A MÃO NO ESCURO
POR ARTHUR J. REES
AUTOR DE "THE SHRIEKING PIT"
NOVA IORQUE: JOHN LANE COMPANY LONDRES: JOHN LANE, THE BODLEY HEAD Direitos de autor, 1920
PRELO DA THE VAIL-BALLOU COMPANY BINGHAMTON, N. Y., U. S. A.
A MÃO NO ESCURO
CAPÍTULO I
Vista sob o triste encanto de um crepúsculo inglês, a antiga casa do fosso, emergindo das névoas ténues que velavam as planícies verdes onde se erguia, transmitia a impressão de uma habitação que caía na senilidade, cansada de séculos de existência. As casas envelhecem como a raça humana; o processo não é menos inevitável, embora mais lento; em ambos, a decadência é apressada tanto por eventos como pela passagem do Tempo.
A casa do fosso não era tão antiga como o são as casas de campo inglesas, mas envelhecera rapidamente devido ao seu passado. Havia uma história estranha e sangrenta ligada ao lugar: um registo histórico de assassinatos, esfaqueamentos e disputas que remontavam aos dias dos saxões, quando um castelo se erguera no local, e cada centímetro da terra plana fora encharcado com o sangue de servos que lutavam sob um tirano saxão contra um tirano normando pela palavra de ordem sagrada da Liberdade.
O vitorioso tirano normando matara o saxão, tomara o seu castelo e tiranizara os servos durante o seu breve dia, até que o tirano maior, a Morte, lhe ensinara a sua primeira — e última — lição de humildade. Após a sua morte, algum usurpador fresco derrubara o castelo roubado e construíra uma casa do fosso no local. Durante os poucos séculos seguintes, houve mais lutas por ambição inquieta, invariavelmente ligadas à criação e destruição de tiranos, até que um rei inglês perdeu a cabeça pela causa da Liberdade, e a casa do fosso foi destruída pelo fogo pelo mesmo princípio glorioso.
Foi reconstruída pelo aventureiro que a incendiara; um tal Philip Heredith, descendente de Philip Here-Deith, cujo nome está inscrito no Domesday Book como um dos cavaleiros do exército do Duque Guilherme que se reunira em Dives para a conquista da Inglaterra. Philip Heredith, que era um lutador tão grande quanto o seu antepassado normando, estabeleceu a sua reivindicação à nova propriedade, e evitou litígios sobre ela, confinando o proprietário realista e a sua família dentro das muralhas da casa do fosso antes de lhe atear fogo. Mais tarde casou-se e instalou-se na nova casa com a sua jovem esposa. Mas a lua-de-mel foi perturbada pelo fantasma do cavalheiro que ele incinerara, que o avisou de que, como fundara a sua linhagem no horror, ela terminaria no horror, e a casa que construíra cairia por terra.
Philip Heredith, tal como muitos outros grandes lutadores, era um homem extremamente piedoso, com uma crença profunda na eficácia da oração. Esforçou-se por frustrar a maldição do fantasma construindo uma igreja nos terrenos da casa do fosso, onde passava os seus domingos a rezar pelo bem-estar eterno do cavalheiro que ceifara no auge da sua virilidade. Talvez as orações tenham sido ouvidas, pois, quando Philip Heredith, com o passar do tempo, se tornou o primeiro ocupante do jazigo novinho em folha que construíra para si e para os seus sucessores, deixou atrás de si muita riqueza e um catálogo das suas virtudes, escrito pelo seu próprio punho. A riqueza deixou-a aos seus herdeiros, mas estipulou expressamente que o registo das suas virtudes fosse esculpido em pedra e colocado como uma placa duradoura, para edificação das gerações futuras, dentro da igreja que construíra.
Foi uma precaução sensata da sua parte. Os mortos são mudos quanto aos seus próprios méritos, e os vivos pensam apenas em si mesmos. O Tempo passou, até que o primeiro dos Heredith foi esquecido tão completamente como se nunca tivesse existido; até o seu pó fora empurrado da prateleira do seu próprio jazigo para dar lugar aos numerosos descendentes da linhagem prolífica e próspera que fundara. Mas a placa permaneceu, e a antiga casa do fosso que ele construíra ainda lá estava.
Era um lugar antigo maravilhoso e um deleite para os olhos, esta casa do fosso medieval de tijolo amadurecido, revestimentos de pedra, telhado inclinado, com jardins em socalcos e um fosso circundante. Desafiara o Tempo melhor do que o seu construtor, embora um pouco trémula, com sinais de decrepitude aqui e ali visíveis nas fendas em "pés-de-galinha" da alvenaria, e a decadência visível demasiado claramente nos ângulos loucos do telhado de telha. Mas a hera que cobria partes da alvenaria escondia algumas das devastações da idade, e ajudava a casa do fosso a apresentar uma face corajosa ao mundo, um sobrevivente bem preservado de um período ornamental numa geração banal e feia.
O lugar parecia pertencer ao passado e aos fantasmas do passado. Cruzar a ponte do fosso era recuar do século vinte para o século dezassete. As muralhas do fosso, cobertas de musgo, envolviam um jardim de outro mundo, guardado zelosamente por sebes altas de teixo aparadas em formas fantásticas de pássaros e animais; um jardim de canteiros e relvados, onde tritões sopravam buzinas de pedra, e ninfas nuas banhavam-se em fontes de mármore; com um antigo relógio de sol no qual o alegre libertino Suckling rabiscara outrora um soneto a um par de olhos azuis — um jardim cheio de caminhos isolados e recantos escondidos onde cavaleiros corteses e damas fascinantes em brocados e sedas, pintas e pó de arroz, tinham brincado ao grande jogo do amor no seu tempo. Esse dia morrera há muito. Os tritões e as ninfas permaneceram, para lembrar à humanidade que a pedra e o mármore são mais duráveis do que a carne e o sangue, mas os lordes e as damas tinham partido, nunca mais para regressar, a menos que, de facto, os seus espíritos caminhassem pelo jardim na brancura silenciosa das noites de luar. É bem possível que o tenham feito. Era fácil imaginar tais belezas despreocupadas visitando novamente o jardim antigo para reavivar memórias mortas de amor e riso: formas sombrias que se esgueiravam para encontros no relvado esbranquiçado e carregado de orvalho, os seus rostos marotos e olhos brilhantes — se os fantasmas têm olhos — espreitando de capuzes fantasmagóricos para alegres cavaleiros fantasmagóricos; a fazerem charme e a languidecerem atrás de leques fantasmagóricos; talvez até alimentando, com pequenas mãos fantasmagóricas, os pavões que ainda guardavam o caminho do terraço acima do fosso.
O espetáculo de um grupo de senhoras modernas a rir e a conversar enquanto tomavam chá nos recantos claustrais do jardim do terraço produzia uma nota tão agudamente incongruente como um bando de papagaios a tagarelar numa catedral.
Era o outono de 1918, e com uma exceção, as senhoras sentadas às mesas de chá no relvado representavam o novo e independente tipo de mulher trazido à existência pelas exigências nacionais da guerra. A mais velha delas parecia útil em vez de bonita, como convinha às patriotas inglesas em tempo de guerra; as mais jovens eram bonitas e encantadoras, mas eram todas trabalhadoras, ou fingiam sê-lo, na tarefa de ajudar a Inglaterra a vencer a guerra, e várias delas usavam o cáqui ou o azul do serviço ativo no estrangeiro. Estavam todas muito à vontade, rindo e falando enquanto bebiam o seu chá e atiravam bolo aos pavões empoleirados no caminho do terraço alto acima das suas cabeças.
As senhoras eram convidadas de Sir Philip Heredith. Alguns meses antes, o seu único filho, Philip, que então ocupava um cargo no Ministério da Guerra, apaixonara-se pelo rosto bonito de uma rapariga empregada num dos departamentos de Whitehall. Casou com ela pouco tempo depois e trouxe-a para casa, para a casa do fosso. Foi o jovem marido que sugeriu que deveriam animar a antiga casa do fosso convidando alguns dos seus antigos amigos de Londres para ficarem com eles. Violet Heredith, que se via entediada com a vida no campo após a excitação do trabalho de guerra em Londres, agarrou-se avidamente à ideia, e a maioria das senhoras presentes no chá eram as antigas conhecidas de Whitehall da jovem esposa, com quem partilhara bilhetes de matinê e chás da tarde em Londres durante o último inverno da guerra.
A anfitriã do grupo, a Srta. Alethea Heredith, irmã do atual barão, Sir Philip Heredith, e senhora da casa do fosso desde a morte da Lady Heredith, pertencia a um tipo de inglesa de outrora e quase extinto, a grande dama provincial, líder da sociedade local, patrona da aldeia, desportista e mulher de igreja, tudo num só, um tipo exclusivamente inglês, que levava vários séculos a produzir na sua forma acabada. A Srta. Heredith era um excelente, se bem que um tanto terrível, espécime da classe. Era alta e maciça, com um rosto de ossos largos, bronzeado de vermelho pelo ar do campo, olhos cinzentos astutos que olhavam por baixo de sobrancelhas grossas que se encontravam na testa numa linha reta (as sobrancelhas Heredith) e um nariz forte e adunco (o nariz de falcão Heredith). Mas apesar da sua estrutura maciça, rosto vermelho, nariz adunco e traje campestre, parecia mais adequada ao ambiente do que os espécimes de mulher mais frágeis e pálidos a quem servia o chá. Havia uma graça rígida e majestosa nos seus movimentos, uma cerimónia lenta, na sua cortesia para com os convidados, que parecia harmonizar-se com o cenário do século dezassete do jardim da casa do fosso.
No momento, as senhoras discutiam um evento que fora organizado para aquela noite: um passeio pelo campo, seguido de uma noite musical e dança. Os convites tinham sido feitos pelos Weyne, um jovem casal que se instalara recentemente no condado. O marido era um romancista popular, que deixara as distrações de Londres para ganhar fama em paz e sossego no campo. A Sra. Weyne, que tinha conhecido ligeiramente a Sra. Heredith antes do seu casamento, ficou encantada ao saber que teria a Sra. Heredith como vizinha. Tinha organizado a noite em seu nome e pedido à Srta. Heredith que trouxesse todos os seus convidados. O evento deveria marcar o fim da festa em casa, que se dissolveria no dia seguinte. Infelizmente, a Sra. Heredith adoecera algumas horas antes, e era duvidoso que fosse capaz de participar na festividade.
"Espero que se lembrem todas de que o jantar será um quarto de hora mais cedo esta noite", disse a Srta. Heredith, enquanto entregava uma chávena de chá a uma das suas convidadas. "É uma viagem longa até à casa dos Weyne, por isso vou pedir os carros para as sete e meia."
As convidadas olharam para a anfitriã e murmuraram um assentimento educado.
"Estou ansiosa pela visita", disse a senhora a quem a Srta. Heredith entregara a chávena. "Será tão romântico — uma dança campestre numa casa isolada numa colina. Que chávena adorável, querida Srta. Heredith! Adoro porcelana chinesa de casca de ovo, mas isto é simplesmente para além de tudo! É..."
"O que terá levado a Dolly Weyne a enterrar-se no campo?", exclamou abruptamente uma jovem mulher de cabelo curto e uniforme cáqui. "Ela detestava o campo antes de se casar."
"A Sra. Weyne é esposa, e é seu dever gostar da casa do marido", disse a Srta. Heredith um pouco afetadamente. Ela desaprovava a oradora, cujo uniforme cáqui, cabelo cortado rente, pernas cruzadas e braços em anca lhe pareciam tudo o que era moderno e pouco feminino.
"Então o que levou o Teddy Weyne a enterrar-se vivo nestas paragens selvagens? Tenho a certeza de que deve ser terrível viver lá em cima sozinho, sem nada além de tesourinhas e corujas para companhia."
"O Sr. Weyne é escritor", respondeu a Srta. Heredith. "Ele precisa de isolamento."
"O meu marido não precisa", disse uma pequena mulher de cabelos claros. "Ele diz que os jornalistas podem escrever em qualquer lado. E conhecemos outro escritor, um Sr. Harland, creio que é o nome dele, que escreve artigos longos nos jornais de domingo..."
"Não creio que o nome dele seja Harland, querida", interrompeu outra senhora. "Algo parecido, mas não Harland. Meu Deus, o que será?"
"Oh, o nome não interessa", retorquiu a amiga. "A questão é que ele escreve artigos longos no seu escritório em Londres. Porque é que o Sr. Weyne não pode fazer o mesmo?"
"O Sr. Weyne é romancista, não é jornalista. É uma coisa completamente diferente."
"Será?", respondeu a outra, duvidosa. "Toda a escrita é a mesma, não é? O Harry diz que os artigos do Sr. Harland são terrivelmente inteligentes. Ele lê-me partes deles de vez em quando."
"A Sra. Weyne sente-se um pouco solitária por vezes", disse a Srta. Heredith. "Ela tem estado ansiosa por encontrar a Violet novamente. Será agradável para ambas renovarem o seu conhecimento."
"Eu diria que ela e a Violet se dariam bem", observou a jovem de cabelo curto. "Ambas têm muitos gostos em comum. Nenhuma gosta do campo, para começar." As outras senhoras olharam umas para as outras, e a oradora, apercebendo-se de que fora indelicada, parou abruptamente. "Como está a Violet?", acrescentou, sem jeito. "Acha que ela estará suficientemente bem para ir esta noite?"
"Ainda espero que ela esteja bem o suficiente para ir", respondeu a Srta. Heredith. "Perguntar-lhe-ei mais tarde. Alguém quer outra chávena de chá?"
Ninguém queria mais chá. A refeição tinha terminado; mas os grupos de senhoras nas pequenas mesas sentavam-se placidamente a conversar, desfrutando do ambiente tranquilo e do sol da tarde. Algumas das raparigas tiraram as suas cigarreiras e acenderam cigarros.
Ouviu-se o som de passos no caminho de gravilha. Um jovem oficial alto e de boa aparência foi visto a caminhar pelo jardim, vindo da casa. À medida que se aproximava das mesas de chá, ergueu sorridentemente um dedo à testa em saudação.
"Vim dizer adeus", anunciou.
As senhoras agruparam-se à sua volta. Era evidente, pela sua maneira de agir, que ele era uma figura popular entre elas. Várias das raparigas mais jovens trataram-no por "Dick" e pediram-lhe que lhes enviasse troféus da frente de combate. O jovem oficial manteve-se à altura entre elas com uma descontração risonha. Quando se despediu delas, aproximou-se da Srta. Heredith e estendeu a mão com uma polidez deferente que contrastava bastante visivelmente com a familiaridade fácil da sua despedida anterior.
"Lamento que seja forçado a deixar-nos, Capitão Nepcote", disse a Srta. Heredith, levantando-se com dignidade para aceitar a sua mão estendida. "Regressa imediatamente para a frente?"
"Esta noite, espero."
"Confio que regressará em segurança à sua terra natal antes de muito tempo, coroado de vitória e glória."
O Capitão Nepcote fez uma vénia, um tanto embaraçado. Como o resto da sua geração, perturbava-se facilmente com palavras bonitas ou qualquer exibição de sentimentos mais finos. Tinha cerca de vinte e oito anos, altura média, barbeado, com traços bem definidos, cabelo castanho e olhos azuis. À primeira vista, não transmitia mais do que a impressão de um belo jovem oficial inglês do tipo familiar, fabricado aos milhares durante a guerra; mas enquanto ali estava de pé a falar, um raio de sol súbito que caiu sobre a sua cabeça descoberta revelou linhas vagas no rosto e uma suspeita de prata no cabelo cortado rente, sugerindo algo não totalmente condizente com a sua aparência elegante — um problema secreto ou dissipação, era impossível dizer qual.
"Dará os meus cumprimentos de despedida à Sra. Heredith por mim?", disse ele, após uma breve pausa. "Espero que ela melhore em breve. Já me despedi de Sir Philip e do Phil. Sir Philip queria levar-me à estação, mas sei algo sobre as dificuldades em arranjar gasolina neste momento, e não o permiti. Incrivelmente gentil da parte dele! O Phil sugeriu vir a pé comigo, mas achei que seria demais para ele."
Tinham-se afastado das mesas de chá em direção à ponte que atravessava a entrada para a casa do fosso. A Srta. Heredith parou junto a dois canhões de latão, que se encontravam no relvado num aglomerado de folhagem ornamental, com uma inscrição declarando que tinham sido tomados do Passe-partout, uma embarcação francesa capturada pelo Almirante Heredith nos Mares da Índia em 1804.
"É difícil para o Phil, um Heredith, ficar para trás quando todos os jovens ingleses estão a lutar pela sua terra amada", disse ela suavemente, com os olhos fixos nestas peças de artilharia obsoletas. "Ele descende de uma linhagem de grandes guerreiros. Contudo", continuou, num tom mais resoluto, "o Phil tem os seus deveres a cumprir, apesar da sua enfermidade. Todos nós temos os nossos deveres, graças a Deus. Adeus, Capitão Nepcote. Estou a impedi-lo, e pode perder o comboio."
"Adeus, Srta. Heredith. Muito obrigado pela sua gentileza durante uma visita muito agradável. Diverti-me imenso."
"Estou contente por ter gostado da sua estadia. Espero que volte a visitar-nos quando os seus deveres militares o permitirem."
"Er... sim. Muito obrigado. Obrigado mais uma vez pela sua gentileza."
O jovem oficial proferiu estes lugares-comuns educados de uma despedida de convidado com alguma brusquidão, fez uma nova vénia e virou-se, atravessando a antiga ponte de pedra que cruzava o fosso.
CAPÍTULO II
A Srta. Heredith voltou os passos para a casa. Os convidados tinham-se dispersado enquanto ela se despedia do Capitão Nepcote, e nada mais se esperava dela como anfitriã até à hora do jantar. Era o seu hábito diário dedicar uma parte do tempo entre o chá e o jantar a supervisionar os preparativos para esta última refeição. A casa do fosso possuía uma governanta competente e uma excelente equipa de criados, mas a Srta. Heredith acreditava em tratar das coisas ela mesma.
No caminho para a casa, viu um ajudante de jardineiro a aparar uma das sebes ornamentais do terraço no lado sul da casa, e dirigiu-se a ele. O homem suspendeu o trabalho quando a grande dama se aproximou, e esperou respeitosamente que ela falasse.
"Thomas", disse a Srta. Heredith, "vá dizer ao Linton para ter ambos os motores e a carruagem à porta às sete e meia desta noite. E diga-lhe, Thomas, que é melhor o Platt conduzir a carruagem."
O ajudante de jardineiro tocou no boné e apressou-se para cumprir a sua tarefa. A Srta. Heredith retomou calmamente a sua caminhada para a casa, parando ocasionalmente para arrancar qualquer erva daninha que tivesse a audácia de mostrar a cabeça nos canteiros de flores bem tratados que pontilhavam a vasta extensão de relvado entre o fosso e a casa. Entrou na casa pela porta do alpendre e dirigiu-se aos aposentos da governanta.
A sua batida na porta foi respondida por uma rapariga muito bonita, alta e morena, que corou ao ver a Srta. Heredith e se desviou para a deixar entrar. Uma mulher de meia-idade, com um rosto preocupado e grandes olhos cinzentos, vestida de seda preta, estava sentada junto à janela a coser. Levantou-se e veio para a frente quando viu a sua visitante. Era a Sra. Rath, a governanta, e a rapariga bonita era a sua filha.
"Como está, Hazel?", disse a Srta. Heredith, oferecendo a mão à rapariga. "Há muito tempo que não a vejo. Porque não nos tem visitado ultimamente?"
A rapariga pareceu embaraçada com a pergunta. Hesitou e, depois, como se tranquilizada pelo sorriso gracioso da Srta. Heredith, murmurou que estivera tão ocupada que tivera muito pouco tempo para si.
"Pensei que lhe dessem uma tarde de folga todas as semanas no seu local de emprego", prosseguiu a Srta. Heredith, sentando-se numa cadeira que a governanta colocou para ela.
"Nem sempre", respondeu Hazel. "Pelo menos, não ultimamente. Tivemos muitas encomendas."
"Gosta do negócio de chapelaria, Hazel?"
"Muito mesmo, Srta. Heredith."
"A Hazel está a ir muito bem agora", disse a sua mãe.
"Fico muito contente por ouvir isso", respondeu a Srta. Heredith, da mesma forma graciosa. "Deve vir ver-nos mais vezes. Tenho um grande interesse pelo seu bem-estar, Hazel. Agora, Sra. Rath."
Há rostos que chamam a atenção pela expressão dos olhos, e o da governanta era um deles. O seu rosto era fino, quase magro, com têmporas fundas sobre as quais o seu cabelo grisalho estava entrançado, mas os seus grandes olhos eram anormalmente brilhantes, e tinham um olhar estranho, ao mesmo tempo tímido e vigilante. Ela voltou-os agora para a Srta. Heredith como se temesse uma repreensão.
"Sra. Rath", disse a Srta. Heredith, "espero que o jantar seja servido pontualmente às sete e três quartos desta noite, como combinei. E falou com a cozinheira sobre a ave? Ela certamente deveria pôr mais variedade na sua cozinha."
"É um pouco difícil para ela neste momento, com o controlador de alimentos a permitir uma quantidade tão pequena de carne de talho", observou a Sra. Rath. "Ela faz realmente o seu melhor."
"Ela desenrasca-se muito bem no geral, mas tem muitos recursos, como aves e caça, que são negados à maioria das casas."
Quando a Srta. Heredith saiu do quarto da governanta pouco tempo depois, estava bastante satisfeita pelo facto de o jantar provavelmente ser tão bom quanto um controlador de alimentos arbitrário permitiria, e subiu para o seu quarto para se vestir. Em menos de meia hora reapareceu, uma figura digna e farfalhante em seda preta. Caminhou lentamente pelo corredor vindo do seu quarto e bateu à porta da Sra. Heredith.
"Entre!", gritou uma voz feminina fraca lá dentro.
A Srta. Heredith abriu a porta suavemente e entrou no quarto. Era um quarto espaçoso e antigo, com paredes apaineladas e teto moldado. O mobiliário jacobino, os espelhos antigos e a cama com dossel de seda estavam em harmonia com o ambiente.
Uma jovem de contornos delicados e compleição esguia estava deitada na cama. Vestia uma bata de repouso elegante de seda macia, guarnecida com bordados a ouro, com seus cabelos claros parcialmente cobertos por uma touca de seda. Ao seu lado, havia uma pequena mesa sobre a qual repousavam frascos de água de colônia e água de lavanda, sais de banho em cristal lapidado e prata, uma cigarreira de ouro e um romance aberto.
A jovem sentou-se quando a Srta. Heredith entrou e levou as mãos mecanicamente ao cabelo. Seus dedos estavam carregados de joias, numerosas demais para o bom gosto, e entre a massa de anéis em sua mão esquerda, o ouro fosco da aliança de casamento brilhava em contraste sóbrio. Seu rosto era bonito, mas insignificante demais para ser belo. Ela tinha grandes olhos azuis sob sobrancelhas arqueadas e escuras, traços pequenos e regulares, e uma boca pequena com um esgar petulante no lábio inferior. Seu rosto era do tipo que atrai instantaneamente a atenção masculina. Havia o fascínio do sexo nas profundezas dos olhos azuis e provocação nas linhas caídas dos lábios petulantes e ligeiramente entreabertos. Havia uma sugestão de artificialidade nos lábios pintados e na pretensão de cor naquele rosto encantador. O ar fechado do quarto estava impregnado pela atmosfera pesada de perfumes, misturada ao cheiro pungente de fumaça de cigarro.
A Srta. Heredith sentou-se à beira da cama. As duas mulheres formavam um contraste marcante de tipos: a dama do campo forte, rústica e prática, e a frágil devota feminina da beleza e do adorno pessoal que, com o passar do tempo, sucederia a outra como a senhora da casa do fosso. A diferença ia muito além do exterior; havia um vasto abismo psicológico entre elas — a diferença entre uma mulher de mente sã e temperamento calmo e equilibrado, que provavelmente nunca se preocupara com o sexo oposto, e uma mulher que era o produto neurótico de uma cidade moderna e nervosa; sexual por natureza, presa à introspecção mórbida e a desejos inquietos.
A mulher mais jovem observou a Srta. Heredith com um olhar um tanto irritado de seus olhos grandes. Era evidente pela expressão de seu rosto que ela não gostava da Srta. Heredith e se ressentia de sua intrusão, mas teria sido necessário um observador astuto para deduzir do rosto da Srta. Heredith que seu sentimento em relação à esposa de seu sobrinho era de antipatia. Não havia nada além de polidez contida em sua voz ao falar.
"Como está sua cabeça agora, Violet? Sente-se melhor?"
"Não. Minha cabeça está simplesmente horrível." Enquanto falava, a jovem tirou a touca de dormir e alisou o cabelo grosso e claro para trás da testa com um gesto impaciente, como se achasse o peso insuportável.
"Sinto muito que ainda esteja sofrendo. Estará bem o suficiente para ir à casa dos Weyne esta noite?"
"Eu não sonharia com isso. Admiro que possa sugerir tal coisa. Isso só me deixaria pior."
"Naturalmente, explicarei à Sra. Weyne. Isto é, a menos que queira que eu fique e faça-lhe companhia. Não gosto que fique sozinha."
"Não há a menor necessidade disso", disse a Sra. Heredith decisivamente. "Vá. Posso chamar Lisette para sentar-se comigo se me sentir solitária."
"Talvez queira que Phil fique com você?", sugeriu a Srta. Heredith.
"Oh, não! Seria tolice da parte dele ficar fora por minha causa. Quero que todos vão e se divirtam, e não que se preocupem comigo. No momento, não desejo nada mais do que ser deixada em paz."
"Muito bem, então." A Srta. Heredith levantou-se com essa deixa. "Devo mandar subir algum jantar para você?"
"Não, obrigada. A governanta acabou de me enviar um chá forte e torrada seca. Se eu sentir fome mais tarde, tocarei a campainha. Mas vou tentar dormir agora."
"Então vou deixá-la. Mandei servir o jantar um pouco mais cedo do que o habitual."
"Que horas são agora?" Violet olhou sem interesse para seu relógio de pulso cravejado de joias enquanto falava. "Seis e quinze — esse é o horário certo?"
A Srta. Heredith consultou seu próprio relógio, suspenso em volta do pescoço por uma corrente longa e fina.
"Sim, está correto."
"A que horas vocês vão jantar?"
"Quinze para as sete."
"Qual é a ideia de jantar mais cedo?", perguntou a jovem, apoiando-se no travesseiro com um braço branco e nu, olhando curiosa para a Srta. Heredith.
"Combinei de sairmos para a casa dos Weyne às sete e meia. É um longo caminho."
"Entendo." A jovem assentiu com indiferença, como se sua curiosidade sobre o assunto tivesse diminuído tão rapidamente quanto surgiu. "Bem, espero que todos se divirtam." Ela bocejou e deixou sua cabeça clara cair de volta no travesseiro. "Agora vou tentar dormir. Por favor, diga a Phil para não me perturbar. Diga-lhe que estou com uma das minhas piores dores de cabeça. Vocês certamente voltarão tarde e eu não quero ser acordada."
Ela fechou os olhos e a Srta. Heredith virou-se para sair do quarto. Ao passar pela penteadeira, seus olhos caíram sobre uma bela caixa de joias. Como se atingida por um pensamento repentino, ela voltou para a cabeceira da cama novamente.
"Violet", disse ela.
A jovem entreabriu os olhos e olhou para a mulher mais velha sob pálpebras cerradas. "Sim?", murmurou ela.
"Seu colar — eu quase me esqueci. O Sr. Musard volta para a cidade cedo pela manhã e deseja levá-lo com ele."
"Oh, terá de esperar até de manhã. Não sei onde estão as chaves e não posso me preocupar em procurá-las agora." A jovem virou o rosto com determinação e enterrou a cabeça no travesseiro, como uma criança mimada.
A Srta. Heredith corou levemente com a grosseria deliberada do gesto, mas não insistiu no pedido. Ela deixou o quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Caminhou lentamente pelo corredor largo, adornado com tapeçaria de canutilhos, e parou por um momento diante de uma janela estreita no final da galeria, olhando para os jardins do terraço e para a suave paisagem verde além. A entrevista com a esposa de seu sobrinho a havia testado e suas reflexões eram um tanto amargas. Pela vigésima vez, perguntou a si mesma por que seu sobrinho se apaixonara por aquela garota desconhecida de Londres, que detestava o campo. Do ponto de vista da Srta. Heredith, uma garota que fumava e falava gírias carecia de todo o senso de dignidade da alta posição para a qual fora chamada, e era de todas as formas inadequada para se tornar a mãe do próximo Heredith homem, se é que ela consentiria em gerar um herdeiro. Era o arrependimento constante da Srta. Heredith que Phil não tivesse se casado com uma boa moça da região, de sua própria classe social, em vez de uma garota de Londres.
A Srta. Heredith terminou suas reflexões com um suspiro e afastou-se da janela. Ela era, acima de tudo, prática e compreendia plenamente a tolice de remoer o inevitável, mas o casamento de seu sobrinho era um ponto sensível para ela. Ela prosseguiu com seu jeito imponente pelos degraus largos e baixos da antiga escadaria, adornada com armaduras, troféus e retratos de família. No pé da escada, encontrou um criado carregando uma bandeja com garrafas de xerez e biscoitos pelo saguão.
"Onde está o Sr. Philip?", perguntou ela.
"Creio que ele esteja na sala de bilhar, senhora", respondeu o homem.
A Srta. Heredith seguiu com dignidade farfalhante até a sala de bilhar. O clique das bolas de bilhar era audível antes mesmo que ela chegasse. A porta estava aberta e, dentro do cômodo, vários jovens, a maioria vestindo cáqui, assistiam a uma partida entre um homem de meia-idade de cabelos escuros e um jovem oficial. Um ou dois dos homens olharam para cima quando a Srta. Heredith entrou, mas o jovem oficial continuou sua jogada com a habilidade mecânica de um marcador de bilhar. A Srta. Heredith caracterizou mentalmente sua ação como outro exemplo da decadência moderna dos modos. Em sua juventude, os cavalheiros sempre paravam de jogar quando uma dama entrava na sala de bilhar. O jogador de meia-idade aproximou-se, taco na mão, e perguntou se ela precisava de alguma coisa.
"Estou procurando Phil", disse ela. "Pensei que ele estivesse aqui."
"Ele estava, mas acabou de ir para a biblioteca. Disse que tinha algumas cartas para escrever antes do jantar."
"Obrigada." A Srta. Heredith afastou-se e caminhou até a biblioteca que, assim como a sala de bilhar, ficava no andar térreo. Ela abriu a porta e entrou em um cômodo grande com um interior que pertencia à Idade Média. Não havia intrusão do século XX no grande e sombrio apartamento com seus arabescos e frisos desbotados, candelabros de bronze, acessórios medievais e móveis pesados e gastos pelo tempo.
O jovem que estava escrevendo em uma escrivaninha antiga no cômodo não destoava do cenário antigo. Seu rosto era de tipo antigo — longo e estreito, e seu longo cabelo escuro e liso, penteado para trás da testa, era um contraste curioso com o corte rente da geração militar de jovens. Seus olhos eram escuros e situados um tanto profundamente sob uma testa branca, estreita e alta. Ele tinha as sobrancelhas e o nariz de ponte alta dos Heredith; mas, além desses traços tradicionais de sua linhagem, seu rosto um tanto intelectual e sua compleição esguia tinham pouco em comum com os retratos dos massivos e guerreiros Heredith que pendiam das paredes ao seu redor. Ele parou de escrever e olhou para cima quando sua tia entrou.
"Acabei de ver Violet", explicou a Srta. Heredith. "Ela diz que não está melhor e que não poderá nos acompanhar à casa dos Weyne esta noite. Sugeri ficar com ela, mas ela não quis ouvir. Diz que prefere ficar sozinha. Você acha que é certo deixá-la? Gostaria de ter sua opinião. Você a entende melhor, é claro."
"Acho que se Violet deseja ficar sozinha, não podemos fazer nada melhor do que respeitar seus desejos", respondeu Phil. "Sei que ela gosta de ser deixada completamente entregue a si mesma quando tem enxaqueca nervosa."
"Nesse caso, nós iremos", respondeu a Srta. Heredith. "Decidi servir o jantar quinze minutos mais cedo para que possamos sair daqui às sete e meia."
"Entendo", disse o jovem. "Violet vai jantar?"
"Não. Ela acabou de tomar um chá com torrada e agora está tentando dormir. Ela não deseja ser perturbada — pediu-me para lhe dizer isso." A Srta. Heredith olhou para o relógio. "Meu Deus, são quase seis e meia! Preciso ir. Tufnell é tão demorado quando a rapidez é necessária."
"Você lembrou Violet sobre o colar?", perguntou Phil, enquanto sua tia se virava para sair da biblioteca.
"Sim. Ela disse que o enviará pela manhã, antes que Vincent parta."
Phil assentiu e voltou às suas cartas. A Srta. Heredith saiu da sala e seguiu pelo corredor em direção à grande sala de jantar. Um criado idoso, grisalho e barbeado, permitiu que um leve sorriso deferente aparecesse em seu semblante à medida que ela entrava.
"Está tudo certo, Tufnell?", perguntou ela.
Tufnell, o sisudo e antigo mordomo, que herdara seu lugar do pai, curvou-se gravemente e respondeu com decoro:
"Está tudo perfeitamente certo, senhora."
A Srta. Heredith caminhou lentamente ao redor da mesa espaçosa, ajustando uma faca aqui, um garfo ali, e dando um toque adicional à decoração da mesa. Não havia a menor necessidade de ela fazê-lo, pois os preparativos eram tão perfeitos quanto podiam ser feitos pelas mãos de antigos criados que conheciam sua patroa e seus modos profundamente. Mas era o costume noturno da Srta. Heredith, e Tufnell, parado junto ao bufê entalhado, observava-a com um sorriso indulgente, como fizera todas as noites durante os últimos dez anos.
Enquanto a Srta. Heredith estava assim ocupada, a porta se abriu e Sir Philip Heredith entrou na sala na companhia de um velho amigo da família, Vincent Musard.
CAPÍTULO III
Sir Philip Heredith era uma figura digna de um cavalheiro rural inglês do tipo antigo. Era alto e magro, de porte aristocrático, com cabelos brancos e olhos azuis desbotados. Seu rosto não era impressionante. À primeira vista, parecia apenas o de um velho cansado, exausto das exigências triviais da vida e ansiando por descanso; mas, em momentos esparsos, captava-se uma semelhança passageira com uma águia enjaulada em um movimento rápido do perfil de falcão, ou em um lampejo súbito dos velhos olhos sob as sobrancelhas retas dos Heredith. Nesses momentos, o rosto Heredith — o rosto guerreiro de uma longa linhagem de lutadores ferozes e ancestrais corsários — ganhava vida nos traços envelhecidos do penúltimo da linhagem.
Seu companheiro era um homem de cerca de cinquenta e cinco anos. Seu rosto era moreno, como se queimado por sóis quentes, seu cabelo rente era grisalho e ele tinha os traços ousados e bem definidos de um homem rápido em decidir e acostumado a comandar. Seus olhos eram a característica mais estranha de sua personalidade dominante. Eram pequenos e pretos, e pareciam quase desprovidos de pálpebras, com algo em seu olhar direto e sombrio como o brilho fixo de uma cobra. Sua vestimenta era pouco convencional, mesmo para tempos de guerra, consistindo em um terno marrom gasto com bolsos grandes na jaqueta e um colarinho macio, com uma gravata arrumada sem cuidado. No dedo mínimo da mão esquerda, ele usava um anel de rubi de tamanho e brilho notáveis.
Vincent Musard era uma personalidade notável. Ele vinha de uma boa família da região, que se estabelecera em Sussex na mesma época em que o primeiro Philip Heredith queimara a casa do fosso, mas sua árvore genealógica estendia-se consideravelmente além desse período. Se o nome de Here-Deith estava inscrito nas várias versões do "Roll of Battle Abbey" que podem ser vistas no Museu Britânico, o nome de Musard era encontrado no registro francês de "Les Compagnons de Guillaume a la Conquete de l'Angleterre en 1066", a única lista genuína e autêntica, que recebeu o selo da Sociedade Arqueológica Francesa e está esculpida em pedra e erguida na Igreja de Dives, na costa da Normandia. Vincent Musard era o último sobrevivente de uma linhagem ilustre, solteiro, explorador, homem de ciência e conhecedor de joias. Fora destinado à Igreja em sua juventude, mas brigara com ela por uma questão de doutrina. Desde então, levara uma existência errante pelos quatro cantos da terra, explorando, coletando plantas, caçando animais selvagens e procurando grandes diamantes e rubis. Escrevera livros sobre todos os tipos de assuntos incomuns, como "A Flora das Ilhas Chatham", "Aranhas Venenosas (gênero Latrodectua) da Sardenha", "Répteis Fósseis e Restos de Moa da Nova Zelândia" e "Focas da Antártida". Mas seu principal e maior passatempo eram as pedras preciosas, das quais era um especialista reconhecido.
Seu pai lhe deixara uma fortuna confortável, mas ele fizera outra por conta própria através de suas negociações com pedras preciosas, que coletava em cantos remotos do mundo e vendia com grande vantagem para negociantes de Londres. Ele conhecia intimamente todas as minas e pescarias de pérolas conhecidas no mundo, mas seu sucesso como negociante de joias devia-se, em grande parte, ao fato de ele procurá-las fora dos caminhos habituais. Explorara Cooper's Creek em busca de safiras brancas, o Território do Norte em busca de opalas e, certa vez, liderara uma expedição à Nova Guiné Alemã em busca de diamantes, onde escapara por pouco de ser devorado por canibais.
A passagem do tempo não domara a inquietação feroz de sua disposição. Embora não fosse um viajante tão frequente quanto outrora, a descoberta de um novo campo de diamantes no Brasil, ou a notícia de um novo banco de pérolas nos mares do sul, era o suficiente para fazê-lo arrumar as malas para outra aventura pela metade do mundo. Ele era o amigo mais antigo dos Heredith, e a Srta. Heredith, em particular, tinha uma opinião elevada sobre suas qualidades. Musard, por sua vez, não escondia o fato de que considerava a Srta. Heredith a melhor das mulheres vivas. De fato, havia rumores no condado, um quarto de século antes, de que Vincent Musard e Alethea Heredith "iriam se casar".
Talvez fosse bom para ambos que o casamento nunca tivesse ocorrido. Musard partira para uma de suas viagens às regiões selvagens do mundo, para não retornar à Inglaterra até que se passassem cinco anos. Sua atração mútua era a atração dos opostos. Não havia nada em comum, exceto a estima mútua, entre um ser selvagem e tempestuoso como Musard, que atravessava a vida como um turbilhão, buscando sempre novos cenários em partes primitivas da terra, e a tranquila senhora da casa do fosso, que raramente saíra de seu condado natal e girava no mesmo pequeno círculo ano após ano, feliz em suas ingênuas ocupações rurais e prazeres simples.
Nos últimos anos, Musard passava a maior parte de suas breves estadias na Inglaterra com os Heredith. Ele tinha sua própria casa, que não ficava longe da casa do fosso, mas era um homem sociável e preferia as boas-vindas calorosas e a companhia gentil de seus velhos amigos à existência solitária de um solteiro em Brandreth Hall, como era chamado seu próprio lar.
Ele retornara recentemente à Inglaterra após um ano de andanças no hemisfério sul e chegara à casa do fosso no dia anterior, trazendo consigo a cabeça seca de um jacaré com as mandíbulas escancaradas, uma coleção de pássaros empalhados raros e peles de cobra para Phil, que tinha gosto por esse tipo de coisa, e um deus tiki entalhado para a Srta. Heredith. Trouxera também seu criado chinês, dois papagaios kea e um tapete de penas brancas das Ilhas Salomão, que usava em sua cama em vez de um edredom de penas quando as noites estavam frias. Deixara no cofre de seu banqueiro em Londres sua mais recente coleção de pedras preciosas, após enviar anonimamente à Christie's uma pérola particularmente fina como doação para o colar da Cruz Vermelha Britânica.
A atual estadia de Musard na casa do fosso seria breve. O governo britânico, ao saber de seu retorno à terra natal, pedira-lhe que fosse ao front para ajustar alguns problemas que haviam surgido entre os chefes de um composto de trabalhadores cafras. Como o vasto conhecimento de Musard sobre as tribos africanas o tornava especialmente apto para tal tarefa, ele prontamente atendera ao pedido e partiria para a França no dia seguinte.
A Srta. Heredith aproveitara sua breve visita para consultá-lo sobre o colar de pérolas dos Heredith — uma joia que era talvez mais famosa do que valiosa, já que algumas das pérolas tinham quase trezentos anos. Sir Philip dera-o a Violet quando ela se casou com Phil. Mas Violet trancara-o em sua caixa de joias e nunca o usara. Ela dissera, apenas na noite anterior, que o engaste do fecho era antiquado e que as pérolas estavam opacas pelo tempo. A Srta. Heredith, embora muito magoada, percebera que havia certa verdade na reclamação e pedira conselhos a Musard. Musard expressara a opinião de que talvez as pérolas precisassem da delicada operação conhecida como "esfolamento" e oferecera-se para levar o colar a Londres e obter a opinião de um especialista de Hatton Garden de seu conhecimento.
Vincent Musard sorriu para a Srta. Heredith de forma amigável ao entrar na sala de jantar, e Sir Philip cumprimentou sua irmã com cortesia educada, porém um tanto vaga. O modo de Sir Philip com todos era distinguido por uma urbanidade perfeita, que era tão impessoal e invariável que sugeria que não era tanto um elogio àqueles a quem era dirigida, mas um dever que ele sentia que devia a si mesmo cumprir com exatidão uniforme.
Musard começou a falar sobre os preparativos para sua partida no dia seguinte e perguntou a Tufnell sobre os trens. Ao saber que o primeiro trem para Londres era às oito horas, expressou sua intenção de pegá-lo.
"É necessário que você saia tão cedo, Vincent?", indagou a Srta. Heredith. "Não poderia pegar um trem mais tarde?"
"Suponho que pudesse. Por que pergunta?"
"Estava pensando no colar. Violet estava muito indisposta para entregá-lo a mim esta noite, e pode não estar acordada tão cedo pela manhã. Gostaria que você o levasse, se fosse possível."
"Posso pegar um trem mais tarde. Para mim servirá da mesma forma."
"Violet não pode ir conosco à casa dos Weyne esta noite?", disse Sir Philip, lançando um olhar à irmã.
"Não; ela está com uma dor de cabeça terrível."
"É uma pena termos que ir sem ela, já que a festa é dada em sua homenagem. Naturalmente, temos que ir."
"Onde está o colar dela?", perguntou Musard. "Está no cofre?"
"Não", respondeu a Srta. Heredith. "Está no quarto de Violet, na sua caixa de joias."
"Bem, como a Sra. Heredith estará sozinha em casa esta noite, acho que seria prudente se você o trancasse no cofre", disse Musard. "Há muitos criados na casa."
"Acho isso totalmente desnecessário, Vincent. Nossos criados são todos de confiança."
"Perfeitamente, mas vários de seus convidados trouxeram seus próprios criados — camareiras e criados de quarto."
"Muito bem. Se você acha isso, Vincent, cuidarei disso depois do jantar."
A conversa foi encerrada pelo som do gongo para o jantar. Os convidados desceram para jantar em grupos de um ou dois, e reuniram-se na sala de estar antes de seguir para a sala de jantar. Os homens que não estavam de cáqui vestiram-se para o jantar. A reunião formava uma mistura curiosa da Londres moderna e da Inglaterra antiga. Os convidados londrinos, que eram a maioria, consistiam em jovens oficiais, alguns rapazes do Ministério da Guerra e do Ministério das Relações Exteriores, um ou dois jornalistas e as senhoras que a Srta. Heredith recebera para o chá no gramado. Essas pessoas foram convidadas porque eram amigas do jovem casal, e não por serem figuras de destaque no mundo social ou político londrino, embora um ou dois dos jovens tivessem pretensões nesse sentido. Misturados a esse grupo muito moderno, havia meia dúzia de representantes de antigas famílias do condado, que haviam sido convidados pela Srta. Heredith.
O grupo sentou-se para jantar. Houve um ou dois murmúrios de pesar convencional quando a Srta. Heredith explicou o motivo da ausência da Sra. Heredith, mas a maioria dos convidados londrinos — particularmente a porção feminina — reconheceu a doença como um subterfúgio e aceitou-a com indiferença. Se a Sra. Heredith estava entediada com seus convidados, eles, por sua vez, estavam cansados da visita. A reunião na casa não fora um sucesso. Os visitantes de Londres achavam a rotina fixa da vida em uma casa de campo monótona e sem cor, e aguardavam ansiosamente o término da visita. A vida que levaram nas últimas duas semanas não era o seu modo de vida. Eles se reuniam todas as manhãs para o café da manhã às nove horas — a Srta. Heredith era inflexível quanto à etiqueta vitoriana de todos sentarem-se juntos à mesa. Após o café da manhã, os homens dispersavam-se para seus próprios passatempos: alguns para jogar uma partida de golfe, outros para caçar ou pescar, geralmente não reaparecendo até a hora do jantar. Depois do jantar, jogavam bilhar ou bridge, e as senhoras tricotavam meias para a guerra ou sustentavam-se até a hora de dormir com copiosas doses do leve estimulante fornecido por suas romancistas favoritas. Às dez e meia, Tufnell entrava com uma bandeja de copos, e os convidados desfrutavam de um pequeno refresco. Às onze, a Srta. Heredith desejava aos visitantes uma solene boa-noite, e eles retiravam-se para seus quartos. A grande dama da casa com fosso era uma crente convicta no axioma de que uma mulher deve ser a senhora em sua própria casa, e ela não via razão para que seus convidados não adotassem seu modo de vida enquanto estivessem sob seu teto. Ela era uma mulher do campo, nascida e criada, acreditando nas virtudes de dormir cedo e levantar cedo, e não se deixava perturbar por seu modo de vida decoroso e regular por londrinos que transformavam a noite em dia com teatros, ceias tardias, casas noturnas e outras formas perniciosas de diversão sobre as quais a Srta. Heredith lera nos jornais de Londres.
O jantar na casa com fosso era uma função solene e cerimoniosa. De acordo com a tradição consagrada da família, era servido na hora precoce das sete horas na grande sala de jantar, uma câmara antiga com painéis de carvalho até o teto, com um aparador esculpido, uma lareira aberta, uma chaminé jacobina e antigos retratos de família nas paredes. Havia arandelas nas paredes e um lustre de cristal para velas de cera estava suspenso do centro do teto acima da mesa. O lustre nunca era aceso, pois a casa era iluminada por luz elétrica, mas parecia muito bonito e era a menina dos olhos da Srta. Heredith — como as criadas bem sabiam, para seu próprio custo.
O jantar daquela noite era, como de costume, muito simples, como convinha a uma casa inglesa patriótica em tempo de guerra, mas os vinhos compensavam a falta de uma cozinha elaborada. Sir Philip Heredith e sua irmã seguiam o exemplo de seu Rei de se absterem de vinho durante a duração da guerra, mas não estava de acordo com a ideia de hospitalidade de Sir Philip forçar a abstinência sobre seus convidados, e os homens, pelo menos, bebericavam os raros produtos antigos das adegas Heredith com aprovação incondicional, realçada por lembranças dolorosas do fraco clarete de guerra e do vinho do Porto açucarado dos clubes de Londres. Tal vinho, sentiam eles, não era para ser ignorado. Dos jovens, apenas Phil Heredith bebia água, não pelo mesmo motivo de seu pai, mas porque sempre fora um bebedor de água.
Sob a influência do bom vinho, os convidados animaram-se consideravelmente à medida que a refeição prosseguia. Sir Philip, à sua maneira antiquada, levantou sua taça de água gaseificada para um e outro dos jovens. Ele era um anfitrião ideal, e sua cortesia polida e inabalável escondia o fato de que ele ansiava pelo fim da reunião com um alívio semelhante ao sentido pela maioria de seus convidados. A conversa restringira-se a monossílabos no início, mas tornou-se bastante florescente e animada conforme o jantar avançava. A Srta. Heredith sorria e parecia satisfeita. Como anfitriã, ela gostava de ver seus convidados felizes e confortáveis, mesmo que não gostasse dos convidados.
A conversa era principalmente sobre a guerra: os planos, esperanças e medos dos Aliados. Vários dos jovens de Londres deram suas opiniões com grande autoridade, criticando campanhas e condenando generais. Phil Heredith ouvia esse grupo sem falar. Dois cavalheiros rurais da vizinhança também ouviam em silêncio. Eles ficavam maravilhados ao ouvir nomes militares tão famosos, que haviam sido levados por seus jornais favoritos a considerar como a esperança da salvação do país, serem criticados tão impiedosamente por jovens.
"E você acha que a guerra terminará em breve, Sr. Brimley?", disse uma voz feminina, um pouco alto, durante uma pausa na conversa. A oradora era uma vizinha próxima e amiga da Srta. Heredith, a Sra. Spicer, que não era membro da reunião da casa, mas fora convidada para jantar naquela noite e iria para a casa dos Weyne depois. Ela era robusta e de rosto fresco, e parecia totalmente bondosa e de bom coração.
Ela dirigiu sua pergunta a um jovem alto com cabelos prematuramente grisalhos, olhos proeminentes e um nariz torto. Seu nome era Brimley, e ele era bem conhecido no jornalismo londrino. Seu retrato aparecia ocasionalmente nos jornais ilustrados como "um dos jovens leões da Fleet Street", mas seus inimigos preferiam descrevê-lo como um dos chacais de Lord Butterworth — sendo Lord Butterworth o proprietário milionário de um grupo influente de jornais que, durante a guerra, defendia o grito de guerra de "a última gota de sangue e o último xelim". Como um dos principais desse grupo de patriotas, o Sr. Brimley deixara sua tinta fluir tão livremente pela causa dos Aliados que sussurrava-se entre aqueles "bem informados" que ele estava garantido para um título de cavaleiro, ou pelo menos uma Ordem do Império, na próxima lista de honras.
O Sr. Brimley olhou para a oradora com altivez e deu uma resposta inaudível. Embora fosse um leão da Fleet Street, ele não gostava de ser convocado a rugir nas selvas de Sussex.
"O pobre povo alemão não ficará encantado quando nossas tropas marcharem pelo Reno para libertá-los do militarismo?", continuou a velha senhora inocentemente.
Houve uma risadinha contida das garotas mais jovens com isso, e um jovem oficial sentado perto da extremidade da mesa riu alto, depois corou subitamente com sua falta de modos.
"Eu disse algo tolo?", perguntou a velha senhora plácida. "Por favor, diga-me se eu disse — eu não me importo."
"De jeito nenhum", disse outro jovem oficial, com um rosto bronzeado e sem barba. "Pessoalmente, concordo plenamente com você. Os alemães deveriam ficar muito contentes por serem salvos de si mesmos."
"Que número de garotas rurais vocês têm nesta parte do mundo, Srta. Heredith", observou o jovem oficial que havia rido, como se estivesse ansioso para mudar de assunto. "Vi várias enquanto estava caçando hoje, e pareciam muito charmosas. Eu não tinha ideia de que o bronzeado fosse tão favorável à tez de uma garota. Vi uma garota que estava andando a cavalo pela floresta, e ela parecia com a... qual o nome dela... Diana. Ela tinha pedaços de coisas verdes grudados por toda parte, e teias de aranha no cabelo."
"Isso me lembra uma boa história", exclamou um jovem de rosto rechonchudo no uniforme do Corpo Aéreo. "Você vai apreciar, Denison. O velho Graham, do Comissariado, estava jogando golfe outro dia, e ele apareceu no clube todo coberto de teias de aranha. O capitão Harding, do nosso grupo, que tinha acabado de voltar para Blighty depois de dezoito meses por lá, disse a ele: 'Olá, Graham, vejo que você esteve no Ministério da Guerra'. Há, há!"
Os outros jovens de cáqui juntaram-se ao riso, mas um homem alto e magro com um olhar autoritário, o Denison a quem se referiam, parecia um tanto irritado. A Srta. Heredith, com o tato vigilante de uma anfitriã para as susceptibilidades de seus convidados, começou a falar sobre uma exposição para os titulares de hortas comunitárias que ocorrera nos jardins da casa com fosso algumas semanas antes. Parecia que a maioria dos aldeões eram titulares de hortas, e a exposição fora realizada para estimular seus esforços patrióticos de guerra para aumentar o suprimento nacional de alimentos. A aldeia participara com grande entusiasmo, e alguns espécimes maravilhosos de frutas, vegetais, aves e coelhos foram exibidos.
"A melhor parte foi que Rusher, meu próprio jardineiro, foi derrotado feio em todas as categorias", acrescentou Sir Philip, com um sorriso.
"Não em todas as categorias", corrigiu a Srta. Heredith. "Os pêssegos e nectarinas da horta murada receberam o primeiro prêmio."
"Rusher foi derrotado nas categorias de vegetais — em abóboras gigantes e repolhos", retrucou Sir Philip, com uma risada. "Ele ainda não superou. Ele suspeita que o vigário tenha favorecido na atribuição dos prêmios. O fato de sua filha ter ganhado o primeiro prêmio de coelhos com um gigante belga pouco o consolou."
"E arrecadamos uma quantia bastante respeitável para a Cruz Vermelha cobrando três pence de entrada para ver um zoológico empalhado de Phil", acrescentou a Srta. Heredith.
"Um zoológico empalhado! Que coisa curiosa", observou uma jovem.
"Não exatamente um zoológico", disse Sir Philip. "Apenas os restos empalhados de alguns animais que Phil costumava manter quando era pequeno. Quando morriam — como invariavelmente morriam — ele costumava esfolá-los e empalhá-los. Ele era um taxidermista bastante experiente."
"Conte a eles sobre sua exposição no museu, Philip", disse a Srta. Heredith, com um ar bastante animado.
"Também organizamos uma pequena exposição de... er... coisas antigas", continuou Sir Philip com timidez. "Armaduras, miniaturas, algumas joias antigas e coisas do tipo. Isso também rendeu uma quantia bastante respeitável para a Cruz Vermelha."
"Da coleção Heredith, presumo?", disse o Sr. Brimley.
"Que maravilhosos tesouros antigos você deve ter nesta casa maravilhosa sua", exclamou a jovem que falara antes. "Estou tão desapontada por não ver o colar de pérolas Heredith. Que pena que a querida Sra. Heredith esteja doente. Ela ia usar as pérolas esta noite, e agora terei que ir embora sem vê-las."
Sir Philip fez uma reverência. Ele não gostava muito do rumo da conversa, mas era educado demais para demonstrar.
"Você verá as pérolas pela manhã", disse a Srta. Heredith cortesmente.
"Eu adoro pérolas", suspirou a convidada.
"Se você admira pérolas, deveria ver a coleção que está sendo feita para a Cruz Vermelha Britânica", observou Vincent Musard. "Tive uma visão privada outro dia. É uma coleção verdadeiramente magnífica."
Todos os olhos voltaram-se para o orador. O tópico interessava a todas as senhoras presentes, e elas sabiam que Musard era uma das maiores autoridades vivas em joias. Os homens tinham ouvido falar do famoso viajante por reputação, e queriam ouvir o que ele tinha a dizer. Musard parecia um tanto embaraçado ao se encontrar objeto de atenção geral, e continuou com seu jantar em silêncio. Mas algumas das senhoras estavam determinadas a não perder a oportunidade de aprender algo com um especialista tão conhecido sobre um assunto tão caro aos seus corações, e bombardearam-no com perguntas ansiosas.
"Deve ser uma coleção maravilhosa", disse uma garota esguia e magra chamada Garton, de olhos azuis e cabelos ruivos. Ela era uma jornalista ligada ao jornal do Sr. Brimley. Vinte anos atrás, ela teria sido chamada de mulher avançada. Ela acreditava na igualdade dos sexos em todas as coisas, e escrevia artigos sobre a imoralidade da guerra, o "mal social" e tópicos afins de uma forma franca e sem inibições que causava muito embaraço aos leitores de jornais idosos e antiquados. A Srta. Garton estava tão ansiosa quanto os membros mais frívolos de seu sexo para ouvir sobre as pérolas da Cruz Vermelha, e implorou ao Sr. Musard que lhe desse alguns detalhes. Ela teria que escrever uma matéria sobre o colar quando voltasse a Londres, disse ela, e qualquer informação do Sr. Musard seria tão útil.
"Não é um único colar", disse Musard. "Existem cerca de trinta colares. O comitê da Cruz Vermelha já recebeu quase 4.000 pérolas, e mais estão chegando todos os dias."
"Quatro mil pérolas!" "Que coisa perfeitamente adorável!" "Como eu adoraria vê-las!" Essas exclamações femininas soaram de diferentes partes da mesa.
"Suponho que a coleção seja muito fina e variada?", observou Sir Philip.
"Sem dúvida. O comitê teve o conselho dos melhores especialistas de Londres, que dedicaram muito tempo à classificação das pérolas para os diferentes colares. De modo comum, leva muito tempo — às vezes anos — para combinar as pérolas para um colar impecável, mas, neste caso, os especialistas tiveram tal variedade trazida às suas mãos que sua tarefa foi comparativamente fácil. Mas, apesar da maneira habilidosa como os colares foram classificados, ainda é uma tarefa simples para o olho treinado identificar várias das pérolas individuais. A maior, uma pérola branca em forma de pera, pesando 72 grãos, seria reconhecida por qualquer especialista em qualquer lugar. Existem várias outras pérolas com mais de trinta grãos que o olho treinado reconheceria com igual facilidade em qualquer engaste. As poucas pérolas rosas e pretas são todas conhecidas pelos colecionadores, e o mesmo acontece com os fechos. Um fecho de diamante e rubi é tão conhecido na história das joias quanto a Coroa do Estado. Os diamantes estão na forma de uma Cruz de Malta, incrustados em um círculo de rubis."
"Esse deve ter sido o presente da Duquesa de Welburton", observou Sir Philip. "Ela o herdou de sua tia-avó, Adelina, esposa do terceiro duque. Havia um famoso colar de pérolas preso ao fecho uma vez, mas desapareceu há cerca de dez anos em um baile oferecido pelo embaixador alemão, Príncipe Litzovny. Lembro-me de que houve muita conversa sobre isso na época, mas o colar nunca foi recuperado. O fecho, também, tem uma história notável."
"Todas as grandes joias têm", disse Musard. "Na verdade, todas as pedras notáveis têm histórias duplas. Sua carreira como gemas lapidadas e polidas é apenas a segunda parte. Infinitamente mais interessante é a história oculta de cada grande joia, desde a descoberta da pedra bruta até o período em que chega às mãos do lapidário, para ser polida e cortada para uma existência de salão. Que registro de intrigas e velhacarias, esfaqueamentos e envenenamentos, ligados a algumas das maiores joias da Coroa Britânica — o rubi do Príncipe Negro, por exemplo!"
Musard olhou pensativo para o grande rubi em seu próprio dedo enquanto terminava de falar. Os convidados haviam terminado o jantar, e a Srta. Heredith, com um olhar atento no grande relógio esculpido que balançava um pêndulo sereno perto da lareira, fez um gesto para Tufnell e ordenou-lhe que servisse café e licores à mesa.
"Qual é a sua pedra favorita, Sr. Musard?", disse uma garota de olhos brilhantes sentada perto dele, depois que o café foi servido.
"Pessoalmente, tenho uma fraqueza pelo rubi", respondeu Musard. "Seu valor intrínseco foi muito descontado nestes dias de pedras sintéticas, mas ainda é meu favorito, em grande parte, suponho, porque um rubi natural perfeito é tão difícil de encontrar. Lembro-me de uma vez viajar cinco mil quilômetros pelo Amazonas em busca de um rubi com reputação de ser tão grande quanto um ovo de pombo. Mas ele não existia — era um mito."
"Que vida a sua tem sido!", disse a garota. "Tão diferente da existência monótona de nós que ficamos em casa! Como eu gostaria de ouvir algumas de suas aventuras. Devem ser emocionantes."
"Se você quer ouvir uma aventura realmente emocionante, Srta. Finch, deveria pedir ao Sr. Musard para lhe contar como ele conseguiu aquele rubi que está usando", disse Phil Heredith, entrando na conversa.
Os olhos de todos os convidados foram direcionados para o anel que Musard usava no dedo mindinho da mão esquerda. A pedra na engaste de ouro simples era incomumente grande, quase três centímetros de comprimento. A pedra fora polida, não cortada, e brilhava mais do que cintilava com um vermelho profundo e rico — o verdadeiro tom "sangue de pombo" tão admirado pelos conhecedores.
"Bobagem, Phil" — Musard corou sob sua pele morena — "seus convidados não querem me ouvir falar mais sobre mim mesmo. Já monopolizei a conversa por tempo demais."
"Oh, por favor, conte-nos!", exclamaram vários dos convidados.
"Realmente, sabe, eu preferiria não", respondeu Musard, com certo embaraço. "É uma longa história, por uma coisa, e não é exatamente... como devo expressar isso... é um pouco do lado horrível para relatar na presença de senhoras."
"Não acho que isso precise detê-lo", observou um dos jovens oficiais secamente. "Todos nós somos de mente bastante forte hoje em dia — desde a Guerra."
"Oh, nós adoraríamos ouvir", disse a jornalista, que farejou uma boa "matéria". "Não adoraríamos?", acrescentou ela, virando-se para algumas das senhoras perto dela.
"Sim, de fato!", coroaram as outras senhoras. "Conte-nos."
"Vá em frente, Musard — você vê que não pode escapar disso", disse Phil.
"Talvez, Phil, já que o Sr. Musard não acha uma história adequada..." começou a Srta. Heredith hesitante. Seu olhar estava fixo ansiosamente no relógio, que se aproximava de vinte minutos para as oito, e ela temia que o relato da experiência de seu velho amigo pudesse fazê-los chegar atrasados à casa dos Weyne. Mas, naquele momento, Tufnell aproximou-se de sua patroa e encontrou seu olhar. Uma leve sombra de aborrecimento cruzou sua testa enquanto ela ouvia algo que ele comunicou em voz baixa, e ela virou-se para seus convidados.
"Devo pedir que me desculpem por alguns momentos", disse ela.
Ela levantou-se de seu lugar e saiu da sala. Quando a porta se fechou atrás dela, as senhoras voltaram-se ansiosamente para Musard.
"Agora, por favor, conte-nos sobre o rubi", disseram várias em uníssono.
O explorador olhou para os rostos ansiosos olhando para ele.
"Muito bem, contarei a história", disse ele calmamente, mas com relutância visível.
CAPÍTULO IV
"Foi antes da guerra. Muitas coisas estranhas aconteceram no mundo antes que o Boche se soltasse com seu sonho de 'Deutschland ueber Alles'. Eu tinha estado na Ilha Melville tentando combinar uma pérola para o colar de Devonshire, e fui das pescarias de pérolas para a Nova Zelândia, levado lá por rumores da descoberta de algumas maravilhosas pérolas negras. Foi, no entanto, uma busca inútil. Esses rumores geralmente são. Um dos especialistas do Departamento de Pesca da Nova Zelândia estivera explorando o Golfo de Hauraki e retornara a Auckland com várias pérolas negras, que encontrara em um banco de ostras em uma das Ilhas Barreira. Ele achou que sua fortuna estava feita, embora, sendo um especialista em pesca, devesse saber melhor. Eram pérolas negras, tudo bem, mas vinham de ostras comestíveis e não tinham valor como joias — não valiam nem um xelim cada."
Hospedei-me no hotel Royal, em Auckland, aguardando um navio que me levasse de volta à Inglaterra. Eu havia arranjado o retorno contornando o Cabo, para examinar um lote de diamantes que deveriam chegar à Cidade do Cabo, vindos das minas, em cerca de seis semanas. No dia anterior à minha partida, um homem de aparência rude chamado Moynglass, um mineiro, veio ao hotel para me ver. Ele ouvira falar de mim como um especialista em mineração e tinha uma proposta de negócios que desejava me apresentar.
Ele me contou que ele e mais quatro tinham acabado de retornar a Auckland após passarem seis semanas nas praias vulcânicas da Ilha do Norte, procurando — "garimpando", como ele chamava — por ouro fino. Essas praias de areia vulcânica negra são comuns em partes da Nova Zelândia. A areia negra deriva dos cristais de ferro magnético, e frequentemente há uma quantidade razoável de ouro fino misturado a eles. Pela ação contínua da arrebentação, os materiais mais pesados, ouro e areia de minério de ferro, misturam-se entre as marcas de maré alta e baixa, e o que parece ser um estrato de areia negra é encontrado na superfície ou enterrado sob a areia comum. O ouro é geralmente muito fino, e o trabalho de peneirar e coletá-lo é grande. Um homem trabalha por salários, e salários duramente ganhos, ao se dedicar a esse tipo de mineração. Mas o verdadeiro mineiro é sempre um aventureiro e um jogador, e o ouro assim conquistado é mais caro ao seu coração do que o ouro que poderia ser ganho com menos esforço e mais regularidade na forma de soberanos. Sabe, há sempre a chance de uma grande descoberta.
Moynglass e seu grupo tiveram um sucesso razoável ao longo das praias, mas eles queriam mais do que isso. Moynglass estava ansioso para rastrear o ouro fino até sua origem e encontrar uma fortuna. Ele acreditava, como a maioria dos mineiros, que esse ouro fino é carregado ao longo do leito dos rios maiores e distribuído pela ação do mar ao longo das diferentes praias onde é encontrado. Sua teoria era que, se a deriva das areias auríferas pudesse ser rastreada até sua origem, um grande recife de quartzo seria encontrado, o que tornaria os descobridores homens ricos. Mas ele e seus companheiros não sabiam nada sobre geologia, e queriam alguém que fosse com eles para traçar o curso e conduzi-los ao ponto de partida do ouro.
Eu já havia ouvido essa teoria antes e não fiquei impressionado. Provavelmente teria recusado a proposta de Moynglass se, no decorrer da conversa, ele não tivesse tirado uma amostra de quartzo com rubi do bolso para me mostrar. Ele disse que a encontrara enquanto explorava um dos rios da região de Urewera. Examinei o quartzo atentamente. Era rocha de esmeril, e incrustados na massa verde-pálida havia cristais de rubi, e rubis orientais verdadeiros, ainda por cima. Percebi a natureza valiosa da descoberta e interroguei o homem de perto sobre onde ele obtivera a rocha de rubi, mas ele ficou instantaneamente desconfiado e cauteloso em suas respostas. Se eu me juntasse ao seu grupo — muito bem: ele me mostraria o local e dividiríamos tudo igualmente, mas não me diria nada caso contrário.
Decidi ir, e os termos foram acordados. Partimos de Auckland, os cinco de nós, uma semana depois. Fomos de navio costeiro para um pequeno porto na Baía de Plenty, e lá mergulhamos nas Montanhas Urewera. Meus companheiros não pensavam em nada além da busca pela origem das areias douradas, mas eu estava interessado apenas na rocha de rubi. Ali jazia a fortuna, se eu pudesse encontrá-la. Eu carregava o espécime de corindo no bolso do meu colete.
O rio que estávamos subindo até sua nascente chamava-se Araheoa. Era uma torrente impetuosa e barulhenta, serpenteando ao longo de um desfiladeiro profundo e estreito que, em alguns pontos, quase se encontrava acima de nossas cabeças. Algumas manchas de olivina e serpentina me encorajaram a pensar que encontraríamos um cinturão pesado da rocha em algum lugar ao longo da parte superior do vale, mas minhas esperanças não se realizaram. Dia após dia se passava, e não encontrei mais nada. Quando meus companheiros lavavam as areias de trechos promissores da praia fluvial em busca de ouro fino, eu examinava os resíduos em busca de cristais de corindo, mas não encontrei sinais deles.
Seguimos o rio até chegarmos a um desfiladeiro montanhoso inacessível que parecia barrar nosso progresso. Mas, desviando nosso curso alguns quilômetros para o norte, conseguimos subir até os trechos superiores do rio e, ali, para minha alegria, encontrei as margens e corredeiras cravejadas de grandes massas verdes de rochas de olivina.
Eu estava ansioso para examinar essas rochas, que se estendiam pela encosta da montanha, e meus companheiros concordaram comigo que era aconselhável deixar o leito do rio para o contraforte das montanhas, onde o rio aparentemente nascia. Cruzamos o riacho e iniciamos uma subida gradual, porém oblíqua, do contraforte. Mas, após escalar por algumas horas, encontramos nosso progresso interrompido por uma ravina larga e profunda, um lugar sinistro, cheio de massas de rochas verde-escuras. Ao pé de uma das maiores dessas rochas, deparamo-nos com um grande buraco descendo quase perpendicularmente para dentro da terra.
Acendemos nossas lâmpadas e descemos. Após algum esforço, encontramo-nos em um patamar, do qual outra passagem baixa, de inclinação mais suave, levava a uma grande caverna na rocha sólida.
