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The Memoirs of Sherlock Holmes

by Arthur Conan Doyle · in Portuguese

capa

OS MEMÓRIAS DE SHERLOCK HOLMES

de Arthur Conan Doyle

Conteúdo

I. Silver Blaze II. A Aventura da Caixa de Papelão III. O Rosto Amarelo IV. O Escriturário de Corretor de Valores V. O “Gloria Scott” VI. O Ritual de Musgrave VII. Os Senhores de Reigate VIII. O Homem Corcunda IX. O Paciente Residente X. O Intérprete Grego XI. O Tratado Naval XII. O Problema Final

I. Silver Blaze

Receio, Watson, que terei de partir”, disse Holmes, enquanto nos sentávamos juntos para o café da manhã numa manhã.

“Partir! Para onde?”

“Para Dartmoor; para King’s Pyland.”

Não fiquei surpreendido. Na verdade, o único espanto que me restava era que ele ainda não estivesse envolvido naquele caso extraordinário, que era o assunto de toda a Inglaterra. Por um dia inteiro, meu companheiro vagueava pelo quarto com o queixo sobre o peito e as sobrancelhas franzidas, recarregando e recarregando seu cachimbo com o mais forte tabaco preto, absolutamente alheio a quaisquer perguntas ou observações minhas. Edições frescas de todos os jornais eram enviadas pelo nosso agente de notícias, apenas para serem folheadas de relance e atiradas a um canto. Ainda que silencioso, eu sabia perfeitamente sobre o que ele meditava. Havia apenas um problema diante do público que poderia desafiar seus poderes de análise, e esse era o singular desaparecimento do favorito da Taça Wessex, e o trágico assassinato de seu treinador. Quando, portanto, ele anunciou de repente a intenção de partir para o local do drama, foi exatamente o que eu esperava e desejava.

“Ficarei muito feliz em acompanhá-lo se não for incômodo”, respondi.

“Meu caro Watson, você me faria um grande favor ao vir. E creio que seu tempo não será desperdiçado, pois há aspectos do caso que prometem torná‑lo absolutamente singular. Acho que ainda temos tempo de apanhar nosso trem em Paddington, e aprofundarei a questão durante a viagem. Você me faria um favor trazendo seu excelente luneta de campo.”

E assim aconteceu que, uma hora depois, encontrava-me no canto de uma carruagem de primeira classe a caminho de Exeter, enquanto Sherlock Holmes, com seu rosto agudo e ansioso enquadrado por seu chapéu de viagem com abas nas orelhas, mergulhava rapidamente no amontoado de papéis frescos que havia adquirido em Paddington. Havíamos deixado Reading bem atrás de nós antes que ele empurrasse o último deles sob o assento e me oferecesse seu estojo de charutos.

“Estamos indo bem”, disse ele, olhando pela janela e conferindo o relógio. “Nossa velocidade atual é de cinquenta e três milhas e meia por hora.”

“Não notei os postes de um quarto de milha”, comentei.

“Nem eu. Mas os postes telegráficos nesta linha ficam a sessenta jardas de distância, e o cálculo é simples. Presumo que tenha investigado o caso do assassinato de John Straker e o desaparecimento de Silver Blaze?”

“Li o que o Telegraph e o Chronicle têm a dizer.”

“É um daqueles casos em que a arte do raciocinador deve ser usada mais para a triagem de detalhes do que para a aquisição de novas provas. A tragédia foi tão incomum, tão completa e de tamanha importância pessoal para tantas pessoas, que estamos sofrendo de uma profusão de suposições, conjecturas e hipóteses. A dificuldade está em separar o arcabouço dos fatos — de fato absoluto e incontestável — das embelezaduras dos teóricos e repórteres. Então, estabelecida essa base sólida, é nosso dever ver que inferências podem ser tiradas e quais são os pontos especiais nos quais todo o mistério gira. Na terça‑feira à noite recebi telegramas tanto do Coronel Ross, proprietário do cavalo, quanto do Inspetor Gregory, responsável pelo caso, convidando à minha cooperação.”

“Na terça‑feira à noite!”, exclamei. “E hoje é quinta‑feira de manhã. Por que não partiu ontem?”

“Porque cometi um erro, meu caro Watson — que, receio, é mais comum do que se imagina àqueles que só me conhecem pelos seus memórias. O fato é que não pude acreditar que fosse possível que o cavalo mais notável da Inglaterra permanecesse oculto, sobretudo num lugar tão escassamente habitado como o norte de Dartmoor. Hora a hora, ontem, esperava ouvir que o encontraram, e que seu sequestrador fosse o assassino de John Straker. Quando, porém, chegou outra manhã e descobri que, além da prisão do jovem Fitzroy Simpson, nada havia sido feito, senti que era hora de agir. Ainda assim, de certa forma sinto que o dia de ontem não foi em vão.”

“Formulou então uma teoria?”

“Ao menos consegui apreender os fatos essenciais do caso. Enumerá‑los‑e‑i para você, pois nada esclarece tanto um caso quanto expô‑lo a outra pessoa, e dificilmente esperarei sua cooperação se não lhe mostrar a posição de partida.”

Recostei-me nos estofos, soprando meu charuto, enquanto Holmes, inclinado para frente, com o longo e fino dedo indicador marcando os pontos na palma da mão esquerda, me apresentava um esboço dos eventos que nos trouxeram até aqui.

“Silver Blaze”, disse ele, “é da linhagem Isonomy, e tem um histórico tão brilhante quanto o de seu famoso antecessor. Está em seu quinto ano, e trouxe, turno a turno, todos os prêmios de pista ao Coronel Ross, seu afortunado proprietário. Até o momento da catástrofe, era o principal favorito da Taça Wessex, com odds de três para um. Sempre, porém, foi o predileto do público, nunca os decepcionando, de modo que, mesmo com essas probabilidades, somas enormes eram apostadas nele. É óbvio, portanto, que havia muitas pessoas com forte interesse em impedir que Silver Blaze estivesse presente na largada da bandeira na próxima terça‑feira.

“O fato foi, claro, apreciado em King’s Pyland, onde se situa o haras do coronel. Toda precaução foi tomada para guardar o favorito. O treinador, John Straker, é um jóquei aposentado que cavalgou nas cores do Coronel Ross antes de ficar pesado demais para a balança. Serviu ao coronel cinco anos como jóquei e sete como treinador, sempre mostrando-se um servo zeloso e honesto. Sob sua direção havia três rapazes; o estabelecimento era pequeno, contendo apenas quatro cavalos ao todo. Um desses rapazes ficava de plantão à noite na estrebaria, enquanto os outros dormiam no sótão. Todos os três tinham caráter exemplar. John Straker, homem casado, vivia numa pequena vila a cerca de duzentos metros das estrebarias. Não tem filhos, tem uma criada‑serva e vive confortavelmente. A região ao redor é muito solitária, mas a meio quilômetro ao norte há um pequeno conjunto de vilas construídas por um empreiteiro de Tavistock para inválidos e outros que desejam desfrutar do puro ar de Dartmoor. Tavistock fica a duas milhas a oeste, enquanto, do outro lado da charneca, também a cerca de duas milhas, está o maior haras de treinamento de Mapleton, pertencente a Lord Backwater e administrado por Silas Brown. Em todas as outras direções, a charneca é uma verdadeira selva, habitada apenas por alguns ciganos errantes. Essa era a situação geral na noite de segunda‑feira, quando ocorreu a catástrofe.

“Nesse entardecer, os cavalos foram exercitados e alimentados como de costume, e as estrebarias foram trancadas às nove horas. Dois dos rapazes foram até a casa do treinador, onde jantaram na cozinha, enquanto o terceiro, Ned Hunter, ficou de guarda. Poucos minutos depois das nove, a criada, Edith Baxter, desceu à estrebaria com o jantar dele, que consistia num prato de carneiro ao curry. Não trouxe líquido, pois havia uma torneira nas estrebarias, e a regra era que o rapaz de plantão não bebesse nada além da água. A criada carregava uma lanterna, pois era muito escuro e o caminho cortava a charneca aberta.

“Edith Baxter estava a menos de trinta metros das estrebarias, quando um homem surgiu das trevas e a chamou para parar. Ao entrar no círculo de luz amarela projetada pela lanterna, viu que era um senhor de porte gentil, trajando um terno cinza de tweed, com boné de pano. Usava polainas e carregava um pesado bastão com cabeção. O que mais a impressionou foi a extrema palidez de seu rosto e a nervosidade de seu modo. Pensou que ele devia ter pouco mais de trinta anos do que menos.

“‘Pode dizer‑me onde estou?’, ele perguntou. ‘Estava quase decidido a dormir na charneca quando vi a luz da sua lanterna.’

“‘Está próximo às estrebarias de King’s Pyland’, respondeu ela.

“‘Ah, realmente! Que sorte!’, exclamou ele. ‘Entendo que um garoto de estrebaria dorme lá sozinho todas as noites. Talvez esse seja o jantar que está a levar para ele. Agora tenho certeza de que não se orgulharia demais de ganhar o preço de um vestido novo, não é?’, tirou do bolso do colete um pedaço de papel branco dobrado. ‘Veja que o garoto tenha isto esta noite, e você terá o vestido mais bonito que o dinheiro pode comprar.’

“Ela ficou assustada pela sinceridade do homem e correu pelo corredor até a janela pela qual costumava entregar as refeições. Ela já estava aberta, e Hunter estava sentado à pequena mesa interior. Começou a lhe contar o que havia acontecido, quando o estranho voltou.

“‘Boa noite’, disse ele, olhando pela janela. ‘Queria trocar uma palavra consigo.’ A moça jurou que, enquanto ele falava, notou o canto do pequeno pacote de papel que se projetava de sua mão fechada.

“‘Que negócio tem aqui?’, perguntou o rapaz.

“‘É um negócio que pode colocar algo no seu bolso’, respondeu o outro. ‘Vocês têm dois cavalos na Taça Wessex — Silver Blaze e Bayard. Dê‑me a dica certa e não será um perdedor. É fato que, ao peso, Bayard poderia dar ao outro cem jardas em cinco furlongs, e que a estrebaria apostou nele?’

“‘Então, é um daqueles malditos cambistas!’, exclamou o rapaz. ‘Vou lhe mostrar como servimos a eles em King’s Pyland.’ Ele saltou e correu para soltar o cão. A menina fugiu para a casa, mas ao correr olhou para trás e viu o estranho inclinado pela janela. Um minuto depois, porém, quando Hunter saiu correndo com o cão, ele já havia desaparecido, e embora tenha percorrido todos os edifícios, não encontrou nenhum vestígio dele.

“Um momento”, indaguei. “O garoto de estrebaria, ao sair com o cão, deixou a porta destrancada atrás de si?”

“Excelente, Watson, excelente!”, murmurou meu companheiro. “A importância desse ponto me atingiu tão fortemente que enviei ontem um telegrama especial a Dartmoor para esclarecer a questão. O rapaz trancou a porta antes de sair. A janela, posso acrescentar, não era grande o bastante para um homem passar por ela.

“Hunter esperou até que os outros ajudantes retornassem, quando enviou uma mensagem ao treinador explicando o ocorrido. Straker ficou excitado ao ouvir o relato, embora não pareça ter compreendido plenamente sua real importância. Isso o deixou vagamente inquieto, e a Sra. Straker, acordando à uma da manhã, encontrou‑o vestindo‑se. Em resposta a suas indagações, ele disse que não conseguia dormir devido à ansiedade pelas cavalos, e que pretendia descer até as estrebarias para verificar se tudo estava bem. Ela implorou que ficasse em casa, pois podia ouvir a chuva batendo na janela, mas, apesar de seus apelos, ele vestiu seu grande impermeável e saiu.

“A Sra. Straker despertou às sete da manhã, ao descobrir que o marido ainda não havia retornado. Vestiu‑se apressadamente, chamou a criada e dirigiu‑se às estrebarias. A porta estava aberta; dentro, encolhido numa cadeira, Hunter jazia em estado de completo estupor, a baia do favorito estava vazia, e não havia sinal do treinador.

“Os dois rapazes que dormiam no sótão de trituração de feno acima da sala de arreios foram rapidamente despertados. Não ouviram nada durante a noite, pois ambos são dorminhocos profundos. Hunter estava evidentemente sob efeito de um forte fármaco, e, como não se conseguia arrancar sentido dele, deixaram‑o dormir enquanto os dois rapazes e as duas mulheres corriam à procura dos ausentes. Ainda nutriam a esperança de que o treinador, por algum motivo, tivesse levado o cavalo para exercício matinal, mas ao subir a colina perto da casa, de onde se avistavam todas as charnecas vizinhas, não só não viram vestígios do favorito desaparecido, como perceberam algo que lhes advertia que estavam diante de uma tragédia.

“A cerca de um quarto de milha das estrebarias, o sobretudo de John Straker balançava em um arbusto de urze. Imediatamente além, havia uma depressão em forma de bacia na charneca, e, no fundo dela, encontraram‑se o corpo morto do infeliz treinador. Sua cabeça fora despedaçada por um golpe violento de alguma arma pesada, e ele estava ferido na coxa, onde havia um corte longo e limpo, evidentemente causado por um instrumento muito afiado. Ficou claro, porém, que Straker defensara‑se vigorosamente contra seus agressores, pois em sua mão direita segurava uma pequena faca, embolsada de sangue até o cabo, enquanto na esquerda apertava uma gravata de seda vermelha e preta, reconhecida pela criada como a mesma que o estranho que havia visitado as estrebarias usara na noite anterior.

“Hunter, ao recuperar a lucidez, também ficou bastante certo da procedência da gravata. Afirmou, com a mesma certeza, que o mesmo estranho, enquanto permanecia à janela, havia drogado seu carneiro ao curry, privando assim as estrebarias de seu vigia.

“Quanto ao cavalo desaparecido, havia abundantes provas na lama que cobria o fundo da fossa fatal de que ele estivera lá durante a luta. Mas, desde aquela manhã, desaparecera, e embora uma generosa recompensa tenha sido oferecida e todos os ciganos de Dartmoor estejam em alerta, nada se soube dele. Por fim, a análise mostrou que as sobras de seu jantar deixadas pelo ajudante continham considerável quantidade de ópio em pó, enquanto as pessoas da casa consumiram o mesmo prato na mesma noite sem nenhum efeito adverso.

“Estes são os principais fatos do caso, despidos de toda suposição, e expostos da forma mais direta possível. Recapitulei agora o que a polícia fez a respeito.

“O Inspetor Gregory, a quem o caso foi confiado, é um oficial extremamente competente. Se fosse dotado de imaginação, poderia alcançar grandes alturas em sua profissão. Ao chegar, encontrou e prendeu prontamente o homem que naturalmente despertou suspeitas. Não houve grande dificuldade em achá‑lo, pois ele habitava uma das vilas que mencionei. Seu nome, ao que parece, era Fitzroy Simpson. Era um homem de excelente linhagem e educação, que desperdiçou uma fortuna nas corridas, e que agora vive fazendo um pequeno e refinado jogo de apostas nos clubes esportivos de Londres. Uma inspeção em seu livro de apostas revela que apostou cinco mil libras contra o favorito.

“Ao ser preso, ofereceu a declaração de que havia descido a Dartmoor na esperança de obter informações sobre os cavalos de King’s Pyland, bem como sobre Desborough, o segundo favorito, sob os cuidados de Silas Brown nas estrebarias de Mapleton. Não tentou negar que atuou como descrito na noite anterior, mas declarou não ter intenções sinistras, apenas desejar obter informações de primeira mão. Confrontado com a gravata, ficou pálido e incapaz de explicar sua presença na mão do assassinado. Suas roupas molhadas mostravam que esteve exposto à tempestade da noite anterior, e seu bastão, um “Penang‑lawyer” pesado de chumbo, era exatamente a arma que, por golpes repetidos, poderia ter causado as terríveis lesões que mataram o treinador.

“Por outro lado, não havia ferimento em seu corpo, enquanto o estado da faca de Straker indicava que ao menos um de seus agressores deveria portar tal marca. Isso é tudo em poucas palavras, Watson, e se puder esclarecer algo, ficarei infinitamente agradecido.”

Ouvi com o maior interesse a declaração que Holmes, com sua característica clareza, me apresentara. Embora a maioria dos fatos me fosse conhecida, não havia apreciado suficientemente sua importância relativa, nem a conexão entre eles.

“Não seria possível”, sugeri, “que o corte inciso em Straker tenha sido causado por sua própria faca nas convulsões que seguem a qualquer lesão cerebral?”

“É mais que possível; é provável”, respondeu Holmes. “Nesse caso, um dos principais pontos a favor do acusado desaparece.”

“E ainda”, continuei, “não consigo compreender qual seria a teoria da polícia.”

“Receio que qualquer teoria que apresentemos sofrerá graves objeções”, replicou meu companheiro. “A polícia imagina, ao que parece, que esse Fitzroy Simpson, tendo drogado o rapaz e, de alguma forma, obtido uma chave duplicada, abriu a porta da estrebaria e retirou o cavalo, aparentemente com a intenção de sequestrá‑lo. Sua sela está ausente, de modo que Simpson deve tê‑la colocado. Então, deixando a porta aberta atrás de si, conduziu o cavalo pela charneca, quando encontrou ou foi alcançado pelo treinador. Seguiu‑se uma briga natural. Simpson espancou o treinador com seu pesado bastão, sem sofrer nenhum ferimento da pequena faca que Straker usou em legítima defesa, e então o ladrão ou conduziu o cavalo a algum esconderijo secreto, ou este fugiu durante a luta e agora vagueia pela charneca. Essa é a versão que a polícia tem, e, por mais improvável que seja, todas as outras explicações são ainda mais improváveis. Contudo, testarei rapidamente o caso quando estivermos no local, e até lá não consigo ver como avançar além da nossa posição atual.”

Era noite quando chegamos à pequena cidade de Tavistock, que se situa, como o boss de um escudo, no meio do enorme círculo de Dartmoor. Dois cavalheiros nos esperavam na estação — um alto, de pele clara, cabelos e barba como de leão, e olhos azul‑claro curiosamente penetrantes; o outro, pequeno, alerta, muito bem‑arrumado, de fraque e polainas, com finíssimos bigodes laterais e um óculos. Este último era o Coronel Ross, o famoso esportista; o outro, o Inspetor Gregory, um homem que rapidamente ganhou destaque no serviço de detetives da Inglaterra.

“Estou encantado com sua visita, Sr. Holmes”, disse o Coronel. “O Inspetor aqui fez tudo o que se poderia sugerir, mas não quero deixar pedra sobre pedra na tentativa de vingar o pobre Straker e recuperar meu cavalo.”

“Houve algum desenvolvimento recente?” indagou Holmes.

“Lamento dizer que avançamos muito pouco”, respondeu o Inspetor. “Temos uma carruagem aberta do lado de fora, e, como bem quiser observar o local antes que a luz se apague, poderemos conversar enquanto seguimos.”

Um minuto depois, estávamos todos acomodados em um confortável landau, e seguíamos fazendo barulho pela pitoresca e antiga cidade de Devonshire. O Inspetor Gregory estava compenetrado em seu caso e despejava uma torrente de observações, enquanto Holmes intervinha com uma ou outra pergunta ou interjeição. O Coronel Ross recostou-se com os braços cruzados e o chapéu inclinado sobre os olhos, enquanto eu escutava com interesse o diálogo dos dois detetives. Gregory estava formulando sua teoria, que era quase exatamente o que Holmes previra no trem.

— O cerco está se fechando em torno de Fitzroy Simpson — observou ele —, e eu mesmo acredito que ele é o nosso homem. Ao mesmo tempo, reconheço que as evidências são puramente circunstanciais e que algum novo acontecimento pode invalidá-las.

— E quanto à faca de Straker?

— Chegamos à conclusão de que ele se feriu na queda.

— Meu amigo Dr. Watson me sugeriu isso quando vínhamos para cá. Se for assim, isso deporia contra este tal Simpson.

— Sem dúvida. Ele não possui nem faca nem qualquer sinal de ferimento. As evidências contra ele são, certamente, muito fortes. Ele tinha um grande interesse no desaparecimento do favorito. É suspeito de ter envenenado o ajudante de estábulo, estava inegavelmente fora na tempestade, estava armado com um bastão pesado e sua gravata foi encontrada na mão do homem morto. Realmente creio que temos o suficiente para levar a um júri.

Holmes balançou a cabeça. — Um advogado habilidoso despedaçaria tudo isso — disse ele. — Por que ele levaria o cavalo para fora do estábulo? Se quisesse feri-lo, por que não poderia fazê-lo ali mesmo? Foi encontrada uma chave duplicada em sua posse? Que farmacêutico lhe vendeu o ópio em pó? Acima de tudo, onde poderia ele, um estranho na região, esconder um cavalo, e um cavalo como este? Qual é sua própria explicação sobre o papel que ele queria que a criada desse ao ajudante de estábulo?

— Ele diz que era uma nota de dez libras. Uma foi encontrada em sua carteira. Mas suas outras dificuldades não são tão formidáveis quanto parecem. Ele não é um estranho na região. Ele se hospedou duas vezes em Tavistock durante o verão. O ópio provavelmente foi trazido de Londres. A chave, tendo cumprido seu propósito, teria sido descartada. O cavalo pode estar no fundo de um dos poços ou minas antigas na charneca.

— O que ele diz sobre a gravata?

— Ele reconhece que é sua e declara que a havia perdido. Mas um novo elemento foi introduzido no caso, o que pode explicar por que ele tirou o cavalo do estábulo.

Holmes aguçou os ouvidos.

— Encontramos vestígios que mostram que um grupo de ciganos acampou na segunda-feira à noite a menos de um quilômetro do local onde o assassinato ocorreu. Na terça-feira, eles haviam partido. Agora, supondo que houvesse algum entendimento entre Simpson e esses ciganos, ele não poderia estar levando o cavalo até eles quando foi interceptado, e eles não poderiam estar com ele agora?

— É certamente possível.

— A charneca está sendo vasculhada em busca desses ciganos. Também examinei todos os estábulos e dependências em Tavistock, e em um raio de dezesseis quilômetros.

— Há outro estábulo de treinamento bem perto, entendi bem?

— Sim, e esse é um fator que certamente não devemos negligenciar. Como Desborough, o cavalo deles, era o segundo nas apostas, eles tinham interesse no desaparecimento do favorito. Sabe-se que Silas Brown, o treinador, tinha grandes apostas no evento, e ele não era amigo do pobre Straker. Nós, contudo, examinamos os estábulos, e não há nada que o ligue ao caso.

— E nada que ligue este homem Simpson aos interesses dos estábulos de Mapleton?

— Absolutamente nada.

Holmes recostou-se na carruagem, e a conversa cessou. Poucos minutos depois, nosso cocheiro parou diante de uma pequena e elegante vila de tijolos vermelhos com beirais salientes que ficava à beira da estrada. A certa distância, através de um cercado, via-se uma longa dependência de telhas cinzentas. Em todas as outras direções, as curvas baixas da charneca, de cor bronzeada pelas samambaias desbotadas, estendiam-se até a linha do horizonte, interrompidas apenas pelas torres de Tavistock e por um aglomerado de casas a oeste que marcava os estábulos de Mapleton. Todos saltamos, com exceção de Holmes, que continuou recostado com os olhos fixos no céu à sua frente, inteiramente absorto em seus próprios pensamentos. Foi apenas quando toquei em seu braço que ele despertou com um sobressalto violento e saiu da carruagem.

— Desculpe-me — disse ele, voltando-se para o Coronel Ross, que o olhava com certa surpresa. — Eu estava sonhando acordado. — Havia um brilho em seus olhos e uma excitação contida em seu modo de agir que me convenceram, acostumado que eu estava com seus hábitos, de que ele estava diante de uma pista, embora eu não pudesse imaginar onde a havia encontrado.

— Talvez o senhor prefira ir imediatamente ao local do crime, Sr. Holmes? — disse Gregory.

— Acho que preferiria ficar aqui um pouco e analisar uma ou duas questões de detalhes. Straker foi trazido de volta para cá, suponho?

— Sim; ele está lá em cima. O inquérito é amanhã.

— Ele estava a seu serviço há alguns anos, Coronel Ross?

— Sempre o considerei um excelente empregado.

— Suponho que o senhor tenha feito um inventário do que ele tinha nos bolsos na hora de sua morte, Inspetor?

— Tenho os objetos na sala de estar, se o senhor quiser vê-los.

— Eu gostaria muito. — Todos nós entramos na sala da frente e nos sentamos ao redor da mesa central enquanto o Inspetor abria uma caixa quadrada de estanho e colocava um pequeno monte de coisas diante de nós. Havia uma caixa de fósforos, cinco centímetros de vela de sebo, um cachimbo de raiz de briar A.D.P., uma bolsa de pele de foca com cerca de quinze gramas de tabaco Cavendish de corte longo, um relógio de prata com uma corrente de ouro, cinco soberanos em ouro, uma lapiseira de alumínio, alguns papéis e uma faca de cabo de marfim com uma lâmina muito delicada e inflexível marcada como Weiss & Co., Londres.

— Esta é uma faca muito singular — disse Holmes, levantando-a e examinando-a minuciosamente. — Suponho, já que vejo manchas de sangue nela, que seja a que foi encontrada na mão do homem morto. Watson, esta faca é certamente da sua área?

— É o que chamamos de faca de catarata — disse eu.

— Imaginei. Uma lâmina muito delicada concebida para um trabalho muito delicado. Um objeto estranho para um homem carregar consigo em uma expedição árdua, especialmente porque não se fechava no bolso.

— A ponta estava protegida por um disco de cortiça que encontramos ao lado do corpo dele — disse o Inspetor. — Sua esposa nos diz que a faca estava sobre a penteadeira e que ele a pegou ao sair do quarto. Era uma arma pobre, mas talvez a melhor que ele conseguiu encontrar no momento.

— Muito possível. E quanto a estes papéis?

— Três deles são recibos de contas de vendedores de feno. Um deles é uma carta de instruções do Coronel Ross. Este outro é uma conta de modista de trinta e sete libras e quinze xelins feita por Madame Lesurier, da Bond Street, para William Derbyshire. A Sra. Straker nos diz que Derbyshire era amigo de seu marido e que, ocasionalmente, suas cartas eram endereçadas para cá.

— A Sra. Derbyshire tinha gostos um tanto caros — observou Holmes, passando os olhos pela conta. — Vinte e duas guinéus é um preço bastante alto para um único traje. No entanto, parece não haver mais nada a aprender, e podemos agora ir ao local do crime.

Ao sairmos da sala de estar, uma mulher, que esperava no corredor, deu um passo à frente e colocou a mão na manga do Inspetor. Seu rosto estava abatido, magro e ansioso, marcado pelo horror recente.

— O senhor os pegou? O senhor os encontrou? — ofegou ela.

— Não, Sra. Straker. Mas o Sr. Holmes aqui veio de Londres para nos ajudar, e faremos tudo o que for possível.

— Certamente encontrei a senhora em Plymouth em uma festa no jardim há algum tempo, Sra. Straker? — disse Holmes.

— Não, senhor; o senhor está enganado.

— Ora, veja só! Por que eu poderia jurar que sim. A senhora usava um traje de seda cor de pomba com acabamento em penas de avestruz.

— Nunca tive um vestido assim, senhor — respondeu a dama.

— Ah, isso resolve a questão — disse Holmes. E, com um pedido de desculpas, ele seguiu o Inspetor para fora. Uma curta caminhada pela charneca nos levou à depressão onde o corpo fora encontrado. Na borda dela estava o tojo sobre o qual o casaco havia sido pendurado.

— Não havia vento naquela noite, entendo — disse Holmes.

— Nenhum; mas muita chuva.

— Nesse caso, o sobretudo não foi soprado contra o tojo, mas colocado lá.

— Sim, foi colocado sobre o arbusto.

— O senhor me deixa interessado. Percebo que o solo foi bastante pisoteado. Sem dúvida, muitos pés estiveram aqui desde a segunda-feira à noite.

— Uma esteira foi colocada aqui ao lado, e todos nós ficamos sobre ela.

— Excelente.

— Nesta bolsa, tenho uma das botas que Straker usava, um dos sapatos de Fitzroy Simpson e uma ferradura perdida de Silver Blaze.

— Meu caro Inspetor, o senhor se supera! — Holmes pegou a bolsa e, descendo na depressão, empurrou a esteira para uma posição mais central. Então, esticando-se de bruços e apoiando o queixo nas mãos, ele fez um estudo cuidadoso da lama pisoteada à sua frente. — Olá! — disse ele, de repente. — O que é isto? — Era um fósforo de cera queimado pela metade, que estava tão coberto de lama que, à primeira vista, parecia um pequeno pedaço de madeira.

— Não consigo entender como deixei passar — disse o Inspetor, com uma expressão de aborrecimento.

— Estava invisível, enterrado na lama. Só vi porque estava procurando por ele.

— O quê! O senhor esperava encontrá-lo?

— Achei que não fosse improvável.

Ele pegou as botas da bolsa e comparou as impressões de cada uma delas com as marcas no chão. Depois, subiu até a borda da depressão e rastejou entre as samambaias e arbustos.

— Receio que não haja mais rastros — disse o Inspetor. — Examinei o solo com muito cuidado por cem metros em cada direção.

— De fato! — disse Holmes, levantando-se. — Eu não teria a impertinência de fazê-lo novamente depois do que o senhor disse. Mas gostaria de dar uma pequena caminhada pela charneca antes que escureça, para que eu possa conhecer o terreno amanhã, e acho que vou colocar esta ferradura no meu bolso para dar sorte.

O Coronel Ross, que demonstrara sinais de impaciência com o método de trabalho calmo e sistemático do meu companheiro, olhou para o relógio. — Gostaria que o senhor voltasse comigo, Inspetor — disse ele. — Há vários pontos sobre os quais gostaria de seu conselho, especialmente se não devemos ao público remover o nome do nosso cavalo das inscrições para a Copa.

— Certamente que não — exclamou Holmes, com decisão. — Eu deixaria o nome lá.

O Coronel fez uma reverência. — Estou muito satisfeito por ter tido sua opinião, senhor — disse ele. — O senhor nos encontrará na casa do pobre Straker quando terminar sua caminhada, e poderemos ir juntos para Tavistock.

Ele voltou com o Inspetor, enquanto Holmes e eu caminhávamos lentamente pela charneca. O sol começava a se pôr atrás dos estábulos de Mapleton, e a longa planície inclinada à nossa frente estava tingida de ouro, aprofundando-se em ricos tons de marrom avermelhado onde as samambaias desbotadas e as silvas captavam a luz da tarde. Mas as glórias da paisagem foram todas desperdiçadas com meu companheiro, que estava imerso nos pensamentos mais profundos.

— É assim, Watson — disse ele, por fim. — Podemos deixar a questão de quem matou John Straker por um instante e nos limitar a descobrir o que aconteceu com o cavalo. Agora, supondo que ele tenha escapado durante ou após a tragédia, para onde ele poderia ter ido? O cavalo é uma criatura muito gregária. Se deixado por conta própria, seus instintos teriam sido voltar para King’s Pyland ou ir para Mapleton. Por que ele correria livre pela charneca? Ele certamente já teria sido visto. E por que os ciganos o sequestrariam? Essas pessoas sempre vão embora quando ouvem falar de problemas, pois não desejam ser importunadas pela polícia. Eles não poderiam esperar vender um cavalo desses. Eles correriam um grande risco e não ganhariam nada ao levá-lo. Certamente isso é claro.

— Onde ele está, então?

— Já disse que ele deve ter ido para King’s Pyland ou para Mapleton. Ele não está em King’s Pyland. Portanto, ele está em Mapleton. Vamos tomar isso como uma hipótese de trabalho e ver onde ela nos leva. Esta parte da charneca, como o Inspetor observou, é muito dura e seca. Mas ela desce em direção a Mapleton, e o senhor pode ver daqui que há uma longa depressão ali adiante, que deve ter ficado muito úmida na segunda-feira à noite. Se nossa suposição estiver correta, então o cavalo deve ter atravessado aquilo, e esse é o ponto onde devemos procurar seus rastros.

Tínhamos caminhado rapidamente durante esta conversa, e mais alguns minutos nos levaram à depressão em questão. A pedido de Holmes, caminhei pela margem à direita, e ele à esquerda, mas não tinha dado cinquenta passos antes de ouvi-lo dar um grito e vê-lo acenando para mim. O rastro de um cavalo estava claramente delineado na terra macia à sua frente, e a ferradura que ele tirou do bolso encaixava exatamente na impressão.

— Veja o valor da imaginação — disse Holmes. — É a única qualidade que falta a Gregory. Imaginamos o que poderia ter acontecido, agimos com base na suposição e nos vemos justificados. Vamos prosseguir.

Atravessamos o fundo pantanoso e passamos por quatrocentos metros de grama seca e dura. Novamente o solo se inclinou, e novamente encontramos os rastros. Depois os perdemos por oitocentos metros, apenas para encontrá-los novamente bem perto de Mapleton. Foi Holmes quem os viu primeiro, e ele ficou apontando com um olhar de triunfo no rosto. O rastro de um homem era visível ao lado do cavalo.

— O cavalo estava sozinho antes — gritei.

— Exatamente. Estava sozinho antes. Olá, o que é isto?

O rastro duplo desviou bruscamente e tomou a direção de King’s Pyland. Holmes assobiou, e ambos seguimos atrás dele. Seus olhos estavam na trilha, mas por acaso olhei um pouco para o lado e vi, para minha surpresa, os mesmos rastros voltando na direção oposta.

— Uma para o senhor, Watson — disse Holmes, quando apontei. — O senhor nos poupou uma longa caminhada, que nos teria trazido de volta aos nossos próprios rastros. Vamos seguir o caminho de volta.

Não tivemos de ir longe. Terminou no pavimento de asfalto que levava aos portões dos estábulos de Mapleton. À medida que nos aproximávamos, um cavalariço saiu correndo deles.

— Não queremos nenhum ocioso por aqui — disse ele.

— Eu só queria fazer uma pergunta — disse Holmes, com o dedo e o polegar no bolso do colete. — Seria muito cedo para ver seu mestre, o Sr. Silas Brown, se eu aparecesse às cinco da manhã de amanhã?

— Deus me livre, senhor, se alguém estiver de pé, ele estará, pois é sempre o primeiro a se mexer. Mas aqui está ele, senhor, para responder às suas perguntas pessoalmente. Não, senhor, não; custa-me o emprego deixar que ele me veja tocar seu dinheiro. Depois, se quiser.

Enquanto Sherlock Holmes guardava a meia coroa que tirara do bolso, um homem idoso de aparência feroz caminhou pelo portão com uma chibata balançando na mão.

— O que é isso, Dawson! — gritou ele. — Sem fofocas! Vá cuidar de sua vida! E você, que diabo quer aqui?

— Dez minutos de conversa com o senhor, meu caro senhor — disse Holmes com a voz mais doce.

— Não tenho tempo para falar com todo andarilho. Não queremos estranhos aqui. Vá embora, ou pode encontrar um cachorro em seus calcanhares.

Holmes inclinou-se para a frente e sussurrou algo no ouvido do treinador. Ele deu um salto violento e corou até as têmporas.

— É mentira! — gritou ele, — uma mentira infernal!

— Muito bem. Vamos discutir isso aqui em público ou conversar em seu escritório?

— Oh, entre se desejar.

Holmes sorriu. — Não vou mantê-lo por mais do que alguns minutos, Watson — disse ele. — Agora, Sr. Brown, estou inteiramente à sua disposição.

Passaram-se vinte minutos, e os tons de vermelho já haviam desaparecido em tons de cinza antes que Holmes e o treinador reaparecessem. Nunca vi uma mudança tão grande como a que ocorreu em Silas Brown naquele curto espaço de tempo. Seu rosto estava pálido como cinzas, gotas de suor brilhavam em sua testa e suas mãos tremiam tanto que a chibata balançava como um galho ao vento. Seu modo intimidador e dominador também desaparecera, e ele se arrastava ao lado do meu companheiro como um cachorro com seu dono.

— Suas instruções serão cumpridas. Tudo será feito — disse ele.

— Não deve haver erro — disse Holmes, olhando para ele. O outro estremeceu ao ler a ameaça em seus olhos.

— Oh não, não haverá erro. Estará lá. Devo trocá-lo antes ou não?

Holmes pensou um pouco e depois caiu na gargalhada. — Não, não faça isso — disse ele; — eu escreverei para você sobre isso. Sem truques agora, ou...

— Oh, o senhor pode confiar em mim, pode confiar em mim!

— Sim, acho que posso. Bem, você terá notícias minhas amanhã. — Ele virou-se nos calcanhares, ignorando a mão trêmula que o outro lhe estendia, e partimos para King’s Pyland.

— Um composto mais perfeito de valentão, covarde e canalha do que o mestre Silas Brown eu raramente encontrei — observou Holmes enquanto caminhávamos juntos.

— Ele está com o cavalo, então?

— Ele tentou se safar com bravatas, mas descrevi para ele com tanta exatidão quais tinham sido suas ações naquela manhã que ele está convencido de que eu estava vigiando-o. É claro que o senhor observou os dedos peculiarmente quadrados nas impressões, e que suas próprias botas correspondiam exatamente a eles. Novamente, é claro que nenhum subordinado teria ousado fazer tal coisa. Descrevi para ele como, quando segundo seu costume ele foi o primeiro a descer, percebeu um cavalo estranho vagando pela charneca. Como ele foi até lá, e seu espanto ao reconhecer, pela testa branca que deu ao favorito seu nome, que o acaso havia colocado em seu poder o único cavalo que poderia vencer aquele em que ele havia apostado seu dinheiro. Então descrevi como seu primeiro impulso fora levá-lo de volta para King’s Pyland, e como o diabo lhe mostrara como ele poderia esconder o cavalo até que a corrida terminasse, e como ele o levara de volta e o ocultara em Mapleton. Quando lhe contei cada detalhe, ele desistiu e só pensou em salvar sua própria pele.

— Mas os estábulos dele tinham sido revistados?

— Oh, um velho trapaceiro de cavalos como ele tem muitos truques.

— Mas o senhor não tem medo de deixar o cavalo em poder dele agora, já que ele tem todo o interesse em feri-lo?

— Meu caro amigo, ele o guardará como a menina dos seus olhos. Ele sabe que sua única esperança de clemência é apresentá-lo são e salvo.

— O Coronel Ross não me pareceu um homem propenso a demonstrar muita clemência em qualquer caso.

— O assunto não depende do Coronel Ross. Sigo meus próprios métodos e conto tanto ou tão pouco quanto escolho. Essa é a vantagem de ser não oficial. Não sei se o senhor observou, Watson, mas o modo do Coronel tem sido apenas um pouco desdenhoso comigo. Estou inclinado agora a me divertir um pouco às custas dele. Não diga nada a ele sobre o cavalo.

— Certamente não sem sua permissão.

— E, claro, tudo isso é um ponto muito menor comparado à questão de quem matou John Straker.

— E o senhor vai se dedicar a isso?

— Pelo contrário, ambos voltamos para Londres no trem da noite.

Fiquei pasmo com as palavras do meu amigo. Havíamos passado apenas algumas horas em Devonshire, e o fato de ele desistir de uma investigação que tinha começado tão brilhantemente me parecia incompreensível. Não consegui extrair mais nenhuma palavra dele até voltarmos à casa do treinador. O coronel e o inspetor nos aguardavam na sala.

‑ Meu amigo e eu retornaremos à cidade de trem noturno, disse Holmes. ‑ Tivemos um agradável pequeno fôlego do seu belo ar de Dartmoor.

O inspetor abriu os olhos, e o lábio do coronel curvou‑se em um escárnio.

‑ Então você desiste de prender o assassino do pobre Straker, disse ele.

Holmes deu de ombros. ‑ Certamente há graves dificuldades no caminho, disse ele. ‑ Contudo, tenho toda a esperança de que o seu cavalo começará a correr na terça‑feira, e peço que tenha o jóquei pronto. Posso pedir uma fotografia do Sr. John Straker?

O inspetor tirou uma foto de um envelope e entregou‑a a ele.

‑ Meu caro Gregory, você antecipa todas as minhas necessidades. Se me permite que espere aqui um instante, tenho uma pergunta que gostaria de fazer à criada.

‑ Devo dizer que estou bastante decepcionado com o nosso consultor de Londres, afirmou o coronel Ross, de modo brusco, enquanto meu amigo deixava a sala. ‑ Não vejo que tenhamos avançado em relação a quando ele chegou.

‑ Ao menos você tem a garantia de que o seu cavalo correrá, respondi.

‑ Sim, tenho a garantia, disse o coronel, com um encolher de ombros. ‑ Preferiria ter o cavalo.

Estava prestes a formular uma defesa ao meu amigo quando ele entrou novamente na sala.

‑ Agora, senhores, disse ele, estou pronto para Tavistock.

Ao entrarmos na carruagem, um dos cocheiros das estábulos segurou a porta para nós. Uma ideia súbita pareceu surgir em Holmes; ele se inclinou e tocou o rapaz na manga.

‑ Você tem algumas ovelhas no pasto, perguntou. ‑ Quem cuida delas?

‑ Eu, senhor.

‑ Notou algo de estranho nelas ultimamente?

‑ Bem, senhor, nada de grande importância; porém três delas ficaram mancas, senhor.

Pude ver que Holmes estava extremamente satisfeito; ele riu e esfregou as mãos.

‑ Um tiro longo, Watson; um tiro muito longo, disse ele, beliscando meu braço. ‑ Gregory, permita‑me chamar sua atenção para esta epidemia singular entre as ovelhas. Avance, cocheiro!

O coronel Ross ainda mantinha uma expressão que revelava a péssima opinião que nutria da capacidade do meu companheiro, mas vi, pelo rosto do inspetor, que sua atenção havia sido intensamente despertada.

‑ Você considera isso importante? — perguntou ele.

‑ Excedente.

‑ Existe algum ponto ao qual queira chamar minha atenção?

‑ Ao incidente curioso do cão na noite.

‑ O cão não fez nada durante a noite.

‑ Esse foi o incidente curioso, comentou Sherlock Holmes.

Quatro dias depois, Holmes e eu estávamos novamente no trem, a caminho de Winchester para assistir à corrida da Taça Wessex. O coronel Ross nos encontrou, de acordo, fora da estação, e fomos conduzidos em sua carruagem ao hipódromo fora da cidade. Seu rosto estava grave, e seu modo, extremamente frio.

‑ Não vi nada do meu cavalo, disse ele.

‑ Suponho que o reconheceria quando o visse? — indagou Holmes.

O coronel ficou muito irritado. ‑ Estou nos turfes há vinte anos, e nunca antes me fizeram tal pergunta, respondeu ele. ‑ Uma criança saberia reconhecer Silver Blaze, com a testa branca e a perna dianteira manchada.

‑ Como vão as apostas?

‑ Bem, essa é a parte curiosa. Ontem você poderia ter obtido quinze a um, mas o preço tem diminuído cada vez mais, até que agora mal se consegue três a um.

‑ Hum! — exclamou Holmes. — Alguém sabe algo, isso é evidente.

Quando a carruagem parou no recinto próximo à grandiosa arquibancada, olhei para o programa para ver as inscrições. Ele dizia:

Wessex Plate. 50 xelins cada ft h com 1000 xelins adicionados para quatro e cinco anos. Segundo, £300. Terceiro, £200. Novo percurso (uma milha e cinco furlongs). 1. Mr. Heath Newton’s The Negro (chapéu vermelho, jaqueta de canela). 2. Colonel Wardlaw’s Pugilist (chapéu rosa, jaqueta azul e preta). 3. Lord Backwater’s Desborough (chapéu e mangas amarelos). 4. Colonel Ross’s Silver Blaze (chapéu preto, jaqueta vermelha). 5. Duke of Balmoral’s Iris (listras amarelas e pretas). 6. Lord Singleford’s Rasper (chapéu roxo, mangas pretas).

‑ Raspamos o outro e depositamos todas as esperanças na sua palavra, disse o coronel. ‑ Por que, o que é isso? Silver Blaze favorito?

‑ Cinco a quatro contra Silver Blaze! — bradou o cronista. ‑ Cinco a quatro contra Silver Blaze! Cinco a quinze contra Desborough! Cinco a quatro no campo!

‑ Os números estão lá, gritei. ‑ Todos são seis.

‑ Todos são seis? Então meu cavalo está correndo, exclamou o coronel, agitado. ‑ Mas não o vejo. Minhas cores ainda não passaram.

‑ Apenas cinco passaram. Este deve ser ele.

Enquanto eu falava, um poderoso cavalo alazão saiu do recinto de pesagem e galopou ao nosso lado, ostentando nas costas o conhecido combinação preto e vermelho do coronel.

‑ Esse não é o meu cavalo! — gritou o proprietário. ‑ Essa besta não tem um único pelo branco no corpo. O que foi isso que fez, Sr. Holmes?

‑ Bem, bem, vejamos como ele se comporta, respondeu meu amigo, impassível. Por alguns minutos ele observou através do meu binóculo. ‑ Capital! Um início excelente! — exclamou de repente. ‑ Lá vêm eles, contornando a curva!

Da nossa carruagem tínhamos uma vista esplêndida enquanto subiam a reta. Os seis cavalos estavam tão juntos que poderiam ser cobertos por um tapete, mas, a meio caminho, o amarelo do estábulo Mapleton apareceu à frente. Antes que nos alcançassem, porém, o Desborough disparou, e o cavalo do coronel, avançando com ímpeto, cruzou a linha de chegada cerca de seis comprimentos à frente de seu rival, o Iris do duque de Balmoral, que acabou em terceiro.

‑ É a minha corrida, de qualquer forma, — ofegou o coronel, passando a mão pelos olhos. ‑ Confesso que não consigo entender nada disso. Não acha que já manteve seu mistério tempo suficiente, Sr. Holmes?

‑ Certamente, coronel, saberá tudo. Vamos todos dar a volta e observar o cavalo juntos. Aqui está, continuou, enquanto nos dirigíamos ao recinto de pesagem, onde somente os proprietários e seus convidados têm acesso. ‑ Basta lavar-lhe o rosto e a perna com aguardente, e verá que continua sendo o mesmo velho Silver Blaze de sempre.

‑ Você tira o fôlego de mim!

‑ Encontrei‑o nas mãos de um falsificador e tomei a liberdade de conduzi‑lo exatamente como foi entregue.

‑ Meu caro senhor, fez maravilhas. O cavalo parece muito apto e saudável. Nunca esteve melhor na vida. Devo‑lhe mil desculpas por ter duvidado de sua habilidade. Prestou‑me um grande serviço ao recuperar meu cavalo. Faria ainda mais se pudesse capturar o assassino de John Straker.

‑ Fiz isso, disse Holmes tranquilamente.

O coronel e eu o encaramos boquiabertos. ‑ Você o pegou! Onde está, então?

‑ Está aqui.

‑ Aqui! Onde?

‑ Na minha companhia, neste exato momento.

O coronel corou de raiva. ‑ Reconheço que tenho obrigações para consigo, Sr. Holmes, mas devo considerar o que acabou de dizer como uma piada de mau gosto ou um insulto.

Sherlock Holmes riu. ‑ Asseguro‑lhe que não o associei ao crime, coronel, disse ele. ‑ O verdadeiro assassino está imediatamente atrás de você. Ele passou e pousou a mão no pescoço lustroso do puro‑sangue.

‑ O cavalo! — exclamaram o coronel e eu.

‑ Sim, o cavalo. E pode atenuar sua culpa se eu disser que foi em legítima defesa, e que John Straker era um homem totalmente indigno de sua confiança. Mas o sino toca, e, como pretendo ganhar um pouco nesta próxima corrida, deixarei uma explicação detalhada para um momento mais oportuno.

Naquela noite, tínhamos a cabine de um Pullman só para nós enquanto girávamos de volta a Londres, e imagino que a viagem tenha sido curta tanto para o coronel Ross quanto para mim, enquanto escutávamos a narrativa do nosso companheiro sobre os acontecimentos ocorridos nas estábulos de treinamento de Dartmoor na noite de segunda‑feira, e os meios pelos quais os desvendou.

‑ Confesso, disse ele, que todas as teorias que formei a partir dos relatos dos jornais estavam totalmente erradas. Contudo, havia indícios ali, que não tinham sido encobertos por outros detalhes que ocultavam seu verdadeiro sentido. Vim a Devonshire convencido de que Fitzroy Simpson era o verdadeiro culpado, embora, evidentemente, percebesse que as provas contra ele não eram completas. Foi enquanto eu estava na carruagem, ao chegarmos à casa do treinador, que me ocorreu a imensa importância do carneiro ao curry. Lembrem‑se de que eu estava distraído, permanecendo sentado depois que todos desembarcaram. Maravilhava‑me, em minha própria mente, como pude deixar passar um indício tão óbvio.

‑ Confesso, disse o coronel, que ainda hoje não vejo como isso nos ajuda.

‑ Foi o primeiro elo da minha cadeia de raciocínio. Ópio em pó não é de modo algum insípido. O sabor não é desagradável, mas é perceptível. Se fosse misturado a qualquer prato comum, o comedor certamente o detectaria, e provavelmente deixaria de comer. O curry foi exatamente o meio que disfarçaria esse sabor. Por nenhuma hipótese Fitzroy Simpson poderia ter providenciado curry na família do treinador naquela noite, e seria monstruosa coincidência supor que ele trouxesse ópio em pó exatamente na noite em que um prato capaz de mascarar o gosto fosse servido. Isso é impensável. Portanto, Simpson é eliminado do caso, e nossa atenção se volta para Straker e sua esposa, as únicas duas pessoas que poderiam ter escolhido carneiro ao curry para o jantar daquela noite. O ópio foi acrescentado depois que o prato foi reservado ao estábulo‑menino, pois os demais o comeram sem efeitos adversos. Qual deles, então, teve acesso ao prato sem que a criada o visse?

Antes de decidir essa questão, percebi a importância do silêncio do cão; uma única inferência verdadeira sugere outras. O incidente Simpson mostrou‑me que havia um cão nos estábulos e, porém, embora alguém tivesse entrado e tirado um cavalo, ele não latiu o suficiente para despertar os dois rapazes no sótão. Evidentemente, o visitante da meia‑noite era alguém que o cão conhecia bem.

Já estava convencido, ou quase, de que John Straker desceu aos estábulos na calada da noite e retirou Silver Blaze. Para que? Para um propósito desonesto, evidentemente, pois por que drogaria seu próprio estábulo‑menino? Ainda assim, não sabia o motivo. Já houve casos em que treinadores asseguraram grandes somas apostando contra seus próprios cavalos, por intermédio de agentes, e depois os impediam de vencer por fraude. Às vezes, o jóquei é “puxado”; outras vezes, há meios ainda mais sutis. Qual foi o caso aqui? Esperava que o conteúdo dos bolsos de Straker me ajudasse a chegar a uma conclusão.

E assim o fizeram. Não pode esquecer a faca singular encontrada na mão do homem morto, uma faca que certamente nenhum homem são‑senso escolheria como arma. Era, como o Dr. Watson nos contou, um tipo de lâmina usada nas mais delicadas operações cirúrgicas. E seria usada numa operação delicada naquela noite. Deve saber, coronel Ross, com sua vasta experiência em turf, que é possível fazer um leve corte nos tendões da perna de um cavalo, de forma subcutânea, deixando absolutamente nenhum vestígio. Um cavalo tratado assim desenvolveria uma leve claudicação, atribuída a um esforço excessivo ou a um toque de reumatismo, mas nunca a ato criminoso.

‑ Vilão! Canalha! — bradou o coronel.

‑ Temos aqui a explicação de por que John Straker quis levar o cavalo ao páramo. Uma criatura tão vigorosa teria certamente acordado o mais profundo dos dorminhocos ao sentir o corte da faca. Era absolutamente necessário fazê‑lo ao ar livre.

‑ Estava cego! — exclamou o coronel. ‑ Claro que por isso precisava da vela e do fósforo.

‑ Sem dúvida. Mas ao examinar seus pertences, tive a sorte de descobrir não só o método do crime, mas também seus motivos. Como homem do mundo, coronel, sabe que os homens não carregam notas alheias nos bolsos. Temos recursos suficientes para arcar com os nossos. Concluí de imediato que Straker levava uma vida dupla, mantendo um segundo estabelecimento. A fatura mostrava que havia uma senhora envolvida, de gostos caros. Por tão liberal que seja com seus criados, dificilmente esperaríamos que eles comprassem vestidos de caminhada de vinte guineas para suas damas. Interroguei a Sra. Straker sobre o vestido sem que ela soubesse, e, convencido de que nunca lhe chegou, anotei o endereço da millineira, sentindo que, ao contatá‑la com a fotografia de Straker, poderia eliminar facilmente o mítico Derbyshire.

A partir desse momento tudo ficou claro. Straker conduziu o cavalo a um buraco onde sua luz seria invisível. Simpson, ao fugir, deixou cair a gravata, que Straker recolheu — talvez para usá‑la ao amarrar a perna do cavalo. No buraco, posicionou‑se atrás do animal, acendeu uma luz; o animal, assustado com o brilho repentino e com o instinto animal de perceber que algo maléfico se aproximava, reagiu, e o ferrado de aço acertou Straker na testa. Ele já, apesar da chuva, havia tirado o sobretudo para executar sua delicada tarefa; ao cair, a faca cortou sua coxa. Está claro?

‑ Maravilhoso! — exclamou o coronel. ‑ Maravilhoso! Você deveria ter estado lá!

‑ Meu tiro final foi, confesso, bastante longo. Percebi que um homem tão astuto quanto Straker não praticaria esse delicado corte nos tendões sem alguma prática. Em que poderia praticar? Olhei para as ovelhas e fiz uma pergunta que, para minha surpresa, confirmou minha suspeita.

Quando voltei a Londres, procurei a millineira, que reconheceu Straker como um excelente cliente chamado Derbyshire, casado com uma esposa muito elegante, apaixonada por vestidos caros. Não tenho dúvidas de que essa mulher o afundou em dívidas, levando‑o a esse plano miserável.

