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The Grand Babylon Hôtel

by Arnold Bennett · in Portuguese

O GRANDE BABYLON HÔTEL

Por Arnold Bennett

T. Racksole & Filha

CONTEÚDO

Capítulo Um. O MILIONÁRIO E O GARÇOM

Capítulo Dois. COMO O SR. RACKSOLE OBTEVE O SEU JANTAR

Capítulo Três. ÀS TRÊS DA MANHÃ

Capítulo Quatro. ENTRADA DO PRÍNCIPE

Capítulo Cinco. O QUE ACONTECEU A REGINALD DIMMOCK

Capítulo Seis. NA SALA DOURADA

Capítulo Sete. NELLA E O PRÍNCIPE

Capítulo Oito. CHEGADA E PARTIDA DA BARONESA

Capítulo Nove. DUAS MULHERES E O REVÓLVER

Capítulo Dez. NO MAR

Capítulo Onze. O PENHORISTA DA CORTE

Capítulo Doze. ROCCO E O QUARTO N.º 111

Capítulo Treze. NO QUARTO DE ESTADO

Capítulo Catorze. ROCCO RESPONDE A ALGUMAS PERGUNTAS

Capítulo Quinze. FIM DA AVENTURA NO IATE

Capítulo Dezesseis. A MULHER COM O CHAPÉU VERMELHO

Capítulo Dezessete. A LIBERTAÇÃO DO PRÍNCIPE EUGEN

Capítulo Dezoito. NA NOITE

Capítulo Dezenove. REALEZA NO GRANDE BABYLON

Capítulo Vinte. O SR. SAMPSON LEVI DESEJA BOM DIA AO PRÍNCIPE EUGEN

Capítulo Vinte e Um. O RETORNO DE FÉLIX BABYLON

Capítulo Vinte e Dois. NAS CADEIAS DE VINHO DO GRANDE BABYLON

Capítulo Vinte e Três. OUTROS EVENTOS NA CADEIA

Capítulo Vinte e Quatro. A GARRAFA DE VINHO

Capítulo Vinte e Cinco. A LANCHA A VAPOR

Capítulo Vinte e Seis. A PERSEGUIÇÃO NOTURNA E O MUDLARK

Capítulo Vinte e Sete. A CONFISSÃO DO SR. TOM JACKSON

Capítulo Vinte e Oito. O QUARTO DE ESTADO MAIS UMA VEZ

Capítulo Vinte e Nove. THEODORE É CHAMADO AO RESGATE

Capítulo Trinta. CONCLUSÃO

Capítulo Um O MILIONÁRIO E O GARÇOM

— SIM, senhor?

Jules, o célebre garçom-chefe do Grand Babylon, inclinava-se formalmente em direção ao homem alerta e de meia-idade que acabara de entrar na sala de fumo e se deixara cair numa poltrona de vime no canto, junto ao conservatório. Eram 19h45 de uma noite de junho particularmente abafada, e o jantar estava prestes a ser servido no Grand Babylon. Homens de todos os portes, idades e nacionalidades, mas todos igualmente trajados em impecáveis trajes de noite, estavam espalhados pelo amplo e sombrio aposento. Um odor suave de flores vinha do conservatório, acompanhado pelo tinir de uma fonte. Os garçons, comandados por Jules, moviam-se suavemente sobre os espessos tapetes orientais, equilibrando as suas bandejas com a destreza de malabaristas, recebendo e executando pedidos com aquele ar de profunda importância do qual apenas os garçons de primeira classe possuem o segredo. A atmosfera era de serenidade e repouso, característica do Grand Babylon. Parecia impossível que algo pudesse ocorrer para estragar a monarquia pacífica e aristocrática da existência naquele estabelecimento perfeitamente gerido. Contudo, naquela noite, estava para acontecer a maior reviravolta que o Grand Babylon jamais conhecera.

— Sim, senhor? — repetiu Jules, e desta vez havia uma sombra de augusta desaprovação na sua voz: não era habitual ter de dirigir-se a um cliente duas vezes.

— Oh! — disse o homem alerta e de meia-idade, olhando finalmente para cima. Belamente ignorante da identidade do grande Jules, permitiu que os seus olhos cinzentos cintilassem ao notar a expressão no rosto do garçom. — Traga-me um Angel Kiss.

— Perdão, senhor?

— Traga-me um Angel Kiss, e seja bom o suficiente para não perder tempo.

— Se é uma bebida americana, receio que não a tenhamos, senhor. — A voz de Jules tornou-se gélida e distinta, e vários homens olharam em redor, inquietos, como se quisessem evitar a menor perturbação da sua calma. A aparência da pessoa a quem Jules se dirigia, porém, tranquilizou-os um pouco, pois ele tinha todo o aspecto daquele especialista, o inglês viajado, que consegue diferenciar um hotel de outro por instinto, e que sabe de imediato onde pode fazer exigências com propriedade e onde é aconselhável comportar-se exatamente como no clube. O Grand Babylon era um hotel em cuja sala de fumo se comportava como se estivesse no seu clube.

— Não suponho que a tenha, mas pode misturá-la, suponho, mesmo neste hotel.

— Este não é um hotel americano, senhor. — A insolência calculada das palavras estava habilmente mascarada sob um sotaque de humilde submissão.

O homem alerta e de meia-idade sentou-se ereto e olhou placidamente para Jules, que puxava as suas famosas suíças ruivas.

— Pegue num copo de licor — disse ele, meio bruscamente e meio com tolerância bem-humorada —, deite nele quantidades iguais de maraschino, natas e crême de menthe. Não mexa; não agite. Traga-o para mim. E, diga-me, avise o barman...

— Barman, senhor?

— Avise o barman para anotar a receita, pois provavelmente vou querer um Angel Kiss todas as noites antes do jantar, enquanto durar este tempo.

— Enviarei a bebida para o senhor — disse Jules, distante. Esse foi o seu tiro de despedida, com o qual indicou que não era como os outros garçons e que qualquer pessoa que o tratasse com desrespeito fá-lo-ia por sua própria conta e risco.

Alguns minutos depois, enquanto o homem alerta e de meia-idade provava o Angel Kiss, Jules sentou-se em conclave com a Srta. Spencer, que estava encarregada da secretaria do Grand Babylon. Esta secretaria era uma câmara razoavelmente grande, com duas divisórias de vidro deslizantes que davam para o hall de entrada e para a sala de fumo. Apenas uma pequena parte do trabalho administrativo do grande hotel era ali realizada. O lugar servia principalmente como o covil da Srta. Spencer, que era tão conhecida e importante quanto o próprio Jules. A maioria dos hotéis modernos tem um funcionário do sexo masculino para supervisionar a secretaria. Mas o Grand Babylon seguia o seu próprio caminho. A Srta. Spencer era funcionária da secretaria quase desde que o Grand Babylon erguera pela primeira vez as suas enormes chaminés para o céu, e ela permanecia no seu lugar, apesar das inconstâncias dos outros hotéis. Sempre admiravelmente vestida com seda preta simples, com um pequeno broche de diamantes, punhos imaculados e cabelos louros frisados, ela parecia agora exatamente como parecia há um número indefinido de anos. A sua idade — ninguém a sabia, exceto ela própria e talvez outro alguém, e ninguém se importava. Os contornos graciosos e sedutores da sua figura eram irrepreensíveis; e, à noite, ela era um ornamento útil de que qualquer hotel poderia estar inocentemente orgulhoso. O seu conhecimento de Bradshaw, de serviços de navios a vapor e dos programas de teatros e casas de espetáculos era inigualável; contudo, ela nunca viajava, nunca ia a um teatro ou a uma casa de espetáculos. Parecia passar toda a sua vida naquele covil oficial, transmitindo informações aos hóspedes, telefonando para os vários departamentos ou envolvida em conversas íntimas com os seus amigos especiais do pessoal, como naquele momento.

— Quem é o número 107? — perguntou Jules a esta senhora de preto.

A Srta. Spencer examinou os seus registos.

— Sr. Theodore Racksole, Nova Iorque.

— Pensei que devia ser um nova-iorquino — disse Jules, após uma breve e significativa pausa —, mas ele fala um inglês tão bom quanto o seu ou o meu. Diz que quer um "Angel Kiss" — maraschino e natas, se faz o favor — todas as noites. Vou certificar-me de que ele não fique aqui muito tempo.

A Srta. Spencer sorriu sombriamente em resposta. A ideia de se referir a Theodore Racksole como um "nova-iorquino" apelava ao seu sentido de humor, um sentido do qual ela não era inteiramente desprovida. Ela sabia, naturalmente, e sabia que Jules sabia, que este Theodore Racksole devia ser o único e inigualável Theodore Racksole, o terceiro homem mais rico dos Estados Unidos e, portanto, provavelmente do mundo. No entanto, ela posicionou-se imediatamente ao lado de Jules.

Assim como só havia um Racksole, só havia um Jules, e a Srta. Spencer partilhava instintivamente a indignação deste último perante o espetáculo de qualquer pessoa, milionário ou Imperador, a presumir exigir um "Angel Kiss", aquela mistura pouco respeitável de maraschino e natas, dentro das dependências do Grand Babylon. No mundo dos hotéis, dizia-se correntemente que, a seguir ao proprietário, havia três deuses no Grand Babylon — Jules, o garçom-chefe, a Srta. Spencer e, mais poderoso de todos, Rocco, o renomado chef, que ganhava duas mil libras por ano e tinha um chalé no Lago de Lucerna. Todos os grandes hotéis da Northumberland Avenue e do Tamisa tinham tentado tirar Rocco do Grand Babylon, mas sem sucesso. Rocco estava bem ciente de que nem ele poderia ascender a mais do que o maître d'hôtel do Grand Babylon, que, embora nunca se anunciasse e não pertencesse a uma sociedade anónima, ocupava facilmente o primeiro lugar entre os hotéis da Europa — primeiro em despesa, primeiro em exclusividade, primeiro naquela qualidade misteriosa conhecida como "estilo".

Situado no Embankment, o Grand Babylon, apesar das suas nobres proporções, era um tanto ofuscado por vários vizinhos colossais. Tinha apenas trezentos e cinquenta quartos, enquanto havia dois hotéis num raio de quatrocentos metros com seiscentos e quatrocentos quartos, respetivamente. Por outro lado, o Grand Babylon era o único hotel em Londres com uma entrada separada e genuína para visitantes Reais em uso constante. O Grand Babylon considerava perdido o dia em que não recebia, pelo menos, um príncipe alemão ou o marajá de algum Estado indiano. Quando Felix Babylon — de quem, e não com qualquer referência à alcunha de Londres, o hotel fora batizado — quando Felix Babylon fundou o hotel em 1869, dedicara-se a servir a Realeza, e esse era o segredo da sua eminência triunfante.

Filho de um rico proprietário de hotel e financiador suíço, conseguira estabelecer uma ligação com os funcionários de várias Cortes europeias, e não poupara dinheiro nesse aspeto. Vários reis e não poucas princesas chamavam-lhe Felix e falavam familiarmente do hotel como o "do Felix"; e Felix descobrira que isso era muito bom para o negócio. O Grand Babylon era gerido de acordo. A "nota" da sua política era a discrição, sempre a discrição, e quietude, simplicidade, afastamento. O lugar era como um palácio incógnito. Não havia letreiro dourado sobre o telhado, nem mesmo uma palavra explicativa na entrada. Caminhava-se por uma pequena rua lateral ao lado do Strand, via-se um edifício castanho simples à frente, com duas portas de vaivém de mogno e um funcionário atrás de cada uma; as portas abriam-se silenciosamente; entrava-se; estava-se no do Felix. Se pretendia ser um hóspede, você, ou o seu correio, entregava o seu cartão à Srta. Spencer. Sob nenhuma circunstância perguntava pelo tarifário. Não era de bom tom mencionar preços no Grand Babylon; os preços eram enormes, mas nunca os mencionava. No final da sua estadia, era apresentada uma conta, breve e desprovida de detalhes secos, e pagava-a sem uma palavra. Encontrava uma civilidade imponente, isso era tudo. Ninguém o convidara originalmente para vir; ninguém expressava a esperança de que voltasse. O Grand Babylon estava muito acima de tais manobras; desafiava a concorrência ignorando-a; e, consequentemente, estava quase sempre cheio durante a temporada.

Se havia algo que mais aborrecia o Grand Babylon — que o deixava de pé atrás, por assim dizer — era ser comparado ou confundido com um hotel americano. O Grand Babylon era resolutamente oposto aos métodos americanos de comer, beber e alojar — mas especialmente aos métodos americanos de beber. O ressentimento de Jules, ao ser solicitado a fornecer ao Sr. Theodore Racksole um Angel Kiss, será, portanto, apreciado.

— Alguém com o Sr. Theodore Racksole? — perguntou Jules, continuando a sua conversa com a Srta. Spencer. Ele colocou uma ênfase desdenhosa em cada sílaba do nome do hóspede.

— A Srta. Racksole — ela está no n.º 111.

Jules fez uma pausa e acariciou a sua suíça esquerda enquanto esta repousava sobre o seu colarinho branco brilhante.

— Ela está onde? — perguntou ele, com uma ênfase peculiar.

— N.º 111. Não pude evitar. Não havia outro quarto com casa de banho e vestiário naquele andar. — A voz da Srta. Spencer tinha um tom apelativo de desculpa.

— Por que não disse ao Sr. Theodore Racksole e à Srta. Racksole que não podíamos acomodá-los?

— Porque Babs estava ao alcance da voz.

Apenas três pessoas em todo o vasto mundo sonhavam em aplicar ao Sr. Felix Babylon a abreviação brincalhona, mas mesquinha, — Babs: essas três eram Jules, a Srta. Spencer e Rocco. Jules inventara-a. Ninguém além dele teria tido a argúcia ou a audácia para o fazer.

— É melhor certificar-se de que a Srta. Racksole mude de quarto esta noite — disse Jules após outra pausa. — Deixe comigo: eu resolvo. Au revoir! Faltam três minutos para as oito. Vou assumir o comando da sala de jantar eu mesmo esta noite.

E Jules partiu, esfregando as suas finas mãos brancas lenta e meditativamente. Era um hábito seu esfregar as mãos com um movimento estranho e circular, e a ação denotava que alguma excitação incomum estava no ar.

Às oito horas em ponto, o jantar foi servido na imensa salle à manger, aquele casto, porém esplêndido, aposento de branco e ouro. Numa pequena mesa perto de uma das janelas, uma jovem sentava-se sozinha. Os seus vestidos diziam Paris, mas o seu rosto dizia inequivocamente Nova Iorque. Era um rosto autoconfiante e fascinante, o rosto de uma mulher completamente acostumada a fazer exatamente o que queria, quando queria, como queria: o rosto de uma mulher que ensinara a centenas de jovens dourados a verdadeira arte de servir e carregar, e que, por vinte anos ou mais de mimos paternos, passara a considerar-se o equivalente feminino do Czar de Todas as Rússias. Tais mulheres só são feitas na América, e só florescem plenamente na Europa, que imaginam ser um continente criado pela Providência para a sua diversão.

A jovem junto à janela olhou com desaprovação para o menu. Depois olhou em redor da sala de jantar e, enquanto admirava os comensais, decidiu que a sala em si era um pouco pequena e simples. Depois olhou pela janela aberta e disse a si mesma que, embora o Tamisa ao crepúsculo fosse passável, não estava de forma alguma ao nível do Hudson, em cujas margens o seu pai tinha uma casa de campo de cem mil dólares. Depois voltou ao menu e, com um franzir de lábios adoráveis, disse que parecia não haver nada para comer.

— Desculpe fazê-la esperar, Nella. — Era o Sr. Racksole, o intrépido milionário que ousara pedir um Angel Kiss na sala de fumo do Grand Babylon. Nella — o seu nome próprio era Helen — sorriu para o seu progenitor cautelosamente, reservando para si o direito de ralhar caso se sentisse inclinada para tal.

— O pai está sempre atrasado — disse ela.

— Apenas em férias — acrescentou ele. — O que há para comer?

— Nada.

— Então vamos comer isso. Estou com fome. Nunca tenho tanta fome como quando estou seriamente ocioso.

— Consommé Britannia — começou ela a ler no menu —, Saumon d’Ecosse, Sauce Genoise, Aspics de Homard. Oh, céus! Quem quer estas misturas horríveis numa noite como esta?

— Mas, Nella, esta é a melhor cozinha da Europa — protestou ele.

— Diga-me, pai — disse ela, com aparente irrelevância —, esqueceu-se de que é o meu aniversário amanhã?

— Alguma vez me esqueci do seu aniversário, ó filha caríssima?

— No geral, tem sido um pai muito satisfatório — respondeu ela docemente —, e para o recompensar ficarei contente este ano com a prenda de aniversário mais barata que alguma vez me deu. Só que a quero esta noite.

— Bem — disse ele, com a paciência sofredora, a prontidão para qualquer surpresa, de um pai a quem Nella tinha treinado minuciosamente —, o que é?

— É isto. Vamos comer bife de filé e uma garrafa de Bass para o jantar esta noite. Será simplesmente requintado. Vou adorar.

— Mas minha querida Nella — exclamou ele —, bife e cerveja no do Felix! É impossível! Além disso, jovens ainda com menos de vinte e três anos não podem ter permissão para beber Bass.

— Eu disse bife e Bass, e quanto a ter vinte e três, amanhã farei vinte e quatro.

A Srta. Racksole cerrou os seus pequenos dentes brancos.

Houve uma tosse suave. Jules estava sobre eles. Deve ter sido por um puro espírito de aventura que ele escolhera aquela mesa para o seu serviço pessoal. Normalmente Jules não servia pessoalmente ao jantar. Ele apenas pairava observador, como um capitão na ponte durante o turno do imediato. Frequentadores regulares do hotel sentiam-se honrados quando Jules se ligava às suas mesas.

Theodore Racksole hesitou um segundo e depois emitiu o pedido com um ar refinado de indiferença:

— Bife de filé para dois e uma garrafa de Bass. — Foi o ato mais corajoso da vida de Theodore Racksole, e ainda assim, em mais de uma crise anterior, uma alta coragem não lhe faltara.

— Não está no menu, senhor — disse Jules, o imperturbável.

— Não importa. Consiga. Nós queremos.

— Muito bem, senhor.

Jules caminhou até à porta de serviço e, apenas fingindo olhar para trás, voltou imediatamente.

— Os cumprimentos do Sr. Rocco, senhor, e ele lamenta ser incapaz de servir bife e Bass esta noite, senhor.

— Sr. Rocco? — questionou Racksole levemente.

— Sr. Rocco — repetiu Jules com firmeza.

— E quem é o Sr. Rocco?

— O Sr. Rocco é o nosso chef, senhor. — Jules tinha a expressão de um homem a quem pedem para explicar quem foi Shakespeare.

Os dois homens olharam um para o outro. Parecia incrível que Theodore Racksole, o inefável Racksole, que possuía mil milhas de caminho de ferro, várias cidades e sessenta votos no Congresso, devesse ser desafiado por um garçom, ou mesmo por um hotel inteiro. Contudo, assim era. Quando as costas débeis da Europa estão contra a parede, nem um regimento de milionários pode flanquear. Jules tinha a expressão calma de um homem seguro da vitória. O seu rosto dizia: "Ganhou-me uma vez, mas desta vez não, meu amigo de Nova Iorque!"

Quanto a Nella, conhecendo o seu pai, previu eventos interessantes e esperou confiantemente pelo bife. Não sentia fome e podia dar-se ao luxo de esperar.

— Com licença um momento, Nella — disse Theodore Racksole calmamente —, voltarei em cerca de dois segundos — e saiu a passos largos da salle à manger. Ninguém na sala reconheceu o milionário, pois ele era desconhecido em Londres, sendo esta a sua primeira visita à Europa em mais de vinte anos. Se alguém o tivesse feito, e apanhado a expressão no seu rosto, esse homem poderia ter tremido por uma explosão que deveria ter soprado o Grand Babylon inteiro para dentro do Tamisa.

Jules retirou-se estrategicamente para um canto. Ele tinha disparado; era a vez do antagonista. Uma longa e variada experiência ensinara a Jules que um hóspede que embarca na subjugação de um garçom está quase sempre perdido; o garçom tem tantas vantagens num tal concurso.

Capítulo Dois COMO O SR. RACKSOLE OBTEVE O SEU JANTAR

CONTUDO, há homens com um hábito confirmado de obterem o que querem, mesmo como hóspedes num hotel exclusivo: e Theodore Racksole há muito caíra nessa prática útil — exceto quando a sua única filha Helen, rapariga sem mãe mas cheia de espírito, escolhia pensar que o caminho dele cruzava o dela, caso em que Theodore capitulava e recuava. Mas quando Theodore e a sua filha calhavam de seguir o mesmo caminho, o que acontecia frequentemente, então apenas o Céu poderia ajudar qualquer obstáculo que fosse tão mal aconselhado a estar no seu caminho. Jules, homem grande e observador embora fosse, não tinha notado os terríveis queixos salientes tanto do pai quanto da filha, caso contrário é possível que ele tivesse reconsiderado a questão do bife e da Bass.

Theodore Racksole foi direto ao hall de entrada do hotel e entrou no santuário da Srta. Spencer.

— Quero ver o Sr. Babylon — disse ele —, sem a demora de um instante.

A Srta. Spencer ergueu lentamente a sua cabeça loura.

— Receio que... — começou ela a fórmula habitual. Era parte do seu dever diário desencorajar os hóspedes que desejavam ver o Sr. Babylon.

— Não, não — disse Racksole rapidamente —, não quero nenhum "receio que". Isto é negócio. Se tivesse sido a funcionária comum do hotel, teria deslizado um par de soberanos para a sua mão, e o assunto estaria feito.

Como não é — como está obviamente acima de subornos — eu digo-lhe apenas: tenho de ver o Sr. Babylon imediatamente num assunto da maior urgência. O meu nome é Racksole — Theodore Racksole.

— De Nova Iorque? — questionou uma voz à porta, com um ligeiro sotaque estrangeiro.

O milionário virou-se bruscamente e viu um homem de aspeto francês, algo baixo, com uma cabeça calva, uma barba cinzenta, um casaco comprido e perfeitamente construído, óculos presos a uma minúscula corrente de prata e olhos azuis que pareciam ter a transparência inocente de uma donzela.

— Só existe um — disse Theodore Racksole sucintamente.

— Deseja ver-me? — sugeriu o recém-chegado.

— É o Sr. Felix Babylon?

O homem inclinou-se.

— Neste momento desejo vê-lo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo — disse Racksole. — Estou consumido e queimado por um desejo de vê-lo, Sr. Babylon.

Só quero uns minutos de conversa sossegada. Imagino que possa resolver o meu assunto nesse tempo.

Com um gesto, o Sr. Babylon convidou o milionário por um corredor lateral, no fim do qual ficava o quarto privado do Sr. Babylon, um milagre de mobiliário e tapeçaria Luís XV: como a maioria dos homens solteiros com grandes rendimentos, o Sr. Babylon tinha "gostos" de um tipo altamente dispendioso.

O proprietário e o seu hóspede sentaram-se um de frente para o outro. Theodore Racksole tivera a sorte habitual de um milionário nesta aventura, pois o Sr. Babylon tinha por hábito não se deixar entrevistar pelos seus hóspedes, por mais distintos, mais ricos ou mais pertinazes que fossem. Se ele não tivesse entrado por acaso no escritório da Srta. Spencer naquele preciso momento, e se não tivesse ficado impressionado de uma forma algo peculiar pela fisionomia do milionário, nem toda a energia e engenhosidade americanas do Sr. Racksole teriam bastado para uma conferência com o proprietário do Grand Babylon Hôtel naquela noite. Theodore Racksole, contudo, ignorava que um mero acidente o servira. Atribuiu todo o mérito a si próprio.

— Li nos jornais de Nova Iorque, há alguns meses — começou Theodore, sem sequer aclarar a garganta —, que este seu hotel, Sr. Babylon, ia ser vendido a uma sociedade anónima, mas parece que a venda não se concretizou.

— Não se concretizou — respondeu o Sr. Babylon com franqueza —, e a razão foi que os intermediários entre a proposta sociedade e eu próprio desejaram obter um grande lucro secreto, e recusei-me a ser parte de tal lucro. Eles foram irredutíveis; eu fui irredutível; e assim o assunto não deu em nada.

— O preço acordado era satisfatório?

— Perfeitamente.

— Posso perguntar qual era o preço?

— O senhor é um comprador, Sr. Racksole?

— O senhor é um vendedor, Sr. Babylon?

— Sou — disse Babylon —, sob certas condições. O preço era de quatrocentas mil libras, incluindo o contrato de arrendamento e o fundo de comércio. Mas só vendo sob a condição de o comprador não transferir a propriedade para uma sociedade anónima por um valor mais elevado.

— Vou fazer-lhe uma pergunta, Sr. Babylon — disse o milionário. — Qual tem sido a média dos seus lucros durante os últimos quatro anos?

— Trinta e quatro mil libras por ano.

— Compro — disse Theodore Racksole, sorrindo com satisfação —; e vamos, se lhe aprouver, trocar cartas-contrato no momento.

— O senhor chega rapidamente a uma resolução, Sr. Racksole. Mas talvez já venha a considerar esta questão há muito tempo?

— Pelo contrário — Racksole olhou para o relógio —, venho a considerá-la há seis minutos.

Felix Babylon fez uma vénia, como alguém perfeitamente habituado à excentricidade da riqueza.

— A beleza de ser bem conhecido — continuou Racksole — é que não precisa de se preocupar com explicações preliminares. O senhor, Sr. Babylon, provavelmente sabe tudo sobre mim. Eu sei bastante sobre o senhor. Podemos aceitar-nos um ao outro sem referências. Na verdade, é tão simples comprar um hotel ou um caminho de ferro como comprar um relógio, desde que se esteja à altura da transação.

— Precisamente — concordou o Sr. Babylon, sorrindo. — Devemos redigir o pequeno contrato informal? Há detalhes a serem pensados. Mas ocorre-me que o senhor ainda não deve ter jantado, e talvez prefira tratar de questões menores depois do jantar.

— Não jantei — disse o milionário, com ênfase — e, a esse respeito, far-me-á um favor? Pode mandar chamar o Sr. Rocco?

— O senhor deseja vê-lo, naturalmente.

— Desejo — disse o milionário, e acrescentou: — sobre o meu jantar.

— Rocco é um grande homem — murmurou o Sr. Babylon enquanto tocava a campainha, ignorando as últimas palavras. — Os meus cumprimentos ao Sr. Rocco — disse ele ao paquete que respondeu ao seu chamado —, e, se lhe for conveniente, ficaria grato se ele pudesse vir aqui por um momento.

— O que dá ao Rocco? — perguntou Racksole.

— Duas mil por ano e o tratamento de um Embaixador.

— Vou dar-lhe o tratamento de um Embaixador e três mil.

— O senhor será sensato — disse Felix Babylon.

Nesse momento, Rocco entrou na sala, muito suavemente — um homem de quarenta anos, magro, com mãos longas e finas, e um bigode castanho sedoso extraordinariamente comprido.

— Rocco — disse Felix Babylon —, deixe-me apresentar-lhe o Sr. Theodore Racksole, de Nova Iorque.

— Encantado — disse Rocco, fazendo uma vénia. — O... o, como dizem, milionário?

— Exatamente — interrompeu Racksole, e continuou rapidamente: — Sr. Rocco, desejo dar-lhe a conhecer, antes de qualquer outra pessoa, o facto de ter adquirido o Grand Babylon Hôtel. Se achar por bem conceder-me o privilégio de manter os seus serviços, terei todo o gosto em oferecer-lhe uma remuneração de três mil por ano.

— Três, disse?

— Três.

— Encantado.

— E agora, Sr. Rocco, far-me-ia o enorme favor de pedir um bife simples e uma garrafa de Bass para serem servidos pelo Jules — desejo particularmente o Jules — na mesa n.º 17 na sala de jantar, daqui a dez minutos? E dar-me-á a honra de almoçar comigo amanhã?

O Sr. Rocco ofegou, fez uma vénia, murmurou algo em francês e partiu.

Cinco minutos depois, o comprador e o vendedor do Grand Babylon Hôtel tinham assinado um documento sucinto, rabiscado no papel de carta do hotel. Felix Babylon não fez perguntas, e foi essa heroica ausência de curiosidade, de surpresa da sua parte, que, mais do que qualquer outra coisa, impressionou Theodore Racksole. Quantos proprietários de hotéis no mundo, perguntou a si próprio Racksole, deixariam passar aquele bife e aquela Bass sem uma palavra de comentário.

— A partir de que data deseja que a compra entre em vigor? — perguntou Babylon.

— Oh — disse Racksole com leveza —, não importa. Digamos a partir de hoje à noite?

— Como quiser. Há muito que desejava retirar-me. E agora que o momento chegou — e de forma tão dramática —, estou pronto. Regressarei à Suíça. Não se pode gastar muito dinheiro lá, mas é a minha terra natal. Serei o homem mais rico da Suíça. — Sorriu com uma espécie de diversão triste.

— Suponho que esteja bastante bem financeiramente? — disse Racksole, naquele estilo fácil e familiar, como se a ideia lhe tivesse acabado de ocorrer.

— Além do que receberei do senhor, tenho meio milhão investido.

— Então será quase um milionário?

Felix Babylon assentiu.

— Felicito-o, meu caro senhor — disse Racksole, no tom de um juiz a dirigir-se a um advogado recém-admitido. — Novecentas mil libras, expressas em francos, soarão muito bem — na Suíça.

— Claro que, para si, Sr. Racksole, tal soma seria pobreza. Agora, se pudesse adivinhar a sua própria fortuna? — Felix Babylon estava a imitar a liberdade do outro.

— Não sei, por cinco milhões ou mais, quanto valho — disse Racksole, com sinceridade, o seu tom indicando que teria ficado contente por dar a informação se estivesse ao seu alcance.

— O senhor tem tido ansiedades, Sr. Racksole?

— Ainda as tenho. Estou agora a passar férias em Londres com a minha filha para me livrar delas por algum tempo.

— Então a compra de hotéis é a sua ideia de relaxamento?

Racksole encolheu os ombros. — É uma mudança em relação aos caminhos de ferro — riu-se.

— Ah, meu amigo, o senhor pouco sabe do que comprou.

— Oh! Pois sei — retorquiu Racksole; — comprei simplesmente o primeiro hotel do mundo.

— Isso é verdade, isso é verdade — admitiu Babylon, contemplando pensativamente o tapete persa antigo. — Não há nada, em lugar nenhum, como o meu hotel. Mas o senhor arrepender-se-á da compra, Sr. Racksole. Não é da minha conta, claro, mas não posso deixar de repetir que se arrependerá da compra.

— Eu nunca me arrependo.

— Então começará muito em breve — talvez esta noite.

— Por que diz isso?

— Porque o Grand Babylon é o Grand Babylon. O senhor pensa que, porque controla um caminho de ferro, ou uma siderurgia, ou uma linha de vapores, pode, portanto, controlar qualquer coisa. Mas não. Não o Grand Babylon. Há qualquer coisa no Grand Babylon... — Ele ergueu as mãos.

— Os criados roubam-no, claro.

— Claro. Suponho que perco cem libras por semana dessa forma. Mas não é a isso que me refiro. São os hóspedes. Os hóspedes são demasiado... demasiado distintos.

Os grandes Embaixadores, os grandes financeiros, os grandes nobres, todos os homens que movem o mundo, hospedam-se sob o meu teto. Londres é o centro de tudo, e o meu hotel — o seu hotel — é o centro de Londres. Uma vez tive um Rei e uma Imperatriz Viúva hospedados aqui ao mesmo tempo. Imagine isso!

— Uma grande honra, Sr. Babylon. Mas onde reside a dificuldade?

— Sr. Racksole — foi a resposta sombria —, onde foi parar a sua astúcia — essa astúcia que tornou a sua fortuna tão imensa que nem o senhor a consegue calcular? Não percebe que o teto que habitualmente abriga toda a força, toda a autoridade do mundo, deve necessariamente abrigar também inomináveis e inumeráveis conspiradores, intrigantes, malfeitores e obreiros do mal? A coisa é clara como o dia — e escura como a noite. Sr. Racksole, nunca sei por quem estou rodeado. Nunca sei o que está a acontecer.

Só por vezes recebo pistas, vislumbres de atos estranhos e segredos estranhos.

O senhor mencionou os meus criados. São quase todos bons criados, qualificados, competentes. Mas o que são eles além disso? Por tudo o que sei, o meu quarto subchefe pode ser um agente de algum Governo europeu. Por tudo o que sei, a minha inestimável Srta. Spencer pode estar a soldo de uma costureira da corte ou de um banqueiro de Frankfurt. Até o Rocco pode ser outra pessoa, além de Rocco.

— Isso torna tudo ainda mais interessante — comentou Theodore Racksole.

— Que tempo demorou, pai — disse Nella, quando ele regressou à mesa n.º 17 na *salle à manger*.

— Apenas vinte minutos, minha pomba.

— Mas disse dois segundos. Há uma diferença.

— Bem, sabe, tive de esperar que o bife cozinhasse.

— Teve muita dificuldade em conseguir a minha prenda de aniversário?

— Nenhuma dificuldade. Mas não saiu tão barata como disse.

— O que quer dizer, pai?

— Apenas que comprei o hotel inteiro. Mas não conte a ninguém.

— Pai, o senhor sempre foi um progenitor delicioso. Vai dar-me o hotel como prenda de aniversário?

— Não. Vou geri-lo — como passatempo. A propósito, para quem é aquela cadeira?

Ele reparou que um terceiro serviço fora posto na mesa.

— É para um amigo meu que chegou há cerca de cinco minutos. Claro que lhe disse que ele tinha de partilhar o nosso bife. Ele estará aqui num momento.

— Posso perguntar respeitosamente o seu nome?

— Dimmock — nome próprio Reginald; profissão, acompanhante inglês do Príncipe Aribert de Posen. Conheci-o quando estive em São Petersburgo com a prima Hetty no outono passado. Oh; aqui está ele. Sr. Dimmock, este é o meu querido pai. Ele conseguiu o bife.

Theodore Racksole viu-se defrontado por um homem muito jovem, com olhos negros profundos e uma expressão fresca e juvenil. Começaram a conversar.

Jules aproximou-se com o bife. Racksole tentou encontrar o olhar do empregado, mas não conseguiu. O jantar prosseguiu.

— Oh, pai! — exclamou Nella —, que quantidade de mostarda serviu!

— Servi? — disse ele, e então aconteceu-lhe olhar para um espelho à sua esquerda, entre duas janelas. Viu o reflexo de Jules, que estava atrás da sua cadeira, e viu Jules lançar uma piscadela lenta, significativa e sinistra ao Sr. Dimmock — nome próprio, Reginald.

Ele examinou a sua mostarda em silêncio. Pensou que talvez se tivesse servido de mostarda com bastante abundância.

— Não necessariamente. Não a menos que se deseje. O proprietário de um hotel moderno não é como um estalajadeiro da Idade Média, e nem mesmo os príncipes esperam vê-lo, a menos que algo corra mal. Na verdade, embora o Grão-Duque de Posen e o Príncipe Aribert já me tenham honrado com a sua presença aqui antes, nunca cheguei a vê-los. Descobrirá que todos os preparativos foram feitos.

Conversaram um pouco mais e, então, Racksole deu as boas-noites. — Deixe-me acompanhá-lo até ao seu quarto. Os elevadores estarão fechados e o local estará deserto.

Quanto a mim, durmo aqui — e o Sr. Babylon apontou para uma porta interior.

— Não, obrigado — disse Racksole; — deixe-me explorar o meu próprio hotel sem companhia. Creio que consigo descobrir o meu quarto. Quando entrou realmente nos corredores, Racksole não tinha tanta certeza de que conseguiria descobrir o seu próprio quarto. O número era 107, mas ele esquecera-se de se era no primeiro ou no segundo andar.

Viajando num elevador, perde-se a noção dos andares. Passou por várias portas de elevador, mas não conseguiu ver qualquer brilho de uma escadaria; em todos os hotéis que se prezam, as escadarias saíram de moda e, embora os arquitetos de hotéis continuem, por velhos hábitos, a construir escadarias, estas são escondidas em cantos remotos onde a sua presença não é suscetível de ofender a vista de um público mimado e cosmopolita. O hotel parecia vasto, estranho, deserto. Uma luz elétrica brilhava aqui e ali a longos intervalos. Sobre os tapetes grossos, os pés de Racksole, calçados com sapatos finos, não faziam qualquer ruído, e ele vagueou à vontade de um lado para o outro, um tanto divertido, um tanto impressionado com as sensações peculiares de noite e mistério que subitamente o haviam invadido. Imaginou que conseguia ouvir mil ressonares a descerem pacificamente dos domínios superiores. Por fim, encontrou uma escadaria, muito escura e estreita, e pouco depois estava no primeiro andar. Descobriu rapidamente que os números dos quartos neste andar não passavam de setenta. Encontrou outra escadaria e subiu para o segundo andar. Pela decoração das paredes, reconheceu este andar como a sua casa, e enquanto passeava pelo longo corredor, assobiou um assobio baixo e meditativo de satisfação. Pensou ouvir um passo no corredor transversal e, instintivamente, ocultou-se num nicho que continha um armário de serviço e uma cadeira. Ouviu mesmo um passo. Espreitando cautelosamente, percebeu, o que não tinha percebido anteriormente, que uma fita branca fora atada à maçaneta da porta de um dos quartos. Então, um homem contornou a esquina do corredor transversal e Racksole recuou. Era Jules — Jules, com as mãos nos bolsos e um chapéu descaído sobre os olhos, mas, de resto, vestido como de costume.

Racksole, naquele instante, recordou com especial vivacidade o que Felix Babylon lhe dissera no seu primeiro encontro. Desejou ter trazido o seu revólver. Não sabia por que deveria sentir a conveniência de um revólver num hotel de Londres da mais irrepreensível e boa fama, mas sentia, de facto, a conveniência de tal instrumento de ataque e defesa. Decidiu, em privado, que se Jules passasse pelo seu esconderijo, agarrá-lo-ia pela garganta e, nessa posição, colocaria algumas perguntas diretas a este criado altamente duvidoso. Mas Jules tinha parado. O milionário fez outra observação cautelosa. Jules, com infinita delicadeza, girava a maçaneta da porta à qual a fita branca estava atada. A porta cedeu lentamente e Jules desapareceu dentro do quarto. Após um breve intervalo, o Jules que rondava a noite reapareceu, fechou a porta tão suavemente quanto a abrira, removeu a fita, voltou sobre os seus passos e desapareceu pelo corredor transversal.

— Isto é pitoresco — disse Racksole; — pitoresco a um ponto tal!

Ocorreu-lhe olhar para o número do quarto e dirigiu-se furtivamente para lá.

— Bem, que me lixem! — murmurou ele, maravilhado.

O número era 111, o quarto da sua filha! Tentou abri-lo, mas a porta estava trancada. Correndo para o seu próprio quarto, nº 107, pegou num de um par de revólveres (do tipo feito para milionários) e seguiu Jules pelo corredor transversal. No final deste corredor havia uma janela; a janela estava aberta; e Jules olhava inocentemente para fora. Dez passos silenciosos e Theodore Racksole estava sobre ele.

— Uma palavra, meu amigo — começou o milionário, agitando descuidadamente o revólver no ar. Jules ficou indubitavelmente sobressaltado, mas, num exercício admirável de autocontrolo, recuperou a posse das suas faculdades num segundo.

— Senhor? — disse Jules.

— Quero apenas ser informado do que raio estava a fazer no nº 111 há um momento.

— Fui solicitado para lá ir — foi a resposta calma.

— É um mentiroso, e não muito inteligente. Aquele é o quarto da minha filha. Agora, desembucha, antes que eu decida se lhe dou um tiro ou se o atiro para a rua.

— Desculpe-me, senhor, o nº 111 está ocupado por um cavalheiro.

— Aconselho-o a não cometer o erro grave de me contradizer, meu amigo. Não o volte a fazer. Vamos juntos ao quarto e você provará que o ocupante é um cavalheiro e não a minha filha.

— Impossível, senhor — disse Jules.

— Dificilmente — disse Racksole, e agarrou Jules pela manga. O milionário sabia com certeza que Nella ocupava o nº 111, pois tinha examinado o quarto com ela e vira pessoalmente que os seus baús, a sua criada e ela própria tinham lá chegado em segurança. — Agora, abra a porta — sussurrou Racksole, quando chegaram ao nº 111.

— Tenho de bater.

— É exatamente o que não deve fazer. Abra. Sem dúvida tem a sua chave-mestra.

Confrontado pelo revólver, Jules obedeceu prontamente, ainda que com um gesto de desaprovação, como se não quisesse ser responsável por este ultraje contra o decoro da vida hoteleira. Racksole entrou. O quarto estava brilhantemente iluminado.

— Um visitante, que insiste em vê-lo, senhor — disse Jules, e fugiu.

O Sr. Reginald Dimmock, ainda em traje de noite e fumando um cigarro, levantou-se apressadamente de uma mesa.

— Olá, meu caro Sr. Racksole, é um... ah... prazer inesperado.

— Onde está a minha filha? Este é o quarto dela.

— Percebi bem o que disse, Sr. Racksole?

— Atrevo-me a dizer que este é o quarto da Srta. Racksole.

— Meu bom senhor — respondeu Dimmock —, o senhor deve estar louco para sonhar com tal coisa. Apenas o meu respeito pela sua filha impede-me de o expulsar à força, por uma sugestão tão extraordinária.

Uma pequena mancha a meio da ponte do nariz do milionário tornou-se subitamente branca.

— Com a sua permissão — disse ele, com uma voz baixa e calma —, examinarei o quarto de vestir e a casa de banho.

— Ouça-me um momento — insistiu Dimmock, num tom mais suave.

— Ouvi-lo-ei depois, meu jovem amigo — disse Racksole, e procedeu à revista da casa de banho e do quarto de vestir, sem qualquer resultado. — Para que a minha atitude não seja passível de má interpretação, Sr. Dimmock, talvez deva dizer-lhe que tenho a mais perfeita confiança na minha filha, que é tão capaz de cuidar de si mesma como qualquer mulher que já conheci, mas, desde que o senhor entrou, ocorreram um ou dois acontecimentos bastante misteriosos neste hotel. É tudo. Sentindo uma corrente de ar no ombro, Racksole virou-se para a janela. — Por exemplo — acrescentou ele —, percebo que esta janela está partida, gravemente partida, e por fora. Ora, como poderá isso ter acontecido?

— Se tiver a amabilidade de ouvir a razão, Sr. Racksole — disse Dimmock, no seu melhor tom diplomático —, tentarei explicar-lhe as coisas. Considerei a sua primeira pergunta, quando entrou no meu quarto, ofensivamente colocada, mas vejo agora que tinha alguma justificação. — Sorriu educadamente. — Eu estava a passar por este corredor por volta das onze horas, quando encontrei a Srta. Racksole em dificuldades com os criados do hotel. A Srta. Racksole preparava-se para descansar neste quarto quando uma pedra grande, que deve ter sido atirada do Embankment, partiu a janela, como vê. Para além do desconforto da janela partida, ela não quis permanecer no quarto. Argumentou que onde uma pedra tinha vindo, outra poderia seguir-se. Por isso, insistiu que o seu quarto fosse mudado. Os criados disseram que não havia outro quarto disponível com quarto de vestir e casa de banho anexos, e a sua filha fazia questão destes pormenores. Ofereci-me imediatamente para trocar de aposentos com ela. Ela deu-me a honra de aceitar a minha oferta. Os nossos pertences respetivos foram mudados — e é tudo. A Srta. Racksole está, neste momento, espero, a dormir no nº 124.

Theodore Racksole olhou para o jovem durante alguns segundos em silêncio.

Ouviu-se uma batida suave à porta.

— Entre — disse Racksole em voz alta.

Alguém empurrou a porta, mas permaneceu de pé no tapete. Era a criada de Nella, em robe.

— Cumprimentos da Srta. Racksole, e mil desculpas, mas um livro dela ficou na cornija da lareira neste quarto. Ela não consegue dormir e deseja ler.

— Sr. Dimmock, apresento as minhas desculpas — as minhas desculpas formais — disse Racksole, quando a rapariga se foi embora com o livro. — Boa noite.

— Não tem de quê — disse Dimmock, suavemente — e inclinou-se enquanto ele saía.

Capítulo Quatro ENTRADA DO PRÍNCIPE

CONTUDO, várias pequenas coisas pesavam na mente de Racksole. Primeiro, havia a piscadela de Jules. Depois, havia a fita na maçaneta da porta e a visita de Jules ao nº 111, e a janela partida — partida por fora. Racksole não se esqueceu de que eram 3 da manhã. Dormiu pouco naquela noite, mas sentiu-se satisfeito por ter comprado o Grand Babylon Hôtel. Era uma aquisição que parecia prometer diversão e entretenimento.

Na manhã seguinte, encontrou o Sr. Babylon cedo. — Esvaziei o meu escritório particular de todos os documentos pessoais — disse Babylon —, e está agora à sua disposição. Pretendo, se for do seu agrado, permanecer no hotel como hóspede por enquanto. Temos muito para acertar relativamente à conclusão da compra e, além disso, há coisas que poderá querer perguntar-me. Também, para dizer a verdade, não estou ansioso por deixar o velho lugar com tanta rapidez. Será um golpe para mim.

— Ficarei encantado se ficar — disse o milionário —, mas terá de ser como meu hóspede, não como hóspede do hotel.

— É muito amável.

— Quanto a querer consultá-lo, sem dúvida que precisarei de o fazer, mas devo dizer que o espetáculo parece funcionar por si mesmo.

— Ah! — disse Babylon, pensativo. — Já ouvi falar de hotéis que funcionam por si mesmos. Se funcionam, pode ter a certeza de que obedecem às leis da gravidade e funcionam para baixo. Terá as mãos cheias. Por exemplo, já ouviu falar da Srta. Spencer?

— Não — disse Racksole. — O que se passa com ela?

— Ela desapareceu misteriosamente durante a noite e ninguém parece ser capaz de lançar luz sobre o assunto. O seu quarto está vazio, os seus baús desapareceram. Precisará de alguém para ocupar o seu lugar, e essa pessoa não será muito fácil de arranjar.

— H’m! — disse Racksole, após uma pausa. — O dela não é o único cargo que fica vago hoje.

Pouco depois, o milionário instalou-se no escritório particular do antigo proprietário e tocou a campainha.

— Quero o Jules — disse ele ao moço de recados.

Enquanto esperava por Jules, Racksole ponderou a questão do desaparecimento da Srta. Spencer.

— Bom dia, Jules — foi a sua saudação alegre, quando o imperturbável criado chegou.

— Bom dia, senhor.

— Tome uma cadeira.

— Obrigado, senhor.

— Já nos encontrámos hoje de manhã, Jules.

— Sim, senhor, às 3 da manhã.

— É um tanto estranha a partida da Srta. Spencer, não é? — sugeriu Racksole.

— É notável, senhor.

— O senhor está ciente, é claro, de que o Sr. Babylon transferiu todos os seus interesses neste hotel para mim?

— Fui informado desse facto, senhor.

— Suponho que saiba tudo o que se passa no hotel, Jules?

— Como chefe de sala, senhor, é o meu dever manter uma vigilância geral sobre as coisas.

— Fala um inglês muito bom para um estrangeiro, Jules.

— Para um estrangeiro, senhor! Sou inglês, um homem de Hertfordshire nascido e criado. Talvez o meu nome o tenha induzido em erro, senhor. Chamo-me apenas Jules porque o chefe de sala de qualquer hotel de alto nível tem de ter um nome francês ou italiano.

— Compreendo — disse Racksole. — Acho que deve ser uma pessoa bastante inteligente, Jules.

— Isso não cabe a mim dizer, senhor.

— Há quanto tempo o hotel beneficia dos seus serviços?

— Pouco mais de vinte anos.

— É muito tempo para estar num só lugar. Não acha que está na hora de sair da rotina? Ainda é jovem e poderia fazer uma reputação para si mesmo numa esfera diferente e mais ampla.

Racksole olhou para o homem fixamente, e o seu olhar foi retribuído com firmeza.

— Não está satisfeito comigo, senhor?

— Para ser franco, Jules, acho... acho que o senhor... er... pisca o olho demasiado. E acho que é lamentável quando um chefe de sala adquire o hábito de tirar fitas brancas das maçanetas das portas dos quartos às três da manhã.

Jules sobressaltou-se ligeiramente.

— Já percebi, senhor. Deseja que eu saia e um pretexto, se me permite o termo, é tão bom quanto outro qualquer. Muito bem, não posso dizer que esteja surpreendido. Acontece por vezes que existe incompatibilidade de temperamento entre um proprietário de hotel e o seu chefe de sala e, então, a menos que um deles saia, o hotel é suscetível de sofrer. Sairei, Sr. Racksole. De facto, já tinha pensado em apresentar a minha demissão.

O milionário sorriu com apreciação. — Que vencimentos exige em substituição do aviso prévio? É minha intenção que deixe o hotel dentro de uma hora.

— Não exijo vencimentos em substituição de aviso prévio, senhor. Desprezaria aceitar qualquer coisa. E deixarei o hotel em quinze minutos.

— Bom dia, então. Tem os meus votos de felicidade e a minha admiração, desde que se mantenha longe do meu hotel.

Racksole levantou-se. — Bom dia, senhor. E obrigado.

— Já agora, Jules, será inútil tentar candidatar-se a qualquer outro hotel europeu de primeira classe para um cargo, porque tomarei medidas que garantirão a rejeição de qualquer candidatura desse tipo.

— Sem discutir a questão de saber se não há pelo menos meia dúzia de hotéis apenas em Londres que saltariam de alegria com a oportunidade de me contratar — respondeu Jules —, posso dizer-lhe, senhor, que me retirarei da minha profissão.

— A sério! Vai dedicar o seu cérebro a um canal diferente.

— Não, senhor. Vou alugar quartos em Albemarle Street ou Jermyn Street e contentar-me em ser um homem da cidade. Poupei cerca de vinte mil libras — uma mera ninharia, mas suficiente para as minhas necessidades, e vou agora proceder a desfrutá-la. Perdoe-me por o incomodar com os meus assuntos pessoais. E bom dia, novamente.

Nessa tarde, Racksole foi com Felix Babylon primeiro a uma sociedade de advogados na City e, depois, a um corretor da bolsa, a fim de tratar dos detalhes práticos da compra do hotel.

— Pretendo estabelecer-me em Inglaterra — disse Racksole, enquanto regressavam. — É o único país... — e parou.

— O único país?

— O único país onde se pode investir dinheiro e gastar dinheiro com um sentimento de segurança. Nos Estados Unidos não há nada em que valha a pena gastar dinheiro, nada para comprar. Em França ou em Itália, não há segurança real.

— Mas certamente que é um verdadeiro americano? — questionou Babylon.