A superfície sob nossos pés estava coberta com um pó tão fino que deslizava debaixo de nós como areia e subia em nuvens espessas ao nosso redor. A caverna era alta o suficiente para se andar ereto e parecia estender-se por uma grande distância, com muitas passagens laterais e recessos menores saindo da câmara principal. Moynglass entrou em uma dessas passagens e desapareceu da vista. Poucos momentos depois, ouvimo-lo, com uma voz muito excitada, chamando-nos para segui-lo.
Prosseguimos curvados, em fila indiana, pela passagem, e encontramos Moynglass em uma caverna menor no final dela, encarando fixamente algo que era, a princípio, difícil de ver na penumbra. Então, à luz de nossas lâmpadas, distinguimos uma muda de árvore fincada entre duas rochas, com uma mão humana murcha empalada nela por uma faca de bainha enferrujada.
Enquanto eu a examinava, um dos meus companheiros, que estivera explorando a caverna, deu um grito de espanto que me fez olhar para trás. Em um canto da caverna, revelado por sua lâmpada, jaziam dois esqueletos lado a lado. A mão de um esqueleto faltava, e na órbita ocular do outro brilhava um grande rubi bruto. Examinamos os esqueletos e vasculhamos a caverna, mas não encontramos nada que lançasse luz sobre o mistério ou revelasse qualquer pista de identidade. Não havia um vestígio de comida ou roupa ao redor dos restos mortais, e nem um fragmento de escrita — apenas os dois esqueletos em decomposição, a muda de árvore, a faca de bainha e o rubi.
O que teria causado tal tragédia nos recônditos sombrios daquela caverna pré-histórica? Quem poderia dizer? Talvez os homens estivessem prospectando juntos, e um tivesse encontrado o rubi e se escondido na caverna, onde seu companheiro o encontrou e decepou sua mão direita com alguma ideia primitiva de fazer sua vingança corresponder ao crime. Então, talvez, eles tivessem sido incapazes de escapar da caverna e morrido juntos de sede e fome. Mas qual é o propósito de especular? O segredo deve permanecer para sempre escondido na caverna onde os esqueletos ainda jazem.
Musard parou abruptamente e ficou sentado encarando fixamente à sua frente. Seus olhos estranhos tinham um olhar fixo, como se olhassem para a distância. Sua mão parda repousava levemente sobre a toalha de mesa branca, e o grande rubi em seu dedo mínimo brilhava intermitentemente sob a luz.
"Você ainda não nos contou toda a história", disse Phil Heredith calmamente.
O outro olhou, duvidoso, para o círculo de rostos atentos que o encaravam. "Deixei essa parte por contar por um bom motivo", admitiu. "É... bem, achei um pouco horrível demais para relatar."
"Oh, conte-nos", disse a jornalista entusiasticamente. "Estamos todos morrendo de vontade de ouvir. É uma história tão incomum e emocionante que seria cruel nos deixar em suspense quanto ao final."
"Muito bem, então", disse Musard, enquanto as outras senhoras aprovavam em coro. "Deixamos a caverna, e Moynglass, que se considerava o líder da expedição, colocou o rubi no bolso. Naquela noite, acampamos em um lugar selvagem e desolado, não muito longe da borda de um penhasco de cerca de sessenta metros de altura, ao pé do qual as águas sulfurosas e amargas do rio fluíam para um abismo. Pela manhã, encontramos Moynglass morto em seu cobertor, com a faca de bainha enferrujada que ele trouxera da caverna cravada em seu peito. O rubi havia sumido, e, assim também, o membro mais velho do nosso grupo — um irlandês idoso de rosto escuro chamado Doyne, que, no dia anterior, havia disputado furiosamente o direito de Moynglass de carregar o rubi.
"Procuramos por Doyne durante todo aquele dia, mas não encontramos nenhum vestígio dele. No dia seguinte, atravessamos uma extensão semelhante a uma geleira, repleta de grandes blocos de arenito. Era um lugar sombrio. Um deserto horrível, pedregoso e sem árvores, que poderia ter sido o berço da terra e o cenário da Criação — um planalto entre grandes montanhas, cheio de massas de rodonita contorcidas em formas grotescas de imagens de pedra; um lugar onde nossos sussurros mais leves voltavam gritando da profunda quietude das enormes rochas negras ameadas, eriçadas na borda de um precipício que cortava o vale de ponta a ponta.
"Foi lá que encontramos Doyne, cambaleando ao longo da beira do desfiladeiro. Ele enlouquecera na solidão e vagava de cabeça descoberta, jogando os braços no ar enquanto caminhava. Quando o vi, pensei em Caim tentando escapar da ira de Deus após matar Abel. Ele nos viu assim que o vimos e começou a correr. Saímos em perseguição, mas ele fugiu com grande velocidade, saltando de rocha em rocha como uma cabra montesa. Ele estava se afastando de nós quando escorregou e caiu no abismo com um grito alto. Encontramos um caminho descendo o precipício e descemos, e o descobrimos ao pé, espancado até a morte, com o rubi agarrado em sua mão. Isso encerrou a expedição. Os outros insistiram em retornar à costa sem demora, e quando chegamos lá, venderam alegremente suas partes do rubi para mim."
Houve um silêncio bastante longo quando o explorador terminou sua narração. O ponteiro longo do relógio na lareira passava da meia hora, mas o círculo ao redor da mesa de jantar estava tão fascinado pela história que ninguém notara a passagem do tempo.
"Que aventura horrível, Sr. Musard!", começou uma das senhoras, com uma risada pequena e sem alegria. "Você nunca descobriu nada mais sobre os dois homens mortos na caverna?"
"Não", respondeu Musard. "Como eu disse, não havia papéis ou qualquer pista para lançar luz sobre sua identidade. Os esqueletos devem ter jazido ali por muitos anos, pois os ossos estavam desmoronando em decomposição."
"Você nunca revisitou o local?", perguntou Sir Philip.
"Eu estive em Urewera dois anos depois com um guia Maori, investigando depósitos de cobre para o Governo da Nova Zelândia, mas não voltei ao vale."
"Não teria sido possível dar aos pobres coitados — os esqueletos, quero dizer — um enterro cristão?", perguntou a Sra. Spicer timidamente.
"Era impossível cavar uma sepultura na rocha sólida. Além disso, eles têm um sepulcro da Natureza que durará mais do que qualquer sepultura humana", respondeu Musard.
"O que me intriga é como o rubi foi parar no olho do esqueleto", observou a jornalista pensativamente. "Se aquele era o esqueleto do homem que matou o outro por roubar o rubi, quem colocou o rubi onde vocês o encontraram? Obviamente, ele não poderia ter feito isso sozinho, pois deve ter sido colocado ali após a morte. Quem, então, poderia ter sido?"
"Não faço ideia", disse Musard, em um tom que sugeria que ele não queria discutir o assunto mais profundamente.
"Posso ver o anel?", perguntou a Srta. Garton.
Musard tirou-o do dedo e entregou-lho em silêncio. Os outros queriam vê-lo, então ele passou de mão em mão ao redor da mesa, acompanhado de muitos comentários admirados sobre o tamanho e a beleza da pedra. Um dos jovens oficiais, com um ar de muito interesse, perguntou a Musard se ele achava que havia outros rubis como aquele a serem encontrados perto do local.
"Dificilmente nessa forma", respondeu Musard. "É um enigma para mim como os homens que encontraram o rubi conseguiram retirá-lo da rocha de rubi e poli-lo parcialmente. Eles não tinham ferramentas ou instrumentos de qualquer tipo — pelo menos, não encontramos nenhum na caverna. Sem dúvida, existem rubis naquela parte do mundo. Foi perto do vale que Moynglass encontrou sua amostra de corindo, com um cristal de rubi nele. Em nosso caminho de volta, na cabeceira do vale, encontrei um cinturão de rochas magnesianas carregadas de minérios de cobre e ferro, e provavelmente contendo a matriz de cristais de rubi."
"Admiro que você use a coisa", disse o jovem de rosto rechonchudo do Corpo Aéreo, entregando o anel através da mesa para o explorador.
"Por que não?", perguntou Musard.
"Bem, eu não gostaria de usar um anel encontrado na cabeça de um esqueleto. Eu esperaria que o velho ônibus despencasse no chão enquanto eu fazia uma manobra, se eu tivesse uma coisa dessas no meu dedo. Você não tem medo de ser assombrado pelo dono original?"
"Oh, não sei", respondeu Musard indiferentemente. "Há uma história horrível ligada à maioria das joias, se chegarmos a isso. Não sou supersticioso." Ele colocou o anel de volta no dedo e acrescentou pensativamente: "Suponho que muitas pessoas o veriam sob esse prisma — como uma espécie sombria de relíquia. Certamente, nunca esquecerei o vale das rochas onde o encontramos. Foi o lugar mais estranho que já vi — um 'deserto uivante'. E às vezes imagino que ainda posso ouvir o grito que Doyne deu quando escorregou ou saltou de uma das rochas negras para o vazio. Lembro-me de como ele veio ecoando de volta dos penhascos cem vezes repetido. Foi..."
Ele parou de repente, enquanto um grito ecoava pela casa com fosso — um grito selvagem e agudo, que, vindo de algum lugar lá de cima, parecia preencher a sala de jantar com a intensidade arrepiante e desesperada de seu apelo. Era o grito de uma mulher em terror.
As senhoras à mesa de jantar olharam umas para as outras com olhos assustados e rostos descorados.
"O que foi aquilo?", várias delas sussurraram juntas.
"Veio do quarto de Violet! Meu Deus, o que aconteceu?", exclamou Phil. Ele saltou de sua cadeira em agitação e empurrou sua cadeira para trás. Seu rosto estava branco, sua boca contraída, e ele tateou sua garganta com uma mão trêmula, como se a pressão de seu colarinho impedisse sua respiração. Musard levantou-se da mesa e caminhou até onde o jovem estava parado.
"Não fique desnecessariamente perturbado, Phil", disse ele de forma tranquilizadora, colocando uma mão em seu ombro.
Sir Philip também havia se levantado de seu assento, e pelo espaço mais breve possível os três homens ficaram assim, um de frente para o outro, como se incertos sobre como agir. Então, o silêncio tenso da sala de jantar foi quebrado pelo estrondo alto de uma arma de fogo.
"Deixe-me ir!", gritou Phil agudamente, sacudindo o braço de Musard. Ele se virou e mancou rapidamente em direção à porta, e ao fazê-lo, sua enfermidade física tornou-se evidente. Uma de suas pernas era vários centímetros mais curta que a outra, e ele usava uma bota alta.
Musard alcançou a porta antes dele em alguns passos rápidos, e Sir Philip veio apressado atrás de seu filho. O restante dos convidados masculinos seguiu, reunindo-se em direção à porta em grupo.
A primeira visão que os olhos de Musard encontraram ao passar pela porta foi a figura da Srta. Heredith, descendo rapidamente a escada. Pela luz do corredor, ele pôde ver que seu rosto estava pálido e agitado. Ela caminhou rapidamente até seu velho amigo e colocou uma mão trêmula em seu braço.
"Oh, Vincent, eu estava vindo buscar você — algo terrível deve ter acontecido!", começou ela, com uma voz quebrada e soluçante. "Eu estava subindo para o meu quarto quando ouvi o grito e, então, o tiro. Devem ter vindo do quarto de Violet. Você vai subir e ver, Vincent?"
Musard não esperou por suas palavras finais. Ele já estava subindo a escada, subindo dois ou três dos degraus largos e rasos de cada vez. Phil mancou atrás dele, e Sir Philip e alguns dos convidados subiram arrastados em seu rastro.
CAPÍTULO V
Uma luz sombreada em um nicho no topo da escada lançava uma luz fraca pelo corredor que saía do patamar do primeiro andar, mas Musard tateou pelo interruptor elétrico e pressionou-o. A luz inundou um corredor vazio, com a porta do quarto mais próximo a ele aberta para um interior escuro.
Musard entrou pela porta aberta, riscou um fósforo para encontrar o interruptor e caminhou até lá e acendeu a luz. Ao fazê-lo, Phil e seu pai chegaram à porta e seguiram-no para dentro do quarto, onde, menos de duas horas antes, a Srta. Heredith estivera com a jovem esposa de Phil e a deixara para dormir. O quarto parecia como estava então; não havia sinal de qualquer intruso. Os frascos de cristal lapidado e prata estavam na pequena mesa ao lado da cabeceira da cama; a cigarreira de ouro estava aberta ao lado deles; um romance, jogado de cara para baixo nos travesseiros, revelava uma capa vistosa e a letra ousada do título — "O Que Lucrará?" — como se o livro tivesse caído da mão de alguém dominado pelo sono. Mas os raios brancos do globo elétrico, pendurado em uma cúpula de cor rosa diretamente acima, caíam com uma clareza sinistra sobre a figura esguia da jovem esposa, deitada em um monte amontoado na cama, seu vestido de descanso da moda manchado de sangue, que escorria de seu peito em um fluxo lento sobre a colcha de cetim. Um odor forte e pungente misturava-se à atmosfera pesada do quarto — o cheiro de tecido queimado. Não havia desordem, nem arma, nem indicação de luta. Apenas a figura imóvel e sangrenta na cama revelava aos convidados aglomerados fora do quarto que alguém entrara e saíra tão silenciosamente quanto um tigre.
Musard foi rapidamente para a cabeceira da cama e inclinou-se sobre a moça.
"Ela foi baleada", disse ele, em um tom que não passava de um sussurro.
"Ela foi assassinada!" Foi Phil, pressionando perto atrás de Musard, que pronunciou essas palavras. "Assassinada!", gritou ele, com uma voz antinatural, que era terrível de ouvir. Ele deu alguns passos na direção da cama com os braços estendidos, depois parou e, virando-se, encarou os convidados que se aglomeravam no corredor do lado de fora. "Assassinada, eu digo!", repetiu ele. "Onde está o assassino?"
Ele ficou por um momento, fixando um olho selvagem no grupo de rostos assustados na porta, como se procurasse o assassino entre eles. Então seu rosto tornou-se distorcido e ele caiu no chão. Seus membros pareceram ficar rígidos enquanto ele jazia; suas pernas estavam estendidas rigidamente, a parte superior de seus braços estava pressionada contra seu peito, mas os antebraços inclinavam-se para frente, com as palmas das mãos voltadas para trás e os dedos bem abertos. Mesmo em sua inconsciência, ele parecia estar repelindo o horror da visão que o derrubara no chão.
Na presença de uma calamidade doméstica, a natureza humana trai a sua fraqueza inerente. Em tais momentos, a cobertura externa artificial da civilização desmorona, e a alma apresenta-se, nua, primitiva, desamparada, e clama em voz alta. A tensão da tremenda tragédia que entrara em sua casa, de pés velozes e silenciosa, era demasiado para Sir Philip. Ele caiu de joelhos ao lado do filho inconsciente, choramingando como uma criança — um velho fraco e desamparado. Não havia vestígio da dignidade dos Heredith ou do orgulho de linhagem naquele rosto enrugado, agora distorcido pelo sorriso piedoso da senilidade, enquanto Sir Philip se agachava sobre o filho, acariciando-lhe o rosto com dedos débeis.
Uma ou duas das mulheres na passagem entraram em histeria. Os jovens observavam desajeitados, com rostos graves, sem saber o que fazer. Havia algo muito inglês em seu distanciamento tímido; em sua aversão a intrometer-se no quarto sem ser convidado.
Musard, olhando ao redor a partir da cabeceira, lançou um breve olhar para a figura prostrada de Phil, e então seus olhos brilhantes viajaram até o grupo na porta. Ele, pelo menos, estava calmo e no controle de si mesmo.
"É melhor que as senhoras desçam", disse ele, falando em voz baixa, mas com decisão. "Elas não podem fazer nada aqui. E vocês dois" — ele apontou para dois dos jovens com o olhar — "levem Phil para baixo? Ele apenas desmaiou. Por favor, levem Sir Philip também. Telefonem para o Dr. Holmes imediatamente e mandem buscar o Sargento Lumbe. E alguns de vocês, rapazes, revistem a casa minuciosamente — imediatamente. Não, não este quarto. Revistem a casa de cima a baixo, e os terrenos lá fora. Depressa! Não há tempo a perder."
O grupo na porta se dispersou. As senhoras, de rostos pálidos e chorosas, desceram as escadas juntas como um bando de pássaros assustados, e os jovens, satisfeitos demais por obedecer a alguém que demonstrava coragem e resolução em tal momento, dispersaram-se imediatamente para revistar a casa.
Musard ficou sozinho no quarto, mas não por muito tempo. Miss Heredith entrou pelo corredor quase imediatamente. Tufnell acompanhou-a até a porta, mas parou ali, com os olhos fixos na cama. O rosto de Miss Heredith estava tenso, mas ela havia recuperado o autocontrole. Ela caminhou rapidamente em direção a Musard, que ainda estava debruçado sobre a cama.
"Vincent!" ela gritou. "Pelo amor de Deus, diga-me que coisa terrível aconteceu? Eles levaram Phil para baixo e tentaram me deter, mas eu me soltei deles e vim direto até você. Será que Violet..."
Musard levantou-se num salto ao primeiro som de sua voz e girou rapidamente, como se tentasse interpor o próprio corpo entre ela e a figura na cama.
"Volte, Alethea!" ele ordenou severamente. "Volte, eu disse! Este não é um espetáculo para você, e você não pode fazer nada."
Ele ainda tentava interceptá-la enquanto ela se aproximava, mas ela afastou gentilmente a mão que a detinha e, caminhando até a cabeceira, olhou para baixo. Então, diante daquela visão, seus dedos buscaram os dele com um movimento feminino impulsivo e apertaram-nos.
"Não tenha medo por mim", ela sussurrou. "Veja! Estou calma — talvez eu possa ajudar. Ela está... morta?"
"Morrendo", disse Musard tristemente.
"Será que...?" sua voz reduziu-se a nada, mas seus olhos assustados, percorrendo com pavor os cantos sombrios do grande quarto, completaram a frase não dita.
Musard entendeu-a e inclinou a cabeça silenciosamente. Então, virando o rosto para a porta, sinalizou para que Tufnell se aproximasse. O velho criado avançou trêmulo para dentro do quarto, tentando inutilmente compor seu rosto horrorizado numa semelhança da máscara impassível do bem treinado criado inglês.
"Desça e traga-me um pouco de água quente", disse Musard calmamente. "Seja rápido — e traga você mesmo. Não quero criadas aqui tendo ataques de histeria."
Tufnell apressou-se a sair. Musard retomou seu lugar à cabeceira, observando silenciosamente a figura na cama. Havia sangue em suas mãos e roupas.
"Não há esperança? Nada pode ser feito para salvá-la?" sussurrou Miss Heredith.
"Nada. O pulmão foi atingido. Ela está sangrando até a morte."
Seu olho atento notou uma mudança na figura na cama. O rosto estremeceu levemente e os olhos azuis abriram-se pela metade. Então a garota atingida fez um esforço como se quisesse sentar-se, mas uma convulsão súbita a tomou e ela caiu de volta no travesseiro, com uma pequena mão branca, brilhando com anéis, atirada acima da cabeça, como se tivesse morrido no ato de invocar a retribuição de um Deus de justiça sobre o assassino que apagara sua jovem vida em agonia e horror.
"Ela está morta", disse Musard gentilmente. "Este é um negócio terrível, e nosso primeiro dever é tentar capturar o monstro que cometeu este crime hediondo."
Eles ficaram ali em silêncio por um momento, olhando-se seriamente. Lá fora, em algum lugar no bosque, soou o canto assombrado de um pássaro noturno, tremulando através da quietude como um sino de prata. A nota doce terminou num grasnido assustado e foi seguida pelo grito de uma coruja. O canto traíra o cantor.
Musard afastou-se de Miss Heredith e caminhou inquieto pelo quarto, examinando as pesadas peças de mobiliário e as tapeçarias desbotadas, e espiando em cada recanto e canto, como se buscasse o esconderijo do assassino. Um espaçoso guarda-roupa antigo perto da janela atraiu seu olhar, e ele parou em frente a ele e abriu suas portas. Continha alguns artigos do vestuário da garota morta — trajes e vestidos — pendurados em ganchos.
Seus olhos vagaram para a janela, envolta nas pesadas dobras das cortinas de damasco. Ele caminhou até ela e afastou as cortinas. A metade inferior da janela estava aberta.
Miss Heredith, que seguia seus movimentos de perto, soltou um leve grito de surpresa.
"A janela!" ela exclamou.
Musard olhou ao redor, interrogativo.
"A janela — o que tem ela?" perguntou ele.
"Estava fechada quando vim aqui antes do jantar ver Violet."
"Você tem certeza disso?"
"Ah, sim! Pelo menos, eu acho que sim."
"Não entendo você."
"Quero dizer que a atmosfera do quarto estava pesada e densa, como se a janela não tivesse sido aberta o dia todo."
"Tem sido um dia parado e abafado."
"Mas Violet nunca deixava uma janela aberta se pudesse evitar. Ela não gostava de ar fresco. Ela sempre tinha medo de pegar um resfriado."
Musard olhou pela janela para a escuridão aveludada da noite.
"Se a janela estava fechada antes, o assassino abriu-a e escapou por ela", disse ele.
"É quase impossível."
"Por que não?" Ele virou-se e encarou-a.
"O terreno cai daquele lado. A janela fica a quase seis metros do chão. E... há o fosso a ser atravessado. Não há ponte daquele lado da casa, e esta janela abre para o jardim. Você não se lembra?"
"Lembro-me agora."
"Eu pensei que você se lembraria."
"Ainda assim..." Musard interrompeu-se bruscamente e afastou-se da janela.
Perto da janela ficava a penteadeira. O espelho oval refletia seu conteúdo — escovas de marfim, espelhos de mão de prata, toda a custosa bijuteria de uma mulher refinada. Entre eles estava a caixa de joias de prata de Violet. Musard caminhou até lá e examinou a caixa. Estava trancada.
"Isto deveria ser guardado", disse ele.
"Eu estava subindo para pegá-la quando ouvi o grito", sussurrou sua companheira.
"Talvez você possa cuidar dela agora", disse ele, colocando-a nas mãos dela. Ao fazê-lo, passou por sua mente a cínica adequação do velho provérbio sobre trancar portas depois que os cavalos são roubados.
Havia uma contenção e falta de espontaneidade na conversa deles da qual ambos estavam agudamente conscientes. O tom era forçado, como se houvesse um esforço grande demais para atingir a nota certa. Uma curiosa mudança psicológica havia tomado conta de ambos desde que ficaram juntos ao lado da cama da mulher moribunda. Tinha vindo com a entrada da morte. Eles conversavam apressadamente e cautelosamente, como se desconfiassem um do outro. Em cada um deles, duas entidades eram agora aparentes — uma consciência de superfície, que falava e agia mecanicamente, e uma consciência interior secundária, vigilante e temerosa da má interpretação da palavra falada. As faculdades que compõem a mente humana são diferentes e complexas, e misteriosamente misturadas. Pode ser que, quando a tragédia perturba a frágil estrutura da vida humana, os instintos brutos de vigilância e autopreservação venham à tona, protegendo contra a suspeita ocasional ou a palavra alta de acusação. Talvez pela mente de Musard estivesse passando o pensamento sobre a maneira estranha como o assassinato fora cometido, e como ele, ao deter todos no andar de baixo, à mesa de jantar, enquanto contava sua história, fora um instrumento em sua execução.
A situação foi encerrada pela chegada de Tufnell com um pouco de água quente. Quase em seu encalço vieram os jovens que haviam revistado a casa. Musard sentiu-se aliviado com o retorno deles, embora seu rosto impassível não revelasse seus sentimentos. Miss Heredith deixou o quarto com Tufnell, levando a caixa de joias consigo. Musard encontrou os jovens no limiar.
O alto jovem oficial de rosto bronzeado, Major Gardner, informou a Musard que haviam completado uma busca na casa de cima a baixo, mas não encontraram nada. Eles também haviam revistado os terrenos, sem resultado.
"A Sra. Heredith está morta", informou-lhes Musard gravemente. "Ela morreu enquanto vocês buscavam o facínora que disparou o tiro que ouvimos na mesa de jantar. Cavalheiros, ele deve ser encontrado. Parece pouco provável que tenha conseguido escapar completamente em tão pouco tempo."
"Revistamos o lugar de cima a baixo", observou um dos jovens.
"É um lugar antigo, estranho e ramificado, e difícil de explorar a menos que se conheça bem", disse Musard.
"Fizemos o melhor que pudemos."
"Não duvido disso, mas há muitos recantos e cantos antigos onde um homem poderia se esconder."
"Seu primeiro pensamento, após um crime tão terrível, seria afastar-se o mais rápido possível", disse o Major Gardner.
"Mas como ele escapou? Certamente não pela escada, porque saímos correndo da sala de jantar assim que ouvimos o tiro, e deveríamos tê-lo pegado no caminho para baixo."
"Não há uma janela no quarto? Ele não poderia ter escapado por esse caminho?"
"A janela fica a quase seis metros do solo."
"Um homem atlético poderia saltar essa distância", observou o Major Gardner pensativo.
"Ainda acho possível que ele esteja escondido nas dependências", respondeu Musard. "Há uma escadaria antiga e inutilizada no final deste corredor, que abre para o lado sul da casa do fosso. Vocês a encontraram? Ela fecha com uma porta no topo e poderia facilmente ter escapado à sua atenção."
"Abri a porta e desci a escada", disse o jovem oficial da força aérea. "Ninguém poderia ter escapado por ali. A porta no fundo está trancada e não há chave."
O rosto assustado de uma criada apareceu naquele momento no topo da escada.
"Se o senhor me permite", disse ela, dirigindo-se a Musard, "um dos cavalheiros lá embaixo mandou-me dizer que ele tem tentado nos últimos dez minutos telefonar para a polícia, mas não consegue resposta."
"Mande o mordomo vir até mim imediatamente."
A criada desapareceu e, num instante, o mordomo subiu apressadamente as escadas.
"Tufnell", disse Musard rapidamente, "você deve ir imediatamente à aldeia e buscar o Sargento Lumbe e o Dr. Holmes. Saia correndo e seja o mais rápido que puder. E agora, cavalheiros", acrescentou, virando-se para os outros, "vamos descer. Enquanto esperamos pela polícia, ajudarei vocês a fazer outra busca na casa e nos terrenos. O assassino pode escapar enquanto ficamos aqui conversando. Já desperdiçamos tempo valioso demais."
CAPÍTULO VI
O mordomo deixou a casa do fosso a um passo rápido que se tornou quase uma corrida depois que ele atravessou a ponte do fosso. Seu caminho pelo parque estendia-se ao longo da entrada de carruagens, ladeada por uma avenida de árvores altas, entre um lago ornamental e alguns arbustos de caça espessos, e depois através dos campos externos até a aldeia.
Era uma noite de setembro suave e doce, com um céu violeta acima, salpicado de prata. Mas um toque de decadência de outono estava no ar, que estava pesado e parado, e uma névoa branca subia em nuvens espessas e lentas da superfície verde e estagnada do lago. O bosque estava velado na escuridão, na qual os troncos das árvores eram apenas visíveis, em filas retas e regulares, como soldados em sentido.
Tufnell apressou-se por este local solitário, lançando olhares tímidos ao redor. Ele não era um homem nervoso em tempos normais, mas, como muitas pessoas do campo, tinha uma veia de superstição correndo por seu temperamento fleumático, e os eventos da noite haviam varrido sua calma. O coaxar dos sapos e o sussurro das árvores enchiam-no de inquietação, e ele ficava olhando para trás e para frente, do lago para o bosque, como se temesse que o assassino pudesse aparecer de repente da superfície enevoada de um ou dos recessos sombrios do outro.
Ele quase havia chegado aos confins do bosque quando foi assustado por um ruído alto, que ele reconheceu como o voo de um bando de perdizes de um arbusto próximo. O que as teria assustado? Olhando com pavor ao redor, ele viu, ou pensou ter visto, a figura agachada de um homem em um dos caminhos do bosque, parcialmente escondido pelos galhos espessos que se estendiam pelo caminho a uma curta distância da entrada.
O primeiro impulso de Tufnell foi sair correndo, mas ele foi salvo desse ato ignominioso pela lembrança oportuna de que era um inglês, cujo glorioso privilégio é nascer sem medo. Então ele ficou parado e, com uma voz que tinha um leve tremor, chamou:
"Quem está aí?"
No bosque, um pássaro deu um único chamado como a nota de uma flauta, o vento murmurou na alta avenida de árvores, um sapo saltou nas águas paradas do lago, mas não havia som de vida humana. Olhando cautelosamente para dentro do bosque, o mordomo não conseguia mais ver nada agachado no caminho. O homem — se é que tinha sido um homem — havia desaparecido.
"Deve ter sido imaginação minha", murmurou o mordomo, falando em voz alta como se para se tranquilizar ao ouvir sua própria voz.
Ele caminhou rapidamente e sentiu-se aliviado quando deixou o bosque para trás e pôde ver as luzes fracas da aldeia brilhando além dos campos. Atravessando uma passarela que cruzava um riacho estreito no fundo dos prados, Tufnell pulou uma cerca e caminhou pela estrada do outro lado até chegar a uma casa de campo que ficava a alguma distância da estrada, no topo de uma suave colina. Tufnell subiu a colina e bateu ruidosamente na porta da casa.
Após alguns momentos, a porta foi aberta por uma mulher com uma vela na mão — uma camponesa robusta de quarenta anos, com um nariz curvo, dentes proeminentes e cabelo preso em um coque apertado na nuca. Seus pequenos olhos cinzentos, examinando o visitante à porta, demonstravam surpresa e deferência. O mordomo da casa do fosso não tinha o hábito de se misturar com os aldeões, e por eles era considerado uma espécie de personagem. Ele não apenas brilhava com a glória refletida da grande casa, mas era respeitado por seu próprio mérito como um homem "bem estabelecido", que havia economizado dinheiro e tinha algumas propriedades.
"Seu marido está em casa, Sra. Lumbe?" perguntou ele, em resposta ao olhar mudo de indagação dela. Falou com condescendência, como um homem que reconhecia o abismo social entre eles, mas acreditava em ser educado com as classes inferiores.
"Sim, ele está, Sr. Tufnell. O senhor quer entrar?"
O mordomo limpou as botas cuidadosamente no capacho e seguiu a mulher por um corredor estreito até uma pequena sala de estar no final, onde um homem estava sentado, lendo um jornal e fumando um cachimbo.
"Robert", disse a mulher, "aqui está o Sr. Tufnell para vê-lo."
O homem levantou os olhos do jornal com certa surpresa e levantou-se para cumprimentar seu visitante. Não estava de uniforme, e sua figura rude e desajeitada e rosto vermelho redondo revelavam o camponês, mas, da coroa de sua cabeça raspada até suas botas de sola grossa, ele parecia um policial rural. Havia uma postura estranha nele quando se levantou — um esforço desajeitado para manter a aparência de uma dignidade oficial. O olhar questionador que seus olhos astutos lançaram ao mordomo através da névoa de fumaça de tabaco que enchia a sala indicava sua impressão de que a visita não era apenas uma chamada de vizinhança. Tufnell não o deixou com dúvidas sobre o ponto.
"O senhor é necessário na casa do fosso imediatamente, Sargento Lumbe", disse ele gravemente. "Um crime terrível foi cometido. A Sra. Heredith foi assassinada."
"Assassinada!" exclamou o sargento, olhando vagamente através da mesa para sua esposa, que soltara um grito de horror. "Assassinada!" repetiu ele, como se procurasse garantir a si mesmo a verdade da declaração do mordomo através da repetição da palavra.
"Sim. Ela levou um tiro em seu quarto há pouco, enquanto os outros convidados jantavam. O senhor deve vir imediatamente."
O Sargento Lumbe colocou o cachimbo sobre a mesa com uma mão trêmula. Ele estava sobrecarregado pela magnitude da catástrofe e mal sabia o que fazer. Sua experiência anterior com crimes limitava-se a uma detenção ocasional do bêbado da aldeia, que invariavelmente ia com ele de forma confiante. Seu olho vagou para uma estante no canto da sala, como se quisesse consultar um "Código Policial" que estava exibido com destaque em uma das prateleiras. Aparentemente, ele percebeu a indignidade de tal curso na presença de um membro do público, então virou-se para Tufnell e disse:
"Vou com o senhor, mas preciso primeiro vestir minha túnica."
"Seja o mais rápido que puder", disse o mordomo, pegando uma cadeira.
O Sargento Lumbe foi para um quarto interno, onde sua esposa o seguiu. Tufnell ouviu-os sussurrando enquanto se moviam. Então o Sargento Lumbe emergiu apressadamente, abotoando sua túnica. Havia um olhar ansioso em seu rosto.
"A esposa disse que deveríamos levar o irmão dela junto", disse ele. "Ele pertence à Scotland Yard. Está passando as férias conosco."
"Onde ele está?" perguntou Tufnell, impressionado com a magia do nome da Scotland Yard.
"Ele acabou de ir ao Fox and Knot para jogar uma partida de bilhar, achando um pouco solitário aqui, depois de Londres. O senhor acha que poderíamos mandá-lo buscar e levá-lo conosco?"
"Acho que seria uma ideia muito boa", disse Tufnell. "Mas ele pode ser encontrado imediatamente?" acrescentou, com um olhar para o pequeno relógio na lareira. "Quanto antes retornarmos, melhor."
"A esposa pode trazê-lo enquanto eu troco minhas botas. Corra até o Fox, Maggie, e diga ao Tom que ele é necessário imediatamente."
"Não lhe diga para que é até que o tire lá fora", aconselhou apressadamente o mordomo enquanto a esposa do policial partia em sua missão. "Sir Philip não vai gostar se souber que o que aconteceu esta noite foi discutido no bar do Fox."
O pequeno relógio na lareira mal havia marcado cinco minutos adicionais quando a Sra. Lumbe retornou em um estado sem fôlego, acompanhada por um jovem com giz de bilhar no casaco e nas mãos.
"Este é meu irmão, o Detetive Caldew", disse a Sra. Lumbe, entre suspiros, ao mordomo. "Contei-lhe sobre o assassinato e corremos de volta o mais rápido que pudemos."
"É um crime horrível, e não devemos perder tempo enquanto ainda há uma chance de pegar o assassino", disse o jovem, recuperando o fôlego mais facilmente que sua robusta irmã. Ele limpou o giz de bilhar de suas roupas enquanto falava. "Vamos imediatamente."
Tufnell lançou um olhar curioso ao recém-chegado. Viu um homem de cerca de trinta e cinco anos, alto, bem-constituído e moreno, com o rosto barbeado e olhos bastante inteligentes sob sobrancelhas grossas e escuras. Teve alguma dificuldade em reconhecer no Detetive Caldew o garoto da aldeia de vinte anos atrás, que tocava no boné para o mordomo da moat-house como se fosse uma grande personalidade, perdendo em importância apenas para o próprio Sir Philip Heredith.
Tufnell não sabia que, no antigo rapaz da aldeia que se tornara um detetive de Londres, estava na presença de um jovem de ambição crescente. Caldew fora para Londres quinze anos antes com a ideia de melhorar de vida. Depois de percorrer as ruas da metrópole por alguns meses em uma busca vã por trabalho, alistou-se na força policial metropolitana em vez de retornar à sua aldeia natal e admitir o fracasso. Ao fim de dois anos de serviço como policial, fora-lhe dada a escolha de transferência para o Departamento de Investigação Criminal da Scotland Yard. Aceitara a oportunidade com alegria e demonstrara tanta aptidão para o trabalho à paisana que, ao fim de outros dois anos, subira ao posto de detetive. Caldew pensava estar no caminho rápido para uma promoção maior e casara-se apoiado nessa crença. Mas outros dez anos haviam se passado desde então, e ele ainda ocupava uma posição subordinada, com pouca esperança de promoção a menos que a sorte cruzasse seu caminho. E parecia haver pouca chance disso. A experiência profissional de Caldew o imbuíra da crença de que os oficiais juniores da Scotland Yard existiam sem outro propósito que não o de carregar a culpa pelos erros de seus superiores hierárquicos, que dividiam entre si as cerejas do bolo das promoções, recompensas e publicidade na imprensa. Isso, naturalmente, era algo reconhecido em todos os departamentos públicos. Caldew não via falhas no sistema. Sua grande ambição era obter alguma abertura que lhe trouxesse avanço e sua parte nas cerejas do bolo.
Ele acreditava que sua oportunidade chegara naquela noite. Sempre fora seu sonho ter a chance de desvendar sozinho algum grande crime — um assassinato, de preferência — no qual ele, e apenas ele, colheria toda a glória, os elogios e os parágrafos nos jornais. Determinou tirar o máximo proveito da sorte que caíra em suas mãos, antes que qualquer outra pessoa pudesse chegar ao local. Tinha confiança em suas próprias habilidades e pensava possuir todas as qualificações necessárias para se tornar um grande detetive. Era, de qualquer modo, astuto o suficiente para perceber que a oportunidade raramente bate duas vezes à porta de um homem.
Os três homens partiram para a moat-house. A pedido do mordomo, o Sargento Lumbe seguiu à frente para chamar o médico, que morava do outro lado do gramado da aldeia, e enquanto ele se ausentava, Caldew obteve os detalhes do crime com seu companheiro. Lumbe juntou-se a eles na ponte de pedestres que levava através dos prados para a propriedade Heredith, e seguiram seu caminho em silêncio. O cérebro do Sargento Lumbe — tal como era — estava em um turbilhão grande demais para permitir que falasse de forma coerente; Tufnell, habitualmente um indivíduo taciturno, tornara-se ainda mais devido aos eventos da noite; e Caldew estava mergulhado em tal devaneio de prazerosa expectativa, quanto ao resultado de suas investigações sobre o assassinato na moat-house, que as etapas de sua promoção através dos graus de detetive, subintendente e superintendente passavam por sua mente tão rapidamente quanto os postes telegráficos passam por um viajante em uma carruagem ferroviária. O crime que abatera um ser humano no alvorecer da juventude e beleza, transformara outro em um assassino e lançara uma antiga família inglesa no horror e na miséria, proporcionava ao temperamento otimista do Detetive Caldew uma satisfação tão extrema que ele mal conseguia conter-se de assobiar alto. Mas essa é a natureza humana.
Eles passaram pelo bosque e atravessaram a ponte do fosso. A névoa rastejava da escuridão em ambos os lados da moat-house, lançando um filme sobre a luz tênue que brilhava de uma ou duas janelas pesadamente fechadas. Caldew, parando no meio da ponte para observar as espirais de névoa que subiam como uma tropa de fantasmas, perguntou ao cunhado se o fosso ainda era mantido cheio de água. Recebeu uma resposta afirmativa e continuou a caminhar.
Uma criada atendeu ao toque de Tufnell na porta da frente e informou-o em um sussurro que Sir Philip e a Srta. Heredith estavam na sala de estar. Para lá se dirigiram e encontraram Musard à espera perto da porta. Ele acenou para o Sargento Lumbe, a quem conhecia, e olhou interrogativamente para Caldew. Lumbe anunciou a identidade deste último.
"É melhor entrarem aqui primeiro", disse Musard, abrindo a porta da sala de estar e revelando o baronete e a Srta. Heredith sentados lá dentro. Irmão e irmã olharam para o grupo que entrava na sala.
"Este é o Detetive Caldew, da Scotland Yard", explicou Musard a eles, indicando o jovem. "Ele está hospedado com Lumbe, que achou aconselhável trazê-lo."
"Você contou a eles tudo?" A Srta. Heredith falou para Tufnell. Seus lábios secos formaram as palavras mais do que as pronunciaram, mas o velho serviçal entendeu-a e inclinou-se sem falar. "O que deseja fazer primeiro, Detetive Caldew?" acrescentou ela, voltando-se para ele e falando com mais compostura. Ela foi rápida em perceber que ele assumiria o comando nas investigações policiais. Um olhar para o rosto perturbado do Sargento Lumbe revelava claramente demais que a posição em que se encontrava estava além de suas capacidades oficiais.
Caldew deu um passo à frente com vivacidade. Ele não estava de forma alguma embaraçado pelo ambiente incomum ou pela aparência imponente da grande dama que se dirigia a ele. Era um homem que acreditava em si mesmo, e tais homens são sérios demais para serem tímidos.
"Gostaria de fazer algumas perguntas primeiro, madame", disse ele. "Até agora, ouvi apenas a versão do seu mordomo sobre o ocorrido." Sem esperar por uma resposta, disparou uma série de perguntas e anotou as respostas em um caderninho.
Musard, que ajudava a Srta. Heredith a responder às perguntas, ficou bastante impressionado com a inteligência rápida que o detetive demonstrava ao extrair todos os fatos conhecidos do assassinato, mas o Sargento Lumbe, que permanecia de pé perto da porta, ficou chocado ao ouvir Caldew interrogar as grandes personalidades da moat-house com tão pouca cerimônia. Achou seu cunhado um sujeito muito atrevido e esperava que a Srta. Heredith não o considerasse responsável por seus modos descontraídos.
"Agora, gostaria de começar minhas investigações", disse Caldew, guardando o caderninho. "Já se perdeu tempo demais. Começarei examinando o quarto onde está o corpo, se me permitem."
"Certamente." A Srta. Heredith levantou-se de seu assento ao proferir a palavra.
"Minha cara Alethea!" — o tom de Musard era de reprovação — "Eu levarei o detetive lá em cima. Não há necessidade de você ir."
"Prefiro ir." O tom da Srta. Heredith não admitia mais argumentos. Ela estava prestes a liderar o caminho para fora da sala quando pausou e olhou para Tufnell. "Quando o Dr. Holmes estará aqui?" perguntou ela.
"Quase imediatamente, senhora."
"É melhor você ficar aqui e recebê-lo, Philip." A Srta. Heredith colocou a mão afetuosamente no ombro do irmão. Ele não havia falado durante o tempo em que a polícia esteve na sala, mas sentara-se calmamente em sua cadeira, com a cabeça curvada e as mãos unidas, parecendo muito velho e frágil. "Será bom que ele veja Phil antes de subir", acrescentou ela.
Sir Philip olhou para cima ao ouvir o nome do filho. "Pobre Phil", murmurou ele, embotado.
"Acho que o médico deveria examinar Phil no momento em que chegar", continuou a Srta. Heredith, à parte, para Musard. "Seu olhar me alarma. Temo que o choque tenha afetado seu cérebro. Tufnell, certifique-se de levar o Dr. Holmes ao quarto do Sr. Philip assim que Sir Philip o tiver recebido."
"Pode confiar em mim, senhora", disse Tufnell seriamente.
"Muito bem. Subiremos agora."
Ela deixou a sala de estar e seguiu em direção à larga escadaria de carvalho, com Musard logo atrás. O Detetive Caldew seguiu mais lentamente, observando o ambiente. Quando chegaram ao topo da escada, a Srta. Heredith ligou a corrente elétrica e o corredor dos quartos iluminou-se. O Detetive Caldew surpreendeu-se com o comprimento dele.
"Para onde leva esta passagem?" perguntou ele bruscamente.
"Para o lado sul da moat-house", respondeu Musard.
"Tem alguma saída?"
"Sim; uma porta no final comunica-se com uma escadaria estreita, que leva a outra porta na parte inferior. A segunda porta era uma antiga entrada dos fundos — ela abre em algum lugar perto das acomodações dos criados, creio eu?" Ele olhou de forma inquisitiva para a Srta. Heredith.
"Essas escadas nunca são usadas agora", respondeu ela. "A porta de entrada na base da escadaria é mantida trancada."
"Existem coisas chamadas gazuas", comentou o detetive.
Musard abriu a porta do quarto da morte e acendeu a luz. Caldew caminhou imediatamente para a cabeceira da cama. Afastou a cobertura que fora colocada sobre o rosto da jovem esposa e ficou olhando para ela.
A morte a dotara de dramaticidade, mas não de dignidade. Na palidez da máscara mortuária, os lábios pintados, os pontos de rouge, as sobrancelhas desenhadas a lápis do rosto morto revelavam-se tão claramente quanto letras em uma página branca. Os lábios estavam entreabertos; os pequenos dentes brancos apareciam sob o lábio superior. O nariz pequeno erguia-se no contorno afiado da morte; entre as pálpebras semicerradas, os olhos azuis escurecidos olhavam vagamente. O cabelo grosso e claro, manchado de sangue, fluía em ondas desordenadas sobre o travesseiro branco; os numerosos anéis nas mãos mortas brilhavam com uma dureza intensa sob a luz elétrica.
Foram essas joias caras nas mãos da moça assassinada que provocaram a pergunta que saltou aos lábios do detetive:
"O assassino levou alguma coisa?" perguntou ele. "Algo desapareceu?"
"Não", disse a Srta. Heredith. "Nada foi levado."
"A Sra. Heredith tinha mais joias além destas, suponho?", prosseguiu o detetive. "Broches e colares, e coisas do gênero. Onde eram guardados?"
"O estojo de joias da Sra. Heredith está lá embaixo, no cofre da biblioteca", respondeu a Srta. Heredith. Ela não sentiu necessidade de acrescentar a informação adicional de que ela mesma o levara para lá e trancara, nem meia hora antes.
O Detetive Caldew anotou mentalmente o fato de que o motivo do crime não era roubo, a menos que, de fato, o assassino tivesse ficado agitado e fugido. Seu olhar, percorrendo o quarto, foi atraído pelas cortinas da janela, que se moviam levemente. Ele as afastou e viu a janela aberta.
"Há quanto tempo esta janela está aberta?", perguntou.
A Srta. Heredith deu suas razões para acreditar que a janela estava fechada quando ela deixara Violet para descer à sala de jantar. Caldew ouviu pensativo e assentiu com a cabeça em rápida compreensão quando ela acrescentou a informação de que a janela do quarto ficava a quase seis metros do chão.
"Você acha que o assassino não saltou pela janela", disse ele. "O ponto mais importante é: ele entrou por ali? Não é uma tarefa difícil escalar uma parede para alcançar uma janela se houver qualquer tipo de apoio para os pés. É um ponto que examinarei depois."
Ele testou o trinco da janela e depois caminhou pelo quarto, examinando-o atentamente. Seus olhos rápidos e ávidos, olhando em todas as direções, foram capturados por algo brilhante no tapete, perto da cama. Ele olhou para seus companheiros. Como detetive, aprendera há muito a sabedoria da cautela na presença de amigos e parentes.
"Gostaria de ficar sozinho no quarto para examiná-lo mais minuciosamente", anunciou ele brevemente.
Quando a Srta. Heredith e Musard deixaram o quarto, ele trancou a porta atrás deles e, ajoelhando-se ao lado da cama, desenterrou um pequeno objeto brilhante quase escondido na espessa textura verde do tapete. Era um adorno como um broche de barra, com fechos de ouro. A barra era de pedra transparente, clara como vidro, com um leve tom verde-mar e salpicada no interior com pequenos pontos pretos. Caldew nunca tinha visto uma pedra como aquela. O ouro frágil da cravação sugeria que não tinha muito valor intrínseco, mas era um pequeno adorno bonito, tal como as senhoras às vezes usam como talismã. Caldew refletiu que, se fosse um talismã, não era de forma alguma certo que a proprietária fosse uma mulher. Muitos jovens oficiais levavam talismãs para o front por sorte.
Ao girá-lo na mão, observou algumas letras na parte inferior. Examinou-o curiosamente e viu que uma inscrição fora arranhada na pedra em uma caligrafia redonda e irregular — obviamente um esforço inábil, quase infantil. Segurando o broche mais perto da luz, conseguiu decifrar a inscrição. Consistia em duas palavras: "Semper Fidelis".
Pareceu a Caldew que a inscrição enfraquecia um pouco a correção de sua primeira impressão de que o adorno fora usado como um talismã feminino. Ele duvidava muito que qualquer mulher moderna apreciasse um sentimento vitoriano como "Sempre Fiel". Por outro lado, muitos homens poderiam. Sua experiência como detetive o levara à crença de que os homens eram mais propensos a tais sentimentos do que o outro sexo, embora sua conduta raramente estivesse de acordo com suas declarações e intenções temporárias.
Atendido por um pensamento súbito, ele deixou o adorno cair de volta no tapete. Ficava apenas visível na pilha espessa.
"Uma boa ideia!", murmurou, enquanto se levantava. "Vou vigiar este quarto esta noite."
Enquanto estava ali, especulando sobre a possibilidade de o proprietário do adorno retornar ao quarto para procurá-lo, foi interrompido por um toque baixo na porta. Caminhou e abriu-a. Tufnell estava do lado de fora, grave e composto.
"O Sr. Musard gostaria de vê-lo na biblioteca", disse ele.
Seu tom era nivelado e quase deferente, mas os olhos vigilantes do detetive interceptaram um olhar fugaz lançado pelo mordomo por cima do ombro na direção da figura imóvel sobre a cama.
"Muito bem, eu o verei", disse o detetive.
"Eu o levarei até ele, se vier comigo." O mordomo precedeu-o pelo corredor com passo silencioso, e Caldew seguiu-o, mergulhado em pensamentos.
O mordomo escoltou-o até a biblioteca e entrou depois dele. Musard estava sozinho na sala, em pé junto à lareira, fumando um charuto. Ele olhou para cima quando Caldew entrou.
"Acabei de saber algo que acho que você deve saber", disse ele. "A informação vem de Tufnell. Ele me diz que, enquanto circulava pela casa esta tarde, encontrou a porta externa da escada dos fundos destrancada."
"Você se refere à porta na base da escada na ala esquerda?", perguntou Caldew.
"Precisamente."
"Entendi pela Srta. Heredith que esta porta era sempre mantida trancada."
"Assim é, como regra. Foi apenas por acaso que o mordomo descobriu esta noite que ela estava destrancada. É melhor explicar ao detetive, Tufnell, como você a encontrou aberta."
"Eu estava circulando pela parte de trás da casa esta noite", disse o mordomo, aproximando-se. "Ao passar pela porta, testei a maçaneta. Para minha surpresa, ela cedeu. Abri a porta e descobri que a chave estava na fechadura, do outro lado. Tranquei a porta e levei a chave comigo."
"A que horas foi isso?", indagou Caldew.
"Um pouco antes das seis — talvez uns quinze minutos."
"É seu costume testar esta porta todas as noites?"
"Ah, não, não é necessário. A porta é sempre mantida trancada e a chave fica pendurada com um molho de outras chaves não usadas em uma pequena sala perto dos aposentos da governanta, onde se guardam várias coisas diversas."
"Quando foi a última vez que você testou a porta?"
O mordomo pensou por um momento.
"Não sei dizer exatamente", disse ele por fim. "A porta nunca é usada e raramente penso nela."
"Então, pelo que você sabe em contrário, a chave pode ter estado na porta há dias ou semanas."
"Ora, sim, é possível, agora que você menciona", disse o mordomo, com um ar de surpresa, como se não tivesse considerado tal contingência anteriormente.
"A chave tinha sido tirada do molho?"
"Sim."
"Os criados sabem onde a chave é guardada?"
"Algumas das criadas sabem. A escada dos fundos é ocasionalmente aberta para ventilação e limpeza, e a criada que faz esse trabalho pega a chave com a governanta."
"Quem cuida da sala onde as chaves são guardadas?"
"Ninguém em particular. É realmente uma espécie de depósito. A governanta cuida das chaves."
"Obrigado; é tudo o que desejo saber."
O mordomo deixou a sala e Caldew olhou para cima, encontrando os olhos de Musard que o observavam.
"Você acha que isso tem alguma coisa a ver com o assassinato?", perguntou Musard.
Caldew hesitou por um momento. Estava na ponta da língua responder que não atribuía importância ao depoimento do mordomo, mas os hábitos profissionais de cautela refrearam sua impulsividade natural.
"Quero saber mais sobre as circunstâncias antes de emitir uma opinião", respondeu ele. "A história de Tufnell foi bastante vaga."
"Em que aspecto?"
"Em relação ao tempo. A porta pode ter ficado destrancada por dias."
"Quem a destrancaria?", respondeu Musard. "A inferência, diante do que aconteceu, parece mais que a porta foi destrancada hoje, e Tufnell tropeçou no fato por um golpe de sorte — pelo Destino, se preferir. Pelo menos é assim que me parece."
"E o assassino entrou pela porta?"
"Sim."
"Acho que isso é presumir demais", disse Caldew. Ele não tinha intenção de apontar ao seu companheiro que tal suposição ignorava o fato de que a descoberta de Tufnell, e o trancamento da porta, não tinham impedido o crime e a subsequente fuga do assassino.
Ele virou-se para deixar a sala, mas Musard estava em um estado de espírito falador. Ofereceu ao detetive um charuto e manteve-o por um tempo, conversando de forma discursiva. Caldew não estava com disposição para ouvir. Sua mente estava cheia dos problemas deste caso estranho e ele estava ansioso para voltar lá em cima. Aproveitou a primeira oportunidade para terminar a conversa e deixar a sala.
Era sua intenção esconder-se em um dos guarda-roupas do quarto na esperança de que o dono do adorno que ele encontrara retornasse à sua procura. Quando chegou ao patamar, surpreendeu-se ao ver que a porta do quarto da mulher assassinada estava escancarada, embora se lembrasse distintamente de tê-la fechado quando saiu do quarto para acompanhar o mordomo lá embaixo. Com o coração a bater rapidamente, apressou-se através do quarto até o local onde deixara o adorno. Mas ele tinha desaparecido.
CAPÍTULO VII
Era a manhã seguinte ao assassinato, e cinco homens estavam sentados na biblioteca da moat-house. Um deles atraía atenção instantânea devido à sua personalidade avassaladora. Era um gigante em estatura e físico, com uma cabeça maciça, um rosto grande e vermelho de onde um par de olhos pequenos e injetados de sangue olhava truculentamente, e um pescoço de touro que era vários tons mais escuro que o rosto. Era o Superintendente Merrington, um notável oficial executivo da New Scotland Yard, cuja condução do mais importante caso de espionagem julgado em Londres durante a guerra trouxera de um gracioso soberano a inevitável Ordem do Império Britânico. Merrington era conhecido como detetive em todas as capitais da Europa e, por causa de seu vasto conhecimento sobre criminosos europeus, atuara mais de uma vez como guarda-costas da Realeza em excursões continentais, tendo recebido das mãos Reais o alfinete de diamante que agora adornava a gravata de seda manchada que envolvia seu pescoço roxo e gordo.
A visão de mundo do famoso detetive era cínica e grosseira. O cinismo era o resultado natural de sua profissão; a grosseria era sua herança de nascimento, como atestavam sua boca sensual, lábios carnudos, nariz grosso e pescoço de touro. Foi um estranho capricho do Destino que o tornou o guardião da moral da sociedade e o defensor da lei e da ordem em uma comunidade moderna e civilizada. Por temperamento e disposição, ele pertencia ao tipo de humanidade sanguínea que encontrava seus melhores exemplares nos primeiros czares moscovitas e que, se o Destino assim o tivesse querido, teria se deleitado em buscas semelhantes de vício, opressão e tortura. Como o Destino, ironicamente, fizera dele um oficial de polícia, ele teve de se contentar em liberar o vapor supérfluo de seu tremendo temperamento oprimindo as classes criminosas, e desempenhara esse dever tão meticulosamente que, antes de se tornar o companheiro de viagem de reis, seu nome fora um terror para o submundo de Londres, que temia e detestava sua ferocidade, seus métodos inescrupulosos de lidar com eles e seu amplo conhecimento de sua classe.
Ele era um herói reconhecido do público britânico, que certa vez lhe presenteara com um testemunho por sua captura de um fora-da-lei que vinha aterrorizando o East End de Londres. Mas Merrington desdenhava tais sinais de aprovação popular. Ele considerava o público, que era pago para proteger, um bando de tolos. Para ele, existiam apenas duas classes de humanidade: tolos e patifes. A parcela respeitável da população constituía a primeira, e os criminosos, a segunda. Ele tinha a pior opinião possível da humanidade como um todo, e sua expressão favorita, em conversas profissionais, era: "sendo a natureza humana o que é...". Ele ainda era uma força poderosa em Scotland Yard, embora tivesse ultrapassado sua utilidade e alcançado o estágio ornamental de sua carreira, raramente condescendendo em investigar um caso pessoalmente.
Sua atual visita à moat-house era uma daquelas raras ocasiões, e devia-se à ação do Capitão Stanhill, o Chefe de Polícia de Sussex, que estava sentado perto dele. O Capitão Stanhill era um homem baixo e robusto, com um rosto redondo de tez corada e pernas e braços curtos e vigorosos. Ele vestia um paletó de tweed do tipo conhecido pelos alfaiates como "a sporting lounge", e suas perninhas estavam envoltas em calções e polainas de couro, que estavam salpicados de lama, como se tivesse cavalgado uma certa distância naquela manhã. Ele era um tipo muito diferente do Superintendente Merrington: um cavalheiro por nascimento e educação, um homem da igreja e um magnata do condado. Ele nunca fazia nada tão perigoso quanto pensar, mas aceitava as tradições e regras de sua raça e classe como seu guia seguro através da vida. Como a maioria dos ingleses de sua posição social, ele era dotado de inteligência apenas suficiente para permitir-lhe deslizar ao longo de seu pequeno sulco na vida com alguma medida de satisfação para si mesmo e prazer para seus vizinhos. Ele era um bom juiz de gado e cavalos, mas sobre a natureza humana ele não sabia absolutamente nada, e seu primeiro ato, ao ser informado do assassinato na moat-house, foi ligar para Scotland Yard e solicitar que enviassem um de seus funcionários mais confiáveis para investigar as circunstâncias. Em resposta a este pedido de assistência, o Superintendente Merrington, não alheio à posição e influência dos Heredith no condado, decidira investigar o caso ele mesmo e trouxera consigo dois satélites: um especialista em impressões digitais que, naquele momento, aparava as próprias unhas com um canivete enquanto olhava vagamente pela janela da biblioteca, e um fotógrafo oficial, que estava no andar de cima tirando fotografias na câmara mortuária.
Sentado perto do especialista em impressões digitais estava um oficial de polícia de meia-idade, o Inspetor Weyling, da Polícia do Condado de Sussex. Ele era um tipo de homem saturnino, com um nariz adunco, uma pele como pergaminho e uma cabeça careca em forma de pão de açúcar, encimada no topo por um tumor do tamanho de um ovo de pata. Sua atitude deferente e tom obsequioso sempre que o Superintendente Merrington decidia dirigir-lhe um comentário indicavam que ele tinha um respeito oficial adequado pela patente e posição daquele cavalheiro. O Inspetor Weyling era apenas um oficial de polícia. Ele não tinha características pessoais de espécie alguma, a menos que um hobby de criar coelhos belgas e uma crença profunda de que o Sr. Lloyd George era o maior estadista que o mundo já vira pudessem ser considerados como constituintes de um temperamento.
O quinto homem era o Detetive Caldew, que acabara de completar uma narrativa dos eventos da noite anterior para o benefício de seus colegas, mas mais especialmente para o Superintendente Merrington, em cujas mãos jazia o poder de dirigir as investigações do crime. Não fora por desejo do Detetive Caldew que o Superintendente Merrington fora trazido ao caso. Caldew pensara que, quando o inspetor do condado chegasse e encontrasse um homem de Scotland Yard no trabalho, ficaria mais do que feliz em permitir-lhe prosseguir com o caso, e não previa dificuldade em obter o consentimento de seus superiores oficiais em Scotland Yard para continuar as investigações que iniciara. Mas o Inspetor Weyling, quando notificado do crime pelo Sargento Lumbe, telefonara ao Chefe de Polícia para instruções. Este último, desconfiado da capacidade da polícia do condado em levar tal assassino atroz à justiça, implorara a ajuda de Scotland Yard, com o resultado de que o Superintendente Merrington e seus assistentes apareceram na moat-house no início da manhã diante dos olhos atônitos de Caldew, que estava dando uma caminhada no jardim da moat-house após uma noite de investigações infrutíferas.
Na chegada de Merrington, Caldew viu todas as suas belas esperanças de promoção frustradas. Ele não estava de forma alguma confiante de que Merrington lhe permitiria qualquer participação adicional nas investigações, mas tinha certeza absoluta de que, se o fizesse e o assassino fosse capturado através de seus esforços conjuntos, muito pouco do crédito caberia a ele quando um detetive tão famoso quanto Merrington estivesse ligado ao caso. Merrington cuidaria disso.
Caldew, em sua narração dos fatos do assassinato, deu ênfase à natureza misteriosa do crime, na esperança de que Merrington pudesse considerar mais sensato retornar a Londres e deixá-lo no comando do caso, em vez de arriscar um fracasso que prejudicaria grandemente sua própria reputação. Merrington ouviu-o sombriamente. Ele compreendia plenamente a difícil tarefa pela frente da polícia, e seu temperamento não melhorou em consequência.
— Aparentemente, o assassino escapou limpo sem deixar vestígios para trás? — disse ele.
— Sim.
— Nenhum sinal de qualquer arma?
— Não.
— Algo foi levado?
— Não. A Srta. Heredith diz que nada foi levado do quarto, e nada está faltando na casa.
— O motivo não foi roubo, então — observou o Capitão Stanhill.
— Pode ter sido — respondeu Merrington. — Caldew diz que o primeiro sinal do crime foi o grito da mulher assassinada. O grito foi seguido em poucos segundos pelo disparo do revólver. Se ela gritou ao ver o assassino entrar em seu quarto, ele pode muito bem ter temido interrupção e captura, e fugido sem roubar nada.
— Por que ele a assassinou, então, nesse caso? — perguntou o Capitão Stanhill.
— Para evitar identificação posterior. Muitos ladrões procedem ao assassinato por essa razão. Conheço muitos veteranos que cometeriam meia dúzia de assassinatos antes de enfrentar a perspectiva de cinco anos de prisão. Não digo que o roubo foi o motivo neste caso, mas não devemos perder de vista a possibilidade.
— Parece um caso estranho — murmurou o Inspetor Weyling distraidamente. Ele estava pensando, enquanto falava, em seus coelhos, e imaginando se sua esposa se lembraria de dar à coelha de orelhas caídas com a ninhada um pouco de leite no decorrer da manhã.
— É um caso muito triste — disse o Capitão Stanhill. — Coitada da jovem! — O Chefe de Polícia era um ser humano antes de ser um oficial de polícia, e seu rosto mostrava claramente que ele estava tomado de horror pela história do crime.
— É um caso notável, diabos! — exclamou Merrington, com sua voz retumbante. — Não me lembro de paralelo. Uma dama inglesa é assassinada em sua própria casa, com uma multidão de pessoas jantando na sala abaixo, e o assassino escapa limpo, sem deixar um rastro. Nenhuma arma, nenhuma impressão digital ou pegada, e nenhuma pista de qualquer tipo.
Caldew estivera esperando ter a oportunidade de contar a Merrington em particular sobre o pequeno objeto perdido, mas percebeu que não estava fazendo seu dever ao atrasar a explicação.
— Havia algo que poderia ter nos ajudado como pista — disse ele. — Ontem à noite, enquanto eu examinava o quarto da Sra. Heredith, vi um pequeno objeto no chão perto da cabeceira da cama.
— Que tipo de objeto? — perguntou Merrington.
— Um pequeno broche de barra.
— Onde está ele?
— Não sei — respondeu Caldew desajeitadamente. — Deixei-o onde o vi, escondido no tapete, pensando ser possível que a pessoa que o perdera pudesse retornar em busca dele, mas, enquanto eu estava lá embaixo, ele desapareceu.
— É bastante estranho — disse Merrington pensativo. — Não estou inclinado a pensar que haja algo nisso que possa nos ajudar — acrescentou ele, após um momento de reflexão. — Ainda assim, vou verificar mais tarde. Por que você deixou o objeto no quarto, Caldew?
— Pensei ser possível que, se o dono tivesse algo a ver com o crime, ele — ou ela — pudesse retornar por ele — disse Caldew. — Então deixei-o onde o encontrei e observei o quarto do fim do corredor.
— Um assassino não anda por aí usando um objeto barato e, se o fizesse, não arriscaria o pescoço voltando para procurá-lo. É mais provável que o broche tenha sido deixado cair por uma das criadas, que o pegou de volta.
— Uma moça iria a um quarto onde havia um cadáver?
— Uma camponesa iria. As mulheres do campo inglesas têm nervos muito fortes. Você deveria saber disso. Mas por que você saiu do quarto se esperava que o dono do objeto retornasse em busca dele?
— Fui chamado lá embaixo para ver o Sr. Musard. Uma porta externa sem uso, que geralmente é mantida trancada, foi descoberta destrancada pelo mordomo antes que o assassinato fosse cometido. Como a porta dá para uma escadaria que leva à ala esquerda, o Sr. Musard achou que a descoberta do mordomo tinha alguma relação com o crime.
— Ele achou que o assassino pode ter entrado na casa por ali? Tal teoria sugeriria que um dos criados está implicado.
— Sim; mas não concordo com o Sr. Musard.
— Qual é a sua própria opinião?
— Acho que a chave deve ter sido deixada na porta por um dos criados — talvez há alguns dias. O fato de o mordomo ter trancado a porta quando a encontrou destrancada não impediu o assassinato de ser cometido, ou o assassino de escapar depois.
— O assassino pode ter entrado pela porta antes que o mordomo descobrisse que ela estava destrancada, e então se escondido dentro da casa esperando uma oportunidade para cometer o crime.
— Nesse caso, ele teria tentado escapar pelo mesmo caminho, mas é muito certo que ele não o fez. O Sr. Musard diz que a escadaria foi o primeiro lugar a ser revistado quando os convidados subiram correndo. Se o assassino tivesse ido por ali, ele teria encontrado a porta na parte inferior trancada e a chave removida, e ele deve ter sido pego antes que pudesse voltar para o andar de cima.
— Há sentido nisso — disse Merrington. — Mas como você explica a porta estar destrancada em primeira instância?
— Os criados sabem onde a chave é mantida. Uma das criadas pode tê-la pegado para sair da casa por ali para um encontro com um namorado e esquecido tudo sobre isso quando retornou. A escadaria e a entrada dos fundos nunca são usadas pelos membros da casa, e a chave, que ficava dentro da porta, pode ter estado lá por dias sem ser notada. Tufnell admite que foi apenas por acaso que ele tentou a porta ontem. Ele não a tentava há semanas.
— Vou dar uma olhada nessa porta mais tarde. E agora, é melhor começarmos a trabalhar. Temos que pegar esse assassino bem rápido, ou a imprensa e o público estarão de armas em punho. Ele já teve uma vantagem longa demais. Você deve se preparar para uma considerável indignação pública sobre isso, Caldew.
— Não vejo como posso ser considerado responsável pelo assassino escapar — disse Caldew, em um tom ressentido. — Ele teve sua vantagem antes de eu chegar. Fiz tudo o que pude. Revistei a casa por dentro e por fora, e o Sargento Lumbe tem vasculhado o campo desde o amanhecer procurando por personagens suspeitos.
— Não estou culpando você, Caldew — respondeu Merrington, mas sua voz sugeria o oposto de suas palavras. — Estou apenas apontando para você a maneira como o público britânico verá isso. Eles dirão: "Aqui está uma jovem esposa assassinada no seio de seu lar e família, e o assassino escapa direto. Pelo que pagamos a força policial? Para deixar assassinos escaparem?" Marque minhas palavras, se não colocarmos as mãos nesse sujeito rapidamente, teremos toda a imprensa de Londres uivando em nossos calcanhares como uma alcateia de lobos. Meia dúzia de repórteres especiais viajaram no trem comigo e me importunaram com perguntas durante todo o caminho. Eles virão aqui mais tarde por uma declaração para as edições da tarde. Mas não se importe com os jornalistas; vamos trabalhar sem mais perda de tempo. Você fez uma lista de todos os convidados que têm estado hospedados na casa?
— Ainda não. Aqui está um esboço da planta do interior da moat-house e dos terrenos, que pode ser útil.
— Obrigado. É melhor você preparar uma lista dos convidados antes que eles partam. Eles certamente sairão o mais rápido possível, e talvez precisemos entrevistar alguns deles mais tarde. Agora, é melhor darmos uma olhada no corpo.
Eles subiram para o quarto. Lá, encontraram um jovem, com um rosto cheio de sardas e nariz arrebitado, embalando um aparelho fotográfico. Ele era o fotógrafo, e estivera tirando fotografias do cadáver.
— Terminou? — indagou Merrington. — Está certo. Então você e Freeling devem retornar a Londres no próximo trem; vocês serão necessários naquele caso de Putney.
O fotógrafo e o especialista em impressões digitais deixaram o quarto juntos, e Merrington caminhou até a cama. Ele afastou o lençol que cobria a moça morta e debruçou-se sobre o corpo, examinando-o de perto, mas sem tocá-lo.
— O cadáver não foi movido, suponho? — comentou ele para Caldew, que estava parado ao seu lado.
— Não desde que cheguei. Mas ela pode não ter sido baleada nessa posição. Ela viveu alguns minutos depois e pode ter se movido levemente; não muito, eu diria, pois não há marcas de manchas de sangue em nenhuma outra parte da cama.
Merrington assentiu. Ele estava olhando para o ferimento de bala, que era claramente visível através de um orifício queimado no roupão que a moça morta estava usando. O ferimento era um buraco circular perfurado no seio esquerdo, menor que o tamanho de uma moeda de seis pence.
— O ferimento foi lavado — observou ele. — Isso foi feito pelo cirurgião policial?
