O Mistério de Edwin Drood
por Charles Dickens
Conteúdo
CAPÍTULO I. O AMANHECER CAPÍTULO II. UM DEÃO, E UM CABIDO TAMBÉM CAPÍTULO III. A CASA DAS FREIRAS CAPÍTULO IV. O SR. SAPSEA CAPÍTULO V. O SR. DURDLES E AMIGO CAPÍTULO VI. FILANTROPIA NO CANON CORNER CAPÍTULO VII. MAIS DO QUE UMA CONFIDÊNCIA CAPÍTULO VIII. ADAGAS DESENVAINHADAS CAPÍTULO IX. PÁSSAROS NO MATO CAPÍTULO X. SUAVIZANDO O CAMINHO CAPÍTULO XI. UM RETRATO E UM ANEL CAPÍTULO XII. UMA NOITE COM DURDLES CAPÍTULO XIII. AMBOS NO SEU MELHOR CAPÍTULO XIV. QUANDO ESTES TRÊS SE ENCONTRARÃO NOVAMENTE? CAPÍTULO XV. IMPUGNADO CAPÍTULO XVI. DEVOTADO CAPÍTULO XVII. FILANTROPIA, PROFISSIONAL E NÃO PROFISSIONAL CAPÍTULO XVIII. UM COLONO EM CLOISTERHAM CAPÍTULO XIX. SOMBRA NO RELÓGIO DE SOL CAPÍTULO XX. UMA FUGA CAPÍTULO XXI. UM RECONHECIMENTO CAPÍTULO XXII. UM ESTADO DE COISAS ÁSPERO SE APROXIMA CAPÍTULO XXIII. O AMANHECER NOVAMENTE
O MISTÉRIO DE EDWIN DROOD
CAPÍTULO I. O AMANHECER
Uma antiga torre de Catedral inglesa? Como pode a antiga torre da Catedral inglesa estar aqui! A bem conhecida e maciça torre quadrada cinzenta da sua velha Catedral? Como pode ela estar aqui! Não há ponta de ferro enferrujado no ar, entre o olho e ela, a partir de qualquer ponto da verdadeira vista. O que é a ponta que intervém, e quem a colocou lá? Talvez tenha sido colocada por ordens do Sultão para o empalamento de uma horda de ladrões turcos, um por um. É assim, pois címbalos soam, e o Sultão passa para o seu palácio em longo cortejo. Dez mil cimitarras brilham à luz do sol, e trinta mil raparigas bailarinas espalham flores. Depois, seguem-se elefantes brancos ajaezados em inúmeras cores deslumbrantes, e infinitos em número e acompanhantes. Ainda assim, a Torre da Catedral ergue-se em segundo plano, onde não pode estar, e ainda assim não há figura contorcida na ponta sombria. Espera! Será a ponta uma coisa tão baixa como a ponta enferrujada no topo de um poste de uma velha cama que tombou toda de lado? Algum período vago de riso sonolento deve ser dedicado à consideração desta possibilidade.
Tremendo da cabeça aos pés, o homem cuja consciência dispersa se recompôs assim fantasticamente, levanta-se finalmente, apoia o seu corpo trémulo nos braços, e olha à volta. Ele está no mais humilde e apertado dos pequenos quartos. Através da cortina de janela esfarrapada, a luz do início do dia entra furtivamente vinda de um pátio miserável. Ele jaz, vestido, atravessado numa cama grande e indecorosa, sobre uma estrutura de cama que de facto cedeu sob o peso que suportava. Deitados, também vestidos e também atravessados na cama, não no comprimento, estão um Chinês, um Lascar, e uma mulher acabrunhada. Os dois primeiros estão num sono ou estupor; a última está a soprar para um tipo de cachimbo, para o acender. E enquanto ela sopra, e sombreando-o com a sua mão magra, concentra a sua centelha de luz vermelha, serve na manhã baça como uma lâmpada para lhe mostrar o que ele vê dela.
“Outro?” diz esta mulher, num sussurro rabugento e rouco. “Quer outro?”
Ele olha à sua volta, com a mão na testa.
“Já fumou uns cinco desde que chegou à meia-noite,” continua a mulher, enquanto se queixa cronicamente. “Pobre de mim, pobre de mim, a minha cabeça está tão má. Aqueles dois vieram atrás de si. Ah, pobre de mim, o negócio está parado, está parado! Poucos Chineses pelos Docks, e menos Lascares, e nenhuns navios a chegar, dizem eles! Aqui está outro pronto para si, querido. Lembrar-se-á como uma boa alma, não se lembrará, que o preço de mercado está terrivelmente alto agora? Mais de três xelins e seis pence por uma dedada! E lembrar-se-á de que ninguém além de mim (e o Jack Chinês do outro lado do pátio; mas ele não o consegue fazer tão bem como eu) tem o verdadeiro segredo de o misturar? Pagará conforme, querido, pagará?”
Ela sopra para o cachimbo enquanto fala, e, borbulhando ocasionalmente nele, inala grande parte do seu conteúdo.
“Ó, eu, ó eu, os meus pulmões estão fracos, os meus pulmões estão maus! Está quase pronto para si, querido. Ah, pobre de mim, pobre de mim, a minha pobre mão treme como se fosse cair! Vejo-o a voltar a si, e digo para mim mesma, ‘Vou ter outro pronto para ele, e ele terá em mente o preço de mercado do ópio, e pagará conforme.’ Ó, a minha pobre cabeça! Eu faço os meus cachimbos de velhas garrafas de tinta de um penny, vê, querido — esta é uma — e encaixo uma boquilha, desta maneira, e tiro a minha mistura desta dedal com esta pequena colher de chifre; e assim encho, querido. Ah, os meus pobres nervos! Fiquei bêbada de morte durante dezasseis anos antes de me dedicar a isto; mas isto não me faz mal, nem vale a pena falar. E tira a fome tão bem como a comida, querido.”
Ela entrega-lhe o cachimbo quase vazio, e recua, virando-se de bruços.
Ele levanta-se instavelmente da cama, coloca o cachimbo na pedra da lareira, puxa a cortina esfarrapada, e olha com repugnância para os seus três companheiros. Ele nota que a mulher se fumou a si própria até uma estranha semelhança com o Chinês. A sua forma de bochecha, olho e têmpora, e a sua cor, são repetidas nela. O referido Chinês luta convulsivamente com um dos seus muitos Deuses ou Demónios, talvez, e rosna horrivelmente. O Lascar ri-se e baba-se pela boca. A anfitriã está imóvel.
“Que visões poderá ela ter?” o homem que desperta medita, enquanto vira o rosto dela na sua direção, e fica a olhar para ele. “Visões de muitas lojas de talho, e tabernas, e muito crédito? De um aumento de clientes horríveis, e esta horrível estrutura de cama colocada de pé novamente, e este horrível pátio varrido de fresco? A que pode ela elevar-se, sob qualquer quantidade de ópio, mais alto do que isso! — Eh?”
Ele inclina o ouvido para ouvir os seus resmungos.
“Ininteligível!”
Enquanto ele observa os espasmos e dardos que irrompem do rosto e membros dela, como relâmpagos intermitentes fora de um céu escuro, algum contágio neles apodera-se dele: de tal modo que ele tem de se retirar para uma poltrona magra junto à lareira — colocada ali, talvez, para tais emergências — e sentar-se nela, segurando-se firme, até que tenha vencido este espírito impuro de imitação.
Depois ele volta, atira-se ao Chinês, e agarrando-o com ambas as mãos pela garganta, vira-o violentamente na cama. O Chinês agarra as mãos agressoras, resiste, ofega, e protesta.
“O que dizes?”
Uma pausa vigilante.
“Ininteligível!”
Soltando lentamente o seu aperto enquanto ouve o jargão incoerente com um sobrolho atento, ele vira-se para o Lascar e arrasta-o para o chão. Ao cair, o Lascar começa numa atitude meio erguida, fita com os olhos, agita-se ferozmente com os braços, e desembainha uma faca fantasma. Torna-se então evidente que a mulher tomou posse desta faca, por segurança; pois, ela também a levantar-se, e a contê-lo e a exortá-lo, a faca é visível no seu vestido, não no dele, quando eles adormecidos caem de volta, lado a lado.
Houve tagarelice e barulho suficientes entre eles, mas sem propósito. Quando alguma palavra distinta foi lançada ao ar, não teve sentido ou sequência. Por isso “ininteligível!” é novamente o comentário do observador, feito com algum aceno tranquilizado da cabeça, e um sorriso sombrio. Ele coloca então algum dinheiro de prata na mesa, encontra o seu chapéu, tateia o seu caminho pelas escadas partidas, dá um bom dia a algum porteiro infestado de ratos, na cama num casebre preto debaixo das escadas, e sai.
Naquela mesma tarde, a maciça torre quadrada cinzenta de uma velha Catedral ergue-se perante a vista de um viajante exausto. Os sinos estão a tocar para o serviço diário de vésperas, e ele tem necessariamente de assistir a ele, dir-se-ia, pela sua pressa em alcançar a porta aberta da Catedral. O coro está a vestir as suas sujas túnicas brancas, com pressa, quando ele chega entre eles, veste a sua própria túnica, e junta-se ao cortejo que entra para o serviço. Então, o Sacristão tranca os portões de barras de ferro que dividem o santuário da capela-mor, e todos do cortejo, tendo corrido para os seus lugares, escondem os seus rostos; e então as palavras entoadas, “QUANDO O HOMEM PERVERSO—” elevam-se entre as nervuras dos arcos e vigas do telhado, despertando um trovão murmurado.
CAPÍTULO II. UM DEÃO, E UM CABIDO TAMBÉM
Quem quer que tenha observado aquela ave sedada e clerical, a gralha, talvez tenha notado que quando ela empreende o seu voo para casa ao cair da noite, numa companhia sedada e clerical, duas gralhas se destacarão subitamente do resto, refarão o seu voo por alguma distância, e ali pairarão e demorar-se-ão; transmitindo aos simples homens a fantasia de que é de alguma importância oculta para o corpo político que este par astuto finja ter renunciado à ligação com ele.
De forma semelhante, tendo o serviço terminado na velha Catedral com a torre quadrada, e o coro a sair apressadamente novamente, e diversas pessoas veneráveis de aspeto semelhante a gralhas a dispersar, duas destas últimas refazem os seus passos, e caminham juntas no ecoante Claustro.
Não só o dia está a minguar, mas também o ano. O sol baixo é fogoso e contudo frio atrás da ruína do mosteiro, e a trepadeira-virgem na parede da Catedral espalhou metade das suas folhas vermelho-escuras pelo pavimento. Houve chuva esta tarde, e um estremecimento invernal percorre as pequenas poças nas lajes rachadas e irregulares, e através das gigantescas olaias à medida que derramam uma rajada de lágrimas. As suas folhas caídas jazem espalhadas densamente por toda a parte. Algumas destas folhas, numa corrida tímida, procuram santuário dentro da porta baixa arqueada da Catedral; mas dois homens que saem resistem-lhes, e expulsam-nas novamente com os pés; feito isto, um dos dois tranca a porta com uma boa chave, e o outro afasta-se com um livro de música em fólio.
“Era o Sr. Jasper, Tope?”
“Sim, Sr. Deão.”
“Ele ficou até tarde.”
“Sim, Sr. Deão. Esperei por ele, Vossa Reverência. Ele sentiu-se um pouco indisposto.”
“Diga ‘tomado’, Tope — ao Deão,” a gralha mais jovem interpõe-se num tom baixo com este toque de correção, como quem diria: “Pode oferecer má gramática aos leigos, ou ao clero mais humilde, não ao Deão.”
O Sr. Tope, Sacristão-Chefe e Guia, e habituado a ser altivo com grupos de excursão, recusa com uma altivez silenciosa perceber que lhe foi feita qualquer sugestão.
“E quando e como é que o Sr. Jasper foi tomado — pois, como o Sr. Crisparkle observou, é melhor dizer tomado — tomado—” repete o Deão; “quando e como é que o Sr. Jasper foi Tomado—”
“Tomado, senhor,” murmura Tope deferentemente.
“—Indisposto, Tope?”
“Bem, senhor, o Sr. Jasper ficou tão ofegante—”
“Eu não diria ‘tão ofegante’, Tope,” interpõe-se o Sr. Crisparkle com o mesmo toque de antes. “Não é inglês — para o Deão.”
“Ofegante a esse ponto,” o Deão (não pouco lisonjeado por esta homenagem indireta) comenta condescendentemente, “seria preferível.”
“A respiração do Sr. Jasper estava tão notavelmente curta” — assim discretamente o Sr. Tope abre o seu caminho à volta da rocha submersa — “quando ele entrou, que o perturbou imenso conseguir tirar as suas notas: o que talvez tenha sido a causa de ele ter tido uma espécie de ataque depois de um pouco. A sua memória ficou ATORDOADA.” O Sr. Tope, com os olhos no Reverendo Sr. Crisparkle, dispara esta palavra, como se o desafiasse a melhorá-la: “e uma turvação e vertigem apoderaram-se dele tão estranhas como nunca vi: embora ele não parecesse importar-se particularmente com isso, ele próprio. No entanto, um pouco de tempo e um pouco de água tiraram-no do seu ATORDOAMENTO.” O Sr. Tope repete a palavra e a sua ênfase, com o ar de quem diz: “Como fiz um sucesso, fá-lo-ei novamente.”
“E o Sr. Jasper foi para casa completamente ele próprio, foi?” perguntou o Deão.
“Vossa Reverência, ele foi para casa completamente ele próprio. E fico contente por ver que ele está a mandar acender o seu lume, pois está frio depois da humidade, e a Catedral teve tanto uma sensação de humidade como um toque de humidade esta tarde, e ele estava muito friorento.”
Os três olham para uma antiga portaria de pedra que atravessa o Claustro, com uma passagem arqueada sob ela. Através da sua janela gradeada, um fogo brilha sobre a cena que escurece rapidamente, envolvendo em sombra as massas pendentes de hera e trepadeira que cobrem a fachada do edifício. À medida que o sino profundo da Catedral soa a hora, uma ondulação de vento percorre estas à sua distância, como uma ondulação do som solene que zune através de túmulo e torre, nicho partido e estátua desfigurada, na estrutura ali perto.
“O sobrinho do Sr. Jasper está com ele?” pergunta o Deão.
“Não, senhor,” respondeu o Sacristão, “mas esperado. Lá está a sua própria sombra solitária entre as suas duas janelas — a que olha para este lado, e a que olha para baixo para a High Street — a puxar as suas próprias cortinas agora.”
“Bem, bem,” diz o Deão, com um ar vivaz de terminar a pequena conferência, “espero que o coração do Sr. Jasper não esteja demasiado posto no seu sobrinho. Os nossos afetos, por mais louváveis que sejam, neste mundo transitório, nunca nos devem dominar; devemos guiá-los, guiá-los. Acho que não sou desagradavelmente lembrado do meu jantar, ao ouvir o meu sino de jantar. Talvez, Sr. Crisparkle, antes de ir para casa, passe por casa do Jasper?”
“Certamente, Sr. Deão. E diga-lhe que teve a bondade de desejar saber como ele estava?”
“Sim; faça isso, faça isso. Certamente. Desejava saber como ele estava. De toda a maneira. Desejou saber como ele estava.”
Com um ar agradável de patrocínio, o Deão quase levanta o seu chapéu peculiar como um Deão bem-disposto pode, e dirige as suas polainas compostas para a sala de jantar avermelhada da confortável velha casa de tijolo vermelho onde ele está presentemente, “em residência” com a Sra. Deão e a Srta. Deão.
O Sr. Crisparkle, Cónego Menor, justo e rosado, e perpetuamente a lançar-se de cabeça em todas as águas profundas e correntes do campo circundante; o Sr. Crisparkle, Cónego Menor, madrugador, musical, clássico, alegre, gentil, bem-humorado, sociável, contente, e jovial; o Sr. Crisparkle, Cónego Menor e bom homem, ultimamente “Treinador” nas principais estradas pagãs, mas desde então promovido por um patrono (grato por um filho bem ensinado) para o seu presente cargo cristão; dirige-se para a portaria, no seu caminho para casa para o seu chá antecipado.
“Lamento ouvir de Tope que não tem estado bem, Jasper.”
“Ó, não foi nada, nada!”
“Parece um pouco gasto.”
“Pareço? Ó, não creio. O que é melhor, não me sinto assim. Tope fez muito caso disso, suspeito. É o seu negócio fazer o máximo de tudo o que diz respeito à Catedral, sabe.”
“Posso dizer ao Deão — chamo expressamente da parte do Deão — que está tudo bem de novo?”
A resposta, com um ligeiro sorriso, é: “Certamente; com os meus cumprimentos e agradecimentos ao Deão.”
“Fico contente por saber que espera o jovem Drood.”
“Espero o querido rapaz a cada momento.”
“Ah! Ele far-lhe-á mais bem do que um médico, Jasper.”
“Mais bem do que uma dúzia de médicos. Pois amo-o muito, e não amo médicos, nem coisas de médicos.”
O Sr. Jasper é um homem moreno de uns vinte e seis anos, com cabelo e suíças pretos, espessos, lustrosos e bem arranjados. Ele parece mais velho do que é, como os homens morenos muitas vezes parecem. A sua voz é profunda e boa, o seu rosto e figura são bons, a sua maneira é um pouco sombria. O seu quarto é um pouco sombrio, e pode ter tido a sua influência na formação da sua maneira. Está maioritariamente na sombra. Mesmo quando o sol brilha brilhantemente, raramente toca o piano de cauda no nicho, ou os livros de música em fólio no suporte, ou as estantes na parede, ou o retrato inacabado de uma rapariga de escola florescente pendurado sobre a cornija da lareira; o seu cabelo castanho esvoaçante atado com uma fita azul, e a sua beleza notável por um toque bastante infantil, quase bebé, de descontentamento atrevido, comicamente consciente de si mesmo. (Não há o menor mérito artístico neste retrato, que é uma mera pintura grosseira; mas é claro que o pintor fê-lo humoristicamente — poder-se-ia quase dizer, vingativamente — como o original.)
“Sentiremos a sua falta, Jasper, nas ‘Quartas-Feiras Musicais Alternadas’ esta noite; mas sem dúvida que está melhor em casa. Boa noite. Deus o abençoe! ‘Dizei-me, pas-tores, di-zei-me; dizei-me, já vistes (já vistes, já vistes, já vistes) a minha Flo-ra passar por este caminho!’” O melodiosamente bom Cónego Menor, o Reverendo Septimus Crisparkle, entrega-se assim, em ritmo musical, enquanto retira o seu rosto amável da porta e leva-o para baixo.
Sons de reconhecimento e saudação passam entre o Reverendo Septimus e outra pessoa, ao pé da escada. O Sr. Jasper ouve, levanta-se da sua cadeira, e apanha um jovem nos seus braços, exclamando:
“Meu querido Edwin!”
“Meu querido Jack! Tão contente por vê-lo!”
“Tira o teu sobretudo, rapaz brilhante, e senta-te aqui no teu próprio canto. Os teus pés não estão molhados? Tira as tuas botas. Tira as tuas botas.”
“Meu querido Jack, estou seco como um osso. Não seja piegas, não seja um bom rapaz. Gosto de qualquer coisa melhor do que ser piegas.”
Com o travão sobre ele de ser insimpateticamente contido num estouro genial de entusiasmo, o Sr. Jasper fica imóvel, e olha atentamente para o jovem, despindo-se do seu casaco exterior, chapéu, luvas, e assim por diante. De uma vez por todas, um olhar de intenção e intensidade — um olhar de afeto faminto, exigente, vigilante, e contudo devotado — está sempre, agora e sempre depois, no rosto de Jasper sempre que o rosto de Jasper é endereçado nesta direção. E sempre que é assim endereçado, nunca é, nesta ocasião ou em qualquer outra, divididamente endereçado; é sempre concentrado.
“Agora estou bem, e agora vou tomar o meu canto, Jack. Algum jantar, Jack?”
O Sr. Jasper abre uma porta na extremidade superior do quarto, e revela um pequeno quarto interior agradavelmente iluminado e preparado, onde uma senhora composta está no ato de colocar pratos na mesa.
“Que velho Jack alegre é ele!” grita o jovem, com um bater de mãos. “Olha aqui, Jack; diz-me; de quem é o aniversário?”
“Não é o teu, eu sei,” responde o Sr. Jasper, pausando para considerar.
“Não é o meu, sabe? Não; não é o meu, eu sei! Da Pussy!”
Fixo como o olhar que o jovem encontra é, há contudo nele algum estranho poder de incluir subitamente o esboço sobre a cornija da lareira.
“Da Pussy, Jack! Devemos beber Muitos felizes retornos para ela. Vamos, tio; leve o seu sobrinho cumpridor e esfomeado para jantar.”
Enquanto o rapaz (pois ele é pouco mais) coloca uma mão no ombro de Jasper, Jasper cordial e alegremente coloca uma mão no seu ombro, e assim à moda de Marselhesa eles vão jantar.
“E, Deus! aí está a Sra. Tope!” grita o rapaz. “Mais adorável do que nunca!”
“Nunca se preocupe comigo, Mestre Edwin,” retorque a mulher do Sacristão; “eu posso cuidar de mim própria.”
“Você não pode. Você é demasiado bonita. Dê-me um beijo porque é o aniversário da Pussy.”
“Eu dar-lhe-ia uma Pussy, jovem, se eu fosse a Pussy, como você lhe chama,” a Sra. Tope retorque corando, depois de ser saudada. “O seu tio está demasiado envolto em si, é isso que acontece. Ele faz tanto de si, que é a minha opinião que você pensa que só tem de chamar as suas Pussys às dúzias, para as fazer vir.”
“Você esquece-se, Sra. Tope,” interpõe-se o Sr. Jasper, tomando o seu lugar à mesa com um sorriso genial, “e você também, Ned, que Tio e Sobrinho são palavras proibidas aqui por consentimento comum e acordo expresso. Pelo que estamos prestes a receber, seja louvado o Seu santo nome!”
“Feito como o Deão! Testemunha, Edwin Drood! Por favor, corte, Jack, pois eu não consigo.”
Este gracejo dá início ao jantar. Pouco para o presente propósito, ou para qualquer propósito, é dito, enquanto está em curso de ser despachado. Finalmente a toalha é retirada, e um prato de nozes e uma garrafa de xerez de cor rica são colocados sobre a mesa.
“Eu digo! Diz-me, Jack,” o jovem continua então: “sente realmente e verdadeiramente como se a menção da nossa relação nos dividisse de todo? Eu não.”
“Tios como regra, Ned, são muito mais velhos do que os seus sobrinhos,” é a resposta, “que eu tenho esse sentimento instintivamente.”
“Como regra! Ah, talvez! Mas qual é uma diferença de idade de meia dúzia de anos ou mais? E alguns tios, em grandes famílias, são até mais jovens do que os seus sobrinhos. Por Jorge, oxalá fosse o caso connosco!”
“Porquê?”
“Porque se fosse, eu tomaria a liderança consigo, Jack, e seria tão sábio como Vai-te, Cuidado aborrecido! que tornou um jovem homem cinzento, e Vai-te, Cuidado aborrecido! que tornou um velho homem em barro. — Olá, Jack! Não beba.”
“Por que não?”
“Pergunta por que não, no aniversário da Pussy, e nenhuns Felizes retornos propostos! Pussy, Jack, e muitos deles! Felizes retornos, quero dizer.”
Depositando um toque afetuoso e risonho sobre a mão estendida do rapaz, como se fosse ao mesmo tempo a sua cabeça vertiginosa e o seu coração leve, o Sr. Jasper bebe o brinde em silêncio.
“Hip, hip, hip, e nove vezes nove, e um para terminar, e tudo isso, entendido. Viva, viva, viva! — E agora, Jack, vamos ter uma conversinha sobre a Pussy. Dois pares de quebra-nozes? Passa-me um e pega no outro.” Crack. “Como vai a Pussy, Jack?”
“Com a música dela? Razoavelmente.”
“Que sujeito terrivelmente consciencioso tu és, Jack! Mas eu sei, que o Senhor te abençoe! Desatenta, não é?”
“Ela pode aprender qualquer coisa, se quiser.”
“Se quiser! Por Deus, é isso mesmo. Mas se não quiser?”
Crack! — da parte do Sr. Jasper.
“Como é que ela está, Jack?”
O rosto concentrado do Sr. Jasper volta a incluir o retrato enquanto responde: “Muito parecida com o teu esboço, de facto.”
“Tenho um pouco de orgulho dele”, diz o jovem, olhando para o esboço com complacência, e depois fechando um olho, e tirando uma perspetiva corrigida através de uma ponte nivelada de quebra-nozes no ar: “Não está mal apanhado de memória. Mas deveria ter captado aquela expressão bastante bem, pois vejo-a frequentemente.”
Crack! — da parte de Edwin Drood.
Crack! — da parte do Sr. Jasper.
“Na verdade”, retoma o primeiro, após um mergulho silencioso entre os seus fragmentos de noz com um ar de despeito, “vejo-a sempre que vou ver a Pussy. Se não a encontro na cara dela, deixo-a lá. — Tu sabes que o faço, Srta. Desdém Presunçoso. Bu!” Com um rodopio dos quebra-nozes em direção ao retrato.
Crack! crack! crack. Lentamente, da parte do Sr. Jasper.
Crack. Agudamente da parte de Edwin Drood.
Silêncio de ambos os lados.
“Perdeste a língua, Jack?”
“Encontraste a tua, Ned?”
“Não, mas a sério; — não é, sabes, apesar de tudo—”
O Sr. Jasper levanta as suas sobrancelhas escuras, interrogativamente.
“Não é insatisfatório ser privado de escolha num assunto desses? Ali, Jack! Digo-te! Se eu pudesse escolher, escolheria a Pussy entre todas as raparigas bonitas do mundo.”
“Mas tu não tens de escolher.”
“É disso que me queixo. O meu pai, já falecido, e o pai da Pussy, também já falecido, tiveram de nos casar por antecipação. Por que raio — o Diabo, ia eu dizer, se tivesse sido respeitoso para com a memória deles — não nos puderam deixar em paz?”
“Tut, tut, querido rapaz”, repreende o Sr. Jasper, num tom de gentil desaprovação.
“Tut, tut? Sim, Jack, para ti é tudo muito fácil. Podes levar as coisas com calma. A tua vida não está traçada à escala, nem alinhada e pontilhada para ti, como o plano de um agrimensor. Não tens nenhuma suspeita desconfortável de que és imposto a alguém, nem ninguém tem uma suspeita desconfortável de que ela é imposta a ti, ou que tu és imposto a ela. Podes escolher por ti próprio. A vida, para ti, é uma ameixa com o seu brilho natural; não foi demasiado cuidadosamente limpa para ti—”
“Não pares, querido amigo. Continua.”
“Posso ter ferido os teus sentimentos de alguma forma, Jack?”
“Como podes ter ferido os meus sentimentos?”
“Bom Deus, Jack, pareces terrivelmente doente! Há uma película estranha sobre os teus olhos.”
O Sr. Jasper, com um sorriso forçado, estende a mão direita, como se, de uma só vez, desarmasse a apreensão e ganhasse tempo para melhorar. Passado algum tempo, diz fracamente:
“Tenho tomado ópio para uma dor — uma agonia — que por vezes me domina. Os efeitos do medicamento apoderam-se de mim como uma praga ou uma nuvem, e passam. Vês os efeitos a passar; desaparecerão imediatamente. Olha para longe de mim. Eles passarão ainda mais depressa.”
Com um rosto assustado, o mais jovem obedece, baixando os olhos para as cinzas na lareira. Sem relaxar o seu próprio olhar fixo no fogo, mas antes fortalecendo-o com um aperto feroz e firme na sua poltrona, o mais velho permanece rígido por alguns momentos, e então, com gotas espessas na testa, e uma respiração ofegante e aguda, volta a ser como era antes. Ao acalmar-se na sua cadeira, o seu sobrinho cuida dele, gentil e assiduamente, até que ele recupere totalmente. Quando Jasper recupera, pousa uma mão terna no ombro do sobrinho e, num tom de voz menos perturbado do que o teor das suas palavras — na verdade com algo de pilhéria ou zombaria — dirige-se a ele desta forma:
“Diz-se que existe um esqueleto escondido em cada casa; mas tu achavas que não havia nenhum na minha, querido Ned.”
“Pela minha vida, Jack, eu pensava mesmo. Contudo, quando considero que até na casa da Pussy — se ela tivesse uma — e na minha — se eu tivesse uma—”
“Tu ias dizer (mas eu interrompi-te apesar de mim mesmo) como a minha vida é sossegada. Sem rodopio e alvoroço à minha volta, sem comércio ou cálculos perturbadores, sem risco, sem mudança de lugar, eu próprio dedicado à arte que sigo, o meu trabalho o meu prazer.”
“Eu estava realmente a dizer algo desse género, Jack; mas vês, tu, ao falares de ti próprio, deixas quase necessariamente de fora muito do que eu teria incluído. Por exemplo: eu teria incluído em primeiro plano o facto de seres tão respeitado como Precentor Leigo, ou Escriturário Leigo, ou lá como chamam a isso, nesta Catedral; o teu usufruto da reputação de teres feito tais maravilhas com o coro; a tua escolha de companhia, e a tua posição tão independente neste lugar antigo e peculiar; o teu dom para o ensino (ora, até a Pussy, que não gosta de ser ensinada, diz que nunca houve um Mestre como tu!), e as tuas relações.”
“Sim; percebi para onde estavas a inclinar-te. Detesto isso.”
“Detestas, Jack?” (Muito perplexo.)
“Detesto. A monotonia apertada da minha existência mói-me grão a grão. Como soa o nosso serviço para ti?”
“Lindo! Completamente celestial!”
“Muitas vezes soa-me completamente diabólico. Estou tão cansado disso. Os ecos da minha própria voz entre os arcos parecem zombar de mim com a minha rotina diária e penosa. Nenhum monge miserável que tenha vivido a sua vida a cantarolar naquele lugar sombrio, antes de mim, pode ter estado mais cansado disso do que eu. Ele podia procurar alívio (e procurava) esculpindo demónios nos bancos e assentos e mesas. O que devo fazer? Devo começar a esculpi-los do meu próprio coração?”
“Pensei que tivesses encontrado exatamente o teu lugar na vida, Jack”, responde Edwin Drood, espantado, inclinando-se na sua cadeira para pousar uma mão simpática no joelho de Jasper, e olhando para ele com um rosto ansioso.
“Sei que pensaste. Todos pensam.”
“Bem, suponho que sim”, diz Edwin, meditando em voz alta. “A Pussy pensa.”
“Quando é que ela te disse isso?”
“Da última vez que estive aqui. Lembras-te de quando foi. Há três meses.”
“Como é que ela formulou isso?”
“Oh, ela apenas disse que se tinha tornado tua aluna, e que tu eras feito para a tua vocação.”
O jovem olha para o retrato. O mais velho vê-o nele.
“Seja como for, meu caro Ned”, retoma Jasper, enquanto abana a cabeça com uma grave jovialidade, “tenho de me submeter à minha vocação: o que é praticamente a mesma coisa exteriormente. É demasiado tarde para encontrar outra agora. Isto é uma confidência entre nós.”
“Será sagradamente preservada, Jack.”
“Confiei-ma a ti, porque—”
“Sinto isso, garanto-te. Porque somos amigos chegados, e porque tu me amas e confias em mim, tal como eu te amo e confio em ti. Ambas as mãos, Jack.”
Enquanto cada um permanece olhando nos olhos do outro, e enquanto o tio segura as mãos do sobrinho, o tio prossegue assim:
“Sabes agora, não sabes, que até um pobre corista monótono e moedor de música — no seu nicho — pode ser perturbado por algum tipo vago de ambição, aspiração, inquietação, insatisfação, como lhe havemos de chamar?”
“Sim, querido Jack.”
“E lembrar-te-ás?”
“Meu caro Jack, pergunto-te apenas, será provável que eu me esqueça do que disseste com tanto sentimento?”
“Toma-o como um aviso, então.”
No ato de ter as mãos libertadas, e de recuar um passo, Edwin hesita por um instante para considerar a aplicação destas últimas palavras. O instante passado, ele diz, visivelmente comovido:
“Receio ser apenas um tipo superficial, Jack, e que a minha cabeça não seja das melhores. Mas não preciso dizer que sou jovem; e talvez não piore à medida que envelheço. Seja como for, espero ter algo impressionável dentro de mim, que sente — profundamente sente — o desinteresse de desnudares dolorosamente o teu próprio eu, como um aviso para mim.”
A firmeza do rosto e da figura do Sr. Jasper torna-se tão maravilhosa que a sua respiração parece ter parado.
“Não pude deixar de notar, Jack, que te custou um grande esforço, e que ficaste muito comovido, e muito diferente do teu eu habitual. Claro que sabia que gostavas imenso de mim, mas não estava realmente preparado para te, como posso dizer, sacrificares por mim dessa maneira.”
O Sr. Jasper, tornando-se novamente um homem que respira, sem o menor estágio de transição entre os dois estados extremos, levanta os ombros, ri-se e acena com o braço direito.
“Não; não afastes o sentimento, Jack; por favor, não; pois falo muito a sério. Não tenho dúvidas de que esse estado de espírito doentio que tão poderosamente descreveste é acompanhado por algum sofrimento real, e é difícil de suportar. Mas deixa-me tranquilizar-te, Jack, quanto às hipóteses de isso me dominar. Não creio estar a caminho disso. Daqui a alguns meses, menos de um ano, sabes, levarei a Pussy da escola como a Sra. Edwin Drood. Depois irei fazer engenharia para o Oriente, e a Pussy comigo. E embora tenhamos as nossas pequenas discussões agora, resultantes de uma certa monotonia inevitável que acompanha os nossos namoros, devido ao facto de o seu fim estar todo decidido de antemão, ainda assim não tenho dúvidas de que nos daremos capitalmente bem nessa altura, quando estiver feito e não tiver remédio. Em suma, Jack, para voltar à velha canção que estava a citar livremente ao jantar (e quem conhece velhas canções melhor do que tu?), a minha mulher dançará, e eu cantarei, passando o dia tão alegremente. Sobre a beleza da Pussy não pode haver dúvidas; — e quando fores boa também, Pequena Menina Insolente”, apostrofando mais uma vez o retrato, “queimarei o teu retrato cómico, e pintarei outro para o teu mestre de música.”
O Sr. Jasper, com a mão no queixo e com uma expressão de benevolência meditativa no rosto, observou atentamente cada olhar e gesto animados que acompanharam a entrega destas palavras. Ele permanece nessa atitude depois de terem sido ditas, como se estivesse numa espécie de fascínio resultante do seu forte interesse pelo espírito juvenil que ele ama tão bem. Então diz, com um sorriso tranquilo:
“Não queres ser avisado, então?”
“Não, Jack.”
“Não podes ser avisado, então?”
“Não, Jack, não por ti. Além de não me considerar realmente em perigo, não gosto de te ver a colocar nessa posição.”
“Vamos dar um passeio no cemitério?”
“Com certeza. Não te importas que eu dê um salto por um momento até à Casa das Freiras e deixe lá um pacote? Apenas luvas para a Pussy; tantos pares de luvas quantos os anos que ela faz hoje. Um pouco poético, Jack?”
O Sr. Jasper, ainda na mesma atitude, murmura: “‘Nada na vida tão doce’, Ned!”
“Aqui está o pacote no bolso do meu sobretudo. Têm de ser entregues esta noite, ou a poesia desaparece. É contra as regras eu visitar à noite, mas não deixar um pacote. Estou pronto, Jack!”
O Sr. Jasper dissolve a sua atitude, e saem juntos.
CAPÍTULO III. A CASA DAS FREIRAS
Por razões suficientes, que esta narrativa revelará à medida que avança, um nome fictício deve ser atribuído à velha cidade Catedral. Deixemo-lo constar nestas páginas como Cloisterham. Foi outrora possivelmente conhecida pelos Druidas por outro nome, e certamente pelos Romanos por outro, e pelos Saxões por outro, e pelos Normandos por outro; e um nome mais ou menos no decurso de muitos séculos pode ser de pouco momento para as suas crónicas poeirentas.
Uma cidade antiga, Cloisterham, e não um lugar de habitação adequado para alguém com anseios pelo mundo ruidoso. Uma cidade monótona e silenciosa, que deriva um sabor terroso de toda a sua cripta da Catedral, e que tanto abunda em vestígios de túmulos monásticos, que as crianças de Cloisterham cultivam pequenas saladas no pó de abades e abadessas, e fazem bolos de terra de freiras e frades; enquanto cada lavrador nos seus campos periféricos presta aos outrora poderosos Lordes Tesoureiros, Arcebispos, Bispos e semelhantes, a atenção que o Ogro do livro de histórias desejava prestar ao seu visitante não convidado, e mói os seus ossos para fazer o seu pão.
Uma cidade sonolenta, Cloisterham, cujos habitantes parecem supor, com uma inconsistência mais estranha do que rara, que todas as suas mudanças ficaram para trás, e que não virão mais. Uma moral peculiar a derivar da antiguidade, contudo mais antiga do que qualquer antiguidade rastreável. Tão silenciosas são as ruas de Cloisterham (embora propensas a ecoar à menor provocação), que num dia de verão as persianas das suas lojas mal se atrevem a bater com o vento sul; enquanto os vagabundos queimados pelo sol, que passam e olham, aceleram um pouco o seu coxeio, para que possam sair mais depressa dos confins da sua respeitabilidade opressiva. Este é um feito não difícil de alcançar, vendo que as ruas da cidade de Cloisterham são pouco mais do que uma rua estreita pela qual se entra e sai: sendo o resto na sua maioria pátios dececionantes com bombas de água e sem passagem — exceção feita ao recinto da Catedral, e a um assentamento Quaker pavimentado, em cor e conformação geral muito semelhante a um chapéu de senhora Quaker, num canto sombrio.
Numa palavra, Cloisterham é uma cidade de outro tempo e de um tempo passado, com o seu sino de Catedral rouco, as suas gralhas roucas pairando em torno da torre da Catedral, as suas gralhas ainda mais roucas e menos distintas nos bancos muito abaixo. Fragmentos de muralhas antigas, capelas de santos, casas do capítulo, conventos e mosteiros foram construídos de forma incongruente ou obstrutiva em muitas das suas casas e jardins, tal como noções misturadas semelhantes se incorporaram em muitas das mentes dos seus cidadãos. Todas as coisas nela pertencem ao passado. Até o seu único penhorista não aceita penhores, nem o faz há muito tempo, mas oferece em vão uma mercadoria não resgatada para venda, da qual os artigos mais dispendiosos são relógios antigos, baços e pálidos, aparentemente em lenta transpiração, pinças de açúcar manchadas com pernas ineficazes, e volumes ímpares de livros lúgubres. As provas mais abundantes e mais agradáveis de vida em progresso em Cloisterham são as provas de vida vegetal em muitos jardins; até o seu pequeno teatro, decadente e desanimado, tem a sua pobre faixa de jardim, recebendo o espírito maligno, quando ele mergulha do palco para as regiões infernais, entre feijões-escarlates ou cascas de ostra, dependendo da estação do ano.
No meio de Cloisterham ergue-se a Casa das Freiras: um venerável edifício de tijolo, cuja denominação atual é sem dúvida derivada da lenda dos seus usos conventuais. No portão cuidado que encerra o seu antigo pátio, encontra-se uma resplandecente placa de latão que ostenta a inscrição: “Seminário para Jovens Senhoras. Srta. Twinkleton.” A fachada da casa é tão antiga e gasta, e a placa de latão é tão brilhante e chamativa, que o resultado geral tem lembrado estranhos imaginativos de um velho dândi batido com um grande monóculo moderno enfiado no seu olho cego.
Se as freiras de outrora, sendo de uma geração submissa em vez de obstinada, habitualmente curvavam as suas cabeças contemplativas para evitar a colisão com as vigas nos tetos baixos das muitas câmaras da sua Casa; se elas se sentavam nas suas janelas longas e baixas a contar as suas contas para sua mortificação, em vez de fazerem colares delas para o seu adorno; se foram alguma vez emparedadas vivas em ângulos estranhos e empenas salientes do edifício por terem algum fermento ineradicável da ocupada Mãe Natureza nelas, que manteve o mundo em fermentação vivo desde então; estas podem ser questões de interesse para os seus fantasmas assombradores (se é que existem), mas não constituem qualquer item nas contas semestrais da Srta. Twinkleton. Não fazem parte dos regulares inclusivos da Srta. Twinkleton, nem dos seus extras. A senhora que assume o departamento poético do estabelecimento por tanto (ou tão pouco) por trimestre não tem peças na sua lista de recitais que incidam sobre tais questões pouco lucrativas.
Como, em alguns casos de embriaguez, e noutros de magnetismo animal, existem dois estados de consciência que nunca se chocam, mas cada um dos quais segue o seu curso separado como se fosse contínuo em vez de interrompido (assim, se eu esconder o meu relógio quando estou bêbado, tenho de estar bêbado novamente para me lembrar de onde), assim a Srta. Twinkleton tem duas fases de ser distintas e separadas. Todas as noites, no momento em que as jovens senhoras se retiram para descansar, a Srta. Twinkleton endireita um pouco os seus caracóis, ilumina um pouco os seus olhos, e torna-se uma Srta. Twinkleton mais vivaz do que as jovens senhoras alguma vez viram. Todas as noites, à mesma hora, a Srta. Twinkleton retoma os tópicos da noite anterior, abrangendo o escândalo mais terno de Cloisterham, do qual ela não tem conhecimento algum durante o dia, e referências a uma certa temporada em Tunbridge Wells (ar-livremente chamada pela Srta. Twinkleton neste estado da sua existência de “Os Wells”), nomeadamente a temporada em que um certo cavalheiro refinado (compassivamente chamado pela Srta. Twinkleton, nesta fase da sua existência, de “Tolo Sr. Porters”) revelou uma homenagem do coração, da qual a Srta. Twinkleton, no seu estado de existência escolar, é tão ignorante como um pilar de granito. A companheira da Srta. Twinkleton em ambos os estados de existência, e igualmente adaptável a qualquer um deles, é uma certa Sra. Tisher: uma viúva deferente com costas fracas, um suspiro crónico e uma voz reprimida, que cuida do guarda-roupa das jovens senhoras e leva-as a deduzir que ela já viu dias melhores. Talvez seja por isso que é um artigo de fé entre os criados, transmitido de geração em geração, que a falecida Tisher era cabeleireira.
A aluna preferida da Casa das Freiras é a Srta. Rosa Bud, naturalmente chamada Rosebud; maravilhosamente bonita, maravilhosamente infantil, maravilhosamente caprichosa. Um interesse estranho (estranho porque romântico) liga-se à Srta. Bud na mente das jovens senhoras, devido ao facto de ser conhecido por elas que um marido lhe foi escolhido por testamento e legado, e que o seu guardião está obrigado a entregá-la a esse marido quando ele atingir a maioridade. A Srta. Twinkleton, no seu estado de existência seminarial, combateu o aspeto romântico deste destino ao fingir abanar a cabeça sobre o assunto atrás dos ombros covados da Srta. Bud, e ao meditar sobre o destino infeliz dessa pequena vítima condenada. Mas sem melhor efeito — possivelmente algum toque não sentido do tolo Sr. Porters minou o esforço — do que evocar das jovens senhoras um grito unânime de quarto: “Oh, que velha fingida que a Srta. Twinkleton é, minha querida!”
A Casa das Freiras nunca está num estado de agitação tão grande como quando este marido prometido vem ver a pequena Rosebud. (É unanimemente entendido pelas jovens senhoras que ele tem direito legal a este privilégio, e que se a Srta. Twinkleton o contestasse, seria imediatamente apanhada e deportada.) Quando o seu toque na campainha do portão é esperado, ou acontece, toda a jovem senhora que pode, sob qualquer pretexto, olhar pela janela, olha pela janela; enquanto toda a jovem senhora que está a “praticar”, pratica fora do tempo; e a aula de francês torna-se tão desmoralizada que a marca circula tão vivamente como a garrafa num grupo de convívio no século passado.
Na tarde do dia seguinte ao jantar dos dois na portaria, a campainha toca com os habituais resultados de agitação.
“O Sr. Edwin Drood para ver a Srta. Rosa.”
Este é o anúncio da criada de quarto chefe. A Srta. Twinkleton, com um ar exemplar de melancolia, vira-se para o sacrifício e diz: “Podes descer, minha querida.” A Srta. Bud desce, seguida por todos os olhares.
O Sr. Edwin Drood está à espera na sala de estar da própria Srta. Twinkleton: uma sala elegante, sem nada mais diretamente escolar nela do que um globo terrestre e um celestial. Estas máquinas expressivas implicam (para pais e guardiões) que, mesmo quando a Srta. Twinkleton se retira para o seio da privacidade, o dever pode a qualquer momento obrigá-la a tornar-se uma espécie de Judia Errante, vasculhando a terra e subindo pelos céus em busca de conhecimento para as suas alunas.
A última criada nova, que nunca viu o jovem cavalheiro com quem a Srta. Rosa está noiva, e que o conhece entre as dobradiças da porta aberta, deixada assim de propósito, tropeça culpada escada da cozinha abaixo, enquanto uma pequena e encantadora aparição, com o rosto oculto por um pequeno avental de seda atirado sobre a cabeça, desliza para a sala de estar.
“Oh! É tão ridículo!”, diz a aparição, parando e encolhendo-se. “Não faças isso, Eddy!”
“Não fazer o quê, Rosa?”
“Não te aproximes mais, por favor. É tão absurdo.”
“O que é absurdo, Rosa?”
“A coisa toda. É tão absurdo ser uma órfã noiva e é tão absurdo ter as raparigas e os criados a correr de um lado para o outro atrás de uma, como ratos no lambrim; e é tão absurdo ser chamada para uma visita!”
A aparição parece ter um polegar no canto da boca enquanto faz esta queixa.
“Tenho de dizer que me dás uma receção afetuosa, Pussy.”
“Bem, dar-te-ei dentro de um minuto, Eddy, mas não posso ainda. Como estás?” (muito secamente.)
“Não posso responder que estou muito melhor por te ver, Pussy, na medida em que não vejo nada de ti.”
Esta segunda repreensão faz surgir um olho escuro, brilhante e amuado de um canto do avental; mas torna-se rapidamente invisível de novo, enquanto a aparição exclama: “Oh, meu Deus! Cortaram-te metade do cabelo!”
“Acho que teria feito melhor se me tivessem cortado a cabeça”, diz Edwin, despenteando o cabelo em questão, com um olhar feroz para o espelho e dando um encontrão impaciente com o pé. “Devo ir-me embora?”
“Não; não precisas de ir já, Eddy. As raparigas começariam todas a fazer perguntas sobre o porquê de teres ido.”
“De uma vez por todas, Rosa, vais descobrir essa tua cabecinha ridícula e dar-me as boas-vindas?”
O avental é arrancado da cabeça infantil, enquanto a sua portadora responde: “Sejas muito bem-vindo, Eddy. Pronto! Tenho a certeza de que isso é simpático. Dá-me a mão. Não, não te posso beijar, porque tenho um rebuçado ácido na boca.”
“Estás minimamente contente por me ver, Pussy?”
“Oh, sim, estou terrivelmente contente.— Vai sentar-te.— Srta. Twinkleton.”
É costume daquela excelente senhora, quando estas visitas ocorrem, aparecer a cada três minutos, quer na sua própria pessoa ou na da Sra. Tisher, e depositar uma oferenda no altar da Propriedade, fingindo procurar algum artigo desejado. Na presente ocasião, a Srta. Twinkleton, deslizando graciosamente para dentro e para fora, diz ao passar: “Como está, Sr. Drood? Muito contente, de facto, por ter o prazer. Por favor, desculpe-me. Pinças. Obrigada!”
“Recebi as luvas ontem à noite, Eddy, e gosto muito delas. São lindas.”
“Bem, isso é alguma coisa”, responde o noivo, meio resmungando. “O mais pequeno incentivo é recebido com gratidão. E como passaste o teu aniversário, Pussy?”
“Deliciosamente! Todos me deram um presente. E tivemos um banquete. E tivemos um baile à noite.”
“Um banquete e um baile, hã? Estas ocasiões parecem correr toleravelmente bem sem mim, Pussy.”
“De-li-ci-o-sa-mente!”, exclama Rosa, de uma forma bastante espontânea e sem a menor pretensão de reserva.
“Hah! E qual foi o banquete?”
“Tortas, laranjas, geleias e camarões.”
“Houve parceiros no baile?”
“Dançámos umas com as outras, claro, senhor. Mas algumas das raparigas fingiram ser os seus irmãos. Foi tão divertido!”
“Alguém fingiu ser—”
“Ser tu? Oh, claro que sim!”, exclama Rosa, rindo com grande prazer. “Foi a primeira coisa que fizeram.”
“Espero que ela o tenha feito bastante bem”, diz Edwin, um tanto duvidoso.
“Oh, foi excelente!— Eu não quis dançar contigo, sabes.”
Edwin parece não ver bem o sentido disto; pede para saber se pode tomar a liberdade de perguntar porquê?
“Porque estava tão cansada de ti”, retorce Rosa. Mas acrescenta rapidamente, e de forma suplicante também, ao ver o desagrado no rosto dele: “Querido Eddy, tu estavas exatamente tão cansado de mim, sabes.”
“Eu disse isso, Rosa?”
“Dizer! Alguma vez dizes? Não, tu apenas o mostraste. Oh, ela fê-lo tão bem!”, exclama Rosa, numa súbita extasiada com o seu noivo falso.
“Parece-me que ela deve ser uma rapariga diabolicamente insolente”, diz Edwin Drood. “E assim, Pussy, passaste o teu último aniversário nesta casa antiga.”
“Ah, sim!” Rosa junta as mãos, olha para baixo com um suspiro e abana a cabeça.
“Pareces estar triste, Rosa.”
“Estou triste pelo pobre lugar antigo. De alguma forma, sinto como se ele fosse sentir a minha falta, quando eu estiver tão longe, tão jovem.”
“Talvez fosse melhor pararmos por aqui, Rosa?”
Ela olha para ele com um olhar rápido e brilhante; no momento seguinte abana a cabeça, suspira e olha para baixo novamente.
“Isto é, Pussy, que estamos ambos resignados?”
Ela volta a acenar com a cabeça e, após um curto silêncio, exclama de forma peculiar: “Sabes que temos de casar, e casar a partir daqui, Eddy, ou as pobres raparigas ficarão tão terrivelmente desapontadas!”
Por um momento, há mais compaixão, tanto por ela como por ele próprio, no rosto do seu noivo, do que amor. Ele reprime o olhar e pergunta: “Devo levar-te a passear, querida Rosa?”
A querida Rosa não parece nada certa sobre este ponto, até que o seu rosto, que estava comicamente pensativo, se ilumina. “Oh, sim, Eddy; vamos passear! E sabes o que vamos fazer? Tu vais fingir que estás noivo de outra pessoa, e eu vou fingir que não estou noiva de ninguém, e assim não discutiremos.”
“Achas que isso impedirá que nos desentendamos, Rosa?”
“Sei que impedirá. Cala-te! Finge que olhas pela janela— Sra. Tisher!”
Através de uma fortuita acumulação de acidentes, a matronal Tisher surge à vista, dizendo, enquanto atravessa a sala como o fantasma lendário de uma viúva em saias de seda: “Espero encontrar o Sr. Drood bem; embora não precise de perguntar, se posso julgar pela sua tez. Confio que não incomodo ninguém; mas havia um corta-papel— Oh, obrigada, tenho a certeza!” e desaparece com o seu prémio.
“Mais uma coisa que tens de fazer, Eddy, para me obrigar”, diz Rosebud. “No momento em que chegarmos à rua, tens de me pôr do lado de fora, e ficar tu próprio perto da casa— espreme-te e roça-te contra ela.”
“Sem dúvida, Rosa, se assim o desejas. Poderia perguntar porquê?”
“Oh! Porque não quero que as raparigas te vejam.”
“Está um dia bonito; mas gostarias que eu levasse um guarda-chuva?”
“Não sejas tolo, senhor. Não tens botas de couro polido calçadas”, amuando, com um ombro levantado.
“Talvez isso pudesse escapar à atenção das raparigas, mesmo que me vissem”, observa Edwin, olhando para as suas botas com um súbito desgosto por elas.
“Nada escapa à sua atenção, senhor. E depois sei o que aconteceria. Algumas delas começariam a refletir sobre mim dizendo (pois elas são livres) que nunca, sob nenhuma circunstância, se comprometerão com amantes sem botas de couro polido. Ouve! Srta. Twinkleton. Vou pedir autorização.”
Essa discreta senhora, sendo de facto ouvida lá fora, perguntando a ninguém num tom suavemente conversacional enquanto avança: “Eh? De facto! Têm a certeza de que viram o meu porta-botões de madrepérola na mesa de costura no meu quarto?”, é imediatamente solicitada para a permissão de passeio, e concede-a graciosamente. E logo o jovem casal sai da Casa das Freiras, tomando todas as precauções contra a descoberta das botas tão vitalmente defeituosas do Sr. Edwin Drood: precauções, esperemos, eficazes para a paz da futura Sra. Edwin Drood.
“Que caminho vamos seguir, Rosa?”
Rosa responde: “Quero ir à loja dos Doces-de-Prazer.”
“Para os—?”
“Um doce turco, senhor. Meu Deus, não entendes nada? Chamas-te Engenheiro e não sabes isso?”
“Ora, como haveria de saber, Rosa?”
“Porque eu gosto muito deles. Mas oh! Esqueci-me do que vamos fingir. Não, não precisas de saber nada sobre eles; não te preocupes.”
Assim, ele é sombriamente levado para a loja dos Doces-de-Prazer, onde Rosa faz a sua compra e, depois de lhe oferecer alguns (que ele recusa com bastante indignação), começa a consumi-los com grande entusiasmo: tirando e enrolando previamente um par de pequenas luvas cor-de-rosa, como pétalas de rosa, e colocando ocasionalmente os seus dedinhos rosados nos lábios róseos, para os limpar do Pó de Prazer que sai dos Doces.
“Agora, sê um Eddy de bom temperamento e finge. E então, estás noivo?”
“E então, estou noivo.”
“Ela é simpática?”
“Encantadora.”
“Alta?”
“Imensamente alta!” Sendo Rosa baixa.
“Deve ser desajeitada, suponho eu”, é o comentário silencioso de Rosa.
“Peço perdão; de todo”, a contradição a surgir nele.
“O que se chama uma mulher elegante; uma mulher esplêndida.”
“Nariz grande, sem dúvida”, é de novo o comentário silencioso.
“Não é um pequeno, certamente”, é a resposta rápida, (sendo o de Rosa um pequeno.)
“Nariz comprido e pálido, com uma borbulha vermelha no meio. Conheço esse tipo de nariz”, diz Rosa, com um aceno satisfeito, e desfrutando tranquilamente dos Doces.
“Não conheces esse tipo de nariz, Rosa”, com algum calor; “porque não é nada disso.”
“Não é um nariz pálido, Eddy?”
“Não.” Determinado a não concordar.
“Um nariz vermelho? Oh! Não gosto de narizes vermelhos. Contudo; é certo que ela pode sempre pôr-lhe pó.”
“Ela desprezaria pôr-lhe pó”, diz Edwin, ficando exaltado.
“Desprezaria? Que coisa estúpida ela deve ser! É estúpida em tudo?”
“Não; em nada.”
Após uma pausa, na qual o rosto caprichosamente malicioso não esteve alheio a ele, Rosa diz:
“E esta criatura mais sensata gosta da ideia de ser levada para o Egito; gosta, Eddy?”
“Sim. Ela tem um interesse sensato nos triunfos da perícia de engenharia: especialmente quando eles vão mudar toda a condição de um país subdesenvolvido.”
“Ora essa!”, diz Rosa, encolhendo os ombros, com uma pequena risada de admiração.
“Objetas”, pergunta Edwin, com um virar majestoso dos olhos para baixo sobre a figura de fada: “objetas, Rosa, a que ela sinta esse interesse?”
“Objetar? Meu querido Eddy! Mas, na verdade, ela não odeia caldeiras e coisas do género?”
“Posso garantir que ela não é tão idiota a ponto de odiar caldeiras”, responde ele com ênfase irritada; “embora não possa responder pelas suas opiniões sobre Coisas; não entendendo realmente que Coisas são essas a que te referes.”
“Mas ela não odeia árabes, e turcos, e fellahs, e pessoas?”
“Certamente que não.” Muito firmemente.
“Pelo menos ela deve odiar as Pirâmides? Vá lá, Eddy?”
“Por que razão haveria ela de ser uma gansa tão pequena— alta, quero dizer— a ponto de odiar as Pirâmides, Rosa?”
“Ah! Devias ouvir a Srta. Twinkleton”, abanando frequentemente a cabeça, e desfrutando muito dos Doces, “aborrecer-se com elas, e então não perguntarias. Cansativos cemitérios antigos! Ísis, e Íbis, e Quéops, e Faraós; quem quer saber deles? E depois houve o Belzoni, ou alguém, arrastado pelas pernas, meio sufocado por morcegos e pó. Todas as raparigas dizem: Bem merecido, e esperam que lhe tenha doído, e desejam que ele tivesse sido completamente sufocado.”
As duas figuras jovens, lado a lado, mas não agora de braço dado, vagueiam descontentes pelo recinto antigo; e cada um para ocasionalmente e imprime lentamente uma pegada mais profunda nas folhas caídas.
“Bem!”, diz Edwin, após um longo silêncio. “Segundo o costume. Não nos entendemos, Rosa.”
Rosa sacode a cabeça e diz que não quer entender-se.
“Esse é um sentimento bonito, Rosa, considerando.”
“Considerando o quê?”
“Se eu disser o quê, vais voltar a zangar-te.”
“Tu é que vais zangar-te, queres dizer, Eddy. Não sejas generoso.”
“Generoso! Gosto dessa!”
“Então eu não gosto dessa, e digo-to claramente”, Rosa amua.
“Agora, Rosa, pergunto-te. Quem menosprezou a minha profissão, o meu destino—”
“Não vais ser enterrado nas Pirâmides, espero?”, interrompe ela, arqueando as delicadas sobrancelhas. “Nunca disseste que o serias. Se o fores, por que não mo mencionaste? Não consigo descobrir os teus planos por instinto.”
“Agora, Rosa, sabes muito bem o que quero dizer, minha querida.”
“Bem, então, porque começaste com as tuas detestáveis gigantas de nariz vermelho? E ela faria, ela faria, ela faria, ela faria, ela FARIA, pôr-lhe pó!”, exclama Rosa, num pequeno acesso de cólera cómica e contraditória.
“De uma forma ou de outra, nunca consigo acertar nestas discussões”, diz Edwin, suspirando e tornando-se resignado.
“Como é possível, senhor, que alguma vez possas acertar quando estás sempre errado? E quanto ao Belzoni, suponho que ele esteja morto;— tenho a certeza de que espero que esteja— e como é que as pernas dele ou os seus sufocamentos te podem interessar?”
“Está quase na hora do teu regresso, Rosa. Não tivemos um passeio muito feliz, tivemos?”
“Um passeio feliz? Um passeio detestavelmente infeliz, senhor. Se eu subir as escadas assim que chegar e chorar até não conseguir ter a minha aula de dança, tu és responsável, nota!”
“Vamos ser amigos, Rosa.”
“Ah!”, exclama Rosa, abanando a cabeça e desatando a chorar verdadeiramente, “Gostaria que pudéssemos ser amigos! É porque não podemos ser amigos que nos provocamos tanto. Sou uma criaturinha jovem, Eddy, para ter uma mágoa antiga; mas eu realmente, realmente tenho, por vezes. Não fiques zangado. Sei que tu tens uma também, demasiado frequentemente. Ambos teríamos feito melhor se o Que tem de ser tivesse sido deixado como Que poderia ter sido. Sou uma coisinha muito séria agora, e não te estou a provocar. Que cada um de nós se contenha, desta vez, por nossa própria conta, e pela do outro!”
Desarmado por este vislumbre da natureza de uma mulher na criança mimada, embora por um instante disposto a ressentir-se como se parecesse envolver a imposição forçada de si mesmo sobre ela, Edwin Drood observa-a enquanto ela chora e soluça infantilmente, com ambas as mãos no lenço nos olhos, e depois— ela tornando-se mais composta, e de facto começando na sua jovem inconstância a rir-se de si própria por ter ficado tão comovida— leva-a para um assento ali perto, sob as árvores de ulmeiro.
“Uma palavra clara de entendimento, querida Pussy. Não sou inteligente fora da minha própria área— agora que penso nisso, não sei se sou particularmente inteligente nela— mas quero fazer o que é certo. Não há— pode haver— realmente não vejo como dizer o que quero dizer, mas tenho de o dizer antes de nos separarmos— não há nenhum outro jovem—”
“Oh não, Eddy! É generoso da tua parte perguntar-me; mas não, não, não!”
Chegaram muito perto das janelas da Catedral, e neste momento o órgão e o coro soam sublimemente. Enquanto se sentam a ouvir o solene crescendo, a confiança da noite passada surge na mente do jovem Edwin Drood, e ele pensa como esta música é diferente daquela discordância.
“Imagino que consigo distinguir a voz do Jack”, é o seu comentário em tom baixo em conexão com o fio de pensamento.
“Leva-me de volta imediatamente, por favor”, insta a sua noiva, colocando rapidamente a sua mão leve sobre o pulso dele. “Eles vão todos sair dentro de momentos; vamos embora. Oh, que acorde retumbante! Mas não vamos parar para o ouvir; vamos embora!”
A sua pressa termina assim que passam o recinto. Caminham agora de braço dado, grave e deliberadamente o suficiente, ao longo da antiga High-street, até à Casa das Freiras. No portão, estando a rua à vista vazia, Edwin inclina o rosto para o de Rosebud.
Ela repreende, rindo, e é novamente uma colegial infantil.
“Eddy, não! Estou demasiado pegajosa para ser beijada. Mas dá-me a tua mão, e eu soprarei um beijo para dentro dela.”
Ele fá-lo. Ela sopra um sopro leve para dentro dela e pede, retendo-a e olhando para dentro dela:—
“Agora diz, o que vês?”
“Ver, Rosa?”
“Ora, pensei que vocês, rapazes egípcios, pudessem olhar para uma mão e ver todo o tipo de fantasmas. Não consegues ver um Futuro feliz?”
Com certeza, nenhum deles vê um Presente feliz, enquanto o portão se abre e fecha, e um entra, e o outro vai-se embora.
CAPÍTULO IV. O SR. SAPSEA
Aceitando o Burro como o tipo da estupidez e vaidade autossuficiente— um costume, talvez, como alguns outros costumes, mais convencional do que justo— então o mais puro burro em Cloisterham é o Sr. Thomas Sapsea, Leiloeiro.
O Sr. Sapsea “veste-se à imagem” do Deão; já foi cumprimentado como sendo o Deão, por engano; já foi até abordado na rua como Milorde, sob a impressão de que ele era o Bispo que chegara inesperadamente, sem o seu capelão. O Sr. Sapsea tem muito orgulho disto, e da sua voz, e do seu estilo. Já tentou (ao vender propriedade fundiária) a experiência de entoar ligeiramente no seu púlpito, para se tornar mais parecido com o que ele considera ser o genuíno artigo eclesiástico. Assim, ao terminar um Leilão Público, o Sr. Sapsea termina com um ar de conferir uma bênção aos corretores reunidos, o que deixa o verdadeiro Deão— um cavalheiro modesto e digno— muito para trás.
O Sr. Sapsea tem muitos admiradores; de facto, a proposição é aceite por uma grande maioria local, incluindo até os não crentes na sua sabedoria, de que ele é um crédito para Cloisterham. Ele possui as grandes qualidades de ser pomposo e maçador, e de ter um rolar na sua fala, e outro rolar no seu andar; para não mencionar uma certa ação grave e fluida com as mãos, como se estivesse prestes a Confirmar o indivíduo com quem mantém o discurso. Muito mais perto dos sessenta anos de idade do que dos cinquenta, com um contorno fluido de estômago, e vincos horizontais no seu colete; reputado como rico; votando nas eleições no interesse estritamente respeitável; moralmente satisfeito por nada mais do que ele próprio ter crescido desde que era bebé; como pode o Sr. Sapsea de mente curta ser outra coisa senão um crédito para Cloisterham, e para a sociedade?
As instalações do Sr. Sapsea ficam na High-street, em frente à Casa das Freiras. São aproximadamente do período da Casa das Freiras, irregularmente modernizadas aqui e ali, à medida que gerações em constante deterioração achavam, cada vez mais, que preferiam ar e luz à Febre e à Peste. Sobre a porta está uma efígie de madeira, com cerca de metade do tamanho natural, representando o pai do Sr. Sapsea, de peruca encaracolada e toga, no ato de vender. A castidade da ideia, e a aparência natural do dedo mindinho, do martelo e do púlpito, têm sido muito admiradas.
O Sr. Sapsea senta-se na sua maçadora sala de estar do rés-do-chão, dando primeiro para o seu quintal pavimentado; e depois para o seu jardim vedado. O Sr. Sapsea tem uma garrafa de vinho do porto sobre uma mesa junto ao fogo— o fogo é um luxo precoce, mas agradável na noite fresca de outono— e é caracteristicamente acompanhado pelo seu retrato, o seu relógio de oito dias e o seu barómetro. Caracteristicamente, porque ele defender-se-ia contra a humanidade, o seu barómetro contra o tempo, e o seu relógio contra o tempo.
Ao lado do Sr. Sapsea na mesa estão uma secretária e materiais de escrita. Olhando para um pedaço de manuscrito, o Sr. Sapsea lê-o para si mesmo com um ar elevado, e depois, andando lentamente pela sala com os polegares nas cavas do colete, repete-o de memória: tão internamente, embora com muita dignidade, que a palavra “Ethelinda” é a única audível.
Há três copos de vinho limpos num tabuleiro sobre a mesa. A sua criada entra e anuncia: “O Sr. Jasper chegou, senhor”, o Sr. Sapsea acena para o “Admiti-o”, e retira dois copos de vinho da fila, como sendo reclamados.
“Contente por o ver, senhor. Felicito-me por ter a honra de o receber aqui pela primeira vez.” O Sr. Sapsea faz as honras da sua casa desta forma.
“É muito bondoso. A honra é minha e o auto-congratulação é minha.”
“Tem o prazer de dizer isso, senhor. Mas asseguro-lhe que é uma satisfação para mim recebê-lo no meu humilde lar. E isso é o que eu não diria a toda a gente.” Uma elevação inefável por parte do Sr. Sapsea acompanha estas palavras, deixando a frase a ser entendida: “Não acreditará facilmente que a sua companhia possa ser uma satisfação para um homem como eu; no entanto, é.”
“Há algum tempo que desejava conhecê-lo, Sr. Sapsea.”
“E eu, senhor, conheço-o há muito pela reputação como um homem de gosto. Deixe-me encher o seu copo. Vou dar-lhe, senhor”, diz o Sr. Sapsea, enchendo o seu:
“Quando os franceses vierem, Que os encontremos em Dover!”
Este foi um brinde patriótico na infância do Sr. Sapsea, e ele está, portanto, plenamente convencido de que é apropriado para qualquer era subsequente.
“Dificilmente pode ignorar, Sr. Sapsea”, observa Jasper, observando o leiloeiro com um sorriso enquanto este estica as pernas perante o fogo, “que conhece o mundo.”
“Bem, senhor”, é a resposta rindo, “penso que conheço algo dele; algo dele.”
“A sua reputação por esse conhecimento sempre me interessou e surpreendeu, e fez-me desejar conhecê-lo. Pois Cloisterham é um lugar pequeno. Enclausurado nele, eu próprio, não conheço nada além dele, e sinto-o como um lugar muito pequeno.”
“Se não fui a países estrangeiros, jovem”, começa o Sr. Sapsea, e depois para: — “Perdoar-me-á por o tratar por jovem, Sr. Jasper? É muito mais novo do que eu.”
“Com certeza.”
“Se não fui a países estrangeiros, jovem, os países estrangeiros vieram até mim. Vieram até mim por via de negócios, e eu aproveitei as minhas oportunidades. Suponha que faço um inventário, ou um catálogo. Vejo um relógio francês. Nunca o vi antes, na minha vida, mas coloco instantaneamente o meu dedo nele e digo ‘Paris!’. Vejo umas chávenas e pires de fabrico chinês, igualmente estranhos para mim pessoalmente: coloco o meu dedo neles, ali mesmo, e digo ‘Pequim, Nanquim e Cantão’. É o mesmo com o Japão, com o Egito, e com o bambu e o sândalo das Índias Orientais; coloco o meu dedo em todos eles. Já coloquei o meu dedo no Polo Norte, antes de hoje, e disse ‘Lança de fabrico esquimó, por meio litro de xerez pálido!’”
“A sério? Uma forma muito notável, Sr. Sapsea, de adquirir conhecimento dos homens e das coisas.”
“Menciono-o, senhor”, retorque o Sr. Sapsea, com uma complacência indizível, “porque, como digo, não serve de nada gabar-se do que é; mas mostre como se tornou isso, e então prova-o.”
“Muito interessante. Íamos falar da falecida Sra. Sapsea.”
“Íamos, senhor.” O Sr. Sapsea enche ambos os copos e volta a guardar o decanter em local seguro. “Antes de consultar a sua opinião, como homem de gosto, sobre esta pequena ninharia” — erguendo-a — “que não passa de uma ninharia, e ainda assim exigiu alguma reflexão, senhor, alguma pequena febre na testa, deveria talvez descrever o carácter da falecida Sra. Sapsea, agora morta há três quartos de ano.”
O Sr. Jasper, no ato de bocejar por detrás do seu copo de vinho, baixa esse biombo e convoca um olhar de interesse. Fica um pouco prejudicado na sua expressividade pelo facto de ele ainda ter de se livrar de um bocejo contido, com os olhos a lacrimejar.