— Sou um verdadeiro americano — disse Racksole —, mas o meu pai, que começou por ser arrumador de camas numa faculdade de Oxford e acabou por fazer dez milhões de dólares com ferro em Pittsburg — o meu pai tomou a sábia precaução de me educar em Inglaterra. Tive os meus três anos em Oxford, como qualquer filho da classe média alta! Fez-me bem. Valeu-me mais do que muitas especulações bem-sucedidas. Ensinou-me que a língua inglesa é diferente, e melhor, do que a língua americana, e que há algo — que ainda não descobri exatamente o quê — na vida inglesa que os americanos nunca terão. Ora — acrescentou ele —, nos Estados Unidos ainda subornamos os nossos juízes e os nossos jornais. E falamos do século XVIII como se fosse o início do mundo. Sim, transferirei os meus títulos para Londres. Construirei uma casa em Park Lane, comprarei uma propriedade rural imemorial com uma história tão longa quanto a do caminho de ferro A. T. and S., e estabelecer-me-ei calmamente e gradualmente. Sabe... sou um homem bastante bondoso para um milionário e de disposição social, e ainda assim não tenho seis amigos verdadeiros em toda a cidade de Nova Iorque. Pense nisto!

— E eu — disse Babylon — não tenho amigos, exceto os amigos da minha juventude em Lausana. Passei trinta anos em Inglaterra e não ganhei nada além de um conhecimento perfeito da língua inglesa e tanto ouro quanto bastaria para encher uma caixa bastante grande.

Estes dois plutocratas deram um suspiro simultâneo.

— Por falar em ouro — disse Racksole —, quanto dinheiro acha que Jules conseguiu amealhar enquanto esteve consigo?

— Oh! — Babylon sorriu. — Não gostaria de adivinhar. Ele teve oportunidades únicas — oportunidades.

— Consideraria vinte mil uma soma extraordinária dadas as circunstâncias?

— De todo. Ele tem confiado em si?

— De certa forma. Despedi-o.

— Despediu-o?

— Por que não?

— Não há razão para não o fazer. Mas sinto-me inclinado a despedi-lo há dez anos e nunca encontrei coragem para o fazer.

— Foi um procedimento perfeitamente simples, garanto-lhe. Antes de ter terminado com ele, até que gostei do sujeito.

— A Srta. Spencer e Jules — ambos foram-se num só dia! — refletiu Felix Babylon.

— E ninguém para ocupar os seus lugares — disse Racksole. — E, no entanto, o hotel continua o seu caminho!

Mas quando Racksole chegou ao Grand Babylon, descobriu que a cadeira da Srta. Spencer na receção estava ocupada por uma rapariga imponente e imperiosa, vestida apropriadamente de preto.

— Céus, Nella! — exclamou ele, aproximando-se da receção. — O que estás a fazer aqui?

— Estou a ocupar o lugar da Srta. Spencer. Quero ajudar-te com o teu hotel, pai. Imagino que farei uma excelente rececionista. Combinei com uma Srta. Selina Smith, uma das dactilógrafas no escritório, para me ensinar todas as dicas e truques, e vou sair-me muito bem.

— Mas ouve lá, Helen Racksole. Vamos ter todo o Londres a falar disto — a maior de todas as herdeiras americanas como rececionista de hotel! E eu vim para aqui por sossego e descanso!

— Suponho que foi pelo sossego e descanso que compraste o hotel, Papá?

— Tu é que insististe no bife — retorquiu ele. — Sai daí, imediatamente.

— Estou aqui, e aqui fico — disse Nella, e riu-se deliberadamente do seu progenitor.

Nesse momento, o rosto de um homem louro de cerca de trinta anos apareceu na janela da receção. Estava muito bem vestido, muito aristocrático na sua pose, e parecia bastante zangado.

Olhou fixamente para Nella e recuou.

— Ach! — exclamou ele. — Você!

— Sim, Alteza, sou de facto eu. Pai, este é Sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Aribert de Posen — um dos nossos clientes mais estimados.

— Conhece o meu nome, Fräulein? — murmurou o recém-chegado em alemão.

— Certamente, Príncipe — respondeu Nella, docemente. — O senhor era apenas o Conde Steenbock na primavera passada em Paris — sem dúvida, viajando incógnito...

— Silêncio — implorou ele, com um aceno de mão, e a sua testa ficou branca como papel.

Capítulo Cinco O QUE ACONTECEU A REGINALD DIMMOCK

Num instante, estavam todos os três a conversar muito bem e, pelo menos, com um aspeto de naturalidade. O Príncipe Aribert tornou-se suave, até deferente para com Nella, e mais amigável para com o pai de Nella do que as suas respetivas posições exigiam. Este último divertiu-se a estudar este rebento da realeza, o primeiro com quem alguma vez entrara em contacto. Decidiu que o jovem era suficientemente apresentável, "não tinha rodeios" e daria um caixeiro-viajante excecionalmente bom para uma firma de primeira classe. Tal foi a estimativa preliminar de Theodore Racksole sobre o homem que poderia um dia ser o Grão-Duque reinante de Posen.

Ocorreu a Nella, e ela sorriu com a ideia, que o balcão do hotel não era exatamente o lugar correto para receber este augusto jovem. Ali estava ele, com a cabeça a meio caminho pela janela do balcão, negligentemente inclinado contra a madeira, tal como se fosse um corretor da bolsa ou o gerente de uma companhia de burlesco de Nova Iorque.

— A sua Alteza viaja completamente sozinho? — perguntou ela.

— Por uma série de acidentes, sim — disse ele. — O meu escudeiro deveria ter-me encontrado em Charing Cross, mas não o fez... não consigo imaginar porquê.

— O Sr. Dimmock? — questionou Racksole.

— Sim, Dimmock. Não me lembro de ele alguma vez ter falhado um compromisso antes. O senhor conhece-o? Ele esteve aqui?

— Jantou connosco ontem à noite — disse Racksole —, a convite de Nella — acrescentou ele maliciosamente —, mas hoje não vimos nada dele. Sei, no entanto, que ele reservou os aposentos de Estado e também uma suíte adjacente aos aposentos de Estado, o n.º 55. É assim, não é, Nella?

— Sim, papá — disse ela, depois de ter examinado com recato um livro de registos. — A sua Alteza gostaria, sem dúvida, de ser conduzido ao seu quarto... aos seus aposentos, quero dizer. — Então Nella riu-se deliberadamente do Príncipe e disse: — Não sei quem é a pessoa certa para o conduzir, e essa é a verdade. A verdade é que o papá e eu ainda somos um pouco inexperientes no ramo hoteleiro. Sabe, comprámos o estabelecimento apenas ontem à noite.

— Compraram o hotel! — exclamou o Príncipe.

— É isso mesmo — disse Racksole.

— E Felix Babylon foi-se embora?

— Ele vai partir, se é que já não partiu.

— Ah! Percebo — disse o Príncipe. — Este é um dos seus "golpes" americanos. Compraram para vender novamente, não é isso? Estão de férias, mas não conseguem resistir a ganhar uns milhares como forma de relaxamento. Já ouvi falar de coisas dessas.

— Não voltaremos a vender, Príncipe, até nos cansarmos do nosso negócio. Por vezes cansamo-nos muito depressa, e por vezes não. Depende... é? O quê?

Racksole interrompeu-se subitamente para atender um criado de libré que entrara silenciosamente no balcão e lhe fazia sinais urgentes e misteriosos.

— Se faz favor, senhor — implorou o homem através de gestos frenéticos ao Sr. Theodore Racksole para que saísse.

— Por favor, não deixe que eu o detenha, Sr. Racksole — disse o Príncipe, e, por conseguinte, o proprietário do Grand Babylon partiu atrás do criado, com uma estranha e curta vénia para o Príncipe Aribert.

— Não posso entrar? — disse o Príncipe a Nella, assim que o milionário se foi embora.

— Impossível, Príncipe — riu-se Nella. — A regra contra a entrada de visitantes neste balcão é terrivelmente rigorosa.

— Como sabe que a regra é tão rigorosa se só tomaram posse ontem à noite?

— Sei porque fui eu própria a fazer a regra esta manhã, sua Alteza.

— Mas, falando a sério, Srta. Racksole, quero falar consigo.

— Quer falar comigo como Príncipe Aribert ou como o amigo... o conhecido... que conheci em Paris no ano passado?

— Como o amigo, cara senhora, se me permite usar o termo.

— E tem a certeza de que não gostaria primeiro de ser conduzido aos seus aposentos?

— Ainda não. Vou esperar até que o Dimmock venha; ele não pode demorar a chegar.

— Então serviremos o chá no escritório privado do meu pai... o escritório privado do proprietário, sabe.

— Ótimo! — disse ele.

Nella falou através de um telefone, tocou várias campainhas e comportou-se, de um modo geral, de uma forma calculada para provar aos Príncipes e a quem quer que pudesse interessar que ela era uma jovem com instintos e formação para os negócios, e depois desceu da sua cadeira de escritório, saiu do balcão e, precedida por dois criados, conduziu o Príncipe Aribert à câmara de Luís XV na qual o seu pai e Felix Babylon tinham tido a sua longa conferência na noite anterior.

— Sobre o que quer falar comigo? — perguntou ela ao seu companheiro, enquanto lhe servia uma segunda chávena de chá. O Príncipe olhou para ela por um momento enquanto aceitava a chávena oferecida e, sendo um jovem de instintos sãos e saudáveis, não conseguiu pensar em nada por um momento, exceto na sua beleza.

Nella estava, de facto, linda naquela tarde. A beleza até da mulher mais bela aumenta e diminui de hora a hora. A de Nella, naquela tarde, estava na maré cheia. Vivaz, alerta, imperiosa e, contudo, inefavelmente doce, parecia irradiar a própria alegria e exuberância da vida.

— Esqueci-me — disse ele.

— Esqueceu-se! Isso é certamente muito mau da sua parte? Deu-me a entender que era algo terrivelmente importante. Mas, claro, eu sabia que não podia ser, porque nenhum homem, e especialmente nenhum Príncipe, discutiu alguma vez algo realmente importante com uma mulher.

— Lembre-se, Srta. Racksole, que esta tarde, aqui, não sou o Príncipe.

— É o Conde Steenbock, é isso?

Ele estremeceu. — Só para si — disse ele, baixando inconscientemente a voz. — Srta. Racksole, desejo particularmente que ninguém aqui saiba que estive em Paris na primavera passada.

— Um caso de Estado? — sorriu ela.

— Um caso de Estado — respondeu ele sobriamente. — Nem o Dimmock sabe. Foi estranho sermos ambos hóspedes naquele hotel sossegado e isolado... estranho, mas delicioso. Nunca me esquecerei daquela tarde chuvosa que passámos juntos no Museu do Trocadéro. Falemos disso.

— Da chuva ou do museu?

— Nunca me esquecerei daquela tarde — repetiu ele, ignorando a leveza da sua pergunta.

— Nem eu — murmurou ela, correspondendo ao seu estado de espírito.

— A si também lhe agradou? — disse ele, ansioso.

— As esculturas eram magníficas — respondeu ela, lançando um olhar apressado ao teto.

— Ah! Pois eram! Diga-me, Srta. Racksole, como descobriu a minha identidade?

— Não devo dizer — respondeu ela. — Esse é o meu segredo. Não procure penetrá-lo. Quem sabe que horrores poderia descobrir se aprofundasse demasiado? — Ela riu-se, mas riu-se sozinha. O Príncipe permaneceu pensativo... como que a cismar.

— Nunca tive esperança de a voltar a ver — disse ele.

— Por que não?

— Nunca se volta a ver aqueles que desejamos ver.

— Quanto a mim, estava perfeitamente convencida de que nos voltaríamos a encontrar.

— Porquê?

— Porque consigo sempre o que quero.

— Então queria voltar a ver-me?

— Certamente. O senhor interessou-me imenso. Nunca conheci outro homem que pudesse falar tão bem sobre escultura como o Conde Steenbock.

— Consegue realmente sempre o que quer, Srta. Racksole?

— Claro.

— Isso é porque o seu pai é tão rico, suponho?

— Oh, não, não é! — disse ela. — É simplesmente porque consigo sempre o que quero. Não tem nada a ver com o papá.

— Mas o Sr. Racksole é extremamente rico?

— Rico não é a palavra, Conde. Não há palavra. É positivamente terrível a quantidade de dólares que o pobre papá ganha. E o pior de tudo é que ele não pode evitá-lo.

Disse-me uma vez que, quando um homem ganha dez milhões, nenhum poder na Terra pode impedir esses dez milhões de se transformarem em vinte. E assim continua.

Eu gasto o que posso, mas não consigo acompanhar; e, claro, o papá não tem qualquer utilidade para gastar.

— E não tem mãe?

— Quem lhe disse que eu não tinha mãe? — perguntou ela calmamente.

— Eu... er... perguntei sobre si — disse ele, com igual franqueza e humildade.

— Apesar do facto de nunca ter tido esperança de me voltar a ver?

— Sim, apesar disso.

— Que engraçado! — disse ela, e caiu num silêncio meditativo.

— A sua deve ser uma existência maravilhosa — disse o Príncipe. — Invejo-a.

— Inveja-me... o quê? A riqueza do meu pai?

— Não — disse ele —, a sua liberdade e as suas responsabilidades.

— Não tenho responsabilidades — observou ela.

— Perdoe-me — disse ele —, tem, e o tempo virá em que as sentirá.

— Sou apenas uma rapariga — murmurou ela com repentina simplicidade. — Quanto a si, Conde, certamente tem responsabilidades suficientes por si só?

— Eu? — disse ele tristemente. — Não tenho responsabilidades. Sou um ninguém... uma Alteza Sereníssima que tem de fingir ser muito importante, tendo sempre um cuidado imenso em nunca fazer nada que uma Alteza Sereníssima não deva fazer. Bah!

— Mas se o seu sobrinho, o Príncipe Eugen, morresse, não subiria ao trono, e não teria então essas responsabilidades que tanto deseja?

— O Eugen morrer? — disse o Príncipe Aribert, num tom curioso. — Impossível. Ele é a perfeição da saúde. Dentro de três meses ele estará casado. Não, nunca serei nada além de uma Alteza Sereníssima, a mais desprezível das criaturas de Deus.

— Mas e o segredo de Estado que mencionou? Isso não é uma responsabilidade?

— Ah! — disse ele. — Isso acabou. Isso pertence ao passado. Foi um acidente na minha monótona carreira. Nunca mais serei o Conde Steenbock.

— Quem sabe? — disse ela. — A propósito, o Príncipe Eugen não vem cá hoje? O Sr. Dimmock disse-nos que sim.

— Veja! — respondeu o Príncipe, levantando-se e inclinando-se sobre ela. — Vou confiar em si. Não sei porquê, mas vou fazê-lo.

— Não traia segredos de Estado — avisou-a ela, sorrindo para o seu rosto.

Mas, nesse momento, a porta da sala foi aberta sem cerimónias.

— Entre — disse uma voz bruscamente. Era a de Theodore Racksole. Dois homens entraram, transportando uma forma prostrada numa maca, e Racksole seguiu-os.

Nella levantou-se de um salto. Racksole olhou fixamente ao ver a sua filha.

— Não sabia que estavas aqui, Nell. Aqui — para os dois homens —, saiam novamente.

— Porquê! — exclamou Nella, olhando com medo para a forma na maca, — é o Sr. Dimmock!

— É — assentiu o pai. — Está morto — acrescentou ele laconicamente. — Tê-lo-ia preparado com mais suavidade se soubesse. O seu perdão, Príncipe. — Houve uma pausa.

— Dimmock morto! — sussurrou o Príncipe Aribert para si mesmo, e ajoelhou-se ao lado da maca. — O que significa isto?

— O pobre rapaz estava apenas a atravessar o pátio em direção ao pórtico quando caiu. Um comissário que o viu diz que ele andava muito depressa. Ao princípio pensei que fosse insolação, mas não podia ter sido, embora o tempo esteja certamente bastante quente. Deve ser uma doença cardíaca. Mas, de qualquer forma, ele está morto. Fizemos o que pudemos. Mandei chamar um médico e a polícia. Suponho que terá de haver um inquérito.

Theodore Racksole parou e, num silêncio solene e embaraçoso, todos olharam para o jovem morto. As suas feições estavam ligeiramente crispadas e os olhos fechados; isso era tudo. Podia estar a dormir.

— O meu pobre Dimmock! — exclamou o Príncipe, com a voz embargada. — E eu estava zangado porque o rapaz não me encontrou em Charing Cross!

— Tem a certeza de que ele está morto, papá? — disse Nella.

— É melhor ires-te embora, Nella — foi a única resposta de Racksole; mas a rapariga permaneceu imóvel e começou a soluçar baixinho. Na noite anterior, ela tinha feito troça secretamente de Reginald Dimmock. Tinha-se proposto deliberadamente a obter informações dele sobre um tópico no qual, por acaso, estava especialmente interessada, e tinha-as obtido, rindo-se ao mesmo tempo das suas cruezas juvenis... da sua vaidade, da sua astúcia transparente, dos seus ares absurdos. Ela não tinha gostado dele; até tinha desconfiado dele e decidido que ele não era "agradável". Mas agora, enquanto ele jazia na maca, estas coisas foram esquecidas. Ela chegou ao ponto de se censurar por elas. Tal é o estranho poder de comando da morte.

— Faça-me o favor de levar o pobre rapaz para os meus aposentos — disse o Príncipe, com um gesto para os assistentes. — Certamente está na hora de o médico chegar.

Racksole sentiu subitamente, naquele momento, que não era mais do que um mero proprietário de hotel com um assunto embaraçoso em mãos. Por uma fração de segundo, desejou nunca ter comprado o Grand Babylon.

Um quarto de hora depois, o Príncipe Aribert, Theodore Racksole, um médico e um inspetor da polícia estavam na sala de receção do Príncipe. Tinham acabado de vir de uma antecâmara, na qual jaziam os restos mortais de Reginald Dimmock.

— Bem? — disse Racksole, olhando para o médico.

O médico era um homem grande, com aspeto juvenil e olhos perspicazes e irónicos.

— Não é doença cardíaca — disse o médico.

— Não é doença cardíaca?

— Não.

— Então o que é? — perguntou o Príncipe.

— Talvez consiga responder a essa pergunta após a autópsia — disse o médico. — Certamente não o posso fazer agora. Os sintomas são, no mínimo, invulgares.

O inspetor da polícia começou a escrever num caderno.

Capítulo Seis NO SALÃO DOURADO

No Grand Babylon deu-se um grande baile naquela noite no Salão Dourado, uma enorme sala ligada ao hotel, embora dificilmente fizesse parte dele, e certamente menos exclusiva do que o próprio hotel. Theodore Racksole não sabia nada sobre o assunto, exceto que era um entretenimento oferecido por um Sr. e uma Sra. Sampson Levi aos seus amigos. Quem eram o Sr. e a Sra. Sampson Levi, ele não sabia, nem ninguém lhe sabia dizer nada sobre eles, exceto que o Sr. Sampson Levi era um membro proeminente daquela parte da Bolsa de Valores familiarmente chamada de "Kaffir Circus", que a sua esposa era uma senhora robusta com um nariz aquilino e muitos diamantes, e que eram muito ricos e muito hospitaleiros. Theodore Racksole não queria um baile no seu hotel naquela noite e, pouco antes do jantar, quase teve vontade de emitir um decreto de que o Salão Dourado deveria ser fechado e o baile proibido, e o Sr. e a Sra. Sampson Levi poderiam indicar o montante dos danos sofridos por eles. As suas razões para tal procedimento eram triplas: primeiro, sentia-se deprimido e inquieto; segundo, não gostava do nome Sampson Levi; e, terceiro, tinha o desejo de mostrar a estes chamados plutocratas que a sua riqueza não era nada para ele, que não podiam fazer o que quisessem com Theodore Racksole e que, por um triz, Theodore Racksole comprá-los-ia, e a todo o "Kaffir Circus" também. Mas algo o avisou de que, embora tal procedimento autoritário pudesse ser tolerado na América, essa terra da liberdade, nunca seria tolerado em Inglaterra. Sentiu instintivamente que, em Inglaterra, há coisas que não se podem fazer, e que esta coisa em particular era uma delas. Por isso, o baile seguiu em frente, e nem o Sr. nem a Sra. Sampson Levi tiveram a mínima suspeita de que tinham escapado por pouco de parecerem muito tolos aos olhos do milhar ou mais de convidados por eles convidados para o Salão Dourado do Grand Babylon naquela noite.

O Salão Dourado do Grand Babylon foi construído para ser um salão de baile. Uma varanda, apoiada por arcos revestidos de ouro e lápis-lazúli, corria à volta dele, e a partir desse ponto de observação, homens, donzelas e acompanhantes que não podiam ou não queriam dançar podiam observar a cena. Todos sabiam disso, e a maioria das pessoas tirava partido disso. O que todos não sabiam... o que ninguém sabia... era que, mais alto do que a varanda, havia uma pequena janela gradeada na parede do fundo da qual as autoridades do hotel podiam manter um olhar atento, não só sobre os dançarinos, mas sobre os ocupantes da própria varanda.

Pode parecer incrível aos não iniciados que os convidados em qualquer reunião social realizada num apartamento tão luxuoso e famoso como o Salão Dourado do Grand Babylon precisassem da observação de um olhar atento. Contudo, assim era. Assuntos estranhos e rostos inesperados tinham sido detetados a partir da pequena janela, e mais do que um detetive europeu mantivera ali vigília com os resultados mais eminentemente satisfatórios.

Às onze horas, Theodore Racksole, afligido por vexação de espírito, encontrou-se a olhar ociosamente através da pequena janela gradeada. Nella estava com ele.

Juntos tinham estado a vaguear pelos corredores do hotel, ainda estranhos a ambos, e foi inteiramente por acaso que tinham dado com a pequena sala que tinha uma visão surrateira do baile do Sr. e da Sra. Sampson Levi. Exceto pela luz do candelabro do salão de baile, o pequeno cubículo estava na escuridão. Nella olhava através da janela; o seu pai estava atrás.

— Pergunto-me qual é a Sra. Sampson Levi — disse Nella —, e se ela corresponde ao seu nome. Não adorarias ter um nome como esse, papá... algo que as pessoas pudessem agarrar... em vez de Racksole?

O som de violinos e um murmúrio confuso de vozes subiu suavemente até eles.

— Hum! — disse Theodore. — Malditos sejam esses jornais da tarde! — acrescentou ele, inconsequentemente mas com sinceridade.

— Papá, estás muito horrível esta noite. O que é que os jornais da tarde têm feito?

— Bem, minha jovem madame, eles colocaram-me lá, e a ti noutro; e estão a fabricar mistérios como se não houvesse amanhã. Foi a morte do jovem Dimmock que os fez começar.

— Bem, papá, certamente não esperavas manter-te fora dos jornais. Além disso, no que diz respeito aos jornais, deverias estar contente por não estares em Nova Iorque. Imagina só o que o querido e velho Herald teria feito com uma pequena transação como a tua de ontem à noite.

— É verdade — assentiu Racksole. — Mas vai estar em toda a Nova Iorque amanhã de manhã, de qualquer maneira. O pior é que Babylon partiu para a Suíça.

— Porquê?

— Não sei. Um capricho repentino, suponho, pela sua terra natal.

— Que diferença faz isso para ti?

— Nenhuma. Só me sinto um pouco solitário. Sinto que preciso de alguém em quem me apoiar para gerir este hotel.

— Papá, se tens esse sentimento, deves estar a ficar doente.

— Sim — suspirou ele —, admito que é invulgar em mim. Mas talvez não tenhas percebido o facto, Nella, de que estamos no meio de um negócio bastante estranho.

— Referes-te ao pobre Sr. Dimmock?

— Em parte ao Dimmock e em parte a outras coisas. Primeiro de tudo, aquela Srta. Spencer, ou qualquer que seja o seu nome miserável, desaparece misteriosamente. Depois houve a pedra atirada para o teu quarto. Depois apanhei aquele patife do Jules a conspirar com o Dimmock às três da manhã. Depois o teu precioso Príncipe Aribert chega sem qualquer comitiva... o que acredito ser uma coisa muito peculiar e perversa para um Príncipe fazer... e, além disso, encontro a minha filha em termos muito íntimos com o referido Príncipe. Depois o jovem Dimmock morre, e vai haver um inquérito; depois o Príncipe Eugen e a sua comitiva, que eram esperados aqui para o jantar, não aparecem de todo...

— O Príncipe Eugen não veio?

— Não veio; e o Tio Aribert está numa confusão dos diabos por causa dele, e a telegrafar para toda a Europa. No geral, as coisas estão a tornar-se bastante animadas.

— Achas mesmo, papá, que havia alguma coisa entre o Jules e o pobre Sr. Dimmock?

— Achar! Eu sei! Digo-te que vi aquele patife dar uma piscadela ao Dimmock ontem à noite ao jantar que poderia ter significado... bem!

— Então apanhaste essa piscadela, não foi, papá?

— Ora, tu também?

— Claro, papá. Eu ia falar-te disso.

O milionário resmungou.

— Olha aqui, papá — sussurrou Nella subitamente, e apontou para a varanda imediatamente abaixo deles. — Quem é aquele? — Ela indicou um homem com uma calvície na parte de trás da cabeça, que se apoiava no parapeito da varanda e olhava imperturbável para o salão de baile.

— Bem, quem é?

— Não é o Jules?

— Gemini! Pela barba do profeta, é ele mesmo!

— Talvez o Sr. Jules seja um convidado da Sra. Sampson Levi.

— Convidado ou não, ele sai deste hotel, nem que eu tenha de o expulsar eu próprio.

Theodore Racksole desapareceu sem mais uma palavra, e Nella seguiu-o.

Mas quando o milionário chegou ao piso da varanda, não pôde ver nada do Jules, nem ali nem no próprio salão de baile. Sem dizer uma palavra em voz alta, mas sussurrando calmamente impropérios perversos, ele procurou por toda a parte em vão e, então, finalmente, por escadarias e corredores tortuosos, regressou ao seu posto de observação original, para que pudesse observar o lugar de novo a partir do ponto vantajoso. Para sua surpresa, encontrou um homem na pequena sala escura, a observar a cena do baile tão intensamente como ele próprio tinha estado a fazer há poucos minutos. Ao ouvir passos, o homem virou-se sobressaltado.

Era o Jules.

Os dois trocaram olhares na meia-luz por um segundo.

— Boa noite, Sr. Racksole — disse Jules calmamente. — Devo pedir desculpa por estar aqui.

— Força do hábito, suponho — disse Theodore Racksole secamente.

— Exatamente, senhor.

— Imaginava que o tinha proibido de voltar a entrar neste hotel?

— Pensei que a sua ordem se aplicava apenas à minha capacidade profissional. Estou aqui esta noite como convidado do Sr. e da Sra. Sampson Levi.

— No seu novo papel de homem mundano, eh?

— Exatamente.

— Mas eu não permito homens mundanos aqui em cima, meu amigo.

— Por estar aqui em cima já pedi desculpa.

— Então, tendo pedido desculpa, seria melhor partir; esse é o meu conselho desinteressado para si.

— Boa noite, senhor.

— E, digo-lhe, Sr. Jules, se o Sr. e a Sra. Sampson Levi, ou quaisquer outros hebreus ou cristãos, o convidarem novamente para o meu hotel, far-me-á o favor de declinar o convite. Descobrirá que esse será o caminho mais seguro para si.

— Boa noite, senhor.

Antes da meia-noite soar, Theodore Racksole tinha verificado que a lista de convidados do Sr. e da Sra. Sampson Levi, embora algo extensa, não continha qualquer referência a alguém com o nome de Jules.

Ele ficou acordado até muito tarde. Para ser preciso, ficou acordado a noite toda. Era um homem que, à força de treino, podia prescindir do sono confortavelmente quando assim lhe aprazia, ou quando as circunstâncias tornavam tal procedimento aconselhável. Caminhava de um lado para o outro no seu quarto e ponderava como poucas pessoas além de Theodore Racksole conseguiam ponderar. Às 6 da manhã, deu um passeio pela parte comercial das suas instalações e observou as provisões chegarem de Covent Garden, de Smithfield, de Billingsgate e de outros lugares estranhos. Achou os procedimentos do departamento de cozinha bastante interessantes e tomou notas mentais de coisas que teria alterado, de homens cujos salários aumentaria e de homens cujos salários reduziria. Às 7 da manhã, encontrava-se por acaso perto do monta-cargas de bagagem e testemunhou a descida de grandes quantidades de bagagem e o seu desaparecimento para dentro de uma carrinha da Carter Paterson.

— De quem é essa bagagem? — inquiriu ele peremptoriamente.

O empregado da bagagem, com uma expressão de mágoa, explicou-lhe que não era a bagagem de ninguém em particular, que pertencia a vários hóspedes e se destinava a vários destinos; que era, de facto, bagagem «expedida» com antecedência, e que uma quantidade semelhante saía do hotel todas as manhãs por volta daquela hora.

Theodore Racksole afastou-se e tomou o pequeno-almoço com uma chávena de chá e meia fatia de pão torrado.

Às dez horas, foi informado de que o inspetor da polícia desejava vê-lo. O inspetor tinha vindo, disse, para supervisionar a remoção do corpo de Reginald Dimmock para a morgue adjacente ao local do inquérito, e um veículo apropriado aguardava na entrada das traseiras do hotel.

O inspetor tinha também trazido intimações para si próprio, para o Príncipe Aribert de Posen e para o comissário, para comparecerem no inquérito.

— Pensei que os restos mortais do Sr. Dimmock tivessem sido removidos ontem à noite — disse Racksole, cansado.

— Não, senhor. O facto é que a carrinha estava ocupada noutro serviço.

O inspetor deu o menor sinal de um sorriso profissional e Racksole, enojado, disse-lhe secamente para ir cumprir os seus deveres.

Dentro de poucos minutos, chegou uma mensagem do inspetor a solicitar ao Sr. Racksole que tivesse a bondade de ir ter com ele ao primeiro andar. Racksole foi. Na antecâmara, onde o corpo de Reginald Dimmock tinha sido originalmente colocado, estavam o inspetor, o Príncipe Aribert e dois polícias.

— Bem? — disse Racksole, depois de ele e o Príncipe terem trocado vénias. Então, viu um caixão estendido sobre duas cadeiras. — Vejo que foi obtido um caixão — observou. — Muito bem. — Aproximou-se dele. — Está vazio — observou, sem pensar.

— Exatamente — disse o inspetor. — O corpo do falecido desapareceu. E a sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Aribert, informa-me que, embora tenha ocupado um quarto imediatamente em frente, do outro lado do corredor, não pode lançar luz sobre o assunto.

— De facto, não posso! — disse o Príncipe, e embora falasse com suficiente calma e dignidade, podia ver-se que estava profundamente magoado, até mesmo angustiado.

— Bem, eu estou... — murmurou Racksole, e parou.

Capítulo Sete NELLA E O PRÍNCIPE

Parecia impossível a Theodore Racksole que um artigo tão pesado como um cadáver pudesse ser removido do seu hotel, sem rasto, sem pista, sem qualquer indício sobre a hora ou a maneira como o feito fora realizado. Após o primeiro sentimento de surpresa, Racksole tornou-se fria e severamente zangado. Teve a intenção de despedir todo o pessoal do hotel. Interrogou pessoalmente o guarda noturno, as criadas e todas as outras pessoas que, por acaso, pudessem ou devessem saber algo sobre o assunto; mas em vão. O cadáver de Reginald Dimmock tinha desaparecido totalmente — desvanecera-se como um espírito sem carne.

Claro que havia a polícia. Mas Theodore Racksole tinha a polícia em baixa estima. Inteirou-os dos factos, respondeu às suas perguntas com um cansaço paciente e não esperava rigorosamente nada daquela parte. Teve também várias entrevistas com o Príncipe Aribert de Posen, mas, embora o Príncipe fosse a própria suavidade e, sem dúvida, genuinamente preocupado com o destino do seu criado morto, parecia a Racksole que ele estava a esconder algo, que hesitava em dizer tudo o que sabia. Racksole, com a sua perspicácia característica, decidiu que a morte de Reginald Dimmock era apenas um acontecimento menor, que ocorrera, por assim dizer, à margem de um mistério muito mais profundo. E, portanto, decidiu esperar, com os olhos bem abertos, até que algo mais acontecesse que lançasse luz sobre o negócio. No momento, tomou apenas uma medida: arranjou para que o roubo do corpo de Dimmock não aparecesse nos jornais. É espantoso quão bem um segredo pode ser guardado, quando os detentores do segredo são tratados com a devida mistura de firmeza e persuasão. Racksole conseguiu isto muito habilmente. Foi um trabalho complicado e o seu sucesso nele agradou-lhe bastante.

Ao mesmo tempo, estava consciente de ter sido temporariamente derrotado por um grupo desconhecido de conspiradores, no qual se sentia convencido de que Jules era um elemento importante. Dificilmente conseguia olhar Nella nos olhos. A rapariga tinha, evidentemente, esperado que ele desmascarasse esta conspiração imediatamente, com um único golpe da varinha mágica do milionário. Ela estava completamente habituada, na terra onde nascera, a vê-lo realizar feitos impossíveis. Lá, ele era um «chefe»; os homens tremiam perante o seu nome; quando ele desejava que algo acontecesse — bem, acontecia; se ele desejava saber algo, simplesmente sabia-o. Mas aqui, em Londres, Theodore Racksole não era exatamente o mesmo Theodore Racksole. Ele dominava Nova Iorque; mas Londres, na sua maior parte, parecia não se interessar muito por ele; e havia certamente várias pessoas em Londres que eram capazes de estalar os dedos para ele — para Theodore Racksole. Nem ele nem a sua filha conseguiam habituar-se a esse facto.

Quanto a Nella, ocupou-se um pouco com os assuntos correntes da secretaria e observou as entradas e saídas do Príncipe Aribert com um interesse bondoso. Ela percebeu, o que o seu pai não tinha conseguido perceber, que a Sua Alteza adotara uma atitude de reserva apenas para esconder a distração secreta e o desânimo que o consumiam. Viu que o pobre homem não tinha um plano definido na cabeça e que estava perturbado por algo que, até então, não confiara a ninguém. Chegou ao seu conhecimento que, todas as manhãs, ele caminhava de um lado para o outro no Victoria Embankment, sozinho, e aparentemente sem objetivo. Na terceira manhã, ela decidiu que o exercício de condução no Embankment seria bom para a sua saúde e, imediatamente, pediu uma carruagem e saiu, vestida com um milagroso vestido cor de massa. Perto da Blackfriars Bridge, encontrou o Príncipe, e a carruagem foi parada junto ao passeio.

— Bom dia, Príncipe — cumprimentou-o ela. — Está a confundir isto com o Hyde Park?

Ele fez uma vénia e sorriu.

— Normalmente caminho aqui de manhã — disse ele.

— Surpreende-me — retorquiu ela. — Pensei que fosse a única pessoa em Londres que preferia o Embankment, com esta vista para o rio, à poeira do Hyde Park. Não consigo imaginar como é que Londres nunca faz exercício em lado nenhum exceto naquele parque ridículo. Ora, se tivessem um Central Park...

— Penso que o Embankment é o melhor local de toda a Londres — disse ele.

Ela inclinou-se um pouco para fora do landau, aproximando o rosto do dele.

— Acredito mesmo que somos almas gémeas, o senhor e eu — murmurou ela; e depois: — Au revoir, Príncipe!

— Um momento, Srta. Racksole. — Os seus tons rápidos tinham uma nota de súplica.

— Estou com pressa — mentiu ela; — não estou apenas a fazer exercício esta manhã. Não faz ideia de quão ocupados estamos.

— Ah! Então não a incomodarei. Mas parto do Grand Babylon esta noite.

— Parte? — disse ela. — Então, a sua Alteza far-me-á a honra de almoçar comigo hoje no quarto do meu pai? O meu pai estará fora — ele vai passar um dia na City com umas pessoas corretoras da bolsa.

— Ficarei encantado — disse o Príncipe, e o seu rosto mostrava que falava a sério.

Nella partiu.

Se o almoço foi um sucesso, esse resultado deveu-se em parte a Rocco e em parte a Nella. O Príncipe disse pouco além do que as regras comuns do jogo da conversação exigiam. A sua anfitriã falou muito e falou bem, mas não conseguiu animar o seu convidado. Quando tomaram café, ele despediu-se dela de uma forma algo formal.

— Adeus, Príncipe — disse ela, — mas eu pensei... isto é, não, não pensei. Adeus.

— Pensou que eu desejava discutir algo consigo. Desejava; mas decidi que não tenho o direito de sobrecarregar a sua mente com os meus assuntos.

— Mas suponha... suponha que eu desejo ser sobrecarregada?

— Isso é a sua bondade.

— Sente-se — disse ela abruptamente, — e conte-me tudo; mente, tudo. Adoro segredos.

Quase antes de ele saber, estava a falar com ela, rápida e ansiosamente.

— Por que deveria eu cansá-la com as minhas confidências? — disse ele. — Não sei, não lhe sei dizer; mas sinto que devo. Sinto que me compreenderá melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. E, no entanto, por que deveria compreender-me? Novamente, não sei. Srta. Racksole, revelar-lhe-ei todo o problema numa palavra. O Príncipe Eugen, o Grão-Duque hereditário de Posen, desapareceu. Há quatro dias, deveria ter-me encontrado com ele em Ostend. Ele tinha assuntos em Londres. Queria que eu viesse com ele. Enviei Dimmock na frente e esperei por Eugen. Ele não chegou. Telegramei de volta para Colónia, o seu último local de paragem, e soube que ele tinha partido de lá de acordo com o seu programa; soube também que ele tinha passado por Bruxelas. Deve ter sido entre Bruxelas e a estação ferroviária no Cais de Ostend que ele desapareceu. Ele viajava com um único escudeiro, e o escudeiro também se desvaneceu. Não preciso de lhe explicar, Srta. Racksole, que, quando uma pessoa da importância do meu sobrinho consegue perder-se, deve proceder-se com cautela. Não se pode anunciar o seu desaparecimento no London Times. Tal desaparecimento deve ser mantido em segredo. As pessoas em Posen e em Berlim acreditam que Eugen está em Londres, aqui, neste hotel; ou, melhor dizendo, acreditavam. Mas esta manhã recebi um telegrama cifrado de... de Sua Majestade o Imperador, um telegrama muito peculiar, perguntando quando seria esperado o regresso de Eugen a Posen, e solicitando que ele fosse primeiro a Berlim. Esse telegrama foi endereçado a mim próprio. Ora, se o Imperador pensava que Eugen estava aqui, por que teria ele feito com que o telegrama fosse endereçado a mim? Hesitei durante três dias, mas não posso hesitar mais. Devo eu próprio ir ter com o Imperador e inteirá-lo dos factos.

— Suponho que só tem de manter-se correto com ele? — Nella estava prestes a dizer, mas conteve-se e substituiu por: — O Imperador é o seu chefe, não é? «Primeiro entre iguais», é como lhe chamam.

— Sua Majestade é o nosso soberano — disse Aribert calmamente.

— Por que não toma medidas imediatas para indagar sobre o paradeiro do seu sobrinho Real? — perguntou ela simplesmente. O assunto parecia-lhe, naquele momento, tão claro e direto.

— Porque uma de duas coisas pode ter acontecido. Ou Eugen pode ter sido, em linguagem simples, raptado, ou pode ter tido as suas próprias razões para mudar o seu programa e manter-se em segundo plano — fora do alcance do telégrafo, do correio e dos caminhos de ferro.

— Que tipo de razões?

— Não me pergunte. Na história de cada família há passagens... — Ele parou.

— E qual era o objetivo do Príncipe Eugen ao vir a Londres?

Aribert hesitou.

— Dinheiro — disse ele, por fim. — Como família, somos muito pobres — mais pobres do que qualquer pessoa em Berlim suspeita.

— Príncipe Aribert — disse Nella, — devo contar-lhe o que penso? — Ela inclinou-se para trás na cadeira e olhou para ele com os olhos semicerrados. O seu rosto pálido, magro e distinto prendia o olhar dela como se por algum fascínio. Não se podia confundir este homem com nada que não fosse um Príncipe.

— Se quiser — disse ele.

— O Príncipe Eugen é vítima de um complô.

— Acha?

— Estou perfeitamente convencida disso.

— Mas porquê? Qual pode ser o objetivo de um complô contra ele?

— Esse é um ponto sobre o qual deveria saber mais do que eu — observou ela secamente.

— Ah! Talvez, talvez — disse ele. — Mas, querida Srta. Racksole, por que tem tanta certeza?

— Há várias razões, e estão ligadas ao Sr. Dimmock. Alguma vez suspeitou, Alteza, que esse pobre jovem não era inteiramente leal a si?

— Ele era absolutamente leal — disse o Príncipe, com toda a seriedade da convicção.

— Mil perdões, mas não era.

— Srta. Racksole, se alguém que não fosse a senhorita fizesse essa afirmação, eu... eu...

— Consigná-los-ia à masmorra mais profunda de Posen? — ela riu-se, levemente.

— Ouça. — E ela contou-lhe os incidentes que tinham ocorrido na noite anterior à sua chegada ao hotel.

— Quer dizer, Srta. Racksole, que havia um entendimento entre o pobre Dimmock e esse tal Jules?

— Havia um entendimento.

— Impossível!

— Alteza, o homem que deseja sondar um mistério até à sua raiz nunca usa a palavra «impossível». Mas direi isto sobre o jovem Sr. Dimmock. Acho que ele se arrependeu, e acho que foi porque se arrependeu que ele... er... morreu tão subitamente, e que o seu corpo foi levado furtivamente.

— Por que é que ninguém me contou estas coisas antes? — exclamou Aribert.

— Os Príncipes raramente ouvem a verdade — disse ela.

Ele ficou espantado com a sua frieza, a sua firmeza de afirmação, o seu ar de completo conhecimento do mundo.

— Srta. Racksole — disse ele, — se me permite dizê-lo, nunca na minha vida conheci uma mulher como a senhorita. Posso contar com a sua simpatia... com o seu apoio?

— O meu apoio, Príncipe? Mas como?

— Não sei — respondeu ele. — Mas poderia ajudar-me se quisesse. Uma mulher, quando tem cérebro, tem sempre mais cérebro do que um homem.

— Ah! — disse ela, pesarosa, — não tenho cérebro, mas acredito mesmo que poderia ajudá-lo.

O que a levou a fazer essa afirmação, ela não o teria conseguido explicar, nem a si própria. Mas fê-lo, e tinha uma suspeita — uma premonição — de que seria justificada, embora por que meios, através de que boa fortuna, ainda fosse um mistério para ela.

— Vá a Berlim — disse ela. — Vejo que tem de o fazer; não tem alternativa. Quanto ao resto, veremos. Algo acontecerá. Eu estarei aqui. O meu pai estará aqui. Deve contar connosco como seus amigos.

Ele beijou-lhe a mão quando partiu, e depois, quando ela ficou sozinha, beijou o lugar que os lábios dele tinham tocado, repetidas vezes. Agora, pensando no assunto na calma da solidão, tudo lhe parecia estranho, irreal, incerto. Seriam as conspirações realmente possíveis nos dias de hoje? Aconteciam mesmo coisas estranhas na Europa? E aconteciam mesmo em hotéis de Londres? Ela jantou com o seu pai naquela noite.

— Ouvi dizer que o Príncipe Aribert partiu — disse Theodore Racksole.

— Sim — assentiu ela. Não disse uma palavra sobre a entrevista deles.

Capítulo Oito CHEGADA E PARTIDA DA BARONESA

Na manhã seguinte, pouco antes do almoço, uma senhora, acompanhada por uma criada e uma quantidade considerável de bagagem, veio ao Grand Babylon Hôtel. Era uma senhora pequena e rechonchuda, com cabelos brancos e um chapéu antiquado, e tinha um sorriso de surpresa pitoresco e simples para tudo em geral.

No entanto, dava a impressão de pertencer a alguma aristocracia, embora não à aristocracia inglesa. O seu tom para a criada, a quem se dirigia em inglês rudimentar — sendo a rapariga aparentemente inglesa — era distintamente insolente, com a insolência calma e inconsciente peculiar a um certo tipo de nobreza continental. O nome no cartão da senhora dizia o seguinte: «Baronesa Zerlinski». Ela desejava quartos no terceiro andar. Aconteceu que Nella estava na secretaria.

— No terceiro andar, senhora? — perguntou Nella, na sua melhor maneira de empregada de escritório.

— Eu disse no terceiro andar — disse a pequena senhora rechonchuda.

— Temos acomodação no segundo andar.

— Desejo estar num andar alto, fora do pó e na luz — explicou a Baronesa.

— Não temos suites no terceiro andar, senhora.

— Não faz mal, não importa! Não tem dois quartos que comuniquem?

Nella consultou os seus livros, de forma algo desajeitada.

— Os números 122 e 123 comunicam.

— Ou será 121 e 122? — comentou rapidamente a pequena senhora, e depois mordeu o lábio.

— Peço perdão. Devia ter dito 121 e 122.

No momento, Nella encarou a correção da Baronesa sobre os seus números como um acaso curioso, mas depois, quando a Baronesa subiu no elevador, a coisa pareceu-lhe algo estranha. Talvez a Baronesa Zerlinski tivesse estado no hotel anteriormente. Para conveniência, mantinha-se um índice de visitantes do hotel e o índice estendia-se por trinta anos. Nella examinou-o, mas não continha o nome de Zerlinski. Foi então que Nella começou a imaginar, o que lhe tinha atravessado rapidamente o pensamento quando a Baronesa se apresentou pela primeira vez na secretaria, que os traços da Baronesa lhe eram remotamente familiares. Pensou, não que tivesse visto o rosto da velha senhora antes, mas que tinha visto em algum lugar, em algum momento, um rosto de um molde semelhante. Ocorreu a Nella consultar o «Almanach de Gotha» — esse registo de todos os labirintos do sangue azul continental; mas o «Almanach de Gotha» não fazia referência a qualquer baronia de Zerlinski. Nella perguntou onde a Baronesa tencionava almoçar e foi informada de que uma mesa tinha sido reservada para ela na sala de jantar, e decidiu imediatamente almoçar ela própria na sala de jantar. Sentada num canto, meio escondida por uma coluna, podia observar todos os hóspedes e ver cada grupo à medida que entrava ou saía. Pouco depois, a Baronesa apareceu, vestida de preto, com um pequeno xaile de renda, apesar do calor de junho; muito imponente, muito pitoresca e sorrindo suavemente. Nella observou-a atentamente. A senhora comeu com vontade, trabalhando sem pressa e sem demora através do elaborado menu do almoço. Nella notou que ela tinha belos dentes brancos. Então, aconteceu uma coisa notável. Foi servido um profiterole à Baronesa como sobremesa, e Nella ficou espantada ao ver a pequena senhora remover o topo e, com uma colher, tirar silenciosamente algo do interior que parecia um pedaço de papel dobrado. Ninguém que não estivesse a observar com o olho de um lince teria notado algo de extraordinário na ação; de facto, as hipóteses eram de novecentas e noventa e nove em mil de que passaria despercebido. Mas, infelizmente para a Baronesa, foi a milésima hipótese que aconteceu. Nella levantou-se e, caminhando até à Baronesa, disse-lhe:

— Receio que a tarte não esteja muito boa, Vossa Excelência.

— Obrigada, está deliciosa — disse a Baronesa friamente; o seu sorriso tinha desaparecido. — Quem é a senhorita? Pensei que fosse a empregada da secretaria.

— O meu pai é o dono deste hotel. Pensei que havia algo na tarte que não deveria estar lá.

Nella olhou a Baronesa bem nos olhos. O pedaço de papel dobrado, ao qual um pouco de creme se tinha agarrado, jazia sob a borda de um prato.

— Não, obrigada. — A Baronesa sorriu o seu sorriso simples.

Nella partiu. Tinha notado uma coisa trivial além do papel — nomeadamente, que a Baronesa conseguia pronunciar o som «th» do inglês se quisesse.

Naquela tarde, no seu próprio quarto, Nella sentou-se a meditar à janela durante muito tempo, e depois levantou-se subitamente, com os olhos a brilharem.

— Eu sei — exclamou ela, batendo palmas. — É a Srta. Spencer, disfarçada! Porque não pensei nisto antes? — Os seus pensamentos correram instantaneamente para o Príncipe Aribert. — Talvez eu possa ajudá-lo — disse para si mesma, e deu um pequeno suspiro. Desceu ao escritório e perguntou se a Baronesa tinha dado alguma instrução sobre o jantar. Sentia que algum plano devia ser formulado. Queria apanhar o Rocco e colocá-lo no torno. Sabia agora que Rocco, o inigualável, estava também envolvido neste assunto misterioso.

— A Baronesa Zerlinski partiu há cerca de um quarto de hora — disse o empregado.

— Mas ela só chegou esta manhã.

— A criada da Baronesa disse que a patroa recebeu um telegrama e teve de partir imediatamente. A Baronesa pagou a conta e foi-se embora num carro de praça.

— Para onde?

— As malas estavam etiquetadas para Ostend.

Talvez fosse instinto, talvez fosse o mero espírito de aventura; mas, naquela noite, Nella podia ser vista por todos no vapor para Ostend que parte de Dover às 23 horas. Não contou a ninguém as suas intenções — nem sequer ao pai, que não estava no hotel quando ela saiu. Tinha-lhe deixado um breve bilhete a pedir que a esperasse dentro de um ou dois dias, e tinha-o enviado de Dover. O vapor era o Marie Henriette, um barco grande e luxuoso, cujos camarotes no convés rivalizam com as glórias dos transatlânticos da Cunard e da White Star. Um desses camarotes, o melhor, estava evidentemente ocupado, pois todas as cortinas das suas janelas estavam cuidadosamente puxadas. Nella não tinha esperança de que a Baronesa estivesse a bordo; era perfeitamente possível que a Baronesa tivesse apanhado o vapor das oito horas, e era também possível que a Baronesa não tivesse ido para Ostend de todo, mas para qualquer outro lugar numa direção completamente diferente. Contudo, Nella tinha uma ténue esperança de que a senhora que se intitulava Zerlinski pudesse estar naquele camarote cortinado e, durante toda a suave viagem sob o luar, nunca relaxou a sua observação das suas portas e janelas.

O Marie Henriette chegou ao porto de Ostend pontualmente às 2 horas da manhã. Havia a habitual multidão heterogénea e gesticulante no cais.

Nella manteve o seu posto perto da porta do camarote e, finalmente, foi recompensada ao vê-la abrir-se. Quatro ingleses de meia-idade saíram de lá. Pelo vislumbre do interior, Nella viu que tinham passado a viagem a jogar cartas.

Não seria exagero dizer que ela estava claramente irritada. Fingiu estar irritada com as circunstâncias, mas, na realidade, estava irritada com Nella Racksole. Às duas da manhã, sem bagagem, sem qualquer companhia e sem um plano de campanha, encontrava-se num porto estrangeiro estranho — um porto de má reputação, possuindo alguns dos hotéis mais mal geridos da Europa. Passeou pelo cais durante alguns minutos e, então, viu o fumo de outro vapor ao longe. Perguntou a um funcionário que vapor seria aquele e disseram-lhe que era o das oito horas de Dover, que se tinha avariado, feito escala em Calais para algumas reparações necessárias ligeiras e que estava a chegar ao seu destino com quase quatro horas de atraso. O seu ânimo mercurial subiu novamente. Há um minuto, considerava-se pouco mais do que uma tonta envolvida numa busca inútil. Agora, sentia que, afinal, tinha sido muito sagaz e astuta. Estava moralmente certa de que encontraria a mulher Zerlinski neste segundo vapor e arrogou a si mesma todo o mérito com antecedência. Tal é a natureza humana.

