O ASSASSINATO DE ROGER ACKROYD
POR
AGATHA CHRISTIE
AUTORA DE O SEGREDO DE CHIMNEYS, O ASSASSINATO NO CAMPO DE GOLFE, Etc.
GROSSET & DUNLAP EDITORES NOVA YORK
Copyright, 1926, Por DODD, MEAD AND COMPANY, Inc.
Para Punkie, que gosta de uma história de detetive ortodoxa, assassinato, inquérito e suspeita recaindo sobre cada um por sua vez!
CONTEÚDO
CAPÍTULO PÁGINA
I O DR. SHEPPARD À MESA DO CAFÉ DA MANHÃ 1
II QUEM É QUEM EM KING’S ABBOT 7
III O HOMEM QUE CULTIVAVA ABÓBORAS 17
IV JANTAR EM FERNLY 31
V ASSASSINATO 49
VI O PUNHAL TUNISIANO 65
VII APRENDO A PROFISSÃO DO MEU VIZINHO 75
VIII O INSPETOR RAGLAN ESTÁ CONFIANTE 92
IX O LAGO DOS PEIXES-DOURADOS 106
X A ARRUMADEIRA 118
XI POIROT FAZ UMA VISITA 136
XII AO REDOR DA MESA 145
XIII O CANHÃO DE PENA DE GANSO 156
XIV MRS. ACKROYD 165
XV GEOFFREY RAYMOND 178
XVI UMA NOITE DE MAH JONG 190
XVII PARKER 202
XVIII CHARLES KENT 218
XIX FLORA ACKROYD 226
XX MISS RUSSELL 238
XXI O PARÁGRAFO NO JORNAL 251
XXII A HISTÓRIA DE URSULA 260
XXIII A PEQUENA REUNIÃO DE POIROT 269
XXIV A HISTÓRIA DE RALPH PATON 284
XXV A VERDADE INTEIRA 289
XXVI E NADA ALÉM DA VERDADE 298
XXVII APOLOGIA 303
O ASSASSINATO DE ROGER ACKROYD
CAPÍTULO I
O DR. SHEPPARD À MESA DO CAFÉ DA MANHÃ
Mrs. Ferrars morreu na noite de 16 para 17 de setembro — uma quinta-feira. Fui chamado às oito horas da manhã de sexta-feira, dia 17. Não havia nada a ser feito. Ela estava morta havia algumas horas.
Passavam poucos minutos das nove quando cheguei novamente em casa. Abri a porta da frente com minha chave e deliberadamente demorei alguns momentos no saguão, pendurando meu chapéu e o sobretudo leve que eu considerara uma precaução sensata contra o frio de uma manhã de início de outono. Para dizer a verdade, eu estava consideravelmente perturbado e preocupado. Não vou fingir que naquele momento previ os acontecimentos das semanas seguintes. Enfaticamente, não o fiz. Mas meu instinto me dizia que tempos agitados estavam por vir.
Da sala de jantar, à minha esquerda, vinha o tilintar de xícaras de chá e a tosse curta e seca de minha irmã Caroline.
— É você, James? — chamou ela.
Uma pergunta desnecessária, já que quem mais poderia ser? Para dizer a verdade, era precisamente minha irmã Caroline a causa dos meus poucos minutos de atraso. O lema da família dos mangustos, como nos diz Mr. Kipling, é: “Vá e descubra”. Se Caroline algum dia adotar um brasão, eu certamente sugeriria um mangusto rampante. Poder-se-ia omitir a primeira parte do lema. Caroline consegue descobrir qualquer quantidade de coisas sentada placidamente em casa. Não sei como ela consegue, mas é assim. Suspeito que os empregados e os comerciantes constituam seu Corpo de Inteligência. Quando ela sai, não é para colher informações, mas para espalhá-las. E nisso, também, ela é incrivelmente especialista.
Era realmente esse último traço dela que me causava essas pontadas de indecisão. Tudo o que eu dissesse a Caroline agora sobre o falecimento de Mrs. Ferrars seria de conhecimento geral em toda a vila dentro do espaço de uma hora e meia. Como profissional, naturalmente busco a discrição. Por isso, adquiri o hábito de omitir continuamente da minha irmã toda informação possível. Ela geralmente descobre do mesmo jeito, mas tenho a satisfação moral de saber que não tenho culpa alguma.
O marido de Mrs. Ferrars morreu há pouco mais de um ano, e Caroline tem afirmado constantemente, sem o menor fundamento para a afirmação, que sua esposa o envenenou.
Ela despreza minha réplica invariável de que Mr. Ferrars morreu de gastrite aguda, ajudada pelo excesso habitual de bebidas alcoólicas. Os sintomas de gastrite e envenenamento por arsênico não são, concordo, diferentes, mas Caroline baseia sua acusação em linhas completamente distintas.
— Você só precisa olhar para ela — eu já a ouvi dizer.
Mrs. Ferrars, embora não estivesse na flor da idade, era uma mulher muito atraente, e suas roupas, embora simples, sempre pareciam cair-lhe muito bem, mas, ainda assim, muitas mulheres compram suas roupas em Paris e não, por causa disso, necessariamente envenenaram seus maridos.
Enquanto eu hesitava no saguão, com tudo isso passando pela minha cabeça, a voz de Caroline veio novamente, com uma nota mais aguda.
— O que raios você está fazendo aí fora, James? Por que não vem tomar seu café da manhã?
— Já vou, minha querida — respondi apressadamente. — Estava pendurando meu sobretudo.
— Você poderia ter pendurado meia dúzia de sobretudos nesse tempo.
Ela tinha toda a razão. Eu poderia.
Entrei na sala de jantar, dei a Caroline o beijo costumeiro na bochecha e sentei-me para comer ovos com bacon. O bacon estava um pouco frio.
— Você teve um chamado cedo — observou Caroline.
— Sim — disse eu. — King’s Paddock. Mrs. Ferrars.
— Eu sei — disse minha irmã.
— Como você sabia?
— Annie me contou.
Annie é a arrumadeira da casa. Uma boa garota, mas uma tagarela inveterada.
Houve uma pausa. Continuei a comer ovos com bacon. O nariz de minha irmã, que é longo e fino, tremia um pouco na ponta, como sempre faz quando ela está interessada ou animada com alguma coisa.
— Bem? — exigiu ela.
— Um caso ruim. Não havia nada a ser feito. Deve ter morrido durante o sono.
— Eu sei — disse minha irmã novamente.
Desta vez fiquei irritado.
— Você não pode saber — respondi bruscamente. — Eu mesmo não sabia até chegar lá, e ainda não mencionei isso a uma alma sequer. Se aquela garota Annie sabe, ela deve ser vidente.
— Não foi Annie quem me contou. Foi o leiteiro. Ele soube pela cozinheira dos Ferrars.
Como digo, não há necessidade de Caroline sair para obter informações. Ela senta-se em casa e as informações vêm até ela.
Minha irmã continuou:
— Do que ela morreu? Falha cardíaca?
— O leiteiro não lhe contou isso? — indaguei sarcasticamente.
O sarcasmo é desperdiçado em Caroline. Ela o leva a sério e responde de acordo.
— Ele não sabia — explicou ela.
Afinal, Caroline acabaria ouvindo mais cedo ou mais tarde. Seria melhor que ouvisse de mim.
— Ela morreu de uma overdose de veronal. Ela vinha tomando ultimamente para a insônia. Deve ter tomado demais.
— Bobagem — disse Caroline imediatamente. — Ela tomou de propósito. Não me diga!
É curioso como, quando você tem uma crença secreta própria que não deseja admitir, o fato de outra pessoa expressá-la o levará a uma fúria de negação. Eu explodi imediatamente em um discurso indignado.
— Lá vem você de novo — disse eu. — Correndo sem rima nem razão. Por que raios Mrs. Ferrars desejaria cometer suicídio? Uma viúva, ainda bastante jovem, muito bem de vida, boa saúde e nada a fazer a não ser aproveitar a vida. É um absurdo.
— De jeito nenhum. Até você deve ter notado como ela tem parecido diferente ultimamente. Isso vem acontecendo nos últimos seis meses. Ela parecia positivamente atormentada. E você acabou de admitir que ela não conseguia dormir.
— Qual é o seu diagnóstico? — indaguei friamente. — Um caso de amor infeliz, suponho?
Minha irmã balançou a cabeça.
— Remorso — disse ela, com grande entusiasmo.
— Remorso?
— Sim. Você nunca acreditou em mim quando lhe disse que ela envenenou o marido. Estou mais convencida do que nunca disso agora.
— Não acho que você seja muito lógica — objetei. — Certamente, se uma mulher cometesse um crime como assassinato, ela seria fria o suficiente para desfrutar dos frutos dele sem qualquer sentimentalismo fraco como o arrependimento.
Caroline balançou a cabeça.
— Provavelmente existem mulheres assim — mas Mrs. Ferrars não era uma delas. Ela era um poço de nervos. Um impulso avassalador a levou a se livrar do marido porque ela era o tipo de pessoa que simplesmente não suporta sofrimento de qualquer espécie, e não há dúvida de que a esposa de um homem como Ashley Ferrars deve ter sofrido muito...
Eu balancei a cabeça.
— E desde então ela tem sido assombrada pelo que fez. Não posso deixar de sentir pena dela.
Não acho que Caroline tenha sentido pena de Mrs. Ferrars enquanto ela estava viva. Agora que ela se foi para onde (presumivelmente) vestidos de Paris não podem mais ser usados, Caroline está preparada para se entregar às emoções mais suaves da piedade e compreensão.
Disse-lhe firmemente que toda a sua ideia era um disparate. Fui ainda mais firme porque secretamente concordava com alguma parte, pelo menos, do que ela havia dito. Mas é muito errado que Caroline chegue à verdade simplesmente por uma espécie de palpite inspirado. Eu não ia incentivar esse tipo de coisa. Ela vai rodar a vila espalhando suas opiniões, e todos pensarão que ela o faz com base em dados médicos fornecidos por mim. A vida é muito cansativa.
— Bobagem — disse Caroline, em resposta às minhas críticas. — Você verá. Dez para um que ela deixou uma carta confessando tudo.
— Ela não deixou carta de espécie alguma — disse rispidamente, sem ver onde aquela admissão ia me levar.
— Oh! — disse Caroline. — Então você perguntou sobre isso, não foi? Acredito, James, que no fundo do seu coração, você pensa muito como eu. Você é um velho hipócrita precioso.
— Sempre se deve levar em consideração a possibilidade de suicídio — disse eu, de forma repressiva.
— Haverá inquérito?
— Pode haver. Tudo depende. Se eu puder declarar-me absolutamente satisfeito de que a overdose foi tomada acidentalmente, o inquérito pode ser dispensado.
— E você está absolutamente satisfeito? — perguntou minha irmã astutamente.
Não respondi, mas levantei-me da mesa.
CAPÍTULO II
QUEM É QUEM EM KING’S ABBOT
Antes que eu prossiga com o que disse a Caroline e o que Caroline me disse, talvez fosse bom dar uma ideia do que eu descreveria como nossa geografia local. Nossa vila, King’s Abbot, é, imagino, muito parecida com qualquer outra vila. Nossa cidade grande é Cranchester, a nove milhas de distância. Temos uma grande estação ferroviária, um pequeno correio e duas “lojas gerais” rivais. Os homens aptos tendem a deixar o lugar cedo na vida, mas somos ricos em senhoras solteiras e oficiais militares aposentados. Nossos passatempos e recreações podem ser resumidos em uma palavra: “fofoca”.
Existem apenas duas casas de qualquer importância em King’s Abbot. Uma é King’s Paddock, deixada para Mrs. Ferrars por seu falecido marido. A outra, Fernly Park, pertence a Roger Ackroyd. Ackroyd sempre me interessou por ser um homem mais impossivelmente parecido com um senhor de terras do que qualquer senhor de terras poderia realmente ser. Ele lembra aqueles esportistas de rosto vermelho que sempre apareciam cedo no primeiro ato de uma comédia musical antiquada, com o cenário sendo o gramado da vila. Eles geralmente cantavam uma canção sobre ir a Londres. Hoje em dia temos revistas, e o senhor de terras saiu da moda musical.
Claro, Ackroyd não é realmente um senhor de terras. Ele é um fabricante imensamente bem-sucedido de (acho) rodas de carroça. Ele é um homem de quase cinquenta anos de idade, rosto rubicundo e maneiras gentis. Ele é unha e carne com o vigário, contribui liberalmente para os fundos da paróquia (embora corram boatos de que ele é extremamente mesquinho nos gastos pessoais), incentiva partidas de críquete, clubes de jovens e institutos para soldados inválidos. Ele é, de fato, a alma da nossa pacífica vila de King’s Abbot.
Ora, quando Roger Ackroyd era um rapaz de vinte e um anos, ele se apaixonou e casou-se com uma bela mulher uns cinco ou seis anos mais velha que ele. O nome dela era Paton, e ela era uma viúva com um filho. A história do casamento foi curta e dolorosa. Para dizer sem rodeios, Mrs. Ackroyd era dipsomaníaca. Ela conseguiu beber até a morte quatro anos após seu casamento.
Nos anos que se seguiram, Ackroyd não mostrou disposição para fazer uma segunda aventura matrimonial. O filho de sua esposa, do primeiro casamento, tinha apenas sete anos quando a mãe morreu. Ele está agora com vinte e cinco. Ackroyd sempre o considerou como seu próprio filho e o criou de acordo, mas ele tem sido um rapaz selvagem e uma fonte contínua de preocupação e problemas para seu padrasto. No entanto, todos nós gostamos muito de Ralph Paton em King’s Abbot. Ele é um jovem tão bonito, para começar.
Como eu disse antes, estamos prontos o suficiente para fofocar em nossa vila. Todos notaram desde o início que Ackroyd e Mrs. Ferrars se davam muito bem. Após a morte do marido dela, a intimidade tornou-se mais marcante. Eles eram sempre vistos juntos, e conjecturava-se livremente que, ao final de seu período de luto, Mrs. Ferrars se tornaria Mrs. Roger Ackroyd. Sentia-se, de fato, que havia uma certa adequação na coisa. A esposa de Roger Ackroyd admitidamente morrera de bebida. Ashley Ferrars fora um bêbado por muitos anos antes de sua morte. Era apenas justo que essas duas vítimas do excesso alcoólico se compensassem por tudo o que haviam suportado anteriormente nas mãos de seus antigos cônjuges.
Os Ferrars só vieram morar aqui há pouco mais de um ano, mas uma aura de fofoca cercou Ackroyd por muitos anos. Durante todo o tempo em que Ralph Paton crescia até a idade adulta, uma série de senhoras governantas presidiu o estabelecimento de Ackroyd, e cada uma, por sua vez, era vista com viva suspeita por Caroline e suas amigas. Não é exagero dizer que, por pelo menos quinze anos, toda a vila esperou confiantemente que Ackroyd se casasse com uma de suas governantas. A última delas, uma senhora formidável chamada Miss Russell, reinou incontestada por cinco anos, duas vezes mais tempo do que qualquer de suas antecessoras. Sente-se que, não fosse pelo advento de Mrs. Ferrars, Ackroyd dificilmente teria escapado. Isso — e um outro fator — a chegada inesperada de uma cunhada viúva com sua filha vinda do Canadá. Mrs. Cecil Ackroyd, viúva do irmão mais novo e imprestável de Ackroyd, fixou residência em Fernly Park e conseguiu, segundo Caroline, colocar Miss Russell em seu devido lugar.
Não sei exatamente o que constitui um “devido lugar” — soa frio e desagradável — mas sei que Miss Russell anda por aí com lábios franzidos e o que só posso descrever como um sorriso ácido, e que ela professa a máxima simpatia pela “pobre Mrs. Ackroyd — dependente da caridade do irmão de seu marido. O pão da caridade é tão amargo, não é? Eu ficaria muito infeliz se não trabalhasse para o meu sustento”.
Não sei o que Mrs. Cecil Ackroyd pensava do caso Ferrars quando veio à tona. Era claramente vantajoso para ela que Ackroyd permanecesse solteiro. Ela sempre foi muito charmosa — para não dizer efusiva — com Mrs. Ferrars quando se encontravam. Caroline diz que isso prova menos que nada.
Tais têm sido nossas preocupações em King’s Abbot nos últimos anos. Discutimos Ackroyd e seus assuntos de todos os pontos de vista. Mrs. Ferrars encaixou-se em seu lugar no esquema.
Agora houve um rearranjo do caleidoscópio. De uma leve discussão sobre prováveis presentes de casamento, fomos jogados ao meio da tragédia.
Revolvendo estes e outros assuntos em minha mente, continuei mecanicamente minha rodada. Não tinha casos de interesse especial para atender, o que foi, talvez, bom, pois meus pensamentos voltavam repetidamente ao mistério da morte de Mrs. Ferrars. Teria ela tirado a própria vida? Certamente, se ela o tivesse feito, teria deixado alguma palavra para dizer o que pretendia fazer? As mulheres, na minha experiência, se uma vez chegam à determinação de cometer suicídio, geralmente desejam revelar o estado de espírito que levou à ação fatal. Elas cobiçam os holofotes.
Quando eu a vira pela última vez? Fazia mais de uma semana. O comportamento dela então estava normal o suficiente considerando — bem — considerando tudo.
Então, de repente, lembrei-me de que a vira, embora não tivesse falado com ela, apenas ontem. Ela estava caminhando com Ralph Paton, e eu ficara surpreso porque não tinha ideia de que ele estaria em King’s Abbot. Pensei, de fato, que ele tivesse se desentendido definitivamente com seu padrasto. Nada fora visto dele por aqui há quase seis meses. Eles caminhavam lado a lado, com as cabeças próximas, e ela falava muito seriamente.
Acho que posso dizer com segurança que foi nesse momento que um pressentimento do futuro me invadiu pela primeira vez. Nada tangível ainda — mas um vago pressentimento do rumo que as coisas estavam tomando. Aquele tête-à-tête sério entre Ralph Paton e Mrs. Ferrars no dia anterior me atingiu desagradavelmente.
Eu ainda pensava nisso quando fiquei cara a cara com Roger Ackroyd.
— Sheppard! — exclamou ele. — Exatamente o homem que eu queria encontrar. Este é um caso terrível.
— Você soube, então?
Ele balançou a cabeça. Ele sentira o golpe profundamente, pude ver. Suas bochechas grandes e vermelhas pareciam ter caído, e ele parecia um destroço positivo de seu eu alegre e saudável de costume.
— É pior do que você imagina — disse ele calmamente. — Veja aqui, Sheppard, preciso falar com você. Pode vir comigo agora?
— Dificilmente. Ainda tenho três pacientes para ver, e preciso estar de volta às doze horas para atender meus pacientes de consultório.
— Então esta tarde — não, melhor ainda, jante comigo hoje à noite. Às 19h30? Isso serve para você?
— Sim — posso conseguir isso. O que há de errado? É Ralph?
Mal sabia por que disse isso — exceto, talvez, que tão frequentemente fora Ralph.
Ackroyd encarou-me fixamente como se mal entendesse. Comecei a perceber que deveria haver algo muito errado em algum lugar. Nunca vira Ackroyd tão perturbado antes.
— Ralph? — disse ele vagamente. — Oh! não, não é Ralph. Ralph está em Londres... Droga! Lá vem a velha Miss Ganett. Não quero ter que falar com ela sobre esse negócio macabro. Vejo você à noite, Sheppard. Sete e meia.
Concordei, e ele se apressou, deixando-me intrigado. Ralph em Londres? Mas ele certamente estivera em King’s Abbot na tarde anterior. Ele deve ter voltado para a cidade ontem à noite ou esta manhã cedo, e ainda assim o comportamento de Ackroyd transmitira uma impressão completamente diferente. Ele falara como se Ralph não estivesse perto do local há meses.
Não tive tempo de quebrar mais a cabeça com o assunto. Miss Ganett estava em cima de mim, sedenta por informações. Miss Ganett tem todas as características da minha irmã Caroline, mas falta-lhe aquela pontaria infalível em tirar conclusões precipitadas que confere um toque de grandeza às manobras de Caroline. Miss Ganett estava ofegante e interrogativa.
Não era triste sobre a pobre e querida Mrs. Ferrars? Muitas pessoas diziam que ela era uma usuária confirmada de drogas há anos. Tão perverso o modo como as pessoas saíam por aí dizendo coisas. E, no entanto, o pior era que geralmente havia um grão de verdade em algum lugar nessas declarações selvagens. Não há fumaça sem fogo! Diziam também que Mr. Ackroyd descobrira isso e rompido o noivado — porque havia um noivado. Ela, Miss Ganett, tinha prova positiva disso. Claro que eu devia saber tudo sobre isso — médicos sempre sabem — mas eles nunca contam?
E tudo isso com um olhar atento e miúdo para mim para ver como eu reagia a essas sugestões. Felizmente, a longa associação com Caroline levou-me a preservar um semblante impassível e a estar pronto com pequenos comentários não comprometedores.
Nesta ocasião, parabenizei Miss Ganett por não participar de fofocas maldosas. Um contra-ataque bastante elegante, pensei. Isso a deixou em dificuldades e, antes que ela pudesse se recompor, eu já havia passado.
Fui para casa pensativo, para encontrar vários pacientes esperando por mim no consultório.
Eu tinha dispensado o último deles, como pensei, e estava apenas contemplando alguns minutos no jardim antes do almoço quando percebi mais uma paciente me esperando. Ela se levantou e veio em minha direção enquanto eu estava um tanto surpreso.
Não sei por que deveria ter ficado, exceto que há uma sugestão de ferro fundido em Miss Russell, algo que está acima das doenças da carne.
A governanta de Ackroyd é uma mulher alta, bonita, mas proibitiva na aparência. Ela tem um olhar severo e lábios que se fecham firmemente, e sinto que, se eu fosse uma criada ou copeira, eu correria por minha vida sempre que a ouvisse chegar.
— Bom dia, Dr. Sheppard — disse Miss Russell. — Ficar-lhe-ia muito grata se o senhor pudesse dar uma olhada no meu joelho.
Dei uma olhada, mas, para dizer a verdade, fiquei muito pouco mais sábio ao terminar. O relato de Miss Russell sobre dores vagas era tão pouco convincente que, com uma mulher de caráter menos íntegro, eu teria suspeitado de uma história inventada. Passou pela minha cabeça por um momento que Miss Russell poderia ter inventado deliberadamente essa aflição no joelho para me sondar sobre o assunto da morte de Mrs. Ferrars, mas logo vi que ali, pelo menos, eu a tinha julgado mal. Ela fez uma breve referência à tragédia, nada mais. No entanto, parecia certamente disposta a demorar-se e conversar.
— Bem, muito obrigada por este frasco de linimento, doutor — disse ela por fim. — Não que eu acredite que vá servir para alguma coisa.
Eu também não achava que serviria, mas protestei por dever de ofício. Afinal, mal não podia fazer, e deve-se defender as ferramentas do próprio ofício.
— Não acredito em todos esses remédios — disse Miss Russell, seus olhos percorrendo minha fileira de frascos com desdém. — Remédios fazem muito mal. Veja o vício em cocaína.
— Bem, até onde isso vai...
— É muito prevalente na alta sociedade.
Tenho certeza de que Miss Russell sabe muito mais sobre a alta sociedade do que eu. Não tentei argumentar com ela.
— Apenas me diga isto, doutor — disse Miss Russell. — Suponha que alguém seja realmente escravo do vício em drogas. Existe alguma cura?
Não se pode responder a uma pergunta dessas de improviso. Dei-lhe uma pequena preleção sobre o assunto, e ela ouviu com muita atenção. Eu ainda a suspeitava de buscar informações sobre Mrs. Ferrars.
— Agora, o veronal, por exemplo... — prossegui.
Mas, estranhamente, ela não parecia interessada em veronal. Em vez disso, mudou de assunto e perguntou-me se era verdade que existiam certos venenos tão raros que desafiavam a detecção.
— Ah! — disse eu. — Você tem lido histórias de detetive.
Ela admitiu que sim.
— A essência de uma história de detetive — disse eu — é ter um veneno raro — se possível algo da América do Sul, de que ninguém jamais ouviu falar — algo que uma tribo obscura de selvagens usa para envenenar suas flechas. A morte é instantânea, e a ciência ocidental é impotente para detectá-lo. É desse tipo de coisa que você quer dizer?
— Sim. Existe realmente algo assim?
Balancei a cabeça com pesar.
— Receio que não. Existe o curare, é claro.
Contei-lhe bastante sobre o curare, mas ela parecia ter perdido o interesse mais uma vez. Perguntou-me se eu tinha algum em meu armário de venenos, e quando respondi negativamente, imagino que caí no conceito dela.
Ela disse que precisava voltar, e eu a acompanhei até a porta do consultório bem na hora em que soou o gongo do almoço.
Eu nunca teria suspeitado de Miss Russell de uma predileção por histórias de detetive. Agrada-me muito pensar nela saindo do quarto da governanta para repreender uma criada delinquente e, então, retornando para uma leitura confortável de O Mistério da Sétima Morte, ou algo do gênero.
CAPÍTULO III
O HOMEM QUE CULTIVAVA ABÓBORAS
Disse a Caroline na hora do almoço que jantaria em Fernly. Ela não expressou objeção — pelo contrário...
— Excelente — disse ela. — Você saberá de tudo. A propósito, qual é o problema com Ralph?
— Com Ralph? — disse eu, surpreso. — Não há problema nenhum.
— Então por que ele está hospedado no Three Boars em vez de em Fernly Park?
Não questionei por um minuto a afirmação de Caroline de que Ralph Paton estava hospedado na estalagem local. O fato de Caroline dizer isso era o bastante para mim.
— Ackroyd me disse que ele estava em Londres — disse eu. Na surpresa do momento, afastei-me da minha valiosa regra de nunca revelar informações.
— Oh! — disse Caroline. Pude ver seu nariz tremendo enquanto ela processava isso.
— Ele chegou ao Three Boars ontem de manhã — disse ela. — E ainda está lá. Ontem à noite ele saiu com uma moça.
Isso não me surpreendeu nem um pouco. Ralph, devo dizer, sai com uma moça na maioria das noites de sua vida. Mas fiquei um tanto intrigado por ele ter escolhido se entregar ao passatempo em King’s Abbot em vez de na alegre metrópole.
— Uma das atendentes do bar? — perguntei.
— Não. É justamente isso. Ele saiu para encontrá-la. Não sei quem ela é.
(Amargo para Caroline ter que admitir tal coisa.)
— Mas posso adivinhar — continuou minha incansável irmã.
Esperei pacientemente.
— A prima dele.
— Flora Ackroyd? — exclamei, surpreso.
Flora Ackroyd, é claro, não tem parentesco algum realmente com Ralph Paton, mas Ralph é visto há tanto tempo praticamente como filho de Ackroyd, que o parentesco é dado como certo.
— Flora Ackroyd — disse minha irmã.
— Mas por que não ir a Fernly se ele queria vê-la?
— Estão secretamente noivos — disse Caroline, com imenso prazer. — O velho Ackroyd não quer nem ouvir falar nisso, e eles têm que se encontrar desse jeito.
Vi muitas falhas na teoria de Caroline, mas abstive-me de apontá-las para ela. Um comentário inocente sobre nosso novo vizinho criou uma distração.
A casa ao lado, The Larches, foi alugada recentemente por um estranho. Para extremo aborrecimento de Caroline, ela não conseguiu descobrir nada sobre ele, exceto que é um estrangeiro. O Serviço de Inteligência provou ser uma cana quebrada. Presumivelmente, o homem consome leite, vegetais, cortes de carne e pescadas ocasionais exatamente como qualquer outra pessoa, mas nenhuma das pessoas que fazem de seu negócio fornecer essas coisas parece ter adquirido qualquer informação. Seu nome, aparentemente, é Mr. Porrott — um nome que transmite uma estranha sensação de irrealidade. A única coisa que sabemos sobre ele é que se interessa pelo cultivo de abóboras.
Mas esse certamente não é o tipo de informação que Caroline procura. Ela quer saber de onde ele vem, o que faz, se é casado, como era ou é sua esposa, se tem filhos, qual era o nome de solteira de sua mãe — e assim por diante. Alguém muito parecido com Caroline deve ter inventado as perguntas nos passaportes, creio eu.
— Minha querida Caroline — disse eu. — Não há dúvida alguma sobre qual foi a profissão do homem. Ele é um barbeiro aposentado. Olhe aquele bigode dele.
Caroline discordou. Ela disse que, se o homem fosse barbeiro, ele teria cabelo ondulado — não liso. Todos os barbeiros tinham.
Citei vários barbeiros conhecidos pessoalmente por mim que tinham cabelo liso, mas Caroline recusou-se a ser convencida.
— Não consigo entendê-lo de jeito nenhum — disse ela em tom ofendido. — Emprestei algumas ferramentas de jardim outro dia, e ele foi muito educado, mas não consegui tirar nada dele. Perguntei-lhe direto, finalmente, se ele era francês, e ele disse que não — e, de alguma forma, não me senti à vontade para perguntar mais nada.
Comecei a me interessar mais pelo nosso misterioso vizinho. Um homem capaz de calar Caroline e mandá-la, como a Rainha de Sabá, embora de mãos vazias, deve ter certa personalidade.
— Acredito — disse Caroline — que ele tenha um daqueles novos aspiradores de pó...
Vi um empréstimo planejado e a oportunidade de mais questionamentos brilhando em seus olhos. Aproveitei a chance para escapar para o jardim. Gosto bastante de jardinagem. Estava ocupado exterminando raízes de dente-de-leão quando um grito de aviso soou bem perto e um corpo pesado passou zunindo pela minha orelha e caiu a meus pés com um estalo repulsivo. Era uma abóbora!
Olhei para cima, irritado. Sobre o muro, à minha esquerda, apareceu um rosto. Uma cabeça em forma de ovo, parcialmente coberta por cabelos suspeitamente pretos, dois bigodes imensos e um par de olhos atentos. Era nosso misterioso vizinho, Mr. Porrott.
Ele desatou imediatamente em desculpas fluentes.
— Peço-lhe mil perdões, monsieur. Estou sem defesa. Há alguns meses cultivo as abóboras. Esta manhã, de repente, enfureci-me com essas abóboras. Mandei-as passear — ai! não apenas mentalmente, mas fisicamente. Agarrei a maior. Arremessei-a por cima do muro. Monsieur, estou envergonhado. Prostro-me.
Diante de tão profusas desculpas, minha raiva foi forçada a derreter. Afinal, o infeliz vegetal não tinha me atingido. Mas eu esperava sinceramente que jogar vegetais grandes por cima de muros não fosse o passatempo do nosso novo amigo. Tal hábito dificilmente o tornaria querido para nós como vizinho.
O estranho homenzinho parecia ler meus pensamentos.
— Ah! não — exclamou ele. — Não se inquiete. Não é um hábito comigo. Mas pode imaginar, monsieur, que um homem pode trabalhar em direção a um determinado objetivo, pode labutar e trabalhar para alcançar certo tipo de lazer e ocupação, e então descobrir que, afinal, ele anseia pelos velhos dias ocupados e pelas velhas ocupações que pensava estar tão feliz em deixar?
— Sim — disse eu lentamente. — Imagino que essa seja uma ocorrência comum. Eu mesmo sou talvez um exemplo. Há um ano, recebi uma herança — o suficiente para me permitir realizar um sonho. Sempre quis viajar, ver o mundo. Bem, isso foi há um ano, como disse, e... ainda estou aqui.
Meu pequeno vizinho assentiu.
— As correntes do hábito. Trabalhamos para alcançar um objetivo e, o objetivo alcançado, descobrimos que o que nos falta é o labutar diário. E note, monsieur, meu trabalho era um trabalho interessante. O trabalho mais interessante que existe no mundo.
— Sim? — disse eu, encorajador. Por um momento, o espírito de Caroline estava forte dentro de mim.
— O estudo da natureza humana, monsieur!
— Exatamente — disse eu, gentilmente.
Claramente, um barbeiro aposentado. Quem conhece os segredos da natureza humana melhor do que um barbeiro?
— Além disso, eu tinha um amigo — um amigo que por muitos anos nunca saiu do meu lado. Ocasionalmente de uma imbecilidade a fazer alguém ter medo, no entanto, ele era muito caro para mim. Imagine que sinto falta até mesmo de sua estupidez. Sua ingenuidade, sua visão honesta, o prazer de deleitar e surpreendê-lo com meus dons superiores — tudo isso sinto falta mais do que posso dizer.
— Ele morreu? — perguntei, solidário.
— Não. Ele vive e prospera — mas do outro lado do mundo. Ele está agora na Argentina.
— Na Argentina — disse eu, com inveja.
Sempre quis ir à América do Sul. Suspirei e, então, olhei para cima para encontrar Mr. Porrott me observando com simpatia. Ele parecia um homenzinho compreensivo.
— Você irá lá, sim? — perguntou ele.
Balancei a cabeça com um suspiro.
— Eu poderia ter ido — disse eu — há um ano. Mas fui tolo — e pior do que tolo — ganancioso. Arrisquei o que era real pela sombra.
— Compreendo — disse Mr. Porrott. — Você especulou?
Assenti com tristeza, mas, apesar de mim mesmo, senti-me secretamente entretido. Esse homenzinho ridículo era tão portentosa e solenemente grave.
— Não os campos de petróleo de Porcupine? — perguntou ele, de repente.
Fiquei olhando.
— Pensei neles, na verdade, mas, no final, apostei em uma mina de ouro na Austrália Ocidental.
Meu vizinho me observava com uma expressão estranha que não consegui decifrar.
— É o Destino — disse ele, por fim.
— O que é o Destino? — perguntei, irritado.
— Que eu deva viver ao lado de um homem que considera seriamente os campos de petróleo de Porcupine e também minas de ouro da Austrália Ocidental. Diga-me, você também tem uma queda por cabelos ruivos?
Olhei para ele de boca aberta, e ele explodiu em risadas.
— Não, não, não é essa a insanidade da qual sofro. Tranquilize-se. Foi uma pergunta tola que lhe fiz, pois, veja, o amigo de quem falei era um jovem, um homem que achava todas as mulheres boas e a maioria delas bonita. Mas você é um homem de meia-idade, um médico, um homem que conhece a loucura e a vaidade da maioria das coisas nesta nossa vida. Bem, bem, somos vizinhos. Peço-lhe que aceite e presenteie sua excelente irmã com minha melhor abóbora.
Ele abaixou-se e, com um floreio, produziu um espécime imenso da tribo, que aceitei devidamente com o espírito com que foi oferecido.
— De fato — disse o homenzinho, alegremente —, esta não foi uma manhã desperdiçada. Fiz o conhecimento de um homem que, de certa forma, se parece com meu amigo distante. A propósito, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você sem dúvida conhece todos neste pequeno vilarejo. Quem é o jovem com cabelos e olhos muito escuros e rosto bonito? Ele caminha com a cabeça erguida e um sorriso fácil nos lábios?
A descrição não me deixou dúvidas.
— Esse deve ser o Capitão Ralph Paton — disse eu lentamente.
— Não o vi por aqui antes?
— Não, ele não está aqui há algum tempo. Mas ele é filho — filho adotivo, melhor dizendo — de Mr. Ackroyd de Fernly Park.
Meu vizinho fez um leve gesto de impaciência.
— É claro, eu deveria ter adivinhado. Mr. Ackroyd falou dele muitas vezes.
— Você conhece Mr. Ackroyd? — disse eu, ligeiramente surpreso.
— Mr. Ackroyd conheceu-me em Londres — quando eu trabalhava lá. Pedi-lhe que não dissesse nada sobre minha profissão aqui embaixo.
— Entendo — disse eu, bastante divertido com esse esnobismo patente, como pensei ser.
Mas o homenzinho continuou com um sorriso quase grandiloquente.
— Prefere-se permanecer incógnito. Não estou ansioso por notoriedade. Não me dei nem ao trabalho de corrigir a versão local do meu nome.
— De fato — disse eu, sem saber bem o que dizer.
— Capitão Ralph Paton — refletiu Mr. Porrott. — E, portanto, ele está noivo da sobrinha de Mr. Ackroyd, a encantadora Miss Flora.
— Quem lhe disse isso? — perguntei, muito surpreso.
— Mr. Ackroyd. Cerca de uma semana atrás. Ele está muito satisfeito com isso — há muito desejava que tal coisa acontecesse, ou assim entendi dele. Acredito até que ele tenha exercido certa pressão sobre o jovem. Isso nunca é sensato. Um jovem deve se casar para agradar a si mesmo — não para agradar a um padrasto de quem ele tem expectativas.
Minhas ideias estavam completamente transtornadas. Eu não conseguia ver Ackroyd confiando em um barbeiro e discutindo o casamento de sua sobrinha e enteado com ele. Ackroyd estende um patrocínio genial às classes inferiores, mas tem um senso muito grande de sua própria dignidade. Comecei a pensar que Porrott não poderia ser um barbeiro, afinal.
Para esconder minha confusão, disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
— O que fez você notar Ralph Paton? Sua boa aparência?
— Não, não apenas isso — embora ele seja excepcionalmente bonito para um inglês — o que suas romancistas chamariam de Deus Grego. Não, havia algo naquele jovem que eu não compreendia.
Ele disse a última frase em um tom de voz pensativo que me causou uma impressão indefinível. Era como se ele estivesse resumindo o rapaz à luz de algum conhecimento interior que eu não compartilhava. Foi essa a impressão que ficou comigo, pois, naquele momento, a voz de minha irmã me chamou de dentro da casa.
Entrei. Caroline estava de chapéu e, evidentemente, acabara de chegar do vilarejo. Ela começou sem preâmbulos.
— Encontrei Mr. Ackroyd.
— Sim? — disse eu.
— Eu o parei, é claro, mas ele parecia com muita pressa e ansioso para ir embora.
Não tenho dúvidas de que esse era o caso. Ele se sentiria em relação a Caroline como se sentira em relação a Miss Ganett mais cedo no dia — talvez mais. Caroline é menos fácil de despistar.
— Perguntei-lhe imediatamente sobre Ralph. Ele ficou absolutamente atônito. Não fazia ideia de que o rapaz estava aqui. Ele realmente disse que achava que eu devia ter cometido um erro. Eu! Um erro!
— Ridículo — disse eu. — Ele deveria conhecê-la melhor.
— Então ele continuou me dizendo que Ralph e Flora estão noivos.
— Eu também sei disso — interrompi, com orgulho modesto.
— Quem lhe contou?
— Nosso novo vizinho.
Caroline vacilou visivelmente por um ou dois segundos, muito como uma bola de roleta poderia timidamente pairar entre dois números. Então ela recusou a tentadora pista falsa.
— Eu disse a Mr. Ackroyd que Ralph estava hospedado no Three Boars.
— Caroline — disse eu —, você nunca reflete que pode causar muito mal com esse seu hábito de repetir tudo indiscriminadamente?
— Tolice — disse minha irmã. — As pessoas devem saber das coisas. Considero meu dever contar-lhes. Mr. Ackroyd ficou muito grato a mim.
— Bem? — disse eu, pois claramente havia mais por vir.
— Acho que ele foi direto para o Three Boars, mas, se foi, não encontrou Ralph lá.
— Não?
— Não. Porque, enquanto eu voltava pelo bosque...
— Voltando pelo bosque? — interrompi.
Caroline teve a graça de corar.
— Era um dia tão adorável — exclamou ela. — Pensei em fazer uma pequena volta. Os bosques com seus tons outonais são tão perfeitos nesta época do ano.
Caroline não liga a mínima para bosques em qualquer época do ano. Normalmente, ela os encara como lugares onde se fica com os pés úmidos e onde todo tipo de coisa desagradável pode cair em sua cabeça. Não, foi o bom e sólido instinto de mangusto que a levou ao nosso bosque local. É o único lugar adjacente ao vilarejo de King’s Abbot onde se pode conversar com uma jovem sem ser visto por todo o vilarejo. Fica ao lado do parque de Fernly.
— Bem — disse eu —, continue.
— Como eu disse, eu estava justamente voltando pelo bosque quando ouvi vozes.
Caroline fez uma pausa.
— Sim?
— Uma era a de Ralph Paton — reconheci imediatamente. A outra era de uma moça. É claro que eu não pretendia ouvir...
— É claro que não — interjetei, com sarcasmo patente — que, no entanto, foi desperdiçado em Caroline.
— Mas simplesmente não pude evitar de ouvir. A moça disse algo — não entendi bem o que era, e Ralph respondeu. Ele parecia muito irritado. "Minha querida moça", disse ele. "Você não percebe que é muito provável que o velho me deserde com um xelim? Ele tem estado bem farto de mim nos últimos anos. Um pouco mais e isso aconteceria. E precisamos do dinheiro, minha querida. Serei um homem muito rico quando o velho bater as botas. Ele é mesquinho como ninguém, mas está nadando em dinheiro, na verdade. Não quero que ele altere seu testamento. Deixe comigo e não se preocupe." Essas foram suas palavras exatas. Lembro-me delas perfeitamente. Infelizmente, bem nessa hora, pisei em um galho seco ou algo assim, e eles baixaram a voz e se afastaram. Não pude, é claro, sair correndo atrás deles, então não consegui ver quem era a moça.
— Isso deve ter sido muito vexatório — disse eu. — Suponho, porém, que você tenha corrido para o Three Boars, sentiu-se fraca e entrou no bar para tomar um copo de conhaque, e assim pôde ver se ambas as atendentes estavam de serviço?
— Não era uma atendente de bar — disse Caroline, sem hesitar. — Na verdade, tenho quase certeza de que era Flora Ackroyd, apenas...
— Apenas não parece fazer sentido — concordei.
— Mas se não era Flora, quem poderia ter sido?
Rapidamente minha irmã passou por uma lista de moças que vivem na vizinhança, com profusos motivos a favor e contra.
Quando ela parou para respirar, murmurei algo sobre um paciente e saí de fininho.
Propus-me a seguir em direção ao Three Boars. Parecia provável que Ralph Paton tivesse retornado para lá agora.
Eu conhecia Ralph muito bem — melhor, talvez, do que qualquer outra pessoa em King’s Abbot, pois conhecera sua mãe antes dele e, portanto, entendia muito nele que intrigava os outros. Ele era, até certo ponto, vítima da hereditariedade. Não herdara a fatal propensão de sua mãe para a bebida, mas, ainda assim, tinha nele um traço de fraqueza. Como meu novo amigo desta manhã declarara, ele era extraordinariamente bonito. Com quase um metro e oitenta, perfeitamente proporcionado, com a graça fácil de um atleta, era moreno, como a mãe, com um rosto bonito e bronzeado sempre pronto para se abrir em um sorriso. Ralph Paton era daqueles nascidos para encantar facilmente e sem esforço. Ele era indulgente e extravagante, sem veneração por nada na terra, mas era amável, apesar de tudo, e seus amigos eram todos devotados a ele.
Poderia eu fazer algo pelo rapaz? Pensei que pudesse.
Ao perguntar no Three Boars, descobri que o Capitão Paton acabara de chegar. Subi para seu quarto e entrei sem anunciar.
Por um momento, recordando o que ouvira e vira, tive dúvidas quanto à minha recepção, mas não precisaria ter tido receio.
“Ora, é o Sheppard! Fico feliz em vê-lo.”
Ele veio ao meu encontro, com a mão estendida, um sorriso radiante iluminando-lhe o rosto.
“A única pessoa que fico feliz em ver neste lugar infernal.”
Ergui as sobrancelhas.
“O que o lugar tem feito?”
Ele deu uma risada irritada.
“É uma longa história. As coisas não têm ido bem comigo, doutor. Mas tome uma bebida, não quer?”
“Obrigado”, disse eu, “aceito.”
Ele apertou a campainha e, voltando, jogou-se em uma poltrona.
“Sem rodeios”, disse ele sombriamente, “estou em uma confusão dos diabos. Na verdade, não tenho a menor ideia do que fazer a seguir.”
“Qual é o problema?” perguntei com simpatia.
“É o meu maldito padrasto.”
“O que ele fez?”
“Não é o que ele já fez, mas o que é provável que faça.”
A campainha foi atendida, e Ralph pediu as bebidas. Quando o homem se retirou, ele ficou sentado, curvado na poltrona, franzindo a testa para si mesmo.
“É realmente... grave?” perguntei.
Ele assentiu.
“Estou seriamente encrencado desta vez”, disse ele com sobriedade.
O tom incomum de gravidade em sua voz disse-me que ele falava a verdade. Era preciso muito para deixar Ralph grave.
“Na verdade”, continuou ele, “não consigo ver um caminho a seguir... Maldita seja, eu não consigo.”
“Se eu pudesse ajudar...” sugeri timidamente.
Mas ele balançou a cabeça de forma muito decidida.
“Gentileza sua, doutor. Mas não posso deixá-lo entrar nisso. Tenho que jogar este jogo sozinho.”
Ele ficou em silêncio por um minuto e então repetiu em um tom de voz ligeiramente diferente:—
“Sim... tenho que jogar este jogo sozinho...”
CAPÍTULO IV
JANTAR EM FERNLY
Faltavam apenas alguns minutos para as sete e meia quando toquei a campainha da porta da frente de Fernly Park. A porta foi aberta com admirável prontidão por Parker, o mordomo.
A noite estava tão bela que eu preferira vir a pé. Entrei no grande saguão quadrado e Parker livrou-me do sobretudo. Nesse momento, o secretário de Ackroyd, um jovem agradável chamado Raymond, passou pelo saguão a caminho do escritório de Ackroyd, com as mãos cheias de papéis.
“Boa noite, doutor. Vem jantar? Ou é um chamado profissional?”
A última pergunta era uma alusão à minha bolsa preta, que eu havia pousado sobre o baú de carvalho.
Expliquei que esperava um chamado para um parto a qualquer momento e, por isso, saí preparado para uma emergência. Raymond assentiu e seguiu seu caminho, chamando por cima do ombro:—
“Vá para a sala de estar. Você conhece o caminho. As senhoras descerão em um minuto. Devo apenas levar estes papéis ao Sr. Ackroyd e direi a ele que você está aqui.”
Com o aparecimento de Raymond, Parker retirara-se, então eu estava sozinho no saguão. Ajeitei a gravata, olhei-me em um grande espelho que ali estava pendurado e atravessei para a porta que ficava diretamente à minha frente, que era, como eu sabia, a porta da sala de estar.
Notei, exatamente quando girava a maçaneta, um som vindo de dentro — o fechar de uma janela, presumi. Notei, devo dizer, de forma totalmente mecânica, sem atribuir qualquer importância a isso naquele momento.
Abri a porta e entrei. Ao fazê-lo, quase colidi com a Srta. Russell, que estava saindo. Ambos nos desculpamos.
Pela primeira vez, vi-me avaliando a governanta e pensando em quão bela mulher ela deve ter sido um dia — na verdade, no que diz respeito a isso, ainda era. Seus cabelos escuros não tinham fios brancos e, quando ela estava corada, como estava naquele minuto, a natureza severa de sua aparência não era tão evidente.
Inconscientemente, perguntei-me se ela estivera fora, pois estava ofegante, como se tivesse corrido.
“Receio ter me adiantado alguns minutos”, disse eu.
“Oh! Não creio. Já passou das sete e meia, Dr. Sheppard.” Ela hesitou um minuto antes de dizer: “Eu... não sabia que o senhor era esperado para jantar hoje. O Sr. Ackroyd não mencionou isso.”
Tive uma vaga impressão de que meu jantar ali a desagradava de alguma forma, mas não conseguia imaginar por quê.
“Como está o joelho?” indaguei.
“Muito parecido, obrigada, doutor. Devo ir agora. A Sra. Ackroyd descerá em um momento. Eu... eu só vim aqui para ver se as flores estavam bem.”
Ela saiu rapidamente da sala. Caminhei até a janela, intrigado com seu evidente desejo de justificar sua presença no recinto. Ao fazê-lo, vi o que, naturalmente, eu poderia saber o tempo todo se me tivesse dado ao trabalho de pensar nisso, a saber, que as janelas eram longas janelas francesas que davam para o terraço. O som que ouvira, portanto, não poderia ter sido o de uma janela sendo fechada.
Muito ociosamente, e mais para distrair minha mente de pensamentos dolorosos do que por qualquer outra razão, diverti-me tentando adivinhar o que poderia ter causado o som em questão.
Carvões na lareira? Não, não era esse o tipo de ruído. A gaveta da escrivaninha fechada? Não, não era isso.
Então, meus olhos foram atraídos pelo que acredito ser chamado de mesa de prata, cuja tampa se eleva, e através do vidro da qual se pode ver o conteúdo. Aproximei-me e estudei as peças. Havia uma ou duas peças de prata antiga, um sapatinho de bebê pertencente ao Rei Carlos I, algumas figuras de jade chinês e um bom número de utensílios e curiosidades africanas. Querendo examinar uma das figuras de jade mais de perto, levantei a tampa. Ela escorregou pelos meus dedos e caiu.
Imediatamente reconheci o som que ouvira. Era essa mesma tampa da mesa sendo fechada suave e cuidadosamente. Repeti a ação uma ou duas vezes para minha própria satisfação. Então levantei a tampa para examinar o conteúdo mais de perto.
Eu ainda estava curvado sobre a mesa de prata aberta quando Flora Ackroyd entrou na sala.
Muitas pessoas não gostam de Flora Ackroyd, mas ninguém pode deixar de admirá-la. E, para seus amigos, ela pode ser muito encantadora. A primeira coisa que impressiona nela é sua extraordinária alvura. Ela tem o verdadeiro cabelo loiro pálido escandinavo. Seus olhos são azuis — azuis como as águas de um fiorde norueguês, e sua pele é como creme e rosas. Ela tem ombros quadrados, quase masculinos, e quadris estreitos. E, para um médico cansado, é muito revigorante encontrar tal saúde perfeita.
Uma moça inglesa simples e direta — posso ser antiquado, mas penso que o produto genuíno é difícil de superar.
Flora juntou-se a mim junto à mesa de prata e expressou dúvidas heréticas sobre o Rei Carlos I ter algum dia usado o sapatinho de bebê.
“E de qualquer forma”, continuou a Srta. Flora, “todo esse alvoroço sobre as coisas porque alguém as usou ou vestiu parece-me um absurdo. Elas não estão usando nem vestindo nada agora. A caneta com a qual George Eliot escreveu *O Moinho à Beira do Rio* — esse tipo de coisa — bem, no fim das contas, é apenas uma caneta. Se você gosta mesmo de George Eliot, por que não compra *O Moinho à Beira do Rio* em uma edição barata e o lê?”
“Suponho que a senhorita nunca leia essas coisas antigas e ultrapassadas, Srta. Flora?”
“O senhor está enganado, Dr. Sheppard. Eu adoro *O Moinho à Beira do Rio*.”
Fiquei bastante satisfeito ao ouvir isso. As coisas que as jovens leem hoje em dia e professam apreciar me assustam positivamente.
“O senhor ainda não me deu os parabéns, Dr. Sheppard”, disse Flora. “Não soube?”
Ela estendeu a mão esquerda. No terceiro dedo, havia uma pérola única, primorosamente engastada.
“Vou me casar com Ralph, sabe”, continuou ela. “O tio está muito satisfeito. Mantém-me na família, vê só.”
Peguei ambas as mãos dela nas minhas.
“Minha querida”, disse eu, “espero que seja muito feliz.”
“Estamos noivos há cerca de um mês”, continuou Flora com sua voz calma, “mas só foi anunciado ontem. O tio vai reformar Cross-stones e nos dará para morarmos, e vamos fingir que cuidamos da fazenda. Na verdade, caçaremos o inverno todo, iremos à cidade para a temporada e depois faremos iatismo. Adoro o mar. E, é claro, interessar-me-ei muito pelos assuntos da paróquia e comparecerei a todas as reuniões de mães.”
Nesse momento, a Sra. Ackroyd entrou farfalhando, cheia de desculpas por estar atrasada.
Sinto dizer que detesto a Sra. Ackroyd. Ela é feita de correntes, dentes e ossos. Uma mulher muito desagradável. Ela tem olhos pequenos, pálidos e frios como sílex, e por mais efusivas que sejam suas palavras, seus olhos permanecem sempre friamente especulativos.
Caminhei até ela, deixando Flora perto da janela. Ela me deu um punhado de nós dos dedos e anéis para apertar e começou a falar de forma volúvel.
Eu já ouvira falar do noivado de Flora? Tão adequado em todos os aspectos. Os queridos jovens apaixonaram-se à primeira vista. Um par tão perfeito, ele tão moreno e ela tão loira.
“Não posso lhe dizer, meu caro Dr. Sheppard, o alívio que é para o coração de uma mãe.”
A Sra. Ackroyd suspirou — um tributo ao seu coração de mãe, enquanto seus olhos permaneciam observando-me astutamente.
“Eu estava me perguntando. O senhor é um amigo tão antigo do querido Roger. Sabemos o quanto ele confia no seu julgamento. Tão difícil para mim — na minha posição, como viúva do pobre Cecil. Mas há tantas coisas cansativas — acordos, sabe — tudo isso. Acredito piamente que Roger pretenda fazer acordos para a querida Flora, mas, como o senhor sabe, ele é apenas um pouquinho peculiar com dinheiro. Muito comum, ouvi dizer, entre homens que são capitães da indústria. Perguntei-me, sabe, se o senhor poderia simplesmente sondá-lo sobre o assunto? Flora gosta tanto do senhor. Sentimos que é um velho amigo, embora só o conheçamos verdadeiramente há pouco mais de dois anos.”
A eloquência da Sra. Ackroyd foi interrompida quando a porta da sala de estar se abriu mais uma vez. Fiquei satisfeito com a interrupção. Odeio interferir nos assuntos dos outros e não tinha a menor intenção de abordar Ackroyd sobre o assunto dos acordos de Flora. Em mais um momento, teria sido forçado a dizer o mesmo à Sra. Ackroyd.
“O senhor conhece o Major Blunt, não é, doutor?”
“Sim, de fato”, disse eu.
Muitas pessoas conhecem Hector Blunt — pelo menos de reputação. Ele caçou mais animais selvagens em lugares improváveis do que qualquer homem vivo, suponho. Quando se menciona o nome dele, as pessoas dizem: “Blunt — você não quer dizer o homem da caça grossa, quer?”
Sua amizade com Ackroyd sempre me intrigou um pouco. Os dois homens são totalmente diferentes. Hector Blunt deve ser uns cinco anos mais novo que Ackroyd. Eles fizeram amizade cedo na vida e, embora seus caminhos tenham se separado, a amizade ainda perdura. Cerca de uma vez a cada dois anos, Blunt passa uma quinzena em Fernly, e a imensa cabeça de um animal, com um número incrível de chifres que o fixa com um olhar vidrado assim que se entra pela porta da frente, é um lembrete permanente da amizade.
Blunt entrara na sala agora com seu passo peculiar, deliberado, porém silencioso. Ele é um homem de estatura média, de constituição robusta e bastante atarracada. Seu rosto é quase da cor de mogno e é estranhamente inexpressivo. Ele tem olhos cinzentos que dão a impressão de estar sempre observando algo que acontece muito longe. Ele fala pouco, e o que diz é dito de forma brusca, como se as palavras fossem forçadas a sair dele contra a vontade.
Ele disse agora: “Como vai, Sheppard?”, à sua maneira habitual e abrupta, e então ficou parado diretamente em frente à lareira, olhando por cima de nossas cabeças como se visse algo muito interessante acontecendo em Tombuctu.