— O cirurgião policial não esteve aqui. O cadáver foi examinado pelo médico da aldeia, Dr. Holmes.
— Eu gostaria de vê-lo. Onde ele pode ser encontrado?
— Ele estará aqui no decorrer da manhã. Ele está atendendo o jovem Heredith, que está sofrendo de choque. O médico teme febre cerebral.
— Quando ele vier, quero vê-lo. É inútil especular sobre a causa da morte na ausência de um médico. A morte neste caso parece ter sido devida a hemorragia. Aparentemente, o assassino visou o coração e errou, e o tiro atravessou os pulmões. O tiro foi disparado a uma distância muito curta também; veja como o roupão está queimado! Algum sinal da bala, Caldew?
— Não encontrei nenhum.
— Bem, teremos que esperar pelo médico para esclarecer esses pontos.
Seus olhos treinados varreram o quarto, avaliando cada artigo nele. Ele então examinou cuidadosamente a porta e a fechadura.
— A porta estava aberta quando os outros subiram, você disse, Caldew?
— Sim; cerca de metade aberta.
— Isso explica o grito e o disparo serem ouvidos tão claramente lá embaixo. Também sugere que o assassino fugiu muito apressadamente, deixando a porta aberta atrás de si.
— Parece-me mais provável que ele tenha escapado pela janela, mesmo que não tenha entrado por ela. A Srta. Heredith, que foi a última integrante da casa a ver a Sra. Heredith viva, acha que a janela estava fechada quando ela esteve no quarto antes do jantar.
Merrington caminhou até a janela e examinou-a, testando a fechadura e olhando para o peitoril.
— A Srta. Heredith diz que a janela estava trancada, ou apenas fechada, quando ela esteve no quarto? — perguntou ele.
— Ela não pode dizer definitivamente. Ela acha que estava fechada porque o ar estava pesado, e ela sabia que a Sra. Heredith não gostava de ter a janela do quarto aberta.
Merrington encolheu os ombros com desdém.
— Os caprichos de uma mulher não são muito para se construir uma teoria — disse ele. — Você tem alguma outra razão para pensar que o assassino pode ter escapado por esta janela?
— Sim. Depois que o tiro foi disparado, os convidados subiram correndo imediatamente, e o assassino teria corrido de encontro a eles se tivesse tentado escapar descendo as escadas.
— Não há outro meio de escape da ala exceto pela escadaria?
— Há a escadaria dos fundos que lhe falei, no fim do corredor. Essa escadaria nunca é usada. A porta é mantida trancada, e a chave fica pendurada em um quarto lá embaixo. Foi a porta na parte inferior dessa escadaria que foi encontrada destrancada pelo mordomo ontem à noite.
— Vou dar uma olhada nela, e então desceremos. Quero ver essa janela do quarto por fora.
Eles deixaram o quarto e seguiram para o fim do corredor, onde Caldew apontou a porta no topo da escadaria. Merrington abriu-a e desceu os degraus. Ele reapareceu após alguns minutos com as mãos empoeiradas e teias de aranha nas roupas.
— O assassino não entrou por ali — disse ele. — À primeira vista, parece uma teoria plausível sugerir que ele entrou pela porta trancada e se escondeu em algum lugar nesta ala, e escapou após cometer o assassinato pulando pela janela do quarto. Mas é impossível superar seu ponto de que, se ele tivesse entrado pela porta, ele teria tentado escapar pelo mesmo meio, não sabendo que a porta fora trancada nesse meio tempo. Para fazer isso, ele teria que atravessar o corredor duas vezes e descer e subir essas escadas dos fundos enquanto os convidados estavam subindo as outras escadas. Ele não poderia ter feito isso no tempo. Ele teria sido pego; cortado antes que pudesse voltar. Olhe para este lance íngreme de escadas e o comprimento do corredor! Isso descarta o incidente da porta. Quem quer que a tenha destrancado não foi o assassino.
Merrington refez seus passos pelo corredor. Enquanto caminhava, seus olhos vagavam inquietos pelas tapeçarias e cortinas de veludo, e absorviam os cantos escuros que abundam nas antigas casas de campo inglesas.
— Muitos lugares aqui onde um homem poderia se esconder — murmurou ele, com uma voz insatisfeita.
No topo da escadaria da frente, ele parou e olhou sobre os balaústres, como se calculasse a distância até o saguão lá embaixo. Então, ele desceu as escadas.
Ainda faltava meia hora para a hora do café da manhã. Não havia sinal de ninguém se movendo lá embaixo, exceto uma criada de rosto fresco, que estava espanando os móveis no grande saguão. Ela olhou nervosamente para os grupos de oficiais de polícia e depois retomou sua tarefa. Merrington caminhou até ela.
— Qual é o seu nome, minha querida? — perguntou ele, com sua voz potente.
— Milly Saker, senhor.
— Muito bem, Milly. Virei conversar com você daqui a pouco; apenas nós dois.
A moça, longe de parecer encantada com essa perspectiva, recuou com um rosto assustado. Merrington seguiu em frente pela porta da frente aberta e virou-se para a ala esquerda.
"Sim, senhor", respondeu a governanta. "Ela trabalha como camareira aqui há seis meses."
Merrington anotou o fato em seu caderno. "Onde ela está agora? Gostaria de vê-la também."
"Ela está no andar de cima, senhor, ajudando a arrumar os quartos."
"Muito bem. Mande-a vir até aqui quando terminar."
Mrs. Rath saiu da biblioteca com um passo apressado, e Merrington, voltando-se para o Capitão Stanhill, soltou um suspiro de frustração.
"Não estamos chegando a lugar nenhum", disse ele, com um tom de voz que não admitia contestação. "O crime foi cometido por alguém que conhecia muito bem a disposição da casa, e não me convence a ideia de que ninguém tenha visto ou ouvido algo suspeito além do que foi relatado. Há um elemento de mistério em todo esse caso que me irrita profundamente."
"Talvez seja melhor dar uma pausa e almoçar", sugeriu o Capitão Stanhill. "O senhor está trabalhando sem parar desde o amanhecer."
"Almoço? Não tenho tempo para almoços. O tempo é o fator principal em um caso como este. Quanto mais demoramos, mais chances o assassino tem de destruir provas ou fabricar álibis. Além disso, precisamos tirar essas pessoas daqui antes que comecem a se dispersar."
No momento em que falava, a porta se abriu e Caldew entrou, com um semblante grave.
"Consegui conversar com a maioria dos convidados", informou ele. "Ninguém parece saber nada que possa nos ajudar. Todos estão, naturalmente, muito chocados com o que aconteceu, mas seus depoimentos corroboram o que já sabíamos: estavam todos na sala de jantar no momento fatídico."
Merrington lançou-lhe um olhar penetrante. "E o que achou deles? Algum pareceu suspeito? Algum demonstrou um nervosismo excessivo, além do esperado?"
Caldew hesitou. "Não diria suspeito. Estão todos muito abalados. A Sra. Weyne, em particular, pareceu muito aflita. Ela conhecia a vítima desde os tempos de Londres, como a Srta. Heredith mencionou."
"A Sra. Weyne", repetiu Merrington, com um brilho nos olhos. "Sim, essa pode ser uma pista. Onde ela está agora?"
"Acredito que esteja em seu quarto", respondeu Caldew.
"Vá buscá-la. Quero falar com ela imediatamente."
Caldew saiu, e Merrington voltou sua atenção para o mapa da casa, tamborilando os dedos sobre o papel. O Capitão Stanhill observava-o em silêncio, sentindo-se cada vez mais um intruso em seu próprio território. A agudeza de Merrington, embora eficaz em certas ocasiões, tornava o ambiente insuportavelmente tenso.
Pouco depois, a porta se abriu novamente, revelando uma mulher de traços delicados e expressão visivelmente perturbada. Era a Sra. Weyne. Ela entrou na biblioteca com uma hesitação quase imperceptível, os olhos marejados de uma tristeza que parecia autêntica demais para ser fingida.
"A Sra. Weyne?" perguntou Merrington, sem se levantar, mantendo o olhar fixo nela.
"Sim", respondeu ela em um sussurro.
"Sente-se, por favor. Tenho apenas algumas perguntas a fazer sobre a falecida Sra. Heredith. Acredito que a senhora possa nos esclarecer alguns pontos que permanecem obscuros."
A Sra. Weyne sentou-se na cadeira indicada, apertando um lenço entre as mãos. A atmosfera na biblioteca tornara-se pesada, carregada pela expectativa daquela investigação que, embora necessária, parecia despir a dor do luto de qualquer dignidade. Merrington, com sua impaciência habitual, não esperou que ela se acomodasse completamente para iniciar seu interrogatório.
"Oh, não. Ela veio me ver ontem à tarde e passou a noite toda, pois perdeu o trem de volta depois... depois da tragédia."
"Ela está aqui agora?"
"Não. Ela partiu num trem cedo. Ela trabalha como modista em Stading, a cidade comercial que fica a dezesseis quilômetros daqui."
"Ela mora lá, suponho?"
"Sim. Ela mora no local."
"Quem é o patrão dela?"
"O Sr. Closeby, o tecelão. Daniel Closeby e Filho é o nome da firma."
Merrington fez outra anotação em seu caderno. Parecia plausível o suficiente, mas a garota deveria ser adicionada à lista crescente de pessoas no caso que teriam de ser vistas.
"Acho que é só isso que preciso da senhora, Sra. Rath", disse ele.
A governanta hesitou para perguntar a que horas os senhores gostariam de almoçar. Merrington, que tomara café cedo e passara por uma manhã árdua, respondeu secamente que não poderia ser cedo demais para agradá-lo.
"Servirei na pequena sala de café da manhã em quinze minutos", disse a Sra. Rath, apressando-se em sair.
Todo o seu comportamento, ao partir, indicava um ar de alívio irreprimível por ter passado por uma provação difícil, de modo que todas as dúvidas anteriores de Merrington sobre ela renasceram.
"Eu daria qualquer coisa para lembrar onde já vi essa mulher infernal antes", exclamou ele, batendo na coxa enfaticamente.
"Que mulher infernal?", perguntou o Capitão Stanhill, que chegara à conclusão de que não gostava do Superintendente Merrington nem de seu estilo de conversa.
"Ora, aquela mulher que acabou de sair da sala — aquela governanta. Já a vi em algum lugar antes, em circunstâncias muito diferentes, mas não consigo me lembrar onde. Lembro-me do rosto dela distintamente — particularmente dos olhos. Gabo-me de nunca esquecer um par de olhos. Maldito seja, onde diabos a vi?"
O Capitão Stanhill virou-se com indiferença, e a conversa foi encerrada pelo aparecimento do Detetive Caldew, que surgiu na porta quando a Sra. Rath deixou a sala.
"O Dr. Holmes está esperando na sala de estar, se o senhor quiser vê-lo", anunciou ele.
"Traga-o aqui", ordenou Merrington bruscamente. Ele tinha uma grande noção de sua própria importância e não tinha a menor intenção de ficar à disposição de um simples médico do interior.
Caldew saiu e reapareceu pouco depois com um homenzinho a quem apresentou como Dr. Holmes. O médico era um camarão de humanidade, magro, com uma expressão rabugenta no rosto murcho, como se estivesse entediado com a sua própria insignificância. Estava vestido com roupas desbotadas e carregava uma pequena bolsa preta em uma mão e um chapéu gasto na outra. Se ele tinha alguma ideia de manifestar um protesto profissional por ser obrigado a atender à polícia, o pensamento desapareceu quando seus olhos avistaram a estatura estupenda do Superintendente Merrington, que se erguia acima dele como um mastim sobre um terrier de brinquedo.
"Sente-se, doutor", ordenou ele secamente. "Quero lhe fazer algumas perguntas sobre a morte da Sra. Heredith. O senhor examinou o corpo, creio eu?"
O Dr. Holmes fez uma reverência, colocou um par de óculos de aro dourado para ver melhor o Superintendente Merrington e esperou ser questionado.
"Entendo que o senhor foi chamado à moat-house ontem à noite, doutor, após a Sra. Heredith ter sido assassinada, e examinou o corpo. Qual foi a causa da morte?"
"A causa da morte foi um ferimento por bala", pronunciou o médico de forma oracular.
"Estou ciente disso", respondeu Merrington, irritado. "Mas um ferimento por bala não é necessariamente fatal. A Sra. Heredith viveu algum tempo após o disparo, então é certo que a bala que a matou não atingiu o coração. Qual é a natureza dos ferimentos causados?"
"A morte, no caso da Sra. Heredith, foi resultado de uma bala que atravessou o pulmão esquerdo. Passou entre a segunda e a terceira costelas ao entrar no corpo, atravessou o pulmão, causando um grande fluxo de sangue, que preencheu as vias aéreas."
"Então a causa da morte foi hemorragia?"
"Sim. Houve uma hemorragia interna muito grave. O rosto e o lado esquerdo do pescoço estavam cobertos de sangue. Também houve sangramento pela boca e pelo nariz. O Sr. Musard, que me acompanhou até o quarto, disse-me que o havia limpado enquanto a Sra. Heredith morria, na tentativa de estancar o fluxo."
"Ela já estava morta quando o senhor a viu?"
"Oh, sim. Julgando pelo calor do corpo e pelo fato de que o sangue havia parado de fluir, diria que a morte ocorrera cerca de quarenta minutos antes."
"A que horas o senhor chegou à moat-house?"
"Deveria ser cerca de oito e vinte. O Sargento Lumbe chamou em minha casa às oito e dez — anotei a hora — e fui imediatamente. São cerca de dez minutos de caminhada da vila até a moat-house."
"O principal vaso sanguíneo do pulmão foi rompido?", perguntou o Capitão Stanhill, que vinha acompanhando as observações do médico com atenção.
"A aorta? É difícil dizer por um exame externo. O Sr. Musard me diz que a Sra. Heredith morreu cerca de cinco minutos depois que ele chegou ao quarto. A aorta é um vaso muito grande e, se tivesse se rompido, a morte por hemorragia seria muito rápida."
"O ferimento poderia ter sido autoinfligido?", perguntou Merrington.
O Dr. Holmes franziu os lábios.
"Não posso formar uma opinião definitiva sobre esse ponto", disse ele. "Pela trajetória da bala, eu diria que não."
"Vocês encontraram a bala?"
"Não, ela está no corpo. Como aparentemente ela seguiu uma trajetória em direção à direita após entrar no corpo, e não há ferimento correspondente nas costas, diria que está alojada em algum lugar na coluna vertebral. É claro que não posso ter certeza."
"O patologista do Governo esclarecerá esses pontos quando realizar a autópsia", disse Merrington. "Não creio que tenhamos mais perguntas a lhe fazer, doutor."
"Como está o seu paciente, o jovem marido?", perguntou o Capitão Stanhill, enquanto o Dr. Holmes se levantava.
"Os sintomas apontam para febre cerebral. A família, sob meu conselho, enviou a Londres um chamado para Sir Ralph Horton, o eminente especialista em cérebro."
"Não me admira que sua mente tenha cedido ao choque", observou o Capitão Stanhill. "Perder a esposa em circunstâncias tão terríveis após três meses de casamento deve ter sido um golpe cruel."
"Foi pior no caso dele porque ele sempre foi nervoso e tenso desde a infância — parcialmente, penso, como resultado de sua enfermidade. Ele tem um pé deformado. Sua doença atual parece ser um colapso completo do sistema nervoso. Estive com ele a maior parte da noite. Ele esteve altamente delirante, mas agora está um pouco mais calmo."
Merrington aguçou os ouvidos a esta última observação. Após suas investigações infrutíferas da manhã, ele estava inclinado a pensar que a chave para o assassinato estava no passado — talvez em alguma loucura antiga ou intriga secreta dos dias de solteira da jovem esposa. A questão era, nesse caso, se o marido teria conhecimento do segredo de sua esposa. Se tivesse, ele poderia, em seu delírio, balbuciar algo que fornecesse uma pista para encontrar o assassino. Era uma chance pequena, mas a menor das chances valia a pena ser tentada em um caso tão desconcertante.
"Gostaria de dar uma olhada no seu paciente", disse ele ao Dr. Holmes.
"Seria impossível questioná-lo em seu estado atual", respondeu o médico rigidamente.
"Não desejo questioná-lo. Apenas desejo vê-lo."
"Nesse caso, o senhor pode vê-lo. Ele está completamente inconsciente e não reconhece ninguém. Vou levá-lo ao quarto dele, se desejar."
O pequeno médico apressou-se pelo corredor e virou em uma passagem que atravessava a ala direita da moat-house. No meio do caminho, ele parou diante de uma porta, que abriu suavemente, e sinalizou para os outros dois entrarem.
Era um quarto individual, com painéis de carvalho escurecidos pela idade, com uma pequena janela; mas tinha a vantagem de ser o mais longe possível do quarto no andar de cima, na ala esquerda, onde a esposa de Phil jazia assassinada. Um pequeno fogo ardia na lareira, uma tigela de porcelana com flores de outono florescia sobre uma mesa perto da cabeceira, e uma enfermeira com ar competente estava preparando uma poção perto da janela. Ela olhou para os três homens enquanto entravam, mas continuou com sua ocupação.
O homem doente estava deitado de costas, respirando pesadamente. Seu cabelo preto emoldurava um rosto que era medonho em sua palidez, e seus olhos voltados para cima, mal visíveis sob as pálpebras semicerradas, pareciam fixos e imóveis.
"Alguma mudança, enfermeira?", o médico perguntou.
"Nenhuma mudança, senhor."
Mas, mesmo enquanto ela falava, o rosto de Phil mudou de uma maneira surpreendente em sua rapidez. Suas feições contorceram-se, como se uma espada tivesse sido cravada em suas entranhas, e ele lutou para ficar ereto na cama, com uma mão trêmula estendida. Seus olhos, brilhando de delírio, vagavam inquietos sobre os rostos dos homens ao pé da cama.
"Ela está morta, eu lhes digo! Violet está morta... Eles o encontraram? Ah, quem é aquele?"
Mais uma vez ele pronunciou o nome de sua jovem esposa e caiu de volta no travesseiro, imóvel como antes, mas com um braço cruzado sobre o rosto, como se para cobrir os olhos.
"Ficarei grato se puderem sair do quarto", disse o pequeno médico gravemente. "Sua presença o excita." Ele se apurou para o lado da cama e curvou-se sobre seu paciente.
CAPÍTULO IX
"O senhor já formou alguma teoria sobre o assassinato?"
Era a noite do mesmo dia, e o Superintendente Merrington e o Capitão Stanhill estavam mais uma vez na biblioteca da moat-house. Foi o Capitão Stanhill quem fez a pergunta, enquanto estava de pé, aquecendo suas pequenas pernas diante de uma crepitante lareira de toras de carvalho que acabara de ser acesa nas profundezas sombrias da grande lareira. Embora fosse início de outono, o ar da noite estava frio.
O Superintendente Merrington caminhava de um lado para o outro da sala com passos rápidos, olhando ocasionalmente com certa impaciência para o relógio que tiquetaqueava com alegre indiferença sobre a lareira. Ele estava prestes a retornar a Londres, mas esperava o retorno do Detetive Caldew e do Sargento Lumbe. Caldew tinha ido de bicicleta a Chidelham para ver os Weyne, e Lumbe fora enviado para investigar um relatório por telefone sobre um estranho suspeito visto em um povoado chamado Tibblestone, a alguns quilômetros de distância.
O rosto de Merrington exibia uma expressão sombria e insatisfeita. Ele passara a tarde em um turbilhão de energia no qual fizera muitas coisas. Explorara a moat-house de cima a baixo, espremendo seu vasto volume em cada canto obscuro do velho lugar labiríntico. Remara ao redor do fosso em um pequeno barco, examinando a parede externa em busca de pegadas. Reunira os criados homens e supervisionara uma batida organizada nos terrenos, nos bosques e nas elevações vizinhas. Entrevistara o chefe da estação da vila para verificar se algum estranho chegara a Heredith no dia anterior e fizera perguntas semelhantes por telefone nas estações adjacentes. Inspecionara os cavalos e veículos na estalagem da vila para ver se apresentavam marcas de uso recente, e interrogara peremptoriamente todos com quem se cruzara para descobrir se alguém desconhecido no distrito fora visto esgueirando-se pelo bairro.
Merrington carecia do cérebro sutil e penetrante de um detetive realmente grande, mas possuía energia, iniciativa e observação. Essas qualidades tinham-lhe sido úteis antes, mas, neste caso, não tinham trazido nada à luz. O mistério e o significado do terrível assassinato da noite anterior não estavam mais perto de serem solucionados do que quando ele chegara para assumir o caso, dez horas antes.
O aspecto mais desconcertante do crime para ele era a aparente falta de motivo e a ausência de qualquer pista. Na maioria dos assassinatos, geralmente existem algumas pistas presumíveis para orientar aqueles chamados a investigar o crime — coisas como impressões digitais ou pegadas, uma ameaça ou admissão anterior, uma conversa ouvida, uma palavra casual ou uma carta comprometedora. Tais pistas podem não provar muito por si mesmas, mas servem como marcos. Até mesmo o tempo, que em alguns casos de assassinato oferece uma ajuda valiosa para a solução, neste caso tendia a proteger o assassino. Parecia que o assassino havia escolhido um momento incomum e condições incomuns para proteger sua identidade mais completamente e tornar a descoberta impossível.
O caso estava cheio de possibilidades e perplexidades sinistras. Tinha o selo de profunda premeditação e habilidade calculada. Como o crime era aparentemente sem motivo, era certo que o motivo era profundo e cuidadosamente oculto. A única conclusão definitiva a que Merrington chegara era que o assassino teria de ser procurado mais longe, provavelmente em Londres, onde a garota morta vivera toda a sua vida. Não parecia haver a menor razão para suspeitar de ninguém na vizinhança, já que ela era uma estranha no distrito e não conhecia ninguém nele, exceto a Sra. Weyne, que vivia a alguns quilômetros de distância. Era lamentável que seu marido, que era a única pessoa capaz de dar qualquer informação sobre sua vida anterior, estivesse doente demais para ser questionado.
Ao ouvir a pergunta do Capitão Stanhill, Merrington parou abruptamente em seu andar impaciente pelo tapete e olhou para ele furtivamente com seus olhos pequenos e profundos. Se ele tivesse consultado seus próprios sentimentos, teria dito ao Chefe de Polícia que não era o momento para expor teorias sobre o crime. Mas em sua posição atual, cabia-lhe caminhar com cautela e não fazer de seu colega um inimigo. Se houvesse uma explosão de indignação pública porque o assassino neste caso não fora descoberto imediatamente e levado à justiça, seria bom que a polícia do condado compartilhasse o peso da responsabilidade. Merrington percebeu que poderia fazer o Capitão Stanhill sentir melhor sua responsabilidade ao torná-lo plenamente confidente. Ele estava ciente de que praticamente ignorara o Chefe de Polícia durante as investigações do dia, e era desejável remover qualquer sentimento que esse tratamento pudesse ter causado. O Superintendente Merrington tinha o maior desprezo pela polícia do condado, mas havia momentos em que era sensato dissimular esse sentimento. O momento atual era um deles.
O Capitão Stanhill, por sua vez, não nutria animosidade contra seu companheiro por seu tratamento arrogante. Ele percebia sua própria inexperiência na detecção de crimes e estava bastante disposto a que o Superintendente Merrington assumisse a liderança nas investigações, as quais ele ajudara o melhor que pôde. Ele achava Merrington um tipo bastante desagradável, mas estava intimidado por sua grande reputação como detetive e impressionado por sua energia e maciça autoconfiança. O Chefe de Polícia não afirmara sua própria posição oficial porque sabia que não era capaz de dar ajuda competente em um caso tão desconcertante. Ele estava, acima de tudo, ansioso para que o assassino de Violet Heredith fosse capturado e levado à justiça o mais rápido possível, e não pensava em sua dignidade pessoal, desde que esse objetivo fosse alcançado.
O ideal abstrato da justiça humana deveria basear-se nos três objetivos de punição, prevenção e reforma, mas o coração do homem comum, quando confrontado por um erro grave, não é movido por nenhum impulso mais elevado do que a retribuição imediata ao malfeitor. O Capitão Stanhill era um homem comum, e seus sentimentos, atormentados pelo espetáculo do cadáver sangrento da jovem esposa e pela condição lamentável à qual seu assassinato reduzira seu jovem marido, clamavam por retribuição, rápida, completa e implacável, sobre o ser que cometera este crime horrível. E ele esperava que o famoso detetive pudesse assegurar-lhe que seu desejo teria provavelmente uma realização rápida. Foi por isso que perguntou a Merrington se ele havia formado alguma teoria sobre o crime.
"Seria demais dizer que formei uma teoria", respondeu Merrington, em resposta à pergunta do Capitão Stanhill. "É necessário ter pistas para a formação de uma teoria, e neste caso estamos diante de uma ausência total de pistas."
"O senhor não acha que a joia encontrada pelo Detetive Caldew no quarto da Sra. Heredith tem alguma relação com o assassinato?", disse o Capitão Stanhill.
"Não atribuo importância a ela. Havia várias pessoas no quarto depois que o assassinato foi cometido, e qualquer uma delas poderia ter deixado cair o adorno. Ou pode ter sido perdido lá dias antes por um criado e passado despercebido."
"Mas foi recolhido novamente durante a ausência de Caldew do quarto. O senhor não considera isso suspeito? O Detetive Caldew, quando estava nos relatando o incidente esta manhã, parecia pensar que a joia pertencia ao assassino, que correu o risco de voltar ao quarto para recuperá-la por medo de que pudesse formar uma pista levando à descoberta."
"Caldew lê demais em sua descoberta", respondeu Merrington, com um sorriso condescendente. "Como todos os jovens detetives, ele está inclinado a atribuir importância indevida a pequenos pontos. Como eu disse a ele, não consigo imaginar um assassino correndo um risco tão desesperado como o de voltar ao local onde matou sua vítima, a fim de procurar uma joia que ele deixou cair. Caldew pode ter escondido o broche tão efetivamente nas espessas dobras do tapete de veludo que não conseguiu encontrá-lo novamente quando o procurou ao retornar ao quarto. Essa explicação me parece tão provável quanto sua própria teoria de um misterioso intruso da meia-noite voltando para procurá-la enquanto ele estava fora da sala. A joia pode ter alguma conexão com o crime, ou não, mas como não a vi, prefiro deixá-la fora do meu cálculo completamente. Este caso será difícil o suficiente de resolver sem perseguir quimeras. Mas para retornar à sua pergunta. Embora eu não tenha realmente formado uma teoria, minhas investigações preliminares das circunstâncias me levaram a chegar a certas conclusões e a excluir possibilidades que eu estava inicialmente inclinado a adotar. Vou revisar o caso em detalhes, e então você verá por si mesmo as conclusões que formei e entenderá como cheguei a elas.
"Em primeiro lugar, o maior problema deste assassinato é a aparente falta de motivo. Parece não haver razão para que esta jovem senhora tenha sido morta. Ela tinha acabado de se casar, e, aparentemente, casara-se feliz, com um jovem rico de boa família, que estava muito apaixonado por ela. É óbvio que dificuldades financeiras não têm nada a ver com o crime. Seu marido é o único filho de um pai rico, e ele é capaz de dar à sua esposa tudo o que uma mulher precisa para sua felicidade e conforto. Ela é acarinhada, mimada e amada, e tem um lar lindo. Quem, portanto, tinha o objetivo de pôr fim à vida desta jovem mulher em sua própria casa, em circunstâncias e condições atendidas com a máxima possibilidade de descoberta e captura? O perpetrador do ato deve ter agido por algum motivo ou impulso muito forte para se aventurar em uma casa de campo cheia de pessoas, em um momento em que todos estavam dentro de casa, a fim de matar sua vítima.
"Em um assassinato aparentemente sem propósito como este, uma certa quantidade de suspeita recai sobre os outros membros da casa. Sendo a natureza humana o que é, nunca se deve tomar nada como garantido, mas deve-se estar sempre atento a motivos ocultos. Mas neste caso, os membros da casa, com exceção da Srta. Heredith, estavam lá embaixo na sala de jantar no momento em que o assassinato foi cometido. A Srta. Heredith deixou a sala alguns minutos antes de o tiro ser ouvido. Você se lembrará que ela voluntariamente nos fez essa declaração esta manhã. Ocorreu-me na época que isso poderia ter sido um blefe para nos tirar da pista. Criminosos inteligentes costumam fazer esse tipo de coisa. Minhas suspeitas contra ela foram fortalecidas pelo fato adicional de que a Srta. Heredith não gostava da esposa de seu sobrinho. Ela mascarava o fato sob uma aparência bem-educada de tristeza e horror, mas era claro como o dia para mim. Mas, depois de pensar sobre todas as circunstâncias, cheguei à conclusão de que ela não teve absolutamente nada a ver com isso."
"Tal possibilidade é inconcebível", exclamou o Capitão Stanhill. "Uma senhora como a Srta. Heredith nunca cometeria um assassinato."
— Não foi por esse motivo que a excluí da suspeita — respondeu Merrington secamente. — Os pontos contra ela eram, na verdade, muito comprometedores. Ela estava fora da sala de jantar quando o grito foi ouvido e, quando os outros correram para fora da sala ao ouvirem o tiro, a primeira coisa que viram foi a Srta. Heredith descendo a escadaria da ala em que a esposa de seu sobrinho fora assassinada. Felizmente para a Srta. Heredith, ela estava quase no pé da escada quando foi vista. Os convidados saíram em tropel da sala de jantar assim que o tiro foi ouvido; portanto, é impossível que a Srta. Heredith pudesse ter atirado em Violet Heredith e chegado ao pé da escada tão rapidamente. Ela consegue estabelecer um álibi de tempo de, talvez, meio minuto.
— Como todos os membros do grupo estavam na sala de jantar naquele momento, fica claro que eles não tiveram nada a ver com a execução do crime. O próximo ponto são os criados, e eles também podem ser excluídos da suspeita. Quando os interrogamos esta manhã, todos conseguiram provar, de forma mais ou menos conclusiva, que estavam ocupados com seus vários deveres no momento em que o assassinato foi cometido. A questão é que nenhum deles estava no andar de cima, na ala esquerda da casa, quando a Sra. Heredith foi baleada.
— Minha impressão original de que o assassinato não foi cometido por um nativo da região foi aprofundada pelas investigações desta tarde. Onde, então, devemos procurar o assassino? Para responder a essa pergunta, em parte, consideremos primeiro como o assassinato foi cometido e tentemos reconstruir as circunstâncias nas quais o assassino deve ter entrado e saído da casa.
— Caldew acha que o assassino entrou na casa escalando a janela do quarto e saiu pelos mesmos meios. Ele baseia essa visão na convicção da Srta. Heredith de que a janela estava fechada quando ela esteve no quarto antes do jantar. Após o assassinato, a janela foi encontrada aberta. Mas a declaração da Srta. Heredith sobre a janela fechada não significa muita coisa. Ela não sabe, na verdade, se a janela estava aberta ou fechada, porque as cortinas estavam completamente fechadas quando ela esteve no quarto. Essas cortinas são tão grossas e pesadas que impediriam a entrada de ar, estivesse a janela aberta ou fechada, e explicam a atmosfera abafada em um quarto que fora ocupado o dia todo.
— Não considero a janela aberta como uma pista de um jeito ou de outro. A única coisa que não devemos perder de vista é que ninguém pode dizer com certeza quando ela foi aberta. Pode ter sido aberta pela própria Sra. Heredith antes que a Srta. Heredith entrasse no quarto, ou o assassino pode tê-la escancarado e escapado por ali após cometer o crime. Pessoalmente, não acho que ele tenha feito isso, mas não estou disposto a excluir totalmente a possibilidade. No entanto, estou convencido de que ele não entrou no quarto escalando a parede externa e passando pela janela. Em primeiro lugar, não há marcas de qualquer tipo no parapeito ou na trava da janela. Não há muito o que concluir com a ausência de marcas no parapeito ou mesmo na trava, supondo que a janela estivesse trancada. O assassino poderia ter aberto a trava pelo lado de fora sem deixar marca — já vi esse truque ser feito — e ele poderia ter entrado no quarto sem deixar marcas no parapeito, especialmente se estivesse usando botas de borracha. Mas, o que é muito mais importante, não há marcas na parede externa, nem qualquer perturbação ou deslocamento da trepadeira que cobre uma parte da parede, a sugerir que o assassino subiu até o quarto por ali. Acho certo que, se ele tivesse feito isso, teria deixado suas marcas em um ou outro lugar. A parede é de tijolos antigos e macios, que se arranhariam e mostrariam marcas claramente, e a trepadeira se quebraria. De qualquer modo, como disse esta manhã, ela mal sustentaria o peso de um rapaz ou de uma moça muito leve. Finalmente, não há marcas de pegadas se aproximando da parede no jardim lá fora.
— A questão da entrada é naturalmente de grande importância, e foi por isso que perguntei ao mordomo esta manhã se as persianas estavam fechadas na sala de jantar ontem à noite. Naquela época, antes que eu tivesse a oportunidade de realizar minhas investigações subsequentes, julguei possível que o assassino pudesse ter entrado pelo lado de fora, pela janela. Nesse caso, ele teria que passar pelas janelas da sala de jantar para chegar à janela do quarto e poderia ter sido visto por um dos convidados. Estaria escuro, mas a noite de ontem estava muito clara, e sua forma poderia ter sido discernida passando rapidamente pelas janelas da sala de jantar. Mas a ausência de pegadas no cascalho e, mais particularmente, na terra macia e cedente sob a janela do quarto, é uma prova conclusiva para mim de que ele não entrou no quarto por ali.
— Será que ele escapou pela janela? Essa pergunta é mais difícil de responder. É perfeitamente possível que isso pudesse ter sido feito sem ferimentos, mas é um feito desesperado saltar de uma janela do andar superior no escuro. O assassino estava em situação desesperadora e, por esse motivo, não devemos descartar a possibilidade de que o tenha feito. Mas, se o salto foi dado pela janela, meu argumento sobre a ausência de pegadas no solo macio do jardim sob a janela ganha força adicional. Uma pessoa saltando de tal altura, mesmo de meias ou botas de borracha, certamente deixaria a marca da queda, em pegadas ou marcas de calcanhar, no solo onde aterrissasse.
— A principal razão de Caldew para acreditar que o assassino escapou pela janela baseava-se no ponto de que não havia outra via de escape possível. Podemos apenas especular sobre o que aconteceu no quarto imediatamente antes do assassinato ser cometido, mas a teoria de Caldew é que a Sra. Heredith viu o assassino se aproximar e gritou por socorro. Esse grito apressou os movimentos do assassino. O grito certamente despertaria a casa e deixou o assassino com a menor margem de tempo possível para atirar na Sra. Heredith e escapar pela janela. Uma tentativa de escapar pela escadaria principal significava correr para os braços dos ocupantes da sala de jantar, que subiam as escadas. A única outra saída daquela ala da casa era a escadaria dos fundos, desativada, e ela foi encontrada trancada quando foi revistada após o crime. Portanto, segundo Caldew, o assassino escapou pela janela porque não havia outro caminho.
— Essa teoria é plausível na superfície, mas apenas na superfície. Pela mesma razão que estabelece a inocência da Srta. Heredith, o assassino não poderia ter escapado correndo pela escadaria, porque não havia tempo suficiente para passar pelas pessoas que tinham sido alarmadas pelo grito. Mas, se o assassino fosse um homem, é possível que ele pudesse ter saído disparado do quarto e saltado sobre o balaústre antes que a porta da sala de jantar fosse aberta, escapando sem ser visto por ninguém — nem mesmo pela Srta. Heredith. Um exame da escadaria da ala esquerda convenceu-me de que esse feito era possível. A escadaria tem uma curva muito acentuada no meio, o que tem o efeito de esconder o topo da escada da base, e a base do topo. O salto não é tão perigoso quanto o da janela, porque não é tão alto. Provavelmente é dois metros mais baixo, considerando o piso abaixo e a abertura da janela mais alta acima. O local ao pé da escada onde o assassino poderia ter saltado é bem protegido, até mesmo da visão de quem esteja perto da base da escada, por alguns arbustos altos em vasos e algumas armaduras.
— Mas há outra maneira, e mais provável, pela qual o assassino poderia ter escapado. Vi a possibilidade disso assim que examinei a parte superior da ala em que o assassinato fora cometido. Existem vários lugares onde o assassino poderia ter se escondido até que o acaso oferecesse a oportunidade de fuga. Ele evitaria procurar abrigo em qualquer um dos quartos adjacentes, pois perceberia que seriam revistados imediatamente após a descoberta do crime, mas há excelentes lugares temporários de ocultação atrás das tapeçarias, ou nas dobras grossas das pesadas cortinas de veludo na entrada do corredor, ou no pequeno armário ou guarda-roupa construído logo acima do topo da escada. Suponha que o assassino, após disparar o tiro, tenha corrido para o corredor com a ideia de escapar pelas escadas. Ele ouve os convidados subindo e percebe que é tarde demais. Ele instintivamente olha em volta em busca de algum lugar para se esconder, vê as cortinas e desliza para trás delas. Das dobras, ele observa os convidados passarem pelo corredor em direção ao quarto da mulher assassinada. Ele poderia tocá-los enquanto passam, mas eles não podem vê-lo. Então, enquanto todos estão reunidos ao redor da porta do quarto da Sra. Heredith, ele emerge do outro lado das cortinas, desce a escada e sai da casa sem encontrar ninguém.
— Mas todos os convidados não foram para o andar de cima — observou o Capitão Stanhill, que seguia as observações de seu companheiro com atenção. — Alguns ficaram na sala de jantar. Tufnell, o mordomo, deixou isso bem claro quando você o interrogou esta manhã.
— Sim — algumas mulheres histéricas encolhendo-se e gemendo de medo o mais longe possível da porta — retrucou Merrington com desprezo. — O mordomo deixou isso claro também.
— Mas os criados também teriam ouvido o grito e o tiro — continuou o Capitão Stanhill seriamente. — Não é provável que alguns deles estivessem reunidos perto do pé da escada, imaginando o que tinha acontecido?
— Não — respondeu Merrington. — Os criados são ainda mais covardes do que curiosos. Eles estariam assustados demais para se reunir ao pé da escada, por medo de que o assassino pudesse descer saltando e disparar outro tiro no meio deles. É possível, no entanto, que o assassino tenha permanecido escondido no andar de cima por mais tempo — talvez até que o mordomo saísse da casa para ir à aldeia chamar a polícia, e Musard levasse todos os convidados homens para baixo para fazer outra busca na casa. Ele teria, então, uma oportunidade extremamente favorável de escapar sem ser notado. É verdade que a parte superior da ala foi revistada antes desse momento, mas a busca foi conduzida por amadores que não sabiam nada sobre tal tarefa e provavelmente ignorariam os esconderijos que indiquei.
Pareceu ao Capitão Stanhill que o Superintendente Merrington, em vez de sempre adotar sua teoria de adaptar o crime às circunstâncias, às vezes corria o risco de inverter o processo.
— Pelo que você diz, parece-me que é muito difícil dizer como o assassino escapou — comentou ele.
— É ainda mais difícil dizer como o assassino, após entrar no Moat-House, encontrou o caminho para o quarto da Sra. Heredith para assassiná-la. A casa é um lugar grande e irregular, consistindo em um edifício principal e duas alas. Seria impossível para você, para mim ou para qualquer outro estranho encontrar o caminho sem conhecimento prévio do local, a menos que tivéssemos um mapa. Como, então, o assassino conseguiu? Como ele sabia que a Sra. Heredith dormia na ala esquerda? Como ele sabia que a encontraria sozinha naquela ala enquanto todos os outros estavam lá embaixo na mesa de jantar?
Novamente, pareceu ao Capitão Stanhill que os métodos de detetive de Merrington tinham a tendência de multiplicar dificuldades em vez de resolvê-las.
— Talvez ele estivesse munido de um mapa da casa — sugeriu ele.
— Isso responde apenas a um dos meus pontos. Em minha consideração sobre esse aspecto do caso, duas soluções possíveis me ocorreram. É impossível que qualquer um dos convidados tenha cometido o crime, porque estavam todos lá embaixo na hora, mas é possível que um deles tenha instigado.
— É incrível para mim que um convidado hospedado na casa de um cavalheiro possa planejar tal crime — disse o Capitão Stanhill.
— Nada é incrível no crime — respondeu Merrington. — Não tenho ilusões sobre a natureza humana. Ela é capaz de coisas muito piores do que isso. Coisas estranhas podem acontecer em uma casa de campo grande como esta, cheia de um grande grupo de jovens de ambos os sexos — flertes, intrigas e, pior ainda.
— Mas não assassinato, como regra geral — comentou o Capitão Stanhill, com um traço de sarcasmo em seu tom suave.
— Você não pode estabelecer regras gerais sobre o assassinato. Um ser humano desequilibrado, sob a influência do ódio, ciúme ou vingança, não é mais suscetível às regras da sociedade do que um tigre. Mas não creio que este crime tenha sido instigado por um dos convidados, porque, nesse caso, provavelmente teria sido planejado para ser cometido mais tarde, quando os membros do grupo estivessem na casa dos Weyne e o Moat-House fosse ocupado apenas pelos criados. Ainda assim, não pretendo perder de vista a hipótese. Outra possibilidade é que um dos criados estivesse mancomunado com o assassino. Uma terceira possibilidade é que a Sra. Heredith possa ter trazido o assassino ela mesma.
— O que você quer dizer?
— Ela pode ter tido um amante, e o amante pode tê-la assassinado.
— Oh, impossível! — O Capitão Stanhill repeliu a ideia com um gesto instintivo de repulsa. — É monstruoso supor que uma jovem esposa felizmente casada estaria mantendo uma intriga três meses após o casamento.
— Coisas mais monstruosas acontecem todos os dias — sendo a natureza humana o que é — retrucou Merrington calmamente. — Você deve se lembrar que não sabemos praticamente nada sobre ela. As pessoas que a conheciam em Londres deixaram a casa antes que pudessem ser interrogadas; a Srta. Heredith e seu irmão não têm conhecimento de seu passado; e seu marido está doente demais para nos contar qualquer coisa. Seu casamento foi aparentemente uma paixão repentina — uma paixão da parte do jovem Heredith. Até agora, temos apenas dois fatos escassos para nos guiar em nossa estimativa sobre ela, que estão contidos nas duas cartas em que o jovem Heredith anunciou seu casamento aos seus familiares. De acordo com essas declarações, ela era uma órfã que ganhava a vida como escriturária de guerra no departamento do governo em que o jovem Heredith ocupava seu cargo. Isso não nos leva muito longe. Durante sua breve vida no Moat-House, ela parece ter sido reticente sobre sua vida anterior. A Srta. Heredith não é o tipo de mulher que a teria interrogado e, aparentemente, ela não forneceu nenhuma informação. Um exame de suas caixas e de sua escrivaninha não revelou nada em termos de escritos ou correspondência para nos ajudar. Tal moça — uma moça solteira em Londres durante a guerra — pode ter tido passagens em sua vida passada das quais seu marido não sabia nada — passagens que podem ter um impacto importante em seu assassinato. Somente quando tivermos um conhecimento profundo de seus antecedentes e de sua vida passada poderemos esperar penetrar nos motivos ocultos que levaram a este assassinato. É aí, em minha opinião, que devemos buscar a pista para este estranho assassinato, e é a esse esforço que dedicarei minhas energias assim que retornar a Londres. Até que esses fatos sejam trazidos à luz, estamos apenas tateando no escuro.
CAPÍTULO X
De acordo com as instruções de Merrington, Caldew dedicou uma parte considerável da manhã buscando informações entre os convidados do Moat-House. Mas poucos deles mostraram qualquer inclinação para falar sobre o assassinato. Muitas das mulheres estavam perturbadas demais para serem vistas, e os homens claramente não tinham desejo de se envolver em um caso tão terrível dando entrevistas a detetives. Todos estavam ansiosos para ir embora o mais rápido possível, e Caldew foi forçado a prosseguir com suas perguntas entre grupos de pessoas apressadas, criados nervosos e veículos da aldeia carregados de bagagem. A maioria dos convidados que partiam respondeu às suas perguntas o mais brevemente possível e deu seus endereços em Londres com óbvia relutância; os poucos que estavam dispostos a ajudar a causa da justiça pouco puderam esclarecer sobre a vida em Londres da moça assassinada. Mesmo aqueles que a conheciam antes do casamento pareciam saber muito pouco sobre ela.
Caldew terminou suas perguntas ao meio-dia. A essa altura, a maioria dos convidados já havia partido do Moat-House e estava a caminho de Londres. O Superintendente Merrington e o Capitão Stanhill estavam na biblioteca interrogando os criados. O Sargento Lumbe tinha ido de trem para Tibblestone para verificar a história do estranho suspeito que descera naquela aldeia remota durante a noite anterior.
Faltava uma hora para o almoço, e Caldew decidiu passar o tempo fazendo algumas investigações por conta própria antes de pedalar para Chidelham à tarde para ver os Weyne.
Caldew não tinha ficado impressionado com a condução do caso por Merrington. Subordinados raramente ficam impressionados com as qualidades daqueles colocados acima deles em autoridade. Geralmente imaginam que poderiam fazer melhor se tivessem as mesmas oportunidades. Caldew não era exceção a essa regra. Parecia-lhe que Merrington carecia de sutileza e estava desconectado dos métodos modernos de investigação criminal. Ele tinha sido mimado por muito sucesso, por muitos elogios da imprensa, por muitos passeios com a Realeza. Nenhum homem poderia atuar como cão pastor da Realeza e manter a habilidade como detetive. Esse tipo de trabalho profissional era fatal para a inteligência. Merrington tinha uma grande reputação atrás de si, e seu conhecimento sobre criminosos europeus era provavelmente inigualável, mas seus métodos de investigar o assassinato no Moat-House sugeriam que ele não era mais um dos maiores detetives do mundo, se é que algum dia mereceu reconhecimento em suas fileiras. Caldew recordava que sua fama repousava principalmente em sua ampla experiência, em vez de nos métodos dedutivos mais sutis da criminologia moderna. Dizia-se na Scotland Yard que, quando Merrington estava no auge de sua reputação, vinte anos antes, seu conhecimento sobre os criminosos de Londres e seus métodos era tão extenso que ele poderia, na maioria dos casos, identificar o criminoso apenas olhando para o seu trabalho.
Como criminologista moderno, Caldew acreditava que quanto menos um detetive intrudisse sua própria personalidade em suas investigações, melhor para suas chances de sucesso. Ele não achava que o oficialismo ruidoso de Merrington fosse capaz de resolver um crime tão profundo e sutil quanto o assassinato de Violet Heredith e, consequentemente, ele tinha a chance pela qual esperara tanto tempo. Restava-lhe agora provar que poderia fazer melhor do que Merrington. Ele tinha confiança suficiente em suas próprias habilidades para acolher a oportunidade, mas, ao mesmo tempo, acreditava que estava diante de um crime que exigiria todos os seus recursos como detetive para ser desvendado.
Como Merrington, ele tinha ficado impressionado com a estranheza do assassinato. Todas as circunstâncias eram incomuns e totalmente fora de sua experiência anterior com grandes crimes. Ele também chegara à conclusão de que a facilidade com que o assassino encontrara o caminho para o Moat-House e, posteriormente, escapara, apontava para um conhecimento íntimo do local.
Seria exagero dizer que Caldew e Merrington chegaram a conclusões diferentes pelo mesmo caminho. Até certo ponto, as suas deduções independentes a partir dos fatos mais óbvios do caso eram semelhantes, como era inevitável. Em todo crime, há circunstâncias e eventos que são como marcos indicadores, apontando o único caminho para o observador experiente. Mas as suas deduções subsequentes a partir dos fatos notáveis divergiram amplamente, talvez porque o detetive mais jovem não interpretasse as circunstâncias com tanta profundidade quanto Merrington. Dos mesmos fatos, eles chegaram a teorias diferentes sobre o assassinato. Merrington, por um processo de deduções minuciosas e cuidadosas que ele havia apresentado ao Chefe de Polícia, convenceu-se de que a chave para o assassinato e para o assassino encontrava-se em Londres; Caldew acreditava que a solução do mistério residia perto da cena dos eventos, e talvez na própria casa onde o assassinato foi cometido.
Caldew estava ciente de que não poderia ter dado nenhuma razão satisfatória para sustentar essa crença, além do ponto de que o assassinato fora cometido por alguém que conhecia o Moat-House suficientemente bem para entrar e sair do local sem ser visto. Mas esse ponto estava aberto à explicação de que o criminoso poderia ter se provido de uma planta da casa. No entanto, a impressão entrara em sua mente tão fortemente que ele não teria conseguido se livrar dela se tivesse tentado. Mas ele não tentou. Ele tinha imaginação suficiente para saber que a intuição, na detecção de crimes, vale às vezes mais do que as deduções mais elaboradas.
Quanto ao resto, todas as suas especulações sobre o crime eram afetadas pelo adorno que ele encontrara no quarto na noite do assassinato. Mas a descoberta e o subsequente desaparecimento dessa pista, como ele acreditava ser, não o tinham levado muito longe até aquele momento. Ele sentia-se na posição de um paleontólogo que é chamado a reproduzir a estrutura de um animal pré-histórico extinto a partir de uma pegada em arenito. O adorno desaparecido era um ponto de partida, e nada mais. Era uma hipótese possível que a pessoa que deixara cair a pedra e entrara na câmara da morte em busca dela fosse o assassino, mas, até o momento, era algo incapaz de demonstração ou prova. Como um fato isolado, era inútil e não o aproximou da solução do mistério. Mas, por outro lado, era um fato inquestionável e, por essa razão, dependia de outros fatos para sua existência. Sua tarefa era descobrir quem deixara cair o adorno no quarto e, posteriormente, retornara para buscá-lo durante sua própria breve ausência no andar de baixo. Estabelecer esses fatos correlatos essenciais era, ele acreditava, colocar as mãos no assassino de Violet Heredith.
Caldew caminhou pensativo do Moat-House até o vilarejo, determinado a iniciar suas próprias investigações independentes sobre o crime. Se a solução do mistério residia perto da cena, como ele acreditava, era possível que alguma pista pudesse ser colhida entre os aldeões, para quem os afazeres diários das pessoas na "casa grande" eram eventos de primeira grandeza, e que poderiam, presumivelmente, saber qualquer coisa que pudesse lançar luz sobre o obscuro motivo do crime. Foi por essa razão que ele direcionou seus passos para a fonte principal de fofocas em um vilarejo inglês: a estalagem. Ele se lisonjeava por ser capaz de extrair mais informações locais dos frequentadores do lugar do que qualquer outro detetive poderia esperar. Para começar, ele era um homem de Sussex e nativo do vilarejo, e desde seu retorno, após tantos anos de ausência, passara suas noites na estalagem renovando velhos laços e conversando com os companheiros de sua infância.
Uma semana de vida renovada no vilarejo ensinou-lhe os costumes do lugar e os hábitos de consumo em tempo de guerra dos habitantes. Limitados pela legislação recente a comprimir seu convívio festivo em períodos extremamente limitados, os comerciantes do vilarejo, e uma boa proporção dos trabalhadores agrícolas e pastores das redondezas, caíram no hábito de se reunir na estalagem ao meio-dia, para discutir os tempos difíceis e beber a "cerveja de guerra" ácida e fraca, imposta aos britânicos patrióticos como uma medida de guerra exigente.
Caldew entrou por uma porta lateral que dava para uma pequena sala privativa, separada da taverna por uma divisória de madeira. Era ali que os frequentadores habituais e clientes selecionados do estabelecimento sentavam-se em isolamento confortável para discutir as colheitas, o clima e os preços de mercado no dialeto amplo de Sussex, no qual Caldew, pela força da antiga associação, inconscientemente voltava a cair quando estava com eles.
A sala estava quase cheia, mas sua aparição impôs uma restrição acentuada ao grupo de camponeses ali reunidos. A conversa, que obviamente girava em torno do assassinato, cessou instantaneamente quando ele entrou e sentou-se em um dos bancos encostados na divisória. O estalajadeiro, que estava atrás do balcão em mangas de camisa, acenou inquieto em resposta à sua saudação amigável, mas os clientes evitavam desajeitadamente o seu olhar, encarando estoicamente o que estava à sua frente. Caldew tentou dissipar a reserva deles com um comentário amigável, mas nenhuma resposta surgiu. Era óbvio que os clientes da estalagem não queriam nem sua conversa nem sua companhia. Um após o outro, eles terminaram sua cerveja e saíram da estalagem com os movimentos lentos e deliberados do camponês de Sussex.
Caldew não havia previsto a mudança que o assassinato provocara na mente do vilarejo. Suas relações familiares com os clientes da estalagem tinham mudado da noite para o dia. Ele não era mais o antigo rapaz da aldeia, retornado ao seu vilarejo natal e bem-vindo por sua antiga associação com o lugar, mas um ser investido dos poderes temíveis e da majestade da lei, dos quais nenhum homem poderia se considerar seguro.
Caldew saiu da sala privativa e abriu uma porta na lateral da casa. Ela dava para uma sala de bilhar — uma novidade surpreendente em uma estalagem de campo inglesa, e fruto de um empreendimento por parte do proprietário, que comprara uma mesa pequena barata em um leilão e a instalara na sala do clube, esperando lucrar com isso. Novamente, Caldew sentiu o mesmo ar distinto de constrangimento assim que entrou. Dois ou três homens que estavam conversando e rindo alto tornaram-se mudos como se seus órgãos vocais tivessem sido subitamente atingidos por paralisia. O açougueiro do vilarejo, que estava na mesa de bilhar prestes a tentar algum golpe complicado, parou abruptamente com seu taco no ar e encarou o detetive com a boca aberta e um olhar de apreensão em seu rosto corado, como se esperasse uma acusação imediata e prisão pelo assassinato no Moat-House.
Com uma apreciação irritada de seu status alterado aos olhos do vilarejo, Caldew deixou a estalagem e caminhou para casa para uma refeição antes de partir para Chidelham para entrevistar a Sra. Weyne.
Havia um cheiro forte de sabão na casa de seu cunhado, e uma visão das costas largas de sua irmã, em movimento vigoroso sobre um tanque de lavagem fumegante na cozinha, indicava que ela estava em meio à sua lavagem semanal. Ela cessou seus trabalhos ao som de passos e virou-se.
"Ah, é você, Tom. Veio comer alguma coisa? Sente-se aí, e terei o jantar na mesa num instante. Tenho algo bom para você. O velho Upden, o pastor, trouxe-me um coelho muito bom esta manhã, e eu o cozinhei. É o último que teremos, eu suponho. Upden estava me dizendo que não vai mais caçar, porque os meninos roubam suas armadilhas, o que não é brincadeira, com o fio de cobre a cinco xelins a libra."
Caldew tomou um assento à mesa e observou sua irmã servir o jantar. Como a renda do Sargento Lumbe não era suficiente para permitir todos os refinamentos da vida civilizada, como uma sala separada para jantar, o almoço da família era feito na cozinha, que era a sala de estar comum. As preparações da Sra. Lumbe para a refeição foram rápidas e eficazes. Ela carregou o tanque de roupas para fora, abriu a janela para deixar o vapor sair, colocou facas, garfos e pratos na mesa de madeira, e então colocou uma porção generosa de coelho cozido em cada prato, vinda da panela que fumegava no canto do fogão. O jantar estava então pronto, e irmão e irmã começaram sua refeição.
Caldew comeu em silêncio, e sua irmã olhava para ele com nostalgia de tempos em tempos. Ela não tinha filhos próprios e sentia admiração pelo irmão que ela criara como menino, que fora para a grande cidade e se tornara um detetive de Londres. Do seu ponto de vista, ele alcançara grande fama e distinção, e ela guardava em sua caixa de costura alguns recortes de jornal de casos criminais nos quais o nome dele fora mencionado favoravelmente por repórteres amigos. Ela esperava que ele fosse bem-sucedido em encontrar o assassino do Moat-House. Ela gostaria de tê-lo questionado sobre o caso, mas sentia um pouco de receio dele e de seus modos de Londres.
"Qual é o melhor caminho para Chidelham, Kate?", perguntou Caldew, ao levantar-se da mesa. "Costumava haver uma trilha que passava pela fazenda de Dormer e cortava umas duas milhas. Ainda está aberta?"
"Ainda está aberta, Tom. O velho Dormer tentou fechá-la e entrou na justiça por causa disso, mas perdeu. Você vai passar por Chidelham?"
"Sim, vou de bicicleta esta tarde. Você sabe onde os Weyne moram?"
"Os Weyne? Ah, você quer dizer aquele rapaz escritor que comprou o lugar de Billing. A casa deles fica isolada a uma milha do vilarejo, logo antes de você chegar a Green Patch Hill."
"Obrigado. Conheço o lugar de Billing muito bem, mas não sabia que ele o tinha vendido. É melhor eu ir andando. É uma longa viagem."
"Por que você está indo lá, Tom?", perguntou a Sra. Lumbe, com viva curiosidade. "Sobre este caso?"
"Sim", respondeu Caldew brevemente.
"Você já descobriu alguma coisa, Tom?", continuou sua irmã ansiosamente, sua curiosidade superando seu receio pelo irmão inteligente. "Jem estava me dizendo antes de ir para Tibblestone que um detetive terrivelmente importante veio de Londres esta manhã e estava mexendo nas coisas de verdade. Jem diz que ele é um detetive que viaja com o Rei, e ele tem letras em seu nome por causa disso. Ele já está no rastro do assassino, Tom?"
"Não, e é pouco provável que esteja, até onde posso ver", disse seu irmão um pouco amargamente.
"Puxa vida, isso é uma pena, pois é uma coisa terrível, e um fim horrível para a jovem dama. Jem chegou em casa todo trêmulo na noite passada com a visão terrível do cadáver dela e eu tive que lhe dar um gole de bebida para ajudá-lo a dormir. Estávamos conversando sobre isso na cama e imaginando quem poderia ter feito aquilo. Ninguém aqui por perto, pois tenho certeza de que ninguém no vilarejo machucaria uma criatura viva. Além disso, as pessoas da casa grande são respeitadas demais para que qualquer alma viva pense em lhes causar dano."
"Eles são populares com todo mundo, são?", disse Caldew, sentando-se novamente ao perceber que provavelmente obteria tanto conhecimento sobre a família Heredith de sua irmã quanto poderia obter em qualquer outro lugar.
"Oh, sim", respondeu sua irmã. "É natural que sejam. Sir Philip é um bom proprietário, e ele e a Srta. Heredith são muito generosos com o povo."
"Philip Heredith é bem quisto no distrito?"
"Ele esteve fora por tanto tempo que as pessoas não sabem muito sobre ele. Mas nunca ouvi ninguém dizer nada contra ele. Ele é diferente de Sir Philip, mas parece gentil e bondoso."
"Ele costumava ser um rapazinho quieto e solitário anos atrás", observou Caldew. "Lembro-me de subir em uma árvore no bosque de Monk's Hill para pegar um ninho de pássaro para ele. Ele não conseguia subir sozinho por causa de sua claudicação."
"Não parece ser coisa de um Heredith ser pequeno e coxo", disse a Sra. Lumbe pensativa. "Ouvi aqueles que deveriam saber declararem que a Srta. Heredith nunca perdoou sua mãe por trazê-lo ao mundo com um pé defeituoso. Os criados na casa grande dizem que o Sr. Phil sempre foi terrivelmente sensível sobre sua claudicação. Foi isso que o tornou tão solitário em seus modos, embora ele fosse muito afeiçoado a animais e pássaros. Ficamos todos surpresos quando soubemos de seu casamento. Ele sempre pareceu tão tímido com as moças. A única garota que já o vi notar foi Hazel Rath. Eu os encontrei caminhando pelos bosques juntos."
"Quem é Hazel Rath?"
"A filha da governanta do Moat-House. Ela veio para o Moat-House com sua mãe há quase dez anos. Ela era uma coisinha bonita. A Srta. Heredith gostava muito dela e a enviou para a escola. O Sr. Philip também gostava dela, à sua maneira, embora, é claro, nunca pudesse ter havido nada entre eles. Mas ninguém aqui por perto esperava que ele se casasse com uma jovem de Londres."
"Por que não?", perguntou Caldew.
"Os Heredith sempre se casaram no condado, desde que se tem registro. Pensava-se que a Srta. Heredith faria um casamento entre o Sr. Philip e a filha de Sir Harry Ravenworth, de Wilcotes. Os Ravenworth são a segunda família do condado, e bem de vida. Teria sido um casamento muito adequado, como o pessoal aqui concordava. Mas não era para ser, o que é uma pena."
Caldew acenou com a cabeça distraidamente. Seu interesse original pela conversa de sua irmã estava diminuindo para o tédio, porque parecia improvável que levasse a algo de qualquer importância sobre o assassinato.
"A jovem com quem ele se casou não era uma dama de verdade, ouvi dizer", continuou a Sra. Lumbe, seguindo placidamente o fio de suas reflexões. "Ela não vinha muito ao vilarejo, mas quando vinha, andava como se fosse superior, e todo o resto era sujeira debaixo de seus pés. Mas ouvi dizer que ela teve que ganhar a vida em Londres antes de o Sr. Philip se apaixonar por seu rosto bonito. Se isso for verdade, ela se deu ares suficientes depois, e fez tudo o que podia para fazer a Srta. Heredith sentir que ela tinha saído dos trilhos, como diz o ditado."
"O que você quer dizer com isso?", perguntou Caldew bruscamente, com todos os seus sentidos novamente alertas.
"Bem, você sabe, Tom, a Srta. Heredith tem sido a senhora do Moat-House e a grande dama do condado desde que Lady Heredith morreu. Mas quando o Sr. Philip trouxe sua jovem esposa de Londres, tudo isso mudou. A jovem logo deixou que ela visse que não ia ser governada por ela, e não se importava com ela ou com seus modos. Dizem que foi uma grande provação para a Srta. Heredith, embora ela tentasse não deixar ninguém saber disso."
"Onde você aprendeu isso?", Caldew perguntou abruptamente.
"Deus, Tom, como você é áspero comigo! Milly Saker, que é arrumadeira no Moat-House, me contou em total confiança, porque sabia que eu não contaria a ninguém. E eu não contaria a ninguém além de você, Tom. Ela me disse desde o início que não achava que as duas damas se dariam bem. Elas eram tão diferentes, disse Milly, e ela tinha certeza de que a Srta. Heredith não achava a jovem dama boa o suficiente para se casar na família Heredith."
"Ela lhe disse se elas já tinham brigado?"
"Eu lhe perguntei isso, e ela disse que não. A Srta. Heredith é sempre uma dama, e ela não se rebaixaria brigando com ninguém, menos ainda com alguém que ela não considerasse tão dama quanto ela mesma. Mas Milly diz que ela foi duramente provada às vezes. Milly achava que terminaria com ela deixando o Moat-House e casando-se com seu antigo namorado, o Sr. Musard, que acaba de retornar de suas viagens ao estrangeiro. Talvez você o tenha visto."
"Sim, eu o vi", disse Caldew. "Então ele é o antigo namorado dela, é?"
"Dizem que era", respondeu a Sra. Lumbe. "Lembro-me de que houve algum comentário sobre um casamento entre eles quando eu era moça, mas nada aconteceu. É minha opinião que a Srta. Heredith deve ter recusado ele na época por causa de seus dias selvagens, e ele partiu para suas viagens para curar seu coração partido. Mas eles ainda pensam muito um no outro, como é evidente para todos verem, e saem para caminhar juntos de braços dados. Então talvez tudo se resolva no final."
Com essa doutrina confortável de vida, baseada em sua leitura de romances femininos, a Sra. Lumbe levantou-se de seu assento para limpar a mesa.
"Espero que sim", disse seu irmão, mas seu comentário não tinha nada a ver com o triunfo do amor verdadeiro no último capítulo.
Ele deixou a sala para pegar sua bicicleta para ir a Chidelham.
CAPÍTULO XI
A caminho de Chidelham, Caldew ponderou novamente sobre o assassinato e, pela primeira vez, perguntou-se seriamente se a Srta. Heredith poderia ter cometido o crime. Ele havia vislumbrado essa possibilidade antes e praticamente a descartara devido à falta de motivo, mas a história de sua irmã sobre as diferenças entre a Srta. Heredith e a esposa de seu sobrinho supria essa deficiência em um grau surpreendente. Ao rever o conjunto das circunstâncias à luz das informações que sua irmã lhe dera, agora parecia-lhe que a Srta. Heredith se encaixava no crime de uma maneira notável.
O fato mais importante que levava a essa inferência era que ela, sozinha, de todos os habitantes do Moat-House na noite anterior, estava fora da sala de jantar quando o assassinato foi cometido. Essa suposição não levava em conta os criados, mas Caldew, desde o início, eliminara os criados em sua consideração sobre o crime. Em seguida, isso fornecia uma explicação para o desaparecimento do broche de barra do quarto. Com toda a probabilidade, o mordomo primeiro informara sua patroa sobre sua descoberta da porta da escada destrancada, e ela, percebendo onde deixara cair seu broche, aproveitara a oportunidade para solicitar a Musard que chamasse o detetive lá embaixo e lhe contasse sobre a porta. Em sua ausência, ela retornou ao quarto para buscar o broche.
Essa teoria parecia plausível o suficiente à primeira vista, mas, conforme Caldew a examinava de perto, várias objeções surgiram em sua mente. O motivo oculto do crime, como inocentemente revelado por sua irmã, era forte, mas seria forte o suficiente para levar uma mulher como a Srta. Heredith, com os rígidos princípios de seu nascimento, criação e casta, e uma mulher, além disso, que passara a vida praticando boas obras, a cometer um assassinato tão atroz? Caldew considerou esse ponto longa e pensativamente. Com sua imaginação mais aguçada, ele divergia de Merrington ao confiar, até certo ponto, em impressões externas, e ele não conseguia se livrar de sua primeira impressão da Srta. Heredith como uma mulher de um tipo excepcionalmente bom. Ele teve que admitir para si mesmo que sua graciosidade e dignidade não eram as qualidades geralmente associadas a um assassino. Religião, hipocrisia, presunção, plausibilidade; essas eram as qualidades falsas mais comuns dos criminosos; não dignidade, valor e orgulho.
Havia, é claro, a possibilidade de que a Srta. Heredith, tendo se tornado imperiosa com seu longo e inquestionado domínio no Moat-House, tivesse brigado com a jovem esposa e cometido o assassinato em um súbito ímpeto de paixão. Os assassinatos mais improváveis foram cometidos sob o domínio do impulso. Caldew lembrou-se de que a Srta. Heredith fora a última pessoa a ver a mulher assassinada com vida, e ninguém, exceto ela mesma, sabia o que ocorrera naquela entrevista. Poderia ser que a jovem esposa tivesse dito algo a ela que a magoara tão profundamente que ela concebeu a ideia de assassiná-la.
Caldew, ao chegar a essa etapa de seu raciocínio, balançou a cabeça duvidosamente. Ele teve que admitir para si mesmo que tal teoria não soava verdadeira. Se a Srta. Heredith tivesse sido enlouquecida por algum insulto na entrevista da tarde, era muito mais provável que ela tivesse matado a Sra. Heredith imediatamente do que esperado até a hora do jantar. E, se ela tivesse cometido o assassinato, por que agira da maneira mais propensa a levar à descoberta, deixando abertamente seus convidados alguns minutos antes e permitindo que a vissem depois descendo a escada? Mesmo o mais neófito no crime geralmente exibia alguma cautela de autopreservação.
Mas Caldew era experiente demais em investigação criminal para rejeitar uma teoria apenas porque ela contrariava a experiência. Existiam presunções para a suspeita da Srta. Heredith que, no mínimo, justificavam uma investigação mais aprofundada. E, refletindo sobre essas presunções, ele chegou à conclusão adicional de que a teoria de sua culpa também poderia explicar o mistério da janela aberta no quarto da Sra. Heredith. Caldew acreditava que a janela aberta tinha alguma relação com o crime. Sua primeira impressão fora a de que o assassino entrara e escapara por esse meio. A trepadeira-virgem para a qual Weyling chamara a atenção naquela manhã reforçara essa crença, apesar da opinião de Merrington de que a planta não suportaria o peso de um homem. Mas agora lhe parecia que a Srta. Heredith poderia ter aberto a janela com o propósito de jogar o revólver no fosso para que não fosse encontrado. Ele decidiu investigar essa possibilidade assim que retornasse ao moat-house.
Ele chegou ao seu destino apenas para saber que o Sr. e a Sra. Weyne tinham ido de automóvel ao moat-house para apresentar suas condolências à família. Ele subiu novamente em sua bicicleta e pedalou de volta o mais rápido que pôde, contrariado ao pensar que desperdiçara a melhor parte de uma tarde em uma diligência infrutífera.
Já era noite quando ele alcançou Heredith novamente e pedalou pelos bosques em direção ao moat-house. O local parecia deserto no crepúsculo que se aproximava. Um brilho fugaz do sol poente incidia sobre os crisântemos cor de bronze e sangue nos canteiros circulares, mas as sombras se alongavam pelo gramado, e a névoa das águas verdes do fosso rastejava pelas paredes de tijolos manchados.