O vapor parecia interminavelmente lento a entrar no porto. Nella caminhou na Digue durante alguns minutos para observá-lo melhor. A cidade estava silenciosa e quase deserta. Tinha um aspeto falso e sinistro. Lembrou-se de histórias que tinha ouvido sobre este resort cintilante, que na época alta alberga mais vigaristas do que qualquer outro lugar na Europa, exceto Monte Carlo. Lembrou-se de que os aventureiros dourados de todas as nações sob o sol se reuniam ali, quer para negócios, quer para prazer, e que alguns dos crimes mais maravilhosos da segunda metade do século tinham sido planeados e amadurecidos naquele antro de iniquidade cosmopolita.

Quando o segundo vapor chegou, Nella estava no fim da ponte de embarque, perto do cobrador de bilhetes. A primeira pessoa a pisar terra foi — não a Baronesa Zerlinski, mas a própria Srta. Spencer! Nella desviou-se instantaneamente, escondendo o rosto, e a Srta. Spencer, carregando uma pequena mala, apressou-se com passos decididos para a Alfândega. Parecia que ela conhecia o porto de Ostend bastante bem. A lua brilhava como se fosse dia, e Nella teve total oportunidade de observar a sua presa. Podia ver agora, muito claramente, que a Baronesa Zerlinski tinha sido apenas a Srta. Spencer disfarçada. Havia o mesmo andar, o mesmo movimento da cabeça e das ancas; o cabelo branco era facilmente explicável por uma peruca, e as rugas por um pincel de maquilhagem e alguns pós de pintura. A Srta. Spencer, cujo cabelo era agora o seu antigo amarelo habitual, passou pela Alfândega sem dificuldade, e Nella viu-a chamar uma carruagem fechada e dizer algo ao cocheiro. O veículo partiu. Nella saltou para a carruagem seguinte — uma aberta — que apareceu.

— Siga aquela carruagem — disse ela sucintamente ao cocheiro em francês.

— Bien, madame! — O cocheiro fustigou o cavalo e o animal disparou para a frente com um barulho terrível sobre as pedras da calçada. Parecia que aquele cocheiro estava bastante habituado a seguir outras carruagens.

— Agora estou mesmo metida nisto! — disse Nella para si mesma. Riu-se de forma instável, mas o seu coração batia com um estrondo extraordinário.

Durante algum tempo, o veículo perseguido manteve-se bem à frente. Atravessou a cidade quase de uma ponta à outra e mergulhou num labirinto de ruas pequenas longe do lado sul do Kursaal. Então, gradualmente, a equipagem de Nella começou a alcançá-la. A primeira carruagem parou com um solavanco diante de uma casa alta e escura, e a Srta. Spencer saiu. Nella gritou ao seu cocheiro para parar, mas ele, determinado a estar presente no desfecho, estava ocupado a fustigar o cavalo e ignorou completamente as suas ordens. Parou triunfante junto à casa alta e escura exatamente no momento em que a Srta. Spencer desaparecia nela. A outra carruagem afastou-se. Nella, incerta sobre o que fazer, desceu da sua carruagem e deu algum dinheiro ao cocheiro. No mesmo instante, um homem reabriu a porta da casa, que se tinha fechado sobre a Srta. Spencer.

— Quero ver a Srta. Spencer — disse Nella impulsivamente. Não conseguia pensar em mais nada para dizer.

— Srta. Spencer?

— Sim; ela acabou de chegar.

— Tudo bem, suponho — disse o homem.

— Acho que sim — disse Nella, e passou por ele para dentro da casa. Ficou espantada com a sua própria audácia.

A Srta. Spencer estava a entrar numa sala que dava para o corredor estreito. Nella seguiu-a para o compartimento, que estava mobilado de forma pobre, ao estilo das pensões belgas.

— Bem, Srta. Spencer — cumprimentou ela a antiga Baronesa Zerlinski —, acho que não esperava ver-me. Deixou o nosso hotel muito repentinamente esta tarde, e deixou-o muito repentinamente há alguns dias; e por isso vim apenas fazer algumas perguntas.

Para ser justa com a senhora, a Srta. Spencer suportou a prova surpreendente muito bem.

Não vacilou; não traiu qualquer emoção. O único sinal de perturbação foi na sua respiração apressada.

— Deixou de ser a Baronesa Zerlinski — continuou Nella. — Posso sentar-me?

— Certamente, sente-se — disse a Srta. Spencer, copiando o tom da rapariga. — É uma jovem bastante esperta, isso tenho de admitir. O que quer? Os meus registos não estavam todos em ordem?

— Os seus registos estavam todos em ordem. Não vim pelos seus registos. Vim pelo assassínio de Reginald Dimmock, o desaparecimento do seu cadáver e o desaparecimento do Príncipe Eugen de Posen. Pensei que pudesse ajudar-me em algumas investigações que estou a fazer.

Os olhos da Srta. Spencer brilharam e ela levantou-se e moveu-se rapidamente para a lareira.

— Pode ser uma ianque, mas é uma tola — disse ela.

Agarrou no cordão da campainha.

— Não toque nessa campainha se valoriza a sua vida — disse Nella.

— Se o quê? — observou a Srta. Spencer.

— Se valoriza a sua vida — disse Nella calmamente e, com as palavras, tirou do bolso um revólver muito elegante e delicado.

Capítulo Nove DUAS MULHERES E O REVÓLVER

— VOCÊ... você só está a fazer isso para me assustar — gaguejou a Srta. Spencer, numa voz baixa e trémula.

— Estou? — respondeu Nella, tão firmemente quanto pôde, embora a sua mão tremesse violentamente de excitação, se a Srta. Spencer pudesse tê-lo observado. — Estou? Disse agora mesmo que eu podia ser uma rapariga ianque, mas que era uma tola. Bem, eu sou uma rapariga ianque, como lhe chama; e no meu país, se não ensinam a disparar com revólver nos colégios internos, há pelo menos muitas raparigas que sabem manusear um revólver. Acontece que eu sou uma delas. Digo-lhe que, se tocar nessa campainha, sofrerá as consequências.

Grande parte disto era um simples bluff por parte de Nella, e ela tremia com medo que a Srta. Spencer percebesse que era um simples bluff. Felizmente para ela, a Srta. Spencer pertencia àquela ordem de mulheres que têm todo o tipo de coragem, exceto coragem física. A Srta. Spencer poderia ter resistido com sucesso a qualquer provação moral, mas basta convencê-la de que a sua pele está em perigo e ela sucumbirá. Nella adivinhou imediatamente este facto útil e prosseguiu em conformidade, escondendo o estranhamento das suas próprias sensações o melhor que pôde.

— É melhor sentar-se agora — disse Nella —, e eu farei algumas perguntas.

E a Srta. Spencer sentou-se obedientemente, bastante pálida, tentando forçar os lábios a um sorriso formal.

— Porque deixou o Grand Babylon naquela noite? — Nella começou o seu interrogatório, assumindo uma expressão severa de advogada.

— Tive ordens para isso, Srta. Racksole.

— Ordens de quem?

— Bem, eu sou... eu sou... o facto é que sou uma mulher casada e foram ordens do meu marido.

— Quem é o seu marido?

— Tom Jackson — Jules, sabe, o chefe dos empregados de mesa no Grand Babylon.

— Então o nome verdadeiro de Jules é Tom Jackson? Porque é que ele quis que a senhora se fosse embora sem aviso prévio?

— Tenho a certeza de que não sei, Srta. Racksole. Juro que não sei. Ele é meu marido e, claro, faço o que ele me diz, tal como algum dia fará o que o seu marido lhe disser. Queira o céu que arranje um marido melhor do que o meu!

A Srta. Spencer mostrou sinais de lágrimas.

Nella mexeu no revólver e colocou-o no gatilho. — Bem — repetiu ela —, porque é que ele quis que a senhora se fosse embora? Estava tremendamente surpreendida com a sua própria calma e, de certa forma, também satisfeita com ela.

— Não lhe posso dizer, não lhe posso dizer.

— Tem de dizer — disse Nella, num tom terrível e impiedoso.

— Ele... ele desejava que eu viesse para aqui, para Ostend. Alguma coisa tinha corrido mal. Oh! Ele é um homem terrível, o Tom. Se eu lhe contasse, ele...

— Alguma coisa tinha corrido mal no hotel ou aqui?

— Ambos.

— Foi sobre o Príncipe Eugen de Posen?

— Não sei... isto é, sim, penso que sim.

— O que tem o seu marido a ver com o Príncipe Eugen?

— Acredito que ele tem algum... algum tipo de negócio com ele, um negócio de dinheiro.

— E o Sr. Dimmock estava metido neste negócio?

— Imagino que sim, Srta. Racksole. Estou a dizer-lhe tudo o que sei, juro.

— O seu marido e o Sr. Dimmock tiveram uma discussão naquela noite no Quarto 111?

— Eles tiveram algumas dificuldades.

— E o resultado disso foi que a senhora veio imediatamente para Ostend?

— Sim; suponho que sim.

— E o que é que a senhora ia fazer em Ostend? Quais eram as suas instruções deste seu marido?

A cabeça da Srta. Spencer caiu sobre os braços na mesa que a separava de Nella e ela pareceu soluçar violentamente.

— Tenha piedade de mim — murmurou ela —, não lhe posso dizer mais nada.

— Porque não?

— Ele matar-me-ia se soubesse.

— Está a desviar-se do assunto — observou Nella friamente. — Esta é a última vez que a aviso. Deixe-me dizer-lhe claramente que tenho os melhores motivos para estar desesperada e, se lhe acontecer alguma coisa, direi que o fiz em legítima defesa. Agora, o que ia fazer em Ostend?

— De qualquer forma, morrerei por isto — choramingou a Srta. Spencer e, depois, com uma espécie de desespero feroz: — Tinha de vigiar o Príncipe Eugen.

— Onde? Nesta casa?

A Srta. Spencer acenou com a cabeça e, olhando para cima, Nella pôde ver os vestígios de lágrimas no seu rosto.

— Então o Príncipe Eugen era um prisioneiro? Alguém o tinha capturado por instigação de Jules?

— Sim, se tem de saber.

— Porque era necessário que a senhora viesse especificamente para Ostend?

— Oh! O Tom confia em mim. Sabe, eu conheço Ostend. Antes de aceitar aquele lugar no Grand Babylon, tinha viajado por toda a Europa e o Tom sabia que eu percebia disto.

— Porque aceitou o lugar no Grand Babylon?

— Porque o Tom me disse para o fazer. Ele disse que eu lhe seria útil lá.

— O seu marido é um anarquista ou algo do género, Srta. Spencer?

— Não sei. Dir-lhe-ia num minuto se soubesse. Mas ele é um daqueles que se mantém na sua.

— Sabe se ele já cometeu algum assassínio?

— Nunca! — disse a Srta. Spencer, com uma repulsa justa pela simples ideia.

— Mas o Sr. Dimmock foi assassinado. Foi envenenado. Se ele não tivesse sido envenenado, porque foi roubado o seu cadáver? Deve ter sido roubado para evitar investigações, para esconder vestígios. Diga-me sobre isso.

— Juro pela minha morte — disse a Srta. Spencer, levantando-se um pouco da mesa —, juro pela minha morte que não sabia que o Sr. Dimmock estava morto até o ver no jornal.

— Jura que não tinha qualquer suspeita disso?

— Juro que não tinha.

Nella estava inclinada a acreditar na declaração. A mulher e a rapariga olharam uma para a outra na sala desbotada, suja e iluminada por um candeeiro. A Srta. Spencer, nervosa, ajeitou o cabelo amarelo, como se recuperasse gradualmente a sua compostura e equanimidade. Todo o caso parecia um sonho para Nella, um pesadelo perturbador e sinistro. Estava um pouco incerta sobre o que dizer. Sentia que ainda não tinha obtido qualquer informação muito definida. — Onde está o Príncipe Eugen agora? — perguntou ela finalmente.

— Não sei, menina.

— Ele não está nesta casa?

— Não, menina.

— Ah! Veremos em breve.

— Levaram-no, Srta. Racksole.

— Quem o levou? Alguns dos amigos do seu marido?

— Alguns dos seus... conhecidos.

— Então existe um bando de vocês?

— Um bando de nós... um bando! Não sei o que quer dizer — tremia a Srta. Spencer.

— Oh, mas tem de saber — sorriu Nella calmamente. — Não pode ser tão inocente como isso, Sra. Tom Jackson. Não pode brincar comigo. Tem de se lembrar que eu sou o que chamam de rapariga ianque. Há uma coisa que tenciono descobrir nos próximos cinco minutos, e é — como o seu encantador marido raptou o Príncipe Eugen e porque é que o raptou. Comecemos pela segunda pergunta. Já a evitou uma vez.

A Srta. Spencer olhou para o rosto de Nella e, depois, os seus olhos caíram e os seus dedos mexiam nervosamente na toalha de mesa.

— Como posso dizer-lhe — disse ela —, quando não sei? Tem a faca e o queijo na mão e está a torturar-me para seu próprio prazer. — Ela exibia uma expressão de inocência perseguida.

— O Sr. Tom Jackson queria tirar algum dinheiro ao Príncipe Eugen?

— Dinheiro! Ele não! O Tom nunca tem falta de dinheiro.

— Mas refiro-me a muito dinheiro — dezenas de milhares, centenas de milhares?

— O Tom nunca quis dinheiro de ninguém — disse a Srta. Spencer obstinadamente.

— Então ele tinha alguma razão para desejar impedir o Príncipe Eugen de vir a Londres?

— Talvez tivesse. Não sei. Se me matar, eu não sei. — Nella parou para refletir. Depois, levantou o revólver. Foi um gesto mecânico e involuntário e, certamente, não tinha intenção de usar a arma, mas, estranhamente, a Srta. Spencer encolheu-se novamente perante ela. Mesmo naquele momento, Nella admirou-se de que uma mulher como a Srta. Spencer pudesse ser tão simples ao ponto de pensar que o revólver seria realmente usado. Não tendo absolutamente nenhuma cobardia física, Nella tinha a maior dificuldade em imaginar que outras pessoas pudessem estar à mercê de um medo corporal. Ainda assim, viu a sua vantagem e usou-a implacavelmente, e com tanto gesto teatral quanto podia comandar. Levantou o revólver até ficar ao nível do rosto da Srta. Spencer e, subitamente, um sentimento novo e estranho apoderou-se dela. Sabia que usaria, de facto, aquele revólver agora, se a mulher miserável à sua frente a levasse longe demais. Sentiu medo — medo de si mesma; estava nas garras de um instinto selvagem e primitivo. Num instante, viu a Srta. Spencer morta aos seus pés — a polícia — um tribunal de justiça — o cadafalso. Era horrível.

— Fale — disse ela com voz rouca, e o rosto da Srta. Spencer ficou mais pálido.

— O Tom disse — sussurrou a mulher, rápida e assustadoramente —, que se o Príncipe Eugen chegasse a Londres, isso destruiria o seu plano.

— Que plano? Que plano? Responda-me.

— Que o céu me ajude, não sei. — A Srta. Spencer afundou-se numa cadeira. — Ele disse que o Sr. Dimmock tinha recuado e que ele teria de resolver o assunto com ele e depois com Rocco...

— Rocco! O que tem o Rocco a ver com isto? — Nella mal conseguia ouvir-se a si mesma. O seu aperto no revólver tornou-se mais firme.

Os olhos da Srta. Spencer abriram-se mais; ela olhou para Nella com um olhar vítreo.

— Não me pergunte. É a morte! — Os seus olhos estavam fixos como se estivessem em horror.

— É — disse Nella, e o som da sua voz parecia-lhe vir dos lábios de uma terceira pessoa.

— É a morte — repetiu a Srta. Spencer e, gradualmente, a sua cabeça e ombros caíram para trás e ficaram pendurados frouxamente sobre a cadeira. Nella teve a consciência de uma súbita repulsa. A mulher tinha desmaiado, certamente. Lançando o revólver, correu para o outro lado da mesa. Ela era ela mesma novamente — feminina, compreensiva, a velha Nella. Sentiu-se imensamente aliviada por aquilo ter acontecido. Mas, no mesmo instante, a Srta. Spencer saltou da cadeira como um gato, agarrou no revólver e, com um movimento selvagem do braço, atirou-o contra a janela. Ele atravessou o vidro com um estrépito, disparando enquanto seguia, e fez-se um silêncio tenso.

— Disse-lhe que era uma tola — observou a Srta. Spencer lentamente —, vindo aqui como uma espécie de Jack Sheppard feminino e tentando levar a melhor sobre mim. Estamos em pé de igualdade agora. Assustou-me, mas sabia que era uma mulher mais esperta do que você e que, no final, se insistisse tempo suficiente, eu ganharia. Agora será a minha vez.

Estupefacta e dominada por uma sensação miserável da verdade das palavras da Srta. Spencer, Nella ficou parada. A ideia da sua colossal tolice varreu-a como uma inundação. Sentiu quase vergonha. Mas, mesmo nesta conjuntura, não sentiu medo. Enfrentou a mulher corajosamente, com a mente a saltar em busca de algum plano. Não conseguia pensar em nada a não ser num suborno — um suborno enorme.

— Admito que ganhou — disse ela —, mas ainda não acabei. Escute.

A Srta. Spencer cruzou os braços e olhou para a porta, sorrindo amargamente.

— Sabe que o meu pai é um milionário; talvez saiba que ele é um dos homens mais ricos do mundo. Se eu lhe der a minha palavra de honra de não revelar nada do que me disse, o que aceitará para me deixar ir livre?

— Que quantia sugere? — perguntou a Srta. Spencer, descuidadamente.

— Vinte mil libras — disse Nella prontamente. Começara a encarar o assunto como uma operação comercial.

O lábio da Srta. Spencer curvou-se.

— Cem mil.

Novamente o lábio da Srta. Spencer curvou-se.

— Bem, digamos um milhão. Posso confiar no meu pai, e você também pode.

— Pensa que vale um milhão para ele?

— Penso — disse Nella.

— E pensa que poderíamos confiar em si para garantir que fosse pago?

— Claro que poderiam.

— E não sofreríamos depois de forma alguma?

— Eu dar-lhe-ia a minha palavra e a palavra do meu pai.

— Bah! — exclamou a Srta. Spencer: — como sabe que eu não a deixaria ir livre por nada? Você é apenas uma rapariga precipitada e tola.

— Sei que não o faria. Sei ler o seu rosto demasiado bem.

— Tem razão — respondeu a Srta. Spencer lentamente. — Não o faria. Não a deixaria ir por todos os dólares da América.

Nella sentiu frio ao longo da espinha e sentou-se novamente na sua cadeira. Uma rajada de ar vinda da janela partida soprou na sua face. Ouviram-se passos no corredor; a porta abriu-se, mas Nella não se virou. Não conseguia desviar os olhos dos da Srta. Spencer. Havia um barulho de água a correr nos seus ouvidos. Perdeu a consciência e escorregou, inerte, para o chão.

Capítulo Dez NO MAR

Parecia a Nella que estava a ser embalada suavemente num vasto berço, que oscilava de um lado para o outro com um movimento simultaneamente lento e incrivelmente gentil. Esta sensação continuou por algum tempo, e a ela acrescentou-se o som de uma batida rápida, silenciosa e abafada. Brisas suaves e revigorantes levavam-na para a frente apesar de si mesma, e ainda assim ela permanecia numa calma deliciosa. Perguntou-se se a mãe estaria de joelhos ao seu lado, sussurrando alguma canção de embalar aos seus ouvidos infantis. Então, cores estranhas nadaram diante dos seus olhos, as suas pálpebras vacilaram e, finalmente, acordou. Por alguns momentos, o seu olhar percorreu o espaço numa busca vã por alguma pista do que a rodeava; não tinha consciência de nada, exceto de uma sensação de repouso e de um sentimento de alívio por uma luta poderosa e fatal ter terminado; não lhe importava se tinha vencido ou sofrido a derrota no combate da sua alma com outra alma qualquer; estava acabado, terminado, e a consciência da sua conclusão satisfazia-a e contentava-a. Gradualmente, o seu cérebro, recuperando da sua obsessão, começou a compreender os fenómenos do que a rodeava, e viu que estava num iate, e que o iate estava em movimento. O movimento do berço era o balanço suave da embarcação; a batida era a batida da sua hélice; as cores estranhas eram os tons das nuvens projetados pelo sol enquanto este se erguia sobre uma costa distante e recuante na esteira do iate; a canção de embalar da sua mãe era a melodia cantarolada pelo homem ao leme. Durante toda a sua vida, Nella tivera muitas experiências de iatismo. Das águas do rio Hudson às marés mais azuis do mar Mediterrâneo, ela fizera iatismo em todas as estações e em todos os climas. Ela amava a água, e agora parecia deliciosamente certo e apropriado que estivesse de novo na água. Levantou a cabeça para olhar em redor e depois deixou-a cair novamente: estava fatigada, enervada; desejava apenas solidão e calma; não tinha preocupações, nem ansiedade, nem responsabilidade: cem anos poderiam ter passado desde o seu encontro com a Srta. Spencer, e a memória desse encontro parecia ter desvanecido para o plano mais remoto da sua mente.

Era um iate pequeno, e o seu olho treinado disse-lhe de imediato que pertencia à mais alta aristocracia das embarcações de recreio. Enquanto se reclinava na cadeira de convés (não lhe ocorreu naquele momento especular sobre a identidade da pessoa que a tinha levado até ali), examinou todos os detalhes visíveis da embarcação. O convés era tão branco e suave como a sua própria mão, e as juntas corriam ao longo do seu comprimento como veias azuis. Todo o trabalho de latão, desde a faixa à volta da esguia chaminé até à superfície côncava da bússola, brilhava como ouro.

Os mastros afilados estendiam-se para cima num ângulo arrojado, e o cordame parecia seda fiada. Não havia velas içadas; o iate estava a vapor e a fazer cerca de sete ou oito nós. Ela julgou que seria um barco de cem toneladas ou algo assim, provavelmente construído no Clyde e com não mais de dois ou três anos.

Não se via ninguém no convés, exceto o homem ao leme: este homem usava uma camisola azul; mas não havia nome nem inicial na camisola, nem havia nome nas boias brancas amarradas ao cordame principal, nem no bote polido que pendia nos turcos de estibordo. Ela chamou o homem, e chamou de novo, com uma voz fraca, mas o timoneiro não reparou nela e continuou a sua canção silenciosa como se nada mais existisse no universo, exceto o iate, o mar, o sol e ele próprio.

Então os seus olhos varreram o contorno da terra da qual se apressavam a afastar, e ela conseguiu distinguir um farol e uma grande cúpula branca irregular, que reconheceu como o Kursaal em Ostend, aquele rival deslumbrante do palácio de jogo de Monte Carlo. Portanto, estava a deixar Ostend. Os raios do sol caíam sobre ela de forma carinhosa, como um restaurador. À volta, a água mudava de cinzentos maravilhosos e azuis escuros para rosas ainda mais maravilhosos e verdes translúcidos e sobrenaturais; o caleidoscópio mágico do amanhecer decorria à sua maneira habitual, indiferente às vicissitudes dos mortais.

Aqui e ali, à distância, vislumbrou uma vela — a vela castanha de algum barco de pesca de Ostend que regressava a casa após uma noite de arrasto. Então, a batida de rodas de pás chegou aos seus ouvidos, e um navio a vapor passou, movendo-se desajeitadamente entre as ondas como uma tartaruga. Era o Swallow vindo de Londres. Ela podia ver alguns dos seus passageiros inclinados com curiosidade sobre a amurada de popa. Uma rapariga de impermeável fez-lhe sinal, e mecanicamente ela respondeu à saudação com o braço. O oficial da ponte do Swallow chamou o iate, mas o homem ao leme não ofereceu resposta. Num minuto, o Swallow não passava de uma mancha na distância.

Nella tentou sentar-se direita na cadeira de convés, mas descobriu que era incapaz de o fazer. Afastando o cobertor que a cobria, descobriu que tinha sido atada à cadeira por meio de uma tira de tecido largo. Instantaneamente ficou alerta, acordada, zangada; sabia que os seus perigos não tinham terminado; sentia que, possivelmente, mal tinham começado. O seu contentamento preguiçoso, o seu sentido sonhador de paz e repouso, desvaneceram-se completamente, e ela preparou-se para enfrentar os perigos de uma situação grave e difícil.

Nesse preciso momento, um homem subiu do convés inferior. Era um homem de quarenta anos ou mais, vestido de azul irrepreensível, com um boné de iatismo de pala. Ele levantou o boné educadamente.

«Bom dia», disse ele. «Belo nascer do sol, não é?» A insolência inteligente e calculada do seu tom cortou-a como um chicote enquanto ela jazia atada na cadeira. Como todas as pessoas que viveram vidas fáceis e alegres naquelas regiões justas onde o ouro suaviza cada ruga e a lei mantém uma mão firme sobre a desordem, era-lhe difícil perceber que existiam outras regiões onde o ouro era inútil e a lei não tinha poder. Vinte e quatro horas antes, ela teria declarado impossível que uma experiência como a que sofrera pudesse acontecer a alguém; teria falado levianamente sobre a civilização e o século XIX, sobre o progresso e a polícia. Mas a sua experiência estava a ensinar-lhe que a natureza humana permanece sempre a mesma, e que sob a fina crosta de segurança sobre a qual nós, bons cidadãos, existimos, as forças escuras e secretas do crime continuam a mover-se, tal como faziam nos dias em que não se podia ir de Cheapside a Chelsea sem ser atacado por ladrões. A sua experiência estava no bom caminho para lhe ensinar esta lição melhor do que ela a poderia ter aprendido mesmo nas secretarias da polícia de investigação de Paris, Londres e São Petersburgo.

«Bom dia», repetiu o homem, e ela olhou para ele com um olhar sombrio e zangado.

«Você!» exclamou ela. «Você, Sr. Thomas Jackson, se esse é o seu nome! Solte-me desta cadeira e falarei consigo.» Os seus olhos brilharam enquanto falava, e o desprezo neles aumentava poderosamente a sua beleza. O Sr. Thomas Jackson, doutro modo Jules, outrora chefe de mesa no Grand Babylon, considerava-se um conhecedor da beleza feminina, e a visão de Nella Racksole atingiu-o como um golpe requintado.

«Com prazer», respondeu ele. «Esquecera-me de que, para evitar que caísse, a tinha prendido à cadeira»; e com um movimento rápido desapertou a fita. Nella levantou-se, tremendo de irritação ardente e desprezo.

«Agora», disse ela, enfrentando-o, «o que significa isto?»

«Desmaiou», respondeu ele imperturbável. «Talvez não se lembre.»

O homem ofereceu-lhe uma cadeira de convés com um gesto característico. Nella foi obrigada a reconhecer, apesar de si mesma, que o sujeito tinha distinção, um ar de classe. Ninguém teria adivinhado que durante vinte anos fora empregado de hotel. A sua figura longa e ágil, e o porte fácil e descuidado, pareciam ser a figura e o porte de um aristocrata, e a sua voz era calma, contida e autoritária.

«Isso não tem nada a ver com o facto de ter sido levada neste seu iate.»

«Não é meu iate», disse ele, «mas esse é um detalhe menor. Quanto ao assunto mais importante, perdoe-me se a lembro de que apenas há poucas horas estava a ameaçar uma senhora em minha casa com um revólver.»

«Então era sua casa?»

«Por que não? Não posso possuir uma casa?» Ele sorriu.

«Exijo que faça o iate virar imediatamente, instantaneamente, e que me leve de volta.» Ela tentou falar com firmeza.

«Ah!» disse ele, «receio que isso seja impossível. Não me fiz ao mar com a intenção de regressar imediatamente, instantaneamente.» Nas últimas palavras, deu uma imitação ténue do tom dela.

«Quando eu voltar», disse ela, «quando o meu pai souber deste caso, será um dia extremamente mau para si, Sr. Jackson.»

«Mas supondo que o seu pai não sabe disto…»

«O quê?»

«Supondo que nunca volta?»

«Pretende, então, ter o meu homicídio na sua consciência?»

«Falando em homicídio», disse ele, «esteve muito perto de assassinar a minha amiga, a Srta. Spencer. Pelo menos, é o que ela me diz.»

«A Srta. Spencer está a bordo?» perguntou Nella, vendo talvez um ténue raio de esperança na presença possível de uma mulher.

«A Srta. Spencer não está a bordo. Não há ninguém a bordo exceto você, eu e uma pequena tripulação — uma tripulação muito discreta, devo acrescentar.»

«Não terei mais nada a dizer-lhe. Deve seguir o seu próprio caminho.»

«Obrigado pela permissão», disse ele. «Enviar-lhe-ei o pequeno-almoço.»

Ele foi até às escadas do salão e assobiou, e um rapaz negro apareceu com um tabuleiro de chocolate. Nella pegou nele e, sem a menor hesitação, atirou-o borda fora. O Sr. Jackson afastou-se alguns passos e depois regressou.

«Tem espírito», disse ele, «e eu admiro o espírito. É uma qualidade rara.»

Ela não respondeu. «Porque se envolveu nos meus assuntos, afinal?» continuou ele. Novamente ela não respondeu, mas a pergunta pô-la a pensar: porque se tinha envolvido neste negócio misterioso? Estava completamente em desacordo com os métodos habituais da sua existência alegre e leviana intrometer-se em coisas sérias. Tinha agido apenas por um desejo de ver a justiça feita e a maldade punida? Ou era o desejo de aventura? Ou seria, talvez, o desejo de ser útil a Sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Aribert? «Não é culpa minha que esteja nesta situação», continuou Jules. «Eu não a trouxe para isto. Você trouxe-se a si mesma para isto. Você e o seu pai — têm avançado a um ritmo que é demasiado rápido.»

«Isso resta ver», retorquiu ela friamente.

«Resta», admitiu ele. «E repito que não posso deixar de admirá-la — isto é, quando não está a interferir nos meus assuntos privados. Esse é um procedimento que nunca tolerei de ninguém — nem de um milionário, nem mesmo de uma mulher bonita.» Ele fez uma vénia. «Dizer-lhe-ei o que proponho fazer. Proponho escoltá-la para um lugar seguro e mantê-la lá até que as minhas operações estejam concluídas e a possibilidade de interferência totalmente removida. Falou agora mesmo em homicídio. Que noção rude essa a sua! Só o amador pratica o homicídio…»

«E quanto a Reginald Dimmock?» interrompeu ela rapidamente.

Ele fez uma pausa grave.

«Reginald Dimmock», repetiu ele. «Eu tinha imaginado que o dele fora um caso de doença cardíaca. Deixe-me enviar-lhe mais chocolate. Tenho a certeza de que tem fome.»

«Morrerei de fome antes de tocar na sua comida», disse ela.

«Criatura galante!» murmurou ele, e os seus olhos vaguearam pelo rosto dela. A sua beleza soberba e altiva superou-o. «Ah!» disse ele, «que esposa você faria!» Ele aproximou-se dela. «Você e eu, Srta. Racksole, a sua beleza e riqueza e os meus cérebros — poderíamos conquistar o mundo. Poucos homens são dignos de si, mas eu sou um dos poucos. Ouça! Poderia fazer pior. Case comigo. Sou um grande homem; serei maior. Adoro-a. Case comigo e eu salvarei a sua vida. Tudo ficará bem. Recomeçarei. O passado será como se não tivesse havido passado.»

«Isto é um pouco súbito — Jules», disse ela com um desprezo cortante.

«Esperava que eu fosse convencional?» retorquiu ele. «Eu amo-a.»

«Concedido», disse ela, para fins de argumentação. «Então, o que acontecerá à sua atual esposa?»

«A minha atual esposa?»

«Sim, a Srta. Spencer, como é chamada.»

«Ela disse-lhe que eu era o seu marido?»

«Incidentalmente, disse.»

«Ela não é.»

«Talvez não seja. Mas, ainda assim, penso que não me casarei consigo.» Nella estava como uma estátua de desprezo diante dele.

Ele foi ainda mais para perto dela. «Dê-me um beijo, então; um beijo — não pedirei mais; um beijo desses lábios, e você será livre. Homens arruinaram-se por um beijo. Eu arruinar-me-ei.»

«Cobarde!» exclamou ela.

«Cobarde!» repetiu ele. «Sou um cobarde? Então serei um cobarde, e você beijar-me-á quer queira quer não.»

Ele pôs uma mão no ombro dela. Enquanto ela se encolhia perante os seus olhos brilhantes, com um grito involuntário, uma figura saltou do bote a poucos metros de distância. Com um único golpe, bem direcionado ao ouvido do Sr. Jackson, o Sr. Jackson foi estendido inconsciente no convés. O Príncipe Aribert de Posen estava sobre ele com um revólver. Foi provavelmente a maior surpresa de toda a vida do Sr. Jackson.

«Não se assuste», disse o Príncipe a Nella, «o facto de eu estar aqui é a coisa mais simples do mundo, e explicá-lo-ei assim que terminar com este sujeito.»

Nella não conseguiu pensar em nada para dizer, mas reparou no revólver na mão do Príncipe.

«Ora», observou ela, «esse é o meu revólver.»

«É», disse ele, «e explicarei isso também.»

O homem ao leme não prestou qualquer atenção à cena.

Capítulo Onze O PENHORISTA DA CORTE

«O SR. SAMPSON LEVI deseja vê-lo, senhor.»

Estas palavras, ditas por um criado a Theodore Racksole, despertaram o milionário de um devaneio que tinha sido o oposto de agradável. O facto era, e é necessário insistir nisto, que o Sr. Racksole, proprietário do Grand Babylon Hôtel, não estava de modo algum num estado de satisfação pessoal. Um mistério tinha-se ligado ao seu hotel e, com toda a sua perspicácia e conhecimento das coisas em geral, ele era incapaz de resolver esse mistério. Ria-se dos esforços infrutíferos da polícia, mas não podia honestamente dizer que os seus próprios esforços tinham sido menos estéreis. O público falava, pois, afinal, o desaparecimento do corpo do pobre Dimmock tinha-se espalhado de uma forma indireta, e Theodore Racksole não gostava da ideia de o seu hotel impecável ser o tema de rumores sinistros. Perguntava-se, severamente, o que o público e os jornais de domingo diriam se estivessem a par de todos os outros fenómenos, ainda não do conhecimento comum: do desaparecimento da Srta. Spencer, das estranhas visitas de Jules e da não chegada do Príncipe Eugen de Posen. Theodore Racksole tinha preocupado o seu cérebro sem resultado. Tinha conduzido uma investigação privada elaborada sem resultado, e tinha gasto uma certa quantia de dinheiro sem resultado. A polícia dizia que tinha uma pista; mas Racksole comentava que era sempre o negócio da polícia ter uma pista, que raramente tinham mais do que uma pista, e que uma pista sem qualquer seguimento era um negócio bastante estúpido. A única coisa certa em todo o caso era que uma nuvem repousava sobre o seu hotel, o seu belo brinquedo novo, o melhor do seu género. A nuvem não estava a interferir com os negócios, mas, ainda assim, era uma nuvem, e ele ressentia-se ferozmente da sua presença; talvez fosse mais correto dizer que se ressentia ferozmente da sua incapacidade de a dissipar.

«O Sr. Sampson Levi deseja vê-lo, senhor», repetiu o criado, não tendo recebido sinal de que o seu mestre o tinha ouvido.

«Já ouvi», disse Racksole. «Ele quer ver-me pessoalmente?»

«Perguntou por si, senhor.»

«Talvez seja o Rocco que ele quer ver, sobre uma ementa ou algo desse género?»

«Perguntarei, senhor», e o criado fez um movimento para se retirar.

«Espere», ordenou Racksole subitamente. «Peça ao Sr. Sampson Levi que suba até aqui.»

O grande corretor da bolsa do «Kaffir Circus» entrou com um ar simples e despretensioso. Era um homem um tanto baixo, rubicundo, vestido como um típico financeiro hebraico, com demasiada corrente de relógio e demasiado pouco colete. Na sua mão gorda segurava uma bengala de punho de ouro e uma cartola absolutamente nova — pois era sexta-feira, e o Sr. Levi comprava uma cartola nova todas as sextas-feiras da sua vida, exceto nos tempos de férias. Respirava pesadamente e fungava muito pelo nariz, como se tivesse acabado de realizar algum trabalho físico hercúleo. Olhou para o milionário americano com uma expressão em que se poderia ter detetado um ligeiro embaraço, mas, ao mesmo tempo, o seu rosto redondo e vermelho revelava uma certa admiração franca e boa natureza.

«Sr. Racksole, creio — Sr. Theodore Racksole. Orgulhoso de conhecê-lo, senhor.»

Foram estas as primeiras palavras do Sr. Sampson Levi. Na forma, eram a saudação de um limpa-chaminés de terceira categoria, mas, estranhamente, Theodore Racksole gostou do seu tom. Disse a si mesmo que ali, precisamente onde ninguém esperaria encontrar um, estava um homem honesto.

«Bom dia», disse Racksole brevemente. «A que devo o prazer…»

«Suponho que o seu tempo é limitado», respondeu Sampson Levi. «De qualquer forma, o meu é, e por isso irei direto ao ponto, Sr. Racksole. Sou um homem simples. Não pretendo ser um cavalheiro ou qualquer absurdo desse género. Sou um corretor da bolsa, é o que sou, e não me importa quem o saiba. Noutra noite dei um baile neste hotel. Custou-me um par de milhares e poucas libras e, aliás, escrevi um cheque para a sua conta esta manhã. Não gosto de bailes, mas são-me úteis, e a minha pequena esposa gosta deles, e por isso damo-los. Agora, não tenho nada a dizer contra a gestão do hotel no que diz respeito a esse baile: foi muito decentemente feito, muito decentemente, mas o que quero saber é isto — Por que teve um detetive privado entre os meus convidados?»

«Um detetive privado?» exclamou Racksole, algo surpreendido com esta acusação.

«Sim», disse o Sr. Sampson Levi firmemente, abanando-se na cadeira e olhando para Theodore Racksole com a expressão direta e séria de um homem com uma queixa. «Sim; um detetive privado. É um assunto pequeno, eu sei, e atrevo-me a dizer que pensa que tem o direito, como proprietário do espetáculo, de fazer o que quiser nessa linha; mas liguei apenas para lhe dizer que me oponho. Liguei por uma questão de princípio. Não estou zangado; é o princípio da coisa.»

«Meu caro Sr. Levi», disse Racksole, «asseguro-lhe que, tendo alugado o Salão Dourado a um indivíduo privado para um entretenimento privado, eu nunca sonharia em fazer o que sugere.»

«A sério?» perguntou o Sr. Sampson Levi, usando a sua linguagem pitoresca.

«A sério», disse Racksole sorrindo.

«Havia um cavalheiro presente no meu baile que eu não convidei. Tenho uma memória maravilhosa para rostos, e sei. Vários rapazes perguntaram-me depois o que ele estava ali a fazer. Disseram-me por alguém que ele era um dos seus empregados, mas não acreditei nisso. Não sei nada do Grand Babylon; não é bem o meu estilo de taberna, mas não creio que enviasse um dos seus próprios empregados para vigiar os meus convidados — a menos, claro, que o tivesse enviado como empregado; e este tipo não fez qualquer serviço de mesa, embora tenha feito a sua parte de bebida.»

«Talvez possa lançar alguma luz sobre este mistério», disse Racksole. «Posso dizer-lhe que já estava ciente de que esse homem tinha comparecido ao seu baile sem convite.»

«Como ficou a saber?»

«Por puro acaso, Sr. Levi, e não por investigação. Esse homem era um antigo empregado deste hotel — o chefe de mesa, aliás — Jules. Sem dúvida que ouviu falar dele.»

«Eu não», disse o Sr. Levi categoricamente.

«Ah!» disse Racksole, «fui informado de que todos conheciam Jules, mas parece que não. Bem, seja como for, antes da noite do seu baile, eu tinha despedido Jules. Ordenei-lhe que nunca mais entrasse no Babylon.»

Mas naquela noite encontrei-o aqui — não no Gold Room, mas no próprio hotel. Pedi-lhe que explicasse a sua presença, e ele afirmou ser seu convidado. É tudo o que sei sobre o assunto, Sr. Levi, e lamento imensamente que tenha pensado que eu seria capaz da enormidade de colocar um detetive particular entre os seus convidados.»

«Isto é perfeitamente satisfatório para mim», disse o Sr. Sampson Levi, após uma pausa.

«Eu apenas queria uma explicação, e obtive-a. Disseram-me alguns amigos meus na City que eu podia confiar que o Sr. Theodore Racksole iria direto ao assunto, e fico contente por terem razão. Agora, quanto a esse tal Jules, farei as minhas próprias inquirições sobre ele. Poderia perguntar-lhe por que motivo o despediu?»

«Não sei por que motivo o despedi.»

«Não sabe? Oh! vamos lá! Pergunto apenas porque pensei que pudesse dar-me uma pista sobre a razão pela qual ele apareceu sem convite no meu baile. Peço desculpa se sou demasiado curioso.»

«De modo algum, Sr. Levi; mas realmente não sei. Apenas senti, por assim dizer, que ele era um indivíduo suspeito. Despedi-o por instinto, por assim dizer. Percebe?»

Sem responder a esta pergunta, o Sr. Levi fez outra. «Se este Jules é uma pessoa tão conhecida», disse ele, «como poderia o tipo esperar vir ao meu baile sem ser reconhecido?»

«Desisto», disse Racksole prontamente.

«Bem, vou seguir o meu caminho», foi o comentário seguinte do Sr. Sampson Levi. «Bom dia, e obrigado. Suponho que não esteja a fazer nada em Kaffirs?»

O Sr. Racksole sorriu em sinal negativo.

«Imaginei que não», disse Levi. «Bem, eu próprio nunca toco em caminhos-de-ferro americanos, por isso calculo que não nos cruzaremos. Bom dia.»

«Bom dia», disse Racksole educadamente, seguindo o Sr. Sampson Levi até à porta.

Com a mão na maçaneta da porta, o Sr. Levi parou e, observando Theodore Racksole com uma expressão astuta e inquisidora, comentou:

«Coisas estranhas têm acontecido aqui ultimamente, eh?»

Os dois homens olharam fixamente um para o outro durante vários segundos.

«Sim», assentiu Racksole. «Sabe alguma coisa sobre elas?»

«Bem... não, não exatamente», disse o Sr. Levi. «Mas tive a sensação de que o senhor e eu podíamos ser úteis um ao outro; tive uma espécie de pressentimento nesse sentido.»

«Volte e sente-se de novo, Sr. Levi», disse Racksole, atraído pela evidente franqueza do tom do homem. «Agora, como podemos ser úteis um ao outro? Lisonjeio-me por ser um bom juiz de caráter, especialmente caráter financeiro, e digo-lhe — se puser as suas cartas na mesa, farei o mesmo com as minhas.»

«Combinado», disse o Sr. Sampson Levi. «Começarei por explicar o meu interesse no seu hotel. Estava à espera de receber uma convocatória de um certo Príncipe Eugen de Posen para me encontrar com ele aqui, e essa convocatória não chegou. Parece que o Príncipe Eugen nem sequer veio a Londres. Ora, eu poderia ter jurado a pés juntos que ele teria estado aqui, o mais tardar, ontem.»

«Por que tinha tanta certeza?»

«Pergunta por pergunta», disse Levi. «Vamos esclarecer o terreno primeiro, Sr. Racksole. Por que comprou este hotel? Esse é um enigma que tem deixado muitos dos nossos na City intrigados há alguns dias. Por que comprou o Grand Babylon? E qual é o próximo passo?»

«Não há próximo passo», respondeu Racksole francamente, «e dir-lhe-ei por que comprei o hotel; não precisa de haver segredo sobre isso. Comprei-o por um capricho.» E então Theodore Racksole deu a este pequeno judeu, a quem começara a respeitar, um relato fiel da transação com o Sr. Felix Babylon. «Suponho», acrescentou, «que tenha dificuldade em compreender o meu estado de espírito quando fiz o negócio.»

«Nem um pouco», disse o Sr. Levi. «Certa vez comprei uma lancha elétrica no Tamisa de uma forma muito semelhante, e acabou por ser uma das compras mais satisfatórias que já fiz. Então, é um simples acidente o facto de o senhor possuir este hotel neste momento?»

«Um simples acidente — tudo por causa de um bife e uma garrafa de Bass.»

«Hum!» resmungou o Sr. Sampson Levi, alisando o seu queixo triplo.

«Para voltar ao Príncipe Eugen», retomou Racksole. «Eu estava à espera de Sua Alteza aqui. Os apartamentos de Estado tinham sido preparados para ele. Ele era esperado na própria tarde em que o jovem Dimmock morreu. Mas ele nunca veio, e não ouvi dizer por que motivo não chegou; nem vi o seu nome nos jornais. Qual era o seu negócio em Londres, não sei.»

«Eu dir-lhe-ei», disse o Sr. Sampson Levi, «ele vinha tratar de um empréstimo.»

«Um empréstimo de Estado?»

«Não — um empréstimo particular.»

«A quem?»

«A mim, Sampson Levi. O senhor parece surpreendido. Se tivesse vivido em Londres um pouco mais, saberia que eu era precisamente a pessoa a quem o Príncipe viria. Talvez não saiba que, na zona de Throgmorton Street, sou chamado de “O Agente de Penhores da Corte”, porque organizo empréstimos para os príncipes menores e de segunda classe da Europa. Sou corretor da bolsa, mas o meu verdadeiro negócio é financiar algumas das pequenas Cortes da Europa. Ora, posso dizer-lhe que o Príncipe Hereditário de Posen queria particularmente um milhão, e queria-o até uma certa data, e ele sabia que se o assunto não fosse resolvido até um certo prazo aqui, ele não conseguiria obtê-lo até essa certa data. É por isso que estou surpreendido por ele não estar em Londres.»

«Para que precisava ele de um milhão?»

«Dívidas», respondeu Sampson Levi laconicamente.

«As suas próprias?»

«Certamente.»

«Mas ele não tem trinta anos de idade?»

«E daí? Ele não é o único Príncipe europeu que acumulou um milhão de dívidas em doze anos. Para um Príncipe, a coisa é tão fácil como comer uma sanduíche.»

«E por que tomou ele esta resolução súbita de as liquidar?»

«Porque o Imperador e os pais da dama não o deixam casar até que o faça! E com toda a razão! Ele tem de apresentar uma folha limpa, ou a Princesa Anna de Eckstein-Schwartzburg nunca será Princesa de Posen. Mesmo agora, o Imperador não faz ideia de a quanto montam as dívidas do Príncipe Eugen. Se fizesse...!»

«Mas não saberia o Imperador deste empréstimo proposto?»

«Não necessariamente de imediato. Poderia ser gerido dessa forma. Entende?» O Sr. Sampson Levi riu-se. «Já levei a cabo estes pequenos assuntos antes. Depois do casamento, poderia permitir-se que a notícia vazasse. E o senhor sabe que a fortuna da Princesa Anna é bastante grande! Agora, Sr. Racksole», acrescentou, mudando abruptamente de tom, «onde supõe que o Príncipe Eugen desapareceu? Porque se ele não aparecer hoje, não pode ter esse milhão. Hoje é o último dia. Amanhã o dinheiro será apropriado noutro lugar. Naturalmente, não estou sozinho neste negócio, e os meus amigos têm algo a dizer.»

«Pergunta-me onde penso que o Príncipe Eugen desapareceu?»

«Pergunto.»

«Então o senhor pensa que é um desaparecimento?»

Sampson Levi assentiu. «Juntando as peças», disse ele, «penso. O caso Dimmock é muito peculiar — muito peculiar, de facto. Dimmock era um parente por via indireta da família Posen. Entende? Quase ninguém sabe disso.

Ele foi nomeado secretário e companheiro do Príncipe Aribert, apenas para o manter no círculo doméstico. A sua mãe era uma irlandesa, cuja infelicidade foi ser demasiado bonita. Entende?» (O Sr. Sampson Levi usava sempre esta palavra extraordinária quando estava num estado de espírito comunicativo.) «A minha convicção é que a morte de Dimmock tem algo a ver com o desaparecimento do Príncipe Eugen.

A única coisa que me escapa é isto: por que haveria alguém de querer fazer o Príncipe Eugen desaparecer? O pobre pequeno Príncipe não tem um inimigo no mundo. Se ele foi “apanhado”, como se costuma dizer, por que foi “apanhado”? Não fará bem a ninguém.»

«Não fará?» repetiu Racksole, com um súbito clarão.

«O que quer dizer?» perguntou o Sr. Levi.

«Quero dizer isto: suponha que algum outro Príncipe europeu pedinte estivesse ansioso por casar com a Princesa Anna e a sua fortuna, não teria esse Príncipe interesse em travar este seu empréstimo ao Príncipe Eugen? Não teria ele interesse em fazer o Príncipe Eugen desaparecer — pelo menos, por algum tempo?»

Sampson Levi pensou profundamente durante alguns momentos.

«Sr. Theodore Racksole», disse finalmente, «acredito mesmo que acertou em algo.»

Capítulo Doze ROCCO E O QUARTO N.º 111

NA tarde do mesmo dia — a entrevista acabada de descrever ocorrera de manhã — Racksole foi visitado por outra ideia, e disse a si mesmo que deveria ter pensado nela antes. A conversa com o Sr. Sampson Levi tinha durado um tempo considerável, e os dois homens tinham trocado várias noções e concordado em encontrar-se novamente, mas a teoria de que Reginald Dimmock provavelmente tinha sido um traidor da sua família — um traidor cujo arrependimento causara a sua morte — não tinha sido completamente discutida; a conversa tinha tendido mais para a política continental, com vista a descobrir que família principesca poderia ter interesse no desaparecimento temporário do Príncipe Eugen. Agora, enquanto Racksole considerava em detalhe o caso específico de Reginald Dimmock, falecido, ficou impressionado por um ponto em especial, a saber: por que teriam Dimmock e Jules manobrado para expulsar Nella Racksole do Quarto N.º 111 naquela primeira noite? Que eles tinham manobrado, que a vidraça partida não fora um mero acidente, Racksole sentia-se perfeitamente seguro. Sentia-se perfeitamente seguro desde o início; mas o significado dos factos não lhe ocorrera. Era claro para ele agora que deveria haver algo de extraordinária e peculiar importância sobre o Quarto N.º 111. Depois do almoço, ele vagueou calmamente para o andar de cima e olhou para o Quarto N.º 111; isto é, olhou para o exterior do mesmo; por acaso estava ocupado, mas o hóspede ia partir naquela noite. O pensamento passou-lhe pela mente de que não poderia haver objetivo em olhar fixamente para o exterior de um quarto; ainda assim, olhou; depois, vagueou rapidamente de volta para o andar seguinte e, ao passar pelo corredor desse andar, parou e, com um gesto involuntário, bateu com o pé.

«Grande Scott!» disse ele, «apanhei qualquer coisa — o N.º 111 fica exatamente por cima dos apartamentos de Estado.»

Dirigiu-se ao balcão e deu instruções para que o N.º 111 não fosse alugado a ninguém até novas ordens. No balcão deram-lhe o bilhete de Nella, que dizia assim:

Querido papá, — Vou ausentar-me por um ou dois dias no rasto de uma pista.