‑ Você explicou tudo, menos uma coisa, — gritou o coronel. ‑ Onde estava o cavalo?

‑ Ah, fugiu, e foi cuidado por um dos seus vizinhos. Precisamos de uma anistia nessa direção, creio. Isto é Clapham Junction, se não me engano, e estaremos em Victoria em menos de dez minutos. Se quiser fumar um charuto em nossos quartos, coronel, ficarei feliz em lhe dar quaisquer outros detalhes que lhe interessem.

II. A Aventura da Caixa de Papelão

Ao escolher alguns casos típicos que ilustram as notáveis qualidades mentais do meu amigo, Sherlock Holmes, procurei, na medida do possível, selecionar aqueles que apresentassem o mínimo de sensacionalismo, oferecendo ao mesmo tempo um campo justo para seus talentos. Contudo, é infelizmente impossível separar totalmente o sensacional do criminal, e o cronista fica diante do dilema de sacrificar detalhes essenciais e dar uma impressão falsa do problema, ou usar material que o acaso, e não a escolha, lhe forneceu. Com esta breve introdução passo às minhas notas sobre o que se revelou uma estranha, embora terrivelmente peculiar, sequência de eventos.

Era um dia escaldante de agosto. Baker Street estava como um forno, e o brilho da luz solar sobre os tijolos amarelos da casa em frente à rua machucava os olhos. Era difícil acreditar que aquelas eram as mesmas paredes que se projetavam tão sombriamente através das neblinas do inverno. As persianas estavam meio baixadas, e Holmes estava encolhido no sofá, lendo e relendo uma carta que recebera pelo correio matinal. Para mim, meu período de serviço na Índia me treinara a tolerar melhor o calor do que o frio, e um termômetro marcando noventa não era incômodo. Mas o jornal da manhã não apresentava nada de interessante. O Parlamento havia se levantado. Todos estavam fora da cidade, e eu ansiava pelos bosques da New Forest ou pelas pedras de Southsea. Uma conta bancária esvaziada me obrigara a adiar as férias, e quanto ao meu companheiro, nem o campo nem o mar lhe despertavam a menor atração. Ele amava estar no centro de cinco milhões de pessoas, com seus filamentos se estendendo e percorrendo-as, respondendo a cada pequeno rumor ou suspeita de crime não resolvido. A apreciação da natureza não encontrava espaço entre seus inúmeros dons, e sua única mudança ocorria quando ele desviava sua mente do vilão da cidade para perseguir seu irmão do campo.

Ao perceber que Holmes estava absorvido demais para conversar, deixei o papel inútil de lado e, recostado na cadeira, mergulhei numa profunda reflexão. De repente, a voz do meu companheiro rompeu meus pensamentos:

‑ Você tem razão, Watson, disse ele. ‑ Parece realmente um modo pretensioso de resolver uma disputa.

‑ Mais pretensioso! — exclamei, e então, percebendo como ele ecoara o pensamento mais íntimo da minha alma, sentei‑me na cadeira, admirado.

‑ O que é isto, Holmes? — gritei. ‑ Isso vai além de tudo o que eu poderia imaginar.

Ele riu, às gargalhadas, da minha perplexidade.

‑ Lembra‑se, disse ele, que há algum tempo, quando lhe li um trecho de um dos esboços de Poe, no qual um raciocinador perspicaz segue os pensamentos não ditos de seu companheiro, você se inclinou a tratar o assunto como mero tour‑de‑force do autor. Quando comentei que eu constantemente faço o mesmo, você demonstrou incredulidade.

‑ Ah, não!

‑ Talvez não com a língua, meu caro Watson, mas certamente com as sobrancelhas. Quando o vi largar o papel e embarcar numa cadeia de pensamentos, fiquei muito feliz em ter a oportunidade de lê‑la, e, eventualmente, de rompê‑la, como prova de que eu estava em sintonia com você.

Mas ainda estava longe de ficar satisfeito. ‑ No exemplo que me leu, — disse eu, ‑ o raciocinador tirou suas conclusões das ações do homem que observava. Se não me engano, ele tropeçou numa pilha de pedras, levantou os olhos ao céu, etc. Mas eu tenho estado quieto na minha cadeira, e que pistas eu poderia lhe ter dado?

‑ Você faz injustiça a si mesmo. As feições foram dadas ao homem como meio de expressar suas emoções, e as suas são servas fiéis.

‑ Quer dizer que leu minha cadeia de pensamentos pelas minhas feições?

‑ Suas feições e, sobretudo, seus olhos. Talvez não se lembre como começou sua divagação?

‑ Não, não me lembro.

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Então lhe direi. Depois de lançar o seu papel, que foi a ação que chamou minha atenção para você, sentou‑se por meio minuto com uma expressão vazia. Então seus olhos fixaram‑se no seu retrato recém‑emoldurado do general Gordon, e vi pela mudança em seu rosto que um fio de pensamento havia sido iniciado. Mas não levou muito longe. Seus olhos atravessaram para o retrato sem moldura de Henry Ward Beecher que está sobre o topo de seus livros. Então olhou para a parede, e, claro, seu sentido era óbvio. Pensava que, se o retrato fosse emoldurado, cobriria justamente aquele espaço vazio e se correspondia com a imagem de Gordon ali.

“Você me segue maravilhosamente!” exclamou‑eu.

“Até aqui dificilmente poderia errar. Mas agora seus pensamentos voltaram a Beecher, e olhou atentamente como se estudasse o caráter em seus traços. Então seus olhos deixaram de franzir, mas continuou a olhar através, e seu rosto ficou pensativo. Recordava os incidentes da carreira de Beecher. Eu sabia bem que não podia fazer isso sem pensar na missão que ele empreendeu em nome do Norte na época da Guerra Civil, pois lembro‑lhe de expressar sua indignação apaixonada quanto à forma como foi recebido pelos mais turbulentos de nosso povo. Sentiu‑se tão forte sobre isso que sabia que não poderia pensar em Beecher sem pensar também nisso. Quando, um momento depois, vi seus olhos vagarem longe da imagem, suspeitei que sua mente se voltara agora para a Guerra Civil, e ao observar que seus lábios se fecharam, seus olhos centelharam e suas mãos cerraram, tive certeza de que estava realmente pensando na galhardia mostrada por ambos os lados naquela luta desesperada. Mas então, outra vez, seu rosto ficou mais triste; balançou a cabeça. Meditava sobre a tristeza, o horror e o desperdício inútil de vidas. Sua mão se dirigiu à sua velha ferida e um sorriso tremulou em seus lábios, mostrando‑me que o lado ridículo desse método de resolver questões internacionais se impôs à sua mente. Nesse ponto concordei que era absurdo e alegrei‑me ao constatar que todas as minhas deduções estavam corretas.

“Absolutamente!” respondi. “E agora que explicou, confesso que estou tão surpreendido quanto antes.”

“Foi muito superficial, meu caro Watson, asseguro‑lhe. Não teria lhe imposto tal distração se não tivesse mostrado certa incredulidade no outro dia. Mas tenho aqui nas mãos um pequeno problema que pode revelar‑se mais difícil de resolver do que meu pequeno ensaio de leitura mental. Observou‑o no jornal um curto parágrafo referente ao notável conteúdo de um pacote enviado pelos correios à senhorita Cushing, da Cross Street, Croydon?”

“Não, não vi nada.”

“Ah! então deve ter passado despercebido. Passe‑me‑o. Aqui está, sob a coluna financeira. Talvez possa lê‑lo em voz alta.”

Peguei o papel que ele me devolvera e li o parágrafo indicado. Tinha o título “Um Pacote Horrendo”.

“Senhorita Susan Cushing, residente na Cross Street, Croydon, foi feita vítima do que deve ser considerado uma piada prática particularmente repugnante, a não ser que algum sentido mais sinistro se prove ligado ao incidente. Às duas horas da tarde de ontem, um pequeno pacote, embrulhado em papel pardo, foi entregue pelo carteiro. Dentro havia uma caixa de papelão, preenchida com sal grosso. Ao esvaziar‑a, a senhorita Cushing ficou horrorizada ao encontrar dois ouvidos humanos, aparentemente recém‑cortados. A caixa fora enviada por correio de pacote de Belfast na manhã anterior. Não há indicação de quem a enviou, e o caso se torna ainda mais misterioso, pois a senhorita Cushing, dama solteira de cinquenta anos, leva uma vida extremamente reservada, tendo tão poucos conhecidos ou correspondentes que raramente recebe algo pelos correios. Alguns anos atrás, porém, quando residia em Penge, alugava quartos em sua casa a três jovens estudantes de medicina, dos quais se viu obrigada a desfazer‑se devido aos seus hábitos ruidosos e irregulares. A polícia opina que tal ultraje pode ter sido perpetrado contra a senhorita Cushing por esses jovens, que lhe guardam rancor e que esperavam assustá‑la enviando‑lhe esses vestígios das salas de dissecção. Alguma probabilidade dá suporte à teoria pelo fato de um desses estudantes ter vindo do norte da Irlanda, e, ao melhor saber da senhorita Cushing, de Belfast. Enquanto isso, o caso está sendo ativamente investigado, o Sr. Lestrade, um dos mais astutos de nossos detetives, estando à frente da investigação.”

“Tanto sobre o Daily Chronicle,” disse Holmes ao eu terminar a leitura. “Agora, sobre nosso amigo Lestrade. Recebi dele uma nota esta manhã, na qual diz: ‘Creio que este caso é muito da sua especialidade. Temos grande esperança de esclarecer o assunto, mas encontramos certa dificuldade em encontrar algo que sirva de pista. Evidentemente, enviamos um telegrama ao correio de Belfast, mas naquele dia foram entregues muitos pacotes, e não há modo de identificar este em particular, nem de recordar o remetente. A caixa contém meio quilo de tabaco melado e não nos ajuda em nada. A teoria dos estudantes de medicina ainda me parece a mais plausível, mas se tiver algumas horas livres ficarei muito feliz em encontrá‑lo aqui. Estarei na casa ou na delegacia o dia todo.’ O que me diz, Watson? Consegue superar o calor e vir comigo a Croydon, na esperança de um caso para seus anais?”

“Ansiava por algo para fazer.”

“Então terá isso. Chame os nossos botas e peça‑lhes que chamem um táxi. Voltarei num instante, depois de trocar o roupão e encher o estojo de cigarros.”

Uma chuva fina caiu enquanto estávamos no trem, e o calor era bem menos opressivo em Croydon que na cidade. Holmes enviara um telegrama, de modo que Lestrade, tão esguio, tão elegante e tão sagaz como sempre, aguardava‑nos na estação. Uma caminhada de cinco minutos levou‑nos à Cross Street, onde a senhorita Cushing residia.

Era uma rua muito longa de casas de tijolo de dois andares, arrumadas e primorosas, com degraus de pedra alva e pequenos grupos de mulheres aventalhadas cochichando nas portas. A meio caminho, Lestrade parou e bateu em uma porta, que foi aberta por uma jovem criada. A senhorita Cushing estava sentada na sala da frente, para onde fomos conduzidos. Era uma mulher de rosto plácido, com olhos grandes e suaves, e cabelos grisalhos que caíam curvados sobre as têmporas de cada lado. Um antimacassar trabalhado repousava em seu colo e uma cesta de sedas coloridas estava sobre um banquinho ao seu lado.

“Estão no outhouse, essas coisas horríveis,” disse ela quando Lestrade entrou. “Queria que as retirasse de vez.”

“Assim o farei, senhorita Cushing. Mantive‑as aqui apenas até que meu amigo, o Sr. Holmes, as visse na sua presença.”

“Por que na minha presença, senhor?”

“Caso ele queira fazer alguma pergunta.”

“Qual a utilidade de me fazer perguntas quando lhe digo que nada sei sobre o assunto?”

“Exactamente, senhora,” disse Holmes em seu tom suave. “Não tenho dúvidas de que já foi suficientemente incomodada por este negócio.”

“De fato, senhor. Sou uma mulher tranquila e levo uma vida reservada. É algo novo para mim ver meu nome nos jornais e encontrar a polícia em minha casa. Não quero essas coisas aqui, Sr. Lestrade. Se quiser vê‑las, terá de ir ao outhouse.”

Era um pequeno galpão no jardim estreito que se estendia atrás da casa. Lestrade entrou e trouxe uma caixa de cartão amarelo, com um pedaço de papel pardo e um fio. Havia um banco no fim do caminho, e todos nos sentamos enquanto Holmes examinava, um a um, os artigos que Lestrade lhe entregara.

“O fio é extremamente interessante,” comentou, segurando‑o à luz e farejando‑o. “O que faz desse fio, Lestrade?”

“Foi embebido em alcatrão.”

“Precisamente. É um pedaço de cordão embebido em alcatrão. Também notou‑se que a senhora Cushing cortou o cordão com tesoura, como se vê pela dupla fratura em cada extremidade. Isso é importante.”

“Não vejo a importância,” disse Lestrade.

“A importância reside no fato de que o nó permanece intacto, e que esse nó tem um caráter peculiar.”

“É muito bem atado. Já fiz uma anotação a esse respeito,” disse Lestrade com complacência.

“Então, ponto final ao fio,” disse Holmes, sorrindo, “e passemos ao invólucro da caixa. Papel pardo, com um odor distinto de café. O que, não observou? Não há dúvida. Endereço impresso em caracteres um tanto desordenados: ‘Miss S. Cushing, Cross Street, Croydon.’ Escrito com uma pena de ponta larga, provavelmente um J, e com tinta muito inferior. A palavra ‘Croydon’ foi originalmente escrita com um ‘i’, que foi mudado para ‘y’. O pacote foi dirigido, então, por um homem — a impressão é claramente masculina — de educação limitada e desconhecedor da cidade de Croydon. Até aqui tudo bem! A caixa é um meio‑quilo amarelo de melado, sem nada distintivo além de duas marcas de polegar no canto inferior esquerdo. Está cheia de sal grosso da qualidade usada para conservar peles e outros fins comerciais mais rústicos. E embutidos nela estão estes enclausuramentos muito singulares.”

Retirou os dois ouvidos enquanto falava, e, colocando uma tábua sobre o joelho, examinou‑os minuciosamente, enquanto Lestrade e eu, inclinados de cada lado dele, alternávamos os olhares entre esses terríveis relicários e o rosto pensativo e ávido do nosso companheiro. Por fim devolveu‑os à caixa mais uma vez e sentou‑se por um tempo em profunda meditação.

“Observou, naturalmente,” disse ele finalmente, “que os ouvidos não são um par.”

“Sim, notei isso. Mas se fosse a piada prática de alguns estudantes das salas de dissecção, seria tão fácil para eles enviarem dois ouvidos desiguais quanto um par.”

“Precisamente. Mas isto não é uma piada prática.”

“Tem certeza disso?”

“A presunção está fortemente contra isso. Corpos nas salas de dissecção são injetados com fluido preservativo. Esses ouvidos não apresentam sinais disso. São frescos, também. Foram cortados com um instrumento rombo, o que dificilmente ocorreria se um estudante os tivesse feito. Novamente, carbol ou álcool retificado seriam os conservantes que sugeririam aos médicos, certamente não o sal grosso. Repito, não há piada prática aqui, mas investigamos um crime sério.”

Um arrepio vago percorreu‑me ao ouvir as palavras do meu companheiro e ver a gravidade austera que endurecia seus traços. Essa preliminar brutal parecia projetar algum horror estranho e inexplicável ao fundo. Lestrade, porém, balançou a cabeça como quem só está meio convencido.

“Existem objeções à teoria da piada, sem dúvida,” disse ele, “mas há razões muito mais fortes contra a outra. Sabemos que esta mulher levou uma vida muito tranquila e respeitável em Penge e aqui nos últimos vinte anos. Mal se ausentou de casa por um dia nesse período. Por que, então, algum criminoso lhe enviaria as provas de sua culpa, sobretudo que, a menos que seja uma atriz consumada, compreende tão pouco do assunto quanto nós?”

“Esse é o problema que devemos resolver,” respondeu Holmes, “e, por minha parte, partirei presumindo que meu raciocínio está correto, e que foi cometido um duplo homicídio. Um desses ouvidos pertence a uma mulher, pequeno, finamente formado, e perfurado para um brinco. O outro a um homem, bronzeado, descolorido, também perfurado para um brinco. Presumivelmente essas duas pessoas já estão mortas, ou já teríamos ouvido sua história. Hoje é sexta‑feira. O pacote foi postado na manhã de quinta‑feira. A tragédia, pois, ocorreu na quarta ou terça‑feira ou antes. Se as duas pessoas foram assassinadas, quem além do assassino enviaria este sinal de sua obra à senhorita Cushing? Podemos supor que o remetente do pacote seja o homem que buscamos. Mas ele deve ter alguma forte razão para enviar-lhe este pacote. Qual seria a razão? Deve ter sido para dizer-lhe que o feito estava concluído! Ou para lhe causar dor, talvez. Mas, nesse caso, ela saberia quem foi. Ela sabe? Duvido. Se soubesse, por que chamaria a polícia? Poderia ter enterrado os ouvidos, e ninguém perceberia. Isso seria o que faria se desejasse proteger o criminoso. Mas se não deseja protegê‑lo, revelaria seu nome. Há um emaranhado aqui que precisa ser desfeito.” Falava em voz alta e rápida, olhando fixamente acima da cerca do jardim, mas então saltou de pé e dirigiu‑se para a casa.

“Tenho algumas perguntas para fazer à senhorita Cushing,” disse ele.

“Nesse caso posso deixá‑lo aqui,” disse Lestrade, “pois tenho outro pequeno negócio a tratar. Creio que não há mais nada a aprender com a senhorita Cushing. Encontrar‑me‑á na delegacia.”

“Veremos ao passar para a estação,” respondeu Holmes. Um instante depois ele e eu estávamos de volta à sala da frente, onde a senhora impassível ainda trabalhava quieta em seu antimacassar. Ela o deixou em seu colo ao entrarmos e nos fitou com seus olhos azuis francos e inquisitivos.

“Estou convencida, senhor,” disse ela, “de que este assunto é um engano, e que o pacote nunca foi destinado a mim. Repito isso várias vezes ao cavalheiro de Scotland Yard, mas ele simplesmente ri de mim. Não tenho inimigo no mundo, ao que sei, então por que alguém jogaria comigo tal truque?”

“Estou a chegar à mesma opinião, senhorita Cushing,” disse Holmes, sentando‑se ao seu lado. “Penso que é mais que provável——” fez uma pausa, e surpreendi‑me ao notar que ele fitava com singular intensidade o perfil da senhora. Surpresa e satisfação foram, por um instante, legíveis em seu rosto ávido, embora, ao olhar ao redor para descobrir a causa do silêncio, ele se tornara tão recatado como sempre. Olhei fixamente para o seu cabelo grisalho e liso, seu chapéu aparado, seus pequenos brincos dourados, seus traços plácidos; mas nada pude ver que justificasse o evidente entusiasmo do meu companheiro.

“Havia uma ou duas perguntas——”

“Ah, estou cansada de perguntas!” exclamou a senhorita Cushing impaciente.

“Vê‑se que tem duas irmãs, creio eu.”

“Como pode saber disso?”

“Observei instantaneamente ao entrar que há um conjunto de três retratos de damas na lareira, um dos quais é indubitavelmente a senhora, enquanto as outras são tão semelhantes que não há dúvida do parentesco.”

“Sim, está certa. Essas são minhas irmãs, Sarah e Mary.”

“E aqui ao meu cotovelo há outro retrato, tirado em Liverpool, da sua irmã mais nova, acompanhada de um homem que parece ser um comissário pelo uniforme. Percebo que ela era solteira na época.”

“É muito rápida na observação.”

“Esse é o meu ofício.”

“Bem, está certa. Mas ela casou‑se com o Sr. Browner alguns dias depois. Ele estava na linha sul‑americana quando a foto foi tirada, mas era tão afeiçoado a ela que não podia suportar deixá‑la por tanto tempo, e embarcou nos barcos Liverpool e London.”

“Ah, o Conquistador, talvez?”

“Não, o May Day, foi o último que ouvi. Jim desceu aqui para me ver uma vez. Foi antes de ele quebrar a promessa; mas depois ele sempre bebia quando estava em terra, e um pequeno copo o deixava estupefato, olhando fixamente. Ah! foi um dia terrível quando voltou a levantar um copo. Primeiro me abandonou, depois brigou com Sarah, e agora que Mary deixou de escrever, não sabemos como vão as coisas entre eles.”

Era evidente que a senhorita Cushing havia encontrado um assunto que lhe era muito caro. Como a maioria das pessoas que levam uma vida solitária, era tímida a princípio, mas acabou tornando‑se extremamente comunicativa. Contou‑nos muitos detalhes sobre seu cunhado, o comissário, e depois, divagando sobre seus antigos locatários, os estudantes de medicina, deu‑nos um longo relato de suas delinquências, com nomes e hospitais. Holmes ouviu atentamente tudo, lançando perguntas de tempos em tempos.

“Sobre a sua segunda irmã, Sarah,” disse ele, “pergunto‑me, já que ambas são damas solteiras, por que não vivem juntas?”

“Ah! Não conhece o temperamento de Sarah, ou nunca se perguntaria isso. Tentei quando vim a Croydon, e ficamos juntas até cerca de dois meses atrás, quando nos separamos. Não quero dizer nada contra minha própria irmã, mas Sarah sempre foi intrometida e difícil de agradar.”

“Diz que ela brigou com seus parentes de Liverpool.”

“Sim, foram os melhores amigos em certa altura. Por que, ela foi até lá para viver perto deles. E agora não tem palavra suficientemente dura para Jim Browner. Nos últimos seis meses que esteve aqui, só falava dele, do seu beber e dos seus hábitos. Suspeito que ele a pegou mexendo, e lhe deu um pouco de sua mente, e foi aí que tudo começou.”

“Obrigado, senhorita Cushing,” disse Holmes, levantando‑se e curvando‑se. “Sua irmã Sarah vive, creio eu, na New Street, Wallington? Adeus, e lamento muito que tenha sido incomodada por um caso com o qual, como diz, nada tem a ver.”

Um táxi passava quando saímos, e Holmes apanhou‑o.

“Quão longe até Wallington?” perguntou.

“Apenas cerca de uma milha, senhor.”

“Muito bem. Entre, Watson. Devemos agir enquanto o ferro está quente. Por simples que seja o caso, houve um ou dois detalhes muito instrutivos. Pare num escritório de telégrafo ao passar, motorista.”

Holmes enviou um curto telegrama e, pelo resto da condução, reclinou‑se no táxi, com o chapéu inclinado sobre o nariz para proteger o rosto do sol. Nosso motorista parou diante de uma casa que não era muito diferente da que acabáramos de deixar. Meu companheiro mandou‑lhe esperar, e, com a mão sobre a batente, a porta abriu‑se e apareceu um jovem cavalheiro grave, vestido de preto, com um chapéu muito reluzente, no degrau.

“A senhorita Cushing está em casa?” perguntou Holmes.

“A senhorita Sarah Cushing está extremamente enferma,” respondeu ele. “Sofre desde ontem de graves sintomas cerebrais. Como seu conselheiro médico, não posso admitir que alguém a veja. Recomendo que volte em dez dias.” Ele tirou as luvas, fechou a porta e marchou pela rua.

“Bem, se não podemos, não podemos,” disse Holmes, alegremente.

“Talvez ela não pudesse ou não quisesse lhe dizer muito.”

“Não desejei que me dissesse nada. Só queria vê‑la. Contudo, acho que já obtive tudo o que quero. Leve‑nos a um hotel decente, motorista, onde possamos almoçar, e depois iremos ao Sr. Lestrade na delegacia.”

Fizemos uma refeição agradável juntos, durante a qual Holmes não falou de outra coisa senão violinos, narrando com grande exultação como comprara o seu próprio Stradivarius, que valia pelo menos quinhentas guinéus, na loja de um judeu em Tottenham Court Road por cinquenta e cinco xelins. Isso levou-o a Paganini, e sentamo-nos durante uma hora com uma garrafa de clarete enquanto ele me contava anedota após anedota sobre aquele homem extraordinário. A tarde estava bem avançada e o brilho quente suavizara-se num brilho suave antes de nos encontrarmos na esquadra da polícia. Lestrade esperava por nós à porta.

"Um telegrama para o senhor, Sr. Holmes", disse ele.

"Ah! É a resposta!" Ele rasgou-o, lançou-lhe um olhar e amarrotou-o para o bolso. "Está tudo bem", disse ele.

"Descobriu alguma coisa?"

"Descobri tudo!"

"O quê!" Lestrade olhou para ele com espanto. "Está a brincar."

"Nunca fui tão sério na minha vida. Um crime chocante foi cometido e penso que agora desvendei cada detalhe do mesmo."

"E o criminoso?"

Holmes rabiscou algumas palavras no verso de um dos seus cartões de visita e atirou-o para Lestrade.

"Esse é o nome", disse ele. "Não poderá efetuar uma detenção antes de amanhã à noite, no mínimo. Preferia que não mencionasse o meu nome de todo em ligação com o caso, pois prefiro ser associado apenas àqueles crimes que apresentam alguma dificuldade na sua resolução. Vamos, Watson." Afastamo-nos juntos em direção à estação, deixando Lestrade ainda a olhar com um rosto encantado para o cartão que Holmes lhe atirara.

"O caso", disse Sherlock Holmes enquanto conversávamos sobre os nossos charutos naquela noite nos nossos aposentos em Baker Street, "é um daqueles em que, tal como nas investigações que registou sob os nomes de 'Um Estudo em Vermelho' e 'O Signo dos Quatro', fomos obrigados a raciocinar de trás para a frente, dos efeitos para as causas. Escrevi a Lestrade pedindo-lhe que nos forneça os detalhes que agora faltam, e que ele só obterá depois de ter capturado o seu homem. Isso pode ser confiado a ele com segurança, pois, embora seja absolutamente desprovido de razão, é tão tenaz como um buldogue quando percebe o que tem de fazer e, na verdade, é precisamente esta tenacidade que o levou ao topo na Scotland Yard."

"O seu caso não está completo, então?" perguntei.

"Está bastante completo no essencial. Sabemos quem é o autor do negócio revoltante, embora uma das vítimas ainda nos escape. Naturalmente, formou as suas próprias conclusões."

"Presumo que este Jim Browner, o despenseiro de um barco de Liverpool, seja o homem que o senhor suspeita?"

"Oh! É mais do que uma suspeita."

"E, no entanto, não consigo ver nada a não ser indicações muito vagas."

"Pelo contrário, para mim nada poderia ser mais claro. Deixe-me rever os passos principais. Abordámos o caso, recorda-se, com uma mente absolutamente em branco, o que é sempre uma vantagem. Não tínhamos formado teorias. Estávamos simplesmente lá para observar e tirar inferências das nossas observações. O que vimos primeiro? Uma senhora muito plácida e respeitável, que parecia totalmente inocente de qualquer segredo, e um retrato que me mostrou que ela tinha duas irmãs mais novas. Passou-me instantaneamente pela mente que a caixa poderia ter sido destinada a uma delas. Deixei a ideia de lado como algo que poderia ser refutado ou confirmado à nossa vontade. Depois fomos ao jardim, como se recorda, e vimos o conteúdo muito singular da pequena caixa amarela."

"O fio era da qualidade que é usada pelos fabricantes de velas a bordo de navios, e de imediato um bafo de mar era percetível na nossa investigação. Quando observei que o nó era um daqueles popular entre os marinheiros, que o embrulho tinha sido despachado num porto e que a orelha masculina estava furada para um brinco, o que é muito mais comum entre marinheiros do que entre pessoas da terra, tive a certeza de que todos os atores da tragédia se encontravam entre as nossas classes marítimas."

"Quando examinei o endereço do pacote, observei que era para a Srta. S. Cushing. Ora, a irmã mais velha seria, naturalmente, a Srta. Cushing, e embora a sua inicial fosse 'S', poderia pertencer a uma das outras também. Nesse caso, teríamos de começar a nossa investigação a partir de uma base totalmente nova. Fui, portanto, à casa com a intenção de esclarecer este ponto. Estava prestes a assegurar à Srta. Cushing que estava convencido de que tinha sido cometido um erro quando, talvez se recorde, parei subitamente. O facto era que tinha acabado de ver algo que me encheu de surpresa e, ao mesmo tempo, estreitou imensamente o campo da nossa investigação."

"Como médico, sabe, Watson, que não há parte do corpo que varie tanto como a orelha humana. Cada orelha é, por norma, bastante distinta e difere de todas as outras. No 'Anthropological Journal' do ano passado, encontrará duas curtas monografias da minha autoria sobre o assunto. Tinha, portanto, examinado as orelhas na caixa com os olhos de um perito e notado cuidadosamente as suas particularidades anatómicas. Imagine a minha surpresa, então, quando ao olhar para a Srta. Cushing percebi que a sua orelha correspondia exatamente à orelha feminina que eu tinha acabado de inspecionar. O assunto estava inteiramente para além da coincidência. Havia o mesmo encurtamento do pavilhão, a mesma curva larga do lóbulo superior, a mesma circunvolução da cartilagem interna. Em todos os aspetos essenciais, era a mesma orelha."

"Claro que vi de imediato a enorme importância da observação. Era evidente que a vítima era uma parente de sangue e, provavelmente, muito próxima. Comecei a falar-lhe sobre a sua família, e recorda-se que ela nos deu de imediato alguns detalhes extremamente valiosos."

"Em primeiro lugar, o nome da irmã era Sarah e o seu endereço tinha, até recentemente, sido o mesmo, pelo que era bastante óbvio como o erro tinha ocorrido e a quem o pacote se destinava. Depois ouvimos falar deste despenseiro, casado com a terceira irmã, e soubemos que ele tinha estado em tempos tão íntimo da Srta. Sarah que ela tinha ido a Liverpool para estar perto dos Browner, mas uma zanga separou-os depois. Esta zanga pôs fim a todas as comunicações durante alguns meses, pelo que, se Browner tivesse ocasião de enviar um pacote à Srta. Sarah, tê-lo-ia feito sem dúvida para o seu antigo endereço."

"E agora o assunto começava a desenrolar-se maravilhosamente. Tínhamos sabido da existência deste despenseiro, um homem impulsivo, de paixões fortes — recorda-se que ele deixou o que devia ser um posto muito superior para estar mais perto da mulher — sujeito, também, a acessos ocasionais de bebedeira. Tínhamos razões para acreditar que a sua esposa tinha sido assassinada e que um homem — presumivelmente um homem do mar — tinha sido assassinado ao mesmo tempo. O ciúme, naturalmente, sugere-se de imediato como o motivo do crime. E por que haveriam estas provas do ato de ser enviadas à Srta. Sarah Cushing? Provavelmente porque, durante a sua residência em Liverpool, ela teve alguma mão em provocar os eventos que levaram à tragédia. Observará que esta linha de barcos faz escala em Belfast, Dublin e Waterford; pelo que, presumindo que Browner tivesse cometido o ato e tivesse embarcado de imediato no seu vapor, o 'May Day', Belfast seria o primeiro lugar onde ele poderia despachar o seu terrível pacote."

"Uma segunda solução era, nesta fase, obviamente possível, e embora eu a considerasse extremamente improvável, estava determinado a elucidá-la antes de ir mais longe. Um amante rejeitado poderia ter matado o Sr. e a Sra. Browner, e a orelha masculina poderia ter pertencido ao marido. Havia muitas objeções graves a esta teoria, mas era concebível. Enviei, portanto, um telegrama ao meu amigo Algar, da polícia de Liverpool, e pedi-lhe que descobrisse se a Sra. Browner estava em casa e se Browner tinha partido no 'May Day'. Depois fomos a Wallington visitar a Srta. Sarah."

"Eu estava curioso, em primeiro lugar, por ver até que ponto a orelha da família tinha sido reproduzida nela. Depois, claro, ela poderia dar-nos informações muito importantes, mas não estava otimista de que o fizesse. Ela devia ter ouvido falar do caso no dia anterior, uma vez que todo o Croydon fervilhava com ele, e ela seria a única a ter percebido a quem o pacote se destinava. Se ela estivesse disposta a ajudar a justiça, provavelmente já teria comunicado à polícia. No entanto, era claramente o nosso dever vê-la, por isso fomos. Descobrimos que a notícia da chegada do pacote — pois a sua doença datava dessa altura — teve tal efeito nela que lhe provocou uma febre cerebral. Estava mais claro do que nunca que ela compreendia o seu significado total, mas igualmente claro que teríamos de esperar algum tempo por qualquer assistência da sua parte."

"No entanto, éramos realmente independentes da sua ajuda. As nossas respostas esperavam-nos na esquadra, para onde eu tinha instruído Algar a enviá-las. Nada poderia ser mais conclusivo. A casa da Sra. Browner estava fechada há mais de três dias e os vizinhos eram da opinião de que ela tinha ido para o sul visitar os seus parentes. Foi confirmado nos escritórios de navegação que Browner tinha partido a bordo do 'May Day' e calculo que ele chegue ao Tamisa amanhã à noite. Quando ele chegar, será recebido pelo obtuso mas resoluto Lestrade, e não tenho dúvidas de que teremos todos os nossos detalhes preenchidos."

Sherlock Holmes não ficou desapontado nas suas expectativas. Dois dias depois, recebeu um envelope volumoso, que continha uma nota curta do detetive e um documento dactilografado, que cobria várias páginas de papel de escrita.

"Lestrade apanhou-o, sem dúvida", disse Holmes, olhando para mim. "Talvez lhe interesse ouvir o que ele diz."

"Meu caro Sr. Holmes — De acordo com o esquema que tínhamos formado para testar as nossas teorias" — "o 'nós' é bastante elegante, Watson, não é?" — "fui ontem às 18h00 ao Albert Dock e subi a bordo do S.S. May Day, pertencente à Liverpool, Dublin, and London Steam Packet Company. Ao investigar, descobri que havia um despenseiro a bordo com o nome de James Browner e que ele tinha agido durante a viagem de uma forma tão extraordinária que o capitão tinha sido obrigado a dispensá-lo das suas funções. Ao descer para o seu camarote, encontrei-o sentado sobre um baú com a cabeça enterrada nas mãos, balançando-se para a frente e para trás. É um tipo grande e poderoso, de rosto barbeado e muito moreno — um pouco como Aldridge, que nos ajudou no caso da lavandaria falsa. Ele saltou quando soube do meu motivo, e eu tinha o apito nos lábios para chamar um par de polícias fluviais, que estavam ao virar da esquina, mas ele parecia não ter forças e estendeu as mãos calmamente o suficiente para as algemas. Levamo-lo para as celas, e a sua mala também, pois pensámos que pudesse haver algo incriminatório; mas, tirando uma faca grande e afiada como a maioria dos marinheiros tem, não obtivemos nada pelo nosso trabalho. No entanto, descobrimos que não precisaremos de mais provas, pois, ao ser levado perante o inspetor na esquadra, ele pediu permissão para fazer uma declaração, que foi, naturalmente, registada, exatamente como a fez, pelo nosso estenógrafo. Fizemos três cópias dactilografadas, uma das quais junto. O caso prova ser, como sempre pensei que seria, extremamente simples, mas estou-lhe grato por me ter ajudado na minha investigação. Com os meus melhores cumprimentos, muito sinceramente seu, G. Lestrade."

"Hum! A investigação foi realmente muito simples", observou Holmes, "mas não penso que lhe tenha ocorrido dessa forma quando nos chamou pela primeira vez. No entanto, vejamos o que Jim Browner tem a dizer por si próprio. Esta é a sua declaração tal como feita perante o Inspetor Montgomery na Esquadra de Shadwell, e tem a vantagem de ser literal."

"Tenho alguma coisa a dizer? Sim, tenho muito a dizer. Tenho de confessar tudo. Podem enforcar-me ou podem deixar-me em paz. Não me importa nada o que façam. Digo-vos que não preguei o olho desde que o fiz, e não acredito que voltarei a fazê-lo até que passe por todo o despertar. Por vezes é o rosto dele, mas na maioria das vezes é o dela. Nunca estou sem um ou outro à minha frente. Ele parece carrancudo e sombrio, mas ela tem uma espécie de surpresa no rosto. Sim, a ovelha branca, ela bem poderia estar surpreendida quando leu a morte num rosto que raramente tinha demonstrado outra coisa que não amor por ela antes."

"Mas a culpa foi da Sarah, e que a maldição de um homem arruinado caia sobre ela e apodreça o sangue nas suas veias! Não é que eu queira desculpar-me. Sei que voltei a beber, como a besta que fui. Mas ela ter-me-ia perdoado; ela ter-se-ia mantido tão próxima de mim como uma corda a uma roldana se aquela mulher nunca tivesse obscurecido a nossa porta. Pois Sarah Cushing amava-me — essa é a raiz do negócio — ela amava-me até que todo o seu amor se transformou em ódio venenoso quando soube que eu pensava mais na pegada da minha esposa na lama do que no seu corpo e alma inteiros."

"Havia três irmãs no total. A mais velha era apenas uma boa mulher, a segunda era um demónio e a terceira era um anjo. Sarah tinha trinta e três anos e Mary tinha vinte e nove quando me casei. Éramos tão felizes quanto o dia era longo quando montámos casa juntos, e em toda a Liverpool não havia mulher melhor do que a minha Mary. E depois pedimos à Sarah para vir passar uma semana, e a semana transformou-se num mês, e uma coisa levou à outra, até que ela era apenas uma de nós."

"Eu era abstémio naquela altura, e estávamos a poupar algum dinheiro, e tudo era tão brilhante como uma moeda nova. Meu Deus, quem teria pensado que poderia chegar a isto? Quem teria sonhado com isso?"

"Eu costumava estar em casa aos fins de semana com muita frequência e, por vezes, se o navio fosse retido para carga, eu tinha uma semana inteira de cada vez, e desta forma vi muito da minha cunhada, Sarah. Ela era uma mulher alta e elegante, negra, rápida e feroz, com uma forma orgulhosa de carregar a cabeça e um brilho nos olhos como uma faísca de sílex. Mas quando a pequena Mary lá estava, nunca tive um pensamento para ela, e isso juro como espero pela misericórdia de Deus."

"Parecia-me por vezes que ela gostava de estar sozinha comigo, ou de me convencer a sair para um passeio com ela, mas nunca pensei nada disso. Mas uma noite os meus olhos abriram-se. Eu tinha vindo do navio e encontrei a minha esposa fora, mas a Sarah em casa. 'Onde está a Mary?', perguntei. 'Oh, ela foi pagar algumas contas.' Estava impaciente e andava de um lado para o outro na sala. 'Não consegues ser feliz durante cinco minutos sem a Mary, Jim?', diz ela. 'É um mau elogio para mim não conseguires contentar-te com a minha companhia por tão pouco tempo.' 'Está tudo bem, rapariga', disse eu, estendendo a minha mão para ela de uma forma carinhosa, mas ela agarrou-a com as duas dela num instante, e elas queimavam como se estivessem com febre. Olhei nos olhos dela e li tudo lá. Não havia necessidade de ela falar, nem para mim também. Franzi a testa e retirei a minha mão. Depois ela ficou ao meu lado em silêncio por um pouco, e depois levantou a mão e deu-me uma palmada no ombro. 'Calma, velho Jim!', disse ela, e com uma espécie de riso trocista, ela correu para fora da sala."

"Bem, a partir desse momento a Sarah odiou-me com todo o seu coração e alma, e ela é uma mulher que sabe odiar também. Fui um tolo ao deixá-la continuar a viver connosco — um tolo alucinado — mas nunca disse uma palavra à Mary, pois sabia que a entristeceria. As coisas continuaram muito como antes, mas depois de algum tempo comecei a notar que havia uma pequena mudança na própria Mary. Ela tinha sido sempre tão confiante e tão inocente, mas agora tornou-se estranha e desconfiada, querendo saber onde eu tinha estado e o que tinha andado a fazer, e de quem eram as minhas cartas, e o que eu tinha nos bolsos, e mil dessas tolices. Dia após dia ela tornou-se mais estranha e mais irritável, e tínhamos discussões incessantes por nada. Eu estava bastante intrigado com tudo isto. A Sarah evitava-me agora, mas ela e a Mary eram simplesmente inseparáveis. Consigo ver agora como ela estava a conspirar e a tramar e a envenenar a mente da minha esposa contra mim, mas eu era um escaravelho tão cego que não conseguia entender isso na altura. Depois quebrei a minha promessa de abstinência e comecei a beber novamente, mas penso que não o teria feito se a Mary tivesse sido a mesma de sempre. Ela tinha algumas razões para estar desgostosa comigo agora, e o fosso entre nós começou a ser cada vez maior. E então este Alec Fairbairn intrometeu-se, e as coisas tornaram-se mil vezes mais negras."

"Foi para ver a Sarah que ele veio à minha casa pela primeira vez, mas logo foi para nos ver, pois ele era um homem com maneiras cativantes, e fazia amigos onde quer que fosse. Era um tipo arrojado, fanfarrão, inteligente e de caracóis, que tinha visto metade do mundo e podia falar do que tinha visto. Era boa companhia, não o nego, e tinha maneiras maravilhosamente educadas para um marinheiro, de tal modo que penso que deve ter havido um tempo em que ele sabia mais do convés de popa do que do convés de vante. Durante um mês ele esteve dentro e fora da minha casa, e nem uma vez me passou pela cabeça que algum mal pudesse advir das suas maneiras suaves e astutas. E depois, finalmente, algo fez-me suspeitar, e a partir desse dia a minha paz foi-se para sempre."

"Foi apenas uma pequena coisa, também. Eu tinha entrado na sala de estar inesperadamente, e enquanto caminhava para a porta vi uma luz de boas-vindas no rosto da minha esposa. Mas quando ela viu quem era, ela desvaneceu-se de novo, e ela virou-se com um olhar de desapontamento. Isso foi o suficiente para mim. Não havia ninguém senão Alec Fairbairn cujo passo ela pudesse ter confundido com o meu. Se eu o pudesse ter visto então, tê-lo-ia matado, pois sempre fui como um louco quando o meu temperamento se solta. A Mary viu a luz do diabo nos meus olhos, e ela correu para a frente com as mãos na minha manga. 'Não, Jim, não!', diz ela. 'Onde está a Sarah?', perguntei. 'Na cozinha', diz ela. 'Sarah', disse eu enquanto entrava, 'este homem Fairbairn nunca mais voltará a obscurecer a minha porta.' 'Por que não?', diz ela. 'Porque eu ordeno.' 'Oh!', diz ela, 'se os meus amigos não são bons o suficiente para esta casa, então eu também não sou boa o suficiente para ela.' 'Podes fazer o que quiseres', digo eu, 'mas se o Fairbairn mostrar a cara aqui outra vez, enviar-te-ei uma das suas orelhas como recordação.' Ela ficou assustada com o meu rosto, penso eu, pois nunca respondeu uma palavra, e na mesma noite ela deixou a minha casa."

“Bem, não sei agora se era pura diabólica malícia da parte desta mulher, ou se ela achava que poderia me voltar contra a minha esposa, incitando‑a a mau comportamento. De qualquer forma, ela alugou uma casa a apenas duas ruas de distância e deu quartos a marinheiros. Fairbairn costumava ficar lá, e Mary ia tomar chá a casa da irmã dela e dele. Quantas vezes ela foi, não sei, mas a segui um dia, e, ao entrar pela porta, Fairbairn escapou por cima do muro do jardim dos fundos, como o covarde doninha que era. Jurei à minha esposa que a mataria se a encontrasse novamente na companhia dele, e a conduzi de volta comigo, soluçando e tremendo, tão pálida como uma folha de papel. Não havia mais vestígio de amor entre nós. Via que ela me odiava e temia, e, quando o pensamento disso me levava a beber, ela também me desprezava.

“Bem, Sarah descobriu que não podia ganhar a vida em Liverpool, então, ao que parece, voltou a viver com a irmã em Croydon, e as coisas seguiram como sempre em casa. E então chegou a semana passada, com toda a miséria e ruína.

“Foi assim. Partimos no Dia de Maio para uma viagem circular de sete dias, mas um barril se soltou e quebrou um dos nossos pratos, obrigando‑nos a regressar ao porto por doze horas. Desci do navio e voltei para casa, pensando na surpresa que seria para a minha esposa, esperançoso de que talvez se alegrasse ao me ver tão cedo. Esse pensamento estava na minha cabeça quando virei para a minha rua, e, naquele instante, passou um coche e lá estava ela, sentada ao lado de Fairbairn, os dois a conversar e rir, sem dar o menor pensamento a mim enquanto eu os observava da calçada.

“Digo‑lhe, e dou‑lhe a minha palavra, que a partir desse momento não fui mais o meu próprio mestre, e tudo isso parece um sonho vago quando o recordo. Ultimamente vinha bebendo muito, e as duas coisas juntas quase me deixaram louco. Agora há algo pulsando na minha cabeça como o martelo de um estivador, mas naquela manhã parecia que o Niágara rugia a todo o volume nos meus ouvidos.

“Bem, dei a fuga, e corri atrás do coche. Tinha um pesado pedaço de carvalho na mão, e digo que vi vermelho logo de primeira; mas, correndo, tornei‑me astuto, mantive‑me atrás para observá‑los sem ser visto. Pararam logo na estação ferroviária. Havia uma boa multidão ao redor da bilheteira, e consegui chegar bem próximo deles sem que percebêssem. Compraram bilhetes para New Brighton. Eu também, mas embarquei três carruagens atrás deles. Quando chegamos, caminharam pela Parade, e nunca estive a mais de cem metros deles. Por fim vi‑os alugar um barco e partir para remar, pois fazia um dia muito quente, e provavelmente acharam que seria mais fresco na água.

“Foi como se me fossem entregues nas minhas mãos. Havia uma névoa densa, não se podia ver além de poucas centenas de metros. Aluguei um barco para mim e fui logo atrás deles. Via o borrão da embarcação, mas avançavam quase tão rápido quanto eu, devendo estar a milhas da costa antes de eu os alcançar. A névoa era como um véu que nos cercava, e éramos nós três no meio dele. Meu Deus, como esquecerei os seus rostos quando viram quem estava no barco que se aproximava deles? Ela gritou. Ele xingou como um lunático e golpeou‑me com um remo, pois devia ter visto a morte nos meus olhos. Passei por ele e, com o meu bastão, esmaguei-lhe a cabeça como um ovo. Poderia ter poupado ela, talvez, por toda a minha loucura, mas ela o abraçou, clamando por ele e chamando‑o ‘Alec’. Golpeei de novo, e ela ficou estirada ao seu lado. Fiquei como uma fera selvagem que acabou de provar sangue. Se Sarah estivesse lá, por Deus, teria juntado‑se a eles. Tirei a faca, e— bem, chega! Já falei o suficiente. Sentiu‑me um prazer bárbaro ao imaginar como Sarah se sentiria ao ver tais sinais do que sua intromissão havia provocado. Depois amarrai os corpos ao barco, prendi uma tábua, e esperei até que afundassem. Sabia muito bem que o proprietário acreditaria que se perderam na névoa e se arrastaram para o mar. Limpei‑me, voltei à terra e embarquei no meu navio sem que ninguém suspeitasse do que havia ocorrido. Naquela noite preparei o pacote para Sarah Cushing, e no dia seguinte enviei‑o de Belfast.

“Aqui está a verdade completa. Podem enforcar‑me, ou fazer o que quiserem comigo, mas não podem punir‑me como já fui punido. Não consigo fechar os olhos, mas vejo aqueles dois rostos a encarar‑me — a encarar‑me como fizeram quando o meu barco rompeu a névoa. Matei‑os rapidamente, mas eles me matam lentamente; e se eu tiver outra noite assim, estarei louco ou morto antes do amanhecer. Não me colocarão sozinho numa cela, senhor? Por compaixão, não o façam, e que sejam tratados no dia da sua agonia como me tratam agora.

“O que significa tudo isso, Watson?” disse Holmes solenemente ao baixar o papel. “Que fim serve este círculo de miséria, violência e medo? Deve haver algum propósito, senão nosso universo seria governado pelo acaso, o que é inconcebível. Mas qual propósito? Eis o grande problema perene ao qual a razão humana está tão longe de encontrar resposta.”

III. O Rosto Amarelo

Ao publicar estes breves esboços baseados nos numerosos casos em que os dons singulares do meu companheiro nos tornaram ouvintes e, eventualmente, atores de algum drama estranho, é natural que eu me detenha mais nos seus sucessos do que nas suas falhas. E não tanto por causa da sua reputação — pois, na verdade, foi quando se encontrava à beira do desespero que sua energia e versatilidade se mostraram mais admiráveis — mas porque, onde ele falhou, muitas vezes ninguém mais o fez, deixando a história sem conclusão. Contudo, por vezes, mesmo quando errou, a verdade acabou por ser descoberta. Tenho registrado meia dúzia de casos desse tipo, dos quais o Caso do Segundo Manchamento e o que ora relato são os que apresentam as características mais notáveis de interesse.

Sherlock Holmes era um homem que raramente exercitava por puro exercício. Poucos podiam competir com ele em esforço muscular, e era, sem dúvida, um dos melhores pugilistas da sua categoria que já vi; porém considerava o exercício físico sem objetivo um desperdício de energia, movimentando‑se apenas quando havia um propósito profissional a ser cumprido. Quando precisava, mostrava‑se absolutamente incansável e infatigável. Que mantivesse a forma física sob tais circunstâncias é notável, embora sua dieta fosse das mais escassas e seus hábitos simples quase a ponto da austeridade. À exceção do uso ocasional de cocaína, não possuía vícios, recorrendo à droga apenas como protesto contra a monotonia da existência quando os casos escasseavam e os jornais eram desinteressantes.

Numa manhã de primavera, ele relaxara tanto que aceitou dar um passeio comigo no parque, onde os primeiros brotos verdes surgiam entre os olmos, e os pontiagudos castanhos começavam a abrir suas folhas em quintuplicado. Por duas horas vagueamos juntos, em grande parte em silêncio, como convém a dois homens que se conhecem intimamente. Só eram quase cinco quando regressamos a Baker Street.

— Perdão, senhor — disse o mensageiro, ao abrir a porta. — Há um cavalheiro aqui a pedir‑o, senhor.

Holmes lançou‑me um olhar reprochador. — Tanto ao passeio da tarde! — exclamou. — Esse cavalheiro já se foi, então?

— Sim, senhor.

— Não o convidou para entrar?

— Sim, senhor; ele entrou.

— Há quanto tempo esperou?

— Meia hora, senhor. Era um cavalheiro muito inquieto, senhor, andando e batucando o tempo todo que esteve aqui. Eu esperava fora da porta, senhor, e podia ouvi‑lo. Por fim saiu para o corredor e gritou: “Esse homem nunca vai entrar?” Essas foram exatamente as suas palavras, senhor. “Só vai precisar de esperar um pouco mais”, digo eu. “Então esperarei ao ar livre, pois sinto‑me meio sufocado”, diz ele. “Voltarei logo”. E com isso ele saiu, e nada do que eu poderia dizer o faria ficar.

— Bem, bem, fez o melhor que pôde — disse Holmes, enquanto entrávamos no nosso quarto. — É muito irritante, Watson. Eu precisava urgentemente de um caso, e isso parece, pela impaciência do homem, ser de importância. Olhe! Esse não é o seu cachimbo na mesa. Deve ter deixado o dele aqui. Um belo briar antigo com um longo caule de âmbar, como os tabacarias chamam. Pergunto‑me quantos autênticos bocais de âmbar há em Londres. Alguns acreditam que uma mosca nele é sinal. Bem, o homem deve estar perturbado mentalmente para ter deixado um cachimbo que valoriza tanto.

— Como sabe que o valoriza tanto? — perguntei.

— Direi que o custo original do cachimbo era sete xelins e seis pence. Agora, veja, foi remendado duas vezes, uma no caule de madeira e outra no âmbar. Cada um desses remendos, feitos, como observa, com anéis de prata, deve ter custado mais que o próprio cachimbo. O homem deve prezar o cachimbo quando prefere consertá‑lo em vez de comprar outro com o mesmo dinheiro.

— Mais alguma coisa? — perguntei, pois Holmes girava o cachimbo na mão, encarando‑o de sua maneira pensativa.

Ele levantou‑o e tocou‑o com o dedo índice longo e fino, como um professor que demonstra um osso.

— Os cachimbos são, por vezes, de extraordinário interesse — disse. — Nada tem mais individualidade, salvo talvez relógios e cadarços. As indicações aqui, porém, não são nem muito marcadas nem muito importantes. O proprietário é evidentemente um homem musculoso, canhoto, com excelente dentição, descuidado nos hábitos e sem necessidade de praticar economia.

Meu amigo lançou a informação de forma bastante descontraída, mas percebi que ele lançou um olhar a mim para ver se eu seguia seu raciocínio.

— Pense que um homem deve ser bem‑feito se fuma um cachimbo de sete xelins — comentei.

— Isto é mistura Grosvenor a oito pence a onça — respondeu Holmes, batendo levemente na palma. — Como pode obter um fumo excelente pela metade do preço, não tem necessidade de praticar economia.

— E os demais pontos?

— Ele costuma acender o cachimbo à luz de lâmpadas e de queimadores a gás. Pode‑se notar que está bastante carbonizado de um lado. Claro que um fósforo não faria isso. Por que alguém seguraria um fósforo contra o lado do cachimbo? Mas não se pode acendê‑lo à lâmpada sem que a tigela fique carbonizada. E tudo está do lado direito do cachimbo. A partir daí deduzo que ele é canhoto. Quando se segura o próprio cachimbo à lâmpada, naturalmente, quem é destro segura o lado esquerdo ao fogo. Poderia fazer o contrário, mas não como hábito. Isso tem sido sempre assim. Além disso, roeu o âmbar. É preciso um rapaz musculoso, energético e com boa dentição para tal. Mas, se não me engano, ouvi‑o próximo à escada, então teremos algo mais interessante do que o seu cachimbo para estudar.