“Major Blunt”, disse Flora, “gostaria que me contasse sobre essas coisas africanas. Tenho certeza de que sabe o que são todas elas.”
Ouvi dizer que Hector Blunt é um misógino, mas notei que ele se juntou a Flora na mesa de prata com o que poderia ser descrito como prontidão. Eles se inclinaram sobre ela juntos.
Tive medo de que a Sra. Ackroyd voltasse a falar sobre acordos, então fiz alguns comentários apressados sobre as novas ervilhas-de-cheiro. Eu sabia que havia uma nova ervilha-de-cheiro porque o Daily Mail me dissera isso naquela manhã. A Sra. Ackroyd não sabe nada sobre horticultura, mas ela é o tipo de mulher que gosta de parecer bem informada sobre os tópicos do dia, e ela também lê o Daily Mail. Conseguimos conversar de forma bastante inteligente até que Ackroyd e seu secretário se juntassem a nós e, logo depois, Parker anunciou o jantar.
Meu lugar à mesa era entre a Sra. Ackroyd e Flora. Blunt estava do outro lado da Sra. Ackroyd, e Geoffrey Raymond ao lado dele.
O jantar não foi um evento alegre. Ackroyd estava visivelmente preocupado. Ele parecia infeliz e quase não comeu nada. A Sra. Ackroyd, Raymond e eu mantivemos a conversa fluindo. Flora parecia afetada pela depressão do tio, e Blunt voltou à sua habitual taciturnidade.
Imediatamente após o jantar, Ackroyd passou o braço pelo meu e me levou para seu escritório.
“Assim que tomarmos café, não seremos mais perturbados”, explicou ele. “Disse a Raymond para garantir que não fôssemos interrompidos.”
Observei-o calmamente sem parecer fazê-lo. Ele estava claramente sob a influência de uma forte agitação. Por um minuto ou dois, ele andou de um lado para o outro na sala, então, quando Parker entrou com a bandeja de café, ele afundou em uma poltrona em frente à lareira.
O escritório era um ambiente confortável. Estantes de livros forravam uma das paredes. As poltronas eram grandes e cobertas de couro azul-escuro. Uma grande escrivaninha ficava junto à janela e estava coberta de papéis cuidadosamente arquivados e classificados. Em uma mesa redonda, havia várias revistas e jornais esportivos.
“Tenho tido um retorno daquela dor após as refeições ultimamente”, comentou Ackroyd casualmente, enquanto se servia de café. “O senhor precisa me dar mais daqueles seus comprimidos.”
Chamou-me a atenção o fato de ele estar ansioso para transmitir a impressão de que nossa conferência era médica. Entrei no jogo de acordo.
“Pensei que sim. Trouxe alguns comigo.”
“Bom homem. Passe-os para cá agora.”
“Estão na minha bolsa no saguão. Vou pegá-los.”
Ackroyd me deteve.
“Não se incomode. Parker irá buscá-los. Traga a bolsa do doutor, quer, Parker?”
“Muito bem, senhor.”
Parker retirou-se. Quando eu estava prestes a falar, Ackroyd levantou a mão.
“Ainda não. Espere. Não vê que estou em tal estado de nervos que mal consigo me conter?”
Vi isso claramente o suficiente. E fiquei muito inquieto. Todos os tipos de pressentimentos me assaltaram.
Ackroyd falou novamente quase imediatamente.
“Certifique-se de que aquela janela esteja fechada, quer?”, pediu ele.
Um tanto surpreso, levantei-me e fui até ela. Não era uma janela francesa, mas uma do tipo guilhotina comum. As pesadas cortinas de veludo azul estavam fechadas na frente dela, mas a própria janela estava aberta na parte superior.
Parker reentrou na sala com minha bolsa enquanto eu ainda estava na janela.
“Está tudo bem”, disse eu, emergindo de volta para a sala.
“Você colocou a trava?”
“Sim, sim. O que há com você, Ackroyd?”
A porta acabara de se fechar atrás de Parker, ou eu não teria feito a pergunta.
Ackroyd esperou apenas um minuto antes de responder.
“Estou no inferno”, disse ele lentamente, após um momento. “Não, não se preocupe com esses malditos comprimidos. Só disse isso para o Parker. Criados são tão curiosos. Venha aqui e sente-se. A porta também está fechada, não está?”
“Sim. Ninguém pode ouvir; não fique inquieto.”
“Sheppard, ninguém sabe o que passei nas últimas vinte e quatro horas. Se a casa de um homem algum dia caiu em ruínas sobre ele, a minha caiu sobre mim. Este caso do Ralph é a gota d'água. Mas não falaremos sobre isso agora. É o outro — o outro...! Não sei o que fazer a respeito. E tenho que me decidir logo.”
“Qual é o problema?”
Ackroyd permaneceu em silêncio por um minuto ou dois. Ele parecia estranhamente avesso a começar. Quando ele finalmente falou, a pergunta que fez veio como uma completa surpresa. Foi a última coisa que eu esperava.
“Sheppard, o senhor atendeu Ashley Ferrars em sua última doença, não foi?”
“Sim, atendi.”
Ele pareceu encontrar ainda mais dificuldade em formular sua próxima pergunta.
“O senhor nunca suspeitou — nunca lhe passou pela cabeça — que... bem, que ele poderia ter sido envenenado?”
Fiquei em silêncio por um minuto ou dois. Então decidi o que dizer. Roger Ackroyd não era Caroline.
“Direi a verdade”, disse eu. “Na época, não tive suspeita alguma, mas desde então — bem, foi uma conversa fiada da minha irmã que primeiro colocou a ideia na minha cabeça. Desde então, não consegui tirá-la. Mas, veja bem, não tenho base alguma para essa suspeita.”
“Ele foi envenenado”, disse Ackroyd.
Ele falou com uma voz monótona e pesada.
“Por quem?”, perguntei bruscamente.
“Pela esposa dele.”
“Como o senhor sabe disso?”
“Ela mesma me contou.”
“Quando?”
“Ontem! Meu Deus! Ontem! Parece que faz dez anos.”
Esperei um minuto, e então ele continuou.
“O senhor entende, Sheppard, estou lhe dizendo isso em confiança. Não deve ir adiante. Quero seu conselho — não posso carregar todo o peso sozinho. Como disse agora pouco, não sei o que fazer.”
“Pode me contar a história toda?”, disse eu. “Ainda estou no escuro. Como a Sra. Ferrars chegou a fazer essa confissão ao senhor?”
“É assim. Três meses atrás, pedi a Sra. Ferrars em casamento. Ela recusou. Pedi novamente e ela consentiu, mas se recusou a permitir que eu tornasse o noivado público até que seu ano de luto terminasse. Ontem, fui visitá-la, apontei que um ano e três semanas já haviam se passado desde a morte de seu marido e que não poderia haver mais objeções em tornar o noivado público. Eu notara que ela estava muito estranha em seu comportamento há alguns dias. Agora, de repente, sem o menor aviso, ela desmoronou completamente. Ela... ela me contou tudo. Seu ódio pelo marido bruto, seu amor crescente por mim, e os... os meios terríveis que ela usou. Veneno! Meu Deus! Foi assassinato a sangue frio.”
Vi a repulsa, o horror no rosto de Ackroyd. Então a Sra. Ferrars deve ter visto isso. Ackroyd não é o tipo de grande amante que pode perdoar tudo por amor. Ele é fundamentalmente um bom cidadão. Tudo o que havia de são, íntegro e cumpridor da lei nele deve ter se voltado dela completamente naquele momento de revelação.
“Sim”, continuou ele, em uma voz baixa e monótona, “ela confessou tudo. Parece que há uma pessoa que sabia de tudo o tempo todo — que a vinha chantageando por enormes somas. Foi a pressão disso que a deixou quase louca.”
“Quem era o homem?”
De repente, diante dos meus olhos, surgiu a imagem de Ralph Paton e da Sra. Ferrars lado a lado. Suas cabeças tão próximas uma da outra. Senti uma momentânea pontada de ansiedade. Supondo que... oh! mas isso era certamente impossível. Lembrei-me da franqueza da saudação de Ralph naquela mesma tarde. Absurdo!
“Ela não quis me dizer o nome dele”, disse Ackroyd lentamente. “Na verdade, ela não disse exatamente que era um homem. Mas é claro...”
“É claro”, concordei. “Deve ter sido um homem. E o senhor não tem suspeita alguma?”
Como resposta, Ackroyd gemeu e enterrou o rosto nas mãos.
“Não pode ser”, disse ele. “Estou louco até por pensar em tal coisa. Não, não admitirei nem a você a suspeita selvagem que cruzou minha mente. Direi isto, no entanto. Algo que ela disse me fez pensar que a pessoa em questão poderia estar, na verdade, entre os membros da minha casa — mas isso não pode ser verdade. Devo tê-la compreendido mal.”
“O que o senhor disse a ela?”, perguntei.
“O que eu poderia dizer? Ela viu, é claro, o choque terrível que aquilo fora para mim. E então havia a questão: qual era o meu dever no assunto? Ela me tornara, veja bem, um cúmplice após o fato. Ela viu tudo isso, creio eu, mais rápido do que eu. Eu estava atordoado, sabe. Ela me pediu vinte e quatro horas — fez-me prometer não fazer nada até o fim desse tempo. E ela obstinadamente recusou-se a me dar o nome do canalha que a vinha chantageando. Suponho que ela estivesse com medo de que eu pudesse sair imediatamente e dar uma surra nele, e então o estrago estaria feito no que dizia respeito a ela. Ela me disse que eu teria notícias dela antes que as vinte e quatro horas tivessem passado. Meu Deus! Juro-lhe, Sheppard, que nunca passou pela minha cabeça o que ela pretendia fazer. Suicídio! E eu a conduzi a isso.”
“Não, não”, eu disse. “Não tenha uma visão exagerada das coisas. A responsabilidade pela morte dela não está em suas mãos.”
“A questão é: o que devo fazer agora? A pobre dama está morta. Por que remexer em problemas passados?”
“Eu concordo bastante com o senhor”, eu disse.
“Mas há outro ponto. Como hei de colocar as mãos naquele canalha que a levou à morte tão certamente como se a tivesse matado? Ele sabia do primeiro crime, e a agarrou como algum abutre obsceno. Ela pagou a pena. Ele deve sair ileso?”
“Entendo”, eu disse lentamente. “O senhor quer caçá-lo? Isso significará muita publicidade, sabe.”
“Sim, pensei nisso. Zigzagreei para lá e para cá em minha mente.”
“Concordo com o senhor que o vilão deveria ser punido, mas o custo tem de ser calculado.”
Ackroyd levantou-se e caminhou de um lado para o outro. Logo, afundou-se na poltrona novamente.
“Veja bem, Sheppard, suponha que deixemos assim. Se nenhuma notícia vier dela, deixaremos as coisas mortas em paz.”
“O que quer dizer com notícia vinda dela?”, perguntei curiosamente.
“Tenho a mais forte impressão de que, em algum lugar ou de alguma maneira, ela deve ter deixado uma mensagem para mim — antes de partir. Não posso argumentar sobre isso, mas é o que sinto.”
Eu balancei a cabeça.
“Ela não deixou carta ou palavra de qualquer espécie. Eu perguntei.”
“Sheppard, estou convencido de que ela deixou. E mais, tenho a sensação de que, ao escolher deliberadamente a morte, ela queria que tudo viesse à tona, nem que fosse para se vingar do homem que a levou ao desespero. Acredito que, se eu pudesse tê-la visto então, ela teria me dito o nome dele e ordenado que eu o perseguisse com todas as minhas forças.”
Ele olhou para mim.
“O senhor não acredita em impressões?”
“Oh, sim, acredito, em certo sentido. Se, como o senhor coloca, uma notícia vier dela...”
Eu me interrompi. A porta abriu-se silenciosamente e Parker entrou com uma bandeja na qual havia algumas cartas.
“O correio da noite, senhor”, disse ele, entregando a bandeja a Ackroyd.
Então ele recolheu as xícaras de café e retirou-se.
Minha atenção, desviada por um momento, voltou para Ackroyd. Ele estava olhando, como um homem transformado em pedra, para um longo envelope azul. As outras cartas ele deixara cair no chão.
“A letra dela”, disse ele num sussurro. “Ela deve ter saído e postado isso ontem à noite, pouco antes — antes...”
Ele rasgou o envelope e retirou um conteúdo espesso. Então olhou para cima bruscamente.
“O senhor tem certeza de que fechou a janela?”, disse ele.
“Tenho certeza absoluta”, eu disse, surpreso. “Por quê?”
“Durante toda esta noite, tive uma sensação estranha de estar sendo observado, espionado. O que é isso...?”
Ele virou-se bruscamente. Eu também. Ambos tivemos a impressão de ouvir a tranca da porta ceder um pouquinho. Fui até ela e a abri. Não havia ninguém lá.
“Nervos”, murmurou Ackroyd para si mesmo.
Ele desdobrou as folhas espessas de papel e leu em voz alta, num tom baixo.
“Meu querido, meu muito querido Roger — Uma vida pede uma vida. Eu vejo isso — vi em seu rosto esta tarde. Portanto, estou tomando o único caminho aberto para mim. Deixo a seu cargo a punição da pessoa que tornou minha vida um inferno na terra durante o último ano. Eu não queria lhe dizer o nome esta tarde, mas proponho escrevê-lo agora. Não tenho filhos ou parentes próximos para poupar, portanto não tema a publicidade. Se puder, Roger, meu muito querido Roger, perdoe-me pelo erro que pretendi cometer contra o senhor, pois quando o momento chegou, eu não pude fazê-lo, afinal...”
Ackroyd, com o dedo na folha para virá-la, pausou.
“Sheppard, perdoe-me, mas preciso ler isto sozinho”, disse ele de forma instável. “Era para meus olhos, e apenas meus olhos.”
Ele colocou a carta no envelope e a deixou sobre a mesa.
“Mais tarde, quando eu estiver só.”
“Não”, eu gritei impulsivamente, “leia agora.”
Ackroyd olhou para mim com certa surpresa.
“Peço desculpas”, eu disse, corando. “Não quero dizer que a leia em voz alta para mim. Mas leia-a inteira enquanto ainda estou aqui.”
Ackroyd balançou a cabeça.
“Não, prefiro esperar.”
Mas, por alguma razão obscura para mim mesmo, continuei a insistir.
“Pelo menos, leia o nome do homem”, eu disse.
Ora, Ackroyd é essencialmente cabeça-dura. Quanto mais você insiste para que ele faça algo, mais determinado ele fica a não fazê-lo. Todos os meus argumentos foram em vão.
A carta fora trazida às oito e quarenta. Faltavam quase dez minutos para as nove quando o deixei, com a carta ainda por ler. Hesitei com a mão na maçaneta, olhando para trás e me perguntando se havia algo que eu tivesse deixado por fazer. Não consegui pensar em nada. Com um balançar de cabeça, saí e fechei a porta atrás de mim.
Fiquei surpreso ao ver a figura de Parker por perto. Ele parecia constrangido, e ocorreu-me que ele poderia ter estado escutando à porta.
Que rosto gordo, presunçoso e oleoso o homem tinha, e certamente havia algo decididamente esquivo em seu olhar.
“O Sr. Ackroyd não quer ser incomodado de modo algum”, eu disse friamente. “Ele me pediu para lhe dizer isso.”
“Perfeitamente, senhor. Eu... eu imaginei ter ouvido a campainha tocar.”
Essa foi uma mentira tão palpável que não me dei ao trabalho de responder. Precedendo-me até o saguão, Parker ajudou-me com o sobretudo, e eu saí para a noite. A lua estava encoberta e tudo parecia muito escuro e imóvel. O relógio da igreja da vila deu nove horas enquanto eu passava pelos portões da guarita. Virei à esquerda em direção à vila e quase colidi com um homem que vinha na direção oposta.
“É este o caminho para Fernly Park, senhor?”, perguntou o estranho com uma voz rouca.
Olhei para ele. Ele usava um chapéu puxado sobre os olhos e a gola do casaco virada para cima. Eu podia ver pouco ou nada de seu rosto, mas parecia ser um rapaz jovem. A voz era rude e inculta.
“Estes são os portões da guarita aqui”, eu disse.
“Obrigado, senhor.” Ele pausou e então acrescentou, de forma inteiramente desnecessária: “Sou um estranho nestas partes, sabe.”
Ele seguiu em frente, passando pelos portões enquanto eu me virava para olhá-lo.
O estranho era que sua voz me lembrava a voz de alguém que eu conhecia, mas de quem seria, eu não conseguia imaginar.
Dez minutos depois, eu estava em casa novamente. Caroline estava cheia de curiosidade para saber por que eu havia retornado tão cedo. Tive de inventar uma versão ligeiramente fictícia da noite para satisfazê-la, e fiquei com uma sensação inquieta de que ela via através do expediente transparente.
Às dez horas levantei-me, bocejei e sugeri dormir. Caroline concordou.
Era sexta-feira à noite, e nas noites de sexta eu dou corda nos relógios. Fiz isso como de costume, enquanto Caroline se certificava de que os criados haviam trancado a cozinha adequadamente.
Eram dez e quinze quando subimos as escadas. Eu tinha acabado de chegar ao topo quando o telefone tocou no saguão lá embaixo.
“Sra. Bates”, disse Caroline imediatamente.
“Receio que sim”, eu disse, pesaroso.
Desci as escadas correndo e peguei o receptor.
“O quê?”, eu disse. “O quê? Certamente, irei imediatamente.”
Subi correndo as escadas, peguei minha bolsa e enfiei alguns curativos extras dentro dela.
“Parker telefonando”, gritei para Caroline, “de Fernly. Eles acabaram de encontrar Roger Ackroyd assassinado.”
CAPÍTULO V
ASSASSINATO
Peguei o carro em um tempo curtíssimo e dirigi rapidamente para Fernly. Saltando, toquei a campainha impacientemente. Houve alguma demora para atender, e toquei novamente.
Então ouvi o tilintar da corrente e Parker, com a impassibilidade de seu semblante completamente inalterada, apareceu na porta aberta.
Passei por ele para dentro do saguão.
“Onde ele está?”, exigi bruscamente.
“Peço perdão, senhor?”
“Seu patrão. Sr. Ackroyd. Não fique aí parado me encarando, homem. O senhor notificou a polícia?”
“A polícia, senhor? O senhor disse a polícia?” Parker encarou-me como se eu fosse um fantasma.
“O que há de errado com você, Parker? Se, como o senhor diz, seu patrão foi assassinado...”
Um arquejo escapou de Parker.
“O patrão? Assassinado? Impossível, senhor!”
Foi a minha vez de encarar.
“O senhor não telefonou para mim, não faz cinco minutos, dizendo-me que o Sr. Ackroyd tinha sido encontrado assassinado?”
“Eu, senhor? Oh! não, de fato, senhor. Eu não sonharia em fazer tal coisa.”
“Quer dizer que é tudo um trote? Que não há nada de errado com o Sr. Ackroyd?”
“Com licença, senhor, a pessoa que telefonou usou meu nome?”
“Vou lhe dar as palavras exatas que ouvi. ‘É o Dr. Sheppard? Parker, o mordomo de Fernly, falando. Por favor, venha imediatamente, senhor. O Sr. Ackroyd foi assassinado.’”
Parker e eu encaramo-nos perplexos.
“Uma piada muito cruel de se fazer, senhor”, disse ele, por fim, num tom chocado. “Imaginar dizer uma coisa dessas.”
“Onde está o Sr. Ackroyd?”, perguntei de repente.
“Ainda no escritório, creio eu, senhor. As damas foram dormir, e o Major Blunt e o Sr. Raymond estão na sala de bilhar.”
“Acho que vou dar uma olhada e vê-lo por um minuto”, eu disse. “Sei que ele não queria ser incomodado novamente, mas esse estranho trote me deixou inquieto. Só gostaria de me certificar de que ele está bem.”
“Perfeitamente, senhor. Isso me deixa bastante inquieto também. Se o senhor não se importa que eu o acompanhe até a porta, senhor...?”
“De modo algum”, eu disse. “Vamos.”
Passei pela porta à direita, com Parker em meus calcanhares, atravessei o pequeno vestíbulo onde um pequeno lance de escadas levava ao quarto de dormir de Ackroyd, e bati na porta do escritório.
Não houve resposta. Girei a maçaneta, mas a porta estava trancada.
“Permita-me, senhor”, disse Parker.
Com muita agilidade, para um homem de seu porte, ele se ajoelhou e aplicou o olho à fechadura.
“A chave está na fechadura, sim, senhor”, disse ele, levantando-se. “Pelo lado de dentro. O Sr. Ackroyd deve ter se trancado e possivelmente apenas pegou no sono.”
Abaixei-me e verifiquei a afirmação de Parker.
“Parece tudo bem”, eu disse, “mas, mesmo assim, Parker, vou acordar seu patrão. Eu não ficaria satisfeito em ir para casa sem ouvir de seus próprios lábios que ele está perfeitamente bem.”
Dizendo isso, balancei a maçaneta e chamei: “Ackroyd, Ackroyd, apenas um minuto.”
Mas ainda assim não houve resposta. Olhei por cima do ombro.
“Não quero alarmar a casa”, eu disse hesitante.
Parker atravessou e fechou a porta que dava para o grande saguão pelo qual havíamos vindo.
“Acho que agora está tudo bem, senhor. A sala de bilhar fica do outro lado da casa, assim como as áreas da cozinha e os quartos das damas.”
Eu balancei a cabeça, compreendendo. Então bati mais uma vez freneticamente na porta e, abaixando-me, gritei literalmente através da fechadura:
“Ackroyd, Ackroyd! Sou eu, Sheppard. Deixe-me entrar.”
E ainda assim — silêncio. Nem um sinal de vida vindo de dentro do cômodo trancado. Parker e eu encaramo-nos.
“Veja bem, Parker”, eu disse, “vou arrombar esta porta — ou melhor, nós vamos. Assumirei a responsabilidade.”
“Se o senhor diz, senhor”, disse Parker, com certa dúvida.
“Eu digo. Estou seriamente alarmado com o Sr. Ackroyd.”
Olhei em volta do pequeno vestíbulo e peguei uma pesada cadeira de carvalho. Parker e eu a seguramos entre nós e avançamos para o ataque. Uma, duas e três vezes lançamo-la contra a fechadura. No terceiro golpe, ela cedeu, e entramos tropeçando no cômodo.
Ackroyd estava sentado como eu o deixara, na poltrona diante da lareira. Sua cabeça caíra para o lado e, claramente visível, logo abaixo da gola de seu casaco, estava uma peça brilhante de metal retorcido.
Parker e eu avançamos até estarmos sobre a figura reclinada. Ouvi o mordomo inspirar o ar com um sibilado agudo.
“Esfaqueado pelas costas”, murmurou ele. “Horrível!”
Ele limpou a testa úmida com seu lenço e, em seguida, estendeu a mão cautelosamente em direção ao punho do punhal.
“O senhor não deve tocar nisso”, eu disse bruscamente. “Vá imediatamente ao telefone e ligue para a delegacia de polícia. Informe-os sobre o que aconteceu. Depois, avise o Sr. Raymond e o Major Blunt.”
“Muito bem, senhor.”
Parker apressou-se, ainda limpando a testa suada.
Fiz o pouco que precisava ser feito. Tive o cuidado de não perturbar a posição do corpo e de não tocar no punhal de forma alguma. Nenhum propósito seria alcançado movendo-o. Ackroyd estava claramente morto há algum tempo.
Então ouvi a voz do jovem Raymond, horrorizado e incrédulo, do lado de fora.
“O que o senhor diz? Oh! impossível! Onde está o médico?”
Ele apareceu impetuosamente na porta, então parou bruscamente, com o rosto muito branco. Uma mão o afastou, e Hector Blunt passou por ele para dentro do cômodo.
“Meu Deus!”, disse Raymond, atrás dele; “então é verdade.”
Blunt veio direto até alcançar a cadeira. Ele debruçou-se sobre o corpo, e pensei que, como Parker, ele fosse segurar o punho do punhal. Puxei-o para trás com uma das mãos.
“Nada deve ser movido”, expliquei. “A polícia deve vê-lo exatamente como está agora.”
Blunt acenou com a cabeça em compreensão imediata. Seu rosto estava inexpressivo como sempre, mas pensei detectar sinais de emoção sob a máscara impassível. Geoffrey Raymond havia se juntado a nós agora e estava espiando por sobre o ombro de Blunt em direção ao corpo.
“Isto é terrível”, disse ele em tom baixo.
Ele recuperara a compostura, mas, enquanto tirava o pince-nez que habitualmente usava e o polia, notei que sua mão tremia.
“Roubo, suponho”, disse ele. “Como o indivíduo entrou? Pela janela? Alguma coisa foi levada?”
Ele foi em direção à escrivaninha.
“O senhor acha que é um roubo?”, perguntei lentamente.
“O que mais poderia ser? Não há questão de suicídio, suponho?”
“Ninguém poderia esfaquear a si mesmo dessa maneira”, eu disse com confiança. “É assassinato, sem dúvida. Mas com que motivo?”
“Roger não tinha um inimigo no mundo”, disse Blunt calmamente. “Devem ter sido ladrões. Mas o que o ladrão estava procurando? Nada parece estar fora do lugar?”
Ele olhou em volta do cômodo. Raymond ainda estava organizando os papéis na escrivaninha.
“Não parece haver nada faltando, e nenhuma das gavetas mostra sinais de ter sido remexida”, observou o secretário, por fim. “É muito misterioso.”
Blunt fez um leve movimento com a cabeça.
“Há algumas cartas no chão aqui”, disse ele.
Olhei para baixo. Três ou quatro cartas ainda jaziam onde Ackroyd as deixara cair mais cedo naquela noite.
Mas o envelope azul contendo a carta da Sra. Ferrars desaparecera. Abri a boca para falar, mas naquele momento o som de uma campainha ecoou pela casa. Houve um murmúrio confuso de vozes no saguão, e então Parker apareceu com nosso inspetor local e um policial.
“Boa noite, senhores”, disse o inspetor. “Sinto imensamente por isso! Um cavalheiro bom e gentil como o Sr. Ackroyd. O mordomo diz que é assassinato. Nenhuma possibilidade de acidente ou suicídio, doutor?”
“Nenhuma”, eu disse.
“Ah! Um negócio ruim.”
Ele veio e ficou sobre o corpo.
“Foi movido de alguma forma?”, perguntou bruscamente.
“Além de me certificar de que a vida estava extinta — uma tarefa fácil —, não perturbei o corpo de forma alguma.”
“Ah! E tudo aponta para o assassino ter escapado — por enquanto, isto é. Agora então, deixe-me ouvir tudo sobre isso. Quem encontrou o corpo?”
Expliquei as circunstâncias cuidadosamente.
“Uma mensagem telefônica, o senhor diz? Do mordomo?”
“Uma mensagem que eu nunca enviei”, declarou Parker seriamente. “Não cheguei perto do telefone durante toda a noite. Os outros podem confirmar que não o fiz.”
“Muito estranho, isso. Parecia a voz de Parker, doutor?”
“Bem... não posso dizer que notei. Tomei como certo, veja bem.”
“Naturalmente. Bem, o senhor subiu aqui, arrombou a porta e encontrou o pobre Sr. Ackroyd assim. Há quanto tempo o senhor diria que ele estava morto, doutor?”
“Pelo menos meia hora — talvez mais”, eu disse.
“A porta estava trancada por dentro, o senhor diz? E quanto à janela?”
“Eu mesmo a fechei e tranquei mais cedo naquela noite, a pedido do Sr. Ackroyd.”
O inspetor atravessou o cômodo e abriu as cortinas.
“Bem, está aberta agora, de qualquer forma”, observou ele.
Na verdade, a janela estava aberta, com a guilhotina inferior levantada ao máximo.
O inspetor tirou uma lanterna de bolso e iluminou o parapeito do lado de fora.
“Este foi o caminho por onde ele saiu, com certeza”, comentou ele, “e por onde entrou. Veja aqui.”
À luz da lanterna potente, várias pegadas claramente definidas podiam ser vistas. Pareciam ser de sapatos com tachas de borracha nas solas. Uma, particularmente nítida, apontava para dentro; outra, ligeiramente sobreposta, apontava para fora.
“Claro como o dia”, disse o inspetor. “Algum objeto de valor faltando?”
Geoffrey Raymond balançou a cabeça.
“Não que possamos descobrir. O Sr. Ackroyd nunca guardava nada de valor particular neste cômodo.”
“Hum”, disse o inspetor. “O homem encontrou uma janela aberta. Escalou, viu o Sr. Ackroyd sentado ali — talvez ele tivesse adormecido. O homem esfaqueou-o pelas costas, então perdeu a coragem e fugiu. Mas deixou seus rastros bem claros. Devemos conseguir pegá-lo sem muita dificuldade. Nenhum estranho suspeito tem rondado por aqui?”
“Oh!”, eu disse de repente.
“O que foi, doutor?”
“Encontrei um homem esta noite — exatamente quando eu estava saindo pelo portão. Ele me perguntou o caminho para Fernly Park.”
“A que horas seria isso?”
“Exatamente nove horas. Ouvi o relógio bater a hora quando eu estava saindo pelo portão.”
“Pode descrevê-lo?”
Fiz isso da melhor maneira que pude.
O inspetor virou-se para o mordomo.
“Alguém correspondendo a essa descrição veio à porta da frente?”
“Não, senhor. Ninguém veio à casa durante toda a noite.”
“E quanto aos fundos?”
“Acho que não, senhor, mas farei perguntas.”
Ele moveu-se em direção à porta, mas o inspetor ergueu uma mão grande.
“Não, obrigado. Eu mesmo farei as perguntas. Mas, antes de tudo, quero fixar o horário um pouco mais claramente. Quando o Sr. Ackroyd foi visto vivo pela última vez?”
“Provavelmente por mim”, eu disse, “quando saí por volta das... vejamos... dez para as nove. Ele me disse que não desejava ser incomodado, e eu repeti a ordem a Parker.”
“Exatamente, senhor”, disse Parker respeitosamente.
“O Sr. Ackroyd certamente estava vivo às nove e meia”, interveio Raymond, “pois ouvi a voz dele aqui dentro conversando.”
“Com quem ele estava conversando?”
“Isso eu não sei. Naturalmente, na hora tomei como certo que era o Dr. Sheppard quem estava com ele. Eu queria lhe fazer uma pergunta sobre alguns papéis em que estava trabalhando, mas quando ouvi as vozes lembrei-me de que ele dissera que queria falar com o Dr. Sheppard sem ser incomodado, e fui embora novamente. Mas agora parece que o médico já tinha saído?”
Eu acenei com a cabeça.
“Eu estava em casa às nove e quinze”, eu disse. “Não saí novamente até receber o telefonema.”
“Quem poderia estar com ele às nove e meia?”, questionou o inspetor. “Não foi o senhor, Sr.... er...”
“Major Blunt”, eu disse.
“Major Hector Blunt?”, perguntou o inspetor, com um tom respeitoso surgindo em sua voz.
Blunt apenas acenou com a cabeça afirmativamente.
“Acho que já o vimos por aqui antes, senhor”, disse o inspetor. “Não o reconheci no momento, mas o senhor estava hospedado com o Sr. Ackroyd em maio do ano passado.”
“Junho”, corrigiu Blunt.
“Exatamente, junho. Ora, como eu estava dizendo, não foi o senhor que esteve com o Sr. Ackroyd às nove e meia desta noite?”
Blunt balançou a cabeça.
“Não o vi depois do jantar”, disse ele, voluntariamente.
O inspetor virou-se mais uma vez para Raymond.
“O senhor não ouviu nenhum fragmento da conversa, ouviu?”
“Ouvi apenas um fragmento”, disse o secretário, “e, supondo como eu supunha que era o Dr. Sheppard quem estava com o Sr. Ackroyd, esse fragmento me pareceu distintamente estranho. Até onde me lembro, as palavras exatas foram estas. O Sr. Ackroyd estava falando: ‘As exigências sobre minha bolsa têm sido tão frequentes ultimamente’ — era isso que ele dizia — ‘ultimamente, que temo ser impossível para mim atender ao seu pedido...’ Saí imediatamente, é claro, por isso não ouvi mais nada. Mas fiquei um tanto intrigado porque o Dr. Sheppard...”
“...Não pede empréstimos para si mesmo nem assinaturas para outros”, completei.
“Um pedido de dinheiro”, disse o inspetor, pensativo. “Pode ser que tenhamos aqui uma pista muito importante.” Ele virou-se para o mordomo. “Você diz, Parker, que ninguém foi admitido pela porta da frente esta noite?”
“É o que digo, senhor.”
“Então parece quase certo que o próprio Sr. Ackroyd deve ter admitido esse estranho. Mas não entendo muito bem...”
O inspetor entrou em uma espécie de devaneio por alguns minutos.
“Uma coisa é clara”, disse ele por fim, despertando de sua absorção. “O Sr. Ackroyd estava vivo e bem às nove e meia. Esse é o último momento em que se sabe que ele estava vivo.”
Parker soltou uma tosse de desculpas que atraiu os olhos do inspetor imediatamente.
“Bem?”, disse ele bruscamente.
“Se me permite, senhor, a Srta. Flora o viu depois disso.”
“Srta. Flora?”
“Sim, senhor. Seria por volta das nove e quarenta e cinco. Foi depois disso que ela me disse que o Sr. Ackroyd não deveria ser incomodado novamente esta noite.”
“Foi ele quem a enviou com esse recado?”
“Não exatamente, senhor. Eu estava trazendo uma bandeja com soda e uísque quando a Srta. Flora, que estava saindo deste quarto, parou-me e disse que seu tio não queria ser incomodado.”
O inspetor olhou para o mordomo com uma atenção bem maior do que a que lhe havia dispensado até então.
“Já haviam lhe dito que o Sr. Ackroyd não queria ser incomodado, não é?”
Parker começou a gaguejar. Suas mãos tremiam.
“Sim, senhor. Sim, senhor. Exatamente, senhor.”
“E, ainda assim, o senhor pretendia fazê-lo?”
“Eu havia me esquecido, senhor. Pelo menos, quero dizer, eu sempre levo o uísque e a soda por volta dessa hora, senhor, e pergunto se há algo mais, e pensei... bem, eu estava fazendo como de costume, sem pensar.”
Foi nesse momento que comecei a perceber que Parker estava mais do que suspeitamente nervoso. O homem tremia e se contraía todo.
“Hum”, disse o inspetor. “Devo ver a Srta. Ackroyd imediatamente. Por enquanto, deixaremos este cômodo exatamente como está. Posso retornar aqui depois de ouvir o que a Srta. Ackroyd tem a me dizer. Vou apenas tomar a precaução de fechar e trancar a janela.”
Concluída essa precaução, ele nos conduziu ao hall e nós o seguimos. Ele parou por um momento, olhando para a pequena escadaria, e então falou por cima do ombro para o policial.
“Jones, é melhor você ficar aqui. Não deixe ninguém entrar naquele quarto.”
Parker interveio respeitosamente.
“Se me permite, senhor. Se o senhor trancasse a porta que dá para o hall principal, ninguém teria acesso a esta parte. Aquela escadaria leva apenas ao quarto e ao banheiro do Sr. Ackroyd. Não há comunicação com a outra parte da casa. Antigamente havia uma porta de passagem, mas o Sr. Ackroyd a mandou bloquear. Ele gostava de sentir que sua suíte era totalmente privada.”
Para tornar as coisas claras e explicar a posição, anexei um esboço aproximado da ala direita da casa. A pequena escadaria leva, como Parker explicou, a um grande quarto (feito a partir da união de dois) e a um banheiro e lavabo adjacentes.
O inspetor compreendeu a posição num relance. Passamos para o grande hall e ele trancou a porta atrás de si, enfiando a chave no bolso. Depois, deu ao policial algumas instruções em voz baixa, e este se preparou para partir.
“Precisamos nos ocupar daquelas marcas de sapatos”, explicou o inspetor. “Mas, antes de tudo, preciso falar com a Srta. Ackroyd. Ela foi a última pessoa a ver seu tio vivo. Ela já sabe?”
Raymond balançou a cabeça.
“Bem, não há necessidade de lhe contar pelos próximos cinco minutos. Ela pode responder às minhas perguntas melhor sem ficar abalada ao saber a verdade sobre o tio. Diga-lhe que houve um roubo e peça-lhe se ela se importaria de se vestir e descer para responder a algumas perguntas.”
Foi Raymond quem subiu as escadas para essa tarefa.
“A Srta. Ackroyd descerá em um minuto”, disse ele ao retornar. “Disse-lhe exatamente o que o senhor sugeriu.”
Em menos de cinco minutos, Flora desceu a escadaria. Ela estava envolta em um quimono de seda rosa pálido. Parecia ansiosa e agitada.
O inspetor deu um passo à frente.
“Boa noite, Srta. Ackroyd”, disse ele educadamente. “Tememos que tenha havido uma tentativa de roubo e queremos que a senhorita nos ajude. Que sala é esta — a sala de bilhar? Entre e sente-se.”
Flora sentou-se calmamente no amplo divã que percorria a extensão da parede e olhou para o inspetor.
“Não entendo muito bem. O que foi roubado? O que o senhor quer que eu lhe diga?”
“É apenas isto, Srta. Ackroyd. Parker diz que a senhorita saiu do escritório de seu tio por volta das nove e quarenta e cinco. Está correto?”
“Correto. Eu tinha ido lhe dar boa-noite.”
“E o horário está certo?”
“Bem, deve ter sido por volta disso. Não sei dizer exatamente. Pode ter sido mais tarde.”
“Seu tio estava sozinho ou havia alguém com ele?”
“Ele estava sozinho. O Dr. Sheppard já tinha ido embora.”
“A senhorita notou se a janela estava aberta ou fechada?”
Flora balançou a cabeça.
“Não sei dizer. As cortinas estavam fechadas.”
“Exatamente. E seu tio parecia estar como de costume?”
“Acho que sim.”
“A senhorita se importaria de nos contar exatamente o que houve entre vocês?”
Flora fez uma pausa de um minuto, como se estivesse reunindo suas lembranças.
“Entrei e disse: ‘Boa-noite, tio, vou para a cama agora. Estou cansada esta noite’. Ele deu uma espécie de resmungo e... eu fui até ele e o beijei, e ele disse algo sobre eu estar bonita com o vestido que usava, e então me disse para ir embora porque estava ocupado. Então eu fui.”
“Ele pediu especificamente para não ser incomodado?”
“Ah! Sim, esqueci. Ele disse: ‘Diga ao Parker que não quero mais nada esta noite e que ele não deve me incomodar’. Encontrei Parker logo do lado de fora da porta e lhe dei o recado do meu tio.”
“Exatamente”, disse o inspetor.
“O senhor não vai me dizer o que foi roubado?”
“Não temos... certeza absoluta”, disse o inspetor, hesitante.
Um olhar de grande alarme surgiu nos olhos da moça. Ela se levantou sobressaltada.
“O que foi? O senhor está escondendo algo de mim?”
Movendo-se de sua maneira habitual e discreta, Hector Blunt colocou-se entre ela e o inspetor. Ela estendeu a mão, e ele a segurou com as duas, acariciando-a como se ela fosse uma criança muito pequena, e ela virou-se para ele como se algo em seu comportamento estóico e sólido prometesse conforto e segurança.
“São más notícias, Flora”, disse ele calmamente. “Más notícias para todos nós. Seu tio Roger...”
“Sim?”
“Será um choque para você. É inevitável. O pobre Roger morreu.”
Flora afastou-se dele, com os olhos dilatados de horror.
“Quando?”, sussurrou ela. “Quando?”
“Muito logo depois que você o deixou, receio”, disse Blunt gravemente.
Flora levou a mão à garganta, soltou um pequeno grito, e eu corri para segurá-la quando ela caiu. Ela havia desmaiado, e Blunt e eu a levamos para cima e a deitamos em sua cama. Depois, pedi a ele que acordasse a Sra. Ackroyd e lhe desse a notícia. Flora logo se recuperou, e trouxe sua mãe até ela, instruindo-a sobre o que fazer. Então, apressei-me a descer novamente.
CAPÍTULO VI
O ADAGA TUNISIANA
Encontrei o inspetor saindo da porta que levava à cozinha.
“Como está a jovem, doutor?”
“Recuperando-se bem. A mãe dela está com ela.”
“Que bom. Estive interrogando os criados. Todos declaram que ninguém esteve na porta dos fundos esta noite. Sua descrição daquele estranho foi um tanto vaga. Não pode nos dar algo mais definido para trabalharmos?”
“Receio que não”, disse eu com pesar. “Era uma noite escura, sabe, e o sujeito estava com a gola do casaco bem levantada e o chapéu enterrado sobre os olhos.”
“Hum”, disse o inspetor. “Parecia que ele queria esconder o rosto. Tem certeza de que não era ninguém que o senhor conhecesse?”
Respondi negativamente, mas não tão decididamente quanto poderia ter feito. Lembrei-me da minha impressão de que a voz do estranho não me era desconhecida. Expliquei isso de forma um tanto hesitante ao inspetor.
“Era uma voz rude, sem instrução, o senhor diz?”
Concordei, mas ocorreu-me que a rudez tinha uma qualidade quase exagerada. Se, como pensava o inspetor, o homem desejava esconder o rosto, ele poderia igualmente ter tentado disfarçar a voz.
“O senhor se importaria de entrar no escritório comigo novamente, doutor? Há uma ou duas coisas que quero lhe perguntar.”
Concordei. O inspetor Davis destrancou a porta do saguão, passamos e ele trancou a porta novamente atrás de si.
“Não queremos ser incomodados”, disse ele severamente. “E também não queremos bisbilhoteiros. O que é essa história de chantagem?”
“Chantagem!”, exclamei, muito surpreso.
“É um esforço da imaginação de Parker? Ou há algo nisso?”
“Se Parker ouviu algo sobre chantagem”, disse eu lentamente, “ele deve ter estado ouvindo atrás desta porta com o ouvido colado na fechadura.”
Davis assentiu.
“Nada mais provável. Veja bem, estive fazendo algumas investigações sobre o que Parker esteve fazendo esta noite. Para dizer a verdade, não gostei do comportamento dele. O homem sabe de alguma coisa. Quando comecei a interrogá-lo, ele ficou nervoso e soltou uma história confusa sobre chantagem.”
Tomei uma decisão imediata.
“Estou bastante satisfeito por ter trazido o assunto à tona”, disse eu. “Eu estava tentando decidir se deveria abrir o jogo ou não. Eu já tinha praticamente decidido contar-lhe tudo, mas estava esperando uma oportunidade favorável. Pode muito bem saber agora.”
E ali mesmo narrei todos os eventos da noite, tal como os registrei aqui. O inspetor ouviu atentamente, ocasionalmente interrompendo com uma pergunta.
“A história mais extraordinária que já ouvi”, disse ele, quando terminei. “E o senhor diz que aquela carta desapareceu completamente? Parece ruim... parece muito ruim, de fato. Dá-nos o que estávamos procurando: um motivo para o assassinato.”
Eu balancei a cabeça.
“Eu percebo isso.”
“O senhor diz que o Sr. Ackroyd deu a entender que suspeitava que algum membro de sua casa estivesse envolvido? ‘Casa’ é um termo bastante elástico.”
“O senhor não acha que o próprio Parker poderia ser o homem que procuramos?”, sugeri.
“Parece muito provável. Ele estava obviamente ouvindo à porta quando o senhor saiu. Depois, a Srta. Ackroyd o encontrou mais tarde, decidido a entrar no escritório. Digamos que ele tentou novamente quando ela estava bem longe. Ele esfaqueou Ackroyd, trancou a porta por dentro, abriu a janela, saiu por ali e deu a volta até uma porta lateral que ele havia deixado aberta anteriormente. O que acha?”
“Só há uma coisa contra isso”, disse eu lentamente. “Se Ackroyd continuou a ler aquela carta assim que saí, como pretendia fazer, não o vejo sentado ali, remoendo as coisas em sua mente por mais uma hora. Ele teria chamado Parker imediatamente, acusado-o ali mesmo, e teria havido uma grande confusão. Lembre-se, Ackroyd era um homem de temperamento colérico.”
“Talvez ele não tenha tido tempo de continuar com a carta naquele momento”, sugeriu o inspetor. “Sabemos que alguém esteve com ele às nove e meia. Se esse visitante apareceu assim que o senhor saiu, e depois que ele foi embora, a Srta. Ackroyd entrou para dar boa-noite... bem, ele não teria conseguido continuar com a carta até quase dez horas.”
“E o telefonema?”
“Parker enviou aquele telefonema, certamente — talvez antes de pensar na porta trancada e na janela aberta. Depois, ele mudou de ideia — ou entrou em pânico — e decidiu negar qualquer conhecimento sobre isso. Foi isso, pode ter certeza.”
“Si-im”, disse eu, um tanto duvidoso.
“De qualquer forma, podemos descobrir a verdade sobre o telefonema na central telefônica. Se foi feito daqui, não vejo como outra pessoa além de Parker poderia tê-lo enviado. Pode ter certeza, ele é o nosso homem. Mas mantenha isso em segredo — não queremos alarmá-lo ainda, até termos todas as evidências. Vou garantir que ele não nos escape. Por tudo o que parece, nos concentraremos no seu misterioso estranho.”
Ele se levantou de onde estava sentado, a cavalo na cadeira que pertencia à escrivaninha, e atravessou até a forma imóvel na poltrona.
“A arma deve nos dar uma pista”, comentou ele, olhando para cima. “É algo bastante único — uma curiosidade, eu diria, pelo aspecto dela.”
Ele se inclinou, examinando o cabo atentamente, e ouvi-o soltar um resmungo de satisfação. Então, muito cautelosamente, pressionou as mãos abaixo da guarda e retirou a lâmina do ferimento. Ainda carregando-a de forma a não tocar no cabo, ele a colocou em uma larga caneca de porcelana que enfeitava a lareira.
“Sim”, disse ele, assentindo para ela. “Uma verdadeira obra de arte. Não deve haver muitas delas por aí.”
Era, de fato, um objeto belo. Uma lâmina estreita e afilada, e um cabo de metais intrincadamente entrelaçados de mão de obra curiosa e cuidadosa. Ele tocou a lâmina cautelosamente com o dedo, testando sua afiação, e fez uma careta de apreciação.
“Deus, que fio”, exclamou ele. “Uma criança poderia cravar isso em um homem — tão fácil quanto cortar manteiga. Um tipo perigoso de brinquedo para se ter por perto.”
“Posso examinar o corpo adequadamente agora?”, perguntei.
Ele assentiu.
“Vá em frente.”
Fiz um exame minucioso.
“Bem?”, disse o inspetor, quando terminei.
“Vou poupá-lo da linguagem técnica”, disse eu. “Deixaremos isso para o inquérito. O golpe foi desferido por um destro parado atrás dele, e a morte deve ter sido instantânea. Pela expressão no rosto do falecido, eu diria que o golpe foi totalmente inesperado. Ele provavelmente morreu sem saber quem era seu agressor.”
“Mordomos podem se mover com a suavidade de gatos”, disse o inspetor Davis. “Não haverá muito mistério sobre este crime. Dê uma olhada na guarda daquela adaga.”
Eu dei uma olhada.
“Ouso dizer que não são visíveis para o senhor, mas posso vê-las claramente o suficiente.” Ele baixou a voz. “Impressões digitais!”
Ele se afastou alguns passos para avaliar o efeito.
“Sim”, disse eu suavemente. “Eu imaginei.”
Não vejo por que eu deveria ser considerado totalmente desprovido de inteligência. Afinal, leio histórias de detetive e jornais, e sou um homem de capacidade bastante comum. Se houvesse marcas de dedos no cabo da adaga, agora, isso teria sido algo totalmente diferente. Eu teria registrado qualquer quantidade de surpresa e admiração.
Acho que o inspetor ficou irritado comigo por me recusar a ficar entusiasmado. Ele pegou a caneca de porcelana e me convidou para acompanhá-lo até a sala de bilhar.
“Quero ver se o Sr. Raymond pode nos dizer algo sobre esta adaga”, explicou.
Trancando a porta externa atrás de nós novamente, dirigimo-nos à sala de bilhar, onde encontramos Geoffrey Raymond. O inspetor ergueu sua peça de exposição.
“Já viu isto antes, Sr. Raymond?”
“Ora... eu acredito... tenho quase certeza de que é uma curiosidade presenteada ao Sr. Ackroyd pelo Major Blunt. Vem do Marrocos — não, Túnis. Então o crime foi cometido com isso? Que coisa extraordinária. Parece quase impossível, e ainda assim dificilmente haveria duas adagas iguais. Posso buscar o Major Blunt?”
Sem esperar por uma resposta, ele saiu apressado.
“Bom rapaz esse”, disse o inspetor. “Há algo de honesto e ingênuo nele.”
Concordei. Nos dois anos em que Geoffrey Raymond tem sido secretário de Ackroyd, nunca o vi desajeitado ou fora de si. E ele tem sido, eu sei, um secretário extremamente eficiente.
Em um ou dois minutos, Raymond retornou, acompanhado por Blunt.
“Eu estava certo”, disse Raymond, entusiasmado. “É a adaga tunisiana.”
“O Major Blunt ainda não olhou para ela”, objetivou o inspetor.
“Vi no momento em que entrei no escritório”, disse o homem tranquilo.
“O senhor a reconheceu então?”
Blunt assentiu.
“O senhor não disse nada sobre isso”, disse o inspetor, suspeitosamente.
“Momento errado”, disse Blunt. “Muito dano causado por deixar escapar coisas na hora errada.”
Ele retribuiu o olhar do inspetor de forma bastante plácida.
Este finalmente resmungou e virou-se. Ele levou a adaga até Blunt.
“O senhor tem certeza absoluta, senhor. Identifica-a positivamente?”
“Absolutamente. Sem sombra de dúvida.”
“Onde essa... er... curiosidade era guardada habitualmente? Pode me dizer isso, senhor?”
Foi o secretário quem respondeu.
“Na mesa de prata na sala de estar.”
“O quê?”, exclamei.
Os outros olharam para mim.
“Sim, doutor?”, disse o inspetor, encorajadoramente.
“Não é nada.”
“Sim, doutor?”, disse o inspetor novamente, ainda mais encorajadoramente.
“É tão trivial”, expliquei, desculpando-me. “Apenas que, quando cheguei ontem à noite para o jantar, ouvi a tampa da mesa de prata sendo fechada na sala de estar.”
Vi profundo ceticismo e um traço de suspeita no semblante do inspetor.
“Como o senhor sabia que era a tampa da mesa de prata?”
Fui forçado a explicar em detalhes — uma explicação longa e tediosa que eu preferiria infinitamente não ter tido que fazer.
O inspetor ouviu-me até o fim.
“A adaga estava em seu lugar quando o senhor estava examinando o conteúdo?”, perguntou ele.
“Não sei”, disse eu. “Não posso dizer que me lembre de tê-la notado — mas, é claro, ela pode ter estado lá o tempo todo.”
“É melhor chamarmos a governanta”, observou o inspetor, e puxou a campainha.
Poucos minutos depois, a Srta. Russell, convocada por Parker, entrou na sala.
“Acho que não cheguei perto da mesa de prata”, disse ela, quando o inspetor lhe fez a pergunta. “Eu estava verificando se todas as flores estavam frescas. Ah! sim, lembro-me agora. A mesa de prata estava aberta — o que não deveria estar, e fechei a tampa ao passar.”
Ela olhou para ele agressivamente.
“Entendo”, disse o inspetor. “Pode me dizer se esta adaga estava em seu lugar então?”
A Srta. Russell olhou para a arma com compostura.
“Não sei dizer, com certeza”, respondeu ela. “Não parei para olhar. Eu sabia que a família desceria a qualquer momento e queria sair dali.”
“Obrigado”, disse o inspetor.
Houve apenas um traço de hesitação em seu modo, como se ele quisesse interrogá-la mais, mas a Srta. Russell claramente aceitou as palavras como uma dispensa e deslizou para fora da sala.
“Uma espécie de megera, eu diria, hein?”, disse o inspetor, observando-a. “Deixe-me ver. Esta mesa de prata fica em frente a uma das janelas, acho que o senhor disse, doutor?”
Raymond respondeu por mim.
“Sim, a janela da esquerda.”
“E a janela estava aberta?”
“Ambas estavam entreabertas.”
“Bem, não acho que precisemos entrar muito mais nessa questão. Alguém — vou apenas dizer alguém — poderia pegar aquela adaga a qualquer momento que desejasse, e exatamente quando ele a pegou não importa nem um pouco. Voltarei pela manhã com o chefe de polícia, Sr. Raymond. Até lá, ficarei com a chave daquela porta. Quero que o Coronel Melrose veja tudo exatamente como está. Por acaso sei que ele está jantando do outro lado do condado e, acredito, pernoitando...”
Observamos o inspetor pegar o jarro.
“Terei de embalar isso com cuidado”, ele observou. “Vai ser uma peça importante de prova em mais de um sentido.”
Poucos minutos depois, quando saí da sala de bilhar com Raymond, este deu uma risada baixa de diversão.
Senti a pressão de sua mão em meu braço e segui a direção de seus olhos. O Inspetor Davis parecia estar convidando Parker a dar sua opinião sobre uma pequena agenda de bolso.
“Um pouco óbvio”, murmurou meu companheiro. “Então Parker é o suspeito, é? Devemos obrigar o Inspetor Davis com um conjunto de nossas impressões digitais também?”
Ele pegou dois cartões da bandeja de cartões, limpou-os com seu lenço de seda, depois entregou um a mim e pegou o outro para si. Então, com um sorriso, entregou-os ao inspetor de polícia.
“Souvenirs”, disse ele. “Nº 1, Dr. Sheppard; Nº 2, meu humilde eu. Um do Major Blunt será entregue pela manhã.”
A juventude é muito resiliente. Nem mesmo o brutal assassinato de seu amigo e empregador conseguiu diminuir o ânimo de Geoffrey Raymond por muito tempo. Talvez seja como deve ser. Não sei. Eu mesmo perdi a qualidade da resiliência há muito tempo.
Estava muito tarde quando cheguei, e esperava que Caroline já tivesse ido para a cama. Eu deveria saber melhor.
Ela tinha chocolate quente me esperando, e enquanto eu o bebia, ela extraiu de mim toda a história da noite. Não disse nada sobre o negócio da chantagem, mas contentei-me em contar-lhe os fatos do assassinato.
“A polícia suspeita de Parker”, disse eu, ao me levantar e me preparar para subir para dormir. “Parece haver um caso bastante claro contra ele.”
“Parker!” disse minha irmã. “Bobagem! Aquele inspetor deve ser um perfeito idiota. Parker, de fato! Não me diga.”
Com essa declaração obscura, fomos para a cama.
CAPÍTULO VII
APRENDO A PROFISSÃO DO MEU VIZINHO
Na manhã seguinte, apressei-me imperdoavelmente em minha ronda. Minha desculpa pode ser que não tive casos muito sérios para atender. Ao meu retorno, Caroline veio ao saguão para me cumprimentar.
“Flora Ackroyd está aqui”, ela anunciou em um sussurro excitado.
“O quê?”
Escondi minha surpresa o melhor que pude.
“Ela está muito ansiosa para vê-lo. Está aqui há meia hora.”
Caroline abriu caminho para a nossa pequena sala de estar, e eu a segui.
Flora estava sentada no sofá perto da janela. Ela estava de preto e sentava-se nervosamente retorcendo as mãos. Fiquei chocado ao ver seu rosto. Toda a cor havia desaparecido dele. Mas quando ela falou, seu modo estava tão composto e resoluto quanto possível.