“Há uns seis anos, ou por aí”, prossegue o Sr. Sapsea, “quando eu tinha alargado a minha mente até — não direi ao que ela agora é, pois isso poderia parecer visar demasiado alto, mas até ao ponto de desejar outra mente para ser absorvida nela — lancei o meu olhar em redor à procura de uma parceira nupcial. Porque, como digo, não é bom que o homem esteja só.”
O Sr. Jasper parece confiar esta ideia original à memória.
“A Srta. Brobity, na altura, mantinha, não direi o estabelecimento rival do estabelecimento na Casa das Freiras, ali em frente, mas chamarei-lhe o outro estabelecimento paralelo no centro da cidade. O mundo dizia que ela demonstrava uma paixão por assistir aos meus leilões, quando estes ocorriam em meios feriados ou durante as férias. O mundo punha a circular que ela admirava o meu estilo. O mundo notava que, à medida que o tempo passava, o meu estilo tornava-se percetível nos exercícios de ditado dos alunos da Srta. Brobity. Jovem, surgiu até um sussurro, numa malignidade obscura, de que um ignaro e abotolado Vilão (um progenitor) se comprometeu a ponto de objetar a isso pelo nome. Mas não acredito nisto. Pois será provável que qualquer criatura humana em perfeito juízo se expusesse assim a ser apontada pelo que chamo o dedo do escárnio?”
O Sr. Jasper abana a cabeça. Nem um pouco provável. O Sr. Sapsea, num estado grandiloquente de ausência de espírito, parece reabastecer o copo do seu visitante, que já está cheio; e reabastece realmente o seu próprio, que está vazio.
“O Ser da Srta. Brobity, jovem, estava profundamente imbuído de homenagem à Mente. Ela reverenciava a Mente, quando lançada, ou, como eu digo, precipitada, num vasto conhecimento do mundo. Quando fiz a minha proposta, ela deu-me a honra de ficar tão ensombrada por uma espécie de Temor, que apenas conseguiu articular as duas palavras, ‘Ó Tu!’, referindo-se a mim. Os seus límpidos olhos azuis estavam fixos em mim, as suas mãos semitransparentes estavam cruzadas, uma palidez cobria os seus traços aquilinos e, embora encorajada a prosseguir, nunca prosseguiu uma palavra que fosse. Desfiz-me do estabelecimento paralelo por contrato privado, e tornámo-nos tão próximos de um só quanto se poderia esperar dadas as circunstâncias. Mas ela nunca conseguiu, e nunca conseguiu encontrar uma frase satisfatória para a sua, talvez demasiado favorável, estimativa do meu intelecto. Até ao fim (fraca ação do fígado), ela dirigiu-se a mim nos mesmos termos inacabados.”
O Sr. Jasper fechou os olhos à medida que o leiloeiro aprofundava a voz. Agora, abre-os abruptamente e diz, em uníssono com a voz aprofundada: “Ah!” — quase como se se detivesse no limite extremo de acrescentar — “homens!”
“Tenho sido desde então”, diz o Sr. Sapsea, com as pernas esticadas e desfrutando solenemente do vinho e do fogo, “o que me contempla; tenho sido desde então um enlutado solitário; tenho sido desde então, como digo, a desperdiçar a minha conversa noturna no ar do deserto. Não direi que me reprovei; mas houve momentos em que me fiz a pergunta: E se o seu marido tivesse estado mais ao seu nível? Se ela não tivesse tido de olhar tão alto, qual poderia ter sido a ação estimulante sobre o fígado?”
O Sr. Jasper diz, com a aparência de ter caído num estado de espírito terrivelmente baixo, que “supõe que tinha de ser”.
“Só podemos supor que sim, senhor”, concorda o Sr. Sapsea. “Como digo, o Homem propõe, o Céu dispõe. Pode ou não ser a mesma ideia colocada de outra forma; mas é assim que a coloco.”
O Sr. Jasper murmura concordância.
“E agora, Sr. Jasper”, retoma o leiloeiro, produzindo o seu pedaço de manuscrito, “tendo o monumento da Sra. Sapsea tido tempo suficiente para assentar e secar, deixe-me colher a sua opinião, como homem de gosto, sobre a inscrição que (como notei antes, não sem alguma pequena febre na testa) tracei para ele. Tome-a na sua própria mão. A disposição das linhas requer ser seguida com o olho, tal como o conteúdo com a mente.”
O Sr. Jasper, cumprindo, vê e lê o seguinte:
ETHELINDA, Esposa Reverente do SR. THOMAS SAPSEA, LEILOEIRO, AVALIADOR, AGENTE IMOBILIÁRIO, &c., DESTA CIDADE. Cujo Conhecimento do Mundo, Embora algo vasto, Nunca o pôs em contacto com UM ESPÍRITO Mais capaz de OLHAR PARA ELE. ESTRANHO, PARA E faz a ti próprio a Pergunta, PODES TU FAZER O MESMO? Se Não, RETIRA-TE COM UM RUBOR.
O Sr. Sapsea, tendo-se levantado e posicionado de costas para o fogo, com o propósito de observar o efeito destas linhas no semblante de um homem de gosto, tem consequentemente o rosto virado para a porta, quando a sua criada, aparecendo novamente, anuncia: “Durdles chegou, senhor!” Ele prontamente retira e enche o terceiro copo de vinho, por ser agora reclamado, e responde: “Mande entrar o Durdles.”
“Admirável!” diz o Sr. Jasper, devolvendo o papel.
“Aprova, senhor?”
“Impossível não aprovar. Marcante, caraterístico e completo.”
O leiloeiro inclina a cabeça, como quem aceita o que lhe é devido e dá um recibo; e convida o Durdles que entra a beber aquele copo de vinho (entregando-lho), pois irá aquecê-lo.
Durdles é um pedreiro; principalmente no ramo das lápides, túmulos e monumentos, e inteiramente da cor deles da cabeça aos pés. Ninguém é mais conhecido em Cloisterham. Ele é o libertino oficial do lugar. A fama trompeteia-o como um operário maravilhoso — o que, pelo que alguém saiba, ele poderá ser (pois nunca trabalha); e um ébrio maravilhoso — o que toda a gente sabe que ele é. Com a cripta da Catedral, ele está mais familiarizado do que qualquer autoridade viva; talvez até do que qualquer falecida. Diz-se que a intimidade deste conhecimento começou no seu hábito de recorrer àquele lugar secreto, para trancar a população infantil de Cloisterham, e dormir a embriaguez: ele tendo acesso fácil à Catedral, como empreiteiro para reparações rudimentares. Seja como for, ele sabe muito sobre ela, e, na demolição de fragmentos obstrutivos de parede, contraforte e pavimento, viu visões estranhas. Fala frequentemente de si próprio na terceira pessoa; talvez, estando um pouco confuso quanto à sua própria identidade, quando narra; talvez adotando imparcialmente a nomenclatura de Cloisterham em referência a uma personagem de reconhecida distinção. Assim, ele dirá, tocando nas suas visões estranhas: “Durdles deparou-se com o velho”, em referência a um magnata sepultado de tempos antigos e alto grau, “ao bater diretamente no caixão com a sua picareta. O velho lançou ao Durdles um olhar com os seus olhos abertos, como se dissesse: ‘O teu nome é Durdles? Ora, meu homem, estive à tua espera há um tempo dos diabos!’ E depois transformou-se em pó.” Com uma régua de dois pés sempre no bolso, e um martelo de pedreiro quase sempre na mão, Durdles anda continuamente a sondar e a bater por todo o lado em redor da Catedral; e sempre que diz ao Tope: “Tope, aqui está outro velho aqui dentro!”, o Tope anuncia-o ao Deão como uma descoberta estabelecida.
Num fato de flanela grosseira com botões de chifre, um lenço amarelo com pontas desalinhadas, um chapéu velho mais cor de ferrugem do que preto, e botas de atacadores da cor da sua vocação pedregosa, Durdles leva uma vida enevoada, de tipo cigano, carregando o seu jantar consigo num pequeno embrulho, e sentando-se em todo o tipo de lápides para jantar. Este jantar do Durdles tornou-se uma instituição de Cloisterham: não apenas por ele nunca aparecer em público sem ele, mas por ter sido, em certas ocasiões célebres, detido juntamente com o Durdles (como bêbado e incapaz), e exibido perante o banco de magistrados no salão da cidade. Estas ocasiões, contudo, foram poucas e espaçadas: Durdles estando tão raramente bêbado quanto sóbrio. De resto, é um velho solteirão, e vive num pequeno buraco antiquado de casa que nunca foi terminado: suposto ser construído, até então, de pedras roubadas da muralha da cidade. Para esta habitação há um acesso, com o tornozelo submerso em lascas de pedra, assemelhando-se a um bosque petrificado de lápides, urnas, colunas quebradas, em todas as fases de escultura. Aqui, dois oficiais lascam incessantemente, enquanto outros dois oficiais, que se viram um para o outro, serram incessantemente pedra; mergulhando tão regularmente para dentro e para fora das suas guaritas de abrigo, como se fossem figuras mecânicas emblemáticas do Tempo e da Morte.
Ao Durdles, quando consumiu o seu copo de vinho do Porto, o Sr. Sapsea confia aquele precioso esforço da sua Musa. Durdles retira insensivelmente a sua régua de dois pés, e mede as linhas calmamente, ligando-as com grão de pedra.
“Isto é para o monumento, é, Sr. Sapsea?”
“A Inscrição. Sim.” O Sr. Sapsea espera pelo seu efeito numa mente comum.
“Vai dar a um oitavo de polegada”, diz Durdles. “O seu criado, Sr. Jasper. Espero vê-lo bem.”
“Como está, Durdles?”
“Tenho um toque de Tumbatismo, Sr. Jasper, mas isso tenho de esperar.”
“Quer dizer o Reumatismo”, diz Sapsea, num tom cortante. (Ele está irritado por ter a sua composição recebida tão mecanicamente.)
“Não, não quero. Quero dizer, Sr. Sapsea, o Tumbatismo. É outro tipo diferente de Reumatismo. O Sr. Jasper sabe o que o Durdles quer dizer. Vá até àqueles Túmulos antes de estar bem claro numa manhã de inverno, e continue, como diz o Catecismo, a caminhar neles todos os dias da sua vida, e saberá o que o Durdles quer dizer.”
“É um lugar de um frio cortante”, concorda o Sr. Jasper, com um estremecimento antipático.
“E se é de um frio cortante para si, lá em cima no coro, com um monte de respiração viva a sair de si, qual é a amargura para o Durdles, lá em baixo na cripta entre as humidades terrosas lá de baixo, e o hálito morto dos velhos”, responde aquele indivíduo, “Durdles deixa-o a si julgar. — É para ser posto em mãos imediatamente, Sr. Sapsea?”
O Sr. Sapsea, com a ansiedade de um Autor de correr para a publicação, responde que não pode ser posto em mãos demasiado cedo.
“Mais vale deixar-me ter a chave então”, diz Durdles.
“Ora, homem, não é para ser posto dentro do monumento!”
“Durdles sabe onde é para ser posto, Sr. Sapsea; ninguém melhor. Pergunte a qualquer um em Cloisterham se o Durdles conhece o seu trabalho.”
O Sr. Sapsea levanta-se, tira uma chave de uma gaveta, destranca um cofre de ferro embutido na parede, e tira dele outra chave.
“Quando o Durdles dá um toque ou um acabamento ao seu trabalho, não importa onde, dentro ou fora, o Durdles gosta de olhar para o seu trabalho por todos os lados, e ver que o seu trabalho lhe está a dar crédito”, explica Durdles, obstinadamente.
A chave oferecida pelo viúvo enlutado sendo uma grande, ele desliza a sua régua de dois pés para um bolso lateral das suas calças de flanela feito para ela, e abre deliberadamente o seu casaco de flanela, e abre a boca de um grande bolso interior antes de pegar na chave para a colocar nesse repositório.
“Ora, Durdles!” exclama Jasper, observando divertido, “está minado de bolsos!”
“E também carrego peso neles, Sr. Jasper. Sinta estes!” produzindo outras duas chaves grandes.
“Entregue-me também a do Sr. Sapsea. Certamente esta é a mais pesada das três.”
“Vai achá-las muito parecidas, espero”, diz Durdles. “Pertencem todas a monumentos. Abrem todas o trabalho do Durdles. O Durdles guarda as chaves do seu trabalho na maioria das vezes. Não que sejam muito usadas.”
“A propósito”, vem à mente de Jasper dizer, enquanto examina ociosamente as chaves, “tenho andado para lhe perguntar, há muitos dias, e tenho-me esquecido sempre. Sabe que às vezes lhe chamam Durdles Pedregoso, não sabe?”
“Cloisterham conhece-me como Durdles, Sr. Jasper.”
“Estou ciente disso, claro. Mas os rapazes às vezes—”
“Oh! Se se importa com esses diabinhos de rapazes...” Durdles interrompe rudemente.
“Não me importo com eles mais do que o senhor. Mas houve uma discussão no outro dia entre o Coro, se Pedregoso significava Tony;” tilintando uma chave contra a outra.
(“Cuidado com os segredos, Sr. Jasper.”)
“Ou se Pedregoso significava Stephen;” tilintando com uma troca de chaves.
(“Não pode fazer um diapasão delas, Sr. Jasper.”)
“Ou se o nome vem da sua profissão. Como está o facto?”
O Sr. Jasper pesa as três chaves na mão, levanta a cabeça da sua atitude ociosamente curvada sobre o fogo, e entrega as chaves ao Durdles com um rosto ingénuo e amigável.
Mas o pedregoso é também um rude, e aquele estado enevoado dele é sempre um estado incerto, altamente consciente da sua dignidade, e propenso a ofender-se. Ele deixa cair as suas duas chaves de volta ao bolso uma a uma, e abotoa-as; retira o seu embrulho de jantar do encosto da cadeira onde o pendurou quando entrou; distribui o peso que carrega, atando a terceira chave nele, como se fosse um Avestruz, e gostasse de jantar ferro frio; e sai da sala, não dignando uma palavra de resposta.
O Sr. Sapsea propõe então uma partida de gamão, que, temperada com a sua própria conversa edificante, e terminando numa ceia de rosbife frio e salada, distrai a dourada noite até bastante tarde. A sabedoria do Sr. Sapsea sendo, na sua entrega aos mortais, mais da ordem difusa do que da epigramática, não está de forma alguma esgotada nem mesmo então; mas o seu visitante insinua que voltará para mais da preciosa mercadoria em ocasiões futuras, e o Sr. Sapsea deixa-o ir por enquanto, para ponderar sobre a prestação que leva consigo.
CAPÍTULO V. O SR. DURDLES E O AMIGO
John Jasper, a caminho de casa através do Adro, é levado a uma imobilização pelo espetáculo do Durdles Pedregoso, com embrulho de jantar e tudo, encostando as costas à grade de ferro do cemitério que o separa dos antigos arcos do claustro; e um rapazinho medonho em trapos a atirar-lhe pedras como um alvo bem definido ao luar. Às vezes as pedras atingem-no, e às vezes falham-no, mas Durdles parece indiferente a ambas as sortes. O rapazinho medonho, pelo contrário, sempre que atinge Durdles, sopra um apito de triunfo através de uma abertura irregular, conveniente para o propósito, na frente da boca, onde lhe faltam metade dos dentes; e sempre que falha, ganindo: “Errei outra vez!” e tenta compensar a falha com uma pontaria mais correta e viciosa.
“O que estás a fazer ao homem?” exige Jasper, saindo para o luar a partir da sombra.
“A fazer dele um alvo de tiro”, responde o rapazinho medonho.
“Dá-me essas pedras na tua mão.”
“Sim, eu dar-tas-ei pela garganta abaixo, se vieres agarrar-me”, diz o rapazinho, sacudindo-se para se soltar, e recuando. “Esborracho-te o olho, se não tiveres cuidado!”
“Bebé-Diabo que és, o que é que o homem te fez?”
“Ele não quer ir para casa.”
“O que é que isso te importa?”
“Ele dá-me um meio-penny para o atirar para casa se o apanhar fora demasiado tarde”, diz o rapaz. E depois canta, como um pequeno selvagem, meio tropeçando e meio dançando entre os trapos e atacadores das suas botas dilapidadas:—
“Widdy widdy wen! Eu—a—pan—ho—o—depois—das—dez, Widdy widdy wy! Então—E—não—vai—então—eu—tiro— Widdy Widdy Wake-cock a avisar!”
— com uma varredura abrangente na última palavra, e mais um lançamento contra Durdles.
Isto pareceria ser uma nota poética de preparação, acordada, como um aviso ao Durdles para se manter afastado se puder, ou para se dirigir para casa.
John Jasper convida o rapaz com um aceno de cabeça a segui-lo (sentindo ser inútil arrastá-lo, ou persuadi-lo), e atravessa para a grade de ferro onde o Pedregoso (e apedrejado) está profundamente a meditar.
“Conheces esta coisa, esta criança?” pergunta Jasper, sem encontrar uma palavra que defina esta coisa.
“Deputado”, diz Durdles, com um aceno.
“É esse o seu — dele — nome?”
“Deputado”, consente Durdles.
“Sou criado no Travellers’ Twopenny em Gas Works Garding”, explica esta coisa. “Todos nós criados nos Alojamentos de Viajantes somos chamados Deputado. Quando estamos cheios até à boca e os Viajantes estão todos na cama eu saio para a minha saúde.” Depois, retirando-se para a estrada, e tomando pontaria, retoma:—
“Widdy widdy wen! Eu—a—pan—ho—o—depois—”
“Mantém a mão quieta”, grita Jasper, “e não atires enquanto eu estiver tão perto dele, ou mato-te! Vamos, Durdles; deixa-me acompanhar-te a casa esta noite. Devo carregar o teu embrulho?”
“De forma alguma”, responde Durdles, ajustando-o. “Durdles estava a fazer as suas reflexões aqui quando o senhor chegou, cercado pelas suas obras, como um Autor popular. — O seu próprio cunhado;” introduzindo um sarcófago dentro da grade, branco e frio ao luar. “Sra. Sapsea;” introduzindo o monumento daquela esposa devotada. “Último Incumbente;” introduzindo a coluna quebrada do Reverendo Cavalheiro. “Impostos Avaliados Falecidos;” introduzindo um vaso e uma toalha, pousados sobre o que poderia representar o pedaço de sabão. “Antigo pasteleiro e fabricante de Muffin, muito respeitado;” introduzindo uma lápide. “Tudo a salvo e são aqui, senhor, e tudo obra do Durdles. Do povo comum, que é meramente embrulhado em relva e silvas, quanto menos se disser, melhor. Um lote pobre, cedo esquecido.”
“Esta criatura, Deputado, está atrás de nós”, diz Jasper, olhando para trás. “Ele deve seguir-nos?”
As relações entre Durdles e Deputado são de um tipo caprichoso; pois, ao Durdles virar-se com a lentidão grave da súbita embriaguez, Deputado faz um circuito bastante largo para a estrada e mantém-se na defensiva.
“Nunca gritaste Widdy Warning antes de começares esta noite”, diz Durdles, inesperadamente lembrado de, ou imaginando, uma ofensa.
“Mentes, gritei”, diz Deputado, na sua única forma de contradição educada.
“Próprio irmão, senhor”, observa Durdles, virando-se novamente, e tão inesperadamente esquecendo a sua ofensa como a tinha recordado ou concebido; “próprio irmão do Peter o Rapaz Selvagem! Mas eu dei-lhe um objetivo na vida.”
“Ao qual ele aponta?” sugere o Sr. Jasper.
“É isso mesmo, senhor”, responde Durdles, bastante satisfeito; “ao qual ele aponta. Tomei-o a meu cargo e dei-lhe um objetivo. O que era ele antes? Um destruidor. Que trabalho fazia? Nada além de destruição. O que ganhava com isso? Curtas temporadas na cadeia de Cloisterham. Não havia pessoa, nem propriedade, nem janela, nem cavalo, nem cão, nem gato, nem pássaro, nem ave, nem porco que ele não apedrejasse, por falta de um objetivo esclarecido. Pus-lhe esse objetivo esclarecido diante de si, e agora ele pode ganhar o seu honesto tostão com os três centavos por semana.”
“Admiro-me de ele não ter concorrentes.”
“Tem aos montes, Sr. Jasper, mas ele afugenta-os todos a pedrada. Ora, não sei a que chega este meu esquema”, prossegue Durdles, ponderando sobre o assunto com a mesma gravidade embriagada; “não sei como lhe pode chamar precisamente. Não será uma espécie de... esquema de... Educação Nacional?”
“Eu diria que não”, responde Jasper.
“Eu diria que não”, anui Durdles; “então não tentaremos dar-lhe um nome.”
“Ele continua atrás de nós”, repete Jasper, olhando por cima do ombro; “ele há de seguir-nos?”
“Não podemos evitar passar pela Travellers’ Twopenny, se seguirmos pelo caminho mais curto, que é o caminho das traseiras”, responde Durdles, “e deixá-lo-emos lá.”
Assim continuam; o Deputado, como um soldado da retaguarda, mantendo distância e invadindo o silêncio da hora e do lugar ao apedrejar cada muro, poste, pilar e outro objeto inanimado pelo caminho deserto.
“Há algo de novo na cripta, Durdles?” pergunta John Jasper.
“Algo de velho, suponho que quer dizer”, rosna Durdles. “Não é um lugar para novidades.”
“Refiro-me a alguma descoberta da sua parte.”
“Há um ‘antigo’ sob o sétimo pilar à esquerda, ao descer os degraus partidos da pequena capela subterrânea que lá havia outrora; deduzo (tanto quanto o consegui decifrar até agora) que seja um daqueles antigos com um báculo. A julgar pelo tamanho das passagens nas paredes, e dos degraus e portas por onde entravam e saíam, esses báculos deviam estorvar bastante os antigos! Dois deles a encontrarem-se por acaso deviam ter enganchado um no outro pelas mitras bastante vezes, diria eu.”
Sem qualquer tentativa de corrigir a literalidade desta opinião, Jasper observa o seu companheiro — coberto da cabeça aos pés com argamassa velha, cal e areia de pedra — como se ele, Jasper, estivesse a ser contagiado por um interesse romântico naquela vida estranha.
“A sua é uma existência curiosa.”
Sem dar a menor pista sobre a questão de se recebe isto como um elogio ou exatamente o contrário, Durdles responde rudemente: “A sua é outra.”
“Bem! Na medida em que o meu destino está lançado no mesmo lugar velho, terroso, frio e imutável, Sim. Mas há muito mais mistério e interesse na sua ligação com a Catedral do que na minha. De facto, começo a ter a ideia de lhe pedir que me aceite como uma espécie de estudante, ou aprendiz livre, sob a sua tutela, e que me deixe andar consigo algumas vezes, para ver alguns destes recantos estranhos onde passa os seus dias.”
O Homem de Pedra responde, de um modo geral: “Está bem. Toda a gente sabe onde encontrar o Durdles, quando é preciso.” O que, se não for estritamente verdade, é aproximadamente, se for tomado para expressar que o Durdles pode sempre ser encontrado num estado de vadiagem algures.
“O que mais me intriga”, diz Jasper, prosseguindo o seu tema de interesse romântico, “é a notável precisão com que parece descobrir onde as pessoas estão enterradas. — O que se passa? Esse fardo está a estorvá-lo; deixe-me segurá-lo.”
Durdles parou e recuou um pouco (o Deputado, atento a todos os seus movimentos, escaramuçando imediatamente para a estrada), e procurava alguma saliência ou canto para colocar o seu fardo, quando foi assim aliviado dele.
“Dê-me cá o meu martelo”, diz Durdles, “e eu mostrar-lhe-ei.”
Clinc, clinc. E o seu martelo é-lhe entregue.
“Agora, olhe aqui. O senhor dá o seu tom, não dá, Sr. Jasper?”
“Sim.”
“Eu toco o meu. Pego no meu martelo e dou uma pancada.” (Aqui ele bate no pavimento, e o atento Deputado escaramuça a um alcance um pouco maior, supondo que a sua cabeça possa ser requisitada.) “Dou uma, duas, três pancadas. Sólido! Continuo a bater. Ainda sólido! Bato outra vez. Olá! Oco! Bato outra vez, perseverando. Sólido com oco! Bato, bato, bato, para testar melhor. Sólido com oco; e dentro do sólido, oco outra vez! Aí está! O ‘antigo’ desfeito num caixão de pedra, num cofre!”
“Assombroso!”
“Já fiz até isto”, diz Durdles, tirando a sua régua de dois pés (o Deputado, entretanto, escaramuça para mais perto, suspeitando que possa estar prestes a ser descoberto um Tesouro, o que pode de alguma forma levar ao seu próprio enriquecimento, e ao delicioso deleite de ver os descobridores enforcados pelo pescoço, pelo seu testemunho, até à morte). “Digamos que aquele meu martelo é uma parede — o meu trabalho. Dois; quatro; e dois são seis”, medindo no pavimento. “Seis pés dentro daquela parede está a Sra. Sapsea.”
“Não a Sra. Sapsea, a sério?”
“Digamos Sra. Sapsea. A parede dela é mais espessa, mas digamos Sra. Sapsea. Durdles bate, aquela parede representada por aquele martelo, e diz, depois de um bom som: ‘Algo entre nós!’ E não é que algum entulho foi deixado nesse mesmo espaço de seis pés pelos homens do Durdles!”
Jasper opina que tal precisão “é um dom”.
“Não o queria mesmo que fosse dado”, retorce Durdles, não recebendo de modo algum a observação como um bom sinal. “Eu descobri-o por mim próprio. O Durdles chega ao seu conhecimento escavando profundamente por ele, e arrancando-o pelas raízes quando ele não quer sair. — Olá, tu, Deputado!”
“Widdy!” é a resposta estridente do Deputado, afastando-se de novo.
“Apanha esse meio centavo. E não quero ver mais nada de ti esta noite, depois de chegarmos à Travellers’ Twopenny.”
“Aviso!” responde o Deputado, tendo apanhado o meio centavo, e parecendo por esta palavra mística expressar a sua anuência ao arranjo.
Eles apenas têm de atravessar o que outrora foi a vinha, pertencente ao que outrora foi o Mosteiro, para chegar ao estreito beco das traseiras onde se ergue a casa de madeira em ruínas de dois andares baixos, atualmente conhecida como Travellers’ Twopenny: — uma casa toda empenada e distorcida, como a moral dos viajantes, com parcos vestígios de uma varanda de treliça sobre a porta, e também de uma vedação rústica diante do seu jardim pisoteado; devido ao facto de os viajantes estarem tão ligados ao local por um sentimento terno (ou tão afeiçoados a ter uma fogueira à beira da estrada durante o dia), que nunca podem ser persuadidos ou ameaçados a partir, sem se apoderarem violentamente de algum miosótis de madeira e o levarem consigo.
A aparência de uma estalagem é tentada ser dada a este lugar miserável por fragmentos de cortinados vermelhos convencionais nas janelas, trapos que se tornam lamacentamente transparentes na calada da noite por luzes fracas de juncos ou pavios de algodão que ardem pesadamente no ar abafado do interior. À medida que Durdles e Jasper se aproximam, são abordados por uma lanterna de papel inscrita sobre a porta, expondo o propósito da casa. São também abordados por meia dúzia de outros rapazes horríveis — se seriam hóspedes de dois centavos ou seguidores ou parasitas de tais, quem sabe! — que, como se atraídos por algum cheiro de carniça do Deputado no ar, irrompem ao luar, como abutres que se poderiam reunir no deserto, e começam instantaneamente a apedrejá-lo e uns aos outros.
“Parem, seus brutos jovens”, grita Jasper irritado, “e deixem-nos passar!”
Esta censura sendo recebida com gritos e pedras voadoras, de acordo com um costume estabelecido confortavelmente nos últimos anos entre os regulamentos policiais das nossas comunidades inglesas, onde os cristãos são apedrejados de todos os lados, como se os dias de Santo Estêvão estivessem renascidos, Durdles observa sobre os jovens selvagens, com alguma pertinência, que “eles não têm um objetivo”, e lidera o caminho pelo beco.
Na esquina do beco, Jasper, furiosamente enfurecido, trava o seu companheiro e olha para trás. Tudo está silencioso. No momento seguinte, uma pedra a chocalhar no seu chapéu, e um grito distante de “Wake-Cock! Aviso!”, seguido por um cantar, como de algum Galo chocado infernalmente, informando-o sob cujo fogo vitorioso ele se encontra, ele vira a esquina para a segurança, e leva Durdles para casa: Durdles tropeçando entre os detritos do seu pátio pedregoso como se estivesse prestes a virar de cabeça para um dos túmulos inacabados.
John Jasper regressa por outro caminho para a sua casa da portaria, e entrando suavemente com a sua chave, encontra a sua lareira ainda acesa. Retira de um armário trancado um cachimbo de aspeto peculiar, que enche — mas não com tabaco — e, tendo ajustado o conteúdo do fornilho, muito cuidadosamente, com um pequeno instrumento, sobe uma escada interior de apenas alguns degraus, que conduz a dois quartos. Um deles é o seu próprio quarto de dormir: o outro é o do seu sobrinho. Há luz em ambos.
O seu sobrinho jaz a dormir, calmo e imperturbável. John Jasper permanece a olhar para ele, o cachimbo apagado na mão, por algum tempo, com uma atenção fixa e profunda. Depois, abafando os seus passos, passa para o seu próprio quarto, acende o cachimbo, e entrega-se aos Espectros que ele invoca à meia-noite.
CAPÍTULO VI. FILANTROPIA NO MINOR CANON CORNER
O Reverendo Septimus Crisparkle (Septimus, porque seis pequenos irmãos Crisparkle antes dele apagaram-se, um a um, assim que nasceram, como seis pequenas luzes de junco fracas, tal como foram acesas), tendo quebrado o fino gelo matinal perto do Cloisterham Weir com a sua cabeça amável, muito para revigoramento da sua estrutura, estava agora a ajudar a sua circulação boxeando contra um espelho com grande ciência e proeza. Um retrato fresco e saudável que o espelho apresentava do Reverendo Septimus, fintando e desviando-se com a máxima astúcia, e golpeando com o ombro com a máxima retidão, enquanto os seus traços radiantes fervilhavam de inocência, e uma benevolência de coração mole irradiava das suas luvas de boxe.
Era ainda mal a hora do pequeno-almoço, pois a Sra. Crisparkle — mãe, não esposa do Reverendo Septimus — tinha acabado de descer, e esperava pela cafeteira. De facto, o Reverendo Septimus parou exatamente nesse momento para tomar o rosto da bela e velha senhora, que entrava, entre as suas luvas de boxe e beijá-lo. Tendo-o feito com ternura, o Reverendo Septimus voltou ao ataque, contragolpeando com a esquerda, e entrando com a direita, de uma forma tremenda.
“Digo, todas as manhãs da minha vida, que vais conseguir fazê-lo um dia, Sept”, observou a velha senhora, observando; “e vais mesmo.”
“Fazer o quê, minha querida mãe?”
“Partir o espelho de parede, ou rebentar um vaso sanguíneo.”
“Nenhum, se Deus quiser, minha querida mãe. Aqui está fôlego, mãe. Olha para isto!” Num assalto final de grande severidade, o Reverendo Septimus administrou e escapou a todo o tipo de castigos, e terminou por colocar o toucado da velha senhora em ‘Chancery’ — tal é o termo técnico usado nos círculos científicos pelos eruditos da Nobre Arte — com uma leveza de toque que quase não agitou a fita de lavanda ou cereja mais leve nele. Magnanimamente libertando a derrotada, mesmo a tempo de guardar as suas luvas numa gaveta e fingir estar a olhar pela janela num estado de espírito contemplativo quando um criado entrou, o Reverendo Septimus deu então lugar à cafeteira e a outros preparativos para o pequeno-almoço. Estes concluídos, e os dois sós novamente, era agradável ver (ou teria sido, se houvesse alguém para ver, o que nunca havia), a velha senhora de pé a dizer a Oração do Senhor em voz alta, e o seu filho, apesar de Cónone Menor, de pé com a cabeça curvada a ouvi-la, estando ele a cinco anos dos quarenta: muito como estivera de pé a ouvir as mesmas palavras dos mesmos lábios quando estava a cinco meses dos quatro.
O que é mais bonito do que uma velha senhora — exceto uma jovem senhora — quando os seus olhos são brilhantes, quando a sua figura é elegante e compacta, quando o seu rosto é alegre e calmo, quando o seu vestido é como o vestido de uma pastora de porcelana: tão delicado nas suas cores, tão individualmente associado a ela, tão cuidadosamente moldado sobre ela? Nada é mais bonito, pensava o bom Cónone Menor frequentemente, ao tomar o seu lugar à mesa em frente da sua mãe, viúva há muito tempo. O pensamento dela nessas alturas pode ser condensado nas duas palavras que mais frequentemente faziam serviço juntas em todas as suas conversas: “O meu Sept!”
Eram um bom par para tomar o pequeno-almoço juntos no Minor Canon Corner, Cloisterham. Pois o Minor Canon Corner era um lugar tranquilo à sombra da Catedral, que o grasnar das gralhas, os passos ecoantes de raros transeuntes, o som do sino da Catedral, ou o rolar do órgão da Catedral, pareciam tornar mais tranquilo do que o silêncio absoluto. Homens de armas fanfarrões tinham tido os seus séculos de alvoroço e raiva à volta do Minor Canon Corner, e servos espancados tinham tido os seus séculos de labuta e morte ali, e monges poderosos tinham tido os seus séculos de ser por vezes úteis e por vezes prejudiciais ali, e eis que tinham todos desaparecido do Minor Canon Corner, e tanto melhor. Talvez um dos usos mais elevados de terem estado lá alguma vez fosse que pudesse ter ficado para trás aquele ar abençoado de tranquilidade que permeava o Minor Canon Corner, e aquele estado de espírito serenamente romântico — produtivo na maior parte de piedade e tolerância — que é gerado por uma história triste que já foi toda contada, ou uma peça patética que foi representada até ao fim.
Paredes de tijolo vermelho harmoniosamente suavizadas na cor pelo tempo, hera de raízes fortes, janelas com treliças, quartos apainelados, vigas grandes de carvalho em lugares pequenos, e jardins murados de pedra onde a fruta anual ainda amadurecia em árvores monásticas, eram os arredores principais da bela e velha Sra. Crisparkle e do Reverendo Septimus enquanto se sentavam ao pequeno-almoço.
“E o que, minha querida mãe”, inquiriu o Cónone Menor, dando prova de um apetite saudável e vigoroso, “diz a carta?”
A bela e velha senhora, depois de a ler, tinha acabado de a pousar na toalha do pequeno-almoço. Entregou-a ao seu filho.
Ora, a velha senhora estava extremamente orgulhosa de os seus olhos brilhantes serem tão claros que podia ler escrita sem óculos. O seu filho estava também tão orgulhoso da circunstância, e tão obedientemente inclinado a que ela derivasse a maior gratificação possível disso, que tinha inventado o fingimento de que ele próprio não conseguia ler escrita sem óculos. Portanto, ele assumiu agora um par, de proporções graves e prodigiosas, que não só incomodava seriamente o seu nariz e o seu pequeno-almoço, como impedia seriamente a sua leitura da carta. Pois, ele tinha os olhos de um microscópio e de um telescópio combinados, quando não eram assistidos.
“É do Sr. Honeythunder, naturalmente”, disse a velha senhora, cruzando os braços.
“Naturalmente”, anuiu o seu filho. Ele leu então penosamente:
“‘Refúgio de Filantropia, Escritórios Centrais, Londres, quarta-feira.
“‘MINHA SENHORA,
“‘Escrevo na—;’ Na quê, é isto? O que é que ele escreve na...?”
“Na cadeira”, disse a velha senhora.
O Reverendo Septimus tirou os óculos, para que pudesse ver o rosto dela, enquanto exclamava:
“Ora, em que é que ele havia de escrever?”
“Deus me livre, Deus me livre, Sept”, retorquiu a velha senhora, “tu não vês o contexto! Dá-ma de volta, meu querido.”
Contente por tirar os óculos (pois faziam-lhe sempre os olhos lacrimejar), o seu filho obedeceu: murmurando que a sua visão para ler manuscritos piorava cada vez mais diariamente.
“‘Escrevo’”, continuou a sua mãe, lendo de forma muito perspicaz e precisa, “‘da cadeira, à qual estarei provavelmente confinado por algumas horas.’”
Septimus olhou para a fila de cadeiras contra a parede, com um semblante meio protestante e meio apelativo.
“‘Temos’”, leu a velha senhora com um pouco de ênfase extra, “‘uma reunião do nosso Comité Composto Chefe de Filantropos Centrais e Distritais, no nosso Refúgio Central como acima; e é o seu prazer unânime que eu presida à reunião.’”
Septimus respirou mais livremente, e murmurou: “Ó! se ele chega a isso, que o faça.”
“‘Para não perder um dia de correio, aproveito a oportunidade de um longo relatório ser lido, denunciando um malfeitor público—’”
“É uma coisa muito extraordinária”, interpôs o gentil Cónone Menor, pousando a faca e o garfo para esfregar a orelha de uma forma vexada, “que estes Filantropos estejam sempre a denunciar alguém. E é outra coisa muito extraordinária que eles estejam sempre tão violentamente cheios de malfeitores!”
“‘Denunciando um malfeitor público—’” — a velha senhora retomou, “‘para tirar o nosso pequeno assunto de negócios da minha mente. Falei com os meus dois pupilos, Neville e Helena Landless, sobre o assunto da sua educação deficiente, e eles cedem ao plano proposto; como eu teria tomado bom cuidado para que o fizessem, quer gostassem ou não.’”
“E é outra coisa muito extraordinária”, observou o Cónone Menor no mesmo tom de antes, “que estes filantropos sejam tão dados a agarrar os seus semelhantes pelo pescoço, e (como se pode dizer) a empurrá-los para os caminhos da paz. — Peço-lhe perdão, minha querida mãe, por interromper.”
“‘Portanto, minha senhora, por favor, prepare o seu filho, o Rev. Sr. Septimus, para esperar Neville como um interno para estudar, na próxima segunda-feira. No mesmo dia Helena acompanhá-lo-á a Cloisterham, para ocupar as suas instalações na Casa das Freiras, o estabelecimento recomendado por si e pelo seu filho conjuntamente. Por favor, prepare igualmente a sua receção e ensino lá. Os termos em ambos os casos entendem-se ser exatamente como declarados a mim por escrito por si, quando iniciei uma correspondência consigo sobre este assunto, depois da honra de ser apresentado a si na casa da sua irmã na cidade aqui. Com cumprimentos ao Rev. Sr. Septimus, sou, Minha Senhora, O seu afetuoso irmão (Em Filantropia), LUKE HONEYTHUNDER.’”
“Bem, mãe”, disse Septimus, depois de mais um pouco de fricção na orelha, “temos de tentar. Não pode haver dúvida de que temos espaço para um interno, e que tenho tempo para dedicar a ele, e inclinação também. Devo confessar sentir-me bastante contente por ele não ser o próprio Sr. Honeythunder. Embora isso pareça miseravelmente preconceituoso — não parece? — pois nunca o vi. É um homem grande, mãe?”
“Eu chamá-lo-ia um homem grande, meu querido”, respondeu a velha senhora após alguma hesitação, “não fosse a sua voz ser muito maior.”
“Do que ele próprio?”
“Do que a de qualquer um.”
“Hah!” disse Septimus. E terminou o seu pequeno-almoço como se o sabor do Superior Family Souchong, e também do presunto e da torrada e ovos, estivesse um pouco a diminuir.
A irmã da Sra. Crisparkle, outra peça de porcelana de Dresden, e combinando tão bem com ela que teriam feito um par encantador de ornamentos para as duas extremidades de qualquer lareira espaçosa à moda antiga, e por direito nunca deveriam ter sido vistas separadas, era a esposa sem filhos de um clérigo que detinha um cargo municipal na cidade de Londres. O Sr. Honeythunder, no seu caráter público de Professor de Filantropia, tinha chegado a conhecer a Sra. Crisparkle durante o último re-emparelhamento dos ornamentos de porcelana (por outras palavras, durante a sua última visita anual à sua irmã), após uma ocasião pública de natureza filantrópica, quando certos órfãos devotos de tenra idade tinham sido saciados com pães de ameixa, e gordinha presunção. Estes eram todos os antecedentes conhecidos no Minor Canon Corner dos futuros alunos.
“Tenho a certeza de que concordará comigo, mãe”, disse o Sr. Crisparkle, depois de pensar sobre o assunto, “que a primeira coisa a fazer é colocar estes jovens o mais à vontade possível. Não há nada de desinteressado na ideia, porque não podemos estar à vontade com eles a menos que eles estejam à vontade connosco. Ora, o sobrinho de Jasper está aqui de momento; e o semelhante atrai o semelhante, e a juventude atrai a juventude. Ele é um jovem cordial, e tê-lo-emos para conhecer o irmão e a irmã ao jantar. Isso são três. Não podemos pensar em convidá-lo, sem convidar Jasper. Isso são quatro. Adicione a Srta. Twinkleton e a noiva fada que está para ser, e isso são seis. Adicione nós dois, e isso são oito. Oito num jantar amigável incomodá-la-ia de todo, mãe?”
“Nove incomodaria, Sept”, retorquiu a velha senhora, visivelmente nervosa.
“Minha querida mãe, especifiquei oito.”
“O tamanho exato da mesa e da sala, meu querido.”
Assim ficou decidido: e quando o Sr. Crisparkle, acompanhado pela mãe, visitou a Srta. Twinkleton para tratar da receção da Srta. Helena Landless na Casa das Freiras, os dois outros convites referentes àquele estabelecimento foram propostos e aceites. A Srta. Twinkleton, na verdade, lançou um olhar aos globos, como que lamentando que não tivessem sido concebidos para serem levados à sociedade; mas resignou-se a deixá-los para trás. Foram então enviadas instruções ao Filantropo para a partida e chegada, a tempo do jantar, do Sr. Neville e da Srta. Helena; e o caldo para a sopa tornou-se perfumado no ar de Minor Canon Corner.
Naqueles tempos não havia caminho de ferro para Cloisterham, e o Sr. Sapsea dizia que nunca haveria. O Sr. Sapsea dizia mais; dizia que nunca deveria haver. E, no entanto, é maravilhoso considerar que chegou a acontecer, nestes dias, que os comboios expresso não consideram Cloisterham digna de uma paragem, mas bramam e giram através dela nas suas missões maiores, lançando o pó das suas rodas como testemunho contra a sua insignificância. Havia um fragmento remoto de Linha Principal para algures, que levaria à ruína o Mercado Financeiro se falhasse, e a Igreja e o Estado se tivesse sucesso, e (claro), a Constituição, acontecesse o que acontecesse; mas mesmo isso já tinha desestabilizado tanto o tráfego de Cloisterham, que o tráfego, abandonando a estrada principal, entrava furtivamente a partir de uma parte sem precedentes do campo, por um caminho de cavalariças nas traseiras, há muitos anos rotulado na esquina: “Cuidado com o Cão”.
Para esta ignominiosa via de acesso dirigiu-se o Sr. Crisparkle, à espera da chegada de um autocarro baixo e atarracado, com uma pilha desproporcional de bagagem no tejadilho — como um pequeno Elefante com um Castelo infinitamente grande demais — que era então o serviço diário entre Cloisterham e a humanidade exterior. À medida que este veículo se aproximava ruidosamente, o Sr. Crisparkle mal conseguia ver qualquer outra coisa nele devido a um passageiro exterior corpulento, sentado no banco do cocheiro, com os cotovelos em ângulo e as mãos sobre os joelhos, comprimindo o condutor num espaço desconfortavelmente pequeno, e olhando em volta com um rosto fortemente marcado.
“Isto é Cloisterham?”, exigiu o passageiro, com uma voz tremenda.
“É”, respondeu o condutor, esfregando-se como se estivesse dorido, depois de atirar as rédeas ao cavalariço. “E nunca estive tão contente por vê-la.”
“Diga ao seu patrão para alargar o banco do passageiro, então”, retorquiu o passageiro. “O seu patrão está moralmente obrigado — e deveria estar legalmente, sob penalidades ruinosas — a zelar pelo conforto do seu semelhante.”
O condutor instituiu, com a palma das mãos, uma inquirição superficial ao estado do seu esqueleto; o que pareceu deixá-lo ansioso.
“Sentei-me em cima de si?”, perguntou o passageiro.
“Sentou”, disse o condutor, como se não tivesse gostado nada disso.
“Tome este cartão, meu amigo.”
“Acho que não o vou privar dele”, retorquiu o condutor, lançando-lhe um olhar sem grande agrado, sem o tomar. “Que bem me faz ele?”
“Seja um Membro dessa Sociedade”, disse o passageiro.
“O que ganharei com isso?”, perguntou o condutor.
“Fraternidade”, retorquiu o passageiro, com uma voz feroz.
“Obrigado”, disse o condutor, muito deliberadamente, enquanto descia; “a minha mãe contentava-se comigo, e eu também. Não quero irmãos nenhuns.”
“Mas tem de os ter”, respondeu o passageiro, descendo também, “queira ou não. Eu sou seu irmão.”
“Digo-lhe!”, expostulou o condutor, tornando-se mais irritado, “não se meta por aí! O verme, quando—”
Mas aqui, o Sr. Crisparkle interveio, repreendendo à parte, com voz amigável: “Joe, Joe, Joe! Não se esqueça de si próprio, Joe, meu caro!” e depois, quando Joe tocou o chapéu pacificamente, abordou o passageiro com: “Sr. Honeythunder?”
“Esse é o meu nome, senhor.”
“O meu nome é Crisparkle.”
“Reverendo Sr. Septimus? Contente por vê-lo, senhor. Neville e Helena estão lá dentro. Tendo sucumbido um pouco ultimamente, sob a pressão dos meus labores públicos, pensei em tomar uma lufada de ar fresco, vir com eles, e regressar à noite. Então o senhor é o Reverendo Sr. Septimus, é?”, examinando-o no geral com desapontamento, e torcendo um monóculo duplo pelo seu cordão, como se o estivesse a assar, mas sem o usar de outra forma. “Hah! Esperava vê-lo mais velho, senhor.”
“Espero que veja”, foi a resposta bem-humorada.
“Eh?”, exigiu o Sr. Honeythunder.
“Apenas uma pequena piada pobre. Não vale a pena repetir.”
“Piada? Sim; nunca vejo piada nenhuma”, retorquiu o Sr. Honeythunder franzindo o sobrolho. “Uma piada é um desperdício comigo, senhor. Onde estão eles? Helena e Neville, venham cá! O Sr. Crisparkle veio para vos encontrar.”
Um rapaz invulgarmente bonito e ágil, e uma rapariga invulgarmente bonita e ágil; muito parecidos; ambos muito morenos, e muito ricos em cor; ela de um tipo quase cigano; algo de selvagem em ambos; um certo ar neles de caçador e caçadora; mas, ao mesmo tempo, um certo ar de serem os alvos da caça, em vez dos perseguidores. Esbeltos, flexíveis, rápidos de olhar e de membros; meio tímidos, meio desafiadores; ferozes no olhar; uma espécie de pausa indefinível surgindo e desaparecendo em toda a sua expressão, tanto de rosto como de forma, que poderia ser igualmente comparada à pausa antes de um agachamento ou de um salto. As notas mentais grosseiras feitas nos primeiros cinco minutos pelo Sr. Crisparkle teriam sido lidas assim, palavra por palavra.
Convidou o Sr. Honeythunder para jantar, com um espírito perturbado (pois a desconsolação da querida e velha pastora de porcelana pesava-lhe muito), e deu o braço à Helena Landless. Tanto ela como o seu irmão, enquanto caminhavam todos juntos pelas ruas antigas, deleitaram-se muito com o que ele apontou da Catedral e das ruínas do Mosteiro, e maravilharam-se — assim corriam as suas notas — quase como se fossem belos cativos bárbaros trazidos de algum domínio tropical selvagem. O Sr. Honeythunder caminhava no meio da estrada, empurrando os nativos para fora do seu caminho, e desenvolvendo ruidosamente um plano que tinha, para fazer uma rusga a todas as pessoas desempregadas no Reino Unido, prendendo-as a todas na cadeia, e forçando-as, sob pena de extermínio imediato, a tornarem-se filantropos.
A Sra. Crisparkle precisou da sua própria dose de filantropia quando contemplou esta excrescência muito grande e muito barulhenta no pequeno grupo. Sempre algo com a natureza de um Furúnculo na face da sociedade, o Sr. Honeythunder expandiu-se num tumor inflamatório em Minor Canon Corner. Embora não fosse literalmente verdade, como era jocosamente acusado pelos incrédulos públicos, que ele gritava aos seus semelhantes: “Malditas sejam as vossas almas e corpos, venham cá e sejam abençoados!”, ainda assim a sua filantropia era daquele tipo explosivo que a diferença entre ela e a animosidade era difícil de determinar. Devia-se abolir a força militar, mas devia-se primeiro levar todos os oficiais comandantes que tinham cumprido o seu dever a julgamento por conselho de guerra por essa ofensa, e fuzilá-los. Devia-se abolir a guerra, mas devia-se fazer conversões fazendo guerra contra eles, e acusando-os de amar a guerra como a menina dos seus olhos. Não devia haver pena capital, mas devia-se primeiro varrer da face da terra todos os legisladores, juristas e juízes que fossem de opinião contrária. Devia-se ter concórdia universal, e devia-se obtê-la eliminando todas as pessoas que não quisessem, ou conscientemente não pudessem, ser concordantes. Devia-se amar o irmão como a si mesmo, mas depois de um intervalo indefinido de difamá-lo (muito como se o odiasse), e de lhe chamar todo o tipo de nomes. Acima de tudo, não devia fazer nada em privado, ou por sua própria conta. Devia ir aos escritórios do Refúgio da Filantropia, e colocar o seu nome como Membro e Filantropo Professo. Então, devia pagar a sua subscrição, obter o seu cartão de membro e a sua fita e medalha, e deveria viver para sempre numa plataforma, e dizer para sempre o que o Sr. Honeythunder dizia, e o que o Tesoureiro dizia, e o que o sub-Tesoureiro dizia, e o que o Comité dizia, e o que o sub-Comité dizia, e o que o Secretário dizia, e o que o Vice-Secretário dizia. E isto era habitualmente dito na resolução unanimemente aprovada sob mão e selo, com o efeito: “Que este Corpo reunido de Filantropos Professos encara, com desprezo indignado e desdém, não desprovido de detestação absoluta e horror repugnante” — em suma, a baixeza de todos aqueles que não pertencem a ele, e compromete-se a fazer tantas declarações odiosas quanto possível sobre eles, sem ser nada particular quanto aos factos.
O jantar foi um fracasso deplorável. O filantropo desarrumou a simetria da mesa, sentou-se no caminho do serviço, bloqueou a passagem, e levou o Sr. Tope (que auxiliava a empregada de mesa) à beira da distração ao passar pratos e travessas por cima da sua própria cabeça. Ninguém conseguia falar com ninguém, porque ele discursava para todos ao mesmo tempo, como se a companhia não tivesse existência individual, mas fosse uma Reunião. Ele confiscou o Reverendo Sr. Septimus, como uma figura oficial a ser abordada, ou uma espécie de gancho humano para pendurar o seu chapéu oratório, e caiu no hábito exasperante, comum entre tais oradores, de o personificar como um adversário perverso e fraco. Assim, perguntava: “E irá o senhor, agora, estultificar-se ao dizer-me” — e por aí fora, quando o homem inocente não tinha aberto os lábios, nem tencionado abri-los. Ou dizia: “Agora veja, senhor, a que posição está reduzido. Não lhe deixarei qualquer fuga. Depois de esgotar todos os recursos da fraude e da falsidade, durante anos e anos; depois de exibir uma combinação de baixeza covarde com audácia sanguinária, tal como o mundo não testemunhou muitas vezes; tem agora a hipocrisia de dobrar o joelho perante o mais degradado da humanidade, e de suplicar e ganir e uivar por misericórdia!” Ao que o infeliz Minor Canon olhava, em parte indignado e em parte perplexo; enquanto a sua digna mãe se sentava a empinar o queixo, com lágrimas nos olhos, e o resto do grupo resvalava para uma espécie de estado gelatinoso, no qual não havia sabor ou solidez, e muito pouca resistência.
Mas o jorro de filantropia que irrompeu quando a partida do Sr. Honeythunder começou a pairar, deve ter sido altamente gratificante para os sentimentos daquele homem distinto. O seu café foi produzido, pela atividade especial do Sr. Tope, uma hora inteira antes de ele o querer. O Sr. Crisparkle sentou-se com o relógio na mão durante o mesmo período, para que ele não ultrapassasse o seu tempo. Os quatro jovens foram unânimes em acreditar que o relógio da Catedral bateu três quartos, quando na verdade bateu apenas um. A Srta. Twinkleton estimou a distância até ao autocarro em vinte e cinco minutos a pé, quando eram realmente cinco. A bondade afetuosa de todo o círculo empurrou-o para dentro do seu sobretudo, e empurrou-o para o luar, como se ele fosse um traidor fugitivo com quem simpatizavam, e uma tropa de cavalaria estivesse à porta das traseiras. O Sr. Crisparkle e o seu novo pupilo, que o levou ao autocarro, foram tão fervorosos nas suas preocupações de que ele apanhasse uma constipação, que o fecharam lá dentro instantaneamente e deixaram-no, ainda com meia hora de antecedência.
CAPÍTULO VII. MAIS CONFIDÊNCIAS DO QUE UMA
“Sei muito pouco sobre esse cavalheiro, senhor”, disse Neville ao Minor Canon enquanto voltavam para trás.
“Sabe muito pouco sobre o seu tutor?”, repetiu o Minor Canon.
“Quase nada!”
“Como é que ele—”
“Veio a ser o meu tutor? Eu dir-lhe-ei, senhor. Suponho que saiba que viemos (a minha irmã e eu) do Ceilão?”
“De facto, não.”
“Surpreende-me isso. Vivíamos com um padrasto lá. A nossa mãe morreu lá, quando éramos crianças pequenas. Tivemos uma existência miserável. Ela fez dele o nosso tutor, e ele era um miserável avarento que nos negava comida para comer, e roupas para vestir. À sua morte, passou-nos para este homem; sem melhor razão que eu saiba, do que a de ser um amigo ou uma ligação sua, cujo nome estava sempre impresso e chamava a sua atenção.”
“Isso foi recentemente, suponho?”
“Muito recentemente, senhor. Este nosso padrasto era um bruto cruel, bem como um explorador. É bom que ele tenha morrido quando morreu, ou eu poderia tê-lo matado.”
O Sr. Crisparkle parou bruscamente ao luar e olhou para o seu promissor pupilo em consternação.
“Surpreendo-o, senhor?”, disse ele, com uma mudança rápida para um modo submisso.
“Choca-me; choca-me inexprimivelmente.”
O pupilo baixou a cabeça durante algum tempo, enquanto caminhavam, e depois disse: “O senhor nunca o viu bater na sua irmã. Eu vi-o bater na minha, mais do que uma ou duas vezes, e nunca me esqueci.”
“Nada”, disse o Sr. Crisparkle, “nem sequer as lágrimas de uma irmã amada e bela sob um tratamento cobarde;” ele tornou-se menos severo, apesar de si mesmo, à medida que a sua indignação subia; “poderia justificar essas expressões horríveis que usou.”
“Lamento tê-las usado, e especialmente para si, senhor. Peço para as retirar. Mas permita-me corrigi-lo num ponto. Falou das lágrimas da minha irmã. A minha irmã tê-lo-ia deixado despedaçá-la, antes de o deixar acreditar que ele a podia fazer verter uma lágrima.”
O Sr. Crisparkle reviu essas suas notas mentais, e não ficou nada surpreendido por ouvir isso, nem nada disposto a questioná-lo.
“Talvez ache estranho, senhor” — isto foi dito com uma voz hesitante — “que eu lhe peça tão cedo para me permitir confiar em si, e para ter a bondade de ouvir uma ou duas palavras da minha parte em minha defesa?”
“Defesa?”, repetiu o Sr. Crisparkle. “O senhor não está sob defesa, Sr. Neville.”
“Penso que estou, senhor. Pelo menos sei que estaria, se estivesse mais bem familiarizado com o meu carácter.”
“Bem, Sr. Neville”, foi a réplica. “E se me deixasse descobri-lo?”
“Já que é o seu prazer, senhor”, respondeu o jovem, com uma mudança rápida na sua atitude para uma desilusão taciturna: “já que é o seu prazer travar o meu impulso, devo submeter-me.”
Houve algo no tom deste breve discurso que tornou o homem consciencioso a quem era dirigido inquieto. Insinuava-lhe que poderia, sem querer, desviar uma confiança benéfica para uma mente jovem deformada e talvez para o seu próprio poder de a dirigir e melhorar. Estavam à vista das luzes nas suas janelas, e ele parou.
“Vamos voltar para trás e dar uma ou duas voltas, Sr. Neville, ou poderá não ter tempo de terminar o que deseja dizer-me. É precipitado ao pensar que pretendo travá-lo. Muito pelo contrário. Convido a sua confiança.”
“O senhor convidou-a, senhor, sem o saber, desde que vim para aqui. Digo ‘desde’, como se estivesse aqui há uma semana. A verdade é que viemos para aqui (a minha irmã e eu) para discutir consigo, e afrontá-lo, e fugir de novo.”
“A sério?”, disse o Sr. Crisparkle, sem saber o que dizer.
“Vê, não podíamos saber o que o senhor era de antemão, senhor; podíamos?”
“Claramente que não”, disse o Sr. Crisparkle.
“E não tendo gostado de mais ninguém com quem estivemos em contacto, tínhamos decidido não gostar de si.”
“A sério?”, disse o Sr. Crisparkle novamente.
“Mas gostamos de si, senhor, e vemos uma diferença inconfundível entre a sua casa e a sua receção a nós, e qualquer outra coisa que tenhamos conhecido. Isto — e o facto de eu estar sozinho consigo — e tudo à nossa volta a parecer tão calmo e pacífico após a partida do Sr. Honeythunder — e Cloisterham sendo tão antiga e grave e bela, com a lua a brilhar sobre ela — estas coisas inclinaram-me a abrir o meu coração.”
“Compreendo perfeitamente, Sr. Neville. E é salutar ouvir tais influências.”
“Ao descrever as minhas próprias imperfeições, senhor, devo pedir-lhe que não suponha que estou a descrever as da minha irmã. Ela saiu das desvantagens da nossa vida miserável, tão melhor do que eu, como essa torre da Catedral é mais alta do que aquelas chaminés.”
O Sr. Crisparkle, no seu íntimo, não tinha tanta certeza disto.
“Tive, senhor, desde a minha lembrança mais precoce, de suprimir um ódio mortal e amargo. Isto tornou-me secreto e vingativo. Fui sempre tiranicamente subjugado pela mão forte. Isto levou-me, na minha fraqueza, ao recurso de ser falso e mesquinho. Fui privado de educação, liberdade, dinheiro, vestuário, das próprias necessidades da vida, dos prazeres mais comuns da infância, das posses mais comuns da juventude. Isto causou-me uma total falta de não sei que emoções, ou lembranças, ou bons instintos — não tenho sequer um nome para a coisa, vê! — sobre os quais teve de trabalhar em outros jovens rapazes a quem está habituado.”
“Isto é evidentemente verdade. Mas isto não é encorajador”, pensou o Sr. Crisparkle enquanto voltavam a virar-se.
“E para terminar, senhor: fui criado entre dependentes abjetos e servis, de uma raça inferior, e posso facilmente ter contraído alguma afinidade com eles. Às vezes, não sei se não será uma gota do que é tigresco no sangue deles.”
“Como no caso dessa observação de há pouco”, pensou o Sr. Crisparkle.
“Numa última palavra de referência à minha irmã, senhor (somos gémeos), deveria saber, para sua honra, que nada na nossa miséria a subjugou alguma vez, embora muitas vezes me tenha intimidado. Quando fugimos disso (fugimos quatro vezes em seis anos, para sermos rapidamente trazidos de volta e cruelmente punidos), a fuga era sempre planeada e liderada por ela. Cada vez ela vestia-se como um rapaz, e mostrava a audácia de um homem. Creio que tínhamos sete anos quando nos escapámos pela primeira vez; mas lembro-me, quando perdi o canivete com que ela deveria ter cortado o cabelo curto, quão desesperadamente ela tentou arrancá-lo, ou mordê-lo. Não tenho mais nada a dizer, senhor, exceto que espero que tenha paciência comigo e que me compreenda.”
“Disso, Sr. Neville, pode estar certo”, retorquiu o Minor Canon. “Não prego mais do que posso evitar, e não retribuirei a sua confiança com um sermão. Mas suplico-lhe que tenha em mente, muito seriamente e com firmeza, que se eu lhe puder fazer algum bem, só pode ser com a sua própria assistência; e que só pode prestar essa assistência, eficientemente, buscando auxílio do Céu.”
“Tentarei fazer a minha parte, senhor.”
“E, Sr. Neville, tentarei fazer a minha. Aqui tem a minha mão nisso. Que Deus abençoe os nossos esforços!”
Estavam agora parados à porta da casa dele, e um som alegre de vozes e risos ouvia-se lá dentro.
“Vamos dar mais uma volta antes de entrar”, disse o Sr. Crisparkle, “pois quero fazer-lhe uma pergunta. Quando disse que estava com outra opinião a meu respeito, falou não apenas por si, mas pela sua irmã também?”
“Sem dúvida que falei, senhor.”
“Desculpe-me, Sr. Neville, mas penso que não teve oportunidade de comunicar com a sua irmã, desde que o encontrei. O Sr. Honeythunder foi muito eloquente; mas talvez eu possa aventurar-me a dizer, sem malícia, que ele monopolizou um pouco a ocasião. Não poderá ter respondido pela sua irmã sem garantia suficiente?”
Neville abanou a cabeça com um sorriso orgulhoso.
“O senhor ainda não sabe, senhor, que compreensão completa pode existir entre a minha irmã e eu, embora nenhuma palavra falada — talvez nem tanto como um olhar — possa ter passado entre nós. Ela não só sente o que descrevi, como sabe muito bem que estou a aproveitar esta oportunidade de falar consigo, tanto por ela como por mim.”
O Sr. Crisparkle olhou para o rosto dele, com alguma incredulidade; mas o rosto dele expressava tal convicção absoluta e firme da verdade do que dizia, que o Sr. Crisparkle olhou para o pavimento, e meditou, até chegarem à sua porta novamente.
“Pedirei mais uma volta, senhor, desta vez”, disse o jovem, com uma cor um pouco mais viva a subir-lhe ao rosto. “Mas por causa da — penso que o chamou eloquência, senhor?” (um tanto astutamente.)
“Eu — sim, chamei-lhe eloquência”, disse o Sr. Crisparkle.
“Mas por causa da eloquência do Sr. Honeythunder, eu poderia não ter precisado de lhe perguntar o que vou perguntar. Este Sr. Edwin Drood, senhor: penso que é esse o nome?”
“Corretíssimo”, disse o Sr. Crisparkle. “D-r-duplo o-d.”
“Ele — ou ele lia — estuda consigo, senhor?”
— Nunca, Sr. Neville. Ele vem cá visitar o seu parente, o Sr. Jasper.
— A Srta. Bud também é sua parente, senhor?
(“Ora, por que haveria ele de perguntar isso, com tal repentina sobranceria?”, pensou o Sr. Crisparkle.) Então, explicou em voz alta o que sabia da pequena história do noivado de ambos.
— Ah! É isso, é? — disse o jovem. — Agora compreendo o seu ar de proprietário!
Isto foi dito de forma tão evidente para si mesmo, ou para qualquer um que não fosse o Sr. Crisparkle, que este último sentiu instintivamente que notá-lo seria quase equivalente a notar uma passagem numa carta que lera por acaso por cima do ombro de quem a escrevia. Um momento depois, reentraram na casa.
O Sr. Jasper estava sentado ao piano quando eles entraram na sua sala de visitas, e acompanhava a Srta. Rosebud enquanto ela cantava. Era uma consequência de ele tocar o acompanhamento sem partitura, e de ela ser uma criaturinha descuidada, muito propensa a enganar-se, que ele seguia os lábios dela com a maior atenção, tanto com os olhos como com as mãos; sugerindo cuidadosa e suavemente a nota tónica de tempos a tempos. De pé, com um braço passado à volta dela, mas com o rosto muito mais focado no Sr. Jasper do que no canto dela, estava Helena, entre a qual e o seu irmão se deu um reconhecimento instantâneo, no qual o Sr. Crisparkle viu, ou julgou ver, o entendimento de que se falara, cintilar. O Sr. Neville tomou então o seu lugar de admiração, encostado ao piano, em frente à cantora; o Sr. Crisparkle sentou-se junto da pastora de porcelana; Edwin Drood fechou e abriu galantemente o leque da Srta. Twinkleton; e essa senhora reclamou passivamente aquele tipo de propriedade de exibidor sobre o talento em exposição, que o Sr. Tope, o sacristão, reclamava diariamente no serviço da Catedral.
A canção prosseguiu. Era um lamento de despedida, e a fresca voz jovem era muito plangente e terna. À medida que Jasper observava os lábios bonitos, e de vez em quando sugeria a tal nota, como se fosse um sussurro seu, a voz tornou-se menos firme, até que, de repente, a cantora desfez-se num mar de lágrimas e gritou, com as mãos sobre os olhos: — Não suporto isto! Estou assustada! Levem-me daqui!
Com uma volta rápida da sua figura ágil, Helena deitou a pequena beldade num sofá, como se nunca a tivesse segurado. Depois, de joelhos ao lado dela, e com uma mão sobre a sua boca rosada, enquanto com a outra apelava a todos os restantes, Helena disse-lhes: — Não é nada; já passou; não falem com ela durante um minuto, e ela estará bem!
As mãos de Jasper tinham-se, no mesmo instante, levantado das teclas, e estavam agora suspensas sobre elas, como se ele esperasse para retomar. Nessa atitude permaneceu ele em silêncio: nem sequer olhando em redor, quando todos os outros tinham mudado de lugar e se reconfortavam uns aos outros.
— A Pussy não está habituada a uma audiência; é esse o facto — disse Edwin Drood. — Ela ficou nervosa e não aguentou. Além disso, Jack, és um mestre tão consciencioso, e exiges tanto, que acredito que a fazes ter medo de ti. Não admira.
— Não admira — repetiu Helena.
— Pronto, Jack, ouves! Tu terias medo dele, em circunstâncias semelhantes, não terias, Srta. Landless?
— Em circunstância nenhuma — retorquiu Helena.
Jasper baixou as mãos, olhou por cima do ombro e pediu para agradecer à Srta. Landless pela sua defesa do seu caráter. Depois, pôs-se a tocar silenciosamente, sem carregar nas notas, enquanto a sua pequena aluna era levada para uma janela aberta para apanhar ar, e era mimada e restaurada. Quando ela foi trazida de volta, o lugar dele estava vazio. — O Jack foi-se embora, Pussy — disse-lhe Edwin. — Estou mais do que receoso de que ele não tenha gostado de ser acusado de ser o Monstro que te assustou. — Mas ela não respondeu uma palavra e estremeceu, como se a tivessem deixado um pouco fria demais.
A Srta. Twinkleton, opinando agora que, de facto, eram horas tardias, Sra. Crisparkle, para nos encontrarmos fora das muralhas da Casa das Freiras, e que nós, que assumimos a formação das futuras esposas e mães de Inglaterra (as últimas palavras em voz mais baixa, por precisarem de ser comunicadas em confiança), tínhamos realmente o dever (a voz subindo novamente) de dar um melhor exemplo do que o de hábitos libertinos, requisitaram-se os agasalhos e os dois jovens cavaleiros voluntariaram-se para acompanhar as senhoras a casa. Foi feito rapidamente, e o portão da Casa das Freiras fechou-se sobre elas.
As alunas tinham-se retirado, e apenas a Sra. Tisher, em vigília solitária, esperava a nova aluna. Como o seu quarto ficava dentro do de Rosa, pouca apresentação ou explicação foi necessária antes de ela ser entregue à guarda da sua nova amiga e deixada durante a noite.
— Isto é um alívio abençoado, minha querida — disse Helena. — Estive a recear todo o dia que me encurralassem a esta hora.
— Não somos muitas — respondeu Rosa — e somos raparigas de bom carácter; pelo menos as outras são; posso responder por elas.
— Posso responder por ti — riu-se Helena, examinando o rosto pequeno e encantador com os seus olhos escuros e ardentes, e acariciando ternamente a pequena figura. — Serás minha amiga, não serás?
— Espero que sim. Mas a ideia de eu ser tua amiga parece demasiado absurda, contudo.
— Porquê?
— Oh, sou uma coisa tão minúscula, e tu és tão feminina e bonita. Pareces ter determinação e poder suficientes para me esmagar. Encolho-me até ao nada ao lado da tua presença, mesmo.
— Sou uma criatura negligenciada, minha querida, sem qualquer conhecimento de talentos, conscientemente sensível de que tenho tudo a aprender, e profundamente envergonhada de confessar a minha ignorância.
— E, contudo, confessa-me tudo! — disse Rosa.
— Minha linda, posso evitá-lo? Há um fascínio em ti.
— Oh! Há, pois não? — fez beicinho Rosa, meio a brincar e meio a sério. — Que pena que o Mestre Eddy não sinta isso mais!
Naturalmente, as suas relações com aquele jovem cavalheiro já tinham sido transmitidas no Minor Canon Corner.
— Ora, certamente ele deve amar-te com todo o seu coração! — exclamou Helena, com uma seriedade que ameaçava explodir em ferocidade se ele não o fizesse.
— Eh? Oh, bem, suponho que sim — disse Rosa, fazendo beicinho de novo; — tenho a certeza de que não tenho o direito de dizer que não ama. Talvez a culpa seja minha. Talvez eu não seja tão simpática para ele como deveria ser. Não creio que seja. Mas é tão ridículo!
Os olhos de Helena exigiram saber o que era.
— Nós — disse Rosa, respondendo como se ela tivesse falado. — Somos um par tão ridículo. E estamos sempre a discutir.
— Porquê?