Um instante depois, a porta se abriu e um jovem alto entrou na sala. Vestia‑se discretamente num fato cinza‑escuro e carregava um chapéu marrom. Julguei ter uns trinta anos, embora fosse alguns anos mais velho.

— Peço desculpa — disse, um tanto envergonhado — suponho que deveria ter batido. Sim, claro, deveria ter batido. O fato é que estou um pouco perturbado, e isso explica tudo. — Passou a mão pela testa como quem está meio atordoado, e então desabou ao invés de sentar‑se numa cadeira.

— Vejo que não dormiu nas últimas noites — disse Holmes, com sua voz afável e descontraída. — Isso afeta os nervos mais que o trabalho, até mais que o prazer. Posso perguntar como posso ajudá‑lo?

— Queria o seu conselho, senhor. Não sei o que fazer e toda a minha vida parece desmoronar.

— Pretende contratar‑me como detetive consultor?

— Não só isso. Quero a sua opinião como homem judicioso — como homem do mundo. Quero saber o que devo fazer a seguir. Rogo a Deus que me possa orientar.

Falava em curtos e agudos estalos, e parecia que até pronunciar uma palavra lhe causava grande dor, e que sua vontade prevalecia sobre tudo.

— É algo muito delicado — disse. — Não se quer falar de questões domésticas a estranhos. É terrível discutir a conduta da esposa com dois homens que jamais vi. É horrível ter de fazê‑lo. Mas já cheguei ao fim da corda, e preciso de conselho.

— Meu caro Sr. Grant Munro — começou Holmes.

Nosso visitante saltou da cadeira. — O quê! — exclamou — conhece o meu nome?

— Se quiser preservar o anonimato — disse Holmes, sorrindo — sugiro que deixe de escrever o seu nome na aba do chapéu, ou então volte a aba para a pessoa a quem se dirige. Estava prestes a dizer que o meu amigo e eu já ouvimos muitos segredos estranhos nesta sala, e que tivemos a boa sorte de trazer paz a muitas almas perturbadas. Espero que possamos fazer o mesmo por si. Poderia, por favor, proporcionar‑me os factos do seu caso sem mais delongas?

Novamente passou a mão pela testa, como se fosse um esforço doloroso. Cada gesto e expressão mostravam‑me que era um homem reservado, autocontido, com um traço de orgulho, mais inclinado a ocultar as feridas do que a revelá‑las. Então, num gesto enérgico da mão fechada, como quem lança a reserva ao vento, começou.

— Os factos são estes, Sr. Holmes — disse. — Sou casado há três anos. Durante esse tempo eu e a minha esposa nos amamos ternamente e vivemos tão felizes quanto dois que jamais se separaram. Não tivemos desavença, nem uma, em pensamento, palavra ou ato. E agora, desde a passada segunda‑feira, surgiu uma barreira entre nós, e descubro que há algo na vida dela, algo em que penso tão pouco quanto na mulher que cruza a rua ao meu lado. Estamos distantes, e quero saber o porquê.

— Antes de prosseguir, há algo que devo sublinhar — interrompeu‑me Holmes, levemente impaciente. — Effie ama‑me. Não haja dúvida. Ela ama‑me com todo o coração e alma, como nunca antes. Eu sei, sinto, não quero discutir isso. Um homem reconhece bem quando uma mulher o ama. Mas há este segredo entre nós, e nunca seremos os mesmos enquanto não o esclareçamos.

— Por favor, forneça os factos, Sr. Munro — disse Holmes.

— Contarei o que sei sobre o passado de Effie. Quando a conheci, era viúva, embora ainda muito jovem — apenas vinte e cinco. Seu nome então era Sra. Hebron. Foi para a América ainda jovem e viveu na cidade de Atlanta, onde casou‑se com o Sr. Hebron, advogado de boa prática. Tiveram um filho, mas a febre amarela irrompeu terrivelmente ali, e marido e filho morreram. Vi o certidão de óbito dele. Essa tragédia a fez regressar dos Estados Unidos, e passou a viver com a tia solteira em Pinner, Middlesex. Posso mencionar que o marido lhe deixou uma modesta fortuna, cerca de quatro mil e quinhentos libras, bem investida, rendendo sete por cento ao ano. Ela esteve apenas seis meses em Pinner quando a encontrei; apaixonámo‑nos, casámos‑nos algumas semanas depois.

— Sou comerciante de lúpulo, e com um rendimento de setecentos ou oitocentos libras, vivíamos confortavelmente, alugando uma vila de oitenta libras anuais em Norbury. A nossa casa, embora perto da cidade, era bastante campestre. Havia uma pousada e duas casas um pouco acima, e um chalé ao outro lado do campo que nos dava vista, e, fora isso, não havia outras casas até a metade do caminho para a estação. O meu negócio levava‑me à cidade em determinadas épocas, mas no verão tinha menos tarefas, e então, na nossa residência rural, eu e a minha esposa éramos tão felizes quanto se poderia desejar. Digo que nunca houve sombra entre nós até que este infausto caso começou.

— Há algo que devo referir antes de prosseguir. Quando nos casámos, a minha esposa transferiu todos os bens para mim — quase contra a minha vontade, pois temia que, caso os meus negócios falhassem, ficássemos em apuros. Contudo, ela insistiu, e foi feito. Cerca de seis semanas atrás, ela veio a mim.

— “Jack”, disse ela, “quando pegaste o meu dinheiro disseste que, se alguma vez o quisesse, bastava eu pedir‑te”.

— “Claro”, respondi eu. “É todo teu”.

— “Bem”, disse ela, “quero cem libras”.

Fiquei um pouco surpreso, pois imaginei que fosse um novo vestido ou algo do género.

— “Para quê exatamente?” perguntei.

— “Ah”, respondeu ela, de modo brincalhão, “disse‑me que eras apenas o meu banqueiro, e banqueiros nunca perguntam nada, sabes?”

— “Se realmente o queres, claro que terás o dinheiro”, respondi.

— “Oh, sim, eu realmente quero”.

— “E não me dizerás para que o queres?”

— “Talvez um dia, mas não agora, Jack”.

Assim, tive de me contentar com isso, embora fosse a primeira vez que surgisse algum segredo entre nós. Emiti‑lhe um cheque e nada mais pensei a respeito. Pode não ter nada a ver com o que se seguiu, mas achei justo mencionar.

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— Bem, acabei de lhe dizer que há um chalé não muito longe da nossa casa. Há apenas um campo entre nós, mas para chegar lá é preciso seguir a estrada e então virar por uma viela. Logo além há um pequeno bosque de abetos escoceses, e eu costumava adorar caminhar por ali, pois as árvores são sempre coisas de boa vizinhança. O chalé estava vazio há oito meses, e era uma pena, pois era um lugar bonito de dois andares, com um alpendre à moda antiga e madressilvas ao redor. Muitas vezes eu parei a imaginar que linda pequena casa poderia ser.

— Bem, na segunda‑feira passada à noite eu estava passeando por ali, quando encontrei uma van vazia subindo a viela e vi uma pilha de tapetes e coisas espalhadas no gramado ao lado do alpendre. Ficou claro que o chalé finalmente havia sido alugado. Passei por ele, e me perguntei que tipo de gente teria vindo viver tão perto de nós. E, enquanto observava, percebi de repente um rosto a me observar de uma das janelas superiores.

— Não sei o que havia naquele rosto, Sr. Holmes, mas parecia enviar um arrepio direto pela minha espinha. Eu estava a certa distância, de modo que não consegui distinguir os traços, mas havia algo antinatural e desumano no rosto. Essa foi a impressão que tive, e avancei rapidamente para obter uma visão mais próxima da pessoa que me observava. Mas, ao fazê‑lo, o rosto desapareceu subitamente, tão de repente que pareceu ter sido arrancado para a escuridão do interior. Fiquei cinco minutos refletindo sobre o assunto e tentando analisar minhas impressões. Não conseguia dizer se o rosto pertencia a um homem ou a uma mulher; estava longe demais para isso. Mas a cor foi o que mais me impressionou. Era de um branco giz, pálido e lúgubre, com algo rígido e firme que era chocantemente antinatural. Tão perturbado fiquei que decidi observar um pouco mais os novos inquilinos do chalé. Aproximando‑me, bati à porta, que foi imediatamente aberta por uma mulher alta e esquelética com um rosto duro e severo.

— “O que você quer?” ela perguntou, com um forte acento do Norte.

— “Sou seu vizinho ali adiante,” respondi, apontando para minha casa. “Vejo que acabou de se mudar, então pensei que, se eu pudesse ser de alguma ajuda…”.

— “Ay, nós lhe perguntaremos quando precisarmos,” disse ela, e bateu a porta na minha cara. Irritado com a retaliação rude, virei as costas e voltei para casa. A noite inteira, embora tentasse pensar em outras coisas, minha mente ainda se voltava para a aparição na janela e para a grosseria da mulher. Decidi não mencionar nada sobre isso à minha esposa, pois ela é nervosa, muito sensível, e não queria que compartilhasse a impressão desagradável que eu havia tido. Contudo, antes de adormecer, comentei que o chalé agora estava ocupado, ao que ela não respondeu.

— Sou geralmente um dorminhoco excepcional. Na família temos a piada de que nada jamais poderia me acordar à noite. E, ainda assim, naquela noite específica, fosse pela leve excitação da pequena aventura ou não, não sei, dormi muito mais levemente que o habitual. Meio sonâmbulo, percebi vagamente que algo acontecia na sala, e gradualmente notei que minha esposa se vestia, colocando o casaco e o chapéu. Os lábios se abriram para murmurar palavras sonolentas de surpresa ou repreensão pela preparação intempestiva, quando de repente meus olhos semidespertos caíram sobre seu rosto, iluminado pela luz da vela, e o espanto me deixou mudo. Ela exibia uma expressão que jamais vira antes — uma que eu jamais imaginara que ela pudesse assumir. Estava morta‑pálida, respiração ofegante, lançando olhares furtivos ao leito enquanto ajustava o casaco, para ver se havia me incomodado. Então, pensando que ainda dormia, saiu silenciosamente da sala; um instante depois ouvi um rangido agudo que só poderia vir das dobradiças da porta da frente. Sentei‑me na cama e bati os nós dos dedos na grade para garantir que estava realmente acordado. Em seguida retirei o relógio debaixo do travesseiro. Eram três da manhã. O que diabos minha esposa faria na estrada rural às três da manhã?

— Fiquei sentado cerca de vinte minutos revendo o acontecido em minha mente, tentando encontrar alguma explicação plausível. Quanto mais pensava, mais extraordinário e inexplicável tudo parecia. Ainda refletia quando ouvi a porta fechar suavemente novamente, e os passos dela subindo as escadas.

— “Onde diabos esteve, Effie?” perguntei ao entrar.

— Ela deu um salto violento e soltou um grito ofegante quando falei, e esse grito e sobressalto me perturbavam mais que tudo, pois havia algo indescritivelmente culpado neles. Minha esposa sempre fora uma mulher franca e aberta, e deu-me um arrepio vê‑la esgueirando‑se para o próprio quarto, gritando e contorcendo‑se quando o marido lhe falava.

— “Acordou, Jack!” exclamou ela, com um riso nervoso. “Pensei que nada poderia acordá‑lo.”

— “Onde esteve?” perguntei, mais severo.

— “Não me espanto que esteja surpreso,” respondeu ela, e pude ver os dedos tremerem ao desatar os fechos do casaco. “Jamais me lembro de ter feito tal coisa na vida. O fato é que senti como se estivesse engasgando, ansiando por um sopro de ar fresco. Acho que teria desmaiado se não saísse. Fiquei à porta alguns minutos, e agora estou outra vez bem.”

— O tempo todo que contou aquela história, ela nunca me olhou nos olhos, e sua voz era muito diferente do habitual. Percebi que dizia mentiras. Não respondi, mas virei o rosto para a parede, doente de coração, com a mente cheia de mil dúvidas venenosas e suspeitas. O que seria que minha esposa ocultava de mim? Onde esteve durante aquela estranha expedição? Sentia que não teria paz até descobrir, porém relutei em lhe perguntar novamente depois que ela me dissera o que era falso. O resto da noite passei revirando teorias, uma após a outra, cada qual mais improvável que a anterior.

— Deveria ter ido à cidade naquele dia, mas estava tão perturbado que não consegui prestar atenção aos negócios. Minha esposa parecia tão abalada quanto eu, e pelos olhares questionadores que me lançava percebia que entendia que eu duvidava de seu relato, sem saber o que fazer. Mal trocamos palavras no café da manhã, e logo depois saí para caminhar, a fim de refletir ao ar fresco da manhã.

— Fui até o Crystal Palace, passei uma hora nos jardins, e voltei a Norbury à uma hora. Por acaso, meu caminho passou pelo chalé, e parei um instante para observar as janelas, tentando avistar o rosto estranho que me encarara no dia anterior. Enquanto eu estava ali, imagine minha surpresa, Sr. Holmes, quando a porta se abriu de repente e minha esposa saiu.

— Fiquei mudo de espanto ao vê‑la; mas minhas emoções eram nada comparado ao que se mostrava em seu rosto quando nossos olhos se encontraram. Por um instante pareceu desejar recuar para dentro da casa; então, percebendo a futilidade de qualquer disfarce, avançou, com o rosto muito pálido e olhos assustados que traíam o sorriso nos lábios.

— “Ah, Jack,” ela disse, “acabei de entrar para ver se podia ajudar nossos novos vizinhos. Por que me olha assim, Jack? Não está zangada comigo?”

— “Então,” respondi, “foi para onde foi durante a noite.”

— “O que quer dizer?” ela exclamou.

— “Você veio aqui. Tenho certeza disso. Quem são essas pessoas que a fazem visitar a essa hora?”

— “Nunca estive aqui antes.”

— “Como pode dizer que o que sabe é falso?” gritei. “Sua própria voz muda ao falar. Quando foi que lhe escondi algum segredo? Entrarei naquele chalé e investigarei a fundo.”

— “Não, não, Jack, pelo amor de Deus!” ela arfou, dominada por uma emoção incontrolável. Ao me aproximar da porta, agarrou‑me na manga e puxou‑me de volta com força convulsiva.

— “Imploro‑lhe que não faça isso, Jack,” ela gritou. “Juro que um dia lhe direi tudo, mas só miséria pode advir se entrar naquele chalé.” Quando tentei afastá‑la, ela se agarrou a mim num frenesi de súplica.

— “Confie em mim, Jack!” ela clamou. “Confie só desta vez. Nunca terá motivo para se arrepender. Sabe que não lhe esconderia nada se não fosse por seu próprio bem. Nossas vidas inteiras estão em jogo. Se voltar comigo, tudo ficará bem. Se arrombar aquele chalé, tudo termina entre nós.”

— Havia tanta sinceridade, tanto desespero em seu modo de ser que suas palavras me prenderam, e eu permaneci indeciso diante da porta.

— “Confierei em você sob uma condição, e apenas sob essa condição,” disse finalmente. “É que este mistério termine a partir de agora. Pode guardar seu segredo, mas deve prometer que não haverá mais visitas noturnas, nem mais atos ocultos de mim. Estou disposto a esquecer o que passou, se prometer que não haverá mais no futuro.”

— “Eu tinha certeza de que confiaria em você,” ela exclamou, suspirando aliviada. “Será exatamente como deseja. Venha — oh, venha para a casa.”

— Ainda puxando minha manga, ela conduziu‑me para longe do chalé. Enquanto íamos, olhei para trás e vi aquele rosto amarelo e lúgubre observando‑nos da janela alta. Que ligação poderia haver entre aquela criatura e minha esposa? Ou como a mulher rude e áspera que vi no dia anterior poderia estar conectada a ela? Era um enigma estranho, e, porém, sabia que minha mente jamais encontraria paz até resolvê‑lo.

— Durante dois dias depois disso permaneci em casa, e minha esposa pareceu cumprir fielmente nosso acordo, pois, ao que sei, nunca saiu da casa. No terceiro dia, porém, tive provas de que sua solene promessa não bastava para impedi‑la de ceder à influência secreta que a afastava do marido e do dever.

— Fui à cidade naquele dia, mas voltei às 2h40 em vez das 3h36, que é meu trem habitual. Ao entrar na casa, a empregada correu ao salão com o rosto assustado.

— “Onde está a sua senhora?” perguntei.

— “Acho que saiu para caminhar,” respondeu ela.

— Minha mente encheu‑se instantaneamente de suspeita. Corri ao andar‑cima para garantir que ela não estivesse na casa. Enquanto fazia isso, olhei por uma das janelas superiores e vi a empregada, com quem acabara de falar, correndo pelo campo em direção ao chalé. Então, claro, compreendi o que tudo aquilo significava. Minha esposa havia ido até lá e pedido à criada que a chamasse caso eu retornasse. Irritado, desci correndo e atravessei o caminho, determinado a pôr termo ao assunto de uma vez por todas. Vi minha esposa e a criada apressando‑se de volta pela viela, mas não parei para falar com elas. No chalé jazia o segredo que lançava sombra sobre minha vida. Jurei que, aconteça o que acontecer, não seria mais um segredo. Nem sequer bati à porta ao chegar; simplesmente girei a maçaneta e entrei no corredor.

— Tudo estava calmo e silencioso no rés‑dos‑chãos. Na cozinha, uma chaleira cantava sobre o fogo, e um grande gato preto enroscado na cesta; porém não havia sinal da mulher que eu vira antes. Corri para a outra sala, que também estava deserta. Subi as escadas e encontrei duas outras salas vazias e desertas no andar superior. Não havia ninguém em toda a casa. Os móveis e quadros eram dos mais comuns e vulgares, salvo na câmara com a janela onde eu vira o rosto estranho. Era confortável e elegante, e todas as minhas suspeitas inflamaram‑se em chama amarga quando vi que, na lareira, repousava uma cópia de foto em tamanho natural da minha esposa, tirada a meu pedido há apenas três meses.

— Permaneci o tempo suficiente para ter certeza de que a casa estava absolutamente vazia. Então saí, sentindo um peso no peito como nunca antes. Minha esposa saiu ao salão enquanto eu entrava; mas eu estava tão magoado e zangado que não falei com ela, e, empurrando‑a, fui para o meu escritório. Ela, porém, seguiu‑me antes que eu pudesse fechar a porta.

— “Lamento ter quebrado minha promessa, Jack,” disse ela; “mas se soubesse de todas as circunstâncias, tenho certeza de que me perdoaria.”

— “Então conte‑me tudo,” respondi.

— “Não posso, Jack, não posso,” ela chorou.

— “Até que me diga quem tem vivido naquele chalé, e a quem entregou aquela fotografia, nunca haverá confiança entre nós,” afirmei, e, rompendo‑a, deixei a casa. Foi ontem, Sr. Holmes, e não a vi desde então, nem sei mais nada sobre esse caso estranho. É a primeira sombra que surgiu entre nós, e abalou‑me tanto que não sei o que fazer de melhor. De manhã, de repente, lembrei‑me de que o senhor é quem pode aconselhar‑me, por isso vim correndo até aqui, entregando‑me sem reservas em suas mãos. Se houver algum ponto que não ficou claro, pergunte‑me. Mas, sobretudo, diga‑me rapidamente o que devo fazer, pois essa miséria ultrapassa o que posso suportar.

Holmes e eu ouvimos com o maior interesse esta extraordinária declaração, proferida na fala truncada e desarticulada de um homem sob a influência de emoções extremas. Meu companheiro ficou em silêncio por algum tempo, com o queixo sobre a mão, perdido em pensamentos.

— Diga‑me, — disse ele finalmente, — pode jurar que era o rosto de um homem que viu na janela?

— Cada vez que o vi, estava a certa distância, de modo que é impossível eu afirmar.

— Contudo, parece que ficou desagradavelmente impressionado por ele.

— Parecia ter uma cor antinatural, e uma rigidez estranha nos traços. Quando me aproximei, desapareceu num sobressalto.

— Há quanto tempo sua esposa lhe pediu cem libras?

— Quase dois meses.

— Já viu alguma fotografia do primeiro marido dela?

— Não; houve um grande incêndio em Atlanta logo após sua morte, e todos os papéis dela foram destruídos.

— E, no entanto, ela tinha um certificado de óbito. Você diz que o viu.

— Sim; ela obteve uma duplicata depois do incêndio.

— Já encontrou alguém que a conhecesse na América?

— Não.

— Ela alguma vez falou em revisitar o lugar?

— Não.

— Ou recebeu cartas de lá?

— Não.

— Obrigado. Gostaria de refletir um pouco sobre o assunto agora. Se o chalé está permanentemente desocupado, podemos ter alguma dificuldade. Se, por outro lado, como imagino ser mais provável, os moradores foram avisados da sua vinda e partiram antes de entrar ontem, então podem estar de volta agora, e poderemos esclarecer tudo facilmente. Deixo-lhe, então, o conselho de voltar a Norbury e examinar novamente as janelas do chalé. Se houver motivo para crer que está habitado, não force a entrada, mas envie um telegrama a mim e ao meu amigo. Chegaremos em até uma hora após recebê‑lo, e logo chegaremos ao fundo da questão.

— E se ainda estiver vazio?

— Nesse caso, irei amanhã e conversarei com o senhor. Adeus; e, sobretudo, não se preocupe até ter certeza de que há realmente um motivo para isso.

— Receio que isto seja um negócio ruim, Watson, — disse meu companheiro, ao retornar após acompanhar o Sr. Grant Munro até a porta. — O que acha disso?

— Soou feio, — respondi.

— Sim. Há chantagem aqui, ou estou muito enganado.

— E quem seria o chantagista?

— Bem, deve ser a criatura que vive na única sala confortável do lugar

Como mais poderíamos explicar a sua ansiedade frenética de que o seu segundo não entrasse nele? Os factos, como os leio, são algo assim: Esta mulher casou‑se na América. O marido desenvolveu algumas qualidades odiosas; ou melhor, contraiu alguma doença repugnante, e tornou‑se leproso ou imbecil? Ela foge dele por fim, volta à Inglaterra, muda o nome e começa a vida, como pensa, novamente. Está casada há três anos e acredita que a sua posição está bastante segura, tendo mostrado ao marido a certidão de óbito de algum homem cujo nome assumiu, quando de súbito o seu paradeiro é descoberto pelo primeiro marido; ou, poderemos supor, por alguma mulher inescrupulosa que se ligou ao inválido. Elas escrevem à esposa e ameaçam vir expô‑la. Ela pede cem libras e tenta suborná‑las. Elas vêm apesar disso, e quando o marido menciona casualmente à esposa que há recém‑chegados na cabana, ela percebe, de algum modo, que são os seus perseguidores. Espera até que o marido esteja adormecido, e então precipita‑se para tentar persuadi‑los a deixá‑la em paz. Sem sucesso, volta na manhã seguinte, e o marido a encontra, como nos contou, quando ela sai. Ela promete‑lhe então não voltar mais lá, mas dois dias depois a esperança de livrar‑se daqueles terríveis vizinhos era tão forte que tenta novamente, levando consigo a fotografia que provavelmente lhe fora exigida. No meio dessa entrevista a criada entra a correr dizendo que o patrão chegou a casa, e a esposa, sabendo que ele desceria direto para a cabana, despede os ocupantes pela porta dos fundos, para o bosque de abetos, provavelmente, que foi mencionado como próximo. Assim ele encontrou o lugar deserto. Ficarei muito surpreendido, porém, se ainda estiver assim quando o reconhecer à noite. O que acha da minha teoria?

É tudo suposição.

Mas ao menos cobre todos os factos. Quando surgirem novos factos que não se enquadrem, será tempo suficiente para reconsiderá‑los. Não podemos fazer mais nada até recebermos uma mensagem do nosso amigo em Norbury.

Mas não tivemos muito tempo a esperar por isso. Chegou justamente quando terminávamos o chá. “A cabana ainda está ocupada”, dizia. “Vi o rosto novamente à janela. Irei apanhar o comboio das sete horas e não tomarei quaisquer medidas até a sua chegada.”

Ele esperava na plataforma quando saímos, e podíamos ver à luz das lâmpadas da estação que estava muito pálido e tremendo de agitação.

“Ainda estão lá, Sr. Holmes”, disse ele, pressionando a mão firmemente na manga do meu amigo. “Vi luzes na cabana quando desci. Vamos resolver isto agora de uma vez por todas.”

— Qual é o seu plano, então? — perguntou Holmes, enquanto descia a estrada escura ladeada de árvores.

— Vou forçar a entrada e ver por mim mesmo quem está na casa. Quero que ambos estejam lá como testemunhas.

— Está bastante decidido a fazer isso, apesar do aviso da sua esposa de que seria melhor não resolver o mistério?

— Sim, estou decidido.

— Bem, penso que está com o pé direito. Qualquer verdade é melhor que uma dúvida indefinida. Melhor subirmos imediatamente. Claro, juridicamente, estamos a colocar‑nos irremediavelmente no erro; mas acho que vale a pena.

Era uma noite muito escura, e uma fina chuva começou a cair quando deixámos a estrada principal para entrar numa viela estreita, profundamente sulcada, com sebes a ambos os lados. O Sr. Grant Munro avançava impaciente, porém, e tropeçámos atrás dele como melhor pudemos.

— Lá estão as luzes da minha casa — murmurou ele, apontando para um brilho entre as árvores. — E aqui está a cabana que vou entrar.

Virámos uma esquina na viela enquanto ele falava, e ali estava o edifício bem ao nosso lado. Uma barra amarela a atravessar o fundo negro mostrava que a porta não estava totalmente fechada, e uma janela no andar superior brilhava intensamente. Ao olhar, vimos uma mancha escura a mover‑se pela persiana.

— Aquela criatura! — exclamou Grant Munro. — Podem ver por vocês mesmos que há alguém lá. Agora sigam‑me, e logo saberemos tudo.

Aproximamo‑nos da

“E agora chego à parte estranha do assunto. Eu estava em escavações na Hampstead Way — 17, Potter’s Terrace. Bem, eu estava sentado a fumar naquela mesma noite depois de ter sido prometida a nomeação, quando apareceu a minha senhoria com um cartão que trazia impresso ‘Arthur Pinner, Financial Agent’. Nunca tinha ouvido esse nome antes e não conseguia imaginar o que ele queria de mim; mas, claro, pedi que ela o chamasse. Entrou ele, um homem de porte médio, cabelos escuros, olhos escuros, barba negra, com um toque de Sheeny no nariz. Tinha um jeito enérgico e falava de forma brusca, como quem conhece o valor do tempo.”

“‘Mr. Hall Pycroft, eu creio?’” disse ele.

“‘Sim, senhor’, respondi, empurrando uma cadeira em sua direção.

“‘Recém‑contratado na Coxon & Woodhouse’s?’

“‘Sim, senhor.’

“‘E agora na equipe da Mawson’s.’

“‘Exatamente.’

“‘Pois bem’, disse ele, ‘a questão é que ouvi histórias realmente extraordinárias sobre a sua capacidade financeira. Lembra‑se do Parker, que antes era gerente da Coxon? Ele nunca se cansa de falar disso.’

“Claro que me agradou ouvir isso. Sempre fui bastante astuto no escritório, mas nunca imaginei que fosse comentado na City dessa maneira.

“‘Tem boa memória?’ disse ele.

“‘Mais ou menos’, respondi modestamente.

“‘Mantém‑se em contato com o mercado enquanto está desempregado?’ perguntou ele.

“‘Sim; leio a lista da Bolsa de Valores todas as manhãs.’

“‘Isso demonstra verdadeira aplicação!’ exclamou ele. ‘É assim que se prospera! Não se importará que eu o teste, não é? Deixe‑me ver. Como estão os Ayrshires?’

“‘Cento e seis e um quarto para cento e cinco e sete‑oitavos.’

“‘E a New Zealand Consolidated?’

“‘Cento e quatro.’

“‘E a British Broken Hills?’

“‘Sete para sete‑seis.’

“‘Maravilhoso!’ gritou ele, com as mãos levantadas. ‘Isso encaixa perfeitamente com tudo o que ouvi. Meu rapaz, meu rapaz, você é bom demais para ser um escriturário da Mawson!’

“Esse desmaio me surpreendeu bastante, como pode imaginar. ‘Bem’, disse eu, ‘outros não pensam tanto em mim como o senhor parece, Sr. Pinner. Lutei muito para conseguir este posto e estou bem feliz por tê‑lo.’

“‘Pooh, rapaz; deveria estar acima disso. Não está no seu verdadeiro âmbito. Agora, direi como está a minha parte. O que tenho a oferecer é pouco quando comparado à sua capacidade, mas quando comparado à Mawson, é luz a escuridão. Deixe‑me ver. Quando vai à Mawson?’

“‘Na segunda‑feira.’

“‘Ha, ha! Apostaria um pequeno jogo esportivo que não vai lá de jeito nenhum.’

“‘Não ir à Mawson?’

“‘Não, senhor. Nesse dia o senhor será gerente de negócios da Franco‑Midland Hardware Company, Limited, com cento e trinta‑e‑quatro filiais nas cidades e aldeias da França, sem contar uma em Bruxelas e outra em San Remo.’

“Isso tirou o fôlego. ‘Nunca ouvi falar,’ disse eu.

“‘Muito provável que não. Mantêm‑se bem silenciosos, pois o capital foi totalmente subscrito de forma privada, e é coisa demais deixar o público saber. Meu irmão, Harry Pinner, é o promotor e, após a alocação, integra o conselho como diretor‑gerente. Ele sabia que eu estava na zona aqui embaixo e pediu‑me que contratasse um bom homem barato. Um jovem, ambicioso, com muito vigor. Parker falava de você, e isso me trouxe aqui esta noite. Só podemos oferecer-lhe um miserável quinhentos para iniciar.’

“‘Quinhentos por ano!’ gritei.

“‘Só isso no início; mas terá uma comissão dominante de um por cento sobre todos os negócios feitos pelos seus agentes, e pode crer que isso superará o seu salário.’

“‘Mas não sei nada de ferragens.’

“‘Tut, rapaz; sabe de números.’

“Minha cabeça zumbia, e mal conseguia ficar quieto na cadeira. Mas, de repente, um leve frio de dúvida me invadiu.

“‘Preciso ser franco consigo’, disse eu. ‘A Mawson só me paga duzentos, mas é segura. Agora, realmente, sei tão pouco sobre a sua companhia que—’

“‘Ah, astuto, astuto!’ exclamou ele, em um tipo de êxtase de deleite. ‘É o homem que precisamos. Não se deixa falar demais, e tem razão, também. Agora, aqui está um talão de cem libras, e se achar que podemos fazer negócios, pode simplesmente colocá‑lo no bolso como adiantamento do salário.’

“‘É muito generoso’, respondi. ‘Quando devo assumir minhas novas funções?’

“‘Esteja em Birmingham amanhã à uma’, disse ele. ‘Tenho um talão no bolso que levará ao meu irmão. Encontrá‑lo‑á no 126B, Corporation Street, onde os escritórios temporários da empresa se situam. Claro que ele deve confirmar a sua contratação, mas entre nós ficará tudo bem.’

“‘Realmente, quase não sei como expressar minha gratidão, Sr. Pinner’, disse eu.

“‘De jeito nenhum, rapaz. Você tem o que merece. Há uma ou duas pequenas coisas — meras formalidades — que preciso tratar consigo. Há um pedaço de papel ao seu lado. Por favor, escreva nele “Estou perfeitamente disposto a atuar como gerente de negócios da Franco‑Midland Hardware Company, Limited, com salário mínimo de £500.”’

Fiz como pediu, e ele pôs o papel no bolso.

“‘Há outro detalhe’, disse ele. ‘O que pretende fazer com a Mawson’s?’

Esqueci‑me da Mawson na minha alegria. ‘Escreverei e renunciarei’, respondi.

‘Exatamente o que não quero que faça. Tive uma discussão com o gerente da Mawson sobre o senhor. Fui lá perguntar sobre o senhor, e ele foi muito ofensivo; acusou‑me de tentar tirá‑lo da empresa, e desse tipo de coisa. Finalmente perdi a paciência. “Se quer bons homens, deve pagar‑les bem”, disse eu.

‘Ele preferiria nosso preço baixo ao seu alto’, replicou ele.

‘Farei-lhe um cinco’, propus, ‘de modo que, quando ele receber minha oferta, nunca mais o ouvirei novamente.’

‘Feito!’ disse ele. ‘Escolhemos‑o da sarjeta, e não nos deixará tão fácil.’ Essas foram exatamente as palavras dele.

‘O patife insolente!’ gritei. ‘Nunca o vi na vida. Por que devo considerá‑lo de alguma forma? Certamente não escreverei se preferir que eu não o faça.’

‘Bom! Isso é uma promessa’, disse ele, levantando‑se da cadeira. ‘Bem, estou encantado por ter conseguido um homem tão bom para o meu irmão. Aqui está o adiantamento de cem libras, e aqui está a carta. Anote o endereço, 126B, Corporation Street, e lembre‑se que a nomeação é amanhã à uma hora. Boa noite; que tenha toda a fortuna que merece!’

Isso foi praticamente tudo o que se disse entre nós, tanto quanto me lembro. Pode imaginar, Dr. Watson, o quanto fiquei satisfeito com tamanha boa fortuna. Passei a noite inteira abraçado a ela, e no dia seguinte parti para Birmingham num trem que me levaria a tempo da nomeação. Levei meus pertences a um hotel na New Street e, então, segui para o endereço que me fora dado.

Era quinze minutos antes da hora marcada, mas pensei que não faria diferença. 126B era um corredor entre duas grandes lojas, que conduzia a uma escadaria de pedra em espiral, de onde surgiam muitos apartamentos alugados como escritórios a empresas ou profissionais. Os nomes dos ocupantes estavam pintados na parte inferior da parede, mas não havia nenhum com a designação Franco‑Midland Hardware Company, Limited. Fiquei alguns minutos com o coração nos calçados, a me perguntar se tudo não passava de um elaborado engano, quando surgiu um homem e dirigiu‑se a mim. Era muito parecido com o sujeito que vi na noite anterior, mesma figura e voz, porém estava limpo, sem barba, e os cabelos mais claros.

‘É o Sr. Hall Pycroft?’ perguntou ele.

‘Sim’, respondi.

‘Ah! Esperava‑o, mas chegou um pouco antes do tempo. Recebi esta manhã um bilhete do meu irmão em que cantava os seus louvores em alto tom.’

‘Estava apenas à procura dos escritórios quando o senhor apareceu.’

‘Ainda não temos o nome afixado, pois só conseguimos estes locais temporários na semana passada. Venha comigo e conversaremos sobre o assunto.’

Segui‑o até o topo de uma escada muito alta, e ali, logo sob as telhas, havia dois pequenos cômodos vazios e empoeirados, sem carpete nem cortinas, para onde ele me conduziu. Imaginei um grande escritório com mesas reluzentes e fileiras de escriturários, como ao que estava habituado, e devo confessar que olhei fixamente para as duas cadeiras de escritório e a pequena mesa, que, com um livro‑razão e uma cesta de papel, constituíam todo o mobiliário.

‘Não se desanime, Sr. Pycroft’, disse meu novo conhecido, notando o comprimento do meu rosto. ‘Roma não se fez em um dia, e temos muito dinheiro nos fundos, embora ainda não gastemos grande pompa nos escritórios. Por favor, sente‑se e entregue‑me a sua carta.’

Entreguei‑a a ele, que a leu atentamente.

‘Parece que causou uma grande impressão no meu irmão Arthur’, disse ele; ‘e sei que ele é um juiz bastante perspicaz. Ele jura por Londres, sabe; eu por Birmingham; mas desta vez seguirei o conselho dele. Considere‑se definitivamente contratado.’

‘Quais são as minhas funções?’ perguntei.

‘Eventualmente gerirá o grande depósito em Paris, que despejará um fluxo de louças inglesas nas lojas de cento e trinta‑e‑quatro agentes na França. A compra será concluída em uma semana, e, enquanto isso, permanecerá em Birmingham e será útil.’

‘Como?’

Para responder, tirou de uma gaveta um grande livro vermelho.

‘Este é um diretório de Paris’, explicou, ‘com as profissões após os nomes das pessoas. Quero que o leve para casa e marque todos os vendedores de ferragens, com os respectivos endereços. Seria de grande utilidade tê‑los.’

‘Não haveria listas classificadas?’ sugeri.

‘Não as confiáveis. O sistema deles difere do nosso. Trabalhe neles e entregue‑me as listas até segunda‑feira, ao meio‑dia. Boa‑dia, Sr. Pycroft. Se continuar a demonstrar zelo e inteligência, achará a empresa um bom mestre.’

Voltei ao hotel com o grande livro debaixo do braço, sentindo emoções conflitantes no peito. Por um lado, estava definitivamente contratado e com cem libras no bolso; por outro, a aparência dos escritórios, a ausência de nome na parede e outros detalhes que um homem de negócios notaria deixavam‑me uma má impressão quanto à posição dos meus empregadores. Contudo, venha o que vier, o dinheiro estava aí, logo sentei‑me à tarefa. Passei todo o domingo trabalhando arduamente, e ainda na segunda‑feira só havia avançado até a letra H. Voltei ao meu empregador, encontrei‑o na mesma sala desmontada, e fui instruído a continuar até quarta‑feira, quando deveria retornar. Na quarta‑feira ainda estava incompleto, então continuei até sexta‑feira — isto é, ontem. Depois entreguei‑o ao Sr. Harry Pinner.

‘Muito obrigado’, disse ele; ‘temo ter subestimado a dificuldade da tarefa. Esta lista será de grande auxílio para mim.’

‘Demorou um pouco’, respondi.

‘E agora’, disse ele, ‘quero que faça uma lista das lojas de móveis, pois todas vendem louça.’

‘Muito bem.’

‘E pode vir amanhã à noite, às sete, e informar‑me como está progredindo. Não se sobrecarregue. Duas horas no Day’s Music Hall à noite não lhe farão mal depois dos trabalhos.’ Riu ao falar, e percebi, com um arrepio, que o seu segundo dente do lado esquerdo fora muito mal preenchido com ouro.

Sherlock Holmes esfregou as mãos com prazer, e eu olhava, estupefato, para o nosso cliente.

‘Pode parecer surpreendido, Dr. Watson; mas é assim’, disse ele: ‘Quando falava com o outro sujeito em Londres, no momento em que ele riu da minha não ir à Mawson, notei que o dente dele estava preenchido exatamente da mesma forma. O brilho do ouro em ambos os casos chamou minha atenção, veja. Quando juntei isso à voz e à figura iguais, e só aquelas coisas que poderiam mudar com lâmina ou peruca foram diferentes, não pude duvidar que era o mesmo homem. Claro que se espera que dois irmãos se pareçam, mas não que tenham o mesmo dente preenchido da mesma maneira. Ele bateu‑me a porta, e eu me vi na rua, sem saber se estava de cabeça ou de calças. Voltei ao hotel, mergulhei a cabeça numa bacia de água fria e tentei raciocinar. Por que me enviou de Londres a Birmingham? Por que chegou lá antes de mim? E por que escreveu uma carta de si mesmo para si mesmo? Foi tudo demasiado para mim, e não consegui entender. Então,

Novamente, e muito mais alto, veio o rat-tat-tat. Todos nós olhamos esperançosos para a porta fechada. Ao lançar um olhar a Holmes, vi seu rosto tornar‑se rígido, e ele inclinou‑se para a frente em intenso entusiasmo. Então, de súbito, ouviu‑se um som grave, guincho‑gargarejo, e um rápido tamborilar sobre a madeira. Holmes pulou freneticamente pelo quarto e empurrou a porta. Ela estava travada pelo lado interno. Seguindo o seu exemplo, lançamo‑nos contra ela com todo o nosso peso. Uma dobradiça quebrou, depois a outra, e a porta despencou com estrondo. Correndo para o outro lado, encontramo‑nos na sala interior. Estava vazia.

Mas só por um instante fomos nós os culpados. Num canto, o canto mais próximo à sala que havíamos deixado, havia uma segunda porta. Holmes cinuou‑a e puxou‑a aberta. Um casaco e um colete estavam deitados no chão, e de um gancho atrás da porta, com suas próprias alças em volta do pescoço, pendia o diretor‑gerente da Franco‑Midland Hardware Company. Os joelhos estavam dobrados, a cabeça pendia num ângulo terrível em relação ao corpo, e o tilintar dos seus sapatos contra a porta fazia o ruído que havia interrompido a nossa conversa. Num instante agarrei‑o pela cintura e segurei‑o enquanto Holmes e Pycroft desamarravam as faixas elásticas que se tinham enredado entre as rugas vivas da pele. Então o carregamos para a outra sala, onde jazia com o rosto cor de argila, inflando os lábios púrpura a cada respiração — um terrível destroço de tudo que fora cinco minutos antes.

“Que pensa do senhor, Watson?” perguntou Holmes.

Abaixei‑me sobre ele e examinei‑o. Seu pulso era fraco e intermitente, mas a respiração alongava‑se, e havia um leve tremor nas pálpebras, que mostrava uma fina fenda branca da esclera.

“Foi um vai‑e‑vem com ele,” disse eu, “mas viverá agora. Basta abrir aquela janela e entregar‑me a garrafa de água.” Desamarrei o colarinho, derramei água fria sobre o rosto, e levantei e abaixei os braços até que ele tomasse um longo e natural fôlego. “É só uma questão de tempo agora,” disse eu, enquanto me afastava dele.

Holmes permanecia ao lado da mesa, com as mãos fundo nos bolsos da calça e o queixo repousando no peito.

“Acho que devemos chamar a polícia agora,” disse ele. “E, porém, confesso que gostaria de lhes deixar um caso completo quando chegarem.”

“É um mistério abençoado para mim,” exclamou Pycroft, coçando a cabeça. “Queriam trazer‑me até aqui, e então—”

“Pá! Tudo isso está claro o suficiente,” disse Holmes impaciente. “É este último movimento súbito.”

“Entende o resto, então?”

“Acho que é bastante óbvio. E o senhor, Watson?”

Encolhi os ombros. “Devo confessar que estou fora da minha profundidade,” disse eu.

“Ah, certamente, se considerarmos os acontecimentos, no princípio só podem apontar para uma conclusão.”

“O que faz do senhor disso?”

“Bem, tudo depende de dois pontos. O primeiro é a obrigatoriedade de Pycroft escrever uma declaração mediante a qual ingressou no serviço desta empresa grotesca. Não vê quão sugestivo isso é?”

“Temo não ter captado a ideia.”

“Então, por que o queriam assim? Não como assunto comercial, pois tais arranjos são normalmente verbais, e não havia razão comercial terrena para que fosse exceção. Não percebe, meu jovem, que eles estavam ansiosos por obter um exemplar de sua caligrafia, e não tinham outro meio?”

“E por quê?”

“Exatamente. Por quê? Quando respondemos que avançamos um pouco com nosso pequeno problema. Por quê? Só pode haver uma razão adequada. Alguém queria aprender a imitar sua escrita, e para tal precisava primeiro de um exemplar. E agora, passando ao segundo ponto, vemos que cada um lança luz sobre o outro. Esse ponto é a solicitação feita por Pinner de que o senhor não renuncie ao cargo, mas que deixe o gerente deste importante negócio na plena expectativa de que o Sr. Hall Pycroft, a quem nunca viu, deveria ingressar no escritório na manhã de segunda‑feira.”

“Meu Deus!” exclamou nosso cliente, “que besouro cego eu fui!”

“Agora vê o ponto da caligrafia. Suponha que alguém apareça em seu lugar, escrevendo com uma mão completamente diferente da que usou ao candidatar‑se; o jogo já estaria perdido. Mas, no intervalo, o impostor aprendeu a imitá‑lo, e sua posição ficou segura, pois presumo que ninguém no escritório jamais lhe vira o rosto.”

“Nem uma alma,” gemeu Hall Pycroft.

“Muito bem. Evidentemente, era de suprema importância impedir que o senhor pensasse melhor nisso, e também impedir que entrasse em contato com alguém que lhe contasse que seu duplo estava a trabalhar no escritório de Mawson. Por isso deram‑lhe um adiantamento generoso, e enviaram‑o para os Midlands, onde lhe deram trabalho suficiente para evitar que fosse a Londres, onde poderia ter desmascarado seu pequeno plano. Tudo isso é bem claro.”

“Mas por que esse homem deveria fingir ser seu próprio irmão?”

“Bem, isso também está bastante claro. Evidentemente só há dois deles nesta trama. O outro está se passando por você no escritório. Este atuou como seu agente, e então descobriu que não poderia encontrar um empregador sem admitir um terceiro em seu complô. Relutava enormemente em fazê‑lo. Mudou sua aparência tanto quanto pôde, e confiou que a semelhança, que não poderia deixar de notar, fosse atribuída a um parentesco. Mas, pela feliz oportunidade do recheio de ouro, suas suspeitas talvez nunca tivessem sido despertadas.”

Hall Pycroft ergueu as mãos cerradas ao ar. “Meu Deus!” exclamou, “enquanto fui enganado assim, o que fez esse outro Hall Pycroft no escritório de Mawson? O que devemos fazer, Sr. Holmes? Diga‑me o que fazer.”

“Devemos mandar telegrama a Mawson’s.”

“Fecham às doze nos sábados.”

“Não importa. Pode haver algum porte‑iro ou atendente—”

“Ah, sim, mantêm um guarda permanente lá por causa do valor dos valores que guardam. Lembro‑me de ter ouvido falar disso na Cidade.”

“Muito bem; enviaremos telegrama a ele, e veremos se tudo está bem, e se há um escriturário com seu nome a trabalhar lá. Isso está claro; mas o que não está claro é por que, ao nos ver, um dos impostores deve sair imediatamente da sala e enforcar‑se.”

“O papel!” crocou uma voz atrás de nós. O homem estava sentado, pálido e horrendo, com o raciocínio voltando aos olhos, e as mãos esfregando nervosamente a larga faixa vermelha que ainda circundava sua garganta.

“O papel! Claro!” gritou Holmes, num surto de excitação. “Que idiota eu fui! Pensei tanto na nossa visita que o papel jamais passou pela minha cabeça. Certamente o segredo está lá.” Ele desdobrou‑o sobre a mesa, e um grito de triunfo saiu de seus lábios. “Veja isto, Watson,” exclamou. “É um jornal londrino, edição precoce do *Evening Standard*. Eis o que queremos. Vejam as manchetes: ‘Crime na Cidade. Assassinato em Mawson & Williams’. Tentativa Gigantesca de Roubo. Captura do Criminoso.’ Aqui, Watson, estamos todos ansiosos para ouvi‑lo, então leia‑o em voz alta para nós.”

Parecia, pela posição no jornal, ser o único evento de importância na cidade, e o relato se desenvolvia da seguinte forma:

“Uma tentativa desesperada de roubo, culminando na morte de um homem e na captura do criminoso, ocorreu esta tarde na Cidade. Há algum tempo, Mawson & Williams, a famosa casa financeira, tem sido guardiã de valores que somam, em conjunto, mais de um milhão de libras esterlinas. Tão consciente estava o gerente da responsabilidade que lhe cabia, em razão dos grandes interesses em jogo, que cofres da mais recente construção foram empregados, e um vigia armado ficou dia e noite na edificação. Constata‑se que, na semana passada, um novo escriturário, chamado Hall Pycroft, foi contratado pela firma. Essa pessoa revelou‑se ser ninguém menos que Beddington, o famoso falsário e arrombador, que, com seu irmão, havia recém‑sair de cinco anos de servidão penal. Por algum meio, ainda não esclarecido, ele conseguiu obter, sob nome falso, este cargo oficial no escritório, o qual usou para conseguir moldes de várias fechaduras, e um conhecimento aprofundado da posição da sala forte e dos cofres.

“É costume em Mawson’s que os escriturários saiam ao meio‑dia do sábado. O sargento Tuson, da Polícia da Cidade, ficou um tanto surpreso ao ver um cavalheiro com uma bolsa de carpete descer as escadas às vinte minutos da uma. Suas suspeitas foram despertadas, e o sargento seguiu o homem, e com a ajuda do cabo Pollock, conseguiu, após uma resistência desesperada, prendê‑lo. Foi imediatamente evidente que um ousado e gigantesco roubo fora cometido. Quase cem mil libras em títulos ferroviários americanos, com grande quantidade de notas de outras minas e companhias, foram descobertos na bolsa. Ao examinar as instalações, o corpo do infeliz vigia foi encontrado dobrado e empurrado para dentro do maior dos cofres, onde não teria sido descoberto até segunda‑feira de manhã, se não fosse pela ação rápida do sargento Tuson. O crânio do homem fora despedaçado por um golpe de um ferro de barbear dado por trás. Não havia dúvida de que Beddington obtivera a entrada fingindo que deixara algo para trás, e, tendo assassinado o vigia, rapidamente arrombou o grande cofre, e fugiu com o saque. Seu irmão, que normalmente trabalha com ele, não apareceu neste caso, ao que tudo indica, embora a polícia esteja fazendo investigações enérgicas sobre seu paradeiro.”

“Bem, podemos poupar a polícia de algum pequeno transtorno nesse sentido,” disse Holmes, olhando para a figura abatida encostada à janela. “A natureza humana é uma mistura estranha, Watson. Vê que até um vilão e assassino pode inspirar tal afeição que seu irmão se mata ao saber que o pescoço lhe está perdido. Contudo, não temos escolha quanto à nossa ação. O médico e eu permaneceremos de guarda, Sr. Pycroft, se tiver a bondade de se retirar para que a polícia venha.”

V. O “Gloria Scott”

“Tenho alguns papéis aqui,” disse meu amigo Sherlock Holmes, enquanto estávamos sentados numa noite de inverno, cada um ao lado da lareira, “que realmente acho, Watson, que valerá a pena o senhor dar uma olhada. Estes são os documentos do extraordinário caso do *Gloria Scott*, e esta é a mensagem que aterrorizou o Justiceiro de Paz Trevor ao ler.”

Ele tirou de uma gaveta um pequeno cilindro manchado e, desfazendo a fita, entregou‑me um bilhete curto rabiscado num meio‑folha de papel cinza‑ardósia.

“A oferta de caça para Londres está a subir constantemente,” dizia. “Acredita‑se que o caseiro Hudson tenha sido instruído a receber todas as encomendas de papel‑voador e de preservação da vida do seu faisão‑galinha.”

Ao levantar os olhos da leitura desta mensagem enigmática, vi Holmes rindo da expressão em meu rosto.

“Parece‑se um pouco perplexo,” disse ele.

“Não consigo entender como tal mensagem poderia causar horror. Parece‑me mais grotesca que outra coisa.”

“Muito provável. Ainda assim o fato permanece que o leitor, um homem velho, forte e robusto, foi derrubado como se fosse o cano de uma pistola.”

“Desperta a minha curiosidade,” respondi. “Mas por que acabou de dizer que havia razões muito particulares para eu estudar este caso?”

“Porque foi o primeiro em que jamais fui envolvido.”

Já tentei, frequentemente, extrair de meu companheiro o que primeiro motivara sua mente a investigar crimes, mas nunca o apanhei antes num humor comunicativo. Agora sentava‑se ereto naquela poltrona e espalhou os documentos sobre os joelhos. Então acendeu seu cachimbo e ficou um tempo fumando e examinando‑os.

“Jamais ouvi falar de Victor Trevor?” perguntou ele. “Foi o único amigo que fiz nos dois anos que estive na faculdade. Nunca fui muito sociável, Watson, sempre preferi meditar nos meus quartos e desenvolver meus próprios métodos de pensamento, de modo que raramente interagia com os colegas. Fora da esgrima e do boxe, tinha poucos gostos atléticos, e minha linha de estudo era bastante distinta da dos outros, assim não tínhamos nenhum ponto de contato. Trevor foi o único homem que conheci, e isso apenas por causa do acidente de seu bull terrier prender‑se ao meu tornozelo numa manhã, quando descia para a capela.

“Foi uma forma prosaica de formar amizade, mas eficaz. Fiquei deitado deitado pelos calcanhares dez dias, mas Trevor vinha perguntar por mim. No início eram apenas minutos de conversa, mas logo as visitas se prolongaram, e antes do fim do semestre éramos amigos íntimos. Era um sujeito robusto, cheio de vigor e energia, o oposto de mim em quase tudo, mas tínhamos alguns assuntos em comum, e era um laço de união quando descobri que ele era tão solitário quanto eu. Por fim, convidou‑me a ir à casa de seu pai em Donnithorpe, em Norfolk, e aceitei sua hospitalidade por um mês de férias longas.

“O velho Trevor era evidentemente um homem de algum patrimônio e consideração, um J.P. e proprietário de terras. Donnithorpe é um pequeno vilarejo ao norte de Langmere, no país dos Broads. A casa era uma construção antiga, espalhada, de tijolos e vigas de carvalho, com uma avenida bem alicertada de cal‑lime a conduzir até ela. Havia excelente caça de patos selvagens nos pântanos, pesca notável, uma pequena mas seletiva biblioteca, herdada, ao que entendi, de um ocupante anterior, e um cozinheiro tolerável, suficiente para que fosse um homem exigente que não pudesse passar um mês agradável ali.

“O pai de Trevor era viúvo, e meu amigo, seu único filho.

“Ouvi dizer que havia uma filha, mas ela morreu de difteria durante uma visita a Birmingham. O pai interessava‑me muito. Era um homem de pouca cultura, mas com considerável força bruta, tanto física quanto mental. Sabia quase nada de livros, mas viajava muito, tinha visto muito do mundo. E lembrava‑se de tudo o que aprendia. Em pessoa era um homem corpulento, robusto, com cabelos grisalhos em tufos, rosto castanho, marcado pelo tempo, e olhos azuis que reluziam quase à beira da ferocidade. Entretanto tinha reputação de bondade e caridade no campo, e era conhecido pela leniência de suas sentenças no tribunal.

“Numa noite, logo após a minha chegada, estávamos a beber um copo de vinho do porto após o jantar, quando o jovem Trevor começou a falar sobre aqueles hábitos de observação e inferência que eu já havia transformado em um sistema, embora ainda não percebesse o papel que iriam desempenhar na minha vida. O velho evidentemente achava que seu filho exagerava ao descrever um ou dois feitos triviais que eu realizara.