Sua campainha na porta da frente foi atendida pela bela criada de quarto que estivera espanando o hall antes do café da manhã. Ele reconheceu em Milly Saker uma companheira de brincadeiras da aldeia de quase vinte anos atrás, e lembrou-se de que fora ela quem contara à sua irmã sobre a divergência que existira entre a Srta. Heredith e a esposa de seu sobrinho.
Milly cumprimentou o detetive com um sorriso de reconhecimento coquete.
"Como vai?" disse ela. "O senhor não quis olhar para mim esta manhã. Parecia que não queria reconhecer velhos amigos."
A mente de Caldew estava preocupada demais para retribuir essas gentilezas rurais no mesmo espírito.
"A Srta. Heredith está?" perguntou ele, entrando no hall.
"Eu não estaria aqui conversando com o senhor se ela estivesse", respondeu a moça com impertinência. "Ela foi à aldeia no carro para encontrar o Sr. Musard. Acabou de receber um telegrama dizendo que ele está voltando."
"Eu pensei que ele estivesse indo para a França", disse Caldew.
"Bem, ele não está. O telegrama diz que ele não está. Então a Srta. Heredith foi encontrá-lo no trem da noite. Tufnell também saiu. Não sei onde ele se meteu, mas não chorarei meus olhos se ele nunca mais voltar."
"O Sr. e a Sra. Weyne estiveram aqui?"
"Sim. Eles vieram no carro deles e viram a Srta. Heredith e Sir Philip. Não ficaram muito tempo."
"Onde estão o Superintendente Merrington e o Capitão Stanhill?"
"Na biblioteca. Eles chegaram há cerca de uma hora. O cavalheiro grande tem de voltar para Londres esta noite — ouvi ele dizer isso. E já vai tarde. Ele reuniu todos os criados na biblioteca esta manhã, intimidando-os terrivelmente."
"O que ele disse a você?" perguntou Caldew, com um sorriso.
"Nada", respondeu a moça prontamente, "exceto o que ele disse hoje cedo, quando me parou aqui no hall e colocou sua mão grande e feia sob o meu queixo, e me disse que falaria comigo mais tarde. Mas ele não teve a chance, porque passei a manhã toda na aldeia com minha mãe, que tem estado doente. Mas ele deu tanto trabalho às outras moças que elas ainda não pararam de falar nisso. Gwennie Harden, que dorme comigo, diz que ele deve ter pensado que uma de nós matou a Sra. Heredith, e a cozinheira ficou tão zangada com as perguntas que ele lhe fez que pretendia dar o aviso prévio de um mês na hora, mas o velho Tufnell a convenceu do contrário, dizendo que era apenas por dever, sem intenção de ofensa pessoal. Tufnell pediu desculpas pelo que ela teve de suportar, e a cozinheira aceitou, e o assunto terminou ali. Mas dizem que a Sra. Rath — a governanta — saiu da biblioteca parecendo que ia desmaiar. Mas Hazel Rath não foi à biblioteca, embora tenha ficado aqui ontem à noite e tenha estado com a mãe o dia todo. Favoritismo, eu chamo isso. Por que eles nos colocaram a todos, criados, sob interrogatório, e a deixaram em paz?"
A menção ao nome de Hazel Rath trouxe à mente de Caldew a informação que sua irmã lhe dera sobre a antiga associação entre ela e Philip Heredith. Mas o alcance dessa afirmação e o significado da notícia que Milly Saker acabara de lhe dar só ficariam claros mais tarde. No momento, seus pensamentos estavam fixos na ideia de testar sua nova teoria sobre a janela aberta enquanto a Srta. Heredith estivesse ausente. Ao se virar, ele perguntou à moça onde estava Sir Philip.
"Ele está sentado com o Sr. Phil", foi a resposta.
"Suponho que não haja ninguém lá em cima na ala esquerda?" acrescentou ele.
"Ninguém além do cadáver", respondeu Milly, com um leve tremor. "A Srta. Heredith mudou de quarto. Ontem à noite ela dormiu no andar de baixo, mas esta manhã deu ordens para que o quarto branco, na ala direita, fosse preparado para ela. Acho que ela quer ficar o mais longe possível de lá, e não a culpo."
Caldew subiu as escadas e entrou na câmara mortuária na ala silenciosa. No caminho de volta de Chidelham, ele pegara uma pedra redonda, que agora tirou do bolso, pretendendo jogá-la pela janela e marcar o local onde ela cairia no fosso. Ele abriu a janela e olhou para o jardim. A distância até o fosso era muito maior do que ele imaginara; tão grande, de fato, que seu próprio arremesso em direção à água caiu a vários metros de distância. Era impossível que a Srta. Heredith pudesse ter realizado um feito tão notável como arremessar um revólver através do espaço entre a janela e o fosso. Nenhuma mulher conseguiria arremessar tão longe e com tanta precisão.
Este obstáculo imprevisto desconcertou Caldew a princípio, mas, ao olhar pela janela novamente, pareceu-lhe, pela disposição da casa, que a janela do quarto da Srta. Heredith ficava mais perto do fosso do que a janela em que ele estava. Como a Srta. Heredith transferira seu quarto para a outra ala, ele decidiu ir até lá e ver se estava certo. Ele ainda se apegava à sua nova ideia de que o revólver fora jogado no fosso, embora sua visão alterada — de que ele poderia ter sido arremessado da janela da Srta. Heredith — significasse o abandono de sua outra premissa, de que o descarte do revólver por aquele meio explicava a janela aberta no quarto da Sra. Heredith. Caldew percebeu, ao sair do quarto, que a questão da janela aberta ainda precisava ser resolvida. O que ele não percebeu foi que estava distorcendo os fatos do caso para estabelecer a possibilidade de sua própria teoria.
A porta do quarto que a Srta. Heredith ocupara estava entreaberta. Ele a empurrou e entrou. Havia ali aquele ar deserto e desolado que um quarto assume tão rapidamente quando o ocupante o desocupa. Os móveis mais pesados e a cama permaneciam para demonstrar a feiura da utilidade depois que os acessórios e complementos do luxo haviam sido levados embora.
A persiana estava abaixada e o quarto em semi-escuridão. Caldew foi até a janela, levantou a persiana e olhou para fora. A distância até o fosso era visivelmente menor, comparada à janela do quarto que ele acabara de deixar, mas a distância ainda era considerável.
Quando Caldew se virou da janela, com a convicção relutante de que nutria uma teoria insustentável, um último raio de sol atravessou a janela aberta, fazendo com que a poeira que ele levantara ao entrar tremeluzisse e girasse como uma multidão de bacilos loucos dançando uma giga. O feixe de luz, ao incidir sobre a penteadeira desmontada, trouxe outra coisa à vista — um minúsculo fragmento de corrente de ouro pendurado na gaveta de madeira de cetim polida.
Caldew puxou a gaveta. Dentro havia uma corrente de pescoço de ouro fina de uma senhora, com um conjunto de amuletos e berloques na ponta, que evidentemente fora esquecida e deixada para trás. Ele olhou para a corrente com desdém e estava prestes a recolocá-la na gaveta, quando seu olhar foi detido por um dos berloques. Era uma pequena imagem, com pouco mais de uma polegada de comprimento; um deus pagão agachado, com os braços cruzados e rosto de sátiro — um exemplo maravilhoso de escultura selvagem em miniatura.
Não foi a perfeição da escultura ou a natureza incomum do ornamento que atraiu a atenção de Caldew, mas o material do qual era composto: uma pedra límpida, quase transparente, com o mais leve tom de verde possível. Mantendo-a sob a luz do sol, Caldew pôde detectar uma ou duas minúsculas manchas negras na pedra. Não havia dúvida: a imagem era do mesmo material peculiar que o berloque que vira no quarto da mulher assassinada na noite anterior.
Enquanto ele estava ali examinando o amuleto, o murmúrio de vozes não muito longe chegou aos seus ouvidos. Olhando cautelosamente pela janela, ele viu Musard e a Srta. Heredith caminharem pelo lado da casa em direção ao jardim, imersos em uma conversa séria. Caldew recuou para um ângulo onde não pudesse ser visto de baixo e observou-os atentamente. Musard estava falando, ocasionalmente fazendo um gesto enfático, e a Srta. Heredith ouvia atentamente, com o rosto cabisbaixo e olhos que sugeriam lágrimas recentes. Ao passar sob a janela onde ele observava, ela levou um lenço ao rosto e soluçou alto. Caldew ficou surpreso ao ver a orgulhosa e reservada dona do moat-house mostrar seu pesar tão livremente na presença de Musard, até que se lembrou do que sua irmã lhe contara sobre o suposto antigo amor que sentiam um pelo outro. E com esse pensamento veio outro. Deve ter sido Musard, o explorador, o homem que vagara por terras distantes em busca de pedras preciosas, quem trouxera ao moat-house a pedra peculiar da qual o broche desaparecido e a pequena imagem haviam sido feitos.
Agindo sob o impulso súbito de levar a imagem à Srta. Heredith e ver como ela reagiria, Caldew colocou a corrente no bolso e desceu apressado. No pé da escada, foi parado por Tufnell, que evidentemente esperava que ele descesse. A dignidade habitualmente imperturbável do mordomo estava, pela primeira vez, abalada, e ele parecia levemente corado e desgrenhado.
"Eu estive na aldeia procurando pelo senhor", disse ele, em um tom queixoso. A majestade da lei não conferira a Caldew qualquer dignidade aos olhos do velho mordomo. Ele via nele apenas o moleque da aldeia de vinte anos atrás, cujas travessuras na propriedade Heredith haviam sido uma fonte constante de preocupação para ele.
O detetive percebeu a estima em que o velho o tinha, e o fato não contribuiu para diminuir sua própria irritação.
"Por que o senhor me queria?" perguntou ele bruscamente.
"Eu não o queria, mas os cavalheiros na biblioteca querem. O Superintendente Merrington achou que o senhor estava ausente há muito tempo, e ele me enviou à aldeia para procurá-lo. Ele está ansioso para retornar a Londres. O senhor o encontrará na biblioteca."
A suposição fria do mordomo de que era privilégio de Merrington comandar, e dever de Caldew obedecer, irritou este último consideravelmente. Ele sentiu que Merrington, à sua maneira ofensiva, exercera deliberadamente sua autoridade oficial para humilhá-lo em sua terra natal. Agindo sob o impulso da raiva, ele respondeu:
"Tenho algumas coisas para resolver antes de poder vê-lo. Pode dizer a ele isso, se quiser."
Ele se afastou em direção à porta do hall, consciente de que o mordomo estava parado junto à escada, observando-o. Quando saiu, ele dirigiu seus passos para o jardim; mas, por mais breve que tivesse sido o intervalo desde que vira Musard e a Srta. Heredith conversando junto ao relógio de sol, fora suficiente para levar a conversa a um desfecho. A Srta. Heredith já não estava mais à vista, e Musard passeava pelo caminho de cascalho fumando um charuto.
Teriam eles o visto na janela e interrompido sua conferência por causa disso? Parecia que sim. A Srta. Heredith devia ter entrado na casa por outra porta, pois se tivesse entrado pela porta da frente, ele teria de encontrá-la. Caldew teria voltado atrás se Musard não tivesse olhado para cima e, vendo o detetive, esperado que ele se aproximasse.
Caldew caminhou em sua direção, imaginando se a Srta. Heredith sentira falta de sua corrente de berloques e fora lá em cima procurá-la. Nesse caso, refletiu ele sombriamente, a posição da noite anterior estava invertida, e desta vez era ela quem fora prevenida. Era uma situação irônica, de fato, mas ele era, até certo ponto, o senhor dela.
Musard acenou para o detetive e ofereceu sua cigarreira. Caldew aceitou um charuto e admirou a caixa, que era feita de pele de crocodilo, trabalhada e curtida de uma maneira totalmente nova para ele. Ele nunca vira nada parecido nas tabacarias de Londres, e disse isso.
"Fabricação nativa", respondeu Musard, selecionando um charuto fresco. "Meu rapaz chinês abateu o crocodilo que a forneceu. É raro um chinês ser um bom atirador com um rifle inglês moderno, mas meu rapaz venceria qualquer coisa em Bisley. Ele nunca erra. Foi sorte minha que ele não tenha errado daquela vez, porque o bruto veio na minha direção para me pegar enquanto eu nadava em um rio. Suey, ouvindo-me gritar, correu da barraca com meu rifle e atirou nele da margem. Ele o atingiu no olho — o olho e a garganta são os dois únicos pontos vulneráveis em um crocodilo. Uma bala ricocheteia na cabeça como se fosse uma rocha."
"Onde isso aconteceu?" perguntou Caldew, em um tom interessado. Seu próprio conhecimento sobre crocodilos limitava-se ao fato de que vira um pequeno em um tanque no Jardim Zoológico.
"No Zambeze. Há muitos deles lá nos rios e pântanos de mangue. Alguns caçadores amarram um cachorro durante a noite na margem do rio, e o animal avisa a aproximação dos répteis uivando de terror. É um pouco cruel — para o cachorro."
"Sem dúvida", disse Caldew.
"Como estão indo suas investigações neste caso?" continuou Musard, mudando abruptamente de assunto.
Caldew ficou imediatamente cauteloso e enrijeceu-se em uma atitude de reserva oficial, perguntando-se por que Musard procuraria questioná-lo sobre o assassinato.
"Sou um velho amigo dos Heredith", continuou Musard, como se adivinhasse os pensamentos do outro. "Este assassinato é algo muito terrível para eles. Temo que possa significar o golpe fatal para Sir Philip. Ele é velho e frágil, e o choque, além da doença do filho, tiveram um efeito muito ruim sobre ele. Eu deveria ter ido para a França hoje para o Gabinete de Guerra, mas providenciei para que alguém fosse em meu lugar para permanecer com a família em sua hora de provação. O senhor descobriu algo que o leve a supor que está na trilha do assassino?"
"Temo não poder lhe dizer nada sobre as investigações", respondeu o detetive cautelosamente. "Não estou encarregado do caso, sabe."
"Compreendo", respondeu o outro, com um aceno. "Talvez eu não devesse ter perguntado. Minha ansiedade deve ser minha desculpa."
Ele pronunciou este pedido de desculpas de forma tão cortês e agradável que Caldew sentiu-se momentaneamente envergonhado por sua própria atitude rigidamente oficial. Mas seus instintos de cautela rapidamente se reafirmaram, e ele disse a si mesmo que, neste caso sinistro, era seu dever estar em guarda e não conversar com ninguém.
A situação foi encerrada pelo reaparecimento da Srta. Heredith de uma porta na lateral da casa. O detetive ficou um pouco surpreso ao vê-la novamente, pois concebera a ideia de que ela entrara para evitar encontrá-lo. Ela foi ansiosamente até Musard, sem notá-lo.
"Oh, Vincent!" exclamou ela, e a expressão de alívio em seu rosto era inconfundível. "Sir Ralph Horton está saindo agora. Ele diz que Phil passou pela crise e não há necessidade de ele ficar por mais tempo. Phil ainda precisa de muito cuidado e atenção, mas Sir Ralph diz que será perfeitamente seguro deixá-lo nas mãos do Dr. Holmes. Não há mais medo por seu cérebro, graças a Deus."
"Esta é uma boa notícia", disse Musard. "A Srta. contou a Sir Philip?"
"Ainda não. Achei melhor adiar até depois do jantar. Quero que o senhor conte a ele então."
A Srta. Heredith virou-se como se fosse entrar novamente na casa, mas Caldew, que estivera pairando a poucos passos de distância ao alcance de voz desse diálogo, aproximou-se dela com a corrente de ouro na mão.
"Com licença, Srta. Heredith", disse ele. "Uma das criadas me disse que a senhorita não ocupava mais o quarto lá em cima na ala esquerda, então tomei a liberdade de ir até lá para ver se era possível que o assassino tivesse escapado escalando da janela de um quarto para outro e, enquanto eu estava lá, encontrei esta corrente. Ela estava pendurada na gaveta da penteadeira perto da janela e, como obviamente havia sido esquecida, achei melhor devolvê-la à senhorita."
Ele a estendeu para ela enquanto terminava de falar, observando atentamente seu rosto em busca de qualquer sinal de confusão ou inquietação. Mas a Srta. Heredith recebeu a corrente calmamente e agradeceu-lhe por devolvê-la. Caldew ficou desapontado com o fracasso de seu teste, mas tentou um tiro adicional.
"Notei uma pequena imagem muito peculiar entre os berloques da corrente", disse ele hesitando. "Nunca vi nada parecido antes e não pude deixar de me perguntar de onde veio."
Foi uma armadilha desajeitada, e ele percebeu isso, mas estava ansioso demais para alcançar seu objetivo por métodos mais sutis. Não havia nada no semblante calmo da Srta. Heredith que sugerisse que ela estivesse alarmada ou inquieta com sua curiosidade. Ela virou-se para Musard.
"O Sr. Caldew refere-se àquela pequena imagem estranha que o senhor me deu quando chegou, Vincent. O que é?"
Ela estendeu a corrente, e o explorador a pegou com sua mão grande e morena. Ele separou a imagem dos outros berloques com o dedo indicador e virou-a com desleixo.
"Isso é um tiki", disse ele.
A explicação não transmitiu nada a Caldew.
"Nunca ouvi a palavra antes", disse ele. "O que é um tiki?"
"É a palavra maori para o criador do homem, e também é considerada para representar um ancestral", explicou Musard. "Os maoris são, até certo ponto, adoradores de ancestrais e adornam seus *pahs* e templos com grandes imagens de madeira de tamanho imenso, supostas representar algum renomado ancestral guerreiro. Essas imagens são adoradas como deuses e acredita-se que sejam visitadas pelos espíritos, que sobem para conversar com elas através das raízes ocas de uma árvore pohutukawa, que desce às regiões inferiores maoris. Os *tikis* menores, ou, mais estritamente falando, *hei-tiki*, como este, são esculpidos como representações em miniatura das imagens maiores e são usados como ornamentos de pescoço. Supõe-se que tornem o usuário imune aos desígnios perversos dos espíritos malignos."
"De que material eles são esculpidos?" perguntou Caldew, que seguira essa explicação atentamente. "Nunca vi nada parecido. Parece tão límpido e incolor quanto o vidro, mas emite um leve brilho esverdeado e há manchas pretas nele."
"É nefrita, ou pedra-verde maori", respondeu Musard. "Os joalheiros de Londres denominam-na jade da Nova Zelândia."
"Certamente esta pedra não é jade?" disse Caldew, com certa surpresa. "Já vi ornamentos de jade da Nova Zelândia em lojas de Londres, mas eles eram feitos de uma pedra verde profunda e fosca, nada parecida com esta pedra, que é límpida como cristal e tem um brilho."
"Existem diferentes tipos de jade", respondeu Musard. "A mania atual das mulheres da alta sociedade é pelo jade rosa chinês e pela turmalina. Um bom colar de jade rosa facilmente custa mil libras na Bond Street, e será a joia da moda da temporada. A nefrita da Nova Zelândia ainda não caiu nas graças das damas inglesas, e apenas a variedade comum de verde escuro, que é frequentemente espúria, é vista por aqui. Esta imagem foi feita do tipo mais raro de pounamu, como os maoris a chamam."
"É muito bonita", disse Caldew. "Você tem mais dela?" Ele vangloriou-se por achar que a suposição de desleixo em seu tom não tinha sido exagerada.
"Não", respondeu Musard. "Foi a única peça do tipo raro que tive a sorte de obter."
"Havia outra peça pequena, Vincent", comentou a Srta. Heredith. "Você a trouxe há uns dez anos. Era do mesmo tipo de pedra transparente, com manchas pretas nela."
"Eu havia me esquecido. Eu a dei ao Phil, não dei? O que ele fez com ela?"
"Ele a transformou em um broche para Hazel Rath, e deu a ela como presente de aniversário."
CAPÍTULO XII
Enquanto Caldew voltava para a casa para sua entrevista com Merrington, a única impressão clara em sua mente era que a descoberta do dono do broche desaparecido era o ponto de partida para a elucidação do assassinato.
Na biblioteca, ele encontrou o Superintendente Merrington, o Capitão Stanhill, o Inspetor Weyling e o Sargento Lumbe. O sargento, que parecia cansado e sujo, explicava de forma apologética que sua visita a Tibblestone fora infrutífera.
"Fiz a viagem para nada", dizia ele com sua voz interiorana e grossa, quando Caldew entrou. "Passei por uma busca inútil por todo o lugar, e então descobri que aquele sujeito sobre o qual o Sr. Hawkins telefonou era apenas um vendedor de cartões de In Memoriam para soldados caídos. Encontrei-o finalmente sentado à beira da estrada, comendo seu jantar e lendo um jornal ilustrado de Londres. Ele parecia um tipo de cliente duvidoso, com certeza, mas foi capaz de provar que estava jogando bagatela na estalagem ontem à noite, na hora em que o assassinato foi cometido."
O Superintendente Merrington descartou essa informação com um aceno e virou-se para Caldew.
"Você entrevistou a Sra. Weyne?" perguntou ele.
"Eles não estavam", foi a resposta. "Disseram-me que eles tinham ido de automóvel para a casa do fosso. Você os viu?"
O Superintendente Merrington franziu a testa. Ele não tinha visto os Weynes, e não fora informado da visita deles. Era mais uma adição à soma de incidentes desfavoráveis que lhe haviam ocorrido desde sua chegada à casa do fosso, e ele se sentia muito insatisfeito e colérico.
"Estou voltando para Londres no próximo trem, Caldew", disse ele, com sua voz autoritária. "Negócios oficiais de importância exigem minha presença imediata. Farei algumas perguntas na Scotland Yard sobre as pessoas que estiveram hospedadas aqui. Enquanto isso, é melhor você permanecer no local e continuar suas investigações sob o comando do Chefe de Polícia."
"Ficarei muito feliz com a ajuda do Detetive Caldew para desvendar este terrível mistério", comentou o Capitão Stanhill, cortês.
Caldew tirou várias conclusões do discurso de seu chefe. Merrington estava confuso com o caso, mas não tinha a intenção de incluí-lo em seus conselhos. Merrington acreditava que o assassino tinha escapado livre e, portanto, uma investigação local adicional era inútil, mas julgou aconselhável manter um homem da Scotland Yard no local para observar possíveis desenvolvimentos, porque não depositava confiança na polícia do condado. Era evidente que Merrington achava que o assassino viera de longe, e ele iria procurá-lo em Londres. Mas ele não estava deixando nada ao acaso. Ele estava mantendo o controle das investigações em ambas as extremidades a fim de monopolizar a glória da captura. Se o assassino escapasse, Caldew e a polícia do condado poderiam ser feitos de bodes expiatórios para a indignação pública.
Mas, enquanto prestava o tributo involuntário de rápida raiva a essas táticas astutas de seu chefe de departamento, Caldew percebeu com satisfação que estava na posse de uma valiosa informação que poderia arruinar seus cálculos.
"Há várias pessoas no distrito que seria aconselhável entrevistar", continuou Merrington, consultando apressadamente suas anotações. "Em primeiro lugar, você deve fazer outro esforço para ver os Weynes. A Sra. Weyne pode ser capaz de nos dar alguma informação valiosa sobre a vida anterior da Sra. Heredith. E acho que você deve ver o chefe da estação de Weydene Junction. O assassino pode ter caminhado pelo campo até a junção em vez de enfrentar o risco maior de identificação posterior ao pegar o trem em uma das estações da aldeia deste lado. E é melhor você ver a filha da governanta e obter uma declaração dela. Não suponho que ela saiba nada sobre o crime, mas ela estava aqui ontem à noite, e é melhor ser vista. Ela trabalha como modista na cidade comercial de Stading."
"Você quer dizer Hazel Rath?" indagou Caldew, com certa surpresa.
"Sim. Ela é a filha da governanta. Ela ficou aqui ontem à noite com a mãe, mas saiu para voltar ao seu emprego no primeiro trem desta manhã."
"Deve haver algum engano sobre isso. Entendo que ela ainda esteja na casa."
"Quem lhe disse isso?"
"Uma das criadas."
"É melhor chamarmos a criada e questioná-la. Qual é o nome dela?"
"Milly--Milly Saker."
Merrington tocou a campainha e disse à criada que atendeu para enviar Milly Saker.
A moça entrou quase imediatamente, parecendo meio desafiadora e meio assustada. Merrington lançou-lhe um olhar penetrante.
"Você é a moça que vi espanando o corredor esta manhã", disse ele. "Por que não veio com os outros empregados para ser examinada?"
"Porque eu não estava aqui", respondeu a moça atrevidamente.
"Onde você estava?"
"Lá na aldeia, na casa da minha mãe."
"Quem lhe deu permissão para ir?"
"Sra. Rath, a governanta."
"Você pediu a ela licença?"
"Não. Ela sabia que minha mãe estava doente, e ela me disse depois do café da manhã: 'Milly, você gostaria de ir ver sua mãe esta manhã?' Eu disse que sim, que gostaria, se ela pudesse me dispensar. Ela me disse que podia, então agradeci e fui."
O Superintendente Merrington e o Capitão Stanhill trocaram olhares. O mesmo pensamento ocorreu a ambos. A Sra. Rath, a governanta, tinha garantido a eles que enviara todos os empregados à biblioteca para serem examinados. Merrington virou-se para a moça novamente.
"A filha da Sra. Rath estava hospedada com ela ontem à noite, não estava?"
"Sim."
"Ela ainda está aqui?"
"Sim."
"Você tem certeza absoluta disso?"
"Sim, quando eu estava do lado de fora há cerca de meia hora, eu a vi pela janela, sentada no quarto da mãe dela."
Essa informação transmitiu algum significado à mente de Merrington que não era aparente para Caldew. Ele pausou por um momento e então continuou abruptamente:
"Onde você estava ontem à noite na hora do assassinato?"
"Por favor, senhor, não sei de nada", respondeu a moça com um soluço.
"Controle-se, minha boa moça", disse o Capitão Stanhill calmamente. "Ninguém sugere que você tenha tido algo a ver com isso."
Como resposta, a moça apenas soluçou alto. O Superintendente Merrington, que tinha seus próprios métodos de acalmar mulheres assustadas, sacudiu-a rudemente pelo braço.
"Escute-me", ordenou ele severamente. "Você quer ir para a prisão?"
"N--ão, senhor", respondeu Milly, entre uma nova crise de soluços.
"Então é melhor você parar com esse barulho e responder às minhas perguntas, ou eu a colocarei atrás das grades até que o faça. Onde você estava ontem à noite quando o assassinato foi cometido?"
"Eu estava servindo à mesa até a sobremesa ser servida", respondeu a moça, completamente dominada pela maneira prepotente do grande homem diante dela.
"O que você fez quando saiu da sala de jantar?"
"Fui para a cozinha e fiquei conversando com a cozinheira por um tempo."
"E o que você fez depois?"
"Subi o corredor e fui até o saguão para ver se o jantar tinha terminado. Eu sabia que a Srta. Heredith estava ansiosa para terminar o jantar cedo, já que todos iam sair, e eu queria limpar o jantar o mais rápido que pudesse, porque eu mesma queria sair. Eu a vi sair da sala e ir em direção à porta da frente, mas ninguém mais saiu da sala de jantar, e eu podia ouvir alguém conversando. Então, depois de esperar um pouco e não ver mais ninguém sair, voltei para a cozinha."
"Onde você estava parada enquanto esperava?"
"Bem no canto do corredor que vinha da cozinha."
"Você não subiu as escadas de jeito nenhum?"
"Não, é claro que não. Não é meu lugar subir as escadas."
"Não seja atrevida, mas responda às minhas perguntas. Você ouviu o grito e o tiro?"
"Não, não ouvi. Eu estava de volta à cozinha antes disso, e a cozinha fica bem nos fundos da casa. A cozinheira e eu não sabíamos de nada até que uma das meninas veio correndo e nos contou o que tinha acontecido."
"Você viu alguém, exceto a Srta. Heredith, no saguão ou na escadaria da ala esquerda enquanto estava parada no final do corredor?"
"Ninguém, exceto a Srta. Rath."
"Você quer dizer a filha da governanta?"
"Sim."
"Quando você a viu?"
"Enquanto eu estava lá parada esperando uma chance de tirar as coisas do jantar, ela subiu pelo corredor central que leva aos quartos da governanta e entrou no saguão."
"Para onde ela estava indo?"
"Eu não sei. Eu não perguntei a ela", respondeu a moça, que tinha recuperado um pouco de sua segurança atrevida.
"Ela viu você?"
"Não. Eu estava parada no final do corredor da cozinha, que fica perto da ala direita. O corredor de onde ela saiu ficava bem longe de onde eu estava, quase no centro da casa. Ela virou para o outro lado."
"Ela virou para a direita, então, ao sair do corredor, e caminhou na direção da ala esquerda?"
"Não sei para onde ela estava indo. Tudo o que sei é que a vi sair do corredor e caminhar, como se fosse, pelo saguão naquela direção."
"Você notou as ações dela?"
"Não posso dizer que notei nada em particular, exceto que ela estava caminhando na sombra, do lado mais próximo ao corredor de onde saiu, e parecia estar olhando para a porta da sala de jantar."
"Você tem certeza de que era Hazel Rath?"
"Oh, era ela mesma", respondeu Milly confiantemente. "Eu a reconheci, assim como o vestido que ela estava usando."
"Isso foi antes ou depois de você ver a Srta. Heredith sair da sala de jantar?"
"Cerca de dez minutos depois."
"Você mencionou para alguém que a viu?"
"Não mencionei", respondeu a moça, como se o assunto fosse de suprema indiferença para ela.
"Por que não?"
"Suponho que a Srta. Rath seja livre para ir onde quiser", disse a moça com leveza. "Ela é privilegiada. Quando ela costumava morar aqui, ela circulava pela casa toda, como se fosse um membro da família. Não é da minha conta questionar suas idas e vindas."
"Oh, a Srta. Rath costumava morar aqui, é? Há quanto tempo?"
"Até uns dois anos atrás, antes de ela começar a trabalhar."
"E quanto tempo ela morou aqui?"
"Deve ter sido uns sete anos ou mais", disse Milly, considerando. "Ela veio para cá ainda menina quando a mãe veio como governanta. A Srta. Heredith gostou muito dela, e ela virou o xodó da casa, e fazia exatamente o que queria. Quando cresceu, costumava ajudar a mãe e fazer pequenas coisas pela casa. Mas ela nunca se exibiu -- isso eu tenho que dizer."
"Muito bem. Você pode ir agora."
"Caldew", disse Merrington rapidamente enquanto a porta se fechava atrás da moça, "vá encontrar a governanta e mande-a entrar aqui. E então fique de olho na filha dela, e não a deixe fora da sua vista até que eu mande chamá-lo. Então traga-a aqui."
Quando Caldew saiu da sala em sua missão, o Capitão Stanhill virou-se para o Superintendente Merrington com uma expressão de dor no rosto.
"Você suspeita--" ele começou.
"Não suspeito de ninguém -- e de todos", foi a resposta pronta. "Meu dever é descobrir os fatos, e meu negócio agora é verificar por que a governanta mentiu para mim sobre a filha dela esta manhã. Ela foi tola ao tentar me enganar. Há algo por baixo de tudo isso que vou investigar até o fim antes de partir."
Houve uma batida tímida, e a porta abriu-se lentamente, revelando a frágil figura negra da governanta parada hesitantemente no limiar. Seus olhos assustados estavam direcionados aos de Merrington, truculentos, como se impelidos por um ímã.
"Você -- você queria me ver?" ela gaguejou.
"Sim. Entre." Merrington comandou secamente. "Feche a porta, Lumbe. Sente-se, Sra. Rath, tenho algumas perguntas a lhe fazer."
A governanta sentou-se, com os olhos ainda fixos no rosto de Merrington. Ela parecia doente e abatida, mas o contorno de seu rosto desgastado e a silhueta de sua figura esguia sugeriam que ela já possuíra beleza e atrativos. Merrington, olhando-a fixamente, teve novamente a ideia de que a vira há muito tempo em diferentes condições e circunstâncias, mas não conseguia lembrar onde.
"Ouça, Sra. Rath", ele começou abruptamente. "Quero saber por que você mentiu para mim esta manhã."
"Eu -- eu não sei o que você quer dizer. Não vim aqui para ser insultada." A governanta proferiu essas palavras com uma fraca tentativa de dignidade, mas seus lábios ficaram subitamente brancos.
"Não venha com ares de grande dama para cima de mim, porque eles não vão funcionar", disse Merrington, em um tom feroz e intimidador. "Você sabe muito bem o que quero dizer. Você me disse esta manhã, quando perguntei, que tinha enviado todos os criados para serem examinados. Acabei de descobrir que não o fez. Havia uma moça, Milly Saker, que eu não vi. Por que isso?"
Pareceu ao Capitão Stanhill que a tensão do rosto da governanta relaxou, e que um olhar de alívio surgiu em seus olhos, como se a pergunta fosse diferente daquela que ela esperava.
"Eu não lhe disse uma mentira", respondeu ela, em um tom mais firme. "Enviei todos os criados que estavam na casa na época. Milly não estava em casa."
"Onde ela estava?"
"Ela foi até a aldeia ver a mãe, que está doente."
"Com sua permissão, suponho?"
"Sim."
"Por que você permitiu que ela fosse?"
"A mãe da moça estava muito doente e precisava da filha."
"Você a deixou ir, embora eu tivesse lhe dito que queria questionar todos os criados?"
"Não, foi antes de você me dizer isso que dei permissão a Milly para tirar a manhã de folga", respondeu a Sra. Rath calmamente.
"Essa é a verdadeira explicação?"
"Sim."
"É tão verdadeira quanto a sua outra declaração?"
"Que outra declaração?"
"A declaração que você me fez esta manhã quando me garantiu que sua filha tinha deixado esta casa para voltar ao seu emprego em Stading?" disse Merrington, com um sorriso cruel. "Isso não era verdade, sabe. Como você descreve essa inverdade? Como uma aberração temporária de memória, ou o quê?"
A governanta olhou para cima com olhos rápidos e assustados, e sua mão fina agarrou involuntariamente a borda da mesa à sua frente, mas ela não falou.
"Você mentiu sobre isso, sabe", continuou Merrington. "Descobri que sua filha esteve na casa o dia todo. Por que você me contou uma mentira? Vamos, fale!"
"Você é muito abrupto, Merrington", disse o Capitão Stanhill, intervindo com uma firmeza inesperada. "Você a assustou. Vamos, Sra. Rath", ele disse gentilmente, "você não pode nos dar alguma explicação sobre o porquê de nos ter induzido ao erro esta manhã?"
"Porque eu não queria que minha filha fosse envolvida nesta coisa horrível", ela exclamou descontroladamente. "Suponho que tenha sido muito tolo da minha parte", acrescentou ela, em uma voz mais composta, como se tranquilizada pelo olhar gentil nos olhos do Capitão Stanhill, "mas eu realmente não achei que importasse. Minha filha não sabia nada sobre o assassinato e, como ela é muito nervosa, não queria que ela ficasse perturbada."
"Onde estava sua filha ontem à noite quando o assassinato foi cometido?" perguntou Merrington.
"No meu quarto."
"Alguma de vocês ouviu o grito ou o tiro?"
"Não, meus quartos ficam bem longe da ala esquerda, e nós estávamos sentadas com a porta fechada."
"Então, quando você soube do assassinato?"
"Muito logo depois que aconteceu. Uma das criadas veio e me contou."
"E você diz que sua filha estava com você na hora, e estava com você há um tempo considerável antes?"
"Sim."
"Acho que isso basta, Sra. Rath, dei-lhe todas as oportunidades, mas você ainda persiste em contar falsidades. Sua filha foi vista caminhando pelo saguão ontem à noite na direção da ala esquerda pouco antes de o assassinato ser cometido. A pessoa que a viu foi a criada Milly Saker. Foi essa a verdadeira razão pela qual você deu a Milly licença para visitar a mãe esta manhã -- para que ela não nos contasse o que sabia?"
"Não é verdade", ofegou a governanta. "Minha filha não saiu dos meus quartos ontem à noite, garanto-lhe que essa é a verdade."
"Eu não acreditaria em você sob juramento", retrucou Merrington. "Lumbe, vá e diga a Caldew para trazer a moça."
CAPÍTULO XIII
A moça que entrou na sala um momento depois era alta e graciosa, com uma expressão de anseio em seus olhos escuros e suaves, como se em busca de uma felicidade que lhe fora negada pelo Destino. Sua aparência era de um refinamento incomum. Ela não tinha um traço da aparência grosseira e desleixada tão comum nas moças do campo inglês; não havia nada de rudeza rústica em sua figura esguia, e havia mais do que mera beleza em seus traços pequenos e requintados, seu cabelo escuro e espesso, sua pele clara e branca com um traçado de veias azuis nas têmporas. Seu nariz de ponte alta e queixo firme sugeriam certa força de caráter, mas essa sugestão era neutralizada por sua boca melancólica e terna, com o lábio inferior caído. O rosto, no geral, era paradoxal, contendo elementos de força e fraqueza, e os olhos eram o índice de uma natureza estranha e apaixonada.
Ela avançou para dentro da sala silenciosamente, com um olhar rápido, imediatamente velado por pálpebras caídas, para os rostos dos oficiais de polícia que a esperavam. Quando chegou à extremidade da mesa em que estavam sentados, ela parou e ficou com as mãos entrelaçadas frouxamente à sua frente, como se esperasse ser questionada.
"Por favor, sente-se, Srta. Rath", disse o Capitão Stanhill educadamente. "Queremos lhe fazer algumas perguntas."
A moça sentou-se em uma cadeira a alguma distância de sua mãe, e desta vez ela examinou os homens à sua frente com um ar de indiferença que era obviamente simulado.
Mas, novamente, ela baixou os olhos rapidamente, pois Merrington a encarava com um olhar de espanto, como se confrontado com uma presença familiar cuja identidade ele não conseguia recordar. Ele olhou de Hazel para sua mãe, e seus olhos fixaram-se ferozmente na governanta com a satisfação de um homem que resolveu um quebra-cabeça elusivo.
"Então nos encontramos antes, Sra. Rath", disse ele. "Você é--"
"Não, não! Por favor, mantenha silêncio na frente da minha filha", interrompeu a governanta apressadamente.
"Eu não estava enganado. Lembrei-me do rosto desta mulher esta manhã, mas não conseguia então recordar onde a tinha visto antes", continuou Merrington, virando-se para o Capitão Stanhill e falando com uma espécie de crueldade reflexiva. "O rosto da filha dela fornece a pista. Ela é a imagem de sua mãe como me lembro dela quando ela foi julgada em Old Bailey quinze anos atrás. Ela foi julgada por--"
"Eu imploro que não diga!" A Sra. Rath levantou-se de seu assento e olhou descontroladamente ao redor como se procurasse alguma rota de fuga de um desastre iminente.
"É necessário entrar nisso, Merrington?" perguntou o Capitão Stanhill em seus tons suaves, olhando da mulher excitada para seu colega com a consciência perturbada de que estava assistindo a uma cena que lhe era desagradável.
"Claro que é necessário se quisermos chegar à verdade deste caso", retrucou Merrington. "Você não precisa se preocupar por causa da Sra. Rath", continuou ele, com uma espécie de ironia selvagem e desdenhosa. "Uma mulher que foi julgada como cúmplice de assassinato não deve ser muito melindrosa. O nome dela não é Rath. É Theberton — Mary Theberton. Ela e seu marido foram julgados em Old Bailey quinze anos atrás pelo assassinato de um homem chamado Bridges. O julgamento causou um grande alvoroço na época. Ficou conhecido como 'O Caso do Sinal da Morte'."
Caldew olhou para a governanta com um novo interesse. Ele se lembrou prontamente do caso notório mencionado por Merrington. Theberton era um moleiro de Essex que, tendo descoberto que sua jovem esposa tinha o hábito de sinalizar sua ausência para Bridges por meio de uma vela colocada em sua janela, a obrigou a atraí-lo para a casa de campo com o sinal, e então teria supostamente o assassinado, jogando-o na represa do moinho. Mas, embora Bridges tenha sido visto entrando na casa e não tenha sido visto depois, a acusação de homicídio falhou porque os detetives foram incapazes de encontrar seu corpo. Theberton protestou sua inocência; Mary Theberton disse que seu marido a trancou em seu quarto antes de deixar Bridges entrar, e que ela não sabia nada sobre o que aconteceu entre os dois homens.
Houve muita simpatia popular por ela durante o julgamento, à medida que a crença de que as relações entre ela e Bridges eram inocentes, embora indiscretas, ganhava terreno; o resultado de um desejo por simpatia que levou uma infeliz jovem esposa a confiar seus problemas a um antigo colega de escola. Ela era filha de um arquiteto e fora criada com refinamento e bem educada, mas fora deserdada por seu pai por se casar abaixo de sua posição social. Seu marido a maltratava, e sua história era que ela havia buscado a ajuda de um antigo colega de escola para ir a Londres a fim de ganhar a vida para si mesma e para sua filhinha. Quando o julgamento terminou, Theberton emigrou e sua esposa desapareceu, embora houvesse algumas conversas sobre iniciar uma assinatura pública para ela. Este foi o fim de "O Caso do Sinal da Morte", pois o mistério do desaparecimento de Bridges nunca foi resolvido.
Caldew se perguntou por qual estranho giro da roda da Fortuna a mulher diante dele se tornou governanta no moat-house. Era certo que a Srta. Heredith não sabia nada sobre a página negra em seu passado, porque a Srta. Heredith, apesar de seu coração bondoso e princípios eclesiásticos rígidos, era a última pessoa a nomear alguém com um nome manchado para uma posição de confiança em sua casa. Ela se orgulhava demais do nome da família para fazer tal coisa. O fato de a governanta ter mantido o cargo por tanto tempo sem ser descoberta era prova da facilidade com que a identidade poderia ser ocultada com segurança de tudo, exceto do acaso. Embora seu comportamento nervoso sugerisse que ela vinha caminhando sobre o fio da navalha de um suspense perpétuo em seu refúgio tranquilo, sempre temendo a detecção, parecia a Caldew que ela poderia ter ido para o túmulo sem ser descoberta, não fosse por um truque do Destino ao selecionar o Superintendente Merrington para investigar o assassinato no moat-house. O Destino, à sua maneira cruel, a deixou em seu fio de navalha por um bom tempo antes de derrubá-la, e Caldew refletiu que ele havia sido feito o instrumento de sua queda.
Mas o que havia além da exposição da identidade da governanta? Por que ela enganou Merrington sobre a presença de sua filha na casa? Seria apenas o medo de que Merrington a reconhecesse em sua semelhança precoce com a filha, ou suas falsidades visavam enganar os detetives sobre os movimentos de Hazel no momento do assassinato? O que a moça diria? A situação estava repleta de estranhas possibilidades.
Enquanto essas reflexões passavam pela cabeça de Caldew, houve silêncio na sala, interrompido apenas pelo relógio na lareira, tiquetaqueando ruidosamente, com uma indiferença atrevida aos assuntos humanos. Merrington, após trazer a tragédia oculta e esquecida à luz, permaneceu quieto, observando atentamente o efeito sobre mãe e filha. A mãe permaneceu sem uma palavra ou gesto, com a mão endurecida em um protesto contido, como uma mulher congelada em silêncio. O olhar da moça estava direcionado para a mãe com a fixidez de alguém despertado no horror de um pesadelo. Pelo menos em sua imobilidade, ambas estavam em acordo. Então Hazel olhou maravilhada para os rostos dos outros na sala, com a indiferença fatigada de uma consciência que retornava, buscando recuperar sua orientação. Esta fase passou, e na súbita e violenta explosão de lágrimas que se seguiu estava a compreensão tardia do significado da exposição de sua mãe; a vergonha, a agonia, o desgraça que isso implicava. Com um movimento rápido, ela se levantou de seu assento, caminhou até sua mãe e segurou sua mão.
"Mãe!" disse ela.
Mas sua mãe se afastou dela e, afundando em sua cadeira, cobriu o rosto com as mãos em um gesto de vergonha, como uma mulher exposta nua à luz do dia.
"Não se preocupe com sua mãe agora", disse Merrington, enquanto a moça se curvava como se para confortá-la. "Por favor, retorne ao seu assento e responda às minhas perguntas."
Hazel se virou ao som de sua voz, mas permaneceu onde estava, observando-o ansiosamente.
"Você ficou aqui ontem à noite com sua mãe, entendo?" continuou Merrington.
"Sim."
"Quando você chegou aqui?"
"Ontem à tarde."
"De onde?"
"De Stading, de trem. Eu tive uma tarde de folga e vim ver minha mãe."
"Faz quanto tempo desde que você a visitou anteriormente?"
"Deve fazer cerca de três meses", disse Hazel, após uma breve reflexão.
"Você sempre deixa passar três meses entre suas visitas?"
"Não." Houve um traço de hesitação na resposta.
"Você costumava vir mais vezes?"
"Sim."
"Com que frequência?"
"Quase toda semana." Desta vez, a hesitação antes da resposta foi claramente aparente.
"Por que você deixou passar tanto tempo entre esta visita e a anterior, quando você costumava ver sua mãe quase toda semana?"
Hazel hesitou novamente, como se estivesse sem resposta.
"Tenho estado muito ocupada", murmurou ela finalmente.
"Esta é sua primeira visita ao moat-house desde que a Sra. Heredith veio morar aqui?"
"Sim." A resposta foi tão baixa que foi quase inaudível.
Caldew, que era a única pessoa na sala com o conhecimento mais profundo para adivinhar o rumo dessas perguntas, percebeu com um certo choque que Merrington, com menos fatos para guiá-lo, havia chegado à sua conclusão absoluta sobre os eventos da última meia hora, enquanto ele havia vagado perplexo em uma nuvem de suspeitas. O salto mental tinha sido grande demais para ele, mas Merrington não hesitou em dá-lo. Caldew esperou ansiosamente pela próxima pergunta. Demorou um pouco para vir, e quando veio, não foi o que Caldew esperava. Como se satisfeito com as respostas anteriores que havia recebido, Merrington mudou para outro caminho.
"Como você passou a noite passada?" perguntou ele bruscamente.
"Não entendo o que quer dizer." Havia a sombra do medo nos olhos escuros da moça enquanto ela respondia.
"Vou ser mais claro então. Como você ocupou o tempo entre sua chegada ao moat-house e a hora de dormir?"
"Passei com minha mãe em seus aposentos."
"Você esteve lá o tempo todo?"
Pareceu a Caldew que a atitude da mulher mais velha era a de uma ouvinte. Embora ela ainda mantivesse o rosto enterrado nas mãos, seu corpo se moveu ligeiramente, como se estivesse ouvindo para captar a resposta.
"Sim." A palavra foi dita apressadamente, quase desafiadoramente, mas os olhos da moça vacilaram e caíram sob o olhar direto de Merrington.
"Posso presumir, então, que você estava no quarto de sua mãe no momento em que a Sra. Heredith foi assassinada?"
Desta vez Hazel não respondeu audivelmente, mas um leve movimento de cabeça indicou uma afirmativa.
"O que você diria se sua mãe admitisse que você deixou o quarto dela antes que o assassinato fosse cometido e que ela não a viu até depois?"
Era uma armadilha inteligente, Caldew admitiu relutantemente, essa ideia de colocar mãe e filha uma contra a outra, mas que ele teria hesitado em usar. O efeito foi instantâneo. Antes que a moça pudesse formular uma resposta com seus lábios assustados, sua mãe levantou a cabeça bruscamente.
"Eu não disse isso! Não responda a ele, Hazel, não lhe conte. Oh!" Tarde demais, a desgraçada mulher percebeu que havia traído sua filha, e ela afundou em um silêncio estupefato.
"Sua mãe deixou o gato sair do saco", disse Merrington à moça, em um tom de zombaria. "Vamos lá, agora", acrescentou ele, mudando rapidamente para seu tom mais truculento. "É melhor termos a verdade, primeiro ou por último. Você foi vista ontem à noite subindo o corredor em direção à ala esquerda pouco antes de o assassinato ser cometido. Você admite isso?"
"Eu admito." A admissão foi feita em um tom baixo, porém calmo.
"Então sua última resposta não foi verdadeira. O que você estava fazendo no corredor naquela hora?"
Hazel, olhando fixamente para a frente, não respondeu, mas seu peito em movimento rápido traiu sua agitação.
"Você me ouviu? Perguntei o que você estava fazendo no corredor ontem à noite."
"Não vou lhe dizer."
"Você subiu as escadas?"
"Não vou lhe dizer."
Essas respostas foram dadas com uma prontidão firme que contrastava fortemente com sua hesitação anterior. Ela era como uma pessoa que fora forçada a seguir um caminho perigoso que temia trilhar e que reunira coragem para percorrê-lo bravamente até o fim.
"Claro que você percebe a posição em que se coloca com seu silêncio?" A gravidade tranquila com que Merrington fez essa pergunta era, da mesma forma, o mais estranho contraste com seu estilo intimidador anterior. "É meu dever avisá-la de que você está se colocando em uma situação grave. Mais uma vez, você responderá às minhas perguntas?"
"Não vou." A resposta foi acompanhada por um gesto que continha algo do descuido do desespero.
"Então você deve arcar com as consequências." Ele se virou para o Capitão Stanhill e Caldew. "Será necessário revistar os aposentos da governanta. Lumbe, você fica aqui e toma conta dessas duas mulheres. Não permita que nenhuma delas deixe a sala sob qualquer pretexto. É melhor manter a porta trancada até que voltemos."
Ele saiu da sala a passos largos, seguido pelo Capitão Stanhill e Caldew, para a evidente trepidação de duas criadas do lado de fora, que claramente não tinham nada que fazer ali. Era evidente que Milly Saker estivera falando e que estranhos rumores estavam agitando o submundo do moat-house.
"Onde ficam os aposentos da governanta?" disse Merrington, abordando bruscamente uma das garotas agitadas. "Vamos, agora, não fique aí me olhando como uma idiota, leve-nos lá imediatamente."
A garota aterrorizada seguiu rapidamente ao longo de um corredor que levava do hall principal. Virando em uma passagem mais estreita perto do fim, ela parou diante de uma porta fechada e disse:
"Este é o quarto da governanta, senhor."
"Espere um minuto", disse Merrington. "A governanta ocupa apenas um quarto?"
"Não, senhor, são dois. Uma sala de estar, com um quarto saindo dela."
"Ela não tem outro quarto em nenhuma outra parte da casa?"
"Oh, não, senhor."
"Isso basta. Pode ir."
A criada não precisou de uma segunda ordem; ela correu de volta em direção ao corredor como uma galinha assustada procurando abrigo. Merrington abriu a porta à sua frente e entrou.
O quarto era bem e simplesmente mobiliado no estilo da casa, mas os pertences pessoais e a encadernação de alguns livros sugeriam uma mente não em desarmonia com o refinamento do ambiente. Merrington, com um olhar rápido e abrangente ao seu redor, começou a desarrumar o arranjo limpo e a ordem feminina do apartamento com uma busca completa e sistemática.
Caldew observou-o por um momento e depois caminhou até a porta do quarto interno e entrou. O quarto era grande e arejado, e os equipamentos traziam um toque de simplicidade delicada. Caldew notou rapidamente o chapéu de uma moça, com um véu preso, jogado descuidadamente sobre a penteadeira.
Ele deu uma volta ao redor da cama e se aproximou da mesa para olhar o chapéu. Um nó apertado e um leve rasgo no filó indicavam que ele havia sido descartado muito apressadamente, e Caldew se perguntou se Hazel o estava usando, esperando uma oportunidade para escapar do moat-house, quando ele bateu à porta para chamá-la para a biblioteca.
Ao pousar o chapéu, seus olhos recaíram sobre uma almofada de alfinetes perto do espelho, e ele deu um salto de surpresa. No meio de alfinetes de chapéu em vários ângulos, ele viu o pequeno broche que havia desaparecido da câmara mortuária. A pedra com o reflexo esverdeado brilhava claramente contra a seda azul e dourada da almofada; a parte do fecho que estava visível revelava o início da inscrição arranhada de "Semper Fidelis". A ausência de qualquer tentativa de esconder o broche era a prova de que sua dona estava sob a ilusão de que ninguém o tinha visto caído na câmara mortuária. Caldew sentiu uma pontada de vaidade profissional com o sucesso de seu estratagema.
Seu próprio nome, proferido em um grito peremptório vindo da sala ao lado, fez com que ele pegasse o broche e se apressasse para lá. A primeira visão que encontrou seus olhos foi o rosto corado e triunfante de Merrington debruçado sobre alguns artigos na mesa. A visão de Caldew sobre os objetos foi obscurecida pelo Capitão Stanhill, que também os examinava, mas ele adivinhou, pela atitude de ambos os homens, que uma descoberta valiosa havia sido feita. Ele avançou ansiosamente até a mesa e viu, deitado entre eles, um pequeno revólver e um lenço. O cambraia branco do lenço estava manchado de carmesim com sangue.
O quarto estava em grande desordem. O Superintendente Merrington, na impetuosidade de sua busca, havia reduzido a ordem anterior ao caos no decorrer de alguns minutos. As gavetas tinham sido abertas e seus conteúdos espalhados pelo chão, tapetes e almofadas tinham sido jogados em um canto da sala, e as portas de um armário tinham sido forçadas. Até os quadros na parede tinham sido desarrumados, e algumas das cadeiras estavam derrubadas.
"Onde você encontrou essas coisas?" perguntou Caldew, pegando o revólver e examinando-o.
"Naquela coisinha de bugiganga ali." Merrington apontou para uma escrivaninha leve e elegante em um canto da sala. "Não é um esconderijo feminino típico? Tão seguro quanto enterrar a cabeça na areia. A gaveta tinha sido trancada e a chave levada, mas foi muito fácil de abrir. A fechadura é um tipo de coisa sem valor, com o ferrolho entrando na madeira macia."
"Vejo que o revólver ainda está carregado em cinco câmaras", disse Caldew, ao pousar a arma.
"Sim, e a sexta foi disparada recentemente. Não precisamos de evidências muito mais claras do que isso. E olhe este lenço. O sangue nele mal está seco ainda."
Caldew pegou o lenço em sua mão. Como Merrington observou, o sangue nele mal estava seco. Era um pequeno quadrado de linho, desprovido de adornos femininos, exceto por um delicado "H R" trabalhado em seda em um dos cantos. As letras eram mal visíveis no sangue com o qual todo o lenço estava saturado.
"Eu me pergunto como ela conseguiu o sangue no lenço?" disse Caldew. "Ela tentou estancar o sangramento depois de atirar na Sra. Heredith?"
"Seria bem coisa de mulher fazer isso", resmungou Merrington. "As mulheres gostam de chorar sobre o leite derramado — especialmente quando foram elas mesmas que derramaram. No entanto, isso não vem ao caso. O ponto é que este é o lenço da moça, e este é o revólver com o qual ela atirou na Sra. Heredith."
"Mas qual foi o motivo dela para cometer um crime tão atroz?" perguntou o Capitão Stanhill, perplexo.
"Ciúme", respondeu Merrington prontamente. "Eu vi a possibilidade desse motivo assim que ouvi a história de Milly Saker e soube que Hazel Rath morava há alguns anos no moat-house. O jovem Heredith e ela devem ter convivido muito antes da guerra, e sem dúvida houve um flerte entre eles que provavelmente se transformou em um caso. Todos os ingredientes estão à mão para isso — um jovem ocioso de boa família, uma moça educada acima de sua posição, uma casa de campo isolada e muita oportunidade. Eu conheço bem esse tipo de moça. Essas protegidas semieducadas de grandes senhoras crescem com todos os caprichos e veleidades de damas finas, e suas cabecinhas tolas são facilmente viradas. Provavelmente, essa garota imaginou que o jovem Heredith estava tão cativado pelo seu rostinho bonito que se casaria com ela. Quando soube que tinha sido descartada por outra pessoa, ela remoeu em segredo até que sua natureza desequilibrada a levou a cometer este crime terrível. Além disso, ela é filha de uma mulher com um passado estranho, que vive sob um nome falso nos últimos quinze anos."
"Você acha que mãe e filha agiram em conluio neste assassinato?" perguntou Caldew.
"Essa é uma pergunta que eu não gostaria de responder de imediato", respondeu Merrington pensativo. "Sem dúvida, a mãe protegeu a filha e mentiu para salvá-la, e ela obviamente sabia que a garota estava ausente de seu quarto no momento em que o assassinato foi cometido. Até que ponto isso implica conhecimento culposo, ou os atos de uma cúmplice, não estamos ainda em condições de dizer. Vamos prender a filha e deter a mãe — por enquanto, de qualquer forma. Se acusaremos a mãe também, além da filha, dependerá de nossas investigações subsequentes. Não será novidade a mãe ser acusada como cúmplice em um caso de assassinato", concluiu Merrington, com um sorriso sombrio.
"Não temos nenhuma evidência direta de que a garota subiu as escadas ontem à noite", disse Caldew, com um ar reflexivo. "Milly Saker não a viu subindo as escadas e, aparentemente, ninguém a viu descendo."
"Nenhuma evidência direta, é verdade. Mas a evidência circunstancial é tão forte que dificilmente é necessária. Em primeiro lugar, Milly Saker a viu descendo o corredor na direção da ala esquerda pouco antes de o assassinato ser cometido. No dia seguinte — esta manhã — a governanta mandou Milly Saker embora antes que ela pudesse ser questionada pela polícia. Esse ato sugere duas inferências. Primeiro, a Sra. Rath, como ela se chama, tinha alguma suspeita de que Milly Saker viu sua filha no corredor na noite anterior e, segundo, que a Sra. Rath temia, à luz dos eventos subsequentes, deixar saber que sua filha foi vista caminhando pelo corredor antes de o assassinato ser cometido. Dessas inferências, podemos concluir que, mesmo que a mãe não tivesse conhecimento real do crime, ela acreditava que sua filha era culpada. Suas ações subsequentes hoje confirmam essa teoria em todos os aspectos. E, claro, a recuperação deste revólver e do lenço da moça nos aposentos da mãe, onde ela dormiu ontem à noite, é a prova mais forte possível de que a garota atirou na Sra. Heredith."
"Claro que não pode haver dúvida disso. Seria impossível encontrar um caso mais forte de evidência circunstancial", disse Caldew seriamente. "Mas aqui está uma peça de evidência direta. Olhe aqui!" Ele tirou o pequeno broche do bolso e colocou-o sobre a mesa ao lado do revólver e do lenço. "Este é o broche sobre o qual lhe falei. É o broche que vi no quarto da Sra. Heredith e que desapareceu enquanto eu estava lá embaixo. Encontrei-o preso em uma almofada de alfinetes no quarto ao lado, ao lado do chapéu da garota. Ela deve ter percebido que o deixou cair no quarto da mulher assassinada e aproveitou a oportunidade para voltar e buscá-lo enquanto eu estava fora da sala. Essa é uma evidência direta de que ela estava no quarto da Sra. Heredith."
"Então você estava certo sobre o broche. Devo-lhe um pedido de desculpas por isso, Caldew", disse Merrington. Ele colocou a pequena joia em sua mão grande e virou-a com o dedo. A inscrição no verso chamou sua atenção, e ele a segurou mais perto para ler. "Semper Fidelis!", exclamou ele. "As palavras são típicas da garota. O sentimento piegas apelaria para ela, e ela é daquele tipo semieducado que acha uma frase em latim algo imponente. Imagino quem lhe deu isso? Ah, já sei! Provavelmente foi um presente do jovem Heredith, e ela acrescentou a inscrição por conta própria para aumentar o valor da lembrança e manter seu 'Sempre Fiel'."
Mais uma vez, Caldew admitiu relutantemente para si mesmo que as deduções de Merrington eram mais rápidas e vigorosas do que as suas, mas ficou secretamente irritado ao pensar que o outro havia obtido, parcialmente por adivinhação, a solução de uma pista que lhe causara tanto pensamento e perplexidade.
"O broche não é uma evidência mais direta do que o revólver e o lenço", continuou Merrington. "A garota, a menos que seja uma tola nata, dificilmente admitirá a propriedade de qualquer um deles. Ela estaria colocando a corda no próprio pescoço se o fizesse."
"Eu percebo isso", respondeu Caldew. "Mas acho que ela poderia ser levada a revelar que possui o broche. As mulheres são muito impulsivas quando se trata da perda de ornamentos, e então suas ações são instintivas. Tenho notado isso frequentemente."
"E como você pretende descobrir?", perguntou Merrington.
"Perguntando a ela."
"Você não conseguirá nada desta garota apenas perguntando", replicou Merrington. "Ela é mais profunda do que isso, ou estou muito enganado. No entanto, faça suas próprias perguntas, sem dúvida, depois que eu a interrogar sobre o revólver e o lenço. Vamos voltar à biblioteca."
Eles retornaram à biblioteca. O sargento Lumbe abriu a porta em resposta à batida, com o rosto vincado pelas responsabilidades do cargo. Mãe e filha estavam sentadas onde as haviam deixado, mas a mulher mais velha recuperara certa medida de compostura e olhava tristemente à sua frente. Ela não olhou para os oficiais de polícia quando entraram, mas Hazel voltou os olhos para eles, e seu olhar recaiu sobre o revólver e o lenço que Merrington carregava na mão. Pareceu a Caldew que o rosto dela permaneceu impassível. Merrington caminhou até ela.
"Você deve considerar-se presa sob a acusação de assassinar a Sra. Heredith", disse ele, em tons calmos, quase conversacionais. "Este revólver e este lenço foram encontrados na sala de estar de sua mãe. Se você tem alguma explicação a dar, pode fazê-lo, mas é meu dever avisá-la de que qualquer declaração que fizer agora poderá ser usada como prova contra você mais tarde."
"Não tenho nada a dizer", respondeu a garota simplesmente.
"Você se recusa a dizer como este revólver veio parar em sua posse, ou a dar qualquer explicação sobre as manchas de sangue neste lenço?"
"Sim."
"Você também se recusa a nos dizer o que fez com o broche que estava usando ontem à noite?", acrescentou Caldew.
A garota, com um gesto instintivo e impulsivo, levou apressadamente a mão ao pescoço de sua blusa, então, percebendo que havia se traído inconscientemente, deixou-a cair lentamente ao lado do corpo.
CAPÍTULO XIV
A falácia popular que compara a prova circunstancial a uma corrente naturalmente não encontrou aceitação na mente do Superintendente Merrington. Se um elo de uma corrente se rompe, o cativo se solta, mas se ele está preso por uma corda, é necessário que todos os fios sejam cortados antes que a liberdade possa ser recuperada.
Merrington permaneceu em Heredith para tecer fios adicionais para a corda da prova circunstancial pela qual Hazel Rath estava detida pelo assassinato de Violet Heredith. Era um caso bom e sólido como estava, mas Merrington vira cordas fortes demais serem roídas por dentes legais afiados para deixar qualquer coisa ao acaso. Se as circunstâncias contra Hazel Rath permanecessem abertas a uma explicação alternativa — se, por exemplo, a defesa sugerisse que a mãe estava implicada no crime e a filha permanecia em silêncio para protegê-la, poderia ser difícil obter uma condenação. Merrington sabia por ampla experiência como teorias alternativas enfraqueciam o caso de prova circunstancial, não importando quão forte a presunção a partir dos fatos conhecidos parecesse ser.
Um fio útil na prova circunstancial é o motivo, e foi o motivo que Merrington buscou provar contra Hazel Rath. Sua própria inferência sobre o crime, alcançada rápida e audaciosamente pouco antes de prendê-la, era que a garota estava apaixonada por Phil Heredith e havia assassinado sua jovem esposa por ciúmes. O silêncio de Hazel diante da acusação apoiava essa teoria, em sua opinião. Ela tinha vergonha de confessar, não o crime, mas o amor sem esperança que o inspirara. As mulheres eram assim, refletiu Merrington. Uma mulher que ousasse cometer um assassinato coraria ao admitir, mesmo para si mesma, que havia entregado seu amor a um homem que estava fora de seu alcance. Mas uma coisa é ter uma teoria, e outra é prová-la aos olhos da lei. Como Hazel Rath dificilmente ajudaria a Coroa a estabelecer o motivo confessando seu amor por Philip Heredith, restou ao Superintendente Merrington estabelecer sua teoria através de todos os fatos independentes e inferências que pudesse trazer à luz.
Isso provou ser mais difícil do que ele previra. Ele havia visualizado a situação com excelente percepção até certo ponto, e imaginara que não seria difícil obter provas da existência de um flerte ou intriga inicial entre Phil Heredith e a garota bonita que ocupava uma posição anômala na Moat-House. Mas um exame mais aprofundado dos ocupantes da casa não conseguiu fornecer quaisquer provas em apoio a essa suposição. Merrington podia facilmente entender a Srta. Heredith e seu irmão negando tal sugestão; mas o fato de que nenhum dos criados tinha visto nada do tipo era prova bastante convincente de que tal relação não existia.
Nenhuma classe tem um instinto mais aguçado para o escândalo do que os criados de uma casa de campo. Eles têm oportunidades de ver coisas ocultas que ninguém mais suspeitaria. E os criados da Moat-House afirmaram, com total unanimidade, que não houve nada entre Phil Heredith e Hazel Rath durante o tempo em que a garota viveu na Moat-House. Suas relações tinham sido amigáveis, mas nada mais. Não havia registro de olhares secretos, beijos roubados ou encontros surpresa para apoiar a teoria de um flerte mútuo ou amor furtivo. Era impossível duvidar que a atitude de Phil Heredith em relação à garota que ocupava uma posição de dependência em sua casa tivesse sido motivada por nenhum sentimento mais caloroso do que uma espécie de consideração fraternal.
Merrington, versado por longa experiência em formar uma estimativa de caráter a partir de opiniões de segunda mão, foi forçado à conclusão de que Phil Heredith não era o tipo de jovem para trair a inocência ou brincar com os sentimentos de uma garota jovem e ingênua. O depoimento dos criados revelava-o como gentil e cortês, mas tímido e reservado, não afeito a companhias e imerso em suas atividades de história natural.
Merrington, no entanto, teve menos dificuldade em provar, para sua própria satisfação, que Hazel Rath estivera secretamente apaixonada por Phil Heredith quase desde os dias de sua infância. Havia, para começar, o broche de pedra verde que Caldew apanhara no quarto após o assassinato da Sra. Heredith. Os membros da família costumavam dar à garota pequenos presentes no aniversário, e Phil lhe dera a peça de pedra verde, montada em um broche, em seu aniversário, seis anos antes. Não havia segredo nisso; o presente fora escolhido por sugestão da Srta. Heredith, que contou a Merrington os fatos. O que era desconhecido era a adição da inscrição "Semper Fidelis", que deve ter sido arranhada no broche posteriormente pela própria garota como um voto juvenil de amor e fidelidade ao doador.
O detetive Caldew poderia ter verificado esses fatos e encurtado as investigações policiais pelo simples processo de perguntar à Srta. Heredith sobre o broche em primeira instância. Mas é fácil ser sábio depois do fato, e o Superintendente Merrington era o último homem a brigar com seu subordinado por excesso de cautela na fase inicial das investigações, quando era seu dever duvidar de todos e não confiar em ninguém. Além disso, Merrington não podia esquecer que ele mesmo subestimara completamente a importância daquela pista quando Caldew chamara sua atenção para ela.
Uma busca no quarto de Hazel em Stading trouxe à luz testemunhos adicionais do amor que provavelmente a destruiria. Merrington e Caldew, revirando impiedosamente os pertences femininos daquele ninho delicado, descobriram no fundo da caixa da garota um pacote quadrado amarrado com fita. O pacote continha cartas e cartões-postais de Phil, principalmente cartões-postais ilustrados de diferentes lugares do continente que ele visitara após deixar Cambridge. Havia três cartas: duas epístolas de tempos de escola, pedindo à garota que cuidasse dos animais de estimação que ele deixara em casa, e um bilhete curto da Universidade anunciando o envio de um volume de poemas como presente de aniversário. Havia também um cartão de Natal, datado de alguns anos antes, com a inscrição: "Para o querido Phil, com amor, de Hazel". A garota o guardara, talvez porque fosse tímida demais para entregá-lo ao destinatário pretendido, mas seu valor principal aos olhos de Merrington era a semelhança entre o F maiúsculo escrito e a mesma letra na inscrição arranhada no broche de pedra verde.
Com essas descobertas, Merrington ficou satisfeito. No amor secreto de Hazel Rath por Phil Heredith, a Coroa estava munida do motivo para o assassinato da esposa de Phil Heredith. Na opinião de Merrington, a suposição do motivo era reforçada pelo fato de que o assassinato foi cometido durante a primeira visita de Hazel à Moat-House desde a chegada da jovem noiva, porque, até o casamento de Phil, era costume da garota visitar a Moat-House uma vez por semana. A Srta. Heredith informou a Merrington que questionara a garota na tarde do assassinato sobre o repentino fim de suas visitas, e Hazel respondera de forma bastante evasiva. Merrington formou a opinião de que ela ficara longe porque não suportava ver a mulher que Phil tornara sua esposa. Então, percebendo que sua ausência prolongada provavelmente seria notada, ela fora ver a mãe no dia do crime. Merrington não achava que o assassinato fora premeditado. Sua crença era que, quando a garota se viu de volta ao ambiente onde passara uma infância tão feliz em associação com Phil Heredith, foi tomada por um acesso de loucura e ciúme contra sua rival bem-sucedida e, sob sua influência, correra para o andar de cima e a assassinara. Merrington também chegara à conclusão de que a mãe dela não sabia nada sobre o crime até depois, e então tentara proteger a filha mentindo para a polícia e mandando Milly Saker para longe.