— Porque ambos sabemos que somos ridículos, minha querida! — Rosa deu essa resposta como se fosse a resposta mais conclusiva do mundo.
O olhar dominador de Helena esteve fixo no rosto dela por alguns momentos, e depois, impulsivamente, estendeu ambas as mãos e disse:
— Serás minha amiga e ajudar-me-ás?
— De facto, minha querida, serei — respondeu Rosa, num tom de infantilidade afetuosa que foi direta e verdadeira ao seu coração; — serei uma amiga tão boa quanto uma coisa tão minúscula pode ser para uma criatura tão nobre como tu. E sê uma amiga para mim, por favor; não me compreendo a mim mesma: e preciso muito, muito mesmo, de uma amiga que me possa compreender.
Helena Landless beijou-a e, retendo ambas as mãos dela, disse:
— Quem é o Sr. Jasper?
Rosa desviou a cabeça ao responder: — Tio do Eddy, e meu professor de música.
— Tu não o amas?
— Ugh! — Ela levou as mãos ao rosto e estremeceu de medo ou horror.
— Sabes que ele te ama?
— Oh, não, não, não! — gritou Rosa, caindo de joelhos e agarrando-se ao seu novo recurso. — Não me digas isso! Ele aterroriza-me. Ele persegue os meus pensamentos, como um fantasma terrível. Sinto que nunca estou a salvo dele. Sinto como se ele pudesse atravessar a parede quando se fala dele. — Ela olhou realmente em redor, como se temesse vê-lo de pé na sombra atrás de si.
— Tenta contar-me mais sobre isso, querida.
— Sim, contarei, contarei. Porque tu és tão forte. Mas abraça-me enquanto isso, e fica comigo depois.
— Minha criança! Falas como se ele te tivesse ameaçado de alguma forma obscura.
— Ele nunca me falou sobre — isso. Nunca.
— O que é que ele fez?
— Ele tornou-me escrava com os seus olhares. Forçou-me a compreendê-lo, sem dizer uma palavra; e forçou-me a manter silêncio, sem proferir uma ameaça. Quando toco, ele nunca desvia os olhos das minhas mãos. Quando canto, ele nunca desvia os olhos dos meus lábios. Quando me corrige, e toca uma nota, ou um acorde, ou uma passagem, ele próprio está nos sons, sussurrando que me persegue como um amante, e ordenando-me que guarde o seu segredo. Evito os seus olhos, mas ele força-me a vê-los sem olhar para eles. Mesmo quando um brilho os cobre (o que acontece às vezes), e ele parece divagar para um tipo de sonho assustador no qual ele ameaça mais, ele obriga-me a sabê-lo, e a saber que ele está sentado perto de mim, mais terrível do que nunca.
— O que é esta ameaça imaginada, linda? O que é que está ameaçado?
— Não sei. Nunca me atrevi sequer a pensar ou a perguntar-me o que é.
— E foi só isto, hoje à noite?
— Foi só isto; exceto que, hoje à noite, quando ele observava os meus lábios tão atentamente enquanto eu cantava, além de me sentir aterrorizada, senti-me envergonhada e apaixonadamente ferida. Foi como se ele me beijasse, e eu não pude suportar, e gritei. Nunca deves respirar isto a ninguém. O Eddy é devotado a ele. Mas disseste hoje à noite que não terias medo dele, em circunstância nenhuma, e isso dá-me — a mim, que tenho tanto medo dele — coragem para contar apenas a ti. Abraça-me! Fica comigo! Estou demasiado assustada para ser deixada sozinha.
O lustroso rosto cigano inclinou-se sobre os braços e o peito que se agarravam, e o cabelo negro e selvagem caiu de forma protetora sobre a forma infantil. Havia um brilho de fogo adormecido nos intensos olhos escuros, embora estivessem então suavizados com compaixão e admiração. Que quem quer que seja o mais interessado esteja atento!
CAPÍTULO VIII. ADAGAS DESAINADAS
Os dois jovens, tendo visto as donzelas, as suas protegidas, entrarem no pátio da Casa das Freiras, e encontrando-se friamente encarados pela placa de latão atrevida, como se o velho galã estragado com o monóculo fosse insolente, olham um para o outro, olham ao longo da perspetiva da rua banhada pelo luar, e afastam-se lentamente juntos.
— Fica cá muito tempo, Sr. Drood? — diz Neville.
— Desta vez não — é a resposta descuidada. — Parto para Londres de novo amanhã. Mas estarei por aqui, de vez em quando, até ao próximo Solstício de Verão; depois despedir-me-ei de Cloisterham, e de Inglaterra também; por muitos e longos dias, espero.
— Vai para o estrangeiro?
— Vou acordar um pouco o Egito — é a resposta condescendente.
— Está a estudar?
— A estudar? — repete Edwin Drood, com um toque de desprezo. — Não. A fazer, a trabalhar, engenharia. O meu pequeno património foi deixado como parte do capital da Firma em que estou, pelo meu pai, um antigo sócio; e sou um encargo da Firma até ter a maioridade; e depois entro na minha modesta parte no negócio. O Jack — conheceu-o ao jantar — é, até lá, o meu tutor e administrador.
— Ouvi dizer pelo Sr. Crisparkle da sua outra boa sorte.
— O que quer dizer com a minha outra boa sorte?
Neville fez o seu comentário de uma forma vigilante e, contudo, furtiva e tímida, muito expressiva daquele ar peculiar já notado, de ser simultaneamente caçador e caçado. Edwin fez a sua réplica com uma brusquidão nada educada. Param e trocam um olhar bastante acalorado.
— Espero — diz Neville — que não haja ofensa, Sr. Drood, em eu referir inocentemente o seu noivado?
— Por Jorge! — exclama Edwin, seguindo de novo a um passo um pouco mais rápido; — toda a gente nesta velha Cloisterham tagarela refere-se a isso. Admiro-me que não tenha sido aberta nenhuma taberna, com o meu retrato como sinal de A Cabeça do Noivo. Ou o retrato da Pussy. Um ou outro.
— Não sou responsável por o Sr. Crisparkle mencionar o assunto comigo, de forma bastante aberta — começa Neville.
— Não; isso é verdade; não é — concorda Edwin Drood.
— Mas — retoma Neville — sou responsável por o mencionar a si. E fizê-lo, sob o pressuposto de que não poderia deixar de estar altamente orgulhoso disso.
Ora, há estes dois toques curiosos da natureza humana a mover as molas secretas deste diálogo. Neville Landless já está suficientemente impressionado com a Pequena Rosebud para se sentir indignado por Edwin Drood (muito abaixo dela) considerar o seu prémio tão levianamente. Edwin Drood já está suficientemente impressionado com Helena para se sentir indignado por o irmão de Helena (muito abaixo dela) dispor dele tão friamente, e afastá-lo do caminho tão inteiramente.
No entanto, é melhor responder ao último comentário. Então, diz Edwin:
— Não sei, Sr. Neville — (adotando esse modo de tratamento do Sr. Crisparkle) — se aquilo de que as pessoas mais se orgulham é, habitualmente, sobre o que mais falam; não sei também se aquilo de que mais se orgulham é o que mais gostam que os outros comentem. Mas vivo uma vida ocupada, e falo sob correção de vós, leitores, que deveríeis saber tudo, e atrevo-me a dizer que sabeis.
A esta altura, ambos se tinham tornado selvagens; o Sr. Neville abertamente; Edwin Drood sob a cobertura transparente de uma melodia popular, e uma paragem aqui e ali para fingir admirar efeitos pitorescos à luz do luar à sua frente.
— Não me parece muito educado da sua parte — observa Neville, a dada altura — refletir sobre um estranho que vem para aqui, não tendo tido as suas vantagens, para tentar compensar o tempo perdido. Mas, decerto, não fui educado numa "vida ocupada", e as minhas ideias de civilidade foram formadas entre Gentios.
— Talvez a melhor civilidade, independentemente do tipo de pessoas entre as quais somos criados — retorque Edwin Drood — seja tratar da nossa própria vida. Se me der esse exemplo, prometo segui-lo.
— Sabe que assume demasiado sobre si? — é a resposta irritada — e que, na parte do mundo de onde venho, teria de prestar contas por isso?
— Por quem, por exemplo? — pergunta Edwin Drood, parando e examinando o outro com um olhar de desdém.
Mas, aqui, uma mão direita surpreendente é colocada no ombro de Edwin, e Jasper coloca-se entre eles. Pois pareceria que ele, também, tinha passeado pela Casa das Freiras, e tinha chegado atrás deles no lado sombrio da estrada.
— Ned, Ned, Ned! — diz ele; — não devemos ter mais disto. Não gosto disto. Ouvi palavras ásperas entre vós os dois. Lembra-te, meu caro rapaz, que estás quase na posição de anfitrião esta noite. Pertences, por assim dizer, ao lugar, e de certa maneira representas o lugar perante um estranho. O Sr. Neville é um estranho, e deverias respeitar as obrigações da hospitalidade. E, Sr. Neville — pousando a mão esquerda no ombro interior daquele jovem, e caminhando assim entre eles, mão no ombro de cada lado: — perdoar-me-á; mas apelo a si para que governe também o seu temperamento. Ora, o que há de errado? Mas por que perguntar! Não haja nada de errado, e a pergunta é supérflua. Estamos os três num bom entendimento, não estamos?
Após uma luta silenciosa entre os dois jovens sobre quem falará por último, Edwin Drood intervém com: — No que me diz respeito, Jack, não há raiva em mim.
— Nem em mim — diz Neville Landless, embora não tão livremente; ou talvez tão descuidadamente. — Mas se o Sr. Drood soubesse tudo o que está por trás de mim, longe daqui, talvez soubesse melhor como é que palavras afiadas têm arestas afiadas para me ferir.
— Talvez — diz Jasper, de uma forma apaziguadora — seja melhor não qualificar o nosso bom entendimento. Seria melhor não dizermos nada que tenha aparência de uma repreensão ou condição; poderia não parecer generoso. Franca e livremente, veem que não há raiva no Ned. Franca e livremente, não há raiva em si, Sr. Neville?
— Nenhuma, Sr. Jasper. — Ainda assim, não tão franca ou tão livremente; ou, diga-se mais uma vez, talvez não tão descuidadamente.
— Tudo resolvido, então! Ora, a minha casa da portaria de solteiro fica a poucos metros daqui, e o aquecedor está ao lume, e o vinho e os copos estão sobre a mesa, e não é a um passo de distância do Minor Canon Corner. Ned, estás de pé e de partida amanhã. Vamos levar o Sr. Neville connosco, para tomar um cálice de despedida.
— De todo o coração, Jack.
— E de todo o meu, Sr. Jasper. — Neville sente ser impossível dizer menos, mas preferiria não ir. Tem a impressão de que perdeu o controlo do seu temperamento; sente que a frieza de Edwin Drood, longe de ser contagiosa, o deixa em brasa.
O Sr. Jasper, ainda caminhando no centro, mão no ombro de cada lado, entoa lindamente o Refrão de uma canção de beber, e todos sobem para os seus aposentos. Lá, o primeiro objeto visível, quando ele adiciona a luz de um candeeiro à do lume, é o retrato sobre a lareira. Não é um objeto calculado para melhorar o entendimento entre os dois jovens, por reavivar de forma algo embaraçosa o assunto da sua divergência. Consequentemente, ambos olham para ele conscientemente, mas não dizem nada. Jasper, contudo (que pareceria, pelo seu comportamento, ter obtido apenas uma pista imperfeita da causa das suas recentes palavras ásperas), chama diretamente a atenção para o mesmo.
— Reconhece esse quadro, Sr. Neville? — sombreando o candeeiro para projetar a luz sobre ele.
— Reconheço-o, mas está longe de lisonjear a original.
— Oh, é duro com ele! Foi feito pelo Ned, que me ofereceu de presente.
— Lamento isso, Sr. Drood. — Neville desculpa-se, com uma intenção real de pedir desculpa; — se eu soubesse que estava na presença do artista...
— Oh, uma piada, senhor, uma mera piada — corta Edwin, com um bocejo provocador. — Um pouco de mimo aos pontos da Pussy! Vou pintá-la gravemente, um destes dias, se ela se portar bem.
O ar de patrocínio e indiferença com que isto é dito, enquanto o orador se atira para trás numa cadeira e entrelaça as mãos atrás da cabeça, como apoio para a mesma, é muito exasperante para o excitável e excitado Neville. Jasper olha atentamente de um para o outro, sorri ligeiramente, e vira as costas para misturar um jarro de vinho quente ao lume. Parece exigir muita mistura e preparação.
— Suponho, Sr. Neville — diz Edwin, rápido a ressentir-se do protesto indignado contra si mesmo no rosto do jovem Landless, que é tão visível quanto o retrato, ou o lume, ou o candeeiro: — Suponho que, se pintasse o retrato da sua amada...
— Não sei pintar — é a interrupção apressada.
— Isso é um azar seu, e não uma culpa. Faria se pudesse. Mas se pudesse, suponho que a faria (não importa o que ela fosse na realidade), Juno, Minerva, Diana e Vénus, tudo num só. Eh?
— Não tenho amada, e não posso dizer.
— Se eu tentasse a minha mão — diz Edwin, com uma fanfarronada de rapaz a surgir nele — num retrato da Srta. Landless — a sério, note bem; a sério — veria o que eu era capaz de fazer!
— Sendo primeiro obtido o consentimento da minha irmã para posar, suponho? Como nunca será obtido, temo que nunca verei o que é capaz de fazer. Tenho de suportar a perda.
Jasper vira-se do lume, enche um copo grande de cálice para Neville, enche um copo grande de cálice para Edwin, e entrega a cada um o seu; depois enche para si mesmo, dizendo:
— Vamos, Sr. Neville, havemos de beber ao meu sobrinho, Ned. Como é o pé dele que está no estribo — metaforicamente — o nosso cálice de despedida deve ser dedicado a ele. Ned, meu querido companheiro, meu amor!
Jasper dá o exemplo de quase esvaziar o seu copo, e Neville segue-o. Edwin Drood diz: — Muito obrigado a ambos — e segue o duplo exemplo.
— Olhai para ele — exclama Jasper, estendendo a mão com admiração e ternura, embora também com um toque de zombaria. — Vede como ele descansa tão à vontade, Sr. Neville! O mundo estende-se todo à sua frente para que ele escolha. Uma vida de trabalho estimulante e interesse, uma vida de mudança e entusiasmo, uma vida de conforto doméstico e amor! Olhai para ele!
O rosto de Edwin Drood tornou-se rápida e notavelmente afogueado pelo vinho; o mesmo aconteceu com o rosto de Neville Landless. Edwin continua sentado, recostado na cadeira, fazendo aquele descanso de mãos entrelaçadas para a cabeça.
— Vede como ele pouco se importa com tudo isso! — prossegue Jasper em tom de brincadeira. — Mal vale o esforço de colher o fruto dourado que pende maduro na árvore para ele. E, contudo, considerai o contraste, Sr. Neville. Vós e eu não temos perspectiva de trabalho estimulante e interesse, ou de mudança e entusiasmo, ou de conforto doméstico e amor. Vós e eu não temos perspectiva (a menos que sejais mais afortunado do que eu, o que pode facilmente acontecer), senão a tediosa e imutável rotina deste lugar monótono.
— Pela minha alma, Jack — diz Edwin, com complacência —, sinto-me quase a pedir desculpas por ter o meu caminho suavizado como descreves. Mas tu sabes o que eu sei, Jack, e talvez não seja assim tão fácil como parece, afinal. Não é, Pussy? — Para o retrato, com um estalar de polegar e indicador. — Ainda temos de nos entender; não é verdade, Pussy? Tu sabes ao que me refiro, Jack.
O seu discurso tornou-se pastoso e indistinto. Jasper, calmo e senhor de si, olha para Neville, como se esperasse a sua resposta ou comentário. Quando Neville fala, a sua fala também é pastosa e indistinta.
— Poderia ter sido melhor para o Sr. Drood ter conhecido algumas dificuldades — diz ele, desafiadoramente.
— Peço-lhe — retorque Edwin, voltando apenas os olhos naquela direção —, peço-lhe, por que poderia ter sido melhor para o Sr. Drood ter conhecido algumas dificuldades?
— Sim — assente Jasper, com um ar de interesse; — deixem-nos saber porquê?
— Porque poderiam tê-lo tornado mais sensível — diz Neville — à boa fortuna que não é, de forma alguma, necessariamente o resultado dos seus próprios méritos.
O Sr. Jasper olha rapidamente para o sobrinho à espera da réplica.
— Já conheceu dificuldades, posso perguntar? — diz Edwin Drood, endireitando-se.
O Sr. Jasper olha rapidamente para o outro à espera da resposta.
— Já.
— E de que é que elas o tornaram sensível?
O jogo de olhos do Sr. Jasper entre os dois mantém-se ao longo de todo o diálogo, até ao fim.
— Já o disse uma vez esta noite.
— Não disse nada do género.
— Digo-lhe que disse. Que o senhor assume demasiado sobre si mesmo.
— Acrescentou outra coisa a isso, se bem me lembro?
— Sim, disse outra coisa.
— Diga-a novamente.
— Disse que, na parte do mundo de onde venho, o senhor seria chamado à responsabilidade por isso.
— Só lá? — grita Edwin Drood, com uma risada de desprezo. — Muito longe, suponho? Sim; já percebo! Essa parte do mundo fica a uma distância segura.
— Diga aqui, então — retorque o outro, levantando-se em fúria. — Diga em qualquer lado! A sua vaidade é intolerável, a sua presunção é insuportável; fala como se fosse um prémio raro e precioso, em vez de um fanfarrão comum. O senhor é um indivíduo comum e um fanfarrão comum.
— Pooh, pooh — diz Edwin Drood, igualmente furioso, mas mais composto; — como haveria de saber? Pode conhecer um indivíduo comum de pele escura, ou um fanfarrão comum de pele escura, quando o vê (e sem dúvida tem um vasto círculo de conhecimentos nesse sentido); mas não é juiz de homens brancos.
Esta alusão insultuosa à sua pele escura enfurece Neville a tal ponto violento que ele atira os restos do seu vinho a Edwin Drood, e está prestes a atirar o cálice a seguir, quando o seu braço é agarrado no momento exato por Jasper.
— Ned, meu caro companheiro! — grita ele em voz alta; — suplico-te, ordeno-te, que te contenhas! — Houve um ímpeto dos três, e um tinir de copos e derrube de cadeiras. — Sr. Neville, que vergonha! Dê-me este copo. Abra a mão, senhor. Eu VOU ficar com ele!
Mas Neville afasta-o e hesita por um instante, numa paixão enfurecida, com o cálice ainda na mão erguida. Depois, atira-o contra a grelha, com tal força que os estilhaços quebrados voam novamente em chuva; e ele sai da casa.
Quando emerge pela primeira vez no ar noturno, nada à sua volta está imóvel ou estável; nada à sua volta parece o que é; ele apenas sabe que está de cabeça descoberta no meio de um turbilhão vermelho-sangue, à espera de ser confrontado, e de lutar até à morte.
Mas, não acontecendo nada, e a lua olhando para ele como se ele estivesse morto após um ataque de ira, ele segura a cabeça e o coração a bater como um martelo a vapor, e cambaleia para longe. Depois, torna-se meio consciente de ter ouvido a porta ser trancada e barrada contra si, como um animal perigoso; e pensa no que fará?
Algumas ideias apaixonadamente selvagens sobre o rio dissolvem-se sob o feitiço do luar sobre a Catedral e as sepulturas, e a lembrança da sua irmã, e o pensamento do que deve ao bom homem que, precisamente naquele dia, conquistou a sua confiança e lhe deu o seu voto de confiança. Ele dirige-se a Minor Canon Corner e bate suavemente à porta.
É costume do Sr. Crisparkle ficar acordado até ao último dos membros da casa que se deitam cedo, tocando muito suavemente o seu piano e praticando as suas partes favoritas em música vocal concertada. O vento sul que sopra para onde quer, passando por Minor Canon Corner numa noite calma, não é mais contido do que o Sr. Crisparkle nessas horas, respeitador dos sonos da pastora de porcelana.
A sua batida é imediatamente respondida pelo próprio Sr. Crisparkle. Quando ele abre a porta, com a vela na mão, o seu rosto alegre cai, e nele há um espanto dececionado.
— Sr. Neville! Neste estado! Onde esteve?
— Estive em casa do Sr. Jasper, senhor. Com o seu sobrinho.
— Entre.
O Minor Canon ampara-o pelo cotovelo com uma mão firme (de uma maneira estritamente científica, digna dos seus treinos matinais), e vira-o para a sua própria pequena sala de livros, e fecha a porta.
— Comecei mal, senhor. Comecei terrivelmente mal.
— É a mais pura verdade. Não está sóbrio, Sr. Neville.
— Temo que não esteja, senhor, embora possa satisfazê-lo noutra ocasião de que bebi, de facto, muito pouco, e que isso me dominou da maneira mais estranha e repentina.
— Sr. Neville, Sr. Neville — diz o Minor Canon, abanando a cabeça com um sorriso triste; — já ouvi isso dizer antes.
— Penso — a minha mente está muito confusa, mas penso — que é igualmente verdade para o sobrinho do Sr. Jasper, senhor.
— Muito provável — é a réplica seca.
— Discutimos, senhor. Ele insultou-me da forma mais grosseira. Ele já tinha aquecido aquele sangue tigrino de que lhe falei hoje, antes disso.
— Sr. Neville — retorque o Minor Canon, suave, mas firmemente: — peço-lhe que não fale comigo com essa mão direita fechada. Abra-a, por favor.
— Ele provocou-me, senhor — prossegue o jovem, obedecendo instantaneamente —, para além do meu poder de resistência. Não posso dizer se ele pretendia ou não no início, mas fê-lo. Ele certamente pretendia no fim. Em suma, senhor — com um desabafo irreprimível —, na paixão a que ele me levou, tê-lo-ia abatido se pudesse, e tentei fazê-lo.
— Fechou essa mão outra vez — é o comentário tranquilo do Sr. Crisparkle.
— Peço-lhe perdão, senhor.
— Conhece o seu quarto, pois mostrei-lho antes do jantar; mas acompanhá-lo-ei até lá mais uma vez. O seu braço, se faz favor. Suavemente, pois a casa está toda a dormir.
Conduzindo a mão para o mesmo apoio científico de cotovelo de antes, e reforçando-o com a força inerte do seu braço, tão habilmente como um Perito Policial, e com um aparente repouso totalmente inalcançável por noviços, o Sr. Crisparkle conduz o seu pupilo ao agradável e ordenado quarto preparado para ele. Chegado lá, o jovem atira-se para uma cadeira e, lançando os braços sobre a sua mesa de leitura, descansa a cabeça sobre eles com um ar de miserável autorrecriminação.
O gentil Minor Canon teve o pensamento de deixar o quarto, sem uma palavra. Mas, olhando para trás, junto à porta, e vendo aquela figura abatida, volta para trás, toca-lhe com uma mão suave e diz: — Boa noite! — Um soluço é o seu único reconhecimento. Poderia ter tido muitos piores; talvez pudesse ter tido poucos melhores.
Outra batida suave na porta exterior atrai a sua atenção enquanto desce as escadas. Abre-a ao Sr. Jasper, que traz na mão o chapéu do pupilo.
— Tivemos uma cena horrível com ele — diz Jasper, em voz baixa.
— Foi assim tão má?
— Assassina!
O Sr. Crisparkle protesta: — Não, não, não. Não use palavras tão fortes.
— Ele poderia ter deixado o meu querido rapaz morto aos meus pés. Não é culpa dele não o ter feito. Mas se eu não tivesse sido, pela misericórdia de Deus, rápido e forte com ele, ele tê-lo-ia abatido na minha lareira.
A frase atinge em cheio. — Ah! — pensa o Sr. Crisparkle —, as suas próprias palavras!
— Vendo o que vi esta noite, e ouvindo o que ouvi — acrescenta Jasper, com grande seriedade —, nunca conhecerei paz de espírito quando houver perigo daqueles dois se encontrarem, sem ninguém para intervir. Foi horrível. Há algo de tigre no seu sangue escuro.
— Ah! — pensa o Sr. Crisparkle —, foi o que ele disse!
— O senhor, meu caro senhor — prossegue Jasper, tomando-lhe a mão —, até o senhor, aceitou uma responsabilidade perigosa.
— Não precisa de ter medo por mim, Jasper — retorque o Sr. Crisparkle, com um sorriso tranquilo. — Eu não tenho nenhum por mim próprio.
— Eu não tenho nenhum por mim próprio — retorque Jasper, com ênfase no último pronome —, porque não sou, nem estou em vias de ser, o objeto da sua hostilidade. Mas o senhor pode ser, e o meu querido rapaz foi. Boa noite!
O Sr. Crisparkle entra, com o chapéu que tão facilmente, tão quase impercetivelmente, adquiriu o direito de ser pendurado no seu vestíbulo; pendura-o; e vai pensativo para a cama.
CAPÍTULO IX. PÁSSAROS NO ARBUSTO
Rosa, não tendo nenhum parente que soubesse no mundo, não conhecera, desde o sétimo ano da sua idade, outro lar senão a Casa das Freiras, e outra mãe senão a Srta. Twinkleton. A sua lembrança da sua própria mãe era a de uma criaturinha bonita como ela mesma (não muito mais velha do que ela, parecia-lhe), que fora trazida para casa nos braços do seu pai, afogada. O acidente fatal tinha acontecido numa festa de prazer. Cada dobra e cor no bonito vestido de verão, e até o longo cabelo molhado, com pétalas espalhadas de flores arruinadas ainda presas a ele, enquanto a figura morta da jovem, na sua triste, triste beleza, jazia sobre a cama, estavam fixados de forma indelével na recordação de Rosa. Assim como o desespero selvagem e o subsequente pesar curvado do seu pobre pai jovem, que morreu de coração partido no primeiro aniversário daquele dia duro.
O noivado de Rosa nasceu do consolo do seu ano de angústia mental pelo seu amigo íntimo e antigo companheiro de faculdade, Drood: que também ficara viúvo na sua juventude. Mas ele, também, seguiu o caminho silencioso no qual todas as peregrinações terrenas se fundem, umas mais cedo, outras mais tarde; e assim o jovem casal tinha chegado a ser o que era.
A atmosfera de pena que envolvia a pequena órfã quando chegou pela primeira vez a Cloisterham nunca se tinha dissipado. Tinha tomado tons mais brilhantes à medida que ela crescia, mais feliz, mais bonita; ora fora dourada, ora rosada, e ora azulada; mas sempre a adornara com alguma luz suave própria. O desejo geral de a consolar e acariciar fizera com que fosse tratada no início como uma criança muito mais nova do que a sua idade; o mesmo desejo fizera com que continuasse a ser mimada quando já não era criança. Quem seria a sua favorita, quem anteciparia este ou aquele pequeno presente, ou lhe faria este ou aquele pequeno serviço; quem a levaria para casa nas férias; quem lhe escreveria mais vezes quando estivessem separados, e quem ela mais se alegraria em ver novamente quando estivessem reunidos; mesmo estas suaves rivalidades não eram isentas dos seus leves traços de amargura na Casa das Freiras. Bem para as pobres Freiras no seu tempo, se não escondessem lutas mais duras sob os seus véus e rosários!
Assim, Rosa tinha crescido para ser uma criaturinha amável, volúvel, obstinada e cativante; mimada, no sentido de contar com a bondade de todos à sua volta; mas não no sentido de a retribuir com indiferença. Possuindo um poço inesgotável de afeto na sua natureza, as suas águas cintilantes tinham refrescado e iluminado a Casa das Freiras durante anos, e ainda assim as suas profundezas nunca tinham sido movidas: o que poderia acontecer quando isso ocorresse; que mudanças em desenvolvimento poderiam cair sobre a cabeça descuidada e o coração leve, então; restava ver.
Por que meios a notícia de que tinha havido uma discussão entre os dois jovens na véspera, envolvendo até algum tipo de ataque do Sr. Neville a Edwin Drood, chegou ao estabelecimento da Srta. Twinkleton antes do pequeno-almoço, é impossível dizer. Se foi trazida pelos pássaros do ar, ou se veio soprando com o próprio ar, quando as janelas de batente foram abertas; se o padeiro a trouxe amassada no pão, ou o leiteiro a entregou como parte da adulteração do seu leite; ou as criadas, batendo o pó dos seus tapetes contra os postes do portão, receberam-na em troca depositada nos tapetes pela atmosfera da cidade; certo é que a notícia permeou todos os gabletes do velho edifício antes de a Srta. Twinkleton estar de pé, e que a própria Srta. Twinkleton a recebeu através da Sra. Tisher, ainda enquanto se vestia; ou (como ela poderia ter expressado a frase a um pai ou guardião de inclinação mitológica) de sacrificar às Graças.
O irmão da Srta. Landless atirara uma garrafa ao Sr. Edwin Drood.
O irmão da Srta. Landless atirara uma faca ao Sr. Edwin Drood.
Uma faca tornou-se sugestiva de um garfo; e o irmão da Srta. Landless atirara um garfo ao Sr. Edwin Drood.
Como na precedência governante de Peter Piper, alegado ter colhido o alqueire de pimenta em conserva, considerava-se fisicamente desejável ter prova da existência do alqueire de pimenta em conserva que se alegava que Peter Piper tinha colhido; assim, neste caso, considerava-se psicologicamente importante saber por que razão o irmão da Srta. Landless atirou uma garrafa, faca ou garfo — ou garrafa, faca e garfo — pois dera-se a entender à cozinheira que foram os três — ao Sr. Edwin Drood?
Bem, então. O irmão da Srta. Landless dissera que admirava a Srta. Bud. O Sr. Edwin Drood dissera ao irmão da Srta. Landless que ele não tinha nada que admirar a Srta. Bud. O irmão da Srta. Landless tinha então "erguido" (esta foi a informação exata da cozinheira) a garrafa, faca, garfo e decantador (o decantador voando agora friamente contra a cabeça de toda a gente, sem a menor introdução), e atirou-os todos ao Sr. Edwin Drood.
A pobre pequena Rosa colocou um indicador em cada um dos seus ouvidos quando estes rumores começaram a circular, e retirou-se para um canto, suplicando que não lhe dissessem mais nada; mas a Srta. Landless, pedindo permissão à Srta. Twinkleton para ir falar com o seu irmão, e mostrando bastante claramente que a tomaria se não lhe fosse dada, traçou o rumo mais definido de ir a casa do Sr. Crisparkle para obter informações precisas.
Quando voltou (estando primeiro fechada com a Srta. Twinkleton, para que qualquer coisa censurável nas suas notícias pudesse ser retida por esse filtro discreto), ela comunicou apenas a Rosa o que tinha acontecido; demorando-se com a face afogueada na provocação que o seu irmão recebera, mas limitando-a quase a esse último insulto grosseiro como coroamento de "outras palavras entre eles", e, por consideração pela sua nova amiga, passando levemente sobre o facto de as outras palavras terem tido origem no facto de o seu amante levar as coisas em geral tão facilmente. A Rosa diretamente, trouxe um pedido do seu irmão para que ela o perdoasse; e, tendo-o entregue com seriedade fraternal, deu o assunto por encerrado.
Estava reservado à Srta. Twinkleton suavizar o espírito público da Casa das Freiras. Essa senhora, portanto, entrando de forma imponente no que os plebeus poderiam ter chamado de sala de aula, mas que, na linguagem patrícia da chefe da Casa das Freiras, era eufemisticamente, para não dizer rebuscadamente, denominada "o apartamento destinado ao estudo", e dizendo com um ar forense: — Senhoras! — todas se levantaram. A Sra. Tisher ao mesmo tempo agrupou-se atrás da sua superiora, como representando a primeira amiga histórica feminina da Rainha Isabel no forte de Tilbury. A Srta. Twinkleton procedeu então a observar que o Rumor, Senhoras, tinha sido representado pelo bardo de Avon — desnecessário seria mencionar o imortal SHAKESPEARE, também chamado o Cisne do seu rio natal, não improvavelmente com alguma referência à antiga superstição de que aquele pássaro de plumagem graciosa (a Srta. Jennings fará o favor de se manter ereta) cantava docemente na aproximação da morte, para o que não temos autoridade ornitológica —, o Rumor, Senhoras, tinha sido representado por esse bardo — hem! —
"que desenhou O célebre Judeu",
como pintado cheio de línguas. O Rumor em Cloisterham (a Srta. Ferdinand far-me-á a honra da sua atenção) não era exceção ao retrato do Rumor noutros lugares pelo grande pintor. Um pequeno fracasso entre dois jovens senhores ocorrido na noite passada a cem milhas destas paredes pacíficas (a Srta. Ferdinand, sendo aparentemente incorrigível, terá a amabilidade de escrever esta noite, na língua original, as quatro primeiras fábulas do nosso vivaz vizinho, Monsieur La Fontaine) tinha sido muito grosseiramente exagerado pela voz do Rumor. No primeiro alarme e ansiedade decorrentes da nossa simpatia por uma doce jovem amiga, não totalmente a ser dissociada de um dos gladiadores na arena sem sangue em questão (a impropriedade de a Srta. Reynolds parecer esfaquear-se na mão com um alfinete, é demasiado óbvia, e demasiado flagrantemente pouco feminina, para ser apontada), descemos da nossa elevação virginal para discutir este tema desagradável e inapropriado. Tendo inquéritos responsáveis nos assegurado de que não passava de um daqueles "nadas aéreos" apontados pelo Poeta (cujo nome e data de nascimento a Srta. Giggles fornecerá dentro de meia hora), iríamos agora descartar o assunto, e concentrar as nossas mentes nos trabalhos gratos do dia.
Mas o assunto sobreviveu durante todo o dia, apesar de tudo, de tal forma que a Srta. Ferdinand meteu-se em novos problemas ao colocar sub-repticiamente um bigode de papel na hora do jantar, e ao fazer os movimentos de apontar uma garrafa de água à Srta. Giggles, que sacou uma colher de sopa em defesa.
Ora, Rosa pensou muito nesta discussão infeliz, e pensou nela com um sentimento desconfortável de que estava envolvida nela, como causa, ou consequência, ou o que quer que fosse, por estar numa posição falsa em relação ao seu compromisso de casamento. Nunca livre de tal inquietação quando estava com o seu marido prometido, não era provável que estivesse livre dela quando estavam separados. Hoje, também, ela estava voltada para dentro de si mesma, e privada do alívio de falar livremente com a sua nova amiga, porque a discussão fora com o irmão de Helena, e Helena evitava descaradamente o assunto como sendo delicado e difícil para si mesma. Neste momento crítico, entre todos os momentos, foi anunciado que o guardião de Rosa tinha vindo vê-la.
O Sr. Grewgious fora bem escolhido para a sua confiança, como um homem de integridade incorruptível, mas certamente por nenhuma outra qualidade apropriada discernível à superfície. Era um homem árido e arenoso, que, se tivesse sido colocado num moinho, parecia que teria sido imediatamente moído em rapé seco e forte. Tinha um cabelo ralo e liso, de cor e consistência semelhantes a uma estola de pele amarela muito sarnenta; era tão diferente de cabelo, que devia ser uma peruca, não fosse a estupenda improbabilidade de alguém usar voluntariamente tal cabeça. O pequeno jogo de feições que o seu rosto apresentava estava nele profundamente cortado, em algumas curvas rígidas que o tornavam mais parecido com uma obra; e tinha certas ranhuras na testa, que pareciam como se a Natureza estivesse prestes a tocá-las com sensibilidade ou refinamento, quando, impacientemente, atirou o cinzel para longe e disse: "Realmente, não me posso preocupar em acabar este homem; que vá como está."
Com um comprimento de garganta demasiado grande na sua extremidade superior, e demasiado osso do tornozelo e calcanhar na inferior; com um modo desajeitado e hesitante; com um andar arrastado; e com o que é chamado de miopia — que talvez o impedisse de observar quanto de meia de algodão branca exibia aos olhos do público, em contraste com o seu fato preto — o Sr. Grewgious ainda possuía em si alguma estranha capacidade de causar, no geral, uma impressão agradável.
O Sr. Grewgious foi descoberto pela sua pupila, muito desconcertado por estar na companhia da Srta. Twinkleton no próprio quarto sagrado da Srta. Twinkleton. Presságios vagos de ser examinado sobre qualquer coisa, e não sair bem disso, pareciam oprimir o pobre cavalheiro quando encontrado nestas circunstâncias.
"Minha cara, como está? Fico contente por vê-la. Minha cara, como está melhorada. Permita-me que lhe ofereça uma cadeira, minha cara."
A Srta. Twinkleton levantou-se da sua pequena secretária, dizendo, com doçura geral, como para o Universo educado: "Permite-me que me retire?"
"De modo algum, minha senhora, por minha causa. Rogo-lhe que não se mova."
"Devo implorar permissão para me mover", respondeu a Srta. Twinkleton, repetindo a palavra com uma graça encantadora; "mas não me retirarei, já que é tão prestável. Se eu empurrar a minha secretária para esta janela de canto, ficarei a estorvar?"
"Minha senhora! A estorvar!"
"É muito amável. — Rosa, minha cara, não estará sob qualquer restrição, tenho a certeza."
Aqui, o Sr. Grewgious, deixado junto à lareira com Rosa, disse novamente: "Minha cara, como está? Fico contente por vê-la, minha cara." E, tendo esperado que ela se sentasse, sentou-se ele próprio.
"As minhas visitas", disse o Sr. Grewgious, "são como as dos anjos — não que eu me compare a um anjo."
"Não, senhor", disse Rosa.
"De modo algum", assentiu o Sr. Grewgious. "Refiro-me meramente às minhas visitas, que são poucas e distantes entre si. Os anjos estão, sabemos muito bem, no andar de cima."
A Srta. Twinkleton olhou em volta com um tipo de olhar rígido.
"Refiro-me, minha cara", disse o Sr. Grewgious, colocando a sua mão sobre a de Rosa, à medida que a possibilidade de, de outra forma, parecer tomar a terrível liberdade de chamar à Srta. Twinkleton "minha cara" lhe percorria o corpo; "refiro-me às outras jovens."
A Srta. Twinkleton retomou a sua escrita.
O Sr. Grewgious, com a sensação de não ter gerido o seu ponto de partida tão nitidamente como poderia ter desejado, alisou o cabelo de trás para a frente como se tivesse acabado de mergulhar e estivesse a espremer a água — este gesto de alisamento, embora supérfluo, era-lhe habitual — e tirou uma carteira do bolso do casaco, e um toco de lápis de grafite do bolso do colete.
"Fiz", disse ele, virando as páginas: "Fiz uma nota orientadora ou outra — como costumo fazer, pois não tenho quaisquer dotes de conversação — à qual, com a sua permissão, minha cara, me referirei. 'Bem e feliz.' Verdadeiramente. Está bem e feliz, minha cara? Parece que sim."
"Sim, de facto, senhor", respondeu Rosa.
"Para o que", disse o Sr. Grewgious, com uma inclinação da cabeça em direção à janela de canto, "os nossos mais calorosos agradecimentos são devidos, e tenho a certeza de que são prestados, à bondade maternal e ao cuidado e consideração constantes da senhora que tenho agora a honra de ver diante de mim."
Este ponto, novamente, teve um arranque claudicante da parte do Sr. Grewgious, e nunca chegou ao seu destino; pois a Srta. Twinkleton, sentindo que as cortesias exigiam que ela estivesse a esta altura completamente fora da conversa, mordia a ponta da sua caneta e olhava para cima, como se esperasse a descida de uma ideia de qualquer membro das Nove Celestiais que pudesse ter uma de sobra.
O Sr. Grewgious alisou novamente a sua cabeça lisa e fez outra referência à sua carteira; riscando "bem e feliz", como assunto tratado.
"'Libras, xelins e pence', é a minha nota seguinte. Um assunto árido para uma jovem, mas um assunto importante também. A vida é libras, xelins e pence. A morte é..." Uma recordação súbita da morte dos seus dois pais pareceu detê-lo, e ele disse num tom mais suave, e inserindo evidentemente a negativa como uma reflexão tardia: "A morte não é libras, xelins e pence."
A sua voz era tão dura e seca como ele próprio, e a Fantasia poderia tê-la moído diretamente, tal como ele, em rapé seco e forte. E ainda assim, através dos meios de expressão muito limitados que possuía, parecia expressar bondade. Se a Natureza o tivesse apenas acabado, a bondade poderia ter sido reconhecível no seu rosto neste momento. Mas se as ranhuras na sua testa não se fundiam, e se o seu rosto trabalhava e não conseguia brincar, o que podia ele fazer, pobre homem!
"'Libras, xelins e pence.' Acha a sua mesada sempre suficiente para as suas necessidades, minha cara?"
Rosa não precisava de nada, e, portanto, era ampla.
"E não tem dívidas?"
Rosa riu-se da ideia de estar endividada. Parecia-lhe, na sua inexperiência, um capricho cómico da imaginação. O Sr. Grewgious esticou a sua miopia para ter a certeza de que esta era a sua visão do caso. "Ah!" disse ele, como comentário, com um olhar furtivo em direção à Srta. Twinkleton, e riscando libras, xelins e pence: "Falei de ter ido ter com os anjos! Foi o que fiz!"
Rosa sentiu qual seria a sua próxima nota, e estava a corar e a dobrar um vinco no seu vestido com uma mão embaraçada, muito antes de ele a encontrar.
"'Casamento.' Hem!" O Sr. Grewgious passou a sua mão alisadora pelos olhos e nariz, e até pelo queixo, antes de puxar a sua cadeira um pouco mais para perto, e falar um pouco mais confidencialmente: "Toco agora, minha cara, no ponto que é a causa direta de eu a incomodar com a presente visita. De outra forma, sendo um homem particularmente Angular, não teria entrado aqui. Sou o último homem a entrar num meio para o qual sou tão inteiramente inadaptado. Sinto-me, nestas instalações, como se fosse um urso — com cãibras — num Cotilhão juvenil."
A sua falta de jeito deu-lhe ar suficiente da sua comparação para fazer Rosa rir-se de bom grado.
"Cai-lhe sob a mesma luz", disse o Sr. Grewgious, com perfeita calma. "Exatamente. Para voltar à minha nota. O Sr. Edwin tem vindo cá e voltado, conforme foi combinado. Mencionou isso, nas suas cartas trimestrais para mim. E gosta dele, e ele gosta de si."
"Gosto muito dele, senhor", respondeu Rosa.
"Foi o que eu disse, minha cara", retorquiu o seu tutor, para cujo ouvido a ênfase tímida era demasiado subtil. "Bom. E correspondem-se."
"Escrevemos um ao outro", disse Rosa, fazendo beicinho, ao recordar as suas diferenças epistolares.
"Tal é o significado que atribuo à palavra 'corresponder' nesta aplicação, minha cara", disse o Sr. Grewgious. "Bom. Tudo corre bem, o tempo avança, e neste próximo Natal tornar-se-á necessário, como uma questão de forma, dar à exemplar senhora na janela de canto, a quem tanto devemos, aviso comercial da sua partida no semestre seguinte. As suas relações com ela são muito mais do que relações comerciais, sem dúvida; mas um resíduo de negócio permanece nelas, e negócio é sempre negócio. Sou um homem particularmente Angular", continuou o Sr. Grewgious, como se lhe ocorresse subitamente mencioná-lo, "e não estou habituado a dar nada. Se, por estas duas razões, algum Procurador competente a entregasse, eu considerar-lho-ia muito amável."
Rosa deu a entender, com os olhos no chão, que achava que um substituto poderia ser encontrado, se necessário.
"Certamente, certamente", disse o Sr. Grewgious. "Por exemplo, o cavalheiro que ensina Dança aqui — ele saberia como fazê-lo com graciosa propriedade. Ele avançaria e recuaria de uma maneira satisfatória para os sentimentos do clérigo oficiante, e de si, e do noivo, e de todas as partes envolvidas. Eu sou — eu sou um homem particularmente Angular", disse o Sr. Grewgious, como se tivesse decidido finalmente dizê-lo: "e só faria asneira."
Rosa ficou quieta e silenciosa. Talvez a sua mente ainda não tivesse chegado tão longe quanto a cerimónia, mas estivesse a atrasar-se no caminho até lá.
"Nota, 'Testamento'. Agora, minha cara", disse o Sr. Grewgious, referindo-se às suas notas, tratando de "Casamento" com o seu lápis, e tirando um papel do bolso; "embora eu já a tenha informado do conteúdo do testamento do seu pai, penso que é correto neste momento deixar uma cópia autenticada do mesmo nas suas mãos. E embora o Sr. Edwin também esteja ciente do seu conteúdo, penso que é correto neste momento igualmente colocar uma cópia autenticada do mesmo nas mãos do Sr. Jasper..."
"Não nas dele!" perguntou Rosa, olhando para cima rapidamente. "Não pode a cópia ir para o próprio Eddy?"
"Bem, sim, minha cara, se deseja particularmente; mas falei do Sr. Jasper como sendo o seu curador."
"Desejo particularmente, se faz favor", disse Rosa, apressada e sinceramente; "não gosto que o Sr. Jasper se meta entre nós, de forma alguma."
"É natural, suponho", disse o Sr. Grewgious, "que o seu jovem marido seja tudo. Sim. Observe que digo, suponho. O facto é que sou um homem particularmente Não natural, e não sei por conhecimento próprio."
Rosa olhou para ele com algum espanto.
"Quero dizer", explicou ele, "que os modos jovens nunca foram os meus. Fui o único descendente de pais já avançados em idade, e quase creio que nasci já avançado em idade. Nenhuma personalidade é pretendida em relação ao nome que tão cedo mudará, quando observo que, enquanto o crescimento geral das pessoas parece ter entrado em existência, botões, eu pareço ter entrado em existência como uma lasca. Eu era uma lasca — e muito seca — quando me tornei consciente de mim mesmo. Em relação à outra cópia autenticada, o seu desejo será cumprido. Em relação à sua herança, penso que sabe tudo. É uma anuidade de duzentas e cinquenta libras. As poupanças dessa anuidade, e alguns outros itens a seu crédito, todos devidamente contabilizados, com comprovativos, colocá-la-ão na posse de uma quantia global de dinheiro, excedendo ligeiramente as Dezassete Centenas de Libras. Estou autorizado a adiantar o custo das suas preparações para o seu casamento a partir desse fundo. Está tudo dito."
"Diga-me, por favor", disse Rosa, pegando no papel com um sobrolho graciosamente franzido, mas não o abrindo: "se estou correta no que vou dizer? Consigo entender o que me diz, muito melhor do que o que leio em escrituras legais. O meu pobre papa e o pai de Eddy fizeram o seu acordo juntos, como amigos muito queridos, firmes e constantes, para que nós, também, pudéssemos ser amigos muito queridos, firmes e constantes depois deles?"
"Exatamente."
"Para o bem duradouro de ambos, e a felicidade duradoura de ambos?"
"Exatamente."
"Para que pudéssemos ser um para o outro ainda muito mais do que eles tinham sido um para o outro?"
"Exatamente."
"Não estava ligado ao Eddy, e não estava ligado a mim, por qualquer penalidade, no caso de..."
"Não fique agitada, minha cara. No caso que traz lágrimas aos seus olhos afetuosos só de imaginar — no caso de não se casarem um com o outro — não, não há penalidade de nenhum dos lados. Teria sido então minha pupila até ser maior de idade. Nada de pior lhe teria acontecido. Já mau o suficiente, talvez!"
"E o Eddy?"
"Ele teria entrado na sua parceria derivada do seu pai, e nos seus atrasados a seu crédito (se existissem), ao atingir a maioridade, tal como agora."
Rosa, com o seu rosto perplexo e sobrolho franzido, mordeu o canto da sua cópia autenticada, enquanto se sentava com a cabeça inclinada, olhando distraidamente para o chão, e alisando-o com o pé.
"Em suma", disse o Sr. Grewgious, "este noivado é um desejo, um sentimento, um projeto amigável, ternamente expresso de ambos os lados. Que foi fortemente sentido, e que havia uma esperança viva de que prosperasse, não pode haver dúvida. Quando ambos eram crianças, começaram a habituar-se a ele, e tem prosperado. Mas as circunstâncias alteram os casos; e fiz esta visita hoje, em parte, aliás principalmente, para me desincumbir do dever de lhe dizer, minha cara, que dois jovens só podem estar noivados em casamento (exceto como uma questão de conveniência, e portanto escárnio e miséria) por vontade própria, pelo seu próprio apego, e pela sua própria garantia (pode ou não provar ser um erro, mas temos de correr esse risco), de que são adequados um ao outro, e de que farão um ao outro feliz. É de supor, por exemplo, que se algum dos seus pais estivesse vivo agora, e tivesse alguma desconfiança sobre esse assunto, a sua mente não seria mudada pela mudança de circunstâncias envolvida na mudança da vossa idade? Insustentável, irracional, inconclusivo e absurdo!"
O Sr. Grewgious disse tudo isto, como se o estivesse a ler em voz alta; ou, mais ainda, como se estivesse a repetir uma lição. Tão desprovidos de qualquer aproximação à espontaneidade eram o seu rosto e modo.
"Tenho agora, minha cara", acrescentou ele, apagando "Testamento" com o seu lápis, "desincumbi-me do que é sem dúvida um dever formal neste caso, mas ainda assim um dever em tal caso. Nota, 'Desejos'. Minha cara, há algum desejo seu que eu possa promover?"
Rosa abanou a cabeça, com um ar quase lamentoso de hesitação por precisar de ajuda.
"Há alguma instrução que eu possa recolher da sua parte em referência aos seus assuntos?"
"Eu... eu gostaria de os resolver com o Eddy primeiro, se faz favor", disse Rosa, entrelaçando o vinco no seu vestido.
"Certamente, certamente", respondeu o Sr. Grewgious. "Vocês os dois deveriam estar de acordo em todas as coisas. O jovem cavalheiro é esperado brevemente?"
"Ele partiu apenas esta manhã. Estará de volta no Natal."
"Nada poderia acontecer de melhor. Irá, no seu regresso no Natal, organizar todos os assuntos de detalhe com ele; comunicar-me-á então; e eu desincumbir-me-ei (como um mero conhecido de negócios) das minhas responsabilidades de negócio para com a distinta senhora na janela de canto. Elas acumular-se-ão nessa estação." Apagando o lápis mais uma vez. "Nota, 'Partida'. Sim. Vou agora, minha cara, despedir-me."
"Poderia", disse Rosa, levantando-se, enquanto ele dava um solavanco para fora da cadeira à sua maneira desajeitada: "poderia pedir-lhe, muito gentilmente, para vir ver-me no Natal, se eu tivesse algo de particular para lhe dizer?"
"Ora, certamente, certamente", respondeu ele; aparentemente — se tal palavra pode ser usada de alguém que não tinha luzes ou sombras aparentes à sua volta — lisonjeado pela pergunta. "Como um homem particularmente Angular, não me encaixo suavemente no círculo social e, consequentemente, não tenho outro compromisso na época do Natal a não ser participar, no dia vinte e cinco, de um peru cozido com molho de aipo com um... com um funcionário particularmente Angular que tenho a sorte de possuir, cujo pai, sendo um agricultor de Norfolk, envia para cima (o peru para cima), como um presente para mim, da vizinhança de Norwich. Sentir-me-ia muito orgulhoso por desejar ver-me, minha cara. Como um recetor profissional de rendas, tão poucas pessoas desejam ver-me, que a novidade seria revigorante."
Pela sua pronta aquiescência, a grata Rosa colocou as suas mãos nos seus ombros, pôs-se na ponta dos pés e beijou-o instantaneamente.
"Valha-me Deus!" exclamou o Sr. Grewgious. "Obrigado, minha cara! A honra é quase igual ao prazer. Srta. Twinkleton, minha senhora, tive uma conversa muito satisfatória com a minha pupila, e vou agora libertá-la do encargo da minha presença."
"Não, senhor", respondeu a Srta. Twinkleton, levantando-se com uma graciosa condescendência: "não diga encargo. De modo algum. Não posso permitir que diga isso."
"Obrigado, minha senhora. Li nos jornais", disse o Sr. Grewgious, gaguejando um pouco, "que quando um visitante distinto (não que eu seja um: longe disso) vai a uma escola (não que esta seja uma: longe disso), ele pede um feriado, ou algum tipo de graça. Sendo agora a tarde no... Colégio... de que é a eminente diretora, as jovens poderiam não ganhar nada, exceto no nome, por terem o resto do dia concedido. Mas se há alguma jovem sob uma nuvem, poderia solicitar..."
"Ah, Sr. Grewgious, Sr. Grewgious!" exclamou a Srta. Twinkleton, com um dedo indicador castamente provocador. "Ó, vocês cavalheiros, vocês cavalheiros! Que vergonha, serem tão duros connosco, pobres disciplinadoras difamadas do nosso sexo, por vossa causa! Mas como a Srta. Ferdinand está atualmente sobrecarregada por um incubo" — a Srta. Twinkleton poderia ter dito um 'pena-e-tinteiro-bo' de escrever Monsieur La Fontaine — "vá ter com ela, Rosa minha cara, e diga-lhe que a penalidade é remetida, em deferência à intercessão do seu guardião, Sr. Grewgious."
A Srta. Twinkleton realizou aqui uma vénia, sugestiva de maravilhas a acontecerem às suas respeitadas pernas, e da qual saiu nobremente, três metros atrás do seu ponto de partida.
Como considerava seu dever visitar o Sr. Jasper antes de deixar Cloisterham, o Sr. Grewgious foi à casa da portaria e subiu a sua escada lateral. Mas a porta do Sr. Jasper estando fechada, e apresentando num pedaço de papel a palavra "Catedral", o facto de ser hora de culto foi levado à mente do Sr. Grewgious. Então, ele desceu a escada novamente e, atravessando o Claustro, parou na grande porta de batente ocidental da Catedral, que estava aberta na tarde bela e brilhante, embora de curta duração, para arejar o local.
"Valha-me Deus", disse o Sr. Grewgious, espreitando para dentro, "é como olhar pela garganta do Velho Tempo."
O Velho Tempo soltou um suspiro bolorento de túmulo, arco e abóbada; e sombras sombrias começaram a aprofundar-se nos cantos; e humidades começaram a subir de manchas verdes de pedra; e joias, lançadas sobre o pavimento da nave a partir do vidro colorido pelo sol poente, começaram a perecer. Dentro da grade do coro, subindo os degraus dominados ameaçadoramente pelo órgão que rapidamente escurecia, vestes brancas podiam ser vistas vagamente, e uma voz débil, subindo e descendo num murmúrio monótono e rouco, podia ser ouvida fracamente em intervalos. No ar livre, o rio, os pastos verdes e as terras aráveis castanhas, as colinas e vales abundantes, eram avermelhados pelo pôr do sol: enquanto as pequenas janelas distantes nos moinhos de vento e casas de campo brilhavam, manchas de ouro batido brilhante. Na Catedral, tudo se tornou cinzento, turvo e sepulcral, e o murmúrio monótono e rouco continuou como uma voz moribunda, até que o órgão e o coro irromperam e o afogaram num mar de música. Então, o mar caiu, e a voz moribunda fez outro esforço débil, e então o mar subiu alto, e espancou a sua vida, e açoitou o telhado, e surgiu entre os arcos, e perfurou as alturas da grande torre; e então o mar secou, e tudo ficou imóvel.
O Sr. Grewgious tinha, a essa altura, caminhado até aos degraus do coro, onde encontrou as águas vivas a sair.
"Nada de errado?" Assim Jasper abordou-o, um tanto rapidamente. "Não foi enviado buscar?"
"De modo algum, de modo algum. Vim por vontade própria. Estive na casa da minha linda pupila, e estou agora a caminho de casa novamente."
"Encontrou-a a prosperar?"
"A florescer, de facto. Muito a florescente. Vim apenas para lhe dizer, seriamente, o que é um noivado por pais falecidos."
"E o que é ele — de acordo com o seu julgamento?"
O Sr. Grewgious notou a brancura dos lábios que faziam a pergunta, e atribuiu-a à conta arrepiante da Catedral.
“Vim apenas para lhe dizer que não pode ser considerado vinculativo, contra qualquer razão para a sua dissolução, tal como a falta de afeição, ou a falta de disposição para levá-lo a efeito, por parte de qualquer uma das partes.”
“Posso perguntar, teve alguma razão especial para lhe dizer isso?”
O Sr. Grewgious respondeu de forma um tanto ríspida: “A razão especial de cumprir o meu dever, senhor. Simplesmente isso.” Depois acrescentou: “Vamos, Sr. Jasper; conheço a sua afeição pelo seu sobrinho, e que é rápido a sentir em nome dele. Garanto-lhe que isto não implica a menor dúvida ou desrespeito para com o seu sobrinho.”
“Não poderia,” retorquiu Jasper, com um aperto amigável no seu braço, enquanto caminhavam lado a lado, “falar de forma mais elegante.”
O Sr. Grewgious tirou o chapéu para alisar o cabelo e, tendo-o alisado, acenou com a cabeça satisfeito e voltou a pôr o chapéu.
“Aposto,” disse Jasper, sorrindo — os seus lábios estavam ainda tão brancos que ele tinha consciência disso, e mordeu-os e humedeceu-os enquanto falava: “Aposto que ela não deu a entender qualquer desejo de ser libertada de Ned.”
“E ganhará a sua aposta, se o fizer,” retorquiu o Sr. Grewgious. “Deveríamos deixar alguma margem para pequenas delicadezas virginais numa jovem criatura sem mãe, em tais circunstâncias, suponho eu; não é a minha área; o que acha?”
“Não pode haver dúvidas quanto a isso.”
“Fico contente por dizer isso. Porque,” prosseguiu o Sr. Grewgious, que durante todo este tempo tinha, muito conscientemente, sondado o terreno para agir com base na sua recordação do que ela dissera sobre o próprio Jasper: “porque ela parece ter algum pequeno instinto delicado de que todos os preparativos preliminares deviam ser feitos entre o Sr. Edwin Drood e ela própria, não vê? Ela não precisa de nós, não sabe?”
Jasper tocou no próprio peito e disse, de forma algo indistinta: “Refere-se a mim.”
O Sr. Grewgious tocou no próprio peito e disse: “Refiro-me a nós. Portanto, deixemo-los ter as suas pequenas discussões e conselhos, quando o Sr. Edwin Drood voltar aqui no Natal; e então você e eu entraremos e daremos os toques finais no assunto.”
“Então, combinou com ela que voltaria no Natal?” observou Jasper. “Compreendo! Sr. Grewgious, como disse muito justamente há pouco, existe um apego tão excecional entre o meu sobrinho e eu, que sou mais sensível pelo querido, afortunado, feliz, feliz rapaz do que por mim próprio. Mas é apenas justo que a jovem seja considerada, como apontou, e que eu aceite o meu guia da sua parte. Aceito-o. Compreendo que no Natal eles completarão os seus preparativos para maio, e que o seu casamento será colocado em marcha final por eles próprios, e que nada restará para nós senão pôr-nos em marcha também, e ter tudo pronto para a nossa libertação formal das nossas tutelas, no aniversário de Edwin.”
“Esse é o meu entendimento,” assentiu o Sr. Grewgious, enquanto apertavam as mãos para se despedirem. “Que Deus os abençoe a ambos!”
“Que Deus os salve a ambos!” exclamou Jasper.
“Eu disse, abençoe-os,” observou o primeiro, olhando para trás, por cima do ombro.
“Eu disse, salve-os,” retorquiu o último. “Existe alguma diferença?”
CAPÍTULO X. SUAVIZANDO O CAMINHO
Tem sido observado, vezes suficientes, que as mulheres possuem um curioso poder de adivinhar o caráter dos homens, que pareceria ser inato e instintivo; visto que é alcançado sem qualquer processo paciente de raciocínio, que não pode dar qualquer explicação satisfatória ou suficiente de si mesmo, e que se pronuncia da maneira mais confiante, mesmo contra a observação acumulada por parte do outro sexo. Mas não tem sido observado com tanta frequência que este poder (falível, como qualquer outro atributo humano) é, na maior parte, absolutamente incapaz de autorrevisão; e que, quando emite uma opinião adversa que, segundo todas as luzes humanas, se prova posteriormente ter falhado, é indistinguível do preconceito, no que diz respeito à sua determinação em não ser corrigido. Aliás, a própria possibilidade de contradição ou prova em contrário, por mais remota que seja, comunica a este julgamento feminino, desde o início, em nove de cada dez casos, a fraqueza inerente ao testemunho de uma testemunha interessada; de tal forma a bela adivinha liga-se pessoal e fortemente à sua adivinhação.
“Ora, não acha, minha querida mãe,” disse o Cónego Menor à sua mãe, um dia, enquanto ela se sentava a tricotar na sua pequena sala de livros, “que é um tanto severa para com o Sr. Neville?”
“Não, não sou, Sept,” respondeu a velha senhora.
“Vamos discutir isso, mãe.”
“Não tenho qualquer objeção em discuti-lo, Sept. Confio, meu querido, que estou sempre aberta a discussão.” Houve uma vibração na touca da velha senhora, como se ela acrescentasse internamente: “e gostaria de ver a discussão que mudaria a minha opinião!”
“Muito bem, mãe,” disse o seu filho conciliador. “Não há nada como estar aberto a discussão.”
“Espero que não, meu querido,” respondeu a velha senhora, evidentemente fechada a ela.
“Bem! O Sr. Neville, naquela ocasião infeliz, compromete-se sob provocação.”
“E sob vinho quente temperado,” acrescentou a velha senhora.
“Tenho de admitir o vinho. Embora acredite que os dois jovens eram muito parecidos nesse aspeto.”
“Eu não acredito,” disse a velha senhora.
“Por que não, mãe?”
“Porque não acredito,” disse a velha senhora. “Ainda assim, estou bastante aberta a discussão.”
“Mas, minha querida mãe, não vejo como podemos discutir se adotar essa postura.”
“Culpe o Sr. Neville por isso, Sept, e não a mim,” disse a velha senhora, com uma severidade majestosa.
“Minha querida mãe! Por que o Sr. Neville?”
“Porque,” disse a Sra. Crisparkle, retirando-se para os primeiros princípios, “ele veio para casa embriagado, e causou grande descrédito a esta casa, e demonstrou grande desrespeito por esta família.”
“Isso não pode ser negado, mãe. Ele estava então, e está agora, muito arrependido disso.”
“Mas, pela consideração bem-educada do Sr. Jasper em vir falar comigo, no dia seguinte, depois do serviço, na própria Nave, ainda com a sua batina vestida, e expressando a sua esperança de que eu não tivesse ficado muito alarmada ou que o meu descanso não tivesse sido violentamente interrompido, acredito que talvez nunca tivesse ouvido falar dessa transação vergonhosa,” disse a velha senhora.
“Para ser sincero, mãe, acho que lho teria escondido se pudesse: embora não tivesse tomado uma decisão definitiva. Eu estava a seguir Jasper para fora, para conferenciar com ele sobre o assunto, e para considerar a conveniência de ele e eu abafarmos o caso em conjunto, por todas as razões, quando o encontrei a falar consigo. Então já era demasiado tarde.”
“Demasiado tarde, de facto, Sept. Ele estava ainda tão pálido como cinzas aristocráticas com o que tinha acontecido nos seus aposentos durante a noite.”
“Se lho tivesse escondido, mãe, pode ter a certeza de que teria sido pela sua paz e sossego, e para o bem dos jovens, e no meu melhor cumprimento do meu dever de acordo com as minhas luzes.”
A velha senhora atravessou imediatamente a sala e beijou-o: dizendo: “Claro, meu querido Sept, tenho a certeza disso.”
“No entanto, tornou-se o assunto da cidade,” disse o Sr. Crisparkle, esfregando a orelha, enquanto a sua mãe retomava o seu assento e o seu tricot, “e passou fora do meu controlo.”
“E eu disse então, Sept,” respondeu a velha senhora, “que tinha má opinião do Sr. Neville. E digo agora, que tenho má opinião do Sr. Neville. E disse então, e digo agora, que espero que o Sr. Neville possa seguir um bom caminho, mas não acredito que o fará.” Aqui a touca vibrou novamente de forma considerável.
“Lamento ouvir a senhora dizer isso, mãe—”
“Lamento dizê-lo, meu querido,” interrompeu a velha senhora, tricotando firmemente, “mas não posso evitá-lo.”
“—Pois,” continuou o Cónego Menor, “é inegável que o Sr. Neville é extremamente diligente e atento, e que progride rapidamente, e que tem — espero poder dizer — um apego por mim.”
“Não há mérito no último ponto, meu querido,” disse a velha senhora, rapidamente; “e se ele diz que há, penso ainda pior dele por causa da vanglória.”
“Mas, minha querida mãe, ele nunca disse que havia.”
“Talvez não,” respondeu a velha senhora; “ainda assim, não vejo que isso signifique muito.”
Não havia impaciência no olhar agradável com que o Sr. Crisparkle contemplava a bonita peça de porcelana antiga enquanto tricotava; mas havia, certamente, um sentido bem-humorado de que aquela não era uma peça de porcelana com a qual se pudesse argumentar de perto.
“Além disso, Sept, pergunte a si mesmo o que ele seria sem a sua irmã. Sabe que influência ela tem sobre ele; sabe que capacidade ela tem; sabe que tudo o que ele lê consigo, ele lê com ela. Dê-lhe a sua quota justa de elogios, e quanto deixa para ele?”
A estas palavras, o Sr. Crisparkle caiu num pequeno devaneio, no qual pensou em várias coisas. Pensou nas vezes em que vira o irmão e a irmã juntos em profunda conversa sobre um dos seus velhos livros da faculdade; agora, nas manhãs geadas, quando fazia aquelas peregrinações revigorantes a Cloisterham Weir; agora, nas noites sombrias, quando enfrentava o vento ao pôr do sol, tendo subido ao seu miradouro favorito, um fragmento proeminente de ruína monástica; e as duas figuras estudiosas passavam abaixo dele ao longo da margem do rio, no qual os fogos e luzes da cidade já brilhavam, tornando a paisagem mais desolada. Pensou em como a consciência lhe tinha ocorrido de que, ao ensinar um, estava a ensinar dois; e como quase insensivelmente adaptara as suas explicações a ambas as mentes — aquela com a qual a sua estava diariamente em contacto, e aquela a que ele apenas se aproximava através dela. Pensou nas bisbilhotices que lhe tinham chegado da Nuns’ House, no sentido de que Helena, a quem ele tinha desconfiado por ser tão orgulhosa e feroz, se submetia à fada-noiva (como ele a chamava), e aprendia com ela o que ela sabia. Pensou na aliança pitoresca entre aqueles dois, externamente tão muito diferentes. Pensou — talvez acima de tudo — seria possível que estas coisas tivessem apenas algumas semanas, e se tivessem tornado parte integrante da sua vida?
Como, sempre que o Reverendo Septimus caía em pensamentos, a sua boa mãe tomava isso como um sinal infalível de que ele “precisava de apoio”, a florescente velha senhora apressava-se a ir ao armário da sala de jantar, para produzir dele o apoio consubstanciado num copo de Constantia e num biscoito caseiro. Era um armário maravilhoso, digno de Cloisterham e do Minor Canon Corner. Acima dele, um retrato de Handel com uma peruca esvoaçante brilhava lá de cima para o espectador, com um ar conhecedor de estar a par do conteúdo do armário, e um ar musical de pretender combinar todas as suas harmonias numa deliciosa fuga. Não era um armário comum com uma porta vulgar de dobradiças, abrível toda de uma vez, e sem nada a ser revelado por etapas, este armário raro tinha uma fechadura no ar, onde duas corrediças perpendiculares se encontravam; uma caindo para baixo e a outra subindo. A corrediça superior, ao ser puxada para baixo (deixando a inferior um mistério duplo), revelava prateleiras profundas de frascos de pickles, potes de compota, latas, caixas de especiarias e vasos agradavelmente estranhos de azul e branco, os alojamentos deliciosos de tamarindos e gengibre conservados. Cada habitante benevolente deste refúgio tinha o seu nome inscrito no seu estômago. Os pickles, num uniforme de casaco rico de abotoamento duplo castanho, e calças amarelas ou cinzentas sombrias, anunciavam as suas formas volumosas, em letras maiúsculas impressas, como Noz, Cornichon, Cebola, Couve, Couve-flor, Mistos e outros membros daquela nobre família. As compotas, por serem de um temperamento menos masculino, e por usarem papéis de encaracolar, anunciavam-se em caligrafia feminina, como um sussurro suave, como sendo Framboesa, Groselha, Damasco, Ameixa, Abrunho, Maçã e Pêssego. A cena fechando-se sobre estes encantos, e a corrediça inferior subindo, laranjas eram reveladas, acompanhadas por uma poderosa caixa de açúcar envernizada, para temperar a sua acidez se estivessem verdes. Biscoitos caseiros esperavam na Corte destes Poderes, acompanhados por um bom fragmento de bolo de ameixa, e vários dedos-de-dama delgados, para serem mergulhados em vinho doce e beijados. No mais baixo de tudo, um cofre de chumbo compacto guardava o vinho doce e um stock de licores: de onde saíam sussurros de Laranja de Sevilha, Limão, Amêndoa e Sementes de Alcaravia. Havia um ar supremo neste armário dos armários, de ter sido durante eras percorrido pelo som do sino da Catedral e do órgão, até que aquelas abelhas veneráveis tivessem feito mel sublimado de tudo o que estava guardado; e observava-se sempre que cada um que mergulhava entre as prateleiras (profundas, como foi notado, e engolindo cabeça, ombros e cotovelos) saía novamente de rosto suave, e parecendo ter sofrido uma transfiguração sacarina.