“‘Venha, agora, Sr. Holmes’, disse ele, rindo bem‑humorado. ‘Sou um excelente sujeito, se puder deduzir algo de mim.’

“‘Temo que não haja muito’, respondi; ‘posso sugerir que o senhor tem temido algum ataque pessoal nos últimos doze meses.’

“O riso escapou dos seus lábios, e ele ficou admirado.

“‘Bem, isso é bastante verdade’, disse ele. ‘Sabe, Victor’, virou‑se para o filho, ‘quando desmantelamos aquela quadrilha de caça furtiva, juraram nos esfaquear, e Sir Edward Holly foi realmente atacado. Desde então, estou sempre em guarda, embora não tenha ideia de como o senhor sabe disso.’

“‘Tem um bastão muito bonito’, respondi. ‘Pela inscrição percebi que o senhor o tem há menos de um ano. Mas o senhor teve o cuidado de talhár‑lo e de fundir chumbo fundido no buraco para torná‑lo uma arma formidável. Argumentei que não tomaria tais precauções se não temesse algum perigo.’

“‘Mais alguma coisa?’ perguntou ele, sorrindo.

“‘Praticou boxe bastante na juventude.’

“‘Correto novamente. Como soube? Minha nariz está ligeiramente torto?’

“‘Não’, respondi. ‘São as orelhas. Elas têm o achatamento e o engrossamento peculiares que marcam o boxeador.’

“‘Mais alguma coisa?’

“‘Cavou muito, pelas calosidades.’

“‘Ficou rico nos campos de ouro.’

“‘Esteve na Nova Zelândia.’

“‘Correto novamente.’

“‘Visitou o Japão.’

“‘É verdade.’

“‘E esteve intimamente associado a alguém cujas iniciais eram J. A., e que depois quis esquecer totalmente.’

O Sr. Trevor ergueu‑se lentamente, fixou os grandes olhos azuis em mim com um estranho olhar selvagem, e então se lançou para frente, com o rosto entre as cascas que cobriam o pano, numa queda morta.

Pode imaginar, Watson, o choque que o filho e eu sofremos. Seu ataque não durou muito, porém, pois ao desamarrrarmos o colarinho e derramarmos água de um dos copos de dedo sobre o rosto, ele ofegou duas vezes e sentou‑se.

“Ah, rapazes”, disse ele, forçando um sorriso, “espero não ter assustado. Por forte que pareça, há um ponto fraco em meu coração, e basta pouco para me derrubar. Não sei como o senhor faz isso, Sr. Holmes, mas parece‑me que todos os detetives de fato e de fantasia seriam crianças nas suas mãos. Essa é a sua vocação, senhor, e pode confiar na palavra de um homem que viu o mundo.”

E essa recomendação, com a exagerada avaliação de minha capacidade que o precedeu, foi, se quiserem crer, Watson, a primeira coisa que jamais me fez sentir que uma profissão poderia surgir de um mero hobby. No momento, porém, eu estava demasiado preocupado com a súbita enfermidade do meu anfitrião para pensar em outra coisa.

“Espero não ter dito nada que lhe cause dor?”, perguntei.

“Bem, certamente tocou num ponto delicado. Posso perguntar como sabe, e quanto sabe?” Falou agora em meio a uma brincadeira, mas ainda havia um olhar de terror no fundo dos olhos.

“É simples”, respondi. “Quando o senhor estendeu o braço para puxar o peixe para o barco vi que J. A. estava tatuado na dobra do cotovelo. As letras ainda eram legíveis, mas era perfeitamente claro, pela aparência borrada e pela coloração da pele ao redor, que se tentou apagar. Era óbvio, então, que aquelas iniciais lhe foram muito familiares, e que depois desejou esquecê‑las.”

“Que olho tem o senhor!” exclamou, aliviado. “É exatamente como diz. Mas não falaremos disso. Entre todos os fantasmas, os fantasmas dos nossos antigos amores são os piores. Venha para a sala de bilhar e fume um charuto em silêncio.”

“Desde aquele dia, em meio a toda a sua cordialidade, havia sempre um toque de suspeita na maneira de Mr. Trevor comigo. Até seu filho notou. ‘Você deixou o velho tão perturbado’, disse ele, ‘que ele nunca mais terá certeza do que você sabe e do que não sabe.’ Ele não pretendia demonstrar, tenho certeza, mas estava tão fortemente gravado em sua mente que transparecia em cada ação. Por fim, fiquei tão convencido de que lhe causava inquietação que dei por encerrada minha visita. No próprio dia, porém, antes de eu partir, ocorreu um incidente que se provou, na sequência, ser de importância.

“Estávamos sentados no gramado em cadeiras de jardim, nós três, tomando banho de sol e admirando a vista através de Broads, quando uma criada veio dizer que havia um homem à porta que queria ver Mr. Trevor.

“‘Qual é o seu nome?’ perguntou meu anfitrião.

“‘Ele não quis dar nenhum.’

“‘O que ele quer, então?’

“‘Ele diz que o senhor o conhece, e que quer apenas um momento de conversa.’

“‘Mande-o vir aqui.’ Um instante depois, apareceu um sujeito pequeno e encarquilhado, com um jeito servil e um modo de caminhar arrastado. Ele usava um casaco aberto, com uma mancha de alcatrão na manga, uma camisa xadrez vermelha e preta, calças de brim e botas pesadas muito gastas. Seu rosto era magro, pardo e astuto, com um sorriso perpétuo, que mostrava uma linha irregular de dentes amarelos, e suas mãos enrugadas estavam semicerradas de uma forma característica dos marinheiros. Enquanto ele vinha caminhando preguiçosamente pelo gramado, ouvi Mr. Trevor fazer uma espécie de ruído de engasgo na garganta e, saltando da cadeira, correu para dentro de casa. Estava de volta num instante, e senti um forte cheiro de conhaque quando passou por mim.

“‘Bem, meu homem’, disse ele, ‘o que posso fazer por você?’

“O marinheiro ficou olhando para ele com os olhos semicerrados e com o mesmo sorriso de lábios frouxos no rosto.

“‘O senhor não me conhece?’ perguntou ele.

“‘Ora, meu Deus, certamente é Hudson’, disse Mr. Trevor num tom de surpresa.

“‘Hudson é o meu nome, senhor’, disse o marinheiro. ‘Ora, faz trinta anos e mais desde a última vez que o vi. Aqui está o senhor em sua casa, e eu ainda colhendo minha carne salgada da barrica de mantimentos.’

“‘Ora, verá que não me esqueci dos velhos tempos’, gritou Mr. Trevor e, caminhando em direção ao marinheiro, disse algo em voz baixa. ‘Vá para a cozinha’, continuou ele em voz alta, ‘e receberá comida e bebida. Não tenho dúvida de que lhe arranjarei uma ocupação.’

“‘Obrigado, senhor’, disse o marinheiro, tocando a testa. ‘Acabei de vir de um contrato de dois anos num cargueiro de oito nós, com falta de tripulação, e quero descansar. Pensei em conseguir isso com Mr. Beddoes ou com o senhor.’

“‘Ah!’ gritou Trevor. ‘Você sabe onde está Mr. Beddoes?’

“‘Deus o abençoe, senhor, eu sei onde todos os meus velhos amigos estão’, disse o sujeito com um sorriso sinistro, e saiu arrastando-se atrás da criada para a cozinha. Mr. Trevor murmurou algo para nós sobre ter sido colega de navio do homem quando ia para as minas, e então, deixando-nos no gramado, entrou em casa. Uma hora depois, quando entramos na casa, encontramo-lo estendido, bêbado, no sofá da sala de jantar. O incidente todo deixou uma impressão muito feia em minha mente, e não fiquei triste no dia seguinte por deixar Donnithorpe para trás, pois sentia que minha presença devia ser uma fonte de embaraço para meu amigo.

“Tudo isso ocorreu durante o primeiro mês das longas férias. Voltei para meus aposentos em Londres, onde passei sete semanas trabalhando em alguns experimentos de química orgânica. Um dia, no entanto, quando o outono estava bem avançado e as férias chegando ao fim, recebi um telegrama do meu amigo implorando que eu voltasse a Donnithorpe, e dizendo que ele estava em grande necessidade do meu conselho e assistência. É claro que larguei tudo e parti para o Norte mais uma vez.

“Ele veio me encontrar com a charrete na estação, e vi de relance que os últimos dois meses tinham sido muito difíceis para ele. Ele emagrecera e parecia preocupado, e perdera o jeito alegre e ruidoso pelo qual era notável.

“‘O velho está morrendo’, foram as primeiras palavras que ele disse.

“‘Impossível!’ exclamei. ‘O que aconteceu?’

“‘Apoplexia. Choque nervoso. Ele esteve à beira de um colapso o dia todo. Duvido que o encontremos vivo.’

“Fiquei, como pode imaginar, Watson, horrorizado com esta notícia inesperada.

“‘O que causou isso?’ perguntei.

“‘Ah, esse é o ponto. Suba e podemos conversar enquanto dirigimos. Você se lembra daquele sujeito que apareceu na noite anterior à sua partida?’

“‘Perfeitamente.’

“‘Você sabe quem foi que deixamos entrar na casa naquele dia?’

“‘Não faço ideia.’

“‘Era o diabo, Holmes’, gritou ele.

“Olhei para ele com espanto.

“‘Sim, era o próprio diabo. Não tivemos uma hora de paz desde então — nem uma. O velho nunca mais levantou a cabeça desde aquela noite, e agora a vida foi esmagada nele e seu coração partido, tudo por causa deste maldito Hudson.’

“‘Que poder ele tinha, então?’

“‘Ah, é isso que eu daria muito para saber. O velho gentil, caridoso e bom — como ele pôde cair nas garras de tal rufião! Mas estou tão feliz que você veio, Holmes. Confio muito no seu julgamento e discrição, e sei que me aconselhará para o melhor.’

“Estávamos correndo pela estrada rural lisa e branca, com a longa extensão de Broads à nossa frente, brilhando na luz vermelha do sol poente. De um bosque à nossa esquerda, eu já podia ver as chaminés altas e o mastro da bandeira que marcavam a moradia do proprietário.

“‘Meu pai tornou o sujeito jardineiro’, disse meu companheiro, ‘e então, como isso não o satisfez, ele foi promovido a mordomo. A casa parecia estar à mercê dele, e ele vagava por toda parte e fazia o que queria. As criadas reclamavam de seus hábitos de bebida e de sua linguagem vil. O papai aumentou o salário de todas para compensá-las pelo incômodo. O sujeito pegava o barco e a melhor espingarda do meu pai e presenteava-se com pequenas expedições de caça. E tudo isso com um rosto tão debochado, lascivo e insolente que eu o teria derrubado vinte vezes se ele fosse um homem da minha idade. Digo-lhe, Holmes, tive que me controlar o tempo todo; e agora pergunto-me se, se eu tivesse me deixado levar um pouco mais, não teria sido um homem mais sensato.’

“‘Bem, as coisas foram de mal a pior conosco, e esse animal Hudson tornou-se cada vez mais intrusivo, até que finalmente, ao dar uma resposta insolente ao meu pai na minha presença um dia, peguei-o pelos ombros e expulsei-o da sala. Ele saiu sorrateiramente com um rosto lívido e dois olhos venenosos que proferiam mais ameaças do que sua língua poderia. Não sei o que aconteceu entre o pobre papai e ele depois disso, mas o papai veio a mim no dia seguinte e perguntou-me se eu me importaria de pedir desculpas a Hudson. Recusei, como pode imaginar, e perguntei ao meu pai como ele podia permitir que tal desgraçado tomasse tais liberdades consigo e com sua casa.

“‘“Ah, meu filho”, disse ele, “é muito fácil falar, mas você não sabe a minha situação. Mas você saberá, Victor. Farei com que saiba, aconteça o que acontecer. Você não acreditaria em algo ruim a respeito do seu pobre velho pai, acreditaria, rapaz?” Ele estava muito comovido e trancou-se no escritório o dia todo, onde eu podia ver pela janela que ele escrevia ocupadamente.

“‘Naquela noite, houve o que me pareceu uma grande libertação, pois Hudson nos disse que ia nos deixar. Ele entrou na sala de jantar enquanto estávamos sentados após o jantar e anunciou sua intenção com a voz pastosa de um homem meio bêbado.

“‘“Já tive o suficiente de Norfolk”, disse ele. “Vou descer até Mr. Beddoes em Hampshire. Ele ficará tão feliz em me ver quanto vocês ficaram, suponho.”

“‘“Você não está indo embora num espírito hostil, Hudson, espero”, disse meu pai, com uma docilidade que fez meu sangue ferver.

“‘“Não recebi meu pedido de desculpas”, disse ele mal-humorado, olhando na minha direção.

“‘“Victor, você admitirá que tratou este digno sujeito de forma bastante grosseira”, disse o papai, voltando-se para mim.

“‘“Pelo contrário, acho que ambos mostramos uma paciência extraordinária com ele”, respondi.

“‘“Oh, você acha, é?” ele rosna. “Muito bem, companheiro. Veremos sobre isso!” Ele saiu arrastando-se da sala e, meia hora depois, deixou a casa, deixando meu pai num estado de nervosismo lamentável. Noite após noite, eu o ouvia andando pelo quarto, e foi justamente quando ele estava recuperando a confiança que o golpe finalmente caiu.’

“‘E como?’ perguntei ansiosamente.

“‘De uma forma extraordinária. Uma carta chegou para meu pai ontem à noite, com o carimbo de Fordingbridge. Meu pai leu-a, levou as duas mãos à cabeça e começou a correr pelo quarto em pequenos círculos como um homem que perdeu o juízo. Quando finalmente o puxei para o sofá, sua boca e pálpebras estavam todas contraídas de um lado, e vi que ele tivera um derrame. Dr. Fordham veio imediatamente. Colocamo-lo na cama; mas a paralisia espalhou-se, ele não deu sinal de recuperar a consciência, e acho que dificilmente o encontraremos vivo.’

“‘Você me horroriza, Trevor!’ exclamei. ‘O que então poderia estar nesta carta para causar um resultado tão terrível?’

“‘Nada. Aí reside a parte inexplicável. A mensagem era absurda e trivial. Ah, meu Deus, é como eu temia!’

“Enquanto ele falava, fizemos a curva da avenida e vimos na luz fraca que todas as persianas da casa tinham sido abaixadas. Quando chegamos à porta, com o rosto do meu amigo convulsionado de dor, um cavalheiro de preto surgiu dela.

“‘Quando aconteceu, doutor?’ perguntou Trevor.

“‘Logo após você sair.’

“‘Ele recuperou a consciência?’

“‘Por um instante antes do fim.’

“‘Alguma mensagem para mim?’

“‘Apenas que os papéis estavam na gaveta de trás do gabinete japonês.’

“Meu amigo subiu com o doutor para a câmara mortuária, enquanto eu permanecia no escritório, remoendo o assunto todo em minha cabeça e sentindo-me tão sombrio quanto jamais me sentira em minha vida. Qual era o passado desse Trevor, pugilista, viajante e minerador de ouro, e como ele se colocara nas mãos desse marinheiro de rosto ácido? Por que também ele desmaiaria com uma alusão às iniciais meio apagadas em seu braço e morreria de susto ao receber uma carta de Fordingbridge? Então lembrei-me de que Fordingbridge ficava em Hampshire e que esse Mr. Beddoes, a quem o marinheiro fora visitar e, presumivelmente, chantagear, também fora mencionado como residente em Hampshire. A carta, então, poderia vir de Hudson, o marinheiro, dizendo que ele traíra o segredo culposo que parecia existir, ou poderia vir de Beddoes, avisando um velho confederado de que tal traição era iminente. Até aqui, parecia bastante claro. Mas então, como poderia esta carta ser trivial e grotesca, como descrito pelo filho? Ele deve ter lido errado. Se assim fosse, devia ser um daqueles engenhosos códigos secretos que significam uma coisa enquanto parecem significar outra. Eu precisava ver esta carta. Se houvesse um significado oculto nela, eu estava confiante de que poderia extraí-lo. Durante uma hora, sentei-me ponderando sobre ela na penumbra, até que finalmente uma criada chorosa trouxe uma lâmpada e, logo atrás dela, veio meu amigo Trevor, pálido, mas composto, com estes mesmos papéis que jazem sobre meu colo em suas mãos. Ele sentou-se à minha frente, puxou a lâmpada para a borda da mesa e entregou-me um bilhete curto rabiscado, como pode ver, numa única folha de papel cinza. ‘O suprimento de caça para Londres está aumentando constantemente’, dizia. ‘O guarda-caça chefe Hudson, acreditamos, foi agora instruído a receber todos os pedidos de papel mata-moscas e para a preservação da vida da sua faisoa.’

“Suponho que meu rosto parecia tão perplexo quanto o seu agora, quando li esta mensagem pela primeira vez. Então, reli-a com muito cuidado. Era evidentemente como eu pensava, e algum significado secreto devia estar enterrado nesta estranha combinação de palavras. Ou poderia ser que houvesse um significado pré-arranjado para frases como ‘papel mata-moscas’ e ‘faisoa’? Tal significado seria arbitrário e não poderia ser deduzido de forma alguma. E, no entanto, eu relutava em acreditar que este fosse o caso, e a presença da palavra ‘Hudson’ parecia mostrar que o assunto da mensagem era como eu havia adivinhado, e que era de Beddoes, em vez do marinheiro. Tentei de trás para frente, mas a combinação ‘vida faisoa’ não era encorajadora. Então, tentei palavras alternadas, mas nem ‘O de para’ nem ‘suprimento caça Londres’ prometiam lançar qualquer luz sobre isso. E então, num instante, a chave do enigma estava em minhas mãos, e vi que cada terceira palavra, começando pela primeira, daria uma mensagem que poderia muito bem levar o velho Trevor ao desespero.

“Era curto e conciso, o aviso, como agora leio para meu companheiro:

“‘O jogo acabou. Hudson contou tudo. Fuja pela sua vida.’

“Victor Trevor afundou o rosto nas mãos trêmulas. ‘Deve ser isso, suponho’, disse ele. ‘Isto é pior que a morte, pois significa desonra também. Mas qual é o significado desses “guarda-caças” e “faisoas”?’

“‘Não significa nada para a mensagem, mas pode significar muito para nós se não tivéssemos outros meios de descobrir o remetente. Veja que ele começou escrevendo “O... jogo... acabou”, e assim por diante. Depois, ele teve, para cumprir a cifra pré-arranjada, que preencher quaisquer duas palavras em cada espaço. Ele naturalmente usaria as primeiras palavras que lhe viessem à mente, e se houvesse tantas que se referissem a esporte entre elas, você pode ter certeza de que ele é um atirador ávido ou interessado em criação. Você sabe alguma coisa sobre esse Beddoes?’

“‘Ora, agora que você menciona’, disse ele, ‘lembro-me de que meu pobre pai costumava receber um convite dele para caçar em suas reservas todo outono.’

“‘Então é sem dúvida dele que vem o bilhete’, disse eu. ‘Resta-nos apenas descobrir qual era esse segredo que o marinheiro Hudson parece ter mantido sobre as cabeças desses dois homens ricos e respeitados.’

“‘Ai de mim, Holmes, temo que seja um de pecado e vergonha!’ gritou meu amigo. ‘Mas de você não terei segredos. Aqui está a declaração que foi redigida pelo meu pai quando ele soube que o perigo de Hudson se tornara iminente. Encontrei-a no gabinete japonês, como ele disse ao doutor. Pegue-a e leia para mim, pois não tenho nem a força nem a coragem para fazê-lo eu mesmo.’

“Estes são os mesmos papéis, Watson, que ele me entregou, e eu os lerei para você, como os li naquela noite no antigo escritório para ele. Estão endossados por fora, como vê, ‘Alguns detalhes da viagem do brigue Gloria Scott, desde sua saída de Falmouth em 8 de outubro de 1855, até sua destruição na latitude norte 15º 20’, longitude oeste 25º 14’ em 6 de novembro.’ Está na forma de uma carta e diz o seguinte:

“‘Meu querido, querido filho — Agora que a desgraça iminente começa a obscurecer os anos finais da minha vida, posso escrever com toda a verdade e honestidade que não é o terror da lei, não é a perda da minha posição no condado, nem é a minha queda aos olhos de todos os que me conheceram que me corta o coração; mas é o pensamento de que você venha a se envergonhar de mim — você que me ama e que raramente, espero, teve razão para fazer outra coisa que não me respeitar. Mas se cair o golpe que está para sempre pairando sobre mim, então eu desejaria que você lesse isto, para que saiba diretamente de mim até que ponto fui culpado. Por outro lado, se tudo correr bem (que o bom Deus Todo-Poderoso conceda!), então, se por acaso este papel ainda não estiver destruído e cair em suas mãos, eu o conjuro, por tudo o que você considera sagrado, pela memória de sua querida mãe e pelo amor que houve entre nós, que o lance ao fogo e nunca mais dê um pensamento a ele.

“‘Se, então, seus olhos continuarem a ler esta linha, sei que eu já terei sido exposto e arrastado de minha casa, ou, como é mais provável, pois você sabe que meu coração é fraco, jazendo com a língua selada para sempre na morte. Em qualquer caso, o tempo para a supressão passou, e cada palavra que lhe digo é a verdade nua, e isto eu juro como espero por misericórdia.

“‘Meu nome, querido rapaz, não é Trevor. Eu era James Armitage nos meus dias de juventude, e você pode entender agora o choque que foi para mim, algumas semanas atrás, quando seu amigo da faculdade se dirigiu a mim com palavras que pareciam implicar que ele havia adivinhado meu segredo. Foi como Armitage que entrei numa casa bancária de Londres, e como Armitage fui condenado por infringir as leis do meu país e sentenciado ao transporte. Não pense muito duramente de mim, garotão. Foi uma dívida de honra, assim chamada, que eu tinha que pagar, e usei dinheiro que não era meu para fazê-lo, na certeza de que poderia substituí-lo antes que houvesse qualquer possibilidade de ser notado. Mas a mais terrível má sorte perseguiu-me. O dinheiro com o qual eu contava nunca chegou às minhas mãos, e um exame prematuro das contas expôs meu déficit. O caso poderia ter sido tratado com clemência, mas as leis eram administradas com mais rigor há trinta anos do que agora, e no meu vigésimo terceiro aniversário vi-me acorrentado como um criminoso com outros trinta e sete condenados no convés intermediário do brigue Gloria Scott, com destino à Austrália.

“‘Era o ano de 55, quando a guerra da Crimeia estava no auge, e os antigos navios de condenados tinham sido amplamente usados como transportes no Mar Negro. O governo foi compelido, portanto, a usar embarcações menores e menos adequadas para enviar seus prisioneiros. O Gloria Scott tinha estado no comércio de chá chinês, mas era uma embarcação à moda antiga, de proa pesada e larga, e os novos clippers tinham-na superado. Era um barco de quinhentas toneladas e, além de seus trinta e oito presidiários, levava vinte e seis tripulantes, dezoito soldados, um capitão, três imediatos, um médico, um capelão e quatro carcereiros. Quase cem almas estavam nele, ao todo, quando zarpamos de Falmouth.’”

“‘As divisórias entre as celas dos condenados, em vez de serem de carvalho espesso, como é habitual nos navios de transporte de prisioneiros, eram bastante finas e frágeis. O homem ao meu lado, na parte de ré, era alguém que eu notara particularmente quando fomos conduzidos pelo cais. Era um homem jovem com um rosto limpo, sem barba, um nariz longo e fino e maxilares que lembravam um quebra-nozes. Mantinha a cabeça muito altiva no ar, tinha um modo de andar fanfarrão e era, acima de tudo, notável pela sua estatura extraordinária. Não creio que qualquer das nossas cabeças chegasse ao seu ombro, e estou certo de que não media menos de um metro e noventa e oito. Era estranho, entre tantas faces tristes e cansadas, ver uma que estava cheia de energia e determinação. A visão dela foi para mim como um fogo numa tempestade de neve. Fiquei contente, então, ao descobrir que ele era o meu vizinho, e mais contente ainda quando, na calada da noite, ouvi um sussurro perto do meu ouvido e descobri que ele tinha conseguido cortar uma abertura na tábua que nos separava.

“‘“Olá, parceiro!”, disse ele, “qual é o teu nome e por que estás aqui?”

“‘Respondi-lhe e perguntei, por minha vez, com quem estava a falar.

“‘“Sou Jack Prendergast”, disse ele, “e por Deus! Aprenderás a abençoar o meu nome antes de acabares comigo.”

“‘Lembrei-me de ter ouvido falar do seu caso, pois fora um que causara uma imensa sensação por todo o país algum tempo antes da minha própria prisão. Era um homem de boa família e de grande capacidade, mas de hábitos incuravelmente viciosos, que, através de um engenhoso sistema de fraude, obtivera somas enormes de dinheiro dos principais mercadores de Londres.

“‘“Ha, ha! Lembras-te do meu caso!”, disse ele orgulhosamente.

“‘“Muito bem, na verdade.”

“‘“Então talvez te lembres de algo estranho nele?”

“‘“O que seria isso, então?”

“‘“Eu tinha quase um quarto de milhão, não tinha?”

“‘“Foi o que se disse.”

“‘“Mas nada foi recuperado, eh?”

“‘“Não.”

“‘“Bem, onde supões que está o resto?”, perguntou ele.

“‘“Não faço ideia”, disse eu.

“‘“Bem entre o meu polegar e o indicador”, exclamou ele. “Por Deus! Tenho mais libras no meu nome do que tu tens de cabelos na cabeça. E se tens dinheiro, meu filho, e sabes como o manejar e espalhar, podes fazer qualquer coisa! Ora, não achas provável que um homem que pode fazer qualquer coisa vá gastar as calças sentado no porão fétido de um velho caixão bolorento, infestado de ratos e carcomido por traças, que faz a rota da China. Não, senhor, um homem desses tratará de si próprio e tratará dos seus parceiros. Podes apostar nisso! Mantém-te ao lado dele e podes jurar que ele te safará.”

“‘Esse era o seu estilo de conversa e, a princípio, pensei que não significasse nada; mas, depois de algum tempo, quando ele me testou e me fez jurar com toda a solenidade possível, deixou-me entender que havia realmente um plano para tomar o comando do navio. Uma dúzia dos prisioneiros tramara-o antes de embarcarem; Prendergast era o líder e o seu dinheiro era a força motriz.

“‘“Eu tinha um sócio”, disse ele, “um homem raro e bom, tão fiel como um cão de fila. Ele tem o dinheiro, ele tem, e onde achas que ele está neste momento? Ora, ele é o capelão deste navio — o capelão, nada menos! Embarcou com um casaco preto, os documentos em ordem e dinheiro suficiente na sua caixa para comprar esta coisa desde a quilha até ao topo do mastro principal. A tripulação é dele, de corpo e alma. Ele poderia comprá-los a tanto por dúzia com desconto a pronto, e fê-lo antes mesmo de eles assinarem o contrato. Ele tem dois dos carcereiros e Mercer, o segundo imediato, e teria o próprio capitão, se achasse que ele valia a pena.”

“‘“O que devemos fazer, então?”, perguntei.

“‘“O que achas?”, disse ele. “Vamos tornar os casacos de alguns destes soldados mais vermelhos do que o alfaiate alguma vez fez.”

“‘“Mas eles estão armados”, disse eu.

“‘“E nós também estaremos, meu rapaz. Há um par de pistolas para cada um de nós, e se não conseguirmos tomar este navio, com a tripulação do nosso lado, está na hora de sermos todos enviados para um colégio interno de meninas. Fala com o teu companheiro à esquerda esta noite e vê se é de confiança.”

“‘Fi-lo e descobri que o meu outro vizinho era um jovem em situação muito semelhante à minha, cujo crime fora falsificação. O seu nome era Evans, mas ele mudou-o depois, tal como eu, e é agora um homem rico e próspero no sul da Inglaterra. Estava bem disposto a juntar-se à conspiração, como o único meio de nos salvarmos, e antes de atravessarmos a Baía só havia dois dos prisioneiros que não estavam ao corrente do segredo. Um deles era de mente fraca e não nos atrevíamos a confiar nele, e o outro sofria de icterícia e não podia ser de qualquer utilidade para nós.

“‘Desde o início, na verdade, não havia nada que nos impedisse de tomar posse do navio. A tripulação era um bando de rufiões, escolhidos especialmente para o trabalho. O falso capelão vinha às nossas celas para nos exortar, carregando uma mala preta que se supunha cheia de folhetos, e vinha tão frequentemente que, ao terceiro dia, cada um de nós tinha escondido ao fundo da cama uma lima, um par de pistolas, meio quilo de pólvora e vinte balas. Dois dos carcereiros eram agentes de Prendergast e o segundo imediato era o seu braço direito. O capitão, os dois imediatos, dois carcereiros, o Tenente Martin, os seus dezoito soldados e o médico eram tudo o que tínhamos contra nós. No entanto, por mais seguro que fosse, determinámos não descurar nenhuma precaução e realizar o nosso ataque subitamente, durante a noite. Ele veio, contudo, mais rapidamente do que esperávamos, e da seguinte forma.

“‘Certa noite, por volta da terceira semana após a nossa partida, o médico tinha descido para ver um dos prisioneiros que estava doente e, ao colocar a mão no fundo do seu beliche, sentiu o contorno das pistolas. Se tivesse ficado em silêncio, poderia ter arruinado tudo, mas era um sujeito pequeno e nervoso; por isso, deu um grito de surpresa e ficou tão pálido que o homem percebeu imediatamente o que se passava e agarrou-o. Foi amordaçado antes que pudesse dar o alarme e amarrado à cama. Ele tinha destrancado a porta que dava para o convés, e nós passámos por ela num ímpeto. As duas sentinelas foram abatidas a tiro, assim como um cabo que vinha a correr para ver o que se passava. Havia mais dois soldados à porta da cabine de comando, e os seus mosquetes pareciam não estar carregados, pois nunca dispararam sobre nós, e foram abatidos enquanto tentavam montar as suas baionetas. Depois, corremos para a cabine do capitão, mas, ao abrirmos a porta, houve uma explosão vinda de dentro, e lá estava ele caído, com os miolos espalhados sobre a carta do Atlântico que estava fixada na mesa, enquanto o capelão estava de pé, com uma pistola fumegante na mão, ao seu lado. Os dois imediatos tinham sido capturados pela tripulação, e todo o assunto parecia estar resolvido.

“‘A cabine de comando ficava ao lado da cabine principal, e afluímos lá dentro e atirámo-nos para os sofás, todos a falar ao mesmo tempo, pois estávamos simplesmente loucos com a sensação de que éramos livres mais uma vez. Havia armários por todo o lado, e Wilson, o falso capelão, arrombou um deles e tirou uma dúzia de xerez escuro. Partimos os gargalos das garrafas, servimos o líquido em copos e estávamos prestes a bebê-lo quando, num instante e sem aviso, veio o rugido dos mosquetes aos nossos ouvidos, e o salão ficou tão cheio de fumo que não conseguíamos ver através da mesa. Quando clareou novamente, o lugar era um matadouro. Wilson e oito outros contorciam-se uns sobre os outros no chão, e o sangue e o xerez escuro sobre aquela mesa enjoam-me agora quando penso nisso. Ficámos tão intimidados pela visão que penso que teríamos desistido do trabalho se não fosse por Prendergast. Ele rugiu como um touro e correu para a porta com todos os que restavam vivos no seu encalço. Corremos para fora, e lá, no tombadilho, estavam o tenente e dez dos seus homens. As clarabóias oscilantes acima da mesa do salão tinham ficado um pouco abertas, e eles tinham disparado sobre nós através da fenda. Alcançámo-los antes que pudessem carregar, e eles resistiram como homens; mas tínhamos a vantagem sobre eles e, em cinco minutos, tudo tinha terminado. Meu Deus! Alguma vez houve um matadouro como aquele navio! Prendergast era como um demónio enfurecido; ele agarrava os soldados como se fossem crianças e atirava-os borda fora, vivos ou mortos. Havia um sargento que ficou horrivelmente ferido e, ainda assim, continuou a nadar durante um tempo surpreendente, até que alguém, por misericórdia, lhe rebentou os miolos. Quando a luta terminou, não restava nenhum dos nossos inimigos, exceto os carcereiros, os imediatos e o médico.

“‘Foi por causa deles que surgiu a grande discussão. Muitos de nós estávamos contentes por recuperar a liberdade e, ainda assim, não tínhamos qualquer desejo de ter sangue nas nossas almas. Uma coisa era derrubar os soldados com os seus mosquetes nas mãos, outra era ficar parado enquanto homens eram mortos a sangue frio. Oito de nós, cinco condenados e três marinheiros, dissemos que não permitiríamos que isso fosse feito. Mas não havia como mover Prendergast e aqueles que estavam com ele. A nossa única hipótese de segurança residia em fazer um trabalho limpo, dizia ele, e não deixaria uma língua capaz de se mover numa tribuna de testemunhas. Quase chegámos a partilhar o destino dos prisioneiros, mas, no final, ele disse que, se quiséssemos, poderíamos levar um barco e partir. Aceitámos a oferta prontamente, pois já estávamos fartos daquelas ações sanguinárias e víamos que haveria pior antes que tudo terminasse. Deram-nos um conjunto de roupas de marinheiro a cada um, um barril de água, dois toneis — um de carne salgada e outro de biscoitos — e uma bússola. Prendergast atirou-nos uma carta de navegação, disse-nos que éramos náufragos cujo navio tinha afundado na lat. 15º N. e long. 25º O., e depois cortou a amarra e deixou-nos partir.

“‘E agora chego à parte mais surpreendente da minha história, meu querido filho. Os marinheiros tinham virado a verga do traquete para trás durante a revolta, mas agora, enquanto os deixávamos, colocaram-na de novo em posição, e como havia um vento fraco de norte e leste, a barca começou a afastar-se lentamente de nós. O nosso barco balançava, subindo e descendo, nas longas e suaves ondulações, e Evans e eu, que éramos os mais instruídos do grupo, sentámo-nos na popa a calcular a nossa posição e a planear para que costa nos dirigiríamos. Era uma questão importante, pois as ilhas de Cabo Verde ficavam a cerca de oitocentas quilómetros a norte de nós, e a costa africana a cerca de mil e cem quilómetros para leste. No geral, como o vento estava a virar para norte, pensámos que Serra Leoa poderia ser o melhor, e virámos a proa nessa direção, com a barca naquela altura quase desaparecida no horizonte, a estibordo. Subitamente, enquanto olhávamos para ela, vimos uma densa nuvem negra de fumo disparar de dentro dela, que pairou como uma árvore monstruosa na linha do horizonte. Alguns segundos depois, um rugido como um trovão rebentou aos nossos ouvidos e, à medida que o fumo se dissipava, não restava qualquer sinal do Gloria Scott. Num instante, virámos a proa do barco novamente e remámos com todas as nossas forças para o local onde a névoa, ainda arrastando-se sobre a água, marcava o cenário desta catástrofe.

“‘Levámos uma hora longa até lá chegar e, a princípio, tememos ter chegado tarde demais para salvar alguém. Um barco estilhaçado e uma série de caixotes e fragmentos de mastros subindo e descendo nas ondas mostravam-nos onde o navio tinha naufragado; mas não havia sinal de vida, e tínhamos virado as costas em desespero quando ouvimos um pedido de socorro e vimos, a alguma distância, um pedaço de destroço com um homem estendido sobre ele. Quando o puxámos para bordo do barco, revelou-se ser um jovem marinheiro chamado Hudson, que estava tão queimado e exausto que não nos pôde dar qualquer relato do que tinha acontecido até à manhã seguinte.

“‘Parece que, depois de termos partido, Prendergast e o seu bando procederam à execução dos cinco prisioneiros restantes. Os dois carcereiros tinham sido baleados e atirados borda fora, e o mesmo acontecera com o terceiro imediato. Prendergast desceu então para o convés inferior e, com as suas próprias mãos, cortou a garganta do infeliz cirurgião. Restava apenas o primeiro imediato, que era um homem ousado e ativo. Quando viu o condenado aproximar-se dele com a faca ensanguentada na mão, soltou as suas amarras, que de alguma forma tinha conseguido desapertar, e correndo pelo convés, mergulhou no porão de ré.

“‘Uma dúzia de condenados, que desceu com as suas pistolas à procura dele, encontrou-o com uma caixa de fósforos na mão, sentado ao lado de um barril de pólvora aberto, um dos cem que eram transportados a bordo, jurando que explodiria com todos se fosse de alguma forma molestado. Um instante depois, ocorreu a explosão, embora Hudson pensasse que fora causada pela bala mal direcionada de um dos condenados e não pelo fósforo do imediato. Seja qual for a causa, foi o fim do Gloria Scott e da ralé que detinha o comando dele.

“‘Tal, em poucas palavras, meu querido rapaz, é a história deste negócio terrível em que estive envolvido. No dia seguinte, fomos apanhados pelo brigue Hotspur, com destino à Austrália, cujo capitão não achou difícil acreditar que éramos sobreviventes de um navio de passageiros que tinha naufragado. O navio de transporte Gloria Scott foi dado pelo Almirantado como perdido no mar, e nenhuma palavra vazou sobre o seu verdadeiro destino. Após uma excelente viagem, o Hotspur deixou-nos em Sydney, onde Evans e eu mudámos os nossos nomes e seguimos para as minas, onde, entre as multidões reunidas de todas as nações, não tivemos dificuldade em perder as nossas identidades anteriores.

“‘O resto não preciso de relatar. Prosperámos, viajámos, voltámos como ricos coloniais para Inglaterra e comprámos propriedades rurais. Durante mais de vinte anos levámos vidas pacíficas e úteis, e esperávamos que o nosso passado estivesse para sempre enterrado. Imagina, então, os meus sentimentos quando, no marinheiro que veio ter connosco, reconheci instantaneamente o homem que tinha sido apanhado no naufrágio. Ele tinha-nos seguido de alguma forma e tinha-se dedicado a viver dos nossos medos. Compreenderás agora como foi que eu me esforcei por manter a paz com ele, e em certa medida simpatizarás comigo nos medos que me invadem, agora que ele partiu de mim para a sua outra vítima com ameaças na língua.’

“Por baixo está escrito, com uma letra tão trémula que é quase ilegível: ‘Beddoes escreve em código para dizer que H. contou tudo. Doce Senhor, tende misericórdia das nossas almas!’

“Essa foi a narrativa que li naquela noite ao jovem Trevor, e penso, Watson, que, dadas as circunstâncias, foi dramática. O bom rapaz ficou de coração partido com ela e partiu para as plantações de chá de Terai, onde ouvi dizer que se está a sair bem. Quanto ao marinheiro e a Beddoes, nunca mais se ouviu falar de nenhum deles depois daquele dia em que a carta de aviso foi escrita. Ambos desapareceram completa e totalmente. Nenhuma queixa tinha sido apresentada à polícia, de modo que Beddoes tinha confundido uma ameaça com um ato. Hudson tinha sido visto por perto, e acreditava-se pela polícia que ele tinha dado cabo de Beddoes e fugido. Pela minha parte, acredito que a verdade era exatamente o oposto. Penso que é mais provável que Beddoes, levado ao desespero e acreditando ter sido já traído, se tenha vingado de Hudson e fugido do país com tanto dinheiro quanto pôde deitar as mãos. Esses são os factos do caso, Doutor, e se forem de alguma utilidade para a sua coleção, tenho a certeza de que estão muito à sua disposição.”

VI. O Ritual Musgrave

Uma anomalia que frequentemente me impressionava no caráter do meu amigo Sherlock Holmes era que, embora nos seus métodos de pensamento fosse o mais ordenado e metódico dos homens e embora também afetasse uma certa rigidez silenciosa no vestir, não deixava de ser, nos seus hábitos pessoais, um dos homens mais desarrumados que alguma vez levou um companheiro de casa à loucura. Não que eu seja, de modo algum, convencional a esse respeito. O trabalho atribulado no Afeganistão, somado a um boémio natural de disposição, tornou-me um pouco mais relaxado do que convém a um médico. Mas, comigo, há um limite, e quando encontro um homem que guarda os seus charutos no balde do carvão, o seu tabaco na ponta de um chinelo persa e a sua correspondência por responder espetada por uma navalha bem no centro da sua lareira de madeira, então começo a assumir ares de virtude. Sempre defendi, também, que a prática de tiro com pistola deveria ser claramente um passatempo ao ar livre; e quando Holmes, num dos seus humores estranhos, se sentava numa poltrona com a sua pistola de gatilho sensível e uma centena de cartuchos Boxer, e procedia a adornar a parede oposta com um V. R. patriótico feito de marcas de balas, sentia fortemente que nem a atmosfera nem a aparência do nosso quarto eram melhoradas por isso.

Os nossos aposentos estavam sempre cheios de produtos químicos e de relíquias criminais que tinham o hábito de vaguear para posições improváveis e de aparecer na manteigueira ou em lugares ainda menos desejáveis. Mas os seus papéis eram o meu grande problema. Ele tinha horror a destruir documentos, especialmente aqueles que estavam ligados aos seus casos passados, e ainda assim era apenas uma ou duas vezes por ano que reunia energia para os arquivar e organizar; pois, como mencionei algures nestas memórias incoerentes, as explosões de energia apaixonada quando executava os feitos notáveis com que o seu nome é associado eram seguidas por reações de letargia, durante as quais ele ficava deitado com o seu violino e os seus livros, mal se movendo, exceto do sofá para a mesa. Assim, mês após mês, os seus papéis acumulavam-se, até que cada canto da sala estava empilhado com maços de manuscritos que, sob nenhuma circunstância, deviam ser queimados, e que não podiam ser guardados a não ser pelo seu proprietário. Numa noite de inverno, enquanto estávamos sentados juntos ao lume, aventurei-me a sugerir-lhe que, como tinha terminado de colar extratos no seu livro de recortes, poderia empregar as duas horas seguintes a tornar o nosso quarto um pouco mais habitável. Ele não pôde negar a justiça do meu pedido, por isso, com um rosto bastante pesaroso, dirigiu-se ao seu quarto, de onde regressou pouco depois, puxando uma grande caixa de lata atrás de si. Colocou-a no meio do chão e, agachando-se num banco à frente dela, atirou a tampa para trás. Pude ver que já estava um terço cheia de maços de papel atados com fita vermelha em pacotes separados.

“Há casos suficientes aqui, Watson”, disse ele, olhando para mim com olhos travessos. “Penso que, se soubesses tudo o que tenho nesta caixa, pedir-me-ias para tirar alguns em vez de pôr outros.”

“Estes são os registos do seu trabalho inicial, então?” perguntei. “Sempre desejei ter notas desses casos.”

“Sim, meu rapaz, tudo isso foi feito prematuramente antes que meu biógrafo viesse glorificar‑me.” Ele levantou fardo após fardo de um modo terno, acariciador. “Nem todos são sucessos, Watson,” disse ele. “Mas há alguns pequenos problemas entre eles. Eis o registro dos assassinatos de Tarleton, e o caso de Vamberry, o comerciante de vinhos, e a aventura da velha russa, e o singular caso do apoio de alumínio, bem como o relato completo de Ricoletti, o de pé torto, e sua abominável esposa. E aqui — ah, agora, isto é realmente algo um pouco recherché.”

Ele mergulhou o braço até o fundo do baú, e trouxe à tona uma pequena caixa de madeira com tampa deslizante, tal como se guardam brinquedos de crianças. De dentro extraiu um papel amassado, uma chave de latão à moda antiga, um pino de madeira com uma bola de cordão presa, e três discos de metal enferrujados.

“Bem, meu rapaz, o que fazes desta coleção?” perguntou, sorrindo à minha expressão.

“É uma coleção curiosa.”

“Muito curiosa, e a história que a envolve lhe parecerá ainda mais curiosa.”

“Estes relicários têm, pois, uma história?”

“Tão cheia, que são história.”

“O que queres dizer com isso?”

Sherlock Holmes apanhou‑os um a um, e dispôs‑os ao longo da borda da mesa. Depois reassentou‑se na cadeira e os examinou com um brilho de satisfação nos olhos.

“Estes,” disse ele, “são tudo o que me resta para me lembrar da aventura do Ritual de Musgrave.”

Eu já o tinha ouvido mencionar o caso mais de uma vez, embora nunca tivesse conseguido apanhar os detalhes.

“Ficaria tão feliz,” disse eu, “se me concedesses um relato dele.”

“E deixar o lixo como está?” exclamou ele, travesso. “Sua ordem não suportará muito esforço, afinal, Watson. Mas ficaria feliz que adicionasses este caso aos teus anais, pois há pontos nele que o tornam bastante único nos registos criminais deste, creio eu, ou de qualquer outro país. Uma coleção das minhas insignificantes proezas seria certamente incompleta se não contivesse a narrativa deste negócio tão singular.

“Podes lembrar‑te de como a questão do Gloria Scott, e a minha conversa com o infeliz cujo destino lhe relatei, primeiro dirigiram a minha atenção para a profissão que se tornou o trabalho da minha vida. Vês‑me agora, quando o meu nome se fez conhecido longe e amplo, e quando sou geralmente reconhecido tanto pelo público quanto pela força oficial como sendo a última corte de recurso em casos duvidosos. Mesmo quando me conheceste primeiro, na época da affaire que comemoraste em ‘Um Estudo em Sanguessuga’, já havia estabelecido uma considerável, embora não muito lucrativa, conexão. Mal podes imaginar, então, quão difícil me pareceu no princípio, e quanto tempo aguardei antes de conseguir avançar.”

“Quando cheguei à Londres pela primeira vez, tinha quartos na Montague Street, logo à esquina do British Museum, e lá esperava, ocupando o meu tempo excessivamente livre estudando todas aquelas ramificações da ciência que me pudessem tornar mais eficiente. De vez em quando surgiam casos em meu caminho, principalmente por intermédio de antigos colegas, pois nos meus últimos anos na Universidade correu muito boato sobre mim e meus métodos. O terceiro desses casos foi o do Ritual de Musgrave, e é ao interesse que despertou aquela cadeia singular de acontecimentos, e às grandes questões que se provaram em jogo, que traço o primeiro passo rumo à posição que hoje ocupo.”

“Reginald Musgrave fora colega no mesmo colégio que eu, e eu o conhecia de passagem. Não era muito popular entre os estudantes, embora sempre me parecesse que o que se chamava orgulho era, na verdade, um esforço para encobrir uma extrema timidez natural. Em aparência era um homem de tipo extremamente aristocrático, magro, de nariz elevado e olhos grandes, com maneiras lánguidas e ainda corteses. Era, de fato, descendente de uma das famílias mais antigas do reino, embora seu ramo fosse cadete, tendo‑se separado dos Musgrave do norte por volta do século XVI, e estabelecido‑se no oeste de Sussex, onde a Casa da Mansão de Hurlstone é talvez o edifício habitado mais antigo do condado. Algo de seu local de nascimento parecia agarrar‑se ao homem, e nunca olhava para seu rosto pálido e agudo ou para a postura de sua cabeça sem associ‑‑lo a arcos cinzentos, janelas em moldura e todo o venerável destroço de um torreão feudal. Uma ou duas vezes entrávamos em conversa, e lembro que mais de uma vez ele manifestou um grande interesse pelos meus métodos de observação e inferência.”

“Durante quatro anos nada ouvi dele até que, numa manhã, entrou no meu quarto da Montague Street. Mudara pouco, vestia‑se como um jovem da moda — era sempre um certo dândi — e mantinha a mesma postura tranquila e elegante que antes o distinguia.”

“‘Como tem corrido, Musgrave?’ perguntei, depois de nos cumprimentarmos cordialmente.”

“‘Provavelmente ouviu falar da morte do meu pobre pai,’ disse ele; ‘foi levado há cerca de dois anos. Desde então, naturalmente, tenho os domínios de Hurlstone a gerir, e como sou membro do meu distrito também, a minha vida tem sido atarefada. Mas compreendo, Holmes, que está a direcionar para fins práticos aqueles poderes com que antes nos impressionava.’”

“‘Sim,’ respondi, ‘passei a viver dos meus recursos.’”

“‘Fico encantado por isso, pois o seu conselho agora seria tremendamente valioso para mim. Temos tido feitos muito estranhos em Hurlstone, e a polícia não conseguiu esclarecer a questão. É realmente o negócio mais extraordinário e inexplicável.’”

“Podes imaginar com que ansiedade ouvi‑o, Watson, pois a própria oportunidade que eu esperava ao longo de todos aqueles meses de inatividade parecia ter chegado ao meu alcance. No mais íntimo do meu coração acreditava que poderia triunfar onde outros falharam, e agora tinha a ocasião de testar‑me.”

“‘Rogo, dê‑me os pormenores,’ exclamei.”

Reginald Musgrave sentou‑

“‘Tudo o que nos pertence.’”

“‘Por que deveríamos entregá‑lo?’”

“‘ Em nome da confiança.’”

“‘O original não tem data, mas está escrito com a ortografia da metade do século XVII,’ comentou Musgrave. ‘Temo, porém, que pouco possa ajudar‑lhe na resolução deste mistério.’”

“‘Ao menos,’ disse eu, ‘ele nos oferece outro mistério, e um ainda mais interessante que o primeiro. Pode ser que a solução de um prove ser a solução do outro. Perdoe‑me, Musgrave, se afirmo que o seu mordomo me parece ter sido um homem muito astuto, e que possuía uma perspicácia superior a dez gerações de seus senhores.’”

“‘Mal o compreendo,’ disse Musgrave. ‘O papel me parece de nenhuma importância prática.’”

“‘Mas para mim ele parece imensamente prático, e imagino que Brunton teve a mesma opinião. Ele provavelmente o viu antes daquela noite em que o apanhou.’”

“‘É muito possível. Não nos esforçámos para escondê‑lo.’”

“‘Imagino que ele simplesmente quisesse refrescar a memória naquela última ocasião. Entendo que tinha algum tipo de mapa ou carta que comparava com o manuscrito, e que o empurrou para o bolso quando o senhor apareceu.’”

“‘Isso é verdade. Mas que coisa poderia ter a ver com esse antigo costume familiar nosso, e o que significa todo esse enredo?’”

“‘Não creio que teremos grande dificuldade em determinar isso,’ disse eu; ‘com a sua permissão, tomaremos o primeiro comboio para Sussex e aprofundaremos a questão no local.’”

“O mesmo entardecer encontrou‑nos ambos em Hurlstone. Possivelmente já viu imagens e leu descrições da famosa antiga construção, de modo que limitarei a minha exposição a dizer que ela tem a forma de um L, o braço mais longo sendo a parte mais moderna, e o mais curto o núcleo antigo, do qual o outro se desenvolveu. Sobre a porta baixa, fortemente guarnecida, no centro desta parte antiga, está talhada a data de 1607, mas os especialistas concordam que as vigas e a pedra são, na realidade, muito mais antigas. As paredes enormemente espessas e as pequenas janelas desta ala, no último século, levaram a família a edificar a nova asa, e a antiga foi usada como depósito e adega, quando era usada. Um esplêndido parque com belas madeiras antigas rodeia a casa, e o lago, ao qual o meu cliente fez referência, situa‑se próximo à avenida, a cerca de duzentos metros da edificação.

“Já estava firmemente convencido, Watson, de que não existiam três mistérios distintos aqui, mas apenas um, e que se conseguisse ler o Ritual de Musgrave corretamente teria nas mãos a pista que me conduziria à verdade sobre o mordomo Brunton e a criada Howells. Dirigi, pois, todas as minhas energias a isso. Por que esse servo estava tão ansioso por dominar essa velha fórmula? Evidentemente porque viu nela algo que escapara a todas aquelas gerações de senhorios rurais, e do qual esperava alguma vantagem pessoal. O que era, então, e como havia influenciado o seu destino?

“Foi-me perfeitamente claro, ao ler o Ritual, que as medidas deviam referir‑se a algum ponto ao qual o restante do documento aludia, e que, se encontrássemos esse ponto, estaríamos bem encaminhados a descobrir o segredo que os antigos Musgrave acharam necessário embalsamar de forma tão curiosa. Recebemos duas indicações para começar, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, não havia dúvida alguma. Bem em frente à casa, ao lado esquerdo da alameda, ergue‑se um patriarca entre os carvalhos, uma das árvores mais magníficas que já vi.

“‘Ele já estava ali quando o seu Ritual foi elaborado,’ comentei, enquanto passávamos por ele.

“‘Estava ali, provavelmente, na Conquista Normanda,’ respondeu ele. ‘Tem um perímetro de vinte‑e‑três pés.’ (cerca de sete metros)

“‘Tem algum olmo antigo?’ perguntei.

“‘Havia um muito velho ali adiante, mas foi atingido por um raio há dez anos, e derrubamos o toco.’

“‘Consegue ver onde ficava?’

“‘Ah, sim.’

“‘Não há mais olmos?’

“‘Nenhum velho, mas há muitas faias.’

“‘Gostaria de ver onde ele crescia.’

“Subimos em uma carroça de cão, e o meu cliente conduziu‑me imediatamente, antes de entrarmos na casa, até a cicatriz no gramado onde o olmo se encontrava. Era quase a meio‑caminho entre o carvalho e a casa. Minha investigação parecia avançar.

“‘Supõe‑se que seja impossível descobrir a altura que o olmo tinha?’ indaguei.

“‘Posso dizer‑lhe de imediato. Era sessenta e quatro pés.’ (cerca de 19,5 metros)

“‘Como sabe disso?’ perguntei, surpreso.

“‘Quando o meu velho tutor me dava exercícios de trigonometria, sempre consistiam em medir alturas. Quando eu era garoto, medi cada árvore e construção da propriedade.’

“Foi um golpe de sorte inesperado. Os meus dados chegavam mais rápido do que eu poderia razoavelmente esperar.

“‘Diga‑me,’ perguntei, ‘algum dia o seu mordomo lhe fez tal pergunta?’

