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The Love Letters of Mary Wollstonecraft to Gilbert Imlay

by Mary Wollstonecraft · in Portuguese

As Cartas de Amor DE Mary Wollstonecraft A GILBERT IMLAY

COM UMA MEMÓRIA PREFÁCIA Por Roger Ingpen

ILUSTRADO COM RETRATOS

Filadélfia J. B. LIPPINCOTT COMPANY Londres: HUTCHINSON & CO. 1908

IMPRESSO NA GRÃ-BRETANHA

AS CARTAS DE MARY WOLLSTONECRAFT

EDITADO POR ROGER INGPEN

AUTOBIOGRAFIA DE LEIGH HUNT. Edição Ilustrada. 2 vols. A. CONSTABLE & CO.

MIL POEMAS PARA CRIANÇAS: Uma Coletânea de Versos Antigos e Novos. HUTCHINSON & CO.

VIDA DE OLIVER GOLDSMITH, POR FORSTER. Abreviada. (Biografias Padrão.) HUTCHINSON & CO.

VIDA DE SAMUEL JOHNSON, POR BOSWELL. Abreviada. (Biografias Padrão.) HUTCHINSON & CO.

VIDA DE SAMUEL JOHNSON, POR BOSWELL. Completa. Edição Ilustrada. 2 vols. PITMAN.

PREFÁCIO

I

Pouco se sabe sobre os ancestrais de Mary Wollstonecraft, exceto que eram de descendência irlandesa. Seu pai, Edward John Wollstonecraft, era filho de um próspero fabricante de Spitalfields, de nascimento irlandês, de quem herdou a soma de dez mil libras. Casou-se por volta de meados do século XVIII com Elizabeth Dixon, filha de um cavalheiro de boa posição, de Ballyshannon, com quem teve seis filhos: Edward, Mary, Everina, Eliza, James e Charles. Mary, a filha mais velha e segunda criança, nasceu em 27 de abril de 1759, ano de nascimento de Burns e Schiller, e o último ano do reinado de Jorge II. Passou a infância, até aos cinco anos, nos arredores de Epping Forest, mas é duvidoso se nasceu ali ou em Hoxton. O Sr. Wollstonecraft não exercia nenhuma profissão em particular, embora de tempos em tempos se aventurasse numa variedade de ocupações quando tomado pelo desejo de ganhar dinheiro. É descrito como tendo hábitos ociosos e dissipados, possuindo um temperamento incontrolável e um espírito inquieto que o impelia a mudanças perpétuas de residência. De Hoxton, onde esbanjou a maior parte da sua fortuna, vagueou para Essex e, depois, entre outros lugares, em 1768, para Beverley, em Yorkshire. Mais tarde, dedicou-se à agricultura em Laugharne, em Pembrokeshire, mas acabou por se cansar desta experiência e regressou uma vez mais a Londres. À medida que as suas fortunas declinavam, a sua brutalidade e egoísmo aumentavam, e Mary era frequentemente compelida a defender a mãe dos seus atos de violência física, por vezes colocando-se corporalmente entre ele e a sua vítima. A própria Sra. Wollstonecraft estava longe de ser uma mulher amável; uma pequena tirana e uma governante severa, porém incompetente, do seu lar, tratava Mary como o bode expiatório da família. Os primeiros anos de Mary, portanto, estiveram longe de ser felizes; a pouca instrução que teve foi espasmódica, devido aos hábitos migratórios do pai.

No seu décimo sexto ano, quando os Wollstonecraft estavam novamente em Londres, Mary formou uma amizade com Fanny Blood, uma jovem da sua própria idade, que estava destinada a ser um dos eventos mais felizes da sua vida. Havia um forte laço de simpatia entre as duas amigas, pois Fanny conseguia, pelo seu trabalho como artista, ser o principal sustento da sua família, já que o seu pai, tal como o Sr. Wollstonecraft, era um sujeito preguiçoso e alcoólico.

A nova amiga de Mary era uma rapariga intelectual e culta. Amava a música, cantava agradavelmente, era também bem lida para a sua idade e escrevia cartas interessantes. Foi ao comparar as cartas de Fanny Blood com as suas que Mary reconheceu pela primeira vez quão deficiente tinha sido a sua educação. Aplicou-se, portanto, à tarefa de aumentar o seu escasso estoque de conhecimento, esperando, em última análise, tornar-se governanta. Finalmente, aos dezanove anos, Mary foi para Bath como dama de companhia de uma senhora idosa, cansativa e exigente, uma Sra. Dawson, viúva de um rico comerciante de Londres. Apesar de muitas dificuldades, conseguiu manter o seu posto por cerca de dois anos, deixando-o apenas para assistir ao leito de morte da sua mãe.

A morte da Sra. Wollstonecraft (em 1780) foi seguida pela dissolução do lar. Mary foi viver temporariamente com os Blood em Walham Green e ajudou a Sra. Blood, que aceitava trabalhos de costura; Everina tornou-se por pouco tempo governanta do seu irmão Edward, um solicitador; e Eliza casou-se com um Sr. Bishop.

O Sr. Kegan Paul salientou que "todas as irmãs Wollstonecraft eram entusiastas, excitáveis e de temperamento apressado, propensas a exagerar ninharias, sensíveis a magnificar a desatenção em desprezos, e os desprezos em insultos deliberados. Todas tinham má saúde de um tipo que é especialmente penoso para os nervos, e Eliza tinha em excesso o temperamento e a constituição da família." A vida conjugal da Sra. Bishop foi, desde o início, uma de miséria total; eram um par mal combinado, e o seu temperamento peculiar evidentemente exasperava a pior natureza do marido. As suas explosões de fúria e as cenas de violência de ocorrência diária, pelas quais era responsável, foram mais tarde descritas com fidelidade realista por Mary no seu romance "The Wrongs of Women". Era claramente impossível para a Sra. Bishop continuar a viver com tal homem, e quando, em 1782, ela ficou perigosamente doente, Mary, com a sua característica bondade, foi cuidar dela e, pouco depois, ajudou-a na sua fuga do marido.

No ano seguinte (1783), Mary abriu uma escola em Islington com Fanny Blood, e estava assim em posição de oferecer um lar às suas irmãs, a Sra. Bishop e Everina. A escola foi mais tarde transferida para Newington Green, onde Mary logo teve um estabelecimento com cerca de vinte alunos externos. Após algum tempo, encorajada pelo seu sucesso, alugou uma casa maior; mas, infelizmente, o número de alunos não aumentou na proporção das suas obrigações, que eram agora mais pesadas do que ela conseguia bem cumprir.

Enquanto Mary vivia em Newington Green, foi apresentada ao Dr. Johnson que, diz Godwin, a tratou com particular bondade e atenção, e com quem teve uma longa conversa. Ele desejou que ela repetisse a visita, mas ela foi impedida de o ver novamente pela sua última doença e morte.

Entretanto, Fanny Blood tinha prejudicado a sua saúde por excesso de trabalho, e sinais de tuberculose já eram evidentes. Um Sr. Hugh Skeys, que estava envolvido em negócios em Lisboa, embora fosse um amante algo fraco, admirava Fanny há muito tempo e queria casar-se com ela. Pensou-se que o clima de Portugal pudesse ajudar a restaurar a sua saúde, e ela consentiu, talvez mais por essa razão do que por qualquer outra, em tornar-se sua esposa. Deixou a Inglaterra em fevereiro de 1785, mas a sua saúde continuou a piorar. A ansiedade de Mary pelo bem-estar da amiga era tal que, ao ouvir falar da sua grave condição, partiu imediatamente para Lisboa e chegou, após uma travessia tempestuosa, apenas a tempo de confortar Fanny nos seus momentos de morte. Mary ficou quase de coração partido com a perda da amiga e fez com que a sua estadia em Lisboa fosse a mais curta possível, permanecendo apenas o tempo necessário para o funeral da Sra. Skeys.

Regressou a Inglaterra para descobrir que a escola tinha sofrido muito com o descuido durante a sua ausência. Numa carta ao irmão da Sra. Skeys, George Blood, ela diz: "A perda de Fanny foi suficiente para lançar uma sombra sobre os meus dias mais brilhantes: que efeito terá, então, quando me vejo privada de todo o outro conforto? Tenho demasiadas dívidas, o aluguel é tão enorme, e onde ir, sem dinheiro ou amigos, quem pode indicar?"

Ela percebeu assim que continuar com a escola era inútil. Mas a sua experiência como preceptora haveria de dar frutos no futuro. Ela tinha observado alguns dos defeitos dos métodos educativos do seu tempo, e o seu primeiro esforço publicado foi um folheto intitulado "Thoughts on the Education of Daughters" (1787). Por este ensaio recebeu dez guinéus, uma soma que deu aos pais da sua amiga, o Sr. e a Sra. Blood, que desejavam ir para a Irlanda.

Ela própria foi em breve para a Irlanda, pois em outubro de 1787 tornou-se governanta das filhas de Lord Kingsborough em Michaelstown, com um salário de quarenta libras por ano. Lady Kingsborough, na opinião de Mary, era "uma mulher astuta e inteligente, uma grande faladora... Ela usa rouge e, em suma, é uma dama distinta sem imaginação ou sensibilidade. Sou quase atormentada até à morte por cães..." Lady Kingsborough era bastante egoísta e inculta, e o seu objetivo principal era a busca do prazer. Mimava os seus cães, para grande desgosto de Mary Wollstonecraft, e negligenciava os seus filhos. As opiniões que ela tinha sobre educação eram estreitas. Estava acostumada à submissão da sua governanta, mas aprendeu em pouco tempo que Mary não era de disposição dócil. As crianças, inicialmente indisciplinadas e desafiadoras, "literalmente falando, irlandesas selvagens, sem forma e não muito agradáveis", logo deram a Mary a sua confiança e, pouco depois, o seu afeto. Uma das suas alunas, Margaret King, mais tarde Lady Mountcashel, sempre manteve o mais caloroso apreço por Mary Wollstonecraft. Lady Mountcashel continuou a sua amizade com William Godwin após a morte de Mary, e mais tarde encontrou Shelley e a sua esposa na Itália. Mary ganhou das crianças o afeto que elas negavam à mãe; consequentemente, no outono de 1788, quando estava com Lady Kingsborough há cerca de um ano, recebeu o seu aviso de despedimento. Ela tinha completado, por esta altura, o romance a que deu o nome de "Mary", que é um tributo à memória da sua amiga Fanny Blood.

II

E agora, no seu trigésimo ano, Mary Wollstonecraft tinha concluído a sua carreira como governanta e estava resolvida a dedicar-se, de agora em diante, à literatura. As suas hipóteses de sucesso eram, na verdade, escassas, pois ela não tinha escrito nada para a encorajar a tal empreendimento. Foi a sua sorte, porém, fazer o conhecimento de Joseph Johnson, o editor e livreiro humanitário de St. Paul's Churchyard, que publicava as obras de Priestley, Horne Tooke, Gilbert Wakefield e outros homens de pensamento avançado, e ela conheceu à sua mesa muitos dos autores que ele publicava, e homens eminentes da época como William Blake, Fuseli e Tom Paine. O Sr. Johnson, que mais tarde se provou ser um dos seus melhores amigos, encorajou-a nos seus planos literários. Ele foi o editor dos seus "Thoughts on the Education of Daughters" e tinha reconhecido naquele pequeno livro tanta promessa que, quando ela buscou o seu conselho, ele imediatamente se ofereceu para ajudá-la com emprego.

Mary instalou-se, portanto, no Michaelmas de 1788, numa casa em George Street, Blackfriars. Ela tinha trazido para Londres o manuscrito do seu romance "Mary" e começou a trabalhar num livro para crianças intitulado "Original Stories from Real Life". Ambos os livros apareceram antes do fim do ano, o último com gravuras pitorescas de William Blake. Mary também ocupou parte do seu tempo com traduções do francês, alemão e até holandês, uma das quais foi uma edição abreviada dos "Elements of Morality" de Saltzmann, para a qual Blake também forneceu as ilustrações. Além deste trabalho, Johnson contratou Mary como sua consultora literária ou "leitora" e garantiu os seus serviços em conexão com The Analytical Review, um periódico que ele tinha recentemente fundado.

Enquanto estava em George Street, ela também escreveu a sua "Vindication of the Rights of Man" numa carta a Edmund Burke. A sua principal satisfação em manter esta casa era ter um lar onde os seus irmãos e irmãs pudessem sempre ir quando estivessem sem emprego. Ela nunca se cansava de os ajudar, quer com dinheiro, quer exercendo a sua influência para lhes encontrar cargos. Um dos seus primeiros atos quando se instalou em Londres foi enviar Everina Wollstonecraft para Paris para melhorar o seu sotaque francês. O Sr. Johnson, que escreveu um breve relato da vida de Mary em Londres nesta época, diz que ela passava frequentemente as suas tardes e noites na casa dele e costumava procurar o seu conselho ou desabafar os seus problemas com ele. Entre os muitos deveres que impôs a si mesma estava a administração dos assuntos do seu pai, o que deve ter sido, na verdade, um empreendimento infrutífero.

O mais importante dos trabalhos de Mary Wollstonecraft, enquanto vivia em Blackfriars, foi a escrita do livro que é principalmente associado ao seu nome, "A Vindication of the Rights of Woman". Este volume — agora muito mais conhecido pelo seu título do que pelo seu conteúdo — foi dedicado ao astuto M. Talleyrand de Périgord, antigo Bispo de Autun, aparentemente devido à sua autoria de um folheto sobre Educação Nacional. É desnecessário tentar uma análise deste livro surpreendentemente original, mas muito desigual — reedições modernas da obra apareceram sob a direção editorial tanto da Sra. Fawcett como da Sra. Pennell. É suficiente dizer que é realmente um apelo a um sistema de educação mais esclarecido, afetando não apenas o seu próprio sexo, mas também a humanidade no seu sentido mais amplo. Muitas das suas sugestões foram, há muito tempo, postas em uso prático, como a de um sistema de educação nacional gratuita, com vantagens iguais para rapazes e raparigas. O livro contém demasiada teoria e está, portanto, em grande parte obsoleto. Mary Wollstonecraft protesta contra o costume que reconhece a mulher como o brinquedo do homem; ela apela, antes, a uma base amigável de igualdade entre os sexos, além de reivindicar uma nova ordem de coisas para as mulheres, em termos que são invulgarmente francos. Tal livro não poderia deixar de criar sensação, e rapidamente a tornou notória, não apenas neste país, mas no Continente, onde foi traduzido para francês. Foi, claro, o resultado da Revolução Francesa; toda a obra está permeada pelas ideias e ideais daquele movimento, mas enquanto os patriotas franceses exigiam direitos para os homens, ela fez as mesmas exigências também para as mulheres.

É evidente que o grande drama histórico então encenado em França tinha feito uma profunda impressão na mente de Mary — a sua influência está marcada em cada página do seu livro, e era o seu desejo visitar França com o Sr. Johnson e Fuseli. Os seus amigos, porém, foram incapazes de a acompanhar, por isso ela foi sozinha em dezembro de 1792, principalmente com o objetivo de aperfeiçoar o seu francês. Godwin afirma, embora aparentemente por erro, que Fuseli foi a causa da sua ida para França, tendo o conhecimento com o pintor crescido para algo mais caloroso do que uma mera amizade. Fuseli, porém, tinha esposa e era feliz no casamento, por isso Mary "resolveu prudentemente retirar-se para outro país, longe do objeto que tinha involuntariamente excitado a terna paixão no seu peito."

Ela chegou certamente a Paris num momento dramático; escreveu a 24 de dezembro à sua irmã Everina: "Depois de amanhã espero ver o Rei na barra, e as consequências que se seguirão tenho quase medo de antecipar." No dia em questão, 26, Luís XVI apareceu no Salão da Convenção para pleitear a sua causa através do seu advogado, Desize, e no mesmo dia ela escreveu aquela carta ao Sr. Johnson que tem sido tão frequentemente citada: "Por volta das nove horas desta manhã", diz ela, "o Rei passou pela minha janela, movendo-se silenciosamente (exceto aqui e ali algumas batidas no tambor, que tornavam a quietude mais terrível) através de ruas vazias, cercado pelos guardas nacionais que, aglomerando-se em redor da carruagem, pareciam merecer o seu nome. Os habitantes afluíram às suas janelas, mas as janelas estavam todas fechadas, nem uma voz se ouvia, nem vi nada parecido com um gesto insultuoso. Pela primeira vez desde que entrei em França, curvei-me perante a majestade do povo, e respeitei a propriedade de comportamento tão perfeitamente em uníssono com os meus próprios sentimentos. Dificilmente vos posso dizer porquê, mas uma associação de ideias fez as lágrimas fluírem insensivelmente dos meus olhos, quando vi Luís sentado, com mais dignidade do que esperava do seu caráter, numa carruagem de aluguer, indo ao encontro da morte, onde tantos da sua linhagem tinham triunfado. A minha fantasia trouxe instantaneamente Luís XIV à minha frente, entrando na capital com toda a sua pompa, após uma das suas vitórias tão lisonjeiras para o seu orgulho, apenas para ver o sol da prosperidade obscurecido pela melancolia sublime da miséria..."

Mary foi primeiro ficar na casa de Madame Filiettaz, filha de Madame Bregantz, em cuja escola em Putney tanto a Sra. Bishop como Everina Wollstonecraft tinham sido professoras. Mary era agora uma espécie de celebridade — "A autoria", escreve ela, "é um peso pesado para ombros femininos, especialmente sob o sol da prosperidade" — e ela levava consigo cartas de apresentação para várias pessoas influentes em Paris. Renovou o seu conhecimento com Tom Paine, tornou-se íntima de Helen Maria Williams (que se diz ter vivido uma vez com Imlay) e visitou, entre outros, a casa do Sr. Thomas Christie. Era a sua intenção ir para a Suíça, mas houve algum problema com o seu passaporte, por isso instalou-se em Neuilly, então uma aldeia a três milhas de Paris. "A sua habitação aqui", diz Godwin, "era uma casa solitária no meio de um jardim, sem outro habitante além dela e do jardineiro, um homem idoso que desempenhava para ela muitos ofícios domésticos, e por vezes disputava a honra de fazer a sua cama. O jardineiro tinha uma grande veneração pela sua hóspede e costumava colocar diante dela, quando estava sozinha, algumas uvas de um tipo particularmente fino, que ela não conseguia obter dele sem a maior dificuldade quando tinha alguém consigo como visitante. Foi aqui que ela concebeu, e na maior parte executou, a sua visão histórica e moral da Revolução Francesa, na qual incorporou a maioria das observações que tinha recolhido para as suas cartas, e que foi escrita com mais sobriedade e alegria do que o tom em que tinham sido iniciadas. À noite, costumava refrescar-se com uma caminhada num bosque vizinho, do qual o seu anfitrião em vão tentava dissuadi-la, contando diversos roubos e assassinatos horríveis que tinham sido cometidos ali."

É provável que em março de 1793 Mary Wollstonecraft tenha visto Gilbert Imlay pela primeira vez. O encontro ocorreu na casa do Sr. Christie, e a sua impressão imediata foi de desagrado, de modo que em ocasiões subsequentes ela evitou-o. Contudo, o seu apreço por ele mudou rapidamente para amizade e, mais tarde, para amor. Gilbert Imlay nasceu em Nova Jérsia por volta de 1755. Serviu como capitão no exército americano durante a guerra revolucionária e foi o autor de "A Topographical Description of the Western Territory of North America", 1792, e de um romance intitulado "The Emigrants", 1793. Nesta última obra, como americano, ele propõe "colocar um espelho à vista dos ingleses, para que possam contemplar a decadência dessas características que foram outrora tão adoráveis", e ainda "prevenir o sacrilégio que a prática atual dos compromissos matrimoniais produz necessariamente". Não se sabe se estas opiniões sobre o casamento precederam ou foram o resultado da sua conexão com Mary Wollstonecraft. Em 1793, ele estava envolvido em negócios, provavelmente no comércio de madeira com a Suécia e a Noruega.

Ao decidir dedicar-se a Imlay, Mary não pediu conselhos e não confiou em ninguém. Ela estava evidentemente profundamente apaixonada por ele e sentia que a sua confiança mútua, partilhada por mais ninguém, dava uma sacralidade à sua união. Godwin, que é a nossa principal autoridade sobre o episódio Imlay, afirma que "a origem da conexão foi por volta de meados de abril de 1793, e foi levada a cabo de uma maneira privada por cerca de três meses". Imlay não tinha qualquer propriedade, e Mary tinha-se oposto a casar-se com ele, porque não queria sobrecarregá-lo com as suas próprias dívidas, ou "envolvê-lo em certos embaraços familiares", pelos quais se considerava responsável. Ela via a sua conexão com Imlay, contudo, "como sendo da natureza mais inviolável". Então, o Governo Francês aprovou um decreto de que todos os súbditos britânicos residentes em França deveriam ir para a prisão até a uma declaração geral de paz. Tornou-se, portanto, conveniente, não que um casamento tivesse lugar, pois isso necessitaria que Mary declarasse a sua nacionalidade, mas que ela adotasse o nome de Imlay, "o qual", diz Godwin, "da natureza da sua conexão (formada da parte dela, pelo menos, sem qualquer desígnio caprichoso ou volúvel), ela concebeu ter o direito de fazer, e obter um certificado do Embaixador Americano, como esposa de um nativo daquele país. Sendo o seu compromisso assim declarado, acharam por bem residir sob o mesmo teto e, para esse propósito, mudaram-se para Paris."

Em uma carta de Mary Wollstonecraft para sua irmã Everina, datada de Havre, 10 de março de 1794, ela descreve o clima da França como "extraordinariamente bom", e elogia o povo comum por suas maneiras; mas ela também se sente entristecida pelas cenas que testemunhara e acrescenta que "a morte e a miséria, em todas as formas de terror, assombram este país devotado... Se alguma das muitas cartas que escrevi chegou às suas mãos ou às de Eliza, você sabe que estou a salvo, sob a proteção de um americano, um homem digníssimo que alia a uma ternura de coração e rapidez de sentimento incomuns, uma solidez de entendimento e uma razoabilidade de temperamento raramente encontradas. Tendo sido criado no interior da América, ele é uma criatura natural, sem afetação."

Mary expressou em "Reivindicação dos Direitos da Mulher" o seu ideal sobre as relações entre marido e mulher; ela agora ansiava por uma vida de felicidade doméstica como a que vinha acalentando há algum tempo. Ela conhecera muita infelicidade no passado. Godwin diz: "Ela trouxe, no presente caso, um coração ferido e doente, para refugiar-se no afeto de um amigo escolhido. Não se imagine, contudo, que ela trouxe um coração querelante e arruinado em seu gosto pelo prazer. Não; todo o seu caráter parecia mudar com a mudança da fortuna. Suas mágoas, a depressão de seu espírito, foram esquecidas, e ela assumiu toda a simplicidade e a vivacidade de uma mente jovem. Ela era brincalhona, cheia de confiança, bondade e simpatia. Seus olhos assumiram novo brilho, e suas faces nova cor e suavidade. Sua voz tornou-se alegre; seu temperamento transbordava de bondade universal; e aquele sorriso de ternura fascinante iluminava dia após dia o seu semblante, que todos os que a conheceram recordarão tão bem, e que conquistou, tanto o coração quanto a alma, as afeições de quase todos os que o contemplavam." Ela havia agora encontrado o homem a quem acreditava sinceramente poder entregar-se com inteira devoção. Naturalmente afetuosa, pela primeira vez em sua vida, com seu impulsivo espírito irlandês, como diz Godwin, "ela cedeu a todas as sensibilidades de sua natureza."

O caso estava, contudo, condenado ao fracasso desde o início. Mary dera seu passo sem muita reflexão. Ela atribuiu a Imlay uma "ternura de coração incomum", mas não detectou sua instabilidade de caráter. Ele certamente a fascinava, assim como fascinava outras mulheres, tanto antes quanto depois de seu apego a Mary. Ele não era o homem para se satisfazer com uma única mulher como companheira de vida. Um americano típico, estava profundamente imerso nos negócios, mas seus assuntos talvez não exigissem tanto de seu tempo quanto ele representava. Em setembro, depois de estabelecer residência com Mary, isto é, em 93, o ano do Terror, ele a deixou em Paris enquanto partia para Havre, anteriormente conhecido como Havre de Grace, mas então alterado para Havre Marat. É terrível pensar qual deve ter sido a vida dessa estranha solitária em Paris em tal época. Contudo, suas cartas a Imlay mal contêm uma referência aos eventos da Revolução.