Merrington foi incapaz de explicar a posse de Hazel do revólver com o qual a Sra. Heredith fora morta. A garota manteve seu silêncio obstinado após a prisão e recusou-se a responder a quaisquer perguntas sobre a arma ou qualquer coisa ligada ao crime. A suposição da polícia era que ela obtivera o revólver da sala de armas da Moat-House pouco antes de o assassinato ser cometido. A sala de armas ficava no subsolo. Originalmente, fora a cripta do castelo saxão que outrora existira no local onde a Moat-House foi construída, e era acessada por um curto lance de degraus não muito longe da passagem que levava aos aposentos da governanta. Era de forma retangular e, como a maioria das salas de armas em antigas mansões rurais inglesas, continha uma grande variedade de armas antigas e modernas.
Nem Sir Philip Heredith nem a Srta. Heredith puderam afirmar se o revólver encontrado no quarto da governanta pertencia à Moat-House ou se era propriedade de um dos hóspedes, e Phil Heredith estava doente demais para ser questionado. Como a prova pericial no inquérito determinou definitivamente que a bala extraída da mulher assassinada fora disparada pelo revólver, Merrington não deu muita importância à questão da propriedade, mas, antes de sua partida para Londres, arranjou que Caldew retornasse à Moat-House mais tarde com o revólver para inspeção de Phil, na esperança de resolver o ponto antes do julgamento.
A Srta. Heredith comprometera-se a avisar os detetives quando seu sobrinho estivesse bem o suficiente para ser visto, mas, com o passar do tempo, duvidava se ele algum dia se recuperaria. Embora o delírio que se seguira ao seu colapso tivesse passado, ele recuperava a saúde lentamente e permanecia na cama, apático e indiferente a tudo, às vezes lendo um pouco, mas, mais frequentemente, deitado imóvel, olhando para a parede. Ele era passivo, quieto e obediente como uma criança. Parecia não ter lembrança dos eventos da noite do assassinato, e sua tia não ousava trazê-los à sua mente.
Era por causa de Phil, e apenas por ele, que ela conseguia preservar sua própria coragem e calma através da sórdida provação do longo inquérito e da pompa vazia do funeral da jovem esposa. Seu próprio coração estava machucado e entorpecido dentro dela com os horrores que lhe haviam sido impostos. Ela era como alguém que vira um abismo se abrir subitamente a seus pés, revelando terríveis obscenidades e abominações humanas chafurdando nuas nas profundezas. Foi um choque pungente para ela que a natureza humana fosse capaz de tal infâmia. Seus olhos virgens e assustados viam, pela primeira vez, na monstruosa paixão do sexo, uma força que era mais forte do que suas próprias crenças mais queridas. Se uma garota doce e gentil como Hazel Rath, que fora criada sob seu olhar para andar retamente, podia ser levada pela onda de paixão tempestuosa a cometer um assassinato, onde ficavam a Fé e a Religião?
Quase tanto quanto o efeito do assassinato, ela temia o resultado dessa segunda revelação em seu sobrinho. O conhecimento de que a pessoa acusada de matar sua esposa era uma garota que vivera em sua própria casa por anos estava fadado a ter um efeito adicionalmente prejudicial em seu temperamento estranho e sensível. Ninguém conhecia esse temperamento melhor do que a Srta. Heredith. Não era o temperamento Heredith. Fora a herança de sua mãe, uma criatura estranha, élfica e caprichosa, que morrera ao dar à luz Phil. Como todas as irmãs, a Srta. Heredith se perguntara o que seu irmão vira em sua esposa para se casar com ela. Phil fora, desde o início, uma decepção para seu pai. Ele viera ao mundo com um pé manco e uma estrutura frágil, e os Herediths sempre foram conhecidos pela força e graça masculinas. Em vez de crescer com desprezo pelos livros e um amor absorvente pelo esporte, como um verdadeiro Heredith, Phil revelara cedo sintomas de uma disposição intelectual e estudiosa, reservada e tímida, com pouco gosto por outros meninos ou jogos infantis. Seu único passatempo era um interesse por história natural. Ele dedicava sua mesada à compra de estranhos animais de estimação, que mantinha em gaiolas enquanto vivos e empalhava quando morriam.
A Srta. Heredith desaprovava esse passatempo, mas o tolerava em silêncio, pelo princípio de que um Heredith não podia errar, até que, em uma manhã de inverno, ela fora assustada em seu primeiro e único ataque de histeria ao descobrir uma grande cobra manchada enrolada confortavelmente em algumas peças de flanela que ela estava fazendo para a esposa do vigário, em antecipação ao quinto parto daquela infeliz senhora. A investigação trouxe à luz o fato de que a cobra fora comprada subrepticiamente pelo jovem Phil de um comerciante de Covent Garden. Ele a mantivera em uma caixa nas estrebarias, mas, achando-a torpe de frio certa noite, colocara-a no cesto de costura de sua tia para buscar calor. Quando a Srta. Heredith se recuperou de sua histeria, certificou-se de que Phil fosse enviado para a escola quase tão rapidamente quanto a cobra fora enviada para o Jardim Zoológico.
Após os dias de faculdade de Phil, a influência de seu pai conseguira para ele um cargo no governo que seria o precursor de uma carreira diplomática, se Phil se interessasse por isso. Isso foi antes da guerra, que transtornou tantos planos. Em sua capacidade de secretário departamental assistente, Phil não tinha nada de particular para fazer, e uma ampla mesada de seu pai para gastar em seu tempo de lazer. Muitos jovens nessas circunstâncias — abandonados à própria sorte em Londres com muito dinheiro para gastar — não teriam perdido tempo em "se perder", mas o temperamento de Phil o preservou daquelas tentações que tantos jovens bem-nascidos acham irresistíveis. Ele tinha desdém pelo palco, não se importava com coristas, detestava corridas de cavalos e não bebia.
Ele buscava distrações de outra forma, e rumores dessas distrações filtraram-se, no devido tempo, para sua casa de família em Sussex. Sussurrava-se que Phil era "estranho" — que sua antiga paixão por acariciar répteis e formas animais inferiores fora apenas desviada para outro canal. Ele se tornara socialista e fora visto confraternizando com as classes inferiores em reuniões no East End com outras pessoas suficientemente respeitáveis para saber o que faziam. Chegou-se a dizer que ele apoiara uma condessa revolucionária irlandesa (que descobrira o primeiro socialista em Jesus Cristo e queria desestabelecer a Igreja da Inglaterra) ao "presidir a mesa" para ela quando ela anunciou esses dogmas à ralé no Hyde Park em uma bela tarde de domingo. Um Heredith socialista e dissidente! Esses foram golpes amargos para a Srta. Heredith, uma mulher imersa na tradição familiar e da Igreja, mas ela suportou o choque com uma fachada inabalável e foi capaz de fazer das deficiências da mãe de Phil um sacrifício vicário pelas más ações do filho.
Mas o golpe mais amargo para o orgulho familiar da Srta. Heredith foi a notícia do casamento de Phil. Até então, ela depositara sua fé, como uma mulher sábia, na influência reformadora de um bom casamento. Embora fosse ela mesma uma solteirona, ela sabia que não havia método melhor para reduzir os passos chamativos e inquietos da juventude ao trote sóbrio da meia-idade do que a influência restritiva do tipo certo de parceiro. As qualidades que Phil mais precisava em uma esposa eram aquelas possuídas por uma garota sóbria, sem imaginação, plácida e de molde convencional. Tais donzelas não são desconhecidas na Inglaterra rural, e a Srta. Heredith não teve muita dificuldade em escolher uma no condado suficientemente bem-nascida para se casar com os Herediths. A Srta. Heredith aperfeiçoou seu plano em detalhes e chegou ao ponto de redigir a carta que traria Phil de Londres para ser matrimonialmente enredado, quando chegou a notícia de que ele se enredara sozinho em Londres, sem a assistência de sua tia.
Ela não gostou da esposa dele desde o início, e era igualmente certo que a esposa de Phil não gostava dela. Era uma coisa maravilhosa para a Srta. Heredith que uma garota superficial e mundana como Violet tivesse capturado o coração de um jovem como seu sobrinho tão completamente a ponto de fazê-lo alterar seus modos de vida por ela. Phil amava a Natureza, os livros e os caminhos solitários; sua esposa detestava tais coisas. Phil, em sua ânsia de agradá-la e banir seu aparente tédio com a vida no campo, sugerira convidar algumas pessoas de Londres com quem, em um tempo, ele teria tido muito pouco em comum. Talvez sua vida em Londres o tivesse mudado, mas, se assim fosse, era uma mudança para pior para um jovem, e um Heredith, estar tanto sob o domínio de sua esposa a ponto de abandonar seus próprios hábitos de vida por ordem dela. Mas Phil estava tão apaixonado que o fizera, alegre e voluntariamente. O desejo mais leve de Violet era sua lei.
Esses pensamentos, e outros como eles, passavam e repassavam pela mente da senhorita Heredith enquanto ela se sentava, dia após dia, no quarto de enfermo de seu sobrinho. Era seu costume levar seu trabalho de costura para lá durante a tarde, e aliviar a enfermeira por duas ou três horas. Mas sua costura frequentemente permanecia ociosa em seu colo, e ela recostava-se na cadeira, absorta em pensamentos, lançando olhares de tempos em tempos para o rosto abatido de Phil no travesseiro, onde ele jazia como alguém exausto e cansado, relutante em retornar ao tumulto da vida. Ele tomava sua comida e remédios com a docilidade de uma criança, e ocasionalmente sorria para sua tia quando ela o servia. Gradualmente, ele melhorou e ganhou força física até que foi capaz de se sentar e fumar um cigarro ocasional. Às vezes, ele conversava um pouco com sua tia, mas sempre sobre assuntos indiferentes. Ele nunca perguntava sobre sua esposa, ou falava do assassinato, como fizera em seu delírio. Era evidente para aqueles ao seu redor que sua lembrança dos eventos que haviam causado sua doença ainda não retornara. A natureza, por ora, havia acalmado seu cérebro atingido com um esquecimento temporário.
Então, um dia, a mudança que a senhorita Heredith antecipava e temia veio sobre ele tão rapidamente quanto um sonho. Ela entrou no quarto e o encontrou de pé e vestido, andando de um lado para o outro com passos rápidos e apressados. Um olhar de seus olhos escuros e rápidos transmitiu-lhe que seus sentidos errantes haviam cruzado novamente a linha divisória da consciência, e entrado no horror e na agonia da lembrança.
"Phil, querido", disse ela, apressando-se para o seu lado, "é sensato?"
"Há quanto tempo estou deitado aqui?", ele exigiu impacientemente, como se não a tivesse ouvido falar.
"Faz dez dias desde que você adoeceu", respondeu ela, em voz baixa.
"Dez dias!", repetiu ele em um tom estupefato, como se fosse incapaz de compreender a importância da passagem do tempo. "É incrível! Parece-me que foram apenas algumas horas. O que aconteceu? O que foi feito pela polícia? O assassino foi preso?"
Veio à senhorita Heredith com um choque o fato de que seu cérebro adormecido despertara para saltar de volta à coisa que o paralisara, e com esse conhecimento veio a percepção de que o momento temido para a revelação que ela tinha a fazer havia chegado. E, como uma mulher, ela procurou adiá-lo.
"Phil", disse ela fracamente, "não fale sobre isso... até que esteja mais forte."
"Sou forte o suficiente para não ser tratado como uma criança", retrucou ele irritadiço, voltando para ela um rosto pálido, com uma mancha brilhante em cada bochecha. "O funeral já passou?"
"Há alguns dias", murmurou ela, e havia um sentimento de gratidão em seu coração por ter sido assim.
Antes que ele tivesse tempo de falar novamente, houve uma batida na porta, e uma criada entrou.
"O senhor Musard gostaria de falar com a senhora por um momento", disse ela à senhorita Heredith.
A senhorita Heredith agarrou-se ansiosamente ao respiro.
"Diga a ele que irei imediatamente. Phil", acrescentou ela, virando-se para o sobrinho, "enviarei Vincent para você. Ele pode te contar melhor do que eu. Ele esteve aqui durante toda a sua doença e cuidou de tudo."
Ela saiu apressada do quarto sem esperar pela resposta dele. Ela viu a forma alta de Musard parada no saguão e foi rapidamente até ele.
"Phil voltou a si, Vincent", exclamou ela, com voz agitada. "Ele quer saber tudo o que aconteceu desde que adoeceu. O que faremos?"
"Ele deve ser informado, é claro", respondeu Musard, com decisão masculina. "É melhor que ele saiba do que ser mantido em suspense. Como ele está?"
"Ele parece bastante normal e racional. Você vai vê-lo e contar-lhe?"
"Sim. Na verdade, é aconselhável que ele saiba de tudo sem demora. Mandei chamá-la para dizer que o detetive Caldew acabou de chegar para verificar se Phil pode identificar o revólver. Eu lhe disse que Phil ainda estava doente, mas ele é persistente e acha que deveria ter permissão para vê-lo. Seria melhor se Phil pudesse vê-lo e resolver essa questão."
"Oh, Vincent, você acha que é sensato?"
"Sim. Phil levou um choque, mas isso não vai matá-lo, e quanto mais cedo ele retomar sua vida normal, melhor será para ele. Venha agora, tudo ficará bem." Ele sorriu para o rosto ansioso dela de forma tranquilizadora. "Deixe comigo. Cuidarei para que nada seja feito para agitar Phil se eu não o achar forte o suficiente para suportar. Agora, vamos até ele."
A porta do quarto estava aberta e Phil estava parado perto dela como se esperasse pelo aparecimento deles. Ele estendeu a mão para Musard, que ficou surpreso com a força de seu aperto. Ele examinou o jovem criticamente e pensou que ele parecia bastante bem, considerando a provação pela qual passara.
"Fico feliz em vê-lo melhor, Phil", disse ele. "Como você se sente? Ainda não está muito apto?"
"Estou bem", respondeu Phil rapidamente. "Agora, Musard, quero que me diga tudo o que aconteceu desde que estou deitado aqui. Estou completamente no escuro. Alguém foi preso pelo assassinato da minha esposa?"
Ele falou em um tom seco e impessoal, como se fosse sobre algum acontecimento no qual tivesse apenas um interesse remoto, mas Musard era um juiz de homens perspicaz demais para ser enganado por sua aparente calma. Ele achou que era melhor que ele soubesse a verdade de uma vez.
"Sim, Phil", disse ele calmamente, "houve uma prisão. Hazel Rath foi presa pelo assassinato de Violet."
"Quem?" O tom de distanciamento desapareceu. A interrogação foi lançada à cabeça de Musard com um mundo de incredulidade e espanto.
"Hazel Rath, a filha da governanta."
"Em nome de Deus, por quê?"
"Com calma, rapaz. Sente-se e leve as coisas com tranquilidade. Vou lhe contar tudo."
Phil controlou-se com um esforço doloroso e sentou-se em uma cadeira perto da cama.
"Continue", disse ele roucamente.
Musard sentou-se na beira da cama ao lado dele e iniciou uma narração das circunstâncias que levaram à prisão de Hazel Rath. Phil ouviu atentamente, mas a expressão de espanto nunca deixou seu rosto. Quando Musard terminou, ele ficou em silêncio por um momento e, então, irrompeu impetuosamente:
"Sinto que Hazel Rath não cometeu este crime."
Musard ficou em silêncio. Essa era uma questão sobre a qual ele não se sentia chamado a emitir uma opinião. A senhorita Heredith estava comovida demais para falar.
"Por que você não diz nada?", exclamou Phil, virando-se para ela com raiva. "Certamente você não acha Hazel culpada?"
"Oh, Phil", respondeu sua tia piedosamente, "parece difícil acreditar, mas o que mais podemos pensar? Havia o revólver e o lenço encontrados no quarto de sua mãe, e o pequeno broche de pedra verde que você deu a ela foi encontrado no quarto de Violet."
"Por que eles acham que ela a matou? Diga-me isso!"
Musard, em sua narração dos fatos, havia omitido a menção ao suposto motivo, mas agora fez um gesto para a senhorita Heredith indicando que era melhor ela contar a Phil.
"Foi porque a polícia acredita que Hazel estava... estava apaixonada por você, Phil", disse ela vacilante. "Eles acham que ela assassinou Violet em um acesso de ciúmes."
"Hazel apaixonada por mim?" Ele ecoou a frase em uma mistura de desprezo e espanto. "Isso é absurdo. Se a polícia não tem nada melhor do que isso para seguir..."
"Eles têm", interrompeu Musard. "Eles estão seguindo as pistas que mencionei: o broche, o lenço e o revólver."
"Onde Hazel conseguiu o revólver?"
"Acha-se que ela o pegou na sala de armas."
"Não há revólveres na sala de armas", replicou Phil rapidamente. "Não temos revólveres, a menos que o papai tenha comprado um recentemente. Qual é a marca?"
"A propriedade do revólver é um ponto que a polícia ainda não conseguiu resolver", retornou Musard. "É apenas uma suposição da parte deles que Hazel o tenha pegado na sala de armas. Eles pensaram que pertencia à casa ou que foi deixado para trás por um dos convidados. Nem sua tia nem eu sabíamos, e Sir Philip foi incapaz de resolver o ponto. A polícia pensou que você poderia saber. Na verdade, um dos detetives envolvidos nas investigações acabou de chegar de Londres e trouxe o revólver consigo para ver se você consegue identificá-lo."
"Eu gostaria de vê-lo. Onde ele está?"
"Na biblioteca. Vou trazê-lo aqui."
Musard saiu do quarto e rapidamente voltou com Caldew, que entrou com um ar profissional.
"Este é o Sr. Heredith", disse Musard.
"Espero que esteja melhor, Sr. Heredith", disse o detetive suavemente. "Sinto muito incomodá-lo tão cedo após sua doença, mas há um ponto que gostaríamos de resolver antes do julgamento da mulher que está sendo acusada de assassinar sua esposa. Queremos, se possível, estabelecer a propriedade da arma com a qual o assassinato foi cometido." Ele produziu um revólver do bolso de seu sobretudo leve enquanto falava. "Diante das evidências, a identificação da arma não importa muito de uma forma ou de outra, mas é bom fixar o ponto, se pudermos. A moça se recusa a dizer onde obteve o revólver; na verdade, ela permanece obstinadamente silenciosa sobre o crime e se recusa a dizer qualquer coisa sobre isso. Isso também não importa muito, porque a evidência contra ela é tão forte que ela certamente será condenada. Pode me dizer algo sobre o revólver, Sr. Heredith? Você o reconhece?"
Phil estava girando o revólver nas mãos, examinando-o de perto.
"Sim", disse ele. "Eu o reconheço. Ele pertence ao Capitão Nepcote."
"Capitão Nepcote? Quem é ele?"
"Ele é um amigo do meu sobrinho que estava hospedado aqui, mas partiu na tarde do dia em que o assassinato foi cometido", disse a senhorita Heredith. "Ele foi convocado para a frente de batalha, pelo que entendi. Eu dei o nome dele ao Superintendente Merrington como um dos convidados que estiveram hospedados aqui."
"Como você identifica o revólver como sendo propriedade dele?", perguntou Caldew, virando-se para Phil.
"Pela marca de bala na empunhadura. No dia anterior à morte da minha esposa, estava chovendo, e alguns dos convidados estavam lá embaixo na sala de armas atirando em um alvo com o revólver de Nepcote. Ele nos mostrou essa marca na empunhadura e disse que ela havia salvado sua vida na França. Ele estava liderando seus homens em um ataque noturno nas linhas alemãs, e um oficial alemão atirou nele à queima-roupa, mas a bala ricocheteou na empunhadura do revólver."
"Então não pode haver dúvida de que Hazel Rath o pegou na sala de armas", disse Caldew, devolvendo a arma ao bolso. "O Capitão Nepcote deve tê-lo deixado para trás lá, e foi onde Hazel Rath o encontrou."
"Não, não! Isso parece impossível", disse Phil.
"Bem, acho que é perfeitamente possível", respondeu Caldew.
"É sua opinião, então, que a Srta. Rath é culpada?", exigiu Phil, com uma nota de raiva aguda na voz.
"Phil!", disse a senhorita Heredith. "Você não deve se exaltar."
Mas o jovem não deu ouvidos à gentil advertência de sua tia. Seus olhos estavam fixos no detetive.
"Não tenho a menor dúvida disso", foi a resposta fria do detetive.
"Devo dizer que acho que você cometeu um erro terrível", disse Phil, andando pelo quarto em um estado de grande agitação. "Hazel não faria... ela não poderia... ter feito essa coisa." Ele virou-se bruscamente, como se atingido por um pensamento repentino. "As joias estão seguras?", acrescentou ele.
"Sim", disse a senhorita Heredith. "Encontramos o estojo de joias de Violet trancado, então eu o guardei no cofre da biblioteca."
"A questão do roubo não entra no crime", observou Caldew. "O motivo, conforme o estabelecemos, é bem diferente."
"Fui informado sobre o motivo que vocês alegam contra esta moça infeliz", disse Phil indignado. "Essa ideia é totalmente absurda. Novamente, digo que acredito que vocês cometeram um erro. Não acho que Hazel manusearia um revólver. Ela sempre teve muito medo de armas de fogo."
"Isso é bem verdade", murmurou a senhorita Heredith.
"Uma mulher ciumenta esquece seus medos", disse o detetive de forma bastante maliciosa. "Ela não parou para pensar nisso quando quis usar o revólver."
"E de onde ela o tirou?", perguntou Phil rapidamente.
Caldew deu de ombros, mas permaneceu em silêncio.
"Você ainda insiste em pensar que ela obteve o revólver na sala de armas?", continuou Phil.
"Sim, insisto."
"Você não pretende fazer mais investigações? Seria melhor você ver Nepcote sobre o revólver. Vou lhe dar o endereço dele."
"O Capitão Nepcote partiu daqui para ir para a frente de batalha, e não tivemos notícias dele desde então", explicou a senhorita Heredith ao detetive.
Em um momento mais calmo, Caldew poderia ter percebido a conveniência da sugestão de Phil, mas sua dignidade profissional foi ofendida pelo que ele considerou ser a tentativa do jovem de interferir no caso e dirigir o curso das investigações policiais. Foi o desejo de esnobar o que ele considerava uma intromissão intrometida em seus próprios negócios que o levou a responder:
"É uma questão de pouca importância, de uma forma ou de outra. É suficiente para o caso da Coroa saber o dono do revólver. O ponto é que o assassinato foi cometido com ele, e ele foi posteriormente encontrado em posse da moça."
"Não tenho mais nada a dizer a você", disse Phil.
"Você está convencido agora, Phil?", perguntou a senhorita Heredith tristemente, quando Caldew partiu. "Foi difícil para mim acreditar no início, mas tudo parece tão certo."
"Não estou nada convencido", foi a resposta severa. "Pelo contrário, sinto que algum erro terrível foi cometido. Eu apostaria minha vida na inocência de Hazel Rath. Como você, que a conhece há tanto tempo, pode acreditar que ela faria um feito como este? O detetive que acabou de nos deixar é obviamente um tolo, e não estou satisfeito que todos os fatos sobre a morte de Violet tenham sido trazidos à luz. Vou a Londres imediatamente para trazer outro detetive para investigar o caso. Você sabe mais sobre essas coisas do que eu, Musard; pode me indicar um bom homem?"
"Se você está decidido a trazer outro detetive, não pode fazer nada melhor do que conseguir Colwyn", respondeu Musard.
"Colwyn... o famoso detetive particular? Ele é exatamente o homem que eu gostaria. Onde ele pode ser encontrado?"
"Ele tem escritórios em algum lugar perto de Ludgate Circus. Vou anotar o endereço. Acho que ele virá, se não estiver ocupado com outra coisa."
"Por que ele recusaria?", exigiu Phil altivamente. "Vou pagá-lo bem."
"Não é uma questão de dinheiro com um homem como Colwyn, e aconselho você a não usar esse tom com ele se quiser a ajuda dele."
"Muito bem", disse Phil, guardando o endereço que Musard havia escrito. "Pegarei o trem das 18h30 para a cidade. Tia, você poderia dizer a eles para me darem algo para comer na pequena sala de café da manhã. Não quero me incomodar em jantar na cidade."
"Phil, querido, você não deve nem pensar em ir a Londres no seu estado atual de saúde", expostulou a senhorita Heredith chorosa. "Por que não deixar isso para quando estiver mais forte? Vincent, tente convencê-lo a não ir."
"Phil é o melhor juiz de suas próprias ações em um assunto como este", respondeu Musard gravemente.
"Pelo menos deixe Vincent ir com você, Phil", insistiu sua tia.
"Não quero que ninguém me acompanhe", respondeu Phil, falando em um tom que nunca usara com sua tia antes. "Vou me preparar. Diga a Linton para deixar o carro pequeno pronto para me levar à estação."
CAPÍTULO XV
Colwyn tinha escritórios na parte superior de um bloco de edifícios em Ludgate Hill, com vista para o Circus, acima do aglomerado de passagens que se enterram tortuosamente sob os arcos da ferrovia até Water Lane, Printing House Square e Blackfriars. Era uma localidade estranha para se viver, mas combinava com Colwyn. Era no centro das coisas. De suas janelas, bem acima do rugido do tráfego, ele podia observar o fluxo incessante de vida para o leste e para o oeste durante todo o dia, e até a noite.
Nenhuma outra parte de Londres oferecia tal variedade e escopo no estudo da humanidade. A City era pesada, o Strand muito uniforme, Piccadilly muito elegante, e as áreas selecionadas para aposentos de solteiros, como o Temple e Half Moon Street, eram remansos tão distantes do rugido turbulento da vida londrina quanto Sussex Downs ou Yorkshire Moors.
Além dessas coisas, o local oferecia um belo contraste de caminhadas para se adequar a diferentes humores. Havia aquela avenida de magia, Fleet Street, cujos sumos sacerdotes e escravos faziam malabarismos com as notícias do mundo; havia o brilho das vitrines de vidro entre o Circus e St. Paul's, a quietude crepuscular das passagens em arco e suas pequenas lojas espremidas, o isolamento de Play House Yard e Printing House Square, o agito de Bridge Street e o Embankment. De sua janela, Colwyn podia ver as balconistas da City alimentando os pombos de St. Paul's ao redor da estátua da Rainha Ana.
Para Colwyn, Londres era o lugar das aventuras. Ele morou em Nova York e Paris, mas nenhuma dessas cidades tinha para ele o mesmo fascínio que o gigante espalhado do Tâmisa. Paris era tão estimulante e provocativa quanto uma amante paga, mas logo perdia o encanto. Em Nova York, mistérios acenavam em cada esquina, mas de forma muito importuna. Nenhuma das cidades era suficientemente discreta para a mente reticente de Colwyn. Mas Londres! Londres era como uma mulher que escondia uma vida secreta sob um rosto austero e roupas sóbrias. Sob sua aura de propriedade primorosa e calma indiferença podiam ser encontrados segredos mais fascinantes do que qualquer outra cidade do mundo poderia revelar. Era emblemático de Londres que seus mistérios, em seus aspectos e fases mais estranhos, preservassem o ar de eventos comuns.
Colwyn não via nada de extraordinário nisso. Para ele, a vida parecia tão perpetuamente inconsistente que não poderia haver nada de inconsistente em nenhum de seus eventos. Foi à sua fé neste axioma, expressa à sua maneira paradoxal, que ele deveu parte daqueles sucessos brilhantes que o marcaram como um dos principais investigadores criminais de seu tempo. Ele nunca rejeitou uma história por causa de sua improbabilidade. Ele tinha visto tantas coisas incomuns em sua carreira que uma vez declarou que era o imprevisto, e não o esperado, que ocorre com mais frequência neste nosso estranho mundo. Isso era, talvez, em parte devido ao amplo abismo entre os ideais e as ações humanas, mas, qualquer que fosse a razão, Colwyn nunca perdia de vista o fato de que o incrível, uma vez que acontecia, tornava-se tão comum quanto as refeições que comemos ou as roupas que vestimos. Parecia a Colwyn que o inesperado acontecia com muita frequência para provocar o espanto com que era invariavelmente recebido pela maioria das pessoas. Em sua experiência, a vida era quase pródiga demais em suas surpresas, tanto, de fato, a ponto de estar em perigo de atingir o limite de seus próprios recursos. Mas ele se consolava, de forma bastante caprichosa, com a crença de que tal evento era provável demais para acontecer.
Eram quase onze horas da noite, e Colwyn, levantando-se de uma mesa onde estivera ocupado escrevendo, caminhou até a janela e olhou para a rua deserta abaixo. Era um hábito noturno seu. Ele vivia, como trabalhava, sozinho, atendido apenas por um criado taciturno que estava com ele há muitos anos. Ele aceitava com filosofia característica a visão de que um homem que passava seu tempo revelando segredos humanos vergonhosos não tinha o direito de compartilhar sua vida com ninguém. Mesmo os móveis de seus aposentos solitários, se dotados de qualquer tipo de entidade, poderiam ter usado um ar furtivo em sua consciência dos segredos que tinham ouvido sussurrados aos ouvidos de seu dono por aqueles que buscaram seu conselho e assistência em seus problemas e desespero. Muitos desses segredos foram derramados naqueles quartos solitários, empoleirados bem acima do rugido do tráfego londrino. Era o confessionário do incrível.
"Deseja dizer-me algo?" perguntou Colwyn com seu sorriso agradável.
O mordomo hesitou, olhando em volta pelo corredor antes de falar em voz baixa:
"Apenas isto, senhor: não confie em tudo o que lhe contarem nesta casa. Há segredos aqui, senhor, que não foram revelados aos policiais, e que talvez nunca sejam."
Dito isso, ele se curvou e retirou-se, seus passos soando abafados no tapete espesso enquanto ele se afastava. Colwyn ficou um momento à porta, observando a silhueta do velho homem desaparecer na escuridão do corredor. O aviso do mordomo, embora vago, era um lembrete vívido da atmosfera tensa que permeava o moat-house. Ele fechou a porta e começou a se preparar para dormir, embora sua mente estivesse longe do descanso, ocupada com a sucessão de eventos e as estranhas contradições que o caso apresentava.
Enquanto se despia, seus olhos percorreram o quarto. Era amplo, mobiliado com um luxo conservador que falava de gerações de riqueza. No entanto, por trás de toda aquela elegância, sentia-se a presença de uma tragédia recente, uma sombra que parecia pairar sobre as paredes. A ausência da jovem esposa, a esposa de Philip Heredith, era quase tangível, transformando o quarto em um memorial silencioso. Ele apagou a luz elétrica e, por um longo tempo, ficou deitado no escuro, ouvindo os sons noturnos da casa — o estalar da madeira, o farfalhar das árvores lá fora contra a janela e o murmúrio distante das águas do fosso.
O silêncio do campo era diferente do silêncio de Londres; era mais profundo, mais opressor. Colwyn, habituado a decifrar a natureza humana sob as luzes brilhantes da cidade, sentia que, aqui, no isolamento do moat-house, a verdade poderia estar enterrada mais fundo sob camadas de decoro e lealdade familiar. O revólver de Captain Nepcote, a hesitação de Tufnell, a fragilidade de Philip — cada detalhe era uma peça de um quebra-cabeça que se recusava a se encaixar.
Ele sabia que, pela manhã, teria que enfrentar os membros da família Heredith e seus convidados. Seria necessário observar não apenas o que diziam, mas o que ocultavam. A cautela era necessária, pois se o mordomo estava certo, ele estava entrando em um ninho de segredos onde cada palavra poderia ser uma armadilha. Com esse pensamento, finalmente cedeu ao cansaço e adormeceu, com a promessa de que o dia seguinte traria as respostas que buscava ou, pelo menos, uma pista clara em meio à névoa de incertezas que envolvia o crime.
Na manhã seguinte, Colwyn despertou com os primeiros raios de sol que filtravam pelas cortinas pesadas. O ar matinal estava frio e úmido, carregando o cheiro de terra molhada vindo do fosso. Ele se levantou e foi até a janela, observando o jardim que, à luz do dia, revelava uma beleza melancólica. O moat-house, apesar de sua história trágica, mantinha uma dignidade severa. Ele se vestiu com rapidez, pronto para iniciar suas observações. Ao sair do quarto, encontrou Tufnell aguardando no corredor com uma bandeja de chá, sua expressão impassível como se o aviso da noite anterior nunca tivesse sido dado.
"O senhor Philip está esperando por você na biblioteca, senhor," disse o mordomo, mantendo o olhar fixo no chão.
Colwyn agradeceu e seguiu o mordomo em direção ao andar inferior. Ao entrar na biblioteca, encontrou Philip Heredith de pé diante da lareira apagada, parecendo ainda mais pálido do que na noite anterior. O jovem levantou os olhos, e o brilho de esperança em seu rosto, embora contido, era evidente.
"Bom dia, Mr. Colwyn," disse Philip. "Dormiu bem?"
"Tão bem quanto o caso permite," respondeu o detetive, observando o ambiente. A biblioteca estava repleta de livros antigos, e o cheiro de papel envelhecido misturava-se ao aroma de tabaco. Era um lugar de estudo e reflexão, mas agora servia como o cenário onde as próximas decisões seriam tomadas. "Estou pronto para começar. Onde deseja que eu inicie minhas investigações?"
Philip indicou uma cadeira e sentou-se à sua frente. "Acredito que deva começar pelo quarto onde minha esposa foi encontrada. A polícia lá esteve, é claro, mas talvez algo tenha escapado aos olhos deles."
"Muito bem," concordou Colwyn. "Mas antes, gostaria de ver o quarto de armas. Quero examinar onde o revólver estava guardado."
"Como desejar," respondeu Philip, levantando-se. "Eu o levarei até lá agora mesmo."
Eles atravessaram a casa em silêncio. A cada passo, Colwyn notava os detalhes do moat-house: os retratos de ancestrais nas paredes, os corredores escuros, o peso da história que parecia pressionar cada ambiente. Ele sabia que, nesta casa, a verdade não estava à vista, mas escondida sob as aparências que os Heredith tanto se esforçavam para manter.
Eles desceram os degraus de pedra e entraram no quarto de armas. As paredes estavam cobertas por uma coleção de espadas, lanças e armaduras, que pareciam observar os visitantes com um brilho espectral sob a luz fria que entrava por uma pequena janela gradeada. Colwyn não perdeu tempo com as antiguidades. Seus olhos percorreram o local com precisão cirúrgica, parando finalmente no suporte de armas dentro do quarto de armas contíguo, onde as peças mais recentes estavam expostas.
"Foi aqui?" perguntou ele, apontando para o espaço vazio na prateleira superior.
"Sim," respondeu a Srta. Heredith, que o seguira até lá. "O revólver do Capitão Nepcote ficava ali. Era uma arma de coleção, raramente usada, mas ainda funcional. Foi o que o detetive Caldew nos disse."
Colwyn aproximou-se e examinou o suporte de madeira. Não havia sinais de poeira perturbada ou marcas de arranhões que pudessem indicar um manuseio recente, embora ele soubesse que o tempo e a limpeza rotineira dos criados poderiam ter apagado tais pistas. Ele inclinou-se, observando a base do suporte e o chão de pedra logo abaixo.
"O senhor acha que alguém teria dificuldade em entrar aqui sem ser notado?" indagou ele, voltando-se para a senhora.
A Srta. Heredith hesitou, seus dedos nervosos apertando o lenço que trazia na mão. "A casa estava cheia de convidados, Sr. Colwyn. Os criados circulavam por toda parte. Seria uma imprudência absoluta para qualquer um, especialmente para Hazel, tentar entrar aqui à vista de todos. Mas, por outro lado, a maioria dos convidados estava ocupada nos salões."
Colwyn assentiu, mas não fez comentários. Ele percorreu o recinto, observando a disposição das ferramentas de manutenção de armas e a localização da porta que dava acesso direto ao pátio externo. "Esta porta permanece trancada?"
"Sempre," afirmou ela. "Tufnell é quem mantém as chaves das áreas de serviço. Ele é um homem extremamente zeloso com suas responsabilidades."
O detetive caminhou até a porta e testou a fechadura. Estava firme. Ele sentiu uma estranha satisfação ao notar que a hierarquia do moat-house, com seu mordomo onipresente e suas regras rígidas, criava um ambiente onde segredos eram, ao mesmo tempo, protegidos e confinados.
"Agradeço-lhe, Srta. Heredith. Acho que já vi o suficiente por hoje. A casa é fascinante, e sua hospitalidade tem sido de um valor inestimável para o meu trabalho."
Ela sorriu, um gesto fugaz e melancólico. "Espero que o senhor encontre o que procura, Sr. Colwyn. Mesmo que a verdade seja dolorosa, preferimos enfrentá-la a viver sob o peso desta dúvida que nos consome."
Eles retornaram ao andar superior. Colwyn despediu-se da senhora e retirou-se para seu quarto, sentindo que, embora não tivesse encontrado uma prova definitiva, as peças do quebra-cabeça começavam a adquirir uma forma incômoda. O moat-house não guardava apenas os fantasmas de seus ancestrais; guardava também o silêncio de seus vivos.
Naquela noite, a névoa retornou ao fosso, envolvendo a construção em um abraço úmido e silencioso. Colwyn, sentado junto à janela, observava as luzes do andar de baixo se apagarem uma a uma. Ele ainda tinha muitas perguntas, mas, pela primeira vez desde sua chegada, sentiu que o caminho à frente começava a se iluminar, não pela clareza dos fatos, mas pelas sombras que começavam a se mover nos lugares onde ele menos esperava.
"Os Heredith sempre foram uma família de grandes guerreiros, Sr. Colwyn", disse a Srta. Heredith, seguindo o olhar dele ao longo das paredes. "Cada uma dessas armas tem alguma história de bravura, eu quase diria heroísmo, ligada a ela. Essa espada para a qual o senhor está olhando pertenceu ao meu tio-avô, que comandou o Exército Britânico na Península. Ele era originalmente major no 14º Regimento de Infantaria."
"Eu tinha a impressão de que Wellington comandava em Portugal", disse Musard.
"Meu tio-avô era o oficial superior de Sir Arthur Wellesley, Vincent", respondeu a Srta. Heredith. "Ele chegou a Portugal em 1809 para assumir o comando, mas Sir Arthur, de forma muito culposa, não providenciou cavalos para levá-lo ao campo de batalha. Em consequência da negligência de Sir Arthur, meu tio-avô foi forçado a pegar o próximo navio de volta para a Inglaterra. Houve uma pergunta feita na Câmara dos Comuns da época sobre a conduta de Sir Arthur. Não sei qual foi a pergunta, mas a resposta foi negativa, embora eu não tenha muita certeza do que isso signifique. De qualquer modo, meu tio-avô era um soldado maior do que Wellington. Minha mãe ouviu muitas vezes minha tia-avó dizer isso."
"Noto que não há revólveres ou pistolas entre as armas nas paredes", disse Colwyn.
"Nunca tivemos um revólver", respondeu Phil.
"Há um par de pistolas de cavalaria naquele estojo", disse Musard, apontando para uma caixa oblonga de mogno com cantos de latão, apoiada em um suporte em um nicho da parede. Ele atravessou até a caixa e mexeu nas travas de latão, mas não conseguiu abri-la. "O estojo está trancado", disse ele.
"Talvez esteja apenas emperrado", sugeriu Phil.
"Oh, não, está bem trancado. O senhor entende algo de fechaduras, Sr. Colwyn?"
"O senhor terá que arrombá-lo se perdeu a chave", disse Colwyn, depois de olhar para a caixa. "É um tipo de fechadura obsoleto."
"Eu gostaria de ter lhe mostrado essas pistolas", disse Musard. "Elas disparam com tanta precisão quanto um rifle a até cinquenta jardas. O único inconveniente é que são um pouco desajeitadas e têm um recuo pesado."
"Pergunto-me onde está a chave", observou a Srta. Heredith. "Devo perguntar a Tufnell sobre isso."
"Poderia me dizer onde aconteceu o treino de revólver naquela tarde?", disse Colwyn, voltando-se para Phil.
"Eles atiravam de trás da mesa de bagatela em um alvo fixado ali", disse Phil, apontando para a parede distante.
"Quem propôs o jogo?"
"Nepcote. Foi uma tarde muito chuvosa, e todos tiveram que ficar dentro de casa. Ele sugeriu depois do chá que seria uma boa maneira de matar o tempo antes do jantar. Vários dos homens e duas ou três das moças acharam a ideia excelente, e um bolão foi organizado. Pediram-me um revólver, mas eu disse que não tínhamos nenhum. Um dos oficiais ofereceu seu revólver do exército, mas houve objeções por ser pesado e perigoso demais para atirar dentro de casa. Então Nepcote disse que tinha um revólver leve em sua mala e subiu para buscá-lo. Ele desceu com ele na mão, e aqueles que participavam da diversão foram para a sala de armas. Fui com eles por um tempo, mas não fiquei muito."
"O revólver do Capitão Nepcote não é uma arma do exército?"
"Oh, não. É uma arma muito pequena e leve, niquelada, com seis câmaras. É tão leve que se parece com um brinquedo."
"Com um estampido correspondentemente leve, presumo. O som do treino de alvo não seria ouvido no andar de cima?"
"Seria um estampido excessivamente alto para penetrar nas regiões superiores através daquela porta", interveio Musard, apontando para a porta de carvalho com braçadeiras de ferro que dava entrada à sala de armas. "Além disso, há outra porta no topo dos degraus. Se ambas estivessem fechadas, poderiam disparar todas as armas do local sem que ninguém lá em cima ouvisse um som."
Colwyn ouvira o relato de Phil sobre o treino de tiro com a maior atenção. Ele permaneceu em silêncio por alguns momentos, como se estivesse ponderando cada ponto. Então disse:
"O que o faz sentir tanta certeza de que Nepcote não deixou seu revólver nesta sala após o tiro?"
"Ele só poderia tê-lo deixado sobre a mesa de bagatela ou em uma das cadeiras", respondeu Phil seriamente. "Se tivesse feito isso, teria sido visto por alguém."
"Desde que alguém tenha entrado na sala de armas", acrescentou Musard.
"É claro que deve ter havido alguém aqui", replicou Phil com certa vivacidade. "Os detetives acham que Hazel só o encontrou na noite seguinte. O senhor supõe que ninguém visitou a sala de armas por vinte e quatro horas?"
"Acho bem provável com um grupo de atiradores tão ruim...", começou Musard, mas interrompeu-se ao captar o olhar de advertência da Srta. Heredith. "Está bem, rapaz", acrescentou ele de forma apaziguadora; "Talvez o senhor esteja certo, afinal."
"Não tenho dúvida de que estou certo", exclamou Phil, excitado. "O senhor não acha que estou certo, Sr. Colwyn?"
"Acho que o que disse sobre a probabilidade de o revólver ter sido visto é bastante plausível", respondeu o detetive. "Mas não há nada a ganhar discutindo essa possibilidade neste momento. Vamos voltar para cima, Srta. Heredith?", acrescentou ele, voltando-se para ela.
Ela lançou-lhe um olhar de gratidão por seu tato e tolerância, e apressou-se a liderar o caminho para fora da sala de armas. As poucas palavras entre Phil e Musard não apenas trouxeram de volta, de forma aguda, todo o horror e agonia passados do assassinato, mas causaram uma renovação pungente de seus temores sobre a saúde de seu sobrinho. Ela percebeu que ele era um ser transformado, mal-humorado e irritável, e sujeito a repentinos ataques de excitação com a menor provocação. Ela sentiu que Musard fora um tanto inconsiderado ao esquecer a doença de Phil e fazê-lo ficar excitado por discordar dele.
Sua preocupação não diminuiu ao interceptar um olhar estranho que Phil lançou a Musard quando chegaram à biblioteca. Antes que ela tivesse tempo de refletir sobre o que aquilo significava, Phil virou-se para ela e perguntou onde ela havia colocado o porta-joias de Violet.
"Eu lhe disse ontem, Phil, que o trouxe para baixo e o tranquei", respondeu a Srta. Heredith, com um olhar para o cofre no canto da sala. "Tenho guardado as chaves até que você melhorasse."
"Então a senhora poderia me dar as chaves agora", disse o jovem. "Gostaria de ver se as joias estão bem."
"Ora, Phil, é claro que elas estão bem", respondeu sua tia. "Encontramos o porta-joias trancado e sem qualquer sinal de violação."
"O porta-joias da Sra. Heredith estava no quarto dela na noite em que foi assassinada?", perguntou Colwyn.
"Sim", respondeu a Srta. Heredith. "Nós o encontramos na penteadeira dela, onde ela geralmente o guardava."
"Ele continha joias valiosas?"
"Continha um colar de pérolas que foi dado à pobre Violet por Sir Philip", foi a resposta. "É um colar antigo de família."
"Então concordo com o Sr. Heredith que o porta-joias deve ser aberto."
"Muito bem. Como acha necessário, irei ao meu quarto buscar as chaves."
A Srta. Heredith deixou a biblioteca e retornou em poucos momentos com um pequeno molho de chaves na mão. Ela foi até o cofre, destrancou-o e retornou à mesa carregando uma caixa de prata oblonga de design singular, com o retrato de uma dama rechonchuda e afetada em esmalte na tampa. A Srta. Heredith dirigiu a atenção de Colwyn para o retrato, observando que era uma semelhança de uma princesa da casa reinante, que o dera, junto com a caixa, ao seu tio-avô, Capitão Sir Philip Heredith.
"Sua Alteza Real tinha meu tio-avô em grande estima, Sr. Colwyn", acrescentou ela, enquanto procedia a encaixar uma das chaves na caixa. "Ele foi um dos mais famosos capitães de Nelson. Quando morreu, os habitantes de sua cidade natal ergueram um memorial a ele. Estava inscrito com testemunhos de seu valor em capacidade cívica, militar e cristã, juntamente com um texto afirmando que ele fazia o coração da viúva cantar de alegria. Abaixo do texto, era comemorado seu feito ao afundar a fragata francesa L'Equille, com toda a tripulação a bordo."
"Isso dificilmente parece ser o mesmo que fazer o coração da viúva cantar de alegria", comentou Musard.
"A referência era às viúvas inglesas, Vincent", respondeu a Srta. Heredith, procedendo a abrir a caixa com cuidado amoroso. "Naquele período de nossa história, não havíamos descoberto as boas qualidades do povo francês, que os tornaram queridos por... Oh!" A Srta. Heredith interrompeu-se com uma exclamação de susto quando a tampa da caixa de prata caiu para trás, revelando um interior vazio.
É apenas em momentos de completa surpresa que o rosto humano deixa de manter alguma aparência de guarda sobre os sentimentos mais íntimos. Ao descobrir que o porta-joias estava vazio, a dignidade da Srta. Heredith caiu dela como uma vestimenta, e ela encarou o interior de veludo com a boca entreaberta e um ar de consternação no rosto.
"Oh!", ela exclamou novamente, encontrando a voz após um momento de silêncio tenso. "O colar sumiu."
"Pelos céus, isto é incrível", murmurou Musard.
"Pensei que a senhora tivesse dito que estava seguro?" O falante era Phil. Ele não olhou para sua tia enquanto proferia essa reprovação, mas fixou os olhos na caixa vazia com olhos brilhantes sob as sobrancelhas franzidas.
"Phil, Phil, eu pensei que estivesse seguro... oh, eu pensei que estivesse seguro!", gritou a Srta. Heredith quase histericamente. "Para onde ele foi? Quem poderia tê-lo levado? A caixa estava trancada quando a vimos lá em cima, e no dia seguinte ao funeral encontrei as chaves de Violet no fundo da gaveta onde ela sempre as guardava."
"A caixa pode ter estado trancada quando a encontrou, mas parece igualmente certo que também estava vazia", disse Colwyn. Ele, sozinho entre o grupo excitado, estava calmo o suficiente para avaliar as possibilidades embaraçosas dessa descoberta. "Como foi que os detetives não abriram o porta-joias na noite do assassinato, para ter certeza absoluta de que o colar não havia sido roubado?"
"Eu levei o colar para baixo e tranquei-o antes que a polícia chegasse", disse a Srta. Heredith, lacrimosa. "Quando o detetive Caldew veio, ele me perguntou se algo estava faltando no quarto de Violet, e eu disse que não. É claro, não imaginei nada parecido com isso. Oh, como eu gostaria agora de ter aberto o porta-joias na época. Mas eu nunca pensei. Experimentei a caixa e a encontrei trancada, então achei que não tinha sido tocada."
"Realmente, tenho mais culpa do que a Srta. Heredith", interpôs Musard apressadamente. "Eu vi o porta-joias primeiro, e deveria ter pensado em mandá-lo abrir."
"É uma pena que o senhor não tenha informado os detetives sobre a caixa", disse Colwyn. Seu rosto estava grave ao perceber quão completamente a polícia havia sido desviada em suas investigações originais pelo mal-entendido que ocultara um fato importante. "Mas primeiro vamos ter certeza de que o porta-joias estava vazio quando foi trazido para baixo. Quantas pessoas têm acesso a este cofre, Srta. Heredith? Existe mais de uma chave?"
"Existe apenas uma chave", respondeu ela. "E ela tem estado em minha posse desde a noite do assassinato."
"Isso elimina essa possibilidade, então. E quanto ao molho de chaves da Sra. Heredith? Elas também estiveram em sua posse desde que ela foi morta?"
"Sim; eu as guardava em uma gaveta no andar de cima, que estava trancada."
"Pode me dizer quando viu o colar pela última vez?"
A Srta. Heredith refletiu por um momento.
"Faz algum tempo", disse ela. "Violet não ligava para ele e raramente o usava."
"O colar era de pérolas rosas", explicou Musard. "Seu valor era mais histórico do que intrínseco, pois haviam se tornado manchadas com o tempo, e a montagem era antiquada. Foi por essa razão que a Sra. Heredith não gostava dele. Eu ia levar as pérolas para Londres no dia seguinte para providenciar que fossem limpas e remontadas."
"Quando fui ao quarto da pobre Violet naquela noite para ver se ela se sentia bem o suficiente para ir à casa dos Weyne, pedi-lhe o colar", disse a Srta. Heredith. "Ela respondeu que me daria pela manhã. Se ela tivesse me dado naquela hora, talvez estivesse viva hoje."
"Eu gostaria de ouvir mais sobre isso", disse Colwyn. "Por favor, conte-me tudo."
Em resposta, a Srta. Heredith relatou ao detetive tudo o que havia passado entre a jovem esposa e ela mesma no quarto antes do jantar na noite do assassinato. Colwyn ouviu atentamente, com um senso crescente de complexidades ocultas no crime reveladas à undécima hora. Ele viu que o caso assumia um aspecto novo e mais profundo quando considerado em conjunto com os fatos que haviam sido tão inocentemente ignorados. Quando a Srta. Heredith terminou, ele perguntou-lhe quando foi decidido pela primeira vez enviar o colar para Londres para ser remontado.
"Foi na noite anterior ao assassinato", respondeu a Srta. Heredith. "Sir Philip sugeriu que Violet usasse o colar no baile na noite seguinte, mas Violet disse que as pérolas eram realmente muito opacas para serem usadas. O Sr. Musard concordou com ela e ofereceu-se para levá-lo a Londres e tê-lo limpo e remontado por um especialista de seu conhecimento. O Sr. Musard tinha que retornar a Londres na manhã seguinte ao baile, e essa foi a razão pela qual fui ao quarto de Violet antes do jantar na noite da festa para pedir-lhe o colar."
Colwyn considerou essa resposta em todas as suas implicações antes de falar.
"A melhor coisa que posso fazer é retornar a Londres sem demora e levar esses fatos adicionais à Scotland Yard", disse ele. "Eles foram enganados — inconsciente, mas gravemente enganados — e é justo que sejam informados imediatamente. Conheço Merrington, e farei questão de vê-lo pessoalmente e contar-lhe sobre a descoberta do colar desaparecido."
O pequeno grupo ouviu sua decisão em um silêncio que sugeria mais do que as palavras eram capazes de transmitir. Foi Phil quem finalmente expressou o pensamento que estava na mente de todos:
"O senhor está convencido de que Hazel Rath é inocente?"
"Não posso dizer isso", respondeu o detetive rapidamente. "A perda do colar não faz nada para diminuir a suspeita contra ela, a menos que se possa provar que ela não teve nada a ver com seu desaparecimento — talvez nem mesmo assim. Mas todos os fatos devem ser investigados novamente. O colar deve ser rastreado, e a questão sobre o revólver esclarecida. Mas não há mais nada a ser feito aqui no momento. O campo da investigação agora muda para Londres. Vou me preparar para a viagem, se me derem licença."
"Espero que o senhor continue suas próprias investigações, Sr. Colwyn", disse Phil seriamente. "Estou mais convencido do que nunca da inocência de Hazel Rath, mas tenho pouca fé de que a polícia provavelmente a estabeleça — mesmo que tentem fazê-lo. Não fiquei impressionado com a habilidade do detetive Caldew, ou com sua atitude quando lhe disse que acreditava que Hazel Rath era inocente."
"Continuarei minhas investigações em conjunto com a Scotland Yard, se for esse o seu desejo", respondeu o detetive.
CAPÍTULO XVIII
Colwyn estava no andar de cima, em seu quarto, preparando-se para sua viagem de retorno a Londres, quando uma batida suave e uma tosse apologética chegaram aos seus ouvidos. Ele se virou e viu Tufnell parado à porta entreaberta. O rosto do velho mordomo trazia um olhar de determinação e nervosismo misturados — a expressão de um homem tímido que se preparara para um curso de ação audacioso após muita deliberação irresoluta.
"Peço perdão, senhor", disse ele, e sua trepidação era aparente em sua voz. "Mas poderia eu... isto é, o senhor poderia me conceder alguns minutos de conversa?"
"Certamente", respondeu o detetive. "Entre, Tufnell. O que é?"
O mordomo entrou no quarto e fechou cuidadosamente a porta atrás de si.
"Sinto muito interrompê-lo, senhor", disse ele. "Mas acabei de ouvir a Srta. Heredith dar ordens para que seu carro fosse preparado para seu retorno a Londres, e eu sabia que não havia tempo a perder. É sobre o... o assassinato, senhor." Ele pronunciou as últimas palavras com um esforço.
"Continue", disse Colwyn, perguntando-se que surpresa ainda estava reservada para ele.
"É sobre algo que aconteceu naquela noite. Eu queria ter lhe contado antes, mas não me sentia à vontade. Depois que o assassinato foi descoberto, fui enviado à vila para buscar a polícia e o médico, e enquanto me apressava através da mata perto da casa do fosso, pensei ter visto um homem agachado atrás de uma das árvores perto da entrada de carruagens. Ele parecia estar olhando em minha direção. Quando olhei de novo, ele tinha ido embora."
"E o que o senhor fez?"
"Chamei, mas não recebi resposta, então apressei-me."
Colwyn examinou o mordomo com um olhar pensativo e penetrante. O mordomo suportou o olhar com o ar manso de um animal doméstico que sabe que está sendo avaliado.
"Sou a primeira pessoa a quem o senhor conta essa história?", perguntou o detetive após uma pausa.
"Sim, senhor."
"Por que não informou os oficiais de polícia quando eles estavam investigando o caso?"
"Por várias razões, senhor. Pareceu-me, quando parei para pensar, que devia ter sido minha imaginação, e então isso passou da minha mente com a preocupação e a agitação da casa. Depois, quando pensei nisso novamente, não quis mencionar ao Superintendente Merrington, porque ele era um tipo de cavalheiro tão intimidador que me senti bastante nervoso perto dele. Realmente, para um cavalheiro que viajou com Altezas Reais, como ouvi dizer, e deveria saber como os cavalheiros se comportam, a maneira como ele tratou os criados enquanto esteve aqui foi quase demais para carne e sangue suportarem." As bochechas murchas do mordomo coraram levemente com a lembrança. "Não consegui me levar a contar-lhe, senhor."
Colwyn sorriu levemente. Ele não desconhecia os métodos de interrogatório de Merrington.
"O senhor poderia ter falado com o detetive Caldew, o outro oficial envolvido no caso", disse ele.
"O jovem Tom Caldew!", exclamou o mordomo, em evidente surpresa.
"O senhor o conhece, então?"
"Eu o conheço, mas não posso dizer que conheço qualquer coisa de bom dele", replicou o mordomo severamente. "O jovem Tom Caldew nasceu e foi criado nesta vila, e era um jovem vagabundo preguiçoso. Muitas vezes limpei o pó de seu paletó por roubar castanhas em nosso parque. O lugar ficou bem livre dele, suponho, quando fugiu para Londres e juntou-se à força policial. Não, senhor, eu realmente não poderia me ver confiando no jovem Tom Caldew."
"E por que o senhor confiou em mim agora?"
"Bem, senhor, foi a prisão da jovem que me fez pensar, e me causou a dúvida se eu tinha agido certo em manter isso guardado. O que pensei ter visto naquela noite pode ter sido apenas imaginação da minha parte, mas ganhou uma importância adicional em minha mente quando a Srta. Rath foi presa pelo assassinato da Sra. Heredith. Pareceu-me como se eu pudesse estar fazendo algum tipo de injustiça a ela ao não contar sobre isso, e eu não gostaria de ter isso em minha consciência depois da maneira como as coisas aconteceram. Mas achei que era tarde demais para dizer qualquer coisa depois que prenderam a Srta. Rath e a levaram embora. Então o Sr. Philip se recuperou de sua doença e foi a Londres buscá-lo. Na mesma noite, ouvi a Srta. Heredith e o Sr. Musard conversando à mesa de jantar sobre o assassinato, e depreendi do que disseram que o Sr. Philip achava que os detetives tinham cometido um erro ao prender a Srta. Rath. Então decidi contar ao senhor quando chegasse, mas não consegui reunir coragem para fazê-lo até agora", concluiu o mordomo simplesmente. "Espero ter agido certo, senhor."
"O senhor certamente agiu certo em não guardar a história para si por mais tempo", disse Colwyn. "Antes de sair daqui, o senhor deve me mostrar o lugar na mata onde pensou ter visto esse homem."
"Ficarei feliz em fazê-lo, senhor. Gostaria de agradecer-lhe por me ouvir. É um peso a menos em minha mente."
"Estarei saindo quase imediatamente", continuou Colwyn. "Acho que o melhor plano será o senhor me encontrar na entrada de carruagens, perto do local. O senhor pode fazer isso?"
"Muito facilmente, senhor."
"Excelente. E agora, ao descer as escadas, ficaria satisfeito se dissesse ao Sr. Musard que gostaria de vê-lo em meu quarto antes de eu partir."
"Muito bem, senhor. Depois, o senhor me encontrará esperando na curva da entrada de carruagens, onde ela contorna o lago."
Colwyn acenou com a cabeça em sinal de compreensão, e Tufnell deixou o aposento com uma expressão de alívio. Poucos momentos depois, houve outra batida na porta. Em resposta ao convite de Colwyn, a porta se abriu e Musard apareceu.
"Tufnell disse que queria me ver", disse ele, com um olhar inquisitivo sob suas sobrancelhas escuras.
"Sim. Ficaria satisfeito se pudesse me dar uma descrição do colar desaparecido. Será útil para localizá-lo."
"Não é difícil descrever", respondeu Musard, sentando-se na beira da cama. "Consistia em uma única fileira de pérolas rosas, nenhuma delas muito grande. A maior tem cerca de quarenta grãos, e as outras entre vinte e trinta. Possui um fecho de diamante, engastado em ouro antigo, que é a parte mais valiosa do colar. Sabe algo sobre joias?"
"Um pouco."
"Então está ciente de que diamantes azuis e vermelhos são as pedras mais valiosas. Este diamante é um azul; não muito grande, mas uma pedra particularmente fina."
"Naturalmente, o colar é bem conhecido pelos especialistas em joias?"
"Tão conhecido quanto qualquer peça de joalheria na Europa. Algumas das pérolas nele contidas têm centenas de anos. Seria quase impossível para o ladrão se desfazer do colar."
"Poderia ser desmontado", sugeriu Colwyn.
"Para esconder sua identidade? Bem, sim, mas o valor de venda seria muito reduzido. As pérolas foram enfiadas."
"E quanto ao diamante? Não poderia ser vendido pelo ladrão sem risco de descoberta?"
"Apenas enviando-o para Amsterdã para ser cortado em duas ou três pedras menores, de modo a diminuir o risco de detecção. O diamante azul Heredith é conhecido por muitos conhecedores. Ele é lapidado em uma forma incomum — uma espécie de roseta irregular, a fim de exibir seu fogo e propriedades ópticas da melhor maneira possível. Se fosse cortado, perderia grande parte de seu valor. O valor monetário de um grande diamante de primeira qualidade é muito maior do que a mesma pedra cortada em três. Mas seria difícil vender o diamante em sua forma atual. As chances são de que ele seria reconhecido em Hatton Garden, caso fosse oferecido para venda lá."
"Mas se o diamante caísse nas mãos de alguém com conhecimento de pedras preciosas, ele poderia mantê-lo guardado por um tempo e depois descartá-lo no exterior — na América, por exemplo", retrucou Colwyn. "Esse truque já foi realizado com pedras mais conhecidas que o diamante Heredith. De fato, parece-me possível vender o colar inteiro dessa maneira. O descarte do colar depende em grande parte de quem o roubou — se caiu em mãos experientes ou inexperientes. Existem joalheiros que não fazem perguntas indiscretas se puderem conseguir as coisas pelo preço que desejam."
"Exatamente", concordou Musard, lançando um olhar rápido para o rosto de seu companheiro. "Seria um risco, no entanto; o ladrão poderia escolher a pessoa errada. Posso lhe dar os endereços de dois ou três homens em Hatton Garden que deveriam ser capazes de lhe dizer se o colar foi oferecido lá. Eles sabem tudo o que está acontecendo no comércio."
"Ficarei satisfeito em recebê-los."
Musard rabiscou vários nomes e endereços em uma folha de seu bloco de notas, arrancou-a e entregou-a ao detetive.
"Há uma coincidência curiosa sobre a perda deste colar", observou ele casualmente, enquanto se levantava para sair. "É outro exemplo do infortúnio que se associa à posse de um diamante azul."
"Está pensando no diamante azul Hope? Esse certamente tem uma história sinistra."
"Esse é o exemplo mais notório. Mas todos os diamantes azuis trazem má sorte. Eu poderia lhe contar algumas histórias macabras relacionadas a eles. A antiga usuária do colar Heredith — a mãe de Philip — morreu ao dar à luz a ele. Aliás, há uma lenda curiosa ligada à mansão do fosso, na forma de uma maldição lançada sobre ela pelo construtor original, que foi queimado vivo na antiga casa. Ele profetizou que, como a casa dos Heredith foi fundada em horror, deveria terminar em horror. Essas maldições familiares antigas às vezes retornam para assombrar após um longo lapso de tempo, embora o cinismo moderno finja zombar de tais fantasias. É claro que pode não haver nada nisso, mas tivemos horror mais do que suficiente na mansão do fosso recentemente, e a pobre Sra. Heredith tinha um diamante azul em seu quarto quando foi assassinada. Mas não devo retê-lo por mais tempo, Sr. Colwyn. Se houve qualquer erro judiciário neste caso terrível, confio que o senhor terá sucesso em trazê-lo à luz."
Ele hesitou após apertar as mãos, como se quisesse continuar a conversa. Aparentemente não encontrando incentivo suficiente no rosto do detetive para fazê-lo, ele se virou e deixou o quarto, e Colwyn retomou seus preparativos para a partida.
Quando concluídos, ele também desceu as escadas, carregando sua mala. A Srta. Heredith e Phil estavam esperando para se despedir dele. Quando a Srta. Heredith disse adeus, ela olhou para o rosto dele com a expressão perplexa de uma alma simples buscando segurança de uma mente mais forte no profundo vórtice de eventos extraordinários nos quais fora mergulhada além de suas capacidades. Phil parecia pálido e doente, e a mão que ele deu ao aperto firme e frio do detetive estava quente e febril. Enquanto sua tia murmurava aquelas frases convencionais sob as quais as mulheres buscam cobrir as realidades da vida como adornam cadáveres com flores, Phil permaneceu de lado com o ar impaciente de quem despreza a futilidade de tais coisas. Quando a Srta. Heredith parou de falar, ele deu um passo à frente, seus olhos escuros fixos ansiosa e investigativamente em Colwyn.
"O senhor não perderá tempo?" disse ele. "O senhor descobrirá tudo?"
"Já lhe prometi que continuarei minhas investigações", respondeu Colwyn. A sinceridade tranquila de suas palavras era a indicação de uma mente que desprezava a fraqueza da simples ênfase verbal.
"Não perca tempo. Não poupe dinheiro", disse Phil rapidamente. Suas palavras e sua fala contrastavam fortemente com a calma e a compostura do homem a quem se dirigia. "Pense no que isso significa! Deixe-me saber tudo o que acontecer. Envie-me telegramas. Siga isso dia e noite. Dependo do senhor..."
"Phil, Phil!" repreendeu a Srta. Heredith. "O Sr. Colwyn já prometeu fazer tudo o que puder. Você deve ser paciente."
"Paciência! Meu Deus, não me fale de paciência", retrucou seu sobrinho ferozmente. "Não terei paciência nem paz até que isso esteja resolvido."
A Srta. Heredith olhou para ele tristemente. Sua falta de boas maneiras ao proferir um juramento em sua presença a feriu mais do que um golpe, mas seu coração adoeceu com a percepção de que não era senão outra manifestação da mudança completa nele, causada pelo assassinato de sua esposa. Colwyn encerrou a cena.
"É claro que entrarei em contato com você", disse ele a Phil, ao se despedir. Phil acompanhou-o até seu carro e ficou sob o pórtico observando-o enquanto ele se afastava. Colwyn olhou para trás ao atravessar a ponte da mansão do fosso. O jovem ainda estava parado na porta aberta, olhando para ele. No momento seguinte, a curva da entrada de carruagens o escondeu da vista.
Colwyn encontrou Tufnell na curva seguinte da entrada, esperando por ele no caminho sob as árvores que margeavam a orla. O detetive parou o carro e saiu.
"Foi logo aqui, senhor, que pensei ter visto a figura naquela noite", disse o mordomo.
Ele mergulhou em uma alameda arborizada que saía do caminho em ângulos retos e a seguiu pela floresta até chegar ao tronco musgoso de um grande carvalho, que estendia um braço retorcido horizontalmente através do caminho estreito como se impedisse uma maior intrusão em seu domínio. Tufnell parou e virou-se para o detetive.
"Pareceu-me que havia um homem agachado exatamente aqui, senhor", disse ele em um sussurro, como se temesse que o intruso ainda pudesse estar escondido ali e ouvisse suas palavras.
Colwyn examinou cuidadosamente o local. O musgo e a grama onde ele estava cresciam frescos sob os pés, sem marcas que sugerissem que haviam sido pisados recentemente. Mas, perto dali, atrás do galho horizontal do grande carvalho, havia um emaranhado de vegetação rasteira e arbustos, quebrados e pressionados em alguns lugares, como se tivesse sido invadido por um ser humano. Enquanto Colwyn olhava para este lugar, seu olho foi atraído por uma mancha amarela no fundo verde. Era um minúsculo fragmento de cáqui, preso em um dos arbustos de amora.
CAPÍTULO XIX
O superintendente Merrington sentava-se em seu escritório na Scotland Yard, irascível com os esforços de um dia desgastante que havia feito grandes incursões em seu temperamento e paciência. Ele tinha vários casos importantes em mãos, seu tempo havia sido interrompido por uma série de visitantes com reclamações, e ele fora chamado para ajustar uma reivindicação vexatória de uma mulher atacada na rua por um cão policial, enquanto o animal deveria estar em serviço rastreando um ladrão sacrílego que derrubara um sacerdote em um oratório e fugira com os castiçais de prata do altar.
A mulher enlouquecera com o choque e fora colocada em um asilo público, onde ela imaginara ser um cavalo e, sob esse disfarce, relinchara inofensivamente por alguns anos, até ser curada por autossugestão por um jovem médico cerebral em ascensão que dedicara muito tempo e estudo ao seu caso peculiar. Seu primeiro ato de razão recuperada foi apresentar um pesado pedido de indenização contra a Scotland Yard, e Merrington lutara contra isso naquele dia com um advogado ganancioso que assumira o caso sob a promessa de uma divisão igual dos despojos.
Merrington preferira pagar a contestar o processo na justiça, e ele estava extremamente irritado como consequência. Estava zangado com a velha por ousar se curar, e zangado com o médico por tê-la curado. Ele considerava que o médico fora culpado de uma intromissão intrometida ao restaurar a velha senhora à assim chamada sanidade em um mundo de tolos, sem alcançar nenhum objetivo além do roubo dos fundos públicos por um advogado patife. Para usar as próprias palavras de Merrington, expressas com intensa exasperação a um subordinado atônito, a velha estava muito bem como cavalo, confortável e bem alimentada, e provavelmente obtivera mais da vida sob esse disfarce do que jamais obtivera como ser humano, compelida a todos os tipos de expedientes e artifícios e mesquinhas economias diante de seus superiores por uma subsistência escassa, com nada além do asilo de pobres à sua frente. Ele concluiu, em uma espécie de epílogo resmungão, que algumas pessoas nunca sabiam quando deixar as coisas como estavam.
