimos dias terríveis. Eu sabia que o destino de Perry não seria o meu; não haveria necessidade de vender pão para comprar jacintos. Havia dinheiro suficiente e de sobra, dinheiro para a deixar viver no usufruto das coisas que desejava; dinheiro suficiente para — viajar.
Quanto mais pensava nisso, mais ficava retido pelo pensamento do que tal viagem significaria para mim. Seria como aquela peregrinação com o jovem Perry. Haveria o mesmo interesse apaixonado — haveria mais do que isso — haveria juventude e beleza — tudo meu.
Sentia que estava louco ao pensar naquilo. Contudo, ela fazia-me pensar nisso. Era o que ela queria. Ela não era, de forma alguma, pouco feminina, mas era muito moderna na sua expressão franca do prazer que sentia na minha companhia.
"Oh, o que seria de mim sem ti, Jim Crow?", era a forma como ela o punha.
Senti-me jovem nos meus meses de associação com ela. Eu tinha dançado um pouco nos meus tempos de faculdade, mas tinha desistido. Ela ensinou-me os novos passos — e ligávamos a fonola e tirávamos os tapetes.
Quando me tornei perito, dançámos juntos no clube de campo e em alguns dos locais elegantes do centro da cidade. Foi tudo muito delicioso. Decidi que me casaria com ela.
Planejei pedir a mão dela na véspera de Natal. Tinha um presente para ela, uma esmeralda engastada em prata antiga com pequenas pérolas. Estava pendurada numa fita preta, e eu podia imaginá-la a brilhar contra o fundo da sua túnica de veludo. Levei flores também, e um livro. Estava ansioso com a expectativa. Os anos pareciam cair-me de cima. Eu era um rapaz de vinte anos a caminho de encontrar a senhora do meu primeiro romance.
Quando cheguei ao bungalow, descobri que Rosalie tinha consigo a velha tia-avó e o tio que estavam com ela quando nos conhecemos em Maine. Tinham vindo para o Natal inesperadamente, antecipando uma receção calorosa, felizes com o seu sentido de surpresa.
Rosalie, quando tivemos um momento a sós, expressou o seu desânimo.
"Eles vão ficar até amanhã à noite, Jim Crow. E eu não planeei nenhum jantar de Natal."
"Levamo-los ao clube de campo."
"Como és celestial por pensares nisso!"
Dei-lhe as flores e o livro. Mas guardei a joia para o momento sublime em que lhe pedisse um presente maior em troca.
Mas o momento sublime não chegou naquela noite. O velho tio e a tia ficaram acordados connosco. Tinham muito sobre o que conversar. Eram um par confortável — de cabelos prateados e felizes um com o outro — caminhando para o fim da jornada de mãos dadas.
O velho senhor foi até à porta comigo quando saí, e ficámos por um momento sob as estrelas.
"A mãe e eu sentimos falta de pendurar as meias para as crianças", disse ele.
"Eram muitas crianças?"
"Três. Duas falecidas e uma casada, lá para o Oeste. Rosalie parecia a mais próxima que tínhamos, e foi por isso que viemos. Pensei que a mãe pudesse estar solitária na nossa casa grande e antiga."
No dia seguinte, no clube de campo, o velho cavalheiro estava jovial, mas ligeiramente falador. A velha senhora falou sobre os seus filhos e as suas memórias de Natal. Vi que Rosalie estava francamente aborrecida.
Quanto a mim, estava impaciente pelo meu momento sublime.
Mas creio que proporcionei aos velhinhos um bom momento e que não notaram nada no meu comportamento. E, de facto, creio que não notaram nada no de Rosalie. Eles tinham a complacência gentil dos idosos que se banham no seu próprio contentamento.
Foi perto do fim do jantar que apanhei um olhar nos olhos de Rosalie que quase fez o meu coração parar de bater. Não o via desde a morte de Perry. Vira-o pela primeira vez quando ela estava à porta do quarto dele, na noite em que o aconcheguei na cama e lhe dei as ostras quentes. Era aquele olhar de desagrado — aquele delicado encolher de ombros perante um espetáculo desagradável.
Seguindo o seu olhar, vi que o velho cavalheiro tinha afundado na cadeira e estava a cabecear suavemente. A sua esposa inclinou-se na minha direção.
"Milton sempre faz uma sesta depois das refeições", disse ela, sorrindo. E eu sorri de volta; ela era tão rosada e redonda e totalmente confortável.
Rosalie e eu fomos com eles até ao comboio, e foi enquanto conduzíamos de volta que falei deles.
"Eles são uns queridos, não são?"
Rosalie foi veemente. "Eu detesto pessoas velhas!"
Um arrepio atingiu os meus ossos. "Detestas? Porquê?"
"São... feias, Jim Crow. Viste como eles encolheram desde a última vez que os vi — e as veias nas suas mãos — e o crânio a notar-se através da testa dele?"
Ela tinha vinte e cinco anos, e eu tinha quase o dobro da sua idade. Quando eu fosse velho, ela ainda seria jovem — jovem o suficiente para ver o meu corpo encolhido e o crânio a notar-se!
O olhar que estivera nos seus olhos por Perry estaria, um dia, nos seus olhos por mim. E eu sabia que, se alguma vez o visse, isso matar-me-ia. Poderia não me matar fisicamente, mas murcharia como uma chama toda a alegria e esperança para sempre.
Quando chegámos ao bungalow, fiz um fogo, e Rosalie, deixando-me por um pouco, voltou com algo transparente e adorável em verde. Foi a primeira vez desde a morte de Perry que ela deixou as suas vestes púrpuras. Afundou-se numa cadeira grande em frente a mim e colocou os pés de chinelos prateados na almofada verde.
"Não é celestial estarmos sozinhos, Jim Crow?"
Era o momento sublime que eu tinha planeado, mas não conseguia agarrá-lo. Entre mim e a felicidade estava a sombra daquela outra Rosalie, encolhendo-se perante mim quando eu fosse velho, tal como se tinha encolhido perante Perry.
"Minha querida", disse eu, e não olhei para ela, "tenho pensado muito em ti."
O seu queixo estava apoiado na mão. "Eu sei."
Mas ela não sabia.
"Tenho pensado, Rosalie; e quero dar-te algo para o Natal que te faça feliz durante todo o ano."
"Tu és tão querido, Jim Crow."
"E pensei nisto — uma viagem à Europa. Deixar-me-ás fazê-lo, não deixarás? Haverá as galerias de arte, e podes ficar o tempo que quiseres."
Pude ver que ela estava intrigada. "Queres dizer que devo ir... sozinha?", perguntou ela lentamente.
"Pode haver alguém a ir. Vou descobrir."
Houve um silêncio mortal.
"Deixar-me-ás fazê-lo?", perguntei finalmente.
Ela veio até à minha cadeira e ficou a olhar para mim.
"Por que me envias sozinha, Jim Crow?"
Penso, então, que ela viu a angústia nos meus olhos. Ela caiu de joelhos ao lado da minha cadeira.
"Não quero ir sozinha, Jim Crow. Quero ficar... contigo."
* * * * *
Bem, a joia está no seu peito e um anel a condizer está no seu dedo. E quando a primavera chegar, partiremos para a Itália, para a França.
Talvez nunca voltemos. E vou dar a Rosalie toda a beleza que a vida pode conter para ela. De vez em quando ela sussurra que nunca conheceu o amor até eu lho ensinar. Que o que ela sentiu por Perry não passava do eco da necessidade que ele tinha dela.
"Mas eu percorreria as estradas lamacentas contigo, Jim Crow."
Pergunto-me se ela realmente quer dizer isso. Desejo com todo o meu coração que pudesse saber que é verdade. Nunca lhe contei os meus medos e acredito que posso fazê-la feliz. Tentarei não olhar muito além dos dias que teremos no Louvre, nos Uffizi e no Palácio Pitti. Procuraremos a beleza, e talvez eu possa ensiná-la a encontrá-la, antes que seja tarde demais, nas coisas que contam.
PETRONELLA
"Se amasses um homem, e soubesses que ele te amava, e ele não te pedisse em casamento, o que farias?"
O Almirante observou a sua sobrinha-neta pensativamente. "O que esperas fazer, minha querida?"
Petronella parou no degrau superior coberto de neve e olhou para baixo para ele. "Quem disse que eu tenho alguma coisa a ver com isso?", exigiu ela.
Os olhos velhos do Almirante brilharam. "Deixa-me entrar e conta-me sobre isso."
Petronella sorriu-lhe por cima do seu grande manguito. "Se prometeres não ficar depois das cinco, dou-te uma chávena de chá."
"Quem vem às cinco?"
A cor inflamou as faces de Petronella. No seu casaco branco e peles brancas, com o seu cabelo castanho varrido pelo vento, a sua beleza satisfez até a análise crítica do Almirante, e ele apressou-se a seguir a sua pergunta com a afirmação: "Claro que entrarei."
Petronella, sem o casaco, mostrava uma esbelteza realçada pelas linhas retas do seu vestido de lã branca, com mangas compridas debruadas a pele, e com pele no topo da gola alta e transparente. Usava o cabelo encaracolado sobre as orelhas e baixo na testa, o que fazia do seu rosto um pequeno e delicado oval. No grande hall, com um fogo a crepitar na lareira larga, ela distribuiu uma hospitalidade reconfortante ao adorador Almirante. E quando lhe deu o chá, sentou-se num banco aos seus pés. "Oh, sábio tio-avô", disse ela, "vou contar-te sobre o Homem!"
"Já alguma vez o vi?"
"Não. Conheci-o em Londres no ano passado, e... bem, sabes o que uma viagem para casa num navio significa, com todas as mulheres fechadas nas suas cabines, e com noites de luar, e ninguém no convés..."
"Então foi um caso de luar e proximidade?"
Após uma pausa: "Não, foi um caso do único homem no mundo para mim."
"Minha querida criança...!"
Após um longo silêncio, ela continuou: "Ele pensava que eu era pobre. Sabes como viajei discretamente com a Srta. Danvers. E ele não associou Nell Hewlett a Petronella Hewlett de Nova Iorque e Great Rock. E assim... bem, sabes, tio, ele deixou-se levar, e eu deixei-me levar, e então..."
Ela suspirou profundamente. "Quando desembarcámos, as coisas pararam. Ele tinha descoberto quem eu era, e escreveu-me um pequeno bilhete, e disse que nunca esqueceria a nossa amizade — e é... tudo."
Ela terminou de forma lúgubre, e o rude velho Almirante limpou a garganta. Havia algo de errado no esquema das coisas quando a sua Petronella não podia ter a lua se a quisesse!
"E o que posso fazer — o que pode qualquer mulher fazer?", exigiu Petronella, voltando-se para ele. "Não posso ir ter com ele e dizer: 'Por favor, casa comigo'. Nem sequer consigo pensar nisso"; as suas bochechas arderam. "E ele morreria antes de dizer mais uma palavra, e suponho que agora continuaremos a envelhecer, e eu ficarei cada vez mais magra, e ele cada vez mais gordo, e eu serei uma solteirona, e ele casará com alguma mulher que seja pobre o suficiente para satisfazer o seu orgulho, e... bem, esse será o fim, tio."
"O fim?", disse o cavalheiro que outrora comandara um esquadrão. "Bem, acho que não, Petronella, se o queres. Oh, o homem é um tolo!"
"Ele não é um tolo, tio." As faíscas nos olhos de Petronella correspondiam às faíscas nos olhos do Almirante.
"Bem, se ele é digno de ti..."
Petronella encostou a bochecha à mão dele. "A questão não é", disse ela, fracamente, "a sua dignidade, mas a minha, querido tio."
Mudamente, o Almirante olhou para aquela cabeça pendente. Poderia ser esta Petronella — confiante, imperiosa, a filha de uma raça confiante e imperiosa?
Ele refugiou-se na pergunta: "Mas quem vem às cinco?"
"Ele vem. Ele está de passagem por Boston a caminho de visitar a mãe em Maine. Pedi-lhe que viesse. Disse-lhe que estava aqui à beira-mar e que pretendia passar o Natal em Great Rock porque tu estavas aqui, e porque esta era a casa onde vivia quando era pequena, e que queria que ele a visse; e... disse-lhe a verdade, tio."
"A verdade?"
"Que sentia a falta dele. Isso era tudo o que me atrevia a dizer, e gostava que tivesses lido o seu bilhete de assentimento. Uma coisa tão rígida. Fez-me voltar para dentro de mim mesma, e desejei não lhe ter escrito — desejei que ele não viesse. Oh, tio, se eu fosse um homem, daria a uma mulher o direito de escolher. É essa a razão pela qual existem tantos casamentos infelizes. Nove homens errados pedem uma mulher, e o décimo, o certo, não o faz. E, finalmente, ela cansa-se de esperar pelo décimo certo e casa com um dos nove errados."
"Existem mulheres hoje", disse o Almirante, "que estão a pregar o direito de uma mulher propor."
Petronella olhou-o pensativamente. "Eu poderia pregar uma doutrina como essa — mas não a poderia praticar. É fácil dizer a outra mulher: 'Pede-o', mas é diferente quando tu és a mulher."
"Contudo, se ele te pedisse", sugeriu o Almirante, "o mundo poderia dizer que ele queria o teu dinheiro."
"Por que nos haveríamos de importar com o que o mundo diria?" Petronella estava de pé agora, defendendo a sua causa vigorosamente. "Por que nos haveríamos de importar? Bem, é o nosso amor contra o mundo, tio! Por que nos haveríamos de importar?"
O Almirante levantou-se também e caminhou pelo tapete como em tempos passados caminhara pelos conveses. "Deve haver alguma saída", disse ele por fim, e parou subitamente. "Suponho que falarei com ele..."
"E estragar tudo! Oh, tio!" Petronella sacudiu-o pelas lapas do seu casaco azul. "Um homem nunca sabe como uma mulher se sente sobre tais coisas. Nem tu sabes, seu velho querido. E agora, por favor, vai; e leva isto porque eu te amo", e ela beijou-o numa face, "e isto porque são quinze para as cinco e terás de te apressar", e ela beijou-o na outra face.
O Almirante, sendo ajudado a vestir a sua grande capa no hall, chamou de volta: "Esqueci-me de te dar o teu presente de Natal", e produziu um pequeno pacote.
"Vem aqui e deixa-me abri-lo", insistiu Petronella. E o Almirante, sem um olhar para o relógio acusador, voltou. E assim aconteceu que ele estava lá para conhecer o Homem.
Deve confessar-se que o Almirante sofreu um choque distinto quando foi apresentado ao herói do romance de Petronella. Aqui não estava um jovem cortês do tipo da linhagem militar da família de Petronella, mas um jovem gigante musculoso de porte dominador. Os homens Hewlett comandaram homens; podia ver-se num relance que Justin Hare também tinha comandado mulheres. Isto, decidiu o sábio velho Almirante de imediato, foi o que atraiu Petronella — Petronella, que se impusera contra todas as invasões masculinas, e que estava com o coração livre aos vinte e cinco anos!
"Olha o que este querido tio me deu", disse Petronella, e ergueu para admiração do jovem cirurgião um colar de pérolas com um fecho de safira. "Pertenceram à minha tia-avó. Fui nomeada em sua homenagem, e o tio diz que me pareço com ela."
"Tens os olhos dela, minha querida, e alguns dos seus modos. Mas ela era menos independente. No seu tempo, as mulheres apoiavam-se mais, por assim dizer, na força do homem."
Justin Hare olhou para elas com interesse — para a rapariga esguia no seu vestido branco, para o velho alto e direito com o seu ar de comando.
"As mulheres nos dias de hoje não se apoiam", disse ele, com decisão; "elas lideram."
Uma faísca surgiu nos olhos de Petronella. "E gostas mais do tipo moderno?", desafiou ela.
Ele respondeu com uma franqueza sorridente: "Gosto de ti."
O Almirante ficou satisfeito com aquilo, embora ainda estivesse perturbado pela diferença deste homem em relação aos homens da sua própria raça. Contudo, se por trás daquela franqueza honesta houvesse um coração que a consagrasse — bem, isso era tudo o que ele pediria para esta mais querida das raparigas.
Ele olhou para o relógio e falou apressadamente: "Tenho de ir, minha querida; já passa muito das cinco."
"Tens mesmo de ir?", perguntou a mentirosa Petronella.
Uma hora depois, ela estava sozinha. A visita fora um fracasso. Ela admitiu isso, enquanto olhava com uma espécie de desânimo agonizado pela janela larga para onde o mar era agitado pela violência do vendaval de nordeste. A neve viera com o vento, bloqueando a vista dos grandes hotéis vazios na Ponta, bloqueando, também, a estrela dourada da esperança que brilhava do topo do farol.
Petronella afastou-se da cena vazia com um pequeno estremecimento. Assim tinha Justin Hare a bloqueado da sua vida. Ele falara da sua mãe em Maine, dos seus planos hospitalares para o inverno, mas nem uma palavra dissera sobre aquelas noites de luar em que, de forma dominadora, a influenciara pela força da sua própria paixão, a cortejara, a conquistara.
E agora não havia nada que ela pudesse fazer. Nunca havia nada que uma mulher pudesse fazer! E por isso ela tinha de suportar. Oh, se ela pudesse suportar!
Um pouco mais tarde, quando uma criada entrou para acender as velas, Petronella disse das sombras: "Quando Jenkins for aos correios, tenho um pacote para o correio."
"Ele já foi, menina, e não haverá comboio a sair esta noite; a neve parou os comboios."
"Nenhum comboio!" A princípio, o comentário teve pouco significado, mas finalmente o facto bateu contra o seu cérebro. Se o único comboio noturno não podia sair, então Justin Hare tinha de ficar na cidade, e teria de ficar até à manhã de Natal!
Petronella foi imediatamente ao telefone e ligou para o único hotel que estava aberto naquela estação. Pouco depois, ela tinha Hare do outro lado da linha.
"Tens de vir jantar a minha casa", disse ela. "Jenkins contou-me sobre o teu comboio. Por favor, não te vistas formalmente — estaremos apenas a Srta. Danvers e o tio; e tu vais ajudar-me a enfeitar a minha pequena árvore."
Embora ela lhe dissesse para não se vestir formalmente, ela trocou o seu vestido por um de veludo verde opaco, feito com as linhas simples da lã branca que usara durante a tarde. O decote quadrado era emoldurado por uma gola de ponto de Veneza, e havia um alfinete antigo e estranho de pérolas.
O Almirante, chegando cedo, exigiu: "Minha querida, o que é isto? Eu estava apenas a sentar-me para pão e leite e um punhado de passas, e agora tenho de jantar em seis pratos, e beber café, o que me manterá acordado."
Ela encostou a face ao braço dele. "O comboio do Sr. Hare não pôde sair da cidade por causa da neve."
"E ele vem?"
"Sim."
"Mas e quanto a esta tarde, minha querida?"
Ela deslizou a sua mão para a dele, e ficaram a olhar para o fogo. "Foi terrível, tio. Tive a sensação de que o obriguei a vir — contra a sua vontade."
"Contudo, pediste-lhe que viesse novamente esta noite?"
Ela estremeceu um pouco, e a sua mão estava fria. "Talvez me arrependa — mas oh, tio, não posso ter por esta noite a alegria da sua presença? E se amanhã o meu coração morrer..."
"Nella, minha querida criança..."
A Petronella do próprio Almirante nunca tinha recorrido desta forma às suas emoções. Ela tinha sido gentil, talvez um pouco fria. Mas, afinal, ele sempre adorara no seu altar. Talvez uma mulher a quem é negado o saber que anseia, aprenda o valor dele. Seja como for, ali nos seus braços estava a coisa mais querida da sua vida solitária, soluçando como se o coração lhe fosse partir.
Quando Justin chegou, meia hora depois, encontrou-os ainda em frente ao fogo no grande hall, e, ao levantar-se para o receber, ele viu que Petronella estivera sentada num banco aos pés do seu tio.
"Quando eu era pequena", explicou ela, quando Hare se sentou numa cadeira junto à lareira e ela escolheu outra com um espaldar alto e esculpido, na qual se sentou com os tornozelos sedosos cruzados e as pontas dos seus chinelos a descansar sobre uma pele de leopardo que o Almirante trouxera da Índia — "quando eu era pequena, passávamos sempre a véspera de Natal nesta casa à beira-mar em vez de na cidade. Estávamos todos aqui então — mãe e pai e a querida tia Pet, e pendurávamos as meias exatamente nesta lareira — e agora não há ninguém além da Srta. Danvers e eu, e o tio, que vive lá no alto, na sua casa grande do outro lado do caminho, onde ele tem uma torre de vigia. Sinto-me sempre como se estivesse a chamar por ele quando vou lá: 'Oh, Anne, Irmã Anne, vês alguém a chegar?'"
Ela falava nervosamente, com as bochechas brancas como um lírio, mas com os olhos a brilhar. O Almirante olhou para Hare. O jovem estava a bebericar a sua beleza. Mas subitamente ele franziu o sobrolho e desviou os olhos.
"Foi muito bom da tua parte convidares-me", disse ele, formalmente.
Isso acalmou Petronella. A sua autoconsciência nervosa desapareceu, e ela foi de imediato a anfitriã graciosa e impessoal.
O Almirante brilhava de orgulho dela. "Ela vai conseguir", disse para si mesmo; "está-lhe no sangue."
"O jantar está servido", anunciou Jenkins da porta, e então a Srta. Danvers desceu e cumprimentou Justin, e todos saíram juntos.
Havia azevinho para centro de mesa, e quatro velas vermelhas em suportes de prata. A mesa era de mogno ricamente esculpido, e o Almirante, seguindo um velho costume, serviu a sopa de uma sopeira de prata, sustentada por quatro gordos cupidos. Do largo arco que conduzia ao grande hall estava pendurado um ramo de visco; além do arco, o fogo crepitante criava um fundo de luz dourada e cintilante.
Para o jovem cirurgião, parecia uma cena de conto de fadas, flamejante com a cor e o brilho de uma vida que ele jamais conhecera. Vivera tanto tempo cercado pelas paredes nuas e vazias de um hospital. Até o vestido verde-suave de Petronella parecia feito de algum tecido místico que nada tinha em comum com a frescura branca ou azulada e engomada dos uniformes das enfermeiras.
Conversaram sobre muitas coisas, cobrindo com suas banalidades a tensão da situação. Então, subitamente, a conversa tomou um rumo significativo.
"Adoro estas noites de tempestade", dissera Petronella, "com a neve soprando, e o vento, e a casa toda quente e iluminada."
"Pense nos pobres marinheiros no mar", lembrou-lhe Hare.
"Por favor, não quero pensar neles. Fizemos o nosso melhor por eles, o tio e eu. Abrimos uma sala de leitura perto das docas, para que todos os que estão em terra possam ter sopa, café e sanduíches, e há um fogão grande, jornais e revistas."
"Você distribui caridade?"
"Por que não?", perguntou ela, com confiança. "Temos o suficiente, por que não deveríamos dar?"
"Porque receber tira-lhes a masculinidade."
O Almirante falou sem rodeios. "Os homens não sentem dessa maneira. Esta caridade, como você a chama, é um memorial à minha esposa. Os avós desses rapazes costumavam ver a luz dela na janela da casa antiga nas noites de tempestade, e sabiam que era um convite para o bom ânimo. Mais de uma tripulação que chegava meio congelada alegrava-se com a sopa e o café que lhes eram enviados em latas, com cestas de pão. E esta pequena sala de café foi o resultado dessa hospitalidade. Há homens demais para receber em minha casa. Eu simplesmente os entretenho em outro lugar, e gosto de ir lá conversar com eles, e às vezes Petronella vai também."
"Há um retrato da querida tia Pet pendurado lá", disse Petronella, "e você não pode imaginar como isso suaviza as maneiras dos homens. É como se o espírito dela pairasse sobre o lugar. Eles transformaram aquilo em uma espécie de santuário, e trazem conchas e objetos esculpidos estranhos para colocar na prateleira abaixo dele."
"Na cidade, estamos começando a pensar que tais métodos enfraquecem o autorrespeito."
"Isso é porque", disse o sábio e velho Almirante, "na cidade não existe democracia real. Você dá a um amigo uma xícara de café e não pensa nada a respeito; no entanto, quando dou uma xícara de café a um marinheiro cujos avós e os meus pescaram juntos nos bancos de areia, você me avisa que meus métodos tendem a pauperizar. Na cidade, os pobres nunca são seus amigos; nesta pequena cidade, nenhum homem admitiria ser menos que eu. Eles gostam do meu café e o bebem."
Petronella, vendo sua chance, aproveitou-a. "Acho as pessoas horríveis por deixarem que o dinheiro faça diferença."
"Você diz isso", disse Hare, "porque nunca teve de aceitar favores; você, em outras palavras, nunca esteve do outro lado."
O Almirante, defendendo a sobrinha, respondeu: "Se ela tivesse estado do outro lado, teria encarado a vida como a encara agora, como um cavalheiro e um soldado", e sorriu para Petronella.
Hare teve a sensação confusa de que o Almirante estava certo; de que a fineza e a delicadeza de Petronella nunca sucumbiriam à derrota ou ao desespero. Ela manteria a cabeça erguida mesmo que os céus caíssem. Mas poderia algum homem fazer tais exigências a ela? Por si próprio, ele não faria.
Então ele respondeu, obstinado: "Esperaremos que ela nunca precise ser testada." E o coração de Petronella afundou como chumbo.
Mas, pouco depois, ela começou a falar sobre a pequena árvore. "Sempre a tivemos na torre de observação do tio. Esse era outro dos pensamentos da querida tia Pet para os marinheiros. Nas noites claras, eles olhavam através de seus binóculos para as pequenas luzes coloridas, e nas noites de tempestade sabiam que, por trás de toda a neve, havia o brilho do Natal."
"Eu nunca tive uma árvore", disse Justin. "Quando eu era pequeno, tivemos tempos bem difíceis, e o melhor Natal de que me lembro foi aquele em que a mamãe nos fez, a nós meninos, montar uma prateleira para nossos livros, e ela começou nossa coleção com 'A Ilha do Tesouro' e 'Huckleberry Finn'."
No cômodo adjacente, os volumes iam do chão ao teto, de ponta a ponta. Petronella teve uma visão desse gigante jovem e vívido deliciando-se com seus dois livros em uma prateleira rude. E, em toda a sua vida, ela tivera as coisas que queria! De alguma forma, o pensamento tirou o amargor de sua atitude em relação a ele. Quão forte ele devia ser para negar a si mesmo, agora, a única grande coisa que ansiava, quando sua vida tivera tão pouco.
"Que adorável começar com apenas esses dois livros", disse ela suavemente, e o brilho de seu sorriso era deslumbrante.
Quando ela lhe mostrou seus presentes, ela ainda estava radiante. Havia uma estranha bolsa de ópera em bordado chinês, com alças de jade; uma tigela de Damasco em latão perfurado; um pote de chá em um peculiar repuxado holandês; havia uma toalha de altar bordada em prata para servir de almofada, um pedaço de faiança de Copenhague, toda a arte sofisticada que é enviada àqueles que não precisam do lugar-comum. Havia joias também: uma pulseira de topázios cercada por brilhantes, um par de fivelas de sapato de turquesas incrustadas em prata, um anel de safiras para o dedo mínimo, um pingente de sementes de pérola.
À medida que ela abria os pacotes e exibia suas riquezas, Justin sentia-se confuso. Seus presentes para a mãe incluíam geralmente luvas e um cheque generoso; se ele tivesse se aventurado a escolher algo para Petronella, não teria ousado ir além de uma caixa de bombons ou um livro; ele dera às suas enfermeiras carteiras e lenços. E os homens do mundo de Petronella presenteavam-na com tigelas de latão e potes de chá!
A Srta. Danvers desapareceu escada acima. O Almirante, tendo admirado, escapuliu para a biblioteca, encorajado pelo sussurro de Petronella: "Oh, tio querido, deixe-nos a sós por apenas um minutinho. Encontrei um jeito!"
Então Petronella, com aquele brilho ainda sobre ela, sentou-se em seu pequeno banco diante da lareira e olhou para Justin do outro lado da lareira.
"Você não me deu nada", começou ela, em tom de censura.
"O que eu poderia dar que se comparasse a isto?" Sua mão gesticulou em direção à exibição requintada. "O que eu poderia dar..."
"Existe uma coisa", disse ela suavemente.
"O quê?"
"Aquela cópia de 'A Ilha do Tesouro' que sua mãe lhe deu há muito tempo."
Silêncio mortal. Então, de forma instável: "Por que você iria querer isso?"
"Porque sua mãe... amava você."
Novamente silêncio mortal. Hare não olhou para ela. Sua mão apertou o braço da poltrona. Seu rosto estava branco. Então, muito baixo: "Por que você... torna tudo difícil para mim?"
"Porque eu quero... o livro"; ela estava sorrindo para ele com os olhos como estrelas. "Quero lê-lo com os olhos do garotinho; com os olhos do garotinho que olhou para o futuro e viu a vida como uma grande aventura; que olhou para o futuro... e sonhou."
Ele teve uma visão, também, daquele garotinho, lendo, na casa antiga nos bosques do Maine, à luz de uma lâmpada a óleo, na véspera de Natal, com a neve soprando lá fora como soprava esta noite.
"E sua mãe amava você porque ela amava seu pai", a voz da moça continuou, "e vocês eram todos muito felizes lá em cima na floresta. Lembra-se de que você me contou sobre isso no navio? Você era feliz, embora fosse pobre e não tivesse livros além de 'A Ilha do Tesouro' e 'Huckleberry Finn'. Mas sua mãe era feliz... porque ela... amava seu pai."
Ao repetir, ela inclinou-se para frente. "Você conseguiria pensar em sua mãe como tendo sido feliz com qualquer outra pessoa que não fosse seu pai?", perguntou ela. "Conseguiria pensar nela como nunca tendo se casado com ele, como tendo passado o resto de seus dias como uma meia-mulher, porque ele não quis... levá-la... para dentro de sua vida? Pode pensar que todo o dinheiro do mundo... todo o dinheiro do mundo inteiro... teria... teria compensado..."
O cômodo pareceu escurecer. Hare estava consciente de que o rosto dela estava escondido nas mãos, de que ele tropeçou em direção a ela, de que se ajoelhou ao lado dela, de que ela estava em seus braços.
"Silêncio", ele dizia naquela escuridão pulsante de emoção. "Silêncio, não chore... eu... eu nunca deixarei você ir..."
Quando a tempestade se dissipou e quando, finalmente, ela encontrou seu longo olhar, ele sussurrou: "Não tenho certeza agora de que seja o certo..."
"Você terá certeza à medida que os anos passarem", ela sussurrou de volta; então, trêmula: "mas eu... eu nunca poderia ter... falado daquele jeito se eu tivesse pensado em você como o homem. Eu tive que pensar em você como o garotinho... que sonhava."
A CAMA COM DOSEL
"Meu bisavô dormiu nela", Van Alen disse à zeladora, enquanto ela o conduzia para o grande e abafado quarto.
A velha mulher pousou seu castiçal sobre a cômoda peculiar. "Ele devia ser um homem pequeno", disse ela; "nenhum dos meus filhos poderia dormir nela. Seus pés ficariam para fora."
Van Alen observou a cama grande com curiosidade. Durante toda a sua vida ouvira falar dela, e agora viajara longe para vê-la. Era uma estrutura pesada de grande largura e de comprimento estranhamente desproporcional. E a colcha e o dossel eram de chita cor-de-rosa.
"Acho que caberei nela", disse ele lentamente.
O olhar crítico da Sra. Brand pesou sua pequenez, sua imaculabilidade, sua diferença em relação aos seus próprios filhos grandes.
"Sim", disse ela, com a rudeza aberta da gente do campo; "sim, você não é muito grande."
