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The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, Or Gustavus Vassa, The African: Written By Himself

by Olaudah Equiano · in Portuguese

A

NARRATIVA INTERESSANTE

DA

VIDA

DE

OLAUDAH EQUIANO,

OU

GUSTAVUS VASSA,

O AFRICANO.

ESCRITA POR ELE MESMO.

_Eis que Deus é a minha salvação; terei confiança e não temerei, pois o Senhor Jeová é a minha força e o meu cântico; ele também se tornou a minha salvação. E direis naquele dia: Louvai ao Senhor, invocai o seu nome, declarai os seus feitos entre os povos. Isaías xii. 2, 4._

LONDRES:

Impresso para e vendido pelo Autor, n.º 10, Union-Street, Middlesex Hospital

Vendido também pelo Sr. Johnson, St. Paul's Church-Yard; Sr. Murray, Fleet-Street; Srs. Robson e Clark, Bond-Street; Sr. Davis, em frente a Gray's Inn, Holborn; Srs. Shepperson e Reynolds, e Sr. Jackson, Oxford Street; Sr. Lackington, Chiswell-Street; Sr. Mathews, Strand; Sr. Murray, Prince's-Street, Soho; Srs. Taylor e Co. South Arch, Royal Exchange; Sr. Button, Newington-Causeway; Sr. Parsons, Paternoster-Row; e pode ser obtido em todos os livreiros da Cidade e do Campo.

[Registado no Stationer's Hall.]

Aos Lordes Espirituais e Temporais, e aos Comuns do Parlamento da Grã-Bretanha.

Meus Lordes e Senhores,

Permitam-me, com a maior deferência e respeito, depositar a vossos pés a seguinte Narrativa genuína; cujo desígnio principal é suscitar em vossas augustas assembleias um sentimento de compaixão pelas misérias que o Tráfico de Escravos acarretou aos meus infelizes compatriotas. Pelos horrores desse tráfico fui eu primeiramente arrancado a todas as ternas conexões que eram naturalmente caras ao meu coração; mas estas, pelos caminhos misteriosos da Providência, devo considerar como infinitamente mais do que compensadas pela introdução que daí obtive ao conhecimento da religião cristã, e de uma nação que, pelos seus sentimentos liberais, pela sua humanidade, pela gloriosa liberdade do seu governo e pela sua proficiência nas artes e ciências, exaltou a dignidade da natureza humana.

Estou ciente de que devo implorar o vosso perdão por vos endereçar uma obra tão inteiramente desprovida de mérito literário; mas, como a produção de um africano iletrado, movido pela esperança de se tornar um instrumento para o alívio dos seus compatriotas sofredores, confio que tal homem, pleiteando por tal causa, será absolvido de ousadia e presunção.

Que o Deus do céu inspire os vossos corações com benevolência peculiar naquele dia importante em que a questão da Abolição será discutida, quando milhares, em consequência da vossa Determinação, hão de aguardar Felicidade ou Miséria!

Sou, Meus Lordes e Senhores, Vosso muito obediente, E devotado humilde Servo, Olaudah Equiano, ou Gustavus Vassa.

Union-Street, Mary-le-bone, 24 de março de 1789.

LISTA de SUBSCRITORES.

Sua Alteza Real o Príncipe de Gales. Sua Alteza Real o Duque de York.

A

O Honorabilíssimo Conde de Ailesbury Almirante Affleck Sr. William Abington, 2 exemplares Sr. John Abraham James Adair, Esq. Reverendo Sr. Aldridge Sr. John Almon Sra. Arnot Sr. Joseph Armitage Sr. Joseph Ashpinshaw Sr. Samuel Atkins Sr. John Atwood Sr. Thomas Atwood Sr. Ashwell J.C. Ashworth, Esq.

B

Sua Graça o Duque de Bedford Sua Graça a Duquesa de Buccleugh O Reverendíssimo Senhor Bispo de Bangor O Honorabilíssimo Lorde Belgrave O Reverendo Doutor Baker Sra. Baker Matthew Baillie, M.D. Sra. Baillie Srta. Baillie Srta. J. Baillie David Barclay, Esq. Sr. Robert Barrett Sr. William Barrett Sr. John Barnes Sr. John Basnett Sr. Bateman Sra. Baynes, 2 exemplares Sr. Thomas Bellamy Sr. J. Benjafield Sr. William Bennett Sr. Bensley Sr. Samuel Benson Sra. Benton Reverendo Sr. Bentley Sr. Thomas Bently Sir John Berney, Bart. Alexander Blair, Esq. James Bocock, Esq. Sra. Bond Srta. Bond Sra. Borckhardt Sra. E. Bouverie ---- Brand, Esq. Sr. Martin Brander F.J. Brown, Esq. M.P. 2 exemplares W. Buttall, Esq. Sr. Buxton Sr. R.L.B. Sr. Thomas Burton, 6 exemplares Sr. W. Button

C

O Honorabilíssimo Lorde Cathcart O Honorabilíssimo H.S. Conway Lady Almiria Carpenter James Carr, Esq. Charles Carter, Esq. Sr. James Chalmers Capitão John Clarkson, da Marinha Real O Reverendo Sr. Thomas Clarkson, 2 exemplares Sr. R. Clay Sr. William Clout Sr. George Club Sr. John Cobb Srta. Calwell Sr. Thomas Cooper Richard Cosway, Esq. Sr. James Coxe Sr. J.C. Sr. Croucher Sr. Cruickshanks Ottobah Cugoano, ou John Stewart

D

O Honorabilíssimo Conde de Dartmouth O Honorabilíssimo Conde de Derby Sir William Dolben, Bart. O Reverendo C.E. De Coetlogon John Delamain, Esq. Sra. Delamain Sr. Davis Sr. William Denton Sr. T. Dickie Sr. William Dickson Sr. Charles Duly, 2 exemplares Andrew Drummond, Esq. Sr. George Durant

E

O Honorabilíssimo Conde de Essex A Honorabilíssima Condessa de Essex Sir Gilbert Elliot, Bart. 2 exemplares Lady Ann Erskine G. Noel Edwards, Esq. M.P. 2 exemplares Sr. Durs Egg Sr. Ebenezer Evans O Reverendo Sr. John Eyre Sr. William Eyre

F

Sr. George Fallowdown Sr. John Fell F.W. Foster, Esq. O Reverendo Sr. Foster Sr. J. Frith W. Fuller, Esq.

G

O Honorabilíssimo Conde de Gainsborough O Honorabilíssimo Conde de Grosvenor O Honorabilíssimo Visconde Gallway A Honorabilíssima Viscondessa Gallway ---- Gardner, Esq. Sra. Garrick Sr. John Gates Sr. Samuel Gear Sir Philip Gibbes, Bart. 6 exemplares Srta. Gibbes Sr. Edward Gilbert Sr. Jonathan Gillett W.P. Gilliess, Esq. Sra. Gordon Sr. Grange Sr. William Grant Sr. John Grant Sr. R. Greening S. Griffiths John Grove, Esq. Sra. Guerin Reverendo Sr. Gwinep

H

O Honorabilíssimo Conde de Hopetoun O Honorabilíssimo Lorde Hawke Honorabilíssima Condessa Viúva de Huntingdon Thomas Hall, Esq. Sr. Haley Hugh Josiah Hansard, Esq. Sr. Moses Hart Sra. Hawkins Sr. Haysom Sr. Hearne Sr. William Hepburn Sr. J. Hibbert Sr. Jacob Higman Sir Richard Hill, Bart. Reverendo Rowland Hill Srta. Hill Capitão John Hills, Marinha Real Edmund Hill, Esq. O Reverendo Sr. Edward Hoare William Hodges, Esq. O Reverendo Sr. John Holmes, 3 exemplares Sr. Martin Hopkins Sr. Thomas Howell Sr. R. Huntley Sr. J. Hunt Sr. Philip Hurlock, jun. Sr. Hutson

J

Sr. T.W.J. Esq. Sr. James Jackson Sr. John Jackson Reverendo Sr. James Sra. Anne Jennings Sr. Johnson Sra. Johnson Sr. William Jones Thomas Irving, Esq. 2 exemplares Sr. William Justins

K

O Honorabilíssimo Lorde Kinnaird William Kendall, Esq. Sr. William Ketland Sr. Edward King Sr. Thomas Kingston Reverendo Dr. Kippis Sr. William Kitchener Sr. John Knight

L

O Reverendíssimo Senhor Bispo de Londres Sr. John Laisne Sr. Lackington, 6 exemplares Sr. John Lamb Bennet Langton, Esq. Sr. S. Lee Sr. Walter Lewis Sr. J. Lewis Sr. J. Lindsey Sr. T. Litchfield Edward Loveden Loveden, Esq. M.P. Charles Lloyd, Esq. Sr. William Lloyd Sr. J.B. Lucas Sr. James Luken Henry Lyte, Esq. Sra. Lyon

M

Sua Graça o Duque de Marlborough Sua Graça o Duque de Montague O Honorabilíssimo Lorde Mulgrave Sir Herbert Mackworth, Bart. Sir Charles Middleton, Bart. Lady Middleton Sr. Thomas Macklane Sr. George Markett James Martin, Esq. M.P. Mestre Martin, Hayes-Grove, Kent Sr. William Massey Sr. Joseph Massingham John McIntosh, Esq. Paul Le Mesurier, Esq. M.P. Sr. James Mewburn Sr. N. Middleton, T. Mitchell, Esq. Sra. Montague, 2 exemplares Srta. Hannah More Sr. George Morrison Thomas Morris, Esq. Srta. Morris Morris Morgann, Esq.

N

Sua Graça o Duque de Northumberland Capitão Nurse

O

Edward Ogle, Esq. James Ogle, Esq. Robert Oliver, Esq.

P

Sr. D. Parker, Sr. W. Parker, Sr. Richard Packer, jun. Sr. Parsons, 6 exemplares Sr. James Pearse Sr. J. Pearson J. Penn, Esq. George Peters, Esq. Sr. W. Phillips, J. Philips, Esq. Sra. Pickard Sr. Charles Pilgrim O Honorável George Pitt, M.P. Sr. Thomas Pooley Patrick Power, Esq. Sr. Michael Power Joseph Pratt, Esq.

Q

Robert Quarme, Esq.

R

O Honorabilíssimo Lorde Rawdon O Honorabilíssimo Lorde Rivers, 2 exemplares Tenente-General Rainsford Reverendo James Ramsay, 3 exemplares Sr. S. Remnant, jun. Sr. William Richards, 2 exemplares Sr. J.C. Robarts Sr. James Roberts Dr. Robinson Sr. Robinson Sr. C. Robinson George Rose, Esq. M.P. Sr. W. Ross Sr. William Rouse Sr. Walter Row

S

Sua Graça o Duque de St. Albans Sua Graça a Duquesa de St. Albans O Reverendíssimo Senhor Bispo de St. David's O Honorabilíssimo Conde Stanhope, 3 exemplares O Honorabilíssimo Conde de Scarbrough William, filho de Ignatius Sancho Sra. Mary Ann Sandiford Sr. William Sawyer Sr. Thomas Seddon W. Seward, Esq. Reverendo Sr. Thomas Scott Granville Sharp, Esq. 2 exemplares Capitão Sidney Smith, da Marinha Real Coronel Simcoe Sr. John Simco General Smith John Smith, Esq. Sr. George Smith Sr. William Smith Reverendo Sr. Southgate Sr. William Starkey Thomas Steel, Esq. M.P. Sr. Staples Steare Sr. Joseph Stewardson Sr. Henry Stone, jun. 2 exemplares John Symmons, Esq.

T

Henry Thornton, Esq. M.P. Sr. Alexander Thomson, M.D. Reverendo John Till Sr. Samuel Townly Sr. Daniel Trinder Reverendo Sr. C. La Trobe Clement Tudway, Esq. Sra. Twisden

U

Sr. M. Underwood

V

Sr. John Vaughan Sra. Vendt

W

O Honorabilíssimo Conde de Warnick O Reverendíssimo Senhor Bispo de Worcester O Honorável William Windham, Esq. M.P. Sr. C.B. Wadstrom Sr. George Walne Reverendo Sr. Ward Sr. S. Warren Sr. J. Waugh Josiah Wedgwood, Esq. Reverendo Sr. John Wesley Sr. J. Wheble Samuel Whitbread, Esq. M.P. Reverendo Thomas Wigzell Sr. W. Wilson Reverendo Sr. Wills Sr. Thomas Wimsett Sr. William Winchester John Wollaston, Esq. Sr. Charles Wood Sr. Joseph Woods Sr. John Wood J. Wright, Esq.

Y

Sr. Thomas Young Sr. Samuel Yockney

CONTEÚDO

CAP. I.

O relato do autor sobre o seu país, os seus modos e costumes, etc.

CAP. II.

O nascimento e ascendência do autor--O seu rapto com a irmã--Horrores de um navio negreiro

CAP. III.

O autor é levado para a Virgínia--Chega a Inglaterra--O seu espanto perante uma queda de neve

CAP. IV.

Um relato pormenorizado do célebre combate entre o Almirante Boscawen e Monsieur Le Clue

CAP. V.

Vários exemplos interessantes de opressão, crueldade e extorsão

CAP. VI.

Mudança favorável na situação do autor--Ele começa como comerciante com três pence

CAP. VII.

O desgosto do autor com as Índias Ocidentais--Forma planos para obter a sua liberdade

CAP. VIII.

Três sonhos notáveis--O autor naufraga no banco das Bahamas

CAP. IX.

O autor chega a Martinico--Encontra novas dificuldades e parte para a Inglaterra

CAP. X.

Algum relato sobre o modo da conversão do autor à fé em Jesus Cristo

CAP. XI.

O resgate de onze homens miseráveis no mar ao regressar a Inglaterra

CAP. XII.

Diferentes transações da vida do autor--Petição à Rainha--Conclusão

A VIDA, etc.

CAPÍTULO I.

_O relato do autor sobre o seu país e os seus modos e costumes--Administração da justiça--Embrenche--Cerimónia de casamento e entretenimentos públicos--Modo de vida--Vestuário--Manufaturas--Construções--Comércio--Agricultura--Guerra e religião--Superstição dos nativos--Cerimónias fúnebres dos sacerdotes ou mágicos--Curioso modo de descobrir veneno--Algumas notas acerca da origem dos compatriotas do autor, com as opiniões de diferentes escritores sobre esse assunto._

Creio ser difícil para aqueles que publicam as suas próprias memórias escapar à imputação de vaidade; nem é esta a única desvantagem sob a qual labutam: é também o seu infortúnio que aquilo que é pouco comum seja raramente, ou nunca, acreditado, e aquilo que é óbvio tendemos a rejeitar com desgosto, e a acusar o escritor de impertinência. As pessoas geralmente pensam que apenas merecem ser lidas ou recordadas as memórias que abundam em grandes ou notáveis eventos, aquelas, enfim, que em alto grau despertam admiração ou piedade: todas as outras consignam ao desprezo e ao esquecimento. É, portanto, confesso, não pouco arriscado para um indivíduo privado e obscuro, e um estrangeiro ainda por cima, solicitar assim a atenciosa indulgência do público; especialmente quando reconheço oferecer aqui a história de um homem que não é nem santo, nem herói, nem tirano. Creio haver poucos eventos na minha vida que não tenham acontecido a muitos: é verdade que os incidentes dela são numerosos; e, se me considerasse um europeu, poderia dizer que os meus sofrimentos foram grandes: mas quando comparo a minha sorte com a da maioria dos meus compatriotas, considero-me um favorito particular do Céu, e reconheço as misericórdias da Providência em cada ocorrência da minha vida. Se, pois, a narrativa que se segue não parecer suficientemente interessante para atrair a atenção geral, que o meu motivo sirva de desculpa para a sua publicação. Não sou tão tolamente vaidoso a ponto de esperar dela a imortalidade ou reputação literária. Se proporcionar alguma satisfação aos meus numerosos amigos, a cujo pedido foi escrita, ou se promover minimamente os interesses da humanidade, os fins pelos quais foi empreendida serão plenamente alcançados, e cada desejo do meu coração gratificado. Que se recorde, portanto, que, ao desejar evitar a censura, não aspiro ao louvor.

Aquela parte da África, conhecida pelo nome de Guiné, para a qual se efetua o tráfico de escravos, estende-se ao longo da costa por mais de 3400 milhas, desde o Senegal até Angola, e inclui uma variedade de reinos. Dentre estes, o mais considerável é o reino de Benen, tanto em extensão quanto em riqueza, na fertilidade e cultivo do solo, no poder do seu rei, e no número e disposição guerreira dos habitantes. Situa-se quase sob a linha, e estende-se ao longo da costa por cerca de 170 milhas, mas embrenha-se na parte interior da África a uma distância que creio ainda inexplorada por qualquer viajante; e parece apenas terminar finalmente no império da Abissínia, a quase 1500 milhas do seu início. Este reino está dividido em muitas províncias ou distritos: numa das mais remotas e férteis, chamada Eboe, nasci eu, no ano de 1745, num vale encantador e frutífero, denominado Essaka. A distância desta província da capital de Benin e da costa marítima deve ser muito considerável; pois eu nunca tinha ouvido falar de homens brancos ou europeus, nem do mar; e a nossa sujeição ao rei de Benin era pouco mais do que nominal; pois cada transação do governo, na medida em que a minha curta observação alcançava, era conduzida pelos chefes ou anciãos do lugar. Os modos e o governo de um povo que tem pouco comércio com outros países são geralmente muito simples; e a história do que se passa numa família ou aldeia pode servir de espécime de uma nação. O meu pai era um desses anciãos ou chefes de que falei, e era intitulado Embrenche; um termo que, como me lembro, importava a mais alta distinção, e significava na nossa língua uma marca de grandeza. Esta marca é conferida à pessoa com direito a ela, cortando-se a pele transversalmente no topo da testa, e puxando-a para baixo até às sobrancelhas; e enquanto está nesta situação, aplica-se uma mão quente, esfregando-a até que ela encolha numa cicatriz espessa através da parte inferior da testa. A maioria dos juízes e senadores eram assim marcados; o meu pai ostentava-a há muito tempo: tinha visto ser conferida a um dos meus irmãos, e eu estava também destinado a recebê-la pelos meus pais. Esses Embrenche, ou homens chefes, decidiam litígios e puniam crimes; para o que se reuniam sempre. Os procedimentos eram geralmente breves; e na maioria dos casos prevalecia a lei de talião. Lembro-me de um homem ter sido trazido perante o meu pai, e os outros juízes, por raptar um rapaz; e, embora fosse filho de um chefe ou senador, foi condenado a fazer recompensa por um homem ou mulher escravos. O adultério, contudo, era por vezes punido com a escravidão ou a morte; um castigo que creio ser infligido por ele em quase todas as nações da África[A]: tão sagrada entre eles é a honra do leito conjugal, e tão ciumentos são da fidelidade das suas esposas. Disso recordo-me de um caso:--uma mulher foi condenada perante os juízes por adultério, e entregue, como era costume, ao seu marido para ser punida. Consequentemente, ele determinou condená-la à morte: mas, tendo-se descoberto, pouco antes da sua execução, que ela tinha uma criança ao peito; e não se encontrando nenhuma mulher que se dispusesse a desempenhar o papel de ama, ela foi poupada por causa da criança. Os homens, contudo, não preservam a mesma constância para com as suas esposas, que esperam delas; pois permitem-se uma pluralidade, embora raramente mais do que duas. O seu modo de casamento é este:--ambas as partes são geralmente prometidas quando jovens pelos seus pais, (embora eu tenha conhecido machos que se prometiam a si mesmos). Nesta ocasião prepara-se um banquete, e a noiva e o noivo levantam-se no meio de todos os seus amigos, que estão reunidos para o propósito, enquanto ele declara que ela é a partir de então considerada sua esposa, e que nenhuma outra pessoa deve cortejá-la. Isto é também imediatamente proclamado nas redondezas, após o que a noiva retira-se da assembleia. Algum tempo depois ela é levada para casa do marido, e então faz-se outro banquete, para o qual são convidados os parentes de ambas as partes: os seus pais entregam-na então ao noivo, acompanhados por um número de bênçãos, e ao mesmo tempo atam em torno da sua cintura um cordão de algodão da espessura de uma pena de ganso, que apenas as mulheres casadas têm permissão de usar: ela é agora considerada completamente sua esposa; e nesta altura o dote é dado ao casal recém-casado, que consiste geralmente em porções de terra, escravos e gado, bens domésticos e instrumentos de cultivo. Estes são oferecidos pelos amigos de ambas as partes; além dos quais os pais do noivo apresentam presentes aos da noiva, de cuja propriedade ela é considerada antes do casamento; mas depois dele ela é estimada a única propriedade do seu marido. Terminada a cerimónia, começa o festival, que é celebrado com fogueiras e altas aclamações de alegria, acompanhadas de música e dança.

Somos quase uma nação de dançarinos, músicos e poetas. Assim, cada grande evento, tal como um regresso triunfante da batalha, ou outra causa de regozijo público, é celebrado em danças públicas, que são acompanhadas de canções e música adequadas à ocasião. A assembleia é separada em quatro divisões, que dançam quer separadamente, quer em sucessão, e cada uma com um caráter peculiar a si mesma. A primeira divisão contém os homens casados, que nas suas danças exibem frequentemente feitos de armas, e a representação de uma batalha. A estes sucedem as mulheres casadas, que dançam na segunda divisão. Os jovens ocupam a terceira; e as donzelas a quarta. Cada uma representa alguma cena interessante da vida real, tal como um grande feito, um emprego doméstico, uma história patética, ou algum desporto rural; e como o assunto é geralmente fundado em algum evento recente, é, portanto, sempre novo. Isto confere às nossas danças um espírito e variedade que raramente vi noutros lugares[B]. Temos muitos instrumentos musicais, particularmente tambores de diferentes tipos, uma peça de música que se assemelha a uma guitarra, e outra muito semelhante a um xilofone. Estes últimos são principalmente usados por virgens prometidas, que os tocam em todos os grandes festivais.

Como os nossos modos são simples, os nossos luxos são poucos. O vestuário de ambos os sexos é quase o mesmo. Consiste geralmente num longo pedaço de chita, ou musselina, enrolado frouxamente em torno do corpo, um tanto na forma de um plaid das Terras Altas. Este é geralmente tingido de azul, que é a nossa cor favorita. É extraído de uma baga, e é mais brilhante e rico do que qualquer que tenha visto na Europa. Além disto, as nossas mulheres de distinção usam ornamentos de ouro; que dispõem com alguma profusão nos seus braços e pernas. Quando as nossas mulheres não estão empregadas com os homens no cultivo, a sua ocupação habitual é fiar e tecer algodão, que depois tingem, e transformam em vestes. Também fabricam vasos de barro, dos quais temos muitos tipos. Entre os restantes, cachimbos de tabaco, feitos à mesma moda, e usados da mesma maneira, que aqueles na Turquia[C].

O nosso modo de vida é inteiramente simples; pois, até ao momento, os nativos desconhecem aqueles refinamentos na culinária que corrompem o paladar: bois, cabras e aves constituem a maior parte da sua alimentação. Estes constituem, da mesma forma, a principal riqueza da terra e os artigos principais do seu comércio. A carne é geralmente estufada numa panela; para a tornar saborosa, usamos por vezes também pimenta e outras especiarias, e temos sal feito de cinzas de madeira. Os nossos vegetais são, na sua maioria, bananas-pão, inhames, feijões e milho. O chefe da família come habitualmente sozinho; as suas esposas e escravos têm também as suas mesas separadas. Antes de provarmos o alimento, lavamos sempre as mãos: de facto, a nossa limpeza em todas as ocasiões é extrema; mas, nesta, é uma cerimónia indispensável. Após a lavagem, faz-se uma libação, vertendo uma pequena porção da comida, num certo lugar, para os espíritos dos familiares falecidos, os quais os nativos supõem que presidem à sua conduta e os protegem do mal. Eles desconhecem totalmente bebidas fortes ou espirituosas; e a sua principal bebida é o vinho de palma. Este é obtido de uma árvore com o mesmo nome, fazendo-lhe uma incisão no topo e prendendo-lhe uma cabaça grande; e, por vezes, uma árvore pode render três ou quatro galões numa noite. Quando acabado de extrair, é de uma doçura deliciosa; mas, em poucos dias, adquire um sabor acidulado e mais espirituoso: embora eu nunca tenha visto ninguém intoxicado por ele. A mesma árvore produz também nozes e óleo. O nosso principal luxo reside nos perfumes; um tipo destes é uma madeira odorífera de fragrância deliciosa: o outro é uma espécie de terra; uma pequena porção da qual, lançada ao fogo, difunde um odor muito poderoso. Pisamos esta madeira até a reduzir a pó e misturamo-la com óleo de palma; com o qual, tanto homens como mulheres, se perfumam.

Nas nossas construções, prezamos a conveniência em detrimento do ornamento. Cada mestre de uma família possui um grande terreno quadrado, rodeado por um fosso ou vedação, ou encerrado com uma parede feita de terra vermelha temperada; a qual, quando seca, é dura como tijolo. Dentro desta, encontram-se as suas casas para acomodar a família e os escravos; que, se numerosos, apresentam frequentemente a aparência de uma aldeia. No meio, ergue-se o edifício principal, apropriado para uso exclusivo do mestre, e consistindo em dois compartimentos; num dos quais ele se senta durante o dia com a sua família, o outro é deixado à parte para a receção dos seus amigos. Ele tem, além destes, um compartimento distinto onde dorme, juntamente com os seus filhos varões. De cada lado estão os compartimentos das suas esposas, que têm também as suas casas de dia e de noite separadas. As habitações dos escravos e das suas famílias estão distribuídas pelo resto do recinto. Estas casas nunca excedem um andar de altura: são sempre construídas de madeira, ou estacas cravadas no chão, cruzadas com fasquias e cuidadosamente rebocadas por dentro e por fora. O telhado é coberto com juncos. As nossas casas de dia são deixadas abertas nos lados; mas aquelas em que dormimos estão sempre cobertas e rebocadas por dentro com uma composição misturada com estrume de vaca, para afastar os diversos insetos que nos incomodam durante a noite. As paredes e os soalhos destas são também geralmente cobertos com esteiras. As nossas camas consistem numa plataforma, elevada três ou quatro pés do chão, sobre a qual são colocadas peles e partes diferentes de uma árvore esponjosa chamada banana-pão. A nossa cobertura é de chita ou musselina, a mesma do nosso vestuário. Os assentos habituais são alguns troncos de madeira; mas temos bancos, que são geralmente perfumados, para acomodar os estranhos: estes compõem a maior parte da nossa mobília doméstica. Casas assim construídas e mobiliadas requerem pouca perícia para serem erguidas. Cada homem é um arquiteto suficiente para o propósito. Toda a vizinhança oferece a sua assistência unânime na construção delas e, em troca, recebe e não espera outra recompensa senão um banquete.

Como vivemos num país onde a natureza é pródiga nos seus favores, as nossas necessidades são poucas e facilmente supridas; naturalmente, temos poucas manufaturas. Elas consistem, na maior parte, em chitas, louça de barro, ornamentos e instrumentos de guerra e de lavoura. Mas estes não fazem parte do nosso comércio, cujos artigos principais, como observei, são provisões. Num tal estado, o dinheiro é de pouca utilidade; contudo, temos algumas pequenas moedas, se é que posso chamá-las assim. São feitas algo como uma âncora; mas não me recordo nem do seu valor nem da sua denominação. Temos também mercados, aos quais fui frequentemente com a minha mãe. Estes são por vezes visitados por homens robustos da cor do mogno, vindos do sudoeste de nós: chamamo-lhes Oye-Eboe, termo que significa homens vermelhos que vivem longe. Geralmente trazem-nos armas de fogo, pólvora, chapéus, missangas e peixe seco. Este último considerávamos uma grande raridade, pois as nossas águas eram apenas ribeiros e nascentes. Estes artigos trocam-nos por madeiras e terras odoríferas, e pelo nosso sal de cinzas de madeira. Eles transportam sempre escravos através da nossa terra; mas é exigida a mais estrita conta da sua maneira de os obter antes de lhes ser permitido passar. Por vezes, na verdade, vendíamos-lhes escravos, mas eram apenas prisioneiros de guerra, ou aqueles entre nós que tinham sido condenados por rapto, adultério e alguns outros crimes que considerávamos hediondos. Esta prática de rapto leva-me a pensar que, não obstante todo o nosso rigor, o seu principal negócio entre nós era seduzir o nosso povo. Recordo-me também de que transportavam grandes sacos consigo, os quais, não muito tempo depois, tive a oportunidade de ver fatalmente aplicados a esse propósito infame.

A nossa terra é extraordinariamente rica e fértil, e produz todos os tipos de vegetais em grande abundância. Temos muito milho e vastas quantidades de algodão e tabaco. Os nossos ananases crescem sem cultivo; são cerca do tamanho do maior pão de açúcar e de sabor requintado. Temos também especiarias de diferentes tipos, particularmente pimenta; e uma variedade de frutos deliciosos que nunca vi na Europa; juntamente com gomas de vários tipos e mel em abundância. Toda a nossa indústria é exercida para melhorar estas bênçãos da natureza. A agricultura é o nosso principal emprego; e todos, até as crianças e as mulheres, estão nela empenhados. Assim, estamos todos habituados ao trabalho desde tenra idade. Cada um contribui com algo para o fundo comum; e, como desconhecemos a ociosidade, não temos mendigos. Os benefícios de tal modo de vida são óbvios. Os plantadores das Índias Ocidentais preferem os escravos de Benin ou Eboe aos de qualquer outra parte da Guiné, pela sua resistência, inteligência, integridade e zelo. Esses benefícios são sentidos por nós na saúde geral das pessoas e no seu vigor e atividade; poderia ter acrescentado também na sua beleza. A deformidade é, na verdade, desconhecida entre nós, refiro-me à da forma. Vários nativos de Eboe agora em Londres poderiam ser trazidos como prova desta afirmação: pois, em relação à tez, as ideias de beleza são totalmente relativas. Lembro-me, enquanto estive em África, de ter visto três crianças negras, que eram morenas, e outra totalmente branca, que eram universalmente consideradas por mim, e pelos nativos em geral, no que diz respeito às suas tezes, como deformadas. As nossas mulheres também eram, aos meus olhos pelo menos, extraordinariamente graciosas, alertas e modestas ao ponto da timidez; nem me recordo de ter ouvido falar de um único caso de incontinência entre elas antes do casamento. São também notavelmente alegres. De facto, a alegria e a afabilidade são duas das principais características da nossa nação.

A nossa lavoura é exercida numa grande planície ou terreno comum, a algumas horas de caminhada das nossas habitações, e todos os vizinhos reúnem-se lá em grupo. Não usam animais de lavoura; e os seus únicos instrumentos são enxadas, machados, pás e bicos, ou ferro pontiagudo para cavar. Por vezes somos visitados por gafanhotos, que chegam em nuvens grandes, de modo a escurecer o ar e destruir a nossa colheita. Isto, contudo, acontece raramente, mas quando acontece, é produzida uma fome por causa disso. Lembro-me de um ou dois casos em que isto aconteceu. Este terreno comum é muitas vezes o teatro da guerra; e, portanto, quando o nosso povo sai para lavrar a sua terra, não só vai em grupo, como geralmente leva as suas armas consigo por medo de uma surpresa; e, quando temem uma invasão, guardam as entradas para as suas habitações, cravando paus no chão, que são tão afiados numa extremidade que podem perfurar o pé, e são geralmente mergulhados em veneno. Do que me consigo recordar destas batalhas, parecem ter sido irrupções de um pequeno estado ou distrito sobre o outro, para obter prisioneiros ou espólio. Talvez fossem incitados a isto por aqueles mercadores que trouxeram os bens europeus que mencionei entre nós. Tal modo de obter escravos em África é comum; e creio que mais são obtidos desta maneira, e por rapto, do que de qualquer outra. Quando um mercador quer escravos, dirige-se a um chefe para os obter e tenta-o com as suas mercadorias. Não é extraordinário se, nesta ocasião, ele cede à tentação com tão pouca firmeza, e aceita o preço da liberdade dos seus semelhantes com tão pouca relutância quanto o mercador esclarecido. Consequentemente, ele ataca os seus vizinhos e segue-se uma batalha desesperada. Se prevalece e faz prisioneiros, gratifica a sua avareza vendendo-os; mas, se o seu partido é vencido e ele cai nas mãos do inimigo, é condenado à morte: pois, como se sabe que fomentou as suas querelas, pensa-se ser perigoso deixá-lo sobreviver, e nenhum resgate o pode salvar, embora todos os outros prisioneiros possam ser resgatados. Temos armas de fogo, arcos e flechas, espadas largas de dois gumes e dardos: temos também escudos que cobrem um homem da cabeça aos pés. Todos são ensinados a usar estas armas; até as nossas mulheres são guerreiras e marcham corajosamente para lutar juntamente com os homens. Todo o nosso distrito é uma espécie de milícia: num determinado sinal dado, como o disparo de uma arma à noite, todos levantam-se em armas e precipitam-se sobre o seu inimigo. É talvez algo notável que, quando o nosso povo marcha para o campo, uma bandeira ou estandarte vermelho é levado diante deles. Fui uma vez testemunha de uma batalha no nosso terreno comum. Tínhamos estado todos a trabalhar nele um dia, como de costume, quando o nosso povo foi subitamente atacado. Subi a uma árvore a alguma distância, da qual contemplei o combate. Havia muitas mulheres, bem como homens, de ambos os lados; entre outros, a minha mãe estava lá e armada com uma espada larga. Depois de lutarem durante bastante tempo com grande fúria, e depois de muitos terem sido mortos, o nosso povo obteve a vitória e fez prisioneiro o Chefe inimigo. Foi levado em grande triunfo e, embora oferecesse um grande resgate pela sua vida, foi condenado à morte. Uma virgem de relevo entre os nossos inimigos tinha sido morta na batalha, e o seu braço foi exposto na nossa praça do mercado, onde os nossos troféus eram sempre exibidos. Os espólios foram divididos de acordo com o mérito dos guerreiros. Aqueles prisioneiros que não foram vendidos ou resgatados, mantivemo-los como escravos: mas quão diferente era a sua condição da dos escravos nas Índias Ocidentais! Connosco, eles não fazem mais trabalho do que outros membros da comunidade, até os seus mestres; a sua alimentação, vestuário e alojamento eram quase os mesmos que os deles, (exceto pelo facto de não lhes ser permitido comer com os que eram nascidos livres); e quase não havia outra diferença entre eles, senão um grau superior de importância que o chefe de família possui no nosso estado, e aquela autoridade que, como tal, ele exerce sobre cada parte do seu agregado familiar. Alguns destes escravos têm até escravos sob eles como sua própria propriedade, e para seu próprio uso.

Quanto à religião, os nativos acreditam que existe um Criador de todas as coisas, e que ele vive no sol, e está cingido com um cinto para que nunca possa comer nem beber; mas, segundo alguns, ele fuma um cachimbo, que é o nosso luxo favorito. Acreditam que ele governa os eventos, especialmente as nossas mortes ou cativeiro; mas, quanto à doutrina da eternidade, não me lembro de ter ouvido falar dela: alguns, contudo, acreditam na transmigração das almas em certo grau. Aqueles espíritos que não são transmigrados, tais como os nossos queridos amigos ou parentes, acreditam que nos acompanham sempre e nos protegem dos maus espíritos ou dos seus inimigos. Por esta razão, antes de comer, como observei, colocam sempre alguma pequena porção da carne e vertem um pouco da sua bebida no chão para eles; e frequentemente fazem oblações do sangue de animais ou aves nos seus túmulos. Eu era muito afeiçoado à minha mãe e estava quase constantemente com ela. Quando ela ia fazer estas oblações no túmulo da sua mãe, que era uma espécie de pequena casa solitária com telhado de colmo, eu acompanhava-a por vezes. Lá, ela fazia as suas libações e passava a maior parte da noite em prantos e lamentações. Fiquei muitas vezes extremamente aterrorizado nestas ocasiões. A solidão do lugar, a escuridão da noite e a cerimónia da libação, naturalmente terríveis e lúgubres, eram intensificadas pelas lamentações da minha mãe; e estas, em concordância com os gritos das aves lúgubres, pelas quais estes lugares eram frequentados, davam um terror inexprimível à cena.

Calculamos o ano a partir do dia em que o sol atravessa a linha, e no seu pôr-do-sol, nessa noite, há um grito geral por toda a terra; pelo menos posso falar por conhecimento próprio por toda a nossa vizinhança. O povo, ao mesmo tempo, faz um grande barulho com chocalhos, não muito diferentes dos chocalhos de cesto usados pelas crianças aqui, embora muito maiores, e levantam as mãos ao céu por uma bênção. É então que as maiores ofertas são feitas; e aquelas crianças que os nossos sábios preveem que serão afortunadas são então apresentadas a diferentes pessoas. Lembro-me de que muitos costumavam vir ver-me, e eu era levado a outros para esse fim. Têm muitas ofertas, particularmente nas luas cheias; geralmente duas na colheita antes que os frutos sejam retirados do solo: e quando quaisquer animais jovens são mortos, por vezes oferecem parte deles como sacrifício. Estas ofertas, quando feitas por um dos chefes de família, servem para todo o grupo. Lembro-me de que as tínhamos frequentemente em casa do meu pai e do meu tio, e as suas famílias estavam presentes. Algumas das nossas ofertas são comidas com ervas amargas. Tínhamos um ditado entre nós para qualquer um de temperamento cruzado: "Que se eles tivessem de ser comidos, deveriam ser comidos com ervas amargas".

Praticávamos a circuncisão como os Judeus e fazíamos ofertas e banquetes nessa ocasião da mesma maneira que eles faziam. Como eles também, os nossos filhos eram nomeados a partir de algum evento, alguma circunstância ou presságio imaginado no momento do seu nascimento. Fui nomeado Olaudah, que, na nossa língua, significa vicissitude ou fortuna, também alguém favorecido, e tendo uma voz alta e bem falante. Lembro-me de que nunca poluíamos o nome do objeto da nossa adoração; pelo contrário, era sempre mencionado com a maior reverência; e éramos totalmente desconhecedores de juramentos e de todos aqueles termos de abuso e reprovação que encontram o seu caminho tão pronta e copiosamente nas línguas de povos mais civilizados. As únicas expressões desse tipo de que me lembro eram "Que possas apodrecer, ou que possas inchar, ou que uma besta te leve".

Já observei que os nativos desta parte de África são extremamente limpos. Este hábito necessário de decência era, connosco, uma parte da religião, e portanto tínhamos muitas purificações e lavagens; de facto, quase tantas, e usadas nas mesmas ocasiões, se a minha memória não me falha, como os Judeus. Aqueles que tocavam nos mortos em qualquer altura eram obrigados a lavar-se e purificar-se antes de poderem entrar numa casa de habitação. Cada mulher também, em certos momentos, era proibida de entrar numa casa de habitação, ou tocar em qualquer pessoa, ou em qualquer coisa que comêssemos. Eu era tão afeiçoado à minha mãe que não conseguia manter-me longe dela, ou evitar tocá-la em alguns desses períodos, em consequência do que era obrigado a ser mantido fora com ela, numa pequena casa feita para esse fim, até que a oferta fosse feita, e então éramos purificados.

Embora não tivéssemos lugares de culto público, tínhamos sacerdotes e mágicos, ou homens sábios. Não me lembro se tinham diferentes cargos, ou se estavam unidos nas mesmas pessoas, mas eram mantidos em grande reverência pelo povo. Calculavam o nosso tempo e previam eventos, como o seu nome importava, pois chamávamo-lhes Ah-affoe-way-cah, que significa calculadores ou homens do ano, sendo o nosso ano chamado Ah-affoe. Deixavam crescer as suas barbas e, quando morriam, eram sucedidos pelos seus filhos. A maioria dos seus utensílios e coisas de valor eram enterrados juntamente com eles. Cachimbos e tabaco eram também colocados na sepultura com o cadáver, que era sempre perfumado e ornamentado, e animais eram oferecidos em sacrifício a eles. Ninguém acompanhava os seus funerais senão os da mesma profissão ou tribo. Estes enterravam-nos após o pôr-do-sol e regressavam sempre da sepultura por um caminho diferente daquele por que tinham ido.

Estes mágicos eram também os nossos doutores ou médicos. Praticavam a sangria por ventosas; e eram muito bem-sucedidos a curar feridas e a expelir venenos. Tinham também algum método extraordinário de descobrir ciúmes, roubo e envenenamento; cujo sucesso, sem dúvida, derivavam da sua influência ilimitada sobre a credulidade e superstição do povo. Não me lembro quais eram esses métodos, exceto quanto ao envenenamento: recordo-me de um ou dois casos, que espero que não seja considerado impertinente inserir aqui, pois pode servir como uma espécie de espécime do resto, e ainda é usado pelos negros nas Índias Ocidentais. Uma virgem tinha sido envenenada, mas não se sabia por quem: os doutores ordenaram que o cadáver fosse levantado por algumas pessoas e levado para a sepultura. Assim que os carregadores o elevaram sobre os seus ombros, pareceram ser tomados por um impulso súbito e correram de um lado para o outro, incapazes de se deterem. Finalmente, depois de terem passado através de vários espinhos e arbustos espinhosos sem ferimentos, o cadáver caiu deles junto a uma casa e desfigurou-a na queda; e, sendo o proprietário apanhado, confessou imediatamente o envenenamento.

Os nativos são extremamente cautelosos quanto ao veneno. Quando compram qualquer comestível, o vendedor beija-o todo à volta perante o comprador, para lhe mostrar que não está envenenado; e o mesmo é feito quando qualquer carne ou bebida é apresentada, particularmente a um estranho. Temos serpentes de diferentes tipos, algumas das quais são consideradas agourentas quando aparecem nas nossas casas, e a estas nunca molestamos. Lembro-me de duas dessas serpentes agourentas, cada uma das quais era tão grossa como a barriga da perna de um homem, e de cor semelhante a um golfinho na água, que rastejaram em diferentes alturas para a casa de noite da minha mãe, onde eu dormia sempre com ela, e enrolaram-se em espirais, e cada vez que coaxavam como um galo. Fui encorajado por alguns dos nossos homens sábios a tocar nelas, para que pudesse ser interessado nos bons presságios, o que fiz, pois eram totalmente inofensivas e deixavam-se tocar docilmente; e então eram colocadas num grande tacho de barro aberto e postas de um lado da estrada. Algumas das nossas cobras, contudo, eram venenosas: uma delas atravessou o caminho um dia quando eu estava de pé nele, e passou entre os meus pés sem tentar tocar-me, para grande surpresa de muitos que a viram; e estes incidentes foram considerados pelos homens sábios, e portanto pela minha mãe e pelo resto do povo, como presságios notáveis a meu favor.

Tal é o esboço imperfeito que a minha memória me forneceu dos costumes e hábitos de um povo entre o qual eu dei o meu primeiro alento. E aqui não posso deixar de sugerir o que há muito me impressiona fortemente, a saber, a forte analogia que, mesmo neste esboço, por mais imperfeito que seja, parece prevalecer nos costumes e hábitos dos meus compatriotas e nos dos judeus, antes de chegarem à Terra Prometida, e particularmente nos dos patriarcas enquanto ainda estavam naquele estado pastoral que é descrito no Génesis — uma analogia que, por si só, me levaria a pensar que um povo proviera do outro. De facto, esta é a opinião do Dr. Gill, que, no seu comentário ao Génesis, deduz muito habilmente a linhagem dos africanos de Afer e Afra, descendentes de Abraão através de Quetura, sua esposa e concubina (pois ambos os títulos lhe são aplicados). Está também em conformidade com os sentimentos do Dr. John Clarke, outrora Deão de Sarum, na sua Verdade da Religião Cristã: ambos os autores concordam em atribuir-nos esta origem. Os raciocínios destes senhores são ainda mais confirmados pela cronologia das escrituras; e se fosse necessária qualquer corroboração adicional, esta semelhança em tantos aspetos é uma forte evidência em apoio a tal opinião. Tal como os israelitas no seu estado primitivo, o nosso governo era conduzido pelos nossos chefes ou juízes, pelos nossos homens sábios e anciãos; e o chefe de família entre nós gozava de uma autoridade semelhante sobre o seu agregado àquela que é atribuída a Abraão e aos outros patriarcas. A lei de talião obtinha-se quase universalmente entre nós como entre eles: e até a sua religião parecia ter lançado sobre nós um raio da sua glória, embora partido e gasto na sua passagem, ou eclipsado pela nuvem com que o tempo, a tradição e a ignorância poderiam tê-la envolvido; pois tínhamos a nossa circuncisão (uma regra que creio ser peculiar a esse povo): tínhamos também os nossos sacrifícios e holocaustos, as nossas lavagens e purificações, nas mesmas ocasiões que eles tinham.

Quanto à diferença de cor entre os africanos Eboan e os judeus modernos, não presumirei explicá-la. É um assunto que ocupou as penas de homens de génio e de saber, e está muito acima das minhas forças. O muito capaz e Reverendo Sr. T. Clarkson, no entanto, no seu tão admirado Ensaio sobre a Escravatura e o Comércio da Espécie Humana, determinou a causa, de uma maneira que de uma só vez resolve todas as objeções a esse respeito, e, na minha mente pelo menos, produziu a mais plena convicção. Remeterei, portanto, para essa obra a teoria[H], contentando-me com a extração de um facto tal como relatado pelo Dr. Mitchel[I]. "Os espanhóis, que habitaram a América, sob a zona tórrida, durante algum tempo, tornaram-se tão escuros como os nossos nativos americanos da Virgínia; do que _eu próprio fui testemunha_." Existe também outro exemplo[J] de um povoado português em Mitomba, um rio na Serra Leoa; onde os habitantes são criados a partir de uma mistura dos primeiros descobridores portugueses com os nativos, e tornaram-se agora, na sua tez e na qualidade lanosa do seu cabelo, negros perfeitos, conservando, contudo, um conhecimento rudimentar da língua portuguesa.

Estes exemplos, e muitos outros que poderiam ser aduzidos, enquanto mostram como as tezes das mesmas pessoas variam em diferentes climas, espera-se que possam também tender a remover o preconceito que alguns concebem contra os nativos de África por causa da sua cor. Certamente que as mentes dos espanhóis não mudaram com as suas tezes! Não haverá causas suficientes às quais a aparente inferioridade de um africano possa ser atribuída, sem limitar a bondade de Deus, e supor que Ele se absteve de imprimir entendimento naquela que é certamente a Sua própria imagem, por estar "esculpida em ébano"? Não poderia ser naturalmente atribuída à sua situação? Quando eles vêm para o meio dos europeus, são ignorantes da sua língua, religião, costumes e hábitos. Será que se toma algum cuidado para lhes ensinar estas coisas? São tratados como homens? A própria escravatura não deprime a mente e extingue todo o seu fogo e todo o sentimento nobre? Mas, acima de tudo, que vantagens não possui um povo refinado sobre aqueles que são rudes e incultos. Que o europeu polido e arrogante recorde que os seus antepassados foram outrora, tal como os africanos, incivilizados e até bárbaros. A Natureza tê-los-ia feito inferiores aos seus filhos? E deveriam eles também ter sido feitos escravos? Toda a mente racional responde: Não. Que tais reflexões como estas derretam o orgulho da sua superioridade em simpatia pelas carências e misérias dos seus irmãos de tez escura, e os obriguem a reconhecer que o entendimento não se limita ao traço ou à cor. Se, quando olham à volta do mundo, sentem exultação, que ela seja temperada com benevolência para com os outros, e gratidão a Deus, "que fez de um só sangue todas as nações dos homens para habitarem sobre toda a face da terra[K]; e cuja sabedoria não é a nossa sabedoria, nem os nossos caminhos são os seus caminhos."

NOTAS DE RODAPÉ:

[Nota A: Ver o "Relato da Guiné", de Benezet, na íntegra.]

[Nota B: Quando estive em Esmirna, vi frequentemente os gregos dançarem desta maneira.]

[Nota C: A taça é de barro, curiosamente figurada, à qual está fixado um longo junco como tubo. Este tubo é por vezes tão longo que é transportado por um, e frequentemente, por grandeza, por dois rapazes.]

[Nota D: Quando estive em Esmirna vi o mesmo tipo de terra, e trouxe um pouco dela comigo para Inglaterra; assemelha-se ao almíscar na força, mas é mais deliciosa no aroma, e não é diferente do cheiro de uma rosa.]

[Nota E: Ver o Relato da África, de Benezet, na íntegra.]

[Nota F: Ver também a Viagem do Tenente Matthew, pág. 123.]

[Nota G: Um exemplo deste tipo aconteceu em Montserrat, nas Índias Ocidentais, no ano de 1763. Eu pertencia então ao Charming Sally, Cap. Doran. — O imediato, Sr. Mansfield, e alguns dos tripulantes, estando um dia em terra, estiveram presentes no enterro de uma rapariga negra envenenada. Embora tivessem ouvido falar frequentemente da circunstância da corrida em tais casos, e a tivessem até visto, imaginavam ser um truque dos carregadores do cadáver. O imediato pediu, portanto, a dois dos marinheiros que pegassem no caixão e o levassem para a sepultura. Os marinheiros, que eram todos da mesma opinião, obedeceram prontamente; mas mal o tinham elevado aos ombros, começaram a correr furiosamente de um lado para o outro, completamente incapazes de se orientarem, até que, finalmente, sem intenção, chegaram à cabana daquele que tinha envenenado a rapariga. O caixão caiu então imediatamente dos seus ombros contra a cabana, e danificou parte da parede. O proprietário da cabana foi detido por isto e confessou o envenenamento. — Dou esta história tal como foi relatada pelo imediato e pela tripulação no seu regresso ao navio. O crédito que lhe é devido deixo-o ao leitor.]

[Nota H: Página 178 a 216.]

[Nota I: Philos. Trans. Nº 476, Secção 4, citado pelo Sr. Clarkson, pág. 205.]

[Nota J: Mesma página.]

[Nota K: Atos, c. xvii. v. 26.]

CAP. II.

_O nascimento e a ascendência do autor — O seu rapto com a sua irmã — A separação de ambos — Surpresa ao encontrarem-se de novo — São finalmente separados — Relato dos diferentes lugares e incidentes que o autor encontrou até à sua chegada à costa — O efeito que a visão de um navio negreiro teve sobre ele — Ele parte para as Índias Ocidentais — Horrores de um navio negreiro — Chega a Barbados, onde a carga é vendida e dispersa._

Espero que o leitor não pense que abusei da sua paciência ao apresentar-me a ele com algum relato dos costumes e hábitos do meu país. Eles tinham sido implantados em mim com grande cuidado, e deixaram uma impressão na minha mente que o tempo não conseguiu apagar, e que toda a adversidade e variedade de sorte que experimentei desde então serviram apenas para fixar e registar; pois, quer o amor pela pátria seja real ou imaginário, ou uma lição da razão, ou um instinto da natureza, continuo a olhar para trás com prazer para as primeiras cenas da minha vida, embora esse prazer tenha sido na maior parte misturado com tristeza.

Já informei o leitor do tempo e do lugar do meu nascimento. O meu pai, para além de muitos escravos, tinha uma família numerosa, da qual sete sobreviveram até à idade adulta, incluindo eu próprio e uma irmã, que era a única filha. Como eu era o mais novo dos filhos, tornei-me, naturalmente, o maior favorito da minha mãe, e estava sempre com ela; e ela costumava ter um cuidado especial em moldar a minha mente. Fui treinado desde os meus primeiros anos na arte da guerra; o meu exercício diário era disparar e lançar dardos; e a minha mãe adornava-me com emblemas, à maneira dos nossos maiores guerreiros. Desta forma, cresci até passar a idade de onze anos, altura em que foi posto um fim à minha felicidade da seguinte maneira: — Geralmente, quando as pessoas crescidas das redondezas tinham ido longe para os campos trabalhar, as crianças reuniam-se nas propriedades de alguns dos vizinhos para brincar; e habitualmente alguns de nós subiam a uma árvore para vigiar qualquer assaltante, ou raptor, que pudesse aparecer; pois por vezes aproveitavam essas oportunidades da ausência dos nossos pais para atacar e levar tantos quantos pudessem capturar. Um dia, enquanto vigiava no topo de uma árvore no nosso pátio, vi um desses indivíduos entrar no pátio do nosso vizinho mais próximo, para raptar, havendo lá muitos jovens robustos. Imediatamente dei o alarme do patife, e ele foi rodeado pelos mais robustos, que o enredaram com cordas, de modo que ele não pôde escapar até que algumas das pessoas crescidas chegaram e o prenderam. Mas ai! antes de muito tempo, foi o meu destino ser assim atacado, e ser levado, quando nenhuma das pessoas crescidas estava perto. Um dia, quando todas as nossas pessoas tinham saído para os seus trabalhos como de costume, e apenas eu e a minha querida irmã tínhamos ficado a cuidar da casa, dois homens e uma mulher saltaram os nossos muros e, num momento, apoderaram-se de nós ambos e, sem nos darem tempo para gritar ou oferecer resistência, taparam-nos as bocas e fugiram connosco para o bosque mais próximo. Aqui ataram-nos as mãos e continuaram a levar-nos o mais longe que puderam, até que a noite caiu, quando chegámos a uma pequena casa, onde os ladrões pararam para se refrescar e passaram a noite. Fomos então desatados, mas fomos incapazes de ingerir qualquer alimento; e, estando completamente dominados pela fadiga e pelo pesar, o nosso único alívio foi algum sono, que atenuou a nossa desgraça por um curto período de tempo. Na manhã seguinte deixámos a casa e continuámos a viajar durante todo o dia. Durante muito tempo tínhamos seguido pelos bosques, mas finalmente chegámos a uma estrada que acreditei conhecer. Tive agora algumas esperanças de ser libertado; pois não tínhamos avançado muito quando descobri algumas pessoas à distância, pelo que comecei a gritar por ajuda: mas os meus gritos não tiveram outro efeito senão fazê-los atar-me mais fortemente e tapar-me a boca, e depois puseram-me num grande saco. Taparam também a boca da minha irmã e ataram-lhe as mãos; e desta forma prosseguimos até estarmos fora da vista dessas pessoas. Quando fomos descansar na noite seguinte, ofereceram-nos alguma comida; mas recusámo-la; e o único conforto que tivemos foi estarmos nos braços um do outro durante toda aquela noite, e banharmo-nos um ao outro com as nossas lágrimas. Mas ai! fomos logo privados até do pequeno conforto de chorar juntos. O dia seguinte provou ser um dia de maior tristeza do que aquele que eu tinha experimentado até então; pois a minha irmã e eu fomos então separados, enquanto jazíamos abraçados um ao outro. Foi em vão que lhes implorámos para não nos separarem; ela foi arrancada de mim e imediatamente levada, enquanto eu fui deixado num estado de distração que não pode ser descrito. Chorei e lamentei-me continuamente; e durante vários dias não comi nada, a não ser o que forçavam a entrar na minha boca. Finalmente, após muitos dias de viagem, durante os quais tinha mudado frequentemente de donos, caí nas mãos de um chefe, num país muito agradável. Este homem tinha duas esposas e alguns filhos, e todos eles trataram-me extremamente bem, e fizeram tudo o que podiam para me consolar; particularmente a primeira esposa, que era algo parecida com a minha mãe. Embora eu estivesse a muitos dias de viagem da casa do meu pai, estas pessoas falavam exatamente a mesma língua que nós. Este meu primeiro mestre, como lhe posso chamar, era ferreiro, e a minha ocupação principal era trabalhar os seus foles, que eram do mesmo tipo que eu tinha visto na minha vizinhança. Eram, em certos aspetos, não diferentes dos fogões aqui nas cozinhas dos senhores; e eram cobertos com couro; e no meio desse couro estava fixado um pau, e uma pessoa ficava de pé e trabalhava-o, da mesma maneira que se faz para bombear água de um barril com uma bomba manual. Creio que era ouro que ele trabalhava, pois era de uma cor amarela brilhante e adorável, e era usado pelas mulheres nos pulsos e tornozelos. Estive lá, suponho, cerca de um mês, e eles finalmente começaram a confiar em mim a alguma distância da casa. Usei esta liberdade para aproveitar todas as oportunidades de perguntar o caminho para a minha própria casa: e também, por vezes, para o mesmo propósito, ia com as donzelas, no fresco das noites, buscar jarros de água às nascentes para o uso da casa. Tinha também reparado onde o sol nascia de manhã, e se punha à noite, enquanto viajava; e tinha observado que a casa do meu pai ficava na direção do nascer do sol. Decidi, portanto, aproveitar a primeira oportunidade para escapar, e dirigir o meu caminho para esse lado; pois estava completamente oprimido e abatido pelo pesar pela minha mãe e amigos; e o meu amor pela liberdade, sempre grande, era reforçado pela circunstância humilhante de não ousar comer com as crianças nascidas livres, embora eu fosse, na maioria das vezes, o seu companheiro. Enquanto projetava a minha fuga, aconteceu um dia um evento infeliz, que transtornou completamente o meu plano e pôs um fim às minhas esperanças. Eu costumava ser empregado por vezes a ajudar uma escrava idosa a cozinhar e a tratar das aves; e uma manhã, enquanto dava de comer a algumas galinhas, aconteceu atirar uma pequena pedra a uma delas, que a atingiu no meio e matou-a diretamente. A velha escrava, tendo pouco depois dado pela falta da galinha, perguntou por ela; e ao relatar-lhe o acidente (pois disse-lhe a verdade, porque a minha mãe nunca me permitiria mentir), ela entrou numa fúria violenta, ameaçou que eu sofreria por isso; e, estando o meu mestre fora, ela foi imediatamente contar à sua senhora o que eu tinha feito. Isto alarmou-me muito, e esperei um açoitamento imediato, o que para mim era extraordinariamente terrível; pois raramente tinha sido espancado em casa. Resolvi, portanto, fugir; e, consequentemente, corri para um matagal que ficava ali perto, e escondi-me nos arbustos. Pouco depois, a minha senhora e a escrava regressaram e, não me vendo, procuraram por toda a casa, mas não me encontrando, e eu não respondendo quando me chamavam, pensaram que eu tinha fugido, e toda a vizinhança foi mobilizada na minha perseguição. Naquela parte do país (tal como na nossa), as casas e aldeias eram ladeadas por bosques ou matagais, e os arbustos eram tão densos que um homem podia facilmente esconder-se neles, de modo a iludir a procura mais rigorosa. Os vizinhos continuaram durante todo o dia à minha procura, e várias vezes muitos deles passaram a poucos metros do local onde eu estava escondido. Considerei-me então completamente perdido, e esperei a cada momento, quando ouvia um farfalhar entre as árvores, ser descoberto e punido pelo meu mestre: mas nunca me descobriram, embora estivessem frequentemente tão perto que eu ouvia mesmo as suas conjeturas enquanto olhavam à procura de mim; e aprendi agora com eles, que qualquer tentativa de voltar para casa seria sem esperança. A maioria deles supunha que eu tinha fugido na direção de casa; mas a distância era tão grande, e o caminho tão intrincado, que pensavam que eu nunca chegaria lá, e que me perderia nos bosques. Quando ouvi isto, fui tomado por um pânico violento, e abandonei-me ao desespero. A noite também começou a aproximar-se, e agravou todos os meus medos. Tinha tido antes esperanças de chegar a casa, e tinha decidido que, quando estivesse escuro, faria a tentativa; mas estava agora convencido de que era infrutífero, e comecei a considerar que, se possivelmente pudesse escapar a todos os outros animais, não poderia aos da espécie humana; e que, não conhecendo o caminho, morreria nos bosques. Assim, eu era como o veado caçado:

--"Cada folha e cada sopro sussurrante Transmitia um inimigo, e cada inimigo uma morte."