“Dr. Sheppard, vim pedir-lhe que me ajude.”
“É claro que ele vai ajudá-la, minha querida”, disse Caroline.
Não creio que Flora realmente desejasse que Caroline estivesse presente na entrevista. Tenho certeza de que ela preferiria infinitamente falar comigo em particular. Mas ela também não queria perder tempo, então tirou o melhor proveito da situação.
“Quero que o senhor venha a The Larches comigo.”
“The Larches?” indaguei, surpreso.
“Para ver aquele homenzinho engraçado?” exclamou Caroline.
“Sim. Vocês sabem quem ele é, não sabem?”
“Imaginávamos”, disse eu, “que ele pudesse ser um cabeleireiro aposentado.”
Os olhos azuis de Flora se arregalaram muito.
“Ora, ele é Hercule Poirot! Vocês sabem a quem me refiro — o detetive particular. Dizem que ele fez as coisas mais maravilhosas — exatamente como os detetives fazem nos livros. Há um ano, ele se aposentou e veio morar aqui. Tio sabia quem ele era, mas prometeu não contar a ninguém, porque M. Poirot queria viver tranquilamente sem ser incomodado pelas pessoas.”
“Então é ele”, disse eu lentamente.
“Vocês já ouviram falar dele, é claro?”
“Sou um velho antiquado, como Caroline me diz”, falei, “mas acabei de ouvir falar dele.”
“Extraordinário!” comentou Caroline.
Não sei a que ela se referia — possivelmente à sua própria falha em descobrir a verdade.
“Você quer ir vê-lo?” perguntei devagar. “E por que?”
“Para convencê-lo a investigar este assassinato, é claro”, disse Caroline bruscamente. “Não seja tão estúpido, James.”
Eu não estava sendo realmente estúpido. Caroline nem sempre entende o que estou pretendendo.
“Você não tem confiança no Inspetor Davis?” continuei.
“É claro que ela não tem”, disse Caroline. “Eu também não.”
Qualquer um teria pensado que era o tio de Caroline quem havia sido assassinado.
“E como você sabe que ele aceitaria o caso?” perguntei. “Lembre-se de que ele se aposentou do trabalho ativo.”
“É exatamente isso”, disse Flora simplesmente. “Tenho de persuadi-lo.”
“Tem certeza de que está agindo com sabedoria?” perguntei gravemente.
“É claro que ela está”, disse Caroline. “Eu mesma irei com ela, se quiser.”
“Eu preferiria que o médico fosse comigo, se não se importa, Srta. Sheppard”, disse Flora.
Ela conhece o valor de ser direta em certas ocasiões. Quaisquer insinuações certamente teriam sido desperdiçadas com Caroline.
“Você vê”, explicou ela, seguindo a franqueza com tato, “como o Dr. Sheppard é o médico e encontrou o corpo, ele seria capaz de dar todos os detalhes a M. Poirot.”
“Sim”, disse Caroline relutantemente, “vejo isso.”
Dei uma ou duas voltas pela sala.
“Flora”, disse eu gravemente, “deixe-se guiar por mim. Aconselho-a a não arrastar este detetive para o caso.”
Flora saltou de seu assento. A cor subiu às suas bochechas.
“Eu sei por que diz isso”, ela gritou. “Mas é exatamente por essa razão que estou tão ansiosa para ir. Você está com medo! Mas eu não. Conheço Ralph melhor do que você.”
“Ralph”, disse Caroline. “O que Ralph tem a ver com isso?”
Nenhum de nós deu atenção a ela.
“Ralph pode ser fraco”, continuou Flora. “Ele pode ter feito coisas tolas no passado — coisas más, até — mas ele não assassinaria ninguém.”
“Não, não”, exclamei. “Eu nunca pensei isso dele.”
“Então por que você foi ao Three Boars ontem à noite?” exigiu Flora, “no seu caminho para casa — depois que o corpo do tio foi encontrado?”
Fiquei momentaneamente em silêncio. Eu esperava que aquela minha visita passasse despercebida.
“Como você soube disso?” retruquei.
“Fui lá esta manhã”, disse Flora. “Ouvi dos criados que Ralph estava hospedado lá...”
Eu a interrompi.
“Você não tinha ideia de que ele estava em King’s Abbot?”
“Não. Fiquei pasma. Não conseguia entender. Fui lá e perguntei por ele. Eles me disseram o que suponho que disseram a você ontem à noite, que ele saiu por volta das nove horas ontem à noite — e — e nunca mais voltou.”
Seus olhos encontraram os meus desafiadoramente, e como se respondesse a algo em meu olhar, ela explodiu: —
“Bem, por que ele não deveria? Ele poderia ter ido — a qualquer lugar. Ele pode até ter voltado para Londres.”
“Deixando sua bagagem para trás?” perguntei gentilmente.
Flora bateu o pé.
“Eu não me importo. Deve haver uma explicação simples.”
“E é por isso que você quer ir a Hercule Poirot? Não é melhor deixar as coisas como estão? A polícia não suspeita de Ralph nem um pouco, lembre-se. Eles estão trabalhando em uma direção completamente diferente.”
“Mas é exatamente isso”, gritou a moça. “Eles suspeitam dele. Um homem de Cranchester apareceu esta manhã — Inspetor Raglan, um homenzinho horrível e astuto. Descobri que ele tinha ido ao Three Boars esta manhã antes de mim. Eles me contaram tudo sobre ele ter estado lá, e as perguntas que fizera. Ele deve pensar que foi Ralph quem fez isso.”
“Isso é uma mudança de opinião em relação à noite passada, se for o caso”, disse eu lentamente. “Ele não acredita na teoria de Davis de que foi Parker, então?”
“Parker, de fato”, disse minha irmã, e bufou.
Flora adiantou-se e colocou a mão em meu braço.
“Oh! Dr. Sheppard, vamos imediatamente a este M. Poirot. Ele descobrirá a verdade.”
“Minha querida Flora”, disse eu gentilmente, colocando minha mão sobre a dela. “Tem certeza absoluta de que é a verdade que queremos?”
Ela olhou para mim, balançando a cabeça gravemente.
“Você não tem certeza”, disse ela. “Eu tenho. Conheço Ralph melhor do que você.”
“É claro que ele não fez isso”, disse Caroline, que vinha mantendo silêncio com grande dificuldade. “Ralph pode ser extravagante, mas é um querido, e tem as maneiras mais gentis.”
Eu queria dizer a Caroline que um grande número de assassinos tinha maneiras gentis, mas a presença de Flora me conteve. Como a moça estava determinada, fui forçado a ceder e partimos imediatamente, saindo antes que minha irmã pudesse disparar mais alguma declaração começando com suas palavras favoritas: “É claro”.
Uma velha com uma imensa touca bretã abriu a porta de The Larches para nós. M. Poirot estava em casa, ao que parecia.
Fomos conduzidos a uma pequena sala de estar arranjada com precisão formal, e lá, após o lapso de um minuto ou mais, meu amigo de ontem veio até nós.
“Monsieur le docteur”, disse ele, sorrindo. “Mademoiselle.”
Ele fez uma reverência para Flora.
“Talvez”, comecei, “o senhor tenha ouvido falar da tragédia que ocorreu ontem à noite.”
Seu rosto tornou-se grave.
“Mas certamente ouvi. É horrível. Ofereço a mademoiselle toda a minha simpatia. De que maneira posso servi-la?”
“Srta. Ackroyd”, disse eu, “quer que o senhor — para — para...”
“Para encontrar o assassino”, disse Flora com voz clara.
“Entendo”, disse o homenzinho. “Mas a polícia fará isso, não fará?”
“Eles podem cometer um erro”, disse Flora. “Eles estão a caminho de cometer um erro agora, eu acho. Por favor, M. Poirot, o senhor não nos ajudará? Se — se for uma questão de dinheiro...”
Poirot levantou a mão.
“Não isso, eu lhe suplico, mademoiselle. Não é que eu não me importe com o dinheiro.” Seus olhos mostraram um brilho momentâneo. “Dinheiro, ele significa muito para mim e sempre significou. Não, se eu entrar nisso, você deve entender uma coisa claramente. Eu irei até o fim. O bom cão, ele não deixa o rastro, lembre-se! Você pode desejar, afinal, ter deixado isso para a polícia local.”
“Eu quero a verdade”, disse Flora, olhando-o diretamente nos olhos.
“Toda a verdade?”
“Toda a verdade.”
“Então eu aceito”, disse o homenzinho calmamente. “E espero que você não se arrependa dessas palavras. Agora, conte-me todas as circunstâncias.”
“Seria melhor que o Dr. Sheppard lhe contasse”, disse Flora. “Ele sabe mais do que eu.”
Assim solicitado, mergulhei em uma narrativa cuidadosa, incorporando todos os fatos que registrei anteriormente. Poirot ouviu atentamente, inserindo uma pergunta aqui e ali, mas na maior parte do tempo sentado em silêncio, com os olhos fixos no teto.
Concluí minha história com a partida do inspetor e minha saída de Fernly Park na noite anterior.
“E agora”, disse Flora, quando terminei, “conte a ele tudo sobre Ralph.”
Hesitei, mas seu olhar imperioso me impulsionou.
“Você foi a esta estalagem — este Three Boars — ontem à noite no seu caminho para casa?” perguntou Poirot, enquanto eu encerrava meu relato. “Agora, por que exatamente foi isso?”
Parei um momento para escolher cuidadosamente minhas palavras.
“Pensei que alguém deveria informar o jovem da morte de seu tio. Ocorreu-me, depois que deixei Fernly, que possivelmente ninguém além de mim e do Sr. Ackroyd sabia que ele estava hospedado na aldeia.”
Poirot assentiu.
“Exatamente. Esse foi seu único motivo para ir lá, eh?”
“Esse foi meu único motivo”, disse eu secamente.
“Não foi para — digamos — tranquilizar-se a respeito de ce jeune homme?”
“Tranquilizar-me?”
“Acho, M. le docteur, que você sabe muito bem o que quero dizer, embora finja não saber. Sugiro que teria sido um alívio para você se tivesse descoberto que o Capitão Paton esteve em casa a noite toda.”
“De modo algum”, disse eu bruscamente.
O pequeno detetive balançou a cabeça para mim gravemente.
“Você não tem a confiança em mim da Srta. Flora”, disse ele. “Mas não importa. O que temos de observar é isto — o Capitão Paton está desaparecido, sob circunstâncias que exigem uma explicação. Não esconderei de você que o assunto parece grave. Ainda assim, pode admitir uma explicação perfeitamente simples.”
“É exatamente o que eu continuo dizendo”, gritou Flora ansiosamente.
Poirot não tocou mais nesse tema. Em vez disso, sugeriu uma visita imediata à polícia local. Ele achou melhor que Flora voltasse para casa e que eu fosse o único a acompanhá-lo até lá e apresentá-lo ao oficial encarregado do caso.
Executamos este plano imediatamente. Encontramos o Inspetor Davis fora da delegacia de polícia com um aspecto muito sombrio. Com ele estava o Coronel Melrose, o Chefe de Polícia, e outro homem que, pela descrição de Flora como “astuto”, não tive dificuldade em reconhecer como o Inspetor Raglan de Cranchester.
Conheço Melrose razoavelmente bem, e apresentei Poirot a ele e expliquei a situação. O chefe de polícia estava claramente irritado, e o Inspetor Raglan parecia sombrio como um trovão. Davis, no entanto, parecia ligeiramente exultante com a visão do aborrecimento de seu oficial superior.
“O caso vai ser claro como a luz do dia”, disse Raglan. “Não há a menor necessidade de amadores virem se intrometer. Você pensaria que qualquer tolo teria visto como as coisas estavam ontem à noite, e então não teríamos perdido doze horas.”
Ele dirigiu um olhar vingativo ao pobre Davis, que o recebeu com perfeita estoicidade.
“A família do Sr. Ackroyd deve, é claro, fazer o que achar conveniente”, disse o Coronel Melrose. “Mas não podemos permitir que a investigação oficial seja prejudicada de forma alguma. Conheço a grande reputação de M. Poirot, é claro”, acrescentou ele educadamente.
“A polícia não pode fazer sua própria publicidade, que azar”, disse Raglan.
Foi Poirot quem salvou a situação.
“É verdade que me retirei do mundo”, disse ele. “Nunca pretendi assumir um caso novamente. Acima de tudo, tenho horror à publicidade. Devo pedir que, no caso de eu ser capaz de contribuir com algo para a solução do mistério, meu nome não seja mencionado.”
O rosto do Inspetor Raglan iluminou-se um pouco.
“Ouvi falar de alguns sucessos muito notáveis seus”, observou o coronel, tornando-se mais receptivo.
“Tive muita experiência”, disse Poirot calmamente. “Mas a maioria dos meus sucessos foi obtida com a ajuda da polícia. Admiro imensamente sua polícia inglesa. Se o Inspetor Raglan me permitir ajudá-lo, ficarei honrado e lisonjeado.”
A fisionomia do inspetor tornou-se ainda mais graciosa.
O Coronel Melrose me levou para o lado.
“Por tudo o que ouço, esse homenzinho fez coisas realmente notáveis”, murmurou ele. “Naturalmente, estamos ansiosos para não ter que chamar a Scotland Yard. Raglan parece muito seguro de si, mas não tenho tanta certeza de que concordo com ele. Veja bem, eu — er — conheço as partes envolvidas melhor do que ele. Esse sujeito não parece estar atrás de glória, não é? Trabalharia conosco discretamente, eh?”
“Para a maior glória do Inspetor Raglan”, disse eu solenemente.
“Bem, bem”, disse o Coronel Melrose alegremente em um tom mais alto, “temos de deixá-lo a par dos últimos desenvolvimentos, M. Poirot.”
“Agradeço-lhe”, disse Poirot. “Meu amigo, Dr. Sheppard, mencionou algo sobre o mordomo ser suspeito?”
“Isso é tudo bobagem”, disse Raglan instantaneamente. “Esses criados de classe alta ficam com tanto medo que agem de forma suspeita por nada.”
“As impressões digitais?” insinuei.
“Nada parecido com as de Parker.” Ele deu um leve sorriso e acrescentou: “E as suas e as do Sr. Raymond também não batem, doutor.”
“E as do Capitão Ralph Paton?” perguntou Poirot calmamente.
Senti uma admiração secreta pela maneira como ele pegou o touro pelos chifres. Vi um olhar de respeito surgir nos olhos do inspetor.
“Vejo que o senhor não perde tempo, Sr. Poirot. Será um prazer trabalhar com o senhor, tenho certeza. Vamos tirar as impressões digitais desse jovem cavalheiro assim que pudermos colocar as mãos nele.”
“Não posso deixar de pensar que o senhor está enganado, inspetor”, disse o Coronel Melrose calorosamente. “Conheço Ralph Paton desde menino. Ele nunca se rebaixaria ao assassinato.”
“Talvez não”, disse o inspetor sem entonação.
“O que você tem contra ele?” perguntei.
“Saiu logo após as nove horas ontem à noite. Foi visto nas redondezas de Fernly Park por volta das nove e meia. Não foi visto desde então. Acredita-se que esteja em sérias dificuldades financeiras. Tenho um par de sapatos dele aqui — sapatos com tachas de borracha. Ele tinha dois pares, quase idênticos. Vou subir agora para compará-los com aquelas marcas de pegadas. O policial está lá em cima garantindo que ninguém mexa nelas.”
“Vamos imediatamente”, disse o Coronel Melrose. “O senhor e M. Poirot nos acompanharão, não é?”
Concordamos e fomos todos no carro do coronel. O inspetor estava ansioso para examinar as pegadas imediatamente e pediu para ser deixado na guarita. Cerca de metade do caminho pela entrada, à direita, um caminho ramificava-se e levava ao terraço e à janela do escritório de Ackroyd.
“O senhor gostaria de ir com o inspetor, M. Poirot?” perguntou o chefe de polícia, “ou preferiria examinar o escritório?”
Poirot escolheu a última alternativa. Parker abriu a porta para nós. Seu modo era presunçoso e deferente, e ele parecia ter se recuperado de seu pânico da noite anterior.
O Coronel Melrose tirou uma chave do bolso e, destrancando a porta que dava para o saguão, conduziu-nos para o escritório.
“Exceto pela remoção do corpo, M. Poirot, esta sala está exatamente como estava ontem à noite.”
“E o corpo foi encontrado — onde?”
Tão precisamente quanto possível, descrevi a posição de Ackroyd. A poltrona ainda estava em frente ao fogo.
Poirot foi e sentou-se nela.
“A carta azul de que fala, onde estava quando o senhor deixou a sala?”
“O Sr. Ackroyd a havia deixado nesta mesinha à sua direita.”
Poirot assentiu.
“Exceto por isso, tudo estava em seu lugar?”
“Sim, creio que sim.”
“Coronel Melrose, o senhor seria tão extremamente gentil de sentar-se nesta cadeira por um minuto? Agradeço-lhe. Agora, M. le docteur, o senhor teria a gentileza de me indicar a posição exata da adaga?”
Fiz isso, enquanto o homenzinho estava na porta.
“O punho da adaga estava claramente visível da porta, então. Tanto o senhor quanto Parker puderam vê-lo imediatamente?”
“Sim.”
Poirot foi em seguida até a janela.
“A luz elétrica estava acesa, é claro, quando o senhor descobriu o corpo?” perguntou ele por cima do ombro.
Concordei e juntei-me a ele onde ele estudava as marcas no parapeito da janela.
“As tachas de borracha são do mesmo padrão daquelas nos sapatos do Capitão Paton”, disse ele calmamente.
Então ele voltou mais uma vez para o meio da sala. Seus olhos percorreram o ambiente, examinando tudo com um olhar rápido e treinado.
“O senhor é um homem de boa observação, Dr. Sheppard?” perguntou ele por fim.
“Acho que sim”, disse eu, surpreso.
“Havia fogo na lareira, vejo. Quando o senhor arrombou a porta e encontrou o Sr. Ackroyd morto, como estava o fogo? Estava baixo?”
Dei uma risada aborrecida.
“Eu — eu realmente não sei dizer. Não notei. Talvez o Sr. Raymond ou o Major Blunt...”
O homenzinho à minha frente balançou a cabeça com um leve sorriso.
“Deve-se sempre proceder com método. Cometi um erro de julgamento ao fazer-lhe essa pergunta. A cada homem seu próprio conhecimento. O senhor poderia me contar os detalhes da aparência do paciente — nada lá escaparia ao senhor. Se eu quisesse informações sobre os papéis naquela mesa, o Sr. Raymond teria notado qualquer coisa que houvesse para ver. Para descobrir sobre o fogo, devo perguntar ao homem cujo trabalho é observar tais coisas. O senhor permite...”
Ele moveu-se rapidamente para a lareira e tocou a campainha.
Após um lapso de um minuto ou dois, Parker apareceu.
“A campainha tocou, senhor”, disse ele hesitantemente.
“Entre, Parker”, disse o Coronel Melrose. “Este cavalheiro quer lhe perguntar algo.”
Parker transferiu uma atenção respeitosa para Poirot.
“Parker”, disse o homenzinho, “quando o senhor arrombou a porta com o Dr. Sheppard ontem à noite, e encontrou seu patrão morto, qual era o estado do fogo?”
Parker respondeu sem hesitar.
“Estava muito baixo, senhor. Estava quase apagado.”
“Ah!” disse Poirot. A exclamação soou quase triunfante. Ele continuou: —
“Olhe ao seu redor, meu bom Parker. Esta sala está exatamente como estava então?”
O olhar do mordomo percorreu o ambiente. Parou nas janelas.
“As cortinas estavam fechadas, senhor, e a luz elétrica estava acesa.”
Poirot assentiu em aprovação.
“Mais alguma coisa?”
“Sim, senhor, esta cadeira estava um pouco mais para fora.”
Ele indicou uma grande poltrona à esquerda da porta, entre ela e a janela. Anexo um plano da sala com a cadeira em questão marcada com um X.
“Mostre-me simplesmente,” disse Poirot.
| | | + / X PEQUENO ] | | | \ / MESA +---+ | | + | +++ | ||| +---+ CADEIRA EM QUE ___ | ||| ] | ACKROYD FOI / \ | ||| +---+ ENCONTRADO MESA | | | ||| \___/ | ||| | ||| | +++ +---+ + | | ^ ] | CADEIRA EM QUE / \ | | | +---+ SHEPPARD SENTOU / / + | | | / / | | | ESCRIVANINHA & + / | | | LAREIRA CADEIRA \ / | | +------------ + | +----------------------------------------+ ]
O mordomo puxou a cadeira em questão uns sessenta centímetros para fora da parede, virando-a de modo que o assento ficasse de frente para a porta.
“Voilà ce qui est curieux,” murmurou Poirot. “Ninguém iria querer sentar-se numa cadeira nessa posição, imagino. Agora, quem a empurrou de volta para o lugar, pergunto-me? Foi o senhor, meu amigo?”
“Não, senhor,” disse Parker. “Eu estava demasiado perturbado por ver o patrão e tudo o mais.”
Poirot olhou para mim.
“Foi o senhor, doutor?”
Balancei a cabeça.
“Já estava na posição correta quando cheguei com a polícia, senhor,” intrometeu-se Parker. “Tenho a certeza disso.”
“Curioso,” disse Poirot novamente.
“Raymond ou Blunt devem tê-la empurrado de volta,” sugeri. “Certamente não é importante?”
“É completamente desprovido de importância,” disse Poirot. “É por isso que é tão interessante,” acrescentou suavemente.
“Com licença por um minuto,” disse o Coronel Melrose. Ele saiu da sala com Parker.
“Acha que Parker está a dizer a verdade?” perguntei.
“Sobre a cadeira, sim. Quanto ao resto, não sei. Descobrirá, M. le docteur, se tiver muito que lidar com casos deste género, que todos se assemelham numa única coisa.”
“Qual é essa?” perguntei, curioso.
“Cada uma das pessoas envolvidas neles tem algo a esconder.”
“Eu tenho?” perguntei, sorrindo.
Poirot olhou para mim atentamente.
“Penso que tem,” disse ele calmamente.
“Mas——”
“Disse-me tudo o que sabe sobre este jovem Paton?” Ele sorriu quando corei. “Oh! não tenha receio. Não o pressionarei. Hei de saber a seu tempo.”
“Gostaria que me contasse algo sobre os seus métodos,” disse eu apressadamente, para disfarçar a minha confusão. “O ponto sobre o fogo, por exemplo?”
“Oh! isso foi muito simples. O senhor deixa o Sr. Ackroyd às—oito e cinquenta, não foi?”
“Sim, exatamente, eu diria.”
“A janela está então fechada e trancada e a porta aberta. Às dez e um quarto, quando o corpo é descoberto, a porta está trancada e a janela aberta. Quem a abriu? Claramente, apenas o próprio Sr. Ackroyd poderia tê-lo feito, e por uma de duas razões. Ou porque a sala se tornou insuportavelmente quente (mas como o fogo estava quase apagado e houve uma queda brusca de temperatura na noite passada, essa não pode ser a razão), ou porque ele admitiu alguém por ali. E se admitiu alguém por ali, deve ter sido alguém bem conhecido dele, visto que ele já se tinha mostrado inquieto em relação a essa mesma janela.”
“Parece muito simples,” disse eu.
“Tudo é simples, se organizar os factos metodicamente. Preocupamo-nos agora com a personalidade da pessoa que esteve com ele às nove e meia da noite passada. Tudo indica que foi esse o indivíduo admitido pela janela, e embora o Sr. Ackroyd tenha sido visto vivo mais tarde pela Srta. Flora, não podemos aproximar-nos de uma solução do mistério até sabermos quem foi esse visitante. A janela pode ter ficado aberta após a sua partida e assim ter proporcionado a entrada ao assassino, ou a mesma pessoa pode ter regressado uma segunda vez. Ah! aqui está o coronel que regressa.”
O Coronel Melrose entrou com um ar animado.
“Aquele telefonema foi finalmente rastreado,” disse ele. “Não veio daqui. Foi feito para o Dr. Sheppard às 22h15 da noite passada de uma cabine telefónica pública na estação de King’s Abbot. E às 22h23 o correio noturno parte para Liverpool.”
CAPÍTULO VIII
O INSPECTOR RAGLAN ESTÁ CONFIANTE
Olhámos um para o outro.
“Vão fazer averiguações na estação, claro?” disse eu.
“Naturalmente, mas não estou muito otimista quanto ao resultado. Sabe como é aquela estação.”
Sabia. King’s Abbot é apenas uma aldeia, mas a sua estação é um importante entroncamento. A maioria dos grandes expressos para ali, e os comboios são manobrados, reordenados e formados. Tem duas ou três cabines telefónicas públicas. Àquela hora da noite, três comboios locais chegam quase seguidos, para apanhar a ligação com o expresso para o norte que chega às 22h19 e parte às 22h23. O local é um rebuliço, e as probabilidades de uma determinada pessoa ser notada a telefonar ou a entrar no expresso são realmente muito pequenas.
“Mas por que telefonar de todo?” exigiu Melrose. “É isso que acho tão extraordinário. Não parece haver rima nem razão na coisa.”
Poirot endireitou cuidadosamente um ornamento de porcelana numa das estantes.
“Tenha a certeza de que havia uma razão,” disse ele por cima do ombro.
“Mas que razão poderia ser?”
“Quando soubermos disso, saberemos tudo. Este caso é muito curioso e muito interessante.”
Havia algo quase indescritível na forma como ele disse essas últimas palavras. Senti que ele estava a olhar para o caso a partir de um ângulo peculiar seu, e o que ele via eu não conseguia dizer.
Ele foi até à janela e ficou lá, a olhar para fora.
“Diz que eram nove horas, Dr. Sheppard, quando encontrou este estranho fora do portão?”
Ele fez a pergunta sem se virar.
“Sim,” respondi. “Ouvi o relógio da igreja bater a hora.”
“Quanto tempo levaria ele a chegar à casa—a chegar a esta janela, por exemplo?”
“Cinco minutos no máximo. Apenas dois ou três minutos se ele seguisse pelo caminho à direita da entrada e viesse diretamente para aqui.”
“Mas para o fazer teria de conhecer o caminho. Como posso explicar-me?—significaria que ele já cá tinha estado antes—que conhecia as redondezas.”
“Isso é verdade,” respondeu o Coronel Melrose.
“Poderíamos descobrir, sem dúvida, se o Sr. Ackroyd tinha recebido algum estranho durante a última semana?”
“O jovem Raymond poderia dizer-nos isso,” disse eu.
“Ou Parker,” sugeriu o Coronel Melrose.
“Ou tous les deux,” sugeriu Poirot, sorrindo.
O Coronel Melrose foi em busca de Raymond, e eu toquei a campainha mais uma vez para Parker.
O Coronel Melrose regressou quase imediatamente, acompanhado pelo jovem secretário, a quem apresentou a Poirot. Geoffrey Raymond estava fresco e alegre como sempre. Pareceu surpreendido e encantado por conhecer Poirot.
“Não fazia ideia de que tinha estado a viver entre nós incógnito, M. Poirot,” disse ele. “Será um grande privilégio vê-lo a trabalhar——Olá, o que é isto?”
Poirot estivera parado logo à esquerda da porta. Agora, ele afastou-se subitamente, e vi que, enquanto eu estava de costas, ele devia ter puxado rapidamente a poltrona até ela ficar na posição que Parker tinha indicado.
“Quer que me sente na cadeira enquanto faz um exame de sangue?” perguntou Raymond bem-humorado. “Qual é a ideia?”
“M. Raymond, esta cadeira foi puxada—assim—ontem à noite quando o Sr. Ackroyd foi encontrado morto. Alguém a empurrou de volta para o lugar. Foi o senhor?”
A resposta do secretário veio sem um segundo de hesitação.
“Não, de facto, não fui. Nem sequer me lembro de que estivesse nessa posição, mas deve ter estado se o senhor o diz. De qualquer modo, alguém deve tê-la empurrado de volta para o seu lugar apropriado. Terão destruído uma pista ao fazê-lo? Que azar!”
“Não tem qualquer consequência,” disse o detetive. “Nenhuma consequência, seja como for. O que realmente quero perguntar-lhe é isto, M. Raymond: Algum estranho veio ver o Sr. Ackroyd durante esta última semana?”
O secretário refletiu por um minuto ou dois, franzindo a testa, e durante a pausa, Parker apareceu em resposta à campainha.
“Não,” disse Raymond finalmente. “Não me consigo lembrar de ninguém. Consegue, Parker?”
“Peço perdão, senhor?”
“Algum estranho a vir ver o Sr. Ackroyd esta semana?”
O mordomo refletiu por um minuto ou dois.
“Houve aquele jovem que veio na quarta-feira, senhor,” disse ele finalmente. “Julguei que fosse da Curtis and Troute.”
Raymond afastou isso com um gesto impaciente.
“Oh! sim, lembro-me, mas esse não é o tipo de estranho a que este cavalheiro se refere.” Ele virou-se para Poirot. “O Sr. Ackroyd teve uma ideia de comprar um ditafone,” explicou. “Teria permitido que terminássemos muito mais trabalho num tempo limitado. A empresa em questão enviou o seu representante, mas não deu em nada. O Sr. Ackroyd não se decidiu a comprar.”
Poirot virou-se para o mordomo.
“Pode descrever-me este jovem, meu bom Parker?”
“Ele era de cabelo claro, senhor, e baixo. Vestido de forma muito elegante num fato de sarja azul. Um jovem muito apresentável, senhor, para a sua condição social.”
Poirot virou-se para mim.
“O homem que encontrou fora do portão, doutor, era alto, não era?”
“Sim,” disse eu. “Cerca de um metro e oitenta, eu diria.”
“Não há nada nisso, então,” declarou o belga. “Agradeço-lhe, Parker.”
O mordomo falou com Raymond.
“O Sr. Hammond acabou de chegar, senhor,” disse ele. “Ele está ansioso por saber se pode ser de alguma utilidade, e ficaria contente por ter uma palavra consigo.”
“Vou já,” disse o jovem. Ele saiu apressado. Poirot olhou interrogativamente para o chefe da polícia.
“O advogado da família, M. Poirot,” disse este último.
“É uma altura ocupada para este jovem M. Raymond,” murmurou M. Poirot. “Ele tem um ar eficiente, aquele.”
“Creio que o Sr. Ackroyd o considerava um secretário muito capaz.”
“Ele está aqui—há quanto tempo?”
“Há cerca de dois anos, suponho.”
“Os seus deveres ele cumpre-os pontualmente. Disso tenho a certeza. De que maneira ele se diverte? Ele pratica le sport?”
“Secretários particulares não têm muito tempo para esse tipo de coisas,” disse o Coronel Melrose, sorrindo. “Raymond joga golfe, creio eu. E ténis no verão.”
“Ele não frequenta os hipódromos—quero dizer, as corridas de cavalos?”
“Corridas? Não, não creio que ele se interesse por corridas.”
Poirot assentiu e pareceu perder o interesse. Ele olhou lentamente em redor do escritório.
“Vi, penso eu, tudo o que há para ver aqui.”
Eu, também, olhei em redor.
“Se aquelas paredes pudessem falar,” murmurei.
Poirot abanou a cabeça.
“Uma língua não basta,” disse ele. “Teriam de ter também olhos e ouvidos. Mas não tenha tanta certeza de que estas coisas mortas”—ele tocou no topo da estante enquanto falava—“são sempre mudas. Para mim, elas falam por vezes—cadeiras, mesas—têm a sua mensagem!”
Ele virou-se para a porta.
“Que mensagem?” gritei. “O que lhe disseram elas hoje?”
Ele olhou por cima do ombro e ergueu uma sobrancelha, intrigado.
“Uma janela aberta,” disse ele. “Uma porta trancada. Uma cadeira que aparentemente se moveu sozinha. A todas as três pergunto ‘Porquê?’ e não encontro resposta.”
Ele abanou a cabeça, estufou o peito e ficou ali a piscar-nos os olhos. Parecia ridiculamente cheio da sua própria importância. Passou-me pela cabeça perguntar-me se ele era realmente bom como detetive. Teria a sua grande reputação sido construída sobre uma série de sortes?
Penso que o mesmo pensamento deve ter ocorrido ao Coronel Melrose, pois ele franziu a testa.
“Mais alguma coisa que queira ver, M. Poirot?” perguntou ele bruscamente.
“Teria talvez a amabilidade de me mostrar a mesa de prata da qual a arma foi retirada? Depois disso, não abusarei mais da sua bondade.”
Fomos até à sala de estar, mas no caminho o polícia intercetou o coronel, e após uma conversa murmurada, este último desculpou-se e deixou-nos sós. Mostrei a Poirot a mesa de prata, e após levantar a tampa uma ou duas vezes e deixá-la cair, ele empurrou a janela e saiu para o terraço. Segui-o.
O Inspetor Raglan tinha acabado de contornar a casa e vinha na nossa direção. O seu rosto parecia severo e satisfeito.
“Ora aí está o senhor, M. Poirot,” disse ele. “Bem, este não vai ser um grande caso. Lamento, também. Um jovem simpático que se desviou do caminho.”
O semblante de Poirot caiu, e ele falou muito suavemente.
“Receio que não poderei ser de grande ajuda para si, então?”
“Na próxima vez, talvez,” disse o inspetor, de forma tranquilizadora. “Embora não tenhamos homicídios todos os dias neste canto sossegado do mundo.”
O olhar de Poirot adquiriu uma qualidade de admiração.
“O senhor teve uma prontidão maravilhosa,” observou. “Como é que exatamente começou a trabalhar, se me permite perguntar?”
“Certamente,” disse o inspetor. “Para começar—método. É o que digo sempre—método!”
“Ah!” exclamou o outro. “Essa, também, é a minha palavra de ordem. Método, ordem e as pequenas células cinzentas.”
“As células?” disse o inspetor, a olhar fixamente.
“As pequenas células cinzentas do cérebro,” explicou o belga.
“Oh, claro; bem, todos as usamos, suponho.”
“Em maior ou menor grau,” murmurou Poirot. “E há, também, diferenças de qualidade. Depois, há a psicologia de um crime. É preciso estudá-la.”
“Ah!” disse o inspetor, “foi picado por toda essa coisa da psicanálise? Ora, eu sou um homem simples——”
“A Sra. Raglan não concordaria, tenho a certeza, com isso,” disse Poirot, fazendo-lhe uma pequena vénia.
O Inspetor Raglan, um pouco surpreendido, fez uma vénia.
“Não percebe,” disse ele, sorrindo abertamente. “Senhor, quanta diferença faz a linguagem. Estou a dizer-lhe como comecei a trabalhar. Primeiro, método. O Sr. Ackroyd foi visto vivo pela última vez às nove e quarenta e cinco pela sua sobrinha, Srta. Flora Ackroyd. Esse é o facto número um, não é?”
“Se o diz.”
“Bem, é. Às dez e meia, o doutor aqui diz que o Sr. Ackroyd está morto há pelo menos meia hora. Mantém isso, doutor?”
“Certamente,” disse eu. “Meia hora ou mais.”
“Muito bem. Isso dá-nos exatamente um quarto de hora em que o crime deve ter sido cometido. Faço uma lista de todos na casa, e trabalho com ela, anotando ao lado dos seus nomes onde estavam e o que faziam entre as nove e quarenta e cinco e as dez da noite.”
Ele entregou uma folha de papel a Poirot. Li-a por cima do ombro dele. Dizia o seguinte, escrito numa caligrafia cuidada:—
Major Blunt.—Na sala de bilhar com o Sr. Raymond. (Este último confirma.)
Sr. Raymond.—Sala de bilhar. (Ver acima.)
_Sra. Ackroyd.—9h45 a ver o jogo de bilhar. Foi para a cama às 9h55. (Raymond e Blunt viram-na subir a escada.)_
_Srta. Ackroyd.—Foi diretamente do quarto do tio para cima. (Confirmado por Parker, também pela criada, Elsie Dale.)_
Criados:—
_Parker.—Foi diretamente para a copa do mordomo. (Confirmado pela governanta, Srta. Russell, que desceu para falar com ele sobre algo às 9h47, e lá permaneceu pelo menos dez minutos.)_
_Srta. Russell.—Como acima. Falou com a criada, Elsie Dale, lá em cima às 9h45._
_Ursula Bourne (criada de quarto).—No seu próprio quarto até às 9h55. Depois na Sala dos Criados._
Sra. Cooper (cozinheira).—Na Sala dos Criados.
Gladys Jones (segunda criada).—Na Sala dos Criados.
_Elsie Dale.—Lá em cima no quarto. Vista lá pela Srta. Russell e pela Srta. Flora Ackroyd._
Mary Thripp (ajudante de cozinha).—Na Sala dos Criados.
“A cozinheira está aqui há sete anos, a criada de quarto há dezoito meses, e Parker há pouco mais de um ano. Os outros são novos. Exceto por algo de suspeito sobre o Parker, todos parecem perfeitamente bem.”
“Uma lista muito completa,” disse Poirot, devolvendo-lha. “Tenho a certeza de que o Parker não cometeu o homicídio,” acrescentou gravemente.
“A minha irmã também,” intrometi-me. “E ela normalmente tem razão.” Ninguém prestou atenção à minha interpolação.
“Isso despacha de forma bastante eficaz o pessoal da casa,” continuou o inspetor. “Agora chegamos a um ponto muito grave. A mulher da portaria—Mary Black—estava a fechar as cortinas ontem à noite quando viu Ralph Paton virar no portão e subir em direção à casa.”
“Ela tem a certeza disso?” perguntei bruscamente.
“Muita certeza. Ela conhece-o bem de vista. Ele passou muito depressa e desviou-se pelo caminho à direita, que é um atalho para o terraço.”
“E que horas eram?” perguntou Poirot, que permanecia com um rosto imperturbável.
“Exatamente às nove e vinte e cinco,” disse o inspetor gravemente.
Houve silêncio. Depois o inspetor falou novamente.
“É tudo bastante claro. Encaixa sem falhas. Às nove e vinte e cinco, o Capitão Paton é visto a passar pela portaria; às nove e meia ou por volta disso, o Sr. Geoffrey Raymond ouve alguém aqui dentro a pedir dinheiro e o Sr. Ackroyd a recusar. O que acontece a seguir? O Capitão Paton sai pelo mesmo caminho—pela janela. Ele caminha ao longo do terraço, zangado e frustrado. Ele chega à janela aberta da sala de estar. Digamos que são agora nove e quarenta e cinco. A Srta. Flora Ackroyd está a dizer boa noite ao tio. O Major Blunt, o Sr. Raymond e a Sra. Ackroyd estão na sala de bilhar. A sala de estar está vazia. Ele entra furtivamente, tira o punhal da mesa de prata e regressa à janela do escritório. Tira os sapatos, entra e—bem, não preciso de entrar em detalhes. Depois, ele sai furtivamente novamente e vai-se embora. Não teve coragem para voltar à estalagem. Ele dirige-se à estação, telefona de lá——”
“Porquê?” disse Poirot suavemente.
Saltei com a interrupção. O homenzinho estava inclinado para a frente. Os seus olhos brilhavam com uma estranha luz verde.
Por um momento, o Inspetor Raglan ficou surpreendido com a pergunta.
“É difícil dizer exatamente porque é que ele fez isso,” disse ele finalmente. “Mas os assassinos fazem coisas engraçadas. O senhor saberia disso se estivesse na força policial. Os mais inteligentes deles cometem erros estúpidos por vezes. Mas venha, vou mostrar-lhe essas pegadas.”
Seguimo-lo à volta do canto do terraço até à janela do escritório. A um sinal de Raglan, um agente da polícia trouxe os sapatos que tinham sido obtidos na estalagem local.
O inspetor colocou-os sobre as marcas.
“São os mesmos,” disse ele com confiança. “Isto é, não são o mesmo par que fez realmente estas marcas. Ele foi-se embora com aqueles. Este é um par igual a eles, mas mais velho—veja como os pitões estão gastos.”
“Certamente muitas pessoas usam sapatos com pitões de borracha?” perguntou Poirot.
“É verdade, claro,” disse o inspetor. “Eu não daria tanta ênfase às pegadas se não fosse por tudo o resto.”
“Um jovem muito tolo, o Capitão Ralph Paton,” disse Poirot pensativo. “Deixar tantas provas da sua presença.”
“Ah! bem,” disse o inspetor, “foi uma noite seca e agradável, sabe. Ele não deixou marcas no terraço ou no caminho de gravilha. Mas, para azar dele, uma nascente deve ter brotado ultimamente no final do caminho que vem da entrada. Veja aqui.”
Um pequeno caminho de gravilha unia-se ao terraço a poucos metros de distância. Num local, a poucos metros do seu término, o solo estava húmido e pantanoso. Ao atravessar este local húmido, havia novamente marcas de pegadas, e entre elas os sapatos com pitões de borracha.
Poirot seguiu o caminho um pouco, com o inspetor ao seu lado.
“Notou as pegadas de mulher?” disse ele subitamente.
O inspetor riu-se.
“Naturalmente. Mas várias mulheres diferentes andaram por este caminho—e homens também. É um atalho habitual para a casa, veja. Seria impossível separar todas as pegadas. Afinal, são as que estão no parapeito da janela que são realmente importantes.”
Poirot assentiu.
“Não adianta ir mais longe,” disse o inspetor, à medida que avistávamos a entrada. “É tudo gravilha novamente aqui, e duro como pode ser.”
Novamente Poirot assentiu, mas os seus olhos estavam fixos numa pequena casa de jardim—uma espécie de pavilhão de verão superior. Ficava um pouco à esquerda do caminho à nossa frente, e um passeio de gravilha levava até lá.
Poirot demorou-se até que o inspetor tivesse regressado em direção à casa. Depois, olhou para mim.
“O senhor deve ter sido realmente enviado pelo bom Deus para substituir o meu amigo Hastings,” disse ele, com um brilho nos olhos. “Observo que não sai do meu lado. Que me diz, Dr. Sheppard, vamos investigar aquele pavilhão? Interessa-me.”
Ele foi até à porta e abriu-a. Lá dentro, o lugar estava quase às escuras. Havia um ou dois bancos rústicos, um jogo de croquet e algumas cadeiras de lona dobradas.
Fiquei surpreendido ao observar o meu novo amigo. Ele tinha-se baixado para as mãos e joelhos e estava a gatinhar pelo chão. De vez em quando, ele abanava a cabeça como se não estivesse satisfeito. Finalmente, sentou-se sobre os calcanhares.
“Nada”, murmurou ele. “Bem, talvez não fosse de esperar outra coisa. Mas teria significado tanto——”
Ele interrompeu-se, ficando tenso de corpo inteiro. Depois, estendeu a mão para uma das cadeiras rústicas. Desprendeu algo de um dos lados.
“O que é?”, exclamei. “O que encontrou?”
Ele sorriu, abrindo a mão para que eu visse o que nela jazia. Um retalho de cambraia branca e rígida.
Tirei-lho das mãos, examinei-o com curiosidade e devolvi-lho.
“O que acha disto, eh, meu amigo?”, perguntou ele, observando-me atentamente.
“Um retalho arrancado de um lenço”, sugeri, encolhendo os ombros.
Ele fez outro movimento rápido e apanhou uma pena pequena — uma pena de ganso, pelo que parecia.
“E isto?”, exclamou triunfante. “O que acha disto?”
Fiquei apenas a olhar.
Ele deslizou a pena para o bolso e tornou a olhar para o pedaço de tecido branco.
“Um fragmento de um lenço?”, ponderou. “Talvez tenha razão. Mas lembre-se disto — uma boa lavandaria não engoma um lenço.”
Acenou-me triunfante e, de seguida, guardou cuidadosamente o retalho na sua carteira.
CAPÍTULO IX
O LAGO DOS PEIXES-DOURADOS
Voltámos juntos para a casa. Não havia sinal do inspetor. Poirot parou no terraço e ficou de costas para a casa, movendo lentamente a cabeça de um lado para o outro.
“Une belle propriété”, disse ele finalmente, com aprecio. “Quem a herda?”
As suas palavras causaram-me quase um choque. É algo estranho, mas até àquele momento a questão da herança nunca me tinha passado pela cabeça. Poirot observou-me com atenção.
“É uma ideia nova para si, essa”, disse ele por fim. “Não tinha pensado nisso antes — eh?”
“Não”, disse eu, com sinceridade. “Quem me dera ter pensado.”
Ele olhou para mim de novo, com curiosidade.
“Gostaria de saber o que quer dizer com isso”, disse ele, pensativo. “Ah! não”, disse ele quando eu ia falar. “Inutile! Não me diria o seu verdadeiro pensamento.”
“Toda a gente tem algo a esconder”, citei, sorrindo.
“Exatamente.”
“Ainda acredita nisso?”
“Mais do que nunca, meu amigo. Mas não é fácil esconder coisas de Hercule Poirot. Ele tem um talento especial para descobrir.”
Ele desceu os degraus do jardim holandês enquanto falava.
“Vamos caminhar um pouco”, disse ele por cima do ombro. “O ar está agradável hoje.”
Segui-o. Ele conduziu-me por um caminho à esquerda, cercado por sebes de teixo. Um passeio atravessava o meio, ladeado de ambos os lados por canteiros formais de flores, e no final havia uma reentrância pavimentada e circular, com um banco e um lago de peixes-dourados. Em vez de seguir o caminho até ao fim, Poirot tomou outro que subia pela encosta arborizada. Num certo ponto, as árvores tinham sido desbastadas e fora colocado um banco. Sentado ali, tinha-se uma vista esplêndida sobre a paisagem e podia olhar-se diretamente para a reentrância pavimentada e para o lago dos peixes-dourados.
“A Inglaterra é muito bela”, disse Poirot, com os olhos a vaguear pela vista. Depois, sorriu. “E as raparigas inglesas também”, disse ele em tom mais baixo. “Silêncio, meu amigo, e olhe para o belo quadro abaixo de nós.”
Foi então que vi Flora. Ela caminhava pelo caminho que tínhamos acabado de deixar e trauteava um pequeno trecho de uma canção. O seu passo era mais de dança do que de caminhada e, apesar do seu vestido preto, não havia nada além de alegria em toda a sua atitude. Deu um repentino pirueta nas pontas dos pés e as suas vestes negras agitaram-se. Ao mesmo tempo, atirou a cabeça para trás e riu-se às gargalhadas.
Nesse momento, um homem surgiu por entre as árvores. Era Hector Blunt.
A rapariga sobressaltou-se. A sua expressão mudou um pouco.
“Como me assustou — não o vi.”
Blunt não disse nada, apenas ficou a olhá-la por um minuto ou dois em silêncio.
“O que eu gosto no senhor”, disse Flora, com um toque de malícia, “é a sua conversa alegre.”
Imagino que, com isto, Blunt tenha corado por baixo do bronzeado. A sua voz, quando falou, soou diferente — tinha um curioso tipo de humildade.
“Nunca fui de falar muito. Nem quando era jovem.”
“Isso foi há muito tempo, suponho”, disse Flora gravemente.
Captei o subtexto de riso na sua voz, mas não creio que Blunt o tenha feito.
“Sim”, disse ele simplesmente, “foi.”
“Como é que se sente por ser Matusalém?”, perguntou Flora.
Desta vez, o riso era mais evidente, mas Blunt seguia uma ideia sua.
“Lembra-se daquele tipo que vendeu a alma ao diabo? Em troca de voltar a ser jovem? Há uma ópera sobre isso.”
“Faust, quer dizer?”
“É esse o sujeito. História estranha. Alguns de nós fá-lo-iam se pudessem.”
“Qualquer um pensaria que as suas articulações estão a ranger, ao ouvi-lo falar”, exclamou Flora, meio vexada, meio divertida.
Blunt não disse nada durante um minuto ou dois. Depois, desviou o olhar de Flora para a distância média e comentou com o tronco de uma árvore adjacente que estava na altura de voltar para África.
“Vai para outra expedição — caçar coisas?”
“Suponho que sim. Faço isso habitualmente, sabe — caçar coisas, quero dizer.”
“O senhor caçou aquela cabeça no hall, não foi?”
Blunt acenou. Depois, soltou, ficando bastante vermelho ao fazê-lo:
“Gostaria de ter algumas peles decentes algum dia? Se sim, poderia arranjá-las para si.”
“Oh! por favor, faça-o”, exclamou Flora. “Fá-lo-á mesmo? Não se esquecerá?”
“Não me esquecerei”, disse Hector Blunt.
Acrescentou, num súbito impulso de comunicabilidade:
“Está na hora de ir. Não sirvo para este tipo de vida. Não tenho modos para isto. Sou um tipo rude, sem utilidade na sociedade. Nunca me lembro das coisas que se espera que se diga. Sim, está na hora de ir.”
“Mas não vai já”, exclamou Flora. “Não — não enquanto estamos em todos estes problemas. Oh! por favor. Se o senhor for——”
Ela virou-se um pouco.
“Quer que eu fique?”, perguntou Blunt.
Ele falou de forma deliberada, mas muito simples.
“Todos nós——”
“Referia-me a si pessoalmente”, disse Blunt, com franqueza.
Flora virou-se lentamente e encontrou os seus olhos.
“Quero que fique”, disse ela, “se — se isso faz alguma diferença.”
“Faz toda a diferença”, disse Blunt.
Houve um momento de silêncio. Sentaram-se no banco de pedra junto ao lago dos peixes-dourados. Parecia que nenhum deles sabia muito bem o que dizer a seguir.
“É — é uma manhã tão linda”, disse Flora por fim. “Sabe, não posso deixar de me sentir feliz, apesar — apesar de tudo. Isso é horrível, suponho?”
“Muito natural”, disse Blunt. “Nunca viu o seu tio até há dois anos, pois não? Não se pode esperar que sofra muito. É muito melhor não haver hipocrisias quanto a isso.”
“Há algo de terrivelmente consolador no senhor”, disse Flora. “Torna as coisas tão simples.”
“As coisas são simples, regra geral”, disse o caçador de animais grandes.
“Nem sempre”, disse Flora.
A sua voz tinha baixado de tom, e vi Blunt virar-se e olhar para ela, desviando os olhos (aparentemente) da costa de África para o fazer. Ele, evidentemente, deu a sua própria interpretação à mudança de tom dela, pois disse, após um minuto ou dois, de uma forma algo brusca:
“Diga-me, sabe, não deve preocupar-se. Sobre aquele jovem, quero dizer. O inspetor é um asno. Toda a gente sabe — é totalmente absurdo pensar que ele pudesse ter feito aquilo. Alguém de fora. Um tipo ladrão. Essa é a única solução possível.”
Flora virou-se para olhá-lo.
“O senhor pensa mesmo isso?”
“Não pensa?”, disse Blunt rapidamente.
“Eu — oh, sim, claro.”
Outro silêncio, e então Flora explodiu:
“Eu — vou dizer-lhe porque me senti tão feliz esta manhã. Por mais insensível que me considere, prefiro dizer-lhe. É porque o advogado esteve cá — o Sr. Hammond. Ele falou-nos sobre o testamento. O tio Roger deixou-me vinte mil libras. Pense nisso — vinte mil belas libras.”
Blunt pareceu surpreendido.
“Significa tanto para si?”
“Significa muito para mim? Ora, é tudo. Liberdade — vida — chega de esquemas, de poupanças e de mentiras——”
“Mentiras?”, disse Blunt, interrompendo bruscamente.
Flora pareceu apanhada de surpresa por um momento.
“Sabe o que quero dizer”, disse ela, hesitante. “Fingir que se é grata por todas as coisas horríveis e usadas que os parentes ricos nos dão. Casacos, saias e chapéus do ano passado.”
“Não sei muito sobre roupas de senhora; diria que esteve sempre muito bem vestida.”
“Custou-me algo, no entanto”, disse Flora em voz baixa. “Não falemos de coisas horríveis. Estou tão feliz. Estou livre. Livre para fazer o que quiser. Livre para não——”
Ela parou subitamente.
“Para não o quê?”, perguntou Blunt rapidamente.
“Já não me lembro. Nada de importante.”
Blunt tinha uma bengala na mão e espetou-a no lago, cutucando algo.
“O que está a fazer, Major Blunt?”
“Há algo brilhante ali em baixo. Perguntava-me o que seria — parece um broche de ouro. Agora levantei a lama e desapareceu.”
“Talvez seja uma coroa”, sugeriu Flora. “Como a que Mélisande viu na água.”
“Mélisande”, disse Blunt, pensativo — “ela é de uma ópera, não é?”
“Sim, parece saber muito sobre óperas.”
“As pessoas levam-me por vezes”, disse Blunt tristemente. “Ideia engraçada de prazer — pior barulho do que o que os nativos fazem com os seus tambores.”
Flora riu-se.
“Lembro-me de Mélisande”, continuou Blunt, “casou-se com um tipo velho o suficiente para ser seu pai.”
Ele atirou uma pequena pedra de sílex para o lago dos peixes-dourados. Depois, com uma mudança de atitude, virou-se para Flora.
“Srta. Ackroyd, posso fazer alguma coisa? Sobre Paton, quero dizer. Sei o quão terrivelmente ansiosa deve estar.”
“Obrigada”, disse Flora com uma voz fria. “Não há realmente nada a fazer. Ralph ficará bem. Arrumei o detetive mais maravilhoso do mundo e ele vai descobrir tudo sobre isso.”
Durante algum tempo, senti-me inquieto quanto à nossa posição. Não estávamos exatamente a ouvir às escondidas, uma vez que os dois no jardim abaixo só tinham de levantar as cabeças para nos verem. No entanto, já deveria ter chamado a atenção para a nossa presença, se o meu companheiro não tivesse exercido uma pressão de aviso no meu braço. Claramente, ele queria que eu permanecesse em silêncio.
Mas agora ele levantou-se vivamente, limpando a garganta.
“Peço perdão”, exclamou. “Não posso permitir que a mademoiselle me faça elogios tão extravagantes e não chamar a atenção para a minha presença. Dizem que quem ouve atrás da porta não ouve nada de bom sobre si, mas não é esse o caso desta vez. Para poupar o meu rubor, devo juntar-me a vós e pedir desculpas.”
Ele apressou-se pelo caminho, comigo logo atrás, e juntou-se aos outros junto ao lago.
“Este é o M. Hercule Poirot”, disse Flora. “Suponho que já tenha ouvido falar dele.”
Poirot fez uma vénia.
“Conheço o Major Blunt de nome”, disse ele educadamente. “Fico contente por tê-lo encontrado, monsieur. Preciso de algumas informações que o senhor me pode dar.”
Blunt olhou-o com ar de interrogação.
“Quando viu o M. Ackroyd vivo pela última vez?”
“Ao jantar.”
“E não viu nem ouviu nada sobre ele depois disso?”
“Não o vi. Ouvi a sua voz.”
“Como foi isso?”
“Passeava pelo terraço——”
“Perdoe-me, a que horas foi isto?”
“Cerca das nove e meia. Estava a andar de um lado para o outro a fumar em frente à janela da sala de estar. Ouvi Ackroyd a falar no seu escritório——”
Poirot inclinou-se e removeu uma erva daninha microscópica.
“Certamente não poderia ouvir vozes no escritório a partir daquela parte do terraço”, murmurou ele.
Ele não estava a olhar para Blunt, mas eu estava, e para minha intensa surpresa, vi este último corar.
“Fui até ao canto”, explicou ele, relutante.
“Ah! a sério?”, disse Poirot.