O Reverendo Septimus entregava-se como uma vítima bastante disposta a um armário de ervas medicinais nauseabundas, também presidido pela pastora de porcelana, tal como a este glorioso armário. A que infusões espantosas de genciana, hortelã-pimenta, goivo, salva, salsa, tomilho, arruda, alecrim e dente-de-leão, o seu estômago corajoso se submetia! Em que invólucros maravilhosos, fechando camadas de folhas secas, ele envolvia o seu rosto rosado e satisfeito, se a sua mãe suspeitasse que ele tinha uma dor de dentes! Que manchas botânicas ele colava alegremente na sua bochecha, ou testa, se a querida velha senhora o condenasse por uma borbulha impercetível ali! Neste penitenciário herbáceo, situado num patamar da escada superior: uma cela baixa e estreita caiada de branco, onde ramos de folhas secas pendiam de ganchos enferrujados no teto, e eram espalhados sobre prateleiras, na companhia de garrafas portentosas: seria o Reverendo Septimus submissamente conduzido, como o cordeiro altamente popular que tem sido há tanto tempo e sem resistência conduzido ao matadouro, e lá ele, ao contrário daquele cordeiro, não aborreceria ninguém senão a si mesmo. Nem sequer fazendo isso, contanto que a velha senhora estivesse ocupada e satisfeita, ele engoliria silenciosamente o que lhe era dado, mergulhando apenas as mãos e o rosto na grande taça de folhas de rosa secas, e na outra grande taça de alfazema seca, e então sairia, tão confiante nos poderes adoçantes de Cloisterham Weir e de uma mente sã, como Lady Macbeth era desprovida de esperança nos de todos os mares que rolam.
No presente caso, o bom Cónego Menor tomou o seu copo de Constantia com uma excelente graça e, assim apoiado para satisfação da sua mãe, dedicou-se aos deveres restantes do dia. No seu progresso ordenado e pontual, trouxeram o Serviço das Vésperas e o crepúsculo. Sendo a Catedral muito fria, ele partiu para um trote vigoroso após o serviço; o trote para terminar numa carga ao seu fragmento favorito de ruína, que deveria ser tomado de assalto, sem uma pausa para recuperar o fôlego.
Ele tomou-o de uma maneira magistral, e, sem sequer estar ofegante, ficou a olhar para o rio. O rio em Cloisterham é suficientemente perto do mar para lançar muitas vezes uma quantidade de algas marinhas. Uma quantidade invulgar tinha entrado com a última maré, e isto, e a confusão da água, e o mergulhar e bater inquieto das gaivotas ruidosas, e uma luz zangada para o lado do mar, para além das barcaças de velas castanhas que se tornavam pretas, pressagiavam uma noite de tempestade. Na sua mente, ele contrastava o mar selvagem e ruidoso com o porto tranquilo de Minor Canon Corner, quando Helena e Neville Landless passaram abaixo dele. Ele tinha tido os dois juntos nos seus pensamentos todo o dia, e desceu imediatamente para falar com eles juntos. O terreno era irregular na luz incerta para qualquer passo, exceto o de um bom escalador; mas o Cónego Menor era um tão bom escalador como a maioria dos homens, e estava ao lado deles antes que muitos bons escaladores estivessem a meio caminho.
“Uma noite selvagem, Srta. Landless! Não acha o seu passeio habitual com o seu irmão demasiado exposto e frio para a época do ano? Ou, pelo menos, quando o sol se põe e o tempo sopra do mar?”
Helena achava que não. Era o passeio favorito deles. Era muito isolado.
“É muito isolado,” assentiu o Sr. Crisparkle, agarrando a oportunidade imediatamente, e caminhando com eles. “É um lugar, acima de todos, onde se pode falar sem interrupção, como desejo fazer. Sr. Neville, creio que diz à sua irmã tudo o que passa entre nós?”
“Tudo, senhor.”
“Consequentemente,” disse o Sr. Crisparkle, “a sua irmã está ciente de que o instei repetidamente a fazer algum tipo de pedido de desculpas por aquela ocorrência infeliz que aconteceu na noite da sua chegada aqui.” Ao dizê-lo, ele olhou para ela, e não para ele; portanto, foi ela, e não ele, quem respondeu:
“Sim.”
“Chamo-lhe infeliz, Srta. Helena,” retomou o Sr. Crisparkle, “na medida em que certamente gerou um preconceito contra Neville. Existe uma noção por aí de que ele é um sujeito perigosamente apaixonado, de um temperamento incontrolável e furioso: ele é realmente evitado como tal.”
“Não tenho dúvidas de que o seja, pobre rapaz,” disse Helena, com um olhar de orgulhosa compaixão para o seu irmão, expressando um sentido profundo de ele estar a ser tratado sem generosidade. “Eu teria a certeza disso, pelo que diz; mas o que me conta é confirmado por insinuações e referências reprimidas que encontro todos os dias.”
“Ora,” retomou o Sr. Crisparkle, num tom de persuasão suave embora firme, “não é isto para lamentar, e não deveria ser corrigido? Estes são os primeiros dias de Neville em Cloisterham, e não tenho medo de que ele supere tal preconceito, e se mostre como tendo sido mal compreendido. Mas quão mais sábio seria agir de imediato, do que confiar no tempo incerto! Além disso, para além de ser político, é justo. Pois não pode haver questão de que Neville estava errado.”
“Ele foi provocado,” submeteu Helena.
“Ele foi o agressor,” submeteu o Sr. Crisparkle.
Caminharam em silêncio, até que Helena levantou os olhos para o rosto do Cónego Menor, e disse, quase com reprovação: “Ó Sr. Crisparkle, gostaria que Neville se atirasse aos pés do jovem Drood, ou aos do Sr. Jasper, que o difama todos os dias? No seu coração não pode querer dizer isso. Do seu coração não poderia fazê-lo, se o caso dele fosse o seu.”
“Representei ao Sr. Crisparkle, Helena,” disse Neville, com um olhar de deferência para o seu tutor, “que se o pudesse fazer do meu coração, fá-lo-ia. Mas não posso, e revolto-me com a pretensão. Esquece, contudo, que colocar o caso ao Sr. Crisparkle como se fosse o seu, é supor que ele tivesse feito o que eu fiz.”
“Peço-lhe perdão,” disse Helena.
“Vê,” observou o Sr. Crisparkle, agarrando novamente a oportunidade, embora com um toque moderado e delicado, “ambos reconhecem instintivamente que Neville agiu mal. Então por que parar por aí, e não reconhecê-lo de outra forma?”
“Existe alguma diferença,” perguntou Helena, com um pequeno vacilar na sua maneira; “entre a submissão a um espírito generoso, e a submissão a um baixo ou trivial?”
Antes que o digno Cónego Menor estivesse totalmente pronto com o seu argumento em referência a esta distinção subtil, Neville interveio:
“Ajude-me a esclarecer-me com o Sr. Crisparkle, Helena. Ajude-me a convencê-lo de que não posso ser o primeiro a fazer concessões sem zombaria e falsidade. A minha natureza deve ser mudada antes que eu o possa fazer, e não está mudada. Sinto uma afronta inexprimível, e agravamento deliberado de uma afronta inexprimível, e estou zangado. A verdade pura é que ainda estou tão zangado quando me lembro daquela noite como estava naquela noite.”
“Neville,” sugeriu o Cónego Menor, com um semblante firme, “repetiu aquele movimento anterior das suas mãos, que eu tanto detesto.”
“Lamento, senhor, mas foi involuntário. Confessei que ainda estava tão zangado.”
“E eu confesso,” disse o Sr. Crisparkle, “que esperava coisas melhores.”
“Lamento desapontá-lo, senhor, mas seria muito pior enganá-lo, e enganá-lo-ia grosseiramente se fingisse que me amoleceu a este respeito. O tempo pode chegar em que a sua poderosa influência fará até isso com o aluno difícil cujos antecedentes conhece; mas ainda não chegou. É assim, e apesar das minhas lutas contra mim próprio, Helena?”
Ela, cujos olhos escuros observavam o efeito do que ele dizia no rosto do Sr. Crisparkle, respondeu — ao Sr. Crisparkle, não a ele: “É assim.” Após uma curta pausa, ela respondeu ao mais ligeiro olhar de inquérito concebível nos olhos do seu irmão, com um aceno afirmativo igualmente ligeiro da sua própria cabeça; e ele continuou:
“Ainda não tive a coragem de lhe dizer, senhor, o que, com total franqueza, eu deveria ter dito quando falou comigo pela primeira vez sobre este assunto. Não é fácil de dizer, e fui contido por um receio de que parecesse ridículo, um receio que pesa muito sobre mim até este último momento e que, se não fosse pela minha irmã, talvez me impedisse de ser inteiramente aberto consigo mesmo agora. — Admiro a Srta. Bud, senhor, tanto, que não suporto que ela seja tratada com presunção ou indiferença; e mesmo que eu não sentisse que tenho uma queixa contra o jovem Drood por minha própria conta, sentiria que tenho uma queixa contra ele por conta dela.”
O Sr. Crisparkle, em total espanto, olhou para Helena em busca de corroboração e encontrou no seu rosto expressivo uma corroboração plena, e um apelo por conselho.
“A jovem de quem fala é, como sabe, Sr. Neville, prestes a casar-se”, disse o Sr. Crisparkle, gravemente; “portanto, a sua admiração, se é dessa natureza especial que parece indicar, está escandalosamente deslocada. Além disso, é monstruoso que assuma o papel de defensor da jovem contra o seu futuro marido. Ademais, viu-os apenas uma vez. A jovem tornou-se amiga da sua irmã; e admiro-me que a sua irmã, mesmo em nome dela, não o tenha repreendido por este capricho irracional e censurável.”
“Ela tentou, senhor, mas inutilmente. Marido ou não, aquele sujeito é incapaz do sentimento que me inspira a bela criatura a quem ele trata como a uma boneca. Digo que ele é tão incapaz disso quanto é indigno dela. Digo que ela é sacrificada ao ser entregue a ele. Digo que a amo, e que o desprezo e o odeio!” Isto com um rosto tão afogueado e um gesto tão violento, que a sua irmã atravessou para o seu lado e agarrou-lhe o braço, protestando: “Neville, Neville!”
Assim chamado à razão, ele rapidamente tornou-se consciente de ter perdido o controlo que impusera à sua tendência passional, e cobriu o rosto com a mão, como alguém arrependido e miserável.
O Sr. Crisparkle, observando-o atentamente e, ao mesmo tempo, meditando sobre como proceder, caminhou alguns passos em silêncio. Então, falou:
“Sr. Neville, Sr. Neville, sinto-me profundamente entristecido por ver em si mais traços de um caráter tão sombrio, colérico e selvagem como a noite que agora se fecha. Têm um aspeto demasiado sério para me deixar o recurso de tratar a paixão que revelou como não merecedora de séria consideração. Dou-lhe séria consideração e falo-lhe em conformidade. Esta inimizade entre si e o jovem Drood não pode continuar. Não posso permitir que continue por mais tempo, sabendo o que agora sei da sua parte, e vivendo o senhor sob o meu teto. Quaisquer que sejam as construções preconceituosas e desautorizadas que a sua ira cega e invejosa possa atribuir ao caráter dele, é um caráter franco e de boa índole. Sei que posso confiar nisso. Agora, por favor, observe o que estou prestes a dizer. Após reflexão, e segundo o que a sua irmã expôs, estou disposto a admitir que, ao fazer as pazes com o jovem Drood, tem o direito de ser atendido a meio caminho. Comprometo-me a que o será, e até que o jovem Drood dará o primeiro passo. Esta condição cumprida, dar-me-á a honra de um cavalheiro cristão de que a contenda terminará para sempre da sua parte. O que pode estar no seu coração quando lhe der a mão, só pode ser conhecido pelo Explorador de todos os corações; mas nunca lhe correrá bem, se houver qualquer traição aí. Até aqui, quanto a isso; agora, quanto ao que devo falar novamente como a sua paixão. Compreendo que isto me foi confiado e que não é conhecido por mais ninguém, exceto pela sua irmã e por si. Entendo corretamente?”
Helena respondeu em voz baixa: “É apenas conhecido por nós três que estamos aqui juntos.”
“Não é de todo conhecido pela jovem, sua amiga?”
“Pela minha alma, não!”
“Exijo-lhe, então, que me dê a sua promessa semelhante e solene, Sr. Neville, de que permanecerá o segredo que é, e que não tomará nenhuma outra ação, seja ela qual for, a não ser esforçar-se (e isso o mais sinceramente possível) por apagá-la da sua mente. Não lhe direi que passará em breve; não lhe direi que é um capricho do momento; não lhe direi que tais caprichos têm o seu apogeu e declínio entre os jovens e ardentes a cada hora; deixá-lo-ei sem ser perturbado na crença de que tem poucos paralelos ou nenhum, que permanecerá consigo por muito tempo e que será muito difícil de vencer. Tanto mais peso atribuirei à promessa que lhe exijo, quando for dada sem reservas.”
O jovem tentou duas ou três vezes falar, mas falhou.
“Deixe-me deixá-lo com a sua irmã, a quem é altura de levar para casa”, disse o Sr. Crisparkle. “Encontrar-me-á sozinho no meu quarto mais tarde.”
“Por favor, não nos deixe ainda”, implorou Helena. “Mais um minuto.”
“Eu não teria”, disse Neville, pressionando a mão sobre o rosto, “precisado de mais do que outro minuto, se tivesse sido menos paciente comigo, Sr. Crisparkle, menos atencioso para comigo e menos despretensiosamente bom e verdadeiro. Oh, se na minha infância eu tivesse conhecido um tal guia!”
“Siga o seu guia agora, Neville”, murmurou Helena, “e siga-o para o Céu!”
Havia algo no tom dela que quebrou a voz do bom Cónego Menor, ou teria ele repudiado a exaltação que ela fazia dele. Tal como estava, ele colocou um dedo sobre os lábios e olhou para o irmão dela.
“Dizer que dou ambas as promessas, Sr. Crisparkle, do mais profundo do meu coração, e dizer que não há traição nisso, é não dizer nada!” Assim disse Neville, muito comovido. “Peço-lhe perdão pelo meu miserável lapso num acesso de paixão.”
“Não o meu, Neville, não o meu. Sabe com quem reside o perdão, como o atributo mais elevado concebível. Srta. Helena, você e o seu irmão são filhos gémeos. Vieram a este mundo com as mesmas disposições e passaram os vossos dias mais jovens juntos, rodeados pelas mesmas circunstâncias adversas. O que superou em si mesma, não pode superar nele? Vê a rocha que jaz no seu caminho. Quem, senão você, pode mantê-lo afastado dela?”
“Quem, senão você, senhor?” respondeu Helena. “O que é a minha influência, ou a minha fraca sabedoria, comparada com a sua!”
“Você tem a sabedoria do Amor”, respondeu o Cónego Menor, “e foi a sabedoria mais elevada jamais conhecida sobre esta terra, lembre-se. Quanto à minha — mas quanto menos se disser sobre essa mercadoria comum, melhor. Boa noite!”
Ela tomou a mão que ele lhe ofereceu e, com gratidão e quase reverência, elevou-a aos seus lábios.
“Tola!” disse o Cónego Menor suavemente, “estou muito bem pago!” e virou-se.
Refazendo os seus passos em direção ao Claustro da Catedral, ele tentou, enquanto caminhava na escuridão, pensar nos melhores meios de realizar o que tinha prometido efetuar e o que, de alguma forma, deveria ser feito. “Provavelmente ser-me-á pedido que os case”, refletiu ele, “e eu gostaria que estivessem casados e partissem! Mas isto é urgente primeiro.”
Ele debateu principalmente se deveria escrever ao jovem Drood, ou se deveria falar com Jasper. A consciência de ser popular em todo o estabelecimento da Catedral inclinou-o para a última opção, e a visão oportuna da portaria iluminada decidiu-o a fazê-lo. “Baterei enquanto o ferro está quente”, disse ele, “e vê-lo-ei agora.”
Jasper estava deitado, a dormir num sofá perante o fogo, quando, após ter subido a escada da entrada posterior e não ter recebido resposta ao seu bater à porta, o Sr. Crisparkle girou suavemente a maçaneta e olhou para dentro. Muito tempo depois, ele teve motivos para se lembrar de como Jasper saltou do sofá num estado delirante entre o sono e a vigília, e gritando: “O que se passa? Quem fez isso?”
“Sou apenas eu, Jasper. Lamento tê-lo perturbado.”
O brilho dos seus olhos acalmou-se para um olhar de reconhecimento, e ele moveu uma ou duas cadeiras para abrir caminho até à lareira.
“Estava a sonhar intensamente e fico contente por ser perturbado de um sono indigesto após o jantar. Sem mencionar que é sempre bem-vindo.”
“Obrigado. Não estou confiante”, respondeu o Sr. Crisparkle, enquanto se sentava na poltrona colocada para ele, “que o meu assunto seja à primeira vista tão bem-vindo quanto eu; mas sou um ministro da paz e persigo o meu assunto no interesse da paz. Numa palavra, Jasper, quero estabelecer a paz entre estes dois jovens.”
Uma expressão muito perplexa apoderou-se do rosto do Sr. Jasper; uma expressão muito desconcertante também, pois o Sr. Crisparkle não conseguia tirar nada dela.
“Como?” foi a pergunta de Jasper, numa voz baixa e lenta, após um silêncio.
“Para o ‘Como’ venho até si. Quero pedir-lhe o grande favor e serviço de intervir junto do seu sobrinho (já intervi junto do Sr. Neville) e levá-lo a escrever-lhe um pequeno bilhete, à sua maneira viva, dizendo que está disposto a dar um aperto de mão. Sei que rapaz de boa índole ele é, e que influência tem sobre ele. E sem de modo algum defender o Sr. Neville, devemos todos admitir que ele foi amargamente picado.”
Jasper virou aquele rosto perplexo para o fogo. O Sr. Crisparkle, continuando a observá-lo, achou-o ainda mais desconcertante do que antes, na medida em que parecia denotar (o que dificilmente poderia ser) algum cálculo interno profundo.
“Sei que não está predisposto a favor do Sr. Neville”, continuava o Cónego Menor, quando Jasper o interrompeu:
“Tem motivos para o dizer. Não estou, de facto.”
“Sem dúvida; e admito a sua lamentável violência de temperamento, embora espere que ele e eu superemos isso entre nós. Mas exigi-lhe uma promessa muito solene quanto ao seu comportamento futuro para com o seu sobrinho, se o senhor intervier gentilmente; e tenho a certeza de que ele a cumprirá.”
“O senhor é sempre responsável e digno de confiança, Sr. Crisparkle. Sente realmente a certeza de que pode responder por ele tão confiantemente?”
“Sinto.”
O olhar perplexo e desconcertante desapareceu.
“Então alivia a minha mente de um grande pavor e de um peso pesado”, disse Jasper; “eu fá-lo-ei.”
O Sr. Crisparkle, encantado com a rapidez e a completude do seu sucesso, reconheceu-o nos termos mais elogiosos.
“Eu fá-lo-ei”, repetiu Jasper, “pelo conforto de ter a sua garantia contra os meus medos vagos e infundados. Rir-se-á — mas mantém um Diário?”
“Uma linha por dia; nada mais.”
“Uma linha por dia seria tanto quanto a minha vida sem acontecimentos precisaria, sabe o Céu”, disse Jasper, tirando um livro de uma secretária, “mas o meu Diário é, de facto, um Diário da vida do Ned também. Rir-se-á desta entrada; adivinhará quando foi feita:
“‘Passada a meia-noite. — Depois do que acabei de ver, tenho um pavor mórbido de algumas consequências horríveis resultando para o meu querido rapaz, com o qual não posso raciocinar ou de qualquer forma combater. Todos os meus esforços são vãos. A paixão demoníaca deste Neville Landless, a sua força na sua fúria e a sua raiva selvagem pela destruição do seu objeto, apavoram-me. Tão profunda é a impressão, que duas vezes desde que fui ao quarto do meu querido rapaz, para me assegurar de que dormia em segurança, e não jazia morto no seu sangue.’
“Aqui está outra entrada na manhã seguinte:
“‘Ned de pé e fora. Alegre e insuspeito como sempre. Ele riu-se quando o alertei, e disse que era um homem tão bom quanto Neville Landless em qualquer dia. Disse-lhe que isso poderia ser, mas que ele não era um homem tão mau. Ele continuou a desvalorizar o assunto, mas viajei com ele até onde pude, e deixei-o muito contra a minha vontade. Sou incapaz de me livrar destes sombrios presentimentos intangíveis de mal — se sentimentos baseados em factos claros assim devem ser chamados.’”
“Repetidamente”, disse Jasper, em conclusão, folheando as páginas do livro antes de o guardar, “relapsei nestes humores, como mostram outras entradas. Mas tenho agora a sua garantia como apoio, e irei colocá-la no meu livro, e farei dela um antídoto para os meus humores negros.”
“Um tal antídoto, espero”, respondeu o Sr. Crisparkle, “que o induza em breve a consignar os humores negros às chamas. Deveria ser o último a encontrar qualquer culpa em si esta noite, quando atendeu aos meus desejos tão livremente; mas devo dizer, Jasper, que a sua devoção pelo seu sobrinho o tornou exagerado aqui.”
“O senhor é a minha testemunha”, disse Jasper, encolhendo os ombros, “qual foi o meu estado de espírito honestamente, naquela noite, antes de me sentar para escrever, e em que palavras o expressei. Lembra-se de objetar a uma palavra que usei, como sendo demasiado forte? Era uma palavra mais forte do que qualquer outra no meu Diário.”
“Bem, bem. Experimente o antídoto”, replicou o Sr. Crisparkle; “e que lhe proporcione uma visão mais brilhante e melhor do caso! Não discutiremos mais isso agora. Tenho a agradecer-lhe por mim, agradecer-lhe sinceramente.”
“Verá”, disse Jasper, enquanto apertavam as mãos, “que não farei a coisa que deseja que eu faça, pela metade. Terei o cuidado de que o Ned, cedendo em tudo, ceda completamente.”
No terceiro dia após esta conversa, ele visitou o Sr. Crisparkle com a seguinte carta:
“MEU CARO JACK, “Estou comovido com o seu relato da sua entrevista com o Sr. Crisparkle, a quem muito respeito e estimo. De imediato digo abertamente que me esqueci de mim mesmo nessa ocasião tanto quanto o Sr. Landless fez, e que desejo que o passado seja passado, e que tudo esteja bem novamente. “Veja aqui, meu querido velho. Convide o Sr. Landless para jantar na Véspera de Natal (quanto melhor o dia, melhor a ação), e que sejamos apenas nós três, e que apertemos as mãos todos lá e então, e não falemos mais sobre isso.
“Meu querido Jack, “Sempre o seu mais afetuoso, “EDWIN DROOD.
“P.S. Amor à Srta. Pussy na próxima lição de música.”
“Espera o Sr. Neville, então?” disse o Sr. Crisparkle.
“Conto com a sua vinda”, disse o Sr. Jasper.
CAPÍTULO XI. UM RETRATO E UM ANEL
Atrás da parte mais antiga de Holborn, Londres, onde certas casas com empenas, com alguns séculos de existência, ainda permanecem a olhar para a via pública, como se olhassem desconsoladas para o Old Bourne que há muito secou, existe um pequeno recanto composto por dois quadrângulos irregulares, chamado Staple Inn. É um daqueles recantos que, ao entrar nele vindo da rua ruidosa, confere ao pedestre aliviado a sensação de ter colocado algodão nos ouvidos e solas de veludo nas botas. É um daqueles recantos onde alguns pardais enfumaçados chilreiam em árvores enfumaçadas, como se chamassem uns aos outros: “Vamos brincar aos campos”, e onde alguns pés de terra de jardim e alguns metros de cascalho lhes permitem fazer essa violência refrescante aos seus minúsculos entendimentos. Além disso, é um daqueles recantos que são recantos legais; e contém um pequeno Salão, com uma pequena lanterna no seu telhado: a que propósitos obstrutivos dedicado, e a expensas de quem, esta história não sabe.
Nos dias em que Cloisterham se ofendia com a existência de uma ferrovia ao longe, como ameaçando essa constituição sensível, a propriedade de nós, Britânicos: cuja estranha fortuna daquela instituição sagrada é ser em graus exatamente iguais criticada, temida e vangloriada, aconteça o que acontecer a qualquer coisa, em qualquer parte do mundo: naqueles dias, nenhuma arquitetura vizinha de proporções elevadas tinha surgido para ensombrar o Staple Inn. O sol poente concedia-lhe olhares brilhantes, e o vento sudoeste soprava para dentro dele sem impedimentos.
Nem vento nem sol, no entanto, favoreceram Staple Inn numa tarde de dezembro perto das seis horas, quando estava cheio de nevoeiro, e as velas lançavam raios turvos e desfocados através das janelas de todos os seus conjuntos de câmaras então ocupados; notavelmente de um conjunto de câmaras numa casa de esquina no pequeno quadrângulo interior, apresentando a preto e branco sobre o seu portal feio a misteriosa inscrição:
P J T 1747
No qual conjunto de câmaras, nunca tendo preocupado a sua cabeça com a inscrição, a não ser para pensar em momentos estranhos ao olhar para ela, que talvez pudesse significar Perhaps John Thomas, ou Perhaps Joe Tyler, estava sentado o Sr. Grewgious a escrever junto ao seu fogo.
Quem poderia ter dito, ao olhar para o Sr. Grewgious, se ele alguma vez conhecera ambição ou desapontamento? Ele tinha sido educado para a Advocacia e tinha-se preparado para a prática em câmaras; para redigir escrituras; “transmitir, chamam-lhe os sábios”, como diz Pistol. Mas a Transmissão e ele tinham feito um casamento tão indiferente que se separaram por consentimento — se se pode dizer que houve separação onde nunca houve união.
Não. A tímida Transmissão não viria ter com o Sr. Grewgious. Ela foi cortejada, não conquistada, e eles seguiram os seus caminhos separados. Mas, sendo uma Arbitragem soprada na sua direção por algum vento inexplicável, e ele ganhando grande crédito nela como alguém incansável em procurar o direito e fazer o direito, uma receção bastante gorda foi a seguir soprada para o seu bolso por um vento mais rastreável à sua origem. Assim, por acaso, ele tinha encontrado o seu nicho. Recetor e Agente agora, de dois estados ricos, e delegando os seus negócios legais, num montante que valia a pena ter, a uma firma de advogados no andar de baixo, ele tinha apagado a sua ambição (supondo que a tivesse alguma vez acendido), e tinha-se estabelecido com os seus apagadores para o resto da sua vida sob a videira seca e figueira de P. J. T., que plantou em mil setecentos e quarenta e sete.
Muitas contas e livros de contas, muitos arquivos de correspondência e várias caixas fortes, guarneciam o quarto do Sr. Grewgious. Dificilmente podem ser representados como tendo-o entulhado, tão conscienciosa e precisa era a sua disposição ordenada. A apreensão de morrer subitamente, e deixar um facto ou um algarismo com qualquer incompletude ou obscuridade a ele ligada, teria esticado o Sr. Grewgious morto como uma pedra em qualquer dia. A maior fidelidade a um encargo era o sangue vital do homem. Existem tipos de sangue vital que correm mais rapidamente, mais alegremente, mais atraentemente; mas não há melhor tipo em circulação.
Não havia luxo no seu quarto. Mesmo os seus confortos limitavam-se a ser seco e quente, e a ter uma lareira aconchegante embora desbotada. O que pode ser chamado a sua vida privada estava confinado à lareira, e a uma poltrona, e a uma mesa redonda ocasional de estilo antigo que era trazida para cima do tapete após as horas de trabalho, de um canto onde de outra forma permanecia virada como um escudo de mogno brilhante. Atrás dela, quando de pé assim na defensiva, estava um armário, contendo geralmente algo de bom para beber. Um quarto exterior era o quarto do empregado; o quarto de dormir do Sr. Grewgious ficava do outro lado da escada comum; e ele detinha alguma cave não vazia no fundo da escada comum. Trezentos dias por ano, pelo menos, ele atravessava para o hotel em Furnival’s Inn para o seu jantar, e após o jantar atravessava de volta, para aproveitar ao máximo estas simplicidades até que se tornasse um dia de trabalho completo mais uma vez, com P. J. T., data mil setecentos e quarenta e sete.
Enquanto o Sr. Grewgious se sentava e escrevia junto ao seu fogo naquela tarde, assim o empregado do Sr. Grewgious se sentava e escrevia junto ao seu fogo. Uma pessoa pálida, de rosto inchado, cabelos escuros e trinta anos, com grandes olhos escuros que careciam totalmente de brilho, e uma tez insatisfeita e pastosa, que parecia pedir para ser enviada à padaria, este assistente era um ser misterioso, possuído de algum estranho poder sobre o Sr. Grewgious. Como se tivesse sido chamado à existência, como um Familiar fabuloso, por um feitiço mágico que falhara quando necessário para o dispensar, ele colava-se firmemente ao banco do Sr. Grewgious, embora o conforto e a conveniência do Sr. Grewgious tivessem manifestamente sido avançados por o despedir. Uma pessoa sombria com madeixas emaranhadas, e um ar geral de ter sido criado sob a sombra daquela árvore funesta de Java que deu abrigo a mais mentiras do que todo o reino botânico, o Sr. Grewgious, no entanto, tratava-o com uma consideração inexplicável.
“Ora, Bazzard,” disse o Sr. Grewgious, à entrada do seu empregado: levantando os olhos dos papéis enquanto os arrumava para a noite: “o que está no ar, além de nevoeiro?”
“O Sr. Drood,” disse Bazzard.
“O que há com ele?”
“Veio chamar,” disse Bazzard.
“Poderia tê-lo feito entrar.”
“Estou a fazê-lo,” disse Bazzard.
O visitante entrou conforme o esperado.
“Valha-me Deus!” disse o Sr. Grewgious, olhando à volta do seu par de velas de escritório. “Pensei que tinha vindo chamar e apenas deixado o seu nome e ido embora. Como está, Sr. Edwin? Valha-me Deus, está a engasgar-se!”
“É este nevoeiro,” respondeu Edwin; “e faz os meus olhos arderem, como pimenta de Caiena.”
“Será realmente tão mau assim? Por favor, dispa os seus agasalhos. É uma sorte eu ter um fogo tão bom; mas o Sr. Bazzard tem cuidado de mim.”
“Não, não tenho,” disse o Sr. Bazzard à porta.
“Ah! então deduz-se que devo ter cuidado de mim próprio sem o observar,” disse o Sr. Grewgious. “Por favor, sente-se na minha cadeira. Não. Suplico-lhe! Vindo de tal atmosfera, na minha cadeira.”
Edwin ocupou a poltrona no canto; e o nevoeiro que ele trouxera consigo, e o nevoeiro que ele retirou com o seu sobretudo e xale, foi rapidamente consumido pelo fogo ávido.
“Pareço,” disse Edwin, sorrindo, “como se tivesse vindo para ficar.”
“—A propósito,” exclamou o Sr. Grewgious; “desculpe interrompê-lo; fique. O nevoeiro pode dissipar-se numa hora ou duas. Podemos pedir o jantar logo ali em frente, em Holborn. É melhor tomar a sua pimenta de Caiena aqui do que lá fora; por favor, fique para jantar.”
“É muito amável da sua parte,” disse Edwin, olhando à sua volta como se atraído pela ideia de um novo e apetecível tipo de festa cigana.
“De modo algum,” disse o Sr. Grewgious; “é muito amável da sua parte juntar-se a um solteirão nos seus aposentos e aceitar o que houver. E eu vou pedir,” disse o Sr. Grewgious, baixando a voz e falando com um brilho no olhar, como se inspirado por um pensamento brilhante: “Vou pedir ao Bazzard. Ele poderia não gostar se não o fizesse.—Bazzard!”
Bazzard reapareceu.
“Jante agora com o Sr. Drood e comigo.”
“Se me é ordenado jantar, claro que o farei, senhor,” foi a resposta sombria.
“Salvem o homem!” exclamou o Sr. Grewgious. “Não lhe é ordenado; é convidado.”
“Obrigado, senhor,” disse Bazzard; “nesse caso não me importo de o fazer.”
“Está arranjado. E talvez não se importasse,” disse o Sr. Grewgious, “de dar um salto ao hotel em Furnival’s e pedir-lhes que enviem o necessário para pôr a mesa. Para jantar, teremos uma terrina da sopa mais quente e forte disponível, e teremos o melhor prato confecionado que possa ser recomendado, e teremos uma peça de carne (como uma perna de carneiro), e teremos um ganso, ou um peru, ou qualquer coisa recheada desse género que possa estar na ementa — em suma, teremos tudo o que estiver à mão.”
Estas instruções liberais o Sr. Grewgious emitiu com o seu habitual ar de quem lê um inventário, ou repete uma lição, ou faz qualquer outra coisa de cor. Bazzard, após puxar a mesa redonda, retirou-se para as executar.
“Eu estava um pouco receoso, sabe,” disse o Sr. Grewgious, num tom mais baixo, após a partida do seu empregado, “quanto a empregá-lo no departamento de forragem ou comissariado. Porque ele poderia não gostar.”
“Ele parece ter o seu próprio caminho, senhor,” observou Edwin.
“O seu próprio caminho?” respondeu o Sr. Grewgious. “Oh, claro que não! Pobre rapaz, engana-se completamente a seu respeito. Se ele tivesse o seu próprio caminho, não estaria aqui.”
“Pergunto-me onde estaria!” pensou Edwin. Mas apenas o pensou, porque o Sr. Grewgious veio e pôs-se de costas para o outro canto da lareira, com as omoplatas contra a lareira, e compôs as abas do casaco para uma conversa descontraída.
“Assumo, sem ter o dom da profecia, que me fez o favor de passar por cá para mencionar que vai lá para baixo — onde, posso dizer-lhe, é esperado — e para oferecer-se para executar qualquer pequena comissão da minha parte para a minha encantadora pupila, e talvez para me aguçar um pouco em quaisquer procedimentos? Eh, Sr. Edwin?”
“Vim, senhor, antes de ir lá para baixo, como um ato de atenção.”
“De atenção!” disse o Sr. Grewgious. “Ah! claro, não de impaciência?”
“Impaciência, senhor?”
O Sr. Grewgious pretendia ser malicioso — não que ele, de forma alguma, expressasse esse significado — e tinha-se colocado numa proximidade dificilmente suportável com o fogo, como se quisesse queimar em si mesmo o efeito pleno da sua malícia, tal como outras impressões subtis são queimadas em metais duros. Mas a sua malícia desaparecendo subitamente perante o rosto e a maneira serenos do seu visitante, e restando apenas o fogo, ele sobressaltou-se e esfregou-se.
“Estive lá em baixo recentemente,” disse o Sr. Grewgious, rearranjando as abas; “e foi a isso que me referi quando disse que lhe podia dizer que é esperado.”
“Na verdade, senhor! Sim; eu sabia que a Pussy estava à minha espera.”
“Mantém um gato lá em baixo?” perguntou o Sr. Grewgious.
Edwin corou um pouco enquanto explicava: “Chamo à Rosa Pussy.”
“Oh, realmente,” disse o Sr. Grewgious, alisando a cabeça; “isso é muito afável.”
Edwin olhou para o rosto dele, incerto se ele se opunha ou não seriamente à alcunha. Mas Edwin poderia ter olhado para o rosto de um relógio, com o mesmo resultado.
“Um nome carinhoso, senhor,” explicou ele novamente.
“Hum,” disse o Sr. Grewgious, com um aceno. Mas com um compromisso tão extraordinário entre um assentimento incondicional e uma dissidência qualificada, que o seu visitante ficou muito desconcertado.
“A PRosa—” começou Edwin, tentando recuperar-se.
“PRosa?” repetiu o Sr. Grewgious.
“Eu ia dizer Pussy, e mudei de ideias; — ela disse-lhe alguma coisa sobre os Landlesses?”
“Não,” disse o Sr. Grewgious. “O que são os Landlesses? Uma propriedade? Uma vivenda? Uma quinta?”
“Um irmão e uma irmã. A irmã está na Casa das Freiras, e tornou-se uma grande amiga da P—”
“Da PRosa,” interrompeu o Sr. Grewgious, com o rosto fixo.
“Ela é uma rapariga surpreendentemente bonita, senhor, e pensei que talvez lhe tivessem falado dela, ou talvez a tivessem apresentado?”
“Nem uma coisa nem outra,” disse o Sr. Grewgious. “Mas aqui está Bazzard.”
Bazzard regressou, acompanhado por dois empregados de mesa — um empregado imóvel e um empregado voador; e os três trouxeram consigo tanto nevoeiro que deu um novo rugido ao fogo. O empregado voador, que tinha trazido tudo às costas, pôs a mesa com incrível rapidez e destreza; enquanto o empregado imóvel, que não tinha trazido nada, encontrava falhas nele. O empregado voador poliu então cuidadosamente todos os copos que trouxera, e o empregado imóvel olhou através deles. O empregado voador voou então através de Holborn para buscar a sopa, e voou de volta, e depois fez outro voo para o prato confecionado, e voou de volta, e depois fez outro voo para a carne e a ave, e voou de volta, e entretanto fez voos suplementares para uma grande variedade de artigos, à medida que se descobria de tempos a tempos que o empregado imóvel se tinha esquecido de todos eles. Mas por muito que o empregado voador cortasse o ar, era sempre censurado no seu regresso pelo empregado imóvel por trazer nevoeiro consigo e por estar sem fôlego. No final do repasto, altura em que o empregado voador estava severamente exausto, o empregado imóvel recolheu a toalha de mesa debaixo do braço com um ar grandioso e, tendo olhado severamente (para não dizer com indignação) para o empregado voador enquanto este dispunha os copos limpos, dirigiu um olhar de despedida ao Sr. Grewgious, que transmitia: “Fique claramente entendido entre nós que a recompensa é minha, e que Nada é o que cabe a este escravo,” e empurrou o empregado voador à sua frente para fora da sala.
Era como uma pintura em miniatura altamente acabada representando Os Meus Senhores do Departamento de Circunlóquio, Comando-em-Chefe de qualquer espécie, Governo. Era uma pequena imagem bastante edificante para ser pendurada na linha da Galeria Nacional.
Como o nevoeiro tinha sido a causa imediata deste suntuoso repasto, assim o nevoeiro serviu como o seu molho geral. Ouvir os empregados do exterior a espirrar, a resfolegar e a bater com os pés no cascalho era um estimulante muito superior ao do Doutor Kitchener. Pedir, com um calafrio, ao infeliz empregado voador que fechasse a porta antes de a ter aberto, era um condimento de um sabor mais profundo do que o Harvey. E aqui note-se, entre parênteses, que a perna deste jovem, na sua aplicação à porta, evidenciava o mais fino sentido de tato: precedendo sempre a si próprio e ao tabuleiro (com um certo ar de pesca), por alguns segundos: e permanecendo sempre após ele e o tabuleiro terem desaparecido, como a perna de Macbeth quando o acompanhava para fora do palco com relutância para o assassinato de Duncan.
O anfitrião tinha ido abaixo à adega e tinha trazido garrafas de bebidas cor de rubi, palha e douradas, que tinham amadurecido há muito tempo em terras onde não há nevoeiros, e desde então tinham jazido a adormecer na sombra. Espumantes e vibrantes após uma sesta tão longa, empurravam as suas rolhas para ajudar o saca-rolhas (como prisioneiros a ajudar amotinados a forçar os seus portões), e dançavam alegremente para fora. Se P. J. T. em mil setecentos e quarenta e sete, ou em qualquer outro ano do seu período, bebia tais vinhos — então, com certeza, P. J. T. também estava Bastante Alegre.
Externamente, o Sr. Grewgious não mostrava sinais de ter sido suavizado por estas colheitas brilhantes. Em vez de as beber, poderiam ter sido vertidas sobre ele na sua forma de rapé seco, e desperdiçadas, por quaisquer luzes e sombras que causassem a tremeluzir sobre o seu rosto. Nem a sua maneira foi influenciada. Mas, à sua maneira de madeira, ele tinha olhos observadores para Edwin; e quando, ao fim do jantar, indicou a Edwin para voltar à sua própria poltrona no canto da lareira, e Edwin afundou-se luxuosamente nela após uma breve resistência, o Sr. Grewgious, enquanto virava também o seu assento para o fogo e alisava a cabeça e o rosto, podia ter sido visto a olhar para o seu visitante por entre os seus dedos alisadores.
“Bazzard!” disse o Sr. Grewgious, virando-se subitamente para ele.
“Sigo-o, senhor,” respondeu Bazzard; que tinha feito o seu trabalho de consumir carne e bebida de uma forma profissional, embora na maioria em silêncio.
“Bebo à sua saúde, Bazzard; Sr. Edwin, sucesso ao Sr. Bazzard!”
“Sucesso ao Sr. Bazzard!” ecoou Edwin, com uma aparência totalmente infundada de entusiasmo, e com a adição não dita: “Sucesso em quê, pergunto-me!”
“E que!” continuou o Sr. Grewgious — “não estou em liberdade de ser definitivo — Que! — as minhas capacidades de conversação são tão limitadas que sei que não sairei bem disto — Que! — deveria ser colocado de forma imaginativa, mas não tenho imaginação — Que! — o espinho da ansiedade é o que mais se aproxima da marca que provavelmente conseguirei atingir — Que ele saia finalmente!”
O Sr. Bazzard, com um sorriso franzido para o fogo, meteu uma mão nos seus cabelos emaranhados, como se o espinho da ansiedade estivesse lá; depois no seu colete, como se estivesse lá; depois nos seus bolsos, como se estivesse lá. Em todos estes movimentos ele foi seguido de perto pelos olhos de Edwin, como se aquele jovem cavalheiro esperasse ver o espinho em ação. Não foi produzido, no entanto, e o Sr. Bazzard limitou-se a dizer: “Sigo-o, senhor, e agradeço-lhe.”
“Vou,” disse o Sr. Grewgious, tilintando o seu copo na mesa com uma mão, e inclinando-se para o lado sob a cobertura da outra, para sussurrar a Edwin, “beber à minha pupila. Mas pus o Bazzard primeiro. Ele poderia não gostar se não o fizesse.”
Isto foi dito com uma piscadela misteriosa; ou o que teria sido uma piscadela, se, nas mãos do Sr. Grewgious, pudesse ter sido suficientemente rápida. Então Edwin piscou o olho em resposta, sem a menor ideia do que queria dizer ao fazê-lo.
“E agora,” disse o Sr. Grewgious, “dedico um brinde à bela e fascinante Srta. Rosa. Bazzard, à bela e fascinante Srta. Rosa!”
“Sigo-o, senhor,” disse Bazzard, “e comprometo-me!”
“E eu também!” disse Edwin.
“Valha-me Deus,” exclamou o Sr. Grewgious, quebrando o silêncio vazio que, claro, se seguiu: embora quem possa dizer por que razão estas pausas nos ocorrem quando realizamos qualquer pequeno rito social, que não induz diretamente à autoanálise ou ao desânimo mental? “Sou um homem particularmente Angular, e no entanto imagino (se posso usar a palavra, não tendo uma ponta de imaginação), que poderia desenhar um retrato do estado de espírito de um verdadeiro amante, esta noite.”
“Deixe-nos segui-lo, senhor,” disse Bazzard, “e ter o retrato.”
“O Sr. Edwin corrigi-lo-á onde estiver errado,” retomou o Sr. Grewgious, “e acrescentará alguns toques retirados da vida. Ouso dizer que está errado em muitos pontos, e precisa de muitos toques retirados da vida, pois nasci um Fragmento, e não tenho nem simpatias suaves nem experiências suaves. Bem! Arrisco o palpite de que a mente do verdadeiro amante é completamente permeada pelo objeto amado das suas afeições. Arrisco o palpite de que o seu querido nome é precioso para ele, não pode ser ouvido ou repetido sem emoção, e é preservado como sagrado. Se ele tem qualquer apelido distintivo de carinho para ela, está reservado para ela, e não é para ouvidos comuns. Um nome pelo qual seria um privilégio chamá-la, estando a sós com o seu próprio eu brilhante, seria uma liberdade, uma frieza, uma insensibilidade, quase uma quebra de boa-fé, exibi-lo noutro lugar.”
Era maravilhoso ver o Sr. Grewgious sentado hirto, com as mãos nos joelhos, cortando continuamente este discurso de si mesmo: tal como um aluno de caridade com uma memória muito boa poderia dizer o seu catecismo: e não evidenciando qualquer emoção correspondente, a não ser num certo pequeno formigueiro ocasional percetível na ponta do seu nariz.
“O meu retrato,” continuou o Sr. Grewgious, “prossegue para representar (sob correção de si, Sr. Edwin), o verdadeiro amante como sempre impaciente por estar na presença ou vizinhança do objeto amado das suas afeições; como não se importando muito com o seu caso em qualquer outra sociedade; e como constantemente a procurar. Se eu dissesse procurar isso, como um pássaro procura o seu ninho, faria um asno de mim próprio, porque isso roçaria o que entendo ser poesia; e estou tão longe de roçar a poesia em qualquer momento, que nunca, que eu saiba, cheguei a dez mil milhas dela. E além disso, sou totalmente ignorante dos hábitos das aves, exceto as aves de Staple Inn, que procuram os seus ninhos em saliências, e em caleiras e chaminés, não construídas para eles pela mão benéfica da Natureza. Peço, portanto, que se entenda que prescindo do ninho de pássaro. Mas o meu retrato representa o verdadeiro amante como não tendo existência separável da do objeto amado das suas afeições, e como vivendo ao mesmo tempo uma vida duplicada e uma vida reduzida a metade. E se não expresso claramente o que quero dizer com isso, é ou pela razão de que, não tendo capacidades de conversação, não posso expressar o que quero dizer, ou que não tendo significado, não quero dizer o que não consigo expressar. O que, segundo o meu melhor entender, não é o caso.”
Edwin tinha ficado vermelho e tinha ficado branco, à medida que certos pontos deste retrato vinham à luz. Sentou-se agora a olhar para o fogo, e mordeu o lábio.
“As especulações de um homem Angular,” retomou o Sr. Grewgious, ainda sentado e falando exatamente como antes, “são provavelmente erróneas num tópico tão globular. Mas imagino para mim próprio (sujeito, como antes, à correção do Sr. Edwin), que não pode haver frieza, nem lassidão, nem dúvida, nem indiferença, nem um estado de espírito de meio fogo e meia fumaça, num amante real. Por favor, estarei de todo perto da marca no meu retrato?”
Tão abrupto na sua conclusão como no seu início e progresso, ele lançou esta pergunta a Edwin, e parou quando se poderia ter suposto que estava a meio da sua oração.
“Eu diria, senhor,” gaguejou Edwin, “como refere a questão a mim—”
“Sim,” disse o Sr. Grewgious, “refiro-a a si, como uma autoridade.”
“Eu diria, então, senhor,” continuou Edwin, embaraçado, “que o retrato que desenhou está geralmente correto; mas submeto que talvez possa ser um tanto duro com o amante azarado.”
“Provavelmente sim,” assentiu o Sr. Grewgious, “provavelmente sim. Sou um homem duro no cerne.”
“Ele pode não mostrar,” disse Edwin, “tudo o que sente; ou pode não—”
Aí parou tanto tempo, para encontrar o resto da sua frase, que o Sr. Grewgious tornou a sua dificuldade mil vezes maior ao interromper inesperadamente com:
“Não, sem dúvida; ele pode não!”
Depois disso, ficaram todos em silêncio; o silêncio do Sr. Bazzard sendo causado pelo sono.
“A sua responsabilidade é muito grande, contudo,” disse o Sr. Grewgious finalmente, com os olhos no fogo.
Edwin acenou com a cabeça, com os olhos no fogo.
“E que ele tenha a certeza de que não brinca com ninguém,” disse o Sr. Grewgious; “nem consigo próprio, nem com nenhum outro.”
Edwin mordeu o lábio novamente, e continuou sentado a olhar para o fogo.
“Ele não deve fazer um brinquedo de um tesouro. Ai dele se o fizer! Que ele leve isso bem a peito,” disse o Sr. Grewgious.
Embora dissesse estas coisas em frases curtas, muito como o suposto aluno de caridade que acabámos de referir poderia ter repetido um verso ou dois do Livro dos Provérbios, havia algo de sonhador (para um homem tão literal) na forma como ele agora abanava o dedo indicador direito para as brasas vivas na grelha, e voltava a silenciar.
Mas não por muito tempo. Enquanto estava sentado direito e rígido na sua cadeira, bateu subitamente nos joelhos, como a imagem esculpida de um estranho Joss qualquer a sair do seu devaneio, e disse: “Temos de acabar esta garrafa, Sr. Edwin. Deixe-me ajudá-lo. Vou ajudar o Bazzard também, embora ele esteja a dormir. Ele poderia não gostar se não o fizesse.”
Ajudou ambos, e ajudou-se a si próprio, e esvaziou o seu copo, e pousou-o virado para baixo na mesa, como se tivesse acabado de apanhar uma mosca nele.
“E agora, Sr. Edwin,” continuou ele, limpando a boca e as mãos no seu lenço: “para um pequeno assunto de negócios. Recebeu de mim, no outro dia, uma cópia autenticada do testamento do pai da Srta. Rosa. Já conhecia o seu conteúdo antes, mas recebeu-o de mim como uma questão de negócios. Eu tê-lo-ia enviado ao Sr. Jasper, não fosse o desejo da Srta. Rosa de que chegasse diretamente a si, de preferência. Recebeu-o?”
“Completamente seguro, senhor.”
“Deveria ter confirmado a sua receção,” disse o Sr. Grewgious; “negócios são negócios em todo o mundo. Contudo, não o fez.”
“Pretendia tê-lo confirmado quando cheguei aqui esta noite, senhor.”
“Não foi uma confirmação profissional,” respondeu o Sr. Grewgious; “contudo, deixe passar. Agora, nesse documento observou algumas palavras de alusão gentil ao facto de ter sido deixado a mim o encargo de cumprir uma pequena confiança, confiada a mim em conversa, na altura que eu, na minha discrição, considerar melhor.”
“Sim, senhor.”
“Sr. Edwin, ocorreu-me agora, quando estava a olhar para o fogo, que poderia, na minha discrição, desobrigar-me dessa confiança no melhor momento que o presente. Favoreça-me com a sua atenção, meio minuto.”
Ele tirou um molho de chaves do bolso, isolou à luz da vela a chave que queria, e então, com uma vela na mão, foi a uma secretária ou *escritoire*, destrancou-a, tocou na mola de uma pequena gaveta secreta, e tirou de lá um estojo de anel comum, feito para um único anel. Com isto na mão, voltou para a sua cadeira. Enquanto o segurava para o jovem ver, a sua mão tremia.
“Sr. Edwin, esta rosa de diamantes e rubis delicadamente engastados em ouro, era um anel que pertencia à mãe da Srta. Rosa. Foi retirado da sua mão morta, na minha presença, com um pesar tão transtornado que espero que nunca seja o meu fado contemplar novamente. Homem duro como sou, não sou suficientemente duro para isso. Veja como estas pedras brilham!” abrindo o estojo. “E, no entanto, os olhos que eram muito mais brilhantes, e que tantas vezes olharam para elas com uma luz e um coração orgulhoso, têm sido cinzas entre cinzas, e pó entre pó, há alguns anos! Se eu tivesse alguma imaginação (o que não preciso dizer que não tenho), poderia imaginar que a beleza duradoura destas pedras era quase cruel.”
Ele fechou o estojo novamente enquanto falava.
“Este anel foi dado à jovem senhora que se afogou tão cedo na sua bela e feliz carreira, pelo seu marido, quando eles trocaram pela primeira vez a promessa de fé um ao outro. Foi ele quem o retirou da sua mão inconsciente, e foi ele quem, quando a morte se aproximou muito, colocou-o na minha. A confiança com que o recebi foi a de que, vocês e a menina Rosa atingindo a idade adulta, e o vosso noivado prosperando e chegando à maturidade, eu deveria dá-lo a vocês para que o colocassem no dedo dela. Falhando esses resultados desejados, ele deveria permanecer em minha posse.”
Alguma perturbação transparecia no rosto do jovem, e alguma indecisão no gesto da sua mão, enquanto o Sr. Grewgious, olhando fixamente para ele, lhe entregava o anel.
“O facto de o colocar no dedo dela”, disse o Sr. Grewgious, “será o selo solene da sua estrita fidelidade aos vivos e aos mortos. Você vai ter com ela, para fazer os últimos preparativos irrevogáveis para o seu casamento. Leve-o consigo.”
O jovem pegou no pequeno estojo e colocou-o no peito.
“Se algo estiver errado, se algo estiver, ainda que ligeiramente, mal entre vocês; se você tiver qualquer consciência secreta de que está a comprometer-se com este passo por nenhuma razão mais elevada do que o facto de estar há muito habituado a ansiar por ele; então”, disse o Sr. Grewgious, “eu o encarrego mais uma vez, pelos vivos e pelos mortos, de trazer esse anel de volta para mim!”
Aqui, Bazzard acordou-se a si mesmo com o seu próprio ressonar; e, como é habitual em tais casos, sentou-se a olhar apoplecticamente para o vazio, como se desafiasse o vazio a acusá-lo de ter estado a dormir.
“Bazzard!” disse o Sr. Grewgious, mais duro do que nunca.
“Sigo-o, senhor”, disse Bazzard, “e tenho estado a segui-lo.”
“No cumprimento de uma incumbência, entreguei ao Sr. Edwin Drood um anel de diamantes e rubis. Você está a ver?”
Edwin reproduziu o pequeno estojo e abriu-o; e Bazzard olhou para dentro.
“Sigo-vos a ambos, senhor”, respondeu Bazzard, “e sou testemunha da transação.”
Evidentemente ansioso por se afastar e ficar sozinho, Edwin Drood retomou agora o seu traje exterior, murmurando algo sobre tempo e compromissos. O nevoeiro foi dado como não tendo clareado (pelo empregado de mesa apressado, que desceu de um voo especulativo no interesse do café), mas ele saiu para dentro dele; e Bazzard, à sua maneira, “seguiu-o”.
O Sr. Grewgious, deixado sozinho, caminhou suave e lentamente de um lado para o outro, durante uma hora e mais. Estava inquieto esta noite e parecia abatido.
“Espero ter feito o que está certo”, disse ele. “O apelo a ele parecia necessário. Foi difícil perder o anel, e, no entanto, ele teria de sair de mim muito em breve.”
Fechou a pequena gaveta vazia com um suspiro, fechou e trancou a escrivaninha, e voltou para a lareira solitária.
“O anel dela”, continuou ele. “Voltará ele para mim? A minha mente paira sobre o anel dela muito inquietamente esta noite. Mas isso é explicável. Tive-o durante tanto tempo, e estimei-o tanto! Pergunto-me—”
Ele estava num estado de espírito questionador, assim como inquieto; pois, embora se tivesse contido naquele ponto e dado outra caminhada, retomou os seus questionamentos quando se sentou novamente.
“Pergunto-me (pela décima milésima vez, e que tolo fraco eu sou, pois que importância pode ter agora!) se ele confiou o encargo da sua filha órfã a mim, porque ele sabia—Meu Deus, como ela se tornou parecida com a mãe!”
“Pergunto-me se ele alguma vez suspeitou, sequer, que alguém a adorava a uma distância sem esperança e sem palavras, quando ele interveio e a conquistou. Pergunto-me se alguma vez lhe passou pela mente quem era esse alguém infeliz!”
“Pergunto-me se dormirei esta noite! Seja como for, fecharei o mundo com os lençóis da cama e tentarei.”
O Sr. Grewgious atravessou a escada para o seu quarto cru e enevoado, e logo estava pronto para a cama. Apanhando vagamente o reflexo do seu rosto no espelho embaciado, segurou a vela contra ele por um momento.
“Um belo alguém, você, para vir aos pensamentos de quem quer que seja com este aspeto!” exclamou ele. “Pronto! pronto! pronto! Vá para a cama, pobre homem, e deixe de tagarelar!”
Com isso, extinguiu a luz, puxou os lençóis da cama para cima de si e, com outro suspiro, fechou o mundo. E, no entanto, existem recantos românticos tão inexplorados nos homens mais improváveis, que até o velho P. J. T., inflamável e seco como isca, possivelmente tagarelava assim, em certos momentos estranhos, por volta de mil setecentos e quarenta e sete.
CAPÍTULO XII. UMA NOITE COM DURDLES
Quando o Sr. Sapsea não tem nada melhor para fazer, ao cair da tarde, e descobre que a contemplação da sua própria profundidade se torna um pouco monótona apesar da vastidão do assunto, ele frequentemente dá um passeio pelo recinto da Catedral e arredores. Gosta de passar pelo adro da igreja com um ar crescente de propriedade, e de encorajar no seu peito uma espécie de sentimento de senhorio benévolo, pelo facto de ter sido generoso para com aquela inquilina meritória, a Sra. Sapsea, e de lhe ter dado publicamente um prémio. Gosta de ver um rosto ou outro perdido a olhar através das grades, e talvez a ler a sua inscrição. Se encontrar um estranho a sair do adro da igreja com passo rápido, ele fica moralmente convencido de que o estranho se está a “retirar com um rubor”, conforme monumentalmente instruído.
A importância do Sr. Sapsea recebeu um reforço, pois ele tornou-se Presidente da Câmara de Cloisterham. Sem presidentes de câmara, e muitos deles, não se pode contestar que toda a estrutura da sociedade — o Sr. Sapsea está confiante de que inventou essa figura de estilo contundente — cairia aos pedaços. Presidentes de câmara foram condecorados por “subirem” com endereços: máquinas explosivas intrépidas a disparar balas e granadas contra a gramática inglesa. O Sr. Sapsea pode “subir” com um endereço. Erguei-vos, Sir Thomas Sapsea! Desses é feito o sal da terra.
O Sr. Sapsea aprimorou o conhecimento do Sr. Jasper, desde o seu primeiro encontro para partilhar vinho do Porto, epitáfio, gamão, carne de vaca e salada. O Sr. Sapsea foi recebido na portaria com uma hospitalidade semelhante; e, nessa ocasião, o Sr. Jasper sentou-se ao piano e cantou para ele, fazendo-lhe cócegas nos ouvidos — figurativamente — tempo suficiente para apresentar uma área considerável para cócegas. O que o Sr. Sapsea gosta naquele jovem é que ele está sempre pronto a tirar proveito da sabedoria dos seus mais velhos, e que ele é sólido, senhor, no cerne. Em prova do que, ele cantou para o Sr. Sapsea naquela noite, não cantigas fúteis, favoritas de inimigos nacionais, mas deu-lhe o genuíno George the Third caseiro; exortando-o (como “meus bravos rapazes”) a reduzir a um estado de ruína todas as outras ilhas exceto esta ilha, e todos os continentes, penínsulas, istmos, promontórios e outras formas geográficas de terra quaisquer, além de varrer os mares em todas as direções. Em suma, ele tornou bastante claro que a Providência cometeu um erro distinto ao criar uma nação tão pequena de corações de carvalho e tantos outros povos verminosos.
O Sr. Sapsea, caminhando lentamente nesta noite húmida perto do adro da igreja com as mãos atrás das costas, à procura de um estranho que se ruborizasse e se retirasse, vira uma esquina e entra, em vez disso, na presença distinta do Deão, que conversava com o Verger e o Sr. Jasper. O Sr. Sapsea faz a sua vénia e fica instantaneamente atingido por um ar muito mais eclesiástico do que qualquer Arcebispo de York ou Canterbury.
“O senhor está evidentemente a escrever um livro sobre nós, Sr. Jasper”, disse o Deão; “a escrever um livro sobre nós. Bem! Somos muito antigos, e deveríamos dar um bom livro. Não somos tão ricamente dotados em bens como em idade; mas talvez coloque isso no seu livro, entre outras coisas, e chame a atenção para os nossos erros.”
O Sr. Tope, como é seu dever, diverte-se imenso com isto.
“Eu realmente não tenho intenção alguma, senhor”, responde Jasper, “de me tornar autor ou arqueólogo. É apenas um capricho meu. E mesmo para o meu capricho, o Sr. Sapsea aqui é mais responsável do que eu.”
“Como assim, Sr. Presidente da Câmara?” diz o Deão, com um aceno de reconhecimento bem-humorado do seu Fetch. “Como é isso, Sr. Presidente da Câmara?”
“Não estou ciente”, observa o Sr. Sapsea, olhando em volta à procura de informação, “daquilo a que o Muito Reverendo Deão me faz a honra de se referir.” E então começa a estudar o seu original em pontos minuciosos de detalhe.
“Durdles”, insinua o Sr. Tope.
“Ah!” ecoa o Deão; “Durdles, Durdles!”
“A verdade é, senhor”, explica Jasper, “que a minha curiosidade pelo homem foi estimulada primeiramente pelo Sr. Sapsea. O conhecimento do Sr. Sapsea sobre a humanidade e o seu poder de atrair tudo o que é recluso ou estranho à sua volta, levaram-me a dar uma segunda reflexão sobre o homem: embora, claro, eu o tivesse encontrado constantemente por aí. Não ficaria surpreendido com isto, Sr. Deão, se tivesse visto o Sr. Sapsea lidar com ele na sua própria sala, como eu fiz.”
“Oh!” exclama Sapsea, apanhando a bola que lhe foi lançada com uma complacência e pompa inefáveis; “sim, sim. O Muito Reverendo Deão refere-se a isso? Sim. Aconteceu-me juntar Durdles e o Sr. Jasper. Considero o Durdles uma Personagem.”
“Uma personagem, Sr. Sapsea, que com alguns toques habilidosos o senhor vira do avesso”, diz Jasper.
“Não, não exatamente isso”, responde o leiloeiro pesado. “Posso ter alguma influência sobre ele, talvez; e alguma perceção do seu caráter, talvez. O Muito Reverendo Deão queira ter em mente que eu vi o mundo.” Aqui o Sr. Sapsea coloca-se um pouco atrás do Deão, para inspecionar os botões do casaco dele.
“Bem!” diz o Deão, olhando em volta para ver o que aconteceu ao seu copista: “Espero, Sr. Presidente da Câmara, que use o seu estudo e conhecimento do Durdles para o bom propósito de o exortar a não partir o pescoço do nosso digno e respeitado Mestre do Coro; não podemos permitir isso; a sua cabeça e a sua voz são muito valiosas para nós.”
O Sr. Tope diverte-se novamente imenso e, tendo caído em convulsões respeitosas de riso, submerge num murmúrio deferente, dando a entender que certamente qualquer cavalheiro consideraria um prazer e uma honra ter o seu pescoço partido, em troca de tal elogio de tal fonte.
“Tomarei para mim, senhor”, observa Sapsea arrogantemente, “a responsabilidade pelo pescoço do Sr. Jasper. Direi ao Durdles para ter cuidado com ele. Ele ouvirá o que eu digo. Como está ele atualmente em perigo?” pergunta ele, olhando em volta com magnífico patrocínio.
“Apenas pelo facto de eu fazer uma expedição à luz do luar com o Durdles entre os túmulos, abóbadas, torres e ruínas”, responde Jasper. “Lembra-se de sugerir, quando nos juntou, que, como amante do pitoresco, poderia valer a pena para mim?”
“Lembro-me!” responde o leiloeiro. E o idiota solene acredita realmente que se lembra.
“Aproveitando a sua dica”, continua Jasper, “tive alguns passeios diurnos com o extraordinário velho, e vamos fazer uma exploração noturna às escondidas à luz do luar.”
“E ei-lo aqui”, diz o Deão.
Durdles, com a sua trouxa de jantar na mão, é de facto avistado a caminhar de forma desleixada na direção deles. Ao aproximar-se, e ao perceber o Deão, ele tira o chapéu e afasta-se desleixadamente com ele debaixo do braço, quando o Sr. Sapsea o para.
“Lembre-se de cuidar do meu amigo”, é a injunção que o Sr. Sapsea lhe impõe.
“Que amigo seu é que morreu?” pergunta Durdles. “Não chegaram ordens para nenhum amigo seu.”
“Refiro-me ao meu amigo vivo ali.”
“Oh! ele?” diz Durdles. “Ele sabe cuidar de si próprio, o Mister Jarsper.”
“Mas cuide também dele”, diz Sapsea.
A quem Durdles (havendo autoridade no seu tom) observa rudemente da cabeça aos pés.
“Com submissão a sua Reverência o Deão, se o senhor se ocupar do que lhe diz respeito, Sr. Sapsea, o Durdles ocupar-se-á do que lhe diz respeito a ele.”
“Você está de mau humor”, diz o Sr. Sapsea, piscando o olho aos presentes para que observem quão suavemente ele o vai gerir. “O meu amigo diz-me respeito, e o Sr. Jasper é meu amigo. E você é meu amigo.”
“Não ganhe o mau hábito de se gabar”, retorce Durdles, com um aceno grave de aviso. “Isso vai crescer em si.”
“Você está de mau humor”, diz Sapsea novamente; corando, mas descendo novamente para o nível dos presentes.
“Admito-o”, responde Durdles; “não gosto de liberdades.”
O Sr. Sapsea pisca o olho uma terceira vez aos presentes, como quem diz: “Creio que concordarão comigo que resolvi o assunto dele;” e afasta-se da controvérsia.
Durdles deseja então uma boa noite ao Deão e, acrescentando, enquanto coloca o chapéu: “Encontrar-me-á em casa, Mister Jarsper, como acordado, quando precisar de mim; vou para casa limpar-me”, logo se afasta desleixadamente da vista. Este ir para casa para se limpar é um dos compromissos incompreensíveis do homem com factos inexoráveis; ele, e o seu chapéu, e as suas botas, e as suas roupas, nunca mostrando qualquer traço de limpeza, mas estando uniformemente numa condição de poeira e areia.
O acendedor de candeeiros, pontuando agora o recinto sossegado com pontos de luz, e correndo a grande velocidade para cima e para baixo na sua pequena escada com esse objetivo — a sua pequena escada sob cuja sombra sagrada de inconveniência gerações tinham crescido, e que toda a Cloisterham teria ficado horrorizada com a ideia de abolir — o Deão retira-se para o seu jantar, o Sr. Tope para o seu chá, e o Sr. Jasper para o seu piano. Lá, sem outra luz que não a do fogo, ele senta-se a cantar música coral numa voz baixa e bela, durante duas ou três horas; em suma, até ter estado escuro durante algum tempo, e a lua estar prestes a nascer.
Então ele fecha o piano suavemente, troca suavemente o casaco por um blusão, com uma garrafa de vime de boa qualidade no seu bolso maior, e colocando um chapéu de copa baixa e abas largas, sai suavemente. Porque se move ele tão suavemente esta noite? Nenhuma razão externa é aparente para isso. Pode haver alguma razão simpática agachada sombriamente dentro dele?
Dirigindo-se à casa inacabada de Durdles, ou buraco na muralha da cidade, e vendo uma luz dentro dela, ele escolhe suavemente o seu caminho entre as lápides, monumentos e entulho de pedra do pátio, já tocados aqui e ali, lateralmente, pela lua nascente. Os dois jornaleiros deixaram as suas duas grandes serras presas nos seus blocos de pedra; e dois jornaleiros esqueléticos da Dança da Morte poderiam estar a sorrir na sombra das suas guaritas abrigadas, prestes a cortar as lápides das próximas duas pessoas destinadas a morrer em Cloisterham. É bem provável que os dois pensem pouco nisso agora, estando vivos, e talvez alegres. Curioso, fazer uma suposição sobre os dois;—ou dizer um dos dois!
“Oh! Durdles!”
A luz move-se, e ele aparece com ela à porta. Ele pareceria ter estado a “limpar-se” com a ajuda de uma garrafa, jarro e copo; pois nenhum outro instrumento de limpeza é visível na sala de tijolos nus com vigas no teto e sem teto rebocado, na qual ele mostra o seu visitante.
“Está pronto?”
“Estou pronto, Mister Jarsper. Que os velhos saiam se se atreverem, quando formos entre os seus túmulos. O meu espírito está pronto para eles.”
“Refere-se a espíritos animais, ou espirituosos?”
“Um é o outro”, responde Durdles, “e refiro-me a ambos.”
Ele tira uma lanterna de um gancho, coloca um fósforo ou dois no bolso com que a acender, caso haja necessidade; e eles saem juntos, trouxa de jantar e tudo.
Certamente um tipo de expedição inexplicável! Que o próprio Durdles, que anda sempre a rondar por túmulos antigos e ruínas, como um Ghoul — que ele se esgueire para fora para escalar, mergulhar e vaguear sem um objetivo, não é nada de extraordinário; mas que o Mestre do Coro ou qualquer outra pessoa ache que vale a pena estar com ele, e estudar os efeitos do luar em tal companhia é outro assunto. Certamente um tipo de expedição inexplicável, portanto!
“Cuidado com esse monte ali junto ao portão do pátio, Mister Jarsper.”
“Estou a ver. O que é?”
“Cal.”
O Sr. Jasper para, e espera que ele se aproxime, pois ele fica para trás. “O que chamam de cal viva?”
“Ah!” diz Durdles; “viva o suficiente para comer as suas botas. Com uma pequena agitação à mão, viva o suficiente para comer os seus ossos.”
Eles seguem em frente, passando pouco depois pelas janelas vermelhas do Travellers’ Twopenny, e emergindo para o luar claro do Monks’ Vineyard. Cruzado isto, chegam ao Minor Canon Corner: da qual a maior parte fica na sombra até que a lua suba mais alto no céu.
O som de uma porta de casa a fechar chega aos seus ouvidos, e dois homens saem. Estes são o Sr. Crisparkle e Neville. Jasper, com um sorriso estranho e repentino no rosto, coloca a palma da mão no peito de Durdles, parando-o onde ele está.
Naquela extremidade do Minor Canon Corner, a sombra é profunda no estado atual da luz: naquela extremidade, também, existe um pedaço de muro antigo e baixo, à altura do peito, o único limite restante do que foi outrora um jardim, mas que agora é a via pública. Jasper e Durdles teriam contornado este muro num instante; mas, parando tão bruscamente, ficam atrás dele.
“Aqueles dois estão apenas a passear”, sussurra Jasper; “eles sairão para o luar em breve. Fiquemos quietos aqui, ou eles deter-nos-ão, ou quererão juntar-se a nós, ou o que quer que seja.”
Durdles acena em concordância, e começa a mastigar alguns fragmentos da sua trouxa. Jasper cruza os braços sobre o topo do muro e, com o queixo apoiado neles, observa. Ele não presta qualquer atenção ao Minor Canon, mas observa Neville, como se o seu olho estivesse no gatilho de uma espingarda carregada, e ele o tivesse na mira, e fosse disparar. Um sentido de poder destrutivo está tão expresso no seu rosto, que até Durdles faz uma pausa na sua mastigação, e olha para ele, com algo não mastigado na bochecha.