Ouvi frequentes farfalhares entre as folhas; e estando bastante certo de que eram cobras, esperava a cada instante ser picado por elas. Isto aumentou a minha angústia, e o horror da minha situação tornou-se agora completamente insuportável. Acabei por abandonar o matagal, muito fraco e com fome, pois não tinha comido nem bebido nada durante todo o dia; e rastejei até à cozinha do meu mestre, de onde tinha partido ao início, e que era um abrigo aberto, e deitei-me nas cinzas com um desejo ansioso de que a morte me aliviasse de todas as minhas dores. Mal estava acordado de manhã quando a velha escrava, que era a primeira a levantar-se, veio acender o lume, e viu-me no lugar do lume. Ficou muito surpreendida ao ver-me, e mal podia acreditar nos seus próprios olhos. Ela prometeu agora interceder por mim, e foi buscar o seu mestre, que pouco depois veio e, tendo-me repreendido ligeiramente, ordenou que cuidassem de mim e que não fosse maltratado.

Pouco depois disto, a única filha do meu mestre, e criança da sua primeira esposa, adoeceu e morreu, o que o afetou tanto que durante algum tempo ficou quase frenético, e teria mesmo matado a si próprio, se não tivesse sido vigiado e impedido. No entanto, pouco tempo depois ele recuperou, e fui vendido novamente. Fui agora levado para a esquerda do nascer do sol, através de muitos países diferentes, e de uma série de grandes bosques. As pessoas a quem fui vendido costumavam levar-me muito frequentemente, quando eu estava cansado, quer aos ombros quer às costas. Vi muitos abrigos convenientes e bem construídos ao longo das estradas, a distâncias apropriadas, para acomodar os mercadores e viajantes, que pernoitavam nessas construções juntamente com as suas esposas, que frequentemente os acompanham; e eles andam sempre bem armados.

Desde o tempo em que deixei a minha própria nação, sempre encontrei alguém que me compreendesse até chegar à costa marítima. As línguas das diferentes nações não diferiam totalmente, nem eram tão copiosas como as dos europeus, particularmente a dos ingleses. Eram, portanto, facilmente aprendidas; e, enquanto viajava assim através da África, adquiri duas ou três línguas diferentes. Desta maneira, viajava havia um tempo considerável, quando uma noite, para minha grande surpresa, quem deveria eu ver ser trazida à casa onde eu estava senão a minha querida irmã! Assim que ela me viu, deu um grito alto e correu para os meus braços — fiquei completamente dominado: nenhum de nós conseguia falar; mas, por um tempo considerável, agarrámo-nos um ao outro em abraços mútuos, incapazes de fazer qualquer coisa a não ser chorar. O nosso encontro comoveu todos os que nos viram; e, de fato, devo reconhecer, em honra daqueles sombrios destruidores dos direitos humanos, que nunca recebi qualquer tratamento cruel, nem vi nenhum ser oferecido aos seus escravos, exceto amarrá-los, quando necessário, para impedi-los de fugir. Quando estas pessoas souberam que éramos irmão e irmã, permitiram que ficássemos juntos; e o homem a quem suponho que pertencíamos deitou-se conosco, ele no meio, enquanto ela e eu nos segurávamos pelas mãos através do peito dele durante toda a noite; e assim, por um tempo, esquecemos as nossas desgraças na alegria de estarmos juntos: mas até este pequeno conforto estava prestes a terminar; pois mal o dia fatal havia aparecido, quando ela foi novamente arrancada de mim para sempre! Eu estava agora mais miserável, se possível, do que antes. O pequeno alívio que a sua presença me dava da dor tinha desaparecido, e a desgraça da minha situação era redobrada pela minha ansiedade quanto ao seu destino e pelas minhas apreensões de que os seus sofrimentos fossem maiores do que os meus, quando eu não podia estar com ela para os aliviar. Sim, tu, querida companheira de todos os meus jogos infantis! Tu, partilhadora das minhas alegrias e tristezas! Feliz eu me teria sempre considerado por enfrentar toda a miséria por ti, e por obter a tua liberdade através do sacrifício da minha própria. Embora tenhas sido precocemente forçada a sair dos meus braços, a tua imagem esteve sempre cravada no meu coração, de onde nem o *tempo nem a fortuna* foram capazes de a remover; de modo que, enquanto os pensamentos sobre os teus sofrimentos atenuaram a minha prosperidade, eles misturaram-se com a adversidade e aumentaram a sua amargura. Àquele Céu que protege os fracos dos fortes, confio o cuidado da tua inocência e virtudes, se é que já não receberam a sua plena recompensa, e se a tua juventude e delicadeza não caíram há muito vítimas da violência do traficante africano, do fedor pestilencial de um navio da Guiné, da adaptação nas colônias europeias, ou do chicote e da luxúria de um capataz brutal e implacável.

Não permaneci muito tempo depois da minha irmã. Fui novamente vendido e levado através de vários lugares, até que, depois de viajar um tempo considerável, cheguei a uma cidade chamada Tinmah, no país mais belo que vi até agora na África. Era extremamente rica, e havia muitos riachos que fluíam através dela e abasteciam um grande lago no centro da cidade, onde as pessoas se lavavam. Aqui vi e provei pela primeira vez cocos, que achei superiores a quaisquer nozes que já tivesse provado antes; e as árvores, que estavam carregadas, também estavam dispersas entre as casas, que tinham sombras convenientes adjacentes e eram da mesma maneira que as nossas, com o interior cuidadosamente rebocado e caiado. Aqui também vi e provei pela primeira vez cana-de-açúcar. O dinheiro deles consistia em pequenas conchas brancas, do tamanho da unha do dedo. Fui vendido aqui por cento e setenta e duas delas por um mercador que vivia e me trouxe para lá. Eu estava há cerca de dois ou três dias na casa dele, quando uma viúva rica, vizinha sua, veio lá uma noite e trouxe consigo um filho único, um jovem cavalheiro com a minha idade e tamanho. Aqui eles viram-me; e, tendo gostado de mim, fui comprado ao mercador e fui para casa com eles. A sua casa e as suas instalações situavam-se perto de um desses riachos que mencionei, e eram as mais belas que já vi na África: eram muito extensas, e ela tinha vários escravos para a servir. No dia seguinte, fui lavado e perfumado, e quando chegou a hora da refeição, fui conduzido à presença da minha senhora, e comi e bebi perante ela com o seu filho. Isto encheu-me de espanto; e quase não pude deixar de expressar a minha surpresa por o jovem cavalheiro permitir que eu, que era cativo, comesse com ele que era livre; e não só isso, mas que ele não queria, em momento algum, comer ou beber antes que eu o tivesse feito primeiro, porque eu era o mais velho, o que estava de acordo com o nosso costume. De fato, tudo aqui, e todo o tratamento que me dispensavam, fez-me esquecer que eu era um escravo. A língua destas pessoas assemelhava-se tanto à nossa que nos entendíamos perfeitamente. Eles tinham também exatamente os mesmos costumes que nós. Havia igualmente escravos diariamente para nos atender, enquanto o meu jovem mestre e eu, com outros rapazes, nos divertíamos com os nossos dardos, arcos e flechas, como eu estava habituado a fazer em casa. Nesta semelhança com o meu anterior estado feliz passei cerca de dois meses; e eu agora começava a pensar que seria adotado na família, e começava a reconciliar-me com a minha situação, e a esquecer gradualmente as minhas desgraças, quando de repente a ilusão desapareceu; pois, sem o menor conhecimento prévio, numa manhã cedo, enquanto o meu querido mestre e companheiro ainda dormia, fui acordado do meu devaneio para uma nova tristeza, e levado apressadamente, mesmo para o meio dos incircuncisos.

Assim, no preciso momento em que sonhava com a maior felicidade, encontrei-me o mais miserável; e parecia que a fortuna desejava dar-me este gosto de alegria, apenas para tornar o reverso mais pungente. A mudança que experimentei agora foi tão dolorosa quanto repentina e inesperada. Foi, de fato, uma mudança de um estado de felicidade para uma cena que é inexprimível por mim, pois revelou-me um elemento que eu nunca tinha visto antes, e até então não tinha ideia dele, e onde tais instâncias de privação e crueldade ocorriam continuamente, que nunca posso refletir nelas sem horror.

Todas as nações e povos pelos quais passei até então assemelhavam-se aos nossos nos seus modos, costumes e língua: mas cheguei finalmente a um país cujos habitantes diferiam de nós em todos esses pontos. Fiquei muito impressionado com esta diferença, especialmente quando cheguei entre um povo que não circuncidava e comia sem lavar as mãos. Cozinhavam também em potes de ferro, e tinham catanas e bestas europeias, que nos eram desconhecidas, e lutavam com os punhos entre si. As suas mulheres não eram tão recatadas quanto as nossas, pois comiam, bebiam e dormiam com os seus homens. Mas, acima de tudo, fiquei espantado ao não ver sacrifícios ou oferendas entre eles. Em alguns desses lugares, as pessoas ornamentavam-se com cicatrizes e também limavam os dentes até ficarem muito afiados. Queriam por vezes ornamentar-me da mesma maneira, mas eu não o permitia; esperando que pudesse algum dia estar entre um povo que não se desfigurasse assim, como eu pensava que faziam. Finalmente, cheguei às margens de um grande rio, que estava coberto de canoas, nas quais as pessoas pareciam viver com os seus utensílios domésticos e provisões de todos os tipos. Fiquei espantado além da medida com isto, pois nunca tinha visto água maior do que um lago ou um riacho: e a minha surpresa misturou-se com não pouco medo quando fui colocado numa dessas canoas, e começamos a remar e a mover-nos ao longo do rio. Continuamos a ir assim até à noite; e quando chegamos a terra e fizemos fogueiras nas margens, cada família por si, alguns arrastaram as suas canoas para a margem, outros ficaram e cozinharam nas suas, e deitaram-se nelas durante toda a noite. Os que estavam em terra tinham esteiras, das quais faziam tendas, algumas em forma de pequenas casas: nestas dormíamos; e após a refeição da manhã embarcávamos novamente e seguíamos como antes. Fiquei muitas vezes muito espantado ao ver algumas das mulheres, bem como os homens, saltarem para a água, mergulharem até ao fundo, subirem novamente e nadarem por ali. Assim continuei a viajar, por vezes por terra, por vezes por água, através de diferentes países e várias nações, até que, ao fim de seis ou sete meses após ter sido raptado, cheguei à costa marítima. Seria tedioso e pouco interessante relatar todos os incidentes que me aconteceram durante esta viagem, e que ainda não esqueci; das várias mãos pelas quais passei, e dos modos e costumes de todos os diferentes povos entre os quais vivi: observarei, portanto, apenas que em todos os lugares onde estive o solo era extraordinariamente rico; as abóboras, inhames, bananas, batatas-doces, etc., etc., estavam em grande abundância e de tamanho inacreditável. Havia também grandes quantidades de diferentes gomas, embora não fossem usadas para qualquer fim; e por toda a parte muito tabaco. O algodão crescia até de forma selvagem; e havia muito pau-brasil. Não vi mecânicos de espécie alguma por todo o caminho, exceto aqueles que mencionei. O principal emprego em todos estes países era a agricultura, e tanto os homens como as mulheres, como entre nós, eram criados para ela e treinados nas artes da guerra.

O primeiro objeto que saudou os meus olhos quando cheguei à costa foi o mar, e um navio negreiro, que estava então fundeado, à espera da sua carga. Isto encheu-me de espanto, que logo se converteu em terror quando fui levado a bordo. Fui imediatamente manuseado e revirado por alguns da tripulação para ver se eu era saudável; e estava agora persuadido de que tinha chegado a um mundo de maus espíritos, e de que eles me iam matar. As suas compleições também diferiam tanto das nossas, o seu cabelo comprido e a língua que falavam (que era muito diferente de qualquer uma que eu tivesse ouvido) uniram-se para me confirmar nesta crença. De facto, tais eram os horrores das minhas visões e medos naquele momento, que, se dez mil mundos fossem meus, tê-los-ia cedido livremente todos para trocar a minha condição pela do mais humilde escravo no meu próprio país. Quando olhei também em redor do navio e vi uma grande fornalha ou caldeira a ferver, e uma multidão de negros de todos os tipos acorrentados uns aos outros, cada um dos seus semblantes expressando abatimento e tristeza, já não duvidei do meu destino; e, totalmente dominado pelo horror e pela angústia, caí imóvel no convés e desmaiei.

Quando recuperei um pouco, encontrei alguns negros à minha volta, que acreditei serem alguns daqueles que me tinham trazido a bordo e que tinham estado a receber o seu pagamento; falaram-me para me animar, mas tudo em vão. Perguntei-lhes se não íamos ser comidos por aqueles homens brancos de aspeto horrível, rostos vermelhos e cabelo solto. Disseram-me que não; e um dos membros da tripulação trouxe-me uma pequena porção de bebida espirituosa num copo de vinho; mas, tendo medo dele, não a quis tirar da sua mão. Um dos negros tirou-lha, portanto, e deu-ma, e tomei um pouco pelo meu paladar, o que, em vez de me reanimar, como pensavam que faria, lançou-me na maior consternação pela sensação estranha que produziu, nunca tendo provado tal bebida antes. Pouco depois, os negros que me tinham trazido a bordo foram-se embora e deixaram-me abandonado ao desespero. Via-me agora privado de toda a hipótese de regressar ao meu país natal, ou até mesmo do menor vislumbre de esperança de chegar à terra, que agora considerava como amigável; e desejei até a minha anterior escravidão em preferência à minha situação atual, que estava cheia de horrores de todos os tipos, ainda mais intensificados pela minha ignorância do que iria sofrer. Não me foi permitido durante muito tempo entregar-me ao meu pesar; fui logo posto debaixo dos conveses, e lá recebi tal saudação nas minhas narinas como nunca tinha experimentado na minha vida: de modo que, com a repugnância do fedor e o choro ao mesmo tempo, fiquei tão doente e fraco que não conseguia comer, nem tinha o menor desejo de provar nada. Desejei então o último amigo, a morte, para me aliviar; mas logo, para meu pesar, dois dos homens brancos ofereceram-me comida; e, ao recusar-me a comer, um deles segurou-me firmemente pelas mãos, deitou-me através, penso eu, do molinete, e amarrou-me os pés, enquanto o outro me açoitava severamente. Nunca tinha experimentado nada deste tipo antes; e, embora, não estando acostumado à água, temesse naturalmente aquele elemento na primeira vez que o vi, contudo, se tivesse conseguido passar as redes, ter-me-ia atirado pela borda fora, mas não consegui; e, além disso, a tripulação costumava vigiar-nos muito de perto a nós que não estávamos acorrentados aos conveses, para que não saltássemos para a água: e vi alguns destes pobres prisioneiros africanos serem cortados muito severamente por tentarem fazê-lo, e serem chicoteados de hora a hora por não comerem. Este foi, de facto, muitas vezes o caso comigo mesmo.

Pouco tempo depois, entre os pobres homens acorrentados, encontrei alguns da minha própria nação, o que, em pequena medida, trouxe alívio à minha mente. Perguntei a estes o que ia ser feito connosco; deram-me a entender que íamos ser levados para o país destas pessoas brancas para trabalhar para elas. Fiquei então um pouco reanimado, e pensei que, se não fosse pior do que trabalhar, a minha situação não era tão desesperada: mas ainda temia que fosse condenado à morte, pois as pessoas brancas olhavam e agiam, como eu pensava, de uma forma tão selvagem; pois nunca tinha visto entre qualquer povo tais instâncias de crueldade brutal; e isto não só mostrado para connosco negros, mas também para com alguns dos próprios brancos. Um homem branco, em particular, vi-o, quando nos era permitido estar no convés, ser açoitado tão impiedosamente com uma corda grossa perto do mastro de vante, que morreu em consequência disso; e atiraram-no pela borda fora como teriam feito a um bruto. Isto fez-me temer ainda mais estas pessoas; e não esperava nada menos do que ser tratado da mesma maneira. Não pude deixar de expressar os meus medos e apreensões a alguns dos meus compatriotas: perguntei-lhes se estas pessoas não tinham país, mas viviam neste lugar oco (o navio): disseram-me que não, mas que vinham de um distante. "Então", disse eu, "como é que em todo o nosso país nunca ouvimos falar deles?" Disseram-me que porque viviam muito longe. Perguntei então onde estavam as suas mulheres? Teriam elas alguma como eles próprios? Disseram-me que tinham: "e por que", disse eu, "não as vemos?" responderam, porque tinham sido deixadas para trás. Perguntei como é que a embarcação podia andar; disseram-me que não sabiam dizer; mas que havia panos colocados nos mastros com a ajuda das cordas que eu via, e então a embarcação seguia; e os homens brancos tinham algum feitiço ou magia que punham na água quando queriam para parar a embarcação. Fiquei extremamente espantado com este relato, e realmente pensei que eles eram espíritos. Desejei, portanto, muito estar longe deles, pois esperava que me sacrificassem: mas os meus desejos foram vãos; pois estávamos tão aquartelados que era impossível para qualquer um de nós escapar. Enquanto ficámos na costa, estive maioritariamente no convés; e um dia, para meu grande espanto, vi uma destas embarcações a entrar com as velas em cima. Assim que os brancos a viram, deram um grande grito, ao qual ficámos espantados; e mais ainda à medida que a embarcação parecia maior por se aproximar. Finalmente, ela fundeou à minha vista, e quando a âncora foi largada, eu e os meus compatriotas que a vimos ficámos perdidos de espanto ao observar a embarcação parar; e não ficámos convencidos de que fosse feito por magia. Pouco depois, o outro navio pôs os seus botes fora, e eles vieram a bordo do nosso, e as pessoas de ambos os navios pareciam muito felizes por verem umas às outras. Vários dos estranhos também apertaram a mão a nós, negros, e fizeram movimentos com as mãos, significando, suponho, que íamos para o seu país; mas não os compreendemos.

Finalmente, quando o navio em que estávamos tinha recebido toda a sua carga, prepararam-se com muitos ruídos temerosos, e fomos todos postos debaixo do convés, de modo que não pudemos ver como eles manobravam a embarcação. Mas esta deceção foi o menor dos meus pesares. O fedor do porão, enquanto estávamos na costa, era tão intoleravelmente repugnante que era perigoso permanecer lá durante qualquer tempo, e a alguns de nós tinha sido permitido ficar no convés para apanhar ar fresco; mas agora que toda a carga do navio estava confinada junta, tornou-se absolutamente pestilencial. O confinamento do lugar, e o calor do clima, somados ao número de pessoas no navio, que estava tão apinhado que cada um mal tinha espaço para se virar, quase nos sufocava. Isto produziu transpirações copiosas, de modo que o ar logo se tornou impróprio para a respiração, devido a uma variedade de odores repugnantes, e trouxe uma doença entre os escravos, da qual muitos morreram, caindo assim vítimas da avareza improvidente, como lhe posso chamar, dos seus compradores. Esta situação miserável foi ainda agravada pelo roçar das correntes, que se tornaram insuportáveis; e pela imundície dos baldes sanitários, nos quais as crianças caíam frequentemente e eram quase sufocadas. Os gritos das mulheres, e os gemidos dos moribundos, tornaram tudo uma cena de horror quase inconcebível. Felizmente, talvez para mim, fiquei logo tão debilitado aqui que se considerou necessário manter-me quase sempre no convés; e, devido à minha extrema juventude, não fui colocado em grilhões. Nesta situação, esperava a cada hora partilhar o destino dos meus companheiros, alguns dos quais eram quase diariamente trazidos para o convés à beira da morte, o que comecei a esperar que pusesse brevemente fim às minhas misérias. Muitas vezes achei muitos dos habitantes das profundezas muito mais felizes do que eu. Invejava-lhes a liberdade de que gozavam, e tantas vezes desejei poder trocar a minha condição pela deles. Cada circunstância que encontrei serviu apenas para tornar o meu estado mais doloroso, e intensificar as minhas apreensões, e a minha opinião sobre a crueldade dos brancos. Um dia tinham apanhado vários peixes; e quando os tinham matado e se tinham satisfeito com tantos quantos quiseram, para nosso espanto, que estávamos no convés, em vez de nos darem algum deles para comer, como esperávamos, atiraram os peixes restantes de volta ao mar, embora implorássemos e pedíssemos por algum tão bem quanto podíamos, mas em vão; e alguns dos meus compatriotas, sendo pressionados pela fome, aproveitaram uma oportunidade, quando pensaram que ninguém os via, de tentar obter um pouco privadamente; mas foram descobertos, e a tentativa valeu-lhes alguns açoites muito severos.

Um dia, quando tínhamos um mar calmo e vento moderado, dois dos meus exaustos compatriotas que estavam acorrentados um ao outro (eu estava perto deles naquela altura), preferindo a morte a tal vida de miséria, de alguma forma passaram pelas redes e saltaram para o mar: imediatamente outro companheiro bastante abatido, que, devido à sua doença, tinha permissão para estar sem ferros, também seguiu o seu exemplo; e acredito que muitos mais teriam muito cedo feito o mesmo se não tivessem sido impedidos pela tripulação do navio, que foi instantaneamente alarmada. Aqueles de nós que eram os mais ativos foram num momento postos debaixo do convés, e houve tal ruído e confusão entre as pessoas do navio como eu nunca tinha ouvido antes, para pará-la, e pôr o bote fora para ir atrás dos escravos. No entanto, dois dos desgraçados afogaram-se, mas apanharam o outro, e depois açoitaram-no impiedosamente por ter tentado preferir a morte à escravidão. Desta maneira continuámos a sofrer mais dificuldades do que agora posso relatar, dificuldades que são inseparáveis deste comércio maldito. Muitas vezes estivemos perto da asfixia pela falta de ar fresco, do qual estivemos muitas vezes privados por dias inteiros. Isto, e o fedor dos baldes sanitários, levou muitos. Durante a nossa viagem vi pela primeira vez peixes voadores, o que me surpreendeu muito: costumavam voar frequentemente através do navio, e muitos deles caíam no convés. Também vi agora pela primeira vez o uso do quadrante; muitas vezes tinha visto com espanto os marinheiros fazerem observações com ele, e não conseguia pensar o que significava. Eles finalmente deram conta da minha surpresa; e um deles, desejando aumentá-la, bem como satisfazer a minha curiosidade, fez-me um dia olhar através dele. As nuvens apareceram-me como terra, que desaparecia à medida que passavam. Isto aumentou o meu espanto; e eu estava agora mais persuadido do que nunca de que estava noutro mundo, e de que tudo à minha volta era magia. Finalmente, avistámos a ilha de Barbados, ao que os brancos a bordo deram um grande grito, e fizeram muitos sinais de alegria para nós. Não sabíamos o que pensar disto; mas à medida que a embarcação se aproximava vimos claramente o porto, e outros navios de diferentes tipos e tamanhos; e logo fundeámos entre eles ao largo de Bridge Town. Muitos comerciantes e plantadores vieram agora a bordo, embora fosse ao entardecer. Puseram-nos em lotes separados, e examinaram-nos atentamente. Também nos fizeram saltar, e apontaram para a terra, significando que íamos para lá. Pensámos com isto que íamos ser comidos por estes homens feios, como nos pareciam; e, quando pouco depois fomos todos postos debaixo do convés novamente, houve muito medo e tremor entre nós, e nada mais que gritos amargos se ouviam durante toda a noite devido a estas apreensões, de tal modo que, finalmente, as pessoas brancas foram buscar alguns escravos velhos da terra para nos apaziguar. Disseram-nos que não íamos ser comidos, mas trabalhar, e que em breve iríamos para terra, onde veríamos muitos dos nossos compatriotas. Este relato acalmou-nos muito; e, com certeza, pouco depois de termos desembarcado, vieram ter connosco africanos de todas as línguas. Fomos conduzidos imediatamente para o pátio do comerciante, onde fomos todos encerrados juntos como tantas ovelhas num curral, sem consideração pelo sexo ou idade. Como cada objeto era novo para mim, tudo o que via enchia-me de surpresa. O que me impressionou primeiro foi que as casas eram construídas com andares, e em todos os outros aspetos diferentes das da África: mas fiquei ainda mais espantado ao ver pessoas a cavalo. Não sabia o que isto podia significar; e, de facto, pensava que estas pessoas não estavam cheias de nada mais do que artes mágicas. Enquanto estava neste espanto, um dos meus companheiros de prisão falou a um compatriota seu sobre os cavalos, que disse que eram do mesmo tipo que tinham no seu país. Compreendi-os, embora fossem de uma parte distante da África, e achei estranho não ter visto cavalos lá; mas depois, quando comecei a conversar com diferentes africanos, descobri que eles tinham muitos cavalos entre eles, e muito maiores do que aqueles que vi então. Não passámos muitos dias sob a custódia do comerciante antes de sermos vendidos à sua maneira habitual, que é esta:--Num sinal dado (como o bater de um tambor) os compradores precipitam-se ao mesmo tempo para o pátio onde os escravos estão confinados, e fazem a escolha daquele lote de que gostam mais. O ruído e a algazarra com que isto é acompanhado, e a ânsia visível nos semblantes dos compradores, servem não pouco para aumentar as apreensões dos aterrorizados africanos, que bem podem ser supostos considerá-los como os ministros daquela destruição à qual pensam estar destinados. Desta maneira, sem escrúpulos, são parentes e amigos separados, a maioria deles para nunca mais se verem. Lembro-me, na embarcação em que fui trazido, no compartimento dos homens, havia vários irmãos, que, na venda, foram vendidos em lotes diferentes; e foi muito comovente nesta ocasião ver e ouvir os seus gritos na despedida. Ó, vós cristãos nominais! não poderia um africano perguntar-vos, aprendestes isto do vosso Deus, que vos diz: Fazei a todos os homens como quereis que os homens vos façam? Não basta que sejamos arrancados do nosso país e amigos para labutar pelo vosso luxo e luxúria de ganho? Deve todo o sentimento terno ser também sacrificado à vossa avareza? Devem os amigos e parentes mais queridos, agora tornados mais caros pela sua separação dos seus familiares, ser ainda separados uns dos outros, e assim impedidos de alegrar a melancolia da escravidão com o pequeno conforto de estarem juntos e misturarem os seus sofrimentos e tristezas? Por que hão de os pais perder os seus filhos, os irmãos as suas irmãs, ou os maridos as suas mulheres? Certamente, este é um novo refinamento na crueldade, que, embora não tenha qualquer vantagem para o compensar, agrava assim a angústia, e acrescenta novos horrores mesmo à miséria da escravidão.

CAP. III.

O autor é levado para a Virgínia--A sua angústia--Surpresa ao ver um retrato e um relógio--É comprado pelo Capitão Pascal, e parte para a Inglaterra--O seu terror durante a viagem--Chega à Inglaterra--O seu espanto perante uma queda de neve--É enviado para Guernsey, e algum tempo depois vai a bordo de um navio de guerra com o seu mestre--Algum relato da expedição contra Louisbourg sob o comando do Almirante Boscawen, em 1758.

Perdi agora totalmente os pequenos vestígios de conforto que tinha desfrutado ao conversar com os meus compatriotas; as mulheres também, que costumavam lavar-me e cuidar de mim, tinham todas ido por caminhos diferentes, e nunca mais vi nenhuma delas.

Fiquei nesta ilha por alguns dias; creio que não terá sido mais de uma quinzena; quando eu e alguns outros escravos, que não eram vendáveis entre os demais por estarem muito desgostosos, fomos embarcados num chalupa para a América do Norte. Durante a travessia, fomos mais bem tratados do que quando vínhamos de África, e tivemos abundância de arroz e toucinho gordo. Fomos desembarcados num rio, a uma boa distância do mar, por volta do condado de Virgínia, onde vimos poucos ou nenhuns dos nossos africanos nativos, e nem uma única alma que pudesse conversar comigo. Passei algumas semanas a sachar erva e a recolher pedras numa plantação; e, por fim, todos os meus companheiros foram distribuídos por diferentes caminhos, e só eu fui deixado. Estava agora extremamente miserável e considerava-me em pior situação do que qualquer um dos meus companheiros; pois eles podiam conversar uns com os outros, mas eu não tinha ninguém com quem falar que pudesse entender. Neste estado, vivia constantemente a sofrer e a definhar, desejando a morte acima de qualquer outra coisa. Enquanto estive nesta plantação, o cavalheiro a quem suponho pertencer a propriedade sentiu-se indisposto, e um dia fui chamado à sua casa para o abanar; quando entrei na sala onde ele estava, fiquei muito assustado com algumas coisas que vi, e ainda mais por ter visto uma escrava negra, enquanto passava pela casa, que estava a cozinhar o jantar, e a pobre criatura estava cruelmente carregada com vários tipos de máquinas de ferro; tinha uma, particularmente, na cabeça, que lhe fechava a boca com tanta força que mal podia falar; e não podia comer nem beber. Fiquei muito espantado e chocado com este artifício, que mais tarde soube chamar-se mordaça de ferro.

Pouco depois, puseram-me um leque na mão para abanar o cavalheiro enquanto ele dormia; e assim o fiz, na verdade, com grande medo. Enquanto ele estava profundamente adormecido, permiti-me olhar bastante à volta da sala, que me pareceu muito bela e curiosa. O primeiro objeto que chamou a minha atenção foi um relógio que pendia na chaminé e que estava a funcionar. Fiquei bastante surpreendido com o ruído que fazia, e temia que ele contasse ao cavalheiro qualquer coisa que eu fizesse de errado: e, quando observei imediatamente a seguir um retrato pendurado na sala, que parecia olhar constantemente para mim, fiquei ainda mais assustado, nunca tendo visto tais coisas antes. A certa altura, pensei que fosse algo relacionado com magia; e, não o vendo mover-se, pensei que pudesse ser alguma forma que os brancos tinham de guardar os seus grandes homens quando morriam, e oferecer-lhes libações como costumávamos fazer aos nossos espíritos amigos. Neste estado de ansiedade permaneci até que o meu senhor acordou, quando fui dispensado da sala, para meu não pequeno contentamento e alívio; pois pensava que estas pessoas eram todas feitas de maravilhas. Neste lugar, chamavam-me Jacob; mas a bordo do navio africano chamavam-me Michael. Estava há algum tempo neste estado miserável, abandonado e muito abatido, sem ter ninguém com quem falar, o que tornava a minha vida um fardo, quando a mão bondosa e desconhecida do Criador (que na verdade guia os cegos por um caminho que eles desconhecem) começou agora a aparecer, para meu conforto; pois um dia o capitão de um navio mercante, chamado Industrious Bee, veio tratar de alguns negócios a casa do meu senhor. Este cavalheiro, cujo nome era Michael Henry Pascal, era tenente da marinha real, mas comandava agora este navio mercante, que estava algures nos confins do condado, a muitas milhas de distância. Enquanto esteve em casa do meu senhor, aconteceu que ele me viu e gostou tanto de mim que me comprou. Creio ter ouvido dizer muitas vezes que ele deu trinta ou quarenta libras esterlinas por mim; mas não me lembro agora qual das duas. Contudo, ele destinava-me como um presente para alguns dos seus amigos em Inglaterra: e fui enviado, consequentemente, da casa do meu então senhor, um tal Sr. Campbell, para o local onde o navio estava atracado; fui conduzido a cavalo por um homem negro idoso (um modo de viajar que me pareceu muito estranho). Quando cheguei, fui levado para um navio grande e belo, carregado de tabaco, etc., e pronto a zarpar para Inglaterra. Pensei então que a minha condição tinha melhorado muito; tinha velas para me deitar e comida farta e boa para comer; e todos a bordo trataram-me muito bem, ao contrário do que tinha visto de quaisquer brancos antes; comecei, portanto, a pensar que nem todos eles tinham a mesma disposição. Alguns dias depois de estar a bordo, partimos para Inglaterra. Eu ainda não sabia como conjeturar o meu destino. Por esta altura, no entanto, já conseguia balbuciar um pouco de inglês imperfeito; e queria saber, o melhor que podia, para onde íamos. Algumas das pessoas do navio costumavam dizer-me que iam levar-me de volta para o meu próprio país, e isso deixava-me muito feliz. Fiquei muito alegre ao ouvir falar em voltar; e pensava nas maravilhas que teria para contar se chegasse a casa. Mas estava reservado para outro destino, e logo fui desencantado quando avistámos a costa inglesa. Enquanto estive a bordo deste navio, o meu capitão e senhor deu-me o nome de Gustavus Vassa. Naquela altura, comecei a entendê-lo um pouco e recusei-me a ser chamado assim, e disse-lhe, da melhor forma que pude, que queria ser chamado Jacob; mas ele disse que não, e continuou a chamar-me Gustavus; e, quando me recusei a responder ao meu novo nome, o que a princípio fiz, valeu-me muitos safanões; por isso, finalmente, submeti-me e fui obrigado a suportar o presente nome, pelo qual tenho sido conhecido desde então. O navio teve uma travessia muito longa; e, por causa disso, tivemos rações de provisões muito curtas. Para o fim, tínhamos apenas um quilo e meio de pão por semana, e cerca da mesma quantidade de carne, e um litro de água por dia. Falámos com apenas um navio durante todo o tempo em que estivemos no mar, e apenas uma vez pescámos alguns peixes. Nas nossas extremidades, o capitão e o pessoal disseram-me, a brincar, que me matariam e comeriam; mas eu achei que falavam a sério, e fiquei deprimido além da medida, esperando a cada momento que fosse o meu último. Enquanto estava nesta situação, uma noite, apanharam, com bastante dificuldade, um grande tubarão e trouxeram-no a bordo. Isto alegrou imenso o meu pobre coração, pois pensei que serviria para as pessoas comerem em vez de me comerem a mim; mas, muito rapidamente, para meu espanto, cortaram uma pequena parte da cauda e atiraram o resto borda fora. Isto renovou a minha consternação; e não sabia o que pensar destas pessoas brancas, embora temesse muito que me matassem e comessem. Havia a bordo do navio um rapaz jovem que nunca tinha estado no mar antes, cerca de quatro ou cinco anos mais velho do que eu: o seu nome era Richard Baker. Era natural da América, tinha recebido uma excelente educação e era de um temperamento muito amável. Logo depois de eu ter subido a bordo, ele mostrou-me muita parcialidade e atenção e, em troca, tornei-me extremamente afeiçoado a ele. Tornámo-nos, finalmente, inseparáveis; e, durante dois anos, ele foi de grande utilidade para mim, sendo o meu companheiro e instrutor constante. Embora este jovem querido tivesse muitos escravos seus, ele e eu passámos por muitos sofrimentos juntos a bordo; e muitas noites deitámo-nos nos braços um do outro quando estávamos em grande aflição. Assim, cimentou-se entre nós uma amizade que cultivámos até à sua morte, que, para meu grande pesar, aconteceu no ano de 1759, quando ele estava no Arquipélago, a bordo do navio de sua majestade, o Preston: um acontecimento que nunca deixei de lamentar, pois perdi de uma só vez um intérprete bondoso, um companheiro agradável e um amigo fiel; que, aos quinze anos, revelou um espírito superior ao preconceito; e que não se envergonhava de notar, de se associar e de ser o amigo e instrutor de alguém que era ignorante, um estranho, de tez diferente e um escravo! O meu senhor tinha estado alojado na casa da sua mãe, na América: ele respeitava-o muito e fazia com que ele comesse sempre consigo na cabina. Ele costumava dizer-lhe, jocosamente, que me mataria para me comer. Por vezes, dizia-me que as pessoas negras não eram boas para comer, e perguntava-me se não comíamos gente no meu país. Eu dizia: Não; então ele dizia que mataria o Dick (como ele sempre lhe chamava) primeiro, e depois a mim. Embora ouvir isto aliviasse um pouco a minha mente quanto a mim próprio, ficava alarmado pelo Dick e, sempre que ele era chamado, ficava com muito medo de que ele fosse morto; e eu espreitava e vigiava para ver se iam matá-lo: e não me senti livre desta consternação até chegarmos a terra. Uma noite, perdemos um homem borda fora; e os gritos e o ruído eram tão grandes e confusos, ao parar o navio, que eu, que não sabia o que se passava, comecei, como de costume, a ter muito medo, e a pensar que iam fazer uma oferenda comigo e realizar alguma magia; na qual eu ainda acreditava que eles praticavam. Como as ondas eram muito altas, pensei que o Governante dos mares estava zangado, e esperava ser oferecido para o apaziguar. Isto encheu a minha mente de agonia, e não consegui fechar os olhos para descansar mais naquela noite. Contudo, quando a luz do dia apareceu, senti-me um pouco aliviado; mas, ainda assim, sempre que era chamado, pensava que era para ser morto. Algum tempo depois disto, vimos uns peixes muito grandes, que mais tarde descobri chamarem-se grampus. Pareciam-me extremamente terríveis, e apareceram mesmo ao anoitecer; e estavam tão perto que sopravam água para o convés do navio. Acreditei que fossem os governantes do mar; e, como as pessoas brancas não faziam quaisquer oferendas em momento algum, pensei que eles estivessem zangados com elas: e, finalmente, o que confirmou a minha crença foi que o vento, nesse preciso momento, acalmou, e seguiu-se uma bonança, e, em consequência disso, o navio parou. Supus que os peixes tinham feito aquilo, e escondi-me na parte da frente do navio, por medo de ser oferecido para os apaziguar, espreitando e tremendo a cada minuto: mas o meu bom amigo Dick veio pouco depois ter comigo, e aproveitei a oportunidade para lhe perguntar, o melhor que podia, que peixes eram aqueles. Não conseguindo falar muito inglês, mal consegui fazê-lo entender a minha pergunta; e nada, quando lhe perguntei se se deviam fazer oferendas a eles: contudo, ele disse-me que estes peixes engoliriam qualquer pessoa; o que me alarmou suficientemente. Aqui ele foi chamado pelo capitão, que estava debruçado sobre o parapeito do convés de ré e a olhar para os peixes; e a maioria das pessoas estava ocupada a arranjar um barril de alcatrão para acender, para brincarem com eles. O capitão chamou-me então, tendo aprendido algumas das minhas apreensões através do Dick; e, tendo-se divertido a si próprio e aos outros durante algum tempo com os meus medos, que pareciam bastante ridículos no meu choro e tremor, dispensou-me. O barril de alcatrão foi então aceso e colocado na água, borda fora: a esta hora já estava escuro, e os peixes foram atrás dele; e, para minha grande alegria, não os vi mais.

Contudo, todos os meus alarmes começaram a diminuir quando avistámos terra; e, finalmente, o navio chegou a Falmouth, após uma travessia de treze semanas. Cada coração a bordo parecia alegrar-se por termos chegado à costa, e nenhum mais do que o meu. O capitão foi imediatamente a terra e enviou a bordo algumas provisões frescas, de que precisávamos muito: fizemo-las render, e a nossa fome transformou-se rapidamente em festins, quase sem fim. Foi por volta do início da primavera de 1757 que cheguei a Inglaterra, e tinha quase doze anos de idade nessa altura. Fiquei muito impressionado com os edifícios e o empedrado das ruas em Falmouth; e, de facto, qualquer objeto que via enchia-me de novo espanto. Uma manhã, quando subi ao convés, vi-o coberto por toda a parte com a neve que caíra durante a noite: como nunca tinha visto nada do género antes, pensei que fosse sal; por isso, corri imediatamente para o imediato e desejei-lhe, o melhor que pude, que viesse ver como alguém, durante a noite, tinha atirado sal por todo o convés. Ele, sabendo o que era, pediu-me que lhe levasse um pouco: levei-lhe então um punhado, que achei muito frio, de facto; e, quando lho levei, ele pediu-me que o provasse. Fi-lo, e fiquei surpreendido além da medida. Perguntei-lhe então o que era; ele disse-me que era neve: mas eu não conseguia, de forma alguma, entendê-lo. Ele perguntou-me se não tínhamos nada parecido no meu país; e eu disse-lhe que não. Perguntei-lhe então para que servia e quem a tinha feito; ele disse-me que era um grande homem nos céus, chamado Deus: mas aqui, novamente, eu estava, para todos os efeitos, sem conseguir entendê-lo; e ainda mais, quando pouco depois vi o ar cheio dela, num aguaceiro pesado, que caiu no mesmo dia. Depois disto, fui à igreja; e, nunca tendo estado num lugar assim antes, fiquei novamente espantado ao ver e ouvir o serviço. Perguntei tudo o que podia sobre o assunto; e eles deram-me a entender que era para adorar a Deus, que nos fez a nós e a todas as coisas. Eu continuava muito perdido, e logo entrei num campo interminável de perguntas, tanto quanto conseguia falar e perguntar sobre as coisas. Contudo, o meu pequeno amigo Dick costumava ser o meu melhor intérprete; pois eu podia estar à vontade com ele, e ele sempre me instruía com prazer: e, pelo que pude entender através dele sobre este Deus, e ao ver que estas pessoas brancas não vendiam umas às outras, como nós fazíamos, fiquei muito satisfeito; e, nisto, pensei que eles eram muito mais felizes do que nós, africanos. Fiquei espantado com a sabedoria das pessoas brancas em todas as coisas que via; mas fiquei pasmado por não sacrificarem, ou fazerem quaisquer oferendas, e por comerem com as mãos por lavar e tocarem nos mortos. Também não pude deixar de notar a esbelteza particular das suas mulheres, de que a princípio não gostei; e pensei que elas não eram tão modestas e recatadas como as mulheres africanas.

Tinha visto muitas vezes o meu senhor e o Dick ocupados a ler; e tinha uma grande curiosidade de falar com os livros, como pensava que eles faziam; e assim aprender como todas as coisas tiveram um começo: para esse fim, peguei muitas vezes num livro, falei-lhe e depois encostei os ouvidos a ele, quando estava sozinho, na esperança de que me respondesse; e fiquei muito preocupado quando descobri que ele permanecia em silêncio.

O meu senhor hospedou-se na casa de um cavalheiro em Falmouth, que tinha uma filha pequena e encantadora de cerca de seis ou sete anos de idade, e ela tornou-se prodigiosamente afeiçoada a mim; de tal modo que costumávamos comer juntos, e tínhamos criados para nos servir. Eu era tão acarinhado por esta família que isso me fazia recordar frequentemente o tratamento que recebi do meu pequeno e nobre senhor africano. Depois de estar aqui por alguns dias, fui enviado a bordo do navio; mas a criança chorou tanto por mim que nada a podia acalmar até que eu fosse buscado novamente. É bastante ridículo o facto de eu ter começado a recear que seria prometido a esta jovem senhora; e quando o meu senhor me perguntou se eu ficaria ali com ela, deixando-o para trás, pois ele ia partir com o navio, que tinha voltado a carregar tabaco, chorei imediatamente e disse que não a deixaria. Por fim, às escondidas, fui enviado numa noite novamente para bordo do navio; e em pouco tempo navegámos para Guernsey, onde ele era em parte propriedade de um mercador, um tal Nicholas Doberry. Como eu estava agora entre um povo que não tinha os rostos marcados por cicatrizes, como algumas das nações africanas onde eu estivera, fiquei muito contente por não ter permitido que me ornamentassem daquela maneira quando estive com eles. Quando chegámos a Guernsey, o meu senhor colocou-me a viver e a comer com um dos seus imediatos, que tinha mulher e família lá; e alguns meses depois ele foi para Inglaterra e deixou-me aos cuidados deste imediato, juntamente com o meu amigo Dick. Este imediato tinha uma filha pequena, com cerca de cinco ou seis anos, de quem eu costumava gostar muito. Tinha observado frequentemente que, quando a mãe lhe lavava a face, ela parecia muito rosada; mas quando ela lavava a minha, não parecia assim: tentei, portanto, muitas vezes, por mim mesmo, ver se conseguia, ao lavar-me, tornar a minha face da mesma cor da minha pequena companheira de brincadeiras (Mary), mas foi tudo em vão; e comecei então a sentir-me mortificado com a diferença das nossas compleições. Esta mulher tratou-me com grande bondade e atenção; e ensinou-me tudo da mesma maneira que fazia com a sua própria filha e, de facto, em todos os aspectos, tratou-me como tal. Permaneci aqui até ao verão do ano de 1757; altura em que o meu senhor, sendo nomeado primeiro-tenente do navio de Sua Majestade, o Roebuck, mandou chamar o Dick e a mim, e o seu antigo imediato: com isto, deixámos todos Guernsey e partimos para Inglaterra num chalupo com destino a Londres. Enquanto subíamos em direcção a Nore, onde o Roebuck estava ancorado, um barco de um navio de guerra aproximou-se para recrutar os nossos homens à força; ao que cada homem correu para se esconder. Fiquei muito assustado com isto, embora não soubesse o que significava, ou o que pensar ou fazer. No entanto, fui e escondi-me também debaixo de um galinheiro. Imediatamente depois, o bando de recrutamento veio a bordo com as espadas desembainhadas e procurou por todo o lado, puxou as pessoas à força e colocou-as no barco. Por fim, fui também descoberto: o homem que me encontrou segurou-me pelos calcanhares enquanto todos se divertiam à minha custa, eu a rugir e a gritar a plenos pulmões durante todo o tempo: mas, finalmente, o imediato, que era o meu protector, vendo isto, veio em meu auxílio e fez tudo o que podia para me acalmar; mas tudo em vão, até que vi o barco partir. Pouco depois chegámos a Nore, onde o Roebuck estava, e, para nossa grande alegria, o meu senhor veio a bordo ter connosco e levou-nos para o navio. Quando fui a bordo deste grande navio, fiquei verdadeiramente espantado ao ver a quantidade de homens e os canhões. No entanto, a minha surpresa começou a diminuir à medida que o meu conhecimento aumentava; e deixei de sentir aqueles receios e alarmes que tinham tomado tão forte posse de mim quando cheguei pela primeira vez entre os europeus, e durante algum tempo depois. Comecei agora a passar para um extremo oposto; estava tão longe de ter medo de qualquer coisa nova que via que, depois de estar algum tempo neste navio, comecei até a ansiar por uma batalha. As minhas mágoas também, que nas mentes jovens não são perpétuas, estavam agora a dissipar-se; e em breve desfrutei bastante bem de mim mesmo e senti-me toleravelmente à vontade na minha situação presente. Havia vários rapazes a bordo, o que tornava tudo ainda mais agradável; pois estávamos sempre juntos e uma grande parte do nosso tempo era passada a brincar. Permaneci neste navio durante um tempo considerável, durante o qual fizemos várias viagens e visitámos uma variedade de lugares: entre outros, estivemos duas vezes na Holanda e trouxemos de lá várias pessoas de distinção, cujos nomes não recordo agora. Na viagem, um dia, para diversão daqueles cavalheiros, todos os rapazes foram chamados ao convés de comando, emparelhados proporcionalmente e obrigados a lutar; depois do que o cavalheiro dava aos combatentes entre cinco a nove xelins a cada um. Esta foi a primeira vez que lutei com um rapaz branco; e nunca soube o que era ter o nariz a sangrar antes. Isto fez-me lutar mais desesperadamente; suponho que consideravelmente mais do que uma hora: e, por fim, estando ambos exaustos, fomos separados. Tive muito deste tipo de desporto depois, no qual o capitão e a tripulação do navio me encorajavam muito. Algum tempo depois, o navio foi até Leith, na Escócia, e de lá para as Órcades, onde fiquei surpreendido ao ver que quase não havia noite: e de lá navegámos com uma grande frota, cheia de soldados, para Inglaterra. Durante todo este tempo nunca entrámos em combate, embora estivéssemos frequentemente a navegar ao largo da costa de França: durante o que perseguimos muitos navios e tomámos dezassete presas ao todo. Tinha estado a aprender muitas das manobras do navio durante a nossa viagem; e várias vezes fui obrigado a disparar os canhões. Uma noite, ao largo de Havre de Grace, mesmo quando escurecia, estávamos a afastar-nos da costa e encontrámos uma bela e grande fragata de construção francesa. Preparámos tudo imediatamente para lutar; e esperava agora ver-me satisfeito ao ver um combate, que há tanto tempo desejava em vão. Mas no preciso momento em que a ordem de comando foi dada para disparar, ouvimos os que estavam a bordo do outro navio gritar "Arriem o estai!"; e nesse instante ela içou as cores inglesas. Houve instantaneamente connosco um grito espantoso de: Parem! ou cessem fogo; e creio que um ou dois canhões tinham sido disparados, mas felizmente não causaram danos. Tínhamos-lhes feito sinal várias vezes; mas como eles não ouviam, não recebemos resposta, o que foi a causa do nosso disparo. O barco foi então enviado a bordo dela, e revelou-se o navio de guerra Ambuscade, para minha não pequena desilusão. Regressámos a Portsmouth, sem ter estado em qualquer acção, precisamente durante o julgamento do Almirante Byng (a quem vi várias vezes durante o mesmo): e o meu senhor, tendo deixado o navio e ido para Londres para ser promovido, o Dick e eu fomos colocados a bordo do chalupo de guerra Savage, e fomos nele ajudar a trazer o navio de guerra St. George, que tinha encalhado algures na costa. Após passar algumas semanas a bordo do Savage, o Dick e eu fomos enviados para terra em Deal, onde permanecemos algum tempo, até que o meu senhor mandou chamar-nos para Londres, o lugar que há muito desejava ver ardentemente. Por isso, ambos, com grande prazer, entrámos numa carroça e viemos para Londres, onde fomos recebidos por um Sr. Guerin, um parente do meu senhor. Este cavalheiro tinha duas irmãs, senhoras muito amáveis, que repararam muito em mim e cuidaram de mim com grande desvelo. Embora desejasse tanto ver Londres, quando cheguei, fui infelizmente incapaz de satisfazer a minha curiosidade; pois tinha nesta altura frieiras a tal ponto que não podia estar de pé durante vários meses, e fui obrigado a ser enviado para o Hospital de St. George. Lá fiquei tão doente que os médicos quiseram amputar-me a perna esquerda em várias ocasiões, receando uma gangrena; mas eu dizia sempre que preferia morrer a sofrê-lo; e felizmente (agradeço a Deus) recuperei sem a operação. Depois de estar lá várias semanas, e mesmo quando recuperei, a varíola manifestou-se em mim, de modo que fiquei novamente confinado; e pensei que era agora particularmente infeliz. No entanto, recuperei em breve novamente; e por esta altura o meu senhor, tendo sido promovido a primeiro-tenente do navio de guerra Preston de cinquenta canhões, então novo em Deptford, o Dick e eu fomos enviados a bordo dele, e pouco depois fomos à Holanda buscar o falecido Duque de ---- para Inglaterra. Enquanto estive neste navio, aconteceu um incidente que, embora insignificante, peço licença para relatar, pois não pude deixar de reparar nele particularmente, e considerá-lo então como um juízo de Deus. Numa manhã, um jovem olhava para o cesto da gávea do mastro do traquete e, num tom perverso, comum a bordo dos navios, amaldiçoou os seus olhos por causa de qualquer coisa. Mesmo nesse momento, algumas partículas pequenas de sujidade caíram no seu olho esquerdo e, ao anoitecer, estava muito inflamado. No dia seguinte piorou; e dentro de seis ou sete dias perdeu-o. Deste navio o meu senhor foi nomeado tenente a bordo do Royal George. Quando ia partir, ele desejou que eu ficasse a bordo do Preston, para aprender trompa; mas como o navio tinha ordens para a Turquia, não pude pensar em deixar o meu senhor, a quem estava muito calorosamente ligado; e disse-lhe que se me deixasse para trás, isso partir-me-ia o coração. Isto convenceu-o a levar-me consigo; mas deixou o Dick a bordo do Preston, a quem abracei ao partir pela última vez. O Royal George era o maior navio que eu tinha visto alguma vez; de modo que quando fui a bordo dele fiquei surpreendido com o número de pessoas, homens, mulheres e crianças, de todas as denominações; e a grandeza dos canhões, muitos deles também de latão, que eu nunca tinha visto antes. Havia aqui também lojas ou bancas de todo o tipo de mercadorias, e pessoas a apregoar as suas diferentes mercadorias pelo navio como numa cidade. Para mim, parecia um pequeno mundo, no qual fui novamente lançado sem um amigo, pois já não tinha o meu querido companheiro Dick. Não ficámos muito tempo aqui. O meu senhor não esteve muitas semanas a bordo antes de conseguir uma nomeação para ser o sexto tenente do Namur, que estava então em Spithead, a ser equipado para o Vice-almirante Boscawen, que ia com uma grande frota numa expedição contra Louisbourgh. A tripulação do Royal George foi transferida para ele, e a bandeira daquele galante almirante foi içada a bordo, a azul no topo do mastro de joanete do mastro grande. Havia uma frota muito grande de navios de guerra de todas as descrições reunida para esta expedição, e eu tinha esperanças de em breve ter a oportunidade de ser satisfeito com uma batalha naval. Estando agora tudo pronto, esta poderosa frota (pois havia também a frota do Almirante Cornish em companhia, destinada às Índias Orientais) finalmente levantou âncora e navegou. As duas frotas continuaram em companhia durante vários dias e depois separaram-se; o Almirante Cornish, no Lenox, tendo primeiro saudado o nosso almirante no Namur, que ele retribuiu. Seguimos então para a América; mas, devido a ventos contrários, fomos levados para Tenerife, onde fiquei impressionado com o seu célebre pico. A sua altura prodigiosa e a sua forma, assemelhando-se a um pão de açúcar, encheram-me de maravilha. Permanecemos à vista desta ilha durante alguns dias e depois prosseguimos para a América, a qual avistámos em breve, e entrámos num porto muito cómodo chamado St. George, em Halifax, onde tínhamos peixe em grande abundância e todas as outras provisões frescas. Fomos aqui acompanhados por diferentes navios de guerra e navios de transporte com soldados; depois do que, a nossa frota tendo aumentado para um número prodigioso de navios de todos os tipos, navegámos para Cape Breton na Nova Escócia. Tínhamos o bom e galante General Wolfe a bordo do nosso navio, cuja afabilidade o tornava altamente estimado e amado por todos os homens. Ele honrava-me frequentemente, assim como a outros rapazes, com sinais da sua atenção; e salvou-me uma vez de uma chicotada por lutar com um jovem cavalheiro. Chegámos a Cape Breton no verão de 1758: e aqui os soldados deviam ser desembarcados, a fim de fazer um ataque a Louisbourgh. O meu senhor teve alguma parte na supervisão do desembarque; e aqui fui em pequena medida satisfeito ao ver um encontro entre os nossos homens e o inimigo. Os franceses estavam posicionados na costa para nos receber e disputaram o nosso desembarque durante muito tempo; mas por fim foram expulsos das suas trincheiras e um desembarque completo foi efectuado. As nossas tropas perseguiram-nos até à cidade de Louisbourgh. Nesta acção muitos foram mortos de ambos os lados. Uma coisa notável vi neste dia: um tenente do Princess Amelia, que, tal como o meu senhor, supervisionava o desembarque, estava a dar a ordem de comando, e enquanto a sua boca estava aberta, uma bala de mosquete atravessou-a e saiu-lhe pela bochecha. Tive nesse dia na minha mão o escalpo de um rei índio, que foi morto no combate: o escalpo tinha sido tirado por um montanhês. Vi também os ornamentos deste rei, que eram muito curiosos e feitos de penas.