Van Alen estremeceu. Mesmo dos lábios daquela mulher grosseira, a verdade atingiu com força. Mas ele levou o assunto adiante com a leveza de um homem do mundo.
"Meu avô mandou serrar a cama até o seu próprio comprimento", explicou ele; "você já ouviu a história?"
"Não", disse ela; "não estou aqui há muito tempo. Mantiveram a casa fechada até este ano."
"Bem, eu lhe contarei quando eu descer", e Van Alen abriu sua mala com uma finalidade que enviou a velha mulher para a porta.
"O jantar está pronto", disse ela a ele, "quando você estiver."
À mesa de jantar, os quatro filhos grandes pairavam acima de Van Alen. Eles comiam com apetites de gigantes, e tinham modos grandiosos e risadas fartas que pareciam tornar seu hóspede insignificante.
Mas a insignificância era apenas corporal, pois Van Alen, vindo diretamente do mundo exterior e um bom conversador a todo momento, dominou a mesa conversacionalmente.
Para o que ele tinha a dizer, os homens ouviam ansiosamente, e a moça que servia a mesa ouvia.
Ela era uma personalidade vívida, com cabelos polidos, bochechas flamejantes, olhos como o mar. Suas mãos, enquanto passava os biscoitos, eram brancas, e os dedos terminavam delicadamente em pequenas pontas. Van Alen, notando essas coisas agudamente, sabia que ela não pertencia àquele lugar e perguntou-se como ela viera parar ali.
Ao fim da refeição, ele contou a história da Cama com Dosel.
"Meu bisavô era um homem pequeno e muito sensível quanto à sua altura. Nos dias de sua juventude, passava muito tempo criando maneiras de enganar as pessoas para que pensassem que ele era mais alto. Cercou-se de coisas grandes, mandou fazer uma cama grande, usava botas de salto alto, e a copa de seu chapéu era tão alta que ele quase perdia o equilíbrio.
"Mas, apesar disso, ele era um homem pequeno entre os homens robustos de sua geração, e se não fosse pela Revolução, creio que teria morrido praguejando contra o destino. Mas a guerra trouxe-lhe oportunidade. Meu pequeno bisavô lutou nela, e ganhou grandes honras, e voltou direto para casa e mandou serrar a cama! Ele queria que as gerações futuras vissem o que um homem pequeno poderia fazer, e seu testamento determinou que esta casa não deveria ser vendida, e que, quando seus filhos e netos tivessem se mostrado dignos dela por alguma conquista, eles deveriam vir aqui e dormir. Acho que ele se gabou um pouco quando escreveu aquele testamento, e colocou seus descendentes em uma posição embaraçosa. Nunca poderemos dormir na cama com dossel sem assumir mais do que a modéstia permite!"
Ele riu, e instintivamente seus olhos buscaram os da moça que servia a mesa. De alguma forma, ele sentiu que ela era a única que poderia entender.
Ela o confrontou com uma pergunta: "O que você fez?"
"Eu escrevi um livro", disse ele a ela.
Ela balançou a cabeça, e havia pequenas faíscas de luz em seus olhos. "Não acredito que fosse isso que seu avô queria dizer", disse ela lentamente.
Eles olhavam para ela; três dos irmãos com suas facas e garfos levantados, o quarto, um jovem titânico e loiro, com os cotovelos na mesa, o rosto voltado para ela, como para o sol.
"Não acredito que ele quisesse dizer algo feito com o seu cérebro, mas algo fino, heroico..." Havia um toque de desprezo em sua voz.
Van Alen corou. Ele estava vindo diretamente da adulação de seu mundo de livros.
"Eu não deveria ter vindo", explicou ele, desconfortável, "se minha mãe não desejasse que eu preservasse a tradição da família."
"É uma grande coisa escrever um livro" — ela estava inclinada para frente, inflamada de interesse — "mas não acredito que ele quisesse dizer apenas isso..."
Ele riu. "Então eu não devo dormir na cama com dossel?"
A moça riu também. "Não, a menos que você queira ser assombrado pelo fantasma dele."
Com um olhar cintilante para trás, ela foi para a cozinha, e Van Alen, acendendo um cigarro, começou a explorar a casa antiga.
Exceto pela ala ocupada pela zeladora, nada fora perturbado desde que a família, buscando novas fortunas na cidade, deixara a propriedade antiga para decair entre os campos desolados que rendiam agora uma subsistência magra para a Sra. Brand e seus quatro filhos robustos.
No salão antigo, onde a mobília ancestral mostrava formas fantasmagóricas na penumbra, e o ar morto parecia o de um túmulo, Van Alen encontrou um retrato de seu bisavô.
O homem pequeno fora pintado sem lisonja. Lá estava ele sentado... liliputiano sobre o grande corcel! Naquele momento, Van Alen odiou-o; aquele Polegar de outra era, fundador de uma raça pigmeia que, por seu testamento arrogante, trouxera naquela noite, sobre um de seus descendentes, o desprezo de uma mulher.
E, mesmo enquanto ele pensava nela, ela entrou, com o brilho amarelo de uma vela iluminando seu rosto vívido.
"Pensei que você pudesse precisar de luz", disse ela; "escurece tão cedo."
Ao pegar a vela dela, ele disse bruscamente: "Não vou dormir na cama com dossel; há um sofá no quarto."
"Oh", seu tom foi de surpresa, "você não deveria ter levado tudo o que eu disse a sério."
"Mas você quis dizer, não quis?"
"De certa forma, sim. Estive aqui tantas vezes e olhei para o retrato de seu avô. Ele era um grande homem pequeno; você pode notar pelos olhos dele, parecem falar às vezes."
"Para você?"
"Sim. De como ele odiava ser pequeno, e de como triunfou quando a fama finalmente chegou."
"Eu odeio ser pequeno..."
Foi a primeira vez que ele admitiu isso. Mesmo quando era um menino bem pequeno, ele sempre fingia, vangloriando-se de suas conquistas mentais e menosprezando a fraqueza de seu corpo atrofiado.
"Eu sei", ela fechara a porta da cozinha atrás de si, e eles estavam sozinhos no corredor, "eu sei. Todo homem deve querer ser grande."
Ela era apenas a moça que servia a mesa, mas, enquanto ela estava ali, olhando para ele com olhos luminosos, ele queimava com um ressentimento surdo, invejando o rapaz loiro que se esparramara na cabeceira da mesa de jantar. Afinal, era para um homem como Otto Brand que aquela mulher um dia se voltaria.
Ele falou quase rudemente: "Tamanho não é tudo." Ela corou. "Como você deve me achar rude", disse ela; "mas eu estava tão interessada em dissecar seu avô que me esqueci... de você..."
Van Alen foi movido por um impulso que não pôde controlar, um impulso primitivo que não estava em conformidade com sua repressão habitual.
"Sinto-me tentado a fazer com que você se lembre de mim", disse ele lentamente, e depois disso houve um silêncio assustado. E então ela foi embora.
Ao passar pela sala de estar a caminho do andar de cima, ele olhou para dentro e falou com Otto Brand.
Mais do que qualquer um dos outros irmãos, Otto tipificava força e beleza, mas em seus olhos nunca havia um sonho, seu cérebro não dominara nada. Ele estava brincando preguiçosamente com o gato amarelo, mas parou com a pergunta de Van Alen.
"O bisavô dela e o seu eram vizinhos", disse o rapaz, com as bochechas corando; "eles possuem a fazenda vizinha."
"Os Wetherells?", Van Alen perguntou.
O rapaz assentiu. "Eles não têm um centavo. São ricos em terras, mas pobres em dinheiro. É por isso que ela está aqui. Mas ela não precisa trabalhar."
"Por que não?"
"Há muitos que querem se casar com ela por aqui", foi o resumo autoconsciente do rapaz.
Com uma sensação de revolta, Van Alen deixou-o e, desvestindo-se no quarto com a cama com dossel, ele invocou vagamente a visão de uma menininha que os visitara na cidade. Ela tinha olhos verdes, sardas e cabelos ruivos. Além disso, ela não causara impressão em sua ingenuidade. E o nome dela era Mazie Wetherell.
Ele se jogou no sofá, e os ventos noturnos, entrando pela janela aberta, agitaram as cortinas da cama com dossel com o toque leve de uma mão fantasmagórica.
Então vieram os sonhos, e através deles corria o fio de sua esperança de ver Mazie Wetherell pela manhã.
Mas mesmo com tal preparação, a beleza dela pareceu atingi-lo de surpresa quando ele a viu no café da manhã. E novamente ao meio-dia, e novamente à noite. Mas foi apenas no terceiro dia que ele a viu sozinha.
Durante todo aquele dia ele explorara a extensão e a largura da propriedade da família, achando-a estéril, descobrindo que a população da pequena aldeia em sua borda diminuíra para um mero punhado de retardatários, descobrindo que não havia advogado num raio de quilômetros e apenas um médico; ganhando uma impressão final de que, lá atrás, nas colinas, os homens não viriam mais onde antes haviam se reunido.
Já era quase noite quando ele seguiu uma estrada marrom e sulcada que levava para o oeste. Acima da linha sombria do horizonte, o sol pendia, um disco de ouro vermelho. Havia outros vermelhos, também, ao longo do caminho; o sumagre flamejante em escarlate contra os trilhos cinzentos da cerca; a roseira brava, manchada de carmesim com bagas; a trepadeira, agarrando-se com dedos avermelhados a troncos de árvores mortas; as folhas de bordo rosadas com as primeiras geadas.
E, nessa vivacidade, entrou a moça que servia a mesa, e suas bochechas flamejantes e cabelo cor de cobre pareciam desafiar o brilho da paisagem de outono.
Ela teria passado por ele com um aceno, mas ele a deteve.
"Você não deve fugir, Mazie Wetherell", disse ele; "você costumava me tratar melhor do que isso quando era uma menininha."
Ela riu. "Você se lembra das minhas sardas e do cabelo ruivo?"
"Lembro-me de suas maneiras adoráveis."
"Eu tinha que ter maneiras agradáveis. Apenas crianças bonitas podem se dar ao luxo de serem más."
"E mulheres bonitas?", perguntou ele, com os olhos na cor que ia e vinha.
Ela lançou as mãos em um gesto de protesto. "Eu vi tão poucas."
Seus lábios abriram-se para falar-lhe de sua própria beleza, mas algo o conteve, alguma percepção de dignidade virginal que a envolvia e a tornava mais do que a moça que servia a mesa.
"Você era um menino educado", lembrou ela, preenchendo a lacuna feita por seu silêncio. "Lembro-me de que você me carregou do outro lado da rua, para salvar meus sapatos da umidade. Achei você maravilhoso. Nunca esqueci."
Nem Van Alen esquecera. Fora um grande feito para sua pouca força. Havia outros meninos lá, meninos maiores, mas ele se oferecera e fora salvo da humilhação pela esbelteza juvenil dela e pelo peso de uma pena.
"Eu era um garotinho forte então", foi seu comentário; "sou um garotinho forte agora."
Ela voltou para ele olhos de reprovação. "Por que você sempre insiste nisso?", perguntou ela.
"Em quê?"
"No seu tamanho. Você distorce tudo, transforma tudo, para que voltemos a isso."
Ele tentou responder levemente, mas sua voz tremeu. "Talvez seja porque, na sua presença, desejo mais do que nunca a estatura plena de um homem."
Ele falava com uma seriedade mortal. Até então, estivera disposto a medir seu intelecto, seu conhecimento mundano, sua linhagem, contra os encantos das mulheres que conhecera; mas ali, com aquela moça, de pé como uma jovem deusa sob o vasto céu do poente, ele sentiu que apenas pela força e pela beleza ela deveria escolher seu companheiro.
Ele se perguntou como deveria parecer aos olhos dela; com o ombro ao nível do dela, com seu porte robusto que o salvava da efeminação, sua meticulosidade no vestir — que é, ao mesmo tempo, o fardo e a salvação do homem pequeno.
Quanto ao seu rosto, ele sabia que sua falta de beleza era redimida por uma certa força no queixo, por olhos cinzentos e penetrantes, e por uma cabeleira escura que mostrava um pouco de branco nas têmporas. Ele sabia que havia homens com aparência pior, mas isso, no momento presente, trazia pouco conforto.
Ela optou por receber sua observação em silêncio e, ao chegarem a um caminho que se bifurcava da estrada, disse:
"Vou ajudar a cuidar de uma criança que está doente. Você vê, sou mestra de todos os ofícios — enfermeira, garçonete, faxineira, quando não há nada mais."
Ele lançou um olhar às mãos dela. "Não posso acreditar que você esfregue o chão", disse ele.
"Fico acordada à noite para cuidar das minhas mãos" — havia uma nota de amargura em seu tom — "e uso luvas quando trabalho. Há certas coisas que se deseja preservar, e minha mãe e minha avó eram damas de lazer."
"Você gostaria disso — ser uma dama de lazer?"
Ela se virou e sorriu para ele. "Como posso saber?", perguntou ela; "nunca experimentei."
Ela começou a deixá-lo enquanto dizia isso, mas ele a deteve com uma pergunta: "Você vai ficar acordada a noite toda?"
Ela assentiu. "A mãe dele não dorme há duas noites."
"Ele está muito doente?"
A moça deu de ombros. "Quem sabe? Não há médico por perto, e a mãe dele é pobre. Estamos enfrentando isso juntos."
Havia algo de heroico em sua aceitação fria de sua vida difícil. Ele ficou em silêncio por um momento e, então, disse: "Você teria tempo de ler meu livro esta noite?"
"Oh, se eu pudesse", disse ela avidamente, "mas você não está com ele."
"Eu o trarei", disse-lhe ele, "depois do jantar."
"Mas", protestou ela.
"Não há 'mas'", disse ele, sorrindo; "se você o ler, eu o levarei até você."
O céu havia escurecido e, enquanto ele seguia para casa, encarava nuvens no sudeste.
"Vai chover", previu Otto Brand enquanto se sentavam para o jantar.
Os outros três homens esperavam que não. O solo já estava encharcado, tornando impossível o corte do milho, e outra chuva, com geada por cima, acabaria com qualquer chance de encher o silo.
Van Alen não conseguia entrar nas objeções técnicas deles. Ele esperava que não chovesse, porque queria levar um livro a Mazie Wetherell e não tinha trazido uma capa de chuva.
Mas choveu, e ele foi sem capa de chuva!
A casa, ao se aproximar, não mostrava luz, e sob a espessa copa das árvores não havia som algum, exceto o gotejar da chuva. Pelo tato e instinto, encontrou a porta da frente e bateu.
Houve um movimento lá dentro, e então Mazie Wetherell perguntou suavemente: "Quem está aí?"
"Eu trouxe o livro."
O ferrolho foi retirado e, no corredor, mal iluminado pela lâmpada com cúpula no cômodo adjacente, estava a moça, em um vestido cinza solto, com cabelos trançados e brilhantes — um ser sombrio, meio fundido nas sombras.
"Pensei que você não viria", em um tom contido, "em uma tempestade dessas."
"Eu disse que viria. O livro pode ajudá-la a passar a longa noite."
Ela prendeu a respiração rapidamente. "A criança está terrivelmente doente."
"Você está com medo? Deixe-me ficar."
"Oh, não, não. A mãe dele está dormindo, e eu ficarei com seu livro."
Ela não o convidou a entrar, e assim ele partiu imediatamente, lutando contra o vento e a chuva no caminho de volta, atravessando um pequeno riacho onde a pequena ponte de pedestres estava submersa, chegando em casa encharcado, mas ardendo em sonhos.
Otto Brand estava esperando por ele, um pouco curioso sobre o que o levara a sair tão tarde, mas, sem obter satisfação, seguiu Van Alen para o andar de cima e acendeu uma lareira para ele no quarto grande. E logo, à luz das chamas saltitantes, as rosas no dossel da cama brilharam em tom de rosa.
"Você não vai dormir na cama?", perguntou Otto, enquanto observava Van Alen arrumar os cobertores no sofá.
"Não", disse Van Alen secamente, "a honra é grande demais. Poderia me manter acordado."
"Meus pés ficariam para fora", disse Otto. "Coisa engraçada, não é, um homem fazer um testamento como esse?"
"Suponho que todo homem tenha o direito de fazer o que bem entende", respondeu Van Alen friamente. Ele não estava inclinado a discutir as excentricidades de seu pequeno e velho ancestral com aquele jovem gigante.
"Claro", concordou Otto, e sua observação seguinte foi provocada pelo pijama azul-claro de Van Alen.
"Bem, esses são novidade para mim."
Van Alen explicou que na cidade eles eram usados, e que a seda era fresca, mas enquanto falava, ele era possuído por uma espécie de fúria. Pela primeira vez, as peças delicadas, os artigos de toucador luxuosos guardados em sua mala, pareciam afetados, desnecessários, coisas para uma mulher. Com tudo aquilo, ele não conseguia competir com aquele belo jovem deus, que usava uma toalha áspera e uma bacia de lata sobre o banco da cozinha.
"Talvez seja melhor eu ir", ofereceu o rapaz. "Você vai querer se deitar."
Mas Van Alen o deteve. "Eu sempre fumo antes", disse ele e, envolto em seu roupão, jogou-se em uma cadeira do lado oposto da lareira.
E, depois de um tempo, ele conduziu a conversa para Mazie Wetherell.
Ele achou o rapaz bastante seguro de seu sucesso com ela.
"Todas as mulheres são iguais", disse ele; "você só precisa insistir nelas por tempo suficiente."
Para Van Alen, a ideia desse garoto desajeitado como pretendente de tal mulher parecia absurda. Ele não era digno de tocar a barra das vestes dela. Ele não tinha modos, não tinha instrução; ele não era da classe dela — e, mesmo enquanto ele analisava, o rapaz levantou-se, perfeito em sua forte masculinidade jovem.
"Nunca tive muita dificuldade em fazer as mulheres gostarem de mim", disse ele; "e não vou desistir só porque ela pensa que é melhor do que o resto aqui por perto."
Ele foi embora, e Van Alen encarou a lareira por muito tempo, até que as chamas deixaram um coração de opala entre as cinzas.
Ele mesmo não tinha sido malsucedido com as mulheres. Muitas gostavam dele e poderiam tê-lo amado se ele tivesse se dado ao trabalho de conquistá-las. Mas, até conhecer Mazie Wetherell, ele não havia se importado.
Desesperadamente, ele desejava algum teste de coragem onde pudesse ser colocado à prova contra Otto Brand. Ele se tornou melodramático em suas imaginações e viu-se em um incêndio, lutando contra as chamas para alcançar Mazie, enquanto Otto Brand recuava. Ele se viu no caminho de cavalos em fuga, e Otto mostrando covardia. Ele a viu cuidando dela durante a peste, e Otto fugindo amedrontado da doença.
E então, tendo chegado ao fim das impossibilidades, ele se levantou e se sacudiu.
"Sou um tolo", disse ele às chamas, secamente, e foi para a cama, ficando acordado, imaginando se Mazie Wetherell tinha chegado ao capítulo de seu livro onde ele escrevera sobre o amor, profunda e reverentemente, com um conhecimento prévio do que isso poderia significar para ele um dia. Foi aquele capítulo que garantiu o sucesso de seu romance. Será que a comoveria, como o comovera quando ele o releu? Era assim que o amor deveria ser — algo refinado, terno, tocando as estrelas! Era isso que o amor poderia ser para ele, para Mazie Wetherell, o que nunca poderia ser para Otto Brand.
No café da manhã, na manhã seguinte, ele encontrou a Sra. Brand preocupada com sua garçonete.
"Acho que ela não conseguiu voltar, e tenho um grande dia de trabalho."
"Vou procurá-la", ofereceu Van Alen; mas descobriu que não iria sozinho, pois Otto o esperava no portão.
"Não tenho mais nada para fazer", disse o rapaz; "tudo está parado por causa da chuva."
Foi quando chegaram ao pequeno riacho que Van Alen atravessara na noite anterior que viram Mazie Wetherell.
"Não consigo atravessar", ela gritou do outro lado.
A ponte, que estava coberta quando Van Alen passou, fora levada, e as águas castanhas e espumantes transbordavam as margens.
"Eu levo você", gritou Otto e, imediatamente, ele entrou no riacho, e a água subiu acima de suas botas altas, até os quadris.
Ele a ergueu em seus braços fortes e a trouxe de volta, com seus cabelos brilhantes tremulando contra os lábios dele, e Van Alen, enfurecido impotentemente, ficou parado e o observou.
Parecia-lhe que o ar de Otto era quase insultuosamente triunfante enquanto ele colocava a moça de pé e sorria para ela. E quando ela sorriu de volta, Van Alen girou nos calcanhares e os deixou.
Logo, ele a ouviu correndo atrás dele levemente sobre o solo encharcado.
E quando ela alcançou seu lado, disse: "Seu livro foi maravilhoso."
"Mas ele a carregou sobre o riacho."
Os olhos dela brilharam uma pergunta, depois arderam. "Lá vem você de novo", disse ela. "O que o faz ser assim?"
"Porque eu queria carregar você mesmo."
"Bobo", disse ela; "qualquer homem poderia me carregar pelo riacho — mas só você poderia escrever aquele capítulo no meio do livro."
"Você gostou?", ele exclamou, radiante.
"Gostar?", ela perguntou. "Eu li uma vez e depois li de novo — de joelhos."
Sua voz pareceu sumir, ofegante. Atrás deles, Otto Brand caminhava pesadamente, assobiando; mas ele poderia ter sido uma árvore, ou o céu, ou as colinas distantes, de tão pouco caso que faziam dele.
"Eu queria pedir perdão", continuou a moça, "pelo que eu disse no outro dia — é algo grandioso escrever um livro como aquele — maior do que vencer uma batalha ou salvar uma vida, pois ele salva os ideais das pessoas; talvez, dessa maneira, salve suas almas."
"Então eu posso dormir na cama com dossel?" Sua voz era calma, mas interiormente ele estava muito abalado pela emoção dela.
Os olhos dela, ao se voltarem para ele, continham o alvorecer daquilo pelo que ele esperara.
"Por que não?", ela disse rapidamente. "Você é maior do que seu avô — você é..." Ela parou e riu um pouco, e, naquele momento de sua rendição, sua beleza brilhou como uma estrela.
"Oh, pequeno grande homem", disse ela, trêmula, "sua cabeça toca os céus!"
O-liver ficou parado, olhando para o jardim, depois para Jane, e então para o chão. Ele não se sentia um gigante. Ele se sentia, como sempre, um homem de quinze dólares por semana. Mas, ao olhar para Jane, sentiu o peso daquela adoração que ela, inconscientemente, havia começado a lhe devotar.
"Você não deve se sentir assim", disse ele, com aquela estranha e doce seriedade que sempre a desconcertava. "A vida é uma luta contínua, Jane. Você apenas limpou o caminho."
"É uma forma de ver as coisas", disse ela, com um suspiro, ainda olhando para as cinzas. "Mas, às vezes, sinto que tudo o que toco acaba se transformando em algo que exige uma justificativa."
Tommy, que estivera observando a cena em silêncio, sentiu uma pontada de ciúme, não de O-liver, mas da própria situação. Ele gostaria de ser aquele que a consolava, mas ele era apenas o Tommy, o amigo fiel, o rapaz que carregava as caixas.
"Você tem feito muito pela sua mãe, Jane", interveio Tommy. "Isso é o que importa."
Jane sorriu para ele, mas era um sorriso distraído. O-liver notou a mudança. Ele conhecia aquele olhar; era o olhar de alguém que começava a ver além das cercas de seu pequeno mundo. Ele se perguntou se o negócio dos sanduíches era apenas o começo ou se seria o limite daquela ambição.
"E o negócio?" perguntou O-liver. "Os lucros aumentaram?"
"Sim", respondeu ela, voltando a si. "Mais do que eu esperava. A ponto de eu ter que considerar o que fazer com eles. Minha mãe diz que devemos guardar para os dias de inverno, mas eu..." Ela hesitou. "Eu quero comprar sementes melhores. Quero que o jardim não seja apenas de vegetais para comer, mas de algo que floresça."
O-liver assentiu. Ele entendia essa necessidade de transformar o útil em belo. Ele pensou em sua própria vida, em seus livros, em sua Mary Pick, e na paz que encontrava nas coisas simples.
"Se precisar de ajuda para escolher as sementes", disse ele, "eu conheço um lugar onde as cores são as mais vibrantes que já vi."
Jane olhou para ele, e, por um breve momento, o jardim, com suas formigas mortas e sua terra remexida, pareceu um lugar de promessas.
"Eu adoraria", disse ela.
Tommy, encostado na cerca, sentiu que o mundo estava mudando, e que, embora ele estivesse ali, sua posição naquela história estava sendo reescrita. Mas ele não se importou. O que Jane quisesse, ele aceitaria. Ele era o seu escudeiro, e ela, a sua deusa. E, enquanto o sol se punha, tingindo o bungalow de rosa e ouro, eles ficaram ali, os três, sob o silêncio da tarde, planejando um futuro que nenhum deles poderia ter previsto.
Havia alguns sobreviventes trabalhando entre as ruínas.
"Estão retirando os corpos", explicou Jane. "É tão humano que se torna trágico. Nunca mais farei isso."
"Você não pode deixar que eles a consumam."
"Eu sei. É um dos enigmas." Ela sentou-se, olhando para eles lá embaixo. "Como estão ocupados!"
"Ocupados demais", afirmou O-liver. "São piores que as abelhas. Pelo menos existem alguns zangões na colmeia."
"Pobres zangões", disse Jane.
"Por quê?", perguntou ele rapidamente.
"Por perderem o melhor."
"O trabalho é o melhor?"
Ela disse "Sim", acrescentando após um momento: "Não me refiro apenas a fazer sanduíches. Isso é só o começo. Há tudo pela frente."
Ela disse isso como se o mundo lhe pertencesse. O-liver, apesar de si mesmo, sentiu um estremecimento. "Como você sabe que tudo está pela frente?"
"Eu farei com que venha", disse ela, com segurança.
Sentaram-se em silêncio por um tempo; então O-liver disse: "Trouxe-lhe um livro."
Era um exemplar antigo da revista Punch.
"Eu vou gostar", disse ela. "Às vezes as noites são monótonas quando meu trabalho termina."
"A monotonia chega para mim quando o trabalho começa."
O olhar direto dela encontrou o dele. "Você diz isso com os lábios; não é o que pensa."
"Como você sabe?"
"Não tenho certeza de como sei. Mas você ainda não encontrou a coisa que gosta — o incentivo."
"Tommy quer que eu entre para a política. Ele e Henry Bittinger. Henry diz que eu deveria ser Presidente." O-liver riu.
Mas ela levou a sério. "Por que não? Você tem a inteligência e o magnetismo. Não vê como a multidão se sente atraída por você nas noites de sábado?"
"Como abelhas em torno de um pote de mel? Sim." O rosto dele tornou-se subitamente severo. "Mas mosquitos também zumbem em torno de uma poça estagnada."
"Você não é uma poça estagnada e sabe disso."
"O que eu sou?"
Ela fez um gesto repentino, como se desistisse dele. "Às vezes penso que você é como o mar — num dia preguiçoso — com uma tempestade a caminho."
Ele se perguntou, enquanto ia para casa — que tempestade?
Ele tinha visto Jane bastante desde aquela noite de sábado em que defendeu a causa dela. Era outono naquela época, com as colinas marrons e as bagas vermelhas nas aroeiras. Agora era primavera, com todo o mundo verde e em crescimento.
Ela tinha falado dele a Tommy, e Tommy fora um fiel intermediário. Ele tinha explorado o amor mútuo deles pelos livros. No início, O-liver enviava-lhe livros, depois passou a levá-los. Conhecera a mãe dela, vira-a em sua casa fazendo coisas femininas, costurando faixas de rosa e azul — enchendo os vasos com as flores que ele trazia.
E, à medida que se encontravam e conversavam, suas veias eram preenchidas com um vinho novo. Ele nunca conhecera intimamente uma mulher assim. Sua mãe, transplantada do Leste pelo casamento com um homem do Oeste, sempre voltara seus olhos para o passado. Seu filho nascera no Leste, passara seus feriados e férias com parentes do Leste. Fora para uma escola do Leste preparar-se para uma faculdade do Leste. Exceto por essa obsessão em relação à educação do filho, sua mãe era egocêntrica. Ela era uma esposa idolatrada, uma mulher descontente — não mostrara a O-liver alturas às quais aspirar.
E assim ele não aspirara. Passara seus dias no que poderia ser chamado, biblicamente, de vida dissoluta. Sua mãe esperava um casamento aristocrático no Leste. Quando ele se casou com Fluffy Hair, ela permitiu-lhe três mil por ano e pediu-lhe que não trouxesse sua esposa para vê-la. Seu pai recusou-se a lhe dar um centavo. As sementes selvagens e a obstinação de O-liver cortaram-no, sentenciou ele, da consideração parental. "Você não é meu filho", dissera ele severamente. "Se um dia chegar o momento em que puder dizer que está arrependido, eu o receberei."
O-liver, tendo se casado com Fluffy Hair, achou-a também egocêntrica — não uma dama como sua mãe, mas fundamentalmente do mesmo tipo. Nenhum deles o fizera sentir que poderia ser mais do que era. Eles sempre o reduziram aos seus próprios padrões um tanto pequenos.
A filosofia de Jane veio a ele, portanto, como um estimulante há muito retido. "Você poderia ser Presidente dos Estados Unidos."
Quando Henry, Atwood ou Tommy diziam isso a ele, ele ria. Quando Jane dizia, ele não ria.
VI
E assim aconteceu que, um dia, ele se levantou e foi até seu pai. E disse: "Pai, o senhor matará o novilho cevado?"
Seu pai morava em uma grande casa Tudor que passava uma impressão de antiguidade, mas não era antiga. Tinha uma galeria de músicos, um saguão grande e um pequeno, janelas emolduradas e todo o resto. Fora construída por um capricho de sua esposa. Mas o pai de O-liver, nos dez anos em que viveu nela, aprendera a amá-la. Mas, mais do que amava a casa, amava as colinas que se inclinavam a partir dela, as montanhas que se erguiam acima dela, o mar que jazia aos pés do penhasco.
"É a terra de Deus", ele costumava dizer com um suspiro profundo. Ele nascera e fora criado neste Oeste dourado. Toda a paixão que poderia ter dado à sua esposa estrangeira e ao seu filho estrangeiro era prodigalizada a esta terra, que era osso de seus ossos e carne de sua carne.
E agora seu filho cavalgara até ele, sobre aquelas colinas baixas no sopé da montanha, e dissera: "Pai, eu pequei."
O-liver não colocara dessa forma bíblica. Ele dissera: "Sinto muito, pai. O senhor disse que eu não precisava voltar até que admitisse as cascas e os porcos."
Houve uma luz no rosto fino do homem mais velho. "Oliver, eu nunca tive esperança de ouvir você dizer isso." Sua mão pousou levemente nos ombros do rapaz. "Meu filho que estava morto voltou a viver?"
"Sim, pai."
"O que o trouxe de volta à vida?"
"Uma mulher."
A mão caiu. "Não..."
"Não minha esposa. Ponha a mão de volta, pai. Outra mulher."
Ele sentou-se ao lado do pai no terraço. O mar, muito abaixo deles, era de safira, os penhascos rosados com musgo — cor deslumbrante. Guarda-sóis alaranjados pontilhavam a praia distante.
"Sua mãe está lá embaixo", disse Jason Lee. "Banhos de sol e tudo mais. Você disse que havia outra mulher, Oliver."
"Sim." De forma simples e honesta, ele contou-lhe sobre Sandwich Jane. "Ela me fez ver as coisas."
"Que coisas?"
"Bem, ela acha que tenho capacidade para chegar a qualquer lugar. Ela insiste que, se eu colocasse meu coração nisso, poderia ser... Presidente."