Enquanto isso, o Sr. Crisparkle e Neville caminham de um lado para o outro, conversando calmamente. O que eles dizem não pode ser ouvido consecutivamente; mas o Sr. Jasper já distinguiu o seu próprio nome mais do que uma vez.
“Este é o primeiro dia da semana”, pode ouvir-se distintamente o Sr. Crisparkle observar, enquanto eles se voltam; “e o último dia da semana é a véspera de Natal.”
“Pode estar certo de mim, senhor.”
Os ecos eram favoráveis naqueles pontos, mas à medida que os dois se aproximam, o som da sua conversa torna-se confuso novamente. A palavra “confiança”, despedaçada pelos ecos, mas ainda capaz de ser montada, é proferida pelo Sr. Crisparkle. À medida que eles se aproximam ainda mais, este fragmento de uma resposta é ouvido: “Ainda não merecida, mas sê-lo-á, senhor.” À medida que se afastam novamente, Jasper ouve de novo o seu próprio nome, em ligação com as palavras do Sr. Crisparkle: “Lembre-se de que eu disse que respondia por si confiantemente.” Então o som da sua conversa torna-se confuso novamente; eles param por um pequeno momento, e alguma ação séria por parte de Neville segue-se. Quando eles se movem mais uma vez, vê-se o Sr. Crisparkle a olhar para o céu e a apontar para a sua frente. Eles desaparecem então lentamente; passando para o luar na extremidade oposta do Corner.
Não é até eles desaparecerem que o Sr. Jasper se move. Mas então ele vira-se para Durdles e explode num ataque de riso. Durdles, que ainda tem aquele algo suspenso na bochecha, e que não vê nada com que rir, encara-o até que o Sr. Jasper coloca o rosto sobre os braços para rir à vontade. Então Durdles engole o tal algo, como se se resignasse desesperadamente a uma indigestão.
Entre esses recantos isolados há muito pouco movimento ou agitação após o anoitecer. Há pouco o suficiente no auge do dia, mas quase nada à noite. Além de o alegremente frequentado High Street situar-se quase paralelamente ao local (a antiga Catedral erguendo-se entre ambos), e ser o canal natural por onde flui o tráfego de Cloisterham, um certo silêncio pavoroso domina o antigo edifício, os claustros e o cemitério, depois de escurecer, que poucas pessoas desejam enfrentar. Pergunte aos primeiros cem cidadãos de Cloisterham, encontrados ao acaso nas ruas ao meio-dia, se acreditam em fantasmas, e eles dirão que não; mas coloque-os diante da escolha, à noite, entre esses recintos sinistros e a via pública das lojas, e descobrirá que noventa e nove declarariam preferir o caminho mais longo e mais frequentado. A causa disso não se encontra em qualquer superstição local que se ligue aos recintos — embora uma senhora misteriosa, com uma criança nos braços e uma corda pendurada no pescoço, tenha sido vista a esvoaçar por ali por várias testemunhas tão intangíveis quanto ela mesma —, mas deve ser buscada no recuo inato do pó que possui o sopro da vida diante do pó do qual o sopro da vida se esvaiu; também, na reflexão amplamente difundida, e quase tão amplamente não admitida: "Se os mortos, sob quaisquer circunstâncias, tornam-se visíveis aos vivos, estes são arredores muito prováveis para tal propósito, de modo que eu, o vivo, sairei deles assim que puder." Daí, quando o Sr. Jasper e Durdles param para olhar ao redor, antes de descerem à cripta por uma pequena porta lateral, da qual o último possui uma chave, toda a extensão do luar à sua vista encontra-se absolutamente deserta. Poder-se-ia imaginar que a maré da vida fosse contida pela própria guarita do Sr. Jasper. O murmúrio da maré ouve-se mais além; mas nenhuma onda ultrapassa o arco, sobre o qual sua lâmpada arde em vermelho atrás da cortina, como se o edifício fosse um farol.
Eles entram, trancando-se lá dentro, descem os degraus irregulares e chegam à cripta. A lanterna não é necessária, pois o luar incide pelas janelas em ogiva, desprovidas de vidro, cujas molduras quebradas projetam padrões no chão. As pesadas colunas que sustentam o teto geram massas de sombra negra, mas entre elas há caminhos de luz. Por esses caminhos eles caminham, Durdles discorrendo sobre os "antigos" que ele ainda conta desenterrar, e batendo numa parede, na qual considera estar "uma família inteira deles" emparedada e enterrada, como se fosse um amigo íntimo da família. A taciturnidade de Durdles é, por ora, vencida pelo frasco de vime do Sr. Jasper, que circula livremente; — no sentido, é claro, de que seu conteúdo entra livremente na circulação do Sr. Durdles, enquanto o Sr. Jasper apenas enxágua a boca uma vez e cospe o enxágue.
Eles devem subir a grande Torre. Nos degraus pelos quais sobem à Catedral, Durdles pausa para novo fôlego. Os degraus são muito escuros, mas da escuridão eles podem ver os caminhos de luz que atravessaram. Durdles senta-se num degrau. O Sr. Jasper senta-se noutro. O odor do frasco de vime (que de alguma forma passou para a guarda de Durdles) logo indica que a rolha foi retirada; mas isso não é verificável pelo sentido da visão, uma vez que nenhum consegue divisar o outro. E, ainda assim, ao conversarem, voltam-se um para o outro, como se seus rostos pudessem comungar.
"Isto é coisa boa, Sr. Jarsper!"
"É coisa muito boa, espero. — Comprei-a de propósito."
"Eles não aparecem, sabe, os antigos não, Sr. Jarsper!"
"Seria um mundo mais confuso do que já é, se pudessem."
"Bem, levaria a uma mistura de coisas", concorda Durdles: pausando na observação, como se a ideia de fantasmas não lhe tivesse ocorrido anteriormente sob uma luz meramente inconveniente, doméstica ou cronológica. "Mas acha que pode haver fantasmas de outras coisas, embora não de homens e mulheres?"
"Que coisas? Canteiros de flores e regadores? Cavalos e arreios?"
"Não. Sons."
"Que sons?"
"Gritos."
"Que gritos quer dizer? Cadeiras para consertar?"
"Não. Quero dizer guinchos. Agora vou lhe contar, Sr. Jarsper. Espere um pouco até eu ajeitar o frasco." Aqui a rolha é evidentemente retirada de novo, e recolocada. "Pronto! Agora está certo! Nesta época do ano passado, apenas alguns dias depois, eu estava fazendo o que era correto para a estação, dando-lhe as boas-vindas que ela tinha o direito de esperar, quando aqueles garotos da cidade se voltaram contra mim no seu pior. Por fim, escapei deles e entrei aqui. E aqui adormeci. E o que me acordou? O fantasma de um grito. O fantasma de um guincho terrível, cujo guincho foi seguido pelo fantasma do uivo de um cão: um uivo longo, lúgubre, lastimoso, tal como um cão dá quando alguém morre. Essa foi minha última véspera de Natal."
"O que quer dizer?" é a réplica muito abrupta e, pode-se dizer, feroz.
"Quero dizer que fiz perguntas por toda parte, e que nenhuns ouvidos vivos além dos meus ouviram aquele grito ou aquele uivo. Por isso digo que ambos eram fantasmas; embora o porquê de terem vindo a mim, nunca descobri."
"Pensei que você fosse outro tipo de homem", diz Jasper, com desdém.
"Também pensei isso de mim mesmo", responde Durdles com sua compostura habitual; "e, no entanto, fui escolhido para isso."
Jasper levantara-se subitamente, quando lhe perguntou o que queria dizer, e agora diz: "Vamos; vamos congelar aqui; lidere o caminho."
Durdles obedece, não muito firmemente; abre a porta no topo dos degraus com a chave que já usou; e assim emerge no nível da Catedral, num corredor ao lado da capela-mor. Aqui, o luar é tão muito brilhante novamente que as cores do vitral mais próximo são projetadas sobre seus rostos. A aparência do inconsciente Durdles, segurando a porta aberta para o seu companheiro passar, como se saísse da sepultura, é bastante macabra, com uma mão roxa através de seu rosto e uma mancha amarela sobre a testa; mas ele suporta o exame minucioso de seu companheiro de forma insensível, embora este se prolongue enquanto o último tateia entre os bolsos por uma chave que lhe foi confiada, a qual abrirá um portão de ferro, para assim permitir-lhes passar para a escadaria da grande torre.
"Isso e o frasco já são o suficiente para você carregar", diz ele, entregando-o a Durdles; "passe-me o seu fardo; sou mais jovem e tenho mais fôlego que você." Durdles hesita por um momento entre o fardo e o frasco; mas dá preferência ao frasco, por ser de longe a melhor companhia, e entrega o peso seco ao seu companheiro de exploração.
Então eles sobem a escadaria em espiral da grande torre, penosamente, girando e girando, e baixando as cabeças para evitar os degraus acima, ou o eixo de pedra bruta em torno do qual se torcem. Durdles acendeu sua lanterna, tirando da parede fria e dura uma centelha daquele fogo misterioso que espreita em tudo, e, guiados por este ponto de luz, eles escalam entre as teias de aranha e a poeira. O caminho deles segue por lugares estranhos. Duas ou três vezes eles emergem em galerias niveladas e de teto baixo, de onde podem olhar para baixo, para a nave banhada pelo luar; e onde Durdles, agitando sua lanterna, agita as cabeças dos anjos sombrios nas mísulas do teto, que parecem vigiar seu progresso. Logo eles viram para escadarias mais estreitas e íngremes, e o ar noturno começa a soprar sobre eles, e o chilrear de alguma gralha sobressaltada ou corvo assustado precede o bater pesado das asas num espaço confinado, e a queda de poeira e palha sobre suas cabeças. Finalmente, deixando sua luz atrás de um degrau — pois sopra fresco aqui em cima — eles olham para Cloisterham, bela de se ver ao luar: suas habitações arruinadas e santuários dos mortos, na base da torre: seus telhados de telhas vermelhas suavizados pelo musgo e casas de tijolos vermelhos dos vivos, agrupadas além: seu rio serpenteando da névoa no horizonte, como se aquela fosse sua fonte, e já agitando-se com uma consciência inquieta de sua aproximação ao mar.
Mais uma vez, uma expedição inexplicável esta! Jasper (movendo-se sempre suavemente sem razão visível) contempla a cena, e especialmente a parte mais silenciosa dela que a Catedral obscurece. Mas ele contempla Durdles com a mesma curiosidade, e Durdles está, por vezes, consciente de seus olhos vigilantes.
Apenas por vezes, porque Durdles está ficando sonolento. Assim como os aeronautas aliviam a carga que carregam, quando desejam subir, de forma semelhante Durdles aliviou o frasco de vime na subida. Trechos de sono o surpreendem nas pernas e o impedem de falar. Um leve ataque de delírio o acomete, no qual ele julga que o chão, tão lá embaixo, está no mesmo nível da torre, e não se importaria de caminhar torre afora em direção ao ar. Tal é o seu estado quando começam a descer. E assim como os aeronautas se tornam mais pesados quando desejam descer, de forma semelhante Durdles carrega-se com mais líquido do frasco de vime, para que possa descer melhor.
O portão de ferro alcançado e trancado — mas não antes de Durdles ter tombado duas vezes, e cortado a sobrancelha uma vez — eles descem novamente à cripta, com a intenção de sair como entraram. Mas, enquanto retornam por aqueles caminhos de luz, Durdles torna-se tão muito incerto, tanto no passo quanto na fala, que ele meio que deixa cair, meio que se joga, junto a um dos pilares pesados, dificilmente menos pesado do que ele mesmo, e apela confusamente ao seu companheiro por quarenta piscadelas de um segundo cada.
"Se você quer assim, ou precisa ser assim", responde Jasper, "não o deixarei aqui. Tire-as, enquanto caminho de um lado para o outro."
Durdles está adormecido de imediato; e em seu sono, ele sonha um sonho.
Não é muito de um sonho, considerando a vasta extensão dos domínios da terra dos sonhos e suas produções maravilhosas; é apenas notável por ser incomumente inquieto e incomumente real. Ele sonha em estar deitado ali, adormecido, e ainda assim contando os passos de seu companheiro enquanto ele caminha de um lado para o outro. Ele sonha que os passos morrem na distância do tempo e do espaço, e que algo o toca, e que algo cai de sua mão. Então algo tilinta e tateia por perto, e ele sonha que está sozinho por tanto tempo, que os caminhos de luz tomam novas direções à medida que a lua avança em seu curso. Da inconsciência sucessiva, ele passa para um sonho de lenta inquietação pelo frio; e desperta penosamente para a percepção dos caminhos de luz — realmente mudados, muito como ele havia sonhado — e Jasper caminhando entre eles, batendo as mãos e os pés.
"Olá!" grita Durdles, alarmado sem sentido.
"Acordado finalmente?" diz Jasper, aproximando-se dele. "Você sabe que suas quarentenas se estenderam por milhares?"
"Não."
"Estenderam, no entanto."
"Que horas são?"
"Ouça! Os sinos estão tocando na torre!"
Eles batem quatro quartos, e então o grande sino bate.
"Dois!" grita Durdles, esforçando-se para levantar; "por que não tentou me acordar, Sr. Jarsper?"
"Eu tentei. Poderia ter tentado acordar os mortos — sua própria família de mortos, ali no canto."
"Você me tocou?"
"Tocar você! Sim. Sacudi você."
À medida que Durdles recorda aquele toque em seu sonho, ele olha para o pavimento e vê a chave da porta da cripta deitada perto de onde ele mesmo estava.
"Eu a deixei cair, foi?" diz ele, apanhando-a e recordando aquela parte de seu sonho. Enquanto ele se reúne novamente numa posição ereta, ou numa posição tão próxima da ereta quanto ele sempre mantém, ele está novamente consciente de ser vigiado por seu companheiro.
"Bem?" diz Jasper, sorrindo, "está pronto? Por favor, não se apresse."
"Deixe-me ajeitar meu fardo, Sr. Jarsper, e estarei com você." Enquanto ele o amarra novamente, ele está mais uma vez consciente de que está sendo muito minuciosamente observado.
"Do que você me suspeita, Sr. Jarsper?" pergunta ele, com desprazer bêbado. "Que aqueles que têm qualquer suspeita de Durdles as nomeiem."
"Não tenho suspeitas de você, meu bom Sr. Durdles; mas tenho suspeitas de que meu frasco foi enchido com algo mais forte do que qualquer um de nós supunha. E também tenho suspeitas", acrescenta Jasper, apanhando-o do pavimento e virando-o de cabeça para baixo, "de que está vazio."
Durdles condescende em rir disso. Continuando a rir quando seu riso termina, como se estivesse repreendendo-se por sua capacidade de beber, ele rola até a porta e a destranca. Ambos saem, e Durdles tranca-a novamente e guarda sua chave no bolso.
"Mil agradecimentos por uma noite curiosa e interessante", diz Jasper, estendendo-lhe a mão; "você pode fazer seu próprio caminho para casa?"
"Eu deveria pensar que sim!" responde Durdles. "Se você fosse oferecer a Durdles a afronta de mostrar-lhe o caminho de casa, ele não iria para casa.
Durdles não iria para casa até de manhã; E então Durdles não iria para casa,
Durdles não iria." Isto com o máximo desafio.
"Boa noite, então."
"Boa noite, Sr. Jarsper."
Cada um está virando para o seu próprio caminho, quando um assobio agudo rasga o silêncio, e o jargão é gritado:
"Widdy widdy wen! Eu—pe—go—ele—a—pós—as—dez. Widdy widdy wy! Então—E—não—vai—então—eu—at—iro— Widdy Widdy Wake-cock warning!"
Instantes depois, um fogo rápido de pedras chocalha contra a parede da Catedral, e o horrível garotinho é visto do outro lado, dançando ao luar.
"O quê! Aquele bebê-diabo está de guarda ali!" grita Jasper, furioso: tão rapidamente despertado, e tão violento, que ele próprio parece um diabo mais velho. "Vou derramar o sangue daquele miserável endiabrado! Sei que vou fazer isso!" Sem se importar com o fogo, embora o atinja mais de uma vez, ele corre para o Deputy, agarra-o pelo colarinho e tenta trazê-lo para o outro lado. Mas Deputy não deve ser trazido tão facilmente. Com uma percepção diabólica da parte mais forte de sua posição, ele não é mais cedo tomado pela garganta do que encolhe as pernas, forçando seu agressor a pendurá-lo, por assim dizer, e gorgoleja na garganta, contorce o corpo e se retorce, como se já estivesse passando pelas primeiras agonias de estrangulamento. Não há nada a fazer senão soltá-lo. Ele instantaneamente se recompõe, recua até Durdles e grita para seu agressor, rangendo o grande vão na frente de sua boca com raiva e malícia:
"Vou te cegar, que me ajude Deus! Vou arrancar seus olhos a pedradas, que me ajude Deus! Se eu não tiver sua visão, que me soprem!" Ao mesmo tempo, desviando-se para trás de Durdles e rosnando para Jasper, agora de um lado dele, agora do outro: preparado, se atacado, para sair correndo em todos os tipos de direções curvilíneas, e, se for atropelado afinal, para se arrastar na poeira e gritar: "Agora, bata-me quando estou caído! Faça isso!"
"Não machuque o menino, Sr. Jarsper", insiste Durdles, protegendo-o. "Recupere-se."
"Ele nos seguiu esta noite, quando viemos pela primeira vez aqui!"
"Você mente, eu não segui!" responde Deputy, em sua única forma de contradição educada.
"Ele tem rondado perto de nós desde então!"
"Você mente, eu não tenho", retoma Deputy. "Eu só tinha acabado de sair para minha 'saúde quando vi vocês dois saindo da Ca-tedral. Se
Eu—pe—go—ele—a—pós—as—dez!"
(com o ritmo e a dança habituais, embora desviando-se atrás de Durdles), "não é culpa minha, é?"
"Leve-o para casa, então", retruca Jasper, ferozmente, embora com um forte controle sobre si mesmo, "e que meus olhos fiquem livres da visão de você!"
Deputy, com outro assobio agudo, expressando de uma vez seu alívio e o início de um apedrejamento mais leve do Sr. Durdles, começa a apedrejar aquele respeitável cavalheiro até em casa, como se ele fosse um boi relutante. O Sr. Jasper vai para sua guarita, meditando. E assim, como tudo chega ao fim, a inexplicável expedição chega ao fim — por ora.
CAPÍTULO XIII. AMBOS NO SEU MELHOR
O estabelecimento da Srta. Twinkleton estava prestes a passar por um silêncio sereno. O recesso de Natal estava próximo. O que antes, e não num período remoto, fora chamado, até mesmo pela erudita Srta. Twinkleton, de "o semestre", mas que agora era chamado, por ser mais elegante e mais estritamente colegial, de "o termo", expiraria amanhã. Uma notável descontração na disciplina prevalecera por alguns dias na Casa das Freiras. Ceias de clube ocorreram nos quartos, e uma língua recheada fora cortada com um par de tesouras e passada com pinças de cachear. Porções de marmelada tinham igualmente sido distribuídas num serviço de pratos feitos de papel de embrulho; e vinho de prímula fora bebido no pequeno copo de medição em que a pequena Rickitts (uma aluna júnior de constituição fraca) tomava suas gotas de ferro diariamente. As empregadas domésticas tinham sido subornadas com vários fragmentos de fita, e vários pares de sapatos mais ou menos gastos, para não mencionar migalhas nas camas; os trajes mais arejados tinham sido usados nessas ocasiões festivas; e a ousada Srta. Ferdinand até surpreendera a companhia com um solo animado de pente-e-papel, até ser sufocada em seu próprio travesseiro por dois algozes de cabelos esvoaçantes.
Nem foram esses os únicos sinais de dispersão. Malas apareceram nos quartos (onde eram capitais em outras épocas), e uma surpreendente quantidade de empacotamento ocorreu, desproporcional à quantidade embalada. Largueza, na forma de sobras de creme frio e pomada, e também de grampos de cabelo, foi livremente distribuída entre as atendentes. Sob acusações de segredo inviolável, confidências eram trocadas a respeito da juventude dourada da Inglaterra esperada para visitar, "em casa", na primeira oportunidade. A Srta. Giggles (deficiente em sentimento) de fato professava que ela, por sua parte, reconhecia tal homenagem fazendo caretas para a juventude dourada; mas esta jovem foi superada por uma imensa maioria.
Na última noite antes de um recesso, era sempre expressamente feito um ponto de honra que ninguém deveria adormecer, e que os fantasmas deveriam ser encorajados por todos os meios possíveis. Este pacto invariavelmente fracassava, e todas as jovens senhoritas adormeciam muito cedo e levantavam-se muito cedo.
A cerimônia de encerramento ocorreu às doze horas do dia da partida; quando a Srta. Twinkleton, apoiada pela Sra. Tisher, realizou uma recepção em seu próprio apartamento (os globos já cobertos com holanda marrom), onde taças de vinho branco e pratos de bolo de libra cortado foram descobertos sobre a mesa. A Srta. Twinkleton disse então: Senhoras, outro ano giratório trouxe-nos de volta àquele período festivo no qual os primeiros sentimentos de nossa natureza saltavam em nossos — a Srta. Twinkleton anualmente ia adicionar "seios", mas anualmente parava à beira dessa expressão e substituía por "corações". Corações; nossos corações. Hem! Novamente um ano giratório, senhoras, trouxera-nos a uma pausa em nossos estudos — esperemos que nossos estudos grandemente avançados — e, como o marinheiro em sua barca, o guerreiro em sua tenda, o cativo em sua masmorra e o viajante em seus vários meios de transporte, ansiávamos pelo lar. Diríamos, em tal ocasião, nas palavras de abertura da impressionante tragédia do Sr. Addison:
"O amanhecer está nublado, a manhã baixa, E pesadamente em nuvens traz o dia, O grande, o importante dia —?"
Não é assim. Do horizonte ao zênite tudo era couleur de rose, pois tudo era perfumado de nossos parentes e amigos. Possa encontrá-los prosperando como esperávamos; possam eles nos encontrar prosperando como esperavam! Senhoras, nós agora, com nosso amor umas pelas outras, desejaríamos umas às outras adeus, e felicidade, até nos encontrarmos novamente. E quando chegasse a hora de nossa retomada daquelas ocupações que (aqui uma depressão geral se instalou por toda parte), ocupações que, ocupações que; — então lembremo-nos sempre do que foi dito pelo General Espartano, em palavras demasiado triviais para repetição, na batalha que seria supérfluo especificar.
As servas do estabelecimento, com seus melhores gorros, serviram então as bandejas, e as jovens senhoritas bebericavam e esfarelavam, e as carruagens encomendadas começaram a entupir a rua. Então a despedida não demorou; e a Srta. Twinkleton, ao saudar a bochecha de cada jovem senhorita, confiava-lhe uma carta extremamente elegante, endereçada ao seu próximo guardião legal, "com os melhores cumprimentos da Srta. Twinkleton" no canto. Esta missiva ela entregava com um ar como se não tivesse a menor conexão com a conta, mas fosse algo na natureza de uma delicada e alegre surpresa.
Tantas vezes Rosa vira tais dispersões, e tão pouco sabia ela de qualquer outro Lar, que se sentia contente em permanecer onde estava, e sentia-se até mais contente do que nunca, tendo consigo a sua amiga mais recente. E, contudo, a sua amizade mais recente tinha um espaço em branco que ela não podia deixar de notar. Helena Landless, tendo tomado parte na revelação do seu irmão sobre Rosa, e tendo firmado aquele pacto de silêncio com o Sr. Crisparkle, esquivava-se de qualquer alusão ao nome de Edwin Drood. Por que razão ela o evitava tanto era um mistério para Rosa, mas ela percebia perfeitamente o facto. Se não fosse esse facto, ela poderia ter aliviado o seu pequeno coração perplexo de algumas das suas dúvidas e hesitações, confiando em Helena. Tal como as coisas estavam, ela não tinha tal válvula de escape: só podia ponderar sobre as suas próprias dificuldades e interrogar-se, cada vez mais, por que razão aquela esquiva ao nome de Edwin deveria perdurar, agora que ela sabia — pois Helena tinha-lhe dito tanto — que um bom entendimento deveria ser restabelecido entre os dois jovens, quando Edwin voltasse.
Teria sido um belo quadro, tantas raparigas bonitas a beijar Rosa no pórtico frio da Nuns’ House, e aquela pequena criatura ensolarada a espreitar para fora dele (inconsciente das faces astutas esculpidas na gárgula e na empena a observá-la), e a acenar despedidas às carruagens que partiam, como se representasse o espírito da juventude rosada que habitava o lugar para o manter brilhante e quente na sua deserção. A rouca High Street tornou-se musical com o grito, em várias vozes prateadas, “Adeus, querida Rosebud!” e a efígie do pai do Sr. Sapsea, sobre o portal oposto, parecia dizer à humanidade: “Cavalheiros, favoreçam-me com a vossa atenção para este pequeno e encantador último lote deixado para trás, e licitem com um espírito digno da ocasião!” Então, a rua austera, tão invulgarmente cintilante, juvenil e fresca por alguns momentos ondulantes, secou, e Cloisterham voltou a ser ela mesma.
Se Rosebud, no seu caramanchão, aguardava agora a chegada de Edwin Drood com um coração inquieto, Edwin, pela sua parte, também estava inquieto. Com muito menos força de propósito na sua constituição do que a beleza infantil, coroada por aclamação rainha das fadas do estabelecimento da Srta. Twinkleton, ele tinha uma consciência, e o Sr. Grewgious tinha-a picado. As convicções firmes daquele cavalheiro sobre o que era certo e o que era errado num caso como o seu, não podiam ser nem afastadas com um franzir de cenho, nem ridicularizadas. Elas não seriam movidas. Se não fosse o jantar em Staple Inn, e se não fosse o anel que ele transportava no bolso do peito do seu casaco, ele ter-se-ia deixado levar até ao dia do casamento sem outra pausa para uma reflexão real, confiando vagamente que tudo correria bem, deixado a sós. Mas aquela séria imposição de ser verdadeiro para com os vivos e os mortos tinha-o levado a um travão. Ele devia dar o anel a Rosa, ou devia levá-lo de volta. Uma vez colocado neste caminho de ação restrito, foi curioso que ele começou a considerar as reivindicações de Rosa sobre ele de forma mais altruísta do que alguma vez as considerara antes, e começou a estar menos seguro de si mesmo do que alguma vez estivera em todos os seus dias de vida fácil.
“Serei guiado pelo que ela disser, e por como nos dermos”, foi a sua decisão, caminhando da casa da portaria para a Nuns’ House. “Seja o que for que daí venha, terei as suas palavras em mente, e tentarei ser verdadeiro para com os vivos e os mortos.”
Rosa estava vestida para caminhar. Ela esperava por ele. Era um dia brilhante e gelado, e a Srta. Twinkleton já tinha graciosamente sancionado o ar fresco. Assim, saíram juntos antes que se tornasse necessário para a Srta. Twinkleton, ou para a vice-suma-sacerdotisa Sra. Tisher, fazer sequer uma daquelas ofertas habituais no altar da Propriedade.
“Meu caro Eddy”, disse Rosa, quando viraram fora da High Street e entraram nos passeios tranquilos nas redondezas da Catedral e do rio: “Quero dizer-te algo muito sério. Tenho pensado nisso há muito, muito tempo.”
“Eu também quero ser sério contigo, querida Rosa. Pretendo ser sério e sincero.”
“Obrigada, Eddy. E não pensarás que sou indelicada por começar, pois não? Não pensarás que falo apenas por mim, porque falo primeiro? Isso não seria generoso, seria? E eu sei que tu és generoso!”
Ele disse: “Espero não ser ingrato contigo, Rosa.” Ele já não lhe chamava Pussy. Nunca mais.
“E não há medo”, prosseguiu Rosa, “de nos desentendermos, pois não? Porque, Eddy”, segurando o braço dele com a mão, “temos tantas razões para ser muito indulgentes um com o outro!”
“Sê-lo-emos, Rosa.”
“Esse é um querido bom rapaz! Eddy, sejamos corajosos. Mudemos para irmão e irmã a partir deste dia.”
“Nunca sermos marido e mulher?”
“Nunca!”
Nenhum dos dois falou de novo por um momento. Mas, após essa pausa, ele disse, com algum esforço:
“Claro que sei que isto tem estado nas nossas mentes, Rosa, e claro que tenho a honra de confessar livremente que não parte de ti.”
“Não, nem de ti, querido”, respondeu ela, com uma seriedade patética. “Isso surgiu entre nós. Tu não és verdadeiramente feliz no nosso noivado; eu não sou verdadeiramente feliz nele. Oh, sinto-me tão triste, tão triste!” E ali ela desfez-se em lágrimas.
“Eu também estou profundamente triste, Rosa. Profundamente triste por ti.”
“E eu por ti, pobre rapaz! E eu por ti!”
Este sentimento puro e jovem, este sentimento suave e tolerante de cada um para com o outro, trouxe consigo a sua recompensa numa luz suavizante que parecia brilhar sobre a sua posição. As relações entre eles não pareciam obstinadas, ou caprichosas, ou um fracasso, sob tal luz; elevaram-se para algo mais abnegado, honroso, afetuoso e verdadeiro.
“Se soubéssemos ontem”, disse Rosa, enquanto enxugava os olhos, “e soubemos ontem, e em muitos, muitos ontens, que estávamos longe de estar certos um com o outro naquelas relações que não foram da nossa própria escolha, que melhor poderíamos fazer hoje do que mudá-las? É natural que estejamos tristes, e tu vês o quanto ambos estamos; mas quão melhor é estarmos tristes agora do que então!”
“Quando, Rosa?”
“Quando seria demasiado tarde. E então, além disso, estaríamos zangados.”
Outro silêncio caiu sobre eles.
“E sabes”, disse Rosa inocentemente, “tu não poderias gostar de mim então; e podes sempre gostar de mim agora, pois não serei um peso para ti, nem uma preocupação. E eu posso sempre gostar de ti agora, e a tua irmã não te provocará nem brincará contigo. Muitas vezes fiz isso quando não era tua irmã, e peço-te desculpa por isso.”
“Não vamos por aí, Rosa; ou eu precisarei de mais perdão do que gosto de pensar.”
“Não, na verdade, Eddy; tu és demasiado duro, meu generoso rapaz, contigo mesmo. Sentemo-nos, irmão, nestas ruínas, e deixa-me contar-te como era connosco. Acho que sei, pois tenho pensado muito nisso desde que estiveste aqui pela última vez. Gostavas de mim, não gostavas? Achavas que eu era uma coisinha simpática?”
“Toda a gente pensa isso, Rosa.”
“Pensam?” Ela franziu a testa pensativamente por um momento, e depois disparou com a brilhante pequena indução: “Bem, mas digamos que pensam. Certamente não era o suficiente que tu pensasses em mim apenas como as outras pessoas pensavam; não era?”
O ponto não podia ser contornado. Não era o suficiente.
“E é exatamente isso que quero dizer; é exatamente assim que era connosco”, disse Rosa. “Tu gostavas muito de mim, e tinhas-te habituado a mim, e tinhas-te habituado à ideia de nos casarmos. Aceitaste a situação como uma espécie de coisa inevitável, não foi? Era para ser, pensavas tu, e porquê discutir ou disputar isso?”
Era novo e estranho para ele ver-se apresentado a si mesmo tão claramente, num espelho que ela segurava. Ele sempre a tinha tratado com condescendência, na sua superioridade em relação à parte dela da sagacidade feminina. Teria sido apenas mais um exemplo de algo radicalmente errado nos termos em que eles tinham vindo a deslizar em direção a uma servidão para toda a vida?
“Tudo isto que digo de ti é verdade também para mim, Eddy. A menos que fosse, eu talvez não fosse audaciosa o suficiente para o dizer. Apenas, a diferença entre nós era que, pouco a pouco, entrou na minha mente um hábito de pensar sobre isso, em vez de o afastar. A minha vida não é tão ocupada como a tua, vês, e não tenho tantas coisas em que pensar. Por isso, pensei muito nisso e chorei muito por isso também (embora isso não fosse culpa tua, pobre rapaz); quando de repente o meu guardião veio cá abaixo, para preparar a minha saída da Nuns’ House. Tentei dar-lhe a entender que não estava bem resolvida na minha mente, mas hesitei e falhei, e ele não me compreendeu. Mas ele é um bom, bom homem. E ele colocou diante de mim, tão gentilmente, e ainda assim tão fortemente, quão seriamente deveríamos considerar, nas nossas circunstâncias, que decidi falar contigo no momento seguinte em que estivéssemos sozinhos e graves. E se pareceu que cheguei a isso facilmente agora, porque cheguei a isso de uma vez, não penses que foi assim realmente, Eddy, pois oh, foi muito, muito difícil, e oh, estou muito, muito triste!”
O seu coração cheio rompeu novamente em lágrimas. Ele colocou o braço em volta da cintura dela, e caminharam juntos pela margem do rio.
“O teu guardião falou comigo também, querida Rosa. Vi-o antes de deixar Londres.” A sua mão direita estava no peito, procurando o anel; mas conteve-se, ao pensar: “Se o vou levar de volta, por que deveria contar-lhe?”
“E isso tornou-te mais sério quanto a isso, não foi, Eddy? E se eu não tivesse falado contigo, como fiz, tu terias falado comigo? Espero que possas dizer-me isso? Não gosto que seja tudo obra minha, embora seja tão melhor para nós.”
“Sim, eu teria falado; eu teria colocado tudo diante de ti; vim com a intenção de o fazer. Mas nunca poderia ter falado contigo como tu falaste comigo, Rosa.”
“Não digas que queres dizer tão fria ou indelicadamente, Eddy, por favor, se puderes evitar.”
“Quero dizer tão sensata e delicadamente, tão sábia e afetuosamente.”
“Esse é o meu querido irmão!” Ela beijou-lhe a mão num pequeno arrebatamento. “As queridas raparigas ficarão terrivelmente desapontadas”, acrescentou Rosa, rindo, com as gotas de orvalho a brilhar nos seus olhos brilhantes. “Elas esperavam tanto por isso, pobres queridas!”
“Ah! Mas temo que seja uma desilusão pior para Jack”, disse Edwin Drood, com um sobressalto. “Nunca pensei no Jack!”
O seu olhar rápido e atento para ele, quando disse as palavras, não podia mais ser recordado do que um relâmpago pode ser recordado. Mas parecia que ela o teria recordado instantaneamente, se pudesse; pois ela olhou para baixo, confusa, e respirou rapidamente.
“Não duvidas que seja um golpe para o Jack, Rosa?”
Ela apenas respondeu, e isso de forma evasiva e apressada: Por que deveria? Ela não tinha pensado nisso. Ele parecia, para ela, ter tão pouco a ver com isso.
“Minha querida criança! Podes supor que alguém tão envolvido noutro — expressão da Sra. Tope: não minha — como o Jack está em mim, poderia deixar de ser atingido por uma mudança tão súbita e completa na minha vida? Digo súbita, porque será súbita para ele, sabes.”
Ela assentiu duas ou três vezes, e os seus lábios entreabriram-se como se tivesse concordado. Mas não emitiu qualquer som, e a sua respiração não estava mais lenta.
“Como direi ao Jack?” disse Edwin, ruminando. Se ele tivesse estado menos ocupado com o pensamento, teria visto a sua emoção singular. “Nunca pensei no Jack. Deve ser-lhe comunicado, antes que o arauto da cidade o saiba. Janto com o querido companheiro amanhã e no dia seguinte — Véspera de Natal e Dia de Natal — mas nunca seria bom estragar-lhe os dias de festa. Ele preocupa-se sempre comigo, e mima-me nas questões mais triviais. A notícia certamente vai perturbá-lo. Como raios será isto comunicado ao Jack?”
“Ele tem de ser informado, suponho?” disse Rosa.
“Minha querida Rosa! Quem deveria estar na nossa confiança, se não o Jack?”
“O meu guardião prometeu vir cá abaixo, se eu escrevesse e lhe pedisse. Vou fazê-lo. Gostarias de deixar isso para ele?”
“Uma ideia brilhante!” exclamou Edwin. “O outro administrador. Nada mais natural. Ele vem cá abaixo, vai ter com o Jack, relata o que acordámos, e expõe o nosso caso melhor do que nós poderíamos. Ele já falou com sentimento para ti, já falou com sentimento para mim, e ele colocará tudo com sentimento para o Jack. É isso! Não sou um cobarde, Rosa, mas para te contar um segredo, tenho um pouco de medo do Jack.”
“Não, não! Tu não tens medo dele!” gritou Rosa, ficando branca e fechando as mãos.
“Ora, irmã Rosa, irmã Rosa, o que vês da torre?” disse Edwin, provocando-a. “Minha querida rapariga!”
“Assustaste-me.”
“Involuntariamente, mas estou tão triste como se tivesse tido a intenção de o fazer. Poderias possivelmente supor por um momento, por qualquer modo de falar meu, que eu tivesse literalmente medo do querido e afetuoso companheiro? O que quero dizer é que ele está sujeito a uma espécie de paroxismo, ou ataque — vi-o nele uma vez — e não sei se uma surpresa tão grande, vindo diretamente de mim, em quem ele está tão envolvido, poderia desencadeá-lo talvez. O que — e este é o segredo que eu ia contar-te — é outra razão para o teu guardião fazer a comunicação. Ele é tão estável, preciso e exato, que moldará os pensamentos do Jack num instante: ao passo que comigo o Jack é sempre impulsivo e apressado, e, posso dizer, quase feminino.”
Rosa parecia convencida. Talvez, a partir do seu ponto de vista muito diferente sobre “Jack”, ela sentisse conforto e proteção pela interposição do Sr. Grewgious entre ela e ele.
E agora, a mão direita de Edwin Drood fechou-se novamente sobre o anel no seu pequeno estojo, e novamente foi travada pela consideração: “É certo, agora, que o vou dar de volta a ele; então por que deveria contar-lhe?” Aquela natureza simpática e bonita que podia ser tão triste por ele na ruína das suas esperanças infantis de felicidade juntos, e podia tão silenciosamente encontrar-se sozinha num novo mundo para tecer novas grinaldas de tais flores como provasse ter, estando as flores do velho mundo murchas, ficaria triste com aquelas joias dolorosas; e para quê? Por que deveria ser? Eram apenas um sinal de alegrias perdidas e projetos sem base; na sua própria beleza eram (como o mais improvável dos homens tinha dito) quase uma sátira cruel aos amores, esperanças, planos, da humanidade, que são capazes de prever nada, e são tanto pó quebradiço. Deixa-as estar. Ele devolvê-las-ia ao guardião dela quando ele viesse; ele por sua vez devolvê-las-ia ao gabinete de onde ele as tinha relutantemente tirado; e ali, como velhas cartas ou velhos votos, ou outros registos de velhas aspirações que deram em nada, seriam ignoradas, até que, sendo valiosas, fossem vendidas de volta à circulação, para repetir a sua ronda anterior.
Deixa-as estar. Deixa-as ficar por dizer, no seu peito. Por mais clara ou confusamente que ele entretivesse estes pensamentos, chegou à conclusão: Deixa-as estar. Entre o enorme depósito de correntes maravilhosas que estão sempre a ser forjadas, dia e noite, nas vastas fábricas de ferro do tempo e da circunstância, havia uma corrente forjada no momento dessa pequena conclusão, rebitada às fundações do céu e da terra, e dotada de força invencível para prender e arrastar.
Caminharam pelo rio. Começaram a falar dos seus planos separados. Ele apressaria a sua partida de Inglaterra, e ela permaneceria onde estava, pelo menos enquanto Helena permanecesse. As pobres queridas raparigas deveriam ter a sua desilusão comunicada suavemente, e, como primeiro passo preliminar, a Srta. Twinkleton deveria ser confiada por Rosa, mesmo antes do reaparecimento do Sr. Grewgious. Deveria ficar claro em todos os quadrantes que ela e Edwin eram os melhores amigos. Nunca houve um entendimento tão sereno entre eles desde que foram prometidos pela primeira vez. E ainda assim havia uma reserva de cada lado; da parte dela, que pretendia através do seu guardião retirar-se imediatamente do ensino do seu mestre de música; da parte dele, que ele já entretinha algumas especulações errantes sobre se poderia alguma vez acontecer que viesse a saber mais sobre a Srta. Landless.
O dia brilhante e gelado declinou enquanto caminhavam e falavam juntos. O sol mergulhou no rio muito atrás deles, e a velha cidade jazia vermelha diante deles, à medida que a sua caminhada chegava ao fim. A água que gemia lançava a sua alga sombriamente aos seus pés, quando se viraram para deixar a sua margem; e as gralhas pairavam acima deles com gritos roucos, manchas mais escuras no ar que escurecia.
“Vou preparar o Jack para a minha partida em breve”, disse Edwin, em voz baixa, “e verei o teu guardião quando ele vier, e depois irei antes que eles falem juntos. Será melhor feito sem que eu esteja presente. Não achas?”
“Sim.”
“Sabemos que fizemos o que estava certo, Rosa?”
“Sim.”
“Sabemos que estamos melhor assim, mesmo agora?”
“E estaremos muito, muito melhor assim daqui a algum tempo.”
Ainda havia aquela ternura persistente nos seus corações para com as velhas posições que estavam a abandonar, de modo que prolongaram a sua despedida. Quando chegaram entre os ulmeiros junto à Catedral, onde se tinham sentado juntos pela última vez, pararam como por consentimento, e Rosa levantou o rosto para o dele, como nunca o tinha levantado nos velhos tempos;— pois eles já eram velhos.
“Deus te abençoe, querido! Adeus!”
“Deus te abençoe, querida! Adeus!”
Beijaram-se fervorosamente.
“Agora, por favor, leva-me para casa, Eddy, e deixa-me estar sozinha.”
“Não olhes para trás, Rosa”, advertiu ele, enquanto passava o braço dela pelo seu e a afastava. “Não viste o Jack?”
“Não! Onde?”
“Sob as árvores. Ele viu-nos, enquanto nos despedíamos um do outro. Pobre companheiro! Ele mal pensa que nos separámos. Isto será um golpe para ele, temo muito!”
Ela apressou-se, sem descansar, e apressou-se até que tivessem passado sob a casa da portaria para a rua; uma vez lá, ela perguntou:
“Ele seguiu-nos? Podes olhar sem parecer. Está ele atrás?”
“Não. Sim, está! Ele acabou de passar sob o arco. O querido e simpático velho gosta de nos manter à vista. Tenho medo que ele fique amargamente desapontado!”
Ela puxou apressadamente a pega da velha campainha rouca, e o portão abriu-se em breve. Antes de entrar, deu-lhe um último olhar, largo e interrogativo, como se lhe quisesse perguntar com ênfase suplicante: “Oh! não compreendes?” E fora daquele olhar, ele desapareceu da sua vista.
CAPÍTULO XIV. QUANDO SE ENCONTRARÃO ESTES TRÊS NOVAMENTE?
Véspera de Natal em Cloisterham. Algumas faces estranhas nas ruas; algumas outras faces, meio estranhas e meio familiares, outrora as faces das crianças de Cloisterham, agora as faces de homens e mulheres que regressam do mundo exterior a longos intervalos para encontrar a cidade maravilhosamente encolhida em tamanho, como se não tivesse sido de modo algum bem lavada entretanto. Para estes, o bater do relógio da Catedral, e o grasnar das gralhas da torre da Catedral, são como vozes do seu tempo de berçário. Para tais como estes, aconteceu nas suas horas de morte, longe, que imaginaram o chão do seu quarto coberto com as folhas outonais caídas dos ulmeiros no Close: assim os sons farfalhantes e os aromas frescos das suas primeiras impressões reviveram quando o círculo das suas vidas estava quase traçado, e o princípio e o fim estavam a aproximar-se um do outro.
Sinais da época estão por toda a parte. Bagas vermelhas brilham aqui e ali nas treliças de Minor Canon Corner; o Sr. e a Sra. Tope estão delicadamente a espetar raminhos de azevinho nas esculturas e nos candeeiros dos bancos da Catedral, como se os estivessem a espetar nas casas dos botões dos casacos do Deão e do Cabido. Uma profusão pródiga encontra-se nas lojas: particularmente nos artigos de groselhas, passas, especiarias, cascas cristalizadas e açúcar amarelo. Um ar inusitado de galanteria e dissipação paira no ar; evidenciado por um imenso ramo de visco pendurado na entrada da loja de hortaliças, e um pobre e pequeno Bolo de Reis, culminando na figura de um Arlequim — um Bolo de Reis tão pobre e pequeno, que seria melhor chamar-lhe um Bolo de Vinte e Quatro ou um Bolo de Quarenta e Oito — para ser sorteado na pastelaria, com condições de um xelim por membro. Diversões públicas não faltam. A Exposição de Cera que causou uma impressão tão profunda na mente reflexiva do Imperador da China pode ser vista por desejo especial apenas durante a Semana de Natal, nas instalações do falido proprietário de cocheiras no final da ruela; e uma nova grande pantomima cómica de Natal será produzida no Teatro: esta última anunciada pelo retrato do Signor Jacksonini, o palhaço, a dizer “Como está amanhã?” tão grande como a vida, e quase tão miseravelmente. Em suma, Cloisterham está de pé e ativa: embora desta descrição devam ser excluídos a Escola Superior e o estabelecimento da Srta. Twinkleton. Do primeiro estabelecimento, os alunos foram para casa, cada um deles apaixonado por uma das jovens da Srta. Twinkleton (que nada sabe sobre isso); e apenas as criadas esvoaçam ocasionalmente nas janelas do último. Nota-se, a propósito, que estas donzelas se tornam, dentro dos limites do decoro, mais irrequietas quando encarregues desta representação concreta do seu sexo, do que quando partilham a representação com as jovens da Srta. Twinkleton.
Três devem encontrar-se na portaria esta noite. Como passa cada um dos três o dia?
Neville Landless, embora dispensado dos seus livros por algum tempo pelo Sr. Crisparkle — cuja natureza fresca não é de modo algum insensível aos encantos de um feriado — lê e escreve no seu quarto sossegado, com um ar concentrado, até duas horas depois do meio-dia. Depois, põe-se a limpar a sua mesa, a arrumar os seus livros, e a rasgar e queimar os seus papéis dispersos. Faz uma limpeza geral a todas as acumulações desarrumadas, põe todas as suas gavetas em ordem, e não deixa nota ou pedaço de papel por destruir, exceto os memorandos que dizem respeito diretamente aos seus estudos. Feito isto, vira-se para o seu guarda-roupa, seleciona alguns artigos de uso comum — entre eles, uma muda de sapatos robustos e meias para caminhar — e empacota-os numa mochila. Esta mochila é nova, e ele comprou-a na High Street ontem. Comprou também, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, uma bengala pesada; forte no punho para a firmeza da mão, e ferrada. Ele experimenta-a, balança-a, equilibra-a e coloca-a de lado, com a mochila, num assento da janela. A esta hora, os seus preparativos estão completos.
Ele veste-se para sair, e está prestes a ir — de facto, saiu do seu quarto e encontrou o Minor Canon na escadaria, saindo do seu quarto no mesmo andar — quando volta atrás para buscar a sua bengala, pensando que a levará agora. O Sr. Crisparkle, que parou na escadaria, vê-a na sua mão assim que ele reaparece, tira-lha e pergunta-lhe com um sorriso como é que ele escolhe uma bengala.
“Na verdade, não sei se compreendo o assunto”, responde ele. “Escolhi-a pelo peso.”
“Muito pesada, Neville; muito pesada.”
“Para me apoiar numa longa caminhada, senhor?”
“Apoiar-se?” repete o Sr. Crisparkle, colocando-se em posição de pedestre. “Não se apoia nela; limita-se a equilibrar-se com ela.”
“Saberei melhor, com a prática, senhor. Sabe que não vivi num país propício a caminhadas.”
“Verdade”, diz o Sr. Crisparkle. “Entre num pequeno treino e faremos algumas dezenas de quilómetros juntos. Eu não o deixaria para trás agora. Volta antes do jantar?”
“Creio que não, uma vez que jantamos cedo.”
O Sr. Crisparkle dá-lhe um aceno brilhante e um alegre adeus; expressando (não sem intenção) absoluta confiança e tranquilidade.
Neville dirige-se à Casa das Freiras e solicita que a Srta. Landless seja informada de que o seu irmão está lá, por marcação. Ele espera no portão, sem sequer atravessar o limiar; pois tem a sua palavra de honra de não se colocar no caminho de Rosa.
A sua irmã está pelo menos tão consciente da obrigação que assumiram quanto ele, e não perde um momento a juntar-se-lhe. Encontram-se afetuosamente, evitam demorar-se ali e caminham em direção ao interior do país.
“Não vou pisar terreno proibido, Helena”, diz Neville, quando já caminharam alguma distância e estão a voltar; “compreenderás num outro momento que não posso deixar de me referir a — o que hei de dizer? — a minha paixão.”
“Não seria melhor evitá-lo, Neville? Sabes que não posso ouvir nada.”
“Podes ouvir, minha querida, o que o Sr. Crisparkle ouviu, e ouviu com aprovação.”
“Sim; posso ouvir tanto quanto isso.”
“Bem, é isto. Não só estou perturbado e infeliz, como estou consciente de perturbar e interferir com outras pessoas. Como sei que, não fosse a minha presença infeliz, tu, e — e — o resto desse antigo grupo, à exceção do nosso cativante tutor, talvez estivessem a jantar alegremente em Minor Canon Corner amanhã? De facto, provavelmente seria assim. Posso ver demasiado bem que não estou em alta na opinião da velha senhora, e é fácil compreender que obstáculo incómodo devo ser para a hospitalidade da sua casa ordeira — especialmente nesta época do ano — quando devo ser mantido afastado desta pessoa, e há uma tal razão para eu não ser trazido para contacto com aquela pessoa, e uma reputação desfavorável precedeu-me junto de tal outra pessoa; e por aí fora. Pus isto muito suavemente ao Sr. Crisparkle, pois conheces os seus modos de autonegação; mas ainda assim pus. O que enfatizei muito mais ao mesmo tempo é que estou envolvido numa luta miserável comigo mesmo, e que uma pequena mudança e ausência podem permitir-me superá-la melhor. Portanto, estando o tempo brilhante e firme, vou numa expedição a pé e pretendo pôr-me fora do caminho de toda a gente (incluindo o meu próprio, espero) amanhã de manhã.”
“Quando voltas?”
“Dentro de uma quinzena.”
“E vais completamente sozinho?”
“Estou muito melhor sem companhia, mesmo que houvesse alguém além de ti para me fazer companhia, minha querida Helena.”
“O Sr. Crisparkle concorda inteiramente, dizes?”
“Inteiramente. Não tenho a certeza se, a princípio, ele não estava inclinado a pensar que era um plano algo melancólico, e que poderia fazer mal a uma mente pensativa. Mas demos um passeio à luz da lua na segunda-feira à noite, para falar sobre isso com calma, e apresentei-lhe o caso como ele realmente é. Mostrei-lhe que quero conquistar-me a mim próprio, e que, uma vez superada esta noite, é certamente melhor que eu esteja longe daqui agora, do que aqui. Dificilmente poderia evitar encontrar certas pessoas a passear juntas aqui, e isso não traria qualquer bem, e certamente não é o caminho para esquecer. Daqui a uma quinzena, essa possibilidade terá provavelmente passado, por agora; e quando surgir novamente pela última vez, bem, posso ir-me embora novamente. Além disso, sinto-me realmente esperançado com o exercício revigorante e a fadiga salutar. Sabes que o Sr. Crisparkle permite que tais coisas tenham o seu peso total na preservação da sua própria mente sã no seu próprio corpo são, e que o seu espírito justo não é propenso a manter um conjunto de leis naturais para si mesmo e outro para mim. Ele cedeu à minha visão do assunto, quando convencido de que eu estava honestamente decidido; e assim, com o seu pleno consentimento, parto amanhã de manhã. Cedo o suficiente para estar não só fora das ruas, mas fora do alcance dos sinos, quando as boas pessoas vão à igreja.”
Helena reflete sobre isso e pensa bem. O Sr. Crisparkle fazendo-o, ela fá-lo-ia; mas ela pensa originalmente, por conta própria, bem sobre isso, como um projeto saudável, denotando um esforço sincero e uma tentativa ativa de autocorreção. Ela sente-se inclinada a ter pena dele, pobre rapaz, por ir embora sozinho na grande festa de Natal; mas sente que é muito mais adequado encorajá-lo. E ela encoraja-o.
Ele escrever-lhe-á?
Ele escrever-lhe-á de dois em dois dias e contar-lhe-á todas as suas aventuras.
Ele envia roupa antes dele?
“Minha querida Helena, não. Viajar como um peregrino, com alforje e cajado. O meu alforje — ou a minha mochila — está arrumado e pronto a pôr às costas; e aqui está o meu cajado!”
Ele entrega-lho; ela faz o mesmo comentário que o Sr. Crisparkle, que é muito pesado; e devolve-lho, perguntando que madeira é. Pau-ferro.
Até este ponto, ele tem estado extremamente alegre. Talvez o facto de ter de carregar o seu caso com ela, e por isso apresentá-lo no seu aspeto mais brilhante, tenha despertado o seu ânimo. Talvez o facto de o ter feito com sucesso seja seguido por uma reviravolta. À medida que o dia fecha e as luzes da cidade começam a surgir diante deles, ele torna-se deprimido.
“Gostaria de não ir a este jantar, Helena.”
“Querido Neville, vale a pena preocupar-se muito com isso? Pensa em quão depressa terminará.”
“Quão depressa terminará!” repete ele sombriamente. “Sim. Mas não gosto disto.”
Pode haver um momento de embaraço, ela representa-lhe de forma animadora, mas só pode durar um momento. Ele está bastante seguro de si mesmo.
“Gostaria de me sentir tão seguro de tudo o resto, como me sinto de mim próprio”, responde-lhe ele.
“Como falas estranhamente, querido! O que queres dizer?”
“Helena, não sei. Só sei que não gosto disto. Que estranho peso morto há no ar!”
Ela chama a sua atenção para aquelas nuvens acobreadas além do rio, e diz que o vento está a aumentar. Ele dificilmente volta a falar, até que se despede dela, à porta da Casa das Freiras. Ela não entra imediatamente, quando se separam, mas permanece a olhar para ele ao longo da rua. Por duas vezes ele passa pela portaria, relutante em entrar. Por fim, o relógio da Catedral tocando um quarto, com um giro rápido, ele entra apressadamente.
E assim ele sobe a escada da poterna.
Edwin Drood passa um dia solitário. Algo de momento mais profundo do que ele pensava saiu da sua vida; e no silêncio do seu próprio quarto, ele chorou por isso na noite passada. Embora a imagem da Srta. Landless ainda paire no fundo da sua mente, a criaturinha bonita e afetuosa, muito mais firme e sábia do que ele tinha suposto, ocupa a sua fortaleza. É com algum receio da sua própria indignidade que ele pensa nela, e no que poderiam ter sido um para o outro, se ele tivesse sido mais sério há algum tempo; se ele tivesse dado um valor mais alto a ela; se, em vez de aceitar o seu destino na vida como uma herança óbvia, ele tivesse estudado o caminho certo para a sua apreciação e realce. E ainda assim, apesar de tudo isto, e embora haja uma dor aguda em tudo isto, a vaidade e o capricho da juventude sustentam aquela figura elegante da Srta. Landless no fundo da sua mente.
Aquele foi um olhar curioso de Rosa quando se separaram no portão. Significaria que ela viu abaixo da superfície dos seus pensamentos, e até às suas profundezas crepusculares? Dificilmente isso, pois foi um olhar de inquérito espantado e aguçado. Ele decide que não o consegue compreender, embora fosse notavelmente expressivo.
Como ele só espera pelo Sr. Grewgious agora, e partirá imediatamente depois de o ter visto, ele toma uma despedida descontraída da antiga cidade e da sua vizinhança. Ele recorda o tempo em que Rosa e ele passeavam aqui ou ali, meras crianças, cheias da dignidade de estarem noivas. Pobres crianças! pensa ele, com uma tristeza piedosa.
Descobrindo que o seu relógio parou, ele entra na loja do joalheiro, para o mandar dar corda e acertar. O joalheiro é conhecedor sobre o assunto de uma pulseira, que ele pede licença para submeter, de uma forma geral e bastante sem rumo. Serviria (considera ele) a uma jovem noiva, na perfeição; especialmente se for de um estilo de beleza bastante diminuto. Descobrindo que a pulseira é olhada friamente, o joalheiro convida a atenção para um tabuleiro de anéis para cavalheiros; aqui está um estilo de anel, agora, observa ele — um sinete muito casto — que os cavalheiros estão muito inclinados a comprar, quando mudam a sua condição. Um anel de aparência muito responsável. Com a data do seu dia de casamento gravada no interior, vários cavalheiros preferiram-no a qualquer outro tipo de lembrança.
Os anéis são vistos tão friamente como a pulseira. Edwin diz ao tentador que não usa joias, exceto o seu relógio e corrente, que eram do seu pai; e o seu alfinete de peito.
“Disso eu estava ciente”, é a resposta do joalheiro, “pois o Sr. Jasper passou por cá para um vidro de relógio no outro dia, e, de facto, mostrei-lhe estes artigos, comentando que, se ele desejasse fazer uma oferta a um parente cavalheiro, em qualquer ocasião particular... Mas ele disse com um sorriso que tinha na mente um inventário de todas as joias que o seu parente cavalheiro usava; nomeadamente, o seu relógio e corrente, e o seu alfinete de peito.” Ainda assim (considera o joalheiro) isso pode não se aplicar a todos os tempos, embora se aplicando ao tempo presente. “Vinte minutos depois das duas, Sr. Drood, acertei o seu relógio. Deixe-me recomendar-lhe que não o deixe parar, senhor.”
Edwin pega no seu relógio, coloca-o e sai, a pensar: “Querido velho Jack! Se eu fizesse um vinco extra no meu lenço de pescoço, ele acharia que valia a pena notar!”
Ele passeia por aqui e acolá, para passar o tempo até à hora do jantar. Acontece de alguma forma que Cloisterham parece censurá-lo hoje; tem defeitos a apontar-lhe, como se ele não a tivesse tratado bem; mas é muito mais pensativa com ele do que zangada. O seu desleixo habitual é substituído por um olhar melancólico para, e uma permanência em, todos os antigos marcos. Ele estará em breve longe, e pode nunca mais vê-los, pensa ele. Pobre rapaz! Pobre rapaz!
À medida que o crepúsculo se aproxima, ele caminha pelo Monks’ Vineyard. Ele andou de um lado para o outro, por meia hora completa pelos sinos da Catedral, e escureceu, antes de se tornar totalmente consciente de uma mulher agachada no chão perto de uma pequena porta num canto. A porta dá acesso a um atalho, pouco usado no crepúsculo; e a figura deve ter estado ali todo o tempo, embora ele só a tenha distinguido gradual e recentemente.
Ele entra nesse caminho e caminha até à porta. Pela luz de um candeeiro perto dela, ele vê que a mulher tem uma aparência esquelética, e que o seu queixo murcho está apoiado nas mãos, e que os seus olhos estão a olhar — com uma espécie de fixidez cega e sem pestanejar — para diante de si.
Sempre bondoso, mas levado a ser invulgarmente bondoso esta noite, e tendo concedido palavras bondosas à maioria das crianças e idosos que encontrou, ele inclina-se imediatamente e fala com esta mulher.
“Está doente?”
“Não, querido”, responde ela, sem olhar para ele, e sem qualquer desvio do seu estranho olhar cego.
“É cega?”
“Não, querido.”
“Está perdida, sem-abrigo, desfalecida? O que se passa, para ficar aqui no frio durante tanto tempo, sem se mexer?”
Por esforços lentos e rígidos, ela parece contrair a sua visão até que possa descansar nele; e então um véu curioso passa sobre ela, e ela começa a tremer.
Ele endireita-se, recua um passo e olha para ela num pavoroso espanto; pois parece conhecê-la.
“Grande Céu!” pensa ele, no momento seguinte. “Como o Jack naquela noite!”
Enquanto ele olha para ela, ela olha para ele, e choraminga: “Os meus pulmões estão fracos; os meus pulmões estão terrivelmente maus. Pobre de mim, pobre de mim, a minha tosse está a chiar seco!” e tosse em confirmação horrivelmente.
“De onde vem?”
“Venho de Londres, querido.” (A sua tosse ainda a dilacerando.)
“Para onde vai?”
“De volta para Londres, querido. Vim aqui, à procura de uma agulha num palheiro, e não a encontrei. Veja, querido; dê-me três xelins e seis pence, e não tenha medo por mim. Voltarei para Londres então, e não incomodarei ninguém. Estou num negócio. — Ah, eu! Está fraco, está fraco, e os tempos estão muito maus! — mas posso arranjar uma maneira de viver com isso.”
“Consome ópio?”
“Fumo-o”, responde ela com dificuldade, ainda atormentada pela sua tosse. “Dê-me três xelins e seis pence, e eu aplicá-los-ei bem, e voltarei. Se não me der três xelins e seis pence, não me dê um único centavo. E se me der três xelins e seis pence, querido, dir-lhe-ei uma coisa.”
Ele conta o dinheiro do seu bolso e coloca-o na mão dela. Ela agarra-o imediatamente com força, e levanta-se com uma risada rouca de satisfação.
“Deus o abençoe! Ouça, querido cavalheiro. Qual é o seu nome próprio?”
“Edwin.”
“Edwin, Edwin, Edwin”, repete ela, arrastando-se para uma repetição sonolenta da palavra; e depois pergunta subitamente: “O diminutivo desse nome é Eddy?”
“É por vezes chamado assim”, responde ele, com a cor a subir-lhe ao rosto.
“Os namorados não o chamam assim?” pergunta ela, a ponderar.
“Como hei de saber?”
“Não tem uma namorada, por sua alma?”
“Nenhuma.”
Ela está a afastar-se, com outro “Deus o abençoe, e obrigado, querido!” quando ele acrescenta: “Ia dizer-me algo; pode fazê-lo agora.”
“Pois ia, pois ia. Bem, então. Sussurre. Esteja grato por o seu nome não ser Ned.”
Ele olha para ela com bastante firmeza, enquanto pergunta: “Porquê?”
“Porque é um mau nome para se ter agora.”
“Como um mau nome?”
“Um nome ameaçado. Um nome perigoso.”
“O provérbio diz que os homens ameaçados vivem muito”, diz-lhe ele, levemente.
“Então Ned — tão ameaçado quanto ele é, onde quer que ele esteja enquanto eu falo consigo, querido — deveria viver até à eternidade!” responde a mulher.
Ela inclinou-se para o dizer ao seu ouvido, com o dedo indicador a tremer diante dos seus olhos, e agora encolhe-se, e com outro “Deus o abençoe, e obrigado!” vai-se embora na direção da Pensão dos Viajantes.
Este não é um fecho inspirador para um dia monótono. Sozinho, num lugar isolado, rodeado por vestígios de tempos antigos e decadência, tem antes uma tendência para provocar um estremecimento. Ele dirige-se para as ruas mais iluminadas, e resolve, enquanto caminha, não dizer nada disto esta noite, mas mencionar isto ao Jack (que é o único que o chama Ned), como uma estranha coincidência, amanhã; claro, apenas como uma coincidência, e não como algo que valha mais a pena lembrar.
Ainda assim, agarra-se a ele, como muitas coisas que valem muito mais a pena lembrar nunca fizeram. Ele tem mais um quilómetro ou dois para passar até à hora do jantar; e, quando ele caminha sobre a ponte e junto ao rio, as palavras da mulher estão no vento que aumenta, no céu zangado, na água agitada, nas luzes cintilantes. Há um eco solene delas até no sino da Catedral, que causa uma surpresa súbita ao seu coração enquanto ele se vira para debaixo do arco da portaria.
E assim ele sobe a escada da poterna.
John Jasper passa um dia mais agradável e alegre do que qualquer um dos seus convidados. Não tendo aulas de música para dar na época festiva, o seu tempo é seu, exceto pelos serviços da Catedral. Ele está cedo entre os lojistas, encomendando pequenos luxos de mesa de que o seu sobrinho gosta. O seu sobrinho não estará com ele por muito tempo, diz ele aos seus fornecedores, e por isso deve ser mimado e tratado com atenção. Enquanto está fora nas suas preparações hospitaleiras, ele dá um salto ao Sr. Sapsea; e menciona que o querido Ned, e aquele jovem faísca inflamável do Sr. Crisparkle, vão jantar na portaria hoje, e resolver a sua diferença. O Sr. Sapsea não é de modo algum amigável para com o jovem faísca inflamável. Ele diz que a sua compleição é “Não-Inglesa”. E quando o Sr. Sapsea declara uma vez que algo é Não-Inglês, ele considera essa coisa eternamente afundada no poço sem fundo.
O Sr. John Jasper sente-se verdadeiramente pesaroso ao ouvir o Sr. Sapsea falar desta maneira, pois sabe muito bem que o Sr. Sapsea nunca fala sem um propósito e que possui um truque subtil para estar sempre certo. O Sr. Sapsea (por uma coincidência muito notável) é exatamente da mesma opinião.
O Sr. Jasper está com uma voz belíssima neste dia. Na patética súplica para que o seu coração seja inclinado a guardar esta lei, ele surpreende inteiramente os seus companheiros pelo seu poder melodioso. Nunca cantou música difícil com tamanha perícia e harmonia como no hino de hoje. O seu temperamento nervoso é, por vezes, propenso a acelerar um pouco demais as peças difíceis; hoje, o seu compasso é perfeito.
Estes resultados são provavelmente alcançados através de uma grande compostura de espírito. O mecanismo da sua garganta está um pouco sensível, pois ele usa, tanto com a sua batina de cantor como com o seu traje habitual, um grande lenço preto de seda forte e densa, atado frouxamente à volta do pescoço. Mas a sua compostura é tão notável que o Sr. Crisparkle comenta-a ao saírem das Vésperas.
— Devo agradecer-lhe, Jasper, pelo prazer com que o ouvi hoje. Belo! Delicioso! Espero que não pudesse ter superado tanto a si mesmo sem estar maravilhosamente bem.
— Estou maravilhosamente bem.
— Nada de desigual — diz o Cónego Menor, com um movimento suave da mão: — nada de instável, nada de forçado, nada de evitado; tudo feito cabalmente de forma magistral, com perfeito autodomínio.
— Obrigado. Espero que sim, se não for demasiado dizer.
— Dir-se-ia, Jasper, que esteve a experimentar um novo medicamento para essa sua indisposição ocasional.
— Não, a sério? Bem observado; pois estive.
— Então mantenha-se nele, meu caro amigo — diz o Sr. Crisparkle, dando-lhe uma palmada no ombro com amigável encorajamento —, mantenha-se nele.
— Assim farei.
— Felicito-o — prossegue o Sr. Crisparkle, à medida que saem da Catedral —, a todos os respeitos.
— Agradeço-lhe novamente. Caminharei até à Esquina consigo, se não se importar; tenho bastante tempo antes que os meus convidados cheguem; e quero dizer-lhe uma palavra que penso que não ficará desgostoso por ouvir.
— O que é?
— Bem. Falávamos, na outra noite, dos meus humores negros.
O rosto do Sr. Crisparkle cai e ele abana a cabeça de forma deplorável.
— Eu disse, sabe, que deveria fazer de si um antídoto para esses humores negros; e o senhor disse que esperava que eu os consignasse às chamas.
— E ainda o espero, Jasper.
— Com a melhor razão do mundo! Pretendo queimar o Diário deste ano no final do ano.
— Porque o senhor...? — O Sr. Crisparkle anima-se grandemente ao começar assim.
— Antecipa-me. Porque sinto que tenho estado indisposto, melancólico, bilioso, com o cérebro oprimido, seja o que for. Disse que eu tenho sido exagerado. E tenho.
O rosto animado do Sr. Crisparkle anima-se ainda mais.
— Não o conseguia ver na altura, porque estava indisposto; mas agora estou num estado mais saudável e reconheço-o com um prazer genuíno. Fiz muito alarido por muito pouco; é esse o facto.
— Faz-me bem — exclama o Sr. Crisparkle — ouvi-lo dizer isso!
— Um homem que leva uma vida monótona — continua Jasper —, e que deixa os seus nervos, ou o seu estômago, desordenados, cismando numa ideia até que esta perca as suas proporções. Esse foi o meu caso com a ideia em questão. Por isso, queimarei a prova do meu caso, quando o livro estiver cheio, e começarei o próximo volume com uma visão mais clara.
— Isto é melhor — diz o Sr. Crisparkle, parando nos degraus da sua própria porta para apertar a mão — do que eu poderia ter esperado.
— Ora, naturalmente — retorna Jasper. — Tinha poucas razões para esperar que eu me tornasse mais semelhante a si. O senhor está sempre a treinar-se para ser, em mente e corpo, límpido como o cristal, e sempre o é, e nunca muda; ao passo que eu sou uma erva daninha lamacenta, solitária e melancólica. Contudo, superei essa melancolia. Devo esperar, enquanto pergunta se o Sr. Neville partiu para minha casa? Se não, ele e eu podemos caminhar juntos.
— Creio — diz o Sr. Crisparkle, abrindo a porta de entrada com a sua chave — que ele partiu há algum tempo; pelo menos sei que partiu, e penso que não voltou. Mas vou perguntar. Não quer entrar?
— Os meus convidados esperam — disse Jasper, com um sorriso.
O Cónego Menor desaparece e, em poucos momentos, regressa. Como pensava, o Sr. Neville não voltou; de facto, como ele se recorda agora, o Sr. Neville disse que provavelmente iria direto para a casa da portaria.
— Maus modos de um anfitrião! — diz Jasper. — Os meus convidados estarão lá antes de mim! Que aposta faz que não encontro os meus convidados a abraçarem-se?
— Apostarei — ou apostaria, se eu alguma vez apostasse — retorna o Sr. Crisparkle, — que os seus convidados terão um anfitrião alegre esta noite.
Jasper acena e ri, desejando boa noite!