“Reginald Musgrave fitou‑me atônito. ‘Agora que o trouxe à memória,’ respondeu, ‘Brunton perguntou‑me a altura da árvore há alguns meses, em relação a uma pequena discussão com o cocheiro.’”

“Era uma notícia excelente, Watson, pois mostrava‑me que estava no caminho certo. Olhei para o sol. Estava baixo no céu, e calculei que, em menos de uma hora, encontraria‑se logo acima dos galhos mais altos do velho carvalho. Uma das condições mencionadas no Ritual seria então cumprida. E a sombra do olmo devia indicar a extremidade mais distante da sombra; caso contrário, teria sido o tronco escolhido como guia. Tive, pois, de descobrir onde cairia a ponta mais distante da sombra quando o sol estivesse exatamente acima do carvalho.”

“‘Deve ter sido difícil, Holmes, quando o olmo já não existia mais.’

“‘Bem, ao menos sabia que, se Brunton conseguia, eu também poderia. Além disso, não havia real dificuldade. Fui com Musgrave ao seu estudo e esculpi‑me um pino, ao qual amarrei um cordão longo com um nó a cada jarda. Depois peguei duas peças de vara de pesca, que mediam exatamente seis pés, e voltei com o cliente ao local onde o olmo estivera. O sol acariciava o topo do carvalho. Fixei a vara em pé, tracei a direção da sombra e medi‑a. Media nove pés de comprimento.

“Claro, o cálculo tornou‑se simples. Se uma vara de seis pés projeta uma sombra de nove, uma árvore de sessenta e quatro pés projetaria uma de noventa e seis, e a linha da uma seria, evidentemente, a linha da outra. Medi a distância, que me trouxe quase até a parede da casa, e cruzei um pino no ponto. Pode imaginar a minha exultação, Watson, quando, a dois polegadas do pino, percebi uma depressão cônica no chão. Soube que era a marca feita por Brunton nas suas medições, e que ainda estava sobre o seu rastro.

“Partindo desse ponto, prossegui a passo, tendo primeiro tomado os pontos cardeais com a bússola de bolso. Dez passos com cada pé levaram‑me ao longo da parede da casa, e novamente cruzei o ponto com um pino. Então, cuidadosamente, contei cinco passos para o leste e dois para o sul. Cheguei à soleira da velha porta. Dois passos para o oeste significavam que eu devia percorrer dois passos pelo corredor de pedra, e esse era o local indicado pelo Ritual.

“Nunca senti tão fria e profunda decepção, Watson. Por um momento, pareceu‑me que devia haver algum erro radical nos meus cálculos. O sol poente iluminava plenamente o piso do corredor, e pude ver que as pedras cinzentas, gastas pelos pés, estavam firmemente assentadas, sem ter sido movidas por muitos anos. Brunton não havia trabalhado ali. Batia no chão, mas o som era uniforme, não havia fissura ou fenda. Contudo, felizmente, Musgrave, que começara a compreender o sentido dos meus procedimentos e que agora estava tão excitado quanto eu, tirou o manuscrito para verificar o cálculo.

“‘E o “e sob”!’ exclamou. ‘Você omitiu o “e sob”.’

“Pensei que significasse que devíamos cavar, mas agora, claro, percebi que estava errado. ‘Então há uma adega sob isto?’ gritei.

“‘Sim, tão antiga quanto a casa. Desça por esta porta.’”

“Descemos por uma escadaria de pedra em espiral, e o meu companheiro, ao acender um fósforo, iluminou uma grande lanterna que repousava sobre um barril no canto. Em um instante ficou evidente que havíamos finalmente encontrado o verdadeiro local, e que não éramos os únicos a tê‑lo visitado recentemente.

“Era usado para armazenar lenha, porém os troncos, evidentemente espalhados pelo chão, estavam agora empilhados nas laterais, deixando um espaço livre no meio. Nesse espaço repousava uma laje grande e pesada, com um anel de ferro enferrujado ao centro ao qual estava preso um grosso abafador de pastor.

“‘Pelo amor de Júpiter!’ exclamou o meu cliente. ‘É o abafador de Brunton. Eu já o vi nele, e poderia jurar por isso. Que fazia o vilão aqui?’”

“A meu pedido, foram chamados dois policiais do condado para estar presentes, e eu então tentei erguer a laje puxando‑a pela gravata. Consegui movê‑la apenas um pouco, e, com a ajuda de um dos guardas, consegui finalmente deslocá‑la para um lado. Um buraco negro se abriu abaixo, para o qual todos nós olhámos, enquanto Musgrave, ajoelhado ao lado, abaixava a lanterna.

“Um pequeno compartimento, de cerca de dois metros de profundidade e um metro e vinte de largura, abriu‑se ante nós. Em um dos lados havia uma caixa baixa de madeira, com dobradiças de latão, cuja tampa se levantava para cima, e uma curiosa chave antiquada projetava‑se da fechadura. Estava coberta por uma grossa camada de pó, e a humidade e os vermes haviam corroído a madeira, de modo que um véu de fungos verdes crescia no interior. Vários discos de metal, aparentemente moedas antigas, como as que seguro aqui, estavam espalhados pelo fundo da caixa, mas ela não continha mais nada.

“No momento, porém, não pensávamos na velha caixa; nossos olhos estavam fixos na figura que se agachava ao seu lado. Era a silhueta de um homem, trajado de um sobretudo negro, ajoelhado sobre as coxas, com a fronte apoiada na borda da caixa e os dois braços estendidos dos lados. A postura tinha puxado todo o sangue estagnado para o rosto, e ninguém poderia reconhecer aquela feição cor de fígado; porém sua altura, indumentária e cabelo eram suficientes para que o meu cliente, quando retiramos o corpo, reconhecesse‑o como o seu mordomo desaparecido. Estava morto há alguns dias, mas não havia ferida nem hematoma que indicasse como encontrara o fim terrível. Quando o corpo foi carregado da adega, ainda nos deparávamos com um problema quase tão formidável quanto o que tínhamos enfrentado no início.

“Confesso que, até então, Watson, eu estava desapontado com a investigação. Contava‑me resolver o caso ao localizar o ponto referido no Ritual; mas agora eu estava lá, e, ao que parece, tão longe quanto antes de descobrir o que a família havia escondido com tão elaboradas precauções. É verdade que eu iluminei o destino de Brunton, mas ainda precisava esclarecer como esse destino lhe sobreveio, e que papel desempenhara na questão a mulher que desaparecera. Sentei‑me sobre um barril no canto e repensei todo o caso cuidadosamente.

“Você conhece os meus métodos nesses casos, Watson. Coloco‑me no lugar do homem e, avaliando‑primeiro a sua inteligência, tento imaginar como eu mesmo teria procedido nas mesmas circunstâncias. Neste caso, o quadro se simplifica porque a inteligência de Brunton era de primeira classe, de modo que não se faz necessário fazer qualquer ajuste à ‘equação pessoal’, como os astrônomos a denominam. Ele sabia que algo valioso estava oculto. Tinha descoberto o local. Encontrou a pedra que o cobria, pesada demais para ser movida a solo. O que faria a seguir? Não poderia obter ajuda de fora, mesmo que confiasse em alguém, sem abrir portas e correr o risco de ser descoberto. Era melhor, se possível, contar com um cúmplice dentro da casa. Mas quem poderia ser? Aquela moça estava devotada a ele. Um homem tem dificuldade em aceitar que pode ter perdido o amor de uma mulher, por mais que a tenha tratado mal. Tentaria, com alguns gestos, reconciliar‑se com a moça Howells, e então a envolveria como cúmplice. Juntos, ela e ele viriam à noite à adega, e a força conjunta seria suficiente para erguer a pedra. Até aqui, pude seguir as ações como se as tivesse visto.

“Mas para dois deles, e ainda mais para uma mulher, erguer aquela pedra seria trabalho pesado. Um policial corpulento de Sussex e eu não achávamos que fosse nada fácil. O que fariam para ajudá‑los? Provavelmente o que eu mesmo teria feito. Levantei‑me e examinei cuidadosamente os troncos de madeira espalhados pelo chão. Quase imediatamente deparei‑me com o que esperava. Um pedaço, de cerca de um metro, apresentava uma entalhe bem marcada numa extremidade, enquanto vários estavam achatados nas laterais, como se tivessem sido comprimidos por um peso considerável. Evidentemente, ao erguê‑la, introduziram os troncos na fenda, até que, finalmente, quando a abertura fosse grande o suficiente para se enfiar, a mantivessem aberta com um tronco colocado longitudinalmente, o qual poderia ficar entalhado na extremidade inferior, pois o peso total da pedra o pressionaria contra a borda da outra laje. Até ali, ainda permanecia em terreno seguro.

“E agora, como prosseguir para reconstruir esse drama noturno? Claramente, só um poderia entrar no buraco, e esse era Brunton. A moça teria esperado acima. Brunton então abriu a caixa, entregou o conteúdo – presumivelmente, pois não foi encontrado – e então… e então o que aconteceu?

“Que fogo fumegante de vingança acendeu‑se de repente na alma desta apaixonada celta quando viu o homem que a havia ofendido – talvez mais do que supúnhamos – à sua mercê? Foi um acaso que a madeira escorregou, e a pedra enclausurou Brunton no que se tornou seu túmulo? Ela seria apenas culpada por silenciar o seu destino? Ou teria um golpe repentino da sua mão derrubado o suporte, fazendo a laje cair sobre ele? Seja como for, parecia‑me ver a figura da mulher ainda agarrada ao seu tesouro e subindo furiosamente pela escada espiral, com os ouvidos zumbindo talvez com gritos abafados ao fundo e com o tamborilar de mãos frenéticas contra a pedra que apertava a vida do amante infiel.

“Aqui estava o segredo do seu rosto pálido, dos nervos trêmulos, das gargalhadas histéricas na manhã seguinte. Mas o que havia na caixa? O que fez dela? Claro, deviam ser os antigos metais e pedras que o meu cliente arrastara do lago. Ela os tinha jogado ali à primeira oportunidade para eliminar o último vestígio do crime.

“Por vinte minutos permaneci imóvel, refletindo sobre tudo. Musgrave ainda estava de pé, pálido, balançando a lanterna e espiando o buraco.

“‘Estas são moedas de Carlos I,’ disse ele, oferecendo as poucas que estavam na caixa; ‘vê‑se que acertámos a data do Ritual.’”

“‘Podemos encontrar outra coisa de Carlos I,’ exclamei, ao perceber subitamente o sentido das duas primeiras perguntas do Ritual. ‘Mostre‑me o conteúdo do saco que tirou do lago.’”

“Subimos ao seu estudo, e ele espalhou os destroços diante de mim. Pude perceber que ele os considerava de pouca importância, pois o metal era quase negro e as pedras opacas e sem brilho. No entanto, esfreguei‑uma delas na manga e, depois, brilhou como uma faísca no vazio da minha mão. O objeto metálico tinha a forma de um anel duplo, mas fora torcido e deformado de seu aspecto original.

“‘Deve ter em mente,’ disse eu, ‘que a comitiva real chegou à Inglaterra mesmo após a morte do rei, e que, ao fugirem, provavelmente deixaram muitos dos seus preciosos pertences enterrados, com a intenção de os recuperar em tempos mais pacíficos.’

“‘Meu antepassado, Sir Ralph Musgrave, foi um Cavalheiro destacado e braço direito de Carlos II em suas peregrinações,’ afirmou o meu amigo.

“‘Ah, verdade!’ respondi. ‘Bem, penso que isso realmente nos fornece o último elo que precisávamos. Devo felicitá‑lo por ter adquirido, ainda que de modo trágico, um artefato de grande valor intrínseco, mas ainda maior como curiosidade histórica.’

“‘O que é, então?’ ele ofegou, atônito.

“‘Não é menos que a antiga coroa dos Reis da Inglaterra.’

“‘A coroa!’

“‘Exatamente. Considere o que o Ritual diz: Como se desenrola? “De quem era?” “De quem já se foi.” Isso se refere ao período pós‑execução de Carlos. Depois, “Quem a terá?” “Aquele que virá.” Isso aponta para Carlos II, cujo retorno já era predito. Creio que não haja dúvida de que este diadema, gasto e sem forma, um dia enfeitara as testas dos Stuarts reais.’

“‘E como acabou no lago?’

“‘Ah, essa é uma questão que demandará algum tempo para ser respondida.’ E, com isso, esbocei para ele toda a longa cadeia de suposições e provas que havia construído. O crepúsculo já cerrava e a lua brilhava intensamente no céu antes que eu terminasse a narrativa.

“‘E por que então Carlos não recuperou a coroa ao regressar?’ perguntou Musgrave, recolocando o relicário na bolsa de linho.

“‘Ah, aí reside o ponto que talvez nunca possamos esclarecer. É provável que o Musgrave que guardava o segredo tenha morrido nesse intervalo e, por algum descuido, deixado este guia ao seu descendente sem explicar o seu sentido. Desde então, tem sido passado de pai a filho, até que finalmente chegou às mãos de um homem que arrancou o segredo e perdeu a vida na empreitada.’

“E essa é a história do Ritual de Musgrave, Watson. A coroa está em Hurlstone – embora tenham tido algumas complicações legais e um considerável gasto antes de poderem mantê‑la. Tenho certeza de que, se mencionar o meu nome, eles terão prazer em mostrá‑la. Quanto à mulher, nunca se soube nada; a probabilidade é que tenha fugido da Inglaterra, levando consigo o próprio corpo e a memória do crime, para alguma terra além dos mares.”

VII. Os Esquires de Reigate

Demorou algum tempo até que a saúde do meu amigo, o Sr. Sherlock Holmes, se recuperasse da tensão provocada pelos imensos esforços realizados na primavera de 87. A inteira questão da Companhia Holanda‑Sumatra e dos planos colossais do Barão Maupertuis ainda são demasiado recentes na mente do público, e estão demasiado intimamente ligadas à política e às finanças para constituírem assuntos apropriados a esta série de esboços. Conduziram‑nos, porém, de forma indireta a um problema singular e complexo que deu ao meu amigo a oportunidade de demonstrar o valor de uma arma nova entre as muitas com que luta a sua batalha de toda a vida contra o crime.

Ao consultar as minhas notas, vejo que foi no dia 14 de abril que recebi um telegrama de Lyon anunciando que Holmes encontrava‑se enfermo no Hotel Dulong. Em vinte‑e‑quatro horas eu já estava em seu quarto de doentes, aliviado ao constatar que não havia nada de formidável nos seus sintomas. Ainda assim, a sua constituição de ferro havia sucumbido à pressão de uma investigação que se estendeu por dois meses, período em que nunca trabalhou menos de quinze horas por dia, e que, como me assegurou, mais de uma vez manteve‑se ao encargo por cinco dias consecutivos. Mesmo o resultado triunfal de seus trabalhos não pôde livrá‑lo da reação após tão terrível esforço, e num momento em que a Europa ecoava com o seu nome e o seu quarto se encontrava literalmente a joelhos de telegramas de felicitações, encontrei‑o à mercê da mais negra depressão. Mesmo o saber que havia tido sucesso onde as polícias de três países falharam, e que havia superado em todos os pontos o mais habilidoso trapaceiro da Europa, não bastou para despertá‑lo de sua prostração nervosa.

Três dias depois estávamos de volta à Baker Street juntos; mas era evidente que o meu amigo se beneficiaria grandemente de uma mudança, e a ideia de passar uma semana de primavera no campo era também muito atrativa para mim. O meu velho amigo, o coronel Hayter, que havia passado sob os meus cuidados profissionais no Afeganistão, tinha agora adquirido uma casa perto de Reigate, em Surrey, e frequentemente me convidava a visitá‑lo. Na última ocasião comentou que, se o meu amigo viesse comigo, teria prazer em estender a sua hospitalidade ao mesmo. Foi preciso um pouco de diplomacia, mas quando Holmes percebeu que o estabelecimento era de solteiro e que lhe seria concedida a máxima liberdade, aceitou o plano e, uma semana depois do nosso regresso de Lyon, encontrámo‑nos sob o teto do coronel. Hayter era um notável velho soldado que havia visto muito do mundo, e logo verificou, como eu esperava, que Holmes e ele tinham muito em comum.

Na noite da nossa chegada estávamos sentados na sala de armas do coronel, após o jantar; Holmes estirado no sofá, enquanto Hayter e eu examinávamos o seu pequeno arsenal de armas de fogo.

— A propósito — disse ele de repente —, acho que levarei uma destas pistolas ao andar‑cima, caso tenhamos um alarme.

— Um alarme! — respondi.

— Sim, tivemos um susto por aqui recentemente. O velho Acton, que é um dos nossos magnatas do condado, teve a sua casa arrombada na última segunda‑feira. Não houve grande dano, mas os rapazes ainda estão em fuga.

— Sem pistas? — perguntou Holmes, lançando um olhar ao coronel.

— Ainda nenhuma. Mas trata‑se de um caso menor, um dos nossos pequenos crimes campestres, que deve parecer demasiado ínfimo para a sua atenção, Sr. Holmes, depois desta grande e internacional ocorrência.

Holmes afastou o elogio, embora o seu sorriso revelasse que lhe agradara.

— Houve algum detalhe de interesse?

— Não me parece. Os ladrões revistaram a biblioteca e conseguiram muito pouco pelo esforço. A casa inteira foi revirada, gavetas arrebentadas, prensas revistadas, resultando apenas no desaparecimento de um volume raro de Pope, “Homer”, dois castiçais folheados, um peso de carta em marfim, um pequeno barómetro de carvalho e um novelo de linha.

— Que coleção extraordinária! — exclamei.

— Ah, evidentemente os rapazes agarraram tudo o que puderam.

Holmes resmungou do sofá.

— A polícia do condado devia fazer alguma coisa disso — disse ele —; por que, é óbvio que—

Mas levantei o dedo em sinal de advertência.

— Está aqui para descansar, meu caro. Pelo amor de Deus, não se lance num novo caso enquanto os nervos ainda estão em frangalhos.

Holmes encolheu os ombros com um olhar de resignação cômica ao coronel, e a conversa desvia‑se para temas menos perigosos.

Estava destinado, porém, que toda a minha cautela profissional fosse em vão, pois na manhã seguinte o problema impôs‑se a nós de modo impossível de ser ignorado, e a nossa visita ao campo tomou um rumo que nenhum de nós poderia ter previsto. Estávamos ao pequeno‑almoço quando o mordomo do coronel entrou apressado, todo o decoro-lhe escorrido.

— Já ouviu a notícia, senhor? — ofegou — — Na casa dos Cunningham!

— Roubo! — bradou o coronel, com a chávena de café ainda no ar.

— Assassinato!

O coronel assobiou. — Por Júpiter! — exclamou — — Quem foi morto, então? O J.P. ou o filho?

— Nenhum dos dois, senhor. Foi William, o cocheiro. Foi alvejado no coração, senhor, e nunca mais falou.

— Quem o disparou?

— O ladrão, senhor. Fugiu como um tiro e escapou limpo. Tinha acabado de entrar pela janela da despensa quando William o encontrou e morreu ao defender a propriedade do seu mestre.

— A que horas?

— Foi na noite passada, senhor, por volta da meia‑noite.

— Ah, então partiremos depois — disse o coronel, acomodando‑se serenamente ao pequeno‑almoço. — É um assunto lamentável — acrescentou quando o mordomo se retirou — — o nosso homem de referência por aqui é o velho Cunningham, um sujeito muito decente. Ficará arrasado com isto, pois o homem está ao nosso serviço há anos e era um bom servo. Evidentemente são os mesmos vilões que arrombaram a casa de Acton.

— E roubaram aquela coleção tão singular — disse Holmes, pensativo.

— Precisamente.

— Hum! Pode ser a coisa mais simples do mundo, mas à primeira vista isto parece um pouco curioso, não acha? Uma quadrilha de ladrões atuando no campo poderia variar o cenário das suas operações, ao invés de invadir duas residências no mesmo distrito em poucos dias. Quando falava da noite passada sobre tomar precauções, lembro‑me de ter pensado que provavelmente este seria o último paroquia da Inglaterra a que o ladrão ou ladrões se voltariam — o que demonstra que ainda tenho muito a aprender.

— Imagino que seja algum praticante local — disse o coronel. — Nesse caso, claro, Acton e Cunningham são justamente os lugares que ele escolheria, já que são os maiores por aqui.

— E os mais ricos?

— Pois deveriam ser, mas há anos têm um processo que tem sugado o sangue de ambos, creio eu. O velho Acton tem alguma pretensão sobre metade da herança de Cunningham, e os advogados têm‑os a ambos nas mãos.

— Se for um vilão local, não deverá ser difícil capturá‑lo — disse Holmes bocejando. — Muito bem, Watson, não pretendo interferir.

— Inspetor Forrester, senhor — disse o mordomo, batendo a porta.

O oficial, um jovem de rosto afiado e inteligente, adentrou o recinto. — Bom dia, coronel — disse — — Espero não incomodar, mas soubemos que o Sr. Holmes, de Baker Street, está aqui.

O coronel acenou em direção ao meu amigo, e o Inspetor fez uma reverência.

— Pensámos que talvez quisesse passar, Sr. Holmes.

— O destino está contra vós, Watson — disse ele rindo. — Estávamos a conversar sobre o caso quando entrou, Inspetor. Talvez nos dê alguns pormenores. — Ao recostar‑se na cadeira, na postura familiar, percebi que o caso era irremediável.

— Não tínhamos pista no caso Acton. Mas aqui temos muito para investigar, e não há dúvida de que se trata da mesma pessoa em ambos os casos. O homem foi visto.

— Ah!

— Sim, senhor. Mas ele fugiu como um cervo logo depois do disparo que matou o pobre William Kirwan. O Sr. Cunningham viu‑o da janela do seu quarto, e o Sr. Alec Cunningham viu‑o do corredor posterior. Era um quarto para as doze quando o alarme soou. O Sr. Cunningham acabara de se deitar, e o Sr. Alec fumava um cachimbo no roupão. Ambos ouviram o cocheiro chamar por socorro, e Alec correu para ver o que se passava. A porta dos fundos estava aberta, e ao chegar ao pé da escada viu dois homens a lutar fora. Um disparou, o outro caiu, e o assassino correu pelo jardim e saltou a sebe. O Sr. Cunningham, olhando da sua janela, viu‑o alcançar a estrada, mas perdeu‑o de vista imediatamente. Alec parou para ver se podia ajudar o moribundo, e assim o vilão escapou limpo. Para além de ser de estatura média e estar vestido de roupa escura, não temos pista pessoal; mas estamos a fazer inquéritos enérgicos e, se for um estranho, logo o descobriremos.

— O que fazia o William ali? Disse‑lhe alguma coisa antes de morrer?

— Nenhuma palavra. Vive na casa com a mãe, e como era muito fiel imaginamos que subiu à casa para verificar que tudo estava bem. Claro que este caso Acton deixou todos em alerta. O ladrão deve ter arrombado a porta — a fechadura foi forçada — quando William o encontrou.

— Disse William algo à mãe antes de sair?

— Ela é muito velha e surda, e não conseguimos obter informação dela. O choque a deixou meio‑demente, mas nunca foi muito esperta. Há, porém, uma circunstância muito importante. Olhe isto!

Ele tirou um pequeno pedaço de papel rasgado de um caderno e espalhou‑o no joelho.

— Isto foi encontrado entre o dedo e o polegar do falecido. Parece ser um fragmento rasgado de uma folha maior. Notará que a hora anotada nele coincide exatamente com o momento em que o pobre homem encontrou o destino. Vê‑se que o assassino pode ter arrancado o resto da folha ou ter tomado este fragmento do assassino. Lê‑se quase como se fosse um compromisso.

Holmes apanhou o papel, cuja fac‑simile se reproduz aqui.

— Pressupondo que seja um compromisso — continuou o Inspetor —, é, evidentemente, uma teoria concebível que o William Kirwan, embora fosse reputado como homem honesto, possa ter sido cúmplice do ladrão. Poderia ter‑lhe encontrado ali, até ajudá‑lo a arrombar a porta, e depois ter‑se desentendido.

— Esta escrita tem extraordinário interesse — disse Holmes, que a examinava com intensa concentração. — São águas muito mais profundas do que eu pensava. — Ele afundou a cabeça nas mãos, enquanto o Inspetor sorria ao efeito que o caso produzia no famoso especialista londrino.

— O seu último comentário, sobre a possibilidade de existir um acordo entre o ladrão e o criado, e este ser um bilhete de compromisso de um para o outro, é uma suposição engenhosa e não inteiramente impossível. Mas este escrito abre — — Ele voltou a afundar a cabeça nas mãos e permaneceu alguns minutos em pensamento profundo. Quando ergueu o rosto novamente, surpreendi‑me ao ver a bochecha corada e os olhos tão vivos como antes da enfermidade. Saltou em pé com toda a sua antiga energia.

— Direi o quê — disse ele —, gostaria de fazer uma breve inspeção dos pormenores deste caso. Há algo nele que me fascina enormemente. Se me permitir, coronel, deixarei o meu amigo Watson e o senhor, e irei junto ao Inspetor testar a veracidade de uma ou duas das minhas fantasias. Voltarei a vós em meia hora.

Passaram‑se uma hora e meia antes que o Inspetor retornasse sozinho.

— O Sr. Holmes está a andar pelos campos lá fora — disse ele —; pretende que os quatro subamos à casa juntos.

— À casa do Sr. Cunningham?

— Sim, senhor.

— Para quê?

O Inspetor encolheu os ombros. — Não sei bem, senhor. Entre nós, acho que o Sr. Holmes ainda não superou a enfermidade. Está a comportar‑se de forma muito estranha e está bastante excitado.

— Não lhe parece necessário alarmar‑se — disse eu. — Sempre achei que há método na sua loucura.

— Alguns diriam que há loucura no método — murmurou o Inspetor. — Mas ele está

“Bem, estamos totalmente nas suas mãos, Sr. Holmes”, disse o velho Cunningham. “Qualquer coisa que o senhor ou o Inspetor sugerir será feita, sem dúvida.”

“Em primeiro lugar”, disse Holmes, “gostaria que oferecesse uma recompensa — vindoura de vossa pessoa, pois os oficiais podem demorar algum tempo antes de concordarem com o valor, e tais coisas não podem ser feitas com demasiada demora. Anotei o formulário aqui; se não se importar de assiná‑lo. Cinqüenta libras bastariam, pensei.”

“Eu daria de bom grado quinhentas”, disse o J.P., tomando o pedaço de papel e o lápis que Holmes lhe entregara. “Não está bem, porém”, acrescentou, examinando o documento.

“Escrevi‑o com pressa.”

“Vê, começou com: ‘Considerando que, por volta de um quarto para a uma na manhã de terça‑feira, foi feita uma tentativa…’, etc. Na verdade era um quarto para as doze.”

Fiquei dolorido com o erro, pois sabia o quanto Holmes se incomodaria com qualquer deslize desse tipo. Era sua especialidade ser preciso nos fatos, mas sua recente enfermidade o havia abalado, e esse pequeno incidente bastou para mostrar‑me que ainda estava longe de ser ele mesmo. Evidentemente ficou embaraçado por um instante, enquanto o Inspetor arqueava as sobrancelhas, e Alec Cunningham despencou em gargalhada. Contudo o velho cavalheiro corrigiu o engano e devolveu o papel a Holmes.

“Faça‑o imprimir o quanto antes”, disse ele; “creio que sua ideia é excelente.”

Holmes guardou o papel cuidadosamente na sua carteira.

“E agora”, disse ele, “seria realmente útil percorrermos toda a casa juntos e assegurarmo‑nos de que esse ladrão tão errático não tenha, de fato, levado nada consigo.”

Antes de entrar, Holmes examinou a porta que fora arrombada. Era evidente que um cinzel ou faca robusta fora empurrado, e a fechadura forçada com ele. Podíamos ver as marcas na madeira onde fora introduzido.

“Então não usam grades?” perguntou ele.

“Nunca julgamos necessário.”

“Não têm cão?”

“Sim, mas está acorrentado do outro lado da casa.”

“A que horas os criados se recolhem?”

“Por volta das dez.”

“Tenho a impressão de que William também estava na cama nessa hora.”

“Sim.”

“É singular que, naquela noite em particular, ele estivesse acordado. Agora, ficaria muito grato se tivesse a bondade de nos conduzir pela casa, Sr. Cunningham.”

Um corredor de pedra, com as cozinhas ramificando‑se dele, conduzia, por uma escada de madeira, diretamente ao primeiro andar da casa. Saía para o patamar oposto a uma segunda escada, mais ornamentada, que subia do hall principal. Deste patamar surgiam a sala de estar e vários quartos, inclusive os de Sr. Cunningham e de seu filho. Holmes caminhava lentamente, observando atentamente a arquitetura da casa. Pude perceber, pela sua expressão, que estava sobre um rastro quente, embora não conseguisse imaginar para onde suas inferências o levavam.

“Bom senhor”, disse o Sr. Cunningham com certa impaciência, “isto é evidentemente desnecessário. Esse é o meu quarto, ao fim da escada, e o do meu filho é o que está além. Deixo ao seu critério decidir se foi possível ao ladrão subir aqui sem nos perturbar.”

“Deve rondar e apanhar um novo rastro, ao que me parece”, disse o filho, com um sorriso perverso.

“Ainda assim, peço que me divirta um pouco mais. Gostaria, por exemplo, de ver até onde as janelas dos quartos se voltam para a frente. Isto, ao que entendo, é o quarto do seu filho

“Tive uma pequena conversa com o velho Cunningham depois, sobre o motivo do crime. Ele era bastante maleável, embora o seu filho fosse um autêntico demónio, pronto a rebentar os miolos a si próprio ou a qualquer outra pessoa se tivesse conseguido chegar ao seu revólver. Quando Cunningham viu que as provas contra ele eram tão fortes, perdeu toda a coragem e confessou tudo. Parece que William tinha seguido secretamente os seus dois patrões na noite em que fizeram a sua incursão em casa do Sr. Acton e, tendo-os assim sob o seu poder, procedeu, sob ameaças de denúncia, a extorquir-lhes dinheiro. O Sr. Alec, contudo, era um homem perigoso para se jogar a esse tipo de jogos. Foi um golpe de génio positivo da sua parte ver, no pânico dos assaltos que estava a convulsionar a região, uma oportunidade de se livrar de forma plausível do homem que temia. William foi atraído para lá e alvejado, e se tivessem conseguido o resto da nota e prestado um pouco mais de atenção aos detalhes nos acessórios, é muito possível que a suspeita nunca tivesse sido despertada.”

“E a nota?” perguntei.

Sherlock Holmes colocou o papel abaixo indicado diante de nós.

Se vier às onze e três quartos ao portão leste, saberá o que o surpreenderá muito e talvez lhe seja de grande utilidade, assim como a Annie Morrison. Mas não diga nada a ninguém sobre o assunto.

“É muito o género de coisa que eu esperava”, disse ele. “Naturalmente, ainda não sabemos quais podem ter sido as relações entre Alec Cunningham, William Kirwan e Annie Morrison. O resultado mostra que a armadilha foi habilmente preparada. Tenho a certeza de que não deixará de ficar encantado com os vestígios de hereditariedade mostrados nos ‘p’s e nas caudas dos ‘g’s. A ausência dos pontos nos ‘i’s na letra do velho é também muito característica. Watson, penso que o nosso descanso tranquilo no campo foi um sucesso distinto, e certamente regressarei muito revigorado a Baker Street amanhã.”

VIII. O Homem Torto

Numa noite de verão, alguns meses depois do meu casamento, estava sentado junto à minha própria lareira a fumar um último cachimbo e a adormecer sobre um romance, pois o meu dia de trabalho tinha sido exaustivo. A minha esposa já tinha subido para o andar de cima, e o som da tranca da porta do corredor, algum tempo antes, dizia-me que os criados também se tinham retirado. Eu tinha-me levantado do meu assento e estava a bater as cinzas do meu cachimbo quando ouvi subitamente o clangor da campainha.

Olhei para o relógio. Eram onze e três quartos. Não podia ser um visitante a uma hora tão tardia. Um paciente, evidentemente, e possivelmente uma consulta de noite inteira. Com uma careta, saí para o corredor e abri a porta. Para meu espanto, era Sherlock Holmes quem estava à porta.

“Ah, Watson”, disse ele, “esperava que não fosse demasiado tarde para o apanhar.”

“Meu caro amigo, por favor, entre.”

“Parece surpreendido, e não é para menos! Aliviado, também, suponho! Hum! Ainda fuma a mistura Arcadia dos seus tempos de solteiro, então! Não há como enganar essa cinza felpuda no seu casaco. É fácil perceber que está habituado a usar uniforme, Watson. Nunca passará por um civil de sangue puro enquanto mantiver esse hábito de carregar o lenço na manga. Poderia alojar-me esta noite?”

“Com todo o prazer.”

“Disse-me que tinha aposentos de solteiro para uma pessoa, e vejo que não tem nenhum visitante cavalheiro no momento. O seu cabide proclama o mesmo.”

“Ficarei encantado se ficar.”

“Obrigado. Então ocuparei o gancho vazio. Lamento ver que teve o trabalhador britânico em casa. Ele é um sinal de mal. Não são os canos, espero?”

“Não, é o gás.”

“Ah! Ele deixou duas marcas de pregos das suas botas no seu linóleo, exatamente onde a luz incide. Não, obrigado, comi qualquer coisa em Waterloo, mas fumarei um cachimbo consigo com prazer.”

Entreguei-lhe a minha bolsa, e ele sentou-se à minha frente e fumou durante algum tempo em silêncio. Eu estava bem ciente de que nada, exceto um assunto de importância, o teria trazido até mim a tal hora, por isso esperei pacientemente até que ele abordasse o assunto.

“Vejo que está profissionalmente bastante ocupado neste momento”, disse ele, lançando-me um olhar muito perspicaz.

“Sim, tive um dia atarefado”, respondi. “Pode parecer muito tolo aos seus olhos”, acrescentei, “mas, na verdade, não sei como deduziu isso.”

Holmes riu para si mesmo.

“Tenho a vantagem de conhecer os seus hábitos, meu caro Watson”, disse ele. “Quando a sua ronda é curta, caminha, e quando é longa, usa um hansom. Como percebo que as suas botas, embora usadas, não estão de modo algum sujas, não posso duvidar de que está atualmente ocupado o suficiente para justificar o hansom.”

“Excelente!” exclamei.

“Elementar”, disse ele. “É um daqueles casos em que o raciocinador pode produzir um efeito que parece notável para o seu próximo, porque este último falhou o pequeno ponto que é a base da dedução. O mesmo se pode dizer, meu caro amigo, do efeito de alguns desses seus pequenos esboços, que é inteiramente gratuito, dependendo como depende de manter nas suas próprias mãos alguns fatores do problema que nunca são comunicados ao leitor. Ora, neste momento, estou na posição desses mesmos leitores, pois seguro nesta mão vários fios de um dos casos mais estranhos que alguma vez perplexou o cérebro de um homem, e contudo faltam-me um ou dois que são necessários para completar a minha teoria. Mas eu tê-los-ei, Watson, eu tê-los-ei!” Os seus olhos brilharam e um leve rubor surgiu nas suas faces finas. Apenas por um instante. Quando olhei novamente, o seu rosto tinha retomado aquela compostura de pele-vermelha que tinha levado tantos a considerá-lo uma máquina em vez de um homem.

“O problema apresenta características de interesse”, disse ele. “Posso mesmo dizer características de interesse excecionais. Já analisei o assunto e cheguei, creio eu, a estar perto da minha solução. Se pudesse acompanhar-me nesse último passo, poderia ser-me de considerável utilidade.”

“Ficaria encantado.”

“Poderia ir até Aldershot amanhã?”

“Não tenho dúvidas de que o Jackson tomaria conta da minha clínica.”

“Muito bem. Quero partir no comboio das 11.10 de Waterloo.”

“Isso dar-me-ia tempo.”

“Então, se não estiver demasiado sonolento, dar-lhe-ei um esboço do que aconteceu e do que resta fazer.”

“Estava sonolento antes de chegar. Agora estou bem desperto.”

“Comprimirei a história tanto quanto for possível sem omitir nada de vital para o caso. É concebível que até tenha lido algum relato sobre o assunto. É o suposto homicídio do Coronel Barclay, dos Royal Mallows, em Aldershot, que estou a investigar.”

“Não ouvi nada sobre isso.”

“Ainda não despertou muita atenção, exceto localmente. Os factos têm apenas dois dias. Resumidamente, são estes:

“O Royal Mallows é, como sabe, um dos mais famosos regimentos irlandeses do exército britânico. Fez maravilhas tanto na Crimeia como na Revolta, e desde então distinguiu-se em todas as ocasiões possíveis. Foi comandado até à noite de segunda-feira por James Barclay, um galante veterano, que começou como soldado raso, foi promovido a oficial pela sua bravura na altura da Revolta, e viveu assim para comandar o regimento no qual outrora carregara um mosquete.

“O Coronel Barclay tinha casado na altura em que era sargento, e a sua esposa, cujo nome de solteira era Miss Nancy Devoy, era filha de um antigo sargento-ajudante no mesmo corpo. Havia, portanto, como se pode imaginar, alguma pequena fricção social quando o jovem casal (pois ainda eram jovens) se encontrou no seu novo ambiente. Parecem, contudo, ter-se adaptado rapidamente, e a Sra. Barclay sempre foi, segundo entendo, tão popular entre as senhoras do regimento como o seu marido entre os seus colegas oficiais. Posso acrescentar que era uma mulher de grande beleza, e que mesmo agora, quando está casada há mais de trinta anos, ainda é de uma aparência marcante e majestosa.

“A vida familiar do Coronel Barclay parece ter sido uniformemente feliz. O Major Murphy, a quem devo a maioria dos meus factos, assegura-me que nunca ouviu falar de qualquer desentendimento entre o par. No geral, ele pensa que a devoção de Barclay à sua esposa era maior do que a da esposa a Barclay. Ele ficava agudamente inquieto se estivesse ausente dela por um dia. Ela, por outro lado, embora devota e fiel, era menos ostensivamente afetuosa. Mas eram vistos no regimento como o próprio modelo de um casal de meia-idade. Não havia absolutamente nada nas suas relações mútuas que preparasse as pessoas para a tragédia que se seguiria.

“O próprio Coronel Barclay parece ter tido alguns traços singulares no seu caráter. Era um velho soldado jovial e impetuoso no seu humor habitual, mas havia ocasiões em que parecia mostrar-se capaz de considerável violência e vindictividade. Este lado da sua natureza, contudo, parece nunca ter sido voltado para a sua esposa. Outro facto, que tinha impressionado o Major Murphy e três dos cinco outros oficiais com quem conversei, era o tipo singular de depressão que o dominava por vezes. Como o major expressou, o sorriso tinha sido muitas vezes arrancado da sua boca, como se por uma mão invisível, quando ele se juntava às alegrias e às pilhérias da mesa da messe. Durante dias a fio, quando o humor o possuía, ele mergulhava na mais profunda melancolia. Isto e um certo toque de superstição eram os únicos traços invulgares no seu caráter que os seus colegas oficiais tinham observado. Esta última peculiaridade tomava a forma de uma aversão a ser deixado sozinho, especialmente depois de escurecer. Este traço pueril numa natureza que era conspicuamente masculina tinha frequentemente dado origem a comentários e conjeturas.

“O primeiro batalhão dos Royal Mallows (que é o antigo 117.º) tem estado estacionado em Aldershot há alguns anos. Os oficiais casados vivem fora do quartel, e o Coronel ocupou durante todo este tempo uma villa chamada Lachine, a cerca de oitocentos metros do acampamento norte. A casa situa-se no seu próprio terreno, mas o lado oeste da mesma não fica a mais de trinta metros da estrada principal. Um cocheiro e duas criadas formam o quadro de pessoal. Estes, com o seu amo e senhora, eram os únicos ocupantes de Lachine, pois os Barclay não tinham filhos, nem era habitual terem visitantes residentes.

“Agora, quanto aos eventos em Lachine entre as nove e as dez da noite da passada segunda-feira.”

“A Sra. Barclay era, ao que parece, membro da Igreja Católica Romana, e tinha-se interessado muito pelo estabelecimento da Guilda de São Jorge, que foi formada em ligação com a Capela de Watt Street com o propósito de fornecer roupas usadas aos pobres. Uma reunião da Guilda tinha sido realizada naquela noite às oito, e a Sra. Barclay tinha apressado o seu jantar para poder estar presente. Ao sair da casa, foi ouvida pelo cocheiro a fazer algum comentário banal ao marido, e a assegurar-lhe que estaria de volta antes de muito tempo. Depois, chamou a Miss Morrison, uma jovem senhora que vive na villa vizinha, e as duas partiram juntas para a sua reunião. Durou quarenta minutos, e às nove e um quarto a Sra. Barclay regressou a casa, tendo deixado a Miss Morrison à sua porta à passagem.

“Existe uma divisão que é usada como sala de estar em Lachine. Esta dá para a estrada e abre-se por uma grande porta de vidro de batente para o relvado. O relvado tem trinta metros de largura e só é dividido da estrada principal por um muro baixo com um gradeamento de ferro por cima. Foi para esta sala que a Sra. Barclay se dirigiu após o seu regresso. As persianas não estavam baixadas, pois a sala raramente era usada à noite, mas a própria Sra. Barclay acendeu o candeeiro e depois tocou a campainha, pedindo a Jane Stewart, a criada, que lhe trouxesse uma chávena de chá, o que era bem contrário aos seus hábitos habituais. O Coronel estava sentado na sala de jantar, mas, ao saber que a sua esposa tinha regressado, juntou-se a ela na sala de estar. O cocheiro viu-o atravessar o corredor e entrar nela. Nunca mais foi visto vivo.

“O chá que tinha sido pedido foi levado ao fim de dez minutos; mas a criada, ao aproximar-se da porta, ficou surpreendida ao ouvir as vozes do seu amo e da sua senhora numa altercação furiosa. Bateu sem receber qualquer resposta, e chegou a rodar o puxador, apenas para descobrir que a porta estava trancada pelo lado de dentro. Naturalmente, correu para baixo para contar à cozinheira, e as duas mulheres, com o cocheiro, subiram ao corredor e escutaram a disputa que ainda fervia. Todos concordaram que apenas duas vozes podiam ser ouvidas, as de Barclay e da sua esposa. As observações de Barclay eram contidas e bruscas, de modo que nenhuma delas era audível para os ouvintes. As da senhora, por outro lado, eram muito amargas, e quando ela elevou a voz podiam ser claramente ouvidas. ‘Seu cobarde!’ repetia ela vezes sem conta. ‘O que se pode fazer agora? O que se pode fazer agora? Devolve-me a minha vida. Nunca mais voltarei a respirar o mesmo ar que tu! Seu cobarde! Seu cobarde!’ Esses foram fragmentos da sua conversa, terminando num grito súbito e terrível na voz do homem, com um estrondo, e um grito lancinante da mulher. Convencido de que alguma tragédia tinha ocorrido, o cocheiro correu para a porta e esforçou-se por forçá-la, enquanto grito após grito ecoava do interior. Foi incapaz, contudo, de entrar, e as criadas estavam demasiado perturbadas pelo medo para lhe serem de qualquer ajuda. Um pensamento súbito ocorreu-lhe, contudo, e ele correu pela porta do corredor e deu a volta ao relvado para onde se abrem as longas janelas francesas. Um dos lados da janela estava aberto, o que compreendo ser bastante habitual no tempo de verão, e ele passou sem dificuldade para a sala. A sua senhora tinha deixado de gritar e estava estendida, insensível, num sofá, enquanto, com os pés inclinados sobre o lado de uma poltrona e a cabeça no chão perto do canto da lareira, jazia o infeliz soldado morto, numa poça do seu próprio sangue.

“Naturalmente, o primeiro pensamento do cocheiro, ao descobrir que nada podia fazer pelo seu amo, foi abrir a porta. Mas aqui surgiu uma dificuldade inesperada e singular. A chave não estava no lado interior da porta, nem a pôde encontrar em qualquer parte da sala. Saiu, por isso, novamente pela janela e, tendo obtido a ajuda de um polícia e de um médico, regressou. A senhora, contra quem naturalmente recaíam as mais fortes suspeitas, foi levada para o seu quarto, ainda em estado de insensibilidade. O corpo do Coronel foi então colocado no sofá e foi feito um exame cuidadoso ao local da tragédia.

“Descobriu-se que o ferimento de que sofria o infeliz veterano era um corte irregular de cerca de cinco centímetros na parte de trás da cabeça, que tinha sido evidentemente causado por um golpe violento de uma arma contundente. Nem foi difícil adivinhar qual teria sido essa arma. No chão, perto do corpo, jazia um taco singular de madeira entalhada dura com um cabo de osso. O Coronel possuía uma coleção variada de armas trazidas dos diferentes países em que tinha combatido, e é conjeturado pela polícia que o seu taco estava entre os seus troféus. Os criados negam tê-lo visto antes, mas entre as numerosas curiosidades na casa é possível que possa ter sido ignorado. Nada mais de importância foi descoberto na sala pela polícia, exceto o facto inexplicável de que nem na pessoa da Sra. Barclay, nem na da vítima, nem em qualquer parte da sala, a chave em falta foi encontrada. A porta teve, por fim, de ser aberta por um serralheiro de Aldershot.

“Esse era o estado das coisas, Watson, quando na terça-feira de manhã eu, a pedido do Major Murphy, fui a Aldershot para complementar os esforços da polícia. Penso que reconhecerá que o problema era já de interesse, mas as minhas observações fizeram-me rapidamente perceber que era, na verdade, muito mais extraordinário do que à primeira vista poderia parecer.

“Antes de examinar a sala, interroguei os criados, mas apenas consegui apurar os factos que já mencionei. Um outro detalhe de interesse foi recordado por Jane Stewart, a criada. Lembrar-se-á de que, ao ouvir o som da discussão, ela desceu e regressou com os outros criados. Nessa primeira ocasião, quando estava sozinha, diz ela que as vozes do seu amo e da sua senhora estavam tão baixas que quase não conseguia ouvir nada, e julgou pelos seus tons, mais do que pelas suas palavras, que tinham discutido. Ao pressioná-la, contudo, recordou-se de ter ouvido a palavra ‘David’ proferida duas vezes pela senhora. O ponto é da máxima importância, pois guia-nos para a razão da discussão súbita. O nome do Coronel, recordará, era James.

“Havia uma coisa no caso que tinha causado a mais profunda impressão tanto nos criados como na polícia. Era a contorção do rosto do Coronel. Tinha ficado, segundo o relato deles, com a expressão mais terrível de medo e horror que um rosto humano é capaz de assumir. Mais do que uma pessoa desmaiou só de o ver, tão terrível era o efeito. Era bem certo que ele tinha previsto o seu destino, e que isso lhe tinha causado o maior horror. Isto, naturalmente, encaixava bem o suficiente com a teoria da polícia, se o Coronel tivesse podido ver a sua esposa a fazer um ataque assassino contra ele. Nem o facto de o ferimento ser na parte de trás da cabeça era uma objeção fatal a isto, pois ele poderia ter-se virado para evitar o golpe. Nenhuma informação pôde ser obtida da própria senhora, que estava temporariamente insana devido a um ataque agudo de febre cerebral.

“Da polícia soube que a Miss Morrison, que recordará ter saído naquela noite com a Sra. Barclay, negou ter qualquer conhecimento do que teria causado o mau humor com que a sua companheira tinha regressado.

“Tendo recolhido estes factos, Watson, fumei vários cachimbos sobre eles, tentando separar os que eram cruciais de outros que eram meramente incidentais. Não podia haver dúvida de que o ponto mais distintivo e sugestivo no caso era o desaparecimento singular da chave da porta. Uma busca muito cuidadosa falhou em descobri-la na sala. Portanto, deve ter sido retirada de lá. Mas nem o Coronel nem a esposa do Coronel poderiam tê-la levado. Isso era perfeitamente claro. Portanto, uma terceira pessoa deve ter entrado na sala. E essa terceira pessoa só poderia ter entrado pela janela. Pareceu-me que um exame cuidadoso da sala e do relvado poderia possivelmente revelar alguns vestígios deste indivíduo misterioso. Conhece os meus métodos, Watson. Não houve um que eu não aplicasse à investigação. E terminou com a descoberta de vestígios, mas muito diferentes daqueles que eu esperava. Tinha havido um homem na sala, e ele tinha atravessado o relvado vindo da estrada. Consegui obter cinco impressões muito claras das suas marcas de pegadas: uma na própria estrada, no ponto onde tinha trepado o muro baixo, duas no relvado e duas muito ténues nas tábuas manchadas perto da janela onde tinha entrado. Aparentemente, tinha corrido pelo relvado, pois as marcas dos dedos dos seus pés eram muito mais profundas do que as dos calcanhares. Mas não foi o homem que me surpreendeu. Foi o seu companheiro.”

“O seu companheiro!”

Holmes tirou uma grande folha de papel de seda do bolso e desdobrou-a cuidadosamente sobre o joelho.

“O que acha disto?” perguntou ele.

O papel estava coberto com os traços das pegadas de algum animal pequeno. Tinha cinco almofadas plantares bem marcadas, uma indicação de unhas compridas, e a impressão total podia ser quase tão grande como uma colher de sobremesa.

“É um cão”, disse eu.

“Alguma vez ouviu falar de um cão que sobe por uma cortina? Encontrei vestígios distintos de que esta criatura o fez.”

“Um macaco, então?”

“Mas não é a pegada de um macaco.”

“O que poderá ser, então?”

“Nem cão, nem gato, nem macaco, nem qualquer criatura que nos seja familiar. Tentei reconstruí-la a partir das medidas. Aqui estão quatro marcas onde a besta esteve parada. Vê que não tem menos de quinze polegadas da pata dianteira à traseira. Acrescente a isso o comprimento do pescoço e da cabeça, e obtém uma criatura com pouco menos de dois pés de comprimento — provavelmente mais, se tiver cauda. Mas observe agora esta outra medida. O animal esteve em movimento, e temos o comprimento da sua passada. Em cada caso, é apenas de cerca de três polegadas. Tem aí uma indicação, veja bem, de um corpo longo com pernas muito curtas presas a ele. Não teve a consideração de deixar nenhum pelo para trás. Mas a sua forma geral deve ser a que indiquei, consegue subir por uma cortina e é carnívoro.”

“Como deduz isso?”

“Porque subiu pela cortina. Uma gaiola de canário estava pendurada na janela, e o seu objetivo parece ter sido chegar ao pássaro.”

“Então, o que era a besta?”

“Ah, se eu pudesse dar-lhe um nome, isso ajudaria muito a resolver o caso. No geral, era provavelmente alguma criatura da família das doninhas e arminhos — e, no entanto, é maior do que qualquer uma destas que já vi.”

“Mas o que é que isso tinha a ver com o crime?”

“Isso, também, ainda é obscuro. Mas aprendemos bastante, percebe. Sabemos que um homem esteve na estrada a olhar para a discussão entre os Barclay — as persianas estavam abertas e a sala iluminada. Sabemos, também, que ele atravessou o relvado, entrou na sala, acompanhado por um animal estranho, e que ou atingiu o Coronel ou, o que é igualmente possível, o Coronel caiu de puro susto ao vê-lo e cortou a cabeça no canto da guarda de lareira. Finalmente, temos o facto curioso de que o intruso levou a chave consigo quando partiu.”

“As suas descobertas parecem ter deixado o assunto mais obscuro do que estava antes”, disse eu.

“Exatamente. Elas sem dúvida mostraram que o caso era muito mais profundo do que se supunha inicialmente. Pensei sobre o assunto e cheguei à conclusão de que devo abordar o caso de outro aspeto. Mas, na verdade, Watson, estou a mantê-lo acordado, e eu poderia dizer-lhe tudo isto a caminho de Aldershot amanhã.”

“Obrigado, você já foi longe demais para parar.”

“É bastante certo que, quando a Sra. Barclay saiu de casa às sete e meia, ela estava em bons termos com o marido. Ela nunca foi, como penso ter dito, ostensivamente afetuosa, mas foi ouvida pelo cocheiro a conversar com o Coronel de uma forma amigável. Ora, era igualmente certo que, imediatamente após o seu regresso, ela tinha ido para o quarto onde era menos provável que visse o marido, tinha corrido para o chá como uma mulher agitada faz e, finalmente, quando ele veio ter com ela, tinha explodido em recriminações violentas. Portanto, algo tinha ocorrido entre as sete e meia e as nove horas que tinha alterado completamente os sentimentos dela em relação a ele. Mas a Srta. Morrison esteve com ela durante toda essa hora e meia. Era absolutamente certo, portanto, apesar da sua negação, que ela devia saber algo sobre o assunto.”

“A minha primeira conjectura foi que, possivelmente, tinham existido alguns encontros entre esta jovem senhora e o velho soldado, que a primeira tinha agora confessado à esposa. Isso explicaria o regresso zangado, e também a negação da rapariga de que algo tinha ocorrido. Nem seria inteiramente incompatível com a maioria das palavras ouvidas. Mas havia a referência a David, e havia o conhecido afeto do Coronel pela sua esposa, para pesar contra isso, sem falar na trágica intrusão deste outro homem, que poderia, claro, estar inteiramente desligada do que tinha acontecido antes. Não era fácil escolher os passos, mas, no geral, inclinei-me a descartar a ideia de que tinha havido algo entre o Coronel e a Srta. Morrison, mas mais do que nunca convencido de que a jovem senhora detinha a pista sobre o que fora que tinha transformado o amor da Sra. Barclay em ódio pelo marido. Tomei o caminho óbvio, portanto, de visitar a Srta. Morrison, de lhe explicar que estava perfeitamente certo de que ela possuía os factos, e de lhe assegurar que a sua amiga, a Sra. Barclay, poderia encontrar-se no banco dos réus sob uma acusação capital, a menos que o assunto fosse esclarecido.”

“A Srta. Morrison é uma rapariga pequena e etérea, com olhos tímidos e cabelo loiro, mas achei-a de modo algum desprovida de astúcia e bom senso. Ela sentou-se a pensar durante algum tempo depois de eu ter falado, e então, voltando-se para mim com um ar ágil de resolução, lançou-se numa declaração notável que irei condensar para seu benefício.”