As nossas forças terrestres sitiaram a cidade de Louisbourgh, enquanto os navios de guerra franceses eram bloqueados no porto pela frota, as baterias ao mesmo tempo disparando sobre eles a partir de terra. Fizeram-no com tal efeito que, um dia, vi alguns dos navios serem incendiados pelas granadas das baterias e creio que dois ou três deles foram completamente queimados. Noutra ocasião, cerca de cinquenta barcos pertencentes aos navios de guerra ingleses, comandados pelo Capitão George Balfour do navio de fogo Ætna, e outro capitão júnior, Laforey, atacaram e abordaram os dois únicos navios de guerra franceses que restavam no porto. Também incendiaram um navio de setenta canhões, mas um de sessenta e quatro, chamado Bienfaisant, eles trouxeram. Durante a minha estadia aqui, tive frequentemente a oportunidade de estar perto do Capitão Balfour, que se comprazia em reparar em mim e gostava tanto de mim que pedia frequentemente ao meu senhor para me deixar ficar com ele, mas ele não me queria deixar; e nenhuma consideração me teria levado a deixá-lo. Finalmente, Louisbourgh foi tomada e os navios de guerra ingleses entraram no porto diante dela, para minha grande alegria; pois agora tinha mais liberdade para me mimar e ia frequentemente a terra. Quando os navios estavam no porto, tivemos a mais bela procissão na água que alguma vez vi. Todos os almirantes e capitães dos navios de guerra, de gala e nas suas barcas, bem ornamentadas com galhardetes, vieram ao lado do Namur. O vice-almirante foi então para terra na sua barca, seguido pelos outros oficiais por ordem de antiguidade, para tomar posse, como suponho, da cidade e do forte. Algum tempo depois disto, o governador francês e a sua senhora, e outras pessoas de destaque, vieram a bordo do nosso navio jantar. Nesta ocasião, os nossos navios estavam engalanados com cores de todos os tipos, desde o topo do mastro de joanete até ao convés; e isto, com o disparo dos canhões, formou um espectáculo grandioso e magnífico.

Assim que tudo aqui ficou resolvido, o Almirante Boscawen navegou com parte da frota para Inglaterra, deixando alguns navios para trás com os Contra-almirantes Sir Charles Hardy e Durell. Era agora inverno; e uma noite, durante a nossa viagem para casa, perto do crepúsculo, quando estávamos no canal, ou perto de sondagens, e começávamos a procurar terra, avistámos sete velas de grandes navios de guerra, que se mantinham afastadas da costa. Várias pessoas a bordo do nosso navio disseram, como as duas frotas estavam (em quarenta minutos desde a primeira visão) ao alcance de voz uma da outra, que eram navios de guerra ingleses; e alguns dos nossos homens começaram até a nomear alguns dos navios. Por esta altura, ambas as frotas começaram a misturar-se e o nosso almirante ordenou que a sua bandeira fosse içada. Nesse instante, a outra frota, que era francesa, içou as suas insígnias e deu-nos uma salva de artilharia ao passar. Nada podia criar maior surpresa e confusão entre nós do que isto: o vento estava forte, o mar agitado e tínhamos os nossos canhões do convés inferior e do convés médio recolhidos, de modo que nem um único canhão a bordo estava pronto para ser disparado contra qualquer dos navios franceses. No entanto, o Royal William e o Somerset, sendo os nossos navios mais à retaguarda, ficaram um pouco preparados, e cada um deu aos navios franceses uma salva ao passar. Ouvi depois dizer que este era um esquadrão francês, comandado pelo Mons. Conflans; e certamente, se os franceses soubessem a nossa condição e tivessem vontade de lutar connosco, poderiam ter-nos causado grandes danos. Mas não demorámos muito a estar preparados para um combate. Imediatamente muitas coisas foram atiradas ao mar; os navios foram preparados para lutar o mais depressa possível; e cerca das dez da noite tínhamos montado uma nova vela grande, estando a antiga rasgada. Estando agora prontos para lutar, virámos o navio e fomos atrás da frota francesa, que tinha um ou dois navios em número a mais do que nós. No entanto, perseguimo-los e continuámos a persegui-los toda a noite; e ao raiar do dia vimos seis deles, todos grandes navios de linha, e um navio mercante inglês das Índias Orientais, uma presa que tinham tomado. Perseguimo-los todo o dia até entre as três e as quatro da tarde, quando alcançámos e passámos a uma distância de tiro de mosquete de um navio de setenta e quatro canhões, e do mercante das Índias também, que içou agora as suas cores, mas imediatamente as arriou de novo. Nisto, fizemos sinal aos outros navios para tomarem posse dele; e, supondo que o navio de guerra também se renderia, aplaudimos, mas ele não o fez; embora, se tivéssemos disparado contra ele, por estarmos tão perto, tê-lo-íamos tomado. Para minha total surpresa, o Somerset, que era o navio seguinte à popa do Namur, também abriu caminho; e, pensando que estavam seguros deste navio francês, aplaudiram da mesma forma, mas continuaram a seguir-nos. O Comodoro francês estava cerca de um tiro de canhão à frente de todos, fugindo de nós a toda a velocidade; e cerca das quatro horas ele deitou o mastro de joanete do traquete ao mar. Isto provocou outro aplauso alto da nossa parte; e pouco depois o mastro passou perto de nós; mas, para nossa grande surpresa, em vez de o alcançarmos, descobrimos que ele seguia tão rápido como sempre, se não mais rápido. O mar tornou-se agora muito mais calmo; e o vento acalmando, o navio de setenta e quatro canhões que tínhamos passado passou novamente por nós na mesma direcção, e tão perto que ouvíamos o seu pessoal falar enquanto passava; contudo, nem um tiro foi disparado de nenhum dos lados; e cerca das cinco ou seis horas, mesmo quando escurecia, ele juntou-se ao seu comodoro. Perseguimos toda a noite; mas no dia seguinte estavam fora de vista, de modo que não os vimos mais; e só ficámos com o velho mercante das Índias (chamado Carnarvon, creio eu) pelo nosso esforço. Depois disto, dirigimo-nos para o canal e em breve avistámos terra; e, cerca do fim do ano de 1758-9, chegámos a salvo a St. Helen's. Aqui o Namur encalhou; e também outro grande navio à nossa popa; mas, ao despejarmos a nossa água e atirarmos muitas coisas ao mar para o aliviar, tirámos os navios sem qualquer dano. Ficámos pouco tempo em Spithead e depois entrámos no porto de Portsmouth para reequipar; de onde o almirante foi para Londres; e o meu senhor e eu seguimos logo atrás, com um bando de recrutamento, pois precisávamos de alguns homens para completar a nossa tripulação.

Durante a nossa estadia, encontrei um rapaz negro que servia no mesmo navio que eu, e que se tornou um grande companheiro. A sua benevolência para comigo foi imensa; ele partilhava comigo tudo o que tinha, e, como eu ainda era bastante inexperiente, a sua ajuda foi-me de grande proveito. Eu sentia-me muito grato pela sua bondade, e a nossa amizade cresceu de tal modo que, quando nos preparávamos para a expedição contra Belle-Isle, eu temia muito a ideia de nos separarmos.

Enquanto estávamos em Portsmouth, algo de extraordinário aconteceu ao nosso navio. Estávamos ancorados quando, devido a uma maré muito forte e a um erro na amarração, o navio começou a arrastar-se e acabou por colidir com um navio mercante que estava nas proximidades. O impacto foi violento e, por um momento, tememos que o Ætna se partisse ao meio. Houve um grande alvoroço a bordo; os marinheiros corriam de um lado para o outro, e o capitão dava ordens aos gritos. Felizmente, conseguimos separar os navios sem que nenhum se afundasse, mas o nosso casco sofreu danos consideráveis, o que nos obrigou a permanecer no porto por mais algum tempo para reparações.

Quando finalmente chegámos a Belle-Isle, a frota estava pronta para o ataque. As operações de desembarque foram difíceis e perigosas; a costa era íngreme e os franceses tinham fortificações que disparavam constantemente contra as nossas lanchas. Eu, no meu posto, via os projéteis a levantar colunas de água à nossa volta e ouvia os gritos daqueles que eram atingidos. Em certa ocasião, fui enviado numa missão de transporte de mantimentos para terra firme e, ao regressar, a nossa lancha foi quase virada por uma onda provocada por um disparo de artilharia pesada. A água entrou no barco e, por pouco, não fomos ao fundo. Tive de me agarrar a um barril que flutuava até que os meus companheiros conseguiram recuperar o controlo da situação.

O cerco de Belle-Isle foi longo e exaustivo. Trabalhei sem cessar, ajudando no que era necessário, desde o transporte de pólvora até ao auxílio aos feridos. A rendição da ilha foi um alívio imenso para todos nós. Após a conquista, realizámos várias manobras ao longo da costa francesa, vigiando as movimentações do inimigo. Foi durante este período que presenciei um caso notável de rapto: um dos nossos marinheiros, ao descer à terra com uma equipa de incursão, foi emboscado por habitantes locais e levado cativo. Nunca mais tivemos notícias dele, o que nos deixou a todos apreensivos e mais vigilantes.

Regressei finalmente a Inglaterra com a esperança de que a paz, de que tanto se falava, me trouxesse a almejada liberdade. Estava convencido de que o meu serviço chegaria ao fim e de que poderia, finalmente, dispor do meu destino. O meu senhor, contudo, tinha outros planos. Quando chegámos a Deptford para o navio ser desarmado e os pagamentos efetuados, fui subitamente agarrado pelo meu senhor e, contra a minha vontade, forçado a embarcar num navio com destino às Índias Ocidentais, onde fui vendido.

Durante o tempo em que ali estive, deparei-me com um incidente trivial que me surpreendeu agradavelmente. Estava eu um dia num campo pertencente a um cavalheiro que tinha um rapaz negro do meu tamanho; este rapaz, tendo-me observado da casa do seu senhor, ficou transportado ao ver um dos seus compatriotas e correu ao meu encontro com a maior das pressas. Eu, sem saber o que ele pretendia, desviei-me um pouco do seu caminho a princípio, mas de nada serviu: ele logo se aproximou de mim e agarrou-me nos braços como se eu fosse seu irmão, embora nunca nos tivéssemos visto antes. Depois de conversarmos durante algum tempo, levou-me para a casa do seu senhor, onde fui tratado com muita bondade. Este rapaz benevolente e eu fomos muito felizes por nos vermos frequentemente até cerca do mês de março de 1761, quando o nosso navio recebeu ordens para se equipar novamente para outra expedição. Quando ficámos prontos, juntámo-nos a uma frota muito grande em Spithead, comandada pelo Comodoro Keppel, que estava destinada a Belle-Isle, e com vários navios de transporte com tropas a bordo para efetuar um desembarque no local. Navegámos mais uma vez em busca de fama. Eu ansiava por me envolver em novas aventuras e ver novas maravilhas.

Eu possuía uma mente na qual tudo o que era incomum causava a sua plena impressão, e cada evento que eu considerava maravilhoso. Qualquer fuga extraordinária, ou livramento notável, quer meu ou de outros, eu via como sendo efetuado pela interposição da Providência. Não estávamos há mais de dez dias no mar quando um incidente deste género aconteceu; o que, qualquer crédito que possa obter do leitor, não deixou de causar uma pequena impressão na minha mente.

Tínhamos a bordo um artilheiro, cujo nome era John Mondle; um homem de moral muito indiferente. A cabine deste homem ficava entre os conveses, exatamente sobre o local onde eu dormia, ao lado da escada do convés de comando. Numa noite, a 20 de abril, estando aterrorizado com um sonho, acordou com tal susto que não conseguiu descansar mais na sua cama, nem sequer permanecer na sua cabine; e subiu ao convés por volta das quatro horas da manhã, extremamente agitado. Contou imediatamente aos que estavam no convés as agonias da sua mente e o sonho que as causara; no qual disse ter visto muitas coisas muito terríveis, e ter sido avisado por São Pedro para se arrepender, que lhe disse que o tempo era curto. Isto, disse ele, tinha-o alarmado grandemente, e estava determinado a mudar de vida. As pessoas geralmente zombam dos medos dos outros quando elas próprias estão em segurança; e alguns dos seus companheiros de navio que o ouviram apenas se riram dele. No entanto, ele fez o voto de que nunca mais beberia licores fortes; e imediatamente arranjou uma luz e deu as suas provisões de licor de bordo. Depois disso, a sua agitação ainda continuando, começou a ler as Escrituras, esperando encontrar algum alívio; e logo depois deitou-se novamente na sua cama e esforçou-se por se acalmar para dormir, mas em vão; a sua mente continuava num estado de agonia. A esta altura eram exatamente sete e meia da manhã: eu estava então sob o meio convés, junto à porta da cabine principal; e de repente ouvi as pessoas na cintura do navio gritar, muito temerosamente: "O Senhor tenha misericórdia de nós! Estamos todos perdidos! O Senhor tenha misericórdia de nós!" O Sr. Mondle, ao ouvir os gritos, correu imediatamente para fora da sua cabine; e fomos instantaneamente atingidos pelo Lynne, um navio de quarenta canhões, do Capitão Clark, que quase nos fez naufragar. Este navio tinha acabado de virar e estava ao vento, mas ainda não tinha ganhado velocidade total, ou teríamos todos perecido; pois o vento estava forte. No entanto, antes que o Sr. Mondle tivesse dado quatro passos desde a porta da sua cabine, o navio atingiu o nosso com a sua roda de proa exatamente no meio da sua cama e cabine, e empurrou-a até às golas da escotilha do convés de comando, e a mais de três pés abaixo da água, e num minuto não restava um pedaço de madeira para ser visto onde ficava a cabine do Sr. Mondle; e ele esteve tão perto de ser morto que algumas das lascas lhe rasgaram a cara. Como o Sr. Mondle teria inevitavelmente perecido neste acidente se não tivesse sido alertado da forma muito extraordinária que relatei, não pude deixar de encarar isto como uma terrível interposição da Providência para a sua preservação. Os dois navios oscilaram durante algum tempo lado a lado; pois, sendo o nosso um navio de fogo, os nossos ganchos de abordagem prenderam o Lynne por todos os lados, e as vergas e o cordame partiram-se a um ritmo espantoso. O nosso navio estava num estado tão chocante que pensámos todos que se afundaria instantaneamente, e todos correram pelas suas vidas e conseguiram, da melhor maneira que puderam, subir para o Lynne; mas o nosso tenente, sendo o agressor, nunca abandonou o navio. No entanto, quando vimos que não se afundava imediatamente, o capitão voltou a bordo e encorajou o nosso pessoal a regressar e tentar salvá-lo. Muitos voltaram, mas alguns não se quiseram arriscar. Alguns dos navios da frota, vendo a nossa situação, enviaram imediatamente os seus barcos em nosso auxílio; mas levámos o dia todo a salvar o navio com toda a ajuda deles. E, usando todos os meios possíveis, particularmente prendendo-o com muitos cabos, e colocando uma grande quantidade de sebo abaixo da linha de água onde estava danificado, o navio foi mantido unido: mas ainda bem que não encontrámos ventos fortes, ou teríamos ficado em pedaços; pois estávamos num estado tão precário que tivemos navios a acompanhar-nos até chegarmos a Belle-Isle, o local do nosso destino; e então tirámos tudo do navio e ele foi devidamente reparado. Esta fuga do Sr. Mondle, que ele, assim como eu, sempre considerou como um ato singular da Providência, creio que teve uma grande influência na sua vida e conduta para sempre depois.

Agora que estou neste assunto, peço licença para relatar outro ou dois exemplos que fortaleceram fortemente a minha crença na interposição particular do Céu, e que poderiam não ter encontrado lugar aqui de outra forma, devido à sua insignificância. Pertenci durante alguns dias no ano de 1758 ao Jason, de cinquenta e quatro canhões, em Plymouth; e uma noite, quando eu estava a bordo, uma mulher, com uma criança ao peito, caiu do convés superior para o porão, perto da quilha. Todos pensaram que a mãe e a criança deviam ter ficado feitas em pedaços; mas, para nossa grande surpresa, nenhum deles se magoou. Eu próprio caí um dia de cabeça do convés superior do Ætna para o porão de ré, quando o lastro estava fora; e todos os que me viram cair gritaram que eu estava morto: mas não sofri o menor ferimento. E no mesmo navio um homem caiu do topo do mastro no convés sem se magoar. Nestes, e em muitos outros casos, pensei que podia traçar claramente a mão de Deus, sem cuja permissão um pardal não pode cair. Comecei a elevar o meu temor do homem apenas para Ele, e a invocar diariamente o seu santo nome com temor e reverência: e confio que ele ouviu as minhas súplicas, e graciosamente condescendeu em responder-me de acordo com a sua santa palavra, e a implantar as sementes da piedade em mim, mesmo sendo eu uma das mais humildes das suas criaturas.

Quando reequipámos o nosso navio e tudo estava pronto para atacar o local, as tropas a bordo dos navios de transporte receberam ordens para desembarcar; e o meu senhor, como capitão júnior, teve uma parte no comando do desembarque. Isto foi no dia 8 de abril. Os franceses estavam alinhados na costa e tinham feito todos os preparativos para se oporem ao desembarque dos nossos homens, sendo apenas uma pequena parte deles capaz de o efetuar neste dia; a maioria deles, após lutar com grande bravura, foi dizimada; e o General Crawford, com vários outros, foi feito prisioneiro. No combate deste dia tivemos também o nosso tenente morto.

No dia 21 de abril, renovámos os nossos esforços para desembarcar os homens, enquanto todos os navios de guerra estavam estacionados ao longo da costa para a cobrir, e dispararam contra as baterias e parapeitos franceses desde o início da manhã até cerca das quatro horas da tarde, altura em que os nossos soldados efetuaram um desembarque seguro. Atacaram imediatamente os franceses; e, após um recontro renhido, forçaram-nos a sair das baterias. Antes de o inimigo recuar, explodiram várias delas, para que não caíssem nas nossas mãos. Os nossos homens prosseguiram então para cercar a cidadela, e o meu senhor recebeu ordens para ir a terra supervisionar o desembarque de todos os materiais necessários para levar a cabo o cerco; serviço no qual o acompanhei na maior parte do tempo. Enquanto lá estive, percorri diferentes partes da ilha; e um dia, particularmente, a minha curiosidade quase me custou a vida. Eu queria muito ver o modo de carregar os morteiros e disparar as granadas, e para esse fim fui a uma bateria inglesa que ficava a poucos metros das muralhas da cidadela. Ali, de facto, tive a oportunidade de me satisfazer completamente ao ver toda a operação, e isso não sem correr um risco muito grande, tanto das granadas inglesas que rebentavam enquanto lá estava, como também das dos franceses. Uma das maiores granadas deles rebentou a nove ou dez jardas de mim: havia uma rocha isolada ali perto, do tamanho de uma pipa; e consegui abrigo imediato sob ela a tempo de evitar a fúria da granada. Onde rebentou, a terra foi arrancada de tal maneira que duas ou três pipas poderiam facilmente ter cabido no buraco que fez, e atirou grandes quantidades de pedras e terra a uma distância considerável. Três tiros foram também disparados contra mim e outro rapaz que estava comigo, um deles em particular parecia

"Alado com relâmpago vermelho e fúria impetuosa;"

pois com um som terrível sibilou perto de mim e atingiu uma rocha a pouca distância, a qual despedaçou. Quando vi em que circunstâncias perigosas me encontrava, tentei regressar pelo caminho mais próximo que pude encontrar, e dessa forma passei entre as sentinelas inglesas e francesas. Um sargento inglês, que comandava os postos avançados, ao ver-me e surpreendido por como lá cheguei (o que foi furtivamente ao longo da costa), repreendeu-me muito severamente por isso e prendeu instantaneamente a sentinela no seu posto pela sua negligência em permitir-me passar as linhas. Enquanto estava nesta situação, observei a pouca distância um cavalo francês, pertencente a alguns ilhéus, que pensei que poderia montar agora, para uma maior rapidez na fuga. Consequentemente, peguei num pouco de corda que tinha comigo e, fazendo uma espécie de rédea com ela, coloquei-a à volta da cabeça do cavalo, e o animal manso permitiu-me muito calmamente que o amarrasse assim e montasse. Assim que estive sobre o dorso do cavalo, comecei a pontapeá-lo e a bater-lhe, e a tentar todos os meios para o fazer ir depressa, mas tudo com muito pouco propósito: não o conseguia fazer sair de um passo lento. Enquanto ia avançando, ainda ao alcance do fogo inimigo, encontrei um criado bem montado num cavalo inglês. Parei imediatamente; e, chorando, contei-lhe o meu caso; e implorei-lhe que me ajudasse, o que ele fez eficazmente; pois, tendo um chicote grande e fino, começou a fustigar o meu cavalo com ele tão severamente que ele arrancou a toda a velocidade comigo em direção ao mar, enquanto eu era completamente incapaz de o segurar ou controlar. Desta forma, continuei até chegar a um precipício escarpado. Já não conseguia parar o meu cavalo; e a minha mente estava cheia de receios do meu destino deplorável se ele fosse pelo precipício abaixo, o que parecia totalmente disposto a fazer: pensei, portanto, que era melhor atirar-me dele de uma vez, o que fiz imediatamente com muita destreza, e felizmente escapei sem ferimentos. Assim que me vi livre, fiz o melhor caminho que pude para o navio, determinado a não ser tão temerário outra vez à pressa.

Continuámos a cercar a cidadela até junho, quando ela se rendeu. Durante o cerco contei mais de sessenta granadas e carcaças no ar ao mesmo tempo. Quando este local foi tomado, percorri a cidadela e os abrigos à prova de bomba debaixo dela, que estavam cortados na rocha sólida; e pensei que era um local surpreendente, tanto pela força como pela construção: apesar do que, os nossos tiros e granadas tinham causado uma devastação incrível e montes de ruínas por toda a volta.

Após a tomada desta ilha, os nossos navios, com alguns outros comandados pelo Comodoro Stanhope no Swiftsure, foram para Basse-road, onde bloqueámos uma frota francesa. Os nossos navios estiveram lá desde junho até fevereiro seguinte; e nesse tempo vi muitas cenas de guerra, e estratagemas de ambos os lados para destruir a frota um do outro. Às vezes atacávamos os franceses com alguns navios de linha; outras vezes com barcos; e frequentemente fazíamos presas. Uma ou duas vezes os franceses atacaram-nos atirando granadas com as suas embarcações de bombardeamento: e um dia, enquanto uma embarcação francesa atirava granadas contra os nossos navios, ela partiu-se das suas amarras, atrás da ilha de I de Re: a maré estando complicada, ela veio a tiro de canhão do Nassau; mas o Nassau não conseguiu apontar um único canhão para ela, e assim o francês escapou. Fomos atacados duas vezes pelos seus brulotes, que eles acorrentaram juntos e depois deixaram flutuar com a maré; mas de cada vez enviámos barcos com ganchos, e rebocámo-los em segurança para fora da frota.

Tivemos diferentes comandantes enquanto estivemos neste local, os Comodoros Stanhope, Dennis, Lord Howe, etc. Daqui, antes de a guerra espanhola começar, o nosso navio e a escuna Wasp foram enviados para São Sebastião em Espanha, pelo Comodoro Stanhope; e o Comodoro Dennis enviou depois o nosso navio como navio de cartel para Bayonne, em França, após o que fomos em fevereiro de 1762 para Belle-Isle, e lá ficámos até ao verão, quando a deixámos e regressámos a Portsmouth.

Depois de o nosso navio ter sido equipado novamente para o serviço, em setembro foi para Guernsey, onde fiquei muito contente por ver a minha antiga anfitriã, que era agora viúva, e a minha anterior pequena e encantadora companheira, a sua filha. Passei algum tempo aqui muito feliz com elas, até outubro, quando recebemos ordens para nos dirigirmos a Portsmouth. Separamo-nos com muito afeto; e prometi voltar em breve, e vê-las novamente, sem saber o que o destino todo-poderoso tinha determinado para mim. Tendo o nosso navio chegado a Portsmouth, entrámos no porto e permanecemos lá até ao final de novembro, quando ouvimos grandes conversas sobre a paz; e, para nossa grande alegria, no início de dezembro recebemos ordens para subir até Londres com o nosso navio para sermos pagos. Recebemos esta notícia com altos vivas, e todas as outras demonstrações de alegria; e nada mais se via senão alegria por todas as partes do navio. Eu também não fiquei sem a minha parte da alegria geral nesta ocasião. Já não pensava noutra coisa senão em ser livre, e trabalhar por mim mesmo, e assim ganhar dinheiro para me permitir obter uma boa educação; pois sempre tive um grande desejo de ser capaz pelo menos de ler e escrever; e enquanto estive a bordo tentei melhorar-me em ambos. Enquanto estive no Ætna particularmente, o escriturário do capitão ensinou-me a escrever, e deu-me uma noção de aritmética até à regra de três. Havia também um Daniel Queen, com cerca de quarenta anos de idade, um homem muito bem educado, que fazia a sua refeição comigo a bordo deste navio, e ele também vestia e servia o capitão. Felizmente este homem tornou-se logo muito apegado a mim, e teve um trabalho muito grande para me instruir em muitas coisas. Ensinou-me a fazer a barba e a pentear o cabelo um pouco, e também a ler a Bíblia, explicando-me muitas passagens que eu não compreendia. Fiquei maravilhosamente surpreendido ao ver as leis e regras do meu país escritas quase exatamente aqui; uma circunstância que creio ter contribuído para imprimir os nossos modos e costumes mais profundamente na minha memória. Costumava contar-lhe esta semelhança; e muitas vezes ficámos acordados a noite toda juntos neste trabalho. Em suma, ele foi como um pai para mim; e alguns até costumavam chamar-me pelo nome dele; também me chamavam o cristão negro. De facto, amava-o quase com o afeto de um filho. Muitas coisas neguei a mim mesmo para que ele as pudesse ter; e quando costumava jogar às berlindes ou qualquer outro jogo, e ganhava uns trocos, ou obtinha algum pequeno dinheiro, o que por vezes fazia, por fazer a barba a alguém, costumava comprar-lhe um pouco de açúcar ou tabaco, até onde o meu estoque de dinheiro dava. Ele costumava dizer que ele e eu nunca nos separaríamos; e que quando o nosso navio fosse pago, como eu era tão livre como ele ou qualquer outro homem a bordo, ele me instruiria no seu ofício, com o qual eu poderia ganhar um bom sustento. Isto deu-me nova vida e ânimo; e o meu coração ardia dentro de mim, enquanto achava que o tempo demorava até obter a minha liberdade. Pois embora o meu senhor não mo tivesse prometido, ainda assim, além das garantias que tinha recebido de que ele não tinha o direito de me deter, ele sempre me tratou com a maior bondade, e depositava em mim uma confiança ilimitada; ele até prestava atenção à minha moral; e nunca permitia que eu o enganasse, ou contasse mentiras, das quais me costumava dizer as consequências; e que se eu o fizesse Deus não me amaria; de modo que, com toda esta ternura, nunca tinha pensado, em todos os meus sonhos de liberdade, que ele pensaria em deter-me mais tempo do que eu desejasse.

Em cumprimento às nossas ordens, navegamos de Portsmouth para o Tâmisa e chegamos a Deptford a 10 de dezembro, onde lançamos âncora justamente no momento da maré alta. O navio estava ancorado há cerca de meia hora quando meu senhor ordenou que a barcaça fosse tripulada; e num instante, sem antes me ter dado a menor razão para suspeitar de qualquer coisa, ele forçou-me a entrar na barcaça, dizendo que eu pretendia deixá-lo, mas que ele cuidaria para que eu não o fizesse. Fiquei tão chocado com o inesperado deste procedimento que, por algum tempo, não consegui responder, apenas ofereci-me para ir buscar os meus livros e o meu baú de roupas, mas ele jurou que eu não deveria sair da sua vista; e que, se o fizesse, ele cortar-me-ia a garganta, ao mesmo tempo que sacava do seu punhal. Comecei, contudo, a recompor-me e, ganhando coragem, disse-lhe que eu era livre e que ele, por lei, não podia tratar-me daquela maneira. Mas isto apenas o enfureceu mais; e ele continuou a praguejar, dizendo que logo me faria saber se podia ou não, e nesse instante saltou ele próprio do navio para a barcaça, para o espanto e tristeza de todos a bordo. A maré, de forma um tanto infeliz para mim, tinha acabado de virar, de modo que descemos rapidamente o rio com ela, até chegarmos ao meio de alguns navios das Índias Ocidentais que estavam de partida; pois ele estava determinado a colocar-me a bordo da primeira embarcação que aceitasse receber-me. A tripulação do bote, que remava contra a sua vontade, ficou bastante exausta por diversas vezes e teria ido para terra, mas ele não lhes permitiu. Alguns deles esforçaram-se então por me animar, dizendo-me que ele não me podia vender e que ficariam do meu lado, o que me reanimou um pouco; e eu ainda nutria esperanças; pois, enquanto remavam, ele pediu a alguns navios que me recebessem, mas eles não puderam. Contudo, logo após termos passado um pouco abaixo de Gravesend, emparelhámos com um navio que partiria na maré seguinte para as Índias Ocidentais; o seu nome era Charming Sally, capitão James Doran; e o meu senhor subiu a bordo e entrou em acordo com ele a meu respeito; e em pouco tempo fui chamado ao camarote. Quando lá cheguei, o capitão Doran perguntou-me se eu o conhecia; respondi que não; "Então", disse ele, "és agora meu escravo". Disse-lhe que o meu senhor não me podia vender a ele, nem a ninguém. "Ora", disse ele, "o teu senhor não te comprou?". Confessei que sim. "Mas servi-o", disse eu, "durante muitos anos, e ele tomou todo o meu salário e o meu prémio de corso, pois recebi apenas um xelim durante a guerra; além disso, fui batizado; e, pelas leis da terra, nenhum homem tem o direito de me vender": E acrescentei que tinha ouvido um advogado e outros, em diferentes ocasiões, dizerem isto ao meu senhor. Ambos disseram então que aquelas pessoas que me diziam tal coisa não eram minhas amigas; mas eu repliquei que era muito extraordinário que outras pessoas não conhecessem a lei tão bem quanto eles. Sobre isto, o capitão Doran disse que eu falava inglês demais; e que, se eu não me comportasse bem e ficasse quieto, ele tinha um método a bordo para me obrigar. Estava demasiado convencido do seu poder sobre mim para duvidar do que ele dizia; e os meus sofrimentos anteriores no navio negreiro apresentaram-se na minha mente, e a sua recordação fez-me estremecer. No entanto, antes de me retirar, disse-lhes que, como não podia obter justiça entre os homens aqui, esperava obtê-la no futuro no Céu; e saí imediatamente do camarote, cheio de ressentimento e mágoa. O único casaco que eu tinha comigo, o meu senhor levou-o consigo e disse que, se o meu prémio de corso fosse de 10.000 libras, ele tinha direito a tudo, e tê-lo-ia tomado. Eu tinha cerca de nove guinéus que, durante a minha longa vida no mar, tinha amealhado de pequenas gratificações e pequenos negócios; e escondi-os naquele instante, para que o meu senhor não os tomasse também, ainda esperando que, de uma forma ou de outra, conseguisse escapar para a terra; e, de facto, alguns dos meus antigos companheiros de navio disseram-me para não desesperar, pois eles me recuperariam; e que, assim que recebessem o seu pagamento, viriam imediatamente a Portsmouth ter comigo, para onde este navio ia: mas, ai de mim! todas as minhas esperanças foram frustradas, e a hora da minha libertação estava ainda muito longe. O meu senhor, tendo rapidamente concluído o seu negócio com o capitão, saiu do camarote, e ele e o seu pessoal entraram no bote e partiram; segui-os com olhos doridos enquanto pude, e quando eles perderam a vista, atirei-me ao convés, enquanto o meu coração estava prestes a rebentar de mágoa e angústia.

NOTAS DE RODAPÉ:

[Nota de rodapé L: Ele afogara-se ao tentar desertar.]

[Nota de rodapé M: Entre outros que trouxemos de Bayonne, dois cavalheiros, que tinham estado nas Índias Ocidentais, onde vendiam escravos; e eles confessaram ter feito, numa ocasião, uma falsa escritura de venda, e vendido dois homens brancos portugueses entre um lote de escravos.]

[Nota de rodapé N: Algumas pessoas dizem que, por vezes, pouco antes de as pessoas morrerem, o seu duplo foi visto; isto é, algum espírito exatamente à sua semelhança, embora eles próprios estejam noutros lugares ao mesmo tempo. Um dia, enquanto estávamos em Bayonne, o Sr. Mondle viu um dos nossos homens, como ele pensou, na câmara de artilharia; e, pouco depois, ao subir para o convés de ré, falou de certas circunstâncias deste homem a alguns dos oficiais. Disseram-lhe que o homem estava então fora do navio, num dos botes com o Tenente: mas o Sr. Mondle não quis acreditar, e revistámos o navio, quando ele descobriu que o homem estava realmente fora dele; e quando o bote regressou algum tempo depois, descobrimos que o homem se tinha afogado exatamente no momento em que o Sr. Mondle pensou vê-lo.]

CAP. V.

_Reflexões do autor sobre a sua situação — É enganado por uma promessa de ser libertado — O seu desespero ao navegar para as Índias Ocidentais — Chega a Montserrat, onde é vendido ao Sr. King — Vários exemplos interessantes de opressão, crueldade e extorsão que o autor viu serem praticados sobre os escravos nas Índias Ocidentais durante o seu cativeiro, de 1763 a 1766 — Apelo sobre o assunto aos proprietários de terras._

Assim, no momento em que esperava que todos os meus trabalhos terminassem, fui mergulhado, como supunha, numa nova escravidão; em comparação com a qual todo o meu serviço até então tinha sido "perfeita liberdade"; e cujos horrores, sempre presentes na minha mente, agora se abatiam sobre ela com um agravamento decuplicado. Chorei muito amargamente durante algum tempo: e comecei a pensar que devia ter feito algo para desagradar ao Senhor, para que ele me punisse tão severamente. Isto encheu-me de reflexões dolorosas sobre a minha conduta passada; recordei-me de que, na manhã da nossa chegada a Deptford, tinha jurado precipitadamente que, assim que chegássemos a Londres, passaria o dia a deambular e a divertir-me. A minha consciência acusou-me por esta expressão imprudente: senti que o Senhor era capaz de me desapontar em todas as coisas, e considerei imediatamente a minha situação atual como um julgamento do Céu devido à minha presunção em jurar: por isso, com contrição de coração, reconheci a minha transgressão a Deus, e derramei a minha alma perante ele com arrependimento sincero, e com súplicas fervorosas roguei-lhe que não me abandonasse na minha aflição, nem me lançasse da sua misericórdia para sempre. Em pouco tempo, a minha dor, consumida pela sua própria violência, começou a diminuir; e, depois de terminada a primeira confusão dos meus pensamentos, refleti com mais calma sobre a minha condição atual: considerei que as provações e os desapontamentos são, por vezes, para o nosso bem, e pensei que Deus talvez tivesse permitido isto para me ensinar sabedoria e resignação; pois ele tinha-me até então coberto com as asas da sua misericórdia e, pela sua mão invisível mas poderosa, guiou-me pelo caminho que eu desconhecia. Estas reflexões deram-me um pouco de conforto, e levantei-me finalmente do convés com desalento e tristeza no rosto, mas misturados com alguma ténue esperança de que o _Senhor apareceria_ para a minha libertação.

Pouco depois, enquanto o meu novo senhor se preparava para ir a terra, chamou-me e disse-me para me comportar bem e fazer o trabalho do navio tal como qualquer um dos outros rapazes, e que eu sairia a ganhar com isso; mas não lhe dei resposta. Perguntaram-me então se eu sabia nadar, e disse que não. Contudo, fui obrigado a ir para baixo do convés e fui bem vigiado. Na maré seguinte, o navio pôs-se em marcha e chegou pouco depois a Mother Bank, em Portsmouth; onde esperou alguns dias por parte do comboio das Índias Ocidentais. Enquanto estive aqui, tentei todos os meios que pude imaginar entre as pessoas do navio para conseguir um bote da costa, pois não era permitido que nenhum se aproximasse do navio; e o deles, sempre que era usado, era içado de volta imediatamente. Um marinheiro a bordo tirou-me um guineu com o pretexto de me arranjar um bote; e prometeu-me, vezes sem conta, que ele chegaria a qualquer hora. Quando ele estava de serviço no convés, eu também vigiava; e olhei durante tempo suficiente, mas tudo em vão; nunca mais consegui ver nem o bote nem o meu guineu. E o que eu achava que era ainda o pior de tudo, o sujeito informava, como descobri mais tarde, os oficiais sobre a minha intenção de fugir, se pudesse de alguma forma fazê-lo; mas, como o patife que era, nunca lhes disse que tinha recebido um guineu meu para procurar a minha fuga. Contudo, depois de termos zarpado e o seu truque ter sido conhecido pela tripulação do navio, tive alguma satisfação ao vê-lo detestado e desprezado por todos eles pelo seu comportamento para comigo. Eu ainda tinha esperanças de que os meus antigos companheiros de navio não se esquecessem da sua promessa de vir buscar-me a Portsmouth: e, de facto, finalmente, mas só no dia antes de partirmos, alguns deles vieram lá e enviaram-me laranjas e outros sinais da sua consideração. Também me enviaram dizer que viriam ter comigo no dia seguinte ou no outro; e uma senhora também, que vivia em Gosport, escreveu-me que viria tirar-me do navio ao mesmo tempo. Esta senhora tinha sido outrora muito íntima do meu antigo senhor: eu costumava vender e tratar de muitos bens para ela, em diferentes navios; e, em troca, ela sempre me demonstrou grande amizade e costumava dizer ao meu senhor que me levaria para viver com ela: mas, infelizmente para mim, um desentendimento ocorreu logo depois entre eles; e ela foi substituída nas boas graças do meu senhor por outra senhora, que parecia ser a única dona do Ætna e que, na maior parte do tempo, dormia a bordo. Eu não era tão favorito desta senhora como da anterior; ela tinha concebido um ressentimento contra mim numa ocasião em que esteve a bordo, e não deixou de instigar o meu senhor a tratar-me da maneira que ele fez[O].

No entanto, na manhã seguinte, 30 de dezembro, sendo o vento forte e de leste, a fragata Oeolus, que deveria escoltar o comboio, deu o sinal para zarpar. Todos os navios levantaram então as suas âncoras; e, antes que qualquer um dos meus amigos tivesse a oportunidade de vir em meu auxílio, para minha angústia inexprimível, o nosso navio pôs-se em marcha. Que emoções tumultuosas agitaram a minha alma quando o comboio levantou velas, e eu prisioneiro a bordo, agora sem esperança! Mantive os meus olhos chorosos sobre a terra num estado de dor inenarrável; sem saber o que fazer e desesperado por não me poder ajudar. Enquanto a minha mente estava nesta situação, a frota navegou e, em apenas um dia, perdi de vista a tão desejada terra. Nas primeiras expressões da minha dor, reprovei o meu destino e desejei nunca ter nascido. Estava pronto a amaldiçoar a maré que nos levava, a brisa que soprava sobre a minha prisão e até o navio que nos conduzia; e chamei a morte para me libertar dos horrores que sentia e temia, para que pudesse estar naquele lugar

"Onde os escravos são livres e os homens não oprimem mais. Tolo fui eu, habituado há tanto tempo à dor, Em confiar na esperança, ou sonhar de novo com a alegria.

* * * * *

Agora arrastado mais uma vez para além do mar ocidental, Para gemer sob a corrente de algum plantador covarde; Onde os meus pobres compatriotas em cativeiro esperam O longo enfranchisamento de um destino persistente: Duro destino persistente! enquanto, antes do romper do dia, Despertados pelo chicote, seguem o seu caminho sem alegria; E, enquanto as suas almas ardem de vergonha e angústia, Saúdam com gemidos o retorno indesejado da manhã, E, censurando a cada hora o sol de passo lento, Prosseguem os seus trabalhos até que toda a sua corrida seja concluída. Nenhum olho para marcar os seus sofrimentos com uma lágrima; Nenhum amigo para confortar, e nenhuma esperança para alegrar: Então, como os brutos aborrecidos e sem piedade, recolhem-se Para estábulos tão miseráveis, e um sustento tão grosseiro; Agradecem ao céu por um dia de miséria ter acabado, Depois afundam-se no sono, e desejam nunca mais acordar[P]."

A turbulência das minhas emoções, contudo, deu lugar naturalmente a pensamentos mais calmos, e percebi logo que o que o destino tinha decretado nenhum mortal na terra poderia evitar. O comboio navegou sem qualquer acidente, com uma brisa agradável e mar calmo, durante seis semanas, até fevereiro, quando certa manhã o Oeolus abalroou um brigue, um dos navios do comboio, e ele afundou-se instantaneamente, engolido pelos recessos escuros do oceano. O comboio ficou imediatamente em grande confusão até que amanheceu; e o Oeolus foi iluminado com luzes para evitar mais prejuízos. A 13 de fevereiro de 1763, do cimo do mastro, avistámos a nossa ilha de destino, Montserrat; e pouco depois contemplei aquelas

"Regiões de dor, sombras lúgubres, onde a paz E o descanso raramente podem habitar. A esperança nunca vem Para aqueles que chegam a todos, mas a tortura sem fim Persiste."

À vista desta terra de cativeiro, um novo horror percorreu todo o meu corpo e gelou-me até ao coração. A minha escravidão anterior surgiu agora numa revisão terrível na minha mente, e não exibiu nada além de miséria, chicotadas e correntes; e, no primeiro paroxismo da minha dor, clamei pelo trovão de Deus e pelo seu poder vingador, para que dirigissem o golpe da morte a mim, em vez de permitir que eu me tornasse um escravo e fosse vendido de senhor para senhor.

Neste estado de espírito, o nosso navio lançou âncora e, pouco depois, descarregou a sua carga. Agora eu sabia o que era trabalhar arduamente; fui obrigado a ajudar a descarregar e carregar o navio. E, para me confortar na minha aflição durante esse tempo, dois dos marinheiros roubaram-me todo o meu dinheiro e fugiram do navio. Eu estava há tanto tempo habituado a um clima europeu que, a princípio, senti o sol escaldante das Índias Ocidentais muito doloroso, enquanto a rebentação das ondas atirava o bote e as pessoas nele, frequentemente, acima da marca da maré alta. Por vezes, os nossos membros eram partidos com isto, ou resultava mesmo em morte instantânea, e eu era dia após dia esfacelado e dilacerado.

Por volta de meados de maio, quando o navio estava pronto para zarpar para a Inglaterra, e eu, todo o tempo, acreditando que as nuvens mais negras do Destino se acumulavam sobre a minha cabeça e esperando que a sua explosão me misturasse aos mortos, o capitão Doran enviou-me chamar a terra certa manhã, e foi-me dito pelo mensageiro que o meu destino estava então determinado. Com passos trémulos e coração agitado, fui ter com o capitão e encontrei com ele um tal Sr. Robert King, um quacre, e o principal mercador do local. O capitão disse-me então que o meu antigo senhor me tinha enviado para lá para ser vendido; mas que ele lhe tinha pedido que me arranjasse o melhor senhor que pudesse, pois disse-lhe que eu era um rapaz muito merecedor, o que o capitão Doran disse ter constatado ser verdade; e que, se ele tivesse de ficar nas Índias Ocidentais, ficaria contente por me manter consigo; mas que não podia arriscar levar-me para Londres, pois tinha a certeza de que, quando lá chegasse, eu o deixaria. Nesse instante comecei a chorar e implorei-lhe muito que me levasse para Inglaterra com ele, mas tudo em vão. Ele disse-me que me tinha arranjado o melhor senhor de toda a ilha, com quem eu seria tão feliz como se estivesse em Inglaterra, e que por essa razão preferiu que fosse ele a ter-me, embora pudesse vender-me ao seu próprio cunhado por muito mais dinheiro do que aquele que recebeu deste cavalheiro. O Sr. King, o meu novo senhor, fez então uma réplica e disse que a razão pela qual me tinha comprado foi por causa do meu bom caráter; e, como não tinha a menor dúvida do meu bom comportamento, eu ficaria muito bem com ele. Ele também me disse que não vivia nas Índias Ocidentais, mas em Filadélfia, para onde iria em breve; e, como eu compreendia algumas das regras da aritmética, quando chegássemos lá, ele colocar-me-ia na escola e preparar-me-ia para ser escriturário. Esta conversa aliviou um pouco a minha mente, e deixei aqueles cavalheiros consideravelmente mais à vontade comigo mesmo do que quando cheguei até eles; e fiquei muito grato ao capitão Doran, e até ao meu antigo senhor, pelo caráter que me tinham dado; um caráter que, mais tarde, descobri ser de infinita utilidade para mim. Voltei a bordo e despedi-me de todos os meus companheiros de navio; e, no dia seguinte, o navio partiu. Quando levantou âncora, fui até à beira da água e olhei para ele com um coração muito esperançoso e dorido, e segui-o com os olhos e lágrimas até que ele estivesse totalmente fora de vista. Fiquei tão abatido pela dor que não consegui levantar a cabeça durante muitos meses; e se o meu novo senhor não tivesse sido bondoso comigo, creio que teria acabado por morrer disso. E, de facto, descobri logo que ele merecia plenamente o bom caráter que o capitão Doran me tinha dado dele; pois ele possuía uma disposição e um temperamento muito amáveis, e era muito caridoso e humano. Se algum dos seus escravos se comportasse mal, ele não os batia nem os tratava mal, mas separava-se deles. Isto fazia com que tivessem medo de o desagradar; e, como ele tratava os seus escravos melhor do que qualquer outro homem na ilha, ele era, por sua vez, mais bem e mais fielmente servido por eles. Pelo seu tratamento bondoso, tentei finalmente recompor-me; e, com coragem, embora sem dinheiro, decidi enfrentar o que quer que o destino tivesse decretado para mim. O Sr. King perguntou-me logo o que eu sabia fazer; e, ao mesmo tempo, disse que não pretendia tratar-me como um escravo comum. Disse-lhe que sabia alguma coisa de marinharia, que sabia barbear e arranjar cabelos bastante bem; e que sabia refinar vinhos, o que tinha aprendido a bordo, onde o fizera muitas vezes; e que sabia escrever e compreendia aritmética razoavelmente bem, até à Regra de Três. Perguntou-me então se eu sabia alguma coisa de medição; e, ao responder que não, disse que um dos seus escriturários me ensinaria a medir.

O Sr. King negociava com todo o tipo de mercadorias e mantinha de um a seis escriturários. Carregava muitas embarcações por ano; particularmente para Filadélfia, onde nascera e onde tinha ligações com uma grande casa mercantil naquela cidade. Possuía, além disso, muitos navios e barcos de cabotagem, de diferentes tamanhos, que costumavam circular pela ilha; e outros para recolher rum, açúcar e outras mercadorias. Eu compreendia muito bem a remada e a manobra desses barcos; e este trabalho árduo, que foi o primeiro que me incumbiu, nas épocas de açúcar costumava ser a minha ocupação constante. Remei o barco, e escravizei-me aos remos, de uma a dezasseis horas em cada vinte e quatro; durante as quais recebia quinze pence esterlinos por dia para viver, embora por vezes apenas dez pence. Contudo, isto era consideravelmente mais do que era permitido a outros escravos que costumavam trabalhar comigo e pertenciam a outros cavalheiros na ilha: essas pobres almas nunca recebiam mais de nove pence por dia, e raramente mais de seis pence, dos seus senhores ou proprietários, embora lhes rendessem três ou quatro pisterines: pois é uma prática comum nas Índias Ocidentais os homens comprarem escravos, ainda que não possuam plantações, a fim de os alugarem a plantadores e mercadores por um tanto cada um, por dia, e dão a mesada que bem entendem, do produto deste trabalho diário, aos seus escravos para subsistência; esta mesada é muitas vezes muito escassa. O meu senhor dava frequentemente aos proprietários destes escravos duas e meia destas moedas por dia, e ele próprio providenciava a comida aos pobres rapazes, porque achava que os seus donos não os alimentavam suficientemente bem de acordo com o trabalho que realizavam. Os escravos costumavam gostar muito disto; e, como sabiam que o meu senhor era um homem de sentimentos, alegravam-se sempre por trabalhar para ele em vez de para qualquer outro cavalheiro; alguns dos quais, depois de serem pagos pelos labores destas pobres pessoas, não lhes davam a mesada resultante. Muitas vezes vi mesmo esses infelizes serem espancados por pedirem o seu pagamento; e frequentemente açoitados severamente pelos seus donos se não lhes trouxessem o seu dinheiro diário ou semanal exatamente a tempo; embora as pobres criaturas fossem obrigadas a esperar pelos cavalheiros para quem tinham trabalhado, por vezes durante mais de meio dia antes de conseguirem receber o seu pagamento; e isto geralmente aos domingos, quando precisavam do tempo para si próprios. Em particular, conheci um compatriota meu que uma vez não trouxe o dinheiro semanal imediatamente após ter sido ganho; e, embora o tenha entregue ao seu senhor no mesmo dia, foi preso ao chão por esta pretensa negligência, e estava prestes a receber cem chicotadas, se não fosse um cavalheiro que o livrou de cinquenta. Este pobre homem era muito trabalhador; e, pela sua frugalidade, tinha poupado tanto dinheiro trabalhando a bordo de navios, que tinha conseguido que um homem branco lhe comprasse um barco, sem que o seu senhor soubesse. Algum tempo depois de possuir esta pequena propriedade, o governador precisou de um barco para trazer o seu açúcar de diferentes partes da ilha; e, sabendo que este era o barco de um homem negro, apoderou-se dele para si, e não quis pagar um vintém ao proprietário. O homem foi então ter com o seu senhor e queixou-se deste ato do governador; mas a única satisfação que recebeu foi ser amaldiçoado muito sinceramente pelo seu senhor, que lhe perguntou como se atrevia qualquer um dos seus negros a ter um barco. Se a ruína justamente merecida da fortuna do governador pudesse ser algum consolo para o pobre homem que ele tinha assim roubado, ele não estava sem consolo. A extorsão e a rapina são maus provedores; e algum tempo depois disto, o governador morreu no King's Bench, em Inglaterra, como me disseram, em grande pobreza. A última guerra favoreceu este pobre negro, e ele encontrou alguns meios de escapar do seu senhor cristão: veio para Inglaterra; onde o vi depois várias vezes. Tal tratamento como este leva frequentemente estes infelizes ao desespero, e eles fogem dos seus senhores com risco das suas vidas. Muitos deles, neste lugar, incapazes de receber o seu pagamento quando o ganharam, e temendo serem açoitados, como é habitual, se regressarem a casa sem ele, fogem para onde podem em busca de abrigo, e é frequentemente oferecida uma recompensa para os trazer mortos ou vivos. O meu senhor costumava, por vezes, nestes casos, chegar a acordo com os seus donos e resolver ele próprio a situação; e, assim, poupava a muitos deles uma surra.

Uma vez, por alguns dias, fui alugado para equipar uma embarcação, e não recebi víveres de nenhuma das partes; finalmente falei ao meu senhor sobre este tratamento, e ele retirou-me de lá. Em muitas das propriedades, nas diferentes ilhas onde eu costumava ser enviado para buscar rum ou açúcar, não mo queriam entregar, nem a qualquer outro negro; ele era, portanto, obrigado a enviar um homem branco comigo a esses lugares; e então costumava pagar-lhe de seis a dez pisterines por dia. Por estar assim empregado, durante o tempo em que servi o Sr. King, ao circular pelas diferentes propriedades da ilha, tive toda a oportunidade que poderia desejar para ver o tratamento horrível dos pobres homens; tratamento que me reconciliou com a minha situação e me fez abençoar a Deus pelas mãos em que tinha caído.

Tive a boa sorte de agradar ao meu senhor em todos os departamentos em que me empregou; e não havia quase nenhuma parte dos seus negócios, ou dos assuntos domésticos, em que eu não estivesse ocasionalmente envolvido. Frequentemente substituí um escriturário, a receber e entregar cargas aos navios, a cuidar de armazéns e a entregar mercadorias: e, além disso, costumava barbear e vestir o meu senhor quando era conveniente, e cuidar do seu cavalo; e quando era necessário, o que era muito frequente, trabalhava também a bordo de diferentes embarcações suas. Por estes meios tornei-me muito útil ao meu senhor; e poupei-lhe, como ele costumava reconhecer, mais de cem libras por ano. Nem se escrupulizava em dizer que eu lhe era de mais proveito do que qualquer um dos seus escriturários; embora os seus salários habituais nas Índias Ocidentais sejam de sessenta a cem libras correntes por ano.

Ouvi por vezes afirmar que um negro não consegue render ao seu senhor o custo inicial; mas nada pode estar mais longe da verdade. Suponho que nove décimos dos artífices por todas as Índias Ocidentais são escravos negros; e sei bem que os tanoeiros entre eles ganham dois dólares por dia; os carpinteiros o mesmo, e muitas vezes mais; assim como os pedreiros, ferreiros, pescadores, etc. E conheci muitos escravos cujos senhores não aceitariam mil libras correntes por eles. Mas certamente esta afirmação refuta-se a si própria; pois, se for verdade, porque pagam os plantadores e mercadores tal preço pelos escravos? E, acima de tudo, porque é que aqueles que fazem esta afirmação clamam mais ruidosamente contra a abolição do tráfico de escravos? Tanto os homens estão cegos, e a argumentos tão inconsistentes são levados pelo interesse mal compreendido! Admito, de facto, que os escravos são por vezes, por serem meio alimentados, meio vestidos, sobrecarregados de trabalho e chicotadas, reduzidos a tal ponto que são descartados como inaptos para o serviço e deixados a perecer nos bosques, ou a expirar num monte de lixo.

Foi oferecido ao meu senhor várias vezes, por diferentes cavalheiros, cem guinéus por mim; mas ele dizia-lhes sempre que não me venderia, para minha grande alegria: e eu costumava redobrar a minha diligência e cuidado por medo de cair nas mãos daqueles homens que não permitiam a um escravo valioso o sustento comum da vida. Muitos deles costumavam até criticar o meu senhor por alimentar os seus escravos tão bem como ele fazia; embora eu muitas vezes passasse fome, e um inglês pudesse achar o meu sustento muito indiferente; mas ele costumava dizer-lhes que faria sempre assim, porque os escravos pareciam, por isso, melhor e faziam mais trabalho.

