O LANDLOPER
I
NA POEIRA DA LONGA ESTRADA
O homem que se autodenominava Walker Farr caminhava pesadamente pelas extensões poeirentas de uma estrada rural.
Ele movia-se sem pressa. Não se arrastava como um vagabundo, nem balançava o corpo com o passo de quem tem um objetivo na vida ou um destino em mente. Ao passar sob olmos arqueados, tirou o boné gasto da cabeça e enfiou-o no bolso do paletó, que já avultava volumoso contra o seu flanco. Olhou para a direita e para a esquerda, contemplando as glórias de uma manhã de junho banhada de sol, e passeou de cabeça descoberta ao longo da nave de um templo do grande Ar Livre.
Era jovem, robusto e queimado de sol.
Um automóvel grande e cinzento soltou um aviso brusco atrás dele e então passou zunindo, lançando poeira sobre ele com suas rodas velozes.
Ele lançou ao carro apenas um olhar indiferente, mas, à medida que caminhava, percebeu que, do borrão de impressões, a memória do perfil de uma moça permanecia.
Um agricultor, que chegara ao fim de uma fileira num campo perto da cerca da estrada, apoiou-se no cabo da enxada e, franzindo os olhos contra o sol, observou o rosto do transeunte. Então, o agricultor desviou o olhar para as roupas do estranho e franziu a testa. O rosto era a fisionomia de um homem que era alguém; as roupas eram a indumentária gasta pela estrada de um vagabundo.
— Ei, você! — chamou o agricultor.
— Estou ouvindo — disse o homem que se autodenominava Walker Farr, sorrindo e conferindo uma sutil insolência ao sorriso.
— Quer um trabalho?
— Não, senhor.
— Tem um trabalho?
— Sim, senhor.
— Qual é?
— Cortar buracos de poço que foram virados do avesso por um ciclone.
O homem na estrada dirigiu um sorriso maravilhoso ao agricultor e seguiu em frente. O agricultor piscou e então franziu a testa com mais ferocidade. Ele subiu a cerca e seguiu-o, carregando sua enxada.
— Ouça aqui, você! Não existe tal negócio.
— Mande me chamar da próxima vez que tiver um poço virado do avesso e eu provarei.
— Você é um vagabundo.
Farr continuou o seu passeio.
— Você é um vagabundo, e aqui está o que estamos fazendo com os vagabundos neste condado agora mesmo!
Além deles, na estrada, homens cavavam com pás e golpeavam com picaretas. Os homens vestiam macacões de brim azul, ostensivamente novos, e seus rostos estavam pálidos e pastosos.
— Nós os tiramos da cadeia e os pusemos a fazer um trabalho honesto — disse o agricultor. Ele apontou para os guardas que marchavam de um lado para o outro com fuzis no gancho dos braços. — É aqui que você pertence. Sou um agente da lei desta cidade. Eu o prendo.
O jovem parou. Seu sorriso tornou-se provocadoramente compassivo enquanto ele fitava o distintivo de níquel que o agricultor batia.
— Então você representa a lei, não é? — indagou Farr.
— Represento.
— É uma pena que você não saiba mais sobre a lei, então. Eu não solicitei esmola, não invadi propriedade privada, não pedi comida, nem cometi crime em seu pequeno reino, meu bom e grande paxá de três caudas. Aqui está uma moeda para liquidar a lei. — Ele exibiu uma peça de prata. — Lamento não poder ficar aqui e ajudá-lo a corrigir seus caminhos — eles parecem precisar disso!
Ele passou pela gangue carrancuda de picaretas e pás, caminhando pelo meio da larga estrada.
— Aquele não é um vagabundo? — perguntou um dos guardas.
— Não sei o que ele é — confessou o agricultor.
O homem que se autodenominava Farr dobrou uma esquina e encontrou o mesmo automóvel que o ultrapassara e passara por ele, chutando desdenhosamente a poeira sobre ele, poucos minutos antes de chegar à cerca do agricultor.
Um pneu traseiro estava vazio e um jovem elegantemente vestido de cinzento batia as mãos enluvadas uma na outra, amaldiçoando os solavancos de uma estrada construída por prisioneiros e a negligência culpável de um mecânico que esquecera de colocar um macaco de volta no kit. Duas mulheres estavam ao lado do carro e observavam o desamparo do jovem.
— Entra a tartaruga, segunda cena do drama antigo, "A Tartaruga e a Lebre" — informou a si mesmo Walker Farr.
Seus divertidos olhos castanhos notaram que o jovem era obviamente flácido.
— Ei, você! Ajude-me a escorar este eixo — ordenou o cocheiro.
— Você não precisa de ajuda — sugeriu Farr. — Você precisa de alguém que saiba fazer o trabalho todo.
O olhar que ele lançou ao jovem, de cima a baixo, transmitiu todo o seu significado.
— Bem, devo dizer que esse é um discurso atrevido para um vagabundo — declarou uma das mulheres.
— Mamãe! — advertiu a terceira integrante do grupo.
Farr desviou seu olhar cínico da mulher mais velha para a mais jovem — dos cabelos descoloridos e lábios pintados para uma vivacidade fresca, pura e vívida. Ele viu seu perfil mais uma vez.
— Ninguém se lembrou de dizer "por favor" ainda — informou-lhe a moça, encontrando seu olhar. — Eu digo, senhor!
Ele fez uma reverência e foi direto para a beira da estrada, pegando um pedaço de tábua sobre o qual seus olhos perscrutadores pousaram.
Entregou-o nas mãos enluvadas do dono do carro, tirou o seu próprio paletó desbotado pelo sol e arregaçou as mangas da camisa de flanela acima dos cotovelos; então, com o ombro empurrando para cima e os braços em esforço, ergueu o carro o suficiente para que o cavalheiro flácido pudesse colocar o suporte sob o eixo. E quando o cavalheiro começou a espanar as luvas e a procurar manchas em sua imaculada vestimenta cinzenta, Farr retirou as ferramentas da caixa e prosseguiu com o trabalho de substituir o pneu.
A moça estava perto dele e observava-o com interesse. Ele olhou para cima quando teve oportunidade e encontrou os olhos dela estudando-o. Ela era inteiramente franca em seu olhar. Não havia nada em seus olhos, exceto a seriedade de um escrutínio que satisfazia a curiosidade.
Quando o trabalho terminou, o dono ofereceu dinheiro.
Farr recusou com decisão curta.
— Bem, quer beber alguma coisa? — convidou o devedor.
— Não consumo bebidas alcoólicas.
O motorista esvaziou a sua cigarreira na mão e ofereceu os charutos a Farr, que acabara de vestir o paletó.
— Não fumo, senhor.
Não foi uma recusa com humildade; o modo do homem da estrada continha a insinuação de que qualquer pessoa que bebesse ou fumasse não era melhor do que deveria ser. A moça estudou-o com renovado interesse.
— Não fique aí tentando passar a perna em mim — aconselhou o homem de cinzento, mostrando ressentimento. — O que posso fazer por você?
— Você poderia agradecer ao homem, Richard — declarou a moça, secamente. Ela virou-se para Farr. — Ele parece ter esquecido o "obrigado" como esqueceu o "por favor". Posso reparar? Nós lhe agradecemos!
— E agora estou em dívida com vocês — disse o errante. Ele fez uma reverência e seguiu seu caminho.
Quando o carro passou por ele, a moça virou-se e lançou-lhe um longo olhar. Ele acenou com a mão. A nuvem de poeira fechou-se entre eles.
— Kat Kilgour! Aquele é um vagabundo! Estou pasma! — disse a mulher mais velha, observando o olhar e a saudação.
— Sim, este mundo está cheio de surpresas — concordou a moça, docemente.
— Mas seus próprios olhos lhe disseram que ele era um vagabundo.
— Não há dúvida disso, há, se você usou seus olhos? — exigiu o acompanhante.
— Consideraremos que os olhos têm a palavra — e deixaremos o assunto morrer — disse a moça — e seu tom não era doce.
O homem dos aguçados olhos castanhos e das vestes desbotadas seguiu seu caminho.
Ele colheu uma rosa de um arbusto à beira da estrada e carregou a flor na mão.
— Sua irmã acabou de passar por aqui — informou ele à rosa de maneira caprichosa. — Não suponho que eu e você algum dia a alcançaremos. Vou muito devagar, mas você pode viajar comigo.
II
UM CAVALEIRO ANDANTE FEITO EM CASA
O viandante que se autodenominava Farr desceu a longa colina e dobrou a esquina da estrada onde os amieiros se aglomeravam nas margens do riacho estreito; sussurravam uns com os outros enquanto a brisa agitava suas folhas. Ele bebeu ali, curvando-se e colhendo a água na palma da mão. Banhou a rosa e acariciou suas pétalas murchas.
— Uma pena, pequena! — disse ele. — A longa estrada é uma proposta mortal, e receio que não tenha sido nada sensato da minha parte convidá-la a vir comigo. Sua irmã deve estar muito à nossa frente.
As rochas eram frescas onde os amieiros faziam sombra, e ele sentou-se ali por um tempo, observando a deriva de pequenos detritos na correnteza revolta e observando os insetos patinadores deslizando sobre as águas rasas e calmas com suas pernas abertas.
Havia um silêncio agradável por toda parte. O êxtase borbulhante de um bobolink flutuava acima das gramíneas de um prado e, bem perto, uma carriça pulava entre os amieiros e chilreava notas sonolentas. Paz e repouso pairavam. O homem no riacho inclinou-se baixo e mergulhou a cabeça na água, depois levantou-se e sacudiu as gotas da sua espessa cabeleira castanha. Fê-lo com uma espécie de sacudidela canina e sorriu com o pensamento que lhe ocorreu.
— Um cão vadio! — murmurou ele. — De tanta conta — e seria melhor esquecer a irmã da rosa. Este é um bom lugar para colocar a imaginação para dormir — este é um lugar onde tudo está adormecido.
Ele seguiu em frente contornando a cortina dos amieiros.
Havia uma casa grande e antiga por perto. Suas paredes estavam gastas pelo tempo, seu pátio não era arrumado. As cortinas desbotadas nas janelas pendiam tortas. O vidro das vidraças estava sujo. Todo o aspecto do lugar indicava que não havia mão de mulher para torná-lo um lar. Era comum e desinteressante.
Mas a porta da frente foi escancarada subitamente com um rangido de dobradiças enferrujadas.
Então, veio recuando pela porta um homem muito velho — um homem curvado e enrugado com longos cabelos brancos que se arrastavam debaixo de um chapéu de abas largas. Ele arrastava um caixão, sozinho. A extremidade livre da caixa solene batia nos degraus de madeira com um ruído oco que sugeria vacuidade. Havia uma pilha de lenha em um lado do pátio. O velho puxou o esquife sobre o monte de lascas e soltou a ponta. Ele arrancou um machado de sua fenda num cepo e afundou o topo do caixão com o primeiro golpe.
O homem Farr, observando da estrada, viu que o esquife estava vazio. O velho continuou a golpear e a bater.
O viandante, antes que a destruição tivesse começado, teve tempo de notar que o caixão era um espécime notavelmente fino do trabalho de um marceneiro. Havia vários tipos de madeira incrustada com cuidado, e o trabalho de entalhe ao longo de seus lados fora feito com serra de vaivém com muito esforço despendido nos detalhes, e as pilastras estavam torneadas com arte. Mas o velho golpeava toda essa excelência com selvageria. Era evidente que ele não estava apenas providenciando lenha — ele estava despendendo fúria.
Era um caso que exigia atenção indivisa do observador na estrada; mas um homem surgiu na esquina da casa naquele momento e Farr prontamente desistiu de seu interesse pelo velho lenhador.
O recém-chegado estava vestido da cabeça aos pés em armadura.
Ele ficou parado a uma curta distância e olhou debaixo da viseira para o enérgico velho na pilha de lenha.
Farr notou que a armadura era obviamente feita em casa. O elmo, embora polido e adornado com uma cauda de cavalo, tinha os contornos inconfundíveis de uma chaleira de cobre. A couraça não conseguia disfarçar sua obrigação para com certas partes de um fogão hermético. Mas o conjunto era peculiarmente marcante e o homem na estrada deu uma rápida olhada ao redor na paisagem da Nova Inglaterra para se assegurar de que ainda estava onde supunha estar.
Farr foi até a cerca e cruzou os braços sobre o topo.
O velho, descansando um momento, pareceu sentir aquele olhar atento por trás e, sem virar o corpo, enganchou seu queixo estreito e ossudo sobre o ombro e trocou um longo olhar com o estranho.
— Bem — indagou o venerável lenhador —, o que tens em mente, senhor? — Seu tom era azedo.
— Vendo que a pergunta é direta e lembrando que a idade merece a verdade, direi que estava pensando que este parece ser um local ideal para um manicômio privado, e que os hóspedes têm permissão para se divertir.
— Quero que entendas que me sentei por trinta longos anos na cabeceira da reunião dos Amigos nesta cidade e nunca se disse que meus miolos estão rachados. Além disso, isso não é da tua conta. Siga em frente.
Farr apenas mudou a posição dos pés e adotou uma postura mais relaxada na cerca.
— Sentindo como sinto, não me incomodará muito ir até aí e dar um golpe ou dois em ti — advertiu o velho.
— Não sabia que os Quakers jamais permitiam que seus sentimentos ficassem tão altamente condimentados.
— Siga teu caminho, vagabundo!
— Você vê, meu caro senhor — disse arrastadamente o homem na estrada —, estou em busca de paz de espírito. Se eu seguisse meu caminho sem entender o que isso significa, minha curiosidade insistente nunca me permitiria outra boa noite de sono. Uma palavra sua para acalmar a curiosidade, e então eu vou!
— Tu me viste despedaçando um caixão. Há algo de estranho em me ver despedaçando um caixão que fiz com minhas próprias mãos?
— Não, senhor. Isso está inteiramente dentro dos seus direitos. Mas por quê? Pelo pouco que vi, pareceu-me ser uma obra muito fina.
— Era — afirmou o velho, um pouco mais calmo. — Nogueira com bordo incrustado.
— Posso perguntar se foi feito para alguém que morreu recentemente?
— Eu o fiz para mim mesmo — tive-o comigo por vinte anos! Vendo que tu tens que enfiar o nariz nos meus negócios! — Seu tom era irritadiço e ele se abaixou e começou a jogar lascas e tábuas quebradas na pilha de lenha.
— Então suponho que ele estivesse... er... um pouco fora de moda — sugeriu Farr, suavemente.
— Vejo que tens a intenção de me provocar — o mundo está cheio de tolos. — Ele se endireitou o melhor que pôde, apoiando as mãos nos quadris, e dividiu o olhar furioso entre o homem na cerca e a figura armada. — Eu não vou morrer — decidi continuar vivo. Tenho um tolo em minhas mãos.
— Pai, penso que seria melhor escolheres um pouco melhor as tuas palavras na presença de um estranho — aconselhou o homem na armadura.
— Não podes ver que ele é um tolo? — exigiu o velho.
— Não creio que queira arriscar uma opinião, senhor. Direi apenas que a escolha de um traje de verão do seu filho parece um pouco peculiar. Mas, claro, cada um com seu gosto!
O velho caminhou até a cerca. Ele era torto na cintura e suas pernas estavam curvadas com os arcos da idade, mas caminhava com vigor ágil. Seu olhar era tão afiado quanto uma sovela, embora as pálpebras franzidas estivessem erguidas sobre seus olhos com o efeito de pequenas tendas cujas abas estavam parcialmente fechadas. Ele colocou o rosto perto do de Farr.
— Tu és tão atrevido quanto um corvo e tão curioso quanto uma pega e me atrevo a dizer que és um patife errante. Mas posso falar contigo tanto quanto com qualquer outro.
Com a armadura a chocalhar e a ranger, o filho começou a caminhar em direção a eles.
— Não me interessa que fales de mim, pai — advertiu ele.
Farr notou que o filho tinha olhos tão aguçados e cinzentos quanto os do mais velho. O cidadão armado era robusto e de meia-idade, e o rosto sob a viseira revelava inteligência e autodomínio.
O pai não deu atenção ao filho.
— Tens viajado muito pelo mundo?
— Sim, senhor.
— Tens conhecido muitos homens?
— Muitos e de todos os tipos e condições.
— Então quero perguntar-te o que pensas do bom juízo de um homem que declara que sairá pelo mundo, indo de um lado para o outro, para tentar fazer o bem a todos os homens, para tentar resolver os problemas entre os homens, livre de qualquer preço?
Farr desviou o olhar do pai para o rosto sincero do filho e, então, fitou novamente os olhos perscrutadores do velho. Seguiu-se um silêncio prolongado e embaraçoso.
— Teus olhares falam mais alto que as palavras — declarou o pai. — Teus olhos dizem — ele é um tolo.
— Pode ser melhor não dizer isso com a tua língua — aconselhou o filho. — Eu poderia não ser tão paciente com um estranho quanto sou com meu pai. Ele é totalmente prático, sem imaginação, e por isso o desculpo.
— Não ofereço comentários — disse Walker Farr com um sorriso franco que ganhou um lampejo de resposta do rosto sob a viseira. — Não entendo.
— Eu não esperaria que um vagabundo entendesse qualquer coisa ou que tivesse coragem de dizer o que pensa — piou o pai. Ele virou-se para seu filho. — Aqui está um patife de um vagabundo. Vai com ele e sê outro igual.
— Eu posso ser um filósofo peripatético, pelo que você sabe — disse Farr, provocadoramente. — Há cavaleiros de estamenha assim como cavaleiros de armadura.
— Acho que tu és de mais valor do que tuas roupas indicam — afirmou o filho, observando o estranho atentamente. — E tu carregas uma rosa na mão. Pequenas coisas dizem muito.
Farr colocou a flor no bolso. — Não se engane a meu respeito — disse ele, asperamente.
— Teu discurso te traiu — insistiu o outro.
— Já conheci ladrões que eram universitários — e dicionários de bolso são baratos. E assim, bom dia aos senhores.
— Espere um momento! — apelou o homem na armadura. Seu rosto suavizou-se quando se aproximou do pai.
— Falamos muito e não há mais nada a dizer um ao outro agora. Servi aqui pacientemente por muitos anos. Se eu te deixar por um pequeno tempo, há o velho Ben para esperar e cuidar. E voltarei depois que tiver cumprido meu dever.
— Ficarei vivo para poder pagar a tua fiança na prisão — informou-lhe seu pai, azedamente. — Vai, seu tolo; aprende a tua lição! O mundo está bem como está; ele dará um cascudo nos intrometidos. Mas vai!
— Eu preferiria que tu mostrasses outro espírito ao partir — mas que seja do teu jeito — respondeu o filho, com repressão Quaker de todas as emoções. Ele saiu pelo portão.
— Vou pelo teu caminho — informou ele a Farr —, porque todos os caminhos são iguais para mim. Teria prazer em conversar com alguém que viajou. Tu podes ter um bom conselho para mim. Posso caminhar contigo?
O viandante abriu a boca e fechou-a subitamente sobre uma recusa indignada e mal pronunciada desta honra. Ele franziu os lábios e suas sobrancelhas espessas se juntaram em uma carranca. Então, como se apesar de si mesmo, ele começou a sorrir.
— Não serei um fardo para ti — suplicou o cavaleiro feito em casa. — Tenho minha armadura há muito tempo e pratiquei andar nela.
— Mas por que o traje de lata? — expostulou Farr.
— Explicarei enquanto caminhamos.
— Bem, venha logo! — deixou escapar o viandante. — Nada mais pode me acontecer, de qualquer maneira.
— Então tu encontraste um da tua própria espécie para seguir pelo mundo? — indagou o pai, zombeteiramente. — Penas na cabeça e chocalhos na mão! Tolices e bobagens! Estarás de volta logo com tua loucura curada depois que eu te tirar da cadeia! Então tu te aterás à tua forja e serás sensato!
Farr notou uma pequena oficina à beira da estrada quando começaram a andar.
— Meu pai é um bom homem, mas prático — totalmente prático — disse seu novo camarada de estrada. — De minha boa mãe recebi a imaginação. Minha vida não tem sido feliz aqui. Mas o trabalho ajudou.
Ele apontou para a oficina. Acima da porta principal, uma placa desbotada e desgastada pelo tempo anunciava "Eastup Chick & Filho, Ferreiros". No frontão havia uma placa mais nova anunciando "Jared Chick & Pai, Inventores".
— Eu sou Jared Chick, meu amigo.
Ele falava devagar, pausando para escolher as palavras, fraseando com o cuidado do homem de método, falando como aquelas pessoas falam que leram muitos livros e usam a língua raramente. Farr encontrou muito de pitoresco no discurso do homem solene.
“Meu pai colocou meu nome na placa quando eu era jovem, e isso me agradou. Eu coloquei o nome dele na outra placa quando ele já era velho e isso não o agradou, embora eu tenha insistido que ele deve compartilhar todo o crédito que me venha. Mas meu pai não possui imaginação. Lamento que ele tenha perdido a calma hoje e destruído seu caixão. Não que eu aprovasse tê-lo em casa por todos esses anos, mas ele tinha muito orgulho dele. Ele o fez logo após a morte da minha mãe. Creio que, agora que o destruiu, ele viverá muitos anos mais. Ele é muito obstinado.”
“Fico feliz em ter minhas suspeitas confirmadas”, disse Farr.
“Ele ficou extremamente irritado quando seu irmão mais velho morreu aos oitenta anos. Ficou ao lado dele nos últimos momentos e nos deixou a todos muito desconfortáveis ao dizer ao tio Joachim que não havia necessidade de morrer — que, se ele apenas mostrasse um pouco de garra, poderia continuar vivo tão bem quanto não, e não teria que ir embora apressadamente justo quando era mais necessário na reunião dos Amigos.”
“Considerando que o velho tinha oitenta anos e provavelmente sentia vontade de desistir, parece que seu pai estava apenas provocando um pouco.”
“Talvez ele tenha sido um pouco duro, mas há outro lado disso. Éramos apenas três da sociedade dos Amigos que restavam para ir à antiga casa de reuniões no Primeiro Dia, para que não se dissesse que, após cem anos, permitimos que a sociedade dos pais perecesse em nossa cidade. Tu podes ter notado que meu pai e eu ainda usamos a linguagem simples, mantendo os costumes dos fundadores. Meu pai sentava-se à cabeceira da reunião, meu tio Joachim ficava ao lado dele no assento voltado para a congregação. Eu sou o único adorador. Não sou apto para ser um ministro. Meu pai, quando Joachim morreu, não tinha com quem trocar o aperto de mão ao final da reunião.”
“E agora ele está perdendo sua congregação?”
“Sim, meu amigo, e por isso meu pai me culpa por ir embora, assim como culpou o tio Joachim por morrer. Ele tem a reunião muito em seu coração.”
“O que ele fará para ter público depois que você for embora?”
“Ele continuará a sentar-se à cabeceira da reunião, senhor.”
Houve silêncio entre eles por algum tempo. O ferreiro seguiu seu caminho com passo firme.
“Ele ainda se sentará à cabeceira da reunião! Resta apenas um pouco de fogo ali, senhor, mas ele não permitirá que se apague enquanto estiver vivo para soprar os foles da devoção.”
“Olhe aqui, Irmão Chick”, exigiu Farr. “Não quero ser intrometido ou impertinente, mas qual é a sua ideia?”
“Não me envergonho de nada do que vou fazer. Mesmo que seja um plano muito estranho, como o mundo veria, não me envergonho dele. Com poucas palavras lhe direi: vou sair pelo mundo entre os homens e espalhar o evangelho da misericórdia e da tolerância, ensinar as lições da paz, exortar os homens a perdoar em vez de lutar — mostrando-lhes que os tribunais de justiça são mais frequentemente o parquinho do diabo do que a morada da verdadeira justiça. Trabalhei duro, li muitos livros, armazenei informações em minha mente, guardei dinheiro suficiente. Vês a minha armadura — trabalhei nela pacientemente por muito tempo.”
“Espera que joguem coisas em você?”
Mas o ferreiro, respondendo, não deu sinal de que se ofendia com aquele humor brusco.
“É bem sabido que é difícil atrair a atenção do mundo para longe de seus próprios assuntos. Por exemplo, se eu estivesse parado no quintal hoje, vestido como um homem comum, tu terias passado pelo teu caminho — contanto que meu pai estivesse cortando lenha em vez de um caixão. Se eu tivesse te parado e começado a explicar meus pontos de vista, tu terias prestado pouca atenção a mim. Não é assim?”
“É assim.”
“Bem, então, tu tens minha teoria e conheces meu plano e notaste como tem funcionado”, disse o Sr. Chick.
“Não quero desencorajá-lo de uma boa causa, mas por quanto tempo você acha que um policial deixaria você ficar em uma esquina?”
“Encontrarei lugares onde poderei entregar minha mensagem sem ofender.”
“Há outro ponto — um ponto um tanto delicado a considerar, Irmão Chick. Há muitas pessoas que são um pouco obtusas ao examinar as motivações de um homem, mas que acham que são extremamente inteligentes em detectar as falhas mentais de alguém; quando alguém faz algo que elas não fariam, dizem que está louco.”
O ferreiro virou seu rosto sereno e sorriu para Farr.
“Apelo ao teu bom senso, senhor. Tu, depois de conversar comigo, mesmo que eu use ferro sobre minhas roupas de lã, me enviarias para um manicômio?”
“Não”, reconheceu Farr, “não acredito que eu o enviaria para um manicômio.”
“Agradeço-te! Acredito que tu podes falar de modo geral pelo homem comum.”
“Mas o plano da armadura — é um pouco arriscado, Amigo Chick.”
“Mas tem sido a marca registrada do altruísmo desde os dias dos Cruzados”, declarou o Sr. Chick. “Por que seu significado não deveria ser revivido nestes tempos modernos? De qualquer forma”, acrescentou, com sagacidade ianque, “é necessário dar ao mundo um bom susto hoje em dia antes que ele pare, olhe e escute.”
“Alguma agência de publicidade lhe fará uma oferta que o levará para o acampamento no segundo dia de viagem, se você não tomar cuidado. Você certamente tem uma boa noção do negócio.”
“Sou sincero. Não estou brincando. Refleti sobre isso por muito tempo. Serei julgado mal — mas não terei medo!”
III
A CAVALARIA TESTADA
Os dois seguiram em frente, lado a lado, e Walker Farr, juntando em sua mente, a partir dos fragmentos que ouvira, toda a história da família Chick, entregou-se ao capricho de Jared e esqueceu por um momento a figura grotesca apresentada por seu companheiro.
“Não, não tenho medo!”, repetiu o novo apóstolo da harmonia mundial.
Mas tornou-se prontamente aparente que o Sr. Chick não podia comunicar sua intrepidez a outras criaturas.
Pela curva da estrada veio um cavalo sonolento, batendo os cascos na poeira, puxando uma carroça na qual viajavam um fazendeiro e sua esposa.
O cavalo despertou completamente ao ver o Sr. Chick.
Com a cabeça erguida, olhos arregalados, narinas dilatando e crina eriçada, o animal parou bruscamente com as pernas abertas. Então bufou, girou, levou a carroça em um círculo sobre duas rodas, apesar dos esforços do fazendeiro, e partiu na direção oposta, com o condutor puxando forte as rédeas, as mãos acima da cabeça, os cotovelos para fora.
“Ocorre-me, Amigo Chick”, disse seu companheiro, depois que a carruagem desapareceu, “que, ao planejar esta sua peregrinação, você falhou em levar tudo em consideração. Se aquele fazendeiro e sua esposa caírem na vala e quebrarem o pescoço, então toda a sua mediação geral em outros lugares dificilmente compensará o dano que você causou bem aqui.”
“O mundo está cheio de problemas”, suspirou o homem de armadura. “Parece haver um entrave para quase tudo!”
Após alguns momentos, o fazendeiro veio correndo à vista, a pé.
“Em nome do calvo Nicodemos, como você se chama e o que está tentando fazer?”, gritou ele. “Foi apenas por sorte, acaso e porque a correia aguentou que eu e minha esposa não estamos estirados, rígidos, na vala.”
“Lamento”, disse o amigo Chick com dignidade.
“Faça um cavalo se acostumar com bicicletas, máquinas voadoras, bólidos vermelhos e diabos azuis, e então aparece outra coisa que não está escrita no Almanaque do Velho Fazendeiro! Você aí, o que não é louco, o que é essa coisa que você está arrastando por aí?”, exigiu o fazendeiro, dirigindo-se a Farr.
“Neste caso, não sou o guardião do meu irmão”, declarou o jovem.
“Bem, onde está o guardião dele, então? Ele precisa de um.” Ele caminhou ao redor de Chick e bateu rudemente a coronha do chicote na couraça. “Se eu não tivesse medo de torcer o dedo do pé, eu chutaria você daqui até Hackenny, seu velho fogão de cozinha de duas pernas!”
“Se houve dano causado, pagarei por ele.”
“Não há dano nenhum e não estou procurando o dinheiro de ninguém. Mas haverá dano a menos que você saia desta estrada. Se você estiver à vista quando eu passar com meu cavalo por aqui novamente, eu vou lhe dar uma surra, mesmo que eu tenha que usar dinamite e um abridor de latas para tirar você dessa roupa.”
Jared Chick afastou-se para os arbustos e Farr o acompanhou.
“Esta é uma aventura um tanto vulgar e desencorajadora para ideais elevados encontrarem tão cedo”, afirmou o homem mais jovem.
“Não estou desencorajado.”
“Receio que você será ainda mais grandemente incompreendido.”
“Não espero que cavalos bobos me entendam. Meu apelo é aos homens.”
Farr fungou com desprezo. “É melhor você deixar os homens em paz”, aconselhou.
“O mundo precisa de altruísmo puro”, insistiu Chick.
“Quanto mais puro ele é, mais é incompreendido. Eu testei a questão. Eu sei.”
“Então você mesmo não sairia pelo mundo para fazer o bem aos homens, sem cálculo e sem preço?”
“Não creio que eu faria”, declarou Farr, secamente. “E estou tão pouco interessado no assunto que acho que você terá que me desculpar de mais conversas sobre isso. Você acabou de ter uma ilustração de uma forma grosseira de como o mundo incompreende qualquer coisa que esteja fora do comum.”
“Você tem algum conselho a me dar?”
“Nem uma palavra. Não sou capaz nem mesmo de dar a mim mesmo um conselho sensato. Bom dia para você!”
“Então você não se importa com a minha companhia por mais tempo no caminho?”
“Não me importo. Desculpe minha franqueza, mas estes são tempos perigosos para viajantes e não posso me dar ao luxo de ter uma lata velha atada a mim enquanto sigo meu caminho.”
“E você é absolutamente egoísta?”, chamou Chick.
“Acho que sim”, respondeu Farr da estrada, ganhando seu passo. “Quando eu o vir novamente, espero que você esteja se perguntando por que foi altruísta. Esse será o caso, contanto que você continue usando essa armadura.”
Jared Chick, atrás de seu arbusto, chamou de forma suplicante: “Mas temo que nunca mais te verei e tenho algumas perguntas a te fazer!”
“Oh, prometo procurá-lo em algum lugar do mundo. Se você continuar usando esse traje, será fácil encontrá-lo.”
O homem de armadura encostou-se em uma árvore e ponderou.
“Um jovem estranho, insensível e egoísta. Mas há verdadeiramente algo sob sua concha. Eu apreciaria lhe fazer algumas perguntas.”
Então, Jared Chick pegou um bastão de freixo de uma pilha de varas para aros deixada por um lenhador e seguiu seu caminho ao longo de caminhos sombreados na floresta, evitando a estrada principal. Ele decidiu que seria melhor ir pelo caminho mais longo e mostrar-se nas ruas da cidade, em vez de uma estrada rural onde cavalos interioranos não viam com bons olhos um verdadeiro cavaleiro andante.
“Era um bom lugar ali atrás para dormir”, refletiu Walker Farr, lembrando-se do riacho, cantando sobre as pedras, os amieiros sussurrantes, a casa à moda antiga e a paisagem sonolenta. “Aquele homem que viveu lá até o dia de sua emigração certamente esteve dormindo por muito tempo e está dormindo profundamente agora; ele está tendo um sonho maravilhoso. O pesadelo começará em breve e ele acordará.”
Depois de algum tempo, Farr chegou a um vilarejo, um aglomerado de pequenas casas que margeavam a linha de uma única rua. Estava perto da hora do meio-dia e das janelas abertas das cozinhas flutuavam aromas dos jantares que as mulheres preparavam. Todos os homens do lugar pareciam estar no campo; apenas mulheres estavam à vista aqui e ali nas portas dos fundos, prendendo roupas recém-lavadas em varais, batendo poeira de tapetes ou, vistas através das janelas, moviam-se atarefadas nas tarefas matinais destinadas a pacientes escravas domésticas de vestido de chita.
Em uma porta dos fundos, com as costas confortavelmente apoiadas em um varal dobrável, estava um vagabundo gorducho e seboso, devorando um almoço que uma dona de casa lhe dera.
Sob uma pequena colina onde a estrada mergulhava na borda do vilarejo, soava o tilintar de aço sobre rocha, sugerindo que homens trabalhavam ali com colher de pedreiro e broca. Havia o rangido lúgubre de cordas — o braço de um guindaste cortava um arco lento no céu azul de junho.
O vagabundo gordo ergueu seu prato vazio e pediu um pedido choroso, e a mão de uma mulher emergiu de uma janela próxima e colocou algo na tigela.
Farr diminuiu os passos e olhou para o vagabundo, e uma mulher em um quintal próximo olhou por cima de um lençol que ela estava prendendo no varal e franziu a testa para o novo recém-chegado.
“Será que sou considerado como o Damon daquele Pythias?”, perguntou Farr a si mesmo, sorrindo para o cenho dela. “Mas Damon é nômade soletrado ao contrário! Gostaria de ter coragem de pedir a ela um pedaço daquela torta esfriando no parapeito.”
Nesse momento, sobre o tinir do metal sob a colina, acima do lamento da roldana tensionada, elevou-se o grito de um homem em agonia, o estridente uivo masculino cujo timbre é mais hediondo que o grito de morte dos suínos.
Então veio um homem correndo do vale sob a colina.
“É seu marido, Sra. Jose”, ele ofegou, virando-se para a casa onde o vagabundo gordo comia com as costas apoiadas no varal. “É melhor você ir! Vou telefonar para um médico.”
Ela correu, pálida, com gritos ofegantes. Outras mulheres correram. O espírito de prestatividade e a curiosidade para saber o que acontecera colocaram asas nos calcanhares da pequena comunidade. O mensageiro telefonou e as seguiu.
O vagabundo gordo pousou seu prato e olhou para a direita e para a esquerda e para todo o lado. Então ele entrou na casa deserta e, após uma breve estadia, apressou-se para fora com os bolsos cheios e carregando roupas nos braços; ele fugiu com um trote pesado através dos campos.
Farr viu-o partir e não o perseguiu.
“Lá se vai o espírito da era”, disse a si mesmo, com uma torção sardônica nos lábios. “Quando a Oportunidade bate, derrube a Oportunidade. Abrace a Oportunidade, mas certifique-se de que seja com um golpe de estrangulamento. Os diretores de uma ferrovia roubada fazem uma fuga mais digna do que aquele pedestre porcino está fazendo — mas é a mesma coisa no que diz respeito aos acionistas.”
Ele seguiu lentamente em direção ao vale sob a colina.
A procissão encontrou-o — um homem flácido, gemendo, carregado nos braços de seus colegas suados, mulheres correndo ao lado e cruzando a estrada, para lá e para cá, como galinhas assustadas — cacarejando simpatia.
Farr encontrou uma ponte de pedra inacabada sob a colina. Um chefe pançudo com mandíbula recuada e lábio superior saliente estava instando profanamente seus ajudantes a voltarem ao trabalho.
“Quinze minutos antes da hora de parar — quinze minutos! Vocês não podem ajudar aquele homem ficando por aí e fazendo o grunhido por ele. Trabalhem!”
Os homens levantaram suas ferramentas lenta e carrancudamente.
“É o inferno o que pode acontecer quando você está quinze dias atrasado em um contrato, com os comissários do condado esperando e ansiosos para aplicar uma multa”, declarou o chefe, para ninguém em particular. “Um homem ferido, e quatro para carregá-lo para casa, e o resto da tripulação tirando férias solidárias!”
Farr, passeando, saiu da estrada principal para o caminho que levava à ponte temporária.
“Aqui, seu boi de chifres longos, quer um emprego?”, chamou o empreiteiro de seu púlpito no bloco de granito.
“Não, seu leitão de Sussex, eu não quero!”
“Droga! Você ousa me chamar de nomes, seu vagabundo?”
“Sim”, respondeu Farr, muito simplesmente.
“Bem, pare com isso. Preciso de homens aqui. Você é robusto. Dois dólares por dia, mesmo que não seja um pedreiro regular.”
“Não.”
Ele arrastou tanto o afirmativo quanto o negativo e havia algo sutilmente insolente em seu tom — algo que despertou mais ira do que uma resposta mais grosseira teria conseguido. Ele deu as costas ao homem que xingava e desceu até a ponte. Esperou ali por um tempo e observou o movimento da espuma nas águas agitadas. O borbulhar constante do riacho o tornou alheio a outros sons e ele não ouviu os dois homens se aproximarem. Eles saltaram sobre ele e o agarraram. Um de seus captores era o homem pançudo, e suas mãos eram pesadas e seus dedos agarravam de forma viciosa.
“Não admira que você não quisesse trabalhar! Você está ganhando a vida de uma maneira mais fácil.”
“Qual é a ocasião desta efusiva recepção em sua cidade?”, perguntou Farr.
O homem que segurava um dos braços do cativo estava ofegante. Ele correra a toda velocidade da casa para onde ele e seus colegas levaram o ferido.
“Seu ladrão! Seu covarde! Coma a comida de um homem, a comida suada dele, e roube quando as costas da esposa dele estão voltadas!”
“De todo o trabalho sujo, este é o pior”, declarou o homem grande.
“Ela lhe deu tudo o que você pôde enfiar em si mesmo, seu vadio. Você saqueou quando as costas dela estavam voltadas. Você até roubou o traje de domingo do marido dela. Onde está ele?”
“Vi um vagabundo gordo correndo para a floresta”, respondeu Farr, calmamente. “Ele carregava objetos nos braços.”
“Você é o único vagabundo à vista por aqui”, insistiu o empreiteiro. “Onde você escondeu o saque?”
“Ela disse que alimentou um vagabundo. Ela o deixou na porta dos fundos. Você é o covarde”, endossou o emissário ofegante.
“Se vocês me levarem de volta à casa, poderão obter uma nova luz sobre o caso”, sugeriu seu cativo. “Vocês não precisam me arrastar até lá. Irei com muito prazer.”
A dona da casa despojada, de olhos vermelhos, apressando-se da pia com uma compressa fria nas mãos trêmulas, viu Farr de sua porta dos fundos.
“Esse não é o homem. Nunca o vi antes. Oh, ele está com uma dor terrível. Por que aquele médico não chega? Mas não parece haver nada quebrado. Ele levou minha carteira também, com dois dólares e vinte e sete centavos nela. E é cada centavo de dinheiro que temos conosco. E pode levar semanas até que ele possa voltar ao trabalho. Os problemas não vêm sozinhos. Aquele miserável, gordo, ladrão seboso! Depois que eu o alimentei — até dei torta a ele!”
“Como eu disse, senhores, era um vagabundo gordo. Eu o vi fugir para a floresta.”
“Se você se diz um homem, por que não o perseguiu?”, indagou o empreiteiro, com desgosto.
“Não tenho interesse nos assuntos dele — interesse nenhum”, afirmou Farr, com um tom lânguido.
“Você não se importa com o que acontece com mais ninguém, seu porco!”
“Meu interesse em outras pessoas é muito limitado.”
“Você vai ficar parado e ver um da sua laia fugir com a propriedade de gente pobre, não vai? Você o encontra mais tarde e pega sua parte?”, perguntou o homem grande.
“Não”, disse Farr, suavemente. Ele dirigiu um olhar convincente aos olhos de seu detrator. “E você mesmo não pensa assim.”
“Talvez não. Mas você é pior. Você acabou de dizer isso. Você é um renegado egoísta!”
“Particularmente egoísta, duro e insensível.”
“E não moveria uma palha para fazer um favor a ninguém?”
“Não creio que o faria.”
“Vou lhe dizer o que penso em fazer — vou designar quatro de meus homens para expulsá-lo desta cidade em um trilho.”
“Eu não os tiraria de seus postos se fosse você! Ouvi você dizer que está com pouco tempo e homens. A propósito, você me ofereceu um emprego. Eu aceito.”
O empreiteiro piscou e hesitou.
“Se após meio dia você achar que não valho o dinheiro, seguirei em frente e você terá meio dia de trabalho de graça.”
“Vá para o trabalho, então.”
Através da porta aberta, Farr podia ver a mulher da casa torcendo panos na pia.
Ele caminhou até a porta e dirigiu-se a ela. “Madame, a senhora aceitaria um pensionista? Vou fazer o trabalho do seu marido ali no canteiro. Pagarei generosamente. Em suas dificuldades atuais, o dinheiro pode ajudar. Darei pouco trabalho.”
“Precisamos terrivelmente do dinheiro”, disse ela, após ponderar. “Sim, eu aceitarei você. Pelo rosto, você não parece um vagabundo!”
“Agradeço-lhe”, disse Farr. “Se a senhora me der um pouco de comida, sairei do seu caminho.”
Naquela tarde, Jared Chick veio pela colina onde as colheres de pedreiro tilintavam e o grande guindaste reclamava com suas roldanas. Ele carregava sua armadura nas costas.
Ele parou e observou por algum tempo seu antigo companheiro de estrada, que suava em seu trabalho braçal.
“Posso ter sessenta segundos de folga para falar com aquele homem ali?”, Farr perguntou ao empreiteiro. “Diz respeito, em parte, aos seus negócios.”
O homem grande assentiu com um aceno mal-humorado.
“Tu vês que tirei a armadura por um tempo. Eu a vestirei na cidade, onde cavalos e pessoas não são tão tolos. O que tu estás fazendo aqui?”
“Não tenho tempo para falar sobre mim, Amigo Chick. Quero perguntar se ainda estás com o mesmo pensamento sobre a tua missão?”
“Estou.”
“Então joga fora essas ferragens e vem trabalhar nesta tarefa. Um homem se feriu aqui — a esposa dele está necessitada. Ganha algum dinheiro e dá a eles.”
“Mas minha missão diz respeito ao mundo — ao vasto mundo.”
“A principal desculpa do verdadeiro egoísmo! Aqui há algo pronto para as tuas mãos. Vais fazer?”
“Mas tu me disseste que não sairias por aí para fazer o bem!”
“Não importa sobre mim. Não sou um cavaleiro andante profissional! Vais fazer isso?”
“Dez segundos a mais!”, avisou o chefe.
“Não posso mudar meus planos tão repentinamente”, protestou Chick.
“Um cavaleiro andante não deveria ter planos! Meu tempo acabou e eu tenho trabalho. Adeus, Amigo Chick!”
O jovem voltou à sua tarefa e o Quaker seguiu adiante, murmurando uma reafirmação de seus próprios objetivos elevados.
“E como eu poderia esperar que um vagabundo compreendesse?”, ele se perguntou.
O vagabundo trabalhou duas semanas em sua tarefa pesada e, quando o homem, Jose, já estava de pé novamente, o voluntário partiu sem despedidas.
Ele deixou sobre a mesa do seu quarto sob o beiral, na casa de Jose, todo o pagamento que recebeu pelo trabalho, até o último centavo.
“Ele não era o que parecia ser”, era o refrão das várias dissertações da Sra. Jose sobre esse hóspede estranho. “Ele comia suas refeições e não fazia perguntas, e não ficava sob os pés, e estava sempre disposto a velar meu marido e me dar um pouquinho de descanso e um cochilo; e ele lia livros pequenos o tempo todo — ele os tinha entupidos nos bolsos. E ninguém precisa me dizer nada! Ele deixou todo o seu pagamento na mesa, cada centavo dele, e fugiu sem esperar por agradecimento nenhum de ninguém!”
IV
FARR, O VAGABUNDO GORDO E UM TERNO DE ROUPAS
Em uma manhã amena, um senhor idoso de aparência jovial saiu trotando da cidade fabril de Marion e seguiu por uma estrada rural em sua charrete de duas rodas. Ele sentava-se ereto e era alto acima da média dos homens, e era muito elegante em seu traje.
“Eu gostaria”, ele ponderou, “que os homens que pudessem realmente apreciar um bom conjunto de roupas e usá-lo adequadamente não fossem tão infernalmente sensíveis. Como é, a natureza humana rabugenta me força a uma expedição como esta — e temo que eu seja tão rabugento quanto o resto deles, caso contrário, não estaria fazendo isso!”
O senhor idoso cantarolava uma canção em voz baixa e batia as rédeas nos flancos do cavalo que caminhava pesadamente para marcar o compasso. Ele entrou em um trecho de bosque. Parecia ter um interesse alegre e renovado por este lugar. Ele enfiou seu rosto rubicundo para fora da sombra da cobertura da charrete e espiou para a direita e para a esquerda. Havia um sorriso em seus olhos enrugados. Quando havia árvores à sua frente, árvores atrás dele e árvores por toda parte, ele puxou seu velho cavalo até parar.
Ele ouviu, estreitou os olhos de forma inquisitiva através do vidro da cortina traseira da charrete e então desceu. De uma caixa na parte de trás do veículo, ele retirou vários artigos de vestuário e os estendeu sobre o braço. Havia uma casaca, não muito gasta, calças em bom estado, colete e uma camisa. Ele também tirou da caixa um par de sapatos e um chapéu. Com essa carga, ele foi até a beira da estrada e começou a vestir um poste de cerca. Quando as peças de roupa foram penduradas nele e o chapéu de feltro preto de aba larga foi colocado com desleixo charmoso no topo do poste, qualquer um poderia ver que o senhor idoso estava se desfazendo de algumas de suas próprias roupas extras. Ele mesmo usava um chapéu semelhante e uma casaca, e o poste decorado assumiu uma semelhança bizarra e desleixada com seu decorador.
Ele voltou para a charrete e encontrou um despertador de níquel na caixa. Ele deu corda cuidadosamente e o apoiou em uma ripa da cerca, perto das roupas.
Antes que pudesse escapar das imediações da exibição e entrar em sua charrete, uma carroça veio fazendo barulho ao redor da curva da estrada. Havia barris e potes na parte de trás dessa carroça e o condutor era claramente um homem do campo.
Ele parou bruscamente e então saudou o senhor idoso com um toque do dedo indicador na aba do chapéu.
“Algum problema, Juiz?”, ele perguntou, afavelmente.
“Nenhum”, respondeu o senhor idoso, afastando-se do poste totalmente vestido.
“Arejando-as, hein?”, um movimento do dedo indicador em direção às peças de roupa.
“Não, deixando-as.”
De repente, o senhor idoso pareceu se lembrar de algo mais. Ele tirou o chapéu e produziu um cartaz. Ele o endireitou e o enfiou em uma fresta em uma ripa da cerca. Sua legenda era “Sirva-se”.
“O senhor está dando essas roupas, Juiz Peterson?”
“Estou deixando-as aqui para quem quiser levá-las. Quer escolher primeiro, Jolson?”
“Eu não! Não aceito caridade de roupas usadas de ninguém, Juiz. Se for uma pergunta educada, por que o senhor está dando suas roupas desse jeito?”
“Acho que você acabou de responder a essa pergunta, Jolson. Eu lhe ofereci estas roupas. Seu nariz foi para o ar. Outros homens agiram da mesma maneira no passado quando ofereci a um sujeito um bom terno. Não quero ferir os sentimentos das pessoas. Não quero ter meus próprios sentimentos feridos. Então, que qualquer homem sirva-se quando ninguém estiver olhando.”
“Vou levar o despertador, se o senhor disser que sim”, voluntariou-se Jolson. “Vai ajudar a me tirar da cama na hora da ordenha.”
“Não, você não pode ter o relógio, Jolson. Eu o ajustei para que ele ronrone um pouco a cada meia hora. Ele chamará a atenção para as roupas. Veja, muitos homens correm pela vida sem olhar para a direita ou para a esquerda, e assim perdem muitas oportunidades.”
Jolson estalou a língua para o cavalo e saiu fazendo barulho pela estrada, murmurando comentários azedos.
O senhor idoso, com o ar de um homem que satisfez suas ambições filantrópicas, subiu em sua charrete e seguiu o fazendeiro.
A brisa viva flertou com as abas da casaca e as pernas da calça ensaiaram uma pequena giga modesta, como se parte do espírito jocoso do senhor idoso tivesse permanecido nas peças de roupa que ele descartara.
Houve vários transeuntes antes que outra meia hora tivesse passado.
As calças chutaram de forma bastante hilariante quando um jovem casal passou de charrete. A moça era bonita, e a companhia dela poderia ter agradado até mesmo às roupas de um juiz. Mas o rapaz e a moça estavam totalmente absortos um no outro, e as calças chutaram e a casaca flertou ineficazmente.
A carroça de um mascate passou muito devagar, mas o condutor não levantou os olhos de um papel cheio de números.
Houve outros a quem as roupas do juiz se ofereceram silenciosamente, mas ninguém olhou naquela direção e o relógio permaneceu discretamente em silêncio. A brisa diminuiu e as calças e o casaco ficaram com um ar meio sem-teto, saudosista e melancólico. Poder-se-ia pensar que eles estavam tentando se esconder quando a pessoa seguinte apareceu, de tão imóveis que estavam. Ele não era uma pessoa convidativa — não era um novo senhor e mestre que as roupas de um juiz esperariam receber.
Ele era grosseiramente gordo e suas próprias calças estavam amarradas em volta de sua cintura protuberante com um cinto puído; seu casaco estava desbotado pelo sol, um gorro escocês gorduroso estava puxado para um lado de sua cabeça com a pala caída sobre a orelha, e ele arrastava os pés em botas que eram desreputáveis. Certamente, um personagem muito indecoroso e insalubre para ser envolvido nos trajes de um juiz! Mas, naquele momento, com aquela maldita inadequação das coisas inanimadas, o relógio disparou seu alarme.
O vagabundo — não havia como confundir aquele andar e aquele ar geral de andarilho — deu um pulo, localizou o ruído, encarou o poste e depois correu até ele. Ele certificou-se de que não havia ninguém por perto. Ele recolheu tudo em seus braços, pulou a cerca e trotou para dentro da floresta. Ele continuava olhando para trás como se temesse perseguição. Ficava claro pelo seu comportamento perturbado que ele estava muito perplexo e perseguido pelo pensamento desconfortável de que estava roubando aquela propriedade. Ele prestava tanta atenção ao que estava atrás dele que prestava pouca atenção ao que estava à sua frente, e assim desceu para uma pequena depressão em forma de bacia entre as árvores e parou ali, pois tinha encontrado um homem.
Era o homem que se chamava Walker Farr.
O homem estava ajoelhado ao lado de uma fogueira minúscula, torrando pão na ponta de um galho de faia. Ele segurava o galho com uma mão e um livro aberto com a outra. Ele olhou para cima, sem mudar sua posição, quando o vagabundo veio correndo colina abaixo.
Ele tinha olhos castanhos bem abertos, este homem no vale. Os olhos não estavam apenas bem abertos por causa da surpresa com aquela irrupção — podia-se ver que eram naturalmente assim — olhos agudamente observadores. Ele tinha cabelos tão castanhos quanto seus olhos; seu boné estava no chão ao lado dele.
Mas o vagabundo não estava levando em conta os atrativos desse estranho; ele estava mais interessado em procurar falhas.
Ele tinha ficado assustado à primeira vista do homem — pois o vagabundo tinha a timidez de sua espécie; agora ele começou a se sentir animado. Este estranho no vale não tinha se barbeado recentemente, suas roupas estavam desleixadas, seus sapatos traziam as marcas de uma longa caminhada. Ele estava cozinhando ao ar livre — indicação clara do nômade.
“Bem, eu digo, parceiro”, brincou o vagabundo, mudando do susto para o bom humor com a histeria das naturezas fracas. “Estou realmente feliz em ver alguém do bom e velho tipo. Eu não sabia em que estava me metendo quando desci aquela colina. Mas está tudo bem, hein? Estou na estrada. Meu nome é Boston Fat, e meu apelido é panela de feijão.”
Os olhos castanhos moveram-se lentamente do rosto sorridente para as roupas amontoadas nos braços do homem. Eram olhos frios e críticos e não havia humor neles.
“Eu não faço negócios durante minhas horas de almoço, meu caro. Não desejo trocar de alfaiate ainda e não compro propriedade roubada.”
Sua frieza não diminuiu o bom humor do outro.
“Oh, tudo bem, velho amigo. Eu não sou ladrão. Estas roupas estavam penduradas em um poste de cerca logo acima daqui, na estrada. Acho que estavam apenas esperando pelo primeiro que chegasse.”
Ele largou os sapatos, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a manusear as roupas. O cartaz caiu das dobras do casaco e o homem junto à fogueira esticou o pescoço e leu em voz alta: “Sirva-se”.
“Oh, é isso que o papel diz, hein? Eu nunca aprendi a ler nenhuma das línguas modernas”, confiou Boston Fat. “Eu estava muito ocupado com as línguas mortas em Harvard. Bem, camarada, agora você pode ver por si mesmo que eu não roubei essa mistura de comida de traças. Havia o sinal bem nele dizendo, 'Sirva-se'. Estava lá, mesmo que eu não pudesse ler. O instinto me disse que essas roupas eram para mim. Eu as peguei e vim para cá.”
Ele sacudiu as roupas uma por uma e as pendurou em um arbusto, balbuciando seus comentários. Ele colocou o relógio que tiquetaqueava sobre um toco.
O homem junto à fogueira colocou um pedaço de carne entre duas fatias de pão torrado e começou a comer. Ele ainda segurava o livro aberto na mão, mas seus olhos observavam o vagabundo.
O andarilho estava avaliando oralmente seu achado, exibindo a sabedoria de alguém que pediu roupas em portas dos fundos para fins de vendê-las em lojas de segunda mão.
“Um pedinte”, observou o homem junto à fogueira. Ele continuou em voz alta, exercitando evidente e sardonicamente seu vocabulário, claramente desfrutando do espanto que provocava com seu estilo de linguagem. “O espírito de um gato de rua à meia-noite, o gosto da hiena que espreita! O ladrão gordo que vi fugindo para a floresta! Quando gente assim começou a ganhar a estrada, a cavalaria andante desapareceu da face da terra. Os vilões pegaram a grande ideia da itinerância despreocupada e a rebaixaram, como garçons pegam o traje de gala de um cavalheiro para seu uniforme servil, e cocheiros bêbados usam o mesmo chapéu que um duque usa em um casamento! Por que provar a evolução procurando por um homem com cauda? As performances da natureza humana devem convencer qualquer homem pensante de que descendemos de macacos!”
O vagabundo atônito encarou por um curto período esta pessoa que empregava uma linguagem tão peculiar — então murmurou um palavrão e balançou a cabeça.
Ele começou a experimentar a casaca, prestando pouca atenção ao monólogo do outro. O casaco era um desajuste ridículo; não fechava sobre a barriga protuberante; suas abas arrastavam nos calcanhares do homem gordo.
“Se eu estivesse por perto quando um ciclone do Kansas arrancasse as entranhas de uma loja de roupas, apenas os tamanhos infantis cairiam no mesmo condado que eu”, resmungou o vagabundo, tirando os braços das mangas.
“O casaco foi claramente feito para um cavalheiro”, declarou o homem junto à fogueira. “Portanto, não tem valor para você.”
Boston Fat examinou o estranho com um brilho vicioso em seus olhos pequenos, como um porco poderia encarar um homem que o tivesse golpeado no focinho.
“Boa tarde, professor”, ele zombou.
“Por que 'professor', meu Falstaff esfarrapado e despenteado?”
“Lá vai você com isso — mostrando-se pela sua própria boca! Palavras de um metro de comprimento — palavras que quebrariam os dentes de um homem decente! Você é um desses riquinhos da faculdade na estrada conseguindo material para escrever em um livro. Já ouvi falar do seu tipo. E esse tipo está ficando grosso e abundante demais e você está espalhando lama por toda a verdadeira profissão. Desista disso e volte para a faculdade. Não me use para o seu livro.”
Isso foi uma reciprocidade de sentimento depreciativo com força total!
O homem junto à fogueira recuou sobre seus calcanhares. Ele terminou de mastigar sua bocada, observando o vagabundo com um olhar lânguido que percorria desde o topo de sua cabeça até a ponta de seu sapato surrado.
“A única coisa sobre um livro para a qual você serviria”, disse ele, “seria para uso em um volume deste tipo.” Ele bateu no livro na palma da mão. “Sua anatomia poderia fornecer a encadernação. É encadernado em couro de porco.”
O vagabundo soltou um palavrão com a voz em falsete que os fracos e flácidos possuem e deu um passo à frente. O homem junto à fogueira levantou-se e ficou ereto. Ele era alto, e os olhos castanhos falavam por ele melhor do que ameaças ou bravatas. O andarilho desviou o olhar daqueles olhos e recuou.
“Se eu não tivesse ficado preso em uma cadeia de cidade de tortas durante todo o inverno lá no Norte, e toda a força não tivesse sido esgotada de mim”, ele choramingou, “você não me chamaria de porco e sairia impune.”
“Uma pessoa que força sua presença diante de um cavalheiro que está jantando não deve esperar elogios”, declarou o estranho.
“Você não é um vagabundo — não um de verdade”, rosnou Boston Fat.
Os olhos de Farr brilharam; ele sorriu; ele continuou a pregar neste ignorante suas brincadeiras satíricas de linguagem mistificadora:
“Mais da sua falta de agudeza, meu amigo gordo. Porque eu não falo a gíria dos marginais com você, você parece me tomar por um professor universitário disfarçado. Você não é um vagabundo de verdade. Você é um vagabundo, um preguiçoso, um larápio. Você nunca viajou mais de trezentas milhas longe de Hoboken — a capital dos andarilhos. Você já percorreu a trilha da sálvia, fez a rota de leite e mel de Ogden através do país mórmon, pegou o trem expresso, viajou clandestinamente na bagagem cega do Expresso dos Milionários? Hein?”
O vagabundo carrancudo piscou estupidamente.
“Ou você já fez o percurso da pradaria no chassi de um vagão de carga Wagner, ou atirou uma pedra na equipe do Trem Fox, ou espancou o guarda da Katy quando ele tentou te expulsar de um vagão gôndola?”
“Não sei do que você está mastigando”, zombou o homem gordo.
“Provavelmente não, pois você não é um verdadeiro homem da estrada. Você desonra o nome de nômade, você macula uma profissão antiga. Vou arriscar dizer que você não sabe quem foi Ismael.”
“Quem disse que eu sabia?”
“Não eu, porque não sou um bajulador. Vou seguir o exemplo do homem que lançou pérolas aos porcos — vou lançar a você uma pérola de um dos meus próprios poemas. Você pode ouvir. Passará pelos seus ouvidos, é só isso. Você não pode contaminá-la absorvendo-a, então eu a repito para meu próprio entretenimento, para refrescar minha memória:
“Do amanhã não tomamos cuidado, nenhum cuidado infesta o dia; Algum pedaço de comida e um trem para pular, um aperto nas barras, e embora! Para o jogo de agarrar ouro não damos pensamento ou cuidado. Possuímos com você o arco azul — nossa parte do ar fresco de Deus. Uma moeda para evitar a lei, um pedaço de mangueira de borracha. Para suavizar o atrito do chassi de um trem de carga, nossa porção de roupas descartadas, E o grande mundo vasto é nosso — um título tornado bom por direito — Pela escritura da humanidade para a raça nômade com a mancha do ismaelita. Alguns dos desertos da sálvia, alguns da terra das laranjas, Alguns do próprio país de Deus, empoeirados e esfarrapados e bronzeados. Por que somos? É inútil te dizer — você nunca entenderia. Para lá e para cá Nós vimos e vamos. O bando do velho Padre Ismael.”
Ele recostou-se e riu na cara confusa do vagabundo.
“Bem, qual é a resposta?”, zombou Boston Fat.
O outro homem continuou falando, humor em seus olhos, claramente desfrutando dessa brincadeira verbal.
“Temo que não possa perder tempo e fôlego com você em uma tentativa de responder ao enigma dos séculos, de explicar a ânsia de viajar que enviou as tribos para fora da bacia ariana do nascimento das raças, meu panela de feijão corpulento. Seus olhos vazios e seu crânio achatado sugerem uma incapacidade desencorajadora para a informação.”
“Não sei do que você está tagarelando. Mas há uma coisa que eu sei. Vou avisar no próximo manicômio que eu encontrar que conheci você indo para o norte.” O vagabundo recolheu as peças de roupa dos arbustos e ajoelhou-se e começou a dobrá-las.
O homem dos olhos castanhos deu um passo à frente, colocou seu livrinho de lado, pegou a casaca e a vestiu, enquanto o homem gordo soltava protestos estridentes. Com sereno desprezo por esse protesto, Farr abotoou o casaco, alisou-o e então endireitou os ombros.
“Você pode ver que foi feito para um cavalheiro e que serve em um cavalheiro, amigo barril de porco.”
“Você tira isso e passa para cá, é isso que você faz”, gritou o vagabundo. “É meu casaco.”
“Ficou perfeitamente aparente que não era seu casaco quando você o experimentou.”
“Eu te digo que encontrei pendurado em um poste de cerca logo acima daqui.”
“Isso foi apenas por acaso, e você deveria ter seguido em frente e deixado as peças de roupa para alguém cuja estrutura fosse adequada para usá-las. Você ilustra a maldição da sociedade moderna. Os homens estão tão cheios da ganância de obter que pegam o que não serve simplesmente por paixão de possuir.”
“Aguentei seus insultos desde que cheguei aqui, mas serei condenado se aguentar você roubando minha propriedade.”
O homem dos olhos castanhos sorriu. Todo o seu comportamento mostrava que ele estava mais do que nunca desfrutando imensamente de sua própria verbosidade — a linguagem florida que estava enlouquecendo e mistificando o vagabundo.
“Mais evidências da sua natureza vil: um cavalheiro se ofende com um insulto que rouba seu caráter muito mais rapidamente do que se ofende com um ato que rouba mera propriedade. Naquele livrinho que acabei de colocar de lado, Shakespeare fala incisivamente sobre esse assunto: 'Quem rouba minha bolsa rouba lixo... mas aquele que subtrai de mim meu bom nome me rouba... e me torna pobre de fato.'”
O vagabundo interrompeu seu trabalho de dobrar e, de forma desajeitada e pesada, pôs-se de pé.
“Tire esse casaco e passe-o para cá. É meu — eu o encontrei. Posso suportar a falação de um louco, mas quando alguém tenta me privar do que é meu, eu brigo.”
“Posso perguntar o que pretende fazer com estas vestes de um cavalheiro que vieram parar em suas mãos por acidente?”
“Vou transformá-las em dinheiro na loja de usados mais próxima, é exatamente isso o que vou fazer.”
“Exatamente como vendeu o terno de domingo que roubou de um homem pobre! Meu amigo, fui insultado naquele dia por sua causa. Você me deve algo!”
Nesse momento, o despertador ronronou um breve sinal.
Até aquele momento, o ar do homem de olhos castanhos fora de zombaria, de um desejo travesso de importunar e confundir, com linguagem empolada, o estranho ignorante que viera tropeçar nele.
Ele encarou o relógio, olhou para o fraque e, então, examinou os outros artigos de vestuário. Franziu a testa como se tivesse começado subitamente a refletir. A seriedade ardia nos olhos castanhos. Aquele toque metálico de metal contra metal pareceu mudar seu humor de uma forma surpreendente.
“Ah, pode ser manhã novamente, ó minha alma!” exclamou ele com um sentimento tão tenso na voz que o vagabundo o observou com a boca aberta e olhos arregalados, como se encara alguém que subitamente enlouqueceu.
“Falarei com você, ainda que não entenda! Era uma vez um mundo governado por homens que eram governados por presságios. O homem não era então tão sábio em sua própria presunção. Sua própria alma estava mais próxima da alma das coisas. Ele não era um mero aglomerado de arrogância coberto pela casca da autoconfiança. Ele estava disposto a ser instruído. Ele buscava os presságios da verdadeira natureza — ele permitia que o Destino o guiasse. Ele não era um porco correndo contra a aguilhada das circunstâncias, ignorando os braços erguidos da Fortuna, acenando-lhe em direção ao caminho certo. Ele era mais simples — ele era mais verdadeiro. Ele sentia que era parte da natureza em vez de ser o patrão da natureza. Bem, cheguei mais perto da verdadeira natureza desde que estou ao relento. Estou em contato com a alma das coisas. Não estou mais isolado. Não estou reformado, estou simplesmente pronto mais uma vez para agarrar a Oportunidade. Então, você acha que sou louco, acha?”
“Eles tinham um tipo em uma cela acolchoada na cadeia onde estive no inverno passado e ele não se comportava muito pior que você”, declarou o vagabundo.
“Como observador sem cérebro, você pode estar bem certo. Posso ser um lunático. Sinto-me muito como um agora. É loucura voltar a subir a um nível na sociedade do qual fui expulso. Mas enquanto eu me ajoelhava ali perto daquela pequena fogueira, antes de você chegar, um anseio surgiu em mim — e eu pensava que todo esse tipo de anseio estivesse morto em mim. Um momento depois, vieram as vestimentas de um cavalheiro, carregadas nos braços de um miserável que não podia vesti-las. Veio a Oportunidade. Então, o tilintar daquele relógio sinalizou a Oportunidade — e houve uma pulsação em mim como se minha alma adormecida tivesse se virado e piscado para a luz do sol da esperança e murmurado: 'É manhã de novo'. Tais são os presságios, quando se está pronto para prestar atenção.”
Ele apertou os dentes, cerrou os punhos e, pela expressão e atitude, mostrou que chegara a uma decisão importante. Caminhou para perto do vagabundo. “Admitirei, Amigo Cérebro-de-Barriga, que você encontrou a Oportunidade antes de mim hoje. Mas diga-me novamente, você não fará outro uso da dita Oportunidade a não ser correr para uma loja de roupas velhas e trocar por alguns centavos aquilo que ajudará a fazer um homem?”
“São minhas e vou vendê-las”, retrucou o vagabundo carrancudo.
“Sinto muito porque você não tem inteligência — nenhum poder de compreender. Caso contrário, você colocaria alegremente estas vestes em minhas mãos e me desejaria boa sorte. Você não entende de forma alguma, não é?”
“Olha aqui, está tentando me revistar atrás dessas roupas?”
“É tudo desperdício de fôlego explicar-lhe que a Providência destinou estas coisas a mim. Você não é astuto o suficiente para entender um raciocínio lógico. Eu não poderia mostrar-lhe que, por causa de algumas moedas, que lhe trariam apenas o dano que viria de seu valor em uísque barato ou cerveja, você poderia estar arruinando o futuro de uma alma que está desperta. Eu simplesmente lhe digo que ficarei com as roupas para mim. Talvez você possa entender essa afirmação clara!” Os olhos castanhos tornaram-se resolutos e penetrantes. “Mesmo que eu tivesse dinheiro, não pagaria a você por estas roupas. Dinheiro não faz bem a alguém como você; pode trazer-lhe problemas. Meu caro Gordo de Boston, não posso me dar ao luxo de deixar que você prejudique meu futuro, que, diz-me o instinto, está envolvido nessas pobres coisas de lã e trama.” Ele estalou um dedo na palma da mão e estendeu o braço. “Dê-me aquele chapéu e depois siga com seus negócios.”
O vagabundo recuou. Seus olhos pequenos e pestanejantes expressavam tanto medo quanto rebeldia. Mais do que nunca, ele se parecia com um porco acuado. O chapéu preto, colocado sobre seu boné gorduroso e coroando com sua respeitabilidade seu traje geral de má reputação, adicionava um toque bizarro à cena entre os dois homens.
“Você pensa agora que é a parte lesada”, continuou calmamente o homem dos olhos castanhos. “Você não tem inteligência suficiente para levar em conta o meu próprio caso. Você está lesado porque está perdendo algumas moedas — mas eu posso ser lesado em tudo o que dá sabor à vida se não agarrar esta oportunidade.” Tanto a zombaria quanto a seriedade desapareceram de seu tom. Ele tornou-se meramente prático. “Serei claro. Siga com seus negócios, gordo, ou prosseguirei até arrancar a cara de você a socos e depois chutá-lo alguns metros em seu caminho feliz. Você merece isso como ladrão — trabalhei duas semanas como pedreiro por sua conta. Entendeu-me?”