Mary, cansada de esperar pelo retorno de Imlay a Paris e adoecida com as "crescentes crueldades de Robespierre", juntou-se a ele em Havre em janeiro de 1794, e em 14 de maio deu à luz uma menina, a quem chamou de Frances em memória de Fanny Blood, a amiga de sua juventude. Há evidências em todas as suas cartas a Imlay do quanto ela amava ternamente a pequena. Em uma carta a Everina, datada de Paris em 20 de setembro, ela fala assim sobre a pequena Fanny:

"Quero que você veja minha garotinha, que é mais parecida com um menino. Ela está pronta para voar de tanto ânimo, e tem uma saúde eloquente em suas faces e olhos. Ela não promete ser uma beldade, mas parece maravilhosamente inteligente, e embora eu tenha certeza de que ela tem o temperamento rápido e os sentimentos de seu pai, seu bom humor leva todo o crédito por minha boa criação."

Em setembro, Imlay deixou Havre rumo a Londres, e agora que o Terror havia diminuído, Mary retornou a Paris. Essa separação significou, na verdade, o fim de sua camaradagem. Eles viriam a se encontrar novamente, mas nunca mais nos mesmos moldes. A viagem revelou-se a mais fatigante que ela já fizera, tendo a carruagem em que viajava quebrado quatro vezes entre Havre e Paris. Imlay prometeu ir a Paris no decorrer de dois meses, e ela o esperou até o fim do ano com alegria. Com a pressão dos negócios e outras distrações, seus sentimentos por ela e pela criança esfriaram, como o tom de suas cartas revelava. Por mais três meses, Imlay a adiou com explicações insatisfatórias, mas seu suspense chegou ao fim em abril, quando ela foi para Londres a pedido dele. Seus pressentimentos mais graves revelaram-se verdadeiros demais. Imlay já estava vivendo com uma jovem atriz pertencente a uma companhia de teatro itinerante; e era evidente, embora a princípio ele protestasse o contrário, que Mary era apenas uma segunda consideração em sua vida. Ele lhe providenciou, contudo, uma casa mobiliada, e ela não abandonou de imediato a esperança de uma reconciliação: mas quando percebeu que a esperança era inútil, em seu desespero ela resolveu tirar a própria vida. Se ela tentou de fato o suicídio, ou se Imlay soube de sua intenção a tempo de impedi-la, não se sabe realmente. Imlay estava nessa época envolvido no comércio com a Noruega e, precisando de um representante confiável para tratar de alguns negócios confidenciais, pensou-se que a viagem restauraria a saúde e o ânimo de Mary. Ela, portanto, consentiu em fazer a viagem e partiu no início de abril de 1795, com um documento redigido por Imlay nomeando-a como sua representante e descrevendo-a como "Mary Imlay, minha melhor amiga e esposa", e concluindo: "Assim, confiando no talento, zelo e seriedade da minha caríssima amiga e companheira, submeto a gestão destes assuntos inteira e implicitamente à sua discrição: Permanecendo muito sincera e afetuosamente, seu verdadeiramente, G. Imlay."

As cartas descrevendo suas viagens, excluindo quaisquer assuntos pessoais, foram publicadas em 1796 como "Cartas da Suécia e Noruega", um de seus livros mais legíveis. As partes eliminadas dessas cartas foram impressas por Godwin nas obras póstumas de sua esposa e estão presentes neste volume. Ela retornou à Inglaterra no início de outubro com o coração pesado. Imlay prometera encontrá-la na viagem de volta, possivelmente em Hamburgo, e levá-la para a Suíça, mas ela apressou-se para Londres para ver suas suspeitas confirmadas. Ele lhe providenciou uma hospedagem, mas a negligenciou inteiramente por uma mulher com quem ele vivia. Ao descobrir pela primeira vez sua nova intriga, e em sua agonia mental, ela procurou Imlay na casa que ele havia mobiliado para sua nova companheira. A conferência resultou em seu desespero total, e ela decidiu afogar-se. Primeiro foi à Ponte de Battersea, mas encontrou pessoas demais lá; e, portanto, caminhou até Putney. Era noite e chovia quando ela chegou lá, e após vagar pela ponte por meia hora até que suas roupas estivessem completamente encharcadas, ela se lançou ao rio. Ela foi, contudo, resgatada da água e, embora inconsciente, sua vida foi salva.

Mary encontrou Imlay casualmente em duas ou outras ocasiões; provavelmente sua última visão dele foi na New Road (atualmente Marylebone Road), quando "ele desceu de seu cavalo e caminhou com ela por algum tempo; e o reencontro passou", ela assegurou a Godwin, "sem produzir nela qualquer emoção opressiva." Mary recusou-se a aceitar qualquer assistência pecuniária para si mesma de Imlay, mas ele deu um título para uma soma a ser destinada a ela, cujos juros seriam dedicados à manutenção de sua filha; nem o principal nem os juros, contudo, foram jamais pagos. O que aconteceu, em última análise, com Imlay, não se sabe.

Mary finalmente resignou-se ao inevitável. Seu velho amigo e editor, o Sr. Johnson, veio em seu auxílio, e ela resolveu retomar seu trabalho literário para o sustento de si mesma e de sua filha. Ela foi vista mais uma vez na sociedade literária. Entre as pessoas que ela conheceu nesta época estava William Godwin. Três anos mais velho que ela, ele era um dos republicanos mais avançados da época, autor de "Justiça Política" e do romance "Caleb Williams". Eles já haviam se conhecido antes, pela primeira vez em novembro de 1791, mas ela desagradou Godwin, porque sua fofoca vivaz silenciou o naturalmente quieto Thomas Paine, a quem ele estava ansioso para ouvir falar. Embora se encontrassem ocasionalmente depois, foi apenas em 1796 que se tornaram amigos. Deve ter havido algo em Godwin que o tornava extremamente atraente para seus amigos, pois ele contava entre eles algumas das mulheres mais encantadoras da época, e homens como Wordsworth, Lamb, Hazlitt e Shelley orgulhavam-se de pertencer ao seu círculo. Para os membros de sua família, ele era de uma disposição gentil, até afetuosa. Infelizmente, ele aparece sob sua pior luz — um tipo de Pecksniff precoce — em sua correspondência e relações posteriores com Shelley, e é por esta correspondência que ele é mais conhecido nos dias atuais. O belo retrato de perfil de Godwin por Northcote, na National Portrait Gallery, preserva para nós toda a beleza de sua fronte intelectual e de seus olhos. Outro retrato de Godwin, de frente, com um longo nariz triste, por Pickersgill, outrora visível na National Portrait Gallery, não é tão agradável. Em uma carta a Cottle, Southey fornece um retrato pouco lisonjeiro de Godwin na época de seu casamento, o que parece sugerir o retrato de frente do filósofo: "ele tem olhos nobres e grandes, e um nariz — oh, nariz abominável! A linguagem não é suficientemente vituperativa para descrever o efeito de seu alongamento para baixo."

Godwin descreve seu cortejo com Mary como "amizade derretendo-se em amor". Eles concordaram em viver juntos, mas Godwin alugou quartos a cerca de vinte portas de distância de sua casa em Polygon, Somers Town, pois era uma de suas teorias que viver sob o mesmo teto é destrutivo para a felicidade familiar. Godwin ia para seus aposentos assim que se levantava pela manhã, geralmente sem tomar café da manhã com Mary, e às vezes dormia em seus aposentos. Eles raramente se encontravam novamente até a hora do jantar, a menos que fosse para dar uma caminhada juntos. Durante o dia, esse casal extraordinário comunicava-se por meio de breves cartas ou bilhetes. O Sr. Kegan Paul imprime alguns deles; como este de Godwin:

"Terei a honra de jantar com você. Você me pergunta se posso conseguir quatro pedidos para você. Não sei, mas não creio que a coisa seja impossível. Como vai você?"

E o de Mary: "Fanny está encantada com a ideia de jantar com você. Mas desejo que você coma sua carne primeiro, e deixe que ela suba com o pudim. Provavelmente baterei em sua porta a caminho da casa de Opie; mas, caso não o encontre, peço-lhe que não se atrase muito esta noite. Não dê manteiga a Fanny com seu pudim." Este bilhete é datado de 20 de abril de 1797 e provavelmente marca o período em que Mary posava para seu retrato por Opie.

No geral, Godwin e Mary viveram felizes juntos, com nuvens muito ocasionais, devido principalmente à sua natureza excessivamente sensível e aos hábitos de solteirão confirmados dele.

Embora ambos fossem contrários ao matrimônio por princípio, casaram-se na antiga Igreja de St. Pancras em 29 de março de 1797, sendo o escrivão da igreja a testemunha. Godwin não menciona o evento em seu diário cuidadosamente registrado. A razão para o casamento era que Mary estava prestes a se tornar mãe, e foi pelo bem da criança que julgaram prudente passar pela cerimônia. Mas não foi tornado público de imediato, principalmente por medo de que Johnson deixasse de ajudar Mary. A Sra. Inchbald e a Sra. Reveley, duas das admiradoras de Godwin, ficaram tão perturbadas com o anúncio de seu casamento que derramaram lágrimas.

Uma descrição interessante de Mary nesta época é dada na carta de Southey a Cottle, citada acima, datada de 13 de março de 1797. Ele diz: "De todos os leões ou literatos que vi aqui, o semblante de Mary Imlay é o melhor, infinitamente o melhor: o único defeito nele é uma expressão um tanto semelhante à que exibem as gravuras de Horne Tooke — uma expressão indicando superioridade; não altivez, não sarcasmo, em Mary Imlay, mas ainda assim é desagradável. Seus olhos são castanhos claros, e embora a pálpebra de um deles seja afetada por uma pequena paralisia, são os mais expressivos que já vi."

Mary ocupava-se com trabalho literário; fora isso, sua curta vida de casada foi sem incidentes. Godwin fez uma viagem com seu amigo Basil Montagu a Staffordshire de 3 a 20 de junho, e a correspondência entre marido e mulher durante esse período, que o Sr. Paul imprime, é uma leitura muito deleitosa e mostra o quanto eles estavam em total sintonia.

Em 30 de agosto, nasceu a filha de Mary, não o William tão desejado por ambos, mas Mary, que mais tarde se tornaria a Sra. Shelley. Tudo parecia bem com a mãe até 3 de setembro, quando sintomas alarmantes apareceram. O melhor conselho médico foi obtido, mas após uma semana de doença, na manhã de domingo, dia 10, às sete horas e quarenta minutos, ela sucumbiu e faleceu. Durante sua doença, quando em grande agonia, foi administrado um calmante, que deu a Mary algum alívio, momento em que ela exclamou: "Oh, Godwin, estou no céu." Mas, como diz o Sr. Kegan Paul, "mesmo naquele momento Godwin recusou-se a ser enredado na admissão de que o céu existia", e sua resposta imediata foi: "Você quer dizer, minha querida, que suas sensações físicas estão um pouco mais aliviadas." Mary Godwin, contudo, não compartilhava das dúvidas religiosas de seu marido. Seus sofrimentos haviam sido grandes, mas sua morte foi pacífica.

O pesar de Godwin foi muito profundo, como testificam as cartas que ele escreveu imediatamente após sua morte e seu tributo à sua memória nas "Memórias". Mary Godwin foi enterrada no cemitério da antiga St. Pancras em 15 de setembro, na presença da maioria de seus amigos. Godwin viveu até 1836, quando foi sepultado ao lado dela. Muitos anos depois, à beira do mesmo túmulo, diz-se que Shelley jurou seu amor à filha de Mary Godwin. Em 1851, quando as estradas de ferro Metropolitan e Midland foram construídas em St. Pancras, o cemitério foi destruído, mas os corpos de Mary e William Godwin foram removidos por seu neto, Sir Percy Shelley, para Bournemouth, onde descansam agora com os restos mortais dele, e os de sua mãe, a Sra. Shelley.

No ano seguinte à morte de Mary (1798), Godwin editou as "Obras Póstumas" de sua esposa, em quatro volumes, nos quais apareceram as cartas a Imlay e seu romance incompleto "Os Erros da Mulher". Seu tributo à memória de Mary Godwin também foi publicado em 1798, sob o título de "Memórias da Autora de Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher". O romance de Godwin, "St. Leon", foi lançado em 1799; sua tragédia "Antonio" foi produzida apenas para fracassar, em 1800, e em 1801 ele foi cortejado e conquistado pela Sra. Clairmont, uma viúva. O lar de Godwin era um tanto misto, consistindo, como consistia, de Fanny Imlay, Mary Godwin, os dois filhos da Sra. Godwin, Charles e Claire Clairmont, e também de William, o único filho nascido de seu casamento com Godwin. Em 1812, Shelley iniciou uma correspondência com Godwin, que acabou levando à fuga de Mary Godwin com o poeta. A pobre Fanny Imlay, ou Godwin, como era chamada após a morte de sua mãe, morreu aos dezenove anos por sua própria mão, em outubro de 1816. Sua vida estivera longe de ser feliz naquele estranho lar. Ela crescera amando Shelley, mas a escolha dele recaíra sobre sua meia-irmã, então ela bravamente guardou seu segredo para si mesma. Um dia ela subitamente deixou a casa e viajou para Swansea, onde foi encontrada morta na manhã seguinte à sua chegada, na estalagem onde alugara um quarto, "seus longos cabelos castanhos sobre o rosto; uma garrafa de láudano sobre a mesa, e um bilhete que dizia assim: 'Há muito determinei que a melhor coisa que eu poderia fazer era pôr fim à existência de um ser cujo nascimento foi infeliz, e cuja vida tem sido apenas uma série de dores para aquelas pessoas que prejudicaram sua saúde ao tentar promover o meu bem-estar.' Ela tinha consigo o pequeno relógio de Genebra, um presente de viagem de Mary e Shelley: e em sua bolsa havia alguns xelins."[1]

Shelley, recordando mais tarde sua última entrevista com Fanny em Londres, escreveu esta estrofe:

"Sua voz tremia enquanto nos separávamos; Contudo, eu não sabia que aquele coração estava partido De onde ela vinha, e parti Sem dar atenção às palavras então ditas. Miséria — Oh, Miséria, Este mundo é vasto demais para ti!"

III

As vicissitudes às quais Mary Wollstonecraft foi tão largamente presa durante sua vida parecem tê-la perseguido após a morte. Em sua própria época, reconhecida como uma figura pública, vilipendiada pela maioria de seus contemporâneos em termos não menos indelicados do que os epítetos de Horace Walpole, "uma hiena de saias" ou "uma serpente filosofante", a posteridade não se mostrou muito mais clemente com ela. Mas o trabalho vigoroso desta "patriota feminina" salvou seu nome daquela descida à obscuridade que é a recompensa de muitos homens e mulheres mais talentosos que Mary Wollstonecraft. Reputada principalmente como um ser dessexuado, que escrevera "Uma Reivindicação dos Direitos das Mulheres", ela não foi a primeira mulher a ter opiniões sobre a emancipação de seu sexo; mas seus principais crimes foram expressá-las para a instrução do público e ter a coragem de viver de acordo com suas opiniões. Esteja certa ou errada, ela pagou o preço por violar o costume ao discutir assuntos proibidos. É verdade que ela detectou muitos males sociais e sugeriu alguns remédios excelentes para sua melhoria, mas o tempo não estava maduro para seu livro, e ela sofreu o destino usual da pioneira. Além disso, seu memorial por William Godwin, belo como é em muitos aspectos, exerceu uma influência distintamente prejudicial em relação à sua memória. O próprio fato de ela ter se tornado esposa de um homem tão notório era razão suficiente para condená-la aos olhos de seus compatriotas.

Por duas gerações após sua morte, praticamente nenhuma tentativa foi feita para remover o estigma de seu nome. Mas, finalmente, o falecido Sr. Kegan Paul, um homem de amplas e generosas simpatias, fez um esforço sério para obter algo semelhante à justiça para Mary Wollstonecraft. Em seu livro sobre William Godwin, publicado em 1876, a verdadeira história da vida de Mary foi contada pela primeira vez. Foi uma espécie de revelação, pois registrou a história de uma mulher infeliz, mas corajosa e leal, cujas falhas procediam de sensibilidade excessiva e de um coração que era suscetível demais. Mary Wollstonecraft era uma idealista em uma era muito pragmática, e sua visão da vida, como a da maioria dos idealistas, era fortemente afetada por sua imaginação. Ela via as pessoas e os eventos sob luzes brilhantes ou sombras sombrias — era um poder semelhante ao entusiasmo que a capacitou a produzir alguns de seus melhores escritos, mas também a impedia de ver os defeitos de seu pior trabalho. Desde o memorial do Sr. Kegan Paul, Mary Wollstonecraft tem sido vista sob um aspecto inteiramente diferente, e muitos são os que caíram sob o encanto de sua personalidade fascinante. Não é, contudo, apenas sua mensagem que agora nos interessa, mas a própria mulher, seus desejos, suas aspirações, suas lutas e seu amor. Patética e solitária, ela se destaca nas tênues névoas do passado, uma mulher que continuará a evocar simpatia quando seus livros não forem mais lidos. Mas é seguro prever que as páginas reimpressas neste volume não estão destinadas a compartilhar o destino do restante de seu trabalho. Outros escritores foram infelizes e conheceram as dores do amor não correspondido, mas Mary Wollstonecraft endereçou estas cartas, com o coração partido, ao homem a quem adorava, as cartas de amor mais apaixonadas em nossa literatura. É verdade que ela era uma devota de Rousseau, e que ela provavelmente assimilou do estudo de sua obra não apenas muitas de suas opiniões, mas algo de seu estilo; não parece, contudo, que ela tivesse qualquer motivo ao escrever estas cartas além de defender sua causa com Imlay. Ela era sensível demais para tê-las destinado à publicação, e foi apenas por um mero acaso que foram resgatadas do esquecimento.

Dezembro de 1907.

RETRATOS

MARY WOLLSTONECRAFT (Fotogravura) Frontispício

MARY WOLLSTONECRAFT, por Opie. De uma gravura de Ridley, enfrentando a pág. xvi

MARY WOLLSTONECRAFT, a partir do retrato por Opie, frente à pág. xxvi

CARTAS A GILBERT IMLAY

CARTA I

Duas horas [Paris, junho de 1793].

Meu querido amor, após fazer os preparativos para o nosso jantar aconchegante de hoje, fui tomada de surpresa e obrigada a prometer jantar, cedo, com as senhoritas ----, no único dia que pretendem passar aqui. Deixarei, contudo, a chave na porta e espero encontrá-lo junto à minha lareira quando eu retornar, por volta das oito horas. Não esperará pela pobre Joan? — que você encontrará melhor e, até lá, pense com muito carinho nela.

Sua, sinceramente, MARY.

Estou sentando-me para jantar; portanto, não envie uma resposta.

CARTA II

Passada a meia-noite, segunda-feira à noite [Paris, ago. de 1793].

Obedeço a uma emoção do meu coração, que me fez pensar em desejar-lhe, meu amor, boa noite! antes de eu ir descansar, com mais ternura do que poderei amanhã, ao escrever uma ou duas linhas apressadas sob o olhar do Coronel ----. Você mal pode imaginar com que prazer antecipo o dia em que começaremos quase a viver juntos; e você sorriria ao ouvir quantos planos de ocupação tenho em minha cabeça, agora que estou confiante de que meu coração encontrou paz em seu seio. — Acaricie-me com essa ternura digna, que só encontrei em você; e sua querida menina tentará conter a rapidez de sentimento que às vezes lhe causou dor. — Sim, serei boa, para que eu possa merecer ser feliz; e, enquanto você me amar, não poderei cair novamente no estado miserável que tornou a vida um fardo quase pesado demais para ser suportado.

Mas, boa noite! — Deus o abençoe! Sterne diz que isso equivale a um beijo — contudo, eu preferiria dar-lhe o beijo de brinde, brilhando com gratidão ao Céu e afeição por você. Gosto da palavra afeição, porque significa algo habitual; e logo nos encontraremos, para tentar ver se temos mente suficiente para manter nossos corações aquecidos.

MARY.

Estarei na barreira pouco depois das dez horas de amanhã.[2] — Seu —

CARTA III

Manhã de quarta-feira [Paris, ago. de 1793].

Você muitas vezes me chamou de querida menina, mas agora diria boa, se soubesse o quão atenta tenho sido aos ---- desde que cheguei a Paris. Não vou, porém, incomodá-lo com o relato, porque gosto de ver seus olhos me elogiarem; e Milton insinua que, durante tais recitais, há interrupções, não desagradáveis ao coração, quando o mel que escorre dos lábios não são apenas palavras.

No entanto, não ficarei (deixe-me dizer-lhe antes que essas pessoas entrem, para forçar-me a esconder minha carta) contente apenas com um beijo de DEVER — você deve ficar feliz em me ver — porque está feliz — ou farei amor com a sombra de Mirabeau, para quem meu coração se voltava continuamente enquanto eu falava com a Madame ----, dizendo-me, de forma contundente, que ele sempre terá calor suficiente para amar, quer eu queira ou não, o sentimento, embora eu respeite tanto o princípio. ----

Não que eu pense que Mirabeau seja totalmente desprovido de princípios — Longe disso — e, se eu não tivesse começado a formar uma nova teoria a respeito dos homens, teria, na vaidade do meu coração, imaginado que poderia ter feito algo do dele — ele era composto de tais materiais — Silêncio! aí vêm eles — e o amor foge num piscar de olhos, deixando um pequeno rastro de sua asa em minhas pálidas bochechas.

Espero ver o Dr. ---- esta manhã; vou ao Sr. ---- para encontrá-lo. ----, e alguns outros, foram convidados para jantar conosco hoje; e amanhã passarei o dia com ----.

Provavelmente não poderei retornar a ---- amanhã; mas não importa, porque devo pegar uma carruagem, tenho tantos livros, que preciso imediatamente, para levar comigo. — Na sexta-feira, então, esperarei que você jante comigo — e, se você vier um pouco antes do jantar, faz tanto tempo que não o vejo, você não será repreendido por sua afetuosa,

MARY.

CARTA IV[3]

Manhã de sexta-feira [Paris, set. de 1793].

Um homem, a quem uma carta do Sr. ---- anunciou previamente, esteve aqui ontem para o pagamento de um saque; e, como ele pareceu decepcionado por não encontrá-lo em casa, enviei-o ao Sr. ----. Desde então, vi-o e ele me diz que resolveu o assunto.

Tanto para os negócios! — Posso me aventurar a falar um pouco mais sobre assuntos menos pesados? — Como vai você? — Tenho acompanhado você por toda a estrada neste tempo desconfortável; pois, quando estou ausente daqueles que amo, minha imaginação é tão viva como se meus sentidos nunca tivessem sido gratificados por sua presença — eu ia dizer carícias — e por que não deveria? Descobri que tenho mais mente do que você, em um aspecto; porque posso, sem qualquer esforço violento da razão, encontrar alimento para o amor no mesmo objeto, por muito mais tempo do que você pode. — O caminho para os meus sentidos é através do meu coração; mas, perdoe-me! acho que às vezes há um atalho para o seu.

Com noventa e nove homens em cem, uma pitada muito suficiente de tolice é necessária para tornar uma mulher piquante, uma palavra suave para desejável; e, além dessas efusões casuais de simpatia, poucos buscam o prazer nutrindo uma paixão em seus corações. Uma razão, em suma, pela qual desejo que todo o meu sexo se torne mais sábio, é para que as tolas não possam, por sua bela tolice, roubar daquelas cuja sensibilidade reprime sua vaidade, as poucas rosas que lhes oferecem algum consolo na espinhosa estrada da vida.