Podia-se ver a semelhança entre eles em seus olhos faiscantes!
"Ela diz que os homens me seguem; e seguem mesmo. Descobri isso desde que fui para Tinkersfield. Ela quer que eu entre para a política — há uma gangue lá embaixo que governa a cidade — uma corja podre. Seria uma bela briga se eu o fizesse."
Seu pai interessou-se de imediato. "Era o que eu queria — quando era jovem — política — política limpa, com uma chance de fazer um trabalho de estadista. Sim, eu queria isso. Mas sua mãe queria... dinheiro."
"Dinheiro não tem significado para mim agora, pai. Se eu trabalhasse como um escravo até cair, não conseguiria ganhar mil e quinhentos por semana."
"Sua esposa ganha isso agora?"
"Sim. Ela ganha e gasta, imagino."
Silêncio. Então: "E quanto a essa... outra mulher. O que você vai fazer a respeito dela?"
O-liver inclinou-se para frente, falando seriamente. "Eu a amo. Mas não sou livre. É tudo uma confusão."
"Ela sabe que você é casado?"
"Não. Preciso contar a ela. Mas a perderei se o fizer. Refiro-me à camaradagem dela. E não quero abrir mão disso."
"Existe, é claro, uma solução."
"Que solução?"
"Divórcio."
"Não seria uma solução para Jane. Ela não é desse tipo. Casamento para ela significa até que a morte os separe. Terei de perdê-la. Mas dói."
VII
Foi quando Jane alugou um quarto vazio de frente para a arcada e montou uma lanchonete que Tillotson viu quão séria a coisa se tornaria.
Ele tinha todo o comércio de restaurantes e hotéis. Homens que subiam em automóveis ou a cavalo, empoeirados e cansados, comiam e bebiam em suas mesas sórdidas, praguejando contra a comida, mas sem poder conseguir nada melhor. E agora ali estava uma mulher que cobria seus balcões com oleado imaculado — que tinha urnas de café brilhantes, potes deliciosos de feijão cozido, que preparava em caixas organizadas almoços que faziam os homens correrem de volta por mais e mais e mais — e cujos sanduíches eram o assunto de toda a costa!
Isso tinha de parar.
A única maneira de parar era tornar as coisas desconfortáveis para Jane. Havia muitas maneiras de fazê-lo — por perseguições pequenas e sutis, por insinuações, por palavras ditas da boca maledicente de um homem para outro. Tillotson já fizera isso antes. Mas ele descobriu, com o passar dos dias, que não tinha antes uma Jane para lidar. Ela estava ligada, na mente da maioria dos homens, a uma brancura como a de sua própria loja impecável.
Gradualmente, Jane tornou-se consciente de uma corrente sinistra. Ela viu-se lidando com forças que a ameaçavam. Havia homens que entravam em sua loja para comprar e que ficavam para dizer coisas que faziam suas bochechas arderem. Ela não mencionou nada disso a Henry, Atwood ou Tommy. Mas falou uma vez com O-liver.
"Tillotson deve estar por trás disso. Dois vadios bêbados tropeçaram aqui outro dia, direto do hotel. E quando telefonei para Tillotson vir buscá-los, ele riu de mim."
Tillotson era o xerife. Era um cargo que ele não honrava. Em um mês ou dois, seu mandato terminaria. O-liver, cavalgando sozinho pelas montanhas, declarou a solução: "Tenho de derrotar Tillotson."
Mas, primeiro, ele tinha coisas a dizer a Jane. Desde sua conversa com o pai, ele sabia que isso teria de acontecer. Ele se mantivera afastado dela o máximo possível. Não fora um afastamento notável, pois ela estava muito ocupada e tinha pouco tempo para ele. A mãe de Tommy mantinha a pequena casa dela em ordem e cuidava do inválido, de modo que Jane pudesse dar atenção exclusiva ao seu negócio crescente. O-liver via-a com mais frequência na loja, quando ele parava para um pote de feijão — comendo-o no local e discorrendo sobre muitas coisas.
"Minha avó de Boston cozinhava feijão assim", disse ele a ela em uma ocasião. "Ela era uma grande mulher, Jane, tão essencialmente do Leste quanto você é do Oeste. Ela se apegava às tradições do passado; você está abrindo novos caminhos para as mulheres, vendendo sanduíches na praça do mercado. Por Jove, foi soberbo o jeito como você fez isso, Jane!"
Ela sempre ficava radiante quando ele partia. Ali estava um homem diferente de seu pai, diferente de Henry Bittinger e Atwood Jones. Ela sorriu um pouco ao pensar em Atwood. Ele a pedira em casamento. Contara-lhe sobre as coisas que tinha pela frente e que queria que ela compartilhasse. E ficara muito abatido quando ela o recusara. Ela, ele sentia, manchara o brilho de seu futuro esplêndido. Ele não conseguia entender uma mulher descartando algo assim.
Mas ele não guardava rancor dela e ainda era seu amigo. Henry, também, era seu amigo. Ele ainda não tentara seu destino com Jane, mas ainda sonhava com ela, adorável em seu carro longo e casaco de pele. E esperava tornar seus sonhos realidade.
Tommy deixara de lado todas as esperanças egoístas. Ele tinha a sensação de que Jane gostava de O-liver. Ele amava ambos. Se não pudesse ter Jane, queria que O-liver a tivesse. Ele mantinha, portanto, um olhar vigilante sobre Henry e Atwood.
Foi Tommy quem descobriu primeiro sobre Fluffy Hair. Ela nunca se importara em deixar o mundo saber de seu casamento. Sentia que aqueles que a amavam na tela prefeririam que ela estivesse livre. Mas era conhecido no estúdio, e alguém que passou por Tinkersfield reconheceu O-liver e contou a Tommy.
Tommy, pela primeira vez na vida, foi severo. "Ele devia ter contado à Jane. Alguém tem que contar a ela."
Então, no dia seguinte, ele assumiu a responsabilidade — sentindo-se um traidor do amigo.
"Jane", disse ele, sentado em um banco alto na pequena lanchonete dela — "Jane, O-liver é casado."
Jane, do outro lado do balcão impecável, lançou-lhe seu olhar sincero. "Sim", disse ela; "ele me contou."
"Contou? Bem, fico feliz. Não era uma coisa para se esconder, não é?"
"Não", disse Jane; "não era. Mas você não deve culpá-lo, Tommy, e agora que ambos sabemos, está tudo bem, não está?"
"Sim", concordou Tommy; "se Tillotson não descobrir isso."
Pois fora decidido que O-liver concorreria contra Tillotson na próxima eleição e o derrotaria, se pudesse.
O-liver contara a Jane sobre seu casamento na noite anterior ao dia em que Tommy foi vê-la. Ele a convidara para cavalgar com ele. "Se você for esta tarde às quatro, você terá a Mary Pick, e eu pegarei o cavalo do Tommy."
Eles levaram o almoço e comeram ao pôr do sol em um lugar adorável onde o cânion se abria para mostrar uma extensão amarela brilhante de mar, com as colinas como serpentes negras correndo em direção a ele.
No entanto, já estava escuro, com as estrelas acima deles e o mar um cinza pálido abaixo, antes que O-liver lhe dissesse o que a levara ali para dizer.
Ele contou-lhe sobre seu pai e sua mãe. Sobre Fluffy Hair.
"Acordei finalmente para o fato de que estava deixando duas mulheres me sustentarem. Então vim para cá e comecei a trabalhar por quinze dólares por semana. E, pela primeira vez na vida, respeitei a mim mesmo — e fiquei contente. E então conheci você e vi coisas pela frente. Você me fez vê-las."
Ele virou-se para ela na escuridão. "Jane, estou descobrindo que a amo — imensamente." Ele tentou falar levemente. "E não sou livre. E porque a amo, tenho de ficar longe. Mas quero que entenda que minha amizade é a mesma — que será sempre a mesma. Mas tenho de ficar longe."
Ela foi muito honesta sobre isso. "Eu não imaginava que você se sentisse assim — em relação a mim."
"Não, você não imaginaria. Isso é parte da sua esplendidez. Nunca levar nada para si mesma. Jane, você acreditaria nisto — que o que eu possa ser daqui para frente será por sua causa? Se eu algum dia fizer algo grande ou algo nobre, será porque encontrei você naquela noite, com a cabeça erguida e aquela ralé ao seu redor. Você era uma luz brilhando na escuridão de Tinkersfield. Jove, quem me dera ser um pintor para colocar você na tela como estava naquela noite!"
Eles cavalgavam de volta, mais tarde, sob as estrelas, e enquanto permaneciam por um momento observando as luzes da pequena cidade, O-liver dissera: "Farei meu grande discurso amanhã à noite para derrotar Tillotson. Quero que você esteja lá. Você irá? Se eu souber que você está lá em algum lugar no escuro, derramarei minha alma — para você."
Será que era de se admirar que Jane, conversando com Tommy na manhã seguinte sobre O-liver, sentisse suas pulsações acelerarem e suas bochechas queimarem? Ela passara a noite em claro pensando nas coisas que ele lhe dissera. Parecia algo muito grande e maravilhoso que um homem pudesse amá-la assim. Quando o luar entrou perto da manhã e ela ainda estava acordada, permitiu-se deixar a mente habitar por um momento no que seu futuro poderia significar se ele estivesse nele. Ela era ocupada e saudável demais para se entregar a arrependimentos inúteis. Mas ela sabia, naquele momento ao luar, que se ele não fizesse parte de seu futuro, nenhum outro homem faria.
VIII
O discurso de O-liver foi feito ao ar livre. Havia um campo de beisebol em Tinkersfield, delimitado na extremidade oeste por um bosque de eucaliptos. Com este bosque como pano de fundo, um palanque fora erguido. Do palanque, os candidatos rivais falariam. Nesta época do ano, ainda estaria claro quando a reunião começasse. Tillotson não falaria por si mesmo. Ele trouxera um homem de San Francisco, um grande político de língua oleosa. O-liver, é claro, apresentaria seu próprio caso. A coisa, como Atwood disse a Henry, prometia ser emocionante.
Jane veio com Tommy. Havia uma espécie de arquibancada grosseira em frente ao palanque, e ela conseguiu um lugar bem no topo. Ela vestia uma saia branca, um suéter cinza e um chapéu branco. Ela tinha um sorriso amigável para as pessoas ao seu redor. E elas sorriam de volta. Elas gostavam de Jane.
O-liver falou primeiro. Sem chapéu, esguio, com seu ar de juventude eterna, ele estava em silhueta contra o rosa vermelho do crepúsculo.
Quando começou, ele os conduziu levemente pelos caminhos do pensamento fácil. Ele obteve a atenção deles como tantas vezes obtivera em frente aos correios. Ele os fez sorrir, os fez rir, ele os levou, na verdade, finalmente a uma gargalhada estrondosa. E quando os trouxe assim para a simpatia, ele começou com sinceridade a falar de Tinkersfield.
Jane, inclinando-se para frente, sem perder uma palavra, sentiu seu magnetismo. Ele falou sobre o futuro de Tinkersfield. Sobre o que precisava ser feito se a cidade quisesse cumprir seu destino como uma cidade decente. Ele não mediu suas palavras.
"Ela será exatamente o que vocês decidirem agora que ela seja — boa, honesta e limpa, um lugar onde o tipo certo de pessoas queira viver, ou o lugar que atrairá ociosos e vadios."
Ele impôs sobre eles o fardo da responsabilidade individual. Se uma cidade era honesta, disse ele, era porque os homens nela eram honestos; se era limpa, era porque seus homens eram limpos. Cabia a cada homem decidir nesta eleição se Tinkersfield teria um futuro de trevas ou de luz. Havia homens naquela multidão que endireitaram os ombros para enfrentar os golpes de sua eloquência, que os mantiveram endireitados enquanto tomavam a decisão de fazer sua parte na edificação de Tinkersfield.
Ainda assim, talvez não fossem tanto as coisas que O-liver dizia, mas a maneira como as dizia. Ele tinha as qualidades de liderança — uma sinceridade do tipo que influencia os homens ao nível de seus líderes — a sinceridade de um Lincoln, de um Roosevelt. Para ele, uma democracia significava todas as pessoas. Não apenas pessoas comuns, nem certamente classes selecionadas. Homem rico, homem pobre, um só, trabalhando juntos pelo bem comum.
Por trás de sua sinceridade havia fogo — e gradualmente sua audiência foi iluminada por sua chama. Eles ouviram em um silêncio tenso, que se quebrava de vez em quando em vivas. Para Jane, sentada no alto das bancadas, ele era um profeta — o João Batista de Tinkersfield.
"E ele é meu, ele é meu!", ela exultou. Essa nobreza de espírito, o fogo e a chama eram dela. "Se eu souber que você está lá em algum lugar no escuro, derramarei minha alma — para você..."
A escuridão ainda não havia caído, mas o crepúsculo chegara. O palanque estava iluminado por pequenas luzes como estrelas. Atrás do palanque, as árvores de eucalipto eram agora espectros pálidos, suas folhas pendendo inertes no ar calmo.
O-liver, sentando-se em meio a trovões de aplausos, deixou seus olhos irem por um momento até Jane. Uma lâmpada pendia quase diretamente sobre sua cabeça. Ela tirara seu chapéu largo e seu cabelo estava glorioso. Ela estava inclinada um pouco para frente, seus lábios entreabertos, suas mãos unidas, como se ele ainda falasse com ela.
Quando o patrocinador de Tillotson se levantou, Jane endireitou-se, sorriu para Tommy e novamente se preparou para ouvir.
A voz untuosa do orador era um contraste para os tons nítidos de O-liver. Havia outros contrastes que não eram tão aparentes. Este homem estava no jogo pelo que pudesse tirar dele. Ele queria que Tillotson vencesse porque a vitória de Tillotson fortaleceria sua própria posição politicamente. Ele pretendia, de fato, que Tillotson vencesse. Ele não era exigente quanto aos métodos.
Ele disse as coisas de sempre: Tinkersfield não era uma escola dominical; e eles não eram escravos para terem sua liberdade tirada por um bando de reformadores pouco práticos. E Lee era desse tipo. O que ele já fizera para provar que teria sucesso? Eles conheciam Tillotson. Eles não conheciam Lee. Quem era Lee, afinal?
Ele lançou o interrogatório para eles. "O que vocês sabem sobre Lee?"
A pedrinha que ele atirou formou círculos que se expandiam. As pessoas começaram a se perguntar o que, afinal, sabiam sobre O-liver. De algum lugar na escuridão, subiram as palavras de um canto maligno:
Qual é o problema com O-liver, O-liver, O-liver de fígado branco? Perguntem a Jane, Jane do Sanduíche, O-liver, fígado branco, Jane, Jane, Jane.
Jane sentiu seu coração parar. Atrás de si, ouviu Tommy praguejando: "É tudo maldade maldita deles!" Ela viu O-liver levantar-se de sua cadeira e afundar novamente, impotente contra a insidiosidade daquele ataque.
O orador continuou. Pareceria, disse ele, pelo que pudera apurar, que o honorável oponente de Tillotson estava navegando sob falsas bandeiras. Ele era um homem casado. Ele havia abandonado a esposa. Ele se sentava entre eles como um santo, quando na verdade era um pecador.
"Um pecador, senhores." O orador fez uma pausa para efeito, depois prosseguiu com seu argumento. É claro que todos eram pecadores, mas não eram hipócritas. Tillotson não era um hipócrita. Ele era um bom sujeito. Ele não queria que Tinkersfield fosse uma escola dominical. Ele queria que fosse uma cidade. Você sabe — uma cidade que todo sujeito gostaria de visitar na noite de sábado.
Havia aqueles na multidão que começaram a sentir que um ponto fraco havia sido encontrado na armadura de O-liver. Segredo! Eles não gostavam disso. Havia sinais de hesitação entre alguns que haviam estufado o peito. Afinal, eles não queriam fazer de Tinkersfield uma escola dominical. Eles se perguntavam, também, se não havia alguma verdade nas coisas que estavam sendo insinuadas por aquele canto baixo na escuridão:
Perguntem a Jane, Jane do Sanduíche, O-liver, fígado branco, Jane, Jane, Jane.
O-liver estava inquieto, suas mãos cerradas ao lado do corpo. Atwood e Henry estavam inquietos. Tommy estava inquieto. Eles não podiam deixar tais insultos passarem despercebidos. Alguém tinha que lutar por Jane!
Os apoiadores de Tillotson mantinham a coisa agitada. Se a reunião pudesse terminar em uma briga, as probabilidades estariam a favor de Tillotson. O efeito da elevação de O-liver seria perdido. Mesmo seus amigos não conseguiriam trazer de volta uma multidão em luta para o seu lado.
Mas eles tinham se esquecido de contar com Jane!
Ela tinha visto em um lampejo cristalino repentino a coisa que poderia acontecer. Uma briga acabaria com tudo para O-liver. Ela tinha visto seus esforços de autocontrole. Ela conhecia sua agonia de alma. Ela sabia que a qualquer momento ele poderia derrubar alguém — Tillotson ou o patrocinador de Tillotson. E tudo estaria nos jornais da manhã. Haveria insinuações — a dica de coisas escandalosas. E a reputação de O-liver pagaria o preço. Era característico que ela não pensasse no momento em sua própria reputação. Era O-liver quem devia ser salvo!
E assim, quando o financiador de Tillotson sentou-se, Jane levantou-se.
"Por favor, ouçam!" ela disse; e a multidão virou-se para ela. "Por favor, ouçam e parem de cantar essa música boba. Nunca ouvi nada tão bobo quanto essa música em minha vida!"
Diante de seu desprezo, o canto morreu em um arquejo!
"A coisa em que vocês precisam pensar", ela continuou, "não é Tillotson ou O-liver Lee. É Tinkersfield. Vocês querem um homem honesto. E O-liver Lee é honesto. Ele não quer o dinheiro de vocês. Ele tem o suficiente do dele. Seu pai é o homem mais rico em sua parte do estado e sua esposa é uma atriz de cinema e ganha tanto quanto o Presidente. Soa como um conto de fadas, mas não é. Se O-liver Lee quisesse viver às custas do pai ou da esposa, ele poderia estender a mão e deixar as coisas caírem nela. Mas ele prefere ganhar quinze dólares por semana e ser dono de sua alma. E ele não é um hipócrita. Seus amigos sabiam sobre seu casamento. Tommy Drew sabia, e eu sabia. E não havia nenhuma razão especial para que ele contasse ao resto de vocês, havia? Não havia nenhuma razão especial para que ele contasse a Tillotson?"
Um murmúrio de risos seguiu suas perguntas. Havia um sentimento na multidão de que a piada era sobre Tillotson.
"Eu me pergunto quantos de vocês contaram seus passados para Tinkersfield! Quantos de vocês fizeram de Tillotson seu confessor?
"Quanto a mim" — sua cabeça estava erguida — "eu vendo sanduíches. Estou muito ocupada. Mal tenho tempo para pensar. Mas quando penso, é em algo além de fofocas de aldeia."
Ela tornou-se subitamente séria; inclinou-se para eles. "Vocês também não têm tempo para pensar nisso", disse-lhes ela; "têm, homens de Tinkersfield?"
Seu apelo foi direto, e a resposta veio a ela em um rugido dos homens que conheciam a coragem quando a viam; que conheciam, de fato, a inocência!
"Não!"
E foi esse "Não" que derrotou Tillotson.
"O jeito como ela conseguiu passar a mensagem", Atwood exultou mais tarde, "para uma multidão lotada como esta!"
"A coisa sobre Jane" — Henry estava muito seriamente tentando dizer a coisa como a via — "a coisa sobre Jane é que ela vê as coisas de frente. E ela faz com que outras pessoas vejam."
IX
Bem, Tillotson foi derrotado, e os homens que apoiavam O-liver saíram da luta sentindo-se como se tivessem matado algo impuro.
E na manhã seguinte à eleição, O-liver recebeu um pequeno bilhete de Jane.
"Preciso ir embora. Não queria preocupá-lo com isso antes. Economizei dinheiro suficiente para começar em alguma faculdade onde possa trabalhar para pagar parte da minha mensalidade. Tive experiência na minha pequena lanchonete que deve ser uma ajuda em algum lugar.
"Quando terminar a faculdade, vou entrar em algum tipo de ocupação que proporcione um lar agradável para minha mãe e para mim. Quero livros, e coisas adoráveis, e um jardim; e gostaria de falar um idioma ou dois e ter amigos cultos. Então, algum dia, quando você for feito Presidente, poderá dizer a si mesmo: 'Tenho orgulho da minha amiga, Jane'. E virei à sua posse e assistirei você cavalgar até a Casa Branca, e direi a mim mesma enquanto vejo você cavalgar: 'Eu o amei por todos estes anos'.
"Mas não me permitirei dizer isso agora. E é por isso que estou indo embora. E estou indo sem dizer adeus porque acho que será mais fácil para nós dois. Você e eu não podemos ser amigos. O que sentimos é grande demais. Descobri isso sobre mim naquela noite em que você sentou lá na plataforma, e eu quis salvá-lo de Tillotson. Se vou trabalhar e ser feliz no meu trabalho, tenho que ir embora. E você trabalhará melhor porque fui embora. Não devo estar aqui — O-liver."
Jane tinha, de fato, visto de frente. O-liver colocou o bilhete em sua mesa e olhou para a montanha. Ele precisava olhar para cima. Se tivesse olhado para baixo por um momento, teria seguido Jane.
X
E agora não havia barraca de sanduíches em Tinkersfield. Mas havia um bom hotel. O-liver cuidou disso. Ele conseguiu que Henry Bittinger investisse o dinheiro, com Tommy e sua mãe no comando. O-liver morava no hotel em uma suíte de pequenos cômodos, e quando Atwood Jones passava por ali, os quatro homens jantavam juntos como convidados de O-liver.
"Algum dia comeremos com você em Washington", era a profecia contínua de Atwood.
Eles sempre bebiam "À Jane". De vez em quando, Atwood trazia notícias dela. Primeiro da faculdade, e depois, à medida que os anos passavam, do balneário onde ela havia aberto uma casa de chá. Ela estava mais bonita do que nunca, mais maravilhosa. Sua casa de chá e loja eram muito exclusivas e artísticas.
"Jane do Sanduíche!" dizia O-liver. "Como parece fazer tanto tempo!"
Fazia cinco anos agora e ele não a via. E no próximo mês ele iria para Washington. Não como Presidente, mas representando seu distrito no Congresso. O hotel de Tommy tinha superado o modesto edifício original e agora era moderno e à prova de fogo. Henry estava casado, ele tinha tido vários carros novos, e sua esposa usava zibelinas e foca.
A antiga galeria não existia mais; nem o antigo correio. Mas O-liver ainda conversava com círculos admiradores no saguão do hotel ou com multidões maiores na prefeitura.
Ele ainda não aceitava dinheiro de seu pai, mas via-o muito, pois a Sra. Lee estava morta. A casa Tudor estava sem uma senhora. Parecia uma pena que O-liver não tivesse uma esposa para adornar seus salões.
Os jornais declaravam que a renda de Fluffy Hair tinha dobrado. Se isso era verdade ou não, soava bem, e Fluffy Hair ainda parecia jovem na tela. Jane ia de vez em quando e olhava para ela e se perguntava que tipo de mulher era aquela que tinha rido de O-liver.
Então, um dia, um telegrama chegou a O-liver em sua suíte de cômodos. E naquele dia e por duas noites ele montou em Mary Pick pelas colinas e através do cânion e desceu até o mar, e chegou a um lugar onde a casa de chá de Jane era encontrada no centro de um jardim japonês — um edifício baixo e adorável, com suas varandas abertas para o amplo Pacífico.
Ele não a via há tanto tempo que não estava preparado para a mudança. Ela estava mais magra e mais pálida e mais bonita, com um ar de distinção que era novo. Era como se, ao visualizar seu futuro, ela tivesse se imaginado nele — como primeira-dama da terra. Um sonho tão bobo para Jane do Sanduíche!
Eles estavam completamente sozinhos quando ele chegou até ela. Era manhã, e as varandas estavam vazias de convidados. Jane estava em uma longa cadeira de vime, com seu bule de café sobre uma mesa em forma de ampulheta. Lá embaixo, no terraço, dois jardineiros japoneses cortavam, aparavam e regavam e não viam nada.
"Você está mais jovem do que nunca", disse Jane quando apertaram as mãos. "Você algum dia envelhecerá, O-liver?"
"Os homens dizem que não." Ele sentou-se à frente dela. "Jane, Jane, é celestial ver você. Eu estive... faminto!"
Ela tinha sentido fome e sede dele. Sua mão tremeu um pouco enquanto servia a ele uma xícara de café.
"Eu disse a você para não vir, O-liver."
Ele colocou o telegrama diante dela. Fluffy Hair estava morta!
A folha amarela jazia entre eles, desafiando-os a falar tão cedo de felicidade.
"Amanhã", disse O-liver, "vou para Washington. Quando você virá para mim, Jane?"
Sua mão foi em direção a ele. Sua respiração estava rápida. "A tempo de ouvir seu primeiro discurso, O-liver. Sentarei na galeria, e me inclinarei e ouvirei e direi a mim mesma: 'Ele é meu, ele é meu!'"
Ela ouviu muitos discursos nos meses que se seguiram, e às vezes Tommy ou Atwood ou Henry, viajando pelo continente, vinham e sentavam-se ao lado dela. E Atwood sempre se agarrava à sua profecia: "Ele será governador em seguida; e então será a Casa Branca. Por que não?"
E Jane, sonhando, perguntava a si mesma: "Por quê?"
O Leste já tinha tido sua parte. Não teria chegado a hora de uma nação buscar seu líder no dourado Oeste?
LADY CRUSOE
Billy e eu viemos do Norte e abrimos uma mercearia em Jefferson Corners. É uma pequena loja e não há muitas casas perto dela — apenas a estação ferroviária e um grande galpão ou dois. Além dos galpões, algumas cabanas se espalham ao longo da estrada, e então começam as grandes plantações, que na verdade não são mais plantações, porque ninguém por aqui cultiva muita coisa nestes dias. Eles apenas sentam e suspiram pelas coisas que são diferentes desde a guerra.
É isso que Billy diz sobre eles. Billy é atualizado e ele tem uma motocicleta. Ele decidiu quando chegou que ia colocar um pouco de energia na vizinhança. Então ele percorre quilômetros todas as manhãs em sua motocicleta para conseguir pedidos, e ele mesmo entrega as coisas, a menos que sejam barris de farinha ou latas de querosene ou outros artigos pesados, e então ele contrata alguém para ajudá-lo. No início, ele tinha William Watters e sua mula. William é negro e sua mula é cinza, e ambos são velhos. Levava horas para chegarem a qualquer lugar, e eu costumava sentir pena deles. Mas quando descobri que, comparados a Billy e a mim, eles viviam em leitos de flores e facilidade, parei de simpatizar. Ambos têm o suficiente para comer, e trabalham apenas quando querem. Billy e eu trabalhamos o tempo todo. Temos nosso caminho a abrir no mundo, e sentimos que tudo depende de nós mesmos. Começamos sem nada à nossa frente, exceto minhas ambições e a energia de Billy, e algumas centenas de dólares que meu tutor me entregou quando me casei com Billy no meu vigésimo primeiro aniversário.
Assim que nos casamos, viemos para a Virgínia. Billy e eu tínhamos a ideia de que tudo ao sul da linha Mason e Dixon estava apenas esperando por nós, e queríamos ganhar a gratidão eterna da comunidade ajudando-a a progredir. Mas depois que moramos em Jefferson Corners por um tempo, começamos a sentir que não havia nenhuma comunidade. Não parecia haver cidades como as nossas boas cidades da Nova Inglaterra, com bondes sociáveis conectando-as e casas de fazenda em uma linha adorável entre elas. Você pode cavalgar por quilômetros através deste país e nunca passar por nada além de portões. Então, lá no alto das colinas, você verá um aglomerado de árvores, e no aglomerado você pode ter certeza de que há uma casa. No inverno, quando as folhas caem das árvores, você pode ver a casa, mas no verão não há sinal dela. Antigamente, eles pareciam sentir que lhes faltava um pouco de delicadeza se expusessem suas mansões ao olhar rude do público.
Havia uma mansão que Billy me levava para ver de vez em quando. Estava vazia, e era por isso que íamos. As grandes casas que eram ocupadas não estavam abertas para nós, exceto de uma maneira comercial, e Billy e eu não somos para ser condescendidos — tínhamos um par de avôs no Mayflower. Mas isso não conta por aqui, onde todos remontam a Guilherme, o Conquistador.
Aquela grande mansão vazia era um ótimo lugar para nossos passeios de domingo à tarde. Sempre íamos à igreja pela manhã, e as pessoas eram muito gentis, mas era uma gentileza com um ponto de interrogação. Sabe, Billy e eu moramos acima da loja, e nenhum deles jamais tinha vivido de outra coisa que não fossem hectares ancestrais.
Então, nossas manhãs de domingo eram um pouco tensas e decepcionantes, mas nossas tardes eram celestiais. Descobrimos a Casa Vazia na primavera, e havia louro nas montanhas e a grama estava jovem e verde nas encostas, e o céu era de um azul quente e pálido com os urubus planando como manchas pretas contra ele. Billy e eu costumávamos parar no segundo portão, que ficava no topo da colina, e olhar para as outras colinas onde as ovelhas rosadas pastavam. Tenho certeza absoluta de que não existem outras ovelhas em todo o vasto mundo como aquelas ovelhas de Albemarle. As chuvas de primavera transformam o barro vermelho em uma lama que gruda como tinta, e as ovelhas são coloridas de um adorável terracota que desaparece gradualmente para o rosa.
O efeito é impressionista, como vacas roxas. Billy não se importa com isso, mas eu adoro. E adoro o vermelho brilhante das estradas. Billy diz que prefere terra marrom e rebanhos brancos. Ele poderia se reconciliar com ovelhas pretas, mas nunca com as rosas.
Costumávamos comer nosso jantar na varanda da Casa Vazia. Ela tinha grandes pilares, e era um tanto inspirador sentar nos degraus da frente e olhar todo o comprimento daquelas colunas coríntias. Billy e eu nos sentíamos pequenos e insignificantes, mas esquecíamos disso quando voltávamos nossos olhos para as colinas.
A grande porta atrás de nós e as janelas vazias estavam fechadas e com persianas. Havia esquilos voadores no telhado e pequenos lagartos de cauda azul no piso de pedra em frente à casa; e havia um sapo velho que costumava nos fazer companhia. Chamei-o de Príncipe Encantado, e tenho certeza de que ele era tão velho quanto Matusalém, e vivia sob aquela pedra desde alguma era pré-histórica.
Nós simplesmente adorávamos nossos pequenos jantares. Tínhamos café na nossa garrafa térmica, e frango frito frio e sanduíches de pão com manteiga e bolo de chocolate. Nunca mudávamos, porque sempre tínhamos medo de não gostar de mais nada tão bem, e tínhamos certeza do frango e do bolo de chocolate.
E depois de comermos nossos jantares, falávamos sobre que tipo de casa construiríamos quando nosso navio chegasse. Billy e eu temos gostos agradáveis, e sabemos o que queremos; e sentimos que a mercearia é apenas um trampolim para coisas melhores.
Os pores do sol eram tardios naqueles dias de primavera, e havia rosa e verde e ametista pálido no céu ocidental, e depois disso safira profunda e uma lua prateada. E à medida que escurecia, a prata se tornava ouro, e havia uma estrela — e depois mais estrelas até que a noite chegasse.
Não posso dizer como costumávamos nos sentir. Veja bem, éramos jovens e apaixonados, e a vida era uma coisa muito boa para nós. Houve uma noite perfeita em que as colinas foram inundadas pelo luar. Parecíamos estar sozinhos em um mundo adorável e sussurrei:
"Oh, Billy, Billy, e algumas pessoas pensam que não existe Deus..."