Se não estiver de volta em três dias, comece a perguntar por mim em Ostende. Até lá, deixe-me em paz. — A sua sagaz filha, NELL.

Estas poucas palavras, na letra grande e garranchosa de Nella, preenchiam um lado do papel. No fundo estava um P.T.O. Ele virou e leu a frase, sublinhada, «P.S. — Vigie o Rocco.»

«Pergunto-me o que a criaturinha está a tramar?», murmurou ele, ao rasgar a carta em pequenos fragmentos e atirá-los para o cesto de papéis.

Então, sem qualquer demora, apanhou o elevador para o subsolo, com o objetivo de fazer uma inspeção preliminar a Rocco no seu covil. Mal conseguia acreditar que este cavalheiro suave e imponente, este entusiasta da gastronomia, estivesse envolvido nas maquinações de Jules e outros patifes desconhecidos. No entanto, por hábito, obedeceu à filha, dando-lhe crédito por uma certa dose de perspicácia e inteligência.

As cozinhas do Grand Babylon Hôtel são uma das maravilhas da Europa.

Apenas três anos antes dos eventos agora narrados, Felix Babylon tinha-as feito instalar de novo com todos os dispositivos e patentes que a engenhosidade de dois continentes poderia fornecer. Cobriam quase um acre de espaço superficial.

Eram paredes e chão de ponta a ponta com azulejos e mármore, o que permitia que fossem lavadas todas as manhãs como o convés de um navio de guerra.

Os visitantes eram por vezes levados a ver a máquina de descascar batatas, o secador de pratos patenteado, o espeto Babylon (um engenho do próprio Felix Babylon), a grelha de prata, o sistema de panelas de caldo ligadas e outros fenómenos espantosos do departamento. Por vezes, se fossem afortunados, poderiam também ver o artista que esculpia gelo em formas de homens e bestas para ornamentos de mesa, ou o melhor dobrador de guardanapos de Londres, ou o homem que inventava diariamente novos desenhos para pastelaria e manjares. Doze chefes perseguiam os seus trabalhos naquelas cozinhas, ajudados por noventa chefes assistentes e um exército adicional de criados desconsiderados. Sobre todos eles estava Rocco, supremo e inacessível. A meio da série de cozinhas, Rocco tinha um apartamento próprio, onde pensava naquelas combinações magníficas, naqueles feitos maravilhosos de suculência e originalidade, que lhe tinham dado a sua fama. Os visitantes nunca vislumbravam Rocco nas cozinhas, embora por vezes, numa noite especial, ele passeasse nonchalant através da sala de jantar, como o grande homem que era, para receber os cumprimentos dos habitués do hotel — pessoas com discernimento que reconheciam a sua singularidade.

A súbita e invulgar aparição de Theodore Racksole na cozinha causou um pequeno alvoroço. Ele acenou a alguns dos chefes, mas não disse nada a ninguém, vagueando apenas pelo meio do labirinto de utensílios de cobre e trabalhadores de barrete branco. A certa altura, viu Rocco, rodeado por vários chefes admiradores. Rocco estava inclinado sobre uma perdiz recém-assada que jazia num prato azul. Mergulhou um garfo longo nas costas da ave e levantou-a no ar com a mão esquerda. Na direita, segurava uma faca de trinchar longa e brilhante. Estava a dar uma das suas exibições de trinchar mundialmente famosas. Em quatro golpes rápidos, infalíveis, delicados e perfeitos, cortou limpamente os membros da perdiz. Foi um feito maravilhoso — quão maravilhoso, ninguém senão o trinchador realmente habilidoso pode apreciar devidamente. Os chefes emitiram um murmúrio de aplausos, e Rocco, longo, magro e gracioso, retirou-se para o seu próprio apartamento. Racksole seguiu-o. Rocco sentou-se numa cadeira, uma mão sobre os olhos; não tinha notado Theodore Racksole.

«O que está a fazer, M. Rocco?», perguntou o milionário, sorrindo. «Ah!» exclamou Rocco, levantando-se com um pedido de desculpas. «Perdão! Estava a inventar uma nova maionese, que precisarei para um certo menu na próxima semana.»

«Inventa estas coisas sem materiais, então?», questionou Racksole.

«Certamente. Faço-as na minha mente. Penso-as. Por que haveria de precisar de materiais? Conheço todos os sabores. Penso, e penso, e penso, e está feito. Escrevo.

Dou a receita ao meu melhor chefe — aí está. Nem preciso de provar, sei como saberá. É como compor música. Os grandes compositores não compõem ao piano.»

«Compreendo», disse Racksole.

«É porque trabalho assim que o senhor me paga três mil por ano», acrescentou Rocco gravemente.

«Ouviu falar do Jules?», disse Racksole abruptamente.

«Jules?»

«Sim. Foi preso em Ostende», continuou o milionário, mentindo habilmente por um palpite. «Dizem que ele e vários outros estão implicados num caso de homicídio — o homicídio de Reginald Dimmock.»

«Verdadeiramente?», arrastou Rocco, mal escondendo um bocejo. A sua indiferença era tão soberba, tão grandiosa, que Racksole adivinhou instantaneamente que era assumida para a ocasião.

«Parece que, afinal, a polícia serve para alguma coisa. Mas esta é a primeira vez que os vejo valerem o seu sal. Vai haver uma busca exaustiva e sistemática ao hotel amanhã», continuou Racksole. «Mencionei-lho para avisar que, no que toca ao senhor, a busca é, naturalmente, apenas uma questão de forma. O senhor não se importará que os detetives examinem os seus quartos?»

«Certamente que não», e Rocco encolheu os ombros.

«Pedir-lhe-ei que não diga nada disto a ninguém», disse Racksole. «A notícia da detenção de Jules é puramente minha. Os jornais não sabem de nada. Compreende?»

Rocco sorriu à sua maneira grandiosa, e o patrão de Rocco partiu então.

Racksole ficou muito satisfeito com a pequena conversa. Talvez fosse perigoso contar uma série de mentiras a um tipo inteligente como Rocco, e Racksole perguntou-se como explicaria, em última análise, estas mentiras a este grande chefe de cozinha se as suas suspeitas e as de Nella fossem infundadas e nada resultasse delas. Contudo, a maneira de Rocco, algo estranho e evasivo nos olhos do homem, tinha quase convencido Racksole de que ele estava de alguma forma implicado nos esquemas de Jules — e provavelmente na morte de Reginald Dimmock e no desaparecimento do Príncipe Eugen de Posen.

Nessa noite, ou melhor, por volta da uma e meia da manhã seguinte, quando os últimos ruídos da vida do hotel tinham diminuído, Racksole dirigiu-se ao Quarto 111 no segundo andar. Trancou a porta por dentro e procedeu a examinar o local, centímetro quadrado por centímetro quadrado. De vez em quando, algum ranger ou outro som assustava-o, e ele escutava atentamente durante alguns segundos. O quarto estava decorado no esplêndido estilo habitual dos quartos do Grand Babylon Hôtel e, nesse aspeto, não merecia qualquer reparo. O que mais interessava a Racksole era o soalho. Levantou o tapete oriental espesso e perscrutou cada tábua, mas não conseguiu descobrir nada de invulgar.

Depois foi ao vestiário e, finalmente, à casa de banho, ambos comunicantes com o quarto principal. Mas em nenhuma destas câmaras mais pequenas foi mais bem-sucedido do que no próprio quarto. Finalmente, chegou à banheira, que estava fechada num painel de madeira polida, à maneira das banheiras. Algumas banheiras têm um armário debaixo das torneiras, com uma porta lateral, mas esta parecia não ter nenhum. Bateu nos painéis, mas nenhum deles emitiu aquele «curioso som oco» que geralmente denuncia um lugar secreto. Distraidamente, abriu a torneira de água fria da banheira, e a água começou a correr. Fechou a torneira fria e abriu a de escoamento e, ao fazê-lo, o seu joelho, que pressionava o painel, deslizou para a frente. O painel cedeu, e ele viu que um grande painel estava articulado por dentro e preso com um trinco, também por dentro. Revelou-se assim um grande espaço dentro da estrutura da extremidade da banheira. Antes de fazer mais nada, Racksole tentou repetir o truque com a torneira de escoamento, mas falhou; não funcionou novamente, nem conseguiu de forma alguma perceber que existia qualquer ligação entre a haste da torneira de escoamento e o trinco do painel. Racksole não conseguia ver para dentro da cavidade na estrutura, e a luz elétrica era fixa e não podia ser movida como uma vela. Sentiu os bolsos e, felizmente, descobriu uma caixa de fósforos. Apoiado por estes, olhou para dentro da cavidade e não viu nada; nada exceto um buraco bastante grande na extremidade — a cerca de um metro da estrutura. Com alguma dificuldade, esgueirou-se pelo painel aberto e adotou uma postura meio ajoelhada, meio sentada lá dentro. Acendeu um fósforo, e foi uma coisa muito infeliz que, ao acender, estando a caixa meio aberta, incendiou todos os fósforos, e ficou meio sufocado pelo fedor atroz de fósforo que resultou. Um fósforo ardeu claramente no chão da cavidade e, esfregando os olhos, Racksole apanhou-o e olhou para o buraco que tinha anteriormente vislumbrado. Era um buraco aparentemente sem fundo, e com cerca de quarenta e cinco centímetros quadrados. A parte curiosa sobre o buraco era que uma escada de corda pendia dele. Quando viu aquela escada de corda, Racksole sorriu com o sorriso de um homem feliz.

O fósforo apagou-se.

Deveria fazer uma longa viagem, talvez até algum canto distante do hotel, por uma nova caixa de fósforos, ou deveria tentar descer aquela escada de corda na escuridão? Decidiu-se pela segunda opção, e foi mais fortemente impelido para tal por poder agora distinguir um ténue, um ténue vestígio de luz no fundo do buraco.

Com infinito cuidado, comprimiu-se para dentro do buraco tipo poço e desceu este último. Finalmente, chegou a terreno firme, a suar, mas são e salvo e bastante entusiasmado. Viu agora que o vestígio de luz vinha através de um pequeno buraco na madeira. Pôs o olho na madeira e descobriu que tinha uma excelente vista da casa de banho de Estado e, através da porta da casa de banho de Estado, para o quarto de Estado. Junto ao lavatório de tampo de mármore maciço no quarto de Estado, um homem era visível, inclinado sobre algum objeto que ali jazia.

O homem era Rocco!

Capítulo Treze NO QUARTO DE ESTADO

Era, naturalmente, evidente para Racksole que a passagem peculiar que ele, com grande inconveniência pessoal, descobrira entre a casa de banho do nº 111 e a casa de banho de Estado no andar de baixo devia ter sido especialmente concebida por alguma pessoa ou pessoas com o propósito de manter uma vigilância nefasta sobre os ocupantes da suíte de apartamentos de Estado. Era um meio de comunicação simultaneamente simples e engenhoso. Naquele momento, não podia ter a certeza do método preciso empregue para tal, mas supôs que o revestimento dos canos de água tinha sido usado como um "poço", enquanto espaço para os próprios canos fora encontrado na espessura das amplas paredes de tijolo do Grand Babylon. O orifício, através do qual tinha agora uma visão do quarto, era muito pequeno e provavelmente dificilmente seria notado do exterior. Uma coisa observou a seu respeito, a saber, que tinha sido feito para um homem um pouco mais alto do que ele próprio; ele era obrigado a ficar na ponta dos pés para colocar o olho na posição correta. Lembrou-se de que tanto Jules como Rocco estavam distintamente acima da altura média; também que eram ambos homens magros e que poderiam ter descido pelo poço com relativa facilidade. Theodore Racksole, embora não fosse corpulento, era um homem bem constituído e de ossatura larga.

Estas coisas passaram-lhe pela mente enquanto olhava, fascinado, para os movimentos misteriosos de Rocco. A porta entre a casa de banho e o quarto estava escancarada, e a sua própria situação era tal que a sua visão abrangia uma porção considerável do quarto, incluindo a totalidade da imensa e luxuosamente estofada cama, mas não incluindo a totalidade do lavatório de mármore. Ele só conseguia ver metade do lavatório e, a intervalos, Rocco saía da sua vista à medida que as suas mãos ágeis se moviam sobre o objeto que jazia no mármore. A princípio, Theodore Racksole não conseguiu decidir o que era aquele objeto, mas depois de algum tempo, à medida que os seus olhos se habituavam à posição e à luz, conseguiu identificá-lo.

Era o corpo de um homem. Ou, melhor dizendo, para ser mais exato, Racksole conseguia discernir as pernas de um homem naquela metade da mesa que lhe era visível. Involuntariamente, estremeceu, à medida que a convicção se impunha de que Rocco tinha algum ser humano inconsciente e indefeso sobre aquela superfície de mármore frio. As pernas nunca se moviam. Portanto, a criatura infeliz estava ou a dormir ou sob o efeito de um anestésico -- ou (pensamento horrível!) morta.

Racksole queria gritar, parar por qualquer meio a terrível atividade noturna que se desenrolava diante dos seus olhos atónitos; mas, felizmente, conteve-se.

No lavatório, ele conseguia ver certos utensílios e instrumentos de forma estranha que Rocco usava de tempos a tempos. O trabalho pareceu a Racksole prolongar-se por horas intermináveis e, então, por fim, Rocco cessou, deu um sinal de satisfação, assobiou vários compassos de "Cavalleria Rusticana" e entrou na casa de banho, onde tirou o casaco e lavou as mãos muito calmamente. Enquanto estava ali, a limpar calma e pausadamente aqueles seus dedos longos, estava a menos de um metro e vinte de Racksole, e o milionário encurralado tremeu, prendendo a respiração, com receio de que Rocco detetasse a sua presença por trás da madeira. Mas nada aconteceu, e Rocco regressou ao quarto, sem suspeitar de nada. Racksole viu-o colocar uma espécie de peça de flanela branca sobre a forma prostrada na mesa e, depois, levantá-la corporalmente para a grande cama, onde jazia horrivelmente imóvel. O observador oculto tinha agora a certeza de que era um cadáver sobre o qual Rocco exercera as suas misteriosas e sinistras funções.

Mas de quem era o cadáver? E que funções seriam aquelas? Poderia ser um hotel do West End, o próprio hotel de Racksole, no coração de Londres, a cidade mais bem policiada do mundo? Parecia incrível, impossível; contudo, assim era. Mais uma vez, lembrou-se do que Felix Babylon lhe dissera e compreendeu a verdade do ditado de novo. O proprietário de um estabelecimento vasto e complicado como o Grand Babylon nunca poderia conhecer a décima parte das ocorrências extraordinárias e estranhas que aconteciam diariamente debaixo do seu próprio nariz; a atmosfera de tal caravançará deveria ser necessariamente uma atmosfera de mistério e de problemas aparentemente inexplicáveis. Não obstante, Racksole pensou que o Destino estava a agir de forma bastante arbitrária quando permitia que o seu chefe de cozinha passasse as horas da noite sobre o cadáver de um homem no seu quarto de Estado, este apartamento sagrado que deveria ser ocupado apenas por indivíduos de Sangue Real. Racksole não se teria oposto a uma certa dose de mistério, mas achava decididamente que havia mistério a mais ali para o seu gosto. Pensou que até Felix Babylon teria ficado surpreendido com isto.

O lustre elétrico no centro do teto não estava aceso; apenas as duas luzes de cada lado do lavatório estavam ligadas, e estas não iluminavam suficientemente os traços do homem na cama para permitir a Racksole vê-los claramente. Em vão, o milionário esforçou os olhos; apenas conseguiu perceber que o cadáver era provavelmente o de um homem jovem. Exatamente quando se perguntava qual seria o melhor curso de ação a seguir, viu Rocco com uma caixa preta de forma quadrada na mão. Então, o chefe de cozinha apagou as duas luzes elétricas e o quarto de Estado ficou na escuridão. Nessa escuridão súbita, Racksole ouviu Rocco saltar para a cama. Mais meia dúzia de momentos de suspense e houve um clarão ofuscante de luz branca, que durou vários segundos e mostrou Rocco de pé como um espírito maligno sobre o cadáver, a caixa preta numa mão e um pedaço de fio de alumínio a arder na outra. O fio de alumínio apagou-se e seguiu-se uma escuridão mais negra do que antes.

Rocco fotografara o cadáver com flash.

Mas o clarão deslumbrante que revelara os traços do homem morto à lente insensível da câmara revelara-os também a Theodore Racksole. O homem morto era Reginald Dimmock!

Estimulado à ação por esta descoberta, Racksole tentou encontrar a saída do seu esconderijo. Sentia-se seguro de que existia algum caminho para a casa de banho de Estado, mas procurou-o infrutiferamente, tateando com as mãos e os pés. Então, decidiu que devia subir a escada de corda, apressar-se para o corredor do primeiro andar e intercetar Rocco quando ele saísse dos apartamentos de Estado. Foi um trabalho doloroso e difícil subir aquela escada fina e flexível num espaço tão confinado, mas Racksole estava a conseguir fazê-lo muito bem e quase tinha chegado ao topo quando, por algum capricho infeliz do acaso, a escada partiu-se sob o seu peso e ele escorregou ignominiosamente para o fundo do tubo de madeira. Abafando um palavrão escusável, Racksole agachou-se, frustrado. Então, viu que a força da sua queda abrira de alguma forma um alçapão aos seus pés. Espremeu-se através dele, empurrou outra pequena porta e, num segundo, estava na casa de banho de Estado. Estava despenteado, a transpirar, bastante atordoado; mas estava lá. No segundo seguinte, tinha retomado o comando absoluto de todas as suas faculdades.

Estranhamente, ele movera-se tão silenciosamente que Rocco, aparentemente, não o ouvira. Aproximou-se sem ruído da porta entre a casa de banho e o quarto e ficou ali em silêncio. Rocco voltara a acender as luzes sobre o lavatório e estava ocupado com os seus utensílios.

Racksole tossiu deliberadamente.

Capítulo catorze ROCCO RESPONDE A ALGUMAS PERGUNTAS

ROCCO virou-se com a rapidez de um tigre assustado e lançou a Theodore Racksole um longo olhar penetrante.

— Diabo! — disse Rocco, com um sotaque e uma entonação anglo-saxónicos tão puros como os que o próprio Racksole poderia ter conseguido.

A coisa mais extraordinária acerca da situação era que, nesta conjuntura, Theodore Racksole não sabia o que dizer. Estava tão estupefacto com o caso, e especialmente com a calma absoluta e sublime de Rocco, que tanto a fala como o pensamento lhe falharam.

— Eu rendo-me — disse Rocco. — Desde o momento em que entrou neste maldito hotel, tive medo de si. Disse ao Jules que tinha medo de si. Sabia que haveria problemas com um homem do seu calibre, e tive razão; maldito seja! Digo-lhe que me rendo. Sei quando estou derrotado. Não tenho revólver nem armas de qualquer espécie. Rendo-me. Faça o que quiser.

E com isto, Rocco sentou-se numa cadeira. Foi feito magnificamente. Apenas um homem verdadeiramente grande o poderia ter feito. Rocco manteve, na verdade, a sua dignidade.

Como resposta, Racksole caminhou lentamente para o vasto apartamento, pegou numa cadeira e, arrastando-a para junto da cadeira de Rocco, sentou-se em frente a ele. Assim, ficaram frente a frente, os joelhos quase a tocar-se, ambos em traje de noite. À direita de Rocco estava a cama, com o cadáver de Reginald Dimmock. À direita de Racksole, e um pouco atrás dele, estava o lavatório de mármore, ainda coberto com os instrumentos de Rocco. A luz elétrica brilhava na face esquerda de Rocco, deixando o outro lado do seu rosto na sombra. Racksole deu-lhe dois toques no joelho.

— Portanto, é mais um inglês que se faz passar por estrangeiro no meu hotel — observou Racksole, como forma de começar o interrogatório.

— Não sou — respondeu Rocco calmamente. — Sou um cidadão dos Estados Unidos.

— O diabo é! — exclamou Racksole.

— Sim, nasci em West Orange, Nova Jérsia, no Estado de Nova Iorque. Chamo-me italiano porque foi em Itália que fiz nome pela primeira vez como chefe de cozinha — em Roma. É melhor para um grande chefe como eu ser estrangeiro. Imagine um grande chefe chamado Elihu P. Rucker. Não consegue imaginar. Mudei a minha nacionalidade pela mesma razão que o meu amigo e colega Jules, ou melhor, Sr. Jackson, mudou a dele.

— Portanto, o Jules é seu amigo e colega, não é?

— Era, mas a partir deste momento já não o é. Comecei a desaprovar os seus métodos há menos de uma semana, e a minha desaprovação tomará agora uma forma ativa.

— Tomará? — disse Racksole. — Calculo que não, Sr. Elihu P. Rucker, cidadão dos Estados Unidos. Antes de ser muito mais velho, estará nas mãos da polícia e as suas atividades, independentemente da direção, chegarão a uma conclusão abrupta.

— É possível — suspirou Rocco.

— Entretanto, vou fazer-lhe uma ou duas perguntas para a minha própria satisfação privada. Reconheceu que o jogo terminou e mais vale que as responda com toda a franqueza de que se sinta capaz. Entende?

— Entendo — respondeu Rocco calmamente —, mas acho que não posso responder a todas as perguntas. Farei o que puder.

— Bem — disse Racksole, limpando a garganta —, qual é o esquema? Diga-me numa palavra.

— Não em mil palavras. Não é o meu segredo, sabe?

— Por que foi o pobre pequeno Dimmock envenenado? — A voz do milionário suavizou-se ao olhar por um instante para o cadáver do infeliz jovem.

— Não sei — disse Rocco. — Não me importo de informá-lo de que me opus a essa parte do negócio. Não fui informado até que estivesse feito e, então, digo-lhe que isso me enfureceu consideravelmente.

— Quer dizer que não sabe por que Dimmock foi morto?

— Quero dizer que não via sentido nisso. Naturalmente, ele... er... morreu, porque desistiu do esquema, tendo previamente tomado parte nele. Não me importo de dizer tanto, porque provavelmente já adivinhou por si mesmo. Mas declaro solenemente que tenho uma objeção consciente ao assassínio.

— Então, foi um assassínio?

— Foi uma espécie de assassínio — admitiu Rocco. — Quem o cometeu?

— Pergunta desleal — disse Rocco.

— Quem mais está neste precioso esquema além do Jules e de si próprio?

— Não sei, dou-lhe a minha palavra de honra.

— Bem, então, diga-me isto. O que tem estado a fazer ao corpo de Dimmock?

— Há quanto tempo esteve naquela casa de banho? — esquivou-se Rocco com uma insolência sublime.

— Não me questione, Sr. Rucker — disse Theodore Racksole. — Sinto-me muito inclinado a partir-lhe as costas sobre o meu joelho. Portanto, aconselho-o a não me irritar. O que tem estado a fazer ao corpo de Dimmock?

— Tenho estado a embalsamá-lo.

— Em... balsamá-lo.

— Certamente; o sistema de injeção de fluido arterial de Richardson, tal como melhorado por mim próprio. Não sabia que incluía a arte de embalsamar entre as minhas realizações. No entanto, é o caso.

— Mas porquê? — perguntou Racksole, mais mistificado do que nunca. — Por que se daria ao trabalho de embalsamar o cadáver do pobre rapaz?

— Não consegue ver? Não lhe ocorre? Esse cadáver tem de ser tratado. Contém, ou melhor, continha, provas muito sérias contra alguma pessoa ou pessoas desconhecidas da polícia. Pode ser necessário movê-lo de um lado para o outro. Um cadáver não pode ser escondido durante muito tempo; um cadáver trai-se a si mesmo. Não se podia atirá-lo ao Tamisa, pois teria sido encontrado no espaço de doze horas. Não se podia enterrá-lo — não era seguro. A única coisa era mantê-lo à mão e móvel, pronto para emergências. Não preciso de o informar de que, sem embalsamamento, não se pode manter um cadáver à mão e móvel durante mais de quatro ou cinco dias. É o tipo de coisa que não se conserva. E, por isso, sugeriram que eu o embalsamasse, e assim fiz. Digo-lhe, continuei a opor-me ao assassínio, mas não podia virar as costas a um colega, compreende? Compreende isso, não compreende? Bem, aqui está você, e aqui está ele, e é tudo.

Rocco recostou-se na cadeira como se tivesse dito tudo o que deveria ser dito. Fechou os olhos para indicar que, no que lhe dizia respeito, a conversa estava encerrada. Theodore Racksole levantou-se.

— Espero — disse Rocco, abrindo subitamente os olhos —, espero que chame a polícia sem demora. Está a ficar tarde e não gosto de ficar sem o meu descanso noturno.

— Onde supõe que vai conseguir o seu descanso noturno? — perguntou Racksole.

— Nas celas, naturalmente. Não lhe disse que sei quando estou derrotado? Não sou tão cego a ponto de não conseguir ver que existe, pelo menos, um caso evidente contra mim. Espero safar-me com um ou dois anos de prisão como cúmplice após o facto — creio que é assim que lhe chamam. De qualquer modo, estarei em posição de provar que não estou implicado no assassínio deste infeliz totó. — Apontou, com um gesto estranho e desdenhoso do seu cotovelo, para a cama. — E agora, vamos? Toda a gente está a dormir, mas haverá um polícia ao alcance de chamada do vigia no pórtico. Estou ao seu dispor. Vamos descer juntos, Sr. Racksole. Dou-lhe a minha palavra de que irei calmamente.

— Espere um momento — disse Theodore Racksole bruscamente; — não há pressa. Não lhe fará mal nenhum prescindir de mais uma hora de sono, especialmente porque não terá trabalho para fazer amanhã. Tenho mais uma ou duas perguntas para lhe fazer.

— Bem? — murmurou Rocco, com um ar de resignação cansada, como se dissesse: "O que tem de ser, tem de ser".

— Onde esteve o cadáver de Dimmock durante os últimos três ou quatro dias, desde que ele... morreu?

— Oh! — respondeu Rocco, aparentemente surpreendido com a simplicidade da pergunta. — Esteve no meu quarto, e uma noite esteve no telhado; uma vez saiu do hotel como bagagem, mas voltou no dia seguinte como uma caixa de açúcar de Demerara. Esqueço-me de onde mais esteve, mas foi mantido perfeitamente seguro e tratado com toda a consideração.

— E quem engendrou todas estas manobras? — perguntou Racksole tão calmamente quanto pôde.

— Eu. Isto é, eu inventei-as e certifiquei-me de que eram levadas a cabo. Sabe, as suspeitas da sua polícia obrigaram-me a ser particularmente ágil.

— E quem as executou?

— Ah! isso seria contar segredos. Mas não me importo de lhe assegurar que os meus cúmplices eram cúmplices inocentes. É absurdamente fácil para um homem como eu impor-se a subordinados — absurdamente fácil.

— O que pretendia fazer com o cadáver em última análise? — Racksole prosseguiu a sua investigação com um rosto inabalável.

— Quem sabe? — disse Rocco, torcendo o seu belo bigode. — Isso teria dependido de várias coisas — da sua polícia, por exemplo. Mas, provavelmente, no fim, teríamos devolvido este barro mortal — de novo sacudiu o cotovelo — aos parentes aflitos do homem.

— Sabe quem são os parentes?

— Certamente. Você não sabe? Se não sabe, basta-me sugerir que Dimmock tinha um Príncipe por pai.

— Parece-me — disse Racksole, com um sarcasmo frio — que se comportou de forma bastante desajeitada ao escolher este quarto como cenário das suas operações.

— De forma alguma — disse Rocco. — Não havia outro apartamento tão adequado em todo o hotel. Quem teria adivinhado que alguma coisa estava a acontecer aqui? Era o próprio lugar para mim.

— Eu adivinhei — disse Racksole sucintamente.

— Sim, você adivinhou, Sr. Racksole. Mas eu não tinha contado consigo. Você é o único homem esperto no negócio. É um cidadão americano e eu não tinha calculado ter de lidar com essa classe de pessoa.

— Aparentemente, assustei-o esta tarde?

— Nem um pouco.

— Não teve medo de uma busca?

— Sabia que não se pretendia nenhuma busca. Sabia que estava a tentar assustar-me. Deve realmente dar-me crédito por um pouco de sagacidade e discernimento, Sr. Racksole. Imediatamente quando começou a falar comigo na cozinha, esta tarde, senti que estava no meu encalço. Mas não tive medo. Apenas decidi que não havia tempo a perder — que tinha de agir rapidamente. Agi rapidamente, mas, parece, não rapidamente o suficiente. Admito que a sua rapidez excedeu a minha. Vamos descer, imploro-lhe.

Rocco levantou-se e moveu-se em direção à porta. Com uma ação instintiva, Racksole apressou-se e agarrou-o pelo ombro.

— Sem truques! — disse Racksole. — Está sob a minha custódia e não se esqueça disso.

Rocco virou para o seu patrão um olhar de desprezo gentil e digno. — Não o informei — disse ele — que tenho a intenção de ir calmamente?

Racksole sentiu-se quase envergonhado por um momento. Passou-lhe pela mente que um homem pode ser grande, mesmo no crime.

— Que tolo inefável você foi — disse Racksole, detendo-o à entrada — com os seus talentos, os seus talentos únicos, para se envolver num caso deste género. Está arruinado. E, por Júpiter! você era um grande homem no seu ramo.

— Sr. Racksole — disse Rocco muito rapidamente —, essa é a palavra mais verdadeira que disse esta noite. Fui um grande homem no meu ramo. E sou um tolo inefável. Ai de mim! — Levou os braços longos aos lados com um baque.

— Por que o fez?

— Fiquei fascinado — fascinado pelo Jules. Ele, também, é um grande homem. Tivemos grandes oportunidades, aqui no Grand Babylon. Foi um grande jogo. Valia a pena. Os prémios eram enormes. Você admitiria estas coisas se conhecesse os factos. Talvez um dia os conheça, porque é uma pessoa bastante inteligente a chegar à raiz de um assunto. Sim, eu estava cego, hipnotizado.

— E agora está arruinado.

— Não arruinado, não arruinado. Mais tarde, dentro de alguns anos, voltarei a subir. Um homem de génio como eu nunca está arruinado até estar morto. O génio é sempre perdoado. Serei perdoado. Suponha que sou enviado para a prisão. Quando sair, não serei um presidiário. Serei Rocco — o grande Rocco. E metade dos hotéis da Europa convidar-me-á para me juntar a eles.

— Deixe-me dizer-lhe, de homem para homem, que alcançou a sua própria degradação. Não há desculpa.

— Eu sei — disse Rocco. — Vamos.

Racksole estava distinta e notavelmente impressionado com este homem — com este mestre de espírito a quem deveria ter pago um salário de três mil libras por ano. Sentiu até pena dele. E assim, lado a lado, o captor e o capturado, passaram para o vasto corredor deserto do hotel.

Rocco parou junto à grelha do primeiro elevador.

— Estará trancado — disse Racksole. — Temos de usar as escadas esta noite.

— Mas eu tenho uma chave. Carrego sempre uma — disse Rocco, e tirou uma do bolso e, abrindo a grade de ferro, empurrou-a. Racksole sorriu com a sua prontidão e desenvoltura.

— Depois de si — disse Rocco, fazendo uma vénia da sua maneira mais elegante, e Racksole entrou no elevador.

Com a rapidez de um relâmpago, Rocco empurrou a grade de ferro, que se trancou automaticamente. Theodore Racksole era irremediavelmente um prisioneiro dentro do elevador, enquanto Rocco ficava livre no corredor.

— Adeus, Sr. Racksole — comentou ele suavemente, fazendo uma nova vénia, ainda mais baixa que a anterior. — Adeus: detesto tirar proveito de si desta forma vil, mas, na verdade, tem de admitir que foi muito ingénuo. É um homem inteligente, como já disse, até certo ponto. É depois desse ponto que a minha própria inteligência entra em jogo. Mais uma vez, adeus. Afinal, não terei descanso esta noite, mas talvez até isso seja melhor do que dormir numa cela policial. Se fizer muito barulho, poderá acordar alguém e, por fim, ser libertado deste elevador. Mas aconselho-o a manter a calma e a esperar até de manhã. Será mais digno. Pela terceira vez, adeus.

E com isto, Rocco, sem se apressar, caminhou pelo corredor e desapareceu da vista.

Racksole não disse uma palavra. Estava demasiado enojado consigo mesmo para falar. Cerrou os punhos, apertou os dentes e susteve a respiração. No silêncio, conseguia ouvir o som cada vez mais ténue dos passos de Rocco no tapete espesso.

Foi o maior golpe da vida de Racksole.

Na manhã seguinte, os hóspedes de linhagem nobre do Grand Babylon foram despertados pelo rumor de que, por algum acidente, o milionário proprietário do hotel tinha passado a noite trancado no elevador. Afirmou-se também que Rocco se tinha zangado com o seu novo amo e deixado o local subitamente. Uma duquesa disse que a partida de Rocco significaria a ruína do hotel, ao que o seu marido a aconselhou a não dizer disparates.

Quanto a Racksole, mandou chamar o detetive encarregue do caso Dimmock e relatou-lhe corajosamente os acontecimentos da noite anterior.

A narração foi uma verdadeira provação para um homem do temperamento de Racksole.

— Uma história estranha! — comentou o detetive Marshall, sem conseguir evitar um sorriso. — O clímax foi lamentável, mas certamente obteve alguns factos valiosos.

Racksole não disse nada.

— Eu próprio tenho uma pista — acrescentou o detetive. — Quando a sua mensagem chegou, eu estava precisamente a subir para o ver. Quero que me acompanhe a um certo local não muito longe daqui. Pode vir agora, imediatamente?

— Com prazer — disse Racksole.

Nesse momento, um paquete entrou com um telegrama. Racksole abriu-o e leu:

— Por favor, venha imediatamente. Nella. Hôtel Wellington, Ostend.

Ele olhou para o relógio.

— Não posso ir — disse ao detetive. — Vou para Ostend.

— Para Ostend?

— Sim, agora.

— Mas, na verdade, Sr. Racksole — protestou o detetive. — O meu assunto é urgente.

— O meu também — disse Racksole.

Em dez minutos, estava a caminho da Victoria Station.

Capítulo Quinze FIM DA AVENTURA DO IATE

DEVEMOS agora regressar a Nella Racksole e ao Príncipe Aribert de Posen a bordo do iate sem nome. A primeira tarefa do Príncipe foi tornar Jules, ou melhor, o Sr. Tom Jackson, perfeitamente seguro através de vários pedaços de corda. Embora o Sr. Jackson tivesse sido atordoado até ficar completamente inconsciente, e houvesse uma ferida contusa debaixo da sua orelha, ninguém podia dizer quão cedo ele poderia recuperar os sentidos e tornar-se muito violento. Assim, o Príncipe, tendo-lhe atado os braços e as pernas, prendeu-o a um pilar.

— Espero que ele não morra — disse Nella. — Ele parece muito pálido.

— Os Srs. Jacksons deste mundo — disse o Príncipe Aribert sentenciosamente — nunca morrem até serem enforcados. A propósito, pergunto-me como é que ninguém interferiu connosco. Talvez tenham um medo discreto do meu revólver — do seu revólver, quero dizer.

Tanto ele como Nella olharam para o timoneiro imperturbável, que mantinha a proa do iate apontada diretamente para o mar. A essa altura, estavam a cerca de um par de milhas da costa belga.

Dirigindo-se a ele em francês, o Príncipe ordenou ao marinheiro que mudasse o rumo do iate e voltasse para o porto de Ostend, mas o sujeito não prestou qualquer atenção à ordem. O Príncipe levantou o revólver, com a ideia de assustar o timoneiro, e então o homem começou a falar rapidamente numa mistura de francês e flamengo. Disse que tinha recebido ordens estritas de Jules para não interferir de forma alguma, não importava o que pudesse acontecer no convés do iate. Ele era o capitão do iate e tinha de seguir para um certo porto inglês, cujo nome não podia revelar: devia manter a embarcação a vapor a toda a velocidade sob quaisquer circunstâncias. Parecia ser um homem muito grande, muito forte e muito determinado, e o Príncipe não sabia que linha de ação seguir. Fez várias outras perguntas, mas o único efeito foi tornar o homem taciturno e mal-humorado.

Em vão o Príncipe Aribert explicou que a Srta. Nella Racksole, filha do milionário Racksole, tinha sido raptada pelo Sr. Tom Jackson; em vão brandiu o revólver de forma ameaçadora; o capitão, rude mas corajoso, disse apenas que isso não tinha nada a ver com ele; tinha instruções e iria cumpri-las. Pediu sarcasticamente para lembrar ao seu interlocutor que ele era o capitão do iate.

— Suponho que não sirva de nada disparar contra ele — disse o Príncipe a Nella. — Eu poderia abrir um buraco na perna dele, ou algo desse género.

— É bastante arriscado, e bastante duro para o pobre capitão, com o seu extraordinário sentido de dever — disse Nella. — E, além disso, toda a tripulação poderia virar-se contra nós. Não, temos de pensar noutra coisa.

— Pergunto-me onde estará a tripulação — disse o Príncipe.

Nesse momento, o Sr. Jackson, caído e amarrado no convés, mostrou sinais de recuperar do seu desmaio. Os seus olhos abriram-se e ele olhou em volta, vagamente. Por fim, avistou o Príncipe, que se aproximava com o revólver bem à vista.

— És tu, não és? — murmurou ele fracamente. — O que fazes a bordo? Quem me amarrou assim?

— Veja bem! — respondeu o Príncipe, — não quero ter discussões, mas este iate tem de regressar a Ostend imediatamente, onde será entregue às autoridades.

— A sério! — rosnou o Sr. Tom Jackson. — Será! — Então, gritou em francês para o homem ao leme: — Ei, André! Deixa estes dois no bote.

Era uma situação peculiar. Sem ter a certeza de nada, a não ser da posse do revólver de Nella, o Príncipe mal sabia se deveria levar a discussão mais longe, com medidas mais fortes, ou aceitar a situação com a maior dignidade que as circunstâncias permitissem.

— Vamos levar o bote — disse Nella; — podemos remar até à costa numa hora.

Ele sentiu que ela tinha razão. Deixar o iate daquela maneira parecia algo ignominioso, e certamente envolvia a fuga daquele vilão profundo, o Sr. Thomas Jackson. Mas o que mais se poderia fazer? O Príncipe e Nella constituíam um grupo na embarcação; conheciam a sua própria força, mas não conheciam a força dos seus oponentes. Mantinham o líder hostil amarrado e cativo, mas aquele homem tinha provado ser capaz de dar ordens, e mesmo amordaçá-lo não os ajudaria se o capitão do iate persistisse no seu curso obstinado. Além disso, havia uma clara objeção a tiroteios indiscriminados. O Príncipe sentia que não se sabia como um tiroteio indiscriminado poderia terminar.

— Vamos levar o bote — disse o Príncipe rapidamente, ao capitão.

Uma campainha tocou lá em baixo, e um marinheiro e o rapaz negro apareceram no convés. As pulsações da hélice tornaram-se menos rápidas. O iate parou. O bote foi baixado. Enquanto o Príncipe e Nella se preparavam para descer para a pequena embarcação, o Sr. Tom Jackson dirigiu-se a Nella, tal como estava amarrado.

— Adeus — disse ele, — voltarei a ver-te, não tenhas dúvidas.

No momento seguinte, estavam no bote, e o bote estava à deriva. A hélice do iate agitou a água, e a bela embarcação afastou-se deles. À medida que se distanciava, uma figura apareceu na popa. Era o Sr. Thomas Jackson.

Tinha sido libertado pelos seus lacaios. Segurava um lenço branco junto à orelha e ofereceu um sorriso calmo e enigmático aos dois ocupantes desolados, mas vitoriosos, do bote. Jules tinha sido derrotado uma vez na sua vida; ou talvez fosse mais justo dizer que tinha sido manobrado. Homens como Jules são incapazes de serem derrotados. Era característico da sua sorte que agora, no preciso momento em que tinha sido apanhado em flagrante num crime grave contra a sociedade, estivesse a efetuar uma fuga tranquila — uma fuga que não deixou qualquer rasto.

O mar estava completamente calmo e azul sob o sol da manhã. O bote balançava-se preguiçosamente na ondulação da partida do iate. À medida que o nevoeiro se dissipava, o contorno da costa tornava-se mais nítido, e parecia que Ostend estava a apenas um cabo de distância. A cúpula branca do grande Kursaal brilhava no céu azul-turquesa pálido, e o fumo dos vapores no porto podia ser claramente distinguido. Ao largo, havia uma multidão de barcos de pesca de velas castanhas que regressavam com a captura da noite. As carruagens de banho multicores podiam ser contadas na praia distante. Tudo parecia perfeitamente normal. Era difícil para Nella ou para o seu companheiro acreditar que algo extraordinário tinha acontecido na última hora. Contudo, lá estava o iate, a menos de uma milha, para lhes provar que algo muito extraordinário tinha, de facto, acontecido. O iate não era uma visão, nem aquela figura sinistra que os observava na popa era uma visão.

— Suponho que Jules estava demasiado surpreendido e demasiado fraco para perguntar como vim parar a bordo do seu iate — disse o Príncipe, pegando nos remos.

— Oh! Como vieste? — perguntou Nella, com o rosto a iluminar-se. — A sério, eu tinha quase esquecido essa parte do assunto.

— Tenho de começar pelo princípio e isso levará algum tempo — respondeu o Príncipe. — Não será melhor adiarmos o relato até chegarmos a terra?

— Eu remo e tu falas — disse Nella. — Quero saber agora.

Ele sorriu-lhe alegremente, mas recusou gentilmente ceder os remos.

— Não basta que eu esteja aqui? — disse ele.

— É suficiente, sim — respondeu ela, — mas eu quero saber.

Com uma remada longa e fácil, ele puxava o bote em direção à costa. Ela estava sentada na popa.

— Não há leme — observou ele, — por isso tens de me dirigir. Mantém a proa do barco apontada ao farol. A maré parece estar a subir fortemente; isso ajudar-nos-á. As pessoas em terra pensarão que apenas fomos dar um pequeno passeio matinal.

— Pode dizer-me, por favor, como aconteceu que conseguiu salvar a minha vida, Príncipe? — disse ela.

— Salvar a sua vida, Srta. Racksole? Eu não salvei a sua vida; apenas derrubei um homem.

— Salvou a minha vida — repetiu ela. — Aquele vilão não teria parado perante nada. Vi isso no seu olhar.

— Então foi uma mulher corajosa, pois não demonstrou medo da morte. — O seu olhar admirado pousou nela por completo. Por um momento, os remos pararam de se mover.

Ela fez um gesto de impaciência.

— Acontece que a vi ontem à noite na sua carruagem — disse ele. — O facto é que eu não tinha tido a audácia de ir a Berlim com a minha história. Fiquei em Ostend para ver se conseguia fazer um pouco de trabalho de detetive por minha conta.

Foi uma sorte ter-lhe visto. Segui a carruagem o mais rapidamente que pude, e apanhei apenas um vislumbre de si quando entrou naquela casa horrível. Eu sabia que Jules tinha algo a ver com aquela casa. Adivinhei o que estava a fazer. Tive medo por si. Felizmente, eu tinha examinado a casa bastante bem. Existe uma entrada nas traseiras, a partir de um beco estreito. Abri caminho até lá. Entrei no quintal das traseiras e fiquei debaixo da janela da sala onde teve a entrevista com a Srta. Spencer. Ouvi tudo o que foi dito. Foi um empreendimento corajoso da sua parte seguir a Srta. Spencer desde o Grand Babylon até Ostend. Bem, não me atrevi a forçar uma entrada, para não precipitar as coisas demasiado subitamente e envolver-nos a ambos numa dificuldade. Apenas fiquei de vigia. Ah, Srta. Racksole! Foi magnífica com a Srta. Spencer; como disse, pude ouvir cada palavra, pois a janela estava ligeiramente aberta. Senti que não precisava de assistência da minha parte. E depois ela enganou-a com um truque, e o revólver veio disparado pela janela. Apanhei-o, pensei que provavelmente seria útil. Houve um silêncio. Não adivinhei logo que tinha desmaiado. Pensei que tivesse escapado. Quando descobri a verdade, era tarde demais para intervir. Havia dois homens, ambos desesperados, além da Srta. Spencer...

— Quem era o outro homem? — perguntou Nella.

— Não sei. Estava escuro. Eles levaram-na para o porto. Voltei a segui-los. Vi-os transportá-la para bordo. Antes de o iate levantar âncora, consegui trepar sem ser notado para o bote. Deitei-me de comprimento nele, e ninguém suspeitou que eu estava lá. Acho que já sabe o resto.

— O iate estava pronto para o mar?

— O iate estava pronto para o mar. O tal capitão estava na ponte, e o vapor estava ligado.

— Então estavam à minha espera! Como pode ser isso?

— Estavam à espera de alguém. Não penso que estivessem à espera de si.

— O segundo homem subiu a bordo?

— Ele ajudou a transportá-la pela prancha, mas voltou depois para a carruagem. Era o cocheiro.

— E ninguém mais viu o negócio?

— O cais estava deserto. Sabe, o último vapor tinha chegado para a noite.

Houve um breve silêncio, e depois Nella exclamou, em voz baixa:

— Verdadeiramente, é um mundo maravilhoso!

E era um mundo maravilhoso para eles, embora dificilmente, talvez, no sentido que Nella Racksole pretendia. Tinham acabado de sair de uma experiência altamente desconcertante. Entre outros pequenos inconvenientes, não tinham tomado o pequeno-almoço. Estavam no mar, num barco minúsculo. Nenhum dos dois sabia o que o dia poderia trazer. O homem, pelo menos, tinha as mais sérias ansiedades pela segurança do seu sobrinho Real. E contudo — e contudo — nenhum deles desejava que aquela viagem do pequeno barco na maré de verão chegasse ao fim. Cada um, talvez inconscientemente, tinha um vago desejo de que pudesse durar para sempre, ele a remar preguiçosamente, ela a dirigir o seu curso a intervalos com um movimento da sua cabeça distraidamente bonita. Como explicar esta condição de coisas? Bem, eram ambos jovens; ambos tinham uma saúde soberba, e todo o ardor da juventude; e — estavam juntos.

O barco era muito pequeno, de facto; o rosto dela estava quase a um metro do dele. Ela, aos olhos dele, rodeada pelo glamour da beleza e de uma riqueza vasta; ele, aos olhos dela, rodeado pelo glamour da intrepidez masculina e pelo brilho de um trono.

Mas todas as viagens chegam ao fim, quer na costa ou no fundo do mar, e, finalmente, o bote passou entre os molhes de pedra do porto. O Príncipe remou até aos degraus mais próximos, amarrou o barco, e eles desembarcaram. Eram seis horas da manhã, e um dia de sol magnífico tinha começado. Poucas pessoas estavam por perto àquela hora matinal.

— E agora, o que se segue? — disse o Príncipe. — Tenho de a levar a um hotel.

— Estou nas suas mãos — aquiesceu ela, com um sorriso que fez o sangue correr pelas veias dele. Ele percebeu agora que ela estava cansada e vencida, sofrendo de uma reação súbita e natural.

No Hôtel Wellington, o Príncipe disse ao porteiro sonolento que tinham vindo no comboio matinal de Bruges e que queriam o pequeno-almoço imediatamente. Era absurdamente cedo, mas uma libra inglesa comum faz maravilhas em qualquer hotel belga, e em muito pouco tempo Nella e o Príncipe estavam a tomar o pequeno-almoço na varanda do hotel com chocolate que tinha sido especial e apressadamente preparado para eles.

— Nunca provei um chocolate tão excelente — afirmou o Príncipe.

A afirmação era loucamente falsa, pois o Hôtel Wellington não é famoso pelo seu chocolate. No entanto, Nella respondeu entusiasticamente: — Nem eu.

Depois houve um silêncio, e Nella, sentindo possivelmente que tinha sido demasiado extasiada, comentou num tom muito prático: — Tenho de enviar um telegrama ao Papá imediatamente.

Foi assim que Theodore Racksole recebeu o telegrama que o afastou do detetive Marshall.

Capítulo Dezasseis A MULHER COM O CHAPÉU VERMELHO

— HÁ uma coisa, Príncipe, que temos de resolver imediatamente — disse Theodore Racksole.

Estavam os três sentados — Racksole, a sua filha e o Príncipe Aribert — à volta de uma mesa de jantar num quarto privado do Hôtel Wellington. Racksole tinha chegado devidamente no barco da tarde, e tinha sido recebido no cais pelos outros dois. Tinham jantado cedo, e Racksole tinha ouvido a história completa das aventuras por mar e por terra de Nella e do Príncipe. Quanto à sua própria aventura da noite anterior, disse muito pouco, explicando apenas, com o mínimo de detalhes possível, que o corpo de Dimmock tinha aparecido.

— O que é isso? — perguntou o Príncipe, em resposta à observação de Racksole.

— Temos de decidir se diremos à polícia imediatamente tudo o que ocorreu, ou se procederemos por nossa própria responsabilidade. Não pode haver dúvidas sobre qual o caminho que devemos seguir. Toda a consideração de prudência aponta para a conveniência de tomar a polícia na nossa confiança, e deixar o assunto inteiramente nas suas mãos.

— Oh, Papá! — Nella explodiu no seu jeito manhoso e impulsivo. — Seguramente não pode pensar em tal coisa. Ora, a diversão mal começou.

— Chama diversão à noite passada? — questionou Racksole, olhando para ela solenemente.

— Sim, chamo — disse ela prontamente. — Agora.

— Bem, eu não chamo — foi a resposta lacónica do milionário; mas talvez estivesse a pensar na sua própria situação no elevador.

— Não acha que poderíamos investigar um pouco mais — disse o Príncipe judiciosamente, enquanto partia uma noz, — apenas um pouco mais — e então, se falharmos em alcançar algo, ainda haveria ampla oportunidade para consultar a polícia?

— Como sugere que deveríamos começar? — perguntou Racksole.

— Bem, existe a casa que a Srta. Racksole entrou tão intrepidamente na noite passada — ele deu-lhe a homenagem de um olhar admirado; — você e eu, Sr. Racksole, poderíamos examinar essa morada em detalhe.

— Esta noite?

— Certamente. Poderíamos fazer algo.

— Poderíamos fazer demasiado.

— Por exemplo?

— Poderíamos disparar contra alguém, ou sermos confundidos com ladrões. Se ultrapassássemos a lei, não seria desculpa para nós que estivéssemos a agir por uma causa nobre.

— Verdade — disse o Príncipe. — Contudo... — Ele parou.

— Contudo, tem um desdém por envolver a polícia no negócio. Quer a caça toda para si. Está em chamas com o ardor da perseguição. Não é isso? Aceite o conselho de um homem mais velho, Príncipe, e durma sobre este assunto. Tenho pouco gosto por escapadelas noturnas duas noites seguidas. Quanto a si, Nella, vá para a cama. O Príncipe e eu teremos uma conversa sobre os fluidos que se podem obter neste buraco.

— Papá — disse ela, — estás perfeitamente horrível esta noite.

— Talvez esteja — disse ele. — Decididamente estou muito zangado contigo por vires para aqui toda sozinha. Foi monstruoso. Se eu não calhasse ser o mais tolo dos pais... — Pronto! Boa noite. São nove horas. O Príncipe, tenho a certeza, irá desculpar-te.