“‘Prometi à minha amiga que não diria nada sobre o assunto, e uma promessa é uma promessa’, disse ela; ‘mas se posso realmente ajudá-la quando uma acusação tão grave é feita contra ela, e quando a sua própria boca, pobre querida, está fechada pela doença, então penso que estou absolvida da minha promessa. Vou dizer-lhe exatamente o que aconteceu na segunda-feira à noite.’”

“‘Estávamos a regressar da Missão de Watt Street por volta das nove menos um quarto. No nosso caminho, tivemos de passar pela Hudson Street, que é uma via muito tranquila. Há apenas um candeeiro nela, no lado esquerdo, e à medida que nos aproximávamos deste candeeiro, vi um homem a vir na nossa direção com as costas muito curvadas e algo como uma caixa pendurada num dos ombros. Ele parecia ser deformado, pois carregava a cabeça baixa e caminhava com os joelhos dobrados. Estávamos a passar por ele quando ele levantou o rosto para olhar para nós no círculo de luz lançado pelo candeeiro e, ao fazê-lo, parou e gritou com uma voz terrível: “Meu Deus, é a Nancy!” A Sra. Barclay ficou branca como a morte e teria caído se a criatura de aspeto terrível não a tivesse agarrado. Eu ia chamar a polícia, mas ela, para minha surpresa, falou de forma bastante civilizada com o sujeito.’”

“‘“Pensei que estivesses morto há trinta anos, Henry”, disse ela, com uma voz trémula.’”

“‘“Assim estou”, disse ele, e era horrível ouvir o tom com que ele o disse. Ele tinha um rosto muito escuro e assustador, e um brilho nos olhos que regressa aos meus sonhos. O seu cabelo e patilhas estavam salpicados de cinzento, e o seu rosto estava todo enrugado e franzido como uma maçã seca.’”

“‘“Caminha só um pouco, querida”, disse a Sra. Barclay; “quero ter uma palavra com este homem. Não há nada a temer.” Ela tentou falar com ousadia, mas ainda estava mortalmente pálida e mal conseguia articular as palavras devido ao tremor dos seus lábios.’”

“‘Fiz como ela me pediu, e eles falaram juntos durante alguns minutos. Depois, ela desceu a rua com os olhos a brilhar, e vi o desgraçado aleijado de pé junto ao poste de iluminação, a abanar os punhos cerrados no ar como se estivesse louco de raiva. Ela não disse uma palavra até estarmos aqui à porta, quando me pegou pela mão e implorou que não contasse a ninguém o que tinha acontecido.’”

“‘“É um velho conhecido meu que caiu na desgraça”, disse ela. Quando lhe prometi que não diria nada, ela beijou-me, e nunca mais a vi desde então. Contei-lhe agora toda a verdade, e se a escondi da polícia é porque não compreendi, então, o perigo em que a minha querida amiga se encontrava. Sei que só pode ser para seu proveito que tudo seja conhecido.’”

“Ali estava a sua declaração, Watson, e para mim, como pode imaginar, foi como uma luz numa noite escura. Tudo o que antes estava desligado começou imediatamente a assumir o seu lugar verdadeiro, e tive um pressentimento vago de toda a sequência de eventos. O meu passo seguinte, obviamente, era encontrar o homem que tinha causado uma impressão tão notável na Sra. Barclay. Se ele ainda estivesse em Aldershot, não deveria ser uma tarefa muito difícil. Não há um número muito grande de civis, e um homem deformado teria certamente atraído a atenção. Passei um dia na busca e, ao anoitecer — esta mesma noite, Watson —, encontrei-o. O nome do homem é Henry Wood, e ele vive em quartos alugados nesta mesma rua onde as senhoras o encontraram. Ele só está há cinco dias no local. Sob o disfarce de um agente de registo, tive uma conversa muito interessante com a sua senhoria. O homem é, por profissão, um mágico e artista, que percorre as cantinas após o anoitecer e dá um pequeno espetáculo em cada uma. Ele leva consigo alguma criatura naquela caixa, sobre a qual a senhoria parecia estar em considerável receio, pois nunca tinha visto um animal como aquele. Ele usa-o em alguns dos seus truques, segundo o relato dela. Tanto foi o que a mulher me conseguiu dizer, e também que era um milagre o homem estar vivo, dado o quão retorcido ele estava, e que ele falava numa língua estranha por vezes, e que, nas últimas duas noites, ela o tinha ouvido a gemer e a chorar no quarto. Ele estava bem, no que dizia respeito a dinheiro, mas, no seu depósito, tinha-lhe dado o que parecia ser um florim falso. Ela mostrou-mo, Watson, e era uma rupia indiana.”

“Portanto agora, meu caro amigo, vê exatamente onde estamos e porque é que o quero. É perfeitamente claro que, depois de as senhoras se separarem deste homem, ele seguiu-as à distância, que ele viu a discussão entre marido e mulher através da janela, que ele irrompeu lá dentro e que a criatura que levava na sua caixa se soltou. Isso é tudo muito certo. Mas ele é a única pessoa neste mundo que nos pode dizer exatamente o que aconteceu naquela sala.”

“E pretende perguntar-lhe?”

“Certamente — mas na presença de uma testemunha.”

“E eu sou a testemunha?”

“Se tiver a bondade. Se ele conseguir esclarecer o assunto, muito bem. Se ele recusar, não temos alternativa senão solicitar um mandado.”

“Mas como sabe que ele estará lá quando regressarmos?”

“Pode ter a certeza de que tomei algumas precauções. Tenho um dos meus rapazes da Baker Street a fazer guarda sobre ele, que não o largaria como um cardo, fosse para onde fosse. Encontrá-lo-emos na Hudson Street amanhã, Watson, e, entretanto, eu seria o criminoso se o mantivesse acordado mais tempo.”

Era meio-dia quando nos encontrámos no local da tragédia e, sob a orientação do meu companheiro, dirigimo-nos imediatamente para a Hudson Street. Apesar da sua capacidade para esconder as emoções, pude facilmente ver que Holmes estava num estado de excitação reprimida, enquanto eu mesmo estava a formigar com aquele prazer meio desportivo, meio intelectual, que invariavelmente experimentava quando me associava a ele nas suas investigações.

“Esta é a rua”, disse ele, ao virarmos para uma via curta ladeada por casas de tijolo simples de dois andares. “Ah, aqui está o Simpson para nos reportar.”

“Ele está lá dentro, Sr. Holmes”, gritou um pequeno rapaz da rua, correndo para nós.

“Bom, Simpson!” disse Holmes, dando-lhe uma palmadinha na cabeça. “Vamos, Watson. Esta é a casa.” Ele enviou o seu cartão com uma mensagem de que tinha vindo para um assunto importante e, um momento depois, estávamos frente a frente com o homem que tínhamos vindo ver. Apesar do tempo quente, ele estava agachado junto a um fogo, e a pequena sala parecia um forno. O homem estava sentado, todo retorcido e encolhido na sua cadeira, de uma forma que dava uma impressão indescritível de deformidade; mas o rosto que ele virou para nós, embora desgastado e moreno, deveria, em algum momento, ter sido notável pela sua beleza. Ele olhou-nos com desconfiança agora, com olhos amarelados e biliosos e, sem falar ou se levantar, acenou para duas cadeiras.

“Sr. Henry Wood, ex-residente na Índia, creio eu”, disse Holmes, amavelmente. “Vim tratar deste pequeno assunto da morte do Coronel Barclay.”

“O que é que eu saberia sobre isso?”

“É isso que quero verificar. Sabe, suponho eu, que a menos que o assunto seja esclarecido, a Sra. Barclay, que é uma velha amiga sua, será, com toda a probabilidade, julgada por homicídio.”

O homem deu um sobressalto violento.

“Não sei quem é”, gritou ele, “nem como sabe o que sabe, mas juraria que isto que me diz é verdade?”

“Ora, eles estão apenas à espera que ela recupere o juízo para a prenderem.”

“Meu Deus! Você é da polícia?”

“Não.”

“Que negócio é esse seu, então?”

“É obrigação de qualquer homem ver a justiça ser feita.”

“Pode acreditar na minha palavra de que ela é inocente.”

“Então você é culpado.”

“Não, não sou.”

“Quem matou o Coronel James Barclay, então?”

“Foi uma providência justa que o matou. Mas, entenda isto, se eu lhe tivesse esmagado os miolos, como estava no meu coração fazer, ele não teria recebido mais do que o que merecia pelas minhas mãos. Se a sua própria consciência culpada não o tivesse derrubado, é bem provável que eu pudesse ter o sangue dele na minha alma. Quer que lhe conte a história. Bem, não sei por que não o faria, pois não tenho motivos para me envergonhar dela.”

“Foi desta maneira, senhor. Vê-me agora com as minhas costas como as de um camelo e as minhas costelas todas tortas, mas houve um tempo em que o Cabo Henry Wood era o homem mais inteligente do 117.º Regimento de Infantaria. Estávamos na Índia então, em aquartelamentos, num lugar que chamaremos de Bhurtee. Barclay, que morreu no outro dia, era sargento na mesma companhia que eu, e a beldade do regimento, sim, e a rapariga mais fina que alguma vez teve o fôlego da vida entre os lábios, era Nancy Devoy, a filha do sargento-ajudante. Havia dois homens que a amavam, e um que ela amava, e você sorrirá quando olhar para este pobre ser encolhido diante do fogo, e ouvir-me dizer que foi pela minha boa aparência que ela me amava.”

“Bem, embora eu tivesse o coração dela, o pai dela estava determinado a que ela casasse com Barclay. Eu era um rapaz irresponsável e imprudente, e ele tinha tido uma educação e já estava marcado para a espada. Mas a rapariga manteve-se fiel a mim, e parecia que eu a teria tido quando a Revolta rebentou, e todo o inferno se soltou no país.”

“Estávamos fechados em Bhurtee, o nosso regimento com meia bateria de artilharia, uma companhia de Sikhs e muitos civis e mulheres. Havia dez mil rebeldes à nossa volta, e eles eram tão ávidos como um grupo de terriers à volta de uma gaiola de ratos. Por volta da segunda semana, a nossa água esgotou-se, e era uma questão de saber se conseguiríamos comunicar com a coluna do General Neill, que se movia pelo país. Era a nossa única oportunidade, pois não podíamos esperar abrir caminho lutando com todas as mulheres e crianças, então voluntariei-me para sair e avisar o General Neill do nosso perigo. A minha oferta foi aceite, e discuti-a com o Sargento Barclay, que se supunha conhecer o terreno melhor do que qualquer outro homem, e que traçou uma rota pela qual eu poderia passar pelas linhas rebeldes. Às dez horas da mesma noite, parti na minha jornada. Havia mil vidas para salvar, mas era apenas em uma que eu pensava quando saltei o muro naquela noite.”

“O meu caminho seguia por um leito de rio seco, que esperávamos que me escondesse das sentinelas do inimigo; mas, ao contornar a curva, dei de caras com seis deles, que estavam agachados no escuro à minha espera. Num instante, fui atordoado com um golpe e atado de pés e mãos. Mas o verdadeiro golpe foi no meu coração e não na minha cabeça, pois, ao recuperar os sentidos e ouvir o máximo que pude entender da conversa deles, ouvi o suficiente para me dizer que o meu camarada, o próprio homem que tinha arranjado o caminho que eu deveria tomar, tinha-me traído, através de um criado nativo, para as mãos do inimigo.”

“Bem, não há necessidade de eu me deter nessa parte. Sabe agora do que James Barclay era capaz. Bhurtee foi libertada por Neill no dia seguinte, mas os rebeldes levaram-me com eles na sua retirada, e passaram-se muitos longos anos até que visse um rosto branco novamente. Fui torturado e tentei escapar, e fui capturado e torturado novamente. Pode ver por si mesmo o estado em que fiquei. Alguns dos que fugiram para o Nepal levaram-me com eles, e depois, mais tarde, estive para lá de Darjeeling. Os habitantes das colinas lá em cima assassinaram os rebeldes que me tinham, e tornei-me escravo deles por um tempo até escapar; mas, em vez de ir para sul, tive de ir para norte, até me encontrar entre os afegãos. Lá, vagueei por muitos anos e, finalmente, voltei ao Punjab, onde vivi maioritariamente entre os nativos e ganhava a vida com os truques de magia que tinha aprendido. Que utilidade teria para mim, um infeliz aleijado, voltar a Inglaterra ou dar-me a conhecer aos meus antigos camaradas? Nem o meu desejo de vingança me faria fazer isso. Eu preferia que a Nancy e os meus velhos amigos pensassem no Harry Wood como tendo morrido com as costas direitas, do que vê-lo vivo e a rastejar com uma bengala como um chimpanzé. Eles nunca duvidaram de que eu estava morto, e eu pretendia que nunca duvidassem. Ouvi dizer que Barclay tinha casado com a Nancy e que estava a subir rapidamente no regimento, mas nem isso me fez falar.”

“Mas quando alguém envelhece, tem um desejo de casa. Durante anos, tenho sonhado com os campos verdes brilhantes e as sebes de Inglaterra. Finalmente, decidi vê-los antes de morrer. Guardei o suficiente para me trazer, e depois vim para aqui onde estão os soldados, pois conheço os seus costumes e como os divertir e assim ganhar o suficiente para me sustentar.”

“A sua narrativa é muito interessante”, disse Sherlock Holmes. “Já ouvi falar do seu encontro com a Sra. Barclay e do vosso reconhecimento mútuo. Você então, como entendo, seguiu-a para casa e viu através da janela uma altercação entre ela e o marido, na qual ela sem dúvida lhe atirou à cara a conduta dele para consigo. Os seus próprios sentimentos superaram-no, e correu pelo relvado e interrompeu-os.”

“Fui, senhor, e ao ver-me ele olhou como nunca vi um homem olhar antes, e caiu para trás com a cabeça na guarda de lareira. Mas ele estava morto antes de cair. Li a morte no seu rosto tão claramente como leio aquele texto sobre o fogo. A simples visão de mim foi como uma bala através do seu coração culpado.”

“E depois?”

“Então a Nancy desmaiou, e eu apanhei a chave da porta da mão dela, com a intenção de a abrir e pedir ajuda. Mas, enquanto o fazia, pareceu-me melhor deixá-la estar e ir-me embora, pois a coisa podia ficar preta para o meu lado e, de qualquer modo, o meu segredo seria revelado se eu fosse apanhado. Na minha pressa, meti a chave no bolso e deixei cair a bengala enquanto perseguia o Teddy, que tinha trepado pela cortina. Quando o pus na sua caixa, da qual ele tinha escapado, fui-me embora tão depressa quanto podia correr.”

“Quem é o Teddy?”, perguntou Holmes.

O homem inclinou-se e puxou a parte da frente de uma espécie de gaiola no canto. Num instante, de lá saiu uma criatura castanha-avermelhada, fina e ágil, com as pernas de um arminho, um nariz comprido e fino e um par dos olhos vermelhos mais belos que alguma vez vi na cabeça de um animal.

“É um mangusto”, exclamei.

“Bem, alguns chamam-lhe assim, e outros chamam-lhe icneumone”, disse o homem. “Caçador-de-cobras é como eu lhe chamo, e o Teddy é incrivelmente rápido com cobras. Tenho aqui uma sem presas, e o Teddy apanha-a todas as noites para agradar ao pessoal na cantina.

“Algum outro ponto, senhor?”

“Bem, talvez tenhamos de recorrer a si novamente caso a Sra. Barclay se encontre em sérios apuros.”

“Nesse caso, naturalmente, eu apresentar-me-ia.”

“Mas, se não, não há objetivo em desenterrar este escândalo contra um homem morto, por muito vil que tenha sido o seu comportamento. Tem pelo menos a satisfação de saber que, durante trinta anos da sua vida, a sua consciência o repreendeu amargamente por este ato perverso. Ah, lá vai o Major Murphy do outro lado da rua. Adeus, Wood. Quero saber se aconteceu alguma coisa desde ontem.”

Chegámos a tempo de alcançar o major antes que ele chegasse à esquina.

“Ah, Holmes”, disse ele: “Suponho que tenha ouvido dizer que toda esta agitação não deu em nada?”

“E então?”

“O inquérito acabou de terminar. A prova médica demonstrou conclusivamente que a morte se deveu a apoplexia. Vê, foi um caso bastante simples, afinal de contas.”

“Oh, notavelmente superficial”, disse Holmes, sorrindo. “Vamos, Watson, não creio que sejamos necessários em Aldershot por mais tempo.”

“Há uma coisa”, disse eu, enquanto caminhávamos para a estação. “Se o nome do marido era James, e o do outro era Henry, o que era esta conversa sobre David?”

“Essa única palavra, meu caro Watson, deveria ter-me contado toda a história, se eu fosse o raciocinador ideal que tanto gosta de descrever. Era evidentemente um termo de reprovação.”

“De reprovação?”

“Sim; David desviou-se um pouco ocasionalmente, sabe, e numa ocasião na mesma direção que o Sargento James Barclay. Lembra-se do pequeno caso de Urias e Betsabé? O meu conhecimento bíblico está um pouco enferrujado, temo, mas encontrará a história no primeiro ou segundo livro de Samuel.”

IX. O Paciente Residente

Ao folhear a série algo incoerente de memórias com que tentei ilustrar algumas das peculiaridades mentais do meu amigo Sr. Sherlock Holmes, fui surpreendido pela dificuldade que senti em escolher exemplos que servissem, em todos os aspetos, o meu propósito. Pois, nos casos em que Holmes realizou algum tour-de-force de raciocínio analítico e demonstrou o valor dos seus métodos peculiares de investigação, os factos em si foram frequentemente tão insignificantes ou tão banais que não me senti justificado em apresentá-los ao público. Por outro lado, aconteceu frequentemente que ele esteve envolvido em alguma investigação em que os factos foram do caráter mais notável e dramático, mas onde a parte que ele próprio desempenhou na determinação das suas causas foi menos pronunciada do que eu, como seu biógrafo, gostaria. O pequeno assunto que croniquei sob o título de “Um Estudo em Vermelho”, e aquele outro mais recente ligado à perda do Gloria Scott, podem servir de exemplos deste Cila e Caríbdis que ameaçam permanentemente o historiador. Pode ser que, no caso sobre o qual estou prestes a escrever, a parte que o meu amigo desempenhou não esteja suficientemente acentuada; e, contudo, todo o conjunto de circunstâncias é tão notável que não me consigo convencer a omiti-lo inteiramente desta série.

Não posso ter a certeza da data exata, pois alguns dos meus memorandos sobre o assunto foram extraviados, mas deve ter sido perto do fim do primeiro ano durante o qual Holmes e eu partilhámos aposentos em Baker Street. Estava um tempo de outubro tempestuoso, e tínhamos ambos permanecido dentro de casa todo o dia, eu porque receava, com a minha saúde abalada, enfrentar o vento cortante de outono, enquanto ele estava absorto em algumas daquelas investigações químicas abstrusas que o absorviam completamente enquanto nelas estivesse empenhado. Perto da noite, no entanto, a quebra de um tubo de ensaio trouxe um fim prematuro à sua pesquisa, e ele saltou da sua cadeira com uma exclamação de impaciência e o sobrolho franzido.

“Um dia de trabalho arruinado, Watson”, disse ele, caminhando a grandes passos até à janela. “Há! As estrelas apareceram e o vento acalmou. Que dizes a uma caminhada por Londres?”

Eu estava cansado da nossa pequena sala de estar e aceitei de bom grado. Durante três horas passeámos juntos, observando o caleidoscópio da vida em constante mudança, à medida que este reflui e flui através de Fleet Street e do Strand. Holmes tinha sacudido o seu mau humor temporário, e a sua conversa característica, com a sua observação aguçada do detalhe e subtil poder de inferência, manteve-me entretido e fascinado. Eram dez horas quando chegámos a Baker Street novamente. Um brougham estava à espera à nossa porta.

“Hum! De um médico — clínico geral, percebo”, disse Holmes. “Não exerce há muito tempo, mas tem tido muito que fazer. Veio consultar-nos, imagino! Sorte a nossa termos voltado!”

Eu estava suficientemente familiarizado com os métodos de Holmes para conseguir seguir o seu raciocínio, e para ver que a natureza e o estado dos vários instrumentos médicos na cesta de vime que pendia à luz do candeeiro dentro do brougham lhe tinham dado os dados para a sua dedução rápida. A luz na nossa janela acima mostrava que aquela visita tardia era, de facto, destinada a nós. Com alguma curiosidade sobre o que poderia ter enviado um colega médico até nós a tal hora, segui Holmes para o nosso santuário.

Um homem pálido, de rosto afilado e patilhas cor de areia, levantou-se de uma cadeira junto à lareira quando entrámos. A sua idade não devia ser superior a trinta e três ou trinta e quatro anos, mas a sua expressão abatida e o tom doentio denunciavam uma vida que lhe tinha minado as forças e roubado a juventude. O seu comportamento era nervoso e tímido, como o de um cavalheiro sensível, e a mão branca e fina que colocou sobre a lareira enquanto se levantava era a de um artista mais do que a de um cirurgião. O seu traje era discreto e sóbrio — um casaco preto, calças escuras e um toque de cor na gravata.

“Boa noite, doutor”, disse Holmes, alegremente. “Fico contente por ver que esteve à espera apenas uns breves minutos.”

“Falou com o meu cocheiro, então?”

“Não, foi a vela na mesa lateral que me disse. Por favor, retome o seu lugar e deixe-me saber como o posso servir.”

“O meu nome é Doutor Percy Trevelyan”, disse o nosso visitante, “e vivo no número 403 de Brook Street.”

“Não é o autor de uma monografia sobre lesões nervosas obscuras?”, perguntei.

As suas faces pálidas coraram de prazer ao ouvir que o seu trabalho me era conhecido.

“Tão raramente ouço falar desse trabalho que pensei que estivesse completamente morto”, disse ele. “Os meus editores deram-me uma conta muito desencorajadora da sua venda. É o senhor próprio, presumo, um homem da medicina?”

“Um cirurgião do Exército reformado.”

“O meu próprio passatempo foi sempre a doença nervosa. Desejaria torná-la uma especialidade absoluta, mas, naturalmente, um homem tem de aceitar o que pode conseguir primeiro. Isto, contudo, é alheio à questão, Sr. Sherlock Holmes, e aprecio bastante o quão valioso é o seu tempo. O facto é que uma sucessão de eventos muito singular ocorreu recentemente na minha casa em Brook Street, e esta noite chegaram a um ponto tal que senti ser impossível para mim esperar mais uma hora antes de pedir o seu conselho e assistência.”

Sherlock Holmes sentou-se e acendeu o seu cachimbo. “É muito bem-vindo a ambos”, disse ele. “Por favor, dê-me um relato detalhado de quais são as circunstâncias que o perturbaram.”

“Uma ou duas delas são tão triviais”, disse o Dr. Trevelyan, “que, na verdade, quase me sinto envergonhado por as mencionar. Mas o assunto é tão inexplicável, e a recente viragem que tomou é tão elaborada, que vou expor tudo perante si, e o senhor julgará o que é essencial e o que não é.”

“Sou forçado, para começar, a dizer algo sobre a minha própria carreira académica. Sou um homem da Universidade de Londres, sabe, e tenho a certeza de que não pensará que estou indevidamente a cantar os meus próprios louvores se disser que a minha carreira de estudante foi considerada pelos meus professores como muito promissora. Depois de me formar, continuei a dedicar-me à investigação, ocupando um cargo menor no Hospital King’s College, e tive a sorte de suscitar um interesse considerável pela minha investigação sobre a patologia da catalepsia e, finalmente, de ganhar o prémio e a medalha Bruce Pinkerton com a monografia sobre lesões nervosas a que o seu amigo acaba de aludir. Não irei demasiado longe se disser que havia uma impressão geral nessa altura de que uma carreira distinta me aguardava.

“Mas o grande obstáculo residia na minha falta de capital. Como facilmente compreenderá, um especialista que aponta alto é forçado a começar numa de uma dúzia de ruas no bairro de Cavendish Square, todas as quais implicam rendas e despesas de mobiliário enormes. Para além deste desembolso preliminar, deve estar preparado para se sustentar durante alguns anos e para contratar uma carruagem e um cavalo apresentáveis. Fazer isto estava completamente fora do meu alcance, e só podia esperar que, através da economia, conseguisse, ao fim de dez anos, poupar o suficiente para me permitir colocar a minha placa. Subitamente, no entanto, um incidente inesperado abriu-me uma perspetiva completamente nova.

“Foi uma visita de um cavalheiro chamado Blessington, que era um completo estranho para mim. Ele veio ao meu quarto uma manhã e mergulhou nos negócios num instante.

“‘É o mesmo Percy Trevelyan que teve uma carreira tão distinta e ganhou um grande prémio ultimamente?’, disse ele.

“Eu fiz uma vénia.

“‘Responda-me francamente’, continuou, ‘pois achará que é do seu interesse fazê-lo. Tem toda a inteligência que faz um homem de sucesso. Tem o tato?’

“Não pude evitar sorrir perante a brusquidão da pergunta.

“‘Confio que tenho a minha parte’, disse eu.

“‘Algum mau hábito? Não se sente atraído pela bebida, eh?’

“‘Na verdade, senhor!’, exclamei.

“‘Muito bem! Está tudo bem! Mas eu era obrigado a perguntar. Com todas estas qualidades, por que não exerce?’

“Eu encolhi os ombros.

“‘Vamos, vamos!’, disse ele, à sua maneira apressada. ‘É a velha história. Mais nos seus miolos do que no seu bolso, eh? O que diria se eu o instalasse em Brook Street?’

“Olhei para ele com espanto.

“‘Oh, é por mim, não por si’, gritou. ‘Serei perfeitamente franco consigo, e se lhe convier, convir-me-á muito bem. Tenho uns milhares para investir, percebe, e penso que os vou aplicar em si.’

“‘Mas porquê?’, ofeguei.

“‘Bem, é apenas como qualquer outra especulação, e mais segura do que a maioria.’

“‘O que devo fazer, então?’

“‘Eu digo-lhe. Eu alugo a casa, mobilo-a, pago às criadas e trato de tudo. Tudo o que tem de fazer é apenas desgastar a sua cadeira na sala de consultas. Eu dar-lhe-ei dinheiro de bolso e tudo o mais. Depois, entrega-me três quartos do que ganhar, e guarda o outro quarto para si.’

“Esta foi a estranha proposta, Sr. Holmes, com que o homem Blessington me abordou. Não o vou cansar com a conta de como barganhámos e negociámos. Acabou por me mudar para a casa no dia de Lady Day e começar a exercer nas mesmas condições que ele tinha sugerido. Ele próprio veio viver comigo com o caráter de paciente residente. O seu coração era fraco, ao que parece, e ele precisava de supervisão médica constante. Transformou as duas melhores divisões do primeiro andar numa sala de estar e quarto para si. Era um homem de hábitos singulares, evitando a companhia e saindo muito raramente. A sua vida era irregular, mas, num aspeto, era a própria regularidade. Todas as noites, à mesma hora, ele entrava na sala de consultas, examinava os livros, depositava cinco xelins e três pence por cada guinéu que eu tinha ganho e levava o resto para o cofre no seu próprio quarto.

“Posso dizer com confiança que ele nunca teve ocasião de se arrepender da sua especulação. Desde o início foi um sucesso. Alguns bons casos e a reputação que ganhei no hospital levaram-me rapidamente para a frente, e, durante os últimos anos, fiz dele um homem rico.

“Tanto, Sr. Holmes, sobre a minha história passada e as minhas relações com o Sr. Blessington. Resta-me agora contar-lhe o que aconteceu para me trazer aqui esta noite.

“Há algumas semanas, o Sr. Blessington veio ter comigo num estado de agitação considerável, ao que me pareceu. Falou de algum assalto que, disse ele, tinha sido cometido no West End, e pareceu-me, recordo-me, estar desnecessariamente excitado com isso, declarando que não passaria um dia sem que adicionássemos ferrolhos mais fortes às nossas janelas e portas. Durante uma semana, continuou num estado peculiar de inquietação, espreitando continuamente pelas janelas e deixando de fazer a curta caminhada que era habitualmente o prelúdio do seu jantar. Pelo seu modo de agir, impressionou-me que ele estivesse em terror mortal de algo ou de alguém, mas quando o questionei sobre o ponto, ele tornou-se tão ofensivo que fui forçado a abandonar o assunto. Gradualmente, à medida que o tempo passava, os seus medos pareceram desvanecer-se, e ele tinha renovado os seus hábitos anteriores, quando um novo evento o reduziu ao estado deplorável de prostração em que agora se encontra.

“O que aconteceu foi isto. Há dois dias recebi a carta que agora leio para si. Nem endereço nem data estão anexados a ela.

“‘Um nobre russo que reside atualmente em Inglaterra’, diz ela, ‘teria todo o gosto em aproveitar a assistência profissional do Dr. Percy Trevelyan. Tem sido, há alguns anos, vítima de ataques catalépticos, sobre os quais, como é bem sabido, o Dr. Trevelyan é uma autoridade. Propõe-se a aparecer por volta das seis e um quarto da tarde de amanhã, se for conveniente ao Dr. Trevelyan estar em casa.’

“Esta carta interessou-me profundamente, porque a principal dificuldade no estudo da catalepsia é a raridade da doença. Pode acreditar, então, que eu estava na minha sala de consultas quando, à hora marcada, o moço de recados fez entrar o paciente.

“Era um homem de idade, magro, recatado e comum — de forma alguma a conceção que se forma de um nobre russo. Fiquei muito mais impressionado com a aparência do seu companheiro. Era um jovem alto, surpreendentemente bonito, com um rosto escuro e feroz, e os membros e peito de um Hércules. Tinha a mão sob o braço do outro à medida que entravam, e ajudou-o a sentar-se numa cadeira com uma ternura que dificilmente se esperaria da sua aparência.

“‘Desculpará a minha entrada, doutor’, disse ele para mim, falando inglês com um ligeiro ceceio. ‘Este é o meu pai, e a sua saúde é uma questão da maior importância esmagadora para mim.’

“Fiquei tocado por esta ansiedade filial. ‘Gostaria, talvez, de permanecer durante a consulta?’, disse eu.

“‘Nem por nada’, gritou ele com um gesto de horror. ‘É mais doloroso para mim do que posso expressar. Se eu visse o meu pai num destes terríveis ataques, estou convencido de que nunca sobreviveria a isso. O meu próprio sistema nervoso é excecionalmente sensível. Com a sua permissão, permanecerei na sala de espera enquanto o senhor trata do caso do meu pai.’

“A isto, naturalmente, concordei, e o jovem retirou-se. O paciente e eu mergulhámos então numa discussão sobre o seu caso, do qual tomei notas exaustivas. Ele não era notável pela inteligência, e as suas respostas eram frequentemente obscuras, o que atribuí ao seu limitado conhecimento da nossa língua. Subitamente, no entanto, enquanto eu estava sentado a escrever, ele deixou de dar qualquer resposta às minhas perguntas, e, ao virar-me para ele, fiquei chocado ao ver que ele estava sentado direito na cadeira, a olhar para mim com um rosto perfeitamente vazio e rígido. Estava novamente nas garras da sua misteriosa doença.

“O meu primeiro sentimento, como acabei de dizer, foi de piedade e horror. O meu segundo, temo, foi mais de satisfação profissional. Tomei notas do pulso e da temperatura do meu paciente, testei a rigidez dos seus músculos e examinei os seus reflexos. Não havia nada de marcadamente anormal em nenhuma destas condições, o que estava em harmonia com as minhas experiências anteriores. Tinha obtido bons resultados em tais casos através da inalação de nitrito de amilo, e o presente parecia uma oportunidade admirável de testar as suas virtudes. O frasco estava lá em baixo no meu laboratório, por isso, deixando o meu paciente sentado na sua cadeira, corri para baixo para o buscar. Houve um pequeno atraso em encontrá-lo — cinco minutos, digamos — e depois voltei. Imagine o meu espanto ao encontrar a sala vazia e o paciente desaparecido.

“Naturalmente, o meu primeiro ato foi correr para a sala de espera. O filho também tinha ido embora. A porta do hall tinha sido fechada, mas não trancada. O meu moço de recados que admite os pacientes é um rapaz novo e de forma alguma rápido. Ele espera lá em baixo e sobe para mostrar a saída aos pacientes quando eu toco a campainha da sala de consultas. Ele não tinha ouvido nada, e o caso permaneceu um completo mistério. O Sr. Blessington entrou do seu passeio pouco depois, mas não lhe disse nada sobre o assunto, pois, para dizer a verdade, habituei-me ultimamente a ter a menor comunicação possível com ele.

“Bem, nunca pensei que veria mais nada do russo e do seu filho, por isso pode imaginar o meu espanto quando, à mesma hora desta noite, ambos vieram marchar para a minha sala de consultas, exatamente como tinham feito antes.

“‘Sinto que lhe devo muitas desculpas pela minha partida brusca de ontem, doutor’, disse o meu paciente.

“‘Confesso que fiquei muito surpreendido com isso’, disse eu.

“‘Bem, o facto é’, observou ele, ‘que quando recupero destes ataques, a minha mente está sempre muito nublada quanto a tudo o que passou antes. Acordei num quarto estranho, ao que me pareceu, e fiz o meu caminho para a rua de uma forma meio atordoada enquanto o senhor estava ausente.’

“‘E eu’, disse o filho, ‘vendo o meu pai passar pela porta da sala de espera, pensei naturalmente que a consulta tinha chegado ao fim. Não foi até chegarmos a casa que comecei a perceber o verdadeiro estado das coisas.’

“‘Bem’, disse eu, rindo, ‘não houve mal nenhum, exceto que o senhor me deixou terrivelmente confuso; por isso, se o senhor, cavalheiro, pudesse gentilmente entrar na sala de espera, terei todo o gosto em continuar a nossa consulta que teve um fim tão abrupto.’

“‘Durante cerca de meia hora discuti os sintomas daquele velho cavalheiro com ele e, depois, tendo-lhe receitado, vi-o partir no braço do seu filho.

“Já lhe disse que o Sr. Blessington escolhia geralmente esta hora do dia para o seu exercício. Ele entrou pouco depois e passou para o andar de cima. Um instante depois ouvi-o a correr para baixo, e ele irrompeu na minha sala de consultas como um homem que está louco de pânico.

“‘Quem esteve no meu quarto?’, gritou ele.

“‘Ninguém’, disse eu.”

“É mentira!”, gritou ele. “Suba e veja!”

Eu ignorei a grosseria da sua linguagem, pois ele parecia estar fora de si devido ao medo. Quando subi com ele, apontou para várias pegadas sobre o tapete claro.

“Quer dizer que estas são minhas?”, clamou ele.

Eram, certamente, muito maiores do que quaisquer que ele pudesse ter feito e eram, evidentemente, muito recentes. Choveu forte esta tarde, como sabe, e os meus pacientes foram as únicas pessoas que me visitaram. Deve ter acontecido, então, que o homem na sala de espera tinha, por qualquer motivo desconhecido, enquanto eu estava ocupado com o outro, subido ao quarto do meu paciente residente. Nada tinha sido tocado ou levado, mas ali estavam as pegadas para provar que a intrusão era um facto inquestionável.

O Sr. Blessington parecia mais agitado com o assunto do que eu teria julgado possível, embora, claro, fosse suficiente para perturbar a paz de espírito de qualquer um. Ele chegou a sentar-se a chorar numa poltrona e eu dificilmente consegui que falasse de forma coerente. Foi sugestão dele que eu viesse ter consigo e, naturalmente, vi de imediato a conveniência disso, pois o incidente é, de facto, muito singular, embora ele pareça sobrestimar completamente a sua importância. Se apenas pudesse regressar comigo no meu brougham, conseguiria, pelo menos, acalmá-lo, embora dificilmente possa esperar que seja capaz de explicar esta ocorrência notável.”

Sherlock Holmes tinha ouvido esta longa narrativa com uma atenção que me mostrou que o seu interesse estava vivamente despertado. O seu rosto estava tão impassível como sempre, mas as suas pálpebras tinham caído mais pesadamente sobre os olhos e o seu fumo saía mais densamente do seu cachimbo para enfatizar cada episódio curioso no relato do médico. Quando o nosso visitante concluiu, Holmes saltou sem uma palavra, entregou-me o chapéu, apanhou o seu da mesa e seguiu o Dr. Trevelyan até à porta. No espaço de um quarto de hora, tínhamos sido deixados à porta da residência do médico em Brook Street, uma daquelas casas sombrias e de fachada plana que se associam a um consultório no West-End. Um pequeno moço de recados admitiu-nos e começámos de imediato a subir a escada larga e bem alcatifada.

Mas uma interrupção singular fez-nos parar. A luz no topo foi subitamente apagada e, da escuridão, veio uma voz trémula e estridente.

“Tenho uma pistola”, gritou. “Dou-lhe a minha palavra de que dispararei se chegar mais perto.”

“Isto torna-se verdadeiramente ultrajante, Sr. Blessington”, exclamou o Dr. Trevelyan.

“Oh, então é o senhor, doutor”, disse a voz, com um grande suspiro de alívio. “Mas aqueles outros senhores, são aquilo que pretendem ser?”

Fomos alvo de um longo escrutínio a partir da escuridão.

“Sim, sim, está tudo bem”, disse a voz finalmente. “Pode subir e lamento se as minhas precauções o incomodaram.”

Ele reacendeu o gás da escada enquanto falava e vimos diante de nós um homem de aspeto singular, cuja aparência, tal como a sua voz, testemunhava os seus nervos em frangalhos. Era muito gordo, mas aparentemente tinha sido muito mais gordo nalgum momento, de modo que a pele pendia à volta do seu rosto em bolsas soltas, como as bochechas de um cão de S. Humberto. Tinha uma cor doentia e o seu cabelo ralo e cor de areia parecia eriçar-se com a intensidade da sua emoção. Na mão segurava uma pistola, mas enfiou-a no bolso à medida que avançávamos.

“Boa noite, Sr. Holmes”, disse ele. “Tenho a certeza de que lhe estou muito grato por ter vindo. Ninguém precisou tanto dos seus conselhos como eu. Suponho que o Dr. Trevelyan lhe tenha falado desta intrusão absolutamente injustificável nos meus quartos.”

“Exatamente”, disse Holmes. “Quem são estes dois homens, Sr. Blessington, e por que desejam molestá-lo?”

“Bem, bem”, disse o paciente residente, de forma nervosa, “claro que é difícil dizer isso. Dificilmente pode esperar que eu responda a isso, Sr. Holmes.”

“Quer dizer que não sabe?”

“Entre aqui, se faz favor. Tenha a gentileza de entrar aqui.”

Ele guiou o caminho para o seu quarto, que era grande e confortavelmente mobilado.

“Vê aquilo?”, disse ele, apontando para uma grande caixa preta ao fundo da sua cama. “Nunca fui um homem muito rico, Sr. Holmes — nunca fiz mais do que um investimento na minha vida, como o Dr. Trevelyan lhe diria. Mas não acredito em banqueiros. Nunca confiaria num banqueiro, Sr. Holmes. Entre nós, o pouco que tenho está naquela caixa, por isso pode compreender o que significa para mim quando pessoas desconhecidas se forçam a entrar nos meus quartos.”

Holmes olhou para Blessington da sua forma questionadora e abanou a cabeça.

“Não posso possivelmente aconselhá-lo se tentar enganar-me”, disse ele.

“Mas contei-lhe tudo.”

Holmes voltou as costas com um gesto de repulsa. “Boa noite, Dr. Trevelyan”, disse ele.

“E nenhum conselho para mim?”, gritou Blessington, com uma voz quebrada.

“O meu conselho para si, senhor, é que diga a verdade.”

Um minuto depois estávamos na rua e a caminhar para casa. Tínhamos atravessado Oxford Street e percorrido metade de Harley Street antes de conseguir tirar uma palavra do meu companheiro.

“Lamento tê-lo feito sair nesta missão insensata, Watson”, disse ele por fim. “É um caso interessante, também, no fundo.”

“Pouco consigo perceber dele”, confessei.

“Bem, é bastante evidente que há dois homens — talvez mais, mas pelo menos dois — que estão determinados, por qualquer motivo, a chegar a este sujeito Blessington. Não tenho dúvidas de que, tanto na primeira como na segunda ocasião, aquele jovem penetrou no quarto de Blessington, enquanto o seu cúmplice, por um estratagema engenhoso, impedia o médico de interferir.”

“E a catalepsia?”

“Uma imitação fraudulenta, Watson, embora eu dificilmente me atrevesse a sugerir tal coisa ao nosso especialista. É uma queixa muito fácil de imitar. Eu próprio já o fiz.”

“E depois?”

“Por puro acaso, Blessington estava fora em ambas as ocasiões. A razão deles para escolher uma hora tão invulgar para uma consulta era obviamente assegurar que não houvesse outro paciente na sala de espera. Aconteceu, contudo, que esta hora coincidiu com o passeio diário de Blessington, o que parece mostrar que não estavam muito bem familiarizados com a sua rotina diária. Claro que, se estivessem apenas à procura de saque, teriam pelo menos feito alguma tentativa para o procurar. Além disso, consigo ler nos olhos de um homem quando é a sua própria pele que ele teme. É inconcebível que este sujeito pudesse ter feito dois inimigos tão vingativos como estes parecem ser sem o saber. Considero, portanto, certo que ele sabe quem são estes homens e que, por razões próprias, o esconde. É apenas possível que o dia de amanhã o encontre num estado mais comunicativo.”

“Não haverá uma alternativa”, sugeri, “grotescamente improvável, sem dúvida, mas ainda assim concebível? Poderá toda a história do russo cataléptico e do seu filho ser uma invenção do Dr. Trevelyan, que, para os seus próprios fins, esteve nos quartos de Blessington?”

Vi à luz do gás que Holmes exibia um sorriso divertido com esta minha brilhante digressão.

“Meu caro amigo”, disse ele, “foi uma das primeiras soluções que me ocorreram, mas logo pude corroborar o relato do médico. Este jovem deixou marcas no tapete da escada que tornaram absolutamente supérfluo o meu pedido para ver as que tinha feito no quarto. Quando lhe digo que os seus sapatos eram de biqueira quadrada em vez de pontiagudos como os de Blessington, e eram bem mais de dois centímetros e meio maiores do que os do médico, reconhecerá que não pode haver dúvidas quanto à sua individualidade. Mas podemos dormir sobre o assunto agora, pois ficarei surpreendido se não ouvirmos algo mais de Brook Street pela manhã.”

A profecia de Sherlock Holmes cumpriu-se rapidamente e de forma dramática. Às sete e meia da manhã seguinte, no primeiro vislumbre da luz do dia, encontrei-o de pé ao lado da minha cama, vestido com o seu roupão.

“Há um brougham à nossa espera, Watson”, disse ele.

“O que se passa, então?”

“O assunto de Brook Street.”

“Alguma notícia nova?”

“Trágica, mas ambígua”, disse ele, levantando o estore. “Olhe para isto — uma folha de um bloco de notas, com ‘Pelo amor de Deus, venha imediatamente — P.T.’, rabiscado a lápis. O nosso amigo, o médico, estava em apuros quando escreveu isto. Venha, meu caro amigo, pois é um apelo urgente.”

Cerca de um quarto de hora depois estávamos de volta à casa do médico. Ele veio a correr ao nosso encontro com um rosto de horror.

“Oh, que desgraça!”, gritou, com as mãos nas têmporas.

“O que aconteceu?”

“Blessington cometeu suicídio!”

Holmes assobiou.

“Sim, enforcou-se durante a noite.”

Tínhamos entrado e o médico precedeu-nos para o que era evidentemente a sua sala de espera.

“Eu mal sei o que estou a fazer”, gritou ele. “A polícia já está lá em cima. Abalou-me terrivelmente.”

“Quando descobriu?”

“Ele recebe uma chávena de chá todos os dias de manhã cedo. Quando a criada entrou, por volta das sete, lá estava o infeliz a baloiçar no meio do quarto. Tinha atado a corda ao gancho onde costumava estar pendurado o candeeiro pesado e saltou do topo da própria caixa que ele nos mostrou ontem.”

Holmes ficou um momento em profunda reflexão.

“Com a sua permissão”, disse finalmente, “gostaria de subir e examinar o assunto.”

Subimos ambos, seguidos pelo médico.

Foi uma visão terrível que nos recebeu quando entrámos pela porta do quarto. Falei da impressão de flacidez que este homem Blessington transmitia. Enquanto baloiçava do gancho, isso era exagerado e intensificado até quase não ser humano na sua aparência. O pescoço estava esticado como o de uma galinha depenada, fazendo o resto do seu corpo parecer mais obeso e antinatural pelo contraste. Estava vestido apenas com a sua longa camisola de noite e os seus tornozelos inchados e pés desajeitados sobressaíam rigidamente por baixo dela. Ao lado dele estava um inspetor de polícia de aspeto elegante, que tomava notas num bloco.

“Ah, Sr. Holmes”, disse ele, cordialmente, quando o meu amigo entrou, “estou encantado por vê-lo.”

“Bom dia, Lanner”, respondeu Holmes; “não me considerará um intruso, tenho a certeza. Ouviu falar dos eventos que levaram a este caso?”

“Sim, ouvi qualquer coisa sobre eles.”

“Formou alguma opinião?”

“Pelo que vejo, o homem ficou fora de si de pavor. A cama foi bem usada, como vê. Lá está a marca profunda. É por volta das cinco da manhã, sabe, que os suicídios são mais comuns. Seria a sua hora para se enforcar. Parece ter sido um caso muito deliberado.”

“Diria que está morto há cerca de três horas, a julgar pela rigidez dos músculos”, disse eu.

“Notou algo de peculiar no quarto?”, perguntou Holmes.

“Encontrei uma chave de fendas e alguns parafusos no lavatório. Parece ter fumado muito durante a noite, também. Aqui estão quatro pontas de cigarro que apanhei da lareira.”

“Hum!”, disse Holmes, “tem a sua boquilha?”

“Não, não vi nenhuma.”

“A sua cigarreira, então?”

“Sim, estava no bolso do casaco.”

Holmes abriu-a e cheirou o único cigarro que continha.

“Oh, isto é um Havana, e estes outros são cigarros do tipo peculiar que são importados pelos holandeses das suas colónias das Índias Orientais. São geralmente enrolados em palha, sabe, e são mais finos para o seu comprimento do que qualquer outra marca.” Ele apanhou as quatro pontas e examinou-as com a sua lente de bolso.

“Dois destes foram fumados com boquilha e dois sem ela”, disse ele. “Dois foram cortados por uma faca não muito afiada e dois tiveram as pontas mordidas por um conjunto de dentes excelentes. Isto não é um suicídio, Sr. Lanner. É um assassínio muito bem planeado e a sangue-frio.”

“Impossível!”, gritou o inspetor.

“E porquê?”

“Porque é que alguém assassinaria um homem de uma forma tão desajeitada como enforcando-o?”

“É o que temos de descobrir.”

“Como puderam entrar?”

“Pela porta da frente.”

“Estava trancada de manhã.”

“Então foi trancada depois de eles saírem.”

“Como sabe?”

“Vi os seus vestígios. Desculpe-me um momento e talvez possa dar-lhe algumas informações adicionais sobre isso.”

Ele foi até à porta e, girando a fechadura, examinou-a à sua maneira metódica. Depois tirou a chave, que estava pelo lado de dentro, e inspecionou-a também. A cama, o tapete, as cadeiras, a lareira, o cadáver e a corda foram examinados um a um, até que finalmente se deu por satisfeito e, com a minha ajuda e a do inspetor, cortámos o miserável objeto e colocámo-lo respeitosamente sob um lençol.

“E quanto a esta corda?”, perguntou ele.

“Foi cortada daqui”, disse o Dr. Trevelyan, puxando um grande novelo debaixo da cama. “Ele era morbidamente nervoso em relação a incêndios e mantinha sempre isto ao seu lado, para que pudesse escapar pela janela no caso de as escadas estarem a arder.”

“Isso deve ter-lhes poupado trabalho”, disse Holmes, pensativo. “Sim, os factos reais são muito claros e ficarei surpreendido se, à tarde, não lhe puder dar as razões para eles também. Vou levar esta fotografia de Blessington, que vejo sobre a lareira, pois pode ajudar-me nas minhas investigações.”

“Mas não nos disse nada!”, gritou o médico.

“Oh, não pode haver dúvidas quanto à sequência dos eventos”, disse Holmes. “Eram três nisto: o jovem, o velho e um terceiro, cuja identidade não tenho qualquer pista. Os dois primeiros, não preciso de notar, são os mesmos que se fizeram passar pelo conde russo e o seu filho, por isso podemos dar uma descrição muito completa deles. Foram admitidos por um cúmplice dentro da casa. Se pudesse oferecer-lhe uma palavra de conselho, Inspetor, seria a de prender o moço de recados, que, como compreendo, chegou apenas recentemente ao seu serviço, Doutor.”

“O pequeno impúbere não pode ser encontrado”, disse o Dr. Trevelyan; “a criada e a cozinheira acabaram de o procurar.”

Holmes encolheu os ombros.

“Ele desempenhou um papel não menos importante neste drama”, disse ele. “Os três homens tendo subido as escadas, o que fizeram na ponta dos pés, o homem mais velho em primeiro, o homem mais novo em segundo e o homem desconhecido na retaguarda...”

“Meu caro Holmes!”, exclamei.

“Oh, não podia haver dúvida quanto à sobreposição das marcas dos pés. Tive a vantagem de saber qual era qual na noite passada. Subiram, então, para o quarto do Sr. Blessington, cuja porta encontraram trancada. Com a ajuda de um arame, contudo, forçaram a chave. Mesmo sem a lente, perceberá, pelos arranhões nesta palheta, onde foi aplicada a pressão.

“Ao entrar no quarto, o seu primeiro procedimento deve ter sido amordaçar o Sr. Blessington. Ele pode ter estado a dormir, ou pode ter estado tão paralisado de terror que foi incapaz de gritar. Estas paredes são grossas e é concebível que o seu grito, se tivesse tempo de proferir um, não tenha sido ouvido.

“Tendo-o dominado, é evidente para mim que foi realizada uma consulta de algum tipo. Provavelmente foi algo da natureza de um processo judicial. Deve ter durado algum tempo, pois foi então que estes cigarros foram fumados. O homem mais velho sentou-se naquela cadeira de vime; foi ele quem usou a boquilha. O homem mais novo sentou-se ali; ele sacudiu as cinzas contra a cómoda. O terceiro sujeito andou de um lado para o outro. Blessington, penso eu, sentou-se direito na cama, mas disso não posso ter a certeza absoluta.

“Bem, terminou por pegarem em Blessington e enforcá-lo. O assunto estava tão predeterminado que é minha convicção que trouxeram com eles algum tipo de bloco ou roldana que pudesse servir como forca. Aquela chave de fendas e aqueles parafusos eram, como concebo, para a fixar. Vendo o gancho, contudo, naturalmente pouparam-se ao trabalho. Tendo terminado o seu trabalho, fugiram e a porta foi trancada por dentro pelo seu cúmplice.”

Tínhamos todos ouvido com o maior interesse este esboço dos acontecimentos da noite, que Holmes tinha deduzido de sinais tão subtis e minuciosos que, mesmo quando ele os apontou, mal conseguíamos segui-lo no seu raciocínio. O inspetor apressou-se a sair para fazer perguntas sobre o moço de recados, enquanto Holmes e eu regressámos a Baker Street para o pequeno-almoço.

“Estarei de volta às três”, disse ele, quando terminámos a refeição. “Tanto o inspetor como o médico encontrar-me-ão aqui a essa hora e espero, a essa altura, ter esclarecido qualquer pequena obscuridade que o caso ainda possa apresentar.”

Os nossos visitantes chegaram à hora marcada, mas eram quase quatro horas quando o meu amigo apareceu. Pela sua expressão quando entrou, contudo, pude ver que tudo tinha corrido bem.

“Alguma notícia, Inspetor?”

“Apanhámos o rapaz, senhor.”

“Excelente, e eu apanhei os homens.”

“Apanhou-os!”, gritámos os três.

“Bem, pelo menos obtive a sua identidade. Este chamado Blessington é, como esperava, bem conhecido na sede da polícia, e o mesmo se aplica aos seus agressores. Os seus nomes são Biddle, Hayward e Moffat.”

“O bando do banco de Worthingdon”, exclamou o inspetor.

“Precisamente”, disse Holmes.

“Então Blessington deve ter sido Sutton.”

“Exatamente”, disse Holmes.

“Ora, isso torna tudo claro como cristal”, disse o inspetor.

Mas Trevelyan e eu olhámos um para o outro perplexos.

“Devem certamente lembrar-se do grande caso do banco de Worthingdon”, disse Holmes. “Cinco homens estavam nele — estes quatro e um quinto chamado Cartwright. Tobin, o guarda, foi assassinado e os ladrões fugiram com sete mil libras. Isto foi em 1875. Foram todos os cinco presos, mas as provas contra eles não eram de modo algum conclusivas. Este Blessington ou Sutton, que era o pior do bando, tornou-se informador. Com o seu testemunho, Cartwright foi enforcado e os outros três tiveram quinze anos cada. Quando saíram outro dia, o que foi alguns anos antes do seu termo completo, puseram-se, como percebem, a caçar o traidor e a vingar nele a morte do seu camarada. Duas vezes tentaram chegar a ele e falharam; à terceira, como veem, conseguiram. Há mais alguma coisa que possa explicar, Dr. Trevelyan?”

“Penso que tornou tudo notavelmente claro”, disse o médico. “Sem dúvida que o dia em que ele estava perturbado foi o dia em que viu a libertação deles nos jornais.”

“Exatamente. A sua conversa sobre um assalto foi apenas um disfarce.”

“Mas por que não pôde dizer-nos isto?”