E Billy colocou o braço em volta de mim e acariciou meu rosto, e não dissemos nada por um longo tempo.
Foi exatamente uma semana depois que Lady Crusoe chegou. Eu sabia que havia alguém na casa assim que passamos pelo segundo portão. A porta ainda estava fechada, e as persianas não estavam abertas, mas ouvi um relógio bater — um relógio de navio — com sinos.
Agarrei Billy. "Ouça", eu disse.
Ele também ouviu; "Quem diabos é?", ele perguntou.
"Tem alguém na casa..."
"Bobagem..."
"Billy, deve ter, e não podemos sentar na varanda."
"Você fica aqui, e eu vou dar a volta pelos fundos."
Mas eu não o deixaria ir sozinho. Nos fundos da casa, uma janela estava aberta, e então tivemos certeza.
"É melhor irmos embora", eu disse, mas Billy insistiu que ficássemos. "Se forem pessoas novas, descobrirei seus nomes e virei amanhã para pegar seus pedidos."
Demos a volta até a porta da frente e batemos e batemos, mas ninguém respondeu. Então sentamos no degrau da frente e logo Billy disse que poderíamos muito bem comer nosso jantar, pois muito evidentemente não havia ninguém em casa.
Eu não me sentia nem um pouco confortável com isso, mas abri nossa cesta e peguei nossas xícaras e pratos, e Billy serviu o café e passou o frango e os sanduíches de pão com manteiga. E bem nesse momento a porta rangeu e a maçaneta girou!
Meu primeiro impulso foi juntar o lanche e jogá-lo na cesta; mas não fiz. Apenas sentei lá olhando para cima tão calmamente como se estivesse servindo chá em minha própria mesa, e Billy sentou lá também olhando para cima.
A porta se abriu e uma voz disse: "Oh, se vocês estão jantando, posso comer um pouco?"
Era uma voz adorável, e Billy saltou de pé. Uma cabeça adorável veio depois da voz. Apenas a cabeça, espiando — o corpo estava escondido pela porta. Na cabeça havia uma touca de renda com uma rosa de ouro, e o cabelo sob a touca era dourado.
"Sabe, eu acabei de acordar", disse a voz, "e não tomei café da manhã..."
Billy e eu arquejamos. Eram sete da noite, e a refeição que estávamos servindo era o jantar!
"Vocês se importam que eu saia?", disse a voz. "Não estou exatamente vestida e em meu juízo perfeito, mas talvez eu sirva."
Ela abriu a porta mais amplamente e desceu. Vi que suas pantufas tinham rosas de ouro e que eram rosa-pálido como o pôr do sol. Ela usava um casaco de motorista de tecido bege que a cobria, mas tive um vislumbre de uma negligée de seda rosa por baixo.
Ela sentou-se bem sociavelmente nos degraus conosco. "Estou faminta", disse ela. "Não como nada há vinte e quatro horas."
Nós arquejamos novamente. "Como isso aconteceu?"
"Eu fui... naufragada", ela disse, "em um automóvel... sou a única sobrevivente..."
Seus olhos brilharam. "Contarei tudo sobre isso em breve." Então ela parou e riu.
"Mas primeiro, vocês alimentariam uma náufraga faminta?"
Contudo, ela não nos contou realmente nada. Ela comeu e comeu, e era a coisa mais linda vê-la. Ela era delicada, jovem e ávida como uma criança numa festa.
"Como tudo está gostoso!", disse ela, por fim, com um suspiro. "Não creio que já tenha tido tanta fome em toda a minha vida."
Billy e eu não comemos muito. Sabe, estávamos interessados demais e, além disso, já tínhamos jantado.
Como eu disse, ela não nos contou realmente nada. "Foi um acidente e eu vim parar aqui. E o velho relógio que vocês ouviram bater pertencia ao meu avô. Ele era almirante, e o relógio era dele. Eu costumava ouvi-lo quando criança."
"O que aconteceu com os outros--?", perguntou Billy, sem rodeios. Ele estava mais preocupado com o acidente automobilístico do que com os ancestrais dela.
"Oh, vocês querem dizer os outros no carro?", ela voltou relutante do almirante e do relógio de bordo de seu navio. "Tenho certeza de que não sei. E tenho muita certeza de que não me importo."
"Mas algum deles morreu?"
"Não--eles estão todos vivos--mas vejam--foi um naufrágio--e eu flutuei para longe--sozinha--e esta é a minha ilha, e vocês são os gentis selvagens amigáveis--" ela tocou no braço de Billy. Ele se afastou um pouco. Eu sabia que ele estava com medo de que ela tivesse perdido o juízo, mas eu tinha visto seus olhos cintilantes. "Oh, é tudo uma brincadeira!", eu disse.
Ela balançou a cabeça. "Não é exatamente uma brincadeira, mas pode parecer assim para outras pessoas."
"Você vai ficar?"
"Sim."
"Subirei pela manhã para buscar pedidos", disse Billy prontamente. "Eu cuido da mercearia em Jefferson Corners."
"Oh", ela disse, e pareceu hesitar; "não haverá pedidos."
Billy encarou-a. "Mas não existe outra mercearia."
"Robinson Crusoe não tinha mercearias, tinha? Ele encontrava coisas e vivia da terra. E eu sou a Lady Crusoe."
"Sério?", perguntei-lhe.
"Tenho outro nome--mas--se as pessoas por aqui questionarem vocês--vocês não vão contar a elas, vão--que eu estou aqui--?"
Ela disse isso de um jeito tão encantador e suplicante que, é claro, prometemos. Estava tarde quando tivemos de ir. Insisti para que deixássemos o que restava da ceia, e ela pareceu feliz em recebê-la. "Vocês são selvagens gentis e amigáveis", disse ela, com aquele brilho nos olhos, "e sou muito grata. Venham até a casa e deixem-me mostrar-lhes meu relógio--"
Ela nos mostrou mais do que o relógio. Eu não tinha sonhado, naqueles dias em que Billy e eu nos sentávamos sozinhos nos degraus, com os tesouros que estavam trancados atrás de nós. A mobília antiga estava empoeirada, mas toda a poeira do mundo não poderia esconder sua beleza. A sala de jantar estava coberta de teias de aranha, mas, quando as velas foram acesas, vimos a prataria Sheffield no antigo aparador, as porcelanas chinesas, as cadeiras Heppelwhite, o biombo de pele de carneiro pintada--
Ela escolheu uma jarra pequena adorável e deu-me. Só soube mais tarde que era de cerâmica *pink lustre* e valia um bom dinheiro. Ela pagou dessa forma, veja bem, pelo seu jantar, e algo em seu modo de agir fez-me sentir que eu não deveria recusar.
Ela não nos convidou para voltar, mas eu tinha certeza de que ela gostava de nós. Senti que talvez fosse a mercearia que a fizera hesitar. Mas, fosse o que fosse, devo confessar que me senti um pouco solitária quando fui embora. Sabe, tínhamos começado a ansiar por nossas boas-vindas na Casa Vazia. Sabíamos que éramos os convidados de honra dos esquilos-voadores, dos lagartos e do velho Príncipe Encantado. Mas agora que a casa não estava mais vazia, não seríamos bem-vindos. Arrependi-me de ter aceitado a jarra rosa. Teria preferido sentir que não devia favores à dama dos olhos cintilantes.
Não muito tempo depois de nossa aventura na Casa Vazia, Billy pediu a William Watters que levasse uma carga grande para um cliente a três quilômetros de distância. Mas William não pôde. Ele estava trabalhando, disse, em um lugar fixo. Não conseguíamos imaginar William sendo fixo em nada. Ele e sua mula eram tão irregulares em seus hábitos. Eles vinham e iam quando bem entendiam, e tiravam sonecas sempre que o espírito os movia. Mas agora, como William dizia, ele estava "trabaiando direto", e recusou-se a dizer para quem trabalhava. Mas descobrimos um dia, quando ele trouxe Lady Crusoe em uma carruagem velha e estranha, com sua mula como um corcel a trotar.
Ele a ajudou a descer como se ela fosse uma rainha, e ela entrou e conversou com Billy. "Vejam, encontrei meus selvagens amigáveis", disse ela. "Cheguei ao fim dos meus recursos." Ela fez um pequeno pedido e disse a Billy que não tinha certeza alguma de quando poderia pagar sua conta, mas que havia muitas coisas em sua casa antiga que ele poderia ter como garantia.
Billy disse, galantemente, que não precisava de garantia alguma, que a conta dela poderia ficar aberta pelo tempo que ela desejasse e que ele estava feliz em servi-la. E ele pegou seu bloco e lápis e ficou parado daquele jeito gentil que ele tem, em atenção.
Eu ouvia e olhava através de uma janela nos fundos. Eu a vira chegar, e ela estava deslumbrante no mesmo casaco de motorista bege que usava quando a vimos pela primeira vez. Mas ela estava com um chapéu e véu marrons e sapatos marrons, em vez da touca de renda e chinelos rosados.
Ela perguntou por mim, e Billy disse-lhe que eu estava no jardim. E eu estava no jardim quando ela saiu; mas tive de correr. Ela sentou-se em uma cadeira do outro lado da minha pequena mesa de costura e conversou comigo. É um pedacinho de jardim tão pequeno que só há espaço para uma mesa minúscula e duas cadeiras, mas uma cerca de cedros antigos o esconde da estrada, e há uma macieira retorcida, os campos além e um vislumbre das montanhas.
"Como vai a ilha?", perguntou-lhe Billy.
Ela cintilou. "Tenho um Sexta-feira."
"William Watters?"
Ela assentiu. "Os negros Watters têm sido nossos criados por gerações. E William acha que pertence a mim. Ele cozinha para mim e cata comida. Ele atirou em dois esquilos uma manhã e fez para mim um ensopado *Brunswick*. Mas eu não pude suportar. Sabe, os esquilos são meus amigos."
Pensei nos esquilos-voadores, nos lagartos de cauda azul e no velho sapo, e soube como ela se sentia. E eu disse isso. Ela olhou para mim fixamente e, então, colocou a mão sobre a minha: "Você está solitária, minha querida?"
Eu disse que estava--um pouco. Billy tinha entrado para atender um cliente, então tive coragem de dizer. Contei-lhe que ninguém tinha vindo nos visitar.
"Mas por que não?", ela exigiu.
"Acho", eu disse lentamente, "que é porque vivemos--acima da mercearia."
"Entendo." E ela entendia mesmo; estava no sangue dela, assim como no sangue do resto deles.
Logo ela levantou-se e disse que precisava ir, e foi então que ela notou o trabalho que estava em minha cesta sobre a mesa. Ela tirou uma pequena peça de roupa e o vermelho subiu às suas bochechas. "Oh, oh!", ela disse, e ficou olhando para ela. Quando a colocou de volta, ela contornou a mesa e beijou-me. "Que querida você é!", ela disse, e então foi embora.
William Watters apareceu muito frequentemente depois disso; mas ele dizia muito pouco sobre Lady Crusoe. Ele era uma criatura velha e fiel, e tinha, evidentemente, recebido instruções. Mas, numa manhã, ele trouxe uma bela e antiga bandeja Sheffield para Billy e pediu-lhe que descontasse seu pagamento dela e desse o restante a Lady Crusoe em dinheiro. William Watters não a chamava de "Lady Crusoe", ele a chamava de "Miss Lily", o que não nos deu a chave da situação de modo algum. Billy não sabia como avaliar a bandeja, então perguntou-me. Eu sabia mais do que ele, mas não tinha certeza. Disse-lhe para adiantar o que achasse melhor e para enviá-la à cidade para que fosse avaliada, ou qualquer nome que deem a isso; então ele fez; e quando o cheque da loja de antiguidades chegou, era um valor alto.
Não muito tempo depois disso, Lady Crusoe veio visitar-me. Foi uma visita real, e ela deixou um cartão. E ela disse, ao colocá-lo sobre a mesa: "Como eu disse a vocês, prefiro que os outros nativos não saibam--eles não me veem desde que eu era criança, e eles acham que sou apenas uma estranha que aluga a casa antiga e que quer ficar sozinha."
Depois que ela foi embora, peguei o cartão, e o que li ali quase me tirou o fôlego. Existem certos nomes que significam tanto que passamos a encará-los como tendo um significado especial. O nome que estava no cartão de Lady Crusoe sempre representou em minha mente dinheiro--oceanos dele. Eu simplesmente não podia acreditar nos meus olhos, e levei-o para Billy.
"Olhe para isto", eu disse, e coloquei diante dele, "e ela nos convidou para jantar no próximo domingo!"
Bem, não conseguíamos entender nada daquilo. Por que uma mulher com um nome como aquele estava aqui embaixo sem nada para comer, exceto as coisas que William Watters conseguia catar e que Billy podia fornecer de sua pequena mercearia, e pelas quais ela pagava com bandejas Sheffield?
Jantamos naquele domingo à noite na grande sala de jantar. Havia um candelabro de cinco hastes com velas brancas altas no centro da reluzente mesa de mogno, e William Watters agiu como mordomo. Você nunca teria acreditado quão bem ele o fez. E, após o jantar, tomamos café na varanda da frente e olhamos para as colinas ao pôr do sol, a lua prateada, e o velho sapo saiu debaixo de sua pedra e sentou-se conosco.
Lady Crusoe estava com um vestido branco fino que ela mesma tinha feito, e ela falou sobre o lugar antigo e sobre sua infância ali. Mas nem uma palavra ela disse sobre o motivo de ter voltado para viver sozinha nas terras ancestrais Davenant.
Foi sua mãe, aprendemos, quem era uma Davenant, e foi o pai de sua mãe quem era o velho almirante. Ela não disse nada do homem cujo nome estava em seu cartão. Era como se ela parasse abruptamente quando chegava a essa parte de sua vida, ou como se ela nunca tivesse existido.
Ela levou-me ao andar de cima depois de um tempo e deixou Billy fumando na varanda. Ela disse que tinha algo que queria que eu visse. O quarto dela era enorme e quadrado, no canto sudoeste da casa. Havia uma cama maciça de quatro colunas com cortinas de cetim azul desbotado, e havia uma lareira com atiçadores e um biombo Adam. Lady Crusoe carregava uma vela e, enquanto ela ficava no centro do quarto, parecia reunir toda a luz para si, como os santos nas pinturas antigas. Ela era tão perfeitamente adorável que eu quase quis chorar. Não sei explicar, mas havia algo patético em sua beleza.
Ela pousou a vela e abriu um antigo baú com ferragens de latão. Ela tirou um rolo de tecido, trouxe-o e colocou-o sobre a mesa ao lado da vela.
"Comprei com parte do dinheiro que seu Billy conseguiu pela minha bandeja Sheffield", disse ela. Então ela virou-se para mim com um movimento rápido e colocou as mãos em meus ombros. "Oh, sua querida--quando vi você fazendo aquelas coisinhas--soube que--que o bom Deus me guiou. Você vai--você vai--mostrar-me--como?"
Contei a Billy sobre isso no caminho de casa.
"Ela não sabe nada sobre costura, e não tem moldes, e eu devo subir todos os dias, e William Watters virá me buscar com sua mula--"
Então chorei um pouco por ela, porque parecia tão terrível que ela estivesse ali toda sozinha, sem ninguém para sustentá-la e acarinhá-la como Billy fazia comigo.
"Oh, Billy, Billy", eu disse a ele, "prefiro viver acima de uma mercearia com você do que viver num palácio com qualquer outra pessoa--"
E Billy disse: "Não chore, meu amor, você não vai viver com mais ninguém."
E ele passou o braço ao meu redor, e enquanto caminhávamos juntos na noite de abril, era como nos dias em que éramos jovens amantes, só que nossa alegria um pelo outro era mais profunda e mais fina, pois então tínhamos apenas adivinhado a felicidade, e agora sabíamos--
Bem, eu subia todos os dias. William Watters vinha me buscar, e eu levava meus moldes e nos sentávamos no grande quarto oeste, e bem debaixo da janela um par de tordos estava construindo um ninho.
Nós os observávamos enquanto trabalhavam, e parecia-nos que, não importava o quanto trabalhássemos, aqueles dois pássaros ficavam à frente. "Nunca sonhei", observou Lady Crusoe certa manhã, "que eles estivessem nisso o tempo todo assim."
"Espere até começarem a alimentar os filhotes", eu disse a ela. "As pessoas falam em ser livre como um pássaro. Mas posso lhe dizer que eles se escravizam do amanhecer até o anoitecer. Já vi uma mãe pássaro ao anoitecer dando uma última migalha a um bebê que gritava enquanto o pai alimentava outro."
Lady Crusoe pousou seu trabalho e olhou para as colinas. "O pai", ela disse, e foi só isso por um longo tempo, e costuramos e costuramos, mas, por fim, ela falou diretamente de seus pensamentos: "Como seu marido é querido para você!"
"É para isso que os maridos são feitos."
"Alguns deles não são, querida", sua voz era dura, "alguns esperam tanto e dão tão pouco--"
Fiquei quieta e, logo, ela começou novamente. "Eles dão dinheiro--e acham que isso--é o bastante. Eles dão joias--e acham que deveríamos ser profundamente gratas."
"Bem, minha experiência", eu disse a ela, "é que os homens dão tanto amor quanto as mulheres--"
Ela olhou para mim. "O que você quer dizer?"
"O amor custa-lhes muito."
"De que maneira?"
"Eles trabalham para nós. Agora, há a mercearia do Billy. Se Billy não tivesse a mim, ele estaria fazendo coisas que gosta mais. Você não acreditaria, mas Billy queria estudar direito, mas significava anos de trabalho duro antes que ele pudesse ganhar um centavo, e ele e eu teríamos desperdiçado nossa juventude esperando--e então ele entrou nos negócios--e isso é uma grande coisa para um homem fazer por uma mulher--abrir mão de um futuro que ele esperava--e é por isso que sinto que não posso fazer o suficiente por Billy--"
"Não vejo por que você deveria olhar para isso dessa maneira", disse ela, e seus olhos estavam grandes e brilhantes. "As mulheres são rainhas, e elas honram os homens quando se casam com eles--"
"Se as mulheres são rainhas", eu disse a ela, "os homens são reis--Billy honrou-me--"
Ela sorriu para mim. "Oh, sua querida abençoada--" ela disse, e de repente ela veio e ajoelhou-se ao meu lado. "O que você pensaria de um homem que se casou com uma mulher a quem o mundo chamava de bela e brilhante, e a quem--a quem príncipes queriam desposar--E ele era um homem muito simples, exceto pelo fato de ter muito dinheiro--milhões e milhões--e depois que ele se casou com a mulher a quem disse que adorava, ele queria fazer dela apenas uma esposa comum. Ele queria que ela ficasse em casa e cuidasse de sua casa. Ele disse a ela uma noite que seria uma grande felicidade para ele se ele pudesse chegar e encontrá-la aquecendo--suas pantufas. E ele disse que seu ideal de mulher era uma que--que--segurasse uma criança em seus braços--"
Eu olhei para baixo, para ela. "Bem, logo no começo", eu disse, "eu gostaria de saber se a mulher amava o homem--"
Ela encarou-me e, então, levantou-se. "Se ela amasse, e daí? Ela não tinha se casado para ser--sua escrava--"
Apontei para a mãe tordo no galho abaixo. "Pergunto-me se ela chama isso de escravidão! Veja--ela está tão ocupada--construindo seu ninho que não tem tempo de pensar se o Pai Tordo está cantando menos canções de amor do que cantava no início da primavera."
Ela riu e estava de joelhos ao meu lado novamente. "Oh, sua coisinha engraçada e prática! Mas não foi porque eu senti falta das canções de amor. Ele as cantava. Mas porque eu não podia ser uma esposa comum--"
"Que tipo de esposa você queria ser?"
"Eu queria viajar com ele sozinha--planejei uma lua de mel no deserto, e nós a tivemos--e planejei depois disso navegar os mares até a terra do Lugar Nenhum--e navegamos--e então--eu queria ir para as altas planícies--e cavalgar e acampar--e para as florestas para caçar e pescar--mas ele não quis. Ele disse que tínhamos vagado o suficiente. Ele queria construir uma casa--e que eu aquecesse--suas pantufas--"
"E então vocês brigaram?"
"Brigamos--grandes brigas quentes e pesadas--e dissemos coisas--coisas horríveis--que não podemos perdoar--"
Ela estava soluçando em meu ombro e eu disse suavemente: "Coisas que vocês não podem perdoar?"
"Sim. E que ele não pode. É por isso que fugi dele."
Esperei.
"Eu não suportava vê-lo andando por aí com o rosto severo e fechado e nada parecido com o do meu amante. E ele não falava comigo, exceto para ser educado. E ele convidava pessoas para ir conosco--a toda parte. E nós nunca estávamos a sós--"
"O que você tinha dito para deixá-lo--assim?"
Ela levantou a cabeça. "Eu disse a ele que eu--o odiava--"
"Oh, oh--"
Ela se ajoelhou sobre os calcanhares.
"Foi uma coisa terrível de se dizer, não foi? É por isso que fugi. Eu não suportava. Eu sabia que era uma coisa que nenhum homem--poderia--perdoar--"
Eu alisei seu cabelo e a balancei para frente e para trás enquanto ela chorava. Era estranho o quanto ela parecia uma criança para mim. E eu era apenas a esposa de um merceeiro do campo e vivia acima da loja, e ela era a esposa de um homem cujo nome era conhecido de leste a oeste, e ao redor de todo o mundo. Mas veja, ela não tinha aprendido a viver. Nem eu, na verdade. Mas Billy me ensinou muito.
Acho que foi um consolo para ela sentir que tinha confiado em mim. Mas ela me fez prometer que, acontecesse o que acontecesse, eu não o deixaria saber.
"A menos que eu--morra", disse ela, e ela estava pálida como um lírio, "a menos que eu morra, e então você pode--libertá-lo--"
Billy ficou triste por eu ter prometido. "De alguma forma sinto-me responsável, querida, e aposto que o pobre marido dela está quase louco."
"Você ficaria, Billy?"
Ele me puxou para si tão rapidamente que quase me tirou o fôlego. "Não pergunte uma coisa dessas", disse ele, e sua voz não soava como a dele. "Se alguma coisa acontecesse com você--se alguma coisa acontecesse--eu deveria--eu deveria--oh, por que as mulheres perguntam coisas como essa--?"
Nos dias que se seguiram, Billy não queria que eu saísse de sua vista. Ele até odiava que eu fosse à casa dos Davenant com William Watters. "Cuide dela, William", ele dizia, e ficava nos olhando partir.
William e eu tornamo-nos muito bons amigos. Ele era um velho negro sábio, e era devotado a Lady Crusoe. Ele geralmente servia chá para nós lá fora sob as árvores, a menos que fosse um dia chuvoso, e então tomávamos na biblioteca.
Foi em um dia chuvoso que Lady Crusoe disse: "Pergunto-me o que aconteceu com William. Não o vejo desde que você chegou. Eu procurei e chamei, e não consigo encontrá-lo."
Ele apareceu na hora do chá, contudo, com um prato de waffles quentes com açúcar de confeiteiro entre eles. Quando sua patroa perguntou-lhe sobre seu desaparecimento misterioso, ele disse que tinha limpado o sótão.
"Mas, William, em um dia como este?"
"Eu num posso trabaiá na chuva, Miss Lily, então eu trabaio lá dentro--"
Isso foi tudo o que ele disse a respeito, e depois que tomamos nosso chá, ela me disse: "Há muitas coisas interessantes no sótão. Vamos subir e ver o que Willie tem feito--"
O lugar antigo e sombrio estava tão brilhante quanto o sabão e a água podiam deixá-lo, e havia o cheiro úmido de sabão. Havia o bater da chuva no telhado e o salpicar dela contra a janela redonda voltada para o leste. Pela janela do oeste entrava uma luz verde-pálida, e havia uma vista sobre as colinas. À medida que nos acostumávamos à penumbra, nossos olhos identificavam os vários objetos — um tear antigo como uma aranha enorme sob um telhado pontiagudo, uma cômoda que deixaria um colecionador louco, cadeiras Chippendale sem assento, cadeiras Windsor com as costas quebradas, molduras de espelho douradas sem vidro — caixas — livros — garrafas — todos os destroços e sobras de tais estabelecimentos antigos. A maioria das coisas havia sido colocada encostada na parede, mas bem no meio do chão havia um objeto que tomei a princípio por um pequeno baú.
Lady Crusoe chegou lá primeiro e ajoelhou-se ao lado dele. Ela deu um pequeno grito. "Minha querida, venha aqui!" e fui até ela, e num instante, eu também estava de joelhos. Pois o objeto escuro era um berço — uma linda peça de mogno com capota, na qual os Davenant haviam sido embalados por gerações.
"William o tirou", disse Lady Crusoe, "pronto para ser levado para baixo. Oh, meu bom e velho Sexta-Feira! Você se importa se eu chorar um pouco, minha querida?"
Choveu muito naquele verão, e estava quente e úmido. Billy e eu ansiávamos pelos ventos frios que varrem o mar na Costa Norte, mas não reclamávamos, pois tínhamos um ao outro, e eu não trocaria Billy por nenhuma brisa que sopre.
Lady Crusoe sofreu menos do que eu, pois estava em seu habitat natural, e à tarde, quando costurávamos juntas, William Watters fazia limonada, e à noite, quando Billy vinha me buscar, sentávamo-nos sob as estrelas até que sussurros de vento agitassem as árvores, e então íamos embora e deixávamos nossa querida dama sozinha.
Com o passar do tempo, odiávamos cada vez mais deixá-la, mas ela era muito corajosa quanto a isso. "Tenho meu bom Sexta-Feira", ela nos dizia, "para me proteger, e o revólver do meu avô."
Assim passou o verão, e o outono chegou, e o atarefado tordo e toda a sua família de peito vermelho partiram para o Sul, e houve chuva e mais chuva, de modo que, quando outubro chegou, as estradas eram verdadeiros rios de lama vermelha, e os riachos inchados varriam sob as pontes em torrentes furiosas de terracota, e as ovelhas nas colinas estavam mais rosadas do que nunca. Não faltava cor naqueles dias cinzentos, pois as árvores irrompiam através da cortina de névoa em grandes salpicos de vermelho, verde e ouro. Mas agora eu não saía com William Watters atrás de sua velha mula cinzenta, pois haviam acontecido coisas que me mantinham em casa.
Foi em uma noite chuvosa de novembro que desci à loja para chamar Billy para o jantar. Eu havia trazido um pires para o velho Tid, o gato da loja, e quando ele terminou, Billy cortou-lhe um pedaço de queijo e ele estava pedindo. Tínhamos ensinado Tid a sentar e pedir, e ele parecia tão engraçado, pois é gordo e preto e odeia pedir, mas adora queijo. Estávamos rindo dele quando um grande clarão de luz pareceu varrer a loja, e um automóvel parou.
Billy foi à frente imediatamente. A porta da frente se abriu, e um homem de capa de chuva foi soprado para dentro pela tempestade.
"Júpiter, é uma noite úmida!" ouvi-o dizer, e soube que não era nenhum dos clientes de Billy daquela parte do país. Aquela não era uma voz arrastada da Virgínia. Era nítida, clara e autoritária.
Ele tirou o chapéu, e mesmo àquela distância pude ver sua cabeça loura e brilhante. Ele se elevava acima de Billy, e Billy não é baixo. "Eu me pergunto se você poderia me ajudar", ele começou, e então hesitou, "é um assunto um tanto pessoal."
"Se você subir", disse-lhe Billy, "estaremos apenas minha esposa e eu, e posso fechar a loja para a noite."
"Ótimo!" ele disse, e eu fui à frente deles com o velho Tid seguindo, e logo os homens chegaram e Billy apresentou o estranho a mim.
Ele nos disse imediatamente o que queria. "Pensei que, como você mantém a loja, talvez ouvisse as notícias da vizinhança. Perdi... minha esposa..."
"Morto?" Billy perguntou solicito.
"Não. Vários meses atrás, viajamos de carro para esta parte do país. A algumas milhas daqui, tive problemas com meu motor e tive que caminhar até a cidade em busca de ajuda. Quando voltei, minha esposa tinha ido embora..."
Pisquei para Billy debaixo da mesa. "Embora?" ecoei.
"Sim. Ela deixou um bilhete. Ela disse que poderia pegar um trem na estação e que o pegaria. Alguém evidentemente lhe deu uma carona, pois ela estava com sua mala de viagem. Ela disse que navegaria imediatamente para a França e que eu não deveria tentar segui-la. É claro que a segui e procurei por toda a Europa, mas não encontrei vestígios, e então me ocorreu que, afinal, ela ainda poderia estar nesta parte do país..."
Eu me segurei em Billy. "Vocês tinham brigado ou algo assim?"
Ele passou os dedos pelo cabelo. "As coisas tinham dado errado de alguma forma", disse ele, incerto, "não sei por quê. Eu a amo."
Se você pudesse tê-lo ouvido dizer isso! Se ela pudesse tê-lo ouvido! Houve um silêncio no qual eu disse: "Você pediu a ela para aquecer suas pantufas?"
Ele me encarou, então estendeu as mãos através da mesa e agarrou as minhas com um aperto tão forte que doeu. "Você a viu", disse ele, "você a viu...?"
Então eu me lembrei. "Não posso dizer mais nada. Sabe... eu prometi..."
"Que você não me contaria?"
"Sim."
Ele jogou a cabeça para trás e riu. "Se ela estiver nesta parte do país, eu a encontrarei." E eu sabia que ele encontraria. Ele era o tipo de homem que você sentia que não saberia que havia obstáculos no caminho quando ele ia atrás daquilo que queria.
Fiz com que ele ficasse para o jantar. Era uma noite fria e garoante, e ele parecia muito cansado.
"Júpiter", disse ele, "vocês são confortáveis aqui, com sua lareira, seu gatinho e sua chaleira no fogo! É o tipo de coisa que eu gosto..."
"Você não gostaria de morar acima de uma mercearia", eu lhe disse.
"Por que não?"
"Ah, ninguém por aqui jamais morou, e todos eles são descendentes dos signatários da Declaração de Independência e, antes disso, de Guilherme, o Conquistador, e eles empinam o nariz."
"Sombras de Jefferson! — por que eles fariam isso?"
"Eles não deveriam. Mas fazem..."
Ele voltou ao assunto de sua esposa. "Eu não queria que ela aquecesse minhas pantufas. Era apenas que eu queria que ela sentisse vontade de aquecê-las", ele apelou para Billy, e Billy assentiu. Billy ronrona positivamente quando eu o deixo confortável após o dia de trabalho. Ele diz que é o instinto do lar nos homens e que as mulheres deveriam encorajá-lo.
"Ela aquece as suas?" ele perguntou a Billy.
"Agora não, ela está muito ocupada..." e então, como se o palco estivesse montado para isso, veio do próximo quarto um chorinho, um chorinho bem pequeno.
Fui lá dentro e trouxe... o Júnior! Ele tinha apenas um mês de idade, mas você sabe como eles são doces como o céu, com suas peles de pétalas de rosa, suas mãozinhas enrugadas e suas cabeças felpudas — a penugem de Júnior era castanha, pois Billy e eu somos ambos morenos.
"Você vê que ele me mantém ocupada", eu disse.
Eu estava tão orgulhosa que tenho certeza de que isso transparecia em tudo, e quanto a Billy, ele brilhava para nós de uma maneira engraçada e paternal que ele havia adotado desde o momento em que me chamou pela primeira vez de "Mamãezinha".
"Você se pergunta por que ela não tem tempo para aquecer minhas pantufas?" foi sua pergunta.
O estranho estendeu os braços: "Deixe-me segurar o pequeno." E ele sentou-se lá, sem um sorriso, olhando para o meu bebê. Quando levantou a cabeça, disse de uma maneira seca: "Pensei que o gatinho e a chaleira fossem o suficiente — mas isto parece quase bom demais para ser verdade..."