Da maneira mais suave, transmitiu a impressão de que queria saber mais.
“Julguei ver — uma mulher a desaparecer para dentro dos arbustos. Apenas um vislumbre de branco, sabe. Devo ter-me enganado. Foi quando estava de pé no canto do terraço que ouvi a voz de Ackroyd a falar com aquele secretário dele.”
“A falar com o Sr. Geoffrey Raymond?”
“Sim — foi o que supus na altura. Parece que me enganei.”
“O Sr. Ackroyd não o tratou pelo nome?”
“Oh, não.”
“Então, se me permite a pergunta, porque é que pensou——?”
Blunt explicou laboriosamente.
“Tomei como garantido que seria Raymond, porque ele tinha dito logo antes de eu sair que ia levar alguns papéis ao Ackroyd. Nunca pensei que pudesse ser outra pessoa.”
“Consegue lembrar-se de quais foram as palavras que ouviu?”
“Receio que não. Algo totalmente comum e sem importância. Só apanhei um fragmento. Estava a pensar noutra coisa na altura.”
“Não tem importância”, murmurou Poirot. “Moveu alguma cadeira para trás contra a parede quando entrou no escritório depois de o corpo ter sido descoberto?”
“Cadeira? Não — por que deveria?”
Poirot encolheu os ombros, mas não respondeu. Voltou-se para Flora.
“Há uma coisa que gostaria de saber de si, mademoiselle. Quando estava a examinar as coisas na mesa de prata com o Dr. Sheppard, o punhal estava no seu lugar, ou não?”
Flora ergueu o queixo.
“O inspetor Raglan tem-me perguntado isso”, disse ela, ressentida. “Já lho disse, e dir-lhe-ei também. Tenho a certeza absoluta de que o punhal não estava lá. Ele acha que estava e que o Ralph o surripiou mais tarde durante a noite. E — e ele não acredita em mim. Acha que estou a dizer isso para — para proteger o Ralph.”
“E não está?”, perguntei gravemente.
Flora bateu com o pé no chão.
“O senhor também, Dr. Sheppard! Oh! é demasiado mau.”
Poirot, com tato, fez um desvio.
“É verdade o que a ouvi dizer, Major Blunt. Há algo que brilha neste lago. Vamos ver se consigo chegar lá.”
Ele ajoelhou-se junto ao lago, arregaçando a manga até ao cotovelo, e mergulhou o braço muito lentamente, para não perturbar o fundo do lago. Mas, apesar de todas as suas precauções, a lama rodopiou e ele foi forçado a retirar o braço de mãos vazias.
Ele olhou com tristeza para a lama no seu braço. Ofereci-lhe o meu lenço, que ele aceitou com fervorosos protestos de gratidão. Blunt consultou o seu relógio.
“Quase na hora de almoço”, disse ele. “É melhor voltarmos para a casa.”
“Almoçará connosco, M. Poirot?”, perguntou Flora. “Gostaria que conhecesse a minha mãe. Ela é — muito afeiçoada ao Ralph.”
O homenzinho fez uma vénia.
“Ficarei encantado, mademoiselle.”
“E o senhor também ficará, não ficará, Dr. Sheppard?”
Hesitei.
“Oh, venha!”
Eu queria ficar, por isso aceitei o convite sem mais cerimónias.
Partimos em direção à casa, Flora e Blunt a caminhar à frente.
“Que cabelo”, disse Poirot para mim em tom baixo, acenando em direção a Flora. “O ouro puro! Eles farão um belo par. Ela e o Capitão Paton, moreno e atraente. Não farão?”
Olhei para ele interrogativamente, mas ele começou a preocupar-se com umas gotas microscópicas de água na manga do seu casaco. O homem lembrava-me, de certa forma, um gato. Os seus olhos verdes e os seus hábitos minuciosos.
“E tudo por nada, também”, disse eu, compreensivo. “Pergunto-me o que seria no lago?”
“Gostaria de ver?”, perguntou Poirot.
Olhei fixamente para ele. Ele acenou.
“Meu bom amigo”, disse ele suave e reprovadoramente, “Hercule Poirot não corre o risco de desarrumar o seu traje sem ter a certeza de atingir o seu objetivo. Fazê-lo seria ridículo e absurdo. Eu nunca sou ridículo.”
“Mas o senhor tirou a mão vazia”, objetei.
“Há alturas em que é necessário ter discrição. Conta tudo aos seus pacientes — tudo, doutor? Penso que não. Nem conta tudo à sua excelente irmã, não é verdade? Antes de mostrar a minha mão vazia, deixei cair o que ela continha na minha outra mão. Irá ver o que era.”
Ele estendeu a mão esquerda, com a palma aberta. Nela jazia um pequeno aro de ouro. Uma aliança de casamento de senhora.
Tirei-lho das mãos.
“Olhe lá para dentro”, ordenou Poirot.
Fi-lo. Lá dentro havia uma inscrição em letra fina:
De R., 13 de março.
Olhei para Poirot, mas ele estava ocupado a inspecionar a sua aparência num pequeno espelho de bolso. Prestou atenção especial aos seus bigodes e nenhuma a mim. Vi que ele não pretendia ser comunicativo.
CAPÍTULO X
A CRIADA
Encontrámos a Sra. Ackroyd no hall. Com ela estava um homem pequeno e seco, com um queixo agressivo e olhos cinzentos e penetrantes, com “advogado” escrito em toda a sua figura.
“O Sr. Hammond vai almoçar connosco”, disse a Sra. Ackroyd. “Conhece o Major Blunt, Sr. Hammond? E o caro Dr. Sheppard — também um amigo próximo do pobre Roger. E, deixe-me ver——”
Ela parou, examinando Hercule Poirot com alguma perplexidade.
“Este é o M. Poirot, mãe”, disse Flora. “Falei-lhe dele esta manhã.”
“Oh! sim”, disse a Sra. Ackroyd vagamente. “Claro, minha querida, claro. Ele veio encontrar o Ralph, não foi?”
“Ele veio descobrir quem matou o tio”, disse Flora.
“Oh! minha querida”, exclamou a sua mãe. “Por favor! Os meus pobres nervos. Sou um destroço esta manhã, um verdadeiro destroço. Uma coisa tão terrível para acontecer. Não posso deixar de sentir que deve ter sido um acidente de algum tipo. Roger gostava tanto de manusear curiosidades estranhas. A mão dele deve ter escorregado, ou algo do género.”
Esta teoria foi recebida em silêncio educado. Vi Poirot aproximar-se do advogado e falar-lhe num tom confidencial. Afastaram-se para o nicho da janela. Juntei-me a eles — depois hesitei.
“Talvez esteja a interromper”, disse eu.
“De modo algum”, exclamou Poirot entusiasticamente. “O senhor e eu, M. le docteur, investigamos este assunto lado a lado. Sem si, estaria perdido. Desejo um pouco de informação do bom Sr. Hammond.”
“Entendo que está a agir em nome do Capitão Ralph Paton”, disse o advogado cautelosamente.
Poirot abanou a cabeça.
“Não é assim. Estou a agir no interesse da justiça. A Srta. Ackroyd pediu-me para investigar a morte do seu tio.”
O Sr. Hammond pareceu ligeiramente apanhado de surpresa.
“Não posso acreditar seriamente que o Capitão Paton possa estar envolvido neste crime”, disse ele, “por mais forte que seja a prova circunstancial contra ele. O simples facto de ele estar a precisar de dinheiro——”
“Ele estava a precisar de dinheiro?”, interpolou Poirot rapidamente.
O advogado encolheu os ombros.
“Era uma condição crónica com Ralph Paton”, disse ele secamente. “O dinheiro passava pelas suas mãos como água. Estava sempre a recorrer ao padrasto.”
“Ele tinha-o feito ultimamente? Durante o último ano, por exemplo?”
“Não posso dizer. O Sr. Ackroyd não me mencionou esse facto.”
“Compreendo. Sr. Hammond, suponho que está familiarizado com as disposições do testamento do Sr. Ackroyd?”
“Certamente. É essa a minha principal tarefa aqui hoje.”
“Então, uma vez que estou a agir em nome da Srta. Ackroyd, não se importará de me dizer os termos desse testamento?”
“São bastante simples. Despidos da fraseologia jurídica, e após pagar certos legados e heranças——”
“Como por exemplo——?”, interrompeu Poirot.
O Sr. Hammond pareceu um pouco surpreendido.
“Mil libras para a sua governanta, Srta. Russell; cinquenta libras para a cozinheira, Emma Cooper; quinhentas libras para o seu secretário, Sr. Geoffrey Raymond. Depois, para vários hospitais——”
Poirot ergueu a mão.
“Ah! os legados de caridade, esses não me interessam.”
“Exatamente. O rendimento de dez mil libras em ações a ser pago à Sra. Cecil Ackroyd durante a sua vida. A Srta. Flora Ackroyd herda vinte mil libras diretamente. O remanescente — incluindo esta propriedade e as ações da Ackroyd and Son — para o seu filho adotivo, Ralph Paton.”
“O Sr. Ackroyd possuía uma grande fortuna?”
“Uma fortuna muito grande. O Capitão Paton será um jovem extremamente rico.”
Houve silêncio. Poirot e o advogado olharam um para o outro.
“Sr. Hammond”, veio a voz da Sra. Ackroyd de forma plangente junto à lareira.
O advogado respondeu ao chamamento. Poirot pegou no meu braço e puxou-me para a janela.
“Observe as íris”, comentou ele em voz um pouco alta. “Magníficas, não são? Um efeito reto e agradável.”
Ao mesmo tempo, senti a pressão da sua mão no meu braço, e ele acrescentou em tom baixo:
“Deseja realmente ajudar-me? Participar nesta investigação?”
“Sim, sem dúvida”, disse eu, ansioso. “Não há nada que eu gostasse mais. O senhor não sabe que vida de velho ranzinza eu levo. Nunca nada fora do comum.”
“Bom, seremos colegas então. Daqui a um ou dois minutos imagino que o Major Blunt se juntará a nós. Ele não está feliz com a boa mamã. Agora, há algumas coisas que quero saber — mas não quero parecer querer sabê-las. Compreende? Portanto, caberá a si fazer as perguntas.”
“Que perguntas quer que eu faça?”, perguntei, apreensivo.
“Quero que introduza o nome da Sra. Ferrars.”
“Sim?”
“Fale dela de uma forma natural. Pergunte-lhe se ele estava aqui quando o marido dela morreu. Percebe o tipo de coisa a que me refiro? E, enquanto ele responde, observe-lhe a cara sem parecer que a está a observar. C’est compris?”
Não houve tempo para mais, pois, nesse minuto, como Poirot profetizara, Blunt deixou os outros com o seu jeito brusco e veio ter connosco.
Sugeri um passeio pelo terraço e ele anuiu. Poirot ficou para trás.
Parei para examinar uma rosa tardia.
“Como as coisas mudam no espaço de um ou dois dias”, observei. “Lembro-me de estar aqui em cima na última quarta-feira, a caminhar de um lado para o outro neste mesmo terraço. Ackroyd estava comigo — cheio de espírito. E agora — três dias depois — o Ackroyd está morto, pobre coitado, a Sra. Ferrars está morta — o senhor conhecia-a, não era? Mas claro que conhecia.”
Blunt acenou com a cabeça.
“Tinha-a visto desde que chegou desta vez?”
“Fui com o Ackroyd fazer uma visita. Na última terça-feira, creio. Uma mulher fascinante — mas havia algo de estranho nela. Misteriosa — nunca se sabia o que ela tramava.”
Olhei para os seus olhos cinzentos e firmes. Nada ali, certamente. Continuei:
“Suponho que a tivesse conhecido antes.”
“Da última vez que estive aqui — ela e o marido tinham acabado de vir morar para cá.” Ele fez uma pausa de um minuto e acrescentou: “Coisa estranha, ela tinha mudado muito entre aquela altura e agora.”
“Como — mudou?”, perguntei.
“Parecia dez anos mais velha.”
“Estava cá quando o marido dela morreu?”, perguntei, tentando fazer com que a pergunta soasse o mais casual possível.
“Não. Pelo que ouvi dizer, foi um alívio. Falta de caridade, talvez, mas é a verdade.”
Concordei.
“Ashley Ferrars não era de todo um modelo de marido”, disse eu, cauteloso.
“Um velhaco, na minha opinião”, disse Blunt.
“Não”, disse eu, “apenas um homem com mais dinheiro do que lhe fazia bem.”
“Oh! Dinheiro! Todos os problemas do mundo podem ser atribuídos ao dinheiro — ou à falta dele.”
“Qual tem sido o seu problema em particular?”, perguntei.
“Tenho o suficiente para o que quero. Sou um dos sortudos.”
“De facto.”
“Não estou muito desafogado agora, para dizer a verdade. Recebi uma herança há um ano e, como um tolo, deixei-me persuadir a investi-la num qualquer esquema temerário.”
Mostrei a minha solidariedade e contei-lhe o meu próprio problema semelhante.
Então, o gongo soou e fomos todos almoçar. Poirot puxou-me um pouco para trás.
“Eh! bien?”
“Ele está bem”, disse eu. “Tenho a certeza disso.”
“Nada — de perturbador?”
“Ele recebeu uma herança há apenas um ano”, disse eu. “Mas por que não? Por que não haveria de receber? Juro que o homem é perfeitamente correto e transparente.”
“Sem dúvida, sem dúvida”, disse Poirot, num tom tranquilizador. “Não se apoquente.”
Falou como se fosse para uma criança birrenta.
Entrámos todos na sala de jantar. Parecia inacreditável que tivessem passado menos de vinte e quatro horas desde a última vez que me sentei àquela mesa.
Depois, a Sra. Ackroyd puxou-me para o lado e sentou-se comigo num sofá.
“Não posso deixar de me sentir um pouco magoada”, murmurou ela, tirando um lenço do tipo que obviamente não serve para chorar. “Magoada, quero dizer, com a falta de confiança do Roger em mim. Aquelas vinte mil libras deveriam ter sido deixadas para mim — não para a Flora. Pode-se confiar numa mãe para salvaguardar os interesses do seu filho. Falta de confiança, é como lhe chamo.”
“Esquece, Sra. Ackroyd”, disse eu, “a Flora era sobrinha carnal do Ackroyd, um parente de sangue. Teria sido diferente se a senhora fosse irmã dele em vez de cunhada.”
“Como viúva do pobre Cecil, penso que os meus sentimentos deveriam ter sido considerados”, disse a senhora, tocando nas pestanas delicadamente com o lenço. “Mas o Roger sempre foi muito peculiar — para não dizer mesquinho — em questões de dinheiro. Tem sido uma posição muito difícil tanto para a Flora como para mim. Ele nem sequer dava à pobre rapariga uma mesada. Ele pagava-lhe as contas, sabe, e mesmo isso com bastante relutância e perguntando para que é que ela queria todos aqueles enfeites — tão típico de um homem — mas — agora esqueci-me do que ia dizer! Oh, sim, nem um cêntimo que pudéssemos chamar de nosso, sabe. A Flora ressentiu-se disso — sim, tenho de dizer que ela ressentiu-se — muito fortemente. Embora dedicada ao tio, claro. Mas qualquer rapariga se teria ressentido. Sim, tenho de dizer que o Roger tinha ideias muito estranhas sobre dinheiro. Ele nem sequer queria comprar toalhas de rosto novas, embora eu lhe dissesse que as velhas estavam rotas. E depois”, continuou a Sra. Ackroyd, com um salto repentino muito característico da sua conversa, “deixar todo aquele dinheiro — mil libras — imagine, mil libras! — para aquela mulher.”
“Que mulher?”
“Aquela mulher Russell. Há algo de muito estranho nela, e sempre o disse. Mas o Roger não queria ouvir uma palavra contra ela. Dizia que ela era uma mulher de grande força de caráter, e que ele a admirava e respeitava. Ele andava sempre a falar da retidão, independência e valor moral dela. Acho que há algo de suspeito nela. Ela estava certamente a fazer os possíveis para casar com o Roger. Mas eu rapidamente pus cobro a isso. Ela sempre me odiou. Naturalmente. Eu vi através dela.”
Comecei a perguntar-me se haveria alguma hipótese de travar a eloquência da Sra. Ackroyd e escapar.
O Sr. Hammond proporcionou a diversão necessária ao aproximar-se para se despedir. Aproveitei a oportunidade e levantei-me também.
“Sobre o inquérito”, disse eu. “Onde prefere que seja realizado? Aqui ou no Three Boars?”
A Sra. Ackroyd olhou para mim de boca aberta.
“O inquérito?”, perguntou ela, a imagem da consternação. “Mas certamente não terá de haver um inquérito?”
O Sr. Hammond deu uma pequena tosse seca e murmurou: “Inevitável. Dadas as circunstâncias”, em dois latidos curtos.
“Mas certamente o Dr. Sheppard pode arranjar...”
“Há limites para os meus poderes de arranjo”, disse eu, seco.
“Se a morte dele foi um acidente...”
“Ele foi assassinado, Sra. Ackroyd”, disse eu, brutalmente.
Ela deu um pequeno grito.
“Nenhuma teoria de acidente aguentar-se-á por um minuto.”
A Sra. Ackroyd olhou para mim, angustiada. Eu não tinha paciência para aquilo que considerava o seu medo parvo de situações desagradáveis.
“Se houver um inquérito, eu — eu não terei de responder a perguntas e tudo isso, pois não?”, perguntou ela.
“Não sei o que será necessário”, respondi. “Imagino que o Sr. Raymond assumirá o peso disso por si. Ele conhece todas as circunstâncias e pode apresentar provas formais de identificação.”
O advogado assentiu com uma pequena vénia.
“Realmente não penso que haja algo a temer, Sra. Ackroyd”, disse ele. “Será poupada a todo o incómodo. Agora, quanto à questão do dinheiro, tem tudo o que precisa por agora? Quero dizer”, acrescentou, quando ela olhou para ele interrogativamente, “dinheiro vivo. Numerário, sabe. Se não, posso tratar de lhe facultar o que precisar.”
“Isso deve estar bem”, disse Raymond, que estava ao lado. “O Sr. Ackroyd levantou um cheque de cem libras ontem.”
“Cem libras?”
“Sim. Para salários e outras despesas devidas hoje. De momento, ainda está intacto.”
“Onde está esse dinheiro? Na secretária dele?”
“Não, ele guardava sempre o dinheiro no quarto. Numa velha caixa de colarinhos, para ser exato. Ideia engraçada, não era?”
“Penso”, disse o advogado, “que deveríamos certificar-nos de que o dinheiro está lá antes de eu ir embora.”
“Certamente”, concordou o secretário. “Vou levá-los lá acima agora... Oh! Esqueci-me. A porta está trancada.”
Uma consulta a Parker revelou que o Inspetor Raglan estava no quarto da governanta a fazer algumas perguntas suplementares. Poucos minutos depois, o inspetor juntou-se ao grupo no corredor, trazendo a chave consigo. Ele destrancou a porta e passámos para o vestíbulo e subimos a pequena escadaria. No topo das escadas, a porta do quarto de Ackroyd estava aberta. Dentro do quarto estava escuro, as cortinas estavam corridas e a cama estava aberta exatamente como estava na noite passada. O inspetor abriu as cortinas, deixando entrar a luz do sol, e Geoffrey Raymond dirigiu-se à gaveta de cima de uma cómoda de pau-rosa.
“Ele guardava o dinheiro assim, numa gaveta destrancada. Só imagine”, comentou o inspetor.
O secretário corou um pouco.
“O Sr. Ackroyd tinha uma fé perfeita na honestidade de todos os criados”, disse ele, acalorado.
“Oh! Perfeitamente”, disse o inspetor, apressadamente.
Raymond abriu a gaveta, tirou uma caixa de colarinhos redonda de couro do fundo da mesma e, abrindo-a, tirou uma carteira grossa.
“Aqui está o dinheiro”, disse ele, tirando um maço gordo de notas. “Vão encontrar as cem intactas, eu sei, pois o Sr. Ackroyd colocou-as na caixa de colarinhos na minha presença ontem à noite quando se estava a vestir para o jantar, e claro que não foi tocado desde então.”
O Sr. Hammond pegou no maço e contou-o. Olhou para cima, bruscamente.
“Cem libras, disse o senhor. Mas só há sessenta aqui.”
Raymond olhou para ele, estupefacto.
“Impossível”, exclamou ele, saltando para a frente. Pegando nas notas da mão do outro, contou-as em voz alta.
O Sr. Hammond tinha razão. O total perfazia sessenta libras.
“Mas — não consigo compreender”, gritou o secretário, perplexo.
Poirot fez uma pergunta.
“O senhor viu o Sr. Ackroyd guardar este dinheiro ontem à noite quando se estava a vestir para o jantar? Tem a certeza de que ele não tinha pago nada disto já?”
“Tenho a certeza de que não tinha. Ele até disse: ‘Não quero levar cem libras para o jantar comigo. Fica muito volumoso’.”
“Então o caso é muito simples”, observou Poirot. “Ou ele pagou essas quarenta libras a alguém durante a noite passada, ou então foi roubado.”
“É esse o âmago da questão”, concordou o inspetor. Virou-se para a Sra. Ackroyd. “Qual dos criados viria aqui ontem à noite?”
“Suponho que a criada de quarto viria abrir a cama.”
“Quem é ela? O que sabe sobre ela?”
“Ela não está aqui há muito tempo”, disse a Sra. Ackroyd. “Mas é uma rapariga do campo, simpática e comum.”
“Penso que devemos esclarecer este assunto”, disse o inspetor. “Se o Sr. Ackroyd pagou esse dinheiro ele próprio, pode ter alguma relação com o mistério do crime. Os outros criados estão bem, pelo que sabe?”
“Oh, penso que sim.”
“Não deram pela falta de nada antes?”
“Não.”
“Nenhum deles se vai embora, ou algo do género?”
“A criada de servir vai-se embora.”
“Quando?”
“Ela despediu-se ontem, creio.”
“A si?”
“Oh, não. Não tenho nada a ver com os criados. A Srta. Russell trata dos assuntos domésticos.”
O inspetor permaneceu perdido em pensamentos durante um minuto ou dois. Depois, acenou com a cabeça e comentou: “Penso que é melhor ter uma palavra com a Srta. Russell, e também verei a rapariga Dale.”
Poirot e eu acompanhámo-lo ao quarto da governanta. A Srta. Russell recebeu-nos com a sua frieza habitual.
Elsie Dale estava em Fernly há cinco meses. Uma rapariga simpática, rápida nas suas funções e muito respeitável. Boas referências. A última rapariga do mundo para levar algo que não lhe pertencesse.
E quanto à criada de servir?
“Ela, também, era uma rapariga de nível superior. Muito calma e distinta. Uma excelente trabalhadora.”
“Então porque é que ela se vai embora?”, perguntou o inspetor.
A Srta. Russell franziu os lábios.
“Não foi por minha causa. Creio que o Sr. Ackroyd a repreendeu ontem à tarde. Era sua obrigação fazer o escritório e ela desarrumou alguns dos papéis na secretária dele, creio eu. Ele ficou muito aborrecido com isso e ela despediu-se. Pelo menos, foi o que entendi da parte dela, mas talvez queiram vê-la vocês mesmos?”
O inspetor assentiu. Eu já tinha notado a rapariga quando ela nos servia ao almoço. Uma rapariga alta, com muito cabelo castanho enrolado bem apertado na nuca e olhos cinzentos muito firmes. Ela veio em resposta ao chamamento da governanta e ficou muito direita, com esses mesmos olhos cinzentos fixos em nós.
“A senhorita é Ursula Bourne?”, perguntou o inspetor.
“Sim, senhor.”
“Soube que se vai embora?”
“Sim, senhor.”
“Por que razão?”
“Desarrumei alguns papéis na secretária do Sr. Ackroyd. Ele ficou muito zangado com isso e eu disse que seria melhor ir-me embora. Ele disse-me para ir o mais depressa possível.”
“Esteve no quarto do Sr. Ackroyd ontem à noite? A arrumar ou algo parecido?”
“Não, senhor. Esse é o trabalho da Elsie. Nunca cheguei perto dessa parte da casa.”
“Tenho de lhe dizer, minha menina, que falta uma grande quantia de dinheiro do quarto do Sr. Ackroyd.”
Finalmente vi-a perturbada. Uma onda de cor varreu-lhe o rosto.
“Não sei nada sobre dinheiro nenhum. Se pensa que o levei, e que foi por isso que o Sr. Ackroyd me despediu, está enganado.”
“Não a estou a acusar de o ter levado, minha menina”, disse o inspetor. “Não se exalte tanto.”
A rapariga olhou para ele friamente.
“Pode revistar as minhas coisas se quiser”, disse ela, com desdém. “Mas não encontrará nada.”
Poirot interveio subitamente.
“Foi ontem à tarde que o Sr. Ackroyd a despediu — ou a senhorita despediu-se a si mesma, não foi?”, perguntou ele.
A rapariga acenou com a cabeça.
“Quanto tempo durou a entrevista?”
“A entrevista?”
“Sim, a entrevista entre a senhorita e o Sr. Ackroyd no escritório?”
“Eu — eu não sei.”
“Vinte minutos? Meia hora?”
“Algo parecido.”
“Não mais?”
“Não mais de meia hora, certamente.”
“Obrigado, mademoiselle.”
Olhei curiosamente para ele. Ele estava a reorganizar alguns objetos na mesa, pondo-os direitos com dedos precisos. Os seus olhos brilhavam.
“Isso chega”, disse o inspetor.
Ursula Bourne desapareceu. O inspetor virou-se para a Srta. Russell.
“Há quanto tempo ela está aqui? Tem uma cópia da referência que obteve com ela?”
Sem responder à primeira pergunta, a Srta. Russell moveu-se para uma cómoda adjacente, abriu uma das gavetas e tirou um punhado de cartas presas com um grampo. Selecionou uma e entregou-a ao inspetor.
“Hum”, disse ele. “Parece-me bem. Sra. Richard Folliott, Marby Grange, Marby. Quem é esta mulher?”
“Pessoas de grande consideração do condado”, disse a Srta. Russell.
“Bem”, disse o inspetor, devolvendo-a, “vamos dar uma vista de olhos na outra, Elsie Dale.”
Elsie Dale era uma rapariga grande e clara, com uma cara simpática, mas ligeiramente estúpida. Respondeu às nossas perguntas com bastante prontidão e mostrou muita angústia e preocupação com a perda do dinheiro.
“Não penso que haja nada de errado com ela”, observou o inspetor, depois de a ter dispensado.
“E quanto ao Parker?”
A Srta. Russell franziu os lábios e não respondeu.
“Tenho a sensação de que há algo de errado com esse homem”, continuou o inspetor, pensativo. “O problema é que não vejo bem quando é que ele teve a oportunidade. Ele estaria ocupado com as suas funções imediatamente após o jantar, e tem um álibi bastante bom durante toda a noite. Sei disso, pois tenho dedicado uma atenção especial a isso. Bem, muito obrigado, Srta. Russell. Vamos deixar as coisas como estão por agora. É altamente provável que o Sr. Ackroyd tenha pago esse dinheiro ele próprio.”
A governanta desejou-nos um seco boa-tarde e partimos.
Saí de casa com Poirot.
“Pergunto-me”, disse eu, quebrando o silêncio, “o que seriam os papéis que a rapariga desarrumou para o Ackroyd ter ficado num estado tal por causa deles? Pergunto-me se haverá aí alguma pista para o mistério.”
“O secretário disse que não havia papéis de importância particular na secretária”, disse Poirot, calmamente.
“Sim, mas...” Fiz uma pausa.
“Parece-lhe estranho que o Ackroyd tenha tido um ataque de raiva por uma questão tão trivial?”
“Sim, um pouco.”
“Mas seria uma questão trivial?”
“Claro”, admiti, “não sabemos o que seriam esses papéis. Mas o Raymond disse certamente...”
“Deixe o M. Raymond fora disto por um minuto. O que achou daquela rapariga?”
“Qual rapariga? A criada de servir?”
“Sim, a criada de servir. Ursula Bourne.”
“Parecia uma rapariga simpática”, disse eu, hesitante.
Poirot repetiu as minhas palavras, mas enquanto eu tinha dado um ligeiro ênfase na quarta palavra, ele pô-la na segunda.
“Parecia uma rapariga simpática — sim.”
Depois, após um minuto de silêncio, tirou algo do bolso e entregou-mo.
“Veja, meu amigo, vou mostrar-lhe algo. Olhe ali.”
O papel que ele me tinha entregue era o que fora compilado pelo inspetor e dado por ele a Poirot nessa manhã. Seguindo o dedo que apontava, vi uma pequena cruz marcada a lápis ao lado do nome Ursula Bourne.
“Pode não ter notado na altura, meu bom amigo, mas havia uma pessoa nesta lista cujo álibi não tinha qualquer confirmação. Ursula Bourne.”
“Não pensa...”
“Dr. Sheppard, atrevo-me a pensar em qualquer coisa. Ursula Bourne pode ter matado o Sr. Ackroyd, mas confesso que não vejo motivo para ela o fazer. Vê?”
Ele olhou para mim com muita firmeza — tão firmemente que me senti desconfortável.
“Vê?”, repetiu ele.
“Motivo nenhum”, disse eu, firmemente.
O seu olhar relaxou. Ele franziu a testa e murmurou para si mesmo:
“Uma vez que o chantagista era um homem, segue-se que ela não pode ser a chantagista, então...”
Tossi.
“Quanto a isso...” comecei, duvidoso.
Ele virou-se para mim.
“O quê? O que ia dizer?”
“Nada. Nada. Apenas que, rigorosamente falando, a Sra. Ferrars na sua carta mencionou uma pessoa — ela não especificou na verdade um homem. Mas nós assumimos como garantido, o Ackroyd e eu, que era um homem.”
Poirot não parecia estar a ouvir-me. Estava a murmurar para si próprio novamente.
“Mas então é possível afinal — sim, certamente é possível — mas então — ah! Tenho de reorganizar as minhas ideias. Método, ordem; nunca precisei tanto deles. Tudo tem de encaixar — no seu devido lugar — caso contrário estou no caminho errado.”
Ele interrompeu-se e virou-se para mim novamente.
“Onde fica Marby?”
“É do outro lado de Cranchester.”
“A que distância?”
“Oh! — catorze milhas, talvez.”
“Seria possível ir lá? Amanhã, digamos?”
“Amanhã? Deixe-me ver, é domingo. Sim, poderia arranjar. O que quer que eu faça lá?”
“Vá ver esta Sra. Folliott. Descubra tudo o que puder sobre Ursula Bourne.”
“Muito bem. Mas — não aprecio muito o trabalho.”
“Não é altura de criar dificuldades. A vida de um homem pode depender disto.”
“Pobre Ralph”, disse eu com um suspiro. “Acredita, contudo, que ele é inocente?”
Poirot olhou para mim muito gravemente.
“Quer saber a verdade?”
“Claro.”
“Então tê-la-á. Meu amigo, tudo aponta para a suposição de que ele é culpado.”
“O quê!”, exclamei eu.
Poirot acenou com a cabeça.
“Sim, aquele inspetor estúpido — pois ele é estúpido — tem tudo a apontar para o lado dele. Eu procuro a verdade — e a verdade leva-me sempre a Ralph Paton. Motivo, oportunidade, meios. Mas não deixarei pedra sobre pedra. Prometi à Mademoiselle Flora. E ela estava muito certa, aquela pequena. Mas muito certa, de facto.”
CAPÍTULO XI
POIROT FAZ UMA VISITA
Fiquei ligeiramente nervoso quando toquei à campainha em Marby Grange na tarde seguinte. Perguntava-me muito o que Poirot esperava descobrir. Ele tinha-me confiado o trabalho a mim. Porquê? Seria porque, como no caso de interrogar o Major Blunt, ele desejava permanecer nos bastidores? O desejo, inteligível no primeiro caso, parecia-me completamente sem sentido aqui.
As minhas meditações foram interrompidas pela chegada de uma criada de servir elegante.
Sim, a Sra. Folliott estava em casa. Fui conduzido a uma grande sala de estar e olhei à volta, curioso, enquanto esperava pela dona da casa. Uma sala grande e despida, algumas boas peças de porcelana antiga e algumas gravuras bonitas, capas e cortinas gastas. Uma sala de senhora em todos os sentidos do termo.
Virei-me da inspeção de um Bartolozzi na parede quando a Sra. Folliott entrou na sala. Era uma mulher alta, com cabelo castanho desgrenhado e um sorriso muito cativante.
“Dr. Sheppard”, disse ela, hesitante.
“Esse é o meu nome”, respondi. “Devo pedir desculpa por vir visitá-la desta forma, mas queria algumas informações sobre uma criada de servir empregada anteriormente pela senhora, Ursula Bourne.”
Com a pronúncia do nome, o sorriso desapareceu do seu rosto e toda a cordialidade congelou na sua atitude. Ela parecia desconfortável e inquieta.
“Ursula Bourne?”, disse ela, hesitante.
“Sim”, disse eu. “Talvez não se lembre do nome?”
“Oh, sim, claro. Eu — eu lembro-me perfeitamente.”
“Ela deixou a sua casa há pouco mais de um ano, creio eu?”
“Sim. Sim, foi. Isso está correto.”
“E a senhora ficou satisfeita com ela enquanto ela esteve consigo? Há quanto tempo ela esteve consigo, por falar nisso?”
“Oh! Um ou dois anos — não me lembro exatamente há quanto tempo. Ela — ela é muito capaz. Tenho a certeza de que a achará bastante satisfatória. Eu não sabia que ela ia deixar Fernly. Não tinha a mínima ideia disso.”
“Pode dizer-me alguma coisa sobre ela?”, perguntei.
“Alguma coisa sobre ela?”
“Sim, de onde ela vem, quem é a sua gente — esse tipo de coisas?”
O rosto da Sra. Folliott trazia mais do que nunca a sua expressão gélida.
“Não faço a mínima ideia.”
“Com quem esteve ela antes de vir para si?”
“Receio não me lembrar.”
Havia agora uma faísca de raiva subjacente ao seu nervosismo. Ela ergueu a cabeça num gesto que me era vagamente familiar.
“É realmente necessário fazer todas estas perguntas?”
“De todo”, disse eu, com um ar de surpresa e um toque de pedido de desculpas na minha atitude. “Não fazia ideia de que se importaria de responder. Lamento imenso.”
A raiva abandonou-a e ela voltou a ficar confusa.
“Oh! Não me importo de responder. Garanto-lhe que não. Porque me importaria? É... é que pareceu um pouco estranho, sabe. Apenas isso. Um pouco estranho.”
Uma das vantagens de ser médico é a de, geralmente, se conseguir perceber quando as pessoas nos estão a mentir. Eu deveria ter sabido pela atitude da Sra. Folliott, se não por mais nada, que ela se importava, sim, com as minhas perguntas — importava-se intensamente. Ela estava profundamente desconfortável e perturbada, e havia claramente algum mistério por detrás de tudo aquilo. Julguei-a uma mulher pouco habituada a qualquer tipo de engano e, consequentemente, extremamente inquieta quando forçada a praticá-lo. Uma criança teria visto através dela.
Mas era também evidente que ela não tinha qualquer intenção de me dizer mais nada. Seja qual fosse o mistério em torno de Ursula Bourne, não o iria aprender através da Sra. Folliott.
Derrotado, pedi desculpa mais uma vez por tê-la incomodado, peguei no meu chapéu e parti.
Fui ver um par de pacientes e cheguei a casa por volta das seis horas. Caroline estava sentada junto aos restos do chá. Tinha no rosto aquele olhar de exaltação contida que conheço demasiado bem. É um sinal certo, nela, de que obteve ou deu informações. Perguntei-me qual das duas teria sido.
“Tive uma tarde muito interessante”, começou Caroline enquanto eu me deixava cair na minha cadeira de descanso preferida e esticava os pés para a chama convidativa da lareira.
“Tiveste?”, perguntei. “A Srta. Ganett passou por cá para o chá?”
A Srta. Ganett é uma das nossas principais fontes de boatos.
“Tenta outra vez”, disse Caroline com uma complacência intensa.
Tentei várias vezes, percorrendo lentamente todos os membros do Corpo de Informações de Caroline. A minha irmã recebia cada palpite com um abanar de cabeça triunfante. No final, ela própria ofereceu a informação.
“O Sr. Poirot!”, disse ela. “E agora, o que achas disso?”
Pensei muitas coisas sobre isso, mas tive o cuidado de não as dizer a Caroline.
“Porque é que ele veio?”, perguntei.
“Para me ver, claro. Disse que, conhecendo tão bem o meu irmão, esperava que lhe fosse permitido fazer o conhecimento da sua encantadora irmã — a tua encantadora irmã, baralhei-me, mas percebes o que quero dizer.”
“Sobre que assuntos falaram?”, perguntei.
“Contou-me muitas coisas sobre si próprio e sobre os seus casos. Sabes aquele Príncipe Paul da Mauritânia — aquele que acabou de se casar com uma bailarina?”
“Sim?”
“Vi um parágrafo muito intrigante sobre ela no Society Snippets, outro dia, sugerindo que ela era, na verdade, uma Grã-Duquesa russa — uma das filhas do Czar que conseguiu escapar aos bolcheviques. Bem, parece que o Sr. Poirot resolveu um mistério de homicídio desconcertante que ameaçava envolver ambos. O Príncipe Paul estava fora de si de gratidão.”
“Deu-lhe um alfinete de gravata de esmeralda do tamanho de um ovo de abibe?”, perguntei sarcasticamente.
“Ele não mencionou nada disso. Porquê?”
“Nada”, disse eu. “Pensei que fosse sempre assim. Pelo menos na ficção policial. O superdetetive tem sempre os seus aposentos cheios de rubis, pérolas e esmeraldas de clientes reais agradecidos.”
“É muito interessante ouvir estas coisas de dentro”, disse a minha irmã complacente.
Seria — para a Caroline. Não pude deixar de admirar a engenhosidade do Sr. Hercule Poirot, que escolhera, infalivelmente, o caso que mais atrairia uma senhora solteira e idosa que vive numa aldeia pequena.
“Ele disse-te se a bailarina era realmente uma Grã-Duquesa?”, indaguei.
“Ele não estava autorizado a falar”, disse Caroline, cheia de importância.
Perguntei-me até que ponto Poirot teria distorcido a verdade ao falar com a Caroline — provavelmente nada. Ele terá transmitido as suas insinuações através das sobrancelhas e dos ombros.
“E depois de tudo isto”, comentei, “suponho que estivesses pronta para comer na mão dele.”
“Não sejas grosseiro, James. Não sei onde vais buscar essas expressões vulgares.”
“Provavelmente da minha única ligação ao mundo exterior — os meus pacientes. Infelizmente, a minha clínica não se situa entre príncipes reais e interessantes emigrados russos.”
Caroline empurrou os óculos para cima e olhou para mim.
“Pareces muito rabugento, James. Deve ser do teu fígado. Uma pílula azul, penso eu, esta noite.”
Ao ver-me na minha própria casa, nunca imaginaria que eu era um médico. A Caroline faz a prescrição doméstica tanto para si como para mim.
“Que se lixe o fígado”, disse eu irritado. “Falaste sobre o homicídio?”
“Bem, naturalmente, James. Sobre que mais há para falar a nível local? Consegui corrigir o Sr. Poirot em vários pontos. Ele ficou-me muito grato. Disse que eu tinha os ingredientes de uma detetive nata — e uma visão psicológica maravilhosa da natureza humana.”
Caroline estava exatamente como uma gata cheia de natas ricas. Estava positivamente a ronronar.
“Ele falou muito sobre as pequenas células cinzentas do cérebro e das suas funções. As dele, diz, são de primeira qualidade.”
“Ele diria isso”, comentei amargamente. “Modéstia certamente não é o seu nome do meio.”
“Gostaria que não fosses tão horrivelmente americano, James. Ele acha muito importante que o Ralph seja encontrado o mais depressa possível e induzido a apresentar-se e a dar explicações. Diz que o seu desaparecimento causará uma impressão muito infeliz no inquérito.”
“E o que é que tu disseste a isso?”
“Concordei com ele”, disse Caroline, importante. “E pude dizer-lhe a forma como as pessoas já falavam sobre o assunto.”
“Caroline”, disse eu bruscamente, “disseste ao Sr. Poirot o que ouviste no bosque naquele dia?”
“Disse”, afirmou Caroline, complacente.
Levantei-me e comecei a andar de um lado para o outro.
“Espero que te dês conta do que estás a fazer”, atirei. “Estás a colocar uma corda ao pescoço de Ralph Paton tão seguramente como estás sentada nessa cadeira.”
“De todo”, disse Caroline, sem se perturbar. “Fiquei surpreendida por não lhe teres dito tu.”
“Tive muito cuidado em não o fazer”, respondi. “Gosto daquele rapaz.”
“Eu também. É por isso que digo que estás a dizer disparates. Não acredito que o Ralph tenha feito isso, por isso a verdade não lhe pode fazer mal, e devemos dar ao Sr. Poirot toda a ajuda que pudermos. Pensa, é muito provável que o Ralph estivesse com essa mesma rapariga na noite do homicídio e, se for esse o caso, ele tem um álibi perfeito.”
“Se ele tem um álibi perfeito”, retorqui, “porque é que não se apresenta e o diz?”
“Poderia meter a rapariga em sarilhos”, disse Caroline, sensata. “Mas se o Sr. Poirot a apanhar e lhe colocar a questão como um dever, ela apresentar-se-á por vontade própria e ilibará o Ralph.”
“Parece que inventaste uma história romântica de fadas”, disse eu. “Lês demasiados romances baratos, Caroline. Sempre te disse isso.”
Deixei-me cair na minha cadeira novamente.
“O Poirot fez-te mais perguntas?”, indaguei.
“Apenas sobre os pacientes que tiveste naquela manhã.”
“Os pacientes?”, perguntei, incrédulo.
“Sim, os teus pacientes da consulta. Quantos eram e quem eram?”
“Queres dizer que conseguiste dizer-lhe isso?”, exigi.
A Caroline é realmente espantosa.
“Porque não?”, perguntou a minha irmã triunfante. “Consigo ver o caminho até à porta do consultório perfeitamente desta janela. E tenho uma memória excelente, James. Muito melhor que a tua, deixa-me que te diga.”
“Tenho a certeza que sim”, murmurei mecanicamente.
A minha irmã continuou, contando os nomes pelos dedos.
“Havia a velha Sra. Bennett, e aquele rapaz da quinta com o dedo maltratado, a Dolly Grice para tirar uma agulha do dedo; aquele despenseiro americano do navio. Deixa ver — são quatro. Sim, e o velho George Evans com a sua úlcera. E por último——”
Ela fez uma pausa significativa.
“Bem?”
Caroline soltou o seu clímax triunfante. Sibila da forma mais aprovada — ajudada pelo número afortunado de ‘s’ à sua disposição.
“A Srta. Russell!”
Ela recostou-se na cadeira e olhou para mim de forma significativa, e quando a Caroline olha para nós de forma significativa, é impossível não perceber.
“Não sei o que queres dizer”, disse eu, mentindo descaradamente. “Porque é que a Srta. Russell não me haveria de consultar sobre o seu joelho dorido?”
“Joelho dorido”, disse Caroline. “Tretas! Não tem mais joelho dorido do que tu ou eu. Ela ia atrás de outra coisa.”
“O quê?”, perguntei.
Caroline teve de admitir que não sabia.
“Mas conta com isso, era isso que ele estava a tentar descobrir, o Sr. Poirot, quero eu dizer. Há algo de suspeito naquela mulher, e ele sabe-o.”
“Precisamente a observação que a Sra. Ackroyd me fez ontem”, disse eu. “Que havia algo de suspeito na Srta. Russell.”
“Ah!”, disse Caroline sombriamente, “Sra. Ackroyd! Eis outra!”
“Outra o quê?”
Caroline recusou-se a explicar as suas observações. Apenas abanou a cabeça várias vezes, enrolou o seu tricot e subiu para vestir a blusa de seda malva de gola alta e o medalhão de ouro a que chama vestir-se para o jantar.
Fiquei ali a olhar para o fogo e a pensar nas palavras de Caroline. Teria Poirot vindo realmente para obter informações sobre a Srta. Russell, ou seria apenas a mente tortuosa de Caroline a interpretar tudo de acordo com as suas próprias ideias?
Certamente que não houve nada na atitude da Srta. Russell naquela manhã que suscitasse suspeitas. Pelo menos——
Lembrei-me da sua conversa persistente sobre o assunto do consumo de drogas e de como ela tinha levado a conversa para venenos e envenenamentos. Mas não havia nada nisso. Ackroyd não tinha sido envenenado. Ainda assim, era estranho....
Ouvi a voz de Caroline, com um tom bastante ácido, a chamar do cimo das escadas.
“James, vais chegar atrasado para o jantar.”
Coloquei um pouco de carvão no lume e subi obedientemente.
É bom, a qualquer preço, ter paz no lar.
CAPÍTULO XII
À VOLTA DA MESA
Um inquérito conjunto foi realizado na segunda-feira.
Não pretendo relatar os procedimentos detalhadamente. Fazê-lo seria apenas rever o mesmo terreno vezes sem conta. Por acordo com a polícia, muito pouco foi autorizado a vir a público. Prestei depoimento sobre a causa da morte de Ackroyd e o momento provável. A ausência de Ralph Paton foi comentada pelo legista, mas não sublinhada indevidamente.
Depois, Poirot e eu trocámos umas palavras com o Inspetor Raglan. O inspetor estava muito grave.
“Parece mau, Sr. Poirot”, disse ele. “Estou a tentar julgar a coisa com justiça. Sou um homem da terra e vi o Capitão Paton muitas vezes em Cranchester. Não quero que ele seja o culpado — mas é mau por qualquer prisma que se olhe. Se ele é inocente, porque não se apresenta? Temos provas contra ele, mas é possível que essas provas possam ser explicadas. Então porque é que ele não dá uma explicação?”
Muito mais estava por detrás das palavras do inspetor do que eu sabia na altura. A descrição de Ralph tinha sido enviada para todos os portos e estações ferroviárias de Inglaterra. A polícia, por toda a parte, estava em alerta. Os seus aposentos na cidade eram vigiados, assim como quaisquer casas que se soubesse que ele frequentava. Com um cordão desses, parecia impossível que Ralph conseguisse evitar a deteção. Não tinha bagagem e, tanto quanto alguém sabia, não tinha dinheiro.
“Não consigo encontrar ninguém que o tenha visto na estação naquela noite”, continuou o inspetor. “E, no entanto, ele é bem conhecido por aqui, e seria de pensar que alguém o teria notado. Também não há notícias de Liverpool.”
“Pensa que ele foi para Liverpool?”, perguntou Poirot.
“Bem, é uma possibilidade. Aquela mensagem telefónica da estação, apenas três minutos antes de o expresso de Liverpool partir — deveria haver alguma coisa nisso.”
“A menos que fosse deliberadamente destinada a desviá-lo da pista. Esse poderia ser, muito possivelmente, o objetivo da mensagem telefónica.”
“Essa é uma ideia”, disse o inspetor, ansioso. “Acha mesmo que essa é a explicação para o telefonema?”
“Meu amigo”, disse Poirot gravemente, “não sei. Mas dir-lhe-ei isto: creio que quando encontrarmos a explicação para esse telefonema, encontraremos a explicação para o homicídio.”
“Já tinha dito algo parecido, lembro-me”, observei, olhando para ele com curiosidade.
Poirot assentiu.
“Volto sempre a isso”, disse seriamente.
“Parece-me totalmente irrelevante”, declarei.
“Eu não diria isso”, contestou o inspetor. “Mas devo confessar que acho que o Sr. Poirot insiste um pouco demais nisso. Temos pistas melhores do que essa. As impressões digitais no punhal, por exemplo.”
Poirot tornou-se subitamente muito estrangeiro na sua atitude, como muitas vezes acontecia quando estava entusiasmado com alguma coisa.
“M. l’Inspecteur”, disse ele, “cuidado com o beco — o beco — *comment dire?* — a rua sem saída.”
O Inspetor Raglan ficou a olhar, mas eu fui mais rápido.
“Quer dizer um beco sem saída?”, disse eu.
“É isso — a rua cega que não leva a lado nenhum. Assim pode ser com essas impressões digitais — podem não o levar a lado nenhum.”
“Não vejo como isso possa ser bem assim”, disse o agente da polícia. “Suponho que está a sugerir que são falsas? Já li sobre tais coisas serem feitas, embora não possa dizer que alguma vez me tenha cruzado com isso na minha experiência. Mas falsas ou verdadeiras — elas têm de levar a algum lado.”
Poirot limitou-se a encolher os ombros, abrindo os braços.
O inspetor mostrou-nos então várias fotografias ampliadas das impressões digitais e começou a tornar-se técnico sobre o assunto de laços e espirais.
“Vamos lá então”, disse ele por fim, irritado com a atitude distante de Poirot, “tem de admitir que essas impressões foram feitas por alguém que estava na casa naquela noite?”
“Bien entendu”, disse Poirot, abanando a cabeça.
“Bem, tirei as impressões de todos os membros da casa, de todos, note bem, desde a velha senhora até à criada da cozinha.”
Não creio que a Sra. Ackroyd gostasse de ser referida como a velha senhora. Ela deve gastar uma quantia considerável em cosméticos.
“De todos”, repetiu o inspetor, agitado.
“Incluindo as minhas”, disse eu, secamente.
“Muito bem. Nenhuma delas corresponde. Isso deixa-nos duas alternativas. Ralph Paton, ou o estranho misterioso de quem o doutor nos fala. Quando apanharmos esses dois——”
“Muito tempo valioso pode ter sido perdido”, interrompeu Poirot.
“Não percebi bem, Sr. Poirot?”
“Tirou as impressões de todos na casa, diz você”, murmurou Poirot. “É essa a verdade exata que me está a dizer aí, M. l’Inspecteur?”
“Certamente.”
“Sem esquecer ninguém?”
“Sem esquecer ninguém.”
“Os vivos ou os mortos?”
Por um momento, o inspetor pareceu perplexo com o que tomou por uma observação religiosa. Depois, reagiu lentamente.
“Quer dizer——”
“Os mortos, M. l’Inspecteur.”
O inspetor ainda demorou um ou dois minutos a compreender.
“Estou a sugerir”, disse Poirot placidamente, “que as impressões digitais no cabo do punhal são as do próprio Sr. Ackroyd. É uma questão fácil de verificar. O seu corpo ainda está disponível.”
“Mas porquê? Qual seria o objetivo? Não está certamente a sugerir suicídio, Sr. Poirot?”
“Ah! Não. A minha teoria é que o assassino usava luvas ou enrolou algo à volta da mão. Depois de o golpe ter sido desferido, ele pegou na mão da vítima e fechou-a à volta do cabo do punhal.”
“Mas porquê?”
Poirot encolheu os ombros novamente.
“Para tornar um caso confuso ainda mais confuso.”
“Bem”, disse o inspetor, “vou averiguar. O que lhe deu a ideia em primeiro lugar?”
“Quando foi tão amável ao mostrar-me o punhal e chamar a atenção para as impressões digitais. Sei muito pouco sobre laços e espirais — veja, confesso a minha ignorância francamente. Mas ocorreu-me que a posição das impressões era um tanto estranha. Não seria assim que eu teria segurado um punhal para desferir um golpe. Naturalmente, com a mão direita trazida sobre o ombro para trás, teria sido difícil colocá-la exatamente na posição correta.”
O Inspetor Raglan olhou fixamente para o homenzinho. Poirot, com um ar de grande indiferença, tirou uma partícula de pó da manga do seu casaco.
“Bem”, disse o inspetor, “é uma ideia. Vou averiguar, claro, mas não fique desapontado se nada resultar disso.”
Ele tentou tornar o seu tom gentil e condescendente. Poirot observou-o a afastar-se. Depois, virou-se para mim com os olhos a brilhar.
“Da próxima vez”, observou, “devo ter mais cuidado com o seu *amour propre*. E agora que estamos entregues a nós próprios, o que acha, meu bom amigo, de uma pequena reunião de família?”
A “pequena reunião”, como lhe chamou Poirot, teve lugar cerca de meia hora depois. Sentámo-nos à volta da mesa na sala de jantar em Fernly — Poirot na cabeceira da mesa, como o presidente de uma horrível reunião de administração. Os criados não estavam presentes, pelo que éramos seis ao todo. A Sra. Ackroyd, Flora, Major Blunt, o jovem Raymond, Poirot e eu próprio.
Quando todos estavam reunidos, Poirot levantou-se e fez uma vénia.
“Messieurs, mesdames, chamei-vos aqui com um certo propósito.” Ele fez uma pausa. “Para começar, quero fazer um apelo muito especial à mademoiselle.”
“A mim?”, disse Flora.
“Mademoiselle, está noiva do Capitão Ralph Paton. Se alguém tem a confiança dele, é a si. Peço-lhe, muito seriamente, se souber do seu paradeiro, que o convença a apresentar-se. Um minuto apenas” — enquanto Flora erguia a cabeça para falar — “não diga nada até ter refletido bem. Mademoiselle, a sua posição torna-se diariamente mais perigosa. Se ele se tivesse apresentado de imediato, independentemente de quão condenatórios fossem os factos, poderia ter tido uma hipótese de explicá-los. Mas este silêncio — esta fuga — o que pode significar? Certamente apenas uma coisa: conhecimento de culpa. Mademoiselle, se acredita realmente na sua inocência, convença-o a apresentar-se antes que seja tarde demais.”
O rosto de Flora tornara-se muito pálido.
“Tarde demais!”, repetiu ela, muito baixo.
Poirot inclinou-se para a frente, olhando para ela.
“Veja agora, mademoiselle”, disse ele muito suavemente, “é o Papa Poirot quem lhe pede isto. O velho Papa Poirot que tem muito conhecimento e muita experiência. Não procuraria prendê-la, mademoiselle. Não confiará em mim — e dir-me-á onde se esconde Ralph Paton?”
A rapariga levantou-se e ficou de frente para ele.
“Sr. Poirot”, disse ela com uma voz clara, “juro-lhe — juro solenemente — que não faço a mínima ideia de onde está o Ralph, e que nem o vi nem tive notícias dele, quer no dia do... do homicídio, quer desde então.”
Sentou-se de novo. Poirot olhou para ela em silêncio durante um minuto ou dois, depois bateu com a mão na mesa com um estalo seco.
“Bien! Isso é isso”, disse ele. O rosto endureceu. “Agora apelo aos outros que se sentam à volta desta mesa, Sra. Ackroyd, Major Blunt, Dr. Sheppard, Sr. Raymond. São todos amigos e íntimos do homem desaparecido. Se sabem onde Ralph Paton se esconde, falem.”
Houve um longo silêncio. Poirot olhou para cada um, por sua vez.
“Peço-vos”, disse ele com uma voz baixa, “falem.”
Mas continuou o silêncio, quebrado finalmente pela Sra. Ackroyd.
“Devo dizer”, observou ela com uma voz plangente, “que a ausência do Ralph é muito peculiar — muito peculiar, de facto. Não se apresentar num momento destes. Parece, sabem, como se houvesse algo por detrás disso. Não posso deixar de pensar, querida Flora, que foi uma coisa muito afortunada que o vosso noivado nunca tenha sido formalmente anunciado.”
“Mãe!”, gritou Flora, irritada.
“Providência”, declarou a Sra. Ackroyd. “Tenho uma crença devota na Providência — uma divindade que molda os nossos fins, como diz a bela frase de Shakespeare.”