Como resposta, o vagabundo enfurecido avançou contra ele e desferiu um chute.
Com uma mão, o estranho arrancou o chapéu da cabeça do vagabundo e o jogou para um lugar seguro. Com a outra mão, agarrou o tornozelo do atacante antes que o pé o atingisse e, com um puxão, jogou o vagabundo de costas.
A vítima caiu tão desamparadamente que a concussão lhe tirou o fôlego e um gemido.
O homem dos olhos castanhos movera-se languidamente e falara languidamente até então. Quando agarrou o pé, moveu-se com uma espécie de eficiência e rapidez de armadilha de aço. Ele prontamente montou em cima de sua vítima, sentou-se sobre o abdômen protuberante e começou a bater no rosto do homem. Ele espancou as bochechas flácidas e socou com os punhos o pescoço polposo. Ele enterrou os joelhos contra os flancos gordos e redobrou seus golpes quando o vagabundo lutou. Depois que o falsete estridente implorou por muito tempo, o agressor finalmente desistiu do exercício.
“Está vencido?” perguntou ele.
“Sim”, gemeu o vagabundo.
“Você roubou — da maneira mais suja. Eu o surrei por esse trabalho. Agora, você permanecerá vencido por algum tempo?”
“Sim.”
“Você seguirá com seus próprios negócios, não é, sem mais conversas tolas sobre essas roupas?”
“Sim.”
“Você está arrependido de ter roubado aquela boa mulher que o alimentou?”
“Sim.”
O homem dos olhos castanhos desceu de cima de sua vítima prostrada, como um cavaleiro desmonta de um cavalo, e o vagabundo sentou-se, gemendo e acariciando seu rosto arroxeado.
“Eu nunca tive sorte, nunca”, choramingou ele. “Fui expulso da cadeia antes que o tempo esquentasse, fui jogado lá no outono passado bem quando o verão de São Martinho estava começando. Quando outros caras ganham pedaços de torta, eu ganho batatas frias e pão de aveia. Tenho que andar quando outros caras viajam. Sou gordo demais para os caminhões e eles sempre podem me ver no engate cego. Vou continuar andando. Nunca tive sorte em toda a minha vida.”
Ele rolou sobre as mãos e os joelhos e então se levantou. Começou a se afastar, totalmente intimidado, choramingando como um porco-espinho, lamentando sua sorte.
“Sorte!” o homem dos olhos castanhos gritou atrás dele em um tom que expressava raiva e pesar. “O que você sabe sobre sorte, seu pote de banha animado? Uma coisa como você tem sorte quando está na cadeia onde não há oficina. Melhor sorte do que essa é bom demais para você. Espere um minuto! Vire-se e olhe para mim.”
O vagabundo obedeceu. O estranho bateu um daqueles punhos duros em seu próprio peito.
“Eu disse olhe para mim! Não importa o que eu fui um dia! Mas hoje você me encontrou cozinhando bacon sobre três gravetos e pronto para lutar pelas roupas descartadas de outro homem. E, nesse meio tempo, percorri todos os caminhos que o andarilho conhece entre os oceanos. Agora siga em frente e pense sobre isso e mantenha sua boca fechada sobre sorte! Eu disse siga em frente! Não olhe para trás. Esqueça que você já me viu.”
Ele fez um gesto de raiva e deu dois passos como se quisesse impor seu comando com os punhos.
O vagabundo seguiu em frente em um passo acelerado. Apressou-se para a estrada e partiu em sua peregrinação arrastada, esfregando o rosto dolorido e resmungando para si mesmo.
V
A GAROTA QUE PROTEGIA SEUS LÁBIOS
Os olhos castanhos do vencedor observaram o vagabundo desaparecer de vista e, por alguns momentos, examinaram a fenda na vegetação rasteira onde o sujeito havia desaparecido.
Não havia raiva nos olhos. Não houvera nenhuma enquanto seu dono estava espancando o miserável. Ele batera no homem de maneira calma, metódica e perfeitamente profissional.
Quando finalmente se virou e olhou para as roupas, sorriu caprichosamente.
“O barril de porco ambulante acha que sou louco”, pensou ele, olhando para o fraque. Ele tirara aquela peça de seus ombros e a jogara sobre um arbusto quando decidira pelo combate. “Se eu parasse para discutir o assunto comigo mesmo agora, acharia que estou lisonjeando seu bom senso. Roubei um pobre diabo por um capricho. Graças a Deus, fiz isso brutalmente e francamente. Não houve nada de roubo furtivo de 'alta finança' naquele trabalho. Enviei-o embora com o rosto ardendo. Eles me enviaram embora com a alma negra e azul.”
Ele reuniu as roupas, pegou os sapatos, colocou o chapéu no topo da pilha em seu braço e foi mais para dentro da floresta, seguindo o curso de um minúsculo riacho de água. Este riacho levou-o a uma piscina. Era cercada por árvores, uma joia central em uma alcova sombria na floresta, era tão secreta quanto um quarto privado. A piscina era vítrea, pois os ventos estavam calmos no topo das árvores.
O homem depositou sua carga. Tirou seu próprio casaco e camisa bem usados e pegou uma navalha e uma barra de sabão dos itens espalhados que despejara do bolso do casaco. Ajoelhou-se na borda da piscina, inclinou-se e barbeou-se cuidadosamente, usando a superfície vítrea como espelho. Então, tirou suas outras roupas, as vestes vis de um vagabundo, e mergulhou na piscina.
Quando saiu da água e se secou com sua camisa descartada, revelou-se aos pássaros que seus respingos haviam atraído para os galhos acima da piscina. Se os chilreios dos pássaros fossem comentários sobre sua aparência, deviam ter sido comentários de admiração. A pele do homem era branca e ele era ágil, tenso e musculoso. A linhagem mostrava-se nele como se mostra nos músculos e na conformação de um cavalo de corrida. Quando estava seco, jogou a toalha improvisada e penteou sua cabeleira castanha com os dedos. Agora que a barba áspera fora removida de seu rosto, ele parecia mais jovem.
Da pilha de roupas, ele selecionou seu traje, peça por peça. O bom humor do juiz fornecera um equipamento completo para um homem. Nos bolsos do peito do fraque havia uma gola limpa, uma gravata e um lenço recém-lavado.
Quando terminou de se vestir, a piscina estava calma e vítrea mais uma vez. Ele sacudiu o lenço, segurando-o por uma ponta, e passou o tecido macio ao redor da copa do chapéu preto.
Ele colocou cuidadosamente o chapéu na cabeça e inclinou-se sobre a piscina, lançando um olhar interessado a si mesmo.
“Você é um tolo neste assunto”, informou ele ao reflexo. “E eu me pergunto por que você está determinado a persistir na loucura. O traje de lata do homem Chick não pode trazer tantos problemas para ele quanto este traje de respeitabilidade pode trazer para você. Pois nenhum homem pode se aproximar daquele pobre Quaker, tocar seu ombro e dizer—”
Ele interrompeu-se. Começou a procurar em suas roupas descartadas e a guardar seus poucos pertences nos bolsos de seu novo traje.
“Tudo loucura!” corriam seus pensamentos. “Estou consumido por tudo isso de repente. Desvariei para um vagabundo. Agora desvario comigo mesmo. Estou abandonando os trapos que me protegiam. Tudo loucura!”
Seus dedos investigadores, tateando até o canto mais profundo de um bolso, encontraram os fragmentos esfarelados de uma rosa seca. Ele estreitou os olhos e examinou-a enquanto jazia na palma de sua mão e, então, fez menção de jogá-la na piscina. Mas ele conteve o gesto. Pousou o queixo nas mãos e conversou em voz alta consigo mesmo, à maneira daqueles que se mantêm afastados da humanidade:
“Loucura, irmãzinha! Posso muito bem ser sincero! Dois olhos escuros que me deram o primeiro olhar honesto, sem medo e franco que recebi de uma moça em dois anos, dois lábios vermelhos que disseram 'Por favor' e 'Obrigado'! Um brilho de um olhar atrás dela que me chamou, mesmo que ela não o tenha pretendido como um chamado — e assim, sigo em frente no sonho de um lunático. Admita! Sonhei que um dia a veria novamente. E lá nas profundezas de mim agita-se aquele impulso do macho que faz o pavão abrir suas penas e o homem tolo se pavonear diante de um espelho. Por que não ceder ao senso de hereditariedade de vez em quando, mesmo que isso signifique espancar um vagabundo e tornar-me ainda mais um alvo para os olhos humanos?”
Ele enrolou as roupas velhas em um fardo e as enfiou sob as raízes de uma árvore. Então, passeou calmamente e, quando estava nas extensões mais largas da floresta onde a luz era melhor, tirou um pequeno livro do bolso e leu enquanto caminhava.
O volume era *Sartor Resartus*. Seus olhos por acaso encontraram esta passagem e ele sorriu enquanto lia:
*Todas as coisas visíveis são emblemas. Daí as roupas, tão desprezíveis quanto as achamos, são tão inexprimivelmente significativas. As roupas, desde o manto do Rei para baixo, são emblemáticas não apenas da necessidade, mas de uma múltipla vitória astuta sobre a necessidade. Diz-se propriamente que os homens estão vestidos de autoridade, vestidos de beleza, de maldições e coisas semelhantes. Está escrito: os Céus e a Terra desaparecerão como um vestuário; o que de fato são: o vestuário temporal do Eterno. Tudo o que existe sensivelmente, tudo o que representa espírito para espírito, é propriamente um vestuário, um traje, vestido por uma estação e para ser deixado de lado. Assim, neste único assunto fértil das roupas, corretamente compreendido, está incluído tudo o que os homens pensaram, sonharam, fizeram e foram; todo o Universo Eterno e o que ele contém não passa de roupas; e a essência de toda a ciência reside na Filosofia das Roupas.*
De tempos em tempos, ele olhava para si mesmo com complacência.
Quando se aproximou de uma clareira na floresta, ouviu o tagarelar das vozes de um grupo alegre e viu os piqueniqueiros, homens e mulheres, reunidos em torno de cestas. Automóveis estavam estacionados a uma pequena distância, e ele fez um desvio para evitar a cena.
Ele emergiu em um quadro animado de ninfa moderna e sátiro elegante em um corredor próximo da floresta. A garota estava corada e despenteada e resistia a um jovem que empurrara seu véu e a estava beijando com ardor. Ela o repeliu com suas mãos enluvadas e esquivou-se dele, mas ele a agarrou com mais paixão rude do que afeição terna.
“Estamos noivos para casar”, insistiu ele. “Por que não deveria beijá-la? Não seja pudica!”
Ela empurrou suas palmas protestantes contra ele, esticou os braços rigidamente e manteve a cabeça afastada, não com timidez, mas com indignação e rebelião feroz.
“Eu a amo! Meu Deus, você não consegue entender?” ele ofegou. “Não consigo tirar minhas mãos de você. Você não pode tratar um homem como está tentando me tratar. Preciso de um pouco de afeição sua!”
“Richard! Não vou tolerar isso! Estou sendo insultada!”
“Meus beijos são um insulto? Não sou um amante de água gelada. Você me deixa louco. Não consigo me controlar.”
Ela se soltou de seu aperto e o encarou, com o rosto cheio de fúria ultrajada.
Farr começara a deixar a cena. Ele parou. A garota era a garota dos lábios vermelhos e olhos escuros.
“Não me toque!” ela gritou. “A única promessa que você obteve de mim, Richard, é a que minha mãe praticamente me forçou a dar. Estou tentando honestamente gostar de você. Agradarei minha mãe e você, se puder.”
“Isso é uma coisa infernal para se dizer a um homem que a ama como eu”, declarou ele, com raiva.
“Isso é tudo o que posso dizer agora. Mas se você me usar novamente como arrastaria e puxaria uma garota das ruas, eu a desprezarei. Estou lhe avisando.”
“Que tipo de livros você tem lido, Kate?” perguntou ele, sarcasticamente. “Onde você obteve sua ideia do que é fazer amor? Eles não cantam serenatas sob as janelas hoje em dia. Eles não beijam as pontas dos dedos nem escrevem poemas melosos. Vou lhe contar algumas coisas que você deveria saber, como uma garota noiva para casar.”
Farr estava perto deles e à vista, mas sua absorção na luta deixara-lhes atenção apenas um para o outro. Ele sabia que, se partisse enquanto eles estavam falando, sua presença seria notada prontamente e, sem dúvida, julgada erroneamente.
Ele colocou o dedo entre as páginas de seu livro e pegou o chapéu na mão.
“Perdão!” ele implorou. “Tropecei aqui por puro acidente. Por favor, suspendam a conversa sobre assuntos privados até que eu possa caminhar para fora do alcance da voz.”
Ele encarou diretamente os olhos da garota e recebeu mais uma vez daquela forma o olhar franco e maravilhado que o tocara tão estranhamente quando a vira pela primeira vez na larga estrada. Seu rosto estava branco sob o bronzeado. Suas mãos tremeram enquanto ele recolocava o chapéu. Em seu coração, ele estava se despedindo dela e seus olhos expressavam parte de sua emoção.
“Pode levar o tempo que quiser, senhor”, disse a garota. “Este cavalheiro e eu terminamos nossa conversa.” Ela passou por Farr, olhando-o de cima a baixo com crescente curiosidade e reconhecimento nascente, e quando seu acompanhante a chamou impacientemente, ela puxou as saias e correu em direção à clareira onde os outros do grupo tagarelavam sobre suas cestas.
O amante começou a se afastar lenta e carrancudamente em sua trilha, com apenas um olhar para esse estranho desajeitado.
“Não, eles não cantam mais serenatas sob as janelas — nem a idade da pedra retornou com seus modos de fazer amor”, observou Farr, seus lábios tremendo e sua emoção ainda em seus olhos. “Existem alguns modos, contudo, que eram piores do que derrubar donzelas com porretes.”
O outro homem girou sobre os calcanhares.
“Maldito seja, você é aquele andarilho novato! Eu não esqueço um homem que dispara insultos baixos contra mim. Aqui! Você volte aqui! Quero fazer algumas perguntas, meu homem.”
Farr continuou seu caminho, abrindo seu livro.
“Se eu vir você novamente—” ameaçou o amante.
“Espero sinceramente que isso nunca aconteça”, comentou o estranho, sem virar a cabeça. “O instinto de natureza puramente animal me diz que, se nossos caminhos se cruzarem nesta vida, será muito ruim para um ou para o outro.”
Ele caminhou por um longo trecho, ignorando os olhares curiosos daqueles que trabalhavam nos jardins das mansões, até que as casas luxuosas deram lugar a um bairro onde as residências, embora modestas, eram mantidas com orgulho. Ali, o ar parecia menos pesado, e o zumbido das tecelagens tornara-se um sussurro distante.
Farr parou diante de um pequeno chalé, pintado de um tom claro e cercado por canteiros de flores que, desafiando o calor, exibiam cores vivas. O silêncio daquela rua, em contraste com a algazarra da praça central, era quase tangível.
Ele sentou-se num banco de madeira sob a sombra de um carvalho que se debruçava sobre a calçada. Seus pensamentos, antes inquietos, começaram a serenar. Ele retirou o pequeno objeto do bolso profundo de sua casaca e o observou por um instante, com os dedos roçando as pétalas secas.
O sol começava a baixar, tingindo o céu de um alaranjado profundo, quando ele ouviu um passo leve aproximando-se. Uma mulher jovem surgiu pelo caminho de pedra do jardim, carregando um regador. Ela parou ao ver o estranho sentado sob sua árvore.
— A sombra é fresca aqui — disse ela, com uma voz desprovida de medo, mas carregada de uma cautela natural.
— É uma dádiva que nem todas as cidades concedem aos viajantes — respondeu Farr, levantando-se. Ele guardou a rosa e fez uma menção de se retirar.
— Não precisa se apressar. O banco é público, embora eu cuide da árvore como se fosse minha — ela sorriu, um gesto fugaz que iluminou seu rosto sereno.
Farr permaneceu por um momento, observando-a cuidar das flores com uma dedicação quase ritualística. Havia algo na simplicidade daquele ato que o fascinava.
— A senhora encontra paz na terra? — perguntou ele, subitamente sério.
Ela parou, com o regador suspenso. — Eu encontro vida. A paz, creio eu, é algo que carregamos, não algo que colhemos.
Farr assentiu lentamente. — Uma filosofia que muitos nos palácios de pedra desta cidade certamente ignoram.
Ele inclinou a cabeça em sinal de respeito e, sem dizer mais nada, seguiu seu caminho, deixando para trás o chalé e a moça, carregando consigo o peso daquela breve interação. O dia terminava, e com ele, a necessidade de encontrar um abrigo onde pudesse, enfim, descansar da jornada que parecia não ter fim.
À medida que a noite caía, as luzes da cidade começavam a tremeluzir como estrelas aprisionadas em vidro. Farr caminhava com passos firmes, seu casaco escuro misturando-se às sombras que as construções altas projetavam sobre o pavimento. Ele não tinha destino certo, apenas a convicção de que o mundo, por mais vasto e estranho que fosse, ainda guardava segredos que valiam a pena descobrir.
“Nada para mim,” respondeu Farr, enquanto acomodava a menina em um banco e lhe oferecia a colher.
A criança começou a comer com uma avidez que partiu o coração do jovem. Ele observava cada movimento, sentindo-se um intruso em sua própria vida, como se o Walker Farr de algumas horas atrás tivesse sido substituído por um estranho que agora carregava o peso de uma responsabilidade inesperada. Ao terminar, a menina suspirou, o rosto iluminado por uma gratidão que o deixou sem fôlego.
“Obrigada, moço,” murmurou ela, com a voz fraca, mas clara.
Farr forçou um sorriso, embora o peito estivesse apertado. “Não precisa agradecer, pequena. Como é que é o seu nome mesmo?”
“Rosemarie,” respondeu ela, apertando a boneca de pano contra o peito.
Ele assentiu, sentindo um nó na garganta. “Rosemarie. Um nome bonito para uma menina valente.” Ele pagou a conta com as poucas moedas que restavam em seu bolso e saiu novamente para a noite fria, com a criança aninhada em seus braços.
Enquanto caminhava, o silêncio das ruas contrastava com o turbilhão em sua mente. Ele sabia que não podia simplesmente mantê-la consigo, mas a ideia de entregá-la a qualquer instituição o apavorava. Pensou na mãe de Rosemarie, naquela figura frágil que encontrara no canal, e uma onda de fúria contra a engrenagem fria daquela cidade industrial tomou conta dele.
Ele parou diante de uma vitrine de loja, observando seu reflexo. O homem que via ali parecia o mesmo, mas algo em seus olhos havia mudado. A ironia, outrora sua armadura, parecia insuficiente diante da vulnerabilidade daquela pequena vida.
“O que você fez comigo?” sussurrou para a menina, que já voltava a cochilar, alheia à confusão que o destino acabara de plantar no coração de um cínico.
Farr continuou a andar, decidido a encontrar um lugar seguro, um refúgio temporário onde pudesse pensar sem o peso dos olhares curiosos ou das perguntas de estranhos. Pela primeira vez em muito tempo, o futuro, antes um conceito abstrato e sem importância, tornara-se uma urgência urgente e tangível. Ele não estava mais vagando por acaso; agora, ele tinha um propósito.
Ele balançou a cabeça e pagou a ceia da criança com todo o seu capital, duas moedas de cinco centavos. Segurou-a na ponta do balcão e, desajeitadamente, mas com terna cautela, deu-lhe o pão com leite com uma colher. A fome de um homem saudável roía-lhe o estômago e o aroma do café vindo da grande urna borbulhante o atormentava. Inclinou a tigela para os lábios dela e a menina bebeu o resto do leite com um suspiro feliz, e ele saiu novamente para a noite, carregando-a em seus braços.
Ele compreendia todas as suspeitas que os policiais nutrem em relação aos vagantes noturnos e sabia que eles teriam um interesse particularmente intrusivo por alguém que perambulasse com uma criança nos braços. A menina começou a choramingar baixinho. O interesse pelo estranho que a conquistara com um sorriso, o cochilo em seus braços, o banquete em um ambiente desconhecido, haviam mantido a mente infantil ocupada e pacificada até então. Agora, ela expressava o lamento invariável da infância: — "Eu quero a minha mamãe!"
Ele a acalmou como pôde, fazendo promessas, dando-lhe todo tipo de garantia sobre a mãe, enquanto se perguntava, o tempo todo, o que deveria ser feito. Por que ele interferira? Por que assumira a custódia daquela criaturinha, um peso tão insignificante em seus braços, mas que agora repousava — um peso colossal — sobre sua responsabilidade? Ele não sabia. Admitia essa ignorância francamente. Mas continuou a caminhar, carregando-a, e afastou de seus pensamentos a alternativa sensata de entregá-la aos cuidados daqueles devidamente nomeados para tratar de tais casos.
Ele dizia a si mesmo que, como um estranho na cidade, não seria capaz de encontrar um refúgio — uma instituição àquela hora da noite — e sabia que estava mentindo para si mesmo, e perguntava-se o porquê.
O impulso que direcionou seu caminho para o canal era bastante sombrio, mas ele se lembrou da árvore que fora seu santuário naquele dia. Com cuidado, passou a menina pela cerca e subiu depois dela. E ela não chamou mais pela mãe, porque aquela nova cena estranha parecia impressioná-la e enchê-la de deslumbramento. Ela fitou a folhagem opaca, misteriosa e sussurrante da árvore por um longo tempo. Bateu palmas na grama como se fosse algo que nunca tivesse visto ou sentido antes. Parecia estar fazendo sua primeira amizade com a Mãe Natureza — reivindicando a herança do ar livre que as crianças tanto cobiçam. O teto inclinado e as paredes do sótão tinham sido o céu e a paisagem dela. Ela espiou as águas paradas do canal e viu as estrelas refletidas nelas, e inclinou o ouvido para escutar quando os pássaros sonolentos se agitavam acima e chilreavam em seus sonhos. E então ela adormeceu novamente, e ele a aconchegou dentro de seu casaco para protegê-la da umidade da névoa tênue que subia do canal.
O amanhecer chegou cedo e ela acordou junto com os pássaros, e encontrou tanto para se interessar — formigas que subiam e desciam pela árvore, insetos engraçados que caíam, tordos que saltitavam pelo gramado com pernas rígidas — que não pediu pela mãe, nem pareceu achar estranha a companhia daquele homem alto cujo rosto era tão bondoso.
E foi assim que Etienne Provancher os encontrou quando chegou com seu ancinho e gancho às seis horas, a hora em que as grandes turbinas começavam a roncar e vibrar em seus poços profundos.
— É a Rosemarie — eu a encontrei no quarto — disse Walker Farr.
O velho aproximou-se e contemplou a palidez e o pathos daquela pequena criatura que ainda fitava as novas maravilhas do ar livre.
— Outra, hein? Você a encontrou trancada?
— Sim, e eu a trouxe comigo — e não sei bem o que há de errado comigo, Etienne. Não tenho tido inclinação para me esforçar por ninguém neste mundo — homem, mulher ou criança — nos últimos anos. Eu tinha decidido deixar o mundo seguir seu próprio curso.
— É como o homem rico diz — ele não se importa. Mas o homem pobre deveria se importar — ele deveria tentar ajudar outro homem pobre. Ele deveria se importar.
— Oh, há coisas que podem acontecer para fazer um homem parar de se importar. Mas eu a trouxe comigo, mesmo assim. Eu... eu acordei... ou algo assim. Fiquei acordado a noite toda... estive pensando... não tinha mais nada para fazer. A insônia me deixou louco — uma noite dela! — Ele riu quando o velho piscou para ele. — Estou tão louco que quero que você me ajude a encontrar uma boa mulher que aceite hospedar esta criança em um lar confortável.
— Quem vai pagar?
— Eu pagarei. Oh, estou completamente louco — vou trabalhar — ganhar dinheiro para pagar a hospedagem dela.
— Conheço uma boa mulher aqui perto — ela tem uma casinha, gato, planta na janela.
— É esse o tipo.
— Direi onde ela mora. Você dirá que vem da parte de Etienne Provancher e isso será bom para você com ela. — Ele fez uma pausa, levantou um dedo castanho e continuou: — Mas você não saberá onde ela mora, a menos que eu possa pagar metade do dinheiro da hospedagem para a pobre pequenina. Estivemos juntos nisso — eu contei uma mentira ao legista — devemos estar juntos em ajudar as crianças.
Havia uma resolução firme no rosto e no tom do velho Etienne.
— Será uma parceria, meu velho — concordou o jovem, calorosamente. — Não sou porco — não vou deixar um bom homem de fora de um piquenique de verdade. — Ele se levantou e pegou a criança nos braços. — Dê-me o endereço e passe-a por cima da cerca para mim. Terei que parar de ser babá e encontrar um emprego de verdade. A propósito, Etienne, ouvi um homem gordo chorando ontem porque não conseguia arranjar homens para cavar terra para a Consolidated Water Company. Ele pareceu gostar muito de mim. Onde fica o escritório deles?
Ele recebeu tanto a informação quanto a criança depois de ter escalado a cerca. Etienne conseguiu apontar a casinha do santuário de onde estava — e acenou com seu ancinho de forma tranquilizadora à distância quando a boa mulher apareceu à porta, atendendo à batida de Farr. Ele entrou dançando na casa com a criança, atrás da boa mulher, que havia respondido ao sinal de Etienne com um movimento de volta do avental; ele tentava trazer um sorriso ao rostinho dela.
— Você terá que mentir um pouco para ela sobre a mãe, boa senhora. Etienne e eu lhe contaremos tudo quando houver tempo. Quando ela perguntar pela mãe, apenas dê-lhe algo para comer e minta um pouco. — Ele colocou a criança sobre a mesa onde a boa mulher fazia biscoitos frescos. Empilhou os brinquedinhos ao redor dela. — Vou ao mercado, ao mercado para comprar um porco gordo, e estarei em casa novamente, riggy-jig-jig — declarou ele em um tom cantado que arrancou uma risada da órfã, e ela o acompanhou com um sorriso enquanto ele saía apressado. — Aquele sorriso vai adoçar um dia de trabalho na trincheira — assegurou a si mesmo. — Eu sou um ótimo pai adotivo quando começo!
Um funcionário apático no escritório da Consolidated entregou-lhe um bilhete para ser entregue ao capataz da construção — o capataz mandou-o sair com outros homens em um vagão de carga barulhento. Sendo muito humilde e com a ajuda de seu sorriso, ele conseguiu pedir um sanduíche de carne enlatada para seu café da manhã a um operário no vagão que levava seu almoço para o trabalho. Ele comeu bem devagar para aproveitar ao máximo.
A nova trincheira ficava em um lote suburbano que acabara de ser aberto por uma imobiliária. Era um terreno baldio, plano e empoeirado, e as únicas árvores eram mudas recém-plantadas que tinham o tamanho de varas de pesca. Como o sol batia naquela trincheira! Mas Walker Farr tirou o casaco e usou novamente seu recurso imediato — seu sorriso. Ele sorriu para o chefe que zombava do estilo de "cabelo de violinista" usado por um dos escavadores — sorriu tão docemente que o chefe veio mais tarde, deu-lhe um tapinha amigável no ombro e disse: "Bem, velho amigo, espero que os tempos melhorem!"
— Vou levá-la à margem do canal esta noite antes da hora de dormir e vamos nos divertir — refletiu Walker Farr enquanto trabalhava na trincheira quente. E ele parou de se questionar sobre os porquês dessa devoção repentina a uma noção estranha. Ele parecia saber finalmente.
IX
A GAROTA DE TADOUSAC
Quando chegou a hora do almoço, Farr foi sentar-se sob uma árvore rala e começou a ler em um de seus livrinhos, afastando os pensamentos de fome com a determinação de um homem que já sofrera o vazio do estômago e sabia como vencê-lo.
Mas ele não podia escapar dos olhos atentos e da generosidade bondosa da fraternidade dos trabalhadores.
— Um sujeito bem-nascido com um pouco de azar — veja suas roupas — disse o capataz, e ele recolheu contribuições dos homens dispostos que comiam de baldes presos entre os joelhos; ele levou a comida para o jovem.
Farr aceitou com gratidão, comeu com frugal moderação e escondeu o que sobrou nos bolsos de seu casaco; serviria para sua ceia.
Ele comeu aquela ceia depois que seu dia de trabalho terminou e depois de ter lavado o rosto e as mãos no transbordo de uma fonte pública em uma pequena praça.
Então ele se apressou para a casa da boa mulher.
Ela estava ocupada com sua louça na cozinha e Rosemarie estava no colo de uma jovem que sentava e balançava em uma das cadeiras da sala de estar.
Farr entrou pela porta da cozinha e ficou ali, olhando para a moça e a criança com certa confusão.
— É apenas Zelie Dionne; ela é minha hóspede — informou-lhe a mulher. — Ela é uma boa moça e tem um emprego muito bom na seção de tecidos da grande fábrica de Haxton. Ela mora comigo porque eu era vizinha de seus bons pais na região de Tadousac, tão longe daqui em nosso Canadá. Venha! Vou apresentá-lo. Você verá. Ela é uma boa moça!
Zelie Dionne levantou-se e reconheceu a apresentação com a graça bonita de uma moça francesa. Um leve rubor iluminou a palidez morena de suas bochechas quando Farr se inclinou diante dela. O laço em seu cabelo estava colocado com verdadeiro chique gaulês e seu vestido era impecavelmente elegante em sua simplicidade. Seus grandes olhos escuros eram a característica maravilhosa de seu rosto, e Farr olhou dentro deles e pareceu perder um pouco de seu autocontrole; ele hesitou na fala, tateando por palavras nos primeiros lugares-comuns.
— Vocês precisam conversar. Eu preciso trabalhar — disse a boa mulher. Ela voltou apressada para sua cozinha.
A criança correu para Farr e subiu em seus joelhos.
— Você tem sido boa com Rosemarie. Eu agradeço — disse ele. — Suponho que a boa mulher lhe contou como aconteceu.
— Sim, quando cheguei ao meio-dia. — Seus tons eram peculiarmente doces e compassivos. Um toque de sotaque dava vivacidade ao que ela dizia. Ela olhou para ele significativamente. — Estive conversando com nossa pequena Rosemarie e ela não chorará mais pela sua boa mamãe que foi para as colinas verdes porque está doente e precisa descansar. Então Rosemarie será paciente e morará aqui e eu serei a mamãe de brincadeira.
— Sim, mamãe de brincadeira — concordou a criança. — Boa mamãe de brincadeira! Duas mamães! Mas apenas um papai! — Ela levantou os braços, envolveu o pescoço dele e se aconchegou com uma sensação feliz de compreensão total da proteção dele. Finalmente, parecia-lhe, ela recuperara o pai que nunca conhecera. Pobre passarinho engaiolado, sua libertação daquela prisão solitária fora datada em sua consciência feliz a partir do surgimento dele na porta, e tudo correra bem para ela depois que ele chegou — a luz do sol, as árvores, o céu azul, o cuidado terno e a companhia de seres humanos. Portanto, uma onda de amor que a compreensão de sua criança não podia analisar fora direcionada a ele.
Farr retribuiu com significado o olhar que os olhos escuros de Zelie Dionne lhe deram.
— Encontrei o bilhete. Isso me fez meter o nariz onde não fui chamado. Deixou um legado para alguém — e eu aceitei — sem entender por que o fiz. — Ele acariciou os cachos da criança.
— Eu não entendi no início — quando a Madame Maillet me contou — confessou ela, com um sorriso. — O velho Etienne veio ao meio-dia para contar a ela e ela me contou. É muito triste — mas ainda assim é cômico quando olho para você. Mas, ao olhar para você, entendo melhor. Você tem um bom coração. Eu posso ver!
— Sou apenas um estranho errante — aqui hoje e ali amanhã — protestou Farr. — Acho que o calor deve ter afetado minha cabeça. Tem estado muito quente ultimamente. Mas quando eu a vi... — Ele engasgou de repente.
— Oh, é fácil entender — disse a moça, de forma reconfortante. Uma névoa de lágrimas cobriu seus grandes olhos, embora sua boca não perdesse o sorriso melancólico. — As pessoas pobres ajudam umas às outras — e elas entendem.
— Não seria certo entregá-la a um orfanato — insistiu Farr. — Ela já perdeu demais. É claro que não pretendo saber do que uma menina precisa — mas estou disposto a ser instruído.
— Eu lhe direi e ajudarei.
— Acho que o velho Etienne e eu precisamos de você na parceria — como conselheira. Eu agradeço.
Então veio o velho canadense, seu rosto enrugado terno com interesse solícito, e ele riu quando deu as boas-vindas ao novo membro da firma.
— Ah, a Mam'selle Zelie, ela nos ajudará muito no que não sabemos — informou ele ao jovem, e continuou, enquanto os olhos escuros brilhavam em protesto: — Sou da região de Tadousac, e ela é uma boa moça, pois a conheço desde os anos em que a carregava no colo quando era muito pequena como a petite Rosemarie. Posso lhe contar como ela dança pelos prados na brincadeira de roda e como ela...
— Phut! Sua língua é tão longa quanto seu ancinho e vive se metendo nos negócios dos outros, velho Etienne! O que importa a este cavalheiro estranho o que aconteceu em Tadousac? Vá usar sua chave em vez de sua língua. Destranque sua portinha para que Rosemarie possa caminhar na grama fresca ao lado do canal.
O velho deu um sorriso e começou a se afastar.
— Estamos indo para onde os pássaros desejarão boa noite para você — disse Farr à criança e a tirou de seus joelhos. Mas na porta ela parou e se virou para Zelie Dionne, que não se levantara.
— Venha, mamãe de brincadeira!
— Vou esperar aqui até você voltar, Rosemarie.
Mas a criança insistiu de forma sedutora, estendendo a mão.
— Acho que é porque ela foi tão solitária a vida toda — sugeriu Farr. — Agora que encontrou amigos, ela quer que eles estejam com ela em seus pequenos prazeres. Posso me dar ao luxo de acrescentar meu convite ao dela?
Ela veio e a criança caminhou entre eles, segurando suas mãos.
— Um papai e minha mamãe de brincadeira! — disse ela, olhando para eles, um de cada vez.
A Mãe Maillet veio à porta da cozinha e acenou um adeus com seu pano de prato.
— Ah, a família! — gritou ela. — Ontem não era — hoje é. E o vovô marchando na frente!
— Pessoas velhas e crianças — elas dizem coisas embaraçosas — observou Farr quando estavam a caminho.
— É preciso ser tolo junto com eles para se sentir incomodado por tal tagarelice — disse Zelie Dionne, com rispidez.
Eles seguiram o velho Etienne por sua portinha e caminharam ao longo da margem do canal onde as águas estavam imóveis e vítreas, pois as grandes comportas tinham sido fechadas e a força permanecia imóvel e trancada nas profundezas sombrias até a manhã. O pôr do sol atrás das grandes fábricas brilhava intensamente através das miríades de janelas.
Eles caminhavam devagar porque a pequena Rosemarie encontrava maravilhas para olhos infantis a cada passo, e até o tapete fresco da grama proporcionava um deleite inesgotável enquanto ela dava passos lentos e cautelosos em sua luxúria flexível. O velho caminhava pesadamente à frente, resmungando e franzindo a testa enquanto olhava para os destroços nas águas imóveis.
O silêncio entre os dois que acompanhavam a criança continuou por um longo tempo e Farr achou-o opressivo.
— Nunca estive no Canadá — disse ele. — Lamento que você não tenha gostado que Etienne falasse sobre sua casa. Eu gostaria de saber mais sobre aquele país.
— Ele estava falando sobre mim em vez de minha casa em Tadousac. Não sou tão importante para ser assunto de conversa.
— Onde fica Tadousac?
Sua vivacidade retornou, seus olhos escuros brilharam. — Ah, m'sieu', você deveria ir lá. Fica no país dos bons habitantes, onde o St. Lawrence e o Saguenay se encontram. E agora, como o sol está se pondo, as pessoas estão descansando sob os beirais largos das casinhas brancas, olhando para onde as colinas são todas tão azuis, ou através da larga baía. As casas brancas são muito pequenas e se amontoam ao longo da estrada, e as fazendas são estreitas, e não há muito dinheiro nas roupas feitas à mão ou no velho relógio, mas o bom mundo é vasto ao redor deles e as pessoas não são tristes como aquelas que sentam ali.
Ela apontou através do canal para fileiras de cortiços de madeira de muitos andares de altura; em varandas estreitas, encaixadas umas sobre as outras, e em escadas de incêndio que se esfriavam lentamente após horas na forja do sol, homens, mulheres e crianças estavam amontoados, buscando um sopro de ar fresco.
— Eles ficam no tear, na fiação e na guilhotina o dia todo — disse ela. — Estão exaustos demais para caminhar longe até os parques. Esperam ali pelo ar bom chegar e ele não chega.
— Não entendo por que eles se aglomeram aqui vindos do Canadá — por que ficam — declarou ele, bruscamente.
— Ah, você olha para mim quando diz isso! — gritou ela, arqueando as sobrancelhas. — Você me ouve falar sobre o pôr do sol sobre os prados e as colinas, e se pergunta por que não estou lá? Bem, escute! Existem catorze filhos e filhas de Onesime Dionne — esse é meu pai — pois todos os habitantes se casam jovens, e o padre sorri e abençoa o lar quando há muitas crianças. E as meninas não têm muito valor na casa. Os filhos reivindicam e recebem suas partes dos arpents de terra quando esses meninos crescem e se casam. A menina pode se casar — sim! Mas e se o homem certo não pedir? E se o homem certo tem um pai que lhe diz que ele deve obedecer e casar com uma que o pai escolheu? Todo tipo de coisa pode acontecer no país dos habitantes, m'sieu'. Então, a menina tem menos valor na casa. E as cartas voltam das moças que foram para as fábricas nos Estados Unidos. As fotos voltam mostrando o vestido novo e o chapéu elegante — e assim! — Ela encolheu os ombros e jogou a mão livre. — Mais uma menina para a grande fábrica!
Ele a fitou com certa curiosidade.
— Você se pergunta qual dessas coisas aconteceu comigo, não é?
— Talvez — confessou ele.
— Falo pouco sobre mim. Falo sobre as garotas do campo. Sou afortunada. Não respiro o ar onde os teares batem. Faço inspeção na seção de tecidos porque tenho olhos aguçados e dedos ágeis.
— Mas você veio para cá sozinha — é estranho. Quero dizer, o pai, a mãe e toda a família não se mudam para cá, geralmente?
Ela levantou o queixo e olhou para ele com orgulho em sua expressão.
— Se você for a Tadousac, descobrirá que meu pai possui uma grande fazenda e que um de seus avôs foi capitão com o General Montcalm, e muitos Dionnes viveram na terra que foi dada a um homem corajoso. Vim para os Estados Unidos porque queria vir. Meu povo não veio.
Ela cortou a última frase de uma maneira que sugeriu a Farr que não havia mais nada a ser dito sobre aquele tópico. Mas ela continuou depois de um tempo em tons mais suaves.
“Não é estranho que tantos tenham vindo para os Estados, senhor. As fazendas de Beauce, de l’Islet, da Chaudière, estavam tão superlotadas. Anos atrás, os velhos costumavam me dizer, os rapazes começavam a conduzir os pequenos cavalos brancos atrelados a charretes pela fronteira no início do verão, e os rapazes eram fortes e dispostos, e os fazendeiros que riam deles e os chamavam de Canucks contratavam-nos para os campos de feno do mesmo jeito. E eles dormiam nos palheiros e sob as árvores e trabalhavam duro e traziam todo o seu dinheiro de volta. Então, as grandes fábricas precisaram de homens, mulheres e crianças, e as garotas ianques não queriam mais trabalhar nas fábricas. O senhor deve entender como era: Ouillette, que trabalhara no campo de feno, ouvia falar do trabalho na fábrica, e os Ouillettes vendiam tudo e iam para a cidade. E assim que viam as luzes e o teatro e o carro que corria com uma vara num fio, e tinham ganho seu primeiro pagamento e comprado roupas ianques, escreviam para casa para seus primos, os Pelletiers, e os Pelletiers ficavam sentados até tarde da noite conversando animadamente — e então vendiam tudo e vinham, e assim tem sido, sem parar — a corrente sem fim, uma família puxando o seu vizinho, ao longo do longo caminho do Canadá aos Estados. Mas talvez seja para o melhor. Não sou sábia nessas coisas. Mas quando o sol castiga e a febre chega e as crianças morrem nos cortiços, então eu desejo que os pais e mães estivessem de volta nas pequenas fazendas e que trabalhadores de outra raça que não a dos habitants estivessem acorrentados aos teares nas grandes fábricas. Esse pode ser um pensamento egoísta, mas meu próprio povo me é caro.”
Farr não estava com disposição para discutir o lado econômico daquela questão com essa moça que tão sucintamente contara a história de duas gerações de trabalhadores de fábrica. Com aquela pequena órfã entre eles, vítima do Moloch industrial que deve seguir em frente mesmo que suas rodas esmaguem os inocentes aqui e ali, ele permitiu que o sentimento o dominasse. De fato, por um dia e uma noite ele se entregara ao sentimento e encontrara um tipo estranho de embriaguez na experiência. Seu coração estava com o povo humilde e ele sentia piedade — uma piedade que não calculava e na qual seu cinismo estava se dissolvendo.
E quando as estrelas eram refletidas no canal calmo e a grama estava úmida de orvalho, eles caminharam de volta para a casa da Mãe Maillet e a pequena Rosemarie murmurou seu pouco de oração e foi colocada na cama.
“Espero que algum dia eu possa ir a Tadousac”, disse Farr à moça, antes de sair da casa da boa mulher. “Eu gostaria de ver o pôr do sol, pois a senhorita o elogiou.”
“Pergunte pela casa de Onesime Dionne, a segunda depois da grande cruz da paróquia. Será fácil de encontrar, e o pôr do sol é muito grandioso da varanda sob os beirais.”
Farr seguiu com o velho e caminharam lentamente. O caminho deles os levou por ruas estreitas entre os altos cortiços.
“Sim, o senhor achará muito grandioso em Tadousac — e M'sieu' Dionne é um homem honesto”, declarou Etienne. “De vez em quando nos trinta anos eu tenho visitado lá em Tadousac, e eu sento naqueles dias e entalho madeira para as crianças e então a pequena Zelie trota no meu joelho com os outros. Então eu sei a história daqueles lugares. E todo o povo lá em cima não se importa se eu sei, porque eu escuto e fico feliz em saber, e às vezes posso dar conselhos, pois vivi muito nos Estados onde grandes assuntos estão acontecendo. Mas o Fazendeiro Leroux não queria me ouvir quando dou conselhos sobre seu bom filho Jean e Zelie Dionne. O Fazendeiro Leroux é um bom homem, mas é um homem duro quando sua raiva feia é atiçada. E as crianças lá em cima fazem o que o pai manda — porque é isso que o cure prega e é o jeito dos habitants.”
“A velha, velha história — os Montéquios e os Capuletos nas margens do rio do Norte.”
“Eu acho que sei um pouco o que o senhor quer dizer, m'sieu', embora eu não conheça seu amigo de quem o senhor fala. Mas se ele diz ao seu filho: 'Ba gar, você não se casa com nenhuma moça cujo pai eu não gosto porque nós temos chicoteado um ao outro duas ou três vezes quando temos briga por causa de cerca divisória — ou fechamos nosso carro quando vamos ao mercado' — ora, então esse é seu amigo. E começa a partir daí e cresce para uma coisa grande, de modo que tudo o que o cure pode dizer não faz deles amigos. Então eles esperam — Jean e Zelie! Ah, sim, eles esperam!” Ele colocou o dedo ao lado do nariz e piscou. “Eles amam. Eles se casam algum dia agradável. Mas agora!” Ele agitou seus dedos descarnados. “Eles não dizem nada. Eu mesmo não digo nada. Mas eu vejo um olhar muito estranho no olho de Jean Leroux quando ele diz para mim, ao me encontrar no portão da fazenda de seu pai: 'E como vai Zelie Dionne ultimamente?' E embora ele olhe alto acima da árvore e mastigue a palha e pareça muito descuidado, ah, eu vejo a grande lágrima em seu olho e ouço-o engasgar na garganta.”
“Isso está acabado e é antiquado, esse negócio de deixar os velhos controlarem os jovens desse jeito só para satisfazer velhos ressentimentos”, zombou Farr. “Se eles estão apaixonados, deveriam se casar e dizer aos velhos para irem se catar!”
Etienne parou e olhou perplexo para o jovem que assim expunha a lei para os amantes.
“Eu acho que o senhor não tem em si nada do entendimento dos habitants franceses que viveram as três gerações em uma fazenda, de modo que um jovem, não importa se ele ama uma mam'selle tanto que todo o pão que ele come tem gosto de cinzas em sua boca — ah, ele não pode dizer 'eu partirei — eu irei!' Pois então esse jovem deve transformar-se em outro jovem — e o habitant não muda assim.”
“Posso ser um mau juiz”, reconheceu Farr. “Nunca criei raízes no solo de nenhum lugar.”
“E eu acho, talvez, que a moça o senhor não entende! É para ficar em casa e ouvir todo dia sobre o seu amor pelo porco de um Leroux, bah? Não, não, m'sieu'! Zelie Dionne é orgulhosa demais. E também Zelie Dionne é orgulhosa demais para tirar um filho de um lar que não a quer. Então eles esperam.”
“É um mundo velho e duro, Tio Etienne”, disse Farr. “Ora, até eu, senhor dos meus próprios negócios como sou, não sei onde vou dormir esta noite. O senhor tem um lugar para pensionistas?”
“Eu tenho meu pequeno quarto no bloco ali em cima — meu quarto e meu lugar na mesa grande. Não é grandioso. Mas há lugar para o senhor — e outro pequeno quarto. Se o senhor quiser, virá e eu falarei bem a seu respeito.”
“Tudo bem, Etienne! Leve-me e fale bem de mim.”
Era outro lugar como o Bloco Dez. Era um labirinto lotado e abafado, e a cozinha do subsolo anunciava-se com odores viciados em todos os corredores. Mas Farr ficou feliz em esticar-se na cama estreita. Ele admitiu para si mesmo que era um pássaro de passagem muito cansado e confessou ao seu próprio coração, com a mesma franqueza, que era um cativo no frágil aperto de uma menina — e ele não tentou entender.
X
VENENO PARA OS POBRES
Provou ser uma parceria amigável e satisfatória entre Etienne Provancher, Walker Farr e a pequena Zelie Dionne de olhos escuros.
Quando os dias estavam agradáveis, o velho mantinha a menina com ele ao ar livre, na margem do canal. Ela não o incomodava correndo de um lado para o outro. Seus longos dias de confinamento no sótão a tinham acostumado a permanecer quieta em um lugar. Ela sentava-se contente na sombra e observava os insetos na grama e os pássaros na árvore acima dela. Na frescura da noite, ela caminhava ao longo da margem do canal com Farr e a "brinca-mamãe" até que os olhos ficassem pesados e os pés pequenos tropeçassem de cansaço e chegasse a hora de dormir. Nas noites chuvosas eles estudavam o alfabeto ou ele lia para ela livros ilustrados em cores vibrantes, e depois de um tempo ela se lembrava de todas as histórias e fingia lê-las para ele.
Ele trabalhava na vala e esperava impacientemente pelas noites de sábado, quando o escriturário aparecia com os envelopes de pagamento; havia tantas coisas nas lojas que encantariam o coração de uma menina que nunca tivera brinquedos, exceto uma boneca de pano e uma cesta de flores quebrada. Depois, havia vestidos bonitos para comprar. O gosto de Zelie Dionne encarregava-se dessas compras. Quando ele comprou o primeiro — um que era branco e fofo — e Rosemarie saiu com ele, ela exibiu tal orgulho feminino por belas plumas que ele passou a esperar pelas noites de sábado futuras e pelos novos vestidos com entusiasmo antecipado. Se alguém o tivesse questionado, ele poderia ter dito com semanas de antecedência exatamente quais eram seus planos de compra, pois ele examinava todas as possibilidades com a "brinca-mamãe", que sabia tão bem como obter valor por um dólar — que conhecia os lugares para comprar e cuja agulha ajudava tanto.
Foi um verão perverso para aqueles que estavam condenados às fábricas e aos cortiços. O calor inchava e pulsava sobre o maquinário que batia. As máquinas de corte pareciam cuspir calorias. As armações de fiação lançavam-no de seus fusos. Os teares praticamente teciam-no na urdidura. O ar espesso, doce e gorduroso parecia destilar óleo de algodão sobre os rostos dos trabalhadores. As noites mostraram-se não melhores que os dias. Os cortiços abafados engoliam o ar quente do meio-dia e prendiam-no como uma pessoa prende a respiração. Todas as pessoas saíam para as pequenas plataformas que eram alinhadas, andar após andar, umas acima das outras. Elas arquejavam por ar nos espaços estreitos entre os edifícios altos. As estrelas acima daqueles espaços estreitos não cintilavam nem sugeriam frescor; pareciam flutuar acima da terra quente como brasas vermelhas.
Todos os dias os carros funerários vinham "estrondando" pelos desfiladeiros estreitos das ruas entre os "Blocos", pois as pessoas estavam morrendo. O pequeno coche fúnebre branco era um visitante mais frequente do que o enferrujado preto; as fileiras das crianças eram as que mais pagavam tributo à morte.
“Mas não nos preocuparemos com nossa Rosemarie”, dizia o velho Etienne a Farr. “Sob a sombra na grama verde ela ficará onde o ar livre pode pintar suas bochechas com a cor muito fina.”
Mas quando o velho foi buscá-la na casa da boa mulher, certa manhã, algo mais do que o sol tinha pintado as bochechas da menina — elas estavam coradas de febre. Ele disse à boa mulher para mandar chamar o médico imediatamente e foi trabalhar muito perturbado.
Mais tarde no dia, o capataz do pátio, passando pela grade, viu que o homem estava trabalhando com energia furiosa. Ele estava até esticando seu ancinho para capturar material flutuante antes que tocasse as grades.
“Este parece ser seu dia atarefado, Pickaroon”, sugeriu o capataz.
“Eu finjo que esta grade velha é uma boa amiga minha e que o material flutuante é uma doença que vem até ela — então eu trabalho duro para mantê-la longe.”
O capataz seguiu com seu negócio, comentando mentalmente sobre a imaginação de um francês.
Quando os grandes sinos da fábrica soaram a hora do almoço, Etienne correu para a casa da boa mulher. O médico da cidade estivera lá e deixara remédio — dois copos dele. Ele correra ao entrar e correra ao sair e fora seco e brusco e não lhe dissera qual era o problema, relatou a mulher. Mas a criança estivera dormindo.
Ela ficou sonolenta a noite toda enquanto Farr a segurava em seus braços e Etienne sentava-se perto com Zelie Dionne, cuidando dela solícitos.
“Suas bochechas não estão tão quentes”, disse o jovem muitas vezes. Ele falava esperançoso para tranquilizar a si mesmo tanto quanto aos outros, pois ficara terrivelmente assustado quando chegara do trabalho. O medo viera logo atrás dos calcanhares de muita alegria — pois o superintendente da Consolidated o tirara da vala quente naquele dia e o nomeara chefe de quarenta escavadores italianos, dobrando seu salário.
“Tenho observado você”, disse-lhe o superintendente. “Você é feito para chefiar homens. Que tipo de choque foi esse que o derrubou desse jeito?”
A resposta que o superintendente obteve foi um sorriso que afastou outras perguntas de sua mente.
“Não, suas bochechas não estão tão quentes”, afirmou Farr quando a colocou na cama naquela noite. “Ela ficará bem.”
Mas ao fim de uma semana, a languidez ainda pesava sobre a criança. Havia olheiras sob seus olhos e suas bochechas estavam pálidas, e ela não batia palmas com a alegria de outrora quando ele lhe trazia brinquedos novos; as bugigangas jaziam ao lado dela na cama e convidavam seu toque — olhos fixos de bonecas, olhos brilhantes de cães de brinquedo — sem sucesso.
“É o jeito estranho de estar doente”, lamentou o velho. “O médico talvez não saiba, porque ele é muito grosseiro e não diz. Eu acho que sei o que pode curá-la — já foi feito muitas vezes.
“Lá longe, no país do Canadá, existe o santuário da boa Sainte Anne de Beaupre. Lá ela está no meio da grande igreja e segura seu pequeno neto em seus braços — o pequeno menino Jesus. Então ela se sente muito terna para com as crianças pobres e doentes. Ah, eu a vi muitas vezes — vi crianças curadas lá e tornadas tão espertas — tudo curado. Ela ama as crianças pequenas. Oui. Tudo ao redor de seus pés são muletas curtas e pequenas, onde ela curou crianças. O pedaço do osso de seu pulso está lá na sacristia — parece um pequeno fragmento de algum musgo cinzento sob o vidro. E cura quando o bom padre diz a palavra por ela. Eu conheço o caminho para o santuário da La Bonne Sainte Anne — eu irei com a pequena Rosemarie e ela cantará e dançará depois disso.”
Por um momento, o sorriso cínico do cético marcou-se nos cantos da boca de Farr — o lampejo da natureza que o jovem ocultara durante as semanas recentes.
Ele se virou para Zelie Dionne e a encontrou observando-o com olhos graves.
“É como o M'sieu' Etienne diz”, ela assegurou ao jovem. “La Bonne Sainte ouve muito ternamente quando as crianças vêm até ela. Ela é boa para todos, mas seu espírito se inclina sobre as crianças pequenas e pobres e as conforta.”
“Você esteve lá?”
“Muitas vezes, senhor. Não é apenas o corpo doente que a boa Sainte Anne cura — ela conforta qualquer um que esteja em muita dor — ela indica o caminho certo a seguir. Há muitos caminhos para tomar nesta vida — e se alguém vai até ela com oração e alma humilde, ela guiará. Ah, é verdade, senhor.”
Havia sinceridade em suas feições e convicção em seus tons, e era claro que Zelie Dionne estava falando das profundezas de seu coração, e Farr lembrou-se do que o velho Etienne dissera sobre o filho do Fazendeiro Leroux.
“Sim, ela levará ao caminho certo e fará tudo ficar bem no final”, afirmou a moça. “E, acima de tudo, ela é gentil e terna com as crianças pequenas.”
Entre ela e o velho nostálgico, Farr dividiu um olhar tolerante e gentil.
“Eu acredito em mais coisas do que costumava”, disse ele. “Estou disposto a admitir nestes dias que coisas que não entendo podem ter verdade nelas. O médico não a está curando. Mas é um longo caminho até aquele santuário.”
“É um longo caminho, sim! Mas eu estou com muito medo por ela enquanto ela jaz aqui o dia todo. Eu a carregarei muito ternamente — no carro ferroviário — no grande barco. A boa Sainte Anne está em toda parte, também. Ela ajudará.”
“Se a fé pode mover montanhas, deveria curar facilmente uma pobre criancinha”, murmurou Farr.
Um novo médico veio no dia seguinte, um jovem alegre, um jovem falante e franco, o assistente do médico da cidade sobrecarregado, cujos deveres municipais o obrigaram a contratar ajudantes.
“Eu devo perguntar a ele, hey — sobre o santuário?” sussurrou Etienne para Farr enquanto o médico examinava a criança.
“Sim; ele será mais paciente com você do que comigo.”
“E o senhor acha que muito em breve ela pode ir na ferrovia se eu for muito cuidadoso, bom docteur?” perguntou o velho, com nostalgia e desculpando-se.
“Ir para onde?”
“Na peregrinação ao santuário da boa Sainte Anne no país do Canadá.”
“Você não percebe qual é o caso?” exigiu o jovem médico.
“Ele não disse — ele entra com pressa, ele sai com pressa.”
“Você é o avô?”
“Não!”
O médico virou-se para Farr.
“Pai?”
“Não.”
“Então posso falar direto para vocês dois. Este é um caso de tifo que será fatal em vinte e quatro horas. Não adianta mentir sobre isso.”
A boca e os olhos do velho Etienne pareciam afundar profundamente em suas rugas, como se o Tempo o tivesse forçado repentinamente a engolir vinte anos extras. Ele olhou para o rosto branco e inexpressivo de Farr e, tão rapidamente, desviou o olhar.
“Conte para a avó dela”, aconselhou o médico, acenando para a cozinha onde a boa mulher trabalhava.
“Mas você não sabe o que diz”, gaguejou o velho.
“Acontece que eu sei, meu homem. Tenho lidado com muitos desses casos para ser enganado. Ora, eu tenho mais de cinquenta casos de tifo nesta cidade — só eu.”
“Mas ela tomou sol e ar fresco — na margem do canal onde eu cuido da grade.”
“Sol e ar fresco não podem curar vítimas do veneno que está sendo bombeado através das tubulações de água desta cidade”, disparou o médico.
“Tubulações de água!”
O médico virou-se e encarou Farr, pois o grasnido rouco de sua exclamação não soara humano.
“Foi o que eu disse. Você não pode ter vivido muito tempo neste estado para não saber o que estamos enfrentando na questão da água.”
“Eu não moro aqui há muito tempo. Mas sobre a criança — não pode —”
“Ora, esta Companhia Consolidated pertence ao Coronel Dodd e seus políticos — e eles possuem todos os sistemas de água da cidade e do condado neste estado”, disse o médico, não mais interessado em seu paciente — explodindo com a violência da juventude imprudente. “Eles mandam nos prefeitos, nos vereadores, nos políticos — mandam no próprio governador. Isso porque eles têm a máquina e o dinheiro. Eles têm muito dinheiro, porque não querem acordar e gastá-lo para colocar linhas longe o suficiente para aproveitar os lagos nas colinas. Eles aproveitam esses rios podres em nossas portas dos fundos, bombeiam veneno através das tubulações, vendem-no a preços que lhes rendem vinte por cento de dividendos. Eles dizem que a água está tudo bem — e sustentam isso com análises. Eu digo que está tudo errado.”
“E vocês, médicos malditos, estão deixando isso continuar — deixando as pessoas beberem veneno — nos dizendo quando é tarde demais!” gritou Farr, o roxo substituindo o branco em seu rosto.
“Bem, o pessoal lá de cima, que tem sabedoria e dinheiro, compra água de fonte e água mineral. Nem todos os médicos concordam que o rio é responsável pelo tifo. Com o governador e a legislatura comandados por Dodd e seus associados, e os governos da cidade amarrados por eles, e os bancos recebendo ordens do sindicato caso alguma cidade ou companhia independente tente pedir dinheiro emprestado e instalar um sistema de água, e as corporações de fábrica e os proprietários de cortiços todos em conluio, um cruzado que esperasse chegar a algum lugar na política ou ganhar dinheiro com seu negócio teria uma bela chance, não teria? E a maioria de nós neste mundo está tentando se dar bem, seja nos negócios ou na política.” Ele fechou a trava de sua pequena maleta preta. “Esqueçam o que eu disse, vocês dois. Eu mantenho meu emprego através da política. Tenho tendência a falar demais quando começo. Mas não bebam a água da cidade, não importa se as análises do Coronel Dodd deem a ela um atestado de limpeza.”
Farr alcançou-o na porta, segurando-o com uma mão pesada.
“Você fica aqui, não deixe esse bebê morrer. Pelos deuses, ela não vai morrer!”
“Minha permanência não fará bem algum, meu amigo. A menina já foi atingida pela morte. Com as crianças, é um processo rápido. Às vezes, conseguimos salvar os adultos. Busque outro médico, se desejar, mas eu preciso continuar — há muitas pessoas à minha espera nestes cortiços.”
Ele sacudiu a mão de Farr e apressou-se a sair.
O velho Etienne permaneceu junto ao leito, contemplando a pequena sofredora, fechando e abrindo suas mãos enrugadas como se tentasse agarrar fios de esperança, sondando as profundezas de sua alma em busca de consolo, tal como arrastava seu ancinho nas águas negras do canal.
“Aquele moleque mentiu sobre ela. Por ser um bebê, ele não se importa”, enfureceu-se Farr. “Vou vasculhar esta cidade atrás de médicos — vou encontrar um que saiba o que faz.” Ele caminhou na ponta dos pés até a cama e pousou a palma terna contra a bochecha da criança. “Digo-lhe que o rosto dela não está tão quente quanto antes”, insistiu. “Onde posso encontrar um médico de bigodes grisalhos, Etienne? Aquele jovem tolo não sabe de nada.”
“Há muitos doutores velhos e sábios na longa rua chamada Western Boulevard — eles vivem nas grandes casas —, mas eles não vêm ao encontro do povo dos cortiços.”
“Um deles virá desta vez, mesmo que eu tenha de carregá-lo nas costas.”
Ele começou a procurar por seu chapéu, sem se lembrar de onde o havia jogado na pressa e no afã de sua chegada à casa da boa mulher. Não o encontrou prontamente e saiu correndo, de cabeça descoberta.
“O sol e o ar, eles não fazem bem algum! É a água envenenada — e o povo pobre dos cortiços, eles não sabem!” murmurou o velho. “É isso que ele diz?” Ele foi até a pia da cozinha e desrosqueou a torneira. Cheirou-a e fez uma careta, depois enfiou o dedo fino na câmara da válvula. Puxou e trouxe à tona uma lama fibrosa, segurou-a perto do nariz e gemeu. “O povo pobre não sabe. Aqueles que pedem os votos dos cortadores, dos tecelões, dos operários — os homens das fábricas —, aqueles que pedem votos não querem que o povo pobre saiba, porque os votos não seriam dados àqueles que vendem veneno na água”, disse ele à mulher atônita que observava seu ato.
“Eu sou cuidadosa com minha cozinha — sou asseada — lavo tudo, Etienne”, assegurou-lhe ela, cheirando a lama na pia, tomada pela confusão, com sua reputação de dona de casa em jogo.
“Sim, mas você não pode lavar as almas daqueles malditos canalhas que enviam essa água pelos canos para o povo pobre que não pode comprar outra”, enfureceu-se ele. “A culpa não é sua — você não sabia.” Ele apontou o dedo, trêmulo e pingando lama, para a criança na cama. “Eles a assassinaram! Com isto!” Ele sacudiu o dedo com o gesto de alguém que se livra de uma serpente asquerosa.
“Mas eu bebo a água — ela não me fez adoecer”, protestou ela.
“Você, eu, outros que estão secos — velhos tolos e resistentes — nós deveríamos morrer e não morremos”, enfureceu-se ele, marchando de um lado para o outro na cozinha, agitando os braços. “Fomos envenenados tanto que nem notamos. Mas as pobres criancinhas — os jovens que morrem — morrem nestes cortiços o tempo todo — e vemos as fitas brancas penduradas nas portas, em tantos lugares todos os dias — os pobres jovens com a vida pela frente e muito para viver, mesmo aqui embaixo — eles são envenenados e não sabem! Oh, le bon Dieu! Ferva esses malditos demônios no inferno na água que venderam aos pobres!” Ele parou, chocado com aquelas palavras que ouviu saírem de sua boca, e persignou-se contritamente. “Mas eu olho para ela — eu ouço o que o doutor diz — eu falo e não consigo evitar!” Ele cambaleou até o quarto onde a criança jazia, sentou-se em uma cadeira e escondeu o rosto nas mãos.
Era um médico idoso e algo untuoso que Farr trouxe. O doutor franziu os lábios e as sobrancelhas acima da pequena aparição que não lhe deu atenção alguma, deitada com os olhos semicerrados, beliscando a roupa de cama com o polegar e o indicador.
“Com uma constituição um pouco mais forte — se ela fosse um pouco mais velha — Tomemos o caso de um adulto...”
“Seja breve”, rosnou Farr, cerrando os punhos como se quisesse arrancar à força a indulgência para a criança da pele do mundo. “Estou pagando pela vida dela.”
“Não tenho nada para lhe vender neste caso — portanto, não pode haver pagamento.” Ele inclinou-se sobre a cama e afastou o cabelo úmido e emaranhado da testa da criança. “Só posso lhe dar algo, meu amigo. Dou-lhe toda a minha solidariedade. Este bebê está partindo para uma longa jornada, e sou cristão o suficiente para acreditar que o caminho será feito muito suave para os pés das criancinhas. Essa é a fé de um velho.”
Havia tanto sinceridade quanto ternura em seu tom — a empáfia do médico desaparecera. Ele apertou a mão de Farr e saiu do quarto, caminhando suavemente.
E, no dia seguinte, os dedinhos de Rosemarie cessaram seus movimentos e ela partiu — para algum lugar!
XI
OS SENHORES DA CIDADE
Walker Farr não permitiu que o pequeno corpo de Rosemarie fosse levado no carro fúnebre branco. Em seu pesar, ele ainda não fora capaz de dissociar a identidade da criança do pobre cortiço onde seu espírito habitara durante os poucos e áridos anos de sua vida; parecia-lhe que ela ficaria muito solitária no carro branco. Ele foi para o cemitério, segurando o caixão minúsculo sobre os joelhos. Havia apenas uma carruagem — era o suficiente para levar os amigos da pequena Rosemarie: um Walker Farr, o velho Etienne e a "mamãe de brincadeira" Zelie Dionne.
O guarda da grade sentou-se oposto a Farr e ninava um embrulho em seus joelhos. Ele o envolvera furtivamente.
Os dois homens mandaram Zelie Dionne de volta à cidade na carruagem. Mas eles esperaram ao lado da sepultura até que o coveiro terminasse seu trabalho; Farr sentiu um impulso incontrolável de esperar até que tudo terminasse, como sempre esperava todas as noites até que a menina estivesse profundamente adormecida e aconchegada na cama na casa da boa mulher. Ele sentou-se agachado na borda de uma sepultura gramada, os cotovelos nos joelhos, as mãos agarradas à sua cabeleira.
Após o coveiro ter partido, com as ferramentas sobre o ombro, Etienne desenrolou o embrulho. Ele começou a arrumar os brinquedos da criança sobre a sepultura.
“É como os outros fazem — os pais e mães de nossa fé nos cortiços”, explicou ele, melancolicamente, ao jovem. Ele apontou para outras sepulturas nas proximidades, sepulturas curtas e estreitas. Brinquedos também estavam espalhados sobre elas. Eram os pobres tesouros de crianças mortas. Os brinquedos tinham sido deixados ali no vago e impotente anseio de pais que se esforçavam para alcançar seu consolo humano além do túmulo.
Farr contemplou esses memoriais lamentáveis das crianças — daquelas sepulturas para o novo monte que cobria Rosemarie. A dor que estivera em sua garganta por tantas horas tornou-se mais excruciante. Ele percebeu que um pai naquelas circunstâncias choraria, mas não sentia vontade de verter lágrimas, e envergonhava-se de si mesmo pelo que parecia ser uma falta de algo em seu íntimo. O que ele sentia então, o que sentia desde que aquele jovem médico dera a sentença de morte, era um rancor amargo e sombrio — a raiva de um homem que é roubado.
“Olhe ao redor para as sepulturas”, disse Etienne, com lágrimas em suas rugas. “Sei algo melhor desde que tirei aquela torneira. Nem todos os mártires morrem quando o leão os devora e o fogo os queima; há alguns mártires nestes dias, também. E, às vezes, talvez, algum homem que tenha o poder venha aqui e veja todas essas pequenas sepulturas pobres e então ele vá e sufoque o leão que devora todas essas pobres crianças.”
“Que tipo de homem seria esse?”, ponderou Farr. Naquele momento, ele tinha pouca fé — muito menos fé do que o habitual — na decência de qualquer ser humano; e, por muitos anos, sua fé na humanidade fora expressa por um estalar desdenhoso de dedos.
Sentar-se ali por mais tempo e olhar para aquela terra fresca com os brinquedos patéticos espalhados sobre ela era um tormento que sua alma não suportava.
Ele levantou-se e apressou-se a sair, e Etienne seguiu-o. Caminharam em silêncio de volta à cidade — Etienne para retomar seu ancinho e seu gancho das mãos do homem que o substituíra na grade, e Farr para retomar sua dominação carrancuda sobre seus italianos suarentos.
“Os mártires”, Etienne os chamara. A noção disso ficou presa nos pensamentos de Farr.
Ele tentou olhar mais fundo em seu próprio coração do que jamais olhara antes e explicar a si mesmo qual motivo o atraíra para a criança em primeiro lugar; ele nunca estivera especialmente interessado em crianças antes. Viu-se murmurando: “E uma criancinha os guiará”, sem entender exatamente por que aquela criança o guiara tão estranhamente.
Se um Walker Farr tivesse entendido isso minimamente e fosse capaz de explicar a si mesmo, ele teria penetrado no mistério da dinâmica do amor — o grande presente para a humanidade que Deus não viu por bem expor em seus mecanismos internos. Portanto, Farr caminhou para lá e para cá sob o sol quente, esporeou seus escavadores com juramentos ásperos e, no rastro de suas profanidades, murmurou para si mesmo: “E uma criancinha os guiará”.