Não posso dizer o quanto eu gostei dele. Ele parecia tão grande, nobre e terno. Deparei-me com um poema outro dia, e ele me fez pensar nele:
"... os fortes", O Mestre sussurrou, "são os mais ternos!"
Antes de ir embora, ele pegou minha mão na dele. "Quero que você brinque de um jogo comigo. Você se lembra de quando éramos crianças, que costumávamos esconder coisas e depois guiar os que caçavam dizendo 'quente' quando estávamos perto deles, e 'frio' quando eles se afastavam? Você dirá 'quente' e 'frio' para mim? Isso não será quebrar sua promessa, será?"
"Não."
"Então vamos começar agora. Amanhã de manhã irei para o norte e leste..."
"Frio!"
"Para o sul e oeste..."
"Mais quente."
"Subindo uma colina?"
"Muito quente. Mas você não deve me perguntar mais nada."
"Tudo bem. Mas voltarei, e jogaremos o jogo."
Billy desceu com ele, e quando voltou, ficamos olhando para o fogo, e ele disse: "Você não contou a ele?"
"Claro que não. Essa é a coisa linda, linda que ele deve descobrir por si mesmo..."
No dia seguinte, fui ver Lady Crusoe. William Watters me levou. "Tem um homem rondando esta manhã", ele reclamou, "e um cachorro..."
"Que tipo de homem, William?"
"Ele está caçando, e a Srta. Lily não gosta que as coisas sejam mortas..."
Na metade do caminho, passamos pelo homem. Seu chapéu saiu quando ele me viu. "Estamos com um tempo frio", disse ele agradavelmente.
"Está ficando mais quente", eu respondi a ele, e William seguiu em frente com um grunhido.
Eu estava com Júnior, e quando cheguei à casa, fui direto para o andar de cima. Bem no centro do quarto, no berço de mogno com capota, havia outra pétala de rosa enrugada de criança. Mas este não era um "Júnior".
"Robin-son", Lady Crusoe sussurrou, quando eu me inclinei sobre ela e perguntei o nome do bebê.
"Por causa dos pisco-de-peito-ruivo?" perguntei.
Ela balançou a cabeça. "Eu não poderia chamá-lo de Crusoe, poderia?"
Então lá estava ele, o pequeno Robinson Crusoe, em uma extensão deserta de chão polido, e lá ele arrulhou uma boas-vindas ao meu próprio lindo bebê!
Lady Crusoe estava em uma poltrona grande. Ela não estava forte, e William Watters trouxera sua irmã Mandy para servi-la. Ela estava muito pálida, essa linda dama, e havia sombras sob seus olhos. Enquanto eu me sentava ao lado dela, ela disse: "Terei que pedir ao seu Billy que venda mais algumas coisas para mim. Você vê, os empregados precisam ser pagos, e meu Robin precisa estar confortável. Há uma mesa de console que deveria render muito de um negociante da cidade."
"Eu gostaria que você não precisasse se preocupar", eu disse. "Eu gostaria... eu gostaria... que você me deixasse mandar buscar o pai de Robin..."
"O pai de Robin!" ela respirou fundo, "que engraçado soa! — o pai de Robin..."
Esperei que isso fosse absorvido, e então disse: "Eu sei como você se sente. Quando penso em Billy como o pai de Júnior, é diferente de pensar nele como meu marido, e isso causa uma sensação engraçada na minha garganta, como se eu quisesse chorar..."
"Você não tem nada com que chorar", ela me disse ferozmente, "nada, mas às vezes sinto como se pudesse chorar rios de lágrimas!"
Percebi que deveria ter cuidado, então mudei de assunto. "William", disse eu após uma pausa, "está preocupado com um homem que está caçando pelo terreno."
"Ele me contou. Não consigo entender por que alguém invadiria quando o local está sinalizado. Mandei William avisá-lo, mas não parece ter surtido efeito. Não o ouvi atirar. Quando ouvir, sairei e falarei com ele eu mesma."
Eu me perguntei se o Destino resolveria dessa forma, e me perguntei também se seria quebrar minha promessa dizer-lhe para atirar! Costuramos em silêncio por um tempo, mas Lady Crusoe estava inquieta. Finalmente, ela caminhou até a janela. Era uma longa janela francesa que dava para uma varanda. Ela abriu as cortinas de veludo e olhou para fora. "Lá está ele de novo", disse ela, com irritação, "perto do portão com sua arma e seu cachorro..."
Levantei-me e juntei-me a ela. O homem estava parado perto do poste do portão, e o cachorro estava sentado a seus pés. Eles poderiam ter sido um par de estátuas plantadas no topo arredondado da colina, com os vales rolando abaixo deles e os picos das montanhas e o céu dourado além. Lady Crusoe ficou muito agitada com isso.
"Mandarei William novamente, quando ele vier com nosso chá. Não deixarei que matem meus animais selvagens. Havia um bando de perdizes no gramado esta manhã, e meus esquilos vêm até a varanda para serem alimentados. Os homens são criaturas cruéis com suas armas e suas armadilhas."
"As mulheres também são cruéis", eu lhe disse, e agora tomei coragem. "Suponha, oh, suponha que a mãe tordo tivesse roubado seu ninho e nunca tivesse deixado o pai tordo compartilhar sua felicidade, você não chamaria isso de cruel?"
"O que você quer dizer?" sua voz tremeu.
"Você roubou seu... ninho..."
"Por que eu não deveria roubá-lo? Sempre senti que, quando quisesse um lar de verdade, seria aqui. E o tempo chegou quando eu quis um... lar. Então planejei vir... com ele. Era para ser minha surpresa — ele nem sabe que o lugar antigo pertence a mim. Ele pensou que era apenas mais uma das minhas exigências inquietas, mas deixou-me fazer do meu jeito. Tínhamos amigos conosco quando começamos; eles nos deixaram em Washington. Foi depois que ficamos sozinhos que... brigamos... e eu fugi. Deixei um bilhete e disse a ele que tinha ido para a França. Suponho que ele me seguiu e não me encontrou. Nem tenho certeza de que ele queira me encontrar."
"Você quer ser encontrada?"
"Não sei. Prefiro não falar sobre isso."
William entrou com o chá e foi instruído a mandar o intruso embora.
"Eu já mandei, Srta. Lily", disse ele, com dignidade, "mas ele não quer ir. Ele diz que não vai, e eu não posso obrigá-lo."
Ela foi novamente à janela, e desta vez puxou as cortinas desbotadas e saiu para a varanda.
Ouvi-a soltar um grito; então todo o quarto pareceu girar ao meu redor quando ela entrou, arrastando as cortinas atrás de si. Cada gota de sangue foi drenada de seu rosto.
"William", disse ela, bruscamente, "aquele homem... está vindo em direção à casa! Se ele perguntar por mim... eu não estou... em casa."
"Sim, senhora", e William desceu para atender às batidas do batedor de latão.
Nós o ouvimos abrir a porta, ouvimos a voz nítida e rápida. Ouvimos a resposta imponente de William. Então a voz rápida disse: "Você dirá à sua patroa que eu esperarei?"
William subiu com a mensagem. "Ele está sentado na varanda, e parece que ele pretende ficar lá a noite toda."
"Deixe-o sentar", disse Lady Crusoe inelegantemente. "Tranque todas as portas, William, e sirva o chá."
Ela sentou-se lá e bebeu uma xícara fervendo, com a cabeça erguida e o pé batendo no chão. Mas eu não conseguia beber uma gota. Eu estava simplesmente doente com o pensamento de como ele a amava, e de como ela havia endurecido seu coração.
Finalmente, não pude mais suportar. As lágrimas rolaram pelas minhas bochechas. Lady Crusoe colocou sua xícara na bandeja e olhou para mim com espanto. "O que há de errado?"
"Oh, como você pode... quando ele te ama?"
Não sei como ousei dizer isso, pois seus olhos estavam ardendo em seu rosto branco, e meu coração estava batendo forte, mas lá estava Robinson Crusoe arrulhando em seu berço com capota, e o pai de Robin estava no degrau da frente, com a velha porta de carvalho fechada e trancada contra ele.
Ela inclinou-se para frente, e eu sabia o que viria. "Como você sabia que era... meu marido?"
Meus olhos encontraram os dela diretamente. "Ele veio à loja. Ele estava procurando por você."
"E você disse a ele que eu estava aqui?"
"Não. Eu queria. Mas eu havia prometido."
Por um tempo, nenhuma de nós falou. O silêncio foi quebrado por um baque, como se um esquilo voador tivesse caído do telhado para a varanda. Um pedaço de madeira se partiu na lareira, e o arrulho do bebê no berço com capota foi respondido pelo bebê no meu colo.
Lady Crusoe abraçou os joelhos com seus braços brancos como se estivesse com frio, embora o quarto estivesse quente com a lareira acesa. "Acho que você poderia ter me contado. Teria sido uma atitude amigável me contar..."
"Billy achou que não era o melhor."
"O que Billy tem a ver com isso?"
"Billy tem tudo a ver comigo. Eu conversei com ele... e... e Billy é tão querido para conversar sobre as coisas..."
Desabei e solucei e solucei, e as lágrimas pingaram na cabeça preciosa de Júnior. E finalmente ela disse, com o rosto suavizado: "Sua boba, o que você quer que eu faça?"
"Se fosse Billy, eu o convidaria para entrar... e mostraria... o bebê..."
"Se fosse Billy, você colocaria seu coração sob o calcanhar dele para ele pisar. Eu não sou assim..."
Outro esquilo caiu na varanda. O sol estava se pondo e, entre as cortinas de veludo, eu podia vê-lo vermelho como sangue atrás das colinas.
Lady Crusoe levantou-se, andando pelo quarto inquietamente. O vento que subia chacoalhava as janelas longas. Uma sombra encobriu o sol.
"Suponho que, se você fosse eu", disse ela finalmente, "você pegaria seu bebê nos braços, desceria e diria àquele homem nos degraus: 'Entre e seja o senhor da mansão e o governante de sua esposa e filho'."
Segurei Júnior perto de mim e minha voz tremeu. "Eu nunca diria uma coisa dessas para... Billy..."
"O que você diria?"
"Eu diria" — engasguei com isso e desabei no final — "oh, amante, amante, este é seu filho... e eu sou sua mãe feliz..."
Ela parou na minha frente e ficou olhando para baixo, com a raiva toda desaparecida de seus olhos. Então, antes que ela pudesse se virar ou gritar, as janelas longas foram abertas por algo que era mais forte que o vento. Não havia esquilos voadores na varanda, e a sombra que havia escondido o sol era a largura e a altura do homem grande que estava parado entre as cortinas de veludo! Ele atravessou o quarto com um passo.
"Você achou que trincos e barras poderiam me manter longe de você?" perguntou ele, pegando as mãos de Lady Crusoe com um aperto firme e puxando-a para perto. Ela resistiu por um momento. Então sua brancura esguia foi esmagada em seus braços famintos.
Bem, assim que pude reunir Júnior e seus pertences, desci para esperar por Billy. Mas antes de ir, vi-a cair de joelhos ao lado do berço de mogno e tirar o pequeno Robin, e, ainda ajoelhada, levantá-lo em direção ao seu pai, como a freira levanta Galahad no Santo Graal.
E o que você acha que a ouvi dizer?
"Oh, amante, amante, este é seu filho... e eu sou sua mãe feliz!"
Billy entrou brilhando da sua caminhada no ar cortante, e não sei dizer como foi bom sentir sua bochecha fria contra a minha, e seus lábios quentes nos meus. Éramos um trio arrebatado diante da lareira da biblioteca, e lá fomos acompanhados logo depois pelo trio arrebatado do andar de cima. Eles trataram Billy e eu como se fôssemos um par de anjos da guarda. Então jantamos juntos, com Mandy e William ao fundo, sorridentes.
E naquela noite contei tudo a Billy. "Não é lindo, Billy? Eles vão morar na antiga propriedade Davenant, e esse será o seu lar."
Todo mundo nos visita agora. Veja bem, a família da Lady Crusoe é mais antiga do que qualquer uma das outras, e ainda tem o dinheiro do marido dela. E eu brilho sob sua luz refletida, pois nossa amizade, como ela diz, é fundada sobre uma rocha. Mas Billy diz que é fundada sobre um naufrágio. No entanto, embora ele brinque com isso, sei que ele se orgulha de sua amizade com o pai de Robin. E quando a primavera chegar, levaremos o velho Tid, nosso abençoado Junior e nossos bens de família para uma casa adorável, com um jardim em todos os quatro lados e bem recuada em relação à estrada. Veja, sentimos que podemos pagar por isso, pois temos a exclusividade de suprir as necessidades da propriedade Davenant e, assim, estamos financeiramente de pé.
UMA AVÓ REBELDE
A Sra. Cissy Beale e sua filha Cecily sentaram-se juntas no quarto desta última — um aposento encantador, no qual papel de parede cinza-pálido e cortinas cinza-pálido formavam um cenário eficaz para a mobília de pau-rosa, os espelhos franceses e os biombos de tapeçaria.
Entre as duas mulheres havia um berço e um bebê.
"Você age", disse Cecily, "como se estivesse arrependida por causa... do bebê."
Sua mãe, que estava estirada confortavelmente em um sofá com almofadas, balançou a cabeça.
"Não estou arrependida por causa do bebê — ela é uma querida —, mas você não precisa pensar que serei chamada de 'avó', Cecily. Uma avó é uma pessoa que se aquieta. Não pretendo me aquietar. Minha vida foi dura. Lutei e me esforcei durante todos aqueles anos terríveis depois que seu pai... me deixou. Eduquei você e Bob. E agora ambos se casaram bem, e tenho um pouco de dinheiro guardado do meu pequeno livro. Pela primeira vez na vida posso ter lazer e roupas bonitas; pela primeira vez na vida me sinto jovem; e então, absolutamente sem aviso, você volta da Europa com sua linda Surpresa e espera que eu corresponda a isso..."
"Oh, não!" Cecily protestou.
"Sim, você espera", insistiu a pequena Sra. Beale. Ela se sentou e encarou a filha de forma acusadora. Com a renda de sua touca de dormir emoldurando seu rosto pequeno e claro, ela parecia realmente jovem — quase tão jovem quanto a recatada Cecily, que, em trajes menos sedutores, levava sua nova maternidade muito a sério.
"Sim, você espera", repetiu a Sra. Beale. "Sei exatamente o que você espera de mim. Você espera que eu coloque veludo preto, renda antiga e diamantes. Não terei coragem de lhe mostrar meu novo vestido de tarde — ele é vermelho, Cecily, vermelho gerânio; não terei coragem de usar nem a menor fenda nas minhas saias; não terei coragem de usar uma faixa búlgara ou uma blusa russa, ou um decote baixo — sem esperar ouvir alguém dizer, com desaprovação: 'E ela é avó!'" Ela parou, e Cecily interrompeu tumultuosamente:
"Eu deveria pensar que você estaria orgulhosa do... bebê."
"Não, não estou orgulhosa." A Sra. Beale enfiou os dedos dos pés em um par de chinelos turcos bordados com prata e levantou-se. "Não estou orgulhosa neste momento, Cecily. Veja bem... existe Valentine Landry."
"Mãe...!"
"Agora, por favor, não diga isso desse jeito, Cecily. Ele está meio apaixonado por mim, e estou começando a gostar dele, terrivelmente. Nunca tive um pingo de romance na minha vida. Casei-me com seu pai quando era jovem demais para conhecer minha própria mente, e ele era muito mais velho que eu. Depois vieram os anos de luta depois que ele se foi... Fui uma boa esposa e uma boa mãe. Eu adorava você e Bob, e sacrifiquei minha juventude por vocês. Nunca pensei em nenhum outro homem enquanto seu pai viveu, mesmo que ele não me pertencesse. E agora ele está morto. Você nunca saberá — espero que nunca saiba — o que significa a labuta como eu a conheci. Escrevi meus pobres pequenos textos quando estava quase morta de fadiga; saí no frio e na chuva para buscar notícias; entrevistei todo tipo de gente quando os odiava e odiava o trabalho. E se agora quero ter minha pequena aventura, por que não? Todo mundo efervesce alguma vez. Este é o meu momento — e você não pode esperar que eu o estrague bancando a avó dedicada."
O bebê estava chorando, um pequeno chamado de fome, o que fez sua mãe pegá-la e dizer, apressadamente: "É hora de alimentá-la. Você não se importa, mamãe?"
"Sim, eu me importo", disse a pequena dama. "Não gosto desse efeito Madonna, com o bebê em seus braços. Isso me faz sentir horrivelmente frívola e mundana, Cecily. Mas isso não muda nem um pouco minha opinião."
Após uma pausa, a criatura-Madonna perguntou: "Quem é Valentine Landry?"
A Sra. Beale tirou sua touca atrevida e estava escovando suas mechas finas e claras, nas quais o cinza aparecia levemente. Mas ela parou tempo suficiente para explicar. "Ele não é nem metade tão sentimental quanto o nome sugere. Conheci-o em Chicago na casa dos Warburton, logo antes de fazer sucesso com meu livro. Eu estava muito cansada, e ele me animou bastante. Ele é de Denver, e fez seu dinheiro em minas. Ele não se casou porque não teve tempo. Somos amigos maravilhosos, mas ele não sabe minha idade. Ele sabe que tenho uma filha, mas não uma neta. Ele pensa em mim como uma mulher jovem — não como uma criatura-avó de seda preta e mitenes..."
"Mãe! Ninguém espera que você use seda preta e mitenes..."
"Bem, você espera que eu tenha uma mente de seda preta e mitenes. Você sabe que está pensando neste exato minuto que não há idiota como um velho idiota — Cecily..."
A garota corou. "Não acho que você seja muito gentil, mamãe."
A Sra. Beale riu e esqueceu de ser cínica. "Eu sei o que você gostaria que eu fosse, querida, mas este é o meu momento de emancipação." Ela atravessou o quarto e olhou para o pequeno pedaço de humanidade enrolado como um gatinho na curva do braço de sua filha. "Ainda não vou ser sua avó, tampinha", anunciou, com decisão. Então: "Cecily, acho que, quando ela tiver idade suficiente, farei com que ela me chame de... Cupido..."
E rindo na cara do protesto horrorizado de sua filha, a avó amotinada retirou-se precipitadamente para seu próprio quarto.
Três horas depois, a Sra. Cissy Beale saiu para conquistar, vestida com um traje de restaurante de renda sombra coberto por um chapéu de tule preto.
Valentine Landry, cumprimentando-a na sala de estar branca e dourada de Cecily, estava radiante e alegre. "Você está tão adorável como sempre", disse ele ao pegar sua mão; "talvez um pouco mais adorável porque está feliz em me ver."
"Estou feliz", ela garantiu; "e é tão bom ter você aqui antes que o verão chegue ao fim. Podemos passear em Westchester e voltar à luz do dia para jantar."
"E sem acompanhantes?"
"Não." Ela olhava para ele um pouco melancolicamente. "Nós nos conhecemos bem demais para ter que arrastar um monte de gente, não é? São os homens em quem as mulheres confiam com quem elas vão sozinhas."
Ele encontrou o olhar dela gravemente. "Você sabe", disse ele, "que você tem a maneira mais doce de colocar as coisas? Um homem simplesmente tem que estar à altura de suas expectativas. Ele pensaria em decepcionar um bebê antes de decepcionar você."
Sua escolha de símile foi infeliz. Os olhos da Sra. Beale fixaram-se em um botão rebelde de sua luva.
"Por favor, ajude-me", disse ela; "seus dedos são mais fortes", e enquanto ele se curvava sobre sua mão, ela esqueceu o bebê, esqueceu seu novo estado, esqueceu tudo, exceto a alegria que sentia por ter sua cabeça cinzenta e lisa tão perto da sua.
Quando ele a teve em segurança ao seu lado em seu grande carro, ele perguntou: "O que fez você fugir de mim em Chicago?"
"Minha filha voltou da Europa."
"Não consigo pensar em você com uma filha adulta."
"Cecily é uma querida." A voz da Sra. Beale não continha entusiasmo.
Landry, notando seu tom, pareceu levemente surpreso. "Você e ela devem se divertir muito juntas."
"Oh, sim..."
A Sra. Beale desejava que ele não falasse sobre Cecily. Cecily casara-se antes que bons momentos fossem possíveis. Elas nunca tinham brincado juntas — ela e a filhinha por quem ela labutara e se sacrificara.
A voz de Landry interrompeu suas meditações: "Eu gostaria de conhecer Cecily."
A Sra. Beale desviou-o do assunto rapidamente. Ele não deveria vê-la ainda no seio de sua família. Ele não deveria. Ele não deveria ver Cecily com seu ar de maternidade madura. Ele não deveria ver Victor, marido de Cecily, que era dez anos mais velho que Cecily e apenas dez anos mais novo que ela. Ele não deveria ouvir seu filho grande, Bob, chamá-la de "Vovó". Ele não deveria contemplar a linda deferência da esposinha de Bob em relação à rainha-mãe!
Jantando mais tarde em frente a Landry em um grande palácio dourado, Cissy parecia algum pássaro tropical alegre. Em suas roupas novas e adoráveis, ela era muito bonita, muito espirituosa, quase juvenilmente charmosa. No entanto, Landry estava consciente de um vago sentimento de decepção. Ela tinha sido mais serenamente satisfatória em Chicago — não tão brilhantemente dura, não tão persistentemente vivaz. Como ele poderia saber que a mudança era um ato de desespero? Cissy, como avó, sentia que precisava provar, até para si mesma, que ainda não era uma peça de museu.
Com essa rachadura no alaúde de seu romance florescente, eles comeram e beberam, foram ao teatro e tiveram o que poderia ter sido uma viagem encantada de volta sob o luar. Mas quando Landry disse "Boa noite", Cissy sentiu a perda de algo em sua maneira. Seu cumprimento naquela tarde tinha algo quase de ternura; sua despedida foi comum e ligeiramente contida.
Enquanto a Sra. Beale atravessava o corredor pouco iluminado em direção ao seu quarto, encontrou Cecily em uma vestimenta esvoaçante, andando de um lado para o outro com o bebê nos braços.
"Ela não está bem", Cecily sussurrou, quando a pequena dama no vestido de renda a questionou. "Não sei se devo chamar um médico ou não."
A Sra. Beale cutucou a pequenina com um dedo experiente. "Vou dar a ela um gole de água quente com uma gota de hortelã", disse ela, "assim que eu tirar meu chapéu, e é melhor você voltar para a cama, Cecily; você não está bem o suficiente para se preocupar com ela."
Cecily pareceu aliviada. "Eu estava preocupada", confessou. "É a noite de folga da babá e Victor teve que ir a uma reunião de diretoria inesperadamente — e com você fora — eu perdi o controle. Parecia terrível estar sozinha, mamãe."
A Sra. Beale sabia como era terrível. Ela carregara a Cecily chorosa em seus braços noite após noite nas semanas que se seguiram ao conhecimento esmagador da infidelidade de seu marido. Mas ela carregara um fardo mais pesado que a criança — o fardo da pobreza, da deserção, de um futuro desconhecido.
Mas essas coisas não deveriam ser ditas. "Vá para a cama, Cecily", disse ela. "Eu cuidarei dela."
Andando pelo chão mais tarde com o bebê nos braços, a mente da Sra. Beale estava em Landry. "Céus! Se ele pudesse me ver agora!" foi seu pensamento chocado, enquanto ela parava diante de um espelho para observar a imagem que formava.
Seu cabelo estava solto e a mecha mais cinzenta de todas aparecia claramente. Ela descartara babados e enfeites e vestia um roupão cinza quente. Ela parecia agradável e de meia-idade, mas carregava, apesar de tudo, um ar sutil de jovialidade — carregaria, apesar da tempestade ou do estresse, até o fim, como o sinal e o selo de seu espírito intrépido.
O bebê se mexeu em seus braços, e novamente a Sra. Beale andou de um lado para o outro, cantarolando a canção de ninar com a qual ela própria colocara seus bebês para dormir.
Pela manhã, o bebê estava muito melhor, mas a Sra. Beale estava acabada. Ela ficou na cama até as onze horas, no entanto. Cecily, chegando ao meio-dia, encontrou-a pronta para sair. Em resposta a uma pergunta, a Sra. Beale falou de um compromisso de almoço com Valentine Landry.
"Mãe... você vai se casar com ele?"
Cissy, estudando o ajuste de seu véu, confessou: "Ele não me pediu."
"Mas ele vai..."
A Sra. Beale deu de ombros. "Quem sabe?"
Nas semanas que se seguiram, a pequena dama estava consciente de que as coisas não estavam caminhando para um clímax confortável. Por todas as regras do jogo, Landry deveria ter se declarado há muito tempo. Mas ele parecia estar escorregando cada vez mais para o papel fatal de bom amigo e camarada.
O orgulho de Cissy não a deixava admitir, nem para si mesma, que falhara em atrair no momento final. Mas havia algo mais profundo do que seu orgulho envolvido, e ela achava seus dias inquietos e suas noites sem sono. Uma noite, na escuridão densa, ela enfrentou a verdade implacavelmente. "Você está apaixonada, Cissy Beale", disse a si mesma, com desprezo. "Você está apaixonada pela primeira vez na vida — e você, uma... avó!"
Então ela se virou no travesseiro, escondeu o rosto em seu calor branco e chorou como se seu coração fosse se partir.
Nesse meio tempo, o bebê definhou. Cecily, preocupada, consultava sua mãe continuamente. Assim aconteceu que a Sra. Beale viveu uma vida dupla. Do meio-dia até a meia-noite, ela era do dia de hoje — elegantemente vestida, jovial; da meia-noite até o amanhecer, ela era do dia de ontem — despertando de seus sonos agitados ao primeiro som de choro, presidindo em roupão cinza e chinelos sobre estranhas infusões de erva-de-gato e flor de sabugueiro.
O médico de Cecily, sendo moderno, protestou contra esse retorno ao primitivo, mas foi forçado a admitir, depois que o bebê superou triunfantemente meia dúzia de ataques críticos, que os métodos de "voltar à vovó" de Cissy eram eficazes.
Foi em uma manhã seguinte a uma dessas lutas que Cissy disse à filha, cansada: "Não consigo escapar disso..."
"Escapar do quê?", exigiu Cecily, que, no quarto cinza-pálido, tentava observar a recomendação do médico de deixar o bebê chorando em seu berço, em vez de andar pelo chão com ela.
"O destino de seda preta e mitenes", disse a dama deprimida.
"O que aconteceu?", Cecily exigiu.
"Nada aconteceu", respondeu sua pequena mãe cansada, e recusou-se a discutir o assunto ainda mais.
Mas para si mesma ela estava começando a admitir que perdera Landry. Uma hora depois, ela teve uma mensagem telefônica dele.
"Quero que você vá comigo para um último passeio juntos", disse ele. "Parto amanhã."
"Amanhã!" Sua voz mostrou seu desânimo.
"Mas por que essa decisão repentina..."
"Brinquei o suficiente", disse ele; "os negócios chamam..."
Enquanto a Sra. Beale se preparava para o passeio, ela observou-se melancolicamente no espelho. Havia sombras sob seus olhos e linhas fracas nos cantos de seus lábios — parecia até para ela que seu queixo estava flácido. Ela teve uma súbita sensação de revolta. "Se eu fosse jovem, realmente jovem", pensou, "ele não estaria indo embora..."
Com essa ideia firmemente fixada em sua mente, ela se esforçou para agradá-lo; e seu risinho fazia uma música artificial em seus ouvidos, seu sorriso fixo desgastava seus nervos, suas perguntas staccato o irritavam.
Novamente eles jantaram juntos, e enquanto ela se sentava em frente a ele, linda e alegre em seu vestido vermelho gerânio, ele começou a conversar com ela sobre sua filha.
"Eu nunca a conheci. Parecia-me que você poderia ter me deixado vê-la..."
Cissy corou. "Ela é tão grande e crescida", disse ela. "De alguma forma, quando estou com ela, sinto-me... velha..."
"Você nunca parecerá velha", disse ele, com a aproximação mais próxima da ternura que suavizara sua voz em dias. "Você tem em si o espírito da juventude eterna..."
Então ele continuou atrapalhado. "Mas uma mãe e uma filha... quando você costumava falar dela em Chicago, parecia-me que eu podia ver vocês juntas, e eu gostava da doçura e da feminilidade do pensamento; mas nunca vi vocês juntas."
Com uma sensação de imprudência, Cissy de repente decidiu contar-lhe a verdade. "Cecily não tem saído muito. Você vê, tem o bebê..."
Ele arregalou os olhos. "O bebê...?"
"O bebê dela — de Cecily..."
"Então você é avó?"
Pareceu a Cissy que todo o restaurante soava com a ênfase das palavras. No entanto, ele não tinha falado alto; nem uma cabeça foi virada em sua direção; até o garçom permanecia imóvel.
Quando ela voltou a si, Landry estava rindo suavemente. "Quando você vai me deixar ver... o bebê...?"
"Nunca..."
"Por que não?"
Cissy caminhou para sua ruína. "Porque você vai querer me colocar na estante como todos os outros. Você vai querer me ver com... meu cabelo... repartido... e óculos. E meus olhos são perfeitamente bons — e meu cabelo é meu..."
Ela parou. Landry estava observando-a com olhos duros.
"Você não ama... o bebê...?"
Cissy deu de ombros. "Talvez. Não sei ainda. Algum dia eu poderei, quando não tiver nada para fazer a não ser sentar em um canto da lareira."
Assim falou Cissy Beale, tornando-se uma criatura sem coração, jogando de volta na cara de Valentine Landry seus ideais mais queridos.
Mas o que importava? Ela sabia desde o momento de sua confissão que ele seria repelido. Que homem poderia ficar de pé diante do mundo e se casar com uma avó! — a ideia era absurda.
Ela terminou o jantar com a cabeça erguida; ela foi hipocritamente animada durante a viagem para casa; ela disse "Boa noite" e "Adeus" sem sentimento, e subiu as escadas com o coração pesado para encontrar a babá chorando descontroladamente no primeiro patamar.
O bebê, ao que parecia, estava muito doente. E o pai e a mãe do bebê, tendo deixado o pequeno querubim dormindo pacificamente, estavam andando de carro em algum lugar nos espaços amplos do mundo. O médico da família estava fora. Ela chamou outro médico, e ele viria assim que pudesse. Mas, nesse meio tempo, o bebê estava morrendo...
"Bobagem, Kate", disse Cissy Beale, e tirando as luvas enquanto corria, ela se dirigiu ao quarto cinza-pálido.
Agora, como aconteceu, Valentine Landry, dirigindo-se em um estado de espírito puritano, foi subitamente sobrecarregado por um remorso miserável. Revendo a noite, ele parecia ver, pela primeira vez, a infelicidade nos olhos da pequena mulher que se comportara com tanta bravura. Em um momento súbito de iluminação, ele percebeu tudo o que ela deve ter sentido. Talvez não tivesse sido insensibilidade; talvez tivesse sido... fome de afeto.
Inclinando-se para frente, ele falou com seu motorista. Eles pararam na primeira farmácia, e Landry ligou para Cissy. Sua voz do outro lado respondeu bruscamente, então quebrou quando ele disse seu nome.
"Pensei que fosse o médico", disse ela. "Você pode voltar, por favor? O bebê, oh, o bebê está muito doente!"
Cinco minutos depois, a babá o deixou entrar na casa. Ele a seguiu escada acima e entrou no berçário. Cissy estava com o bebê nos braços. O bebê estava em um cobertor e Cissy estava em seu roupão cinza. Ela o vestira enquanto a babá segurava o bebê no banho quente que salvou sua vida. O cabelo de Cissy estava sem cachos e a cor estava fora de suas bochechas. Mas, para Valentine Landry, ela era linda.