Ele refaz os seus passos até à porta da Catedral e vira-a, passando por ela em direção à casa da portaria. Ele canta, em voz baixa e com expressão delicada, enquanto caminha. Ainda parece que uma nota falsa não estivesse ao seu alcance esta noite, e que nada pudesse apressá-lo ou atrasá-lo. Chegando assim sob a entrada arqueada da sua habitação, ele hesita por um instante no abrigo para tirar aquele grande lenço preto e pendurá-lo num laço no seu braço. Durante esse breve tempo, o seu rosto está vincado e severo. Mas limpa-se imediatamente, à medida que retoma o seu canto e o seu caminho.
E assim ele sobe a escada da poterna.
A luz vermelha arde constantemente durante toda a noite no farol à margem da maré da vida agitada. Sons suavizados e o zumbido do tráfego passam por ele e fluem irregularmente para os Precintos solitários; mas pouco mais passa, a não ser rajadas violentas de vento. Começa a soprar uma ventania impetuosa.
Os Precintos nunca são particularmente bem iluminados; mas, com as rajadas fortes de vento a apagar muitas das lâmpadas (em alguns casos despedaçando também as armações e fazendo o vidro cair com estrondo no chão), estão invulgarmente escuros esta noite. A escuridão é aumentada e confundida por poeira vinda da terra, ramos secos das árvores e grandes fragmentos esfarrapados dos ninhos das corujas lá no alto da torre. As próprias árvores agitam-se e rangem tanto, à medida que esta parte tangível da escuridão roda loucamente, que parecem estar em perigo de serem arrancadas da terra: enquanto, de vez em quando, um estalido e uma queda apressada denotam que algum ramo grande cedeu à tempestade.
Não soprava tal poder de vento há muitas noites de inverno. As chaminés tombam nas ruas e as pessoas agarram-se aos postes e cantos, e uns aos outros, para se manterem de pé. As rajadas violentas não diminuem, mas aumentam em frequência e fúria até à meia-noite, quando as ruas estão vazias, e a tempestade ruge ao longo delas, fazendo tinir todas as trincos e rasgando todas as persianas, como se avisasse as pessoas para se levantarem e fugirem com ela, em vez de terem os telhados trazidos abaixo sobre as suas cabeças.
Ainda assim, a luz vermelha arde constantemente. Nada é constante, exceto a luz vermelha.
Durante toda a noite o vento sopra e não diminui. Mas de manhã cedo, quando há luz suficiente a oriente para ofuscar as estrelas, começa a acalmar. A partir desse momento, com investidas selvagens ocasionais, como um monstro ferido a morrer, ele cai e afunda-se; e, em pleno dia, está morto.
Vê-se então que os ponteiros do relógio da Catedral foram arrancados; que o chumbo do telhado foi arrancado, enrolado e soprado para o Adro; e que algumas pedras foram deslocadas no topo da grande torre. Embora seja manhã de Natal, é necessário enviar operários para verificar a extensão dos danos causados. Estes, liderados por Durdles, sobem; enquanto o Sr. Tope e uma multidão de ociosos matutinos se reúnem em Minor Canon Corner, protegendo os olhos e observando o seu aparecimento lá em cima.
Este grupo é subitamente rompido e posto de lado pelas mãos do Sr. Jasper; todos os olhos que observavam são trazidos para a terra pela sua pergunta em voz alta ao Sr. Crisparkle, numa janela aberta:
— Onde está o meu sobrinho?
— Ele não esteve aqui. Não está consigo?
— Não. Ele foi ao rio ontem à noite, com o Sr. Neville, para observar a tempestade, e não voltou. Chamem o Sr. Neville!
— Ele partiu esta manhã, cedo.
— Partiu esta manhã cedo? Deixem-me entrar! Deixem-me entrar!
Já não se olha mais para a torre. Todos os olhos reunidos estão voltados para o Sr. Jasper, pálido, semivestido, ofegante e agarrado ao gradeamento em frente à casa do Cónego Menor.
CAPÍTULO XV. ACUSADO
Neville Landless tinha partido tão cedo e caminhado a tão bom passo que, quando os sinos da igreja começaram a tocar em Cloisterham para o serviço matinal, ele já estava a oito milhas de distância. Como queria tomar o pequeno-almoço por essa altura, tendo saído apenas com uma côdea de pão, parou na taberna de beira de estrada mais próxima para se refrescar.
Visitantes a precisar de pequeno-almoço — a menos que fossem cavalos ou gado, para cuja classe de hóspedes havia preparação suficiente em termos de bebedouros e feno — eram tão invulgares no sinal de The Tilted Wagon que demorou muito tempo a colocar a carroça no trilho do chá, das torradas e do bacon. Neville, entretanto, sentado numa sala forrada de areia, perguntava a si próprio quanto tempo, depois de ele ter partido, levaria o fogo espirrado de gravetos húmidos a aquecer mais alguém.
De facto, The Tilted Wagon, como um estabelecimento frio no topo de uma colina, onde o solo diante da porta estava enlameado com cascos húmidos e palha pisada; onde uma estalajadeira rabugenta dava uma palmada num bebé húmido (com uma meia vermelha calçada e a outra em falta), no bar; onde o queijo era lançado ao solo sobre uma prateleira, na companhia de uma toalha de mesa bolorenta e uma faca de cabo verde, numa espécie de canoa de ferro fundido; onde o pão de rosto pálido vertia lágrimas de miolo sobre o seu naufrágio noutra canoa; onde a roupa de casa da família, meio lavada e meio seca, levava uma vida pública de estar espalhada; onde tudo o que havia para beber era servido em canecas, e tudo o resto sugeria uma rima para canecas; The Tilted Wagon, ponderadas todas estas coisas, dificilmente cumpria a sua promessa pintada de proporcionar bom entretenimento para Homem e Besta. Contudo, o Homem, no caso presente, não era crítico, mas aceitou o entretenimento que pôde obter e prosseguiu após um descanso mais longo do que o necessário.
Ele parou a cerca de um quarto de milha da casa, hesitando entre continuar pela estrada ou seguir um trilho de carroça entre duas sebes altas, que atravessava a encosta de uma charneca ventosa e, evidentemente, voltava a ligar-se à estrada mais adiante. Decidiu-se por este último trilho e percorreu-o com algum esforço; a subida era íngreme e o caminho estava gasto em sulcos profundos.
Ele laborava ao longo do caminho quando se apercebeu de outros pedestres atrás de si. Como vinham a um passo mais rápido que o seu, ele pôs-se de lado, contra um dos altos bancos de terra, para os deixar passar. Mas o comportamento deles era muito curioso. Apenas quatro deles passaram. Outros quatro abrandaram o ritmo e demoraram-se como se tivessem a intenção de segui-lo quando ele continuasse. O resto do grupo (talvez meia dúzia) virou-se e regressou a grande velocidade.
Ele olhou para os quatro atrás de si e olhou para os quatro à sua frente. Todos retribuíram o seu olhar. Ele retomou o seu caminho. Os quatro à frente continuaram, olhando constantemente para trás; os quatro na retaguarda aproximaram-se.
Quando todos se alinharam do trilho estreito para a encosta aberta da charneca, e esta ordem foi mantida, por mais que ele divergisse para qualquer dos lados, já não havia espaço para dúvidas de que estava a ser assediado por estes indivíduos. Ele parou, como teste final; e todos pararam.
— Por que me seguem desta maneira? — perguntou ele ao grupo inteiro. — São um bando de ladrões?
— Não lhe respondam — disse um deles; ele não viu qual. — É melhor estarem quietos.
— É melhor estarem quietos? — repetiu Neville. — Quem disse isso?
Ninguém respondeu.
— É um bom conselho, qualquer que seja o covarde de entre vós que o deu — continuou ele, irritado. — Não me submeterei a ser encurralado entre quatro homens ali, e quatro homens acolá. Desejo passar, e pretendo passar, esses quatro à frente.
Estavam todos parados; ele incluído.
— Se oito homens, ou quatro homens, ou dois homens, atacam um — prosseguiu ele, tornando-se mais enfurecido —, o um não tem outra hipótese senão deixar a sua marca nalguns deles. E, pelo Senhor, eu fá-lo-ei, se for interrompido mais alguma vez!
Empunhando o seu pesado cajado e apressando o passo, disparou para passar os quatro da frente. O maior e mais forte homem do grupo mudou rapidamente para o lado em que ele se aproximou, e fechou-se destramente com ele, indo ao chão com ele; mas não antes de o pesado cajado ter descido agilmente.
— Deixem-no estar! — disse este homem com voz contida, enquanto lutavam juntos na relva. — Jogo limpo! A constituição dele é a de uma rapariga comparada com a minha, e ele ainda tem um peso atado às costas. Deixem-no em paz. Eu trato dele.
Depois de um pouco de rebolar, numa luta cerrada que fez com que os rostos de ambos ficassem manchados de sangue, o homem tirou o joelho do peito de Neville e levantou-se, dizendo: — Pronto! Agora levem-no de braço dado, quaisquer dois de vós!
Foi imediatamente feito.
— Quanto a sermos um bando de ladrões, Sr. Landless — disse o homem, enquanto cuspia algum sangue e limpava mais do rosto —, o senhor sabe melhor do que isso a meio do dia. Não lhe teríamos tocado se não nos tivesse forçado. Vamos levá-lo até à estrada principal, de qualquer forma, e encontrará ajuda suficiente contra ladrões lá, se a quiser. — Limpem-lhe o rosto, alguém; vejam como lhe está a escorrer!
Quando o seu rosto foi limpo, Neville reconheceu no orador Joe, condutor do autocarro de Cloisterham, que ele tinha visto apenas uma vez, e isso no dia da sua chegada.
— E o que lhe recomendo por agora é: não fale, Sr. Landless. Encontrará um amigo à sua espera, na estrada principal — que seguiu em frente pelo outro caminho quando nos dividimos em dois grupos — e é muito melhor não dizer nada até se encontrar com ele. Tragam esse cajado, alguém, e vamos andando!
Completamente atordoado, Neville olhou à sua volta e não disse uma palavra. Caminhando entre os seus dois condutores, que seguravam os seus braços, ele seguiu, como num sonho, até chegarem novamente à estrada principal e ao meio de um pequeno grupo de pessoas. Os homens que tinham regressado estavam entre o grupo; e as suas figuras centrais eram o Sr. Jasper e o Sr. Crisparkle. Os condutores de Neville levaram-no até ao Cónego Menor e lá libertaram-no, como um ato de deferência para com aquele cavalheiro.
— O que é tudo isto, senhor? O que se passa? Sinto como se tivesse perdido os sentidos! — gritou Neville, com o grupo a fechar-se à sua volta.
— Onde está o meu sobrinho? — perguntou o Sr. Jasper, freneticamente.
— Onde está o seu sobrinho? — repetiu Neville. — Por que me pergunta a mim?
— Pergunto-lhe — replicou Jasper — porque foi a última pessoa na companhia dele, e ele não pode ser encontrado.
— Não pode ser encontrado! — gritou Neville, horrorizado.
— Espere, espere — disse o Sr. Crisparkle. — Permita-me, Jasper. Sr. Neville, o senhor está confuso; recolha os seus pensamentos; é de grande importância que recolha os seus pensamentos; preste atenção ao que digo.
— Tentarei, senhor, mas sinto-me louco.
— Deixou o Sr. Jasper ontem à noite com Edwin Drood?
— Sim.
— A que horas?
— Foi às doze horas? — perguntou Neville, com a mão na cabeça confusa, apelando a Jasper.
— Muito bem — disse o Sr. Crisparkle; — a hora que o Sr. Jasper já me tinha indicado. Foram juntos ao rio?
— Sem dúvida. Para ver a ação do vento lá.
— O que se seguiu? Quanto tempo lá ficaram?
— Cerca de dez minutos; diria que não mais do que isso. Depois caminhámos juntos até sua casa e ele despediu-se de mim à porta.
— Ele disse que ia voltar para o rio?
— Não. Ele disse que ia direto para trás.
Os espetadores olharam uns para os outros e para o Sr. Crisparkle. A quem o Sr. Jasper, que observava intensamente Neville, disse, com uma voz baixa, distinta e desconfiada: — Quais são essas manchas nas suas vestes?
Todos os olhos se voltaram para o sangue nas suas roupas.
— E aqui estão as mesmas manchas neste cajado! — disse Jasper, tirando-o da mão do homem que o segurava. — Sei que o cajado é dele, e ele transportou-o ontem à noite. O que significa isto?
— Em nome de Deus, diga o que significa, Neville! — instou o Sr. Crisparkle.
— Aquele homem e eu — disse Neville, apontando para o seu recente adversário —, tivemos uma luta pelo cajado ainda agora, e o senhor pode ver as mesmas marcas nele, senhor. O que deveria eu supor, quando me vi assediado por oito pessoas? Poderia eu sonhar com a verdadeira razão quando eles não me davam nenhuma?
Eles admitiram que tinham achado discreto ficar calados e que a luta tinha ocorrido. E, no entanto, os próprios homens que a tinham visto olhavam sombriamente para as manchas que o ar frio e brilhante já tinha secado.
— Temos de regressar, Neville — disse o Sr. Crisparkle; — naturalmente ficará contente por voltar para se limpar de suspeitas?
— Naturalmente, senhor.
— O Sr. Landless caminhará ao meu lado — continuou o Cónego Menor, olhando à sua volta. — Venha, Neville!
Partiram para o caminho de regresso; e os outros, com uma exceção, arrastaram-se atrás deles a várias distâncias. Jasper caminhou do outro lado de Neville e nunca abandonou essa posição. Ele estava silencioso, enquanto o Sr. Crisparkle repetia mais de uma vez as suas perguntas anteriores, e enquanto Neville repetia as suas respostas anteriores; também, enquanto ambos aventuravam algumas conjeturas explicativas. Ele estava obstinadamente silencioso, porque o comportamento do Sr. Crisparkle apelava diretamente a ele para tomar parte na discussão, e nenhum apelo moveria o seu rosto fixo. Quando se aproximaram da cidade, e foi sugerido pelo Cónego Menor que fariam bem em visitar o Presidente da Câmara imediatamente, ele assentiu com um aceno severo; mas não disse uma palavra até que estivessem na sala do Sr. Sapsea.
Sendo o Sr. Sapsea informado pelo Sr. Crisparkle das circunstâncias sob as quais desejavam fazer uma declaração voluntária perante ele, o Sr. Jasper quebrou o silêncio declarando que depositava toda a sua confiança, humanamente falando, na penetração do Sr. Sapsea. Não havia razão concebível para que o seu sobrinho tivesse fugido subitamente, a menos que o Sr. Sapsea pudesse sugerir uma, e então ele deferiria. Não havia probabilidade inteligível de ele ter voltado ao rio e ter morrido afogado acidentalmente no escuro, a menos que parecesse provável ao Sr. Sapsea, e então, novamente, ele deferiria. Ele lavava as mãos o mais limpas que podia de todas as suspeitas horríveis, a menos que parecesse ao Sr. Sapsea que algumas dessas fossem inseparáveis do seu último companheiro antes do seu desaparecimento (com quem não estava em bons termos anteriormente), e então, mais uma vez, ele deferiria. O seu próprio estado de espírito, estando ele distraído com dúvidas e a sofrer de apreensões sombrias, não era de confiança; mas o do Sr. Sapsea era.
O Sr. Sapsea expressou a sua opinião de que o caso tinha um aspeto sombrio; em suma (e aqui os seus olhos pousaram fixamente no semblante de Neville), uma compleição "Não-Inglesa". Tendo atingido este grande ponto, ele vagueou por uma névoa e um labirinto de disparates mais densos do que aqueles em que até um presidente da câmara se esperaria que se divertisse, e saiu deles com a brilhante descoberta de que tirar a vida a um semelhante era tirar algo que não nos pertencia. Ele hesitou entre emitir ou não de imediato o seu mandado para a detenção de Neville Landless na cadeia, sob circunstâncias de grave suspeita; e poderia ter ido tão longe ao ponto de o fazer não fosse o protesto indignado do Cónego Menor: que se responsabilizou pela permanência do jovem na sua própria casa, e por ele estar
à disposição da justiça, a qualquer hora que fosse chamado.
Entendi que o Sr. Sapsea sugeriu que o rio fosse dragado, que as suas margens fossem rigorosamente examinadas, que pormenores do desaparecimento fossem enviados para todos os lugares periféricos e para Londres, e que cartazes e anúncios fossem amplamente difundidos implorando a Edwin Drood, se por qualquer razão desconhecida ele se tivesse retirado do lar e da sociedade do seu tio, que tivesse pena do profundo pesar e aflição daquele parente amoroso, e que de alguma forma o informasse de que ainda estava vivo. O Sr. Sapsea foi perfeitamente entendido, pois este era exatamente o seu significado (embora não tivesse dito nada sobre isso); e foram tomadas medidas imediatamente para todos estes fins.
Seria difícil determinar quem estava mais oprimido pelo horror e pelo espanto: Neville Landless ou John Jasper. Mas, não fosse o facto de a posição de Jasper o forçar a ser ativo, enquanto a de Neville o forçava a ser passivo, não haveria nada a escolher entre eles. Ambos estavam curvados e destroçados.
Com a primeira luz da manhã seguinte, homens estavam a trabalhar no rio, e outros homens — a maioria dos quais voluntários para o serviço — examinavam as margens. Durante todo o longo dia a busca continuou; sobre o rio, com barcaça e vara, e draga e rede; sobre a margem lamacenta e pantanosa, com botas de cano alto, machado, pá, corda, cães e todos os utensílios imagináveis. Mesmo à noite, o rio estava salpicado de lanternas e lúgubre com fogueiras; enseadas distantes, nas quais a maré entrava à medida que mudava, tinham os seus grupos de vigias, ouvindo o bater da corrente e procurando qualquer carga que esta pudesse trazer; caminhos remotos de cascalho perto do mar e pontos solitários onde havia uma correnteza de água tinham os seus archotes acesos e figuras de casaco grosso quando o dia seguinte amanheceu; mas nenhum vestígio de Edwin Drood voltou a ver a luz do sol.
Durante todo aquele dia, novamente, a busca continuou. Agora, em barcaça e barco; e agora em terra firme entre os salgueiros, ou caminhando através de lama, estacas e pedras irregulares em lugares baixos, onde marcas de água solitárias e sinais de formas estranhas se mostravam como espectros, John Jasper trabalhou e esforçou-se. Mas sem sucesso; pois ainda nenhum vestígio de Edwin Drood voltou a ver a luz do sol.
Preparando as suas vigílias para aquela noite novamente, para que olhos vigilantes fossem mantidos sobre cada mudança de maré, ele foi para casa exausto. Desleixado e desordenado, sujo de lama que tinha secado sobre si, e com grande parte da sua roupa reduzida a trapos, ele mal se tinha deixado cair na sua poltrona quando o Sr. Grewgious se colocou diante dele.
“Esta é uma notícia estranha”, disse o Sr. Grewgious.
“Notícia estranha e terrível.”
Jasper tinha apenas levantado os seus olhos pesados para o dizer, e agora baixou-os novamente enquanto se inclinava, exausto, sobre um lado da sua poltrona.
O Sr. Grewgious alisou a cabeça e o rosto, e ficou a olhar para o fogo.
“Como está a sua pupila?”, perguntou Jasper, após algum tempo, com uma voz fraca e fatigada.
“Pobre coitada! Pode imaginar a condição dela.”
“Viu a irmã dele?”, inquiriu Jasper, como antes.
“De quem?”
A brusquidão da contrapergunta, e a maneira fria e lenta com que, ao fazê-la, o Sr. Grewgious moveu os olhos do fogo para o rosto do seu companheiro, poderia em qualquer outro momento ter sido exasperante. Na sua depressão e exaustão, Jasper limitou-se a abrir os olhos para dizer: “Do jovem suspeito.”
“Suspeita dele?”, perguntou o Sr. Grewgious.
“Não sei o que pensar. Não consigo decidir-me.”
“Nem eu”, disse o Sr. Grewgious. “Mas como falou dele como o jovem suspeito, pensei que se tivesse decidido. — Acabo de deixar a Srta. Landless.”
“Qual é o seu estado?”
“Desafio a toda a suspeita, e fé ilimitada no irmão.”
“Pobre coitada!”
“Contudo”, prosseguiu o Sr. Grewgious, “não é dela que vim falar. É da minha pupila. Tenho uma comunicação a fazer que o surpreenderá. Pelo menos, surpreendeu-me.”
Jasper, com um suspiro profundo, virou-se cansado na sua cadeira.
“Devo adiar para amanhã?”, disse o Sr. Grewgious. “Note, eu aviso-o, que penso que o surpreenderá!”
Mais atenção e concentração vieram aos olhos de John Jasper quando avistaram o Sr. Grewgious a alisar a cabeça novamente, e novamente a olhar para o fogo; mas agora, com uma boca comprimida e determinada.
“O que é?”, exigiu Jasper, endireitando-se na cadeira.
“Com certeza”, disse o Sr. Grewgious, de forma provocadoramente lenta e interna, enquanto mantinha os olhos no fogo: “eu poderia tê-lo sabido mais cedo; ela deu-me a abertura; mas sou um homem excessivamente angular, que nunca me ocorreu; tomei tudo como garantido.”
“O que é?”, exigiu Jasper mais uma vez.
O Sr. Grewgious, alternadamente abrindo e fechando as palmas das mãos enquanto as aquecia ao fogo, e olhando fixamente para ele de lado, e nunca mudando nem a sua ação nem o seu olhar em tudo o que se seguiu, continuou a responder.
“Este jovem casal, o jovem perdido e a Srta. Rosa, a minha pupila, embora tão longamente noivos, e tão longamente reconhecendo o seu noivado, e tão perto de casar—”
O Sr. Grewgious viu um rosto branco, a olhar fixamente, e dois lábios brancos trêmulos, na poltrona, e viu duas mãos lamacentas a agarrar os seus lados. Não fossem as mãos, poderia ter pensado que nunca tinha visto o rosto.
“—Este jovem casal chegou gradualmente à descoberta (feita de ambos os lados de forma bastante igual, creio eu), de que seriam mais felizes e melhores, tanto nas suas vidas presentes como nas futuras, como amigos afetuosos, ou digamos antes como irmão e irmã, do que como marido e mulher.”
O Sr. Grewgious viu um rosto cor de chumbo na poltrona, e na sua superfície gotas ou bolhas horríveis, como se fossem de aço.
“Este jovem casal formou finalmente a resolução saudável de trocar as suas descobertas, aberta, sensata e ternamente. Encontraram-se para esse propósito. Após alguma conversa inocente e generosa, concordaram em dissolver as suas relações existentes, e as pretendidas, para todo o sempre.”
O Sr. Grewgious viu uma figura horrível levantar-se, de boca aberta, da poltrona, e levantar as suas mãos espalmadas em direção à cabeça.
“Um deste jovem casal, e esse o seu sobrinho, receoso, contudo, de que na ternura da sua afeição por ele ficasse amargamente desapontado com um afastamento tão grande da sua vida projetada, absteve-se de lhe contar o segredo, por alguns dias, e deixou-o para ser revelado por mim, quando eu viesse cá falar consigo, e ele já tivesse ido embora. Falo consigo, e ele já foi.”
O Sr. Grewgious viu a figura horrível atirar a cabeça para trás, agarrar o cabelo com as mãos, e virar-se com uma ação de contorção para longe dele.
“Já disse tudo o que tinha a dizer: exceto que este jovem casal separou-se, firmemente, embora não sem lágrimas e tristeza, na noite em que os viu juntos pela última vez.”
O Sr. Grewgious ouviu um grito terrível, e não viu nenhuma figura horrível, sentada ou de pé; não viu nada além de um monte de roupas rasgadas e enlameadas no chão.
Não mudando a sua ação nem mesmo então, ele abriu e fechou as palmas das mãos enquanto as aquecia, e olhou para baixo.
CAPÍTULO XVI. DEVOTADO
Quando John Jasper recuperou do seu ataque ou desmaio, encontrou-se a ser cuidado pelo Sr. e pela Sra. Tope, a quem o seu visitante tinha convocado para o propósito. O seu visitante, de aspeto de madeira, sentava-se rigidamente numa cadeira, com as mãos sobre os joelhos, observando a sua recuperação.
“Pronto! O senhor já voltou a si”, disse a lacrimosa Sra. Tope; “estava completamente exausto, e não é de admirar!”
“Um homem”, disse o Sr. Grewgious, com o seu ar habitual de repetir uma lição, “não pode ter o seu descanso interrompido, e a sua mente cruelmente atormentada, e o seu corpo sobrecarregado pela fadiga, sem ficar completamente exausto.”
“Receio tê-lo alarmado?”, desculpou-se Jasper fracamente, quando foi ajudado para a sua poltrona.
“De modo algum, obrigado”, respondeu o Sr. Grewgious.
“É demasiado atencioso.”
“De modo algum, obrigado”, respondeu o Sr. Grewgious novamente.
“O senhor deve tomar um pouco de vinho, senhor”, disse a Sra. Tope, “e a geleia que eu tinha pronta para o senhor, e que o senhor não quis levar aos lábios ao meio-dia, embora eu o tenha avisado do que resultaria disso, sabe, e o senhor sem ter tomado pequeno-almoço; e deve comer uma asa da ave assada que foi guardada vinte vezes se foi guardada uma. Estará tudo na mesa em cinco minutos, e este bom cavalheiro talvez fique e veja o senhor a comer.”
Este bom cavalheiro respondeu com um bufo, que poderia significar sim, ou não, ou qualquer coisa ou nada, e que a Sra. Tope teria achado altamente mistificador, não fosse a sua atenção estar dividida pelo serviço da mesa.
“Vai tomar alguma coisa comigo?”, disse Jasper, enquanto a toalha era posta.
“Não conseguiria passar um bocado pela garganta, obrigado”, respondeu o Sr. Grewgious.
Jasper comeu e bebeu quase vorazmente. Combinada com a pressa na sua forma de o fazer, estava uma indiferença evidente ao sabor do que consumia, sugerindo que ele comia e bebia para se fortalecer contra qualquer outra falha de ânimo, muito mais do que para satisfazer o seu paladar. O Sr. Grewgious, entretanto, sentava-se ereto, sem expressão no rosto, e uma espécie de protesto educado, duro e imperturbável por toda a sua pessoa: como se ele tivesse dito, em resposta a algum convite para conversar; “Não conseguiria originar o mais ténue vislumbre de uma observação sobre qualquer assunto, obrigado.”
“Sabe”, disse Jasper, quando empurrou o seu prato e copo, e se sentou a meditar por alguns minutos: “sabe que encontro algumas migalhas de conforto na comunicação com a qual me surpreendeu tanto?”
“Encontra?”, retorquiu o Sr. Grewgious, acrescentando de forma bastante clara a cláusula não dita: “Eu não, obrigado!”
“Após recuperar do choque de uma notícia do meu querido rapaz, tão inesperada, e tão destrutiva de todos os castelos que construí para ele; e após ter tido tempo para pensar nela; sim.”
“Ficarei contente por apanhar as suas migalhas”, disse o Sr. Grewgious, secamente.
“Não há, ou há — se me engano, diga-mo, e encurte a minha dor — não há, ou há, esperança de que, encontrando-se nesta nova posição, e tornando-se sensivelmente vivo ao incómodo fardo da explicação, nesta direção, naquela e na outra, com o qual isso o sobrecarregaria, ele evitou o incómodo e fugiu?”
“Tal coisa poderia ser”, disse o Sr. Grewgious, ponderando.
“Tal coisa aconteceu. Li casos em que pessoas, em vez de enfrentar uma maravilha de sete dias, e ter de se explicar aos ociosos e impertinentes, partiram e ficaram muito tempo sem dar notícias.”
“Creio que tais coisas aconteceram”, disse o Sr. Grewgious, ponderando ainda.
“Quando eu não tinha, e não podia ter, nenhuma suspeita”, prosseguiu Jasper, seguindo avidamente o novo rasto, “de que o querido rapaz perdido tivesse ocultado algo de mim — acima de tudo, um assunto tão importante como este — que raio de luz havia para mim em todo o céu negro? Quando supus que a sua pretendida esposa estava aqui, e o seu casamento próximo, como poderia eu entreter a possibilidade de ele deixar voluntariamente este lugar, de uma maneira que seria tão inexplicável, caprichosa e cruel? Mas agora que sei o que me contou, não há uma pequena fresta através da qual a luz do dia penetra? Supondo que ele desapareceu por vontade própria, não é o seu desaparecimento mais explicável e menos cruel? O facto de ele ter acabado de se separar da sua pupila, é em si mesmo uma espécie de razão para ele ir embora. Não torna a sua misteriosa partida menos cruel para mim, é verdade; mas alivia-a da crueldade para com ela.”
O Sr. Grewgious não pôde deixar de concordar com isto.
“E mesmo quanto a mim”, continuou Jasper, ainda a seguir o novo rasto, com ardor, e, ao fazê-lo, iluminando-se com esperança: “ele sabia que o senhor vinha ter comigo; ele sabia que o senhor estava encarregado de me contar o que me contou; se o seu fazê-lo despertou um novo caminho de pensamento na minha mente perplexa, segue-se logicamente que, das mesmas premissas, ele poderia ter previsto as inferências que eu retiraria. Conceda que ele as previu; e até a crueldade para comigo — e quem sou eu! — John Jasper, Mestre de Música, desaparece!”—
Mais uma vez, o Sr. Grewgious não pôde deixar de concordar com isto.
“Tive as minhas desconfianças, e terríveis têm sido”, disse Jasper; “mas a sua revelação, esmagadora como foi no início — mostrando-me que o meu próprio querido rapaz tinha tido uma grande reserva dececionante para comigo, que o amava tão ternamente, acende a esperança dentro de mim. O senhor não a apaga quando a exponho, mas admite que é uma esperança razoável. Começo a acreditar ser possível”: aqui ele juntou as mãos: “que ele pode ter desaparecido do nosso meio por vontade própria, e que pode ainda estar vivo e bem.”
O Sr. Crisparkle entrou naquele momento. A quem o Sr. Jasper repetiu:
“Começo a acreditar ser possível que ele possa ter desaparecido por vontade própria, e possa ainda estar vivo e bem.”
O Sr. Crisparkle, tomando assento e indagando: “Por que razão?”, o Sr. Jasper repetiu os argumentos que tinha acabado de expor. Se tivessem sido menos plausíveis do que eram, a mente do bom Cónego Menor teria estado num estado de preparação para os receber, como exculpatórios do seu infeliz aluno. Mas ele, também, atribuía realmente grande importância ao facto de o jovem perdido ter sido, tão imediatamente antes do seu desaparecimento, colocado numa nova e embaraçosa relação para com todos os que conheciam os seus projetos e assuntos; e o facto parecia-lhe apresentar a questão sob uma nova luz.
“Afirmei ao Sr. Sapsea, quando o esperávamos”, disse Jasper: como realmente tinha feito: “que não houve discussão ou diferença entre os dois jovens no seu último encontro. Todos sabemos que o seu primeiro encontro foi infelizmente muito longe de ser amigável; mas tudo correu suavemente e calmamente quando estiveram juntos pela última vez em minha casa. O meu querido rapaz não estava com o seu ânimo habitual; estava deprimido — notei isso — e sou obrigado daqui em diante a refletir mais sobre o facto, agora que sei que havia uma razão especial para ele estar deprimido: uma razão, aliás, que pode possivelmente tê-lo induzido a ausentar-se.”
“Rezo ao Céu para que tudo acabe assim!”, exclamou o Sr. Crisparkle.
“Rezo ao Céu para que tudo acabe assim!”, repetiu Jasper. “O senhor sabe — e o Sr. Grewgious deve agora saber igualmente — que criei um grande preconceito contra o Sr. Neville Landless, resultante da sua conduta furiosa naquela primeira ocasião. O senhor sabe que fui ter consigo, extremamente apreensivo, em nome do meu querido rapaz, devido à sua violência louca. O senhor sabe que até escrevi no meu Diário, e mostrei-lhe a entrada, que tinha presságios sombrios contra ele. O Sr. Grewgious deve estar na posse de todo o caso. Ele não deverá, através de qualquer supressão minha, ser informado de uma parte dele, e mantido na ignorância de outra parte. Desejo que ele tenha a bondade de entender que a comunicação que me fez influenciou esperançosamente a minha mente, apesar de ter estado, antes de este misterioso acontecimento ocorrer, profundamente impressionado contra o jovem Landless.”
Esta justiça perturbou muito o Cónego Menor. Ele sentiu que não era tão aberto no seu próprio procedimento. Acusou-se reprovadoramente por ter suprimido, até agora, os dois pontos de um segundo forte surto de temperamento contra Edwin Drood por parte de Neville, e da paixão de ciúme ter, segundo o seu próprio conhecimento, flamejado no peito de Neville contra ele. Ele estava convencido da inocência de Neville em qualquer parte no feio desaparecimento; e ainda assim tantas pequenas circunstâncias combinavam-se tão lamentavelmente contra ele, que temia adicionar mais duas ao seu peso acumulado. Ele era um dos homens mais verdadeiros; mas tinha estado a balançar na sua mente, muito para seu sofrimento, se o seu voluntariado para contar estes dois fragmentos de verdade, neste momento, não seria equivalente a uma montagem de falsidade no lugar da verdade.
Contudo, aqui estava um modelo diante dele. Ele não hesitou mais. Dirigindo-se ao Sr. Grewgious, como alguém colocado em autoridade pela revelação que tinha trazido para a luz sobre o mistério (e o Sr. Grewgious tornou-se surpreendentemente angular quando se viu nessa posição inesperada), o Sr. Crisparkle deu o seu testemunho do estrito sentido de justiça do Sr. Jasper, e, expressando a sua confiança absoluta na completa limpeza do seu aluno da menor mancha de suspeita, mais cedo ou mais tarde, confessou que a sua confiança naquele jovem cavalheiro tinha sido formada, apesar do seu conhecimento confidencial de que o seu temperamento era dos mais quentes e ferozes, e que estava diretamente irritado contra o sobrinho do Sr. Jasper, pela circunstância de ele se supor romanticamente apaixonado pela mesma jovem. A reação sanguínea manifesta no Sr. Jasper foi à prova até desta declaração inesperada. Tornou-o mais pálido; mas ele repetiu que se agarraria à esperança que tinha derivado do Sr. Grewgious; e que se nenhum vestígio do seu querido rapaz fosse encontrado, conduzindo à terrível inferência de que tinha sido eliminado, ele acalentaria até ao último limite da possibilidade a ideia de que ele poderia ter fugido por vontade própria.
Ora, aconteceu que o Sr. Crisparkle, saindo desta conferência ainda muito inquieto na sua mente, e muito preocupado em nome do jovem a quem mantinha como uma espécie de prisioneiro na sua própria casa, fez uma memorável caminhada noturna.
Ele caminhou até à Barragem de Cloisterham.
Ele fazia isso frequentemente, e consequentemente não havia nada de notável nos seus passos tenderem para aquele caminho. Mas a preocupação da sua mente impedia-o tanto de planear qualquer caminhada, ou de prestar atenção aos objetos por onde passava, que a sua primeira consciência de estar perto da Barragem foi derivada do som da água a cair perto.
“Como vim eu aqui!”, foi o seu primeiro pensamento, enquanto parava.
“Por que vim eu aqui!”, foi o seu segundo.
Então, ele ficou a ouvir atentamente a água. Uma passagem familiar na sua leitura, sobre línguas etéreas que soletram os nomes dos homens, surgiu tão espontaneamente ao seu ouvido que ele afastou-a com a mão, como se fosse tangível.
Era o brilho das estrelas. A Barragem ficava a dois quilómetros acima do local para onde os jovens se tinham retirado para observar a tempestade. Nenhuma busca tinha sido feita aqui em cima, pois a maré tinha estado a correr fortemente para baixo, àquela hora da noite da Véspera de Natal, e os lugares mais prováveis para a descoberta de um corpo, se um acidente fatal tivesse acontecido sob tais circunstâncias, situavam-se todos — tanto quando a maré vazava, como quando subia novamente — entre aquele local e o mar. A água passava sobre a Barragem, com o seu som habitual numa noite fria de luar, e pouco se podia ver dela; contudo, o Sr. Crisparkle tinha uma estranha ideia de que algo de invulgar pairava sobre o lugar.
Ele argumentou consigo mesmo: O que era? Onde estava? Ponha-o à prova. A que sentido se dirigia?
Nenhum sentido reportava algo de invulgar ali. Ele ouviu novamente, e o seu sentido de audição verificou novamente a água a passar sobre a Barragem, com o seu som habitual numa noite fria de luar.
Sabendo muito bem que o mistério com que a sua mente estava ocupada poderia, por si só, dar ao lugar este ar assombrado, ele esforçou aqueles seus olhos de falcão para a correção da sua visão. Ele aproximou-se da Barragem e espreitou os seus conhecidos postes e madeiras. Nada de minimamente invulgar foi remotamente vislumbrado. Mas resolveu que voltaria cedo pela manhã.
A Barragem passou pelo seu sono interrompido, durante toda a noite, e ele estava de volta ao nascer do sol. Era uma manhã brilhante e geada. Toda a composição diante dele, quando ele se encontrava onde tinha estado na noite passada, era claramente discernível nos seus mínimos detalhes. Ele tinha examinado tudo de perto durante alguns minutos, e estava prestes a retirar os olhos, quando estes foram atraídos intensamente para um ponto.
Ele deu as costas à Barragem e olhou para longe, para o céu e para a terra, e depois voltou a olhar para aquele único ponto. O seu olhar prendeu-se nele novamente, de imediato, e ele concentrou a sua visão naquilo. Já não o podia perder, embora fosse apenas uma partícula na paisagem. Aquilo fascinava a sua visão. As suas mãos começaram a despir o casaco. Pois ocorreu-lhe que naquele ponto — um canto da Barragem — algo brilhava, que não se movia nem vinha com as gotas de água cintilantes, mas permanecia imóvel.
Ele certificou-se disso, despiu a roupa, mergulhou na água gelada e nadou para o local. Trepando pelas madeiras, retirou delas, preso entre os seus interstícios pela corrente, um relógio de ouro, ostentando gravado nas costas E. D.
Levou o relógio para a margem, nadou novamente até à Barragem, subiu-a e mergulhou. Conhecia cada buraco e recanto de todas as profundezas, e mergulhou e mergulhou e mergulhou, até não conseguir suportar mais o frio. A sua ideia era que encontraria o corpo; apenas encontrou um alfinete de camisa preso em alguma lama e lodo.
Com estas descobertas, regressou a Cloisterham e, levando Neville Landless consigo, foi direto ao Presidente da Câmara. O Sr. Jasper foi chamado, o relógio e o alfinete de camisa foram identificados, Neville foi detido, e o mais selvagem frenesim e fatuidade de má fama levantou-se contra ele. Ele era daquela natureza vingativa e violenta que, não fosse pela sua pobre irmã, que era a única que tinha influência sobre ele e de cuja vista ele nunca podia ser confiado, estaria na prática diária de homicídio. Antes de vir para Inglaterra, tinha mandado açoitar até à morte vários "Nativos" — pessoas nómadas, acampando ora na Ásia, ora em África, ora nas Índias Ocidentais, e ora no Polo Norte — vagamente supostos em Cloisterham como sendo sempre negros, sempre de grande virtude, sempre chamando a si mesmos de "Eu", e a todos os outros de "Massa" ou "Missie" (consoante o sexo), e lendo sempre tratados dos significados mais obscuros, num inglês quebrado, mas compreendendo-os sempre com precisão na mais pura língua materna. Ele quase levou os cabelos brancos da Sra. Crisparkle com tristeza à sepultura. (Essas expressões originais eram do Sr. Sapsea.) Ele tinha dito repetidamente que tiraria a vida ao Sr. Crisparkle. Tinha dito repetidamente que tiraria a vida a toda a gente, e tornar-se-ia, na verdade, o último homem. Ele tinha sido trazido para Cloisterham, de Londres, por um eminente Filantropo, e porquê? Porque esse Filantropo tinha declarado expressamente: "Devo aos meus semelhantes que ele deva estar, nas palavras de BENTHAM, onde ele é a causa do maior perigo para o menor número."
Estes tiros dispersos das bacamartes de cabeças-duras poderiam não tê-lo atingido num lugar vital. Mas ele teve de enfrentar também um fogo treinado e bem direcionado de armas de precisão. Ele tinha ameaçado notoriamente o jovem desaparecido e tinha, segundo a exposição do seu próprio amigo fiel e tutor que tanto se esforçou por ele, uma causa de amarga animosidade (criada por ele próprio, e declarada por ele próprio) contra aquele infeliz companheiro. Ele tinha-se armado com uma arma ofensiva para a noite fatal, e tinha saído cedo de manhã, após fazer preparativos para a partida. Ele tinha sido encontrado com vestígios de sangue nele; verdadeiramente, poderiam ter sido totalmente causados como ele representou, mas também poderiam não ter sido. Num mandado de busca emitido para o exame do seu quarto, roupas e assim por diante, descobriu-se que ele tinha destruído todos os seus papéis e reorganizado todos os seus bens, na própria tarde do desaparecimento. O relógio encontrado na Barragem foi contestado pelo joalheiro como um que ele tinha dado corda e acertado para Edwin Drood, às vinte minutos depois das duas naquela mesma tarde; e ele tinha parado, antes de ser atirado para a água; e era a opinião positiva do joalheiro que ele nunca tinha sido voltado a dar corda. Isto justificaria a hipótese de que o relógio lhe foi tirado não muito tempo depois de ele ter deixado a casa do Sr. Jasper à meia-noite, na companhia da última pessoa vista com ele, e que tinha sido deitado fora depois de ter sido retido algumas horas. Porquê deitado fora? Se ele tivesse sido assassinado, e tão astuciosamente desfigurado, ou escondido, ou ambos, de modo a que o assassino esperasse que a identificação fosse impossível, exceto por algo que ele usasse, certamente o assassino procuraria remover do corpo as coisas mais duradouras, as mais conhecidas e as mais facilmente reconhecíveis que nele se encontravam. Essas coisas seriam o relógio e o alfinete de camisa. Quanto às suas oportunidades de os lançar ao rio; se ele fosse o objeto destas suspeitas, eram fáceis. Pois, ele tinha sido visto por muitas pessoas, a vaguear por aquele lado da cidade — na verdade, por todos os lados dela — de uma maneira miserável e aparentemente meio distraída. Quanto à escolha do local, obviamente tal prova incriminatória preferia correr o risco de ser encontrada em qualquer lugar, em vez de sobre ele, ou na sua posse. Relativamente à natureza reconciliadora do encontro marcado entre os dois jovens, muito pouco se podia fazer disso a favor do jovem Landless; pois apareceu distintamente que o encontro não teve origem nele, mas no Sr. Crisparkle, e que tinha sido insistido pelo Sr. Crisparkle; e quem poderia dizer quão contrariado, ou em que estado de espírito mal-humorado, o seu aluno forçado tinha ido a ele? Quanto mais o seu caso era examinado, mais fraco se tornava em todos os pontos. Até a larga sugestão de que o jovem perdido tinha fugido era tornada adicionalmente improvável pela exposição da jovem de quem ele se tinha separado tão recentemente; pois; o que disse ela, com grande seriedade e tristeza, quando interrogada? Que ele tinha, expressamente e entusiasticamente, planeado com ela, que ele aguardaria a chegada do seu guardião, o Sr. Grewgious. E, contudo, note-se, ele desapareceu antes que aquele cavalheiro aparecesse.
Sobre as suspeitas assim instadas e apoiadas, Neville foi detido, e re-detido, e a busca foi pressionada de todos os lados, e Jasper trabalhou noite e dia. Mas nada mais foi encontrado. Não sendo feita nenhuma descoberta que provasse que o homem perdido estava morto, tornou-se finalmente necessário libertar a pessoa suspeita de ter dado cabo dele. Neville foi posto em liberdade. Então, uma consequência seguiu-se que o Sr. Crisparkle tinha previsto demasiado bem. Neville devia deixar o lugar, pois o lugar evitava-o e expulsava-o. Mesmo que não fosse assim, a querida velha pastora de porcelana ter-se-ia preocupado até à morte com medos pelo seu filho, e com a trepidação geral causada por terem tal inquilino. Mesmo que isso não fosse assim, a autoridade à qual o Cónego Menor se submetia oficialmente, teria resolvido o ponto.
"Sr. Crisparkle," disse o Deão, "a justiça humana pode errar, mas deve agir de acordo com as suas luzes. Os dias de procurar santuário já lá vão. Este jovem não deve procurar santuário connosco."
"Quer dizer que ele deve deixar a minha casa, senhor?"
"Sr. Crisparkle," respondeu o prudente Deão, "não reclamo autoridade na sua casa. Apenas confiro consigo, sobre a dolorosa necessidade em que se encontra, de privar este jovem das grandes vantagens do seu conselho e instrução."
"É muito lamentável, senhor," representou o Sr. Crisparkle.
"Muito mesmo," assentiu o Deão.
"E se for uma necessidade —" vacilou o Sr. Crisparkle.
"Como infelizmente descobre que é," respondeu o Deão.
O Sr. Crisparkle inclinou-se submissamente: "É difícil prejulgar o seu caso, senhor, mas estou ciente de que —"
"Exatamente. Perfeitamente. Como diz, Sr. Crisparkle," interpôs o Deão, acenando com a cabeça suavemente, "não há mais nada a fazer. Sem dúvida, sem dúvida. Não há alternativa, como o seu bom senso descobriu."
"Estou inteiramente convencido da sua perfeita inocência, senhor, não obstante."
"Be-e-em!" disse o Deão, num tom mais confidencial, e olhando ligeiramente à sua volta, "eu não diria isso, geralmente. Não geralmente. Suficiente suspeita se lhe liga para — não, penso que não diria isso, geralmente."
O Sr. Crisparkle inclinou-se de novo.
"Não nos convém, talvez," continuou o Deão, "sermos partidários. Não partidários. Nós, clérigos, mantemos os nossos corações quentes e as nossas cabeças frias, e mantemos um caminho intermédio judicioso."
"Espero que não se oponha, senhor, a que eu tenha declarado em público, enfaticamente, que ele reaparecerá aqui, sempre que qualquer nova suspeita possa ser despertada, ou qualquer nova circunstância possa vir à luz nesta extraordinária matéria?"
"De modo algum," respondeu o Deão. "E, contudo, sabe, não penso," com uma ênfase muito precisa e limpa nessas duas palavras: "não penso que o declararia enfaticamente. Declarar? Si-i-im! Mas enfaticamente? Nã-ã-o. Penso que não. De facto, Sr. Crisparkle, mantendo os nossos corações quentes e as nossas cabeças frias, nós, clérigos, não precisamos de fazer nada enfaticamente."
Assim, o Cónego Menor Row já não conhecia mais Neville Landless; e ele foi para onde quer que quisesse, ou pudesse, com uma nódoa no seu nome e fama.
Não foi até então que John Jasper silenciosamente retomou o seu lugar no coro. Abatido e de olhos vermelhos, as suas esperanças tinham-no claramente abandonado, o seu estado de espírito sanguíneo tinha desaparecido, e todos os seus piores receios tinham voltado. Um dia ou dois depois, enquanto se despia, tirou o seu Diário de um bolso do casaco, virou as páginas e, com um olhar impressionante, e sem uma única palavra falada, entregou esta entrada ao Sr. Crisparkle para ler:
"O meu querido rapaz foi assassinado. A descoberta do relógio e do alfinete de camisa convence-me de que ele foi assassinado naquela noite, e que a sua joalharia lhe foi tirada para evitar a identificação por esses meios. Todas as esperanças ilusórias que eu tinha fundado na sua separação da sua noiva, eu dou aos ventos. Elas perecem perante esta descoberta fatal. Eu agora juro, e registo o juramento nesta página, que nunca mais discutirei este mistério com qualquer criatura humana até que segure a pista dele na minha mão. Que nunca relaxarei no meu segredo ou na minha busca. Que prenderei o crime do homicídio do meu querido rapaz morto ao assassino. E, que me dedico à sua destruição."
CAPÍTULO XVII. FILANTROPIA, PROFISSIONAL E NÃO PROFISSIONAL
Já tinha passado metade de um ano, e o Sr. Crisparkle estava sentado numa sala de espera nos escritórios principais de Londres do Refúgio da Filantropia, até que pudesse ter audiência com o Sr. Honeythunder.
Nos seus tempos de faculdade de exercícios atléticos, o Sr. Crisparkle tinha conhecido professores da Nobre Arte do pugilismo, e tinha assistido a dois ou três dos seus encontros com luvas. Ele tinha agora uma oportunidade de observar que, quanto à formação frenológica da parte de trás das suas cabeças, os Filantropos Profissionais eram incomumente parecidos com os Pugilistas. No desenvolvimento de todos aqueles órgãos que constituem, ou acompanham, uma propensão para "atacar" os seus semelhantes, os Filantropos eram notavelmente favorecidos. Havia vários Professores a entrar e a sair, com exatamente o ar agressivo de estarem prontos para uma contenda com qualquer Novato que pudesse estar à mão, que o Sr. Crisparkle bem se lembrava nos círculos da "Fancy". Preparativos estavam em curso para uma pequena Luta moral algures no circuito rural, e outros Professores estavam a apoiar este ou aquele Peso-Pesado como bom para tais ou tais golpes de oratória, tão ao jeito dos taberneiros desportivos, que as Resoluções pretendidas poderiam ter sido Rondas. Num gestor oficial destas exibições muito célebre pelas suas táticas de palanque, o Sr. Crisparkle reconheceu (num fato preto) a contraparte de um falecido benfeitor da sua espécie, uma eminente figura pública, outrora conhecida pela fama como Frosty-faced Fogo, que nos tempos de antanho supervisionava a formação do círculo mágico com as cordas e estacas. Havia apenas três condições de semelhança em falta entre estes Professores e aqueles. Primeiro, os Filantropos estavam em muito má forma: demasiado carnudos, e apresentando, tanto na cara como na figura, uma superabundância do que é conhecido pelos Peritos Pugilísticos como Pudim de Sebo. Segundo, os Filantropos não tinham o bom temperamento dos Pugilistas, e usavam linguagem pior. Terceiro, o seu código de luta precisava de muita revisão, pois dava-lhes poder não só para empurrar o seu homem para as cordas, mas para o empurrar para os confins da distração; também para lhe bater quando ele estava em baixo, bater-lhe em qualquer lugar e de qualquer maneira, pontapeá-lo, espezinhá-lo, arranhá-lo e maltratá-lo pelas costas sem piedade. Nestes últimos pormenores, os Professores da Nobre Arte eram muito mais nobres do que os Professores da Filantropia.
O Sr. Crisparkle estava tão completamente perdido em pensamentos sobre estas semelhanças e dissimilaridades, ao mesmo tempo que observava a multidão que ia e vinha, sempre, ao que parecia, em recados de arrebatar antagonisticamente algo de alguém, e nunca dando nada a ninguém, que o seu nome foi chamado antes de ele o ouvir. Ao responder finalmente, foi levado por um Filantropo estipendiário miseravelmente maltrapilho e mal pago (que dificilmente poderia ter feito pior se tivesse entrado ao serviço de um inimigo declarado da raça humana) para a sala do Sr. Honeythunder.
"Senhor," disse o Sr. Honeythunder, com a sua voz tremenda, como um mestre-escola a dar ordens a um rapaz de quem tinha má opinião, "sente-se."
O Sr. Crisparkle sentou-se.
O Sr. Honeythunder, tendo assinado as poucas centenas restantes de alguns milhares de circulares, apelando a um número correspondente de famílias sem meios para aparecerem, pagarem instantaneamente, e serem Filantropos, ou irem para o Diabo, outro Filantropo estipendiário maltrapilho (altamente desinteressado, se sincero) reuniu-as num cesto e foi-se embora com elas.
"Agora, Sr. Crisparkle," disse o Sr. Honeythunder, virando a sua cadeira a meio para ele quando ficaram sós, e cruzando os braços com as mãos nos joelhos, e as sobrancelhas franzidas, como se acrescentasse, vou despachar-me consigo: "Agora, Sr. Crisparkle, nós nutrimos visões diferentes, o senhor e eu, senhor, da santidade da vida humana."
"Nutrimos?" respondeu o Cónego Menor.
"Nutrimos, senhor."
"Poderia perguntar-lhe," disse o Cónego Menor: "quais são as suas visões sobre esse assunto?"
"Que a vida humana é uma coisa que deve ser tida como sagrada, senhor."
"Poderia perguntar-lhe," continuou o Cónego Menor como antes: "quais supõe serem as minhas visões sobre esse assunto?"
"Por Jorge, senhor!" respondeu o Filantropo, cruzando os braços ainda mais, enquanto franzia o sobrolho para o Sr. Crisparkle: "elas são melhor conhecidas por si mesmo."
"Prontamente admitido. Mas começou por dizer que tínhamos visões diferentes, sabe. Portanto (ou não poderia dizê-lo) deve ter estabelecido algumas visões como sendo minhas. Por favor, que visões estabeleceu como sendo minhas?"
"Aqui está um homem — e um jovem," disse o Sr. Honeythunder, como se isso tornasse a matéria infinitamente pior, e ele pudesse ter suportado facilmente a perda de um velho, "varrido da face da terra por um ato de violência. O que chama a isso?"
"Homicídio," disse o Cónego Menor.
"O que chama ao autor desse ato, senhor?"
"Um homicida," disse o Cónego Menor.
"Fico contente por o ouvir admitir tanto, senhor," retorquiu o Sr. Honeythunder, da sua maneira mais ofensiva; "e digo-lhe francamente que não esperava isso." Aqui ele lançou um olhar pesado ao Sr. Crisparkle novamente.
"Seja tão bondoso para explicar o que quer dizer com essas expressões muito injustificáveis."
"Não me sento aqui, senhor," respondeu o Filantropo, elevando a sua voz para um rugido, "para ser intimidado."
"Como a única outra pessoa presente, ninguém pode saber isso melhor do que eu," respondeu o Cónego Menor muito calmamente. "Mas interrompo a sua explicação."
"Homicídio!" prosseguiu o Sr. Honeythunder, numa espécie de devaneio ruidoso, com o seu cruzar de braços de palanque, e o seu aceno de palanque de reflexão abominável após cada pequeno sentimento de uma palavra. "Derramamento de sangue! Abel! Caim! Não faço termos com Caim. Repudio com um estremecimento a mão vermelha quando ela me é oferecida."
Em vez de saltar instantaneamente para a sua cadeira e aplaudir-se até ficar rouco, como a Irmandade reunida em reunião pública teria infalivelmente feito a esta deixa, o Sr. Crisparkle apenas reverteu o cruzar quieto das suas pernas, e disse suavemente: "Não me deixe interromper a sua explicação — quando a começar."
"Os Mandamentos dizem, não matarás. NÃO matarás, senhor!" prosseguiu o Sr. Honeythunder, pausando palancamente como se repreendesse o Sr. Crisparkle por ter distintamente afirmado que diziam: Pode cometer um pequeno homicídio, e depois parar.
"E dizem também, não levantarás falso testemunho," observou o Sr. Crisparkle.
"Basta!" rugiu o Sr. Honeythunder, com uma solenidade e severidade que teria trazido a casa abaixo numa reunião, "Ba—sta! Sendo os meus antigos pupilos agora maiores de idade, e sendo eu libertado de uma confiança que não posso contemplar sem um estremecimento de horror, aqui estão as contas que o senhor se encarregou de aceitar em nome deles, e aqui está uma declaração do saldo que o senhor se encarregou de receber, e que não pode receber demasiado cedo. E deixe-me dizer-lhe, senhor, que desejo que, como homem e como Cónego Menor, estivesse melhor empregado," com um aceno. "Melhor empregado," com outro aceno. "Melhor em—pregado!" com outro e os três acenos somados.
O Sr. Crisparkle levantou-se; um pouco corado na cara, mas com perfeito domínio de si próprio.
"Sr. Honeythunder," disse ele, pegando nos papéis referidos: "o meu estar melhor ou pior empregado do que estou presentemente é uma questão de gosto e opinião. Poderia pensar que eu estaria melhor empregado em inscrever-me como membro da sua Sociedade."
"Sim, na verdade, senhor!" retorquiu o Sr. Honeythunder, abanando a cabeça de uma maneira ameaçadora. "Teria sido melhor para si se tivesse feito isso há muito tempo!"
"Penso de outra forma."
"Ou," disse o Sr. Honeythunder, abanando a cabeça de novo, "eu poderia pensar que alguém da sua profissão estaria melhor empregado em dedicar-se à descoberta e punição da culpa do que em deixar esse dever para ser empreendido por um leigo."
"Posso considerar a minha profissão de um ponto de vista que me ensina que o seu primeiro dever é para com aqueles que estão em necessidade e tribulação, que estão desolados e oprimidos," disse o Sr. Crisparkle. "Contudo, como me convenci bastante claramente de que não é parte da minha profissão fazer profissões, não digo mais nada sobre isso. Mas devo ao Sr. Neville, e à irmã do Sr. Neville (e num grau muito menor a mim mesmo), dizer-lhe que sei que estava na plena posse e compreensão da mente e do coração do Sr. Neville no momento desta ocorrência; e que, sem de modo algum colorir ou esconder o que era de deplorar nele e requeria ser corrigido, sinto-me certo de que a sua história é verdadeira. Sentindo essa certeza, sou seu amigo. Enquanto essa certeza durar, serei seu amigo. E se qualquer consideração me pudesse abalar nesta resolução, sentir-me-ia tão envergonhado de mim mesmo pela minha baixeza, que a boa opinião de nenhum homem — não, nem de nenhuma mulher — assim ganha, me poderia compensar pela perda da minha própria."
Bom companheiro! Homem viril! E ele era tão modesto, também. Não havia mais autoafirmação no Cónego Menor do que no rapaz da escola que tinha estado nos arejados campos de jogo a guardar um wicket. Ele era simples e firmemente fiel ao seu dever, tanto no grande caso como no pequeno. Assim são todas as almas verdadeiras. Assim toda a alma verdadeira sempre foi, sempre é, e sempre será. Não há nada de pequeno para os verdadeiramente grandes de espírito.
"Então quem é que o senhor acha que cometeu o ato?" perguntou o Sr. Honeythunder, voltando-se para ele abruptamente.
"Que o Céu me livre," disse o Sr. Crisparkle, "que no meu desejo de limpar um homem eu devesse levianamente incriminar outro! Não acuso ninguém."
"Tcha!" exclamou o Sr. Honeythunder com grande desgosto; pois este não era de modo algum o princípio em que a Irmandade Filantrópica procedia habitualmente. "E, senhor, o senhor não é uma testemunha desinteressada, devemos ter em mente."
"Como sou eu uma interessada?" inquiriu o Sr. Crisparkle, sorrindo inocentemente, sem conseguir imaginar.
"Havia um certo estipêndio, senhor, pago a si pelo seu aluno, que pode ter distorcido um pouco o seu julgamento," disse o Sr. Honeythunder, grosseiramente.
"Talvez espere retê-lo ainda?" respondeu o Sr. Crisparkle, esclarecido; "quer dizer isso também?"
"Bem, senhor," respondeu o Filantropo profissional, levantando-se e enfiando as mãos nos bolsos das calças, "eu não ando por aí a medir chapéus para as pessoas. Se as pessoas acham que tenho algum por aí que lhes sirva, podem pô-lo e usá-lo, se quiserem. Isso é problema delas: não meu."
O Sr. Crisparkle olhou-o com uma justa indignação, e repreendeu-o assim:
“Sr. Honeythunder, eu esperava, ao entrar aqui, que não houvesse necessidade de comentar a introdução de modos de palanque ou manobras de palanque entre as tolerâncias decentes da vida privada. Mas o senhor deu-me tal amostra de ambos, que eu seria um objeto adequado para ambos se permanecesse em silêncio a respeito deles. São detestáveis.”
“Não lhe servem, ouso dizer, senhor.”
“São,” repetiu o Sr. Crisparkle, sem notar a interrupção, “detestáveis. Violam igualmente a justiça que deveria pertencer aos cristãos e as contenções que deveriam pertencer aos cavalheiros. O senhor assume que um grande crime foi cometido por alguém que eu, conhecedor das circunstâncias concomitantes e tendo inúmeras razões do meu lado, acredito piamente ser inocente. Porque discordo do senhor nesse ponto vital, qual é o seu recurso de palanque? Voltar-se instantaneamente contra mim, acusando-me de não ter senso da enormidade do próprio crime, mas de ser seu cúmplice e fomentador! Assim, noutra ocasião — tomando-me como representante do seu oponente noutros casos — o senhor estabelece uma credulidade de palanque; uma profissão de fé, proposta, secundada e aprovada por unanimidade, em algum delírio ridículo ou imposição maliciosa. Eu recuso-me a acreditar nisso, e o senhor recorre ao seu recurso de palanque de proclamar que eu não acredito em nada; que, porque não me curvo perante um falso Deus feito pelo senhor, nego o verdadeiro Deus! Noutra ocasião, o senhor faz a descoberta de palanque de que a Guerra é uma calamidade, e propõe aboli-la com uma série de resoluções distorcidas atiradas ao ar como a cauda de uma pipa. Não admito que a descoberta seja sua de forma alguma, e não tenho um pingo de fé no seu remédio. Novamente, o seu recurso de palanque de me representar como alguém que se regozija com os horrores de um campo de batalha como um demônio encarnado! Noutra ocasião, noutra das suas arremetidas de palanque indiscriminadas, o senhor puniria o sóbrio pelo ébrio. Reivindico consideração pelo conforto, conveniência e refresco dos sóbrios; e o senhor imediatamente faz a proclamação de palanque de que tenho um desejo depravado de transformar as criaturas do Céu em porcos e bestas selvagens! Em todos esses casos, os seus proponentes, os seus secundadores e os seus apoiantes — os seus Professores regulares de todos os graus, lançam-se como tantos malaios enlouquecidos; atribuindo habitualmente os motivos mais baixos e vis com a maior imprudência (deixe-me chamar a sua atenção para um exemplo recente em si mesmo, pelo qual deveria corar), e citando números que o senhor sabe serem tão propositalmente parciais quanto um extrato de qualquer conta complicada que fosse toda do lado do Credor e nenhum do Devedor, ou toda do lado do Devedor e nenhum do Credor. É por isso, Sr. Honeythunder, que considero o palanque um exemplo suficientemente mau e uma escola suficientemente má, mesmo na vida pública; mas sustento que, levado para a vida privada, torna-se um incômodo insuportável.”
“Essas são palavras fortes, senhor!” exclamou o Filantropo.
“Espero que sim,” disse o Sr. Crisparkle. “Bom dia.”
Ele saiu do Haven a um passo acelerado, mas logo caiu no seu ritmo enérgico habitual, e logo um sorriso surgiu no seu rosto enquanto caminhava, perguntando-se o que a pastora de porcelana teria dito se o tivesse visto a fustigar o Sr. Honeythunder no pequeno e animado caso recente. Pois o Sr. Crisparkle tinha apenas a dose necessária de vaidade inofensiva para esperar que tivesse atingido com força, e para brilhar com a convicção de que tinha aparado a Casaca Filantrópica muito elegantemente.
Dirigiu-se a Staple Inn, mas não a P. J. T. e ao Sr. Grewgious. Subiu muitos degraus rangentes antes de chegar a alguns sótãos num canto, girou a tranca da porta sem ferrolho e ficou parado junto à mesa de Neville Landless.
Uma aura de retiro e solidão pairava sobre os quartos e sobre o seu habitante. Ele estava muito abatido, e assim estavam eles. Os seus tetos inclinados, fechaduras e grades enferrujadas e pesadas, e os pesados caixotes e vigas de madeira, apodrecendo lentamente, tinham um aspeto de prisão, e ele tinha o rosto exausto de um prisioneiro. Contudo, a luz do sol brilhava na feia janela do sótão, que tinha um telheiro só para si, projetado entre as telhas; e no parapeito rachado e enegrecido pelo fumo lá fora, alguns dos pardais iludidos do lugar saltitavam reumaticamente, como pequenos aleijados emplumados que tinham deixado as suas muletas nos ninhos; e havia um jogo de folhas vivas à mão que mudava o ar e produzia uma espécie de música imperfeita que seria melodia no campo.
Os quartos eram escassamente mobiliados, mas com um bom estoque de livros. Tudo expressava a habitação de um estudante pobre. Que o Sr. Crisparkle tinha sido o escolhido, emprestador ou doador dos livros, ou que combinava as três características, poderia ter sido facilmente visto no brilho amigável dos seus olhos ao pousar neles enquanto entrava.
“Como vai isso, Neville?”
“Estou animado, Sr. Crisparkle, e a trabalhar arduamente.”
“Gostaria que os seus olhos não fossem tão grandes e nem tão brilhantes,” disse o Cónego Menor, soltando lentamente a mão que tinha tomado na sua.
“Eles brilham ao vê-lo,” retorquiu Neville. “Se o senhor se afastasse de mim, eles logo estariam bastante baços.”
“Anime-se, anime-se!” exortou o outro, num tom estimulante. “Lute por isso, Neville!”
“Se eu estivesse a morrer, sinto que uma palavra sua me animaria; se o meu pulso tivesse parado, sinto que o seu toque o faria bater de novo,” disse Neville. “Mas animei-me, e estou a ir maravilhosamente.”
O Sr. Crisparkle virou-o com o rosto um pouco mais voltado para a luz.
“Quero ver um tom mais rosado aqui, Neville,” disse ele, indicando a sua própria bochecha saudável como modelo. “Quero mais sol a brilhar sobre si.”
Neville curvou-se subitamente, ao responder em voz baixa: “Ainda não sou robusto o suficiente para isso. Posso tornar-me, mas ainda não consigo suportar. Se o senhor tivesse percorrido aquelas ruas de Cloisterham como eu; se tivesse visto, como eu vi, aqueles olhos desviados, e a melhor espécie de gente silenciosamente a dar-me demasiado espaço para passar, para que eu não os tocasse ou me aproximasse deles, não acharia totalmente irracional que eu não consiga andar à luz do dia.”
“Meu pobre rapaz!” disse o Cónego Menor, num tom tão puramente solidário que o jovem agarrou-lhe a mão, “nunca disse que era irracional; nunca pensei tal coisa. Mas gostaria que o fizesse.”
“E isso dar-me-ia o motivo mais forte para o fazer. Mas ainda não consigo. Não consigo persuadir-me de que os olhos, mesmo da corrente de estranhos por quem passo nesta vasta cidade, olham para mim sem suspeita. Sinto-me marcado e maculado, mesmo quando saio — como faço apenas — à noite. Mas a escuridão cobre-me então, e ganho coragem com ela.”
O Sr. Crisparkle pousou uma mão no seu ombro e ficou a olhar para ele.
“Se eu pudesse ter mudado o meu nome,” disse Neville, “tê-lo-ia feito. Mas, como o senhor apontou sabiamente para mim, não posso fazer isso, pois pareceria culpa. Se eu pudesse ter ido para um lugar distante, poderia ter encontrado alívio nisso, mas a coisa nem deve ser pensada, pelo mesmo motivo. Esconder-se e escapar seria a interpretação em qualquer dos casos. Parece um pouco duro estar tão atado a um poste, sendo inocente; mas não me queixo.”
“E não deve esperar nenhum milagre para o ajudar, Neville,” disse o Sr. Crisparkle, compadecido.
“Não, senhor, eu sei disso. A plenitude comum do tempo e das circunstâncias é tudo com que tenho de contar.”
“Isso irá endireitá-lo, por fim, Neville.”
“Assim acredito, e espero poder viver para saber disso.”
Mas, percebendo que o estado de espírito desanimado em que ele estava a cair lançava uma sombra sobre o Cónego Menor, e (talvez) sentindo que a mão larga no seu ombro não estava então tão firme quanto a sua força natural a tinha tornado quando a tocou pela primeira vez agora, ele iluminou-se e disse:
“Excelentes circunstâncias para estudar, de qualquer forma! E o senhor sabe, Sr. Crisparkle, que necessidade tenho de estudar de todas as formas. Sem mencionar que o senhor me aconselhou a estudar para a difícil profissão do direito, especialmente, e que, claro, me guio pelo conselho de tal amigo e ajudante. Um amigo e ajudante tão bom!”
Ele tirou a mão reconfortante do seu ombro e beijou-a. O Sr. Crisparkle sorriu para os livros, mas não tão brilhantemente como quando entrara.
“Deduzo do seu silêncio sobre o assunto que o meu antigo tutor é contrário, Sr. Crisparkle?”
O Cónego Menor respondeu: “O seu antigo tutor é uma — uma pessoa muito irracional, e não significa nada para qualquer pessoa sensata se ele é contrário, perverso ou o oposto.”
“Bem para mim que tenho o suficiente com economia para viver,” suspirou Neville, meio cansado e meio alegre, “enquanto espero ser erudito, e espero ser endireitado! Senão, poderia ter provado o provérbio: enquanto a erva cresce, o corcel morre!”
Ele abriu alguns livros enquanto o dizia, e logo ficou imerso nas suas passagens intercaladas e anotadas; enquanto o Sr. Crisparkle sentava-se ao seu lado, explicando, corrigindo e aconselhando. Os deveres de Catedral do Cónego Menor tornavam estas suas visitas difíceis de realizar, e apenas possíveis em intervalos de muitas semanas. Mas eram tão úteis quanto preciosas para Neville Landless.
Quando terminaram os estudos que tinham em mãos, ficaram encostados ao parapeito da janela, a olhar para o pedaço de jardim. “Na próxima semana,” disse o Sr. Crisparkle, “deixará de estar sozinho e terá uma companheira dedicada.”
“E ainda assim,” retorquiu Neville, “este parece um lugar pouco congenial para trazer a minha irmã.”
“Não penso assim,” disse o Cónego Menor. “Há dever a ser feito aqui; e há necessidade de sentimento, senso e coragem femininos aqui.”
“Queria dizer,” explicou Neville, “que os arredores são tão monótonos e pouco femininos, e que Helena não pode ter uma amiga ou sociedade adequada aqui.”