Enquanto estava assim empregado pelo meu senhor, fui frequentemente testemunha de crueldades de todos os tipos, que eram exercidas sobre os meus infelizes companheiros de escravatura. Frequentemente tinha diferentes cargas de negros recém-chegados ao meu cuidado para venda; e era uma prática quase constante dos nossos escriturários, e de outros brancos, cometerem depredações violentas sobre a castidade das escravas; e a estas eu era, embora com relutância, obrigado a submeter-me a todo o tempo, sendo incapaz de as ajudar. Quando tínhamos alguns desses escravos a bordo das embarcações do meu senhor para os levar a outras ilhas, ou para a América, soube que os nossos oficiais cometiam estes atos de forma vergonhosa, para desgraça, não só dos cristãos, mas dos homens. Cheguei mesmo a saber que satisfaziam a sua paixão brutal com mulheres que não tinham dez anos; e estas abominações, alguns deles praticavam com tal excesso escandaloso, que um dos nossos capitães despediu o oficial e outros por essa razão. E, no entanto, em Montserrat, vi um homem negro preso ao chão e cortado de forma chocante, e depois as suas orelhas cortadas pedaço a pedaço, porque se tinha relacionado com uma mulher branca que era uma prostituta comum: como se não fosse crime nos brancos roubar a virtude de uma inocente rapariga africana; mas o mais hediondo num homem negro apenas satisfazer uma paixão da natureza, quando a tentação era oferecida por uma de cor diferente, ainda que a mulher mais abandonada da sua espécie. Outro homem negro foi meio enforcado, e depois queimado, por tentar envenenar um cruel capataz. Assim, por crueldades repetidas, os desgraçados são primeiro levados ao desespero e depois assassinados, porque ainda retêm tanto da natureza humana que desejam pôr um fim ao seu sofrimento e retaliar contra os seus tiranos! Estes capatazes são, na verdade, na maior parte, pessoas do pior caráter de qualquer denominação de homens nas Índias Ocidentais. Infelizmente, muitos cavalheiros humanos, por não residirem nas suas propriedades, são obrigados a deixar a gestão das mesmas nas mãos destes carniceiros humanos, que cortam e mutilam os escravos de uma forma chocante nas ocasiões mais triviais, e tratam-nos, em todos os aspetos, como animais. Não têm consideração pela situação das mulheres grávidas, nem a mínima atenção pelo alojamento dos negros do campo. As suas cabanas, que deveriam estar bem cobertas, e o lugar seco onde repousam o seu pequeno descanso, são muitas vezes abrigos abertos, construídos em lugares húmidos; de modo que, quando as pobres criaturas regressam cansadas das labutas do campo, contraem muitas doenças, por estarem expostas ao ar húmido neste estado desconfortável, enquanto estão aquecidas e com os poros abertos. Esta negligência conspira certamente com muitas outras para causar uma diminuição nos nascimentos, bem como na vida dos negros adultos. Posso citar muitos exemplos de cavalheiros que residem nas suas propriedades nas Índias Ocidentais, e então a cena muda completamente; os negros são tratados com brandura e o devido cuidado, pelo que as suas vidas são prolongadas e os seus senhores lucram. Para honra da humanidade, conheci vários cavalheiros que geriam as suas propriedades desta maneira; e eles descobriram que a benevolência era o seu verdadeiro interesse. E, entre muitos que poderia mencionar em várias das ilhas, conheci um em Montserrat cujos escravos pareciam notavelmente bem, e nunca precisaram de quaisquer novos fornecimentos de negros; e existem muitas outras propriedades, especialmente em Barbadoes, que, por tal tratamento judicioso, não precisam de novo stock de negros em momento algum. Tenho a honra de conhecer um cavalheiro muito digno e humano, que é natural de Barbadoes, e tem propriedades lá. Este cavalheiro escreveu um tratado sobre o uso dos seus próprios escravos. Concede-lhes duas horas para refresco ao meio-dia; e muitas outras indulgências e confortos, particularmente no que diz respeito ao seu repouso; e, além disso, produz mais provisões na sua propriedade do que eles conseguem destruir; de modo que, com estas atenções, ele salva as vidas dos seus negros, mantém-nos saudáveis e tão felizes quanto a condição de escravidão pode admitir. Eu próprio, como se verá na continuação, geri uma propriedade onde, por essas atenções, os negros eram extraordinariamente alegres e saudáveis, e faziam metade do trabalho a mais do que habitualmente fazem pelo modo comum de tratamento. Por falta, portanto, de tal cuidado e atenção para com os pobres negros, e sendo de outra forma oprimidos como são, não é de admirar que a diminuição exija 20.000 novos negros anualmente para preencher os lugares vazios dos mortos.

Mesmo em Barbadoes, apesar destas exceções humanas que mencionei, e outras que conheço, que justificadamente a fazem ser citada como um lugar onde os escravos encontram o melhor tratamento e precisam de menos recrutas do que em qualquer outro lugar nas Índias Ocidentais, ainda assim esta ilha requer 1000 negros anualmente para manter o stock original, que é de apenas 80.000. De modo que se pode dizer que todo o termo da vida de um negro é lá apenas de dezasseis anos! E, no entanto, o clima aqui é, em todos os aspetos, o mesmo daquele de onde são retirados, exceto por ser mais saudável. Será que as colónias britânicas diminuem desta maneira? E, contudo, que diferença prodigiosa existe entre um clima inglês e o das Índias Ocidentais?

Enquanto estive em Montserrat, conheci um homem negro, chamado Emanuel Sankey, que tentou escapar do seu cativeiro miserável, escondendo-se a bordo de um navio de Londres: mas o destino não favoreceu o pobre homem oprimido; pois, sendo descoberto quando a embarcação estava a navegar, foi entregue novamente ao seu senhor. Este senhor cristão prendeu imediatamente o infeliz ao chão por cada pulso e tornozelo, e depois pegou em alguns paus de cera de lacre, acendeu-os e deixou-os cair por todas as suas costas. Havia outro senhor que era conhecido pela crueldade; e creio que não tinha um escravo que não tivesse sido cortado, e não tivesse pedaços claramente retirados da carne: e, depois de terem sido punidos assim, ele costumava fazê-los entrar numa longa caixa ou estojo de madeira que tinha para esse fim, no qual os encerrava à vontade. Tinha exatamente a altura e a largura de um homem; e os pobres infelizes não tinham espaço, quando na caixa, para se moverem.

Era muito comum em várias das ilhas, particularmente em St. Kitt's, os escravos serem marcados com as iniciais do nome do seu senhor; e uma carga de pesados ganchos de ferro pendia à volta dos seus pescoços. De facto, nas ocasiões mais triviais, eram carregados com correntes; e frequentemente eram adicionados instrumentos de tortura. A mordaça de ferro, os parafusos de polegar, etc., são tão bem conhecidos que não precisam de descrição, e eram por vezes aplicados pelas faltas mais leves. Vi um negro ser espancado até alguns dos seus ossos serem partidos, apenas por deixar um pote transbordar. É surpreendente que um tratamento como este leve as pobres criaturas ao desespero, e os faça procurar um refúgio na morte contra aqueles males que tornam as suas vidas intoleráveis — enquanto,

"Com horror trémulo, pálidos e olhos espantados, Veem o seu destino lamentável, e encontram Nenhum descanso!"

Isto fazem-no frequentemente. Um homem negro a bordo de uma embarcação do meu senhor, enquanto lhe pertencia, tendo sido colocado em ferros por qualquer contravenção trivial, e mantido nesse estado por alguns dias, estando cansado da vida, aproveitou a oportunidade para saltar borda fora para o mar; contudo, foi apanhado sem se afogar. Outro, cuja vida era também um fardo para ele, resolveu morrer de fome, e recusou-se a comer qualquer alimento; isto rendeu-lhe uma surra severa: e ele também, na primeira ocasião que se apresentou, saltou borda fora em Charles Town, mas foi salvo.

Nem é demonstrado qualquer maior respeito pela pequena propriedade do que pelas pessoas e vidas dos negros. Já relatei um ou dois exemplos de opressão particular entre muitos de que fui testemunha; mas o seguinte é frequente em todas as ilhas. Os desgraçados escravos do campo, depois de labutarem todo o dia para um dono sem sentimentos, que lhes dá poucos víveres, roubam por vezes alguns momentos ao descanso ou ao refresco para recolherem uma pequena porção de erva, conforme o seu tempo permite. Isto costumam atá-lo num embrulho; (quer um "bit", que vale seis pence; ou meio "bit") e trazem-no à cidade, ou ao mercado, para vender. Nada é mais comum do que as pessoas brancas, nesta ocasião, tirarem-lhes a erva sem pagar por ela; e não só isso, mas com demasiada frequência também, que eu saiba, os nossos escriturários, e muitos outros, ao mesmo tempo, cometeram atos de violência sobre as pobres, desgraçadas e indefesas mulheres; que vi ficarem durante horas a chorar sem propósito, e não obterem reparação ou pagamento de qualquer espécie. Não é este um pecado comum e clamoroso o suficiente para atrair o julgamento de Deus sobre as ilhas? Ele diz-nos que o opressor e o oprimido estão ambos nas suas mãos; e se estes não são os pobres, os de coração partido, os cegos, os cativos, os feridos, de que fala o nosso Salvador, quem são eles? Um destes depredadores, uma vez, em St. Eustatia, veio a bordo da nossa embarcação e comprou-me algumas aves e porcos; e um dia inteiro depois da sua partida com as coisas, voltou novamente e queria o seu dinheiro de volta: recusei-me a dá-lo; e, não vendo o meu capitão a bordo, começou com as brincadeiras habituais comigo; e jurou que até arrombaria o meu baú e levaria o meu dinheiro. Esperei, portanto, como o meu capitão estava ausente, que ele cumprisse a sua palavra: e estava prestes a bater-me, quando felizmente um marinheiro britânico a bordo, cujo coração não tinha sido corrompido por um clima das Índias Ocidentais, interpôs-se e impediu-o. Mas se o homem cruel me tivesse batido, certamente teria defendido a minha vida com o risco da mesma; pois o que é a vida para um homem assim oprimido? Ele foi-se embora, contudo, a jurar; e ameaçou que, sempre que me apanhasse em terra, dispararia sobre mim, e pagaria por mim depois.

O pouco valor em que é tida a vida de um negro nas Índias Ocidentais é tão universalmente conhecido, que poderia parecer impertinente citar o seguinte extrato, se algumas pessoas não tivessem sido audazes o suficiente, ultimamente, para afirmar que os negros estão, a esse respeito, ao mesmo nível dos europeus. Pelo 329.º Ato, página 125, da Assembleia de Barbadoes, é decretado "Que se qualquer negro, ou outro escravo, sob punição pelo seu senhor, ou por ordem deste, por fugir, ou qualquer outro crime ou contravenção para com o seu dito senhor, infelizmente sofrer na vida ou membro, nenhuma pessoa, seja quem for, será passível de multa; mas se qualquer homem, por puro capricho, ou apenas por mentalidade sanguinária, ou intenção cruel, matar voluntariamente um negro, ou outro escravo, seu, pagará ao tesouro público quinze libras esterlinas." E é o mesmo na maioria, se não em todas, as ilhas das Índias Ocidentais. Não é este um dos muitos atos das ilhas que clamam alto por reparação? E não merece a assembleia que o promulgou a alcunha de selvagens e brutos, em vez de cristãos e homens? É um ato, ao mesmo tempo, impiedoso, injusto e insensato; que, pela sua crueldade, desonraria uma assembleia daqueles que são chamados bárbaros; e, pela sua injustiça e insanidade, chocaria a moralidade e o senso comum de um samoyedo ou de um hotentote.

Por mais chocante que este e muitos outros atos do sangrento código das Índias Ocidentais possam parecer à primeira vista, como não se agrava a iniquidade dele quando consideramos a quem pode ser estendido! O Sr. James Tobin, um zeloso trabalhador na vinha da escravidão, dá conta de um plantador francês de seu conhecimento, na ilha da Martinica, que lhe mostrou muitos mulatos trabalhando nos campos como bestas de carga; e ele disse ao Sr. Tobin que todos estes eram fruto dos seus próprios lombos! E eu mesmo conheci casos semelhantes. Dizei-me, leitor, são estes filhos e filhas do plantador francês menos seus filhos por terem sido gerados em uma mulher negra? E qual deve ser a virtude daqueles legisladores, e os sentimentos daqueles pais, que avaliam as vidas de seus filhos, independentemente de como foram gerados, em não mais do que quinze libras; ainda que sejam assassinados, como diz o ato, por capricho e crueldade sanguinária! Mas não é o tráfico de escravos inteiramente uma guerra contra o coração do homem? E certamente aquilo que é iniciado quebrando as barreiras da virtude envolve na sua continuidade a destruição de todo princípio, e enterra todos os sentimentos em ruínas!

Muitas vezes vi escravos, particularmente aqueles que eram magros, em diferentes ilhas, serem colocados em balanças e pesados; e então vendidos de três a seis ou nove pence a libra. O meu senhor, contudo, cuja humanidade se chocava com este método, costumava vender tais pessoas pelo lote. E durante ou após uma venda, não era incomum ver negros sendo tirados de suas esposas, esposas tiradas de seus maridos, e crianças de seus pais, e enviados para outras ilhas, e para onde quer que seus senhores impiedosos escolhessem; e provavelmente nunca mais, durante a vida, verem uns aos outros! Muitas vezes o meu coração sangrou nestas despedidas; quando os amigos dos que partiam ficavam à beira da água e, com suspiros e lágrimas, mantinham os olhos fixos na embarcação até que ela desaparecesse de vista.

Um pobre negro crioulo que eu conhecia bem, que, após ter sido frequentemente transportado desta forma de ilha em ilha, residia finalmente em Montserrat. Este homem costumava contar-me muitas histórias melancólicas sobre si mesmo. Geralmente, depois de ter terminado o trabalho para o seu senhor, costumava empregar os seus poucos momentos de lazer para ir pescar. Quando apanhava algum peixe, o seu senhor frequentemente tomava-o dele sem lhe pagar; e em outras ocasiões, alguns outros brancos serviam-no da mesma maneira. Um dia, disse-me, de forma muito comovente: "Às vezes, quando um homem branco tira o meu peixe, vou ao meu senhor, e ele me faz justiça; e quando o meu senhor, pela força, tira os meus peixes, o que devo fazer? Não posso ir a ninguém para ser reparado; então", disse o pobre homem, olhando para o alto, "devo olhar para o Deus Poderoso lá no topo por justiça." Esta história ingênua comoveu-me muito, e não pude deixar de sentir a justa causa que Moisés teve ao defender o seu irmão contra o egípcio. Exortei o homem a olhar sempre para o Deus no topo, já que não havia reparação abaixo. Embora eu pouco pensasse então que eu mesmo deveria, mais de uma vez, experimentar tal imposição, e ler a mesma exortação doravante, nas minhas próprias transações nas ilhas; e que até este pobre homem e eu sofreríamos algum tempo depois da mesma maneira, como será relatado mais adiante.

Nem tal tratamento estava confinado a lugares ou indivíduos particulares; pois, em todas as diferentes ilhas em que estive (e visitei não menos que quinze), o tratamento dos escravos era quase o mesmo; tão próximo, de fato, que a história de uma ilha, ou mesmo de uma plantação, com algumas exceções como as que mencionei, poderia servir para uma história de todo o conjunto. Tal é a tendência do tráfico de escravos de corromper as mentes dos homens e endurecê-los para todo sentimento de humanidade! Pois não suponho que os negociantes de escravos nasçam piores que outros homens — Não; é a fatalidade desta avareza equivocada que corrompe o leite da bondade humana e transforma-o em fel. E, se as ocupações daqueles homens tivessem sido diferentes, poderiam ter sido tão generosos, tão ternos e justos, quanto são insensíveis, rapaces e cruéis. Certamente este tráfico não pode ser bom, pois espalha-se como uma peste e contamina o que toca! Pois viola aquele primeiro direito natural da humanidade, igualdade e independência, e dá a um homem um domínio sobre os seus semelhantes que Deus nunca poderia pretender! Pois eleva o proprietário a um estado tão acima do homem quanto deprime o escravo abaixo dele; e, com toda a presunção do orgulho humano, estabelece uma distinção entre eles, imensurável em extensão e infinita em duração! Contudo, quão enganada está a avareza até mesmo dos plantadores? São os escravos mais úteis sendo assim humilhados à condição de brutos, do que seriam se pudessem desfrutar dos privilégios dos homens? A liberdade que difunde saúde e prosperidade por toda a Grã-Bretanha responde-vos — Não. Quando fazeis dos homens escravos, privais-os de metade da sua virtude, dais-lhes na vossa própria conduta um exemplo de fraude, rapina e crueldade, e obrigais-os a viver convosco num estado de guerra; e ainda assim queixais-vos de que eles não são honestos ou fiéis! Estupidificais-os com açoites e pensais ser necessário mantê-los num estado de ignorância; e ainda assim afirmais que eles são incapazes de aprender; que as suas mentes são um solo ou charneca tão estéril, que a cultura seria perdida neles; e que eles vêm de um clima onde a natureza, embora pródiga nas suas dádivas num grau desconhecido por vós, deixou o homem sozinho escasso e inacabado, e incapaz de desfrutar dos tesouros que ela derramou sobre ele! — Uma afirmação ao mesmo tempo ímpia e absurda. Por que usais esses instrumentos de tortura? São eles aptos a serem aplicados por um ser racional a outro? E não estais tomados de vergonha e mortificação ao ver os participantes da vossa natureza reduzidos tão baixo? Mas, acima de tudo, não há perigos associados a este modo de tratamento? Não estais a cada hora com receio de uma insurreição? Nem seria surpreendente: pois quando

"--Nenhuma paz é dada A nós escravizados, mas custódia severa; E açoites e castigo arbitrário Infligidos — Que paz podemos retribuir? Senão, conforme o nosso poder, hostilidade e ódio; Relutância indomada, e vingança, embora lenta, Ainda sempre tramando como o conquistador menos Pode colher a sua conquista, e pode menos alegrar-se Em fazer o que mais sentimos ao sofrer."

Mas, mudando a vossa conduta e tratando os vossos escravos como homens, toda a causa de medo seria banida. Eles seriam fiéis, honestos, inteligentes e vigorosos; e a paz, a prosperidade e a felicidade acompanhar-vos-iam.

NOTAS DE RODAPÉ:

[Nota de rodapé O: Assim fui sacrificado à inveja e ao ressentimento desta mulher por saber que a senhora a quem ela sucedera nas boas graças do meu senhor pretendia levar-me para o seu serviço; o que, se eu tivesse chegado a terra, ela não teria sido capaz de impedir. Ela sentiu o seu orgulho alarmado com a superioridade da sua rival em ser servida por um servo negro: não foi menos para evitar isto do que para se vingar de mim que ela fez com que o capitão me tratasse tão cruelmente.]

[Nota de rodapé P: "O Negro Moribundo", um poema originalmente publicado em 1773. Talvez não seja considerado impertinente acrescentar aqui que este elegante e patético pequeno poema foi ocasionado, como aparece pelo anúncio que o precede, pelo seguinte incidente: "Um negro, que poucos dias antes tinha fugido do seu senhor e se feito batizar, com a intenção de casar com uma mulher branca sua companheira de servidão, sendo apanhado e enviado a bordo de um navio no Tâmisa, aproveitou a oportunidade para dar um tiro na própria cabeça."]

[Nota de rodapé Q: Estes pisterines têm o valor de um xelim.]

[Nota de rodapé R: Sr. Dubury, e muitos outros, Montserrat.]

[Nota de rodapé S: Sir Philip Gibbes, Baronet, Barbados.]

[Nota de rodapé T: Benezet's Account of Guinea, p. 16.]

CAP. VI.

_Algum relato sobre Brimstone-Hill em Montserrat — Mudança favorável na situação do autor — Ele inicia-se como mercador com três pence — O seu sucesso variado no comércio nas diferentes ilhas e na América, e as imposições que encontra nas suas transações com europeus — Uma curiosa imposição à natureza humana — Perigo das arrebentações nas Índias Ocidentais — Exemplo notável de rapto de um mulato livre — O autor é quase assassinado pelo Doutor Perkins em Savannah._

No capítulo precedente, apresentei ao leitor alguns daqueles muitos exemplos de opressão, extorsão e crueldade de que fui testemunha nas Índias Ocidentais: mas, se eu fosse enumerá-los todos, o catálogo seria tedioso e repugnante. Os castigos dos escravos em cada ocasião trivial são tão frequentes, e tão bem conhecidos, juntamente com os diferentes instrumentos com que são torturados, que já não pode trazer novidade recitá-los; e são demasiado chocantes para proporcionar prazer quer ao escritor quer ao leitor. Portanto, doravante mencionarei apenas aqueles que me aconteceram incidentalmente no curso das minhas aventuras.

Na variedade de departamentos em que fui empregado pelo meu senhor, tive a oportunidade de ver muitas cenas curiosas em diferentes ilhas; mas, acima de tudo, fiquei impressionado com uma célebre curiosidade chamada Brimstone-Hill, que é uma montanha alta e íngreme, a algumas milhas da cidade de Plymouth em Montserrat. Eu tinha ouvido falar muitas vezes de algumas maravilhas que podiam ser vistas nesta colina, e fui uma vez com algumas pessoas brancas e negras visitá-la. Quando chegamos ao topo, vi sob diferentes penhascos grandes flocos de enxofre, causados pelos vapores de vários pequenos lagos, que ferviam então naturalmente na terra. Alguns destes lagos eram brancos como leite, outros completamente azuis, e muitos outros de cores diferentes. Eu tinha levado algumas batatas comigo, e coloquei-as em diferentes lagos, e em poucos minutos estavam bem cozidas. Provei algumas delas, mas eram muito sulfurosas; e as fivelas de prata dos sapatos, e todas as outras coisas daquele metal que tínhamos conosco, foram, em pouco tempo, transformadas em pretas como chumbo.

Algum tempo no ano de 1763, a bondosa Providência pareceu mostrar-se um pouco mais favorável a mim. Uma das embarcações do meu senhor, um brigue das Bermudas, de cerca de sessenta toneladas, era comandada por um certo Capitão Thomas Farmer, um inglês, um homem muito alerta e ativo, que rendeu ao meu senhor muito dinheiro pela sua boa gestão no transporte de passageiros de uma ilha para outra; mas muitas vezes os seus marinheiros costumavam embriagar-se e fugir da embarcação, o que o impedia muito nos seus negócios. Este homem tinha tomado afeição por mim; e muitas vezes implorou ao meu senhor que me deixasse fazer uma viagem com ele como marinheiro; mas ele dizia-lhe que não podia dispensar-me, embora a embarcação por vezes não pudesse partir por falta de mãos, pois os marinheiros eram geralmente muito escassos na ilha. No entanto, finalmente, por necessidade ou força, o meu senhor foi persuadido, embora muito relutantemente, a deixar-me ir com este capitão; mas deu-lhe ordens severas para ter cuidado para que eu não fugisse, pois se o fizesse, ele o faria pagar por mim. Sendo este o caso, o capitão teve durante algum tempo um olho atento sobre mim sempre que a embarcação ancorava; e assim que ela regressava, eu era enviado de volta para a terra. Assim estava eu a escravizar, por assim dizer, para toda a vida, ora numa coisa, ora noutra; de modo que o capitão e eu éramos quase os homens mais úteis no emprego do meu senhor. Tornei-me também tão útil ao capitão a bordo, que muitas vezes, quando ele pedia para eu ir com ele, ainda que fosse apenas por vinte e quatro horas, a algumas das ilhas perto de nós, o meu senhor respondia que não podia dispensar-me, ao que o capitão praguejava, e não fazia a viagem; e dizia ao meu senhor que eu era melhor para ele a bordo do que quaisquer três homens brancos que ele tivesse; pois eles costumavam portar-se mal em muitos aspectos, particularmente em embriagar-se; e então frequentemente estragavam o barco, de modo a impedir que a embarcação voltasse tão cedo quanto poderia ter feito. Isto o meu senhor sabia muito bem; e finalmente, pelas constantes súplicas do capitão, depois de eu ter estado várias vezes com ele, um dia, para minha grande alegria, o meu senhor disse-me que o capitão não o deixava descansar, e perguntou-me se eu queria ir a bordo como marinheiro, ou ficar em terra e tomar conta dos armazéns, pois não podia suportar mais ser atormentado desta maneira. Fiquei muito feliz com esta proposta, pois pensei imediatamente que poderia, com o tempo, ter alguma chance por estar a bordo de ganhar um pouco de dinheiro, ou possivelmente fazer a minha fuga se fosse maltratado: esperava também obter melhor comida, e em maior abundância; pois tinha sentido muita fome muitas vezes, embora o meu senhor tratasse os seus escravos, como observei, incomumente bem. Respondi-lhe, portanto, sem hesitação, que iria ser marinheiro se ele quisesse. Em conformidade, fui ordenado a ir a bordo diretamente. No entanto, entre a embarcação e a terra, quando ela estava no porto, eu tinha pouco ou nenhum descanso, pois o meu senhor queria sempre ter-me consigo. Na verdade, ele era um cavalheiro muito agradável, e não fossem as minhas expectativas a bordo, eu não teria pensado em deixá-lo. Mas o capitão também gostava muito de mim, e eu era inteiramente o seu braço direito. Fiz tudo o que pude para merecer o seu favor e, em troca, recebi melhor tratamento dele do que qualquer outro que creio ter encontrado nas Índias Ocidentais na minha situação.

Após algum tempo a navegar com este capitão, finalmente tentei a minha sorte e comecei a comerciar. Tinha apenas um capital muito pequeno para começar; pois uma única moeda de meio "bit", que equivale a três pence em Inglaterra, constituía todo o meu património. No entanto, confiei que o Senhor estaria comigo; e numa das nossas viagens a St. Eustatia, uma ilha holandesa, comprei um copo de vidro com a minha moeda, e quando cheguei a Montserrat vendi-o por um "bit", ou seis pence. Por sorte, fizemos várias viagens consecutivas a St. Eustatia (que era um mercado geral para as Índias Ocidentais, a cerca de vinte léguas de Montserrat); e na seguinte, achando o meu copo tão rentável, com esse "bit" comprei mais dois copos; e quando regressei vendi-os por dois "bits", equivalentes a um xelim esterlino. Quando lá fomos de novo, comprei com esses dois "bits" mais quatro destes copos, que vendi por quatro "bits" no nosso regresso a Montserrat; e na nossa viagem seguinte a St. Eustatia comprei dois copos com um "bit", e com os outros três comprei um jarro de Genebra, com cerca de três pintas de medida. Quando chegámos a Montserrat, vendi o gim por oito "bits" e os copos por dois, de modo que o meu capital ascendia agora, ao todo, a um dólar, bem gerido e adquirido no espaço de um mês ou seis semanas, altura em que bendisse o Senhor por ser tão rico. À medida que navegávamos para diferentes ilhas, aplicava este dinheiro em várias coisas conforme a ocasião, e costumava dar muito bom resultado, especialmente quando íamos a Guadaloupe, Grenada e ao resto das ilhas francesas. Assim andei por todas as ilhas durante mais de quatro anos, sempre a comerciar enquanto seguia viagem, período durante o qual presenciei muitos exemplos de maus-tratos e vi muitas injustiças cometidas contra outros negros nas nossas transações com os europeus: e, no meio das nossas recreações, quando estávamos a dançar e a divertir-nos, eles, sem motivo, molestavam-nos e insultavam-nos. De facto, fui mais de uma vez obrigado a olhar para Deus nas alturas, tal como tinha aconselhado o pobre pescador pouco tempo antes. E não passara muito tempo desde que comecei a comerciar por conta própria da maneira que descrevi acima, quando experimentei a mesma provação na sua companhia, como se segue: Este homem, estando habituado à água, foi, por uma emergência, colocado a bordo connosco pelo seu senhor para trabalhar como mais um tripulante, numa viagem a Santa Cruz; e, à nossa partida, ele tinha trazido o pouco que possuía para um empreendimento, que consistia em seis "bits" de limas e laranjas num saco; eu também tinha todo o meu capital, que era cerca de doze "bits" do mesmo género de mercadoria, separado em dois sacos; pois tínhamos ouvido dizer que estas frutas se vendiam bem naquela ilha. Quando lá chegámos, num momento oportuno, ele e eu fomos a terra com as nossas frutas para as vender; mas mal tínhamos desembarcado, fomos abordados por dois homens brancos, que imediatamente nos tiraram os nossos três sacos. De início não podíamos adivinhar o que pretendiam fazer; e, durante algum tempo, pensámos que estavam a brincar connosco; mas cedo nos deixaram saber o contrário, pois levaram as nossas mercadorias imediatamente para uma casa ali perto, adjacente ao forte, enquanto nós os seguíamos por todo o caminho a suplicar-lhes que nos devolvessem as frutas, mas em vão. Não só se recusaram a devolvê-las, como nos insultaram e ameaçaram que, se não partíssemos imediatamente, nos açoitariam bem. Dissemos-lhes que estes três sacos eram tudo o que tínhamos no mundo, e que os trouxemos connosco para vender quando viemos de Montserrat, e mostrámo-lhes a embarcação. Mas isto acabou por jogar contra nós, pois viram agora que éramos estrangeiros, tal como escravos. Por isso, continuaram a insultar-nos e a pedir que nos fôssemos embora, e até pegaram em varapaus para nos bater; enquanto nós, vendo que falavam a sério, partimos na maior confusão e desespero. Assim, no preciso minuto em que ganhava três vezes mais do que alguma vez ganhei com qualquer empreendimento na minha vida, fui privado de cada tostão que possuía. Um infortúnio insuportável! Mas não sabíamos como nos ajudar. Na nossa consternação, fomos ter com o oficial comandante do forte e contámos-lhe como tínhamos sido tratados por alguns dos seus homens; mas não obtivemos a mínima reparação: ele respondeu às nossas queixas apenas com uma saraivada de imprecações contra nós e, imediatamente, pegou num chicote, a fim de nos castigar, pelo que fomos forçados a sair muito mais depressa do que entrámos. Agora, na agonia da angústia e da indignação, desejei que a ira de Deus, no seu relâmpago bifurcado, pudesse transfixar estes cruéis opressores entre os mortos. Ainda assim, porém, perseverámos; voltámos à casa e implorámos e suplicámos repetidamente pelas nossas frutas, até que, finalmente, algumas outras pessoas que estavam na casa perguntaram se ficaríamos contentes se mantivessem um saco e nos dessem os outros dois. Nós, não vendo remédio algum, consentimos nisto; e eles, observando que um saco tinha ambos os tipos de fruta, que pertencia ao meu companheiro, ficaram com esse; e os outros dois, que eram meus, devolveram-nos. Assim que os recebi, corri o mais depressa que pude e consegui que o primeiro homem negro que encontrei me ajudasse a partir; o meu companheiro, no entanto, ficou um pouco mais para suplicar; disse-lhes que o saco que tinham era dele, e igualmente tudo o que possuía no mundo; mas isto não serviu de nada, e ele foi obrigado a regressar sem ele. O pobre homem velho, torcendo as mãos, chorou amargamente pela sua perda; e, na verdade, olhou então para Deus nas alturas, o que me comoveu tanto de pena por ele, que lhe dei quase um terço das minhas frutas. Seguimos então para os mercados para as vender; e a Providência foi mais favorável connosco do que poderíamos ter esperado, pois vendemos as nossas frutas extraordinariamente bem; obtive pelas minhas cerca de trinta e sete "bits". Uma reviravolta tão surpreendente da fortuna num espaço de tempo tão curto pareceu-me um sonho, e revelou-se um incentivo não pequeno para confiar no Senhor em qualquer situação. O meu capitão, depois, costumava frequentemente tomar o meu partido e garantir os meus direitos, quando eu era pilhado ou maltratado por estes ternos predadores cristãos; entre os quais me arrepiava ao observar as incessantes maldições blasfemas que são lançadas gratuitamente por pessoas de todas as idades e condições, não só sem motivo, mas até como se fossem indulgências e prazer.

Numa das nossas viagens a St. Kitt's, eu tinha onze "bits" meus; e o meu amigo capitão emprestou-me mais cinco "bits", com os quais comprei uma Bíblia. Fiquei muito contente por obter este livro, que dificilmente conseguia encontrar em qualquer lado. Creio que não se vendia nenhum em Montserrat; e, para meu grande desgosto, por ter sido forçado a sair do Ætna da maneira que relatei, a minha Bíblia e o Guia para os Índios, os dois livros que eu amava acima de todos os outros, ficaram para trás.

Enquanto estive neste lugar, St. Kitt's, ocorreu uma imposição muito curiosa sobre a natureza humana: um homem branco queria casar-se na igreja com uma mulher negra livre que possuía terras e escravos em Montserrat: mas o clérigo disse-lhe que era contra a lei do lugar casar um branco e uma negra na igreja. O homem pediu então para se casar na água, ao que o pároco consentiu, e os dois amantes foram num barco, e o pároco e o sacristão noutro, e assim a cerimónia foi realizada. Depois disto, o par amoroso veio a bordo da nossa embarcação, e o meu capitão tratou-os extremamente bem e levou-os em segurança até Montserrat.

O leitor não pode deixar de julgar o quão penosa era esta situação para uma mente como a minha, estar diariamente exposto a novas dificuldades e imposições, depois de ter visto dias melhores e de ter estado, por assim dizer, num estado de liberdade e abundância; acrescente-se a isto que todas as partes do mundo em que estive até então me pareciam um paraíso em comparação com as Índias Ocidentais. A minha mente estava, por isso, ocupada de hora a hora com invenções e pensamentos sobre ser libertado e, se possível, por meios honestos e honrosos; pois lembrava-me sempre do velho ditado; e confio que foi sempre o meu princípio orientador, que a honestidade é a melhor política; e igualmente aquele outro preceito de ouro — fazer aos outros o que eu gostaria que fizessem a mim. No entanto, como era desde tenra idade um predestinacionista, pensava que o que o destino tivesse determinado tinha sempre de acontecer; e, portanto, se fosse o meu destino ser libertado, nada me poderia impedir, embora não visse no presente meios ou esperança de obter a minha liberdade; por outro lado, se fosse o meu destino não ser libertado, nunca o seria, e todos os meus esforços para esse fim seriam infrutíferos. No meio destes pensamentos, olhei, pois, ansiosamente com orações para Deus pela minha liberdade; e, ao mesmo tempo, usei todos os meios honestos, e tentei tudo o que era possível da minha parte para a obter. Com o passar do tempo, tornei-me dono de algumas libras, e num bom caminho para ganhar mais, o que o meu amigo capitão sabia muito bem; isto levava-o por vezes a abusar da liberdade comigo: mas sempre que ele me tratava de forma azeda, eu dizia-lhe claramente o que pensava, e que morreria antes de ser submetido a imposições como outros negros eram, e que, para mim, a vida tinha perdido o seu sabor quando a liberdade se ia. Disse isto embora previsse que o meu bem-estar de então ou as esperanças futuras de liberdade (humanamente falando) dependiam deste homem. No entanto, como ele não suportava a ideia de eu não navegar com ele, tornava-se sempre suave perante as minhas ameaças. Continuei, portanto, com ele; e, pela minha grande atenção às suas ordens e aos seus negócios, ganhei-lhe crédito, e através da sua bondade para comigo, acabei por obter a minha liberdade. Enquanto assim seguia, cheio de pensamentos de liberdade e resistindo à opressão tanto quanto era capaz, a minha vida pendia diariamente por um fio, particularmente nas rebentações que mencionei anteriormente, uma vez que não sabia nadar. Estas são extremamente violentas em todas as Índias Ocidentais, e estive sempre exposto à sua fúria uivante e à sua fúria devoradora em todas as ilhas. Vi-as atingir e lançar um barco para o alto, e estropiar vários a bordo. Uma vez, nas ilhas de Grenada, quando eu e cerca de oito outros puxávamos um barco grande com duas pipas de água, uma rebentação atingiu-nos e empurrou o barco e tudo o que nele estava a cerca de uma distância de um lançamento de pedra, por entre algumas árvores, e acima da marca da maré alta. Fomos obrigados a obter toda a ajuda possível da propriedade mais próxima para consertar o barco e lançá-lo de novo à água. Em Montserrat, certa noite, ao esforçar-nos arduamente para sair da costa para o navio, a chalupa virou connosco quatro vezes; da primeira vez, estive muito perto de me afogar; no entanto, o casaco que eu trazia manteve-me acima da água por um breve espaço de tempo, enquanto chamava por um homem perto de mim que era um bom nadador, e disse-lhe que não sabia nadar; ele veio então apressadamente até mim e, exatamente quando eu estava a afundar-me, agarrou-me e trouxe-me para onde dava pé, e depois foi e trouxe a chalupa também. Assim que esvaziámos a água dela, para que não fôssemos maltratados por estarmos ausentes, tentámos de novo mais três vezes, e tantas vezes as horríveis rebentações fizeram-nos o mesmo que da primeira; mas, finalmente, à quinta tentativa, conseguimos o nosso objetivo, com o risco iminente das nossas vidas. Um dia também, em Old Road, em Montserrat, o nosso capitão e três homens para além de mim íamos numa canoa grande em busca de rum e açúcar, quando uma única rebentação lançou a canoa a uma distância espantosa da água, e alguns de nós até a um lançamento de pedra uns dos outros: a maioria de nós estava muito contundida; de modo que eu e muitos outros dizíamos frequentemente, e pensávamos realmente, que não havia outro lugar debaixo dos céus como este. Ansiava, portanto, muito por deixá-lo, e desejava diariamente ver a promessa do meu senhor cumprida, de ir para Filadélfia. Enquanto estávamos neste lugar, aconteceu uma coisa muito cruel a bordo do nosso brigue que me encheu de horror; embora descobrisse depois que tais práticas eram frequentes. Havia um jovem mulato livre, muito inteligente e decente, que navegou muito tempo connosco: ele tinha uma mulher livre como esposa, com quem tinha um filho; e ela vivia então em terra, e eram todos muito felizes. O nosso capitão e o imediato, e outras pessoas a bordo, e vários noutros lugares, até os nativos das Bermudas, todos conheciam este jovem desde criança, que ele era sempre livre, e ninguém o tinha alguma vez reclamado como sua propriedade: contudo, como a força supera demasiado frequentemente o direito nestas partes, aconteceu que um capitão das Bermudas, cuja embarcação ali jazia por alguns dias na enseada, veio a bordo do nosso, e vendo o mulato, cujo nome era Joseph Clipson, disse-lhe que ele não era livre, e que tinha ordens do seu senhor para o levar para as Bermudas. O pobre homem não podia acreditar que o capitão falasse a sério; mas foi muito cedo desenganado, quando os seus homens puseram mãos violentas nele: e embora ele mostrasse um certificado de ter nascido livre em St. Kitt's, e a maioria das pessoas a bordo soubesse que ele serviu o seu tempo na construção de barcos e sempre passou por um homem livre, ainda assim foi levado à força da nossa embarcação. Ele pediu então para ser levado a terra perante o secretário ou os magistrados, e estes invasores infernais dos direitos humanos prometeram-lhe que seria; mas, em vez disso, levaram-no a bordo da outra embarcação: e no dia seguinte, sem dar ao pobre homem qualquer audiência em terra, ou permitir-lhe sequer ver a sua esposa ou filho, ele foi levado embora, e provavelmente condenado a nunca mais nesta vida os ver. Nem foi este o único exemplo deste tipo de barbárie de que fui testemunha. Desde então, tenho visto muitas vezes na Jamaica e noutras ilhas homens livres, que conheci na América, serem assim vilmente enganados e mantidos em servidão. Ouvi falar de duas práticas semelhantes até em Filadélfia: e se não fosse a benevolência dos quacres naquela cidade, muitos da raça negra, que hoje respiram o ar da liberdade, estariam, creio eu, a gemer realmente sob as correntes de algum plantador. Estas coisas abriram a minha mente para um novo cenário de horror, que me era antes estranho. Até então, eu tinha pensado apenas na escravatura como algo terrível; mas o estado de um negro livre parecia-me agora pelo menos igualmente terrível, e, em alguns aspetos, ainda pior, pois eles vivem em constante alarme pela sua liberdade; e até isto é apenas nominal, pois são universalmente insultados e pilhados sem a possibilidade de reparação; pois tal é a equidade das leis das Índias Ocidentais, que o testemunho de nenhum negro livre será admitido nos seus tribunais de justiça. Nesta situação, é de surpreender que os escravos, quando tratados suavemente, prefiram até a miséria da escravatura a tal zombaria de liberdade? Eu estava agora completamente enojado com as Índias Ocidentais e pensava que nunca seria inteiramente livre até que as tivesse deixado.

Decidi fazer todos os esforços para obter a minha liberdade e regressar à velha Inglaterra. Para este fim, pensei que um conhecimento de navegação me poderia ser útil; pois, embora não pretendesse fugir a não ser que fosse maltratado, ainda assim, nesse caso, se compreendesse a navegação, poderia tentar a minha fuga no nosso saveiro, que era uma das embarcações mais velozes das Índias Ocidentais, e não me faltariam braços para se juntarem a mim: e se eu fizesse esta tentativa, pretendia ter ido para Inglaterra; mas isto, como disse, era apenas no caso de encontrar qualquer mau trato. Empreguei, portanto, o imediato da nossa embarcação para me ensinar a navegar, pelo que concordei em dar-lhe vinte e quatro dólares, e paguei-lhe efetivamente parte do dinheiro de imediato; embora, quando o capitão, algum tempo depois, soube que o imediato ia receber tal quantia por me ensinar, repreendeu-o e disse que era uma vergonha para ele aceitar qualquer dinheiro meu. Contudo, o meu progresso nesta arte útil foi muito retardado pela constância do nosso trabalho. Se eu tivesse desejado fugir, não me faltariam oportunidades, que se apresentavam frequentemente; e particularmente numa ocasião, pouco depois disto. Quando estávamos na ilha de Gaurdeloupe, havia uma grande frota de navios mercantes com destino à velha França; e, sendo os marinheiros muito escassos na altura, pagavam de quinze a vinte libras por homem pela viagem. O nosso imediato, e todos os marinheiros brancos, deixaram a nossa embarcação por este motivo e foram para bordo dos navios franceses. Eles queriam que eu também fosse com eles, pois tinham consideração por mim; e juraram proteger-me se eu fosse: e, como a frota ia zarpar no dia seguinte, acredito realmente que poderia ter chegado a salvo à Europa nessa altura. Contudo, como o meu senhor era bondoso, não quis tentar deixá-lo; e, lembrando-me da velha máxima de que "a honestidade é a melhor política", permiti que fossem sem mim. Na verdade, o meu capitão receava muito que eu o deixasse a ele e à embarcação naquela altura, já que tinha uma oportunidade tão boa: mas, agradeço a Deus, esta minha fidelidade revelou-se muito vantajosa para mim mais tarde, quando eu menos pensava nisso; e tornou-me tão benquisto pelo capitão, que ele costumava ensinar-me de vez em quando algumas partes da navegação ele próprio: mas alguns dos nossos passageiros, e outros, vendo isto, censuraram-no muito, dizendo que era uma coisa muito perigosa deixar um negro conhecer a navegação; assim, fui impedido novamente nos meus intentos. Perto do fim do ano de 1764, o meu senhor comprou um saveiro maior, chamado Providence, de cerca de setenta ou oitenta toneladas, do qual o meu capitão assumiu o comando. Fui com ele nesta embarcação, e levámos um carregamento de escravos novos para a Geórgia e Charles Town. O meu senhor deixou-me agora inteiramente entregue ao capitão, embora ainda desejasse que eu estivesse com ele; mas eu, que sempre desejei muito perder de vista as Índias Ocidentais, não fiquei pouco alegre com os pensamentos de ver qualquer outro país. Por isso, confiando na bondade do meu capitão, preparei toda a pequena mercadoria que pude; e, quando a embarcação estava pronta, zarpámos, para minha grande alegria. Quando chegámos aos nossos destinos, Geórgia e Charles Town, esperava ter a oportunidade de vender a minha pequena propriedade com lucro: mas aqui, particularmente em Charles Town, encontrei compradores, homens brancos, que me impuseram como noutros lugares. Não obstante, estava decidido a ter fortaleza; pensando que nenhum destino ou provação é demasiado duro quando o bondoso Céu é o recompensador. Em breve voltámos a carregar e regressámos a Montserrat; e lá, entre o resto das ilhas, vendi bem as minhas mercadorias; e desta forma continuei a comerciar durante o ano de 1764; encontrando várias cenas de imposição, como de costume. Depois disto, o meu senhor equipou a sua embarcação para Filadélfia, no ano de 1765; e durante o tempo em que a carregávamos e nos preparávamos para a viagem, trabalhei com redobrada presteza, pela esperança de conseguir dinheiro suficiente nestas viagens para comprar a minha liberdade a tempo, se aprouvesse a Deus; e também para ver a cidade de Filadélfia, da qual tinha ouvido falar muito nos últimos anos; além do que, sempre desejei pôr à prova a promessa do meu senhor no primeiro dia em que cheguei a ele. No meio destas ideias elevadas, e enquanto estava a preparar a minha pequena mercadoria, um domingo o meu senhor mandou-me chamar à sua casa. Quando lá cheguei, encontrei-o a ele e ao capitão juntos; e, ao entrar, fiquei assombrado por ele me dizer que ouvira que eu pretendia fugir dele quando chegasse a Filadélfia: "E, portanto", disse ele, "tenho de te vender novamente: custaste-me muito dinheiro, nada menos que quarenta libras esterlinas; e não serve perder tanto. És um indivíduo valioso", continuou ele; "e posso conseguir por ti, a qualquer dia, cem guinéus, de muitos cavalheiros nesta ilha". E então falou-me do cunhado do Capitão Doran, um senhor severo, que sempre quis comprar-me para fazer de mim o seu capataz. O meu capitão também disse que podia conseguir muito mais de cem guinéus por mim na Carolina. Eu sabia que isto era um facto; pois o cavalheiro que queria comprar-me veio várias vezes a bordo, falou-me para viver com ele e disse que me trataria bem. Quando perguntei que trabalho me daria, ele disse que, como eu era marinheiro, faria de mim capitão de uma das suas embarcações de arroz. Mas recusei: e temendo, ao mesmo tempo, por uma mudança repentina que vi no temperamento do capitão, que ele pudesse querer vender-me, disse ao cavalheiro que não viveria com ele sob condição alguma, e que certamente fugiria com a sua embarcação: mas ele disse que não receava isso, pois apanhar-me-ia novamente; e então contou-me quão cruelmente me trataria se eu o fizesse. O meu capitão, contudo, deu-lhe a entender que eu sabia algo de navegação: por isso ele mudou de ideias; e, para minha grande alegria, ele foi-se embora. Disse então ao meu senhor que não tinha dito que fugiria em Filadélfia; nem o pretendia, pois ele não me tratava mal, nem o capitão: pois se o fizessem, certamente teria feito algumas tentativas antes de agora; mas como pensava que, se fosse vontade de Deus que eu algum dia fosse libertado, assim seria, e, pelo contrário, se não fosse a sua vontade, não aconteceria; por isso esperava que, se alguma vez fosse libertado, enquanto fosse bem tratado, fosse por meios honestos; mas, como não podia ajudar-me a mim mesmo, ele devia fazer o que lhe aprouvesse; eu só podia esperar e confiar no Deus do Céu; e naquele instante a minha mente estava cheia de invenções e planos para escapar. Apelei então ao capitão para saber se ele alguma vez viu algum sinal de eu fazer a menor tentativa de fugir; e perguntei-lhe se eu não vinha sempre a bordo de acordo com o tempo que ele me dava de liberdade; e, mais particularmente, quando todos os nossos homens nos deixaram em Gaurdeloupe e foram para bordo da frota francesa, e me aconselharam a ir com eles, se eu não poderia ter ido, e se ele não poderia ter-me apanhado de novo. Para minha não pequena surpresa, e muito grande alegria, o capitão confirmou cada sílaba do que eu tinha dito: e ainda mais; pois disse que tinha tentado várias vezes ver se eu faria qualquer tentativa deste género, tanto em St. Eustatia como na América, e nunca descobriu que eu fizesse a menor; mas, pelo contrário, vinha sempre a bordo de acordo com as suas ordens; e ele acreditava realmente que, se eu alguma vez pretendesse fugir, como nunca poderia ter tido uma oportunidade melhor, tê-lo-ia feito na noite em que o imediato e toda a gente deixaram a nossa embarcação em Gaurdeloupe. O capitão informou então o meu senhor, que tinha sido assim enganado pelo nosso imediato, embora eu não soubesse quem era o meu inimigo, a razão que o imediato tinha para lhe impingir esta mentira; a qual era porque eu tinha dado a conhecer ao capitão as provisões que o imediato tinha dado ou retirado da embarcação. Este discurso do capitão foi como vida para os mortos para mim, e instantaneamente a minha alma glorificou a Deus; e ainda mais ao ouvir o meu senhor dizer imediatamente que eu era um indivíduo sensato, e que ele nunca teve a intenção de tratar-me como um escravo comum; e que, não fosse pelas súplicas do capitão, e pelo seu testemunho sobre mim, ele não me teria deixado andar pelas lojas como tinha feito; que também, ao fazê-lo, ele pensou que, levando uma pequena coisa ou outra a diferentes lugares para vender, eu poderia ganhar dinheiro. Que ele também pretendia encorajar-me nisto, creditando-me meio barril de rum e meia pipa de açúcar de cada vez; de modo que, sendo cuidadoso, eu pudesse ter dinheiro suficiente, em algum tempo, para comprar a minha liberdade; e, quando esse fosse o caso, eu podia contar que ele a deixaria por quarenta libras esterlinas, que era apenas o mesmo preço que ele deu por mim. Este som alegrou o meu pobre coração sem medida; embora na verdade não fosse mais do que a própria ideia que eu tinha formado na minha mente sobre o meu senhor muito antes, e fiz-lhe imediatamente esta resposta: "Senhor, sempre tive esse pensamento sobre si, de facto tive, e isso tornou-me tão diligente em servi-lo". Ele deu-me então uma moeda de prata grande, como nunca tinha visto ou tido antes, e disse-me para me preparar para a viagem, e creditar-me-ia com uma terça de açúcar e outra de rum; disse também que tinha duas irmãs amáveis em Filadélfia, das quais eu poderia obter algumas coisas necessárias. Com isto, o meu nobre capitão pediu-me para ir a bordo; e, conhecendo o metal africano, ordenou-me que não dissesse nada sobre este assunto a ninguém; e prometeu que o imediato mentiroso não iria mais com ele. Esta foi uma mudança, de facto; na mesma hora sentir a dor mais requintada, e no virar de um momento a alegria mais plena. Causou-me sensações que eu só era capaz de expressar no meu olhar; o meu coração estava tão dominado pela gratidão que poderia ter beijado os pés de ambos. Quando saí da sala, fui imediatamente, ou melhor, voei para a embarcação, a qual estando carregada, o meu senhor, cumprindo a sua palavra, confiou-me uma terça de rum e outra de açúcar, quando zarpámos e chegámos a salvo à elegante cidade de Filadélfia. Vendi logo as minhas mercadorias aqui muito bem; e neste lugar encantador encontrei tudo abundante e barato.

Enquanto estava neste lugar, um acontecimento muito extraordinário aconteceu-me. Tinham-me falado numa noite de uma mulher sábia, uma Sra. Davis, que revelava segredos, previa eventos, etc. Depositei pouca fé nesta história no início, pois não podia conceber que qualquer mortal pudesse prever as disposições futuras da Providência, nem acreditava em qualquer outra revelação que não a das Sagradas Escrituras; contudo, fiquei muito assombrado ao ver esta mulher num sonho naquela noite, embora fosse uma pessoa que nunca tinha visto antes na minha vida; isto causou-me tal impressão que não consegui tirar a ideia da cabeça no dia seguinte, e tornei-me então tão ansioso por vê-la como antes era indiferente; correspondentemente, à noite, depois de deixarmos de trabalhar, perguntei onde ela vivia, e sendo dirigido até ela, para minha indizível surpresa, contemplei a própria mulher com o mesmo vestido que me pareceu usar na visão. Ela disse-me imediatamente que eu tinha sonhado com ela na noite anterior; relatou-me muitas coisas que tinham acontecido com uma correção que me assombrou; e finalmente disse-me que eu não seria escravo por muito tempo: isto foi uma notícia tanto mais agradável quanto a acreditei mais prontamente por ela ter relatado tão fielmente os incidentes passados da minha vida. Disse que eu estaria duas vezes em muito grande perigo de vida dentro de dezoito meses, do qual, se escapasse, depois correria tudo bem; por isso, dando-me a sua bênção, separámo-nos. Depois de ficar aqui algum tempo até a nossa embarcação estar carregada, e ter comprado o meu pequeno tráfico, zarpámos deste local agradável para Montserrat, mais uma vez para enfrentar as ondas furiosas.

Chegámos a salvo a Montserrat, onde descarregámos a nossa carga; e pouco depois disso levámos escravos a bordo para St. Eustatia, e de lá para a Geórgia. Eu sempre me tinha esforçado e feito trabalho a dobrar, a fim de tornar as nossas viagens tão curtas quanto possível; e por ter trabalhado demasiado enquanto estávamos na Geórgia, apanhei febre e arrepios. Estive muito doente durante onze dias e quase a morrer; a eternidade estava agora excessivamente gravada na minha mente, e temia muito esse terrível acontecimento. Rezei, portanto, ao Senhor para que me poupasse; e fiz uma promessa na minha mente a Deus, de que seria bom se alguma vez recuperasse. Por fim, por ter um médico eminente a tratar-me, fui restaurado à saúde; e pouco depois carregámos a embarcação e partimos para Montserrat. Durante a passagem, como estava perfeitamente restaurado e tinha muitos assuntos da embarcação a tratar, todos os meus esforços para manter a minha integridade e cumprir a minha promessa a Deus começaram a falhar; e, apesar de tudo o que podia fazer, à medida que nos aproximávamos das ilhas, as minhas resoluções declinavam cada vez mais, como se o próprio ar daquele país ou clima parecesse fatal à piedade. Quando chegámos a salvo a Montserrat e desembarquei, esqueci as minhas resoluções anteriores... Ai! quão propenso é o coração a abandonar esse Deus que deseja amar! e quão fortemente as coisas deste mundo atingem os sentidos e cativam a alma! — Depois de a nossa embarcação ter sido descarregada, preparámo-la rapidamente e levámos, como de costume, alguns dos pobres nativos oprimidos de África e outros negros; partimos então novamente para a Geórgia e Charlestown. Chegámos à Geórgia e, tendo desembarcado parte da nossa carga, seguimos para Charlestown com o restante. Enquanto lá estávamos, vi a cidade iluminada; os canhões foram disparados, e fogueiras e outras demonstrações de alegria foram mostradas, devido à revogação da lei do selo. Aqui dispus de alguns bens por minha própria conta; os homens brancos comprando-os com promessas suaves e palavras bonitas, dando-me, contudo, um pagamento muito indiferente. Havia um cavalheiro, particularmente, que me comprou uma pipa de rum, o que me deu muito trabalho; e, embora eu tenha usado o interesse do meu capitão amigável, não consegui obter nada por ela; pois, sendo um homem negro, não podia obrigá-lo a pagar-me. Isto irritou-me muito, não sabendo como agir; e perdi algum tempo à procura deste cristão; e embora, quando o sábado chegou (que os negros costumam fazer o seu dia de folga), eu estivesse muito inclinado a ir ao culto público, fui obrigado a contratar alguns homens negros para ajudar a puxar um barco através da água até Deus em busca deste cavalheiro. Quando o encontrei, após muita súplica, tanto da minha parte como do meu digno capitão, ele lá me pagou em dólares; alguns deles, contudo, eram de cobre e, consequentemente, sem valor; mas ele aproveitou-se de eu ser um homem negro e obrigou-me a aceitar aqueles ou nada, embora eu me tenha oposto. Imediatamente depois, enquanto tentava passá-los no mercado, entre outros homens brancos, fui insultado por oferecer passar moeda má; e, embora lhes mostrasse o homem de quem os recebi, estive a um minuto de ser atado e açoitado sem juiz ou júri; contudo, com a ajuda de um bom par de pernas, fugi e assim escapei às palmatórias que teria recebido. Fui para bordo o mais depressa que pude, mas continuei com medo deles até zarparmos, o que agradeci a Deus que fizemos pouco depois; e nunca mais estive entre eles desde então.