Não sei como entrei nessas reflexões, exceto que um pensamento as produziu — de que essas separações contínuas eram necessárias para aquecer sua afeição. — Ultimamente, estamos sempre nos separando. — Crack! — crack! — e lá se vai você. — Essa piada veste o semblante pálido do pensamento; pois, embora eu tenha começado a escrever alegremente, algumas lágrimas melancólicas encontraram seu caminho para os meus olhos, que permanecem lá, enquanto um brilho de ternura em meu coração sussurra que você é uma das melhores criaturas do mundo. — Perdoe, então, os caprichos de uma mente que ficou quase "enlouquecida pelo cuidado", bem como "cruzada em um amor infeliz", e tenha paciência comigo um pouco mais! — Quando estivermos estabelecidos no campo juntos, mais deveres se abrirão diante de mim, e meu coração, que agora, tremendo em direção à paz, é agitado por cada emoção que desperta a lembrança de velhas mágoas, aprenderá a descansar no seu, com a dignidade que seu caráter, para não falar do meu próprio, exige.

Cuide de si — e escreva logo para sua própria menina (você pode acrescentar querida, se quiser) que sinceramente o ama, e tentará convencê-lo disso, tornando-se mais feliz.

MARY.

CARTA V

Domingo à noite [Paris, 1793].

Acabo de receber sua carta e sinto como se não pudesse ir para a cama tranquilamente sem dizer algumas palavras em resposta — meramente para lhe dizer que minha mente está serena e meu coração afetuoso.

Desde que você me viu pela última vez inclinada a desmaiar, senti alguns pequenos espasmos, que me fazem começar a pensar que estou nutrindo uma criatura que logo estará consciente do meu cuidado. — Esse pensamento não apenas produziu um transbordamento de ternura por você, mas me tornou muito atenta para acalmar minha mente e fazer exercícios, para que eu não destruísse um objeto em quem devemos ter um interesse mútuo, você sabe. Ontem — não sorria! — descobrindo que eu havia me machucado ao levantar precipitadamente um grande tronco de madeira, sentei-me em agonia, até sentir aqueles ditos espasmos novamente.

Você está muito ocupado?

* * * * *

Portanto, você pode contar que será terminado em breve, embora não antes de você voltar para casa, a menos que você seja detido por mais tempo do que agora me permito acreditar que será. —

Seja como for, escreva-me, meu melhor amor, e peça-me para ser paciente — gentilmente — e as expressões de gentileza novamente seduzirão o tempo, tão docemente quanto fizeram esta noite. — Diga-me também repetidas vezes que sua felicidade (e você merece ser feliz!) está estreitamente ligada à minha, e tentarei dissipar, à medida que surgirem, os vapores de descontentamento anteriores, que com muita frequência obscureceram o brilho do sol que você se esforçou para difundir através da minha mente. Deus o abençoe! Cuide de si e lembre-se com ternura de sua afetuosa

MARY.

Vou descansar muito feliz, e você me fez assim. — Este é o boa noite mais gentil que posso pronunciar.

CARTA VI

Manhã de sexta-feira [Paris, dez. de 1793].

Fico feliz em descobrir que outras pessoas podem ser irracionais, assim como eu — pois fique sabendo, você, que respondi à sua primeira carta na mesma noite em que ela chegou até mim (domingo), embora você não pudesse recebê-la antes de quarta-feira, porque ela não foi enviada até o dia seguinte. — Eis um relato completo, verdadeiro e particular. —

No entanto, não estou zangada com você, meu amor, pois acho que é uma prova de estupidez, e também de uma afeição de leite com água, que dá no mesmo, quando o temperamento é governado por um esquadro e um compasso. — Não há nada de pitoresco nessa igualdade de linhas retas, e as paixões sempre dão graça às ações.

A recordação agora faz meu coração saltar para você; mas, não é para o seu rosto de ganhar dinheiro, embora eu não possa ficar seriamente descontente com o esforço que aumenta minha estima, ou melhor, é o que eu deveria ter esperado do seu caráter. — Não; tenho seu semblante honesto diante de mim — Pop — relaxado pela ternura; um pouco — pouco ferido pelos meus caprichos; e seus olhos brilhando de simpatia. — Seus lábios então parecem mais macios que macios — e eu descanso minha bochecha na sua, esquecendo todo o mundo. — Não deixei o matiz do amor de fora da imagem — o brilho rosado; e a fantasia espalhou-o sobre minhas próprias bochechas, creio eu, pois sinto-as queimando, enquanto uma lágrima deliciosa treme em meu olho, que seria toda sua, se uma emoção grata direcionada ao Pai da natureza, que me fez assim viva para a felicidade, não desse mais calor ao sentimento que ela divide — devo fazer uma pausa por um momento.

Preciso lhe dizer que estou tranquila depois de escrever assim? — Não sei por que, mas tenho mais confiança em sua afeição quando ausente do que presente; na verdade, penso que você deve me amar, pois, na sinceridade do meu coração, deixe-me dizer isso, acredito que mereço sua ternura, porque sou verdadeira e tenho um grau de sensibilidade que você pode ver e apreciar.

Sua sinceramente, MARY.

CARTA VII.

Domingo de manhã [Paris, 29 de dez. de 1793].

Parece que você fixou residência em Havre. Por favor, senhor! quando você pensa em voltar para casa? ou, para escrever com muita consideração, quando os negócios lhe permitirão? Esperarei (como dizem as pessoas do campo na Inglaterra) que você faça um monte de dinheiro para me indenizar pela sua ausência.

* * * * *

Bem! mas, meu amor, para a velha história — verei você esta semana, ou este mês? — Não sei o que você está fazendo — pois, como você não me contou, não quis perguntar ao Sr. ----, que geralmente é bastante comunicativo.

Anseio por ver a Sra. ----; não para ouvir sobre você, então não se dê ares, mas para obter uma carta do Sr. ----. E estou meio zangada com você por não me informar se ela trouxe uma com ela ou não. — Por este motivo, vou guardar algumas das coisas gentis que estavam prontas para cair da minha pena, que nunca foi mergulhada em fel ao dirigir-se a você; ou, apenas permitirei que uma exclamação — "A criatura!" ou um olhar gentil escape de mim, quando eu passar pelos chinelos — que não consegui remover da minha porta, embora não sejam os mais bonitos do seu tipo.

_Não fique muito ansioso para ganhar dinheiro! — pois nada que valha a pena ter pode ser comprado._ Deus o abençoe.

Sua afetuosa, MARY.

CARTA VIII

Segunda-feira à noite [Paris, 30 de dez. de 1793].

Meu melhor amor, sua carta esta noite foi particularmente grata ao meu coração, deprimido pelas cartas que recebi de ----, pois ele me trouxe várias, e o pacote de livros endereçado ao Sr. ---- era para mim. A carta do Sr. ---- era longa e muito afetuosa; mas o relato que ele me dá de seus próprios assuntos, embora ele obviamente tente tirar o melhor proveito deles, irritou-me.

Uma carta melancólica da minha irmã ---- também atormentou minha mente — a do meu irmão teria me dado um prazer sincero; mas por

* * * * *

Há um espírito de independência em sua carta, que o agradará; e você a verá, quando estivermos mais uma vez juntos diante da lareira. — Acho que você o saudaria como um irmão, com um de seus olhares ternos, quando seu coração não apenas dá um brilho ao seu olho, mas uma dança de ludicidade, que ele encontraria com um brilho meio composto de timidez, e um desejo de agradar ao... onde encontrarei uma palavra para expressar o relacionamento que existe entre nós? — Perguntarei ao pequeno agitador? — Mas deixei cair metade da frase que deveria lhe dizer o quanto ele estaria inclinado a amar o homem amado por sua irmã. Tenho me imaginado sentada entre vocês, desde que comecei a escrever, e meu coração saltou com o pensamento! Você vê como eu converso com você.

Não recebi sua carta até chegar em casa; e não esperava, pois o correio chegou muito mais tarde do que o habitual. Foi um cordial para mim — e eu precisava de um.

O Sr. ---- me diz que escreveu várias vezes. — Ame-o um pouco! — Seria um tipo de separação se você não amasse aqueles que eu amo.

Havia tanta ternura considerada em sua epístola esta noite que, se não o tornou mais querido para mim, fez-me sentir à força o quão querido você é para mim, ao encantar metade das minhas preocupações.

Sua afetuosa, MARY.

CARTA IX

Terça-feira de manhã [Paris, 31 de dez. de 1793].

Embora eu tenha acabado de enviar uma carta, como o capitão ---- se oferece para levar uma, não quero deixá-lo ir sem uma saudação gentil, porque ninharias deste tipo, sem ter qualquer efeito na minha mente, abatem meu espírito: — e você, com todas as suas lutas para ser másculo, tem um pouco dessa mesma sensibilidade. — Não diga para ela ir embora, pois adoro vê-la se esforçando para dominar suas feições; além disso, esses tipos de simpatias são a vida da afeição: e por que, ao cultivar nosso entendimento, deveríamos tentar secar essas fontes de prazer, que jorram para dar um frescor aos dias bronzeados pelo cuidado!

Os livros enviados para mim são tais que podemos ler juntos; então não olharei para eles até que você retorne; quando você lerá, enquanto eu cerzo minhas meias.

Sua verdadeiramente, MARY.

CARTA X

Quarta-feira à noite [Paris, 1 de jan. de 1794].

Como estive, você me diz, três dias sem escrever, não deveria reclamar de dois: no entanto, como esperava receber uma carta esta tarde, estou magoada; e por que deveria, ao escondê-lo, afetar o heroísmo que não sinto?

Odeio o comércio. Quão diferentemente devem ser organizados a cabeça e o coração de ---- dos meus! Você me dirá que os esforços são necessários: estou cansada deles! A face das coisas, públicas e privadas, me irrita. A "paz" e a clemência que pareciam surgir há alguns dias, desaparecem novamente. "Caí", como disse Milton, "em dias maus"; pois realmente acredito que a Europa estará em um estado de convulsão, por pelo menos meio século. A vida é apenas um trabalho de paciência: é sempre rolar uma grande pedra montanha acima; pois, antes que uma pessoa possa encontrar um lugar de descanso, imaginando que ela está alojada, ela cai novamente, e todo o trabalho deve ser feito de novo!

Se eu tentasse escrever mais, não poderia mudar o tom. Minha cabeça dói e meu coração está pesado. O mundo parece um "jardim sem ervas daninhas", onde "coisas classificadas e vis" florescem melhor.

Se você não retornar logo — ou, o que não é uma coisa tão importante, falar sobre isso — jogarei seus chinelos pela janela e irei embora — ninguém sabe para onde.

MARY.

Descobrindo que estava sendo observada, disse às boas mulheres, as duas Sras. ----, simplesmente que estava grávida: e que olhem! e ----, e ----, na verdade, todo o mundo, pode saber disso, se quiser! — No entanto, quero evitar as piadas grosseiras de ----.

Considerando o cuidado e a ansiedade que uma mulher deve ter sobre uma criança antes que ela venha ao mundo, parece-me, por um direito natural, que ela lhe pertence. Quando os homens se imergem no mundo, parecem perder todas as sensações, exceto aquelas necessárias para continuar ou produzir a vida! — São esses os privilégios da razão? Entre a raça emplumada, enquanto a galinha mantém os filhotes aquecidos, seu parceiro fica por perto para animá-la; mas é suficiente para o homem condescender em ter um filho, para reivindicá-lo. — O homem é um tirano!

Você pode agora me dizer que, se não fosse por mim, você estaria rindo com alguns homens honestos em Londres. O exercício casual da simpatia social não seria suficiente para mim — eu não acharia uma vida tão sem coração digna de ser preservada. — É necessário estar de bom humor com você, para ficar satisfeita com o mundo.

Quinta-feira de manhã [Paris, 2 de jan. de 1794].

Eu estava muito deprimida ontem à noite, pronta para brigar com seu temperamento alegre, que torna a ausência fácil para você. — E por que deveria eu suavizar o assunto? Fiquei ofendida por você nem sequer mencionar isso — não quero ser amada como uma deusa, mas desejo ser necessária para você. Deus o abençoe![4]

CARTA XI

Segunda-feira à noite [Paris, jan. de 1794].

Acabo de receber sua carta gentil e racional, e gostaria de esconder meu rosto, brilhando de vergonha pela minha tolice. — Eu o esconderia em seu seio, se você o abrisse novamente para mim, e me aninharia perto até que você pedisse ao meu coração agitado que ficasse quieto, dizendo que me perdoou. Com os olhos cheios de lágrimas, e na atitude mais humilde, suplico-lhe. — Não se afaste de mim, pois, na verdade, eu o amo ternamente, e tenho estado muito infeliz desde a noite em que fui tão cruelmente ferida ao pensar que você não tinha confiança em mim...

É hora de eu me tornar mais razoável, mais alguns desses caprichos de sensibilidade me destruiriam. Eu, de fato, tenho estado muito indisposta nos últimos dias, e a ideia de que eu estava atormentando, ou talvez matando, um pobre animalzinho, sobre o qual me tornei ansiosa e terna, agora que o sinto vivo, piorou-me. Meus intestinos ficaram terrivelmente desordenados, e tudo o que eu comia ou bebia não concordava com meu estômago; ainda sinto insinuações de sua existência, embora tenham sido mais fracas.

Você acha que a criatura vai dormir regularmente? Estou pronta para fazer tantas perguntas quanto o Homem de Quarenta Coroas de Voltaire. Ah! não continue zangado comigo! Você percebe que já estou sorrindo através das minhas lágrimas — Você aliviou meu coração, e meus espíritos congelados estão derretendo em ludicidade.

Escreva no momento em que receber isto. Contarei os minutos. Mas não deixe cair uma palavra de raiva — não consigo suportar agora. No entanto, se você acha que mereço uma bronca (não admite dúvida, admito), espere até voltar — e então, se você estiver zangado um dia, terei certeza de vê-lo no próximo.

---- não escreveu para você, suponho, porque ele falou em ir para Havre. Ouvindo que eu estava doente, ele me visitou muito gentilmente, sem sonhar que foram algumas palavras que ele inadvertidamente deixou escapar, que me deixaram assim.

Deus o abençoe, meu amor; não feche seu coração contra um retorno de ternura; e, como agora na fantasia me apego a você, seja mais do que nunca meu apoio. — Sinta-se apenas tão afetuoso quando ler esta carta quanto eu ao escrevê-la, e você fará feliz sua

MARY.

CARTA XII

Quarta-feira de manhã [Paris, jan. de 1794].

Nunca, se não estiver inteiramente curada de brigar, começarei a encorajar "fantasias repentinas" quando estivermos separados. Ontem, meu amor, não consegui abrir sua carta por algum tempo; e, embora não fosse metade tão severa quanto eu merecia, ela me deixou em tal estado de tremor que me alarmou seriamente. Não me importei, como pode supor, com um pouco de dor por minha própria conta; mas todos os medos que tive nos últimos dias retornaram com força renovada. Esta manhã estou melhor; você não ficará feliz em saber disso? Você percebe que a tristeza quase me tornou uma criança e que quero ser acalmada até a paz.

Há uma coisa em que você se engana quanto ao meu caráter, imaginando ser frieza o que é exatamente o contrário. Pois, quando sou ferida pela pessoa que me é mais querida, preciso deixar sair uma torrente inteira de emoções, na qual a ternura seria predominante, ou sufocá-las completamente; e parece-me quase um dever sufocá-las quando imagino que estou sendo tratada com frieza.

Receio ter lhe aborrecido, meu próprio [Imlay]. Conheço a rapidez de seus sentimentos — e deixe-me, na sinceridade do meu coração, assegurar-lhe que não há nada que eu não sofreria para fazê-lo feliz. Minha própria felicidade depende inteiramente de você — e, conhecendo-o, quando minha razão não está nublada, olho para um futuro com uma perspectiva racional de tanta felicidade quanto a terra oferece — com um pequeno toque de arrebatamento de brinde, se você olhar para mim, quando trabalharmos novamente, como você às vezes me cumprimentou, sua humilde, porém mais afetuosa

MARY.

CARTA XIII

Quinta-feira à noite [Paris, jan. de 1794].

Tenho desejado que o tempo passe, meu terno amor, incapaz de descansar até saber que minha carta de penitência chegou às suas mãos — e esta tarde, quando sua terna epístola de terça-feira deu tanto prazer requintado à sua pobre menina doente, seu coração a censurou por pensar que você ainda receberia outra fria. — Queime-a também, meu [Imlay]; ainda assim, não se esqueça de que mesmo aquelas cartas estavam cheias de amor; e sempre me lembrarei de que você não esperou ser suavizado pela minha penitência antes de me tomar novamente em seu coração.

Tenho estado indisposta e não gostaria, agora que estou me recuperando, de fazer uma viagem, porque fiquei seriamente alarmada e zangada comigo mesma, temendo continuamente as consequências fatais da minha tolice. — Mas, se você achar correto permanecer em Havre, encontrarei alguma oportunidade, no decorrer de uma quinzena, ou talvez menos, para ir até você, e antes disso estarei forte novamente. — Mas não fique inquieto! Estou realmente melhor e nunca cuidei tanto de mim mesma como tenho feito desde que você restaurou minha paz de espírito. A moça veio aquecer minha cama — então direi ternamente, boa noite! e escreverei uma linha ou duas pela manhã.

Manhã.

Gostaria que você estivesse aqui para caminhar comigo nesta bela manhã! ainda assim, sua ausência não me impedirá. Tenho ficado muito em casa; embora, quando estivesse tão terrivelmente desanimada, eu fosse descuidada com tudo.

Vou agora sair (você irá comigo em meu coração) e tentar se este ar fino e revigorante não dará o vigor ao pobre bebê que ele tinha, antes que eu, de forma tão impensada, cedesse à tristeza que perturbou meu ventre e deu uma reviravolta em todo o meu sistema.

Sua verdadeiramente, MARY IMLAY.

CARTA XIV

Sábado de manhã [Paris, fev. de 1794].

As duas ou três cartas que lhe escrevi ultimamente, meu amor, servirão como resposta à sua explicativa. Não posso deixar de respeitar seus motivos e conduta. Sempre os respeitei; e só fiquei magoada com o que me pareceu uma falta de confiança e, consequentemente, de afeição. — Pensei também que, se você era obrigado a ficar três meses em Havre, eu poderia muito bem ter estado com você. — Bem! bem, que importa sobre o que eu remoí — sejamos amigos agora!

Provavelmente receberei uma carta sua hoje, selando meu perdão — e terei o cuidado de não atormentá-lo com meus humores queixosos, pelo menos até vê-lo novamente. Aja conforme as circunstâncias ditarem, e não perguntarei quando elas permitirão que você retorne, convencida de que você se apressará para sua Mary quando tiver alcançado (ou perdido de vista) o objetivo de sua viagem.

Que retrato você esboçou de nossa lareira! Sim, meu amor, minha fantasia entrou em ação instantaneamente, e encontrei minha cabeça em seu ombro, enquanto meus olhos estavam fixos nas pequenas criaturas que se agarravam aos seus joelhos. Não determinei absolutamente que deveriam ser seis — se você não depositou seu coração neste número redondo.

Vou jantar com a Sra. ----. Não a visito desde o primeiro dia em que ela veio a Paris. Desejo, de fato, estar ao ar livre o máximo que puder; pois o exercício que fiz nestes últimos dois ou três dias tem sido de tal utilidade para mim que espero, em breve, dizer-lhe que estou muito bem. Mal dormi antes da noite passada, e mesmo assim não muito. — As duas Sras. ---- têm sido muito ansiosas e ternas.

Sua verdadeiramente, MARY.

Não preciso pedir que dê ao coronel uma boa garrafa de vinho.

CARTA XV

Domingo de manhã [Paris, fev. de 1794].

Escrevi-lhe ontem, meu [Imlay]; mas, descobrindo que o coronel ainda está detido (pois seu passaporte foi esquecido no escritório ontem), não quero deixar passar tantos dias sem que você tenha notícias minhas, depois de ter falado de doença e apreensões.

Não posso me gabar de estar completamente recuperada, ainda assim estou (devo usar minha expressão de Yorkshire; pois, quando meu coração está quente, surgem as expressões da infância em minha cabeça) tão leve que penso que não *irá mal comigo*. — E nada faltará da minha parte, garanto-lhe; pois sou impelida, não apenas por uma afeição vivificada por você, mas por uma ternura recém-nascida que brinca alegremente ao redor do meu coração em expansão.

Estava, portanto, desafiando o frio e a sujeira, ao ar livre na maior parte do dia de ontem; e, se eu superar esta noite sem um retorno da febre que me tem atormentado, não falarei mais de doença. Prometi à pequena criatura que sua mãe, que deveria acalentá-la, não a importunará novamente, e pedi-lhe perdão; e, como não pude abraçar nem ela nem você em meu peito, fiz ao meu coração. — Tenho medo de reler essa tagarelice — mas é apenas para seus olhos.

Fiquei seriamente irritada ao descobrir que, enquanto você era assediado por impedimentos em seus empreendimentos, eu estava lhe causando inquietação adicional. — Se você conseguir que algum de seus planos funcione — é bom, não acho um pouco de dinheiro inconveniente; mas, se eles falharem, lutaremos alegremente juntos — unidos mais estreitamente pelas rajadas cortantes da pobreza.

Adeus, meu amor! Escreva frequentemente para sua pobre menina, e escreva cartas longas; pois não só gosto delas por serem mais longas, mas porque mais coração se infiltra nelas; e fico feliz em capturar seu coração sempre que posso.

Sua sinceramente, MARY.

CARTA XVI

Terça-feira de manhã [Paris, fev. de 1794].

Aproveito esta oportunidade para informá-lo de que partirei na quinta-feira com o Sr. ----, e espero dizer-lhe em breve (em seus lábios) o quanto ficarei feliz em vê-lo. Acabei de obter meu passaporte, pois não prevejo nenhum impedimento para chegar a Havre, para lhe desejar boa noite na próxima sexta-feira em meu novo apartamento — onde devo encontrá-lo e amar, apesar das preocupações, para sorrir até cair no sono — pois não capturei muito descanso desde que nos separamos.

Você, por sua ternura e valor, enroscou-se mais habilmente ao redor do meu coração do que eu supunha possível. — Deixe-me ceder ao pensamento de que lancei algumas gavinhas para me agarrar ao olmo pelo qual desejo ser apoiada. — Isso é falar uma língua nova para mim! — Mas, sabendo que não sou uma planta parasita, estou disposta a receber as provas de afeição, às quais cada pulsação responde, quando penso em estar mais uma vez na mesma casa com você. Deus o abençoe!

Sua verdadeiramente, MARY.

CARTA XVII

Quarta-feira de manhã [Paris, fev. de 1794].

Envio isto apenas como um *avant-coureur*, sem botas de montaria, para dizer-lhe que estou novamente de partida e espero estar com você algumas horas depois que você a receber. Encontrá-lo-ei bem e composto, tenho certeza; ou, falando mais propriamente, alegre. — Qual é a razão pela qual meu ânimo não é tão controlável quanto o seu? Ainda assim, agora que penso nisso, não admitirei que seu temperamento seja uniforme, embora eu tenha prometido a mim mesma, a fim de obter meu próprio perdão, que não o perturbarei por muito, muito tempo — tenho medo de dizer nunca.

Adeus por um momento! — Não se esqueça de que estou indo ao seu encontro pessoalmente! Minha mente, desencadeada, voou para você há muito tempo, ou melhor, nunca o deixou.

Estou bem e não tenho receio de achar a viagem muito cansativa, quando sigo a orientação do meu coração. — Com meu rosto voltado para Havre, meu ânimo não afundará — e minha mente sempre me permitiu, até agora, fazer tudo o que desejei.

Sua afetuosamente, MARY.

CARTA XVIII

Quinta-feira de manhã, Havre, 12 de março [1794].

Somos tais criaturas de hábito, meu amor, que, embora eu não possa dizer que fiquei triste, infantilmente triste, pela sua partida, quando sabia que você ficaria tão pouco tempo, e eu tinha um plano de trabalho; ainda assim não consegui dormir. — Virei-me para o seu lado da cama e tentei aproveitar ao máximo o conforto do travesseiro, sobre o qual você costumava me dizer que eu era grosseira; mas nada funcionou. — Fiz, no entanto, minha caminhada antes do café da manhã, embora o tempo não estivesse muito convidativo — e aqui estou eu, desejando-lhe um dia mais bonito e vendo-o espreitar por cima do meu ombro, enquanto escrevo, com um dos seus olhares mais gentis — quando seus olhos brilham e uma sufusão se espalha sobre suas feições relaxadas.