“Tem apenas de se lembrar,” disse o Sr. Crisparkle, “que o senhor está aqui, e que ela tem de puxá-lo para a luz do sol.”
Ficaram em silêncio por um pouco, e então o Sr. Crisparkle começou de novo.
“Quando falámos pela primeira vez, Neville, disse-me que a sua irmã tinha surgido das desvantagens das vossas vidas passadas tão superior a si quanto a torre da Catedral de Cloisterham é mais alta que as chaminés de Minor Canon Corner. Lembra-se disso?”
“Muito bem!”
“Eu estava inclinado a achar na época um voo entusiástico. Não importa o que eu pense agora. O que eu gostaria de enfatizar é que, sob o tópico do Orgulho, a sua irmã é um grande e oportuno exemplo para si.”
“Sob todos os tópicos incluídos na composição de um caráter nobre, ela é.”
“Diga isso; mas tome este. A sua irmã aprendeu a governar o que é orgulhoso na sua natureza. Ela pode dominá-lo mesmo quando é ferido através da sua simpatia por si. Sem dúvida, ela sofreu profundamente naquelas mesmas ruas onde o senhor sofreu profundamente. Sem dúvida, a sua vida é obscurecida pela nuvem que obscurece a sua. Mas curvando o seu orgulho para uma grande compostura que não é arrogante ou agressiva, mas é uma confiança sustentada em si e na verdade, ela abriu o seu caminho através daquelas ruas até passar por elas tão elevada no respeito geral quanto qualquer um que as pisa. Todos os dias e horas da sua vida, desde o desaparecimento de Edwin Drood, ela enfrentou a malignidade e a loucura — por si — como apenas uma natureza corajosa bem dirigida pode. Assim será com ela até ao fim. Outra espécie mais fraca de orgulho poderia afundar com o coração partido, mas nunca um orgulho como o dela: que não conhece o recuo e não pode permitir que se obtenha domínio sobre ela.”
A bochecha pálida ao lado dele corou com a comparação e a alusão nela implícita.
“Farei tudo o que puder para imitá-la,” disse Neville.
“Faça isso, e seja um homem verdadeiramente corajoso, como ela é uma mulher verdadeiramente corajosa,” respondeu o Sr. Crisparkle vigorosamente. “Está a anoitecer. Quer vir pelo meu caminho comigo, quando estiver completamente escuro? Cuidado! Não sou eu que espero pela escuridão.”
Neville respondeu que o acompanharia imediatamente. Mas o Sr. Crisparkle disse que tinha uma chamada momentânea para fazer ao Sr. Grewgious como um ato de cortesia, e que correria aos aposentos daquele cavalheiro, e encontraria Neville na sua própria porta, se ele quisesse descer para o encontrar.
O Sr. Grewgious, ereto como de costume, sentava-se a beber o seu vinho no crepúsculo junto à sua janela aberta; o seu copo de vinho e decanter na mesa redonda ao seu cotovelo; ele próprio e as suas pernas no banco da janela; apenas uma dobradiça em todo o seu corpo, como um saca-botas.
“Como está, senhor reverendo?” disse o Sr. Grewgious, com abundantes ofertas de hospitalidade, que foram tão cordialmente recusadas quanto feitas. “E como está o seu pupilo a passar-se ali do outro lado, no conjunto que tive o prazer de recomendar como vago e elegível?”
O Sr. Crisparkle respondeu adequadamente.
“Fico contente que os aprove,” disse o Sr. Grewgious, “porque tenho uma espécie de capricho em tê-lo sob o meu olhar.”
Como o Sr. Grewgious tinha de virar o olhar consideravelmente para cima antes de poder ver os aposentos, a frase devia ser tomada figurativamente e não literalmente.
“E como deixou o Sr. Jasper, senhor reverendo?” disse o Sr. Grewgious.
O Sr. Crisparkle tinha-o deixado bastante bem.
“E onde deixou o Sr. Jasper, senhor reverendo?” O Sr. Crisparkle tinha-o deixado em Cloisterham.
“E quando deixou o Sr. Jasper, senhor reverendo?” Naquela manhã.
“Hum!” disse o Sr. Grewgious. “Ele não disse que vinha, talvez?”
“Vir onde?”
“A qualquer lugar, por exemplo?” disse o Sr. Grewgious.
“Não.”
“Porque ele está aqui,” disse o Sr. Grewgious, que tinha feito todas estas perguntas, com o seu olhar preocupado dirigido para fora da janela. “E ele não parece agradável, parece?”
O Sr. Crisparkle estava a esticar-se em direção à janela, quando o Sr. Grewgious acrescentou:
“Se tiver a gentileza de vir aqui atrás de mim, na penumbra do quarto, e lançar o seu olhar à janela do patamar do segundo andar daquela casa, creio que dificilmente deixará de ver um indivíduo furtivo em quem reconheço o nosso amigo local.”
“O senhor tem razão!” exclamou o Sr. Crisparkle.
“Hum!” disse o Sr. Grewgious. Então acrescentou, virando o rosto tão abruptamente que a sua cabeça quase colidiu com a do Sr. Crisparkle: “o que diria que o nosso amigo local está a tramar?”
A última passagem que lhe tinha sido mostrada no Diário voltou à mente do Sr. Crisparkle com a força de um forte recuo, e ele perguntou ao Sr. Grewgious se achava possível que Neville fosse assediado pela manutenção de uma vigilância sobre ele?
“Uma vigilância?” repetiu o Sr. Grewgious pensativo. “Sim!”
“O que não apenas por si assombraria e torturaria a sua vida,” disse o Sr. Crisparkle calorosamente, “mas o exporia ao tormento de uma suspeita perpetuamente reavivada, o que quer que ele fizesse, ou onde quer que ele fosse.”
“Sim!” disse o Sr. Grewgious ainda pensativo. “Vejo-o à sua espera?”
“Sem dúvida que vê.”
“Então, teria a gentileza de desculpar o facto de eu não me levantar para o acompanhar, e de ir ao encontro dele, e de seguir o caminho que ia seguir, e de não tomar conhecimento do nosso amigo local?” disse o Sr. Grewgious. “Tenho uma espécie de capricho em tê-lo sob o meu olhar esta noite, sabe?”
O Sr. Crisparkle, com um aceno significativo, concordou; e juntando-se a Neville, foi-se embora com ele. Jantaram juntos e separaram-se na estação ferroviária ainda inacabada e subdesenvolvida: o Sr. Crisparkle para ir para casa; Neville para caminhar pelas ruas, atravessar as pontes, fazer uma ampla volta pela cidade na escuridão amigável e cansar-se.
Era meia-noite quando ele regressou da sua expedição solitária e subiu a sua escadaria. A noite estava quente, e as janelas da escadaria estavam todas escancaradas. Ao chegar ao topo, deu-lhe um arrepio momentâneo de surpresa (não havendo quartos além do seu lá em cima) encontrar um estranho sentado no parapeito da janela, mais ao estilo de um vidraceiro aventureiro do que de um amador habitualmente cuidadoso com o seu pescoço; de facto, tão mais fora da janela do que dentro, a ponto de sugerir o pensamento de que ele devia ter subido pelo cano de esgoto em vez das escadas.
O estranho não disse nada até Neville colocar a chave na sua porta; então, parecendo certificar-se da sua identidade pela ação, falou:
“Peço desculpa,” disse ele, vindo da janela com um ar franco e sorridente, e um trato cativante; “os feijões.”
Neville estava totalmente perdido.
“De trepar,” disse o visitante. “Escarlates. Ao lado, nas traseiras.”
“Oh,” retorquiu Neville. “E a resedá e o goivo?”
“O mesmo,” disse o visitante.
“Por favor, entre.”
“Obrigado.”
Neville acendeu as velas, e o visitante sentou-se. Um cavalheiro apanhado, com um rosto jovem, mas com uma figura mais velha na sua robustez e na sua largura de ombros; digamos um homem de vinte e oito anos, ou, no máximo, trinta; tão extremamente queimado do sol que o contraste entre o seu rosto castanho e a testa branca sombreada ao ar livre pelo seu chapéu, e os vislumbres da garganta branca sob o lenço, teria sido quase ridículo não fosse pelas suas têmporas largas, olhos azuis brilhantes, cabelo castanho encaracolado e dentes risonhos.
“Reparei,” disse ele; “— o meu nome é Tartar.”
Neville inclinou a cabeça.
“Reparei (desculpe-me) que se fecha bastante, e que parece gostar do meu jardim lá em cima. Se quisesse um pouco mais dele, eu poderia lançar algumas linhas e escoras entre as minhas janelas e as suas, que os de trepar apanhariam imediatamente. E tenho algumas caixas, tanto de resedá quanto de goivo, que poderia empurrar ao longo da caleira (com um gancho de barco que tenho comigo) até às suas janelas, e puxar de volta quando precisassem de rega ou jardinagem, e empurrar de novo quando estivessem em condições; de modo que não lhe causariam qualquer trabalho. Não poderia tomar esta liberdade sem pedir a sua permissão, por isso atrevo-me a pedi-la. Tartar, conjunto correspondente, ao lado.”
“É muito amável.”
“De modo algum. Devia pedir desculpa por vir tão tarde. Mas tendo reparado (desculpe-me) que geralmente sai à noite, pensei que o incomodaria menos aguardando o seu regresso. Tenho sempre medo de incomodar homens ocupados, sendo eu um homem ocioso.”
“Não teria pensado isso, pela sua aparência.”
“Não? Tomo isso como um elogio. De facto, fui criado na Marinha Real, e era Primeiro Tenente quando a deixei. Mas, um tio desapontado com o serviço, deixando-me a sua propriedade com a condição de que eu deixasse a Marinha, aceitei a fortuna e renunciei à minha comissão.”
“Recentemente, presumo?”
“Bem, tive doze ou quinze anos de andanças primeiro. Vim para cá uns nove meses antes do senhor; tive uma colheita antes de chegar. Escolhi este lugar porque, tendo servido por último numa pequena corveta, sabia que me sentiria mais em casa onde tivesse uma oportunidade constante de bater com a cabeça no teto. Além disso, nunca seria bom para um homem que esteve a bordo de um navio desde a infância tornar-se luxuoso de uma só vez. Além disso, novamente; tendo estado acostumado a uma margem muito curta de terra toda a minha vida, pensei que sentiria o meu caminho para o comando de uma propriedade rural, começando em caixas.”
Por mais caprichosamente que isto fosse dito, havia um toque de alegre seriedade nisso que o tornava duplamente caprichoso.
“Contudo,” disse o Tenente, “falei o suficiente sobre mim. Não é o meu hábito, espero; foi meramente para me apresentar naturalmente. Se me permitir tomar a liberdade que descrevi, será uma caridade, pois dar-me-á algo mais para fazer. E não deve supor que isso implicará qualquer interrupção ou intrusão da sua parte, pois isso está longe da minha intenção.”
Neville respondeu que estava muito agradecido, e que aceitava com gratidão a amável proposta.
“Sinto-me muito satisfeito por assumir as suas janelas sob a minha responsabilidade”, disse o Tenente. “Pelo que tenho visto de si quando estou a tratar do meu jardim e o senhor observa, tenho pensado que (perdoe-me) é demasiado estudioso e delicado. Posso perguntar se a sua saúde foi de algum modo afetada?”
“Sofri algum transtorno mental”, disse Neville, confuso, “que me serviu de substituto para a doença.”
“Perdoe-me”, disse o Sr. Tartar.
Com a maior delicadeza, mudou novamente de assunto para as janelas e perguntou se poderia olhar para uma delas. Quando Neville a abriu, ele saltou imediatamente para fora, como se estivesse a subir ao mastro com toda a guarnição numa emergência, dando um brilhante exemplo.
“Pelo amor de Deus”, gritou Neville, “não faça isso! Onde vai, Sr. Tartar? Vai esborrachar-se!”
“Tudo bem!”, disse o Tenente, olhando calmamente à sua volta no telhado. “Tudo esticado e em ordem aqui. Essas linhas e estais serão aparelhos antes que saia de manhã. Posso tomar este atalho para casa e desejar-lhe boa noite?”
“Sr. Tartar!”, insistiu Neville. “Por favor! Fico tonto só de o ver!”
Mas o Sr. Tartar, com um aceno de mão e a destreza de um gato, já tinha mergulhado pela sua escotilha de feijoeiros-escarlates sem partir uma folha, e “descido para o convés”.
O Sr. Grewgious, com a persiana do seu quarto mantida de lado com a mão, calhou naquele momento ter os aposentos de Neville sob o seu olhar pela última vez naquela noite. Felizmente, o seu olhar estava sobre a frente da casa e não sobre as traseiras, ou esta notável aparição e desaparecimento poderiam ter perturbado o seu descanso como um fenómeno. Mas o Sr. Grewgious, não vendo nada ali, nem sequer uma luz nas janelas, deixou o seu olhar vaguear das janelas para as estrelas, como se nelas pudesse ler algo que lhe estava oculto. Muitos de nós o faríamos, se pudéssemos; mas nenhum de nós conhece sequer as nossas letras nas estrelas ainda — ou parece provável que o faça, neste estado de existência — e poucas línguas podem ser lidas até que os seus alfabetos sejam dominados.
CAPÍTULO XVIII. UM COLONO EM CLOISTERHAM
Por volta desta altura, um estranho apareceu em Cloisterham; uma personagem de cabelos brancos, com sobrancelhas pretas. Estando abotoado num sobretudo azul um tanto apertado, com um colete de cor de camurça e calças cinzentas, tinha um certo ar militar, mas anunciou-se no Crozier (o hotel ortodoxo, onde se instalou com uma mala de mão) como um sujeito ocioso que vivia dos seus rendimentos; e anunciou ainda que tinha a intenção de alugar um alojamento na pitoresca cidade antiga por um mês ou dois, com vista a estabelecer-se ali de vez. Ambos os anúncios foram feitos na sala de café do Crozier, a todos os que pudessem ou não estar interessados, pelo estranho enquanto estava com as costas voltadas para a lareira vazia, à espera do seu linguado frito, costeleta de vitela e uma garrafa de xerez. E o empregado de mesa (sendo o movimento cronicamente fraco no Crozier) representava todos os que podiam ou não estar interessados, e absorveu a informação na totalidade.
A cabeça branca deste cavalheiro era invulgarmente grande, e a sua cabeleira branca era invulgarmente espessa e ampla. “Suponho, empregado”, disse ele, sacudindo a sua cabeleira, como um cão Terra-Nova poderia sacudir a sua antes de se sentar para jantar, “que um alojamento razoável para um tipo solteiro se possa encontrar por estas bandas, eh?”
O empregado não teve dúvidas quanto a isso.
“Algo antigo”, disse o cavalheiro. “Tire o meu chapéu por um momento daquele gancho, quer? Não, não o quero; olhe para dentro dele. O que vê escrito lá?”
O empregado leu: “Datchery.”
“Agora sabe o meu nome”, disse o cavalheiro; “Dick Datchery. Pendure-o novamente. Eu dizia que algo antigo é o que eu preferiria, algo estranho e fora do comum; algo venerável, arquitetónico e inconveniente.”
“Temos uma boa escolha de alojamentos inconvenientes na cidade, senhor, penso eu”, respondeu o empregado, com uma modesta confiança nos seus recursos nesse aspeto; “de facto, não tenho dúvidas de que poderíamos servi-lo nesse ponto, por muito exigente que o senhor pudesse ser. Mas um alojamento arquitetónico!” Isso pareceu perturbar a cabeça do empregado, e ele abanou-a.
“Algo estilo Catedral, talvez”, sugeriu o Sr. Datchery.
“O Sr. Tope”, disse o empregado, iluminando-se enquanto esfregava o queixo com a mão, “seria a pessoa mais indicada para informar nesse aspeto.”
“Quem é o Sr. Tope?”, inquiriu Dick Datchery.
O empregado explicou que ele era o sacristão, e que a Sra. Tope, de facto, já tinha alugado quartos há muito tempo ou oferecido alugá-los; mas como ninguém os tinha alguma vez tomado, o cartaz na janela da Sra. Tope, há muito uma instituição de Cloisterham, tinha desaparecido; provavelmente tinha caído um dia, e nunca mais foi colocado.
“Visitarei a Sra. Tope”, disse o Sr. Datchery, “depois do jantar.”
Portanto, quando terminou o jantar, foi devidamente orientado para o local e saiu à procura dele. Mas sendo o Crozier um hotel de disposição muito recatada, e sendo as direções do empregado fatalmente precisas, ele logo ficou confuso, e andou às voltas e mais voltas à volta da Torre da Catedral, sempre que conseguia vislumbrá-la, com uma impressão geral na sua mente de que a casa da Sra. Tope era algures muito perto dela, e que, como as crianças no jogo de feijões cozidos e manteiga muito boa, ele estava quente na sua procura quando via a Torre, e frio quando não a via.
Ele estava a ficar muito frio, de facto, quando encontrou um fragmento de cemitério onde uma ovelha infeliz pastava. Infeliz, porque um rapazinho hediondo a apedrejava através das grades, e já a tinha deixado coxa de uma pata, e estava muito entusiasmado com o benevolente propósito desportivo de lhe partir as outras três patas e derrubá-la.
“Atinge-a outra vez!”, gritou o rapaz, enquanto a pobre criatura saltava; “e fizeste uma mossa na lã dela.”
“Deixa-a estar!”, disse o Sr. Datchery. “Não vês que a deixaste coxa?”
“Mentira”, respondeu o desportista. “Ela foi e coxeou-se a si própria. Eu vi-a fazê-lo, e dei-lhe uma pedrada como aviso para ela não andar a moer a carneiro do seu dono nunca mais.”
“Vem aqui.”
“Não vou; virei quando me conseguires apanhar.”
“Fica aí então, e mostra-me qual é a casa do Sr. Tope.”
“Como posso ficar aqui e mostrar-te qual é a do Topeses, quando a do Topeses é do outro lado da Catedral, e atravessando as passagens, e contornando não sei quantos cantos? Estúpido! Ya-a-ah!”
“Mostra-me onde é, e dou-te qualquer coisa.”
“Anda, então.”
Terminado este diálogo animado, o rapaz liderou o caminho e, pouco depois, parou a alguma distância de uma passagem em arco, apontando.
“Olha ali. Vês aquela janela e porta?”
“Essa é a do Tope?”
“Mentira; não é. Essa é a do Jarsper.”
“A sério?”, disse o Sr. Datchery, com um segundo olhar de algum interesse.
“Sim, e eu não me vou chegar mais perto DELE, digo-te já.”
“Por que não?”
“Porque não me vou deixar levantar do chão e ter os meus suspensórios rebentados e ser estrangulado; não se eu souber o que faço, e não por Ele. Espera até eu atirar uma pedra bem jeitosa às costas da sua velha cabeça um dia destes! Agora olha para o outro lado do arco; não o lado onde está a porta do Jarsper; o outro lado.”
“Estou a ver.”
“Um pouco mais para dentro, desse lado, há uma porta baixa, dois degraus abaixo. Essa é a do Topeses com o nome dele numa placa oval.”
“Bom. Vê aqui”, disse o Sr. Datchery, tirando um xelim. “Tu deves-me metade disto.”
“Mentira! Não te devo nada; nunca te vi.”
“Digo-te que me deves metade disto, porque não tenho nenhuma moeda de seis pences no bolso. Portanto, da próxima vez que me encontrares, farás outra coisa por mim para me pagar.”
“Está bem, dá cá.”
“Qual é o teu nome e onde vives?”
“Deputy. Travellers’ Twopenny, atravessando o relvado.”
O rapaz disparou instantaneamente com o xelim, com medo que o Sr. Datchery se arrependesse, mas parou a uma distância segura, na feliz possibilidade de ele estar inquieto quanto a isso, para o provocar com uma dança demoníaca expressiva da sua irreversibilidade.
O Sr. Datchery, tirando o chapéu para dar àquela sua cabeleira branca outra sacudidela, parecia bastante resignado e dirigiu-se para onde tinha sido orientado.
A habitação oficial do Sr. Tope, comunicando por uma escada superior com a do Sr. Jasper (daí a assistência da Sra. Tope a esse cavalheiro), era de proporções muito modestas e participava do caráter de uma masmorra fresca. As suas paredes antigas eram maciças, e os seus quartos pareciam mais ter sido escavados nelas do que concebidos antecipadamente com qualquer referência a elas. A porta principal abria-se imediatamente para uma câmara de forma indescritível, com um teto de nervuras, que por sua vez se abria para outra câmara de forma indescritível, com outro teto de nervuras: as suas janelas eram pequenas e estavam na espessura das paredes. Estas duas câmaras, fechadas quanto à sua atmosfera, e sombrias quanto à sua iluminação por luz natural, eram os apartamentos que a Sra. Tope há muito oferecia a uma cidade pouco apreciativa. O Sr. Datchery, contudo, era mais apreciativo. Descobriu que, se se sentasse com a porta principal aberta, desfrutaria da sociedade de todos os que passavam de um lado para o outro pelo portão, e teria luz suficiente. Descobriu que se o Sr. e a Sra. Tope, que viviam no andar de cima, usassem para a sua própria entrada e saída uma pequena escada lateral que dava diretamente para o recinto através de uma porta que abria para fora, para surpresa e inconveniência de um público limitado de peões num caminho estreito, ele estaria sozinho, como numa residência separada. Achou a renda moderada e tudo tão estranhamente inconveniente quanto poderia desejar. Concordou, portanto, em aceitar o alojamento ali mesmo, com pagamento imediato, a ocupação para ser feita na noite seguinte, sob a condição de lhe ser permitida uma referência ao Sr. Jasper como ocupante da casa da portaria, da qual, do outro lado do portal, o buraco na parede do sacristão era um anexo ou parte subsidiária.
O pobre e querido cavalheiro era muito solitário e muito triste, disse a Sra. Tope, mas ela não tinha dúvidas de que ele “falaria por ela”. Talvez o Sr. Datchery tivesse ouvido algo sobre o que tinha acontecido ali no inverno passado?
O Sr. Datchery tinha um conhecimento tão confuso do evento em questão, ao tentar recordá-lo, quanto poderia ter. Pediu perdão à Sra. Tope quando ela achou necessário corrigi-lo em cada detalhe do seu resumo dos factos, mas alegou que era apenas um tipo solteiro a passar pela vida com os seus rendimentos da forma mais ociosa que podia, e que tantas pessoas estavam tão constantemente a dar cabo de tantas outras pessoas, que tornava difícil para um tipo de temperamento fácil preservar as circunstâncias dos vários casos sem os misturar na sua mente.
Provando o Sr. Jasper estar disposto a falar pela Sra. Tope, o Sr. Datchery, que tinha enviado o seu cartão, foi convidado a subir a escada do postigo. O Presidente da Câmara estava lá, disse o Sr. Tope; mas não devia ser considerado como companhia, pois ele e o Sr. Jasper eram grandes amigos.
“Peço perdão”, disse o Sr. Datchery, fazendo uma vénia com o chapéu debaixo do braço, enquanto se dirigia igualmente a ambos os cavalheiros; “uma precaução egoísta da minha parte, e não pessoalmente interessante para ninguém senão para mim próprio. Mas como um tipo que vive dos seus rendimentos, e tendo a ideia de o fazer neste lugar encantador em paz e sossego, pelo resto da minha vida, peço para perguntar se a família Tope é bastante respeitável?”
O Sr. Jasper podia responder a isso sem a menor hesitação.
“Isso é suficiente, senhor”, disse o Sr. Datchery.
“O meu amigo, o Presidente da Câmara”, acrescentou o Sr. Jasper, apresentando o Sr. Datchery com um movimento cortês da mão em direção a esse potentado; “cuja recomendação é, na verdade, muito mais importante para um estranho do que a de uma pessoa obscura como eu, testemunhará em nome deles, tenho a certeza.”
“O Excelentíssimo Presidente da Câmara”, disse o Sr. Datchery, com uma vénia profunda, “deixa-me sob uma infinita obrigação.”
“Pessoas muito boas, senhor, o Sr. e a Sra. Tope”, disse o Sr. Sapsea, com condescendência. “Opiniões muito boas. Muito bem comportados. Muito respeitadores. Muito aprovados pelo Deão e Cabido.”
“O Excelentíssimo Presidente da Câmara dá-lhes um carácter”, disse o Sr. Datchery, “do qual podem, de facto, orgulhar-se. Perguntaria a Sua Excelência (se me fosse permitido) se não existem muitos objetos de grande interesse na cidade que está sob o seu benéfico governo?”
“Somos, senhor”, respondeu o Sr. Sapsea, “uma cidade antiga, e uma cidade eclesiástica. Somos uma cidade constitucional, como convém a tal cidade ser, e defendemos e mantemos os nossos gloriosos privilégios.”
“Sua Excelência”, disse o Sr. Datchery, fazendo uma vénia, “inspira-me um desejo de conhecer mais da cidade, e confirma-me na minha inclinação de terminar os meus dias na cidade.”
“Retirado do Exército, senhor?”, sugeriu o Sr. Sapsea.
“Sua Excelência, o Presidente da Câmara, dá-me demasiado crédito”, respondeu o Sr. Datchery.
“Marinha, senhor?”, sugeriu o Sr. Sapsea.
“Novamente”, repetiu o Sr. Datchery, “Sua Excelência, o Presidente da Câmara, dá-me demasiado crédito.”
“A diplomacia é uma profissão nobre”, disse o Sr. Sapsea, como uma observação geral.
“Aí, confesso, Sua Excelência, o Presidente da Câmara, é demasiado para mim”, disse o Sr. Datchery, com um sorriso engenhoso e uma vénia; “até um pássaro diplomático tem de cair perante tal arma.”
Agora, isto foi muito suavizante. Aqui estava um cavalheiro de um grande, para não dizer grandioso, porte, acostumado ao estatuto e à dignidade, realmente dando um belo exemplo de como se comportar perante um Presidente da Câmara. Havia algo naquele estilo de terceira pessoa de ser tratado, que o Sr. Sapsea considerou particularmente reconhecedor dos seus méritos e posição.
“Mas peço perdão”, disse o Sr. Datchery. “Sua Excelência, o Presidente da Câmara, terá paciência comigo, se por um momento fui iludido em ocupar o seu tempo, e me esqueci das humildes reivindicações sobre o meu próprio, do meu hotel, o Crozier.”
“De modo algum, senhor”, disse o Sr. Sapsea. “Estou a regressar a casa, e se quiser ver o exterior da nossa Catedral no seu caminho, terei prazer em apontá-lo.”
“Sua Excelência, o Presidente da Câmara”, disse o Sr. Datchery, “é mais do que amável e gracioso.”
Como o Sr. Datchery, quando apresentou os seus agradecimentos ao Sr. Jasper, não pôde ser induzido a sair da sala antes do Excelentíssimo, o Excelentíssimo liderou o caminho escada abaixo; o Sr. Datchery seguindo com o chapéu debaixo do braço, e a sua cabeleira branca a esvoaçar na brisa da tarde.
“Poderia perguntar a Sua Excelência”, disse o Sr. Datchery, “se aquele cavalheiro que acabámos de deixar é o cavalheiro de quem ouvi falar na vizinhança como sendo muito afligido pela perda de um sobrinho, e concentrando a sua vida em vingar a perda?”
“Esse é o cavalheiro. John Jasper, senhor.”
“Permitir-me-ia Sua Excelência perguntar se existem fortes suspeitas de alguém?”
“Mais do que suspeitas, senhor”, respondeu o Sr. Sapsea; “quase certezas.”
“Pense só agora!”, exclamou o Sr. Datchery.
“Mas a prova, senhor, a prova tem de ser construída pedra por pedra”, disse o Presidente da Câmara. “Como eu digo, o fim coroa a obra. Não é suficiente que a justiça seja moralmente certa; ela deve ser imoralmente certa — legalmente, isto é.”
“Sua Excelência”, disse o Sr. Datchery, “lembra-me da natureza da lei. Imoral. Quão verdadeiro!”
“Como eu digo, senhor”, continuou pomposamente o Presidente da Câmara, “o braço da lei é um braço forte, e um braço longo. É assim que eu o coloco. Um braço forte e um braço longo.”
“Quão forçoso! — E ainda, mais uma vez, quão verdadeiro!”, murmurou o Sr. Datchery.
“E sem trair, o que chamo de segredos da casa da prisão”, disse o Sr. Sapsea; “os segredos da casa da prisão é o termo que usei no tribunal.”
“E que outro termo que não o de Sua Excelência expressaria isso?”, disse o Sr. Datchery.
“Sem, digo eu, traí-los, prevejo-lhe, conhecendo a vontade de ferro do cavalheiro que acabámos de deixar (dou o passo ousado de lhe chamar ferro, devido à sua força), que neste caso o braço longo alcançará, e o braço forte golpeará. — Esta é a nossa Catedral, senhor. Os melhores juízes têm prazer em admirá-la, e os melhores entre os nossos habitantes confessam ser um pouco vaidosos dela.”
Todo este tempo, o Sr. Datchery tinha caminhado com o chapéu debaixo do braço, e o seu cabelo branco a esvoaçar. Ele teve uma estranha aparência momentânea de ter esquecido o chapéu, quando o Sr. Sapsea tocou nele agora; e ele levou a mão à cabeça como se esperasse vagamente encontrar outro chapéu nela.
“Por favor, cubra-se, senhor”, implorou o Sr. Sapsea, magnificamente insistindo: “Não me importarei, asseguro-lhe.”
“Sua Excelência é muito bom, mas faço-o pelo frescor”, disse o Sr. Datchery.
Então o Sr. Datchery admirou a Catedral, e o Sr. Sapsea apontou-a como se ele próprio a tivesse inventado e construído: havia alguns detalhes, de facto, dos quais ele não aprovava, mas esses ele ignorou, como se os trabalhadores tivessem cometido erros na sua ausência. Disposta a Catedral, ele liderou o caminho pelo cemitério, e parou para exaltar a beleza da tarde — por acaso — nas imediações do epitáfio da Sra. Sapsea.
“E a propósito”, disse o Sr. Sapsea, parecendo descer de uma elevação para se lembrar disso de repente; como Apolo descendo do Olimpo para apanhar a sua lira esquecida; “esse é um dos nossos pequenos leões. A parcialidade do nosso povo fê-lo assim, e estranhos têm sido vistos a tirar uma cópia de vez em quando. Não sou juiz disso, pois é um pequeno trabalho meu. Mas foi problemático de virar, senhor; posso dizer, difícil de virar com elegância.”
O Sr. Datchery tornou-se tão extasiado com a composição do Sr. Sapsea, que, apesar da sua intenção de terminar os seus dias em Cloisterham, e, portanto, provavelmente ter de reserva muitas oportunidades de a copiar, tê-la-ia transcrito para o seu bloco de notas ali mesmo, não fosse o aproximar-se, arrastando os pés, do seu produtor material e perpetuador, Durdles, a quem o Sr. Sapsea saudou, não desgostoso de lhe mostrar um belo exemplo de comportamento perante os superiores.
“Ah, Durdles! Este é o pedreiro, senhor; um dos nossos dignos de Cloisterham; toda a gente aqui conhece o Durdles. Sr. Datchery, Durdles, um cavalheiro que vai instalar-se aqui.”
“Eu não o faria se fosse ele”, rosnou Durdles. “Somos um grupo pesado.”
“Certamente não fala por si, Sr. Durdles”, respondeu o Sr. Datchery, “mais do que por Sua Excelência.”
“Quem é Sua Excelência?”, exigiu Durdles.
“Sua Excelência o Presidente da Câmara.”
“Nunca fui levado perante ele”, disse Durdles, com tudo menos o olhar de um súbdito leal da presidência, “e será tempo suficiente para eu honrá-lo quando o for. Até que, e quando, e onde,
‘O Sr. Sapsea é o seu nome, Inglaterra é a sua nação, Cloisterham é o seu domicílio, Leiloeiro é a sua ocupação.’”
Aqui, Deputy (precedido por uma casca de ostra voadora) apareceu em cena, e pediu para ter a soma de três pence instantaneamente “atirada” para ele pelo Sr. Durdles, a quem ele tinha procurado em vão por todo o lado, como salários legais em atraso. Enquanto aquele cavalheiro, com a sua trouxa debaixo do braço, contava lentamente o dinheiro, o Sr. Sapsea informou o novo colono dos hábitos, ocupações, morada e reputação de Durdles. “Suponho que um estranho curioso possa vir ver o senhor, e os seus trabalhos, Sr. Durdles, a qualquer hora estranha?”, disse o Sr. Datchery a propósito disso.
“Qualquer cavalheiro é bem-vindo para vir ver-me a qualquer noite se trouxer bebida para dois consigo”, respondeu Durdles, com um centavo entre os dentes e certas moedas de meio centavo nas mãos; “ou se gostar de fazer duas vezes dois, será duplamente bem-vindo.”
“Eu virei. Mestre Deputy, o que me deves?”
“Um serviço.”
“Lembra-te de me pagar honestamente com o serviço de me mostrar a casa do Sr. Durdles quando eu quiser ir lá.”
Deputy, com uma rajada penetrante de assobio por toda a falha na sua boca, como recibo total de todos os atrasos, desapareceu.
O Excelentíssimo e o Admirador seguiram então juntos até se separarem, com muitas cerimónias, à porta do Excelentíssimo; mesmo aí, o Admirador carregou o seu chapéu debaixo do braço, e deu o seu cabelo branco a esvoaçar à brisa.
Disse o Sr. Datchery para si mesmo naquela noite, enquanto olhava para o seu cabelo branco no espelho iluminado a gás sobre a chaminé da sala de café no Crozier, e o sacudia: “Para um tipo solteiro, de temperamento fácil, vivendo ociosamente dos seus rendimentos, tive uma tarde bastante ocupada!”
CAPÍTULO XIX. SOMBRA NO RELÓGIO DE SOL
Mais uma vez a Srta. Twinkleton proferiu o seu discurso de despedida, com os acompanhamentos de vinho branco e bolo de passas, e mais uma vez as jovens senhoras partiram para os seus lares. Helena Landless deixou a Casa das Freiras para atender aos destinos do seu irmão, e a bela Rosa está sozinha.
Cloisterham é tão brilhante e ensolarada nestes dias de verão, que a Catedral e as ruínas do mosteiro parecem ter paredes sólidas que são transparentes. Um brilho suave parece emanar de dentro delas, em vez de incidir sobre elas a partir do exterior, tal é a sua suavidade enquanto contemplam os campos de milho quentes e as estradas poeirentas que serpenteiam ao longe entre eles. Os jardins de Cloisterham coram com a fruta que amadurece. Houve um tempo em que peregrinos marcados pela viagem cavalgavam em grupos ruidosos através das sombras acolhedoras da cidade; o tempo atual é aquele em que viajantes, levando uma vida cigana entre a época da fenação e a colheita, e parecendo ter sido feitos do pó da terra, tão poeirentos estão, descansam em degraus frescos, tentando remendar os seus sapatos impossíveis de remendar, ou entregando-os aos canais da cidade como um caso perdido, e procurando outros nos fardos que carregam, juntamente com as suas foices ainda não usadas, envolvidas em bandas de palha. Em todas as bombas mais públicas, há muito arrefecimento de pés descalços, juntamente com muito borbulhar e gorgolejar de bebida, com a mão na bica, por parte destes beduínos; a polícia de Cloisterham, entretanto, observa de lado, das suas rondas, com suspeita e impaciência manifesta, que os intrusos devem partir dos limites cívicos e fritar-se mais uma vez nas estradas fervilhantes.
Na tarde de um dia desses, quando o último serviço da Catedral termina, e quando o lado da High Street em que se situa a Casa das Freiras está em sombra grata, exceto onde o seu pitoresco e antigo jardim se abre para o oeste entre os ramos das árvores, um criado informa Rosa, para seu terror, que o Sr. Jasper deseja vê-la.
Se ele tivesse escolhido o seu momento para a encontrar em desvantagem, não poderia ter feito melhor. Talvez o tenha escolhido. Helena Landless partiu, a Sra. Tisher está ausente com licença, a Srta. Twinkleton (no seu estado amador de existência) contribuiu com a sua presença e uma empada de vitela para um piquenique.
“Oh, por que, por que, por que disse que eu estava em casa!” gritou Rosa, impotente.
A criada responde que o Sr. Jasper nunca fez a pergunta.
Que ele disse saber que ela estava em casa e pediu que lhe fosse dito que ele solicitava vê-la.
“O que farei! O que farei!” pensa Rosa, apertando as mãos.
Possuída por um tipo de desespero, acrescenta logo a seguir que irá ter com o Sr. Jasper no jardim. Ela estremece ao pensamento de ficar fechada com ele na casa; mas muitas das suas janelas dão para o jardim, e ela pode ser vista, bem como ouvida lá, e pode gritar ao ar livre e fugir. Tal é a ideia selvagem que esvoaça pela sua mente.
Ela nunca o viu desde a noite fatal, exceto quando foi interrogada perante o Presidente da Câmara, e então ele estava presente numa vigília sombria, como representante do seu sobrinho perdido e ardendo por vingá-lo. Ela pendura o seu chapéu de jardim no braço e sai. No momento em que o vê do alpendre, encostado ao relógio de sol, o velho sentimento horrível de ser compelida por ele reafirma o seu domínio sobre ela. Ela sente que voltaria atrás mesmo naquele momento, mas que ele atrai os seus pés para si. Ela não consegue resistir e senta-se, com a cabeça baixa, no banco do jardim ao lado do relógio de sol. Ela não consegue olhar para ele devido à aversão, mas percebeu que ele está vestido de luto profundo. Ela também. Não era assim no início; mas o perdido já foi dado como morto há muito tempo, e chorado como tal.
Ele começa por tocar-lhe na mão. Ela sente a intenção e recua a mão. Os olhos dele estão então fixos nela, ela sabe, embora os seus próprios não vejam nada além da relva.
“Tenho estado à espera,” começa ele, “há algum tempo, para ser convocado de volta ao meu dever perto de si.”
Depois de várias vezes moldar os seus lábios, que ela sabe que ele observa atentamente, na forma de alguma outra resposta hesitante, e depois em nenhuma, ela responde: “Dever, senhor?”
“O dever de a ensinar, de servi-lo como o seu fiel professor de música.”
“Deixei esses estudos.”
“Não deixei, creio. Interrompeu. Foi-me dito pelo seu tutor que os interrompeu devido ao choque que todos sentimos tão agudamente. Quando os retomará?”
“Nunca, senhor.”
“Nunca? Não poderia ter feito mais se tivesse amado o meu querido rapaz.”
“Eu amava-o!” gritou Rosa, com um lampejo de raiva.
“Sim; mas não exatamente—não exatamente da maneira certa, direi eu? Não da maneira pretendida e esperada. Muito como o meu querido rapaz era, infelizmente, demasiado autoconsciente e satisfeito consigo mesmo (não traçarei paralelo entre ele e você a esse respeito) para amar como deveria ter amado, ou como qualquer um no seu lugar teria amado—deveria ter amado!”
Ela senta-se na mesma atitude imóvel, mas encolhendo-se um pouco mais.
“Então, ser informada de que interrompeu o seu estudo comigo foi ser educadamente informada de que o abandonou por completo?” sugeriu ele.
“Sim,” diz Rosa, com um espírito súbito, “A educação foi do meu tutor, não minha. Disse-lhe que estava decidida a desistir e que estava determinada a manter a minha resolução.”
“E continua a estar?”
“Continuo, senhor. E peço que não me interroguem mais sobre isso. Em todo o caso, não responderei mais; tenho isso no meu poder.”
Ela está tão consciente de ele a observar com uma admiração ávida pelo toque de raiva nela, e pelo fogo e animação que isso traz consigo, que, mesmo quando o seu espírito se ergue, ele cai novamente, e ela luta com um sentido de vergonha, afronta e medo, tal como fez naquela noite ao piano.
“Não a interrogarei mais, uma vez que se opõe tanto a isso; irei confessar—”
“Não desejo ouvi-lo, senhor,” grita Rosa, levantando-se.
Desta vez, ele toca-lhe com a mão estendida. Ao encolher-se dela, ela encolhe-se novamente para o seu assento.
“Devemos, por vezes, agir em oposição aos nossos desejos,” diz-lhe ele em voz baixa. “Deve, agora, ou fará mais mal aos outros do que alguma vez poderá corrigir.”
“Que mal?”
“Já direi, já direi. Interroga-me, vê, e certamente isso não é justo quando me proíbe de a interrogar. Contudo, responderei à pergunta em breve. Queridíssima Rosa! Encantadora Rosa!”
Ela levanta-se novamente.
Desta vez ele não lhe toca. Mas o seu rosto parece tão perverso e ameaçador, enquanto está de pé, encostado ao relógio de sol—marcando, por assim dizer, a sua marca negra sobre a própria face do dia—que a sua fuga é detida pelo horror enquanto ela olha para ele.
“Não me esqueço de quantas janelas comandam uma vista sobre nós,” diz ele, olhando para elas. “Não voltarei a tocar-lhe; não chegarei mais perto de si do que estou agora. Sente-se, e não haverá grande maravilha no seu professor de música a inclinar-se ociosamente contra um pedestal e a falar consigo, lembrando tudo o que aconteceu, e as nossas partes nisso. Sente-se, minha amada.”
Ela teria ido mais uma vez—estava quase a ir—e mais uma vez o rosto dele, ameaçando sombriamente o que se seguiria se ela fosse, deteve-a. Olhando para ele com a expressão do momento congelada no seu rosto, ela senta-se novamente no assento.
“Rosa, mesmo quando o meu querido rapaz estava noivo de si, eu amava-a loucamente; mesmo quando pensei que a sua felicidade em tê-la como esposa era certa, amava-a loucamente; mesmo quando me esforcei para o tornar mais ardentemente devotado a si, amava-a loucamente; mesmo quando ele me deu a imagem do seu rosto adorável, tão descuidadamente difamado por ele, que fingi pendurar sempre à minha vista por causa dele, mas que adorei em tormento durante anos, amava-a loucamente; no trabalho desagradável do dia, na miséria desperta da noite, cingido por realidades sórdidas, ou vagueando através de Paraísos e Infernos de visões para os quais me apressei, carregando a sua imagem nos meus braços, eu amava-a loucamente.”
Se algo pudesse tornar as suas palavras mais hediondas para ela do que são em si mesmas, seria o contraste entre a violência do seu olhar e discurso, e a compostura da sua atitude assumida.
“Suportei tudo em silêncio. Enquanto você era dele, ou enquanto eu supunha que o fosse, escondi o meu segredo lealmente. Não foi assim?”
Esta mentira, tão grosseira, enquanto as meras palavras em que é dita são tão verdadeiras, é mais do que Rosa pode suportar. Ela responde com indignação inflamada: “Foi falso durante todo o tempo, senhor, tal como é agora. Foi falso para com ele, diária e horariamente. Sabe que tornou a minha vida infeliz pela sua perseguição a mim. Sabe que me fez ter medo de abrir os seus olhos generosos, e que me forçou, pelo seu próprio bem, pelo bem dele, bondoso e confiante, a esconder-lhe a verdade, de que você era um homem mau, mau!”
A sua preservação da atitude descontraída, tornando as suas feições agitadas e as suas mãos convulsivas absolutamente diabólicas, ele responde, com um extremo feroz de admiração:
“Como é bela! É mais bela na raiva do que no repouso. Não lhe peço o seu amor; dê-me a si mesma e o seu ódio; dê-me a si mesma e essa raiva bonita; dê-me a si mesma e esse desprezo encantador; será o suficiente para mim.”
Lágrimas impacientes sobem aos olhos da pequena beleza trémula, e o seu rosto flameja; mas, à medida que ela se levanta novamente para o deixar com indignação, e procurar proteção dentro da casa, ele estende a mão em direção ao alpendre, como se a convidasse a entrar.
“Disse-lhe, rara encantadora, doce bruxa, que tem de ficar e ouvir-me, ou fazer mais mal do que alguma vez poderá ser desfeito. Perguntou-me que mal. Fique, e eu dir-lhe-ei. Vá, e eu fazê-lo-ei!”
Mais uma vez Rosa empalidece perante o seu rosto ameaçador, embora inocente do seu significado, e ela permanece. A sua respiração ofegante vai e vem como se a fosse sufocar; mas, com uma mão repressiva sobre o peito, ela permanece.
“Fiz a minha confissão de que o meu amor é louco. É tão louco que, se os laços entre mim e o meu querido rapaz perdido tivessem sido um fio de seda menos forte, poderia ter varrido até ele do seu lado, quando o favorecia.”
Uma névoa cobre os olhos que ela levanta por um instante, como se ele a tivesse deixado desmaiada.
“Até ele,” repete ele. “Sim, até ele! Rosa, vê-me e ouve-me. Julgue por si mesma se algum outro admirador a amará e viverá, cuja vida está na minha mão.”
“O que quer dizer, senhor?”
“Pretendo mostrar-lhe quão louco é o meu amor. Foi apregoado através das investigações recentes pelo Sr. Crisparkle, que o jovem Landless lhe confessou que era um rival do meu rapaz perdido. Essa é uma ofensa inexpiável aos meus olhos. O mesmo Sr. Crisparkle sabe, pela minha própria mão, que me dediquei à descoberta e destruição do assassino, fosse ele quem fosse, e que determinei não discutir o mistério com ninguém até que segurasse a pista na qual enredar o assassino como numa rede. Tenho trabalhado pacientemente desde então para a enrolar e enrolar à volta dele; e ela está a enrolar-se lentamente enquanto falo.”
“A sua crença, se acredita na criminalidade do Sr. Landless, não é a crença do Sr. Crisparkle, e ele é um homem bom,” retorquiu Rosa.
“A minha crença é minha; e reservo-a, adorada da minha alma! As circunstâncias podem acumular-se tão fortemente *mesmo contra um homem inocente*, que, direcionadas, afiadas e apontadas, podem matá-lo. Um elo em falta, descoberto pela perseverança contra um homem culpado, prova a sua culpa, por mais ténue que fosse a sua evidência antes, e ele morre. O jovem Landless encontra-se em perigo mortal de qualquer forma.”
“Se realmente supõe,” suplica Rosa, tornando-se mais pálida, “que eu favoreço o Sr. Landless, ou que o Sr. Landless alguma vez se dirigiu a mim de alguma forma, está enganado.”
Ele afasta isso com um gesto de desdém da mão e um lábio curvado.
“Eu ia mostrar-lhe quão loucamente a amo. Mais loucamente agora do que nunca, pois estou disposto a renunciar ao segundo objeto que surgiu na minha vida para a dividir consigo; e, de agora em diante, não ter outro objeto na existência senão apenas você. A Srta. Landless tornou-se a sua amiga íntima. Importa-se com a sua paz de espírito?”
“Amo-a profundamente.”
“Importa-se com o seu bom nome?”
“Já disse, senhor, amo-a profundamente.”
“Estou inconscientemente,” observa ele com um sorriso, enquanto dobra as mãos sobre o relógio de sol e apoia o queixo nelas, de modo que a sua conversa pareceria das janelas (faces ocasionalmente vêm e vão lá) ser da mais leve e brincalhona—“estou inconscientemente a dar ofensa ao interrogar novamente. Farei simplesmente declarações, portanto, e não farei perguntas. Você importa-se com o bom nome da sua amiga íntima, e importa-se com a sua paz de espírito. Então, remova a sombra da forca de cima dela, querida!”
“Ousa propor-me que—”
“Querida, ouso propor-lhe. Pare aí. Se é mau idolatrá-la, sou o pior dos homens; se é bom, sou o melhor. O meu amor por si está acima de qualquer outro amor, e a minha verdade para consigo está acima de qualquer outra verdade. Deixe-me ter esperança e favor, e sou um homem perjuro por sua causa.”
Rosa coloca as mãos nas têmporas e, empurrando o cabelo para trás, olha selvagem e aversivamente para ele, como se estivesse a tentar juntar o que é o seu propósito profundo de lhe apresentar apenas em fragmentos.
“Não contabilize nada neste momento, anjo, exceto os sacrifícios que coloco aos seus pés queridos, aos quais eu poderia cair entre as cinzas mais vis e beijar, e colocar sobre a minha cabeça como um pobre selvagem poderia. Aí está a minha fidelidade ao meu querido rapaz após a morte. Pise nela!”
Com uma ação das mãos, como se atirasse algo precioso.
“Aí está a ofensa inexpiável contra a minha adoração por si. Rejeite-a!”
Com uma ação semelhante.
“Aí estão os meus trabalhos na causa de uma vingança justa durante seis meses de labuta. Esmague-os!”
Com outra repetição da ação.
“Aí está a minha vida passada e presente desperdiçada. Aí está a desolação do meu coração e da minha alma. Aí está a minha paz; aí está o meu desespero. Pise-os até ao pó; desde que me aceite, fosse mesmo odiando-me mortalmente!”
A veemência assustadora do homem, atingindo agora o seu ponto máximo, aterroriza-a adicionalmente a ponto de quebrar o feitiço que a mantinha no local. Ela move-se rapidamente em direção ao alpendre; mas, num instante, ele está ao seu lado e a sussurrar-lhe ao ouvido.
“Rosa, estou autocontrolado novamente. Estou a caminhar calmamente ao seu lado para a casa. Esperarei por algum encorajamento e esperança. Não atacarei demasiado cedo. Dê-me um sinal de que me atende.”
Ela move levemente e constrangida a mão.
“Nem uma palavra disto a ninguém, ou fará cair o golpe, tão certamente como a noite segue o dia. Outro sinal de que me atende.”
Ela move a mão mais uma vez.
“Amo-a, amo-a, amo-a! Se me expulsasse agora—mas não o fará—nunca se veria livre de mim. Ninguém deveria colocar-se entre nós. Segui-la-ia até à morte.”
A criada, saindo para abrir o portão para ele, ele tira calmamente o chapéu como uma saudação de despedida e afasta-se sem maior demonstração de agitação do que a visível na efígie do pai do Sr. Sapsea, em frente. Rosa desmaia ao subir as escadas e é cuidadosamente levada para o seu quarto e deitada na sua cama. Uma trovoada aproxima-se, dizem as criadas, e o ar quente e sufocante sobrecarregou a querida; não é de admirar; elas sentiram os seus próprios joelhos a tremer durante todo o dia.
CAPÍTULO XX. UMA FUGA
Rosa, mal recuperou os sentidos, tinha toda a entrevista recente perante ela. Parecia até que o tinha perseguido para a sua inconsciência, e ela não tinha tido um momento de falta de consciência sobre isso. O que fazer, ela estava numa perda assustada: o único pensamento claro na sua mente era que ela tinha de fugir deste homem terrível.
Mas onde poderia encontrar refúgio, e como poderia ir? Ela nunca tinha confessado o seu medo dele a ninguém, exceto a Helena. Se ela fosse ter com Helena e lhe contasse o que tinha acontecido, esse próprio ato poderia trazer o mal irreparável que ele ameaçou, que ela sabia que ele tinha o poder, e que tinha a vontade, de fazer. Quanto mais temível ele parecia à sua memória e imaginação excitadas, mais alarmante a sua responsabilidade parecia; vendo que um pequeno erro da sua parte, seja em ação ou demora, poderia soltar a sua malevolência sobre o irmão de Helena.
A mente de Rosa, ao longo dos últimos seis meses, tinha estado tempestuosamente confusa. Uma suspeita semi-formada, totalmente inexpressa, agitava-se nela, agora elevando-se e agora afundando-se nas profundezas; agora ganhando palpabilidade, e agora perdendo-a. A auto-absorção de Jasper no seu sobrinho quando ele estava vivo, e a sua busca incessante pela investigação de como ele encontrou a morte, se é que estava morto, eram temas tão frequentes no local, que ninguém parecia capaz de suspeitar da possibilidade de jogo sujo da parte dele. Ela tinha-se feito a pergunta: “Serei tão perversa nos meus pensamentos a ponto de conceber uma maldade que outros não conseguem imaginar?” Depois, tinha considerado: “A suspeita veio do meu recuo anterior perante ele, antes do facto?” E, se assim fosse, não seria isso uma prova da sua falta de base? Depois, tinha refletido: “Que motivo ele poderia ter, de acordo com a minha acusação?” Ela sentia vergonha de responder na sua mente: “O motivo de me ganhar!” E cobria o rosto, como se a mais leve sombra da ideia de basear um homicídio numa vaidade tão ociosa fosse um crime quase tão grande.
Ela repassou na sua mente, novamente, tudo o que ele tinha dito junto ao relógio de sol no jardim. Ele tinha persistido em tratar o desaparecimento como homicídio, consistentemente com todo o seu curso público desde o encontro do relógio e do alfinete de camisa. Se ele tivesse medo de que o crime fosse descoberto, não encorajaria ele antes a ideia de um desaparecimento voluntário? Ele tinha até declarado que, se os laços entre ele e o seu sobrinho tivessem sido menos fortes, ele poderia ter varrido “até ele” do seu lado. Seria isso como se ele o tivesse realmente feito? Ele tinha falado em colocar os seus seis meses de trabalho na causa de uma vingança justa aos seus pés. Fê-lo-ia ele, com essa violência de paixão, se fossem um fingimento? Tê-los-ia ele alinhado com o seu coração e alma desolados, a sua vida desperdiçada, a sua paz e o seu desespero? O próprio primeiro sacrifício que ele se apresentou a fazer por ela foi a sua fidelidade ao seu querido rapaz após a morte. Certamente estes factos eram fortes contra uma fantasia que mal ousava insinuar-se. E, no entanto, ele era um homem tão terrível! Em suma, a pobre rapariga (pois o que poderia ela saber do intelecto criminoso, que os seus próprios estudantes professos interpretam perpetuamente mal, porque persistem em tentar reconciliá-lo com o intelecto médio dos homens médios, em vez de o identificar como uma maravilha horrível à parte) não conseguia chegar por nenhum caminho a qualquer outra conclusão senão a de que ele era um homem terrível, e que dele se devia fugir.
Ela fora o apoio e o conforto de Helena durante todo o tempo. Assegurara-lhe constantemente a sua total crença na inocência do irmão e a sua solidariedade para com ele na sua miséria. Mas nunca mais o vira desde o desaparecimento, nem Helena jamais proferira uma única palavra sobre a declaração dele ao Sr. Crisparkle a respeito de Rosa, embora, como parte do interesse do caso, tal fosse amplamente conhecido. Ele era o irmão infeliz de Helena, para ela, e nada mais. A garantia que dera ao seu odioso pretendente era estritamente verdadeira, embora tivesse sido melhor (considerava ela agora) se tivesse conseguido conter-se de a dar. Por mais que a criatura brilhante e delicada temesse aquele homem, o seu espírito revoltava-se perante o pensamento de que ele soubesse disso pelos seus próprios lábios.
Mas para onde iria ela? Qualquer lugar fora do alcance dele não era resposta para a questão. Era preciso pensar em algum lado. Decidiu ir ter com o seu tutor, e ir imediatamente. O sentimento que transmitira a Helena na noite da sua primeira confidência estava tão presente nela — o sentimento de não estar a salvo dele, e de as paredes sólidas do velho convento serem impotentes para impedir o seu seguimento fantasmagórico — que nenhum raciocínio próprio conseguia acalmar os seus terrores. O fascínio da repulsa estava sobre ela há tanto tempo, e agora culminava de forma tão sombria, que sentia como se ele tivesse o poder de a prender por um feitiço. Olhando pela janela, mesmo agora, enquanto se levantava para se vestir, a visão do relógio de sol sobre o qual ele se debruçara quando se declarou deixou-a gelada e fê-la recuar, como se ele o tivesse investido de alguma qualidade terrível da sua própria natureza.
Escreveu um bilhete apressado à Srta. Twinkleton, dizendo que tinha um motivo repentino para desejar ver o seu tutor prontamente e que tinha ido ter com ele; suplicando também à boa senhora que não ficasse inquieta, pois estava tudo bem com ela. Meteu apressadamente alguns artigos totalmente inúteis numa bolsa muito pequena, deixou o bilhete num lugar visível e saiu, fechando suavemente o portão atrás de si.
Era a primeira vez que estava sozinha na High Street de Cloisterham. Mas, conhecendo muito bem todos os seus caminhos e voltas, apressou-se diretamente para a esquina de onde partia o autocarro. Ele estava, naquele preciso momento, a partir.
— Pare e leve-me, se faz favor, Joe. Sou obrigada a ir a Londres.
Em menos de um minuto, estava a caminho da estação, sob a proteção de Joe. Joe esperou por ela quando lá chegaram, colocou-a em segurança na carruagem ferroviária e entregou-lhe a bolsa muito pequena, como se fosse um enorme baú, pesado como centenas de quilos, que ela não deveria, de forma alguma, tentar levantar.
— Pode dar a volta quando regressar e dizer à Srta. Twinkleton que me viu partir em segurança, Joe?
— Será feito, menina.
— Com as minhas lembranças, por favor, Joe.
— Sim, menina — e eu não me importaria de as receber eu mesmo! — Mas Joe não articulou a última cláusula; apenas a pensou.
Agora que seguia a toda a velocidade para Londres, Rosa teve tempo para retomar os pensamentos que a sua pressa pessoal tinha interrompido. O pensamento indignado de que a declaração de amor dele a manchava; de que só poderia ser purificada da mancha da sua impureza apelando aos honestos e verdadeiros; sustentou-a durante algum tempo contra os seus medos e confirmou-a na sua resolução precipitada. Mas, à medida que a noite se tornava cada vez mais escura e a grande cidade se aproximava, as dúvidas habituais em tais casos começaram a surgir. Se aquele não seria um procedimento insensato, afinal; como o Sr. Grewgious poderia encará-lo; se ela o encontraria no fim da viagem; como agiria se ele estivesse ausente; o que poderia ser feito dela, sozinha, num lugar tão estranho e apinhado; se tivesse apenas esperado e pedido conselho primeiro; se, pudesse agora voltar atrás, não o faria com gratidão; uma multidão de tais especulações inquietantes perturbava-a, cada vez mais à medida que se acumulavam. Por fim, o comboio entrou em Londres sobre os telhados; e lá em baixo jaziam as ruas arenosas com os seus candeeiros ainda desnecessários a brilhar, numa noite de verão quente e clara.
"Hiram Grewgious, Esquire, Staple Inn, Londres." Isto era tudo o que Rosa sabia do seu destino; mas era o suficiente para a fazer partir de novo, a chocalhar num táxi, através de desertos de ruas arenosas, onde muitas pessoas se aglomeravam na esquina dos pátios e vielas para obter um pouco de ar, e onde muitas outras pessoas caminhavam com um ruído miseravelmente monótono de pés a arrastar nas lajes quentes, e onde todas as pessoas e tudo o que as rodeava era tão arenoso e tão gasto!
Havia música a tocar aqui e ali, mas isso não animava a situação. Nenhum realejo melhorava o caso, e nenhum bombo afastava o tédio. Tal como os sinos das capelas que também tocavam aqui e ali, pareciam apenas evocar ecos das superfícies de tijolo e pó de tudo. Quanto aos instrumentos de sopro, pareciam ter partido os seus corações e almas por saudade do campo.
O seu veículo estridente parou finalmente num portão bem fechado, que parecia pertencer a alguém que se tinha deitado muito cedo e que tinha muito medo de assaltantes; Rosa, pagando a corrida, bateu timidamente a este portão e foi deixada entrar, com a bolsa muito pequena e tudo, por um vigia.
— O Sr. Grewgious vive aqui?
— O Sr. Grewgious vive ali, menina — disse o vigia, apontando para mais longe.
Assim, Rosa entrou mais fundo e, quando os relógios batiam as dez, parou nos degraus da porta de P. J. T., a perguntar-se o que teria P. J. T. feito com a sua porta da rua.
Guiada pelo nome pintado do Sr. Grewgious, subiu as escadas e bateu suavemente várias vezes. Mas como ninguém respondia, e a maçaneta da porta do Sr. Grewgious cedeu ao seu toque, ela entrou e viu o seu tutor sentado num assento de janela, junto a uma janela aberta, com um candeeiro sombreado colocado longe dele, numa mesa num canto.
Rosa aproximou-se dele na penumbra da sala. Ele viu-a e disse, em voz baixa: "Meu Deus!"
Rosa caiu-lhe nos braços, com lágrimas, e então ele disse, retribuindo o abraço:
— Minha filha, minha filha! Pensei que fosses a tua mãe! — Mas o que, o que, o que — acrescentou, de forma tranquilizadora — aconteceu? Minha querida, o que te trouxe aqui? Quem te trouxe aqui?
— Ninguém. Vim sozinha.
— Valha-me Deus! — exclamou o Sr. Grewgious. — Vieste sozinha! Porque não me escreveste para eu te ir buscar?
— Não tive tempo. Tomei uma resolução repentina. Pobre, pobre Eddy!
— Ah, pobre rapaz, pobre rapaz!
— O tio dele declarou-me o seu amor. Não suporto isso — disse Rosa, de imediato com uma explosão de lágrimas e um bater do seu pé pequeno; — estremeço de horror perante ele, e vim ter consigo para que me proteja a mim e a todos nós dele, se quiser?
— Eu protegerei — gritou o Sr. Grewgious, com uma súbita onda de energia espantosa. — Maldito seja!
"Confunde a sua política! Frustra os seus truques de velhaco! Nele fixar as suas esperanças? Maldito seja ele outra vez!"
Após esta explosão extraordinária, o Sr. Grewgious, fora de si, atirou-se pelo quarto, ao que parecia indeciso se estava num ataque de entusiasmo leal ou de denúncia combativa.
Parou e disse, limpando o rosto: — Peço-lhe perdão, minha querida, mas ficará contente por saber que me sinto melhor. Não me diga mais nada por agora, ou eu poderia fazê-lo outra vez. Tens de ser refrescada e animada. O que tomaste por último? Foi pequeno-almoço, almoço, jantar, chá ou ceia? E o que vais tomar a seguir? Será pequeno-almoço, almoço, jantar, chá ou ceia?
A ternura respeitosa com que, sobre um joelho diante dela, a ajudou a tirar o chapéu e a desembaraçar o seu cabelo bonito, era um espetáculo verdadeiramente cavalheiresco. No entanto, quem, conhecendo-o apenas pela superfície, esperaria cavalheirismo — e do verdadeiro, também; não do espúrio — do Sr. Grewgious?
— O teu descanso também tem de ser providenciado — continuou ele; — e terás o quarto mais bonito em Furnival's. A tua higiene pessoal deve ser providenciada, e terás tudo o que uma governanta-chefe ilimitada — por esta expressão quero dizer uma governanta-chefe não limitada quanto a despesas — possa arranjar. É uma bolsa? — olhou fixamente para ela; na verdade, era preciso olhar bem para a conseguir ver sequer numa sala pouco iluminada: — e é tua propriedade, minha querida?
— Sim, senhor. Trouxe-a comigo.
— Não é uma bolsa extensa — disse o Sr. Grewgious, candidamente — embora admiravelmente calculada para conter a provisão de um dia para um canário. Talvez tenhas trazido um canário?
Rosa sorriu e abanou a cabeça.
— Se tivesses, teria sido bem-vindo — disse o Sr. Grewgious — e penso que ele teria ficado contente por ser pendurado num prego cá fora e competir com os nossos pardais de Staple; cuja execução deve admitir-se não ser totalmente igual à sua intenção. O que acontece com tantos de nós! Não disseste qual a refeição, minha querida. Tem uma mistura agradável de todas as refeições.
Rosa agradeceu-lhe, mas disse que só podia tomar uma chávena de chá. O Sr. Grewgious, depois de várias vezes correr para fora e para dentro, para mencionar itens suplementares como marmelada, ovos, agriões, peixe salgado e presunto frito, correu para Furnival's sem chapéu, para dar as suas várias instruções. E pouco depois foram realizadas na prática, e a mesa foi posta.
— Valha-me Deus — exclamou o Sr. Grewgious, colocando o candeeiro sobre ela e sentando-se em frente a Rosa; — que sensação nova para um velho solteirão angular, com certeza!
As pequenas sobrancelhas expressivas de Rosa perguntaram-lhe o que queria dizer.
— A sensação de ter uma presença jovem e doce no lugar, que o cai, que o pinta, que o empapela, que o decora com dourados e o torna glorioso! — disse o Sr. Grewgious. — Ai de mim! Ai de mim!
Como havia algo de lúgubre no seu suspiro, Rosa, ao tocar-lhe com a sua chávena de chá, aventurou-se a tocar-lhe também com a sua mão pequena.
— Obrigado, minha querida — disse o Sr. Grewgious. — Hem! Vamos conversar!
— Vive sempre aqui, senhor? — perguntou Rosa.
— Sim, minha querida.
— E sempre sozinho?
— Sempre sozinho; exceto que tenho companhia diária de um cavalheiro pelo nome de Bazzard, o meu escriturário.
— Ele não mora aqui?
— Não, ele segue o seu caminho depois das horas de expediente. De facto, ele está totalmente fora de serviço aqui, neste momento; e uma firma no andar de baixo, com a qual tenho relações comerciais, empresta-me um substituto. Mas seria extremamente difícil substituir o Sr. Bazzard.
— Ele deve gostar muito de si — disse Rosa.
— Ele suporta-o com uma fortaleza louvável, se gosta — retorquiu o Sr. Grewgious, após considerar o assunto. — Mas duvido que goste. Não particularmente. Vês, ele está descontente, pobre rapaz.
— Porque não está contente? — foi a pergunta natural.
— Deslocado — disse o Sr. Grewgious, com grande mistério.
As sobrancelhas de Rosa retomaram a sua expressão inquisitiva e perplexa.
— Tão deslocado — continuou o Sr. Grewgious — que me sinto constantemente a pedir-lhe desculpa. E ele sente (embora não o mencione) que eu tenho razões para o fazer.
O Sr. Grewgious tinha-se tornado, a esta altura, tão misterioso que Rosa não sabia como continuar. Enquanto ela pensava nisso, o Sr. Grewgious subitamente soltou-se de si próprio pela segunda vez:
— Vamos conversar. Estávamos a falar do Sr. Bazzard. É um segredo e, além disso, é o segredo do Sr. Bazzard; mas a presença doce à minha mesa torna-me tão invulgarmente expansivo que sinto que devo comunicá-lo em confiança inviolável. O que achas que o Sr. Bazzard fez?
— Oh, céus! — exclamou Rosa, aproximando a cadeira um pouco mais e com o pensamento a voltar a Jasper — nada de terrível, espero?
— Ele escreveu uma peça — disse o Sr. Grewgious, num sussurro solene. — Uma tragédia.
Rosa pareceu muito aliviada.
— E ninguém — prosseguiu o Sr. Grewgious no mesmo tom — quer ouvir, por motivo algum, que ela seja representada.
Rosa pareceu pensativa e abanou a cabeça lentamente; como quem diz: "Tais coisas existem, e porque existem!"
— Agora, sabes — disse o Sr. Grewgious — eu não conseguiria escrever uma peça.
— Nem uma má, senhor? — disse Rosa, inocentemente, com as sobrancelhas novamente em ação.
— Não. Se eu estivesse sob sentença de decapitação, e estivesse prestes a ser instantaneamente decapitado, e chegasse um correio com um perdão para o condenado Grewgious se ele escrevesse uma peça, eu ver-me-ia na necessidade de retomar o cepo e implorar ao carrasco que procedesse aos extremos — querendo dizer — disse o Sr. Grewgious, passando a mão sob o queixo — o número singular, e este extremo.
Rosa pareceu considerar o que faria se o caso supositivo embaraçoso fosse o dela.
— Consequentemente — disse o Sr. Grewgious — o Sr. Bazzard teria um sentimento da minha inferioridade em relação a ele sob quaisquer circunstâncias; mas quando sou o seu patrão, sabes, o caso é muito agravado.
O Sr. Grewgious abanou a cabeça seriamente, como se sentisse que a ofensa era um pouco excessiva, embora cometida por ele próprio.
— Como veio a ser o seu patrão, senhor? — perguntou Rosa.
— Uma pergunta que se segue naturalmente — disse o Sr. Grewgious. — Vamos conversar. O pai do Sr. Bazzard, sendo um agricultor de Norfolk, ter-se-ia enfurecido com um mangual, um forcado e todos os instrumentos agrícolas disponíveis para fins de assalto, ao menor indício de que o seu filho tinha escrito uma peça. Então o filho, trazendo-me a renda do pai (que eu recebo), confidenciou-me o seu segredo e salientou que estava determinado a perseguir o seu génio, e que isso o colocaria em perigo de inanição, e que ele não fora formado para isso.
— Para perseguir o seu génio, senhor?
— Não, minha querida — disse o Sr. Grewgious — para a inanição. Era impossível negar a posição de que o Sr. Bazzard não fora formado para passar fome, e o Sr. Bazzard salientou então que era desejável que eu me pusesse entre ele e um destino tão perfeitamente inadequado à sua formação. Dessa forma, o Sr. Bazzard tornou-se o meu escriturário, e ele sente-o muito.
— Fico contente que ele seja grato — disse Rosa.
— Não quis dizer exatamente isso, minha querida. Quero dizer que ele sente a degradação. Existem outros génios com quem o Sr. Bazzard se tornou familiarizado, que também escreveram tragédias, que também ninguém quer por motivo algum ouvir falar em representar, e estes espíritos escolhidos dedicam as suas peças uns aos outros de uma maneira altamente panegírica. O Sr. Bazzard foi o sujeito de uma destas dedicatórias. Ora, sabes, eu nunca tive uma peça dedicada a mim!
Rosa olhou para ele como se tivesse gostado que ele fosse o destinatário de mil dedicatórias.
— O que, novamente, naturalmente, roça o pelo do Sr. Bazzard — disse o Sr. Grewgious. — Ele é muito seco comigo às vezes, e então sinto que ele está a meditar: "Este estúpido é o meu patrão! Um tipo que não conseguiria escrever uma tragédia sob pena de morte, e que nunca terá uma dedicada a ele com os parabéns mais elogiosos sobre a alta posição que tomou aos olhos da posteridade!" Muito difícil, muito difícil. No entanto, ao dar-lhe instruções, reflito de antemão: "Talvez ele não goste disto", ou "Ele pode levar a mal se eu pedir aquilo"; e assim damo-nos muito bem. De facto, melhor do que eu poderia ter esperado.