O chefe de obras da Consolidated, cuja equipe seguia os escavadores de valas, abordou Farr, após várias inspeções de seu semblante lúgubre.
“Não acha que precisa se animar um pouco?”
Farr franziu a testa para ele.
“Não sei o que não lhe caiu bem, mas você certamente está em um mau caminho”, continuou o chefe. “Vá com a multidão até a Prefeitura esta noite e ouça-os abrir os escândalos policiais. Muita diversão gratuita para os de coração pesado! Há cerca de meia dúzia de policiais gordos nesta cidade que serão fritos até estalarem dos dois lados, e o som do chiar será prazeroso aos ouvidos.”
“Não estou interessado.”
“Você estará, se comparecer. A audiência é diante do prefeito e de todo o governo municipal. Nada muito pesado em termos de acusações — apenas vadiagem em adegas de cerveja durante o calor do dia, gastando o tempo perseguindo os agitadores trabalhistas para fora dos parques e deixando ladrões cuidarem das mansões na parte alta da cidade durante todo o verão enquanto os proprietários estão fora, no litoral. É tudo mais ou menos uma piada.”
“Por que o prefeito e os vereadores desta cidade não cumprem o dever em vez de piadas?”
“Ah, esta cidade é administrada tão suavemente que não há nada a fazer no verão, exceto encenar uma pequena comédia farsesca na Prefeitura.”
“Deixe-me dizer-lhe que há algo a ser investigado nesta cidade que não é uma piada”, enfureceu-se Farr, suas ponderações amargas florescendo em discurso.
“O quê?”
“Assassinato acontecendo todos os dias nesta maldita cidade.”
“Bem, suponho que, se houvesse algum assassinato acontecendo do qual não soubéssemos, mesmo vindo de nossos policiais gordos, seria investigado, com certeza. O que há de errado com você?”
“Estou contente agora por você ter me falado sobre essa audiência hoje à noite”, declarou Farr, ignorando a curiosidade do outro. “Estou contente por saber quando e onde localizar o prefeito e seus homens em sessão. Vou descobrir se eles pretendem desperdiçar o tempo do povo ouvindo histórias engraçadas sobre policiais e vão deixar o assassinato continuar enquanto riem.”
Ele afastou-se, amaldiçoando seus trabalhadores enquanto marchava ao longo da vala.
Farr bateu no quarto do sótão de Etienne no início daquela noite.
“Quero que venha comigo”, ordenou.
O velho obedeceu sem perguntas. Enquanto caminhavam pelas ruas, Farr não ofereceu informações. Ele tinha certeza absoluta de que, se Etienne recebesse qualquer indício do que se esperava dele, o velho não pararia de correr até ter cruzado a fronteira canadense.
Levaram dez minutos para abrir caminho através da multidão que lotava os corredores da Prefeitura. Grupos aglomeravam-se às portas que davam para a sala dos vereadores — homens amontoados uns contra os outros e sobrepondo-se como abelhas em um enxame na porta de uma colmeia.
Mas o jovem era alto e seus ombros eram largos, e ele continuava a proferir as palavras mágicas: “Espaço para testemunhas!”. Em sua própria consciência, ele sabia que o que tentaria testemunhar naquela noite não estava na pauta, mas a multidão aceitou-o como um daqueles de quem esperavam entretenimento e permitiu que passasse — e Etienne, segurando o casaco de seu jovem amigo, seguiu de perto e abriu caminho antes que a multidão pudesse fechar-se novamente.
A audiência começou e avançou, e houve muitas risadas quando as delinquências de certos policiais gordos foram relatadas — era um caso descontraído e fácil — uma espécie de fantasia de verão na política municipal — uma briga entre chefes distritais que se tornaram ciumentos em questões de distribuição de patrocínio policial.
Walker Farr, de pé contra a parede da câmara de audiência, não riu. Estava ocupado com seus próprios pensamentos. Essa tolice branda em assuntos municipais, enquanto a morte furtiva, protegida por concessão municipal, gotejava, como ele acreditava, de cada torneira no distrito dos cortiços, agitava sua indignação amarga. Etienne Provancher estava ao seu lado, e o velho também não riu, porque não entendia, de forma alguma, sobre o que aqueles homens estavam falando. E ele estava muito inquieto, melancolicamente tomado de pavor, mal ousando tocar com as mãos o carvalho polido às suas costas. Ele estava no grande Hôtel de Ville, cuja fachada ele contemplara muitas vezes sem presumir ou ousar entrar pelos amplos portais.
Então houve um recesso enquanto o prefeito examinava papéis em sua mesa. Os vereadores recostaram-se em suas cadeiras com charutos acesos.
“Etienne”, sussurrou o jovem, uma resolução profunda excitando-o, seus olhos brilhando para o olhar interrogativo do velho, “aqueles homens que se sentam atrás daquelas mesas podem fazer algo para salvar as crianças e o povo pobre nos cortiços. Mas eles precisam acordar, estes homens aqui precisam. Você e eu devemos tentar acordá-los!”
Os olhos de Etienne abriram-se muito. Ele não compreendia de forma alguma como poderia servir.
“Sei que você não abandonará um amigo, Etienne. Sei que você ficará ao meu lado. Sei que você ama as crianças. Então, seja um homem corajoso agora!”
No momento seguinte, Etienne estava tão assustado que temeu cair onde estava, pois o jovem elevou a voz de tal maneira que ela ecoou pelo grande salão e todos os olhos voltaram-se para lá.
“Vossa Excelência, o prefeito, e senhores; sou um estranho aqui. Mas peço humildemente permissão para dirigir-me a vocês.”
“Se você é uma testemunha no caso da polícia, será chamado em sua vez após o recesso”, afirmou o prefeito.
“Não sou uma testemunha no caso da polícia. Estou aqui por outros assuntos.”
“Não há outros assuntos nesta reunião.”
“Mas deveria haver, senhor, pois o assunto pelo qual vim é um caso terrível. É uma questão de vida ou morte.”
Um silêncio caiu sobre aqueles na câmara, e o prefeito e seus vereadores inclinaram-se para frente, olhando apreensivos. Eles tinham sido avisados de que havia agitadores trabalhistas perigosos na cidade. Muitas reuniões tinham sido dispersadas pela polícia a pedido do Coronel Dodd, presidente da Consolidated Water Company, e outros empregadores tinham-no apoiado. Este jovem alto os surpreendera com seu repentino desabafo.
“É um assunto, senhores, que diz respeito a cada homem, mulher e criança nesta cidade — diz respeito vitalmente a eles a cada hora do dia — a cada hora em que estão acordados. Vocês dizem que não têm outros assuntos agora, exceto esta investigação policial tola. Pelo amor de Deus, acordem e ocupem-se com negócios reais — salvem as vidas das pessoas. Aqui vocês estão em sessão e aqui está o povo para ouvir.”
“Exponha sua queixa. Seja muito breve”, ordenou o prefeito.
Mas Walker Farr, era evidente, possuía astúcia, bem como coragem; ele percebeu que a curiosidade, adequadamente instigada, tornará os homens mais pacientes ao ouvir.
“Primeiro, quero chamar uma testemunha. Não sou conhecido nesta cidade. Mas tenho aqui um homem a quem muitos de vocês conhecem, tenho certeza, pois ele ficou à vista de uma rua onde muitos passam, e trabalhou ali por trinta anos. É Etienne Provancher.”
Vários homens riram quando Farr empurrou o velho para a vista de todos. Houve um coro murmurado de “Pickaroon”.
“É pelas crianças — pelo povo pobre — pela memória de nossa menina”, sibilou Farr no ouvido do velho. “Você vai para sua cama esta noite — a noite do dia em que a enterramos — sabendo que você é um covarde? Estes são apenas homens. Devemos dizer-lhes para que saibam. Fale! Diga-lhes!” Ele manteve sua firme garra ao redor do braço do velho francês trêmulo e manteve-o onde todos pudessem ver.
“Eu não sei como falar aqui — para tantos homens — para os senhores da cidade”, gaguejou o miserável velho, lambendo seus lábios secos, apavorado até que tudo ficasse escuro diante de seus olhos.
O silêncio era profundo. Homens curvavam as palmas das mãos junto às orelhas, imaginando o que o velho Pickaroon teria a dizer na Prefeitura.
“Lembre-se do que deixamos lá em cima — no cemitério — as pobres crianças em suas sepulturas”, murmurou Farr, inclinando-se novamente para perto do ouvido de Etienne.
Então, assim lembrado, assim estimulado, toda a sua emoção gaulesa explodindo em chamas de repente, o velho sentiu a resolução desesperada que frequentemente anima os humildes e ignorantes em grandes emergências. Os pequeninos tinham sido mártires — por que não ele? Esse pensamento atravessou o tumulto em seu cérebro.
“Sim, já que todos vocês aguardam que eu fale, eu falarei”, declarou. “Messieurs, sou um homem pobre. Não sábio. É muito difícil para mim falar com vocês. Mas estive hoje lá onde as criancinhas estão enterradas — tantas delas, com seus brinquedos sobre as sepulturas. Fui levar para lá outra criança pequena, uma pobre menininha. Deixo-a lá com as outras — tão solitárias, todas elas — suas mães não podem mais cantar para elas dormirem.”
“Isto é irregular”, gritou o prefeito. “O que você quer?”
“Nada para mim”, gritou Etienne, apaixonadamente agudo em seu tom agora. “Mas tenho de perguntar a vocês, senhores desta cidade, por quanto tempo mais enviarão veneno pelos canos de água para o povo pobre e as crianças nos cortiços? É veneno que matou nossa pequena Rosemarie — e toda a sua vida pela frente! O doutor diz isso — e ele diz que eu não consigo entender sobre o homem rico, por que ele faz isso. Mas eu entendo que as crianças estão morrendo. Digo-lhes que vocês não enviarão essa água — se a enviarem, trarei aqui os pais que perderam seus bebês e as mães dos bebês.” Seus lábios curvaram-se em sua excitação e espuma manchou sua boca. “Sagrado nome de Deus! Nós arrancaremos essa fábrica de veneno do chão com nossas próprias mãos!”
“Policial, coloque esse homem para fora da sala”, ordenou o prefeito.
“Vocês não vão nos ouvir?”, gritou Farr. “Você é o magistrado-chefe desta cidade. Você e estes vereadores são os guardiões do povo. Vocês vão ficar sentados aí nessas cadeiras almofadadas e deixar uma multidão de assassinos ricos matar o povo pobre?”
Homens vaiaram aquele discurso.
O prefeito bateu seu martelo furiosamente.
“Este não é um assunto para ser trazido aqui neste momento. Você está difamando homens honrados, senhor! Temos outros negócios.”
“Pode haver algum outro negócio tão importante quanto este?”
“Coloque ambos esses homens para fora, oficial.”
“Você e estes vereadores pertencem ao sindicato da água, como dizem as notícias?”, gritou Farr. “Olhem aqui, vocês homens, homens nesta sala e na porta! Esta é a sua Prefeitura — estes vereadores são eleitos pelos seus votos. Vocês não vão exigir que o povo seja ouvido neste assunto? Vocês não sabem que a febre tifoide está matando as crianças nesta cidade — e que água envenenada é a causa disso?”
“É uma porcaria para beber — todos sabemos disso”, gritou uma voz. “Mas terá de haver uma mudança na política neste estado antes que nos deem qualquer outra coisa.”
Dois policiais abriram caminho bruscamente até Farr e Etienne.
“O grandalhão tem razão — já está na hora de abrir essa questão da água, Sr. Prefeito”, chamou outra voz.
— Abram isso de uma maneira legal e adequada, então — retrucou o prefeito. — Procurem a lei.
— É isso aí — procurem a lei, procurem a lei — zombou outro. — E estaremos todos mortos e os advogados terão ficado com todo o nosso dinheiro antes que o assunto seja decidido.
Houve mais chiados.
Mas uma explosão de vozes de apoio indicou que muitos homens naquela câmara compreendiam, em maior ou menor grau, a gestão política por trás da Consolidated Water Company.
— Se algo está errado, mudem. Que lei melhor vocês precisam do que essa? — perguntou Farr, ignorando o polegar de um oficial que fazia um gesto imperioso.
— Quando você souber um pouco mais sobre a lei, não será ignorante a ponto de vir a uma audiência pública e tentar interrompê-la. É melhor você ir estudar direito — disse o prefeito indignado. Ele bateu seu martelo para indicar que o recesso havia acabado.
— Aceitarei seu conselho — respondeu Farr, sobrepujando o policial e agitando o dedo em direção a Sua Excelência. — Se você não tivesse achado a lei tão útil em seu próprio caso, não se esqueceria de si mesmo em sua excitação e a recomendaria aos outros. Se temos de lutar contra o diabo, é melhor usarmos as armas dele.
Homens gritaram aprovação ao redor dele.
— Esvaziem a sala — ordenou o prefeito. — Todos para fora!
— Mantenha suas mãos longe — aconselhou Farr ao policial mais próximo. — Eu sairei sem ajuda. Descobri que estou apenas perdendo meu tempo neste lugar.
No corredor, homens se aglomeraram ao seu redor. Alguns insistiram em apertar sua mão. Outros gritaram elogios. Outros ainda exibiam apenas uma curiosidade franca pelo estranho robusto. E outros eram clamorosamente hostis.
— Por Deus! Se você queria começar algo, escolheu o jeito certo — afirmou um da multidão.
— Você mostrou coragem — declarou um homem idoso com um rosto sincero. — Alguns de nós já tentaram fazer algo no passado. Mas aqueles que não tinham muito poder eram mantidos fora ou expulsos de qualquer cargo no governo da cidade ou na legislatura — e aqueles que significavam algo eram devorados pela máquina. A máquina sabe pagar. Trabalhar para o povo não é muito lucrativo. Portanto, temo que você não vá muito longe.
— Você não precisa se preocupar com esse sujeito não se dar bem — comentou um do grupo — mas seu apoio era irônico. — Ele é um mestre de obras da Consolidated, e entrou naquela audiência para causar algum tipo de contra-ataque. Operadores astutos, o pessoal da Consolidated.
Os homens ao redor de Farr se afastaram dele e houve considerável riso malicioso na multidão.
— Então percebemos o jogo, mesmo que não entendamos o significado dele agora — disse o observador.
Farr endireitou os ombros. Eles o encararam com novo interesse e um pouco mais de respeito. Viram nele algo mais do que um mero agitador popular, um perturbador de uma audiência municipal; ele devia ser um agente de confiança da grande máquina política, executando uma missão secreta.
— Você tem razão — eu estava trabalhando para a Consolidated — ele admitiu em tons que todos podiam ouvir.
— Sigam em frente! Vão para a rua! Esvaziem este corredor, todos vocês — gritou um capitão de polícia que subira apressado do andar de baixo e assumira o comando da situação.
A multidão começou a avançar, seguindo Farr.
— Fui trabalhar cavando em suas trincheiras porque cheguei a esta cidade sem um centavo e precisava do dinheiro — precisava rápido. Fui promovido a mestre de obras. Mas quero dizer-lhes agora, cavalheiros, que não trabalho para a Consolidated.
— Acho que você tem razão — disse alguém. — Acabei de ouvir um homem telefonar para o superintendente a seu respeito — e, se eu sou algum juiz de conversa, você não está trabalhando para a Consolidated. Pelo menos não mais!
— Lamento que você vá deixar a cidade — lamentou o homem idoso. — Precisamos de sujeitos como você.
— Não vou deixar a cidade.
— Você poderia muito bem — aconselhou um dos espectadores — depois do que disse naquela audiência. Se você conseguir um emprego nesta cidade depois disso, será um milagre!
Quando estavam do lado de fora da Prefeitura, Farr esperou por um momento nos degraus. Etienne, ainda tremendo após aquela experiência terrível em sua vida pacata, pressionou-se perto do lado do jovem.
— Todos os senhores poderiam, por favor, dar uma boa olhada em mim para que me reconheçam quando me virem novamente? — convidou o ex-chefe da Consolidated.
Eles o encararam. Seu rosto estava bem iluminado pela lâmpada de arco sob o arco da porta.
— Não sou líder sindical, nem delegado itinerante, nem político, nem anarquista. Vocês, homens, vão para casa e desenrosquem as torneiras de suas cozinhas, deem uma boa cheirada e puxem o lodo da válvula. Depois, lembrem-se de que o prefeito e os vereadores desta cidade não quiseram me ouvir esta noite no Salão que o dinheiro do contribuinte construiu. Lembrem-se também de que, um pouco mais tarde, eles vão me ouvir. Cavalheiros, meu nome é Walker Farr. Vou ficar aqui nesta cidade. Boa noite.
XII
AO PÉ DO TRONO
Como de costume, às nove e meia da tarde, o grande relógio da torre no edifício do First National Bank na cidade de Marion apontava o ponteiro dos minutos diretamente para baixo.
Como de costume, a esta hora, como fizera por muitos anos, o Coronel Symonds Dodd desembarcou da carruagem que o trouxe ao seu escritório. Neste dia, o veículo era seu carro de luxo.
Tendo em vista que o Coronel Dodd era proprietário do quarteirão do First National, o grande relógio parecia apontar seu dedo para ele com o orgulho insípido de um lacaio para com o mestre. Parecia dizer: "Eis! O grande homem está aqui!"
O Coronel Dodd nunca ficava constrangido quando apontavam dedos para ele onde quer que fosse. Se um homem é senhor das finanças e da política em seu estado, ele espera ser apontado.
Ao descer do carro, ele carregava nos braços, com grande ternura, um pacote longo que estava cuidadosamente embrulhado em papel de seda. Ele sempre carregava um pacote semelhante quando vinha ao seu escritório. Todas as manhãs, o jardineiro da propriedade Dodd colocava flores selecionadas no assento do veículo que fora escolhido para transportar o mestre até a cidade.
O Coronel Dodd mimava o pacote longo com o cuidado que uma babá teria dispensado a um bebê — mas chutou desajeitadamente sua perna gorda em direção a um moleque que entrou em seu caminho na calçada. Um professor universitário de Marion por acaso passava no momento, viu o ato e sabia o que o coronel carregava nos braços. O professor fez uma nota mental de material novo para sua palestra sobre "Os Fenômenos Psicológicos do Bizarro nas Emoções". O professor acabara de encontrar uma mulher empurrando um gato em um carrinho de bebê.
O médico havia aconselhado exercícios ao coronel — uma pequena quantidade. O coronel subiu penosamente o lance de escadas até seu escritório. Essa era sua cota diária de exercícios.
Um homenzinho com um nariz de bico estava esperando no corredor e apressou-se a abrir uma porta marcada como "Privado", e o coronel entrou, e o homenzinho trancou a porta e caminhou nas pontas dos pés pelo corredor até os escritórios gerais.
Antes de tirar o chapéu, o Coronel Dodd cuidadosamente removeu o papel de seda das flores úmidas. Havia dois buquês enormes. Ele os colocou em vasos de bronze ornamentado, um em cada extremidade de sua mesa. Ele acariciou e alisou as flores até que estivessem na melhor aparência. Ele recuou e lançou-lhes um olhar afetuoso. Nenhum ser humano jamais relatara ter recebido tal olhar do Coronel Symonds Dodd. Era bastante surpreendente encontrar suavidade nele com relação às flores. Ele parecia duro como um bloco de madeira. Ele tinha um corpo baixo e quadrado, e suas pernas pareciam estar fixadas nos cantos desse corpo. Seu rosto quadrado era liso, exceto por uma mecha de bigode, minúscula como um pincel de aquarela, sobressaindo sob seu lábio inferior pendente.
Ele pendurou o chapéu e ficou por um momento diante de um espelho maciço. O relato em Marion era que ele ficava diante daquele espelho e compunha sua expressão para se adequar ao caráter dos negócios do dia.
Então ele se sentou à sua mesa e encostou um dedo rechonchudo em um botão de uma bateria de botões.
Uma moça entrou com uma prontidão que mostrava que ela estava esperando pela convocação.
Ele não olhou para ela. Seu olhar estava em um dos buquês.
Ela trouxe uma pasta e pacotes de cartas, todos cuidadosamente arquivados.
Sua saudação foi apenas: "Srta. Kilgour". O Coronel Dodd não lidava com muitos "Bom-dia". Também era relatado em Marion e no estado que seu estoque de urbanidade era tão pequeno que ele era forçado a gastá-lo com muita parcimônia. Ele certamente não desperdiçava nada disso com seus funcionários de escritório. Ele poderia ter se dado ao luxo de pelo menos um olhar para a moça, pois ela era extremamente bonita. Ainda outro relato em Marion sugeria que ele havia escolhido Kate Kilgour como sua secretária como o toque artístico final para a beleza de seu escritório particular, a fim de que pudesse ter um conjunto perfeito. Ela parecia, no que diz respeito ao interesse dele por ela, ser apenas parte daquele conjunto que ele ocasionalmente varria com um olhar descuidado — ele reservava toda a sua admiração íntima para os buquês.
Ela colocou suas cartas "Estritamente Pessoais" sobre seu mata-borrão fresco.
Ela se sentou e começou a ler as cartas de negócios em voz alta, sem esperar pelas ordens dele para começar. Era sua rotina diária, negócios transacionados como o Coronel Dodd desejava que fossem transacionados — de forma nítida, rápida, direta.
Ele ditava as respostas, geralmente lacônicas, até mesmo curtas, assim que ela terminava cada carta. Seus olhos estavam nas flores enquanto ele falava.
Quando as cartas terminaram, ela se retirou com sua pasta e suas notas, o carpete grosso abafando o som de sua saída.
Depois de ter aberto os envelopes de sua correspondência pessoal e lido o conteúdo, o coronel pressionou outro botão. O homenzinho que estivera esperando no corredor deslizou de lado pela porta. Ele era magro e idoso, e sua cabeça arredondada, assentada bem baixa sobre os ombros franzidos, tinha olhos perscrutadores em cada lado daquele nariz de bico. Quando caminhava pela sala, seus braços longos ficavam atrás dele, sob as abas do casaco, mantendo-as estendidas, e ele guardava alguma semelhança com um pássaro. Na verdade, não era preciso muita imaginação para notar a semelhança com um pássaro em Peter Briggs — muitas pessoas o comparavam a um pica-pau —, pois ele esvoaçava de um lado para o outro na antessala do Coronel Dodd, entre aqueles que aguardavam audiência, batendo aqui e ali com o bico metafórico das perguntas, despertando as traças e larvas de negócios que os homens que vinham e esperavam escondiam sob a casca de seu comportamento.
— Dezessete, Coronel Dodd. Cinco para negócios reais; doze deles são parasitas.
— Os cinco?
— O Engenheiro-Chefe Snell da Consolidated, o Dr. Dohl do Conselho Estadual de Saúde, os três promotores do sistema de água do vilarejo de Danburg.
— Envie Snell.
O Engenheiro Snell não se sentou na presença de seu presidente, nem o presidente pediu que ele se sentasse.
— Briggs me diz que os homens de Danburg estão aqui.
— Eles estão esperando lá fora, Coronel Dodd.
— Desistindo?
— Não acho — ainda não. Eles parecem muito bravos. Eu dei a eles o arpão de forma adequada, como é de costume, mas não esperava que corressem aqui tão cedo. Pensei que eles iriam se debater um pouco mais.
— Eles receberam o golpe de Stone & Adams ontem à tarde, receberam?
— Sim, Coronel. Meu relatório para Stone & Adams mostrou que o plano de níveis de Danburg é falho, que suas uniões não estão conforme o contrato, que sua estação e bombas são ineficientes para as demandas. Então Stone & Adams tiveram que dizer a eles que seus títulos foram recusados.
— Você sabe se eles já tentaram outra casa bancária?
— Não acredito que eles tenham tido tempo, Coronel.
— Mas tais sujeitos sempre tentam. O fato de virem aqui tão rapidamente me parece um pouco irregular. Nos negócios, sabe, Snell, se você amarra uma lata de estanho em um cão e ele corre uivando, isso é perfeitamente natural e você pode sentar e esperar que a natureza siga seu curso. Se o cão não corre, mas se senta e rói o barbante até soltá-lo — então tome cuidado com o cão.
— Devo admitir que eles estão vindo aqui de repente após o choque. Eles parecem bravos. Mas imagino que devam ter desistido. O choque foi forte, pois Stone & Adams vinham os enganando — de acordo com as ordens.
O coronel encarou um buquê.
— Você tem seu outro relatório — o relatório paralelo — em forma para eu ter uma ideia rápida? Se eles vieram aqui com uma proposta — querem desistir e se proteger, preciso de informações agora mesmo.
O Engenheiro Snell colocou papéis sobre a mesa. Ele prosseguiu para explicar.
— Se o senhor não sentir que tem tempo para analisar — não quiser manter o pessoal de Danburg esperando —, posso dizer-lhe que a instalação está quase toda certa. Tão certa que o senhor pode se dar ao luxo de lhes dar alguns milhares para cada um, além do que já gastaram. Não suponho que o senhor queira que eles gritem muito alto. Posso dizer que Davis, Erskine e Owen — aqueles homens lá fora — estão sem um centavo. Eles investiram todo o seu dinheiro disponível. Eles dependiam de Stone & Adams para a primeira parcela dos títulos, para quitar algumas notas de trinta dias e pagar contas vencidas de material.
O Coronel Dodd meditou, puxando sua mecha de bigode.
— Uma coisa é incentivar o empreendimento neste estado — outra coisa é pagar eternamente subornos a promotores locais que pegam uma franquia quando não estamos olhando e depois nos chantageiam. Não quero prejudicar os homens de Danburg. Mas meus acionistas esperam certas coisas de mim e já está na hora de os homens deste estado entenderem que pretendemos controlar a questão da água. Snell, vá lá e fale com esses homens de Danburg como um pai para seus filhos. Mande-os para cá acalmados e faremos a coisa certa com eles.
Ele sinalizou para Briggs e disse-lhe para admitir o Dr. Dohl.
O médico, presidente do Conselho Estadual de Saúde, era um homem rechonchudo com uma barba em forma de leque, cor de estopa. Ele se sentou, colocou seus óculos sobre o nariz protuberante e retirou um pacote de manuscritos.
— Coronel, senti que é meu dever escrever um capítulo especial sobre a situação da febre tifoide neste estado para o relatório do Conselho Estadual de Saúde.
— Muito bem, Doutor. — O coronel foi curto e seu tom não admitia nada sobre seus sentimentos.
— O senhor se importa em ouvi-lo? Ele diz respeito de forma bastante vital à Consolidated Water Company.
— O senhor não nos culpa por todos esses casos de tifoide, culpa?
— Não, senhor — não por todos eles.
— Por que nos culpar por qualquer um deles? Nossas análises mostram que estamos fornecendo água limpa. E quanto aos leiteiros sujos e aos arranjos sanitários nesses cortiços e tudo mais? É moda culpar uma corporação por tudo de ruim que acontece neste mundo.
— Temos colocado a culpa nos leiteiros onde a culpa é devida — afirmou o Dr. Dohl. Ele bateu em seu manuscrito. — Mas gastei uma quantia considerável do dinheiro do meu departamento fazendo uma busca casa a casa, rastreando as fontes. O homem antes de mim supunha. Eu tive certeza! Coronel Dodd, a água da Consolidated é uma coisa bastante venenosa hoje em dia.
— Qual é o problema neste estado de repente? — disparou o coronel. — Disseram-me que um lunático quase acabou com nossa reunião do governo municipal na outra noite, gritando que a Consolidated está tentando envenenar as pessoas. O senhor é um homem sensato demais para entrar nessa categoria, Dr. Dohl.
— Permitirei que o senhor me coloque em qualquer categoria que pareça adequada do seu ponto de vista — respondeu o médico, rigidamente. — Mas se aquele lunático, como o senhor o chama, tirou um verme ou uma perna de rã da sua torneira, não o culpo por interromper uma reunião do governo municipal que tolera a água que está sendo bombeada através das tubulações da cidade agora mesmo.
— Estamos trabalhando na estação de filtragem — ficará tudo bem em pouco tempo. Saiu do controle antes que percebêssemos — disse o coronel, agora um pouco apologético.
— Nesta crise, seu filtro equivale a isso! — O médico bateu um dedo rechonchudo na palma da mão gorda. — A água do rio neste estado foi envenenada. O senhor deve ir para as colinas — para os lagos, Coronel Dodd.
— O senhor não quer dizer que recomenda isso em seu relatório, Doutor?
— Absolutamente — enfaticamente.
— Sem parar para pensar nos milhões que custará à minha empresa reconstruir suas instalações?
— Chegou a um ponto em que não é uma questão de dinheiro, Coronel.
— Não podemos arcar com isso.
— Então deixe que as cidades e vilas do estado comprem suas usinas de água e o façam.
— Por Jefferson! O senhor não sabe que cada cidade e vila neste estado onde temos uma usina de água já excedeu seu limite de dívida de cinco por cento?
— Devo entender que o senhor está insinuando, Coronel Dodd, que não há ajuda para esta condição atual de coisas?
— Veja bem — não sou nem um Herodes nem um Moloch, mesmo que alguns dos agitadores de mente fraca neste estado queiram que assim seja — protestou o magnata, com calor. — O senhor vai imprimir esse relatório antes de nos dar tempo de nos virarmos?
— Com cem mortes por dia por febre tifoide neste estado, Coronel, essa questão de tempo torna-se muito importante.
— Veja aqui, Dohl, o senhor não se lembra de que foi meu apoio que lhe deu seu emprego?
— Lembro-me, Coronel Dodd. Mas sou um médico, não um político.
— Vejo que não é — retrucou o coronel, secamente. — Mas o senhor é um membro do nosso partido político, e sabe que a Consolidated e seus interesses associados são a espinha dorsal desse partido. Há muitos descontentes neste estado, e estamos tendo um trabalho do cão para mantê-los na linha. Cada banco de poupança neste estado, além disso, detém títulos da Consolidated. O senhor quer iniciar um pânico? O senhor tem de ser cuidadoso ao tocar no primeiro tijolo que está em uma fileira. Dohl, deixe esse relatório comigo. Vou analisá-lo. Vou tratar do assunto com os diretores. Agiremos o mais rápido possível.
O médico hesitou, acariciando as dobras de seu manuscrito.
— O senhor não está duvidando da minha palavra, está? — exigiu o coronel.
— Não, senhor! — Mesmo o senso de dever do médico não o encorajou a persistir sob esse cenho do homem de poder.
O coronel pegou o documento das mãos relaxadas do Dr. Dohl e empurrou-o para um nicho da grande mesa.
— O senhor deve entender que tubulações para lagos não podem ser instaladas em um minuto como uma criança amarra canudos, Doutor — advertiu o magnata.
— O senhor pretende instalar linhas para os lagos, Coronel? Preciso jogar um pouco de consolo à minha consciência se meu relatório for atrasado.
— Tudo de certo será feito no devido tempo, Dr. Dohl. Procederei o mais rápido possível, considerando que a lei, as finanças e a política estão todas envolvidas. Como o senhor está indo embora — acrescentou ele, dando ao visitante a dica brusca de que a entrevista havia acabado —, devo chamar sua atenção para o fato de que, se o senhor espancar a Consolidated com um relatório como este, pode levar muito tempo até que possamos agir sobre o assunto. O senhor só vai assustar os bancos e fazer os excêntricos latirem. Lembre-se apenas de que o senhor é um funcionário estadual e tem uma responsabilidade pesada para com seu partido e para com os interesses financeiros.
O Dr. Dohl foi embora. Ele percebeu amargamente que era apenas uma engrenagem na grande máquina; que, por um momento, ameaçara desenvolver uma borda áspera e começar a chiar, mas a grande lima fora usada nele. Ela fora usada em muitas outras engrenagens da Casa do Estado, como ele bem sabia. Responsabilidade para com seu partido! Segurança e sanidade em relação aos interesses financeiros! Ele sabia que essas palavras talismânicas tinham sido usadas para controlar até mesmo os senhores na política nacional. Ele partiu da Presença, murmurando sua rebelião, mas plenamente consciente de que um Sansão político nos dias modernos fazia um espetáculo triste de si mesmo quando começava a derrubar os pilares do templo do partido.
Ele continuou a murmurar enquanto caminhava pela antessala.
A maioria dos homens que esperavam ali tinha rostos tão carrancudos quanto a fisionomia que o Dr. Dohl exibia.
O médico não tinha perdido toda a fé em sua própria coragem e retidão de motivos, mas era obrigado a admitir para si mesmo que, naquele momento, era um campeão bastante fraco.
— No entanto, eu gostaria de ver o tipo de homem capaz de desarticular essa combinação diabólica de política, lei e finanças — informou a si mesmo, tentando justificar seu próprio recuo.
Seus olhos, ao passar, varreram um estranho.
O estranho era um jovem alto, de cabelos ondulados e olhos castanhos. Sentava-se pacientemente, ninando um chapéu preto de abas largas sobre os joelhos.
— Eu gostaria de ver esse homem! — repetiu o Dr. Dohl, mentalmente, recobrindo com açúcar seu nojo pela própria fraqueza.
Se o homem mortal fosse dotado de presciência, o Dr. Dohl teria intimidado com o olhar o jovem alto que se sentava em um banco na antecâmara do soberano do estado e ninava um chapéu de abas largas sobre os joelhos.
XIII
O CÓDIGO E O DESAFIO DE BATALHA
— Eu aprecio o zelo em assuntos públicos — refletiu o Coronel Dodd, olhando para a porta que o Dr. Dohl fechara atrás de si. — Mas uma vez houve um cão retriever que perseguiu seu dono com um cartucho de dinamite que tinha um pavio a estalar.
Ele colocou suas mãos largas sobre os braços da cadeira, içou-se e foi até o espelho. Observou a si mesmo e pareceu rearranjar sua fisionomia, tal como uma mulher alisaria a plumagem desalinhada de seu chapéu.
— Não somos assassinos — informou à fisionomia composta que o espelho lhe oferecia. — Mas não chegamos ao ponto de deixar que lunáticos que interrompem reuniões do governo municipal, ou médicos excêntricos, nos digam como gastar um ou dois milhões do dinheiro que trabalhamos arduamente para acumular. Está havendo demais desse negócio de dizer aos empresários neste país como administrar seus negócios. Se estamos vendendo febre tifoide apesar do que nossas análises nos dizem, então prosseguiremos, é claro, e faremos uma limpeza. — O Coronel Dodd estava disposto a admitir isso para si mesmo, examinando sua fisionomia no espelho. — Mas continuaremos a administrar nossos próprios negócios — acrescentou.
Então sentou-se novamente em sua cadeira e apertou um botão. — Briggs — ordenou — mande entrar aqueles três homens de Danburg.
Ele girou sua cadeira giratória e sentou-se ali em sua mesa, com sua frente retangular enquadrada para enfrentá-los.
Os três homens que entraram eram do tipo empresário rural, e seus rostos não eram amáveis. Dois deles pararam no meio do suntuoso apartamento e o terceiro deu alguns passos à frente deles. Ele carregava um enorme rolo de plantas de engenharia debaixo do braço.
— Meu nome é Davis, como suponho que saiba, Coronel Dodd — relatou.
— Sintam-se à vontade, senhores.
— Estamos cansados de sentar — declarou o porta-voz, com amarga significação.
— Compreendo, Sr. Davis. Mas as manhãs são horários muito ocupados para mim. Eu estava atendendo a compromissos marcados de antemão. Vocês não fizeram agendamento, e eu não os esperava.
Houve silêncio, e os três homens lançaram olhares furiosos sobre ele. Era evidente que a animosidade estabelecida encorajava esses comerciantes rurais, mesmo na presença do Coronel Symonds Dodd.
— Eu disse que não os esperava.
O comportamento do coronel exibia um pouco de incerteza; ele esperava suplicantes. Sabia que um golpe terrível tinha sido desferido contra esses homens no dia anterior.
— Provavelmente não — assentiu Davis. — Você esperava que, depois que a Stone & Adams puxasse a passarela debaixo de nós ontem, passaríamos pelo menos um dia correndo atrás de outras firmas bancárias, tentando colocar nossos títulos.
— Por quê... por quê... Bem, se a Stone & Adams... Vocês naturalmente não aceitariam o veredito de uma única casa bancária sobre uma questão de títulos, aceitariam?
— Escute aqui, Coronel Dodd, nós o entendemos — até o fundo — e é melhor economizarmos o desgaste de nossas línguas. E, antes de tudo, viemos aqui direto para economizar sola de sapato. Viemos direto ao quartel-general. Você supõe que vamos galopar por esta cidade atrás de banqueiros depois que a notícia sobre nós se espalhou? De jeito nenhum! Estamos aqui no escritório do capitão, e você não pode nos enganar quanto a isso.
— Eu nunca ouvi tal... — o coronel começou a balbuciar.
— Eu sei que nunca ouviu — e isso está tirando você do sério — afirmou o rude homem do campo. — Temos uma pergunta clara e pertinente para lhe fazer: você pretende nos encurralar em nosso negócio de água?
O chefe do truste de água do estado simulou raiva perfeitamente, mesmo que não a sentisse. E havia espanto em sua raiva.
— O que eu tenho a ver com suas negociações com banqueiros? — ele exigiu. — Provavelmente sua instalação não está à altura.
— Essa conversa não cola conosco, nem por um minuto, Coronel Dodd — gritou o inabalável Davis. — Você está falando com empresários, não com crianças. Oferecemos deixar a questão do nosso plano para quaisquer três engenheiros neste estado. Por que é que a Stone & Adams se recusa a aceitar a palavra de qualquer pessoa, exceto a do seu homem, Snell?
— Eles provavelmente querem a palavra do melhor engenheiro consultor do estado.
— Mas ele é o seu homem.
— Ele é nosso homem porque é o melhor. Nós o contratamos para o nosso trabalho. Mas não controlamos suas opiniões quando ele é consultado por outros. Oh, não! E quero dizer a vocês, meus senhores, que me recuso a ouvir mais qualquer conversa desse tipo vinda de vocês.
— Então chame um de seus policiais políticos e mande nos retirar — convidou o destemido Davis.
— Construam sua instalação corretamente e seus títulos serão vendidos. Nossos títulos são vendidos quando o Sr. Snell faz um relatório sobre nossas instalações.
— Economizaremos nossas forças na questão de construir instalações e correr por aí tentando colocar títulos com corretores que foram alertados pelo truste monetário deste estado. Propomos obter isso diretamente de você primeiro. Você não pode nos enganar por um minuto, repito! Teremos nossa última resistência bem aqui. Você vai tirar as mãos dos nossos negócios?
— Eu não coloquei minhas mãos nos seus negócios — gritou o Coronel Dodd, furioso por ser provocado dessa maneira espantosa. Nunca antes qualquer visitante ousara levantar a voz naquele escritório. — Vocês são loucos.
— Você tem razão — somos — quase isso. Eu e estes dois vizinhos meus amarramos cada dólar que pudemos juntar para construir uma estação de tratamento de água para nossa pequena vila e dar ao nosso povo água limpa de um lago, não o veneno podre que você bombearia de nosso moinho para nós. Tentamos fazer isso pela nossa cidade e ganhar um dólar honesto para nós mesmos. Agora você nos amarrou ao mastro, financeiramente, ou assim pensa, e propõe intervir e devorar nossa concessão. Isso é o suficiente para deixar os homens loucos.
— Saiam do meu escritório!
— Você pegou a concessão e as ações ordinárias de Westham desse jeito — declarou Davis. — Você abocanhou Durham e Newry e muitos outros. Mas estou aqui para avisá-lo, Coronel Dodd. Danburg vai sufocá-lo se você tentar engoli-la. Somos apenas homens do campo, e sabemos disso. Você sempre fez todas as ordens e ameaças neste estado até agora. Mas eu lhe digo, Coronel Dodd, chega um momento em que o coelho cospe no olho do buldogue. Se nós três sairmos desta sala com o mesmo espírito com que entramos, algo vai acontecer neste estado. Teremos uma história para contar.
O Coronel Dodd girou sua cadeira e ficou de frente para sua mesa.
— Senhores, não vamos nos exaltar — ele apelou. Ostensivamente, ele estendeu a mão para um lápis. Ele também apertou um botão que não tinha tocado antes naquele dia. Então ele se virou lentamente no eixo de sua cadeira. — Vocês mencionaram certas cidades, Davis. Essas cidades têm sistemas de água que fazem parte da Consolidated, com certeza. Mas os homens que promoveram essas instalações e não conseguiram concluí-las vieram até nós e imploraram que interviéssemos e tirássemos o fardo de suas mãos. — Enquanto o Coronel Dodd falava, ele continuava olhando, mas de uma maneira extremamente discreta, para um enorme e magnífico biombo japonês que ocupava um canto de seu escritório. — É fácil o suficiente iniciar empreendimentos neste mundo, Sr. Davis. Um homem inexperiente pode fazer isso. Mas, na maioria das vezes, é preciso experiência e muito dinheiro para instalar uma estação de tratamento de água bem-sucedida.
— Queremos ir direto aos fatos, Coronel Dodd — insistiu o porta-voz. — Não viemos aqui sem nos informar. Sabemos como você falou com os outros. Mas você não pode nos blefar. Você propõe roubar nossa instalação, o pouco que conseguimos construir até o momento. Uma palavra sua para a gangue do dinheiro tira o azar de cima de nós. Agora, fale de negócios! Você propõe nos eliminar como fez com o resto?
O coração da grande rosa no centro do biombo brilhou uma vez com um fulgor que era imperceptível, a menos que alguém estivesse olhando para ele, esperando por um sinal. O Coronel Dodd entendeu que a Srta. Kate Kilgour tinha entrado por uma porta baixa e estava atrás do biombo, pronta com bloco de notas e lápis. Ele recostou-se em sua poltrona profunda e entrelaçou os dedos gordinhos sobre a barriga.
— Garanto-lhes que não tenho o menor interesse em seus projetos quanto ao sistema de água de Danburg, Sr. Davis, Sr. Erskine, Sr. Owen. — Ele enfatizou os nomes. — A Consolidated tem muitos negócios próprios para cuidar.
— Mas eu digo que você está tentando administrar nossos negócios também — não, arruiná-los!
— Vocês percebem, Sr. Davis, que estão me acusando de conspiração criminosa — fazendo uma declaração que pode ser ruim para vocês em um tribunal de justiça? Vocês me acusaram de tentar desacreditá-los junto às casas bancárias. Podem produzir alguma prova, exceto suas suspeitas tolas e injustas? Vocês ficaram com raiva por causa de uma recusa em negociar seus títulos. Eu não vendo títulos. Eu construo e opero sistemas de água.
— O mesmo jogo de sempre — zombou Davis. — Seu sindicato de água, as ferrovias deste estado, os bancos, a política — estão todos embaraçados como cobras em alojamentos de inverno. Eu digo, se você der a palavra, nossos títulos serão aceitos. Se não fizer isso, vou sair deste escritório e expor seu sistema de roubo de estrada.
— Em um momento você me ameaça porque diz que estou interferindo em seus negócios. No próximo, você me ameaça porque me recuso a interferir. Você está fazendo um discurso perigoso, Davis. Posso chamar os tribunais para se pronunciarem sobre essa ameaça. Há apenas uma proposta que posso fazer a vocês — e está estritamente na linha do meu negócio. Se vocês estão atados financeiramente — estão no fim de seus recursos e precisam de ajuda — eu lhes darei minha ajuda para que a Consolidated assuma a instalação de Danburg a uma avaliação justa.
— Essa é a melhor palavra que você tem para nós?
— Eu lhes fiz uma proposta de negócios honrosa.
— Essa é sua última palavra?
— Absolutamente.
Davis achou as palavras inadequadas para suas emoções fervilhantes naquele momento. Ele avançou sobre Dodd, que recuou para dentro de sua cadeira. Davis tirou o longo rolo de plantas de debaixo do braço, segurou o rolo por uma extremidade e balançou-o como um bastão de beisebol. Mas ele não atingiu Dodd, como o magnata parecia recear.
Ele balançou sobre a cabeça do coronel e limpou o topo da mesa de tudo; vasos, buquês, objetos de arte, tudo foi rolando e quebrando no chão.
O Coronel Dodd abaixou-se e segurou sua cabeça quadrada com as mãos, como se temesse que o próximo ataque fosse nela. Mas Davis conduziu seus associados para fora da sala através da porta que Briggs abrira, convocado pelo barulho no santuário de seu mestre.
Pela primeira vez, talvez, na história daquele escritório privado, a porta que levava à antecâmara foi deixada aberta e sem vigilância. Briggs correu para dentro da sala, com as abas de seu paletó balançando, seu bico inquisitivo esticado para a frente. Em seus calcanhares seguiu o jovem alto que estivera esperando na antecâmara. Era Walker Farr, que fechou a porta atrás de si, bloqueando os clientes curiosos da antecâmara que se aglomeravam e espiavam.
Quando o coronel levantou a cabeça, viu-se olhando diretamente nos olhos deste jovem alto, de quem ele não se lembrava de forma alguma.
Briggs caiu de mãos e joelhos e começou a recolher os destroços.
Um dos buquês tinha rolado até os pés do coronel, e ele se abaixou com certa dificuldade, recuperou-o e colocou-o sobre os joelhos. Ele olhou além de Farr com uma carranca — com um movimento significativo e desdenhoso de cabeça. O jovem virou-se a tempo de ver a bela secretária do capitalista. O motim espantoso no santuário de seu empregador a trouxera de trás do biombo. Incerteza e alarme estavam em seus olhos e a excitação tinha ruborizado suas bochechas. Contra o fundo do deslumbrante biombo, ela parecia uma verdadeira aparição de formosura, e enquanto Farr olhava, admirando-a francamente, reconhecendo-a, trocando aquele reconhecimento assustado com ela, ela desapareceu.
— Como você ousa entrar em meu escritório particular desta maneira?
— Esperei naquela antecâmara todos os dias por dez dias, tentando conseguir uma audiência. A porta estava aberta agora há pouco e eu entrei.
— A culpa é sua se não me viu. Eu atendo homens que têm negócios comigo e que enviam uma explicação sobre esses negócios.
— Foi o que me disseram por aquele homem — declarou Farr, apontando para Briggs, que tateava pelo tapete. — Mas meus negócios com você não podiam ser discutidos através de um terceiro.
— Agora que você está aqui, que negócios são esses?
— Vou lhe dizer primeiro o que não são, para que não haja nenhum mal-entendido em sua mente a meu respeito. Não estou aqui para pedir dinheiro emprestado, pedir dinheiro, pedir trabalho, pedir um favor pessoal de qualquer tipo, solicitar um cargo político, nem tenho nada para vender a você ou para lhe dar. Então, você vê, meu negócio é diferente.
Com um movimento rápido, ele trouxe um pacote que mantivera escondido no chapéu de abas largas.
Briggs endireitou-se sobre os joelhos e permaneceu assim, aparentemente paralisado, olhando para o pacote.
O capitalista recuou em sua cadeira, seu rosto tornando-se branco-esverdeado.
— Não jogue essa bomba! — ele arquejou. Em seu pânico, ele não conseguia deduzir nenhuma outra explicação para a presença desse estranho que descartara tão vigorosamente todos os motivos razoáveis para sua visita. Ele encolheu-se diante desse homem que parecia ser um excêntrico perigoso — pois o traje de Farr era incomum, seus olhos brilhavam e sua postura era a de um homem seguro de si.
— O que você acha que eu tenho aqui neste pacote?
— Dinamite! — murmurou o magnata.
— É pior.
O Coronel Dodd rolou a cabeça de um lado para o outro no encosto de sua cadeira, fechando os olhos em uma vã tentativa de encontrar alguém a quem apelar por ajuda. Ele começou a mover uma mão furtiva em direção à bateria de botões.
— Mantenha suas mãos no colo — ordenou Farr. — Eu digo que o que tenho aqui neste pacote é pior do que dinamite. — Ele rasgou o papel e revelou meia dúzia de torneiras que ainda pingavam lodo. — Você sabe agora o que quero dizer, Coronel Dodd. Esta é a coisa que sua companhia de água está bombeando através dos canos neste estado.
O presidente da Consolidated endireitou-se na cadeira, mas ele tinha ficado completamente assustado.
Enquanto Farr continuava a falar, o coronel parecia estar se recompondo — recuperando a voz.
— É um ato muito ousado para mim entrar aqui assim, Coronel Dodd. Eu entendo isso. Sou um homem pobre e um estranho nesta cidade. Apenas considere-me uma voz — chame-me de jumenta de Balaão se quiser. Mas eu vim dos distritos de cortiços onde as crianças estão morrendo.
— O que você quer? — O magnata descarregou a pergunta explosivamente.
— Água pura nas redes da cidade.
— Quem você representa?
Farr hesitou. O Coronel Dodd sentiu uma possível estratégia política nesta visita, e estava controlando sua ira para investigar o assunto.
— Vamos, meu homem. Fale logo! Quem o comissionou para vir aqui?
— Não vou alegar que tenho quaisquer poderes delegados a mim, senhor.
— Como você ousou forçar sua entrada aqui?
— Considerando que tipo de homem eu era há algumas semanas, estou tendo muito trabalho para explicar a mim mesmo o que estou fazendo, senhor.
O coronel franziu as sobrancelhas espessas. Esta pessoa parecia estar brincando com ele. — Quem lhe disse para vir aqui?
— A alma de uma garotinha que se chamava Rosemarie.
O Coronel Dodd saiu de sua cadeira, completamente irritado — e ainda assim reprimiu sua raiva. Essa pessoa, mais do que nunca, parecia-lhe ser um excêntrico com devaneios.
Farr levantou uma palma em protesto. Seus tons tremeram, e neles ele colocou todo o apelo que uma voz humana pode conter.
— Eu sei que o surpreendo, Coronel — acrescentou. — Surpreendo a mim mesmo. Não sou muito bom em autoanálise. Não sei exatamente o que aconteceu comigo nas últimas semanas. Mas dizem que a Divindade escolhe instrumentos estranhos quando quer que as coisas sejam feitas. De homem para homem, agora, esquecendo que você é um homem poderoso e eu sou um pequeno, você não vai dizer que dará ao povo deste estado água pura em vez de veneno?
— Você não acha que pode entrar aqui e me convencer a reconstruir todo o sistema da Consolidated, acha?
— Essa não é a ideia de forma alguma, senhor. Trate-me simplesmente como uma voz — um cutucão em sua consciência — um lembrete. Eu irei embora e você nunca mais me verá.
— Se você acha que os excêntricos neste estado podem me influenciar no menor item sobre administrar meus próprios negócios, você é o pior lunático fora do hospício estadual — declarou o coronel, com paixão.
— Você quer dizer que o que pedi em nome de mulheres e crianças não teve nenhum efeito sobre você?
— Nem o menor. Saia! — Em seu estado atual, o Coronel Dodd não admitiria para esse intruso que planejava reformas, e naquele momento ele involuntariamente criou o monstro de Frankenstein.
Farr recuou alguns passos e fez uma reverência. — Coronel Dodd, na minha parte do Oeste, nós, rapazes, tínhamos um pequeno código: ajudar uma mulher, sempre, em toda parte; carregar uma criança cansada em nossos braços; e, no caso de um homem que se anunciasse como um inimigo, dar-lhe um aviso justo quando chegasse a hora de sacar as armas. É melhor soltar sua arma no quadril.
Ele fez uma reverência novamente e saiu.
Briggs levantou-se de seus joelhos e seu mestre disparou um olhar furioso para a porta que o jovem tinha fechado suavemente atrás de si.
— Que tipo de refúgio meu escritório está se tornando? Você sabe quem é esse tolo diabólico, Briggs?
— Não, senhor. Ele tem ficado por aqui, é tudo o que sei. Fiquei no pé dele. — Ele deu um pequeno toque com seu bico de pica-pau. — Mas não consegui descobrir nada com ele.
— Bem, descubra com outra pessoa, então. E ligue para o juiz Warren para mim.
Quando a campainha tocou e o coronel ouviu a voz do consultor jurídico da Consolidated cumprimentando-o na linha, ele ordenou que o juiz viesse imediatamente.
— O inferno acabou de queimar aqui em três pequenas partes — declarou o coronel, sombriamente. — Quanto mais cedo abrirmos a mangueira da Consolidated, melhor.
No crepúsculo de uma noite de verão, o Sr. Peter Briggs estava na borda da calçada de uma das avenidas sórdidas do distrito dos cortiços de Marion. Suas mãos estavam atrás das costas, esticando as abas de seu paletó. Ele continuava espiando a escadaria sombria de uma casa próxima. Junte a melancolia, sua atitude e suas roupas fuliginosas, e ele dava uma impressão muito pitoresca de um corvo cumprindo o dever de sentinela.
Finalmente, um jovem alto desceu as escadas que o Sr. Briggs estava observando e passeou tranquilamente pela avenida, parando aqui e ali para conversar, acenando para este homem, fazendo uma saudação com a mão para aquele homem. O jovem aparentemente não tinha absolutamente nada em sua mente, exceto aproveitar um passeio na noite de verão.
O Sr. Briggs observou-o até perdê-lo de vista, sem mover-se do lugar. Então, retirou ambas as mãos debaixo das abas do paletó. Em uma mão, trazia um caderno; na outra, um lápis. O Sr. Briggs fez uma anotação, fechou o livro com decisão e passou um elástico em torno das capas. Em seguida, partiu em direção à sua casa. Morava na zona alta da cidade, em um bairro onde havia menos odores e melhor paisagem. Determinou que aquela seria sua última ronda de vigilância. Achava que suas incursões pelos recantos e frestas do Décimo Primeiro Distrito eram um trabalho muito desagradável para um homem que servira ao Coronel Dodd durante tantos anos nos ambientes suntuosos daquele escritório no edifício do First National.
Perguntou a si mesmo qual seria a utilidade de buscar mais informações sobre um indivíduo tão insignificante quanto um tal de Walker Farr. Questionou-se por que aquele excêntrico impressionara o Coronel Symonds Dodd a ponto de causar todos aqueles problemas para si mesmo, Peter Briggs. O sujeito viera de algum lugar — ninguém em Marion parecia saber de onde. Fora demitido do emprego na Consolidated. Agora, andava por aí avisando a todas as pessoas que fervessem a água da cidade que retiravam das torneiras. Ele parecia ser um fanático pelo assunto da água, conforme o caderno de Peter Briggs registrava.
O livro também registrava que esse estranho Walker Farr passeava pelas ruas dos bairros mais pobres, “buscando favores”: foi assim que Peter Briggs descreveu as atividades noturnas do jovem no caderno. Parecia ser tudo o que havia. De qualquer modo, Peter Briggs decidiu que havia terminado sua busca.
Em seguida, puxou o elástico com vigor e decidiu dizer ao Coronel Dodd na manhã seguinte que perseguir aquele sujeito sem valor ou pensar que tal criatura pudesse fazer qualquer coisa para interferir com o Coronel Dodd era uma tolice. Peter Briggs esperava ter coragem de chamar de “tolice” na presença de seu patrão — pois estava profundamente farto de ser um detetive no malcheiroso Décimo Primeiro Distrito.
Ele teve coragem de chamar de tolice. E o Coronel Dodd deu de ombros e esqueceu um tal de Walker Farr. O sujeito parecia irrelevante — e o Coronel Dodd encontrou outros assuntos muito mais urgentes.
Por um lado, aqueles três homens de Danburg haviam aberto um processo contra a Stone & Adams e contra a Consolidated Water Company, e contrataram como advogado ninguém menos que o Honorável Archer Converse, o advogado corporativo mais eminente do estado, um homem de ideais tão elevados e concepção tão escrupulosa de responsabilidade legal que nunca estivera disposto a aceitar honorários do grande Sistema que dominava os assuntos estaduais. O Coronel Symonds Dodd temia o Honorável Archer Converse. Havia boatos de que o caso de Danburg envolveria acusações de conspiração com o intuito de restringir os independentes, e seria usado para expor o que os opositores da Consolidated insistiam ser uma iniquidade generalizada nas finanças e na política.
O Coronel Dodd, externamente, não se intimidou. Não enviou nenhuma bandeira de trégua. Decidiu entrincheirar-se e lutar. Praguejou ao lembrar da entrevista com o triunvirato de Danburg.
— Em circunstâncias normais, eu os subornaria da maneira habitual — informou ele ao Juiz Warren. — Mas aquele lunático maldito esbravejou contra mim com todos os insultos que conseguiu pensar — depois, levantou aquele punhado de plantas imundas dele e derrubou minhas flores no chão — sim, senhor, foi isso que o touro louco fez — ele derrubou minhas flores no chão!
E o Coronel Dodd enfatizou isso como o crime imperdoável.
XIV
A QUESTÃO DE FAZER O QUE SE PODE
Foi do Cidadão Drew que Walker Farr ouviu a história do Capitão Andrew Kilgour.
O Cidadão Drew era o homem idoso de rosto sincero que fora o primeiro a elogiar Farr naquela noite na Prefeitura, quando ele e o velho Etienne haviam feito sua incursão pateticamente inútil contra o privilégio entrincheirado.
As pessoas em Marion que conheciam o Cidadão Drew haviam esquecido seu primeiro nome. Em sua propaganda de protesto, ele chamava a si mesmo de “Cidadão”. Construía capotas de carruagem em uma pequena oficina onde havia gavetas abarrotadas de literatura política e econômica, e ele lia e refletia durante suas horas vagas.
Farr procurou o Cidadão Drew e sentou-se aos seus pés, com os ouvidos atentos.
Pois o Cidadão Drew conhecia a história política de seu estado, os homens envolvidos, seus caracteres, seus objetivos, suas fraquezas, suas virtudes, suas falhas — especialmente compreendia suas falhas —, suas afiliações com a Máquina, sua atitude para com os fracos; ele seguia seus rastros como o cão humilde segue a grande caça.
Portanto, Farr, um estranho naquela terra, buscando conhecimento com o qual armar sua determinação, foi e sentou-se com o Cidadão Drew e aprendeu muitas coisas.
Às vezes, a loquacidade levava o Cidadão Drew um pouco para fora da estrada principal da política, e quando ele tocava no caso do Capitão Andrew Kilgour, o coração de Farr batia forte e seus olhos brilhavam. Pois Drew precedeu a parte da história com isto:
— Nunca vi Symonds Dodd fazer nada para reparar um erro que ele havia cometido, exceto quando deu a Kate Kilgour uma boa posição em seu escritório. E há aqueles que dizem que ele estava apenas demonstrando mais de seu egoísmo ao contratá-la; ele queria a garota mais bonita da cidade para combinar com a decoração de seu escritório.
— Eu a vi — disse Farr, tentando ser objetivo. — Eu... eu fiquei me perguntando!
— O pai dela era meu amigo. Era um bom homem. E o dinheiro da Consolidated não podia comprá-lo. O povo dele era da família Kilgower, na Escócia, e ele era um homem não dado a muita conversa, mas estava disposto a me deixar falar, balançando a cabeça de vez em quando enquanto fumava. Era um homem honesto e o melhor engenheiro do estado, e guardava seus próprios conselhos em todas as coisas. E ele me mostrou o brasão de armas dos Kilgower — e ele não mostrava isso a muitos. Não era um fanfarrão. Ele tinha orgulho de seu povo, mas costumava dizer que pouca diferença fazia quem eram os ancestrais, a menos que os descendentes copiassem as virtudes e tentassem melhorar as falhas. Houve um Kilgower que cruzou a fronteira e entregou-se como refém para que o clã pudesse ganhar tempo — e ele sabia que seria enforcado — e foi. Mas salvou seu povo. E eu gostaria que você se lembrasse disso, Sr. Farr, pois isso explica um pouco o estado de espírito de Andrew Kilgour.
— Ele não se vendia para o trabalho sujo da gangue — ele fazia relatórios honestos. Então eles acabaram com ele, Sr. Farr. E ele não podia se dar ao luxo de deixar que acabassem com ele, porque sua esposa era vaidosa e perdulária, e ele a deixava desperdiçar e gastar porque era um homem bom e simples quando se tratava da dominação de uma mulher sobre ele. Essa é a maldição dos homens fortes — eles são ternos quando se trata de uma mulher. Ela não era digna dele, sua esposa. É a filha que tem a honestidade dele. Acho que se ela soubesse quem acabou com seu pai, não ficaria no escritório de Symonds Dodd. Mas a gangue acaba com um homem, na maioria das vezes, sem deixar o rastro aberto quando fogem e se escondem.
— Ele vinha aqui, sentava-se comigo, fumava e ficava muito calado. Eu sabia que havia dívidas e sabia muito bem que a mulher queria que ele se vendesse.
— Ele raspou e economizou dinheiro — vendeu tudo o que era seu, seus instrumentos e tudo mais. Fez cada centavo de seguro que o dinheiro podia comprar. Então, colocou ácido prússico em uma cápsula — um invólucro de salol, creio eu que disseram ser — para que a ação do veneno fosse retardada, e ele engoliu a cápsula na rua, entrou em um escritório, sentou-se, conversou com amigos, brincou e riu muito mais do que era seu hábito, até que, finalmente, seus olhos se fecharam, seu rosto ficou branco e ele caiu de sua cadeira no chão, morto instantaneamente, e nunca soltou um gemido.
— Foi um ato de coragem. Chamaram de doença cardíaca, mas não é fácil enganar o pessoal do seguro. Eles o tiraram da sepultura e provaram o suicídio — e não pagaram um dólar de seguro à sua família. Não eram obrigados. As apólices eram novas e a cláusula de suicídio livrou as seguradoras. Então ele deixou apenas dívidas em vez de vinte e cinco mil dólares. No entanto, digo que foi um ato de coragem.
— Teria sido mais corajoso ficar e enfrentar — disparou Farr.
— Mas Andrew Kilgour tinha seu próprio código — um estado de espírito que alguns de nós não conseguíamos entender — o exemplo de um ancestral. Não somos todos iguais. Muitos não conseguem ficar e enfrentar o problema. Você talvez consiga — parece ter a cabeça no lugar!
Farr empalideceu, suas mãos tremiam nos braços da cadeira, e então ele se levantou e caminhou pela pequena oficina até a janela, dando as costas ao Cidadão Drew.
— Você disse a eles na Prefeitura que ficaria aqui e lutaria — continuou o Cidadão Drew. — Isso é um ato de coragem.
— Ficaria muito grato ao senhor, Cidadão Drew, se me deixasse fora de seu catálogo de heróis. E retiro o que disse sobre ele enfrentar. Eu não tinha o direito de fazer tal comentário.
— Então a garota foi trabalhar no escritório de Symonds Dodd e o sobrinho dele a está cortejando. Espero que ele não consiga a filha de Andrew Kilgour. Ele nunca perseguiu outra garota honestamente. Investiguei este caso porque era amigo de Andrew. O jovem Dodd quer se casar com ela e a mãe a está ajudando. Mas eu conheço aquele patife, Sr. Farr. Não consigo acreditar que Kate Kilgour será fisgada por ele.
— Ele tem uma boa posição, dizem-me — falou Farr, ainda olhando pela janela.
— A Máquina fez do velho Peleg Johnstone tesoureiro do estado, e ele não sabe distinguir títulos de biscoitos. O Coronel Dodd colocou seu sobrinho como escriturário-chefe, e o velho Peleg é apenas uma figura decorativa, fumando seu cachimbo no escritório dos fundos e descansando suas botas com pontas de lã sobre a mesa. Ah, eu conheço a corja toda, senhor. Posso lhe contar os bastidores das coisas. O jovem Dodd recebe ordens de seu tio e administra o tesouro. Todo o dinheiro do estado está nos bancos dos Dodd em conta corrente — e a gangue está emprestando a seis por cento. Um lucro razoável! E ninguém para dizer uma palavra, nem mesmo para perguntar como Richard Dodd encontra tanto dinheiro para gastar. Mas essa é a principal maravilha do mundo, Sr. Farr — como seu vizinho consegue dinheiro para esbanjar. Jones, Smith, Brown e Robinson — eles ficam olhando um para o outro e fazem a mesma pergunta. E o pessoal no Décimo Primeiro Distrito está até me perguntando como você consegue seu sustento — acrescentou o Cidadão Drew, suavizando sua curiosidade com um toque de jocosidade.
— Tenho trabalhado nesta cidade — fazendo um bom e duro trabalho — declarou Farr, movendo-se em direção à porta.
— Sim, mas você foi demitido.
— Entendo como é que você sabe tanta coisa para me contar — retrucou o jovem, sorrindo. — Bem, Cidadão Drew, vou aceitar o primeiro emprego que aparecer. Diga-lhes isso!
— Fico feliz com isso — disse o Cidadão Drew, com franqueza cordial. — Se você decidiu fazer algo entre as pessoas comuns, tem que trabalhar às claras, ganhando salários honestos, ou elas suspeitarão de você. Elas foram enganadas muitas vezes por farsantes e vadios. Mas, como você se anunciou na Prefeitura, pode achar que empregos são um pouco difíceis de conseguir. É quase uma proposta hermética, a influência da Consolidated.
— Tenho alguém cuidando dos meus interesses nesse sentido, Cidadão Drew. Não estou preocupado. — Ele abriu a porta. — Na verdade, há dois sujeitos extremamente prestativos com quem vou me associar mais ou menos de agora em diante.
— Traga-os com você e apresente-os. Não podemos ter gente demais em uma boa causa.
— Eu os trarei — mas eles são bem difíceis de entender — um pouco lentos para se socializar — muitas pessoas não têm utilidade para eles — disse Farr, começando a descer as escadas.
— Quais são os nomes deles? — perguntou o curioso cidadão, ansioso por mais adições ao seu estoque geral de informações.
— Eu lhe direi mais tarde.
Mas Farr nomeou-os para si mesmo quando estava na rua.
— Acaso e Humildade — espero que vocês fiquem comigo de agora em diante — murmurou ele. — Acaso, você me levou a uma posição estranha e a um estado de espírito peculiar. Humildade, você está me ajudando a entender. Agora, Acaso, o que você tem a me dizer?
Era mais da fantasia caprichosa com a qual Walker Farr brincava.
Seus olhos, vasculhando a rua após esse desafio ao Acaso, contemplaram um carro de gelo passando. Era uma carroça de aparência limpa, pintada de branco, e ostentava o anúncio: “Crystal Pure Independent Ice Company”.
Outra carroça, pintada de amarelo sujo, seguiu atrás. Era um carro de gelo da Consolidated; Farr conhecia aquelas carroças com suas cargas de gelo de rio.
O espetáculo de algo que prometia rivalidade àquela carroça amarela aguçou seu interesse. Seu humor acolheu a primeira aventura que o Acaso apresentou. Ele descobrira o Acaso pregando peças peculiares em seus assuntos nos dias que acabaram de passar.
Ele correu em perseguição à carroça branca e abordou o condutor.
— Onde posso encontrar o gerente desta empresa?
— Ele está em Coosett Lake esta tarde, senhor. — O homem foi respeitoso. O traje e o comportamento do estranho impressionaram-no. — O bonde o levará bem perto. Pegue um bonde na praça — um bonde de Halcyon Park.
Sem analisar mais a questão, Farr pegou o bonde.
Decidiu que era uma sensação muito reconfortante, essa de abandonar seus problemas ao Acaso! Economizava tanta confusão e preocupação.
Encontrou o pequeno lago nos limites da área do parque — uma depressão entre as colinas.
Homens estavam ocupados ao pé da encosta sobre cuja crista ele caminhava. Viu vários edifícios rudes à beira do lago, claramente casas de gelo improvisadas. Uma era uma estrutura nova e as outras duas eram velhos celeiros que haviam sido “remendados” aqui e ali com material novo, e suas laterais inclinadas estavam escoradas com vigas. Homens carregavam gelo nas carroças; os cubos translúcidos brilhavam sob os raios do sol.
Durante o processo de sua pequena cruzada, ele havia se familiarizado com as condições na cidade de Marion e sabia que o pessoal da Consolidated controlava o suprimento de gelo, assim como o da água. Eles detinham um controle de ferro, por carta magna legislativa, sobre todos os direitos ribeirinhos ao longo do rio e não permitiam que mais ninguém operasse um campo de gelo. Ele havia visto e cheirado a lama insalubre que um bloco derretido de gelo da Consolidated depositava.
Quando encontrou oportunidade, abordou um homem de veludo cotelê. Era um sujeito grande, bronzeado pelo sol, e Farr escolheu-o como o gerente porque ele estava direcionando os outros trabalhadores enquanto ele mesmo labutava.
— É um pequeno negócio meu — disse o homem. — Comecei como independente.
— Eu pensava que a Consolidated tinha controle de tudo.