"Foi uma convulsão", ela lhe disse, simplesmente. "Tenho medo de que ela tenha outra. Não conseguimos um médico — você pode conseguir um para nós?"
Ele saiu em sua missão pela dama de seu coração, e a dama de seu coração, sentada molhada e preocupada no quarto cinza-pálido, dizia a si mesma, monotonamente: "Acabou tudo agora... nenhum homem poderia me ver assim e me amar..."
Cecily, seu marido, o médico e Landry entraram da escuridão juntos. Subiram as escadas juntos, depois pararam no limiar enquanto Cissy levantava uma mão de aviso.
Ela continuou a cantarolar suavemente a canção de ninar que pertencera aos seus próprios bebês: "Dorme, doce, meu próprio..."
Foram Cecily e o médico que entraram até ela, e Landry, permanecendo nas sombras, esperou. Ele falou com Cissy quando ela saiu.
"Vou partir tão cedo pela manhã", disse ele, "você me daria apenas um minutinho agora?"
Naquele minuto, ele lhe disse que a amava.
E Cissy, de pé na biblioteca em toda a desordem dos cachos desfeitos e do quimono cinza, perguntou, após uma pausa arrebatadora: "Mas por que você não me disse antes?"
Ele achou difícil explicar. "Eu não percebi muito bem... até que a vi ali tão terna e doce, com o bebê em seus braços..."
"Uma criatura-Madonna", murmurou Cissy Beale.
Mas ele não entendeu. "Não é porque eu queira que você se sente em um canto da lareira... não foi justo você dizer isso..."
Então, em apenas um curto discurso, Cissy Beale mostrou-lhe o seu coração. Ela falou dos anos de devoção, sempre não recompensados pelo afeto que ansiava. "E aqui estava o bebê", concluiu ela, "para crescer — e encontrar outra pessoa, e esquecer-me —"
Enquanto ele a recolhia em seu abraço protetor, sua risada sonora a confortou.
"Sou seu até o fim do mundo, vovozinha", sussurrou ele. "Nunca encontrarei outra pessoa — e nunca esquecerei."
ESPERE — PELO PRÍNCIPE ENCANTADO
Kingdon Knox não tinha consciência de qualquer mesquinhez de espírito especial. Ele era advogado e dos bons. Tinha cinquenta anos e carregava seus anos com um efeito de juventude. Exercitava-se persistentemente e mantinha sua figura juvenil. Tinha olhos escuros e penetrantes, e prata nos cabelos. Estava sempre bem arrumado e bem vestido, e sua renda proporcionava-lhe os cenários adequados. Sua casa no subúrbio era espaçosa e elegante, presidida por uma esposa bonita e socialmente bem-sucedida. Seu escritório era presidido por Mary Barker, que era sua secretária particular. Ela tinha trinta e cinco anos e estava no escritório dele há quinze. Chegara até ele como uma moça de vinte anos sem formação; era agora um complemento perfeito para os outros equipamentos de seu escritório. Usava vestidos sob medida, seu cabelo era primorosamente penteado em ondas brilhantes, suas mãos eram brancas e suas unhas polidas, seus pés esguios calçados em sapatos irrepreensíveis.
Nannie Ashburner, que também estava no escritório e que de vez em quando tomava o ditado de Knox, tinha uma imensa admiração por Mary. "Eu gostaria de poder usar minhas roupas como você usa", ela dizia enquanto caminhavam para casa juntas.
"Roupas não são tudo."
"Bem, elas são muito."
"Eu daria todas elas para ser tão jovem quanto você."
"Você não parece velha, Mary."
"É claro que cuido de mim mesma", disse Mary, "mas se eu fosse tão jovem quanto você, começaria tudo de novo."
"Como você quer dizer 'começar', Mary?"
Mas Mary não era comunicativa. "Ah, bem, eu teria algumas coisas que eu poderia ter tido e não posso ter agora", foi toda a satisfação que ela deu a Nannie.
Foi por meio de Mary que Nannie havia conseguido sua posição no escritório de Kingdon Knox. Mary havia morado na casa da mãe de Nannie por cinco anos. Nannie tinha quatorze anos quando Mary chegou. Ela havia terminado o ensino médio e cursado um ano de escola comercial, e então a Sra. Ashburner perguntou a Mary se havia alguma chance para ela no escritório de Kingdon Knox.
Mary havia considerado, mas pareceu hesitar. "Precisamos de outra datilógrafa, mas não tenho certeza se é o lugar para ela."
"Por que não?"
Mary não disse o porquê. "Eu gostaria que ela não precisasse trabalhar de jeito nenhum. Ela deveria se casar."
"Dick McDonald a quer. Mas ela é muito jovem, Mary."
"Você se casou aos dezenove."
"Sim, e ganhei muito com isso." A Sra. Ashburner era pálida e cínica. "Eu mantive pensionistas para ganhar a vida para meu marido, Mary; e desde que ele morreu, mantive pensionistas para ganhar a vida para Nannie e para mim."
"Mas Dick ganha um bom salário."
"Bem, ele pode esperar até economizar alguma coisa."
"Não o faça esperar muito tempo."
Foi contra o seu melhor julgamento que Mary Barker falou com seu patrão sobre Nannie. "Eu gostaria que ela me ajudasse. Ela não é experiente o suficiente para tomar seu ditado, mas poderia me aliviar de muitos detalhes."
"Bem, deixe-me dar uma olhada nela", disse Kingdon Knox.
Então Nannie viera para ser avaliada, e ela corou um pouco e ficou bastante sem fôlego enquanto falava com o Sr. Kingdon, e ele percebera a vivacidade de sua beleza jovem; pois Nannie tinha cabelos ruivos que se enrolavam sobre as orelhas, sua pele era de marfim quente e seus olhos eram cinzentos.
Suas roupas não estavam exatamente no padrão do escritório, mas Knox, tendo a contratado, encaminhou o assunto a Mary. "Você poderia sugerir que ela corte as blusas finas e os saltos altos", ele dissera; "você sabe do que eu gosto."
Mary sabia, e o primeiro mês de salário de Nannie foi gasto na compra de um vestido de sarja de peça única.
A Sra. Ashburner havia se rebelado com a despesa. Mas Mary fora firme. "O Sr. Knox não terá ninguém pelo escritório que pareça desleixado ou descuidado. Valerá a pena no final."
Nannie achava o Sr. Knox maravilhoso. "Ele diz que quer que eu trabalhe duro para que eu possa cuidar de algumas de suas cartas."
"Quando ele lhe disse isso?"
"Ontem à noite, enquanto você estava tomando depoimentos na biblioteca."
A biblioteca do escritório era forrada com livros de direito. Havia uma mesa de mogno longa e elegante, coberta de verde, e seis cadeiras de mogno elegantes. Mary, fechada com três dos clientes de Knox e um sócio consultor, teve uma sensação de inquietação. Já passava do horário. Nannie estava esperando por ela no escritório externo. Todos os outros tinham ido para casa, exceto Knox, que esperava por seus clientes.
Mary lembrava-se de como, quando tinha a idade de Nannie, costumava sentar-se naquele escritório externo depois do horário, e Knox conversava com ela. Ele tinha trinta e cinco anos e ela, vinte. Ele tinha uma esposa e uma casa elegante; ela não tinha nada além de um quarto de pensão. E ele a fizera sentir que ela era muito necessária para ele. "Não sei como conseguiríamos viver sem você", ele dissera.
Ele dissera outras coisas.
Foi porque ele havia falado de seu cabelo adorável que ela o mantinha escovado e brilhante. Foi porque os olhos dele seguiam seu lápis que ela passava creme frio nas mãos à noite e cuidava bem de suas unhas. Foi porque ela aprendera o gosto dele que usava vestidos simples, mas caros. Foi por causa de seu conhecimento de que nada lhe escapava que ela calçava seus pés bonitos em sapatos caros.
Ele estabelecera padrões para ela, e ela os seguira. E agora ele estabeleceria padrões para Nannie!
Ela falou bruscamente. "Dick McDonald vem esta noite?"
"Sim. Ele teve um aumento, Mary. Ele telefonou--"
As duas moças estavam no quarto de Mary. O jantar havia terminado e Mary vestira um casaco chinês de azul opaco e acomodara-se para uma noite com seus livros. O quarto de Mary era encantador. Em quinze anos, ela recebera presentes de vários tipos de Knox. Tinham sido sempre bem escolhidos e apropriados. Nada poderia ter sido de melhor gosto como oferta de um patrão a uma funcionária do que os suportes de livros de couro em relevo e o conjunto de mesa, a luminária de leitura de mogno com sua cúpula de pergaminho pintado, o Buda de bronze, os castiçais antigos, as xícaras de chá Chelsea, a caixa de chá Sheffield. O salário confortável de Mary permitira-lhe comprar as estantes de livros, a mesa de chá e o divã de mogno. Havia um tapete adorável que a Sra. Knox lhe enviara no décimo aniversário de sua associação com o escritório. A Sra. Knox considerava Mary como um ativo comercial valioso. Ela a convidava uma vez por ano para jantar.
Nannie usava seu vestido de sarja azul de peça única e um novo chapéu de inverno. O chapéu era uma boina de veludo preto.
"Você precisa de algo para alegrar o visual", disse Mary; "leve minhas contas."
As contas eram de jade, que o Sr. Knox trouxera para Mary quando voltou de uma estadia de seis meses no Oriente. Mary cuidara do escritório enquanto ele estava fora. Ele fechara o colar em volta do pescoço dela. "Abaixe a cabeça enquanto eu coloco, Mary", ordenou ele. Ele estava em sua mesa no escritório particular enquanto ela se sentava ao lado dele com seu caderno de notas. E quando ele fechara o colar e ela levantara a cabeça, ele dissera com uma rápida inspiração: "Faz muito tempo que estou longe de você, Mary."
Nannie com as contas de jade, seu cabelo ruivo e sua boina de veludo estava bastante rara e maravilhosa. "Dick vai me levar ao espetáculo para comemorar. Ele conseguiu ingressos para Jack Barrymore."
"Dick é um rapaz tão legal", disse Mary. "Estou feliz que você vá se casar com ele, Nannie."
"Quem disse que eu ia me casar com ele?"
"É o que ele quer, Nannie, e você sabe disso."
"O Sr. Knox diz que é uma pena que uma moça como eu se case."
O coração de Mary pareceu parar de bater. Ela sabia exatamente como Knox dissera aquilo.
Ela falou calmamente. "Acho que seria uma pena você não se casar, Nannie."
"Não vejo por quê. Você não é casada, Mary."
"Não."
"E o Sr. Knox diz que, a menos que uma moça possa se casar com um homem que possa elevá-la, é melhor ela continuar solteira."
Os mesmos argumentos de sempre! "O que ele quer dizer com 'elevá-la', Nannie?"
"Bem" — Nannie riu sem jeito — "ele diz que qualquer pessoa tão bonita e refinada quanto eu poderia se casar com qualquer um; que devo tomar cuidado para não me jogar fora."
"Seria se jogar fora se casar com o Dick?"
"Pode ser. Ele parecia normal para mim antes de eu entrar no escritório. Mas depois que você vê homens como o Sr. Knox — bem, os do nosso tipo parecem — comuns."
A Sra. Ashburner chamava que Dick McDonald estava lá embaixo. Nannie, passando pó no nariz com a esponja de Mary, foi contida pela seriedade das palavras da outra mulher.
"Deixe o Dick amar você, Nannie. Ele é tão querido."
Dick era, decidiu Nannie antes que a noite acabasse, um querido e um amor. Ele lhe trouxera uma caixa de bombons e outra coisa em uma caixa. A Sra. Ashburner o levara à sala de jantar, que ela e Nannie usavam como sala de estar quando as refeições terminavam. Os pensionistas ocupavam a sala de visitas e estavam sempre no caminho.
"Diga, garota, veja só", disse Dick enquanto tirava a caixa; e Nannie contemplara um anel que brilhava e resplandecia e que parecia, como Dick disse orgulhosamente, "um milhão de dólares".
"Eu queria que você tivesse o melhor." O braço dele subitamente a envolveu. "Eu sempre quero que você tenha o melhor, querida."
Ele a beijou de seu jeito honesto e juvenil, e ela pegou o anel e o usou; e foram à peça em uma névoa rosada de felicidade, e quando voltaram para casa, ele a beijou novamente.
"Quanto antes você sair daquele escritório, melhor", disse ele. "Vamos conseguir um pequeno apartamento, e economizei o suficiente para mobiliá-lo."
Nannie estava acendendo a lâmpada sob a cafeteira. A Sra. Ashburner deixara um prato de sanduíches em uma das extremidades da mesa de jantar. Nannie era jovem e a Sra. Ashburner era antiquada. Sua filha não tinha permissão para comer ceias pós-teatro em restaurantes. "Você sempre pode comer algo aqui."
"Não vamos nos acomodar ainda", disse Nannie, de pé ao lado da cafeteira como uma jovem sacerdotisa ao lado de um altar. "Há bastante tempo---"
"Bastante tempo para quê?", perguntou seu namorado. "Não temos motivos para esperar, Nannie."
Então Dick a beijou, e ela deixou que ele a beijasse. Ela o amava, mas não faria promessas quanto ao dia importante. Dick foi embora um pouco confuso com sua atitude. Ele a queria imediatamente em seu lar. Doía-lhe que ela não parecesse se importar em vir para ele.
Era uma noite fria, com flocos brancos caindo, e o policial na ronda cumprimentou Dick enquanto ele passava por ele. "É uma bela hora da manhã para você estar chegando em casa."
"Ah, olá, Tommy! Vou me casar. O que acha disso?"
"Quem é a moça?"
"Nannie Ashburner."
"Aquela ruivinha?"
"Você está com ciúmes, Tommy."
"Estou; ela vai cozinhar salsichas para você quando chegar em casa em noites frias, e beijá-lo na porta da frente, e colocar a vitrola para tocar, com John McCormack cantando canções de amor enquanto você entra."
Dick riu. "Bela imagem, Tommy. E muito você sabe sobre isso. Por que você não se casa e experimenta?"
Tommy, que era alto, corado e tinha quarenta anos, mais um ou dois, deu uma risada curta. "Eu poderia encontrar alguém para cozinhar as salsichas, mas só existe uma que eu gostaria de beijar."
"Então é isso. Ela o rejeitou, Tommy?"
"Ela rejeitou, e não vamos falar sobre isso."
"Ah, muito bem. Boa noite, Tommy."
"Boa noite."
Então Dick seguiu em frente, e Tommy Jackson bateu as mãos contra o peito enquanto abria caminho pela neve rodopiante, seus passos abafados pelo tapete congelado que a tempestade havia estendido.
Mary Barker ficou encantada quando Nannie contou sobre seu noivado com Dick. Ela conversou sobre isso com a Sra. Ashburner. "Será a melhor coisa para ela."
A Sra. Ashburner não tinha certeza. "Trabalhei duro a vida toda e odeio vê-la trabalhar duro."
"Ela não passará por dificuldades tão grandes quanto você", disse Mary. "Dick sempre terá uma boa renda."
"Ela terá um tempo mais difícil do que você teve, Mary", disse a Sra. Ashburner, e seus olhos varreram o quarto bonito com saudade. "Muitas vezes, quando estive lá embaixo na minha cozinha velha e enfumaçada, pensei em você aqui em cima com seu casaco azul e suas pantufas bonitas, com seu cabelo brilhante, e desejei aos céus nunca ter me casado."
"As coisas não foram fáceis para você", disse Mary gentilmente.
"Foram mais duras que pregos, Mary. Você escapou de tudo isso."
"Sim." Os olhos de Mary não encontraram os da Sra. Ashburner. "Eu escapei — disso."
Nannie e sua mãe dormiam na sala dos fundos da pensão. Tinham camas de solteiro e foi no meio da noite que a Sra. Ashburner disse: "Você está acordada, Nannie?"
"Sim, estou."
"Bem, não consigo dormir. Talvez seja o café e talvez seja porque estou pensando em você. Fico pensando que odeio vê-la se casar, querida."
"Oh, mãe, você não gosta do Dick?"
"Sim. Não é isso. Mas é bom para você no escritório e você não precisa ser escrava."
Nannie sentou-se na cama, e a luz do poste da rua brilhou e a mostrou de olhos arregalados, com seu cabelo em uma glória ruiva. "Eu não serei escrava", disse ela. "Eu disse ao Dick."
"Os homens não sabem." A Sra. Ashburner falou com uma espécie de amargura cansada. "Eles prometem qualquer coisa."
"E eu não vou me casar com pressa, mãe. Dick tem que esperar por mim se me quiser."
Soou muito mundano e decisivo, e a Sra. Ashburner obteve um conforto invejoso na declaração de sua filha. Ela nunca havia se oposto à vontade de um homem dessa maneira. Talvez, afinal, Nannie fizesse do casamento um sucesso.
Mas Nannie não era tão resoluta quanto suas palavras poderiam ter parecido implicar. Muito tempo depois que sua mãe dormiu, ela ficou acordada no escuro pensando em Dick, na quebra em sua voz quando ele fizera seu pedido, no brilho em seus olhos quando ele ganhara uma resposta, sua juventude flamejante, sua reverência de bom rapaz pela juventude e inocência dela mesma. Seria — bastante maravilhoso, ela sussurrou para seu coração, e adormeceu, sonhando.
A manhã seguinte estava muito fria, e Nannie, chegando cedo ao escritório de Kingdon Knox para tomar suas cartas, estava radiante após sua caminhada pelas ruas nevadas. Suas bochechas estavam vermelhas, seus olhos brilhavam, e o anel em seu dedo brilhava.
Knox notou imediatamente o anel. "Então é isso", disse ele, e recostou-se em sua cadeira. "Vamos conversar um pouco sobre isso."
Eles conversaram sobre isso mais do que um pouco, e o fardo do argumento de Kingdon Knox era que era uma pena. Ela era jovem e bonita demais para se casar com um homem pobre e viver em um apartamento engraçadinho e fazer seu próprio serviço doméstico e estragar suas unhas lavando pratos. "Pessoalmente, acho bastante terrível. Um desperdício de você, se quer a verdade."
A pobre Nannie, ouvindo, viu seus castelos caindo. Seria bastante terrível — lavar pratos e um fogão a gás e preparar refeições.
"Ele é terrivelmente apaixonado por mim", ela conseguiu dizer por fim.
"E você?" Ele se inclinou um pouco para frente. Nannie estava consciente da sensação de excitação que ele sempre conseguia despertar nela. Quando ele falava assim, ela se via como algo bastante perfeito e semelhante a uma princesa.
"Espere — pelo Príncipe Encantado", disse ele.
Nannie tinha certeza de que, quando o Príncipe Encantado chegasse, ele seria como o Sr. Knox; mais jovem talvez, mas com aquele mesmo jeito adorável.
"É claro", disse o Sr. Knox gentilmente, "suponho que não devesse aconselhar, mas se eu fosse você" — ele tocou o anel brilhante — "eu o devolveria a ele."
Então, após várias conversas absorventes com seu patrão sobre o assunto, Nannie devolveu o anel, e quando o pobre Dick passou por seu amigo, o policial, a caminho de casa, ele parou e contou sua história.
"Elas são todas assim", disse Tommy, "mas se eu fosse você, não aceitaria um 'não' como resposta."
Dick se animou. "Você não aceitaria?"
"Não se eu tivesse que carregá-la debaixo do braço", disse Tommy entre os dentes.
"Mas eu não posso carregá-la, Tommy — e ela não quer ir."
"Ela irá se você não tiver medo dela", Tommy lhe disse com ênfase solene. "Eu tive medo."
Eles estavam sob o poste de luz, e Dick olhou para ele com espanto. "Eu não sabia que você tinha medo de alguma coisa."
"Eu também não sabia", foi a resposta sombria de Tommy, "até conhecê-la. Mas soube desde então."
"Bem, é um azar."
"É mais difícil na época do Natal", disse Tommy, "e minha ronda não é a melhor para me deixar alegre. Há lojas demais. E bonecas nas vitrines. E tambores. E cornetas. E o Papai Noel entregando coisas para as crianças. E eu tenho que ver isso, com dinheiro queimando no meu bolso para comprar coisas e ter uma árvore própria e um peru no meu forno e uma mesa com alguém que se importa na outra ponta. E tudo o que vou ganhar com a estação alegre é um menu turístico no Nitti's e uma caixa de charutos dos rapazes."
"As mulheres não são demais, Tommy?"
"Bem" — o tom de Tommy continha uma nota de alegria forçada — "aquela ruivinha deve ter tido algum motivo para não querer você, Dick. Talvez nós, homens, não valhamos a pena."
"Vale a pena o quê?"
"Casar. Uma mulher tem direito a um tratamento justo, e nem sempre ela o recebe."
"Ela o receberia com você, e o receberia comigo; você sabe disso, Tommy."
"Poderia", disse Tommy pessimisticamente, "se o bom Deus nos ajudasse."
Nannie, no dia seguinte ao seu rompimento com Dick, estava corando ao perceber a nudez de seu dedo anelar enquanto tomava o ditado de Kingdon Knox. Quando ele terminou suas cartas, Knox sorriu para ela. "Então você devolveu", disse ele.
"Sim."
"Boa garotinha. Você encontrará algo muito melhor se esperar. E eu não quero você desperdiçada." Ele abriu uma gaveta e tirou uma caixa longa. Ele a abriu e levantou um colar de contas. Eram de marfim esculpido e combinavam com o creme da tez de Nannie. Estavam enfiadas fortemente em um fio grosso de seda escarlate, e havia uma borla escarlate na ponta.
"São para você", disse ele. "É meu primeiro presente de Natal para você; mas espero que não seja o último."
O coração de Nannie batia de tal forma que ela quase podia ouvi-lo. "Oh, obrigada", disse ela sem fôlego; "são tão lindas."
Mas ela não sabia quão raras eram, nem quão caras, até usá-las no quarto de Mary naquela noite.
"Onde você conseguiu isso, Nannie?"
"O Sr. Knox me deu."
Houve um silêncio mortal, então Mary disse: "Nannie, você não deveria aceitá-las."
"Por que não?"
"Elas custaram muito caro, Nannie. Parecem simples, mas não são. A escultura é primorosa."
"Bem, ele deu contas para você, Mary."
O rosto de Mary estava virado. "Foi diferente. Estou há muito tempo no escritório."
"Não acho que seja muito diferente, e não vejo como posso devolvê-las, Mary."
Mary não discutiu, mas quando, um pouco mais tarde, Nannie contou sobre seu noivado rompido, Mary disse bruscamente: "Mas, Nannie — por quê?"
"Bem, a mãe não gosta muito da ideia. Ela — ela acha que uma moça se sai muito melhor continuando no escritório."
Mary estava deitada em sua poltrona longa sob a luz. Ela tinha uma almofada sob a cabeça e sua mão cobria seus olhos. "O Sr. Knox teve algo a ver com isso?"
"O que faz você perguntar isso, Mary?"
"Ele teve?"
"Bem, sim. Você sabe o que eu lhe disse; ele acha que eu seria — desperdiçada."
"Com o Dick?"
"Sim."
Mary ficou deitada por um longo tempo com a mão sobre os olhos; então ela disse: "Se você não se casar com Dick, como fica o seu futuro, Nannie?"
"Há tempo suficiente para pensar nisso. E... e eu posso esperar."
"Pelo quê?"
Nannie corou e riu um pouco. "Pelo Príncipe Encantado."
Depois disso houve um silêncio, do qual Nannie perguntou: "Sua cabeça dói, Mary?"
"Um pouco."
"Não posso lhe trazer alguma coisa?"
"Não. Depois que eu descansar um pouco, vou dar uma caminhada."
A caminhada de Mary levou-a pelas vitrines iluminadas das lojas. O ar era cortante e frio e ajudou sua cabeça. Mas não ajudou seu coração. Ela teve uma sensação de sufocamento quando pensou em Nannie.
Ela parou em frente a uma das lojas. Havia bonecas na vitrine, encantadoras, de olhos redondos, com cachos. Uma delas era especialmente cativante, com cachos loiros gorduchos, pernas gorduchas, meias de seda azul e chinelos, babados impecáveis e um largo chapéu azul.
"Como eu a teria amado quando era uma garotinha", foi o pensamento de Mary enquanto ela ficava olhando. Então: "Como uma filha minha a teria amado."
Ela decidiu que compraria a boneca — de manhã, quando a loja abrisse. Era uma atitude caprichosa, dar a si mesma uma boneca na sua idade. Mas seria, em certo sentido, simbólico. Ela não tinha nenhuma criança para quem dá-la; ela a daria à criança que um dia foi ela mesma.
Ela voltou para casa com o coração mais leve e com o conhecimento do que precisava fazer. Colocou seu casaco azul de casa e sentou-se à escrivaninha com seus acessórios de couro em relevo, e lá, sob a linda lâmpada que Kingdon Knox lhe dera, escreveu para Nannie.
Ela entregou a carta a Nannie na manhã seguinte. "Quero que você a leia quando estiver completamente sozinha. Depois, rasgue-a. Isso deve ser sempre apenas entre você e eu, Nannie."
Nannie leu a carta durante a hora do almoço. Ela almoçou em uma lanchonete e havia uma sala de descanso. Era muito silenciosa e ela tinha um canto só para si. Ela se perguntava o que Mary tinha a lhe dizer, e por que ela não conversou pessoalmente em vez de escrever sobre isso.
Mas Mary sentira que não podia confiar em si mesma para falar. Teria havido os olhos de Nannie para encontrar, perguntas para responder; e isso significava muito. Papel e caneta eram impessoais.
"Não é fácil falar sobre essas coisas, Nannie. Eu nunca teria escrito isto se não tivesse percebido ontem à noite que seus pés estavam seguindo o caminho que os meus seguiram por quinze anos. E eu sabia que você estava me invejando e querendo ser como eu; e estou dizendo o que direi nesta carta para que eu possa salvá-la, Nannie.
"Quando entrei no escritório do Sr. Knox, eu era jovem como você, e tinha um amante, jovem e bom como Dick, e ele me satisfazia. Tínhamos nossos planos — de um lar e da felicidade que teríamos juntos. Se eu tivesse me casado com ele, agora teria filhos e filhas crescendo ao meu redor, e quando o Natal chegasse, haveria uma árvore e rostos jovens sorrindo, e meu marido, sorrindo.
"Mas o Sr. Knox conversou comigo como conversou com você. Ele me disse, também, para esperar — pelo Príncipe Encantado. Ele me disse que eu era nobre demais para ser desperdiçada. Ele insinuou que o homem com quem eu planejava me casar era um sujeito comum, não bom o suficiente para mim. Ele falou e eu ouvi. Ele abriu perspectivas. Vi-me elevada a uma esfera diferente por algum homem como o Sr. Knox — tão bem arrumado, tão distinto, tão rico e maravilhoso.
"Mas tais homens não aparecem frequentemente na vida de garotas como você e eu, Nannie. Eu sei disso agora. Eu não sabia então. Mas o Sr. Knox deveria ter sabido. No entanto, ele alimentou a esperança; e, por fim, ele me roubou o futuro, o pequeno lar, meu marido bom e forte. Ele me roubou a herança feminina de uma criança em meus braços.
"E em troca ele me deu... nada. Descobri nos anos em que estive com ele que ele gosta de ser admirado e respeitado por mulheres bonitas. Ele gosta de nos moldar em algo requintado e ornamental, ele gosta de sentir que nos moldou. Ele gosta de ver nossos rubores. Todos esses anos em que estive com ele, ele gostou de sentir que eu o via como o ideal para o qual todos os meus sonhos de menina tendiam.
"Ele não está apaixonado por mim, e eu não estou apaixonada por ele. Mas ele sempre soube que, se tivesse sido livre e me cortejado, eu teria sentido que o Rei Cophetua viera à mendiga. No entanto, tarde demais, posso ver que, se ele tivesse sido livre, ele nunca teria me cortejado. Sua ambição o teria levado para cima e para além de qualquer coisa que eu possa esperar ser, e ele teria procurado alguma mulher de seu próprio círculo que tivesse contribuído para seu sucesso material.
"E agora ele está tentando estragar sua vida, Nannie — para torná-la descontente com seu futuro com Dick. Você olha para ele e vê em sua vida algum dia um Príncipe Encantado. Mas eu lhe digo isso, Nannie, que o Príncipe Encantado nunca virá. E depois de um tempo tudo o que você terá para mostrar pelos anos que passou no escritório será apenas um quarto bonito, alguns pedaços de madeira, couro e bronze em troca de calor, felicidade humana, mãos a se agarrar, um marido como Dick, que a adora, que chega em casa à noite, ansioso — por você!
"Você pode ter tudo isso — e eu perdi. E não há muito à minha frente. Nem sempre serei ornamental, e então o Sr. Knox me deixará cair fora de sua vida, como deixou outras caírem. E haverá solidão, velhice e... nada mais.
"Oh, Nannie, quero que você se case com Dick. Quero que você saiba que todo o resto é poeira e cinzas. Sinto-me cansada e velha; e quando penso em sua juventude e beleza, quero que Dick a tenha, não o Sr. Knox, que a bajulará e... esquecerá.
"Rasgue esta carta, Nannie. Não foi fácil escrevê-la. Não quero que ninguém além de você a leia."
Mas Nannie não a rasgou.
Ela a guardou em sua bolsa e foi telefonar para Dick.
E ele a encontraria na esquina, sob o poste de luz, naquela noite, quando ela voltasse do escritório? Ela tinha algo para lhe contar.
Dick encontrou Nannie, e logo eles seguiram seu caminho arrebatador. Pouco depois, Tommy Jackson passou. Algo chamou sua atenção.
Um pedaço de papel branco.
Ele se abaixou e o pegou. Era a carta de Mary para Nannie. Nannie chorara em seu pequeno lenço enquanto falava com Dick, e ao tirar o lenço da bolsa, a carta viera junto e caíra despercebida no chão.
Fazia anos que Tommy não via nada da caligrafia de Mary. Uma frase chamou sua atenção, e ele leu até o fim. Afinal, há coisas permitidas a um oficial da lei que poderiam ser impróprias para o cidadão comum.
E quando ele leu, Tommy começou a dizer coisas em voz baixa. E é provável que, se Kingdon Knox aparecesse naquele momento, as coisas teriam terminado mal para ele.
Mas foi Mary Barker quem chegou. Ela carregava sob o braço, em um pacote de papel, a boneca gorda com os cachos loiros e as meias azuis. Ela não viu Tommy até estar quase em cima dele.
Então ela disse: "O que você está fazendo aqui, Tommy?"
"Por que eu não deveria estar aqui?"
"Esta não é a sua ronda."
"É a minha ronda desde duas semanas atrás. Eu vi você passar todas as noites, Mary."
Ela ficou parada olhando para ele. E ele olhou para ela; e assim, é claro, seus olhares se encontraram, e algo que ela viu nos olhos de Tommy fez os de Mary transbordarem.
"Mary, querida", disse Tommy ternamente.
"Você disse que não me perdoaria."
"Isso foi há quinze anos."
"Tommy, sinto muito."
Tommy ficou muito ereto, como convinha a um oficial da lei com os olhos do mundo sobre ele.
"May", disse ele, "acabei de ler sua carta para Nannie. Ela a deixou cair. Se eu soubesse das coisas contidas nesta carta há quinze anos, teria permanecido no meu posto até conseguir você. Mas achei que você não se importava."
"Eu também achei", disse Mary.
"Mas a carta me disse que você queria o coração amoroso e o braço forte de um marido", disse Tommy, "e, se Deus quiser, você os terá, Mary. E agora siga seu caminho, querida. Não posso fazer amor enquanto estou em serviço. Mas virei beijá-la às nove."