“Certamente não torna o Todo-Poderoso diretamente responsável por tornozelos grossos, Sra. Ackroyd, pois não?”, perguntou Geoffrey Raymond, com a sua gargalhada irresponsável a ecoar.
A sua ideia, creio, era aliviar a tensão, mas a Sra. Ackroyd lançou-lhe um olhar de reprovação e tirou o seu lenço.
“Flora foi poupada de uma quantidade terrível de notoriedade e aborrecimentos. Não que eu pense por um momento que o querido Ralph tenha tido qualquer coisa a ver com a morte do pobre Roger. Não penso. Mas, sabe, eu tenho um coração confiante — sempre tive, desde criança. Tenho horror a acreditar no pior de quem quer que seja. Mas, claro, é preciso lembrar que o Ralph esteve em vários ataques aéreos quando era pequeno. Os resultados manifestam-se muito tempo depois, às vezes, dizem. As pessoas não são minimamente responsáveis pelas suas ações. Perdem o controlo, sabe, sem poderem evitar.”
“Mãe”, gritou Flora, “não pensa que foi o Ralph?”
“Vamos, Sra. Ackroyd”, disse Blunt.
“Não sei o que pensar”, disse a Sra. Ackroyd, em lágrimas. “É tudo muito perturbador. O que aconteceria à propriedade, pergunto-me, se o Ralph fosse considerado culpado?”
Raymond afastou a cadeira da mesa violentamente. O Major Blunt permaneceu muito quieto, olhando-a pensativamente. “Como o choque de artilharia, sabe”, disse a Sra. Ackroyd obstinadamente, “e atrevo-me a dizer que o Roger o manteve com muito pouco dinheiro — com as melhores intenções, claro. Vejo que estão todos contra mim, mas penso que é muito estranho o Ralph não ter aparecido, e devo dizer que estou grata por o noivado da Flora nunca ter sido anunciado formalmente.”
“Será amanhã”, disse Flora com voz clara.
“Flora!”, gritou a mãe, horrorizada.
Flora virou-se para o secretário.
“Pode enviar o anúncio ao Morning Post e ao Times, por favor, Sr. Raymond.”
“Se tem a certeza de que é sensato, Srta. Ackroyd”, respondeu ele gravemente.
Ela virou-se impulsivamente para Blunt.
“Compreende”, disse ela. “O que mais posso fazer? Como as coisas estão, tenho de apoiar o Ralph. Não vê que tenho de o fazer?”
Ela olhou para ele de forma muito perscrutadora e, após uma longa pausa, ele assentiu bruscamente.
A Sra. Ackroyd explodiu em protestos estridentes. Flora permaneceu inabalável. Então Raymond falou.
“Compreendo os seus motivos, Srta. Ackroyd. Mas não acha que está a ser algo precipitada? Espere um ou dois dias.”
“Amanhã”, disse Flora, com voz clara. “Não adianta, mãe, continuar assim. O que quer que eu seja, não sou desleal para com os meus amigos.”
“M. Poirot”, apelou a Sra. Ackroyd, em lágrimas, “não pode dizer nada?”
“Não há nada a dizer”, interpolou Blunt. “Ela está a fazer a coisa certa. Eu apoiá-la-ei contra tudo e contra todos.”
Flora estendeu-lhe a mão.
“Obrigada, Major Blunt”, disse ela.
“Mademoiselle”, disse Poirot, “permitir-me-á um velho homem congratulá-la pela sua coragem e pela sua lealdade? E não me compreenderá mal se lhe pedir — pedir-lhe solenemente — que adie o anúncio de que fala por pelo menos mais dois dias?”
Flora hesitou.
“Peço-o tanto no interesse de Ralph Paton como no seu, mademoiselle. Franze a testa. Não vê como isso pode ser. Mas garanto-lhe que é assim. Pas de blagues. Colocou o caso nas minhas mãos — não deve impedir-me agora.”
Flora hesitou alguns minutos antes de responder.
“Não gosto disso”, disse ela finalmente, “mas farei o que diz.”
Ela sentou-se novamente à mesa.
“E agora, messieurs et mesdames”, disse Poirot rapidamente, “continuarei com o que ia dizer. Entendam isto, pretendo chegar à verdade. A verdade, por muito feia que seja em si mesma, é sempre curiosa e bela para quem a procura. Estou muito envelhecido, os meus poderes talvez já não sejam o que eram.” Aqui, ele esperava claramente uma contradição. “Com toda a probabilidade, este é o último caso que investigarei. Mas Hercule Poirot não termina com um fracasso. Messieurs et mesdames, digo-lhes, pretendo saber. E saberei — apesar de todos vocês.”
Ele proferiu as últimas palavras de forma provocadora, atirando-as para as nossas caras, por assim dizer. Penso que todos recuámos um pouco, exceto Geoffrey Raymond, que permaneceu bem-humorado e imperturbável como de costume.
“Como quer dizer — apesar de todos nós?”, perguntou ele, com as sobrancelhas ligeiramente arqueadas.
“Pois — exatamente isso, monsieur. Cada um de vocês nesta sala está a esconder-me algo.” Ele ergueu a mão quando um leve murmúrio de protesto surgiu. “Sim, sim, sei o que estou a dizer. Pode ser algo sem importância — trivial — que se supõe não ter qualquer ligação com o caso, mas aí está. Cada um de vocês tem algo a esconder. Vamos, agora, terei razão?”
O seu olhar, desafiador e acusador, varreu a mesa. E todos os pares de olhos baixaram-se perante o dele. Sim, os meus também.
“Estou respondido”, disse Poirot, com um riso curioso. Levantou-se do seu lugar. “Apelo a todos vocês. Digam-me a verdade — toda a verdade.” Houve um silêncio. “Ninguém falará?”
Ele soltou novamente o mesmo riso curto.
“C’est dommage”, disse ele, e saiu.
CAPÍTULO XIII
A PENA DE GANSO
Nessa noite, a pedido de Poirot, fui a casa dele depois do jantar. Caroline viu-me partir com relutância visível. Acho que ela teria gostado de me ter acompanhado.
Poirot saudou-me hospitaleiramente. Tinha colocado uma garrafa de uísque irlandês (que detesto) numa pequena mesa, com um sifão de água com gás e um copo. Ele próprio estava ocupado a preparar chocolate quente. Era uma bebida de que ele gostava, descobri mais tarde.
Ele perguntou educadamente pela minha irmã, a quem declarou ser uma mulher muito interessante.
“Receio que lhe tenha dado ares de superioridade”, disse eu secamente. “O que dizer da tarde de domingo?”
Ele riu-se e os seus olhos brilharam.
“Gosto sempre de empregar o especialista”, comentou ele enigmaticamente, mas recusou-se a explicar a observação.
“Obteve todas as bisbilhotices locais de qualquer maneira”, comentei. “Verdadeiras e falsas.”
“E uma grande quantidade de informações valiosas”, acrescentou ele calmamente.
“Tais como——?”
Ele abanou a cabeça.
“Porque não me disse a verdade?”, retorquiu ele. “Num lugar como este, todas as ações de Ralph Paton estavam destinadas a ser conhecidas. Se a sua irmã não tivesse passado pelo bosque naquele dia, outra pessoa tê-lo-ia feito.”
“Suponho que sim”, disse eu, rabugento. “O que dizer deste seu interesse pelos meus pacientes?”
Novamente, ele brilhou.
“Apenas um deles, doutor. Apenas um deles.”
“O último?”, arrisquei.
“Acho a Srta. Russell um estudo dos mais interessantes”, disse ele evasivamente.
“Concorda com a minha irmã e com a Sra. Ackroyd que há algo de suspeito nela?”, perguntei.
“Eh? O que diz — suspeito?”
Expliquei da melhor maneira que pude.
“E dizem isso, pois não?”
“A minha irmã não lhe transmitiu tanto ontem à tarde?”
“C’est possible.”
“Sem razão nenhuma”, declarei.
“Les femmes”, generalizou Poirot. “São maravilhosas! Inventam ao acaso — e, por milagre, têm razão. Não que seja isso, na verdade. As mulheres observam subconscientemente mil pequenos detalhes, sem saberem que o estão a fazer. A sua mente subconsciente soma estas pequenas coisas — e chamam ao resultado intuição. Eu, sou muito habilidoso em psicologia. Sei estas coisas.”
Ele estufou o peito de forma importante, parecendo tão ridículo que achei difícil não rebentar a rir. Então, deu um pequeno gole no seu chocolate e limpou cuidadosamente o bigode.
“Gostava que me dissesse”, exclamei, “o que pensa realmente de tudo isto?”
Ele pousou a chávena.
“Deseja isso?”
“Desejo.”
“Viu o que eu vi. Não deveriam as nossas ideias ser as mesmas?”
“Receio que se esteja a rir de mim”, disse eu, formalmente. “Claro, não tenho experiência em assuntos deste género.”
Poirot sorriu-me condescendentemente.
“É como a criança pequena que quer saber como funciona o motor. Deseja ver o caso, não como o médico da família o vê, mas com o olho de um detetive que não conhece e não se importa com ninguém — para quem todos são estranhos e todos igualmente passíveis de suspeita.”
“Expôs muito bem”, disse eu.
“Então, dou-lhe uma pequena lição. A primeira coisa é obter um histórico claro do que aconteceu nessa noite — mantendo sempre em mente que a pessoa que fala pode estar a mentir.”
Ergui as sobrancelhas.
“Uma atitude algo suspeita.”
“Mas necessária — garanto-lhe, necessária. Agora, primeiro — o Dr. Sheppard sai de casa às nove menos dez. Como sei disso?”
“Porque lho disse.”
“Mas pode não estar a dizer a verdade — ou o relógio pelo qual se guiou pode estar errado. Mas Parker também diz que saiu de casa às nove menos dez. Portanto, aceitamos essa afirmação e seguimos em frente. Às nove horas encontra um homem — e aqui chegamos ao que chamaremos o Romance do Estranho Misterioso — mesmo à saída dos portões do parque. Como sei que é assim?”
“Disse-lho”, comecei novamente, mas Poirot interrompeu-me com um gesto de impaciência.
“Ah! mas é que está um pouco estúpido esta noite, meu amigo. Sabe que é assim — mas como hei de eu saber? Eh bien, posso dizer-lhe que o Estranho Misterioso não foi uma alucinação da sua parte, porque a criada de uma Srta. Ganett encontrou-o uns minutos antes de si, e a ela também ele perguntou o caminho para Fernly Park. Aceitamos, portanto, a sua presença, e podemos ter a certeza de duas coisas sobre ele — que era um estranho na vizinhança, e que, qualquer que fosse o seu objetivo ao ir a Fernly, não havia grande segredo nisso, uma vez que perguntou duas vezes o caminho.”
“Sim”, disse eu, “vejo isso.”
“Agora, tomei como minha tarefa descobrir mais sobre este homem. Ele bebeu algo no Three Boars, descobri, e a empregada do bar diz que ele falava com um sotaque americano e mencionou ter acabado de chegar dos Estados Unidos. Notou que ele tinha um sotaque americano?”
“Sim, acho que tinha”, disse eu, após um ou dois minutos, durante os quais recordei; “mas muito ligeiro.”
“Précisément. Há também isto que, lembrará, apanhei na casa de verão?”
Ele estendeu-me a pequena pena. Olhei para ela com curiosidade. Então, uma memória de algo que tinha lido surgiu em mim.
Poirot, que observava a minha cara, assentiu.
“Sim, heroína, ‘neve’. Os toxicodependentes carregam-na assim e aspiram-na pelo nariz.”
“Cloridrato de diamorfina”, murmurei mecanicamente.
“Este método de consumir a droga é muito comum do outro lado. Outra prova, se precisássemos de uma, de que o homem veio do Canadá ou dos Estados Unidos.”
“O que atraiu primeiro a sua atenção para aquela casa de verão?”, perguntei curiosamente.
“O meu amigo inspetor tomou como garantido que qualquer pessoa que usasse aquele caminho o faria como atalho para a casa, mas assim que vi a casa de verão, percebi que o mesmo caminho seria tomado por qualquer pessoa que usasse a casa de verão como ponto de encontro. Agora parece bastante certo que o estranho não veio nem pela porta da frente nem pela de trás. Então, alguém da casa saiu e encontrou-o? Se sim, o que poderia ser um lugar mais conveniente do que aquela pequena casa de verão? Pesquisei-a com a esperança de encontrar alguma pista no interior. Encontrei duas, o retalho de cambraia e a pena.”
“E o retalho de cambraia?”, perguntei curiosamente. “O que dizer disso?”
Poirot ergueu as sobrancelhas.
“Não usa as suas pequenas células cinzentas”, comentou ele secamente. “O retalho de cambraia engomada deveria ser óbvio.”
“Não muito óbvio para mim.” Mudei de assunto. “De qualquer modo”, disse eu, “este homem foi à casa de verão encontrar alguém. Quem era esse alguém?”
“Exatamente a questão”, disse Poirot. “Lembra-se que a Sra. Ackroyd e a sua filha vieram do Canadá para viver aqui?”
“É isso que queria dizer hoje quando as acusou de esconderem a verdade?”
“Talvez. Agora outro ponto. O que pensou da história da criada?”
“Que história?”
“A história do seu despedimento. É preciso meia hora para despedir uma criada? A história daqueles papéis importantes era provável? E lembre-se, embora ela diga que esteve no seu quarto das nove e meia até às dez horas, não há ninguém para confirmar a sua afirmação.”
“Deixa-me confuso”, disse eu.
“Para mim, torna-se mais claro. Mas diga-me agora as suas próprias ideias e teorias.”
Tirei um pedaço de papel do bolso.
“Apenas rabisquei algumas sugestões”, disse eu, pedindo desculpa.
“Mas excelentes — tem método. Vamos ouvi-las.”
Li com uma voz algo embaraçada.
“Para começar, é preciso olhar para a coisa logicamente——”
“Exatamente o que o meu pobre Hastings costumava dizer”, interrompeu Poirot, “mas, infelizmente! ele nunca o fazia.”
“Ponto nº 1. — Ouviu-se o Sr. Ackroyd a falar com alguém às nove e meia.
“Ponto nº 2. — A certa altura da noite, Ralph Paton deve ter entrado pela janela, como comprovado pelas marcas dos seus sapatos.
“Ponto nº 3. — O Sr. Ackroyd estava nervoso nessa noite e só teria admitido alguém que conhecesse.
“Ponto nº 4. — A pessoa com o Sr. Ackroyd às nove e meia pedia dinheiro. Sabemos que Ralph Paton estava metido numa enrascada.
“Estes quatro pontos indicam que a pessoa com o Sr. Ackroyd às nove e meia era Ralph Paton. Mas sabemos que o Sr. Ackroyd estava vivo às dez menos um quarto, portanto não foi o Ralph quem o matou. O Ralph deixou a janela aberta. Depois, o assassino entrou por ali.”
“E quem foi o assassino?”, perguntou Poirot.
“O estranho americano. Pode ter estado mancomunado com Parker, e possivelmente em Parker temos o homem que chantageou a Sra. Ferrars. Se sim, Parker pode ter ouvido o suficiente para perceber que o jogo tinha acabado, ter dito isso ao seu cúmplice, e este cometeu o crime com o punhal que Parker lhe deu.”
“É uma teoria, essa”, admitiu Poirot. “Decididamente, tem células de um género. Mas deixa muita coisa por explicar.”
“Tais como——?”
“O telefonema, a cadeira empurrada——”
“Acha realmente este último importante?”, interrompi.
“Talvez não”, admitiu o meu amigo. “Pode ter sido puxada por acidente, e Raymond ou Blunt podem tê-la empurrado para o lugar inconscientemente sob o stress da emoção. Depois, há as quarenta libras em falta.”
“Dadas por Ackroyd a Ralph”, sugeri. “Ele pode ter reconsiderado a sua primeira recusa.”
“Isso ainda deixa uma coisa por explicar?”
“O quê?”
“Por que é que Blunt estava tão certo, na sua própria mente, de que era Raymond com o Sr. Ackroyd às nove e meia?”
“Ele explicou isso”, disse eu.
“Acha? Não vou insistir no ponto. Diga-me antes, quais eram as razões de Ralph Paton para desaparecer?”
“Isso é um pouco mais difícil”, disse eu lentamente. “Terei de falar como médico. Os nervos do Ralph devem ter ido abaixo! Se ele descobriu subitamente que o seu tio tinha sido assassinado poucos minutos depois de o ter deixado — após, talvez, uma entrevista algo tempestuosa — bem, ele pode ter ficado assustado e fugido. Sabe-se que homens fizeram isso — agiram de forma culpada quando são perfeitamente inocentes.”
“Sim, isso é verdade”, disse Poirot. “Mas não devemos perder de vista uma coisa.”
“Sei o que vai dizer”, comentei: “motivo. Ralph Paton herda uma grande fortuna com a morte do seu tio.”
“Esse é um motivo”, concordou Poirot.
“Um?”
“Mais oui. Percebe que há três motivos separados a olhar para nós? Alguém roubou certamente o envelope azul e o seu conteúdo. Esse é um motivo. Chantagem! Ralph Paton pode ter sido o homem que chantageou a Sra. Ferrars. Lembre-se, tanto quanto Hammond sabia, Ralph Paton não tinha pedido ajuda ao seu tio ultimamente. Isso parece indicar que ele estava a ser abastecido de dinheiro noutro lugar. Depois, há o facto de ele estar metido em alguma — como se diz? — enrascada? — que ele temia que pudesse chegar aos ouvidos do seu tio. E, finalmente, há aquele que acabou de mencionar.”
“Meu Deus”, disse eu, algo surpreendido. “O caso parece negro contra ele.”
“Parece?”, disse Poirot. “É aí que discordamos, você e eu. Três motivos — é quase demais. Estou inclinado a acreditar que, afinal, Ralph Paton é inocente.”
CAPÍTULO XIV
A SRA. ACKROYD
Após a conversa noturna que acabei de registar, o caso pareceu-me entrar numa fase diferente. Toda a coisa pode ser dividida em duas partes, cada uma clara e distinta da outra. A Parte I. vai desde a morte de Ackroyd na sexta-feira à noite até à segunda-feira seguinte à noite. É a narrativa direta do que ocorreu, tal como apresentada a Hercule Poirot. Eu estava ao lado de Poirot o tempo todo. Vi o que ele viu. Tentei o meu melhor para ler a sua mente. Como sei agora, falhei nesta última tarefa. Embora Poirot me mostrasse todas as suas descobertas — como, por exemplo, a aliança de ouro — ele reteve as impressões vitais e, contudo, lógicas que formou. Como viria a saber mais tarde, este segredo era característico dele. Ele atirava pistas e sugestões, mas além disso não ia.
Como digo, até à segunda-feira à noite, a minha narrativa poderia ter sido a do próprio Poirot. Eu desempenhei o papel de Watson para o seu Sherlock. Mas depois de segunda-feira os nossos caminhos divergiram. Poirot estava ocupado por sua própria conta. Comecei a saber o que ele estava a fazer, porque, em King’s Abbot, ouve-se falar de tudo, mas ele não me deu a sua confiança de antemão. E eu, também, tinha as minhas próprias preocupações.
Ao olhar para trás, a coisa que mais me impressiona é o caráter fragmentado deste período. Todos tiveram uma mão na elucidação do mistério. Foi um pouco como um puzzle ao qual todos contribuíram com a sua pequena peça de conhecimento ou descoberta. Mas a sua tarefa terminou aí. Só a Poirot pertence a fama de colocar essas peças no seu lugar correto.
Alguns dos incidentes pareciam na altura irrelevantes e sem significado. Havia, por exemplo, a questão das botas pretas. Mas isso virá mais tarde.... Para levar as coisas estritamente por ordem cronológica, devo começar com a convocação da Sra. Ackroyd.
Ela mandou chamar-me cedo na terça-feira de manhã e, uma vez que a convocação parecia urgente, apressei-me para lá, esperando encontrá-la in extremis.
A senhora estava na cama. Tanto ela concedeu à etiqueta da situação. Estendeu-me a sua mão ossuda e indicou uma cadeira encostada à cabeceira.
“Bem, Sra. Ackroyd”, disse eu, “e o que é que se passa consigo?”
Falei com aquela espécie de cordialidade espúria que parece ser esperada dos clínicos gerais.
“Estou prostrada”, disse a Sra. Ackroyd com uma voz fraca. “Absolutamente prostrada. É o choque da morte do pobre Roger. Dizem que estas coisas muitas vezes não se sentem na altura, sabe. É a reação depois.”
É uma pena que um médico esteja impedido pela sua profissão de ser capaz de dizer às vezes o que realmente pensa.
Teria dado tudo para ser capaz de responder “Treta!”
Em vez disso, sugeri um tónico. A Sra. Ackroyd aceitou o tónico. Um movimento no jogo parecia agora concluído. Nem por um momento imaginei que tinha sido chamado por causa do choque causado pela morte de Ackroyd. Mas a Sra. Ackroyd é totalmente incapaz de seguir um curso direto sobre qualquer assunto. Ela aborda sempre o seu objetivo por meios tortuosos. Perguntei-me muito por que razão ela me tinha chamado.
“E depois aquela cena — ontem”, continuou a minha paciente.
Ela fez uma pausa como se esperasse que eu apanhasse o mote.
“Que cena?”
“Doutor, como pode? Esqueceu-se? Aquele horrível francesinho — ou belga — ou o que quer que ele seja. A intimidar-nos a todos como fez. Deixou-me completamente perturbada. A vir a seguir à morte do Roger.”
“Lamento muito, Sra. Ackroyd”, disse eu.
“Não sei o que ele queria dizer — a gritar connosco como fez. Gostaria de esperar que conheço o meu dever demasiado bem para sonhar em esconder alguma coisa. Dei à polícia toda a assistência que estava ao meu alcance.”
A Sra. Ackroyd fez uma pausa e eu disse: “Exatamente.” Estava a começar a ter um vislumbre do que era todo aquele problema.
“Ninguém pode dizer que falhei no meu dever”, continuou a Sra. Ackroyd. “Tenho a certeza de que o Inspetor Raglan está perfeitamente satisfeito. Por que haveria este pequeno aventureiro estrangeiro de fazer barulho? É uma criatura de aspeto mais ridículo também — tal como um francês cómico numa revista. Não consigo pensar por que é que a Flora insistiu em trazê-lo para o caso. Ela nunca me disse uma palavra sobre isso. Simplesmente foi-se embora e fê-lo por conta própria. A Flora é demasiado independente. Eu sou uma mulher do mundo e a sua mãe. Ela deveria ter vindo ter comigo para pedir conselho primeiro.”
Escutei tudo isto em silêncio.
“O que é que ele pensa? É isso que eu quero saber. Será que imagina mesmo que estou a esconder alguma coisa? Ele... ele... acusou-me positivamente ontem.”
Encolhi os ombros.
“Certamente não tem qualquer importância, Sra. Ackroyd”, disse eu. “Uma vez que não está a ocultar nada, quaisquer observações que ele possa ter feito não se aplicam a si.”
A Sra. Ackroyd divagou, à sua maneira habitual.
“Os criados são tão cansativos”, disse ela. “Fofocam e falam entre si. E depois espalha-se — e, durante todo esse tempo, provavelmente não há nada de verdade em nada disso.”
“Os criados têm andado a falar?” perguntei. “Sobre o quê?”
A Sra. Ackroyd lançou-me um olhar muito astuto. Deixou-me completamente desequilibrado.
“Tinha a certeza de que o senhor saberia, doutor, se alguém soubesse. O senhor esteve com o M. Poirot o tempo todo, não esteve?”
“Estive.”
“Então, claro que sabe. Foi aquela rapariga, a Ursula Bourne, não foi? Naturalmente... ela vai-se embora. Ela quereria causar todos os problemas que pudesse. Rancorosas, é o que elas são. São todas iguais. Agora, estando o senhor lá, doutor, deve saber exatamente o que ela disse? Estou muito ansiosa para que não se espalhe uma impressão errada. Afinal, o senhor não repete cada pequeno detalhe à polícia, pois não? Há assuntos de família por vezes — que nada têm a ver com a questão do homicídio. Mas, se a rapariga foi rancorosa, pode ter inventado todo o tipo de coisas.”
Fui suficientemente astuto para ver que uma ansiedade muito real se escondia por trás destas efusões. Poirot tinha razão nas suas premissas. Das seis pessoas à volta da mesa, ontem, a Sra. Ackroyd, pelo menos, tinha algo a esconder. Cabia-me a mim descobrir o que poderia ser esse algo.
“Se eu fosse a si, Sra. Ackroyd”, disse eu bruscamente, “seria sincero e contaria tudo.”
Ela deu um pequeno grito.
“Oh! doutor, como pode ser tão brusco. Soa como se... como se... E eu posso explicar tudo tão simplesmente.”
“Então, porque não o faz?”, sugeri.
A Sra. Ackroyd tirou um lenço com folhos e começou a chorar.
“Pensei, doutor, que o senhor pudesse expô-lo ao M. Poirot — explicar-lho, sabe — porque é tão difícil para um estrangeiro compreender o nosso ponto de vista. E o senhor não sabe — ninguém poderia saber — com o que tive de lidar. Um martírio — um longo martírio. É o que tem sido a minha vida. Não gosto de falar mal dos mortos — mas é o que é. Nem a menor das faturas, mas tinha de ser tudo revisto — como se o Roger tivesse algumas míseras centenas por ano em vez de ser (como o Sr. Hammond me disse ontem) um dos homens mais ricos nestas partes.”
A Sra. Ackroyd fez uma pausa para secar os olhos com o lenço de folhos.
“Sim”, disse eu, encorajador. “Estava a falar de faturas?”
“Essas faturas terríveis. E algumas eu nem queria mostrar ao Roger. Eram coisas que um homem não entenderia. Ele teria dito que as coisas não eram necessárias. E, claro, elas acumulavam-se, sabe, e continuavam a chegar...”
Ela olhou para mim suplicante, como se me pedisse que a consolasse sobre esta peculiaridade marcante.
“É um hábito que elas têm”, concordei.
“E o tom mudou — tornou-se bastante abusivo. Garanto-lhe, doutor, que me estava a tornar um desastre nervoso. Não conseguia dormir à noite. E uma palpitação terrível à volta do coração. E depois recebi uma carta de um cavalheiro escocês — na verdade, foram duas cartas — ambos cavalheiros escoceses. O Sr. Bruce MacPherson era um, e o outro era Colin MacDonald. Uma grande coincidência.”
“Dificilmente”, disse eu secamente. “Eles são geralmente cavalheiros escoceses, mas suspeito de uma linhagem semítica na sua ascendência.”
“De dez libras a dez mil apenas com uma nota de dívida”, murmurou a Sra. Ackroyd, nostálgica. “Escrevi a um deles, mas parece que houve dificuldades.”
Ela fez uma pausa.
Concluí que estávamos a chegar a terreno delicado. Nunca conheci ninguém mais difícil de levar ao ponto da questão.
“Sabe”, murmurou a Sra. Ackroyd, “é tudo uma questão de expectativas, não é? Expectativas testamentárias. E, embora, naturalmente, eu esperasse que o Roger providenciasse para mim, eu não sabia. Pensei que, se pudesse apenas dar uma vista de olhos numa cópia do seu testamento — não num sentido de bisbilhotice vulgar — mas apenas para que pudesse fazer os meus próprios preparativos.”
Ela lançou-me um olhar de lado. A situação era agora deveras delicada. Felizmente, as palavras, engenhosamente usadas, servem para mascarar a fealdade dos factos nus.
“Só podia dizer isto ao senhor, caro Dr. Sheppard”, disse a Sra. Ackroyd rapidamente. “Posso confiar que não me julgará mal e que representará o assunto sob a luz certa ao M. Poirot. Foi na sexta-feira à tarde...”
Ela parou e engoliu em seco, incerta.
“Sim”, repeti, encorajador. “Na sexta-feira à tarde. Bem?”
“Toda a gente estava fora, ou assim pensei. E fui ao escritório do Roger — tinha alguma razão real para ir lá — quero dizer, não havia nada de oculto nisso. E quando vi todos os papéis empilhados na secretária, ocorreu-me, num flash: ‘Pergunto-me se o Roger guarda o testamento numa das gavetas da secretária’. Sou tão impulsiva, sempre fui, desde criança. Faço coisas por impulso. Ele tinha deixado as chaves — muito descuidado da parte dele — na fechadura da gaveta de cima.”
“Compreendo”, disse eu, prestativo. “Então revistou a secretária. Encontrou o testamento?”
A Sra. Ackroyd deu um pequeno grito, e percebi que não tinha sido suficientemente diplomático.
“Como soa horrível. Mas não foi nada disso, na verdade.”
“Claro que não foi”, disse eu apressadamente. “Tem de perdoar a minha infeliz maneira de colocar as coisas.”
“Sabe, os homens são tão peculiares. No lugar do querido Roger, eu não me teria oposto a revelar as disposições do meu testamento. Mas os homens são tão reservados. É-se forçado a adotar pequenos estratagemas em legítima defesa.”
“E o resultado do pequeno estratagema?”, perguntei.
“É exatamente o que lhe estou a dizer. Quando cheguei à gaveta de baixo, a Bourne entrou. Muito embaraçoso. Claro que fechei a gaveta e levantei-me, e chamei a atenção dela para algumas manchas de pó na superfície. Mas não gostei da forma como ela olhou — bastante respeitosa na maneira, mas uma luz muito desagradável nos olhos. Quase desdenhosa, se sabe o que quero dizer. Nunca gostei muito daquela rapariga. É uma boa criada, e diz ‘Senhora’, e não se opõe a usar toucas e aventais (o que eu lhe garanto que muitas delas fazem hoje em dia), e pode dizer ‘Não está em casa’ sem escrúpulos se tiver de atender à porta em vez do Parker, e não tem aqueles ruídos borbulhantes peculiares dentro de si que tantas criadas de quarto parecem ter quando servem à mesa... Deixe-me ver, onde estava eu?”
“Estava a dizer que, apesar de várias qualidades valiosas, nunca gostou da Bourne.”
“Nem gosto. Ela é... estranha. Há algo diferente nela em relação às outras. Demasiado instruída, é a minha opinião. Não se consegue saber quem são senhoras e quem não são hoje em dia.”
“E o que aconteceu a seguir?”, perguntei.
“Nada. Pelo menos, o Roger entrou. E eu pensava que ele tinha saído para um passeio. E ele disse: ‘O que é tudo isto?’ e eu disse: ‘Nada. Só vim buscar a Punch’. E levei a Punch e saí com ela. A Bourne ficou para trás. Ouvi-a a perguntar ao Roger se podia falar com ele por um minuto. Fui diretamente para o meu quarto, para me deitar. Fiquei muito transtornada.”
Houve uma pausa.
“O senhor explicará ao M. Poirot, não explicará? Pode ver por si mesmo que assunto trivial era tudo isto. Mas, claro, quando ele foi tão severo sobre esconder coisas, pensei nisto imediatamente. A Bourne pode ter inventado alguma história extraordinária sobre isso, mas o senhor pode explicar, não pode?”
“É só?”, disse eu. “Contou-me tudo?”
“Si-im”, disse a Sra. Ackroyd. “Oh! sim”, acrescentou ela firmemente.
Mas eu tinha notado a hesitação momentânea e sabia que ainda havia algo que ela estava a esconder. Foi nada menos do que um lampejo de puro génio que me levou a fazer a pergunta que fiz.
“Sra. Ackroyd”, disse eu, “foi a senhora que deixou a mesa de prata aberta?”
Tive a minha resposta no rubor de culpa que nem o rouge e o pó podiam esconder.
“Como é que sabia?”, sussurrou ela.
“Foi a senhora, então?”
“Sim — eu — veja — havia uma ou duas peças de prata antiga — muito interessantes. Tinha estado a ler sobre o assunto e havia uma ilustração de uma peça bastante pequena que tinha rendido uma quantia imensa na Christy’s. Pareceu-me exatamente igual à que estava na mesa de prata. Pensei em levá-la comigo para Londres quando fosse — e — e pedir uma avaliação. Depois, se fosse realmente uma peça valiosa, pensei: que surpresa encantadora teria sido para o Roger?”
Abstive-me de comentários, aceitando a história da Sra. Ackroyd pelo que valia. Até me abstive de lhe perguntar porque era necessário retirar o que queria de uma forma tão sub-reptícia.
“Porque deixou a tampa aberta?”, perguntei. “Esqueceu-se?”
“Fiquei sobressaltada”, disse a Sra. Ackroyd. “Ouvi passos a vir pelo terraço lá fora. Apressuei-me a sair da sala e consegui subir as escadas antes de o Parker abrir a porta da frente para si.”
“Deve ter sido a Srta. Russell”, disse eu, pensativo. A Sra. Ackroyd tinha-me revelado um facto que era extremamente interessante. Se os seus desígnios sobre a prata de Ackroyd tinham sido estritamente honrados, eu não sabia nem me importava. O que me interessava era o facto de a Srta. Russell ter de entrar na sala de estar pela janela, e que eu não tinha estado errado ao julgá-la ofegante por ter corrido. Onde teria ela estado? Pensei no coreto e no pedaço de cambraia.
“Pergunto-me se a Srta. Russell engoma os seus lenços!”, exclamei por impulso.
O sobressalto da Sra. Ackroyd trouxe-me de volta a mim mesmo, e levantei-me.
“Pensa que pode explicar ao M. Poirot?”, perguntou ela, ansiosa.
“Oh, certamente. Absolutamente.”
Consegui sair finalmente, depois de ter sido forçado a ouvir mais justificações para a sua conduta.
A criada estava no hall, e foi ela quem me ajudou com o sobretudo. Observei-a mais de perto do que tinha feito até então. Era claro que tinha estado a chorar.
“Como é”, perguntei, “que nos disse que o Sr. Ackroyd a mandou chamar na sexta-feira ao seu escritório? Ouço agora que foi a senhora que pediu para falar com ele?”
Por um momento, os olhos da rapariga baixaram perante os meus.
Depois, ela falou.
“Eu pretendia ir-me embora de qualquer maneira”, disse ela, incerta.
Não disse mais nada. Ela abriu a porta da frente para mim. Quando eu estava a passar, ela disse de repente, em voz baixa:—
“Desculpe, senhor, há alguma notícia do Capitão Paton?”
Abanei a cabeça, olhando para ela interrogativamente.
“Ele deveria voltar”, disse ela. “De facto — de facto, ele deveria voltar.”
Ela olhava para mim com olhos suplicantes.
“Ninguém sabe onde ele está?”, perguntou ela.
“A senhora sabe?”, disse eu, agudamente.
Ela abanou a cabeça.
“Não, na verdade. Não sei de nada. Mas qualquer pessoa que fosse amiga dele dir-lhe-ia isto: ele deveria voltar.”
Fiquei por ali, pensando que talvez a rapariga dissesse mais. A sua pergunta seguinte surpreendeu-me.
“Quando é que eles pensam que o crime foi cometido? Pouco antes das dez horas?”
“Essa é a ideia”, disse eu. “Entre as nove e três quartos e a hora certa.”
“Não mais cedo? Não antes das nove e três quartos?”
Olhei para ela atentamente. Ela estava claramente ansiosa por uma resposta afirmativa.
“Isso está fora de questão”, disse eu. “A Srta. Ackroyd viu o tio vivo às nove e três quartos.”
Ela virou-se, e toda a sua figura pareceu murchar.
“Uma rapariga bonita”, disse eu para mim mesmo enquanto me afastava. “Uma rapariga extraordinariamente bonita.”
A Caroline estava em casa. Tinha tido uma visita do Poirot e estava muito satisfeita e importante com isso.
“Estou a ajudá-lo com o caso”, explicou ela.
Senti-me bastante inquieto. A Caroline já é má o suficiente como está. Como será ela com os seus instintos de detetive encorajados?
“Vai andar pelo bairro à procura da rapariga misteriosa do Ralph Paton?”, indaguei.
“Talvez o faça por minha própria conta”, disse a Caroline. “Não, isto é uma coisa especial que o M. Poirot quer que eu descubra para ele.”
“O que é?”, perguntei.
“Ele quer saber se as botas do Ralph Paton eram pretas ou castanhas”, disse a Caroline com uma solenidade tremenda.
Olhei para ela. Vejo agora que fui inacreditavelmente estúpido sobre estas botas. Falhei completamente em compreender o ponto.
“Eram sapatos castanhos”, disse eu. “Eu vi-os.”
“Não sapatos, James, botas. O M. Poirot quer saber se um par de botas que o Ralph tinha consigo no hotel eram castanhas ou pretas. Muita coisa depende disso.”
Chamem-me denso, se quiserem. Eu não via.
“E como é que vai descobrir?”, perguntei.
A Caroline disse que não haveria dificuldade nisso. A melhor amiga da nossa Annie era a criada da Srta. Ganett, Clara. E a Clara andava a sair com as botas no Three Boars. Tudo era simples, e com a ajuda da Srta. Ganett, que cooperou lealmente, dando imediatamente licença à Clara, o assunto foi resolvido a uma velocidade estonteante.
Foi quando nos sentávamos para almoçar que a Caroline comentou, com um simulado desinteresse:—
“Sobre aquelas botas do Ralph Paton.”
“Bem”, disse eu, “o que há com elas?”
“O M. Poirot pensava que eram provavelmente castanhas. Ele estava enganado. São pretas.”
E a Caroline acenou com a cabeça várias vezes. Sentia, evidentemente, que tinha marcado um ponto sobre o Poirot.
Não respondi. Estava a quebrar a cabeça sobre o que a cor de um par de botas do Ralph Paton tinha a ver com o caso.
CAPÍTULO XV
GEOFFREY RAYMOND
Eu teria uma prova adicional naquele dia do sucesso das táticas de Poirot. Aquele desafio dele tinha sido um toque subtil nascido do seu conhecimento da natureza humana. Uma mistura de medo e culpa tinha arrancado a verdade da Sra. Ackroyd. Ela foi a primeira a reagir.
Naquela tarde, quando regressei de ver os meus pacientes, a Caroline disse-me que o Geoffrey Raymond tinha acabado de sair.
“Ele queria ver-me?”, perguntei, enquanto pendurava o casaco no hall.
A Caroline estava a pairar junto ao meu cotovelo.
“Era ao M. Poirot que ele queria ver”, disse ela. “Ele tinha acabado de vir de The Larches. O M. Poirot estava fora. O Sr. Raymond pensou que ele pudesse estar aqui, ou que o senhor pudesse saber onde ele estava.”
“Não faço a menor ideia.”
“Tentei fazê-lo esperar”, disse a Caroline, “mas ele disse que voltaria a The Larches dentro de meia hora e foi-se embora pela aldeia. Uma pena, porque o M. Poirot chegou praticamente no minuto a seguir a ele ter saído.”
“Chegou aqui?”
“Não, à sua própria casa.”
“Como é que sabes?”
“A janela lateral”, disse a Caroline, brevemente.
Pareceu-me que tínhamos esgotado o tópico. A Caroline pensava o contrário.
“Não vais lá acima?”
“Lá acima onde?”
“A The Larches, claro.”
“Minha querida Caroline”, disse eu, “para quê?”
“O Sr. Raymond queria vê-lo muito particularmente”, disse a Caroline. “Poderias ouvir sobre o que se trata.”
Levantei as sobrancelhas.
“A curiosidade não é o meu pecado capital”, comentei friamente. “Posso existir confortavelmente sem saber exatamente o que os meus vizinhos estão a fazer e a pensar.”
“Conversa fiada, James”, disse a minha irmã. “Queres saber tanto quanto eu. Só não és tão honesto, é tudo. Tens sempre de fingir.”
“Realmente, Caroline”, disse eu, e retirei-me para o consultório.
Dez minutos depois, a Caroline bateu à porta e entrou. Na mão trazia o que parecia ser um pote de compota.
“Pergunto-me, James”, disse ela, “se te importarias de levar este pote de geleia de marmelo ao M. Poirot? Prometi-lho. Ele nunca provou geleia de marmelo caseira.”
“Porque é que a Annie não vai?”, perguntei friamente.
“Ela está a fazer uns arranjos. Não a posso dispensar.”
A Caroline e eu olhámo-nos.
“Muito bem”, disse eu, levantando-me. “Mas se levo esta coisa abominável, vou apenas deixá-la à porta. Entendes isso?”
A minha irmã levantou as sobrancelhas.
“Naturalmente”, disse ela. “Quem sugeriu que fizesses outra coisa?”
As honras foram para a Caroline.
“Se por acaso vires o M. Poirot”, disse ela, enquanto eu abria a porta da frente, “podes contar-lhe sobre as botas.”
Foi uma partida subtil. Eu queria terrivelmente compreender o enigma das botas. Quando a velha senhora com a touca bretã abriu a porta para mim, dei por mim a perguntar se o M. Poirot estava, bastante automaticamente.
Poirot levantou-se para me encontrar, com toda a aparência de prazer.
“Sente-se, meu bom amigo”, disse ele. “A cadeira grande? Esta pequena? O quarto não está demasiado quente, não?”
Achei que estava abafado, mas abstive-me de o dizer. As janelas estavam fechadas e um grande fogo ardia na lareira.
“O povo inglês, eles têm uma mania pelo ar fresco”, declarou Poirot. “O grande ar, está tudo muito bem lá fora, onde ele pertence. Porque o admitir na casa? Mas não discutamos tais banalidades. O senhor tem algo para mim, sim?”
“Duas coisas”, disse eu. “Primeiro — isto — da minha irmã.”
Entreguei o pote de geleia de marmelo.
“Que amável da parte da Mademoiselle Caroline. Ela lembrou-se da sua promessa. E a segunda coisa?”
“Informação — de certa forma.”
E contei-lhe o meu encontro com a Sra. Ackroyd. Ele ouviu com interesse, mas não com muita excitação.
“Isso limpa o terreno”, disse ele, pensativo. “E tem um certo valor ao confirmar o testemunho da governanta. Ela disse, lembra-se, que encontrou a tampa da mesa de prata aberta e fechou-a ao passar.”
“E quanto à declaração dela de que foi à sala de estar para ver se as flores estavam frescas?”
“Ah! nunca levámos isso muito a sério, pois não, meu amigo? Era patentemente uma desculpa, inventada à pressa, por uma mulher que sentia ser urgente explicar a sua presença — a qual, aliás, o senhor provavelmente nunca teria pensado em questionar. Considerei possível que a sua agitação pudesse advir do facto de ela ter mexido na mesa de prata, mas penso agora que devemos procurar outra causa.”
“Sim”, disse eu. “Com quem é que ela foi encontrar-se? E porquê?”
“O senhor acha que ela foi encontrar-se com alguém?”
“Acho.”
Poirot assentiu.
“Eu também”, disse ele, pensativo.
Houve uma pausa.
“A propósito”, disse eu, “tenho uma mensagem para si da minha irmã. As botas do Ralph Paton eram pretas, não castanhas.”
Estava a observá-lo atentamente enquanto dava a mensagem, e imaginei ter visto um vislumbre momentâneo de desconcerto. Se assim foi, passou quase imediatamente.
“Ela tem a certeza absoluta de que não são castanhas?”
“Absoluta.”
“Ah!”, disse Poirot, com pesar. “Isso é uma pena.”
E ele parecia bastante desanimado.
Não entrou em explicações, mas iniciou imediatamente um novo assunto de conversa.
“A governanta, a Srta. Russell, que veio consultar o senhor naquela manhã de sexta-feira — é indiscreto perguntar o que passou na entrevista — para além dos detalhes médicos, quero dizer?”
“De modo algum”, disse eu. “Quando a parte profissional da conversa terminou, falámos durante alguns minutos sobre venenos, e a facilidade ou dificuldade de os detetar, e sobre o consumo de drogas e consumidores de drogas.”
“Com referência especial à cocaína?”, perguntou Poirot.
“Como é que sabia?”, perguntei, algo surpreendido.
Como resposta, o pequeno homem levantou-se e atravessou a sala até onde os jornais estavam arquivados. Trouxe-me um exemplar do Daily Budget, datado de sexta-feira, 16 de setembro, e mostrou-me um artigo que tratava do contrabando de cocaína. Era um artigo um tanto sensacionalista, escrito a pensar num efeito pitoresco.
“Foi isso que meteu a cocaína na cabeça dela, meu amigo”, disse ele.
Eu tê-lo-ia interrogado mais, pois não compreendia bem o que ele queria dizer, mas naquele momento a porta abriu-se e o Geoffrey Raymond foi anunciado.
Ele entrou fresco e alegre como sempre, e cumprimentou-nos a ambos.
“Como está, doutor? M. Poirot, esta é a segunda vez que venho aqui esta manhã. Estava ansioso por encontrá-lo.”
“Talvez seja melhor eu ir-me embora”, sugeri, um tanto embaraçado.
“Não por minha causa, doutor. Não, é apenas isto”, continuou ele, sentando-se a um gesto de convite de Poirot, “tenho uma confissão a fazer.”
“En verité?”, disse Poirot, com um ar de interesse educado.
“Oh, não é de importância nenhuma, na verdade. Mas, para falar a verdade, a minha consciência tem-me picado desde ontem à tarde. Acusou-nos a todos de esconder alguma coisa, M. Poirot. Declaro-me culpado. Tive algo na manga.”
“E o que será isso, M. Raymond?”
“Como digo, não é nada de importância — apenas isto. Eu estava endividado — gravemente, e aquele legado veio na hora certa. Quinhentas libras põem-me de pé novamente, com um pouco de sobra.”
Ele sorriu para ambos com aquela franqueza cativante que o tornava um jovem tão agradável.
“Sabe como é. Polícias com ar suspeito — não gostamos de admitir que estávamos a passar por dificuldades financeiras — pensamos que lhes parecerá mal. Mas fui um tolo, realmente, porque Blunt e eu estivemos na sala de bilhar a partir das nove e três quartos em diante, por isso tenho um álibi à prova de bala e nada a temer. Ainda assim, quando trovejou aquela história sobre esconder coisas, senti uma picada desagradável na consciência e pensei que gostaria de tirar isto do meu peito.”
Ele levantou-se novamente e permaneceu de pé, sorrindo para nós.
“É um jovem muito sensato”, disse Poirot, acenando-lhe com aprovação. “Veja bem, quando sei que alguém me esconde coisas, suspeito que o que está escondido possa ser algo muito mau, de facto. Fez bem.”
“Fico contente por estar limpo de suspeitas”, riu-se Raymond. “Vou-me embora agora.”
“Portanto, é isso”, comentei, à medida que a porta se fechava atrás do jovem secretário.
“Sim”, concordou Poirot. “Uma mera bagatela — mas se ele não estivesse na sala de bilhar — quem sabe? Afinal, muitos crimes foram cometidos por causa de menos de quinhentas libras. Tudo depende de que soma é suficiente para arruinar um homem. Uma questão de relatividade, não é verdade? Refletiu, meu amigo, que muitas pessoas naquela casa sairiam a ganhar com a morte do Sr. Ackroyd? A Sra. Ackroyd, a Srta. Flora, o jovem Sr. Raymond, a governanta, a Srta. Russell. Apenas uma, de facto, não sai: o Major Blunt.”
O seu tom ao proferir aquele nome era tão peculiar que olhei para ele, intrigado.
“Não o compreendo bem?”, disse eu.
“Duas das pessoas que acusei disseram-me a verdade.”
“Acha que o Major Blunt também tem algo a esconder?”
“Quanto a isso”, observou Poirot com indiferença, “há um ditado, não há, de que os ingleses escondem apenas uma coisa — o seu amor? E o Major Blunt, diria eu, não é bom a esconder coisas.”
“Às vezes”, disse eu, “pergunto-me se não tirámos conclusões precipitadas sobre um ponto.”
“Qual é?”
“Assumimos que o chantagista da Sra. Ferrars é necessariamente o assassino do Sr. Ackroyd. Não poderemos estar enganados?”
Poirot assentiu energeticamente.
“Muito bom. Muito bom, de facto. Perguntei-me se essa ideia lhe ocorreria. É claro que é possível. Mas devemos lembrar um ponto. A carta desapareceu. Ainda assim, isso, como diz, pode não significar necessariamente que o assassino a tenha levado. Quando encontrou o corpo pela primeira vez, Parker pode ter subtraído a carta sem que se apercebesse.”
“Parker?”
“Sim, Parker. Volto sempre ao Parker — não como o assassino — não, ele não cometeu o homicídio; mas quem será mais adequado do que ele como o misterioso patife que aterrorizou a Sra. Ferrars? Ele pode ter obtido a sua informação sobre a morte do Sr. Ferrars de um dos criados de King’s Paddock. De qualquer modo, é mais provável que ele tenha descoberto isso do que um hóspede casual como o Blunt, por exemplo.”
“O Parker pode ter levado a carta”, admiti. “Só mais tarde é que notei que tinha desaparecido.”
“Quanto mais tarde? Depois de o Blunt e o Raymond estarem na sala, ou antes?”
“Não me consigo lembrar”, disse eu lentamente. “Penso que foi antes — não, depois. Sim, tenho quase a certeza de que foi depois.”
“Isso alarga o campo para três”, disse Poirot pensativamente. “Mas o Parker é o mais provável. Está na minha mente tentar uma pequena experiência com o Parker. Que diz, meu amigo, acompanhar-me-á a Fernly?”
Concordei, e partimos imediatamente. Poirot pediu para ver a Srta. Ackroyd, e pouco depois Flora veio ter connosco.
“Mademoiselle Flora”, disse Poirot, “tenho de lhe confiar um pequeno segredo. Ainda não estou satisfeito quanto à inocência de Parker. Proponho fazer uma pequena experiência com a sua assistência. Quero reconstruir algumas das suas ações naquela noite. Mas temos de pensar em algo para lhe dizer — ah! Já sei. Desejo certificar-me se as vozes no pequeno átrio podiam ter sido ouvidas lá fora, no terraço. Agora, toque para o Parker, se for tão gentil.”
Fiz o que foi pedido e, pouco depois, o mordomo apareceu, tão suave como sempre.
“Chamou, senhor?”
“Sim, meu bom Parker. Tenho em mente uma pequena experiência. Coloquei o Major Blunt no terraço, fora da janela do escritório. Quero ver se alguém lá fora poderia ter ouvido as vozes da Srta. Ackroyd e a sua no átrio, naquela noite. Quero encenar essa pequena cena novamente. Talvez pudesse trazer o tabuleiro ou o que quer que fosse que estivesse a carregar?”
Parker desapareceu e nós dirigimo-nos para o átrio, fora da porta do escritório. Pouco depois, ouvimos um tilintar no hall exterior, e Parker apareceu no vão da porta, carregando um tabuleiro com um sifão, um decantador de uísque e dois copos.
“Um momento”, gritou Poirot, levantando a mão e parecendo muito entusiasmado. “Devemos ter tudo em ordem. Tal como aconteceu. É um pequeno método meu.”
“Um costume estrangeiro, senhor”, disse Parker. “Reconstituição do crime, chamam-lhe, não é verdade?”
Ele estava perfeitamente imperturbável enquanto ali permanecia, esperando educadamente pelas ordens de Poirot.
“Ah! Ele sabe alguma coisa, o bom Parker”, exclamou Poirot. “Ele leu sobre estas coisas. Agora, rogo-lhe, vamos ter tudo da forma mais exata. Veio do hall exterior — assim. Mademoiselle estava — onde?”
“Aqui”, disse Flora, posicionando-se logo à porta do escritório.
“Muito correto, senhor”, disse Parker.
“Eu tinha acabado de fechar a porta”, continuou Flora.
“Sim, menina”, concordou Parker. “A sua mão ainda estava na maçaneta, como está agora.”
“Então, allez”, disse Poirot. “Represente-me a pequena comédia.”
Flora ficou com a mão na maçaneta da porta, e Parker veio, atravessando a porta vindo do hall, carregando o tabuleiro.
Ele parou logo dentro da porta. Flora falou.
“Oh! Parker. O Sr. Ackroyd não quer ser incomodado novamente esta noite.”
“Está correto?”, acrescentou ela em voz baixa.
“Tanto quanto me lembro, Srta. Flora”, disse Parker, “mas creio que usou a palavra noite em vez de fim de tarde.” Depois, elevando a voz de uma forma algo teatral: “Muito bem, menina. Devo trancar tudo como de costume?”
“Sim, por favor.”
Parker retirou-se pela porta, Flora seguiu-o e começou a subir a escadaria principal.
“É suficiente?”, perguntou ela por cima do ombro.
“Admirável”, declarou o homenzinho, esfregando as mãos. “A propósito, Parker, tem a certeza de que havia dois copos no tabuleiro naquela noite? Para quem era o segundo?”
“Trago sempre dois copos, senhor”, disse Parker. “Há mais alguma coisa?”
“Nada. Agradeço-lhe.”
Parker retirou-se, digno até ao fim.
Poirot ficou no meio do hall, franzindo a testa. Flora desceu e juntou-se a nós.
“A sua experiência foi bem-sucedida?”, perguntou ela. “Não compreendo muito bem, sabe…”
Poirot sorriu-lhe admirado.
“Não é necessário que compreenda”, disse ele. “Mas diga-me, havia de facto dois copos no tabuleiro de Parker naquela noite?”
Flora franziu as sobrancelhas por um momento.
“Realmente não me consigo lembrar”, disse ela. “Penso que havia. É — é esse o objetivo da sua experiência?”
Poirot pegou na sua mão e deu-lhe umas palmadinhas.
“Ponhamos as coisas desta forma”, disse ele. “Interessa-me sempre ver se as pessoas dizem a verdade.”
“E o Parker disse a verdade?”
“Creio que sim”, disse Poirot pensativamente.
Poucos minutos depois, estávamos a refazer o caminho para a aldeia.
“Qual era o objetivo daquela pergunta sobre os copos?”, perguntei, curioso.
Poirot encolheu os ombros.
“É preciso dizer alguma coisa”, observou ele. “Aquela pergunta específica serviu tão bem como qualquer outra.”
Olhei fixamente para ele.
“De qualquer modo, meu amigo”, disse ele mais seriamente, “sei agora algo que queria saber. Deixemos as coisas por aqui.”
CAPÍTULO XVI
UMA NOITE DE MAH JONG
Naquela noite, tivemos um pequeno jogo de Mah Jong. Este tipo de entretenimento simples é muito popular em King’s Abbot. Os convidados chegam de galochas e impermeáveis depois do jantar. Desfrutam de café e, mais tarde, de bolo, sanduíches e chá.
Nesta noite em particular, os nossos convidados eram a Srta. Ganett e o Coronel Carter, que vive perto da igreja. Uma boa dose de mexericos é trocada nestas noites, interferindo por vezes seriamente no jogo em curso. Costumávamos jogar bridge — bridge de conversa do pior tipo. Achamos o Mah Jong muito mais pacífico. A exigência irritada sobre porque raio o seu parceiro não jogou uma certa carta é completamente eliminada, e embora continuemos a expressar críticas francamente, não existe o mesmo espírito acrimonioso.
“Noite muito fria, eh, Sheppard?”, disse o Coronel Carter, de costas para a lareira. Caroline tinha levado a Srta. Ganett para o seu próprio quarto e estava lá a ajudá-la a desembaraçar-se dos seus muitos agasalhos. “Faz-me lembrar as passagens afegãs.”
“A sério?”, disse eu educadamente.
“Um caso muito misterioso este sobre o pobre Ackroyd”, continuou o coronel, aceitando uma chávena de café. “Há uma carga de trabalhos por trás disto — é o que eu digo. Entre nós, Sheppard, ouvi mencionar a palavra chantagem!”