— Eles controlariam tudo se pudessem. Não me deixariam passar com minhas carroças pelas ruas da cidade se soubessem como me impedir. Trabalhei para eles por quinze anos, carregando seu gelo sujo nas costas, subindo e descendo escadas, e conheço aquela corja. Não entendo muito de nada além do negócio de gelo, senhor, seja quem for. Mas eu não levaria mais nenhum daquele gelo para as casas. Coloquei minhas economias aqui, cada centavo, aluguei esses celeiros e um direito de margem, e estou vendendo gelo limpo. Mas vou perder cada centavo maldito! Não adianta. Não consigo enfrentá-los. Desculpe-me! Não é de seu interesse. Minha boca se solta quando começo a falar daquela gangue.
Ele voltou ao celeiro para ajudar seus homens a mudar uma rampa.
Farr esperou pacientemente até que pudesse falar novamente com o homem ocupado.
— Não pretendo incomodá-lo, senhor — disse ele, humildemente. — Mas estou interessado nesta sua proposta. Eu mesmo trabalhei para a Consolidated. Fui demitido porque me levantei e amaldiçoei a água deles perante o prefeito e os vereadores.
— Ei, ouvi algo sobre isso! — exclamou o homem do gelo, demonstrando interesse e admiração imediatos. — Os rapazes disseram que foi um bom trabalho.
— Menciono isso apenas para me colocar em sintonia com o senhor.
— Então prossiga, meu amigo!
— Você está me dizendo que não consegue fazer isso funcionar?
— Receio que não. É um trajeto de oitocentos metros para mim até o desvio mais próximo. O pessoal da ferrovia não me dá nenhuma tarifa melhor do que são obrigados a dar — e você sabe por que isso acontece! E preciso de outro conjunto de carroças para a entrega na cidade. E sem capital para trabalhar! Estou enfrentando uma corja que tem todo o dinheiro, muitos equipamentos, e tem seu suprimento bem na porta dos fundos da cidade — e ele pertence à porta dos fundos! Mas você sabe como é o público consumidor! A única razão pela qual durei é porque meus antigos clientes me deram seus negócios e estão resistindo muito bem.
— Meu amigo — declarou Farr, colocando a mão sobre o ombro curvado e marcado por muitos anos de transporte de gelo —, muitos homens que estão ganhando dinheiro como missionários não estão fazendo metade do bem no mundo que você está fazendo. Você certamente está mostrando a alguns dos cidadãos de Marion a diferença entre gelo bom e pedaços congelados de pestilência.
— Um sujeito precisa de garra, graça, bom senso e muito espírito missionário para lutar contra o que estou lutando, senhor. Não vou dizer nada sobre muitos obstáculos que o sindicato colocou no meu caminho. Aqueles eram de se esperar no curso da competição comercial regular. Mas você pode ver que só tenho recursos limitados aqui, e não posso pagar por um grande aparato na cidade. Às vezes fiquei sem, fazendo o melhor que pude — e durmo muito pouco. E os motoristas da Consolidated se recusaram a vender gelo para qualquer um que estivesse comprando de mim, mesmo quando mães imploraram para manter o leite de bebês doentes sem azedar. São ordens da sede! Você não pensaria que os mesmos grandes figurões que mandam no governador do estado desceriam a tais mesquinharias, hein? Mas eles descem — esse é o sistema deles. Eles costumavam me dizer que é a única maneira de um grande sindicato manter seu controle — nunca deixar a barra abaixar! Sim, senhor, eles colocaram meus clientes na lista negra até que eles se comportem e deem à Consolidated um contrato anual. Mais do que isso, eles espalham a notícia de que estarei fora do mercado na próxima temporada e que as pessoas que compraram de mim este ano serão ignoradas no próximo! Você consegue superar isso?
— Você vai vender para eles?
— Não — disse o homem do gelo, severamente. — Há dois bons motivos: não vou vender e eles não vão comprar. Eles vão me matar para que ninguém mais seja encorajado a tentar o esquema de novo.
— Quero um emprego — declarou Farr, secamente. — Quero trabalhar para você. Dê-me um lugar em uma de suas carroças na cidade.
— Ei, veja bem — disparou o outro homem, francamente atônito —, você parece mais um cavalheiro do que um homem do gelo!
— Não importa como eu pareço. A questão principal é: posso carregar gelo? Sinta meu músculo!
— Pode ser uma perspectiva ruim para seu pagamento — trabalhar para mim — alertou o proprietário. — E se você quiser outro emprego em Marion, pode ser colocado na lista negra. Não quero colocá-lo em apuros.
— Não posso estar em apuros piores do que o que estou agora. Não acabei de lhe dizer quem sou?
— Ah, eu sei disso! Imagino que você seja o mesmo sujeito. Mas, veja bem, senhor, sou um daqueles galoots do tipo simples — e quanto menos um homem sabe, mais desconfiado ele é. Você não quer trabalhar para mim só porque precisa de um emprego!
— Eu preciso de um emprego! Gastei o pouco dinheiro que tinha comigo depois de ter sido demitido pela Consolidated. Tive algumas despesas especiais — o funeral de um... um amigo — acrescentou ele, com melancolia no tom de voz. Ele enfiou a mão nos bolsos e exibiu algumas moedas pequenas na palma da mão quando a puxou. — Isso é meu dinheiro — cada centavo dele!
“Certo! Eu entendo. Mas dinheiro é algo que um sujeito como você consegue facilmente quando precisa. Você ainda não foi inteiramente honesto comigo!” Não era mera curiosidade; era a insistência de um homem simples que queria um ponto de apoio definido para começar a entrelaçar os fios de uma associação.
“Você vai ter que lidar com o meu dinheiro”, continuou ele. “Estou em uma situação complicada e preciso ter os homens certos ao meu lado. Eu não precisaria perguntar a um daqueles rapazes ali por que ele quer carregar gelo. Mas você não é um simplório qualquer, senhor. Você não faz as coisas — não a maioria delas — a menos que tenha um bom motivo para isso.” Era o instinto da ingenuidade. “Guarde tudo para si, se quiser. Mas, nesse caso, terá que me desculpar!”
Farr não hesitou. Ele sorriu.
“Você é um sujeito pé no chão, que talvez consiga entender a coisa melhor do que eu mesmo”, declarou ele. Novamente, colocou a mão sobre o ombro curvado.
“Você não largou um bom emprego e começou esse negócio de gelo aqui simplesmente para ganhar mais dinheiro, não foi?”
“Bem, eu tenho uma família para sustentar e queria ganhar algum dinheiro, é claro, mas achei que já era hora de ter menos relíquias, germes, curiosidades, micróbios e bugigangas em geral sobrando nas caixas de gelo depois que o gelo derretia. Então, saí do negócio de museu congelado, senhor.” Sua voz suavizou-se de repente. “Perdemos uma filhinha no verão passado, há um ano. Tifo!”
“Eu perdi uma menina — uma amiga”, disse Farr, dando tapinhas no ombro dele. “É assim comigo... Qual é o seu nome?”
“Freeland Nowell.”
“Sr. Nowell, eu fiz piada, mais ou menos, durante toda a minha vida com homens que alegavam ter missões. Talvez porque esses homens atraíssem minha atenção anunciando suas missões aos berros — e, portanto, concluí que todos os homens com licença para curar isto, consertar aquilo e regular aquilo outro estavam enganando a si mesmos ou eram farsantes. Mas, de repente, despertei para algo. Acredito que qualquer ser humano que não esteja fazendo algo, por menor que seja, para ajudar outra pessoa nesta vida, é profundamente miserável. Acredito que a maioria das pessoas comuns está fazendo isso — mantendo-se em silêncio, na maioria dos casos, talvez. Eu pensei que tinha uma missão, levantei-me no seu governo municipal e anunciei-a, fazendo um tremendo papel de idiota.”
“Bem, de certa forma, até que estava tudo bem”, disse Nowell, com a cautela do cidadão honesto. “Mas, é claro, você ganhou a fama de lunático e encrenqueiro e não chega a lugar nenhum! Não é com lábia e gritaria que se faz as coisas! Se a conversa faz as pessoas pensarem, tudo bem, até certo ponto. Mas muitos desses sujeitos põem a boca no mundo, cruzam os braços no colo e depois se perguntam por que o mundo não melhora, já que pediram para que ele fosse bom.”
Era a sagacidade de um observador humilde.
“Sr. Nowell, não quero me sentir tão sozinho neste mundo como tenho estado”, disse Farr, com seriedade. “É um sentimento terrível! Um homem pode se sentir solitário por um tempo e reprimir o desejo de estar na marcha dos homens honestos, onde pode tocar os cotovelos e fazer parte das coisas. Eu vejo você me olhando! É isso mesmo — é um assunto estranho para se conversar com você.” Ele ponderou por um momento e continuou. “Coisa estranha, não é, para um sujeito despertar de repente — um sujeito do meu tipo — e querer fazer um bem real no mundo? Bem, isso me surpreende, e surpreenderia você muito mais se me conhecesse melhor. Não tentaremos analisar esse sentimento. Desisti de tentar fazer isso.” Ele fez uma pausa e seus olhos castanhos examinaram o vendedor de gelo, que piscava os olhos, com um apelo irônico. “Esse é um prefácio muito longo, Sr. Nowell. Deveria conduzir a algum pedido muito importante. Mas não conduz. Eu simplesmente quero um emprego na sua carroça de gelo. Isso me dará a melhor oportunidade que conheço para entrar nas casas e dizer às mães que fervam a água que sai daquelas torneiras sujas; depois que eu desparafusar as torneiras, não precisarei discutir muito. Eu disse ao Coronel Dodd no escritório dele para se cuidar! Isso pode ter sido bravata. Eu sou um ninguém. Mas estou na pista dele, e há uma coisa que posso fazer para começar! Posso ajudar a salvar a vida de algumas crianças. É só isso! Seguirei meu novo lema. Você me dará o emprego?”
“Com certeza vou”, declarou Nowell, calorosamente. “Se eu não sei quando um homem está sendo honesto comigo, então a culpa é minha. Quando você quer começar a trabalhar?”
“Agora.”
Nowell lançou um olhar lateral depreciativo para as roupas do novo funcionário.
“Você parece mais alguém que vai pregar do que entregar gelo. Mas posso dar um jeito nisso, se você estiver quebrado, meu amigo. Tire esse paletó e ajude aqui até carregarmos. Depois, vá até a cidade no caminhão de carga e peça a qualquer um dos meus homens que lhe dê o macacão e a jaqueta que deixei pendurados no escritório do estábulo.”
Dessa forma, aconteceu que, naquele dia, Farr estava andando em uma carroça de gelo em Marion, aprendendo sua rota. Um jovem ruivo, que cuidava de um ferimento de picareta de gelo em um pé enfaixado, serviu de guia e condutor, apontando os cartões de “Cristal Puro” encostados aqui e ali nas janelas, sinalizando silenciosamente as necessidades domésticas. Com satisfação entusiasta, e com um prazer secreto por ter permissão de “guiar” esse sujeito que parecia e falava como um “nobre”, o jovem deixou que Farr fizesse todo o trabalho.
A rota passava por muitos prédios de apartamentos da cidade.
O trabalho era extenuante. Na maioria dos casos, havia escadas para subir. Ele ficava de pé, arqueado sob sua carga, até que as caixas fossem esvaziadas pelas donas de casa ou criadas preguiçosas. Ele descobriu que o vendedor de gelo era considerado um alvo justo e lógico para todos os mau-humores matinais da cozinha. As mulheres reclamavam irritadas que o gelo gotejava no chão limpo, ou que a peça não era equivalente à de vinte centavos entregue pela outra empresa, ou que ele estava atrasado, ou que ele não tinha prestado atenção no dia anterior, senão teria visto o cartão.
Em inúmeras ocasiões, ele foi obrigado a carregar um pedaço de gelo de volta para baixo, até a carroça, e trocá-lo por uma peça de outro tamanho e preço. Ele não recebeu nenhum pedido de desculpas nesses casos; era informado rispidamente de que deveria ter bom senso suficiente para saber o que era necessário naquela casa. Em outros casos, a dona dos apartamentos o expulsava da porta e explicava, com total falta de interesse na longa subida que ele fizera, que o cartão havia sido deixado ali por descuido — a caixa já tinha sido abastecida no dia anterior.
E, em dois lugares, mulheres de língua afiada não permitiram sua entrada, declarando francamente que vendedores de gelo eram criaturas sujas demais para serem permitidas dentro da porta de uma casa respeitável; as mulheres recebiam seus cubos de dez centavos em bacias e batiam a porta na cara dele.
E, através de tudo isso, Farr manteve seu sorriso.
Nessa escravidão, sob as chicotadas verbais de mulheres irritadiças, suando sob sua carga, ele estava feliz; ele não conseguia explicar o motivo e nem tentava, mas sabia disso. Ele aceitou a situação.
Ele recebeu recompensas suficientes para fortalecer sua resolução.
Uma mulher maternal pediu que ele esperasse um momento e preparou para ele um copo de limonada. Isso lhe deu a oportunidade de dizer algumas palavras a ela sobre a água potável, de forma modesta e deferente. Ela se interessou, e ele mostrou a ela o que a torneira culpada escondia.
E ele viu que ela ficou chocada e, depois de alertá-la, pediu que ela contasse a todas as outras mulheres que conhecia. Ela prometeu levantar o assunto em seu clube de costura.
“E até mesmo as mulheres exigentes”, disse ele a si mesmo, enquanto caminhava de volta para sua carroça, encorajado pelo seu primeiro experimento, “se eu me mantiver calmo, se eu continuar sorrindo... encontrarei minha chance de dizer algo a elas depois de algum tempo.”
Um donut fresco foi dado a ele por uma criada que sorriu aprovadoramente para sua aparência viril, e ele ficou muito grato, pois seu café da manhã tinha sido escasso, já que ele mal tinha moedas suficientes para fazer barulho no bolso.
A criada ofegou assustada quando ele lhe mostrou o que havia na torneira e imediatamente colocou água para ferver a fim de abastecer as garrafas na caixa de gelo.
Além disso, a criada declarou que conhecia muitas outras criadas que ficariam felizes em saber sobre algo tão terrível, e que ela teria uma palavra a dizer a elas no caminho para a missa de domingo e na volta.
Farr começou a entender mais claramente o que pode ser realizado por uma voz solitária, carregando um evangelho que pode ser apoiado e ilustrado por sinais e prodígios.
“Ainda farei com que me escutem”, ponderou ele. “Nunca mais direi uma palavra indelicada sobre a língua de uma mulher.”
O Coronel Symonds Dodd passou rapidamente pela carroça de gelo naquela tarde em sua limusine.
Farr riu alto da graça de um pensamento que lhe ocorreu: ele refletiu que gostaria de ver o rosto do Coronel Dodd e ouvir os comentários do Coronel Dodd se alguém contasse àquele cavalheiro que o homem diante do qual ele havia tremido e empalidecido estava agora começando o que o homem acreditava ser um ataque mais eficaz à dinastia do que até mesmo um vagão inteiro de bombas de dinamite, mesmo que fossem explodidas em todos os reservatórios da Consolidated. Os comentários que seriam divertidos, como pensou Farr, viriam quando o coronel fosse informado de que o ataque consistia em um vendedor de gelo solitário conversando com mulheres nas cozinhas.
“No entanto”, disse o vendedor de gelo para si mesmo, enquanto verificava uma marca em um cubo de dez centavos na parte de trás de sua carroça. “Sustento que meu novo lema está correto, e o velho Etienne o endossaria, e ele sabe no que consiste o sacrifício pessoal. Não é revirar os olhos, cruzar as mãos e dizer: 'O que posso fazer?'. É dizer: 'Farei o que puder!' — e depois manter as mãos ocupadas!”
XV
QUANDO UMA CRIADA É TÍMIDA
O Sr. Richard Dodd veio cortejar.
Ele esperou em seu carro cinza no meio-fio, em frente ao quarteirão do First National Bank, até que Kate Kilgour saísse para o sol da tarde.
Ele a chamou, segurando a porta lateral aberta.
“Eu precisava ver você”, disse ele. “Vim da capital, a quarenta milhas por hora. Você é mais preciosa do que todo o dinheiro que tenho trancado nos cofres.”
Ele não encontrou nos olhos dela nada daquele aclamado brilho de amor alegre que os amantes ávidos buscam. Pelo contrário, a Srta. Kilgour fez uma careta para ele e estava claramente petulante.
“Não quero andar de carro, Richard. Gosto da minha caminhada. Preciso dela depois de um dia na minha mesa.”
“Mas vou levá-la para um longo passeio no campo. Jantaremos no Hillcrest Inn e nós...”
“Vou direto para casa, se me permite.”
“Então entre aqui comigo.”
“Ah, se você insiste!” Ela disse isso com impaciência cansada.
“Você está cansada?”
“Sim.”
Ele dirigiu devagar. “Não quero que você trabalhe mais. Você sabe que não quero. Você sabe como me sinto. Kate, publiquei nossas intenções de casamento.”
Seu comportamento até então tinha sido marcado pela tolerância, um pouco irritadiça. Agora, ela virou para ele o olhar indignado da feminilidade ofendida.
“Richard, não lhe dei permissão para fazer isso.”
“Mas você vai se casar comigo!”
“Algum dia. Eu lhe direi quando. Não estou pronta.”
“Você está brincando comigo.”
“Não sou tão frívola.”
“Mas por que você continua adiando?”
“Uma mulher que se entrega tem o direito de dizer quando isso acontecerá.”
“Meu Deus!” ele enfureceu-se. “Eu gostaria que você acordasse.”
Ela não respondeu.
“Você não sabe o que é o amor. Você não me deixa tocar em você.”
“Suponho que sua experiência o tenha qualificado, Richard”, ela respondeu, meio humorada, meio desdenhosa.
“Nós vamos nos casar. Sua mãe está ansiosa para que você se case. Vou dizer ao meu tio para procurar outra secretária.”
“Cuidado com as liberdades que você toma com meus negócios particulares”, ela avisou, bruscamente.
“Você precisa de alguém para cuidar deles para você. Você prometeu ser minha esposa. Você não pode me dar um único bom motivo para esperar mais.”
“Mas pretendo esperar.”
Ele dirigiu em silêncio raivoso e eles deixaram o carro juntos nos apartamentos Trelawny. O carro fez um desvio ao chegar ao meio-fio — evitando uma carroça branca, na parte traseira da qual um vendedor de gelo estava cortando rapidamente um bloco de gelo ao meio.
A moça olhou rapidamente para o homem e virou a cabeça quando chegou à calçada para examiná-lo mais de perto. O vendedor de gelo, espiando as janelas para localizar os cartões de sinalização que pudessem estar visíveis, baixou o olhar e interceptou o escrutínio da moça. O sangue subiu às bochechas dela, mas ela franziu a testa como se se ressentisse do olhar dele e apressou-se para o vestíbulo, com seu amante no seu encalço.
“Olha aqui, Amigo Eu Mesmo”, refletiu Walker Farr, “está na hora de você acordar!” Ele suspirou e jogou um bloco de gelo no ombro. “Mas o que mais posso esperar? Venha, Humildade, e me dê uma ou duas palavras gentis. Eu estava esperando nunca mais vê-la.”
“Você pega aqueles dois números da frente — dez e doze — Sra. Kilgour e Sr. Knowles”, aconselhou seu ajudante. “A entrada de pacotes é por trás.”
Farr subiu as escadas com dificuldade, carregando um cubo de gelo no ombro e outro pendurado em pinças. Havia apenas uma porta para o apartamento Kilgour e a moça e Dodd estavam diante dela; eles evidentemente esperaram no corredor depois de sair do elevador, e o jovem a estava detendo, falando com seriedade.
A moça abriu a porta com sua chave, e com um pedido de desculpas ele passou na frente da dupla e entrou.
“Bem, eu vou ser...”, soltou Dodd. “Então é isso que ele é — um vendedor de gelo barato e de vida baixa!”
A Sra. Kilgour entrou em seu vestíbulo e liderou o caminho para a cozinha, pois Farr estava parado hesitantemente na porta, aguardando instruções sobre sua carga. Seguindo-a, o jovem notou seu vestido de casa, excessivamente enfeitado com fitas, seu rosto maquiado, seu cabelo descolorido, e imaginou como tal mulher poderia ter seduzido Andrew Kilgour, como sentia que conhecia aquele herói abnegado pelo que o Cidadão Drew havia dito.
“Diga, aquele é o brutamontes que nos insultou na floresta. Nunca esquecerei aquele rosto”, enfureceu-se Dodd, não fazendo nenhum esforço, com tons baixos, para esconder seus sentimentos do vendedor de gelo. “Onde mais vou encontrar esse sujeito? Ele precisa de uma surra. Se não houvesse senhoras presentes, eu daria uma nele.”
“O homem parece estar cuidando da sua própria vida”, disse a moça, friamente.
Farr a ouviu. Havia um toque de desprezo em seu tom, e o jovem aceitou humildemente o escárnio como sendo direcionado a ele. Ele colocou o gelo na caixa e recebeu sua moeda da mulher lânguida, que parecia prestar tanta atenção à presença dele quanto às ameaças de Dodd.
Ela parecia estar mais interessada em si mesma e, quando Farr partiu, estava ajeitando as mechas de seu cabelo diante de um espelho no vestíbulo. Através do espaço formado pelas cortinas, ele viu Dodd estendendo mãos ávidas para a moça, tendo sua presença aparentemente encantado seus pensamentos de vingança.
O vendedor de gelo seguiu humildemente seu caminho.
Ele estava meditando sobre o sacrifício do Capitão Andrew Kilgour; ele se lembrava de que homens vigorosos são escravos dispostos das mulheres mais fracas. Ele se perguntava quanto da honestidade do pai havia na filha. Ele tentou se consolar insistindo que não havia. Ele só tinha tido uma oportunidade limitada de estudar Richard Dodd. No entanto, ele estava convencido de que sua estimativa nada lisonjeira sobre aquele jovem era certamente justificada; e tão certo estava ele de que o caráter de Dodd deveria ser patente para todos, que ele voltou às suas tarefas com uma estimativa rebaixada da moça que escolheria tal homem como marido. E, ainda assim, da poeira da estrada, o perfil do rosto dela o havia tocado como seu coração nunca tinha sido tocado antes; ele tinha colhido a rosa e caminhado atrás da irmãzinha da rosa. Ele se perguntava que impulso estranho o havia tocado. Ela deveria ser apenas como todas as outras. Sua gentileza naquele primeiro encontro o tentara a acreditar que ela era diferente. Agora, alguma consciência, igualmente intangível, sugeria-lhe que ela estava egoisticamente se vendendo pelo conforto. Seus pensamentos estavam bastante confusos, ele reconheceu. Mas, à medida que seguia em frente, carregando seus fardos, ouvindo os tiranos mesquinhos que podem zombar impiedosamente do homem que entra pela porta dos fundos, ele estava ciente de que precisava plenamente de muita ministração de sua nova amiga, a Humildade.
Na sala de estar do apartamento Kilgour, Richard Dodd dizia à mãe que havia solicitado uma licença de casamento.
“E eu esperei tempo suficiente”, declarou ele. “Mãe Kilgour, você deve convencer Kate de que nos casaremos dentro de uma semana.”
E ele deu à mãe um olhar que a fez empalidecer e torcer os dedos anelados nervosamente.
“Kate, qual é o sentido?”, suplicou ela. “Você está agindo como uma criança. Você ama Richard. Você sabe que o ama. Você me diz frequentemente que o ama! Richard é um rapaz tão querido!” Ela disse isso de forma servil, com clara intenção de apaziguar o jovem carrancudo. Seu tom, seu ar, sugeriam o constrangimento nervoso de um devedor que busca adiar um credor com bajulação e novas promessas. “Agora seja uma criança querida e diga que faremos o casamento na próxima semana, sem qualquer confusão.”
“Não estou pronta para me casar, e simplesmente não vou me casar agora”, declarou a moça, com os lábios vermelhos comprimidos.
“Você não me ama!”, queixou-se Dodd.
“Eu gosto de você, Richard”, admitiu a moça, francamente, sem qualquer coqueteria. “Nunca me importei com mais ninguém. Você tem sido bom comigo, exceto quando foi tolo.”
“Tolice — é o que ela chama de estar tão apaixonado por ela que não consigo tirar as mãos dela”, disse Dodd à mãe. “Mãe Kilgour, você não falou com Kate como deveria. Ela não sabe o que é o amor.”
“Ah, eu descobrirei tudo sobre isso, e então nos casaremos — quando eu estiver pronta para me tornar uma esposa”, disse a moça, com um sorriso indulgente. “De repente, eu vou acordar, assim como você tem implorado que eu faça, e então simplesmente fugiremos, nos casaremos e viveremos felizes para sempre.”
“Não gosto dessa enrolação”, rosnou Dodd, brutalmente.
“Vou deixar vocês dois sozinhos”, disse a mãe. “Tenho certeza de que chegarão a um entendimento.” Ela se retirou, demonstrando alívio.
“Sente-se aqui no divã comigo, querida”, suplicou o jovem.
Mas, sem tirar o chapéu, ela foi ao piano e começou a tocar.
“Por favor, venha!”, ele implorou.
Ela sorriu para ele por cima do ombro e fez um biquinho charmoso.
Resmungando um juramento de paixão, ele saltou, apressou-se pela sala e começou a beijá-la ferozmente.
Ele esmagou com seus lábios todos os protestos dela; parado sobre ela, ele a segurou no banco do piano até que, por força bruta e com toda a energia de seu ressentimento, ela se libertou dele.
“E agora você vai me culpar porque não consigo evitar”, ele ofegou.
“Não entendo, de modo algum, por que pessoas normais podem encontrar qualquer prazer nesse tipo de tolice.”
“Sua ideia de amar alguém é esfregar os narizes como esquimós?”
“Eu suportaria esse tipo de amor preferencialmente a esse tipo de beijo, Richard. Isso não é amor o que você está oferecendo — não o tipo de amor que eu quero. Vou sair para minha caminhada — você a roubou de mim. Não, vou sozinha. Vá conversar com a mamãe, se quiser.”
Ela escapou do aperto que ele fez e saiu apressada em direção ao elevador.
Com o rosto afogueado e irritado, Dodd dirigiu-se a uma sala interior onde a Sra. Kilgour lia um romance, banhando-se ao sol com uma indolência felina. Ela deixou o livro de lado com evidente pesar.
“Oh, Kate tem tanta compostura!” lamentou ela, interrompendo as queixas do jovem. “Ela é tão parecida com o pai. Ninguém, exceto eu, conseguia fazer qualquer coisa com ele. Às vezes era muito difícil para mim! Ele cismava e batia o pé! Mas eu sempre vencia no final.”
“Bem, vá em frente e vença agora”, ordenou o amante carrancudo. “Você está simplesmente deixando que essa coisa se arraste.”
“Eu conheço a natureza de Kate, Richard. É apenas uma questão de momento certo.”
Ele sentou-se aos pés dela, na extremidade do sofá.
“O momento é este — agora!” disse-lhe ele. “Insisto que você faça Kate entender. Tenho sido paciente e razoável por um ano. Você me prometeu que resolveria tudo. Por que não o faz?”
“Mas entregar uma filha em casamento não é como entregar mantimentos por encomenda!” O tom dela revelou um pouco de impaciência. “Seja razoável!”
“Não quero dizer nada que fira seus sentimentos, mas precisamos ser objetivos. Não estou pedindo que você me entregue nada, exceto o que foi prometido há muito tempo — prometido pela própria Kate. E você sabe o que disse quando lhe emprestei cinco mil dólares para ajudar a salvar aquelas ações. Desculpe-me, Mãe Kilgour, mas nem sempre consigo controlar minha natureza; estou no jogo com essa gente há muito tempo e sou naturalmente desconfiado — já vi muitos sujeitos serem depenados, e não pretendo ser passado para trás.”
“Você é insolente e cruel”, gritou ela, com as faces pálidas.
“Não me refiro a você — acredito que queira me ajudar. Mas é hora de agir. Ela não me dá um único motivo válido para não se casar imediatamente. É apenas brincadeira e adiamento.”
“Mas você está me provocando por causa do serviço que me prestou! Eu não estou vendendo minha filha!”
“Não é nada disso! Mas você deve concordar que tenho sido bom para você. Quero que seja minha amiga. Mas não obtenho nada definido. Se essa coisa se arrastar e se arrastar, a primeira coisa que sei é que algum sujeito aparecerá e ela vai se apaixonar por ele. Essa é a natureza das moças!”
“Você está falando da minha filha, Richard! Ela tem o temperamento do pai e é fiel como ninguém. Ela deu sua promessa e a cumprirá.”
“Quando?” exigiu ele, secamente.
“Não posso forçá-la.”
“Você disse que podia”, insistiu ele. “Você disse, um ano atrás, quando adiantei aquele dinheiro, que sabia exatamente como lidar com ela.”
“Você vai continuar me alfinetando por causa daquele dinheiro?”
“Não; apenas vou dizer que você nem sequer me contou quais ações estava protegendo. Você não disse nada sobre reembolsar o empréstimo, Mãe Kilgour. Tem sido uma espécie de impasse geral para mim. Espere! Não estou fazendo cena! Mas gosto de ser tratado corretamente. Sou um Dodd, e não consigo evitar de agir para me proteger.”
“Tudo se resolverá, Richard. Você não conhece Kate como eu. Eu a compreendo porque compreendia seu pai. Ela é um tanto egocêntrica. Mas é romântica por dentro! Mas você sabe, você é tão... tão... bem, apenas um homem de negócios — tão prático. Uma moça como Kate precisa ser despertada — ter sua compostura abalada — algo assim!”
“Estilo Lochinvar, hein?” zombou ele.
“Deve ser algo um pouco fora do comum para apressá-la, Richard. Vá embora, por favor. Deixe-me pensar. Tenho uma ideia. Preciso dedicar um pouco de tempo a ela.”
“Quanto tempo?”
“Oh, não sei exatamente quanto. Seja paciente.”
“Sra. Kilgour, se essa coisa não puder ser resolvida por você, quero que diga. Cheguei ao fim daquela paciência a que você apela. Não serei feito de bobo.”
“Você não precisa dizer que é sobrinho do Coronel Dodd”, retrucou ela. “Você tem todos os traços da família.”
“Bem, há um que não tenho: emprestei-lhe cinco mil dólares sem pedir garantia — e isso é ato de um bom amigo. Desculpe-me, mas preciso mencionar isso — você precisa de um pequeno lembrete. Daqui a quatro dias, terei minha licença de casamento do secretário da cidade. E quando a tiver em mãos, virei até você e esperarei que faça sua parte.”
“Eu farei”, disse ela.
“Como? Quero declarações claras de agora em diante.”
“Escreverei uma carta amanhã”, vacilou ela. “Darei instruções sobre o que fazer. É melhor você não vir aqui até... até que eu tenha tudo arranjado. Você sabe o que dizem sobre a ausência!”
“Sei o que dizem sobre muitas coisas. Mas quero algo além de palavras.”
“Direi na minha carta o que fazer. Então, siga as instruções.”
“Não gosto de entrar em algo às cegas. Qual é o plano?”
“Oh, se eu lhe contar tudo, você vai acabar fazendo algo para estragar tudo”, protestou ela, impaciente. “Uma mulher entende desses assuntos melhor do que um homem. Escreverei para você na State House. Agora, seja paciente!”
“Vou embora antes que você pregue mais paciência para mim”, disse ele, azedo. “Posso ser provocado a dizer algo de que você não gostará.”
Depois que ele saiu, ela se levantou e retocou as faces.
“O tolo! São todos iguais”, murmurou ela, com malícia. “Eles pagam. Nunca esquecem que pagaram. Depois, ficam com a mão estendida — e simplesmente se lembram de que pagaram. Estou feliz por ter comprado este romance”, acrescentou, pegando o livro do sofá e acomodando-se para ler. “A mulher que o escreveu deve ter conhecido a natureza humana. Se o plano funcionou no caso da moça sobre a qual ela escreve, deveria funcionar no caso de Kate. Se não funcionar, será culpa dele, porque me apressou demais. Uma mulher pobre e perseguida não pode fazer tudo.”
E ela se dedicou ao seu recém-descoberto manual de procedimentos para casos de teimosia em uma donzela.
XVI
FARR TEM UMA VISÃO E CELA OS LÁBIOS
Walker Farr deixou de lado os papéis nos quais vinha trabalhando desde que terminara sua modesta ceia, vestiu o paletó e saiu para a noite. Passeou por uma das ruas no Décimo Primeiro Distrito de Marion, manifestamente feliz por estar entre o povo.
Parou no meio-fio e chamou o motorista de um caminhão que estava carregado com barris e jarros.
“Marston”, disse ele, quando o motorista parou, “é bom ver o nobre trabalho seguindo em frente.”
“Sim, e agora que os bebês não estão morrendo tão rápido, os jornais do velho Dodd estão alegando que a nova estação de filtragem é que está fazendo todo o bem, senhor.”
“Bem, isso mostra que nosso trabalho vale a pena se eles estão reivindicando o crédito, Marston. Mas despertaremos o povo na hora certa. Fazer o que pudermos como primeiros socorros, essa é a ideia! As pessoas estão acordando para o que estamos fazendo. E estão acordando em outros lugares. Fiz uma pequena viagem pelo estado na semana passada. Outras cinco cidades vão experimentar este esquema cooperativo de levar água boa aos pobres até que algo melhor possa ser feito.”
“O senhor tem cabeça”, elogiou o motorista. “É um pouco difícil para cavalos cansados trabalhar nisso depois de um dia de labuta nos negócios regulares, mas meus cavalos parecem entender do que se trata — juro que entendem. Transporte quinhentos galões esta semana. Mas eu gostaria de transportar o velho Dodd até o Lago Coosett e afogá-lo, se não fosse para estragar a água que os pobres estão bebendo.”
Farr balançou a cabeça e continuou andando.
Ele era uma figura bastante marcante para uma cidade da Nova Inglaterra enquanto caminhava. Não parecia ser afetação o fato de aquele homem usar um fraque sem colete, com uma gravata preta esvoaçante destacando sua roupa de linho imaculada. O traje parecia pertencer ao seu porte e maneira.
As mulheres sorriam para ele de forma amigável; os homens faziam saudações respeitosas e afetuosas.
Logo, ele saiu da rua e entrou em uma sala onde um grupo de homens o esperava, ao que parecia, pois todos se levantaram quando ele entrou.
Ele convocou a pequena reunião prontamente, informando-os de que os deteria apenas por pouco tempo.
“Levanto-me para fazer uma moção”, disse um homem em certa altura dos procedimentos. “Houve tantos voluntários no trabalho e o povo tem estado tão disposto a pagar por água de verdade em vez daquela coisa que recebemos das torneiras, que trezentos dólares se acumularam no tesouro. Todos nós sabemos que há apenas um homem que foi responsável por todo este plano, que dedicou seu tempo e correu pelo nosso estado sem cobrar nada além das despesas. Proponho que demos essa quantia ao Sr. Farr — desejando que fosse mais.”
O orador foi fortemente aplaudido.
Farr levantou-se tão rapidamente e falou tão prontamente que cortou as últimas palavras do homem.
“Um momento, meus amigos, antes que essa moção seja secundada.” Ele ergueu a mão e conteve os protestos deles contra o que sua atitude lhes dizia. “O fato de meu pequeno plano ter tido mais sucesso do que eu esperava não se deve a mim, mas à generosa cooperação de bons homens que dedicaram seu tempo. Estamos salvando os bebês, graças a Deus! Mas vocês sabem o que mais fizemos com nosso trabalho árduo e nossa devoção? Estamos sustentando a Consolidated Water Company neste estado. Entendam-me! Não estou atacando essa empresa por ser uma corporação. Se ela estivesse agora fazendo preparativos para canalizar água limpa das colinas até nós, eu alegremente continuaria dedicando meu tempo a esta causa para ajudar a causa da Consolidated. Mas os homens no controle estão deliberadamente fechando os olhos para a situação real. Agora que as pessoas não estão morrendo, eles reivindicam todo o crédito — quando sabemos que o crédito é dos homens exaustos que continuam trabalhando após o fim de sua labuta diária. Não é certo — não é justo! Meus amigos, deparei-me com algo maior do que eu imaginava quando comecei a despertar esses vendedores de veneno. Agora que estamos limpando o tifo, a Consolidated está simplesmente montada em nossas costas — recusando-se a ver a verdade real. Se eles derem a Marion água pura, será apenas a taxas mais exorbitantes, porque o lago mais próximo fica a trinta quilômetros de distância. Não sou anarquista — quero ver o capital obter sua recompensa justa. Mas quando um sindicato toma uma concessão dos cidadãos e os faz pagar repetidamente pelo que era deles, os cidadãos têm o direito de se levantar em legítima defesa. Quando forçamos a Consolidated a nos dar pelo que estamos pagando — água pura — eles evidentemente propõem nos fazer pagar pelo que chamam de nossa ousadia em pedir.” Ele fez uma pausa por um momento, e seu sorriso sucedeu sua seriedade. “Peço desculpas por dizer ‘nós’. Devo lembrar que ainda sou um estranho nesta cidade.”
“Terei que discordar do senhor aí”, interveio um homem. “O senhor é um de nós. E vamos provar isso ao senhor um pouco mais tarde.”
“Meus amigos”, continuou Farr, “até que as cidades e vilas deste estado possuam suas próprias estações de tratamento de água e fiquem com seus próprios lucros, elas estarão pagando tributo dobrado a uma multidão impiedosa.”
“Mas não podemos possuir nossas estações até o milênio, senhor. Existe aquela cláusula do limite de dívida de cinco por cento na constituição.”
Farr sorriu — desta vez de forma melancólica. “Eu... eu tive uma espécie de visão a respeito disso”, disse ele. “Não me atrevo a explicar agora, amigos. Pode ser apenas uma visão — mas acho que não. Não direi mais nada no momento. Não pretendia dizer tanto. O que estava em minha mente quando me levantei era isto: não aceitarei esse dinheiro no tesouro — de forma alguma o pegarei. Porque acredito que dias estranhos virão em breve sobre nós neste estado — dias em que precisaremos de dinheiro. Guardem esse pé-de-meia e protejam-no.” Ele pegou seu chapéu e começou a caminhar em direção à porta. “A reunião está encerrada”, informou-os. Ele sorriu para eles por cima do ombro de tal maneira que eles se perguntaram se ele brincava ou falava sério. “Guardem bem esse dinheiro — pois a única maneira de minha visão ser realizada, temo, é virando a política deste estado de cabeça para baixo, e isso será um trabalho e tanto para um forasteiro lutando contra o Coronel Symonds Dodd — e lutando sem dinheiro. Boa noite!”
Os homens que Walker Farr encontrava enquanto passeava faziam saudações amáveis. Eles sorriam admirados enquanto ele passava.
Se uma mulher perguntava sobre ele ou se um estranho no distrito questionava um nativo, eles eram informados com entusiasmo que ele era “o rapaz que ficou na Prefeitura e falou grosso com o prefeito e toda a turma, defendeu os pobres, torceu o rabo da Consolidated e perdeu um bom emprego fazendo isso — e isso é mais do que qualquer vereador faria por aqueles que o elegeram.”
Em uma esquina, crianças pobres dançavam ao redor de um realejo. Farr deu ao homem da manivela um punhado de moedas e disse-lhe para ficar ali e manter os pequenos felizes. Vozes infantis estridentes proclamaram prontamente seus louvores a toda a vizinhança, e mães e pais abençoavam-no das janelas.
Ele parou em outra esquina onde uma dúzia de jovens estava reunida. Eram rapazes de olhos pesados e olhares lascivos, seus chapéus estavam virados para trás e topetes desgrenhados sobressaíam sobre seus rostos cheios de espinhas — tipos de jovens que moças modestas evitam apressadamente fazendo desvios.
“Rapazes, as pessoas estão escrevendo aos jornais reclamando que jovens estão insultando moças nas esquinas de Marion. Mas devem ser aqueles folgados de classe alta da parte alta da cidade. Vocês não estão envolvidos com nada disso aqui embaixo, é claro.”
“Nenhum de nós seria capaz de dizer sequer ‘sai’ para uma galinha”, protestou um do grupo.
“Você é filho do Dave Joyce, não é?”
“Sim, senhor.”
“Os cinquenta homens que ele chefia na fábrica de gelo gostam dele porque ele é correto. Aqui vai um bom lema: ‘Correto com os rapazes e gentil com as moças’. Mas fiquem longe das esquinas, rapazes, ou eles vão confundi-los com alguma daquela gangue de assediadores.”
O rapaz Joyce puxou o chapéu para a frente e comandou a retirada do ponto de vadiagem.
“Não, ele não é candidato nenhum, também não”, informou aos seus associados quando estavam fora de alcance. “Ele não está fazendo campanha por votos. Meu velho diz que não. Ele não é um impostor. Ele é o cara que defendeu os pobres lá na Prefeitura e bolou a coisa da água mineral.”
Na lateral de uma rua onde o tráfego rugia de e para a Estação Central da cidade, Farr encontrou duas velhinhas enrugadas que estavam vacilando no meio-fio, esperando trêmulas por uma oportunidade de atravessar. Elas colocavam na rua barulhenta primeiro um pé apreensivo e depois o outro, como crianças experimentando água fria. O rapaz grandalhão ofereceu um braço a cada uma e conduziu-as em segurança para o outro lado.
“O senhor é um verdadeiro cavaleiro andante”, guinchou uma das duas, olhando para o rosto bondoso.
Ele riu, tirou o chapéu de abas largas com uma reverência baixa e seguiu seu caminho.
“Cavaleiro andante”, murmurou ele, ainda sorrindo. “Acho que não. Eles não existem hoje em dia. As histórias sobre eles são boas de ler. Imagino que tipo de sentimento era aquele que fazia aqueles rapazes partirem em suas jornadas! Talvez não houvesse o suficiente acontecendo na política. Deve ter sido um jogo bacana, no entanto, resgatar donzelas em perigo. E tudo por amor e não por pagamento!”
Um cartaz na vitrine de uma loja vazia chamou sua atenção naquele momento. Anunciava um comício pelo sufrágio feminino.
“As garotas pintariam cartazes de comício na armadura de lata de um cavaleiro hoje em dia e o mandariam em uma viagem publicitária”, foi sua reflexão extravagante.
Naquele momento, com esse pensamento de cavaleiro de armadura em mente, ele foi atraído por um brilho de fogo vermelho em uma ferraria localizada logo ali na rua. O único trabalhador no local era revelado pelo fogo da forja. O brilho iluminou as feições do homem. Não havia como confundi-lo — era o Amigo Jared Chick. E Farr saiu da rua, entrou na oficina e cumprimentou seu companheiro de viagem de outrora.
“Como vai você?” respondeu Jared Chick, calmamente, sua calma quaker inalterada. Ele puxou um ferro em brasa e habilmente martelou-o em um círculo ao redor do chifre da bigorna.
“Então você desistiu da cavalaria andante e voltou ao velho emprego, não foi, Amigo Chick?”
“Não. Isto é parte do meu serviço. O homem que possui esta oficina é um bom homem que trabalha duro aqui o dia todo. E depois que ele vai para casa, ele me permite trabalhar aqui à noite.”
Ele martelava diligentemente e Farr caminhou até a bigorna para inspecionar a natureza do trabalho, pois a barra de ferro estava assumindo formas estranhas.
“Um novo tipo de armadura, Amigo Chick?”
Se havia um pouco de sarcasmo no tom de Farr, o Quaker não deu atenção aparente.
“Não”, disse ele, calma e mansamente, “este é um suporte para a perna de um garotinho coxo. Encontrei muitas crianças nesta cidade que não podem andar. Seus pais são pobres demais para comprar suportes. Então venho aqui à noite, quando o bom homem está longe da forja, e faço suportes e os levo com minha bênção. Tenho algum jeito com o martelo. Espero encontrar outras maneiras de fazer minha parte.”
“Peço perdão, Amigo Chick”, disse Farr, com a voz embargada. “Não vou incomodá-lo em seu trabalho. Boa noite!”
“Boa noite para você!” disse o Quaker, balançando o braço do fole.
Farr voltou para a rua, com a cabeça curvada. “Todos nós temos nosso próprio jeito de fazer isso”, ponderou ele, compungido.
Ele encontrou um homem e cumprimentou-o com um aperto de mão amigável. Era o Cidadão Drew, aquele homem idoso com o rosto sério.
E, como fizera no passado, ele se virou, acompanhou o passo de Farr, e caminharam juntos.
Seu passeio levou-os às avenidas mais largas da parte alta da cidade.
Enquanto conversavam, Farr percebia olhares de soslaio de seu companheiro. Os olhares eram um pouco inquisitivos.
“Bem, Cidadão Drew”, perguntou o jovem, “o que se passa em sua mente esta noite?”
“Desde que o conheci e estudei você, tenho pensado que você tem o espírito da cavalaria andante em você”, declarou o Cidadão Drew.
Farr riu infantilmente.
“Duas senhoras muito simpáticas acabaram de se antecipar a você com essa acusação, meu amigo.”
“Ria se sentir vontade. Mas há tão poucos homens que podem fazer algo desinteressadamente hoje em dia que, quando um sujeito como você aparece, ele é notado — de qualquer forma, eu o noto.” Ele parou de usar olhares de soslaio e encarou Farr plena e francamente. “Outros homens que fariam as coisas que você está fazendo tão silenciosamente neste estado têm jogado o jogo da política — e fiz de meu negócio observar os políticos. E assim que os homens são eleitos para o cargo enganando o povo — bem, esses homens foram simplesmente inseridos na Grande Máquina como novas engrenagens. Você é como o resto, Sr. Farr? Ninguém sabe de onde você veio. Todos que o veem sabem que você está acima dos trabalhos que tem feito. Estão falando em seu nome para vereador em nosso distrito. Mas fomos enganados tantas vezes!”
Farr respondeu a essa inquisição melancólica de uma maneira que não dava margem a mal-entendidos.
“Não sou candidato a nada, Cidadão Drew. E lhe direi como posso provar que não sou. Não sou eleitor aqui. Intencionalmente deixei de me registrar. Sempre que ouvir outro homem falando de mim para um cargo, diga-lhe isso. Portanto, não faz diferença para ninguém de onde vim ou que trabalho realizo.”
O Cidadão Drew aceitou a reprimenda humildemente e seguiu em silêncio.
“Você sempre foi enganado, diz você, quando elegeu homens para cargos públicos. Não tem nenhum homem neste estado que possa eleger para um alto cargo, sabendo com certeza que ele se manterá íntegro?”
“Não”, respondeu o Cidadão Drew.
“Sou um estranho — não conheço seus grandes homens — você os conhece, e suponho que devo acreditar na sua palavra. Mas não acredito em você, Cidadão Drew.”
“Mas eu lhe disse a verdade. Temos grandes homens que são homens honestos. Mas eles não querem entrar na política. Sentem-se elevados demais para o jogo. Portanto, como podemos elegê-los para um cargo? Digo que lhe disse a verdade. Os homens que saem à caça de um cargo são aqueles que manipulam a coisa para seu próprio lucro — e isso significa que eles estão mancomunados com a turma e com o chefe supremo.”
Era o mesmo velho lamento que está eternamente nos lábios dos eleitores da América! O Cidadão Drew havia, mais uma vez, sintetizado a política média da grande República!
Walker Farr sorriu — e ele conseguia expressar em um sorriso mais do que a maioria dos homens consegue expressar em palavras.
“Uma ideia original acabou de me ocorrer, Cidadão Drew”, disse ele, com um tom de humor arrastado. “Tenho certeza de que nada parecido jamais foi pensado antes. Deveria ser formado um novo partido neste país — um partido fora de todos os outros. Não, não exatamente um partido! Como devo chamá-lo? Veja, a ideia acabou de me vir à mente, e estou um pouco confuso.” Seu tom ainda era jocoso. “Você está certo sobre a maioria dos homens capazes e importantes ficarem fora da política, exceto quando os cargos mais altos são distribuídos. Ora, o que acha deste plano? Organize um bando leal e chame-o de... bem, digamos, os Corsários Políticos Purificados, os Sequestradores Santificados, a Gangue de Imprensa Progressista e de Espírito Público do Povo. Vá por aí e agarre os Grandes e os Bons que insistem em cuidar de seus negócios privados e que estão deixando o país ser devorado — simplesmente vá lá e agarre-os pelo cangote e jogue-os na política de cabeça. Eles iriam chiar, espumar e se debater por um tempo — e então começariam a nadar. Eles não poderiam evitar nadar! Saberiam que o povo estava olhando. E então, muitos dos pobres diabos que estão afundando e se afogando, como você, eu e o pessoal nos cortiços, poderiam se agarrar aos Grandes e aos Bons e pedir que nos rebocassem em segurança até a margem; e, a essa altura, o orgulho e a coragem deles estariam despertos e eles nadariam ainda mais forte — com as outras pessoas olhando. Hah! Uma ideia, eh? Sabe, sinto-me bastante imaginativo, sob alta pressão e com vontade de aventura esta noite! Provavelmente porque as simpáticas velhinhas me chamaram de cavaleiro andante.”
O Cidadão Drew não estava pronto com comentários sobre essa sugestão surpreendente. Ele passou a mão pelo cabelo ralo e franziu a testa na tentativa de decidir se deveria ou não se ressentir dessa réplica brincalhona ao seu lamento. No momento seguinte, ele deu a Farr uma cutucada rápida nas costelas com o cotovelo.
“Dê uma boa olhada neste homem que vem vindo”, murmurou ele.
O recém-chegado estava perto deles e, apesar do crepúsculo, o olhar aguçado de Farr o observou por inteiro.
Em trajes e postura, ele era um belo exemplar do cavalheiro americano marcado por um toque da velha guarda. Havia nele uma nitidez impecável; o bigode branco e o cabelo que combinava com ele pareciam que estalariam se fossem esfregados. Seus olhos eram de um azul metálico, ele se mantinha muito ereto ao caminhar e batia com a bengala na calçada de forma enérgica.
Ele passou por eles, subiu os degraus de um grande edifício e desapareceu por uma porta que um rapaz de uniforme de clube mantinha aberta para ele.
“Aquele homem”, explicou o Cidadão Drew, exibindo complacentemente seu conhecimento ostentado sobre homens públicos em detalhes minuciosos, “é o Honorável Archer Converse, cujo pai foi o General Aaron Converse, o governador de guerra deste estado. Advogado, solteirão, rico, tão direto na conversa quanto na aparência, tão reto nos modos, na moral e na honestidade quanto nas costas, chega todas as noites ao Mellicite Club para seu jantar pontualmente às oito” — o Cidadão Drew acenou com a mão para o círculo iluminado do relógio do First National — “sai do clube exatamente às nove para uma caminhada pelo parque, depois marcha para casa, joga três partidas de paciência e vai dormir.”
“Eu o conheço!” afirmou Farr.
O ar do Cidadão Drew revelou um pouco da decepção de um exibicionista.
“Nunca o vi antes — nunca ouvi falar dele. Mas quero dizer que o conheço agora, após sua descrição — conheço sua natureza, seus pensamentos. Você tem um ótimo toque em suas avaliações, Cidadão Drew.”
“Eu os estudei todos.”
“O que ele fez na política?”
“Nunca nada. Ele é um dos tipos de quem eu estava reclamando. Elevado demais.”
“Mas, oh, como um homem desses nadaria se fosse jogado lá dentro!” declarou Farr.
“Ele nunca nem compareceu a uma reunião política.”
“Eu conheço o estilo quando o vejo”, continuou Farr. Ele não olhou para o Cidadão Drew. Ele falava tanto consigo mesmo quanto com seu companheiro. “Espírito de cruzado refreado por hábitos cotidianos! Retidão em um sulco! Realização cronometrada ao tique-taque do relógio. Mas, uma vez dentro, como ele nadaria!”
“Pense em como nossos assuntos avançariam com um homem como esse à frente do estado!”
“Por que ele não foi colocado à frente?”
“Eu estive em delegações que foram até ele” — ele acenou com a mão — “ele disse que não poderia nem pensar em se envolver em confusões políticas.”
“Ele viu vocês chafurdando em água lamacenta e vocês o convidaram para entrar. Não o culpo por não pular.”
“Ele é um bom homem”, insistiu o Cidadão Drew. “Ele dá mais dinheiro aos pobres do que qualquer outro homem na cidade. A única maneira que descobri isso foi tendo um faro natural para descobrir as coisas. Ele não diz nada sobre isso.”
“Como ele nadaria!” repetiu Farr. “Firmo, forte e direto em direção à margem, Cidadão Drew, e ele não chutaria os pobres diabos que se afogam, também não.”
“Ele provavelmente acha que pagou sua dívida ao mundo quando distribui seu dinheiro”, afirmou Drew. “Quando ele olha em volta e vê tantos outros homens segurando os pobres rapazes de cabeça para baixo e sacudindo os dólares de seus bolsos, ele deve achar que está fazendo muito mais do que se espera dele. Mas colar notas de dólar em feridas neste estado não está curando nada.” Ele parou. “Caminhei com você mais longe do que pretendia, Sr. Farr. Mas, de alguma forma, eu queria conversar com você. Há uma reunião do Square Deal Club esta noite no Union Hall. Eu não sabia se, de alguma forma, poderíamos... Pensou-se que você talvez fosse concorrer a um cargo.”
“O escritório de registro provará que não sou. Espalhe essa palavra!”
“Voltarei — para a reunião. Não parece ter muita utilidade realizar as reuniões”, disse o homem. “Nós ouvimos uns aos outros falar — sabemos que estamos falando a verdade. Mas ninguém que possa nos ajudar, pobres pessoas, ouve. Bem, admitirei que os políticos vêm, ouvem e prometem nos ajudar, e nós damos nossos votos; mas é só isso: eles não nos dão nada de volta.”
Farr irrompeu com um comentário que parecia não ter relação com o que o Cidadão Drew estava dizendo.
“Ele sai às nove horas, eh?”
“Quem?”
“O Honorável Archer Converse. Sai daquele clube então, não é?”
“Regular como o tique-taque do relógio.”
“Cidadão Drew, mantenha seu clube em sessão até as nove e meia ou um pouco mais tarde. Minha experiência com essas reuniões é que vocês sempre têm problemas suficientes para mantê-los falando por pelo menos duas horas.”
O Cidadão Drew olhou para o rosto de Farr e depois para a grande porta do Mellicite Club.
“Você não quer dizer...”
“Eu não digo nada. Parece que estou em um estado de espírito estranho esta noite, Cidadão Drew.” Novamente, havia uma nota estranha de zombaria em sua voz. “Um monte de ideias estranhas continuam me vindo. Outra acabou de aparecer na minha cabeça. Só isso! Mantenha seus rapazes no salão.”
Ele saiu rua acima.
Ele se virou após alguns passos e viu o homem idoso parado onde o havia deixado. Drew era uma figura um tanto patética ali, na via principal intensamente iluminada, um homem pobre e simples do Décimo Primeiro Distrito das casas de cortiço — este homem que vinha se esforçando e lutando, lendo e estudando, tentando encontrar uma saída para as pessoas pobres; algum alívio — algo que ajudasse. Farr sabia que tipo de homens estavam esperando no pequeno salão. Ele havia comparecido às suas reuniões. Era o único recurso que entendiam — uma reunião pública. Eles sabiam que as pessoas importantes da parte alta da cidade realizavam reuniões públicas de vários tipos, e os pobres decidiram que deveria haver virtude nas assembleias. Mas nada parecia resultar de seus esforços nos distritos dos cortiços.
Farr voltou para onde o Cidadão Drew estava.
“Acho que vou lhe dizer algo, afinal. Diga aos rapazes no Union Hall para serem pacientes e eu trarei o Honorável Archer Converse esta noite.”
Ele sorriu diante do olhar de espanto absoluto no rosto do homem, ergueu uma mão para impedir as perguntas gaguejantes e seguiu rua acima.
“A consciência de um homem decente o fará cumprir uma promessa que ele fez a uma criança, aos simples ou aos desamparados”, disse Farr a si mesmo. “Assumi um grande compromisso, creio eu, mas agora que me comprometi, tenho que seguir em frente e entregar o prometido. De qualquer forma, sinto-me à altura do desafio.” Então ele sorriu com o que parecia ser sua súbita loucura. “Acho que terei que culpar todas aquelas simpáticas velhinhas que foram tolas o suficiente para colocar essa ideia de cavaleiro andante na minha cabeça”, disse ele.
XVII
A LOUCURA DE UMA NOITE DE VERÃO
Farr olhou novamente para o grande relógio no bloco do First National.
Ele tinha menos de uma hora para esperar, de acordo com o cronograma que o Cidadão Drew havia divulgado em relação aos movimentos invariáveis do Honorável Archer Converse. Quanto a como esse primeiro golpe nas operações daquela organização nascente, a Gangue de Imprensa de Espírito Público, seria gerenciado, Farr tinha pouca ideia naquele momento.
Ele decidiu dedicar aquela hora a elaborar um plano, decidindo não tentar nada até ver o honrado cavalheiro descer os degraus do clube. Um clube deve ser um santuário — mas as ruas pertenciam ao povo.
Portanto, Farr deu uma caminhada. Ele voltou àquele bairro da cidade de onde havia surgido durante seu passeio com o Cidadão Drew; sentiu sua coragem abandoná-lo naqueles ambientes mais imponentes da parte alta da cidade; ele voltou aos arredores dos pobres, esperando por um contato que pudesse recarregá-lo com determinação. Ele percebeu que precisava de toda a dinâmica da coragem na tarefa absurda que havia definido para si mesmo.
Ele sabia que encontraria o velho Etienne sentado na varanda da casa da Mãe Maillet, onde o velho se posicionava nas agradáveis noites de verão e entalhava cata-ventos para as crianças que se aglomeravam — exatamente como seus ancestrais camponeses entalhavam o mesmo tipo de brinquedo na velha Normandia.
A casa da Mãe Maillet tinha um quintal. Era estreito e empoeirado, porque os pés das crianças haviam desgastado toda a grama. Algumas das ripas da cerca haviam caído, e pelos espaços os pequenos vinham e iam como queriam. Não era um quintal para se gabar, mas havia poucos espaços abertos naquela parte da cidade onde a grande corporação de terras monopolizava todos os pés de terra disponíveis para espremer as casas de cortiço umas contra as outras. Portanto, porque a Mãe Maillet era gentil, o quintal era uma dádiva de Deus no que dizia respeito aos pequenos. A cerca alta mantinha as crianças longe do gramado onde o canal fluía. Os proprietários que haviam conseguido salvar seus quintais por ali eram, na maioria dos casos, velhos exigentes que se apegavam às antigas casas de campo apesar do crescimento da cidade, e eles espantavam as crianças de seus quintais, onde os canteiros de flores lutavam sob a fuligem de carvão das chaminés altas.
Mas a Mãe Maillet não se importava, porque ela não tinha canteiros de flores e porque as ripas estavam faltando e os jovens faziam festa em seu quintal. Ela tinha dois gerânios, uma begônia e uma planta de borracha no parapeito da janela para dar ao canário uma sensação confortável de ambiente arbóreo; então, por que ter flores saudosas em um jardim da frente onde elas tinham que implorar o tempo todo para que a brisa viesse tirar a fuligem de suas pétalas? Deve-se entender que a Mãe Maillet conhecera o que eram verdadeiros canteiros de flores quando era uma menina na região de Tadousac.
Além disso, Etienne Provancher sempre vinha ao quintal nas noites agradáveis, e ele servia como seu pequeno reino; e o degrau da porta da casa da boa mulher era seu trono, onde ele se sentava com pompa entre seus pequenos súditos. No entanto, pensando bem, essa metáfora não é uma descrição feliz; o velho Etienne não governava — ele obedecia.
Ele não se ressentia da familiaridade — ele acolhia o companheirismo das crianças. Quando o chamavam de “Pickaroon”, parecia-lhe que estavam fazendo dele um companheiro de brincadeiras.
Ele se sentava e entalhava brinquedos para eles com pedaços de madeira de pinho que o capataz do pátio lhe dava. Havia cabeças grotescas para bonecas de pano, e a boa mulher parecia ter trapos ilimitados e um gosto excelente para fazer vestidos de bonecas; havia automóveis robustos com bobinas para rodas; havia homenzinhos de madeira engraçados que pulavam da maneira mais divertida na ponta de arames enfiados em suas costas. O velho Etienne estava sempre pronto para sentar e entalhar até que a noite caísse e ele não conseguisse mais enxergar, mesmo mantendo a madeira e a faca ocupada perto dos olhos.
Então, naquela noite, ele entalhou como de costume.
Walker Farr veio ao quintal e sentou-se ao lado do velho no degrau da porta e claramente não estava pensando em pensamentos agradáveis enquanto ouvia a conversa das crianças.
Depois que a escuridão chegou e os meninos e meninas maiores, guardiões de seus parentes minúsculos, arrastaram as crianças pequenas que protestavam e choramingavam porque estava na hora de dormir, Zelie Dionne largou seu bordado, sobre o qual ela vinha forçando a vista. A boa mulher protestava frequentemente porque a moça trabalhava tão continuamente com sua agulha depois que seu dia na fábrica terminava. E naquela noite de verão ela expressou queixa novamente.
“Você já tem tantos vestidos bonitos! Você veste um ontem à noite — você veste outro esta noite — e ainda faz mais alguns! Quando uma moça quase se mata para fazer um livro ilustrado de seus vestidos, acho que é hora de procurar algum jovem que pareça gostar das ilustrações. Eh?”
“Mãe Angelique, não gosto de piadas que são bobas”, protestou a moça. “Você sabe como as moças do nosso país são ensinadas! Não podemos ficar sentadas com as mãos no colo sem sermos muito infelizes.”
Ela saiu e sentou-se no degrau da porta, onde o velho Etienne abriu espaço para ela.
“No início, não pensei que viria, Sr. Farr”, disse ela. “Mas tomei a liberdade de vir.”
“Não acho que seja preciso ousadia para vir onde estou”, respondeu ele. “Espero que você não vá me tratar como um estranho porque não tenho sido muito sociável ultimamente. Estive ocupado e estive fora. Os rapazes pagaram minha passagem para o interior, e então corri por aí para espalhar o evangelho da água livre. Os carroceiros se voluntariaram em meia dúzia de lugares. Estamos fazendo um grande trabalho.”
“E, no entanto, estou com medo”, confessou ela. “Você está lutando contra homens que podem lhe causar muito mal. Tenho feito perguntas para saber mais sobre esses homens. Pois eles ameaçaram o pobre Pai Etienne. Eu queria saber sobre eles. Não posso ajudar. Mas você não pode ajudar, Sr. Farr? Acho que você é muito mais do que parece ser”, acrescentou ela, ingenuamente.
“Eles ameaçaram Etienne?” perguntou Farr, com uma nota aguda na voz.
“Ah, m'sieu', eu não disse nada a você. Sou apenas um velho pobre. Não importa.”
“Por que você não disse nada para mim?”
“É porque você poderia se sentir mal, m'sieu'. Talvez não, pois sou apenas um homem pobre e não conto.”
“O que eles disseram a você?”
“Não é nada”, disse Etienne, teimosamente. “Você não deve pensar que me meteu em problemas. Não meteu. Eu teria feito isso sozinho assim que pensasse nisso.”
“Eu ordeno que me diga o que foi dito a você, Etienne.”
“Eles dizem que serei demitido do rastelo. Eles dizem que falei demais para meus compatriotas sobre a água envenenada. Mas eu falarei — sim — jesso!”
“Quem diz isso?”
“O chefe do pátio me disse isso. Oh, não há engano. Ele tem o poder, M'sieu' Farr. O supervisor diz ao chefe do pátio, o agente da fábrica diz ao supervisor, o vereador diz ao agente da fábrica, o prefeito diz ao vereador.”
“E provavelmente o Coronel Symonds Dodd disse ao prefeito”, rosnou Farr. “É um grande sistema, Etienne. Ninguém é pequeno demais — ninguém é grande demais!”
“Mas eu não me importo. Falarei mais — sim, falarei na prefeitura quando você me disser para falar. Eu estava com medo no começo e lhe disse que não falaria; mas agora descobri que posso falar — e não tenho mais medo, e falarei.” Orgulho e determinação estavam nos tons do velho. Desde aquela noite mais maravilhosa de toda a sua vida, quando ele ouvira sua voz como se fosse a voz de outro homem proclamando denúncias contra aqueles em altos cargos, o velho operador de rastelo referia-se àquela nova manifestação de si mesmo como se estivesse discutindo outro homem que ele havia descoberto. A memória de seu feito estava sempre fresca dentro dele. E seu orgulho humilde estava cheio de muito espanto por tal ser ter permanecido escondido todos aqueles anos em Etienne Provancher. Muitos homens haviam passado por lá para apertar sua mão e aumentar seu espanto quanto à sua própria habilidade.
“Esperaremos um pouco”, aconselhou Farr, entendendo o orgulho e tratando-o com delicadeza. “Fique no seu trabalho e seja muito quieto, Etienne, e eles não o incomodarão. Você precisa do seu dinheiro, e eu o chamarei quando você puder ajudar novamente.”
“Então eu virei. Ficarei triste em ver alguém com meu rastelo e vara, mas virei.”
Um momento de silêncio caiu entre eles e, durante esse momento, uma jovem passou rapidamente pela calçada. Walker Farr fechou os olhos repentinamente, como um homem tenta piscar para afastar o que considera uma ilusão, e então abriu os olhos e teve certeza de que ela era o que parecia; não havia como confundir aquele rosto — era Kate Kilgour.
Ele olhou para ela. Ela parou na esquina seguinte, espiou a luz sombria da rua para ter certeza da placa em seu globo e então virou em um beco.
“Ba gar!” comentou o velho Etienne, traduzindo os pensamentos de Farr em palavras, “essa é uma coisa estranha para uma dama tão fina e bonita ir para Rose Alley, porque Rose Alley não é tão doce quanto o nome sugere.”
Então dois homens passaram apressados sem prestar atenção aos habitantes do bairro que estavam sentados na penumbra da varanda. A luz da rua revelou os rostos dos homens como havia mostrado a eles as feições da moça. Um era Richard Dodd. Inequivocamente, eles estavam seguindo a moça. Farr ouviu Dodd dizer: “Devagar! Dê tempo para ela chegar lá. Ela está indo pelo caminho certo.”
E Farr olhou para aqueles homens, mais do que nunca espantado.
Um deles era intrusivamente um clérigo — isto é, ele estava envolto em um casaco que batia contra suas panturrilhas, usava uma gravata branca e carregava um livro debaixo do braço.
Dodd estava vestido impecavelmente de cinza e, enquanto caminhava, chicoteava nervosamente uma bengala fina. Eles começaram a passear logo depois que passaram apressados pela varanda, e estavam caminhando sem pressa quando entraram em Rose Alley.
“Eu agora digo dois ba gars!” explodiu Etienne. “Porque eu vi o presidiário, Dennis Burke, todo vestido de ministro, passar por aqui com o sobrinho do Coronel Dodd. E eles vão atrás da belle mam'selle.”
“Um presidiário!”
“Ele é um homem esperto e mau, esse Dennis Burke. Mas foi contratado pelo figurão para fazer algo com os votos na época da eleição — para trapacear — e foi pego, por isso esteve na penitenciária estadual. Mas parece que agora está livre e convertido à religião de um jeito engraçado. Hein?”
“Etienne, você tem certeza do que está falando?” exigiu Farr. Sua voz tremia. A visita daquela moça bonita àquele bairro da cidade — aqueles homens claramente a perseguindo — havia um ar sinistro na coisa toda.
“Oh, todos nós conhecemos esse Burke. Ele contrata muitos votos neste distrito há muitos anos. Ele é tão conhecido em Marion quanto o campanário do hôtel de ville. E aquele outro — aquele jovem, nós o conhecemos, pois seu tio é o Coronel Dodd. Oh, sim!”
“Boa noite, Etienne — e para você, senhorita Zelie!” disse Farr, bruscamente, caminhando em direção à entrada de Rose Alley. Ele não pediu ao velho que fosse com ele. Ele estava sendo puxado em duas direções por suas emoções e parou depois de dar alguns passos. Aquilo parecia espionagem em um assunto que não era de sua conta. Era perfeitamente possível que o secretário particular do Coronel Dodd e o sobrinho daquele cavalheiro tivessem negócios em comum, mesmo em Rose Alley e àquela hora da noite.
Mas a questão daquele falsificador de votos mascarado, recém-saído da penitenciária estadual, superou os escrúpulos de Farr sobre se meter nos assuntos de Kate Kilgour.