Chegámos logo à Geórgia, onde devíamos completar o nosso carregamento; e aqui um destino pior do que nunca esperava-me: pois numa noite de domingo, enquanto eu estava com alguns negros no pátio do seu senhor na cidade de Savannah, aconteceu que o seu senhor, um tal Doutor Perkins, que era um homem muito severo e cruel, entrou bêbado; e, não gostando de ver negros estranhos no seu pátio, ele e um rufia de um homem branco que tinha ao seu serviço cercaram-me num instante, e ambos bateram-me com as primeiras armas que puderam agarrar. Gritei o mais que pude por ajuda e misericórdia; mas, embora desse uma boa conta de mim, e ele conhecesse o meu capitão, que se alojava perto dele, foi em vão. Bateram-me e mutilaram-me de uma forma vergonhosa, deixando-me quase morto. Perdi tanto sangue das feridas que recebi, que fiquei completamente imóvel, e estava tão entorpecido que não pude sentir nada durante muitas horas. De manhã cedo levaram-me para a prisão. Como não voltei ao navio durante toda a noite, o meu capitão, não sabendo onde eu estava, e estando inquieto por eu não ter aparecido, perguntou por mim; e, tendo descoberto onde eu estava, veio imediatamente ter comigo. Assim que o bom homem me viu tão cortado e mutilado, não pôde deixar de chorar; tirou-me logo da prisão para os seus aposentos e mandou imediatamente chamar os melhores médicos do local, que no início declararam ser a sua opinião que eu não poderia recuperar. O meu capitão, sobre isto, foi a todos os advogados da cidade para pedir conselho, mas disseram-lhe que não podiam fazer nada por mim, pois eu era um negro. Foi então ter com o Doutor Perkins, o herói que me tinha vencido, e ameaçou-o, jurando que se vingaria dele, e desafiou-o para lutar. Mas a cobardia é sempre companheira da crueldade — e o Doutor recusou. Contudo, pela perícia de um Doutor Brady daquele lugar, comecei finalmente a melhorar; mas, embora eu estivesse tão dorido e mal com as feridas que tinha por todo o corpo que não conseguia descansar em nenhuma posição, sentia ainda mais dor pela inquietação do capitão por mim do que teria sentido de outra forma. O homem digno cuidou de mim e vigiou-me todas as horas da noite; e, graças à sua atenção e à do médico, consegui levantar-me da cama em cerca de dezasseis ou dezoito dias. Durante todo este tempo, fui muito necessário a bordo, pois costumava subir e descer o rio com frequência para buscar jangadas e outras partes da nossa carga, e arrumá-las quando o imediato estava doente ou ausente. Em cerca de quatro semanas pude voltar ao serviço; e quinze dias depois, tendo metido toda a nossa carga, a nossa embarcação zarpou para Montserrat; e em menos de três semanas chegámos lá a salvo, perto do fim do ano. Isto terminou as minhas aventuras em 1764; pois não voltei a deixar Montserrat até ao início do ano seguinte.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME.

Encalharam o navio: e a parte da proa ficou presa, e permaneceu imóvel, mas a parte da popa foi quebrada pela violência das ondas. Atos xxvii. 41.

Contudo, temos de ir dar a uma certa ilha;

Portanto, senhores, tende bom ânimo: porque eu creio em Deus, que há de suceder assim como me foi dito. Atos xxvii. 26, 25.

Ora, uma coisa foi-me trazida secretamente, e o meu ouvido recebeu um pouco dela.

Em pensamentos das visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo. Jó iv. 12, 13.

Eis que tudo isto Deus opera muitas vezes com o homem,

Para desviar a sua alma da cova, para ser iluminado com a luz dos viventes. Jó xxxiii. 29, 30.

VOLUME II

CAP. VII.

O desgosto do autor com as Índias Ocidentais--Forma planos para obter a sua liberdade--Desilusão ridícula que ele e o seu Capitão encontram na Geórgia--Por fim, através de várias viagens bem-sucedidas, adquire uma quantia de dinheiro suficiente para a comprar--Dirige-se ao seu senhor, que a aceita e concede a sua alforria, para sua grande alegria--Posteriormente, embarca como homem livre num dos navios do Sr. King e veleja para a Geórgia--Imposições sobre negros livres como de costume--O seu empreendimento de perus--Veleja para Montserrat e, durante a viagem, o seu amigo, o Capitão, adoece e morre.

Cada dia trazia-me agora mais perto da minha liberdade, e eu estava impaciente até que voltássemos ao mar, para que pudesse ter a oportunidade de obter uma quantia suficientemente grande para a comprar. Não demorei a ser gratificado; pois, no início do ano de 1766, o meu senhor comprou outro balandro, chamado Nancy, o maior que eu jamais vira. Estava parcialmente carregado e devia seguir para Filadélfia; o nosso Capitão teve a escolha entre três, e eu fiquei muito satisfeito por ele ter escolhido este, que era o maior; pois, por ter uma embarcação grande, eu tinha mais espaço e podia levar uma maior quantidade de mercadorias comigo. Consequentemente, quando entregámos a nossa antiga embarcação, o Prudence, e completámos a carga do Nancy, tendo obtido quase trezentos por cento com quatro barris de carne de porco que trouxe de Charlestown, fiz uma carga tão grande quanto pude, confiando na providência de Deus para prosperar o meu empreendimento. Com estas perspectivas, velejei para Filadélfia. Na nossa viagem, quando nos aproximámos da terra, fiquei pela primeira vez surpreendido ao ver algumas baleias, nunca tendo visto monstros marinhos tão grandes antes; e, enquanto velejavamos junto à terra numa manhã, vi uma baleia bebé perto da embarcação; tinha cerca do comprimento de um bote, e seguiu-nos durante todo o dia até chegarmos aos Cabos. Chegámos a salvo e a bom tempo a Filadélfia, e vendi as minhas mercadorias lá principalmente aos Quakers. Pareciam ser sempre um tipo de pessoas muito honestas e discretas, e nunca tentaram enganar-me; por isso, gostava deles e, desde então, escolhi sempre negociar com eles em vez de qualquer outro. Numa manhã de domingo, enquanto estava lá, ao ir à igreja, calhou passar por uma casa de reuniões. Estando as portas abertas e a casa cheia de pessoas, a minha curiosidade levou-me a entrar. Quando entrei na casa, para minha grande surpresa, vi uma mulher muito alta de pé no meio deles, a falar com voz audível algo que eu não conseguia compreender. Nunca tendo visto nada deste género antes, fiquei parado a olhar à minha volta durante algum tempo, admirado com esta cena estranha. Assim que terminou, aproveitei a oportunidade para me informar sobre o lugar e as pessoas, quando fui informado de que eram chamados Quakers. Perguntei particularmente o que aquela mulher que vi no meio deles tinha dito, mas nenhum deles se dignou a satisfazer-me; por isso, deixei-os, e pouco depois, enquanto regressava, cheguei a uma igreja cheia de pessoas; o adro da igreja também estava cheio, e várias pessoas estavam mesmo montadas em escadas, a espreitar pelas janelas. Achei isto uma visão estranha, pois nunca tinha visto igrejas, quer em Inglaterra quer nas Índias Ocidentais, tão cheias desta maneira antes. Por isso, tomei a liberdade de perguntar a algumas pessoas o significado de tudo aquilo, e disseram-me que o Reverendo Sr. George Whitfield estava a pregar. Eu tinha ouvido falar muitas vezes deste cavalheiro e desejava vê-lo e ouvi-lo; mas nunca antes tinha tido oportunidade. Resolvi, portanto, gratificar-me com a visão e entrei no meio da multidão. Quando cheguei à igreja, vi este homem piedoso exortando as pessoas com o maior fervor e seriedade, e a suar tanto quanto eu alguma vez suei enquanto estive escravizado na praia de Montserrat. Fiquei muito impressionado com isto; achei estranho nunca ter visto clérigos esforçarem-se desta maneira antes, e já não tive dificuldade em explicar as congregações escassas a que pregavam. Quando descarregámos a nossa carga aqui e voltámos a carregar, deixámos esta terra frutífera mais uma vez e zarpámos para Montserrat. O meu comércio tinha tido até então tanto êxito que pensei que, ao vender as minhas mercadorias quando chegássemos a Montserrat, teria o suficiente para comprar a minha liberdade. Mas, assim que a nossa embarcação chegou lá, o meu senhor veio a bordo e deu ordens para irmos para St. Eustatia, descarregarmos a nossa carga lá e, a partir daí, seguirmos para a Geórgia. Fiquei muito desapontado com isto; mas pensando, como de costume, que não valia a pena enfrentar os decretos do destino, submeti-me sem me queixar, e fomos para St. Eustatia. Depois de termos descarregado a nossa carga lá, aceitámos uma carga viva, como chamamos a uma carga de escravos. Aqui vendi as minhas mercadorias razoavelmente bem; mas, não sendo capaz de investir todo o meu dinheiro nesta pequena ilha com tanta vantagem como noutros lugares, investi apenas uma parte, e o resto trouxe comigo intacto. Velejámos daqui para a Geórgia, e fiquei contente quando lá chegámos, embora não tivesse muitas razões para gostar do lugar após a minha última aventura em Savannah; mas ansiava por voltar a Montserrat e obter a minha liberdade, que esperava poder comprar quando regressasse. Assim que chegámos aqui, fui visitar o meu cuidadoso médico, o Sr. Brady, a quem fiz os reconhecimentos mais gratos que pude pela sua bondade e atenção anteriores durante a minha doença. Enquanto estivemos aqui, ocorreu uma circunstância estranha ao Capitão e a mim, que nos desapontou bastante a ambos. Um ourives, que tínhamos trazido para este lugar algumas viagens antes, combinou com o Capitão regressar connosco às Índias Ocidentais e prometeu ao mesmo tempo dar ao Capitão uma grande quantia de dinheiro, tendo fingido ter afeição por ele e sendo, como pensávamos, muito rico. Mas, enquanto esperávamos para carregar a nossa embarcação, este homem adoeceu numa casa onde trabalhava e, no espaço de uma semana, ficou muito mal. Quanto pior ficava, mais costumava falar em dar ao Capitão o que lhe tinha prometido, de modo que ele esperava algo considerável com a morte deste homem, que não tinha esposa nem filhos, e ele assistiu-o dia e noite. Eu também costumava ir com o Capitão, a seu próprio pedido, para assisti-lo; especialmente quando vimos que não havia sinais de recuperação: e, para me recompensar pelo meu trabalho, o Capitão prometeu-me dez libras, quando recebesse os bens do homem. Pensei que isto seria de grande utilidade para mim, embora tivesse dinheiro quase suficiente para comprar a minha liberdade, se chegasse a salvo nesta viagem a Montserrat. Com esta expectativa, gastei mais de oito libras do meu dinheiro num fato de roupa de qualidade superior para dançar na minha liberdade, que esperava estar então próxima. Continuámos a assistir este homem e estivemos com ele até ao último dia em que viveu, até muito tarde da noite, quando voltámos para o navio. Depois de nos termos deitado, por volta da uma ou duas horas da manhã, o Capitão foi chamado e informado de que o homem tinha morrido. Nisto, ele veio à minha cama e, acordando-me, informou-me do sucedido e pediu-me que me levantasse, arranjasse uma luz e fosse imediatamente ter com ele. Disse-lhe que estava com muito sono e desejava que ele levasse outra pessoa consigo; ou então, como o homem estava morto e não precisava de mais cuidados, que deixasse as coisas como estavam até à manhã seguinte. 'Não, não', disse ele, 'teremos o dinheiro esta noite, não posso esperar até amanhã; por isso, vamos.' Consequentemente, levantei-me e acendi uma luz, e lá fomos ambos e vimos o homem tão morto quanto podíamos desejar. O Capitão disse que lhe daria um funeral grandioso, em gratidão pelo tesouro prometido; e desejou que todas as coisas pertencentes ao falecido fossem trazidas. Entre outras, havia um conjunto de baús dos quais ele tinha guardado as chaves enquanto o homem estava doente, e quando foram produzidos, abrimo-los com não pouca avidez e expectativa; e como havia um grande número dentro um do outro, com muita impaciência tirámo-los um do outro. Por fim, quando chegámos ao mais pequeno e o abrimos, vimos que estava cheio de papéis, que supusemos serem notas; à vista dos quais os nossos corações saltaram de alegria; e nesse instante o Capitão, batendo palmas, exclamou: 'Graças a Deus, aqui está'. Mas quando pegámos no baú e começámos a examinar o suposto tesouro e a tão esperada recompensa, (ai! ai! quão incertos e enganosos são todos os assuntos humanos!) o que tínhamos encontrado! Enquanto pensávamos que estávamos a abraçar uma substância, agarrámos num nada vazio. O montante total que havia no conjunto de baús era apenas um dólar e meio; e tudo o que o homem possuía não pagaria o seu caixão. A nossa alegria súbita e requintada foi agora sucedida por uma dor súbita e requintada; e o meu Capitão e eu exibimos, durante algum tempo, as figuras mais ridículas--retratos de desgosto e desilusão! Fomos embora muito mortificados e deixámos o falecido para se arranjar da melhor maneira que pudesse, já que tínhamos tomado tão bom cuidado dele enquanto vivo por nada. Zarpámos mais uma vez para Montserrat e chegámos lá a salvo; mas muito mal-humorados com o nosso amigo ourives. Quando descarregámos a embarcação e vendi o meu empreendimento, encontrando-me senhor de cerca de quarenta e sete libras, consultei o meu verdadeiro amigo, o Capitão, sobre como deveria proceder ao oferecer ao meu senhor o dinheiro para a minha liberdade. Ele disse-me para ir numa certa manhã, quando ele e o meu senhor estivessem a tomar o pequeno-almoço juntos. Consequentemente, nessa manhã, fui e encontrei o Capitão lá, como ele tinha combinado. Quando entrei, fiz a minha vénia ao meu senhor e, com o dinheiro na mão, e muitos receios no coração, roguei-lhe que fosse tão bom como a oferta que me fez, quando se dignou a prometer-me a minha liberdade assim que a pudesse comprar. Este discurso pareceu confundi-lo; começou a recuar: e o meu coração, nesse instante, afundou-se dentro de mim. 'O quê', disse ele, 'dar-te a tua liberdade? Ora, onde arranjaste o dinheiro? Tens quarenta libras esterlinas?' 'Sim, senhor', respondi eu. 'Como o conseguiste?', replicou ele. Contei-lhe, muito honestamente. O Capitão disse então que sabia que eu tinha conseguido o dinheiro muito honestamente e com muita diligência, e que eu era particularmente cuidadoso. Ao que o meu senhor replicou que eu conseguia dinheiro muito mais depressa do que ele; e disse que não me teria feito a promessa que fez se tivesse pensado que eu teria conseguido dinheiro tão depressa. 'Vamos, vamos', disse o meu digno Capitão, dando palmadinhas nas costas do meu senhor, 'Vamos, Robert, (que era o seu nome) penso que deves dar-lhe a liberdade; aplicaste o teu dinheiro muito bem; recebeste bons juros por ele durante todo este tempo, e aqui está agora o capital, finalmente. Sei que Gustavus te rendeu mais de cem por ano, e ele continuará a poupar-te dinheiro, pois não te deixará:--Vamos, Robert, aceita o dinheiro.' O meu senhor disse então que não faltaria à sua promessa; e, pegando no dinheiro, disse-me para ir ao Secretário no Registo Civil e tratar da minha alforria. Estas palavras do meu senhor foram como uma voz do céu para mim: num instante, toda a minha trepidação transformou-se numa felicidade indizível; e inclinei-me com a maior reverência e gratidão, incapaz de expressar os meus sentimentos, a não ser pelo transbordo dos meus olhos, enquanto o meu verdadeiro e digno amigo, o Capitão, nos felicitava a ambos com um grau particular de prazer sentido. Assim que os primeiros transportes da minha alegria passaram, e que expressei os meus agradecimentos a estes meus dignos amigos da melhor maneira que pude, levantei-me com o coração cheio de afeição e reverência, e deixei a sala, a fim de obedecer ao alegre mandato do meu senhor de ir ao Registo Civil. Ao deixar a casa, recordei as palavras do Salmista, no Salmo 126, e como ele, 'Glorifiquei a Deus no meu coração, em quem confiava.' Estas palavras tinham estado gravadas na minha mente desde o dia em que fui forçado a sair de Deptford até à hora presente, e agora via-as, como pensei, cumpridas e verificadas. A minha imaginação estava em êxtase enquanto voava para o Registo Civil e, a este respeito, tal como o apóstolo Pedro,[U] (cuja libertação da prisão foi tão súbita e extraordinária, que pensou estar numa visão) mal podia acreditar que estava acordado. Céus! quem poderia fazer justiça aos meus sentimentos neste momento! Nem os heróis conquistadores, no meio de um triunfo--Nem a terna mãe que acabou de recuperar o seu filho perdido há muito tempo, e o aperta contra o coração--Nem o marinheiro cansado e faminto, à vista do desejado porto amigo--Nem o amante, quando abraça mais uma vez a sua amada senhora, depois de ela ter sido arrebatada dos seus braços!--Tudo dentro do meu peito era tumulto, desvario e delírio! Os meus pés mal tocavam o chão, pois estavam alados de alegria e, como Elias, quando subiu ao Céu, 'iam com a rapidez do relâmpago enquanto eu seguia o meu caminho.' A todos os que encontrava falava da minha felicidade e gabava a virtude do meu amável senhor e capitão.

Quando cheguei ao cartório e informei o Conservador do meu objetivo, ele felicitou-me pela ocasião e disse-me que faria a minha alforria por metade do preço, que era uma guinéu. Agradeci-lhe a sua bondade; e, tendo-a recebido e pago, apressei-me a ir ter com o meu senhor para que a assinasse, para que pudesse ser totalmente libertado. Consequentemente, ele assinou a alforria nesse dia, de modo que, antes da noite, eu, que tinha sido escravo de manhã, a tremer à vontade de outrem, tornei-me o meu próprio senhor e completamente livre. Pensei que este tinha sido o dia mais feliz que alguma vez tinha experimentado; e a minha alegria foi ainda aumentada pelas bênçãos e orações da raça de cor, particularmente os idosos, a quem o meu coração sempre esteve ligado com reverência.

* * * * *

Como a forma da minha alforria tem algo de peculiar e expressa o poder e domínio absolutos que um homem reivindica sobre o seu semelhante, pedirei licença para a apresentar aos meus leitores na íntegra:

Montserrat.--A todos os homens a quem estas presentes chegarem: Eu, Robert King, da paróquia de St. Anthony na referida ilha, comerciante, envio saudações: Sabei que eu, o supramencionado Robert King, pela e em consideração da quantia de setenta libras em moeda corrente da referida ilha, a mim entregue, e com o intuito de que um escravo negro, chamado Gustavus Vassa, possa tornar-se livre, alforriei, emancipei, libertei, e por estas presentes alforrio, emancipo, liberto e torno livre o supramencionado escravo negro, chamado Gustavus Vassa, para sempre, dando, concedendo e libertando por este meio a ele, o referido Gustavus Vassa, todo o direito, título, domínio, soberania e propriedade, que, como senhor e mestre sobre o supramencionado Gustavus Vassa, eu tinha, ou agora tenho, ou por qualquer meio que seja possa ou possa daqui em diante possivelmente ter sobre ele, o supramencionado negro, para sempre. Em testemunho do que, eu, o supramencionado Robert King, apus a estas presentes a minha mão e selo, neste décimo dia de julho, no ano de nosso Senhor de mil setecentos e sessenta e seis.

Robert King.

Assinado, selado e entregue na presença de Terrylegay, Montserrat.

Registada a alforria aqui contida na íntegra, neste décimo primeiro dia de julho de 1766, no livro D.

Terrylegay, Conservador.

* * * * *

Em suma, tanto os brancos quanto os negros trataram-me imediatamente por uma nova alcunha, para mim a mais desejável do mundo, que era Freeman, e nas danças que ofereci, as minhas roupas de lã azul superfina da Geórgia não fizeram má figura, como eu pensava. Algumas das fêmeas de pele escura, que anteriormente se mantinham distantes, começaram agora a descontrair e a parecer menos recatadas; mas o meu coração ainda estava fixo em Londres, onde esperava estar dentro em breve. De modo que o meu digno capitão e o seu proprietário, o meu falecido senhor, descobrindo que a inclinação da minha mente era para Londres, disseram-me: "Esperamos que não nos deixes, mas que ainda estejas com as embarcações". Aqui a gratidão curvou-me; e ninguém senão uma mente generosa pode julgar os meus sentimentos, debatendo-me entre a inclinação e o dever. Contudo, apesar do meu desejo de estar em Londres, respondi obedientemente aos meus benfeitores que iria no navio e não os deixaria; e, a partir desse dia, fui inscrito a bordo como marinheiro capaz, a trinta e seis xelins por mês, além das gratificações que pudesse conseguir.

A minha intenção era fazer uma ou duas viagens, inteiramente para agradar a estes meus honrados patronos; mas determinei que no ano seguinte, se aprouvesse a Deus, veria a Velha Inglaterra mais uma vez e surpreenderia o meu antigo senhor, o Capitão Pascal, que estava a cada hora na minha mente; pois eu ainda o amava, apesar do tratamento que me dera, e comprazia-me a pensar no que ele diria quando visse o que o Senhor fizera por mim em tão pouco tempo, em vez de estar, como ele talvez supusesse, sob o jugo cruel de algum plantador. Com este tipo de devaneios costumava entreter-me, e encurtar o tempo até ao meu regresso; e agora, estando como no meu estado africano livre original, embarquei no Nancy, depois de ter deixado tudo pronto para a nossa viagem. Neste estado de serenidade, navegámos para St. Eustatia; e, tendo mares tranquilos e tempo calmo, chegámos lá rapidamente: depois de carregar a nossa carga, seguimos para Savannah, na Geórgia, em agosto de 1766. Enquanto lá estivemos, como de costume, costumava ir buscar a carga pelos rios em barcos; e, neste serviço, fui frequentemente cercado por aligátores, que eram muito numerosos naquela costa, e disparei contra muitos deles quando estavam quase a entrar nos nossos barcos; o que, com grande dificuldade, por vezes evitámos, e ficámos muito assustados com eles. Vi um pequeno ser vendido vivo na Geórgia por seis pence. Durante a nossa estadia neste lugar, uma noite, um escravo pertencente ao Sr. Read, um comerciante de Savannah, aproximou-se do nosso navio e começou a tratar-me muito mal. Implorei-lhe, com toda a paciência que pude reunir, que desistisse, pois sabia que havia pouca ou nenhuma lei para um negro livre ali; mas o sujeito, em vez de aceitar o meu conselho, perseverou nos seus insultos e até me bateu. Com isto perdi toda a calma, caí sobre ele e bati-lhe com força. Na manhã seguinte, o seu senhor veio ao nosso navio enquanto estávamos atracados junto ao cais e pediu-me que viesse a terra para que ele pudesse mandar açoitar-me por toda a cidade, por ter batido no seu escravo negro. Disse-lhe que ele me tinha insultado e provocado, batendo-me primeiro. Tinha também contado ao meu capitão todo o caso nessa manhã e desejava que ele tivesse ido comigo ao Sr. Read, para evitar consequências graves; mas ele disse que isso não importava, e que se o Sr. Read dissesse alguma coisa, ele resolveria o assunto, e pediu-me que fosse trabalhar, o que fiz prontamente. O Capitão estando a bordo quando o Sr. Read chegou, disse-lhe que eu era um homem livre; e quando o Sr. Read lhe pediu para me entregar, ele disse que não sabia de nada. Fiquei espantado e assustado com isto, e pensei que seria melhor ficar onde estava do que ir a terra e ser açoitado pela cidade, sem juiz nem júri. Recusei, portanto, mover-me; e o Sr. Read foi-se embora, jurando que traria todos os agentes da autoridade da cidade, pois tirar-me-ia do navio. Quando ele se foi, pensei que a sua ameaça poderia revelar-se demasiado verdadeira para minha tristeza; e confirmei-me nesta crença, tanto pelos muitos exemplos que tinha visto do tratamento dado aos negros livres, como por um facto que tinha acontecido dentro do meu próprio conhecimento aqui pouco tempo antes. Havia um homem negro livre, um carpinteiro, que eu conhecia, que, por pedir a um cavalheiro para quem trabalhava o dinheiro que tinha ganho, foi colocado na prisão; e depois, este homem oprimido foi enviado da Geórgia, com falsas acusações, de uma intenção de incendiar a casa do cavalheiro e fugir com os seus escravos. Fiquei, portanto, muito embaraçado e muito receoso de, pelo menos, uma chicotada. Temia, acima de tudo, a ideia de ser chicoteado, pois nunca na minha vida tinha tido as marcas de qualquer violência desse tipo. Nesse instante, uma raiva apoderou-se da minha alma e, por um momento, decidi resistir ao primeiro homem que se oferecesse para me agarrar com violência ou tratar-me de forma vil sem um julgamento; pois preferia morrer como um homem livre a deixar-me açoitar pelas mãos de rufiões, e ver o meu sangue derramado como o de um escravo. O capitão e outros, mais cautelosos, aconselharam-me a apressar-me e a esconder-me; pois disseram que o Sr. Read era um homem muito rancoroso e que viria em breve a bordo com os agentes da autoridade e levar-me-ia. De início, recusei este conselho, determinado a manter a minha posição; mas, finalmente, pelas súplicas insistentes do capitão e do Sr. Dixon, com quem ele se hospedava, fui para a casa do Sr. Dixon, que ficava um pouco fora da cidade, num lugar chamado Yea-ma-chra. Mal tinha ido, o Sr. Read, com os agentes da autoridade, veio à minha procura e revistou o navio; mas, não me encontrando lá, jurou que me teria morto ou vivo. Fiquei escondido durante cerca de cinco dias; contudo, o bom carácter que o meu capitão sempre me atribuiu, bem como alguns outros cavalheiros que também me conheciam, arranjaram-me alguns amigos. Finalmente, alguns deles disseram ao meu capitão que ele não me tratava bem ao permitir que eu fosse assim imposto, e disseram que veriam que eu fosse reparado e conseguir-me-iam a bordo de outro navio. O meu capitão, com isto, foi imediatamente ter com o Sr. Read e disse-lhe que, desde que eu me tinha ausentado do navio, o seu trabalho tinha sido negligenciado e ele não conseguia avançar com o carregamento, não estando ele próprio nem o imediato bem de saúde; e, como eu tinha tratado das coisas a bordo por eles, a minha ausência devia atrasar a sua viagem e, consequentemente, prejudicar o proprietário; ele implorou-lhe, portanto, que me perdoasse, pois disse que nunca tinha tido nenhuma queixa de mim antes, pelos muitos anos que eu tinha estado com ele. Depois de repetidas súplicas, o Sr. Read disse que eu podia ir para o inferno e que não se meteria comigo; ao que o meu capitão veio imediatamente ter comigo ao seu alojamento e, contando-me quão agradavelmente as coisas tinham corrido, pediu-me que fosse a bordo. Alguns dos meus outros amigos perguntaram-lhe então se tinha obtido o mandado do agente da autoridade; o capitão disse que não. Com isto, pediram-me que ficasse na casa; e disseram que me colocariam a bordo de outro navio antes da noite. Quando o capitão ouviu isto, ficou quase transtornado. Foi imediatamente buscar o mandado e, após usar todos os esforços ao seu alcance, conseguiu-o finalmente dos meus caçadores; mas tive de pagar todas as despesas. Depois de ter agradecido a todos os meus amigos pela sua atenção, fui novamente a bordo para o meu trabalho, do qual tinha sempre em abundância. Tínhamos pressa em completar o nosso carregamento e devíamos levar vinte cabeças de gado connosco para as Índias Ocidentais, onde são um artigo muito rentável. Para me encorajar a trabalhar, e para compensar o tempo que perdi, o meu capitão prometeu-me o privilégio de levar dois novilhos meus comigo; e isto fez-me trabalhar com um ardor redobrado. Assim que carreguei o navio, no que fui obrigado a desempenhar o dever do imediato, bem como o meu próprio trabalho, e que os novilhos estavam quase a vir a bordo, pedi ao capitão permissão para trazer os meus dois, de acordo com a sua promessa; mas, para minha grande surpresa, disse-me que não havia lugar para eles. Pedi-lhe então que me permitisse levar um; mas ele disse que não podia. Fiquei bastante mortificado com este tratamento e disse-lhe que não imaginava que ele pretendesse impor-me desta forma; nem podia pensar bem de qualquer homem que fosse tão pior do que a sua palavra. Com isto, tivemos algum desentendimento e dei-lhe a entender que pretendia deixar o navio. Com isto, ele pareceu ficar muito abatido; e o nosso imediato, que tinha estado muito doente e cujo dever recaía há muito sobre mim, aconselhou-o a persuadir-me a ficar: em consequência do que ele falou muito gentilmente comigo, fazendo muitas promessas, dizendo-me que, como o imediato estava tão doente, não podia passar sem mim e que, como a segurança do navio e da carga dependia grandemente de mim, ele esperava, portanto, que eu não me ofendesse com o que tinha passado entre nós, e jurou que resolveria todos os assuntos quando chegássemos às Índias Ocidentais; pelo que consenti em continuar a trabalhar como antes. Pouco depois, quando os novilhos estavam a vir a bordo, um deles correu para o capitão e deu-lhe uma cabeçada tão furiosa no peito que ele nunca recuperou do golpe. Para me compensar do seu tratamento em relação aos novilhos, o capitão insistiu agora muito comigo para levar alguns perus e outras aves comigo, e deu-me liberdade para levar quantos encontrasse lugar; mas disse-lhe que ele sabia muito bem que eu nunca tinha levado perus antes, pois sempre pensei que eram aves tão tenras que não eram próprias para atravessar os mares. Contudo, ele continuou a insistir para que eu os comprasse por uma vez; e, o que foi muito surpreendente para mim, quanto mais eu era contra, mais ele insistia para que eu os levasse, de tal modo que ele me garantiu contra todas as perdas que pudessem acontecer com eles, e fui convencido a levá-los; mas achei isto muito estranho, pois ele nunca tinha agido assim comigo antes. Isto, e não ser capaz de dispor do meu dinheiro de papel de qualquer outra forma, levou-me finalmente a levar quatro dúzias. Dos perus, porém, fiquei tão insatisfeito que determinei não fazer mais viagens para este lado, nem com este capitão; e estava muito receoso de que a minha viagem livre fosse a pior que tinha feito. Levantámos âncora para Montserrat. O capitão e o imediato tinham-se queixado ambos de doença quando zarpámos, e à medida que avançávamos na nossa viagem, pioraram. Isto foi por volta de novembro, e não tínhamos estado muito tempo no mar antes de começarmos a encontrar fortes ventos de norte e mares revoltos; e em cerca de sete ou oito dias quase todo o gado estava quase afogado, e quatro ou cinco deles morreram. O nosso navio, que não tinha sido estanque no início, era muito menos agora; e, embora fôssemos apenas nove no total, incluindo cinco marinheiros e eu, éramos obrigados a tratar das bombas a cada meia hora ou três quartos de hora. O capitão e o imediato vinham ao convés sempre que podiam, o que agora era raro; pois declinaram tão rapidamente que não estavam bem o suficiente para fazer observações mais de quatro ou cinco vezes durante toda a viagem. Todo o cuidado do navio recaiu, portanto, sobre mim, e fui obrigado a dirigi-lo pela minha experiência anterior, não sendo capaz de fazer uma travessia. O capitão estava agora muito arrependido de não me ter ensinado navegação, e protestou que, se alguma vez ficasse bem novamente, não deixaria de o fazer; mas em cerca de dezassete dias a sua doença aumentou tanto que foi obrigado a manter-se na cama, continuando sensato, contudo, até ao fim, tendo constantemente o interesse do proprietário no coração; pois este homem justo e benevolente pareceu sempre muito preocupado com o bem-estar daquilo que lhe estava confiado. Quando este querido amigo sentiu aproximarem-se os sintomas da morte, chamou-me pelo meu nome; e, quando fui até ele, perguntou (quase com o seu último fôlego) se alguma vez me tinha feito algum mal? "Deus me livre que eu pense assim", respondi, "eu seria então o mais ingrato dos miseráveis para com o melhor". Com tristeza à cabeceira, ele expirou sem dizer mais uma palavra; e, no dia seguinte, entregámos o seu corpo ao profundo. Todos a bordo amavam este homem e lamentaram a sua morte; mas eu fiquei excessivamente afetado com isso, e descobri que não sabia, até que ele se fosse, a força do meu apreço por ele. De facto, tinha todas as razões do mundo para estar ligado a ele; pois, além de ser geralmente brando, afável, generoso, fiel, benevolente e justo, ele foi para mim um amigo e um pai; e, se tivesse aprouvado à Providência que ele tivesse morrido apenas cinco meses antes, acredito verdadeiramente que não teria obtido a minha liberdade quando obtive; e não é improvável que eu pudesse não ter conseguido obtê-la de forma alguma depois. Morto o capitão, o imediato veio ao convés e fez as observações que pôde, mas sem sucesso. No decorrer de mais alguns dias, os poucos novilhos que restavam foram encontrados mortos; mas os perus que eu tinha, embora no convés e expostos a tanta chuva e mau tempo, ficaram bem, e ganhei depois quase trezentos por cento na venda deles; de modo que, no final, provou ser uma circunstância feliz para mim o facto de não ter comprado os novilhos que pretendia, pois teriam perecido com os outros; e não pude deixar de considerar esta circunstância, de resto trivial, como uma providência particular de Deus, e fiquei grato em conformidade. O cuidado do navio ocupava todo o meu tempo e envolvia completamente a minha atenção. Como já estávamos fora dos ventos variáveis, pensei que não seria muito difícil encontrar as ilhas. Estava convencido de que navegava diretamente para Antígua, onde desejava chegar, como a mais próxima de nós; e, no decorrer de nove ou dez dias, avistámos esta ilha, para nossa grande alegria; e no dia seguinte chegámos a salvo a Montserrat. Muitos ficaram surpreendidos quando ouviram falar de eu ter conduzido o saveiro para o porto, e obtive agora uma nova alcunha, e fui chamado de Capitão. Isto animou-me não pouco, e foi bastante lisonjeiro para a minha vaidade ser assim chamado por um título tão alto quanto qualquer homem livre neste lugar possuía. Quando a morte do capitão se tornou conhecida, ele foi muito lamentado por todos os que o conheciam; pois era um homem universalmente respeitado. Ao mesmo tempo, o capitão de pele escura não perdeu fama; pois o sucesso que encontrei aumentou o afeto dos meus amigos em não pequena medida.

NOTAS DE RODAPÉ:

[Nota de rodapé U: Atos, cap. xii. ver. 9.]

CAP. VIII.

O autor, para obrigar o Sr. King, embarca mais uma vez para a Geórgia num dos seus navios--É nomeado um novo capitão--Navegam e seguem um novo rumo--Três sonhos notáveis--O navio naufraga no banco das Baamas, mas a tripulação é preservada, principalmente por meios do autor--Ele parte da ilha com o capitão, num pequeno barco, em busca de um navio--As suas aflições--Encontram um destruidor--Navegam para Providence--São novamente ultrapassados por uma terrível tempestade, e todos estão quase a perecer--Chegam a Nova Providence--O autor, após algum tempo, navega de lá para a Geórgia--Encontra outra tempestade e é obrigado a voltar e a reparar--Chega à Geórgia--Encontra novas imposições--Dois homens brancos tentam raptá-lo--Oficia como padre numa cerimónia fúnebre--Diz adeus à Geórgia e navega para Martinica.

Como eu tinha agora, pela morte do meu capitão, perdido o meu grande benfeitor e amigo, tinha pouco incentivo para permanecer mais tempo nas Índias Ocidentais, exceto a minha gratidão ao Sr. King, que pensei ter cumprido bastante bem ao trazer de volta o seu navio em segurança e entregar a sua carga à sua satisfação. Comecei a pensar em deixar esta parte do mundo, da qual estava há muito cansado, e regressar a Inglaterra, onde o meu coração sempre estivera; mas o Sr. King ainda insistia muito para que eu ficasse com o seu navio; e ele tinha feito tanto por mim que me vi incapaz de recusar os seus pedidos, e consenti em fazer outra viagem à Geórgia, já que o imediato, devido ao seu mau estado de saúde, era completamente inútil no navio. Consequentemente, foi nomeado um novo capitão, cujo nome era William Phillips, um velho conhecido meu; e, tendo reparado o nosso navio e levado vários escravos a bordo, levantámos âncora para St. Eustatia, onde ficámos apenas alguns dias; e a 30 de janeiro de 1767 navegámos para a Geórgia. O nosso novo capitão vangloriou-se estranhamente da sua habilidade em navegar e conduzir um navio; e, em consequência disto, seguiu um novo rumo, vários pontos mais a oeste do que alguma vez tínhamos feito antes; isto pareceu-me muito extraordinário.

No dia quatro de fevereiro, pouco depois de termos entrado no nosso novo rumo, sonhei que o navio naufragava entre as arrebentações e rochedos, e que eu era o meio de salvar todos os que estavam a bordo; e, na noite seguinte, sonhei exatamente com o mesmo sonho. Estes sonhos, contudo, não causaram qualquer impressão na minha mente; e, na noite seguinte, sendo o meu turno de descanso, estava a bombear a embarcação pouco depois das oito horas, logo antes de sair do convés, como é costume; e, estando exausto com o dever do dia e cansado da bomba (pois fazíamos muita água), comecei a expressar a minha impaciência e proferi, com um juramento: "Que o fundo deste navio se parta." Mas a minha consciência condenou-me instantaneamente pela expressão. Quando deixei o convés, fui para a cama e mal tinha adormecido quando sonhei de novo com o mesmo sonho sobre o navio que tinha tido nas duas noites anteriores. Às doze horas, o turno foi mudado; e, como eu tinha sempre a responsabilidade do turno do capitão, fui então para o convés. À uma e meia da manhã, o homem ao leme viu algo debaixo da amura de sotavento contra o qual o mar batia, e chamou-me imediatamente dizendo que era um grampo, e pediu-me que o observasse. Consequentemente, levantei-me e observei-o durante algum tempo; mas, quando vi o mar bater contra ele uma e outra vez, disse que não era um peixe, mas uma rocha. Estando logo certo disso, desci ter com o capitão e, com alguma confusão, contei-lhe o perigo em que nos encontrávamos e pedi-lhe que subisse ao convés imediatamente. Ele disse que estava muito bem, e eu subi de novo. Assim que cheguei ao convés, o vento, que estivera bastante forte, tendo abrandado um pouco, a embarcação começou a ser levada lateralmente em direção à rocha, por causa da corrente. Ainda assim, o capitão não apareceu. Voltei, portanto, a ele e disse-lhe que a embarcação estava então perto de um grande rochedo, e pedi que subisse com rapidez. Ele disse que subiria, e eu regressei ao convés. Quando estava de novo no convés, vi que não estávamos a mais de um tiro de pistola do rochedo, e ouvi o ruído das arrebentações por toda a nossa volta. Fiquei extremamente alarmado com isto; e, como o capitão ainda não tinha subido ao convés, perdi toda a paciência; e, ficando bastante enfurecido, desci novamente para junto dele e perguntei-lhe por que não subia e o que queria dizer com tudo aquilo? "As arrebentações", disse eu, "estão à nossa volta, e a embarcação está quase no rochedo." Com isso, ele subiu ao convés comigo, e tentámos manobrar a embarcação e tirá-la da corrente, mas tudo em vão, sendo o vento muito fraco. Chamámos então toda a tripulação imediatamente; e, passado pouco tempo, içámos uma extremidade de um cabo e prendemo-la à âncora. A esta altura, a espuma do mar fervilhava à nossa volta e fazia um ruído terrível nas arrebentações, e, no preciso momento em que largámos a âncora, a embarcação chocou contra as rochas. Um ondular sucedia agora outro, como se fosse uma onda a chamar a sua companheira: o rugido das vagas aumentou e, com um único solavanco das ondas, o iate foi perfurado e encravado entre as rochas! Num momento, uma cena de horror apresentou-se à minha mente, tal como nunca tinha concebido ou experimentado antes. Todos os meus pecados fitaram-me o rosto; e, especialmente, pensei que Deus tinha lançado a sua terrível vingança sobre a minha cabeça culpada por amaldiçoar a embarcação da qual a minha vida dependia. O meu espírito abandonou-me então, e esperei a cada momento ir para o fundo: decidi que, se ainda fosse salvo, nunca mais voltaria a jurar. E no meio do meu sofrimento, enquanto as terríveis arrebentações batiam com fúria incessante entre as rochas, lembrei-me do Senhor, embora temendo não ser merecedor de perdão, e pensei que, como ele tinha muitas vezes libertado, talvez ainda pudesse libertar; e, recordando as muitas misericórdias que me tinha mostrado em tempos passados, elas deram-me alguma pequena esperança de que ele ainda me pudesse ajudar. Comecei então a pensar em como nos poderíamos salvar; e creio que nenhuma mente foi jamais como a minha, tão repleta de invenções e confusa com planos, embora não soubesse como escapar à morte. O capitão ordenou imediatamente que as escotilhas fossem pregadas sobre os escravos no porão, onde havia mais de vinte, todos os quais teriam inevitavelmente perecido se ele tivesse sido obedecido. Quando ele pediu ao homem para pregar as escotilhas, pensei que o meu pecado era a causa disto, e que Deus me culparia pelo sangue daquelas pessoas. Este pensamento precipitou-se na minha mente naquele instante com tal violência que me dominou por completo e desmaiei. Recuperei os sentidos precisamente quando as pessoas estavam prestes a pregar as escotilhas; ao perceber isto, pedi-lhes que parassem. O capitão disse então que tinha de ser feito: perguntei-lhe porquê? Ele disse que todos tentariam entrar no bote, que era pequeno, e que assim nos afogaríamos; pois não teria levado mais de dez pessoas no máximo. Não pude conter a minha emoção por mais tempo e disse-lhe que ele merecia afogar-se por não saber navegar a embarcação; e creio que as pessoas tê-lo-iam atirado borda fora se eu lhes tivesse dado a mínima sugestão disso. Contudo, as escotilhas não foram pregadas; e, como nenhum de nós podia deixar a embarcação naquele momento devido à escuridão, e como não sabíamos para onde ir, e estávamos convencidos, além disso, de que o bote não sobreviveria às arrebentações, dissemos todos que permaneceríamos na parte seca da embarcação e confiaríamos em Deus até que a luz do dia aparecesse, altura em que saberíamos melhor o que fazer.

Aconselhei então que o bote fosse preparado para a manhã, e alguns de nós começaram a dedicar-se a isso; mas outros abandonaram todo o cuidado com o navio e consigo próprios e entregaram-se à bebida. O nosso bote tinha um pedaço partido no fundo com cerca de meio metro de comprimento, e não tínhamos materiais para o consertar; contudo, sendo a necessidade a mãe da invenção, peguei em algum couro de bomba e preguei-o à parte partida, e cobri-o com sebo. E, assim preparados, com a maior ansiedade de espírito, vigiámos a luz do dia e cada minuto parecia uma hora até que ela aparecesse. Finalmente, saudou os nossos olhos ansiosos, e a bondosa Providência acompanhou a sua aproximação com o que não foi pequeno conforto para nós; pois o terrível ondular começou a diminuir; e a próxima coisa que descobrimos para levantar os nossos espíritos abatidos foi uma pequena ilhota ou rochedo, a cerca de cinco ou seis milhas de distância; mas uma barreira apresentou-se logo; pois não havia água suficiente para o nosso bote passar por cima dos recifes, e isto lançou-nos novamente numa triste consternação; mas não havia alternativa, fomos portanto obrigados a colocar apenas poucos no bote de cada vez; e, o que é pior, todos nós estivemos frequentemente na necessidade de sair para arrastar e elevar o bote sobre os recifes. Isto custou-nos muito trabalho e fadiga; e, o que era ainda mais angustiante, não pudemos evitar que as nossas pernas ficassem muito cortadas e rasgadas pelas rochas. Havia apenas quatro pessoas que trabalhavam comigo nos remos; e consistiam em três homens negros e um marinheiro crioulo holandês; e, embora tenhamos ido com o bote cinco vezes naquele dia, não tivemos outros para nos ajudar. Mas, se não tivéssemos trabalhado desta maneira, creio realmente que as pessoas não poderiam ter sido salvas; pois nenhum dos homens brancos fez nada para preservar as suas vidas; e, de facto, ficaram logo tão ébrios que não eram capazes, mas jaziam pelo convés como porcos, de modo que fomos por fim obrigados a levantá-los para o bote e levá-los para terra à força. Esta falta de assistência tornou o nosso trabalho intoleravelmente severo; de tal modo que, ao irmos a terra tantas vezes naquele dia, a pele foi inteiramente arrancada das minhas mãos.

Contudo, continuámos durante todo o dia a labutar e a esforçar as nossas capacidades, até termos trazido todos os que estavam a bordo em segurança para a terra; de modo que, de trinta e duas pessoas, não perdemos uma sequer. O meu sonho voltou agora à minha mente com toda a força; cumpriu-se em cada parte; pois o nosso perigo era o mesmo com que tinha sonhado: e não pude evitar considerar-me como o principal instrumento na realização do nosso livramento; pois, devido ao facto de alguns dos nossos homens ficarem ébrios, o resto de nós foi obrigado a duplicar os nossos esforços; e foi afortunado que o tivéssemos feito, pois, em pouco tempo mais, o remendo de couro no bote ter-se-ia gasto e ele já não teria estado apto para o serviço. Situados como estávamos, quem poderia pensar que os homens fossem tão descuidados quanto ao perigo em que se encontravam? Pois, se o vento tivesse apenas aumentado a ondulação como estava quando a embarcação chocou, teríamos tido de dizer um adeus final a todas as esperanças de livramento; e embora eu avisasse as pessoas que estavam a beber e lhes suplicasse que aproveitassem o momento de livramento, elas persistiram, como se não possuíssem a mínima centelha de razão. Não pude deixar de pensar que, se algum destes homens se tivesse perdido, Deus me culparia pelas suas vidas, o que, talvez, foi uma das causas de eu labutar tanto pela sua preservação, e de facto cada um deles parecia depois tão sensível ao serviço que lhes tinha prestado; e enquanto estivemos no rochedo eu era uma espécie de chefe entre eles. Trouxe alguns limões, laranjas e limas para terra; e, descobrindo que era um bom solo onde estávamos, plantei vários deles como um sinal para qualquer um que pudesse vir a naufragar no futuro. Este rochedo, como descobrimos depois, era uma das ilhas das Bahamas, que consistem num grupo de grandes ilhas, com outras mais pequenas ou rochedos, como são chamados, intercalados entre elas. Tinha cerca de uma milha de circunferência, com uma praia de areia branca que a percorria de forma regular. Naquela parte onde tentámos aterrar pela primeira vez, havia algumas aves muito grandes, chamadas flamingos: estes, pelo reflexo do sol, pareciam-nos à distância tão grandes como homens; e, quando caminhavam para trás e para a frente, não podíamos conceber o que seriam: o nosso capitão jurava que eram canibais. Isto criou um grande pânico entre nós; e realizámos uma consulta sobre como agir. O capitão queria ir para um rochedo que estava à vista, mas muito longe; eu, porém, fui contra, pois ao fazê-lo não seríamos capazes de salvar todas as pessoas; "E, portanto", disse eu, "vamos a terra aqui, e talvez estes canibais se metam na água." Consequentemente, dirigimo-nos para eles; e quando nos aproximámos, para nossa grande alegria e não menos admiração, eles afastaram-se um a um deliberadamente; e finalmente voaram e livraram-nos inteiramente dos nossos receios. À volta do rochedo havia tartarugas e vários tipos de peixe em tal abundância que os apanhávamos sem isco, o que foi um grande alívio para nós depois das provisões salgadas a bordo. Havia também uma grande rocha na praia, com cerca de três metros de altura, que tinha a forma de uma tigela de ponche no topo; não podíamos deixar de pensar que a Providência a tinha destinado a fornecer-nos água da chuva; e era algo singular que, se não recolhêssemos a água quando chovia, passado algum tempo ela tornava-se tão salgada como a água do mar.

O nosso primeiro cuidado, após o refresco, foi construir tendas para nos alojarmos, o que fizemos tão bem quanto pudemos com algumas velas que tínhamos trazido do navio. Começámos então a pensar em como poderíamos sair daquele lugar, que estava completamente desabitado; e determinámos reparar o nosso bote, que estava muito despedaçado, e fazer-nos ao mar em busca de um navio ou de alguma ilha habitada. Levámos, contudo, onze dias até conseguirmos deixar o bote pronto para o mar da maneira que queríamos, com uma vela e outros artigos necessários. Quando tínhamos todas as coisas preparadas, o capitão queria que eu ficasse em terra enquanto ele ia para o mar em busca de um navio para tirar todas as pessoas do rochedo; mas eu recusei; e o capitão e eu, com mais cinco, partimos no bote em direção a New Providence. Não levámos mais de duas cargas de mosquete de pólvora connosco, caso acontecesse alguma coisa; e o nosso stock de provisões consistia em três galões de rum, quatro de água, alguma carne salgada, algum biscoito; e desta maneira prosseguimos para o mar.

No segundo dia da nossa viagem, chegámos a uma ilha chamada Obbico, a maior das ilhas das Bahamas. Precisávamos muito de água; pois, a esta altura, a nossa água tinha acabado, e estávamos extremamente fatigados por remar durante dois dias ao calor do sol; e sendo tarde da noite, puxámos o bote para terra para tentar encontrar água e permanecer durante a noite: quando chegámos a terra, procurámos água, mas não encontrámos nenhuma. Quando escureceu, fizemos uma fogueira à nossa volta por medo das bestas selvagens, pois o lugar era um bosque denso, e revezámo-nos para vigiar. Nesta situação, encontrámos muito pouco descanso e esperámos com impaciência pela manhã. Assim que a luz apareceu, partimos novamente com o nosso bote, na esperança de encontrar assistência durante o dia. Estávamos agora muito abatidos e enfraquecidos por remar o bote; pois a nossa vela não tinha serventia, e estávamos quase a morrer de fome por falta de água doce para beber. Não tínhamos nada para comer senão carne salgada, e não a podíamos usar sem água. Nesta situação, trabalhámos todo o dia à vista da ilha, que era muito extensa; à noite, não vendo socorro, dirigimo-nos novamente para terra e prendemos o nosso bote. Fomos então procurar água doce, estando bastante debilitados por falta dela; e cavámos e procurámos por todo o resto da noite, mas não encontrámos uma única gota, de modo que o nosso abatimento neste período tornou-se excessivo, e o nosso terror tão grande que não esperávamos nada senão a morte para nos libertar. Não podíamos tocar na nossa carne, que era tão salgada como salmoura, sem água doce; e estávamos com o maior terror devido ao receio de bestas selvagens. Quando a indesejada noite chegou, agimos como na noite anterior; e na manhã seguinte partimos novamente da ilha na esperança de ver alguma embarcação. Desta maneira, labutámos tão bem quanto pudemos até às quatro horas, durante o que passámos vários rochedos, mas não pudemos encontrar nenhum navio; e, ainda famintos de sede, fomos novamente a terra num desses rochedos na esperança de encontrar alguma água. Aqui encontrámos algumas folhas com umas poucas gotas de água nelas, que lambemos com muita ânsia; cavámos então em vários lugares, mas sem sucesso. Enquanto cavávamos buracos em busca de água, saiu alguma substância muito espessa e negra; mas nenhum de nós a pôde tocar, exceto o pobre crioulo holandês, que bebeu mais de um litro dela tão ansiosamente como se fosse vinho. Tentámos pescar, mas não conseguimos; e começámos agora a lamentar o nosso destino e a abandonar-nos ao desespero; quando, no meio das nossas murmurações, o capitão gritou de repente: "Uma vela! uma vela! uma vela!" Este som alegre foi como um indulto para um condenado, e todos nós virámo-nos instantaneamente para olhar; mas passado pouco tempo alguns de nós começaram a recear que não fosse uma vela. Contudo, por descargo de consciência, embarcámos e dirigimo-nos atrás dela; e, em meia hora, para nossa alegria indescritível, vimos claramente que era uma embarcação. Com isto, os nossos espíritos abatidos reviveram e dirigimo-nos para ela com toda a velocidade imaginável. Quando nos aproximámos, descobrimos que era um pequeno iate, do tamanho de um barco de Gravesend, e completamente cheio de pessoas; uma circunstância que não conseguíamos entender o significado. O nosso capitão, que era galês, jurou que eram piratas e que nos matariam. Eu disse, seja como for, temos de abordar se tivermos de morrer por isso; e, se não nos receberem gentilmente, temos de nos opor o melhor que pudermos; pois não havia alternativa entre a sua perdição e a nossa. Este conselho foi imediatamente aceite; e creio realmente que o capitão, eu próprio e o holandês teríamos enfrentado vinte homens. Tínhamos dois cutelos e um mosquete, que trouxe no bote; e, nesta situação, remámos para o lado e abordámo-la imediatamente. Creio que havia cerca de quarenta homens a bordo; mas qual não foi a nossa surpresa, assim que subimos a bordo, ao descobrir que a maior parte deles estava na mesma situação que nós!

Eles pertenciam a uma escuna baleeira que naufragou dois dias antes de nós a cerca de nove milhas a norte da nossa embarcação. Quando ela naufragou, alguns deles tinham recorrido aos seus botes e tinham deixado algumas das suas pessoas e bens num rochedo, da mesma maneira que nós tínhamos feito; e iam, como nós, para New Providence em busca de um navio, quando encontraram este pequeno iate, chamado de "wrecker" [salvador de naufrágios]; sendo a sua ocupação naqueles mares procurar naufrágios. Eles iam então buscar o restante das pessoas que pertenciam à escuna; pelo que o "wrecker" receberia todas as coisas pertencentes à embarcação e, igualmente, a ajuda das suas pessoas para tirar o que pudessem dela, e depois levariam a tripulação para New Providence.

Contámos às pessoas do "wrecker" a condição da nossa embarcação, e fizemos o mesmo acordo com eles que as pessoas da escuna; e, ao concordarem, suplicámos-lhes que fossem diretamente ao nosso rochedo, porque o nosso povo precisava de água. Concordaram, portanto, ir primeiro connosco; e em dois dias chegámos ao rochedo, para alegria indescritível das pessoas que tínhamos deixado para trás, uma vez que tinham sido reduzidas a grandes extremidades por falta de água na nossa ausência. Felizmente para nós, o "wrecker" tinha agora mais pessoas a bordo do que podia transportar ou alimentar por qualquer período de tempo moderado; contrataram, portanto, as pessoas da escuna para trabalhar no nosso naufrágio, e deixámo-lhes o nosso bote e embarcámos para New Providence.

Nada poderia ter sido mais afortunado do que o nosso encontro com este salvador de naufrágios, pois New Providence ficava a uma distância tal que jamais teríamos conseguido alcançá-la no nosso barco. A ilha de Abbico era muito mais comprida do que esperávamos; e só depois de navegarmos durante três ou quatro dias é que chegámos em segurança à extremidade mais distante da mesma, em direção a New Providence. Quando lá chegámos, abastecemo-nos de água e conseguimos uma boa quantidade de lagostas e outros mariscos, o que representou um grande alívio para nós, visto que as nossas provisões e a água estavam quase esgotadas. Prosseguimos então a nossa viagem; mas, no dia seguinte ao da nossa partida da ilha, tarde da noite, e enquanto ainda nos encontrávamos entre os recifes das Bahamas, fomos surpreendidos por um vendaval violento, de tal modo que fomos obrigados a cortar o mastro. A embarcação esteve muito perto de naufragar, pois soltou-se das âncoras e bateu várias vezes nos baixios. Ali, esperávamos a cada minuto que ela se desfizesse em pedaços, e que cada momento fosse o nosso último; tanto que o meu velho capitão, o meu imediato doente e inútil, e vários outros, desmaiaram; e a morte encarava-nos de todos os lados. Todos os que a bordo costumavam praguejar começaram agora a clamar ao Deus do Céu que os ajudasse: e, certamente, além da nossa compreensão, Ele ajudou-nos e, de uma forma milagrosa, salvou-nos! No auge da nossa extrema aflição, o vento acalmou por alguns minutos; e, embora a ondulação fosse indescritivelmente alta, dois homens, que eram nadadores experientes, tentaram ir até à boia da âncora, que ainda víamos na água, a alguma distância, num pequeno escaler que pertencia ao salvador de naufrágios, o qual não era suficientemente grande para transportar mais de dois. O escaler encheu-se diversas vezes nas suas tentativas de entrar nele a par da nossa embarcação; e eles nada mais viram senão a morte diante de si, tal como nós; mas disseram que tanto lhes fazia morrer daquela maneira como de qualquer outra. Uma bobina de corda muito fina, com uma pequena boia, foi colocada dentro do barco com eles; e, finalmente, com grande perigo, conseguiram afastar o escaler da embarcação; e estes dois intrépidos heróis aquáticos remaram por suas vidas em direção à boia da âncora. Os olhos de todos nós estavam fixos neles o tempo todo, esperando a cada minuto que fosse o último: e as orações de todos aqueles que permaneciam no seu perfeito juízo foram elevadas a Deus, em nome deles, por um rápido livramento; e pelo nosso próprio, que dependia deles; e Ele ouviu-nos e respondeu-nos! Estes dois homens chegaram finalmente à boia; e, tendo amarrado o escaler a ela, ataram uma extremidade da sua corda à pequena boia que tinham no escaler e deixaram-na à deriva em direção à embarcação. Nós, a bordo, observando isto, lançámos ganchos de barco e sondas presas a cabos, a fim de apanhar a boia: finalmente apanhámo-la e prendemos um cabo de amarração à extremidade da corda pequena; demos-lhes então um sinal para puxarem, e eles puxaram o cabo para si e prenderam-no à boia: o que, uma vez feito, puxámos pelas nossas vidas; e, pela misericórdia de Deus, conseguimos sair novamente dos baixios para águas profundas, e o escaler chegou em segurança à embarcação. É impossível para alguém conceber a nossa alegria sincera por este segundo livramento da ruína, exceto aqueles que sofreram as mesmas privações. Aqueles cuja força e sentidos tinham desaparecido voltaram a si, e estavam agora tão eufóricos quanto antes estavam deprimidos. Dois dias depois, o vento cessou e a água tornou-se calma. O escaler foi então a terra, e cortámos algumas árvores; e, tendo encontrado o nosso mastro e reparado-o, trouxemo-lo a bordo e fixámo-lo. Assim que o fizemos, levantámos a âncora e partimos mais uma vez para New Providence, onde chegámos em segurança três dias depois, após termos estado durante mais de três semanas numa situação em que não esperávamos escapar com vida. Os habitantes daqui foram muito gentis connosco; e, quando souberam da nossa situação, mostraram-nos uma grande hospitalidade e amizade. Pouco depois disto, cada um dos meus velhos companheiros de infortúnio que eram livres separou-se de nós e seguiu o caminho para onde a sua inclinação os levou. Um mercador, que tinha uma grande chalupa, ao ver a nossa condição e sabendo que queríamos ir para a Geórgia, disse a quatro de nós que a sua embarcação ia para lá; e que, se trabalhássemos a bordo e a carregássemos, ele nos daria a passagem de graça. Como não conseguíamos qualquer salário, e achávamos muito difícil sair daquele lugar, fomos obrigados a aceitar a sua proposta; e entrámos a bordo e ajudámos a carregar a chalupa, embora só nos fosse permitida a nossa alimentação. Quando ela estava completamente carregada, ele disse-nos que ia primeiro para a Jamaica, para onde teríamos de ir se fôssemos nela. Isto, contudo, recusei; mas os meus companheiros de infortúnio, não tendo dinheiro para se ajudarem a si próprios, a necessidade obrigou-os a aceitar a oferta e a seguir aquele curso, embora não o desejassem.