“Bem, meu caro senhor, conhecendo o caráter vingativo dos seus antigos associados, ele tentava esconder a sua própria identidade de toda a gente tanto quanto podia. O seu segredo era vergonhoso e ele não conseguia levar-se a divulgá-lo. Contudo, miserável como era, ainda vivia sob o escudo da lei britânica e não tenho dúvidas, Inspetor, de que verá que, embora esse escudo possa falhar em proteger, a espada da justiça ainda está lá para vingar.”

Tais foram as circunstâncias singulares relacionadas com o Paciente Residente e o Médico de Brook Street. Daquela noite em diante, nada mais foi visto dos três assassinos pela polícia e supõe-se na Scotland Yard que eles estavam entre os passageiros do malfadado vapor Norah Creina, que se perdeu há alguns anos com toda a tripulação na costa portuguesa, algumas léguas a norte do Porto. O processo contra o moço de recados caiu por falta de provas e o Mistério de Brook Street, como foi chamado, nunca até agora foi totalmente tratado em qualquer publicação pública.

Durante o meu longo e íntimo conhecimento do Sr. Sherlock Holmes nunca o ouvi referir‑se aos seus parentes, e raramente à sua própria vida precoce. Essa reticência de sua parte aumentou o efeito quase inumano que exercia sobre mim, até que por vezes me vi considerá‑lo como um fenômeno isolado, um cérebro sem coração, tão deficiente em simpatia humana quanto preeminente em inteligência. A sua aversão às mulheres e a sua relutância em formar novas amizades eram típicas do seu carácter desapaixonado, mas não mais que a sua completa supressão de qualquer referência ao seu próprio povo. Eu havia chegado a acreditar que era um órfão sem parentes vivos, mas um dia, para a minha grande surpresa, começou a falar‑me de seu irmão.

Foi depois do chá, numa noite de verão, e a conversa, que vagou de modo desordenado e espasmódico entre tacos de golfe e as causas da mudança na obliquidade da eclíptica, acabou por chegar, finalmente, à questão do atavismo e das aptidões hereditárias. O ponto em discussão era até que ponto um dom singular num indivíduo devia‑se à sua ancestralidade e até que ponto ao seu próprio treinamento precoce.

— No seu caso — disse eu —, de tudo o que me contou parece óbvio que a sua faculdade de observação e a sua peculiar habilidade de dedução são fruto do seu próprio treinamento sistemático.

— Até certo ponto — respondeu ele, pensativo. — Os meus antepassados eram senhores da terra, que parecem ter levado a vida que naturalmente cabe à sua classe. Mas, ainda assim, a minha inclinação para isso corre nas minhas veias, e pode ter vindo da minha avó, que era irmã de Vernet, o artista francês. Arte no sangue tende a assumir as formas mais estranhas.

— Mas como sabe que isso é hereditário?

— Porque o meu irmão Mycroft o possui num grau maior do que eu.

Isso foi, de facto, uma novidade para mim. Se houvesse outro homem na Inglaterra com tais poderes singulares, como é que nem a polícia nem o público tinham ouvido falar dele? Fiz a pergunta, insinuando que era a modéstia do meu companheiro que o fazia reconhecer o seu irmão como superior. Holmes riu da minha sugestão.

— Meu caro Watson — disse ele — não consigo concordar com aqueles que classificam a modéstia entre as virtudes. Ao lógico tudo deve ser visto exatamente como é, e subestimar a si mesmo é tão desvio da verdade quanto exagerar as próprias forças. Quando digo, pois, que Mycroft tem maiores poderes de observação do que eu, pode ter certeza de que falo a verdade exata e literal.

— Ele é o seu mais novo?

— Sete anos mais velho que eu.

— Como é que ele é desconhecido?

— Ah, ele é muito bem conhecido no seu próprio círculo.

— Onde, então?

— Bem, no Clube Diogenes, por exemplo.

Nunca tinha ouvido falar da instituição, e o meu rosto devia ter revelado tal coisa, pois Sherlock Holmes puxou o relógio.

— O Clube Diogenes é o clube mais excêntrico de Londres, e Mycroft um dos homens mais excêntricos. Ele está sempre lá do quarto às cinco, das vinte às oito. São seis agora, logo, se quiser dar um passeio nesta noite tão bela, terei prazer em apresentá‑lo a duas curiosidades.

Cinco minutos depois estávamos na rua, caminhando em direção ao Regent’s Circus.

— Pergunta‑se — disse o meu companheiro — por que Mycroft não usa os seus poderes para o trabalho de detetive. Ele é incapaz disso.

— Mas eu pensava que disseste…

— Disse que ele era o meu superior em observação e dedução. Se a arte do detective começasse e acabasse no raciocínio a partir de uma poltrona, o meu irmão seria o maior agente criminal que já existiu. Mas ele não tem ambição nem energia. Não se dá ao trabalho de verificar as próprias soluções, e preferiria ser considerado errado a ter o inconveniente de provar que está certo. Repetidas vezes apresentei‑lhe um problema e ele deu‑me uma explicação que depois se mostrou a correta. Contudo, foi absolutamente incapaz de elaborar os pontos práticos que deviam ser preparados antes que um caso fosse apresentado a um juiz ou a um júri.

— Não é então a sua profissão?

— De maneira nenhuma. O que para mim é meio de subsistência, para ele é mero passatempo de diletante. Tem extraordinária aptidão para números e audita os livros de alguns departamentos do governo. Mycroft mora em Pall Mall, e todas as manhãs caminha até Whitehall e volta ao fim da tarde. De fim de ano a fim de ano não tem outro exercício, e só o vê em outro lugar além do Clube Diogenes, que fica justo em frente ao seu quarto.

— Não me lembro do nome.

— Muito provável que não. Há muitos homens em Londres, sabe, que, por timidez ou misantropia, não desejam a companhia dos seus semelhantes. Contudo, não lhes apraz privar‑se de cadeiras confortáveis e dos últimos periódicos. Foi para a conveniência desses que o Clube Diogenes foi fundado, e hoje contém os homens mais insociáveis e inclubáveis da cidade. Não se permite a nenhum membro prestar a menor atenção a outro. Exceto na Sala do Estrangeiro, não se permite falar sob quaisquer circunstâncias, e três infrações, se levadas ao conhecimento da comissão, expõem o falante à expulsão. O meu irmão foi um dos fundadores, e eu próprio achei o ambiente muito apaziguador.

Chegáramos a Pall Mall enquanto falávamos, e íamos descendo‑a a partir da extremidade de St. James’s. Sherlock Holmes parou a uma porta a certa distância do Carlton e, advertindo‑me para não falar, conduziu‑me ao salão. Por entre o painel de vidro vislumbrei um grande e luxuoso salão, onde um considerável número de homens se sentava, lendo papéis, cada um no seu cantinho. Holmes conduziu‑me a uma pequena câmara que dava para Pall Mall e, depois de me deixar um minuto só, regressou com um companheiro que reconheci não poder ser senão o seu irmão.

Mycroft Holmes era um homem muito maior e mais corpulento que Sherlock. O seu corpo era absolutamente corpulento, mas o rosto, embora maciço, mantinha algo da acuidade de expressão que era tão notável no de seu irmão. Os olhos, de um cinzento claro, aquoso, pareciam sempre reter aquele olhar distante, introspectivo, que só tinha observado nos de Sherlock quando este exercia todo o seu poder.

— Tenho o prazer de conhecê‑lo, senhor — disse ele, estendendo uma mão larga e gorda como a nadadeira de uma foca. — Ouvi falar de Sherlock por todo o lado desde que se tornou o seu cronista. A propósito, Sherlock, esperava encontrá‑lo na semana passada, para consultar‑me sobre aquele caso da Manor House. Pensei que poderia estar um pouco fora do seu alcance.

— Não, resolvi‑o — respondeu o meu amigo, sorrindo.

— Foi Adams, claro.

— Sim, foi Adams.

— Tinha certeza disso desde o princípio. — Os dois sentaram‑se juntos à janela em arco do clube. — Para quem quiser estudar a humanidade, este é o local — disse Mycroft. — Observem os tipos magníficos! Vejam estes dois homens que se aproximam, por exemplo.

— O marcador de bilhar e o outro?

— Precisamente. O que diz sobre o outro?

Os dois homens tinham‑se parado em frente à janela. Algumas marcas de giz sobre o bolso do colete eram os únicos vestígios de bilhar que pude ver em um deles. O outro era um sujeito muito pequeno, escuro, com o chapéu empurrado para trás e várias pacotes debaixo do braço.

— Um velho soldado, percebo — disse Sherlock.

— E recém‑despedido — comentou o irmão.

— Serviu na Índia, vejo.

— E suboficial.

— Artilharia Real, imagino — disse Sherlock.

— E viúvo.

— Mas com filho.

— Crianças, meu caro rapaz, crianças.

— Venha — disse eu, rindo — isto está um pouco demais.

— Certamente — respondeu Holmes — não é difícil dizer que um homem com tal porte, expressão de autoridade e pele tostada seja soldado, mais que um simples recruta, e não tardará a vir da Índia.

— O fato de não ter deixado o serviço há muito tempo demonstra‑se pelo fato de ainda usar as botas de munição, como se as chamam — observou Mycroft.

— Não tinha o passo de cavalaria, porém usava o chapéu de lado, como se vê pela pele mais clara desse lado da sobrancelha. O seu peso indica que não é sapador. É da artilharia.

— Então, claro, o seu luto completo indica que perdeu alguém muito querido. O fato de estar fazendo as próprias compras sugere que era a sua esposa. Ele tem comprado coisas para crianças, percebe. Há um chocalho, que mostra que uma delas é muito pequena. A esposa provavelmente morreu no parto. O fato de ter um livro‑de‑imagens sob o braço indica que há outra criança a considerar.

Comecei a perceber o que o meu amigo queria dizer quando afirmou que o seu irmão possuía faculdades ainda mais agudas que as dele. Ele olhou para mim e sorriu. Mycroft pegou rapé de uma caixa de concha, e afastou os grãos errantes do peito do casaco com um grande lenço de seda vermelho.

— A propósito, Sherlock — disse ele — tenho algo muito à sua maneira — um problema singular — submetido ao meu juízo. De fato não tive energia para aprofundá‑lo além de forma bastante incompleta, mas deu‑me base para alguma agradável especulação. Se quiser ouvir os factos...

— Meu caro Mycroft, ficarei encantado — respondi.

O irmão rabiscou uma nota numa folha do seu caderninho e, ao tocar a campainha, entregou‑a ao empregado.

— Pedi ao Sr. Melas que venha — disse ele. — Ele mora no andar acima de mim, e tenho um leve conhecimento dele, o que o levou a procurar‑me na sua perplexidade. O Sr. Melas é grego de origem, ao que entendo, e um linguista notável. Ganha a vida em parte como intérprete nos tribunais e em parte como guia de quaisquer orientais ricos que visitem os hotéis da Northumberland Avenue. Creio que o deixarei relatar a sua experiência muito notável à sua própria maneira.

Alguns minutos depois juntou‑se a nós um homem baixo e robusto, cujo rosto oliva e cabelos pretos como carvão proclamavam a sua origem sulista, embora a sua fala fosse a de um inglês instruído. Ele apertou‑as mãos com entusiasmo com Sherlock Holmes, e os seus olhos escuros brilharam de prazer ao perceber que o especialista ansiava por ouvir a sua história.

— Não acredito que a polícia me credite — disse ele numa voz lamentosa. — Só porque nunca ouviram falar disso antes, pensam que tal coisa não pode existir. Mas sei que nunca estarei tranquilo até saber o que aconteceu com o meu pobre homem que tem uma faixa de gesso na face.

— Estou todo atento — afirmou Sherlock Holmes.

— Esta é a noite de quarta‑feira — disse o Sr. Melas. — Pois bem, foi segunda‑feira à noite — há apenas dois dias, compreende — que tudo isto aconteceu. Sou intérprete, como talvez já lhe tenha dito o meu vizinho ali. Interpreto todas as línguas — ou quase todas — mas, sendo grego de nascimento e tendo nome grego, associo‑me principalmente a esse idioma. Há muitos anos sou o principal intérprete grego em Londres, e o meu nome é muito conhecido nos hotéis.

— Não é raro que me procurem em horas estranhas estrangeiros que se metem em apuros, ou viajantes que chegam tarde e desejam os meus serviços. Não fiquei surpreso, portanto, na segunda‑feira à noite, quando um tal Sr. Latimer, um jovem muito bem vestido, apareceu nos meus aposentos e pediu‑me que o acompanhasse num carro‑coche que esperava à porta. Um amigo grego tinha de o ver a negócios, explicou ele, e como não falava outra língua senão a sua, os serviços de um intérprete eram indispensáveis. Deu‑me a entender que a sua casa ficava a alguma distância, em Kensington, e parecia ter muita pressa, empurrando‑me rapidamente para o coche quando já estávamos na rua.

— Digo “coche”, mas rapidamente duvidei se não fosse uma carruagem em que me encontrava. Era certamente mais espaçosa que a ordinária charrete de quatro rodas de Londres, e os adornos, embora gastos, eram de rica qualidade. O Sr. Latimer sentou‑se frente a mim e partimos através de Charing Cross e subindo a Shaftesbury Avenue. Saímos em Oxford Street e eu ousava fazer algum comentário sobre ser um caminho tortuoso até Kensington, quando as minhas palavras foram interrompidas pelo extraordinário comportamento do meu companheiro.

— Começou por retirar do bolso um porrete de aparência formidável, carregado de chumbo, e balançando‑o para trás e para a frente várias vezes, como se testasse o peso e a força. Então pôs‑o, sem dizer palavra, no assento ao seu lado. Após isso, abaixou as janelas de ambos os lados e, para o meu espanto, descobri que estavam cobertas com papel, impedindo‑me de enxergar através delas.

— “Lamento obstruir a sua vista, Sr. Melas”, disse ele. “O fato é que não pretendo que veja para onde estamos a conduzir‑nos. Poderia ser inconveniente para mim se conseguisse encontrar novamente o caminho”.

Como pode imaginar, fiquei totalmente surpreendido por tal abordagem. O meu companheiro era um jovem forte, de ombros largos, e, além da arma, eu não teria a menor hipótese numa luta contra ele.

— “É uma conduta muito extraordinária, Sr. Latimer”, gaguejei. “Deve estar ciente de que o que está a fazer é totalmente ilegal”.

— “É certa certa liberdade, sem dúvida”, disse ele, “mas compensaremos. Devo avisá‑lo, porém, Sr. Melas, que se a qualquer momento nesta noite tentar levantar alarme ou fazer algo contra os meus interesses, encontrará uma consequência muito grave. Peço‑lhe que se lembre de que ninguém sabe onde está, e que, quer esteja nesta carruagem ou na minha casa, está igualmente ao meu poder”.

As palavras foram proferidas em tom calmo, mas com um sotaque rouco que lhes conferia grande ameaça. Sentei‑me em silêncio a imaginar que razão poderia ter alguém para me sequestrar daquela forma tão singular. Seja o que fosse, ficou perfeitamente claro que não havia utilidade alguma em resistir, cabia‑me apenas esperar para ver o que poderia acontecer.

Por quase duas horas conduziram‑nos sem que eu tivesse a menor pista de onde íamos. Por vezes o rangido das pedras anunciava um caminho empedrado, noutras vezes o percurso liso e silencioso sugeria asfalto; mas, salvo por essa variação de som, nada ajudava a formar uma ideia de onde estávamos. O papel que cobria cada janela era impenetrável à luz, e uma cortina azul foi puxada sobre o vidro da frente. Eram quinze minutos para as oito quando deixámos Pall Mall, e o meu relógio indicou que faltavam dez minutos para as nove quando finalmente paramos. O companheiro abaixou a janela, e eu vislumbrei uma porta baixa e arqueada, com uma lâmpada a arder acima. Enquanto eu era puxado do coche, a porta abriu‑se, e encontrei‑me dentro da casa, com uma vaga impressão de um gramado e árvores a cada lado ao entrar. Se eram terrenos privados ou realmente zona campestre, isso era mais do que eu podia ousar dizer.

Havia dentro uma lâmpada a gás colorida, tão baixa que quase não via nada, salvo que o hall era de certo tamanho e decorado com quadros. Na luz tênue reconheci que quem me abrira a porta era um homem pequeno, de aspecto vil, meio‑idade, com ombros arredondados. Ao virar‑se para nós, o brilho da luz revelou que usava óculos.

— “É o Sr. Melas, Harold?” — perguntou ele.

— “Sim”.

— “Muito bem, muito bem! Sem má‑intenção, Sr. Melas, espero, mas não podíamos prosseguir sem si. Se nos tratar com justiça, não se arrependerá; mas se tentar truques, que Deus o ajude!”.

Falava de modo nervoso, brusco, com risadinhas entrecortadas, mas, de alguma forma, impressionou‑me mais com medo do que os demais.

— “O que deseja de mim?” — perguntei.

— “Só fazer algumas perguntas a um cavalheiro grego que nos visita, e obter as respostas. Mas diga não mais do que lhe for ordenado, ou — — aqui veio outra risadinha nervosa — “deverá nunca ter nascido”.

Enquanto falava, abriu uma porta que mostrava o caminho para um salão que parecia ricamente mobiliado, mas novamente a única luz vinha de uma única lâmpada meio abaixada. O recinto era certamente grande, e o modo como os meus pés afundavam no tapete ao atravessá‑lo anunciava a sua riqueza. Vislumbrei cadeiras de veludo, um alto e branco aparelho de mármore, e o que parecia ser uma armadura japonesa num dos lados. Havia uma cadeira logo abaixo da lâmpada, e o velho gesticulou para que eu me sentasse nela. O mais jovem nos deixara, mas retornou subitamente por outra porta, trazendo consigo um cavalheiro vestido com um roupão solto que avançava lentamente. Quando entrou no círculo de luz fraca que me permitia vê‑lo melhor, fiquei horrorizado com a sua aparência. Era mortalmente pálido e terrivelmente esquelético, com os olhos brilhantes e protuberantes de um homem cujo espírito supera a sua força. Mas o que mais me chocou que quaisquer sinais de fraqueza física foi o fato de o seu rosto estar grotescamente cruzado por gesso adesivo, e que um grande pedaço de gesso cobria a boca.

— “Tem a tábua, Harold?” — bradou o velho, enquanto o ser estranho caía ao invés de sentar‑se numa cadeira. “As mãos estão soltas? Agora, dê‑lhe o lápis. Você fará as perguntas, Sr. Melas, e ele escreverá as respostas. Primeiro pergunte‑lhe se está disposto a assinar os papéis”.

Os olhos do homem cintilaram como fogo.

— “Nunca!” — escreveu em grego sobre a tábua.

— “Em nenhuma condição?” — indaguei, a mando do nosso tirano.

— “Só se eu a vir casada na minha presença por um sacerdote grego que conheço”.

O homem riu de forma venenosa.

— “Sabe o que o aguarda, então?”

— “Não me importo comigo mesmo”.

Estes são exemplos das perguntas e respostas que compuseram a nossa estranha conversa meio falada, meio escrita. Repetidamente perguntei‑lhe se assinaria os documentos; repetidamente obtinha a mesma resposta indigna. Mas logo me surgiu uma ideia feliz. Passei a acrescentar pequenas frases minhas a cada pergunta, inocentes no início, para testar se algum dos nossos companheiros sabia algo do assunto, e então, ao constatar que não mostravam sinais, joguei um jogo mais perigoso. A nossa conversa correu mais ou menos assim:

— “Não pode fazer bem com essa obstinação. Quem é você?”

— “Não me importa. Sou um estranho em Londres”.

— “Seu destino ficará sobre sua própria cabeça. _Quanto tempo está aqui?_”

— “Que assim seja. Três semanas”.

— “ a propriedade nunca poderá ser sua. O que o aflige?”

— “Não irá aos vilões. Eles estão a me famintar”.

— “Será livre se assinar. Que casa é esta?”

— “Nunca assinarei. Não sei”.

— “Não lhe faz nenhum serviço. Qual é o seu nome?”

— “Deixe‑me ouvir o que ela diz. Kratides”.

— “Ver‑á ela se assinar. De onde vem?”

— “Então nunca a verei. Atenas”.

— Mais cinco minutos, Sr. Holmes, e eu teria extraído a história inteira bem diante de seus narizes. A pergunta que eu faria a seguir poderia ter esclarecido tudo, mas, naquele instante, a porta se abriu e uma mulher entrou na sala. Não a vi com clareza suficiente para saber mais do que que era alta e graciosa, de cabelos negros, vestida com algum tipo de túnica branca e solta.

— “Harold”, disse ela, falando inglês com um forte sotaque. “Não pude ficar longe por mais tempo. Está tão solitário lá em cima com apenas— Ó Deus, é Paul!”

Essas últimas palavras eram em grego, e, ao mesmo tempo, o homem fez um esforço convulsivo, arrancou o gesso dos lábios e, gritanto “Sophy! Sophy!”, lançou‑se nos braços da mulher. O abraço durou apenas um instante, porém, pois o jovem agarrou‑a e a empurrou para fora da sala, enquanto o mais velho dominou facilmente a vítima emagrecida e a arrastou pela outra porta. Por um momento, fiquei só na sala, e levantei-me, com a vaga ideia de que poderia, de alguma forma, achar uma pista sobre a casa em que me encontrava. Felizmente, não dei passos; ao olhar para cima vi o homem mais velho na soleira, com os olhos fixos em mim.

— “Isso basta, Sr. Melas”, disse ele. “Percebe que o incluímos em nossa confiança sobre um assunto muito privado. Não deveríamos ter lhe incomodado, mas nosso amigo que fala grego e que iniciou estas negociações foi forçado a retornar ao Oriente. Era imprescindível encontrarmos alguém que assumisse o seu lugar, e tivemos a sorte de saber de seus dons.”

Inclinei a cabeça em reverência.

— “Há cinco soberanos aqui”, acrescentou, aproximando‑se, “o que, espero, será uma taxa suficiente. Mas lembre‑se”, disse, tocando‑me levemente no peito e rindo, “se falar a uma alma humana sobre isto — uma alma humana, entenda — bem, que Deus tenha misericórdia da sua alma!”

Não consigo descrever o desprezo e o horror que esse homem de aparência insignificante me inspirou. Agora, sob a luz da lamparina, pude vê‑lo melhor. Os traços eram afiados e amarelados; a barba, curta e pontiaguda, era fina e debilitada. Empurrava o rosto para a frente ao falar, e lábios e pálpebras tremiam continuamente como quem sofre da dança de São Vito. Não pude deixar de pensar que o riso estranho e contagiante era também sintoma de alguma enfermidade nervosa. O terror de seu semblante residia nos olhos, porém, aço‑cinzentos, a brilhar friamente com uma crueldade maligno‑inexorável nas profundezas.

— “Saberemos se falar desse assunto”, disse ele. “Temos nossos próprios meios de informação. Agora encontrará a carruagem esperando, e meu amigo o verá a caminho.”

Fui apressado pelo corredor até o veículo, obtendo, de novo, aquele vislumbre fugaz de árvores e de um jardim. O Sr. Latimer seguia-me de perto, colocando‑se ao meu lado, sem dizer palavra. Em silêncio, dirigimo‑nos novamente por uma distância interminável, com as janelas abertas, até que, por fim, pouco depois da meia‑noite, a carruagem parou.

— “Desça aqui, Sr. Melas”, disse meu companheiro. “Lamento deixá‑lo tão longe de sua casa, mas não há alternativa. Qualquer tentativa sua de seguir a carruagem só pode terminar em ferimento.”

Ele abriu a porta enquanto falava, e, antes que eu pudesse saltar, o cocheiro chicoteou o cavalo e a carruagem rangiu ao afastar‑se. Olhei ao redor, atônito. Encontrava‑me num tipo de clareira de charneca pontilhada de touceiras negras de urze. Ao longe, estendia‑se uma fileira de casas, com luzes tímidas nas janelas superiores. Do outro lado, avistei as lâmpadas vermelhas de um sinal ferroviário.

A carruagem que me trouxera já desaparecera da vista. Fiquei a observar o entorno, intrigado, quando avistei alguém avançar na escuridão. Aproximando‑se, reconheci ser um porteiro de ferrovia.

— “Pode dizer‑me que lugar é este?”, perguntei.

— “Wandsworth Common”, respondeu ele.

— “Posso apanhar um trem para a cidade?”

— “Se caminhar cerca de uma milha até Clapham Junction”, disse, “chegará a tempo do último trem para Victoria.”

Assim terminou a minha aventura, Sr. Holmes. Não sei onde estava, nem com quem falei, nem nada além do que lhe relatei. Só sei que há um crime às costas de alguém, e desejo ajudar esse infeliz, se possível. Relatei tudo ao Sr. Mycroft Holmes na manhã seguinte, e depois à polícia.

Sentámo‑nos em silêncio por algum tempo após ouvir a extraordinária narrativa. Então Sherlock lançou‑lhe o olhar ao irmão.

— “Alguma pista?”, perguntou.

Mycroft pegou o Daily News que jazia na mesinha de canto.

— “Qualquer pessoa que forneça informações sobre o paradeiro de um cavalheiro grego chamado Paul Kratides, de Atenas, que não fala inglês, será recompensada. Recompensa semelhante será paga a quem der informações sobre uma senhora grega chamada Sophy. X 2473.” — estava em todos os jornais. Sem resposta.

— “E a Legação Grega?”

— “Inquiri. Não sabem nada.”

— “Um telegrama ao chefe da polícia de Atenas, então?”

— “Sherlock tem toda a energia da família”, disse Mycroft, voltando‑se para mim. “Bem, tome o caso de qualquer modo e avise‑me se conseguir algo.”

— “Certamente”, respondeu o amigo, levantando‑se da cadeira. “Avisarei, assim como o Sr. Melas. Enquanto isso, Sr. Melas, eu ficaria em guarda, se fosse você, pois, evidentemente, eles sabem, pelos anúncios, que o traíu.”

Enquanto caminhávamos para casa, Holmes parou numa casa de telégrafos e enviou vários telegramas.

— “Vê, Watson”, comentou, “nossa noite não foi em vão. Alguns dos meus casos mais interessantes chegam a mim assim, por Mycroft. O problema que acabamos de ouvir, embora admita apenas uma explicação, ainda tem traços distintivos.”

— “Tem esperanças de resolvê‑lo?”

— “Bem, conhecendo o que sabemos, seria singular falharmos em descobrir o resto. Você deve ter formulado alguma teoria que explique os fatos que ouvimos.”

— “De modo vago, sim.”

— “Qual foi sua ideia, então?”

— “Parecia óbvio que a jovem grega fora raptada pelo inglês Harold Latimer.”

— “Raptada de onde?”

— “De Atenas, talvez.”

Sherlock Holmes balançou a cabeça. “Esse rapaz não sabia uma palavra de grego. A senhora falava inglês razoavelmente bem. Deduz‑se, pois, que ela esteve algum tempo na Inglaterra, mas ele não esteve na Grécia.”

— “Então presumiremos que ela veio à Inglaterra em visita, e que Harold a convenceu a fugir com ele.”

— “É mais provável.”

— “Então o irmão — suponho que seja esse o vínculo — vem da Grécia para interferir. Imprudentemente se entrega ao poder do jovem e de seu associado mais velho. Capturam‑o e o violentam para fazê‑lo assinar papéis que transfeririam a fortuna da irmã — da qual talvez seja fiduciário — para eles. Ele recusa. Para negociar, precisam de um intérprete, e recai sobre o Sr. Melas, já que já usaram outro antes. A garota não é informada da chegada do irmão e descobre por puro acaso.”

— “Excelente, Watson!” exclamou Holmes. “Acho que não está longe da verdade. Vê‑nos com todas as cartas, e só tememos um ato súbito de violência deles. Se nos derem tempo, devemos obtê‑los.”

— “Mas como localizar essa casa?”

— “Se nossa suposição estiver correta e a menina se chamar — ou ter sido — Sophy Kratides, não teremos dificuldade em rastreá‑la. Essa será nossa principal esperança, pois o irmão é, obviamente, um completo estranho. É claro que já se passaram semanas desde que Harold estabeleceu relações com a moça, tempo suficiente para que o irmão em Atenas soubesse e viesse ao país. Se viveram no mesmo lugar nesse intervalo, poderemos obter alguma resposta ao anúncio de Mycroft.”

Chegáramos à nossa residência na Baker Street enquanto ainda falávamos. Holmes subiu as escadas primeiro e, ao abrir a porta do nosso quarto, deu um sobressalto. Olhando por cima do ombro, eu também fiquei espantado: seu irmão Mycroft estava sentado, fumando, na poltrona.

— “Entrem, Sherlock! Entrem, senhor”, disse ele, com sorriso complacente. “Não esperava tamanha energia de mim, não é, Sherlock? Mas há algo neste caso que me atrai.”

— “Como chegou aqui?”

— “Passei‑o num hansom.”

— “Alguma novidade?”

— “Recebi resposta ao meu anúncio.”

— “Ah!”

— “Sim, chegou poucos minutos depois de sua partida.”

— “E com que efeito?”

Mycroft Holmes retirou um pedaço de papel.

— “Eis aqui”, disse, “escrito com uma caneta J em papel creme real por um homem de meia‑idade, constituição frágil. ‘Senhor’, diz, ‘em resposta ao seu anúncio datado de hoje, informo que conheço bem a jovem em questão. Se quiser visitar‑me, poderei fornecer detalhes de sua triste história. Ela reside atualmente em The Myrtles, Beckenham. Atenciosamente, J. Davenport.’”

— “Ele escreve de Lower Brixton”, observou Mycroft. “Não acha que devíamos ir ao seu encontro agora, Sherlock, e descobrir os pormenores?”

— “Meu caro Mycroft, a vida do irmão vale mais que a história da irmã. Acho que devemos ir ao Scotland Yard ver o Inspetor Gregson e partir direto para Beckenham. Sabemos que um homem está sendo morto, e cada hora pode ser crucial.”

— “Melhor buscar o Sr. Melas a caminho”, sugeri. “Talvez precisemos de um intérprete.”

— “Excelente”, respondeu Sherlock. “Mande o garoto buscar um quatro‑rodas, e partimos de imediato.” Enquanto falava, abriu a gaveta da mesa e guardou o revólver no bolso. “Sim”, respondeu ao meu olhar; “pelo que ouvimos, tratamos de uma quadrilha particularmente perigosa.”

Já quase escurecia quando nos achamos em Pall Mall, na residência do Sr. Melas. Um cavalheiro acabara de chamar por ele e já se fora.

— “Pode dizer‑me onde?” perguntou Mycroft.

— “Não sei, senhor”, respondeu a mulher que abrira a porta; “só sei que saiu de carruagem com o cavalheiro.”

— “Ele deu algum nome?”

— “Não, senhor.”

— “Não era um jovem alto, bonito e escuro?”

— “De modo algum, senhor. Era um rapaz baixinho, de óculos, rosto fino, mas muito amável, pois ria o tempo todo enquanto falava.”

— “Sigam‑me!” bradou abruptamente Sherlock Holmes. “A coisa está a ficar séria”, observou, ao dirigirmo‑nos ao Scotland Yard. “Esses homens voltaram a ter Melas nas mãos. Ele não tem coragem física, como bem sabem pela experiência da outra noite. O vilão o aterrorizou ao instante em que o encontrou. Certamente querem seus serviços profissionais, mas, depois de usá‑lo, podem querer puni‑lo por considerarem‑o traidor.”

Nossa esperança era alcançar Beckenham de trem, mais rápido que pela carruagem. No Scotland Yard, porém, demoramos mais de uma hora para obter o Inspetor Gregson e cumprir as formalidades legais que nos permitiriam entrar na casa. Era quinze para as dez quando chegamos à London Bridge e meio‑horas depois desembarcamos na plataforma de Beckenham. Meio quilômetro de carro nos trouxe a The Myrtles — uma casa grande e escura, recuada da rua, com seu próprio terreno. Despedimo‑nos do táxi e subimos a avenida juntos.

— “Todas as janelas estão escuras”, observou o inspetor. “A casa parece deserta.”

— “Nossos pássaros voaram e o ninho ficou vazio”, disse Holmes.

— “Por que diz isso?”

— “Uma carruagem, carregada de bagagens, saiu na última hora.”

O inspetor riu. “Vi as marcas das rodas à luz da lanterna do portão, mas onde entra a bagagem?”

— “Talvez tenha notado as mesmas marcas indo na direção oposta. Mas as que saíam eram bem mais profundas — tanto que podemos afirmar, com certeza, que havia um peso considerável na carruagem.”

— “Isso ultrapassa a minha compreensão”, disse o inspetor, encolhendo os ombros. “Não será fácil arrombar a porta, mas tentaremos se não conseguirmos fazer alguém ouvir‑nos.”

Ele bateu forte no batente e puxou a campainha, sem sucesso. Holmes se retirou, mas retornou alguns minutos depois.

— “Tenho uma janela aberta”, disse ele.

— “É uma mercê que esteja do lado da lei, e não contra ela, Sr. Holmes”, comentou o inspetor, notando o jeito engenhoso com que meu amigo recolheu o ferrolho. “Sob estas circunstâncias, creio que podemos entrar sem convite.”

Um a um, adentramos um amplo aposento, claramente o que havia encontrado o Sr. Melas. O inspetor acendeu sua lanterna; sob a luz dela vimos as duas portas, a cortina, a lâmpada e o traje de couraça japonesa que ele descrevera. Sobre a mesa havia dois copos, uma garrafa de brandy vazia e os restos de uma refeição.

— “Que é isso?”, indagou Holmes de repente.

Ficamos imóveis e ouvimos. Um som de gemido baixo subia de algum lugar acima de nossas cabeças. Holmes correu até a porta e saiu ao corredor. O ruído lúgubre vinha do andar de cima. Ele disparou escada acima, seguido por mim e pelo inspetor, enquanto Mycroft avançava o mais rápido que sua enorme figura permitia.

Três portas alinhavam‑se no segundo andar; era da porta central que surgiam os sons sinistros, alternando entre um murmúrio surdo e um guincho agudo. A porta estava trancada,

Meses depois, um curioso recorte de jornal nos chegou de Buda-Pesth. Contava como dois ingleses que viajavam com uma mulher encontraram um fim trágico. Cada um deles foi esfaqueado, ao que parece, e a polícia húngara opinava que haviam brigado e infligido ferimentos mortais um ao outro. Holmes, porém, tem, eu imagino, uma maneira diferente de pensar, e ainda sustenta que, se se encontrasse a garota grega, poderia se descobrir como foram vingados os erros dela e de seu irmão.

XI. O Tratado Naval

O mês de julho que sucedeu imediatamente ao meu casamento ficou marcado por três casos de interesse, nos quais tive o privilégio de estar associado a Sherlock Holmes e de estudar seus métodos. Encontrá‑los registrados nas minhas anotações sob os títulos “A Aventura da Segunda Mancha”, “A Aventura do Tratado Naval” e “A Aventura do Capitão Cansado”. O primeiro, porém, trata de um interesse de tal importância e envolve tantas das primeiras famílias do reino que, por muitos anos, será impossível torná‑lo público. Nenhum caso, contudo, em que Holmes esteve envolvido jamais ilustrou tão claramente o valor de seus métodos analíticos ou impressionou tão profundamente aqueles que lhe foram associados. Ainda retenho um relatório quase literal da entrevista na qual ele demonstrou os verdadeiros fatos do caso ao Monsieur Dubuque da polícia de Paris, e a Fritz von Waldbaum, o bem‑conhecido especialista de Dantzig, ambos os quais desperdiçaram suas energias em questões que se provaram secundárias. O novo século virá, porém, antes que a história possa ser contada com segurança. Enquanto isso passo ao segundo da minha lista, que também prometeu, a seu tempo, ser de importância nacional, e foi marcado por vários incidentes que lhe conferem um caráter bastante singular.

Durante meus anos escolares estive intimamente associado a um rapaz chamado Percy Phelps, que tinha quase a minha idade, embora estivesse duas séries à minha frente. Era um garoto muito brilhante, e arrancava todo prêmio que a escola oferecia, concluindo suas façanhas ao ganhar uma bolsa que o enviou para continuar sua carreira triunfal em Cambridge. Ele era, lembro‑me, extremamente bem conectado, e mesmo quando éramos todos meninos juntos sabíamos que o irmão da sua mãe era Lord Holdhurst, o grande político conservador. Essa relação ostensiva lhe fez pouco bem na escola. Pelo contrário, parecia-nos algo picante brincar com ele no recreio e bater-lhe nas canelas com um taco. Mas era outra coisa quando saiu ao mundo. Ouvi vagamente que suas habilidades e as influências que comandava lhe garantiram boa posição no Ministério das Relações Exteriores, e então desapareceu completamente de minha mente até que a seguinte carta trouxe à tona sua existência:

Briarbrae, Woking. Meu caro Watson — não tenho dúvidas de que você se lembra de “Tadpole” Phelps, que estava na quinta série quando você estava na terceira. É possível que você já tenha ouvido que, graças à influência de meu tio, obtive boa nomeação no Ministério das Relações Exteriores, e que eu estava em posição de confiança e honra até que uma horrível desgraça veio repentinamente devastar minha carreira. Não há utilidade em escrever os detalhes desse terrível acontecimento. Caso você atenda ao meu pedido, será provável que eu tenha de narrá‑los a você. Acabei de recuperar-me de nove semanas de febre cerebral, e ainda estou extremamente fraco. Você acha que poderia trazer seu amigo, o Sr. Holmes, para me ver? Gostaria de ter sua opinião sobre o caso, embora as autoridades me assegurem que nada mais pode ser feito. Por favor, traga‑o o quanto antes. Cada minuto parece uma hora enquanto vivo neste estado de terrível suspense. Assegure‑lhe que, se não lhe pedi conselho antes, não foi por não apreciar seus talentos, mas porque estou fora de mim desde que o golpe ocorreu. Agora estou claro novamente, embora não ouse pensar muito nisso por medo de recaída. Ainda estou tão fraco que, como vê, escrevo ditando. Por favor, traga‑o.

Seu antigo colega de escola, Percy Phelps.

Houve algo que me tocou ao ler essa carta, algo digno de piedade nos apelos reiterados para trazer Holmes. Fui tão movido que, ainda que fosse algo difícil, eu teria tentado, mas, claro, sabia bem que Holmes amava sua arte, de modo que estava sempre pronto a prestar socorro assim como seu cliente poderia recebê‑lo. Minha esposa concordou que nenhum momento deveria ser perdido ao apresentar o assunto a ele, e assim, dentro de uma hora após o café da manhã, encontrei‑me novamente nos antigos cômodos da Baker Street.

Holmes estava sentado à sua mesa‑lateral, vestido com seu roupão de dormir, e trabalhando arduamente sobre um experimento químico. Um grande erlenmeyer curvo fervia furiosamente na chama azulada de um bico de Bunsen, e as gotas destiladas condensavam‑se num recipiente de dois litros. Meu amigo quase não levantou os olhos ao eu entrar, e eu, vendo que sua investigação devia ser importante, sentei‑me numa poltrona e esperei. Ele mergulhava uma garrafa na outra, tirando algumas gotas de cada com sua pipeta de vidro, e finalmente trouxe um tubo de ensaio contendo uma solução até a mesa. Em sua mão direita segurava um pedaço de papel tornassol.

— Você chega em crise, Watson — disse ele. — Se este papel permanecer azul, tudo bem. Se ficar vermelho, significa a vida de um homem. — Mergulhou‑o no tubo de ensaio, que imediatamente se tingiu de um vermelho sombrio e sujo. — Hum! Já suspeitava! — exclamou. — Estarei ao seu dispor num instante, Watson. Você encontrará tabaco na pantufa persa. — Virou‑se para sua escrivaninha e rabiscou vários telegramas, que entregou ao mensageiro. Então jogou‑se na cadeira oposta, puxou os joelhos até que os dedos se fecharam em volta de suas canelas longas e finas.

— Um homicídio muito comum, — disse ele. — Você tem algo melhor, eu imagino. Você é o petrel tempestuoso do crime, Watson. O que é?

Entreguei‑lhe a carta, que leu com a mais concentrada atenção.

— Não nos conta muito, não é? — observou, ao devolvê‑la a mim.

— Quase nada.

— E ainda assim a escrita é de interesse.

— Mas a escrita não é dele.

— Precisamente. É de mulher.

— Um homem, certamente — exclamei.

— Não, é de mulher, e de mulher de rara índole. Veja, no início de uma investigação é útil saber que seu cliente tem contato próximo com alguém que, para o bem ou para o mal, possui natureza excepcional. Meu interesse já está despertado no caso. Se estiver pronto, partiremos imediatamente para Woking, para ver esse diplomata que se encontra em tal situação vil, e a senhora a quem ele dita suas cartas.

Fomos afortunados o bastante para apanhar um trem cedo em Waterloo, e em menos de uma hora nos encontrávamos entre os pinheiros e a urze de Woking. Briarbrae revelou‑se uma grande casa isolada em extensos terrenos a poucos minutos a pé da estação. Ao enviarmos nossos cartões fomos conduzidos a uma sala de estar elegantemente decorada, onde, em poucos minutos, juntou‑se a nós um homem de compleição robusta que nos recebeu com muita hospitalidade. Sua idade devia estar mais próxima dos quarenta do que dos trinta, mas suas bochechas eram tão rubras e seus olhos tão alegres que ainda transmitia a impressão de um garoto rechonchudo e travesso.

— Estou tão feliz por virem — disse ele, apertando nossas mãos com efusão. — Percy tem perguntado por vocês a manhã inteira. Ah, pobre velho, ele se apega a qualquer palha! Seu pai e sua mãe pediram‑me que vos visse, pois a mera menção do assunto lhes causa muita dor.

— Ainda não temos detalhes — observou Holmes. — Percebo que não sois, propriamente, um membro da família.

Nosso interlocutor pareceu surpreso, e então, abaixando o olhar, começou a rir.

— Claro que viste o monograma “J.H.” no meu medalhão — disse ele. — Por um instante achei que tivesses feito algo astuto. Joseph Harrison é meu nome, e como Percy vai casar-se com minha irmã Annie, ao menos serei parente por afinidade. Encontrarás minha irmã no quarto dele, pois tem cuidado dele mão e pé nestes dois meses. Talvez seja melhor entrarmos já, pois sei quão impaciente ele está.

O recinto onde fomos conduzidos ficava no mesmo andar da sala de estar. Era decorado em parte como sala de estar e em parte como quarto, com flores dispostas delicadamente em cada canto. Um jovem, muito pálido e desgastado, jazia sobre um sofá próximo à janela aberta, de onde entrava o rico perfume do jardim e o ar quente de verão. Uma mulher sentava‑se ao seu lado, que se levantou ao nos vermos entrar.

— Devo partir, Percy? — perguntou ela.

Ele segurou‑a pela mão para detê‑la. — Como está, Watson? — disse ele cordialmente. — Jamais teria reconhecido você sob esse bigode, e ouso dizer que não estaria disposto a jurar por mim. Presumo que este seja seu famoso amigo, o Sr. Sherlock Holmes?

Apresentei‑o em poucas palavras, e ambos sentamos. O jovem robusto nos havia deixado, mas sua irmã ainda permanecia ao lado do inválido, com a mão na sua. Era uma mulher de aparência marcante, um pouco baixa e corpulenta para a simetria, mas de bela tez oliva, olhos grandes, escuros, italianos, e uma abundância de cabelos negros profundos. Seus tons ricos faziam o rosto alvéolo do companheiro parecer ainda mais desgastado e abatido em contraste.

— Não desperdiçarei seu tempo — disse ele, erguendo‑se sobre o sofá. — Mergulharei direto ao assunto sem mais preâmbulos. Eu era um homem feliz e bem‑sucedido, Sr. Holmes, e, na véspera do casamento, um súbito e terrível infortúnio arruinou todas as minhas perspectivas na vida.

— Eu estava, como Watson pode ter lhe contado, no Ministério das Relações Exteriores, e, graças às influências de meu tio, Lord Holdhurst, subi rapidamente a um cargo responsável. Quando meu tio tornou‑se Ministro das Relações Exteriores nesta administração, concedeu‑me várias missões de confiança e, como sempre as concluía com sucesso, acabou por depositar a mais absoluta confiança em minha capacidade e tato.

— Quase dez semanas atrás — para ser mais preciso, em 23 de maio — ele me convocou ao seu escritório privado e, após elogiar‑me pelo bom trabalho que havia realizado, informou‑me que tinha uma nova comissão de confiança para eu executar.

— “Isto”, disse ele, tirando um rolo cinza de papel de sua escrivaninha, “é o original daquele tratado secreto entre a Inglaterra e a Itália do qual, lamento dizer, alguns rumores já chegaram à imprensa pública. É de enorme importância que nada mais vaze. A embaixada francesa ou a russa pagariam uma soma imensa para conhecer o conteúdo desses papéis. Não deveriam sair do meu gabinete, a não ser que fosse absolutamente necessário copiá‑los. Tens uma escrivaninha em teu escritório?”

— “Sim, senhor.”

— “Então leve o tratado e guarde‑o lá. Darei instruções para que fiques depois que os demais partirem, de modo que possas copiá‑lo a teu gosto sem temer ser observado. Quando terminares, tranque novamente tanto o original quanto o rascunho na escrivaninha, e entregue‑me‑os pessoalmente amanhã de manhã.”

— Levei os papéis e —

— Uma instante, por favor — disse Holmes. — Estavas só durante essa conversa?

— Absolutamente.

— Em uma sala grande?

— Trinta pés de cada lado.

— No centro?

— Sim, por ali.

— E falando baixo?

— A voz do meu tio é sempre notavelmente baixa. Eu quase não falei nada.

— Obrigado — disse Holmes, fechando os olhos; — continue, por favor.

— Fiz exatamente o que ele indicou e esperei até que os demais funcionários partissem. Um deles, em meu quarto, Charles Gorot, tinha alguns atrasos de trabalho para compensar, então deixei‑o lá e fui jantar. Quando voltei, ele havia desaparecido. Estava ansioso para concluir meu trabalho, pois sabia que Joseph — o Sr. Harrison que acabara de ver — estava na cidade, e que pegaria o trem das onze para Woking, e queria, se possível, apanhá‑lo.

— Quando examinei o tratado vi de imediato que era de tal importância que meu tio não exagerara em suas palavras. Sem entrar em detalhes, posso dizer que definia a posição da Grã‑Bretanha perante a Tríplice Aliança, e prenunciava a política que este país seguiria caso a frota francesa alcançasse completa supremacia sobre a italiana no Mediterrâneo. As questões tratadas eram puramente navais. Ao final estavam as assinaturas dos altos dignitários que o haviam assinado. Passei os olhos por ele, e então coloquei‑me a copiar.

— Era um documento extenso, escrito em francês, contendo vinte‑e‑seis artigos distintos. Copiei o mais rápido que pude, mas às nove horas só havia concluído nove artigos, e parecia impossível alcançar o trem. Sentia‑me sonolento e estúpido, parte por causa do jantar e parte pelos efeitos de um dia exaustivo de trabalho. Uma chávena de café clarearia meu cérebro. Um comissário fica a noite inteira numa pequena cabana ao pé da escada, e costuma fazer café em seu lampão a álcool para qualquer oficial que esteja a trabalhar horas extras. Toquei a campainha, portanto, para chamá‑lo.

— Para minha surpresa, foi uma mulher que respondeu ao chamado, uma senhora grande, de rosto áspero, idosa, com avental. Explicou que era a esposa do comissário, que fazia o serviço de limpeza, e dei‑lhe a ordem para o café.

— Escrevi mais dois artigos e então, sentindo‑me mais sonolento que nunca, levantei‑me e caminhei de um lado ao outro do quarto para esticar as pernas. Meu café ainda não havia chegado, e eu me perguntava qual seria a causa do atraso. Abrindo a porta, comecei a descer o corredor para descobrir. Havia um corredor reto, pouco iluminado, que saía do quarto onde eu trabalhava, e era a única saída dele. Terminava em uma escada curva, com a cabana do comissário no final do corredor, na base. A meio da escada havia um pequeno patamar, com outro corredor que se cruzava em ângulo reto. Este segundo levava, por meio de uma segunda escadinha pequena, a uma porta lateral, usada pelos criados, e também como atalho pelos funcionários que vinham da Charles Street. Eis aqui um esboço aproximado do local.

rough chart

— Obrigado. Acho que compreendo bem — disse Sherlock Holmes.

— É de suma importância que noteis este ponto. Desci a escada e entrei no corredor, onde encontrei o comissário dormindo profundamente em sua caixa, com a chaleira fervendo furiosamente sobre o lampão a álcool. Retirei a chaleira e apaguei

“Então voltámos ao escritório e revistámos as escadas e o corredor sem sucesso. O corredor que conduzia à sala estava revestido com um tipo de linóleo cremoso que marca muito facilmente. Examinámo‑lo cuidadosamente, porém não encontramos nenhum contorno de pegada.”

“Terá chovido a noite toda?”

“Desde por volta das sete.”

“Então, como foi que a mulher que entrou na sala por volta das nove não deixou vestígios com as botas enlameadas?”

“Fico feliz que tenhas levantado a questão. Lembrei‑me então que as damas‑fregas costumam levar as botas ao escritório do comissário e calçar chinelos de pano.”

“Isso esclarece tudo. Não havia marcas, então, embora a noite fosse úmida? A cadeia de acontecimentos é, sem dúvida, de extraordinário interesse. O que fizeste a seguir?

“Examinámos também a sala. Não há possibilidade de porta secreta, e as janelas estão a cerca de nove metros do chão. Ambas estavam trancadas por dentro. O tapete impede qualquer possibilidade de alçapão, e o teto é do tipo branco‑lavado comum. Juro pela minha vida que quem roubou os meus papéis só poderia ter entrado pela porta.”

“E a lareira?”

“Não há lareira. Há um fogão. A corda do sino está pendurada num fio logo à direita da minha secretária. Quem a fez tocar deve ter chegado bem perto da secretária para o fazer. Mas por que razão um criminoso desejaria tocar o sino? É um mistério extremamente insolúvel.”

“Certamente o incidente foi incomum. Quais foram os teus próximos passos? Examinaste a sala, presumo, para ver se o intruso deixou algum vestígio — algum resto de charuto, luva caída, pente de cabelo ou outro tralha?”

“Não havia nada desse tipo.”

“Nenhum cheiro?”

“Bem, nunca nos ocorreu pensar nisso.”

“Ah, um aroma de tabaco teria sido de grande valor para nós numa investigação assim.”

“Eu próprio nunca fumo, logo teria percebido se houvesse cheiro de tabaco. Não havia absolutamente nenhum indício de qualquer espécie. O único fato tangível foi que a esposa do comissário — chamava‑se Sra. Tangey — saiu apressada do local. Ele não pôde dar explicação senão que era mais ou menos a hora em que a mulher costuma ir para casa. O polícia e eu concordámos que o melhor plano seria prender a mulher antes que pudesse desfazer‑se dos papéis, presumindo que os possuísse.

“O alarme já havia alcançado a Scotland Yard, e o detetive Sr. Forbes chegou imediatamente e assumiu o caso com grande energia. Alugámos um hansom e, em meia hora, estávamos no endereço que nos fora indicado. Uma jovem abriu a porta, revelando‑se a filha mais velha da Sra. Tangey. A mãe ainda não havia regressado, e fomos conduzidos à sala da frente para aguardar.

“Cerca de dez minutos depois, ouviu‑se uma batida na porta, e aqui cometemos o único erro grave que me reprovo. Em vez de abrir a porta nós mesmos, deixámos que a menina o fizesse. Ouvi‑l‑a dizer: ‘Mãe, há dois homens na casa a esperar por vossa senhoria’, e, num instante, o som de passos correndo pelo corredor. Forbes arremessou a porta aberta e ambos corremos para o quarto dos fundos ou cozinha, mas a mulher já estava lá antes de nós. Ela nos fitou com olhos desafiadores e, então, ao reconhecer‑me, o rosto lhe se cobriu de espanto absoluto.

“‘Ora, se não é o Sr. Phelps, do escritório!’ exclamou.

“‘Venham, venham, quem pensaram que éramos quando fugistes de nós?’ indagou o meu companheiro.

“‘Pensava que eram os corretores’, respondeu ela, ‘tivemos alguns problemas com um comerciante’.

“‘Isso não basta’, replicou Forbes. ‘Temos razões para acreditar que tomou um documento importante do Foreign Office e que veio aqui para descartá‑lo. Deve vir connosco à Scotland Yard para ser revistada’.

“A sua resistência e protestos foram em vão. Trouxeram‑se quatro‑rodas, e os três nós subimos nele. Primeiro fizemos uma inspeção na cozinha, especialmente no fogão, para ver se teria podido levar os papéis enquanto esteve sozinha. Não se encontraram vestígios de cinzas ou fragmentos. Ao chegar à Scotland Yard, entregaram‑nos‑na‑imediato à revistadora feminina. Esperei numa agonia de suspense até que regressou com o relatório. Não havia sinal dos papéis.

“Então, pela primeira vez, o horror da minha situação atingiu‑me em plena força. Até então, eu agia, e a ação atordava o pensamento. Estava tão confiante de recobrar o tratado de imediato que não ousara imaginar as consequências de um eventual fracasso. Mas agora nada mais se podia fazer, e tive tempo para perceber a minha posição. Era horrível. Watson diria que eu era um rapaz nervoso e sensível na escola. É a minha natureza. Pensava no meu tio e nos seus colegas do Gabinete, na vergonha que lhe havia causado, a mim, a todos os que me cercavam. E se eu fosse apenas vítima de um acidente extraordinário? Não há margem para acidentes quando interesses diplomáticos estão em jogo. Fui arruinado, vergonhosamente, irremediavelmente arruinado. Não sei o que fiz. Imagino que causei um escândalo. Lembro‑me vagamente de um grupo de funcionários que se aglomerou ao meu redor para me consolar. Um deles acompanhou‑me até Waterloo e me viu subir ao comboio de Woking. Acredito que teria vindo até ao fim se não fosse porque o Dr. Ferrier, que mora perto de mim, também descia naquele mesmo comboio. O médico cuidou‑me com a maior bondade, o que foi bem‑vindo, pois tive um colapso na estação e, antes de chegar a casa, estava praticamente um maníaco delirante.