Ele virou a esquina para o beco a tempo de ver os dois homens bem à sua frente; eles saíram do brilho projetado por uma luz fraca e ele não os viu mais. Ele percorreu a extensão do beco e não conseguiu localizar ninguém do grupo. Em sua extremidade inferior, o beco era fechado por casas, e era claro que as pessoas que ele procurava não tinham passado para outra via pública. Ele marchou de volta, examinando o exterior dos prédios, tentando conjecturar que negócios a moça bonita e os dois homens poderiam ter naquela seção àquela hora, e onde haviam entrado para realizar tais negócios.
“Devo continuar a culpar as boas velhinhas por tudo isso”, disse a si mesmo, sorrindo com o entusiasmo envergonhado que estava encontrando nesta caçada. “Mas espero que esta cavalaria não se torne um hábito para mim. Não devo esquecer que tenho outro trabalho em mãos para as nove horas — também cavalaria!”
Ele parou sob a luz fraca onde seus homens haviam desaparecido e olhou para seu relógio barato.
Vinte e cinco para as nove!
Então ele ouviu a voz de protesto de uma mulher. Ela gritou “Não, não, NÃO!” em crescendo.
Ele olhou para a casa de onde a voz parecia vir. Estava perto, um chalé pequeno e surrado com uma fina faixa de quintal fechada por uma cerca de estacas dilapidada. Ele não percebeu observadores no beco e entrou no quintal. As janelas da frente estavam abertas, pois a noite estava quente, mas não se viam luzes na casa.
Ele ouviu o grito de protesto novamente. Era mais sincero.
Ele ouviu o resmungo da voz de um homem, mas não conseguiu captar as palavras. O que quer que estivesse acontecendo, ocorria em algum cômodo dos fundos.
“Não, eu digo, não! Destranque essa porta”, gritou a voz, apaixonadamente.
Farr não se incomodou mais com considerações quixotescas sobre invasão. Ele se içou pelo parapeito da janela para o cômodo da frente escurecido, passou por um curto corredor e, quando ouviu a voz mais uma vez do lado de dentro de uma porta que encontrou trancada, chutou-a imediatamente. Ele apareceu para aqueles na sala, anunciado por um estrondo incrível e estilhaços voando.
Antes de tudo, ficou espantado ao encontrar duas mulheres ali; uma era a senhorita Kilgour e a outra era sua mãe. E lá estavam os dois homens que ele havia seguido.
Farr tirou o chapéu e dirigiu-se à moça.
“Eu estava passando e ouvi sua voz”, disse ele. “Se você estiver...” Ele hesitou, um pouco confuso, percebendo de repente que a cavalaria nos dias modernos não é uma questão tão livre e fácil como costumava ser quando as donzelas estavam em perigo nos tempos mais rudes de outrora. “Estou ao seu dispor”, acrescentou, um pouco bruscamente.
Mas ela não respondeu. Sua atitude era tensa, suas bochechas estavam em chamas, seus olhos eram como brasas ardentes.
“Seu lunático, você veio entrando aos solavancos aqui, perturbando um casamento privado”, anunciou o homem da gravata branca, batendo com a palma da mão no livro que carregava.
“Saia daqui!” gritou Dodd. Ele havia se esquivado para um canto da sala, com o rosto empalidecendo, quando Farr irrompeu. Ele permaneceu no canto agora, brandindo sua bengala.
O convidado não convidado examinou o jovem com mais compostura do que a que pudera controlar ao olhar para a moça.
Etienne Provancher o havia fortificado com algumas informações valiosas.
“Sr. Richard Dodd, pedirei desculpas e sairei daqui depois que o senhor me explicar por que disfarçou de pastor um tal Dennis Burke, ex-presidiário da penitenciária estadual, para oficiar casamentos.”
Sobre o silêncio que se seguiu, a moça soltou um “Oh!” no qual colocou mágoa, protesto, raiva, consternação.
“Mãe!” ela gritou. “Você sabia? Como pôde permitir... como você pôde fazer uma coisa tão terrível?”
Sua mãe levou as mãos ao rosto, sentou-se e começou a soluçar com uma exibição histérica de emoção. Farr franziu a testa um pouco ao olhar para ela. Ela estava vestida de forma exagerada. Havia um ar artificial em toda a sua aparência — até seus ataques histéricos pareciam artificiais.
A moça virou-se para ela com um gesto de raiva e desespero, como se percebesse, por experiência, que só poderia esperar, naquela conjuntura, apenas emoção sem explicação.
“Espere aí”, gritou Dodd, “espere aí, todo mundo! Está tudo bem. Deixe-me informar ao senhor Intruso que o Sr. Burke tem plena autoridade para celebrar um casamento. Ele é um tabelião e foi comissionado na última reunião do governador e conselho. E eu sei disso”, acrescentou, tentando um pouco de arrogância, “pois eu mesmo garanti a comissão para ele.” Ele saiu de seu canto e sacudiu a bengala para Farr. “Quero que entenda que tenho poder político neste estado!”
“Eu não me gabaria desse tipo de poder político, quando você pode usá-lo para transformar presidiários em tabeliães. Esse deve ser um belo grupo que vocês têm lá no Capitólio!”
“Siga seu caminho!” Novamente a bengala sibilou diante do rosto de Farr.
“Peço perdão, madame”, desculpou-se Farr, curvando-se para a moça. “A senhora parece ser a única nesta sala com direito a essa cortesia”, acrescentou, com um toque de cinismo. “Estou interferindo em seus negócios pessoais?”
“Não está”, respondeu ela, com os olhos brilhando. “Estou feliz que tenha entrado aqui. Eu mesma poderia ter interrompido a deplorável loucura, mas você me ajudou, e eu lhe agradeço.” Ela proferiu aquele pequeno discurso com vigor.
“Kate!” implorou Dodd. “Isso não é justo. Eu falei sério. Aqui está sua mãe! Você não quis ser razoável da outra maneira. Tínhamos que fazer algo. Pelo amor de Deus, seja boazinha. Você sabe que eu...”
Ela havia virado as costas para ele. Agora ela girou e cuspiu palavras furiosas para ele, ordenando que ficasse em silêncio.
“Você quer espalhar todo esse negócio miserável diante deste cavalheiro?” ela exigiu. “Estou com vergonha — vergonha! Minha mãe consentir com tal coisa!”
Ela virou as costas para ele novamente e andou de um lado para o outro, batendo as mãos uma na outra em sua paixão. E agora a ira ferveu em Dodd. Ele a direcionou toda para o homem que havia interferido.
“Isso não é da sua conta, seu vagabundo. Não sei quem você é, mas você...”
Farr agarrou a bengala que balançava como se tivesse varrido para a palma da mão um inseto irritante. Ele a quebrou em muitos pedaços entre seus dedos nervosos e jogou os pedaços no rosto convulso de Dodd.
“Você me conhecerá melhor mais tarde — você e seu tio também. Pergunte a ele o que eu o aconselhei a fazer sobre manter sua arma solta no quadril — aceite o mesmo conselho para você.”
Então sua expressão mudou subitamente. Um incômodo lapso de memória o levou a puxar o relógio barato.
Doze para as nove.
Era um longo caminho até o pé dos degraus do Mellicite Club! E o Union Hall estava cheio de homens que esperavam pacientemente que ele cumprisse sua palavra empenhada!
“Espero que você fique bem agora”, disse ele à moça, com pressa no tom. “Sinto muito... preciso ir... tenho um compromisso importante.”
Os olhos dela encontraram os dele em um olhar direto, desviaram-se com desdém para os outros na sala e depois voltaram aos dele.
“Você está indo na direção do Boulevard?” ela perguntou a ele.
“Diretamente para lá.”
“Você se incomodaria comigo até o Boulevard?”
“Se você for uma boa caminhante”, informou-lhe ele. Havia negócios estritos no tom dela e fria civilidade no dele.
“Vou acompanhar este cavalheiro, mãe.”
Farr a conduziu à frente através da porta estilhaçada.
“Mas eu quero caminhar para casa com você, minha filha”, lamentou a mulher soluçante.
“É melhor pedir ao Sr. Dodd que a escolte. E espero que a conversa que você e ele terão leve ambos ao bom senso.”
Ela saiu apressada pelo beco com Farr, depois que ele destrancou a porta da frente, encontrando a chave pelo lado de dentro.
“Sinto muito por apressá-la”, desculpou-se ele, “e se você não puder acompanhar o ritmo, terei que abandoná-la quando chegarmos a uma rua bem iluminada.”
Ela lançou um olhar lateral cortante para ele e não respondeu. Provavelmente pela primeira vez na vida, ela ouviu um jovem declarar com determinação que estava com pressa de deixá-la. Mesmo uma jovem sensata e bonita deve sentir algum tipo de pique momentâneo porque um jovem pode ter compromissos tão sumários e envolventes.
Ele ofereceu-lhe o braço para que pudessem caminhar mais rápido. O toque dela o emocionou. Ele estava longe de sentir a calma exterior que demonstrava a ela.
Eles não falaram enquanto caminhavam apressados.
Ambos estavam quase sem fôlego quando chegaram ao Boulevard. Ele viu o grande relógio — seus ponteiros estavam quase no ângulo certo.
“Boa noite!” ela arquejou, e estendeu a mão para ele. “Eu lhe agradeço!”
“Não foi nada”, garantiu-lhe ele.
Quando suas palmas se encontraram, eles se olharam nos olhos. Foi um brilho momentâneo que trocaram, mas naquele instante ambos ficaram emocionados com o estranho e doce conhecimento que nenhuma alma humana pode analisar: é a convicção mística que torna este homem ou aquela mulher diferente de todo o resto da humanidade para aquele cujo coração é tocado.
Ela deu-lhe um sorriso. “Você é um cavaleiro errante?”
Ela apressou-se antes que ele pudesse responder — e, embora toda a sua natureza ansiosa lutasse contra a resolução do homem de cumprir seu dever, não pôde prevalecer: ele não a seguiu como queria — correndo atrás dela, gritando seu amor. Mas o dever venceu por uma mera margem de risco, porque o rosto dela, como ela o mostrara a ele no momento da despedida, não possuía apenas a beleza maravilhosa que tanto o impressionara quando a vira pela primeira vez — brilhava com um súbito lampejo de emoção que o glorificava.
Ele se virou e correu para o pé dos degraus do Mellicite Club.
Ele não teve tempo de ponderar sobre a natureza daquele mistério que descobrira no chalé surrado em Rose Alley, nem de se perguntar que tipo de perseguição era aquela que poderia recrutar a ajuda de uma mãe daquela maneira grotesca contra sua própria filha.
Ele não teve tempo nem de formular um plano de campanha contra o homem que os pacientes esperadores no Union Hall esperavam que ele capturasse.
O sino na torre estava dando suas nove badaladas e o Honorável Archer Converse estava descendo os degraus de seu clube, ereto, ágil, imaculado, digno — batendo sua bengala contra as pedras.
XVIII
CORRALANDO UM CONVERTIDO
O Sr. Converse lançou apenas um olhar descuidado ao estranho que esperava ao pé dos degraus do clube.
O jovem o abordou, não obsequiosamente, mas francamente.
“Sei que o senhor sempre dá uma volta no parque a esta hora, Sr. Converse. Peço perdão, mas posso caminhar alguns passos com o senhor?”
“Por que você quer caminhar comigo?”
“É uma questão...”
“Eu nunca discuto negócios na rua, senhor. Venha ao meu escritório amanhã.”
Ele marchou e Farr foi atrás dele.
“O senhor ouviu?” exigiu o advogado.
“Eu ouvi”, respondeu Farr com muito respeito, mas continuou.
Ele havia se apressado ao deixar a moça e ficara cara a cara com o Sr. Converse, com a mente totalmente desprovida de planos ou recursos. Aquele intervalo com o qual contara como um tempo no qual poderia arquitetar caminhos e meios tinha sido tão cheio de acontecimentos que toda consideração de planos em relação a Archer Converse fora varrida de sua mente.
De qualquer forma, ele havia prestado um serviço nesse período; fizera bom uso daqueles quarenta e cinco minutos — essa reflexão o confortava, mesmo enquanto se perguntava tontamente o que faria agora.
Aquele serviço exigira sacrifício dele — por que não exigir algo daquele serviço? Uma ideia, repentina, descarada, indefensável, até ultrajante, saltou em sua cabeça. Ele não tinha tempo para um planejamento sensato. O Sr. Converse estava olhando em volta com o ar de um cidadão que gostaria de captar o olhar de um policial.
“Eu sei tudo sobre o senhor, Sr. Converse, mesmo que o senhor não saiba nada sobre mim. Estou fazendo um apelo curioso — é à sua cavalaria!”
Esse foi um apelo suficientemente novo, como anunciou o comportamento do Sr. Converse, para prender até mesmo a atenção de um cavalheiro que geralmente se recusava a permitir que a rotina de sua vida fosse interrompida por algo menor do que um terremoto. Ele parou e enfrentou aquele estranho.
“Um homem que usa isso”, prosseguiu Farr, indicando a roseta da Legião Leal na lapela do casaco do Sr. Converse, “e a usa porque a recebeu por herança do General Aaron Converse, é obrigado a ouvir esse apelo.”
“Explique, senhor.”
“O senhor conhece um Richard Dodd que é sobrinho do Coronel Dodd?”
“Conheço, senhor. Você não está me pedindo para ajudá-lo, está? Não terei nada a ver com ele — nenhuma ajuda da minha parte!”
“Só um momento — espere um momento! Sr. Converse, o senhor conhece um homem chamado Dennis Burke que esteve na prisão por fraudes eleitorais?”
“Eu ajudei a enviá-lo para lá, senhor. Você está recitando a lista dos malandros para mim?”
“Richard Dodd vestiu Burke de pastor e está tentando forçar uma jovem a um casamento. Não tenho tempo para contar como soube desse caso — mas é em Rose Alley e não há tempo a perder.”
“Uma história absurda.”
“Acabei de vir daquela casa.”
“Você é um jovem de músculos — por que não impediu?”
“A mãe da moça está lá, apoiando Dodd. Sr. Converse, a causa precisa de um homem como o senhor — um homem de lei, de posição, de influência. Apelo ao senhor para que me siga.”
“Um momento — um momento! Sinto um truque. Eu não o conheço. Você é uma isca para chantagistas ou ladrões?” ele indagou, sem rodeios.
Farr tirou o chapéu e ficou diante do Honorável Archer Converse, seu sorriso estranho, lento e cativante surgindo em seu rosto.
“Peço perdão por interromper seu passeio”, disse ele, suavemente. “Espero que o senhor olhe para mim! Talvez possa ver que está enganado. Voltarei e matarei Dodd — e virei ao seu escritório amanhã — a negócios — contratando-o como advogado de defesa.”
“Lidere o caminho para aquela casa”, disparou o Sr. Converse. A atitude de Farr, sua tolerância, sua abstenção de maior solicitação, seu comportamento franco, venceram por ele. “Às vezes sou um pouco apressado em meus comentários”, reconheceu o Sr. Converse no tom de quem se sentia castigado. “Você é um recém-chegado à nossa cidade?” continuou enquanto se apressavam. “Deve ser. Eu certamente me lembraria de você se já o tivesse visto antes.” Foi um elogio indireto — a abordagem cuidadosa de um cavalheiro a um pedido de desculpas.
O jovem não respondeu. Ele havia concebido por aquele homem imponente uma adoração repentina. O que o Cidadão Drew lhe dissera somava-se ao seu próprio instinto em questões de compreensão de uma personalidade. Ele não ousava parar e considerar até que ponto desprezível estava mentindo para sua vítima. Ele sabia que, se parasse para pensar, desistiria. Agora, todo o caso parecia uma coisa louca. Será que até mesmo seus fins propostos justificavam aquele procedimento?
“Há um atalho pela rua Sanson”, gaguejou Farr, o senso de sua própria iniquidade aumentando na mesma proporção em que seu respeito e admiração cresciam. O honrado cavalheiro caminhava a um passo acelerado, evidentemente desejando mostrar seu humor apologético exibindo confiança em seu guia.
E Farr, lançando olhares laterais para ele, sentia-se mais autocrítico, mais envergonhado. Ele nutria a esperança de que seriam capazes de antecipar a partida de Dodd e os confederados do chalé. Não estava claro para ele como faria o incidente servir, de qualquer maneira. Ele estava consciente de que agarrara qualquer oportunidade que abrisse os ouvidos do Honorável Archer Converse para uma pessoa que o havia abordado na rua. Encontrar alguém na casa, pelo menos, carimbaria sua história com veracidade, mesmo que não servisse a nenhum propósito no objetivo principal dos esforços de Farr.
Mas em uma esquina bem iluminada, o jovem parou de repente.
“Não adianta”, informou ele ao espantado Sr. Converse. “A consciência me derrubou. Não posso fazer isso.”
“Você quer dizer que tem me enganado, senhor?”
“Quero dizer, Sr. Converse, que eu havia proposto tirar meia hora ou mais e pensar em algum método de interessá-lo honesta e adequadamente em um assunto que me é muito caro — uma questão pública, senhor. Mas eis como passei essa meia hora.”
Francamente, simplesmente, de forma convincente, ele relatou ao seu ouvinte espantado a história completa do que encontrara no chalé em Rose Alley.
“E, portanto, não tive tempo de ponderar sobre meus negócios com o senhor — simplesmente me afastei da jovem, e lá estava o senhor, descendo os degraus do clube. Fiz o melhor que pude com pouco aviso — mas o que fiz foi muito grosseiro. Peço desculpas. Suponho que, dadas as circunstâncias, posso muito bem dizer 'Boa noite'!” Ele levantou o chapéu.
Mas havia algo em tudo isso que atiçava a curiosidade de Converse.
“Espere um momento. Isso está começando a ficar interessante.”
Uma convicção bastante nebulosa começou a assegurar a Farr que, possivelmente, o acaso fizera um lance melhor para ele do que um planejamento bem pensado. Era certamente algo saber que o honrado cavalheiro estava interessado.
“Se você tivesse tido tempo de pensar em um método de se aproximar de mim... Deixe-me ver, seu nome é...”
“Farr.”
“Sr. Farr, supondo que eu tivesse sido receptivo às suas sugestões, o que é que você queria de mim?”
“Eu queria que o senhor comparecesse a uma reunião pública”, disparou o jovem. “São homens que precisam de ajuda — eles precisam...”
“Isso é suficiente”, disparou Converse. “Não estou na política. Não discurso em reuniões públicas. Sr. Farr, você teria desperdiçado seu tempo planejando. Absolutamente!”
“Mas não há algum apelo que...”
“Inútil — inútil, senhor.” Ele bateu sua bengala, e seu tom mostrava irritação. Ele girou sobre os calcanhares. “É decididamente evidente que você é um estranho nestas partes, senhor. Por esse motivo, perdoo sua presunção.”
Naquele momento, uma carroça ruidosa parou perto deles. A luz da esquina os revelara ao motorista.
“Sr. Farr”, chamou o homem, “não demorou muito para as notícias do que o senhor fez na reunião desta noite circularem entre os rapazes. E nós não vamos deixar que o senhor saia na nossa frente, senhor.”
“Quanto mais, melhor, quando a causa é justa”, disse Farr; mas ele fitava com pesar as costas do Sr. Converse, que iniciara sua retirada.
“Quero lhe dizer que faço parte do comitê executivo do Sindicato dos Caminhoneiros do Estado, Sr. Farr. Tenho conversado sobre o assunto e posso prometer que o sindicato, como corpo, votará pelo empréstimo de cavalos e homens para transportar sua água mineral de graça. E espero que aquele cavalheiro que está indo para o centro, onde ficam os dândis, conte a eles que ainda restam homens honestos o suficiente para proteger os pobres daquela água venenosa que ele e seus amigos ricos estão bombeando do rio para nós.”
O honorável Archer Converse interrompeu sua partida muito subitamente.
“Você não está se referindo a mim, está, meu caro?”
“Estou, se o senhor estiver mancomunado com aquela turma da Consolidated Water Company”, declarou o destemido membro do proletariado.
O Sr. Converse refez seus passos. Ele sacudiu a bengala para o motorista.
“Quero informá-lo muito distintamente, senhor, que não tenho interesse na Consolidated.”
“Dawson, peça desculpas a este cavalheiro”, advertiu Farr ao motorista.
“Sinto muito por ter dito qualquer coisa”, murmurou o homem. “Mas todos os dândis são iguais para mim”, disse ele para si mesmo em voz baixa.
O Sr. Converse parecia consideravelmente perturbado com o escárnio do humilde cidadão em relação à questão da Consolidated. Ele dirigiu-se a Farr.
“Fui tocado em um ponto em que sou muito sensível”, informou ele ao jovem. “Não condono as políticas da Consolidated em relação ao seu controle de franquias. Seu sistema de operação introduziu um elemento ruim em nossas finanças e política. Eu lamentaria ser mal compreendido pelo povo deste estado.”
“Espero que o senhor não seja mal compreendido, senhor”, afirmou Farr, com humildade.
“Para mostrar-lhe minha posição sobre o assunto e para que você possa corrigir qualquer mal-entendido entre seus amigos nestas redondezas”, prosseguiu o Sr. Converse, rigidamente, “informarei que estou levando o caso do sindicato de cidadãos de Danburg em apelação à nossa mais alta corte. Esperamos provar conspiração criminosa. Esperamos expor parte da corrupção no estado. É por isso que entrei no caso.”
“Agradeço por me informar. Tenho tentado lutar contra a Consolidated à minha própria maneira humilde.”
O eminente advogado aproximou-se e prontamente interessou-se.
“Estou em busca de informações de todos os tipos, senhor. Por favor, explique.”
Eliminando-se o máximo possível, Farr descreveu as operações da Cooperativa de Água Mineral. Mas não conseguiu eliminar o homem na boleia da carroça. Quando Farr terminou sua breve explicação, aquele admirador leal deu um testemunho entusiástico a respeito do homem que havia concebido o plano e sacrificado seu tempo em esforços para expandir o sistema. Ele continuou até que Farr o deteve.
“Direi, Sr. Converse, antes que o senhor vá, que gostaria que levasse uma opinião correta a meu respeito. Eu não estava tentando arrastá-lo para uma mera reunião política. Há alguns homens pobres reunidos agora neste bairro que precisam de um ouvinte compreensivo e de um pouco de bom conselho. Eles também estão tentando obter justiça contra a Consolidated e toda a opressão geral que ela representa.”
“Onde estão esses homens?”, perguntou Converse, após uma pausa durante a qual franziu as sobrancelhas e bateu com a bengala.
Farr apontou rua abaixo. Não muito longe, uma transparência baixa anunciava “O Clube do Jogo Limpo”.
O Sr. Converse olhou naquela direção e hesitou por mais alguns momentos.
“Você me garante que não é um mero comício político?”
“Garanto, senhor!”
Então, o filho do General Converse galantemente estendeu o braço.
“Ficarei feliz em ser escoltado pelo senhor, Sr. Farr”, disse ele. “Agora que entendo um pouco melhor esta coisa, vou quebrar uma das minhas regras.” Enquanto caminhavam, ele comentou: “Os assuntos de um homem são, às vezes, dirigidos e controlados por ele de uma maneira muito singular. Pequenas coisas mudam noções preconcebidas muito subitamente.”
“Mudam, senhor”, concordou Walker Farr.
XIX
A CONSCIÊNCIA ALISTANDO UM RECRUTA
Um homem que estava no topo das escadas, um posto avançado, viu-os chegando, correu e abriu uma porta à frente deles. A porta dava acesso a um salão repleto de homens que estavam dispostos em bancos e em pé nos corredores e nas laterais da grande sala.
“Abram caminho para o honorável Archer Converse”, gritou seu precursor, excitadamente.
“Três vivas para o honorável Archer Converse”, chamou uma voz, e todos os homens puseram-se de pé e gritaram ruidosamente.
O ilustre convidado subiu na plataforma — Farr logo atrás. O jovem colocou uma cadeira para o advogado e permaneceu em pé. Ele ergueu a mão para pedir silêncio.
“Isto é bastante inesperado, rapazes. Mas este homem ilustre estava passando pelo nosso salão esta noite e nos visitou de uma maneira puramente informal. É uma grande honra, e quero dizer a ele, por todos nós, que o velho Clube do Jogo Limpo está muito grato. Peço que se levantem, senhores do clube.”
Todos puseram-se de pé novamente.
“Inclinem as cabeças e, por trinta segundos de profundo silêncio, prestem seu respeito e veneração à memória do nosso grande governador de guerra, General Aaron Converse.”
O honorável Archer Converse olhou sobre aquelas cabeças inclinadas e descobertas. A maioria eram cabeças grisalhas, e mãos marcadas pelo trabalho estavam cruzadas à frente daqueles homens. E quando, finalmente, os rostos foram erguidos para ele, havia uma seriedade suplicante em seu olhar que o tocou profundamente.
“Rapazes, o filho desse grande homem está presente. Como vocês expressarão sua admiração e respeito por ele?”
Eles aplaudiram novamente de forma tumultuada.
Farr caminhou até a borda da plataforma.
“É gentil e generoso da parte do Sr. Converse consentir em entrar aqui por alguns momentos esta noite. Deixarei a reunião em suas mãos.”
Houve um silêncio por um momento. Então, o convidado levou sua cadeira para a borda frontal da plataforma.
“Não sei exatamente que tipo de reunião é esta — não fui totalmente informado”, disse ele, muito incisivamente. “Mas quero que fique bem entendido que não estou aqui para fazer qualquer discurso. Seus rostos indicam que vocês são muito sérios em relação ao assunto que se reuniram para considerar. Tenho a garantia de que isto não é um mero comício político?”
“Não”, alguém respondeu.
“Fico feliz com isso. Não estou na política. A sujeira política torna-se mais repugnante a cada ano. Mas por que vocês estão aqui? Vamos, agora! Vamos! Vamos conversar sobre isso.” Ele foi um pouco brusco, mas seu tom era gentil.
Um homem que se levantou no meio do salão estava com trajes um tanto surrados, mas tinha os olhos profundos de quem pensa.
“Honrado senhor”, disse ele, “não me levanto como alguém que presume falar por todos os outros. Mas conversei com muitos homens. Sei o que alguns de nós queremos. Não esperamos que leis ou líderes façam com que homens preguiçosos progridam no mundo ou que a comida seja legislada para dentro da despensa sem que um homem saia e lute por ela. Trabalhei em uma bancada desde os catorze anos. Espero trabalhar lá até cair. Não quero nenhum cargo político. Eu não poderia preenchê-lo. Mas por que será que os únicos homens que conseguem cargos são aqueles que se voltam e enriquecem vendendo propriedades que pertencem a todos nós — refiro-me às franquias disto, daquilo e daquele outro?” Ele sentou-se.
Um homem magro na primeira fila levantou-se.
“Honorável Archer Converse, uma franquia que foi doada por aqueles homens anos atrás foi o direito de fornecer água a esta cidade. Uma empresa privada obteve essa franquia. Ela detém o direito hoje. Economiza dinheiro bombeando sua água do rio Gamonic. Economiza dinheiro e desperdiça vidas. Os relatórios do Conselho de Saúde mostram que houve mil e cem casos de febre tifoide nesta cidade no ano passado. Na minha família, minha mãe e dois dos meus filhos morreram. Estremeço toda vez que toco em uma torneira — mas a água mineral que é confiável nos custa no armazém um dólar por um garrafão de cinco galões — e meu salário é de apenas dez dólares por semana. Existem lagos a vinte milhas desta cidade. Água pura lá para todos nós! Mas cada torneira goteja esgoto do rio Gamonic. Não temos nenhum líder que faça essa empresa de água bombear saúde em vez de morte?”
“Eles enviaram 'Tabulador' Burke para a prisão por fraudes eleitorais”, disse um eleitor que estava em um canto distante. “Mas qualquer um nesta cidade entende muito bem que o juiz que o enviou para a prisão estadual sabia quem eram os verdadeiros sujeitos, sabia quanto os verdadeiros pagaram ao 'Tabulador' para assumir toda a culpa. E o governador sabe de tudo e acaba de reconduzir esse juiz.”
O honorável Archer Converse sentou-se muito ereto em sua cadeira e ouviu aqueles homens. Ele continuou sentado ereto e ouviu os outros. Os homens não fizeram diatribes. Não houve delírios, não houve sentimentos anarquistas. Eles se levantavam, expressavam suas queixas sombriamente, mas sem paixão, e sentavam-se.
Um homem idoso levantou-se e ergueu as duas mãos.
“Vim através do mar para este país, senhor. Vim porque poderia ter minha pequena parte no governo onde pagava impostos e trabalhava — eu poderia votar aqui. É o único privilégio público que tenho. Mas, oh Deus, nos dê alguém em quem votar!”
“Simpatizo com seus sentimentos”, respondeu o Sr. Converse. “Mas você está falando com a pessoa errada. Não estou na política.”
“Pelos deuses, o senhor estará se minha coragem apenas se mantiver”, disse Farr para si mesmo.
Outro homem saltou para seus pés. Ele falou calmamente, mas sua própria repressão o tornou mais eficaz.
“Qual é a vantagem de votar até que homens como o senhor entrem na política, Sr. Converse, e nos deem líderes que usarão seu poder para ajudar as pessoas que votaram neles? Estou farto de votar. Sou levado às urnas por cabos eleitorais — e sei exatamente por que esses homens estão no jogo e para quem estão trabalhando. O que o senhor acha que o Coronel Dodd se importa com qual lado ganha esta cidade, ou qual lado ganha o estado? Ele e sua turma estão destinados a ganhar, não importa qual partido entre. O senhor não pode vencê-los. Negócios são negócios, não importa o que a política possa ser! O dinheiro da cidade é desperdiçado da mesma forma, o jogo do bicho é deixado correr para o benefício dos homens ricos que o apoiam, toda a corrupção continua. O senhor não pode mais me enganar. Eles nos agitam, pobres coitados, na época da eleição, corremos para as urnas e votamos, e às vezes pensamos que estamos realizando algo. Mas o que estamos fazendo é simplesmente promover algum sujeito que fez sua fortuna e colocar outro que quer o cargo para que possa encher seus próprios bolsos vendendo nossos direitos comuns para os mesmos homens. Eu digo, o senhor não pode vencê-los!”
O honorável Archer Converse parecia achar sua posição na plataforma desconfortável. Ele levantou-se subitamente e desceu para o chão. Ele circulou entre os homens. Apertou as mãos que lhe eram estendidas. Percebeu que tinha pouco encorajamento para aqueles homens. A reunião dera-lhe uma nova luz. Ele sabia bastante sobre os velhos tempos, e nos velhos tempos da política os homens afluíam aos comícios. Eles ouviam humildemente os discursos de seus líderes, engoliam os fatos açucarados, ouviam as bandas, juntavam-se aos desfiles de tochas, votavam de acordo com as linhas partidárias e pensavam que tinham feito bem; a superfície das coisas era bem polida.
Ele entendeu que, da facilidade com que a massa podia ser pastoreada, com outros pensando por eles, surgira a política como um negócio — com os grandes interesses dominando ambos os partidos — e ninguém percebia melhor como tudo tinha acontecido do que Converse. Esse novo espírito, no entanto, surpreendeu-o um pouco, pois ele vinha se mantendo afastado da política. Esses homens que o cercavam não eram meros eleitores mudos e conduzidos em massa — eram indivíduos que estavam pensando, que estavam exigindo, que estavam procurando um líder que os considerasse como cidadãos a serem servidos, não como bens a serem vendidos ao maior lance. Sua percepção aguçada de advogado entendia tudo isso!
“Sou um açougueiro nos matadouros, Sr. Converse”, disse um homem que se aproximou. “Temos touros treinados lá que conduzem o gado para os currais de abate. Cansei de ser um boi na política e seguir esses velhos touros treinados.”
Converse abriu caminho pela multidão até a porta, Farr em seus calcanhares.
Quando estavam na rua, o honorável cavalheiro virou-se bruscamente em direção ao Boulevard.
“Não tenho espírito ou gosto esta noite para o luar no parque, senhor! Que bela peça você pregou em mim.”
“Eu queria que o senhor tivesse uma noção direta de um estado de coisas, Sr. Converse.”
“Mas você deveria entender melhor meu temperamento — deveria saber que isso vai ficar na minha mente, me preocupar, me vexar, me fazer buscar remédios. É exatamente como se eu tivesse sido contratado para um caso. Sinto-me quase no dever de intervir.”
“É estranho como um homem às vezes é puxado para algo — para algo em que não tinha ideia de se intrometer”, filosofou Farr, suavemente. “Foi assim que aconteceu no meu caso.”
“Foi, é?”, perguntou o Sr. Converse, bruscamente. Ele aceitara tacitamente a companhia do jovem para a caminhada de volta ao Boulevard. “Agora, veja bem! Quem é você, exatamente?”
“Meu nome é Farr e eu não sou nada.”
“Você não precisa blefar comigo — você é um político — um candidato a alguma coisa.”
“Não sou nem eleitor neste estado. São homens como o senhor, senhor, que deveriam ser candidatos aos altos cargos.”
“Meu santo pai treinou-me para respeitar o sacrifício pessoal, Sr. Farr. Mas para um homem limpo tentar realizar coisas para o povo na política hoje em dia não é sacrifício pessoal — é martírio. Os políticos baratos amontoam as lenhas, os jornais debochados acendem o fogo e continuam soprando-o com seus foles, e o povo fica por perto e parece mostrar uma espécie de satisfação calma em assistir à operação. E quando tudo termina, nada de bom foi feito.”
“Temo ter desperdiçado uma noite para o senhor, senhor. Sinto muito. Esperava que os problemas daqueles homens, quando o senhor os ouvisse em primeira mão, o interessassem.”
“Interessar-me! Maldito seja tudo isso, você destruiu minha paz de espírito! Eu já sabia de tudo antes. Mas sou egoísta, como quase todo mundo. Mantive-me longe onde não pudesse ouvir sobre essas coisas. Agora, se eu dormir profundamente esta noite, terei vergonha de olhar para o retrato de meu pai quando entrar em meu escritório amanhã de manhã. Por que você não teve melhor senso do que me convencer a entrar em sua reunião infernal?” Ele bateu com sua bengala irritadamente contra o meio-fio enquanto caminhava. “E o problema comigo é”, continuou o Sr. Converse, com muita amargura, “eu sei que as condições são tais neste estado que uma reunião como aquela pode ser montada em cada cidade e vila — e as reclamações serão justas e exigirão ajuda. Mas não há organização — são apenas gatinhos cegos miando. É maldito!”
“Mas este é o tipo de país onde algumas mudanças muito rápidas podem ser feitas quando as pessoas finalmente abrem os olhos”, sugeriu o jovem.
O Sr. Converse apenas resmungou, batendo sua bengala mais violentamente.
Eles estavam na fronteira do Décimo Primeiro Distrito agora. As luzes mais brilhantes das avenidas do centro brilhavam diante deles.
“Então o senhor não entrará na política?”, perguntou Farr.
“Preferiria navegar para a Índia com um carregamento de hinários e dar aulas de canto para tigres de Bengala.”
“Boa noite, senhor”, disse Farr. Ele parou na esquina da rua que marcava o limite do distrito.
“Boa noite, senhor!”, respondeu o Sr. Converse, seguindo em frente.
O jovem observou-o até desaparecer de vista. Ele ouviu o estalo irritado da bengala nas pedras muito tempo depois que o honorável Archer Converse dobrou a esquina seguinte.
“Máxima no caso de um verdadeiro cavalheiro”, refletiu Farr: “dê um tapete em sua consciência, aponte o dedo para o inimigo, não diga nada, simplesmente afaste-se e dê à consciência bastante espaço — ela não precisa de ajuda. Ali, pela graça de Deus, vai o próximo governador deste estado.”
XX
CONSIDERAÇÃO: UMA FILHA
Na manhã seguinte ao seu desconcerto, Richard Dodd postou-se em uma pequena tabacaria em frente ao edifício Trelawny. Espreitando atrás de caixas de charutos na vitrine, ele manteve a porta da casa sob vigilância hostil. Estava claro para o dono da loja que “o cavalheiro passara a noite em claro”. Os olhos de Dodd estavam pesados, seu rosto estava corado, e ele acendia um cigarro após o outro com mãos trêmulas.
Pouco antes das nove horas, Kate Kilgour saiu e desceu a avenida a caminho de seu trabalho. Dodd a fitou até que ela saísse de sua visão. Vergonha, raiva e desejo misturavam-se no olhar fixo que ele lhe dirigia; em seu frescor vívido, ela representava tanto o anseio quanto o inalcançável. Ele estava consciente de um novo sentimento em relação a ela. No passado, sua impaciência fora temperada pelo conhecimento reconfortante de que ela havia se prometido a ele — de que ela era sua para possuir, após um pouco de procrastinação tentadora. Agora ele não tinha certeza alguma a respeito dela. Ele fora um pouco condescendente no passado — seus sucessos com mulheres inflaram sua presunção — ele exibira um ar um tanto descuidado de proprietário — sua maneira dissera a ela e aos outros: “Isto é meu; olhe!” Mas agora, ao vê-la desaparecer de vista, o ciúme, a raiva, a convicção azeda de que ele havia perdido sua consideração combinaram-se para torná-lo desesperado, e os excessos da noite anterior acenderam uma chama que aqueceu todas as suas paixões malignas.
Ele jogou fora seu cigarro, praguejou alto e correu pela rua para o Trelawny.
Quando a Sra. Kilgour o admitiu em seu apartamento, ela se agarrou ao batente da porta, exibindo muita trepidação.
Ele entrou, fechou a porta e encostou as costas nela.
“Você já se livrou dessa histeria para que possa me ouvir e depois falar sensatamente?”, exigiu ele, grosseiramente.
Ela foi para sua sala de estar e ele a seguiu, murmurando:
“Não é de se admirar que você tenha fugido de mim ontem à noite — não é de se admirar que você não tenha tido cara para ficar e receber o que merece. Como diabos eu permiti que você planejasse e gerenciasse, não consigo entender.”
“Você me pediu”, disse ela, vacilante.
“Eu não pedi para você armar uma conspiração suja para me prejudicar.”
“Richard, você não está em si. Você esteve bebendo!” Ela tentou exibir indignação protestante e falhou. “Venha me procurar quando estiver em si.”
“Não há mais essa conversa de 'amanhã' comigo, Sra. Kilgour. Admitirei que você é a mãe de Kate. Mas agora você é outra coisa. Você tentou me passar a perna, e ninguém se safa com esse tipo de coisa — homem, mulher ou criança. Teremos nosso acerto de contas aqui e agora.”
“Fiz o melhor que pude”, lamentou ela.
“De que romance de danação você tirou essa ideia?”, enfureceu-se ele.
“Parecia ser um bom plano, Richard. Juro por tudo que é sagrado que pensei que daria tudo certo. Não grite comigo.” Sua voz caiu para um sussurro suplicante. Ela pegou um livro de sua mesa. “Se você apenas me ouvir...”
“Então você tirou isso de um romance! Meu Deus! O que suas ideias tolas fizeram comigo?”
“Como você ousa falar com a mãe de Kate desse jeito?”
“Não estou falando com a mãe de Kate, eu disse! Estou falando com uma mulher que me colocou em um inferno na terra. Estou falando com você, Sra. Kilgour, e você ainda não sabe de toda a história.”
“Toda a minha vida foi a mesma coisa — apenas problemas, tristeza e ser mal compreendida.” Ela começou a soluçar.
“Existe alguma coisa nesse romance sobre trazer um entregador de gelo para acabar com um casamento? Eu digo que tudo foi uma conspiração. Você não pretendia ser justa. Você pretendia armar um esquema para que pudesse se esquivar. Você sempre fez isso, Sra. Kilgour.”
“Eu não tive nada a ver com a vinda daquele homem.”
— Não tente mais me enganar. Você me disse para vir, não disse? Você deve ter contado alguma história para a sua filha para que ela viesse.
— Eu contei — foi tudo... —
— E então você disse àquele sujeito horroroso para entrar também e interromper tudo, só para me atrapalhar. Por que eu fui cair em tamanha loucura? Se eu não estivesse desesperado, jamais teria deixado você me arrastar para um esquema tão diabólico. Mas agora você tem que fazer a sua parte para me compensar. De agora em diante, o papo será reto, Sra. Kilgour. Tem que haver um acerto entre nós.
Ela desviou o olhar dele. Estava claramente vasculhando a alma em busca de desculpas para adiar aquele acerto.
— Aquela pessoa que entrou, Dicky! Eu juro que não preparei nada disso. Ele é apenas um entregador de gelo. Eu não conheço o homem. Foi algum acidente. Se o assunto não tivesse sido interrompido! Estava indo tudo bem.
— O que há com o seu intelecto? Você sabe que não estava indo bem coisa nenhuma! Você simplesmente nos fez perseguir sombras. Meu Deus! Eu deveria ter feito você me contar o que estava planejando. Pense nisso! Pense em mim, indo até lá todo bobo, achando que você tinha algo real a oferecer.
— Mas você a assustou com aquele presidiário. Você deveria ter trazido um clérigo de verdade.
— O homem que eu trouxe tem poder para realizar casamentos! Eu teria feito um belo espetáculo arrastando um clérigo para aquela confusão, não é?
Ela interrompeu a continuação do discurso dele. Torcia as mãos, tergiversando, suplicando, tentando explicar, tentando mais desesperadamente adiar aquele acerto que ele exigia.
— Mas, honestamente, parecia ser um bom plano, Dicky. Eu sou mãe dela. Conheço a natureza dela. Você sabe como algumas naturezas precisam ser tratadas! Ela é tão egocêntrica. Precisa ser pega de surpresa. Precisa saber que está fazendo um sacrifício. É por isso que preparei tudo para Rose Alley e peguei aquela casa emprestada. E eu tinha tudo planejado sobre o que dizer a ela no último momento lá.
— Bem, o que era essa grande coisa que você ia dizer? — Ele a encarou, com nojo e suspeita nos olhos.
Ela corou. Hesitou, incapaz de sustentar o olhar dele.
— Não adianta te contar agora, Dicky. De alguma forma, agora que penso em tudo isso, soa bastante sem graça. Tudo parecia tão plausível, o que eu ia dizer quando sentei e planejei a coisa. E o romance disso — você sabe, até garotas egocêntricas gostam de sentir que um homem as quer tanto a ponto de ficar desesperado — e ela disse uma vez que se casaria com você algum dia — talvez — e... —
— Oh, você... você... — Ele interrompeu e então parou, sem palavras. — Qual é o objetivo? — murmurou. — Você nem conhece a sua própria filha. Ela tem me suportado porque você tem insistido com ela. Eu entendo agora. Você me disse que poderia apressar as coisas. Você me fez parecer um vilão de melodrama. Você a fez me odiar. Agora confesse! Ela não reclamou com você depois que chegou em casa e disse que me odiava? Você me pregou na cruz para sempre no que diz respeito a ela — não foi? Confesse.
— Eu posso reconquistá-la, Dicky. Me dê um pouco de tempo. — Mas ela não conseguia olhar para ele. — Não me repreenda mais. Eu sou mãe dela. Ela obedecerá à própria mãe com o tempo. Não machuque mais a minha natureza sensível. — Ela começou a chorar, torcendo os anéis nos dedos trêmulos.
Ele a encarou com a testa franzida, semicerrando os olhos. — Você não tem sido honesta comigo, Sra. Kilgour.
— Chame-me de Mãe Kilgour, Dicky, exatamente como você sempre fez.
— Não vou tolerar mais blefes, Sra. Kilgour. Kate jurou para você que nunca se casará comigo — não jurou?
— Mas eu posso convencê-la — você pode reconquistá-la. Vou dizer a ela que foi meu plano — terei coragem de dizer a ela mais tarde... —
— Então você tem colocado toda essa ideia maluca na minha conta?
— Mas tomarei coragem para dizer a ela um dia — e sua devoção a conquistará de volta — a devoção sempre vence. Você pode... —
— Sra. Kilgour, eu a conheço muito bem. Repito, sei que você sempre se esquivou — essa é a sua natureza. Mas aqui está uma coisa da qual você não pode fugir. Você tem que cumprir o combinado. Você sabe como eu amo Kate. Não há motivo para ela não se casar comigo. Não há desculpa para ela me manter afastado do jeito que faz. Você tem que dar um jeito para mim — rápido! Entendeu? Esse papo furado sobre "devoção" e "algum dia" não cola. Eu quero ação. Agora espere! Não pretendo ameaçar — eu tenho sido honesto com você até agora. Santo Deus, você não percebe que preço eu paguei!
— E agora, além de seus outros insultos, você vai me provocar de novo porque peguei cinco mil dólares emprestados com você. Oh, Dicky, eu achava que você fosse mais cavalheiro.
— Sra. Kilgour, eu simplesmente tenho que fazer você entender o que fiz por você antes que você acorde e faça algo por mim.
— Eu aprecio o que você fez, Dicky. Honestamente, aprecio. Você me salvou de perder dinheiro nas minhas ações.
— Onde estão essas ações?
Ela não olhou para ele. — Eu as guardei — todas em segurança. Estão bem. Assim que os negócios melhorarem, eu conseguirei o seu dinheiro para você, Dicky. Você terá, cada centavo.
— Onde estão essas ações, eu digo! Sra. Kilgour, olhe para mim. Onde elas estão?
— Por que você é tão minucioso em querer saber onde elas estão? — Protegendo-se, ela demonstrou um lampejo de ressentimento.
— Porque você deve vender e me entregar esse dinheiro — imediatamente.
— Eu... eu não acredito que possa resgatá-las agora. Elas estão... estão em baixa no momento. Elas... —
— Quais são as ações?
— Não tenho interesse em revelar meus negócios particulares, Richard.
— Acontece que também são meus negócios. Estou em apuros. Preciso saber. Ficarei aqui até descobrir. É melhor você abrir o jogo.
— Assim que eu puder arranjar — eu lhe direi. Muito em breve agora!
Ele se levantou bruscamente da cadeira e atravessou a sala até ela. Pôs as mãos nos ombros dela e inclinou o rosto para o dela.
— Você não tem ações, Sra. Kilgour.
— Não — ela sussurrou, os olhos dele dominando-a.
— O que você fez com aquele dinheiro que eu lhe emprestei?
— Eu paguei... uma dívida.
— Que dívida? Responda! Isso tem que ser esclarecido — agora!
Ela começou a chorar.
— Chega de histeria, Sra. Kilgour. Agora chegamos aos fatos. Algo ruim acontecerá se você não confiar em mim.
Então, encurralada, com o impulso das naturezas fracas de buscar apoio nas mais fortes — de apelar a um vencedor que não pode ser evitado — ela deixou escapar a verdade.
— Começaram a suspeitar de mim quando eu era caixa da Dalton & Company. Ouvi dizer que eles iam colocar peritos nos meus livros, Dicky. Eu não queria ir para a cadeia. Eu teria desonrado Kate. Eu sabia que você a amava e não gostaria que a mãe dela fosse presa. Eu precisava daquele dinheiro. Contei a você a história sobre as ações. Assim, fui salva de ser desonrada.
— Oh, foi mesmo? — Os olhos dele arderam com tamanha fúria que ela desviou o olhar dele.
— E agora me sinto melhor, pois confiei em você e você será meu bom e verdadeiro amigo de agora em diante. Tudo será compensado para você, Dicky.
— O que você tinha feito com todo aquele dinheiro que tirou da Dalton & Company?
— Custa tanto viver — e manter a posição que eu tinha quando Andrew era vivo! Uma mulher precisa de tantas coisas, Richard. Sempre fui orgulhosa. Fui obrigada a... —
Ele praguejou e se afastou dela. — Desperdiçou com roupas e joias! Você aplicou o golpe em um homem e o jogou na cova. E eu sou a próxima vítima! Eu sabia que estava sendo feito de otário, mas, oh... —
Ele esmurrou a parede em puro êxtase de raiva. Então sentou-se e escondeu o rosto nas mãos.
A mulher soluçou, mas os soluços não soavam verdadeiros.
— Imagino o que Kate diria se soubesse como cheguei a esse ponto. Ela sabia que o pai dela era um herói. Imagino se ela pensaria que eu sou um! — ele disse, após um longo silêncio.
— Você vai contar a ela? — a mãe ofegou.
— Eu a amo demais. Mas veja aqui! Você acha que colhi aqueles cinco mil em um arbusto de rosas?
— Você me disse que seu tio lhe emprestou.
— Você acha que consegui fácil — consegui só de pedir, e é por isso que você tem feito corpo mole no serviço — disse ele, com amargura. — Pedir dinheiro ao meu tio? Nem pensar. Ele nunca soltou um centavo para ninguém até hoje — nem para seus parentes. Sra. Kilgour, eu amo sua filha tanto — eu estava tão ansioso para ajudá-la — que roubei aqueles cinco mil do tesouro estadual. Tenho coberto isso nas minhas contas há mais de um ano — um inferno o tempo todo, com muita pressão quando a comissão legislativa revisa as contas. Algum dia, algum idiota desgraçado acordará o suficiente para ver que há um rombo nos meus números.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e encarou o carpete. O rosto da mulher empalideceu.
— É assim que as coisas estão comigo, Sra. Kilgour. Você sabe que não foi honesta comigo no início. Você disse que precisava do dinheiro apenas por algumas semanas — disse que estava apertada em um negócio de ações. Você mentiu para mim. Você desperdiçou o dinheiro em penas finas para suas costas. Eu fiquei calado. Você não pode me pagar. Tenho que lutar para sair dessa confusão o melhor que puder. Mas, pelos deuses eternos, algo me é devido, e é sua filha. Agora, você vai acordar?
— Farei tudo o que puder. — O tom dela, no entanto, não era convincente.
Ele percebeu que aquela mulher de consciência frágil e emoções artificiais, egoísta e covarde, estava apenas vagamente agitada com sua revelação, não estimulada pela extensão de seu sacrifício em seu favor.
— Fazer o que puder? Choramingar para mim assim depois que roubei o dinheiro do estado e estou sob risco por causa do meu roubo? E se este estado virar politicamente e eles investigarem o tesouro? Eu lhe digo, Sra. Kilgour, eu mereço ter Kate. Eu vou tê-la. Você tem que dar um jeito — e imediatamente.
— Mas não posso casar uma garota de vinte anos como se ela fosse uma escrava chinesa. — A insistência dele a fez demonstrar mais de seu ressentimento mesquinho.
— Se você não pode entregar o produto, Sra. Kilgour, eu tomarei as rédeas.
— Como?
— Vou contar a história a ela.
— Você não ousaria.
— Ela tem um senso de honra e de obrigação, mesmo que você não tenha. Ela pagará. Ela pagará com ela mesma. É um jeito terrível de conseguir uma esposa, mas se esse é o único jeito, eu aceitarei.
— Mas você acabou de confessar que desviou dinheiro. Como mãe de Kate, é meu dever protegê-la da desonra.
Aquela declaração surpreendente tirou o fôlego de Dodd.
Pela maneira como a mulher agora olhava para ele, era claro que ele havia caído no conceito dela.
— Você sabe, Richard, uma mãe se sente chamada a proteger uma boa filha.
Ele se levantou, bateu o pé no chão em sua paixão e praguejou.
— Aprecio o que você fez por mim — mas, na verdade, eu não pedi para você roubar dinheiro — e eu supus que seu tio fosse sempre liberal com você. Você não deveria ter me contado falsidades.
O aspecto enlouquecedor dessa calma assunção de superioridade era o fato de que a mulher parecia realmente acreditar, por um momento, exatamente no que estava dizendo e esquecer por que Dodd havia arriscado sua sorte; sua maneira mostrava sua avaliação superficial da situação.
— Existe outra maneira de fazer isso — enfureceu-se o jovem, irritado com aquela negação da obrigação. — Vou contar tudo sobre nós dois — e ela ficará feliz o suficiente em me ter depois que tudo acabar.
— Você não tem o direito de trazer todo esse problema e desonra para minha família.
— Você conhece uma maneira de evitar isso e é melhor começar a trabalhar, Sra. Kilgour — ele aconselhou. — Vou lhe dar outra chance de manter sua palavra e pagar sua dívida comigo. Eu quero Kate — e esperei por ela tempo demais.
Ele colocou o chapéu e saiu apressado.
Ele deixou a mãe estirada em um sofá, as mãos cheias de anéis agarradas aos cabelos tingidos. Ela ainda soluçava, mas seus soluços não teriam convencido nenhum ouvinte imparcial de que ela sentia uma tristeza real.
Quando Richard Dodd entrou no escritório de seu tio no edifício do First National, pouco depois, ele estava com disposição para forçar um pouco as coisas. Ele desfrutava de liberdades lá que o visitante comum não tinha e entrou na pequena sala de Kate Kilgour sem atrair atenção ou comentários.
— Eu sei exatamente como você se sente sobre a noite passada, Kate. — Ele se dirigiu a ela com respeito e humildade. — Entendo que este não é o lugar para discutir o assunto. Não vim aqui para isso. Peço desculpas pelo ocorrido. Vou lhe dizer isto — aceitei o conselho de sua mãe. Ela planejou a coisa e inventou o recado que chamou você para aquela casa. Receio que ela seja romântica demais. Só digo isso, Kate: o amor de um homem pode fazê-lo cometer coisas tolas. Por favor, fale com sua mãe quando chegar em casa — e aceite o conselho dela. Se o fizer, será melhor para todos nós. — Ele tremia com a contenção que havia imposto a si mesmo. — Você pode ver que fui punido, Kate. Sou um homem diferente — você deveria ser capaz de ver. Um problema terrível aconteceu comigo. Preciso do seu amor para me ajudar a superá-lo.
Ela o encarou com olhos nivelados e frios.
— Você não entende. Não posso explicar, querida! Mas estou lhe dizendo a verdade. Kate, se você não esquecer aquela tolice da qual fui culpado ontem à noite e for para mim o que tem sido — se você não se casar comigo muito em breve, você se arrependerá.
— Você está me ameaçando, Richard?
— Não, eu não quis que soasse assim. Mas sei que, com sua apreciação do que significa sacrifício, você ficará muito infeliz se me descartar e depois descobrir certas coisas.
— Este não é o momento para enigmas, Richard. O que você quer dizer?
— Já disse tudo o que podia dizer.
— Eu não o amo o suficiente para ser sua esposa. Não tive a intenção de bancar a coquete. Eu não me conhecia. Você e minha mãe... Oh, por que repetir? Você conhece a história. Você entendeu que meu amor por você não era o que deveria ser. Podemos encerrar aqui e agora, Richard. Esquecerei a noite passada. Esquecerei todo o resto — porque terminou!
— Não pode terminar — ele retrucou. — Entenda! Não pode terminar. Estou tentando me manter firme, Kate. Não me provoque. Peço que cumpra sua promessa. Nenhum outro homem terá você. — Ele se inclinou para perto. — Você ama algum outro homem?
Ela olhou para ele e falou lenta e gravemente. — Acho que não, Richard.
Ele a encarou com a testa franzida. — Você acha que não! O que em nome de Judas você quer dizer com um comentário desses?
— É porque estou tentando dizer a verdade — ela respondeu, com simples sinceridade.
— Esse é um tipo de novo estado de espírito em que você está? — ele insistiu.
— Sim.
Ele hesitou. Começou a falar e então ficou em silêncio por um longo tempo. — Droga! Não vou insultá-la! — ele explodiu por fim.
— Espero que não, Richard.
— É preposterous!
— O que é preposterous? — O tom dela era calmo.
— Eu vi você olhar para um homem ontem à noite.
— Muito bem!
— Já vi mulheres olharem para mim assim na minha vida.
— Eu não estava consciente de que olhei para qualquer homem de qualquer maneira especial.
— Você não podia se ver. Talvez você não tenha percebido que olhou para aquele homem com algum significado nos olhos. Mas as mulheres que olharam para mim como você olhou para ele me disseram que me amavam. Estou falando abertamente! Mas se eu sugerisse que você está apaixonada por um vagabundo, eu a insultaria. Estou louco, é só isso. Meus problemas estão afetando minha mente. Perdoe-me, Kate.
— Você está, é claro, se referindo ao jovem que interrompeu nossos negócios prospectivos ontem à noite. — Havia apenas um toque de desprezo em seu comportamento; mas seu ar era friamente profissional; sentada ali em sua mesa, ela o mantinha, física e mentalmente, à distância. Seu equilíbrio era seguro. Parecia perfeitamente natural para ela discutir um jovem de maneira impessoal.
— Estou me referindo àquele vagabundo de vida baixa que encontramos na estrada — aquele entregador de gelo — aquele... bem, não sei o que ele é, exceto que o diabo parece estar chutando-o sob meus pés para me derrubar. Kate, Kate, é ridículo demais falar sobre isso — aquele infeliz!
— Você quer dizer com essa observação que estou tendo qualquer interesse naquele jovem além de mera curiosidade?
— Não sei por que você deveria ter qualquer curiosidade sobre um vagabundo.
— Você não é um bom estudante de fisionomia, Richard.
— Então você tem estudado ele, é? Você foi embora com ele e me deixou. O que ele disse para você? Onde ele a deixou? Eu não tive coragem de pensar sobre você indo embora com ele. Eu desculpei porque você estava com raiva — tão com raiva que até pegaria um vagabundo para escolta. Mas que interesse você tem naquele renegado? — Seus tons eram ácidos de ciúme.
— Não o achei um renegado. Achei-o um mistério, Richard. E espero que um dia eu saiba qual é o mistério.
— Você está tentando me deixar louco?
— Estou apenas conversando para mantê-lo longe de um tópico que é angustiante. Ouvi dizer que seu tio pretendia investigar o homem depois que ele entrou no escritório aqui e fez aquela posição corajosa. Por acaso ouvi a conversa que o jovem fez. Talvez isso explique minha curiosidade. Seu tio descobriu muito sobre o homem?
— Não sei o que ele descobriu — declarou Dodd, perdendo rapidamente o controle de si mesmo. — Mas pretendo descobrir por conta própria.
— Por favor, faça isso, Richard — disse a garota, ingenuamente e sinceramente. Ela parecia estar perdendo parte da altivez que mostrara no início de seu encontro.
— Descobrirei o suficiente para colocá-lo na cadeia, onde ele provavelmente pertence. Não vou insultá-la, Kate, com mais conversas sobre um vagabundo. Você não pode me tirar do tópico principal. Vá para casa e fale com sua mãe, como eu lhe disse. Nós vamos nos casar!
— Richard, nosso caso acabou.
— Então quem é o homem?
— Não há homem nenhum.
— Se você diz isso e quer dizer isso, então você não conhece as mulheres tão bem quanto eu as conheço. Você não conhece nem a si mesma! — ele declarou. — Quero dizer a você, Kate, que estamos todos andando sobre gelo muito fino. Quanto mais cedo você e eu dermos as mãos e chegarmos em segurança à terra firme — apenas você e eu — melhor será. Apenas deixe sua curiosidade sobre outros homens adormecer. Digo-lhe novamente, vá para casa e fale com sua mãe.
Ele fez uma reverência, estendeu a mão para tocar a dela, mas conteve-se quando ela se virou subitamente para sua mesa e retomou seu trabalho.
O jovem Dodd saiu apressado do edifício sem tentar ver seu tio, e esfriou a cabeça e a paixão e acalmou seu desconforto físico com uma corrida desenfreada em seu carro de volta à capital do estado.
A garota tomou coragem e perguntou ao Sr. Peter Briggs, no tom mais factual que pôde reunir, se ele não queria nenhuma cópia de registro feita de suas notas em relação àquela pessoa que havia enfrentado o Coronel Dodd. Mas o Sr. Briggs informou-a de que o assunto não era de importância suficiente.
— O sujeito é apenas um tipo barato e vagabundo — hoje aqui, amanhã ali — disse Briggs. — Eu o investiguei minuciosamente.
Até então, a Srta. Kilgour sempre tivera uma opinião elevada sobre a perspicácia de Peter Briggs. Ela prontamente reviu essa estimativa, refletindo que a idade é forçada a embotar os sentidos de uma pessoa e nublar seu julgamento.
XXI
O HONORÁVEL LEÃO CONFERENCIA COM O CORONEL TIGRE
Todo o seu pessoal nos escritórios do Honorável Archer Converse notou que o chefe não estava amável naquele dia. Sua costumeira compostura digna estava totalmente ausente. Ele distribuía ordens de forma irritadiça, batia com papéis sobre a mesa quando trabalhava nela; de vez em quando, olhava para o retrato de seu distinto pai e murmurava entre dentes. Ele havia solicitado mais documentos relativos às estatísticas de saúde do estado, relatórios sobre sistemas de água, e despachara um funcionário à cidade capital para garantir certos fatos, números e literatura adicionais. Os membros juniores de seu escritório de advocacia sabiam que ele havia levado muito a peito o caso dos cidadãos de Danburg, que tinham sido bloqueados em seus esforços honestos para construir um sistema de água e que agora acusavam vários interesses elevados de conspiração. O litígio era importante — as questões, revolucionárias. Mas os juniores nunca tinham visto o chefe tão perturbado por qualquer caso jurídico antes.
Então, algo realmente aconteceu!
Os três cidadãos de Danburg que ocasionalmente conferenciavam com ele entraram em seu escritório e alinharam-se à sua frente. O Sr. Davis coçou o queixo e piscou humildemente, o Sr. Erskine exibiu seu nervosismo passando os dedos por dentro do colarinho, e o Sr. Owen praticamente transpirava um pedido de desculpas não verbalizado.
“Vejam aqui, senhores”, disparou o Sr. Converse, “não estou pronto para vocês. Eu lhes disse para não virem até a próxima semana. Tenho uma massa imensa de material para estudar. Vocês só estão perdendo tempo — o meu e o de vocês — vindo aqui hoje.”
“Bem, entende, meritíssimo”, gaguejou Davis, “viemos hoje para poupar-lhe mais problemas e trabalho.”
“Trabalho!” ecoou o Sr. Converse, segurando os braços de sua cadeira e projetando um rosto atônito para a frente.
“Ora... ora... veja, decidimos não levar este caso adiante. E o que quer que devamos a você... diga a quantia.” Ele não apreciou o brilho que surgia nos olhos do advogado, nem as rugas sombrias que se assentavam em torno dos lábios finos. “Para que não haja ressentimentos, de forma alguma”, apressou-se Davis em dizer.
“O que aconteceu com vocês de repente?” exigiu o advogado. “Expliquem! Falem!”
O rosto de Davis estava vermelho, e ele encontrou muita dificuldade em responder.
“Bem... veja... sabe... se você entra na justiça, nunca sabe quando vai sair. Sentimos que este caso vai se arrastar! É um caso terrivelmente grande — e eles têm muito dinheiro para lutar contra nós.”
“Eu lhes disse que pegaria o caso de vocês apenas pelas despesas e custas judiciais”, trovejou o advogado. “É um caso que eu queria processar.”
“Nós sabemos... você foi muito gentil a respeito... mas decidimos diferente. Veja, a Consolidated...”
O Sr. Converse levantou-se e balançou o dedo sob o nariz de Davis. “Não se atrevam a me dizer que se venderam para a Consolidated”, gritou ele em tons que ecoaram por seus escritórios e levaram toda a sua equipe a virar à direita e prestar atenção.
“Não foi isso... exatamente. Mas eles assumirão o caso em nossas mãos... farão a coisa certa, agora que lhes mostramos algumas coisas! O Coronel Dodd viu uma nova luz. E é um preço bom demais para nós recusarmos.”
“Vocês deixaram aqueles monopolistas comprá-los. Eles pagaram um grande suborno porque estão ficando com medo. Estavam com medo de terem jogado o velho jogo uma vez demais. Eu os tenho onde quero! Não, meus homens! Vocês precisam lutar por isso, digo eu.”
“Você não pode nos arrastar para a justiça a menos que estejamos dispostos a ir”, afirmou Davis, obstinadamente. “Aceitamos o dinheiro deles e os documentos foram passados — e isso encerra o assunto. Não fizemos nada diferente do que os outros fizeram neste estado.”
“Não, e esse é o problema deste estado”, clamou Converse, com paixão. “Vocês entraram aqui no início e falaram como homens — como homens honestos que tinham boas razões para uma raiva justa — e eu aceitei o caso de vocês. E agora vocês voltam aqui sorrateiramente e desistem da luta — subornados depois que eu os espanquei até que estivessem dispostos a lhes oferecer dinheiro suficiente.”
“Só fizemos o que homens de negócios corretos fariam, Sr. Converse”, declarou Owen.
“Tínhamos a chance de ir à alta corte com um caso que abriria toda a podridão deste estado antes que terminássemos de lutar, e vocês se venderam!”
“Bom dia. Não temos que ouvir esse tipo de conversa”, disse Erskine.
“Esperem um minuto.” O advogado abriu uma gaveta e encontrou seu talão de cheques. Ele escreveu apressadamente e arrancou o cheque. “Aqui está a taxa de retenção que vocês me pagaram. Agora saiam do meu escritório.”
Ele os conduziu à sua frente até a porta, gritando comandos insistentes para que se apressassem.
Quando se foram, ele olhou em volta para seus associados, seus sócios e seus funcionários atônitos.
“Peço desculpas humildemente, senhoras e senhores, por causar tal distúrbio. Eu... eu mal pareço ser eu mesmo hoje.”
Ele foi até sua mesa, sentou-se e encarou o retrato do Governador de Guerra Converse por um longo tempo. Por fim, bateu o punho na mesa e balançou a cabeça.
“Não”, declarou ele, como se o retrato estivesse lhe fazendo uma pergunta e pressionando por uma resposta, “eu não posso fazer isso. Eu poderia ter ido aos tribunais e lutado contra eles como advogado. Eu poderia ter mantido meu autorrespeito. Mas não na política... não... não! É muita confusão nos dias de hoje.”
Mas ele empurrou para o lado os papéis relacionados aos negócios das grandes corporações para as quais era conselheiro e continuou estudando os relatórios que seus funcionários haviam obtido para ele — declarações sobre saúde e assuntos financeiros que eles conseguiram desenterrar.
Um dia depois, seu mensageiro trouxe uma massa de dados de volta da Casa do Estado, junto com uma história sobre funcionários insolentes e chefes de departamento grosseiros que ofereceram todo tipo de desprezo e fizeram tudo o que podiam para impedir a investigação.
“É uma condição de coisas bastante difícil, Sr. Converse”, reclamou o funcionário, “quando os servidores contratados de um estado tratam os cidadãos como se fossem invasores no Capitólio. Ficou de tal modo que nossa Casa do Estado não é muito mais do que um escritório filial do Coronel Dodd.”
“Mas você lhes disse de qual escritório você veio... do meu escritório?”
“Claro que disse, senhor.”
“Bem, o que eles disseram?”
O rosto do funcionário ficou vermelho e traiu um súbito constrangimento.
“Ah, eles... eles... não disseram nada de especial: apenas arrogantes... apenas...”
“O que eles disseram?” rugiu o Sr. Converse. “Você tem memória! Diga logo! Palavras exatas.”
Funcionários eram ensinados a obedecer ordens naquele escritório.
“Eles disseram”, engasgou o homem, “que só porque seu pai foi governador deste estado uma vez, você não precisa pensar que pode dizer às pessoas na Casa do Estado para ficarem à disposição! Disseram que você não tem influência nenhuma na política.”
“Esse é o código de boas maneiras atual, hein? Insultar um cidadão e fazer salamaleques a um político!”
“Sr. Converse, esperei uma hora no Departamento de Estatísticas Vitais enquanto o chefe fumava charutos com Alf Symmes, aquele cabo eleitoral. Eu havia entregue o cartão da nossa firma, e o chefe o segurou na mão, girou-o, fumou e sentou-se onde pudesse olhar para mim e sorrir... e quando Symmes terminou sua vadiagem, deixaram-me entrar.”
O Sr. Converse voltou-se para sua mesa e mergulhou novamente nos dados.
No dia seguinte, ele colocou um funcionário no telefone de longa distância para chamar médicos em todas as partes do estado — coletando informações independentes em relação à prevalência passada e presente de febre tifoide; ele leu certos relatórios oficiais com a testa franzida e pequenos murmúrios de descrença, e depois de ler por um longo tempo, essa descrença tornou-se muito franca. O Sr. Converse tinha uma visão bastante aguçada em questões de prevaricação, mesmo quando a mentira era feita habilmente com números.
Ele não era um companheiro agradável para sua equipe de escritório durante aqueles dias; sua irascibilidade parecia aumentar. Ele mesmo sabia disso, e sentia a vergonha de um cavalheiro por causa de um estado de espírito que parecia não conseguir controlar.
E, finalmente, da complexidade de suas emoções, ele percebeu plenamente que estava com raiva de si mesmo e que sua raiva de si mesmo estava crescendo mais aguda pelo fato de ele perceber que a raiva era justificada. Pois ele despertou para o conhecimento de que havia permitido a si mesmo tornar-se egoísta. Ele se ressentia do fato de que qualquer um esperasse que ele se intrometesse em assuntos públicos — que entrasse na confusão da política. E ele sabia que deveria se envergonhar de tal egoísmo — e, portanto, ficou com mais raiva de si mesmo enquanto continuava a nutrir ressentimento contra qualquer agência que ameaçasse arrastá-lo para a vida pública.