O coronel lançou-me aquele olhar que poderia ser tabulado como “de um homem do mundo para outro”.
“Uma mulher no meio, sem dúvida”, disse ele. “Pode acreditar, uma mulher no meio disto.”
Caroline e a Srta. Ganett juntaram-se a nós nesse minuto. A Srta. Ganett bebeu café enquanto Caroline tirava a caixa de Mah Jong e despejava as peças sobre a mesa.
“A lavar as peças”, disse o coronel jocosamente. “Isso mesmo — a lavar as peças, como costumávamos dizer no Clube de Xangai.”
É a opinião privada, tanto da Caroline como minha, de que o Coronel Carter nunca esteve no Clube de Xangai na vida. Mais, que nunca esteve mais a este do que a Índia, onde andou a lidar com latas de carne de conserva e compota de ameixa e maçã durante a Grande Guerra. Mas o coronel é obstinadamente militar, e em King’s Abbot permitimos que as pessoas se entreguem livremente às suas pequenas idiossincrasias.
“Começamos?”, disse Caroline.
Sentámo-nos à volta da mesa. Durante cerca de cinco minutos, houve silêncio total, devido ao facto de haver uma tremenda competição secreta entre nós sobre quem consegue construir a sua muralha mais depressa.
“Avance, James”, disse Caroline por fim. “É o Vento Este.”
Descartei uma peça. Seguiu-se uma ou duas rondas, interrompidas pelos comentários monótonos de “Três Bambus”, “Dois Círculos”, “Pung”, e frequentemente da Srta. Ganett, “Unpung”, devido ao hábito daquela senhora de reivindicar demasiado apressadamente peças às quais não tinha direito.
“Vi a Flora Ackroyd esta manhã”, disse a Srta. Ganett. “Pung — não — Unpung. Enganei-me.”
“Quatro Círculos”, disse Caroline. “Onde a viu?”
“Ela não me viu”, disse a Srta. Ganett, com aquele tremendo significado que só se encontra nas pequenas aldeias.
“Ah!”, disse Caroline interessada. “Chow.”
“Creio”, disse a Srta. Ganett, temporariamente desviada, “que é a coisa certa hoje em dia dizer ‘Chee’ e não ‘Chow’.”
“Disparate”, disse Caroline. “Sempre disse ‘Chow’.”
“No Clube de Xangai”, disse o Coronel Carter, “dizem ‘Chow’.”
A Srta. Ganett retirou-se, derrotada.
“O que estava a dizer sobre a Flora Ackroyd?”, perguntou Caroline, após um ou dois momentos dedicados ao jogo. “Estava com alguém?”
“Muito acompanhada”, disse a Srta. Ganett.
Os olhos das duas senhoras encontraram-se e pareceram trocar informações.
“A sério”, disse Caroline interessada. “É isso? Bem, não me surpreende minimamente.”
“Estamos à espera que descarte, Srta. Caroline”, disse o coronel. Ele por vezes afeta a pose do homem rude, focado no jogo e indiferente a mexericos. Mas ninguém é enganado.
“Se quer a minha opinião”, disse a Srta. Ganett. (“Foi um Bambu que descartou, querida? Oh! não, vejo agora — era um Círculo.) Como eu dizia, se quer a minha opinião, a Flora tem tido uma sorte imensa. Teve uma sorte imensa.”
“Como assim, Srta. Ganett?”, perguntou o coronel. “Vou fazer Pung a esse Dragão Verde. Como é que conclui que a Srta. Flora teve sorte? Uma rapariga muito encantadora e tudo isso, eu sei.”
“Posso não saber muito sobre crimes”, disse a Srta. Ganett, com o ar de quem sabe tudo o que há para saber, “mas posso dizer-lhe uma coisa. A primeira pergunta que é sempre feita é ‘Quem viu o falecido vivo pela última vez?’ E a pessoa que o viu é olhada com suspeita. Ora, a Flora Ackroyd viu o seu tio vivo pela última vez. Poderia ter parecido muito feio para ela — muito feio, de facto. É a minha opinião — e dou-a pelo valor que tem, que o Ralph Paton está a manter-se afastado por causa dela, para desviar as suspeitas de si.”
“Ora, vamos lá”, protestei suavemente, “não pode certamente sugerir que uma jovem como a Flora Ackroyd seja capaz de esfaquear o seu tio a sangue-frio?”
“Bem, não sei”, disse a Srta. Ganett. “Acabei de ler um livro da biblioteca sobre o submundo de Paris, e diz que algumas das piores criminosas são jovens raparigas com rostos de anjo.”
“Isso é em França”, disse a Caroline instantaneamente.
“Exato”, disse o coronel. “Ora, vou contar-lhe uma coisa muito curiosa — uma história que circulava pelos Bazares na Índia....”
A história do coronel era de um comprimento interminável e de um interesse curiosamente reduzido. Uma coisa que aconteceu na Índia há muitos anos não se pode comparar por um momento com um evento que teve lugar em King’s Abbot anteontem.
Foi a Caroline quem pôs fim à história do coronel, por sorte, ao fazer Mah Jong. Depois do pequeno desagrado sempre causado pelas minhas correções à aritmética algo falível da Caroline, começámos uma nova mão.
“Vento Este passa”, disse Caroline. “Tenho uma ideia minha sobre o Ralph Paton. Três Carateres. Mas vou guardá-la para mim por enquanto.”
“Está, querida?”, disse a Srta. Ganett. “Chow — quero dizer, Pung.”
“Sim”, disse Caroline firmemente.
“Estava tudo bem com as botas?”, perguntou a Srta. Ganett. “O facto de serem pretas, quero dizer?”
“Tudo muito bem”, disse Caroline.
“Qual era o objetivo, acha?”, perguntou a Srta. Ganett.
Caroline cerrou os lábios e abanou a cabeça com um ar de quem sabia tudo sobre o assunto.
“Pung”, disse a Srta. Ganett. “Não — Unpung. Suponho que agora que o doutor está com o M. Poirot, sabe todos os segredos?”
“Longe disso”, disse eu.
“O James é tão modesto”, disse Caroline. “Ah! um Kong escondido.”
O coronel soltou um assobio. Por um momento, os mexericos foram esquecidos.
“Este M. Poirot agora”, disse o Coronel Carter, “é realmente um detetive tão grande?”
“O maior que o mundo já conheceu”, disse a Caroline solenemente. “Teve de vir para aqui incógnito para evitar a publicidade.”
“Chow”, disse a Srta. Ganett. “Bastante maravilhoso para a nossa pequena aldeia, de certeza. A propósito, a Clara — a minha criada, sabe — é muito amiga da Elsie, a criada de Fernly, e o que acha que a Elsie lhe disse? Que foi roubado muito dinheiro, e é a sua opinião — da Elsie, quero dizer — que a criada de mesa teve algo a ver com isso. Ela vai-se embora ao fim do mês, e chora muito à noite. Se quer a minha opinião, a rapariga está muito provavelmente ligada a um bando. Ela sempre foi uma rapariga estranha — não é amiga de nenhuma das raparigas aqui da zona. Sai sozinha nos seus dias de folga — muito pouco natural, chamo-lhe eu, e bastante suspeito. Pedi-lhe uma vez para vir às nossas Noites de Amizade Feminina, mas ela recusou, e depois fiz-lhe algumas perguntas sobre a sua casa e a sua família — todo esse tipo de coisas, e devo dizer que considerei a sua atitude muito impertinente. Exteriormente muito respeitosa — mas calou-me da forma mais descarada.”
A Srta. Ganett parou para recuperar o fôlego, e o coronel, que estava totalmente desinteressado na questão dos criados, observou que no Clube de Xangai o jogo rápido era a regra invariável.
Tivemos uma ronda de jogo rápido.
“Aquela Srta. Russell”, disse Caroline. “Veio aqui fingindo consultar o James na sexta-feira de manhã. É a minha opinião que ela queria ver onde estavam guardados os venenos. Cinco Carateres.”
“Chow”, disse a Srta. Ganett. “Que ideia extraordinária? Pergunto-me se poderá estar certa.”
“Falando em venenos”, disse o coronel. “Eh — o quê? Não descartei? Oh! Oito Bambus.”
“Mah Jong!”, disse a Srta. Ganett.
Caroline ficou muito aborrecida.
“Um Dragão Vermelho”, disse ela com pesar, “e eu teria tido uma mão de três dobragens.”
“Tive dois Dragões Vermelhos o tempo todo”, mencionei.
“Tão exatamente como o James”, disse Caroline com ar de censura. “Não tem qualquer conceção do espírito do jogo.”
Eu próprio achei que tinha jogado de forma bastante inteligente. Teria de pagar uma enorme quantia à Caroline se ela tivesse feito Mah Jong. O Mah Jong da Srta. Ganett foi da variedade mais fraca possível, como a Caroline não deixou de lhe apontar.
O Vento Este passou e começámos uma nova mão em silêncio.
“O que eu ia dizer-lhe há pouco era isto”, disse Caroline.
“Sim?”, disse a Srta. Ganett encorajadoramente.
“A minha ideia sobre o Ralph Paton, quero dizer.”
“Sim, querida”, disse a Srta. Ganett, ainda mais encorajadoramente. “Chow!”
“É um sinal de fraqueza fazer Chow tão cedo”, disse Caroline severamente. “Devia tentar uma mão grande.”
“Eu sei”, disse a Srta. Ganett. “Estava a dizer — sobre o Ralph Paton, sabe?”
“Sim. Bem, tenho uma ideia bastante precisa de onde ele está.”
Parámos todos para olhar para ela.
“Isto é muito interessante, Srta. Caroline”, disse o Coronel Carter. “Ideia toda sua, eh?”
“Bem, não exatamente. Vou contar-lhe. Sabe aquele mapa grande do condado que temos no hall?”
Dissemos todos que sim.
“Quando o M. Poirot estava a sair no outro dia, parou e olhou para ele, e fez um comentário — não consigo lembrar-me exatamente do que foi. Alguma coisa sobre Cranchester ser a única cidade grande perto de nós — o que é verdade, claro. Mas depois de ele ter ido embora — ocorreu-me de repente.”
“O que lhe ocorreu?”
“O sentido dele. Claro que o Ralph está em Cranchester.”
Foi nesse momento que derrubei o suporte que segurava as minhas peças. A minha irmã repreendeu-me imediatamente pela falta de jeito, mas sem grande convicção. Ela estava focada na sua teoria.
“Cranchester, Srta. Caroline?”, disse o Coronel Carter. “Certamente não Cranchester! É tão perto.”
“É exatamente isso”, gritou Caroline triunfante. “Parece bem claro agora que ele não fugiu daqui de comboio. Deve ter simplesmente caminhado até Cranchester. E acredito que ele ainda está lá. Ninguém sonharia que ele estivesse tão perto.”
Apontei várias objeções à teoria, mas quando a Caroline mete uma coisa na cabeça, nada a remove.
“E acha que o M. Poirot tem a mesma ideia”, disse a Srta. Ganett pensativamente. “É uma coincidência curiosa, mas estive a passear esta tarde na estrada de Cranchester, e ele passou por mim num carro vindo dessa direção.”
Olhámos todos uns para os outros.
“Ora, meu Deus”, disse a Srta. Ganett de repente, “tenho Mah Jong o tempo todo e nem notei.”
A atenção da Caroline foi desviada dos seus exercícios inventivos. Ela apontou à Srta. Ganett que uma mão composta por naipes misturados e demasiados Chows dificilmente valia um Mah Jong. A Srta. Ganett ouviu imperturbável e recolheu as suas fichas.
“Sim, querida, sei o que quer dizer”, disse ela. “Mas depende um pouco do tipo de mão que se tem para começar, não é?”
“Nunca terá as mãos grandes se não as tentar fazer”, insistiu Caroline.
“Bem, temos de jogar todos à nossa maneira, não temos?”, disse a Srta. Ganett. Ela olhou para as suas fichas. “Afinal, estou a ganhar, até agora.”
Caroline, que estava bastante a perder, não disse nada.
O Vento Este passou e começámos mais uma vez. A Annie trouxe as coisas para o chá. A Caroline e a Srta. Ganett estavam ambas ligeiramente irritadas, como é frequentemente o caso durante uma destas noites festivas.
“Se ao menos jogasse um pouquinho mais depressa, querida”, disse Caroline, enquanto a Srta. Ganett hesitava sobre o seu descarte. “Os chineses pousam as peças tão depressa que parece o chilrear de passarinhos.”
Durante alguns minutos, jogámos como os chineses.
“Não contribuíste muito para a soma de informações, Sheppard”, disse o Coronel Carter com benevolência. “És um raposa astuta. De mãos dadas com o grande detetive e nem uma pista sobre o rumo que as coisas estão a tomar.”
“O James é uma criatura extraordinária”, disse Caroline. “Não consegue obrigar-se a partilhar informações.”
Ela olhou para mim com algum desagrado.
“Garanto-te”, disse eu, “que não sei nada. Poirot guarda as suas próprias confidências.”
“Homem sábio”, disse o coronel com uma risada. “Não se denuncia. Mas são tipos maravilhosos, estes detetives estrangeiros. Acredito que sejam capazes de todo o tipo de expedientes.”
“Pung”, disse a Srta. Ganett, num tom de triunfo silencioso. “E Mah Jong.”
A situação tornou-se mais tensa. Foi o aborrecimento pela Srta. Ganett ter feito Mah Jong pela terceira vez seguida que levou Caroline a dizer-me, enquanto construíamos uma nova muralha:—
“És demasiado enfadonho, James. Sentas-te aí como um paspalho e não dizes absolutamente nada!”
“Mas, minha querida”, protestei, “realmente não tenho nada a dizer — isto é, do género a que te referes.”
“Tretas”, disse Caroline, enquanto organizava as suas peças. “Deves saber algo de interessante.”
Não respondi durante um momento. Estava assoberbado e inebriado. Tinha lido que existia tal coisa como a Vitória Perfeita — fazer Mah Jong com a mão original. Nunca tinha esperado segurar essa mão eu próprio.
Com um triunfo reprimido, dispus as minhas peças com a face virada para cima sobre a mesa.
“Como dizem no Shanghai Club”, comentei, “Tin-ho — a Vitória Perfeita!”
Os olhos do coronel quase saltaram das órbitas.
“Pela minha alma”, disse ele. “Que coisa extraordinária. Nunca vi isso acontecer antes!”
Foi então que prossegui, instigado pelas provocações de Caroline e tornado imprudente pelo meu triunfo.
“E quanto a algo de interessante”, disse eu. “Que tal uma aliança de casamento de ouro com uma data e ‘De R.’ gravado no interior.”
Passo à frente a cena que se seguiu. Fui obrigado a dizer exatamente onde este tesouro foi encontrado. Fui obrigado a revelar a data.
“13 de março”, disse Caroline. “Há apenas seis meses. Ah!”
Do babel de sugestões e suposições excitadas, emergiram três teorias:—
1. A do Coronel Carter: que Ralph estava secretamente casado com Flora. A primeira ou mais simples solução.
2. A da Srta. Ganett: que Roger Ackroyd tinha casado secretamente com a Sra. Ferrars.
3. A da minha irmã: que Roger Ackroyd tinha casado com a sua governanta, a Srta. Russell.
Uma quarta ou superteoria foi proposta por Caroline mais tarde, quando subíamos para nos deitarmos.
“Marca as minhas palavras”, disse ela subitamente, “não me admiraria nada que Geoffrey Raymond e Flora estivessem casados.”
“Certamente seria ‘De G.’, e não ‘De R.’, nesse caso”, sugeri.
“Nunca se sabe. Algumas raparigas chamam os homens pelos apelidos. E ouviste o que a Srta. Ganett disse esta noite — sobre os comportamentos da Flora.”
Sendo rigoroso, não tinha ouvido a Srta. Ganett dizer nada desse género, mas respeitava o conhecimento que Caroline tinha de insinuações.
“E quanto a Hector Blunt”, insinuei. “Se for alguém——”
“Tretas”, disse Caroline. “Atrevo-me a dizer que ele a admira — talvez até esteja apaixonado por ela. Mas podes crer que uma rapariga não se vai apaixonar por um homem com idade para ser seu pai quando há um jovem secretário de boa aparência por perto. Ela pode encorajar o Major Blunt apenas para despistar. As raparigas são muito astutas. Mas há uma coisa que te digo, James Sheppard. Flora Ackroyd não quer saber minimamente de Ralph Paton, e nunca quis. Podes acreditar em mim.”
Acreditei nela, submisso.
CAPÍTULO XVII
PARKER
Ocorreu-me na manhã seguinte que, sob a exaltação da noite anterior, tinha sido um pouco indiscreto. É verdade, Poirot não me tinha pedido para guardar segredo sobre a descoberta do anel. Por outro lado, ele não tinha dito nada sobre isso enquanto estivemos em Fernly e, tanto quanto sabia, eu era a única pessoa ciente de que tinha sido encontrado. Senti-me distintamente culpado. O facto espalhava-se agora por King’s Abbot como fogo em palha. Esperava repreensões em massa da parte de Poirot a qualquer momento.
O funeral conjunto da Sra. Ferrars e de Roger Ackroyd estava marcado para as onze horas. Foi uma cerimónia melancólica e impressionante. Todo o grupo de Fernly estava presente.
Depois de terminar, Poirot, que também tinha estado presente, pegou-me pelo braço e convidou-me a acompanhá-lo de volta a The Larches. Ele parecia muito grave e temi que a minha indiscrição da noite anterior tivesse chegado aos seus ouvidos. Mas logo se soube que os seus pensamentos estavam ocupados com algo de natureza totalmente diferente.
“Veja bem”, disse ele. “Temos de agir. Com a sua ajuda, proponho interrogar uma testemunha. Vamos questioná-lo, vamos incutir-lhe tal medo que a verdade terá de vir ao de cima.”
“De que testemunha está a falar?”, perguntei, muito surpreendido.
“Parker!”, disse Poirot. “Pedi-lhe que estivesse na minha casa esta manhã às doze horas. Ele deve estar à nossa espera lá neste exato momento.”
“O que pensa?”, aventurei-me, olhando de soslaio para o seu rosto.
“Sei isto — que não estou satisfeito.”
“Pensa que foi ele quem chantageou a Sra. Ferrars?”
“Ou isso, ou——”
“Bem?”, disse eu, após esperar um minuto ou dois.
“Meu amigo, dir-lhe-ei isto — espero que tenha sido ele.”
A gravidade da sua atitude e algo indefinível que a matizava reduziram-me ao silêncio.
À chegada a The Larches, fomos informados de que Parker já lá estava, aguardando o nosso regresso. Ao entrarmos na sala, o mordomo levantou-se respeitosamente.
“Bom dia, Parker”, disse Poirot amavelmente. “Um instante, peço-lhe.”
Ele tirou o sobretudo e as luvas.
“Permita-me, senhor”, disse Parker, e adiantou-se para o ajudar. Depositou os artigos cuidadosamente numa cadeira junto à porta. Poirot observou-o com aprovação.
“Obrigado, meu bom Parker”, disse ele. “Sente-se, quer fazer o favor? O que tenho a dizer pode levar algum tempo.”
Parker sentou-se com uma inclinação apologética da cabeça.
“Agora, por que pensa que lhe pedi para vir aqui esta manhã — eh?”
Parker tossiu.
“Compreendi, senhor, que desejava fazer-me algumas perguntas sobre o meu falecido patrão — em privado.”
“Précisément”, disse Poirot, radiante. “Fez muitas experiências em chantagem?”
“Senhor!”
O mordomo saltou para os pés.
“Não se excite”, disse Poirot placidamente. “Não represente a farsa do homem honesto e ofendido. Sabe tudo o que há para saber sobre a chantagem, não é verdade?”
“Senhor, eu — eu nunca — nunca fui——”
“Insultado”, sugeriu Poirot, “de tal maneira antes. Então, por que, meu excelente Parker, estava tão ansioso por ouvir a conversa no gabinete do Sr. Ackroyd na outra noite, depois de ter apanhado a palavra chantagem?”
“Eu não estava — eu——”
“Quem foi o seu último patrão?”, disparou Poirot subitamente.
“O meu último patrão?”
“Sim, o patrão que teve antes de vir para o Sr. Ackroyd.”
“Um Major Ellerby, senhor——”
Poirot tirou-lhe as palavras da boca.
“Exatamente, Major Ellerby. O Major Ellerby era viciado em drogas, não era? O senhor viajou com ele. Quando ele estava nas Bermudas houve um problema — um homem foi morto. O Major Ellerby foi parcialmente responsável. Foi abafado. Mas o senhor sabia disso. Quanto é que o Major Ellerby lhe pagou para manter a boca fechada?”
Parker olhava para ele de boca aberta. O homem tinha-se desmoronado, as suas bochechas tremiam de forma frouxa.
“Veja bem, eu fiz averiguações”, disse Poirot agradavelmente. “É como digo. Obteve uma boa quantia então como chantagem, e o Major Ellerby continuou a pagar-lhe até morrer. Agora quero ouvir sobre a sua mais recente experiência.”
Parker continuava a olhar fixamente.
“É inútil negar. Hercule Poirot sabe. É verdade o que disse sobre o Major Ellerby, não é?”
Como se fosse contra a sua vontade, Parker assentiu relutantemente uma vez. O seu rosto estava lívido.
“Mas nunca fiz mal a um fio de cabelo do Sr. Ackroyd”, gemeu ele. “Juro por Deus, senhor, que não fiz. Tenho tido medo que isto acontecesse todo este tempo. E digo-lhe que não — não o matei.”
A sua voz subiu quase a um grito.
“Estou inclinado a acreditar em si, meu amigo”, disse Poirot. “Não tem a fibra — a coragem. Mas preciso da verdade.”
“Direi qualquer coisa, senhor, qualquer coisa que queira saber. É verdade que tentei ouvir naquela noite. Uma ou duas palavras que ouvi deixaram-me curioso. E o Sr. Ackroyd querer não ser incomodado, e fechar-se com o médico daquela maneira. É a pura verdade de Deus o que disse à polícia. Ouvi a palavra chantagem, senhor, e bem——”
Ele hesitou.
“Pensou que poderia haver algo para si?”, sugeriu Poirot suavemente.
“Bem — bem, sim, pensei, senhor. Pensei que se o Sr. Ackroyd estava a ser chantageado, por que não haveria de ter a minha parte nos ganhos?”
Uma expressão muito curiosa passou pelo rosto de Poirot. Ele inclinou-se para a frente.
“Teve alguma razão para supor antes daquela noite que o Sr. Ackroyd estava a ser chantageado?”
“Não, de facto, senhor. Foi uma grande surpresa para mim. Um cavalheiro tão regular em todos os seus hábitos.”
“Quanto ouviu?”
“Não muito, senhor. Parecia haver o que poderia chamar de despeito contra mim. Claro que tinha de cumprir as minhas obrigações na copa. E quando me aproximei uma ou duas vezes do gabinete, não valeu de nada. Da primeira vez, o Dr. Sheppard saiu e quase me apanhou em flagrante, e noutra ocasião o Sr. Raymond passou por mim no grande átrio e foi para aquele lado, por isso sabia que não valia a pena; e quando fui com o tabuleiro, a Srta. Flora interceptou-me.”
Poirot olhou longamente para o homem, como se para testar a sua sinceridade. Parker retribuiu o seu olhar com seriedade.
“Espero que acredite em mim, senhor. Tenho tido medo todo este tempo que a polícia desenterrasse aquele antigo assunto com o Major Ellerby e suspeitasse de mim em consequência.”
“Eh bien”, disse Poirot finalmente. “Estou disposto a acreditar em si. Mas há uma coisa que devo pedir-lhe — mostrar-me a sua caderneta bancária. O senhor tem uma caderneta bancária, presumo?”
“Sim, senhor, aliás, tenho-a comigo agora.”
Sem qualquer sinal de confusão, ele tirou-a do bolso. Poirot pegou no pequeno livro de capa verde e examinou os registos.
“Ah! Percebo que comprou 500 libras de Certificados de Poupança Nacional este ano?”
“Sim, senhor. Já tenho mais de mil libras poupadas — o resultado da minha ligação com — er — o meu falecido patrão, Major Ellerby. E tenho feito algumas pequenas apostas em cavalos este ano — com muito sucesso. Se bem se lembra, senhor, um cavalo azarão ganhou o Jubilee. Tive a sorte de apostar nele — 20 libras.”
Poirot devolveu-lhe a caderneta.
“Desejo-lhe um bom dia. Acredito que me disse a verdade. Se não disse — tanto pior para si, meu amigo.”
Quando Parker partiu, Poirot pegou novamente no seu sobretudo.
“Vai sair outra vez?”, perguntei.
“Sim, faremos uma pequena visita ao bom M. Hammond.”
“Acredita na história do Parker?”
“É suficientemente credível à primeira vista. Parece claro que — a menos que ele seja um ator muito bom — ele acredita genuinamente que foi o próprio Ackroyd quem foi vítima de chantagem. Se assim é, ele não sabe nada sobre o assunto da Sra. Ferrars.”
“Então, nesse caso — quem——”
“Précisément! Quem? Mas a nossa visita ao M. Hammond cumprirá um propósito. Ou ilibará completamente o Parker ou então——”
“Bem?”
“Caio no mau hábito de deixar as minhas frases por terminar esta manhã”, disse Poirot com desculpa. “Tem de ter paciência comigo.”
“A propósito”, disse eu, um pouco envergonhado, “tenho uma confissão a fazer. Receio ter deixado escapar inadvertidamente algo sobre aquele anel.”
“Que anel?”
“O anel que encontrou no lago dos peixes dourados.”
“Ah! sim”, disse Poirot, sorrindo abertamente.
“Espero que não esteja aborrecido? Foi muito descuidado da minha parte.”
“Mas de modo algum, meu bom amigo, de modo algum. Não lhe dei ordens. Estava à vontade para falar sobre isso se assim o desejasse. Ela ficou interessada, a sua irmã?”
“Ficou, de facto. Criou uma sensação. Estão a circular todo o tipo de teorias.”
“Ah! E, no entanto, é tão simples. A explicação verdadeira saltou à vista, não foi?”
“Saltou?”, disse eu secamente.
Poirot riu-se.
“O homem sábio não se compromete”, observou ele. “Não é assim? Mas aqui estamos nós no escritório do Sr. Hammond.”
O advogado estava no seu escritório e fomos introduzidos sem qualquer atraso. Ele levantou-se e cumprimentou-nos da sua maneira seca e precisa.
Poirot foi direto ao assunto.
“Monsieur, desejo obter certas informações, isto é, se tiver a bondade de mas dar. O senhor tratava, creio eu, dos assuntos da falecida Sra. Ferrars, de King’s Paddock?”
Notei o rápido brilho de surpresa que surgiu nos olhos do advogado, antes de a sua reserva profissional baixar novamente como uma máscara sobre o seu rosto.
“Certamente. Todos os seus negócios passavam pelas nossas mãos.”
“Muito bem. Agora, antes de lhe pedir que me diga seja o que for, gostaria que ouvisse a história que o Dr. Sheppard lhe vai contar. Não tem objeções, pois não, meu amigo, em repetir a conversa que teve com o Sr. Ackroyd na sexta-feira à noite?”
“De modo algum”, disse eu, e comecei imediatamente a narração daquela noite estranha.
Hammond ouviu com muita atenção.
“É tudo”, disse eu, quando terminei.
“Chantagem”, disse o advogado pensativo.
“Está surpreendido?”, perguntou Poirot.
O advogado tirou o pince-nez e limpou-o com o lenço.
“Não”, respondeu ele, “dificilmente posso dizer que estou surpreendido. Suspeito de algo deste género há algum tempo.”
“Isso leva-nos”, disse Poirot, “à informação que solicitei. Se alguém nos pode dar uma ideia das somas efetivamente pagas, esse alguém é o senhor, monsieur.”
“Não vejo qualquer objetivo em reter a informação”, disse Hammond, após um ou dois momentos. “Durante o último ano, a Sra. Ferrars vendeu certos títulos, e o dinheiro deles foi pago na sua conta e não reinvestido. Como o seu rendimento era elevado e ela vivia muito tranquilamente após a morte do marido, parece certo que estas somas de dinheiro foram pagas para algum fim especial. Uma vez sondei-a sobre o assunto e ela disse-me que era obrigada a sustentar alguns dos parentes pobres do marido. Deixei o assunto cair, claro. Até agora, sempre imaginei que o dinheiro era pago a alguma mulher que tivesse tido uma pretensão sobre Ashley Ferrars. Nunca sonhei que a própria Sra. Ferrars estivesse envolvida.”
“E o montante?”, perguntou Poirot.
“Ao todo, diria que as várias somas totalizaram pelo menos vinte mil libras.”
“Vinte mil libras!”, exclamei. “Num ano!”
“A Sra. Ferrars era uma mulher muito rica”, disse Poirot secamente. “E a pena pelo homicídio não é uma coisa agradável.”
“Há mais alguma coisa que lhe possa dizer?”, perguntou o Sr. Hammond.
“Agradeço-lhe, não”, disse Poirot, levantando-se. “Todas as minhas desculpas por o ter perturbado.”
“De modo algum, de modo algum.”
“A palavra ‘deranged’”, notei, quando já estávamos fora, “é aplicável apenas a perturbação mental.”
“Ah!”, exclamou Poirot, “nunca o meu inglês será perfeito. Uma língua curiosa. Deveria então ter dito ‘disarranged’, n’est-ce pas?”
“‘Disturbed’ é a palavra que tinha em mente.”
“Agradeço-lhe, meu amigo. A palavra exata, o senhor é zeloso quanto a ela. Eh bien, que tal o nosso amigo Parker agora? Com vinte mil libras na mão, teria ele continuado a ser mordomo? Je ne pense pas. É, claro, possível que ele tenha depositado o dinheiro sob outro nome, mas estou disposto a acreditar que ele nos disse a verdade. Se ele é um patife, é um patife de pequena escala. Não tem as grandes ideias. Isso deixa-nos como possibilidade, Raymond, ou — bem — o Major Blunt.”
“Certamente não Raymond”, contestei. “Visto sabermos que ele estava desesperadamente sem dinheiro por causa de quinhentas libras.”
“É o que ele diz, sim.”
“E quanto a Hector Blunt——”
“Vou dizer-lhe algo sobre o bom Major Blunt”, interrompeu Poirot. “É meu trabalho fazer averiguações. Eu faço-as. Eh bien — aquele legado de que ele fala, descobri que o montante era próximo de vinte mil libras. O que pensa disso?”
Fiquei tão surpreendido que mal conseguia falar.
“É impossível”, disse eu finalmente. “Um homem bem conhecido como Hector Blunt.”
Poirot encolheu os ombros.
“Quem sabe? Pelo menos é um homem com grandes ideias. Confesso que dificilmente o vejo como um chantagista, mas há outra possibilidade que nem sequer considerou.”
“Qual é?”
“O fogo, meu amigo. O próprio Ackroyd pode ter destruído essa carta, envelope azul e tudo, depois de o senhor o ter deixado.”
“Dificilmente creio que isso seja provável”, disse eu lentamente. “E, no entanto — claro — pode ter sido assim. Ele poderia ter mudado de ideias.”
Tínhamos acabado de chegar à minha casa e, por impulso do momento, convidei Poirot a entrar e a comer o que houvesse.
Pensei que a Caroline ficaria satisfeita comigo, mas é difícil satisfazer os nossos familiares do sexo feminino. Parece que estávamos a comer costeletas ao almoço — sendo a equipa da cozinha regalada com tripas e cebolas. E duas costeletas servidas a três pessoas são produtivas de embaraço.
Mas a Caroline raramente se deixa intimidar por muito tempo. Com uma mentira magnífica, explicou a Poirot que, embora o James se risse dela por o fazer, ela aderia estritamente a uma dieta vegetariana. Ela discorreu extasiada sobre as delícias dos croquetes de nozes (que tenho a certeza de que ela nunca provou) e comeu uma torrada com queijo com gosto e frequentes comentários cortantes sobre os perigos dos alimentos “de carne”.
Depois, quando estávamos sentados à frente da lareira a fumar, Caroline atacou Poirot diretamente.
“Ainda não encontrou Ralph Paton?”, perguntou ela.
“Onde o deveria encontrar, mademoiselle?”
“Pensei, talvez, que o tivesse encontrado em Cranchester”, disse Caroline, com um sentido intenso no seu tom.
Poirot pareceu apenas perplexo.
“Em Cranchester? Mas por que em Cranchester?”
Esclareci-o com um toque de malícia.
“Um dos nossos amplos quadros de detetives privados aconteceu ver o senhor num carro na estrada de Cranchester ontem”, expliquei.
O desconcerto de Poirot desapareceu. Ele riu-se cordialmente.
“Ah, isso! Uma simples visita ao dentista, c’est tout. O meu dente, dói-me. Vou lá. O meu dente, fica logo melhor. Penso em voltar rapidamente. O dentista diz que não. Melhor tirá-lo. Eu argumento. Ele insiste. Ele consegue o que quer! Aquele dente em particular, nunca mais doerá.”
Caroline colapsou um pouco como um balão espetado.
Começámos a discutir Ralph Paton.
“Uma natureza fraca”, insisti. “Mas não uma natureza viciosa.”
“Ah!”, disse Poirot. “Mas a fraqueza, onde é que ela acaba?”
“Exatamente”, disse Caroline. “Veja o James aqui — fraco como água, se eu não estivesse por perto para tomar conta dele.”
“Minha querida Caroline”, disse eu irritado, “não consegues falar sem trazer à baila questões pessoais?”
“Tu és fraco, James”, disse Caroline, completamente imperturbável. “Sou oito anos mais velha do que tu — oh! não me importo que o M. Poirot saiba disso——”
“Nunca o teria adivinhado, mademoiselle”, disse Poirot, com uma pequena vénia galante.
“Oito anos mais velha. Mas sempre considerei que era meu dever tomar conta de ti. Com uma má criação, sabe Deus em que sarilhos te poderias ter metido até agora.”
“Poderia ter casado com uma bela aventureira”, murmurei, olhando para o teto e soprando anéis de fumo.
“Aventureira!”, disse Caroline, com um bufo. “Se estamos a falar de aventureiras——”
Ela deixou a frase por terminar.
“Bem?”, disse eu, com alguma curiosidade.
“Nada. Mas consigo pensar em alguém não a cem milhas de distância.”
Então, ela virou-se subitamente para Poirot.
“O James insiste que acredita que alguém na casa cometeu o homicídio. Tudo o que posso dizer é que está enganado.”
“Não gostaria de estar enganado”, disse Poirot. “Não é — como se diz — o meu métier?”
“Tenho os factos bastante claros”, continuou Caroline, sem notar o comentário de Poirot, “do James e de outros. Pelo que vejo, das pessoas na casa, apenas duas poderiam ter tido a oportunidade de o fazer. Ralph Paton e Flora Ackroyd.”
“Minha querida Caroline——”
“Agora, James, não me interrompas. Sei do que estou a falar. O Parker encontrou-a fora da porta, não foi? Ele não ouviu o tio a dizer-lhe boa noite. Ela poderia tê-lo matado ali mesmo.”
“Caroline.”
“Não estou a dizer que ela o fez, James. Estou a dizer que ela poderia tê-lo feito. Na verdade, embora a Flora seja como todas estas raparigas de hoje em dia, sem qualquer veneração pelos seus superiores e a achar que sabem mais sobre todos os assuntos debaixo do sol, não acredito por um minuto que ela matasse sequer uma galinha. Mas é o que é. O Sr. Raymond e o Major Blunt têm álibis. A Sra. Ackroyd tem um álibi. Até aquela mulher, a Russell, parece ter um — e ainda bem para ela que tem. Quem resta? Apenas o Ralph e a Flora! E digam o que disserem, não acredito que o Ralph Paton seja um assassino. Um rapaz que conhecemos toda a nossa vida.”
Poirot ficou em silêncio durante um minuto, observando o fumo encaracolado a subir do seu cigarro. Quando finalmente falou, foi com uma voz gentil e distante que produziu uma impressão curiosa. Era totalmente diferente da sua maneira habitual.
“Tomemos um homem — um homem muito comum. Um homem sem qualquer ideia de homicídio no seu coração. Existe nele, algures, uma linha de fraqueza — bem lá no fundo. Até agora, nunca foi posta em jogo. Talvez nunca venha a ser — e, nesse caso, ele irá para a sepultura honrado e respeitado por todos. Mas suponhamos que algo acontece. Ele está em dificuldades — ou talvez nem isso. Pode tropeçar por acidente num segredo — um segredo que envolve a vida ou a morte de alguém. E o seu primeiro impulso será falar — cumprir o seu dever como cidadão honesto. E então, a linha de fraqueza manifesta-se. Eis uma oportunidade de dinheiro — uma grande quantia de dinheiro. Ele quer dinheiro — deseja-o — e é tão fácil. Ele não tem de fazer nada para o obter — apenas manter silêncio. Esse é o início. O desejo de dinheiro cresce. Ele tem de ter mais — e mais! Ele está embriagado pela mina de ouro que se abriu aos seus pés. Torna-se ganancioso. E na sua ganância, ele sobrecarrega-se. Pode-se pressionar um homem até onde se quiser — mas com uma mulher, não se deve pressionar demasiado. Pois uma mulher tem no coração um grande desejo de dizer a verdade. Quantos maridos que enganaram as suas esposas vão confortavelmente para a sepultura, levando o seu segredo consigo! Quantas esposas que enganaram os seus maridos arruínam as suas vidas atirando o facto à cara desses mesmos maridos! Foram pressionadas demasiado. Num momento de imprudência (do qual se arrependerão mais tarde, bien entendu), elas atiram a segurança aos ventos e voltam-se para enfrentar o perigo, proclamando a verdade com uma grande satisfação momentânea. Foi assim, creio eu, neste caso. A tensão foi grande demais. E assim veio o seu provérbio, a morte da galinha dos ovos de ouro. Mas esse não é o fim. A exposição enfrentou o homem de quem estamos a falar. E ele já não é o mesmo homem que era — digamos, há um ano. A sua fibra moral está embotada. Ele está desesperado. Está a travar uma batalha perdida, e está preparado para utilizar quaisquer meios que lhe venham à mão, pois a exposição significa a sua ruína. E assim — o punhal ataca!”
Ele silenciou por um momento. Era como se tivesse lançado um feitiço sobre a sala. Não posso tentar descrever a impressão que as suas palavras produziram. Havia algo na análise impiedosa, e no poder implacável de visão, que incutiu medo em ambos.
“Depois,” continuou ele suavemente, “o perigo removido, ele voltará a ser ele próprio, normal, gentil. Mas se a necessidade surgir novamente, então, uma vez mais, ele atacará.”
Caroline recompôs-se finalmente.
“Está a falar do Ralph Paton,” disse ela. “Pode ter razão, pode não ter, mas não tem o direito de condenar um homem sem ser ouvido.”
O telefone tocou de forma estridente. Saí para o corredor e atendi.
“O quê?” disse eu. “Sim. Dr. Sheppard a falar.”
Ouvi durante um minuto ou dois, depois respondi brevemente. Ao pousar o auscultador, voltei para a sala de estar.
“Poirot,” disse eu, “detiveram um homem em Liverpool. O nome dele é Charles Kent, e acredita-se que seja o estranho que visitou Fernly naquela noite. Querem que eu vá a Liverpool imediatamente para o identificar.”
CAPÍTULO XVIII
CHARLES KENT
Meia hora depois, Poirot, eu e o Inspetor Raglan estávamos no comboio a caminho de Liverpool. O inspetor estava claramente muito excitado.
“Podemos obter uma pista sobre a parte da chantagem, se não sobre outra coisa qualquer,” declarou ele jubilosamente. “É um cliente difícil, este tipo, pelo que ouvi ao telefone. Também consome droga. Deve ser fácil obter dele o que queremos. Se houvesse a sombra de um motivo, nada é mais provável do que ter matado o Sr. Ackroyd. Mas, nesse caso, porque é que o jovem Paton se está a manter escondido? Tudo isto é uma confusão — é o que é. A propósito, M. Poirot, tinha toda a razão sobre aquelas impressões digitais. Eram do próprio Sr. Ackroyd. Eu tive mais ou menos a mesma ideia, mas descartei-a por achar pouco viável.”
Sorri para mim mesmo. O Inspetor Raglan estava claramente a tentar salvar a sua reputação.
“Quanto a este homem,” disse Poirot, “ainda não está detido, pois não?”
“Não, detido sob suspeita.”
“E que explicação dá ele sobre si próprio?”
“Muito pouca,” disse o inspetor, com um sorriso. “É um pássaro cauteloso, pelo que percebi. Muitos insultos, mas pouco mais.”
À chegada a Liverpool, fiquei surpreendido ao ver que Poirot foi recebido com aclamação. O Superintendente Hayes, que nos encontrou, tinha trabalhado com Poirot num caso há muito tempo e tinha, evidentemente, uma opinião exagerada dos seus poderes.
“Agora que temos o M. Poirot aqui, não demoraremos muito,” disse ele alegremente. “Pensei que se tinha reformado, moosior?”
“Pois tinha, meu bom Hayes, pois tinha. Mas como é tedioso o retiro! Não pode imaginar a monotonia com que um dia segue o outro.”
“Muito provável. Então veio dar uma vista de olhos na nossa descoberta particular? Este é o Dr. Sheppard? Acha que será capaz de o identificar, senhor?”
“Não tenho muita certeza,” disse eu, hesitante.
“Como é que lhe deitaram a mão?” perguntou Poirot.
“A descrição foi posta a circular, como sabe. Na imprensa e privadamente. Não é muito, admito. Este sujeito tem um sotaque americano, de facto, e não nega que esteve perto de King’s Abbot naquela noite. Apenas pergunta que diabo é que isso tem a ver connosco, e que nos verá no inferno antes de responder a qualquer pergunta.”
“É permitido que eu também o veja?” perguntou Poirot.
O superintendente fechou um olho, conhecedor.
“Muito contente por tê-lo aqui, senhor. Tem permissão para fazer o que quiser. O Inspetor Japp, da Scotland Yard, perguntou por si no outro dia. Disse que ouviu dizer que estava ligado extraoficialmente a este caso. Onde se está a esconder o Capitão Paton, senhor, pode dizer-me?”
“Duvido que fosse sensato neste momento,” disse Poirot com afetada seriedade, e mordi os lábios para evitar um sorriso.
O homenzinho fazia aquilo muito bem.
Após mais algumas negociações, fomos levados a entrevistar o prisioneiro.
Era um rapaz jovem, diria que não teria mais de vinte e dois ou três anos. Alto, magro, com as mãos ligeiramente trémulas e vestígios de uma força física considerável um tanto decadente. O seu cabelo era escuro, mas os seus olhos eram azuis e esquivos, raramente encontrando um olhar de frente. Eu tinha, desde o início, alimentado a ilusão de que havia algo de familiar na figura que encontrei naquela noite, mas se este era, de facto, ele, estava completamente enganado. Ele não me recordava minimamente ninguém que conhecesse.
“Muito bem, Kent,” disse o superintendente, “levante-se. Aqui estão alguns visitantes que vieram vê-lo. Reconhece algum deles?”
Kent olhou para nós com mau humor, mas não respondeu. Vi o seu olhar vacilar sobre nós os três e voltar a pousar-se em mim.
“Bem, senhor,” disse o superintendente para mim, “o que diz?”
“A altura é a mesma,” disse eu, “e, no que diz respeito à aparência geral, pode muito bem ser o homem em questão. Para além disso, não poderia garantir.”
“Que diabo significa tudo isto?” perguntou Kent. “O que é que têm contra mim? Vamos, despachem-se! O que é que supostamente fiz?”
Acenei com a cabeça.
“É o homem,” disse eu. “Reconheço a voz.”
“Reconhece a minha voz, reconhece? Onde é que acha que a ouviu antes?”
“Na sexta-feira passada à noite, fora dos portões de Fernly Park. Perguntou-me o caminho para lá.”
“Perguntei, foi?”
“Admite-o?” perguntou o inspetor.
“Não admito nada. Não até saber o que têm contra mim.”
“Não leu os jornais nos últimos dias?” perguntou Poirot, falando pela primeira vez.
Os olhos do homem estreitaram-se.
“Então é isso, é? Vi que um velho tinha sido esticado em Fernly. Estão a tentar fazer com que eu tenha feito o serviço, estão?”
“Esteve lá naquela noite,” disse Poirot calmamente.
“Como é que sabe, mister?”
“Por isto.” Poirot tirou algo do bolso e estendeu-o.
Era o canudo de pena que encontrámos no coreto.
À vista dele, o rosto do homem mudou. Ele estendeu a mão a meio caminho.
“Neve,” disse Poirot pensativamente. “Não, meu amigo, está vazio. Estava onde o deixou cair no coreto naquela noite.”
Charles Kent olhou para ele, incerto.
“Parece saber um diabo de coisas sobre tudo, seu pateta estrangeiro. Talvez se lembre disto: os jornais dizem que o velho foi esticado entre as nove e três quartos e as dez horas?”
“É verdade,” concordou Poirot.
“Sim, mas será mesmo verdade? É onde eu quero chegar.”
“Este senhor dir-lhe-á,” disse Poirot.
Ele indicou o Inspetor Raglan. Este hesitou, olhou para o Superintendente Hayes, depois para Poirot e, finalmente, como se recebesse autorização, disse:—
“É verdade. Entre as nove e três quartos e as dez horas.”
“Então não têm nada para me manter aqui,” disse Kent. “Eu estava longe de Fernly Park às nove e vinte e cinco. Podem perguntar no Dog and Whistle. É um salão a cerca de uma milha de Fernly, na estrada para Cranchester. Fiz um pouco de cena lá, lembro-me. Estava quase a chegar às nove e três quartos. Que tal isso?”
O Inspetor Raglan anotou algo no seu bloco.
“Bem?” exigiu Kent.
“Serão feitas averiguações,” disse o inspetor. “Se disse a verdade, não terá nada de que se queixar. O que estava a fazer em Fernly Park, de qualquer maneira?”
“Fui lá encontrar-me com alguém.”
“Quem?”
“Isso não é da sua conta.”
“É melhor manter uma língua civilizada na boca, meu homem,” avisou-o o superintendente.
“Ao diabo com a língua civilizada. Fui lá por conta própria, e é só isso. Se eu estava longe antes do crime ser cometido, isso é tudo o que diz respeito aos polícias.”
“O seu nome é Charles Kent,” disse Poirot. “Onde nasceu?”
O homem olhou fixamente para ele, depois sorriu.
“Sou um britânico de gema, claro,” disse ele.
“Sim,” disse Poirot meditativamente, “penso que é. Imagino que nasceu em Kent.”
O homem olhou, pasmado.
“Porquê isso? Por causa do meu nome? O que é que isso tem a ver com o assunto? Um homem cujo nome é Kent é obrigado a nascer nesse condado em particular?”
“Sob certas circunstâncias, posso imaginar que possa ser,” disse Poirot muito deliberadamente. “Sob certas circunstâncias, compreende.”
Havia tanto significado na sua voz que surpreendeu os dois polícias. Quanto a Charles Kent, ele ficou encarnado como um tijolo, e por um momento pensei que ele ia saltar para cima de Poirot. Ele pensou melhor, no entanto, e afastou-se com uma espécie de riso.
Poirot acenou como se estivesse satisfeito e saiu pela porta. Foi acompanhado pouco depois pelos dois oficiais.
“Vamos verificar essa afirmação,” comentou Raglan. “Não creio que ele esteja a mentir, no entanto. Mas ele tem de ser claro com uma declaração sobre o que estava a fazer em Fernly. Parece-me que temos o nosso chantagista, sem dúvida. Por outro lado, admitindo que a história dele está correta, ele não poderia ter nada a ver com o homicídio propriamente dito. Ele tinha dez libras quando foi preso — uma quantia bastante elevada. Imagino que essas quarenta libras foram ter com ele — os números das notas não coincidiam, mas, claro, ele tê-las-ia trocado logo à primeira oportunidade. O Sr. Ackroyd deve ter-lhe dado o dinheiro, e ele fugiu com ele o mais depressa possível. O que foi aquilo sobre Kent ser o seu local de nascimento? O que é que isso tem a ver com o assunto?”
“Absolutamente nada,” disse Poirot suavemente. “Uma pequena ideia minha, era só isso. Eu, sou famoso pelas minhas pequenas ideias.”
“É mesmo?” disse Raglan, estudando-o com uma expressão intrigada.
O superintendente soltou uma gargalhada.
“Muitas vezes ouvi o Inspetor Japp dizer isso. O M. Poirot e as suas pequenas ideias! Demasiado fantasiosas para mim, dizia ele, mas sempre com algo de útil nelas.”
“Zomba de mim,” disse Poirot, sorrindo; “mas não faz mal. Os velhos riem-se por último, por vezes, quando os jovens e inteligentes não se riem de todo.”
E acenando-lhes com a cabeça de forma sensata, saiu para a rua.
Ele e eu almoçámos juntos num hotel. Sei agora que toda a questão estava claramente desvendada perante ele. Ele tinha conseguido o último fio de que precisava para o levar à verdade.
Mas, na altura, não tive qualquer suspeita desse facto. Sobrestimei a sua autoconfiança geral e tomei como certo que as coisas que me intrigavam deviam ser igualmente intrigantes para ele.
O meu principal enigma era o que o homem Charles Kent poderia ter estado a fazer em Fernly. Repetidamente, colocava a questão a mim próprio e não conseguia obter resposta satisfatória.
Por fim, arrisquei uma pergunta hesitante a Poirot. A sua resposta foi imediata.
“Mon ami, eu não penso; eu sei.”
“A sério?” disse eu, incrédulo.
“Sim, de facto. Suponho agora que, para si, não faria sentido se eu dissesse que ele foi a Fernly naquela noite porque nasceu em Kent?”
Olhei-o fixamente.
“Certamente não parece fazer sentido para mim,” disse eu, secamente.
“Ah!” disse Poirot, com ar de compaixão. “Bem, não importa. Ainda tenho a minha pequena ideia.”
CAPÍTULO XIX
FLORA ACKROYD
Quando regressava da minha ronda na manhã seguinte, fui chamado pelo Inspetor Raglan. Parei, e o inspetor subiu para o estribo.
“Bom dia, Dr. Sheppard,” disse ele. “Bem, esse álibi está correto o suficiente.”
“Do Charles Kent?”
“Do Charles Kent. A empregada do bar no Dog and Whistle, Sally Jones, lembra-se perfeitamente dele. Escolheu a fotografia dele entre outras cinco. Eram nove e três quartos quando ele entrou no bar, e o Dog and Whistle fica a mais de uma milha de Fernly Park. A rapariga menciona que ele tinha muito dinheiro consigo — viu-o tirar um punhado de notas do bolso. Surpreendeu-a bastante, ver a classe de tipo que ele era, com um par de botas a cair aos pedaços. Foi para aí que foram essas quarenta libras, sem dúvida.”
“O homem continua a recusar dar uma explicação sobre a sua visita a Fernly?”
“Teimoso como uma mula, ele é. Tive uma conversa com Hayes em Liverpool pelo fio, esta manhã.”
“Hercule Poirot diz que sabe a razão pela qual o homem foi lá naquela noite,” observei.
“Diz?” exclamou o inspetor, ansioso.
“Sim,” disse eu, maldosamente. “Ele diz que ele foi lá porque nasceu em Kent.”
Senti um prazer distinto em transmitir o meu próprio desconforto.
Raglan olhou para mim durante um momento ou dois, sem compreender. Depois, um sorriso espalhou-se pelo seu rosto de fuinha e ele tocou na testa significativamente.
“Um pouco afetado aqui,” disse ele. “Penso nisso há algum tempo. Pobre velho, é por isso que ele teve de desistir e vir para aqui. É de família, muito provavelmente. Ele tem um sobrinho que está completamente fora de si.”
“O Poirot tem?” disse eu, muito surpreendido.
“Sim. Ele nunca lhe mencionou isso? Bastante dócil, creio eu, e tudo isso, mas louco como um chapeleiro, pobre rapaz.”
“Quem lhe disse isso?”
Novamente, um sorriso surgiu no rosto do Inspetor Raglan.
“A sua irmã, a Srta. Sheppard, ela contou-me tudo sobre isso.”
Realmente, Caroline é espantosa. Ela nunca descansa até saber os últimos detalhes dos segredos de família de toda a gente. Infelizmente, nunca fui capaz de lhe incutir a decência de guardá-los para si mesma.
“Entre, inspetor,” disse eu, abrindo a porta do carro. “Vamos juntos até The Larches e informaremos o nosso amigo belga das últimas novidades.”
“Pois, acho que sim. Afinal, mesmo que ele esteja um pouco doido, foi uma dica útil que ele me deu sobre aquelas impressões digitais. Ele tem uma obsessão pelo homem Kent, mas quem sabe — pode haver algo útil por detrás disso.”
Poirot recebeu-nos com a sua habitual cortesia sorridente.
Ele ouviu a informação que lhe trouxemos, acenando com a cabeça de vez em quando.
“Parece estar tudo bem, não parece?” disse o inspetor, um tanto sombriamente. “Um tipo não pode estar a assassinar alguém num lugar quando está a beber num bar noutro lugar a uma milha de distância.”
“Vai libertá-lo?”
“Não vejo o que mais possamos fazer. Não podemos detê-lo por obter dinheiro sob falsos pretextos. Não se pode provar uma única coisa.”
O inspetor atirou um fósforo para a lareira de forma descontente. Poirot apanhou-o e colocou-o cuidadosamente num pequeno recipiente destinado ao efeito. A sua ação foi puramente mecânica. Pude ver que os seus pensamentos estavam em algo muito diferente.
“Se eu fosse o senhor,” disse ele finalmente, “não libertaria o homem Charles Kent ainda.”
“O que quer dizer?”
Raglan olhou para ele, pasmado.
“O que disse. Eu não o libertaria ainda.”
“Não pensa que ele possa ter tido algo a ver com o homicídio, pois não?”
“Penso que provavelmente não — mas não se pode ter a certeza ainda.”
“Mas não lhe acabei de dizer——”
Poirot levantou uma mão, num gesto de protesto.
“Mais oui, mais oui. Ouvi. Não sou surdo — nem estúpido, graças ao bom Deus! Mas veja, o senhor aborda o assunto pelas premissas erradas — as erradas, não é essa a palavra?”
O inspetor olhou para ele, pesadamente.
“Não vejo como pode dizer isso. Olhe aqui, sabemos que o Sr. Ackroyd estava vivo às nove e três quartos. O senhor admite isso, não admite?”
Poirot olhou para ele por um momento, depois abanou a cabeça com um sorriso rápido.
“Eu não admito nada que não esteja — provado!”
“Bem, temos provas suficientes disso. Temos o testemunho da Srta. Flora Ackroyd.”
“Que ela disse boa noite ao seu tio? Mas eu — eu nem sempre acredito no que uma jovem me diz — não, nem mesmo quando ela é encantadora e bonita.”
“Mas que diabo, homem, o Parker viu-a a sair da porta.”
“Não.” A voz de Poirot soou com uma nitidez repentina. “É exatamente isso que ele não viu. Certifiquei-me disso através de uma pequena experiência outro dia — lembra-se, doutor? O Parker viu-a fora da porta, com a mão na maçaneta. Ele não a viu sair do quarto.”
“Mas — onde mais poderia ela ter estado?”
“Talvez nas escadas.”
“As escadas?”
“Essa é a minha pequena ideia — sim.”