Permanecemos em New Providence cerca de dezassete ou dezoito dias; durante esse tempo, encontrei muitos amigos, que me encorajaram a ficar lá com eles: mas recusei; embora, se o meu coração não estivesse fixado na Inglaterra, teria ficado, pois gostava imenso do lugar, e havia ali alguns negros livres que eram muito felizes, e passávamos o nosso tempo agradavelmente juntos, com o som melodioso das cordas de tripa, sob as limeiras e limoeiros. Por fim, o Capitão Phillips alugou uma chalupa para o levar a ele e a alguns dos escravos que não conseguia vender para a Geórgia; e eu aceitei ir com ele nesta embarcação, pretendendo agora despedir-me daquele lugar. Quando a embarcação ficou pronta, embarcámos todos; e despedi-me de New Providence, não sem pesar. Navegámos por volta das quatro horas da manhã, com vento favorável, para a Geórgia; e, cerca das onze horas da mesma manhã, levantou-se um vendaval curto e repentino que levou a maior parte das nossas velas; e, como ainda estávamos entre os recifes, em poucos minutos a chalupa embateu contra as rochas. Felizmente para nós, a água era profunda; e o mar não estava tão bravo, pelo que, depois de termos trabalhado arduamente durante algum tempo, e sendo muitos, fomos salvos pela misericórdia de Deus; e, usando os nossos maiores esforços, conseguimos desencalhar a embarcação. No dia seguinte, regressámos a Providence, onde a reparámos rapidamente. Algumas das pessoas juravam que nos tinham lançado feitiços por alguém em Montserrat; e outras, que tínhamos bruxas e feiticeiros entre os pobres escravos indefesos; e que nunca chegaríamos em segurança à Geórgia. Mas estas coisas não me dissuadiram; eu disse: "Enfrentemos novamente os ventos e os mares, e não juremos, mas confiemos em Deus, e Ele livrar-nos-á". Por isso, levantámos âncora mais uma vez; e, com muito trabalho, em sete dias chegámos em segurança à Geórgia.

Após a nossa chegada, fomos até à cidade de Savannah; e, na mesma noite, fui alojar-me na casa de um amigo, cujo nome era Mosa, um homem negro. Ficámos muito felizes por nos encontrarmos; e, após o jantar, tivemos uma luz até entre as nove e as dez horas da noite. Por volta dessa hora, a guarda ou patrulha passou; e, ao notar uma luz na casa, bateram à porta: abrimo-la; e eles entraram, sentaram-se e beberam um pouco de ponche connosco: também me pediram alguns limões, pois tinham entendido que eu tinha alguns, os quais lhes dei prontamente. Pouco depois disto, disseram-me que eu tinha de ir com eles para a casa da guarda: isto surpreendeu-me bastante, após a nossa gentileza para com eles; e perguntei-lhes: Porquê? Disseram que todos os negros que tivessem luz nas suas casas depois das nove horas seriam levados sob custódia, e teriam de pagar alguns dólares ou seriam açoitados. Algumas daquelas pessoas sabiam que eu era um homem livre; mas, como o dono da casa não era livre e tinha o seu senhor para o proteger, não se permitiram a mesma liberdade com ele que tiveram comigo. Disse-lhes que eu era um homem livre, e que tinha acabado de chegar de Providence; que não estávamos a fazer ruído algum, e que eu não era um estranho naquele lugar, mas que era muito bem conhecido ali: "Além disso", disse eu, "o que farão comigo?" — "Isso verás", responderam eles, "mas tens de vir para a casa da guarda connosco". Agora, se eles pretendiam tirar-me dinheiro ou não, eu não sabia; mas pensei imediatamente nas laranjas e limões em Santa Cruz: e, vendo que nada os apaziguaria, fui com eles para a casa da guarda, onde permaneci durante a noite. De manhã cedo, estes rufiões impositores açoitaram um homem e uma mulher negros que tinham na casa da guarda, e depois disseram-me que eu também tinha de ser açoitado. Perguntei porquê? e se não havia lei para homens livres? E disse-lhes que, se a houvesse, fazê-la-ia cumprir contra eles. Mas isto apenas os exasperou ainda mais; e instantaneamente juraram que me fariam o mesmo que o Doutor Perkins me tinha feito; e iam lançar-me mãos violentas; quando um deles, mais humano do que os outros, disse que, como eu era um homem livre, eles não podiam justificar legalmente despir-me. Enviei então imediatamente buscar o Doutor Brady, que era conhecido por ser um homem honesto e digno; e, com a sua chegada para me ajudar, deixaram-me ir.

Este não foi o único incidente desagradável com que me deparei enquanto estive neste lugar; pois, um dia, enquanto estava um pouco fora da cidade de Savannah, fui cercado por dois homens brancos, que pretendiam pregar-me as suas partidas habituais sob a forma de rapto. Assim que estes homens me abordaram, um deles disse ao outro: "Este é exatamente o indivíduo que procuramos e que perdeste": e o outro jurou imediatamente que eu era a pessoa idêntica. Nisto, aproximaram-se de mim e estavam prestes a agarrar-me; mas disse-lhes para ficarem quietos e se afastarem; pois já tinha visto esse tipo de partidas serem pregadas a outros negros livres, e eles não deviam pensar que me fariam o mesmo. Nisto, hesitaram um pouco, e um disse ao outro: não resultará; e o outro respondeu que eu falava inglês demasiado bem. Respondi que acreditava que sim; e tinha também comigo um pau vingativo à altura da ocasião; e a minha determinação também era boa. Felizmente, porém, não foi usado; e, depois de termos conversado um pouco desta maneira, os patifes deixaram-me. Fiquei em Savannah algum tempo, tentando ansiosamente voltar a Montserrat para ver o Sr. King, o meu antigo senhor, e depois dar um adeus final ao quarto americano do globo. Por fim, encontrei uma chalupa chamada Speedwell, do Capitão John Bunton, que pertencia a Granada e estava destinada à Martinica, uma ilha francesa, com uma carga de arroz, e embarquei nela. Antes de deixar a Geórgia, uma mulher negra, que tinha um filho morto, sendo muito apegada ao serviço fúnebre da igreja e não conseguindo encontrar nenhuma pessoa branca para o realizar, pediu-me para esse fim. Disse-lhe que eu não era padre; e, além disso, que o serviço pelos mortos não afetava a alma. Isto, contudo, não a satisfez; ela insistiu muito comigo: por isso, cedi às suas súplicas fervorosas e, finalmente, consenti em fazer de padre pela primeira vez na minha vida. Como ela era muito respeitada, havia uma grande multidão tanto de brancos como de negros na sepultura. Assumi então, em conformidade, a minha nova vocação e realizei a cerimónia fúnebre para satisfação de todos os presentes; após o que me despedi da Geórgia e naveguei para a Martinica.

CAP. IX

O autor chega à Martinica — Depara-se com novas dificuldades — Vai para Montserrat, onde se despede do seu antigo senhor, e navega para Inglaterra — Encontra o Capitão Pascal — Aprende a tocar trompa — Contrata-se com o Doutor Irving, onde aprende a tornar potável a água do mar — Deixa o doutor e faz uma viagem à Turquia e a Portugal; e, depois, faz uma viagem a Granada e outra à Jamaica — Regressa ao doutor, e embarcam juntos numa viagem ao Polo Norte, com o Honorável Capitão Phipps — Algum relato dessa viagem e dos perigos que o autor correu — Regressa a Inglaterra.

Despedi-me assim definitivamente da Geórgia; pois o tratamento que recebi nela causou-me uma grande aversão ao lugar; e, quando a deixei e naveguei para a Martinica, decidi nunca mais revisitá-la. O meu novo capitão conduziu a sua embarcação com mais segurança do que o meu anterior; e, após uma viagem agradável, chegámos em segurança ao nosso porto de destino. Enquanto estive nesta ilha, andei por muitos lugares e achei-a muito agradável: em particular, admirei a cidade de St. Pierre, que é a principal da ilha, e construída mais como uma cidade europeia do que qualquer outra que eu tivesse visto nas Índias Ocidentais. De um modo geral, também, os escravos eram mais bem tratados, tinham mais feriados e pareciam estar melhor do que os das ilhas inglesas. Depois de termos concluído os nossos negócios aqui, eu queria a minha dispensa, o que era necessário; pois era então o mês de maio, e eu desejava muito estar em Montserrat para me despedir do Sr. King e de todos os meus outros amigos lá, a tempo de navegar na frota de julho para a Velha Inglaterra. Mas, ai de mim! Tinha colocado um grande obstáculo no meu caminho, pelo qual estive perto de perder a minha passagem naquela estação para Inglaterra. Tinha emprestado algum dinheiro ao meu capitão, que agora queria para me permitir concretizar as minhas intenções. Disse-lhe isto; mas, quando o pedi, embora insistisse na necessidade da minha situação, encontrei tanto esquivamento da parte dele que comecei finalmente a recear perder o meu dinheiro, pois não o podia recuperar por via legal: pois já mencionei que, em todas as Índias Ocidentais, o testemunho de nenhum homem negro é admitido, em qualquer ocasião, contra qualquer pessoa branca, seja ela quem for, e, portanto, o meu próprio juramento não teria servido de nada. Fui obrigado, por isso, a permanecer com ele até que ele estivesse disposto a devolver-mo. Assim, navegámos da Martinica para Granada. Eu pressionava frequentemente o capitão para me devolver o dinheiro, sem resultado; e, para piorar a minha condição, quando lá chegámos, o capitão e os seus proprietários desentenderam-se; de modo que a minha situação se tornou diariamente mais penosa: pois, além de a nós, a bordo, nos serem permitidos pouca ou nenhuma comida, e eu não conseguir o meu dinheiro nem o meu salário, poderia ter conseguido a minha passagem gratuita para Montserrat se tivesse podido aceitá-la. O pior de tudo era que já estava a ficar tarde em julho, e os navios nas ilhas tinham de partir até ao dia 26 desse mês. Por fim, contudo, com muitas súplicas, obtive o meu dinheiro do capitão e apanhei a primeira embarcação que pude encontrar para St. Eustatia. De lá, fui noutra para Basseterre, em St. Kitts, onde cheguei a 19 de julho. No dia 22, tendo encontrado uma embarcação com destino a Montserrat, queria ir nela; mas o capitão e outros não me aceitaram a bordo até que eu me anunciasse e desse aviso da minha saída da ilha. Falei-lhes da minha pressa em estar em Montserrat, e que o tempo não permitia anúncios, já que era tarde da noite e o capitão estava prestes a partir; mas ele insistiu que era necessário e, de outra forma, disse que não me levaria. Isto reduziu-me a uma grande perplexidade; pois, se fosse forçado a submeter-me a esta necessidade degradante, à qual todo o homem negro livre está sujeito, de se anunciar como um escravo quando deixa uma ilha, e que eu considerava uma grosseira imposição a qualquer homem livre, temia perder aquela oportunidade de ir para Montserrat, e então não conseguiria chegar a Inglaterra naquele ano. A embarcação estava prestes a partir, e não se podia perder tempo; por isso, imediatamente, com o coração pesado, comecei a tentar ver quem poderia ajudar-me a cumprir as exigências do capitão. Felizmente, encontrei, em poucos minutos, alguns cavalheiros de Montserrat que conhecia; e, tendo-lhes contado a minha situação, solicitei a sua assistência amigável para me ajudarem a sair da ilha. Alguns deles, nisto, foram comigo ter com o capitão e convenceram-no da minha liberdade; e, para minha grande alegria, ele pediu-me para ir a bordo. Levantámos então âncora e, no dia seguinte, 23, cheguei ao lugar desejado, após uma ausência de seis meses, nos quais experimentei mais de uma vez a mão libertadora da Providência, quando todos os meios humanos de escapar à destruição pareciam sem esperança. Vi os meus amigos com uma alegria de coração que foi aumentada pela minha ausência e pelos perigos a que tinha escapado, e fui recebido com grande amizade por todos eles, mas particularmente pelo Sr. King, a quem relatei o destino da sua chalupa, a Nancy, e as causas do seu naufrágio. Soube agora, com extremo pesar, que a sua casa foi levada pela água durante a minha ausência, devido ao rompimento de um lago no topo de uma montanha que ficava em frente à cidade de Plymouth. A inundação arrastou grande parte da cidade, e o Sr. King perdeu uma grande quantidade de bens e quase a vida. Quando lhe disse que pretendia ir para Londres naquela estação, e que tinha vindo visitá-lo antes da minha partida, o bom homem expressou um grande afeto por mim, e pesar por eu o deixar, e aconselhou-me calorosamente a ficar lá; insistindo, como eu era muito respeitado por todos os cavalheiros do lugar, que eu poderia sair-me muito bem, e em pouco tempo ter terras e escravos meus. Agradeci-lhe por este gesto de amizade; mas, como desejava muito estar em Londres, recusei ficar mais tempo ali e pedi-lhe que me desculpasse. Pedi-lhe então que tivesse a bondade de me dar um certificado do meu comportamento enquanto estive ao seu serviço, ao que ele acedeu prontamente, e deu-me o seguinte:

Montserrat, 26 de janeiro de 1767.

"O portador deste, Gustavus Vassa, foi meu escravo por mais de três anos, durante os quais sempre se comportou bem e cumpriu o seu dever com honestidade e assiduidade.

Robert King.

A todos a quem possa interessar."

Tendo obtido isto, despedi-me do meu bondoso senhor, após muitas confissões sinceras de gratidão e consideração, e preparei-me para a minha partida para Londres. Concordei imediatamente ir com um Capitão John Hamer, por sete guinéus, a passagem para Londres, a bordo de um navio chamado Andromache; e, nos dias 24 e 25, tive danças livres, como são chamadas, com alguns dos meus compatriotas, antes de partir; após o que me despedi de todos os meus amigos, e no dia 26 embarquei para Londres, extremamente contente por me ver mais uma vez a bordo de um navio; e ainda mais por seguir o curso que há muito desejava. Com o coração leve, disse adeus a Montserrat, e nunca mais lá pus os pés; e com isso disse adeus ao som do chicote cruel, e a todos os outros terríveis instrumentos de tortura; adeus à visão ofensiva da castidade violada das mulheres negras, que demasiadas vezes se deparou com os meus olhos; adeus às opressões (embora para mim menos severas do que para a maioria dos meus compatriotas); e adeus ao uivo colérico das ondas quebrando. Desejei um coração grato e reconhecido para louvar o Senhor Deus nas alturas por todas as suas misericórdias!

Fizemos uma viagem das mais prósperas e, ao fim de sete semanas, chegamos às escadas de Cherry-Garden. Assim, meus olhos ansiosos foram mais uma vez gratificados com a vista de Londres, após ter estado ausente por mais de quatro anos. Recebi imediatamente o meu salário, e jamais na vida ganhara sete guinéus tão depressa; eu tinha trinta e sete guinéus no total quando fui liberado do navio. Entrei então em uma cena, inteiramente nova para mim, mas cheia de esperança. Nesta situação, meus primeiros pensamentos foram procurar alguns dos meus antigos amigos, e entre os primeiros deles estavam as senhoritas Guerin. Portanto, assim que me regalei, fui em busca daquelas gentis damas, que eu estava muito impaciente para ver; e com alguma dificuldade e perseverança, encontrei-as em May's-hill, Greenwich. Ficaram agradavelmente surpresas ao ver-me, e eu fiquei muito radiante ao encontrá-las. Contei-lhes a minha história, sobre a qual expressaram grande espanto e admitiram livremente que não trazia honra alguma ao seu primo, o Capitão Pascal. Ele então as visitava com frequência; e encontrei-o quatro ou cinco dias depois no parque de Greenwich. Quando me viu, pareceu bastante surpreso e perguntou-me como eu tinha voltado? Respondi: "Em um navio". Ao que ele replicou secamente: "Suponho que você não tenha voltado a Londres caminhando sobre a água". Como vi, pelo seu modo de agir, que ele não parecia arrependido do seu comportamento para comigo, e que eu não tinha muitos motivos para esperar qualquer favor dele, disse-lhe que ele me tratara muito mal, depois de eu ter sido um servo tão fiel por tantos anos; ao que, sem dizer mais nada, ele virou-se e foi embora. Poucos dias depois, encontrei o Capitão Pascal na casa da senhorita Guerin e pedi-lhe o meu prêmio em dinheiro. Ele disse que não havia nada devido a mim; pois, se o meu prêmio em dinheiro fosse de 10.000 libras, ele teria direito a tudo. Disse-lhe que fui informado do contrário; ao que ele me desafiou; e, em tom de zombaria, desejou que eu abrisse um processo judicial contra ele para obtê-lo: "Há advogados suficientes", disse ele, "que cuidarão da causa, e é melhor você tentar". Disse-lhe então que tentaria, o que o enfureceu muito; contudo, por respeito às damas, permaneci calado e nunca mais fiz qualquer outra exigência do meu direito. Algum tempo depois, estas gentis damas perguntaram-me o que pretendia fazer da vida e como poderiam ajudar-me. Agradeci-lhes e disse que, se lhes aprouvesse, eu seria seu servo; mas, se não, como tinha trinta e sete guinéus, que me sustentariam por algum tempo, ficaria muito grato se me recomendassem a alguma pessoa que me ensinasse um ofício pelo qual eu pudesse ganhar a vida. Responderam-me muito educadamente que lamentavam que não lhes fosse conveniente aceitar-me como seu servo e perguntaram-me que ofício eu gostaria de aprender? Respondi: cabeleireiro. Prometeram então ajudar-me nisto; e logo depois recomendaram-me a um cavalheiro que eu já conhecia, um certo Capitão O'Hara, que me tratou com muita bondade e me arranjou um mestre, um cabeleireiro em Coventry-court, Haymarket, com quem me colocou. Estive com este homem de setembro até o mês de fevereiro seguinte. Naquele período, tínhamos um vizinho no mesmo pátio que ensinava a trompa francesa. Ele costumava tocá-la tão bem que fiquei encantado e combinei com ele que me ensinaria a tocá-la. Ele tomou-me a seu cargo e começou a instruir-me, e logo aprendi todas as três partes. Tive grande prazer em tocar este instrumento, sendo as noites longas; e além de gostar dele, não gostava de ficar ocioso, e isso preenchia as minhas horas vagas inocentemente. Nesta época também combinei com o Reverendo Sr. Gregory, que morava no mesmo pátio, onde mantinha uma academia e uma escola noturna, para me aperfeiçoar em aritmética. Ele fez isso até o escambo e a aligação; de modo que todo o tempo em que estive lá, estive inteiramente ocupado. Em fevereiro de 1768, empreguei-me com o Dr. Charles Irving, em Pall-mall, tão célebre pelas suas experiências bem-sucedidas em tornar a água do mar potável; e aqui tive bastante cabeleireiro para melhorar a minha mão. Este cavalheiro era um excelente mestre; era extremamente gentil e bem-humorado; e permitia-me frequentar as minhas escolas à noite, o que considerei uma grande bênção; portanto, agradeci a Deus e a ele por isso, e usei toda a minha diligência para aproveitar a oportunidade. Esta diligência e atenção recomendaram-me à atenção e cuidado dos meus três preceptores, que por sua vez dedicaram muito esforço à minha instrução e, além disso, foram todos muito gentis comigo. O meu salário, no entanto, que era dois terços menor do que eu jamais tivera na vida (pois eu tinha apenas 12 libras por ano), logo percebi que não seria suficiente para arcar com esta despesa extraordinária de mestres e com as minhas próprias despesas necessárias; meus antigos trinta e sete guinéus já tinham se esgotado até restar apenas um. Achei melhor, portanto, tentar o mar novamente em busca de mais dinheiro, já que fora criado para isso e até então achara a profissão bem-sucedida. Eu também tinha um desejo muito grande de ver a Turquia e agora decidi satisfazê-lo. Assim, no mês de maio de 1768, disse ao doutor o meu desejo de ir para o mar novamente, ao que ele não se opôs; e partimos em termos amigáveis. No mesmo dia, fui à cidade em busca de um mestre. Fui extremamente afortunado na minha pesquisa; pois logo soube de um cavalheiro que tinha um navio indo para a Itália e Turquia, e ele precisava de um homem que soubesse pentear bem. Fiquei radiante com isso e fui imediatamente a bordo do seu navio, conforme me haviam indicado, o qual achei estar equipado com grande gosto, e já previa não pequeno prazer em navegar nele. Não encontrando o cavalheiro a bordo, fui direcionado para a sua hospedagem, onde o encontrei no dia seguinte e dei-lhe uma demonstração do meu trabalho. Ele gostou tanto que me contratou imediatamente, de modo que fiquei perfeitamente feliz; pois o navio, o mestre e a viagem eram inteiramente do meu agrado. O navio chamava-se Delawar, e o nome do meu mestre era John Jolly, um homem asseado, esperto e bem-humorado, exatamente como eu desejava servir. Navegamos da Inglaterra no mês de julho seguinte, e a nossa viagem foi extremamente agradável. Fomos a Villa Franca, Nice e Livorno; e em todos estes lugares fiquei encantado com a riqueza e beleza dos países, e impressionado com os edifícios elegantes com que abundam. Tínhamos sempre neles abundância de vinhos extraordinariamente bons e frutas ricas, das quais eu gostava muito; e tive frequentes ocasiões de satisfazer tanto o meu paladar quanto a minha curiosidade; pois o meu capitão hospedava-se sempre em terra nesses lugares, o que me dava oportunidades de ver os arredores. Também aprendi navegação com o imediato, o que eu apreciava muito. Quando deixamos a Itália, tivemos uma navegação deliciosa entre as ilhas do Arquipélago e, de lá, para Esmirna, na Turquia. Esta é uma cidade muito antiga; as casas são construídas de pedra e a maioria delas tem túmulos anexos; de modo que às vezes apresentam a aparência de cemitérios. As provisões são muito abundantes nesta cidade, e o bom vinho custa menos de um centavo a caneca. As uvas, romãs e muitas outras frutas eram também as mais ricas e maiores que já provei. Os nativos são de boa aparência e constituição forte, e trataram-me sempre com grande civilidade. Em geral, acredito que gostam de pessoas negras; e vários deles fizeram-me convites insistentes para ficar entre eles, embora mantenham os francos, ou cristãos, separados e não lhes permitam habitar imediatamente entre eles. Fiquei espantado por não ver mulheres em nenhuma de suas lojas, e muito raramente alguma nas ruas; e sempre que via, estavam cobertas com um véu da cabeça aos pés, de modo que eu não podia ver seus rostos, exceto quando alguma delas, por curiosidade, os descobria para me olhar, o que às vezes faziam. Surpreendeu-me ver como os gregos são, em certa medida, dominados pelos turcos, assim como os negros são nas Índias Ocidentais pelos brancos. Os gregos menos refinados, como já indiquei, dançam aqui da mesma maneira que nós fazemos em minha nação. Ao todo, durante a nossa estadia aqui, que foi de cerca de cinco meses, gostei extremamente do lugar e dos turcos. Não pude deixar de observar uma circunstância muito notável lá: as caudas das ovelhas são chatas e tão grandes que conheci a cauda de um cordeiro pesar de onze a treze libras. A gordura delas é muito branca e rica, e é excelente em pudins, para o que é muito utilizada. Nosso navio estando finalmente ricamente carregado de seda e outros artigos, navegamos para a Inglaterra.

Em maio de 1769, logo após o nosso retorno da Turquia, nosso navio fez uma viagem deliciosa para o Porto, em Portugal, onde chegamos na época do carnaval. À nossa chegada, foram enviados a bordo trinta e seis artigos para observarmos, com penalidades muito pesadas caso quebrássemos qualquer um deles; e nenhum de nós ousou sequer ir a bordo de qualquer outra embarcação ou a terra até que a Inquisição tivesse enviado alguém a bordo e revistado tudo o que era ilegal, especialmente bíblias. Aquelas que foram apresentadas, e certas outras coisas, foram enviadas para terra até que os navios partissem; e qualquer pessoa em cuja custódia uma bíblia fosse encontrada escondida deveria ser presa, açoitada e enviada para a escravidão por dez anos. Vi aqui muitas vistas muito magníficas, particularmente o jardim do Éden, onde muitos do clero e dos leigos iam em procissão em suas várias ordens com a hóstia, e cantavam Te Deum. Tive uma grande curiosidade de entrar em algumas das suas igrejas, mas não pude obter permissão sem usar a necessária aspersão de água benta na minha entrada. Por curiosidade e pelo desejo de ser santo, cumpri esta cerimônia, mas as suas virtudes perderam-se em mim, pois não me senti em nada melhor por causa disso. Este lugar abunda em fartura de todo tipo de provisões. A cidade é bem construída e bonita, e oferece uma bela vista. Tendo o nosso navio tomado uma carga de vinho e outras mercadorias, navegamos para Londres e chegamos no mês de julho seguinte. Nossa próxima viagem foi para o Mediterrâneo. O navio foi novamente preparado e navegamos em setembro para Gênova. Esta é uma das cidades mais bonitas que já vi; alguns dos edifícios eram de mármore belíssimo e apresentavam um aspecto muito nobre; e muitos tinham fontes muito curiosas diante deles. As igrejas eram ricas e magníficas, e curiosamente adornadas tanto por dentro quanto por fora. Mas toda esta grandeza era, aos meus olhos, desonrada pelos escravos das galés, cuja condição, tanto lá quanto em outras partes da Itália, é verdadeiramente piedosa e miserável. Depois de termos ficado lá algumas semanas, durante as quais comprámos muitas coisas diferentes de que precisávamos e as obtivemos muito baratas, navegamos para Nápoles, uma cidade encantadora e notavelmente limpa. A baía é a mais bela que já vi; os molhes para o transporte marítimo são excelentes. Achei extraordinário ver grandes óperas encenadas aqui nas noites de domingo, e frequentadas até por suas majestades. Eu também, como estes grandes, fui a esses espetáculos, e em vão servia a Deus durante o dia enquanto servia a Mamom efetivamente à noite. Enquanto permanecíamos aqui, ocorreu uma erupção do Monte Vesúvio, da qual tive uma visão perfeita. Foi extremamente pavorosa; e estávamos tão perto que as cinzas dela costumavam ficar espessas no nosso convés. Depois de termos concluído os nossos negócios em Nápoles, navegamos com vento favorável mais uma vez para Esmirna, onde chegamos em dezembro. Um serasquier ou oficial afeiçoou-se a mim aqui e queria que eu ficasse, e ofereceu-me duas esposas; no entanto, recusei a tentação. Os mercadores aqui viajam em caravanas ou grandes grupos. Tenho visto muitas caravanas da Índia, com algumas centenas de camelos, carregados com diferentes mercadorias. As pessoas dessas caravanas são bem morenas. Entre outros artigos, traziam consigo uma grande quantidade de gafanhotos, que são uma espécie de legume, doce e agradável ao paladar, e com o formato semelhante ao do feijão verde, mas mais longos. Cada tipo de mercadoria é vendido em uma rua própria, e sempre achei os turcos muito honestos nas suas transações. Eles não deixam nenhum cristão entrar nas suas mesquitas ou igrejas, pelo que fiquei muito triste; pois sempre gostei de ir ver os diferentes modos de adoração das pessoas onde quer que eu fosse. A peste irrompeu enquanto estávamos em Esmirna, e paramos de levar mercadorias para o navio até que passasse. Ele estava então ricamente carregado, e navegamos por volta de março de 1770 para a Inglaterra. Um dia, na nossa passagem, tivemos um acidente que quase queimou o navio. Um cozinheiro negro, ao derreter um pouco de gordura, derrubou a panela no fogo sob o convés, que imediatamente começou a arder, e a chama subiu muito alto sob o mastro do traquete. Com o susto, o pobre cozinheiro ficou quase branco e totalmente mudo. Felizmente, porém, apagamos o fogo sem causar muitos danos. Após vários atrasos nesta passagem, que foi tediosa, chegamos a Standgate Creek em julho; e, no final do ano, ocorreu um novo acontecimento, de modo que o meu nobre capitão, o navio e eu, todos nos separamos.

Em abril de 1771, embarquei como despenseiro com o Capitão Wm. Robertson no navio Grenada Planter, mais uma vez para tentar a minha sorte nas Índias Ocidentais; e navegamos de Londres para a Madeira, Barbados e Granada. Quando estávamos neste último lugar, tendo algumas mercadorias para vender, encontrei mais uma vez o meu antigo tipo de clientes das Índias Ocidentais. Um homem branco, um ilhéu, comprou-me algumas mercadorias no valor de algumas libras e fez-me muitas promessas bonitas como de costume, mas sem qualquer intenção de me pagar. Ele tinha também comprado mercadorias de mais alguns dos nossos homens, a quem pretendia servir da mesma maneira; mas ele ainda nos entretinha com promessas. Contudo, quando o nosso navio estava carregado e prestes a navegar, este honesto comprador não demonstrou qualquer intenção ou sinal de pagar por nada do que nos tinha comprado; pelo contrário, quando lhe pedi o meu dinheiro, ele ameaçou a mim e a outro homem negro de quem ele tinha comprado mercadorias, de modo que descobrimos que estávamos mais propensos a receber pancadas do que pagamentos. Com isto, fomos reclamar a um Sr. M'Intosh, um juiz de paz; contamos a sua senhoria as artimanhas vilanescas daquele homem e imploramos que tivesse a gentileza de ver-nos reparados: mas sendo negros, embora livres, não conseguimos obter qualquer remédio; e estando o nosso navio prestes a zarpar, não sabíamos como ajudar-nos, embora achássemos difícil perder a nossa propriedade desta maneira. Felizmente para nós, porém, este homem também estava em dívida com três marinheiros brancos, que não conseguiram obter um centavo dele; eles, portanto, juntaram-se prontamente a nós, e fomos todos juntos em busca dele. Quando encontramos onde ele estava, tirei-o de uma casa e ameacei-o com vingança; ao que, percebendo que seria tratado rudemente, o patife ofereceu a cada um de nós uma pequena compensação, mas nada próximo das nossas exigências. Isto exasperou-nos muito mais; e alguns queriam cortar-lhe as orelhas; mas ele implorou por misericórdia, a qual foi finalmente concedida, depois de o termos despido completamente. Deixamo-lo então ir, pelo que ele nos agradeceu, contente por escapar tão facilmente, e correu para os arbustos, depois de nos ter desejado uma boa viagem. Voltamos então a bordo e, pouco depois, levantamos âncora para a Inglaterra. Não posso deixar de notar aqui um estreito escape que tivemos de ser explodidos, devido a uma negligência minha. Logo quando o nosso navio estava prestes a zarpar, desci à cabine para fazer alguns negócios e tinha uma vela acesa na mão, a qual, na minha pressa, sem pensar, segurei dentro de um barril de pólvora. Permaneceu na pólvora até estar quase a pegar fogo, quando felizmente observei e a retirei a tempo, e providencialmente nenhum mal aconteceu; mas fiquei tão dominado pelo terror que desmaiei imediatamente com aquele livramento.

Ao fim de vinte e oito dias chegámos a Inglaterra, e desembarquei deste navio. Mas, sendo ainda de índole errante e desejoso de ver tantas partes diferentes do mundo quantas pudesse, embarquei pouco depois, no mesmo ano, como despenseiro a bordo de um belo e grande navio chamado Jamaica, sob o comando do Capitão David Watt; e zarpámos de Inglaterra em dezembro de 1771 para Nevis e Jamaica. Descobri que a Jamaica era uma ilha muito bela e grande, bem povoada e a mais considerável das ilhas das Índias Ocidentais. Havia um vasto número de negros aqui, os quais achei, como de costume, excessivamente explorados pelos brancos, e os escravos punidos como nas outras ilhas. Existem negros cujo ofício é açoitar escravos; eles percorrem diferentes lugares em busca de trabalho, sendo o pagamento habitual de um a quatro bits. Vi muitos castigos cruéis infligidos aos escravos no pouco tempo que lá permaneci. Em particular, estive presente quando um pobre infeliz foi amarrado e mantido suspenso pelos pulsos a alguma distância do chão, e depois pesos de meia centena foram presos aos seus tornozelos, postura na qual foi açoitado sem qualquer misericórdia. Havia também, segundo ouvi dizer, dois senhores diferentes conhecidos pela sua crueldade na ilha, que tinham estacado dois negros nus, e em duas horas os vermes picaram-nos até à morte. Ouvi um cavalheiro que eu bem conhecia dizer ao meu capitão que tinha sentenciado um homem negro a ser queimado vivo por tentar envenenar um capataz. Passo por alto numerosos outros exemplos, a fim de aliviar o leitor com uma cena mais suave de velhacaria. Antes de estar há muito tempo na ilha, um tal Sr. Smith, em Port Morant, comprou-me mercadorias no valor de vinte e cinco libras esterlinas; mas, quando lhe exigi o pagamento, ele tentava todas as vezes bater-me e ameaçava que me meteria na cadeia. Numa ocasião dizia que eu ia incendiar a sua casa, noutra jurava que eu ia fugir com os seus escravos. Fiquei espantado com este tratamento por parte de uma pessoa que ocupava a posição de um cavalheiro, mas não tinha alternativa; fui, portanto, obrigado a submeter-me. Quando cheguei a Kingston, fiquei surpreendido ao ver o número de africanos que se reuniam aos domingos; particularmente num local grande e cómodo, chamado Spring Path. Aqui, cada nação diferente de África encontra-se e dança ao modo da sua própria terra. Eles ainda mantêm a maioria dos seus costumes nativos: enterram os seus mortos e colocam víveres, cachimbos e tabaco, e outras coisas, na sepultura com o cadáver, da mesma forma que em África. Tendo o nosso navio obtido a sua carga, zarpámos para Londres, onde chegámos em agosto seguinte. No meu regresso a Londres, apresentei-me ao meu antigo e bom senhor, o Dr. Irving, que me ofereceu novamente os seus serviços. Estando agora cansado do mar, aceitei-o com alegria. Fiquei muito feliz por viver com este cavalheiro mais uma vez; durante esse tempo, estivemos diariamente ocupados a reduzir os domínios do velho Neptuno, purificando o elemento salgado e tornando-o potável. Assim continuei até maio de 1773, quando fui despertado pelo som da fama para procurar novas aventuras e encontrar, em direção ao polo norte, aquilo que o nosso Criador nunca pretendeu que encontrássemos: uma passagem para a Índia. Estava agora a ser preparada uma expedição para explorar uma passagem a nordeste, conduzida pelo Honorável John Constantine Phipps, desde então Lord Mulgrave, no escaler de guerra de Sua Majestade, o Race Horse. Sendo o meu senhor um entusiasta pela reputação desta aventura, preparámos tudo para a nossa viagem, e acompanhei-o a bordo do Race Horse, no dia 24 de maio de 1773. Seguimos para Sheerness, onde nos juntámos ao escaler de Sua Majestade, o Carcass, comandado pelo Capitão Lutwidge. A 4 de junho zarpámos em direção ao nosso destino, o polo; e a 15 do mesmo mês estávamos ao largo de Shetland. Neste dia tive um grande e inesperado livramento de um acidente que esteve perto de explodir o navio e destruir a tripulação, o que me tornou, durante o resto da viagem, extraordinariamente cauteloso. O navio estava tão cheio que havia muito pouco espaço a bordo para qualquer pessoa, o que me colocou numa situação muito embaraçosa. Eu tinha decidido manter um diário desta singular e interessante viagem; e não tinha outro lugar para este fim senão uma pequena cabine, ou o armazém do médico, onde dormia. Este pequeno local estava atulhado de todo o tipo de combustíveis, particularmente estopa e ácido nítrico, e muitas outras coisas perigosas. Infelizmente, aconteceu que, à noite, enquanto escrevia o meu diário, tive ocasião de retirar a vela da lanterna e, tendo uma faísca tocado num único fio da estopa, todo o resto apanhou lume e, imediatamente, tudo ficou em chamas. Não vi nada senão a morte iminente diante de mim e esperava ser o primeiro a perecer nas chamas. Num momento, o alarme espalhou-se e muitas pessoas que estavam perto correram para ajudar a apagar o fogo. Durante todo este tempo estive no meio das chamas; a minha camisa e o lenço que trazia ao pescoço ficaram queimados, e fiquei quase sufocado pelo fumo. Contudo, pela misericórdia de Deus, quando quase perdia todas as esperanças, algumas pessoas trouxeram cobertores e colchões e atiraram-nos sobre as chamas, pelo que, em pouco tempo, o fogo foi extinto. Fui severamente repreendido e ameaçado por aqueles oficiais que souberam do sucedido, e estritamente proibido de voltar a entrar ali com uma luz: e, de facto, até os meus próprios medos fizeram-me dar ouvidos a esta ordem por algum tempo; mas, por fim, não conseguindo escrever o meu diário em nenhuma outra parte do navio, fui tentado novamente a aventurar-me às escondidas com uma luz na mesma cabine, embora não sem considerável medo e pavor no meu espírito. A 20 de junho começámos a usar o aparelho do Dr. Irving para tornar a água salgada potável; eu costumava tratar da destilação: purificava frequentemente de vinte e seis a quarenta galões por dia. A água assim destilada era perfeitamente pura, de bom sabor e livre de sal; e foi usada em várias ocasiões a bordo do navio. A 28 de junho, estando na latitude 78, avistámos a Gronelândia, onde fiquei surpreendido por ver que o sol não se punha. O tempo tornou-se extremamente frio; e, enquanto navegávamos entre norte e este, que era o nosso rumo, vimos muitas montanhas de gelo muito altas e curiosas; e também um grande número de baleias muito grandes, que costumavam chegar perto do nosso navio e lançar a água a uma altura muito grande no ar. Numa manhã, tivemos vastas quantidades de cavalos-marinhos à volta do navio, que relinchavam exatamente como quaisquer outros cavalos. Disparámos algumas armas de arpão contra eles, a fim de apanhar algum, mas não conseguimos obter nenhum. No dia 30, o capitão de um navio da Gronelândia veio a bordo e falou-nos de três navios que se perderam no gelo; contudo, mantivemo-nos no nosso rumo até 11 de julho, quando fomos detidos por um corpo compacto e impenetrável de gelo. Percorremo-lo de leste a oeste por mais de dez graus; e a 27 chegámos tão a norte quanto 80, 37; e em 19 ou 20 graus de longitude leste de Londres. Nos dias 29 e 30 de julho vimos uma planície contínua de gelo liso e ininterrupto, limitada apenas pelo horizonte; e prendemo-nos a uma placa de gelo que tinha oito jardas e onze polegadas de espessura. Tínhamos, geralmente, sol e luz do dia constante; o que dava alegria e novidade a toda esta cena marcante, grandiosa e incomum; e, para a realçar ainda mais, o reflexo do sol no gelo dava às nuvens uma aparência belíssima. Matámos muitos animais diferentes nesta altura, e entre outros, nove ursos. Embora não tivessem nada nos seus estômagos senão água, estavam todos muito gordos. Costumávamos atraí-los para o navio, por vezes, queimando penas ou peles. Achei a carne grosseira, mas alguns dos membros da tripulação apreciaram-na muito. Alguns dos nossos homens, uma vez, no bote, dispararam e feriram um cavalo-marinho, que mergulhou imediatamente; e, pouco tempo depois, trouxe consigo um número de outros. Todos se juntaram num ataque ao bote e só com dificuldade foram impedidos de o estraçalhar ou virar; mas um bote do Carcass, tendo vindo ajudar o nosso e juntando-se a ele, dispersaram-nos, depois de terem arrancado um remo de um dos homens. Um dos botes do navio já tinha sido atacado da mesma forma, mas felizmente não houve danos. Embora tenhamos ferido vários destes animais, nunca conseguimos mais do que um. Permanecemos por ali até ao dia 1 de agosto; altura em que os dois navios ficaram completamente presos no gelo, devido ao gelo solto que vinha do mar. Isto tornou a nossa situação muito terrível e alarmante; de tal modo que, no 7.º dia, estávamos com receio de que os navios fossem esmagados. Os oficiais realizaram então um conselho para saber o que era melhor fazermos para salvar as nossas vidas; e determinou-se que devíamos tentar escapar arrastando os nossos botes pelo gelo em direção ao mar; o qual, contudo, estava mais longe do que qualquer um de nós pensava. Esta determinação encheu-nos de extrema prostração e confundiu-nos com desespero; pois tínhamos poucas perspetivas de escapar com vida. No entanto, serrámos parte do gelo à volta dos navios para evitar que os danificasse; e assim mantivemo-los numa espécie de lagoa. Começámos então a arrastar os botes tão bem quanto podíamos em direção ao mar; mas, após dois ou três dias de trabalho, fizemos muito pouco progresso; de modo que alguns dos nossos corações falharam totalmente, e comecei realmente a considerar-me perdido, ao ver as calamidades que nos rodeavam. Enquanto estávamos neste trabalho árduo, caí uma vez numa lagoa que tínhamos feito entre algum gelo solto e estive muito perto de me afogar; mas providencialmente algumas pessoas estavam por perto e deram-me assistência imediata, escapando assim ao afogamento. A nossa condição deplorável, que mantinha o receio constante de perecermos no gelo, levou-me gradualmente a pensar na eternidade de uma maneira como nunca o tinha feito antes. Tinha os medos da morte sobre mim a cada hora, e estremeço ao pensar em encontrar o terrível rei dos terrores no estado natural em que então me encontrava, e estava extraordinariamente duvidoso quanto a uma eternidade feliz se morresse nele. Não tinha esperanças de que a minha vida fosse prolongada por muito tempo; pois víamos que a nossa existência não poderia durar muito no gelo depois de deixarmos os navios, que estavam agora fora de vista e a algumas milhas dos botes. A nossa aparência tornou-se verdadeiramente lamentável; a pálida prostração apoderou-se de cada semblante; muitos, que antes tinham sido blasfemos, nesta nossa angústia começaram a invocar o bom Deus do céu para o seu auxílio; e, no momento da nossa extrema necessidade, Ele ouviu-nos e, contra toda a esperança ou probabilidade humana, livrou-nos! Foi no décimo primeiro dia de os navios estarem assim presos, e no quarto de estarmos a puxar os botes desta forma, que o vento mudou para E.N.E. O tempo tornou-se imediatamente ameno e o gelo quebrou em direção ao mar, que ficava a S.O. de nós. Muitos de nós, ao ver isto, voltámos a bordo e, com todas as nossas forças, empurrámos os navios para qualquer água aberta que pudéssemos encontrar, e içámos todas as velas que pudemos; e agora, tendo uma perspetiva de sucesso, fizemos sinais para os botes e o restante das pessoas. Isto pareceu-nos como um perdão da morte; e feliz era o homem que pudesse chegar primeiro a bordo de qualquer navio, ou ao primeiro bote que pudesse encontrar. Seguimos então desta forma até chegarmos novamente à água aberta, o que conseguimos em cerca de trinta horas, para nossa infinita alegria e contentamento de coração. Assim que estivemos fora de perigo, lançámos âncora e reparámos os navios; e a 19 de agosto zarpámos deste extremo inabitado do mundo, onde o clima inóspito não oferece nem alimento nem abrigo, e nenhuma árvore ou arbusto de qualquer espécie cresce entre as suas rochas estéreis; mas tudo é um desolado e vasto descampado de gelo, que nem os raios constantes do sol durante seis meses do ano conseguem penetrar ou dissolver. O sol, estando agora em declínio, os dias encurtaram à medida que navegávamos para sul; e, no dia 28, na latitude 73, estava escuro às dez horas da noite. A 10 de setembro, na latitude 58-59, encontrámos um vendaval muito severo e mar alto, e embarcámos uma grande quantidade de água no espaço de dez horas. Isto obrigou-nos a trabalhar extraordinariamente arduamente em todas as nossas bombas durante um dia inteiro; e uma vaga, que atingiu o navio com mais força do que qualquer outra coisa do género que tivesse encontrado antes, deixou-o debaixo de água por algum tempo, de modo que pensámos que ele se iria afundar. Dois botes foram lavados dos bums, e o bote grande das calços: todas as outras coisas móveis no convés foram também levadas pela água, entre as quais se encontravam muitas coisas curiosas de diferentes tipos que tínhamos trazido da Gronelândia; e fomos obrigados, para aliviar o navio, a atirar alguns dos nossos canhões borda fora. Vimos um navio, ao mesmo tempo, em muito grande aflição, e os seus mastros tinham desaparecido; mas fomos incapazes de o ajudar. Perdemos agora de vista o Carcass até ao dia 26, quando vimos terra perto de Orfordness, ao largo de cujo local ele se juntou a nós. A partir daí navegámos para Londres, e no dia 30 chegámos a Deptford. E assim terminou a nossa viagem ao Ártico, para não pequena alegria de todos a bordo, depois de estarmos ausentes quatro meses; período no qual, com o risco iminente das nossas vidas, explorámos quase tão longe em direção ao Polo como 81 graus norte, e 20 graus de longitude este; sendo muito mais longe, segundo todos os relatos, do que qualquer navegador alguma vez se aventurou antes; no que provámos plenamente a impraticabilidade de encontrar uma passagem por aquele caminho para a Índia.

CAP. X.

O autor deixa o Doutor Irving e embarca num navio da Turquia--Relato de um homem negro ter sido raptado a bordo e enviado para as Índias Ocidentais, e os esforços infrutíferos do autor para obter a sua liberdade--Algum relato da forma da conversão do autor à fé em Jesus Cristo.

Terminada a nossa viagem ao Polo Norte, regressei a Londres com o Doutor Irving, com quem continuei durante algum tempo, período durante o qual comecei seriamente a refletir sobre os perigos de que tinha escapado, particularmente os da minha última viagem, o que deixou uma impressão duradoura na minha mente e, pela graça de Deus, provou ser mais tarde uma misericórdia para mim; levou-me a refletir profundamente sobre o meu estado eterno e a procurar o Senhor com todo o propósito de coração antes que fosse demasiado tarde. Regozijei-me grandemente; e agradeci de todo o coração ao Senhor por me ter dirigido a Londres, onde estava determinado a trabalhar para a minha própria salvação e, ao fazê-lo, obter um título para o céu, sendo este o resultado de uma mente obscurecida pela ignorância e pelo pecado.

Com o passar do tempo deixei o meu mestre, o Doutor Irving, o purificador de águas, e hospedei-me em Coventry-court, Haymarket, onde fui continuamente oprimido e muito preocupado com a salvação da minha alma, e estava determinado (pela minha própria força) a ser um cristão de primeira linha. Usei todos os meios para este fim; e, não sendo capaz de encontrar qualquer pessoa entre os meus conhecidos que concordasse comigo em matéria de religião, ou, na linguagem das escrituras, "que me mostrasse algum bem"; fiquei muito abatido e não sabia onde procurar alívio; contudo, frequentei primeiro as igrejas vizinhas, St. James's e outras, duas ou três vezes por dia, durante muitas semanas: ainda assim saía insatisfeito; faltava algo que eu não conseguia obter, e encontrei realmente mais alívio de coração lendo a minha bíblia em casa do que frequentando a igreja; e, estando decidido a ser salvo, segui outros métodos ainda. Primeiro fui entre os quakers, onde a palavra de Deus não era lida nem pregada, de modo que permaneci tão às escuras como sempre. Investiguei então os princípios católicos romanos, mas não fiquei minimamente satisfeito. Por fim, recorri aos judeus, o que de nada me serviu, pois o medo da eternidade atormentava diariamente a minha mente, e eu não sabia onde procurar abrigo contra a ira vindoura. No entanto, esta foi a minha conclusão, a todo o custo, ler os quatro evangelistas, e qualquer seita ou partido que eu encontrasse a aderir a eles, a esses eu me juntaria. Assim segui pesadamente sem qualquer guia que me dirigisse pelo caminho que conduz à vida eterna. Fiz perguntas a diferentes pessoas sobre a maneira de ir para o céu, e disseram-me caminhos diferentes. Aqui fiquei muito atordoado, e não consegui encontrar ninguém naquela altura mais justo do que eu, ou, na verdade, tão inclinado à devoção. Pensei que nem todos seríamos salvos (isto está de acordo com as sagradas escrituras), nem todos seriam condenados. Não encontrei ninguém no círculo dos meus conhecidos que guardasse inteiramente os dez mandamentos. Tão justo era eu aos meus próprios olhos, que estava convencido de que superava muitos deles nesse ponto, ao guardar oito dos dez; e achando aqueles que geralmente se intitulavam cristãos não tão honestos ou tão bons na sua moral como os turcos, pensei realmente que os turcos estavam num caminho de salvação mais seguro do que os meus vizinhos: de modo que, entre esperanças e medos, segui em frente, e os principais confortos que desfrutava eram na trompa francesa musical, que praticava então, e também em pentear cabelos. Tal era a minha situação há alguns meses, experimentando a desonestidade de muitas pessoas aqui. Determinei finalmente partir para a Turquia, e ali terminar os meus dias. Era agora o início da primavera de 1774. Procurei um mestre e encontrei um capitão John Hughes, comandante de um navio chamado Anglicania, a equipar-se no rio Tamisa, e com destino a Esmirna, na Turquia. Embarquei com ele como despenseiro; ao mesmo tempo, recomendei-lhe um homem negro muito esperto, John Annis, como cozinheiro. Este homem esteve a bordo do navio perto de dois meses a cumprir o seu dever: tinha anteriormente vivido muitos anos com o Sr. William Kirkpatrick, um cavalheiro da ilha de St. Kitts, de quem se separou por consentimento, embora mais tarde tenha tentado muitos esquemas para atrair o pobre homem. Tinha solicitado a muitos capitães que comerciavam com St. Kitts para o capturarem; e quando todas as suas tentativas e esquemas de rapto se revelaram infrutíferos, o Sr. Kirkpatrick veio ao nosso navio em Union Stairs na segunda-feira de Páscoa, quatro de abril, com dois barcos de remo e seis homens, tendo sabido que o homem estava a bordo; e ataram-no e levaram-no à força do navio, na presença da tripulação e do imediato, que o tinha detido depois de ter tido aviso para se afastar. Acredito que isto foi um negócio combinado: mas, de qualquer forma, certamente refletiu grande desgraça sobre o imediato e o capitão também, que, embora tivessem pedido ao homem oprimido para ficar a bordo, contudo não ajudaram minimamente a recuperá-lo, nem me pagaram um tostão do seu salário, que era de cerca de cinco libras. Provei ser o único amigo que ele tinha, que tentou devolver-lhe a liberdade se possível, tendo eu próprio conhecido a falta de liberdade. Enviei logo que pude para Gravesend, e obtive conhecimento do navio em que ele estava; mas, infelizmente, tinha zarpado na primeira maré depois de ele ter sido colocado a bordo. A minha intenção foi então imediatamente apreender o Sr. Kirkpatrick, que estava prestes a partir para a Escócia; e, tendo obtido um habeas corpus para ele, e conseguido um oficial de justiça para ir comigo até ao adro da igreja de St. Paul, onde ele vivia, ele, suspeitando de algo deste género, montou uma vigilância para estar atento. O facto de ser conhecido por eles levou-me a usar o seguinte estratagema: branqueei o meu rosto, para que não me reconhecessem, e isto teve o efeito desejado. Ele não saiu da sua casa naquela noite, e na manhã seguinte arranjei um plano bem urdido, apesar de ele ter um cavalheiro em sua casa para o representar. A minha orientação para o oficial de justiça, que conseguiu entrar na casa, foi a de o conduzir a um juiz, de acordo com o mandado. Quando lá chegou, a sua alegação foi que não tinha o corpo sob custódia, pelo que foi admitido a fiança. Procedi imediatamente para aquele filantropo, o Esq. Granville Sharp, que me recebeu com a maior bondade e me deu todas as instruções necessárias para a ocasião. Deixei-o na plena esperança de que conseguiria a liberdade do infeliz homem, com o mais caloroso sentimento de gratidão para com o Sr. Sharp pela sua bondade; mas, ai de mim! o meu advogado revelou-se infiel; levou o meu dinheiro, fez-me perder muitos meses de emprego e não fez o menor bem à causa: e quando o pobre homem chegou a St. Kitts, foi, conforme o costume, estacado ao chão com quatro pinos através de uma corda, dois nos pulsos e dois nos tornozelos, foi cortado e açoitado sem misericórdia, e depois carregado cruelmente com ferros à volta do pescoço. Recebi duas cartas muito comoventes dele, enquanto ele estava nesta situação; e também me foi dito por algumas famílias muito respeitáveis agora em Londres, que o viram em St. Kitts, no mesmo estado em que permaneceu até que a morte bondosa o libertou das mãos dos seus tiranos. Durante este negócio desagradável, estive sob fortes convicções de pecado e pensei que o meu estado era pior do que o de qualquer homem; a minha mente estava inexplicavelmente perturbada; desejei muitas vezes a morte, embora ao mesmo tempo estivesse convencido de que não estava de todo preparado para essa terrível convocação. Sofrendo muito com vilões na causa anterior, e estando muito preocupado com o estado da minha alma, estas coisas (mas particularmente a última) deixaram-me muito em baixo; de modo que me tornei um fardo para mim mesmo, e via todas as coisas à minha volta como vacuidade e vaidade, que não podiam dar qualquer satisfação a uma consciência perturbada. Estava novamente determinado a ir para a Turquia, e resolvi, naquela altura, nunca mais voltar a Inglaterra. Contratei-me como despenseiro a bordo de um navio turco (o Wester Hall, Cap. Linna); mas fui impedido pelo meu antigo capitão, o Sr. Hughes, e outros. Tudo isto parecia ser contra mim, e o único conforto que então experimentei foi a leitura das sagradas escrituras, onde vi que "não há nada de novo debaixo do sol", Ecles. i. 9; e o que estava destinado para mim, eu devia submeter-me. Assim continuei a viajar com muito peso, e frequentemente murmurei contra o Todo-Poderoso, particularmente nas suas providências; e, terrível de pensar! comecei a blasfemar, e desejei muitas vezes ser qualquer coisa menos um ser humano. Nestes severos conflitos, o Senhor respondeu-me com terríveis "visões noturnas, quando o sono profundo cai sobre os homens, em adormecimentos sobre a cama", Job xxxiii. 15. Aprouve-lhe, em muita misericórdia, dar-me a ver, e em alguma medida a compreender, a grande e terrível cena do dia do juízo, que "nenhuma pessoa impura, nenhuma coisa profana, pode entrar no reino de Deus", Efés. v. 5. Eu teria então, se fosse possível, mudado a minha natureza com o verme mais insignificante da terra; e estava pronto para dizer aos montes e às rochas "caiam sobre mim", Apoc. vi. 16; mas tudo em vão. Solicitei então ao divino Criador que me concedesse um pequeno espaço de tempo para me arrepender das minhas loucuras e vís iniquidades, que sentia serem graves. O Senhor, nas suas multiformes misericórdias, aprouve-lhe conceder o meu pedido, e estando ainda em estado de tempo, o sentimento das misericórdias de Deus era tão grande na minha mente quando acordei, que a minha força falhou-me inteiramente por muitos minutos, e fiquei excessivamente fraco. Esta foi a primeira misericórdia espiritual de que alguma vez tive consciência, e estando em terreno de oração, assim que recuperei um pouco de força, saí da cama e vesti-me, invoquei o Céu do mais íntimo da minha alma, e pedi fervorosamente que Deus nunca mais me permitisse blasfemar o seu santíssimo nome. O Senhor, que é longânime e cheio de compaixão para com tão pobres rebeldes como nós somos, condescendeu em ouvir e responder. Senti que era totalmente profano, e vi claramente que mau uso tinha feito das faculdades com que fui dotado; foram-me dadas para glorificar a Deus com elas; pensei, portanto, que era melhor não as ter aqui, e entrar na vida eterna, do que abusar delas e ser lançado no fogo do inferno. Rezei para ser dirigido, se houvesse alguém mais santo do que aqueles com quem eu estava familiarizado, para que o Senhor os apontasse para mim. Apelou ao Sondador de corações, se eu não desejava amá-Lo mais, e servi-Lo melhor. Apesar de tudo isto, o leitor pode facilmente discernir, se for um crente, que eu ainda estava na escuridão da natureza. A certa altura, odiei a casa em que me hospedava, porque o santíssimo nome de Deus era blasfemado nela; então vi a palavra de Deus verificada, i.e., "Antes que clamem, eu responderei; e enquanto ainda estiverem a falar, eu ouvirei."