Ele sabia onde a casca desse egoísmo havia sido quebrada — foi rachada na reunião onde sua cavalaria recebera seu chamado às armas em nome dos desamparados. Aqueles homens tinham olhado para ele, contado seus problemas — e deixaram tudo para sua consciência! Ele não acreditava que aqueles homens fossem astutos o suficiente para entender tão exatamente de que maneira ele poderia ser enredado em seus assuntos.
“Maldito aquele patife que me atraiu para lá!” corria seu anátema mental sobre o estranho jovem. “Ele deve ter sido o diabo, usando aquele casaco para esconder sua cauda bifurcada. E aqui estou eu agora, lutando por paz de espírito!”
E sua luta por sua paz de espírito levou-o, por fim, a colocar seu chapéu muito reto na cabeça e marchar do outro lado da rua para o escritório do Coronel Symonds Dodd.
O Honorável Archer Converse havia decidido que nenhuma influência no mundo poderia puxá-lo ou empurrá-lo para a política. Ele mantinha convicções firmemente estabelecidas sobre o que aconteceria a um homem bom na política. Para obter um cargo, esse homem de princípios seria obrigado a lutar contra manipuladores com suas próprias armas de escolha. E uma vez no cargo, todos os seus motivos seriam ridicularizados e seus movimentos atacados. Converse era um homem perspicaz que estudava os homens; ele não era um daqueles teóricos amáveis que acreditam que as Pessoas sempre têm senso suficiente em massa para se voltarem e eleger os homens certos para governantes. Ele entendia perfeitamente bem que realizar coisas reais na política não é um jogo de jogar pétalas de rosa.
Ele foi visitar o Coronel Dodd. Ele foi com o propósito elevado de um cidadão patriótico, decidido a exortar o coronel a limpar a casa. Parecia ser a coisa mais natural a fazer, agora que a ideia lhe ocorrera. Certamente o Coronel Dodd ouviria a razão — acordaria quando a coisa fosse apresentada a ele da maneira certa; ele deveria entender que novos costumes vieram para ficar nestes dias de reforma.
Pensando em tudo isso, considerando que realmente a questão deste abastecimento de água e o monopólio concomitante de franquias havia se tornado um mal, que as perspectivas do partido seriam colocadas em risco se os líderes do partido continuassem a alimentar esse mal, o Sr. Converse tinha certeza de que ele e o coronel seriam capazes de arranjar uma reforma, deixando o coronel fazer a reforma.
Eles ficaram frente a frente. Suas respectivas atitudes diziam muito!
O Coronel Dodd preencheu sua cadeira à frente de sua mesa, usando todo o espaço nela, inchando em todas as suas concavidades — usurpando-a toda.
O Honorável Archer Converse sentou-se muito reto, seus ombros não tocando o encosto da cadeira.
Fisicamente, eles representavam extremos; mental, moralmente e na ética política, eram tão divergentes quanto seus atributos físicos.
“Lamento que você tenha conseguido levar aqueles homens de Danburg para o seu lado”, disse o Sr. Converse, preparando sua lança prontamente e à vista de todos como um antagonista honrado. “Eu tinha sido contratado e propunha expor as condições na gestão dos sistemas de água.”
“Não sei o que quer dizer”, respondeu o coronel, seguindo seu próprio código de combate e tateando mentalmente por uma rede para lançar sobre esse antagonista.
“Sim, você sabe”, retrucou o Sr. Converse. “Você sabe melhor do que eu porque você possui os sistemas de água deste estado. Mas se precisa ser lembrado, Coronel, direi que você está obtendo grandes lucros. Você pode se dar ao luxo de explorar lagos — gastar dinheiro em tubulações, mesmo que tenha que ir quinze ou vinte milhas para as colinas ao redor das cidades e vilarejos.”
“A quem você representa, senhor?”
“Coronel Dodd, acho... realmente... que estou representando você quando lhe dou um conselho muito bom e não cobro por ele.”
“Tenho meus próprios advogados, Sr. Converse.”
Ambos os homens estavam empregando uma polidez que era sombria, e eles trocavam olhares como duelistas que lentamente raspam as espadas, aguardando uma abertura.
Uma raiva taciturna estava tomando posse do coronel, assim desafiado.
A indignação justa, nascida de seu amargor dos últimos dias, fez os olhos de Converse brilharem.
“Você é um dos homens mais ricos deste estado, Coronel Dodd, e seu dinheiro veio dos bolsos das pessoas — pedágios de milhares delas. Lembre-se disso!”
“Huh!” bufou o coronel, olhando para um buquê.
Não é frequente que os homens sejam capazes de avaliar corretamente suas próprias limitações. Caso contrário, o Honorável Archer Converse nunca teria ido pessoalmente para tentar convencer o Coronel Symonds Dodd. Em temperamento e ética, eles eram tão distantes que uma conferência entre eles sobre um tópico comum era um empreendimento tão sem esperança quanto seria uma discussão entre um tigre e um leão sobre a carcaça de uma ovelha.
O Sr. Converse levantou-se, desdobrando-se com angularidade digna.
“Devo lembrá-lo, senhor, que pertenço ao partido político do qual você assume ser o chefe. Se você se recusa a fazer justiça comum ao povo, então você está usando esse partido para encobrir a iniquidade.”
O Coronel Dodd levantou-se da cadeira. “Não aceito nenhum conselho seu, senhor, sobre como devo gerenciar negócios ou política.”
“Talvez, senhor, em relação aos seus negócios eu só possa exortá-lo a ser honesto, mas quanto ao partido que meu honrado pai liderou à vitória neste estado, eu tenho algo a dizer, por Deus! senhor, quando vejo que ele está sendo levado à destruição.”
“Bem, senhor, o que você tem a dizer?”
“Não ficarei parado e permitirei que seja arruinado por homens que o estão usando para proteger seus métodos em negociações comerciais.”
“Que influência você acha que tem na política deste estado?” indagou o coronel, caindo na vernácula do político, irritado demais para lidar com mais polidez sombria.
“Não do tipo que você tem, senhor... sua influência política é como o gelo que você corta dos rios envenenados.”
“Parece ainda ser popular para lunáticos virem aqui e me ameaçarem”, zombou o coronel. “Isso foi iniciado há algum tempo por um idiota de cabelos despenteados do Décimo Primeiro Distrito.”
O Honorável Archer Converse exibiu um interesse imediato que surpreendeu o coronel. “Um jovem do Décimo Primeiro Distrito? Ele era alto e de aparência bastante distinta?”
O Coronel Dodd bufou seu desdém. “De aparência distinta! Ele me ameaçou, e eu mandei segui-lo. Ele é um cabo eleitoral. É melhor você procurá-lo!” Sua cólera estava levando-o a extremos. Ele foi picado pelo olhar de desdém bem-criado de seu visitante. “Ele parece ser outro apóstolo do povo que quer me dizer como gerenciar meus próprios negócios. Sim, é melhor você procurá-lo, Converse.”
“Muito bem, senhor! Se ele veio aqui e tentou lhe dizer a verdade sobre você mesmo, ele vale a pena conhecer. Além disso, acho que o conheço.”
“Ah, um daqueles com quem você treina, hein? Você gosta dele?”
Foi um sarcasmo cortante, mas, para desapontamento do coronel, isso não pareceu afetar seu visitante nem um pouco. Converse até sorriu — um tipo de sorriso muito peculiar.
“Devo dizer, senhor, que tenho odiado ele cordialmente.”
O coronel grunhiu em aprovação.
“Mas de agora em diante, senhor, por razões que só eu conheço, vou tornar esse jovem meu amigo íntimo e particular. Você ouvirá falar de nós mais tarde.”
Ele curvou-se rigidamente e saiu, deixando o Coronel Dodd olhando para ele, com seu rosto quadrado contorcido em uma expressão de completo espanto, seus olhos pequenos arregalados, seu tufo de bigode em pé como um ponto de exclamação.
“A primeira dotação que a próxima legislatura fizer”, ele soliloquizou, “terá que ser dinheiro suficiente para construir uma nova ala no hospital psiquiátrico. Todos estão ficando loucos neste estado, de aristocratas a vagabundos.”
XXII
ALISTANDO UM CAVALEIRO ERRANTE
Em seu caminho escada abaixo para a rua, o Honorável Archer Converse, movendo-se mais rapidamente do que de costume, ultrapassou Kate Kilgour. Ele estava absorto demais para notar até mesmo uma moça bonita. Ela terminara seu trabalho para o dia e estava a caminho de casa.
Quando chegou à rua, observou algo que a interessou imensamente: o Sr. Converse subitamente agitou sua bengala para atrair a atenção de um homem do lado oposto da rua. Então, o Sr. Converse chamou-o do meio-fio com a maior amabilidade em seus tons. A garota passou perto dele e ouviu o que ele disse. Não era apenas um cumprimento a um inferior. O eminente advogado muito educada e solícitamente perguntou ao jovem alto do outro lado se ele não poderia poupar tempo para vir ao escritório da Converse.
Ela lançou um olhar por cima do ombro. O jovem atravessou a rua prontamente. Ele era o homem que a servira em seu momento de necessidade!
Ela seguiu em frente, mas virou-se novamente. Um impulso incontrolável a incitou.
Eles estavam entrando pela porta do edifício comercial, e a mão aristocrática do Honorável Archer Converse estava dando tapinhas no ombro deste estranho. Suas bochechas coraram e ela se virou apressadamente, pois o jovem captou seu olhar para trás e retribuiu com um sorriso atraente.
“Quem é ele?” ela perguntou a si mesma, conhecendo bem a reserva fria do Sr. Converse em relação à humanidade.
“Quem é você?” exigiu o Sr. Converse, posicionando-se à frente do jovem quando estavam no escritório particular.
O outro encontrou o olhar perscrutador do advogado com seu sorriso raro. “O mesmo homem que eu era da última vez que nos encontramos — Walker Farr.”
“Não tenho direito de me intrometer em seus assuntos particulares, senhor, mas tenho razões especiais para querer que você voluntarie muitas informações sobre si mesmo.”
Como resposta, o jovem abriu as palmas das mãos e, silenciosamente, com seu sorriso, convidou à inspeção de si mesmo.
“Sim, eu vejo você. Mas o seu exterior não me diz o que eu quero saber.”
“Ele terá que falar por mim.”
“Veja aqui, deixei-me ser amarrado de forma diabólica por uma sucessão de circunstâncias que você começou, jovem. Eu estava cuidando dos meus próprios negócios particulares até pouco tempo atrás.”
“Eu também, Sr. Converse.”
“Você é um cidadão moderadamente humilde, julgado pela aparência externa agora. Como eu me permiti ser puxado como fui?”
O sorriso do jovem desapareceu. “Eu me fiz essa pergunta há pouco tempo, senhor, depois que fui puxado, pois sou um estranho... nem sequer um eleitor aqui.”
“Bem, você decidiu como foi?”
“Fui levado pela mão de uma criança indefesa... uma pobre orfãzinha que carreguei até o cemitério nos meus joelhos... uma mártir... envenenada por aquela água Consolidated.”
O advogado foi comovido pela intensidade do sentimento que os tons do homem traíam.
“E ficou claro para mim novamente, Sr. Converse, que a filosofia das causas pelas quais Deus move este nosso mundo nunca será compreendida pelo homem.”
“Veja aqui”, disparou o filho do governador de guerra, “tire sua máscara, Walker Farr! Há algo por trás dela que eu quero ver. Você é um cavalheiro educado! O que você é? De onde você veio?”
Novamente Farr abriu as palmas das mãos e ficou em silêncio.
“Você está certo sobre as causas. Você é uma no meu caso. Pode haver algum fatalismo em mim... mas sinto-me impelido a usá-lo em uma grande luta que sinto que tenho a honra de assumir. Agora, seja franco!”
“Para todo o uso que você pode fazer de mim, Sr. Converse, minha vida começa a partir do minuto em que peguei aquela garotinha do chão de uma casa de cortiço nesta cidade. Pois o que eu era antes é tão diferente do que sou agora que não posso misturar essa identidade com meus negócios.”
“Mas não posso levar um homem para um assunto como este a menos que eu saiba tudo sobre ele.”
Farr levantou-se e fez uma reverência. “Lamento que o senhor não possa me aceitar pelo valor de face. Lamento muito, pois eu gostaria de servir sob um comandante como o senhor. No entanto, compreendo sua posição. Não o culpo. A regra do mundo é bastante coercitiva: conheça um homem antes de se associar a ele. Mas sou como sou. Não há mais nada a ser dito.”
“Sente-se”, ordenou Converse. “Este é um caso em que as regras do mundo podem ser suspensas. Pois preciso do tipo de homem que ousa enfrentar até Symonds Dodd em seu escritório e dizer-lhe o que ele é. Oh, acabei de vir de lá”, explicou ele em resposta ao olhar de Farr. “Ele me contou.”
“Fui apenas como uma voz, senhor.”
“Mas parece ter sido mais do que isso ao conquistar a confiança dos homens em seu distrito. Sei reconhecer um organizador quando vejo um. Observei o rosto daqueles homens quando o senhor se apresentou diante deles. Eles têm fé no senhor. Essa é uma qualidade rara — a capacidade de inspirar fé nos humildes. Primeiro, a fé — e então eles o seguirão. O movimento que vou iniciar precisa de seguidores, Sr. Farr! O senhor pode fazer com outros homens o que fez com os homens do Décimo Primeiro?”
“Acredito que sim, senhor.”
“Ah, o senhor já liderou homens no passado, não é?” O Sr. Converse disparou a pergunta contra ele. Mas não tirou Walker Farr de seu equilíbrio. O jovem refugiou-se atrás daquele sorriso impenetrável.
“Bem”, suspirou o advogado, após uma pausa, “é o ditado de que se deve ser sábio como uma serpente na política; portanto, estou escolhendo um homem que provavelmente dará boas contas de si mesmo. Mas é uma loucura da minha parte — entrar nessa coisa — e posso muito bem mergulhar até o ponto da demência. Sr. Farr, a agitação rebelde neste estado precisa ser organizada. Precisamos de uma faxina. Precisamos dos eleitores mais humildes! Os homens com interesses estão muito bem cuidados pela Máquina para se interessarem. Quero que o senhor saia e procure pontos doloridos e chegue aos eleitores exatamente como fez em seu distrito. Encontre os homens certos em cada cidade para ajudá-lo. O senhor deve conhecer muitos por causa do seu trabalho na associação de águas. A luta será financiada — o senhor não precisa se preocupar com isso. Talvez o senhor já tenha organizado revoltas políticas antes”, continuou Converse, ainda sondando astutamente. “Então me dirá qual honorário espera.”
“Minhas despesas — nada mais, senhor. Se eu tivesse algum dinheiro guardado, pagaria meu próprio caminho.”
“Penso”, declarou o Sr. Converse, aquecendo-se com o espírito de combate, olhando para o retrato do governador de guerra, “que seremos capazes de surpreender alguns dos sapos gordos da política neste estado, sentados tão confortavelmente sob suas folhas de couve. O senhor é um estranho, jovem, e enquanto realiza seu trabalho, os políticos tradicionais simplesmente piscarão para o senhor e não entenderão, espero, contanto que aja com discrição. É muito tolo da minha parte estar envolvido nesse assunto, senhor. Mas um homem da minha idade deve ter paz de espírito, e aquela reunião infernal em seu distrito me despertou. Além disso”, acrescentou ele, exibindo a acrimônia que até mesmo um bom homem precisa para estimular-se a uma luta honesta, “um político barato, há pouco tempo, jogou meu cartão com insolência e referiu-se em tons desdenhosos ao meu honrado pai.” Ele se levantou e deu a mão a Farr. “Terei reunido aqui em meu escritório às dez horas da manhã de amanhã alguns cavalheiros que defenderão a decência nos assuntos públicos assim que forem despertados. Por favor, compareça a essa conferência, Sr. Farr. Temos apenas um mês curto antes da convenção estadual, e devemos levar para lá pelo menos um número respeitável de delegados que Symonds Dodd não possa subornar ou intimidar.”
“Extraordinário — mais que extraordinário!” ponderou o Honorável Archer Converse, quando estava sozinho. “Daquela reunião — a uma investigação — de Dodd — a este jovem — tenho saltado de penhasco em penhasco como uma cabra montesa, sem nunca parar para tomar fôlego. E aqui nem sequer consegui descobrir exatamente quem ele é — e dizem que sou o melhor examinador deste estado! No entanto, mostrarei a Symonds Dodd que não sou de ser ridicularizado, mesmo que eu tenha que contratar patagônios nesta campanha.”
Até mesmo a cavalaria precisa ser temperada com um pouco de animosidade estritamente pessoal para alcançar seus melhores resultados!
O Coronel Symonds Dodd, subindo laboriosamente em sua limusine em frente ao bloco do First National, franziu a testa para um jovem porque o homem sorriu para ele de forma tão aberta enquanto passava. Em sua indiferença e desprezo geral pelos humildes, o coronel não vasculhou sua memória e não reconheceu aquela pessoa como o jovem que havia apelado a ele em seu escritório. O rosto parecia familiar e tinha algum tipo de lembrança desagradável conectada a ele; portanto, o coronel franziu a testa. Ele estava longe de perceber que aquela pessoa carregava na palma da mão o calor de um aperto de mão que, momentos antes, havia ratificado um acordo para dinamitar o trono político de Dodd.
Se algum vidente tivesse surgido ao lado de sua carruagem para prever o desastre, o coronel tê-lo-ia fulminado com um olhar de desprezo. Pois a Consolidated Water Company havia sido naquele dia entrincheirada mais firmemente do que nunca em sua autocracia por uma decisão proferida pela Suprema Corte. Uma cidade havia contratado os melhores advogados e lutado desesperadamente pelo direito de ter água pura. Mas a lei, conforme explicada pelos juízes, mantivera como inexorável a disposição de que nenhuma cidade ou vilarejo no estado poderia estender seu limite de dívida acima dos cinco por cento legais de sua avaliação, não importa para qual finalidade. A cidade buscou algum caminho, algum plano, até mesmo alguma evasão, para que pudesse assumir o sistema de água e dar ao seu povo água cristalina dos lagos em vez da água poluída do rio. A cidade apontou casos de febre tifoide, a torporosa inércia por parte do sindicato da água. Mas o tribunal só pôde, em última análise, apontar a lei — e essa lei em relação ao limite de dívida estava enraizada na constituição do estado — e uma lei fortificada pela constituição raramente é desalojada.
Apoiado pela lei, sustentado pelo poder político, possuindo homens e sacos de dinheiro, o Coronel Dodd foi para casa com grande serenidade. Ele até esqueceu sua meia hora bastante tempestuosa com o Honorável Archer Converse. Na verdade, cavalheiros da aristocracia do estado que se orgulhavam de sua ascendência eram considerados pelo Coronel Dodd como fanáticos impraticáveis; ele desprezava os pobres e odiava os orgulhosos — e chamava a si mesmo de um homem feito por si mesmo. E o Coronel Dodd estava firmemente convencido de que ninguém poderia desfazê-lo.
Ele passeou entre seus canteiros de flores naquela noite.
Walker Farr sentou-se em seu quarto estreito e estudou manuscritos com entrelinhas. Finalmente, ele sacudiu os papéis acima da cabeça, não alegremente, mas com amargura sombria.
“Esse plano resistirá à lei, e nenhum outro advogado jamais pensou nisso!” ele gritou, em voz alta. “Você tem um aperto de ferro sobre essas cidades e vilarejos, Coronel Dodd, mas eu tenho algo que forçará seus dedos a se soltarem!” Ele jogou os papéis para longe e cobriu o rosto com as mãos. “E eles me perguntam quem sou e não posso dizer-lhes”, soluçou ele.
XXIII
O PROFETA QUE FOI SUBESTIMADO
O primeiro farejador a encontrar o rastro de Walker Farr foi o veterano Daniel Breed, um velho cão de caça político que sempre viajava com patas abafadas e o nariz rente ao chão. Mas, quando ele foi à reunião do comitê estadual e dos Grandes Chefes com suas notícias, a recepção deles sugeriu que suspeitavam que ele estivesse inventando um bicho-papão político para conseguir um emprego. Disseram-lhe até que seus serviços como homem de campo não seriam necessários naquela campanha. E pode-se imaginar o efeito que essa notícia teve sobre o velho Daniel Breed, que fora um confiável manipulador de bastidores e articulador de convenções por um quarto de século.
“Vocês não querem dizer que estão tentando me jogar na pilha de lixo, querem?” ele exigiu. “Eu lutarei antes de ser descartado.”
“Olha aqui, Dan, são as ordens do coronel”, explicou o presidente. “Decidiu-se praticar a política de forma um pouco mais suave. Há muita conversa fiada circulando entre os fanáticos. Se houver algum trabalho externo, será realizado por novos rapazes que não são tão bem anunciados quanto vocês, velhos bodes. Queremos esconder a maquinaria este ano.”
“Essa é uma bela coisa de se dizer para mim, um homem que subiria em um balão e pescaria gaviões, sem fazer perguntas, desde que o comitê estadual me dissesse que ajudaria a ganhar uma convenção.”
“Mas estamos cuidando bem dos velhos, Dan. Vose está no escritório de pensões; Ambrose e Sturdivant estão no escritório do ajudante-general remendando os registros da Guerra Civil, com ordens para não terem pressa. E você será bem tratado.”
“Quero estar em campo”, insistiu Breed, ‘lambendo’ os lábios de forma importante. “Esses sujeitos são velhos caducos. Sou um político nato.”
Ele era uma figura interessante, este Honorável Daniel Breed. Ele tinha direito ao “Honorável”. Fora senador estadual por seu condado. Com seu andar lento, cabeça pequena demais para o corpo, nariz como um bico, boca encovada, olhos cavernosos e um chapéu leve empoleirado na parte de trás de sua cabeça estreita, ele sugeria uma águia lânguida, mansa e careca. E sua voz era um grasnido seco, nasal e queixoso — um som mais aviário do que humano.
“Digo a vocês que há fermento mexendo”, disse ele ao comitê estadual. “Há um sujeito que surgiu do Décimo Primeiro Distrito em Marion que é um tanto importante em organização. Ele finge ser estudante de direito no escritório do Arch Converse. Ele não é nativo. Não sei de onde ele vem. Ele ainda não é um eleitor registrado. Mas ele é um homem que precisa ser seguido.”
“O Squire Converse não está na política, Dan. Você está ficando delirante na sua velhice”, disse o membro do comitê do condado de Breed.
“Mas, bom Deus! Não há estatuto que o mantenha fora. Algo aconteceu para deixá-lo bem irritado. Alguns desses saltadores elegantes podem dar saltos terríveis quando a caixa é aberta, cavalheiros! É melhor prestarem atenção no que lhes digo!”
Os membros do comitê trocaram sorrisos.
“Vamos roubar um pouco do trovão dos sujeitos de luvas de pelica”, explicou o presidente. “Eles têm gritado sobre política de máquina e interesses interligados e métodos herméticos até que as pessoas estão resmungando sobre a corporação fechada que eles dizem que temos. Então, vamos mostrar a eles uma ou duas coisas. Nada como a franqueza e a casa aberta.”
“Droga, vocês nem sequer são honestos comigo — depois que pratiquei política com vocês por vinte e cinco anos!” Ele marchou até a mesa e bateu seus pequenos nós dos dedos duros nela. “É assim, cavalheiros”, disse ele, “e serei breve e direto. O que há de errado com a política quando um homem como eu, que sempre fui assim, é chutado dos conselhos?”
“Não precisamos mais de trabalhadores como você”, declarou o presidente.
“Mas ainda há política para praticar, da mesma forma.”
“Mas de uma maneira diferente, Breed. Há as novas ideias, e novos homens podem operar com mais eficiência. Eles não atrairão atenção.”
“A solteirona Orne lá na minha cidade chegou tarde à igreja e subiu o corredor de mãos e joelhos para não atrair atenção. E ela acabou com a reunião!”
“Temos que aderir aos novos caminhos, Dan”, disse o procurador-geral. “Estes são tempos sensíveis. Devemos ser cuidadosos com o partido.”
“Eu nunca o desonrei, não é?”
“Tio Dan, queremos que você assuma uma posição confortável e se estabeleça”, afirmou o Governador Alonzo Harwood, um cavalheiro untuoso e rubicundo que estivera ouvindo, sorrindo seu sorriso eterno.
“Prefiro manter-me pronto para um chamado para o campo”, grasnou Breed. “Sou melhor que três desses jovens espertalhões. Eles não sabem como organizar!”
“Não há muita chance para organização”, disse um congressista, de forma apaziguadora. “As primárias cuidam de si mesmas muito bem.”
“Sim”, zombou o velho Dan, “um sujeito pensa bem de si mesmo, ou então seus vizinhos dizem que ele pode salvar a nação, e ele coloca um anúncio no jornal dizendo o quão bom ele é e coloca fotos suas em vitrines de lojas como um maldito ator de teatro, mantém um livro de contas e pensa que isso é política. Não me importo se nunca mais houver convenções. Essa coisa não vai durar. Quero manter-me em campo. Verei chances de enfiar gravetos nos raios dessas carruagens de aleluia em que estão rodando para a glória política!”
Os poderosos trocaram olhares — olhares de reprovação — olhares de apreensão.
“Vocês não acham que sou perigoso, acham, depois de tanto tempo na política?”
“Não, mas sentimos que os velhos cavalos de batalha têm o direito de correr para o pasto sem suas ferraduras”, persuadiu o presidente.
“Parece-me mais como me prender a um mourão em uma baia. Não sou ingrato, cavalheiros. Sei que este elemento mais jovem não acredita mais em chocar ovos na política. Agora é a incubadora — trabalho em atacado. Mas, por Deus! Minhas ninhadas sempre quebraram as cascas, doze por dúzia! Então vocês não me querem, eh?”
“Aquele emprego no escritório de terras do estado — pensamos que serviria exatamente para você”, sugeriu o presidente.
“Preferiria ser enviado para a prisão estadual — confinamento solitário. O estado não tem mais terras. Tudo foi vendido para os aproveitadores. Eu me misturei e me envolvi com homens durante toda a minha vida. Ninguém nunca vem ao escritório de terras. Vocês não têm medo de mim a esse ponto, têm?”
“O que você quer?” perguntou o governador.
“Está decidido, então, que vocês não me querem na política?”
“Não há nada para você fazer”, declarou Sua Excelência, e ele mostrou um pouco de impaciência, embora seu sorriso não desaparecesse.
“Bem, então façam-me bibliotecário estadual”, disse o velho Dan, com um ar de resignação.
Houve um silêncio profundo e horrorizado.
“Estou desenvolvendo instintos literários”, explicou Breed. “Tenho um filho que possui uma gráfica, e minha neta pode anotar qualquer coisa em taquigrafia e passar a limpo. Vou escrever um livro. Ela anotará e ele imprimirá.”
“Não posso nomeá-lo bibliotecário estadual”, disse o governador, recuperando o controle de suas emoções. “Essa nomeação já está comprometida. Mantenha isso sob sigilo, mas selecionei o Reverendo Doutor Fletcher, de Cornish, e já o notifiquei.”
“Dando um prêmio como esse a um pároco que nunca controlou mais do que um voto, e esse é o seu próprio — e depois votou da maneira que o diácono lhe disse? Acho que é exatamente como você diz — há novos tempos na política. Tudo bem! Vou escalar um arbusto de sumagre. Não precisam se preocupar com nenhum emprego para mim, cavalheiros. Vou me dedicar ao meu trabalho literário.”
“Qual é o livro?” perguntou o presidente.
“Tenho a palavra de vocês de que os velhos tempos na política já se foram”, disse Breed. “Todas as coisas antigas mortas e enterradas! Muito bem. Isso tornará meu livro valioso e interessante. Não há mal em publicá-lo nestes tempos. Vou intitulá-lo 'Manual de Maldade Política de Breed'. Contarei a história de como era feito quando a política era realmente política.”
“Vai contar tudo o que sabe?” perguntou o governador.
“Claro. Verdade, e não poesia, será meu lema. E só para testar o quão popular será, gostaria de perguntar a vocês, cavalheiros, quantos de vocês assinarão um volume?”
“Acho que este comitê levará a edição inteira”, disse o presidente, secamente.
“Olha aqui, Dan”, disparou o procurador-geral, “você deve estar brincando.”
“Não sei o que lhe deu a impressão de que sou um humorista”, respondeu Breed. “Se não haverá mais nada parecido com os velhos tempos, então qual é o problema em ter a história de como era feito? Esse livro venderá como pão quente. Vou sair e vendê-lo — isso me dará a chance de continuar misturando-me e me envolvendo com homens.”
“Dan, se não fosse você falando — conhecendo-o bem — eu diria que isso é uma forma de chantagem”, declarou o procurador-geral. “É claro que você não pode publicar um livro desse tipo neste estado.”
O Sr. Breed piscou os olhos com raiva.
“Aceitarei todos os casos de difamação contra você e não cobrarei um centavo dos meus clientes.”
“Encher o pequeno copo de lata de todo mundo, eh? Passando para todo mundo uma garrafa e uma chupeta! Todo mundo recebendo o seu, e eu deixado de fora! Tudo bem. Se essa é a gratidão política nesses novos tempos, continuem com seus truques! E ano passado eu conquistei as seis convenções do interior que lhes deram a pluralidade na convenção conjunta!”
“Apreciamos todos os seus serviços passados, Dan. Se não apreciássemos, não estaríamos nos esforçando tanto para colocá-lo em algum lugar”, disse o governador. “Estamos cuidando de todos os velhos. Você não deve nos envergonhar. Nestes dias, é para o bem do partido colocar em cada cargo o homem que é especialmente adequado para ele. Não devemos convidar críticas. Um bibliotecário precisa de qualificações peculiares.”
“Bem, o velho Jaquish era bibliotecário, não era? E ele nem sequer ia votar a menos que você fosse lá e o arrastasse para as urnas pelo pescoço. O que ele fez pelo partido? E olhe para o velho Tomdoozle como tesoureiro estadual!”
“Jaquish era um livreiro, e nosso tesoureiro estadual... mas não importa. Agora escute! Vou colocá-lo à frente de um novo departamento na Casa do Estado, onde você não ficará solitário. Mais pessoas virão lá do que na biblioteca. Você terá o título de curador.”
“O que é isso?” perguntou Breed, desconfiado. “E o que é o departamento, afinal?”
“O museu de história natural nas salas de peixe e caça. Vamos torná-lo completo — espécimes montados de todos os nossos animais. Você será o curador — veja, você ganhará um título que soa bem!”
“Tenho uma disposição inquieta e inquisidora, e minha especialidade é política”, declarou Breed, emburrado. “Não acredito que vou gostar de ser mestre de cerimônias de um monte de animais empalhados, não importa que tipo de título eu ganhe. Quanto de pagamento vem com o emprego?”
“Quinze mil”, disse o governador.
“Bem”, suspirou Breed, “isso me dará a chance de estar perto da Casa do Estado durante a sessão, e eu aceitarei. Então, se eu não gostar, posso renunciar depois que a legislatura encerrar.”
Os Grandes compreenderam seu estado de espírito e ignoraram sua ingratidão.
“E assim, despeço-me, cavalheiros”, disse ele, e saiu com as pernas abertas, com as mãos sob as abas do paletó.
“Então o tiramos do caminho e o impedimos de causar problemas”, afirmou o governador. “Isso cuida de todos eles, e estou aliviado. Não é mais elegante vir à cidade com um monte de velhos cães trotando sob a traseira da carroça política.”
Mas antes do final daquela semana, o governador foi obrigado a chamar o Tio Dan para uma conferência privada na Câmara Executiva.
“Você deve se lembrar que é um funcionário estadual”, avisou Sua Excelência. “Você é parte da administração. Mas você está falando de política o tempo todo. Quero que você fique no seu departamento. Lembre-se apenas que você é o curador do nosso museu.”
“Não gosto desse emprego maldito”, reclamou Breed. “Não me importa qual é o meu título, só significa que tenho que tirar o pó daquele velho mergulhão empalhado, manter as traças longe daquele lince, e pulgas ou algum tipo de inseto daquele alce. Não é emprego para um político. E há um fluxo constante passando por lá, me fazendo todos os tipos de perguntas sobre animais. Não sei nada sobre animais. Não sei se um alce vivo come feno ou fígado picado. Essas perguntas me deixam todo atordoado. Isso me coloca em uma posição errada perante o público. Não posso dizer-lhes qual ou o quê, e eles pensam que estou perdendo a cabeça.”
“Estude! Isso o manterá ocupado. Pegue livros na biblioteca e leia. Informe-se e tenha uma história para o pessoal!”
Poucos dias depois, o presidente do comitê estadual tinha um relatório indignado a fazer ao governador sobre as atividades de história natural do Tio Dan.
“Ele transformou aquele museu em um espetáculo de circo, Excelência. Ele deu a cada um daqueles animais empalhados o nome de alguém da política de quem não gosta, e conduz uma multidão de curiosos que riem pelos cantos ao redor da sala enquanto dá suas palestras. Quando um funcionário público batiza um lince canadense de olhos arregalados com o meu nome, e então as pessoas sobem daquele porão e dão risadinhas para mim, é hora de dar um basta.”
Sua Excelência chamou Breed e exigiu um basta, usando uma linguagem enérgica.
“Eu me demito”, declarou o velho Dan, contraindo sua boquinha em forma de orifício sob o gancho do nariz. “Aqueles animais estão me deixando nervoso. O bando inteiro está me perseguindo em pesadelos toda vez que vou dormir. Seus malditos olhos de vidro estão me perfurando pior que sovelas. Vou continuar com aquele meu livro. Tive uma ideia nova para ele. Vou incluir fotos de animais e dar a eles os nomes desses impostores de araque que nunca conseguiriam um cargo se não fossem as primárias.”
“Olhe aqui, Breed, você é um homem velho e fez muito bom trabalho em seus dias, e todos nós estamos tentando fazer algo por você. Mas quase cheguei ao limite da minha paciência. A política não é o que costumava ser. Outros costumes, outros homens. Sou o chefe do nosso partido e ordeno que se elimine. Volte ao seu trabalho, use o bom senso e fique fora das coisas! Você está agindo como um tolo — você está senil!”
“Você me tirou de onde eu pertencia e me colocou onde não pertenço, e agora está me culpando porque não consigo aprender muitos truques novos na minha idade. Eu me demito, eu disse!”
“Se você desistir desse emprego, nunca conseguirá outro.”
O Tio Dan colocou as mãos sob as abas do paletó e marchou para fora, com o bico empinado no ar.
“O problema é”, confidenciou ele ao velho Sturdivant no escritório do ajudante-geral, “que esse elemento mais jovem que está surgindo acha que homens como você e eu perdemos toda a nossa capacidade e influência. Eles estão nos bajulando por todos os lados, dizendo como querem que tenhamos um trabalho fácil. Mas tudo não passa de um insulto maldito — é a isso que se resume.”
“Tudo o que tenho a fazer é colar etiquetas e consertar os lugares onde esses rolos estão rasgados”, disse o velho Sturdivant. “Estou perfeitamente contente.”
“Então fique onde te colocaram e engula o insulto”, retrucou Breed, com desprezo. “Pensei que você tivesse mais iniciativa. Há um coelho empalhado naquele museu. Ele será um bom companheiro para você na sua hora de folga. Vá e sente-se com ele.” Ele foi até a mesa do velho Ambrose. Ambrose estava numerando páginas dobradas com um carimbo de borracha e não admitia ter sido insultado pelo comitê estadual. “Ninguém tem o direito de me pedir para parar de ser ativo e influente neste estado”, insistiu Breed. “Eles não levaram meu orgulho em consideração. Não sou naturalmente um encrenqueiro. Sempre obedeci a ordens. Se tenho que sair sozinho e mostrar a eles que a velha guarda não pode ser insultada, então eu o farei.”
Desta vez, ele seguiu a trilha de Walker Farr mais uma vez e perseguiu aquele jovem enérgico até encurralá-lo.
Farr ouviu com interesse a história da demissão do Honorável Daniel Breed, conforme relatada pelo próprio cavalheiro.
“E a moral da história é”, acrescentou o Sr. Breed, “quando uma gangue te sacaneia, vire-se e jogue um pouco de lama nos que jogam lama. Essa não é a regra na religião, mas é a política natural e correta na política. Fui ferido em meus sentimentos mais profundos. Se aqueles animais estivessem vivos e ferozes o suficiente, eu os teria levado para a sala do comitê estadual e os teria incitado contra aqueles ingratos que tentaram tornar meus últimos dias infelizes. Conheço cada ponto doloroso neste estado. Você não os conhece a menos que tenha uma segunda visão. Posso levá-lo a cada homem que tenha uma contusão política nele. Santo Deus! Tenho aplicado cataplasmas nessas feridas há vinte e cinco anos. Você precisa de um homem como eu.”
“Admito que preciso de um homem assim. Sou um estranho no estado. Mas serei perfeitamente franco com você, Sr. Breed. Como sei que você não é um espião que quer se aproximar de mim para o benefício da quadrilha?”
“Você não sabe”, respondeu o Sr. Breed, serenamente. “Você tem que correr riscos na política. Estou correndo riscos ao me juntar a você. Quem é você exatamente e como veio parar na nossa política?”
“Estou me metendo na política porque os homens, mulheres e crianças estão sendo envenenados pela água da Consolidated. Isso é plataforma suficiente, não é?”
“Bem, acho que sim, sabendo o que sei das condições gerais. Você tem uma cabeça muito boa para a política, mesmo que não seja sincero na questão da água”, disse Breed, com a suspeita pronta de um político quanto aos motivos. “Você tem aquele discurso eloquente aí que vai render votos.”
“Quanto à minha personalidade, isso não tem nada a ver com o assunto. Sou apenas um agente. Você virá comigo e permitirá que o Sr. Converse lhe faça algumas perguntas?”
“Com certeza!” concordou o Honorável Daniel, com grande entusiasmo. “Na política, a primeira coisa a fazer antes de ficar realmente ocupado é ter uma boa conversa franca com o cavalheiro que diz 'Quanto?' e lambe o dedo indicador e começa a contar. Você entende, jovem, que estou na política há muito tempo. E eu não sou treinador de animais — sou um trabalhador de campo e posso ganhar meu salário.”
E em menos de uma semana, Walker Farr, que anteriormente lutava arduamente contra a falta de conhecimento no estado, descobriu que o Sr. Breed dissera a verdade. Os dois formaram uma equipe que despertou a aprovação total — a admiração maravilhada — do Honorável Archer Converse.
O poder de Farr de controlar e interessar os homens obteve resultados surpreendentes com o conhecimento exato de Daniel Breed sobre pessoas e condições.
Mas eles eram cidadãos bastante humildes. Não houve alarde sobre seu trabalho. Se o Coronel Symonds Dodd sabia de alguma coisa sobre os incêndios que eles estavam provocando, ele não fez nenhum movimento para ligar a mangueira da Consolidated.
XXIV
A CÂMARA ESTRELA NO ANTIGO NATIONAL
Eles não vieram furtivamente, mas vieram discretamente — esses homens que chegaram ao National Hotel em Marion naquele dia.
De um lado da grande rotunda do National estava Walker Farr, seu olhar atento observando os homens que chegavam aos poucos, sozinhos, em duplas e trios. Eles não eram homens da cidade de Marion. Um repórter de jornal, por acaso no National, notou esse fato. Ele ficou por um tempo observando as chegadas constantes. Havia alguns que eram claramente homens de negócios, outros eram homens sólidos que traziam o selo das zonas rurais. Eles iam ao balcão, escreviam seus nomes e eram levados aos andares superiores pelos carregadores. A maioria deles, ao atravessar o saguão, acenava em saudação ao jovem alto que usava um sobretudo e um chapéu de aba larga e permanecia quase imóvel em um lado da rotunda.
O National era a Meca estadual para todos os tipos de convenções. O repórter estudou sua agenda. Nenhuma convenção estava marcada para aquele dia. Ele conseguiu dar uma espiada no registro do hotel. Os homens que estavam assinando seus nomes vinham de todas as partes do estado, mas o repórter não encontrou identidades que sugerissem atividades políticas. Claramente não era uma reunião de políticos — nenhum dos velhos figurões estava presente.
O repórter questionou alguns dos recém-chegados, correndo ao lado deles. Todos deram a mesma resposta — eles tinham vindo a Marion a negócios.
A resposta era segura, sucinta e impedia novas perguntas. O repórter arriscou escolher um homenzinho e perguntar que tipo de negócio o chamava a Marion, e o homenzinho informou-o com sarcasmo que ele era um padeiro de Banbury e tinha vindo comprar buracos de rosquinhas.
O repórter, então, esquivou-se para dentro do bar para escapar das risadas de parte da equipe do escritório, e sua pressa foi tamanha que quase atingiu as portas de batente no rosto de Richard Dodd, que estava saindo.
“Você é o primeiro político de verdade que vejo neste grupo”, afirmou o repórter. “Sobre o que é tudo isso?”
“Sobre o que é o quê?”
“Essa convenção que está se reunindo aqui.”
“Não sei nada sobre isso”, declarou o Sr. Dodd, com dignidade. “Não é nada de natureza política, posso garantir isso.”
O repórter notou que os olhos do jovem Sr. Dodd estavam vermelhos, que seu passo vacilava e que ele exalava o odor peculiar que emana de cavalheiros que prolongam por algum tempo o que é conhecido vulgarmente como uma “farra”. De fato, o repórter lembrou-se então do boato nos círculos jornalísticos de que o secretário-chefe do tesouro estadual vinha recorrendo a estimulantes em vez de ao trabalho há quase duas semanas.
“Garanto-lhe que sei tudo o que há para saber sobre política”, insistiu o Sr. Dodd. “Se há uma convenção aqui, quem a está dirigindo?”
Eles tinham retornado do bar para o escritório principal.
“Não sei — não consigo descobrir. Aquele sujeito alto ali parece conhecer todo mundo que tem chegado — todo o grupo de forasteiros. Mas nunca o vi antes.”
O Sr. Dodd fechou um olho para focar sua atenção neste desconhecido do outro lado do escritório.
Um brilho profundo de antipatia e desconfiança surgiu no olho que localizou e identificou Walker Farr.
O Sr. Dodd praguejou sem usar nomes, verbos ou informações.
“Ah, você o conhece, não conhece?”
“Não, não o conheço.” O Sr. Dodd manteve seu segredo vingativo obstinadamente. Ele deixou o repórter e foi sentar-se em uma cadeira e continuou a encarar Farr, que permanecia alheio a essa inspeção.
O repórter atravessou o escritório. Parecia haver um pouco mais ou menos de mistério sobre esse homem que provocara todas aquelas maldições do sigiloso secretário-chefe do tesouro.
“Você pode me dar alguma informação sobre esses homens que estão se reunindo aqui hoje?”
“Reunião da Associação Independente de Cultivadores de Milho.” O olhar do repórter era francamente cético, mas Farr encontrou-o sem um piscar de olhos.
“Nunca ouvi falar de tal associação.”
“Agora já ouviu, senhor.”
“É aberta aos jornais?”
“Portas fechadas — absolutamente privado.”
“Quem divulgará o comunicado?”
Farr colocou a mão no ombro do repórter e deu-lhe um sorriso.
“Veja, é para lutar contra o sindicato dos frigoríficos, então não estamos entregando nossa munição ao inimigo. Mantenha isso em silêncio e, quando a coisa explodir, darei a você o nosso lado.”
“Tudo bem, senhor. Se for para ser exclusivo para mim, afastarei os outros jornalistas. Mas você sabe exatamente por que Richard Dodd — aquele homem ali — está te amaldiçoando até as profundezas?”
Mesmo àquela distância, o olhar atento de Farr detectou os olhos baços e o rosto corado.
“Talvez seja porque os Cultivadores de Milho propõem colocar seu milho em pão de milho em vez de usá-lo para uísque?”
O jornalista, com suas suspeitas atenuadas pela natureza radiante e franqueza saudável de Farr, seguiu seu caminho, mas parou o suficiente ao lado da cadeira de Dodd para repetir a piada do “cultivador de milho” sobre o jovem que o observava com olhar fulminante.
Dodd levantou-se com tanta presteza quanto pôde comandar e foi até Farr. Sóbrio, o sobrinho do Coronel Dodd tratara aquela pessoa com um desprezo bastante elevado; bêbado, ele não era tão exigente em questões de casta — e, além disso, esse homem agora vestia o traje de um cavalheiro, e o jovem Sr. Dodd sempre dava muita importância às roupas.
“Olhe aqui, meu caro, agora que o tenho onde não preciso considerar a presença de senhoras, quero perguntar-lhe como você ousou se meter nos meus negócios particulares?”
Farr, elevando-se acima dele, brilhou sobre ele com indiferença tolerante e não respondeu.
“Esse negócio de Lochinvar pode soar bem em um poema, mas não funciona aqui em Marion — não quando se trata dos meus negócios e da minha garota.”
Dodd levantou a voz. Ele parecia estar prestes a se tornar um pouco histérico.
Farr colocou uma garra lenta, firme e imponente ao redor do cotovelo do jovem.
“Se seus negócios comigo puderem ser qualquer conversa sobre uma dama”, aconselhou ele, “é melhor você vir comigo para a sala de leitura.”
“É sobre uma dama”, insistiu Dodd quando eles entraram atrás de um expositor de jornais. A sala estava aparentemente vazia. “Você entende no que veio se meter, não entende?”
“Eu tomei como sendo um ensaio de um melodrama, concebido de forma rudimentar e interpretado de forma muito pobre.”
“Diga, você usa palavras bem grandes para um vendedor de gelo de vida baixa.”
“Diga seus negócios comigo, se tiver algum”, Farr lembrou-o. “Tenho outras coisas para fazer além de trocar conversa com um homem bêbado — e seu hálito é muito ofensivo.”
Dodd começou a bater um dedo no peito de Farr.
“Quero que você entenda que tenho todas as informações sobre você; você tem andado com um tratador de raquetes canadense, abandonou uma mulher, e ela cometeu suicídio, e você ficou com a pirralha —”
A mão grande de Farr soltou o cotovelo e se colocou ao redor do pescoço do Sr. Dodd. O polegar e o dedo indicador perfuraram sob o maxilar e a epiglote do Sr. Dodd parou de vibrar.
“Não gosto de agredir um homem, mas a conversa não parece se encaixar no seu caso e, de qualquer forma, não posso parar tempo suficiente para conversar. Este estrangulamento é meu comentário sobre suas mentiras.” Ele empurrou o Sr. Dodd implacavelmente para a cadeira mais próxima e bateu no rosto dele lenta e deliberadamente com a palma da mão. “E isso indicará a você o quanto eu me importo com suas ameaças. Você vai se lembrar disso por mais tempo do que se lembrará das palavras.”
Ele terminou e foi embora, deixando sua vítima recuperando o fôlego na cadeira. Dodd, espiando por baixo do expositor, viu-o apressar-se e juntar-se ao Honorável Archer Converse no saguão do hotel, e eles subiram as escadas largas juntos.
O secretário-chefe do tesouro estadual sentou-se lá e alisou seu rosto dolorido com mãos trêmulas e moveu os maxilares para desalojar a dor persistente em seu pescoço. Mas o rancor pungente e malévolo dentro dele queimava cada vez mais. Ele começou a se levantar da cadeira e sentou-se novamente, muito perturbado.
Um homem que estivera escondido por um expositor adjacente de jornais estava agora inclinado para a frente, projetando sua cabeça além do esconderijo. Ele era um homem idoso com um bigode grisalho virado para cima, e havia um sorrisinho estranho em seus olhos azuis astutos. Dodd o conhecia; ele era um tal de Mullaney, um detetive estadual.
“O que você está fazendo aqui — praticando seu trabalho de espreita?” exigiu o jovem. Como funcionário estadual, ele não tinha uma opinião elevada sobre a organização autônoma à qual Mullaney pertencia.
“Estou aqui lendo um jornal — supus que é para isso que serve a sala”, respondeu o detetive Mullaney. “Mas desculpe-me — vou sair. A sala parece estar reservada para boxeadores.”
“Mantenha sua boca fechada sobre isso — esse insulto.”
“Eu nunca falo — isso prejudicaria meus negócios.”
“Eu não luto em um lugar público. Sou um cavalheiro. Quero que você se lembre do que viu, Mullaney! Vou pegar aquele vagabundo barato de um jeito que ele não vai esquecer.”
“Você se importa em me dizer quem é seu amigo?” perguntou o detetive.
Dodd lançou-lhe um olhar lateral azedo e murmurou palavrões.
“Eu não pude deixar de me perguntar que tipo específico de negócio você e ele poderiam ter, vendo como foi transacionado”, continuou o detetive.
Dodd encarou o chão. “Olhe aqui, Mullaney! Há muita coisa sobre aquele homem que quero saber, se você puder me ajudar e manter sua boca fechada. Não tenho muita confiança no trabalho que vocês fazem — dizem-me que você não consegue detectar lama em suas próprias botas.”
O Sr. Mullaney puxou sua cadeira de trás dos jornais, recostou-se nela, cruzou as mãos sobre o estômago e sorriu sem qualquer traço de ressentimento.
“Eu poderia lhe dizer algo agora mesmo sobre aquele seu amigo alto que o faria pular, Sr. Dodd — sou detetive o suficiente para isso!”
“Diga-me, então.”
“Do jeito que está, é um palpite — um palpite considerável.”
“Quanto vale isso?”
“Muito no meu ramo. Tome esta cidade de cem mil habitantes! Sou o único homem nela que está fazendo de palpites sobre estranhos sua linha especial de trabalho. O resto dos cidadãos esbarra em todos os transeuntes e não está nem aí. Existem muitos milhares de homens neste país que a lei quer e que a lei não consegue encontrar. Aquele sujeito pode ser um deles, pelo que sei. Acho que ele é, por exemplo. Então, faço do meu negócio provar o palpite.”
“Você deve estar fazendo um negócio dos diabos!” zombou Dodd.
“Consigo fazer uma boa vida. Não falo sobre meus negócios, pois se eu contasse, não teria nenhum. Eu digo, eu acho! Então passo meu tempo livre procurando em meus livros de pistas. Há dez anos leio todos os jornais que consigo colocar as mãos. Venho aqui e estudo jornais de toda parte. Cada crime que foi cometido, cada homem procurado, cada rapaz que escapou, escrevo tudo o que consigo descobrir sobre ele. Então, se algo surge para me fazer palpitar sobre um homem, começo a procurar em meus livros.”
“Bem, se sou bom em palpites”, bufou Dodd, “aquele renegado que acabou de me insultar está em seus livros, em algum lugar. É melhor você procurar.”
“É um trabalho lento e consome tempo”, suspirou o Sr. Mullaney.
Dodd olhou para ele por um tempo e depois começou a puxar notas amassadas do bolso do colete. Ele endireitou cinco notas de dez dólares, dobrou-as em uma calha e estendeu a ponta para o detetive.
“Siga a trilha dele de volta. Nunca ouvi falar desse seu esquema de livros antes. Aceite este dinheiro como um começo. Se você não conseguir encontrá-lo em seus livros, escolha meia dúzia dos piores crimes que qualquer homem pode cometer e atribua a ele de alguma forma”, insistiu Dodd, com fúria. “Vá atrás dele. E quando o pegarmos bem direitinho, quero saborear a vitória através das grades. Ele é o primeiro homem que já bateu na minha cara — e farei com que ele receba o que merece.”
Ele deixou o Sr. Mullaney guardando o dinheiro em uma carteira grande que estava cheia de recortes de jornal. Ele correu para o bar, engoliu uma bebida e depois foi ao balcão do escritório e examinou o registro do hotel. A raiva e o desejo de vingança estimulavam nele um interesse vivo naquela reunião que Farr parecia estar promovendo. O Sr. Dodd não se importava especialmente que tipo de reunião fosse. Ele decidira acampar na trilha de Walker Farr e causar-lhe o máximo de dano que pudesse.
Dodd era um trabalhador político bem informado. Os nomes dos homens não eram nomes especialmente proeminentes na política estadual, mas suas suspeitas foram despertadas quando viu que todos os condados do estado estavam representados. E ninguém mais estava chegando. Ele decidiu que a conferência deveria estar em sessão.
Dodd evitou o elevador. Ele subiu as escadas largas até o andar acima do escritório. As portas do grande salão estavam fechadas. Ele girou a maçaneta cautelosamente; as portas estavam trancadas. Ele ouviu lá dentro o murmúrio abafado de muitas vozes — homens conversando. Era evidente que a reunião formal, o que quer que fosse, não havia começado sua sessão. Ele saiu da porta na ponta dos pés e subiu outro lance de escadas.
Não havia recantos e cantos do antigo National Hotel que Richard Dodd não entendesse em todas as suas complexidades. Como batedor político de seu tio, era seu trabalho conhecê-los.
Ele procurou ao longo do corredor até encontrar uma camareira.
“Tem alguém no Número 29?” perguntou ele.
“Dois daquele novo grupo que acabou de chegar estão lá, Sr. Dodd. Mas eles desceram novamente.”
Ele amassou uma nota na palma da mão e a enfiou na mão dela. “Deixe-me entrar com sua chave mestra, seja uma boa moça. Está tudo bem. Não vou mexer nas coisas deles. Só quero ouvir. Você entende! Há um jogo político acontecendo. Quero chegar àquela ventilação no armário — você sabe qual é!”
— Ah, se é apenas política, Sr. Dodd! — ela fungou, com o desprezo de uma moça que já vira muitas convenções irem e virem, conhecia os pequenos truques e desenvolvera pelo bando de políticos um desdém altivo; ela os via meramente como homens que falavam alto e tinham pouca consideração pelas camareiras de hotel, homens que enchiam seus quartos de pontas de charuto e garrafas de uísque. Ela começou a caminhar em direção à porta, balançando a chave mestra em seu cordão. — Se é apenas política, claro que pode entrar. Já deixei muito figurão entrar para ouvir sua ladainha lá naquela sala.
Dodd trancou a porta atrás de si.
Sentia-se inteiramente seguro, pois entendia que os legítimos ocupantes daquele quarto estavam trancados na sala abaixo. Ele subiu em uma cadeira no armário e encostou o ouvido na grade do ventilador.
Ouviu a voz de apenas um homem. Reconheceu seus tons secos — era o Honorável Archer Converse.
— Repito, senhores, que este interesse de vossas senhorias me surpreenderia se eu não tivesse sido preparado por relatórios de nossos agentes, tão bem comandados pelo Sr. Walker Farr. Lembrem-se de que esta é simplesmente uma conferência, anterior à organização. Cada um de vocês é um chefe nela. Sejamos calmos, discretos, sensatos e silenciosos.
— Não vou rever os detalhes da inquietação neste estado. O fato de que tantos de vocês estão aqui presentes, de todas as partes, é comentário suficiente sobre essa inquietação. Entendemos perfeitamente bem que um certo grupo de oportunistas se arrogou o controle supremo do partido. Um partido deve ser controlado, admito. Se esse controle estivesse nas mãos de homens honestos e patrióticos, não estaríamos aqui hoje.
— Não vou aborrecê-los com detalhes do que tem acontecido nos departamentos da nossa Casa do Estado. Os funcionários são os instrumentos da quadrilha e usaram mal o seu poder. Tenho medo do que possa ser descoberto lá quando a limpeza da casa começar. Mas a honra do nosso partido exige tal limpeza.
As mãos de Richard Dodd tremiam enquanto ele se agarrava às barras do ventilador.
— No entanto, estamos diante de algo, na forma de uma questão, que é maior do que a corrupção.
Agora, sua seriedade impressionava mais do que nunca o ouvinte na grade.
— Senhores, até certo ponto, a corrupção está destinada a ser fomentada e protegida por qualquer partido; mas quando um partido é usado para proteger e engrandecer aqueles que monopolizam os direitos de franquia do povo, é hora de os homens honestos desse partido serem homens em vez de partidários. Não permitam que esses monopolistas os mantenham na linha choramingando sobre lealdade partidária. E não deixem que eles os chicoteiem para entrar na linha com suas ameaças, também. Eu me recuso, por minha parte, por mais que ame meu partido, a ter sua etiqueta atada à minha orelha se essa etiqueta não estiver limpa!
A assembleia aplaudiu esse sentimento.
— Vou citar nomes, senhores. O Coronel Symonds Dodd tem este estado pela garganta. Com o Coronel Dodd estão todos os interesses financeiros — as ferrovias, as corporações, até mesmo os bancos de poupança. Ele está entrincheirado atrás daquela lei que limita o endividamento de nossas cidades e vilas. Os municípios não podem possuir suas próprias instalações sob as condições atuais. Esses homens estão até usando o próprio dinheiro do povo contra eles! Eles assustam os depositantes com ameaças de destruição financeira caso as condições atuais e os grandes interesses sejam incomodados por qualquer legislação.
— Devo avisá-los, senhores, de que há um caminho longo e difícil à nossa frente. Mas precisamos começar. Não tive a intenção de desencorajá-los expondo os obstáculos a serem superados.
— Expliquei-os para que, se fizermos pouco progresso no início, não nos desencorajemos.
— Organizaremos a inquietação predominante e a honestidade inata neste estado. Estabeleceremos uma filial do Clube do Tratamento Justo em cada cidade e vila. Deve ser feito com cuidado, conservadoramente e tão secretamente quanto possível. — O medo cauteloso do advogado de ter pressa demais agora se manifestava. — O máximo que podemos esperar fazer é enviar para a convenção estadual alguns homens que fermentarão essa massa da política de quadrilha. O uso e a tradição do partido são tão fortes que devemos renomear o Governador Harwood, suponho, para um segundo mandato de cortesia.
— Acho que podemos fazer melhor — gritou uma voz.
— Possivelmente — retrucou o Sr. Converse, secamente —, mas devemos fazer esse 'melhor' com cuidado e lentamente. Na política, senhores, não podemos transformar o ogro em santo apenas agitando a varinha mágica e esperando que o encanto opere instantaneamente. Possivelmente podemos controlar a próxima legislatura. Não sei exatamente que legislação seremos capazes de elaborar e aprovar, mas espero por inspiração.
— Direi agora que estou com vocês. Minha bolsa está aberta. Comandem meus serviços para todas as questões de direito. Estabelecer-me-ei na capital para a sessão legislativa.
— Mas há uma coisa que não farei em circunstância alguma — não aceitarei cargo político.
— Pode apostar que não — murmurou o jovem Dodd, na grade. — Você não seria eleito nem para cuidar da carrocinha na cidade de Bean Center.
Mas, se o Sr. Dodd pudesse ter visto através daquela grade tão bem quanto podia ouvir, teria ficado muito interessado naquela hora na expressão no rosto de Walker Farr. O rosto não era exatamente o rosto de um profeta, mas tinha uma grande quantidade de resolução escrita sobre ele.
— Não quero ser o primeiro a jogar água fria em nossas perspectivas — declarou uma voz, depois que o Sr. Converse anunciou que a reunião estava aberta para discussão geral; — realmente parece-me que temos uma boa chance de obter o controle da próxima legislatura. Mas, depois que obtivermos o controle, que perspectiva há de aprovar qualquer legislação que nos ajude? Onde quer que haja um sistema de água neste estado, o município foi tão carregado de dívidas que nossa política de máquina despejou nele que o limite legal de dívida foi atingido. A única maneira de essa questão da água ser resolvida é tirando os sistemas desses monopolistas — tornando-os propriedade de vilas e cidades. Mas se as vilas e cidades não podem mais pedir dinheiro emprestado, como isso será feito? O Sr. Converse não nos disse! Podemos limpar a política, talvez, mas parece-me que nunca seremos capazes de limpar a sujeira mais perigosa e infame.
No silêncio que se seguiu, irrompeu uma voz que fez Dodd, com o ouvido na grade, ranger os dentes. Seu ódio reconheceu aquele orador. Era Walker Farr.
— Peço desculpas por me aventurar a falar nesta reunião — disse ele. — Mas, se a pergunta daquele cavalheiro não for respondida aqui e agora de alguma forma, temo que os homens saiam desencorajados. Ouvi a mesma pergunta, Sr. Converse, enquanto viajava pelo estado ultimamente. Pensei sobre este assunto constantemente, à minha pobre maneira. E porque entrei no trabalho de ponderar com a mente aberta é a razão, talvez, pela qual uma ideia estranha me veio. Sabe, dizem que noções estranhas nascem da ignorância. A melhor maneira teria sido, possivelmente, submeter o plano primeiro à sua mente jurídica, Sr. Converse. Manterei silêncio agora e consultarei o senhor, se achar melhor. — Seu tom era saudoso.
— Fale abertamente na reunião — gritou a voz cordial do Sr. Converse. — Liberdade de expressão e todos nós envolvidos na confiança — esse é o espírito deste nosso movimento!
— Já ocorreu a alguém formar um novo município apenas para fins de água? Estudei a constituição do seu estado, e a linguagem na qual o limite de dívida de cinco por cento é previsto, descobri, aplica-se estritamente a vilas e cidades. Suponha que os cidadãos de Marion, juntamente com as vilas adjacentes de Weston e Turner, todas elas agora servidas pela Consolidated, se unissem simplesmente como indivíduos para o propósito comum de possuir e operar sua própria instalação de água — formassem, digamos, um distrito de água?
— Um corpo político e corporativo independente? — Era a voz de Converse, e ela traía rápido interesse e algum espanto.
— Suponho que esse seria o nome legal, senhor. Não seria possível organizar tal combinação do povo, distinta de outras responsabilidades municipais? Então, se pudermos eleger os homens certos para nossa legislatura, podemos ir à Casa do Estado e pedir uma legislação que nos permita assumir os sistemas pelo direito de domínio eminente, fornecer um plano de avaliação justa, nos dar uma lei que torne os títulos do distrito de água um investimento legal para bancos de poupança. Em suma, senhores, repito, este plano nada mais é do que uma organização do território e das pessoas desejadas em um novo, distinto e separado município apenas para fins de água, deixando todas as outras formas de governo municipal seguirem suas funções costumeiras precisamente como se o distrito não tivesse sido organizado. Essa é a ideia, da melhor forma que posso expressá-la em poucas palavras.
Houve um longo período de silêncio.
Dodd, ouvindo os murmúrios de uma revolta que ameaçava todo o tecido político que o protegia, seu interesse limpando seu cérebro da névoa do álcool, podia imaginar a cena abaixo. Aquela assembleia estava olhando de olhos arregalados para Archer Converse, o homem mais bem fundamentado em direito do estado.
— É muito modesto chamar essa sugestão de ideia — afirmou o Sr. Converse, por fim. — Sr. Farr, se eu puder encontrar a lei necessária em nossos estatutos para apoiá-la, é uma inspiração.
Havia o toque de convicção em seus tons.
O Sr. Dodd deixou a grade e escapou do hotel.
Ele praticamente galopou para a sede no bloco do First National; sentia a convicção assustada de um político de que tinha algo muito importante para contar ao tio.
XXV
UMA MOÇA E UMA QUESTÃO DE HONRA
Tinha sido uma sessão prolongada.
O Juiz Ambrose Warren, advogado corporativo da Consolidated, recostou-se na cadeira e olhou para o teto sobre o pico da estrutura esquelética que ele erguera na frente do nariz com os dedos.
O Coronel Dodd olhou primeiro para o sobrinho e depois para o buquê em sua mesa.
O sobrinho tentara, por todos os métodos conhecidos pelo macho suplicante, ganhar apenas um olhar de retorno de Kate Kilgour; mas a jovem mantinha os olhos em seu caderno, mantinha o lápis acima da página e esperava por mais daquela conversa e declaração das quais ela fora a silenciosa registradora.
— Você acha que nos deu todos os pontos principais do que ouviu, não é, Sr. Dodd? — perguntou o juiz, voltando um olhar afiado para o jovem.
— Não consigo me lembrar de mais nada.
— Você acha que reconheceu as vozes suficientemente bem para ter certeza de que essa pessoa chamada Farr fez aquela sugestão nova em relação ao que foi chamado de 'distrito de água'?
— Não havia como confundir a voz dele — disse Dodd, com a malevolência de uma lembrança amarga.
Outro silêncio prolongado. Então o juiz perguntou, com os olhos novamente no teto: — Quem é exatamente esse Walker Farr?
Richard Dodd, mantendo espionagem ciumenta sobre todas as emoções e movimentos da moça, viu um rubor inundar suas bochechas; suas mãos tremiam. Ela levantou os olhos em um olhar rápido e ele detectou uma indagação ansiosa.
— Não sei quem ele é — rosnou o coronel.
— É melhor você descobrir — aconselhou o advogado corporativo.
— Por quê?
— É claro que essa coisa foi colocada para mim muito repentinamente. Só posso lhe dar uma opinião precipitada. Mas esse esquema tem possibilidades.
— Como advogado, você não quer me dizer que uma ideia maluca como essa pode ser aprovada neste estado contra a combinação que controlamos?
— Não será um caso de combinação, dinheiro e política, Coronel, quando chegar ao tribunal superior. Será lei. E lamento que você não possa me dizer mais nada sobre o homem que concebeu o plano. Eu gostaria de saber como ele o desenterrou.
— Mas um bando de piratas não pode se organizar assim e confiscar nossa propriedade! Vamos explorar os lagos. Vamos seguir em frente imediatamente. Mas será que o esquema daquele tolo pode capturar a Consolidated Water Company?
— Isso ainda será descoberto. Vou lhe dizer agora que acredito que uma organização de cidadãos em um distrito de água independente pode ser feita legalmente e ser independente de outras dívidas. Coronel Dodd, se essa oposição obtiver o controle da próxima legislatura, você pode contar que a legislação necessária será aprovada. Podemos olhar os fatos de frente: eles estão ficando muito inquietos neste estado; as pessoas foram mantidas cercadas pela Máquina muito efetivamente até hoje — mas mostre-lhes agora um lugar onde possam pular a cerca e eles vão fazer isso.
— Mas qual é a utilidade de lhe pagar vinte e cinco mil dólares por ano por lei se você não consegue manter as barras levantadas? — O tom era o do tirano impaciente.
— Por favor, lembre-se de que essa coisa provavelmente irá para o tribunal dos Estados Unidos. Quando você entra lá, você tem que deixar suas armas secundárias da política — influência e carteira — na porta. Direi isto: a Constituição Federal garante proteção contra qualquer ação irregular, ilegal ou confiscatória sob autoridade estadual. Ou seja, nenhum estado deve aprovar qualquer lei que prejudique a obrigação de contratos, nem qualquer estado deve privar qualquer pessoa de vida, liberdade ou propriedade sem o devido processo legal, nem negar a qualquer pessoa dentro de sua jurisdição a igual proteção das leis. Agora, é claro, uma corporação é uma pessoa no significado da lei e, portanto, podemos levar o assunto à Suprema Corte dos Estados Unidos, mas quero lhe dizer que, se a próxima legislatura promulgar uma lei permitindo distritos de água e as autoridades estaduais prosseguirem para condenar suas instalações, é melhor você se preparar para sair debaixo. Você é um homem astuto e entende o espírito destes tempos em relação a dar ao povo seus direitos totais em serviços públicos. Digo novamente, é melhor você ficar de olho nesse Walker Farr, porque é um caso de ignorância inspirada ou então ele é um homem profundo. Ele começou com um plano que pode ser defendido pela lei — e os juízes nestes dias estão devolvendo ao povo seus direitos e propriedades quando há uma oportunidade legal.
— Ora, esse Farr é um nada — ninguém. Cavou em nossas trincheiras por um tempo até ser demitido. Briggs o investigou para mim. O único homem nesta cidade com quem ele teve alguma intimidade é um velho canadense chamado Provancher que cuida da grade lá no Gamonic Mill. Você pode julgá-lo pela companhia que ele mantém.
— Bem, ele parece estar confraternizando com homens melhores agora — arrastou o juiz. — Archer Converse, por exemplo!
— O que deve ser feito — sugeriu o jovem Dodd, ainda observando a moça — é conseguir algo sobre aquele vagabundo e chutá-lo para fora da cidade ou colocá-lo na cadeia. Deve ser fácil o suficiente.
— E será atendido — declarou o coronel, com veneno. — Mataremos aquele corvo e o penduraremos à vista de todos os outros grasnadores! Vou armar algo para aquele sujeito e fazer com que todos os jornais do estado imprimam — e o todo-poderoso Converse ficará tão enojado que desistirá, e o resto da multidão terá vergonha de continuar. Desonrar um reformador! Essa é a jogada mais certa na política! Precisamos pegar Farr!