“Mas essas escadas apenas conduzem ao quarto do Sr. Ackroyd.”
“Precisamente.”
E ainda o inspetor olhava fixamente.
“Pensa que ela tinha ido ao quarto do seu tio? Bem, porque não? Porque haveria ela de mentir sobre isso?”
“Ah! essa é exatamente a questão. Depende do que ela estava a fazer lá, não é?”
“Quer dizer — o dinheiro? Que diabo, não sugere que foi a Srta. Ackroyd que tirou essas quarenta libras?”
“Não sugiro nada”, disse Poirot. “Mas vou lembrá-lo disto. A vida não era muito fácil para aquela mãe e filha. Havia contas — havia problemas constantes por causa de pequenas somas de dinheiro. Roger Ackroyd era um homem peculiar em questões financeiras. A rapariga podia estar em desespero por uma quantia comparativamente pequena. Imagine, então, o que acontece. Ela tirou o dinheiro, desce a pequena escadaria. Quando está a meio da descida, ouve o tilintar de vidro vindo do corredor. Ela não tem dúvidas do que é — Parker a vir para o escritório. A todo o custo, ela não pode ser encontrada nas escadas — Parker não se esquecerá disso, ele achará estranho. Se o dinheiro der falta, Parker certamente lembrar-se-á de a ter visto descer aquelas escadas. Ela tem apenas tempo de correr até à porta do escritório — com a mão na maçaneta para mostrar que acabou de sair, quando Parker aparece à porta. Ela diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça, uma repetição das ordens de Roger Ackroyd no início da noite, e depois sobe para o seu próprio quarto.”
“Sim, mas mais tarde”, persistiu o inspetor, “ela deve ter percebido a importância vital de dizer a verdade? Ora, todo o caso depende disso!”
“Depois”, disse Poirot secamente, “foi um pouco difícil para Mademoiselle Flora. Disseram-lhe simplesmente que a polícia estava lá e que tinha havido um roubo. Naturalmente, ela salta para a conclusão de que o furto do dinheiro tinha sido descoberto. A sua única ideia é manter-se fiel à sua história. Quando descobre que o seu tio está morto, entra em pânico. As jovens não desmaiam hoje em dia, monsieur, sem provocação considerável. Eh bien! é isso. Ela é obrigada a manter-se fiel à sua história, ou então confessar tudo. E uma rapariga jovem e bonita não gosta de admitir que é uma ladra — especialmente perante aqueles cuja estima ela deseja conservar.”
Raglan descarregou o punho sobre a mesa com um estrondo.
“Não acredito nisso”, disse ele. “É—é inacreditável. E você—você sabia disto desde o início?”
“A possibilidade esteve na minha mente desde o princípio”, admitiu Poirot. “Sempre estive convencido de que Mademoiselle Flora nos estava a esconder algo. Para me satisfazer, fiz a pequena experiência de que lhe falei. O Dr. Sheppard acompanhou-me.”
“Um teste para o Parker, disse você que era”, observei amargamente.
“Mon ami”, disse Poirot em tom de desculpa, “como lhe disse na altura, é preciso dizer alguma coisa.”
O inspetor levantou-se.
“Só há uma solução”, declarou. “Temos de abordar a menina imediatamente. Virá a Fernly comigo, M. Poirot?”
“Certamente. O Dr. Sheppard levar-nos-á no seu carro.”
Concordei de boa vontade.
Ao perguntarmos pela Srta. Ackroyd, fomos conduzidos à sala de bilhar. Flora e o Major Hector Blunt estavam sentados no longo banco da janela.
“Bom dia, Srta. Ackroyd”, disse o inspetor. “Podemos trocar uma ou duas palavras a sós consigo?”
Blunt levantou-se imediatamente e moveu-se em direção à porta.
“O que é?”, perguntou Flora nervosamente. “Não vá, Major Blunt. Ele pode ficar, não pode?”, perguntou ela, virando-se para o inspetor.
“Isso é como a menina quiser”, disse o inspetor secamente. “Há uma ou duas perguntas que é meu dever fazer-lhe, menina, mas preferiria fazê-lo em privado, e suponho que a menina também preferiria.”
Flora olhou-o fixamente. Vi o rosto dela tornar-se mais pálido. Depois virou-se e falou com Blunt.
“Quero que fiques—por favor—sim, falo a sério. Seja o que for que o inspetor tenha para me dizer, prefiro que tu o ouças.”
Raglan encolheu os ombros.
“Bem, se é assim que a menina quer, não há mais nada a dizer. Agora, Srta. Ackroyd, o M. Poirot aqui fez-me uma certa sugestão. Ele sugere que a menina não esteve no escritório na noite passada de sexta-feira, que nunca viu o Sr. Ackroyd para lhe desejar boa noite, que em vez de estar no escritório, estava nas escadas que descem do quarto do seu tio quando ouviu o Parker a atravessar o corredor.”
O olhar de Flora desviou-se para Poirot. Ele acenou-lhe de volta.
“Mademoiselle, no outro dia, quando nos sentámos à volta da mesa, implorei-lhe que fosse franca comigo. O que não se diz ao Papa Poirot, ele descobre. Foi isso, não foi? Veja, eu facilitarei as coisas para si. A menina tirou o dinheiro, não foi?”
“O dinheiro”, disse Blunt bruscamente.
Houve um silêncio que durou pelo menos um minuto.
Então Flora endireitou-se e falou.
“M. Poirot tem razão. Eu tirei esse dinheiro. Roubei. Sou uma ladra—sim, uma ladra comum, vulgar e pequena. Agora já sabem! Estou contente por ter vindo a lume. Tem sido um pesadelo, estes últimos dias!” Ela sentou-se subitamente e enterrou o rosto nas mãos. Falou com a voz rouca por entre os dedos. “Não sabem como tem sido a minha vida desde que vim para cá. Desejar coisas, planear para as ter, mentir, enganar, acumular dívidas, prometer pagar—oh! Odeio-me quando penso em tudo isto! Foi isso que nos aproximou, ao Ralph e a mim. Éramos ambos fracos! Eu compreendia-o, e sentia pena—porque, no fundo, sou igual. Não somos fortes o suficiente para nos sustentarmos sozinhos, nenhum de nós. Somos coisas fracas, miseráveis e desprezíveis.”
Ela olhou para Blunt e subitamente bateu com o pé.
“Porque olhas para mim assim—como se não pudesses acreditar? Posso ser uma ladra—mas, pelo menos, agora sou real. Já não estou a mentir. Já não estou a fingir ser o tipo de rapariga de quem gostas, jovem, inocente e simples. Não me importa se nunca mais quiseres ver-me. Odeio-me, desprezo-me—mas tens de acreditar numa coisa: se dizer a verdade tivesse tornado as coisas melhores para o Ralph, eu tê-la-ia dito. Mas vi desde o início que não seria melhor para o Ralph—isso torna o caso contra ele ainda mais negro. Eu não lhe estava a fazer mal nenhum ao manter a minha mentira.”
“Ralph”, disse Blunt. “Compreendo—sempre o Ralph.”
“Tu não entendes”, disse Flora sem esperança. “Nunca entenderás.”
Ela virou-se para o inspetor.
“Admito tudo; eu estava desesperada por dinheiro. Nunca vi o meu tio naquela noite depois de ele ter deixado a mesa de jantar. Quanto ao dinheiro, pode tomar as medidas que desejar. Nada poderia ser pior do que está agora!”
Subitamente ela desmoronou-se novamente, escondeu o rosto nas mãos e saiu da sala a correr.
“Bem”, disse o inspetor num tom monótono, “então é isso.”
Ele parecia um tanto perdido sobre o que fazer a seguir.
Blunt adiantou-se.
“Inspetor Raglan”, disse ele calmamente, “esse dinheiro foi-me dado pelo Sr. Ackroyd para um propósito especial. A Srta. Ackroyd nunca lhe tocou. Quando ela diz que tocou, está a mentir com a ideia de proteger o Capitão Paton. A verdade é como eu disse, e estou preparado para subir ao banco das testemunhas e jurá-lo.”
Fez uma espécie de vénia brusca e, virando-se subitamente, saiu da sala.
Poirot foi atrás dele num instante. Alcançou-o no corredor.
“Monsieur—um momento, peço-lhe, se for tão amável.”
“Bem, senhor?”
Blunt estava visivelmente impaciente. Ficou a olhar para Poirot, franzindo o sobrolho.
“É isto”, disse Poirot rapidamente: “Não me deixo enganar pela sua pequena fantasia. Não, de facto. Foi verdadeiramente a Srta. Flora quem tirou o dinheiro. Ainda assim, está bem imaginado o que diz—agrada-me. É muito bom o que fez aí. É um homem rápido a pensar e a agir.”
“Não estou minimamente ansioso pela sua opinião, obrigado”, disse Blunt friamente.
Fez novamente menção de passar, mas Poirot, nada ofendido, colocou uma mão detentora no seu braço.
“Ah! mas tem de me ouvir. Tenho mais a dizer. No outro dia falei de ocultações. Pois bem, desde o início que vejo o que está a ocultar. Mademoiselle Flora, ama-a com todo o seu coração. Desde o primeiro momento em que a viu, não é assim? Oh! não nos importemos de dizer estas coisas—porque é que em Inglaterra se acha necessário mencionar o amor como se fosse um segredo vergonhoso? Ama Mademoiselle Flora. Procura ocultar esse facto de todo o mundo. Isso é muito bom—é como deve ser. Mas aceite o conselho de Hercule Poirot—não o oculte da própria mademoiselle.”
Blunt tinha mostrado vários sinais de inquietação enquanto Poirot falava, mas as palavras finais pareceram prender a sua atenção.
“O que quer dizer com isso?”, perguntou ele bruscamente.
“Pensa que ela ama o Capitão Ralph Paton—mas eu, Hercule Poirot, digo-lhe que isso não é assim. Mademoiselle Flora aceitou o Capitão Paton para agradar ao seu tio, e porque viu no casamento uma forma de escapar à sua vida aqui que se estava a tornar francamente insuportável para ela. Ela gostava dele, e havia muita simpatia e compreensão entre eles. Mas amor—não! Não é o Capitão Paton que Mademoiselle Flora ama.”
“Que diabo quer dizer?”, perguntou Blunt.
Vi o rubor escuro sob o seu bronzeado.
“Tem estado cego, monsieur. Cego! Ela é leal, a pequena. Ralph Paton está sob suspeita, ela está vinculada pela honra a manter-se ao lado dele.”
Senti que era altura de dar uma palavra para ajudar no bom trabalho.
“A minha irmã disse-me na outra noite”, disse eu encorajadoramente, “que a Flora nunca se importou um tostão com o Ralph Paton, e nunca se importaria. A minha irmã tem sempre razão sobre estas coisas.”
Blunt ignorou os meus esforços bem-intencionados. Falou com Poirot.
“Acha mesmo——”, começou ele, e parou.
Ele é um daqueles homens inarticulados que acham difícil pôr as coisas em palavras.
Poirot não conhece tal incapacidade.
“Se duvida de mim, pergunte-lhe você mesmo, monsieur. Mas talvez já não lhe interesse—o assunto do dinheiro——”
Blunt emitiu um som como uma risada irritada.
“Pensa que eu usaria isso contra ela? O Roger sempre foi um tipo estranho em relação ao dinheiro. Ela meteu-se num sarilho e não se atreveu a dizer-lhe. Pobre miúda. Pobre miúda solitária.”
Poirot olhou pensativo para a porta lateral.
“Mademoiselle Flora foi para o jardim, creio eu”, murmurou ele.
“Fui um tolo de toda a espécie”, disse Blunt abruptamente. “Estranha conversa que temos tido. Como uma daquelas peças dinamarquesas. Mas é um homem sensato, M. Poirot. Obrigado.”
Ele apertou a mão de Poirot e deu-lhe um aperto que fez o outro estremecer de angústia. Depois, dirigiu-se a passos largos para a porta lateral e saiu para o jardim.
“Não de toda a espécie”, murmurou Poirot, tratando ternamente o membro ferido. “Apenas de um tipo—o tolo apaixonado.”
CAPÍTULO XX
MISS RUSSELL
O inspetor Raglan tinha levado um grande choque. Ele não foi enganado pela mentira valente de Blunt mais do que nós tínhamos sido. O nosso caminho de volta para a aldeia foi pontuado pelas suas queixas.
“Isto muda tudo, isto muda. Não sei se já se apercebeu, Monsieur Poirot?”
“Creio que sim, sim, creio que sim”, disse Poirot. “Sabe, eu, já estou familiarizado com a ideia há algum tempo.”
O inspetor Raglan, a quem a ideia tinha sido apresentada apenas meia hora antes, olhou para Poirot infeliz e continuou com as suas descobertas.
“Esses álibis agora. Sem valor! Absolutamente sem valor. Tenho de começar de novo. Descobrir o que cada um estava a fazer das nove e meia em diante. Nove e meia—é esse o tempo a que nos temos de agarrar. O senhor tinha muita razão sobre o homem Kent—não o libertamos ainda por algum tempo. Deixe-me ver agora—nove e quarenta e cinco no Dog and Whistle. Ele poderia ter chegado lá em quinze minutos se corresse. É apenas possível que tenha sido a voz dele que o Sr. Raymond ouviu a falar com o Sr. Ackroyd—a pedir dinheiro que o Sr. Ackroyd recusou. Mas uma coisa é clara—não foi ele quem enviou a mensagem telefónica. A estação fica a oitocentos metros na outra direção—a mais de dois quilómetros do Dog and Whistle, e ele esteve no Dog and Whistle até cerca das dez e dez. Raio desse telefonema! Deparamo-nos sempre com ele.”
“De facto”, concordou Poirot. “É curioso.”
“É apenas possível que se o Capitão Paton trepou para o quarto do tio e o encontrou lá assassinado, possa ter enviado o telefonema. Ficou em pânico, pensou que seria acusado, e fugiu. Isso é possível, não é?”
“Porque teria ele telefonado?”
“Pode ter tido dúvidas se o velho estava realmente morto. Pensou em levar o médico lá o mais depressa possível, mas não queria denunciar-se. Sim, digo eu agora, que tal essa teoria? Há algo nisso, diria eu.”
O inspetor estufou o peito de forma importante. Ele estava tão visivelmente encantado consigo mesmo que quaisquer palavras nossas teriam sido completamente supérfluas.
Chegámos a minha casa neste momento, e apressei-me a entrar para atender os meus pacientes, que estavam à espera há bastante tempo, deixando Poirot caminhar até à esquadra da polícia com o inspetor.
Tendo dispensado o último paciente, passei pelo pequeno quarto nas traseiras da casa a que chamo a minha oficina—tenho bastante orgulho no aparelho de rádio caseiro que construí. A Caroline detesta o meu quarto de trabalho. Eu guardo lá as minhas ferramentas, e a Annie não tem permissão para causar estragos com a vassoura e a pá. Estava apenas a ajustar o interior de um despertador que tinha sido denunciado como totalmente pouco fiável pelo pessoal da casa, quando a porta se abriu e a Caroline meteu a cabeça.
“Oh! aí estás, James”, disse ela, com profunda desaprovação. “O M. Poirot quer ver-te.”
“Bem”, disse eu, um tanto irritado, pois a sua entrada súbita tinha-me assustado e eu tinha largado um pedaço de mecanismo delicado, “se ele quer ver-me, pode entrar aqui.”
“Aqui dentro?”, disse a Caroline.
“Foi o que eu disse—aqui dentro.”
A Caroline deu um fungadela de desaprovação e retirou-se. Voltou passado um momento ou dois, trazendo o Poirot, e depois retirou-se novamente, fechando a porta com um estrondo.
“Aha! meu amigo”, disse Poirot, adiantando-se e esfregando as mãos. “Não se livrou de mim tão facilmente, vê!”
“Acabou com o inspetor?”, perguntei.
“Por um momento, sim. E você, viu todos os pacientes?”
“Sim.”
Poirot sentou-se e olhou para mim, inclinando a sua cabeça em forma de ovo para um lado, com o ar de quem saboreia uma piada muito deliciosa.
“Está enganado”, disse ele por fim. “Ainda tem um paciente para ver.”
“Não você?”, exclamei com surpresa.
“Ah, não eu, bien entendu. Eu, tenho uma saúde magnífica. Não, para lhe dizer a verdade, é um pequeno complô meu. Há alguém que desejo ver, compreende—e ao mesmo tempo não é necessário que toda a aldeia se intrigue com o assunto—que é o que aconteceria se a senhora fosse vista a ir a minha casa—pois é uma senhora. Mas a si ela já veio como paciente antes.”
“Miss Russell!”, exclamei.
“Précisément. Desejo muito falar com ela, por isso enviei-lhe um pequeno bilhete e marquei a consulta no seu consultório. Não está aborrecido comigo?”
“Pelo contrário”, disse eu. “Isto é, supondo que me é permitido estar presente na entrevista?”
“Mas naturalmente! No seu próprio consultório!”
“Sabe”, disse eu, largando a pinça que segurava, “é extraordinariamente intrigante, tudo isto. Cada novo desenvolvimento que surge é como o abanão que se dá num caleidoscópio—a coisa muda inteiramente de aspeto. Ora, porque está tão ansioso por ver a Miss Russell?”
Poirot levantou as sobrancelhas.
“Certamente que é óbvio?”, murmurou ele.
“Lá está você outra vez”, resmunguei. “Segundo você, tudo é óbvio. Mas deixa-me a andar às voltas num nevoeiro.”
Poirot abanou a cabeça alegremente para mim.
“Você troça de mim. Tome o assunto da Mademoiselle Flora. O inspetor ficou surpreendido—mas você—você não ficou.”
“Nunca sonhei que ela fosse a ladra”, expostulei.
“Isso—talvez não. Mas eu estava a observar o seu rosto e você não estava—como o Inspetor Raglan—sobressaltado e incrédulo.”
Pensei durante um minuto ou dois.
“Talvez tenha razão”, disse eu por fim. “Desde o início senti que a Flora estava a esconder algo—por isso a verdade, quando chegou, foi subconscientemente esperada. Isso perturbou muito o Inspetor Raglan, coitado.”
“Ah! pour ça, oui! O pobre homem tem de reorganizar todas as suas ideias. Aproveitei o seu estado de caos mental para o induzir a conceder-me um pequeno favor.”
“Qual foi?”
Poirot tirou uma folha de papel de carta do bolso. Algumas palavras estavam escritas nela, e ele leu-as em voz alta.
“A polícia tem, há alguns dias, procurado o Capitão Ralph Paton, o sobrinho do Sr. Ackroyd de Fernly Park, cuja morte ocorreu sob circunstâncias tão trágicas na última sexta-feira. O Capitão Paton foi encontrado em Liverpool, onde estava prestes a embarcar para a América.”
Ele dobrou o pedaço de papel novamente.
“Isso, meu amigo, estará nos jornais amanhã de manhã.”
Olhei para ele, estupefacto.
“Mas—mas não é verdade! Ele não está em Liverpool!”
Poirot brilhou para mim.
“Você tem a inteligência tão rápida! Não, ele não foi encontrado em Liverpool. O Inspetor Raglan estava muito relutante em deixar-me enviar este parágrafo para a imprensa, especialmente porque não podia confiar-lhe a minha confiança. Mas assegurei-lhe solenemente que resultados muito interessantes se seguiriam à sua aparição impressa, por isso ele cedeu, após estipular que ele, de forma alguma, deveria assumir a responsabilidade.”
Olhei para Poirot. Ele sorriu de volta para mim.
“Não percebo”, disse eu por fim, “o que espera tirar disso.”
“Deveria empregar as suas pequenas células cinzentas”, disse Poirot gravemente.
Ele levantou-se e veio até à bancada.
“É que você tem realmente o amor pela maquinaria”, disse ele, depois de inspecionar os destroços dos meus trabalhos.
Cada homem tem o seu passatempo. Chamei imediatamente a atenção de Poirot para o meu rádio caseiro. Achando-o simpático, mostrei-lhe uma ou duas pequenas invenções minhas—coisas triviais, mas úteis na casa.
“Decididamente”, disse Poirot, “você deveria ser inventor de profissão, não médico. Mas ouço a campainha—esse é o seu paciente. Vamos para o consultório.”
Uma vez antes, tinha ficado impressionado com os vestígios de beleza no rosto da governanta. Esta manhã, fiquei impressionado de novo. Muito simplesmente vestida de preto, alta, direita e independente como sempre, com os seus grandes olhos escuros e um rubor incomum de cor nas suas faces geralmente pálidas, percebi que, em rapariga, ela devia ter sido surpreendentemente bonita.
“Bom dia, mademoiselle”, disse Poirot. “Quer sentar-se? O Dr. Sheppard é tão amável que me permite o uso do seu consultório para uma pequena conversa que estou ansioso por ter consigo.”
Miss Russell sentou-se com a sua habitual compostura. Se sentia alguma agitação interior, ela não se manifestava em nenhuma exibição exterior.
“Parece uma maneira estranha de fazer as coisas, se me permite dizer”, observou ela.
“Miss Russell—tenho notícias para lhe dar.”
“De facto!”
“Charles Kent foi preso em Liverpool.”
Nem um músculo do seu rosto se moveu. Ela apenas abriu os olhos um pouco mais, e perguntou, com um toque de desafio:
“Bem, e daí?”
Mas nesse momento ocorreu-me—a semelhança que me tinha assombrado desde o início, algo familiar no desafio do comportamento de Charles Kent. As duas vozes, uma áspera e grosseira, a outra dolorosamente educada—eram estranhamente iguais no timbre. Foi de Miss Russell que me tinha lembrado naquela noite, fora dos portões de Fernly Park.
Olhei para Poirot, cheio da minha descoberta, e ele deu-me um aceno impercetível.
Em resposta à pergunta de Miss Russell, ele atirou as mãos num gesto completamente francês.
“Pensei que pudesse estar interessada, apenas isso”, disse ele suavemente.
“Bem, não estou particularmente”, disse Miss Russell. “Quem é este Charles Kent, afinal?”
“É um homem, mademoiselle, que esteve em Fernly na noite do crime.”
“A sério?”
“Felizmente para ele, tem um álibi. Às nove e quarenta e cinco, estava numa taberna a um quilómetro daqui.”
“Sorte a dele”, comentou Miss Russell.
“Mas ainda não sabemos o que ele estava a fazer em Fernly—quem foi que ele foi encontrar, por exemplo.”
“Receio não o poder ajudar de todo”, disse a governanta educadamente. “Nada chegou aos meus ouvidos. Se é só isso——”
Ela fez um movimento hesitante como se fosse levantar-se. Poirot parou-a.
— Não é bem tudo — disse ele com suavidade. — Esta manhã surgiram novos desenvolvimentos. Parece agora que o Sr. Ackroyd foi assassinado, não às dez para as dez, mas antes. Entre as nove e cinquenta, quando o Dr. Sheppard saiu, e as dez para as dez.
Vi a cor abandonar o rosto da governanta, deixando-o de um branco cadavérico. Ela inclinou-se para a frente, o corpo a oscilar.
— Mas a menina Ackroyd disse… a menina Ackroyd disse…
— A menina Ackroyd admitiu que estava a mentir. Ela nunca esteve no escritório naquela noite.
— Então…?
— Então parece que neste Charles Kent temos o homem que procuramos. Ele veio a Fernly, não sabe explicar o que lá estava a fazer…
— Eu posso dizer-lhe o que ele lá estava a fazer. Ele nunca tocou num único cabelo da cabeça do velho Ackroyd — ele nunca se aproximou do escritório. Ele não o fez, digo-lhe eu.
Ela estava inclinada para a frente. Aquele férreo autocontrolo tinha finalmente cedido. O terror e o desespero estampavam-se-lhe no rosto.
— M. Poirot! M. Poirot! Oh, acredite em mim.
Poirot levantou-se e foi até ela. Deu-lhe umas palmadinhas tranquilizadoras no ombro.
— Mas sim… mas sim, eu acreditarei. Tive de a fazer falar, sabe?
Por um instante, a suspeita brilhou nela.
— O que disse é verdade?
— Que Charles Kent é suspeito do crime? Sim, é verdade. Só a senhora o pode salvar, ao dizer a razão da sua presença em Fernly.
— Ele veio ver-me. — Ela falou com uma voz baixa e apressada. — Eu saí para me encontrar com ele…
— No coreto, sim, eu sei.
— Como sabe?
— Mademoiselle, o negócio de Hercule Poirot é saber as coisas. Sei que saiu mais cedo na noite, que deixou um bilhete no coreto a dizer a que horas lá estaria.
— Sim, deixei. Tinha recebido notícias dele — a dizer que vinha. Não me atrevi a deixá-lo vir a casa. Escrevi para a morada que ele me deu e disse que me encontraria com ele no coreto, e descrevi-lho para que ele o pudesse encontrar. Depois receei que ele não esperasse lá pacientemente, e corri para fora e deixei um papel a dizer que lá estaria por volta das nove e dez. Não queria que os criados me vissem, por isso esgueirei-me pela janela da sala de visitas. Quando voltei, encontrei o Dr. Sheppard, e imaginei que ele acharia estranho. Eu estava sem fôlego, pois tinha estado a correr. Não fazia ideia de que ele era esperado para jantar naquela noite.
Ela fez uma pausa.
— Continue — disse Poirot. — Saiu para se encontrar com ele às nove e dez. O que disseram um ao outro?
— É difícil. Sabe…
— Mademoiselle — disse Poirot, interrompendo-a —, neste assunto tenho de ter a verdade toda. O que nos disser não tem de sair destas quatro paredes. O Dr. Sheppard será discreto, e eu também. Veja, eu ajudá-la-ei. Este Charles Kent, ele é seu filho, não é?
Ela assentiu. A cor tinha-lhe subido às faces.
— Ninguém nunca soube. Foi há muito tempo… há muito tempo… lá em Kent. Eu não era casada…
— Então, tomou o nome do condado como apelido para ele. Compreendo.
— Arranjei trabalho. Consegui pagar o sustento e o alojamento dele. Nunca lhe disse que era a sua mãe. Mas ele saiu-se mal, bebia, depois começou a consumir drogas. Consegui pagar-lhe a passagem para o Canadá. Não tive notícias dele durante um ano ou dois. Depois, de uma maneira ou de outra, ele descobriu que eu era a sua mãe. Escreveu-me a pedir dinheiro. Finalmente, soube dele de volta a este país. Ele vinha ver-me a Fernly, dizia ele. Não me atrevi a deixá-lo vir a casa. Sempre fui considerada tão… tão muito respeitável. Se alguém tivesse a mínima suspeita… estaria tudo acabado para o meu cargo de governanta. Por isso escrevi-lhe da maneira que acabei de lhe contar.
— E de manhã veio ver o Dr. Sheppard?
— Sim. Perguntei-me se algo podia ser feito. Ele não era um mau rapaz… antes de se ter metido nas drogas.
— Compreendo — disse Poirot. — Agora, vamos continuar com a história. Ele veio naquela noite ao coreto?
— Sim, ele estava à minha espera quando lá cheguei. Ele estava muito rude e insolente. Tinha trazido comigo todo o dinheiro que tinha, e dei-lho. Falámos um pouco, e depois ele foi-se embora.
— A que horas foi isso?
— Deve ter sido entre as nove e vinte e as nove e vinte e cinco. Ainda não eram nove e meia quando voltei para casa.
— Por que caminho ele foi?
— Direto, pelo mesmo caminho por onde veio, pelo trilho que se juntava à entrada mesmo dentro dos portões da guarita.
Poirot assentiu.
— E a senhora, o que fez?
— Voltei para casa. O Major Blunt estava a caminhar para cima e para baixo no terraço a fumar, por isso fiz um desvio para dar a volta à porta lateral. Eram então quase nove e meia, como lhe digo.
Poirot assentiu de novo. Fez uma ou duas anotações num bloco de notas microscópico.
— Acho que é tudo — disse ele, pensativo.
— Devo… — hesitou ela. — Devo contar tudo isto ao Inspetor Raglan?
— Pode chegar a isso. Mas não tenhamos pressa. Procedamos lentamente, com a devida ordem e método. Charles Kent ainda não foi formalmente acusado de homicídio. Podem surgir circunstâncias que tornem a sua história desnecessária.
Miss Russell levantou-se.
— Muito obrigada, M. Poirot — disse ela. — Foi muito gentil… muito gentil, de facto. O senhor… o senhor acredita em mim, não é? Que o Charles não teve nada a ver com este homicídio cruel!
— Não parece haver dúvidas de que o homem que falava com o Sr. Ackroyd na biblioteca às nove e meia não poderia ser o seu filho. Tenha coragem, mademoiselle. Tudo ainda ficará bem.
Miss Russell partiu. Poirot e eu ficámos sozinhos.
— Portanto, é isso — disse eu. — Sempre que voltamos a Ralph Paton. Como conseguiu identificar a Miss Russell como a pessoa que Charles Kent veio encontrar? Reparou na semelhança?
— Tinha-a ligado ao homem desconhecido muito antes de nos termos cruzado com ele. Assim que encontrámos aquela pena. A pena sugeria droga, e recordei-me do seu relato sobre a visita da Miss Russell. Depois encontrei o artigo sobre cocaína no jornal daquela manhã. Tudo parecia muito claro. Ela tinha recebido notícias de alguém naquela manhã — alguém viciado em drogas, leu o artigo no jornal e veio ter consigo para fazer algumas perguntas exploratórias. Mencionou cocaína, uma vez que o artigo em questão era sobre cocaína. Depois, quando o senhor pareceu interessado demais, ela mudou apressadamente para o assunto de histórias de detetives e venenos indetetáveis. Suspeitei de um filho ou irmão, ou de algum outro parente masculino indesejável. Ah! Mas tenho de ir. É a hora do almoço.
— Fique para almoçar connosco — sugeri.
Poirot abanou a cabeça. Um ténue brilho surgiu nos seus olhos.
— Hoje não. Não gostaria de obrigar a Mademoiselle Caroline a adotar uma dieta vegetariana dois dias seguidos.
Ocorreu-me que não era muito o que escapava a Hercule Poirot.
CAPÍTULO XXI
O PARÁGRAFO NO JORNAL
Caroline, claro, não tinha deixado de ver a Miss Russell vir à porta do consultório. Eu tinha previsto isto, e tinha preparado uma explicação elaborada sobre o joelho dorido da senhora. Mas Caroline não estava num estado de espírito de interrogatório. O seu ponto de vista era que ela sabia a verdadeira razão pela qual a Miss Russell tinha vindo e que eu não.
— A extrair-te informações, James — disse Caroline. — A extrair-te informações da maneira mais descarada, não tenho dúvidas. Não adianta interromper. Aposto que nem fazias ideia de que ela o estava a fazer. Os homens são tão simples. Ela sabe que tens a confiança do M. Poirot, e quer descobrir coisas. Sabes o que eu penso, James?
— Nem começaria a imaginar. Tu pensas tantas coisas extraordinárias.
— Não adianta ser sarcástico. Acho que a Miss Russell sabe mais sobre a morte do Sr. Ackroyd do que está preparada para admitir.
Caroline recostou-se triunfante na cadeira.
— Achas mesmo? — disse eu, ausente.
— Estás muito apático hoje, James. Sem qualquer animação. É esse teu fígado.
A nossa conversa passou então para assuntos puramente pessoais.
O parágrafo inspirado por Poirot apareceu devidamente no nosso jornal diário na manhã seguinte. Eu estava às escuras quanto ao seu propósito, mas o seu efeito em Caroline foi imenso.
Começou por declarar, de forma bastante inverídica, que tinha dito exatamente isso o tempo todo. Ergui as sobrancelhas, mas não discuti. Caroline, contudo, deve ter sentido um aperto na consciência, pois continuou:
— Posso não ter mencionado Liverpool, mas sabia que ele tentaria fugir para a América. Foi o que o Crippen fez.
— Sem grande sucesso — lembrei-lhe.
— Pobre rapaz, e portanto apanharam-no. Considero, James, que é o teu dever garantir que ele não seja enforcado.
— O que esperas que eu faça?
— Ora, tu és um médico, não és? Conheces o rapaz desde criança. Sem responsabilidade mental. Esse é o caminho a seguir, claramente. Li ainda há pouco que eles são muito felizes em Broadmoor — é quase como um clube de classe alta.
Mas as palavras de Caroline tinham-me lembrado de algo.
— Nunca soube que o Poirot tinha um sobrinho imbecil — disse eu, curioso.
— Não sabias? Oh, ele contou-me tudo sobre isso. Pobre rapaz. É um grande desgosto para toda a família. Mantiveram-no em casa até agora, mas está a chegar a um ponto tal que têm medo de que ele tenha de ir para algum tipo de instituição.
— Suponho que já saibas praticamente tudo o que há para saber sobre a família do Poirot a esta altura — disse eu, exasperado.
— Praticamente — disse Caroline, complacente. — É um grande alívio para as pessoas poderem contar todos os seus problemas a alguém.
— Poderia ser — disse eu —, se lhes fosse permitido fazê-lo espontaneamente. Se gostam de ter as confidências extraídas à força é outra questão.
Caroline limitou-se a olhar para mim com o ar de uma mártir cristã a desfrutar do martírio.
— És tão reservado, James — disse ela. — Odeias falar, ou partilhar qualquer informação, e pensas que toda a gente deve ser exatamente como tu. Espero nunca extrair confidências de ninguém. Por exemplo, se o M. Poirot vier hoje à tarde, como disse que poderia vir, não sonharei em perguntar-lhe quem foi que chegou a sua casa hoje de manhã cedo.
— Hoje de manhã cedo? — indaguei.
— Muito cedo — disse Caroline. — Antes do leite chegar. Calhou estar a olhar pela janela — o estore estava a bater. Era um homem. Veio num carro fechado, e estava todo agasalhado. Não consegui vislumbrar o seu rosto. Mas vou dar-te a minha ideia, e verás que tenho razão.
— Qual é a tua ideia?
Caroline baixou a voz, misteriosamente.
— Um perito do Ministério do Interior — sussurrou.
— Um perito do Ministério do Interior — disse eu, espantado. — Minha cara Caroline!
— Marca as minhas palavras, James, verás que tenho razão. Aquela mulher Russell esteve aqui naquela manhã à procura dos teus venenos. Roger Ackroyd poderia facilmente ter sido envenenado na sua comida naquela noite.
Ri-me alto.
— Disparates — exclamei. — Ele foi esfaqueado no pescoço. Sabes isso tão bem quanto eu.
— Depois da morte, James — disse Caroline; — para criar uma pista falsa.
— Minha senhora — disse eu —, examinei o corpo, e sei do que estou a falar. Aquela ferida não foi infligida após a morte — foi a causa da morte, e não precisas de te enganar quanto a isso.
Caroline continuou simplesmente a parecer omnisciente, o que me irritou tanto que continuei:
— Talvez me digas, Caroline, se tenho um diploma de medicina ou se não tenho?
— Tens o diploma de medicina, suponho, James — pelo menos, quero dizer, sei que tens. Mas não tens qualquer imaginação.
— Tendo-te dotado com uma porção tripla, não sobrou nenhuma para mim — disse eu, seco.
Diverti-me a observar as manobras de Caroline naquela tarde quando o Poirot lá chegou. A minha irmã, sem fazer uma pergunta direta, contornou o assunto do hóspede misterioso de todas as maneiras imagináveis. Pelo brilho nos olhos de Poirot, vi que ele percebia o seu objetivo. Ele manteve-se blandamente imperturbável, e bloqueou as suas investidas de tal forma que ela própria não sabia como proceder.
Tendo, suspeito, desfrutado calmamente do pequeno jogo, ele levantou-se e sugeriu um passeio.
— É que preciso de reduzir um pouco a figura — explicou ele. — Virá comigo, doutor? E talvez mais tarde a Miss Caroline nos dê um pouco de chá.
— Encantada — disse Caroline. — O seu… er… hóspede não virá também?
— É muito gentil — disse Poirot. — Mas não, o meu amigo descansa. Em breve terá de conhecê-lo.
— Um velho amigo seu, segundo alguém me disse — disse Caroline, fazendo um último esforço valente.
— Disse? — murmurou Poirot. — Bem, temos de começar.
A nossa caminhada levou-nos na direção de Fernly. Eu tinha adivinhado antecipadamente que tal poderia acontecer. Estava a começar a compreender os métodos de Poirot. Cada pequena irrelevância tinha uma ligação com o todo.
— Tenho uma missão para si, meu amigo — disse ele finalmente. — Esta noite, em minha casa, desejo ter uma pequena conferência. O senhor comparecerá, não é?
— Certamente — disse eu.
— Bom. Preciso também de todos os que estão na casa — isto é: Mrs. Ackroyd, Mademoiselle Flora, Major Blunt, M. Raymond. Quero que seja o meu embaixador. Esta pequena reunião está marcada para as nove horas. Irá pedi-los… sim?
— Com prazer; mas por que não os convida o senhor mesmo?
— Porque depois eles farão as perguntas: Porquê? Para quê? Exigirão saber qual é a minha ideia. E, como sabe, meu amigo, detesto ter de explicar as minhas pequenas ideias até que chegue a altura.
Sorri um pouco.
— O meu amigo Hastings, aquele de quem lhe falei, costumava dizer de mim que eu era a ostra humana. Mas ele era injusto. Factos, não guardo nada para mim. Mas a cada um a sua própria interpretação deles.
— Quando quer que eu faça isto?
— Agora, se quiser. Estamos perto da casa.
— Não vai entrar?
— Não, eu, vou passear pelos terrenos. Encontramo-lo junto aos portões da guarita dentro de um quarto de hora.
Assenti, e parti para a minha tarefa. O único membro da família em casa provou ser a Mrs. Ackroyd, que estava a beber uma chávena de chá matinal. Recebeu-me com muita cortesia.
— Tão grata a si, doutor — murmurou ela —, por esclarecer aquele pequeno assunto com o M. Poirot. Mas a vida é um problema atrás de outro. Já ouviu falar da Flora, claro?
— O que exatamente? — perguntei, cauteloso.
— Este novo noivado. Flora e Hector Blunt. Claro que não é um casamento tão bom como o Ralph teria sido. Mas, afinal, a felicidade vem primeiro. O que a querida Flora precisa é de um homem mais velho… alguém estável e fiável, e depois o Hector é realmente um homem muito distinto à sua maneira. Viu a notícia da detenção do Ralph no jornal desta manhã?
— Sim — disse eu —, vi.
— Horrível. — Mrs. Ackroyd fechou os olhos e estremeceu. — Geoffrey Raymond ficou num estado terrível. Telefonou para Liverpool. Mas não lhe quiseram dizer nada na esquadra da polícia de lá. Na verdade, disseram que não tinham detido o Ralph de todo. O Sr. Raymond insiste que é tudo um erro… um… como é que chamam?… um canard do jornal. Proibi que fosse mencionado à frente dos criados. Que desgraça terrível. Imaginem se a Flora tivesse realmente casado com ele.
Mrs. Ackroyd fechou os olhos em angústia. Comecei a perguntar-me quanto tempo levaria até poder entregar o convite de Poirot.
Antes que tivesse tempo de falar, a Mrs. Ackroyd recomeçou.
— O senhor esteve aqui ontem, não esteve, com aquele terrível Inspetor Raglan? Um bruto de homem… aterrorizou a Flora para dizer que tirou aquele dinheiro do quarto do pobre Roger. E o assunto era tão simples, na verdade. A querida criança queria pedir emprestadas algumas libras, não queria incomodar o tio desde que ele tinha dado ordens estritas contra isso, mas sabendo onde ele guardava as suas notas, foi lá e tirou o que precisava.
— É essa a versão da Flora sobre o assunto? — perguntei.
— Meu caro doutor, sabe como são as raparigas hoje em dia. Tão facilmente influenciáveis pela sugestão. O senhor, claro, sabe tudo sobre hipnose e esse tipo de coisas. O inspetor grita com ela, diz a palavra ‘roubar’ repetidamente, até que a pobre criança ganha uma inibição… ou será um complexo?… confundo sempre essas duas palavras… e pensa ela própria que roubou o dinheiro. Vi logo como era. Mas não posso estar mais grata por todo o mal-entendido de uma forma… parece ter unido aqueles dois… o Hector e a Flora, quero dizer. E garanto-lhe que me tenho preocupado muito com a Flora no passado: veja, a dada altura até pensei que haveria algum tipo de entendimento entre ela e o jovem Raymond. Pense!» A voz da Mrs. Ackroyd subiu num horror estridente. «Um secretário particular… praticamente sem meios próprios.
— Teria sido um golpe duro para si — disse eu. — Agora, Mrs. Ackroyd, tenho uma mensagem para si da parte do M. Hercule Poirot.
— Para mim?
Mrs. Ackroyd pareceu bastante alarmada.
Apressei-me a tranquilizá-la, e expliquei o que o Poirot queria.
— Certamente — disse a Mrs. Ackroyd, bastante duvidosa —, suponho que tenhamos de ir se o M. Poirot o diz. Mas de que se trata tudo isto? Gosto de saber de antemão.
Garanti à senhora, com verdade, que eu próprio não sabia mais do que ela.
— Muito bem — disse a Mrs. Ackroyd finalmente, bastante relutante —, direi aos outros, e estaremos lá às nove horas.
A seguir despedi-me, e juntei-me ao Poirot no local de encontro combinado.
— Receio ter demorado mais de um quarto de hora — comentei. — Mas quando aquela boa senhora começa a falar, é uma questão da maior dificuldade conseguir intervir.
— Não tem importância — disse Poirot. — Eu, diverti-me bem. Este parque é magnífico.
Partimos para casa. Quando chegámos, para nossa grande surpresa, a Caroline, que evidentemente nos vigiava, abriu ela própria a porta.
Levou os dedos aos lábios. O seu rosto estava cheio de importância e excitação.
— Ursula Bourne — disse ela. — A criada de quarto de Fernly. Ela está aqui! Pus-la na sala de jantar. Ela está num estado terrível, a pobre. Diz que tem de ver o M. Poirot imediatamente. Fiz tudo o que pude. Levei-lhe uma chávena de chá quente. Realmente, corta o coração ver alguém nesse estado.
— Na sala de jantar? — perguntou Poirot.
— Por aqui — disse eu, e abri a porta de par em par.
Ursula Bourne estava sentada à mesa. Os seus braços estavam estendidos à sua frente, e tinha evidentemente acabado de levantar a cabeça de onde a tinha enterrado. Os seus olhos estavam vermelhos de chorar.
— Ursula Bourne — murmurei.
Mas Poirot passou por mim com as mãos estendidas.
— Não — disse ele —, isso não está bem correto, penso eu. Não é Ursula Bourne, pois não, minha filha… mas Ursula Paton? Mrs. Ralph Paton.
CAPÍTULO XXII
A HISTÓRIA DE URSULA
Durante um momento ou dois, a rapariga olhou silenciosamente para Poirot. Depois, a sua reserva quebrando-se completamente, assentiu uma vez com a cabeça, e rebentou num acesso de soluços.
Caroline passou por mim e, colocando o braço à volta da rapariga, deu-lhe palmadinhas no ombro.
— Já, já, minha querida — disse ela, consoladora —, ficará tudo bem. Verás… tudo ficará bem.
Enterrada sob a curiosidade e o escândalo, há muita bondade na Caroline. Por um momento, até o interesse pela revelação de Poirot perdeu-se face ao espetáculo do sofrimento da rapariga.
Pouco depois, Ursula sentou-se e limpou os olhos.
— Isto é muito fraco e tolo da minha parte — disse ela.
— Não, não, minha filha — disse Poirot, gentilmente. — Podemos todos compreender a tensão desta última semana.
— Deve ter sido um calvário terrível — disse eu.
— E depois descobrir que o senhor sabia — continuou Ursula. — Como soube? Foi o Ralph quem lhe contou?
Poirot abanou a cabeça.
— Sabe o que me trouxe até si esta noite — continuou a rapariga. — Isto…
Ela estendeu um pedaço de jornal amarrotado, e reconheci o parágrafo que Poirot mandara inserir.
“Diz que Ralph foi preso. Portanto, tudo é inútil. Já não preciso de fingir.”
“Os parágrafos de jornal nem sempre são verdadeiros, mademoiselle”, murmurou Poirot, tendo a delicadeza de parecer envergonhado de si mesmo. “Ainda assim, creio que faria bem em desabafar. A verdade é o que precisamos agora.”
A rapariga hesitou, olhando para ele com dúvida.
“Não confia em mim”, disse Poirot suavemente. “Contudo, veio aqui para me encontrar, não foi? Por que motivo?”
“Porque não acredito que Ralph o tenha feito”, disse a rapariga em voz muito baixa. “E penso que é inteligente e descobrirá a verdade. E também...”
“Sim?”
“Penso que é bondoso.”
Poirot acenou com a cabeça várias vezes.
“É muito bom que — sim, é muito bom. Ouça, acredito sinceramente que este seu marido é inocente — mas o caso marcha mal. Se o quiser salvar, tenho de saber tudo o que há para saber — mesmo que isso pareça tornar o caso contra ele mais sombrio do que antes.”
“Como compreende bem”, disse Ursula.
“Então contar-me-á a história toda, não é? Desde o início.”
“Não pretendo que me mande embora, espero”, disse Caroline, instalando-se confortavelmente numa poltrona. “O que quero saber”, continuou ela, “é por que razão esta miúda andava disfarçada de criada de quarto?”
“Disfarçada?”, indaguei.
“Foi o que eu disse. Por que o fez, menina? Por uma aposta?”
“Para ganhar a vida”, disse Ursula secamente.
E, encorajada, começou a história que aqui reproduzo com as minhas próprias palavras.
Ursula Bourne, ao que parecia, pertencia a uma família de sete — fidalgos irlandeses empobrecidos. Com a morte do pai, a maioria das raparigas foi lançada ao mundo para ganhar o seu próprio sustento. A irmã mais velha de Ursula era casada com o Capitão Folliott. Foi ela que eu vira naquele domingo, e a causa do seu embaraço era agora bem clara. Determinada a ganhar a vida e não sentindo atração pela ideia de ser governanta — a única profissão aberta a uma rapariga sem formação —, Ursula preferiu o trabalho de criada de quarto. Desdenhou rotular-se como uma “criada de quarto distinta”. Seria a verdadeira, com a sua referência fornecida pela irmã. Em Fernly, apesar de um distanciamento que, como se viu, causou alguns comentários, teve sucesso no seu trabalho — rápida, competente e minuciosa.
“Gostava do trabalho”, explicou ela. “E tinha muito tempo para mim.”
E então veio o seu encontro com Ralph Paton e o caso amoroso que culminou num casamento secreto. Ralph persuadira-a a isso, um pouco contra a sua vontade. Declarara que o seu padrasto não ouviria falar de ele se casar com uma rapariga sem um tostão. Seria melhor casar em segredo e dar-lhe a notícia num momento posterior e mais favorável.
E assim o feito foi consumado, e Ursula Bourne tornou-se Ursula Paton. Ralph declarara que tencionava pagar as suas dívidas, encontrar um emprego e, depois, quando estivesse em condições de a sustentar e independente do pai adotivo, dar-lhe-iam a notícia.
Mas, para pessoas como Ralph Paton, virar uma nova página é mais fácil na teoria do que na prática. Ele esperava que o padrasto, ainda na ignorância do casamento, pudesse ser persuadido a pagar as suas dívidas e a colocá-lo novamente de pé. Mas a revelação do montante dos passivos de Ralph apenas enfureceu Roger Ackroyd, que se recusou a fazer seja o que for. Passaram-se alguns meses e, então, Ralph foi chamado mais uma vez a Fernly. Roger Ackroyd não andou por rodeios. Era o desejo do seu coração que Ralph se casasse com Flora, e expôs o assunto claramente ao jovem.
E foi aqui que a fraqueza inata de Ralph Paton se revelou. Como sempre, agarrou-se à solução fácil e imediata. Pelo que pude perceber, nem Flora nem Ralph fingiram amor. Tratava-se, de ambos os lados, de um acordo comercial. Roger Ackroyd ditou os seus desejos — eles concordaram. Flora aceitou uma oportunidade de liberdade, dinheiro e um horizonte alargado; Ralph, claro, estava a jogar um jogo diferente. Mas ele estava num buraco financeiro muito embaraçoso. Agarrou-se à oportunidade. As suas dívidas seriam pagas. Poderia recomeçar com a ficha limpa. A sua natureza não era de perspetivar o futuro, mas creio que viu vagamente o noivado com Flora a ser desfeito após um intervalo decente. Tanto Flora como ele estipularam que deveria ser mantido em segredo por enquanto. Ele estava ansioso por escondê-lo de Ursula. Sentia instintivamente que a natureza dela, forte e resoluta, com um desagrado inerente pela duplicidade, não era de saudar tal rumo.
Depois veio o momento crucial em que Roger Ackroyd, sempre autoritário, decidiu anunciar o noivado. Não disse uma palavra sobre a sua intenção a Ralph — apenas a Flora, e Flora, apática, não levantou objeções. Sobre Ursula, a notícia caiu como uma bomba. Chamado por ela, Ralph desceu apressadamente da cidade. Encontraram-se no bosque, onde parte da sua conversa foi ouvida pela minha irmã. Ralph implorou-lhe que mantivesse silêncio por mais algum tempo; Ursula estava igualmente determinada a acabar com as ocultações. Ela diria a verdade ao Sr. Ackroyd sem mais demoras. Marido e mulher separaram-se com acrimónia.
Ursula, firme no seu propósito, procurou uma entrevista com Roger Ackroyd nessa mesma tarde e revelou-lhe a verdade. A entrevista foi tempestuosa — poderia ter sido ainda mais tempestuosa se Roger Ackroyd não estivesse já obcecado com os seus próprios problemas. Foi suficientemente má, contudo. Ackroyd não era o tipo de homem que perdoasse o engano que lhe fora praticado. O seu rancor dirigia-se principalmente a Ralph, mas Ursula teve a sua quota-parte, uma vez que ele a via como uma rapariga que tentara deliberadamente “apanhar” o filho adotivo de um homem muito rico. Coisas imperdoáveis foram ditas de ambos os lados.
Nessa mesma noite, Ursula encontrou-se com Ralph por marcação no pequeno pavilhão de jardim, saindo furtivamente de casa pela porta lateral para o fazer. A entrevista foi feita de reprovações de ambos os lados. Ralph acusou Ursula de ter arruinado irremediavelmente as suas perspetivas com a sua revelação inoportuna. Ursula recriminou Ralph pela sua duplicidade.
Separaram-se finalmente. Pouco mais de meia hora depois veio a descoberta do corpo de Roger Ackroyd. Desde aquela noite, Ursula não vira nem ouvira Ralph.
À medida que a história se desenrolava, percebi cada vez mais que se tratava de uma série de factos condenatórios. Vivo, Ackroyd dificilmente teria deixado de alterar o seu testamento — conhecia-o suficientemente bem para perceber que esse seria o seu primeiro pensamento. A sua morte veio no momento exato para Ralph e Ursula Paton. Não é de admirar que a rapariga tivesse mantido a língua quieta e desempenhado o seu papel tão consistentemente.
As minhas meditações foram interrompidas. Era a voz de Poirot, e percebi pela gravidade do seu tom que ele, também, estava plenamente consciente das implicações da situação.
“Mademoiselle, devo fazer-lhe uma pergunta, e tem de responder com sinceridade, pois dela pode depender tudo: A que horas se separou do Capitão Ralph Paton no pavilhão de jardim? Agora, tome um pequeno minuto para que a sua resposta seja muito exata.”
A rapariga soltou uma meia risada, bastante amarga, diga-se de passagem.
“Pensa que não repassei isso vezes sem conta na minha própria cabeça? Eram exatamente nove e meia quando saí para o encontrar. O Major Blunt estava a caminhar de um lado para o outro no terraço, por isso tive de dar a volta pelos arbustos para o evitar. Deviam ser cerca de vinte e sete minutos para as dez quando cheguei ao pavilhão. Ralph estava à minha espera. Estive com ele dez minutos — não mais, pois faltavam exatamente quinze minutos para as dez quando voltei para a casa.”
Percebi agora a insistência da sua pergunta no outro dia. Se apenas se pudesse provar que Ackroyd tinha sido morto antes das dez menos um quarto, e não depois.
Vi o reflexo desse pensamento na pergunta seguinte de Poirot.
“Quem saiu primeiro do pavilhão de jardim?”
“Eu.”
“Deixando Ralph Paton no pavilhão de jardim?”
“Sim — mas não pensa...”
“Mademoiselle, não tem importância o que eu penso. O que fez quando regressou a casa?”
“Fui para o meu quarto.”
“E lá ficou até quando?”
“Até cerca das dez horas.”
“Existe alguém que possa provar isso?”
“Provar? Que eu estava no meu quarto, quer dizer? Oh! Não. Mas certamente... oh! Percebo, eles podem pensar... podem pensar...”
Vi o horror a despontar nos seus olhos.
Poirot terminou a frase por ela.
“Que foi a senhora que entrou pela janela e esfaqueou o Sr. Ackroyd enquanto ele estava sentado na sua cadeira? Sim, eles podem pensar exatamente isso.”
“Ninguém a não ser um tolo pensaria tal coisa”, disse Caroline indignada.
Ela deu palmadinhas no ombro de Ursula.
A rapariga tinha o rosto escondido nas mãos.
“Horrível”, murmurava ela. “Horrível.”
Caroline deu-lhe um abanão amigável.
“Não se preocupe, minha querida”, disse ela. “O Sr. Poirot não pensa realmente isso. Quanto a esse seu marido, não penso muito bem dele, e digo-lho francamente. Fugir e deixá-la a enfrentar a música.”
Mas Ursula abanou a cabeça energicamente.
“Oh, não”, exclamou ela. “Não foi nada assim. Ralph não fugiria por sua própria conta. Percebo agora. Se ele soubesse do assassínio do padrasto, poderia pensar ele próprio que fui eu quem o cometeu.”
“Ele não pensaria tal coisa”, disse Caroline.
“Fui tão cruel com ele naquela noite — tão dura e amarga. Não quis ouvir o que ele tentava dizer — não quis acreditar que ele se importasse realmente. Limitei-me a ficar ali parada a dizer-lhe o que pensava dele, e a dizer as coisas mais frias e cruéis que me vieram à cabeça — a tentar o meu melhor para o magoar.”
“Não lhe fará mal nenhum”, disse Caroline. “Nunca se preocupe com o que diz a um homem. São tão vaidosos que nunca acreditam que a senhora fala a sério se não for lisonjeiro.”
Ursula continuou, nervosamente a torcer e destorcer as mãos.
“Quando o assassínio foi descoberto e ele não apareceu, fiquei terrivelmente perturbada. Só por um momento ponderei... mas depois soube que ele não podia — ele não podia... Mas desejei que ele aparecesse e dissesse abertamente que não tinha tido nada a ver com isso. Sabia que ele gostava muito do Dr. Sheppard, e imaginei que talvez o Dr. Sheppard pudesse saber onde ele se escondia.”
Ela virou-se para mim.
“Foi por isso que lhe disse o que disse naquele dia. Pensei: se o senhor soubesse onde ele estava, talvez lhe pudesse transmitir a mensagem.”
“Eu?”, exclamei.
“Por que razão o James haveria de saber onde ele estava?”, perguntou Caroline bruscamente.
“Foi muito improvável, eu sei”, admitiu Ursula, “mas Ralph tinha falado muitas vezes do Dr. Sheppard, e eu sabia que ele provavelmente o consideraria o seu melhor amigo em King’s Abbot.”