Eu tinha um grande desejo de ler a bíblia o dia todo em casa; mas não tendo um lugar conveniente para retiro, deixei a casa durante o dia, em vez de ficar entre os perversos; e naquele dia, enquanto caminhava, aprouve a Deus dirigir-me a uma casa onde estava um velho marinheiro, que experimentou muito do amor de Deus derramado no seu coração. Ele começou a conversar comigo; e, como eu desejava amar o Senhor, a sua conversa alegrou-me grandemente; e, na verdade, nunca tinha ouvido antes o amor de Cristo pelos crentes exposto de tal maneira, e num ponto de vista tão claro. Aqui tive mais perguntas a fazer ao homem do que o seu tempo lhe permitiria responder; e nessa hora memorável entrou um ministro dissidente; juntou-se à nossa conversa, e fez-me algumas perguntas; entre outras, onde ouvia o evangelho pregado. Eu não sabia o que ele queria dizer com ouvir o evangelho; disse-lhe que tinha lido o evangelho: e ele perguntou onde ia à igreja, ou se ia ou não. Ao que respondi: "Frequento St. James's, St. Martin's e St. Ann's, Soho;"-- "Então", disse ele, "é um membro da igreja." Respondi que sim. Ele convidou-me então para uma festa de amor na sua capela naquela noite. Aceitei a oferta e agradeci-lhe; e logo depois de ele se ir embora, tive mais alguma conversa com o velho cristão, somada a alguma leitura proveitosa, o que me deixou excessivamente feliz. Quando o deixei, lembrou-me de vir à festa; assegurei-lhe que lá estaria. Assim nos separámos, e ponderei sobre a conversa celestial que tinha passado entre estes dois homens, o que animou o meu então pesado e abatido espírito mais do que qualquer coisa que tinha encontrado há muitos meses. Contudo, achei o tempo longo para ir ao meu suposto banquete. Também desejei muito a companhia destes homens amigáveis; a sua companhia agradou-me muito; e achei os cavalheiros muito gentis, ao convidar-me, um estranho, para uma festa; mas quão singular me pareceu, tê-la numa capela! Quando a hora desejada chegou fui, e felizmente o velho estava lá, que gentilmente me sentou, pois pertencia ao lugar. Fiquei muito espantado ao ver o lugar cheio de gente, e sem sinais de comer e beber. Havia muitos ministros na companhia. Finalmente começaram por distribuir hinos, e entre o canto o ministro dedicou-se à oração; em suma, não sabia o que fazer desta visão, nunca tendo visto nada do género na minha vida antes. Alguns dos convidados começaram a relatar a sua experiência, de acordo com o que li nas Escrituras; muito foi dito por cada orador sobre a providência de Deus, e as suas indizíveis misericórdias, para com cada um deles. Isto eu sabia em grande medida, e podia juntar-me a eles de todo o coração. Mas quando falavam de um estado futuro, pareciam estar totalmente certos do seu chamamento e eleição por Deus; e que ninguém poderia alguma vez separá-los do amor de Cristo, ou arrancá-los das suas mãos. Isto encheu-me de total consternação, entremeada de admiração. Fiquei tão espantado que não sabia o que pensar da companhia; o meu coração foi atraído e as minhas afeições foram alargadas. Desejei ser tão feliz como eles, e estava convencido na minha mente de que eles eram diferentes do mundo "que jaz no maligno", 1 João v. 19. A sua linguagem e canto, etc., harmonizavam bem; fiquei totalmente vencido, e desejei viver e morrer assim. Por último, algumas pessoas no local produziram alguns cestos arrumados cheios de pãezinhos, que distribuíram; e cada pessoa comunicou com o seu vizinho, e bebeu água de diferentes canecas, que passaram a todos os presentes. Este tipo de comunhão cristã nunca tinha visto, nem nunca pensei ver na terra; fez-me lembrar plenamente o que tinha lido nas sagradas escrituras, sobre os cristãos primitivos, que amavam uns aos outros e partiam o pão. Ao participar dele, mesmo de casa em casa, este entretenimento (que durou cerca de quatro horas) terminou com canto e oração. Foi a primeira festa da alma a que alguma vez assisti. Estas últimas vinte e quatro horas produziram-me coisas, espirituais e temporais, a dormir e a acordar, juízo e misericórdia, que não podia deixar de admirar a bondade de Deus, em dirigir o pecador cego e blasfemo no caminho que ele não conhecia, mesmo entre os justos; e em vez de juízo ele mostrou misericórdia, e ouvirá e responderá às orações e súplicas de cada filho pródigo que regressa:

Ó! à graça que grande devedor Diariamente sou forçado a ser!

Depois disto, resolvi ganhar o Céu se possível; e se perecesse, pensei que deveria ser aos pés de Jesus, rezando-lhe pela salvação. Depois de ter sido testemunha ocular de parte da felicidade que acompanhava aqueles que temiam a Deus, não sabia como, com qualquer propriedade, regressar aos meus aposentos, onde o nome de Deus era continuamente profanado, o que me causava o maior horror. Pausei na minha mente por algum tempo, sem saber o que fazer; se alugar uma cama noutro lugar, ou voltar para casa. Finalmente, temendo que pudesse surgir um mau relatório, fui para casa, com uma despedida ao jogo de cartas e piadas vãs, etc. Vi que o tempo era muito curto, a eternidade longa, e muito próxima, e vi aquelas pessoas apenas abençoadas que eram encontradas prontas ao chamamento da meia-noite, ou quando o Juiz de todos, tanto vivos como mortos, vier.

No dia seguinte tomei coragem e fui a Holborn, para ver o meu novo e digno conhecido, o velho Sr. C----; ele, com a sua esposa, uma mulher graciosa, estavam a trabalhar na tecelagem de seda; pareciam mutuamente felizes, e ambos muito contentes por me verem, e eu mais ainda por vê-los. Sentei-me e conversámos muito sobre assuntos da alma, etc. O seu discurso era extraordinariamente delicioso, edificante e agradável. Não sabia, por fim, como deixar este par amável, até que o tempo me chamou. Ao ir embora, emprestaram-me um pequeno livro, intitulado "A Conversão de um Índio". Era em perguntas e respostas. O pobre homem veio pelo mar até Londres, para indagar sobre o Deus dos cristãos, o qual (por rica misericórdia) ele encontrou, e não fez a sua jornada em vão. O livro acima foi de grande utilidade para mim e, naquela altura, foi um meio de fortalecer a minha fé; contudo, ao partir, ambos convidaram-me a visitá-los quando me aprouvesse. Isto alegrou-me, e tive o cuidado de tirar todo o proveito que pude disso; e, até esse ponto, agradeci a Deus por tal companhia e desejos. Rezei para que os muitos males que sentia dentro de mim pudessem ser afastados e que eu pudesse ser desmamado das minhas anteriores companhias carnais. Isto foi rapidamente ouvido e atendido, e em breve fui ligado àqueles a quem a escritura chama os excelentes da terra. Ouvi o evangelho pregado, e os pensamentos do meu coração e as minhas ações foram expostos pelos pregadores, e o caminho da salvação somente por Cristo foi evidentemente declarado. Assim continuei feliz por perto de dois meses; e ouvi, uma vez durante este período, um reverendo cavalheiro falar de um homem que tinha deixado esta vida em plena certeza de que ia para a glória. Fiquei muito espantado com a afirmação; e indaguei de forma muito deliberada como ele poderia chegar a este conhecimento. Fui plenamente respondido, em conformidade com o que li nos oráculos da verdade; e foi-me dito também que, se eu não experimentasse o novo nascimento e o perdão dos meus pecados, através do sangue de Cristo, antes de morrer, não poderia entrar no reino dos céus. Não sabia o que pensar deste relato, pois achava que guardava oito mandamentos em cada dez; então o meu digno intérprete disse-me que eu não o fazia, nem poderia; e acrescentou que nenhum homem jamais guardou ou poderia guardar os mandamentos, sem ofender num ponto. Achei que isto soava muito estranho e deixou-me perplexo durante muitas semanas; pois achava que era uma palavra dura. Perguntei então ao meu amigo, Sr. L----d, que era escriturário numa capela, por que é que os mandamentos de Deus foram dados, se não podíamos ser salvos por eles? Ao que ele respondeu: "A lei é um mestre-escola para nos levar a Cristo", que sozinho podia guardar e guardou os mandamentos, e cumpriu todos os seus requisitos para o seu povo eleito, até mesmo aqueles a quem Ele tinha dado uma fé viva, e os pecados desses vasos escolhidos já tinham sido expiados e perdoados enquanto viviam; e se eu não experimentasse o mesmo antes da minha partida, o Senhor diria naquele grande dia para mim: "Apartai-vos de mim, malditos", etc., etc., pois Deus apareceria fiel nos seus juízos para com os ímpios, assim como seria fiel em mostrar misericórdia àqueles que foram ordenados para isso antes que o mundo existisse; portanto, Cristo Jesus parecia ser tudo em todos para a alma daquele homem. Fiquei muito ferido com este discurso e colocado num dilema como nunca esperara. Perguntei-lhe se, caso morresse naquele momento, se tinha a certeza de entrar no reino de Deus? E acrescentei: "Sabe que os seus pecados lhe são perdoados?" Ele respondeu afirmativamente. Então a confusão, a raiva e o descontentamento apoderaram-se de mim, e hesitei muito perante este tipo de doutrina; isso deixou-me num impasse, sem saber em que acreditar, se na salvação pelas obras ou somente pela fé em Cristo. Pedi-lhe que me dissesse como poderia saber quando os meus pecados me fossem perdoados. Ele garantiu-me que não podia, e que ninguém, exceto Deus, poderia fazê-lo. Disse-lhe que era muito misterioso; mas ele afirmou que era realmente um facto, e citou muitas passagens das escrituras imediatamente ao ponto, às quais não pude fazer qualquer réplica. Ele desejou então que eu rezasse a Deus para me mostrar estas coisas. Respondi que rezava a Deus todos os dias. Ele disse: "Percebo que é um homem da igreja." Respondi que era. Ele implorou-me então que pedisse a Deus que me mostrasse o que eu era, e o verdadeiro estado da minha alma. Achei a oração muito curta e estranha; por isso despedimo-nos por aquele momento. Pesei bem todas estas coisas e não pude deixar de pensar como era possível um homem saber que os seus pecados lhe foram perdoados nesta vida. Desejei que Deus revelasse esta mesma coisa a mim. Pouco tempo depois disto, fui à capela de Westminster; o Rev. Sr. P---- pregou sobre Lamentações iii. 39. Foi um sermão maravilhoso; ele mostrou claramente que um homem vivo não tinha causa para se queixar do castigo dos seus pecados; ele justificou evidentemente o Senhor em todos os seus tratos com os filhos dos homens; ele também mostrou a justiça de Deus no castigo eterno dos ímpios e impenitentes. O discurso pareceu-me como uma espada de dois gumes, cortando em todas as direções; proporcionou-me muita alegria, misturada com muitos medos sobre a minha alma; e, quando terminou, ele anunciou que pretendia, na semana seguinte, examinar todos aqueles que pretendiam comparecer à mesa do Senhor. Agora pensava muito nas minhas boas obras e, ao mesmo tempo, duvidava se era um objeto adequado para receber o sacramento; fiquei cheio de meditação até ao dia do exame. Contudo, fui à capela e, embora muito angustiado, dirigi-me ao reverendo cavalheiro, pensando que, se eu não estivesse correto, ele se esforçaria por convencer-me disso. Quando conversei com ele, a primeira coisa que me perguntou foi o que eu sabia de Cristo. Disse-lhe que acreditava nele e que tinha sido batizado em seu nome. "Então", disse ele, "quando foi trazido ao conhecimento de Deus? E como foi convencido do pecado?" Eu não sabia o que ele queria dizer com estas perguntas; disse-lhe que guardava oito mandamentos em cada dez; mas que, por vezes, jurava a bordo do navio, e outras vezes quando estava em terra, e quebrava o sábado. Ele perguntou-me então se sabia ler. Respondi: "Sim." "Então", disse ele, "não lê na Bíblia que aquele que ofende num ponto é culpado de todos?" Disse: "Sim." Então ele garantiu-me que um pecado não expiado era tão suficiente para condenar uma alma como uma via de água era para afundar um navio. Aqui fui atingido pelo temor; pois o ministro exortou-me muito e lembrou-me da brevidade do tempo e da extensão da eternidade, e que nenhuma alma não regenerada, ou qualquer coisa imunda, poderia entrar no reino dos Céus. Ele não me admitiu como comungante; mas recomendou-me que lesse as escrituras e ouvisse a palavra pregada, e não negligenciasse a oração fervorosa a Deus, que prometeu ouvir as súplicas daqueles que o buscam com sinceridade piedosa; por isso despedi-me dele, com muitos agradecimentos, e resolvi seguir o seu conselho, na medida em que o Senhor condescendesse em permitir-me. Durante este tempo, estive sem emprego, nem era provável que conseguisse uma situação adequada para mim, o que me obrigou a ir mais uma vez para o mar. Contratei-me como despenseiro de um navio chamado Hope, do Capitão Richard Strange, com destino de Londres para Cádis, em Espanha. Pouco tempo depois de estar a bordo, ouvi o nome de Deus ser muito blasfemado, e temi grandemente, receando apanhar a horrível infeção. Pensei que, se pecasse novamente, depois de ter a vida e a morte colocadas evidentemente diante de mim, iria certamente para o inferno. A minha mente estava extraordinariamente irritada, e murmurei muito contra os tratos providenciais de Deus comigo, e estava descontente com os mandamentos, por não poder ser salvo pelo que tinha feito; odiava todas as coisas e desejava nunca ter nascido; a confusão apoderou-se de mim e desejei ser aniquilado. Um dia, estava parado mesmo na borda da popa do navio, a pensar em afogar-me; mas esta escritura foi instantaneamente impressa na minha mente — "que nenhum homicida tem a vida eterna nela permanente", 1 João iii. 15. Então parei e considerei-me o homem mais infeliz que vivia. Novamente fui convencido de que o Senhor era melhor para mim do que eu merecia, e que eu estava em melhor situação no mundo do que muitos. Depois disto comecei a temer a morte; inquietei-me, lamentei-me e rezei, até me tornar um fardo para os outros, mas ainda mais para mim mesmo. Finalmente, decidi pedir o meu pão em terra em vez de ir novamente para o mar entre um povo que não temia a Deus, e implorei ao capitão três vezes diferentes que me despedisse; ele não quis, mas cada vez deu-me maior encorajamento para continuar com ele, e todos a bordo mostraram-me grande civilidade: apesar de tudo isto, eu não estava disposto a embarcar novamente. Finalmente, alguns dos meus amigos religiosos aconselharam-me, dizendo que era a minha vocação legítima, consequentemente era o meu dever obedecer, e que Deus não estava confinado a um lugar, etc., etc., particularmente o Sr. G.S., o governador de Tothil-fields Bridewell, que se compadeceu do meu caso e leu o décimo primeiro capítulo de Hebreus para mim, com exortações. Ele rezou por mim, e acreditei que ele prevaleceu em meu favor, pois o meu fardo foi então grandemente removido, e encontrei uma resignação sentida à vontade de Deus. O bom homem deu-me uma Bíblia de bolso e o "Alarme aos Inconvertidos" de Allen. Separamo-nos e, no dia seguinte, voltei a bordo. Navegámos para Espanha e encontrei favor com o capitão. Foi no quarto dia do mês de setembro que navegámos de Londres; tivemos uma viagem deliciosa até Cádis, onde chegámos no dia vinte e três do mesmo mês. O lugar é forte, tem uma bela vista e é muito rico. Os galeões espanhóis frequentam aquele porto, e alguns chegaram enquanto lá estávamos. Tive muitas oportunidades de ler as escrituras. Lutei arduamente com Deus em oração fervorosa, que declarou na sua palavra que ouviria os gemidos e os suspiros profundos dos pobres de espírito. Descobri isto verificado para o meu total espanto e conforto da seguinte maneira:

Na manhã do dia 6 de outubro (peço-vos que prestem atenção), ou durante todo aquele dia, pensei que veria ou ouviria algo sobrenatural. Tive um impulso secreto na minha mente de algo que estava para acontecer, o que me levou continuamente durante aquele tempo a um trono de graça. Aprouve a Deus capacitar-me para lutar com ele, como Jacó fez: rezei para que, se a morte súbita acontecesse e eu perecesse, pudesse ser aos pés de Cristo.

À noite do mesmo dia, enquanto lia e meditava no quarto capítulo de Atos, décimo segundo versículo, sob as apreensões solenes da eternidade, e refletindo sobre as minhas ações passadas, comecei a pensar que tinha vivido uma vida moral e que tinha uma base adequada para acreditar que tinha um interesse no favor divino; mas, ainda meditando sobre o assunto, não sabendo se a salvação era obtida em parte pelas nossas próprias boas ações, ou apenas como o dom soberano de Deus; nesta profunda consternação, o Senhor aprouve romper na minha alma com os seus raios brilhantes de luz celestial; e num instante, por assim dizer, removendo o véu, e deixando entrar luz num lugar escuro, vi claramente com o olho da fé o Salvador crucificado sangrando na cruz no monte Calvário: as escrituras tornaram-se um livro aberto, vi-me como um criminoso condenado sob a lei, que veio com toda a sua força à minha consciência, e quando "veio o mandamento, o pecado reviveu, e eu morri", vi o Senhor Jesus Cristo na sua humilhação, carregado e suportando o meu opróbrio, pecado e vergonha. Percebi então claramente que pelas obras da lei nenhuma carne viva poderia ser justificada. Fui então convencido de que pelo primeiro Adão veio o pecado, e pelo segundo Adão (o Senhor Jesus Cristo) todos os que são salvos devem ser vivificados. Foi-me dado naquele momento saber o que era nascer de novo, João iii. 5. Vi o oitavo capítulo aos Romanos, e as doutrinas dos decretos de Deus, verificadas em conformidade com os seus propósitos eternos, duradouros e imutáveis. A palavra de Deus era doce ao meu paladar, sim, mais doce do que o mel e o favo de mel. Cristo foi revelado à minha alma como o mais excelente entre dez mil. Estes momentos celestiais foram realmente como vida para os mortos, e o que João chama de penhor do Espírito. Isto foi deveras inefável, e acredito firmemente que é inegável para muitos. Agora, cada circunstância providencial importante que me aconteceu, desde o dia em que fui tirado dos meus pais até àquela hora, estava então perante a minha vista, como se tivesse acabado de ocorrer. Eu estava consciente da mão invisível de Deus, que me guiou e protegeu quando, na verdade, eu não o sabia: ainda assim o Senhor perseguiu-me, embora eu a desprezasse e desconsiderasse; esta misericórdia derreteu-me. Quando considerei o meu estado pobre e miserável, chorei, vendo que grande devedor eu era à graça soberana e gratuita. Agora o etíope estava disposto a ser salvo por Jesus Cristo, o único fiador do pecador, e também a não confiar em nenhuma outra pessoa ou coisa para a salvação. O "eu" era odioso, e boas obras ele não tinha, pois é Deus quem opera em nós tanto o querer como o fazer. As coisas espantosas daquela hora nunca poderão ser contadas — foi alegria no Espírito Santo! Senti uma mudança espantosa; o fardo do pecado, as fauces abertas do inferno e os medos da morte, que me pesavam antes, perderam agora o seu horror; de facto, pensei que a morte seria agora o melhor amigo terreno que alguma vez tive. Tais foram a minha dor e alegria que acredito que raramente são experimentadas. Estava banhado em lágrimas e disse: "Quem sou eu para que Deus olhe assim para mim, o mais vil dos pecadores?" Senti uma preocupação profunda pela minha mãe e amigos, o que me levou a rezar com novo ardor; e, no abismo do pensamento, vi as pessoas inconvertidas do mundo num estado muito terrível, estando sem Deus e sem esperança.

Aprouve a Deus derramar sobre mim o Espírito de oração e a graça da súplica, de modo que, em altas aclamações, fui capacitado a louvar e glorificar o seu santíssimo nome. Quando saí da cabine e contei a algumas das pessoas o que o Senhor tinha feito por mim, ai, quem poderia entender-me ou acreditar no meu relato! Ninguém senão aqueles a quem o braço do Senhor foi revelado. Tornei-me um bárbaro para eles ao falar do amor de Cristo: o seu nome era para mim como perfume derramado; de facto, era doce para a minha alma, mas para eles uma pedra de tropeço. Pensei que o meu caso era singular, e cada hora parecia um dia até chegar a Londres, pois desejava muito estar com alguém a quem pudesse contar as maravilhas do amor de Deus por mim, e juntar-me em oração àquele a quem a minha alma amava e por quem ansiava. Tive comoções incomuns dentro de mim, tais como poucos podem dizer algo a respeito. Agora a bíblia era a minha única companheira e conforto; valorizei-a muito, com muitos agradecimentos a Deus por poder lê-la por mim mesmo, e não ser deixado para ser lançado de um lado para o outro ou guiado pelos artifícios e noções dos homens. O valor de uma alma não pode ser dito — que o Senhor dê ao leitor um entendimento nisto. Sempre que olhava para a bíblia, via coisas novas, e muitos textos eram imediatamente aplicados a mim com grande conforto, pois eu sabia que a palavra de salvação era enviada a mim. Tive a certeza de que o Espírito que ditou a palavra abriu o meu coração para receber a verdade dela tal como está em Jesus — que o mesmo Espírito me capacitou a agir com fé nas promessas que eram tão preciosas para mim, e me capacitou a acreditar para a salvação da minha alma. Pela graça gratuita, fiquei persuadido de que tinha parte na primeira ressurreição, e fui "iluminado com a luz dos viventes", Jó xxxiii. 30. Desejei um homem de Deus com quem pudesse conversar: a minha alma era como os carros de Aminadabe, Cânticos vi. 12. Estas, entre outras, foram as promessas preciosas que foram tão poderosamente aplicadas a mim: "Tudo o que pedirdes em oração, acreditando, recebereis", Mateus xxi. 22. "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou", João xiv. 27. Vi o bendito Redentor como a fonte da vida e o poço da salvação. Experimentei-o como tudo em todos; ele tinha-me trazido por um caminho que eu não conhecia, e tinha endireitado os caminhos tortuosos. Então, em seu nome, ergui o meu Ebenezer, dizendo: "Até aqui o Senhor nos ajudou": e pude dizer aos pecadores à minha volta: "Vejam que Salvador eu tenho!" Assim fui eu, pelo ensino daquela divindade todo-gloriosa, o grande Um em Três, e Três em Um, confirmado nas verdades da bíblia, esses oráculos da verdade eterna, sobre os quais toda alma viva deve permanecer ou cair eternamente, em conformidade com Atos iv. 12. "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos, senão apenas Cristo Jesus." Que Deus dê ao leitor um entendimento correto destes factos! Para aquele que acredita, todas as coisas são possíveis, mas para os descrentes nada é puro, Tito i. 15. Durante este período permanecemos em Cádis até o nosso navio ser carregado. Navegámos por volta do quarto dia de novembro; e, tendo uma boa passagem, chegámos a Londres no mês seguinte, para meu conforto, com sentida gratidão a Deus pelas suas ricas e inefáveis misericórdias. No meu regresso, tive apenas um texto que me intrigou, ou com o qual o diabo se esforçou por me atormentar, a saber, Romanos xi. 6. E, como tinha ouvido falar do Reverendo Sr. Romaine e do seu grande conhecimento das escrituras, desejei muito ouvi-lo pregar. Um dia fui à igreja de Blackfriars e, para a minha grande satisfação e surpresa, ele pregou sobre esse mesmo texto. Ele mostrou muito claramente a diferença entre as obras humanas e a eleição gratuita, que é de acordo com a vontade e o prazer soberanos de Deus. Estas boas novas libertaram-me inteiramente, e saí da igreja a regozijar-me, vendo que as minhas manchas eram as dos filhos de Deus. Fui à Capela de Westminster e vi alguns dos meus velhos amigos, que ficaram contentes quando perceberam a maravilhosa mudança que o Senhor tinha operado em mim, particularmente o Sr. G---- S----, o meu digno conhecido, que era um homem de um espírito escolhido e tinha grande zelo pelo serviço do Senhor. Desfrutei da sua correspondência até ele falecer no ano de 1784. Fui novamente examinado naquela mesma capela e fui recebido na comunhão da igreja entre eles: regozijei-me em espírito, fazendo melodia no meu coração ao Deus de todas as minhas misericórdias. Agora, o meu único desejo era ser dissolvido e estar com Cristo — mas, ai de mim! devo esperar pelo meu tempo designado.

Ao ser levado da minha terra natal, Por um bando cruel e injusto, Como o pavor incomum prevaleceu! Meus suspiros já não pude ocultar.

"Para aliviar a mente, frequentemente me esforcei, E tentei remover o meu tormento: Cantava, e entrecortava com suspiros — Tentei sufocar a culpa com o pecado.

"Mas ó! nem tudo o que eu podia fazer Detinha a corrente do meu pesar; A convicção ainda mostrava a minha vileza; Quão grande a minha culpa — quão longe de Deus!

"Impedido de morrer, Nem podendo a um refúgio bondoso fugir; Um estado de órfão tive de lamentar, — Abandonado por todos, e deixado desamparado."

Aqueles que contemplavam o meu semblante abatido Não podiam adivinhar os meus pesares invisíveis: Pela aparência não podiam conhecer As tribulações pelas quais eu vadeava.

"Luxúria, raiva, blasfêmia e orgulho, Com legiões de tais males ao lado, Perturbavam os meus pensamentos," enquanto dúvidas e medos Nublavam e escureciam a maior parte dos meus anos.

"Suspiros agora já não se continham — Exalavam a angústia da minha mente: Desejei a morte, mas reprimi a palavra, E frequentemente rezava ao Senhor."

Infeliz, mais do que alguns na terra, Pensei no lugar que me deu o nascimento — Pensamentos estranhos oprimiam — enquanto eu respondia "Por que não morri na Etiópia?"

E por que assim poupado, perto do inferno? — Só Deus sabia — eu não podia dizer! "Uma cerca bamba, uma parede que se curva Julguei-me desde a queda."

"Muitas vezes meditava, perto do desespero, Enquanto pássaros melodiosos enchiam o ar: Três vezes felizes canoros, sempre livres, Quão abençoados eram eles comparados a mim!"

Assim, todas as coisas acrescentavam à minha dor, Enquanto o pesar me obrigava a queixar; Quando nuvens de sabre começavam a surgir A minha mente tornava-se mais escura que os céus.

A nação inglesa chamada a deixar, Como o meu peito arquejou com pesares! Ansiava por descanso — gritava "Ajuda-me, Senhor! Alguma mitigação, Senhor, concede!"

Contudo, adiante, abatido, eu ia — Dores latejantes no coração estavam contidas; Nem terra, nem mar podiam conforto dar, Nada a minha mente ansiosa aliviar.

Cansado do trabalho, ainda desconhecido De todos, exceto Deus e eu mesmo, Numerosos meses pela paz me esforcei, E numerosos inimigos tive de provar.

Inurado a perigos, pesares e dores, Treinado em meio a perigos, mortes e inimigos, Eu disse: "Deve ser sempre assim? — Nenhuma quietude me é permitida."

Dura sorte, e mais do que pesado fado! Rezei a Deus: "Não te esqueças de mim — O que ordenares, de boa vontade suportarei; Mas ó! livra-me do desespero!"

Esforços e lutas pareciam em vão; Nada que eu fizesse podia aliviar a minha dor: Então entreguei as minhas obras e vontade, Confessei e reconheci que o meu destino era o inferno!

Como algum pobre prisioneiro no tribunal, Consciente da culpa, do pecado e do medo, Arrazoado, e autocondenado, eu estava — "Perdido no mundo, e no meu sangue!"

Contudo aqui, em meio às nuvens mais negras confinado, Um raio de Cristo, a estrela da alva, brilhou; Certamente, pensei, se Jesus quiser, Ele pode de uma vez assinar a minha libertação.

Eu, ignorante da sua justiça, Estabeleci as minhas labutas no seu lugar; "Esqueci por que o seu sangue foi derramado, E orei e jejuai em seu lugar."

Ele morreu pelos pecadores — eu sou um! Poderia o seu sangue por mim expiar? Embora eu não seja nada além de pecado, Certamente ele pode tornar-me limpo!

Assim a luz entrou, e eu acreditei; A mim mesmo esqueci, e ajuda recebi! O meu Salvador então soube que encontrei, Pois, aliviado da culpa, já não gemia.

Ó, hora feliz, na qual deixei De lamentar, pois então encontrei um descanso! A minha alma e Cristo eram agora como um — A tua luz, ó Jesus, em mim brilhou!

Bendito seja o teu nome, pois agora sei Que eu e as minhas obras nada podemos fazer; "O Senhor sozinho pode resgatar o homem — Pois por isso o Cordeiro imaculado foi morto!"

Quando sacrifícios, obras e oração, Provaram-se vãos, e ineficazes foram, "Eis que então venho!" o Salvador gritou, E, sangrando, inclinou a cabeça e morreu!

Ele morreu por todos os que jamais viram Nenhuma ajuda neles, nem pela lei: — Eu isto vi; e alegremente reconheço "A salvação é somente por Cristo!"

CAP. XI.

O autor embarca num navio com destino a Cádis — Está prestes a naufragar — Vai a Málaga — Catedral notável e bela lá — O autor discute com um padre papista — Recolhe onze homens miseráveis no mar ao retornar para a Inglaterra — Compromete-se novamente com o Doutor Irving para acompanhá-lo à Jamaica e à Costa dos Mosquitos — Encontra um príncipe indígena a bordo — O autor tenta instruí-lo nas verdades do Evangelho — Frustrado pelo mau exemplo de alguns no navio — Chegam à Costa dos Mosquitos com alguns escravos que compraram na Jamaica, e começam a cultivar uma plantação — Algum relato dos modos e costumes dos índios Mosquitos — Dispositivo bem-sucedido do autor para conter um tumulto entre eles — Entretenimento curioso dado por eles ao Doutor Irving e ao autor, que deixa a costa e vai para a Jamaica — É barbaramente tratado por um homem com quem se comprometeu para a sua passagem — Escapa e vai ao almirante dos Mosquitos, que o trata com bondade — Consegue outra embarcação e vai a bordo — Instâncias de mau tratamento — Encontra o Doutor Irving — Chega à Jamaica — É enganado pelo seu capitão — Deixa o Doutor e vai para a Inglaterra.

Quando o nosso navio ficou pronto para o mar novamente, fui implorado pelo capitão para ir nele mais uma vez; mas, como eu me sentia agora tão feliz quanto poderia desejar nesta vida, por algum tempo recusei; no entanto, o conselho dos meus amigos finalmente prevaleceu; e, em total resignação à vontade de Deus, embarquei novamente para Cádis em março de 1775. Tivemos uma viagem muito boa, sem qualquer acidente material, até chegarmos ao largo da Baía de Cádis; quando num domingo, exatamente enquanto entrávamos no porto, o navio bateu contra uma rocha e arrancou uma tábua do bojo, que é a que fica junto à quilha. Num instante, todos os homens ficaram na maior confusão e começaram com altos gritos a clamar a Deus que tivesse misericórdia deles. Embora eu não soubesse nadar e não visse maneira de escapar da morte, não senti pavor na minha situação de então, não tendo desejo de viver. Até me regozijei em espírito, pensando que esta morte seria glória súbita. Mas a plenitude do tempo ainda não tinha chegado. As pessoas perto de mim ficaram muito espantadas ao ver-me tão calmo e resignado; mas contei-lhes da paz de Deus, que através da graça soberana eu desfrutava, e estas palavras estavam naquele instante na minha mente:

"Cristo é o meu piloto sábio, a minha bússola é a sua palavra; Minha alma a cada tempestade desafia, enquanto tiver tal Senhor. Confio na sua fidelidade e poder, Para me salvar na hora da provação. Embora rochas e areias movediças profundas por toda a minha passagem jazam, Contudo Cristo guardará com segurança e guiar-me-á com o seu olhar. Como posso afundar com tal suporte, Que sustenta o mundo e todas as coisas?"

Nesta altura, havia muitos grandes barcos espanhóis de passagem cheios de pessoas cruzando o canal; que, vendo a nossa condição, um número deles veio ao nosso lado. Tantos homens quantos podiam ser empregados começaram a trabalhar; alguns nas nossas três bombas, e o restante descarregando o navio o mais rápido possível. Existindo apenas uma única rocha chamada Porpus na qual batemos, logo saímos dela, e providencialmente era então maré alta, por isso encalhamos o navio no local mais próximo para evitar que afundasse. Após muitas marés, com muito cuidado e diligência, conseguimos repará-lo novamente. Quando despachamos os nossos negócios em Cádis, fomos para Gibraltar, e de lá para Málaga, uma cidade muito agradável e rica, onde há uma das catedrais mais belas que jamais vi. Levou mais de cinquenta anos a ser construída, como ouvi dizer, embora não estivesse então completamente acabada; grande parte do interior, contudo, estava concluída e altamente decorada com as mais ricas colunas de mármore e muitas pinturas soberbas; era iluminada ocasionalmente por um número espantoso de círios de cera de diferentes tamanhos, alguns dos quais eram tão grossos como a coxa de um homem; estes, contudo, eram usados apenas em alguns dos seus grandes festivais.

Fiquei muito chocado com o costume da tourada, e outros divertimentos que prevaleciam aqui nas noites de domingo, para grande escândalo do cristianismo e da moral. Eu costumava expressar a minha aversão a um padre que encontrei. Tive frequentes disputas sobre religião com o reverendo padre, nas quais ele se esforçou muito para fazer de mim um prosélito para a sua igreja; e eu não menos para convertê-lo à minha. Nessas ocasiões, costumava apresentar a minha Bíblia, e mostrar-lhe em que pontos a sua igreja errava. Ele então disse que tinha estado na Inglaterra, e que todas as pessoas lá liam a Bíblia, o que era muito errado; mas respondi-lhe que Cristo desejava que examinássemos as Escrituras. No seu zelo pela minha conversão, solicitou-me que fosse a uma das universidades na Espanha, e declarou que eu teria a minha educação gratuita; e disse-me, se eu me tornasse padre, poderia com o tempo tornar-me até papa; e que o Papa Bento era um homem negro. Como eu estava sempre desejoso de aprender, ponderei por algum tempo sobre esta tentação; e pensei que sendo astuto poderia apanhar alguns com dolo; mas comecei a pensar que seria apenas hipocrisia da minha parte abraçar a sua oferta, pois não poderia em consciência conformar-me com as opiniões da sua igreja. Fui, portanto, capacitado a considerar a palavra de Deus, que diz: "Saiam do meio deles," e recusei a oferta do Padre Vicente. Assim, separámo-nos sem convicção de nenhum dos lados.

Tendo levado neste lugar alguns bons vinhos, frutas e dinheiro, prosseguimos para Cádis, onde levámos cerca de duas toneladas a mais de dinheiro, etc., e então navegámos para a Inglaterra no mês de junho. Quando estávamos cerca da latitude norte 42, tivemos vento contrário por vários dias, e o navio não fez nesse tempo mais do que seis ou sete milhas de curso direto. Isto deixou o capitão extremamente irritado e rabugento: e lamentei muito ouvir o santíssimo nome de Deus frequentemente blasfemado por ele. Um dia, enquanto ele estava naquele estado ímpio, um jovem cavalheiro a bordo, que era passageiro, repreendeu-o, e disse que ele agia mal; pois deveríamos estar gratos a Deus por todas as coisas, pois não nos faltava nada a bordo; e embora o vento fosse contrário para nós, contudo era favorável para alguns outros, que, talvez, precisassem dele mais do que nós. Imediatamente apoiei este jovem cavalheiro com alguma ousadia, e disse que não tínhamos o menor motivo para murmurar, pois o Senhor era melhor connosco do que merecíamos, e que ele tinha feito todas as coisas bem. Esperei que o capitão ficasse muito zangado comigo por falar, mas ele não respondeu uma palavra. No entanto, antes daquela hora no dia seguinte, sendo o dia 21 de junho, para nossa grande alegria e espanto, vimos a mão providencial do nosso Criador benigno, cujos caminhos com as suas criaturas cegas são insondáveis. Na noite anterior sonhei que via um barco imediatamente fora dos brandais do mastro principal de estibordo; e exatamente à uma e meia da tarde do dia seguinte, enquanto eu estava lá em baixo, logo após termos jantado na cabine, o homem ao leme gritou: Um barco! o que trouxe o meu sonho àquele instante à minha mente. Fui o primeiro homem que saltou para o convés; e, olhando dos brandais para a frente, de acordo com o meu sonho, avistei um pequeno barco a alguma distância; mas, como as ondas eram altas, era o máximo que às vezes podíamos fazer para discerni-lo; contudo, parámos a marcha do navio, e o barco, que era extremamente pequeno, veio ao nosso lado com onze homens miseráveis, que trouxemos a bordo imediatamente. Segundo todas as aparências humanas, estas pessoas teriam perecido no decorrer de uma hora ou menos, sendo o barco pequeno, mal continha todos. Quando os recolhemos, estavam meio afogados, e não tinham víveres, bússola, água, ou qualquer outra necessidade, e tinham apenas um pedaço de remo para dirigir, e isso diretamente a favor do vento; de modo que foram obrigados a confiar inteiramente na misericórdia das ondas. Assim que os trouxemos todos a bordo, eles curvaram-se sobre os joelhos, e, com mãos e vozes levantadas para o céu, agradeceram a Deus pelo seu livramento; e confio que as minhas orações não faltaram entre eles ao mesmo tempo. Esta misericórdia do Senhor enterneceu-me completamente, e recordei as suas palavras, que vi assim verificadas no Salmo 107: "Ó, dai graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. Famintos e sedentos, a sua alma desfalecia neles. Clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele livrou-os das suas tribulações. E levou-os pelo caminho direito, para que fossem a uma cidade de habitação. Ó, que os homens louvem o Senhor pela sua bondade e pelas suas obras maravilhosas para com os filhos dos homens! Pois ele satisfaz a alma sedenta, e enche a alma faminta de bondade.

"Aqueles que se assentam nas trevas e na sombra da morte:

"Então clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele salvou-os das suas tribulações. Aqueles que descem ao mar em navios; que fazem negócios nas grandes águas: estes veem as obras do Senhor, e as suas maravilhas no profundo. Quem é sábio e observará estas coisas, esses mesmos entenderão a benignidade do Senhor."

O pobre capitão angustiado disse: "que o Senhor é bom; pois, vendo que não estou apto para morrer, ele deu-me um espaço de tempo para me arrepender." Fiquei muito feliz por ouvir esta expressão, e aproveitei uma oportunidade quando conveniente para falar com ele sobre a providência de Deus. Eles disseram-nos que eram portugueses, e que estavam num brigue carregado de milho, que se deslocou naquela manhã às cinco horas, devido ao que a embarcação afundou naquele instante com dois da tripulação; e como estes onze entraram no barco (que estava amarrado ao convés) nenhum deles soube dizer. Providenciámos-lhes todas as necessidades, e trouxemo-los todos em segurança a Londres: e espero que o Senhor lhes tenha dado arrependimento para a vida eterna.

Fiquei feliz mais uma vez entre os meus amigos e irmãos, até novembro, quando o meu velho amigo, o célebre Doutor Irving, comprou um brigue notavelmente fino, de cerca de 150 toneladas. Ele tinha em mente uma nova aventura no cultivo de uma plantação na Jamaica e na Costa dos Mosquitos; pediu-me para ir com ele e disse que confiaria a mim a sua propriedade, preferindo-me a qualquer outro. Por conselho, portanto, dos meus amigos, aceitei a oferta, sabendo que a colheita estava plenamente madura naquelas partes, e esperava ser o instrumento, sob Deus, de levar algum pobre pecador ao meu bem-amado mestre, Jesus Cristo. Antes de embarcar, encontrei com o Doutor quatro índios Mosquitos, que eram chefes na sua própria terra e foram trazidos para aqui por alguns comerciantes ingleses para fins egoístas. Um deles era o filho do rei Mosquito; um jovem de cerca de dezoito anos de idade; e, enquanto esteve aqui, foi batizado com o nome de George. Eles iam regressar à custa do governo, depois de terem estado em Inglaterra cerca de doze meses, durante os quais aprenderam a falar um inglês bastante bom. Quando fui falar com eles, cerca de oito dias antes de partirmos, fiquei muito mortificado ao descobrir que não tinham frequentado quaisquer igrejas desde que estavam aqui, para serem batizados, nem qualquer atenção foi dada à sua moral. Fiquei muito triste com este Cristianismo de fachada, e tive apenas uma oportunidade de levar alguns deles uma vez à igreja antes de partirmos. Embarcámos no mês de novembro de 1775, a bordo do brigue Morning Star, capitão David Miller, e navegámos para a Jamaica. Na nossa passagem, tomei todas as dores que pude para instruir o príncipe índio nas doutrinas do Cristianismo, das quais ele era inteiramente ignorante; e, para minha grande alegria, ele foi bastante atento e recebeu com alegria as verdades que o Senhor me capacitou a expor-lhe. Ensinei-lhe, no espaço de onze dias, todas as letras, e ele conseguia até juntar duas ou três delas e soletrá-las. Eu tinha o Livro dos Mártires de Fox com gravuras, e ele costumava gostar muito de olhar para ele, e fazia muitas perguntas sobre as crueldades papais que via ali retratadas, as quais eu lhe explicava. Fiz tal progresso com este jovem, especialmente na religião, que, quando eu costumava ir para a cama a diferentes horas da noite, se ele estivesse na sua cama, levantava-se propositadamente para ir rezar comigo, sem outra roupa além da sua camisa; e, antes de comer qualquer uma das suas refeições entre os cavalheiros na cabine, vinha primeiro ter comigo para rezar, como ele dizia. Fiquei muito satisfeito com isto, e deleitei-me muito com ele, e fiz muitas súplicas a Deus pela sua conversão. Estava na plena esperança de ver diariamente cada sinal daquela mudança que eu desejaria; não conhecendo as ciladas de Satanás, que tinha muitos dos seus emissários para semear o seu joio tão depressa quanto eu semeava a boa semente, e deitar abaixo tão depressa quanto eu edificava. Assim seguimos quase quatro quintos da nossa passagem, quando Satanás finalmente levou a melhor. Alguns dos seus mensageiros, vendo este pobre pagão muito adiantado na piedade, começaram a perguntar-lhe se eu o tinha convertido ao Cristianismo, riram-se e fizeram troça dele, pelo que os repreendi o máximo que pude; mas este tratamento fez com que o príncipe hesitasse entre duas opiniões. Alguns dos verdadeiros filhos de Belial, que não acreditavam que houvesse um porvir, disseram-lhe para nunca temer o diabo, pois não existia nenhum; e, se alguma vez ele viesse ter com o príncipe, pediram que fosse enviado para eles. Assim, provocaram o pobre e inocente jovem, de modo que ele já não queria aprender o seu livro! Ele não queria beber nem festejar com estes atores ímpios, nem queria estar comigo, nem mesmo nas orações. Isto entristeceu-me muito. Tentei persuadi-lo o melhor que pude, mas ele não queria vir; e supliquei-lhe muito que me dissesse as suas razões para agir assim. Por fim, perguntou-me: "Como é que todos os homens brancos a bordo que sabem ler e escrever, e observam o sol, e sabem todas as coisas, ainda assim juram, mentem e embriagam-se, exceto tu?" Respondi-lhe que a razão era que eles não temiam a Deus; e que, se algum deles morresse assim, não poderiam ir para, ou ser felizes com, Deus. Ele respondeu que, se essas pessoas fossem para o inferno, ele também iria para o inferno. Fiquei triste ao ouvir isto; e, como ele tinha por vezes dores de dentes, e também outras pessoas no navio ao mesmo tempo, perguntei-lhe se as dores de dentes delas tornavam as dele mais fáceis: ele disse que não. Então disse-lhe que, se ele e aquelas pessoas fossem para o inferno juntos, as dores deles não tornariam as dele mais leves. Esta resposta teve grande peso para ele: abateu-lhe muito o espírito; e ele tornou-se, desde então, durante a passagem, afeito a estar sozinho. Quando estávamos na latitude da Martinica, e perto de avistar terra, certa manhã tivemos uma forte rajada de vento e, levando demasiada vela, o mastro grande caiu borda fora. Muitas pessoas estavam então por todo o convés, e as vergas, mastros e cordames vieram a cair por todo o nosso lado, contudo não houve nenhum de nós minimamente ferido, embora alguns estivessem a um cabelo de serem mortos: e, particularmente, vi dois homens então, pela mão providencial de Deus, mais milagrosamente preservados de serem esmagados em pedaços. No quinto dia de janeiro avistámos Antígua e Montserrat, e percorremos o resto das ilhas: e no dia catorze chegámos à Jamaica. Num domingo, enquanto lá estávamos, levei o Príncipe Mosquito George à igreja, onde ele viu o sacramento ser administrado. Quando saímos, vimos todo o tipo de pessoas, quase desde a porta da igreja por um espaço de meia milha até à margem da água, a comprar e a vender todo o tipo de mercadorias: e estes atos deram-me grande matéria de exortação para este jovem, que ficou muito espantado. Estando a nossa embarcação pronta para navegar para a Costa dos Mosquitos, fui com o Doutor a bordo de um navio negreiro da Guiné, para comprar alguns escravos para levar connosco e cultivar uma plantação; e escolhi-os todos meus compatriotas. No dia doze de fevereiro navegámos da Jamaica, e no dia dezoito chegámos à Costa dos Mosquitos, a um lugar chamado Dupeupy. Todos os nossos convidados índios agora, depois de eu os ter admoestado e de algumas caixas de licor lhes terem sido dadas pelo Doutor, despediram-se afetuosamente de nós e foram para terra, onde foram recebidos pelo rei Mosquito, e nunca mais vimos nenhum deles. Depois navegámos para sul da costa, para um lugar chamado Cabo Gracias a Dios, onde havia uma grande lagoa ou lago, que recebia o escoamento de dois ou três rios muito bons e grandes, e abundava muito em peixes e tartarugas terrestres. Alguns dos índios nativos vieram a bordo connosco aqui; e tratámo-los bem, e dissemos-lhes que vínhamos habitar entre eles, com o que pareciam estar satisfeitos. Então o Doutor e eu, com alguns outros, fomos com eles para terra; e levaram-nos a diferentes lugares para ver a terra, a fim de escolher um local para fazer uma plantação. Fixámo-nos num local perto da margem de um rio, num solo rico; e, tendo retirado os nossos bens do brigue, começámos a limpar os bosques e a plantar diferentes tipos de vegetais, que tinham um crescimento rápido. Enquanto estávamos ocupados desta maneira, a nossa embarcação foi para norte, para o Rio Negro, para comerciar. Enquanto lá estava, uma guarda-costas espanhola encontrou-a e tomou-a. Isto provou ser muito prejudicial e um grande embaraço para nós. Contudo, prosseguimos com o cultivo da terra. Costumávamos fazer fogueiras todas as noites à nossa volta, para manter afastadas as feras, que, logo que escurecia, começavam um rugido muito horrível. Estando a nossa habitação longe nos bosques, víamos frequentemente diferentes tipos de animais; mas nenhum deles nos feriu, exceto cobras venenosas, cuja picada o Doutor costumava curar dando ao paciente, logo que possível, cerca de meio copo de rum forte, com uma boa quantidade de pimenta de Caiena nele. Desta forma, ele curou dois nativos e um dos seus próprios escravos. Os índios eram extremamente afeiçoados ao Doutor, e tinham boas razões para isso; pois creio que nunca tiveram um homem tão útil entre eles. Vinham de todos os quadrantes à nossa habitação; e alguns índios woolwow, ou de cabeça chata, que viviam cinquenta ou sessenta milhas acima do nosso rio, e deste lado do Mar do Sul, traziam-nos uma boa quantidade de prata em troca dos nossos bens. Os principais artigos que podíamos obter dos nossos índios vizinhos eram óleo de tartaruga e carapaças, um pouco de erva-de-seda e algumas provisões; mas eles não queriam trabalhar em nada para nós, exceto na pesca; e algumas vezes ajudaram a cortar algumas árvores, a fim de nos construir casas; o que fizeram exatamente como os africanos, pelo trabalho conjunto de homens, mulheres e crianças. Não me lembro de nenhum deles ter tido mais do que duas esposas. Estas acompanhavam sempre os seus maridos quando vinham à nossa habitação; e então carregavam geralmente tudo o que traziam para nós, e sentavam-se sempre de cócoras atrás dos seus maridos. Sempre que lhes dávamos algo para comer, os homens e as suas mulheres comiam em separado. Nunca vi o menor sinal de incontinência entre eles. As mulheres são ornamentadas com contas e gostam de se pintar; os homens também se pintam, até ao excesso, tanto nas caras como nas camisas: a sua cor favorita é o vermelho. As mulheres geralmente cultivam a terra, e os homens são todos pescadores e fabricantes de canoas. No geral, nunca conheci nenhuma nação que fosse tão simples nos seus costumes como estas pessoas, ou que tivesse tão pouco ornamento nas suas casas. Tampouco tinham, que eu alguma vez pudesse saber, uma palavra expressiva de um juramento. A pior palavra que alguma vez ouvi entre eles quando estavam a discutir era uma que tinham aprendido dos ingleses, que era "seu patife". Nunca vi qualquer modo de culto entre eles; mas nisto não eram piores do que os seus irmãos ou vizinhos europeus: pois lamento dizer que não havia uma única pessoa branca na nossa habitação, nem em qualquer outro lugar que eu tenha visto nas diferentes partes em que estive na costa, que fosse melhor ou mais piedosa do que aqueles índios não iluminados; mas eles ou trabalhavam ou dormiam aos domingos: e, para meu pesar, o trabalho era demasiado o emprego de domingo entre nós; tanto assim que, com o passar do tempo, realmente não sabíamos distinguir um dia do outro. Este modo de vida lançou as bases para a minha partida final. Os nativos são bem feitos e guerreiros; e gabam-se particularmente de nunca terem sido conquistados pelos espanhóis. São grandes bebedores de licores fortes quando os conseguem obter. Costumávamos destilar rum a partir de ananases, que eram muito abundantes aqui; e então não os conseguíamos afastar do nosso local. Contudo, pareciam ser singulares, em termos de honestidade, acima de qualquer outra nação entre a qual estive. Sendo o país quente, vivíamos debaixo de um abrigo aberto, onde tínhamos todo o tipo de bens, sem porta ou fechadura para qualquer artigo; no entanto, dormíamos em segurança e nunca perdemos nada, nem fomos incomodados. Isto surpreendeu-nos bastante; e o Doutor, eu próprio e outros costumávamos dizer que, se estivéssemos daquela maneira na Europa, teríamos as gargantas cortadas na primeira noite. O governador índio vai uma vez por um certo tempo por toda a província ou distrito, e tem um número de homens consigo como atendentes e assistentes. Ele resolve todas as diferenças entre as pessoas, como o juiz aqui, e é tratado com muito grande respeito. Ele teve o cuidado de nos avisar atempadamente antes de vir à nossa habitação, enviando o seu cajado como sinal, para pedir rum, açúcar e pólvora, que não recusámos enviar; e ao mesmo tempo fizemos a maior preparação para receber a sua honra e o seu séquito. Quando ele veio com a sua tribo, e todos os nossos chefes vizinhos, esperávamos encontrar um juiz grave e reverendo, sólido e sagaz; mas, em vez disso, antes de ele e o seu grupo aparecerem, ouvi-los muito clamorosos; e tinham até pilhado alguns dos nossos bons vizinhos índios, tendo-se embriagado com o nosso licor. Quando chegaram, não sabíamos o que fazer dos nossos novos convidados e teríamos dispensado de bom grado a honra da sua companhia. No entanto, não tendo alternativa, banqueteámo-los fartamente durante todo o dia até à noite; quando o governador, ficando completamente bêbado, tornou-se muito indisciplinado e bateu num dos nossos chefes mais amigáveis, que era o nosso vizinho mais próximo, e também lhe tirou o seu chapéu com galões de ouro. Com isto, uma grande comoção teve lugar; e o Doutor interferiu para fazer as pazes, pois podíamos todos entender-nos, mas sem qualquer propósito; e, por fim, tornaram-se tão ultrajantes que o Doutor, temendo que pudesse ter problemas, deixou a casa e seguiu o seu caminho para o bosque mais próximo, deixando-me para fazer o melhor que pudesse entre eles. Fiquei tão enfurecido com o Governador que desejei vê-lo amarrado a uma árvore e açoitado pelo seu comportamento; mas não tinha pessoas suficientes para lidar com o seu grupo. Pensei, portanto, num estratagema para apaziguar a revolta. Recordando uma passagem que tinha lido na vida de Colombo, quando ele estava entre os índios no México ou no Peru, onde, em alguma ocasião, os assustou contando-lhes certos eventos nos céus, recorri ao mesmo expediente; e teve sucesso além das minhas expectativas mais otimistas. Quando formei a minha determinação, fui para o meio deles; e, agarrando o Governador, apontei para os céus. Ameacei-o e aos outros: disse-lhes que Deus vivia lá, e que ele estava zangado com eles, e que não deviam discutir assim; que eram todos irmãos, e que se não parassem e fossem embora pacificamente, eu pegaria no livro (apontando para a Bíblia), leria e diria a Deus para os fazer morrer. Isto foi algo como magia. O clamor cessou imediatamente, e dei-lhes algum rum e algumas outras coisas; depois do que foram embora pacificamente; e o Governador mais tarde devolveu ao nosso vizinho, que era chamado Capitão Plasmyah, o seu chapéu. Quando o Doutor regressou, ficou extremamente contente com o meu sucesso em ver-me livre dos nossos convidados problemáticos. O povo Mosquito nas nossas proximidades, por respeito ao Doutor, a mim e ao seu povo, fez entretenimentos do género grandioso, chamado na sua língua tourrie ou dryckbot. O inglês desta expressão é uma festa de beber em volta, da qual parece ser uma corrupção de linguagem. A bebida consistia em ananases assados e casades mastigados ou batidos em almofarizes; que, depois de ficarem algum tempo, fermentam e tornam-se tão fortes que embriagam, quando bebidos em qualquer quantidade. Tivemos aviso atempado do entretenimento. Uma família branca, a cinco milhas de nós, contou-nos como a bebida era feita, e eu e dois outros fomos antes da hora para a aldeia, onde a alegria estava marcada para ser realizada; e ali vimos toda a arte de fazer a bebida, e também o tipo de animais que iam ser comidos ali. Não posso dizer que a visão da bebida ou da carne fosse tentadora para mim. Tinham alguns milhares de ananases a assar, que espremiam, sujidade e tudo, para dentro de uma canoa que tinham ali para esse fim. A bebida de casade estava em barris de carne e outros recipientes, e parecia exatamente lavagem de porcos. Homens, mulheres e crianças estavam assim empregados a assar os ananases e a espremê-los com as mãos. Para comida tinham muitas torpins ou tartarugas terrestres, alguma tartaruga seca e três grandes crocodilos vivos, amarrados às árvores. Perguntei ao povo o que iam fazer com aqueles crocodilos; e disseram-me que eram para ser comidos. Fiquei muito surpreendido com isto, e fui para casa, não pouco desgostoso com os preparativos. Quando o dia da festa chegou, levámos algum rum connosco e fomos para o lugar designado, onde encontrámos uma grande assembleia destas pessoas, que nos receberam muito gentilmente. A alegria tinha começado antes de chegarmos; e eles estavam a dançar com música: e os instrumentos musicais eram quase os mesmos que os de qualquer outro povo negro; mas, como achei, muito menos melodiosos do que qualquer outra nação que alguma vez conheci. Tinham muitos gestos curiosos a dançar, e uma variedade de movimentos e posturas dos seus corpos, que para mim não eram de modo nenhum atraentes. Os machos dançavam sozinhos, e as fêmeas também sozinhas, como connosco. O Doutor deu o exemplo ao seu povo, juntando-se imediatamente ao grupo das mulheres, embora não por escolha delas. Ao perceber que as mulheres estavam desgostosas, juntou-se aos machos. À noite houve grandes iluminações, ateando fogo a muitos pinheiros, enquanto o dryckbot circulava alegremente por cabaças; mas o licor poderia mais justamente ser chamado de comida do que de bebida. Um Owden, o pai mais velho nas proximidades, estava vestido de uma forma estranha e aterrorizante. À volta do seu corpo estavam peles adornadas com diferentes tipos de penas, e ele tinha na cabeça um capacete muito grande e alto, em forma de gorro de granadeiro, com espinhos como um porco-espinho; e ele fazia um certo ruído que se assemelhava ao grito de um crocodilo. O nosso povo saltava entre eles por complacência, embora alguns não pudessem beber o seu tourrie; mas o nosso rum encontrou clientes suficientes, e depressa acabou. Os crocodilos foram mortos e alguns deles assados. A sua maneira de assar é cavando um buraco na terra e enchendo-o com madeira, que queimam até ficar em brasa, e então põem varas cruzadas, sobre as quais colocam a carne. Eu tinha um pedaço cru de crocodilo na mão: era muito rico: achei que parecia salmão fresco, e tinha um cheiro muito perfumado, mas não consegui comer nada. Esta festa terminou finalmente sem a menor discórdia em qualquer pessoa na companhia, embora fosse composta por diferentes nações e compleições. A estação das chuvas chegou aqui por volta do final de maio, que continuou até agosto muito pesadamente; de modo que os rios transbordaram, e as nossas provisões que estavam na terra foram levadas. Pensei que isto fosse em certa medida um juízo sobre nós por trabalharmos aos domingos, e isso magoou muito a minha mente. Desejei muitas vezes deixar este lugar e navegar para a Europa; pois o nosso modo de proceder e viver nesta forma pagã era muito penoso para mim. A palavra de Deus diz: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua própria alma?" Isto estava muito e pesadamente gravado na minha mente; e, embora eu não soubesse como falar com o Doutor para a minha dispensa, era desagradável para mim ficar mais tempo. Mas, por volta de meados de junho, ganhei coragem suficiente para lha pedir. Ele estava muito relutante no início em conceder o meu pedido; mas dei-lhe tantas razões para isso, que no fim ele consentiu na minha partida e deu-me o seguinte certificado do meu comportamento:

"O portador, Gustavus Vassa, serviu-me durante vários anos com estrita honestidade, sobriedade e fidelidade. Posso, portanto, com justiça recomendá-lo por estas qualificações; e, de facto, em todos os aspetos, considero-o um excelente servo. Certifico por este meio que ele sempre se comportou bem e que é perfeitamente digno de confiança.