Ele desviou seu olhar carrancudo das flores e encontrou a Srta. Kilgour olhando para ele com uma expressão em seus olhos que ele nunca vira lá antes. Reprovação e desprezo pareciam se misturar no olhar que ela lhe deu. Ele piscou, e quando olhou novamente, ela estava examinando a ponta de seu lápis; ele decidiu que sua visão lhe pregara uma peça estranha.
— A propósito, Srta. Kilgour — informou-a ele —, não precisa ficar. Faça duas cópias datilografadas — o juiz precisará de uma.
Richard Dodd levantou-se quando ela deixou sua cadeira, mas ela não olhou para ele. Ele começou a falar antes que ela chegasse à porta, incapaz de conter seu temperamento ciumento por mais tempo.
— Tio Symonds, espalhe a palavra para aquele velho Provancher, através do superintendente do Gamonic, que a menos que ele entregue tudo o que sabe sobre aquele Farr, ele será demitido. E eu tenho um caçador por minha própria conta. Será fácil o suficiente pegar o gambá e arrancar sua pele.
A Srta. Kilgour fechou a porta atrás de si com um clique mais nítido do que o que ela jamais dera àquela trinco antes. Ela correu para sua máquina de escrever em seu pequeno quarto e começou a trabalhar com toda a sua energia.
Ela estava tão ocupada e sua máquina batia tão viciosamente que ela não ouviu Richard Dodd quando ele entrou. Ele se incluiu sobre ela.
— Você já falou com sua mãe? Ela lhe deu algum conselho? — perguntou ele. Seu ciúme ainda o incendiava e seu tom não era conciliatório.
O desprezo no olhar que ela lançou para cima dele o despertou para a paixão. No estado de espírito em que ele se encontrava, ele não fazia concessões pela ignorância dela sobre as condições no caso de sua mãe. Ele sabia o que fizera por causa da Sra. Kilgour, e essa atitude por parte da filha o picava como uma ingratidão deliberada.
Ele colocou as mãos no teclado da máquina de escrever e interrompeu seu trabalho. — Eu te amo, Kate, e você sabe disso há muito tempo. Tentei lhe mostrar o quanto eu te amava. Sei que fiz uma coisa tola. Mas eu te amava. — Ele quase soluçou a protestação. — Tenho estado no tormento do inferno desde que aconteceu. Fui um tolo o tempo todo, mas não serei mais um tolo se você tiver pena de mim.
Ela não falou. Seu silêncio, seu desprezo absoluto, picavam mais profunda e seguramente do que palavras.
— Se você insiste em ser tão superior, vou trazê-la para baixo um pouco — ele zombou. — Odeio fazer isso, mas você tem que ser mostrada onde seus verdadeiros amigos estão. Dei à sua mãe uma chance de dizer algo a você, e dizer direito. Mas ela não fez isso, e eu não pretendo ser feito de bode expiatório. — Em sua raiva, ele não era refinado em sua linguagem. — Vá para casa e pergunte a ela se ela me deve ou não cinco mil dólares. Oh, você não precisa arregalar os olhos para mim desse jeito! É hora de todos nós chegarmos aos casos nesta coisa, Kate. Esperei por ela tempo suficiente. Ela simplesmente me enrolou. Agora ela tem que fazer sua parte.
— Você perdeu o juízo? — ela exigiu.
— Não! Mas perdi cinco mil dólares quando os emprestei para sua mãe. Kate, ela me disse que tinha um negócio de ações em andamento — que seria capaz de pagar de volta. Escute! Posso muito bem ir ao limite com você. Peguei dinheiro que não era meu para poder ajudar sua mãe — foi porque eu te amava. Agora você percebe o quanto eu te amei. Protegi sua mãe. E agora, pelos deuses, se você e ela não chegarem ao ponto nesta coisa e fizerem o que é certo por mim, eu vou expor por que ela precisava ser protegida, e depois disso você nunca mais dará um suspiro feliz em sua vida. Aconselhei você a falar com sua mãe uma vez antes. Desta vez, é melhor você fazer isso.
Ela se recostou na cadeira, pálida e trêmula, pois os tons dele traziam convicção.
— Eu odiava abrir essa coisa, Kate. Esperei muito tempo, esperando que você entendesse que eu seria um bom marido — que eu merecia ter você. Só estou falando agora para que você acorde. Você tem que apoiar o homem que apoiou você. Vá falar com sua mãe!
— Você não entende, Richard! — ela gritou, com a voz embargada pelo pavor e pelo choque. — Você fala de honra, e no entanto, você mesmo confessa ser um criminoso!
— Eu sou um homem prático — ele rebateu, desvencilhando-se do aperto dela com um movimento brusco. — A única coisa que importa é que o dinheiro desapareceu sob minha responsabilidade, e a única maneira de cobri-lo é através do seu casamento comigo. O resto é apenas conversa fiada, e não tenho tempo para isso. Ou você aceita, ou a polícia será informada sobre quem realmente se beneficiou daquele desfalque.
Kate olhou para a mãe, que soluçava no chão, e depois para o homem à sua frente, cujo rosto revelava a crueldade de um predador acuado. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do choro abafado de Mrs. Kilgour.
— Você acha que pode me forçar a isso com ameaças? — perguntou a jovem, sua voz ganhando uma frieza que surpreendeu a ambos. — Você se enganou a meu respeito, Richard. O que você chama de amor é apenas uma transação, e o que você chama de desespero é apenas a sua própria covardia.
— Chame do que quiser — ele retrucou, aproximando-se dela, com o rosto contraído pelo ódio. — Mas a realidade é que amanhã, se eu não tiver a garantia de que esse arranjo será mantido, a história estará nos jornais. E a sua mãe irá para a cadeia. Escolha: um casamento comigo ou a ruína dela.
Kate sentiu o peso do mundo sobre seus ombros. Ela pensou no estranho que conhecera na estrada, na bondade que, apesar de tudo, sentia emanar dele, e na sujeira que agora a cercava nesta sala.
— Eu preciso de tempo — ela sussurrou, sentindo-se derrotada, mas mantendo a cabeça erguida.
— Você tem até o amanhecer — ele disse, ajustando o paletó com um sorriso triunfante. — Não tente fugir. Eu estarei esperando.
Ele saiu da sala sem olhar para trás, deixando para trás o silêncio pesado e o desespero de duas mulheres presas na teia de um homem que não conhecia limites. Kate caminhou até a mãe e, sem dizer uma palavra, ajudou-a a se levantar, enquanto, em sua mente, o nome de Walker Farr surgia como a única luz em meio àquela escuridão.
“Ela desviou fundos da Dalton & Company. O que fiz a salvou da prisão e você da desgraça, Kate. E agora eu estou no buraco! Escute aqui! Há um preço terrível a ser pago neste estado agora! Os descontentes estão se unindo. Um homem acabou de me oferecer uma aposta alta de que haverá uma reviravolta nos departamentos da Assembleia Estadual. Não sei se isso acontecerá, mas você pode entender o tipo de tormento em que me encontro. Kate, você vai me deixar enfrentar isso sozinha?”
A moça permaneceu em silêncio e imóvel no meio da sala.
Ela não chorou nem desmaiou. Seu rosto não exibia emoção alguma. Estava branco como mármore.
“Você quer arrastar minha filha consigo para o fundo do poço?”, gritou a Sra. Kilgour.
“É melhor não falar sobre arrastar para baixo”, ele gritou, apaixonadamente. “Não roubei para mim mesmo. Dê-me seu amor, Kate! Dê-me a si mesma para me encorajar, e eu sairei dessa enrascada de alguma forma. Encontrarei meios. Mas se você não vier comigo, não terei a coragem nem o desejo de lutar para seguir em frente. Não a desgraçarei se você se casar comigo — eu juro que não! Com você para proteger de tudo, eu me endireitarei. Symonds Dodd é meu tio. Ele não permitirá que o nome da família seja manchado. Mas você precisa se casar comigo!”
“E se eu não o fizer?”, ela perguntou.
“Iremos todos para a perdição juntos. Não me importo! Vou colocar tudo a perder. Não serei desgraçado sozinho por causa de algo que fiz pela sua mãe. Posso parecer um canalha. Não me importo, digo! Eu vou ter você, e não me importa como a conseguirei!”
“Não precisamos ser tão dramáticos”, disse a moça. Alguma influência maravilhosa parecia estar controlando-a. “Mãe, pare com esse barulho e vá sentar naquela cadeira. Você exige, Sr. Dodd, que, para salvar minha mãe de ser exposta como uma mulher que roubou, eu deva ser sua esposa?”
“Exijo.”
“Você realmente quer uma esposa que foi conquistada dessa maneira?”
“Eu quero você.”
“Você percebe, plenamente, não percebe, o espírito com o qual me casarei com você?”
“Cuidaremos desse assunto depois de casados, Kate. Você gostava de mim. Você cuidará mais de mim quando recuperar o juízo a respeito disso.”
“Você se lembra do que meu pai fez em termos de sacrifício, suponho? Não era segredo neste estado.”
“Sim”, ele murmurou, acanhado sob o olhar fixo dela.
“Sou como meu pai em muitos aspectos — em muitos dos meus pensamentos. Talvez, se ele não tivesse me dado tal exemplo em termos de sacrifício, eu diria outra coisa a você, Sr. Dodd. Mas, como as coisas estão entre nós, considerando a exigência que você faz de mim, eu me casarei com você.”
A concessão foi atirada contra ele tão repentinamente — ele esperava muito mais rebeldia — que ele cambaleou onde estava. Ele avançou em direção a ela. Mas ela fez um gesto para que ele recuasse.
“Sente-se!”, ela ordenou. “Este assunto foi muito além do romance. Tornou-se uma questão de negócios. É uma questão de escambo. Tive alguma experiência em negócios. Você diz que minha mãe lhe deve cinco mil dólares que você tirou do tesouro estadual?”
“Sim, Kate.”
“E seus livros serão examinados com muito cuidado, é claro, se houver uma reviravolta em seu escritório?”
“Sim. Não será uma mera auditoria legislativa.”
“Sei algo sobre política, assim como sobre negócios, Sr. Dodd. Não posso deixar de saber, após minha experiência no escritório de seu tio. Suponho que a próxima convenção estadual determinará de forma bem eficaz se haverá uma reviravolta ou não?”
“Se renomearmos Harwood, isso deve nos dar uma boa base sobre o controle da próxima legislatura”, ele lhe disse. “Um vagabundo e um certinho”, ele acrescentou, com desprezo, “acham que provocaram uma revolução, mas eles que esperem para ver.” Ele havia sido acalmado por sua aceitação externa e prática da situação. Mas ele não percebeu os fogos da alma dela brilhando profundamente em seus olhos.
“Se o Governador Harwood for renomeado e a próxima legislatura estiver nas mãos de seu tio, como de costume, você terá certeza de permanecer em seu cargo?”
“Claro!”
“E você pode esconder a discrepância em seus livros do comitê de auditoria?”
“Tenho quase certeza de que posso.”
“Você compreende plenamente, não compreende, Sr. Dodd, por que, após todos os meus problemas nesta vida até agora, eu hesitaria em me casar com um homem com a prisão estadual pairando sobre ele?”
“Sim.”
“Se o Governador Harwood não for renomeado, esperarei que você adie nosso casamento até que possa sair de suas dificuldades. Haverá perigo, e não faz parte do acordo do meu sacrifício que eu passe por tal desgraça com você; de qualquer forma, não considero que o sofrimento adicional esteja no comércio e não concordarei com isso. Prefiro permanecer como estou e compartilhar a desgraça da minha mãe. Você concorda com isso?”
“Não gosto disso, mas suponho que terei que ser decente nesse assunto.”
“Mas se o Governador Harwood for renomeado na convenção, eu concederei um ponto de minha parte e me casarei com você imediatamente, partindo do pressuposto de que você será capaz de se limpar. Dessa forma, ambos estamos fazendo concessões — e tais coisas devem ser consideradas em uma barganha.” Ela estava friamente educada.
Ele fez uma reverência, sem saber exatamente que resposta dar a ela.
“Você me acusou de brincar no passado”, ela continuou. “Agora tentarei mostrar-lhe que posso conduzir negócios diretos como devem ser tratados. Devo fazer um memorando do nosso acordo e entregá-lo a você?”
“Não há necessidade disso”, ele gaguejou.
“Obrigada, Sr. Dodd. E agora que o assunto foi resolvido para nossa satisfação mútua, pedirei que vá. Acho que minha mãe precisa da minha atenção. E lembro-me de que nossa barganha não descarta o fato de que minha mãe lhe deve cinco mil dólares. Refletirei sobre como essa dívida pode ser paga — por seguro” — seu rosto ficou ainda mais pálido — “ou por algum arranjo.”
“Eu gostaria que você não dissesse tais...” Mas ela o interrompeu.
“Da minha parte, isso é estritamente negócios, Sr. Dodd, e devo considerar todos os lados. Darei ao assunto do dinheiro uma consideração cuidadosa. Tenho certeza de que podemos resolver. Eu simplesmente comprei o bom nome da minha mãe com a minha própria pessoa!”
Ele tropeçou ao sair da sala e seguiu seu caminho.
“Mãe, você e eu temos alguns pensamentos longos, muito longos, para nos ocuparmos antes de tentarmos conversar uma com a outra”, disse a moça quando as duas ficaram sozinhas. “Vou para o meu quarto. Por favor, não me perturbe até amanhã.”
Por uma hora, Kate Kilgour foi uma garota novamente, soluçando desesperadamente contra seu travesseiro, estendida sobre sua cama em um abandono de tristeza, dilacerada pelo conhecimento amargo de que estava sozinha em sua luta lamentável. Ela foi mais franca consigo mesma em seu pesar do que jamais fora antes. Ela confessou ao seu coração que, alguns dias antes, nem mesmo a situação desesperadora de uma mãe teria conquistado tal sacrifício quanto o que ela fizera.
Ela estava pronta para admitir que amava aquele jovem alto e misterioso cujo rosto refutara a suspeita de que ele fosse um mero vagabundo. Era estranho — era inexplicável. Mas ela havia deixado de se maravilhar com os caprichos do amor. Em sua prostração das energias mentais e da esperança, ela confessou a si mesma que o amava.
Mas agora, entre o rosto dele e o dela, enquanto ela fechava os olhos e reproduzia suas feições, delineadas em sua memória, aquelas palavras ardentes dançavam — havia uma “mamãe-de-brincadeira” que, com ele, amara a pequena menina chamada Rosemarie.
Contendo seus soluços, ela suspirou, e seu coração o rendeu.
Seu sacrifício tornara-se ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil.
Então ela se aconchegou perto de seus travesseiros e olhou para a noite que caía, e ponderou sobre o fato de que, se Walker Farr vencesse sua luta na convenção estadual, essa vitória colocaria um fim à sua pobre pequena trégua na questão de Richard Dodd.
Então ela teve certeza de que havia tirado Walker Farr de seu coração para sempre, porque descobriu que esperava que ele vencesse. A garota ainda não havia crescido para o conhecimento pleno da dinâmica de um amor verdadeiro e altruísta — ela não conhecia a si mesma plenamente.
XXVII
UM ACORDO PELA ALMA DE UM HOMEM
A população veio primeiro e lotou solidamente as galerias do grande auditório da cidade de Marion.
Por anos, as convenções estaduais do partido dominante atraíram pouca atenção do público. Tinham sido assuntos simples de rotina, endossando os homens e os princípios da Grande Máquina. O próximo governador fora preparado e anunciado ao paciente povo meses antes da data da convenção; plataformas protegendo os interesses eram coladas placidamente e secretamente e trazidas da câmara secreta para serem admiradas; e nenhum delegado era esperado ou autorizado a agitar uma tábua ou arranhar o verniz suave que fora passado sobre o privilégio egoísta.
Mas este ano vieram todas as pessoas que puderam se espremer nas galerias e corredores.
Abaixo, no andar principal, estavam mais de dois mil delegados. Cada cidade enviou o número total credenciado. Depois que esses homens foram acomodados, os homens e mulheres que lotavam os corredores e escadarias tiveram permissão para entrar e ficar no fundo do grande salão.
Histórias estranhas, rumores, previsões, corriam de lábio em lábio por toda a grande comunidade. Dizia-se que o trono do tirano estava ameaçado, finalmente, por uma rebelião que não eram apenas vapores dos inquietos e ressentidos; uma revolta organizada havia aparecido, marchando em silêncio severo, não revelando toda a sua força, e, portanto, ainda mais ameaçadora.
Uma banda militar bradava música incessantemente para os altos arcos do salão. A música servia como acompanhamento para o poderoso diapasão das vozes dos homens; os milhares conversavam enquanto esperavam.
A ampla plataforma do palco estava desocupada. Os oradores, o presidente, os secretários, os membros do comitê estadual, não apareciam, embora a hora marcada como o momento de chamar a reunião à ordem chegasse e passasse.
Em uma antecâmara, tão distante do salão principal que apenas o som abafado das vozes e os ecos esfarrapados da música estridente chegavam lá, estava reunida a oligarquia do estado, aguardando o prazer do Coronel Symonds Dodd.
Ele estava sentado em uma cadeira grande, sua figura atarracada lotando os limites dela.
O comitê estadual e o restante de sua comitiva estavam reunidos ao redor dele.
Havia um membro do comitê de cada condado do estado — os homens que formavam as engrenagens motrizes de sua máquina.
Um após o outro, eles haviam se reportado a ele.
E cada vez que um homem terminava de falar, o coronel batia um punho sólido no braço da cadeira e rugia: “Digo novamente que não acredito que seja tão ruim quanto vocês calculam. Não pode ser tão ruim. Vocês me dizem que este partido será virado de cabeça para baixo por um aristocrata de luvas de pelica que quase não saiu de seu escritório durante esta campanha?”
“Ele teve um rapaz para fazer seu movimento por ele”, declarou um do grupo.
“Um vagabundo, escória da ralé, vindo de lugar nenhum! Exposto em nossos jornais como um escavador de valas — um aventureiro — um ninguém! Tenho vergonha deste comitê estadual, vindo aqui e me dizendo que ele teve permissão para influenciar alguém.”
“Coronel Dodd, o que vou dizer a você pode não soar como política como costumamos falar”, declarou um membro do comitê, uma pessoa de cabelos grisalhos e óculos que tinha o semblante grave de um estudante, “e não é admitido com muita frequência por políticos regulares que correm com a máquina. Mas estamos enfrentando algo que aconteceu neste estranho mundo nosso muitas vezes. Tivemos a melhor organização aqui neste estado que uma máquina já reuniu. Mas na política americana é sempre justamente quando a máquina está funcionando melhor que algo acontece. Algo é jogado na engrenagem, e geralmente é feito pelo último homem que você esperaria que o fizesse. Os sujeitos que estão cuidando da máquina estão ocupados demais observando aquela parte da multidão que acham perigosa, e então o sujeito discreto escapa com uma.”
“Não quero nenhuma palestra sobre política”, retrucou o chefe. “Você quer insinuar que aquele Farr de baixo nível colocou isso sobre nós?”
“Eu investiguei até o fundo das coisas e digo que sim, Coronel Dodd.”
“Como diabos aquele sujeito conseguiu alguma influência? Não tenho conseguido acreditar que ele tenha realizado alguma coisa.”
“Você deveria ter nos ouvido um pouco mais atentamente, Coronel”, insistiu o membro do comitê. “De tempos em tempos, surge um homem que o povo seguirá. E ele nunca é o homem rico nem o homem orgulhoso, mas é aquele que sabe como alcançar os corações da multidão. Um político astuto pode obter poder construindo sua máquina. E então algum sujeito de macacão que tem algum tipo de qualidade dada por Deus que ainda não foi explicada para que possamos entender, surge como um cometa. Pode ser seu jeito de falar com os homens, pode ser sua personalidade — é mais provável que seja uma centelha divina nele que nem ele mesmo nem outros homens entendem. Mas de tempos em tempos algum sujeito humilde como esse mudou a história do mundo, e acho que é muito fácil para tal homem mudar a política de um mero estado.”
Seus associados estavam olhando para ele e o Coronel Dodd estava lançando olhares furiosos. Ele havia falado com entusiasmo. Ele parou de repente.
“Peço perdão. Não pretendo ir tão longe. Mas sou um estudante de história e li muito sobre líderes natos.”
“Você evidentemente sabe mais sobre história do que sobre política”, rosnou o coronel. “Este comitê estadual inteiro não parece saber muita política. Se vocês permitiram que aquele Farr se arrastasse sob o disfarce e os derrotasse em seus próprios condados, tratarei de garantir que tenhamos um novo comitê estadual.”
“Tenho uma ideia de que aquela convenção lá fora cuidará da questão de um novo comitê estadual para nós.”
A voz do novo orador era muito suave. Seu apelido na política estadual era “Saunders Sussurrante”. Ele era conhecido como o mais artístico “sorrateiro” político do partido. Afirmava-se que ele podia calçar botas de borracha e correr duas vezes ao redor da Assembleia Estadual sobre uma queda fresca de neve leve e não deixar rastro.
“Se sou algum tipo de farejador — e acho que é admitido que sou”, ronronou Saunders, “estamos derrotados antes da largada em cada delegação de condado naquele salão.”
“Mas qual tem sido o problema de vocês, sujeitos, o tempo todo?”, explodiu o chefe. “Até agora vocês têm relatado simplesmente que os descontentes estavam resmungando e não estavam se unindo de forma a serem perigosos.”
“Você já tentou recolher sabão macio do chão de um porão com uma agulha de tricô?”, perguntou o político. “É assim que tem sido neste caso. Cada homem com quem falei era escorregadio. Conheço tempos escorregadios quando os vejo. Eu estava com medo, mas esperava pelo melhor. Agora que eles estão aqui, com esta convenção prestes a ser chamada à ordem, eles não são mais escorregadios. Eles não precisam ser. Acabei de passar pelo salão da convenção. Eles estão abertos — e estão contra nós.”
“Aquele Farr tem uma procuração de um delegado do Décimo Primeiro Distrito e está no salão”, afirmou outro.
“Mas ele não é um eleitor.”
“Ele não era há pouco tempo, mas é hoje, Coronel. O conselho de registro teve que colocar seu nome nos livros — ele viveu aqui tempo suficiente para se tornar um eleitor.”
O Coronel Dodd olhou de rosto em rosto. Era claro que ele estava irritado em vez de consternado; ele era como um touro acuado, sacudindo os dardos perfurantes de seus ombros. Ele deu uma olhada rápida em seu relógio. Eram vinte minutos após a hora marcada para a convocação da convenção. Ele podia ouvir a banda distante ainda rugindo bravamente para matar o tempo.
Um gigante de homem se levantou — um homem frio, um tanto cínico. Ele era o presidente do comitê estadual.
“Eu estava esperando até que todos esses senhores superassem o pânico em seus sistemas — ou, pelo menos, tivessem dito tudo o que podiam pensar sobre esse pânico, Coronel. Agora podemos seguir em frente e fazer negócios reais. Não tivemos uma batalha neste estado por muito tempo, e esse pânico pode ser desculpável. Dizem que os homens que estão mais assustados antes da batalha fazem a melhor luta depois que entram na briga real. Admitirei que a situação no estado tem sido um pouco escorregadia, como Saunders disse. E alguns homens ousaram fazer muito barulho desde que chegaram aqui nesta cidade. É uma coisa tão estranha que deixou todo mundo em pânico. Os chineses são sábios — eles mostram dragões ao inimigo, mas os dragões são apenas de papel. Não pensaria que o inimigo poderia ser assustado dessa maneira, eh? Mas olhem para este bando de membros do comitê estadual! Um 'líder nato' de papelão montado, e Archer Converse soprando fumaça pelas narinas daquela efígie! Cavalheiros, vocês deveriam se envergonhar de si mesmos!”
O Coronel Dodd bufou em aprovação enfática.
“Vocês estão falando como crianças. Gritos e rosnados não podem levar esta convenção. Aquela multidão não tem nem mesmo um candidato a governador. Vocês ouviram algum ser mencionado?”
“Não suponho que eles ousariam ir tão longe”, disse um dos membros do comitê. “O Governador Harwood, pelo uso do partido, tem direito a uma renomeação, é claro. O que eles planejam é um novo comitê estadual e uma plataforma que incluirá reformas.”
“Huh! Sim! Tanto doce listrado! Dê a eles. Então temos apenas vinte e quatro homens para manipular da maneira que sempre manipulamos os comitês estaduais — e mesmo aquela multidão não consegue encontrar santos e arcanjos para seus candidatos! E quanto a uma plataforma política — bah!”
Era a estimativa cáustica do político prático sobre as condições.
Então o presidente juntou-se, reforçando essa visão superciliosa: “Quanto a essa legislatura — quantos projetos de lei foram aprovados em nossa legislatura após um veto do governador depois que fizemos nosso trabalho? Teremos um homem seguro para governador. Os pulmões daquela banda não durarão para sempre. Coronel Dodd, você está pronto?”
Se a revolta e o espírito de ressentimento e rebelião existiam naquela assembleia, que os magnatas do partido enfrentaram quando marcharam para a plataforma, o tumulto de aplausos cobriu todos os aspectos externos sinistros. A rotina da convenção foi iniciada: o secretário leu a convocação da convenção, a organização foi aperfeiçoada sem protesto, e o orador do dia, como presidente provisório, um senador conservador dos Estados Unidos, começou seu “discurso principal”. Era um documento que estava em provas de impressão há uma semana, e que todos os trabalhadores do partido, do Coronel Dodd para baixo, leram e aprovaram. Portanto, quando Richard Dodd entrou por uma das portas laterais e veio na ponta dos pés através da plataforma e tocou o braço do coronel e deu um pedido enérgico para que o coronel o seguisse, o coronel seguiu, feliz por uma desculpa para estar ausente enquanto o senador fulminava.
O rosto do jovem Dodd estava corado e agitado de excitação. Ele apressou seu tio para uma pequena sala de repouso e trancou a porta.
“Peguei seu homem, tio”, ele declarou.
“Que homem?” O coronel estava mal-humorado e indiferente.
“Seu homem Farr.”
“Eu não o reivindico.”
“Mas você disse que queria. Você disse que queria pendurá-lo como um corvo morto na plantação de feijão política.”
“Apenas uma insanidade momentânea da minha parte, Richard. Parece ter havido um pequeno surto disso neste estado, e quando o Juiz Warren o pegou e passou para mim, falei como um tolo, suponho. Mas você deve lembrar que um gambá pode dar ao homem mais sensato um susto tremendo — e então o homem sensato contorna o gambá e segue seu caminho muito calmamente.”
“Mas você não considera que Farr é um homem perigoso?”
O coronel ergueu a mão gordinha e estalou um dedo na palma da mão. “Ele equivale a isso diante da boca de um canhão de dez polegadas.”
“Mas eu segui em frente depois do que você disse. Gastei tempo e dinheiro. Contratei um detetive. Achei que estava fazendo um bom trabalho para a máquina.” A voz do jovem Dodd tremia e a decepção estava gravada em seus traços ansiosos.
“Bem, o que você descobriu?”
“Não posso lhe contar. É o segredo de outro homem, e ele precisa de dinheiro ou de uma garantia antes de revelar.”
“Qual é o preço?”
Richard Dodd demonstrou confusão e hesitação. “Fiz algumas promessas a ele, tio, porque sei o que foi pago no passado por coisas que não pareciam ser tão importantes quanto esta — a julgar pela maneira como você e o juiz conversaram. Então eu... bem, eu...”
“Preço, preço, eu digo! Estou acostumado a ouvir falar de dinheiro”, retrucou o coronel. “Tenho que voltar para aquela convenção. Diga logo!” Ele deu dois passos em direção à porta.
“Cinco mil!” disparou o jovem.
O coronel Dodd girou e arrancou os óculos para dar ao sobrinho o efeito total de sua fúria desprezível.
“Ora, seu jovem lunático, eu não pagaria esse preço nem que eles estivessem prestes a eleger Farr governador deste estado e o presenteassem com a Consolidated, e você pudesse trazer a prova de que ele é a reencarnação de Judas Iscariotes.”
Um rugido de vozes e um trovão de passos pesados anunciaram que o senador havia terminado.
O coronel Dodd apressou-se a sair.
O sobrinho encontrou o detetive Mullaney no beco atrás do auditório, e o ar de desconforto do jovem e o balançar caído de sua cabeça contaram a história de seu recado sem palavras.
“Se eles estão ficando mesquinhos demais na velhice para me pagar um preço justo por um bom trabalho, então que se danem”, declarou o detetive. “Você se manteve em nossa cifra original de quinhentos dólares, não foi?”
O jovem olhou por cima da cabeça do detetive e mentiu. “Quinhentos... foi o que eu disse a ele.”
“E ele não quis considerar?”
“Algo o fortaleceu de modo que ele não tem mais medo do homem. Talvez ele tenha conseguido sua própria pista sobre ele. Não parece valer mais nada. Suponha que você me diga exatamente quem ele é e o que há com ele?”
“Nem pense nisso!” retrucou o detetive Mullaney, bruscamente. “Não estou dizendo nada contra sua família, é claro, mas quando eu dou a um Dodd algo de graça — até mesmo uma dica — será quando eu estiver falando durante o sono e nem souber disso. Mas vou lhe dizer o que farei. Dê-me meus duzentos e cinquenta e eu lhe entrego toda a proposta e você pode seguir em frente e fazer o que puder com ela. Juro-lhe novamente que tenho algo contra ele. Vendo o que ele fez com você, deveria sentir que a história vale esse risco, mesmo para fins particulares.”
Dodd hesitou, colocou a mão no bolso — depois retirou-a vazia.
“Não, Mullaney. Qual é a utilidade? Ele diz que Farr não é perigoso e rejeitou tudo categoricamente. É melhor eu guardar meu dinheiro. Se você quiser sentar na plataforma, venha comigo. Posso encontrar um lugar para você.”
O detetive Mullaney seguiu de bom grado, pois sabia que as pessoas estavam praticamente subindo umas nas outras na tentativa de entrar no salão pela entrada principal.
Ele sentou-se em uma das cadeiras quadradas na plataforma e procurou com seus olhos pequenos e afiados até encontrar o rosto de Walker Farr nas fileiras em terraço da humanidade. Não foi difícil localizá-lo, pois seu físico o fazia destacar-se entre os outros homens e ele estava postado sob o estandarte que marcava a localização do Condado de Moosac.
O detetive notou que os olhos do jovem estavam direcionados para a galeria com tanta intensidade e por tanto tempo que ele tentou rastrear aquele exame atento até seu objeto. O detetive não tinha certeza absoluta, mas finalmente escolheu uma jovem muito bonita que ocupava uma cadeira na primeira fila da varanda; ela parecia estar retribuindo o olhar atento do jovem.
“Você tem a reputação de conhecer todas as garotas bonitas do estado”, sussurrou Mullaney, chamando a atenção de Dodd com um empurrão. “Quem é aquela ali na galeria, primeira fila, quinta a partir do corredor; pena azul, e tão bonita que chega a doer meus olhos?”
Ter sua atenção atraída de forma tão rude para a única garota em todo o mundo deu a Dodd uma sensação que ele não apreciou — e seu rosto mostrou seu ressentimento atônito.
“Aquela é a senhorita Kilgour, que costumava ser secretária do meu tio. Por que você quer saber quem ela é?”
“Porque parece haver algo muito especial entre ela e o homem que pensávamos valer quinhentos dólares para nós.”
“Aquela jovem, Sr. Mullaney, está noiva de mim”, afirmou Dodd, asperamente. “É melhor você abandonar o assunto.”
Mas ele não demonstrou nem a alegria nem o orgulho do pretendente aceito enquanto olhava para ela.
“Direi apenas que você é um sujeito muito sortudo e o parabenizo”, respondeu o Sr. Mullaney, escondendo sua confusão ao se ocupar com recortes de jornal e papéis que tirou do bolso do paletó.
O detetive estava totalmente inconsciente da ironia daquele comentário. Mas ele trouxe um rubor de vergonha à face de Dodd, pois a tristeza, a ferroada e a ignomínia daquele papel que ele desempenhara não haviam partido de sua alma, nem mesmo o fervor de sua paixão por ela o ajudava a perdoar a si mesmo; ele a encarava culpado, como o ladrão se vangloria de seu saque e tem consciência de sua degradação sem sentir contrição suficiente para desistir do objeto que roubou.
Pois ele se lembrava com uma recordação fresca e pungente das circunstâncias sob as quais aquela garota lhe dera sua promessa tão recentemente: ela estivera sobre uma mãe que se humilhara diante deles, prostrara-se, contorcera-se, gritara e suplicara que ela consentisse; e a mãe fora levada a fazer isso pelo açoite de suas ameaças. Ele estivera ali e exigira, e a mulher no chão confessara sua fragilidade, admitira suas más ações, reconhecera sua dívida e suplicara freneticamente à filha que se sacrificasse.
A garota dera seu “sim”, pagando a dívida com ela mesma; mas seus olhos estavam arregalados e secos, seu rosto estava branco e tenso, e ela olhara além do homem a quem se prometera quando murmurara aquela promessa.
Dodd enxugou o suor frio da testa enquanto se lembrava; ele encontrou quase a mesma expressão agora no rosto dela enquanto ela olhava para Walker Farr, que a encarava de volta ansiosamente, percebendo uma dor que não conseguia compreender.
Naquela vasta assembleia, aqueles três, assim sem palavras, sem que ninguém os notasse, travaram uma batalha trágica de amor sem esperança com os olhos.
O detetive Mullaney examinou seus papéis. “Pela fé”, meditou ele, “não guardei meus livros todo esse tempo por nada. Conheço minha carta. Eu o peguei — está tudo decidido. Mas juro que ele não parece o papel que interpretou, mesmo que a descrição se encaixe nele. Bem, lei é lei! Se não consigo vendê-lo para Symonds Dodd, descobrirei quanto pagarão aqueles que o querem.”
A rotina da grande convenção vinha prosseguindo.
“E o cavalheiro de Danton, Sr. Gray, propõe que passemos agora à nomeação de um candidato a governador”, entoou o presidente em tons monótonos.
XXVIII
O HOMEM QUE NÃO TINHA MEDO
Um após o outro, dignos e decorosos, três homens da Grande Máquina, representando três dos grandes condados do estado, subiram à plataforma e nomearam o nome do Governador Harwood para suceder a si mesmo.
Esses oradores haviam sido cuidadosamente selecionados. Eram cavalheiros idosos cujas reputações, tons e comportamento denotavam um conservadorismo seguro e sensato. Aproveitaram a ocasião para repreender o novo espírito de inquietação no antigo partido, e suas notas de protesto em tremolo foram extremamente eficazes. Enquanto esses homens falavam, um ouvinte era compelido a sentir que a rebelião contra a ordem estabelecida das coisas só poderia ser uma sedição descarada; pois por muitos anos essas artes da oratória foram empregadas para apelar à lealdade partidária do homem comum; os eleitores ouviram e sentiram vergonha de se revoltar — como um filho dutifulmente curva a cabeça sob a reprimenda de um pai e responde ao apelo de um pai — pois, afinal, em questões onde se apela à lealdade, as emoções humanas não são tão complexas.
Os cavalheiros idosos deram grande ênfase ao fato de que não em vinte anos um governador fiel fora recusado a honra da renomeação para um segundo mandato. Sua convenção negaria esse cumprimento ao Governador Harwood? Era o mesmo apelo que vinha sendo feito há quarenta anos para perpetuar a dinastia de figuras de proa governamentais que obedeciam às ordens da quadrilha.
Walker Farr ouviu murmúrios em voz baixa de homens em sua vizinhança. Eram homens que haviam aderido à nova revolta e haviam defendido bravamente uma mudança nos gerentes políticos do condado. Mas esses homens revelaram que estavam receosos de alterar o longo costume partidário. Diziam, uns aos outros, que seria ir longe demais recusar a renomeação ao Governador Harwood. Isso poderia dividir tanto o partido deles que o partido político rival seria capaz de conquistar o estado — e isso nunca poderia acontecer.
Farr não ficou de forma alguma surpreso ao ouvir esses murmúrios.
Ele sondara os homens antes daquela convenção enquanto viajava pelo estado.
Ele os encontrara prontos para começar a limpeza nos assuntos menores da gestão do condado, e pelo ataque às pequenas rodas da engrenagem da máquina que há tanto tempo moía o grão político; mas eles não estavam dispostos a tentar a sorte aventurando-se em uma reviravolta tão geral como a de lançar para governador um homem que não tivesse sido selecionado e preparado para o alto cargo durante o período habitual de aprendizado — legislatura, senado e conselho.
Ele percebeu quão bem a grande quadrilha se entrincheirara no poder absoluto apelando ao conservadorismo em questões de homens seguros para altos cargos. Homens seguros significavam aqueles que protegiam os grandes interesses e garantiam que nenhum ataque fosse feito ao capital — não importava quantos abusos o capital pudesse estar fomentando.
Murmúrios e resmungos por toda parte, e os rostos dos homens mostrando que concordavam com os apelos em tremolo dos oradores idosos!
Até o Honorável Archer Converse, com sua cautela jurídica governando sua opinião, conhecendo o temperamento das condições em seu estado, desencorajara enfaticamente Farr quando o jovem o questionara timidamente sobre a conveniência de garantir um candidato a governador fora da dinastia da quadrilha.
O desencorajamento de tais esperanças por parte do Sr. Converse teria sido ainda mais enfático se ele tivesse sonhado que esse apóstolo que ele enviara ao campo estava alimentando a esperança audaciosa de que o próprio Sr. Converse pudesse, por algum milagre, ser colocado na cadeira de governador.
Os oradores prosseguiram, um após o outro. Foram aplaudidos. Retiraram-se.
Walker Farr estava oprimido pela convicção lúgubre de que era o único homem naquela grande assembleia que sentia fogo de zelote suficiente para estar disposto a colocar todas as suas esperanças à prova.
Ele olhou para os rostos na plataforma. Lá estava o Coronel Dodd, usando sua expressão assumida para aquele dia e data — hipocrisia política presunçosa.
Seus capangas espalhavam-se à direita e à esquerda dele. Representavam as finanças e a respeitabilidade.
Às vezes, rebeldes políticos se aventuram galhardamente e audaciosamente quando reclamam pelas costas de seus líderes; mas quando esses líderes aparecem e preenchem o primeiro plano com suas personalidades, os rebeldes se calam; ficam impressionados pelos homens que contemplam. Eles cedem, mesmo quando são picados pelo conhecimento dos princípios de seus líderes.
O Coronel Dodd e aqueles com ele eram os líderes credenciados.
Os delegados olhavam fixamente, mas estavam intimidados e silenciosos.
Farr ponderou. Talvez o conselho do Sr. Converse fosse o melhor:
“Pegue o que pudermos conseguir em nosso primeiro confronto. Mantenha-o como o núcleo do que esperamos conseguir mais tarde. Se colocarmos tudo à prova em nossa primeira luta contra forças que estiveram no poder por todos esses anos e perdermos, então a causa sofre um retrocesso que pode desencorajar nossos homens para sempre.”
E o Sr. Converse, tendo assim declarado, permanecera longe da convenção naquele dia, sentindo que nada mais havia para ser ganho.
“E proponho, Sr. Presidente”, chamou uma voz, “que as nomeações para governador sejam agora encerradas.”
Esse era o costume no passado.
Não estava na mente daquela convenção que outro candidato fosse apresentado. O Governador Harwood estava esperando em uma antecâmara, folheando as páginas de seu discurso, e todos os delegados sabiam disso. Todos desejavam apressar as coisas, nomear por aclamação, ouvir o inevitável discurso e ir para casa.
“Um momento antes que essa moção seja secundada!”
A voz era tão alta, tão clara, tão dominante, tão retumbante, que o efeito na convenção foi tão galvanicamente intenso como se alguém tivesse tocado uma corneta.
Walker Farr levantara-se.
O Coronel Dodd colocou a palma curva da mão na boca e, por trás do presidente, disparou algumas palavras ao oficial que presidia como quem dispara projéteis de um lançador de feijão. O presidente olhou impacientemente para Farr, e um delegado entre aqueles que observavam ansiosamente por sinais do trono levantou-se pela metade e berrou: “Questão!” O grito foi retomado por outros delegados, assim como a turba impensada segue um animador.
Farr subiu em um banco. Ele ficou lá, silencioso e esperando, e sua expressão, postura e porte agiram de forma mais eficaz do que o discurso.
Ele pairava sobre todas as cabeças. Ele era notadamente não um daqueles habitantes da Nova Inglaterra ali reunidos. Sua massa de cabelo castanho-escuro, seu traje, a própria inclinação de sua cabeça sobre os ombros, diferenciavam-se dos atributos físicos de todos os outros no salão. E, enquanto os delegados continuavam a gritar para que a questão fosse posta, ele girou lentamente para que sua expressão de protesto digno e brando e apelo fosse visível para todos. E enquanto girava, deu à garota na galeria um longo olhar.
O presidente bateu com seu martelo.
“Eu secundo a moção”, chamou um delegado, aproveitando o primeiro momento de silêncio.
Houve outro coro rugindo de “Questão!”
Mas Walker Farr permaneceu de pé no banco, esperando pacientemente. Ele não demonstrou confusão. Havia dignidade acrescida, bem como apelo em sua atitude e expressão.
“Antes que a votação seja feita, quero dizer uma palavra como homem para homens”, gritou um delegado. “É fácil ver que aquele homem parado ali é um cavalheiro. Fomos enviados aqui para participar de uma reunião para o bem do nosso partido. Se, como delegados, nos recusamos a ouvir um cavalheiro porque estamos com muita pressa, deveríamos ter vergonha de nós mesmos. Se, por outro lado, temos medo de ouvi-lo, seja lá o que ele queira dizer, então que Deus salve este nosso partido!”
Esse foi um sentimento que prontamente acendeu fogo naquela assembleia.
Ali, diante de seus olhos, estava o objeto daquele desafio, robusto, modesto, apelando silenciosamente — o tipo de apelo que vencia.
As galerias começaram a aplaudir primeiro. Então os delegados retomaram a demonstração em favor do jogo limpo. Eles bateram suas mãos e seus pés. Os aplausos das galerias tinham mais ou menos uma repreensão neles, porque começaram enquanto a voz do desafiante ainda ecoava no grande salão.
O martelo do presidente bateu ferozmente.
O Coronel Dodd praguejou baixinho. Ele estivera na trilha daquela convenção, seus movimentos, seu progresso, como um cão de caça seguiria a trilha de uma raposa. Ele a vira seguramente dirigida para o canto onde seria encurralada. Detectou perigo repentino nesta ameaça de um desvio.
“Bom Jericó!” ofegou um membro da comissão perto dele. “O presidente não está deixando esta convenção escapar de suas mãos, está?”
Era um alarme natural no caso de um homem que temia permitir qualquer expressão em uma convenção, exceto aquela que havia sido arranjada anteriormente e aprovada por aqueles no poder.
“Esta não é a espécie de convenção que vai escapar!” sibilou o coronel em resposta, reforçando suas próprias convicções de que tudo estava seguramente controlado. “Mas não quero nenhuma palhaçada.”
Ele captou o olhar de seu sobrinho e o convocou com um puxão impaciente da cabeça.
Richard Dodd apressou-se através da plataforma e inclinou o ouvido perto da boca de seu tio — o coronel puxando-o para baixo.
“Se o seu homem puder parar aquele tolo agora — rápido — por quinhentos dólares, eu pago.”
O jovem Dodd engoliu em seco. Ele precisava de cinco mil dólares!
“Ele não considerará menos do que eu lhe disse.”
“Bem, deixe o idiota falar conosco — ele não pode causar nenhum dano.”
O coronel empurrou o sobrinho. Apesar daquele aplauso, ele ainda esperava que a convenção encerrasse as nomeações. O que mais havia para fazer?
“A votação é sobre a moção para encerrar as nomeações para governador”, declarou o presidente. “Aqueles a favor dirão 'Sim!'”
Cada delegado naquele salão estava olhando para Farr. Eles estavam encarando-o com curiosidade e interesse. Mas mesmo a curiosidade nem sempre leva os políticos a abrir uma convenção para uma pessoa que pode provar ser uma bomba que destruirá planos e precedentes.
Então Farr deu-lhes aquele sorriso maravilhoso!
Os “Sims” foram espalhados e esporádicos! Os homens não gostavam de interromper um sujeito que estava ali parado e sorria para eles daquela maneira.
Ao chamado pelos “Não”, um berro de vozes sacudiu o salão.
A convenção dera a esse estranho permissão para falar com aquela recusa em subscrever os planos prontos. O Coronel Dodd não estava mais presunçoso. Ele franziu a testa ferozmente.
“Cavalheiros da convenção, estou grato”, gritou Walker Farr. “E não abusarei de sua paciência.”
“Plataforma — suba na plataforma!” chamaram muitos dos delegados.
Ele sorriu e balançou a cabeça. “Deixem-me falar com vocês aqui de pé, onde posso olhar nos olhos de vocês, cavalheiros. Sinto-me muito sozinho nesta convenção. Estou sozinho! Não represento nenhuma facção, nenhum interesse, exceto a causa dos humildes que pediram ajuda aos mestres que foram colocados sobre eles. Talvez eu devesse ter permanecido em silêncio aqui hoje. Minha covardia tem me levado a ficar quieto. Não é uma tarefa fácil para mim ficar aqui e perturbar a ordem dos eventos que foram arranjados pelos cavalheiros que geriram seus assuntos públicos por tantos anos. Mas seria muito mais difícil para alguns dos outros aqui falarem, porque os cavalheiros que gerem a política têm métodos pelos quais podem desacreditar um homem em sua profissão, arruiná-lo em seus negócios, parar seu crédito nos bancos e de outras maneiras fazê-lo pagar caro por sua ousadia ao falar. Não tenho dinheiro em bancos, nenhum negócio que possa ser arruinado.”
“Levanto uma questão de ordem!” gritou um delegado, obedecendo a um aceno do palco. “O assunto em pauta é a nomeação de um governador.”
“Esse é o meu assunto”, declarou Farr, calmamente.
Com o faro político aguçado por sua apreensão, o Coronel Dodd estreitou os olhos, sentou-se reto em sua cadeira e tentou desesperadamente sondar as intenções desse estranho absoluto.
Apesar de sua fanfarronada para o comitê estadual, ele estava preocupado. Ele não se sentia confortável desde sua conferência com o Juiz Ambrose Warren. Ele não gostava da “sensação” das condições políticas. Havia algo indefinível de escorregadio sobre os assuntos.
Ele não conseguia se levar a considerar a ideia impossível de que a convenção fosse se rebelar — fosse enlouquecer, não importava quem se dirigisse a ela — não importava que contingência surgisse. Mas ter a convenção sequer tolerando esse intruso descarado perturbava seu senso de domínio; a convenção estivera pronta demais para permitir que o estranho falasse. Não era política como o coronel estava acostumado a jogar o jogo. E este — este homem do nada — era um absurdo!
Ele girou a cabeça e encontrou seu sobrinho perto atrás dele.
“Seu jovem insolente,” rosnou o Coronel Dodd, descarregando sua raiva no objeto mais próximo, “onde está sua lealdade política? Este não é momento para barganhar. Se você pode deter aquele sujeito, apresse-se e faça-o.”
“É um segredo de outro homem, eu lhe disse. Tenho de comprá-lo.”
“Eu pagarei mil.”
O rosto do jovem Dodd estava pálido, mas ele sabia o quão desesperada era sua situação e quão vitalmente necessário era jogar suas cartas como as segurava.
“Eu lhe dei os números finais,” sussurrou ele.
“Onde está esse homem? Deixe-me lidar com ele.”
“Deve ser feito através de mim.”
“Se você não fosse meu sobrinho, eu diria que isso é chantagem.”
O jovem Dodd recuou para evitar o brilho nos olhos de seu tio.
O coronel virou-se e ouviu. A voz de Farr estava elevada agora em um apelo solene.
“A ideia de eu me deixar abalar por um demagogo de mente perturbada,” resmungou o coronel. Ele estivera acariciando o lado externo de seu casaco furtivamente, localizando sua carteira de cheques. Agora, afastou a mão.
“É bom respeitar o serviço e demonstrar cortesia, cavalheiros. Ouvi com interesse os elogios que foram feitos ao Governador Harwood. Ele é, sem dúvida, um cavalheiro amável. Mas deixem-me dizer-lhes que à próxima legislatura será solicitado que aprove uma lei que será um porrete com o qual o povo baterá nos nós dos dedos da Ganância até que esse aperto profano nos sistemas de água deste estado seja afrouxado para sempre.”
Os delegados encararam-no por alguns segundos quando ele fez uma pausa, e então um tumulto de aplausos saudou sua declaração.
“Eu pergunto-lhes, cavalheiros, se o Governador Harwood — e vocês o conhecem bem e sabem como ele foi escolhido — algum dia assinará um projeto de lei que tirará o lucro das mãos de seus criadores políticos, mesmo que seja para dar esse lucro ao povo, que é o legítimo proprietário?”
Desta vez os homens ficaram em silêncio, mas ele sabia o que pensavam pela maneira como olhavam para ele.
“Não preciso dizer-lhes que o veto de um projeto de lei por um governador significa, na maioria dos casos, sua morte. Cavalheiros, seria educado, gentil e gracioso da parte de vocês curvarem-se aqui hoje e entregarem a nomeação ao amável Governador Harwood. Mas, com as condições como estão neste estado, vocês vão ser apenas educados, enquanto os carros funerários circulam por suas ruas? Não tenho como saber quantos de vocês, em cujos olhos estou olhando, viram a morte entrar em seus próprios lares pelas torneiras deste sindicato de águas que muito promete e pouco realiza. Mas se vocês viram a morte tocar seus entes queridos, ou se voltarem para casa a partir daqui e virem a febre devastando sua comunidade, será um consolo pobre para sua alma lembrar que, pelo menos, foram educados com um homem amável que desejava a honra de uma renomeação.”
Os rostos da convenção mostraram que este apelo contundente, porém astuto, ao antagonismo individual dos homens produzira um efeito profundo.
“Mas essa é apenas uma característica do que este estado exige e precisa, cavalheiros,” foi a declaração retumbante de Farr. “Esta luta por água pura abriu um caminho amplo. As vilas e cidades deste estado devem retomar para suas próprias mãos as propriedades e franquias que foram mal geridas pelos homens a cujas mãos, por um presente imprudente do povo, foi confiado o que pertence ao próprio povo. Precisamos de um homem na Cadeira Principal do Estado que fique ao lado do povo nesta cruzada!”
Esta declaração surpreendente em convenção aberta produziu tanta consternação na plataforma como se Farr tivesse lançado uma bomba ali.
Ele proferiu algo que era pior do que uma simples rebelião política: ele estava propondo tomar para o povo propriedades que constituíam a espinha dorsal do poder da oligarquia nos assuntos estaduais.
O Coronel Dodd estivera rosnando atrás do presidente, esforçando-se furiosamente para obter a atenção daquele cavalheiro. Mas o presidente parecia estar tão totalmente absorvido por essa acusação surpreendente quanto os delegados.
O chefe da máquina estadual, pela primeira vez em sua carreira, foi forçado a vir a público em vez de usar a boca de um tenente. Ele não podia esperar para dar ordens.
Ele se levantou e marchou até a frente da plataforma. Sua voz soou rouca e alta.
“Não pode haver mais nenhum desses absurdos antijurídicos e irregulares. O que deu nesta convenção? Vocês não entendem que nenhum orador tem permissão para quebrar as regras e atacar um homem sob o pretexto de nomear outro? Sr. Presidente, exijo que este caluniador seja removido do salão e que procedamos à nomeação de um governador.”
Houve um silêncio durante o qual Farr e o Coronel Dodd olharam um para o outro, cruzando seus olhares como floretes longos sobre as cabeças em terraços.
“Receio que eu estivesse errado,” confessou Farr, gentilmente. “Mas nós, pobres homens das fileiras, não sabemos muito sobre as regras, e quando estamos lutando para salvar aqueles que amamos, somos propensos a esquecer e falar ao coração das coisas. Não estou tentando mostrar que sou um orador habilidoso, cavalheiros da convenção.” Ele ergueu os braços. “Estou clamando por Justiça!”
Os delegados irromperam em aplausos mais uma vez.
E Walker Farr enviou um olhar estranho direto para os olhos do coronel.
A convicção esbofeteou o Coronel Symonds Dodd em sua face mental com uma violência que o fez piscar!
Este homem não era nenhum amador em entender como influenciar uma plateia. De fato, ele havia transgredido o uso parlamentar, mas naquelas palavras ele havia martelado fatos que todos sabiam serem verdades — verdades que outros temiam expressar, mas que, uma vez colocadas em palavras em público, ligavam o selo hediondo do favoritismo de grupo ao Governador Harwood, fazendo dele um candidato em quem não se podia confiar.
O coronel entendeu, e ele também viu claramente que a maioria da plateia havia aceitado o pedido de desculpas e não nutria preconceito contra o orador.
“Agora que entendo quais são as regras que governam as nomeações, não as quebrarei novamente,” declarou Farr.
Mas, como um advogado astuto e não excessivamente escrupuloso, ele havia injetado nos procedimentos uma verdade pungente que, embora excluída pelas regras, servia vitalmente ao grande propósito de seus esforços; o coronel entendeu isso também e voltou para sua cadeira, praticamente lívido de raiva.
“Há um homem neste estado que conhece a verdadeira lei,” continuou o orador, “e para que vocês possam ter certeza de que ele assinará um projeto de lei que seja aprovado para o bem do povo, deixem-me contar um pouco sobre seu caráter.”
O Coronel Dodd xingou sem tentar moderar muito seus tons.
“Não há como dizer que rumo aquele renegado tomará a seguir. Esta convenção infernal está se tornando um pesadelo. Aqueles tolos lá fora estão ouvindo como se esperassem que aquele demagogo barato lhes trouxesse um novo Messias,” disse ele aos membros do comitê próximos a ele.
“Há um ruído engraçado acontecendo lá fora entre eles,” aventurou-se “Whispering Saunders”. “O pessoal do cercamento diz que ouve algo parecido quando uma manada está se preparando para debandar. Às vezes é a mesma coisa em uma convenção política. A razão é: a multidão está madura e o boi líder dá o mugido certo — e lá vão eles!”
O Coronel Dodd agarrou seu sobrinho pelo cotovelo e o arrastou para fora do palco e para uma antecâmara.
“Aquele assunto está no gatilho, Richard?” exigiu ele.
“Está pronto para ser disparado a qualquer minuto.”
O coronel sacou sua carteira de cheques e começou a escrever. “É como o velho Saunders disse,” murmurou ele enquanto escrevia. “E temos que laçar, derrubar e amarrar aquele boi.”
O cheque era de cinco mil dólares!
O jovem Dodd agarrou-o, e quando seu tio voltou apressado para o palco, o sobrinho, através da porta que ficou aberta, acenou para Mullaney. O detetive veio, passando apressado pelo Coronel Dodd, que encarou até que a porta se fechasse atrás do jovem Dodd e do oficial.
“Mas ele é meu próprio sobrinho!” assegurou a si mesmo, como se estivesse respondendo a uma acusação feita contra Richard Dodd. Ele balançou a cabeça e sentou-se em sua cadeira. “Imagino quanto tempo faz desde que o velho Bob Mullaney colocou um preço desse tamanho em seus segredos! Tenho medo de que Richard não tenha a habilidade de Dodd para fazer um bom negócio.”
Mas Richard estava mostrando habilidade considerável nessa linha atrás da porta da antecâmara.
Ele enfiou duzentos e cinquenta dólares em notas amassadas nas mãos do detetive, esvaziando seus bolsos para esse fim. Ele havia escorregado o cheque para o bolso mais profundo no momento em que seu tio o entregara.
“Foi difícil convencê-lo, Mullaney. Você viu como eu o trabalhei. Isso é tudo o que ele me deu — duzentos e cinquenta. Pegue e arme sua armadilha.”
“Você não parece honesto,” resmungou o detetive. “Se eu sou algum tipo de adivinho, você está escondendo algo de mim.”
“Esse é o seu preço. Você concordou. Não há tempo para discutir isso. Devolva-me o dinheiro.” Ele agarrou as notas da mão de Mullaney. Foi um blefe magnífico. “Vou entregá-lo ao meu tio. Ele não está muito entusiasmado com a coisa, de qualquer maneira.”
“Eu aceito — devolva. Peço desculpas,” implorou Mullaney.
“Você jura manter tudo isso sob seu chapéu — a coisa toda? Tio diz que se você ousar falar com ele sobre isso — insinuar para ele ou qualquer pessoa que ele pagou dinheiro por algo sobre Farr — ele negará a história e fará com que sua licença seja cassada.”
“Eu prometo — juro,” concordou Mullaney.
Dodd devolveu o dinheiro, e o detetive saiu trotando.
“Você venha também, e eu lhe contarei no caminho. O tempo é curto. É melhor você me ajudar,” aconselhou ele a Dodd. Eles saíram apressados juntos, correram para o beco e contornaram a frente do salão, com o detetive despejando certas informações no ouvido de Dodd enquanto faziam seu caminho até a porta grande e entravam no corredor principal.
Então eles atravessaram as multidões.
O detetive liderou o caminho e mostrou seu distintivo para obrigar as pessoas a lhes darem passagem.
Eles entraram na parte de trás do auditório.
“Você fica com o lado esquerdo e eu fico com o direito,” comandou Mullaney. “Precisamos paralisá-lo primeiro. É tudo o que há tempo agora — recebi um aviso curto. Mas leve esse nome para cada homem do seu grupo que puder, e quando o uivo começar, diga a todos eles para se juntarem.”
Dodd teve pouco tempo para digerir o conhecimento que o detetive havia transmitido na corrida. Mas seus olhos brilhavam perversamente enquanto ele começava a sussurrar para os homens entre os delegados. E enquanto se movia, percebeu que a garota na galeria havia notado sua atividade, até mesmo ao ponto de desviar seu olhar de Walker Farr, cuja voz ecoava pelo espaçoso salão.
XXIX
A BOMBA
Walker Farr, pairando sobre suas cabeças, falava aos homens em cujo meio ele estava.
A mera eloquência não serve mais nestes dias de descrença cínica nos motivos dos oradores políticos. Mas este jovem que estava ali era a sinceridade encarnada. A maravilhosa e mística qualidade magnética que conquista homens e inspira confiança irradiava dele. E de vez em quando, ao olhar para um rosto na galeria, sua voz assumia novos tons de apelo e pathos. Ele era alguém clamando das profundezas para aqueles que estavam no poder! Pela maravilha de sua linguagem, ele fazia os homens que sentavam ali como delegados entenderem que deles era o poder de construir ou destruir — de salvar ou sacrificar seu estado na crise que estava sobre eles. Ele os fazia sentir sua responsabilidade depois de fazê-los entender seu poder.
E ele também tornou seu dever claro.
O cerne da situação residia em tal homem que eles deveriam colocar no cargo mais alto do estado.
Em outros tempos, sob outras condições, algum testa de ferro dócil e amável poderia servir bem.
Ele lhes disse, com o dedo estendido e voz vibrante, quais deveriam ser as qualificações magistrais do homem que assumiria a cruz do serviço público e a carregaria para cima, pelas encostas onde seria açoitado a cada passo de seu caminho cansativo pelas tiras nas mãos do capital privilegiado.
O Coronel Symonds Dodd havia voltado para a plataforma, xingando-se de tolo. No momento em que o cheque deixou suas mãos, ele ficou irritado por ter permitido que as circunstâncias o atropelassem.
Ele se perguntava o que estava dando nele e na política.
Será que ele estava com medo da mera conversa de um demagogo!
Mas depois de ter sentado ali por alguns momentos e ouvido, e observado os rostos dos delegados, ele decidiu que se cinco mil dólares detivessem a boca daquele homem, ele havia gasto dinheiro sabiamente. Ficou claro para ele que já havia gasto quantias maiores muitas vezes por serviços menores.
Ele viu Richard Dodd e Mullaney circulando entre os delegados. Ele reprimiu com dificuldade um impulso de se levantar e gritar para que se apressassem. Ele sentiu que o perigo para seu programa e sua estrutura política era iminente. Porque, mais uma vez, a verdadeira eloquência e o apelo magistral estavam conquistando os homens.
Todos os ouvintes no vasto salão estavam imóveis como a morte. Todos os olhos estavam neste orador que parecia estar vestindo com discurso eficaz todas as convicções ocultas dos próprios delegados que haviam nutrido o protesto sem serem capazes de colocá-lo em prática.
O Coronel Dodd vira convenções em humor semelhante nos velhos tempos, antes que a sela do partido tivesse sido cinchada de forma tão segura como nos últimos anos.
O presidente do comitê estadual expressou os temores crescentes do coronel. O presidente havia perdido seu sarcasmo e sua confiança arrogante. Seu rosto estava vermelho, ele estava suando, encarando a convenção e estalando os dedos impacientemente.
“Meu Deus!” informou ele àqueles que podiam ouvir na plataforma, “que tipo de rumo essa coisa está tomando? Deixamos essa convenção escapar de nossas mãos. Aquele sujeito está fazendo toda a multidão marchar para o banco dos arrependidos. Ele pode terminar nomeando um cachorro sarnento e eles se levantarão e o uivarão para o cargo por aclamação!”
Farr fez uma pausa por um momento para dar efeito às suas próximas palavras.
“Tal em caráter, em impulso honesto, em honra, em habilidade, em devoção e em nobreza dada por Deus deve ser o homem que os liderará. Deus deu tal homem a este estado? Ele deu!”
“Sim, e o diabo nos deu Nelson Sinkler para falar por esse homem!”
A voz era estridente e agitada, e vinha de uma seção do salão onde os adeptos raivosos da máquina estavam concentrados; foi uma interrupção surpreendente e chocante.
“Eu disse Nelson Sinkler — é você!” gritou a voz.
E com isso, aqui e ali no salão, como atiradores de elite posicionados em emboscada, homens gritavam o nome “Nelson Sinkler” — as palavras estalando como rifles.
Houve alvoroço. Parte dele era protesto, parte demonstração histérica de excitação em uma assembleia que não entendia absolutamente nada.
Então, depois de um tempo, veio o silêncio, pois o objeto do ataque estava em sua posição elevada, imperturbável, severo, virando-se com coragem para a direita e para a esquerda enquanto os homens latiam para ele.
“Estou aqui onde todos podem olhar para mim,” disse ele. “Que um ou todos aqueles que estão me atacando venham também à vista.”
Ninguém se levantou.
“É um homem covarde que não coloca seu nome em uma carta ou mostra seu rosto quando faz uma acusação,” gritou Farr.
“E quanto a um homem que não ousa usar seu próprio nome?” Este questionador permaneceu na emboscada.
“Seu nome verdadeiro não é Walker Farr e você sabe que não é,” berrou uma voz no lado oposto do salão.
Outras vozes atiravam contra ele com as palavras, “Nelson Sinkler”.
“Um homem nesta convenção vai se levantar e se mostrar para que eu possa falar com ele cara a cara?” gritou o homem encurralado.
O detetive Mullaney e Richard Dodd não conseguiram encontrar assentos. Os outros estavam sentados, e os dois eram homens marcados.
“Bem, Dodd, você tem sussurrado. O que você tem a dizer em voz alta?” exigiu o homem que eles estavam provocando.
“Eu digo que seu nome não é Walker Farr.”
“Você!” O jovem alto apontou o dedo para Mullaney.
“Eu digo que você é Nelson Sinkler.”
“E o que tem ele?”
“Ele é procurado pelo estado de Nebraska por assassinato.”
Um som que era uma mistura de suspiro e gemido correu e pulsou das galerias para o chão; ele encheu o grande salão e parecia vibrar de um lado para o outro sobre a assembleia. E pelo longo minuto que o som terrível continuou até ter expirado em silêncio horrorizado, o homem que estava sobre o banco olhou direto para o rosto branco da garota na galeria.
Mas aqueles da multidão que o devoravam com olhares ávidos não puderam discernir um traço de confissão em seu semblante.
Então ele fez uma coisa estranha.
Ele estendeu os braços para o detetive Mullaney e cruzou-os, pulso sobre pulso, e sorriu.
“Se você tem certeza suficiente de seu homem para ousar me prender, senhor, eu fico aqui esperando pelas algemas.”
O detetive hesitou, visivelmente embaraçado. Ele estava procurando confusão, confissão pelo comportamento, até mesmo colapso.
“Isso é um trabalho político forjado,” declarou um delegado. “Aquele homem não é assassino — aquele ali.”
“Estou esperando,” repetiu Farr.
O detetive corou. Havia murmúrios de hostilidade na multidão ao seu redor. Ele repassou rapidamente em sua mente o conteúdo de seu caderno e fortaleceu sua coragem.
“Ainda não consegui um mandado — mas aceito seu desafio,” anunciou ele. Ele começou a descer o corredor.
“Só um momento,” chamou uma voz estentórica na galeria. “Você está errado, meu homem, aí embaixo. Não quero ver uma pessoa inocente ser desonrada em público nem um oficial se meter em uma enrascada. Aquele homem não é Nelson Sinkler.”
“O que estamos dirigindo aqui — uma convenção estadual ou um tribunal de polícia?” exigiu o Coronel Dodd, saltando e agarrando o braço do oficial presidente. “Ordene que todos esses homens sejam expulsos do salão.”
Mas, naquele momento, a convenção não estava sob o controle do presidente. Por mais irregular que tudo fosse, a natureza humana exigia ser mostrada ali mesmo.
Delegados levantaram-se, gritando, e cercaram Farr, fazendo baluartes eficazes contra Mullaney com seus corpos. Vozes pediram informações ao estranho na galeria, e ele gesticulou para a turba vociferante em silêncio.
“Sou um inspetor dos correios dos Estados Unidos, e posso facilmente provar minha identidade, cavalheiros. Estou nesta convenção apenas como espectador, matando tempo até meu trem partir. Mas conheço Nelson Sinkler porque o prendi há um mês ou mais, depois que ele foi um fugitivo por dois anos. Ele matou um funcionário dos correios. Ele está agora aguardando julgamento. Se aquele homem lá embaixo for preso como sendo Nelson Sinkler, significará muitos problemas para alguém.” Ele sentou-se.
“Quem é você?” gritou um coro dos capangas do grupo. Eles se aproximaram o máximo de Farr que seu guarda-costas permitia e sacudiram os punhos para ele.
“Sou um homem e não um espírito,” disse ele no primeiro silêncio — e o silêncio veio rapidamente, pois eles estavam ansiosos para ouvir. “Vocês podem ver isso por si mesmos. Mas, agora, sou menos um homem do que uma Voz.” Ele gritou essa última palavra. “A Voz chama vocês para repreender o tipo de política que acabou de ser tentada aqui. Vocês viram, vocês ouviram! Vão endossá-la com seus votos? Vão manter no poder aquela gangue que a tentou no desespero da derrota?”
“Não,” as vozes dos homens responderam tumultuosamente.
Um ataque imprudente e injusto nunca tinha jogado uma oportunidade mais dourada nas mãos de um homem.
“Então venham para o lado da decência, meus homens. Nomeiem um campeão que seja imaculado e destemido. Há guerra nesta comunidade em vez de política. Através de uma guerra, o grande patriota deste estado liderou seu povo com alta cavalaria. Para o próximo governador deste estado, nestes tempos difíceis, eu nomeio o filho desse patriota — o Honorável Archer Converse desta cidade — que Deus o abençoe!”
“Estamos derrotados,” ofegou o Coronel Dodd, tentando fazer o presidente estadual ouvi-lo, pois o rugido que balançava o grande salão era ensurdecedor. “Um bumerangue voltou e nos cortou mais rente do que uma porta de forno no inferno.”
Na debandada, na retirada — cavalaria, infantaria e dragões — ordens incisivas foram emitidas e obedecidas. Os amigos do Governador Harwood tinham apenas um recurso — salvar a face daquele cavalheiro. Sua nomeação foi retirada.
Aquela convenção havia perdido o controle, era uma massa de homens desvairados que sentiam a liberdade da opressão pela primeira vez e se gloriavam de sua nova e súbita libertação do governo das máquinas.
Então os delegados que vieram a pé rugiram a nomeação unânime de Archer Converse.
No vendaval daquela aclamação, a oposição não proferiu protesto algum; os delegados que ainda permaneciam leais à máquina franziram a testa e mantiveram seus assentos.