Mas não pretendo perder tempo com você esta manhã — Então, Deus o abençoe! Cuide de si mesmo — e às vezes dobre em seu coração sua afetuosa

MARY.

CARTA XIX

[Havre, março de 1794].

Não me chame de estúpida por deixar na mesa o pedacinho de papel que eu deveria incluir. — Isso acontece por estar apaixonada ao final de uma carta de negócios. — Você sabe, você diz, eles não combinam. — Eu tinha colocado você junto à lareira, com o *gigot* fumegante na mesa, para untar suas pobres costelas nuas — e veja só, fechei minha carta sem pegar o papel, que estava bem debaixo dos meus olhos! O que eu tinha neles para me deixar tão cega? — Dou-lhe permissão para responder à pergunta, se você não me repreender; pois sou,

Sua mais afetuosamente, MARY.

CARTA XX

[Havre] Domingo, 17 de agosto [1794].

* * * * *

Prometi a ---- ir com ele à sua casa de campo, onde agora lhe é permitido jantar — eu e a pequena querida, é claro — a quem não posso deixar de beijar com mais carinho, desde que você nos deixou. Acho que aproveitarei a bela vista e que isso animará, em vez de saciar, minha imaginação.

Visitei a Sra. ----. Ela tem as maneiras de uma dama, com um toque da fácil coqueteria francesa, que a torna *piquante*. — Mas o Monsieur, seu marido, a quem a natureza nunca sonhou em moldar como um cavalheiro ou amante, faz uma figura um tanto desajeitada no primeiro plano do retrato.

Os H---- são muito feios, sem dúvida — e a casa cheirava a comércio de alto a baixo — de modo que sua tentativa abortada de exibir bom gosto só provou que era uma das coisas que não se compram com ouro. Estive em um quarto um momento sozinha, e minha atenção foi atraída pelo *pendule* — Uma ninfa oferecia seus votos diante de um altar fumegante a um Cupido de nádegas gordas (perdoe-me a presença), que chutava os calcanhares no ar. — Ah! chute, pensei eu; pois o demônio do tráfico sempre assustará os amores e as graças, que riscam com os raios rosados da fantasia infantil o dia sombrio da vida — enquanto a imaginação, não nos permitindo ver as coisas como são, nos capacita a capturar um rápido gole do riacho da delícia, cuja sede parece ter sido dada apenas para nos atormentar.

Mas estou filosofando; não, talvez você me chame de severa e me diga para deixar os *money-getters* de cabeça quadrada em paz. — Paz a eles! embora nenhum dos duendes sociais (e não são poucos, de diferentes descrições, que se divertem ao redor das várias entradas do meu coração) tenha me dado um puxão para restringir minha pena.

Tenho escrito, esperando que ---- viesse; pois, quando comecei, pensava apenas em negócios; e, como esta é a ideia que mais naturalmente se associa à sua imagem, admiro-me de ter tropeçado em qualquer outra.

Ainda assim, como a vida comum, na minha opinião, dificilmente vale a pena, mesmo com um *gigot* todo dia, e um pudim acrescentado a isso, permitirei que você cultive meu julgamento, se você me permitir manter vivos os sentimentos em seu coração, que podem ser chamados de românticos, porque, sendo frutos dos sentidos e da imaginação, eles se assemelham mais à mãe do que ao pai, quando produzem a sufusão que admiro. — Apesar da idade gelada, espero ainda vê-la, se você não determinou apenas comer, beber e ser estupidamente útil aos estúpidos —

Sua, MARY.

CARTA XXI

Havre, 19 de agosto [1794], terça-feira.

Recebi suas duas cartas hoje — eu contava com notícias suas ontem, portanto fiquei desapontada, embora tenha atribuído seu silêncio à causa certa. Pretendia responder à sua gentil carta imediatamente, para que você pudesse ter sentido o prazer que ela me deu; mas ---- entrou, e algumas outras coisas me interromperam; de modo que o belo vapor evaporou — ainda assim, deixando um doce perfume para trás, só tenho a lhe dizer, o que é suficientemente óbvio, que o desejo sincero que demonstrei de manter meu lugar, ou ganhar mais terreno em seu coração, é uma prova certa de quão necessária sua afeição é para minha felicidade. — Ainda assim, não acho falsa delicadeza, ou orgulho tolo, desejar que sua atenção à minha felicidade surja tanto do amor, que é sempre uma paixão um tanto egoísta, quanto da razão — isto é, quero que você promova minha felicidade, buscando a sua. — Pois, qualquer prazer que possa me dar descobrir sua generosidade de alma, eu não gostaria de depender, para sua afeição, da própria qualidade que mais admiro. Não; há qualidades em seu coração que exigem minha afeição; mas, a menos que o apego me pareça claramente mútuo, lutarei apenas para estimar seu caráter, em vez de nutrir uma ternura pela sua pessoa.

Escrevo com pressa, porque a pequena, que dorme há muito tempo, começa a me chamar. Pobre coisinha! quando estou triste, lamento que todas as minhas afeições cresçam em mim, até se tornarem fortes demais para minha paz, embora todas me proporcionem momentos de requintado prazer — Isso para nossa garotinha foi a princípio muito razoável — mais o efeito da razão, um senso de dever, do que do sentimento — agora, ela entrou em meu coração e imaginação, e quando saio sem ela, sua pequena figura está sempre dançando diante de mim.

Você também, de alguma forma, agarrou-se ao meu coração — descobri que não conseguia comer meu jantar no grande salão — e, quando peguei a faca grande para me servir, lágrimas correram aos meus olhos. — Não suponha, no entanto, que estou melancólica — pois, quando você está longe de mim, não apenas me pergunto como posso encontrar falhas em você — mas como posso duvidar de sua afeição.

Não misturarei comentários sobre o anexo (isso despertou minha indignação) com a efusão de ternura, com a qual lhe asseguro que você é o amigo do meu peito e o esteio do meu coração.

MARY.

CARTA XXII

Havre, 20 de agosto [1794].

Quero saber quais passos você tomou com relação a ----. A vilania sempre desperta minha indignação — Eu ficaria satisfeita em saber que a lei puniu ---- severamente; mas não desejo que você o veja, porque o negócio agora não admite discussão pacífica, e não sei exatamente como você expressaria seu desprezo.

Por favor, faça algumas perguntas sobre Tallien — Ainda estou satisfeita com a dignidade de sua conduta. — Outro dia, em nome da humanidade, ele fez uso de um grau de destreza que admiro — e pretendo apontar para você, como um dos poucos casos de destreza que dão crédito às habilidades do homem, sem tirar aquela confiança em sua abertura de coração, que é a verdadeira base da amizade pública e privada.

Não suponha que pretendo aludir a uma pequena reserva de temperamento em você, da qual às vezes me queixei! Você se acostumou com uma mulher astuta, e você quase procura astúcia — Não, ao gerenciar minha felicidade, você de vez em quando feriu minha sensibilidade, escondendo-se, até que a simpatia honesta, dando-lhe a mim sem disfarce, deixa-me olhar para um coração, no qual o meu meio partido deseja rastejar, para ser revivido e acalentado. — Você tem franqueza de coração, mas nem sempre exatamente aquele transbordamento (*épanchement de coeur*), que, tornando-se quase infantil, parece uma fraqueza apenas para os fracos.

Mas deixei o pobre Tallien. Eu queria que você perguntasse também se, como um membro declarou na convenção, Robespierre realmente mantinha várias amantes. — Se assim for, suspeito que elas lisonjeavam mais a vaidade dele do que seus sentidos.

Aqui está uma epístola tagarela e desordenada! Mas não suponha que pretendo fechá-la sem mencionar a pequena donzela — que quase saltou do meu braço — ela certamente parece muito com você — mas não a amo menos por isso, esteja eu zangada ou satisfeita com você.

Sua afetuosamente, MARY.

CARTA XXIII

[Paris] 22 de setembro [1794].

Acabei de escrever duas cartas que vão por outros meios, e que conto que você receba muito antes desta. Escrevo, portanto, apenas porque sei que ficaria desapontada ao ver alguém que o deixou, se você não enviasse uma carta, por mais curta que fosse, para me dizer por que não escreveu uma mais longa — e você vai querer ser dito, repetidas vezes, que nosso pequeno Hércules está completamente recuperado.

Além de olhar para mim, há três outras coisas que a encantam — andar de carruagem, olhar para um colete escarlate e ouvir música alta — ontem, na festa, ela desfrutou das duas últimas; mas, para honrar J. J. Rousseau, pretendo dar-lhe uma faixa, a primeira que ela já teve ao redor de si — e por que não? — pois sempre estive meio apaixonada por ele.

Bem, você dirá que isso é trivial — devo falar sobre alúmen ou sabão? Não há nada de pitoresco em suas atividades atuais; minha imaginação prefere vagar de volta à barreira com você, ou vê-lo vindo ao meu encontro, e minha cesta de uvas. — Com que prazer recordo seus olhares e palavras, quando estive sentada na janela, observando o milho ondulante!

Acredite em mim, sábio senhor, você não tem respeito suficiente pela imaginação — eu poderia provar para você em um instante que ela é a mãe do sentimento, a grande distinção de nossa natureza, a única purificadora das paixões — os animais têm uma porção de razão, e sentidos iguais, se não mais requintados; mas nenhum traço de imaginação, ou de seu fruto, o gosto, aparece em qualquer de suas ações. O impulso dos sentidos, paixões, se você quiser, e as conclusões da razão, aproximam os homens; mas a imaginação é o verdadeiro fogo, roubado do céu, para animar esta fria criatura de barro, produzindo todas aquelas belas simpatias que levam ao arrebatamento, tornando os homens sociais ao expandir seus corações, em vez de lhes deixar tempo para calcular quantos confortos a sociedade oferece.

Se você chamar essas observações de românticas, uma frase que, neste lugar, seria equivalente a um absurdo, estarei apta a retrucar que você está embrutecido pelo comércio e pelos prazeres vulgares da vida — Traga-me então de volta o seu rosto-barreira, ou você não terá nada a dizer à minha menina-barreira; e eu fugirei de você, para acalentar as lembranças que sempre me serão caras; pois sou, verdadeiramente, sua,

MARY.

CARTA XXIV

[Paris] Tarde, 23 de set., [1794].

Tenho brincado e rido com a menina há tanto tempo, que não consigo pegar a pena para dirigir-me a você sem emoção. Apertando-a contra o meu seio, ela parecia tanto com você (entre nós, a sua melhor aparência, pois não admiro o seu rosto comercial) que cada nervo parecia vibrar ao toque, e comecei a pensar que havia algo na afirmação de que marido e mulher são um só — pois você parecia permear todo o meu ser, acelerando o bater do meu coração e emprestando-me as lágrimas solidárias que você excitou.

Tenho mais alguma coisa a lhe dizer? Não; não por enquanto — o restante voou tudo; e, entregando-me à ternura por você, não posso agora queixar-me de algumas pessoas aqui, que têm perturbado o meu temperamento nos últimos dois ou três dias.

[Paris, 1794] Manhã.

Ontem, B---- enviou um recado pedindo o meu pacote de cartas. Ele já me havia visitado antes; e eu gosto dele mais do que gostava — isto é, tenho a mesma opinião sobre o seu entendimento, mas penso, como você, que ele tem mais ternura e real delicadeza de sentimentos com relação às mulheres do que comumente se encontra. A maneira dele também de falar da sua filhinha, com a idade da minha, interessou-me. Dei-lhe uma carta para a minha irmã e pedi-lhe que a visse.

Fui interrompida. O Sr. ---- suponho que escreverá sobre negócios. Não discorro sobre assuntos públicos, exceto para lhe dizer que eles escrevem agora com grande liberdade e verdade; e esta liberdade de imprensa derrubará os Jacobinos, percebo claramente.

Espero que cuide da sua saúde. Adquiri o hábito da inquietude à noite, o que decorre, creio, da atividade da mente; pois, quando estou sozinha, isto é, não perto de alguém a quem possa abrir o meu coração, afundo-me em devaneios e sequências de pensamentos que me agitam e me cansam.

Esta é a minha terceira carta; quando hei de ter notícias suas? Suponho que não preciso lhe dizer que estou agora escrevendo com alguém no quarto comigo, e ---- está esperando para levar isto ao Sr. ----. Beijarei então a menina por você e lhe direi adeus.

Pedi-lhe, em uma das minhas outras cartas, que trouxesse de volta para mim o seu rosto-barreira — ou que você não seria amado pela minha menina-barreira. Sei que você a amará cada vez mais, pois ela é uma criaturinha afetuosa e inteligente, com tanta vivacidade, eu diria, quanto você poderia desejar.

Eu ia lhe contar duas ou três coisas que me desagradam aqui; mas não são de importância suficiente para interromper sensações agradáveis. Recebi uma carta do Sr. ----. Quero que você traga ---- com você. Madame S---- está ao meu lado, lendo uma tradução alemã das suas cartas — ela deseja que eu lhe envie o seu amor, por conta do que você diz sobre os negros.

Sua, muito afetuosamente, MARY.

CARTA XXV

Paris, 28 de set. [1794].

Escrevi-lhe três ou quatro cartas; mas causas diversas impediram-me de enviá-las pelas pessoas que prometeram levá-las ou encaminhá-las. A inclusa é uma que escrevi para ir por B----; no entanto, descobrindo que ele não chegará antes de quando espero, e acredito, que você terá partido para o seu retorno, eu a incluo para você, e a entregarei aos cuidados de ----, já que o Sr. ---- está detido, a quem também entreguei uma carta.

Não posso evitar a ansiedade de ter notícias suas; mas não o importunarei com relatos de inquietações ou de cuidados que surgem de circunstâncias particulares. Tive tantas pequenas pragas aqui, que quase lamentei ter deixado o Havre. ----, que na melhor das hipóteses é uma criatura muito desamparada, está agora, devido à sua gravidez, mais um problema do que uma utilidade para mim, de modo que continuo sendo quase uma escrava da criança. — Ela, de fato, me recompensa, pois é uma doce criaturinha; pois, deixando de lado o carinho de mãe (que, aliás, está crescendo em mim, os seus pequenos sorrisos inteligentes afundando-se no meu coração), ela tem um grau surpreendente de sensibilidade e observação. Outro dia, perto da criança de B----, uma bela criança, ela parecia um pequeno duende. — Ela é toda vida e movimento, e os seus olhos não são os olhos de uma tola — eu juro.

Dormi em St. Germain, no mesmíssimo quarto (se você não se esqueceu) em que você me pressionou muito ternamente contra o seu coração. — Não me esqueci de dobrar a minha querida contra o meu, com sensações que são quase sagradas demais para serem mencionadas.

Adeus, meu amor! Cuide de si mesmo, se deseja ser o protetor da sua filha e o conforto da sua mãe.

Recebi, para você, cartas de ----. Quero saber como esse assunto termina, embora não saiba se sinto mais desprezo pela sua loucura ou pela sua patifaria.

Sua, MARY.

CARTA XXVI

[Paris] 1º de outubro [1794].

É uma tarefa sem coração escrever cartas, sem saber se elas algum dia chegarão até você. — Dei duas a ----, que estava de partida, de partida, todos os dias, na semana passada; e outras três, que foram escritas em um tom de desânimo, um pouco queixoso ou algo assim, não consegui encaminhar pelas oportunidades que me foram mencionadas. Tant mieux! você dirá, e eu não direi que não; pois eu sentiria muito que o conteúdo de uma carta, quando você está tão longe, diminuísse o prazer que a visão dela proporcionaria — julgando os seus sentimentos pelos meus. Acabei de tropeçar em uma das cartas gentis que você escreveu durante a sua última ausência. Você é então uma criatura querida e afetuosa, e eu não o importunarei. A carta que você por acaso receber, quando a ausência é tão longa, deveria trazer apenas lágrimas de ternura, sem qualquer amargura, aos seus olhos.

Após o seu retorno, espero, de fato, que você não esteja tão imerso em negócios como durante os últimos três ou quatro meses — pois até o dinheiro, levando-se em conta todo o conforto futuro que ele deve proporcionar, pode ser ganho a um preço caro demais, se impressões dolorosas forem deixadas na mente. — Essas impressões eram muito mais vivas logo após a sua partida do que no presente — pois mil recordações ternas apagam os vestígios melancólicos que elas deixaram na minha mente — e cada emoção está do mesmo lado que a minha razão, que sempre esteve do seu lado. — Separados, seria quase ímpio deter-se em imperfeições reais ou imaginárias de caráter. — Sinto que o amo; e, se não puder ser feliz com você, não buscarei isso em nenhum outro lugar.

A minha pequena querida torna-se a cada dia mais cara para mim — e ela recebe frequentemente um beijo, quando estamos sós, que lhe dou por você, com todo o meu coração.

Fui interrompida — e devo enviar a minha carta. A liberdade de imprensa produzirá um grande efeito aqui — o *clamor de sangue não será em vão*! — Mais alguns monstros perecerão — e os Jacobinos estão conquistados. — No entanto, temo quase o último bater da cauda da besta.

Tive várias inconveniências triviais e irritantes aqui, das quais não o aborrecerei agora com detalhes. — Estou enviando ---- de volta; a sua gravidez tornou-a inútil. A menina que consegui tem mais vivacidade, o que é melhor para a criança.

Anseio por ter notícias suas. — Traga uma cópia de ---- e ---- com você.

---- ainda está aqui: ele é um homem perdido. — Ele realmente ama a sua esposa e está ansioso pelos seus filhos; mas a sua hospitalidade indiscriminada e sentimentos sociais deram-lhe um hábito inveterado de beber, que destrói a sua saúde, além de tornar a sua pessoa repugnante. — Se a sua esposa tivesse mais juízo, ou delicadeza, ela poderia contê-lo: do jeito que está, nada o salvará.

Sua, muito verdadeira e afetuosamente, MARY.

CARTA XXVII

[Paris] 26 de outubro [1794].

Meu querido amor, comecei a desejar tão seriamente ter notícias suas, que a visão das suas cartas causou emoções tão prazerosas que fui obrigada a deixá-las de lado até que a menina e eu estivéssemos a sós; e esta dita menina, a nossa querida, tornou-se uma criaturinha muito inteligente, e tão alegre quanto um rouxinol, e logo pela manhã, o que não acho tão conveniente assim. Certa vez lhe disse que as sensações antes de ela nascer, e quando ela está mamando, eram prazerosas; mas não merecem ser comparadas às emoções que sinto quando ela para para sorrir para mim, ou ri abertamente ao encontrar-me inesperadamente na rua, ou após uma curta ausência. Ela tem agora a vantagem de ter duas boas babás, e sou, no momento, capaz de cumprir o meu dever para com ela, sem ser escrava dele.

Portanto, tenho-me ocupado e divertido desde que me livrei de ----, e estou fazendo progressos no idioma, entre outras coisas. Fiz também novos conhecimentos. Quase encantei um juiz do tribunal, R----, que, embora eu não tivesse pensado ser possível, tem humanidade, se não beaucoup d'esprit. Mas deixe-me lhe dizer: se você não se apressar em voltar, ficarei meio apaixonada pelo autor da Marselhesa, que é um homem bonito, um pouco de rosto largo demais, e toca docemente violino.

O que você diz a esta ameaça? — ora, entre nós, gosto de ceder a uma veia vivaz quando escrevo para você, isto é, quando estou satisfeita com você. "O diabo", você sabe, é proverbial dizer-se que "está de bom humor quando está satisfeito". Você não será então um bom rapaz e voltará rapidamente para brincar com as suas meninas? mas não permitirei que você ame mais a recém-chegada.

* * * * *

Meu coração anseia pelo seu retorno, meu amor, e apenas olha e busca a felicidade com você; ainda assim, não imagine que eu deseje infantilmente que você volte antes de ter arranjado as coisas de tal maneira que não seja necessário você nos deixar tão cedo novamente, ou fazer esforços que prejudiquem a sua constituição.

Sua, muito verdadeira e ternamente, MARY.

P.S. Você me faria um favor entregando o incluso ao Sr. ----, e por favor peça uma resposta. — É para uma pessoa em uma situação desconfortável.

CARTA XXVIII

[Paris] 26 de dez. [1794].

Tenho estado, meu amor, há alguns dias atormentada por medos, que não permiti que tomassem forma — eu o esperava diariamente — e ouvi dizer que muitos navios foram lançados à costa durante a tempestade recente. — Bem, agora vejo a sua carta — e descubro que você está a salvo; não lamentarei então que os seus esforços tenham sido, até agora, tão inúteis.

* * * * *

Seja como for, volte para mim quando tiver arranjado os outros assuntos que ---- tem acumulado sobre você. Quero ter a certeza de que você está a salvo — e não separado de mim por um mar que deve ser atravessado. Pois, sentindo que sou mais feliz do que jamais fui, você se surpreende que eu, às vezes, tema que o destino não tenha terminado de me perseguir? Venha para mim, meu querido amigo, marido, pai da minha filha! — Todos esses laços ternos brilham em meu coração neste momento e turvam os meus olhos. — Com você, a independência é desejável; e ela está sempre ao nosso alcance, se a opulência nos escapar — sem você, o mundo aparece vazio para mim novamente. Mas estou recorrendo a alguns dos pensamentos melancólicos que cruzaram a minha mente há alguns dias e assombraram os meus sonhos.

A minha pequena querida é, de fato, uma doce criança; e sinto muito que você não esteja aqui para ver a sua mentezinha desabrochar. Você fala de "galanteios"; mas certamente nenhum amante foi mais apegado à sua amada do que ela é a mim. Os seus olhos seguem-me por toda parte, e, por afeição, tenho o poder mais despótico sobre ela. Ela é toda vivacidade ou suavidade — sim; eu a amo mais do que pensei que amaria. Quando fiquei magoada com a sua estada, abracei-a como o meu único conforto — quando satisfeita com você, por olhar e rir como você; não, eu não consigo, percebo, ficar zangada com você por muito tempo enquanto a beijo por se parecer com você. Mas não haveria fim para esses detalhes. Abrace-nos a ambas contra o seu coração; pois sou, verdadeira e afetuosamente,

Sua, MARY.

CARTA XXIX

[Paris] 28 de dezembro [1794].

* * * * *

Eu, meu amor, de fato simpatizo sinceramente com você em todas as suas decepções. — No entanto, sabendo que você está bem e pensa em mim com afeição, lamento outras decepções apenas porque sinto muito que você se esforce assim em vão, e que você seja mantido longe de mim.

----, eu sei, insiste para que você fique, e está continuamente ramificando-se em novos projetos, porque ele tem o desejo ocioso de acumular uma grande fortuna, melhor dizendo, uma imensa, meramente para ter o crédito de tê-la feito. Mas nós, que somos governados por outros motivos, não deveríamos ser conduzidos por ele. Quando nos encontrarmos, discutiremos este assunto — Você ouvirá a razão, e provavelmente já lhe ocorreu que será melhor, no futuro, seguir algum plano sóbrio, que pode exigir mais tempo e ainda permitir que você chegue ao mesmo fim. Parece-me absurdo desperdiçar a vida preparando-se para viver.

Não seria agora possível arranjar os seus negócios de tal maneira a evitar as inquietações, das quais tive a minha parte desde a sua partida? Não é possível entrar nos negócios como um emprego necessário para manter as faculdades despertas, e (para baixar um pouco a expressão) manter o pote fervendo, sem sofrer o que deve sempre ser considerado um objetivo secundário, absorvendo a mente e expulsando o sentimento e a afeição do coração?

Estou com pressa para entregar esta carta à pessoa que prometeu encaminhá-la com a de ----. Desejo então neutralizar, em certa medida, o que ele sem dúvida recomendou mais calorosamente.