Não era, portanto, em um estado de espírito muito amável que ele recebeu o cartão de Colwyn com um pedido escrito a lápis para uma entrevista imediata. Merrington desaprovava todos os detetives particulares como uma usurpação injustificável das funções da Scotland Yard, mas desaprovava particularmente um detetive particular como Colwyn, cuja renome popular era muito maior que o seu. Mas havia razões políticas para a extensão da cortesia a ele. O famoso detetive particular era um rival tão poderoso que era melhor conciliá-lo com um pouco de polidez, que não custava nada, e ele havia feito vários bons serviços à Scotland Yard que pelo menos exigiam uma demonstração externa de gratidão. Ele tinha influência no lugar certo também, e, no geral, não era uma pessoa para ser levemente afrontada. A consideração desses fatores impeliu Merrington a informar ao porteiro que esperava que veria o Sr. Colwyn imediatamente, e até o levou a franzir suas feições gordas e vermelhas em um sorriso de boas-vindas enquanto aguardava sua entrada.
Quando Colwyn apareceu na porta, o homem grande que ele pedira para ver levantou-se de sua cadeira giratória para apertar sua mão. Quando seu visitante estava sentado, Merrington inclinou-se para trás em sua própria cadeira e comentou, com sua grande voz retumbante:
"O que posso fazer pelo senhor, Sr. Colwyn?"
"Nada pessoalmente. Vim conversar com o senhor sobre o caso Heredith."
O verniz de boas-vindas desapareceu do rosto de Merrington com essa abertura, embora uma grande fotografia emoldurada de si mesmo na parede atrás de sua cadeira continuasse a sorrir para o detetive particular com uma amabilidade incomum.
"Ah, sim, o caso Heredith", respondeu ele. "Um assunto estranho, esse. Eu investiguei pessoalmente. Foi uma pena que o senhor não estivesse nele. Havia pontos sobre aquele assassinato — pontos distintos. O senhor teria gostado."
A comiseração profissional de Merrington pela má sorte de Colwyn em perder um assassinato agradável pretendia transmitir uma repreensão distinta à presunção do outro em discutir um caso no qual não estivera envolvido. Mas as palavras seguintes de Colwyn surpreenderam Merrington, tirando-o de sua atitude de dignidade censuradora.
"Eu não estava no caso no início, mas fui chamado posteriormente pelo marido da mulher assassinada. Ele está insatisfeito com o resultado. Ele acha que um erro foi cometido ao prender a jovem Hazel Rath."
O silêncio com que Merrington recebeu essa informação foi um tributo involuntário ao seu visitante, implicando, como fazia, que ele sabia que Colwyn não teria vindo vê-lo sem uma razão de peso para apoiar o que soava como a repetição de uma mera expressão de opinião.
"Eu relutava em interferir até que o Sr. Heredith me dissesse algo que sugeria que um de seus homens corria o risco de subestimar uma pista importante", continuou Colwyn. "Isso me decidiu. Voltei com o Sr. Heredith em meu carro anteontem à noite. Após minha chegada à mansão do fosso, fiz uma descoberta interessante — inteiramente por acidente. Descobri que um colar de pérolas que havia sido dado à Sra. Heredith por Sir Philip Heredith estava faltando no porta-joias em que estava trancado. Esse porta-joias estava no quarto da Sra. Heredith na noite em que ela foi assassinada."
Esta notícia foi tão inesperada que pegou Merrington desprevenido.
"Um roubo de joias além do assassinato!" ele exclamou, em algo semelhante a desânimo.
"Parece que sim. O senhor poderá formar um julgamento melhor quando eu lhe contar todas as circunstâncias da descoberta."
Merrington há muito tempo se convencera de que o caso que ele montara contra Hazel Rath não admitia a menor possibilidade de dúvida; e, como todos os homens obstinados, ele aderia a suas convicções com força adicional diante de qualquer coisa que tendesse a enfraquecê-las. Enquanto se recuperava de sua surpresa com a notícia do detetive particular, ele ouviu seu relato sobre a abertura do porta-joias com o ar cauteloso de quem busca uma brecha em um obstáculo inesperado. Antes que Colwyn terminasse, ele a encontrara na crença de que Hazel Rath, e ninguém mais, havia roubado as joias desaparecidas.
"Esta garota é uma ladra, além de assassina", foi a maneira como ele expressou sua opinião quando Colwyn terminou de falar. "Ela roubou o colar."
"Ela pode ter feito isso, mas é uma suposição grande demais para ser feita sem provas", retrucou Colwyn. "O senhor deve estar perfeitamente ciente, Sr. Merrington, de que esta descoberta tardia é da maior importância para o caso da Coroa, de uma forma ou de outra. Se o senhor puder provar que Hazel Rath roubou o colar, isso lhe dá um caso inatacável contra ela. Se o colar foi roubado por outra pessoa, o senhor se depara com um aspecto novo e estranho deste assassinato."
"Não a ponto de diminuir a força do caso contra esta garota", respondeu Merrington obstinadamente. "Ela foi vista indo para a escadaria que leva ao quarto da Sra. Heredith pouco antes do assassinato; seu broche foi encontrado lá em cima no quarto; e o revólver e seu lenço foram encontrados escondidos nos quartos de sua mãe. Adicione a isso seu silêncio sob acusação, e é impossível fugir da crença de que ela, e ninguém mais, assassinou a Sra. Heredith."
"Não estou tentando refutar sua teoria ou contradizer seus fatos", respondeu Colwyn friamente. "Minha visita é para trazer ao seu conhecimento um fato novo no caso que precisa de investigação. Se esse fato se encaixa em sua própria teoria ou não, é importante demais para ser ignorado ou negligenciado. É por isso que deixei a mansão do fosso imediatamente após descobri-lo. Senti que o senhor havia sido ignorantemente enganado e que era justo que o senhor soubesse sem demora."
Merrington estava consciente daquele sentimento evanescente que os homens chamam de gratidão. Seu impulso de agradecimento em relação ao homem à sua frente era tanto mais intenso pela percepção de que ele não teria agido tão generosamente se estivesse no lugar de Colwyn. Mas sua gratidão foi rapidamente engolida pelo conhecimento de que ele havia sido levado pelo caminho errado, e sua raiva misturou-se com a determinação de encontrar um bode expiatório.
"Agradeço-lhe pela informação, embora eu não atribua tanta importância a ela quanto o senhor", foi sua resposta cuidadosa. "Mas certamente culpo o detetive Caldew por não ter descoberto isso antes do senhor. Ele fez as investigações iniciais na mansão do fosso, e parece tê-las feito com muito descuido. Ele não disse nada ao chefe de polícia de Sussex ou a mim, quando chegamos, sobre um porta-joias, trancado ou aberto."
"Ele mesmo não sabia."
"Era seu dever investigar. Quando ele nos garantiu, sob a autoridade da Srta. Heredith, que nada estava faltando, naturalmente presumi que ele havia feito as investigações adequadas. Mas agradeço por me avisar, e farei, é claro, com que investigações sejam feitas. Mas gostaria de saber por que o jovem Heredith interferiu e trouxe o senhor para o caso?"
"Por um lado, ele tem uma forte crença na inocência de Hazel Rath."
"Mero sentimento", respondeu Merrington com desprezo. "Talvez ele ainda esteja apaixonado pela garota."
"Há mais do que isso. Há a questão do revólver. É claro que o senhor está ciente de que ele identificou o revólver com o qual sua esposa foi baleada como propriedade do capitão Nepcote, um convidado na mansão do fosso que partiu na tarde do dia em que a Sra. Heredith foi assassinada. Heredith não aceita sua teoria da maneira como Hazel Rath supostamente obteve o revólver. Ele não acha que Nepcote deixou o revólver para trás na mansão do fosso. Ele disse isso a Caldew, mas Caldew disse que a propriedade do revólver era uma questão sem importância."
"Caldew é um tolo se disse isso, e eu gostaria de nunca ter permitido que ele se intrometesse no caso", respondeu Merrington com força. "Eu adiei os procedimentos do tribunal contra a garota por uma semana até que a questão da propriedade do revólver pudesse ser resolvida. Agora que está decidido, farei com que Nepcote seja entrevistado e questionado sem demora."
"Antes de tentar rastrear o colar desaparecido?" A leve inflexão de surpresa na voz de Colwyn poderia ter escapado a um ouvido mais atento que o de Merrington.
"A Scotland Yard rastreará o colar rapidamente", declarou ele confiantemente. "Gosto de fazer as coisas em sua ordem apropriada. A próxima coisa a fazer é verificar se Nepcote deixou seu revólver para trás na mansão do fosso, embora eu não tenha a menor dúvida de que ele deixou. O colar é realmente uma consideração menor. Ele meramente fornece outro motivo para o assassinato — cupidez além do ciúme."
"É assim que o senhor encara isso?" Um homem menos insensível que Merrington desta vez teria captado algo mais do que surpresa no tom do outro.
"Existe alguma outra maneira de olhar para isso?"
"Eu não gostaria de arriscar uma opinião neste caso sem mais conhecimento do que tenho no momento", respondeu Colwyn em tons sóbrios. "Mas, até onde fui nele, eu diria que há várias coisas que parecem exigir mais explicação. As próprias ações de Nepcote parecem pedir alguma investigação."
"Você certamente não está sugerindo que Nepcote teve qualquer envolvimento com o assassinato ou com o roubo das pérolas?" disse Merrington com voz de espanto. "Isso é absolutamente impossível. Ele deixou o moat-house na tarde anterior ao cometimento do assassinato e partiu para a França naquela noite."
"Ele não foi para a França naquela noite. Ele permaneceu em Londres e não retornou à França até o dia seguinte."
Merrington ficou visivelmente sobressaltado com essa informação inesperada.
"Isto é uma novidade para mim", disse ele gravemente. "Onde você descobriu isso?"
"No Ministério da Guerra, esta manhã. Não há possibilidade de erro. Nepcote estava em Londres na noite do assassinato."
"Ele provavelmente tem uma explicação, mas o que você acabou de me dizer é uma razão adicional para ver e questionar Nepcote sem demora, mesmo que eu tenha de enviar um homem à França para o serviço."
"Não será necessário que você faça isso. Nepcote retornou a Londres há dois dias — enviado para uma missão especial. Constatei esse fato também com meu amigo no Ministério da Guerra."
Merrington olhou para um pequeno relógio que estava sobre a mesa à sua frente.
"Irei imediatamente vê-lo pessoalmente", disse ele.
"Eu gostaria de acompanhá-lo."
"Ficarei encantado com sua companhia", respondeu Merrington, com absoluta falta de verdade. "Tenho o endereço de Nepcote incluído na lista de convidados que estavam no moat-house na época do assassinato", acrescentou ele, abrindo sua carteira e examinando-a apressadamente. "Ah, aqui está — Sherryman Street, número 10. Vou pedir um táxi. Há algo que eu possa fazer por você em retribuição à sua gentileza em trazer-me esta informação?"
"Eu ficaria grato se você me emprestasse uma cópia dos depoimentos do legista no caso Heredith."
"Com prazer." Merrington tocou uma campainha e instruiu o policial que a atendeu a trazer uma transcrição dos depoimentos do assassinato de Heredith e o revólver que figurava como prova no caso. "E diga a alguém para chamar um táxi, Johnson", acrescentou.
Quando Merrington e Colwyn emergiram das portas giratórias da entrada, poucos momentos depois, um táxi aguardava no pé dos degraus de pedra, com um motorista de rosto marcado pelas bexigas encostado na porta do veículo, observando melancolicamente o Thames Embankment. Ele recebeu as instruções de Merrington com mau humor, ligou o motor do táxi com cansaço e logo estava abrindo caminho pelo labirinto da Trafalgar Square e Piccadilly Circus com um desrespeito desdenhoso pelas regulamentações de trânsito, devido ao seu pronto reconhecimento do fato de que transportava um alto funcionário da Scotland Yard, que estava acima das regras das estradas reguladas por meros policiais. Ele deslizou de forma arriscada ao longo da Regent Street, mergulhou na rede de ruas mais estreitas que ficavam entre aquele antro da raposa e dos gansos e a Baker Street, e finalmente parou abruptamente diante de uma casa alta, que era uma de uma fileira em uma rua silenciosa que levava à altamente elegante localidade de Sherryman Square.
A Sherryman Street, na qual o táxi havia parado, era um desdobramento e um parente esnobe e mesquinho da Sherryman Square, que abrigava um duque, um ex-primeiro-ministro e um rei fugitivo, sem mencionar vários outros notáveis de menor importância, como um ou dois juízes da Alta Corte, vários baronetes e um aproveitador da época da guerra cujo título de nobreza recém-adquirido descera na última forte chuva de honrarias reais. Devido à sua proximidade com esses grandes nomes da terra, os habitantes da Sherryman Street assumiam todos os ares de exclusividade que distinguiam os residentes da vizinhança superior, e agentes imobiliários parasitários falavam dela com grande respeito porque uma de suas extremidades abria-se para a atmosfera rarefeita da Praça. Era verdade que a outra extremidade ficava perto de uma favela e havia uma cocheira do outro lado do caminho, mas esses eram pequenos inconvenientes comparados às vantagens sociais.
A Sherryman Street estava cheia de casas sombrias e estreitas, com fachadas formais e janelas com grades estreitas, alugadas em segmentos, apartamentos e quitinetes para solteiros. O número 10 era tão parecido com seus semelhantes quanto uma alma monótona se parece com outra. O toque de campainha do Superintendente Merrington trouxe uma mulher idosa com uma expressão inexpressiva, encimada por uma touca branca com babados. Ela informou-os com voz inexpressiva que os apartamentos do Capitão Nepcote ficavam no segundo andar. Tendo dito isso, ela desapareceu em uma pequena sala de entrada ao lado do saguão, deixando-os livres para entrar.
Uma batida na porta da entrada do apartamento do segundo andar trouxe um criado, cujo porte elegante e precisão de maneiras sugeriam treinamento militar. Ele informou cautelosamente ao Superintendente Merrington, em resposta à sua pergunta, que não tinha certeza se o Capitão Nepcote estava em casa, mas que iria verificar.
"Quem devo anunciar, senhor?" perguntou ele, em contradição inconsciente com sua afirmação anterior.
Merrington interrompeu a conversa empurrando impacientemente o criado para passar para dentro da sala.
"Vá dizer ao seu patrão que quero vê-lo", disse ele, sentando-se.
O criado olhou com raiva para a figura corpulenta na cadeira esguia e, então, como se percebesse sua incapacidade de expulsá-lo, deixou a sala sem mais palavras.
A sala em que haviam entrado era mobiliada em um estilo que sugeria que seu ocupante tinha meios ou crédito suficientes para satisfazer seus gostos, que obviamente não almejavam nada além de cavalos de corrida e coristas. Imagens dos primeiros adornavam a parede em carvalho; as últimas sorriam para o observador a partir de molduras de prata sobre pequenas mesas. A sala era ricamente mobiliada de uma maneira masculina, embora houvesse a sugestão de um toque feminino nos vasos sobre a lareira e em alguns arranjos de flores em uma tigela.
A porta abriu-se para admitir um jovem, que avançou em direção aos seus visitantes com um olhar de questionamento. Sua aparência, embora militar, estava longe de sugerir a guerra sórdida das trincheiras. Ele era bem arrumado e bonito, e vestia seu uniforme impecável com aquele toque de distinção que o cáqui confere a alguns homens.
"Boa tarde", disse ele, e aguardou que anunciassem o objeto de sua visita.
"Você é o Capitão Nepcote?" perguntou Merrington.
"Meu nome é Nepcote", foi a resposta. "Posso perguntar quem são os senhores?" Seu olhar incluiu ambos os visitantes.
"Meu nome é Merrington", respondeu aquele oficial, respondendo por si mesmo. "Superintendente Merrington, da Scotland Yard. Este é o Sr. Colwyn, um detetive particular", acrescentou ele, como uma reflexão tardia. "Desejo lhe fazer algumas perguntas. Compreendo que você estava hospedado na residência de Sir Philip Heredith quando a jovem Sra. Heredith foi assassinada."
"Isso não é inteiramente preciso", respondeu o jovem. "Deixei o moat-house na tarde do dia em que o assassinato foi cometido e retornei a Londres. O que deseja me perguntar? Receio não poder esclarecê-lo sobre o crime de forma alguma, pois não sei absolutamente nada a respeito. Foi um grande choque para mim quando soube disso."
"Este é o seu revólver?" disse Merrington, produzindo a arma e colocando-a sobre a mesa.
"Ora, sim, é", disse o jovem, pegando-a e olhando para ela com inconfundível surpresa. "Onde você a conseguiu?"
"Onde você a viu pela última vez?" foi a réplica cautelosa de Merrington.
"Deixe-me pensar", retornou Nepcote pensativamente. "Ah, lembro-me. A última vez que a vi foi no moat-house, no dia anterior à minha partida. Estávamos usando-a para um pouco de tiro ao alvo na sala de armas lá embaixo."
"E o que você fez com ela depois?"
"Isso eu não posso lhe dizer", respondeu Nepcote. "Não tenho lembrança de tê-la visto desde então. Nunca pensei nisso."
"Nem deu por falta dela?"
"Não. Não me serve para nada — não é um revólver do Exército. Mas parece-me que devo tê-la deixado na sala de armas do moat-house após o tiro ao alvo. Depois que terminamos de atirar, alguns de nós jogamos bilhar em uma mesa na sala de armas. Devo ter colocado o revólver de lado e esquecido tudo sobre ele depois. Não tenho lembrança de tê-lo levado para o andar de cima e certamente nunca mais o vi. Ele foi encontrado na sala de armas?"
"Foi encontrado no moat-house, de qualquer modo. Foi a arma com a qual a Sra. Heredith foi morta."
"O quê!" Sua exclamação soou em horror e incredulidade. "Ora, é impossível. Aquilo é um mero brinquedo."
"Um brinquedo bastante perigoso — pelo que parece", foi o comentário sombrio de Merrington.
"Parece-me incrível", insistiu o jovem. "É muito antigo, e é preciso ter muita força com o dedo e o polegar para fazê-lo girar. E os cartuchos são muito pequenos; apenas sete milímetros — cerca de um quarto de polegada. Tenho essa coisa velha há anos, mas nunca a considerei uma arma de fogo de verdade. Eu nunca teria deixado as moças usarem na sala de armas se achasse que era uma arma perigosa. Talvez haja algum equívoco."
"Não há equívoco", respondeu Merrington. "A Sra. Heredith foi morta com aquele revólver, e nenhum outro. Não conseguimos estabelecer a identidade da arma até um dia ou dois atrás, e essa é uma das razões para chamá-lo hoje — para ter certeza absoluta da identidade e ver se você poderia me dizer onde a deixou."
"Não tenho dúvidas agora de que devo tê-la deixado para trás no moat-house", respondeu Nepcote. "Fui convocado de volta para a França e parti com pressa. Que Deus me perdoe pela minha negligência. Pensar que resultou neste terrível assassinato!" Seu rosto tornara-se subitamente pálido.
"Você retornou à França naquela noite?" perguntou Merrington casualmente.
"Na verdade, não. Quando retornei a Londres vindo de Sussex, encontrei outro telegrama aqui do Ministério da Guerra estendendo minha licença até o dia seguinte. Retornei à França na tarde seguinte."
"Obrigado, Capitão Nepcote." Merrington, ao levantar-se para ir embora, estendeu a mão. Era evidente que a declaração sobre o telegrama havia limpado sua mente de quaisquer suspeitas que ele pudesse ter sentido sobre o jovem. Enquanto Nepcote apertava sua mão, ele acrescentou: "É melhor você se manter pronto para comparecer à investigação do tribunal policial, que será realizada daqui a uma semana. Enviarei uma notificação adequada com a hora e o local. Tudo o que precisamos de você é a identificação formal do revólver."
"É essencial que eu compareça?" perguntou o jovem ansiosamente. "Eu preferiria não estar envolvido no caso de forma alguma, sabe. Além disso, talvez eu tenha de retornar à França."
"Talvez possamos dispensar seu depoimento agora que temos os fatos", respondeu Merrington, após um momento de consideração. "Verei o que pode ser feito e lhe avisarei. É melhor você me dar seu endereço na França, caso tenha deixado a Inglaterra. É necessário que eu saiba disso, porque o caso tomou, em certa medida, um novo rumo com a descoberta de que, além do assassinato, foi cometido um roubo. Um valioso colar pertencente à mulher assassinada está desaparecido."
O Capitão Nepcote havia retirado sua carteira enquanto Merrington falava, a fim de extrair um cartão. Quando o outro proferiu a última frase, a carteira escorregou pela metade de seus dedos e vários outros cartões caíram sobre a mesa. Nepcote apanhou-os apressadamente, mas não antes que o olhar rápido de Colwyn tivesse absorvido seu conteúdo. Pareceu-lhe algo mais do que uma coincidência que o nome e o endereço exibidos em letras pretas nítidas em um dos cartões fossem idênticos a um dos endereços de Hatton Garden fornecidos a ele por Musard no moat-house, no dia anterior.
CAPÍTULO XX
Colwyn passou algumas horas daquela noite lendo os depoimentos que havia obtido de Merrington, e na manhã seguinte estudou-os novamente com uma concentração que o zumbido incessante do tráfego de Londres lá fora era incapaz de perturbar. Ele estava bem ciente de que um relatório era um substituto pobre para as impressões originais, mas no documento datilografado à sua frente jaziam os fatos do caso Heredith, na medida em que eram conhecidos. Era uma transcrição clara e incolor da narrativa das testemunhas, registrada com uma atenção minuciosa ao valor dos registros departamentais, e principalmente valiosa para Colwyn por conter a prova técnica que às vezes revela, com a precisão impiedosa da ciência, o que a natureza humana tenta esconder. No equilíbrio da balança da justiça, é a verdade constatada que pesa mais do que a fé, a razão ou a religião revelada.
Quando terminou seu estudo dos depoimentos, sentou-se um pouco a ponderar sobre suas próprias descobertas desde que fora chamado para o caso pelo marido da mulher morta. Essas descobertas, devidas aparentemente ao acaso, investiram o assassinato de uma complexidade que estimulou todos os poderes penetrantes e analíticos de sua mente refinada, pois trouxeram consigo a percepção de que ele estava diante de um daqueles crimes raros em que a solução deve ser desvendada a partir de um emaranhado de falsas circunstâncias, as quais, por sua aparente plausibilidade, tornam a tarefa de alcançar a verdade uma dificuldade peculiar. Enquanto Colwyn sentava-se imóvel, com o queixo apoiado na mão, ruminando sobre a superfície sombria e secreta deste mistério obscuro, crescia nele o sentimento de que o assassinato fora preconcebido com a maior astúcia e cautela, e que os fatos trazidos à luz até então, incluindo suas próprias descobertas, não penetravam no verdadeiro desígnio.
A única convicção em sua mente naquele momento era de que o homem que ele e Merrington haviam entrevistado na tarde anterior tinha alguma conexão com o mistério, e que uma investigação das ações de Nepcote era o primeiro passo em direção à solução do assassinato. Colwyn baseava essa crença nos fatos aparentemente isolados do revólver, no pedaço de cáqui que encontrara nos bosques perto do moat-house e no acidente que revelou que Nepcote carregava o endereço de um joalheiro de Hatton Garden em sua carteira. Essas coisas, tomadas separadamente, tinham talvez pouco significado, mas, consideradas como elos em uma cadeia de eventos que começava na afirmação de Philip Heredith de que conhecera sua esposa na casa de um amigo, onde Nepcote também era convidado, e terminava com o conhecimento de que Nepcote não retornara à França na noite do assassinato, elas assumiam uma importância que justificava, no mínimo, a investigação mais rigorosa.
Colwyn não foi afetado pelo fato de o Superintendente Merrington encarar o caso de um ponto de vista inteiramente diferente. Ele não queria a ajuda da Scotland Yard para resolver o crime. Ele tinha desprezo demais pela mentalidade oficial em qualquer capacidade para pensar que a assistência de tal fonte pudesse ser de valor para ele. Ele sempre preferiu trabalhar sozinho e sem ajuda. Foi o instinto anglo-saxão de jogo limpo que o levou a contar a Merrington sobre o colar desaparecido, para que não houvesse vantagem desleal entre eles. Merrington havia recebido a informação com o dogmatismo impermeável da mentalidade oficial, forte na crença em sua própria infalibilidade, ressentido com qualquer conselho ou sugestão como uma tentativa de enfraquecer sua dignidade. Parecia a Colwyn que não apenas a dignidade ofendida de Merrington levara seu julgamento a desviar-se em uma tentativa de ajustar a descoberta do colar desaparecido à sua própria teoria do caso, mas também o levara a cometer um grave erro ao colocar Nepcote de sobreaviso em um momento em que a maior circunspecção de investigação era necessária.
Para Colwyn, de qualquer modo, a descoberta do colar desaparecido era da maior importância, pois substituía outro motivo para o assassinato, e um motivo que trazia consigo a complicação adicional de que o ladrão tinha alguma intenção de manter o desaparecimento em segredo o máximo possível, trancando a caixa de joias após as joias terem sido extraídas. Se Hazel Rath não havia roubado o colar, o conjunto dos fatos assumia novos valores. Era bem verdade que o mistério das ações de Hazel Rath na noite do assassinato, seu silêncio subsequente após a recuperação do broche, do lenço e do revólver nos aposentos de sua mãe, permanecia tão suspeito quanto antes, mas o motivo alterado fazia com que esses pontos assumissem um aspecto diferente, a ponto de sugerir que ela poderia ser uma participante menor no crime, talvez mantendo silêncio para proteger o criminoso maior.
Merrington, obstinado em seu oficialismo, fora incapaz de ver esse aspecto alterado do caso e, forte em sua presunção da culpa da jovem, agira com indiscrição impulsiva ao ir ver Nepcote antes de tentar rastrear o colar desaparecido.
As reflexões de Colwyn foram interrompidas pelo aparecimento do porteiro lá de baixo para anunciar um visitante. O visitante, parcialmente obscurecido por trás da figura corpulenta do porteiro na entrada, era o Detetive Caldew, da Scotland Yard. Colwyn o encontrara em várias ocasiões e convidou-o a entrar. Como Colwyn dissera uma vez, seus sentimentos em relação a todos os membros da força policial regular eram invariavelmente amigáveis; não era culpa deles, mas da natureza humana, que por vezes tivessem ciúmes dele. Então, ele deu as boas-vindas a Caldew e ofereceu-lhe um charuto.
Caldew aceitou o charuto e o assento oferecido um tanto nervosamente. O seu era o tipo de temperamento que se sente intimidado na presença de um profissional mais bem-sucedido no mesmo ramo de atividade. Ele invejara por muito tempo os sucessos deslumbrantes de Colwyn, mas, ao mesmo tempo, tinha inteligência suficiente para entender que muitos desses sucessos estavam em uma categoria que ele jamais esperaria atingir.
No momento presente, os sentimentos de Caldew dividiam-se entre o ressentimento pela ação de Colwyn em transmitir informações à Scotland Yard, o que lhe rendera uma reprimenda do Superintendente Merrington, e o desejo ansioso de verificar o que o famoso detetive particular pensava do caso Heredith.
"Merrington enviou-me aqui para buscar a cópia dos depoimentos que ele lhe emprestou ontem." Foi assim que ele anunciou o objeto de sua visita. "Você terminou com ela?"
Ficava evidente por essa declaração que a gratidão do Superintendente Merrington pelas informações recebidas poderia agora ser considerada como história passada. Colwyn, refletindo que ela durara tanto quanto esse sentimento geralmente dura, congratulou-se com sua previdência em ter feito uma cópia do relatório. Ele entregou a cópia que estava à sua frente ao visitante.
"Agradeço pelo empréstimo", disse ele. "É uma leitura interessante. Sua própria participação nas investigações originais tem toques excelentes, se me permite dizer. Aquela armadilha para o dono do broche foi uma ideia elegante."
O ressentimento de Caldew diminuiu diante desse elogio à sua habilidade profissional.
"O truque teria funcionado, também, se eu não tivesse sido chamado lá embaixo", disse ele. "A moça foi rápida o suficiente para entrar na sala enquanto eu estava fora dela. Não que isso importasse muito, como as coisas aconteceram, mas é uma coisa estranha sobre esse colar, não é?"
"Muito. Merrington lhe contou tudo sobre isso?"
"Sim, e ele me deu uma baita bronca por não descobrir a perda. Entre nós, não acho que fui tratado de forma justa a esse respeito. A Srta. Heredith nunca me disse uma palavra sobre uma caixa de joias estar na sala. Ela a levou lá para baixo antes que eu chegasse e nunca mencionou nada quando perguntei se algo havia sido roubado. Se ela tivesse me contado, eu teria mandado abrir a caixa. Mas isso não pesou para Merrington. Ele é terrivelmente injusto e nunca perde a chance de colocar a culpa em alguém quando algo dá errado."
"Sinto muito se você se meteu em apuros por minha ação ao informá-lo", disse Colwyn. "Mas, é claro, você deve perceber que uma descoberta de tal importância não poderia ser mantida em segredo."
"Isso é bem verdade", respondeu Caldew, com a voz mais suave. "Felizmente, isso não afeta o resultado, de um jeito ou de outro. O Sr. Heredith acredita que Hazel Rath é inocente, e suponho que seja por isso que ele o chamou para o caso. Mas ela é culpada, com certeza. Tentei deixar isso claro ao Sr. Heredith, mas ele parece ser um homem de ideias fixas. A questão é: o que aconteceu com o colar? Minha própria impressão é que ela o escondeu em algum lugar. Ela não teve oportunidade de se desfazer dele antes de ser presa."
"Isso significa que você acha que ela o roubou."
"Ora, claro..." O tom confiante de Caldew desapareceu diante da expressão do rosto de seu companheiro. "Você não acha?"
"Eu não acho."
"Por que não?"
"Por uma coisa, o porta-joias estava trancado. Como a moça saberia onde a chave era guardada?"
"Ela poderia ter obtido essa informação com a mãe. A Sra. Rath, como governanta, provavelmente saberia tudo sobre as chaves da casa."
"Das chaves comuns, sim. Mas é pouco provável que esse conhecimento se estendesse às chaves particulares da Sra. Heredith, a menos que a Srta. Heredith a tivesse contado. Mesmo que Hazel Rath soubesse onde a chave era guardada, é difícil acreditar que ela tenha procurado por ela após cometer o assassinato, para depois devolvê-la à gaveta onde ficava. Isso denota uma deliberação fria demais, mesmo para um assassino, e especialmente quando se supõe que o assassino seja uma jovem."
"Não tenho tanta certeza disso", respondeu Caldew, balançando a cabeça. "O assassinato é um crime de sangue-frio."
"Pelo contrário, os assassinatos são quase invariavelmente cometidos sob a influência da mais forte excitação, mesmo quando o incentivo é o ganho e o crime foi profundamente premeditado. Essa é uma verdade notável na psicologia do assassinato. Mas o fato importante sobre o roubo do colar é que, mesmo que Hazel Rath soubesse onde a chave do porta-joias era guardada, ela não teve tempo de pegá-la na gaveta do outro lado da cama, roubar o colar, devolver a chave ao seu lugar e escapar do quarto antes que os convidados do andar de baixo entrassem. Se Hazel Rath foi de fato a assassina, o tempo era de importância primordial para ela. Ela deve ter percebido que o grito de sua vítima alarmaria a casa lá embaixo, e que alguns dos homens devem ter começado a subir as escadas antes que o tiro subsequente fosse disparado."
Caldew ficou em silêncio por um momento, cogitando esses pontos com um olhar perturbado que contrastava com suas opiniões anteriormente confiantes sobre o caso. Sua perturbação interior manifestou-se na pergunta:
"Você também compartilha a opinião do Sr. Heredith de que Hazel Rath é inocente?"
"Não posso dizer. As evidências contra ela são muito fortes."
"Claro que são fortes!" exclamou Caldew ansiosamente, como se agarrasse essa expressão cautelosa de opinião como uma boia para sua própria convicção que afundava. "São tão fortes que é bem certo que foi ela quem cometeu o assassinato."
Colwyn permaneceu em silêncio. Uma afirmação que era meramente uma expressão de opinião não exigia palavras.
Caldew, sempre impressionável, tornou-se inquieto sob o silêncio de seu companheiro, e essa inquietação foi matizada em sua mente com tal pavor da possibilidade de erro que transbordou em palavras impulsivas:
"Gostaria que você me dissesse o que realmente pensa do caso, Sr. Colwyn. Espero há anos pela chance de lidar com um grande assassinato como este, e agora que ela surgiu, eu gostaria de resolvê-lo. Significa muito para mim", acrescentou ele simplesmente.
Colwyn refletiu que já havia revelado mais informações sobre o caso Heredith do que seu julgamento aprovava ou sua consciência ditava. Mas sua natureza bondosa o levou a ajudar o jovem ansioso sentado à sua frente, que tinha muito mais a ganhar com o sucesso do que ele.
"Acho que há mais neste caso do que você e Merrington trouxeram à luz até agora", disse ele.
"Suponho que sim, se ficar provado que Hazel Rath não roubou o colar. Mas você descobriu algo mais além do desaparecimento do colar?"
Colwyn não respondeu diretamente. Ele estava examinando as deposições novamente.
"Há um ou dois pontos curiosos aqui", observou ele, enquanto virava as páginas. "Em primeiro lugar, o perito em munição que foi chamado ao inquérito para depor sobre a bala extraída do corpo testemunhou que, em peso e comprimento, ela correspondia à bala de sete milímetros feita para um revólver de percussão central. A bala, sem dúvida, foi disparada do revólver que vocês encontraram nos aposentos da Sra. Rath. As balas para revólveres ingleses não são classificadas em milímetros, mas parece haver demanda suficiente por esse tamanho para levar as firmas britânicas a fabricá-las. O tamanho mais próximo em cartucho de percussão central para sete milímetros é chamado de .300, que equivale a 0,3 polegadas. Sete milímetros equivalem a 0,276 polegadas. O ponto para o qual quero chamar sua atenção é a extrema leveza e pequenez do revólver com o qual a Sra. Heredith foi morta. Como o Capitão Nepcote disse a Merrington ontem, é pouco mais que um brinquedo."
"Isso me chamou a atenção assim que o vi", disse Caldew. "Mas não vejo que importância o fato tenha para o caso, de uma maneira ou de outra."
"No entanto, é um ponto que não deixa de ter importância, quando considerado em conjunto com as outras circunstâncias do caso. O testemunho do patologista do governo também é de interesse. Após afirmar que a causa da morte foi insuficiência cardíaca devido à hemorragia consequente da passagem da bala pelo pulmão, ele menciona que havia um grande buraco chamuscado através do resto da camisola e da roupa de baixo que a Sra. Heredith estava usando no momento em que foi assassinada."
"Notei isso quando estava examinando o corpo."
"O tecido do vestido estava fumegando quando você viu o corpo?"
"Não; mas havia um cheiro de tecido queimado no quarto."
"O patologista do governo diz que o buraco queimado tinha quase cinco centímetros de diâmetro, mas ele também afirma que o ferimento perfurante feito pela bala era do tamanho de uma moeda de três pence. A disparidade sugere dois fatos. Em primeiro lugar, o tiro deve ter sido disparado a uma distância muito curta — muito curta, de fato, considerando a pequenez do revólver e o tamanho do buraco queimado. Em segundo lugar, alguém deve ter apagado o tecido em brasa antes de sua chegada, caso contrário, ele teria continuado a fumegar em um anel cada vez maior até que todas as roupas da mulher morta fossem destruídas."
"A Sra. Heredith pode ter apagado ela mesma em seus momentos finais", disse Caldew, que seguia as deduções de seu companheiro com a maior atenção.
"Isso é improvável, tendo em vista a natureza de seus ferimentos. A bala, após atravessar o pulmão esquerdo, alojou-se na coluna vertebral. Após tal ferimento, a Sra. Heredith dificilmente estaria consciente de suas ações."
"Pode ter sido apagado por Musard, que tentou estancar o fluxo de sangue enquanto a Sra. Heredith morria."
"Ele teria mencionado isso a você. Minha intenção é perguntar a ele, mas minha própria opinião é que estamos diante de uma explicação diferente."
"Qual é?"
"A presença de outra pessoa no quarto."
"Alguém que escapou pela janela!" exclamou Caldew, dando sua própria interpretação à dedução. "Você suspeita de alguém?"
"Não exatamente. Mas pretendo investigar as ações do Capitão Nepcote na noite do assassinato."
Caldew, que não possuía algumas das informações que seu companheiro tinha, achou esse salto grande demais para sua mente seguir.
"Com que propósito?" perguntou ele. "Nepcote voltou para a França antes que o assassinato fosse cometido."
"Não voltou. Ele ficou em Londres naquela noite e só retornou para a França no dia seguinte. Ele explicou isso ontem, afirmando que, quando chegou a Londres após deixar o Moat-house, encontrou outro telegrama do Departamento de Guerra estendendo sua licença por vinte e quatro horas."
"Merrington não me disse nada disso. Tudo o que ele me contou foi que você e ele viram Nepcote, que identificou o revólver como sendo sua propriedade e disse que o havia deixado para trás no Moat-house por acidente."
"Merrington é um homem de ideias fixas, para usar sua expressão. Ele insistiu em tentar encaixar o desaparecimento do colar em sua própria teoria da culpa de Hazel Rath. Foi sua obstinação que o levou a cometer a tolice de ir ver o Capitão Nepcote antes de tentar rastrear o colar desaparecido. É justo acrescentar a Nepcote que ele se ofereceu para informar que não retornou para a França na noite do assassinato."
"Isso não parece a ação de um homem com algo a esconder", comentou Caldew pensativo.
"A menos que ele estivesse enfrentando uma situação perigosa. Nesse caso, a franqueza seria sua melhor estratégia para remover as suspeitas de Merrington. O fato de o assassinato ter sido cometido com seu revólver é, por si só, uma circunstância suspeita, apesar da explicação aparentemente plausível. Percebi isso o tempo todo. Eu também já havia informado Merrington sobre o fato de que Nepcote não retornou para a França na noite do assassinato, como se supunha. Merrington conduziu o assunto habilmente, mas tive a impressão de que Nepcote percebeu a armadilha e tomou a atitude mais ousada. De qualquer forma, isso lhe deu tempo."
"Tempo para quê?"
"Tempo para lucrar com a tolice de Merrington ao colocá-lo em guarda. Tempo para permitir que ele escape, se estiver realmente envolvido no crime."
"Certamente você está interpretando demais isso", exclamou Caldew com um tom de protesto. "A história de Nepcote me parece bastante consistente com o que sabemos de seus movimentos. A Srta. Heredith, ao nos dar os nomes dos hóspedes que estiveram no Moat-house, mencionou que o Capitão Nepcote tinha sido chamado de volta para a França na tarde do assassinato por um telegrama do Departamento de Guerra. Nepcote lhe diz que, quando chegou a Londres, encontrou outro telegrama esperando por ele estendendo sua licença. Certamente isso é consistente?"
"É consistente que os dois telegramas fossem enviados para endereços diferentes? Eles teriam sido ambos enviados para o Moat-house ou ambos enviados para seu apartamento em Londres — isso se tivessem sido enviados pelo Departamento de Guerra. Apenas um parente ou um amigo pessoal se daria ao trabalho de enviar para endereços diferentes. Aí reside o ponto fraco da declaração de Nepcote."
"Por Júpiter, há um ponto nisso", disse Caldew, em um tom alarmado. "Mas esses são fatos que podem ser verificados", acrescentou, como se tentasse se tranquilizar.
"Podem ser verificados tarde demais. Já dei início a investigações, mas leva tempo para obter qualquer informação sobre telegramas oficiais. Nepcote tem tempo de sobra para tirar proveito do erro de Merrington, caso haja alguma necessidade para ele fazer isso. Não importa qual seja sua explicação, o fato permanece que ele estava na Inglaterra, e não na França, na noite em que o assassinato foi cometido, e pretendo descobrir como ele passou o tempo. Mas é de suma importância descobrir o paradeiro do colar desaparecido, que é a pista realmente importante. A Scotland Yard está fazendo alguma investigação sobre isso?"
"Sim. Merrington me incumbiu disso porque deixei você marcar pontos sobre ele ao descobrir que estava faltando. Tenho certeza de que ele espera que eu fracasse na tarefa de rastreá-lo. Eu não ficaria surpreso se fracassasse também. Não é fácil encontrar o rastro de joias desaparecidas, especialmente se foram escondidas. Nem sequer tenho uma descrição do colar para me ajudar."
"Posso lhe dar uma descrição e talvez ajudá-lo no trabalho de rastreá-lo."
"Pode? Isso é muito gentil da sua parte." O rosto de Caldew mostrava que ele falava sério. "Você tem alguma ideia de onde ele está?"
"Tenho pelo menos algo para me guiar ao iniciar a busca — algo que, curiosamente, devo ao erro de Merrington ao visitar Nepcote antes de procurar pelo colar. Vamos atravessar até Hatton Garden e colocarei minha ideia à prova."
CAPÍTULO XXI
Ao chegar à rua, atravessaram Ludgate Circus e dirigiram seus passos em direção a Hatton Garden, seguindo pela St. Bride Street.
Poucos minutos depois, emergiram naquela parte de Holborn que é adornada pela estátua equestre de um príncipe alemão morto, que reconhece suas obrigações vitalícias para com a hospitalidade britânica erguendo seu chapéu de plumas para o London City & Midland Bank na esquina do Viaduto. Hatton Garden, como todo londrino sabe, começa do outro lado desse espetáculo edificante — uma rua larga e curta que desdenha indicar, por meio de opulência externa, a riqueza escondida dentro de suas paredes, embora, para um olho treinado nos costumes londrinos, haja uma sugestão reconfortante de prosperidade em suas largas calçadas de pedra, edifícios de tijolos confortáveis e nomes judaicos que aparecem em letras douradas nas janelas de vidro.
Colwyn caminhava rapidamente, olhando para os nomes expostos. Ele quase chegara ao final de Clerkenwell da Garden quando seu olhar foi capturado pelo nome de "Austin Wendover, Negociante de Pedras Orientais", brilhando em letras brancas no quadro de avisos de um conjunto de escritórios alojados em um prédio na esquina de uma rua lateral. Era o nome do homem que ele estava procurando. Ele entrou na passagem e subiu as escadas. Caldew o seguiu.
No patamar do primeiro andar, outro quadro, menor, indicava os nomes dos inquilinos cujos escritórios ficavam nos fundos do prédio. O do Sr. Wendover estava entre eles, e uma mão apontando revelava que ele conduzia seus negócios no final de um longo corredor com uma curva no meio. Quando esse corredor foi atravessado, o nome do Sr. Wendover foi visto novamente, desta vez em uma porta, com um aviso abaixo convidando o visitante a entrar sem bater.
Dentro, um jovem judeu com um rosto sensual escrevia atarefado em uma mesa no canto, de costas para a porta. Ele parou e virou-se ao som da porta se abrindo e, enfiando sua caneta-tinteiro atrás de uma orelha já carregada com um cigarro, esperou para ser informado do que os visitantes queriam.
"O Sr. Wendover está?" indagou Colwyn.
"Sim, está. Qual o nome, por favor?" O jovem judeu desceu apressado de seu banco, preparando-se para levar uma mensagem.
Em resposta, Colwyn entregou o cartão de apresentação de Musard. O jovem judeu examinou-o, lançou um olhar avaliador aos dois detetives e desapareceu em uma sala interna. Ele reapareceu rapidamente na porta e os chamou para entrar.
A sala interna era mobiliada com cadeiras de couro, um bom tapete e uma grande mesa de nogueira. Mapas de mineração e fotografias emolduradas de diamantes famosos pendiam nas paredes, mas não havia nada no homem sentado à mesa que sugerisse associação com pedras preciosas, exceto pelo brilho de seus pequenos olhos cinzentos, que eram tão duros e brilhantes quanto as gemas expostas na vitrine ao seu lado. Seu rosto era longo, fino e amarelo, de aparência biliosa. Sua estrutura esguia estava vestida de preto, e seu colarinho branco baixo terminava na frente em duas pontas de linho, presas com um botão de osso barato em vez do diamante que poderia ser esperado. Esse dispositivo, além de dispensar a gravata, revelava a base de um pescoço longo e magro, com uma mecha de cabelo grisalho surgindo de baixo e caindo sobre o espaço do colarinho, combinando com uma mecha semelhante que pendia frouxamente do lábio inferior do negociante de diamantes. Ao todo, enquanto o Sr. Austin Wendover estava sentado à sua mesa com suas mãos longas e amarelas cruzadas à frente, esperando que seus visitantes anunciassem seus negócios, ele não parecia diferente de um pastor metodista prestes a dizer a oração, ou um apóstolo da cultura para as massas de Garden City preparando-se para receber um voto de agradecimento por uma palestra sobre prosa inglesa em uma sociedade de melhoramento mútuo dos trabalhadores. Até seu nome sugeria, para a mente séria, o compilador de uma antologia de poetas de guerra britânicos ou o escritor de um livro de estudos da Natureza, em vez da riqueza material, loucura feminina, ceias tardias, coxias, frivolidade e imoralidade trazidas a uma imaginação vívida pela mera menção da palavra diamantes.
"Meu nome é Colwyn; meu amigo é o detetive Caldew, da Scotland Yard", disse Colwyn, em resposta ao olhar de interrogação do Sr. Wendover. "Estamos em busca de uma pequena informação, que esperamos que o senhor nos dê."
"Isso depende do que vocês querem saber." Essa resposta, entregue de maneira abrupta e rude, sugeria que a disposição do negociante de diamantes era tudo menos polida.
"Exatamente. O senhor ouviu falar do assassinato Heredith, suponho."
O negociante de diamantes acenou com a cabeça sem falar e esperou para ouvir mais.
"O colar de pérolas rosas dos Heredith foi roubado do quarto da Sra. Heredith na noite em que ela foi assassinada, e estamos tentando rastreá-lo."
"E o que isso tem a ver comigo?"
"Tenho razões para pensar que o colar pode ter sido oferecido ou vendido em Hatton Garden. Pode ter sido apresentado a você."
"O que vocês querem dizer vindo até mim com tal pergunta? O que o Sr. Musard quer dizer enviando vocês aqui? Ele pensa que me tornei um receptador de bens roubados na minha idade? Estou surpreso com ele."
"Meu caro Sr. Wendover, o Sr. Musard não tinha esse pensamento em mente. Simplesmente viemos até você em busca de informações. O Sr. Musard me deu seu endereço como um negociante respeitável de pedras que provavelmente saberia se este colar tivesse sido oferecido para venda em Hatton Garden."
"Bem, não foi oferecido a mim. Não manuseio pérolas há doze meses."
"Você reconheceria o colar Heredith se ele fosse oferecido a você?"
"Não reconheceria, e já lhes disse que não foi oferecido a mim."
Colwyn ficou desconcertado e desapontado, mas a lembrança do olhar furtivo de Nepcote e do esconderijo apressado do cartão do negociante de diamantes na noite anterior o levou a um esforço adicional.
"É possível que o colar tenha sido desmontado e as pedras oferecidas separadamente", disse ele. "O fecho continha um grande e valioso diamante azul."
"Eu lhes digo que não sei nada sobre isso. Raramente compro de particulares. Não é o meu jeito de fazer negócios."
"Temos razões para suspeitar que o colar foi oferecido para venda por um jovem oficial militar, alto e de boa aparência, com olhos azuis e cabelos castanhos, levemente tingidos de cinza nas têmporas."
"Essa descrição se aplicaria a milhares de jovens oficiais. Eles são um bando de imprudentes, e a dissipação logo torna o cabelo de um homem grisalho. Tive alguns deles aqui, tentando vender joias de família por dinheiro para jogar fora com mulheres de vida fácil. Houve um que apareceu há alguns dias em estado de semi-embriaguez. Ele me deu um tapinha nas costas com toda a impudência e, chamando-me de coisa — uma querida coisa velha, que é uma de suas gírias — perguntou-me o que poderia arrancar de mim por um bom diamante. Mandei ele e seu diamante embora com uma pulga atrás da orelha." Os lábios gomosos do Sr. Wendover curvaram-se em um sorriso sombrio com a lembrança.
"Pode descrevê-lo mais detalhadamente?" perguntou Colwyn, com interesse repentino.
"Não prestei atenção especial a ele, e não o reconheceria novamente se ele entrasse pela porta. Estava quase escuro quando ele veio, e meus olhos não são jovens. Mas ele não era o homem que vocês estão procurando. Foi dias antes do assassinato."
"Ele lhe deu seu nome?"
"Não deu, e eu não diria a vocês se desse. O que isso tem a ver com o objetivo de sua visita? Vocês são jovens persistentes, mas não vou deixar que façam uma investigação geral de pesca em meus negócios. Existem dois tipos de pessoas tolas neste mundo. Aquelas que tagarelam sobre seus assuntos para suas mulheres, e aquelas que tagarelam sobre eles para estranhos. Não tenho mulheres, graças a Deus! Então não posso conversar com as criaturas fúteis."
"Então não pedirei que quebre a outra metade de sua máxima por minha conta", disse Colwyn, levantando-se com um sorriso.
"Não seria bom se pedisse", respondeu o Sr. Wendover, com um sorriso recíproco que exibia dois presas amarelas como os dentes de uma morsa. "Minha consciência comercial já está me picando por ter dito tanto. Aquele que guarda seu próprio conselho não entrega nada — exceto que ele guarda seu conselho. Vocês poderiam fazer algo pior do que guardar isso no coração, Sr. Colwyn, em sua caminhada pela vida. Há cinquenta anos de experiência por trás disso. Adeus ao senhor, Sr. Colwyn, e ao senhor, jovem. Desejo a ambos sorte em sua busca, mas meu conselho é: tentem as casas de penhores." Com a pressão de seu polegar sobre a mesa, o jovem judeu apareceu da sala ao lado, como se convocado por uma varinha mágica, para deixar os visitantes saírem.
"Esse é um velho pássaro estranho", disse Caldew, enquanto caminhavam para longe. "Você acha que ele nos disse a verdade?"
Colwyn não respondeu. Ele pensava rapidamente, perguntando-se se por qualquer possibilidade havia cometido um erro. Mas, mais uma vez, surgiu em sua mente, como uma imagem projetada em uma tela, a pequena cena que ele, e apenas ele, presenciara no apartamento na noite anterior — as cartas trêmulas, o gesto rápido e inconsciente de ocultação e o olhar sobressaltado que refletia tão claramente o pavor da descoberta. Não! Não havia erro ali, mas a explicação residia em algo mais profundo.
Eles haviam chegado ao ângulo da passagem estreita que levava à saída frontal dos escritórios. Uma pequena janela estava fixada na curva escura do longo e sombrio corredor para admitir luz. Colwyn, por acaso, olhou através dessa janela ao alcançá-la, e seu olhar perspicaz captou a figura de um homem parado, imóvel, em um beco estreito da rua lateral, abaixo. Ele estava quase oculto atrás de um arco, mas era evidente para o detetive que o homem vigiava o edifício da esquina. Enquanto Colwyn olhava para ele, o homem mudou levemente de posição e seu rosto tornou-se visível. Com um gesto rápido e imperativo ao seu companheiro, Colwyn correu velozmente pelo restante do corredor e desceu o lance de escadas em direção a Hatton Garden.
Caldew seguiu mais lentamente, intrigado pela estranha ação do outro. Quando chegou à entrada, Colwyn não estava em lugar algum, então ele esperou no portal. Após alguns minutos, viu Colwyn retornar na direção de Clerkenwell.
— Ele escapou — disse Colwyn, ao chegar perto de Caldew. Sua voz estava um pouco ofegante, como se tivesse corrido.
— Ele? Quem?
Colwyn puxou-o para o saguão de entrada vazio antes de responder:
— Nepcote. Ele estava vigiando do lado de fora. Eu o vi pela janela do andar de cima. Ele ou nos seguiu até aqui ou estava esperando para ver se viemos. Eu deveria ter previsto isso.
Um vislumbre de agitação incomum no rosto calmo de Colwyn aumentou a confusão mental de Caldew.
— Não entendo — ele gaguejou. — Ele... Nepcote... por que ele estaria nos vigiando?
— Porque ele descobriu a verdade na noite passada. Ele sabia que estava em perigo.
— Mas por que ele nos seguiria até aqui?
— Ele deixou cair acidentalmente algumas cartas de sua carteira ao dar a Merrington um endereço em seu apartamento na noite passada, e uma delas era o cartão de visitas de Wendover. Merrington não viu — não teria significado nada para ele se tivesse visto —, mas eu vi. Nepcote sabia que eu vi e deve ter percebido que eu o suspeitava. Ele tem vigiado meu quarto e nos seguiu até aqui, ou estava rondando este lugar para ver se eu visitava Wendover.
— Mesmo agora não vejo a conexão. Se Wendover nos disse a verdade, Nepcote não foi até ele com o colar. Então, o que importava para Nepcote se você veio aqui ou não?
— Nepcote pode ter sido o homem que ofereceu o diamante a Wendover.
— Isso é impossível. Wendover diz que aquele homem apareceu alguns dias antes do assassinato.
— Ainda assim, pode ter sido Nepcote.
— Isso ultrapassa meu entendimento — disse Caldew, com um olhar perplexo. — O que você está insinuando?
— Nada, no momento. Cada passo neste caso me convence de que estamos diante de um mistério muito profundo. Não vale a pena arriscar um palpite, porque adivinhar é sempre insatisfatório.
— Talvez devêssemos tentar tirar um pouco mais de Wendover — disse Caldew.
— Isso seria apenas perda de tempo. Ele não está com o colar e é incapaz de descrever o homem que lhe ofereceu o diamante. Acredito agora que foi Nepcote, mas isso não importa, de uma forma ou de outra. É muito mais importante saber que ele veio aqui hoje para nos vigiar. Isso implica que ele tinha motivos para temer investigações sobre o colar. A inferência a ser tirada é que Nepcote é o responsável pelo desaparecimento do colar e, portanto, está profundamente implicado no assassinato.
— Talvez não tenha sido Nepcote que você viu? — sugeriu Caldew. Ele sentiu que a observação era fraca, mas estava atordoado pela súbita reviravolta dos acontecimentos, em um estado de espírito que se agarra a qualquer palha.
— Tire essa dúvida de sua mente — disse Colwyn. — Vi o rosto dele distintamente. Ele havia desaparecido quando desci. O beco onde ele estava parado permitia uma visão da entrada deste edifício. Eu confirmei isso ao ficar no mesmo lugar. Sua fuga é outra prova — embora não fosse necessária — de seu conhecimento culpado e cumplicidade neste assassinato. Por que ele deveria fugir? De acordo com sua própria história na noite passada, ele não tinha nada a temer. Mas agora, por suas próprias ações, ele atraiu a maior das suspeitas sobre si mesmo.
— Suponho que não adianta procurar por ele aqui por perto? — observou Caldew, olhando melancolicamente para fora da entrada.
— De forma alguma. A vizinhança é um labirinto de becos e ruas laterais daqui até Grays Inn Road.
— Então irei imediatamente ao seu apartamento — disse Caldew. — Ele não teve tempo de voltar.
— Ele não retornará ao seu apartamento. Vimos o último dele até que o capturemos. Ele recebeu dois avisos, e é improvável que cometa a tolice de esperar para ver se o raio cai três vezes no mesmo lugar. Ele escapará para sempre, desta vez, se puder. No entanto, vale a pena ir ao apartamento. Podemos colher algumas informações lá. — Colwyn pronunciou estas últimas palavras em um tom mais baixo ao ver duas moças de escritório descendo a escada com muita conversa e risadas.
— Vamos então.
Eles viajaram de ônibus de Grays Inn Road até Oxford Circus, e caminharam por várias ruas quietas e isoladas — os remansos do West End — a fim de chegar a Sherryman Street pela extremidade inferior, que, com um verdadeiro senso de adequação, era chamada de Sherryman Street Approach. Se o Approach não estivesse a um passo de Sherryman Square, poderia ter sido chamado de favela. Tinha cortiços com enxames de crianças imundas brincando nas entradas abertas, suas lojas ofereciam comida do East End — mexilhões e búzios, "bifes de dois olhos", peixe com fritas fedorento e carne de cavalo para o elemento estrangeiro barato. Havia vários pubs com grupos de mulheres do lado de fora bebendo e fofocando, todas usando os xales pretos que são tão emblemáticos da mulher londrina de classe baixa quanto uma casula para um padre ou um lábio superior tatuado de azul para uma beleza Maori de alta casta. Um vendedor ambulante oferecia coelhos congelados de uma carroça de burro, com uma mulher pálida seguindo atrás para espantar os gatos sarnentos que brigavam na estrada pelo sangue que escorria da traseira da carroça. Uma mulher italiana, morena, atarracada e intoleravelmente suja, tocava a "Marselhesa" em um realejo, com um macaco trêmulo saltitando no topo, agitando uma pequena Union Jack e chacoalhando impacientemente uma lata de metal em busca de moedas.
Sair desse bairro sórdido para Sherryman Street era passar do leste ao oeste de Londres em um passo. Era como se uma linha invisível de demarcação tivesse sido traçada entre a parte inferior e superior da rua, mantida inviolável pelos moradores de cada trecho. Não havia pubs ou peixarias em Sherryman Street; nada de realejos, vendedores ambulantes, crianças impuras ou mulheres de xale preto. Tinha silêncio, isolamento, calçadas limpas, aldravas polidas e cortinas brancas nas janelas de suas casas bem cuidadas, que cresciam em dignidade até a aparência de mansões urbanas no lado da Praça.
O número 10 mostrava um exterior de pedra fechado e sem brilho para quem passava, como um rosto velho, cinzento e secreto. Ao se aproximarem, Colwyn, com um leve movimento de cabeça, chamou a atenção de seu companheiro para as janelas superiores que pertenciam ao apartamento de Nepcote. As persianas estavam abaixadas.
— Parece que Nepcote partiu na noite passada — disse ele.
A visão das persianas abaixadas, como pálpebras amarelas no rosto cinzento, despertou uma irritação secreta no peito de Caldew e, com ela, a percepção de seus poderes como oficial da Scotland Yard.
— Vou forçar a entrada e ver — declarou ele, irritado.
— Melhor conseguir uma chave com a governanta — sugeriu Colwyn. — As mulheres que cuidam desses apartamentos de solteiros sempre têm chaves duplicadas. Mas a porta da frente está entreaberta. Vamos subir primeiro.
Eles subiram as escadas até o apartamento, e a primeira coisa que notaram foi uma chave Yale na fechadura da porta.
— Um sinal de desequilíbrio mental — comentou Colwyn. — Em momentos assim, as pessoas esquecem as pequenas coisas.
Eles abriram a porta e entraram. A sala da frente estava praticamente como Colwyn a vira na noite anterior. As flores murchavam em sua tigela; as coristas sorriam em suas molduras de prata; os cavalos de corrida emoldurados e seus treinadores estoicos olhavam com indiferença das paredes cor-de-rosa.
— Nepcote não parece ter levado nada com ele — observou Caldew, olhando para o quarto. — O guarda-roupa está cheio de seus uniformes, mas a cama não foi ocupada.
— Aqui está a prova de que ele fugiu — disse Colwyn, jogando para trás a tampa de uma escrivaninha que ficava na sala de estar. Estava cheia até a borda com uma massa de papéis rasgados.
— Algo comprometedor? — perguntou Caldew, aproximando-se ansiosamente para olhar a bagunça.
— Não; apenas contas e convites. Quaisquer cartas perigosas foram queimadas ali. — Ele apontou para a lareira, que estava cheia de fragmentos enegrecidos. — Ele fez um bom trabalho nisso também — acrescentou, enquanto ia até a lareira e se debruçava sobre ela. — Não há a menor chance de decifrar uma linha. Mas seria bom revistar suas roupas. Ele pode ter esquecido algumas cartas nos bolsos.
Caldew seguiu a sugestão e desapareceu no quarto interno, deixando Colwyn examinando o conteúdo da lareira. Ele retornou em poucos minutos para dizer que não encontrara nada nas roupas, exceto algumas notas do Tesouro e algumas moedas soltas no bolso da calça.
— Isso parece indicar que ele fugiu com tanta pressa que esqueceu de levar seu troco — disse Colwyn. — É outra revelação interessante de seu estado de espírito, porque há pouca dúvida de que ele retornou ao apartamento esta manhã depois de tê-lo deixado na noite passada.
— Como você chega a essa conclusão?
— Pelas cartas queimadas na lareira. Elas ainda estão mornas. Ele estava em tal estado de medo que não ousou dormir no apartamento na noite passada, mas retornou esta manhã para queimar suas cartas e vestir roupas civis. Então ele saiu apressado novamente, com tanta pressa que esqueceu seu dinheiro. Não há mais nada a ser visto aqui. É melhor fazermos algumas perguntas à governanta enquanto descemos.
Eles saíram, e Caldew trancou a porta atrás de si e colocou a chave no bolso. Quando chegaram ao saguão de entrada, Colwyn parou diante da porta do nicho onde a governanta espreitava, como um polvo em uma poça. Ao bater de Colwyn, um rosto branco, coroado por uma touca branca, surgiu através da fenda estreita na metade de vidro da porta com cortinas, e nadou em sua direção na escuridão interior da mesma maneira que a cabeça de um fantasma materializado no salão de um médium espírita. A porta se abriu, e a aparição apareceu em carne e osso, olhando para eles com olhos pétreos. Caldew assumiu a conversa:
— O Capitão Nepcote dormiu aqui na noite passada? — perguntou ele, secamente.
— Não sei.
— Bem, ele esteve aqui esta manhã?
— Não sei. — O tom da segunda resposta era ainda mais inexpressivo que o da primeira, se é que isso era possível.
— É sua obrigação saber — disse Caldew, irritado.
— Não é da minha conta discutir os assuntos particulares do Capitão Nepcote com estranhos. — A mulher voltou para dentro de seu quarto sem dizer mais nada, fechando a porta atrás de si.
— Maldita seja! — resmungou Caldew, em intensa exasperação.
— Essas mulheres antigas aprendem a sabedoria de controlar sua tagarelice natural quando colocadas como responsáveis por apartamentos de solteiros — disse Colwyn, com uma risada. — Não obteremos nada dela se ficarmos aqui o dia todo, então é melhor irmos.
— Vou voltar direto para a Scotland Yard — anunciou Caldew com uma decisão repentina quando chegaram à calçada. — Preciso contar a Merrington tudo sobre o trabalho desta manhã, e quanto mais cedo melhor. Precisamos manter o apartamento vigiado. Talvez Nepcote retorne.
— Ele não retornará — disse Colwyn. — Ele sabe que estamos atrás dele e que o apartamento será vigiado. Mas é uma boa ideia não deixá-lo ter muita vantagem. Vamos, veja se conseguimos encontrar um táxi, e eu o deixarei na Scotland Yard.
Eles caminharam até Sherryman Square e se consideraram afortunados ao encontrar um táxi circulando com um motorista suficientemente complacente para levá-los na direção desejada.
CAPÍTULO XXII
Foi um crédito para Merrington como oficial que ele suprimiu seus sentimentos como homem ao ouvir a história de Caldew, e fez tudo o que era possível para remediar a situação assim que se convenceu de que Nepcote havia fugido. Quaisquer dúvidas persistentes que ele pudesse ter foram dissipadas ao saber, após uma consulta confidencial em Whitehall, que o Capitão Nepcote não dera as caras no Ministério da Guerra naquele dia, e não solicitara nem obtivera licença de seus deveres.
Ao receber essa informação, Merrington voltou-se para o telefone de seu escritório e, com o receptor na mão, bradou instruções peremptórias que colocaram em movimento a organização de longo alcance da Scotland Yard para a captura de um fugitivo da justiça. A descrição de Nepcote foi circulada para as delegacias de polícia, detetives foram destacados para observar trens de partida e as docas, e as entradas para os metrôs e ferrovias subterrâneas foram vigiadas. Após cercar Londres, Merrington lançou uma rede mais ampla, e muito antes do cair da noite ele havia lançado sobre a Inglaterra uma rede de malhas finas através da qual nenhum homem poderia escapar.
Mas é difícil até mesmo para a Scotland Yard colocar as mãos rapidamente em um fugitivo na vasta cidade de Londres, como Merrington bem sabia. Enquanto esperava que a rede se fechasse sobre seu cativo destinado, ele decidiu, diante da estranha nova virada do caso, investigar todas as circunstâncias novamente. As investigações iniciadas em Londres, com o objetivo de descobrir tudo o que pudesse ser aprendido sobre a carreira de Nepcote e a vida de solteira de Violet Heredith, ocuparam uma parte importante das investigações renovadas da Scotland Yard sobre o assassinato de Heredith.
Caldew foi enviado a Heredith para procurar novos fatos. Ele retornou após um dia de ausência com informações que poderiam ter sido obtidas antes, se o acaso não tivesse direcionado a suspeita para Hazel Rath: com a história de um jovem desconhecido que havia deixado o trem de Londres para Heredith em Weydene Junction na noite do assassinato. A história, extraída de um coletor de bilhetes desatento, não lançou luz sobre a identidade do estranho, além de uma declaração de que ele usava um longo sobretudo claro, sob o qual o coletor vislumbrara um uniforme cáqui enquanto o cavalheiro tateava por seu bilhete na barreira.
Com essa pouca informação, Caldew buscou investigações ao longo de uma extensão de três quilômetros de campo entre Weydene e a casa do fosso, e considerou-se afortunado ao encontrar um trabalhador rural que, em sua caminhada para casa naquela noite, fora ultrapassado por um jovem de sobretudo longo, dirigindo-se rapidamente pelos campos na direção de Heredith. O trabalhador observara a figura que se afastava até que ela desapareceu na escuridão, e então fora para casa sem pensar mais no incidente. Caldew ficou tão impressionado com o significado do segundo aparecimento do homem do sobretudo que cronometrou sua própria caminhada rápida pelo mesmo terreno de Weydene até a casa do fosso, e foi capaz de cobrir a distância em meia hora. Com base nesses fatos, ele apontou a Merrington que, se Nepcote fosse o homem que deixou o trem em Weydene às sete horas, ele teria tempo de caminhar pelos campos e chegar à casa do fosso às sete e meia, dez minutos antes do assassinato ser cometido.
Merrington admitiu a possibilidade, mas recusou-se a aceitar a inferência. Ele foi forçado pelos acontecimentos recentes a aceitar a teoria do envolvimento de Nepcote no mistério, mas não estava preparado para acreditar, sem provas muito mais definitivas, que ele fosse o assassino. Ele ainda era forte em sua convicção de que Hazel Rath era a pessoa que havia matado a Sra. Heredith, independentemente da parte que o jovem pudesse ter no crime. A descoberta sobre o homem do sobretudo era muito boa até onde ia, e talvez formasse outra pista no desconcertante conjunto de circunstâncias do caso, mas não os levava muito longe, e certamente não fazia nada para diminuir o peso das provas contra a jovem que estava acusada do assassinato.
Merrington foi forçado a concluir que o passo mais importante para a solução do mistério era capturar Nepcote, e para esse fim ele direcionou seus próprios esforços e os do serviço da grande organização sob seu comando. Com o passar dos dias, ele complementou seus arranjos originais para a prisão de Nepcote com armadilhas astutas. O dragão feminino que guardava reputações masculinas no número 10 de Sherryman Street foi importunado até a fria raiva por garotas bonitas, que buscavam com gorjetas e bajulações extrair migalhas de informação sobre o inquilino desaparecido. Cartas perfumadas em letra feminina, marcadas como "Importante", apareceram nos porta-cartas dos clubes de West End de Nepcote. Merrington até inseriu um anúncio na coluna "Pessoal" do Times, expondo um tocante apelo feminino a Nepcote por um encontro em um local isolado.
Ao final de três dias, sem qualquer sinal de Nepcote nesse período, Merrington foi forçado a solicitar aos magistrados de Sussex outro adiamento dos procedimentos do tribunal de polícia, sob a alegação de que novas informações precisavam de investigação antes que a Scotland Yard pudesse prosseguir com a acusação contra Hazel Rath. Uma semana adicional foi concedida com relutância pelo presidente do tribunal, um lojista não-conformista com ambições políticas, que aproveitou a oportunidade para impressionar os eleitores de um distrito que ele cultivava para a próxima eleição geral, fazendo alguns comentários espirituosos sobre a santidade da liberdade britânica, os quais ele associou a uma referência mordaz aos métodos dilatórios da Scotland Yard. Ele deixou claro que a polícia deveria estar preparada na próxima audiência para seguir com a acusação contra a prisioneira ou retirá-la completamente.