“Podem imaginar o estado das coisas aqui, quando foram despertados de suas camas pelo toque do médico e me encontraram assim. A pobre Annie e minha mãe ficaram desoladas. O Dr. Ferrier tinha ouvido o suficiente do detetive na estação para ter uma ideia do que havia ocorrido, e sua história não esclareceu nada. Era evidente a todos que eu enfrentaria uma longa enfermidade, assim Joseph foi retirado deste quarto alegre e convertido em enfermaria para mim. Aqui, Sr. Holmes, estive deitado por mais de nove semanas, inconsciente e delirando com febre cerebral. Se não fosse por Miss Harrison e pelos cuidados do médico, não falaria convosco agora. Ela cuidou de mim de dia, e uma enfermeira contratada fez o mesmo à noite, pois nos meus surtos eu era capaz de tudo. Gradualmente a razão clareou, mas só nos últimos três dias a memória voltou plenamente. Às vezes desejo que nunca tivesse voltado. A primeira coisa que fiz foi enviar um telegrama ao Sr. Forbes, que tinha o caso em mãos. Ele veio ao meu lado e assegurou‑me que, embora tudo fosse feito, nenhum vestígio de pista fora encontrado. O comissário e a esposa foram examinados de todas as maneiras, sem que se lançasse luz sobre o assunto. As suspeitas da polícia recaíram então sobre o jovem Gorot, que, como recordais, ficou depois de horas no escritório naquela noite. Seu ficar para trás e seu nome francês eram, na verdade, os únicos dois pontos que poderiam sugerir suspeita; mas, na realidade, eu só comecei a trabalhar depois que ele se foi, e sua família é de origem hugonote, embora tão inglesa em simpatia e tradição como nós. Não se encontrou nada que o incriminasse, e o caso foi arquivado. Volto‑me a vós, Sr. Holmes, como última esperança absoluta. Se falhares comigo, então a minha honra e a minha posição ficarão para sempre perdidas.”

O inválido recostou‑se nos estofos, exausto por aquele longo relato, enquanto a enfermeira lhe servia um copo de algum remédio estimulante. Holmes permanecia em silêncio, com a cabeça reclinada para trás e os olhos fechados, numa postura que poderia parecer desleixada a um estranho, mas que eu conhecia como sinal da mais intensa auto‑absorção.

“A tua declaração foi tão explícita”, disse ele finalmente, “que deixaste‑me muito poucas perguntas a fazer. Há uma, porém, de extrema importância. Disseras a alguém que tinhas esta missão especial a cumprir?”

“Ninguém.”

“Nem a Miss Harrison, por exemplo?”

“Não. Não tinha regressado a Woking entre receber a ordem e executar a comissão.”

“E nenhum dos teus homens teve por acaso a oportunidade de te ver?”

“Nenhum.”

“Algum deles conhecia bem o escritório?”

“Ah, sim, todos foram mostrados por ele.”

“Ainda assim, claro, se nada disseste a ninguém sobre o tratado, essas indagações são irrelevantes.”

“Não disse nada.”

“Sabes alguma coisa sobre o comissário?”

“Nada, exceto que é um velho soldado.”

“Que regimento?”

“Ah, ouvi dizer — Guardas de Coldstream.”

“Obrigado. Não tenho dúvidas de que poderei obter detalhes de Forbes. As autoridades são excelentes a acumular fatos, embora nem sempre os usem a seu favor. Que coisa linda que é uma rosa!”

Caminhou além do sofá até a janela aberta, segurando o caule murcho de uma rosa de musgo, contemplando a delicada mistura de carmesim e verde. Era uma nova faceta do seu caráter para mim, pois nunca antes o vira demonstrar tal interesse por objetos naturais.

“Não há nada em que a dedução seja tão necessária quanto na religião”, disse ele, recostado contra as persianas. “Pode ser construída como uma ciência exata pelo raciocinador. A nossa maior garantia da bondade da Providência parece repousar nas flores. Todas as outras coisas — nossos poderes, desejos, comida — são realmente necessárias à existência, no primeiro instante. Mas esta rosa é um extra. Seu perfume e sua cor são um embelezamento da vida, não uma condição dela. Só o bem gera extras, e, portanto, repito que muito devemos esperar das flores.”

Percy Phelps e a sua enfermeira observaram Holmes durante aquela demonstração com surpresa e considerável decepção estampadas nos rostos. Ele havia mergulhado numa reverie, a rosa de musgo entre os dedos. Permaneceu assim alguns minutos antes que a jovem a interrompesse.

“Vês alguma perspectiva de resolver este mistério, Sr. Holmes?” perguntou, com um leve traço de aspereza na voz.

“Oh, o mistério!” respondeu ele, sobressaltando‑se para a realidade. “Bem, seria absurdo negar que o caso é muito abstruso e complicado, mas prometo que o investigarei e lhe direi os pontos que me chamarem a atenção.”

“Vês alguma pista?”

“Concedeste‑me sete, mas, claro, devo testá‑las antes de pronunciar seu valor.”

“Suspeitas alguém?”

“Suspeito a mim próprio.”

“O quê!”

“De chegar a conclusões demasiado rapidamente.”

“Então vá a Londres e teste as tuas conclusões.”

“Seu conselho é excelente, Miss Harrison”, disse Holmes, levantando‑se. “Creio, Watson, que não poderíamos fazer melhor. Não se deixe levar por falsas esperanças, Sr. Phelps. O caso é muito intricado.”

“Estarei na febre até o dia em que o revê‑lo”, exclamou o diplomata.

“Bem, amanhã voltarei no mesmo comboio, embora seja muito provável que meu relatório seja negativo.”

“Deus o abençoe por prometer vir”, exclamou o cliente. “ Dá-me nova vida ao saber que algo está a ser feito. A propósito, recebi uma carta de Lord Holdhurst.”

“Ha! O que lhe escreveu?”

“Estava frio, mas não severo. Creio que minha grave doença o impediu de ser assim. Repetiu que o assunto era de suprema importância e acrescentou que nenhuma medida seria tomada quanto ao meu futuro — o que, naturalmente, entende‑se como o meu despedimento — até que minha saúde fosse restabelecida e eu tivesse oportunidade de reparar o meu infortúnio.”

“Então foi razoável e considerado”, disse Holmes. “Venha, Watson, pois temos um bom dia de trabalho pela frente na cidade.”

O Sr. Joseph Harrison conduziu‑nos à estação, e em breve subimos ao trem de Portsmouth. Holmes mergulhava em profundo pensamento, falando quase nada até que passamos por Clapham Junction.

“É muito alegre chegar a Londres por qualquer uma destas linhas que sobem elevadas e permitem observar as casas de cima.”

Pensei que brincasse, pois a vista era bastante sórdida, mas ele logo explicou‑se.

“Observe aqueles grandes blocos isolados de edifícios que se erguem acima das lajes, como ilhas de tijolo num mar de chumbo.”

“As escolas de quadro.”

“Faróis, meu rapaz! Faróis do futuro! Cápsulas com centenas de sementes brilhantes, das quais brotará a Inglaterra sábia e melhor do porvir. Suponho que o Sr. Phelps não beba?”

“Não creio.”

“Nem eu, mas devemos considerar todas as possibilidades. O pobre diabo está profundamente em apuros, e resta saber se conseguiremos trazê‑lo à margem. O que pensas da Miss Harrison?”

“Uma moça de carácter forte.”

“Sim, mas é de boa índole, a menos que eu esteja enganado. Ela e o irmão são os únicos filhos de um senhor de ferro em algum lugar ao norte de Northumberland. Engajou‑se com ele no inverno passado, e ela desceu para ser apresentada à família dele, acompanhada pelo irmão. Aí se deu o desastre, e ela ficou para cuidar do amante, enquanto o irmão Joseph, achando‑se confortável, permaneceu também. Tenho feito algumas indagações independentes, vê‑se. Mas hoje será um dia de inquéritos.”

“Minha prática—” comecei.

“Ah, se achas os teus próprios casos mais interessantes que os meus—” disse Holmes, com certa aspereza.

“Pretendia dizer que a minha prática poderia seguir

“O escrivão Gorot foi seguido durante estas nove semanas, mas sem resultado. Não temos nada a apresentar contra ele.”

“Mais alguma coisa?”

“Bem, não temos mais nenhum indício – nenhuma prova de qualquer espécie.”

“Formulou alguma teoria sobre como soou o sino?”

“Devo confessar que isso me escapa. Foi uma mão fria, quem quer que fosse, para dar o alarme assim.”

“Sim, foi coisa estranha. Muito obrigado por tudo o que me contou. Se eu puder pôr o homem nas suas mãos, ouvir-me‑á. Vamos, Watson.”

“Aonde vamos agora?” perguntei, ao sairmos do escritório.

“Vamos agora entrevistar o Lord Holdhurst, ministro do gabinete e futuro primeiro‑ministro da Inglaterra.”

Fomos afortunados ao descobrir que o Lord Holdhurst ainda se encontrava em seus aposentos na Downing Street, e ao Holmes enviar seu cartão fomos imediatamente recebidos. O estadista nos recebeu com aquela cortesia antiquada que lhe é característica, e nos acomodou nos dois luxuosos lounges a ambos lados da lareira. De pé sobre o tapete entre nós, com sua figura alta e esguia, traços afiados, rosto pensativo e cabelos encaracolados, prematuramente grisalhos, parecia representar aquele tipo pouco comum, um nobre que, em verdade, era nobre.

“O seu nome me é muito familiar, Sr. Holmes,” disse ele, sorrindo. “E, claro, não posso fingir ignorância quanto ao objetivo da sua visita. Só houve um incidente neste gabinete que poderia chamar a sua atenção. Em cujo interesse actua, posso perguntar?”

“No interesse do Sr. Percy Phelps,” respondeu Holmes.

“Ah, meu infeliz sobrinho! Pode compreender que o nosso parentesco torna ainda mais impossível eu protegê‑lo de qualquer forma. Temo que o incidente tenha um efeito muito prejudicial sobre a sua carreira.”

“Mas se o documento for encontrado?”

“Ah, isso, evidentemente, seria diferente.”

“Tinha uma ou duas perguntas que desejava fazer‑lhe, Lord Holdhurst.”

“Estarei feliz em lhe dar qualquer informação que esteja ao meu alcance.”

“Foi nesta sala que deu as instruções quanto à cópia do documento?”

“Foi.”

“Então dificilmente poderia ter sido ouvido?”

“É inconcebível.”

“Alguma vez mencionou a alguém a sua intenção de dar a alguém o tratado para ser copiado?”

“Nunca.”

“Tem certeza disso?”

“Absolutamente.”

“Bem, já que nunca disse isso, e o Sr. Phelps nunca disse, e ninguém mais sabia nada do assunto, a presença do ladrão na sala foi puramente acidental. Viu a oportunidade e a aproveitou.”

O estadista sorriu. “Tira‑me da minha província, isso,” disse ele.

Holmes ponderou por um momento. “Há outro ponto muito importante que desejo discutir consigo,” disse ele. “Temia, ao que entendo, que resultados muito graves pudessem advir da divulgação dos detalhes deste tratado.”

Uma sombra cruzou o rosto expressivo do estadista. “Resultados muito graves, de fato.”

“E já ocorreram?”

“Ainda não.”

“Se o tratado tivesse chegado, digamos, ao Ministério das Relações Exteriores francês ou russo, esperaria ouvir algo?”

“Esperaria,” respondeu Lord Holdhurst, com um semblante irônico.

“

Fui forçado a confessar que ele tinha razão. “Afinal”, disse eu, “a pista da questão reside provavelmente aqui na cidade.”

Phelps soltou um gemido.

“Não sei como é”, disse ele, “mas eu esperava tanto do seu regresso. Mas, certamente, a mão dele não estava atada daquela maneira ontem. O que poderá ter acontecido?”

“Não está ferido, Holmes?”, perguntei, quando o meu amigo entrou na sala.

“Ora, é apenas um arranhão devido à minha própria falta de jeito”, respondeu ele, retribuindo os nossos bons-dias com um aceno. “Este seu caso, Sr. Phelps, é certamente um dos mais sombrios que alguma vez investiguei.”

“Temia que o considerasse acima das suas capacidades.”

“Tem sido uma experiência deveras notável.”

“Essa ligadura conta histórias de aventuras”, disse eu. “Não nos quer dizer o que aconteceu?”

“Depois do pequeno-almoço, meu caro Watson. Lembre-se de que inspirei trinta milhas de ar de Surrey esta manhã. Suponho que não tenha havido resposta ao meu anúncio sobre o cocheiro? Bem, bem, não podemos esperar ganhar sempre.”

A mesa estava toda posta e, precisamente quando eu estava prestes a tocar a campainha, a Sra. Hudson entrou com o chá e o café. Poucos minutos depois, trouxe três pratos, e todos nos aproximámos da mesa, Holmes faminto, eu curioso, e Phelps no estado de depressão mais sombrio.

“A Sra. Hudson esteve à altura da situação”, disse Holmes, destapando um prato de caril de frango. “A sua cozinha é um pouco limitada, mas ela tem uma ideia de pequeno-almoço tão boa como uma escocesa. O que tem aí, Watson?”

“Ovos com presunto”, respondi.

“Bom! O que vai comer, Sr. Phelps — frango de caril ou ovos, ou prefere servir-se a si mesmo?”

“Obrigado. Não consigo comer nada”, disse Phelps.

“Oh, vamos lá! Experimente o prato que tem à sua frente.”

“Obrigado, preferia realmente não o fazer.”

“Bem, então”, disse Holmes, com um brilho maroto, “suponho que não se importe de me ajudar?”

Phelps levantou a tampa e, ao fazê-lo, soltou um grito e ficou ali sentado a olhar fixamente, com o rosto tão branco como o prato para o qual olhava. Atravessado no centro, encontrava-se um pequeno cilindro de papel cinzento-azulado. Ele agarrou-o, devorou-o com os olhos e, depois, dançou loucamente pela sala, apertando-o contra o peito e gritando de alegria. Depois, caiu numa poltrona, tão mole e exausto das suas próprias emoções, que tivemos de lhe deitar conhaque pela garganta para evitar que desmaiasse.

“Pronto, pronto!”, disse Holmes, consolador, dando-lhe palmadinhas no ombro. “Foi muito mau da minha parte pregá-la desta maneira, mas o Watson aqui dir-lhe-á que nunca consigo resistir a um toque dramático.”

Phelps agarrou-lhe a mão e beijou-a. “Deus o abençoe!”, exclamou. “Salvou a minha honra.”

“Bem, a minha própria honra estava em jogo, sabe?”, disse Holmes. “Garanto-lhe que é tão odioso para mim falhar num caso como pode ser para si cometer um erro numa missão.”

Phelps enfiou o precioso documento no bolso mais interior do seu casaco.

“Não tenho coragem para interromper mais o seu pequeno-almoço, e, no entanto, estou a morrer de vontade de saber como o conseguiu e onde estava.”

Sherlock Holmes engoliu uma chávena de café e voltou a sua atenção para os ovos com presunto. Depois, levantou-se, acendeu o cachimbo e acomodou-se na sua cadeira.

“Vou dizer-lhe o que fiz primeiro e, depois, como o vim a fazer”, disse ele. “Depois de o deixar na estação, fiz uma caminhada encantadora através de algumas paisagens admiráveis de Surrey até uma pequena aldeia chamada Ripley, onde tomei o meu chá numa estalagem e tomei a precaução de encher a minha garrafa e de colocar um pacote de sanduíches no bolso. Lá permaneci até à noite, quando parti novamente para Woking e me encontrei na estrada principal, fora de Briarbrae, logo após o pôr-do-sol.

“Bem, esperei até que a estrada estivesse livre — creio que nunca é muito frequentada em altura alguma — e depois trepei a cerca para dentro dos terrenos.”

“Certamente que o portão estava aberto!”, exclamou Phelps.

“Sim, mas tenho um gosto peculiar nestas matérias. Escolhi o local onde se encontram os três abetos e, atrás do seu biombo, saltei sem a menor hipótese de alguém na casa me poder ver. Agachei-me entre os arbustos do outro lado e rastejei de um para o outro — observe o estado deplorável dos joelhos das minhas calças — até chegar ao grupo de rododendros exatamente em frente à janela do seu quarto. Lá me agachei e aguardei o desenrolar dos acontecimentos.”

“A persiana não estava para baixo no seu quarto e eu podia ver a Srta. Harrison sentada ali, a ler junto à mesa. Eram dez e um quarto quando ela fechou o seu livro, trancou os postigos e retirou-se.”

“Ouvi-a fechar a porta e senti-me perfeitamente seguro de que ela tinha rodado a chave na fechadura.”

“A chave!”, exclamou Phelps.

“Sim; eu tinha dado instruções à Srta. Harrison para trancar a porta por fora e levar a chave consigo quando se fosse deitar. Ela cumpriu todas as minhas ordens à risca e, certamente, sem a sua cooperação, não teria esse papel no bolso do seu casaco. Ela partiu então, as luzes apagaram-se e eu fiquei agachado no arbusto de rododendros.”

“A noite estava agradável, mas, ainda assim, foi uma vigília muito cansativa. Claro que tem aquele tipo de entusiasmo que o desportista sente quando se deita junto a um curso de água à espera da grande caça. Foi muito longo, contudo — quase tão longo, Watson, como quando você e eu esperámos naquele quarto mortal quando investigámos o pequeno problema da Banda Pintada. Havia um relógio de igreja em Woking que dava os quartos de hora, e pensei mais do que uma vez que se tinha parado. Por fim, no entanto, por volta das duas da manhã, ouvi subitamente o som suave de um ferrolho a ser puxado para trás e o ranger de uma chave. Um momento depois, a porta dos criados foi aberta e o Sr. Joseph Harrison saiu para o luar.”

“Joseph!”, exclamou Phelps.

“Ele estava de cabeça descoberta, mas tinha um casaco preto atirado aos ombros, de modo a poder ocultar o rosto num instante caso houvesse algum alarme. Caminhou na ponta dos pés, sob a sombra da parede, e, quando chegou à janela, fez passar uma faca de lâmina comprida através da guilhotina e empurrou o trinco. Depois, abriu a janela de par em par e, enfiando a sua faca pela fenda dos postigos, empurrou a barra para cima e abriu-os.”

“Do local onde eu estava, tinha uma visão perfeita do interior do quarto e de cada um dos seus movimentos. Ele acendeu as duas velas que estavam sobre a lareira e, depois, procedeu a virar o canto do tapete nas proximidades da porta. De repente, parou e retirou um pedaço de tábua quadrado, como os que são geralmente deixados para permitir que os canalizadores cheguem às juntas dos tubos de gás. Este, na verdade, cobria a junta em T que deriva do tubo que abastece a cozinha, por baixo. Deste esconderijo, ele tirou aquele pequeno cilindro de papel, empurrou a tábua para baixo, arrumou o tapete, apagou as velas e caminhou diretamente para os meus braços, enquanto eu esperava por ele fora da janela.”

“Bem, o mestre Joseph tem um pouco mais de maldade do que eu lhe atribuía. Atirou-se a mim com a sua faca e tive de o agarrar duas vezes, e recebi um corte nos nós dos dedos, antes de conseguir dominá-lo. Quando acabámos, ele olhou para mim com um desejo assassino no único olho com que conseguia ver, mas ouviu a razão e entregou os papéis. Tendo-os obtido, deixei o meu homem ir-se, mas enviei hoje de manhã todos os detalhes a Forbes. Se ele for suficientemente rápido para apanhar o seu pássaro, muito bem. Mas se, como suspeito, encontrar o ninho vazio antes de lá chegar, bem, tanto melhor para o governo. Imagino que Lord Holdhurst, por um lado, e o Sr. Percy Phelps, por outro, preferissem muito que o assunto nunca chegasse a um tribunal.”

“Meu Deus!”, ofegou o nosso cliente. “Está a dizer-me que, durante estas longas dez semanas de agonia, os papéis roubados estiveram no próprio quarto comigo o tempo todo?”

“Assim foi.”

“E Joseph! Joseph, um vilão e um ladrão!”

“Hum! Receio que o carácter de Joseph seja um pouco mais profundo e perigoso do que se poderia julgar pela sua aparência. Pelo que ouvi dele esta manhã, depreendo que perdeu muito dinheiro ao especular na bolsa e que está pronto a fazer qualquer coisa na terra para melhorar a sua fortuna. Sendo um homem absolutamente egoísta, quando se apresentou uma oportunidade, não permitiu que nem a felicidade da sua irmã nem a sua reputação o impedissem.”

Percy Phelps recuou na sua cadeira. “A minha cabeça gira”, disse ele. “As suas palavras deixaram-me atordoado.”

“A dificuldade principal do seu caso”, observou Holmes, no seu estilo didático, “residia no facto de haver demasiada prova. O que era vital estava sobreposto e oculto pelo que era irrelevante. De todos os factos que nos foram apresentados, tivemos de escolher apenas aqueles que considerámos essenciais e, depois, juntá-los por ordem, de modo a reconstruir esta cadeia de eventos muito notável. Já tinha começado a suspeitar de Joseph pelo facto de o senhor ter tido a intenção de viajar para casa com ele nessa noite e de, por conseguinte, ser muito provável que ele passasse por si, conhecendo bem o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a caminho. Quando soube que alguém tinha estado tão ansioso por entrar no quarto, no qual ninguém, exceto Joseph, poderia ter escondido alguma coisa — o senhor contou-nos na sua narrativa como expulsou Joseph quando chegou com o médico —, as minhas suspeitas transformaram-se todas em certezas, especialmente porque a tentativa foi feita na primeira noite em que a enfermeira esteve ausente, o que mostra que o intruso estava bem familiarizado com os costumes da casa.”

“Quão cego estive!”

“Os factos do caso, na medida em que os apurei, são estes: este Joseph Harrison entrou no gabinete pela porta de Charles Street e, conhecendo o caminho, caminhou diretamente para o seu quarto no instante em que o senhor saiu de lá. Não encontrando ninguém, tocou prontamente a campainha e, no instante em que o fez, os seus olhos detetaram o papel sobre a mesa. Um olhar mostrou-lhe que o acaso tinha posto ao seu alcance um documento de Estado de valor imenso e, num instante, ele enfiou-o no bolso e partiu. Decorreram alguns minutos, como se recorda, antes de o porteiro sonolento chamar a sua atenção para a campainha, e esses foram apenas o suficiente para dar ao ladrão tempo para escapar.”

“Ele dirigiu-se a Woking no primeiro comboio e, depois de examinar o seu espólio e de se assegurar de que tinha, de facto, um valor imenso, escondeu-o no que pensava ser um lugar muito seguro, com a intenção de o retirar dali a um ou dois dias e levá-lo à embaixada francesa, ou onde quer que pensasse que se poderia obter um preço elevado. Depois, veio o seu regresso repentino. Ele, sem um momento de aviso, foi expulso do seu quarto e, a partir desse momento, houve sempre, pelo menos, dois de vós lá para o impedir de recuperar o seu tesouro. A situação, para ele, deve ter sido enlouquecedora. Mas, por fim, pensou que tinha visto a sua oportunidade. Tentou entrar sorrateiramente, mas foi frustrado pela sua vigília. Lembra-se de que não tomou a sua bebida habitual nessa noite.”

“Lembro-me.”

“Imagino que ele tenha tomado medidas para tornar essa bebida eficaz e que contava inteiramente com o facto de o senhor estar inconsciente. Claro que compreendi que ele repetiria a tentativa sempre que pudesse ser feito com segurança. A sua saída do quarto deu-lhe a oportunidade que ele queria. Mantive a Srta. Harrison lá dentro durante todo o dia para que ele não nos pudesse antecipar. Depois, tendo-lhe dado a ideia de que a costa estava livre, fiquei de guarda como descrevi. Já sabia que os papéis estavam provavelmente no quarto, mas não tinha qualquer desejo de arrancar todo o soalho e rodapés à procura deles. Deixei-o, portanto, retirá-los do esconderijo e, assim, poupei-me a uma infinidade de problemas. Há mais algum ponto que possa esclarecer?”

“Porque tentou ele a janela na primeira ocasião”, perguntei, “quando poderia ter entrado pela porta?”

“Ao chegar à porta, teria de passar por sete quartos. Por outro lado, podia sair para o relvado com facilidade. Mais alguma coisa?”

“Não acha”, perguntou Phelps, “que ele teve alguma intenção assassina? A faca servia apenas como ferramenta.”

“Pode ser”, respondeu Holmes, encolhendo os ombros. “Só posso dizer, com certeza, que o Sr. Joseph Harrison é um cavalheiro à mercê de quem eu estaria extremamente relutante em confiar.”

XII. O Problema Final

É com o coração pesado que pego na caneta para escrever estas, as últimas palavras em que registarei os dons singulares pelos quais o meu amigo, o Sr. Sherlock Holmes, se distinguia. De uma forma incoerente e, sinto profundamente, inteiramente inadequada, tentei dar conta das minhas estranhas experiências na sua companhia desde o acaso que nos reuniu pela primeira vez no período de “Um Estudo em Vermelho”, até ao tempo da sua intervenção no caso do “Tratado Naval” — uma intervenção que teve o efeito inquestionável de evitar uma grave complicação internacional. Era minha intenção ter ficado por aqui e não ter dito nada sobre aquele evento que criou um vazio na minha vida que o passar de dois anos pouco fez para preencher. A minha mão foi forçada, contudo, pelas recentes cartas em que o Coronel James Moriarty defende a memória do seu irmão, e não tenho outra escolha senão expor os factos ao público exatamente como ocorreram. Só eu sei a verdade absoluta sobre o assunto e estou convencido de que chegou o momento em que não se servirá qualquer propósito útil com a sua supressão. Até onde sei, houve apenas três relatos na imprensa pública: o do Journal de Genève, a 6 de maio de 1891, o despacho da Reuter nos jornais ingleses, a 7 de maio, e, finalmente, a recente carta a que aludi. Destes, o primeiro e o segundo foram extremamente condensados, enquanto o último é, como agora mostrarei, uma perversão absoluta dos factos. Cabe-me a mim contar pela primeira vez o que realmente aconteceu entre o Professor Moriarty e o Sr. Sherlock Holmes.

Poderá recordar-se de que, após o meu casamento e o meu subsequente início de clínica privada, as relações muito íntimas que existiam entre Holmes e eu se modificaram até certo ponto. Ele ainda vinha ter comigo de tempos a tempos quando desejava um companheiro nas suas investigações, mas estas ocasiões tornaram-se cada vez mais raras, até que verifico que, no ano de 1890, houve apenas três casos dos quais guardo qualquer registo. Durante o inverno desse ano e o início da primavera de 1891, vi nos jornais que ele tinha sido contratado pelo governo francês para um assunto de importância suprema, e recebi dois bilhetes de Holmes, datados de Narbonne e de Nimes, dos quais depreendi que a sua estadia em França seria provavelmente longa. Foi, pois, com alguma surpresa que o vi entrar no meu consultório na noite de 24 de abril. Impressionou-me o facto de ele parecer ainda mais pálido e magro do que o habitual.

“Sim, tenho-me desgastado um pouco livremente demais”, observou ele, em resposta ao meu olhar mais do que às minhas palavras; “tenho estado um pouco pressionado ultimamente. Tem alguma objeção a que eu feche os seus postigos?”

A única luz na sala provinha do candeeiro sobre a mesa na qual eu estivera a ler. Holmes contornou a parede e, atirando os postigos um contra o outro, trancou-os com segurança.

“Tem medo de alguma coisa?”, perguntei.

“Bem, tenho.”

“De quê?”

“De armas de ar comprimido.”

“Meu caro Holmes, o que quer dizer?”

“Penso que me conhece suficientemente bem, Watson, para compreender que não sou, de modo algum, um homem nervoso. Ao mesmo tempo, é estupidez, mais do que coragem, recusar reconhecer o perigo quando ele está perto de si. Poderia incomodá-lo para pedir um fósforo?” Ele aspirou o fumo do seu cigarro como se a influência calmante lhe fosse grata.

“Devo pedir desculpa por ligar tão tarde”, disse ele, “e devo ainda implorar-lhe que seja tão pouco convencional a ponto de me permitir sair da sua casa, neste momento, trepando pelo muro do seu jardim das traseiras.”

“Mas o que significa isto tudo?”, perguntei.

Ele estendeu a mão e vi, à luz do candeeiro, que dois dos seus nós dos dedos estavam rebentados e a sangrar.

“Não é uma nimiedade aérea, vê?”, disse ele, sorrindo. “Pelo contrário, é suficientemente sólida para um homem partir a mão contra ela. A Sra. Watson está?”

“Ela está fora, numa visita.”

“De facto! Está sozinho?”

“Completamente.”

“Então, torna-se mais fácil para mim propor-lhe que venha comigo durante uma semana ao Continente.”

“Para onde?”

“Oh, para qualquer lado. Para mim, é tudo o mesmo.”

Havia algo de muito estranho em tudo isto. Não era da natureza de Holmes tirar umas férias sem objetivo, e algo no seu rosto pálido e desgastado dizia-me que os seus nervos estavam na sua tensão máxima. Ele viu a pergunta nos meus olhos e, juntando as pontas dos dedos e apoiando os cotovelos nos joelhos, explicou a situação.

“Provavelmente nunca ouviu falar do Professor Moriarty?”, disse ele.

“Nunca.”

“Sim, aí reside o génio e a maravilha da coisa!”, exclamou ele. “O homem permeia Londres e ninguém ouviu falar dele. É isso que o coloca num pináculo nos registos do crime. Digo-lhe, Watson, com toda a seriedade, que se eu pudesse vencer este homem, se pudesse libertar a sociedade dele, sentiria que a minha própria carreira tinha atingido o seu apogeu e estaria preparado para me voltar para uma linha de vida mais plácida. Entre nós, os casos recentes em que fui de ajuda para a família real da Escandinávia e para a república francesa deixaram-me numa posição tal que poderia continuar a viver da forma tranquila que me é mais congenial e concentrar a minha atenção nas minhas pesquisas químicas. Mas eu não poderia descansar, Watson, não poderia ficar sentado sossegado na minha cadeira se pensasse que um homem como o Professor Moriarty estaria a percorrer as ruas de Londres sem ser desafiado.”

“O que fez ele, então?”

“A sua carreira tem sido extraordinária. É um homem de bom nascimento e excelente educação, dotado pela natureza de uma faculdade matemática fenomenal. Aos vinte e um anos, escreveu um tratado sobre o Teorema Binomial, que teve um sucesso europeu. Graças a ele, ganhou a Cátedra de Matemática numa das nossas universidades mais pequenas e tinha, segundo todas as aparências, uma carreira brilhante pela frente. Mas o homem tinha tendências hereditárias do tipo mais diabólico. Uma linhagem criminosa corria-lhe no sangue, a qual, em vez de ser modificada, foi aumentada e tornada infinitamente mais perigosa pelos seus extraordinários poderes mentais. Rumores sombrios reuniram-se à sua volta na cidade universitária e, eventualmente, foi forçado a resignar-se da sua cátedra e a vir para Londres, onde se estabeleceu como professor preparador para o exército. Tanto é conhecido pelo mundo, mas o que lhe estou a dizer agora é o que eu próprio descobri.”

—Como bem sabe, Watson, não há ninguém que conheça o submundo criminal de Londres tão intimamente quanto eu. Há anos venho continuamente ciente de alguma força ocultando‑se atrás do malfeitor, algum poder profundo de organização que perpetuamente se opõe à lei e protege o infrator. Repetidas vezes, em casos das mais variadas naturezas — falsificações, roubos, assassinatos — senti a presença dessa força e deduzi a sua ação em muitos dos crimes não descobertos nos quais não fui pessoalmente consultado. Por longos anos tentei romper o véu que o encobria, e ao fim chegou o momento em que agarrei o fio e o segui, até que, depois de mil voltas astutas, ele me conduziu ao ex‑professor Moriarty, célebre matemático.

Ele é o Napoleão do crime, Watson. É o organizador da metade do mal e de quase tudo o que permanece indetectado nesta grande cidade. É um génio, um filósofo, um pensador abstrato. Possui um cérebro de primeira ordem. Situa‑se imóvel, como uma aranha no centro da sua teia, mas essa teia tem mil ramificações, e ele conhece bem cada vibração de todas elas. Ele pouco faz pessoalmente; apenas planeja. Mas os seus agentes são numerosos e esplendidamente organizados. Haja crime a ser cometido, papel a ser falsificado, casa a ser arrombada, homem a ser eliminado — a palavra chega ao Professor, o assunto é organizado e executado. O agente pode ser apanhado; nesse caso encontra‑se dinheiro para a fiança ou a defesa. Mas o poder central que usa o agente nunca é capturado — nunca sequer suspeitado. Foi essa organização que deduzi, Watson, e à qual dediquei toda a minha energia para expor e desmantelar.

Mas o Professor estava cercado por salvaguardas tão engenhosamente concebidas que, por mais que eu tentasse, parecia impossível obter provas que o condenassem num tribunal. Conhece os meus recursos, meu caro Watson, e ainda assim, ao fim de três meses, vi‑me forçado a confessar que, finalmente, encontrei um antagonista que me igualava intelectualmente. O horror perante os seus crimes se perdeu na admiração pela sua habilidade. Por fim, ele fez uma viagem — apenas uma curta, curta viagem — mas foi mais do que pôde suportar quando eu o alcançava. Tive a oportunidade e, a partir daí, teci a minha rede à sua volta até que agora está pronta para fechar. Em três dias — isto é, na segunda‑feira que vem — as circunstâncias estarão maduras, e o Professor, com todos os principais membros da sua quadrilha, cairá nas mãos da polícia. Então virá o maior julgamento criminal do século, a elucidação de mais de quarenta mistérios, e a corda para todos eles; mas se avançarmos prematuramente, compreende, eles poderão escapar das nossas mãos mesmo no último instante.

Agora, se eu pudesse ter feito tudo isto sem o conhecimento do professor Moriarty, tudo teria sido bem. Mas ele era demasiado astuto para tal. Ele observava cada passo que eu dava para envolver a minha teia à sua volta. Repetidas vezes tentou libertar‑se, mas eu o bloqueava com a mesma frequência. Digo‑lhe, amigo, que se se pudesse escrever um relato pormenorizado desse silêncio competitivo, ocuparia o lugar de obra‑prima de embate e contra‑ataque na história da detetive. Nunca alcancei tal altura, nem jamais fui tão apertado por um adversário. Ele feriu profundamente, e eu apenas o contracortei. Esta manhã foram dados os últimos passos, e bastam três dias para concluir o negócio. Sentava‑me no meu quarto a refletir, quando a porta abriu e o professor Moriarty apareceu diante de mim.

Os meus nervos são quase à prova, Watson, mas devo confessar que recebi um sobressalto ao ver o próprio homem que tanto habitava os meus pensamentos no limiar da minha porta. O seu aspecto era bastante familiar. Era extremamente alto e magro, a sua testa arqueava‑se em curva branca, e os seus dois olhos estavam profundamente encovados na cabeça. Era limpo‑barbado, pálido, de aparência ascética, conservando algo do professor nas feições. Os ombros arqueados pela extensa erudição, o rosto projetando‑se para a frente, balançando lentamente de um lado para o outro numa curiosa forma reptiliana. Olhou‑me com grande curiosidade nos olhos franzidos.

— Têm‑lhe menos desenvolvimento frontal do que eu esperava — disse ele, finalmente. — É um hábito perigoso colocar armas carregadas no bolso do roupão.

Na realidade, ao entrar, reconheci instantaneamente o extremo perigo pessoal em que me encontrava. A única fuga concebível para ele consistia em silenciar a minha língua. Num instante, deslizei o revólver da gaveta para o bolso, cobrindo‑o com o tecido. À sua observação, retirei a arma e deixei‑a armada sobre a mesa. Ele ainda sorriu e piscou, mas havia algo nos seus olhos que me fez sentir muito satisfeito por a ter ali.

— Evidentemente não me conhece — disse ele.

— Ao contrário — respondi —, acho bastante evidente que o faço. Por favor, sente‑se. Posso dispensar‑lhe cinco minutos, se tiver algo a dizer.

— Tudo o que tenho a dizer já passou pela sua mente — declarou ele.

— Então, possivelmente, a minha resposta já passou pela sua — retruquei.

— Fica firme?

— Absolutamente.

Ele enfiou a mão no bolso, e eu levantei a pistola da mesa. Mas ele apenas tirou um pequeno caderno de notas em que havia rabiscado algumas datas.

— Cruzou o meu caminho a 4 de janeiro — disse ele. — A 23 fez‑me um incómodo; a meados de fevereiro fui seriamente incomodado por si; ao fim de março fui absolutamente impedido nos meus planos; e agora, ao fechar de abril, encontro‑me numa posição tão delicada devido à sua perseguição contínua que corro risco real de perder a liberdade. A situação está a tornar‑se impossível.

— Tem alguma sugestão? — perguntei.

— Deve desistir, Sr. Holmes — respondeu ele, balançando o rosto. — Deve, verdadeiramente, saber que só pode haver um desfecho para este caso. É necessário que se retire. Trabalhou‑o de tal forma que nos resta apenas um recurso. Tem sido um deleite intelectual observar como enfrentou este caso, e digo, sem afetos, que seria uma tristeza para mim ser forçado a tomar qualquer medida extrema. Sorri, senhor, mas asseguro‑lhe que realmente seria.

— O perigo faz parte do meu ofício — observei.

— Isso não é perigo — respondeu ele. — É destruição inevitável. Você se coloca no caminho não apenas de um indivíduo, mas de uma poderosa organização, cujos contornos, por mais astuto que seja, ainda não conseguiu perceber. Deve manter‑se à parte, Sr. Holmes, ou será pisado.

— Receio — disse eu, levantando‑me — que, no prazer desta conversa, estou a negligenciar negócios de importância que me aguardam noutro lugar.

Ele levantou‑se também e, em silêncio, balançou a cabeça tristemente.

— Bem, bem — disse ele, finalmente. — Parece uma pena, mas fiz o que pude. Conheço cada movimento do seu jogo. Não pode fazer nada antes de segunda‑feira. Tem sido um duelo entre nós, Sr. Holmes. Espera colocar‑me no banco dos réus. Digo‑lhe que nunca estarei no banco dos réus. Espera vencer‑me. Digo‑lhe que nunca me vencerá. Se for suficientemente astuto para me destruir, esteja certo de que eu farei o mesmo consigo.

— Pagou‑me vários elogios, Sr. Moriarty — respondi. — Permita‑me retribuir um: se eu estivesse certo da primeira eventualidade, aceitaria, em nome do público, a segunda com prazer.

— Posso prometer‑lhe a primeira, mas não a segunda — rosnou ele, virando‑se de costas e saindo de orelhas a piscar.

Essa foi a minha singular entrevista com o professor Moriarty. Confesso que deixou‑me um efeito desagradável na mente. O seu modo suave e preciso de falar produz uma convicção de sinceridade que um simples valentão não poderia gerar. Claro, dirá: “Por que não tomar precauções policiais contra ele?” A razão é que estou bem convencido de que será dos seus agentes que virá o golpe. Tenho as melhores provas de que assim será.

— Já foi agredido?

— Meu caro Watson, o professor Moriarty não é homem que deixa o capim crescer sob os pés. Saí por volta do meio‑dia para tratar de negócios na Oxford Street. Ao passar da esquina que liga a Bentinck Street à Welbeck Street, um carro de duas mulas, furiosamente conduzido, surgiu como um relâmpago e quase me atropelou. Saltei para a calçada e escapei por uma fração de segundo. O carro disparou pela Marylebone Lane e desapareceu num instante. Continuei na calçada, mas, ao descer a Vere Street, um tijolo despencou do telhado de uma das casas e despedaçou‑se aos meus pés. Chamei a polícia e fiz o local examinar. Havia telhas e tijolos empilhados no telhado para reparos, e fizeram-me acreditar que o vento os derrubara. Claro que eu sabia melhor, mas não pude provar nada. Peguei um táxi e cheguei ao quarto do meu irmão em Pall Mall, onde passei o dia. Agora voltei a você, e a caminho fui atacado por um rústico com um porrete. Derrubei‑o, a polícia o tem em custódia; mas posso afirmar com absoluta confiança que não se encontrará ligação alguma entre o cavalheiro cujos dentes frontais bati com os meus nós e o professor matemático, que, ouso dizer, está a resolver problemas num quadro a dez milhas de distância. Não se surpreenda, Watson, que o meu primeiro ato ao entrar nos seus aposentos foi fechar as persianas, e que tive de lhe pedir permissão para sair da casa por uma saída menos evidente que a porta principal.

Frequentemente admirava a coragem do meu amigo, mas nunca tanto como agora, enquanto ele sentava‑se quieto a marcar uma série de incidentes que deviam, em conjunto, constituir um dia de horror.

— Passará a noite aqui? — perguntei.

— Não, meu amigo, pode achar‑me um hóspede perigoso. Tenho os meus planos traçados, e tudo correrá bem. Os acontecimentos avançaram tanto que podem prosseguir sem a minha ajuda até a prisão, embora a minha presença seja necessária para a condenação. É óbvio, pois, que não posso fazer melhor do que fugir pelos poucos dias que restam antes que a polícia possa agir livremente. Seria um grande prazer, pois, se pudesse acompanhar‑me ao continente.

— O clima está calmo — respondi — e tenho um vizinho complacente. Ficaria feliz em vir.

— E começar amanhã de manhã?

— Se for necessário.

— Ah, sim, é extremamente necessário. Então, estas são as suas instruções, e rogo‑lhe, caro Watson, que as cumpra ao pé da letra, pois agora está a jogar um jogo de duas mãos contra mim, contra o mais esperto vilão e a mais poderosa rede criminosa da Europa. Ouça! Despache a bagagem que pretende levar por um mensageiro de confiança, sem endereço, para Victoria esta noite. De manhã, solicite um hansom, instruindo o seu motorista a não aceitar o primeiro nem o segundo que se apresente. No hansom, suba‑se ao final da Lowther Arcade, entregando ao cocheiro o endereço num pedaço de papel, pedindo que não o descarte. Tenha a tarifa pronta, e, no instante em que o coche parar, corra pela Arcade, cronometrando‑se para alcançar o outro lado às quinze e quinze. Encontrará um pequeno brougham à beira da guia, conduzido por um homem trajado com um pesado manto negro, a gola tingida a vermelho. Entre nele e chegará a Victoria a tempo do expresso continental.

— Onde devo encontrá‑lo?

— Na estação. O segundo vagão de primeira classe a partir da frente será reservado para nós.

— O vagão será, pois, o nosso ponto de encontro?

— Sim.

Foi em vão que pedi a Holmes que permanecesse a noite. Era evidente que ele temia trazer problemas ao telhado que o cobria, e essa era a motivação que o impelia a partir. Com poucas palavras apressadas sobre os nossos planos para o dia seguinte, ele levantou‑se e saiu comigo para o jardim, escalando o muro que dá para a Mortimer Street, e imediatamente apitou por um hansom, no qual ouvi‑o partir.

De manhã, cumpri‑as instruções de Holmes à risca. Um hansom foi providenciado com tal cautela que não fosse o que nos esperava, e parti imediatamente após o pequeno‑almoço para a Lowther Arcade, atravessando‑a a toda velocidade. Um brougham aguardava, com um motorista robusto envolto num manto escuro, que, no instante em que entrei, deu coice ao cavalo e disparou rumo à estação Victoria. Ao descer ali, virou o coche e fugiu novamente sem sequer lançar‑me um olhar.

Até então, tudo correu admiravelmente. A bagagem esperava‑me, e não tive dificuldade em localizar o vagão que Holmes indicara, ainda mais por ser o único do comboio marcado como “Engajado”. A única preocupação que me restava era o desaparecimento de Holmes. O relógio da estação marcava apenas sete minutos para o início previsto. Em vão procurei entre os grupos de viajantes e de quem partia a figura enjuta do meu amigo. Não havia sinal dele. Gastei alguns minutos a ajudar um venerável padre italiano, que tentava fazer‑se entender por um carregador, em seu inglês trôpego, de que a sua bagagem devia ser encaminhada até Paris. Depois, ao fazer outra ronda, voltei ao meu vagão, onde percebi que o carregador, apesar do bilhete, me entregara o meu amigo italiano como companheiro de viagem. Não adiantava explicar‑lhe que a sua presença era indesejada, pois o meu italiano falava ainda menos que o seu inglês; suscitei‑lhe os ombros resignado e continuei a observar, ansioso, a procura do meu amigo. Um frio de medo apoderou‑me, temendo que a sua ausência indicasse um golpe ocorrido durante a noite. As portas já se fechavam e o apito soava, quando—

— Meu caro Watson — disse uma voz — não chegou nem a cumprimentar‑me de bom dia.

Virei‑me, atônito. O velho eclesiástico virou‑se para mim. Por um instante, as rugas suavizaram‑se, o nariz afastou‑se do queixo, o lábio inferior deixou de sobressair e a boca de­ixou de balbuciar; os olhos apagados reacenderam o fogo, a figura caída expandiu‑se. Num momento, o corpo inteiro desabou novamente, e Holmes desaparecera tão rápido quanto aparecera.

— Céus! — exclamei. — Como me assustou!

— Todas as precauções ainda são necessárias — sussurrou ele. — Tenho razões para crer que nos seguem quente. Ah, ali está o próprio Moriarty.

O comboio já começara a mover‑se enquanto Holmes falava. Voltando‑se, vi um homem alto a abrir caminho furiosamente pela multidão, acenando como se quisesse que o comboio fosse parado. Já era tarde demais, porém, pois o comboio ganhava impulso e, num instante, já estava fora da estação.

— Com todas as nossas precauções, vê‑se que cortámos por pouco — disse Holmes, rindo. Levantou‑se e, despindo‑se do casaco preto e do chapéu que lhe serviam de disfarce, guardou‑os numa bolsa de mão.

— Viu o jornal da manhã, Watson?

— Não.

— Não viu nada sobre a Baker Street, então?

— Baker Street?

— Incendiá‑ram os nossos quartos na noite passada. Não houve grandes danos.

— Céus, Holmes! Isto é intolerável.

— Devem ter perdido totalmente o meu rasto depois que o seu capanga foi preso. Caso contrário, não poderiam imaginar que eu regressara aos meus quartos. Evidentemente tomaram a precaução de vigiar‑o, e foi isso que trouxe Moriarty a Victoria. Não cometeu nenhum deslize ao chegar?

— Fiz exatamente o que aconselhou.

— Encontrou o seu brougham?

— Sim, estava à espera.

— Reconheceu o cocheiro?

— Não.

— Era o meu irmão Mycroft. É vantajoso deslocar‑se assim sem confiar num mercenário. Mas precisamos decidir o que faremos com Moriarty agora.

— Como é um expresso, e o barco corre em conexão com ele, penso que o afastámos de forma bastante eficaz.

— Meu caro Watson, evidentemente não percebeu o que quis dizer ao afirmar que esse homem pode ser considerado tão intelectualmente semelhante a mim. Não imagina que, se eu fosse o perseguidor, não me deixaria enganar por um obstáculo tão insignificante. Por que, então, pensa tão pouco dele?

— O que fará?

— O que eu faria?

— O que faria, então?

— Engajar um especial.

— Mas deve ser tarde.

— De modo algum. Este comboio para em Canterbury; e há sempre, no mínimo, um quarto de hora de atraso no barco. Ele‑nos alcançará lá.

— Um pensaria que éramos os criminosos. Vamos prendê‑lo na sua chegada.

— Seria arruinar o trabalho de três meses. Poderíamos apanhar o grande peixe, mas o menor escaparia de direita e esquerda da rede. Na segunda‑feira teríamos todos. Não, uma prisão é inadmissível.

— E então?

— Descer‑emos em Canterbury.

— E depois?

— Então devemos fazer uma viagem trans‑nacional até Newhaven, e daí para Dieppe. Moriarty fará novamente o que eu faria. Irá para Paris, anotará a nossa bagagem e esperará dois dias no depósito. Enquanto isso, trataremos de alguns bagageiros, incentivaremos as indústrias dos países por onde transitamos e seguimos o nosso caminho, a nosso ritmo, até à Suíça, passando por Luxemburgo e Basileia.

Em Canterbury, então, desembarcámos, apenas para descobrir que teríamos de aguardar uma hora antes de poder apanhar um comboio para Newhaven.

Ainda observava, um tanto melancólico, o carrinho‑van de bagagens que desaparecia rapidamente contendo o meu guarda‑roupa, quando Holmes puxou‑me a manga e apontou para a linha.

— Já vê — disse ele.

Longe, entre os bosques de Kent, ergueu‑se uma fina nuvem de fumaça. Um minuto depois, um vagão e locomotiva podiam ser vistos a voar pela curva aberta que conduz à estação. Mal tínhamos tempo de nos posicionar atrás de uma pilha de bagagens quando ele passou, roncando e estrondoso, lançando uma rajada de ar quente em nossos rostos.

— Lá vai — afirmou Holmes, enquanto assistíamos o vagão balançar e oscilar sobre os desvios. — Existem limites, veja, à inteligência do nosso amigo. Teria sido um coup‑de‑maître se ele tivesse deduzido o que eu deduziria e agido em conformidade.

— E o que teria feito se nos tivesse ultrapassado?

— Não pode haver a menor dúvida de que ele teria feito um ataque assassino contra mim. É, porém, um jogo ao qual dois podem jogar. A questão agora é se devemos fazer um almoço prematuro aqui, ou arriscar a fome antes de chegarmos ao bufê em Newhaven.

Fomos a Bruxelas naquela noite e passamos dois dias lá, prosseguindo no terceiro dia até Estrasburgo. Na manhã de segunda‑feira Holmes enviou um telegrama à polícia de Londres, e à noite encontrámos uma resposta à espera no nosso hotel. Holmes rasgou‑a e, com uma maldição amarga, lançou‑a na grade.

— Poderia ter sabido! — gemeu ele. — Ele escapou!

— Moriarty?

— Eles capturaram toda a quadrilha, exceto ele. Ele escapou deles. Claro que, quando deixei o país, não havia quem o enfrentasse. Mas pensei que havia colocado o jogo nas mãos deles. Acho que é melhor você voltar à Inglaterra, Watson.

— Por quê?

— Porque você vai me encontrar como um companheiro perigoso agora. A ocupação desse homem acabou. Ele está perdido se voltar a Londres. Se eu ler bem o seu carácter, ele dedicará todas as suas energias a vingar‑se de mim. Disse isso na nossa breve entrevista, e tenho a impressão de que falava a sério. Recomendo‑lhe, sem hesitar, que retorne à sua prática.

Foi difícil apelar a alguém que fora tanto veterano de campanha quanto velho amigo. Sentámo‑nos no salle‑à‑manger de Estrasburgo debatendo a questão por meia hora, mas na mesma noite retomámos a viagem e já íamos bem de caminho para Genebra.

Durante uma semana encantadora vagueamos pelo Vale do Ródano e, ao desviar em Leuk, atravessámos o passo de Gemmi, ainda coberto de neve, e, via Interlaken, chegámos a Meiringen. Foi uma viagem deliciosa, o verde tenro da primavera abaixo, o branco virginal do inverno acima; mas percebi que Holmes nunca, por um instante, esqueceu a sombra que o perseguia. Nas aldeias alpinas caseiras ou nos solitários passos de montanha, podia notar pelos seus olhos que se lançavam rápidas olhadas e pela sua aguda observação de cada rosto que cruzava, que ele estava convencido de que, onde quer que caminhássemos, não podíamos fugir do perigo que nos rondava.

Recordo‑me, ao cruzarmos o Gemmi e caminharmos à margem do melancólico Daubensee, uma grande pedra que se desprendera da crista à nossa direita despencou ruindo no lago atrás de nós. Num instante, Holmes correu até a crista e, de pé sobre um alto pináculo, virava o pescoço para todas as direções. Em vão nosso guia lhe assegurou que a queda de pedras era comum na primavera naquele ponto. Não disse nada, mas sorriu‑me como quem vê a realização do que esperava.

E, porém, por mais vigilante que fosse, nunca se mostrava abatido. Pelo contrário, nunca me lembro de o ter visto em ânimo tão exuberante. Repetidas vezes ele recorria ao fato de que, se pudesse assegurar que a sociedade estivesse livre do Professor Moriarty, encerraria alegremente a sua própria carreira.

— Acho que posso chegar a dizer, Watson, que não vivi em vão — observou ele. — Se o meu registo se encerrasse esta noite, ainda poderia revê‑lo com equanimidade. O ar de Londres é mais doce pela minha presença. Em mais de mil casos não me lembro de ter usado os meus poderes do lado errado. Ultimamente tenho sido tentado a investigar os problemas que a natureza oferece, em vez daqueles mais superficiais de que a nossa artificial sociedade é responsável. As suas memórias chegarão ao fim, Watson, no dia em que coroe a minha carreira com a captura ou extinção do criminoso mais perigoso e capaz da Europa.

Serei breve, porém preciso, no pouco que ainda resta a relatar. Não é um assunto sobre o qual eu deseje permanecer, mas sinto que me incumbe o dever de não omitir nenhum detalhe.

Foi no dia 3 de maio que chegámos à pequena aldeia de Meiringen, onde nos hospedamos no Englischer Hof, então dirigido por Peter Steiler, o velho. Nosso senhorio era um homem inteligente e falava excelente inglês, tendo servido por três anos como empregado do Grosvenor Hotel em Londres. Seguindo seu conselho, na tarde do dia 4 partimos juntos, com a intenção de atravessar as colinas e passar a noite na aldeia de Rosenlaui. Tínhamos, porém, instruções rígidas de, sob nenhuma circunstância, ultrapassar as cataratas de Reichenbach, que ficam a meio da colina, sem antes fazer um pequeno desvio para vê‑las.

É realmente um lugar tem

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