Fique, meu amigo, enquanto for absolutamente necessário. — Não lhe darei um nome mais terno, embora ele brilhe no meu coração, a menos que você venha no momento em que a resolução dos objetos atuais permitir. — Não concordo com você fazendo qualquer outra viagem — ou a pequena mulher e eu partiremos, Deus sabe para onde. Mas, como prefiro dever tudo à sua afeição, e, posso acrescentar, à sua razão (pois este desejo imoderado de riqueza, que torna ---- tão ávido para que você permaneça, é contrário aos seus princípios de ação), não o importunarei. — Apenas lhe direi que anseio por vê-lo — e, estando em paz com você, ficarei magoada, em vez de zangada, com os atrasos. — Tendo sofrido tanto na vida, não se surpreenda se eu, às vezes, quando deixada a mim mesma, ficar sombria e supor que tudo foi um sonho, e que a minha felicidade não durará. Digo felicidade, porque a lembrança retira todas as sombras escuras do quadro.

A minha pequena começa a mostrar os dentes e a usar as pernas — Ela quer que você faça a sua parte no negócio de cuidar dela, pois estou cansada de balançá-la, e ainda assim ela não está satisfeita — ela quer que você agradeça à mãe dela por cuidar tão bem dela, como só você pode.

Sua, verdadeiramente, MARY.

CARTA XXX

[Paris] 29 de dezembro [1794].

Embora eu suponha que você tenha notícias mais recentes, como ---- acabou de me informar que tem uma oportunidade de enviar imediatamente para você, aproveito-a para lhe incluir

* * * * *

Como odeio esse negócio tortuoso! Esse intercâmbio com o mundo, que obriga a pessoa a ver o pior lado da natureza humana! Por que você não pode se contentar com o objetivo que teve primeiro em vista, quando entrou neste labirinto cansativo? — Sei muito bem que você foi imperceptivelmente atraído; mas por que um projeto, bem-sucedido ou frustrado, apenas dá lugar a dois outros? Não é suficiente evitar a pobreza? — Estou contente em fazer a minha parte; e, mesmo aqui, o suficiente para escapar da miséria não é difícil de obter. E, deixe-me dizer, eu também tenho o meu projeto — e, se você não retornar logo, a menina e eu cuidaremos de nós mesmas; não aceitaremos nenhuma das suas frias gentilezas — as suas distantes civilidades — não; nós não.

Isto é apenas metade uma brincadeira, pois estou realmente atormentada pelo desejo que ---- manifesta de tê-lo onde você está. — Mas por que falo com você? — Se ele puder persuadi-lo — que o faça! — pois, se você não é mais feliz comigo, e os seus próprios desejos não o fazem deixar de lado esses eternos projetos, estou acima de usar quaisquer argumentos, embora a razão, assim como a afeição, pareça oferecê-los — se a nossa afeição for mútua, eles ocorrerão a você — e você agirá de acordo.

Desde a minha chegada aqui, encontrei a senhora alemã de quem você me ouviu falar. O seu primeiro filho morreu no mês; mas ela tem outro, com a idade da minha Fanny, uma bela criaturinha. Eles ainda estão apenas tentando viver — ganhando o pão de cada dia — no entanto, embora estejam apenas um pouco acima da pobreza, eu os invejo. — Ela é uma mãe terna e afetuosa — cansada até pela sua atenção. — Contudo, ela tem, por sua vez, um marido afetuoso, para tornar o seu cuidado leve e para compartilhar o seu prazer.

Confessarei a você que, sentindo extrema ternura pela minha pequena, fico triste muitas vezes, quando estou brincando com ela, por você não estar aqui, para observar comigo como a sua mente se desabrocha e o seu pequeno coração se torna apegado! — Estes me parecem ser os verdadeiros prazeres — e ainda assim você permite que eles lhe escapem, em busca do que talvez nunca possamos desfrutar. — É a sua própria máxima: "viver no momento presente". — Se você vive — fique, pelo amor de Deus; mas diga-me a verdade — se não, diga-me quando posso esperar vê-lo, e não me deixe sempre olhando inutilmente por você, até que eu fique doente de tanto esperar.

Adeus! Estou um pouco magoada. — Devo levar a minha querida ao meu seio para me confortar.

MARY.

CARTA XXXI

[Paris] 30 de dezembro [1794].

Caso você receba três ou quatro das cartas que escrevi ultimamente de uma só vez, não pense em Sir John Brute, pois não pretendo lhe fazer de marido. Apenas aproveito cada ocasião, para que uma em cada três das minhas epístolas chegue às suas mãos e o informe de que não sou da opinião de ----, que fala até me deixar zangada sobre a necessidade de você ficar mais dois ou três meses. Não gosto desta vida de inquietação contínua — e, entre nós, estou decidida a tentar ganhar algum dinheiro aqui eu mesma, para convencê-lo de que, se você escolhe correr pelo mundo para conseguir uma fortuna, é para você mesmo — pois a menina e eu viveremos sem a sua assistência, a menos que você esteja conosco. Posso ser chamada de orgulhosa — Que seja — mas nunca abandonarei certos princípios de ação.

A maioria dos homens tem uma maneira tão ignóbil de pensar que, se eles debaucham os seus corações e prostituem as suas pessoas, seguindo talvez um impulso de embriaguez, supõem que a esposa, ou melhor, escrava, a quem eles mantêm, não tem o direito de reclamar, e deveria receber o sultão, sempre que ele se digna a retornar, de braços abertos, embora os dele tenham sido poluídos por meia centena de amores promíscuos durante a sua ausência.

Considero fidelidade e constância como duas coisas distintas; contudo, a primeira é necessária para dar vida à outra — e um tal grau de respeito julgo devido a mim mesma que, se apenas a probidade, que é uma coisa boa em seu lugar, o traz de volta, nunca retorne! — pois, se um desvio do coração, ou mesmo um capricho da imaginação o detém — é o fim de todas as minhas esperanças de felicidade — eu não poderia perdoar isso, mesmo que quisesse.

Percebes que entrei em um estado de melancolia. Conheces a minha opinião sobre os homens em geral; sabes que os considero tiranos sistemáticos e que é a coisa mais rara do mundo encontrar um homem com a delicadeza de sentimento suficiente para governar o desejo. Quando estou assim triste, lamento que a minha pequena querida, por mais que eu a adore, seja uma menina. — Lamento ter um laço com um mundo que, para mim, está sempre semeado de espinhos.

Chamarás a esta uma carta de mau humor, quando, na verdade, é a prova mais forte de afeto que posso dar, o receio de te perder. ---- deu-se ao trabalho de me convencer de que deves e deves ficar, de tal modo que isso deprimiu inconcebivelmente o meu espírito. — Sempre conheceste a minha opinião. — Sempre declarei que duas pessoas, que pretendem viver juntas, não devem ser separadas por muito tempo. — Se certas coisas são mais necessárias para ti do que eu, procura-as. — Diz apenas uma palavra e nunca mais ouvirás falar de mim. — Se não, pelo amor de Deus, lutemos contra a pobreza, contra qualquer mal, exceto estas contínuas inquietações de negócios, que me disseram que durariam apenas alguns meses, embora a cada dia o fim pareça mais distante! Esta é a primeira carta neste tom que decidi enviar-te; as restantes ficaram de lado, porque não queria causar-te dor, e não escreveria agora se não pensasse que não haveria conclusão para os planos que exigem, segundo me dizem, a tua presença.

MARY.[9]

CARTA XXXII

[Paris] 9 de janeiro [1795].

Acabo de receber uma das tuas notas apressadas; pois os negócios ocupam-te de tal modo que não tens tempo, ou suficiente domínio do pensamento, para escrever cartas. Tem cuidado! Pareces ter entrado num turbilhão de projetos e esquemas que te estão a arrastar para um abismo que, se não absorver a tua felicidade, destruirá infalivelmente a minha.

Fatigada durante a minha juventude pelas lutas mais árduas, não apenas para obter independência, mas para me tornar útil, não apenas o prazer, pelo qual tinha o gosto mais vivo, refiro-me aos prazeres simples que fluem da paixão e do afeto, escapou-me, mas as visões mais melancólicas da vida foram impressas no meu espírito por um coração desiludido. Desde que te conheci, tenho tentado regressar à minha natureza anterior e permiti que algum tempo passasse, alado com o deleite que apenas o gozo espontâneo pode proporcionar. — Por que dissolveste tão cedo o encanto?

Sou realmente incapaz de suportar a contínua inquietação que os teus planos e os de ----, que nunca terminam, produzem. Podes chamar a isto falta de firmeza, mas estás enganado; ainda tenho firmeza suficiente para seguir o meu princípio de ação. A miséria presente, não consigo encontrar uma palavra mais suave para fazer justiça aos meus sentimentos, parece-me desnecessária — e, portanto, não tenho firmeza para a suportar como talvez penses que deveria. Teria ficado contente, e ainda desejo, retirar-me contigo para uma quinta. — Meu Deus! qualquer coisa, menos estas ansiedades contínuas; qualquer coisa menos o comércio, que rebaixa o espírito e arranca o afeto do coração.

Não pretendo queixar-me de inconvenientes secundários — contudo, observarei simplesmente que, levada a esperar por ti todas as semanas, não fiz os arranjos exigidos pelas circunstâncias atuais para obter o necessário para a vida. Para os ter, um criado, apenas para esse fim, é indispensável. — A falta de lenha fez-me apanhar a constipação mais violenta que alguma vez tive; e a minha cabeça está tão perturbada pela tosse contínua que sou incapaz de escrever sem parar frequentemente para me recompor. — Isto, contudo, é um dos males comuns que devem ser suportados; a dor física não toca o coração, embora fatigue o espírito.

Ainda assim, como falas do teu regresso, mesmo em fevereiro, com dúvidas, decidi, assim que o tempo mudar, desmamar a minha filha. — É demasiado cedo para ela começar a dividir a mágoa! — E como alguém disse bem: "o desespero é um homem livre", iremos e tentaremos a nossa sorte juntos.

Isto não é um capricho do momento, pois a tua ausência deu novo peso a algumas conclusões que eu estava a formar muito relutantemente antes de me deixares. — Não escolho ser um objeto secundário. — Se os teus sentimentos estivessem em uníssono com os meus, não sacrificarias tanto a perspetivas visionárias de vantagem futura.

MARY.

CARTA XXXIII

[Paris] 15 de janeiro [1795].

Eu estava prestes a começar a minha carta com o resto de uma canção, que apenas te teria dito o que posso dizer simplesmente: que é agradável perdoar aqueles que amamos. Recebi as tuas duas cartas, datadas de 26 e 28 de dezembro, e a minha raiva desapareceu. Dificilmente podes conceber o efeito que algumas das tuas cartas produziram em mim. Depois de ansiar por notícias tuas durante um longo intervalo de suspense, vi um sobrescrito escrito por ti. — Prometendo a mim mesma prazer e sentindo emoção, guardei-a ao meu lado até que a pessoa que a trouxe saísse do quarto; quando, eis que! ao abri-la, encontrei apenas meia dúzia de linhas apressadas que amorteceram todo o afeto crescente da minha alma.

Bem, agora aos negócios —

* * * * *

O meu animal está bem; ainda não a ensinei a comer, mas a natureza está a fazer o trabalho. Dei-lhe uma côdea para ajudar a cortar os dentes; e agora que tem dois, faz bom uso deles para roer uma côdea, biscoito, etc. Rir-te-ias ao vê-la; ela é exatamente como um pequeno esquilo; guarda uma côdea durante duas horas; e, depois de fixar o olho num objeto por algum tempo, atira-se a ele com uma pontaria tão certeira como uma ave de rapina; nada pode igualar a sua vivacidade e espírito. Sofro de uma constipação, mas não a afeta. Adeus! não te esqueças de nos amar — e vem depressa dizer-nos que o fazes.

MARY.

CARTA XXXIV

[Paris] 30 de janeiro [1795].

Pelo teor das tuas últimas cartas, suponho que esta dificilmente chegará até ti; e já escrevi tantas cartas que ou não recebeste, ou negligenciaste acusar a receção, que não acho agradável, ou melhor, não tenho inclinação para voltar a percorrer o mesmo caminho. Se as recebeste e ainda estás detido por novos projetos, é inútil dizer mais alguma coisa sobre o assunto. Acabei com isso para sempre; no entanto, devo lembrar-te de que o teu interesse pecuniário sofre com a tua ausência.

* * * * *

Pela minha parte, fico com a cabeça a girar só de ouvir falar de planos para ganhar dinheiro, e os meus sentimentos de desprezo por vezes explodiram. Fiquei, portanto, contente por uma forte constipação me ter dado um pretexto para ficar em casa, para não ter proferido verdades inoportunas.

A minha filha está bem e a primavera talvez me devolva a mim mesma. — Suportei muitos inconvenientes este inverno, que teria vergonha de mencionar se tivessem sido inevitáveis. "Os prazeres secundários da vida", dizes tu, "são muito necessários para o meu conforto": pode ser; mas sempre os considerei secundários. Se, portanto, me acusas de falta de resolução necessária para suportar os males comuns[10] da vida, responderia que não preparei o meu espírito para os sustentar, porque os queria evitar, custasse o que custasse. —

Adeus!

MARY.

CARTA XXXV

[Paris] 9 de fevereiro [1795].

O pressentimento melancólico paira há algum tempo no meu espírito, de que estávamos separados para sempre; e as cartas que recebi hoje, pelo Sr. ----, convencem-me de que não era sem fundamento. Aludes a algumas outras cartas, que suponho terem-se perdido; pois a maioria das que recebi eram apenas algumas linhas apressadas, calculadas para ferir a ternura que a visão dos sobrescritos excitava.

Não pretendo, contudo, queixar-me; mas tantos sentimentos lutam por se expressar e agitam um coração quase a rebentar de angústia, que acho muito difícil escrever com qualquer grau de coerência.

Deixaste-me indisposta, embora não tenhas tomado conhecimento disso; e a viagem mais fatigante que alguma vez fiz contribuiu para que continuasse. No entanto, recuperei a saúde; mas uma constipação negligenciada e a inquietação contínua durante os últimos dois meses reduziram-me a um estado de fraqueza que nunca tinha experimentado antes. Aqueles que não sabiam que o verme estava a roer o cerne, advertiram-me sobre amamentar a minha filha durante demasiado tempo. — Deus preserve esta pobre criança e torne-a mais feliz do que a sua mãe!

Mas estou a desviar-me do assunto: na verdade, a minha cabeça gira quando penso que toda a confiança que tive no afeto dos outros chegou a isto. — Não esperava este golpe da tua parte. Cumpri o meu dever para contigo e para com a minha filha; e se não devo ter qualquer retribuição de afeto para me recompensar, tenho a triste consolação de saber que merecia um destino melhor. A minha alma está cansada; estou doente de coração; e, não fosse esta pequena querida, deixaria de me preocupar com uma vida que agora está despida de qualquer encanto.

Vês como sou estúpida, a proferir declamações quando queria simplesmente dizer-te que considero o teu pedido para que vá ter contigo como meramente ditado pela honra. — Na verdade, mal te compreendo. — Pedes-me para ir e depois dizes-me que não desististe de pensar em regressar a este lugar.

Quando decidi viver contigo, fui apenas governada pelo afeto. — Partilharia a pobreza contigo, mas volto-me com pavor do mar de problemas em que estás a entrar. — Tenho certos princípios de ação: sei o que procuro para fundar a minha felicidade. — Não é dinheiro. — Contigo, desejava o suficiente para obter os confortos da vida; como está, menos será suficiente. — Ainda posso esforçar-me para obter o necessário para a vida da minha filha, e ela não precisa de mais neste momento. — Tenho dois ou três planos na cabeça para ganhar a nossa subsistência; pois não penses que, negligenciada por ti, ficarei sob obrigações de natureza pecuniária para contigo! — Não; preferiria submeter-me a um serviço doméstico. — Queria o apoio do teu afeto; isso perdido, tudo acabou! — Não pensei, quando me queixei da ganância desprezível de ---- para acumular dinheiro, que ele te teria arrastado para os seus esquemas.

Não consigo escrever. — Junto um fragmento de uma carta, escrita pouco depois da tua partida, e outra que a ternura me fez reter quando foi escrita. — Verás então os sentimentos de um momento mais calmo, embora não mais determinado. — Não me insultes dizendo que "estarmos juntos é superior a qualquer outra consideração!" Se o fosse, não estarias a correr atrás de uma bolha, à custa da minha paz de espírito.

Talvez esta seja a última carta que alguma vez receberás de mim.

MARY.

CARTA XXXVI

[Paris] 10 de fevereiro [1795].

Falas de "visões permanentes e conforto futuro" — não para mim, pois estou morta para a esperança. As inquietações do último inverno terminaram o negócio, e o meu coração não está apenas partido, mas a minha constituição destruída. Considero-me numa tísica galopante, e a ansiedade contínua que sinto ao pensar em deixar a minha filha alimenta a febre que me devora todas as noites. É por causa dela que te escrevo novamente, para te conjurar, por tudo o que consideras sagrado, que a deixes aqui com a senhora alemã que talvez me tenhas ouvido mencionar! Ela tem uma filha da mesma idade, e podem ser criadas juntas, como desejo que ela seja criada. Escreverei mais detalhadamente sobre o assunto. Para facilitar isto, deixarei o meu alojamento atual e irei para a mesma casa. Posso viver muito mais barato lá, o que agora se tornou um objetivo. Recebi 3000 libras de ----, e tirarei mais uma, para pagar o salário da minha criada, etc., e depois tentarei obter o que preciso pelos meus próprios esforços. Abandonarei totalmente o convívio com os americanos.

---- e eu não estamos em bons termos há muito tempo. Ontem ele, de forma muito pouco masculina, exultou sobre mim por causa da tua determinação em ficar. Eu tinha provocado isso, é verdade, com algumas asperezas contra o comércio, que me escaparam quando discutimos sobre a propriedade de tu permaneceres onde estás; e não importa, bebi demasiado da taça amarga para me importar com bagatelas.

Quando começaste estes planos, limitaste as tuas visões ao ganho de mil libras. Era suficiente para ter obtido uma quinta na América, o que teria sido uma independência. Descobres agora que não te conhecias a ti próprio, e que uma certa situação na vida é mais necessária para ti do que imaginavas; mais necessária do que um coração não corrompido. — Durante um ou dois anos, podes obter para ti o que chamas prazer; comer, beber e mulheres; mas na solidão da vida declinante, serei lembrada com pesar; ia dizer com remorso, mas travei a pena.

Como nunca escondi a natureza da minha relação contigo, a tua reputação não sofrerá. Nunca terei uma confidente: contento-me com a aprovação da minha própria mente; e, se houver um perscrutador de corações, o meu não será desprezado. Lendo o que escreveste relativamente ao abandono das mulheres, muitas vezes perguntei-me como a teoria e a prática podiam ser tão diferentes, até me lembrar de que os sentimentos da paixão e as resoluções da razão são muito distintos. Quanto às minhas irmãs, como estás tão continuamente apressado com negócios, não precisas de lhes escrever; eu escreverei, quando a minha mente estiver mais calma. Deus te abençoe! Adeus!

MARY.

Este tem sido um período de tal barbárie e miséria, que não me devo queixar de ter a minha parte. Desejo num momento nunca ter ouvido falar das crueldades que aqui foram praticadas, e no outro invejo as mães que foram mortas com os seus filhos. Certamente que tinha sofrido o suficiente na vida para não ser amaldiçoada com uma afeição que queima o fluxo vital que estou a transmitir. Pensarás que estou louca: dera eu que estivesse, para poder esquecer a minha miséria; para que a minha cabeça ou o meu coração ficassem imóveis.----

CARTA XXXVII

[Paris] 19 de fevereiro [1795].

Quando recebi pela primeira vez a tua carta, adiando o teu regresso para um tempo indefinido, senti-me tão magoada que não sei o que escrevi. Estou agora mais calma, embora não fosse o tipo de ferida sobre a qual o tempo tem o efeito mais rápido; pelo contrário, quanto mais penso, mais triste fico. A sociedade fatiga-me inexprimivelmente; tanto que, encontrando defeitos em todos, só tenho razão suficiente para descobrir que o defeito está em mim. A minha filha apenas me interessa, e, não fosse por ela, não faria qualquer esforço para recuperar a minha saúde.

Como está, vou desmamá-la e tentar se, com esse passo (para o qual sinto uma repugnância, pois é o meu único consolo), me consigo livrar da minha tosse. Os médicos falam muito do perigo que acompanha qualquer queixa nos pulmões, depois de uma mulher ter amamentado durante alguns meses. Enfatizam também a necessidade de manter a mente tranquila; e, meu Deus! como a minha tem sido atormentada! Mas enquanto os caprichos de outras mulheres são gratificados, "não se permitindo que o vento do céu as visite demasiado rudemente", não encontrei um anjo da guarda, no céu ou na terra, para afastar a mágoa ou o cuidado do meu peito.

Que sacrifícios não fizeste por uma mulher que não respeitavas! — Mas não vou percorrer este caminho; quero dizer-te que não te compreendo. Dizes que não desististe de pensar em regressar aqui; e sei que será necessário; aliás, é. Não me consigo explicar; mas se não perdeste a memória, adivinharás facilmente o meu significado. O quê! é a nossa vida feita apenas de separações? e devo eu apenas regressar a um país que não perdeu apenas todos os encantos para mim, mas pelo qual sinto uma repugnância que quase equivale a horror, apenas para ser deixada lá como presa dele!

Por que é tão necessário que eu regresse? — criada aqui, a minha menina seria mais livre. Na verdade, esperando que te juntasses a nós, tinha formado alguns planos de utilidade que agora desapareceram com as minhas esperanças de felicidade.

Na amargura do meu coração, poderia queixar-me com razão de que sou deixada aqui dependente de um homem cuja avidez em adquirir uma fortuna o tornou insensível a qualquer sentimento ligado a emoções sociais ou afetivas. — Com uma insensibilidade brutal, ele não consegue evitar demonstrar o prazer que a tua determinação em ficar lhe dá, apesar do efeito que é visível que teve em mim.

Até que possa ganhar dinheiro, tentarei pedir algum emprestado, pois quero evitar pedir-lhe continuamente a quantia necessária para me manter. — Não me interpretes mal, nunca me foi recusado. — No entanto, fui meia dúzia de vezes a casa para o pedir e saí sem falar; deves adivinhar porquê. — Além disso, desejo evitar ouvir falar dos eternos projetos aos quais sacrificaste a minha paz; não me lembrando — mas ficarei em silêncio para sempre.----

CARTA XXXVIII

[Havre] 7 de abril [1795].

Aqui estou eu em Havre, a voar na tua direção, e escrevo agora apenas para te dizer que podes esperar-me no decurso de três ou quatro dias; pois não tentarei dar vazão às diferentes emoções que agitam o meu coração; podes chamar orgulho a um sentimento que me parece ser um grau de delicadeza que surge naturalmente da sensibilidade; ainda assim, não posso entregar-me à ternura muito afetuosa que brilha no meu peito, sem tremer, até ver, pelos teus olhos, que é mútua.

Sento-me, perdida em pensamentos, olhando para o mar; e lágrimas correm-me aos olhos quando descubro que estou a acalentar quaisquer expectativas carinhosas. — Fui de facto tão infeliz este inverno, que acho tão difícil adquirir esperanças frescas como recuperar a tranquilidade. — Chega disto; fica quieto, coração tolo! — Se não fosse pela menina, quase desejaria que deixasse de bater, para não estar mais viva para a angústia da desilusão.

Doce pequena criatura! privei-me do meu único prazer quando a desmamei, há cerca de dez dias. — Estou, contudo, contente por ter vencido a minha repugnância. — Era necessário que fosse feito cedo, e eu não queria amargar o renovar do teu conhecimento com ela, adiando-o até nos encontrarmos. — Foi um esforço doloroso para mim, e pensei que o melhor seria atirar esta inquietação com o resto, para o saco que gostaria de atirar sobre o meu ombro. — Desejava suportá-lo sozinha, em suma; no entanto, depois de a mandar dormir no quarto ao lado durante três ou quatro noites, não podes imaginar com que alegria a tomei de volta para dormir no meu peito!

Suponho que te encontrarei quando chegar, pois não vejo qualquer necessidade de vires ter comigo. — Por favor, informa o Sr. ---- de que tenho o seu pequeno amigo comigo. — O meu desejo de o agradar fez-me passar por algum inconveniente — e atrasar a minha partida; o que foi penoso para mim, que não tenho tanta filosofia, não diria por nada deste mundo indiferença, como tu. Deus te abençoe!

Teu, verdadeiramente, MARY.