Se Nella não estivesse realmente muito cansada, o Príncipe Aribert poderia ter sido testemunha de um conflito bem-humorado, mas teimoso, entre o milionário e a sua descendente espirituosa. Como foi, Nella partiu com uma docilidade surpreendente, e os dois homens foram deixados sozinhos.

— Agora — disse Racksole subitamente, mudando o seu tom, — imagino que, afinal, sou o homem certo para uma pequena investigação amadora esta noite. E, se tenho de dizer a verdade exata, penso que dormir sobre este assunto seria a pior coisa que poderíamos fazer. Mas eu estava ansioso por manter a Nella fora de perigo, pelo menos até amanhã. Ela é uma criatura muito difícil de gerir, Príncipe, e posso avisá-lo — riu-se ele sombriamente, — que se conseguirmos fazer alguma coisa esta noite, apanharemos uma reprimenda de Sua Senhoria pela manhã. Está pronto para correr esse risco?

— Estou — o Príncipe sorriu. — Mas a Srta. Racksole é uma jovem senhora de nervos bastante notáveis.

— Ela é — disse Racksole secamente. — Às vezes, gostaria que tivesse menos.

— Tenho a maior admiração pela Srta. Racksole — disse o Príncipe, e olhou para o pai da Srta. Racksole diretamente nos olhos.

— Honra-nos, Príncipe — observou Racksole. — Vamos aos negócios. Estou certo ao assumir que o senhor tem um motivo para manter a polícia fora deste assunto, caso seja possível fazê-lo?

— Sim — disse o Príncipe, e a sua testa anuviou-se. — Receio muito que o meu pobre sobrinho se tenha envolvido num sarilho que não gostaria que fosse divulgado.

— Então não acredita que ele seja vítima de algo sujo?

— Não acredito.

— E o motivo, se me permite perguntar?

— Sr. Racksole, falamos em confiança... não é assim? Há alguns anos, o meu tolo sobrinho teve um caso... um caso com uma estrela feminina do palco de Berlim. Pelo que sei, a senhora pode ter sido o próprio modelo do seu sexo, mas quando um Príncipe reinante está envolvido, o escândalo não pode ser evitado em tal assunto. Pensei que o caso estivesse terminado, uma vez que o noivado do meu sobrinho com a Princesa Anna de Eckstein-Schwartzburg será anunciado em breve. Mas ontem vi a senhora a que me referi a conduzir no Digue. A coincidência da sua presença aqui com o desaparecimento do meu sobrinho é demasiado extraordinária para ser ignorada.

— Mas como é que esta teoria se coaduna com o assassínio de Reginald Dimmock?

— Não se coaduna. A minha ideia é que o assassínio do pobre Dimmock e o desaparecimento do meu sobrinho não têm qualquer ligação... a menos que, de facto, esta atriz de Berlim esteja a jogar a favor dos assassinos. Não tinha pensado nisso.

— Então, o que propõe fazer esta noite?

— Proponho entrar na casa em que a Srta. Racksole entrou ontem à noite e descobrir algo concreto.

— Concordo — disse Racksole. — Terei todo o gosto em fazê-lo. Mas deixe-me dizer-lhe, Príncipe, e perdoe-me a franqueza, a sua suposição está incorreta. Apostaria cem mil dólares em como o Príncipe Eugen foi raptado.

— Que provas tem para ter tanta certeza?

— Ah! — disse Racksole, — essa é uma longa história. Deixe-me começar por lhe perguntar isto.

O senhor tem conhecimento de que o seu sobrinho, o Príncipe Eugen, deve um milhão de dinheiro?

— Um milhão de dinheiro! — exclamou o Príncipe Aribert, espantado. — É impossível!

— No entanto, deve — disse Racksole calmamente. Depois, contou-lhe tudo o que tinha aprendido com o Sr. Sampson Levi.

— O que tem a dizer sobre isso? — terminou Racksole. O Príncipe Aribert não respondeu.

— O que tem a dizer sobre isso? — insistiu Racksole.

— Apenas que Eugen está arruinado, mesmo que esteja vivo.

— De modo nenhum — respondeu Racksole com jovialidade. — De modo nenhum. Já veremos isso. A coisa específica que quero saber agora da sua parte é esta:

Já alguma vez foi feito algum pedido anterior pela mão da Princesa Anna?

— Sim. No ano passado. O Rei da Bósnia pediu-a, mas a sua proposta foi recusada.

— Porquê?

— Porque o meu sobrinho foi considerado um pretendente mais adequado para ela.

— Não porque o caráter pessoal de Sua Majestade da Bósnia seja pouco brilhante?

— Não. Infelizmente, é geralmente impossível considerar questões de caráter pessoal quando se trata de um casamento real.

— Então, se por qualquer motivo o casamento da Princesa Anna com o seu sobrinho fosse frustrado, o Rei da Bósnia teria uma oportunidade justa nesse aspeto?

— Teria. O aspeto político das coisas seria perfeitamente satisfatório.

— Obrigado! — disse Racksole. — Apostarei mais cem mil dólares em como alguém na Bósnia — não acuso o próprio Rei — está por trás deste negócio. Os métodos dos políticos dos Balcãs foram sempre meio orientais. Vamos.

— Para onde?

— Para esta preciosa casa da aventura da Nella.

— Mas certamente é demasiado cedo?

— É verdade — disse Racksole, — e também precisaremos de algumas coisas. Por exemplo, uma lanterna surda. Acho que vou sair para procurar uma lanterna.

— E um revólver? — sugeriu o Príncipe Aribert.

— Significa usar revólveres? — O milionário riu-se. — Pode chegar a esse ponto. — Aqui está, então, meu amigo — disse Racksole, e tirou um do bolso traseiro das calças. — E o seu?

— Eu — disse o Príncipe — tenho o da sua filha.

— Que raio, tem mesmo! — murmurou Racksole para si mesmo.

Eram então nove e meia. Decidiram que seria pouco político começar as suas operações antes da meia-noite. Tinham três horas de sobra.

— Vamos ver o jogo — sugeriu Racksole. — Podemos encontrar a senhora de Berlim.

A sugestão, em primeira instância, não foi feita a sério, mas pareceu a ambos os homens que poderiam fazer pior do que passar o tempo intermédio no magnífico salão do Kursaal, onde, na época, se ganha e se perde tanto dinheiro como em Monte Carlo. Eram dez horas certas quando entraram nas salas. Havia uma grande companhia presente — uma companhia que incluía algumas das pessoas mais notórias da Europa. Nessa vasta assembleia, todos eram iguais. A luz elétrica brilhava fria e imparcialmente sobre os justos e os injustos, sobre o tolo e o velhaco, sobre o europeu e o asiático. Como de costume, as mulheres monopolizavam os melhores lugares nas mesas.

A cena era suficientemente familiar para o Príncipe Aribert, que a tinha testemunhado frequentemente no Mónaco, mas Theodore Racksole nunca tinha entrado num palácio de jogo europeu; ele tinha apenas a ideia mais vaga das regras do jogo, e ficou imediatamente interessado. Durante algum tempo, observaram o jogo na mesa que estava mais próxima deles. Racksole nunca moveu os lábios.

Com os olhos colados na mesa e os ouvidos atentos a cada comentário dos jogadores e do crupiê, teve a sua primeira lição de roleta. Viu um simples jovem ganhar quinze mil francos, que foram roubados da maneira mais descarada por uma rapariga pintada, pouco mais velha que o jovem; viu dois velhos jogadores apostar as suas moedas, perder e sair calmamente do local; viu o banco ganhar cinquenta mil francos numa única jogada.

— Isto é bastante divertido — disse a dada altura, — mas as apostas são demasiado pequenas para ser realmente emocionante. Vou tentar a minha sorte, apenas pela experiência. Estou destinado a ganhar.

— Porquê? — perguntou o Príncipe.

— Porque ganho sempre, em jogos de azar — respondeu Racksole com alegre confiança. — É o meu destino. Depois, esta noite, deve lembrar-se, serei um principiante, e sabe a sorte do principiante.

Em dez minutos, o crupiê daquela mesa foi obrigado a suspender as operações enquanto aguardava a chegada de um novo fornecimento de dinheiro.

— O que eu lhe disse? — disse Racksole, abrindo caminho para outra mesa mais adiante na sala. Cem olhares curiosos seguiram-no. Uma velha, cujos trajes alegres sugeriam uma falsa juventude, implorou-lhe em francês que apostasse uma moeda de cinco francos por ela. Ofereceu-lhe a moeda. Ele aceitou-a e deu-lhe em troca uma nota de cem francos. Ela agarrou o papel estaladiço e, com uma pressa histérica, correu de volta para a sua mesa.

Na segunda mesa, havia um considerável ar de excitação. Na linha da frente dos jogadores estava uma mulher com um vestido de noite decotado de seda preta e um grande chapéu vermelho. A sua idade parecia ser de cerca de vinte e oito anos; tinha olhos escuros, lábios carnudos e um nariz distintamente judaico. Era bonita, mas a sua beleza era daquela ordem proibida e sinistra que é frequentemente chamada de junonesca. Esta mulher era o centro das atenções. As pessoas diziam umas às outras que ela tinha ganho cento e sessenta mil francos naquele dia na mesa.

— Tinha razão — sussurrou o Príncipe Aribert a Theodore Racksole; — aquela é a senhora de Berlim.

— Que raio, é ela! Ela viu-o? Irá reconhecê-lo?

— Provavelmente reconhecer-me-ia, mas ainda não olhou para cima.

— Mantenha-se atrás dela, então. Proponho arranjar-lhe um pouco de ocupação. Graças a uma diplomacia cuidadosamente exercida, Racksole manobrou-se para um lugar em frente à senhora do chapéu vermelho. A fama do seu sucesso na outra mesa tinha-o seguido, e as pessoas consideravam-no um jogador sério e formidável. Na primeira jogada, a senhora colocou mil francos no zero duplo; Racksole colocou cem no número dezanove e mil nos números ímpares.

O dezanove ganhou. Racksole recebeu quatro mil e quatrocentos francos. Nove vezes seguidas, Racksole apostou no número dezanove e nos números ímpares; nove vezes a senhora apostou no zero duplo. Nove vezes Racksole ganhou e a senhora perdeu. Os outros jogadores, percebendo que o assunto se tinha transformado num duelo, afastaram-se na sua maioria e observaram os dois. O Príncipe Aribert nunca se moveu da sua posição atrás do grande chapéu vermelho. O jogo continuou. Racksole perdeu ninharias de vez em quando, mas noventa e nove centésimos da sorte estavam com ele. Como observou um espectador inglês à mesa, "ele não conseguia errar". Quando soou a meia-noite, a senhora do chapéu vermelho estava reduzida a mil francos. Depois, entrou numa fase vitoriosa durante meia hora, mas à uma da manhã os seus recursos estavam esgotados. Dos cento e sessenta mil francos que se dizia que ela tinha tido no início da noite, Racksole detinha cerca de noventa mil, e o banco tinha o resto.

Foi uma calamidade para a Juno do chapéu vermelho. Ela saltou, bateu com o pé e saiu apressadamente da sala. A uma distância discreta, Racksole e o Príncipe perseguiram-na.

— Poderia ser bom verificar os seus movimentos — disse Racksole.

Lá fora, no brilho dos grandes candeeiros de arco e ao som da rebentação que bate sempre aos pés do Kursaal, a Juno do chapéu vermelho chamou um fiacre e partiu rapidamente. Racksole e o Príncipe apanharam uma carruagem aberta e começaram a persegui-la. Não tinham, contudo, percorrido mais de oitocentos metros quando o Príncipe Aribert parou a carruagem e, pedindo a Racksole que saísse, pagou ao cocheiro e dispensou-o.

— Sinto-me certo de que sei para onde ela vai — explicou ele, — e será melhor seguirmos a pé.

— Quer dizer que ela se dirige ao local do caso da noite passada? — disse Racksole.

— Exatamente. Vamos... como se diz, matar dois coelhos com uma cajadada só.

O palpite do Príncipe Aribert estava correto. A carruagem da senhora parou em frente à casa onde Nella Racksole e a Srta. Spencer tinham tido a sua entrevista na noite anterior, e a senhora desapareceu dentro do edifício exatamente quando os dois homens apareciam no final da rua. Em vez de prosseguir ao longo da rua, o Príncipe conduziu Racksole para o beco que dava para as traseiras das casas, e contou as casas à medida que subiam o beco. Em poucos minutos, tinham trepado de forma clandestina um muro e arrastado-se, com infinita cautela, por um longo e estreito pedaço de terra — meio jardim, meio pátio pavimentado, até se agacharem debaixo de uma janela — uma janela que estava protegida por cortinas, mas que tinha sido deixada aberta um pouco.

— Ouça — disse o Príncipe no seu sussurro mais leve, — estão a falar.

— Quem?

— A senhora de Berlim e a Srta. Spencer. Tenho a certeza de que é a voz da Srta. Spencer.

Racksole empurrou corajosamente a janela francesa um pouco mais para o lado e encostou o ouvido à abertura, através da qual vinha um feixe de luz amarela.

— Tome o meu lugar — sussurrou ele ao Príncipe, — elas estão a falar alemão. O senhor entenderá melhor.

Silenciosamente, trocaram de lugar debaixo da janela, e o Príncipe ouviu atentamente.

— Então recusa-se? — dizia a visitante da Srta. Spencer.

Não houve resposta da Srta. Spencer.

— Nem mil francos? Digo-lhe que perdi os vinte e cinco mil inteiros.

Novamente, nenhuma resposta.

— Então contarei a história toda — continuou a senhora, num impulso zangado de palavras. — Fiz o que prometi fazer. Atraí-o para aqui, e vocês têm-no em segurança na vossa cave vil, pobre homenzinho, e não me dão uns míseros mil francos.

— Já recebeu o seu preço. — As palavras foram da Srta. Spencer. Caíram frias e calmas no ar da noite.

— Quero mais mil.

— Não os tenho.

— Então veremos.

O Príncipe Aribert ouviu um farfalhar de saias a fugir; depois outro movimento — uma porta bateu, e o feixe de luz através da abertura da janela desapareceu subitamente. Ele empurrou a janela escancarada. A sala estava na escuridão e aparentemente vazia.

— Agora, a sua lanterna — disse ele ansiosamente a Theodore Racksole, depois de lhe ter traduzido a conversa das duas mulheres. Racksole tirou a lanterna surda do bolso espaçoso do seu sobretudo e acendeu-a. O raio brilhou no chão.

— O que é isto? — exclamou o Príncipe Aribert com um grito rápido, apontando para o chão. A lanterna projetou a sua luz sobre uma grade perpendicular aos seus pés, através da qual se podia discernir uma cave. Ambos se ajoelharam e espreitaram para a câmara subterrânea. Numa cadeira partida, um jovem sentava-se apaticamente com os olhos fechados, a cabeça pendida pesadamente sobre o peito.

Na luz fraca da lanterna, ele tinha a aparência lívida e cadavérica de um cadáver.

— Quem poderá ser? — disse Racksole.

— É Eugen — foi a resposta baixa do Príncipe.

Capítulo Dezassete A LIBERTAÇÃO DO PRÍNCIPE EUGEN

— EUGEN — chamou o Príncipe Aribert suavemente. Ao som do seu próprio nome, o jovem na cave levantou debilmente a cabeça e olhou para a grade que o separava dos seus dois salvadores. Mas as suas feições não mostraram reconhecimento. Olhou de uma forma sem rumo, vaga e tola durante alguns segundos, os seus olhos a piscar sob o brilho da lanterna, e depois a sua cabeça voltou a cair lentamente sobre o peito. Estava vestido com um fato de viagem de tweed escuro, e Racksole observou que uma manga — a esquerda — estava rasgada na parte superior do punho, e que havia manchas de sujidade no ombro esquerdo. Um colarinho de linho sujo, que tinha perdido todo o engome e estava meio desabotoado, circundava parcialmente o pescoço do cativo; as suas botas castanhas estavam desatadas; um boné, um lenço, uma parte de uma corrente de relógio e algumas moedas de ouro jaziam no chão. Racksole passou a luz da lanterna pelos cantos da cave, mas não conseguiu descobrir qualquer outra mobília exceto a cadeira em que o Príncipe Hereditário de Posen se sentava e uma pequena mesa de pinho onde estavam um prato e uma chávena.

— Eugen — gritou o Príncipe Aribert mais uma vez, mas desta vez o seu sobrinho desamparado não fez qualquer resposta, e então Aribert acrescentou em voz baixa para Racksole: — Talvez ele não nos consiga ver claramente.

— Mas certamente deve reconhecer a sua voz — disse Racksole, num tom duro e sombrio. Houve uma pausa, e os dois homens acima do solo olharam um para o outro hesitantes. Cada um sabia que tinham de entrar naquela cave e tirar o Príncipe Eugen de lá, e cada um estava, de alguma forma, com medo de dar o passo seguinte.

— Graças a Deus que ele não está morto! — disse Aribert.

— Ele pode estar pior que morto! — respondeu Racksole.

— Pior que... O que quer dizer?

— Quero dizer... ele pode estar louco.

— Vamos — quase gritou Aribert, com um súbito acesso de energia — um impulso selvagem de ação. E, agarrando a lanterna de Racksole, correu para a sala escura onde tinham ouvido a conversa da Srta. Spencer e da senhora do chapéu vermelho. Por um momento, Racksole não se moveu do limiar da janela. — Vamos — repetiu o Príncipe Aribert, e havia um comando imperioso na sua voz. — Do que tem medo?

— Não sei — disse Racksole, sentindo-se estúpido e estranho; — não sei.

Depois, marchou pesadamente atrás do Príncipe Aribert para a sala. Sobre a lareira estavam duas velas que tinham sido apagadas e, de uma forma mecânica e irrefletida, Racksole acendeu-as, e os dois homens olharam em redor da sala. Não apresentava características peculiares: era apenas uma sala comum, bastante pequena, bastante pobre, bastante gasta, com um papel de parede feio e quadros feios em molduras feias. Atirado sobre uma cadeira estava um casaco de smoking de um homem. A porta estava fechada. O Príncipe Aribert rodou o puxador, mas não conseguiu abri-la.

— Está trancada — disse ele. — Evidentemente, sabem que estamos aqui.

— Disparate — disse Racksole bruscamente; — como podem saber? E, agarrando o puxador, sacudiu violentamente a porta, e ela abriu-se. — Disse-lhe que não estava trancada — acrescentou ele, e este pequeno sucesso de abrir a porta pareceu estabilizar o homem. Foi um efeito psicológico curioso, este terror (pois equivalia a isso) de dois homens corajosos e adultos pela simples aparição de uma criatura indefesa numa cave. Gradualmente, ambos recuperaram. No momento seguinte, estavam no corredor que levava à porta da frente da casa. A porta da frente estava aberta. Olharam para a rua, para cima e para baixo, mas não se via uma alma. A rua, iluminada apenas por três candeeiros a gás, parecia estranhamente sinistra e misteriosa.

— Ela foi-se, isso é claro — disse Racksole, referindo-se à mulher do chapéu vermelho.

— E a Srta. Spencer atrás dela, acha? — perguntou Aribert.

— Não. Ela ficaria. Nunca se atreveria a ir embora. Vamos encontrar os degraus da cave.

Os degraus da cave foram felizmente fáceis de descobrir, pois ao recuar um passo, o Príncipe Aribert quase se precipitou até ao fundo deles. A lanterna mostrou que tinham sido construídos numa curva.

Silenciosamente, Racksole retomou a posse da lanterna e foi primeiro, com o Príncipe logo atrás dele. No fundo, havia um curto corredor, e neste corredor agachava-se a figura de uma mulher. Os seus olhos refletiram os raios da lanterna, brilhando como os de um gato à meia-noite. Depois, à medida que os homens se aproximavam, viram que era a Srta. Spencer que bloqueava o seu caminho. Ela parecia estar meio ajoelhada no chão de pedra e, numa mão, segurava o que a princípio parecia ser um punhal, mas que provou não ser nada mais romântico do que uma faca de pão bastante comprida.

— Eu ouvi-vos, eu ouvi-vos — exclamou ela. — Voltem para trás; não podem vir aqui.

Havia um olhar desesperado e perigoso no seu rosto, e a sua forma tremia com uma energia apaixonada mal contida.

— Agora veja lá, Srta. Spencer — disse Racksole calmamente, — acho que já tivemos o suficiente desta palhaçada. É melhor levantar-se e ir-se embora, ou teremos de a arrastar.

Ele aproximou-se dela calmamente, com a lanterna na mão. Sem mais uma palavra, ela cravou a faca no braço dele, e a lanterna caiu apagada. Racksole deu um grito, mais de surpresa irritada do que de dor, e recuou alguns passos. Na escuridão, ainda podiam perceber o brilho dos seus olhos.

— Disse-vos que não podiam vir aqui — disse a mulher. — Agora voltem para trás.

Racksole riu-se positivamente. Foi um riso estranho, mas riu-se, e não pôde evitar. A ideia desta mulher, esta empregada de escritório, impedir o seu progresso e o do Príncipe Aribert por meio de uma faca de pão despertou o seu sentido de humor. Acendeu um fósforo, reacendeu a vela e enfrentou a Srta. Spencer mais uma vez.

— Farei isso outra vez — disse ela, com um tom de dura determinação.

— Oh, não, não fará, minha rapariga — disse Racksole; e puxou o seu revólver, engatilhou-o e levantou a mão.

— Baixe esse seu brinquedo — disse ele firmemente.

— Não — respondeu ela.

— Vou disparar.

Ela apertou os lábios.

— Vou disparar — repetiu ele. — Um... dois... três.

Bang, bang! Tinha disparado duas vezes, falhando-lhe propositadamente. A Srta. Spencer nunca empalideceu. Racksole ficou tremendamente surpreendido — e teria ficado mil vezes mais surpreendido se pudesse ter contrastado o seu comportamento agora com o seu terror abjeto na noite anterior, quando Nella a tinha ameaçado.

— Tem um pouco de coragem — disse ele, — mas isso não a ajudará. Porque não nos deixa passar?

Na verdade, coragem era exatamente o que ela não tinha; ela tinha apenas subordinado um terror a outro. Estava desesperadamente com medo do revólver de Racksole, mas estava muito mais com medo de outra coisa.

— Porque não nos deixa passar?

— Não me atrevo — disse ela, com um tremor plangente; — o Tom deixou-me encarregue.

Foi tudo. Os homens puderam ver lágrimas a escorrer pelo seu rosto pobre e enrugado.

Theodore Racksole começou a tirar o seu sobretudo leve.

— Vejo que tenho de tirar o casaco para si — disse ele, e quase sorriu. Depois, com um movimento rápido, atirou o casaco sobre a cabeça da Srta. Spencer e atacou-a, agarrando ambos os braços, enquanto o Príncipe Aribert ajudava.

As suas lutas cessaram — ela estava derrotada.

— Tudo bem — disse Racksole: — nunca poderia ter usado aquele revólver — para falar a sério, claro.

Carregaram-na, sem resistência, escada acima até ao piso superior, onde a trancaram num quarto. Ela deitou-se na cama como se estivesse exausta.

— Agora, pelo meu pobre Eugen — disse o Príncipe Aribert.

— Não acha que seria melhor revistarmos a casa primeiro? — sugeriu Racksole. — Será mais seguro sabermos exatamente em que terreno pisamos. Não nos podemos dar ao luxo de emboscadas ou coisas do género, sabe.

O Príncipe concordou, e revistaram a casa de cima a baixo, mas não encontraram ninguém. Então, tendo trancado a porta da frente e a porta de sacada da sala de estar, dirigiram-se novamente à cave.

Aqui, um novo obstáculo confrontou-os. A porta da cave estava, naturalmente, trancada; não havia sinal de chave e parecia ser uma porta pesada. Foram obrigados a regressar ao quarto onde a Srta. Spencer estava encarcerada, a fim de lhe exigir a chave da cave. Ela ainda estava deitada sem se mexer na cama.

— O Tom tem-na — respondeu ela, debilmente, à pergunta deles. — O Tom tem-na, juro-lhes. Ele tirou-a por segurança.

— Então como alimenta o seu prisioneiro? — perguntou Racksole, bruscamente.

— Através da grade — respondeu ela.

Ambos os homens estremeceram. Sentiram que ela estava a dizer a verdade. Pela terceira vez, foram até à porta da cave. Em vão, Racksole atirou-se contra ela; não conseguiu fazer mais do que abalá-la.

— Vamos tentar os dois ao mesmo tempo — disse o Príncipe Aribert. — Agora! — Ouviu-se um estalo.

— Outra vez — disse o Príncipe Aribert. Ouviu-se outro estalo e, então, a dobradiça superior cedeu. O resto foi fácil. Sobre os destroços da porta, entraram na prisão do Príncipe Eugen.

O cativo continuava sentado na sua cadeira. O barulho terrível e a agitação de arrombar a porta pareciam não o ter despertado da sua letargia, mas quando o Príncipe Aribert lhe falou em alemão, ele olhou para o seu tio.

— Não quer vir connosco, Eugen? — disse o Príncipe Aribert. — Já não precisa de ficar aqui, sabe.

— Deixem-me em paz — foi a estranha resposta. — Deixem-me em paz. O que é que querem?

— Estamos aqui para o tirar deste sarilho — disse Aribert, gentilmente. Racksole manteve-se afastado.

— Quem é aquele sujeito? — disse Eugen, rispidamente.

— Esse é o meu amigo, o Sr. Racksole, um inglês — ou melhor, deveria dizer, um americano — a quem devemos muito. Venha jantar, Eugen.

— Não vou — respondeu Eugen, obstinadamente. — Estou aqui à espera dela. Não pensaram que alguém me tivesse mantido aqui, pois não, contra a minha vontade? Digo-vos que estou à espera dela. Ela disse que viria.

— Quem é ela? — perguntou Aribert, alinhando na vontade dele.

— Ela! Ora, você sabe! Esqueci-me, claro, você não sabe. Não deve perguntar. Não seja curioso, tio Aribert. Ela estava a usar um chapéu vermelho.

— Vou levá-lo até ela, meu caro Eugen. — O Príncipe Aribert pousou as mãos no ombro do outro, mas Eugen sacudiu-o violentamente, pôs-se de pé e, logo a seguir, sentou-se novamente.

Aribert olhou para Racksole, e ambos olharam para o Príncipe Eugen. O rosto deste último estava afogueado, e Racksole observou que a pupila esquerda estava mais dilatada do que a direita. O homem começou a balbuciar fragmentos estranhos e soltos de frases, ora resmungando, ora choramingando.

— Ele perdeu o juízo — sussurrou Racksole em inglês.

— Psiu! — disse o Príncipe Aribert. — Ele entende inglês. — Mas o Príncipe Eugen não prestou atenção ao breve colóquio.

— É melhor levá-lo lá para cima, de alguma forma — disse Racksole.

— Sim — assentiu Aribert. — Eugen, a senhora do chapéu vermelho, a senhora por quem está à espera, está lá em cima. Ela enviou-nos cá abaixo para lhe pedir que suba. Não quer vir?

— Himmel! — exclamou o pobre rapaz, com uma espécie de fraqueza irritada. — Porque não disseram isto antes?

Ergueu-se, cambaleou em direção a Aribert e caiu de bruços no chão. Tinha desmaiado. Os dois homens levantaram-no, carregaram-no pelos degraus de pedra e deitaram-no com infinito cuidado num sofá. Ele jazia ali, respirando estranhamente pelas narinas, com os olhos fechados e os dedos contraídos; de vez em quando, uma convulsão percorria o seu corpo.

— Um de nós tem de ir buscar um médico — disse o Príncipe Aribert.

— Eu irei — disse Racksole. Nesse momento, ouviu-se uma batida rápida e seca na porta de sacada, e tanto Racksole como o Príncipe olharam em volta, sobressaltados. O rosto de uma rapariga estava pressionado contra o grande vidro da janela. Era o de Nella.

Racksole destravou o fecho e ela entrou.

— Encontrei-vos — disse ela, levemente. — Podiam ter-me dito. Não conseguia dormir. Perguntei ao pessoal do hotel se se tinham retirado e disseram que não; por isso, escapei-me. Adivinhei onde estavam. — Racksole interrompeu-a com uma pergunta sobre o que ela queria dizer com aquela escapadela, mas ela travou-o com um gesto descuidado. — O que é isto? — Apontou para a forma sobre o sofá.

— Esse é o meu sobrinho, o Príncipe Eugen — disse Aribert.

— Ferido? — perguntou ela, friamente. — Espero que não.

— Ele está doente — disse Racksole —, o seu cérebro está afetado.

Nella começou a examinar o Príncipe inconsciente com os movimentos especializados de uma rapariga que tinha passado pelo melhor curso hospitalar que se podia obter em Nova Iorque.

— Ele tem febre cerebral — disse ela. — É apenas isso, mas será o suficiente. Sabem se há alguma cama nesta casa extraordinária?

Capítulo Dezoito NA NOITE

— Ele não deve, sob pretexto algum, ser movido — disse o médico belga, um homem baixo e moreno, cujos olhos pareciam espreitar tão curiosamente por trás dos óculos; e disse-o com muita assertividade.

Essa declaração acabou por decidir os planos deles. Foi, certamente, um triunfo profissional para Nella, que, antes da chegada do médico, lhes tinha dito exatamente a mesma coisa. Passou-se uma discussão considerável antes de enviarem alguém buscar o médico. O Príncipe Aribert era de opinião que se mantivesse todo o assunto em profundo segredo entre os três. Theodore Racksole concordou até certo ponto, mas sugeriu ainda que, custasse o que custasse, deveriam transportar o paciente imediatamente para Inglaterra. Racksole tinha a ideia de que se sentiria mais seguro naquele seu hotel, e mais capaz de lidar com qualquer situação que pudesse surgir. Nella desprezou a ideia. Na sua qualidade de enfermeira amadora, garantiu-lhes que o Príncipe Eugen estava muito mais gravemente doente do que qualquer um deles suspeitava, e insistiu que deveriam tomar posse absoluta da casa e mantê-la até que o Príncipe Eugen convalescesse.

— Mas e a mulher Spencer? — dissera Racksole.

— Mantenham-na onde ela está. Mantenham-na prisioneira. E defendam a casa contra todos os que vierem. Se o Jules voltar, simplesmente desafiem-no a entrar — é tudo. São dois, por isso devem manter um olho nos antigos ocupantes, se eles regressarem, e na Srta. Spencer, enquanto eu trato do paciente. Mas primeiro, têm de enviar alguém buscar um médico.

— Médico! — dissera o Príncipe Aribert, alarmado. — Não será necessário dar alguma explicação embaraçosa ao médico?

— De forma alguma! — respondeu ela. — Porque haveria de ser? Num lugar como Ostende, os médicos são demasiado discretos para fazer perguntas; veem coisas demais para manterem a curiosidade. Além disso, querem que o vosso sobrinho morra?

Ambos os homens ficaram um pouco surpreendidos com a sagaz compreensão da situação por parte da rapariga, e aconteceu que começaram a obedecer-lhe como subordinados.

Ela disse ao pai para sair em busca de um médico, e ele foi. Deu ao Príncipe Aribert outras ordens, e ele prontamente executou-as.

Pela noite do dia seguinte, tudo corria bem. O médico vinha e partia várias vezes, enviava medicamentos e parecia bastante otimista quanto ao desfecho da doença. Convenceram uma velha a vir cozinhar e limpar. A Srta. Spencer foi mantida fora de vista no sótão, enquanto não se decidia o que fazer com ela. E ninguém fora da casa tinha feito perguntas. Os habitantes daquela rua em particular deviam estar habituados a comportamentos estranhos por parte dos vizinhos, aparições e desaparecimentos inexplicáveis, fugas e chegadas estranhas. Este trio decidido e ativo — Racksole, Nella e o Príncipe Aribert — podia muito bem ter sido o inquilino legítimo e habitual da casa, a julgar por qualquer evidência externa em contrário.

Na tarde do terceiro dia, o Príncipe Eugen estava clara e seriamente pior. Nella tinha ficado a velar por ele na noite anterior e durante todo o dia.

O pai tinha passado a manhã no hotel, e o Príncipe Aribert tinha montado guarda. Os dois homens nunca estavam ausentes da casa ao mesmo tempo, e um deles exercia sempre a função de sentinela à noite. Nesta tarde, o Príncipe Aribert e Nella sentaram-se juntos no quarto do paciente. O médico tinha acabado de sair. Theodore Racksole estava lá em baixo a ler o New York Herald. O Príncipe e Nella estavam perto da janela, que dava para o jardim das traseiras.

Era um quarto estranho e pobre para abrigar o augusto corpo de uma figura europeia como o Príncipe Eugen de Posen. Curiosamente, tanto Nella como o seu pai, apesar de serem democratas fervorosos, tinham ficado de alguma forma impressionados pela realeza e importância do Príncipe febril — impressionados como nunca tinham ficado por Aribert. Ambos tinham sentido que ali, sob os seus cuidados, estava uma espécie de individualidade completamente nova para eles, e diferente de tudo com que se tinham cruzado anteriormente. Até os gestos e os tons do seu delírio tinham um ar de comando brusco, porém condescendente — uma mistura imponente de suavidade e arrogância. Quanto a Nella, tinha ficado primeiramente impressionada pelo belo "E" sobre uma coroa nas mangas da sua roupa de cama, e pelo anel de sinete na sua mão pálida e emaciada. Afinal, estes sinais externos triviais são, pelo menos, tão eficazes como outros de significado mais profundo, porém menos intrusivo. Os Racksole também notaram, devidamente, a atitude do Príncipe Aribert para com o seu sobrinho: era, ao mesmo tempo, paternal e reverente; revelava claramente que o Príncipe Aribert continuava, apesar de tudo, a considerar o seu sobrinho como o seu senhor e mestre soberano, como um ser rodeado por uma pompa e um temor naturais e inevitáveis. Esta atitude, ao princípio, parecia falsa e irreal aos americanos; parecia-lhes ser fingida; mas gradualmente começaram a perceber que estavam enganados, e que, embora a América pudesse ter banido a "superstição monárquica", essa "superstição" tinha, contudo, sobrevivido vigorosamente noutra parte do mundo.

— Você e o Sr. Racksole têm sido extraordinariamente gentis comigo — disse o Príncipe Aribert, muito calmamente, depois de os dois estarem sentados há algum tempo em silêncio.

— Porquê? Como? — perguntou ela, com naturalidade. — Nós próprios estamos interessados neste assunto, sabe. Começou no nosso hotel — não se deve esquecer disso, Príncipe.

— Não me esqueço — disse ele. — Não me esqueço de nada. Mas não posso evitar sentir que vos conduzi a um estranho emaranhado. Porque é que você e o Sr. Racksole teriam de estar aqui — vocês que deveriam estar de férias! — escondidos numa casa estranha num país estrangeiro, sujeitos a todo o tipo de aborrecimentos e todo o tipo de riscos, simplesmente porque estou ansioso por evitar o escândalo, por evitar qualquer tipo de conversa, em relação ao meu sobrinho desencaminhado? Não é nada para si que o Príncipe Hereditário de Posen possa estar sujeito a uma desgraça pública. Que lhe importará a si se o trono de Posen se tornar o motivo de risota da Europa?

— Realmente não sei, Príncipe — Nella sorriu, travessa. — Mas nós, americanos, temos o hábito de levar até ao fim tudo o que começámos.

— Ah! — disse ele. — Quem sabe como esta coisa vai acabar? Todos os nossos problemas, as nossas ansiedades, a nossa vigilância, podem não dar em nada. Digo-lhe que, quando vejo Eugen deitado ali e penso que não podemos saber a sua história até ele recuperar, estou pronto para enlouquecer. Poderíamos estar a organizar as coisas, a suavizar os assuntos, a preparar o futuro, se ao menos soubéssemos... soubéssemos o que ele nos pode dizer. Digo-lhe que estou pronto para enlouquecer. Se alguma coisa acontecesse a si, Srta. Racksole, matar-me-ia.

— Mas porquê? — questionou ela. — Supondo, claro, que algo pudesse acontecer-me — o que não pode.

— Porque eu arrastei-a para isto — respondeu ele, olhando para ela. — Não é nada para si. Está apenas a ser gentil.

— Como sabe que não é nada para mim, Príncipe? — perguntou ela, rapidamente.

Nesse preciso momento, o doente fez um movimento convulsivo, e Nella voou para a cama e acalmou-o. Da cabeceira da cama, ela olhou para o Príncipe Aribert, e ele retribuiu o seu olhar brilhante e excitado. Ela estava com o seu vestido de viagem, com um grande avental branco belga atado por cima. Grandes olheiras de fadiga e insónia rodeavam-lhe os olhos e, para o Príncipe, a sua face parecia cavada e fina; o cabelo pousava espesso sobre as têmporas, cobrindo metade das orelhas. Aribert não deu resposta à pergunta dela — limitou-se a olhá-la com melancólica intensidade.

— Acho que vou descansar — disse ela, finalmente. — Saberá tudo sobre o medicamento.

— Durma bem — disse ele, enquanto abria suavemente a porta para ela. E então ficou sozinho com Eugen. Era a vez dele, naquela noite, de vigiar, pois ainda esperavam, a meio, alguma visita estranha e súbita, ou ataque, ou movimento de um tipo ou de outro por parte de Jules. Racksole dormia na sala, no piso térreo.

Nella tinha o quarto da frente, no primeiro andar; a Srta. Spencer estava murada no sótão; a referida senhora tinha estado singularmente silenciosa e desinteressada, aceitando a comida de Nella e não fazendo perguntas; a velha ia, à noite, para a sua própria habitação nos arredores do porto. Hora após hora, Aribert sentava-se em silêncio junto à cabeceira do sobrinho, atendendo mecanicamente às suas necessidades e, de vez em quando, olhando fixamente para o rosto vago e angustiado, como se tentasse extorquir daquela máscara os segredos que ela guardava. Aribert era torturado pela ideia de que, se pudesse ter apenas meia hora, apenas um quarto de hora, de conversa racional com o Príncipe Eugen, tudo poderia ser esclarecido e resolvido, e pelo facto de que essa conversa racional era absolutamente impossível da parte de Eugen até que a febre tivesse seguido o seu curso. À medida que os minutos se arrastavam para a meia-noite, o vigilante, tornado nervoso pela atmosfera intensa e elétrica que parece rodear sempre uma pessoa que está perigosamente doente, tornou-se cada vez mais presa de apreensões vagas e terríveis. A sua mente habitava histericamente nas possibilidades mais fatais.

Imaginava o que ocorreria se, por qualquer azar, Eugen morresse naquela cama — como explicaria o assunto a Posen e ao Imperador, como se justificaria a si próprio. Viu-se a ser julgado por homicídio, condenado (ele — um Príncipe de sangue!), conduzido ao cadafalso... uma cena sem paralelo na Europa há mais de um século! ... Então, olhou de novo para o doente e pensou ver a morte em cada traço vincado daquele rosto agonizante. Podia ter gritado bem alto. Os seus ouvidos ouviram um estrondo ressonante peculiar. Sobressaltou-se — não era nada mais do que o relógio da cidade a bater as doze horas. Mas havia outro som — um arrastar misterioso à porta. Escutou; depois saltou da cadeira. Agora nada! Nada! Mas ainda assim sentiu-se atraído para a porta e, após o que pareceu um intervalo interminável, foi e abriu-a, com o coração a bater furiosamente. Nella estava caída num monte sobre o tapete da porta. Estava totalmente vestida, mas tinha, aparentemente, perdido a consciência. Agarrou-a pelo corpo esguio, levantou-a, levou-a para a cadeira junto à lareira e deitou-a nela. Tinha-se esquecido de tudo sobre Eugen.

— O que é, meu anjo? — sussurrou ele, e então beijou-a — beijou-a duas vezes. Só podia olhar para ela; não sabia o que fazer para a socorrer.

Finalmente, ela abriu os olhos e suspirou.

— Onde estou? — perguntou vagamente, num tom trémulo ao reconhecê-lo. — É você? Fiz alguma coisa estúpida? Desmaiei?

— O que aconteceu? Estava doente? — questionou ele, ansiosamente. Estava de joelhos aos pés dela, segurando-lhe a mão com força.

— Vi o Jules ao lado da minha cama — murmurou ela; — tenho a certeza de que o vi; ele riu-se de mim. Não me tinha despido. Saltei, assustada, mas ele tinha ido embora, e então corri escadas abaixo — para si.

— Estavas a sonhar — acalmou-a ele.

— Estava?

— Deves ter estado. Não ouvi um som. Ninguém poderia ter entrado. Mas se quiseres, acordo o Sr. Racksole.

— Talvez estivesse a sonhar — admitiu ela. — Que tolice!

— Estavas demasiado cansada — disse ele, ainda segurando inconscientemente a mão dela. Olharam um para o outro. Ela sorriu para ele.

— Beijaste-me — disse ela, de repente, e ele corou e pôs-se de pé diante dela. — Porque me beijaste?

— Ah! Srta. Racksole — murmurou ele, apressando as palavras. — Perdoe-me. É imperdoável, mas perdoe-me. Fiquei dominado pelos meus sentimentos. Não sabia o que estava a fazer.

— Porque me beijaste? — repetiu ela.

— Porque... Nella! Amo-a. Não tenho o direito de o dizer.

— Porque não tem o direito de o dizer?

— Se Eugen morrer, terei um dever para com Posen — serei o seu governante.

— Bem! — disse ela calmamente, com uma confiança adorável. — O papá vale quarenta milhões. Não abdicaria?

— Ah! — soltou um grito baixo. — Vai forçar-me a dizer estas coisas? Não poderia fugir ao meu dever para com Posen, e o Príncipe reinante de Posen só pode casar com uma Princesa.

— Mas o Príncipe Eugen viverá — disse ela, positivamente —, e se ele viver...

— Então serei livre. Renunciaria a todos os meus direitos para a tornar minha, se... se...

— Se o quê, Príncipe?

— Se se dignasse a aceitar a minha mão.

— Sou, então, rica o suficiente?

— Nella! — Ele inclinou-se para ela.

Então, ouviu-se o estrépito de vidro a partir-se. Aribert foi até à janela e abriu-a. Na penumbra estrelada, pôde ver que uma escada tinha sido erguida contra a parte de trás da casa. Achou ouvir passos no fundo do jardim.

— Foi o Jules — exclamou ele para Nella e, sem mais uma palavra, correu escadas acima para o sótão. O sótão estava vazio. A Srta. Spencer tinha desaparecido misteriosamente.

Capítulo Dezanove A REALEZA NO GRAND BABYLON

Os apartamentos Reais no Grand Babylon são famosos no mundo dos hotéis, e, na verdade, em outros lugares, por serem, à sua maneira, insuperáveis. Alguns dos palácios da Alemanha, e em particular os do louco Luís da Baviera, podem possuir quartos e salões que os eclipsam em luxo deslumbrante e na mera extravagância selvagem e feérica da riqueza; mas não há nada, em parte alguma, nem mesmo na Oitava Avenida, em Nova Iorque, que possa ser justamente chamado de mais completo, mais perfeito, mais sedutor ou — o que não é menos importante — mais confortável.

A suíte consiste em seis compartimentos — a antecâmara, o salão ou câmara de audiências, a sala de jantar, a sala de estar amarela (onde a Realeza recebe os seus amigos), a biblioteca e o quarto de Estado — para o último dos quais já fomos apresentados. O mais importante e impressionante destes é, naturalmente, a câmara de audiências, um compartimento com cinquenta pés de comprimento por quarenta de largura, com uma vista soberba sobre o Tamisa, a Torre Shot e os sinais mais elevados da ferrovia South-Western. A decoração desta sala é principalmente ao gosto alemão, uma vez que quatro em cada seis dos seus ocupantes Reais são de sangue teutónico; mas a sua principal glória é o teto francês, uma obra-prima de Fragonard, retirada integralmente de um certo palácio famoso no Loire. As paredes são de carvalho apainelado, com um friso de oito pés de pano de Arras imitado de exemplos continentais únicos. O tapete, tecido numa única peça, é um espécime antigo do mais fino trabalho turco, e foi obtido, a bom preço, por Felix Babylon, de um Príncipe romeno sem um tostão. Os candelabros de prata, agora equipados com luz elétrica, vieram do Reno, e cada um tinha uma história separada. A cadeira Real — não é etiqueta chamar-lhe trono, embora equivalha a um trono — foi saqueada por Napoleão de uma cidade austríaca e comprada por Felix Babylon na venda de um colecionador francês. Em cada canto da sala ergue-se um gigantesco vaso grotesco de faiança alemã do século XVI. Estes foram oferecidos a Felix Babylon por Guilherme I da Alemanha, após a conclusão da sua primeira visita incógnita a Londres em relação ao problema francês de 1875.

Existe apenas um quadro na sala de audiências. É um retrato do infeliz, porém nobre, Dom Pedro, Imperador do Brasil. Oferecido a Felix Babylon pelo próprio Dom Pedro, permanece ali, solitário e sublime, como um lembrete aos Reis e Príncipes de que os Impérios podem passar e a grandeza pode cair. Um certo Príncipe que ocupava a suíte durante o Jubileu de 1887 — quando o Grand Babylon tinha sete pessoas de sangue Real sob o seu teto — enviou uma mensagem curta a Felix de que o retrato deveria ser removido. Felix respeitosamente recusou-se a removê-lo, e o Príncipe partiu para outro hotel, onde foi roubado em duas mil libras em joias. A sala de audiências Real do Grand Babylon, se as pessoas apenas soubessem, é uma das atrações de Londres, mas nunca é mostrada, e se perguntar aos funcionários do hotel sobre as suas maravilhas, eles dir-lhe-ão apenas factos tolos a seu respeito, como o de que o tapete turco custa cinquenta libras a limpar, e que um dos grandes vasos está rachado ao longo do pedestal, devido ao tratamento rude que lhe foi dado durante um jogo turbulento de Cabra-Cega, jogado uma noite por quatro jovens Princesas, um Rei dos Balcãs e os seus ajudantes de campo.

Num dos recantos das janelas deste magnífico aposento, numa certa tarde do final de julho, estava o Príncipe Aribert de Posen. Ele estava impecavelmente vestido com o convencional fraque da civilização inglesa, com uma gardénia na botoeira e o indispensável vinco na parte da frente das calças. Parecia estar bastante divertido e também à espera de alguém, pois, em intervalos frequentes, olhava rapidamente por cima do ombro na direção da porta atrás da cadeira Real. Finalmente, um homem pequeno, enrugado e curvado, com um semblante distintamente alemão, apareceu pela porta e colocou alguns papéis numa pequena mesa ao lado da cadeira.

— Ah, Hans, meu velho amigo! — disse Aribert, aproximando-se do velho. — Preciso de ter uma pequena conversa consigo sobre uma ou duas questões. Como encontra Sua Alteza Real?

O velho fez a saudação, à moda militar. — Não muito bem, Alteza — respondeu ele. — Fui criado do sobrinho de Vossa Alteza desde a sua maioridade, e fui criado do seu pai Real antes dele, mas nunca vi... — Ele parou e ergueu as mãos enrugadas em sinal de desaprovação.

— Nunca viu o quê? — Aribert sorriu afetuosamente para o velho. Podia-se perceber que estes dois, tão nitidamente diferenciados em posição social, tinham sido íntimos no passado e seriam íntimos novamente.

— Sabe, meu Príncipe — disse o velho —, que vamos receber o financeiro, Sampson Levi — é esse o nome dele? — na sala de audiências? Certamente, se me permite sugerir humildemente, a biblioteca teria sido suficiente para um financeiro?

— Ter-se-ia pensado isso — concordou o Príncipe Aribert —, mas talvez o seu mestre tenha uma razão especial. Diga-me — continuou ele, mudando rapidamente de assunto —, como aconteceu que deixou o Príncipe, meu sobrinho, em Ostende e regressou a Posen?

— Ordens dele, Príncipe — e o velho Hans, que tinha uma vasta experiência em caprichos Reais e conhecia metade dos segredos das Cortes da Europa, lançou a Aribert um olhar que poderia ter significado qualquer coisa. — Ele enviou-me de volta para um... um recado, Alteza.

— E devia encontrar-se com ele aqui?

— Exatamente, Alteza. E encontrei-me com ele aqui, embora, para dizer a verdade, tivesse começado a temer que nunca mais voltasse a ver o meu mestre.

— O Príncipe esteve muito doente em Ostende, Hans.

— Foi o que depreendi — respondeu Hans secamente, esfregando lentamente as mãos uma na outra. — E Sua Alteza ainda não está perfeitamente recuperado.

— Ainda não. Desesperámos pela sua vida, Hans, a certa altura, mas graças a uma excelente constituição, ele superou a provação com sucesso.

— Devemos cuidar dele, Alteza.

— Sim, de facto — disse Aribert solenemente —, a sua vida é muito preciosa para Posen.

Nesse momento, Eugen, Príncipe Hereditário de Posen, entrou na sala de audiências. Estava pálido e lânguido, e o seu uniforme parecia ser-lhe um incómodo. O seu cabelo estava ligeiramente desalinhado e havia um olhar de inquietação, quase de alarme, nos seus belos olhos escuros. Era como um homem que tem medo de olhar para trás, receando ver algo lá que não deveria estar lá. Mas, ao mesmo tempo, ali estava, sem dúvida, a Realeza. Nada poderia ter sido mais impressionante do que o contraste entre Eugen, um homem doente na casa decadente em Ostende, e este Príncipe Eugen nos aposentos Reais do Grand Babylon Hôtel, rodeado pelo luxo e pompa que a civilização moderna pode oferecer aos nascidos em altas esferas. Todo o episódio desesperado de Ostende estava agora oculto, esquecido. Supunha-se que nunca tivesse ocorrido. Existia apenas como uma vergonha secreta nos corações daqueles que o tinham testemunhado. O Príncipe Eugen tinha recuperado; pelo menos, estava convalescente e tinha sido transferido para Londres, onde retomou o fio perdido da sua vida principesca. A senhora do chapéu vermelho, a incorruptível e selvagem Miss Spencer, o inescrupuloso e brilhante Jules, o porão escuro e húmido, o quarto horrível e pequeno — estas coisas tinham acabado. Graças ao Príncipe Aribert e aos Racksole, ele tinha emergido delas em segurança. Estava apto a retomar a sua carreira pública e oficial. O Imperador tinha sido informado da sua chegada segura a Londres, após um atraso inevitável em Ostende; o seu nome figurava mais uma vez na crónica da Corte dos jornais. Em suma, tudo estava abafado. Apenas... apenas Jules, Rocco e Miss Spencer ainda estavam em liberdade; e o corpo de Reginald Dimmock jazia enterrado no mausoléu doméstico do palácio em Posen; e o Príncipe Eugen ainda tinha de entrevistar o Sr. Sampson Levi.

Que várias questões pesavam na mente do Príncipe Eugen era inquestionável. Parecia ter-se retirado para dentro de si mesmo. Apesar das experiências extraordinárias pelas quais tinha passado recentemente, eventos que clamavam por explicações e confiança entre o sobrinho e o tio, ele mal dizia uma palavra ao Príncipe Aribert. Qualquer alusão, por mais direta que fosse, aos dias em Ostende, era ignorada por ele com maior ou menor engenho, e o Príncipe Aribert não estava realmente mais perto de uma solução completa para o mistério da conspiração de Jules do que estivera na noite em que ele e Racksole visitaram as mesas de jogo em Ostende. Eugen estava bem ciente de que tinha sido raptado através da agência da mulher de chapéu vermelho, mas, sem dúvida envergonhado por ter sido enganado por ela, não prosseguiria de forma alguma com o esclarecimento do assunto.