Diante dessas alternativas embaraçosas, Merrington perseguiu a busca por Nepcote com vigor. Os homens que trabalhavam imediatamente sob suas instruções foram estimulados a um excesso de energia que resultou na detenção de vários jovens que não conseguiram se explicar adequadamente ou justificar seu direito à liberdade na grande cidade de Londres. Mas nenhuma dessas capturas acabou sendo Nepcote. Merrington acreditava que ele estava se escondendo em Londres, mas ao final de cinco dias ele ainda permanecia misteriosamente em liberdade, apesar da busca constante por ele. Ele parecia ter desaparecido tão completamente como se tivesse partido deste mundo e fundido sua identidade em um nome esculpido e uma aspiração banal em uma lápide.
Na consciência irritada do fracasso, Merrington não era cego para o fato de que só podia culpar sua própria impetuosidade por permitir que Nepcote escapasse por entre seus dedos. Seu erro deveu-se à sua aversão a detetives particulares e sua descrença nos métodos dedutivos modernos de solução de crimes. Seu próprio sistema, que é o sistema da Scotland Yard, baseava-se em motivo e conhecimento. Se ele encontrasse um forte motivo para um crime, procurava pela pessoa para quem ele apontava. Se não houvesse um motivo aparente, ele recorria ao seu grande conhecimento do submundo e seus habitantes para ajustar um criminoso ao crime. O sistema tem sua medida de sucesso, como atestam os registros da Scotland Yard.
Merrington aplicara ambos os métodos em seu tratamento do caso Heredith. Quando suas investigações originais não revelaram um motivo para o assassinato, ele decidiu retornar a Londres para verificar quais criminosos perigosos estavam em liberdade e poderiam ter cometido o crime. Sua própria visão, então, era a de que o assassinato fora obra de um profissional que entrara na mansão para cometer um roubo e assassinara a Sra. Heredith para evitar ser identificado. O isolamento da mansão, a presença de hóspedes com joias valiosas, o momento escolhido para o crime e o grito da vítima tendiam a confirmá-lo nessa crença. A descoberta casual de Caldew sobre Hazel Rath, e os eventos subsequentes que alinharam tão fortes evidências circunstanciais contra ela, trouxeram o outro lado do sistema para o primeiro plano e levaram Merrington a procurar um motivo que estivesse de acordo com a presunção da culpa da moça. Tendo encontrado esse motivo, ele ficou satisfeito por ter cumprido seu dever e pensou muito pouco mais sobre o caso.
Foi sua adesão tenaz aos métodos conservadores que o levou a cometer um erro em seu tratamento das informações de Colwyn sobre o colar desaparecido. Ele raramente agia por impulso. Sua habitual desconfiança da humanidade era profunda, e a ela estava unida uma cautela que era herança de uma longa experiência. Mas sua convicção obstinada da culpa de Hazel Rath levou-o a dar um passo em falso em seu esforço para conciliar a perda do colar com as evidências contra a moça. Sua própria opinião pobre sobre a natureza humana o impediu de ver, como Colwyn vira, qualquer inconsequência entre motivos tão amplamente diferentes quanto o amor enlouquecido e o roubo; essa era uma daquelas diferenciações sutis da psicologia humana nas quais seu temperamento grosseiro falhava. É provável que a aversão de Merrington por detetives particulares tenha contribuído para obscurecer seu julgamento em um momento crítico. Ele foi incapaz de ver que Colwyn, por causa de seu intelecto e capacidade prática, situava-se em uma classe à parte e sozinho.
Em sua contemplação do caso, os pensamentos de Merrington voltaram-se para Colwyn, e ele se perguntou em que direção as investigações do detetive particular sobre o caso haviam progredido — se é que haviam progredido — desde a última vez que o vira. Em um estado de espírito mais humilde, ele refletiu que Colwyn não apenas lhe dera um aviso que era irritantemente diferente de outros conselhos por valer a pena ser seguido, mas agira generosamente ao informá-lo sobre o colar desaparecido quando poderia ter guardado a descoberta para si mesmo, a fim de marcar um ponto sobre a Scotland Yard e colocar um dos funcionários mais distintos da Yard em uma posição embaraçosa.
Com um reconhecimento tardio, porém inconsciente, de uma inteligência que superava em muito a sua própria, Merrington sentiu que valeria a pena conversar novamente com Colwyn, na esperança de encontrar alguma saída para as perplexidades nas quais ele mesmo se mergulhara ao permitir que Nepcote escapasse.
A entrevista seguinte, que foi por sua iniciativa, ocorreu nos aposentos de Colwyn à noite, após Merrington ter feito o agendamento por telefone. O rosto do detetive particular não revelou nem surpresa nem ressentimento ao ver Merrington. Ele convidou seu visitante a sentar-se e, então, acomodou-se a uma pequena distância da mesa, sobre a qual uísque e charutos estavam dispostos.
"Bem, Sr. Colwyn, o senhor estava certo e eu estava errado sobre aquele sujeito Nepcote", começou Merrington, percebendo que era melhor ir direto ao ponto. "Agora eu gostaria de ter seguido seu conselho."
"Se o senhor não tivesse ido vê-lo, talvez não soubesse tanto quanto sabe agora", disse Colwyn secamente.
"Essa é uma maneira de encarar as coisas", respondeu Merrington com sua risada sonora. "Infelizmente, aquela entrevista fez com que Nepcote fugisse e, até agora, ele nos mostrou apenas as costas."
"O senhor não teve notícias dele?"
"Apenas um monte de relatos falsos. Estou convencido de que ele ainda está escondido em Londres, mas o problema é capturá-lo. Estas ruas infernais e escuras tornam tudo mais difícil. Um homem procurado pode caminhar por elas à noite bem debaixo do nariz da polícia sem medo de ser visto."
"O senhor fez novas descobertas sobre o caso?"
"Descobrimos que um homem, que pode ter sido Nepcote, foi visto perto da mansão na noite do assassinato."
Colwyn assentiu com indiferença. Rastrear os movimentos de Nepcote na noite do assassinato era, para ele, um dos pontos menores do problema, como o primeiro movimento de peão no xadrez — essencial, mas sem significado real, diante da inevitável inferência da fuga.
"Tenho trabalhado no caso a partir deste ponto", disse ele.
"Em que direção?"
"Tentando chegar ao início do mistério. Tenho me esforçado para descobrir algo sobre a vida pregressa da Sra. Heredith. Ocorreu-me que isso poderia lançar alguma luz sobre os eventos subsequentes."
"Tenho investigado em linhas semelhantes. Vamos comparar as anotações?"
"Com prazer, mas imagino que o senhor tenha conseguido descobrir mais do que eu fui capaz de descobrir sozinho. Por um lado, vi Lady Vaughan, a esposa de Sir William Vaughan, do Ministério da Guerra. Ela é uma mulher gentil e graciosa, que se interessa muito pelas centenas de moças que trabalham no departamento de seu marido em Whitehall. No inverno passado, ela deu uma série de bailes em sua casa em Knightsbridge, e as moças foram convidadas em turnos. O Sr. Heredith esteve presente em uma dessas funções."
"Tanto eu sei", disse Merrington.
"Então o senhor provavelmente sabe que o Capitão Nepcote também estava presente naquela noite e trouxe vários outros jovens oficiais com ele. Foi ele quem apresentou Philip Heredith à moça com quem ele se casou depois."
"Eu sabia que Nepcote era um convidado em um dos bailes, mas é novidade para mim que ele tenha apresentado a moça ao jovem Heredith. Lady Vaughan não nos contou isso."
"Lady Vaughan não sabia. Descobri o fato mais tarde com um dos convidados que testemunhou a apresentação. Atribuo certa importância a esse ponto. No inverno passado, Philip Heredith e Nepcote eram bastante íntimos, trabalhando juntos na mesma sala no Ministério da Guerra e, às vezes, indo juntos às casas de amigos em comum. Era, evidentemente, um caso de atração dos opostos."
"Deve ter sido", respondeu Merrington enfaticamente. "Mandei fazer investigações sobre Nepcote, e eu não teria pensado que ele atrairia o Sr. Heredith. Não há nada de realmente errado até onde conseguimos saber, mas ele tinha a reputação, antes da guerra, de ser um jovem mundano, rápido e ocioso, com uma fraqueza por mulheres e jogos de azar. Ele herdou alguns milhares de libras há alguns anos, mas logo os gastou. Imagino que ele tenha sobrevivido principalmente à base de crédito e apostas desde que desperdiçou seu dinheiro, pois certamente não é o tipo de homem para viver apenas com seu soldo como oficial. Na verdade, ele esteve em sérios problemas com as autoridades do Exército recentemente por não pagar suas contas de rancho na França. Ele não foi criado para o Exército e viu pouquíssimo serviço ativo. Ele recebeu sua patente de capitão cerca de doze meses após o início da guerra, quando o Ministério da Guerra distribuía patentes como caixas de fósforos, mas ele conseguiu ficar sob o guarda-chuva de Whitehall até recentemente. Ele parece ter alguma influência em algum lugar, embora eu não consiga descobrir onde. Talvez seja seu charme — todos que o conhecem dizem que ele tem maneiras encantadoras, embora isso não tenha sido evidente para mim na noite em que o entrevistei em seu apartamento."
"Talvez ele estivesse com medo demais de exercê-las naquela ocasião", sugeriu Colwyn, com um sorriso. "Ele deve ter pensado que era o fim para ele."
"O senhor descobriu alguma coisa sobre os antecedentes da Sra. Heredith?" perguntou Merrington com uma brusquidão que sugeria que ele tinha pouco gosto pela última observação.
"Muito pouco, além do fato de que ela vivia em quartos alugados e não tinha amigas reais, até onde posso verificar. Aparentemente, era uma moça que jogava sozinha, como dizem na América. O tipo não é incomum em grandes cidades. Minha informação, tal como é, não tem a menor importância de um jeito ou de outro."
"Aprendi muito pouco mais do que o senhor, exceto que ela mudava de quarto com bastante frequência, mas sempre permanecia em um raio fácil do West End, vivendo em bairros monótonos, porém respeitáveis, como Russell Square e Woburn Place. Foi precioso pouco o tempo que ela passou lá, no entanto. As pessoas desses lugares não sabem nada sobre ela, exceto que ela costumava sair de manhã e não retornava até tarde da noite — geralmente de táxi e sozinha, até onde se sabe. Ela era, aparentemente, uma daquelas solteiras que surgiram aos milhares durante a guerra — uma daquela espécie distinta que vive de sua boa aparência e sai para se divertir, mas mantém-se suficientemente do lado seguro da cerca para cuidar de sua reputação. É parte de seu capital de trabalho.
"Tais moças conseguem ir a todos os lugares e ver tudo às custas de jovens com mais dinheiro do que juízo, que foram fisgados por sua aparência. É o Savoy para o almoço, um restaurante do West End para o jantar, revista, ceia tardia e casa de táxi — talvez com um beijo para a conta, a título de pagamento. O Ministério da Guerra foi uma bênção para esse tipo de moça. Dá a elas empregos sem nada para fazer, com uma espécie de status oficial e a chance de encontrar muitos jovens oficiais de licença do front, com dinheiro para queimar e famintos por rostos ingleses bonitos. É difícil descobrir qualquer coisa sobre essas moças solteiras. Elas não têm lar — apenas um lugar para dormir —, não confiam em ninguém, e seus amigos homens nunca as denunciam. Quase qualquer mulher entregaria um homem, mas nunca conheci um homem que entregasse uma mulher."
"Se a Sra. Heredith era desse tipo de moça, é possível que algum episódio antigo ou paquera esquecida em sua vida passada esteja misturado ao mistério de sua morte."
"O senhor acha isso, não é?" perguntou Merrington, observando seu companheiro atentamente.
"Como mais podemos explicar o aparecimento de Nepcote no mistério, exceto pelo fato de que ele pode tê-la assassinado pelo colar? É importante ter em mente que Nepcote a conhecia desde os tempos de solteira. Se ela tinha um segredo, levou-o para o túmulo consigo. Permanece Nepcote, que está profundamente implicado no caso de alguma forma. O senhor pode aprender algo com ele se conseguir capturá-lo e induzi-lo a falar, embora eu deva confessar que acho difícil reconciliar a suposição de que ele cometeu o assassinato com as circunstâncias conhecidas do caso."
"Nisso eu concordo com o senhor", exclamou Merrington. "Qual é a posição de Hazel Rath se admitirmos tal suposição? Nada veio à luz ainda para abalar a evidência que aponta para ela como a pessoa que assassinou a Sra. Heredith."
"Ela ainda se recusa a falar?"
"Sim. Ela é teimosa como uma mula e muda como um peixe. Enviei uma detetive muito inteligente para a prisão em Lewes para tentar convencê-la a dizer algo, mas ela não conseguiu tirar nada dela. Ela disse que não tinha nenhuma declaração a fazer e absolutamente nada a dizer. Ela se recusou a ir além disso."
"Ela pode ter algum motivo forte para manter silêncio", observou Colwyn pensativo. "Pessoas presas às vezes permanecem em silêncio sob uma acusação grave porque estão ansiosas para manter certo conhecimento em sua posse longe da polícia. A implicação de Nepcote no caso dá crédito à teoria de que Hazel Rath pode estar mantendo silêncio para algum propósito desse tipo."
"Para proteger Nepcote?"
"É possível, embora eu não ache que estejamos em condições de inferir tanto sem mais conhecimento. Mas agora que sabemos que Nepcote está conectado ao caso, certamente acho que um esforço forte deve ser feito para induzir Hazel Rath a falar."
"Não há como fazer isso", respondeu Merrington, com um aceno enfático de cabeça. "A moça não se deixa levar."
"O senhor lhe contou sobre os desenvolvimentos recentes do caso?"
"Sobre Nepcote, o senhor quer dizer?"
"Sim."
"Certamente não", respondeu Merrington, em um tom de oficialismo indignado. "Dar à moça essa informação antes que eu saiba o que ela significa colocaria uma arma tão poderosa nas mãos do advogado de defesa que eu teria que retirar a acusação contra Hazel Rath nos próximos procedimentos do tribunal de polícia se eu não prendesse Nepcote nesse meio tempo. Não quero nenhum desenvolvimento dramático — como os jornais idiotas chamam — nos meus casos. Já existe uma certa quantidade de simpatia pública por essa moça."
"Acho que o senhor tem mais a ganhar do que a perder contando a ela que Nepcote é suspeito."
"Prefiro prender Nepcote primeiro. Podemos pegá-lo a qualquer momento e, então, espero que saibamos onde estamos neste caso. Mas o que o senhor quer dizer ao dizer que tenho mais a ganhar do que a perder contando à moça sobre ele?"
"Se ela está mantendo silêncio para proteger Nepcote, é provável que ela revele a verdade quando souber que não há mais nada a ganhar com o silêncio. Ela então começará a pensar em si mesma. Na minha opinião, o senhor tem agora uma excelente arma em suas mãos para forçá-la a falar."
"Podemos ir tão longe a ponto de assumir que ela está mantendo silêncio para protegê-lo? Vamos assumir que eles foram ao quarto da Sra. Heredith juntos com o propósito de assassinato e roubo. A moça, suporemos, disparou o tiro e Nepcote escapou pela janela com o colar. Hazel Rath provavelmente revelará tal história quando souber que não a salvará?"
"Suas suposições o levam longe demais", respondeu Colwyn. "Nosso conhecimento presuntivo não nos leva a essa distância. Até que a participação de Nepcote no caso seja explicada, é inútil ceder a especulações fora de nossas premissas. Vamos adiar as inferências até termos reunido mais fatos. Não sabemos se mais de um par de olhos testemunhou o assassinato da Sra. Heredith; a teoria de que Hazel Rath disparou o tiro é meramente uma presunção de fato, e não uma certeza real. Muito ainda está oculto neste caso, e a questão é: pode Hazel Rath nos esclarecer? Como ela e Nepcote estão agora ambos implicados, parece-me que o melhor incentivo para fazê-la falar é informá-la de que o senhor prendeu Nepcote. Na minha opinião, vale a pena tentar o experimento."
Merrington levantou-se e caminhou pelo quarto, ponderando sobre a proposta.
"Estou inclinado a acreditar que o senhor tem razão", disse ele. "De qualquer forma, irei a Lewes amanhã e colocarei isso à prova. Eu pediria que me acompanhasse, mas seria um pouco irregular."
"Ficarei satisfeito em saber o resultado", respondeu Colwyn.
CAPÍTULO XXIII
Há momentos em que o cérebro humano se recusa a receber comunicação de suas periferias, e a rapidez do pensamento torna-se tão lenta que pode ser medida por minutos. O palco da consciência no qual o drama da vida é representado solitariamente para cada ser humano é circunscrito demais para se expandir de uma só vez para a recepção de uma imagem estranha e inesperada. Tais momentos seguem-se a um grande choque, como uma cortina negra descendo sobre uma cena iluminada. Quando a cortina começa a subir novamente, é sobre um palco escurecido, no qual os objetos são vistos vagamente no início, depois mais claramente à medida que a inteligência que retorna, trabalhando lentamente para a acomodação do novo cenário, coloca a nova impressão em ordem com a multidão de ideias preexistentes.
Tal momento parecia ter chegado a Hazel Rath enquanto ela estava de pé, olhando para Merrington, que se sentava em uma poltrona do outro lado da mesa, enfrentando-a com a percepção tangível de sua presença maciça, reforçada pelo peso de uma autoridade que, se não era tão perceptível, era suficientemente evidente nas costas azuis e estoicas de um policial de serviço do lado de fora da porta de vidro, e nas janelas gradeadas da pequena sala para a qual ela fora levada para receber as notícias que acabavam de lhe ser transmitidas. Mas ela não deu sinal de ter ouvido, ou, pelo menos, compreendido o teor do relato de Merrington. Seus olhos escuros vagaram pelo pequeno escritório e retornaram lentamente ao rosto do homem grande que a observava tão de perto. Seu olhar, que a princípio fora de total perplexidade, agora revelava um traço de incredulidade que sugeria um poder crescente para a assimilação de ideias. Mas ela não falou.
"O senhor não tem nada a dizer?" exigiu Merrington. Ele fora um ouvinte silencioso de muitas confissões criminais em seu tempo, mas, na reversão incomum de papéis, estava ficando irracionalmente irritado com a moça por não retribuir sua confiança com sua própria história.
Sua voz alta e intimidante a assustou e pareceu acelerar o mecanismo de sua mente na associação de seu ambiente com sua posição.
"Por que me trouxeram aqui para me torturar?" ela gritou, com uma súbita onda de voz estridente que era, à sua maneira, quase tão lamentável e surpreendente quanto seu silêncio anterior. "Oh, por que não podem me deixar em paz?"
Ela lançou os braços para fora violentamente, então, como se percebesse a futilidade do gesto, deixou-os cair desamparadamente ao lado do corpo. Havia algo na ação que sugeria um pássaro tentando esticar as asas em uma gaiola apertada. Seus lábios trêmulos, os músculos faciais tensos e o comportamento tenso, porém inquieto, revelavam claramente um temperamento desequilibrado, curvando-se sob o peso de um fardo pesado e sustentado demais. Como um oficial de polícia experiente, Merrington conhecia bem os pequenos sinais que indicam o ponto de ruptura da prisão naqueles não acostumados a ela. Ele viu que Hazel Rath chegara a um estado em que a gentileza e a consideração, mas nenhum outro meio, poderiam induzi-la a contar tudo o que sabia.
"Vamos, minha boa moça", disse ele em uma voz gentil e agradável que teria surpreendido Caldew além da medida se ele a tivesse ouvido, "ninguém quer torturá-la. Pelo contrário, vim de Londres propositalmente para ajudá-la."
Ele fez uma pausa por um momento para permitir que essa observação penetrasse em sua mente e então continuou:
"Não acho que a senhorita tenha entendido bem o que eu estava tentando lhe dizer. Vou lhe contar novamente, e quero que me escute para o seu próprio bem."
Ele olhou para ela novamente e, satisfeito por ter conseguido sua atenção, repetiu as notícias que tentara lhe contar anteriormente. A história, que ele enfeitou com detalhes adicionais à medida que avançava, foi uma demonstração prática do truque de transmitir uma falsa impressão sem dizer uma inverdade real. O único objetivo de Merrington era convencer Hazel de que o silêncio contínuo de sua parte era inútil, então, com esse fim, ele usou o incidente de sua visita ao apartamento de Nepcote de uma forma que sugeria que a admissão de Nepcote sobre a propriedade do revólver equivalia a uma admissão de sua própria cumplicidade no assassinato.
Foi uma narração hábil — Merrington admitiu isso consigo mesmo, não sem algum orgulho de sua própria criação —, mas ele não estava preparado para o efeito imediato e dominador na moça. Ela o ouviu com uma intensidade de interesse que estava em contraste estranhíssimo com sua desatenção e indiferença anteriores. Quando Merrington chegou ao ponto de suas revelações, contando-lhe sobre o colar desaparecido para garantir-lhe que a polícia sabia que Nepcote ganhara mais com o cometimento do crime do que ela, ela o surpreendeu ao saltar de sua cadeira, com os olhos brilhando de excitação.
"Eu sabia que seria provado que sou inocente", exclamou ela. "Agora posso lhe contar tudo o que sei."
"É o melhor caminho que a senhorita pode seguir", respondeu Merrington com ênfase.
"Eu sei — vejo isso agora! Oh, fui muito tola. Mas eu..." Uma explosão de lágrimas histéricas sufocou o resto da fala.
Merrington esperou pacientemente até que ela se recuperasse. Não foi perturbado por nenhum escrúpulo de etiqueta cavalheiresca ao observar a aflição da moça perturbada, soluçando descontroladamente à pequena mesa entre eles. Existe uma grande diferença entre a beleza mimada em aflição e uma prisioneira em estado de autodepreciação. Portanto, ele esperou com bastante compostura até que ela levantou a cabeça e o encarou com olhos escuros e melancólicos através de um brilho de lágrimas.
"É melhor que me conte tudo", disse ele.
"Sim, contarei tudo agora", respondeu ela rapidamente.
"Antes que o faça, é meu dever avisá-la de que qualquer declaração que fizer poderá ser usada como prova contra você em seu julgamento", disse Merrington, com um rápido retorno ao seu tom oficial. "Ao mesmo tempo, creio que agirá em seu próprio interesse se não omitir nada."
"Compreendo perfeitamente. Mas é uma história tão estranha que mal sei por onde começar."
"Conte-me tudo desde o início. Esse será o melhor caminho."
"Naquela noite, fui ao quarto da Sra. Heredith apenas para vê-la", começou ela, quase em um sussurro. "Minha mãe havia me dito mais cedo, durante a noite, que ela estava sozinha em seu quarto, sofrendo de uma dor de cabeça. Pensei em aproveitar a oportunidade, enquanto os outros estavam no jantar, para ir ao quarto dela e perguntar se precisava de alguma coisa. Então, saí do quarto da minha mãe e caminhei silenciosamente pelo corredor até a ala esquerda. Não havia ninguém por perto. Todos os convidados estavam no jantar, e os criados estavam ocupados na cozinha e na sala de jantar."
"Quando cheguei ao andar de cima, notei que a porta da Sra. Heredith estava um pouco aberta e vi que não havia luz no quarto. Achei estranho, até me lembrar de que ela estava sofrendo de uma forte dor de cabeça e provavelmente havia apagado a luz para descansar. Não bati porque pensei que ela pudesse estar dormindo. Eu estava prestes a me retirar quando ouvi um som como um soluço dentro do quarto. Escutei e ouvi novamente. Mal sabia o que fazer a princípio, mas pensei que talvez a Sra. Heredith estivesse pior e precisasse de alguém. Então empurrei a porta e entrei."
"Conheço bem a moat-house, então sabia que o interruptor da luz elétrica ficava ao lado da lareira, perto da cabeceira da cama, e não perto da porta, como nos outros quartos. Para acender a luz, precisei atravessar o quarto. Estava muito escuro e caminhei com cautela, por medo de tropeçar e assustar a Sra. Heredith. Duas vezes parei para ouvir e, numa delas, ouvi um som como se alguém estivesse sussurrando. Eu estava terrivelmente nervosa porque não sabia se estava fazendo o certo ou o errado ao entrar no quarto da Sra. Heredith daquela maneira, mas algo parecia me impelir."
"Devo ter me enganado na direção no escuro, pois não conseguia encontrar o interruptor elétrico. Continuei passando a mão pela parede em busca dele e, enquanto fazia isso, alguém me agarrou subitamente pelo pescoço."
"Todo o sangue em minhas veias pareceu gelar e gritei alto. Assim que gritei, a mão me soltou, mas eu estava assustada demais para me mover. Estava tão silencioso no quarto que eu podia ouvir meu próprio coração batendo, mas, enquanto permanecia ali junto à parede, sem ousar me mover, pensei ter ouvido um som de farfalhar perto da janela. Minhas mãos continuaram a vagar pela parede atrás de mim, tentando encontrar o interruptor da luz. Então, de repente, houve um som terrível — o disparo de uma arma. Pareceu encher o quarto com ecos, que rolaram até a janela e voltaram. Quando o som do disparo morreu, meus dedos tocaram o interruptor e acendi a luz."
"Eu estava parada perto da cabeceira da cama, e a primeira coisa que notei foi algo brilhando no tapete aos meus pés. Abaixei-me e peguei. Era um revólver. Então, meus olhos se voltaram para a cama e vi a pobre Sra. Heredith. Ela estava deitada, imóvel, com sangue na boca. Pude ver que ela ainda estava viva, porque seus olhos olhavam para mim. Diante daquela visão terrível, esqueci tudo, exceto que ela estava em agonia. Eu estava curvada sobre ela, limpando sua boca, quando ouvi o som de passos subindo as escadas. Passou pela minha mente que eu não deveria ser encontrada ali, em um quarto onde eu não tinha o direito de estar, segurando em minha mão um revólver que acabara de ser disparado. Apaguei a luz e saí correndo do quarto. A luz do patamar lá fora me guiou até a porta. Tive apenas tempo de sair e escorregar por trás das cortinas de veludo quando alguns dos cavalheiros apareceram no patamar."
"Fiquei ali escondida por algum tempo, assustada demais para me mover e esperando a cada momento ser descoberta. Podia ouvi-los andando e vasculhando, e pensei que alguém afastaria as cortinas e me veria escondida embaixo. Mas ninguém se aproximou de mim. Ouvi-os entrar no quarto da Sra. Heredith e o Sr. Musard começou a falar. O corredor estava silencioso, e me pareceu que eu tinha uma chance de escapar para o andar de baixo se a escadaria estivesse livre. Rastejei até os balaústres, ainda mantendo-me sob a proteção das cortinas, e olhei para baixo. Não vi ninguém no saguão lá embaixo. Enfiei o revólver no meu vestido e desci as escadas o mais rápido que pude. Cheguei ao saguão sem encontrar ninguém e, então, soube que estava a salvo. Mas, justamente quando virei para a passagem que levava aos quartos da minha mãe, ouvi a porta da sala de jantar abrir. Olhei para trás e vi Tufnell sair e subir as escadas, mas ele não me viu. Então cheguei aos quartos da minha mãe."
Ela ficou em silêncio por tanto tempo que Merrington pensou que ela tivesse terminado sua história. "E quanto ao seu broche — o broche que você deixou cair no quarto. Quando você o recuperou?"
"Não dei falta dele até algum tempo depois de ter voltado para o andar de baixo. A princípio, perguntei-me onde o teria deixado cair. Então me lembrei da mão em meu pescoço, que deve ter soltado o broche e feito com que caísse. Eu sabia que era necessário recuperá-lo para que não se soubesse que eu estivera no quarto. A casa estava muito silenciosa então e o saguão estava vazio, embora eu pudesse ouvir o murmúrio de vozes na biblioteca, então caminhei pelo saguão e subi as escadas. A porta do quarto estava entreaberta e, pela luz lá dentro, pude ver que o quarto estava vazio — exceto por ela. Entrei no quarto. A primeira coisa que vi foi meu pequeno broche brilhando no tapete, bem perto da cabeceira da cama, próximo de onde eu estivera parada quando a mão agarrou minha garganta. Peguei-o e corri para o andar de baixo."
"Essa é a história toda?"
Ela considerou por um momento. "Sim, acho que lhe contei tudo."
"O que a levou ao quarto da Sra. Heredith em primeiro lugar?"
"Eu... eu queria vê-la."
"Com que propósito? Se quer que eu a ajude, é melhor ser franca."
"Eu desejava ver a moça com quem o Sr. Phil se casou." Ela deu a resposta hesitante, mas a cor que inundou suas bochechas pálidas mostrou que ela estava ciente da implicação da admissão.
Mas Merrington era imune aos sentimentos mais refinados do coração. Ele não acreditava na história dela do início ao fim e era da opinião de que ela estava tentando enganá-lo com um artifício tão grosseiro quanto as vãs imaginações do melodrama ou do cinema. Foi mais com a intenção de prendê-la em uma contradição do que de extrair algo importante que ele continuou suas perguntas.
"Você diz que ouviu um barulho na janela depois que o tiro foi disparado. O que imaginou que fosse?"
"Eu estava nervosa demais na época para pensar em qualquer coisa, mas desde então pensei que deve ter sido alguém saindo pela janela."
"Você ouviu a janela sendo aberta?"
"Não; não ouvi nada além do farfalhar, como lhe contei. Mas pode ter sido o vento, ou o meu medo."
"Você teve um vislumbre da pessoa no quarto — quem quer que fosse — quando foi agarrada pelo pescoço?"
"Não. Eu apenas senti a mão. Estava muito escuro e não pude ver nada."
"Você tem certeza absoluta de que isso aconteceu com você? Tem certeza de que não é imaginação?"
"Oh, não, foi terrivelmente real."
"Você observou algo sobre o revólver quando o pegou?", disse Merrington após uma pausa.
"Não, exceto que era brilhante e reluzente."
"Nem quando o colocou em seu vestido para levá-lo para baixo?"
"Não sei nada sobre armas de fogo. Quando cheguei lá embaixo, guardei-o sob chave o mais rápido que pude."
"Então você pegou um revólver que acabara de ser disparado, sem notar se o cano estava quente ou frio. É isso que quer que eu acredite?"
"Eu o peguei pelo cabo. Parece-me lembrar agora que estava quente, mas não posso ter certeza. Eu mal sabia o que estava fazendo na época."
Sua confusão era tão evidente que Merrington não achou que valia a pena insistir no ponto.
"Se sua história é verdadeira, por que não a contou antes?", disse ele. "Se você é meramente a vítima infeliz das circunstâncias, como alega ser, por que não anunciou sua inocência quando eu a interrogava na moat-house no dia seguinte ao assassinato?"
A moça hesitou perceptivelmente antes de responder à pergunta.
"Talvez eu pudesse ter feito isso, se não fosse pelo seu reconhecimento da minha mãe", disse ela finalmente, em tom baixo.
"Não consigo ver como isso afetou sua própria posição."
"Pareceu-me, na época, que afetou", respondeu ela em um tom mais firme. "Eu sabia que minha história soava improvável, mas, depois de saber o que você sabia sobre minha mãe, pareceu-me que você teria ainda menos probabilidade de acreditar em mim, então pensei que a melhor coisa que eu poderia fazer era manter silêncio e confiar que a verdade viria à tona de alguma outra forma."
A lembrança dos incidentes de sua visita à moat-house veio à mente de Merrington com essa resposta.
"Você viu sua mãe quando desceu na noite do assassinato?", perguntou ele.
"Não no início. Ela veio depois."
"Quanto tempo depois?"
A moça, atingida por uma nova nota em sua voz, olhou para ele com horror em seus olhos arregalados.
"Entendo o que quer dizer", respondeu ela, "mas você está enganado — completamente enganado. Minha mãe não sabe absolutamente nada sobre isso. Ela nem sabia que eu tinha subido. Ela é tão inocente quanto eu."
"Isso não nos leva muito longe", disse Merrington friamente, levantando-se e tocando uma campainha à sua frente. "Não acredito que você tenha contado tudo."
CAPÍTULO XXIV
Forte em sua convicção de que a história de Hazel Rath era em grande parte produto de uma imaginação histérica, Merrington a descartou de sua mente e dedicou todas as suas energias à busca por Nepcote. A tarefa parecia difícil, mas Merrington não desesperava de realizá-la antes que chegasse o dia da audiência adiada da acusação contra a moça. Ele sabia que era uma questão difícil para um homem procurado permanecer sem ser capturado em uma comunidade civilizada por qualquer período de tempo, se a perseguição fosse determinada o suficiente, e, neste caso, a polícia militar estava auxiliando as autoridades criminais.
Os próprios planos de Merrington para a captura de Nepcote baseavam-se na crença de que ele não tinha meios de sair de Londres, a menos que o colar dos Heredith ainda estivesse em sua posse. Como isso parecia bastante provável, a descrição de Nepcote foi distribuída entre os penhoristas e joalheiros, com um pedido de que qualquer um que oferecesse o colar fosse detido até que um policial pudesse ser chamado. Ele também mandou vigiar os antigos lugares frequentados por Nepcote, caso o jovem tentasse se aproximar de algum de seus amigos ou conhecidos para pedir um empréstimo. Tendo tomado essas medidas na esperança de forçar Nepcote a se render pela fome, caso não fosse capturado nesse meio tempo, Merrington direcionou então os recursos à sua disposição para vasculhar Londres com um pente fino, como ele expressou, no esforço de colocar as mãos em seu homem.
Mas foi ao acaso que ele deveu sua primeira indicação dos movimentos de Nepcote desde seu desaparecimento. Ele estava ditando correspondência oficial em sua sala particular na Scotland Yard, três dias após sua visita a Lewes, quando um oficial subordinado entrou para dizer que um homem havia aparecido e desejava ver alguém com autoridade. Era costume de Merrington entrevistar visitantes que iam à Scotland Yard para tratar de assuntos misteriosos que eles se recusavam a revelar na secretaria externa. As informações que ele recebia de tais fontes mais do que compensavam a intrusão ocasional de criminosos com rancores ou de pessoas entediantes com queixas públicas.
O homem que seguiu o porteiro até a sala não era nem um nem outro, mas um londrino franzino e de rosto pálido, com um olhar astuto e o sorriso falso e servil de um pequeno lojista. Ele explicou, no vernáculo estridente do cockney, que seu nome era Henry Hobbs — "Enery Obbs" era sua própria versão — e que possuía uma loja de penhores na Caledonian Road. Ele pretendia ter ido à Scotland Yard mais cedo, explicou, mas seus preparativos haviam sido alterados por um evento doméstico em sua própria casa.
"Eles me mantiveram correndo desde que aconteceu", acrescentou ele, lançando uma piscadela de significado sutil para a bonita datilógrafa que estava tomando a correspondência de Merrington. "As mulheres — Deus abençoe seus corações — sempre fazem um alvoroço por causa de um pequeno."
"Quando é legítimo", corrigiu Merrington rudemente. "Srta. Benson", disse ele, voltando-se para a datilógrafa, que permanecia em estado de animação suspensa sobre a máquina de escrever na palavra onde ele havia parado de ditar, "pode me deixar por um tempo e voltar mais tarde. Agora, meu homem", continuou ele, quando a porta se fechou atrás dela, "não tenho tempo a perder discutindo bebês. Diga-me o objetivo de sua visita."
O homenzinho manteve sua posição com a segurança imperturbável do cockney.
"Pensamos em chamá-lo de Victory 'Aig. Victory, porque nossos rapazes de Londres parecem propensos a acabar com a guerra em tempo recorde, e 'Aig em homenagem ao nosso comandante, o bom e velho Duggie 'Aig, cujo nome é bom o suficiente para meu bebê. O que o senhor acha? Não perca a paciência, patrão", protestou o Sr. Hobbs apressadamente, com certo alarme diante da expressão no rosto de Merrington, "estou chegando lá rápido o suficiente, mas minha cabeça está tão cheia dessa criança que mal sei se estou de cabeça para baixo ou para cima. É o seguinte: alguns dias atrás, um jovem veio à minha loja penhorar seu colete. Emprestei-lhe meia coroa e ele foi embora. Mas, ontem à tarde, ele voltou para penhorar um pequeno estojo de lápis, sobre o qual lhe emprestei um xelim. Agora, eu não ficaria surpreso se este jovem não fosse aquele que fomos avisados para procurar, por ser alguém que provavelmente ofereceria um colar de pérolas."
"O que o faz pensar assim?"
"Pela descrição. Não o notei muito da primeira vez, mas notei da segunda, talvez porque eu estivesse justamente lendo o folheto informativo antes de ele entrar. Ele parece um pouco maltratado desde que a descrição foi feita — não estava barbeado e parecia estar em má fase — mas eu diria que era o mesmo homem, até mesmo pelos fios grisalhos nas têmporas. Tinha sido um pouco dândi e cavalheiro antes de decair, eu diria."
"O que o faz pensar isso?", perguntou Merrington, que tinha pouca crença na teoria de que a gentileza tem uma marca própria.
"Não por suas mãos brancas — elas não servem de parâmetro. Foram suas roupas. Eu fui alfaiate em Windmill Street antes de entrar no ramo de penhores, e eu sei. O terno desse sujeito não tinha sido 'cortado' na City ou em um daqueles lugares em Cheapside onde colocam avisos na janela dizendo que o cortador-chefe é o único homem na rua que ganha doze libras por semana. Também não vieram de Crouch End. Eram roupas de primeira classe do West End. É o mesmo com as roupas que é com cavalos puro-sangue e mulheres — sempre se pode reconhecê-los, não importa o quanto tenham caído no mundo. E é assim com as botas também. As botas deste sujeito não eram engraxadas há dias, mas eram botas, e não buracos para colocar os pés, como a maioria das pessoas usa."
"Você não fez esforço para detê-lo?"
"Como eu poderia? Ele não ofereceu o colar, nem disse nada sobre joias, então não tive motivo para detê-lo. Pude ver que ele estava nervoso como uma dama durante todo o tempo em que esteve na loja, então, antes de lhe dar um xelim pelo lápis, marquei-o com uma cruz como algo para ajudar a polícia a seguir seus rastros, caso ele seja o homem que o senhor procura. Quando ele saiu, fui até minha porta para ver se havia um policial à vista, mas, é claro, não havia. Duvido que ele o tivesse pegado, no entanto. Ele saiu como um foguete assim que pegou o xelim — entrou por uma rua lateral e depois subiu outra, indo em direção a King's Cross. Aqui está o estojo de lápis que ele penhorou. Não trouxe o colete, mas o senhor pode tê-lo se for útil."
Merrington olhou com desdém para o pequeno estojo de lápis de prata e, após fazer ao penhorista algumas perguntas, permitiu que ele partisse. Então, tocou sua campainha e pediu pelo detetive Caldew.
Meia hora depois, Caldew saiu da sala de seu chefe em posse da história do penhorista, com o acréscimo de tanto conselho autoritário quanto a mente de Merrington pôde sugerir para sua investigação. Caldew não apreciou a tarefa de seguir a tênue pista. Ele não havia ficado impressionado com o relato do suposto reconhecimento de Nepcote feito pelo Sr. Hobbs, embora, como detetive, estivesse ciente de que declarações improváveis às vezes eram seguidas por resultados importantes. Mas o elemento da sorte desempenhava um papel grande na elucidação de testemunhos fortuitos. Havia alguns homens na Scotland Yard que podiam transformar um conto de fadas aparente em um fato surpreendente, mas havia outros que fracassavam quando as probabilidades eram maiores. Caldew considerava-se um desses azarados.
Mas a sorte estava com ele naquele dia. Pelo menos, parecia-lhe assim naquela noite, enquanto retornava a Holborn após uma longa e cansativa tarde passada nas ruas sórdidas e favelas de St. Pancras e Islington. A deusa do Acaso, concedendo seus favores com verdadeira capricho feminino, resolvera, no último momento, realizar para ele a façanha aparentemente impossível de rastrear o xelim marcado do penhorista, através de várias mãos sujas, até o bolso do homem que penhorara o estojo de lápis. Se ela lhe concederia o último favor de todos, permitindo-lhe provar se esse homem e Nepcote eram a mesma pessoa, era um ponto que Caldew pretendia colocar à prova naquela noite.
Caldew estava de muito bom humor consigo mesmo por um dia de trabalho tão bem-sucedido, e ele desceu do bonde com a intenção de passar algumas horas agradavelmente, presenteando-se com um pequeno jantar na cidade antes de retornar a Islington para completar suas investigações. Ele vagou de New Oxford Street a Charing Cross, passando pelo Soho, examinando os menus dos restaurantes enquanto passava com o ar indeciso de um homem pobre, não acostumado ao privilégio de pagar preços altos por comida ruim em ambientes estranhos.
Os cheiros estrangeiros e as misturas gordurosas da Old Compton Street repeliam seu apetite inglês, e ele não se importava em misturar-se às manadas de moradores dos subúrbios que celebravam o fato de estarem vivos fazendo algazarra grosseira sobre mesas de *table d'hotes* de três xelins e seis pence e Borgonha e Chianti ordinários, no brilho barato da Wardour Street. Como um marido e pai disciplinado, a bolsa de Caldew não permitia que ele fosse mais a oeste para sua refeição, então, quando chegou a Charing Cross, voltou o rosto na direção de Fleet Street. Ele quase havia se decidido a favor de uma pequena casa de comida inglesa no meio da Strand, quando encontrou Colwyn.
O detetive particular usava um terno de *tweed* gasto e um chapéu mole, o que causava uma alteração considerável em sua aparência. Ele estava prestes a entrar na casa de comida, mas parou ao ver Caldew olhando pela janela e avançou para apertar sua mão.
"Pensando em jantar aqui, Caldew?" perguntou ele.
"Sim", respondeu Caldew. "Parece um lugar tranquilo."
"Certamente tem esse mérito", respondeu Colwyn, lançando um olhar para o interior vazio do pequeno restaurante. "É melhor você jantar comigo, se não tiver nada melhor para fazer. Gostaria de conversar com você."
Caldew expressou uma aquiescência satisfeita. Ele não via o detetive particular desde que lhe levara uma cópia das notas de Merrington sobre sua entrevista com Hazel Rath, e desejava saber se Colwyn havia feito novas descobertas no caso Heredith.
À entrada deles, um garçom, reclinado contra o balcão do caixa, saltou para uma vida flexível e, com um sorriso de gratidão prospectiva, apressou-se escada acima, lançando olhares convidados para trás como uma sereia gustativa atraindo-os para um lugar de felicidade. Ele os conduziu a uma sala com vista para o Thames Embankment, pendurou seus chapéus, pegou o cartão de vinhos da moldura do espelho sobre a lareira, anotou o pedido do jantar e desapareceu escada abaixo para buscar os pratos.
"Parece-me que você já esteve aqui antes", disse Caldew.
"Sempre venho aqui quando tenho uma expedição em mãos", foi a resposta.
Caldew imaginou se a expedição de seu companheiro estava ligada ao mistério Heredith, mas antes que pudesse formular a pergunta, o garçom retornou com uma garrafa de vinho e, pouco depois, o jantar apareceu. Foi somente quando a refeição terminou que Colwyn abordou o assunto que estava no topo dos pensamentos de seu convidado, perguntando-lhe se ele havia obtido algum sucesso em sua busca por Nepcote.
"Ainda estamos procurando por ele", foi a resposta cautelosa de Caldew, enquanto aceitava um charuto da cigarreira de seu companheiro.
"Em Islington, por exemplo?" A luz que Colwyn segurava para seu próprio charuto revelou o sorriso em seus lábios.
Caldew ficou tão surpreso com esse palpite astuto que seu fósforo escorregou de seus dedos.
"O que o faz pensar que estamos procurando por Nepcote em Islington?" exigiu ele.
"Não sou desconhecedor dos métodos engenhosos da Scotland Yard", foi a resposta. "Posso ver Merrington elaborando isso com um mapa em escala de Londres para ajudá-lo. Ele está convencido de que Nepcote ainda está em Londres sem um centavo nos bolsos. Merrington pergunta a si mesmo o que Nepcote provavelmente faria nessas circunstâncias? Pedir emprestado aos amigos ou tentar descontar um cheque? Nós nos preparamos contra isso vigiando seus clubes e seu banco. Levantar fundos com o colar — se ele o tiver? Merrington sabe como impedir isso avisando as casas de penhores e joalheiros. Quando ele termina isso, tem a satisfação de sentir que seu homem está isolado de suprimentos, vagando sem um tostão na Londres de coração de pedra, tão desamparado quanto um bebê na floresta. Onde ele se esconderá? Ele é um homem do West End, conhecendo pouco de Londres fora de Piccadilly, então as chances são de que ele não vá muito longe, e que suas andanças terminarão em rendição ou inanição. Mas a Scotland Yard não pode esperar que ele se renda, e Merrington, com uma imaginação estimulada pela necessidade de encontrá-lo, decide a favor de Islington — a chamada Merry Islington dos obsequiosos cronistas de Londres, embora, pelo que observei pessoalmente, seus habitantes sejam alegres apenas quando estão sob efeito de bebida. Islington está congestionada, Islington contém criminosos, e Islington é um esconderijo ideal. Portanto, diz Merrington, busquemos nosso homem lá."
"Ah, vamos lá, Sr. Colwyn, não me despiste assim. Alguém deve ter lhe dito que eu estive lá hoje."
"Eu mesmo o vi. Na verdade, tenho procurado por Nepcote naquela parte de Londres — em uma área entre Farringdon Street e Euston."
"Por que lá em particular? Londres é um campo amplo."
"Eu me esforcei para estreitá-lo considerando as possibilidades. Os subúrbios são inseguros, assim como o West End; a City não oferece abrigo para um fugitivo. Restam as áreas pobres e congestionadas, as docas e o East End. Mas isso não nos ajuda muito, porque ainda resta um vasto campo. O que o estreitou consideravelmente para mim é minha forte convicção, levando todas as circunstâncias em consideração, de que Nepcote não foi muito longe de onde o vimos pela última vez. O que finalmente me determinou a escolher Islington como ponto de partida para minha busca foi aquela estranha lei da gravitação humana que impele um fugitivo a procurar um bairro criminoso para se abrigar. Um homem caçado parece desenvolver um faro aguçado para aqueles que, como ele, estão fora da lei. Islington, como você sabe, tem uma grande porcentagem de criminosos em sua população. De qualquer forma, estou procurando por Nepcote em Islington."
"Embora eu pudesse apontar falhas em sua teoria, sou obrigado a dizer que você está certo", disse Caldew. "Nepcote está se escondendo em Islington. Pelo menos, achamos que sim", acrescentou ele cautelosamente.
"Bom! Como você descobriu?"
Caldew deu ao seu companheiro detalhes da visita do penhorista à Scotland Yard naquela manhã.
"Tenho procurado pelo xelim marcado do Sr. Hobbs nas pequenas lojas entre King's Cross e Upper Street a tarde toda", disse ele. "Rastreei-o quase por acidente depois que decidi desistir da tentativa. Um dos homens uniformizados no Angel por acaso me contou, como uma piada, sobre um dono de barraca de café que fora até ele em fúria naquela manhã por causa de um cliente casual que, em suas próprias palavras, o enganou em um xelim na noite anterior. Ele mostrou ao policial um xelim que havia recebido do homem e estava sob a impressão de que era falso porque estava marcado com uma cruz. O policial colocou a moeda no bolso e deu ao homem outra para se livrar dele. Obtive o xelim com ele e fui ver o dono da barraca de café. Sua descrição do homem que o passou assemelhava-se a Nepcote, e ele acrescentou a informação de que o cliente, após trocar o xelim por uma xícara de café, perguntou-lhe onde poderia conseguir uma cama. O dono da barraca de café direcionou-o para uma pensão barata perto do Angel. Fui à sua pensão e constatei que um homem correspondente à descrição havia dormido lá na noite passada, e ao sair esta manhã disse que voltaria lá para dormir hoje à noite. Tenho um policial vigiando o local, e vou sair para ver esse sujeito — se ele voltar. Você se importa de ir comigo?"
"Irei com prazer", disse Colwyn, que ouvira essa história com muita atenção.
"Então é melhor irmos. Mas, diga, não mencione isso a Merrington se algo der errado e eu não conseguir. O velho está com raiva de mim por causa deste caso, e minha vida não valeria a pena ser vivida se Nepcote escapasse por entre nossos dedos novamente. Quero tentar surpreendê-lo e deixá-lo ver que há outros homens na Scotland Yard além dele mesmo."
"Não creio que você tenha muito a temer de Merrington", disse Colwyn, rindo abertamente. "Ele está em um estado de espírito contrito no momento. Mas você pode contar com minha discrição, e espero que você pegue seu homem."
"Acredito que pegarei", respondeu Caldew em tom confiante. "Vamos começar?"
Colwyn pagou a conta e eles partiram pelas ruas escuras, sobre as quais uma leve névoa de outono descia. O bonde subterrâneo de Kingsway levou-os ao Angel, onde desceram. Caldew abriu caminho pela população não lavada daquele centro e virou em uma rua lateral onde um enxame de mulheres desleixadas pechinchava por verduras em decomposição amontoadas nas bancas dos vendedores ambulantes no meio da estrada. Ele virou novamente para uma rua mais estreita que saía desse mercado de rua e parou quando chegou ao fim dela. Ele deu um empurrãozinho no companheiro e apontou para um letreiro de "Bons Dormitórios", visível sob um clarão em uma porta em frente.
"É este o lugar", disse ele.
Um policial aproximou-se deles, surgindo da névoa tão subitamente quanto um espectro, e fez um sinal com a cabeça para Caldew.
"Nada feito", anunciou ele brevemente. "Vigiei o lugar desde então, mas ele não apareceu."
"Tudo bem", disse Caldew. "Pode deixar comigo agora. Não precisarei mais de você. Boa noite!"
"Boa noite, e boa noite ao senhor, Sr. Colwyn", respondeu o policial, virando-se com um sorriso para o detetive particular. "Não o reconheci a princípio por causa da névoa. Não sabia que o senhor estava neste serviço."
"E espero que não mencione isso, agora que sabe", interpôs Caldew apressadamente.
"Eu não. Não sou do tipo que fala." O policial acenou novamente de forma amigável e desapareceu pela rua lateral.
Os dois detetives ficaram ali observando, protegidos da observação dos passantes no portal profundo de uma loja vazia. O clarão que balançava na porta em frente permitia-lhes observar todos os que entravam na pensão em busca de uma cama. Pela sua luz, podiam até decifrar, abaixo do grande letreiro de "Bons Dormitórios, Oito Pence", um letreiro menor que acrescentava, "Ou Duas Pessoas, um Xelim", o que, por sua redação cuidadosa, parecia sugerir que aqueles encantados pelo sonho jovem do Amor poderiam buscar a reclusão dos caramanchões lá dentro, sem serem incomodados por perguntas estranhas de moralidade convencional e, por sua triunfante defesa do sentimento antigo de que o amor conquista tudo, tendia a tranquilizar a democracia de que a diferença entre os hotéis do West End e as pensões de Islington era apenas de preço.
Mas os visitantes da pensão naquela noite sugeriam servidão a tiranos menos românticos que Cupido. Bebida, doença e necessidade eram os mestres dos homens de má aparência que entravam aos poucos, empurrando o preço de uma cama por um postigo na entrada e recebendo em troca um bilhete sujo. Essas transações e os rostos dos hóspedes desleixados eram claramente visíveis para os observadores do outro lado da estrada, mas nenhum dos homens se parecia com Nepcote. Pouco depois das dez horas, gotas de chuva começaram a cair preguiçosamente através da névoa e, como se esse fosse o sinal de fechamento, a figura de um homem apareceu na porta da pensão e procedeu a apagar o clarão.
"É melhor atravessarmos", disse Caldew.
Eles atravessaram a estrada lamacenta, e ele abordou o homem na porta.
"Você está fechando cedo hoje à noite", observou ele.
O homem desistiu de sua ocupação para encará-los. Ele era um espécime de má aparência de uma alma imortal, com um rosto inchado, um estômago pendular e uma barba de uma semana em seu queixo sujo. Um cachimbo preto curto estava enfiado de cabeça para baixo em sua boca, e seu traje consistia em uma camisa aberta no pescoço, um par de calças sustentado por nenhum apoio visível e um par de chinelos velhos. Aparentemente satisfeito, após sua inspeção prolongada dos dois visitantes, de que eles não estavam procurando alojamento, ele respondeu em um tom grosseiro:
"Que diabos isso tem a ver com você? Se você nos avisasse quando estivesse vindo, ficaríamos abertos a noite toda — acho que não."
Caldew passou por ele sem se dignar a parlamentar e abriu uma porta adjacente ao postigo de entrada. Um homem estava sentado à mesa lá dentro, calculando os ganhos da noite à luz de uma vela. Era estranho ver alguém tão perto do túmulo contando moedas com tanta ganância ávida. Seu rosto velho e murcho era longo e amarelo, e as maçãs do rosto proeminentes e as bochechas caídas davam-lhe um formato de caixão. Seus olhos pequenos e encovados estavam quase perdidos de vista sob sobrancelhas espessas e salientes, e de sua boca encolhida um único dardo preto projetava-se para cima, como se estivesse determinado a alcançar a ponta de um nariz longo e afiado. Ele se levantou de suas contas assustado quando a porta foi escancarada e enfiou a mão em uma gaveta perto dele, talvez em busca de uma arma. Então reconheceu Caldew e sorriu o sorriso propiciatório de alguém que tinha motivos para temer as forças da autoridade.
"Aquele sujeito que você está procurando não apareceu hoje à noite", resmungou ele.
"Você está fechando muito cedo. Ele ainda pode vir."
"Não adianta nada se ele vier. Ele não vai entrar. Todos os meus clientes regulares estão dentro, e não vou desperdiçar luz esperando por oito pence casuais. Talvez você queira ver o quarto onde ele dormiu ontem à noite?"
Caldew assentiu, e o dono da pensão, chamando o homem que haviam visto fechando a porta, ordenou-lhe que mostrasse o quarto individual aos senhores. O homem acendeu uma vela e levou os detetives escada acima até o topo da casa. Ele abriu a porta de um quarto muito pequeno e imundo, com teto inclinado e uma janela quebrada. Um pedaço de trapo sujo que havia sido pendurado na janela balançava ruidosamente enquanto a chuva batia pelo buraco. O homem levantou a vela para permitir que os visitantes vissem o apartamento da melhor maneira possível.
"Cobramos dois pence a mais por este quarto porque é uma acomodação individual", disse ele, não sem um toque de orgulho no tom.
"E vale bem o dinheiro", comentou Caldew.
"Olha aqui, Sr. ... Engraçadinho, não os trouxe aqui para ouvir comentários sarcásticos", retrucou o homem, com a fúria repentina de um bebedor inveterado. "Se já viram o suficiente, é melhor darem o fora. Quero ir para a cama."
"É melhor você se comportar se não quiser se meter em problemas", aconselhou Caldew.
"Então você é um tira, é? Maldito se eu não pensei isso assim que bati os olhos em você. Mas você não tem nada contra mim, então não dou a mínima para você. É melhor se apressarem."
Caldew não lhe deu mais atenção, mas juntou-se a Colwyn na inspeção do quarto. Eles não encontraram nada que indicasse seu último ocupante. Os únicos artigos no quarto eram uma cama, uma cadeira quebrada e uma viga de madeira empurrada diagonalmente contra uma das paredes, que ameaçava cair na primeira noite de vento e enterrar a cama miserável e seu ocupante. Após uma breve busca, eles se viraram e desceram. A porta foi imediatamente batida atrás deles, e o girar da fechadura e o chocalhar de uma corrente disseram-lhes que o lugar estava fechado para a noite.
Puxando a gola do casaco em um esforço para se proteger da persistência da chuva, Caldew expressou sua decepção com o fracasso da expedição noturna com uma amarga zombaria de sua má sorte. A princípio, pensou em esperar mais um pouco na vigia, depois mudou de ideia ao olhar para a noite nada promissora e decidiu que não valia a pena. Ele morava em Edgeware Road, então apertou a mão de Colwyn e partiu para o metrô em King's Cross.
Colwyn retornou ao Angel para procurar um táxi. A névoa estava se dissipando e multidões emergiam dos cinemas e de um teatro de variedades com o ar fatigado de pessoas que pagaram em vão para serem entretidas. Do lado de fora do teatro, alguns táxis esperavam pelos clientes mais opulentos do vaudeville refinado que haviam sido atraídos para dentro pela rara promessa de um babuíno intelectual, com fama de ter o cérebro de um estadista, que dividia as honras do topo do cartaz com duas irmãs encantadoras de um show do West End. Os motoristas dos táxis disseram que estavam ocupados e recusaram-se incivilmente a levar o detetive até Ludgate Circus.
Um ônibus de Bermondsey veio mergulhando pela névoa, espalhando a sujeira da estrada sobre os apressados espectadores, e parou na esquina para aumentar sua carga penosa de humanidade úmida. Aqueles que já estavam no interior escuro sentavam-se rigidamente imóveis, como cadáveres em um carro funerário, enquanto os recém-chegados entravam aos tropeços, espalhando lama e água sobre eles, tateando as alças superiores. Colwyn não tentou entrar. Até um bonde de Smithfield seria melhor que o interior de um ônibus em uma noite chuvosa.
Um antigo carro de quatro rodas passou, rastejando desalentado para casa. O cocheiro conteve seu cavalo esquelético ao ver Colwyn parado no meio-fio e levantou um chicote interrogativo. Ele acrescentou um apelo vocal por contratação baseado na suposição inacreditável de que um homem precisa viver, o que ele proclamou com um chicote elevado aos céus encharcados, chamando um Deus, invisível na névoa, para testemunhar que ele não havia girado uma roda naquela noite. O fraseado do apelo ajudou Colwyn a lembrar que era o mesmo cocheiro que o abordara, Philip Heredith e ele mesmo, na noite em que foram de carro até a casa do fosso.
Ele contratou o carro e entrou no interior escuro. O chicote que havia sido erguido em aspiração piedosa caiu em agradecimento abençoado sobre as costelas nuas do cavalo. A carruagem sacudiu sobre o cruzamento do Angel para dentro dos arredores sórdidos de St. John's Street. Em pouco tempo, o cheiro avassalador de animais abatidos anunciou a proximidade de Smithfield. O carro virou pela Charterhouse Street em direção a Farringdon Market e, pouco depois, parou sob o arco em Ludgate Circus.
"Deixo por sua conta, senhor", disse o cocheiro, em um sussurro rouco. Sua palma expectante fechou-se rigidamente sobre as moedas de prata, e seu chicote caiu sobre os lados magros de seu cavalo com um estalo como um tiro de pistola enquanto ele dava meia-volta, deixando o detetive parado na estrada.
A névoa quase havia se dissipado, mas as ruas sem iluminação estavam mergulhadas em profunda penumbra, através da qual grupos de viajantes tardios passavam fracamente e se dissolviam vagamente, como fantasmas na escuridão da eternidade. Quando Colwyn estava prestes a entrar no corredor que levava aos seus aposentos, um homem passou por ele na porta. Havia algo na figura que pareceu familiar ao detetive, e ele caminhou rapidamente atrás dele. Pela luz do carro que partia, ele viu seu rosto. Era Nepcote.
CAPÍTULO XXV
Nesse reconhecimento rápido e inesperado, Colwyn observou que o homem que eles procuravam parecia pálido e cansado. Ele ficou parado na porta, com a respiração entrando e saindo em suspiros rápidos.
"Estivemos procurando por você, Capitão Nepcote", disse Colwyn.
"Estou ciente disso. Estive esperando para vê-lo, mas não consegui que ninguém respondesse à minha campainha."
"Meu criado está fora. É melhor você subir para meus aposentos."
Ele liderou o caminho até o elevador no final do corredor. Quando chegaram aos aposentos, Colwyn acendeu a luz elétrica. Nepcote caiu exausto em uma cadeira, e pela primeira vez Colwyn pôde ver seu rosto claramente.
Ele parecia muito doente: não havia dúvida sobre isso. Seu rosto estava abatido e por fazer, suas roupas estavam sujas, sua atitude era de total abatimento. Ele se encolheu na cadeira respirando apressadamente, com uma mão pressionada ao lado direito, como se estivesse com dor. Ocasionalmente ele tossia: uma tosse curta e aguda, que o fazia estremecer.
"É melhor você beber isso antes de falar", disse Colwyn.
Ele entregou-lhe um copo de conhaque com água. Nepcote agarrou-o avidamente e bebeu-o de um gole.
"Peguei um resfriado forte", disse ele com uma voz rouca e não natural. "Não pude continuar mais. Foi por isso que vim vê-lo esta noite. Mas eu já tinha perdido as esperanças. Fiquei tocando por algum tempo."
"Você veio para se entregar?"
"Sim; estou farto — absolutamente. Fui um tolo ao fugir. Tive momentos horríveis, dormindo ao relento e em hospedarias infestadas de vermes, com a polícia atrás de mim a cada esquina. Aguentei o quanto pude, mas hoje adoeci, e quando vi um policial vigiando a hospedaria onde pretendia dormir esta noite, senti que tinha de me render."
"Por que veio a mim em vez de ir à polícia?"
"Pensei que obteria mais consideração da sua parte. Sei que o senhor está procurando o colar da Sra. Heredith. Aqui está."
Ele tirou do bolso um pequeno embrulho envolto em papel de seda sujo e colocou-o sobre a mesa. As dobras desalinhadas se abriram, expondo o colar desaparecido, mas o diamante faltava no fecho antigo.
"O diamante está nisto", disse ele, colocando uma pequena caixa de papelão ao lado das pérolas. "Quem me dera nunca ter visto essa coisa maldita."
"Como o senhor veio a ter o colar da Sra. Heredith?"
Nepcote hesitou antes de responder.
"Fiquei terrivelmente perturbado com a morte da Sra. Heredith", disse ele após um tempo. "Eu a conhecia antes de ela se casar com Phil Heredith. Éramos velhos amigos."
A inconsequência dessa afirmação convenceu Colwyn de que ele estava ganhando tempo para formular uma resposta evasiva.
"Se é só isso que tem a dizer, é inútil prolongar esta entrevista", observou ele friamente.
"Eu... vou lhe dizer onde consegui o colar", disse Nepcote, com os olhos baixos. "A Sra. Heredith deu-o a mim."
"Por que a Sra. Heredith lhe deu o colar dela?"
"Ela me pediu para levantar algum dinheiro com ele para ela."
"Com que propósito?"
"Não posso dizer. Mulheres bonitas sempre precisam de dinheiro. Pode ter sido para vestidos, ou bridge, ou dívidas antigas. Ela me trouxe o colar um dia e pediu que eu conseguisse algum dinheiro com ele. Sugeri que ela recorresse ao marido, mas ela disse que precisava de dinheiro extra e não queria que ele soubesse."
"E o senhor atendeu ao pedido dela?"
"Atendi, depois que ela insistiu várias vezes. Sempre sou um tolo quando se trata de mulheres. Prometi levantar dinheiro com o colar em Londres para ela. Esse foi o começo dos meus problemas. Mas quem poderia ter previsto? Como eu poderia saber o que iria acontecer?"
Ele sentou-se meditando por um tempo com olhos sombrios, como um homem repelido pela ameaça dos acontecimentos, então explodiu descontroladamente:
"Estou em uma posição horrível. Quem acreditará em mim? Meu Deus, que tolo eu fui!"
"O senhor não está se ajudando agindo assim", disse Colwyn. "Está escondendo algo. Meu conselho é que seja absolutamente franco comigo e me conte tudo."
"O senhor deve me dar alguns minutos primeiro para pensar sobre isso", respondeu Nepcote. Ele lançou um olhar duvidoso ao detetive e caiu em outro silêncio meditativo.
"Antes de dizer mais qualquer coisa, é meu dever informá-lo da minha própria ligação com o caso", disse Colwyn. "Houve uma prisão pelo assassinato, como o senhor sem dúvida sabe, mas a família não está convencida de que a pessoa certa foi presa. O senhor é suspeito."
"Eles acham que eu assassinei Violet? Oh, eu nunca sonhei com isso", acrescentou ele, enquanto Colwyn permanecia em silêncio. "Pensei que o senhor e a polícia estivessem me procurando por causa do colar. É ainda pior do que eu pensava. Agora lhe contarei tudo. Talvez o senhor me ajude, pois sou inocente."
Até aquele momento, ele disparara suas justificativas com uma impetuosidade excitada que revelava uma mente sofrendo sob um fardo grave, embora fosse impossível determinar se aquele estado de espírito surgia de ansiedade ou de culpa consciente. Sua quietude agora era o contraste mais estranho. Era como se ele tivesse se tornado sóbrio ao perceber a dificuldade de convencer alguém de fora de sua inocência em um crime hediondo no qual estava profundamente envolvido por uma terrível teia de circunstâncias.
Ele começou explicando, de forma bastante vaga, sua amizade passada com a jovem assassinada. Ele a conhecera em Londres dois anos antes. Suas relações, como ele as descreveu, transmitiam uma história comum de um conhecimento casual desenvolvido na atmosfera familiar de restaurantes reservados, com danças e teatros mais tarde. Sua história dessa fase continha todos os elementos familiares que compõem o cenário de um episódio amoroso moderno e sofisticado, no qual um homem e uma mulher entram de olhos abertos. À maneira masculina, Nepcote evitou dizer qualquer coisa que pudesse ferir a reputação da jovem morta, mas foi sua reticência e suas reservas que completaram a história para seu ouvinte. Ele disse que seu flerte cessou quando Violet ficou noiva de Philip Heredith. Segundo sua própria versão, ele agiu de forma sensata em uma situação delicada e, depois, relutou em aceitar o convite para o moat-house. Com uma de suas evasivas reticentes, ele minimizou o motivo de ter mudado de ideia, mas Colwyn adivinhou que se devia à inclinação feminina de não enterrar um antigo romance. Violet provavelmente escrevera pedindo que ele viesse.
Ele transmitiu a Colwyn um retrato do estado das coisas existente no moat-house quando ele chegou. Foi uma revelação inconsciente de sua parte sobre uma jovem leviana e fútil que se casara apressadamente com um jovem rico por causa de seu dinheiro, rapidamente entediada pelo decoro maçante da vida rural inglesa, suspirando por sua existência anterior — pelas distrações alegres de seus dias irresponsáveis em Londres. Parecia que, nesse estado de espírito, ela recebia Nepcote como um elo querido com o passado e buscava sua companhia com uma frequência que trazia constrangimentos. Claro que não havia nada nisso — Nepcote insistia ferozmente nisso — ela estava entediada, pobre moça, e gostava de falar sobre os velhos tempos com seu velho amigo, mas era embaraçoso, diabolicamente embaraçoso, em uma casa de campo cheia de gente ociosa e criados curiosos que não tinham nada a fazer senão usar os olhos.
Ela o chamara de lado para lhe contar seus pequenos problemas. A Srta. Heredith não achava que ela fosse boa o suficiente para Phil — ela tinha certeza de que pensava isso. Eles recebiam o vigário e velhas carolas para o chá, e ela tinha de ouvir suas bobagens. Todos iam para a cama logo após as dez — justamente quando as pessoas começavam a despertar em Londres e a sair para a noite. E ela tinha de ir à igreja no domingo porque se esperava isso dela, ele já ouvira falar de tamanha imbecilidade — e assim por diante. Parecia que tudo em sua vida a entediava. É claro que Phil a adorava, mas isso não a ajudava muito. Como poderia, perguntou Nepcote, fixando seu olhar ardente no ouvinte, quando ela só se casara com ele por causa do dinheiro?
Parecia que ele lhe dera conselhos conforme sugeria sua experiência mundana. Ele a aconselhou a fazer com que Phil a levasse a Londres de vez em quando para mudar de ares. Aconselhou-a a não tolerar desaforos de ninguém, apontando-lhe que ela era a futura Lady Heredith e que, dentro de certos limites, poderia fazer praticamente o que quisesse.
Esses detalhes íntimos das confidências entre eles levaram Nepcote ao ponto vital de sua posse do colar. Ele agora admitia que sua história anterior não era verdadeira. A pura verdade era que ele precisava desesperadamente de dinheiro para suas dívidas de jogo. Ele contou a Violet sobre sua situação e perguntou se ela tinha algum dinheiro para lhe emprestar. Ela não tinha, e em vez de pedir a Phil, ela, por causa da velha amizade, ofereceu-lhe o colar para levantar dinheiro ou para vender o diamante do fecho diretamente. Ele aceitou a oferta e foi a Londres no dia seguinte para tentar vender o diamante. O cartão de Wendover lhe fora dado por um colega oficial na França como o de um homem que pagava um bom preço por joias sem fazer muitas perguntas. Mas o comerciante de diamantes não correspondeu à sua reputação. Ele se recusou a olhar para o diamante. Tinha sido horrivelmente grosseiro, tratando-o como se fosse um batedor de carteiras, e praticamente o expulsou de seu escritório. De fato, toda a sua atitude foi tão suspeita que Nepcote decidiu que seria melhor deixar suas dívidas de jogo pendentes do que correr o risco de tentar levantar dinheiro com as joias de uma mulher casada. Ele retornou ao moat-house, deixando o colar trancado em sua escrivaninha em seu apartamento.
Neste ponto, Nepcote parou de falar novamente, interrompido por um acesso de tosse, e quando ele passou, seus olhos se voltaram para a janela, como se estivesse ouvindo o suave tamborilar da chuva nas vidraças. Por um momento, os dois homens sentaram-se sem nenhum som na sala, exceto pela respiração ofegante de Nepcote. Quando ele recomeçou, falou com uma ênfase mais rápida, como um homem consciente de que estava entrando na parte de sua narrativa mais inacreditável.