CARTA XXXIX

Brighthelmstone, sábado, 11 de abril [1795].

Aqui estamos nós, meu amor, e pretendemos partir cedo pela manhã; e, se te conseguir encontrar, espero jantar contigo amanhã. — Irei de carro até ao hotel de ----, onde ---- me diz que estiveste; e, se já o deixaste, espero que te preocupes em estar lá para nos receber.

Trouxe comigo o pequeno amigo do Sr. ----, e uma rapariga de quem gosto para cuidar da nossa pequena querida; não no caminho, pois isso coube-me a mim. — Mas por que escrevo sobre bagatelas? — ou qualquer coisa? — Não nos vamos encontrar em breve? — O que diz o teu coração?

Teu, verdadeiramente, MARY.

Desmamei a minha Fanny e ela está agora a comer o pão branco.

CARTA XL

[26 Charlotte Street, Rathbone Place] Londres, sexta-feira, 22 de maio [1795].

como duas coisas distintas; contudo, a primeira é necessária para dar vida à outra — e um tal grau de respeito julgo devido a mim mesma que, se apenas a probidade, que é uma coisa boa em seu lugar, o traz de volta, nunca retorne! — pois, se um desvio do coração, ou mesmo um capricho da imaginação o detém — é o fim de todas as minhas esperanças de felicidade — eu não poderia perdoar isso, mesmo que quisesse.

Acabo de receber a sua carta afetuosa, e sinto-me angustiada ao pensar que acrescentei aos seus embaraços nesta conjuntura problemática, quando o exercício de todas as faculdades da sua mente parece ser necessário para livrá-lo das suas dificuldades pecuniárias. Suponho que tenha sido algo relativo à circunstância que mencionou, o que fez ---- pedir para me ver hoje, para *conversar sobre um assunto de grande importância*. Seja como for, a sua carta (tal é o estado do meu espírito) alarmou-me de forma inconcebível, e tornou a noite passada tão angustiante quanto as duas anteriores haviam sido.

Tenho me esforçado para acalmar a minha mente desde que me deixou — Ainda assim, descubro que a tranquilidade não se obtém pelo esforço; é um sentimento tão diferente da resignação do desespero! — Não estou, contudo, mais zangada consigo — nem voltarei a proferir outra queixa — há argumentos que convencem a razão, ao mesmo tempo que levam a morte ao coração. — Tivemos explicações cruéis demais, que não só toldam todas as perspectivas futuras, como também amarguram as recordações que, por si sós, dão vida ao afeto. — Que o assunto nunca seja reavivado!

Parece-me que não só perdi a esperança, como também o poder de ser feliz. — Cada emoção é agora aguçada pela angústia. — A minha alma foi abalada, e o meu tom de sentimentos destruído. — Saí — e procurei dissipação, se não diversão, meramente para fatigar ainda mais, constato, os meus nervos irritáveis----

Meu amigo — meu caro amigo — examine-se bem — estou fora de questão; pois, ai de mim! não sou nada — e descubra o que deseja fazer — o que o deixará mais confortável — ou, para ser mais explícita — se deseja viver comigo, ou separar-se para sempre? Quando puder determinar isso, diga-mo francamente, eu o conjuro! — pois, acredite, interrompi a sua paz muito involuntariamente.

Esperá-lo-ei para jantar na segunda-feira, e tentarei assumir um rosto alegre para o saudar — de qualquer forma, evitarei conversas que apenas tendem a atormentar os seus sentimentos, porque sou, muito afetuosamente, sua,

MARY.

CARTA XLI

[27 de maio de 1795] Quarta-feira.

Envio-lhe a carta que me pediu para encaminhar, e sinto-me tentada a desejar-lhe muito laconicamente um bom dia — não porque esteja zangada, ou não tenha nada a dizer; mas para conter um espírito ferido. — Farei todos os esforços para acalmar a minha mente — contudo, uma forte convicção parece girar no centro mesmo do meu cérebro, que, como o fiat do destino, enfaticamente me assegura que a dor tem um firme domínio sobre o meu coração.

Que Deus o abençoe!

Sinceramente sua, MARY.

CARTA XLII

_[Hull] Quarta-feira, Duas horas_ _[27 de maio de 1795]._

Chegamos aqui há cerca de uma hora. Estou extremamente fatigada com a criança, que não quis descansar sossegada com ninguém além de mim durante a noite — e agora estamos aqui num quarto desconfortável e húmido, numa espécie de casa tumular. Isto, contudo, remediarei rapidamente, pois, quando terminar esta carta (o que devo fazer imediatamente, porque o correio sai cedo), sair-me-ei e farei perguntas sobre um navio e uma estalagem.

Não o angustiarei falando da depressão do meu espírito, ou da luta que tive para manter vivo o meu coração moribundo. — Está, ainda agora, demasiado cheio para me permitir escrever com compostura. — Imlay — caro Imlay — hei de ser sempre atirada de um lado para o outro assim? — nunca encontrarei um asilo onde possa descansar contente? Como pode gostar de voar continuamente — descendo, por assim dizer, num mundo novo — frio e estranho! — dia sim, dia não? Porque não apega essas ternas emoções à ideia de lar, que ainda agora me toldam os olhos? — Só isto é afeto — tudo o resto é apenas humanidade, eletrizada pela simpatia.

Escrever-lhe-ei novamente amanhã, quando souber quanto tempo serei detida — e espero receber uma carta sua rapidamente, para alegrar a sua sincera e afetuosa

MARY.

Fanny brinca perto de mim de muito bom humor. Ficou tão satisfeita com o ruído da trombeta do correio que o tem imitado continuamente.----Adeus!

CARTA XLIII

[Hull, 28 de maio de 1795] Quinta-feira.

Uma senhora acaba de enviar um convite para me levar a Beverley. Tenho, pois, apenas um momento para reclamar contra a maneira vaga como as pessoas dão informações

* * * * *

Mas por que falar de inconvenientes, que são, na verdade, triviais quando comparados com o afundamento do coração que senti! Não pretendia tocar nesta corda dolorosa — Que Deus o abençoe!

Verdadeiramente sua, MARY.

CARTA XLIV

[Hull] Sexta-feira, 12 de junho [1795].

Acabo de receber a sua de dia 9, o que suponho ter sido um erro, pois dificilmente teria demorado tanto na estrada. As observações gerais que se aplicam ao estado da sua própria mente parecem-me justas, até onde vão; e considerarei sempre como um dos infortúnios mais graves da minha vida não o ter conhecido antes que a saciedade tivesse tornado os seus sentidos tão fastidiosos, a ponto de quase fechar todas as vias ternas de sentimento e afeto que conduzem ao seu coração simpático. Tem um coração, meu amigo, mas, levado pela impetuosidade de sentimentos inferiores, procurou em excessos vulgares aquela gratificação que só o coração pode conceder.

A maioria dos homens, sei, com saúde robusta e apetites grosseiros, deve ter variedade para banir o tédio, porque a imaginação nunca empresta a sua varinha mágica para converter o apetite em amor, cimentado pela razão concordante. — Ah! meu amigo, não conhece o deleite inefável, o prazer requintado que nasce de uma uníssona afeição e desejo, quando toda a alma e os sentidos são abandonados a uma imaginação viva, que torna cada emoção delicada e arrebatadora. Sim; estas são emoções sobre as quais a saciedade não tem poder, e cuja recordação nem o desapontamento pode desencantar; mas não existem sem autonegação. Estas emoções, mais ou menos fortes, parecem-me ser a característica distintiva do génio, o fundamento do gosto e desse requintado prazer pelas belezas da natureza, do qual a manada comum de comedores, bebedores e procriadores certamente não tem ideia. Sorrirá perante uma observação que me acaba de ocorrer: — Considero as mentes mais fortes e originais aquelas cuja imaginação atua como estímulo aos seus sentidos.

Bem! perguntará, qual é o resultado de todo este raciocínio? Ora, não posso deixar de pensar que é possível para si, possuindo grande força de espírito, retornar à natureza e recuperar uma sanidade de constituição e pureza de sentimento — o que abriria o seu coração para mim. — Quisera descansar aí!

Contudo, convencida mais do que nunca da sinceridade e ternura do meu apego a si, as esperanças involuntárias, que uma determinação de viver reavivou, não são suficientemente fortes para dissipar a nuvem que o desespero estendeu sobre o futuro. Olhei para o mar, e para a minha filha, mal ousando confessar a mim mesma o desejo secreto de que se pudesse tornar o nosso túmulo; e que o coração, ainda tão vivo para a angústia, pudesse ali ser aquietado pela morte. Neste momento, dez mil sentimentos complicados pressionam-me para serem ditos, pesam no meu coração e obscurecem a minha visão.

Havemos de nos encontrar novamente? e tentará tornar esse encontro mais feliz do que o último? Tentará restringir os seus caprichos, a fim de dar vigor ao afeto e dar vazão aos sentimentos contidos que a natureza pretendia que expandissem o seu coração? Não posso, na verdade, sem agonia, pensar no seu seio sendo continuamente contaminado; e amargas são as lágrimas que esgotam os meus olhos, quando me recordo de por que a minha filha e eu somos forçadas a vaguear para longe do asilo no qual, após tantas tempestades, esperara descansar, sorrindo para o destino irado. — Estas não são mágoas comuns; nem pode, talvez, conceber quanta fortaleza ativa é necessária para trabalhar perpetuamente para embotar os dardos do desapontamento.

Examine-se agora, e verifique se consegue viver num estilo mais ou menos estabelecido. Que a nossa confiança no futuro seja ilimitada; considere se acha necessário sacrificar-me ao que chama "o gosto pela vida"; e, quando tiver uma visão clara dos seus próprios motivos, do seu próprio incentivo para a ação, não me engane!

O comboio de pensamentos que a escrita desta epístola despertou torna-me tão infeliz que tenho de fazer uma caminhada para despertar e acalmar a minha mente. Mas primeiro, deixe-me dizer-lhe que, se realmente deseja promover a minha felicidade, tentará dar-me o máximo que puder de si mesmo. Tem uma grande energia mental; e o seu discernimento parece-me tão justo que é apenas o joguete da sua inclinação ao discutir um tema.

O correio não sai hoje. Amanhã poderei escrever mais tranquilamente. Ainda não posso dizer quando zarpará o navio no qual determinei partir.

_[Hull, 13 de junho de 1795]_ _Sábado de manhã._

A sua segunda carta chegou-me há cerca de uma hora. Certamente enganou-se ao supor que não o mencionei com respeito; embora, sem eu ter consciência disso, algumas faíscas de ressentimento possam ter animado a escuridão do desespero — Sim; com menos afeto, teria sido mais respeitosa. Contudo, o apreço que tenho por si é tão inequívoco para mim mesma, que imagino que deva ser suficientemente óbvio para todos os outros. Além disso, a única carta que destinei ao olhar público foi para ----, e destruí-a por delicadeza antes de a ver, porque foi escrita apenas (claro, calorosamente nos seus elogios) para evitar que qualquer ódio fosse lançado sobre si.

Estou atormentada pelos seus embaraços e certamente usarei todos os meus esforços para fazer com que o negócio em que estou empenhada termine para a sua satisfação.

Meu amigo — meu caríssimo amigo — sinto o meu destino unido ao seu pelos princípios mais sagrados da minha alma, e pelos anseios de — sim, direi isso — um coração verdadeiro e não sofisticado.

Seu, verdadeiramente, MARY.

Se o vento for favorável, o capitão fala em zarpar na segunda-feira; mas receio que serei detida por mais alguns dias. De qualquer forma, continue a escrever (preciso deste apoio) até ter a certeza de que estou onde não posso esperar uma carta; e, se alguma chegar após a minha partida, um cavalheiro (não o amigo do Sr. ----, garanto-lhe) de quem recebi grandes gentilezas, enviá-las-á após mim.

Escreva em todas as ocasiões! Estou ansiosa por saber como vão os seus assuntos; e, mais ainda, por estar convencida de que não se está a separar de nós. Pois a minha pequena querida chama pelo papá, e acrescenta a sua palavra de papagaio — Vem, vem! E não virá, e deixará que nos esforcemos? — Recuperarei toda a minha energia quando estiver convencida de que os meus esforços nos aproximarão mais. Mais uma vez, adeus!

CARTA XLV

[Hull] Domingo, 14 de junho [1795].

Esperava, de certa forma, ouvir notícias suas hoje — Desejo que não deixe de me escrever por algum tempo, porque não estou muito bem — Quer tenha um bom sono ou não, acordo de manhã em violentos ataques de tremores — e, apesar de todos os meus esforços, a criança — tudo — fatiga-me, em tudo o que procuro consolo ou diversão.

O Sr. ---- forçou-me a aceitar uma carta para um médico deste lugar; foi uma sorte, pois de outra forma teria tido alguma dificuldade em obter a informação necessária. A sua esposa é uma mulher bonita (posso admirar, sabe, uma mulher bonita, quando estou sozinha) e ele, um homem inteligente e bastante interessante. — Comportaram-se comigo com grande hospitalidade; e a pobre Fanny nunca foi tão feliz na vida como entre a sua prole.

Levaram-me na sua carruagem a Beverley, e corri pelos meus passeios favoritos com uma vivacidade que o teria espantado. — A cidade não me agradou tanto como anteriormente — Pareceu-me tão diminuta; e, quando descobri que muitos dos habitantes tinham vivido nas mesmas casas desde que a deixei, não pude deixar de me maravilhar como podiam ter vegetado assim, enquanto eu percorria um mundo de tristeza, agarrando o prazer e descartando preconceitos. O lugar onde me encontro atualmente está muito melhorado; mas é espantoso que passos a aristocracia e o fanatismo deram desde que residi neste país.

O vento não parece inclinado a mudar, por isso ainda sou forçada a demorar-me — Quando pensa que será capaz de partir para a França? Não gosto inteiramente do aspeto dos seus assuntos, e ainda menos das suas conexões de um e outro lado da água. Suspiro frequentemente quando penso nos seus emaranhados nos negócios e na sua extrema inquietação de espírito. — Mesmo agora tenho quase medo de lhe perguntar se o prazer de estar livre não supera a dor que sentiu ao separar-se de mim? Por vezes, indulgencio a esperança de que me sentirá necessária para si — ou por que razão nos haveríamos de encontrar novamente? — mas, no momento seguinte, o desespero arrefece o meu espírito ascendente, agravado pelas emoções de ternura que deveriam suavizar as preocupações da vida.----Que Deus o abençoe!

Sincera e afetuosamente sua, MARY.

CARTA XLVI

[Hull] 15 de junho [1795].

Quero saber como se resolveu com respeito a ----. Em suma, seja muito específico no seu relato de todos os seus assuntos — que a nossa confiança, meu caro, seja ilimitada. — A última vez que nos separámos, foi uma separação de facto da sua parte — Agora que agiu de forma mais ingénua, que o intercâmbio mais afetuoso de sentimentos preencha o vazio doloroso do desapontamento. Quase receio que os seus planos se revelem inúteis — contudo, se a reviravolta mais infeliz o enviasse para casa para nós, convencido de que um verdadeiro amigo é um tesouro, não me importaria muito de ter de lutar com o mundo novamente. Não me acuse de orgulho — contudo, por vezes, quando a natureza abriu o meu coração ao seu autor, maravilhei-me que não desse um valor mais elevado ao meu coração.

Receba um beijo da Fanny, ia acrescentar, se não quiser aceitar um meu, e acredite em mim sua

Sinceramente, MARY.

O vento continua no mesmo quadrante.

CARTA XLVII

[Hull, junho de 1795] Terça-feira de manhã.

O capitão acaba de enviar uma mensagem para me informar que devo estar a bordo no decurso de algumas horas. — Desejaria ter ficado até amanhã. Teria sido um conforto para mim ter recebido outra carta sua — Se alguma chegar, será enviada após mim.

O meu espírito está agitado, mal sei porquê----Deixar a Inglaterra parece ser uma nova partida. — Certamente não me esquecerá. — Mil pressentimentos fracos assaltam a minha alma, e o meu estado de saúde torna-me sensível a tudo. É surpreendente que em Londres, num conflito contínuo de espírito, eu ainda estivesse a melhorar — enquanto aqui, curvada pela mão despótica do destino, forçada à resignação pelo desespero, pareço estar a definhar — a perecer sob um flagelo cruel, que seca todas as minhas faculdades.

A criança está perfeitamente bem. A minha mão parece relutante em acrescentar adeus! Não sei por que esta tristeza inexprimível se apoderou de mim. — Não é um pressentimento de mal. Contudo, tendo sido tão perpetuamente o brinquedo do desapontamento — tendo um coração que foi, por assim dizer, um alvo para a miséria, temo encontrar a desgraça sob alguma nova forma. — Bem, que venha — não me importa! — o que tenho a temer, eu que tenho tão pouco por que esperar! Que Deus o abençoe — sou, muito afetuosa e sinceramente, sua,

MARY.

CARTA XLVIII

[17 de junho de 1795] Quarta-feira de manhã.

Fui apressada para bordo ontem por volta das três horas, tendo o vento mudado. Mas antes da noite virou para o ponto antigo; e aqui estamos, no meio de névoas e água, aproveitando apenas a maré para avançar algumas milhas.

Dificilmente suporá que deixei a cidade com relutância — contudo, foi mesmo assim — pois desejava receber outra carta sua, e senti dor ao separar-me, para sempre talvez, da família amável que me tratou com tanta hospitalidade e bondade. Provavelmente enviar-me-ão a sua carta, se chegar esta manhã; pois aqui é provável que permaneçamos, temo pensar por quanto tempo.

O navio é muito cómodo, e o capitão um homem civil e de coração aberto. Não havendo outros passageiros, tenho a cabine só para mim, o que é agradável; e trouxe alguns livros comigo para enganar o cansaço; mas sinto-me inclinada, em vez de ler, a empregar os momentos mortos da suspensão na escrita de algumas efusões.

O que está a fazer? Como vão os seus assuntos? Pode passar muito tempo até que responda a estas perguntas. Meu caro amigo, o meu coração afunda-se em mim! — Por que sou forçada assim a lutar continuamente com os meus afetos e sentimentos? — Ah! por que são esses afetos e sentimentos a fonte de tanta miséria, quando parecem ter sido dados para vivificar o meu coração e estender a minha utilidade! Mas não devo deter-me neste assunto. — Não tentará acalentar todo o afeto que puder por mim? O que estou a dizer? — Antes esqueça-me, se puder — se outras gratificações lhe são mais caras. — Como é cada lembrança minha amargurada pelo desapontamento? Que mundo é este! — Apenas parecem felizes aqueles que nunca olham para além de gozos sensuais ou artificiais. — Adeus!

Fanny começa a brincar com o grumete, e está alegre como uma cotovia. — Esforçar-me-ei por estar tranquila; e estou, em todos os humores,

Sinceramente sua, MARY.

CARTA XLIX

[18 de junho de 1795] Quinta-feira.

Aqui estou eu ainda — e acabo de receber a sua carta de segunda-feira pelo piloto, que prometeu trazer-ma, se fôssemos detidos, como esperava, pelo vento. — É deveras cansativo ser assim atirada de um lado para o outro sem avançar. — Tenho uma dor de cabeça violenta — contudo, sou obrigada a cuidar da criança, que está um pouco atormentada pelos seus dentes, porque ---- é incapaz de fazer qualquer coisa, ficando tão enjoada pelo movimento do navio, enquanto estamos ancorados.

Estes são, contudo, inconvenientes triviais, comparados com a angústia de espírito — comparados com o afundamento de um coração partido. — Para lhe dizer a verdade, nunca sofri na minha vida tanto pela depressão de espírito — pelo desespero. — Não durmo — ou, se fecho os olhos, é para ter os sonhos mais aterrorizantes, nos quais o encontro frequentemente com diferentes expressões de semblante.

Não vou, meu caro Imlay, atormentá-lo detendo-me nos meus sofrimentos — e usarei todos os meus esforços para acalmar a minha mente, em vez de a entorpecer — de momento, está dolorosamente ativa. Constato que não estou à altura destas lutas contínuas — contudo, a sua carta desta manhã proporcionou-me algum conforto — e tentarei reavivar a esperança. Deixe-me dizer-lhe uma coisa — quando nos encontrarmos novamente — certamente nos havemos de encontrar! — tem de ser para não nos separarmos mais. Não pretendo ter mares entre nós — é mais do que posso suportar.

O piloto está a apressar-me — Que Deus o abençoe.

Apesar da comodidade do navio, tudo aqui repugnaria os meus sentidos, se não tivesse mais nada em que pensar — "Quando a mente está livre, o corpo é delicado"; — a minha foi demasiado ferida para dar atenção a trivialidades.

Verdadeiramente sua, MARY.

CARTA L

[20 de junho de 1795] Sábado.

Este é o quinto dia lúgubre em que estou aprisionada pelo vento, com cada objeto exterior a repugnar os sentidos, e incapaz de banir as recordações que entristecem o meu coração.

Como estou alterada pelo desapontamento! — Quando fui para Lisboa, há dez anos, a elasticidade da minha mente era suficiente para evitar o cansaço — e a imaginação ainda podia mergulhar o seu pincel no arco-íris da fantasia e esboçar o futuro em cores sorridentes. Agora vou em direção ao Norte à procura de raios de sol! — Algum aquecerá este coração desolado? Toda a natureza parece franzir o sobrolho — ou melhor, lamentar-se comigo. — Tudo é frio — frio como as minhas expectativas! Antes de deixar a costa, atormentada, como agora estou, por estes arrepios do Nordeste, não pude deixar de exclamar — Dai-me, Céu gracioso! pelo menos, tempo ameno, se nunca hei de encontrar o afeto ameno que ainda aquece este seio agitado — compelindo a vida a demorar-se ali.

Vou agora para terra com o capitão, embora o tempo esteja agreste, para procurar leite, etc., numa pequena aldeia, e para dar um passeio — após o que espero dormir — pois, confinada aqui, rodeada de cheiros desagradáveis, perdi o pouco apetite que tinha; e fico acordada, até que o pensamento quase me conduz ao limiar da loucura — apenas ao limiar, pois nunca me esqueço, mesmo nos sonos febris em que por vezes caio, da miséria para a qual me esforço por atenuar o sentido, com todos os meios ao meu alcance.

A pobre ---- continua doente, e ---- fica cansada quando o tempo não lhe permite permanecer no convés.

Espero que esta seja a última carta que lhe escreverei de Inglaterra — não está cansado deste adeus prolongado?

Seu, sinceramente, MARY.

CARTA LI

[Hull, 21 de junho de 1795] Domingo de manhã.

O capitão, na noite passada, depois de eu ter escrito a minha carta para si, destinada a ser deixada numa pequena aldeia, ofereceu-se para ir a ---- para passar o dia de hoje. Tivemos uma navegação problemática — e agora tenho de me apressar a voltar para bordo, pois o vento mudou.

Esperava, a meio, encontrar aqui uma carta sua. Se a tivesse escrito ao acaso, teria sido gentil e atencioso — poderia ter sabido, se tivesse pensado nisso, que o vento não me permitiria partir. Estas são atenções mais gratas ao coração do que ofertas de serviço — Mas por que continuo eu tolamente à procura delas?

Adeus! adeus! Meu amigo — a sua amizade é muito fria — vê que estou magoada. — Que Deus o abençoe! Talvez eu possa, mais tarde ou mais cedo, ser independente em todos os sentidos da palavra — Ah! só há um sentido dela que tenha importância. Quebrarei ou dobrarei este coração fraco — ainda que, mesmo agora, ele esteja cheio.

Seu, sinceramente, MARY.

A criança está bem; não a deixei a bordo.

CARTA LII

[Gotemburgo] 27 de junho, sábado, [1795].

Cheguei a Gotemburgo esta tarde, após ter tentado em vão desembarcar em Arendall. Tenho agora apenas um momento, antes de o correio partir, para o informar de que chegámos aqui; embora não sem considerável dificuldade, pois fomos postos em terra num barco a mais de vinte milhas abaixo.

O que sofri no navio, não vou agora discorrer sobre isso — nem mencionar o prazer que senti ao ver a costa rochosa. — Esta manhã, no entanto, ao caminhar para me juntar à carruagem que nos transportaria para este lugar, caí, sem qualquer aviso prévio, inanimada sobre as rochas — e como escapei com vida, mal posso imaginar. Fiquei num estupor durante um quarto de hora; a sufusão de sangue acabou por me restituir os sentidos — a contusão é grande, e o meu cérebro confuso. A criança está bem.