Então Mary seguiu seu caminho, e seu coração cantou. E quando chegou em casa, ela desembrulhou a boneca gorda e beijou cada um de seus cachos, e a colocou sob a linda lâmpada; e então pegou uma caixa longa e colocou algo nela, embrulhou-a e endereçou-a a Kingdon Knox.
E depois disso ela foi até a janela e ficou lá, observando até ver Tommy chegando.
E na manhã seguinte, quando Kingdon Knox encontrou a caixa longa em sua mesa, endereçada com a caligrafia de Mary, ele pensou que fosse um presente de Natal, e abriu-a, sorrindo.
Mas seu sorriso morreu ao ler o bilhete que estava sobre um colar de contas de jade:
"Estou devolvendo-os, Sr. Knox, com meu pedido de demissão. Eu nunca deveria tê-los aceito. Mas, de alguma forma, você me fez sentir que eu era uma espécie de fada princesa, e que contas de jade pertenciam a mim, e tudo o que era belo, e que um dia a vida os traria. Mas a vida não é isso, e você sabia e eu não. A vida é apenas felicidade humana calorosa, um lar e trabalho para aqueles que amamos. E assim, afinal, vou me casar com Tommy. E Nannie vai se casar com Dick. De certa forma é um final feliz, e de certa forma não é, porque me afastei do tipo de vida que devo levar com Tommy, e temo que, de certa forma, não esteja preparada para isso. Mas Tommy diz que sou tola em ter medo. E, no futuro, vou confiar em Tommy."
E assim Mary saiu da vida de Kingdon Knox. E no dia de Natal, na cabeceira de uma grande mesa, com criados à sua direita e criados à sua esquerda, ele cortou um peru gigantesco; e havia prata brilhando, vidro cintilando e mulheres adoráveis sorrindo, tudo em homenagem à época festiva.
Mas Kingdon Knox não estava festivo ao pensar nas contas de jade e na mesa vazia de Mary.
MENDIGOS A CAVALO
I
Com as irmãs Merryman, a economia era uma arte refinada. O dinheiro era gasto por elas para preservar as tradições familiares. Nada mais contava. Tudo era sacrificado aos deuses de ontem.
A pequena Anne Merryman tremera toda a sua curta vida na frieza desse ideal doméstico.
"Por que não posso ter manteiga no meu pão?", ela exigira em seus dias de estudante de pernas longas, quando usava seus cabelos claros em uma trança grossa nas costas.
As respostas nunca foram satisfatórias. Pessoas bem-educadas poderiam, Amy indicava, passar sem manteiga. Sua renda não era elástica, e havia coisas mais importantes.
"Que coisas? Amy, estou com tanta fome que comeria uma casa."
Eram essas expressões de Anne sobre comida que chocavam Amy e Ethel.
"Eu venderia minha alma por uma fatia de rosbife."
"Anne!"
"Bem, eu venderia!"
"Eu... eu não entendo como você pode ser tão comum, Anne."
"Comum", no léxico de Amy e Ethel, significava "plebeu". Ninguém na família Merryman fora tão comum quanto Anne. Até então, os Merrymans contentavam-se em se aquecer pelas fogueiras de sua própria complacência, em se alimentar de esplendores passados; pois os Merrymans eram tão antigos quanto o domínio normando na Inglaterra. Eles tinham vindo para a América com concessões do rei, tinham retratos de família, prata de família e diamantes de família, e agora, nesta geração de irmãs órfãs, duas delas, pelo menos, estavam travando as últimas batalhas do orgulho familiar. As fortunas dos Merrymans haviam declinado, e Amy e Ethel, com as costas, por assim dizer, contra a parede, estavam fazendo uma resistência final.
"Devemos ter roupas de noite, devemos entreter nossos amigos, devemos pagar pelo banco da família na igreja"; essa era sua ladainha nervosa. Os Merrymans sempre se vestiram, entretiveram e adoraram adequadamente; portanto, era por renda, tule ou veludo, conforme o caso, que seu dinheiro ia. Ele ia, também, para os jantares muito elegantes e exclusivos para os quais, em raras ocasiões, seus amigos eram convidados; e ia para o lugar de destaque na sinagoga de onde oravam suas orações farisaicas.
"Agradecemos-te, Senhor, por não sermos como os outros", oravam Amy e Ethel fervorosamente.
Mas Anne não fazia tais orações. Ela queria ser como as outras pessoas. Ela queria comer e beber com a multidão, queria um coração quente, muito quente, uma mesa farta. Ela queria conforto, aconchego e comodidade. E ela cresceu amando essas coisas e odiando as paredes pálidas de sua antiga casa em Georgetown, os retratos de família, os vestidos de jantar remendados que suas irmãs usavam, seus próprios vestidos de festa remendados.
"Não posso ter um novo, Amy?"
"É a vez da Ethel."
Foi assim que, quando Anne foi a uma certa recepção diplomática com uma anágua de cetim remendada, escondida por uma nuvem de tule nevado, Murray Flint despertou pela primeira vez para o fato de sua beleza.
Ele havia despertado dez anos antes para a beleza de Amy, e cinco anos depois para a beleza de Ethel.
E agora aqui estava Anne!
"Ela é diferente, no entanto", ele disse à velha Molly Winchell; "mais espiritual do que as outras."
Foi a magreza de Anne que o enganou. Era uma magreza atraente. Ela era pálida, com lábios vermelhos, e as tranças loiras e grossas tinham dado lugar a um coque brilhante. Ela usava as pérolas da família, e o efeito era, como Murray dissera, espiritual. Anne tinha o ar, de fato, de alguém que vê visões celestiais.
Amy nunca tivera esse ar. Ela era morena e vívida. Se aos trinta anos a vivacidade era enfatizada por meios artificiais, a culpa residia no sacrifício de Amy aos seus ideais sociais. Ela precisava da manteiga que negava a si mesma. Ela precisava de creme, ovos, e seu médico lhe dissera isso. E Amy guardara o conhecimento para si mesma.
Ethel, comendo tão pouco quanto Amy — ou até menos — escapara, milagrosamente, da atenuação. Aos vinte anos, ela era uma pequena beleza rechonchuda. Ela ainda era rechonchuda. Seu pescoço em seu vestido decotado era adorável. Sua figura não era elegante, e faltava-lhe o ar de raça de Amy.
"Elas são todas encantadoras", disse Molly Winchell. "Por que você não se casa com uma delas, Murray?"
"O casamento", disse Murray, "estraga tudo."
"Estraga o quê?"
Murray voltou para ela seus belos olhos escuros. "Elas são tão queridas... as três."
"Seu turco!" Molly o observou por cima de seu leque de penas de safira. "Então é isso, é? Você quer todas elas."
Murray pensou vagamente que era algo assim. Por dez anos ele tivera Amy e Ethel — Amy aos vinte anos, fogo e chama, Ethel aos quinze, com madeixas de bronze e cor adorável. Naqueles anos, Anne prometera pouco em termos de beleza ou charme. Ela lera vorazmente, encolhida em cadeiras ou tapetes, e despertara de vez em quando para sua presença e uma discussão acalorada.
"Por que você não gosta de Dickens, Murray?"
"Oh, as pessoas dele, Anne... palhaços."
"Elas não são!"
"Caipiras; mendigos." Ele fez um gesto de desprezo.
"Elas são queridas... Mark Tapley e Ruth Pinch. Murray, se eu tivesse um bife, faria uma torta de bife."
Havia mais de pathos nisso do que Murray imaginava. Não havia carne na mesa dos Merryman há muitas luas.
"Murray, você já comeu tripas?"
"Minha querida criança..."
"Soa de-li-ci-oso quando Toby Veck come em uma manhã fria. E tem o grilo no fogo e a chaleira cantando. Eu adoraria ouvir uma chaleira cantar assim, Murray; você não adoraria?"
Mas Murray não adoraria. Ele tinha o mesmo tipo de mente que Amy e Ethel. Ele não gostava de coisas robustas e fartas, nem de pessoas robustas e fartas. Ele usava um espartilho para manter seus quadris pequenos e ficava de pé em chás e recepções com um porte quase militar. É claro que ele tinha que se sentar nos jantares, mas sentava-se muito ereto. Ele, também, tinha retratos de família e prata de família, e vivia escrupulosamente de acordo com eles. Sua fortuna, ao contrário da dos Merrymans, não havia declinado. Ele tinha dinheiro suficiente e de sobra. Ele poderia ter deixado Amy ou Ethel muito confortáveis se tivesse se casado com qualquer uma delas. Mas ele não queria se casar. Houve um tempo em que ele gostara de pensar em Amy presidindo sua mesa. Ela teria se encaixado perfeitamente com os antigos retratos, a prata antiga e os diamantes da família. Então Ethel aparecera. Ela não se encaixara nos diamantes, retratos e prata, mas ela agitara seus impulsos.
"Em qualquer outro lugar que não seja Georgetown", dizia a velha Molly Winchell, "aquelas garotas teriam sido arrebatadas há muito tempo. É um mercado matrimonial pobre."
Murray estava complacentemente ciente de que ele era geograficamente o único homem elegível no horizonte dos Merryman. A menos que Amy e Ethel pudessem se casar com distinção, elas não se casariam de forma alguma. Não era a falta de atração que as mantinha solteiras, mas a falta de pretendentes em seu próprio círculo.
E agora aqui estava Anne, com a beleza de Ethel e o ar de raça de Amy. Havia também aquele olhar de desapego angelical das coisas da terra.
Então os olhos de Murray pousaram em Anne com grande contentamento enquanto ela vinha e sentava-se ao lado de Molly Winchell.
Outros olhos pousaram nela — os de Amy com ciúme rápido. "Então agora é a Anne", ela disse a si mesma ao perceber a preocupação de Murray. Cinco anos atrás ela dissera, "Agora é a Ethel", ao vê-lo se voltar para a beleza mais fresca. Antes disso, ela sonhara consigo mesma como amando e sendo amada. Fora difícil fechar os olhos para aquela visão.
No entanto... melhor a Anne do que uma estranha. Amy tinha um senso feroz de propriedade sobre Murray. Se ela o entregasse a Ethel, a Anne, ele ainda seria, em certo sentido, dela. Com Anne ou Ethel ela compartilharia seu futuro, participaria de seu presente.
Um terceiro par de olhos examinava Anne com interesse enquanto ela se sentava perto de Molly.
"Garota espetacular", disse o dono dos olhos para si mesmo.
Seu nome era Maxwell Sears. Ele não era nem um pouco parecido com Murray Flint. Ele era do Meio-Oeste, tinha sangue quente e não se importava nada com o passado. Ele considerava uma honra bastante negligenciável o fato de ter um ancestral signatário da Declaração. As coisas importantes para Maxwell eram que ele representava seu distrito no Congresso; que ele ainda era jovem o suficiente para levar seus ideais universitários para a política, e que acabara de investir uma pequena parte da fortuna que seu pai lhe deixara em uma fazenda de gado modelo em Illinois.
Quanto ao resto, ele era grande, de ombros largos, de mente limpa. De vez em quando ele olhava para as estrelas, e o que via lá o equilibrava com os homens ao seu redor. Por causa das estrelas, ele não chamava nenhum homem de tolo, exceto aquele que se considerava mais sábio que o resto. Porque ele acreditava nas pessoas, elas acreditavam nele. Foi isso que o elegeu. Foi isso que o elegeria novamente.
"Garota espetacular", disse Maxwell Sears, com seus olhos sorridentes em Anne.
II
No decorrer da noite, Maxwell conseguiu uma apresentação. Ele achou Anne peculiar e encantadora. O fato de ela estar lendo Dickens o divertiu. Ele pensara que ninguém lia Dickens naqueles dias. Como isso acontecera?
Ela disse que o descobrira por si mesma — muitos anos atrás.
Quantos anos?
Bem, para ser explícita, dez. Ela tinha onze anos quando encontrara um novo mundo nos livros pequenos e gorduchos. Eles tinham muitos livros antigos. Ela os amava a todos. Mas Dickens mais do que qualquer outro. Ele não amava?
Ele amava. "O coração dele batia junto com o coração das pessoas comuns. Foi isso que o tornou grande."
"Murray o detesta."
"Quem é Murray?"
Anne ponderou. "Bem, ele é um amigo da família. Nós, garotas, fomos criadas sob a influência dele."
"Criadas sob a influência dele?"
"Sim. Tudo o que Murray gosta, espera-se que nós gostemos. Se ele não gosta de algo, nós também não."
"Ah."
"Ele está ali, perto da Sra. Winchell."
Maxwell olhou e reconheceu o tipo. "Mas vocês não concordam sobre Dickens?"
"Não. E Amy diz que Murray é mais sábio do que eu. Mas não tenho certeza. Amy acha que todos os homens são mais sábios do que as mulheres."
Maxwell riu baixo. Anne era refrescante. Ela estava longe de ser moderna em seus modos de pensar. Ela era — ele buscou pela palavra e a encontrou — vitoriana média em sua atitude mental.
Ele se perguntou o que Winifred Reed pensaria dela. Winifred morava em Chicago. Ela era atlética e intelectual. Escrevia dramas para tabloides, dirigia o próprio carro, vestia-se com elegância e interessava-se muito pela carreira de Maxwell. Ela escrevia para ele uma vez por semana, e ele sempre respondia às cartas dela. De vez em quando ela falhava em escrever, e ele sentia falta das cartas dela e dizia isso a ela. Era, ao todo, uma amizade agradável.
Ela detestava a ideia da fazenda de Maxwell. Achava que era um passo atrás. "Você vai passar os anos preciosos que tem pela frente na companhia de vacas?"
"Haverá porcos também, Winifred; e galinhas. E, é claro, meus cavalos."
"Você pertence a um mundo de homens. O segredo do seu sucesso é que os homens gostam de você."
"Minhas vacas gostam de mim — e há um grande conforto, após o estresse de uma sessão tempestuosa, no repouso de um porco."
"Eu gostaria que você fosse sério."
"Eu sou sério. Talvez seja um retorno ao passado, Winifred. Há sangue de fazendeiro em minhas veias."
Era algo mais profundo do que isso. Era sua alegria viril nos fundamentos. Ele amava suas Guernseys de orelhas douradas, seus Berkshires pretos e suas White Wyandottes — não por sua excelência, mas porque eram vacas, porcos e galinhas; e ele mantinha um par de gatinhos, meia dúzia de cães e tantos cavalos, porque o homem primitivamente fizera amigos dos animais mudos dos quais a facilidade e a segurança de sua vida dependiam.
Havia, de forma bastante estranha, algo em Anne que se encaixava nessa ideia atávica. Ela era, mais do que Winifred, uma mulher de lar. Um homem poderia carregá-la através do seu limiar e encontrá-la quando voltasse para casa à noite. Era difícil visualizar Winifred esperando, vigiando ou dando as boas-vindas. Ela estava sempre indo a algum lugar com um ar de ter coisas importantes para fazer, e voltando com um ar de já tê-las feito. Maxwell sentia que essas coisas importantes não estavam ligadas, de maneira alguma, a questões domésticas. Não se esperava, de fato, domesticidade de Winifred.
Assim, Anne, atraindo-o por forças misteriosas, atraía-o também por sua beleza e por uma certa melancolia em seus olhos. Ele já tivera um cão, Amber Witch, cujos olhos sempre traziam uma pergunta melancólica. Ele tentara respondê-la. Ela envelhecera em sua lareira, mas até o fim seus olhos continuaram a perguntar. Ele esperava agora que, em algum campo de caça celestial, ela tivesse encontrado uma resposta para aquela necessidade sutil.
Ele contou a Anne sobre Amber Witch. "Tenho um dos filhotes dela na minha fazenda."
Ela ficou muito interessada. "Nunca tive um cachorro; ou um gato."
Ele tinha, disse ele, um grande par de gatos rajados que dormiam no feno e subiam até a leiteria quando o leite era coado. Havia dois pratos de porcelana azul para o uso sagrado deles. Havia, disse ele, leite de sobra. Ele tornou-se eloquente ao contar a quantidade de litros por dia. Gabou-se de sua manteiga. Seus queijos ganhavam prêmios em feiras do condado. Quanto às galinhas — eles tinham ovos frescos e frangos sem fim. Ele tinha suas próprias colmeias, também, de mel de trevo branco. E sua governanta fazia biscoitos quentes. Em um mês ou dois, haveria aspargos e morangos. Veja só! Sim, ele era eloquente.
Anne estava com fome. Houvera um jantar escasso naquela noite. As outras garotas não pareciam se importar. Mas Anne se importara.
"Estou faminta", dissera ela ao examinar a mesa. "Vamos penhorar as colheres e ter uma refeição decente."
"Anne!"
"Oh, somos mendigas montadas em cavalos" — amargamente — "e eu odeio isso."
Era seu momento de rebelião contra a tirania da tradição. Amy tivera tal momento anos atrás, quando sua mãe a tirara da escola. Amy tinha uma mente brilhante e amava estudar, mas sua mãe a levara a ver que não havia dinheiro para a faculdade. "É melhor você passar um ano ou dois na sociedade, Amy. E essa mania de ensino superior é algo bastante de classe média."
A rebelião de Ethel viera quando ela quisera se casar com um rapaz de rosto redondo que morava do outro lado da rua. Eles brincavam juntos desde a infância. A família dele era gente agradável, mas carecia de antecedentes sociais. Então, o romance de Ethel fora cortado pela raiz. O rapaz de rosto redondo casara-se com outra moça. E agora, Amy aos trinta e Ethel aos vinte e cinco, estavam se cristalizando em algo bastante rígido e brilhante, como Anne talvez se cristalizasse se algo não acontecesse.
O algo que aconteceu foi Maxwell Sears. Anne ouviu as coisas que ele dizia sobre sua fazenda e sentiu que não podiam ser verdadeiras.
"Parece um conto de fadas."
"Não é. E tudo é tremendamente interessante."
Ele parecia muito vivo ao dizer isso, e Anne sentiu a vibração de sua energia e entusiasmo. Murray nunca era entusiasmado; nem Amy e Ethel. Eles eram, na verdade, um tanto petrificados.
Antes de deixá-la, Maxwell perguntou a Anne se poderia visitá-la. Ele veio prontamente duas noites depois e trouxe consigo um ramo de violetas e uma caixa de bombons. Anne prendeu as violetas na frente do vestido cinza que lhe dava o ar de uma freira enclausurada, e devorou os bombons.
Amy ficou chocada. "Anne, você simplesmente engoliu..."
"Não engoli."
"Bem, você comeu pelo menos meio quilo."
Anne protestou. Maxwell comera muito, e Ethel e Amy tinham comido alguns, e Murray chegara.
"Você se lembra, Amy, Murray chegou."
"Ele não tocou em nenhum, Anne. Ele nunca come bombons."
"Ele tem medo de engordar."
"Anne!"
"Ele tem. Quando ele me leva para almoçar, ele pensa nele mesmo, não em mim. Da última vez, comemos toranja, cogumelos grelhados e alface; e eu queria costeletas."
Maxwell ficara feliz em ver Anne comer os bombons. Ela parecera feliz como uma criança, e ele gostara disso. Não havia nada de infantil em Winifred. Ela sempre fora madura, competente e prestativa. Ele sentia que devia muito a Winifred. Eles não estavam noivos, mas ele esperava que um dia pudessem se casar. É claro que isso dependeria de Winifred. Ela provavelmente o faria desistir da fazenda e ele odiaria isso. Mas um homem poderia desistir de uma fazenda por uma mulher como Winifred e ainda assim ter mais do que merecia.
Ver-se-á que Maxwell era modesto, especialmente no que dizia respeito às mulheres. A complacência de Murray Flint, pesando Amy contra Ethel e Ethel contra Amy e Anne contra ambas, teria parecido infame para Maxwell. Ele sentia que era apenas pela graça de Deus que qualquer mulher se entregava a qualquer homem. Ele tinha um senso de honra que se baseava na decência, e não na convenção. Ele também tinha um senso de alto romance que pertencia mais apropriadamente ao século XV do que ao século XX. Ele não estava, contudo, consciente disso. Ele se via como um sujeito simples e prático que tinha algumas coisas para resolver politicamente antes de se dedicar aos negócios sérios da agricultura. É claro que, se se casasse com Winifred, não se dedicaria à fazenda, mas se dedicaria a outra coisa.
Enquanto isso, lá estava Anne, lendo Dickens, comendo bombons e debruçada sobre o parapeito da Galeria da Câmara para ouvir seus discursos.
Era algo maravilhoso tê-la lá. Ela usava uma capa cinza com uma gola de chinchila feita do antigo protetor de orelhas de Amy. Um chapéu de marinheiro reto de palha grossa descia bem sobre sua testa e mostrava tufos de cabelo brilhante nas laterais. Suas mãozinhas enluvadas de cinza apertavam as violetas que ele lhe dera. Acima das violetas, seus olhos eram de um azul mais profundo.
Ela vinha sempre sozinha. "Amy não sabe", ela lhe dissera francamente; "ela não me deixaria vir se soubesse."
"Por que não?"
"Supõe-se que eu seja acompanhada."
"Minha querida criança, eu lhe disse para trazer uma ou ambas as suas irmãs."
"Eu não as quero. Elas estragariam tudo."
"Como?"
Ela tentou explicar. Ele e ela podiam ver coisas no antigo Capitólio que Amy e Ethel não podiam.
Ele riu, mas sabia que era verdade. A imaginação de Anne encontrava a dele de uma maneira bastante notável. Quando caminhavam pelo Salão das Estátuas, não viam Fulton, Pere Marquette e Carroll de Carrollton; viam, antes, mil navios partindo no vapor de uma chaleira; viam a civilização seguindo um profeta de sobrecasaca preta; viam a aristocracia elevando sua voz em prol da democracia.
Quanto ao misterioso eco sussurrante, eles repudiavam toda conversa sobre acústica. Era para eles algo sinistro, como a risada de elfos ou o grito de uma banshee.
"Não me diga coisas do dia a dia", Anne instruíra Maxwell quando ele a colocara pela primeira vez atrás de um pilar de mármore manchado, antes de partir para o local onde ele poderia falar com ela por esse rádio único.
Chegou a ela, portanto, uma parte de um discurso famoso; as palavras murmuradas, rebatidas por aquela estranha caixa de ressonância, soaram como um sino:
"Dai-me liberdade ou dai-me a morte!"
Ela emergiu de seu canto, com os olhos brilhantes. "Foi como se eu o ouvisse dizer isso."
"Talvez fosse ele, e eu fosse apenas um porta-voz."
"Eu deveria pensar que eles gostariam de voltar. Você virá?"
Ele riu. "Quem sabe? Eu virei se você estiver aqui."
Ter trazido uma terceira pessoa para essas aventuras as teria despojado de seu encanto. Sabendo disso, ele argumentava que a criança estava segura com ele. Por que se preocupar?
Eles sempre almoçavam juntos antes de ele levá-la para a Galeria dos Membros e ir ele mesmo para o plenário da Câmara. Ele a deixava pedir o que quisesse e gostava da maneira definida com que ela fazia isso. Eles comiam, geralmente, costeletas e ervilhas, ou bife, e sorvete ao final.
III
Então, de repente, as coisas pararam. O motivo de terem parado foi Murray. Ele viu Anne um dia na Galeria da Câmara e perguntou a Amy sobre isso.
"Como ela foi parar lá sozinha?"
Amy perguntou a Anne. Anne disse a verdade.
"Almocei três vezes com o Sr. Sears e ouvi seus discursos. É algo sobre a Liga das Nações. Ele acredita nela, mas acha que temos que ter cuidado ao nos comprometer."
Amy não se importava nem um pouco com o que Maxwell Sears acreditava. A coisa que a preocupava era Murray. Ela queria que ele aprovasse Anne. Se Amy pensasse em um círculo menos limitado, poderia ter chegado à conclusão de que, se Maxwell se casasse com Anne, isso restringiria a escolha de Murray a ela mesma e a Ethel. Mas havia sempre aquele medo vago de alguma sereia externa que capturaria Murray. Se ele tivesse Anne, estaria então seguramente na família.
Ela percebeu, nos dias que se seguiram à revelação dos encontros clandestinos com Maxwell, que Murray contava com ela para garantir que as afeições de Anne não se desviassem para caminhos proibidos. Ele disse tanto uma tarde, quando encontrou Amy sozinha em uma atmosfera de antigos retratos, livros antigos e bronzes antigos. Ela estava sentada em uma cadeira jacobina e servia chá para ele. As linhas maciças da cadeira faziam suas proporções parecerem fantasmagóricas. Seu rosto branco com manchas fixas de vermelho era um ponto de luz entre as sombras.
"Onde está Anne?"
"Ela e Ethel foram à matinê com Molly Winchell."
"Por que você não foi?"
"Molly nunca leva mais do que duas de nós e, claro, este é o primeiro inverno de Anne na sociedade. Tenho que recuar — e deixá-la ter sua chance."
Ele decidiu ser galante. "Você é sempre adorável, Amy."
Seu elogio caiu frio. Amy sentiu-se velha e cansada. Ela tinha uma dor no lado. Estivera ficando muito ruim ultimamente, e ela tossia à noite. Ela fora ao seu médico, e novamente ele enfatizara a necessidade de uma mudança de clima e de comida nutritiva. Amy saíra de lá não convencida.
Ela teria uma chance em julho, quando ela e suas irmãs iriam para a Costa Leste para sua visita anual à tia Elizabeth. Quanto à comida diferente, ela comia o suficiente — todos os médicos do mundo não poderiam fazê-la gastar mais dinheiro na mesa.
Murray ficou muito ereto junto à lareira, sob o retrato de um dos bisavôs Merryman de peruca, e falou sobre Anne:
"Acredito que estou me apaixonando por ela, Amy."
O coração de Amy disse: "Chegou finalmente." Seu cérebro disse: "Ele descobriu isso por causa de Maxwell Sears." Seus lábios disseram: "Não me admira. Ela é uma criança querida, Murray."
"Ela é linda."
Murray ficou na ponta dos pés. Isso o fazia parecer mais magro e mais alto. Ele podia se ver refletido no longo espelho na parede oposta. Ele gostava do reflexo do homem magro e alto.
"Ela é linda, Amy. Vou pedir que se case comigo. Não posso deixar que algum outro sujeito fuja com ela. Ela pertence a Georgetown."
Ele parecia pensar que isso resolvia tudo. A dor no lado de Amy era mais aguda. Ela sentiu que não suportaria ver Murray feliz com Anne. "Ela é... ela é tão criança." Sua voz tremeu.
"Bem," disse Murray, olhando para o homem alto e magro no espelho, "claro que ela é jovem. Mas Maxwell Sears está vindo muito aqui. Ele está apaixonado por ela?"
"Não tenho certeza. Ela o diverte. Ela não está apaixonada por ele nem por ninguém."
"Nem por mim?" Murray riu um pouco. "Mas podemos remediar isso, não podemos, Amy? Mas você poderia dar uma dica do que espero dela. Não quero assustá-la." Ele veio e sentou-se ao lado dela. "Você é sempre muito querida em fazer as coisas por mim."
A dor a esfaqueou como uma faca. "Farei o meu melhor."
Ela teve um sentimento nervoso de que precisava impedir Murray de falar com ela daquele jeito. Ela tocou a campainha para pedir água quente, e sua única criada, Charlotte, trouxe-a em uma jarra de Sheffield. Então Ethel, Anne e Molly Winchell chegaram, e mais uma vez Murray levantou-se, alto e autoconsciente enquanto lançava olhares de lado para si mesmo no espelho.
Maxwell Sears trouxera as três mulheres para casa. Ele tinha o costume de acompanhar os compromissos de Anne e colocar seu carro à disposição dela. Quando Amy vetou mais aventuras no Capitólio, ele admitiu, de bom grado, que ela estava certa. Depois disso, ele sempre incluía Amy ou Ethel em seus convites.
"Elas são dragões muito bonitos," ele escrevera para Winifred, "e a pequena Anne é como uma princesa trancada em uma torre."
Winifred, lendo a carta, remoeu-a. "Ele está se apaixonando. Uma criança como aquela... ela vai arruinar o futuro dele."
O Congresso estava tendo sessões noturnas. "Se eu pudesse apenas ter você lá em cima," Maxwell dissera a Anne enquanto a levava para casa da matinê, com a velha Molly e Ethel no banco de trás. "Eu a roubaria se ousasse."
"Por favor, ouse."
"Você está falando sério?"
"Sim. Esta noite. Ethel e Amy vão a uma reunião das Damas Coloniais com Molly Winchell. Eu nunca vou. Odeio ancestrais."
"Eu não deveria deixar você fazer isso," ele hesitou, "mas fantasmas caminham depois do anoitecer nos corredores do Capitólio."
"Eu sei," ela assentiu. "Washington, Jefferson, Lincoln."
"Sim. Então você virá?"
"Claro."
Era o pensamento de seu encontro com ele que iluminava seus olhos quando ela falava com Murray. Mas Murray não sabia. Então ele balançava na ponta dos pés, olhava no espelho e se alegrava com sua magreza e altura.
Maxwell veio buscar Anne prontamente. "Você precisa me trazer de volta antes das dez," ela lhe disse. "Eu tenho uma chave, e Charlotte saiu."
Foi uma noite memorável, para nunca ser esquecida. Maxwell não levou Anne para a Galeria. Ele não a levara lá para ouvir discursos ou para ser notada no brilho das luzes. Ele a conduziu através de corredores sombrios — subindo escadarias largas e mal iluminadas.
Em uma curva, ele tocou o braço dela. "Olhe!" ele sussurrou.
"O quê?"
"Lafayette passou por nós — na escada."
Era um grande jogo! Na fachada leste, Colombo falava com eles sobre navios que navegavam em direção ao pôr do sol; na Rotunda, eles mantinham um encontro com William Penn; do pórtico da fachada oeste, eles viam uma cidade linda — as ruas sob a lua eram rios de luz — o grande monumento alcançava, como a alma de Washington, as estrelas!
Lá fora, sob o luar, Maxwell falou de outra grande alma, que partira ultimamente para se juntar a uma companhia gloriosa.
"Foi ele quem me ensinou que a vida é uma aventura."
"Greatheart?"
"Sim."
"Você também o amava?"
"Sim."
Anne prendeu a respiração. "Pensar nele morto... pensar neles todos... mortos."
Maxwell olhou para ela. "Eles vivem em algum lugar. Você acredita nisso, não acredita?"
"Sim."
Ele ficou em silêncio por um momento; então colocou a mão levemente sobre o ombro dela. "Sinto-me esta noite como se eles pressionassem perto de nós."
Ah, era um jogo raro conhecer grandes almas em cantos estranhos! Eles mal podiam se afastar. Mas ele a levou para casa antes que suas irmãs chegassem, e Anne foi para a cama sóbria, e ficou muito tempo acordada, pensando sobre tudo. Ela nunca tivera antes um companheiro de brincadeiras assim. Em todos esses anos, ela passara fome por outras coisas que não comida.
IV
No devido tempo, o Congresso entrou em recesso, mas Maxwell não foi para casa. Ele continuou a ver Anne. Amy foi finalmente levada ao seu dever por Murray. Ela não podia proibir Maxwell de frequentar a casa. Não havia nada a fazer senão falar com Anne.
Tendo tomado sua decisão, ela procurou o quarto de Anne imediatamente. Anne, em um quimono de algodão barato, trançava o cabelo para a noite. As mangas do quimono eram curtas e mostravam seus braços finos e brancos. Amy estava com um roupão de cobertor. Seu cabelo estava em bobes de metal. Ela parecia velha e cansada, e de vez em quando tossia.
Anne entrou na cama e puxou os cobertores até o queixo. "Estou com tanto frio que acredito haver pingentes de gelo nas minhas sobrancelhas. Amy, minha ideia de paraíso é um lugar onde seja tão quente quanto... o Hades."