— Receberá nesta sala, Eugen? — questionou-o Aribert.

— Sim — foi a resposta, dada de forma irritada. — Por que não? Mesmo que eu não tenha aqui o séquito adequado, certamente essa não é razão para que eu não deva realizar a audiência de forma apropriada?... Hans, pode ir. — O velho criado desapareceu prontamente.

— Aribert — continuou o Príncipe Hereditário, quando ficaram sozinhos na sala —, tu achas que estou louco.

— Meu caro Eugen — disse o Príncipe Aribert, surpreendido apesar de si mesmo. — Não sejas absurdo.

— Digo que achas que estou louco. Achas que aquele ataque de febre cerebral deixou a sua marca permanente em mim. Bem, talvez eu esteja louco. Quem pode dizer? Deus sabe que passei por coisas suficientes ultimamente para me deixar louco.

Aribert não respondeu. Na verdade, o pensamento tinha-lhe passado pela mente de que o cérebro de Eugen ainda não tinha recuperado o seu tom e atividade normais. Este discurso do seu sobrinho, no entanto, teve o efeito de restaurar imediatamente a sua crença na inteira sanidade deste último. Sentia-se convencido de que, se apenas pudesse recuperar a confiança do seu sobrinho, a antiga confiança fraternal que existira entre eles desde os anos em que brincavam juntos quando rapazes, tudo poderia ainda ficar bem. Mas, no momento, não parecia haver sinal de que Eugen pretendesse dar a sua confiança a alguém.

O jovem Príncipe tinha saído do vale da sombra da morte, mas alguma da sombra do vale tinha ficado agarrada a ele, e parecia que ele era incapaz de a dissipar.

— A propósito — disse Eugen subitamente —, suponho que deva recompensar estes Racksole. Estou deveras grato a eles. Se eu desse à rapariga uma pulseira, e ao pai mil guineus — como é que isso resolveria o caso?

— Meu caro Eugen! — exclamou Aribert, horrorizado. — Mil guineus! Sabes que Theodore Racksole poderia comprar toda a Posen de uma ponta à outra sem se tornar um indigente. Mil guineus! Mais valia oferecer-lhe seis pence.

— Então o que devo oferecer?

— Nada, exceto os teus agradecimentos. Qualquer outra coisa seria um insulto. Estas não são pessoas comuns de hotel.

— Não posso dar à rapariga uma pulseira? — O Príncipe Eugen deu uma risada sinistra.

Aribert olhou-o fixamente. — Não — disse ele.

— Por que a beijaste — naquela noite? — perguntou o Príncipe Eugen com desprezo.

— Beijar quem? — disse Aribert, corando e irritado, apesar dos seus esforços mais determinados para se manter calmo e indiferente.

— A rapariga Racksole.

— A que momento te referes?

— Refiro-me — disse o Príncipe Eugen — àquela noite em Ostende quando eu estava doente. Pensaste que eu estava em delírio. Talvez estivesse. Mas, de alguma forma, lembro-me disso com uma nitidez extraordinária. Lembro-me de erguer a cabeça por uma fração de instante, e só nessa fração de instante tu beijaste-a. Oh, Tio Aribert!

— Ouve, Eugen, pelo amor de Deus. Eu amo Nella Racksole. Vou casar-me com ela.

— Tu! — Houve uma longa pausa, e então Eugen riu-se. — Ah! — disse ele. — Eles dizem todos isso para começar. Eu próprio já disse isso, caro tio; soa bem, e não significa nada.

— Neste caso, significa tudo, Eugen — disse Aribert calmamente. Algum tom de determinação na voz deste último tornou Eugen um pouco mais sério.

— Não te podes casar com ela — disse ele. — O Imperador não permitirá um casamento morganático.

— O Imperador não tem nada a ver com o assunto. Vou renunciar aos meus direitos. Tornar-me-ei um cidadão comum.

— Caso em que não terás fortuna de que falar.

— Mas a minha esposa terá uma fortuna. Sabendo dos sacrifícios que terei feito para me casar com ela, ela não hesitará em colocar essa fortuna nas minhas mãos para o nosso uso mútuo — disse Aribert rigidamente.

— Serás decididamente rico — ponderou Eugen, enquanto as suas ideias se detinham na riqueza reputada de Theodore Racksole. — Mas pensaste nisto — perguntou ele, e os seus olhos suaves brilharam novamente num tipo de loucura. — Pensaste que eu não sou casado, e poderia morrer a qualquer momento, e então o trono descenderá para ti — para ti, Aribert?

— O trono nunca descenderá para mim, Eugen — disse Aribert suavemente —, pois tu viverás. Estás completamente convalescente. Não tens nada a temer.

— São os próximos sete dias que temo — disse Eugen.

— Os próximos sete dias! Porquê?

— Não sei. Mas temo-os. Se eu conseguir sobreviver a eles...

— Sr. Sampson Levi, alteza — anunciou Hans em tom alto.

Capítulo Vinte O SR. SAMPSON LEVI DESEJA UM BOM DIA AO PRÍNCIPE EUGEN

O PRÍNCIPE EUGEN sobressaltou-se. — Vou vê-lo — disse ele, com um gesto para Hans como se indicasse que o Sr. Sampson Levi poderia entrar imediatamente.

— Peço um momento primeiro — disse Aribert, colocando uma mão suavemente no braço do seu sobrinho, e lançando ao velho Hans um olhar que teve o efeito de precipitar aquele criado admiravelmente treinado através da porta.

— O que é? — perguntou o Príncipe Eugen irritado. — Por que esta seriedade repentina? Não te esqueças de que tenho um compromisso com o Sr. Sampson Levi, e não devo mantê-lo à espera. Alguém disse que a pontualidade é a cortesia dos príncipes.

— Eugen — disse Aribert —, desejo que sejas tão sério quanto eu. Por que não podemos ter fé um no outro? Quero ajudar-te. Ajudei-te. Tu és o meu Soberano titular; mas, por outro lado, tenho a honra de ser teu tio. Tenho a honra de ter a mesma idade que tu, e de ter sido o teu companheiro desde a juventude. Dá-me a tua confiança. Pensei que mo tinhas dado há anos, mas descobri ultimamente que tinhas os teus segredos, mesmo naquela altura. E agora, desde a tua doença, és ainda mais secreto.

— O que queres dizer, Aribert? — disse Eugen, num tom que poderia ter sido inimigo ou amigável. — O que queres dizer?

— Bem, em primeiro lugar, quero dizer que não terás sucesso com o estimado Sr. Sampson Levi.

— Não terei? — disse Eugen levemente. — Como sabes qual é o meu negócio com ele?

— Basta dizer que sei. Nunca conseguirás esse milhão de libras dele.

O Príncipe Eugen ofegou, e então engoliu a sua excitação. — Quem esteve a falar? Que milhão? — Os seus olhos vaguearam inquietos pela sala. — Ah! — disse ele, fingindo rir. — Já percebo como é. Estive a tagarelar no meu delírio. Não deves prestar atenção a isso, Aribert. Quando se tem febre, as ideias tornam-se grotescas e fantasiosas.

— Nunca falaste no teu delírio — respondeu Aribert; — pelo menos, não sobre ti próprio. Eu sabia sobre este empréstimo projetado antes de te ver em Ostende.

— Quem te disse? — exigiu Eugen ferozmente.

— Então admites que estás a tentar levantar um empréstimo?

— Não admito nada. Quem te disse?

— Theodore Racksole, o milionário. Estes homens ricos não têm segredos uns dos outros. Formam um círculo, mais unido do que qualquer círculo nosso, Eugen, e muito mais poderoso. Eles falam, e ao falar governam o mundo, estes milionários. Eles são os verdadeiros monarcas.

— Malditos sejam! — disse Eugen.

— Sim, talvez. Mas deixa-me voltar ao teu caso. Imagina a minha vergonha, o meu desgosto, quando descobri que Racksole me podia dizer mais sobre os teus negócios do que eu sabia. Felizmente, ele é um bom homem; pode-se confiar nele; caso contrário, ter-me-ia sentido tentado a fazer algo desesperado quando descobri que toda a tua história privada estava nas suas mãos. Eugen, vamos ao ponto; por que queres esse milhão? É realmente verdade que estás tão endividado? Não tenho desejo de aproveitar a ocasião. Apenas pergunto.

— E se eu dever um milhão? — disse o Príncipe Eugen com valor assumido.

— Oh, nada, meu caro Eugen, nada. Apenas é uma quantia bastante grande para ter dispersado em dez anos, não é? Como conseguiste isso?

— Não me perguntes, Aribert. Fui um tolo. Mas juro-te que a mulher a quem chamas “a senhora do chapéu vermelho” é a última das minhas loucuras. Estou prestes a tomar uma esposa e tornar-me um Príncipe respeitável.

— Então o noivado com a Princesa Anna é um facto consumado?

— Praticamente. Assim que me tiver acertado com Levi, tudo correrá bem. Aribert, eu não perderia Anna pelo trono Imperial. Ela é uma mulher boa e pura, e amo-a como um homem pode amar um anjo.

— E ainda assim enganá-la-ias quanto às tuas dívidas, Eugen?

— Não a ela, mas aos seus pais absurdos, e talvez ao Imperador. Eles ouviram rumores, e devo pôr fim a esses rumores apresentando-lhes uma folha limpa.

— Fico contente por teres sido franco comigo, Eugen — disse o Príncipe Aribert —, mas serei direto contigo. Nunca te casarás com a Princesa Anna.

— E porquê? — disse Eugen, altivo novamente.

— Porque os seus pais não o permitirão. Porque não serás capaz de lhes apresentar uma folha limpa. Porque este Sampson Levi nunca te emprestará um milhão.

— Explica-te.

— Proponho fazê-lo. Tu foste raptado — é uma palavra horrível, mas temos de a usar — em Ostende.

— Verdade.

— Sabes porquê?

— Suponho que porque aquela velha vil de chapéu vermelho e os seus cúmplices queriam tirar algum dinheiro de mim. Felizmente, graças a ti, eles não conseguiram.

— De modo algum — disse Aribert. — Eles não queriam dinheiro de ti. Eles sabiam muito bem que tu não tinhas dinheiro. Sabiam que eras o aluno traquinas entre os Príncipes Europeus, sem qualquer sentido de responsabilidade ou dever para com o teu reino. Queres que te diga por que te raptaram?

— Quando terminares de me insultar, meu caro tio.

— Eles raptaram-te apenas para te manter fora de Inglaterra por alguns dias, apenas para te obrigar a falhar no teu compromisso com Sampson Levi. E parece-me que eles tiveram sucesso. Assumindo que não obtenhas o dinheiro de Levi, existe outro financeiro em toda a Europa de quem o possas obter — sobre garantias tão estranhas como as que tens para oferecer?

— Possivelmente não existe — disse o Príncipe Eugen calmamente. — Mas, vês, eu irei obtê-lo de Sampson Levi. Levi prometeu-o, e sei por outras fontes que ele é um homem de palavra. Ele disse que o dinheiro, sujeito a certas formalidades, estaria disponível até...

— Até?

— Até ao fim de junho.

— E estamos agora no fim de julho.

— Bem, o que é um mês? Ele fica apenas demasiado contente por emprestar o dinheiro. Ele obterá excelentes juros. Como diabos meteste na tua sábia cabeça velha esta noção de uma conspiração contra mim? A ideia é ridícula. Uma conspiração contra mim? Para quê?

— Já pensaste na Bósnia? — perguntou Aribert friamente.

— O que tem a Bósnia?

— Não preciso de dizer-te que o Rei da Bósnia está naturalmente sob obrigações para com a Áustria, a quem deve a sua coroa. A Áustria está ansiosa para que ele faça um bom casamento influente.

— Bem, que faça.

— Ele vai fazer. Ele vai casar-se com a Princesa Anna.

— Não enquanto eu viver. Ele fez propostas lá há um ano e foi rejeitado.

— Sim; mas ele fará propostas novamente, e desta vez não será rejeitado. Oh, Eugen! Não consegues ver que esta conspiração contra ti está a ser arquitetada por algumas pessoas que sabem tudo sobre os teus negócios, e cujo desejo é impedir o teu casamento com a Princesa Anna? Apenas um homem na Europa pode ter algum motivo para desejar impedir o teu casamento com a Princesa Anna, e esse é o homem que pretende casar-se com ela próprio. — Eugen ficou muito pálido.

— Então, Aribert, queres transmitir-me que a minha detenção em Ostende foi arquitetada pelos agentes do Rei da Bósnia?

— Quero.

— Com vista a deter as minhas negociações com Sampson Levi, e assim pôr fim à possibilidade do meu casamento com Anna?

Aribert assentiu.

— És um bom amigo para mim, Aribert. Tens boas intenções. Mas estás enganado. Tens estado a preocupar-te com nada.

— Esqueceste-te de Reginald Dimmock?

— Lembro-me de que disseste que ele tinha morrido.

— Não disse nada do género. Disse que ele tinha sido assassinado. Isso fazia parte disso, meu pobre Eugen.

— Pfff! — disse Eugen. — Não acredito que ele tenha sido assassinado. E quanto a Sampson Levi, aposto contigo mil marcos que ele e eu chegaremos a acordo esta manhã, e que o milhão estará nas minhas mãos antes de eu deixar Londres. — Aribert abanou a cabeça.

— Pareces estar bastante seguro do caráter do Sr. Levi. Já tiveste muito que ver com ele antes?

— Bem — Eugen hesitou um segundo —, um pouco. Que jovem na minha posição não teve algo que ver com o Sr. Sampson Levi, uma vez ou outra?

— Eu não tive — disse Aribert.

— Tu! Tu és um fóssil. — Ele tocou uma campainha de prata. — Hans! Vou receber o Sr. Sampson Levi.

Pelo que Aribert partiu discretamente, e o Príncipe Eugen sentou-se na grande cadeira de veludo, e começou a olhar para os papéis que Hans tinha colocado anteriormente sobre a mesa.

— Bom dia, Sua Alteza Real — disse Sampson Levi, curvando-se ao entrar. — Confio que Sua Alteza Real esteja bem.

— Moderadamente, obrigado — retribuiu o Príncipe.

Apesar do facto de ter tido tanto que ver com pessoas de sangue Real como qualquer homem simples na Europa, Sampson Levi nunca tinha aprendido a estar à vontade com estes indivíduos exaltados durante os primeiros minutos de uma entrevista. Depois, ele retomava o comando de si mesmo e das suas faculdades, mas no início ficava invariavelmente atrapalhado, de rosto escarlate e inclinado à transpiração.

— Prosseguiremos para o negócio de imediato — disse o Príncipe Eugen. — Quer tomar um assento, Sr. Levi?

— Agradeço a Vossa Alteza Real.

— Agora, quanto àquele empréstimo que já tínhamos praticamente arranjado — um milhão, creio eu — disse o Príncipe com leveza.

— Um milhão — aquiesceu Levi, brincando com a sua enorme corrente de relógio.

— Está tudo em ordem agora. Aqui estão os papéis e gostaria de terminar o assunto de imediato.

— Exatamente, Alteza, mas...

— Mas o quê? Há meses manifestou a maior satisfação quanto à garantia, embora eu esteja perfeitamente disposto a admitir que a garantia é de natureza bastante invulgar. Também concordou com a taxa de juros. Não é qualquer um, Sr. Levi, que pode emprestar um milhão a 5,5 por cento. E, em dez anos, a totalidade do montante será reembolsada. Eu... er... creio que o informei de que a fortuna da Princesa Anna, que está prestes a aceitar a minha mão, ascenderá, em última análise, a qualquer coisa como cinquenta milhões de marcos, o que perfaz mais de dois milhões de libras na vossa moeda inglesa. O Príncipe Eugen interrompeu-se. Não tinha qualquer gosto em falar de uma forma tão confidencial com financeiros, mas sentia que as circunstâncias assim o exigiam.

— Veja bem, é assim, Vossa Alteza Real — começou o Sr. Sampson Levi, no seu idioma inglês familiar. — É assim. Eu disse que poderia manter esse dinheiro disponível até ao fim de junho, e o senhor devia conceder-me uma entrevista aqui antes dessa data. Não tendo tido notícias de Vossa Alteza, e não sabendo o endereço de Vossa Alteza, embora os meus agentes alemães tenham feito todas as averiguações, concluí que o senhor tinha feito outros arranjos, uma vez que o dinheiro esteve tão barato nestes últimos meses.

— Fui infelizmente detido em Ostende — disse o Príncipe Eugen, com tanta altivez quanto pôde assumir — por... por assuntos importantes. Não fiz outros arranjos e precisarei do milhão. Se for tão amável a ponto de o pagar aos meus banqueiros em Londres...

— Lamento muito — disse o Sr. Sampson Levi, com um ar tremendamente deslumbrante de polidez, que surpreendeu até a si próprio —, mas o meu sindicato emprestou agora o dinheiro noutro local. É na América do Sul... não me importo de dizer a Vossa Alteza que o emprestámos ao Governo Chileno.

— Que se lixe o Governo Chileno, Sr. Levi — exclamou o Príncipe, ficando pálido. — Tenho de ter esse milhão. Foi um acordo.

— Foi um acordo, admito — disse o Sr. Sampson Levi —, mas Vossa Alteza quebrou o acordo.

Fez-se um longo silêncio.

— Quer dizer — começou o Príncipe com uma calma tensa — que não está em condições de me facultar esse milhão?

— Poderia facultar a Vossa Alteza um milhão dentro de um par de anos.

O Príncipe fez um gesto de aborrecimento. — Sr. Levi — disse ele —, se não colocar o dinheiro nas minhas mãos amanhã, arruinará uma das mais antigas famílias reinantes e, incidentalmente, alterará o mapa da Europa. Não está a cumprir a sua palavra, e eu contava consigo.

— Perdoe-me, Alteza — disse o pequeno Levi, levantando-se com ressentimento —, não sou eu quem não cumpriu a palavra. Rogo-lhe que repita que o dinheiro já não está à minha disposição, e despeço-me de Vossa Alteza, bom dia.

E o Sr. Sampson Levi saiu da câmara de audiências com uma vénia desajeitada e ressentida. Foi uma cena característica do final do século XIX: um homenzinho excessivamente alimentado, comum e inchado, que nascera numa vivenda geminada de Brixton e cuja maior ideia de prazer era um domingo no rio numa dispendiosa lancha elétrica, confrontando e derrotando completamente, num hotel pertencente a um milionário americano, o representante de uma linhagem de homens que folhearam todas as páginas da história europeia durante séculos e que ainda, nos seus castelos nativos, se viam rodeados de todas as circunstâncias exteriores de pompa e poder.

— Aribert — disse o Príncipe Eugen, um pouco mais tarde —, tinhas razão. Acabou-se tudo. Só tenho um refúgio...

— Não quererás dizer... — Aribert interrompeu-se, estupefacto.

— Sim, quero — disse ele rapidamente. — Posso arranjar as coisas de modo a que pareça um acidente.

Capítulo Vinte e Um O REGRESSO DE FÉLIX BABYLON

NA noite da fatídica entrevista do Príncipe Eugen com o Sr. Sampson Levi, Theodore Racksole vagueava de forma algo sem rumo e inquieta pelo átrio de entrada e corredores adjacentes do Grand Babylon. Regressara de Ostende apenas um ou dois dias antes e tentara com todas as suas forças esquecer o caso que o levara até lá — considerá-lo, de facto, como encerrado. Mas descobriu que era incapaz de o fazer. Em vão observou, em voz baixa, que havia coisas que era melhor deixar em paz: se a sua experiência como manipulador de mercados, como artífice de esquemas gigantescos em Nova Iorque, lhe tinha ensinado alguma coisa, deveria certamente ter-lhe ensinado isso. No entanto, não se conseguia reconciliar com tal posição. A mera presença dos príncipes no seu hotel despertava os instintos combativos deste homem, que nunca em toda a sua carreira fora derrotado. Ele tinha, por assim dizer, pegado em armas a favor deles e, se os príncipes de Posen não quisessem continuar a sua própria batalha, ainda assim ele, Theodore Racksole, queria continuá-la por eles. Até certo ponto, naturalmente, a batalha tinha sido ganha, pois o Príncipe Eugen fora resgatado de uma posição extremamente difícil e perigosa, e o inimigo — constituído por Jules, Rocco, a Srta. Spencer e talvez outros — fora posto em fuga. Mas isso, pensava ele, não bastava; estava muito longe de bastar. O facto de os criminosos, pois criminosos eram eles decididamente, estarem ainda à solta, considerava-o uma anomalia absurda. E havia outro ponto: não dissera nada à polícia sobre tudo o que ocorrera. Desdenhava a polícia, mas dificilmente poderia deixar de perceber que, se a polícia descobrisse por acaso uma pista do verdadeiro estado da questão, ele poderia ficar numa situação algo embaraçosa, pela simples razão de que, aos olhos da lei, equivalia a um delito ocultar tanto quanto ele ocultara. Perguntou a si próprio, pela milésima vez, por que adotara uma política de ocultação perante a polícia, por que se interessara de alguma forma pelo assunto de Posen e por que, neste preciso momento, estaria tão ansioso por prosseguir com ele? Às duas primeiras perguntas respondeu, de forma algo fraca, que fora influenciado por Nella, e também por um espírito natural de aventura; à terceira respondeu que sempre tivera o hábito de levar as coisas até ao fim, e que era agora movido por um desejo infantil e obstinado de levar esta até ao fim. Além disso, estava magnificamente consciente da sua perfeita capacidade para o conseguir. Tinha um impulso adicional, embora não o admitisse perante si próprio, sendo por natureza avesso a grandes palavras, e esse era um amor abstrato pela justiça, o instinto profundamente enraizado do anglo-saxão de ajudar o lado certo a vencer, mesmo quando graves riscos devem, por isso, ser corridos, sem qualquer vantagem correspondente.

Ele ponderava estas coisas enquanto caminhava pelo vasto hotel naquela noite do último dia de julho. Os jornais da alta sociedade vinham afirmando há uma semana que Londres estava vazia, mas, apesar dos jornais da alta sociedade, Londres persistia em parecer tão cheia como sempre. O Grand Babylon não estava certamente tão apinhado como estivera um mês antes, mas fazia um negócio bastante aceitável. No final da época, as alegres borboletas da comunidade social têm o hábito de pairar por um dia ou dois nos grandes hotéis antes de voarem para castelos e casas de campo, prados e charnecas, lagos e riachos. As grandes cadeiras de vime no pórtico estavam bem ocupadas por cavalheiros idosos e de meia-idade, empenhados em desfrutar dos variados prazeres de licores, charutos e a lua cheia que flutuava tão serenamente sobre o Tamisa. Aqui e ali, uma mulher bonita, no braço de um cavalheiro em trajes imaculados, arrastava a cauda do vestido enquanto se voltava no passeio do terraço. Criados, comissários uniformizados e porteiros de galões dourados moviam-se silenciosamente; a curtos intervalos, o chefe dos porteiros soprava o seu apito agudo e os hansoms chegavam com sinos tilintantes para levar um par de borboletas para qualquer lugar de diversão ou tédio; ocasionalmente, uma carruagem privada, puxada por cavalos dispendiosos e autoconscientes, punha os hansoms em xeque pela sua mera glória exterior. Era uma noite quente, uma noite para os bosques de verão, e, exceto pelos veículos, não havia movimento rápido de qualquer espécie. Parecia que o mundo — o mundo, isto é, do Grand Babylon — estava totalmente ocupado nos solenes processos de digestão e conversa fiada. Até a longa fila de candeeiros a gás do Embankment, estendendo-se para a direita e para a esquerda, mal tremia no ar imóvel, quente e acariciante. As estrelas lá no alto olhavam para baixo, com muitos pestanejos, para o enorme edifício do Grand Babylon, e a lua contemplava-o com uma face serena e imutável; o que pensavam dele e dos seus habitantes não pode, infelizmente, ser registado. O que Theodore Racksole pensava da lua pode ser registado: pensava que era um incómodo. De alguma forma, fascinava-lhe o olhar com o seu olhar estúpido e, assim, interferia nas suas complexas meditações. Lançou um olhar em redor para as pessoas bem vestidas e satisfeitas — os seus hóspedes, os seus clientes. Pareciam ignorá-lo absolutamente.

Provavelmente, apenas uma percentagem muito pequena deles tinha a mínima ideia de que aquele homem alto e magro, de cabelos cinzentos e rosto fino, firme e resoluto, que usava as suas roupas de noite de corte americano com tal facilidade descuidada, era o proprietário único do Grand Babylon e, possivelmente, o homem mais rico da Europa. Como já foi dito, Racksole não era uma celebridade em Inglaterra.

Os hóspedes do Grand Babylon viam apenas uma pessoa do sexo masculino, inquieta, cuja inquietação perturbava um pouco a sua tranquilidade, mas com quem, a julgar pelo seu semblante, não seria aconselhável discutir. Por isso, Theodore Racksole continuou as suas deambulações sem ser contestado, e repetia para si mesmo: "Tenho de fazer alguma coisa". Mas o quê? Não conseguia pensar num rumo a seguir.

Por fim, caminhou diretamente pelo hotel para fora, pela outra entrada, e subiu a pequena e modesta rua lateral até à torrente rugidora do Strand, estreito e apinhado. Saltou para um autocarro de Putney e pagou a sua tarifa até Putney, cinco pence, e então, descobrindo que os humildes ocupantes do veículo olhavam fixamente para o espetáculo de um homem em trajes de noite, mas sem sobretudo, saltou para fora novamente, alheio ao facto de o cobrador apontar o polegar para ele e piscar o olho aos passageiros como quem diz: "Lá vai um lunático". Entrou numa tabacaria e pediu um charuto. O lojista perguntou suavemente qual o preço.

— Quais são os melhores que tem? — perguntou Theodore Racksole.

— Cinco xelins cada, senhor — disse o homem prontamente.

— Dê-me um de um penny — foi o pedido lacónico de Theodore Racksole, e saiu da loja a fumar o charuto de um penny. Era uma sensação nova para ele.

Estava a inalar os odores aromáticos do estabelecimento de Eugène Rimmel para a venda de perfumes quando um cavalheiro, caminhando lentamente na direção oposta, o abordou com um tranquilo: "Boa noite, Sr. Racksole". O milionário não reconheceu de imediato o seu interlocutor, que usava um sobretudo de viagem e transportava uma mala de mão. Então, um leve sorriso de agrado passou pelas suas feições e ele estendeu a mão.

— Bem, Sr. Babylon — saudou o outro —, de todas as pessoas no mundo, o senhor é quem eu mais desejaria ter encontrado.

— O senhor lisonjeia-me — disse o pequeno suíço anglicizado.

— Não, não lisonjeio — respondeu Racksole; — não é o meu hábito, tal como não é o seu. Eu queria ter uma longa e boa conversa consigo, e eis que aqui está! De onde apareceu?

— De Lausana — disse Felix Babylon. — Tinha terminado os meus deveres lá, não tinha mais nada que fazer e sentia saudades de casa. Sentia a nostalgia de Londres e, por isso, vim, tal como me vê — e levantou a mala de mão para que Racksole a visse. — Uma escova de dentes, uma navalha, dois chinelos, eh? — Riu-se. — Perguntava-me, enquanto caminhava, onde ficaria hospedado... eu, Felix Babylon, sem casa em Londres.

— Aconselho-o a ficar no Grand Babylon — retorquiu Racksole, rindo.

— É um bom hotel, e conheço o proprietário pessoalmente.

— Um pouco caro, não é? — disse Babylon.

— Para o senhor — respondeu Racksole —, as condições incluídas serão exatamente de meia coroa por semana. Aceita?

— Aceito — disse Babylon, e acrescentou: — O senhor é muito amável, Sr. Racksole.

Caminharam juntos de volta ao hotel, sem dizer nada de especial, mas sentindo-se muito contentes com a companhia um do outro.

— Muitos clientes? — perguntou Felix Babylon.

— Muito tolerável — disse Racksole, assumindo o máximo do ar de proprietário profissional de hotel que conseguia. — Creio que posso dizer, na expressão do lojista, que, se há algum negócio a fazer, sou eu que o estou a fazer.

Esta noite, as pessoas estão todas no terraço, no pórtico... está um calor infernal... e o consumo de gelo é simplesmente enorme... quase tão grande como seria em Nova Iorque.

— Nesse caso — disse Babylon educadamente —, deixe-me oferecer-lhe outro charuto.

— Mas ainda não terminei este.

— É exatamente por isso que desejo oferecer-lhe outro. Um charuto como o seu, meu bom amigo, nunca deveria ser fumado nas imediações do Grand Babylon, nem mesmo pelo proprietário do Grand Babylon, e especialmente quando todos os hóspedes estão reunidos no pórtico. O fumo dele arruinaria qualquer hotel.

Theodore Racksole riu-se e acendeu o Rothschild Havana que Babylon lhe deu, e entraram no hotel de braço dado. Mas, assim que subiram os degraus, o pequeno Felix tornou-se objeto de inúmeras saudações. Parecia ter sido muito popular entre os seus antigos hóspedes. Finalmente, chegaram à sala da gerência, onde Babylon foi regalado com um frango, e Racksole ajudou-o no consumo de uma garrafa de Heidsieck Monopole, Carte d’Or.

— Este frango está quase perfeitamente grelhado — disse Babylon a certa altura. — É um crédito para a casa. Mas por que, meu caro Racksole, por que em nome dos céus se zangou com Rocco?

— Então, já ouviu?

— Ouvido! Meu caro amigo, estava em todos os jornais do Continente. Alguns jornais profetizaram que o Grand Babylon teria de fechar as suas portas dentro de meio ano, agora que Rocco o tinha abandonado. Mas, claro, eu sabia melhor. Sabia que o senhor devia ter uma boa razão para deixar Rocco partir, e que devia ter feito arranjos antecipados para um substituto.

— Na verdade, não tinha feito arranjos antecipados — disse Theodore Racksole, um pouco pesaroso; — mas, felizmente, encontrámos no nosso segundo sous-chef um artista inferior apenas ao próprio Rocco. Isso, contudo, foi mera sorte.

— Certamente — disse Babylon —, foi imprudente confiar na mera sorte num assunto tão sério?

— Não confiei na mera sorte. Não confiei em nada exceto em Rocco, e ele enganou-me.

— Mas por que se zangou com ele?

— Não me zanguei com ele. Encontrei-o a embalsamar um cadáver no quarto de Estado, uma noite...

— O senhor o quê? — Babylon quase gritou.

— Encontrei-o a embalsamar um cadáver no quarto de Estado — repetiu Racksole nos seus tons mais calmos.

Os dois homens olharam um para o outro, e então Racksole encheu o copo de Babylon.

— Diga-me — disse Babylon, acomodando-se profundamente numa poltrona e acendendo um charuto.

E Racksole narrou-lhe, então, todo o episódio de Posen, com todos os detalhes circunstanciais, na medida em que os conhecia. Foi uma recitação longa e complicada, que ocupou cerca de uma hora. Durante esse tempo, o pequeno Felix nunca disse uma palavra, mal moveu um músculo; apenas os seus olhos pequenos fitavam através da névoa azulada do fumo. O relógio sobre a lareira deu a meia-noite.

— Hora para um uísque com soda — disse Racksole, e levantou-se como para tocar a campainha; mas Babylon fez-lhe sinal para voltar.

— Disse-me que este Sampson Levi teve uma audiência com o Príncipe Eugen hoje, mas não me disse o resultado dessa audiência — disse Babylon.

— Porque ainda não o sei. Mas sem dúvida saberei amanhã. Entretanto, sinto-me bastante seguro de que Levi recusou ceder o milhão necessário ao Príncipe Eugen. Tenho razões para acreditar que o dinheiro foi emprestado noutro local.

— H’m! — meditou Babylon; e depois, descuidadamente: — Não me surpreende nada esse arranjo para espiar através da casa de banho dos apartamentos de Estado.

— Por que não se surpreende?

— Oh! — disse Babylon —, é um truque tão óbvio... tão fácil de realizar. Quanto a mim, tomei o cuidado especial de nunca me envolver nestes assuntos. Sabia que existiam; de alguma forma, sentia que existiam. Mas também sentia que estavam fora da minha esfera. O meu negócio era fornecer alojamento e alimentação da forma mais sumptuosa àqueles que não se importavam de pagar por isso; e eu fazia o meu negócio. Se algo mais acontecia no hotel, clandestinamente, decidi há muito ignorá-lo, a menos que viesse ao meu conhecimento; e nunca veio ao meu conhecimento. Contudo, admito que há uma certa excitação prazerosa neste tipo de assunto, e sem dúvida o senhor já a experimentou.

— Já — disse Racksole simplesmente —, embora acredite que se esteja a rir de mim.

— De forma alguma — respondeu Babylon. — Agora, qual, se me permite a pergunta, vai ser o seu próximo passo?

— É exatamente isso que eu próprio desejo saber — disse Theodore Racksole.

— Bem — disse Babylon, após uma pausa —, comecemos. Em primeiro lugar, é possível que lhe interesse saber que, por acaso, vi Jules hoje.

— Viu! — observou Racksole com muita calma. — Onde?

— Bem, foi hoje de manhã cedo, em Paris, pouco antes de partir de lá. O encontro foi completamente acidental, e Jules pareceu bastante surpreendido ao encontrar-me. Perguntou respeitosamente para onde eu ia, e eu disse que ia para a Suíça. Naquele momento, pensei que ia para a Suíça. Tinha-me ocorrido que, afinal, seria mais feliz lá, e que seria melhor voltar atrás e não ver mais Londres. Contudo, mudei de ideias mais uma vez, e decidi vir para Londres, e aceitar os riscos de ser infeliz lá sem o meu hotel. Depois, perguntei a Jules para onde se dirigia, e ele disse-me que ia para Constantinopla, estando interessado num novo hotel francês lá. Desejei-lhe boa sorte, e separámo-nos.

— Constantinopla, eh! — disse Racksole. — Um lugar altamente adequado para ele, diria eu.

— Mas — prosseguiu Babylon —, avistei-o novamente.

— Onde?

— Em Charing Cross, alguns minutos antes de ter o prazer de encontrar o senhor. O Sr. Jules não tinha ido para Constantinopla, afinal. Ele não me viu, ou eu ter-lhe-ia sugerido que, ao ir de Paris para Constantinopla, não é habitual viajar via Londres.

— A ousadia do indivíduo! — exclamou Theodore Racksole. — A desfaçatez magnífica e colossal do indivíduo!

Capítulo Vinte e Dois NAS CAVES DE VINHOS DO GRAND BABYLON

— SABE alguma coisa sobre os antecedentes deste Jules? — perguntou Theodore Racksole, servindo-se de uísque.

— Absolutamente nada — disse Babylon. — Até o senhor me dizer, não creio que soubesse que o seu nome verdadeiro era Thomas Jackson, embora, naturalmente, soubesse que não era Jules. Certamente não sabia que a Srta. Spencer era sua mulher, mas há muito suspeitava que as suas relações fossem algo mais íntimas do que a natureza dos seus respetivos deveres no hotel exigia absolutamente. Tudo o que sei de Jules — ele será sempre chamado de Jules — é que, gradualmente, através de alguma força pessoal misteriosa, adquiriu uma posição proeminente no hotel. Decididamente, foi o empregado de mesa mais inteligente e intelectual que alguma vez conheci, e era especialmente dotado na difícil tarefa de manter a sua própria dignidade enquanto não interferia na dos outros. Receio que esta informação seja demasiado vaga para ser de qualquer utilidade prática na presente dificuldade.

— Qual é a presente dificuldade? — questionou Racksole, com um ar simples.

— Imaginaria que a presente dificuldade é explicar a presença do homem em Londres.

— Isso é facilmente explicado — disse Racksole.

— Como? Supõe que ele está ansioso por se entregar à justiça, ou que as cadeias do hábito o ligam ao hotel?

— Nem uma coisa nem outra — disse Racksole. — Jules vai tentar outra vez... é só isso.

— Tentar outra vez o quê?

«Ao Príncipe Eugen. Ou à sua vida ou à sua liberdade. Muito provavelmente à primeira desta vez; quase certamente à primeira. Ele adivinhou que estamos um tanto limitados pela nossa ansiedade em manter o dilema do Príncipe Eugen em absoluto segredo, e está a tirar partido desse facto. Como, segundo a sua própria admissão, já é bastante rico, a recompensa que lhe foi oferecida deve ser enorme, e ele está absolutamente determinado a obtê-la. Ele provou por diversas vezes, recentemente, ser um homem audaz; salvo erro da minha parte, ele provará em breve ser ainda mais audaz.»

«Mas o que pode ele fazer? Certamente não sugere que ele tentará contra a vida do Príncipe Eugen neste hotel?»

«Por que não? Se Reginald Dimmock caiu apenas pela suspeita de que se revelaria infiel à conspiração, por que não o Príncipe Eugen?»

«Mas seria um crime indizível, e causaria um dano infinito ao hotel!»

«Verdade!» admitiu Racksole, sorrindo. O pequeno Felix Babylon pareceu preparar-se para absorver a sua ideia monstruosa.

«Como poderia isso ser feito?» perguntou ele a dada altura.

«Dimmock foi envenenado.»

«Sim, mas na altura tinha aqui o Rocco, e o Rocco estava na conspiração. É concebível que o Rocco pudesse ter tratado disso — dificilmente concebível. Mas sem o Rocco não creio que seja possível. Nem sequer penso que o Jules tentaria. Veja bem, num lugar como o Grand Babylon, como provavelmente não preciso de lhe apontar, a comida tem de passar por tantas mãos que envenenar uma pessoa sem matar talvez cinquenta seria uma operação extremamente delicada. Além disso, o Príncipe Eugen, a menos que tenha mudado os seus hábitos, é sempre servido pelo seu próprio criado, o velho Hans, e, por conseguinte, qualquer tentativa de adulterar um prato cozinhado imediatamente antes de ser servido seria perigosa ao extremo.»

«Concedido», disse Racksole. «O vinho, contudo, poderia ser obtido mais facilmente. Já pensou nisso?»

«Não tinha», admitiu Babylon. «É um teórico engenhoso, mas acontece que sei que o Príncipe Eugen manda sempre abrir o seu vinho na sua própria presença. Sem dúvida que seria aberto pelo Hans. Portanto, a teoria do vinho não é sustentável, meu amigo.»

«Não vejo porquê», disse Racksole. «Não sei nada de vinhos como um perito, e raramente os bebo, mas parece-me que uma garrafa de vinho poderia ser adulterada enquanto ainda estivesse na cave, especialmente se houvesse um cúmplice no hotel.»

«Pensa, então, que ainda não se livrou de todos os seus conspiradores?»

«Penso que o Jules ainda poderá ter um cúmplice dentro do edifício.»

«E que uma garrafa de vinho poderia ser aberta e rolhada novamente sem deixar qualquer vestígio da operação?» Babylon foi um pouco sarcástico.

«Não vejo a necessidade de abrir a garrafa para envenenar o vinho», disse Racksole. «Nunca tentei envenenar ninguém por meio de uma garrafa de vinho, e não pretendo ter qualquer talento natural como envenenador, mas penso que poderia conceber várias formas de conseguir o truque. Naturalmente, admito que posso estar completamente enganado quanto às intenções do Jules.»

«Ah!» disse Felix Babylon. «As caves de vinho abaixo de nós são uma das maravilhas de Londres. Espero que tenha consciência, Sr. Racksole, de que quando comprou o Grand Babylon comprou o que é provavelmente o melhor stock de vinhos de Inglaterra, se não da Europa. Na avaliação, calculei-os em sessenta mil libras. E posso dizer que sempre me certifiquei de que as caves estivessem devidamente guardadas. Até o Jules sentiria uma dificuldade séria em entrar à força nas caves sem a conivência do adegueiro, e o adegueiro é, ou era, incorruptível.»

«Tenho vergonha de dizer que ainda não inspecionei os meus vinhos», sorriu Racksole; «nunca pensei neles. Uma ou duas vezes dei-me ao trabalho de fazer um tour pelo hotel, mas omiti as caves nas minhas excursões.»

«Impossível, meu caro!» disse Babylon, divertido com tal confissão, para ele — um grande conhecedor e amante de vinhos finos — quase inacreditável. «Mas realmente tem de as ver amanhã. Se me permite, acompanhá-lo-ei.»

«Por que não hoje à noite?» sugeriu Racksole, calmamente.

«Hoje à noite! É muito tarde: o Hubbard já terá ido deitar-se.»

«E posso perguntar quem é o Hubbard? Lembro-me do nome vagamente.»

«Hubbard é o adegueiro do Grand Babylon», disse Felix, com uma certa ênfase. «Um homem sisudo de quarenta anos. Ele tem as chaves das caves. Conhece cada garrafa de cada compartimento, a sua data, as suas qualidades, o seu valor. E é abstémio. Hubbard é uma curiosidade. Nenhum vinho pode sair das caves sem o seu conhecimento, e nenhuma pessoa pode entrar nas caves sem o seu conhecimento. Pelo menos, era assim no meu tempo», acrescentou Babylon.

«Acordá-lo-emos», disse Racksole.

«Mas é uma da manhã», protestou Babylon.

«Não importa — isto é, se consentir em acompanhar-me. Uma cave é a mesma de noite como de dia. Portanto, por que não agora?»

Babylon encolheu os ombros. «Como desejar», concordou ele, com a sua indestrutível cortesia.

«E agora, encontrar este Sr. Hubbard, com a sua chave do armário», disse Racksole, enquanto saíam juntos da sala. Embora a hora fosse tão tardia, o hotel não estava, naturalmente, fechado para a noite. Alguns hóspedes ainda permaneciam pelas salas comuns, e alguns empregados de mesa fatigados ainda estavam de serviço. Um destes últimos foi enviado em busca do singular Sr. Hubbard, e felizmente revelou-se que este cavalheiro não se tinha de facto retirado, embora estivesse prestes a fazê-lo. Ele trouxe as chaves ao Sr. Racksole em pessoa e, após ter tido uma pequena conversa com o seu antigo patrão, o proprietário e o ex-proprietário do Grand Babylon Hôtel prosseguiram o seu caminho para as caves.

Estas caves estendem-se por, ou melhor, sob, quase metade da área superficial de todo o hotel — a metade longitudinal que fica junto ao Strand.

Devido ao facto de o terreno declinar acentuadamente do Strand para o rio, o Grand Babylon é, por assim dizer, mais profundo perto do Strand do que perto do Tamisa. Em direção ao Tamisa existe, abaixo do nível da entrada, um piso térreo e um subsolo. Em direção ao Strand existe piso térreo, subsolo e as enormes caves de vinho por baixo de tudo. Após descerem os quatro lances das escadas de serviço, e atravessarem uma longa passagem paralela à cozinha, os dois encontraram-se defronte de uma porta que, ao ser destrancada, deu acesso a outro lance de escadas. Ao fundo deste encontrava-se a entrada principal das caves. Fora da entrada estava o monta-cargas para o vinho, para a ascensão de fluidos deliciosos aos pisos superiores, e, em frente, o pequeno escritório do Sr. Hubbard. Havia luz elétrica por toda a parte.

Babylon, que, por estar mais habituado a elas, detinha o molho de chaves, abriu a grande porta, e então estavam na primeira cave — a primeira de uma série de cinco. Racksole ficou impressionado não só pela frescura gelada do lugar, mas também pela sua vastidão. Babylon tinha agarrado uma luz elétrica portátil, ligada a um longo fio, que estava à mão e, agitando-a, revelou as dimensões do lugar. Por aquela iluminação cintilante, a câmara subterrânea parecia indescritivelmente estranha e misteriosa, com as suas filas de compartimentos numerados, estendendo-se pela distância até que o brilho fosse reduzido ao ocasional brilho longínquo da luz no ombro de uma garrafa. Então Babylon ligou as luzes elétricas fixas, e Theodore Racksole iniciou uma visita guiada pessoalmente àquela que era, de facto, a parte mais interessante da sua própria propriedade.

Ver o entusiasmo inocente de Felix Babylon por estes depósitos de líquido estimulante era o que se chama no Norte «um regalo para os olhos».

Ele exibiu ao olhar atónito de Racksole, na devida ordem, todos os vinhos de três continentes — não, de quatro, pois o soberbo e delicioso vinho Constantia da Colónia do Cabo não faltava naquela coleção de vinhos extremamente católica. Começando pelos produtos insuperáveis da Borgonha, continuou com os claretes de Médoc, Bordéus e Sauternes; depois para os champanhes de Ay, Hautvilliers e Pierry; depois para os vinhos hock e mosela da Alemanha, e os brilhantes champanhes de imitação de Main, Neckar e Naumburg; depois para o famoso e adorável Tokay da Hungria, e todas as variedades austríacas de vinhos franceses, incluindo Carlowitz e Somlauer; depois para os xerez secos de Espanha, incluindo o puríssimo Manzanilla, e Amontillado, e Vino de Pasto; depois para os vinhos de Málaga, tanto doces como secos, e todos os «tintos espanhóis» da Catalunha, incluindo o escuro «Tent» tão frequentemente usado sacramentalmente; depois para o renomeado porto do Porto. Depois prosseguiu para a cave italiana, e discorreu sobre a excelência do Barolo do Piemonte, do Chianti da Toscana, do Orvieto dos Estados Romanos, das «Lágrimas de Cristo» de Nápoles, e do Marsala, mais comum, da Sicília. E assim por diante, com uma extensão e uma plenitude de detalhes que não podem ser aqui reproduzidas.

No final da série de caves havia uma porta envidraçada que, como se podia ver, dava acesso a uma cave suplementar e mais pequena, um aposento com cerca de quinze ou dezasseis pés quadrados.

«Algo de especial lá dentro?» perguntou Racksole curiosamente, enquanto estavam diante da porta e olhavam lá para dentro para as extremidades seladas das garrafas.

«Ah!» exclamou Babylon, quase lambendo os beiços, «ali reside o creme de todos.»

«O melhor champanhe, suponho?» disse Racksole.

«Sim», disse Babylon, «o melhor champanhe está lá — um Sillery muito especial, tão requintado como encontrará em qualquer parte. Mas vejo, meu amigo, que cai no erro comum de colocar o champanhe em primeiro lugar entre os vinhos. Essa distinção pertence à Borgonha. Tem Borgonha antiga nessa cave, Sr. Racksole, que me custou — quanto pensa? — oitenta libras a garrafa. Provavelmente nunca será bebida», acrescentou ele com um suspiro. «É demasiado cara até para príncipes e plutocratas.»

«Sim, será», disse Racksole rapidamente. «Eu e o senhor beberemos uma garrafa amanhã.»

«Então», continuou Babylon, ainda montado no seu cavalo de batalha, «existe uma amostra do vinho do Reno datada de 1706 que causou tal sensação na Exposição de Viena de 1873. Existe também um vinho persa singularmente glorioso de Shiraz, semelhante ao qual nunca vi em outro lugar. Existe também uma colheita inigualável de Romanée-Conti, a maior de todas as Borgonhas modernas. Se bem me lembro, o Príncipe Eugen bebe invariavelmente uma garrafa quando vem ficar aqui. Não consta na lista de vinhos do hotel, naturalmente, e apenas alguns clientes sabem da sua existência. Não o apregoamos propriamente pela sala de jantar.»

«De facto!» disse Racksole. «Entremos.»

Entraram no aposento de pedra, tornado quase sagrado pela preciosidade do seu conteúdo, e Racksole olhou em volta com um ar estranhamente atento e curioso. No lado oposto havia uma grade, através da qual vinha uma luz fraca.

«O que é aquilo?» perguntou o milionário bruscamente.

«Isso é meramente uma grade de ventilação. Uma boa ventilação é absolutamente essencial.»

«Parece partida, não parece?» sugeriu Racksole e então, colocando um dedo rapidamente no ombro de Babylon, «está alguém na cave. Não consegue ouvir a respiração, lá em baixo, atrás daquele compartimento?»

Os dois homens ficaram tensos e silenciosos por um momento, a ouvir, sob o raio da única luz elétrica no teto. Metade da cave estava envolta em penumbra. A dada altura, Racksole caminhou firmemente pelo corredor central entre os compartimentos e virou para o canto à direita.

«Saia, seu vilão!» disse ele num tom baixo, quase vicioso, e arrastou uma figura que se encolhia.

Ele esperava encontrar um homem, mas era a sua própria filha, Nella Racksole, sobre quem tinha lançado mãos coléricas.

Capítulo Vinte e Três MAIS ACONTECIMENTOS NA CAVE

«BEM, Pai», cumprimentou Nella o seu progenitor estupefacto. «Devia certificar-se de que agarrou a pessoa certa antes de usar toda essa sua força muscular terrível. Até creio que me partiu o osso do ombro.» Ela esfregou o ombro com uma expressão cómica de dor, e depois pôs-se de pé diante dos dois homens. A saia do seu vestido cinzento-escuro estava rasgada e suja, e a normalmente aprumada Nella parecia ter sido disparada por uma escada de incêndio de lona. Mecanicamente, ela alisou o vestido e deu um toque de endireitamento ao cabelo.

«Boa noite, Srta. Racksole», disse Felix Babylon, inclinando-se formalmente. «Este é um prazer inesperado.» Os modos de salão de Felix nunca o abandonavam em qualquer ocasião que fosse.

«Posso perguntar o que está a fazer na minha cave de vinho, Nella Racksole?» disse o milionário um pouco friamente. Ele estava certamente um tanto aborrecido por ter confundido a sua filha com um criminoso; além disso, detestava ser surpreendido, e naquela ocasião tinha sido surpreendido para lá de qualquer surpresa comum; finalmente, não estava de todo satisfeito por Nella ser observada naquele estranho dilema por um estranho.

«Vou dizer-lhe», disse Nella. «Eu tinha estado a ler um pouco tarde no meu quarto — a noite estava tão abafada. Ouvi o Big Ben bater as doze e meia, e então pousei o livro e fui para a varanda da minha janela apanhar um pouco de ar fresco antes de me deitar. Inclinei-me sobre a varanda muito silenciosamente — lembrar-se-á de que estou agora no terceiro andar — e olhei para baixo para o pequeno pátio afundado que separa a parede do hotel de Salisbury Lane. Fiquei um tanto estupefacta ao ver uma figura a rastejar pelo pátio. Eu sabia que não havia entrada para o hotel a partir daquele pátio, e além disso, fica quinze ou vinte pés abaixo do nível da rua. Por isso, observei. A figura foi-se encostar à parede e desapareceu da minha vista. Inclinei-me sobre a varanda o máximo que me atrevi, mas não consegui vê-lo. Podia ouvi-lo, contudo.»

«O que podia ouvir?» questionou Racksole bruscamente.

«Parecia um ruído de serra», disse Nella; «e continuou durante bastante tempo — quase um quarto de hora, creio eu — um tipo de ruído áspero.»

«Por que raio não veio avisar-me ou a alguém no hotel?» perguntou Racksole.