Vinte milhas de viagem à chuva, após o meu acidente, deixaram-me suficientemente transtornada — e aqui não consegui arranjar lume para me aquecer, ou algo quente para comer; as estalagens são meras cavalariças — devo, contudo, ir para a cama. Pelo amor de Deus, deixe-me ter notícias suas imediatamente, meu amigo! Não estou bem, e contudo vê que não posso morrer.

Seu, sinceramente, MARY.

CARTA LIII

[Gotemburgo] 29 de junho [1795].

Escrevi-lhe pelo último correio para o informar da minha chegada; e creio ter aludido à extrema fadiga que suportei a bordo, devido à doença de ----, e à aspereza do tempo — Mencionei-lhe igualmente a minha queda, cujos efeitos ainda sinto, embora não pense que venha a ter consequências graves.

---- irá comigo, se eu considerar necessário ir a ----. As estalagens aqui são tão más que fui forçada a aceitar um aposento na sua casa. Estou sobrecarregada de cortesias por todos os lados, e cansada com os esforços para me divertir, aos quais não consigo escapar.

Meu amigo — meu amigo, não estou bem — um peso mortal de tristeza jaz pesadamente sobre o meu coração. Estou novamente lançada nas vagas inquietas da vida; e obrigada a lidar com dificuldades, sem ser impulsionada pelas esperanças que, só por si, as tornam suportáveis. "Quão monótono, aborrecido e inútil" me parece todo o bulício em que vejo as pessoas aqui envolverem-se tão avidamente! Anseio todas as noites por ir para a cama, para esconder a minha face melancólica na almofada; mas há um verme roedor no meu peito que nunca dorme.

MARY.

CARTA LIV

[Suécia] 1 de julho [1795].

Esforço-me em vão para acalmar a minha mente — a minha alma foi sobrecarregada pelo pesar e pela desilusão. Tudo me cansa — esta é uma vida que não pode durar muito. É você quem deve decidir no que respeita ao futuro — e, quando o tiver feito, eu agirei em conformidade — refiro-me a que devemos decidir viver juntos, ou separar-nos para sempre; não posso suportar estas lutas contínuas. — Mas desejo que examine cuidadosamente o seu próprio coração e mente; e, se perceber a menor hipótese de ser mais feliz sem mim do que comigo, ou se a sua inclinação pender caprichosamente para esse lado, não dissimule; mas diga-me francamente que nunca mais me verá. Adoptarei então o plano que lhe mencionei — pois devemos viver juntos, ou eu serei totalmente independente.

O meu coração está tão oprimido que não consigo escrever com precisão — sabe, contudo, que o que expresso de forma tão imperfeita não são os sentimentos crus do momento — Só pode contribuir para o meu conforto (é a consolação de que necessito) estando comigo — e, se a amizade mais terna tem algum valor, porque não procura em mim um grau de satisfação que afeições sem coração não podem conceder?

Diga-me então, decidirá encontrar-me em Basileia? — Imagino que estarei em ---- antes do fim de agosto; e, depois de resolver os seus assuntos em Paris, não nos poderemos encontrar lá?

Que Deus o abençoe!

Seu, verdadeiramente, MARY.

A pobre Fanny sofreu durante a viagem com os dentes.

CARTA LV

[Suécia] 3 de julho [1795].

Havia uma melancolia difundida na sua última carta, cuja impressão ainda permanece na minha mente — embora, recordando como rapidamente se liberta dos sentimentos intensos do momento, lisonjeio-me de que há muito tenha dado lugar à sua habitual alegria.

Acredite (e os meus olhos enchem-se de lágrimas de ternura enquanto lho garanto) que não há nada que eu não suportasse em termos de privação, em vez de perturbar a sua tranquilidade. — Se estou destinada a ser infeliz, esforçar-me-ei por esconder as minhas mágoas no meu próprio seio; e encontrar-me-á sempre como uma amiga fiel e afetuosa.

Sinto-me cada vez mais afeiçoada à minha menina — e estimo este afeto sem medo, porque terá de passar muito tempo até que se possa transformar em amargura de alma. — Ela é uma criatura interessante. — A bordo, quantas vezes, ao contemplar o mar, anseiei por enterrar o meu peito perturbado nas profundezas menos perturbadas; afirmando com Brutus, "que a virtude que eu seguira demasiado longe, era meramente um nome vazio!" e nada, senão a visão dela — os seus sorrisos brincalhões, que pareciam agarrar-se e entrelaçar-se à volta do meu coração — me poderia ter detido.

Que miséria peculiar coube à minha parte! Para agir de acordo com os meus princípios, impus a mais estrita contenção aos meus próprios pensamentos — sim; para não manchar a delicadeza dos meus sentimentos, refreei a minha imaginação; e sobressaltei-me com medo de toda a sensação (aludo a ----) que, roubando com uma doçura balsâmica para a minha alma, me levava a sentir de longe a fragrância da natureza rediviva.

Meu amigo, paguei caro por uma convicção. — O amor, em algumas mentes, é um assunto de sentimento, surgindo da mesma delicadeza de perceção (ou gosto) que as torna vivas para as belezas da natureza, da poesia, etc., vivas para o encanto daquelas graças evanescentes que são, por assim dizer, impalpáveis — têm de ser sentidas, não podem ser descritas.

O amor é uma necessidade do meu coração. Examinei-me ultimamente com mais cuidado do que anteriormente, e descobri que entorpecer não é acalmar a mente — Visando a tranquilidade, quase destruí toda a energia da minha alma — quase arranquei o que a torna estimável — Sim, abrandei aquele entusiasmo de caráter, que converte as matérias mais grosseiras num combustível que, impercetivelmente, alimenta esperanças que aspiram acima do gozo comum. O desespero, desde o nascimento da minha filha, tornou-me estúpida — alma e corpo pareciam estar a desvanecer-se perante o toque murchante da desilusão.

Estou agora a tentar recuperar-me — e tal é a elasticidade da minha constituição, e a pureza da atmosfera aqui, que a saúde, não procurada, começa a reanimar a minha fisionomia.

Tenho por si a mais sincera estima e afeição — mas o desejo de recuperar a paz (compreende-me?) fez-me esquecer o respeito devido às minhas próprias emoções — emoções sagradas, que são os arautos certos dos deleites que fui formada para desfrutar — e desfrutarei, pois nada pode extinguir a centelha celestial.

Ainda assim, quando nos encontrarmos novamente, não o atormentarei, prometo-lho. Coro quando recordo o meu comportamento anterior — e não me confundirei no futuro com os seres que sinto serem meus inferiores. — Escutarei a delicadeza, ou o orgulho.

CARTA LVI

[Suécia] 4 de julho [1795].

Espero ter notícias suas pelo correio de amanhã. Meu querido amigo! Não consigo arrancar as minhas afeições de si — e, embora cada lembrança me espete a alma, penso em si até encontrar desculpas para os próprios defeitos de caráter que deram uma punhalada tão cruel à minha paz.

Ainda assim, contudo, estou mais viva do que me viu há muito, muito tempo. Tenho um grau de vivacidade, mesmo na minha dor, que é preferível ao estupor entorpecedor que, durante o último ano, congelou todas as minhas faculdades. — Talvez esta mudança se deva mais ao regresso da saúde do que ao vigor da minha razão — pois, apesar da tristeza (e certamente tive a minha parte), a pureza deste ar, e o estar continuamente fora dele, pois durmo no campo todas as noites, operou uma alteração na minha aparência que realmente me surpreende. — Os dedos rosados da saúde já riscam as minhas faces — e vi uma vida física nos meus olhos, depois de ter escalado as rochas, que se assemelhava às esperanças ternas e crédulas da juventude.

Com que suspiro cruel recordei que me tinha esquecido de esperar! — A razão, ou melhor, a experiência, não amortece tão cruelmente os prazeres da pobre ----; ela brinca o dia todo no jardim com os filhos de ----, e faz amigos para si mesma.

Não me diga que é mais feliz sem nós — Não virá ter connosco à Suíça? Ah, porque não nos ama com mais sentimento? — porque é uma criatura de tal simpatia, que o calor dos seus sentimentos, ou melhor, a rapidez dos seus sentidos, endurece o seu coração? — É a minha infelicidade que a minha imaginação esteja perpetuamente a sombrear os seus defeitos, e a emprestar-lhe encantos, enquanto a grosseria dos seus sentidos o faz (não me chame vaidosa) ignorar graças em mim que só a dignidade de espírito e a sensibilidade de um coração expandido podem dar. — Que Deus o abençoe! Adeus.

CARTA LVII

[Suécia] 7 de julho [1795].

Não pude deixar de me sentir extremamente mortificada no último correio por não receber uma carta sua. O facto de eu estar em ---- foi apenas um acaso, e poderia tê-lo arriscado; e tê-lo-ia feito há um ano.

Não me queixarei, contudo — Há infortúnios tão grandes que silenciam as expressões habituais de pesar — Acredite-me, existe algo como um coração partido! Há caracteres cuja própria energia os consome; e que, sempre inclinados a acalentar pela reflexão alguma paixão, não podem ficar satisfeitos com os confortos comuns da vida. Tentei fugir de mim mesma e lancei-me em toda a dissipação possível aqui, apenas para sentir uma angústia mais aguda, quando sozinha com a minha filha.

Ainda assim, pudesse alguma coisa agradar-me — não me tivesse a desilusão cortado da vida, este país romântico, estas belas noites, interessar-me-iam. — Meu Deus! pode alguma coisa? e hei de sentir-me viva apenas para sensações dolorosas? — Mas não pode — não durará muito.

O correio chegou novamente; enviei alguém em busca de cartas, apenas para ser ferida na alma por uma negativa. — O meu cérebro parece arder. Tenho de sair para o ar.

MARY.

CARTA LVIII

[Laurvig, Noruega] 14 de julho [1795].

Estou agora na minha viagem para Tonsberg. Senti-me mais ao deixar a minha filha do que pensava que sentiria — e, enquanto à noite imaginava a cada instante ouvir os sons mal formados da sua voz, perguntei a mim mesma como podia pensar em separar-me dela para sempre, em deixá-la assim desamparada?

Pobre cordeiro! Pode soar muito bem num conto que "Deus temperará os ventos para o cordeiro tosquiado!" mas como posso esperar que ela seja protegida, quando o meu peito nu teve de enfrentar continuamente a tempestade impiedosa? Sim; poderia acrescentar, com o pobre Lear — O que é a guerra dos elementos perante as dores do afeto desapontado, e o horror que surge da descoberta de uma quebra de confiança, que rompe todos os laços sociais!

Nem tudo está bem em algum lugar! — Quando me conheceu, eu não estava assim perdida. Ainda podia confiar — pois abri-lhe o meu coração — deste único conforto privou-me, enquanto a minha felicidade, diz-me, era o seu primeiro objetivo. Estranha falta de juízo!

Não me queixarei; mas, pela solidez do seu entendimento, estou convencida de que, se se permitir refletir, sentirá também que a sua conduta para comigo, longe de ser generosa, não foi justa. — Não pretendo aludir a princípios factícios de moralidade; mas à base simples de toda a retidão. — Contudo, não pretendia discutir — O facto de não escrever é cruel — e a minha razão está talvez perturbada por uma miséria constante.

A pobre ---- teria gostado de me acompanhar, por ternura; pois o meu desmaio, ou melhor, convulsão, quando desembarquei, e as minhas mudanças súbitas de semblante desde então, alarmaram-na tanto que ela tem perpetuamente medo de algum acidente. — Mas teria prejudicado a criança nesta estação quente, pois ela está a mudar os dentes.

Não ouço falar de me ter escrito para Stromstad. Muito bem! Aja como quiser — não há nada que eu tema ou de que cuide! Quando vir se posso, ou não, obter o dinheiro sobre o qual vim aqui tratar, não o incomodarei com cartas às quais não responde.

CARTA LIX

[Tonsberg] 18 de julho [1795].

Estou aqui em Tonsberg, separada da minha filha — e aqui devo permanecer um mês, pelo menos, ou teria sido o mesmo nunca ter vindo.

* * * * *

Comecei ---- o que, espero, liquidará todas as minhas obrigações de ordem pecuniária. — Sinto-me diminuída aos meus próprios olhos, por não o ter feito mais cedo.

Não farei mais comentários sobre o seu silêncio. Que Deus o abençoe!

MARY.

CARTA LX

[Tonsberg] 30 de julho [1795].

Acabo de receber duas das suas cartas, datadas de 26 e 30 de junho; e deve ter recebido várias minhas, informando-o da minha detenção, e de quão magoada fiquei com o seu silêncio.

* * * * *

Escreva-me então, meu amigo, e escreva explicitamente. Sofri, Deus sabe, desde que o deixei. Ah! nunca sentiu este tipo de doença do coração! — A minha mente, contudo, está atualmente dolorosamente ativa, e a simpatia que sinto quase se eleva a agonia. Mas este não é um assunto de queixa, proporcionou-me prazer, — e o prazer refletido é tudo o que tenho a esperar — se uma centelha de esperança ainda estiver viva no meu peito desolado.

Tentarei escrever com um certo grau de compostura. Desejo que vivamos juntos, porque quero que adquira uma ternura habitual pela minha pobre menina. Não suporto pensar em deixá-la sozinha no mundo, ou que ela seja apenas protegida pelo seu sentido de dever. A seguir a preservá-la, o meu desejo mais fervoroso é não perturbar a sua paz. Não tenho nada a esperar, e pouco a temer, na vida — Há feridas que nunca poderão ser curadas — mas pode-se permitir que infeccionem em silêncio sem estremecer.

Quando nos encontrarmos de novo, ficará convencido de que tenho mais determinação do que aquela que me atribui. Não o atormentarei. Se estou destinada a estar sempre desapontada e infeliz, esconderei a angústia que não posso dissipar; e a corda esticada da vida ou da razão acabará por romper-se, e libertar-me-á.

Sim; serei feliz — Este coração é digno da bem-aventurança que os seus sentimentos antecipam — e não consigo sequer persuadir-me, por muito miserável que me tenham feito, de que os meus princípios e sentimentos não estão fundados na natureza e na verdade. Mas para terminar estes assuntos.

* * * * *

Tenho estado seriamente empregada desta forma desde que vim para Tonsberg; contudo, nunca estive tanto ao ar livre. — Caminho, ando a cavalo — remo, banho-me, e até durmo nos campos; a minha saúde consequentemente melhorou. A criança, informa-me ----, está bem. Anseio por estar com ela.

Escreva-me imediatamente — se eu pensasse apenas em mim, poderia desejar que voltasse para mim, pobre, com a simplicidade de caráter, parte da qual parece ter perdido ultimamente, que primeiro me ligou a si.

Seu, mais afetuosamente, MARY IMLAY

Tenho andado a assinar outras cartas — por isso assinei mecanicamente o mesmo nas suas.

CARTA LXI

[Tonsberg] 5 de agosto [1795].

O emprego e o exercício têm sido de grande utilidade para mim; e recuperei inteiramente a força e a atividade que perdi durante o tempo em que amamentei. Raramente gozei de melhor saúde; e a minha mente, embora a tremer ao toque da angústia, está mais calma — ainda que continue a mesma. — Tenho, é verdade, gozado alguma tranquilidade, e mais felicidade aqui do que durante muito — muito tempo passado. — (Digo felicidade, pois não posso dar outra denominação ao deleite requintado que este país selvagem e este belo verão me proporcionaram.) — Ainda assim, ao examinar o meu coração, descubro que ele está de tal modo constituído que não consigo viver sem algum afeto particular — receio que não sem uma paixão — e sinto a sua falta mais na sociedade do que na solidão.

* * * * *

Ao escrever-lhe, sempre que ocorre um epíteto afetuoso — os meus olhos enchem-se de lágrimas, e a minha mão trémula para — pode então confiar na minha resolução, quando estiver consigo. Se estou condenada a ser infeliz, confinarei a minha angústia ao meu próprio peito — a ternura, mais do que a paixão, fez-me por vezes ignorar a delicadeza — a mesma ternura restringir-me-á no futuro. Que Deus o abençoe!

CARTA LXII

[Tonsberg] 7 de agosto [1795].

O ar, o exercício e os banhos restauraram-me a saúde, fortaleceram os meus músculos e cobriram as minhas costelas, mesmo enquanto recuperei a minha atividade anterior. — Não lhe posso dizer que a minha mente esteja calma, embora tenha arrebatado alguns momentos de deleite requintado, vagueando pelos bosques e descansando sobre as rochas.

Este estado de suspense, meu amigo, é intolerável; devemos decidir algo — e em breve; — devemos encontrar-nos em breve, ou separar-nos para sempre. Estou consciente de que agi tolamente — mas estava miserável — quando estávamos juntos — Esperando demasiado, deixei escapar o prazer que poderia ter captado. Não posso viver consigo — não deveria — se formar outra afeição. Mas prometo-lhe que a minha não lhe será imposta. Pouca razão tenho para esperar uma sombra de felicidade, após as cruéis desilusões que despedaçaram o meu coração; mas a da minha filha parece depender de estarmos juntos. Ainda assim, não desejo que sacrifique uma hipótese de gozo por um bem incerto. Sinto a convicção de que posso providenciar por ela, e esse será o meu objetivo — se, de facto, nos havemos de separar para não mais nos encontrarmos. O afeto dela não deve ser dividido. Ela deve ser um conforto para mim — se não hei de ter outro — e conhecer-me apenas como o seu apoio. Sinto que não posso suportar a angústia de corresponder consigo — se apenas havemos de corresponder. — Não; se procura felicidade noutro lugar, as minhas cartas não interromperão o seu repouso. Serei morta para si. Não lhe consigo expressar a dor que me causa escrever sobre uma separação eterna. — Deve decidir — examine-se — Mas, pelo amor de Deus! poupe-me a ansiedade da incerteza! — Posso sucumbir à prova; mas não me queixarei.

Adeus! Se tivesse mais alguma coisa a dizer-lhe, tudo voou, e foi absorvido pelas apreensões mais atormentadoras; contudo, mal sei que nova forma de miséria tenho a recear.

Devo pedir-lhe perdão por ter escrito por vezes com azedume; mas atribuí-lo-á à afeição, se entende alguma coisa do coração de

Seu, verdadeiramente, MARY.

CARTA LXIII

[Tonsberg] 9 de agosto [1795].

Cinco das suas cartas foram enviadas após mim de ----. Uma, datada de 14 de julho, foi escrita num estilo que posso ter merecido, mas que não esperava de si. Contudo, este não é o momento para responder-lhe, exceto para assegurar-lhe que não será atormentado com mais queixas. Sinto nojo de mim mesma por tê-lo importunado durante tanto tempo com o meu afeto.----

A minha filha está muito bem. Em breve nos encontraremos, para não mais nos separarmos, espero — refiro-me a mim e à minha menina. — Aguardarei com certo grau de ansiedade até ser informada de como terminam os seus negócios.

Sinceramente sua, MARY.

CARTA LXIV

[Gotemburgo] 26 de agosto [1795].

Cheguei aqui ontem à noite e, com o mais requintado deleite, apertei mais uma vez a minha bebé contra o meu coração. Não nos separaremos mais. Talvez não possa conceber o prazer que me deu vê-la correr e brincar sozinha. A sua inteligência crescente prende-me cada vez mais a ela. Prometi-lhe que cumprirei o meu dever para com ela; e nada, no futuro, me fará esquecê-lo. Também me esforçarei para obter uma independência para ela; mas não estarei demasiado ansiosa a este respeito.

Já lhe disse que recuperei a minha saúde. O vigor, e até a vivacidade de espírito, regressaram com uma constituição renovada. Quanto à paz, não falaremos dela. Talvez eu não tenha sido feita para desfrutar do calmo contentamento assim chamado.---

* * * * *

Diz-me que as minhas cartas o torturam; não descreverei o efeito que as suas têm em mim. Recebi três esta manhã, a última datada do dia 7 deste mês. Não pretendo dar vazão às emoções que elas produziram. — Certamente tem razão; as nossas mentes não são compatíveis. Vivi num mundo ideal e alimentei sentimentos que não compreende — ou não me trataria assim. Não sou, não serei, meramente um objeto de compaixão — um estorvo, por mais leve que seja, para o aborrecer. Esqueça que existo: nunca o lembrarei. Algo enfático sussurra-me para pôr um fim a estas lutas. Seja livre — não atormentarei quando não puder agradar. Posso cuidar da minha filha; não precisa de me dizer continuamente que a nossa sorte é inseparável, *que tentará acalentar ternura* por mim. Não se violente! Quando estivermos separados, os nossos interesses, uma vez que dá tanto peso a considerações pecuniárias, estarão inteiramente divididos. Não quero proteção sem afeto; e apoio não preciso, enquanto as minhas faculdades estiverem imperturbadas. Tinha aversão a viver em Inglaterra; mas os sentimentos dolorosos devem ceder perante considerações superiores. Talvez não consiga adquirir a soma necessária para manter a minha filha e a mim mesma noutro lugar. É demasiado tarde para ir para a Suíça. Não permanecerei em ----, vivendo de forma dispendiosa. Mas não se alarme! Já não me forçarei sobre si.

Adeus! Estou agitada — todo o meu corpo está convulso — os meus lábios tremem, como se abalados pelo frio, embora pareça circular fogo nas minhas veias.

Deus o abençoe.

MARY.

CARTA LXV

[Copenhaga] 6 de setembro [1795].

Recebi agora mesmo a sua carta do dia 20. Escrevi-lhe uma carta ontem à noite, na qual, impercetivelmente, se infiltrou alguma da minha amargura de alma. Copiarei a parte relativa aos negócios. Não sou suficientemente vaidosa para imaginar que possa, por mais de um momento, toldar o seu gozo da vida — para evitar até isso, seria melhor que nunca tivesse notícias minhas — e que repouse na ideia de que sou feliz.

Deus misericordioso! É-me impossível sufocar algo como ressentimento, quando recebo novas provas da sua indiferença. O que sofri neste último ano não deve ser esquecido! Não possuo esse substituto feliz para a sabedoria, a insensibilidade — e as vivas simpatias que me ligam aos meus semelhantes são todas de natureza dolorosa. — São as agonias de um coração partido — o prazer e eu demos adeus.

Não vejo aqui senão montes de ruínas e apenas converso com pessoas imersas no comércio e na sensualidade.

Estou cansada de viajar — no entanto, parece que não tenho lar — nenhum lugar de descanso para o qual olhar. — Estou estranhamente abandonada. — Quantas vezes, passando pelos rochedos, pensei: "Não fosse por esta criança, pousaria a minha cabeça num deles e nunca mais abriria os olhos!" Com um coração sentidamente vivo para todas as afeições da minha natureza — nunca encontrei um, mais suave do que a pedra que eu desejaria tomar como a minha última almofada. Pensei uma vez que o tinha encontrado, mas foi tudo uma ilusão. Encontro famílias continuamente, que estão unidas pelo afeto ou pelo princípio — e, quando estou consciente de que cumpri os deveres da minha posição, quase até ao esquecimento de mim mesma, estou pronta a exigir, num tom murmurante, ao Céu: "Por que estou assim abandonada?"

Diz agora

* * * * *

Não o compreendo. É necessário que escreva mais explicitamente — e que se decida sobre algum modo de conduta. — Não posso suportar este suspense — Decida — Teme desferir outro golpe? Vivemos juntos, ou separamo-nos eternamente! — Não lhe voltarei a escrever até receber uma resposta a isto. Devo compor a minha alma torturada antes de escrever sobre assuntos indiferentes.

* * * * *

Não sei se escrevo de forma inteligível, pois a minha cabeça está perturbada. Mas isto deve perdoar — pois frequentemente é com dificuldade que entendo o que quer dizer — Escreve, suponho, na casa do Sr. ---- após o jantar, quando a sua cabeça não está das mais lúcidas — e quanto ao seu coração, se é que tem um, não vejo nada semelhante aos ditames do afeto, a não ser um vislumbre quando menciona a criança — Adeus!