Esquivando-se sob os braços agitados dos homens que lançavam ao alto seus chapéus e aplaudiam com o frenesi de deleite que a vitória surpreendente inspirava, Richard Dodd escapou para o fundo do salão e enfiou-se no meio dos espectadores. Escondeu-se atrás de uma barreira de corpos e então ousou olhar para o rosto do Coronel Dodd. A poderosa paixão que ardia no semblante do tio foi revelada ao olhar do sobrinho mesmo àquela distância. O coronel estava na beira do palanque e fazia sinais imperiosos para alguém. O jovem Dodd viu o detetive Mullaney abrir caminho através da multidão que cercava Walker Farr; o oficial estava obviamente obedecendo à convocação do Coronel Dodd, marchou até o palanque e subiu em uma cadeira a fim de conversar com o homem irado que o chamara.
E quando Richard Dodd viu aquela conferência começar, um medo avassalador varreu de sua alma todas as outras emoções. Ele não tinha mais olhos para aquela moça na galeria. Nem mesmo o amor e a promessa que ela fizera foram capazes de detê-lo. O pânico não lhe deu tempo para planejar uma desculpa ou inventar uma mentira. Ao jogar pelas apostas que havia exigido, ele sentira que seu tio não faria uma autópsia sobre o preço do sucesso. Mas cinco mil dólares arrancados do bolso de Dodd por uma falsidade para a qual não se podia oferecer desculpa alguma! E, além disso, uma derrota esmagadora que fora tornada definitiva e final pelo trabalho que o Coronel Dodd pagara para ser feito!
O sobrinho viu Mullaney sacudir a cabeça e levantar as mãos em apelo e protesto.
Aquele espetáculo transformou Richard Dodd em um fugitivo que pensava apenas em salvar a si mesmo. Ele lutou para abrir caminho através da multidão e correu para fora do salão. A ideia de enfrentar Symonds Dodd naquela crise ou de esperar ser arrastado diante do tirano furioso — esse pensamento açoitou o traidor em uma fuga frenética.
Ele olhou para o relógio na torre do First National. Tinha três minutos antes do horário de fechamento do banco. Controlou suas emoções o melhor que pôde e apresentou o cheque no guichê do caixa. O dinheiro foi contado para ele sem perguntas, e quando segurou o grosso maço na mão, percebeu ainda mais agudamente em que posição estava em seus negócios com Symonds Dodd.
Ele correu para uma garagem, pegou seu carro e fugiu.
“Eu lhe digo que dei ao meu sobrinho um cheque de cinco mil dólares”, insistiu o coronel. “E os Dodds não mentem uns para os outros!”
“Então eles começaram a fazê-lo”, declarou Mullaney. “Ele nos enganou a ambos. Nunca houve qualquer conversa entre nós sobre mais do que quinhentos pelo serviço.”
O Coronel Dodd correu para a antessala e chamou o banco pelo telefone. “Todo-poderoso Herodes!” ele uivou, quando foi informado de que o cheque havia sido descontado. Ele bateu o fone no gancho. “Até meu próprio sobrinho juntou-se ao bando desses lobos malditos!”
Então, com o ar de um homem se recuperando de um golpe e perguntando-se tontamente o que o atingira, ele deixou o salão da convenção por uma porta dos fundos e foi para seu escritório.
Aqueles por quem ele passou em sua saída não fizeram qualquer tentativa de detê-lo, não o instaram a ficar. Aquela convenção parecia estar se saindo muito bem sem pedir ajuda ou sugestões ao Coronel Symonds Dodd.
XXX
O IMPULSO DE UMA MOÇA
Arauto não oficial, precursor, o Sr. Daniel Breed espremeu-se através do bando de pessoas enquanto elas ainda aplaudiam o nome do Honorável Archer Converse.
“Dar doce a crianças e boas notícias a gente grande nunca tornou ninguém especialmente impopular”, assegurou o Sr. Breed a si mesmo com a sagacidade de um político.
Portanto, ele trotou até os escritórios de advocacia dos Converse e disparou para a presença do estimável cavalheiro que permanecera alheio aos negócios perturbadores de uma convenção.
“Ele conseguiu”, proclamou o Sr. Breed, tornando suas frases curtas e sua mensagem direta porque estava sem fôlego.
“Quem conseguiu o quê?”, exigiu o Sr. Converse, com igual incisividade.
“Farr. Você foi nomeado para governador. Aclamação! Ele é um gênio com a língua.” O Sr. Breed franziu sua boquinha e “bebeu” com gosto. “Que falador! Nunca me diga que uma boa conversa não ganha quando o homem certo a faz na hora certa.”
O Sr. Converse levantou-se e ficou de pé — uma estátua rígida de consternação e protesto. “Você quer dizer que veio aqui me dizer que fui nomeado por aquela convenção estadual? Sem a minha sanção? Sem o meu consentimento?”
“Com certeza! Trabalho fácil! Usou todos os truques. Fez parecer que era um novato. Deu socos de direita e esquerda no queixo de Harwood. Fez com que o chamassem de assassino — pelo menos, acho que foi uma invenção dele. Deu certo, de qualquer forma. Ele entende a natureza humana.”
Mas o Sr. Converse não entendia minimamente essa conversa. “Olha aqui, Breed, você não enlouqueceu, junto com o resto, não é?”
“Ninguém está louco. As pessoas simplesmente acordaram.”
“Serei eternamente condenado se eu...”
“É isso mesmo! Você será se não abotoar seu casaco e for até o salão junto com aquele comitê de notificação que provavelmente está a caminho, fizer sua melhor reverência ao povo e disser que aceita o cargo. Somos uma pequena equipe quando começamos.”
“Vocês são uma equipe de bois infernal, e me arrastaram para um mar de problemas”, declarou o Sr. Converse, com veneno.
“Fico feliz que esteja dentro”, retrucou o imperturbável Breed. “Um homem precisa de mais ou menos problemas para se completar; eu tenho tido alguns problemas meus. Qualquer cargo que você me der depois de eleito, não me coloque de volta com aqueles animais empalhados. Harwood cometeu seu erro bem ali!”
“Já começou, não é?”, perguntou Converse, indignado. “Candidatos a cargos na cola?”
“Com certeza!”, respondeu o Sr. Breed, amavelmente. “Quando você se acalmar, vai lembrar que fui eu quem chegou primeiro com a boa notícia.”
Cinco minutos depois, o Honorável Archer Converse, resmungando, mas mais calmo, marchava em direção ao salão da convenção na companhia de um orgulhoso comitê de notificação.
Ele caminhou até o palanque e esperou que o tumulto selvagem da saudação diminuísse, e enquanto esperava, examinou a assembleia com um escrutínio severo para encontrar o rosto de Walker Farr.
Mas aquele jovem realizador de milagres não estava à vista.
Ele se levantara com os outros quando a banda começou a tocar a música que sinalizava a aproximação do nomeado.
Mais uma vez ele voltou seu olhar para a moça na galeria.
Não havia nada em seu comportamento que sugerisse que ele fora um vencedor. Seu rosto estava branco e, depois que seus olhos prenderam os dela por um longo tempo, ele deu-lhe um pequeno sorriso melancólico que expressava pesar, tristeza, renúncia, em vez de orgulho. Ela não se perguntava mais sobre o interesse que sentia por aquele homem; ela sabia que o amava. Ela era capaz de admitir essa verdade para si mesma, e de encará-la calmamente porque fizera sua promessa a Richard Dodd e estava decidida a cumpri-la. Essa determinação fez desse amor uma posse preciosa que ela poderia guardar para sempre, longe da visão de todo o mundo. Era uma história de amor tão pobre, tão escassa, tão pequena! Alguns encontros — um toque de mãos — uma ou duas palavras.
Ali, naquele fórum apinhado, fora sua única verdadeira declaração de amor. Sobre as cabeças de homens irados, eles tinham dito um ao outro com seus olhos. Não houve mal-entendido por parte de nenhum dos dois. Ambos sabiam a verdade.
E, no entanto, depois que ele lhe contara, esse enigma de homem baixou a cabeça e abriu caminho até a porta, movendo-se discretamente através da multidão de seres humanos, aproveitando a confusão que marcou a entrada de Archer Converse.
O impulso estimulou Kate Kilgour naquele momento. Ela não raciocinou nem refletiu. Algo no ar daquele homem dizia-lhe que a tristeza, em vez do triunfo, o dominava; todo o seu comportamento dissera “Adeus” quando ele se voltara para ela. O instinto da mulher que ama e anseia por confortar o objeto daquela afeição levou-a para fora do salão, e ela o seguiu — envergonhada, maravilhada consigo mesma, buscando em sua alma palavras com as quais desculpar sua loucura, caso ele se voltasse e a visse.
Mas o crepúsculo de outono era cedo e ela ficou grata, pois ele a envolvia.
Farr, deixando o barulho da convenção, saindo sozinho, parecia mais o vencido do que o vencedor. Ele caminhava lentamente, sua cabeça estava baixa, e ele desviou do Boulevard imediatamente, procurando ruas desertas que o levavam em direção às grandes fábricas.
Seus inúmeros brilhos luziam das janelas empoeiradas, fileira após fileira, e o matraquear estacado dos teares soava incessantemente.
Farr subiu na cerca onde o velho Etienne estava incessantemente rastelando. O jovem não via muito o velho zelador das grades há algumas semanas, e agora ele cumprimentou Etienne de forma um tanto ríspida enquanto passava a caminho da árvore. Mas Etienne parecia entender.
“Ah, eu não vou falar, m'sieu'. Eu não vou incomodar você. Eu ouço o quanto você trabalhou e correu por aí, e você deve estar muito cansado.”
Havia um estalo de frio de outono no ar, mas Farr tirou o chapéu, sentou-se e encostou a cabeça na árvore. Ele fechou os olhos. Poder-se-ia pensar que desejava dormir.
Quando o zelador das grades fez sua próxima volta em direção à rua, ele viu uma mulher na cerca e, enquanto ele espreitava, ela lhe fez sinal. Ele chegou perto e viu que era a moça bonita a quem ele contara a história de Rosemarie. Ela tremia enquanto agarrava o topo da cerca alta, e quando falou com ele, ele entendeu que ela estava muito perto de chorar.
“Não há algum caminho — algum portão pelo qual eu possa entrar?”, ela suplicou.
“Isso não é permitido, ma'm'selle. É invasão.”
“Mas eu quero falar — para — contar a ele — Nós podemos conversar ali ao lado da árvore e não seremos ouvidos. É com o Sr. Farr que desejo falar. Eu o vi quando ele subiu a cerca.” Ela apressou seu apelo com piedosa ansiedade.
“Ah sim, eu tenho um pequeno portão para mim mesmo — para meu amigo — para o amigo dele, ma'm'selle. Eu vou quebrar a regra. Você entrará.”
Ela foi suavemente e ficou diante de Farr por alguns minutos antes que ele abrisse os olhos.
Então ele olhou para cima, viu-a e não falou. Pareceu aceitar a presença dela como algo natural. Ela estava juntando as mãos com força para se estabilizar. Seu comportamento calmo ajudou-a.
“Eu não sei por que vim aqui”, ela murmurou.
“Eu sei. É porque você sente pena de mim.”
“Mas eu segui você. Eu tive coragem de fazer isso. Eu não sei por quê. Eu não tenho as palavras — eu não consigo explicar.”
“Eu entendo. Você se perguntou por que eu saí da convenção. Você quer me perguntar por quê.”
“Sim, é isso. Estou interessada na luta. Deixei o escritório onde tantas coisas ruins foram planejadas.”
“Eu sei. Foi bom da sua parte me avisar.”
“E agora temo que você esteja em apuros.”
“Estou.”
“Mas você tem muitos bons amigos agora, senhor.”
“Receio que eles não possam me ajudar. Quando saí daquele salão, tentei lhe dizer com meus olhos que eu estava indo embora.”
“Eu... eu acho que entendi”, ela gaguejou. “Foi errado — foi loucura — mas eu segui você sem saber por que o fiz.”
“Fico feliz que tenha feito. Posso lhe dizer adeus aqui.”
“Mas você não deve ir embora, Sr. Farr. Você é necessário.”
“Estou indo porque posso ajudar melhor o trabalho dessa maneira. Se eu ficar aqui, posso ser a causa de um grande mal.”
“Eu não consigo entender.”
“Eu não quero que você entenda.”
“Por quê?”
“É um assunto que diz respeito a outros além de mim mesmo.”
“O Sr. Converse sabe que você vai embora?”
“Vou dizer a ele esta noite antes de sair da cidade.”
“Ele não vai permitir que você faça isso.”
“Sim... ele vai”, o jovem respondeu, calmamente.
Houve um longo silêncio.
“Vir aqui... seguir você... foi uma loucura da minha parte”, disse a moça, ainda se esforçando para encontrar uma explicação para seu ato. “Mas eu tive tantos problemas em minha própria vida... Sinto pena de outros que estão em apuros. Quero lhe dizer que sinto muito.”
“Eu entendo”, ele repetiu.
Outro período de silêncio se seguiu.
“É só isso”, disse a moça. “Eu só queria lhe dizer que batalha grandiosa você venceu hoje... e então vi seu rosto ali no salão e soube que você não queria elogios... você queria que alguém lhe dissesse: 'Eu sinto muito'.” Ela se deteve na palavra que expressava sua simpatia, colocando todo o seu coração em sua voz. “E agora vou indo”, ela disse, “e espero que você entenda e me perdoe.”
Farr estava sentado com a cabeça contra o tronco da árvore. Quando ele começara a se levantar, ela pedira que permanecesse sentado. Agora ele se levantou tão rapidamente que ela arquejou. Ela estava claramente ainda menos à vontade quando ele se levantou e chegou perto dela.
“Espere um momento. Você acha que sou um tipo de homem muito estranho, não acha?”
Ela ficou em silêncio.
“Você não precisa responder — não precisa de resposta. Você naturalmente deve pensar isso. Você me conheceu quando eu era um vagabundo. Você me viu vendendo gelo da traseira de uma carroça. Mas... serei muito franco, pois este é um momento que exige franqueza... você me viu em outras circunstâncias que foram um pouco mais louváveis. Você não sabe quem eu sou ou o que pensar de mim. Mas com todo o seu coração e alma, você sabe que eu a amo”, ele declarou, seu tom baixo, tenso e vibrante. “Esse amor não precisou de palavras. Foi uma corte estranha. Espere! Isso não vai ser o que você pensa. Se eu estivesse simplesmente prestes a dizer que a amo, teria dito isso a você há muito tempo — não sou um covarde — e eu tinha visto a única companheira de todo o mundo; eu soube quando a vi no pó da longa estrada. E depois que você seguiu em frente, colhi uma rosa à beira do caminho, e as cinzas daquela rosa estão no meu bolso agora. Chamei você de irmãzinha da rosa e segui atrás de você, brincando com um sonho. E joguei a rosa fora depois que a vi na floresta com seu amante — e entendi. Mas voltei e cacei de joelhos pela sua irmã. Eu não pretendia dizer nada disso a você. Pois não tem utilidade.”
“Não; eu estou prometida a Richard Dodd”, ela soluçou.
“Se fosse só isso que estivesse entre nós, eu agora chegaria e a tomaria em meus braços”, ele disse, com amargura.
“É mais do que uma simples promessa — ele é meu dono — foi um negócio e uma venda — é sacrifício — para... Mas não devo lhe contar.” Ela foi até a árvore, encostou a testa nos braços cruzados e chorou com o abandono piedoso de uma criança. Ele chegou perto e colocou uma mão terna sobre seu ombro.
“Sacrifício, irmãzinha da rosa! Então há outro vínculo entre nós! Sacrifício! Meu Deus! A maldição que às vezes é colocada sobre os inocentes!” Ele colocou a ponta do dedo indicador sob o queixo dela e ergueu seu rosto de seus braços. “Não tenho direito de lhe dizer que a amo. Devo seguir em frente. Não posso nem explicar a você por que não posso tomá-la em meus braços e implorar pelo seu amor.”
Seus olhos disseram-lhe que resposta seu apelo ganharia, e ele tremeu e se afastou dela.
“Já que nunca pode ser”, ela disse, com a voz quebrada, “você pode muito bem saber que eu... que eu amo... eu não pude evitar. Sou atirada — sou ousada — é descarado — mas nunca amei ninguém antes.” Ela estendeu as duas mãos, e ele as segurou.
O velho Etienne arrastava-se obstinadamente em seu trabalho, sua lanterna iluminando sua labuta. Os teares batiam atrás das janelas empoeiradas que espalhavam seu brilho sobre a escuridão.
“É um pouco estranho que agora outra experiência maravilhosa, mas amarga, deva vir à minha vida neste local onde estamos”, ele lhe disse. Ele falou calmamente, tentando acalmá-la; esforçando-se para reprimir suas próprias emoções. “Acho que o destino escolheu este lugar como o local certo para nos dizermos adeus. Fiquei aqui um dia e vi o velho Etienne trazer uma mulher morta à superfície da água, e encontrei uma carta em seu peito e peguei sua chave e fui e encontrei a pequena Rosemarie.”
Ela o encarava, seus olhos muito arregalados na escuridão.
“E aquela mulher morta... ela era a mãe da menina?”
“Sim, uma tecelã pobre que as fábricas tinham quebrado. E Rosemarie e eu sentamos a noite toda sob esta árvore. É uma história longa demais para você agora. Não importa sobre isso, mas eu...”
“Eu sei sobre Rosemarie”, ela confessou.
“E meu coração se abriu e algo novo veio para dentro dele, irmãzinha da rosa. E agora neste local eu estou, e toda alegria, esperança e amor estão mortos para mim quando devolvo a você estas mãos queridas.”
Ela ainda o encarava.
“Mas eu não devo... eu não ouso falar disso”, ele continuou. Seu aperto tornou-se tenso. “Veja como estou tentando ser calmo? Não vou perder o controle de mim mesmo. Nosso destino foi escrito para nós por outras mãos, querida. Quando era verão, caminhei aqui com Rosemarie e a mamãe-de-brincadeira. Agora é outono e...”
“Mamãe-de-brincadeira!”, ela arquejou.
“Sim, uma moça querida e boa que trabalhava duro na fábrica e que era muito boa para nossa Rosemarie; eu estava fazendo tentativas pobres de comprar roupas de menina pequena, e Zelie Dionne era sábia nesses assuntos e estava ocupada com sua agulha.”
“Espero que me desculpem”, interrompeu o velho Etienne. “Ouvi o nome de Zelie Dionne, mas não pretendo ouvir. Tenho boas notícias para você, M'sieu' Farr, o que você não ouve porque não está neste lugar há muito tempo. E não são boas notícias para você, ma'm'selle, pois agora você não pode se familiarizar com uma moça canadense muito simpática. O grande beau Jean veio aqui de Tadousac e agora ele possui uma fazenda bonita e eles vão se casar e ser muito felizes no país dos habitantes.”
“Graças a Deus, há alguma felicidade neste mundo”, disse Farr. “Ela é uma boa moça.”
Havia quase alegria no rosto de Kate Kilgour quando ela olhou para Farr.
Seu deus fora restaurado ao seu pedestal.
“Adeus”, ele disse no pequeno portão pelo qual ela tinha entrado na rua.
“Não”, ela gritou enquanto se virava e se apressava para longe; “Eu não vou dizer isso... não agora!” E ele se perguntou porque havia alegria em seus tons.
XXXI
A MÁSCARA DO CINISMO
O velho Etienne veio ao portão com sua lanterna; as grandes turbinas estavam acalmando seu estrondo e rosnado nos poços profundos e seu dia de trabalho terminara.
“Talvez você possa caminhar até a casa da Mãe Maillet comigo e dizer a boa palavra para Jean de Tadousac e para Zelie Dionne, que agora está tão feliz”, sugeriu o velho, humildemente. “O bom padre vai casá-los muito em breve e eles irão para casa.”
“Sim, eu vou, Etienne. Posso dizer adeus lá para você e para a Srta. Dionne.”
“Então você vai visitar algum lugar, eh, depois de seu trabalho duro? Isso será muito bom para você, M'sieu' Farr. Você voltará muito descansado e então mostrará às pessoas pobres como vai ajudá-las mais um pouco.”
“Eu não vou voltar... estou indo embora para ficar.”
“Mas você prometeu sob a luz grande do hotel de ville... ouvi você prometer que ficaria”, protestou o velho.
“Meu trabalho está terminado.”
“Isso não é verdade, M'sieu' Farr. Pois muitos homens vêm falar comigo sobre a cerca desde que eu me levantei no grande salão. Eles são mais sábios do que um tolo como eu. Eles dizem que você apenas começou a fazer grandes coisas pelas pessoas pobres. Você deve tirar os canos de água dos homens que os envenenaram. Ah, é isso que eles dizem. Eu não entendo, mas eles dizem que será assim.”
“Outros homens podem fazê-lo”, disse Farr, secamente.
“E ainda assim você voltará... quando?” O velho lutava com sua perplexidade e dúvida.
“Nunca.”
Ele compreendia como estava ferindo aquele velho homem, mas a amargura e a desesperança estavam expulsando todos os sentimentos ternos de Farr naquele momento. Mais uma vez ele colocou a máscara do cinismo. Ele temia mostrar a alguém as profundezas de sua alma.
Na pequena sala de estar da boa mulher, eles encontraram Zelie Dionne.
“Parei para me despedir, Srta. Zelie. Estou indo embora. Sinto muito que o grande jovem de Tadousac não esteja aqui.”
“Ele vem sentar-se comigo à noite. Você deve esperar e vê-lo.”
“Não, preciso me apressar.”
“Tenho lido sobre você.” Ela bateu no jornal em sua mão. “O rapaz acabou de passar, gritando as notícias. É muito maravilhoso o que você fez. Agora você será o grande homem. Mas eu sabia o tempo todo que você era muito mais do que parecia ser.”
“No entanto, você não parece me entender agora”, declarou ele. “Estou saindo desta cidade... deste estado. Vou ficar longe.”
“Oui, ele disse isso para mim”, disse o velho Etienne, desolado. “E eu não entendo.”
“E eu não entendo.”
“Estou cansado... coloque dessa forma.”
“Ah não, não é isso.”
“Bem, sou mais ou menos um covarde e um desistente quando chega a hora do aperto. Não quero que vocês dois, boas pessoas, sintam pena de mim. Esqueçam-me. Esse será o melhor caminho. Espero que vocês sejam muito felizes em Tadousac, Srta. Zelie.”
“Eu esperava que fôssemos melhores amigos”, disse ela simplesmente. “Estou muito triste por descobrir que você não confia em nós.”
“Oh, eu sou egoísta... é isso. Lembrem-se de mim como um homem egoísta que estava cansado e fugiu.”
“Nós temos falado sobre você, Tio Etienne e eu, e nunca dissemos que você é egoísta.”
“Isso mostra que vocês não me conhecem”, disse Farr, rudemente.
“Mas nós sabemos o que você fez”, insistiu o velho, com paciência e confiança. “Pois o que você diz que não fará, não nos importamos com isso. Pois nós vimos o que você fez... ah, nós sabemos sobre isso e nos importamos muito. Você é mais sábio do que nós, e se você diz que deve ir, só podemos olhar para você muito tristes e baixar a cabeça. Eu gostaria de ter alguma língua para lhe dizer o quão triste estou! Mas as palavras ianques... não conheço aquelas que dizem o quão triste estarei. Não é muito o que posso fazer pelas pobres criancinhas... apenas entalhar madeira e economizar centavos para o ar fresco.”
Outro homem, outro tom, poderia ter colocado repreensão, indiretamente, nessas palavras. Mas o velho Etienne, raspando as palmas das mãos calejadas nervosamente, estava meramente se dedicando ao sacrifício porque não havia mais ninguém para fazê-lo. Farr compreendeu e foi suavizado.
“E agora devo ir para a cama para meu sono, porque a grade deve ser limpa antes que a roda comece a fazer barulho no grande fosso pedindo por sua água.” Ele estava demonstrando nervosismo, pressa, sua voz tremia; ele cambaleou quando se levantou da cadeira.
“É melhor você se despedir de mim agora”, disse Farr, levantando-se com o velho. “É uma boa noite sob as estrelas. Provavelmente estarei longe na estrada ao amanhecer.”
“Adeus”, murmurou o velho Etienne, tateando seu chapéu e curvando-se.
“Mas você não vai me dizer mais nada... dizer que sente muito por eu ir?” exigiu o jovem. “Estivemos próximos em algumas coisas que nunca esqueceremos.”
“Eu lhe disse. Não posso dizer o quão triste.” A voz do velho era pouco mais que um sussurro rouco.
“Eu gosto de você, Tio Etienne. Quero que saiba disso. Você é um velho santo.” Ele estendeu a mão, mas o encarregado da grade virou-se e correu para a porta. “Não vai pegar minha mão?” gritou Farr. “Sou tão traidor assim?”
“Oh, eu não posso falar! Não tenho palavras”, lamentou o velho da escuridão na rua. Sua voz subiu em tons agudos e rachados. Ele começou a chorar em voz alta. Ele vinha contendo seus sentimentos com toda a força de sua vontade desde que Farr anunciou suas intenções. Sua partida era uma fuga. Ele começou a correr pela calçada. “São José, guarde minha língua!” ele ofegava repetidamente. “Vou andar bem rápido para não dizer, pois sou apenas o velho Pickaroon, e ele é um bom cavalheiro!” Ele continuou a chorar de partir o coração.
“Sr. Farr, ele estava com medo de lhe dizer o quanto o amava... com medo de que você se sentisse insultado se ele presumisse lhe contar.”
“Acho que não entendo bem isso”, comentou Farr, olhando para a noite, espreitando para ter outro vislumbre de Etienne.
“Eu entendo!” disse a moça. “Seria muito ruim para você ir embora e pensar que, na despedida, ele não foi educado com você. Eu não gostaria que você supusesse que essa falha existe em alguém de Tadousac. Ele me contou. Se você não o seguir e assustá-lo dizendo que sabe disso, eu lhe direi.”
“Não o seguirei. Provavelmente nunca mais o verei.”
“Pode ser um pouco difícil para você entender, pois você não conhece a natureza francesa, talvez. Mas desde que a pequena Rosemarie se foi para sempre, ele o ama. Você fez dele algo mais do que o velho encarregado da grade quando o tomou como parceiro. Quando você o tornou seu amigo diante de todos os grandes homens na Prefeitura, algo floresceu nele, m'sieu'... algo que antes era apenas um botão murcho! Ah, você acha que sou fantasiosa? Muito bem! Não consigo pensar em como dizer de outra maneira. Você é um símbolo para ele da pequena Rosemarie que se foi; você é amigo, você é filho, você é, aos olhos dele, o salvador destinado dessas pessoas pobres.”
“Estou feliz por estar indo embora. Eu odiaria trair uma fé tão infantil. Adeus, Srta. Zelie!”
Ele a ouviu chamá-lo quando já estava na rua. Ele se virou e parou, viu sua figura esguia e branca no portão, e recuou na metade do caminho.
Ela era a personificação da simpatia juvenil, e sua alma perturbada, faminta e autocrítica captou a irradiação daquele consolo feminino.
“Não é o que você diz para mim que você é”, disse ela, sua respiração vindo rápida, seus tons baixos. “É o que eu sei que você é! O que você será quando finalmente cair em si. Não me importo com o que você diz. Eu não vou me lembrar! Para o mundo... para mim... para o pobre Etienne, agora mesmo, você mentiu sobre si mesmo, M'sieu' Farr... sobre seu verdadeiro eu. Mas você não mentiu para uma garotinha quando ela lhe pediu para mostrar seu verdadeiro eu a ela. De você mesmo... com a pequena Rosemarie... disso eu me lembrarei!”
“Agradeço a você”, disse ele, com gratidão.
“Algum dia uma mulher o amará”, ela continuou. “E quando você tiver certeza de que ela o ama, então você lhe contará seus problemas e ela saberá o que dizer para consertar as coisas para você. Pois essa é a missão das boas mulheres. Elas entendem como ouvir e como ajudar os homens que amam. Você verá!” Ela correu para dentro de casa.
Farr foi prontamente admitido quando se apresentou à porta da residência de Archer Converse, e foi conduzido à biblioteca daquele cavalheiro, ficando frente a frente com seu patrono, a quem encontrou sentado muito ereto em uma cadeira de encosto alto.
“Estive esperando por você, senhor”, disse Converse.
“Eu esperava que o senhor estivesse esperando, senhor.”
“Sente-se.”
“Ficarei de pé, se me permite. Tenho apenas algumas palavras a dizer.”
“Então sua natureza deve ter mudado muito repentinamente”, disse o advogado, secamente. “Ou será que você esvaziou seu reservatório de linguagem quando colocou meu nome em votação hoje?”
Farr curvou-se sem responder.
“Ouvi dizer que esse discurso foi muito elogiado. Entre os oportunistas, você merece uma classificação alta, Sr. Farr. Você virou um estado de cabeça para baixo muito eficazmente, e eu estou de cabeça para baixo junto com o resto.”
“Ficarei aqui muito pacientemente, senhor, e aceitarei meu castigo. Entre nós, eu não tinha o direito de fazer o que fiz hoje sem consultar você. Quanto às condições no estado, eu tinha o direito de aproveitar aquela oportunidade e dar ao povo um homem em quem se pode confiar. Eu o fiz. Siga em frente, agora, Sr. Converse!”
Para a surpresa do jovem, o candidato se levantou e veio até ele com a mão estendida. Um sorriso rompeu a severidade da fisionomia do advogado. “Aceitei uma confiança pública com orgulho, estou cumprindo meu dever claro com satisfação, e trabalharei para ser eleito com todas as minhas forças. Caso contrário, eu não seria filho do meu pai. Meu rapaz, tive uma conversa com o Cidadão Drew hoje. Ele me contou sobre sua ideia de chutar homens honestos para a política. Quero que entenda que lhe agradeço sinceramente por ter me chutado para dentro. Vou nadar!”
“'Então Deus está em Seu Céu e o mundo está bem'”, declarou Farr.
O olhar inquisitivo e perscrutador do advogado era bastante perturbador; o jovem notara Converse observando-o com interesse peculiar durante seus encontros no passado recente. Agora Converse lançava um escrutínio particularmente atento sobre seu visitante.
“Sinto que fiz meu trabalho, senhor”, apressou-se Farr em dizer, ansioso para terminar aquela entrevista. “Estou indo embora... para fora do estado. Não voltarei.”
O Sr. Converse não explodiu em protesto. Ele observou Farr mais de perto. Então, ele alcançou um botão e acendeu a luz total do lustre. “Você tem um bom motivo para desertar justamente quando é mais necessário, suponho, senhor?”
“Tenho. É um motivo que diz respeito especialmente ao sucesso da legislação que discutimos. Se eu ficar, vou atrapalhá-lo.”
“Pedirei que fique onde está por alguns minutos, senhor”, disse o advogado, ordenando mais do que solicitando. Ele foi até um armário e retirou um pacote. Trouxe aquele pacote para a mesa e começou a separar fotografias.
Ele selecionou uma, observou-a com olhar cuidadoso e desviou os olhos para o rosto do jovem.
“Hum!” comentou ele, com tom judicial. “Agora... suponha que você me diga... exatamente como sua presença contínua neste estado vai me atrapalhar”... ele pausou; arrastou as próximas palavras, enfatizando-as... “Sr. Bristol!”
Farr começara um recuo nervoso quando o advogado iniciou a comparação das feições vivas com a fotografia. Era claro que ele temia mais do que compreendia.
“Espere aí!” gritou o investigador. “É melhor você ficar e resolver este assunto, Bristol. Você olha para esta imagem! Você a reconhece, não é? Se você tem alguma dúvida, vou informá-lo de que é uma foto de seu pai quando ele e eu estávamos na faculdade de direito juntos.”
“Nego qualquer parentesco com aquele homem.”
“Seu tom e sua maneira o condenam, meu rapaz. Eu o surpreendi com esse nome propositalmente. Não sou tolo quando se trata de interrogar uma testemunha. Quando pus os olhos em você pela primeira vez, pensei que o tinha visto em algum lugar, e estive quebrando a cabeça. Então me ocorreu que conheci, na juventude, um sujeito que se parecia com você. Você é filho do seu pai, com certeza. Não se desvalorize mentindo para mim. Você é o garoto de Morgan Bristol! Hah?”
“Eu sou”, confessou o jovem, com resignação.
“Qual é o seu primeiro nome?”
“Thornton.”
“Sente-se, Thornton!”
O visitante obedeceu.
“O que você fez de que se envergonha, meu rapaz?”
“Não posso lhe dizer”, disse Bristol, firmemente.
“Oh, mas você vai”, insistiu o advogado, com a mesma firmeza. “Você está agora me contratando como seu advogado e conselheiro... quer você saiba disso ou não. E quando um homem fala com seu advogado e diz a verdade, não é nenhuma traição de confiança. Desembucha!”
“Não há nada a ser feito, Sr. Converse.”
“Sempre há algo que pode ser feito quando um homem está em apuros. Você é filho de Morgan Bristol. Estudei com seu pai. Ele foi para o Oeste e se estabeleceu. Ele está vivo?”
“Acho que sim.”
“Como é que você não sabe?”
O Sr. Converse acomodou-se no tom e na pose do interrogador.
“Tenho sido um vagabundo, escondendo-me nas estradas e caminhos deste país, por muito tempo.”
“O que aconteceu para expulsá-lo dessa maneira?”
“Justamente aí, Sr. Converse, é onde devo parar. É um assunto de família. Não posso entrar nisso.”
“Olhe aqui, Thornton, você está em apuros. Se você está em apuros, seu pai também está. Ele perdeu um filho! Você pode me dizer agora do que se trata, ou largarei meus negócios e irei procurar Morgan Bristol e perguntar a ele sobre isso. Você pode muito bem me poupar todo esse tempo e trabalho. Você é um advogado, você mesmo... eu sei disso.”
“Sim.”
“E você é um bom advogado e conhece nosso código quando se trata de segredos. Não estou pedindo que você exponha um esqueleto da família... estou exigindo que você me trate como seu advogado e confie na minha discrição. Você está em apuros e precisa de um ajudante, e, por Deus! você tem que me incluir nisso.”
Thornton Bristol colocou os cotovelos nos joelhos e agarrou seus dedos trêmulos em seu cabelo.
“Eu pretendia guardar tudo apenas para mim, senhor”, ele gaguejou.
“Muito provável. Você se saiu muito bem nisso, eu diria. Mas você sabe que qualquer homem que atua como seu próprio advogado geralmente faz um trabalho muito pobre. Falta-lhe perspectiva.”
Bristol não respondeu.
“Tenho estudado você um pouco desde que o conheço”, continuou o advogado. “Você é uma mistura muito estranha, meu rapaz. Receio muito que, em algumas coisas nesta vida, você seja quixotesco demais em suas opiniões. Tivemos um caso aqui na cidade... um homem chamado Andrew Kilgour...”
“Ouvi falar sobre esse homem, senhor.”
“Thornton, pelos vislumbres que tive de sua natureza, vou lhe dizer aqui e agora que você está encobrindo a falha de outra pessoa. Você não é um covarde. Você enfrentaria sua própria delinquência tão bravamente quanto veio aqui e me enfrentou esta noite. Agora, o que seu pai fez?”
“Especulou com fundos fiduciários de propriedades.”
“História antiga, hein? Muito ruim, Morgan. Eu gostava de você quando era jovem.”
“Mas quero que você entenda”, gritou o filho. “É difícil para mim falar sobre isso, senhor, mas não é exatamente a história antiga. Meu pai era indulgente demais no que me dizia respeito. Ele tentou fazer por mim mais do que podia pagar. Ele não me disse a verdade sobre seus negócios... eu supunha que ele era um homem rico. Sempre tive tudo o que o dinheiro podia proporcionar. Quando ele descobriu que eu estava interessado em direito, ele me enviou para escolas no país e no exterior e me ordenou que levasse meu tempo e fosse ao fundo de tudo.”
“Bem, creio que você foi”, afirmou Converse. “Se alguma vez vi um sujeito com a verdadeira mente jurídica, você a tem, polida e aguçada. Você veio para este estado e viu uma solução para um problema que nos bloqueou por vinte e cinco anos. É uma boa lei! E teremos um legislativo que a aprovará. Mas quando você descobriu que seu pai tinha pegado o dinheiro de outras pessoas?”
“Voltei para casa e insisti em ir trabalhar no escritório. Então ele me contou. O acerto estava vencido e tinha sido solicitado. Ele foi obrigado a me dizer. E ele tentou me convencer de que não tinha pegado o dinheiro por minha causa. Ele estava disposto a aparecer aos meus olhos como um ladrão sem desculpas. Mas eu sabia. Eu tinha egoisticamente aceitado tudo sem pensar... e apenas meio grato. Os jovens são impensados, senhor.”
“Seu pai parece ter sido quixotesco à sua própria maneira, Thornton. Acho que me lembro de alguns de seus traços quando ele estava na escola. Mas, como o velho Hard-Times Brewster costumava dizer: 'Somos todos criaturas pobres e estranhas e alguns são mais estranhos que os outros!' Então você era um pouco mais estranho que seu pai, hein, e tentou resolver as coisas com um pior pedaço de loucura?”
“Pode ter sido loucura. Talvez tenha sido. Mas não parei para discutir ou raciocinar. Aquele dinheiro tinha sido gasto comigo. Aceitei a culpa. Não disse nada ao meu pai. Escrevi cartas para as pessoas que tinham perdido. Disse-lhes que tinha pego o dinheiro como agente de meu pai... sem o conhecimento dele. Disse que o enganei, assim como a eles. E então, para que eu não me perjurasse no tribunal ou tivesse a verdade arrancada de mim por advogados, coloquei trapos e me escondi entre os milhares que caminham pelas estradas e viajam nos eixos dos trens de carga. E ninguém veio até mim e colocou uma mão pesada em meu ombro e disse: 'Eu quero você!' Mas alguém virá se eu permanecer aqui. Vou me esconder novamente.”
“Eu digo que tudo isso foi uma loucura”, insistiu Converse. “Querida loucura! Sim, loucura quase nobre! Mas deve terminar, meu rapaz. Suponho que seu pai esteja lá atrás trabalhando para pagar aqueles homens de quem ele pegou dinheiro.”
“Suponho que sim, Sr. Converse. Mas ele não foi desonrado aos olhos do público.”
“É aí que sua loucura nobre cometeu o erro. Você dobrou a dor dele, Thornton. Apenas sente-se aí um momento e pondere. Você entenderá o que quero dizer.”
“Eu entendi... ponderei... mas não tive a coragem de voltar. Pelo menos, eles não podiam dizer a ele que seu filho estava na prisão. Ele escapou desse pesar.”
“E suportou um mais pesado, meu rapaz. Receio que você seja um mau conselheiro em seus próprios assuntos.” Ele atravessou a sala até Bristol e bateu no ombro curvado. “Agora você encontrou um melhor. Eu assumi seu caso.”
O jovem olhou para as feições gentis de seu conselheiro e estava apenas meio convencido.
“Você não percebe quão fácil será para você ganhar dinheiro a partir de agora? Não? Bem, deixe-me dizer. Assim que você puder ser admitido na ordem neste estado, vou torná-lo meu sócio. Espere! Não estou lhe fazendo nenhum favor especial... estou colocando em meu escritório um homem que teve a perspicácia jurídica para conceber um plano para quebrar o controle profano de saqueadores que têm este estado pela garganta há um quarto de século. Estou simplesmente agarrando você antes que outra pessoa o faça. Espero ser governador deste estado, e quero meus negócios jurídicos cuidados por um homem que seja capaz de manter a reputação da firma. Mas, acima de tudo, meu rapaz, você e eu voltaremos à sua casa. Acho que você me achará um advogado razoavelmente bom em desembaraçar nós. Saberei exatamente como falar com aquelas pessoas lá fora. E então você voltará aqui comigo e enfrentará este estado como você mesmo e me ajudará a lutar pela legislação que queremos ver promulgada... e que se danem!” Ele colocou o braço em volta dos ombros do jovem e o puxou para ficar de pé. “Tem sido um dia difícil para você, meu rapaz. Há algumas coisas difíceis à sua frente. Você deve ir para a cama. A manhã trará conforto e bom conselho.”
Mas quando Bristol começou a caminhar em direção à porta, Converse deteve-o gentilmente e conduziu-o para a escadaria que subia do grande vestíbulo.
“Você está em casa, meu rapaz — exatamente aqui — você está em casa daqui em diante! Este é o seu outro lar até que seu pai precise mais de você do que eu. Tenho me sentido muito solitário nesta casa por muitos anos sem compreender exatamente o que havia de errado comigo.”
“Afinal, o senhor só tem a minha palavra sobre quem sou e o que fiz”, expôs Bristol.
“Oh, não, tenho a evidência dos meus olhos e ouvidos e do meu próprio bom senso.”
Bristol apertou a mão estendida para ele.
“Não vou falar mais com você esta noite”, declarou o anfitrião, quando estavam no patamar superior. “Tudo parecerá diferente pela manhã. Vai ficar tudo bem depois disto, Thornton. Sinto muito por não ter uma esposa. Uma mulher entende como ouvir problemas melhor do que um homem. Sua mãe está viva?”
“Não, Sr. Converse.”
“Eu poderia ter imaginado isso. Você não teria permitido que uma mãe sofresse — sua insensatez nunca teria ido tão longe. Você teria voltado para casa muito antes disso. Ah, bem, meu rapaz, alguma mulher saberá como confortá-lo um dia por tudo o que você suportou. Boa noite!”
O jovem sabia que Zelie Dionne estivera certa no que dissera; ele não precisava da opinião adicional do advogado mais eminente do estado.
XXXII
A DÍVIDA
O coronel Symonds Dodd sentava-se à sua escrivaninha no edifício do First National e agarrava inutilmente as pontas arrastadas dos acontecimentos. Ele não conseguia segurar firmemente nada e, irado, informou ao juiz Warren que toda a situação era um “pesadelo maldito”.
“Bem”, afirmou o juiz, que fora picado em seu orgulho jurídico pela língua de seu mestre, “a Consolidated tem feito algumas refeições bastante fartas. Não é de admirar que esteja tendo sonhos ruins agora”.
“Você está agachado como um velho galo em um monte de pó”, enfureceu-se o coronel, irritado demais para ser criterioso em sua linguagem. “Você, um advogado de vinte e cinco mil dólares, vem aqui me dizer que não pode bloquear o esquema confiscatório de um canalha — um zé-ninguém — um estranho vigarista neste estado!”
“Continuarei a luta se o senhor me ordenar que o faça”, disse o advogado da corporação. “Esse é o meu trabalho. Podemos fazer lobby na próxima legislatura. Podemos lutar contra as leis que a legislatura de Archer Converse certamente aprovará, pois eles estão atrás de nós, Coronel Dodd. Podemos levar a coisa ao mais alto tribunal — e então podemos lutar contra as avaliações de cada estação de tratamento de água no estado, mas...”
“Bem, mas o quê?”
“Um por um, eles vão forçar a abertura de cada dedo que temos enganchado em nossa proposta. Submeti esse plano de distrito hídrico ao teste ácido, Coronel. Era meu dever fazê-lo. Um advogado deve manter a calma enquanto seus chefes praguejam e menosprezam. Tenho as opiniões dos departamentos jurídicos de três faculdades importantes sobre o esquema. Todos dizem que tal plano, se devidamente salvaguardado pela lei constitucional, passará por todos os bloqueios que pudermos erguer. Agora, se o senhor quiser gastar dinheiro, ajudarei a gastar tudo o que o senhor quiser destinar”, concluiu o juiz, severamente.
“Nós lutaremos”, foi o ditame do mestre.
“Então, presumo que o senhor decidiu definitivamente abrir mão do seu controle político! Uma certa quantidade de popularidade é necessária para garantir qualquer homem na política. O senhor será o homem mais impopular deste estado se começar a lutar contra cada cidade e município simplesmente com o propósito de acumular custos e afastá-los do que é deles, enquanto tiver força para fazê-lo.”
“Não me importo com a política — a política já foi para o diabo neste estado. Eles se cansarão de perseguir fogos-fátuos por um pântano seguindo tais janotas como Arch Converse, e voltarão e serão bons. Esperarei que eles voltem. Mas, enquanto isso, farei com que os tribunais digam se a nossa propriedade pode ser confiscada. Vou arrancar algumas peles enquanto eles tentam!”
O juiz Warren curvou-se rigidamente e retirou-se da entrevista.
Dia após dia se passou e o Coronel Dodd estava mais convencido do que nunca de que o pesadelo continuava. Os políticos concordavam com ele — todos eles com espanto, muitos deles com ira.
Porque o Honorável Archer Converse e o homem que se chamava Walker Farr tinham desaparecido completamente de vista, não deixando explicação de qualquer tipo.
“Eles nem me contaram”, confessou Daniel Breed, “e eu sou o principal organizador deles, e aqui está a eleição de novembro bem em cima de nós — e até o Apóstolo Paulo teria que fazer pelo menos quatro semanas de campanha ágil neste estado para ter certeza de ser eleito, se um comitê estadual estivesse se preparando para nos abandonar como o nosso parece estar fazendo. Estou pasmo. Não consigo me expressar de outra maneira.”
O Sr. Breed, em momentos de especial ansiedade e desânimo ao revisar a situação, sugeria sombriamente que o grande júri deveria investigar o assunto. A Consolidated tinha feito quase tudo até o momento, exceto assassinar e sequestrar, ele alegava, e todos conheciam o atual estado de espírito do Coronel Dodd.
No entanto, o Coronel Dodd recebeu a Srta. Kate Kilgour educadamente quando ela veio até ele; ele sempre a mantivera em estima logo abaixo dos arranjos de flores em seu escritório.
“Vim ao senhor”, explicou ela, “porque não consegui obter a informação em nenhum outro lugar. Eu tentei. Não quero incomodá-lo, senhor.”
A moça estava lamentavelmente destruída, sua voz tremia.
“Bem, bem, o que é?”, ele exigiu, impacientemente, e ainda assim com um toque de tolerância gentil. “Você não precisa ter medo de mim, mesmo que você tenha me deixado em um piscar de olhos, Srta. Kilgour.”
“Onde está seu sobrinho, Richard?”
E então, apesar de sua declaração tranquilizadora, a Srta. Kilgour teve medo dele.
Seu rosto quadrado estava tingido de vermelho, ele golpeou o punho em sua mesa, saltou da cadeira e afastou-se dela, praguejando violentamente.
“Quem a enviou aqui para me fazer essa pergunta?”, gritou ele, avançando sobre ela da janela.
“É assunto meu — vim por conta própria”, gaguejou ela.
“Como isso passou a ser assunto seu, senhorita?”
“Eu dei a ele minha promessa de me casar com ele.”
“Se você fez isso, cometeu um erro dos diabos; posso lhe dizer isso, jovem!”
“Eu percebo, Coronel Dodd. Quero saber onde ele está. Quero retirar essa promessa.”
Ele se controlou e olhou fixamente para ela. “Aceite meu conselho e considere seu contrato com Richard Dodd anulado — por razões boas e suficientes, Srta. Kilgour. Não quero dizer mais nada. Não posso dizer mais nada. Esta coisa toca em um ponto sensível para mim. Não tenha medo. Não estou zangado com você. Mas apenas esqueça aquele sujeito e siga com seus próprios negócios.”
“Farei isso, Coronel Dodd, depois que eu tiver resolvido certos negócios com ele.”
“Que negócios?”
“Não posso lhe dizer.”
“Você terá que me dizer”, insistiu ele, rudemente. “Estou agora ocupado investigando os negócios do meu sobrinho. Quero toda a informação que puder obter.”
“Só posso pedir-lhe — implorar-lhe que me diga onde ele está.”
“Eu gostaria de saber, eu mesmo”, retrucou ele, sem rodeios. “Eu daria bastante para saber. Você não precisa olhar para mim como se achasse que estou mentindo! Agora, é melhor você ser franca comigo, Srta. Kilgour. Serei franca com você. Sempre a considerei uma jovem prudente e cautelosa. Vou arriscar e lhe contar algo que tenho guardado para mim. Quero que você saiba por que não precisa se sentir obrigada a manter qualquer promessa que tenha feito ao meu sobrinho. Ele pregou uma peça desprezível em mim, seu próprio tio, depois de toda a ajuda que lhe dei. Ele praticamente roubou cinco mil dólares de mim e fugiu, e eu não sei onde ele está. Agora, o que você tem a me dizer?”
“Quero colocar isto nas mãos dele, senhor.” Ela produziu um pacote, para o qual o coronel olhou com curiosidade. “O senhor certamente descobrirá onde ele está. Quero que o entregue a ele.”
“Oh, cartas de amor, hein?”
“Não, senhor!”
Com dedos trêmulos, ela desamarrou o cordão e exibiu o conteúdo. O pacote era dinheiro, muitas notas empilhadas ordenadamente, e o tamanho do maço fez o coronel abrir os olhos muito arregalados.
“Nós — eu — nós devemos isso a ele, senhor. Há cinco mil dólares aqui.”
“Então foi isso que ele fez com meu dinheiro, hein? Bem, eu aceitarei.”
“Não acho que seja o seu dinheiro, Coronel Dodd. Tenho bons motivos para ter certeza de que não é. Não vejo seu sobrinho desde o dia da convenção, e então apenas à distância. E este dinheiro — foi emprestado há muito tempo.”
“Emprestado por quem — por você?”
“Não, senhor. Não posso lhe contar as circunstâncias. Simplesmente quero que o senhor devolva a ele. Sentirei que estou liberada da minha obrigação.”
“Olhe aqui, minha cara jovem”, disse o coronel, com toda a sua firmeza autoritária, “não haverá mais enigmas aqui. Você deve me dizer a verdade. Eu preciso dela — ouviu? Caso contrário, tomarei medidas para fazê-la falar — e isso pode não ser tão confidencial quanto uma conversa aqui comigo. Pretendo saber sobre os negócios do meu sobrinho, informo-lhe mais uma vez!”
“Minha mãe pegou esse dinheiro emprestado dele. Ela estava em apuros. Ele a ajudou.”
“Sua mãe precisa de um tutor. Peço perdão! Mas pensei que ela tivesse aprendido sua lição uma vez antes na vida. Então meu sobrinho emprestou dinheiro para sua mãe! Onde ele conseguiu esse dinheiro?”
“Eu não...”
“Espere! Espere antes de dizer isso, Srta. Kilgour. Não suportarei mentiras de ninguém agora. Fui enganado demais ultimamente. Este é um assunto do meu próprio sobrinho. Ordeno que me diga a verdade.”
Ela hesitou por um longo tempo, seu semblante expressando sua agonia. “Não tenho nenhum direito de traí-lo, senhor.”
“Ele não conseguiu cinco mil dólares por nenhum meio honesto. A reputação da família está em risco agora, Srta. Kilgour. Quero protegê-la por causa de mim mesmo. Ele confessou a você, não confessou?”
“Sim.”
“Posso entender melhor seu senso de obrigação agora. Quando um homem comete um crime por uma mulher, ela recebe algumas noções tolas em sua cabeça sobre apoiá-lo. Conheço as extravagâncias do meu sobrinho, Srta. Kilgour. Ele teve que roubar para conseguir cinco mil dólares para sua mãe. Existe apenas um lugar acessível onde ele poderia roubar. Ele pegou esse dinheiro do tesouro estadual. Ele lhe contou isso. Não estou certo?”
“Sim.”
O Coronel Dodd deu as costas para ela e olhou para seus arranjos de flores.
O suor escorria pelo seu pescoço grosso. Suas bochechas tremiam. Ela sentiu pena desse homem, mesmo em sua própria tribulação. Ela nunca o tinha visto comovido antes.
“Como você conseguiu este dinheiro, Srta. Kilgour?”, perguntou ele, depois de um tempo, com a voz muito baixa.
“Preciso lhe contar?”
“Certamente. Vamos chegar ao fundo dessa coisa.”
“Recebi uma pequena herança da minha tia há alguns anos — eu a tinha guardado no banco. Eu tinha economizado algum dinheiro do salário que recebia aqui. Minha mãe — sinto muito em dizer que ela tem sido vaidosa e extravagante, senhor — ela tinha desperdiçado dinheiro com joias e vestidos, e agora vendeu tudo. Desfizemo-nos de todos os nossos móveis e fomos morar em um lugar muito barato. Consegui juntar o valor da dívida. Aqui está!” Ela colocou sobre a mesa dele, ao lado da mão flácida que ali repousava.
Ele não falou por um longo tempo. “Sinto muito por você”, disse ele, finalmente. “Isso é uma coisa perversa. Mas sei melhor do que lhe dizer para ficar com este dinheiro.”
“Obrigada”, disse ela, calmamente. “Eu sei que o senhor entende!”
“Vou colocá-lo no lugar a que pertence. Isso é tudo!”
E quando ele manteve suas costas largas para ela, ela saiu do escritório, seus pés não fazendo som algum no carpete grosso.
XXXIII
TODO O MUNDO LÁ FORA
Um bom advogado pode realizar muito quando os homens estão dispostos a ouvir a razão e a aceitar a oferta de reparação!
“Tudo para mostrar”, declarou o Honorável Archer Converse ao seu jovem protegido, depois que eles finalmente se separaram de Morgan Bristol na cidade do Oeste, “que um cardo não dói muito, afinal, se você o agarrar com toda a sua força e energia. Encontramos homens honestos aqui, graças a Deus! Ficou claro para mim, meu rapaz, que todos eles conheciam você melhor do que você mesmo se conhecia e é por isso que esperaram tão pacientemente. Mas, oh, aquela sua insensatez!” No entanto, ele deu tapinhas no ombro de Thornton Bristol quando disse isso. “É uma coisa boa para um jovem ter uma dívida saudável quando começa — uma dívida que é uma alegria pagar. Apenas veja isso como um incentivo, rapaz! Você simplesmente hipotecou seu futuro!”
“Estou feliz por ter sido chamado para pagar pelo que desperdicei”, declarou Bristol. “E não me arrependo, Sr. Converse, de que minha insensatez me levou para as estradas secundárias deste mundo. Saberei como apreciar o resto da vida mais intensamente.”
“Precisa de um fogo quente para fazer um bom aço — é verdade”, concordou seu mentor. “E falando em fogo — acho que vamos achá-lo terrivelmente quente quando voltarmos para o lugar onde somos esperados. Agora que estamos deixando os assuntos todos serenos para trás, você deve me deixar pensar um pouco cuidadosamente sobre como enfrentar a situação que temos pela frente.”
Archer Converse reapareceu em sua cidade natal tão discretamente quanto a tinha deixado e manteve o escudo polido de sua reserva urbana sobre quaisquer pontos vulneráveis que dardos de perguntas pudessem atacar.
O Sr. Breed, assegurando a si mesmo que tinha certos direitos pessoais no assunto, veio com uma verdadeira lança de interrogação e investiu incansavelmente.
“É o costume, quando um homem é nomeado, nunca fechar um olho ou deixar o trabalho por um minuto. O senhor quebrou todas as regras e eu tenho feito o meu melhor para inventar uma história para explicar isso”, afirmou o Sr. Breed.
“Obrigado”, retribuiu o Sr. Converse. “Sem dúvida, você fez um trabalho muito bom.”
“Fiz o melhor que pude sem saber sobre o que estava falando.”
“E o comentário geral — o fluxo da conversa foi — o quê?”
“A conversa geral era que o senhor não parecia estar se preocupando muito com a eleição.”
O Sr. Converse voltou um sorriso benigno para seu novo sócio jurídico.
“É geralmente admitido, então, que sinto confiança em ser eleito?”
“Ora, eles acham que o senhor não teria dado no pé a menos que estivesse confiante.”
“Exatamente! Essa minha atitude cuida da multidão que segue a corrente. Eles embarcaram, disseram-me.”
“Sim”, admitiu o Sr. Breed. “Mas o comitê estadual aproveitou-se e abandonou o senhor!”
“Breed, você corra e diga ao presidente desse comitê — da minha parte — que, a menos que ele se mexa com seu pessoal em cada condado deste estado dentro de vinte e quatro horas, farei uma declaração pública de que fui forçado a conduzir minha própria campanha em nome do povo. Você não acha que haveria alguma dúvida sobre minha eleição depois dessa declaração, acha?”
“Nem um pouco”, confessou o Sr. Breed. “O senhor é mais político do que eu imaginava. Desculpe-me por qualquer outro tipo de observação. Vou atirar um pouco de chumbo quente no ouvido esquerdo daquele presidente.”
“Inteligência comum e honestidade básica”, comentou o Honorável Archer Converse quando o Sr. Breed partiu. “Eles são elementos tão novos na política deste estado que parecem à multidão ser uma variedade inédita de astúcia política, Thornton! Não serei tão franco e honesto em algumas outras declarações que estou prestes a fazer, dadas as circunstâncias. Não acredito que minha consciência vá me incomodar um pouco. Vamos, por favor, ter uma ou duas palavras com o Coronel Symonds Dodd.”
O secretário do Sr. Converse prefixou aquela visita com um pedido telefônico por um horário e, portanto, o Sr. Peter Briggs levou-os diretamente à presença do coronel.
“Este é meu amigo e sócio jurídico, Sr. Thornton Bristol”, disse Converse, aparentemente e blandiciosamente inconsciente de que estava lançando sobre o magnata algo muito semelhante a uma bomba.
O Coronel Dodd inclinou-se para frente em sua cadeira, suas mãos agarrando o mogno esculpido da escrivaninha à sua frente.
“Oh, peço desculpas, Coronel”, ronronou o Sr. Converse, amavelmente. “Esqueço que você não está tão familiarizado com a identidade do Sr. Bristol quanto eu. Você o conheceu apenas como um estranho que se autodenominou Walker Farr.”
“Sim, e ele se registrou nas listas eleitorais como Walker Farr”, esbravejou o Coronel Dodd. “Sr. Converse, algo cairá em seu acampamento antes de muito tempo — e não serão pétalas de rosa!”
O Sr. Converse fixou um olhar penetrante no homem zangado.
“Coronel”, disse ele, com significado, “você provavelmente sabe bem que na política muitas coisas são feitas para um determinado propósito — e muitas dessas coisas são um pouco fora de tom no que diz respeito à lei estrita. Se você se importa particularmente em desenterrar o passado da política neste estado, virei com minha própria pequena pá e ajudarei com grande prazer.”
“Você está me fazendo de idiota com esse negócio de esconde-esconde.”
“Sr. Bristol”, continuou o nomeado, com compostura, “após longo estudo no exterior e em casa, dedicou-se entusiasticamente ao estudo da sociologia e da economia, e preferiu obter seu conhecimento sobre as condições através de observação em primeira mão. Ele veio a este estado em busca de seu objetivo e, pela força das circunstâncias, foi atraído para nossa agitação estadual.”
“Muito mais profundamente do que eu pretendia ser atraído, Coronel Dodd”, declarou o jovem, com dignidade. “Acho que você se lembrará de que disse tanto a você em uma entrevista que tivemos. Chamei-me de Voz, se você se lembrar, e humildemente implorei que você atendesse a certas reformas. Sua recusa, e a maneira com que você recusou, forçou-me bastante a entrar em seus assuntos.”
“E dou-lhe um aviso aqui e agora”, esbravejou o coronel, “que vou me forçar a entrar em seus assuntos. Vou fazer com que você seja investigado desde a infância até o presente, Sr. Qualquer-que-seja-seu-nome.”
“Podemos muito bem emitir avisos gerais — todos nós”, disse o Sr. Converse. “Preparei uma declaração para os jornais sobre meu amigo, Sr. Bristol, e ele adicionará uma declaração própria relativa ao seu projeto em relação aos distritos hídricos. Se você quiser difamar o Sr. Bristol após isso, Coronel, pode seguir em frente. Mas se você escolher armas desse tipo na condução desta campanha, seremos forçados a usar alguns porretes nossos — por exemplo, poderíamos ser capazes de dar ao povo informações consideráveis sobre como os departamentos estaduais têm sido gerenciados sob sua direção geral. Os fundos do tesouro estadual...”
Converse estava prestes a mencionar o assunto do usufruto do dinheiro do estado depositado nos bancos do coronel para o benefício do sindicato.
O Coronel Dodd levantou-se de sua cadeira e exibiu confusão imediata e alarmada. “É melhor fazermos uma campanha de cavalheiros”, interrompeu ele.
“Muito bem”, concordou o Sr. Converse, educadamente. “E agora que estamos avançando para um entendimento tão amigável, você me permitirá expressar a esperança de que a Consolidated nos encontre no meio do caminho em relação à legislação que é inevitável? Não tenho desejo de usar nenhum dos meus poderes como governador deste estado para embaraçar seus interesses; confiemos que possamos chegar a um ajuste imediato na questão das estações de tratamento de água. Como advogado com alguma experiência, tenho de informá-lo, Coronel Dodd, que as cidades e municípios deste estado possuirão seus próprios sistemas. A cidade de Marion propõe lutar pelo primeiro caso de teste. Você é um grande contribuinte — confio que não ajudará a levar sua cidade a dívidas desnecessárias.”
“Conferirei com você”, admitiu o coronel, com sua maneira contida.
“Pedirei que você consulte o Sr. Bristol, meu sócio. Ele ficará inteiramente encarregado do litígio. Tenho a garantia de que a próxima reunião do governo municipal tratará da questão de nomeá-lo como consultor jurídico, com um honorário adequado”, disse o Sr. Converse, com orgulho. “Agradecerei pessoalmente, e como chefe do executivo, se seus interesses favorecerem o assunto. Será melhor para todos.”
O Coronel Dodd não respondeu. Mas houve muita significância em sua reverência ao se retirarem.
“Confio que não dei a entender que estava empregando qualquer tipo de ameaça”, disse o Sr. Converse, quando ele e Bristol estavam descendo as escadas.
“Acho que ele entendeu, senhor.”
“Sua sugestão de que tivéssemos uma campanha de cavalheiros foi muito significativa, vinda do Coronel Symonds Dodd. A perspectiva é muito esperançosa”, declarou o candidato. “Veremos o presidente do comitê estadual amanhã, Thornton. Sinto-me bem certo de que ele terá nossos roteiros de discursos traçados. O Sr. Breed é muito convincente — às vezes — quando discute a situação política.”
Quando estavam ao pé dos degraus do Mellicite Club, o jovem pediu permissão para tratar de alguns assuntos seus.
“Mas seus próprios assuntos devem esperar, meu rapaz”, insistiu Converse. “O partido o reivindica de agora em diante.”
“Farei meu dever, senhor”, disse Bristol, sorrindo; “mas esta noite devo tê-la para mim.”
“Convidei alguns cavalheiros para jantar conosco. É uma conferência importante.”
“A conferência que espero ter, Sr. Converse, será a mais importante da minha vida.”
O advogado piscou, tentando entender.
“Contar-lhe-ei amanhã — confio que serão as notícias mais felizes que já dei a qualquer pessoa — contarei primeiro ao senhor.” Ele hesitou. “O senhor sempre me deu bons conselhos, senhor. Certa noite, me disse que apenas uma mulher pode ouvir com perfeita simpatia e consolar as mágoas de um homem com segurança.”
Converse aproximou-se, colocou as mãos nos ombros do jovem e o estudou com olhar atento. “Meu rapaz”, disse ele, “siga em frente — e que Deus vá com você!”
Bristol arrancou a mão do aperto do advogado e apressou-se em ir embora.
Mas no Trelawny ele não encontrou o nome dos Kilgour no quadro de diretórios. O ascensorista, o zelador, o gerente, contaram-lhe a mesma história com a mesma indiferença. Os Kilgour tinham vendido seus pertences e se mudado — não tinham deixado endereço.
Bristol caminhou pelas ruas e amaldiçoou a tolice afetada que fizera de sua despedida dela uma separação na qual não jurara nada, não prometera nada, não deixara esperanças para o futuro. Não foi consolado pelo pensamento de que sua despedida dela fora para o próprio bem dela, como ele encarava sua situação. Nas profundezas de seu desespero, quando soltara a mão dela junto ao pequeno portão, ele se sacrificara severamente — resolvera salvá-la de si mesmo por meio de uma separação final e completa.
E pensando naquela despedida junto ao pequeno portão, mal percebendo para onde suas andanças o levavam, ele desceu até as grandes fábricas que estavam escuras e silenciosas sob as sombras da noite.
O velho Etienne trouxera uma lâmpada da cozinha da Mãe Maillet e a colocara no degrau da entrada. Ele estava entalhando madeira, e um garotinho aninhava-se perto, fixando olhar atento no trabalho.
A noite estava amena após um dia suave de verão de São Martinho.
Bristol parou na cerca e cumprimentou.
O velho espiou ansiosamente, protegendo os olhos da luz da lâmpada.
“M'sieu'! M'sieu'!” Ele gaguejou, interrompido, ofegante enquanto pronunciava as palavras. Seu rosto enrugado contraiu-se como se estivesse tentando conter as lágrimas. Sua voz ficou embargada.
“Você está surpreso em me ver de volta aqui, Etienne — é isso?”
“Não estou surpreso, m'sieu'. Eu sabia que o senhor voltaria. Estou contente — é por isso que a lágrima vem aos meus olhos. Não posso evitar isso.”
“Você está trabalhando até tarde, Tio Etienne.”
“Oui, os outros foram para casa. Mas este garotinho — eu cuido dele até a mãe vir da loja. Mas o senhor deve entrar aqui, m'sieu'.”
“Não posso parar, Etienne. Eu estou...” Ele não conseguiu terminar a frase. Virou-se para ir embora.
“Eu digo que o senhor deve entrar. O senhor deve vir queeck!” O velho falou em um sussurro estridente. Ele deixou de lado sua faca e o graveto e correu para a cerca. Esticou o braço e agarrou a manga de Bristol. “Ba gar!” declarou ele, com tanta impaciência quanto alguém já ouvira no tom de Etienne Provancher, “até o pobre garoto habitant na região de Tadousac sabe melhor como amar a moça gentil do que o senhor faz, M'sieu' Farr.”
“Meu nome não é Farr; é...”
“Não me importa qual seja seu nome”, retrucou o velho. “Diga-me isso em outra ocasião. É o que o senhor é — é disso que eu cuido! E o senhor não é bom com a moça gentil.”
“Não entendo.”
“O senhor volte lá e bata na porta da frente da Mãe Maillet e então o senhor entenderá! Sou apenas um homem pobre, m'sieu', mas falarei com o senhor como falei com o homem no hôtel de ville — e não ficarei com medo quando estiver certo.”
“Olhe aqui, Etienne! O que você quer dizer?”
“La belle ma'm'selle — ba gar! o senhor tem que ser atingido com um tijolo bang — aquela dama fina e bonita — ela que me disse a boa palavra para dizer ao senhor sobre as pessoas más — o senhor deve saber que ela mora agora na casa da boa mulher.”
Agora era a vez de Bristol agarrar o braço de Etienne. Ele sacudiu o velho.
“Srta. Kilgour — aqui? Fale logo! Não seja tão lento!”
“Eu falei logo. De outra forma o senhor ia embora e seria um grande tolo por mais tempo”, retrucou o operador de rack, audaciosamente. “Ela está lá dentro. Ela veio morar aqui porque algo a tornou muito pobre — e muito triste. E sua mãe chora o tempo todo. E la belle ma'm'selle, ela vem até a grande árvore e me pergunta muitas coisas...”
Enquanto o velho tagarelava, Bristol estava puxando impacientemente a trava do portão. Ele não conseguiu encontrar o trinco no escuro e então chutou mais algumas ripas da cerca muito maltratada da Mãe Maillet. Ele rastejou para dentro e esbarrou no velho Etienne, afastando-o do caminho, interrompendo o fluxo de informações.
O jovem saltou os degraus, para o claro espanto do garotinho, e bateu na porta.
“Sou eu, Kate!” chamou ele. “Eu voltei.”
Quando ela abriu a porta — meio tímida, meio ansiosa, totalmente fora de si — ele a tomou nos braços e a beijou, sem prestar atenção aos olhos arregalados da infância ou ao olhar desviado da velhice.
“Mas você não deixou recado para mim. Você acreditou em mim quando disse que não voltaria?”
“Eu sabia que você voltaria”, ela soluçou. “Por isso vim para cá. Eu sabia que você me encontraria aqui.”
Etienne aproximou-se pedindo desculpas e pegou o garotinho.
“Oh, minha própria garota, tenho tanto para lhe contar!” murmurou o amante. “Sei que você ouvirá.”
“Temos tanto para contar um ao outro”, disse ela, com as mãos nas bochechas dele.
O velho apagou a lâmpada, colocou-a de lado e afastou-se na ponta dos pés, com a criança nos braços.
“Mantenha sua cabeça debaixo do meu casaco — bem assim”, ordenou ele ao garoto que se debatia e estava curioso. “Sua mãe não gostaria que você respirasse tanto ar noturno. Nós vamos encontrá-la!”
Ele ouviu o murmúrio de vozes ansiosas atrás de si, e então a porta da casa da Mãe Maillet foi fechada suavemente — e isso deixou todo o mundo do lado de fora.