CHARLES IRVING."

Costa dos Mosquitos, 15 de junho de 1776.

Embora eu tivesse muito apreço pelo doutor, fiquei feliz quando ele consentiu. Deixei tudo pronto para a minha partida e contratei alguns índios, com uma grande canoa, para me levarem. Todos os meus pobres compatriotas, os escravos, quando souberam que eu os ia deixar, ficaram muito pesarosos, pois eu sempre os tratara com cuidado e afeição, e fizera tudo o que podia para confortar as pobres criaturas e tornar a sua condição mais fácil. Tendo-me despedido dos meus velhos amigos e companheiros, no dia 18 de junho, acompanhado pelo doutor, deixei aquele ponto do mundo e segui para o sul, cerca de trinta quilómetros ao longo do rio. Lá encontrei um saveiro, cujo capitão me disse que ia para a Jamaica. Tendo acertado a minha passagem com ele e com um dos proprietários, que também estava a bordo, chamado Hughes, o doutor e eu separámo-nos, não sem derramar lágrimas de ambos os lados. A embarcação navegou então ao longo do rio até à noite, quando parou numa lagoa dentro do mesmo rio. Durante a noite, uma escuna pertencente aos mesmos proprietários chegou e, como precisava de mãos, Hughes, o dono do saveiro, pediu-me para ir na escuna como marinheiro e disse que me pagaria um salário. Agradeci-lhe; mas disse que queria ir para a Jamaica. Ele mudou então imediatamente de tom, praguejou e insultou-me muito, e perguntou como é que eu tinha sido libertado. Contei-lhe e disse que tinha chegado àquela vizinhança com o Dr. Irving, a quem ele tinha visto naquele dia. Esta explicação não serviu de nada; ele continuou a praguejar excessivamente contra mim e a amaldiçoar o senhor que me vendera a liberdade, e o doutor por ser outro tolo ao deixar-me ir. Depois, exigiu que eu fosse na escuna, ou então não sairia do saveiro como homem livre. Disse que aquilo era muito duro e implorei para ser posto em terra novamente; mas ele jurou que eu não sairia. Disse que já tinha estado duas vezes entre os turcos, mas que nunca tinha visto tal tratamento entre eles, e muito menos poderia ter esperado algo deste género entre cristãos. Isto enfureceu-o imensamente; e, com uma saraivada de juramentos e imprecações, ele respondeu: "Cristãos! Maldito sejas, tu és um dos homens de São Paulo; mas, por Deus, a menos que tenhas a fé de São Paulo ou de São Pedro e andes sobre as águas até à costa, não sairás da embarcação"; o que eu descobri agora que ia em direção aos espanhóis, para perto de Cartagena, onde ele jurou que me venderia. Perguntei-lhe simplesmente que direito tinha ele para me vender; mas, sem mais uma palavra, ele fez com que alguns dos seus homens atassem cordas à volta de cada um dos meus tornozelos, e também a cada pulso, e outra corda à volta do meu corpo, e içaram-me sem deixar que os meus pés tocassem ou descansassem em nada. Assim fiquei pendurado, sem qualquer crime cometido, e sem juiz ou júri; meramente porque eu era um homem livre e não podia, pela lei, obter qualquer reparação de uma pessoa branca naquelas partes do mundo. Estava com muitas dores devido à minha situação, e chorei e implorei muito por alguma misericórdia; mas tudo em vão. O meu tirano, num acesso de raiva, trouxe um mosquete da cabine, carregou-o perante mim e a tripulação, e jurou que me mataria se eu chorasse mais. Eu não tinha agora qualquer alternativa; por isso permaneci em silêncio, não vendo um único homem branco a bordo que dissesse uma palavra em meu favor. Fiquei pendurado daquela maneira entre as dez e as onze da noite até cerca da uma da manhã; quando, descobrindo o meu cruel abusador a dormir profundamente, implorei a alguns dos seus escravos que afrouxassem a corda que estava à volta do meu corpo, para que os meus pés pudessem descansar em algo. Eles fizeram-no, correndo o risco de serem cruelmente tratados pelo seu senhor, que espancou alguns deles severamente no início por não me terem amarrado quando ele lhes ordenou. Enquanto permaneci naquela condição, até entre as cinco e as seis da manhã seguinte, confio que rezei a Deus para perdoar aquele blasfemo, que não se importava com o que fazia, mas que, quando se levantou do seu sono de manhã, estava com o mesmo temperamento e disposição de quando me deixou à noite. Quando levantaram a âncora e a embarcação começou a mover-se, chorei mais uma vez e implorei para ser libertado; e agora, estando felizmente no caminho de içarem as velas, libertaram-me. Quando fui descido, falei com um tal Sr. Cox, carpinteiro, a quem conhecia a bordo, sobre a impropriedade daquela conduta. Ele também conhecia o doutor e a boa opinião que este sempre teve de mim. Este homem foi então ter com o capitão e disse-lhe para não me levar daquela maneira; que eu era o despenseiro do doutor, que me estimava muito e que se ressentiria daquele tratamento quando soubesse dele. Ao que ele pediu a um jovem que me pusesse em terra numa pequena canoa que eu trouxera comigo. Este som alegrou o meu coração, e entrei apressadamente na canoa e parti, enquanto o meu tirano estava lá em baixo na cabine; mas ele avistou-me logo, quando eu não estava a mais de trinta ou quarenta metros da embarcação, e, correndo para o convés com um mosquete carregado na mão, apontou-o para mim e jurou pesada e terrivelmente que me mataria naquele instante se eu não voltasse a bordo. Como sabia que o miserável teria feito o que disse, sem hesitação, voltei para a embarcação; mas, como o bom Deus quis, exatamente quando estava a bordo, ele estava a insultar o capitão por me deixar sair da embarcação; o capitão retribuiu, e ambos entraram rapidamente num grande calor. O jovem que estava comigo saiu então da canoa; a embarcação navegava rapidamente com um mar calmo: e eu pensei então que era tudo ou nada, por isso, naquele instante, parti novamente, pela minha vida, na canoa, em direção à costa; e, felizmente, a confusão era tão grande entre eles a bordo que saí do alcance do tiro do mosquete sem ser notado, enquanto a embarcação navegava com vento favorável noutra direção; de modo que não me puderam alcançar sem fazer uma manobra: mas mesmo antes que isso pudesse ser feito, eu já estaria em terra, onde cheguei rapidamente, com muitos agradecimentos a Deus por este livramento inesperado. Fui então dizer ao outro proprietário, que vivia perto daquela costa (com quem eu tinha acordado a minha passagem), o tratamento que tinha recebido. Ele ficou muito espantado e pareceu muito pesaroso por isso. Depois de me tratar com bondade, deu-me algum refresco e três espigas de milho assado, para uma viagem de cerca de trinta quilómetros para sul, à procura de outra embarcação. Ele indicou-me então um chefe índio de um distrito, que era também o almirante Mosquito, e que já tinha estado na nossa habitação; depois do que parti com a canoa através de uma grande lagoa sozinho (pois não consegui que ninguém me ajudasse), embora estivesse muito exausto e com dores nas entranhas, devido à corda em que estivera pendurado na noite anterior. Estava, portanto, por vezes, incapaz de manejar a canoa, pois remar era muito laborioso. No entanto, pouco antes de escurecer, cheguei ao meu destino, onde alguns dos índios me conheciam e receberam-me gentilmente. Perguntei pelo almirante; e eles conduziram-me à sua habitação. Ele ficou contente por me ver e refrescou-me com as coisas que o lugar oferecia; e tive uma rede para dormir. Eles agiram comigo mais como cristãos do que aqueles brancos com quem estive na noite anterior, embora tivessem sido batizados. Disse ao almirante que queria ir para o próximo porto para conseguir uma embarcação que me levasse para a Jamaica; e pedi-lhe que mandasse de volta a canoa que eu tinha, pela qual lhe pagaria. Ele concordou comigo e enviou cinco índios capazes com uma canoa grande para levar as minhas coisas para o meu lugar pretendido, cerca de oitenta quilómetros; e partimos na manhã seguinte. Quando saímos da lagoa e seguimos ao longo da costa, o mar estava tão alto que a canoa esteve muitas vezes perto de se encher de água. Fomos obrigados a ir para terra e arrastar a canoa por diferentes línguas de terra; passámos também duas noites nos pântanos, que fervilhavam de mosquitos, e eles revelaram-se incómodos para nós. Esta viagem cansativa por terra e água terminou, no entanto, no terceiro dia, para minha grande alegria; e embarquei num saveiro comandado por um tal Capitão Jenning. Estava então parcialmente carregado, e ele disse-me que esperava velejar diariamente para a Jamaica; e tendo acordado comigo trabalhar a minha passagem, fui trabalhar em conformidade. Não passei muitos dias a bordo antes de partirmos; mas, para meu desgosto e desilusão, embora acostumado a tais truques, fomos para sul ao longo da costa Mosquito, em vez de seguir para a Jamaica. Fui forçado a ajudar a cortar uma grande quantidade de madeira de mogno na costa enquanto a contornávamos, e carregar a embarcação com ela, antes de ela partir. Isto irritou-me muito; mas, como não sabia como ajudar-me entre estes enganadores, pensei que a paciência era o único remédio que me restava, e mesmo esse foi forçado. Havia muito trabalho árduo e pouca comida a bordo, exceto se, por sorte, conseguíssemos apanhar tartarugas. Nesta costa havia também um tipo particular de peixe chamado peixe-boi, que é excelente para comer, e a carne é mais parecida com carne de vaca do que com peixe; as escamas são tão grandes como um xelim, e a pele mais grossa do que alguma vez vi a de qualquer outro peixe. Dentro das águas salobras ao longo da costa havia também um grande número de jacarés, que tornavam o peixe escasso. Estive a bordo deste saveiro dezasseis dias, durante os quais, na nossa navegação costeira, chegámos a outro lugar, onde havia um saveiro mais pequeno chamado Indian Queen, comandado por um tal John Baker. Ele também era inglês e estava há muito tempo ao longo da costa a negociar carapaças de tartaruga e prata, e tinha uma boa quantidade de cada a bordo. Ele precisava muito de mãos; e, entendendo que eu era um homem livre e queria ir para a Jamaica, disse-me que, se conseguisse uma ou duas, velejariam imediatamente para aquela ilha: ele também me fingiu alguns sinais de atenção e respeito, e prometeu dar-me quarenta e cinco xelins esterlinos por mês se eu fosse com ele. Achei isto muito melhor do que cortar madeira por nada. Por isso, disse ao outro capitão que queria ir para a Jamaica na outra embarcação; mas ele não me quis ouvir: e, vendo-me decidido a ir dentro de um ou dois dias, ele fez com que a embarcação partisse, pretendendo levar-me contra a minha vontade. Este tratamento mortificou-me extremamente. Imediatamente, de acordo com um acordo que tinha feito com o capitão do Indian Queen, chamei o seu barco, que estava perto de nós, e ele veio a bordo; e, por meio de um companheiro de navio do norte que encontrei no saveiro em que estava, coloquei as minhas coisas no barco e fui para o Indian Queen, a 10 de julho. Poucos dias depois de lá estar, deixámos tudo pronto e partimos: mas, novamente, para meu grande desgosto, esta embarcação ainda foi para sul, quase até Cartagena, negociando ao longo da costa, em vez de ir para a Jamaica, como o capitão me tinha prometido: e, o que era pior de tudo, ele era um homem muito cruel e sanguinário, e um horrível blasfemo. Entre outros, tinha um piloto branco, um tal Stoker, a quem batia frequentemente tão severamente como fazia a alguns negros que tinha a bordo. Numa noite em particular, depois de ter batido neste homem muito cruelmente, colocou-o no barco e fez dois negros remarem-no até um recife desolado, ou pequena ilha; e carregou duas pistolas e jurou amargamente que mataria os negros se trouxessem Stoker de volta a bordo. Não havia a menor dúvida de que ele faria o que disse, e os dois pobres rapazes foram obrigados a obedecer ao cruel mandato; mas, quando o capitão estava a dormir, os dois negros pegaram num cobertor e levaram-no ao infeliz Stoker, o que acredito ter sido o meio de salvar a sua vida contra o incômodo dos insetos. Muita súplica foi feita ao capitão no dia seguinte, antes de ele consentir em deixar Stoker voltar a bordo; e quando o pobre homem foi trazido a bordo, estava muito doente, devido à sua situação durante a noite, e permaneceu assim até se afogar pouco tempo depois. À medida que navegávamos para sul, chegámos a muitas ilhas inabitadas, que estavam cobertas de belos e grandes cocos. Como precisava muito de provisões, trouxe um barco cheio deles a bordo, o que durou para mim e para outros durante várias semanas, e proporcionou-nos muitas vezes uma refeição deliciosa na nossa escassez. Um dia, antes disto, não pude deixar de observar a mão providencial de Deus, que supre sempre todas as nossas necessidades, embora de formas e maneiras que não conhecemos. Tinha passado um dia inteiro sem comida e fiz sinais para que os barcos viessem ter comigo, mas em vão. Por isso, rezei fervorosamente a Deus por alívio na minha necessidade; e ao fechar da noite saí do convés. Logo que me deitei ouvi um barulho no convés; e, não sabendo o que significava, voltei diretamente para o convés, quando o que vi foi um belo peixe grande, de uns três ou quatro quilos, que tinha saltado para bordo! Peguei nele e admirei, com agradecimentos, a boa mão de Deus; e, o que considerei não menos extraordinário, o capitão, que era muito ganancioso, não tentou tirá-lo de mim, estando apenas ele e eu a bordo; pois os outros tinham ido todos para terra negociar. Às vezes, as pessoas não voltavam durante alguns dias: isto costumava irritar o capitão, e então ele descarregava a sua fúria em mim, batendo-me ou fazendo-me sentir de outras formas cruéis. Um dia, especialmente, na sua carreira selvagem, perversa e louca, depois de me bater várias vezes com coisas diferentes, e uma vez através da minha boca, até com um pau a arder tirado do fogo, ele pegou num barril de pólvora para o convés e jurou que explodiria a embarcação. Eu estava então fora de mim e rezei fervorosamente a Deus para me orientar. A tampa estava fora do barril; e o capitão tirou um pau aceso do fogo para se explodir a si e a mim, porque havia uma embarcação à vista a chegar, que ele supunha ser espanhola, e tinha medo de cair nas mãos deles. Vendo isto, peguei num machado, sem ser notado por ele, e coloquei-me entre ele e a pólvora, tendo resolvido comigo mesmo que, assim que ele tentasse colocar o fogo no barril, eu o cortaria naquele instante. Estive mais de uma hora nesta situação; durante a qual ele me bateu muitas vezes, mantendo sempre o fogo na mão para este propósito perverso. Eu teria, na verdade, pensado que me justificaria em qualquer outra parte do mundo se o tivesse matado, e rezei a Deus, que me deu uma mente que repousava unicamente n'Ele. Rezei pela resignação, para que a Sua vontade fosse feita; e as duas seguintes porções da Sua santa palavra, que ocorreram à minha mente, elevaram a minha esperança e impediram-me de tirar a vida a este homem perverso. "De um só sangue fez toda a linhagem dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação", Atos xvii. 26. E, "Quem há entre vós que tema ao Senhor, que ouça a voz do seu servo, que anda em trevas, e não tem luz? Confie no nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus", Isaías l. 10. E assim, pela graça de Deus, fui capacitado a fazer. Encontrei n'Ele um auxílio presente no tempo da necessidade, e a fúria do capitão começou a diminuir à medida que a noite se aproximava: mas descobri,

"Que quem não consegue conter a maré da sua ira Monta um cavalo selvagem sem rédea."

Na manhã seguinte, descobrimos que a embarcação que causara tamanha fúria no capitão era um brigue inglês. Eles logo lançaram âncora onde estávamos e, para minha não pequena surpresa, soube que o Doutor Irving estava a bordo, a caminho da costa de Musquito para a Jamaica. Eu queria ir imediatamente ver aquele antigo senhor e amigo, mas o capitão não me permitiu deixar a embarcação. Informei então ao doutor, por carta, como estava sendo tratado, e implorei que ele me tirasse do brigue: porém, ele me informou que não estava em seu poder fazê-lo, pois ele próprio era um passageiro; mas enviou-me um pouco de rum e açúcar para meu próprio uso. Soube então que, após eu ter deixado a propriedade que administrava para este cavalheiro na costa de Musquito, durante a qual os escravos eram bem alimentados e viviam confortáveis, um feitor branco ocupara o meu lugar: este homem, por desumanidade e avareza mal julgada, espancou e cortou os pobres escravos sem qualquer misericórdia; e a consequência foi que todos entraram em uma grande canoa Puriogua e tentaram fugir; mas, não sabendo para onde ir, ou como manejar a canoa, todos se afogaram; em consequência do que a plantação do doutor ficou inculta, e ele estava agora retornando à Jamaica para comprar mais escravos e povoá-la novamente. No dia 14 de outubro, o Indian Queen chegou a Kingston, na Jamaica. Quando fomos descarregados, exigi o meu salário, que totalizava oito libras e cinco xelins esterlinos; mas o Capitão Baker recusou-se a dar-me um único centavo, embora fosse o dinheiro mais arduamente ganho pelo qual trabalhei em toda a minha vida. Descobri o Doutor Irving após isso e o informei da patifaria do capitão. Ele fez tudo o que pôde para me ajudar a receber o meu dinheiro; e fomos a todos os magistrados em Kingston (e eram nove), mas todos se recusaram a fazer qualquer coisa por mim, e disseram que o meu juramento não podia ser admitido contra um homem branco. Nem foi só isso; pois Baker ameaçou que me espancaria severamente se pudesse me apanhar por tentar exigir o meu dinheiro; e ele teria feito isso, não fosse o fato de eu ter obtido, por meio do Dr. Irving, a proteção do Capitão Douglas, do navio de guerra Squirrel. Achei isso um tratamento excessivamente duro; embora, na verdade, tenha descoberto que era prática comum ali pagar homens livres pelo seu trabalho dessa maneira. Um dia fui com um alfaiate negro livre, chamado Joe Diamond, até um tal Sr. Cochran, que lhe devia alguma quantia irrisória; e o homem, não conseguindo receber o seu dinheiro, começou a murmurar. O outro imediatamente pegou um chicote de montaria para pagá-lo com ele; mas, com a ajuda de um bom par de pernas, o alfaiate conseguiu escapar. Tais opressões como estas fizeram-me procurar uma embarcação para sair da ilha o mais rápido que pude; e, pela misericórdia de Deus, encontrei um navio em novembro com destino à Inglaterra, onde embarquei com um comboio, após ter dado um último adeus ao Doutor Irving. Quando deixei a Jamaica, ele estava empregado no refinamento de açúcar; e alguns meses após a minha chegada à Inglaterra, soube, com muito pesar, que este meu amável amigo estava morto, devido a ter comido peixe envenenado. Tivemos muitas rajadas de vento muito fortes em nossa travessia; no decorrer das quais nenhum incidente material ocorreu, exceto que um corsário americano, encontrando a frota, foi capturado e incendiado pelo navio de Sua Majestade, o Squirrel. Em sete de janeiro de 1777, chegamos a Plymouth. Fiquei feliz por pisar novamente em solo inglês; e, depois de passar algum tempo em Plymouth e Exeter entre alguns amigos piedosos, a quem fiquei feliz em ver, fui para Londres com o coração repleto de agradecimentos a Deus por todas as misericórdias passadas.

CAP. XII.

Diferentes transações da vida do autor até o presente momento — Sua solicitação ao falecido Bispo de Londres para ser nomeado missionário para a África — Algum relato de sua participação na condução da última expedição a Serra Leoa — Petição à Rainha — Conclusão.

Estas foram as várias cenas das quais fui testemunha, e a fortuna que experimentei até o ano de 1777. Desde esse período, a minha vida tem sido mais uniforme, e os incidentes dela menores do que em qualquer outro número igual de anos precedentes; apresso-me, portanto, para a conclusão de uma narrativa que temo que o leitor possa achar já suficientemente tediosa.

Eu havia sofrido tantas imposições nas minhas transações comerciais em diferentes partes do mundo, que fiquei profundamente desgostoso com a vida marítima, e determinei não retornar a ela, pelo menos por algum tempo. Por isso, envolvi-me mais uma vez em serviço logo após o meu retorno, e continuei na maior parte nesta situação até 1784.

Logo após a minha chegada a Londres, vi uma circunstância notável relativa à tez africana, que achei tão extraordinária que peço licença para apenas mencioná-la: uma mulher negra branca, que eu tinha visto anteriormente em Londres e em outras partes, casou-se com um homem branco, com quem teve três meninos, e eles eram todos mulatos, e ainda assim tinham cabelos finos e claros. Em 1779, servi o Governador Macnamara, que estivera um tempo considerável na costa da África. No tempo do meu serviço, costumava pedir frequentemente a outros criados que se juntassem a mim nas orações em família; mas isso apenas despertava o seu escárnio. No entanto, o Governador, entendendo que eu era de índole religiosa, quis saber de que religião eu era; disse-lhe que era protestante da igreja da Inglaterra, de acordo com os trinta e nove artigos daquela igreja, e que a quem quer que eu descobrisse pregar segundo essa doutrina, a esses eu ouviria. Poucos dias depois disso, tivemos mais alguma conversa sobre o mesmo assunto: o Governador falou-me sobre isso novamente, e disse que ele, se eu quisesse, como achava que eu poderia ser útil na conversão dos meus compatriotas à fé do Evangelho, conseguiria que eu fosse enviado como missionário para a África. A princípio recusei-me a ir, e contei-lhe como tinha sido tratado em ocasião semelhante por algumas pessoas brancas na última viagem que fiz à Jamaica, quando tentei (se fosse a vontade de Deus) ser o meio de converter o príncipe indígena; e disse-lhe que supunha que me tratariam pior do que Alexandre, o latoeiro, tratou São Paulo, se eu tentasse ir entre eles na África. Ele disse-me para não temer, pois ele solicitaria ao Bispo de Londres que me ordenasse. Nestes termos, consenti com a proposta do Governador de ir para a África, na esperança de fazer o bem, se possível, entre os meus compatriotas; então, para que eu fosse enviado adequadamente, escrevemos imediatamente as seguintes cartas ao falecido Bispo de Londres:

Ao Reverendíssimo Pai em Deus, ROBERT, Lorde Bispo de Londres: O MEMORIAL de Gustavus Vassa

Expõe,

Que o vosso memorialista é um nativo da África, e tem conhecimento dos modos e costumes dos habitantes daquele país.

Que o vosso memorialista residiu em diferentes partes da Europa durante os últimos vinte e dois anos, e abraçou a fé cristã no ano de 1759.

Que o vosso memorialista deseja retornar à África como missionário, se encorajado por Vossa Excelência, na esperança de ser capaz de persuadir os seus compatriotas a se tornarem cristãos; e o vosso memorialista é tanto mais induzido a empreender o mesmo, pelo sucesso que acompanhou empreendimentos semelhantes quando encorajados pelos portugueses através dos seus diferentes assentamentos na costa da África, e também pelos holandeses: ambos os governos encorajando os negros que, pela sua educação, estão qualificados para empreender o mesmo, e são considerados mais adequados do que clérigos europeus, desconhecedores da língua e dos costumes do país.

O único motivo do vosso memorialista para solicitar o cargo de missionário é que ele possa ser um meio, sob Deus, de reformar os seus compatriotas e persuadi-los a abraçar a religião cristã. Portanto, o vosso memorialista humildemente roga o encorajamento e apoio de Vossa Excelência no empreendimento.

GUSTAVUS VASSA.

No endereço do Sr. Guthrie, alfaiate, N.º 17, Hedge-lane.

Meu Senhor,

Residi cerca de sete anos na costa da África, na maior parte do tempo como oficial comandante. Pelo conhecimento que tenho do país e dos seus habitantes, inclino-me a pensar que o plano aqui incluído será acompanhado de grande sucesso, se apoiado por Vossa Excelência. Peço licença para representar ainda a Vossa Excelência que tentativas semelhantes, quando encorajadas por outros governos, encontraram um sucesso incomum; e neste exato momento conheço uma personagem muito respeitável, um sacerdote negro no Castelo de Cape Coast. Conheço o Gustavus Vassa aqui mencionado, e acredito que seja um homem moralmente bom.

Tenho a honra de ser, Meu Senhor, De Vossa Excelência, Humble e obediente servidor, MATT. MACNAMARA.

Grove, 11 de março de 1779.

Esta carta foi também acompanhada pela seguinte do Doutor Wallace, que residira na África por muitos anos, e cujos sentimentos sobre o assunto de uma missão africana eram os mesmos do Governador Macnamara.

13 de março de 1779.

Meu Senhor,

Residi cerca de cinco anos na Senegâmbia, na costa da África, e tive a honra de exercer empregos muito consideráveis naquela província. Aprovo o plano aqui incluído, e penso que o empreendimento é muito louvável e adequado, e que merece a proteção e encorajamento de Vossa Excelência, caso em que deve ser acompanhado do sucesso pretendido.

Sou, Meu Senhor, De Vossa Excelência, Humilde e obediente servidor, THOMAS WALLACE.

Com estas cartas, aguardei pelo Bispo por desejo do Governador, e apresentei-as a Sua Excelência. Ele recebeu-me com muita condescendência e polidez; mas, por certos escrúpulos de delicadeza, declinou ordenar-me.

O meu único motivo para me deter assim nesta transação, ou inserir estes documentos, é a opinião que cavalheiros de bom senso e educação, que conhecem a África, têm sobre a probabilidade de converter os habitantes dela à fé de Jesus Cristo, se a tentativa fosse apoiada pelo legislativo.

Pouco depois disso, deixei o Governador e servi um nobre na milícia de Devonshire, com quem estive acampado em Coxheath por algum tempo; mas as operações ali foram demasiado minuciosas e desinteressantes para fazer um relato delas.

No ano de 1783, visitei oito condados no País de Gales, por motivos de curiosidade. Enquanto estava naquela parte do país, fui levado a descer a uma mina de carvão em Shropshire, mas a minha curiosidade quase me custou a vida; pois, enquanto eu estava na mina, o carvão desmoronou e soterrou um pobre homem, que não estava longe de mim: diante disso, saí o mais rápido que pude, pensando que a superfície da terra era a parte mais segura dela.

Na primavera de 1784, pensei em visitar o velho oceano novamente. Em consequência disso, embarquei como comissário a bordo de um belo navio novo chamado London, comandado por Martin Hopkin, e naveguei para Nova Iorque. Admirei muito esta cidade; é grande e bem construída, e abunda em provisões de todos os tipos. Enquanto estávamos aqui, aconteceu uma circunstância que achei extremamente singular: um dia, um malfeitor seria executado na forca; mas com a condição de que, se alguma mulher, não tendo nada sobre si além da sua camisola, casasse com o homem sob a forca, a sua vida seria salva. Este privilégio extraordinário foi reclamado; uma mulher apresentou-se; e a cerimônia de casamento foi realizada. Tendo o nosso navio sido carregado, retornamos a Londres em janeiro de 1785. Quando ele estava pronto novamente para outra viagem, sendo o capitão um homem agradável, naveguei com ele a partir daqui na primavera, em março de 1785, para Filadélfia. No dia cinco de abril, partimos do Land's End, com uma brisa agradável; e por volta das nove horas daquela noite a lua brilhava intensamente, e o mar estava calmo, enquanto o nosso navio seguia livre com o vento, à velocidade de cerca de quatro ou cinco milhas por hora. Neste momento, outro navio seguia quase tão rápido quanto nós no ponto oposto, encontrando-nos de frente, mas ninguém a bordo observou qualquer um dos navios até que batemos um no outro com força, para o espanto e consternação de ambas as tripulações. Ele causou-nos muitos danos, mas creio que causamos mais a ele; pois, quando passamos um pelo outro, o que fizemos muito rapidamente, eles gritaram para pararmos e içarmos o nosso bote, mas tínhamos o suficiente para nos preocuparmos conosco mesmos; e em cerca de oito minutos não vimos mais nada dele. Consertamos o que pudemos no dia seguinte, e prosseguimos na nossa viagem, e em maio chegamos a Filadélfia. Fiquei muito feliz em ver esta querida e antiga cidade mais uma vez; e o meu prazer aumentou muito ao ver os dignos quacres libertando e aliviando os fardos de muitos dos meus irmãos africanos oprimidos. Alegrou o meu coração quando uma destas pessoas amigáveis me levou a ver uma escola gratuita que eles tinham erguido para todas as denominações de negros, cujas mentes são cultivadas aqui e encaminhadas para a virtude; e assim eles são feitos membros úteis da comunidade. O sucesso desta prática não diz em voz alta aos plantadores, na linguagem das escrituras: "Ide vós e fazei o mesmo"?

Em outubro de 1785, fui acompanhado por alguns dos africanos, e apresentei este endereço de agradecimento aos cavalheiros chamados Amigos ou Quacres, em Gracechurch-Court, Lombard-Street:

Cavalheiros,

Pela leitura do vosso livro, intitulado "Uma Advertência à Grã-Bretanha e suas Colônias", sobre o Estado Calamitoso dos Negros escravizados: Nós, os pobres, oprimidos, necessitados e muito degradados negros, desejamos aproximar-nos de vós com este endereço de agradecimento, com o nosso amor mais profundo e o nosso mais caloroso reconhecimento; e com o mais profundo sentido da vossa benevolência, labor incansável e gentil interposição, no sentido de quebrar o jugo da escravidão, e administrar um pouco de conforto e alívio a milhares e dezenas de milhares de negros muito gravemente aflitos e sobrecarregados.

Cavalheiros, se vós pudésseis, pela perseverança, ser finalmente capacitados, sob Deus, a aliviar em qualquer grau o pesado fardo dos aflitos, sem dúvida seria, em alguma medida, o possível meio, sob Deus, de salvar as almas de muitos dos opressores; e, se assim for, estamos certos de que o Deus, cujos olhos estão sempre sobre todas as suas criaturas, e sempre recompensa todo verdadeiro ato de virtude, e atenta para as orações dos oprimidos, dará a vós e aos vossos aquelas bênçãos que não está em nosso poder expressar ou conceber, mas que nós, como parte daqueles povos cativos, oprimidos e aflitos, mais sinceramente desejamos e pedimos.

Estes cavalheiros receberam-nos muito gentilmente, com a promessa de se esforçarem em favor dos africanos oprimidos, e partimos.

Enquanto estava na cidade, aconteceu-me uma vez ser convidado para um casamento quacre. O modo simples e, contudo, expressivo usado nas suas solenidades é digno de nota. A seguinte é a verdadeira forma dele:

Após a reunião dos convidados, eles têm exortações oportunas por vários dos membros; o noivo e a noiva levantam-se e, tomando um ao outro pela mão de maneira solene, o homem declara audivelmente para este propósito:

"Amigos, no temor do Senhor, e na presença desta assembleia, a quem desejo que sejam as minhas testemunhas, tomo esta minha amiga, M.N., para ser minha esposa; prometendo, através da assistência divina, ser para ela um marido amoroso e fiel até que a morte nos separe": e a mulher faz a declaração semelhante. Então os dois primeiros assinam os seus nomes no registro, e tantas outras testemunhas quantas quiserem. Tive a honra de subscrever o meu num registro em Gracechurch-Court, Lombard-Street.

Retornamos a Londres em agosto; e como o nosso navio não ia imediatamente para o mar, embarquei como comissário num navio americano chamado Harmony, capitão John Willet, e deixei Londres em março de 1786, com destino a Filadélfia. Onze dias após a partida, perdemos o nosso mastro de vante. Tivemos uma viagem de nove semanas, o que fez com que a nossa jornada não tivesse sucesso, provando ser mau o mercado para os nossos bens; e, para piorar, o meu comandante começou a pregar-me as mesmas peças que outros praticam demasiadas vezes com negros livres nas Índias Ocidentais. Mas agradeço a Deus por ter encontrado muitos amigos aqui, que em certa medida o impediram. No meu retorno a Londres, em agosto, fiquei muito agradavelmente surpreendido ao descobrir que a benevolência do governo tinha adotado o plano de alguns indivíduos filantropos de enviar os africanos daqui para a sua terra natal; e que algumas embarcações tinham sido então contratadas para levá-los a Serra Leoa; um ato que redundou na honra de todos os envolvidos na sua promoção, e encheu-me de orações e muito regozijo. Havia então na cidade um comitê seleto de cavalheiros para os negros pobres, a alguns dos quais tive a honra de ser conhecido; e, assim que souberam da minha chegada, enviaram-me chamar ao comitê. Quando lá cheguei, informaram-me da intenção do governo; e, como pareciam achar-me qualificado para supervisionar parte do empreendimento, pediram-me para ir com os negros pobres para a África. Apontei-lhes muitas objeções à minha ida; e, particularmente, expressei algumas dificuldades por causa dos traficantes de escravos, pois eu certamente me oporia ao seu tráfico de seres humanos por todos os meios ao meu alcance. No entanto, estas objeções foram superadas pelos cavalheiros do comitê, que me persuadiram a ir e me recomendaram aos honoráveis Comissários da Marinha de Sua Majestade como uma pessoa apropriada para atuar como comissário do governo na pretendida expedição; e eles, consequentemente, nomearam-me em novembro de 1786 para esse cargo, e deram-me poder suficiente para agir pelo governo na qualidade de comissário, tendo recebido o meu mandado e a seguinte ordem.

Pelos principais Oficiais e Comissários da Marinha de Sua Majestade.

Considerando que fostes instruído, pelo nosso mandado de 4 do mês passado, a receber sob a vossa responsabilidade, do Sr. Irving, as provisões excedentes restantes do que foi providenciado para a viagem, bem como as provisões para o sustento dos negros pobres após o desembarque em Serra Leoa, com o vestuário, ferramentas e todos os outros artigos fornecidos por conta do governo; e como as provisões foram estocadas na proporção de dois meses para a viagem, e por quatro meses após o desembarque, mas sendo o número embarcado muito menor do que o esperado, pelo que pode haver um excedente considerável de provisões, vestuário, etc. Estas são, em adição às ordens anteriores, para vos ordenar e exigir que aproprieis ou disponhais de tal excedente da melhor maneira que puderdes para o benefício do governo, mantendo e prestando-nos uma conta fiel do que fizerdes neste sentido. E para vossa orientação na prevenção de quaisquer pessoas brancas que vão, que não têm a intenção de ter as indulgências de serem levadas para lá, enviamos-vos aqui uma lista daqueles recomendados pelo Comitê para os negros pobres como pessoas apropriadas para terem permissão de embarcar, e vos informamos que não deveis permitir que outros vão que não produzam um certificado do comitê para os negros pobres, da sua permissão para tal. Pelo que este servirá de mandado. Datado na Secretaria da Marinha, 16 de janeiro de 1787.

J. HINSLOW, GEO. MARSH, W. PALMER.

Ao Sr. Gustavus Vassa, Comissário de Provisões e Armazéns para os Negros Pobres que vão para Serra Leoa.

Procedi imediatamente à execução do meu dever a bordo das embarcações destinadas à viagem, onde continuei até ao mês de março seguinte.

Durante a minha permanência ao serviço do governo, fiquei impressionado com os abusos flagrantes cometidos pelo agente e esforcei-me por remediá-los, mas sem sucesso. Um caso, entre muitos que poderia apresentar, pode servir de exemplo. O governo tinha ordenado que se fornecessem todas as necessidades (incluindo roupas de cama e vestuário, como são chamados) para 750 pessoas; contudo, não sendo possível reunir mais do que 426, recebi ordem para enviar as roupas supérfluas, etc., para os armazéns do rei em Portsmouth; mas, quando as exigi para esse fim ao agente, verificou-se que nunca tinham sido compradas, embora pagas pelo governo. Mas isso não era tudo; o governo não era o único alvo de peculato; estas pobres pessoas sofriam infinitamente mais; as suas acomodações eram miseráveis; muitas delas não tinham camas, e muito mais faltava-lhes vestuário e outras necessidades. Para a veracidade disto, e de muito mais, não procuro crédito na minha própria afirmação. Apelo ao testemunho do Capitão Thompson, do Nautilus, que nos escoltou, a quem recorri em fevereiro de 1787 para obter um remédio, quando já tinha protestado em vão junto do agente, e até o levei a testemunhar a injustiça e opressão de que me queixava. Apelo também a uma carta escrita por estas pobres pessoas, logo no início do mês de janeiro anterior, e publicada no Morning Herald do dia 4 desse mês, assinada por vinte dos seus chefes.

Não podia sofrer em silêncio que o governo fosse assim enganado, e os meus compatriotas saqueados e oprimidos, e até deixados desprovidos do necessário para a sua própria existência. Informei, portanto, os Comissários da Marinha dos procedimentos do agente; mas a minha demissão foi obtida pouco depois, por meio de um cavalheiro na cidade, a quem o agente, consciente do seu peculato, tinha enganado por carta, e a quem, além disso, autorizou o mesmo agente a receber a bordo, às custas do governo, um número de pessoas como passageiros, contrariando as ordens que recebi. Com isto sofri uma perda considerável nos meus bens: contudo, os comissários ficaram satisfeitos com a minha conduta e escreveram ao Capitão Thompson, expressando a sua aprovação.

Assim providos, prosseguiram a sua viagem; e, finalmente, exaustos por um tratamento talvez não dos mais brandos, e definhados por doenças causadas pela falta de medicamentos, vestuário, roupa de cama, etc., chegaram a Serra Leoa exatamente no início das chuvas. Nessa época do ano é impossível cultivar as terras; as suas provisões, portanto, esgotaram-se antes que pudessem tirar qualquer benefício da agricultura; e não é de admirar que muitos, especialmente os lascares, cujas constituições são muito delicadas, e que tinham estado confinados em navios de outubro a junho, e acomodados da maneira que mencionei, ficassem tão definhados pelo seu confinamento a ponto de não sobreviverem muito tempo a ele.

Assim terminou a minha parte na tão comentada expedição a Serra Leoa; uma expedição que, embora infeliz no seu resultado, era humana e política na sua conceção, nem o seu fracasso se deveu ao governo: tudo foi feito da parte deles; mas houve evidentemente uma má gestão suficiente no desenrolar e na execução da mesma para derrotar o seu sucesso.

Eu não teria sido tão extenso no meu relato sobre esta transação, se a parte que tive nela não tivesse sido objeto de censura parcial, e até a minha demissão do meu emprego considerada digna de ser feita por alguns um assunto de triunfo público[X]. Os motivos que poderiam levar qualquer pessoa a descer a uma pequena contenda com um africano obscuro, e a procurar gratificação com a sua depressão, talvez não seja apropriado aqui investigar ou relatar, mesmo que a sua deteção fosse necessária para a minha vindicação; mas agradeço aos Céus que não seja. Desejo manter-me pela minha própria integridade, e não me abrigar sob a impropriedade de outro; e confio que o comportamento dos Comissários da Marinha para comigo me dá o direito de fazer esta afirmação; pois, depois de ter sido demitido, a 24 de março, redigi um memorial assim:

Ao Excelentíssimo Senhor, os Lordes Comissários do Tesouro de Sua Majestade: O Memorial e Petição de Gustavus Vassa, um homem negro, ex-Comissário dos Negros pobres que vão para a África.

HUMILDEMENTE APRESENTA,

Que o memorialista de Vossas Senhorias foi, pelos Honoráveis Comissários da Marinha de Sua Majestade, no dia 4 de dezembro último, nomeado para o cargo acima referido por mandado desse conselho;

Que, em conformidade, procedeu à execução do seu dever a bordo do Vernon, sendo um dos navios designados para seguir para a África com os referidos pobres;

Que o vosso memorialista, para seu grande pesar e espanto, recebeu uma carta de demissão dos Honoráveis Comissários da Marinha, por ordens de Vossas Senhorias;

Que, consciente de ter agido com a mais perfeita fidelidade e a maior assiduidade no cumprimento do cargo que lhe foi confiado, está totalmente perdido para conceber as razões pelas quais Vossas Senhorias alteraram a opinião favorável que tiveram a bondade de formar a seu respeito, sensível de que Vossas Senhorias não procederiam a uma medida tão severa sem uma causa aparente e justa; tem, portanto, todas as razões para acreditar que a sua conduta foi grosseiramente deturpada perante Vossas Senhorias; e confirma-se mais na sua opinião porque, ao opor-se a medidas de outros envolvidos na mesma expedição, que tendiam a derrotar as intenções humanas de Vossas Senhorias, e a causar ao governo uma despesa adicional muito considerável, criou uma série de inimigos, cujas deturpações, tem demasiadas razões para acreditar, lançaram as bases da sua demissão. Sem o apoio de amigos, e sem a ajuda das vantagens de uma educação liberal, só pode esperar reparação da justiça da sua causa, além da mortificação de ter sido removido do seu emprego, e da vantagem que razoavelmente poderia ter esperado derivar dele. Teve o infortúnio de ter perdido uma parte considerável dos seus pequenos bens ao equipar-se a si próprio, e noutras despesas decorrentes da sua situação, uma conta das quais anexa aqui. O vosso memorialista não importunará Vossas Senhorias com uma vindicação de qualquer parte da sua conduta, porque não sabe de que crimes é acusado; suplica, contudo, encarecidamente, que vos digneis ordenar um inquérito ao seu comportamento durante o tempo em que serviu o serviço público; e, se se verificar que a sua demissão resultou de falsas representações, está confiante de que na justiça de Vossas Senhorias encontrará reparação.

O vosso peticionário, portanto, humildemente reza para que Vossas Senhorias levem o seu caso em consideração, e que vos digneis ordenar o pagamento da conta acima referida, perfazendo 32l. 4s., e também os salários pretendidos, o que é humildemente submetido.

Londres, 12 de maio de 1787.

A petição acima foi entregue nas mãos de Vossas Senhorias, que tiveram a bondade, no espaço de alguns meses depois, sem audiência, de me ordenarem 50l. esterlinas -- isto é, 18l. de salários pelo tempo (mais de quatro meses) em que agi de forma fiel ao seu serviço. Certamente, a soma é mais do que um negro livre teria tido nas colónias ocidentais!!!

* * * * *

A 21 de março de 1788, tive a honra de apresentar à Rainha uma petição em nome dos meus irmãos africanos, que foi recebida da forma mais graciosa por Sua Majestade[Y]:

À MAJESTADE mais Excelente da RAINHA.

Senhora,

A bem conhecida benevolência e humanidade de Vossa Majestade encoraja-me a aproximar-me da vossa presença real, confiando que a obscuridade da minha situação não impedirá Vossa Majestade de atender aos sofrimentos pelos quais imploro.

No entanto, não solicito a vossa real piedade para a minha própria angústia; os meus sofrimentos, embora numerosos, estão em certa medida esquecidos. Suplico a compaixão de Vossa Majestade para com milhões dos meus compatriotas africanos, que gemem sob o chicote da tirania nas Índias Ocidentais.

A opressão e crueldade exercidas sobre os infelizes negros lá, chegaram finalmente ao legislativo britânico, e estão agora a deliberar sobre a sua reparação; até mesmo várias pessoas com propriedade de escravos nas Índias Ocidentais peticionaram ao parlamento contra a sua continuação, sensíveis de que é tão impolítico quanto injusto -- e o que é inumano deve ser sempre insensato.

O reinado de Vossa Majestade tem sido até agora distinguido por atos privados de benevolência e generosidade; certamente, quanto mais estendida for a miséria, maior reivindicação tem à compaixão de Vossa Majestade, e maior deve ser o prazer de Vossa Majestade em contribuir para o seu alívio.

Presumo, portanto, graciosa Rainha, implorar a vossa interposição junto do vosso real consorte, a favor dos miseráveis africanos; para que, pela influência benevolente de Vossa Majestade, um período possa agora ser colocado na sua miséria; e que eles possam ser elevados da condição de brutos, à qual estão atualmente degradados, para os direitos e situação de homens livres, e admitidos a participar das bênçãos do feliz governo de Vossa Majestade; assim gozará Vossa Majestade o prazer sincero de proporcionar felicidade a milhões, e será recompensada nas orações gratas deles próprios, e dos seus descendentes.

E que o Criador todo-generoso derrame sobre Vossa Majestade, e a Família Real, todas as bênçãos que este mundo pode oferecer, e toda a plenitude de alegria que a revelação divina nos prometeu no próximo.

Sou o mais obediente e devotado servo de Vossa Majestade ao vosso dispor,

Gustavus Vassa, O Etíope Oprimido.

N.º 53, Baldwin's Gardens.

* * * * *

O ato consolidado dos negros, feito pela assembleia da Jamaica no ano passado, e o novo ato de emenda agora em agitação lá, contêm uma prova da existência dessas acusações que foram feitas contra os plantadores relativamente ao tratamento dos seus escravos.

Espero ter a satisfação de ver a renovação da liberdade e da justiça apoiadas no governo britânico, para vindicar a honra da nossa natureza comum. Estas são preocupações que talvez não pertençam a nenhum cargo em particular: mas, para falar mais seriamente a todo o homem de sentimento, ações como estas são o fundamento justo e seguro da fama futura; uma reversão, embora remota, é cobiçada por algumas mentes nobres como um bem substancial. É sobre estes fundamentos que espero e aguardo a atenção dos senhores no poder. Estes são desígnios consonantes com a elevação da sua categoria, e a dignidade dos seus cargos: são fins adequados à natureza de um governo livre e generoso; e, ligados a visões de império e domínio, adequados à benevolência e ao mérito sólido do legislativo. É uma busca de grandeza substancial.--Que chegue o tempo--pelo menos a especulação para mim é agradável--em que o povo de pele negra comemore gratamente a era auspiciosa da liberdade extensiva. Então serão esses nomes[Z] particularmente mencionados com louvor e honra, aqueles que generosamente propuseram e se levantaram pela causa da humanidade, liberdade e boa política; e trouxeram ao ouvido do legislativo desígnios dignos de patrocínio e adoção real. Que o Céu faça dos senadores britânicos os dispersores da luz, liberdade e ciência, até às partes mais remotas da terra: então haverá glória a Deus nas alturas, na terra paz, e boa vontade aos homens:--Glória, honra, paz, etc., a toda a alma humana que faz o bem, aos britânicos primeiro, (porque a eles o Evangelho é pregado) e também às nações. 'Aqueles que honram o seu Criador têm misericórdia dos pobres.' 'É a justiça que exalta uma nação; mas o pecado é uma vergonha para qualquer povo; a destruição será para os obreiros da iniquidade, e os ímpios cairão pela sua própria maldade.' Que as bênçãos do Senhor estejam sobre as cabeças de todos aqueles que se compadeceram dos casos dos negros oprimidos, e que o temor de Deus prolongue os seus dias; e que as suas expectativas sejam preenchidas com alegria! 'O liberal planeia coisas liberais, e pelas coisas liberais permanecerá,' Isaías xxxii. 8. Eles podem dizer com o piedoso Jó, 'Não chorei eu por aquele que estava em apuros? Não se entristeceu a minha alma pelo pobre?' Jó xxx. 25.

Como o tráfico inumano da escravatura deve ser levado à consideração do legislativo britânico, não duvido que, se um sistema de comércio fosse estabelecido em África, a procura por manufaturas aumentaria muito rapidamente, à medida que os habitantes nativos adotariam insensivelmente as modas, modos, costumes, etc., britânicos. Na proporção da civilização, assim será o consumo das manufaturas britânicas.

O desgaste de um continente, quase duas vezes maior que a Europa, e rico em produções vegetais e minerais, é muito mais fácil de conceber do que de calcular.

Um caso relevante.--Custou aos aborígenes da Grã-Bretanha pouco ou nada em vestuário, etc. A diferença entre os seus antepassados e a geração atual, em termos de consumo, é literalmente infinita. A suposição é muito óbvia. Será igualmente imensa em África--A mesma causa, a saber, a civilização, terá sempre o mesmo efeito.

É negociar sobre fundamentos seguros. Um intercâmbio comercial com África abre uma fonte inesgotável de riqueza para os interesses manufatureiros da Grã-Bretanha, e para todos os quais o comércio de escravos é uma objeção.

Se não estou mal informado, o interesse manufatureiro é igual, se não superior, ao interesse fundiário, quanto ao valor, por razões que logo aparecerão. A abolição da escravatura, tão diabólica, dará uma extensão muito rápida às manufaturas, o que é total e diametralmente oposto ao que algumas pessoas interessadas afirmam.

Os fabricantes deste país devem e terão, na natureza e razão das coisas, um emprego pleno e constante ao fornecer os mercados africanos.

A população, as entranhas e a superfície de África, abundam em retornos valiosos e úteis; os tesouros escondidos de séculos serão trazidos à luz e à circulação. A indústria, o empreendimento e a mineração terão o seu pleno alcance, proporcionalmente à medida que se civilizam. Numa palavra, abre um campo infinito de comércio para as manufaturas britânicas e para o mercador aventureiro. O interesse manufatureiro e os interesses gerais são sinónimos. A abolição da escravatura seria, na realidade, um bem universal.

Torturas, assassínios e todas as outras barbáries e iniquidades imagináveis são praticadas sobre os pobres escravos com impunidade. Espero que o comércio de escravos seja abolido. Rezo para que seja um evento próximo. O grande corpo de fabricantes, unindo-se na causa, irá consideravelmente facilitá-lo e apressá-lo; e, como já afirmei, é muito substancialmente o seu interesse e vantagem, e como tal o da nação em geral, (exceto aquelas pessoas envolvidas na manufatura de cangas, coleiras, correntes, algemas, ferros para as pernas, ganchos, parafusos de polegar, focinheiras de ferro e caixões; chicotes, flagelos e outros instrumentos de tortura usados no comércio de escravos). Em pouco tempo, um sentimento apenas prevalecerá, por motivos de interesse, bem como de justiça e humanidade. A Europa contém cento e vinte milhões de habitantes. Pergunta--Quantos milhões contém a África? Supondo que os africanos, coletiva e individualmente, gastem 5l. por cabeça em vestuário e mobiliário anualmente quando civilizados, etc., uma imensidão para além do alcance da imaginação!

Isto concebo ser uma teoria fundada em factos, e portanto infalível. Se aos negros fosse permitido permanecer no seu próprio país, duplicariam a cada quinze anos. Na proporção de tal aumento será a procura por manufaturas. O algodão e o índigo crescem espontaneamente na maioria das partes de África; uma consideração esta de não pouca importância para as cidades manufatureiras da Grã-Bretanha. Abre uma perspetiva imensa, gloriosa e feliz--o vestuário, etc., de um continente com dez mil milhas de circunferência, e imensamente rico em produções de todas as denominações em troca de manufaturas.

Tenho apenas, portanto, de pedir a indulgência do leitor e concluir. Estou longe da vaidade de pensar que existe algum mérito nesta narrativa: espero que a censura seja suspensa, quando se considerar que foi escrita por alguém que estava tão pouco disposto quanto incapaz de adornar a simplicidade da verdade com a coloração da imaginação. A minha vida e fortuna foram extremamente marcadas, e as minhas aventuras variadas. Mesmo as que relatei estão consideravelmente abreviadas. Se algum incidente nesta pequena obra parecer desinteressante e trivial para a maioria dos leitores, só posso dizer, como minha desculpa para o mencionar, que quase todos os eventos da minha vida causaram uma impressão na minha mente e influenciaram a minha conduta. Habituei-me cedo a procurar a mão de Deus no mais ínfimo acontecimento, e a aprender com ele uma lição de moralidade e religião; e, sob esta luz, cada circunstância que relatei foi para mim de importância. Afinal, o que torna qualquer evento importante, a menos que pela sua observação nos tornemos melhores e mais sábios, e aprendamos 'a agir com justiça, a amar a misericórdia e a caminhar humildemente diante de Deus?' Para aqueles que possuem este espírito, quase não há livro ou incidente tão trivial que não proporcione algum proveito, enquanto para outros a experiência das eras parece não ter utilidade; e mesmo derramar sobre eles os tesouros da sabedoria é deitar fora as joias da instrução.

NOTAS DE RODAPÉ:

[Nota X: Veja o Public Advertiser, 14 de julho de 1787.]

[Nota Y: A pedido de alguns dos meus amigos mais particulares, tomo a liberdade de a inserir aqui.]

[Nota Z: Grenville Sharp, Esq; o Reverendo Thomas Clarkson; o Reverendo James Ramsay; os nossos amigos aprovados, homens de virtude, são uma honra para o seu país, ornamentos da natureza humana, felizes neles próprios, e benfeitores da humanidade!]

O FIM.

Public-domain source text from Project Gutenberg, translated into Portuguese by AI under our editorial direction. Machine translation of a whole book is not flawless — this exists so you can read a book otherwise closed to you, not as a scholarly edition. How this is made.