«Oh, não sei, Pai», respondeu ela docemente. «Tinha ficado interessada nisso, e pensei que veria o desenlace por mim mesma. Bem, como eu dizia, Sr. Babylon», continuou ela, dirigindo as suas observações a Felix, com um sorriso deslumbrante, «esse ruído continuou durante bastante tempo. Finalmente parou, e a figura reapareceu debaixo da parede, atravessou o pátio, subiu a parede oposta por algum meio ou outro, e assim passou por cima das grades para Salisbury Lane. Senti-me um pouco aliviada então, porque sabia que ele não tinha de facto entrado à força no hotel. Ele caminhou por Salisbury Lane muito lentamente. Um polícia estava precisamente a subir. “Boa noite, agente”, ouvi-o dizer ao polícia, e pediu-lhe um fósforo. O polícia forneceu o fósforo, e o outro homem acendeu um cigarro e prosseguiu mais abaixo pela ruela. Ao torcer o pescoço da minha janela, Sr. Babylon, pode-se vislumbrar o Embankment e o rio. Vi o homem atravessar o Embankment e inclinar-se sobre o muro do rio, onde parecia estar a falar com alguém. Ele depois caminhou ao longo do Embankment até Westminster e essa foi a última vez que o vi. Esperei um minuto ou dois que ele voltasse, mas ele não voltou, e por isso pensei que estava na hora de começar a fazer investigações sobre o assunto. Desci as escadas instantaneamente, e saí do hotel, através do quadrilátero, para Salisbury Lane, e olhei por cima daquelas grades. Havia uma escada do outro lado, pela qual era perfeitamente fácil — uma vez ultrapassadas as grades — descer para o pátio. Tive um medo horrível de que alguém pudesse subir Salisbury Lane e apanhar-me em flagrante a negociar aquelas grades, mas ninguém o fez, e superei-as, sem danos piores do que uma saia rasgada. Atravessei o pátio na ponta dos pés, e descobri que na parede, perto do chão e quase exatamente debaixo da minha janela, havia uma grade de ferro, com cerca de um pé por catorze polegadas. Suspeitei, como não havia outro ferro perto, que o misterioso visitante devia ter estado a serrar aquela grade para fins privados seus. Dei-lhe uma boa sacudidela, e não fiquei nada surpreendida por uma boa parte dela vir parar à minha mão, deixando espaço suficiente para uma pessoa rastejar por dentro. Decidi que rastejaria por dentro, e agora gostaria de não o ter feito. Não sei, Sr. Babylon, se alguma vez tentou rastejar através de um pequeno buraco com uma saia vestida. Já tentou?»

«Não tive esse prazer», disse o pequeno Felix, inclinando-se novamente, e pegando distraidamente numa garrafa que estava à sua mão.

«Bem, tem sorte», retomou a imperturbável Nella. «Durante três minutos inteiros pensei que pereceria naquela grade, Pai, com o meu ombro lá dentro e o resto de mim lá fora. Contudo, finalmente, através dos esforços mais espantosos e agonizantes, puxei-me para dentro e caí nesta cave extraordinária mais morta do que viva. Depois perguntei-me o que faria a seguir. Devia esperar pelo regresso do misterioso visitante, e esfaqueá-lo com as minhas tesouras de bolso se ele tentasse entrar, ou devia dar o alarme? Antes de mais nada, substituí a grade partida, depois risquei um fósforo, e vi que tinha ido parar a um deserto de garrafas. O fósforo apagou-se, e não tinha outro. Por isso sentei-me no canto a pensar. Tinha acabado de decidir esperar para ver se o visitante regressava, quando ouvi passos, e depois vozes; e então o senhor entrou. Tenho de dizer que fiquei um pouco surpreendida, especialmente quando reconheci a voz do Sr. Babylon. Vê, eu não queria assustá-los. Se eu tivesse saltado de trás das garrafas e dito “Bú!”, o senhor teria tido um choque grave. Queria pensar numa maneira de revelar a minha presença suavemente. Mas poupou-me o trabalho, Pai. Estava realmente a respirar tão alto que me podia ouvir?»

A rapariga terminou a sua estranha recitação, e houve um momento de silêncio na cave. Racksole apenas acenou afirmativamente à pergunta final dela.

«Bem, Nell, minha filha», disse o milionário a dada altura, «estamos muito agradecidos pelos seus esforços ginásticos — muito agradecidos. Mas agora, penso que é melhor ir deitar-se. Vai haver problemas graves aqui, aposto o meu último dólar nisso.»

«Mas se vai haver um assalto, gostaria tanto de o ver, Pai», implorou Nella. «Nunca vi um ladrão apanhado em flagrante.»

«Isto não é um assalto, minha querida. Calculo que seja algo muito pior do que um assalto.»

«O quê?» gritou ela. «Homicídio? Incêndio posto? Complô de dinamite? Como é perfeitamente esplêndido!»

«O Sr. Babylon informa-me que o Jules está em Londres», disse Racksole calmamente.

«Jules!» exclamou ela em voz baixa, e o seu tom mudou instantaneamente para a máxima seriedade. «Desligue a luz, depressa!» Saltando para o interruptor, ela deixou a cave na escuridão.

«Para que é isso?» disse o pai.

«Se ele voltar, veria a luz e assustar-se-ia», disse Nella. «Isso não serviria de todo.»

«Não serviria, Srta. Racksole», disse Babylon, e na sua voz havia uma nota de admiração pela sagacidade da rapariga que Racksole ouviu com elevado orgulho paternal.

«Escuta, Nella», disse este, puxando a filha para si na profunda penumbra da cave. «Imaginamos que o Jules possa estar a tentar adulterar uma certa garrafa de vinho — uma garrafa que poderia possivelmente ser bebida pelo Príncipe Eugen. Agora, achas que o homem que viste poderia ser o Jules?»

«Não tinha pensado previamente nele como sendo o Jules, mas assim que mencionou o nome, de alguma forma soube que ele era. Sim, estou certa de que era o Jules.»

«Bem, ouve apenas o que tenho a dizer. Não há tempo a perder. Se ele vier de todo, estará aqui muito em breve — e tu podes ajudar.» Racksole explicou o que pensava poderem ser as táticas do Jules. Propôs que, se o homem regressasse, não fosse interferido, mas apenas observado do outro lado da porta de vidro.

«Você quer, por assim dizer, capturar o Sr. Jules vivo?», disse Babylon, que parecia um tanto surpreendido com este método inovador de lidar com criminosos. «Certamente», acrescentou, «seria mais simples e fácil informar a polícia das suas suspeitas e deixar tudo por conta deles.»

«Meu caro amigo», disse Racksole, «já fomos longe demais sem a polícia para que seja aconselhável chamá-la nesta fase um tanto avançada do processo. Além disso, se faz questão de saber, tenho um desejo particular de capturar o canalha eu mesmo. Deixarei você e Nella aqui, já que Nella insiste em ver tudo, e organizarei as coisas de modo que, uma vez que ele tenha entrado na adega, Jules não saia dela novamente — pelo menos, não pela grade. É melhor que vocês se posicionem do outro lado da porta de vidro, na adega maior; estarão em posição de observar a partir de lá, eu sairei imediatamente. Tudo o que vocês precisam fazer é tomar nota do que o sujeito faz. Se ele tiver cúmplices dentro do hotel, provavelmente seremos capazes de descobrir quem é o cúmplice por esse meio.»

Acendendo um fósforo e protegendo-o com as mãos, Racksole conduziu ambos para fora da pequena adega. «Agora, se vocês trancarem esta porta de vidro pelo lado de fora, ele não poderá escapar por aqui: os painéis de vidro são pequenos demais e a estrutura de madeira é robusta demais. Assim, se ele cair na armadilha, vocês dois terão o prazer de vê-lo realmente contorcendo-se freneticamente nela, sem qualquer perigo pessoal; mas talvez seja melhor não se mostrarem.»

No instante seguinte, Felix Babylon e Nella ficaram sozinhos na escuridão da adega, ouvindo os passos distantes de Theodore Racksole. Mas o som desses passos não tinha se dissipado antes que outro som saudasse os seus ouvidos: a grade da pequena adega estava sendo removida.

«Espero que seu pai chegue a tempo», sussurrou Felix.

«Shhh!», advertiu a moça, e eles se agacharam lado a lado em um silêncio tenso.

Um homem, cautelosa, mas muito habilmente, contorceu o corpo através da abertura da grade. Os observadores só podiam ver a sua forma indistintamente na escuridão.

Então, estando inteiramente dentro da adega, ele caminhou sem a menor hesitação até o interruptor elétrico e acendeu a luz. Era inequivocamente Jules, e ele conhecia muito bem a geografia da adega. Babylon dificilmente conseguiu reprimir um sobressalto ao ver aquele ex-garçom audacioso e inescrupuloso movendo-se com tal ar de segurança e determinação pela preciosa adega. Jules foi diretamente a um pequeno nicho numerado como 17 e retirou de lá a garrafa do topo.

«O Romanée-Conti — o vinho do Príncipe Eugen!», exclamou Babylon em voz baixa.

Jules removeu o selo, de forma limpa e rápida, com um instrumento que claramente trouxera para esse propósito. Em seguida, tirou do bolso uma pequena caixa chata, que parecia conter uma espécie de pomada preta. Esfregando o dedo nela, besuntou o topo do gargalo da garrafa, exatamente onde a rolha encontrava o vidro. No instante seguinte, ele havia recolocado habilmente o selo e restaurado a garrafa à sua posição. Depois, apagou a luz e dirigiu-se para a abertura. Quando ele estava na metade do caminho, Nella exclamou: «Ele vai escapar, afinal. Papai não teve tempo — temos que detê-lo.»

Mas Babylon, aquela personificação da cautela, conteve à força, embora educadamente, a garota ianque, a quem considerava tão imprudente e precipitada, e antes que ela pudesse se libertar, a forma ágil de Jules desaparecera.

Capítulo Vinte e Quatro A GARRAFA DE VINHO

NO que diz respeito a Theodore Racksole, que deveria ter capturado o seu homem do lado de fora da adega, ele fez o seu caminho o mais rapidamente possível das adegas de vinho até o andar térreo, saindo do hotel pelo quadrilátero, atravessando o quadrilátero e saindo no topo da Salisbury Lane. Ora, devido à vastidão da estrutura do Grand Babylon, a mera distância a ser percorrida equivalia a pouco menos de quatrocentos metros e, como incluía vários lances de escadas, cerca de duas dúzias de curvas e várias passagens que àquela hora da noite estavam na escuridão mais ou menos completa, não se poderia esperar que Racksole cumprisse o percurso em menos de cinco minutos. Na verdade, seis minutos se passaram antes que ele chegasse ao topo da Salisbury Lane, porque ele foi atrasado quase um minuto por algumas perguntas feitas a ele por um hóspede confuso e carregado de uísque que se perdera nos corredores. Como todos sabem, há uma curva fechada e curta na Salisbury Lane perto do topo. Racksole contornou-a em boa velocidade de corrida, mas teve a infelicidade de dar de cara exatamente com o policial que não muito tempo antes fornecera tão gentilmente um fósforo a Jules. O policial parecia estar em um estado de espírito menos complacente naquele momento.

«Olá!», disse ele, sua natureza naturalmente suspeita sendo indubitavelmente despertada pelo espetáculo de um homem sem chapéu, em traje de gala, correndo violentamente pela viela. «O que é isto? Para onde vai com tanta pressa?», e ele deteve à força Theodore Racksole por um momento e examinou-lhe o rosto.

«Agora, oficial», disse Racksole calmamente, «nada de brincadeiras, se me permite. Não tenho tempo a perder.»

«Peço perdão, senhor», observou o policial, embora hesitante e não com muito bom humor, e Racksole foi autorizado a seguir o seu caminho. O plano do milionário para prender Jules era descer ao pequeno pátio rebaixado por meio da escada e, então, esconder-se atrás de algum pilar de tijolos conveniente até que o Sr. Tom Jackson tivesse entrado na adega. Ele, portanto, superou agilmente as grades — as grades do seu próprio hotel — e estava descendo cautelosamente a escada quando, eis que uma mão áspera o agarrou pelo colarinho do casaco e, com um puxão feroz, impeliu-o para trás. O fato era que Theodore Racksole contara sem o policial. Aquele guardião da paz, desconfiando do comportamento de Racksole, seguiu-o silenciosamente pela viela. A visão do milionário escalando as grades despertara o seu brio, e o resultado foi a captura ignominiosa de Racksole. Em vão Theodore expostulou, explicou, amaldiçoou. Apenas uma coisa satisfaria o policial estóico: que Racksole retornasse com ele ao hotel e lá estabelecesse a sua identidade. Se Racksole provasse ser Racksole, proprietário do Grand Babylon, muito bem — o policial prometeu pedir desculpas. Portanto, Theodore não teve alternativa a não ser aceitar a sugestão. Provar a sua identidade foi, naturalmente, trabalho de apenas alguns minutos, após o que Racksole, aborrecido, mas tão calmo como sempre, retornou às suas grades, enquanto o policial partiu para outra parte da sua ronda, onde provavelmente encontraria um companheiro e conversaria um pouco.

Entretanto, o nosso amigo Jules, sublimemente inconsciente da altercação que ocorria do lado de fora e do risco especial que corria, estava, é claro, realmente na adega, onde chegara antes que Racksole chegasse às grades pela primeira vez. Foi, na verdade, uma feliz coincidência para Jules que a sua saída da adega coincidisse com o período em que Racksole estava ausente das grades. Quando Racksole desceu a viela pela segunda vez, viu uma figura caminhando cerca de quarenta e cinco metros à sua frente em direção ao Embankment. Instantaneamente, adivinhou que era Jules e que o policial o atrasara por pouco tempo demais. Ele correu, e Jules, ouvindo o barulho da perseguição, correu também. O ex-garçom era veloz; ele dirigiu-se diretamente para um determinado ponto no muro do Embankment e, para o intenso espanto de Racksole, saltou limpo sobre o muro, ao que parecia, para dentro do rio. «Será ele tão desesperado a ponto de cometer suicídio?», exclamou Racksole enquanto corria, mas um segundo depois o bufo e o resfolegar de uma lancha a vapor indicaram-lhe que Jules não estava exatamente levado ao suicídio. Quando o milionário atravessou a estrada do Embankment, viu a chaminé da lancha mover-se para fora de sob o muro do rio. Ela desviou para o meio da correnteza e dirigiu-se para a London Bridge. Havia uma névoa silenciosa sobre o rio. Racksole estava impotente...

Embora Racksole tivesse sido agora derrotado duas vezes em uma disputa de inteligência dentro das dependências do Grand Babylon, uma vez por Rocco e outra por Jules, ele não podia culpar justamente a si mesmo pelo atual fracasso dos seus planos — um fracasso devido à intromissão de uma pessoa estranha, combinada com pura má sorte. Ele, portanto, não permitiu que o acidente interferisse no seu sono naquela noite.

No dia seguinte, ele procurou o Príncipe Aribert, entre quem e ele agora existia um sentimento de inconfundível e franca amizade, e revelou-lhe os acontecimentos da noite anterior, e particularmente a adulteração da garrafa de Romanée-Conti.

«Acredito que jantou com o Príncipe Eugen na noite passada?»

«Jantei. E, curiosamente, tivemos uma garrafa de Romanée-Conti, um vinho admirável, do qual Eugen é apaixonadamente fã.»

«E jantará com ele esta noite?»

«Muito provavelmente. Hoje será, temo, o nosso último dia aqui. Eugen deseja retornar a Posen amanhã cedo.»

«Passou pela sua cabeça, Príncipe», disse Racksole, «que se Jules tivesse conseguido envenenar o seu sobrinho, ele provavelmente teria conseguido envenenar você também?»

«Não tinha pensado nisso», riu Aribert, «mas pareceria ser o caso. Parece que, contanto que ele derrube a sua presa específica, Jules é descuidado com qualquer outra coisa que possa ser acidentalmente envolvida na destruição. No entanto, não precisamos ter medo quanto a isso agora. Você conhece a garrafa e pode destruí-la imediatamente.»

«Mas não pretendo destruí-la», disse Racksole calmamente. «Se o Príncipe Eugen pedir que o Romanée-Conti seja servido esta noite, como provavelmente fará, proponho que aquela garrafa específica seja servida a ele — e a você.»

«Então você nos envenenaria apesar de nós mesmos?»

«Dificilmente», Racksole sorriu. «Minha ideia é descobrir os cúmplices dentro do hotel. Já indaguei sobre o funcionário da adega, Hubbard. Agora, não lhe parece extraordinário que, neste dia em particular, o Sr. Hubbard esteja doente na cama? Hubbard, fui informado, sofre de um ataque de envenenamento estomacal que ocorreu durante a noite. Ele diz que não sabe o que pode ter causado isso. O seu lugar nas adegas será ocupado hoje pelo seu assistente, um jovem, mas, ao que tudo indica, um jovem bastante esperto. Não preciso dizer que ficaremos de olho nesse jovem.»

«Um momento», interrompeu o Príncipe Aribert. «Não entendo bem como você acha que o envenenamento deveria ter sido efetuado.»

«A garrafa está agora sob exame de um especialista, que tem instruções para remover o mínimo possível da substância que Jules colocou na borda da boca. Ela será secretamente recolocada no seu nicho durante o dia. Minha ideia é que, pelo simples ato de servir, o vinho absorve um pouco do veneno, que considero ser muito forte, tornando-se fatal assim que entra na taça.»

«Mas, certamente, o criado que serve limpando a boca da garrafa?»

«Muito descuidadamente, talvez. E, além disso, seria extremamente improvável que ele limpasse toda a substância; parte dela foi colocada engenhosamente na borda interna da boca. Além disso, suponha que ele se esqueça de limpar a garrafa?»

«O Príncipe Eugen é sempre servido no jantar por Hans. É uma honra que o fiel velho reserva para si mesmo.»

«Mas suponha que Hans...» Racksole parou.

«Hans, um cúmplice! Meu caro Racksole, a sugestão é totalmente impossível.»

Naquela noite, o Príncipe Aribert jantou com o seu augusto sobrinho na soberba sala de jantar dos apartamentos reais. Hans serviu, sendo os pratos trazidos até à porta por outros criados. Aribert encontrou o seu sobrinho desanimado e taciturno. No dia anterior, quando, após a inútil entrevista com Sampson Levi, o Príncipe Eugen ameaçara desesperadamente cometer suicídio, de tal maneira que fizesse parecer «um acidente», Aribert obrigara-o a dar a sua palavra de honra de que não o faria.

«Que vinho Vossa Alteza Real tomará?», perguntou o velho Hans em seus tons suaves, quando a sopa foi servida.

«Xerez», foi a ordem curta do Príncipe Eugen.

«E Romanée-Conti depois?», disse Hans. Aribert olhou para cima rapidamente.

«Não, não esta noite. Vou experimentar Sillery esta noite», disse o Príncipe Eugen.

«Acho que vou tomar Romanée-Conti, Hans, afinal», disse ele. «Combina melhor comigo do que champanhe.»

O famoso e insuperável Borgonha foi servido com o assado. O velho Hans trouxe-o ternamente no seu berço de vime, inseriu o saca-rolhas com precisão matemática e puxou a rolha, que ofereceu à inspeção do seu senhor. Eugen acenou e disse-lhe para a colocar sobre a mesa. Aribert observou com intenso interesse. Ele não podia acreditar nem por um instante que Hans não fosse a própria alma da fidelidade e, no entanto, apesar de si mesmo, as palavras de Racksole causaram-lhe um certo mal-estar. Naquele momento, o Príncipe Eugen murmurou do outro lado da mesa:

«Aribert, retiro a minha promessa. Observe isso, eu a retiro.» Aribert balançou a cabeça enfaticamente, sem desviar o olhar de Hans. O criado de cabelos brancos passou o seu guardanapo superficialmente ao redor do gargalo da garrafa de Romanée-Conti e serviu um copo. Aribert tremeu da cabeça aos pés.

Eugen pegou o copo e ergueu-o contra a luz.

«Não beba», disse Aribert muito calmamente. «Está envenenado.»

«Envenenado!», exclamou o Príncipe Eugen.

«Envenenado, alteza!», exclamou o velho Hans, com um ar de profundo espanto e preocupação, e ele agarrou o copo. «Impossível, alteza. Eu mesmo abri a garrafa. Ninguém mais tocou nela, e a rolha estava perfeita.»

«Eu lhe digo que está envenenado», repetiu Aribert.

«Sua Alteza perdoará um velho», disse Hans, «mas dizer que este vinho é veneno é dizer que sou um assassino. Provarei que não está envenenado. Eu o beberei.» E ele levou o copo aos seus lábios trêmulos. Naquele momento, Aribert viu que o velho Hans, pelo menos, não era um cúmplice de Jules. Saltando do seu assento, ele derrubou o copo das mãos do velho criado, e os fragmentos dele caíram com um leve estalo metálico, em parte sobre a mesa e em parte no chão. O Príncipe e o criado olharam um para o outro em um silêncio angustiante e terrível.

Houve um leve ruído, e Aribert olhou para o lado. Viu que o corpo de Eugen escorregara para a frente, flácido, sobre o braço esquerdo da sua cadeira; os braços do Príncipe pendiam retos e sem vida; os seus olhos estavam fechados; ele estava inconsciente.

«Hans!», murmurou Aribert. «Hans! O que é isto?»

Capítulo Vinte e Cinco A LANCHA A VAPOR

A ideia do Sr. Tom Jackson de conseguir a sua fuga do hotel por meio de uma lancha a vapor era excelente, até onde ia, mas Theodore Racksole, por sua vez, não considerava que fosse longe o suficiente.

Theodore Racksole opinou, com alegria peculiar, que agora tinha uma pista tangível e definida para a captura do ex-garçom do Grand Babylon. Ele não sabia nada do Porto de Londres, mas por acaso sabia muito sobre o Porto de Nova York, muito mais complicado, embora um pouco menor, e tinha certeza de que não deveria haver dificuldade extraordinária em conseguir colocar as mãos na lancha a vapor de Jules. Para aqueles que não estão totalmente familiarizados com ele, o Rio Tâmisa e as suas docas, da London Bridge até Gravesend, parecem uma vasta e desconhecida selva de embarcações — uma selva na qual seria perfeitamente fácil esconder até mesmo um navio de três mastros com sucesso. Para tais pessoas, a ideia de procurar uma lancha a vapor no rio seria equivalente à ideia de procurar uma agulha em um palheiro. Mas o fato é que existem centenas de homens entre o St Katherine’s Wharf e Blackwall que literalmente conhecem o Tâmisa como o morador suburbano conhece o seu jardim das traseiras — que conseguem reconhecer milhares de navios e nomeá-los a uma distância de oitocentos metros, que são informados sobre cada movimento das embarcações no grande rio, que conhecem todos os capitães, todos os engenheiros, todos os barqueiros, todos os pilotos, todos os barqueiros licenciados e todos os canalhas não licenciados desde a Torre até Gravesend, e muito mais longe. Por esses especialistas do Tâmisa, o menor evento incomum na água é notado e discutido — um bote não pode mudar de mãos sem que eles adivinhem com perspicácia o preço pago e as intenções do novo proprietário em relação a ele. Eles têm o hábito de observar o rio pelo simples interesse da visão, e conversam sobre tudo como donas de casa reunidas à noite ao redor da porta da casa de campo. Se o primeiro imediato de um Castle Liner é despedido, eles serão capazes de lhe dizer o que ele disse ao capitão, o que o velho disse a ele e o que ambos disseram à Diretoria, e, tendo terminado esse assunto, eles passarão alegremente a discutir se Bill Stevens afundou a sua barcaça fora do West Indian No.2 por acidente ou de propósito.

Theodore Racksole não tinha meios satisfatórios de identificar a lancha a vapor que levou o Sr. Tom Jackson. O céu nublara-se pouco depois da meia-noite, e havia também uma leve névoa, e ele só conseguira distinguir que era uma embarcação baixa, com cerca de dezoito metros de comprimento, provavelmente pintada de preto. Ele pessoalmente mantivera uma vigilância durante toda a noite sobre as embarcações que subiam o rio, e durante a manhã seguinte teve um homem para tomar o seu lugar, que o avisava sempre que uma lancha a vapor ia em direção a Westminster. Ao meio-dia, após a sua conversa com o Príncipe Aribert, ele desceu o rio em um barco a remos alugado até à Alfândega e remexeu em toda parte, em busca de qualquer embarcação que pudesse ser, por qualquer possibilidade, aquela que estava procurando.

Mas não encontrou nada. Ele estava, portanto, toleravelmente seguro de que a misteriosa lancha estava em algum lugar abaixo da Alfândega. Nos degraus da Alfândega, ele desembarcou e perguntou por um funcionário de alto escalão — um funcionário inferior apenas a um Comissário — que ele entretivera uma vez em Nova York e que o encontrara em Londres a negócios no Lloyd’s. No escritório grande, mas sombrio, desse grande homem, ocorreu uma longa conversa — uma conversa na qual Racksole teve de exercer uma certa dose de poder de persuasão e que terminou, por fim, com o alto funcionário tocando a sua campainha.

«Diga ao Sr. Hazell — sala nº 332 — para falar comigo», disse o funcionário ao rapaz que atendeu ao chamado e, então, voltando-se para Racksole: «Dificilmente preciso repetir, meu caro Sr. Racksole, que isto é estritamente não oficial.»

«Acordado, é claro», disse Racksole.

O Sr. Hazell entrou. Era um homem jovem de cerca de trinta anos, vestido de sarja azul, com um rosto pálido e perspicaz, um bigode castanho e uma barba castanha bastante bonita.

«Sr. Hazell», disse o alto funcionário, «deixe-me apresentá-lo ao Sr. Theodore Racksole — você sem dúvida estará familiarizado com o seu nome. O Sr. Hazell», continuou ele para Racksole, «é um dos nossos funcionários de campo — o que chamamos de oficial examinador. Agora, ele está fazendo o turno da noite. Ele tem um barco no rio e alguns homens, e o direito de abordar e examinar qualquer embarcação que seja. O que o Sr. Hazell e a sua equipe não sabem sobre o Tâmisa entre aqui e Gravesend não é conhecimento.»

«Prazer em conhecê-lo, senhor», disse Racksole simplesmente, e eles apertaram as mãos.

Racksole observou com satisfação que o Sr. Hazell estava totalmente à vontade.

«Agora, Hazell», continuou o alto funcionário, «o Sr. Racksole quer que você ajude em uma pequena expedição privada no rio esta noite. Vou dar-lhe uma noite de folga. Chamei-o em parte porque achei que você gostaria do caso e em parte porque penso que posso contar com você para encará-lo como inteiramente não oficial e não falar sobre isso. Entende? Suponho que não terá motivo para se arrepender de ter obrigado o Sr. Racksole.»

«Acho que entendi a situação», disse Hazell, com um leve sorriso.

«E, a propósito», acrescentou o alto funcionário, «embora o assunto seja não oficial, seria bom se você usasse o seu sobretudo oficial. Entende?»

«Decididamente», disse Hazell; «eu o teria feito de qualquer maneira.»

«E agora, Sr. Hazell», disse Racksole, «você me daria o prazer de almoçar comigo? Se concordar, gostaria de almoçar no lugar que você costuma frequentar.»

Foi assim que Theodore Racksole e George Hazell, funcionário externo da Alfândega, almoçaram juntos no ‘Thomas’s Chop-House’, na cidade de Londres, à base de costeletas de carneiro e café. O milionário logo descobriu que tinha diante de si um homem de espírito aguçado e grande perspicácia.

‘Diga-me’, disse Hazell, quando chegaram à fase do cigarro, ‘os escritores de revistas estão perto da verdade?’

‘O que quer dizer com isso?’, perguntou Racksole, intrigado.

‘Bem, o senhor é um milionário... “um dos melhores”, creio eu. Muitas vezes vejo artigos sobre, e entrevistas com, milionários, que descrevem seus vagões ferroviários particulares, seus iates a vapor no Hudson, suas estrebarias de mármore e assim por diante. O senhor por acaso possui essas coisas?’

‘Tenho um vagão particular na New York Central e tenho um iate de duas mil toneladas — embora não esteja no Hudson. Acontece que, neste momento, ele está no East River. E sou obrigado a admitir que as estrebarias da minha propriedade na zona norte são revestidas de mármore.’ Racksole riu.

‘Ah!’, disse Hazell. ‘Agora posso acreditar que estou almoçando com um milionário.

É estranho como fatos como esses — sem importância em si mesmos — apelam à imaginação. O senhor me parece um milionário de verdade agora. Deu-me algumas informações pessoais; darei algumas em troca. Ganho trezentas libras por ano, e talvez sessenta libras extras por horas extras. Moro sozinho em dois cômodos em Muscovy Court. Tenho tanto dinheiro quanto preciso, e sempre faço exatamente o que quero fora do escritório. Quanto ao escritório, faço o mínimo de trabalho possível, por princípio — é uma luta entre nós e os Comissários para ver quem leva a melhor. Eles tentam nos passar a perna, e nós tentamos passar a perna neles — é um empate, no geral. Tudo é justo na guerra, sabe, e não há dez mandamentos em uma repartição pública.’

Racksole riu. ‘Pode sair hoje à tarde?’, perguntou ele.

‘Certamente’, disse Hazell; ‘pedirei a um dos meus colegas para assinar o ponto por mim, e então estarei livre.’

‘Bem’, disse Racksole, ‘gostaria que o senhor viesse comigo ao Grand Babylon. Então poderemos discutir meu pequeno assunto com detalhes. E podemos ir no seu barco? Quero conhecer sua tripulação.’

‘Tudo bem’, observou Hazell. ‘Meus dois homens são os sujeitos mais ociosos e sem alma que o senhor já viu. Comem demais e têm um apetite enorme por cerveja; mas conhecem o rio, conhecem seu ofício e farão qualquer coisa dentro do jogo limpo, se forem pagos por isso e não lhes pedirem para se apressar.’

Naquela noite, logo após o anoitecer, Theodore Racksole embarcou com seu novo amigo George Hazell em uma das lanchas da Alfândega, pintadas de preto, tripuladas por dois homens — ambos homens livres do rio, uma distinção que traz consigo certos privilégios desconhecidos do simples habitante da terra. Era uma noite nublada e opressiva, sem uma estrela para iluminar a maré lenta, agora logo após a cheia. As formas vastas de navios a vapor ancorados — principalmente os da General Steam Navigation e da Aberdeen Line — erguiam-se bem acima da água, forçando preguiçosamente suas boias de amarração. De ambos os lados, as paredes nuas dos armazéns erguiam-se como precipícios cinzentos acima do fluxo, estendendo braços pitorescos de guindastes a vapor. A oeste, a Tower Bridge atravessava o rio com seu arco formidável, e acima dele sua passarela suspensa — a quarenta e cinco metros do solo.

Para o leste e para o Pool of London, uma floresta de chaminés e mastros estava vagamente delineada contra o céu sinistro. Barcaças enormes, cada uma conduzida por um único homem ao final de um par de remos gigantes, seguiam penosamente e giravam rio abaixo em todos os ângulos. Ocasionalmente, um rebocador bufava ocupado, piscando seus sinais vermelhos e verdes e arrastando uma cauda desajeitada de barcaças em seu rastro. Então, um navio de passageiros de Margate, com suas luzes elétricas brilhando em cada vigia, desviou-se para ancorar, com sua carga de dois mil excursionistas fatigados. Sobre tudo pairava um ar de mistério — um espírito e sentimento de estranheza, isolamento e inexplicabilidade. Enquanto o barco largo, plano e pequeno balançava seu caminho sob a sombra de cascos enormes, sob cabos esticados e passando por boias cobertas de lodo verde, Racksole mal podia acreditar que estava no coração de Londres — a cidade mais prosaica do mundo. Ele teve uma ideia estranha de que quase qualquer coisa poderia acontecer nesse aparente desperdício de águas, nesta hora estranha das dez da noite. Parecia-lhe incrível que, a apenas um ou dois quilômetros de distância, pessoas estivessem sentadas em teatros aplaudindo farsas, e que na estação de Cannon Street, a poucos metros de distância, outras pessoas estivessem calmamente pegando o trem para vários subúrbios altamente respeitáveis cujos nomes ele estava aprendendo gradualmente. Ele teve a sensação edificante de estar em outro mundo que às vezes nos acomete em meio a ambientes violentamente diferentes dos nossos. Os ruídos mais comuns — de homens chamando, de uma corrente correndo por um orifício, de uma sirene distante — traduziam-se em seus ouvidos como sons terríveis e assombrosos, cheios de significado agourento. Ele olhou por cima da amurada do barco para a água marrom e perguntou a si mesmo que segredos terríveis jaziam escondidos em sua profundidade. Então, ele colocou a mão no bolso de trás e tocou o cabo de seu revólver Colt — aquela substância familiar o confortou.

Os remadores tinham instruções para descer lentamente até o Pool, como é chamado o trecho largo abaixo da Torre. Esses dois homens não haviam sido informados anteriormente do objetivo preciso da expedição, mas, agora que estavam em segurança, Hazell julgou conveniente dar-lhes alguma noção disso. ‘Esperamos encontrar uma lancha a vapor bastante suspeita’, disse ele. ‘Meu amigo aqui está muito ansioso para vê-la, e até que ele a veja, nada de definitivo pode ser feito.’

‘Que tipo de embarcação é, senhor?’, perguntou o remador de voga, um homem de rosto gordo que parecia absolutamente incapaz de qualquer esforço sério.

‘Não sei’, respondeu Racksole; ‘mas, pelo que posso julgar, ela tem cerca de dezoito metros de comprimento e é pintada de preto. Acho que a reconhecerei quando a vir.’

‘Não é muito para se basear, isso’, exclamou o outro homem secamente. Mas não disse mais nada. Ele, assim como seu companheiro, havia recebido de Theodore Racksole uma libra esterlina como uma espécie de taxa preliminar, e uma libra esterlina pode fazer muito para silenciar as tendências sarcásticas naturais e o discurso livre de um barqueiro do Tâmisa.

‘Há uma coisa que notei’, disse Racksole de repente, ‘e esqueci de lhe contar, Sr. Hazell. O hélice parecia mover-se com uma batida um tanto irregular, como se mancasse.’

Ambos os barqueiros explodiram em uma risada.

‘Oh’, disse o remador gordo, ‘já sei o que o senhor procura, senhor — é a lancha de Jack Everett, comumente chamada de “Squirm”. Ela tem um hélice de quatro pás, e uma pá está quebrada pela metade.’

‘Sim, é isso mesmo, com certeza’, concordou o homem na proa. ‘E se é ela que o senhor quer, eu a vi parada no Cherry Gardens Pier logo esta manhã.’

‘Vamos para o Cherry Gardens Pier, de qualquer maneira, o mais rápido possível’, disse Racksole, e o barco atravessou o fluxo e começou a rastejar pela margem direita, tateando seu caminho após os cais, muitos dos quais, mesmo àquela hora, ainda estavam ocupados com seus guindastes, que desciam vazios para as barrigas dos navios e subiam cheios. Enquanto os dois barqueiros manobravam cautelosamente o barco na maré vazante, Hazell explicou ao milionário que o ‘Squirm’ era uma das embarcações mais notórias do rio. Parecia que, quando alguém tinha um esquema nefasto ou dissimulado em andamento que exigia trabalho fluvial, a lancha de Everett estava sempre disponível mediante uma compensação monetária adequada. O ‘Squirm’ havia se metido em mil enrascadas, e saído delas em segurança, se não exatamente com honra. A polícia fluvial mantinha um olho atento sobre ele, e a maior maravilha de tudo era que o velho Everett, o proprietário, nunca tinha sido seriamente comprometido em qualquer escapada ilegal. Nem uma vez o oficial da lei conseguiu provar algo definitivo contra o dono do ‘Squirm’, embora vários de seus antigos contratantes estivessem, naquele exato momento, em várias das prisões de Sua Majestade por todo o país. Ultimamente, no entanto, a lancha, com seu hélice danificado, que Everett consistentemente se recusava a consertar, havia adquirido uma reputação maligna, mesmo entre os malfeitores, e esta fraternidade gradualmente começou a abandoná-la por embarcações menos facilmente reconhecíveis.

‘Seu amigo, Sr. Tom Jackson’, disse Hazell a Racksole, ‘cometeu um erro de discrição ao contratar o “Squirm”. Um canalha de sua experiência e calibre deveria certamente ter tido mais juízo. O senhor não pode deixar de obter uma pista agora.’

A essa altura, o barco estava se aproximando do Cherry Gardens Pier, mas, infelizmente, uma névoa noturna fina havia varrido o rio, e os objetos não podiam ser discernidos com clareza além de uma distância de trinta metros. Enquanto o barco da Alfândega passava pelo cais, todos os seus ocupantes esforçavam os olhos para vislumbrar a lancha misteriosa, mas nada se podia ver dela. O barco continuou a flutuar ociosamente rio abaixo, com os homens descansando nos remos.

Então, eles escaparam por pouco de bater em um grande navio a vela norueguês ancorado, com sua proa apontando rio abaixo. Eles passaram por este navio pelo lado de bombordo. Assim que se afastaram do gurupés, o homem gordo gritou empolgado: ‘Lá está o nariz dela!’, e ele virou o barco e começou a remar de volta contra a maré. E certamente o ‘Squirm’ desaparecido estava confortavelmente ancorado no quarto de bombordo do navio norueguês, escondido perfeitamente entre o navio e a margem. Os homens encostaram muito silenciosamente.

Capítulo Vinte e Seis A PERSEGUIÇÃO NOTURNA E O MENINO DO LODO

‘Vou abordá-la primeiro’, disse Hazell, sussurrando para Racksole. ‘Vou fingir que suspeito que eles têm mercadorias tributáveis a bordo, e isso me dará uma chance de dar uma boa olhada nela.’

Vestido com seu sobretudo oficial e quepe, ele subiu, de forma bastante saltitante, como Racksole pensou, no convés baixo da lancha. ‘Tem alguém a bordo?’

Racksole o ouviu gritar, e uma voz feminina respondeu. ‘Sou um oficial examinador da Alfândega e quero revistar a lancha’, gritou Hazell, e então desapareceu no pequeno salão a meia-nau, e Racksole não ouviu mais nada. Parecia ao milionário que Hazell estava fora há horas, mas, finalmente, ele retornou.

‘Não consigo encontrar nada’, disse ele, ao pular para dentro do barco, e então, em particular para Racksole: ‘Há uma mulher a bordo. Parece que ela pode coincidir com a sua descrição da Srta. Spencer. O vapor está ligado, mas não há engenheiro. Perguntei onde estava o engenheiro, e ela perguntou que negócio era aquele meu, e solicitou que eu terminasse meu próprio negócio e fosse embora. Parece ser uma pessoa bastante esperta. Enfiei meu nariz em tudo, mas não vi sinal de mais ninguém. Talvez seja melhor nos afastarmos e ficarmos por perto um pouco, só para ver se algo estranho ocorre.’

‘O senhor tem certeza absoluta de que ele não está a bordo?’, perguntou Racksole.

‘Com certeza’, disse Hazell positivamente: ‘Sei como revistar uma embarcação. Veja isto’, e ele entregou a Racksole uma espécie de espeto de aço, com cerca de sessenta centímetros de comprimento, com um cabo de madeira. ‘Isso’, disse ele, ‘é um dos auxílios da Alfândega para revistas.’

‘Suponho que não adiantaria subir a bordo e levar a dama?’, sugeriu Racksole, duvidoso.

‘Bem’, Hazell começou, com igual dúvida, ‘quanto a isso...’

‘Para onde ele foi?’ Foi o homem na proa que interrompeu Hazell.

Seguindo a direção do dedo do homem, tanto Hazell quanto Racksole viram com maior ou menor clareza um bote se afastar da proa do navio norueguês e desaparecer rio abaixo na névoa.

‘É Jules, eu aposto’, gritou Racksole. ‘Atrás dele, homens! Dez libras para cada um se o alcançarmos!’

‘Remem com força agora, rapazes!’, disse Hazell, e o pesado barco da Alfândega disparou em perseguição.

‘Isso vai ser uma diversão’, observou Racksole.

‘Depende do que o senhor chama de diversão’, disse Hazell; ‘não é muita diversão correr rio abaixo assim em uma névoa. Nunca se sabe quando se pode estar no reino dos céus com todas essas barcaças por perto. Imagino que aquele sujeito se escondeu no bote quando nos avistou pela primeira vez, e então soltou o cabo assim que eu saí.’

O barco estava se movendo em ritmo acelerado com a maré. A direção era uma questão de sorte e instinto mais do que qualquer outra coisa. De vez em quando, Hazell, que segurava as rédeas, era forçado a puxar a proa do barco bruscamente para evitar uma barcaça ou um navio ancorado. Parecia a Racksole que havia navios ancorados por todo o fluxo. Ele olhou ao redor ansiosamente, mas por um longo tempo não pôde ver nada além de névoa e formas náuticas vagas. Então, de repente, ele disse, calmamente: ‘Estamos no caminho certo; posso vê-lo à frente.

Estamos ganhando dele.’ Em outro minuto, o bote estava claramente visível, a menos de vinte metros, e o remador — remando freneticamente agora — era inequivocamente Jules — Jules em um terno de tweed claro e um chapéu coco.

‘O senhor estava certo’, disse Hazell; ‘isso é uma diversão. Acredito que estou ficando bastante empolgado. É mais emocionante do que tocar trombone em uma orquestra. Vou abalroá-lo, hein? — e então podemos arrastar o sujeito para fora da água.’

Racksole assentiu, mas naquele momento uma barcaça, com suas velas vermelhas içadas, surgiu da névoa bem através da proa do barco da Alfândega, que escapou por pouco da destruição instantânea. Quando conseguiram se livrar, e a habitual troca de palavrões calmos e indiferentes terminou, o bote mal podia ser discernido na névoa, e o homem gordo estava respirando de tal maneira que seus suspiros poderiam quase ter sido ouvidos nas margens. Racksole queria violentamente fazer algo, mas não havia nada a fazer; ele só podia sentar-se passivamente ao lado de Hazell nos bancos da popa. Gradualmente, começaram novamente a alcançar o bote, cuja tripulação de um homem estava evidentemente se cansando. À medida que se aproximavam, rapidamente, o nariz do bote desviou-se, e a minúscula embarcação passou por um corredor de água entre duas barcaças de minerais ancoradas, que jaziam pretas e desertas a cerca de cinquenta metros da margem de Surrey. ‘Para estibordo’, disse Racksole. ‘Não, homem!’, respondeu Hazell; ‘não podemos passar por ali. Ele é obrigado a sair abaixo; é apenas uma finta. Vou manter nosso nariz em frente.’

E eles seguiram em frente, com o homem gordo batendo remos, com um rosto que brilhava mesmo na escuridão espessa. Era um bote vazio que emergiu entre as duas barcaças e saiu flutuando e girando em direção a Greenwich.

O homem gordo soltou uma palavra para seu companheiro, e o barco da Alfândega parou bruscamente.

‘Ele está bem’, disse o homem na proa. ‘Se é ele que o senhor quer, ele está em uma daquelas barcaças, então só precisa subir e tirá-lo de lá.’

‘Só isso’, disse uma voz vinda das profundezas da barcaça mais próxima, e era a voz de Jules, também conhecido como Sr. Tom Jackson.

‘Ouviu ele?’, disse o homem gordo sorrindo. ‘Ele é um bom sujeito, ele é. Mas se eu fosse o senhor, Sr. Hazell, ou o senhor, senhor, eu não subiria naquela barcaça tão rápido assim.’

Eles recuaram o barco sob a popa da barcaça mais próxima e olharam para cima.

‘Está tudo bem’, disse Racksole para Hazell; ‘eu tenho um revólver. Como posso subir lá?’

‘Sim, suponho que o senhor tenha um revólver, tudo bem’, respondeu Hazell bruscamente.

‘Mas o senhor não deve usá-lo. Não deve haver barulho. Teríamos a polícia fluvial em cima de nós em um piscar de olhos se houvesse um tiro de revólver, e seria a minha ruína. Se fosse realizada uma investigação, os Comissários não tomariam conhecimento oficial do fato de que meu oficial superior me colocou neste trabalho, e eu seria solicitado a deixar o serviço.’

‘Não tenha medo disso’, disse Racksole. ‘Eu, é claro, assumirei toda a responsabilidade.’

‘Não importaria quanta responsabilidade o senhor assumisse’, retorquiu Hazell; ‘o senhor não me colocaria de volta no serviço, e minha carreira estaria no fim.’

‘Mas existem outras carreiras’, disse Racksole, que estava realmente ansioso para aleijar seu ex-garçom por meio de uma bala criteriosamente direcionada. ‘Existem outras carreiras.’

‘A Alfândega é minha carreira’, disse Hazell, ‘então vamos parar com os tiros. Vamos esperar um pouco; ele não pode escapar. Pode ficar com meu espeto, se quiser’ — e ele entregou a Racksole seu instrumento de revista. ‘E pode fazer o que quiser, desde que o faça com destreza e não cause confusão.’

Por alguns momentos, os quatro homens permaneceram passivos no barco, cercados por névoa rodopiante, com água negra abaixo deles, e elevando-se acima deles uma barcaça semi-carregada com um homem desesperado e engenhoso a bordo. De repente, a névoa se abriu e se desfez em pedaços, como se diante do sopro de algum monstro. O céu estava visível; era um céu claro, e a lua brilhava. A transformação foi apenas uma daquelas mudanças meteorológicas rápidas que acontecem com mais frequência em um grande rio.

‘Isso é bem melhor’, disse o homem gordo. No mesmo momento, uma cabeça apareceu sobre a borda da barcaça. Era o rosto de Jules — sombrio, sinistro e malicioso.

‘É o Sr. Racksole naquele barco?’, perguntou ele calmamente; ‘porque, se for, que o Sr. Racksole suba. O Sr. Racksole me pegou, e ele pode me ter se pedir. Aqui estou eu.’ Ele se levantou em toda a sua altura na barcaça, alto contra o céu noturno, e todos os ocupantes do barco puderam ver que ele segurava firmemente em sua mão direita uma adaga curta. ‘Agora, Sr. Racksole, o senhor está atrás de mim há muito tempo’, continuou ele; ‘aqui estou eu. Por que não sobe? Se não tem coragem, persuada outra pessoa a subir em seu lugar... o mesmo tratamento justo será concedido a todos.’ E Jules soltou uma risada baixa e penetrante.

Ele estava no meio dessa risada quando se inclinou subitamente para a frente.

‘O que você está fazendo a bordo da minha barcaça? Fora daqui!’ Foi a voz pequena e estridente de um menino que soou na noite. A forma pequena de um menino esfarrapado apareceu silenciosamente atrás de Jules, e dois braços pequenos com um empurrão vicioso precipitaram-no na água. Ele caiu com um belo espirro borbulhante. Ficou imediatamente óbvio que nadar não estava entre os talentos de Jules. Ele se debateu descontroladamente e afundou. Quando reapareceu, foi arrastado para o barco da Alfândega. Corda foi produzida, e em um minuto ou dois o homem estava ignominiosamente amarrado no fundo do barco. Com a ajuda de um menino do lodo — um simples garoto de barcaça, que provavelmente não tinha mais direito na barcaça do que o próprio Jules — Racksole havia vencido seu jogo. Pela primeira vez em várias semanas, o milionário experimentou uma sensação de equanimidade e satisfação. Ele se inclinou sobre a forma prostrada de Jules, com o espeto profissional de Hazell na mão.

‘O que o senhor vai fazer com ele agora?’, perguntou Hazell.

‘Remaremos até os degraus de desembarque em frente ao Grand Babylon. Ele será bem alojado no meu hotel, prometo-lhe.’

Jules não disse uma palavra.

Antes de Racksole se separar do homem da Alfândega naquela noite, Jules havia sido transportado em segurança para o Grand Babylon Hôtel e os dois barqueiros haviam recebido suas 10 libras cada.

‘O senhor vai dormir aqui?’, disse o milionário ao Sr. George Hazell. ‘Está tarde.’

‘Com prazer’, disse Hazell. Na manhã seguinte, ele encontrou um café da manhã suntuoso esperando por ele, e em seu guardanapo de mesa havia uma nota do Banco da Inglaterra de cem libras. Mas, embora ele não tenha ouvido falar deles até muito mais tarde, muitas coisas haviam acontecido antes que Hazell consumisse aquele café da manhã suntuoso.

Capítulo Vinte e Sete A CONFISSÃO DO SR. TOM JACKSON

ACONTECEU que o pequeno quarto ocupado por Jules durante os anos em que foi maître do Grand Babylon permanecera vazio desde sua súbita demissão por Theodore Racksole. Nenhum outro maître fora formalmente nomeado em seu lugar; e, de fato, a ausência de um homem — mesmo o singular Jules — dificilmente poderia ser notada no enorme quadro de funcionários de um lugar como o Grand Babylon. As funções de um maître são geralmente mais ornamentais, espetaculares e moralmente impressionantes do que úteis, e era assim no grande hotel no Embankment. Racksole, consequentemente, teve a excelente ideia de transportar seu prisioneiro, com o máximo de sigilo possível, para este quarto vazio. Não houve dificuldade em fazê-lo; Jules mostrou-se perfeitamente tratável diante de uma demonstração de força superior.

Racksole levou consigo para o andar de cima um velho comissário que estivera ligado ao serviço externo do hotel por muitos anos — um homem de cabelos grisalhos, ágil como um terrier e forte como um mastim. Ao entrar no quarto com Jules, cujas mãos estavam atadas, ele disse ao comissário que permanecesse do lado de fora da porta.

O quarto de Jules era um aposento bastante comum, embora talvez ligeiramente superior à acomodação habitual fornecida aos empregados nos caravançarais do West End. Tinha cerca de catorze por doze pés. Era mobiliado com uma cama, um guarda-roupa pequeno, uma pequena pia e penteadeira, e duas cadeiras. Havia dois ganchos atrás da porta, uma tira de tapete junto à cama e alguns ornamentos baratos na lareira de ferro. Havia também uma luz elétrica. A janela era pequena e quadrada, situada no alto da parede, e dava para o pátio interno.

O quarto ficava no andar superior — o oitavo — e dele tinha-se uma visão direta até o chão. Vinte pés abaixo corria uma cornija estreita com cerca de um pé de largura; cerca de três pés acima da janela, outra cornija mais larga projetava-se para fora, e acima disso estava o telhado alto e íngreme do hotel, embora não pudesse ser visto da janela. Enquanto Racksole examinava a janela e a vista, disse a si mesmo que Jules não poderia escapar por aquela saída, de qualquer modo. Ele deu uma olhada na chaminé e viu que o duto era pequeno demais para permitir a passagem do corpo de um homem.

Então, ele chamou o comissário e, juntos, amarraram Jules firmemente à estrutura da cama, permitindo-lhe, contudo, deitar-se. Durante todo o tempo, o cativo nunca abriu a boca — apenas sorriu um sorriso de desdém. Finalmente, Racksole removeu os ornamentos, o tapete, as cadeiras e os ganchos, e arrancou o interruptor da luz elétrica. Depois, ele e o comissário saíram do quarto, e Racksole trancou a porta pelo lado de fora e colocou a chave no bolso.