"Não vejo de onde você tira essas ideias. Ethel e eu não falamos assim. Nós nem pensamos dessa maneira, Anne."
"Talvez quando eu tiver a sua idade..." Anne começou, e assustou-se com o olhar no rosto de Amy.
"Eu não sou velha!" Amy disse apaixonadamente. "Anne, eu não vivi nada, e só tenho trinta anos."
Anne encarou-a. "Oh, minha querida, eu não quis dizer..."
"Claro que não quis. E foi bobagem minha dizer tal coisa. Anne, estou com frio. Vou sentar aos pés da sua cama e me embrulhar enquanto falo com você."
A cama de Anne tinha quatro colunas de abacaxi e um dossel rosa. O governador de um estado dormira naquela cama por anos. Ele era um dos avôs Merryman. Amy poderia ter comprado montanhas de comida pelo preço daquela cama. Mas ela teria morrido de fome antes de vendê-la.
Anne sob o dossel rosa era como uma rosa — uma rosa branca com um leve rubor. A cor nas bochechas de Amy era fixa e dura. Ainda assim, mesmo com sua velhice, seu cansaço e seus bobes de metal, ela tinha o ar de linhagem que atraía Murray.
"Anne," ela disse, "Murray e eu tivemos uma longa conversa sobre você outro dia."
"Murray sempre fala... longo." Anne bocejava.
"Por favor, seja séria, Anne. Ele quer se casar com você."
"Casar comigo!" incrédula. "Eu pensei que fosse você; ou Ethel."
"Bem, não é," cansada. "E é uma grande oportunidade... para você, Anne."
"Oportunidade para quê?"
Amy teve uma sensação da futilidade de tentar explicar.
"Não há muitos homens como ele."
"Felizmente."
"Anne, como você pode? Ele está realmente lhe fazendo um grande elogio."
"Por que ele mesmo não me pediu?"
"Ele não queria assustá-la. Você é tão jovem. Murray tem uma sensibilidade extrema."
Anne inclinou o queixo. "Não vejo o que ele encontra em mim."
"Você é jovem" — com um toque de amargura — "e ele diz que você é bonita."
Anne jogou as cobertas de lado e colocou os pés descalços no chão. "Bonita!" ela zombou, mas foi até o espelho. "Sou magra", meditou, "mas tenho um cabelo bonito."
"Todas nós temos cabelos bonitos", disse Amy; "mas você tem a tez de Ethel e a minha figura."
"Não acho que queira ser amada pela minha tez." Anne virou-se de repente e encarou a irmã. "Ou pela minha figura. Preferiria ser amada pela minha mente."
"Homens não amam mulheres por suas mentes", disse Amy com cansaço. "Você aprenderá isso quando viver tanto quanto eu. Volte para a cama, Anne. Você vai congelar."
Mas Anne, tremendo no quimono de algodão, discutiu a questão com fervor: "Eu deveria pensar que Murray gostaria de se casar com alguém de gostos congeniais. Ele odeia tudo o que eu gosto."
"Ele será um excelente marido. Você deveria ser feliz por saber que ele... se importa."
Ela começou a tossir — uma tosse lancinante que a deixou exausta.
Anne, debruçando-se sobre ela, disse: "Ora, Amy, você está doente?"
"Estou... estou bastante infeliz, Anne."
"Você está tomando algo para sua tosse?"
"Sim."
"Você deveria ter um médico."
"Eu já tive um."
"O que ele disse?"
Amy a despachou. "Vou me sentir melhor pela manhã, Anne. Não se preocupe." Novamente a tosse a dilacerou. Anne voou para Ethel.
"Veja o que pode fazer por ela. Há sangue no lenço dela! Vou chamar um médico."
O médico, ao chegar, controlou a tosse. Mais tarde, ele disse a Anne que Amy precisava de uma mudança de ares e de uma alimentação revigorante.
"Imediatamente. Ela está em um estado muito grave. Eu disse a ela, mas ela não quer ouvir."
Nos dias que se seguiram, Anne censurou-se duramente. "Tenho sido uma porca egoísta — comendo tudo — e Amy precisava disso."
Nesse estado de espírito, ela jejuou — e ficou faminta.
Maxwell, notando sua palidez, perguntou: "O que há de errado? Você não está bem?"
Ela queria gritar: "Estou com fome." Mas ela, também, tinha seu orgulho.
"Amy está doente."
Ele finalmente conseguiu tirar a verdade dela. "O médico está muito preocupado com ela. Ele diz que ela precisa de uma mudança."
"Você também precisa."
Ela precisava de comida, mas não podia lhe contar isso. O estado de suas finanças era alarmante. Havia sido revelado a ela, desde a doença de Amy, que não entrava realmente nada até o próximo trimestre.
"Por que você não dispensou Charlotte, Ethel?"
"Sempre tivemos uma criada. O que as pessoas pensariam?"
"E por causa do que as pessoas pensam, Amy deve passar fome?"
"Anne, como você pode?"
"Bem, é a isso que se resume. Ela precisa de coisas; e nós não precisamos de Charlotte."
Mas quando falaram com Amy sobre mandar Charlotte embora, ela ficou febrilmente agitada. "Não há ninguém para fazer o trabalho."
"Eu posso fazer", disse Anne.
"Nós, Merryman, nunca trabalhamos", Amy começou a chorar. "Eu preferiria morrer", disse ela, "do que deixar que as pessoas pensem que somos... pobres."
V
Maxwell era um homem de ação. Quando viu Anne pálida, buscou um remédio. "Olha, por que você e suas irmãs não podem vir para a minha fazenda?"
Anne, lembrando-se de certas coisas — frangos e ovos frescos — ficou encantada com o convite. "Eu adoraria! Mas Amy não aceitará."
"Por que não?"
"Ela é terrivelmente orgulhosa."
Ele riu. "Talvez eu possa convencê-la."
Amy, deitada em seu sofá, muito exausta, encarando um futuro sombrio, sentiu seu magnetismo enquanto ele conversava com ela. Era como se a vida falasse através de seus lábios. Murray estivera ali sentado ao lado dela apenas uma hora antes. Ele lhe trouxera rosas, mas não lhe trouxera esperança.
O medo fizera companhia a Amy por semanas. Durante suas noites e dias, ele espreitara como um espectro pálido. E agora Maxwell estava dizendo: "Você estará bem em um mês. É claro que você virá! Há espaço para meia dúzia. Vocês três não ocuparão nem metade da casa."
Ficou decidido, no entanto, que Ethel deveria ficar na cidade. Amy tinha um sentimento nervoso de que, com a casa fechada, Murray poderia escapar delas.
A velha Molly Winchell, resumindo a situação, disse a Murray: "Claro que Anne se casará com Maxwell Sears. Não há nada como a proximidade."
Murray, sobressaltado, admitiu o perigo. "Seria uma coisa terrível para Anne."
"Por quê?"
"Ele é um tanto vulgar."
A velha Molly Winchell bateu no braço dele com seu leque. Seus olhos cintilaram maliciosamente. "Ele não é nada disso, e você sabe. Você está com ciúmes, Murray."
O ciúme de Murray era, de forma bastante singular, não fundado em nenhuma grande profundidade de amor por Anne. Sua apropriação das três irmãs fora um passatempo bonito e agradável. Quando finalmente decidiu por Anne como o centro vital de seu universo, contemplara um futuro no qual as outras irmãs também figurariam — especialmente Amy. Ele, de fato, não pensara em um mundo sem Amy.
A doença dela o preocupara, mas não muito. As coisas sempre vieram a ele da maneira que desejava, e ele estava bem certo de que, se Anne deveria ser a chama a iluminar seu futuro, a Providência permitiria que Amy fosse, por assim dizer, a guardiã da luz.
Ele sentiu necessário avisar Anne: "Não se apaixone por Sears."
"Não seja bobo, Murray."
"É bobagem dizer que eu te amo, Anne?"
Eles estavam sozinhos na antiga biblioteca, com seus livros, bronzes e ancestrais de peruca. E Murray sentou-se ao lado de Anne, tomou sua mão na dele e disse: "Eu te amo, Anne."
Foi uma proposta que não deveria ser tratada levianamente. Apesar de si mesma, Anne sentiu-se lisonjeada. Murray sempre surgira em seu horizonte como algo entediante, mas não menos como uma pessoa de importância.
Ela prendeu a respiração rapidamente. "Por favor, Murray" — seus rubores eram fascinantes — "sou jovem demais para pensar nessas coisas. E não estou apaixonada por ninguém."
Murray levou a mão dela aos lábios. "Guarde-se para mim, pequena Anne." Ele se levantou e ficou olhando para ela. "Você é uma criança muito encantadora", disse ele. "Você sabe disso?"
Anne, olhando-se no espelho mais tarde, perguntou-se se aquilo era verdade. Foi gentil da parte de Murray dizer aquilo. Mas ela não estava nem um pouco apaixonada por Murray. Ele era velho demais. E Maxwell era velho demais. Os sonhos de romance de Anne tinham a ver com a juventude glorificada. Ela queria um jovem Romeu gritando sua paixão para as estrelas!
Ela arrumou sua mala, no entanto, em grande antecipação. Maxwell era um companheiro de brincadeiras esplêndido, e ela pensava em sua fazenda como um local que transbordava leite e mel!
Maxwell escreveu a Winifred que estava voltando para casa e trazendo convidados.
"Desça e encontre-os. Anne é uma garota incrível."
Winifred sabia o que tinha acontecido. Alguma garota se apoderara de Maxwell. Era sempre assim com homens como aquele — homens grandes; eram criaturas crédulas no que dizia respeito às mulheres, e faria tanta diferença para o futuro de Maxwell se ele se casasse com a mulher errada.
Ela decidiu descer assim que pudesse. Sentia que deveria se apressar, mas havia coisas que a prendiam. E assim aconteceu que, antes que ela chegasse à fazenda, Maxwell pedira Anne em casamento. Houve uma noite fresca em que o perfume dos lilases invadiu em grandes ondas as janelas abertas. Amy fora dormir, e ele e Anne jantaram sozinhos, com o brilho das velas entre eles e o resto do quarto em uma sombra agradável. E então seu café foi servido, e a tia Mittie, sua governanta, perguntou se havia mais alguma coisa, retirando-se em seguida; então ele se levantou, caminhou até o lugar de Anne e colocou as mãos nos ombros dela.
"Pequena Anne", disse ele, "eu gostaria de vê-la aqui sempre."
"Aqui?"
"Como minha esposa."
"Oh!"
Ela tivera uma semana arrebatadora na fazenda. Nunca conhecera nada parecido. A tia Elizabeth, da Costa Leste, vivia em uma cidade sonolenta, e as outras breves férias de Anne haviam sido passadas em balneários mais ou menos elegantes. Mas aqui havia um paraíso de abundância; a casa grande e ampla, os celeiros espaçosos, o jardim opulento, os campos ondulantes, as criaturas encantadoras que eram abrigadas pelos celeiros e alimentadas pelos campos, e que em troca davam pagamento de creme amarelo e ovos brancos quentes, e que mugiam à noite e cacarejavam pela manhã, e cujos dias eram medidos pelo nascer e pelo pôr do sol.
Ela amava tudo aquilo — as gatas que ronronavam, os filhotes companheiros, os cães mais velhos, constantes e fiéis, os cordeiros no pasto, as coisas boas para comer.
Ela brilhava de gratidão, e Maxwell perguntava insistentemente: "Você não quer, Anne?"
Ela nunca fora tão feliz, e ele era a fonte de sua felicidade. Contra esse cenário de vida vívida, o pensamento de Murray era uma memória pálida.
Então seus olhos nostálgicos encontraram os de Maxwell. "Seria adorável... viver aqui... sempre."
Mais tarde, quando ela subiu as escadas com sua vela, ele a beijou, inclinando-se sobre o corrimão para observá-la enquanto ela subia, e Anne fora dormir trêmula com o pensamento de que seu futuro jazeria ali, naquela grande casa, com aquele homem fino e gentil.
Winifred, chegando finalmente, descobriu que chegara tarde demais. Maxwell contou-lhe enquanto dirigiam da estação.
"Deseje-me felicidade, Win. Vou me casar com a pequena Anne."
Não passou pela cabeça dele por um momento que a mulher ao seu lado o amava. Ele pensara que, se ela algum dia se casasse com ele, seria uma espécie de concessão de sua parte, um sacrifício ao seu interesse no futuro dele. Ele tinha a sensação de que ela ficaria feliz se tal sacrifício não fosse exigido.
Mas Winifred não ficou feliz. "Você tem certeza de que não está cometendo um erro, Max?"
"Espere até vê-la."
Winifred esperou e viu. "Ela não está nem um pouco apaixonada por ele. Ela gosta do ninho quente onde caiu. E ela arruinará o futuro dele. Ele se estabelecerá aqui, e ele pertence ao mundo."
Ele pertencia, pelo menos, ao seu eleitorado.
"Tenho que fazer um discurso", disse ele às três mulheres uma manhã, "em uma cidade a trinta quilômetros daqui. Se vocês quiserem o passeio, podem ir de carro comigo. Não precisam ouvir meu discurso se não quiserem."
Amy e Winifred disseram que, é claro, queriam ouvir. Anne sorriu alegremente e não disse nada. Ela estava, é claro, feliz por ir, mas os discursos de Maxwell eram para ela coisas abstratas da vida; as coisas concretas neste momento eram o jantar delicioso que estava diante dela e o fato de que no celeiro, enrolada no feno, havia uma nova família de gatinhos — pequenos malhados como sua mãe adorável.
"Não é um mundo adorável?" ela dissera ao seu amante enquanto sentava no sótão com os gatos aconchegados em seu colo.
"Sim."
Ele sabia que nem tudo era adorável, que em algum lugar havia gatinhos magros e famintos e pessoas magras e famintas — mas por que lembrá-la em tal momento?
VI
No caminho, Anne sentou-se com Winifred. Ela insistira que Amy deveria ficar no banco da frente com Max. Amy estava muito melhor. A vida começara a fluir em suas veias como vinho. Ela escrevera a Murray: "É como se um milagre tivesse acontecido."
Winifred, no banco de trás, conversava com Anne. Ela tinha muito a dizer sobre o futuro de Maxwell. "Lamento que ele tenha comprado a fazenda."
"Oh, não, de verdade." A atenção de Anne se dispersou. Ela tinha um dos filhotes em seu colo. Ele ficava espiando entre as dobras de sua capa com seus olhos brilhantes. "Ele não é um querido, Winifred?"
"Ele deveria vendê-la." Winifred gostava de cães, mas naquele momento ela queria a atenção de Anne. "Ele deveria vender a fazenda. Ele tem um grande futuro pela frente. Todo mundo diz isso. Ele simplesmente não deve se estabelecer."
"Oh, bem, ele não vai", disse Anne despreocupada.
"Ele vai se você deixar."
"Se eu deixar?"
"Se ele pensar que você gosta disso."
Havia um rubor profundo nas bochechas de Winifred. Ela era realmente uma garota muito bonita, com cabelos castanhos brilhantes e olhos castanhos. Ela usava um pequeno chapéu marrom e um colarinho de zibelina. O colarinho estava aberto e mostrava seu pescoço branco e forte.
"Se ele pensar que você gosta disso", ela repetiu, "ele ficará; e ele pertence ao mundo; ninguém deve impedi-lo. Ele é o homem mais importante de seu partido hoje. Não há limites para seus poderes."
Anne a encarou. "Claro que não há." Ela se perguntou por que Winifred parecia tão terrivelmente séria sobre aquilo. Ela puxou as orelhas do filhote. "Mas eu odiaria que ele vendesse a fazenda."
Winifred recostou-se com um suspiro agudo e contemplou a longa estrada cinzenta à sua frente. Ela contemplou, na verdade, um futuro bastante vazio. Seus talentos seriam, ela sentia, de certa forma desperdiçados. Se Max subisse a alturas maiores de fama, seria por causa de seus próprios esforços isolados. Esta criança não seria de nenhuma ajuda para ele.
O discurso que Max fez aos seus eleitores não foi frio e preciso como os discursos que Anne o ouvira fazer aos seus colegas na Câmara. Ele falou agora com calor e persuasão. Anne, sentada no carro grande na beira da multidão, viu-se ouvindo atentamente. Ela estava consciente, enquanto ele continuava, de um novo Max. A massa de homens que se reunira era composta em grande parte por estrangeiros que sabiam pouco dos verdadeiros significados da democracia. Max estava dizendo a eles o que significava ser um bom americano. Ele disse isso de forma simples, mas estava falando muito a sério. Anne sentiu que essa seriedade era o segredo de seu poder. Ele queria que os homens fossem bons americanos, queria que soubessem os privilégios que poderiam desfrutar em um país livre, e estava dizendo a eles como mantê-lo livre — não pela violência e pelo governo da turba, mas lembrando-se de suas obrigações como cidadãos. Ele disse a eles que deveriam estar sempre do lado da lei e da ordem, que deveriam combater a injustiça não com a bomba e a bandeira vermelha, mas com seus votos.
"Votem no homem em quem confiam, e não no homem que inflama suas paixões. Seu voto é uma coisa sagrada; quando você o vende, você se desonra. Respeite-se, e você respeitará o país que fez de você um homem."
A resposta foi imediata, os aplausos tumultuados. Após seu discurso, eles se aglomeraram ao redor dele. Eles o conheciam como seu amigo. Mas o conheciam por algo mais do que isso. Ele não pedia nada da masculinidade deles além do melhor. Ele pregava a honestidade e a praticava.
No entanto, quando ele subiu no carro, Anne tinha pouco a dizer a ele. Winifred, inclinando-se para frente, foi enfática em seu elogio:
"Você não tem o direito de se enterrar, Max."
"Minha querida, eu ainda não estou morto." Ele estava um pouco impaciente. Ele esperara uma palavra de Anne. Mas ela sentou-se em silêncio, puxando as orelhas do filhote.
"Ele está dormindo", disse ela finalmente ao notar a indagação nos olhos de seu amante. "Ele está exausto, pobre querido."
Ela parecia indiferente, mas não estava. Ela ficara muito agitada. Teve a estranha sensação de que algo acontecera com ela enquanto ouvia o discurso de Maxwell. Alguma corda se quebrara e seu romance estava desafinado.
Ela ficou acordada por muito tempo naquela noite, pensando sobre o assunto. Ela ficou quente com o pensamento das limitações de sua concepção anterior de seu amante. Ela o considerara uma espécie de pano de fundo para as coisas agradáveis que ele poderia fazer por ela. Ela o ajustara à medida das caixas de bombons que ele trouxera, os almoços no restaurante da Câmara, a hospitalidade abundante da fazenda. Com que leviandade ela o desprezara enquanto ele estava abaixo dela na escada com sua vela na mão. Com que casualidade ela aceitara seu beijo. Ela teve a sensação repentina de que não devia deixar que ele a beijasse novamente!
De manhã cedo, ela foi ao quarto de Amy. "Amy", disse ela, "em quanto tempo você acha que podemos ir para a casa da tia Elizabeth?"
"Casa da tia Elizabeth? Por quê, Anne?"
"Quero sair daqui."
"Sair daqui?" Amy sentou-se. Mesmo sob a luz brilhante da manhã, seu rosto parecia jovem. Boa comida e ar fresco fizeram muito por ela. Também fora absolutamente maravilhoso deixar as preocupações desaparecerem, não ter pensamentos sobre o que comer, o que beber ou o que vestir. "Sair daqui? Pensei que você amasse isso, Anne."
"Tenho que ir embora. Não vou me casar com Maxwell, Amy."
"Anne! O que a fez mudar de ideia?"
"Não posso te contar. Por favor, não me pergunte. Mas eu gostaria que você escrevesse para a tia Elizabeth."
"Recebi uma carta dela ontem. Ela diz que podemos ir a qualquer momento. Mas... você contou ao Max?"
"Ainda não."
"Ele fez alguma coisa?"
"Não. É apenas... que não posso me casar com ele. Não me pergunte, Amy." Ela desabou em uma tempestade de lágrimas.
Amy, acalmando-a, perguntou-se se, afinal, Anne se importava com Murray Flint. Era, ela sentia, a única solução possível. Certamente uma garota não jogaria fora a chance de se casar com um homem como Maxwell Sears por nada.
Pois Amy aprendera nos dias que passara na fazenda que Maxwell Sears era um homem a ser considerado. Ela era muito grata pelo que ele fizera por ela, e ficara feliz com o noivado de Anne. Murray talvez ficasse desapontado, mas ainda haveria ela mesma e Ethel.
Não foi fácil explicar as coisas para Maxwell.
"Por que vocês estão indo agora?" ele exigiu, e ficou impaciente quando lhe disseram que a tia Elizabeth as esperava. "Não entendo isso de jeito nenhum. Isso estraga todos os meus planos para você, Anne."
Naquela noite, quando ele trouxe a vela de Anne, ela não estava na escada. Winifred e Amy tinham subido.
"Anne! Anne!" ele chamou suavemente.
Ela foi até o corrimão superior e inclinou-se. "Vou para a cama no escuro. Há uma lua maravilhosa."
"Desça... por um minuto."
"Não."
"Então eu subirei", de forma autoritária.
Ele subiu as escadas de dois em dois degraus; mas quando chegou ao patamar, a porta estava trancada!
Pela manhã, ele a questionou sobre isso. "Por quê, querida?"
"Max, querido, não posso me casar com você."
"Bobagem!" Sua voz foi aguda. Ele colocou as mãos pesadamente nos ombros dela. "Por que não? Olhe para mim, Anne. Por que não?"
"Não vou me casar... com ninguém."
Isso foi tudo o que ele conseguiu extrair dela. Ele implorou, enfureceu-se e ficou por fim branco e silencioso de raiva. "Você poderia, pelo menos, me contar seus motivos."
Ela disse que escreveria. Talvez pudesse dizer melhor no papel. E ela estava muito, muito arrependida, mas não podia.
Winifred sabia que algo estava acontecendo, mas não fez comentários. Amy, cumprindo o programa de partida, sentiu um pouco de pesar.
Afinal, fora uma vida adorável, e havia coisas piores do que ser irmã de Maxwell Sears. Sua voz falhou um pouco enquanto ela tentava agradecê-lo na última manhã.
Ele apertou a mão dela. "Diga uma boa palavra por mim para Anne. Não sei o que há de errado com ela."
Nem Amy sabia. E se ela fosse a advogada de Maxwell, como poderia ser a de Murray? Ela corou um pouco.
"Anne é tão criança."
Ele se lembrou de como a chamara de garota incrível. Ela era mais do que isso para ele agora. Ela estava parada na porta com seu chapéu de marinheiro cinza e capa cinza.
"Anne", disse ele, "você deve levar um último punhado de amores-perfeitos do jardim. Venha comigo e me ajude a colhê-los."
No jardim, ele perguntou: "Você vai me dar um beijo de despedida?"
"Não, Max. Por favor..."
"Então que seja 'Deus te abençoe, querida'."
Ele esqueceu os amores-perfeitos e eles voltaram para onde o carro esperava.
VII
A carta de Anne, escrita da Costa Leste, foi um longo e infantil desabafo. "Sempre fomos mendigos montados a cavalo", disse ela. "É claro que você não poderia saber disso, Max. Passamos sem pão para que pudéssemos ser grandiosas e elegantes. Passamos sem fogo para que pudéssemos comprar nossos vestidos de cetim para funções da moda. Passamos sem manteiga por um ano para que Amy pudesse entreter os Strangeways, que ela conhecera anos atrás na Europa. Eu não ousaria lhe contar quanto custou aquele jantar, mas tínhamos um ou dois membros do gabinete e o Embaixador Britânico."
"Você se perguntava por que eu gostava de Dickens. Bem, eu o lia para que pudesse ter uma boa refeição por procuração. Eu costumava me regozijar com os banquetes em Wardle's e a torrada quente do Sr. Stiggins. E quando eu te conheci, você me deu... tudo. Murray Flint acha que, por eu ser magra e pálida, sou toda espírito, e temo que você tenha a mesma ideia. Você não imaginou, não é, que eu estava pálida porque não tinha o suficiente para comer? E quando você me disse que queria que eu fosse sua esposa, olhei para o futuro e vi a boa comida e as lareiras crepitantes, e não pensei em mais nada. Honestamente, não pensei em você por um momento, Max.
"Houve dias, porém, em que você significou mais para mim do que apenas isso. Quando brincamos no Capitol... naquela noite em que encontramos Lafayette nas escadas! Ninguém nunca tinha brincado comigo. Mas depois que fomos para a fazenda, fui sufocada pelo conforto. E eu adorei. E não amava você. Você era apenas... o homem que me dava coisas. Entende o que quero dizer? E quando você me beijou nas escadas, foi como se eu estivesse sendo beijada por um bondoso Papai Noel.
"Todo mundo viu, menos você. Tenho certeza de que Amy sabia... e Winifred Reed. Você... você deveria se casar com Winifred, Max. Talvez você o faça. Você não vai me querer depois de ler esta carta. E Winifred é esplêndida.
"Foi o seu discurso aos homens que me despertou. Vi quão grande você era, e eu simplesmente... me encolhi.
"E você não deve se preocupar comigo. Não estou mais com fome. Sinto como se nunca mais quisesse comer nada. Talvez seja porque estou mais velha e não tenho mais um apetite em fase de crescimento. E não sou nada das coisas que você pensou que eu fosse. E, claro, você ficaria desapontado, e não seria justo."
Tendo postado isso, Anne tinha outras coisas a fazer. Ela escreveu cartas misteriosas e, finalmente, entrou em uma sala onde suas irmãs e a tia Elizabeth estavam costurando, com um papel de aparência importante na mão.
"Vou trabalhar, Amy."
"Trabalhar!"
"Sim."
Amy, Ethel e tia Elizabeth vestiam vestidos brancos e pareciam muito serenas, femininas e de boa estirpe. Tia Elizabeth tinha um nariz como o de Amy e o mesmo ar de linhagem.
Foi tia Elizabeth quem disse com sua voz autoritária: "Sobre o que você está falando, Anne?"
"Vou trabalhar no War Risk Bureau, tia Elizabeth. Escrevi para dois senadores e eles me ajudaram."
Nenhuma mulher da família Merryman jamais tinha trabalhado em um escritório.
Anne enfrentou uma tempestade de desaprovação, mas permaneceu ali, esguia e desafiadora, e declarou suas razões.
"Precisamos de dinheiro. Não vejo como podemos passar por um inverno como o último. Não posso manter meu autorrespeito se continuarmos vivendo como vivemos no inverno passado."
"Você não tem orgulho, Anne?"
"Eu tenho autorrespeito."
Ela deixou a sala vitoriosa. Depois que ela se foi, as três mulheres falaram sobre ela. Não disseram abertamente, mas sentiam que havia realmente um traço vulgar em Anne. Caso contrário, ela não teria querido trabalhar em um escritório.
Não havia, contudo, nada a ser feito. Anne tinha vinte e um anos. Ela ganharia cem dólares por mês. Apesar de si mesma, Amy sentiu um palpitar no coração ao pensar no que aqueles cem dólares significariam para elas.
Murray Flint ficou muito perturbado quando soube da decisão de Anne. Ele escreveu a ela que, é claro, ela sabia que não havia razão para ir a um escritório... sua casa e seu lar eram dela. Ela respondeu que nunca se casaria! Depois disso, Murray sentiu, junto com Amy, Ethel e tia Elizabeth, que havia um traço vulgar em Anne!
Quando ele chegou em agosto à casa da tia Elizabeth, ficou surpreso com a mudança em Amy. Ela parecia realmente muito jovem ao vir ao seu encontro, e a casa da tia Elizabeth era um cenário perfeito para seus encantos. Murray gostava muito da casa da tia Elizabeth. Era um edifício antigo e imponente, e dentro havia retratos emoldurados a ouro de homens e mulheres com narizes como os de Amy e tia Elizabeth.
Murray sentira muita falta de Amy e disse-lhe isso.
"Foi uma questão de honra para mim pedir a mão de Anne novamente. Mas quando pensei que iria perder você, aprendi que minha vida seria vazia sem você."
Ele realmente acreditava no que estava dizendo a ela. Se Amy não acreditava, não deu sinal. Ela estava recebendo muito mais do que esperava e aceitou-o de forma graciosa e elegante, como convinha a uma filha dos Merryman.
Foi quando ele contou a Anne sobre seu noivado com Amy que Murray ofereceu a ela, mais uma vez, um lar. "Sempre haverá um lugar para as irmãs de Amy, Anne."
"Você é muito bom, Murray... mas não posso."
Ela dissera a mesma coisa a Maxwell, que viera apressado para dizer-lhe que sua carta não fizera diferença em seus sentimentos por ela.
"Como você pôde pensar nisso, Anne? Minha querida, você está fazendo uma tempestade em copo d'água!"
Ela estivera trêmula, porém firme. "Eu preciso ter meu... autorrespeito, Max."
Porque ele entendia os homens, ele a entendia. E quando a deixou, ele disse a si mesmo com um suspiro profundo: "Ela é uma garota incrível."
E, desta vez, não houve riso em seus olhos.
Durante todo aquele inverno, Anne trabalhou, uma pequena criatura esforçada, com a cabeça erguida!
Maxwell estava na cidade, pois o Congresso havia se reunido. Mas ele não tinha vindo vê-la. De vez em quando, quando havia uma sessão noturna, ela ia até a Câmara e sentava-se bem atrás, na Galeria, onde, despercebida, podia ouvir a voz de seu amado. Então ela escapulia, um pequeno fantasma, escada sombria abaixo; mas não havia mais jogos com Lafayette!
Amy e Murray deveriam se casar em junho. Eles desfrutaram de um noivado digno e tranquilo, e Amy florescera sob o sol da aprovação de Murray. O salário de Anne ajudara muito a montar o enxoval. A maior parte do salário, de fato, fora gasta nisso. A mesa estava, como de costume, escassa, mas Anne não parecia se importar.
Ela estava, portanto, um tanto pálida e magra quando, no dia em que o Congresso entrou em recesso, Maxwell foi a Georgetown vê-la. Tinha sido uma longa sessão, e era primavera.
Havia lilases brancos em um grande vaso azul na biblioteca dos Merryman e, pela longa janela, um vislumbre de uma pequena lua minguante em um céu verde-pálido.
Ao olhar para Anne, Maxwell sentiu um nó na garganta. Ela lhe dera a mão e sorrira para ele. "Como estão os gatinhos?", ela perguntara, em um esforço para ser alegre.
Ele não respondeu à pergunta dela. Ele foi, em vez disso, direto ao ponto. "Anne, por que você não quis me beijar naquela última noite?"
Ela corou até a raiz dos cabelos. "Foi... foi porque eu amava você, Max."
"Eu pensei que sim. Mas você precisava provar isso para si mesma?"
"Sim."
"Anne, foi por isso que deixei você em paz durante todo o inverno... para que pudesse provar isso. Mas... não posso continuar. Foi um inverno terrível para mim, Anne."
Tinha sido um inverno terrível para ela. Mas ela saíra dele conhecendo a si mesma. E mesmo quando, finalmente, os braços dele estavam ao seu redor e ele lhe dizia que nunca a deixaria partir, ela tinha um pedido a fazer:
"Não me deixe viver de forma muito suave, Max. A vida não é uma cama de penas... Você pertence ao mundo. Devo ir com você em direção às grandes coisas. Mas, de vez em quando, voltaremos correndo para a fazenda."
"O que me importa para onde corremos, desde que corramos... juntos!"
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"Embora minha ascendência seja toda da Nova Inglaterra, nasci na antiga cidade de Petersburg, Virgínia. Fui mais tarde para Richmond e, finalmente, aos cinco anos, para Washington, D.C., retornando a Richmond por alguns anos para uma escola de meninas, que estava pitorescamente alojada na mansão do General Lee."
PEACOCK FEATHERS
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