“Minha querida criança”, disse eu, “não faço a mínima ideia de onde Ralph Paton está neste preciso momento.”
“Isso é verdade”, disse Poirot.
“Mas...” Ursula estendeu o recorte de jornal de uma forma confusa.
“Ah! Isso”, disse Poirot, ligeiramente embaraçado; “uma bagatela, mademoiselle. A rien du tout. Nem por um momento acredito que Ralph Paton tenha sido preso.”
“Mas então...”, começou a rapariga lentamente.
Poirot continuou rapidamente:
“Há uma coisa que gostaria de saber — o Capitão Paton usava sapatos ou botas naquela noite?”
Ursula abanou a cabeça.
“Não me consigo lembrar.”
“Uma pena! Mas como haveria de se lembrar? Agora, madame”, ele sorriu-lhe, com a cabeça inclinada para o lado, o dedo indicador a abanar eloquentemente, “sem perguntas. E não se atormente. Tenha coragem e deposite a sua fé em Hercule Poirot.”
CAPÍTULO XXIII
O PEQUENO REENCONTRO DE POIROT
“E agora”, disse Caroline, levantando-se, “essa miúda vai lá para cima deitar-se. Não se preocupe, minha querida. O Sr. Poirot fará tudo o que puder por si — tenha a certeza disso.”
“Devia voltar para Fernly”, disse Ursula incerta.
Mas Caroline silenciou os seus protestos com uma mão firme.
“Disparate. Está nas minhas mãos por agora. Ficará aqui por enquanto, de qualquer forma — não é, Sr. Poirot?”
“Será o melhor plano”, concordou o pequeno belga. “Esta noite precisarei que mademoiselle — peço-lhe perdão, madame — compareça ao meu pequeno reencontro. Nove horas na minha casa. É muito necessário que lá esteja.”
Caroline acenou com a cabeça e saiu da sala com Ursula. A porta fechou-se atrás delas. Poirot sentou-se novamente numa cadeira.
“Até aqui, tudo bem”, disse ele. “As coisas estão a endireitar-se.”
“Estão a ficar cada vez mais sombrias para Ralph Paton”, observei melancolicamente.
Poirot acenou com a cabeça.
“Sim, é verdade. Mas era de esperar, não era?”
Olhei para ele, ligeiramente confuso com a observação. Ele estava recostado na cadeira, com os olhos semicerrados, as pontas dos dedos a tocar-se suavemente. De repente, suspirou e abanou a cabeça.
“O que foi?”, perguntei.
“É que há momentos em que sinto um grande desejo pelo meu amigo Hastings. É o amigo de quem lhe falei — aquele que reside agora na Argentina. Sempre que tive um grande caso, ele esteve ao meu lado. E ajudou-me — sim, muitas vezes ajudou-me. Porque ele tinha um dom, aquele, de tropeçar na verdade sem querer — sem ele próprio notar, bien entendu. Por vezes disse algo particularmente tolo e, eis que esse comentário tolo me revelou a verdade! E depois, também era prática dele manter um registo escrito dos casos que se revelavam interessantes.”
Dei uma pequena tosse embaraçada.
“No que diz respeito a isso”, comecei, e depois parei.
Poirot sentou-se direito na cadeira. Os seus olhos brilharam.
“Mas sim? O que é que gostaria de dizer?”
“Bem, na verdade, li algumas das narrativas do Capitão Hastings e pensei: por que não tentar a minha sorte com algo do mesmo género? Pareceu um desperdício não o fazer — oportunidade única — provavelmente a única vez que estarei envolvido em algo deste tipo.”
Senti-me a ficar cada vez mais quente e cada vez mais incoerente, enquanto tropeçava nas palavras acima.
Poirot saltou da cadeira. Tive um momento de terror de que ele fosse abraçar-me à moda francesa, mas, felizmente, ele conteve-se.
“Mas isto é magnífico — escreveu então as suas impressões do caso à medida que o acompanhava?”
Acenei com a cabeça.
“Épatant!”, exclamou Poirot. “Deixe-me vê-las — neste instante.”
Eu não estava preparado para um pedido tão repentino. Esforcei a memória para me lembrar de certos detalhes.
“Espero que não se importe”, gaguejei. “Posso ter sido um pouco... er... pessoal de vez em quando.”
“Oh! Compreendo perfeitamente; referiu-se a mim como cómico — como, talvez, ridículo de vez em quando? Não importa absolutamente nada. Hastings, ele também nem sempre era educado. Eu, tenho a mente acima de tais trivialidades.”
Ainda algo hesitante, remexi nas gavetas da minha secretária e produzi uma pilha desarrumada de manuscritos que lhe entreguei. Com um olho numa possível publicação futura, dividira o trabalho em capítulos, e na noite anterior atualizara-o com um relato da visita da Srta. Russell. Poirot tinha, portanto, vinte capítulos.
Deixei-o com eles.
Fui obrigado a sair para um caso a alguma distância, e já passava das oito quando regressei, para ser recebido com um prato de jantar quente num tabuleiro, e o anúncio de que Poirot e a minha irmã tinham cearam juntos às sete e meia, e que o primeiro fora depois para a minha oficina terminar a leitura do manuscrito.
“Espero, James”, disse a minha irmã, “que tenhas tido cuidado com o que dizes sobre mim nele?”
O meu queixo caiu. Não tinha tido cuidado nenhum.
“Não que isso importe muito”, disse Caroline, lendo corretamente a minha expressão. “O Sr. Poirot saberá o que pensar. Ele compreende-me muito melhor do que tu.”
Fui para a oficina. Poirot estava sentado junto à janela. O manuscrito jazia cuidadosamente empilhado numa cadeira ao lado dele. Ele pousou a mão sobre ele e falou.
“Eh bien”, disse ele, “felicito-o — pela sua modéstia!”
“Oh!”, disse eu, um tanto surpreendido.
“E pela sua reticência”, acrescentou.
Disse “Oh!” novamente.
“Não era assim que Hastings escrevia”, continuou o meu amigo. “Em cada página, muitas, muitas vezes estava a palavra ‘Eu’. O que ele pensava — o que ele fazia. Mas o senhor — manteve a sua personalidade em segundo plano; apenas uma ou duas vezes se intromete — em cenas de vida doméstica, digamos?”
Corei um pouco perante o brilho nos seus olhos.
“O que pensa realmente do material?”, perguntei nervosamente.
“Quer a minha opinião sincera?”
“Sim.”
Poirot deixou de lado o seu tom brincalhão.
“Um relato muito meticuloso e preciso”, disse ele gentilmente. “Registou todos os factos fielmente e exatamente — embora se tenha mostrado devidamente reticente quanto à sua própria participação neles.”
“E ajudou-o?”
“Sim. Posso dizer que me ajudou consideravelmente. Vamos, temos de ir à minha casa e preparar o cenário para o meu pequeno desempenho.”
Caroline estava no hall. Acho que ela esperava ser convidada para nos acompanhar. Poirot tratou da situação com tato.
“Gostaria muito de tê-la presente, mademoiselle”, disse ele com pesar, “mas nesta conjuntura não seria sensato. Veja bem, todas estas pessoas esta noite são suspeitas. Entre elas, encontrarei a pessoa que matou o Sr. Ackroyd.”
“Acredita mesmo nisso?”, disse eu incrédulo.
“Vejo que não acredita”, disse Poirot secamente. “Ainda não sabe apreciar Hercule Poirot pelo seu verdadeiro valor.”
Nesse momento, Ursula desceu a escada.
“Está pronta, minha filha?”, disse Poirot. “Isso é bom. Iremos juntos para minha casa. Mademoiselle Caroline, acredite, faço tudo o que é possível para lhe prestar serviço. Boa noite.”
Saímos, deixando Caroline, um pouco como um cão a quem foi recusado um passeio, parada no degrau da porta da frente a observar-nos.
A sala de estar em The Larches fora preparada. Sobre a mesa havia vários xaropes e copos. Também um prato de bolachas. Várias cadeiras tinham sido trazidas da outra sala.
Poirot corria de um lado para o outro a reorganizar as coisas. Puxando uma cadeira aqui, alterando a posição de um candeeiro ali, ocasionalmente curvando-se para endireitar um dos tapetes que cobriam o chão. Era especialmente meticuloso com a iluminação. Os candeeiros estavam dispostos de tal forma que lançavam uma luz clara sobre o lado da sala onde as cadeiras estavam agrupadas, deixando ao mesmo tempo a outra extremidade da sala, onde presumi que o próprio Poirot se sentaria, num crepúsculo ténue.
Ursula e eu observámo-lo. Pouco depois, ouviu-se uma campainha.
“Chegaram”, disse Poirot. “Bom, tudo está pronto.”
A porta abriu-se e o grupo de Fernly entrou. Poirot avançou e cumprimentou a Sra. Ackroyd e Flora.
“É muito bom da vossa parte terem vindo”, disse ele. “E o Major Blunt e o Sr. Raymond.”
O secretário estava tão elegante como sempre.
“Qual é a grande ideia?”, disse ele, a rir. “Alguma máquina científica? Temos de usar braceletes que registam batimentos cardíacos de culpa? Existe uma invenção dessas, não existe?”
“Li sobre isso, sim”, admitiu Poirot. “Mas eu, sou antiquado. Uso os métodos antigos. Trabalho apenas com as pequenas células cinzentas. Agora vamos começar — mas primeiro tenho um anúncio a fazer a todos vós.”
Ele pegou na mão de Ursula e puxou-a para a frente.
“Esta senhora é a Sra. Ralph Paton. Casou-se com o Capitão Paton em março passado.”
Um pequeno grito irrompeu da Sra. Ackroyd.
“Ralph! Casado! Em março passado! Oh! Mas é absurdo. Como poderia ele estar?”
Ela olhou fixamente para Ursula como se nunca a tivesse visto antes.
“Casada com a Bourne?”, disse ela. “Realmente, Sr. Poirot, não acredito em si.”
Ursula corou e começou a falar, mas Flora antecipou-se.
Indo rapidamente para o lado da outra rapariga, passou o braço pelo dela.
“Não deve importar-se por estarmos surpreendidos”, disse ela. “Sabe, não tínhamos ideia de tal coisa. A senhora e o Ralph guardaram muito bem o vosso segredo. Estou... muito feliz com isso.”
— A senhora é muito gentil, Srta. Ackroyd — disse Ursula em voz baixa —, e tem todo o direito de estar extremamente zangada. Ralph portou-se muito mal, especialmente consigo.
— Não precisa de se preocupar com isso — disse Flora, dando ao braço dela uma palmadinha de consolo. — O Ralph estava num beco sem saída e seguiu o único caminho possível. Provavelmente, eu teria feito o mesmo no lugar dele. Contudo, acho que ele poderia ter confiado o segredo a mim. Eu não o teria deixado ficar mal.
Poirot bateu suavemente numa mesa e pigarreou de forma significativa.
— A reunião do conselho vai começar — disse Flora. — O Sr. Poirot dá a entender que não devemos falar. Mas diga-me apenas uma coisa. Onde está o Ralph? A senhora tem de saber, se alguém sabe.
— Mas eu não sei — exclamou Ursula, quase num lamento. — É precisamente esse o problema, eu não sei.
— Ele não está detido em Liverpool? — perguntou Raymond. — Dizia isso no jornal.
— Ele não está em Liverpool — disse Poirot, seco.
— Na verdade — comentei —, ninguém sabe onde ele está.
— Exceto Hercule Poirot, eh? — disse Raymond.
Poirot respondeu seriamente à troça do outro.
— Eu, eu sei tudo. Lembre-se disso.
Geoffrey Raymond arqueou as sobrancelhas.
— Tudo? — Ele assobiou. — Uau! Isso é uma afirmação ousada.
— Quer dizer que realmente consegue adivinhar onde Ralph Paton está escondido? — perguntei, incrédulo.
— O senhor chama-lhe adivinhar. Eu chamo-lhe saber, meu amigo.
— Em Cranchester? — arrisquei.
— Não — respondeu Poirot gravemente —, não em Cranchester.
Não disse mais nada, mas, a um gesto seu, o grupo reunido ocupou os seus lugares. Ao fazê-lo, a porta abriu-se mais uma vez e entraram outras duas pessoas, que se sentaram perto da entrada. Eram Parker e a governanta.
— O número está completo — disse Poirot. — Estão todos aqui.
Havia um toque de satisfação no seu tom. E, com esse som, vi uma vaga de algo semelhante a inquietação passar por todos aqueles rostos agrupados na outra extremidade da sala. Havia ali uma sugestão de uma armadilha — uma armadilha que se tinha fechado.
Poirot leu uma lista, com ar importante.
— Sra. Ackroyd, Srta. Flora Ackroyd, Major Blunt, Sr. Geoffrey Raymond, Sra. Ralph Paton, John Parker, Elizabeth Russell.
Pousou o papel na mesa.
— Qual é o significado disto tudo? — começou Raymond.
— A lista que acabei de ler — disse Poirot — é uma lista de pessoas suspeitas. Cada um dos presentes teve a oportunidade de matar o Sr. Ackroyd...
Com um grito, a Sra. Ackroyd levantou-se, com a garganta a contrair-se.
— Não gosto disto — lamentou ela. — Não gosto nada disto. Preferia muito mais ir para casa.
— Não pode ir para casa, madame — disse Poirot severamente —, até ter ouvido o que tenho a dizer.
Ele fez uma pausa por um momento e depois pigarreou.
— Vou começar pelo princípio. Quando a Srta. Ackroyd me pediu para investigar o caso, fui a Fernly Park com o bom Dr. Sheppard. Caminhei com ele ao longo do terraço, onde me foram mostradas as pegadas no parapeito da janela. A partir daí, o Inspetor Raglan levou-me pelo caminho que conduz à entrada. O meu olhar foi atraído por um pequeno coreto e revistei-o minuciosamente. Encontrei duas coisas: um pedaço de cambraia engomada e uma pena de ganso vazia. O pedaço de cambraia sugeriu-me imediatamente o avental de uma empregada. Quando o Inspetor Raglan me mostrou a sua lista de pessoas na casa, reparei logo que uma das empregadas — Ursula Bourne, a empregada de mesa — não tinha um álibi verdadeiro. Segundo a sua própria versão, esteve no quarto das nove e meia até às dez. Mas e se, em vez disso, ela estivesse no coreto? Se assim fosse, teria de ter ido lá encontrar-se com alguém. Ora, sabemos pelo Dr. Sheppard que alguém de fora veio à casa naquela noite — o estranho que ele encontrou perto do portão. À primeira vista, pareceria que o nosso problema estava resolvido e que o estranho foi ao coreto encontrar-se com Ursula Bourne. Era bastante certo que ele foi ao coreto, por causa da pena de ganso. Isso sugeriu imediatamente à minha mente um consumidor de drogas — e alguém que adquiriu o hábito do outro lado do Atlântico, onde cheirar "neve" é mais comum do que neste país. O homem que o Dr. Sheppard encontrou tinha um sotaque americano, o que condizia com essa suposição.
— Mas fui travado por um ponto. As horas não batiam certo. Ursula Bourne certamente não poderia ter ido ao coreto antes das nove e meia, enquanto o homem deve ter lá chegado poucos minutos depois das nove. Eu poderia, claro, assumir que ele esperou lá durante meia hora. A única suposição alternativa era que tinham ocorrido dois encontros separados no coreto naquela noite. Eh bien, assim que analisei essa alternativa, encontrei vários factos significativos. Descobri que a Srta. Russell, a governanta, tinha visitado o Dr. Sheppard naquela manhã e demonstrado um grande interesse em curas para vítimas do vício das drogas. Juntando isso à pena de ganso, presumi que o homem em questão veio a Fernly para se encontrar com a governanta, e não com Ursula Bourne. Quem, então, veio Ursula Bourne encontrar no ponto de encontro? Não demorei a ter dúvidas. Primeiro, encontrei um anel — uma aliança de casamento — com "De R." e uma data no interior. Depois, soube que Ralph Paton tinha sido visto a subir o caminho que levava ao coreto às nove e vinte e cinco, e ouvi também falar de uma certa conversa que tinha tido lugar no bosque perto da aldeia nessa mesma tarde — uma conversa entre Ralph Paton e uma rapariga desconhecida. Assim, tinha os meus factos a sucederem-se de forma ordenada e lógica. Um casamento secreto, um noivado anunciado no dia da tragédia, a entrevista tempestuosa no bosque e o encontro marcado para o coreto naquela noite.
— Por acaso, isto provou-me uma coisa: que tanto Ralph Paton como Ursula Bourne (ou Paton) tinham os motivos mais fortes para desejar que o Sr. Ackroyd desaparecesse do caminho. E tornou também um outro ponto inesperadamente claro. Não pode ter sido Ralph Paton quem esteve com o Sr. Ackroyd no escritório às nove e meia.
— Assim, chegamos a outro aspecto muito interessante do crime. Quem estava no quarto com o Sr. Ackroyd às nove e meia? Não Ralph Paton, que estava no coreto com a sua mulher. Não Charles Kent, que já tinha partido. Quem, então? Lancei a minha pergunta mais inteligente — a minha mais audaciosa: Estava alguém com ele?
Poirot inclinou-se para a frente e disparou as últimas palavras triunfantemente sobre nós, recuando depois com o ar de quem marcou um ponto decisivo.
Raymond, contudo, não pareceu impressionado e apresentou um protesto suave.
— Não sei se está a tentar fazer-me passar por mentiroso, Sr. Poirot, mas a questão não se baseia apenas no meu testemunho — exceto, talvez, quanto às palavras exatas usadas. Lembre-se, o Major Blunt também ouviu o Sr. Ackroyd a falar com alguém. Ele estava no terraço lá fora e não conseguiu ouvir as palavras claramente, mas ouviu distintamente as vozes.
Poirot assentiu.
— Não me esqueci — disse ele calmamente. — Mas o Major Blunt estava sob a impressão de que era ao senhor que o Sr. Ackroyd se dirigia.
Por um momento, Raymond pareceu apanhado de surpresa. Depois, recompôs-se.
— O Blunt sabe agora que estava enganado — disse ele.
— Exatamente — concordou o outro homem.
— Ainda assim, deve ter havido alguma razão para ele pensar isso — ponderou Poirot. — Oh! não — ergueu a mão em protesto —, eu sei a razão que o senhor vai dar, mas não é suficiente. Temos de procurar noutro lugar. Vou colocar a questão desta forma: desde o início do caso, fui surpreendido por uma coisa: a natureza daquelas palavras que o Sr. Raymond ouviu. Foi espantoso para mim que ninguém as tivesse comentado — que ninguém tenha visto nada de estranho nelas.
Ele fez uma pausa de um minuto e depois citou suavemente:
— ... *Os pedidos à minha bolsa têm sido tão frequentes ultimamente que receio ser-me impossível aceder ao seu pedido.* Nada lhe parece estranho nisso?
— Não creio — disse Raymond. — Ele ditou-me cartas frequentemente, usando quase exatamente essas mesmas palavras.
— Exatamente — exclamou Poirot. — É onde quero chegar. Usaria um homem tal frase ao falar com outro? É impossível que isso fizesse parte de uma conversa real. Ora, se ele estivesse a ditar uma carta...
— Quer dizer que ele estava a ler uma carta em voz alta — disse Raymond lentamente. — Ainda assim, teria de estar a ler para alguém.
— Mas porquê? Não temos provas de que estivesse mais alguém no quarto. Lembre-se, não se ouviu outra voz senão a do Sr. Ackroyd.
— Certamente que um homem não leria cartas desse tipo em voz alta para si próprio — a não ser que estivesse... bem... a ficar louco.
— Esqueceram-se todos de uma coisa — disse Poirot suavemente: — o estranho que visitou a casa na quarta-feira anterior.
Todos olharam para ele.
— Mas sim — disse Poirot, acenando de forma encorajadora —, na quarta-feira. O jovem não era importante por si só. Mas a empresa que ele representava interessou-me muito.
— A companhia de ditafones — ofegou Raymond. — Percebo agora. Um ditafone. É isso que pensa?
Poirot assentiu.
— O Sr. Ackroyd tinha prometido investir num ditafone, lembra-se. Eu tive a curiosidade de inquirir a referida empresa. A resposta deles é que o Sr. Ackroyd comprou, de facto, um ditafone ao seu representante. Por que razão ele escondeu o assunto de si, não sei.
— Ele devia ter a intenção de me surpreender com isso — murmurou Raymond. — Ele tinha um gosto quase infantil em surpreender as pessoas. Planeava mantê-lo na manga por um dia ou dois. Provavelmente estava a brincar com ele como se fosse um brinquedo novo. Sim, encaixa. Tem toda a razão — ninguém usaria aquelas palavras numa conversa casual.
— Explica também — disse Poirot — por que é que o Major Blunt pensou que era o senhor que estava no escritório. Os fragmentos que lhe chegaram eram excertos de um ditado e, por isso, o seu subconsciente deduziu que o senhor estava com ele. A sua mente consciente estava ocupada com algo bastante diferente — a figura branca que ele tinha vislumbrado. Imaginou que era a Srta. Ackroyd. Na verdade, claro, era o avental branco de Ursula Bourne que ele viu enquanto ela se escapulia para o coreto.
Raymond tinha recuperado da sua primeira surpresa.
— Ainda assim — comentou ele —, esta sua descoberta, por mais brilhante que seja (tenho a certeza de que nunca me teria ocorrido), deixa a situação essencial inalterada. O Sr. Ackroyd estava vivo às nove e meia, já que falava para o ditafone. Parece claro que o homem, Charles Kent, já tinha saído das instalações a essa hora. Quanto a Ralph Paton...?
Ele hesitou, olhando para Ursula.
A cor dela subiu-lhe ao rosto, mas respondeu com firmeza suficiente.
— O Ralph e eu separámo-nos pouco antes das dez para as dez. Ele nunca se aproximou da casa, tenho a certeza disso. Ele não tinha intenção de o fazer. A última coisa na terra que ele queria era enfrentar o padrasto. Ele teria fugido disso a sete pés.
— Não é que eu duvide da sua história por um momento — explicou Raymond. — Sempre estive bastante seguro de que o Capitão Paton era inocente. Mas é preciso pensar num tribunal — e nas perguntas que seriam feitas. Ele está numa posição muito infeliz, mas se ele se apresentasse...
Poirot interrompeu.
— Esse é o seu conselho, sim? Que ele se apresente?
— Certamente. Se sabe onde ele está...
— Percebo que não acredita que eu saiba. E, no entanto, acabei de lhe dizer que sei tudo. A verdade sobre o telefonema, sobre as pegadas no parapeito da janela, sobre o esconderijo de Ralph Paton...
— Onde está ele? — perguntou Blunt bruscamente.
— Não muito longe — disse Poirot, sorrindo.
— Em Cranchester? — perguntei.
Poirot virou-se para mim.
— Pergunta-me sempre isso. A ideia de Cranchester é para si uma *idée fixe*. Não, ele não está em Cranchester. Ele está... ali!
Apontou um dedo dramático. Todos os olhares voltaram-se.
Ralph Paton estava parado à entrada.
CAPÍTULO XXIV
A HISTÓRIA DE RALPH PATON
Foi um minuto muito desconfortável para mim. Mal percebi o que aconteceu a seguir, mas houve exclamações e gritos de surpresa! Quando já estava suficientemente senhor de mim para compreender o que se passava, Ralph Paton estava ao lado da sua mulher, com a mão dela na sua, e sorria para mim através da sala.
Poirot também sorria e, ao mesmo tempo, abanava um dedo eloquente para mim.
— Não lhe disse, pelo menos trinta e seis vezes, que é inútil esconder coisas de Hercule Poirot? — perguntou ele. — Que num caso desses ele descobre?
Virou-se para os outros.
— Um dia, lembram-se, fizemos uma pequena sessão à volta de uma mesa — apenas nós os seis. Acusei as outras cinco pessoas presentes de me esconderem algo. Quatro delas revelaram o seu segredo. O Dr. Sheppard não revelou o seu. Mas, desde o início, tive as minhas suspeitas. O Dr. Sheppard foi aos Três Javali naquela noite, esperando encontrar o Ralph. Não o encontrou lá; mas, suponhamos, disse eu para comigo, que ele o encontrou na rua a caminho de casa? O Dr. Sheppard era amigo do Capitão Paton e vinha diretamente do local do crime. Ele devia saber que as coisas pareciam muito negras para o lado dele. Talvez soubesse mais do que o público em geral...
— Sabia — disse eu, pesaroso. — Suponho que mais vale abrir o jogo agora. Fui ver o Ralph nessa tarde. A princípio, ele recusou-se a confiar em mim, mas depois contou-me sobre o seu casamento e o buraco em que estava metido. Assim que o homicídio foi descoberto, percebi que, uma vez conhecidos os factos, a suspeita não deixaria de recair sobre o Ralph — ou, se não sobre ele, sobre a rapariga que ele amava. Nessa noite, apresentei-lhe os factos claramente. A ideia de possivelmente ter de prestar depoimento que pudesse incriminar a sua mulher fê-lo decidir, a todo o custo,...
Hesitei e Ralph completou a lacuna.
— Dar à sola — disse ele, graficamente. — Sabe, a Ursula deixou-me para voltar para casa. Pensei que era possível que ela tivesse tentado ter outra entrevista com o meu padrasto. Ele já tinha sido muito grosseiro com ela nessa tarde. Ocorreu-me que ele a poderia ter insultado — de uma forma tão imperdoável — que, sem saber o que fazia...
Ele parou. Ursula soltou a mão da dele e recuou.
— Pensaste isso, Ralph! Achaste mesmo que eu poderia ter feito aquilo?
— Voltemos à conduta culpável do Dr. Sheppard — disse Poirot, seco. — O Dr. Sheppard consentiu em fazer o que podia para o ajudar. Teve sucesso em esconder o Capitão Paton da polícia.
— Onde? — perguntou Raymond. — Na sua própria casa?
— Ah, não, de facto — disse Poirot. — Deveria fazer a si mesmo a pergunta que eu fiz. Se o bom doutor está a esconder o jovem, que lugar escolheria? Teria necessariamente de ser algum lugar próximo. Penso em Cranchester. Um hotel? Não. Quartos alugados? Ainda mais enfaticamente, não. Onde, então? Ah! Já sei. Uma clínica. Uma casa para os mentalmente inaptos. Testo a minha teoria. Invento um sobrinho com problemas mentais. Consulto a Mademoiselle Sheppard sobre casas adequadas. Ela dá-me os nomes de duas perto de Cranchester para onde o seu irmão enviou pacientes. Faço inquéritos. Sim, numa delas, um paciente foi levado pelo próprio médico logo na manhã de sábado. Esse paciente, embora conhecido por outro nome, não tive dificuldade em identificar como o Capitão Paton. Após certas formalidades necessárias, fui autorizado a levá-lo. Ele chegou a minha casa nas primeiras horas da manhã de ontem.
Olhei para ele, pesaroso.
— O perito do Ministério do Interior da Caroline — murmurei. — E pensar que nunca adivinhei!
— Vê agora por que chamei a atenção para a reticência do seu manuscrito — murmurou Poirot. — Era estritamente verdadeiro até onde ia — mas não ia muito longe, eh, meu amigo?
Eu estava demasiado envergonhado para discutir.
— O Dr. Sheppard tem sido muito leal — disse Ralph. — Apoiou-me em tudo. Fez o que pensou ser o melhor. Vejo agora, pelo que o Sr. Poirot me disse, que não era realmente o melhor. Eu deveria ter-me apresentado e enfrentado as consequências. Sabe, na clínica, nunca víamos um jornal. Não sabia nada do que se estava a passar.
— O Dr. Sheppard tem sido um modelo de discrição — disse Poirot, seco. — Mas eu, eu descubro todos os pequenos segredos. É o meu trabalho.
— Agora podemos ter a sua história do que aconteceu naquela noite — disse Raymond, impaciente.
— Já a sabem — disse Ralph. — Há muito pouco a acrescentar. Saí do coreto por volta das nove e quarenta e cinco e caminhei pelas estradas, tentando decidir o que fazer a seguir — que linha seguir. Sou obrigado a admitir que não tenho a sombra de um álibi, mas dou-lhe a minha palavra de honra de que nunca fui ao escritório, que nunca vi o meu padrasto vivo — ou morto. O que quer que o mundo pense, gostaria que todos acreditassem em mim.
— Sem álibi — murmurou Raymond. — Isso é mau. Acredito em si, claro, mas... é um mau caso.
— Torna as coisas muito simples, no entanto — disse Poirot, com voz alegre. — Muito simples, de facto.
Todos olhámos para ele.
— Vêem o que quero dizer? Não? Apenas isto: para salvar o Capitão Paton, o verdadeiro criminoso tem de confessar.
Ele irradiava para todos nós.
— Mas sim — digo o que quero dizer. Vejam agora, não convidei o Inspetor Raglan para estar presente. Isso foi por uma razão. Não queria contar-lhe tudo o que sabia — pelo menos, não queria contar-lhe esta noite.
Inclinou-se para a frente e, de repente, a sua voz e toda a sua personalidade mudaram. Tornou-se subitamente perigoso.
— Eu que vos falo — sei que o assassino do Sr. Ackroyd está nesta sala agora. É ao assassino que falo. *Amanhã, a verdade segue para o Inspetor Raglan.* Compreendem?
Houve um silêncio tenso. No meio dele, veio a velha mulher bretã com um telegrama numa bandeja. Poirot rasgou-o.
A voz de Blunt elevou-se, abrupta e ressonante.
— O assassino está entre nós, diz? Sabe... qual?
Poirot tinha lido a mensagem. Amachucou-a na mão.
— Sei... agora.
Ele bateu na bola de papel amachucada.
— O que é isso? — disse Raymond, agudamente.
— Uma mensagem sem fios — de um navio a caminho dos Estados Unidos.
Fez-se um silêncio mortal. Poirot levantou-se, fazendo uma vénia.
— Messieurs et Mesdames, esta minha reunião chegou ao fim. Lembrem-se: a verdade segue para o Inspetor Raglan de manhã.
CAPÍTULO XXV
TODA A VERDADE
Um leve gesto de Poirot ordenou-me que ficasse para trás. Obedeci, indo para junto da lareira e remexendo pensativamente os grandes troncos com a ponta da minha bota.
Estava intrigado. Pela primeira vez, estava completamente perdido quanto ao significado de Poirot. Por um momento, senti-me inclinado a pensar que a cena que acabara de presenciar era uma gigantesca peça de bazófia — que ele tinha estado, como dizia, a "representar a comédia" com o objetivo de se tornar interessante e importante. Mas, apesar de mim mesmo, fui forçado a acreditar numa realidade subjacente. Havia uma ameaça real nas suas palavras — uma certa sinceridade indiscutível. Mas eu ainda acreditava que ele estava num caminho completamente errado.
Quando a porta se fechou atrás do último elemento do grupo, ele veio até à lareira.
— Bem, meu amigo — disse ele calmamente —, e o que acha de tudo isto?
— Não sei o que pensar — disse eu, francamente. — Qual era o objetivo? Por que não ir direto ao Inspetor Raglan com a verdade, em vez de dar a esta pessoa culpada este aviso elaborado?
Poirot sentou-se e tirou a sua carteira de pequenos cigarros russos. Fumou durante um minuto ou dois em silêncio. Depois:
— Use as suas pequenas células cinzentas — disse ele. — Há sempre uma razão por detrás das minhas ações.
Hesitei por um momento e depois disse lentamente:
— A primeira que me ocorre é que o senhor próprio não sabe quem é a pessoa culpada, mas que tem a certeza de que ela se encontra entre as pessoas aqui esta noite. Portanto, as suas palavras destinavam-se a forçar uma confissão do assassino desconhecido?
Poirot assentiu, aprovador.
— Uma ideia inteligente, mas não é a verdade.
— Pensei, talvez, que ao fazê-lo acreditar que você sabia, poderia forçá-lo a revelar-se — não necessariamente por uma confissão. Ele poderia tentar silenciá-lo como silenciou anteriormente o Sr. Ackroyd — antes que você pudesse agir amanhã de manhã.
— Uma armadilha tendo a mim como isca! Merci, mon ami, mas não sou suficientemente heroico para isso.
— Então não consigo entendê-lo. Certamente você está correndo o risco de deixar o assassino escapar ao colocá-lo de sobreaviso dessa maneira?
Poirot abanou a cabeça.
— Ele não pode escapar — disse ele gravemente. — Existe apenas uma saída — e esse caminho não conduz à liberdade.
— Você realmente acredita que uma daquelas pessoas aqui esta noite cometeu o assassinato? — perguntei incrédulo.
— Sim, meu amigo.
— Qual delas?
Houve um silêncio por alguns minutos. Então Poirot atirou a ponta do seu cigarro para a grelha e começou a falar num tom calmo e reflexivo.
— Levá-lo-ei pelo caminho que eu próprio percorri. Passo a passo você me acompanhará e verá por si mesmo que todos os fatos apontam indiscutivelmente para uma pessoa. Ora, para começar, havia dois fatos e uma pequena discrepância no tempo que atraíram especialmente a minha atenção. O primeiro fato foi o telefonema. Se Ralph Paton fosse de fato o assassino, o telefonema tornar-se-ia sem sentido e absurdo. Portanto, disse para comigo, Ralph Paton não é o assassino.
— Certifiquei-me de que a chamada não poderia ter sido feita por ninguém dentro da casa, contudo estava convencido de que era entre os presentes na noite fatídica que eu tinha de procurar o meu criminoso. Portanto, concluí que o telefonema deve ter sido feito por um cúmplice. Não fiquei muito satisfeito com essa dedução, mas deixei-a de lado por um momento.
— Examinei a seguir o motivo da chamada. Isso foi difícil. Só consegui chegar lá julgando o seu resultado. O qual foi — que o assassinato foi descoberto naquela noite em vez de — com toda a probabilidade — na manhã seguinte. Concorda com isso?
— Si-im — admiti. — Sim. Como diz, o Sr. Ackroyd, tendo dado ordens para não ser incomodado, ninguém teria provavelmente ido ao gabinete naquela noite.
— Très bien. O caso caminha, não é verdade? Mas as coisas ainda estavam obscuras. Qual era a vantagem de ter o crime descoberto naquela noite em preferência à manhã seguinte? A única ideia que consegui agarrar foi que o assassino, sabendo que o crime seria descoberto a uma certa hora, poderia assegurar-se de estar presente quando a porta fosse arrombada — ou, pelo menos, imediatamente a seguir. E agora chegamos ao segundo fato — a cadeira puxada para fora da parede. O inspetor Raglan descartou isso como não tendo importância. Eu, pelo contrário, sempre considerei isso como sendo de suprema importância.
— No seu manuscrito, você desenhou uma planta simples e limpa do gabinete. Se a tivesse consigo neste minuto, veria que — a cadeira estando puxada para fora na posição indicada por Parker — ela ficaria numa linha direta entre a porta e a janela.
— A janela! — disse eu rapidamente.
— Você também teve a minha primeira ideia. Imaginei que a cadeira fora puxada para fora para que algo ligado à janela não fosse visto por ninguém que entrasse pela porta. Mas abandonei logo essa suposição, pois, embora a cadeira fosse uma poltrona de encosto alto, ela obscurecia muito pouco da janela — apenas a parte entre a caixilharia e o chão. Não, mon ami — mas lembre-se de que logo em frente à janela havia uma mesa com livros e revistas sobre ela. Ora, essa mesa estava completamente escondida pela cadeira puxada para fora — e imediatamente tive a minha primeira suspeita vaga da verdade.
— Supondo que houvesse algo sobre essa mesa que não devesse ser visto? Algo colocado lá pelo assassino? Até então, eu não tinha a menor ideia do que esse algo poderia ser. Mas sabia certos fatos muito interessantes sobre isso. Por exemplo, era algo que o assassino não tinha sido capaz de levar consigo no momento em que cometeu o crime. Ao mesmo tempo, era vital que fosse removido o mais rapidamente possível após o crime ter sido descoberto. E assim — a mensagem telefônica, e a oportunidade para o assassino estar no local quando o corpo foi descoberto.
— Ora, quatro pessoas estavam no local antes da chegada da polícia. Você mesmo, Parker, o Major Blunt e o Sr. Raymond. Eliminei Parker de imediato, uma vez que, a qualquer hora que o crime fosse descoberto, ele era a única pessoa com certeza de estar no local. Além disso, foi ele quem me falou da cadeira puxada para fora. Parker, então, estava limpo (do assassinato, entenda-se. Ainda pensava que era possível que ele estivesse chantageando a Sra. Ferrars). Raymond e Blunt, contudo, permaneceram sob suspeita, uma vez que, se o crime tivesse sido descoberto nas primeiras horas da manhã, era muito possível que pudessem ter chegado ao local demasiado tarde para impedir que o objeto sobre a mesa redonda fosse descoberto.
— Ora, o que era esse objeto? Você ouviu os meus argumentos esta noite em relação ao fragmento de conversa que foi ouvido? Assim que soube que um representante de uma empresa de ditafones tinha passado por lá, a ideia de um ditafone enraizou-se na minha mente. Ouviu o que eu disse nesta sala há menos de meia hora? Todos concordaram com a minha teoria — mas um fato vital parece ter-lhes escapado. Admitindo que um ditafone estava a ser usado pelo Sr. Ackroyd naquela noite — por que é que nenhum ditafone foi encontrado?
— Nunca pensei nisso — disse eu.
— Sabemos que um ditafone foi fornecido ao Sr. Ackroyd. Mas nenhum ditafone foi encontrado entre os seus pertences. Então, se algo foi retirado daquela mesa — por que é que esse algo não poderia ser o ditafone? Mas havia certas dificuldades no caminho. A atenção de todos estava, claro, focada no homem assassinado. Penso que qualquer pessoa poderia ter ido à mesa sem ser notada pelas outras pessoas na sala. Mas um ditafone tem um certo volume — não pode ser enfiado casualmente num bolso. Teria de haver um recipiente de qualquer tipo capaz de contê-lo.
— Vê onde estou a chegar? A figura do assassino está a ganhar forma. Uma pessoa que estava no local imediatamente, mas que poderia não ter estado se o crime tivesse sido descoberto na manhã seguinte. Uma pessoa transportando um recipiente no qual o ditafone pudesse ser encaixado——
Interrompi.
— Mas por que remover o ditafone? Qual era o objetivo?
— Você é como o Sr. Raymond. Assume como certo que o que foi ouvido às nove e meia era a voz do Sr. Ackroyd a falar para um ditafone. Mas considere esta invenção útil por um pequeno minuto. Você dita para ela, não é verdade? E, mais tarde, um secretário ou um dactilógrafo liga-a, e a voz fala de novo.
— Quer dizer—— — ofeguei.
Poirot acenou com a cabeça.
— Sim, quero dizer isso. Às nove e meia, o Sr. Ackroyd já estava morto. Era o ditafone a falar — não o homem.
— E o assassino ligou-o. Então ele deve ter estado na sala nesse minuto?
— Possivelmente. Mas não devemos excluir a probabilidade de ter sido aplicado algum dispositivo mecânico — algo da natureza de uma fechadura temporizada, ou até de um simples despertador. Mas, nesse caso, devemos adicionar duas qualificações ao nosso retrato imaginário do assassino. Deve ser alguém que sabia da compra do ditafone pelo Sr. Ackroyd e também alguém com o conhecimento mecânico necessário.
— Eu tinha chegado até aqui na minha própria mente quando chegamos às pegadas no parapeito da janela. Aqui havia três conclusões abertas para mim. (1) Podem ter sido realmente feitas por Ralph Paton. Ele tinha estado em Fernly naquela noite, e poderia ter subido para o gabinete e encontrado o seu tio morto lá. Essa era uma hipótese. (2) Havia a possibilidade de as pegadas poderem ter sido feitas por outra pessoa que por acaso tivesse o mesmo tipo de tachas nos seus sapatos. Mas os ocupantes da casa tinham sapatos com solas de borracha crepe, e recusei-me a acreditar na coincidência de alguém de fora ter o mesmo tipo de sapatos que Ralph Paton usava. Charles Kent, como sabemos pela empregada do bar do Dog and Whistle, estava a usar um par de botas "a cair-lhe dos pés". (3) Essas pegadas foram feitas por alguém deliberadamente a tentar lançar suspeitas sobre Ralph Paton. Para testar esta última conclusão, era necessário verificar certos fatos. Um par dos sapatos de Ralph tinha sido obtido no Three Boars pela polícia. Nem Ralph nem ninguém poderia tê-los usado naquela noite, uma vez que estavam lá em baixo a ser limpos. De acordo com a teoria da polícia, Ralph estava a usar outro par do mesmo tipo, e descobri que era verdade que ele tinha dois pares. Ora, para que a minha teoria fosse provada correta, era necessário que o assassino tivesse usado os sapatos de Ralph naquela noite — caso em que Ralph teria de estar a usar ainda um terceiro par de calçado de qualquer tipo. Dificilmente poderia supor que ele trouxesse três pares de sapatos todos iguais — o terceiro par de calçado seria mais provavelmente botas. Pedi à sua irmã para fazer averiguações sobre este ponto — dando alguma ênfase à cor, para — admito-o francamente — obscurecer a verdadeira razão para o meu pedido.
— Você sabe o resultado das investigações dela. Ralph Paton tinha tido um par de botas consigo. A primeira pergunta que lhe fiz quando ele veio à minha casa ontem de manhã foi o que ele estava a usar nos pés na noite fatídica. Ele respondeu imediatamente que tinha usado botas — ele ainda as estava a usar, de fato — não tendo mais nada para pôr.
— Assim, damos mais um passo na nossa descrição do assassino — uma pessoa que teve a oportunidade de tirar esses sapatos de Ralph Paton do Three Boars naquele dia.
Ele fez uma pausa e depois disse, com a voz ligeiramente elevada:—
— Há mais um ponto. O assassino deve ter sido uma pessoa que teve a oportunidade de surripiar aquele punhal da mesa de prata. Você poderia argumentar que qualquer pessoa na casa poderia tê-lo feito, mas lembrar-lhe-ei que a Srta. Ackroyd foi muito categórica ao dizer que o punhal não estava lá quando ela examinou a mesa de prata.
Ele fez uma nova pausa.
— Recapitulemos — agora que tudo está claro. Uma pessoa que esteve no Three Boars mais cedo naquele dia, uma pessoa que conhecia Ackroyd o suficiente para saber que ele tinha comprado um ditafone, uma pessoa que tinha jeito para a mecânica, que teve a oportunidade de tirar o punhal da mesa de prata antes de a Srta. Flora chegar, que tinha consigo um recipiente adequado para esconder o ditafone — tal como uma mala preta, e que teve o gabinete só para si por alguns minutos após o crime ter sido descoberto, enquanto Parker telefonava para a polícia. De fato — o Dr. Sheppard!
CAPÍTULO XXVI
E NADA MAIS DO QUE A VERDADE
Houve um silêncio mortal durante um minuto e meio.
Depois, ri-me.
— Você está louco — disse eu.
— Não — disse Poirot placidamente. — Não estou louco. Foi a pequena discrepância no tempo que me chamou a atenção logo no início.
— Discrepância no tempo? — questionei, intrigado.
— Pois sim. Você lembrar-se-á de que todos concordaram — você mesmo incluído — que demorava cinco minutos a caminhar da portaria até à casa — menos se usasse o atalho para o terraço. Mas você saiu da casa às oito e cinquenta — tanto pela sua própria afirmação como pela de Parker, e contudo eram nove horas quando passou pelos portões da portaria. Era uma noite fria — não era uma noite em que um homem estaria inclinado a vadiar; por que é que você demorou dez minutos para fazer uma caminhada de cinco minutos? Desde o início que percebi que só tínhamos a sua afirmação de que a janela do gabinete estava alguma vez fechada. Ackroyd perguntou-lhe se o tinha feito — ele nunca olhou para ver. Supondo, então, que a janela do gabinete estava aberta? Haveria tempo nesses dez minutos para você correr à volta do exterior da casa, mudar de sapatos, subir pela janela, matar Ackroyd e chegar ao portão às nove horas? Decidi contra essa teoria, uma vez que, com toda a probabilidade, um homem tão nervoso como Ackroyd estava naquela noite ouvi-lo-ia a subir, e então haveria uma luta. Mas supondo que você matou Ackroyd antes de sair — enquanto estava de pé ao lado da cadeira dele? Então você sai pela porta da frente, corre para o pavilhão de jardim, tira os sapatos de Ralph Paton do saco que trouxe consigo naquela noite, calça-os, caminha pela lama com eles e deixa pegadas no parapeito da janela, sobe, tranca a porta do gabinete por dentro, corre de volta para o pavilhão, muda de volta para os seus próprios sapatos e corre para o portão. (Eu fiz ações semelhantes no outro dia, quando você estava com a Sra. Ackroyd — levou exatamente dez minutos.) Depois para casa — e um álibi — uma vez que você tinha programado o ditafone para as nove e meia.
— Meu caro Poirot — disse eu com uma voz que me soou estranha e forçada aos meus próprios ouvidos —, você tem andado a matutar neste caso há demasiado tempo. O que raio ganharia eu ao assassinar Ackroyd?
— Segurança. Foi você quem chantageou a Sra. Ferrars. Quem poderia ter um melhor conhecimento do que matou o Sr. Ferrars do que o médico que o estava a tratar? Quando falou comigo naquele primeiro dia no jardim, mencionou um legado recebido há cerca de um ano. Não consegui encontrar qualquer vestígio de um legado. Você teve de inventar alguma forma de justificar as vinte mil libras da Sra. Ferrars. Não lhe fez muito bem. Perdeu a maior parte em especulações — depois apertou o cerco com demasiada força, e a Sra. Ferrars seguiu um caminho que você não esperava. Se Ackroyd tivesse descoberto a verdade, ele não teria tido misericórdia de você — você estaria arruinado para sempre.
— E o telefonema? — perguntei, tentando recompor-me. — Você tem uma explicação plausível para isso também, suponho?
— Confesso-lhe que foi o meu maior tropeço quando descobri que uma chamada tinha sido efetivamente feita para si a partir da estação de King’s Abbot. A princípio acreditei que você tinha simplesmente inventado a história. Foi um toque muito inteligente, esse. Você tinha de ter alguma desculpa para chegar a Fernly, encontrar o corpo e, assim, ter a oportunidade de remover o ditafone do qual o seu álibi dependia. Eu tinha uma noção muito vaga de como isso foi feito quando fui ver a sua irmã naquele primeiro dia e perguntei que pacientes você tinha visto na sexta-feira de manhã. Eu não tinha qualquer pensamento sobre a Srta. Russell na minha mente naquela altura. A visita dela foi uma coincidência feliz, uma vez que distraiu a sua mente do verdadeiro objeto das minhas perguntas. Encontrei o que procurava. Entre os seus pacientes daquela manhã estava o comissário de bordo de um navio americano. Quem seria mais adequado do que ele para partir para Liverpool no comboio daquela noite? E depois ele estaria em alto-mar, bem fora do caminho. Notei que o Orion partia no sábado e, tendo obtido o nome do comissário, enviei-lhe uma mensagem via rádio fazendo uma certa pergunta. Esta é a resposta dele que você me viu receber agora mesmo.
Ele estendeu-me a mensagem. Dizia o seguinte—
"Muito correto. O Dr. Sheppard pediu-me para deixar um bilhete na casa de um paciente. Eu devia ligar-lhe da estação com a resposta. A resposta foi 'Sem resposta'."
* * * * *
— Foi uma ideia inteligente — disse Poirot. — A chamada era genuína. A sua irmã viu-o atendê-la. Mas só havia a palavra de um homem quanto ao que foi realmente dito — a sua própria!
Bocejei.
— Tudo isto — disse eu — é muito interessante — mas dificilmente na esfera da política prática.
— Acha que não? Lembre-se do que eu disse — a verdade vai para o inspetor Raglan de manhã. Mas, pelo bem da sua boa irmã, estou disposto a dar-lhe a oportunidade de outra saída. Poderia haver, por exemplo, uma overdose de um calmante. Compreende-me? Mas o Capitão Ralph Paton tem de ser inocentado — ça va sans dire. Sugeriria que terminasse esse manuscrito muito interessante seu — mas abandonando a sua antiga reticência.
— Você parece ser muito prolífico em sugestões — comentei. — Tem a certeza de que terminou mesmo?
— Agora que me recorda do fato, é verdade que há mais uma coisa. Seria muito imprudente da sua parte tentar silenciar-me como silenciou o Sr. Ackroyd. Esse tipo de negócio não funciona contra Hercule Poirot, compreende?
— Meu caro Poirot — disse eu, sorrindo um pouco —, seja o que for que eu seja, não sou um tolo.
Levantei-me.
— Bem, bem — disse eu, com um leve bocejo —, tenho de ir para casa. Obrigado por uma noite muito interessante e instrutiva.
Poirot também se levantou e fez uma vénia com a sua habitual polidez enquanto eu saía da sala.
CAPÍTULO XXVII
APOLOGIA
Cinco da manhã. Estou muito cansado — mas terminei a minha tarefa. O braço dói-me de tanto escrever.
Um fim estranho para o meu manuscrito. Pretendia que fosse publicado um dia como a história de um dos fracassos de Poirot! Estranho, como as coisas acontecem.
Desde o início que tive um pressentimento de desastre, desde o momento em que vi Ralph Paton e a Sra. Ferrars com as cabeças juntas. Pensei então que ela estava a confidenciar nele; como aconteceu, enganei-me completamente, mas a ideia persistiu mesmo depois de eu entrar no gabinete com Ackroyd naquela noite, até ele me dizer a verdade.
Pobre Ackroyd. Fico sempre contente por lhe ter dado uma oportunidade. Insisti para que lesse aquela carta antes que fosse demasiado tarde. Ou permitam-me ser honesto — não percebi subconscientemente que, com um tipo teimoso como ele, era a minha melhor oportunidade de fazer com que ele não a lesse? O nervosismo dele naquela noite foi psicologicamente interessante. Ele sabia que o perigo estava próximo. E, contudo, ele nunca suspeitou de mim.
O punhal foi uma reflexão tardia. Eu tinha trazido uma arma pequena e muito prática da minha autoria, mas quando vi o punhal deitado na mesa de prata, ocorreu-me imediatamente o quanto melhor seria usar uma arma que não pudesse ser ligada a mim.
Suponho que deva ter tido a intenção de o assassinar desde o início. Assim que soube da morte da Sra. Ferrars, senti-me convencido de que ela lhe teria contado tudo antes de morrer. Quando me encontrei com ele e ele parecia tão agitado, pensei que talvez ele soubesse a verdade, mas que não conseguia acreditar nela, e que me ia dar a oportunidade de a refutar.
Então fui para casa e tomei as minhas precauções. Se o problema fosse afinal apenas algo relacionado com Ralph — bem, nenhum mal teria sido feito. O ditafone que ele me tinha dado dois dias antes para ajustar. Algo tinha corrido mal com ele, e persuadi-o a deixar-me tentar arranjá-lo, em vez de o enviar de volta. Fiz o que queria com ele e levei-o comigo na minha mala naquela noite.
Estou bastante satisfeito comigo mesmo como escritor. O que poderia ser mais elegante, por exemplo, do que o seguinte:—
"_As cartas foram trazidas às oito e quarenta. Eram quase oito e cinquenta quando o deixei, a carta ainda por ler. Hesitei com a mão na maçaneta da porta, olhando para trás e perguntando-me se havia alguma coisa que tivesse deixado por fazer._"
Tudo verdade, como vê. Mas suponha que eu tivesse colocado uma fila de estrelas depois da primeira frase! Alguém se teria perguntado o que aconteceu exatamente naqueles dez minutos em branco?
Quando olhei à volta da sala a partir da porta, estava bastante satisfeito. Nada tinha sido deixado por fazer. O ditafone estava na mesa junto à janela, programado para disparar às nove e meia (o mecanismo daquele pequeno dispositivo era bastante inteligente — baseado no princípio de um despertador), e a poltrona estava puxada para fora de modo a escondê-lo da porta.
Devo admitir que foi um choque encontrar Parker mesmo à saída da porta. Registrei fielmente esse fato.
Depois, quando o corpo foi descoberto e eu tinha enviado Parker para telefonar à polícia, que uso judicioso das palavras: “Fiz o pouco que tinha de ser feito!” Foi muito pouco — apenas empurrar o ditafone para dentro da minha mala e empurrar a cadeira contra a parede para o seu lugar devido. Nunca sonhei que Parker tivesse reparado naquela cadeira. Logicamente, ele deveria ter estado tão absorto com o corpo a ponto de ficar cego para todo o resto. Mas eu não tinha contado com o complexo do criado treinado.
Quem me dera ter sabido de antemão que Flora ia dizer que tinha visto o tio vivo às nove e quarenta e cinco. Isso intrigou-me mais do que posso dizer. De fato, ao longo de todo o caso, houve coisas que me intrigaram irremediavelmente. Todos parecem ter tomado parte.
O meu maior medo, durante todo o tempo, foi Caroline. Imaginei que ela pudesse adivinhar. Curioso o modo como ela falou naquele dia do meu “traço de fraqueza”.
Bem, ela nunca saberá a verdade. Há, como Poirot disse, uma saída...
Posso confiar nele. Ele e o Inspetor Raglan tratarão disso entre eles. Eu não gostaria que Caroline soubesse. Ela gosta de mim e, além disso, ela é orgulhosa... A minha morte será um desgosto para ela, mas o desgosto passa...
Quando terminar de escrever, colocarei todo este manuscrito num envelope e endereçá-lo-ei a Poirot.
E depois — o que será? Veronal? Haveria uma espécie de justiça poética. Não que eu assuma qualquer responsabilidade pela morte da Sra. Ferrars. Foi a consequência direta das suas próprias ações. Não sinto piedade por ela.
Não tenho piedade de mim mesmo também.
Portanto, que seja veronal.
Mas quem me dera que Hercule Poirot nunca se tivesse reformado e vindo para aqui cultivar abóboras.
FIM
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Jesi, uma cidade diminuta das Marcas italianas, foi o local de nascimento de Rafael Sabatini.
Ele foi primeiro para a escola na Suíça e de lá para o Liceu do Porto, Portugal, e nunca frequentou uma escola inglesa. Mas o inglês dificilmente é uma língua adotada para ele, pois aprendeu-o com a sua mãe, uma mulher inglesa.
Hoje, Rafael Sabatini é considerado “O Alexandre Dumas da Ficção Moderna”.
THE LION’S SKIN THE SHAME OF MOTLEY THE TRAMPLING OF THE LILIES THE GATES OF DOOM THE STROLLING SAINT THE BANNER OF THE BULL THE CAROLINIAN SAINT MARTIN’S SUMMER MISTRESS WILDING FORTUNE’S FOOL BARDELYS THE MAGNIFICENT THE SNARE CAPTAIN BLOOD THE SEA-HAWK SCARAMOUCHE
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LAST OF THE GREAT SCOUTS
A história de vida de “Buffalo Bill” pela sua irmã Helen Cody Wetmore, com Prefácio e conclusão de Zane Grey.
OS LIVROS DE ZANE GREY PARA RAPAZES
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Notas do Transcritor:
- O texto entre sublinhados está em itálico (itálico). - As páginas em branco foram removidas. - Erros tipográficos óbvios foram corrigidos silenciosamente. - Na linha "On this particular night our guests were Miss Ganett, and Colonel Carter who lives near the church." não é claro a quem "who lives" se refere, por isso foi adicionada uma vírgula como a alteração mais simples.