‘Você ficará de guarda aqui’, disse ele ao comissário, ‘durante a noite. Pode sentar-se nesta cadeira. Não adormeça. Se ouvir o menor ruído no quarto, apite seu apito de taxista; darei um jeito de responder ao sinal. Se não houver ruído, não faça absolutamente nada. Não quero que falem sobre isso, entende. Vou confiar em você; você pode confiar em mim.’

‘Mas os empregados me verão aqui quando se levantarem amanhã’, disse o comissário, com um sorriso fraco, ‘e com certeza perguntarão o que estou fazendo aqui em cima. O que devo dizer a eles?’

‘Você já foi soldado, não foi?’, perguntou Racksole.

‘Já passei por três campanhas, senhor’, foi a resposta, e, com um gesto de orgulho perdoável, o homem de cabelos grisalhos apontou para as medalhas em seu peito.

‘Bem, supondo que você estivesse de sentinela e alguma pessoa intrometida no acampamento lhe perguntasse o que estava fazendo — o que você diria?’

‘Eu diria para ele dar o fora ou arcar com as consequências, e bem rápido também.’

‘Faça isso amanhã de manhã, então, se for necessário’, disse Racksole, e partiu.

Eram então cerca de uma hora da manhã. O milionário retirou-se para dormir — não em sua própria cama, mas em uma cama no sétimo andar. Ele não dormiu por muito tempo, porém. Pouco depois do amanhecer, estava bem desperto e pensando intensamente em Jules.

Ele estava, de fato, muito curioso para saber a história de Jules, e estava determinado, se a coisa pudesse ser feita, por persuasão ou de outro modo, a extraí-la dele. Com um homem do temperamento de Theodore Racksole, não há tempo como o presente, e às seis horas, quando o sol brilhante da manhã trazia alegria à janela, ele se vestiu e subiu novamente para o oitavo andar. O comissário estava sentado, estoico, mas alerta em sua cadeira e, ao ver seu patrão, levantou-se e prestou continência.

‘Aconteceu alguma coisa?’, perguntou Racksole.

‘Nada, senhor.’

‘Os empregados disseram algo?’

‘Apenas uma dúzia ou mais deles já se levantou, senhor. Uma delas perguntou o que eu estava fazendo, e então eu disse a ela que estava cuidando de uma cadela buldogue e de uma ninhada de filhotes com os quais o senhor era muito exigente, senhor.’

‘Bom’, disse Racksole, enquanto destrancava a porta e entrava no quarto. Tudo estava exatamente como ele deixara, exceto que Jules, que estivera deitado de costas, de alguma forma se virara e agora estava de bruços. Ele olhava silenciosamente, franzindo a testa para o milionário. Racksole cumprimentou-o e, de forma ostensiva, tirou um revólver do bolso traseiro e colocou-o sobre a penteadeira. Então, sentou-se na penteadeira ao lado do revólver, com as pernas balançando a uma ou duas polegadas do chão.

‘Quero ter uma conversa com você, Jackson’, começou ele.

‘Você pode conversar comigo o quanto quiser’, disse Jules. ‘Não vou interferir, pode apostar nisso.’

‘Gostaria que você respondesse a algumas perguntas.’

‘Isso é diferente’, disse Jules. ‘Não vou responder a nenhuma pergunta enquanto estiver amarrado deste jeito. Pode apostar nisso também.’

‘Será proveitoso para você ser razoável’, disse Racksole.

‘Não vou responder a nenhuma pergunta enquanto estiver amarrado.’

‘Vou soltar suas pernas, se quiser’, sugeriu Racksole educadamente, ‘então você poderá sentar-se. Não adianta fingir que esteve desconfortável, porque eu sei que não esteve. Calculo que tenha sido tratado muito bem, meu filho. Pronto!’ e ele soltou as extremidades inferiores de seu prisioneiro de suas amarras. ‘Agora, repito, é melhor você ser razoável. É melhor admitir que foi derrotado de forma justa no jogo e agir de acordo. Eu estava determinado a derrotá-lo, sozinho, sem a polícia, e eu consegui.’

‘Você derrotou a si mesmo’, retorquiu Jules. ‘Você agiu contra a lei. Se tivesse algum juízo, não teria se intrometido; teria deixado tudo para a polícia. Eles teriam se atrapalhado por um ou dois anos e depois não teriam feito nada. Quem vai contar para a polícia agora? Você? Vai me entregar para eles e dizer: “Aqui, eu o capturei para vocês”? Se fizer isso, eles pedirão para você explicar várias coisas, e então você parecerá um tolo. Um crime não justifica outro, e você descobrirá isso.’

Com uma percepção infalível, Jules percebera exatamente a dificuldade da posição de Racksole, e era certamente uma dificuldade que Racksole não tentou minimizar para si mesmo. Ele sabia bem que teria de enfrentá-la. Ele não permitiu, contudo, que Jules adivinhasse seus pensamentos.

‘Enquanto isso’, disse ele calmamente ao outro, ‘você está aqui e é meu prisioneiro. Você cometeu um sortimento variado de crimes, e entre eles está o homicídio. Você está destinado a ser enforcado. Você sabe disso. Não há motivo para eu chamar a polícia. Será perfeitamente fácil para mim acabar com você, como você merece, eu mesmo. Estarei apenas fazendo justiça e roubando o honorário do carrasco. Exatamente como eu o trouxe para o hotel, posso levá-lo para fora novamente. Poucos dias atrás, você pegou emprestado ou roubou um iate a vapor em Ostend. O que você fez com ele, não sei, nem me importo. Mas suspeito fortemente que minha filha escapou por pouco de ser assassinada em seu iate a vapor. Agora, eu tenho um iate a vapor próprio. Suponha que eu o use como você usou o seu! Suponha que eu o contrabandeie para ele, navegue para o alto-mar e então lhe peça para sair dele para o oceano uma noite. Tais coisas já foram feitas. Tais coisas serão feitas novamente. Se eu agisse assim, teria, pelo menos, a satisfação de saber que livrei a sociedade do fardo de um canalha.’

‘Mas você não fará isso’, murmurou Jules.

‘Não’, disse Racksole com firmeza, ‘eu não farei — se você se comportar esta manhã. Mas juro para você que, se não o fizer, nunca descansarei até que você esteja morto, com ou sem polícia. Você não conhece Theodore Racksole.’

‘Acredito que você está falando sério’, exclamou Jules, com um ar de interesse surpreso, como se tivesse descoberto algo importante.

‘Acredito que estou’, retomou Racksole. ‘Agora ouça. Na melhor das hipóteses, você será entregue à polícia. Na pior, eu mesmo lidarei com você. Com a polícia, você pode ter uma chance — pode sair com vinte anos de trabalhos forçados, porque, embora seja absolutamente certo que você assassinou Reginald Dimmock, seria um pouco difícil provar o caso contra você. Mas, comigo, você não teria chance alguma. Tenho algumas perguntas a lhe fazer, e dependerá de como você as responder se eu o entregarei à polícia ou farei justiça com as próprias mãos. E deixe-me dizer-lhe que a última opção seria muito mais simples para mim. E eu a adotaria, também, se não sentisse que você é um homem muito inteligente e excepcional; se eu não tivesse uma espécie de admiração secreta pela sua detestável habilidade e engenhosidade.’

‘Você acha, então, que sou inteligente?’, disse Jules. ‘Você está certo. Eu sou. Eu teria sido inteligente demais para você se a sorte não estivesse contra mim. Você deve sua vitória, não à habilidade, mas à sorte.’

‘É o que os vencidos sempre dizem. Waterloo foi um pouco de pura sorte para os ingleses, sem dúvida, mas foi Waterloo, mesmo assim.’

Jules bocejou de forma elaborada. ‘O que você quer saber?’, indagou, com polidez.

‘Primeiro e acima de tudo, quero saber os nomes de seus cúmplices dentro deste hotel.’

‘Não tenho mais nenhum’, disse Jules. ‘Rocco foi o último.’

‘Não comece mentindo para mim. Se você não tinha cúmplice, como conseguiu que uma garrafa específica de Romanée-Conti fosse servida a Sua Alteza, o Príncipe Eugen?’

‘Então você descobriu isso a tempo, foi?’, disse Jules. ‘Eu temia que sim. Deixe-me explicar que isso não precisou de cúmplice. A garrafa estava no topo da caixa e, naturalmente, ela seria pega. Além disso, deixei-a um pouco mais saliente do que as outras.’

‘Você não arranjou, então, que Hubbard ficasse doente anteontem?’

‘Eu não tinha ideia’, disse Jules, ‘de que o excelente Hubbard não estava desfrutando de sua saúde habitual.’

‘Diga-me’, disse Racksole, ‘quem ou o que é a origem de sua vendeta contra a vida do Príncipe Eugen?’

‘Eu não tinha vendeta contra a vida do Príncipe Eugen’, disse Jules, ‘pelo menos, não para começar. Eu meramente me comprometi, mediante uma compensação, a garantir que o Príncipe Eugen não tivesse uma entrevista com um certo Sr. Sampson Levi em Londres antes de uma certa data, isso era tudo. Parecia simples o suficiente. Eu já havia me envolvido em transações muito mais complicadas antes. Eu estava convencido de que conseguiria, com a ajuda de Rocco e Em — e da Srta. Spencer.’

‘Essa mulher é sua esposa?’

‘Ela gostaria de ser’, ele zombou. ‘Por favor, não me interrompa. Eu tinha completado meus arranjos, quando você comprou o hotel tão inconsideradamente. Não me importo em admitir agora que, desde o momento em que você me encontrou naquela noite no corredor, eu tive medo de você secretamente, embora mal admitisse o fato até para mim mesmo, então. Achei mais seguro mudar o cenário de nossas operações para Ostend. Eu pretendia lidar com o Príncipe Eugen neste hotel, mas decidi, então, interceptá-lo no continente, e enviei a Srta. Spencer com algumas instruções. Problemas nunca vêm sozinhos, e aconteceu que, exatamente naquele momento, aquele tolo Dimmock, que estava na jogada conosco, resolveu se mostrar refratário. O menor contratempo teria arruinado tudo, e fui obrigado a — a tirá-lo de cena. Ele queria desistir — teve um grave ataque de consciência, e medidas violentas eram essenciais. Lamento seu falecimento prematuro, mas ele mesmo causou isso. Bem, tudo estava indo serenamente quando você e sua brilhante filha, aparentemente determinados a se intrometer, apareceram novamente entre nós em Ostend. Apenas vinte e quatro horas, no entanto, teriam de decorrer antes da data que me fora mencionada pelos meus empregadores. Mantive o pobre pequeno Eugen pelo tempo determinado, e então você conseguiu colocar as mãos nele. Não nego que você marcou pontos ali, embora, de acordo com minhas instruções originais, tenha marcado tarde demais. O tempo havia passado, e assim, até onde eu sabia, não importava nem um pouco se o Príncipe Eugen visse o Sr. Sampson Levi ou não. Mas meus empregadores ainda estavam inquietos. Eles estavam inquietos mesmo depois que o pequeno Eugen ficou doente em Ostend por várias semanas. Parece que eles temiam que, mesmo naquela data, uma entrevista entre o Príncipe Eugen e o Sr. Sampson Levi pudesse causar-lhes danos. Então, eles me procuraram novamente. Desta vez, eles queriam que o Príncipe Eugen fosse — hem — acabado de uma vez por todas. Eles ofereceram altos valores.’

‘Que valores?’

‘Eu recebi cinquenta mil libras pelo primeiro trabalho, das quais Rocco ficou com metade. Rocco também seria feito membro de uma certa ordem europeia famosa, se as coisas corressem bem. Era isso que ele cobiçava muito mais do que o dinheiro — o vaidoso! Pelo segundo trabalho, fui oferecido cem mil. Uma soma toleravelmente grande. Lamento não ter sido capaz de ganhá-la.’

‘Você quer me dizer’, perguntou Racksole, horrorizado com essa confissão calma, apesar de seu conhecimento prévio, ‘que lhe ofereceram cem mil libras para envenenar o Príncipe Eugen?’

‘Você coloca isso de forma um tanto grosseira’, disse Jules em resposta. ‘Prefiro dizer que me ofereceram cem mil libras se o Príncipe Eugen morresse dentro de um prazo razoável.’

‘E quem eram seus malditos empregadores?’

‘Isso, honestamente, eu não sei.’

‘Você sabe, suponho, quem lhe pagou as primeiras cinquenta mil libras e quem lhe prometeu as cem mil.’

‘Bem’, disse Jules, ‘eu sei vagamente. Sei que ele veio via Viena de — hem — Bósnia. Minha impressão era de que o assunto tinha alguma relação, direta ou indireta, com o casamento projetado do Rei da Bósnia. Ele é um monarca jovem, quase sem experiência política, por assim dizer, e sem dúvida seus ministros acharam que era melhor arranjarem o casamento para ele. Eles tentaram no ano passado e falharam porque a Princesa que eles tinham em mente havia lançado seus olhos cintilantes sobre outro Príncipe. Esse Príncipe por acaso era o Príncipe Eugen de Posen. Os ministros do Rei da Bósnia sabiam exatamente as circunstâncias do Príncipe Eugen. Sabiam que ele não poderia se casar sem liquidar suas dívidas, e sabiam que ele só poderia liquidar suas dívidas através desse judeu, Sampson Levi. Infelizmente para mim, eles acabaram querendo garantir demais o Príncipe Eugen. Eles temiam que ele pudesse, afinal, arranjar seu casamento sem a ajuda do Sr. Sampson Levi, e assim — bem, você sabe o resto... É uma pena que o pobre pequeno Rei inocente da Bósnia não possa ter a Princesa de escolha de seus ministros.’

‘Então você acha que o próprio Rei não teve parte nesse crime abominável?’

‘Acho decididamente que não.’

‘Fico feliz com isso’, disse Racksole simplesmente. ‘E agora, o nome do seu empregador imediato.’

‘Ele era apenas um agente. Ele se chamava Sleszak — S-l-e-s-z-a-k. Mas imagino que esse não fosse seu nome real. Não sei seu nome real. Um velho, ele costumava ser encontrado no Hôtel Ritz, em Paris.’

‘O Sr. Sleszak e eu nos encontraremos’, disse Racksole.

‘Não neste mundo’, disse Jules rapidamente. ‘Ele está morto. Ouvi isso ontem à noite — pouco antes de nosso pequeno confronto.’

Houve um silêncio.

‘Está bem’, disse Racksole por fim. ‘O Príncipe Eugen vive, apesar de todas as tramas. Afinal, a justiça é feita.’

‘O Sr. Racksole está aqui, mas não pode ver ninguém, senhorita.’ As palavras vieram de trás da porta, e a voz era a do comissário. Racksole levantou-se e foi em direção à porta.

‘Bobagem’, foi a resposta curta, em tons femininos. ‘Saia do caminho imediatamente.’

A porta se abriu e Nella entrou. Havia lágrimas em seus olhos.

‘Oh! Papai’, ela exclamou, ‘eu só soube agora que você estava no hotel. Nós o procuramos por toda parte. Venha imediatamente, o Príncipe Eugen está morrendo...’ Então ela viu o homem sentado na cama e parou.

Mais tarde, quando Jules ficou sozinho novamente, ele comentou consigo mesmo: ‘Talvez eu consiga aquelas cem mil.’

Capítulo Vinte e Oito O QUARTO DE ESTADO MAIS UMA VEZ

QUANDO, imediatamente após o episódio da garrafa de Romanée-Conti na sala de jantar de Estado, o Príncipe Aribert e o velho Hans constataram que o Príncipe Eugen havia caído em um monte inconsciente sobre sua cadeira, ambos pensaram, no primeiro instante, que Eugen já devia ter provado o vinho envenenado. Mas um momento de reflexão mostrou que isso não era possível. Se o Príncipe Hereditário de Posen estava morrendo ou morto, sua condição devia-se a algum outro agente que não o Romanée-Conti. Aribert inclinou-se sobre ele, e um odor poderoso vindo dos lábios do homem revelou imediatamente a causa do desastre: era o odor de láudano. De fato, o cheiro daquela droga sinistra parecia agora flutuar pesadamente sobre toda a mesa. Através da mente de Aribert passou então a verdadeira explicação. O Príncipe Eugen, aproveitando-se da atenção de Aribert estar momentaneamente desviada, e cedendo a um impulso súbito de desespero, decidira envenenar a si mesmo, e cumprira sua intenção ali mesmo.

O láudano deve ter estado já em seu bolso, e esse fato provava que o infeliz Príncipe já contemplara tal procedimento anteriormente, mesmo depois de sua promessa definitiva. Aribert lembrou-se agora, com uma vivacidade dolorosa, das palavras de seu sobrinho: ‘Retiro minha promessa. Observe isso — eu a retiro.’ Deve ter sido instantaneamente após a pronúncia daquela retirada formal que Eugen tentou destruir a si mesmo.

‘É láudano, Hans’, exclamou Aribert, um tanto impotente.

‘Certamente Sua Alteza não tomou veneno?’, disse Hans. ‘É impossível!’

‘Temo que seja mais do que possível’, disse o outro. ‘É láudano. O que devemos fazer? Rápido, homem!’

‘Sua Alteza deve ser despertado, Príncipe. Ele precisa de um emético. É melhor levá-lo para o quarto.’

Eles o fizeram, e o deitaram na grande cama; e então Aribert misturou um emético de mostarda e água, e o administrou, mas sem qualquer efeito. O sofredor jazia imóvel, com cada músculo relaxado. Sua pele estava gelada ao toque, e as pálpebras, semiabertas, mostravam que as pupilas estavam dolorosamente contraídas.

‘Saia e mande chamar um médico, Hans. Diga que o Príncipe Eugen foi acometido de uma doença súbita, mas que não é sério. A verdade nunca deve ser conhecida.’

‘Ele precisa ser despertado, senhor’, disse Hans novamente, enquanto se apressava para sair do quarto.

Aribert ergueu seu sobrinho da cama, sacudiu-o, beliscou-o, deu-lhe petelecos cruelmente, gritou com ele, arrastou-o de um lado para o outro, mas foi em vão. Por fim, desistiu, por mera fadiga física, e tornou a colocar o Príncipe de volta na cama. Cada minuto que passava parecia uma hora. Sozinho com o organismo inconsciente no silêncio do grande e imponente aposento, sob o frio brilho amarelado das luzes elétricas, Aribert tornou-se presa dos pensamentos mais desesperadores. A tragédia da trajetória de seu sobrinho impôs-se a ele, e ocorreu-lhe que uma morte prematura e vergonhosa sempre fora inevitável para esta criança de bom coração, de vontade fraca e infeliz, pertencente a um trono histórico. Um pouco de boa sorte, e seu caráter, tão equitativamente equilibrado entre o certo e o errado, poderia ter seguido o caminho adequado, e Eugen poderia ter figurado, ao menos, com dignidade no palco europeu. Mas agora parecia que tudo estava acabado, a última jogada feita. E, neste desastre, Aribert viu a ruína de suas próprias esperanças. Pois Aribert teria que ocupar o trono de seu sobrinho, e ele sentia instintivamente que a natureza não o moldara para um trono. Por um impulso natural, ele se rebelou interiormente contra a perspectiva da monarquia. Monarquia significava muito daquilo para o que ele sabia ser inteiramente inapto. Significava um casamento político, o que significa um casamento forçado, uma união contra a inclinação. E então, o que seria de Nella—Nella!

Hans retornou. “Mandei chamar o médico mais próximo, e também um especialista”, disse ele.

“Bom”, disse Aribert. “Espero que se apressem.” Então sentou-se e escreveu um cartão. “Leve isto você mesmo à senhorita Racksole. Se ela estiver fora do hotel, certifique-se de onde ela está e siga-a. Entenda, é da maior importância.”

Hans fez uma reverência e partiu pela segunda vez, e Aribert ficou sozinho novamente.

Ele fitou Eugen e fez outra tentativa frenética de despertá-lo do estupor mortal, mas foi inútil. Ele caminhou até a janela: através da vidraça aberta, podia ouvir o tilintar dos hansoms que passavam no Embankment lá embaixo, apitos de porteiros e a buzina de rebocadores a vapor no rio. O mundo continuava como sempre, ao que parecia. Era um mundo absurdo.

Ele não desejava nada melhor do que abandonar seu título principesco e viver como um homem comum, o marido da melhor mulher sobre a terra... Mas agora!...

Pah! Quão egoísta ele era, ao pensar em si mesmo enquanto Eugen jazia morrendo. Contudo—Nella!

A porta abriu-se e um homem entrou, que era obviamente o médico. Algumas perguntas curtas e ele compreendeu o essencial do caso. “Faça-me o favor de tocar a campainha, Príncipe. Precisarei de água quente, de um homem vigoroso e de uma enfermeira.”

“Quem precisa de uma enfermeira?”, disse uma voz, e Nella entrou silenciosamente. “Eu sou enfermeira”, acrescentou ela ao médico, “e estou às suas ordens.”

As duas horas seguintes foram uma luta entre a vida e a morte. O primeiro médico, um especialista que o seguiu, Nella, o Príncipe Aribert e o velho Hans formaram, por assim dizer, uma liga para salvar o homem agonizante. Ninguém mais no hotel sabia da real seriedade do caso. Quando um Príncipe adoece, e especialmente por seu próprio ato, a verdade precisa não é divulgada aos quatro ventos para o universo.

De acordo com as informações oficiais, um Príncipe nunca está seriamente doente até que esteja morto. Tal é a arte de governar.

A característica pior do caso do Príncipe Eugen era que os eméticos se mostraram inúteis.

Nenhum dos médicos pôde explicar seu fracasso, mas era por demais evidente. A liga foi reduzida à impotência. Por fim, o grande especialista de Manchester Square declarou que não havia chance para o Príncipe Eugen, a menos que o vigor natural de sua constituição se mostrasse capaz de expelir o veneno sem assistência científica, assim como um bêbado pode livrar-se de sua poção dormindo. Tudo havia sido tentado, até mesmo a respiração artificial e a injeção de café quente. Tendo emitido este pronunciamento, o grande especialista de Manchester Square partiu. Era uma hora da manhã. Por uma daquelas coincidências estranhas e fúteis que às vezes nos surpreendem por sua sutil significância, o especialista encontrou Theodore Racksole e sua cativa enquanto entravam no hotel. Nenhum dos dois tinha a menor suspeita do assunto do outro.

No quarto de Estado, o pequeno grupo de observadores cercava a cama. Os minutos lentos passaram em uma procissão lúgubre. Mais uma hora se passou. Então, a figura na cama, até então tão imóvel, contraiu-se e moveu-se; os lábios se abriram.

“Há esperança”, disse o médico, e administrou um estimulante que lhe foi entregue por Nella.

Em um quarto de hora, o paciente havia recuperado a consciência. Pela décima milésima vez na história da medicina, uma constituição sólida havia realizado um milagre impossível para a acumulada perícia médica de séculos.

No devido tempo, o médico partiu, dizendo que o Príncipe Eugen estava “no bom caminho para a recuperação” e prometendo voltar dentro de poucas horas. O dia havia amanhecido. Nella puxou as grandes cortinas e deixou entrar uma torrente de luz solar.

O velho Hans, vencido pela fadiga, cochilou em uma cadeira em um canto distante do quarto.

A reação fora demais para ele. Nella e o Príncipe Aribert olharam um para o outro. Eles não haviam trocado uma palavra sobre si mesmos, contudo cada um sabia o que o outro estivera pensando. Eles apertaram as mãos com um entendimento perfeito. Seu breve namoro fora do tipo silencioso, e assim permanecia agora. Nenhuma palavra foi proferida. Uma sombra havia passado por sobre eles, mas apenas seus olhos expressavam alívio e alegria.

“Aribert!” O chamado fraco veio da cama. Aribert foi até a cabeceira, enquanto Nella permanecia perto da janela.

“O que foi, Eugen?”, disse ele. “Você está melhor agora.”

“Você acha?”, murmurou o outro. “Quero que me perdoe por tudo isso, Aribert. Devo ter lhe causado um transtorno intolerável. Fiz isso com tanta desajeitação; é isso que me incomoda. O láudano foi um expediente fraco; mas não consegui pensar em mais nada, e não ousei pedir conselhos a ninguém. Fui obrigado a sair e comprar a coisa eu mesmo. Foi tudo muito desastrado.

Mas, graças a Deus, não foi ineficaz.”

“O que você quer dizer, Eugen? Você está melhor. Em um dia ou dois, você estará perfeitamente recuperado.”

“Estou morrendo”, disse Eugen calmamente. “Não se deixe enganar. Morro porque desejo morrer. Tem de ser assim. Sei pelo pulsar do meu coração. Em poucas horas tudo terá terminado. O trono de Posen será seu, Aribert. Você o ocupará mais dignamente do que eu. Não os deixe saber lá fora que eu me envenenei. Jure Hans ao segredo; jure os médicos ao segredo; e não pronuncie palavra você mesmo. Fui um tolo, mas não desejo que saibam que também fui um covarde. Talvez não seja covardia; talvez seja coragem, afinal—coragem para cortar o nó. Eu não poderia ter sobrevivido à desgraça de quaisquer revelações, Aribert, e revelações teriam certamente surgido. Fiz de mim um tolo, mas estou pronto a pagar por isso. Nós de Posen—sempre pagamos—tudo, exceto nossas dívidas. Ah! Essas dívidas! Se não fosse por elas, eu poderia ter enfrentado aquela que seria minha esposa, para compartilhar meu trono. Eu poderia ter escondido meu passado e recomeçado. Com a ajuda dela, eu realmente poderia ter recomeçado. Mas o Destino esteve contra mim—sempre! sempre! A propósito, qual era aquela conspiração contra mim, Aribert? Eu esqueço, eu esqueço.”

Seus olhos se fecharam. Houve um ruído súbito. O velho Hans havia escorregado de sua cadeira para o chão. Ele se levantou, atordoado, e saiu furtivamente do quarto, envergonhado.

Aribert pegou a mão de seu sobrinho.

“Bobagem, Eugen! Você está sonhando. Você ficará bem logo. Recomponha-se.”

“Tudo por causa de um milhão”, gemeu o doente. “Um miserável milhão de libras inglesas. A dívida nacional de Posen é de cinquenta milhões, e eu, o Príncipe de Posen, não pude tomar um emprestado. Se eu pudesse ter conseguido, talvez pudesse ter erguido a cabeça novamente. Adeus, Aribert... Quem é aquela moça?”

Aribert olhou para cima. Nella estava parada, silenciosa, aos pés da cama, com os olhos úmidos. Ela contornou a cama e pôs a mão sobre o coração do paciente. Dificilmente podia sentir sua pulsação e, para Aribert, os olhos dela expressavam um desespero repentino.

Naquele momento, Hans reentrou no quarto e fez um sinal para ela.

“Ouvi dizer que o senhor Racksole retornou ao hotel”, sussurrou ele, “e que ele capturou aquele homem, Jules, que dizem ser um vilão tão grande.”

Várias vezes durante a noite Nella perguntou por seu pai, mas não conseguiu obter informações sobre seu paradeiro. Agora, às seis e meia da manhã, um rumor havia se espalhado misteriosamente entre os criados do hotel sobre os acontecimentos da noite anterior. Como ele se originara, ninguém poderia determinar, mas ele se originara.

“Onde está meu pai?”, perguntou Nella a Hans.

Ele encolheu os ombros e apontou para cima. “Em algum lugar no topo, dizem.”

Nella quase correu para fora do quarto. Sua interrupção na entrevista entre Jules e Theodore Racksole já foi descrita. Ao descer as escadas com seu pai, ela disse novamente: “O Príncipe Eugen está morrendo—mas acho que você pode salvá-lo.”

“Eu?”, exclamou Theodore.

“Sim”, ela repetiu positivamente. “Direi o que quero que você faça, e você deve fazê-lo.”

Capítulo Vinte e Nove THEODORE É CHAMADO PARA O RESGATE

À medida que Nella descia do último andar com seu pai—os elevadores ainda não haviam começado a funcionar—ela o levou para seu próprio quarto e fechou a porta.

“O que é tudo isso?”, ele perguntou, um tanto mistificado e até alarmado com a extrema seriedade do rosto dela.

“Papai”, a garota começou, “você é muito rico, não é? muito, muito rico?” Ela sorriu ansiosamente, timidamente. Ele não se lembrava de ter visto aquela expressão no rosto dela antes. Ele quis fazer uma resposta espirituosa, mas conteve-se.

“Sim”, disse ele, “eu sou. Você já deveria saber disso a esta altura.”

“Em quanto tempo você poderia liquidar um milhão de libras?”

“Um milhão—o quê?”, ele gritou. Até ele ficou atordoado com a menção calma dela a essa quantia gigantesca. “O que diabos você está querendo dizer?”

“Um milhão de libras, eu disse. Ou seja, cinco milhões de dólares. Em quanto tempo você poderia liquidar tanto quanto isso?”

“Oh!”, ele respondeu, “em cerca de um mês, se eu procedesse de forma suficientemente organizada. Eu poderia descarregar tanto quanto isso em um mês sem assustar Wall Street e outros lugares. Mas exigiria algum planejamento.”

“Inútil!”, ela exclamou. “Não poderia fazer mais rápido, se realmente tivesse que fazer?”

“Se eu realmente tivesse que fazer, poderia resolver em uma semana, mas isso tornaria as coisas agitadas, e eu sairia perdendo no negócio.”

“Não poderia”, insistiu ela, “não poderia descer esta manhã e levantar um milhão, de alguma forma, se fosse uma questão de vida ou morte?”

Ele hesitou. “Veja bem, Nella”, disse ele, “o que você tem na manga?”

“Apenas responda à minha pergunta, papai, e tente não pensar que sou uma completa lunática desvairada.”

“Imagino que eu pudesse conseguir um milhão esta manhã, mesmo em Londres. Mas custaria muito caro. Poderia me custar cinquenta mil libras, e haveria um diabo de um tumulto em Nova York—uma espécie de colapso universal grandioso nas minhas ações.”

“Por que Nova York deveria saber qualquer coisa sobre isso?”

“Por que Nova York deveria saber qualquer coisa sobre isso!”, repetiu ele. “Minha filha, quando alguém toma emprestado um milhão de soberanos, o mundo inteiro fica sabendo. Você acha que posso chegar aos Governadores do Banco da Inglaterra e dizer: ‘Veja bem, empreste ao Theodore Racksole um milhão por algumas semanas, e ele lhe dará uma nota promissória e uma carta de garantia sobre ações’?”

“Mas você conseguiria?”, perguntou ela novamente.

“Se existe um milhão em Londres, acho que eu poderia lidar com isso”, respondeu ele.

“Bem, papai”, e ela passou os braços em volta do pescoço dele, “você só precisa sair e resolver. Entendeu? É por mim. Nunca lhe pedi nada realmente grande antes. Mas peço agora. E quero tanto.”

Ele a encarou. “Eu lhe dou o prêmio”, disse ele, por fim. “Você merece pela colossal e imensa frieza. Agora você pode me contar o verdadeiro significado interno de toda essa lengalenga. O que é?”

“Quero para o Príncipe Eugen”, ela começou, a princípio hesitante, com pausas.

“Ele está arruinado a menos que consiga um milhão para pagar suas dívidas. Ele é terrivelmente apaixonado por uma Princesa e não pode se casar com ela por causa disso.

Os pais dela não permitiriam. Ele deveria ter conseguido com Sampson Levi, mas chegou tarde demais—por causa de Jules.”

“Sei tudo sobre isso—talvez mais do que você. Mas não vejo como isso afeta você ou a mim.”

“O ponto é este, papai”, continuou Nella. “Ele tentou cometer suicídio—ele está tão deprimido. Sim, suicídio real. Ele tomou láudano ontem à noite. Não o matou de imediato—ele superou o primeiro choque, mas está em um estado muito fraco e pretende morrer. E eu realmente acredito que ele morrerá. Agora, se você pudesse deixá-lo ter aquele milhão, papai, você salvaria sua vida.”

A notícia de Nella foi uma surpresa considerável e desconcertante para Racksole, mas ele escondeu seus sentimentos razoavelmente bem.

“Não tenho o menor desejo de salvar a vida dele, Nell. Não respeito muito seu Príncipe Eugen. Fiz o que pude por ele—mas apenas por amor ao jogo limpo, e porque me oponho a conspirações e assassinatos secretos.

É uma coisa diferente se ele quer se matar. O que eu digo é: Deixe-o.

Quem é responsável por ele estar endividado na marca de um milhão de libras? Ele só tem a si mesmo e aos seus maus hábitos a agradecer por isso. Suponho que, se ele por acaso morrer, o trono de Posen irá para o Príncipe Aribert. E uma boa coisa, também! Aribert vale vinte vezes o seu sobrinho.”

“É exatamente isso, papai”, disse ela, seguindo avidamente sua chance. “Quero que você salve o Príncipe Eugen justamente porque Aribert—o Príncipe Aribert—não deseja ocupar o trono. Ele preferiria muito não tê-lo.”

“Preferiria muito não tê-lo! Não diga bobagens. Se ele for honesto consigo mesmo, admitirá que ficará muito contente em tê-lo. Tronos estão no sangue dele, por assim dizer.”

“Você está errado, pai. E a razão é esta: Se o Príncipe Aribert ascendesse ao trono de Posen, ele seria compelido a se casar com uma Princesa.”

“Bem! Um Príncipe deveria se casar com uma Princesa.”

“Mas ele não quer. Ele quer abrir mão de todos os seus direitos reais e viver como um súdito. Ele quer se casar com uma mulher que não é uma Princesa.”

“Ela é rica?”

“O pai dela é”, disse a garota. “Oh, papai! Não consegue adivinhar? Ele—ele me ama.” A cabeça dela caiu no ombro de Theodore e ela começou a chorar.

O milionário assobiou uma nota muito aguda. “Nell!”, disse ele, por fim. “E você? Você de certa forma se apega a ele?”

“Papai”, ela respondeu, “você é estúpido. Imagina que eu me preocuparia assim se não me apegasse?” Ela sorriu através das lágrimas. Ela sabia, pelo tom de seu pai, que ela havia alcançado uma vitória.

“É um arranjo muito estranho”, observou Theodore. “Mas, é claro, se você acha que será de alguma utilidade, é melhor descer e dizer ao seu Príncipe Eugen que aquele milhão pode ser arranjado, se ele realmente precisar. Imagino que haverá garantias decentes, ou Sampson Levi não teria se envolvido nisso.”

“Obrigada, papai. Não venha comigo; talvez eu me saia melhor sozinha.”

Ela fez uma pequena reverência formal e desapareceu. Racksole, que tinha o talento, tão necessário aos milionários, de cuidar de vários assuntos ao mesmo tempo, os grandes com os pequenos, saiu para dar ordens sobre o café da manhã e a remuneração de seu assistente da noite anterior, o senhor George Hazell. Ele então enviou um convite ao quarto do senhor Felix Babylon, pedindo que aquele cavalheiro tomasse café da manhã com ele. Depois de ter relatado a Babylon a história da captura de Jules e ter tido uma longa discussão com ele sobre vários pontos da administração do hotel, e especialmente quanto à guarda das adegas, Racksole colocou seu chapéu, saiu para o Strand, chamou um hansom e foi levado para a City. A ordem e a natureza de suas operações lá eram complexas e técnicas demais para serem descritas aqui.

Quando Nella retornou ao quarto de Estado, tanto o médico quanto o grande especialista estavam novamente presentes. Os dois médicos se afastaram da cabeceira quando ela entrou e começaram a conversar baixinho na reentrância da janela.

“Um caso curioso!”, disse o especialista.

“Sim. É claro, como você diz, é um temperamento neurótico que está na raiz do problema. Quando você tem isso e uma constituição vigorosa trabalhando um contra o outro, os resultados tendem a ser distintamente curiosos.

Você considera que há alguma esperança, Sir Charles?”

“Se eu o tivesse visto quando recuperou a consciência, teria dito que havia esperança. Francamente, quando saí ontem à noite, ou melhor, esta manhã, não esperava ver o Príncipe vivo novamente—muito menos consciente e capaz de falar. De acordo com todas as regras do jogo, ele deveria superar o choque no sistema com perfeita facilidade e certeza. Mas não acho que ele o fará. Não acho que ele queira. E, além disso, acho que ele ainda está sob a influência de mania suicida. Se ele tivesse uma navalha, ele cortaria a própria garganta. Você deve manter suas forças elevadas. Injete, se necessário. Voltarei esta tarde. Estou esperado agora no Palácio de St. James.” E o especialista apressou-se, com uma reverência elaborada e algumas poucas palavras apressadas de polidas seguranças ao Príncipe Aribert.

Quando ele se foi, o Príncipe Aribert levou o outro médico à parte. “Esqueça tudo, doutor”, disse ele, “exceto que sou um homem e você é outro, e diga-me a verdade. Você será capaz de salvar Sua Alteza? Diga-me a verdade.”

“Não há verdade”, foi a resposta do médico. “O futuro não está em nossas mãos, Príncipe.”

“Mas você está esperançoso? Sim ou não.”

O médico olhou para o Príncipe Aribert. “Não!”, disse ele secamente. “Não estou. Nunca estou esperançoso quando o paciente não está do meu lado.”

“Você quer dizer...?”

“Quero dizer que Sua Alteza Real não tem desejo de viver. Você deve ter observado isso.”

“Bem demais”, disse Aribert.

“E você está ciente da causa?”

Aribert assentiu afirmativamente.

“Mas não pode removê-la?”

“Não”, disse Aribert. Ele sentiu um toque na manga. Era o dedo de Nella.

Com um gesto, ela o chamou para a antessala.

“Se você quiser”, disse ela, quando estavam sozinhos, “o Príncipe Eugen pode ser salvo.

Eu providenciei isso.”

“Você providenciou?” Ele se inclinou sobre ela, quase com um ar de alarme. “Vá e diga a ele que o milhão de libras que é tão necessário para sua felicidade estará disponível. Diga-lhe que estará disponível hoje, se isso for alguma satisfação para ele.”

“Mas o que você quer dizer com isso, Nella?”

“Digo o que digo, Aribert”, e ela buscou a mão dele e a segurou na sua.

“Exatamente o que digo. Se um milhão de libras salvará a vida do Príncipe Eugen, está à disposição dele.”

“Mas como—como você conseguiu? Por que milagre?”

“Meu pai”, ela respondeu suavemente, “fará qualquer coisa que eu pedir. Não percamos tempo. Vá e diga a Eugen que está tudo arranjado, que tudo ficará bem.

Vá!”

“Mas não podemos aceitar este—este enorme, este incrível favor. É impossível.”

“Aribert”, ela disse rapidamente, “lembre-se de que você não está em Posen realizando uma recepção na Corte. Você está na Inglaterra e está falando com uma garota americana que sempre teve o hábito de fazer as coisas do seu próprio jeito.”

O Príncipe ergueu as mãos e voltou para o quarto. O médico estava à mesa escrevendo uma receita. Aribert aproximou-se da cabeceira, o coração batendo furiosamente. Eugen o cumprimentou com um sorriso fraco e fatigado.

“Eugen”, sussurrou ele, “escute-me com atenção. Tenho notícias. Com a assistência de amigos, providenciei o empréstimo daquele milhão para você. Está tudo acertado e você pode contar com isso. Mas você precisa melhorar. Você me ouve?”

Eugen quase sentou-se na cama. "Diga-me que não estou delirando", exclamou ele.

"É claro que não está", respondeu Aribert. "Mas você não deve se sentar. Precisa cuidar de si mesmo."

"Quem emprestará o dinheiro?", perguntou Eugen num sussurro fraco e feliz.

"Não importa. Você saberá mais tarde. Dedique-se agora a melhorar."

A mudança no rosto do paciente foi extraordinária. Sua mente parecia ter assumido um aspecto inteiramente diferente. O médico ficou surpreso ao ouvi-lo murmurar um pedido de comida. Quanto a Aribert, ele sentou-se, dominado pelo tumulto de seus próprios pensamentos. Até aquele momento, sentia que nunca havia apreciado o valor e o poder maravilhoso do simples dinheiro, do lucro que os filósofos fingem desprezar e pelo qual os homens vendem suas almas. Seu coração quase explodiu em admiração por aquela extraordinária Nella, que, pela simples força pessoal, tirara dois homens do mais profundo atoleiro do desespero para as alturas venturosas da esperança e da felicidade. "Esses anglo-saxões", disse a si mesmo, "que raça!"

À tarde, Eugen estava sensivelmente e distintamente melhor. Os médicos, intrigados pela terceira vez com o progresso do caso, anunciaram agora que todo perigo havia passado. O tom do anúncio pareceu a Aribert implicar que o desfecho afortunado se devia inteiramente a uma perícia médica inigualável, mas talvez Aribert estivesse enganado. De qualquer modo, ele estava num humor extremamente caridoso e pronto para perdoar qualquer coisa.

"Nella", disse ele um pouco mais tarde, quando estavam sozinhos novamente na antecâmara, "o que devo dizer a você? Como posso agradecê-la? Como posso agradecer ao seu pai?"

"É melhor não agradecer ao meu pai", disse ela. "Papai fingirá considerar a coisa como uma transação puramente comercial, como, é claro, o é. Quanto a mim, você pode... você pode..."

"Bem?"

"Beije-me", disse ela. "Pronto! Tem certeza de que me pediu formalmente em casamento, mon prince?"

"Ah! Nell!", exclamou ele, envolvendo-a com os braços novamente. "Seja minha! É tudo o que eu quero!"

"Você verá", disse ela, "que vai querer o consentimento do papai também!"

"Ele criará dificuldades? Ele não poderia, Nell... não com você!"

"É melhor perguntar a ele", disse ela docemente.

Um momento depois, o próprio Racksole entrou na sala. "Indo tudo bem?", perguntou ele, apontando para o quarto. "Excelente", responderam os amantes juntos, e ambos coraram.

"Ah!", disse Racksole. "Então, se é assim, e se podem me conceder um minuto, tenho algo para lhe mostrar, Príncipe."

Capítulo Trinta CONCLUSÃO

"TENHO muito a lhe contar, Príncipe", começou Racksole, assim que saíram da sala, "e também, como eu disse, algo para lhe mostrar. Virá ao meu quarto? Conversaremos lá primeiro. O hotel inteiro está zumbindo de excitação."

"Com prazer", disse Aribert.

"Fico feliz que Sua Alteza, o Príncipe Eugen, esteja se recuperando", disse Racksole, impelido por considerações de cortesia.

"Ah! Quanto a isso..." começou Aribert. "Se não se importa, discutiremos isso mais tarde, Príncipe", interrompeu Racksole.

Eles estavam na sala particular do proprietário.

"Quero lhe contar tudo sobre a noite passada", retomou Racksole, "sobre a minha captura de Jules e meu interrogatório com ele esta manhã." E ele se lançou a um relato completo de tudo, até os mínimos detalhes. "Você vê", concluiu, "que nossas suspeitas quanto à Bósnia estavam toleravelmente corretas. Mas com relação à Bósnia, quanto mais penso nisso, mais tenho certeza de que nada pode ser feito para levar seus políticos criminosos à justiça."

"E quanto a Jules, o que você propõe fazer?"

"Venha por aqui", disse Racksole, e conduziu Aribert a outro cômodo. Um sofá neste cômodo estava coberto com um lenho de linho. Racksole levantou o pano — ele nunca conseguia negar a si mesmo um momento dramático — e revelou o corpo de um homem morto.

Era Jules, morto, mas sem um arranhão ou marca nele.

"Mandei chamar a polícia — não um policial de rua, mas um oficial da Scotland Yard", disse Racksole.

"Como isso aconteceu?", perguntou Aribert, espantado e sobressaltado. "Entendi você dizer que ele estava seguramente encerrado no quarto."

"E estava", respondeu Racksole. "Subi lá esta tarde, principalmente para levar-lhe comida. O comissário estava de guarda na porta. Ele não ouvira ruído algum, nada de incomum. No entanto, quando entrei no quarto, Jules tinha ido embora.

Ele havia de alguma forma afrouxado suas amarras; conseguira então tirar a porta do guarda-roupa. Movera a cama para a frente da janela e, empurrando a porta do guarda-roupa três quartos para fora da janela e encaixando a extremidade interna sob o trilho na cabeceira da cama, ele havia providenciado para si uma espécie de plataforma insegura do lado de fora da janela. Tudo isso ele fez sem produzir o menor som. Deve ter passado então pela janela e ficado de pé na pequena plataforma. Com os dedos, ele conseguiria apenas alcançar a borda externa da larga cornija sob o telhado do hotel. Pela força bruta dos braços, ele se balançara até essa cornija e, assim, chegara ao telhado propriamente dito. Teria então o caminho livre por todo o telhado.

Na lateral do edifício voltada para Salisbury Lane há uma escada de incêndio de ferro, que desce diretamente da cumeeira do telhado até um pequeno pátio rebaixado ao nível dos porões. Jules deve ter pensado que sua fuga estava concluída. Mas infelizmente aconteceu que um degrau na escada de ferro enferrujara, apodrecendo por ter sido mal pintado. Ele cedeu, e Jules, não esperando nada desse tipo, caiu no chão. Esse foi o fim de toda a sua esperteza e engenhosidade."

Ao terminar de falar, Racksole repôs o lenho de linho com um gesto do qual a reverência não estava totalmente ausente.

Quando a sepultura se fechou sobre a carreira sombria e tempestuosa de Tom Jackson, outrora o orgulho do Grand Babylon, houve poucos problemas para as pessoas cujas aventuras descrevemos. A Srta. Spencer, aquela escrava fiel e atendente de cabelos amarelos de um brilhante canalha, nunca mais foi vista. Possivelmente até hoje ela sobrevive, um mistério para seus semelhantes, na pensão de algum albergue estrangeiro barato. Quanto a Rocco, certamente houve notícias dele novamente. Vários anos após os eventos registrados, chegou ao conhecimento de Felix Babylon que o inigualável Rocco chegara a Buenos Aires e, por sua habilidade culinária, estava lá fazendo a fortuna de um novo e esplêndido hotel. Babylon transmitiu a informação a Theodore Racksole, e Racksole poderia, se tivesse escolhido, ter colocado as forças da lei em movimento contra ele. Mas Racksole, vendo que tudo apontava para o fato de que Rocco estava agora exercendo sua vocação honestamente, decidiu deixá-lo em paz. A única dificuldade que Racksole encontrou após o falecimento de Jules — e era uma dificuldade que ele, é claro, previra — estava relacionada com a polícia. A polícia, muito corretamente, queria saber das coisas. Eles desejavam ser informados sobre o que Racksole estivera fazendo no caso Dimmock, entre sua primeira visita a Ostende e o envio deles para cuidar do corpo morto de Jules. E Racksole não estava de forma alguma inclinado a contar-lhes tudo. Sem dúvida, ele havia transgredido as leis da Inglaterra e, possivelmente, também as leis da Bélgica; e a excelência moral de seus motivos ao fazê-lo não era, é claro, aos olhos da justiça legal, desculpa para tal conduta. O inquérito sobre Jules despertou algum incômodo; e cerca de noventa e nove rumores separados e distintos. No final, porém, chegou-se a um compromisso. O primeiro objetivo de Racksole foi pacificar o inspetor cuja pista, que a propósito era falsa, ele se recusara tão bruscamente a seguir. Feito isso, o restante precisou apenas de tato e paciência. Ele provou, para a satisfação das autoridades, que agira com um espírito perfeitamente honesto, embora com mão pesada, e que uma justiça substancial fora feita. Além disso, indicou sutilmente que, se chegasse ao ponto, ele os desafiaria a fazer o seu pior. Por fim, ele conseguiu, por intermédio do Embaixador dos Estados Unidos, exercer certas influências calmantes sobre a situação.

Certa tarde, quinze dias após a recuperação do Príncipe Hereditário de Posen, Aribert, que ainda estava hospedado no Grand Babylon, expressou o desejo de conversar com o milionário. O Príncipe Eugen, acompanhado por Hans e alguns funcionários da Corte que ele havia mandado chamar, partira com imenso éclat, armado com o confortável milhão, para arranjar formalmente seu noivado.

Quanto ao milhão, Eugen dera garantias pessoais satisfatórias, e o dinheiro deveria ser pago em quinze anos.

"Você deseja falar comigo, Príncipe", disse Racksole a Aribert, quando estavam sentados juntos no quarto deste último.

"Desejo dizer-lhe", respondeu Aribert, "que é minha intenção renunciar a todos os meus direitos e títulos como Príncipe Real de Posen, e ser conhecido no futuro como Conde Hartz — um título ao qual tenho direito através de minha mãe.

Também que tenho uma renda privada de dez mil libras por ano, e um castelo e uma casa na cidade em Posen. Digo-lhe isso porque estou aqui para pedir a mão de sua filha em casamento. Eu a amo, e sou vaidoso o suficiente para acreditar que ela me ama. Já a pedi em casamento, e ela consentiu. Aguardamos sua aprovação."

"O senhor nos honra, Príncipe", disse Racksole com um leve sorriso, "e de mais de uma maneira. Posso perguntar sua razão para renunciar aos seus títulos principescos?"

"Simplesmente porque a ideia de um casamento morganático seria tão repugnante para mim quanto seria para você e para Nella."

"Isso é bom." O Príncipe riu. "Suponho que lhe tenha ocorrido que dez mil libras por ano, para um homem em sua posição, é uma renda um tanto pequena. Nella é terrivelmente extravagante. Eu a conheci gastar sessenta mil dólares em um único ano, e não ter nada para mostrar por isso no final. Ora! Ela o arruinaria em doze meses."

"Nella deve reformar seus modos", disse Aribert.

"Se ela estiver satisfeita em fazê-lo", continuou Racksole, "muito bem! Eu consinto."

"Em nome dela e no meu, agradeço-lhe", disse Aribert gravemente.

"E", continuou o milionário, "para que ela não precise se reformar tão ferozmente, estabelecerei para ela, absolutamente, com reversão para seus filhos, se você os tiver, uma quantia fixa de cinquenta milhões de dólares, ou seja, dez milhões de libras, em ações ferroviárias sólidas e selecionadas. Calculo que isso seja cerca de metade da minha fortuna. Nella e eu sempre compartilhamos igualmente."

Aribert não respondeu. Os dois homens apertaram as mãos em silêncio, e então aconteceu que Nella entrou na sala.

Naquela noite, após o jantar, Racksole e seu amigo Felix Babylon caminhavam juntos no terraço do Grand Babylon Hôtel.

Felix iniciara a conversa.

"Suponho, Racksole", dissera ele, "que você não está se cansando do Grand Babylon?"

"Por que pergunta?"

"Porque estou me cansando de viver sem ele. Mil vezes desde que o vendi a você desejei poder desfazer o negócio. Não suporto a ociosidade. Você vende?"

"Poderia", disse Racksole, "poderia ser induzido a vender."

"O que você aceitaria, meu amigo?", perguntou Felix.

"O que dei", foi a resposta rápida.

"Eh!", exclamou Felix. "Eu lhe vendo meu hotel com Jules, com Rocco, com a Srta. Spencer. Você vai e perde todos esses três inestimáveis servos, e então me oferece o hotel sem eles pelo mesmo preço! É monstruoso." O homenzinho riu cordialmente de sua própria sagacidade. "No entanto", acrescentou, "não brigaremos pelo preço. Aceito seus termos."

E assim se encerrou a complexa cadeia de eventos que começara quando Theodore Racksole pediu um bife e uma garrafa de Bass no table d’hôte do Grand Babylon Hôtel.

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