"Aconteceu três noites depois", disse ele. "Eu estava no meu quarto escrevendo algumas cartas antes de me deitar, quando ouvi uma batida leve e apressada na minha porta. Quando abri, Violet estava lá. Ela entrou rapidamente. Antes que eu pudesse expressar minha opinião sobre sua imprudência insensata, ela explodiu em soluços e reprovações apaixonadas. A culpa era toda minha — esse era o peso de sua reprovação entre os soluços. Demorou um pouco até que eu pudesse entender o que havia de errado. Então ela me contou que Sir Philip pedira que ela usasse o colar em um baile que iríamos frequentar na noite seguinte. Foi então que soube que o colar fora dado a Violet por Sir Philip como presente de casamento. Violet atribuía tão pouco valor ao presente que ela dera o colar a mim, achando que não sentiriam falta, mas descobriu seu erro naquela noite. Foi na presença de Phil e da Srta. Heredith que Sir Philip pedira que ela o usasse. Violet tentou se esquivar dizendo que as pérolas estavam sem brilho e que o colar precisava ser refeito. Ao ouvir isso, a Srta. Heredith saiu da sala e retornou com o Sr. Musard, um velho amigo da família que chegara naquele dia para uma breve visita. Ele é um conhecedor de joias, e a Srta. Heredith pediu sua opinião sobre o colar. Musard disse-lhe que as pérolas precisavam há muito tempo de um tratamento tecnicamente conhecido como "skinning", e se ofereceu para levar o colar a Londres dois dias depois e fazer com que um especialista o tratasse. Violet aceitou a oferta e então prometeu a Sir Philip que usaria o colar na festa.
"Ela subiu para me ver assim que pôde. Ela ficou muito aliviada quando soube que eu não havia me desfeito do colar, e queria que eu fosse a Londres e o trouxesse de volta para que pudesse usá-lo na festa. Eu estava disposto a fazê-lo, mas duvidava que conseguiria voltar a tempo. O serviço ferroviário local fora restringido por causa da guerra, e o único trem que eu poderia pegar de volta não chegava a Heredith antes das sete e meia.
"Foi Violet quem encontrou o plano. A grande coisa — a coisa vital para ela, apontou ela, era ter o colar a tempo de dar a Musard antes que ele fosse a Londres. Ela disse que poderia facilmente evitar ir ao baile fingindo ter uma de suas terríveis dores de cabeça, e não desejava encontrar a Sra. Weyne novamente. Sua ideia era que eu fingisse ter sido convocado de volta para a França, atrasasse minha partida até o trem da tarde para evitar suspeitas, e retornasse secretamente com o colar. Ela disse que o trem da tarde chegava a Londres às cinco e vinte e cinco, o que me daria trinta e cinco minutos para pegar um táxi para o meu apartamento, pegar o colar e pegar o expresso de retorno às seis horas. Eu deveria sair do trem em Weydene Junction, onde ninguém provavelmente me reconheceria, e caminhar pelo campo até o moat-house. Ela esperava que, quando eu chegasse à casa, os outros já tivessem partido para a casa dos Weyne, então o caminho estaria livre. Eu deveria entrar na casa por uma pequena porta não utilizada nos fundos da ala esquerda, que ela deixaria destrancada para mim, e esperar ao pé da escada até que ela descesse.
"Eu não gostei desse plano por causa do risco, mas Violet ficou quase histérica quando me opus a ele. Ela disse que não havia perigo e que era sua única chance de segurança. Ela acreditava que Phil suspeitava de algo, porque ele a olhara estranhamente quando falavam sobre o colar lá embaixo. Eu atribuí isso ao nervosismo dela, mas percebi que ela precisava ter o colar, então cedi e disse que faria o que ela desejava. Desde então, lamentei amargamente não ter ido abertamente a Londres e voltado, mesmo correndo o risco de um pouco de curiosidade ociosa.
"Anunciei minha convocação e partida na manhã seguinte à mesa do café da manhã, e retornei a Londres pelo trem da tarde. Fui de carro até Sherryman Street, peguei o colar e voltei para Victoria a tempo de pegar o expresso das seis horas. Saí do trem em Weydene e caminhei pelos campos até o moat-house. Já estava bem escuro quando cheguei lá. Atravessei a ponte dos fundos sobre o fosso e fui até a porta na ala esquerda, como havíamos combinado. Para minha surpresa, estava trancada.
"Esperei do lado de fora da porta esperando que Violet descesse. Tudo estava silencioso, então pensei que os outros deviam ter partido para o baile. Mas o tempo passava e ninguém vinha. Então decidi esgueirar-me pelo lado da ala e ver se havia uma luz no quarto de Violet. Nesse momento, ouvi um grito alto vindo de algum lugar lá em cima, seguido por um estrondo ensurdecedor.
"Eu não fazia ideia do que havia acontecido, mas sabia que não deveria ser encontrado ali, então voltei pelo caminho por onde vim. Corri ao longo da parte externa do muro do fosso, indo em direção ao bosque em frente à casa. Ao passar pela janela de Violet, olhei para cima, e ela estava na escuridão. Suponho que foi por isso que não liguei o tiro ou o grito a ela.
"Atravessei os bosques até chegar à entrada de carruagens. De lá, a frente do moat-house era visível para mim. Podia ver luzes piscando e pessoas movendo-se apressadamente. Depois de ficar lá por algum tempo, vi um homem correndo pela ponte do moat-house em minha direção, então voltei para o bosque e me escondi atrás de uma árvore. O homem parou enquanto caminhava ao longo da entrada de carruagens e olhou em direção à árvore onde eu estava agachado. Ele gritou: 'Quem está aí?' Reconheci sua voz. Era Tufnell, o mordomo. Pensei que tinha sido descoberto e me arrastei para um arbusto, mas em um momento ele continuou andando.
"Permaneci escondido no arbusto por algum tempo — uma hora ou mais. Uma vez ouvi passos triturando no caminho de cascalho, depois tudo ficou silencioso novamente. Depois de esperar por mais algum tempo, decidi caminhar de volta para Weydene e retornar a Londres. Mas fiz um desvio tão grande por medo de ser visto que perdi o caminho, e era quase meia-noite quando me encontrei em Rainchester, na linha principal, bem a tempo de pegar o último trem para Londres.
"Foi um choque terrível para mim quando abri meu jornal na manhã seguinte e li sobre o assassinato da pobre Violet. Eu nunca tinha pensado em algo assim. A princípio, não conseguia pensar em nada além de seu fim terrível, mas depois me ocorreu que minha própria posição seria embaraçosa se a perda do colar fosse descoberta. Como os jornais não diziam nada sobre o colar, concluí que não haviam sentido falta. Mas eu sabia que a polícia estaria procurando pistas e poderia descobrir a perda a qualquer momento. Sabia que era perigoso mantê-lo em minha posse, então decidi me livrar dele sem demora.
"Pensei a princípio em devolvê-lo anonimamente, mas imediatamente abandonei essa ideia por ser perigosa demais. Depois pensei em jogá-lo no rio. Ocorreu-me, no entanto, que se por acaso a polícia descobrisse que o colar me fora dado, e eu não pudesse apresentá-lo se fosse interrogado, estaria em uma situação ainda pior. Então tentei pensar em um esconderijo seguro onde eu pudesse encontrá-lo em caso de necessidade. Não consegui pensar em nenhum. O tempo passou, e antes que eu decidisse o que fazer com a coisa, meu criado apareceu e disse que era hora de pegar o trem do barco. Então, no final, coloquei o colar no bolso e o levei para a França comigo. Parecia tão seguro lá quanto em qualquer outro lugar por enquanto.
"Eu estava indo apenas para a base, então via os jornais de Londres todos os dias. Fiquei muito aliviado quando li sobre a prisão de Hazel Rath pelo assassinato. Retornei a Londres sentindo-me razoavelmente seguro, embora me parecesse estranho que a perda do colar não tivesse sido descoberta.
"Pensei que tudo tinha sido descoberto quando o senhor e aquele detetive da Scotland Yard visitaram meu apartamento. Mas Merrington parecia não ter suspeitas de mim, e eu estava começando a pensar que estava finalmente a salvo quando ele comentou que a polícia sabia sobre o colar desaparecido. Dei um sobressalto, e isso me entregou ao senhor, de qualquer modo. Vi o senhor olhar para o cartão de Wendover quando caiu sobre a mesa, e soube que o senhor suspeitava de mim.
"Depois que ambos saíram, tive uma meia hora ruim. Pude ver que estava em uma situação perigosa. O senhor estava ciente do endereço do comerciante de diamantes a quem eu havia recorrido e que, sem dúvida, seria capaz de me identificar. Eu tinha piorado minha própria posição ao mentir sobre o telegrama do Ministério da Guerra, como poderia ser facilmente provado. Havia também a possibilidade de a polícia descobrir sobre meu retorno a Heredith na noite do assassinato. Eu não via então o que todos esses fatos prenunciavam para mim, embora agora veja. Mas temia a prisão pelo roubo do colar, com as alternativas de prisão se eu ficasse em silêncio, ou enfrentar um escândalo horrível se dissesse a verdade. Eu não estava preparado para nenhuma das duas coisas.
"Dormi em um hotel naquela noite porque temia a prisão, mas na manhã seguinte, bem cedo, retornei ao apartamento para trocar meu cáqui por um terno civil. Depois de pensar sobre as coisas durante a noite, cheguei à conclusão de que tinha mais a temer do senhor, e decidi vigiá-lo. Se o senhor não visitasse o lugar de Wendover durante o dia, parecia-me que eu poderia estar me alarmando desnecessariamente. O senhor sabe o que aconteceu. Eu fugi quando vi o senhor emergir dos edifícios e vaguei por horas, sem saber o que era melhor fazer. Quando descobri que não tinha dinheiro — nada nos bolsos exceto aquele colar maldito, que eu tinha levado comigo porque sabia que o apartamento seria revistado — decidi retornar ao apartamento para buscar o dinheiro que deixara em minhas outras roupas. Cheguei tarde demais. Quando alcancei Sherryman Street, vi dois homens vigiando o apartamento do jardim da praça em frente, e soube que seria preso se entrasse."
"De que adianta falar sobre o que se seguiu? Eu não tive a menor chance desde o início. Você acha que sabe alguma coisa sobre Londres? Acredite, você não sabe até ser jogado à deriva nela com os bolsos vazios. É uma cidade de vampiros e corações de pedra, um inferno fervilhante e inumano onde você pode vagar até cair e morrer sem que ninguém lance um olhar de piedade — muito menos ofereça uma mão amiga. Até o anjo da guarda de um homem o abandona. Não demora muito para um homem chegar à sarjeta, cair cada vez mais baixo até que não reste nada além do Thames Embankment ou do necrotério à sua frente. Tive os olhos abertos — conversei com alguns desses pobres diabos nesta cidade cristã. Mas o que adianta lhe dizer isso? Eu mesmo estive na sarjeta nos últimos dias, caindo a cada dia para profundezas mais baixas, caminhando faminto e com os pés feridos em meio a rebanhos de brutos humanos respeitáveis, esquivando-me do olhar de cada policial, penhorando roupas pelo preço de uma cama infestada de vermes, para ficar acordado a noite toda sabendo que seria assassinado pelos degenerados de cara de abutre que dormiam no mesmo pardieiro, se tivessem vislumbrado o colar.
"Quantos planos selvagens eu não tracei à noite para conseguir dinheiro com o colar pela manhã! Certa vez, entrei em uma casa de penhores, mas os olhos do penhorista brilharam quando falei de pérolas, e eu saí o mais rápido que pude. Suponho que houvesse uma recompensa, e ele estava à minha procura. De um jeito ou de outro, passei pelo inferno. Sinto-me como um homem com febre. Fiquei encharcado ontem e não como nada há vinte e quatro horas."
Ele parou e ficou olhando para o vazio como se estivesse novamente passando pelo horror de suas peregrinações. Então, outro acesso de tosse o dominou, prolongado e violento. Quando diminuiu, ele olhou para Colwyn com olhos injetados de sangue.
"Sinto-me muito mal", disse ele fracamente.
Esse fato já era aparente para o detetive há algum tempo. Os frequentes ataques de tosse de Nepcote e uma peculiar intensidade nasal ao falar sugeriam sintomas de pneumonia. Enquanto Colwyn levantava o fone do telefone para chamar um médico, ocorreu-lhe que, se o problema imediato do destino de Nepcote tivesse sido resolvido por sua doença, sua incapacidade de responder a perguntas tornava necessário o seu próprio retorno ao moat-house sem demora. De qualquer forma, esse curso era inevitável após o que acabara de ouvir. Somente no local onde o crime fora cometido ele poderia esperar julgar entre as probabilidades da estranha história de Nepcote e a confissão de Hazel Rath. Era lá, a menos que estivesse muito enganado, que a solução final do mistério Heredith deveria ser buscada.
CAPÍTULO XXVI
Já era tarde quando Colwyn chegou a Heredith no dia seguinte. O breve verão inglês, morrendo sob o intolerável destino da evanescência de todas as coisas belas, apresentava o espetáculo da decadência rastejante em um brilho frenético de avermelhado e carmesim, como uma mulher murcha tentando evitar o inevitável com tintas e rouge lamentáveis.
Nesta cena, o moat-house estava em perfeita harmonia, sintonizado pela sua própria decrepitude com a dissolução geral dos seus arredores. O seu aspecto era uma fachada fechada de falta de visão, uma cegueira de tijolo e pedra para as mudanças das estações e a futilidade da existência. Os jardins em terraços haviam assumido as cores mortas do outono, mas a casa mostrava uma indiferença envelhecida aos truques da natureza escravizada às ordens da criação.
O toque de Colwyn na porta foi atendido por Milly Saker, cujo olhar rústico ao vê-lo foi seguido por um sorriso de reconhecimento igualmente largo. Ela o conduziu ao hall e foi em busca de Miss Heredith. Em pouco tempo, Miss Heredith apareceu. Ela parecia exausta e doente, mas cumprimentou Colwyn com um sorriso gracioso e um aperto de mão firme, e o levou à biblioteca. Refrescos foram trazidos e, enquanto Colwyn bebia uma taça de vinho, sua anfitriã proferiu os lugares-comuns de conversa de uma dama inglesa. Teve uma viagem agradável até aqui? As estradas estavam muito boas para dirigir naquela época do ano, e o campo estava lindo. Muitas pessoas achavam que era a melhor época para ver o campo. Era um outono fino, mas os fazendeiros locais achavam que os sinais apontavam para um inverno rigoroso. Assim ela conversou, até que a taça de xerez estivesse vazia. Então ela mergulhou em silêncio, com uma certa expectativa em seu olhar suave, como se esperasse que Colwyn anunciasse o objeto de sua visita.
"Suponho que você tenha vindo ver Phil?", ela disse, como Colwyn não falasse. "Infelizmente ele não está em casa", continuou ela, respondendo à sua própria pergunta da maneira feminina. "Ele foi para Devon com Mr. Musard por alguns dias. Foi ideia minha. Eu queria que ele se distraísse. Ele está se definhando terrivelmente, e, claro, isso é ruim para ele. Espero persuadi-lo a ir com Vincent para uma mudança completa quando este... este negócio terrível terminar." Novamente seus olhos buscaram os dele.
"Quando vocês esperam que eles retornem?"
"Amanhã à noite. Phil não queria ficar fora por mais tempo. Ele tem esperado notícias suas. Você pode ficar até lá?"
"Facilmente. Na verdade, vim preparado para ficar por um ou dois dias. Tenho algumas investigações adicionais a fazer que me ocuparão durante esse tempo."
"Então, é claro, você ficará conosco, Mr. Colwyn."
"Você é muito gentil, mas não quero incomodá-la. Reservei um quarto na estalagem."
"Não é incômodo nenhum. Vou enviar alguém para buscar suas coisas. Phil não gostaria que você ficasse na estalagem — nem eu." Miss Heredith levantou-se enquanto falava. "Por favor, faça o que desejar, Mr. Colwyn. Entendo perfeitamente que você tem trabalho a fazer e deseja ficar sozinho."
"Obrigado. Então eu ficarei."
Colwyn sentou-se por um tempo depois que ela o deixou, formulando seus planos. Ele estava grato a ela por um tato que não transgredira os limites do pensamento não dito durante sua breve entrevista, mas estava mais satisfeito com a ausência fortuita de Phil e Musard naquele período de suas investigações. Ele saudou a oportunidade de trabalhar sem ser questionado, pois não estava preparado para divulgar as declarações de Nepcote e Hazel Rath a nenhum dos ocupantes do moat-house até ter testado a viabilidade de ambas as histórias no cenário do crime.
"Tudo correu muito bem, até agora", foi o pensamento que surgiu em sua mente. "E agora... ao trabalho."
Ele olhou para o relógio. Eram quase quatro horas. Seus planos imediatos eram uma caminhada até Weydene e outra observação do quarto que Mrs. Heredith ocupara na ala esquerda. Ele decidiu deixar sua investigação do quarto para mais tarde, para ter a vantagem da luz do dia que se esvaía em sua caminhada pelos campos.
Quando ele retornou ao moat-house, estava escuro e na hora do jantar. Ele fez essa refeição com Sir Philip e Miss Heredith no estado desbotado da grande sala de jantar — três figuras decorosas em um oásis fortemente iluminado de linho branco e prata, com o sóbrio preto de Tufnell ao fundo. Sir Philip cumprimentou Colwyn com seu cansado sorriso de boas-vindas. Ele parecia um pouco mais frágil, mas bastante animado enquanto servia um clarete especial ao seu convidado e lhe contava, como uma criança contando sobre um presente prometido, que ele sairia para jantar na noite seguinte. Ele insistiu em dar a notícia maravilhosa em detalhes. Ele cedera às solicitações de um velho amigo — Lord Granger, o embaixador, que acabara de retornar a Granger Park após cinco anos de ausência da Inglaterra e não aceitaria um não como resposta. Mas foi ideia de Alethea — ela arranjou tudo.
"Vou retroceder o relógio do tempo", disse ele, com uma risada fraca. "Acertar os ponteiros para trás."
"Acho que vai lhe fazer bem, não acha, Mr. Colwyn?", disse Miss Heredith com um sorriso melancólico.
"Não tenho dúvidas disso", disse Colwyn com um sorriso em resposta. "Um encontro com um velho amigo é sempre uma coisa boa. Você vai com Sir Philip?"
"Oh, sim. Eu não iria sem ela", disse o baronato, com o olhar impotente da senilidade. "Você vai, não vai, Alethea?"
"Claro, Philip", foi a resposta gentil.
Esta conversa, leve e desultória como era, deu indicação suficiente ao detetive do pesado fardo que Miss Heredith estava carregando. O baronato não pôde falar de outra coisa durante o restante do jantar e, quando a refeição terminou, ele pediu ao seu convidado que o desculpasse, pois desejava ter uma boa noite de descanso para se fortalecer contra a excitação do próximo passeio. Com um sorriso de desculpa para Colwyn, sua irmã o seguiu para fora da sala.
O velho mordomo ocupou-se no aparador enquanto Colwyn permanecia sentado à mesa bebendo seu vinho. Seus movimentos eram tão deliberados que transmitiam a suspeita de que ele não tinha pressa em deixar a sala, e os olhares que ele lançava a Colwyn sempre que se movia para fora do seu campo de visão traziam consigo a sugestão adicional de que o detetive era a causa inconsciente de sua lentidão. Mais de uma vez, após esses olhares para trás, ele abriu os lábios como se fosse falar, mas não o fez. Foi Colwyn quem quebrou o silêncio.
"Tufnell!", disse ele.
"Sim, senhor?" O mordomo depositou um prato no aparador e caminhou rapidamente para a cadeira do detetive.
"Quero lhe fazer uma ou duas perguntas. Foi você quem encontrou a porta dos fundos da ala esquerda destrancada na noite do assassinato, não foi?"
O mordomo curvou-se gravemente, mas não falou.
"O que o fez tentar a porta? Você suspeitava que ela estivesse destrancada?"
"Não; foi apenas o acaso que me fez girar a maçaneta. Estou tão acostumado a trancar a casa à noite que o fiz sem pensar. Certamente nunca esperei encontrá-la destrancada, e a chave do lado de dentro da porta. Isso foi uma surpresa para mim. Muitas vezes me perguntei desde então quem poderia tê-la destrancado e deixado a chave na porta."
"Você me disse da última vez que estive aqui que esta porta é geralmente trancada e a chave guardada nos aposentos da governanta. Suponho que não haja dúvida quanto a isso?"
"Nenhuma, senhor. A chave está pendurada lá agora com muitas outras. Ninguém nunca pensa em usar a porta. É por isso que fiquei tão espantado ao encontrá-la aberta naquela noite."
"Se a chave estava pendurada com várias outras, ela poderia ter sido levada algum tempo antes e não ser notada?"
"É exatamente isso, senhor. Pode não ter sido notada até agora se eu não a tivesse descoberto naquela noite."
"A que horas foi quando você a encontrou?"
"Pouco antes das seis horas — começando a escurecer, mas não escuro."
"Você tem certeza absoluta de que trancou a porta depois de encontrá-la aberta?"
"Não pode haver dúvida sobre isso, senhor. A fechadura estava dura para girar, e eu tentei a maçaneta da porta para ter certeza de que a havia trancado corretamente."
"Você devolveu a chave aos aposentos da governanta imediatamente?"
"Tive a intenção de devolvê-la após o jantar, mas esqueci tudo sobre isso na excitação e confusão. Ela ainda estava no meu bolso quando informei o Mr. Musard sobre isso."
"Aqui está outra pergunta, Tufnell, e quero que você pense bem antes de responder. Você acha que teria sido possível para alguém entrar na casa e chegar à ala esquerda sem ser visto enquanto a família estava jantando naquela noite?"
"Eu me fiz essa pergunta várias vezes desde então, senhor — sentindo uma certa responsabilidade. Teria sido difícil, porque as janelas dos quartos do andar de baixo da ala esquerda estavam todas trancadas. Sempre havia a chance de algum dos criados ver alguém atravessando o hall a caminho da escadaria, a menos que a... pessoa observasse e esperasse por uma oportunidade."
Colwyn assentiu como se estivesse dispensando o assunto, mas o mordomo permaneceu lá. Talvez tenha sido a percepção da implicação de suas últimas palavras que lhe deu a coragem de abordar o assunto que ocupava sua mente.
"Poderia lhe fazer uma pergunta, senhor?", ele começou hesitante.
"O que é?"
"É sobre a jovem que foi presa, senhor. Existe alguma probabilidade de que ela seja provada inocente?"
"Você deve ter algum motivo particular para me fazer essa pergunta, Tufnell."
"Bem, senhor, estou ciente de que Mr. Philip a considera inocente."
"Foi o que você me disse quando estive aqui antes, mas esse não é o motivo da sua pergunta. É melhor ser franco."
"Desejo ser franco, senhor, mas estou em uma dificuldade. Fiquei sabendo de algo que parece ter relação com a situação desta jovem, o que penso que o senhor deveria saber, mas preciso considerar meu dever para com a família. Foi algo... algo que ouvi por acaso."
"Se isso lançar a menor luz sobre este crime, é seu dever revelá-lo", respondeu o detetive gravemente. "Você sabe que fui chamado para o caso pelo Mr. Heredith porque ele não está convencido da culpa de Hazel Rath."
"Com certeza, senhor. Por esse motivo, tenho tentado me decidir a confidenciar ao senhor. Quando o senhor tiver ouvido o que tenho a dizer, entenderá como é difícil. Refere-se a Mr. Philip, senhor. Desde sua doença, tenho me preocupado com sua saúde, porque ele está tão mudado que temi que ele pudesse enlouquecer de dor. Ele quase não diz uma palavra a ninguém, mas às vezes o vi murmurando sozinho. Na noite anterior à sua partida com Mr. Musard, ele não desceu para o jantar. Miss Heredith ia enviar um criado ao seu quarto caso ele não tivesse ouvido o gongo, mas eu me ofereci para ir. Quando cheguei ao seu quarto, ouvi os soluços mais terríveis que se pode imaginar. Então, através da porta entreaberta, ouvi Mr. Philip clamar a Deus Todo-Poderoso para fazer alguém sofrer como ele sofrera. Ele mencionou um nome..."
"De quem era o nome?"
O mordomo olhou temerosamente para a porta fechada, como se suspeitasse de escutas, e então pronunciou com um esforço:
"Capitão Nepcote, senhor."
Colwyn esperava esse nome. A declaração de Nepcote na noite anterior o levara a acreditar que Philip Heredith suspeitara das relações de Nepcote com sua esposa, mas não conseguira revelar isso quando buscara assistência. Era da experiência de Colwyn que nada era tão raro quanto a franqueza completa das pessoas que o procuravam em busca de ajuda. Fazia parte da reserva arraigada da mente inglesa, o medo sensível de fofocas ou escândalos, guardar algo para si naqueles momentos. A pessoa comum era tão envolta por limitações de inteligência a ponto de ser incapaz de entender que fatos suprimidos inevitavelmente viriam à tona mais cedo ou mais tarde, se afetassem o assunto da confiança parcial. Claro, às vezes havia a alternativa de uma reticência que visava enganar. Se isso entrasse no caso atual, era uma complicação adicional.
"Que interpretação você deu a essas palavras ouvidas?", ele perguntou ao mordomo. "Você supôs que elas se referiam ao assassinato?"
"Bem, senhor..." o mordomo hesitou, como se estivesse sem saber como se expressar. "Não cabia a mim tirar conclusões, senhor, mas não pude deixar de pensar no que ouvi. Sei que Mr. Philip acreditava que a jovem era inocente, e... Mrs. Heredith foi morta com o revólver do Capitão Nepcote."
"Entendo. Você não teve outro pensamento em sua mente?"
"Não, senhor. O que mais eu poderia pensar?"
Os tons humildes do mordomo transmitiam tal inflexão de surpresa que Colwyn ficou convencido de que ele, de qualquer modo, não tinha suspeita do segredo entre Mrs. Heredith e Nepcote.
"Sua confiança está segura comigo, Tufnell", acrescentou o detetive após uma pausa. "Mas não posso responder à sua pergunta no momento."
"Muito bem, senhor." O mordomo voltou-se para o aparador novamente sem mais comentários e deixou a sala de jantar alguns minutos depois.
Colwyn foi para o seu quarto logo depois e ocupou-se por algumas horas revisando suas anotações sobre o caso. Era sua intenção adiar sua visita ao quarto na ala esquerda até que a família tivesse se recolhido, para ficar livre das especulações curiosas e da conversa fiada dos criados.
O moat-house mantinha horários rurais e, quando terminou de escrever e desceu do seu quarto, encontrou o andar térreo na escuridão. Um relógio em algum lugar no silêncio soou solenemente enquanto ele caminhava rapidamente pelo hall. Suas batidas terminaram de anunciar a hora de onze quando ele subiu a escadaria da ala esquerda.
A solidão da ala deserta era como uma coisa móvel e trêmula na desolação do silêncio e da escuridão. Era como se o corredor ecoante e os quartos vazios estivessem sussurrando, com o apelo do esquecido, por uma companhia humana amigável e luz para dispersar o horror das formas sinistras e sombras que espreitavam na morada do assassinato. Colwyn entrou no quarto onde Mrs. Heredith fora assassinada e, pelo raio de sua lanterna elétrica, cruzou até a cabeceira da cama e acendeu a luz.
Ele ficou lá imóvel por um tempo, tentando imaginar a maneira e o método do assassinato. Se Hazel Rath dissera a verdade, o assassino estivera onde ele estava agora quando a moça entrara no quarto na escuridão. A luz do corredor, entrando pela porta aberta, revelara a figura dela se aproximando para ele? Por quanto tempo ele estivera ali na escuridão, esperando pelo momento de matar a mulher na cama?
Se Nepcote era o assassino, ele deve ter entrado quase imediatamente antes, porque não poderia ter chegado ao moat-house até quase sete e meia, e o tiro fora disparado às sete e quarenta. Como ele sabia que Mrs. Heredith estava ali sozinha, na escuridão? Um encontro secreto poderia ser a explicação se o horário fosse depois, em vez de antes da partida da família para a noite. Mas mesmo o par de amantes mais libertino hesitaria em entregar-se à sua paixão enquanto o risco de descoberta ao acaso e exposição fosse tão grande.
Enquanto ponderava sobre as duas histórias, Colwyn não tentou fechar os olhos para o fato de que Hazel, por sua própria confissão, encaixava-se no crime de forma mais completa do que Nepcote. Ela tinha amplas oportunidades de entrar no quarto e assassinar a mulher que a suplantara. Ela realmente fortalecera o caso contra si mesma pela admissão prejudicial de que buscara o quarto de Mrs. Heredith em segredo pouco antes de o crime ser cometido. Sua explicação sobre o grito e o tiro era tão improvável que soava inacreditável. Não era de se admirar que a Scotland Yard preferisse acreditar que fora a aparição da moça frenética, revólver em punho, que causara à sua vítima aterrorizada o proferimento de um grito selvagem antes de o tiro ser disparado, o qual pôs fim à sua vida.
Mas Colwyn nunca se deixara levar demais pelas circunstâncias. Aparências nem sempre eram um guia seguro no emaranhado complicado dos assuntos humanos. Coisas estavam sempre acontecendo que deixavam a experiência de olhos arregalados de espanto. As contradições da natureza humana persistiam em todos os atos humanos. Neste mistério do moat-house, o paradoxo mais sombrio de sua brilhante carreira, Colwyn estava determinado a não aceitar a presunção dos fatos até que tivesse se convencido de que nenhuma outra interpretação era possível. Sua mente sutil fora desafiada por um dedo indicador de dúvida na prova escrita; um dedo indicador tão tênue a ponto de passar despercebido por outros olhos, mas suficientemente avisador para sua visão mais clara a ponto de fazê-lo pausar no meio do caminho da evidência circunstancial e olhar ao seu redor em busca de um caminho oculto.
Foi o ponto que ele mencionara a Caldew em seus aposentos após ler a cópia das declarações do legista que Merrington lhe emprestara. Ao examiná-las, ele fora atingido por um fato curioso. A evidência médica declarava que a causa da morte fora um pequeno ferimento perfurante, não maior que uma moeda de três pence, mas acrescentava a informação de que o buraco no vestido da mulher morta era muito maior, com o diâmetro aproximado de uma moeda de meia coroa. O patologista do governo formara a opinião de que o revólver devia ter sido mantido muito próximo ao corpo para explicar o buraco chamuscado maior. Essa inferência era óbvia, mas Colwyn via mais nos dois buracos do que isso. Parecia-lhe que o anel vivo de chamas causado pelo disparo à queima-roupa devia ter sido extinto pelo assassino, ou teria continuado a arder e a expandir-se em um círculo cada vez maior. E esse pensamento levou a outro de significância muito maior. O tiro fora disparado à queima-roupa para garantir a precisão da mira ou abafar o som do disparo. Mas, qualquer que fosse a intenção do assassino, o segundo propósito fora alcançado, intencional ou não. Como aconteceu, então, que o som do disparo penetrou tão alto no andar de baixo?
Enquanto Colwyn circulava pelo quarto, examinando tudo com seu olhar rápido e avaliador, notou que a posição da cama fora alterada desde a última vez que a vira. A cabeceira estava um pouco enviesada e mais próxima ao lado da parede do que o pé da cama. A diferença era pequena, mas Colwyn pôde ver uma parte da lareira que antes não estava visível. A cama ficava quase no centro do quarto, o pé em linha com a porta e a cabeceira a cerca de noventa centímetros ou um metro da lareira. Ao notar essa posição um tanto incomum durante sua última visita, Colwyn chegara à conclusão de que fora escolhida em benefício do ar fresco e da luz durante os meses de verão, já que a janela, que dava para os jardins em terraço, ficava mais próxima àquela extremidade do quarto.
Colwyn aproximou-se da cabeceira da cama e abaixou-se para examinar os pés da cama. Um leve sulco no carpete de pelo alto mostrava claramente que a cama fora empurrada alguns centímetros para trás. A mudança na posição era tão insignificante que poderia ter sido atribuída ao ato de um criado ao varrer o quarto, se um exame mais minucioso não tivesse revelado a continuidade do sulco debaixo da cama. A inferência era inconfundível: a cama, num primeiro momento, fora empurrada muito mais para trás sobre seus rodízios e, então, quase, mas não totalmente, restaurada à sua posição original.
Teria a cama sido movida para ganhar acesso à lareira? Ele não via motivo para tal procedimento. Era cedo demais no outono para precisar de lareiras, e o quarto não fora ocupado desde o assassinato. De qualquer modo, a aparência da grade mostrava que nenhum fogo fora aceso. Havia espaço amplo para passar entre a cabeceira da cama e a lareira, embora talvez não houvesse muito espaço para movimento. Em sua última visita, Colwyn espiara nesse espaço para testar suas possibilidades de esconderijo. No interesse aguçado de sua nova descoberta, ele empurrou a cama para fora do caminho e examinou-o novamente.
A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi um arranhão na superfície polida da grade da lareira. Parecia ser de origem recente e, por essa razão, sugeriu à mente de Colwyn que a cama fora movida por alguém que queria mais espaço em frente à grade. Com que propósito? Ele voltou sua atenção para a própria grade na esperança de obter uma resposta para essa pergunta.
A grade estava vazia e, à maneira doméstica, uma folha de papel branco fora colocada nas barras inferiores para apanhar eventuais flocos de fuligem da chaminé. Mas não havia papéis queimados ou fragmentos carbonizados que sugerissem que a grade fora usada recentemente. Insatisfeito e perplexo, Colwyn estava prestes a levantar-se quando aconteceu de seus olhos, ao lançar um olhar para um canto, pousarem em algo minúsculo e metálico na fenda entre o papel branco e as barras laterais da grade. Imaginando o que seria, conseguiu retirá-lo com o dedo e o polegar. Era uma espoleta.
Essa descoberta, estranha como era, parecia à primeira vista suficientemente afastada das circunstâncias do assassinato, exceto na medida em que trazia o pensamento de armas letais à imaginação. Mas uma arma que exigia uma espoleta para sua descarga não tinha nada a ver com a morte de Violet Heredith. Ela fora morta por uma bala que cabia no revólver de Nepcote, que era uma arma de percussão de pino. A evidência médica estabelecera esse fato além da sombra de qualquer dúvida. Além disso, a espoleta não fora detonada, o que parecia tornar sua presença na grade ainda mais difícil de explicar. Parecia que fora deixada cair acidentalmente, mas como fora parar ali? A estranheza da descoberta era intensificada pelo conhecimento de que espoletas e armas de carregar pela boca tornaram-se antiquadas com o advento da arma de retrocarga. Quem usava tais coisas hoje em dia?
Pelo estímulo daquela misteriosa associação de ideias que chamamos de memória, Colwyn lembrou-se de sua visita anterior à sala de armas no andar de baixo, e da declaração de Musard sobre o famoso par de pistolas na caixa de mogno com ferragens de latão, que "tinham a precisão de um rifle até cinquenta jardas, mas tinham um recuo pesado". Elas pertenciam ao período entre as armas de retrocarga e as antigas armas de pederneira, e eram provavelmente armas de carregar pela boca. Com essa lembrança repentina, Colwyn também recordou que Musard não pudera mostrar-lhe as pistolas porque a chave do estojo fora extraviada ou perdida.
Este incidente, insignificante como parecera na época, parecia dificilmente ganhar em importância quando considerado em conjunto com a descoberta da espoleta na grade. Além do estímulo à memória que a espoleta produzira, não havia coordenação visível entre os dois fatos, porque era, aparentemente, bastante certo que a Sra. Heredith fora baleada pelo revólver de Nepcote, e por nenhuma outra arma. Mas o equilíbrio das probabilidades em um crime é, às vezes, alterado por trivialidades aparentemente irrelevantes que assumem importância durante a investigação. Seria possível que a chave do estojo das pistolas tivesse sido deliberadamente escondida porque a caixa tinha algo a esconder que formava uma conexão entre as pistolas e a presença da espoleta na grade? Essa inferência só poderia ser testada por um exame do estojo das pistolas. O experimento era, sem dúvida, digno de ser tentado. Colwyn deixou o quarto e desceu as escadas.
CAPÍTULO XXVII
A sala de armas estava escura e silenciosa como um cofre. Nos recônditos profundos, os fantasmas blindados de Herediths mortos e enterrados pareciam observar o intruso com olhos ocultos por trás das grades de seus elmos de torneio e saladas com viseiras. A luz da lanterna elétrica de Colwyn incidiu sobre a armadura de um poderoso guerreiro que permanecia com uma manopla de aço erguida, como se estivesse pronto para defender a honra de sua casa. Suas iniciais, "P.H.", estavam gravadas em seu gigantesco peito de aço, e seus calcanhares de aço ostentavam um par de esporas temíveis, com rosetas como adagas. Ao lado deste gigante havia uma pequena armadura, com não mais de noventa centímetros de altura, que poderia ter sido usada por uma criança.
"Um par estranho", murmurou Colwyn, parando um momento para olhá-los. Ao direcionar sua luz em direção a eles, seu olhar foi capturado por uma inscrição entalhada na pedra acima de suas cabeças; ele se aproximou e leu que a armadura grande fora usada pelo antigo Philip Heredith, "Um Verdadeiro Cavaleiro de Deus". A armadura menor fora feita para um anão ligado à sua casa, que seguira seu senhor pelas Cruzadas e lutara galhardamente ao seu lado.
Colwyn virou-se e passou sua luz ao longo das paredes em busca do estojo das pistolas. Sua lanterna percorreu os numerosos troféus que adornavam as paredes: lanças, espadas, adagas, capacetes de aço, bacinetes, moriões de crista — relíquias de uma era de cavalaria que se foi, quando os cavaleiros discutiam graciosamente por damas e a luta era justa e aberta, antes que a civilização enriquecesse a guerra com os atributos cristãos de bombas de gás, fogo líquido e altos explosivos. Então, a luz incidiu sobre aquilo que ele procurava: uma caixa retangular escura, com cantoneiras de latão e uma alça de latão que se fechava na tampa.
Colwyn retirou o estojo da reentrância em que estava colocado e levou-o para a mesa de bagatela. Um breve exame da fechadura convenceu-o de que era complicada e forte demais para ser forçada ou quebrada. Era curiosamente trabalhada em latão, com um padrão antigo e intrincado que teria deixado perplexo qualquer chaveiro moderno. Ele virou o estojo e viu que o fundo fora encaixado e aparafusado. Os parafusos estavam profundamente escareados e incrustados de ferrugem, mas alguns estavam frouxos devido à idade. Colwyn desaparafusou esses frouxos com seu canivete e, então, começou a soltar os outros.
Foi uma tarefa tediosa, mas Colwyn aliviou-a com a ajuda de uma garrafa de óleo para armas que encontrou em um dos armários. Alguns dos parafusos cederam imediatamente àquela influência suave e saíram facilmente. Outros permaneceram presos, da maneira intratável dos parafusos enferrujados, mas Colwyn perseverou e, à força de lubrificação, insistência e desaparafusamento, finalmente teve a satisfação de ver todos os parafusos deitados em uma pequena pilha marrom e gordurosa sobre o pano verde desbotado da mesa de bagatela. A próxima coisa a fazer era alavancar o fundo da tampa. Não foi difícil, porque a cola nos encaixes há muito se perdera. Logo, o fundo estava sobre a mesa ao lado dos parafusos, e o interior do estojo revelado.
O par de armas que Colwyn retirou do estojo eram pistolas de cavalaria de um período em que os habitantes do campo temiam viajar para fora sem alguma proteção contra salteadores de estrada. Eram espécimes superiores de seu tipo. Eram belamente feitas, ricas em design e sólidas em forma, com coronhas de ébano e montagens de prata cinzelada. Os longos canos eram damascenados, e os cabos esculpidos terminavam em coronhas de aço planas que teriam rachado o crânio de qualquer salteador se o tiro falhasse. Como Colwyn antecipara, as pistolas eram de carregar pela boca. O cão, que ficava bem inclinado, tinha a forma curiosa de uma serpente retorcida. Quando o gatilho era puxado, a cabeça da serpente caía sobre a espoleta.
Colwyn examinou-as cuidadosamente. Primeiro, certificou-se de que estavam descarregadas, sondando-as com a vareta de limpeza que estava presa a cada uma por uma dobradiça de aço. Depois, passou o dedo pelo interior dos canos para verificar se alguma das pistolas fora disparada recentemente. Uma estava limpa, mas do cano da outra ele retirou um dedo sujo de pólvora. Enquanto fazia isso, sua outra mão entrou em contato com algo ligeiramente irregular na superfície metálica lisa da coronha. Ele virou a pistola e notou um pequeno círculo interno no aço plano. Era uma pequena tampa articulada que escondia um compartimento no cabo. Ele levantou a pequena tampa com a unha e uma chuva de espoletas caiu sobre a mesa de bagatela. Este dispositivo para guardar espoletas não era novo para Colwyn. Ele o vira em outras armas antigas de carregar pela boca.
Colwyn comparou as espoletas que caíram na mesa com a que encontrara no andar de cima. Eram do mesmo tamanho. Ele experimentou a espoleta solitária na espoleta da arma e descobriu que se encaixava perfeitamente. Ao fazer isso, viu algo semelhante a um fio de lã amarela preso no aço retorcido do cão. Era um fragmento minúsculo, tão pequeno que quase não era perceptível. Colwyn foi totalmente incapaz de determinar o que era, mas sua presença ali o deixou bastante perplexo, e ele não conseguia entender como fora parar preso no cão da pistola. Ocorreu-lhe que o fio poderia ser cáqui, e sua mente voltou à sua descoberta anterior do pedaço de cáqui na floresta fora da casa do fosso.
Foi com a esperança de descobrir se essa pistola fora usada recentemente que Colwyn voltou sua atenção para o interior forrado de veludo do estojo. O interior era dividido em um compartimento grande para as pistolas e vários espaços pequenos com tampa. Em um deles, encontrou chumbo, uma caixa de espoletas e uma polvorinha meio cheia de pólvora comum. Outro espaço continha utensílios para a limpeza das pistolas. O conteúdo do próximo compartimento o deixou perplexo. Havia alguns pedaços de corda com nós e uma bobina de tecido tubular amarelo, com a espessura de seu dedo mínimo, com alguns centímetros de comprimento. Colwyn reconheceu imediatamente. Era o pavio de um isqueiro de pavio, então vendido aos milhares por tabacarias inglesas para substituir a escassez de fósforos do tempo de guerra, e muito usado por fumantes de cigarro.
O mistério da presença do pavio no estojo da pistola não foi diminuído pelo fato de permitir que Colwyn identificasse o minúsculo fragmento amarelo que aderia ao cão da pistola. Ele pegou o pavio e observou que uma extremidade estava cortada de forma limpa, mas a outra estava enegrecida e queimada. Com essa descoberta, entrou em sua mente o primeiro aviso premonitório da possibilidade de algum plano profundo no qual a pistola e o pavio desempenhavam papéis importantes. Com seu cérebro buscando uma solução para essa possibilidade, ele começou a examinar os pedaços de corda.
Eram pedaços ímpares de barbante grosso comum, mas todos pareciam consistir em pontas soltas que haviam sido amarradas. Não foi até que Colwyn os tirou do compartimento que notou uma peculiaridade surpreendente sobre eles. Cada pedaço de corda com nós estava queimado em ambas as extremidades.
Existem algumas descobertas que surgem na mente com uma rapidez avassaladora. Esta era uma delas. Uma revelação pareceu vir a Colwyn como uma luz do céu à meia-noite, que expõe tudo em um flash terrível.
"Será possível?"
Ele sentiu como se essas palavras tivessem corrido dele como um estrondo de trovão reverberando pelo espaço vazio ao seu redor. Mas seus lábios tensos não haviam emitido um único som. Com os nervos formigando, ele procedeu a realizar um experimento. Primeiro, colocou o pavio do isqueiro ao longo da coronha da pistola, logo atrás do cão. Em seguida, pegou um dos pedaços de corda e, puxando para trás o cão e o gatilho da pistola, procedeu a amarrar ambos firmemente com a corda, que ele passou duas vezes ao redor do pavio. Quando amarrou a corda com força, acendeu um fósforo e aplicou-o na extremidade do pavio que estava mais distante da corda. Sua ideia era ver se esse pavio improvisado rastejaria ao longo da coronha da pistola, queimaria a corda e liberaria o cão e o gatilho presos.
O pavio ardeu e brilhou, e começou a rastejar em direção à corda, que cruzava a coronha da pistola a cerca de sete centímetros da extremidade queimada. Colwyn tirou o relógio e cronometrou seu progresso. Em quatro minutos, a primeira polegada do pavio foi consumida, e a centelha na extremidade continuou a rastejar sombriamente para frente em um brilho vermelho opaco. Em mais oito minutos, chegou à corda, e Colwyn observou ansiosamente o processo de queima da amarração. A corda chamuscou, ardeu e, quando quase cortada, separou-se sob a pressão do cão e do gatilho que estava segurando. O cão liberado caiu com força total sobre a espoleta e detonou-a.
Ali, então, parecia estar a explicação. A Sra. Heredith fora baleada com o revólver de Nepcote, mas não foi o som deliberadamente abafado daquela arma leve que assustou os convidados na sala de jantar na noite do assassinato. O estrondo que tinham ouvido fora feito pela pistola mais pesada à sua frente. Era um estratagema de uma simplicidade aterrorizante, mas de uma engenhosidade diabólica. O pavio do isqueiro era um excelente pavio de retardo, obtenível em qualquer tabacaria por alguns centavos, que, por meio desse truque, estabelecera um álibi falso para o verdadeiro assassino, causando o estrondo que chegara à sala de jantar e fizera os ocupantes subirem apressados para verificar a causa. O tiro que ferira mortalmente a Sra. Heredith devia ter sido disparado antes.
Quanto tempo antes? Obviamente não muito tempo. Isso teria sido perigoso para os planos do assassino. Ele tinha que considerar duas coisas. Havia a chance de alguém entrar no quarto antes que a carga falsa explodisse, e a possibilidade de que o resfriamento do corpo de sua vítima pudesse despertar suspeitas médicas. Colwyn não achava que o criminoso tivesse evitado matar a Sra. Heredith para garantir o risco de descoberta. A infligência de um ferimento mortal que não causou a morte imediata não apenas exigia um alto grau de conhecimento anatômico, mas deixava a porta aberta para uma confissão moribunda que poderia ter arruinado todo o plano. O destino ajudara o assassino até aquele ponto.
Mas o assassino devia mais do que isso ao Destino. Foi a essa deusa sombria que ele deveu o último toque maravilhoso de realidade que elevou todo o artifício tão soberbamente acima do reino da artimanha. A suspeita era, em última análise, improvável de qualquer maneira, mas a entrada de Hazel Rath e seu grito alto, logo antes do momento marcado para a explosão, garantiram o sucesso completo ao adicionar uma verossimilhança natural que poderia ter enganado o próprio Espírito da Verdade. Colwyn considerou-se afortunado por ter encontrado o que acreditava ser os fatos. Quem poderia ter imaginado uma situação na qual o Destino caprichoso ironicamente se rebaixara de seu lugar elevado para se envolver ignobilmente no plano macabro de um assassino?
O único ponto que perplexava Colwyn era o sucesso do esconderijo da pistola na noite do assassinato. Essa parte do plano era tão essencial para o assassino quanto o estrondo falso, mas parecia estranho que a pistola não tivesse sido descoberta quando o quarto foi revistado. Um exame da grade no andar de cima poderia revelar o motivo.
Antes de deixar a sala de armas, Colwyn substituiu uma das pistolas e restaurou o estojo como o encontrara em sua posição original. Ele levou consigo a pistola que fora usada.
Quando chegou ao quarto no andar de cima, trancou a porta antes de prosseguir para examinar a lareira. Ficou imediatamente aparente para ele que a pistola não fora colocada na grade ou sob ela. Qualquer um dos lugares teria significado a descoberta quando o quarto foi revistado. Foi um exame cuidadoso da parte superior da grade que sugeriu o esconderijo. A arma poderia ter sido escondida com segurança dentro da ampla flange de ferro que corria ao redor do registro aberto da grade.
A revelação completa dessa parte do projeto do assassino veio a Colwyn enquanto ele passava a mão sobre a superfície interna dessa borda. Era uma grade de registro, e o espaço na parte de trás não fora preenchido. O assassino, ao esconder a pistola no topo da grade, só precisou equilibrá-la cuidadosamente na flange, com o cano apontando para o quarto, para garantir que o recuo do disparo fizesse com que a arma caísse no buraco profundo entre a parte de trás da grade e a chaminé.
Essa prova adicional da inteligência pervertida do assassino impressionou Colwyn tanto quanto o mecanismo para o estrondo falso. A pistola, recuando cegamente e pulando atrás da grade após a explosão da carga de festim, estava quase tão efetivamente escondida quanto no fundo do mar, e poderia ter permanecido lá por anos sem descoberta. Colwyn mergulhou o braço no buraco, mas não conseguiu alcançar o fundo.
Mas o assassino tinha mais em mente do que o esconderijo efetivo da pistola, por mais importante que isso fosse para ele. A grade era uma excelente escolha por dois outros motivos. Ela levava o leve vapor do pavio para cima, pela chaminé, e o interior de ferro convexo formava uma excelente caixa de ressonância que aumentaria o som do disparo. Verdadeiramente, o ser sombrio que planejara tudo não deixara nada ao acaso. Ele previra tudo. Seu trabalho ostentava o selo de um gênio profano.
"Tudo correu exatamente como planejei. O disparo automático soou enquanto eu estava no jantar, exatamente como ele deveria, criando o meu álibi perfeito. Mas o grito de Hazel Rath... ah, aquele grito inesperado quase arruinou tudo! Foi um golpe de sorte que ela tenha fugido sem ser vista. Eu já estava pronto para a minha vingança, para o momento em que, na confusão, eu pudesse ver Nepcote cair em desgraça, acusado do assassinato de Violet, e arrastado para a forca. Eu esperava que ele fosse o homem a entrar no quarto, mas ele nunca apareceu, e o meu plano, embora genial, desmoronou sob o peso de um detalhe que eu não pude prever. Eu não contava com uma testemunha ocular, e muito menos com o fato de que a mão de Violet, em sua agonia, a tocaria."
Ele parou de falar, o peito subindo e descendo com violência. O silêncio na sala era absoluto, interrompido apenas pelo estalar de um carvão no braseiro. Musard, pálido como um cadáver, mantinha os olhos fixos em Phil com uma expressão de horror paralisante. Colwyn, de pé junto à janela, mantinha sua postura imperturbável, o rosto esculpido em uma máscara de severa justiça.
"Você destruiu a si mesmo," disse Colwyn, com uma voz desprovida de qualquer emoção. "O seu segundo engenho, aquele que você preparou para encerrar esta tragédia, foi o que o denunciou. Ao disparar o tiro aqui, agora, você apenas confirmou o que eu já sabia ser a verdade absoluta."
Phil soltou uma risada seca e sem alegria, um som que parecia rasgar o ar pesado do aposento. "Eu sabia que você estava perto, Colwyn. Eu sentia o cerco se fechando. Mas eu não podia deixar que a história terminasse sem que eu tivesse a última palavra. Eu não queria ser preso como um criminoso comum, levado em algemas por homens sem rosto."
Ele caminhou até a mesa e serviu-se de um copo de conhaque, com as mãos firmes, apesar da palidez mortal de seu semblante. "Minha honra foi manchada, minha vida foi arruinada. A vingança foi o único bálsamo que encontrei. E, a julgar pelo seu olhar, eu diria que a minha missão foi, em parte, um sucesso amargo."
"A justiça seguirá o seu curso," respondeu o detetive, aproximando-se lentamente da mesa. "Não há mais nada a ser dito aqui."
Musard finalmente encontrou forças para falar, sua voz saindo como um sussurro rouco. "Phil, meu rapaz, o que você fez? Por que não me contou? Por que não buscou auxílio antes de chegar a esse ponto?"
Phil olhou para ele com um sorriso de escárnio que não alcançava seus olhos. "Porque, Musard, a vingança é um banquete que se deve saborear sozinho. E eu o saboreei até a última gota."
O detetive fez um sinal para a porta, onde Tufnell, atraído pelo estampido, permanecia em um estado de choque silencioso. O ciclo estava fechado. A verdade, por tanto tempo oculta sob os véus da astúcia e da desventura, estava finalmente exposta sob a luz fria da realidade. Não havia mais enigmas, apenas a inevitabilidade das consequências.
"Na noite em que minha tia perguntou a Violet sobre o colar, suspeitei que ele já não estivesse mais em sua posse. Adivinhei isso por suas respostas evasivas e por seu rosto revelador. Quando ela saiu da sala e subiu as escadas, rastejei atrás dela nas sombras e segui-a até a porta do quarto de Nepcote. Escutei a conversa deles; ouvi ele prometer a ela que retornaria secretamente à moat-house na noite seguinte com o colar. Meu coração saltou enquanto eu ouvia. Acreditei que o tinha em minhas mãos.
"Escapuli silenciosamente sem esperar para saber mais, mas fiquei acordado até altas horas da noite preparando meus planos finais. Minha intenção era atirar nela pouco antes do jantar, e providenciar para que a falsa detonação explodisse depois que ele tivesse chegado e se escondido na escadaria antiga, esperando por ela. Então, quando o estampido assustasse a todos na sala de jantar, eu pretendia ser o primeiro a correr para cima e liderar a busca na direção da escadaria antiga. Eu o teria pela garganta antes que ele tivesse tempo de escapar. Como ele seria capaz de explicar sua presença secreta na casa quando as joias dela estivessem em seu bolso e o corpo morto dela lá em cima, perto de onde ele estava escondido?
"Eu pretendia matar Violet com um pequeno revólver que comprei em uma loja de usados em Londres no inverno passado, mas o descuido de Nepcote ao deixar seu próprio revólver na sala de armas deu o toque final ao meu plano. Mal pude acreditar na minha sorte quando o encontrei. Parecia que ele mesmo estava jogando a meu favor. Escondi-o, esperando que houvesse inquéritos, mas não houve nenhum. Ele havia se esquecido completamente dele. Foi estranho, também, que a própria Violet ajudou ao dizer à minha tia, antes do jantar na noite de sua suposta doença, que não desejava ser perturbada por ninguém. Isso removeu um defeito em meus preparativos que me causara muita preocupação. Eu temia que alguém, provavelmente um criado, pudesse entrar no quarto no período entre a primeira e a segunda detonações. Era um risco que eu não podia me dar ao luxo de ignorar, e não via como evitá-lo a não ser trancando a porta, o que eu não queria fazer. Eu queria deixar a porta parcialmente aberta para garantir que o segundo estampido penetrasse na sala de jantar lá embaixo.
"Quando minha tia me deu o recado de Violet na biblioteca, pouco antes do jantar, eu soube que o momento havia chegado. As mudanças nos preparativos para um jantar mais cedo me causaram um momento de perplexidade, mas nada mais. Não se pode apressar os próprios convidados, e eu sabia que seria impossível terminar o jantar tão rapidamente quanto minha tia previa. Se estivesse terminando rápido demais para o meu propósito, seria fácil introduzir um assunto que faria alguém falar. Isso, como você sabe, foi o que realmente aconteceu.
"Depois que minha tia me deixou, esperei até o último momento possível antes de subir furtivamente. O revólver e a pistola estavam trancados em meu próprio quarto, prontos. Eu os peguei. A pistola estava completamente preparada, exceto pela espoleta. Eu havia amarrado um pavio de doze polegadas ao cão para permitir um atraso de quase cinquenta minutos entre o acendimento e o estampido. Eu sabia que Nepcote esperava chegar à moat-house às sete e meia, no mais tardar, mas dei-lhe uma margem de alguns minutos para atrasos inesperados. Coloquei a pistola no bolso e, embrulhando o revólver em um cachecol de seda para abafar o som, fui rapidamente para o quarto de minha esposa. Fechei a porta atrás de mim ao entrar.
"Ela estava deitada na cama com os olhos fechados e não me ouviu aproximar. Isso me ajudou. Você consegue entender meus sentimentos? Eu estava prestes a destruir algo que amava mais do que a própria vida, mas não era ela quem estava deitada na cama. Ela havia morrido antes — morrido por seu próprio ato — deixando para trás outra mulher cuja vida era uma mentira viva, que era tão corrupta e inútil a ponto de não ser digna de viver. Era isso que eu iria destruir. Não senti remorso — nem arrependimento. Ao colocar o cano do revólver contra seu peito, ela abriu os olhos em terror e me viu. Puxei o gatilho rapidamente.... Enquanto o fazia, ouvi o gongo do jantar soar lá embaixo.
"O estampido abafado fez menos barulho do que o bater de um par de mãos. Eu sabia que aquele som fraco não seria ouvido lá embaixo. Ela nunca se moveu, e pensei que estivesse morta. Inclinei-me sobre a lareira, sacudi algumas espoletas da culatra da pistola e coloquei uma na chaminé. Então, acendi um fósforo e iniciei meu fusível preparado. Foi fácil colocar a pistola na posição no topo da grade; a dificuldade de recuperá-la posteriormente não se tornou evidente para mim até depois da minha doença, embora meu exame secreto anterior da grade tivesse me convencido de que o recuo da explosão faria com que a pistola caísse no fundo da chaminé atrás da grade. Quando coloquei a pistola na posição, apaguei a luz elétrica e abri a janela para permitir que os vapores do pavio queimado escapassem. Então, apressei-me para descer. Não fiquei no quarto nem três minutos no total. Não vi ninguém no caminho; quase todos tinham ido jantar, mas cheguei a tempo de me sentar com os outros.
"Senti-me bastante frio e controlado enquanto me sentava à mesa de jantar, esperando pelo momento da minha vingança. Sentia como se estivesse sob o controle de alguma força imensamente mais forte do que eu, que me mantinha firme com mãos gigantes enquanto os minutos passavam lentamente. Tenho certeza de que não havia nada de incomum em meu comportamento. Fingi comer e participei da conversa ao meu redor.
"O estampido não veio no momento que eu esperava, mas não fiquei perturbado com o atraso. Meus experimentos haviam me ensinado a dificuldade de fixar uma explosão em um período exato. O tempo era, em geral, aproximadamente o mesmo, mas havia razões que causavam uma leve diferença. O pavio sempre queimava a uma taxa uniforme; o problema era com o barbante. Às vezes, demorava a pegar. Às vezes, a pressão do barbante extinguia parcialmente o pavio e tornava a combustão mais lenta à medida que se aproximava do ponto de contato. Uma vez, amarrei o barbante tão apertado que o pavio se apagou completamente pouco antes de chegar ao barbante. Mas eu havia tomado medidas para superar essas pequenas irregularidades e, para garantir que o barbante pegasse prontamente, esfreguei um pouco de gasolina nele onde cruzava o pavio.
"Mas foi o grito antes do estampido que perturbou meus cálculos e quase me fez desmoronar. Quando aquele grito terrível ecoou, minha falsa força fugiu de mim, deixando-me fraco e trêmulo. Acho que teria me traído se o estampido não tivesse ocorrido tão rapidamente, lançando todos no mesmo estado de confusão que eu. Não sei como consegui fazer com que minhas pernas me levassem escada acima com os outros. Eu não sabia o que tinha acontecido. Meu cérebro se recusava a agir. Eu não estava consciente de nada, exceto que uma grande roda parecia girar dentro da minha cabeça, apertando todos os meus nervos a tal agonia que eu mal conseguia me conter de gritar em voz alta.
"O que eu disse ou fiz quando me encontrei no quarto, não sei. Quando vi que tudo estava como eu havia arranjado, minha mente começou a oscilar como um pêndulo em direção à minha vingança, e lutei para conduzir a busca em direção à escadaria. Mas eu estava incapaz de me mover. Eu era como um homem em um sonho, cercado por obstáculos invisíveis. Então, a roda em minha cabeça relaxou de repente, senti o quarto e seus objetos escaparem de mim, e tudo ficou escuro.
"Você sabe sobre minha doença. Não foi até que eu fosse considerado em recuperação que o poder de pensar claramente voltou a mim. Houve dias em que meu cérebro estava entorpecido e impotente, como o de alguém recém-despertado de um pesadelo terrível, esforçando-se para lembrar o que havia acontecido. Então, um dia, o véu foi retirado e me lembrei de tudo. Minha tia estava no quarto, e eu a interroguei. Ela trouxe Musard até mim, e dele soube a verdade.
"Intuitivamente, percebi o que havia acontecido. Hazel Rath tinha ido ao quarto por algum motivo desconhecido, viu minha esposa deitada lá e gritou. Então, mal consciente do que estava fazendo, ela pegou o revólver que deixei ao lado da cama e correu para fora do quarto em pânico. Fui até capaz de adivinhar um motivo para seu silêncio sob a acusação de assassinato. Ela sentiu que ninguém acreditaria em sua história, especialmente depois que a história do passado de sua mãe foi trazida à luz.
"Enquanto eu ponderava sobre o que me haviam contado e percebia que meu próprio segredo estava a salvo, pensei ver o caminho para realizar minha vingança e salvar Hazel Rath. Até então, o revólver não tinha sido identificado como sendo de Nepcote. Parecia-me que a mera revelação desse fato era suficiente para direcionar a atenção para Nepcote e trazer à luz seus movimentos naquela noite. Mas o detetive que veio me ver sobre o revólver era tolo e obstinado demais para compreender a importância da minha informação. Foi então que decidi ir até você. Foi ousado, talvez, mas parecia seguro o suficiente para mim. Eu estava determinado a enredar Nepcote e libertar Hazel Rath.
"Não lhe disse nada mais do que havia dito ao outro detetive. Eu tinha motivos poderosos para a discrição. Se eu tivesse lhe contado mais, você teria visto que eu tinha uma razão ulterior para direcionar a atenção para Nepcote. Eu não tinha o menor medo de que você descobrisse meu segredo, mas o conhecimento, se transmitido a você, teria enfraquecido a impressão que eu queria causar ao sugerir à sua mente que eu era movido pelo ódio a Nepcote. Além disso, não queria que nenhum ser vivo soubesse da minha vergonha. Acreditava que poderia realizar minha vingança sem que ela fosse jamais conhecida. Pensei que Nepcote preferiria perecer como vítima das circunstâncias a incorrer em opróbrio público por uma defesa que ele sabia que nunca seria acreditada. Os fatos reais contra ele eram fortes demais. Ele não podia atenuar nem negar. Ele não podia explicar seus telegramas mentirosos, seu retorno secreto, sua presença na moat-house, sua posse do colar, o revólver no quarto onde estava o corpo. Portanto, era apenas necessário lhe dar um ponto de partida, porque a descoberta era inevitável onde tanto estava escondido. Providenciei para que a perda do colar fosse descoberta após a sua chegada. Isso era tudo o que você precisava saber.
"Não sei qual descuido meu o colocou no caminho da verdade. Houve um, mas não vejo como isso poderia tê-lo ajudado. Foi apenas na tarde seguinte, na sala de armas, quando Musard chamou sua atenção para a caixa de pistola, que me lembrei de que a pistola que usei ainda estava no fundo da lareira lá em cima, onde aparentemente jazia sem ser descoberta durante minha doença. Tomei a precaução de esconder a chave da caixa, mas decidi devolver a pistola naquela noite, depois que você partiu. Foi mais difícil de recuperar do que eu previa, devido à profundidade do espaço atrás da grade. Tive que empurrar a cama e usar as tenazes antes de conseguir alcançá-la. Acredito que ela teria ficado lá sem ser descoberta por anos. Não havia mais nada que eu pudesse recordar, exceto que, quando devolvi a pistola, vi que havia deixado a ponta de um dos meus pavios de isqueiro experimentais na caixa.
"Mas não desejo saber como você descobriu, agora que Nepcote escapou. Não me resta nada pelo que viver. O médico acha que estou me recuperando, mas eu sabia que era apenas a esperança de vingança que me mantinha vivo. Agora que ela se foi, não tenho muito tempo de vida. Regozijo-me por ser assim. Mas, aconteça o que acontecer, eu teria salvo aquela pobre garota, Hazel Rath.... Peço que acredite... Violet...."
Ele cessou e, com um gesto cansado, deixou a cabeça cair sobre os braços estendidos, como se a força que o sustentava enquanto contava sua história o abandonasse quando ele tornara manifesta a verdade.
Seus dois ouvintes ficaram sentados por alguns minutos em silêncio, cada um absorto em seus próprios pensamentos. Musard encarava Phil sombriamente, com olhos que não viam. Ele estava como alguém que passara por horrores inimagináveis em um espaço não mensurável pelo tempo, para emergir com uma sensação fatigada da malignidade negra de deuses desconhecidos que criam as paixões da humanidade para seu próprio esporte brutal. Seus lábios trêmulos traíam uma consciência solta de suas amarras, lançada em um mar turbulento de desastre. Então, formaram as palavras sussurradas:
"A casa foi fundada no horror e termina no horror. Assim, a velha tradição se torna realidade."
No momento seguinte, ele voltou os olhos para Colwyn com um olhar de soslaio, como se visse nele o instrumento dessa miséria.
"Por que Hazel Rath manteve silêncio?" ele perguntou.
"Mulheres fizeram sacrifícios maiores por amor", respondeu Colwyn gentilmente. "Hazel Rath o amava e manteve silêncio para protegê-lo. Ela não teria falado nada se a suspeita não tivesse recaído sobre Nepcote, e mesmo quando ela falou, guardou algo para si. Podemos aprender mais tarde o que realmente passou entre Hazel e a Sra. Heredith no quarto naquela noite. Minha própria opinião é que, enquanto Hazel se inclinava sobre ela, a mulher moribunda sussurrou o nome de seu assassino."
"O que você vai fazer agora?" Musard perguntou abruptamente, em uma mudança repentina de humor, falando como se não houvesse ninguém presente além dos dois.
"Só há uma coisa a fazer."
"Você quer dizer deixar o mundo saber a verdade — entregá-lo à justiça?"
"Que outro curso está aberto para eu seguir?" disse Colwyn tristemente.
"Não consigo ver que propósito terreno será alcançado ao tornar pública esta história horrível. Considere, eu lhe imploro, todas as circunstâncias antes de infligir essa dor terrível e escândalo a uma família honrada."
"É porque tenho de considerar todas as circunstâncias que não tenho opção."
"Não há outro caminho?" persistiu Musard. "Ele é louco. Ele deve ter sido possuído. Você ouviu sua história; suas alucinações eram as de uma pessoa insana. Ele teve alguma justificativa. Ele nunca teria cometido este ato terrível por livre vontade."
Colwyn não respondeu. Era inútil apontar que não existe algo como livre-arbítrio nos assuntos humanos, e que se Philip Heredith tivesse sido impelido ao seu crime pela força maligna de paixões que eram mais fortes do que o poder restritivo da razão humana, ele deve pagar o preço total exigido pela humanidade pela única salvaguarda de sua supremacia.
Houve o som de uma porta se abrindo e passos lá fora, e uma voz chamou:
"Phil! Vincent! Onde vocês estão?"
"Eles voltaram!" Musard exclamou excitado. "O que devemos dizer a eles?"
"Não posso dizer", respondeu Colwyn, lançando um olhar sombrio à figura caída e imóvel de Phil.
Havia algo de novo em sua postura — uma rigidez absoluta que prendeu seu olhar. Ele caminhou rapidamente para o seu lado e inclinou-se sobre ele.
"Ele está morto", disse ele.
"Morto? Meu Deus! Impossível!"
"É a mais pura verdade. É melhor assim."
"Vincent!" A voz da Srta. Heredith soou não muito longe.
"Ela está vindo para cá. Rápido, o que devo dizer a ela?"
"Não posso lhe dizer", respondeu Colwyn, com outro olhar para a forma imóvel. "Foi ele quem me chamou para resolver este mistério, e fiz o que ele pediu. Deixarei que você diga a ela o que quiser, mas não posso manter silêncio depois disso quando a liberdade de pessoas inocentes está em jogo. A justiça é tão impessoal quanto a própria Verdade."
"Vincent!" Desta vez, a voz soou logo fora da porta.
"Devo impedi-la — ela não deve entrar aqui", disse Musard, levantando-se.
Mas ele chegou tarde demais. A porta se abriu e a Srta. Heredith estava no umbral.
Seus olhos assustados captaram o rosto agitado de Musard e, em seguida, voltaram-se para a atitude caída da figura à mesa. Ela passou rapidamente pelos dois homens e inclinou-se sobre o sobrinho. Ao fazê-lo, ela soluçou alto. Toda a piedade e o patos de uma mulher, toda a miséria e mistério de um coração partido, brotaram em seu grito fraco e lúgubre.
"Isso vai matá-la", disse Musard ferozmente.
Mas Colwyn sentiu que não seria assim. Ao sair do quarto, deixando os vivos e os mortos juntos, ele sabia que, quando a primeira amargura do choque passasse e ela se deparasse novamente com a consciência do dever, ela invocaria sua fé constante para ajudá-la a vestir, sem vacilar, a pesada veste cinzenta da vida.
O FIM