CARTA LXVI

[Hamburgo] 25 de setembro [1795].

Acabo de terminar uma carta, para ser entregue ao capitão ----. Nela queixei-me do seu silêncio e expressei a minha surpresa por terem chegado três correios sem trazer uma linha para mim. Desde que a fechei, ouvi falar de outro, e ainda assim nenhuma carta. — Estou a esforçar-me para escrever calmamente — este silêncio é um requinte de crueldade. Se o capitão ---- tivesse permanecido mais alguns dias, teria regressado com ele para Inglaterra. O que tenho a fazer aqui? Escrevi-lhe repetidamente de forma completa. Faça o mesmo — e rapidamente. Não me deixe em suspense. Não mereci isto de si. Não consigo escrever, a minha mente está tão angustiada. Adeus!

MARY.

CARTA LXVII

[Hamburgo] 27 de setembro [1795].

Quando receber isto, ou terei desembarcado ou estarei a pairar na costa britânica — a sua carta do dia 18 decidiu-me.

Por que critério de princípio ou afeição denomina as minhas perguntas extraordinárias e desnecessárias, não consigo determinar. — Deseja que eu decida — eu tinha decidido. Deve ter tido há muito tempo duas cartas minhas, de ----, com o mesmo teor, para considerar. — Nessas, Deus sabe!, não havia senão demasiado afeto, e as agonias de uma mente distraída foram fielmente retratadas! — Que mais teria eu então a dizer? — A negativa viria de si. — Recorria perpetuamente à sua promessa de encontrar-me no outono — Era extraordinário que eu exigisse um sim ou um não? — A sua carta está escrita com extrema dureza; frieza, a que estou acostumada; nela não encontro um traço da ternura da humanidade, muito menos da amizade. — Vejo apenas um desejo de tirar um fardo dos seus ombros.

Estou acima de disputar palavras. — Não importa em que termos decide.

O poder tremendo que formou este coração deve ter previsto que, num mundo em que o interesse próprio, sob várias formas, é o móbil principal, eu tinha poucas hipóteses de escapar à miséria. — Ao fado do destino submeto-me. — Estou contente por ser infeliz; mas não serei desprezível. — De mim não tem motivo para se queixar, senão por ter tido demasiada consideração por si — por ter esperado um grau de felicidade permanente, quando apenas procurava uma gratificação momentânea.

Sou estranhamente deficiente em sagacidade. — Unindo-me a si, a sua ternura parecia compensar-me de todas as minhas anteriores desgraças. — Nesta ternura e afeto, com que confiança repousei! — mas inclinei-me sobre uma lança que me trespassou o coração. — Atirou fora um amigo fiel para perseguir os caprichos do momento. — Certamente estamos organizados de forma diferente; pois mesmo agora, quando a convicção foi estampada na minha alma pela mágoa, mal posso acreditar que seja possível. Depende agora de si se quer ver-me ou não. — Não darei nenhum passo até vê-lo ou ter notícias suas.

Preparando-me para o pior — decidi, se a sua próxima carta for como a última, escrever ao Sr. ---- para me arranjar um alojamento obscuro, e não informar ninguém da minha chegada. — Lá tentarei, em poucos meses, obter a soma necessária para levar-me para França — de si não receberei mais nada. — Ainda não estou suficientemente humilhada para depender da sua beneficência.

Algumas pessoas, a quem a minha infelicidade interessou, embora não saibam a extensão dela, ajudar-me-ão a atingir o objetivo que tenho em vista, a independência da minha filha. Se ocorrer a paz, dinheiro vivo irá longe em França — e pedirei emprestada uma soma, que a minha diligência me permitirá pagar sem pressa, para comprar uma pequena propriedade para a minha menina. — A assistência que acharei necessária para completar a sua educação, posso obtê-la a um preço acessível em Paris — posso apresentá-la a tal sociedade que ela gostará — e assim, assegurando para ela toda a hipótese de felicidade que depende de mim, morrerei em paz, persuadida de que a felicidade que até agora enganou a minha expectativa, nem sempre iludirá o meu alcance. Nenhum pobre marinheiro fustigado pela tempestade ansiava mais ardentemente por chegar ao seu porto.

MARY.

Não subirei no navio todo o caminho, porque não tenho para onde ir. O capitão ---- informá-lo-á de onde estou. É desnecessário acrescentar que não estou num estado de espírito para suportar suspense — e que desejo vê-lo, ainda que seja pela última vez.

CARTA LXVIII

[Dover] Domingo, 4 de outubro [1795].

Escrevi-lhe pelo navio de correio para informá-lo de que a sua carta do dia 18 do mês passado me tinha decidido a partir com o capitão ----; mas, como navegámos muito depressa, tomo como certo que ainda não a recebeu.

Diz que devo decidir por mim mesma. — Eu tinha decidido que seria o melhor para o interesse da minha menina, e para o meu próprio conforto, por pouco que espere, vivermos juntos; e até pensei que ficaria contente, alguns anos depois, quando o tumulto dos negócios passasse, de repousar na sociedade de um amigo afetuoso e observar o progresso da nossa interessante criança, enquanto tentava ser útil no círculo em que finalmente decidiu descansar: pois não pode correr para sempre.

Pelo teor da sua última carta, contudo, sou levada a imaginar que formou algum novo vínculo. — Se assim for, deixe-me pedir-lhe ardentemente que me veja mais uma vez, e imediatamente. Esta é a única prova que exijo da amizade que professa por mim. Decidirei então, já que hesita sobre uma mera formalidade.

Esforço-me por escrever com calma — mas a extrema angústia que sinto ao desembarcar sem ter nenhum amigo para me receber, e até a consciência de que o amigo que mais desejo ver sentirá uma sensação desagradável ao ser informado da minha chegada, não entra na descrição da miséria comum. Toda a emoção cede perante uma torrente avassaladora de mágoa — e a vivacidade da minha filha aflige-me. — Por causa dela, desejei permanecer aqui alguns dias, por mais desconfortável que seja a minha situação. — Além disso, não desejei surpreendê-lo. Disse-me que faria qualquer sacrifício para promover a minha felicidade — e, mesmo na sua última carta indelicada, fala dos laços que o ligam a mim e à minha filha. — Diga-me que o deseja, e cortarei este nó górdio.

Agora, suplico-lhe mais ardentemente que me escreva, sem falta, pelo correio de volta. Indique que a sua carta deve ser deixada na estação de correios e diga-me se virá ter comigo aqui, ou onde me encontrará. Posso receber a sua carta na quarta-feira de manhã.

Não me mantenha em suspense. — Não espero nada de si, ou de qualquer ser humano: a minha sorte está lançada! — Tenho fortaleza suficiente para decidir cumprir o meu dever; ainda assim, não consigo elevar o meu espírito deprimido, nem acalmar o meu coração trémulo. — Aquele ser que o moldou assim, sabe que sou incapaz de arrancar pelas raízes a propensão para o afeto que tem sido o tormento da minha vida — mas a vida terá um fim!

Se vier aqui (há poucos meses não o teria duvidado), encontrar-me-á em ----. Se preferir encontrar-me na estrada, diga-me onde.

Afetuosamente sua, MARY.

CARTA LXIX

[Londres, nov. 1795].

Escrevo-lhe agora de joelhos; implorando-lhe que envie a minha filha e a criada com ----, para Paris, para serem entregues aos cuidados da Madame ----, rue ----, section de ----. Caso tenham mudado, ---- pode dar o endereço delas.

Deixe a criada ficar com todas as minhas roupas, sem distinção.

Por favor, pague à cozinheira os seus salários, e não mencione a confissão que lhe forcei — um pouco mais cedo ou mais tarde não tem importância. Nada além da minha extrema estupidez poderia ter-me deixado cega durante tanto tempo. No entanto, enquanto me assegurava de que não tinha nenhum vínculo, pensei que ainda poderíamos ter vivido juntos.

Não farei comentários sobre a sua conduta; ou qualquer apelo ao mundo. Que os meus erros durmam comigo! Em breve, muito em breve, estarei em paz. Quando receber isto, a minha cabeça ardente estará fria.

Enfrentaria mil mortes, em vez de uma noite como a última. O seu tratamento lançou a minha mente num estado de caos; no entanto, estou serena. Vou encontrar conforto, e o meu único medo é que o meu pobre corpo seja insultado por uma tentativa de recordar a minha odiada existência. Mas mergulharei no Tamisa onde houver a menor hipótese de ser arrebatada da morte que procuro.

Deus o abençoe! Que nunca saiba por experiência o que me fez suportar. Se a sua sensibilidade alguma vez despertar, o remorso encontrará o caminho para o seu coração; e, no meio dos negócios e do prazer sensual, aparecerei diante de si, a vítima do seu desvio da retidão.

MARY.

CARTA LXX

[Londres, nov. 1795] Domingo de manhã.

Só tenho a lamentar que, quando a amargura da morte tinha passado, tenha sido desumanamente trazida de volta à vida e à miséria. Mas uma determinação fixa não pode ser frustrada pelo desapontamento; nem permitirei que seja uma tentativa frenética o que foi um dos atos mais calmos da razão. A este respeito, só sou responsável perante mim mesma. Se me preocupasse com o que é chamado reputação, seria por outras circunstâncias que estaria desonrada.

Diz: "que não sabe como nos livrarmos da desgraça em que fomos mergulhados." Está livrado há muito tempo. — Mas abstenho-me de comentar. — Se estou condenada a viver mais tempo, é uma morte em vida.

Parece-me que coloca muito mais peso na delicadeza do que no princípio; pois sou incapaz de descobrir que sentimento de delicadeza teria sido violado pela sua visita a uma amiga miserável — se é que tem alguma amizade por mim. — Mas uma vez que o seu novo vínculo é a única coisa sagrada aos seus olhos, calo-me — Seja feliz! As minhas queixas nunca mais abafarão o seu gozo — talvez eu esteja enganada ao supor que até a minha morte poderia, por mais de um momento. — Isto é o que chama magnanimidade. — É feliz para si mesmo que possua esta qualidade no mais alto grau.

A sua contínua afirmação de que fará tudo o que estiver ao seu alcance para contribuir para o meu conforto (quando se refere apenas à assistência pecuniária) parece-me uma flagrante quebra de delicadeza. — Não quero tal conforto vulgar, nem o aceitarei. Nunca quis nada além do seu coração — Esse ido, não tem mais nada para dar. Se eu tivesse apenas a pobreza a temer, não me encolheria perante a vida. — Perdoe-me então, se disser que considerarei qualquer tentativa direta ou indireta de suprir as minhas necessidades como um insulto que não mereci — e como algo feito mais por ternura pela sua própria reputação do que por mim. Não me interprete mal; não penso que valorize o dinheiro (por isso não aceitarei o que não lhe importa), embora eu o valorize muito menos, porque certas privações não me são dolorosas. Quando eu estiver morta, o respeito por si mesmo fará com que cuide da criança.

Escrevo com dificuldade — provavelmente nunca mais lhe escreverei. — Adeus!

Deus o abençoe!

MARY.

CARTA LXXI

[Londres, nov. 1795] Segunda-feira de manhã.

Sou obrigada finalmente a dizer que me trata de forma pouco generosa. Concordo consigo, que

* * * * *

Mas que a obliquidade caia agora sobre mim. — Não temo nem a pobreza nem a infâmia. Sou incapaz da tarefa de escrever — e explicações não são necessárias.

* * * * *

A minha filha poderá ter de corar pela falta de prudência da sua mãe — e poderá lamentar que a retidão do meu coração me tenha feito estar acima das precauções vulgares; mas ela não me desprezará por mesquinhez. — Está agora perfeitamente livre. — Deus o abençoe.

MARY.

CARTA LXXII

[Londres, nov. 1795] Sábado à noite.

Tenho sido magoada por inquéritos indiretos, que me parecem não ser ditados por qualquer ternura por mim. — Pergunta: "Se estou bem ou tranquila?" — Aqueles que pensam que estou, devem carecer de um coração para avaliar os meus sentimentos. — Escolho então ser o órgão dos meus próprios sentimentos.

Devo dizer-lhe que estou muito mortificada pelas suas ofertas contínuas de assistência pecuniária — e, considerando a sua mudança para a nova casa como uma confissão aberta de que me abandona, deixe-me dizer-lhe que prefiro perecer a receber qualquer coisa de si — e digo isto no momento em que estou desapontada na minha primeira tentativa de obter um suprimento temporário. Mas isto até me agrada; uma acumulação de desapontamentos e desgraças parece adequar-se ao hábito da minha mente. —

Tenha apenas um pouco de paciência, e retirar-me-ei para onde não será necessário que fale — claro, nem que pense em mim. Mas deixe-me ver, escrito por si mesmo — pois não o receberei por qualquer outro meio — que o assunto está terminado. — É um insulto para mim supor que posso ser reconciliada, ou recuperar o meu ânimo; mas, se não tiver notícias minhas, será a mesma coisa para si.

MARY.

Até o facto de me ter visto foi para agradar a outras pessoas, e não para acalmar a minha mente distraída.

CARTA LXXIII

[Londres, nov. 1795] Quinta-feira à tarde.

Tendo o Sr. ---- esquecido de lhe pedir para enviar as minhas coisas que ficaram na casa, tenho de solicitar que deixe ---- levá-las para ----

Irei esta noite para o alojamento; por isso não precisa de se sentir impedido de vir aqui para tratar dos seus negócios. — E, independentemente do que eu possa pensar e sentir — não precisa de temer que eu reclame publicamente — Não! Se tenho algum critério para julgar o certo e o errado, fui tratada da forma mais pouco generosa: mas, desejando agora apenas esconder-me, ficarei silenciosa como a sepultura na qual anseio esquecer-me. Protegerei e providenciarei a minha filha. — Só pretendo com isto dizer que não tem nada a temer da minha desesperação.

Fique bem. MARY.

CARTA LXXIV

Londres, 27 de novembro [1795].

A carta, sem endereço, que guardou com as cartas que devolveu, só agora me chegou aos olhos. — Eu tinha deixado as cartas de lado — não desejava rever um registo de mágoa.

O facto de não a ter visto explicará por que lhe escrevi com raiva — sob a impressão que a sua partida, sem sequer uma linha deixada para mim, me causou, mesmo após a sua conduta recente, que não me poderia levar a esperar muita atenção para com os meus sofrimentos.

Na verdade, "a conduta decidida, que me pareceu tão insensível", quase destruiu a minha razão; a minha mente está ferida — mal sei onde estou, ou o que faço. — A mágoa que não consigo vencer (pois algumas recordações cruéis nunca me abandonam, banindo quase todas as outras) esforço-me por ocultar na solidão total. — A minha vida, portanto, não passa de um exercício de fortaleza, continuamente posto à prova — e a esperança nunca brilha neste túmulo, onde estou enterrada viva.

Mas eu pretendia raciocinar convosco, e não queixar-me. — Dizeis-me que, daqui a algum tempo, "julgarei mais friamente o vosso modo de agir". Mas não será possível que a paixão obscureça a vossa razão, tanto quanto a minha? — E não deveríeis duvidar se esses princípios são tão "exaltados", como os apelidais, os quais apenas conduzem à vossa própria gratificação? Por outras palavras, se é justo não ter outro princípio de ação senão o de seguir a vossa inclinação, atropelando o afeto que alimentastes e as expectativas que suscitastes?

O meu afeto por vós está enraizado no meu coração. — Sei que não sois o que agora pareceis ser — nem agireis ou sentireis sempre como agora fazeis, embora eu talvez nunca seja consolada por essa mudança. — Mesmo em Paris, a minha imagem perseguir-vos-á. — Vereis o meu rosto pálido — e, por vezes, as lágrimas de angústia cairão sobre o vosso coração, que forçastes a sair do meu.

Não consigo escrever. Pensei que poderia ter refutado rapidamente todos os vossos argumentos engenhosos; mas a minha cabeça está confusa. — Certa ou errada, estou infeliz!

Parece-me que a minha conduta foi sempre governada pelos mais estritos princípios de justiça e verdade. — Contudo, quão miserável me tornaram os meus sentimentos sociais e a delicadeza de espírito! — Amei com toda a minha alma, apenas para descobrir que não tinha qualquer hipótese de ser correspondida — e que a existência é um fardo sem isso.

Não vos compreendo perfeitamente. — Se, com a oferta da vossa amizade, ainda vos referis apenas a apoio pecuniário — devo rejeitá-lo novamente. — Triviais são os males da pobreza na balança dos meus infortúnios. — Deus vos abençoe!

MARY.

Fui tratada sem generosidade — se é que compreendo o que é generosidade. — Parece-me que apenas estivestes ansioso por livrar-vos de mim — sem vos importardes se me esmagáveis em átomos na queda. — Em verdade, fui tratada de forma rude. Julgai friamente, e confio que não continuareis a chamar "os mais refinados" àqueles sentimentos caprichosos que minariam não apenas os princípios mais sagrados, mas os afetos que unem a humanidade. — Tornaríeis as mães antinaturais — e não existiria tal coisa como um pai! — Se a vossa teoria da moral é a mais "exaltada", é certamente a mais fácil. — Não requer muita magnanimidade decidir satisfazer-nos pelo momento, deixem os outros sofrer o que quiserem!

Desculpai-me por vos atormentar de novo, o meu coração anseia por justiça da vossa parte — e, enquanto me recordo de que aprovastes a conduta da Srta. ----, estou convencida de que nem sempre justificareis a vossa própria.

Cuidado com os enganos da paixão! Ela nem sempre banirá da vossa mente o facto de terdes agido ignobilmente — e condescendido em subterfúgios para encobrir a conduta que não podíeis desculpar. — Exigem a verdade e os princípios tais sacrifícios?

CARTA LXXV

Londres, 8 de dezembro [1795].

Tendo acabado de ser informada de que ---- regressará imediatamente a Paris, não queria perder uma oportunidade segura de escrever, porque não tenho a certeza de que a minha última, enviada por Dover, vos tenha chegado.

O ressentimento, e até a raiva, são emoções momentâneas para mim — e desejava dizer-vos isso, para que, se alguma vez pensardes em mim, não seja sob a luz de uma inimiga.

Que não fui bem tratada, sinto-o sempre; talvez não sempre com a angústia aguda que sinto atualmente — pois comecei mesmo agora a escrever calmamente, e não consigo conter as minhas lágrimas.

Estou atordoada! — A vossa conduta recente ainda me parece um sonho assustador. — Ah! perguntai a vós próprio se não condescendestes em empregar um pouco de habilidade, quase diria astúcia, indigna de vós? — Os princípios são coisas sagradas — e nunca brincamos com a verdade impunemente.

A expectativa (alimentei-a demasiado ternamente) de recuperar o vosso afeto, torna-se cada dia mais fraca. — Na verdade, parece-me, quando estou mais triste do que o habitual, que nunca mais vos verei. — Contudo, não me esquecereis sempre. — Sentireis algo semelhante a remorso por terdes vivido apenas para vós próprio — e sacrificado a minha paz a gratificações inferiores. Numa velhice desolada, lembrar-vos-eis de que tivestes uma amiga desinteressada, cujo coração feristes profundamente. A hora da recordação chegará — e não vos satisfareis em representar o papel de um rapaz, até cairdes no de um decrépito. Sei que a vossa mente, o vosso coração e os vossos princípios de ação são todos superiores à vossa conduta atual. Respeitais-me — e lamentareis perder a minha estima.

Sabeis melhor do que ninguém se ainda preservo a memória de um ser imaginário. — Pensei outrora que vos conhecia perfeitamente — mas agora vejo-me obrigada a deixar algumas dúvidas que me assaltam involuntariamente para serem esclarecidas pelo tempo.

Podeis tornar-me infeliz; mas não podeis tornar-me desprezível aos meus próprios olhos. — Ainda serei capaz de sustentar a minha filha, embora esteja desapontada com outros planos de utilidade que outrora acreditei que vos teriam proporcionado igual prazer.

Enquanto estive convosco, reprimi a minha generosidade natural, porque pensei que os vossos bens estivessem em risco. — Quando fui para a [Suécia], pedi-vos, se vos fosse conveniente, que não vos esquecêsseis do meu pai, das minhas irmãs e de algumas outras pessoas pelas quais me interessava. — O dinheiro foi esbanjado, contudo não só os meus pedidos foram negligenciados, como algumas dívidas triviais não foram liquidadas, as quais agora recaem sobre mim. — Foi isto amizade — ou generosidade? Não admitireis que vos esquecestes de vós próprio? Ainda tenho afeto por vós. — Deus vos abençoe.

MARY.

CARTA LXXVI

[Londres, dez. de 1795.]

Como a separação de vós para sempre é o evento mais sério da minha vida, vou expor-vos as minhas razões uma última vez, e não chameis engenhosidade à linguagem da verdade e do sentimento!

Conheço a solidez do vosso entendimento — e sei que é impossível que confundais sempre os caprichos de cada inclinação obstinada com os ditames viris dos princípios.

Dizeis-me "que vos atormento". — Por que o faço? — Porque não podeis afastar inteiramente o vosso coração de mim — e sentis que a justiça está do meu lado. Argumentais "que a vossa conduta foi inequívoca". — Não foi. — Quando a vossa frieza me magoou, com que ternura tentastes remover a impressão! — e, mesmo antes de eu regressar a Inglaterra, tivestes o maior cuidado em convencer-me de que todo o meu mal-estar era causado pelo efeito de uma constituição debilitada — e concluístes a vossa carta com estas palavras: "Apenas os negócios me mantiveram longe de ti. — Vem a qualquer porto, e voarei para as minhas duas meninas queridas com um coração que é todo delas."

Com estas garantias, é extraordinário que eu devesse acreditar no que desejava? Eu poderia — e pensei de facto que estivésseis em luta com velhas propensões; mas continuei a pensar que eu e a virtude acabaríamos por prevalecer. Continuei a pensar que tínheis uma magnanimidade de caráter que vos permitiria vencer a vós próprio.

Imlay, acreditai-me, não é romance, reconhecestes perante mim sentimentos deste género. — Poderíeis restaurar-me à vida e à esperança, e a satisfação que sentiríeis compensar-vos-ia amplamente.

Ao arrancar-me de vós, é o meu próprio coração que trespasso — e chegará o momento em que lamentareis ter deitado fora um coração que, mesmo no momento da paixão, não podeis desprezar. — Eu deveria tudo à vossa generosidade — mas, pelo amor de Deus, não me mantenhais mais tempo em suspenso! — Deixai-me ver-vos mais uma vez!

CARTA LXXVII

[Londres, dez. de 1795.]

Deveis fazer o que quiserdes no que diz respeito à criança. — Eu gostaria que pudesse ser feito em breve, para que o meu nome não vos seja mais mencionado. Agora está terminado. — Convencida de que não tendes nem consideração nem amizade, desdenho proferir uma censura, embora tenha tido razões para pensar que a "longanimidade" de que se fala não tem sido muito delicada. — No entanto, isso não tem importância. — Fico contente que estejais satisfeito com a vossa própria conduta.

Agora asseguro-vos solenemente que este é um adeus eterno. — Contudo, não me esquivo aos deveres que me prendem à vida.

Que existe "sofisma" de um lado ou de outro, é certo; mas agora não importa de qual. Da minha parte, não tem sido uma questão de palavras. No entanto, o vosso entendimento ou o meu deve estar estranhamente distorcido — pois o que chamais de "delicadeza", parece-me ser exatamente o contrário. Não tenho critério para a moralidade, e pensei em vão, se as sensações que vos levam a seguir um tornozelo ou um passo são o fundamento sagrado do princípio e do afeto. O meu tem sido de uma natureza muito diferente, ou não teria resistido ao embate dos vossos sarcasmos.

O sentimento em mim continua sagrado. Se houver alguma parte de mim que sobreviva à consciência dos meus infortúnios, é a pureza dos meus afetos. A impetuosidade dos vossos sentidos pode ter-vos levado a chamar ao mero desejo animal a fonte do princípio; e pode dar sabor a alguns anos que virão. — Se pensareis sempre assim, nunca saberei.

É estranho que, apesar de tudo o que fazeis, algo semelhante a uma convicção me force a acreditar que não sois o que pareceis ser.

Despeço-me de vós em paz.

Impresso por Hazell, Watson & Viney, Ld., Londres e Aylesbury.

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