— A tragédia tem nome, senhor? — perguntou Rosa.
— Estritamente entre nós — respondeu o Sr. Grewgious — tem um nome terrivelmente apropriado. Chama-se O Espinho da Ansiedade. Mas o Sr. Bazzard espera — e eu espero — que ela seja representada, afinal.
Não era difícil adivinhar que o Sr. Grewgious tinha relatado a história de Bazzard de forma tão completa, pelo menos tanto para o recreio da mente da sua pupila em relação ao assunto que a tinha levado ali, como para a gratificação da sua própria tendência para ser social e comunicativo.
— E agora, minha querida — disse ele a este ponto — se não estiveres demasiado cansada para me contar mais do que se passou hoje — mas apenas se te sentires capaz — ficaria contente por ouvir. Posso digeri-lo melhor se dormir sobre o assunto esta noite.
Rosa, composta agora, deu-lhe um relato fiel da entrevista. O Sr. Grewgious alisava frequentemente a cabeça enquanto decorria, e pedia para que lhe contassem uma segunda vez as partes que envolviam Helena e Neville. Quando Rosa terminou, ele sentou-se grave, silencioso e meditativo durante um tempo.
— Claramente narrado — foi o seu único comentário no fim — e, espero, claramente guardado aqui — alisando a cabeça novamente. — Vê, minha querida — levando-a à janela aberta — onde eles vivem! As janelas escuras ali do outro lado.
— Posso ir ter com a Helena amanhã? — perguntou Rosa.
— Gostaria de dormir sobre essa questão esta noite — respondeu ele, hesitante. — Mas deixa-me levar-te para o teu descanso, pois deves precisar dele.
Com isso, o Sr. Grewgious ajudou-a a pôr o chapéu novamente, pendurou no seu braço a bolsa muito pequena que não tinha utilidade terrena, e conduziu-a pela mão (com uma certa estranheza solene, como se fosse dançar um minueto) através de Holborn, e para dentro de Furnival's Inn. À porta do hotel, confiou-a à governanta-chefe Ilimitada, e disse que enquanto ela subia para ver o seu quarto, ele permaneceria em baixo, caso ela desejasse trocá-lo por outro, ou achasse que havia algo de que precisasse.
O quarto de Rosa era arejado, limpo, confortável, quase alegre. A Ilimitada tinha fornecido tudo o que fora omitido da bolsa muito pequena (ou seja, tudo de que ela pudesse possivelmente precisar), e Rosa desceu as muitas escadas novamente, para agradecer ao seu tutor pelo seu cuidado atencioso e afetuoso com ela.
— De nada, minha querida — disse o Sr. Grewgious, infinitamente gratificado; — sou eu quem te agradece pela tua confiança encantadora e pela tua companhia encantadora. O teu pequeno-almoço ser-te-á servido numa sala de estar pequena, arrumada, compacta e graciosa (apropriada à tua figura), e virei ter contigo às dez horas da manhã. Espero que não te sintas muito estranha, de facto, neste lugar estranho.
— Oh, não, sinto-me tão segura!
— Sim, podes ter a certeza de que as escadas são à prova de fogo — disse o Sr. Grewgious — e que qualquer surto do elemento devorador seria percebido e suprimido pelos vigias.
— Eu não queria dizer isso — respondeu Rosa. — Queria dizer que me sinto tão segura dele.
— Existe um portão robusto de barras de ferro para o manter fora — disse o Sr. Grewgious, sorrindo; — e Furnival's é à prova de fogo, e especialmente vigiado e iluminado, e eu vivo do outro lado da rua! Na robustez do seu espírito de cavaleiro andante, parecia pensar que a proteção mencionada em último lugar era totalmente suficiente. Com o mesmo espírito, disse ao porteiro do portão enquanto saía: "Se alguém hospedado no hotel desejar enviar um recado para mim do outro lado da estrada durante a noite, uma coroa estará pronta para o mensageiro." Com o mesmo espírito, caminhou de um lado para o outro fora do portão de ferro durante a maior parte de uma hora, com alguma solicitude; olhando ocasionalmente entre as barras, como se tivesse colocado uma pomba num poleiro alto numa jaula de leões, e tivesse na ideia que ela poderia cair.
CAPÍTULO XXI. UM RECONHECIMENTO
Nada ocorreu durante a noite para agitar a pomba cansada; e a pomba levantou-se refrescada. Com o Sr. Grewgious, quando o relógio bateu as dez da manhã, veio o Sr. Crisparkle, que tinha vindo num só mergulho do rio em Cloisterham.
— A Srta. Twinkleton estava tão inquieta, Srta. Rosa — explicou-lhe ele — e veio ter com a mãe e comigo com o seu bilhete, num tal estado de espanto, que, para a acalmar, voluntariei-me para este serviço no primeiro comboio a ser apanhado de manhã. Desejei na altura que tivesse vindo ter comigo; mas agora acho melhor que tenha feito como fez, e vindo ter com o seu tutor.
— Pensei em si — disse-lhe Rosa; — mas Minor Canon Corner era tão perto dele...
— Compreendo. Foi bastante natural.
— Contei ao Sr. Crisparkle — disse o Sr. Grewgious — tudo o que me contou ontem à noite, minha querida. Naturalmente, tê-lo-ia escrito para ele imediatamente; mas a sua vinda foi muito oportuna. E foi particularmente gentil da parte dele vir, pois ele tinha acabado de ir embora.
— Decidiram — perguntou Rosa, apelando a ambos — o que deve ser feito por Helena e pelo seu irmão?
— Ora, na verdade — disse o Sr. Crisparkle —, estou em grande perplexidade. Se até o Sr. Grewgious, cuja cabeça é muito mais lúcida que a minha, e que está uma noite inteira de cogitação à minha frente, está indeciso, o que devo eu estar!
A Unlimited enfiou aqui a cabeça pela porta — depois de ter batido e sido autorizada a apresentar-se —, anunciando que um cavalheiro desejava uma palavra com outro cavalheiro chamado Crisparkle, se tal cavalheiro estivesse ali. Se não estivesse, pedia perdão por se ter enganado.
— Esse cavalheiro está aqui — disse o Sr. Crisparkle —, mas está ocupado neste momento.
— É um cavalheiro moreno? — interveio Rosa, recuando para junto do seu tutor.
— Não, minha senhora, mais para um cavalheiro de pele bronzeada.
— Tem a certeza de que não é de cabelo preto? — perguntou Rosa, ganhando coragem.
— Tenho a certeza absoluta, minha senhora. Cabelo castanho e olhos azuis.
— Talvez — sugeriu o Sr. Grewgious, com a sua cautela habitual —, fosse bom vê-lo, reverendo senhor, se não se opõe. Quando se está em dificuldade ou perdido, nunca se sabe em que direção uma saída poderá abrir-se. É um princípio de negócios meu, em tal caso, não fechar nenhuma direção, mas manter os olhos em todas as direções que se apresentem. Eu poderia contar um caso a propósito, mas seria prematuro.
— Se a menina Rosa me permitir, então? Que o cavalheiro entre — disse o Sr. Crisparkle.
O cavalheiro entrou; pediu desculpas, com uma graça franca mas modesta, por não encontrar o Sr. Crisparkle sozinho; voltou-se para o Sr. Crisparkle e, sorrindo, fez a pergunta inesperada: — Quem sou eu?
— É o cavalheiro que vi a fumar debaixo das árvores em Staple Inn, há poucos minutos.
— Verdade. Lá o vi. Quem mais sou eu?
O Sr. Crisparkle concentrou a sua atenção num rosto bonito, muito queimado do sol; e o fantasma de algum rapaz do passado pareceu surgir, gradual e vagamente, na sala.
O cavalheiro viu uma recordação esforçada iluminar as feições do Minor Canon e, sorrindo de novo, disse: — O que vai querer para o pequeno-almoço esta manhã? Está sem compota.
— Espere um momento! — exclamou o Sr. Crisparkle, levantando a mão direita. — Dê-me mais um instante! Tartar!
Os dois apertaram as mãos com a maior cordialidade e depois chegaram ao ponto maravilhoso — para ingleses — de colocar as mãos nos ombros um do outro e olhar alegremente para o rosto alheio.
— O meu antigo caloiro! — disse o Sr. Crisparkle.
— O meu antigo mestre! — disse o Sr. Tartar.
— Salvou-me de me afogar! — disse o Sr. Crisparkle.
— Depois do que o senhor começou a nadar, sabe! — disse o Sr. Tartar.
— Valha-me Deus! — disse o Sr. Crisparkle.
— Ámen! — disse o Sr. Tartar.
E então recomeçaram a apertar as mãos com a maior cordialidade.
— Imaginem — exclamou o Sr. Crisparkle, com os olhos a brilhar: — Menina Rosa Bud e Sr. Grewgious, imaginem o Sr. Tartar, quando era o mais pequeno dos juniores, a mergulhar para me salvar, agarrando-me, um sénior grande e pesado, pelo cabelo, e a nadar para a margem comigo como um gigante da água!
— Imaginem eu não o deixar afundar, já que era o meu mestre! — disse o Sr. Tartar. — Mas sendo a verdade que ele era o meu melhor protetor e amigo, e me fez mais bem do que todos os mestres juntos, um impulso irracional apoderou-se de mim para o apanhar, ou ir com ele para o fundo.
— Hum! Permita-me, senhor, ter a honra — disse o Sr. Grewgious, avançando com a mão estendida —, pois é uma honra que verdadeiramente estimo. Sinto-me orgulhoso por fazer o seu conhecimento. Espero que não tenha apanhado uma constipação. Espero que não tenha tido incómodos por engolir demasiada água. Como tem passado desde então?
Não era de modo algum evidente que o Sr. Grewgious soubesse o que dizia, embora fosse muito evidente que ele queria dizer algo altamente amigável e apreciativo.
Se o Céu, pensou Rosa, tivesse enviado tal coragem e perícia em auxílio da sua pobre mãe! E ele ser tão franzino e jovem naquela altura!
— Não desejo ser elogiado por isso, agradeço-lhe; mas penso que tenho uma ideia — anunciou o Sr. Grewgious, depois de dar um ou dois passos apressados através da sala, tão inesperados e inexplicáveis que todos ficaram a olhar para ele, na dúvida se ele estava a engasgar-se ou com cãibras —: penso que tenho uma ideia. Acredito que tive o prazer de ver o nome do Sr. Tartar como inquilino do conjunto de cima, na casa ao lado do conjunto de cima, no canto?
— Sim, senhor — respondeu o Sr. Tartar. — Está certo até esse ponto.
— Estou certo até esse ponto — disse o Sr. Grewgious. — Marque isso; — o que ele fez, com o polegar direito no esquerdo. — Por acaso saberá o nome do seu vizinho no conjunto de cima, do outro lado da parede divisória? — aproximando-se muito do Sr. Tartar, para não perder nada do seu rosto, devido à sua miopia.
— Landless.
— Marque isso — disse o Sr. Grewgious, dando outra voltinha e voltando depois. — Sem conhecimento pessoal, suponho, senhor?
— Ligeiro, mas algum.
— Marque isso — disse o Sr. Grewgious, dando outra voltinha e voltando novamente. — Natureza do conhecimento, Sr. Tartar?
— Achei que ele parecia ser um rapaz em más condições, e pedi-lhe licença — apenas há um ou dois dias — para partilhar as minhas flores ali em cima com ele; isto é, para estender o meu jardim de flores até às janelas dele.
— Teria a gentileza de se sentar? — disse o Sr. Grewgious. — Tenho uma ideia!
Eles obedeceram; o Sr. Tartar não menos prontamente, por estar completamente às cegas; e o Sr. Grewgious, sentado no centro, com as mãos sobre os joelhos, expôs então a sua ideia, com a sua maneira habitual de ter a exposição decorada.
— Não me consigo decidir ainda se é prudente manter uma comunicação aberta nas atuais circunstâncias, e da parte da justa integrante da presente companhia, com o Sr. Neville ou a Srta. Helena. Tenho razões para saber que um amigo nosso local (sobre o qual peço autorização para lançar uma maldição passageira, mas sincera, com a amável permissão do meu amigo reverendo) esgueira-se de um lado para o outro, e anda por aí a bisbilhotar. Quando não o faz ele próprio, pode ter algum informador à espreita, na pessoa de um guarda noturno, porteiro ou outro tipo de parasita de Staple. Por outro lado, a menina Rosa deseja, muito naturalmente, ver a sua amiga, a Srta. Helena, e pareceria importante que pelo menos a Srta. Helena (se não o seu irmão também, através dela) soubesse, em privado, pelos lábios da menina Rosa, o que ocorreu e o que foi ameaçado. Estou de acordo, em geral, com as opiniões que exponho?
— Concordo inteiramente com elas — disse o Sr. Crisparkle, que tinha estado muito atento.
— Como não tenho dúvidas de que estaria — acrescentou o Sr. Tartar, sorrindo —, se as compreendesse.
— Com calma, senhor — disse o Sr. Grewgious; — iremos confiar-lhe tudo diretamente, se nos conceder a sua permissão. Agora, se o nosso amigo local tiver algum informador no local, é toleravelmente claro que tal informador só pode estar encarregado de vigiar os aposentos ocupados pelo Sr. Neville. Reportando ele, ao nosso amigo local, quem entra e sai de lá, o nosso amigo local supriria por si próprio, a partir do seu conhecimento prévio, a identidade das pessoas. Ninguém pode ser encarregado de vigiar todo o Staple, ou de se preocupar com os que entram e saem de outros conjuntos de aposentos: a menos, claro, que sejam os meus.
— Começo a compreender para onde tende — disse o Sr. Crisparkle —, e aprovo muito a sua cautela.
— Não preciso de repetir que ainda não sei nada dos porquês e dos motivos — disse o Sr. Tartar; — mas também compreendo para onde tende, por isso deixe-me dizer desde já que os meus aposentos estão livremente à sua disposição.
— Pronto! — exclamou o Sr. Grewgious, alisando a cabeça triunfantemente; — agora temos todos a ideia. Tem-na, minha querida?
— Penso que tenho — disse Rosa, corando um pouco quando o Sr. Tartar olhou rapidamente para ela.
— Vejam, a menina vai a Staple com o Sr. Crisparkle e o Sr. Tartar — disse o Sr. Grewgious; — eu entro e saio, sozinho, da minha maneira habitual; a menina sobe com esses cavalheiros para os quartos do Sr. Tartar; espreita o jardim de flores do Sr. Tartar; espera pelo aparecimento da Srta. Helena ali, ou sinaliza à Srta. Helena que está perto; e comunica com ela livremente, e nenhum espião pode ser mais sábio.
— Tenho muito medo de ser...
— Ser o quê, minha querida? — perguntou o Sr. Grewgious, enquanto ela hesitava. — Não está assustada?
— Não, não é isso — disse Rosa, timidamente; — ser um incómodo para o Sr. Tartar. Parece que estamos a apropriar-nos da residência do Sr. Tartar muito calmamente.
— Protesto — respondeu esse cavalheiro —, que pensarei melhor sobre isso para todo o sempre, se a sua voz soar lá dentro apenas uma vez.
Rosa, não sabendo muito bem o que dizer sobre isso, baixou os olhos e, voltando-se para o Sr. Grewgious, perguntou obedientemente se deveria pôr o seu chapéu? Sendo da opinião do Sr. Grewgious que ela não poderia fazer melhor, ela retirou-se para esse fim. O Sr. Crisparkle aproveitou a oportunidade para dar ao Sr. Tartar um resumo dos infortúnios de Neville e da sua irmã; a oportunidade foi suficientemente longa, dado que o chapéu precisava de um ajuste extra.
O Sr. Tartar deu o braço a Rosa, e o Sr. Crisparkle caminhou, isolado, à frente.
— Pobre, pobre Eddy! — pensou Rosa, enquanto caminhavam.
O Sr. Tartar acenou com a mão direita enquanto inclinava a cabeça sobre Rosa, falando de uma forma animada.
— Não era tão forte ou tão bronzeada quando salvou o Sr. Crisparkle — pensou Rosa, olhando para ela; — mas deve ter sido muito firme e determinada até naquela altura.
O Sr. Tartar contou-lhe que tinha sido marinheiro, vagueando por todo o lado durante anos e anos.
— Quando vai voltar para o mar? — perguntou Rosa.
— Nunca!
Rosa perguntou-se o que diriam as raparigas se a pudessem ver a atravessar a rua larga no braço do marinheiro. E imaginou que os transeuntes deviam achá-la muito pequena e muito indefesa, em contraste com a figura forte que a poderia ter apanhado e retirado de qualquer perigo, quilómetros e quilómetros sem descansar.
Pensava ainda que os seus olhos azuis, de longo alcance, pareciam ter sido usados para observar o perigo de longe, e para o observar sem vacilar, aproximando-se cada vez mais: quando, ao levantar os seus próprios olhos, descobriu que ele parecia estar a pensar algo sobre eles.
Isto deixou a pequena Rosebud um pouco confusa, e pode explicar por que ela nunca mais soube bem como subiu (com a ajuda dele) para o seu jardim no ar, e pareceu entrar num país maravilhoso que floresceu subitamente como o país no cimo do pé de feijão mágico. Que floresça para sempre!
CAPÍTULO XXII. UM ESTADO DE COISAS ÁSPERO AVANÇA
Os aposentos do Sr. Tartar eram os mais arrumados, os mais limpos e os mais bem ordenados que alguma vez se viram sob o sol, a lua e as estrelas. Os soalhos estavam esfregados a tal ponto, que se poderia supor que os negros de Londres estavam emancipados para sempre e tinham saído da terra de vez. Cada centímetro de latão na posse do Sr. Tartar era polido e brunido, até brilhar como um espelho de bronze. Nenhuma mancha, nem ponto, nem salpico sujava a pureza de qualquer dos deuses domésticos do Sr. Tartar, grandes, pequenos ou médios. A sua sala de estar era como a cabine do almirante, a sua casa de banho era como uma queijaria, o seu quarto de dormir, equipado com cacifos e gavetas, era como uma loja de sementes; e o seu catre bem equilibrado apenas se mexia no meio, como se respirasse. Tudo o que pertencia ao Sr. Tartar tinha aposentos próprios atribuídos: os seus mapas e cartas tinham os seus; os seus livros tinham os seus; as suas escovas tinham os seus; as suas botas tinham os seus; as suas roupas tinham os seus; os seus frascos tinham os seus; os seus telescópios e outros instrumentos tinham os seus. Tudo era facilmente acessível. Prateleira, suporte, cacifo, gancho e gaveta estavam igualmente ao alcance, e foram igualmente concebidos com o intuito de evitar o desperdício de espaço e proporcionar alguns centímetros confortáveis de arrumação para algo que não caberia exatamente em mais lado nenhum. O seu pequeno serviço de prata brilhante estava tão disposto no aparador que uma colher de sal desleixada ter-se-ia traído instantaneamente; os seus utensílios de higiene estavam tão dispostos na sua mesa de toucador que um palito de comportamento desleixado poderia ter sido denunciado à primeira vista. Assim era com as curiosidades que tinha trazido de várias viagens. Empalhadas, secas, repolidas ou de outra forma preservadas, conforme o seu tipo; aves, peixes, répteis, armas, artigos de vestuário, conchas, algas, ervas ou memórias de recifes de coral; cada um era exibido no seu lugar especial, e nenhum poderia ter sido exibido num lugar melhor. Tinta e verniz pareciam ser mantidos em algum lugar fora de vista, em prontidão constante para obliterar marcas de dedos errantes onde quer que se tornassem percetíveis nos aposentos do Sr. Tartar. Nenhum navio de guerra foi alguma vez mantido mais impecável de um toque descuidado. Neste dia brilhante de verão, um toldo elegante estava montado sobre o jardim de flores do Sr. Tartar como apenas um marinheiro o sabe montar, e havia um ar marítimo em todo o efeito, tão deliciosamente completo, que o jardim de flores poderia ter pertencido a janelas de popa em alto mar, e todo o conjunto poderia ter avançado galhardamente com todos a bordo, se o Sr. Tartar tivesse apenas levado aos lábios o megafone que estava pendurado num canto, e dado ordens roucas para içar a âncora, despachem-se aí, homens, e ponham-lhe todas as velas!
O Sr. Tartar a fazer as honras desta embarcação galharda estava em sintonia com o resto. Quando um homem pratica um hobby amável que não se assusta com nada e não pontapeia ninguém, é apenas agradável vê-lo a praticá-lo com um sentido humorístico do lado engraçado da criatura. Quando o homem é um homem cordial e sincero por natureza, e além disso é perfeitamente fresco e genuíno, pode duvidar-se se ele é alguma vez visto em melhor vantagem do que num momento desses. Assim, Rosa teria pensado naturalmente (mesmo que não tivesse sido conduzida pelo navio com toda a homenagem devida à Primeira Dama do Almirantado, ou Primeira Fada do Mar), que era encantador ver e ouvir o Sr. Tartar a rir-se a meio, e a regozijar-se a meio, com as suas várias invenções. Assim, Rosa teria pensado naturalmente, de qualquer modo, que o marinheiro queimado do sol mostrava grande vantagem quando, terminada a inspeção, ele se retirava delicadamente da sua cabine de almirante, suplicando-lhe que se considerasse a sua Rainha, e acenando-lhe para fora do seu jardim de flores com a mão que tinha tido a vida do Sr. Crisparkle nela.
— Helena! Helena Landless! Estás aí?
— Quem me fala? Não é a Rosa? — Então, um segundo rosto bonito apareceu.
— Sim, minha querida!
— Ora, como vieste aqui, querida?
— Eu... eu não sei bem — disse Rosa, corando; — a menos que esteja a sonhar!
Porquê corar? Pois os seus dois rostos estavam sozinhos com as outras flores. Será que os rubores estão entre os frutos do país do pé de feijão mágico?
— Não estou a sonhar — disse Helena, sorrindo. — Aceitaria mais coisas como garantidas se estivesse. Como nos juntamos — ou tão perto uma da outra — tão inesperadamente?
Inesperadamente, de facto, entre os gabiões e chaminés da ligação de P. J. T., e as flores que tinham brotado do mar salgado. Mas Rosa, acordando, contou à pressa como vieram a estar juntas, e todo o porquê dessa questão.
— E o Sr. Crisparkle está aqui — disse Rosa, numa conclusão rápida; — e, podes acreditar? Há muito tempo ele salvou-lhe a vida!
— Eu poderia acreditar em qualquer coisa desse género do Sr. Crisparkle — respondeu Helena, com o rosto a corar.
(Mais rubores no país do pé de feijão!)
— Sim, mas não foi o Crisparkle — disse Rosa, corrigindo rapidamente.
— Não compreendo, querida.
— Foi muito simpático da parte do Sr. Crisparkle ser salvo — disse Rosa —, e ele não poderia ter mostrado a sua elevada opinião sobre o Sr. Tartar de forma mais expressiva. Mas foi o Sr. Tartar quem o salvou.
Os olhos escuros de Helena olharam muito seriamente para o rosto brilhante entre as folhas, e ela perguntou, num tom mais lento e pensativo:
— O Sr. Tartar está convosco agora, querida?
— Não; porque ele cedeu os seus quartos a mim... a nós, quero dizer. É um lugar tão bonito!
— É?
— É como o interior do navio mais requintado que alguma vez navegou. É como... é como...
— Como um sonho? — sugeriu Helena.
Rosa respondeu com um pequeno aceno e cheirou as flores.
Helena retomou, após uma curta pausa de silêncio, durante a qual parecia (ou era imaginação de Rosa) compadecer-se de alguém: — O meu pobre Neville está a ler no seu próprio quarto, estando o sol tão brilhante deste lado agora. Penso que é melhor ele não saber que estás tão perto.
— Oh, eu também penso! — exclamou Rosa, prontamente.
— Suponho — continuou Helena, hesitante —, que ele deva saber, mais tarde ou mais cedo, tudo o que me contaste; mas não tenho a certeza. Pede o conselho do Sr. Crisparkle, minha querida. Pergunta-lhe se posso dizer ao Neville tanto ou tão pouco do que me contaste quanto eu achar melhor.
Rosa retirou-se para a sua cabine e propôs a questão. O Minor Canon era a favor do livre exercício do discernimento de Helena.
— Agradeço-lhe muito — disse Helena, quando Rosa emergiu novamente com o seu relatório. — Pergunta-lhe se seria melhor esperar até que qualquer difamação e perseguição a Neville por parte deste miserável se revele, ou tentar antecipá-la: quero dizer, encontrar uma forma de saber se algo do género se passa sombriamente à nossa volta?
O Minor Canon achou este ponto tão difícil de dar uma opinião confiante, que, após duas ou três tentativas falhadas, sugeriu uma referência ao Sr. Grewgious. Helena concordando, ele dirigiu-se (com uma assunção de indiferença muito mal sucedida) através do pátio para P. J. T.’s, e expôs o assunto. O Sr. Grewgious manteve-se decididamente no princípio geral de que, se se pudesse passar a perna a um bandido ou a uma besta selvagem, seria melhor fazê-lo; e ele também sustentou decididamente o caso especial de que John Jasper era um bandido e uma besta selvagem em combinação.
Assim aconselhado, o Sr. Crisparkle voltou e reportou a Rosa, que por sua vez reportou a Helena. Ela, agora a seguir firmemente o seu fio de pensamento à janela, considerou o assunto.
— Podemos contar com a disponibilidade do Sr. Tartar para nos ajudar, Rosa? — perguntou ela.
Oh, sim! Rosa pensou timidamente que sim. Oh, sim, Rosa acreditava timidamente que quase podia responder por isso. Mas deveria perguntar ao Sr. Crisparkle? — Acho a tua autoridade no ponto tão boa quanto a dele, minha querida — disse Helena, calmamente —, e não precisas de desaparecer outra vez por causa disso. Estranho da parte de Helena!
— Vês, Neville — continuou Helena após mais reflexão —, não conhece mais ninguém aqui: ele não trocou uma única palavra com mais ninguém aqui. Se o Sr. Tartar o visitasse abertamente e frequentemente; se dispensasse um minuto para esse fim, frequentemente; se até o fizesse, quase diariamente; algo poderia resultar disso.
— Algo poderia resultar disso, querida? — repetiu Rosa, examinando a beleza da sua amiga com um rosto muito perplexo. — Algo poderia?
— Se os movimentos de Neville são realmente vigiados, e se o propósito é realmente isolá-lo de todos os amigos e conhecidos e desgastar a sua vida diária grão a grão (o que pareceria ser a ameaça para ti), não parece provável — disse Helena —, que o seu inimigo comunicasse de alguma forma com o Sr. Tartar para o afastar de Neville? Nesse caso, poderíamos não só saber o facto, mas poderíamos saber pelo Sr. Tartar quais os termos da comunicação.
— Já percebi! — exclamou Rosa. E imediatamente lançou-se para a sua cabine novamente.
De repente, o seu rosto bonito reapareceu, com uma cor muito mais intensa, e ela disse que tinha contado ao Sr. Crisparkle, e que o Sr. Crisparkle tinha trazido o Sr. Tartar, e que o Sr. Tartar — "que está à espera agora, caso precises dele", acrescentou Rosa, com um meio olhar para trás, e não sem alguma confusão entre o interior da cabine e o exterior — tinha declarado a sua disponibilidade para agir como ela tinha sugerido, e para começar a sua tarefa naquele mesmo dia.
— Agradeço-lhe de coração — disse Helena. — Por favor, diz-lhe isso.
Novamente não pouco confusa entre o Jardim de flores e a Cabine, Rosa mergulhou com a sua mensagem, e saiu novamente com mais garantias do Sr. Tartar, e ficou a hesitar num estado dividido entre Helena e ele, o que provou que a confusão nem sempre é necessariamente estranha, mas pode por vezes apresentar uma aparência muito agradável.
— E agora, querida — disse Helena —, seremos cuidadosas com a cautela que nos restringiu a esta entrevista por enquanto, e separar-nos-emos. Também ouço o Neville a mover-se. Vais voltar?
“Para a casa da Srta. Twinkleton?” perguntou Rosa.
“Sim.”
“Oh, eu nunca poderia voltar lá. Não poderia mesmo, depois daquela entrevista terrível!” disse Rosa.
“Então para onde vais, linda?”
“Agora que penso nisso, não sei,” disse Rosa. “Ainda não decidi nada, mas o meu tutor cuidará de mim. Não fiques inquieta, querida. Certamente estarei em algum lugar.”
(Parecia provável.)
“E terei notícias do meu Botão de Rosa através do Sr. Tartar?” indagou Helena.
“Sim, suponho que sim; através de—” Rosa olhou para trás, num sobressalto, em vez de completar o nome. “Mas diz-me uma coisa antes de nos separarmos, querida Helena. Diz-me — que tens a certeza, certeza absoluta, de que eu não podia evitar.”
“Evitar, amor?”
“Evitar torná-lo maldoso e vingativo. Eu não podia manter quaisquer termos com ele, podia?”
“Sabes como te amo, querida,” respondeu Helena, com indignação; “mas preferiria ver-te morta aos pés dele.”
“Isso é um grande conforto para mim! E dirás isso ao teu pobre irmão, não dirás? E dar-lhe-ás as minhas lembranças e a minha simpatia? E pedir-lhe-ás para não me odiar?”
Com um balançar de cabeça triste, como se aquele fosse um pedido deveras supérfluo, Helena enviou carinhosamente beijos com as duas mãos à sua amiga, e as duas mãos da sua amiga foram-lhe enviadas em resposta; e então viu uma terceira mão (uma mão morena) aparecer por entre as flores e as folhas, e ajudar a sua amiga a desaparecer da vista.
O repasto que o Sr. Tartar produziu na Cabine do Almirante, simplesmente tocando no trinco de mola de um cacifo e na pega de uma gaveta, foi um banquete encantado e deslumbrante. Maravilhosos macarrones, licores cintilantes, especiarias tropicais magicamente preservadas e geleias de frutas tropicais celestiais exibiam-se profusamente num instante. Mas o Sr. Tartar não podia fazer o tempo parar; e o tempo, com a sua rapidez impiedosa, avançava tão depressa que Rosa foi obrigada a descer do país do pé de feijão para a terra e para os aposentos do seu tutor.
“E agora, minha cara,” disse o Sr. Grewgious, “o que se segue? Para colocar o mesmo pensamento de outra forma: o que se há de fazer contigo?”
Rosa só podia parecer, num pedido de desculpas, consciente de que estava muito no seu próprio caminho e no de todos os outros. Alguma ideia passageira de viver, à prova de fogo, subindo muitos degraus em Furnival’s Inn pelo resto da sua vida, era a única coisa que se assemelhava a um plano que lhe ocorreu.
“Passou-me pelo pensamento,” disse o Sr. Grewgious, “que, como a respeitada dama, a Srta. Twinkleton, ocasionalmente se desloca a Londres durante o recesso, com o objetivo de expandir as suas relações e estar disponível para entrevistas com pais metropolitanos, se os houver — se, até termos tempo para nos orientarmos, poderíamos convidar a Srta. Twinkleton para vir ficar contigo durante um mês?”
“Ficar onde, senhor?”
“Se,” explicou o Sr. Grewgious, “poderíamos alugar um alojamento mobilado na cidade por um mês e convidar a Srta. Twinkleton para assumir a tua guarda durante esse período?”
“E depois?” sugeriu Rosa.
“E depois,” disse o Sr. Grewgious, “não estaríamos em pior situação do que estamos agora.”
“Penso que isso poderia suavizar o caminho,” assentiu Rosa.
“Então vamos,” disse o Sr. Grewgious, levantando-se, “procurar um alojamento mobilado. Nada me seria mais aceitável do que a doce presença da noite passada, para todas as noites restantes da minha existência; mas estes não são ambientes adequados para uma jovem senhora. Partamos em busca de aventuras e procuremos um alojamento mobilado. Entretanto, o Sr. Crisparkle aqui, prestes a regressar a casa imediatamente, sem dúvida que terá a gentileza de ver a Srta. Twinkleton e convidar essa senhora a cooperar no nosso plano.”
O Sr. Crisparkle, aceitando voluntariamente a missão, partiu; o Sr. Grewgious e a sua pupila saíram para a sua expedição.
Como a ideia do Sr. Grewgious de procurar um alojamento mobilado era a de ir para o lado oposto da rua de uma casa com um anúncio adequado na janela e ficar a olhar para ela; e depois seguir tortuosamente até às traseiras da casa e ficar a olhar para elas; e depois não entrar, mas fazer tentativas semelhantes com outra casa, com o mesmo resultado; o seu progresso foi lento. Finalmente, lembrou-se de uma prima viúva, afastada por vários graus, do Sr. Bazzard, que outrora solicitara a sua influência no mundo dos senhorios e que vivia em Southampton Street, Bloomsbury Square. O nome desta senhora, declarado em letras capitais intransigentes de tamanho considerável numa placa de porta de latão, e contudo não elucidativo quanto ao sexo ou condição, era BILLICKIN.
O desmaio pessoal e uma franqueza pessoal avassaladora eram os traços distintivos da organização da Sra. Billickin. Ela saiu languidamente do seu salão exclusivo das traseiras, com o ar de ter sido expressamente trazida de volta à vida, para o efeito, de uma acumulação de vários desmaios.
“Espero vê-lo bem, senhor,” disse a Sra. Billickin, reconhecendo o seu visitante com uma vénia.
“Obrigado, muito bem. E a senhora, minha senhora?” respondeu o Sr. Grewgious.
“Estou tão bem,” disse a Sra. Billickin, tornando-se aspiracional devido ao excesso de desmaio, “quanto alguma vez estarei.”
“A minha pupila e uma senhora de idade,” disse o Sr. Grewgious, “desejam encontrar um alojamento elegante por um mês ou mais. Tem apartamentos disponíveis, senhora?”
“Sr. Grewgious,” respondeu a Sra. Billickin, “não o enganarei; longe disso. Tenho apartamentos disponíveis.”
Isto com o ar de acrescentar: “Levem-me para a fogueira, se quiserem; mas enquanto viver, serei franca.”
“E agora, que apartamentos, minha senhora?” perguntou o Sr. Grewgious, afavelmente. Para domar uma certa severidade aparente por parte da Sra. Billickin.
“Há esta sala de estar — que, chame-lhe o que quiser, é a sala da frente, menina,” disse a Sra. Billickin, impressionando Rosa para a conversa: “sendo a sala das traseiras aquela à qual me agarro e da qual nunca me separo; e há dois quartos no topo da casa com gás canalizado. Não lhe digo que os soalhos do seu quarto são firmes, porque não o são. O próprio canalizador admitiu que, para fazer um trabalho firme, teria de ir por baixo das suas vigas, e não valia a pena a despesa como inquilina anual. A canalização passa por cima das suas vigas, e é melhor que isso lhe seja comunicado.”
O Sr. Grewgious e Rosa trocaram olhares de algum desalento, embora não tivessem a menor ideia de que horrores latentes esta passagem da canalização poderia envolver. A Sra. Billickin colocou a mão no coração, como se o tivesse aliviado de um peso.
“Bem! O telhado está bem, sem dúvida,” disse o Sr. Grewgious, animando-se um pouco.
“Sr. Grewgious,” respondeu a Sra. Billickin, “se eu lhe dissesse, senhor, que não ter nada acima de si é ter um teto acima de si, estaria a enganá-lo, o que não farei. Não, senhor. As suas telhas VÃO soltar-se a essa elevação em tempo de vento, faça o seu melhor, o melhor ou o pior! Desafio-o, senhor, seja o que for, a manter as suas telhas firmes, tente como puder.” Aqui a Sra. Billickin, tendo sido calorosa com o Sr. Grewgious, arrefeceu um pouco, para não abusar do poder moral que detinha sobre ele. “Consequentemente,” prosseguiu a Sra. Billickin, mais suavemente, mas ainda firmemente na sua franqueza incorruptível: “consequentemente, seria pior do que inútil eu arrastar-me e viajar até ao topo da casa consigo, e o senhor dizer: ‘Sra. Billickin, que mancha noto no teto, pois considero-a uma mancha?’ e eu responder: ‘Não o compreendo, senhor.’ Não, senhor, não serei tão dissimulada. Compreendo-o antes de o apontar. É a humidade, senhor. Entra e não entra. Pode estar seca ali metade da sua vida; mas chegará o tempo, e é melhor que saiba, em que uma esponja encharcada não seria nome para si.”
O Sr. Grewgious pareceu muito envergonhado por ser prefigurado neste estado.
“Tem outros apartamentos, senhora?” perguntou ele.
“Sr. Grewgious,” respondeu a Sra. Billickin, com muita solenidade, “tenho. Pergunta-me se tenho, e a minha resposta aberta e honesta é, tenho. O primeiro e o segundo andares estão vagos, e são quartos doces.”
“Vamos, vamos! Não há nada contra eles,” disse o Sr. Grewgious, confortando-se.
“Sr. Grewgious,” respondeu a Sra. Billickin, “perdoe-me, há as escadas. A menos que a sua mente esteja preparada para as escadas, isso levará a uma deceção inevitável. Não pode, menina,” disse a Sra. Billickin, dirigindo-se a Rosa de forma reprovadora, “colocar um primeiro andar, e muito menos um segundo, no mesmo nível de uma sala. Não, não pode fazê-lo, menina, está além do seu poder, e por que tentar?”
A Sra. Billickin colocou a questão de forma muito sentida, como se Rosa tivesse demonstrado uma determinação obstinada em manter a posição insustentável.
“Podemos ver estes quartos, senhora?” indagou o seu tutor.
“Sr. Grewgious,” respondeu a Sra. Billickin, “pode. Não lho dissimularei, senhor; pode.”
A Sra. Billickin enviou então buscar o seu xaile à sala das traseiras (sendo uma ficção de estado, datada de uma antiguidade imemorial, que ela nunca poderia ir a lado nenhum sem estar agasalhada), e tendo sido enrolada pela sua criada, liderou o caminho. Fez várias pausas elegantes nas escadas para respirar e agarrou-se ao coração na sala de estar como se este estivesse prestes a escapar-se, e ela o tivesse apanhado em flagrante a tentar levantar voo.
“E o segundo andar?” disse o Sr. Grewgious, ao achar o primeiro satisfatório.
“Sr. Grewgious,” respondeu a Sra. Billickin, virando-se para ele com cerimónia, como se tivesse chegado o momento em que um entendimento claro sobre um ponto difícil devia ser alcançado, e uma confiança solene estabelecida, “o segundo andar fica acima deste.”
“Podemos ver esse também, senhora?”
“Sim, senhor,” respondeu a Sra. Billickin, “está aberto como o dia.”
Tendo esse também se revelado satisfatório, o Sr. Grewgious retirou-se para uma janela com Rosa para algumas palavras de consulta, e depois, pedindo papel e tinta, esboçou uma ou duas linhas de acordo. Entretanto, a Sra. Billickin tomou assento e entregou uma espécie de Índice ou Resumo da questão geral.
“Dois xelins e quarenta por semana, pelo mês, com certeza, nesta altura do ano,” disse a Sra. Billickin, “é apenas razoável para ambas as partes. Não é Bond Street nem ainda o Palácio de St. James; mas não se pretende que o seja. Nem se tenta negar — porque por que haveria de ser? — que a entrada conduz a um estábulo. Estábulos devem existir. Em relação ao serviço; mantêm-se dois, com salários liberais. Surgiram palavras quanto aos comerciantes, mas sapatos sujos em lareiras acabadas de limpar foram a causa, e não há desejo de uma comissão sobre as suas encomendas. O carvão é ou junto ao fogo, ou através da tremonha.” Ela enfatizou as preposições como marcando uma diferença subtil, mas imensa. “Cães não são vistos com bons olhos. Além da sujidade, são roubados, e as suspeitas partilhadas tendem a surgir, e ocorrem desagrados.”
Nesta altura, o Sr. Grewgious tinha as suas linhas de acordo e o seu sinal prontas. “Assinei pelas senhoras, senhora,” disse ele, “e terá a gentileza de assinar por si, Nome e Apelido, ali, se faz favor.”
“Sr. Grewgious,” disse a Sra. Billickin num novo impulso de franqueza, “não, senhor! Deve desculpar o nome próprio.”
O Sr. Grewgious encarou-a.
“A placa da porta é usada como proteção,” disse a Sra. Billickin, “e atua como tal, e dela não me afastarei.”
O Sr. Grewgious encarou Rosa.
“Não, Sr. Grewgious, deve desculpar-me. Enquanto esta casa for conhecida indefinidamente como Billickin’s, e enquanto for uma dúvida para a ralé onde Billickin possa estar escondido, perto da porta da rua ou lá em baixo na cave, e qual o seu peso e tamanho, sinto-me segura. Mas comprometer-me com uma declaração feminina solitária, não, menina! Nem desejaria por um momento,” disse a Sra. Billickin, com um forte sentido de ofensa, “tirar essa vantagem do seu sexo, se não fosse levada a isso por um exemplo inconsiderado.”
Rosa, corando como se tivesse feito alguma tentativa vergonhosa de enganar a boa senhora, implorou ao Sr. Grewgious que se desse por satisfeito com qualquer assinatura. E, consequentemente, de uma forma baronial, o sinal manual BILLICKIN foi acrescentado ao documento.
Os detalhes foram então acertados para a tomada de posse no dia a seguir ao próximo, quando a Srta. Twinkleton poderia ser razoavelmente esperada; e Rosa voltou para Furnival’s Inn no braço do seu tutor.
Eis o Sr. Tartar a caminhar de um lado para o outro em Furnival’s Inn, detendo-se ao vê-los chegar e avançando na sua direção!
“Ocorreu-me,” sugeriu o Sr. Tartar, “que poderíamos subir o rio, estando o tempo tão delicioso e a maré favorável. Tenho um barco meu em Temple Stairs.”
“Não subo o rio há muitos dias,” disse o Sr. Grewgious, tentado.
“Nunca subi o rio,” acrescentou Rosa.
Em meia hora estavam a resolver este assunto subindo o rio. A maré estava a seu favor, a tarde era encantadora. O barco do Sr. Tartar era perfeito. O Sr. Tartar e Lobley (o criado do Sr. Tartar) remavam com um par de remos. O Sr. Tartar tinha um iate, ao que parecia, algures perto de Greenhithe; e o criado do Sr. Tartar estava encarregue deste iate e foi destacado para o seu presente serviço. Era um homem de aspeto alegre, com cabelo e suíças cor de açafrão e um grande rosto vermelho. Era a imagem cuspida do sol nas antigas xilogravuras, com o cabelo e as suíças a servirem de raios em redor dele. Resplandecente na proa do barco, era uma visão brilhante, com uma camisa de marinheiro de guerra — ou sem ela, dependendo da opinião — e os braços e o peito tatuados com todo o tipo de padrões. Lobley parecia encarar tudo com naturalidade, assim como o Sr. Tartar; contudo, os seus remos dobravam-se enquanto remavam, e o barco saltava sob eles. O Sr. Tartar falava como se não estivesse a fazer nada, para Rosa que realmente não estava a fazer nada, e para o Sr. Grewgious que estava a fazer tanto que guiava tudo errado; mas o que é que isso importava, quando um movimento do pulso hábil do Sr. Tartar, ou um simples sorriso de Lobley sobre a proa, punha tudo no lugar! A maré levou-os da maneira mais alegre e cintilante, até pararem para jantar num jardim eternamente verde, sem necessidade de identificação factual aqui; e então a maré virou obrigatoriamente — sendo dedicada apenas àquele grupo naquele dia; e enquanto flutuavam ociosamente entre alguns canteiros de vime, Rosa experimentou o que podia fazer no remo e saiu-se esplendidamente, sendo muito ajudada; e o Sr. Grewgious tentou o que podia fazer e acabou de costas, dobrado com um remo sob o queixo, não sendo ajudado em nada. Depois houve um intervalo de descanso sob os ramos (que descanso!) durante o qual Lobley limpava o suor e, organizando almofadas, macacos e coisas do género, dançava na corda bamba todo o comprimento do barco como um homem para quem os sapatos eram uma superstição e as meias uma escravatura; e depois veio o doce regresso entre odores deliciosos de limas em flor e ondulações musicais; e, demasiado cedo, a grande cidade negra lançou a sua sombra sobre as águas, e as suas pontes escuras atravessavam-nas como a morte atravessa a vida, e o jardim eternamente verde parecia ficar para sempre, inalcançável e longe.
“Será que as pessoas não podem atravessar a vida sem fases ásperas?” pensou Rosa no dia seguinte, quando a cidade estava novamente muito áspera, e tudo tinha uma aparência estranha e desconfortável de esperar por algo que não vinha. NÃO. Começou a pensar que, agora que os dias de escola em Cloisterham tinham passado e ido embora, as fases ásperas começariam a instalar-se em intervalos e a tornarem-se penosamente conhecidas!
Contudo, o que esperava Rosa? Esperava a Srta. Twinkleton? A Srta. Twinkleton chegou pontualmente. Da sua sala das traseiras saiu a Billickin para receber a Srta. Twinkleton, e a Guerra estava no olhar da Billickin a partir daquele momento fatídico.
A Srta. Twinkleton trouxe uma quantidade de bagagem consigo, tendo toda a de Rosa, bem como a sua. A Billickin encarou mal o facto de a mente da Srta. Twinkleton, estando severamente perturbada por esta bagagem, não conseguir assimilar a sua identidade pessoal com aquela clareza de perceção que era devida às suas exigências. A majestade montou o seu trono sombrio sobre a testa da Billickin como consequência. E quando a Srta. Twinkleton, em agitação, fazendo o inventário dos seus baús e pacotes, dos quais tinha dezassete, contou particularmente a própria Billickin como número onze, a B. achou necessário repudiar.
“As coisas não podem ser postas num pé de igualdade demasiado cedo,” disse ela, com uma franqueza tão demonstrativa que era quase intrusiva, “que a pessoa da casa não é uma caixa nem um embrulho, nem uma mala de mão. Não, estou muito obrigada à senhora, Srta. Twinkleton, nem tão pouco um mendigo.”
Esta última negação referia-se ao facto de a Srta. Twinkleton, de forma distraída, insistir em dar-lhe dois xelins e seis pence, em vez de ao taxista.
Assim rejeitada, a Srta. Twinkleton perguntou desvairadamente “que cavalheiro” deveria ser pago? Sendo dois os cavalheiros nessa posição (a Srta. Twinkleton tendo chegado com dois táxis), cada cavalheiro, ao ser pago, estendeu os seus dois xelins e seis pence na palma da mão aberta e, com um olhar mudo e o queixo caído, exibiu a sua injustiça ao céu e à terra. Aterrorizada por este espetáculo alarmante, a Srta. Twinkleton colocou mais um xelim em cada mão; ao mesmo tempo que apelava à lei com acentos agitados, e recontava a sua bagagem, desta vez com os dois cavalheiros incluídos, o que causou que o total saísse complicado. Entretanto, os dois cavalheiros, cada um olhando muito fixamente para o último xelim, resmungando, como se ele pudesse tornar-se um xelim e seis pence se ele mantivesse os olhos nele, desceram os degraus, subiram para as suas carruagens e partiram, deixando a Srta. Twinkleton sobre uma caixa de chapéus em lágrimas.
A Billickin contemplou esta manifestação de fraqueza sem simpatia e deu ordens para que “um jovem fosse trazido” para lutar com a bagagem. Quando aquele gladiador desapareceu da arena, a paz seguiu-se e as novas inquilinas jantaram.
Mas a Billickin tinha de alguma forma chegado ao conhecimento de que a Srta. Twinkleton dirigia uma escola. O salto desse conhecimento para a inferência de que a Srta. Twinkleton se propunha a ensinar-lhe algo, foi fácil. “Mas não o fazes,” soliloquizou a Billickin; “não sou tua aluna, seja o que for que ela,” referindo-se a Rosa, “possa ser, pobre coitada!”
A Srta. Twinkleton, por outro lado, tendo mudado de roupa e recuperado o espírito, estava animada por um desejo brando de aproveitar a ocasião de todas as formas e de ser um modelo o mais sereno possível. Num feliz compromisso entre os seus dois estados de existência, já se tinha tornado, com o seu cesto de costura à frente, a companheira equitativamente vivaz com um ligeiro tempero judicioso de informação, quando a Billickin se anunciou.
“Não vos esconderei, senhoras,” disse a B., envolta no xaile de estado, “pois não é do meu carácter esconder nem os meus motivos nem as minhas ações, que tomo a liberdade de vos visitar para expressar a esperança de que o vosso jantar tenha sido do vosso agrado. Embora não seja Profissional mas Simples, ainda assim o seu salário deveria ser um objetivo suficiente para a estimular a elevar-se acima do simples assado e cozido.”
“Jantámos muito bem, de facto,” disse Rosa, “obrigada.”
“Acostumada,” disse a Srta. Twinkleton com um ar gracioso, que aos ouvidos ciumentos da Billickin parecia acrescentar “minha boa mulher” — “acostumadas a uma dieta liberal e nutritiva, ainda que simples e salutar, não encontrámos razão para lamentar a nossa ausência da antiga cidade e da rotina doméstica metódica, em que a rotina tranquila do nosso destino tem sido até agora lançada.”
“Pensei que seria bom mencionar à minha cozinheira,” observou a Billickin com um jorro de franqueza, “o que espero que a senhora concorde, Srta. Twinkleton, foi uma precaução correta, que a jovem, estando habituada ao que consideraríamos aqui uma dieta pobre, seria melhor que fosse avançando gradualmente. Pois, uma corrida de uma alimentação escassa para uma alimentação generosa, e do que se pode chamar de amadorismo para o que se pode chamar de método, requer um poder de constituição que não é muitas vezes encontrado na juventude, particularmente quando minada por colégios internos!”
Ver-se-á que a Billickin agora se colocava abertamente contra a Srta. Twinkleton, como alguém que tinha plenamente constatado ser a sua inimiga natural.
“As suas observações,” respondeu a Srta. Twinkleton, de uma eminência moral remota, “são bem-intencionadas, não tenho dúvida; mas permitir-me-á observar que desenvolvem uma visão errada do assunto, o que só pode ser atribuído à sua extrema falta de informação precisa.”
“Minha informiação,” retorquiu a Billickin, acrescentando uma sílaba extra por uma questão de ênfase, ao mesmo tempo polida e poderosa — “minha informiação, Srta. Twinkleton, foi a minha própria experiência, a qual creio ser geralmente considerada uma boa orientação. Mas, seja como for, fui colocada na juventude em um colégio interno muito distinto, sendo a diretora uma dama não menos importante que a senhora, de idade aproximada à sua, ou talvez alguns anos mais nova, e uma pobreza de sangue fluiu da mesa, a qual tem percorrido a minha vida.”
“Muito provável,” disse a Srta. Twinkleton, ainda da sua eminência distante; “e muito de se lamentar. — Rosa, minha querida, como vai o seu trabalho?”
“Srta. Twinkleton,” retomou a Billickin, de maneira cortês, “antes de me retirar para o interior, como uma dama deve fazer, desejo perguntar-lhe, como dama, se devo considerar que as minhas palavras são postas em dúvida?”
“Não estou ciente de que fundamento a leva a nutrir tal suposição,” começou a Srta. Twinkleton, quando a Billickin a interrompeu prontamente.
“Não ponha, se lhe apraz, suposições entre os meus lábios onde nenhuma foi por mim transmitida. O seu fluxo de palavras é grande, Srta. Twinkleton, e sem dúvida é esperado de si pelas suas alunas, e sem dúvida é considerado digno do dinheiro. Sem dúvida, tenho a certeza. Mas não pagando por fluxos de palavras, e não pedindo para ser favorecida com eles aqui, desejo repetir a minha pergunta.”
“Se se refere à pobreza da sua circulação,” começou a Srta. Twinkleton, quando de novo a Billickin a interrompeu prontamente.
“Não usei tais expressões.”
“Se se refere, então, à pobreza do seu sangue—”
“Causada em mim,” estipulou a Billickin, expressamente, “num colégio interno—”
“Então,” retomou a Srta. Twinkleton, “tudo o que posso dizer é que me sinto obrigada a acreditar, pela sua asseveração, que é muito pobre, de fato. Não posso deixar de acrescentar que, se essa circunstância infeliz influencia a sua conversação, é muito de se lamentar, e é eminentemente desejável que o seu sangue fosse mais rico. — Rosa, minha querida, como vai o seu trabalho?”
“Hem! Antes de me retirar, Senhorita,” proclamou a Billickin para Rosa, anulando altivamente a Srta. Twinkleton, “gostaria que ficasse entendido entre si e mim que as minhas transações, no futuro, serão apenas consigo. Não conheço nenhuma senhora idosa aqui, Senhorita, nenhuma mais velha que a senhora.”
“Um arranjo altamente desejável, Rosa, minha querida,” observou a Srta. Twinkleton.
“Não é, Senhorita,” disse a Billickin, com um sorriso sarcástico, “que eu possua o Moinho de que ouvi falar, no qual velhas senhoras solteiras poderiam ser moídas para ficarem jovens (que presente seria para algumas de nós), mas que eu me limito totalmente a si.”
“Quando eu tiver qualquer desejo de comunicar um pedido à pessoa da casa, Rosa, minha querida,” observou a Srta. Twinkleton com majestosa alegria, “torná-lo-ei conhecido a si, e terás a bondade, tenho a certeza, de providenciar para que seja transmitido à parte competente.”
“Boa noite, Senhorita,” disse a Billickin, ao mesmo tempo afetuosa e distante. “Sendo única aos meus olhos, desejo-lhe boa noite com os melhores votos, e não me sinto impelida, estou verdadeiramente feliz por dizer, a expressar o meu desprezo por um indivíduo que, infelizmente para a senhora, lhe pertence.”
A Billickin retirou-se graciosamente com este discurso de despedida, e a partir desse momento Rosa ocupou a posição inquieta de peteca entre estas duas raquetes. Nada podia ser feito sem que uma partida animada fosse disputada. Assim, sobre a questão diária do jantar, estando as três presentes, a Srta. Twinkleton diria:
“Talvez, meu amor, possas consultar a pessoa da casa sobre se ela pode conseguir-nos um frito de cordeiro; ou, na falta deste, uma ave assada.”
Ao que a Billickin retorquiria (sem que Rosa tivesse dito uma palavra):
“Se a senhora estivesse mais acostumada à carne de açougue, Senhorita, não alimentaria a ideia de um frito de cordeiro. Primeiro, porque os cordeiros já são ovelhas há muito tempo, e segundo, porque existem coisas como dias de matança, e não os há. Quanto a aves assadas, Senhorita, por que deve estar farta de aves assadas, sem falar que compra, quando vai ao mercado por si própria, a mais velha das aves com as patas mais escamosas, como se estivesse acostumada a escolhê-las pela economia. Tente um pouco de invenção, Senhorita. Habitue-se um pouco a gerir a casa. Vamos lá, pense noutra coisa.”
A este encorajamento, oferecido com a tolerância indulgente de uma perita sábia e liberal, a Srta. Twinkleton retorquiria, corando:
“Ou, minha querida, poderias propor à pessoa da casa um pato.”
“Ora, Senhorita!” exclamaria a Billickin (ainda sem que Rosa dissesse uma palavra), “a senhora surpreende-me quando fala de patos! Sem mencionar que estão a sair da época e muito caros, realmente toca-me o coração vê-la comer um pato; pois o peito, que é o único corte delicado num pato, vai sempre para uma direção que não posso imaginar qual, e o seu próprio prato chega tão miseravelmente pele-e-osso! Tente de novo, Senhorita. Pense mais em si, e menos nos outros. Um prato de moelas agora, ou um pedaço de carneiro. Algo em que possa ter a sua chance igual.”
Ocasionalmente, o jogo tornava-se muito vivo, de fato, e era mantido com uma esperteza que tornava tal encontro como este bastante monótono. Mas a Billickin quase invariavelmente alcançava uma pontuação muito superior; e surgia com golpes laterais da natureza mais inesperada e extraordinária, quando parecia não ter qualquer chance.
Tudo isto não melhorou o estado ríspido das coisas em Londres, ou o ar que Londres adquirira aos olhos de Rosa de esperar por algo que nunca vinha. Cansada de trabalhar e conversar com a Srta. Twinkleton, ela sugeriu trabalhar e ler: ao que a Srta. Twinkleton prontamente assentiu, como uma leitora admirável, de capacidades comprovadas. Mas Rosa logo descobriu que a Srta. Twinkleton não lia com honestidade. Ela cortava as cenas de amor, interpolava passagens em louvor ao celibato feminino e era culpada de outras flagrantes fraudes piedosas. Como exemplo, tome-se a passagem brilhante: “Sempre o mais querido e mais adorado — disse Edward, apertando a querida cabeça contra o seu peito, e passando os cabelos sedosos pelos seus dedos carinhosos, dos quais os deixava cair como chuva dourada — sempre o mais querido e mais adorado, fujamos do mundo insensível e da frieza estéril dos corações de pedra, para o rico e quente Paraíso da Confiança e do Amor.” A versão fraudulenta da Srta. Twinkleton corria mansamente assim: “Sempre noivo de mim com o consentimento dos nossos pais de ambos os lados, e a aprovação do reitor de cabelos prateados do distrito — disse Edward, elevando respeitosamente aos lábios os dedos afilados tão hábeis em bordado, tambor, crochê e outras artes verdadeiramente femininas — deixa-me visitar o teu papai antes que o alvorecer de amanhã se tenha afundado no poente, e propor um estabelecimento suburbano, humilde pode ser, mas dentro das nossas posses, onde ele será sempre bem-vindo como convidado noturno, e onde cada arranjo investirá a economia e a constante troca de conhecimentos escolares com os atributos do anjo ministrante à felicidade doméstica.”
À medida que os dias se arrastavam e nada acontecia, os vizinhos começaram a dizer que a moça bonita na casa da Billickin, que olhava tão melancolicamente e por tanto tempo através das janelas ríspidas da sala de estar, parecia estar a perder o ânimo. A moça bonita poderia tê-lo perdido, não fosse o acaso de encontrar alguns livros de viagens e aventuras marítimas. Como compensação contra o seu romance, a Srta. Twinkleton, lendo em voz alta, aproveitava ao máximo todas as latitudes e longitudes, rumos, ventos, correntes, compensações e outras estatísticas (que ela sentia não serem menos enriquecedoras por não expressarem absolutamente nada para ela); enquanto Rosa, ouvindo atentamente, aproveitava ao máximo o que estava mais próximo do seu coração. Assim, ambas saíram-se melhor do que antes.
CAPÍTULO XXIII. O ALVORECER NOVAMENTE
Embora o Sr. Crisparkle e John Jasper se encontrassem diariamente sob o teto da Catedral, nada em momento algum passou entre eles que fizesse referência a Edwin Drood, depois do tempo, há mais de meio ano, em que Jasper mostrou silenciosamente ao Minor Canon a conclusão e a resolução anotadas no seu Diário. Não é provável que se tenham encontrado, embora tantas vezes, sem que os pensamentos de cada um voltassem ao assunto. Não é provável que se tenham encontrado, embora tantas vezes, sem a sensação de cada um de que o outro era um segredo desconcertante para ele. Jasper, como o denunciador e perseguidor de Neville Landless, e o Sr. Crisparkle, como o seu defensor e protetor consistente, devem, pelo menos, ter estado suficientemente em oposição para terem especulado com grande interesse sobre a estabilidade e a próxima direção dos desígnios do outro. Mas nenhum deles jamais abordou o tema.
Não sendo a falsa pretensão da natureza do Minor Canon, ele sem dúvida demonstrava abertamente que teria revivido o assunto a qualquer momento, e até desejava discuti-lo. A reticência determinada de Jasper, contudo, não podia ser abordada dessa forma. Impassível, melancólico, solitário, resoluto, tão concentrado numa ideia e no seu propósito fixo concomitante, que não o partilharia com nenhuma criatura humana, ele vivia separado da vida humana. Exercitando constantemente uma Arte que o trazia a uma harmonia mecânica com os outros, e que não poderia ter sido prosseguida a menos que ele e eles estivessem nas mais precisas relações mecânicas e em uníssono, é curioso considerar que o espírito do homem estava em conformidade ou intercâmbio moral com nada ao seu redor. Isto, de fato, ele tinha confidenciado ao seu sobrinho perdido, antes que a ocasião para a sua atual inflexibilidade surgisse.
Que ele devia saber da partida abrupta de Rosa, e que devia adivinhar a sua causa, não era de duvidar. Supunha ele que a tinha aterrorizado até ao silêncio? ou supunha que ela tinha transmitido a alguém — ao Sr. Crisparkle, por exemplo — os pormenores da sua última entrevista com ela? O Sr. Crisparkle não conseguia determinar isto na sua mente. Não podia deixar de admitir, contudo, como um homem justo, que não era, por si só, um crime apaixonar-se por Rosa, nem mais do que era um crime oferecer-se para colocar o amor acima da vingança.
A terrível suspeita de Jasper, que Rosa ficou tão chocada por ter recebido na sua imaginação, parecia não ter abrigo na do Sr. Crisparkle. Se alguma vez assombrou os pensamentos de Helena ou de Neville, nenhum deles lhe deu uma única palavra falada de expressão. O Sr. Grewgious não se esforçou por esconder a sua implacável aversão por Jasper, contudo, nunca a referiu, por muito remotamente que fosse, a tal fonte. Mas ele era um homem reticente, bem como excêntrico; e não fez qualquer menção a uma certa noite em que aqueceu as mãos na lareira da portaria e olhou fixamente para baixo, para uma certa pilha de roupas rasgadas e enlameadas no chão.
A sonolenta Cloisterham, sempre que despertava para uma reconsideração passageira de uma história com mais de seis meses e descartada pelo banco de magistrados, dividia-se quase igualmente em opinião sobre se o amado sobrinho de John Jasper tinha sido morto pelo seu rival traiçoeiramente apaixonado, ou numa luta aberta; ou se, para os seus próprios fins, se tinha autoexilado. Então, levantava a cabeça para notar que o enlutado Jasper continuava sempre dedicado à descoberta e à vingança; e depois voltava a adormecer. Esta era a condição das coisas, em geral, no período a que a presente história agora chegou.
As portas da Catedral fecharam-se para a noite; e o mestre do coro, numa curta licença de ausência para dois ou três serviços, vira a sua face em direção a Londres. Ele viaja para lá pelos meios pelos quais Rosa viajou, e chega, como Rosa chegou, numa noite quente e poeirenta.
A sua bagagem de viagem é facilmente transportada na mão, e ele dirige-se a pé para um hotel híbrido numa pequena praça atrás de Aldersgate Street, perto da Agência Geral dos Correios. É hotel, casa de hóspedes ou alojamento, à opção do visitante. Anuncia-se, nos novos Anunciantes Ferroviários, como um empreendimento inovador, começando timidamente a surgir. Tímido, quase apologeticamente, dá a entender ao viajante que não espera que ele, pelo bom e velho plano constitucional de hotel, encomende uma caneca de graxa preta doce para beber e a deite fora; mas insinua que ele pode ter as suas botas engraxadas em vez do seu estômago, e talvez também ter cama, pequeno-almoço, atendimento e um porteiro durante toda a noite, por um determinado preço fixo. Destas e de premissas semelhantes, muitos verdadeiros britânicos nos estados de espírito mais baixos deduzem que os tempos são tempos de nivelamento, exceto no artigo das estradas principais, das quais em breve não haverá uma única em Inglaterra.
Ele come sem apetite e logo sai novamente. Para leste e sempre para leste, através das ruas viciadas, segue o seu caminho, até chegar ao seu destino: um pátio miserável, especialmente miserável entre muitos outros.
Ele sobe uma escadaria partida, abre uma porta, olha para um quarto escuro e sufocante, e diz: “Está sozinha aqui?”
“Sozinha, querido; azar o meu, e sorte a sua,” responde uma voz rouca. “Entre, entre, quem quer que seja: não posso vê-lo até acender um fósforo, ainda assim parece-me conhecer o som da sua fala. Estou familiarizada consigo, não estou?”
“Acenda o seu fósforo, e tente.”
“Assim farei, querido, assim farei; mas a minha mão treme, de modo que não consigo colocar um fósforo em momento algum. E tusso tanto que, coloque os meus fósforos onde colocar, nunca os encontro lá. Eles saltam e começam a tremer, à medida que tusso e tusso, como coisas vivas. Veio de uma viagem, querido?”
“Não.”
“Não é marinheiro?”
“Não.”
“Bem, há clientes da terra, e há clientes da água. Sou uma mãe para ambos. Diferente do Chinês Jack do outro lado do pátio. Ele não é um pai para nenhum. Não está nele. E ele não tem o verdadeiro segredo da mistura, embora cobre tanto como eu que o tenho, e mais se conseguir. Aqui está um fósforo, e agora onde está a vela? Se a minha tosse me atacar, tossirei vinte fósforos antes de conseguir uma luz.”
Mas ela encontra a vela e acende-a antes que a tosse comece. Ela apodera-se dela no momento do sucesso, e ela senta-se, balançando-se para trás e para a frente, e arquejando em intervalos: “Oh, os meus pulmões estão terrivelmente maus! Os meus pulmões estão gastos como redes de repolho!” até que o ataque passa. Durante a sua continuidade, ela não teve qualquer poder de visão, ou qualquer outro poder não absorvido na luta; mas, assim que a deixa, ela começa a esforçar os olhos e, logo que é capaz de articular, ela grita, encarando:
“Ora, é você!”
“Está tão surpreendida por me ver?”
“Pensei que nunca mais o veria, querido. Pensei que estava morto e tinha ido para o Céu.”
“Porquê?”
“Não supus que pudesse ter ficado longe, vivo, durante tanto tempo, da pobre alma velha com a receita real para a mistura. E está de luto também! Por que não veio tomar um cachimbo ou dois de conforto? Deixaram-lhe dinheiro, talvez, e por isso não queria conforto?”
“Não.”
“Quem era aqueles que morreram, querido?”
“Um parente.”
“Morreu de quê, meu amor?”
“Provavelmente, Morte.”
“Estamos breves esta noite!” grita a mulher, com uma risada propiciatória. “Breves e ranzinzas estamos! Mas estamos desanimados por falta de um fumo. Temos aquele mal-estar geral, não temos, querido? Mas este é o lugar para curá-los; este é o lugar onde o mal-estar é fumado para fora.”
“Pode preparar-se, então,” responde o visitante, “assim que quiser.”
Ele despe-se dos seus sapatos, desaperta a gravata e deita-se ao longo do pé da cama sórdida, com a cabeça apoiada na sua mão esquerda.
“Agora começa a parecer-se consigo próprio,” diz a mulher aprovadoramente. “Agora começo a conhecer o meu velho cliente, de fato! Tem tentado misturar por si próprio há muito tempo, boneco?”
“Tenho estado a tomá-lo de vez em quando à minha maneira.”
“Nunca o tome à sua maneira. Não é bom para o negócio, e não é bom para si. Onde está o meu tinteiro, e onde está o meu dedal, e onde está a minha pequena colher? Ele vai tomá-lo de uma forma astuciosa agora, meu querido!”
Entrando no seu processo, e começando a borbulhar e a soprar na faísca tênue encerrada na palma das suas mãos, ela fala de tempos a tempos, num tom de satisfação nasalada, sem parar. Quando ele fala, fá-lo sem olhar para ela, e como se os seus pensamentos já estivessem a divagar por antecipação.
“Tenho uns quantos fumos prontos para si, no fim de contas, não tenho, meu pequeno?”
“Bastantes.”
“Quando veio pela primeira vez, era bastante novo nisto; não era?”
“Sim, eu era facilmente disposto, então.”
“Mas progrediu no mundo, e pôde, aos poucos, tomar o seu cachimbo com o melhor deles, não pôde?”
“Ah; e o pior.”
“Está pronto para si. Que cantor doce era quando veio pela primeira vez! Costumava deixar cair a cabeça e cantar até adormecer como um pássaro! Está pronto para si agora, querido.”
Ele tira-lho com grande cuidado e coloca a boquilha nos seus lábios. Ela senta-se ao lado dele, pronta para encher novamente o cachimbo.
Depois de inalar algumas baforadas em silêncio, ele aborda-a hesitante com:
“É tão potente como costumava ser?”
“Do que fala, querido?”
“Do que falaria eu, senão do que tenho na boca?”
“É exatamente o mesmo. Sempre o idêntico mesmo.”
“Não tem o mesmo sabor. E é mais lento.”
“Ficou mais habituado a ele, percebe.”
“Essa pode ser a causa, certamente. Veja isto.” Ele para, torna-se sonhador e parece esquecer-se de que convidou a sua atenção. Ela curva-se sobre ele e fala ao seu ouvido.
“Estou a prestar-lhe atenção. Disse você agora mesmo, Veja isto. Digo eu agora, estou a prestar-lhe atenção. Estávamos a falar ainda há pouco de estar habituado a isso.”
“Sei tudo isso. Estava apenas a pensar. Veja isto. Suponha que tinha algo na sua mente; algo que ia fazer.”
“Sim, querido; algo que ia fazer?”
“Mas não tinha determinado totalmente fazer.”
“Sim, querido.”
“Poderia ou não poderia fazer, entende.”
“Sim.” Com a ponta de uma agulha, ela mexe o conteúdo da taça.
“Fá-lo-ia na sua fantasia, quando estivesse deitada aqui a fazer isto?”
Ela acena com a cabeça. “Várias e várias vezes.”
“Tal como eu! Fiz isso várias e várias vezes. Fiz centenas de milhares de vezes neste quarto.”
“É de esperar que fosse agradável de fazer, querido.”
“Era agradável de fazer!”
Ele diz isto com um ar selvagem, e um salto ou sobressalto em direção a ela. Completamente inabalada, ela retoca e reabastece o conteúdo da taça com a sua pequena espátula. Vendo-a concentrada na ocupação, ele afunda-se na sua atitude anterior.
“Era uma viagem, uma viagem difícil e perigosa. Esse era o assunto na minha mente. Uma viagem arriscada e perigosa, sobre abismos onde um deslize seria a destruição. Olhe para baixo, olhe para baixo! Vê o que jaz no fundo ali?”
Ele lançou-se para a frente para o dizer, e para apontar para o chão, como se para algum objeto imaginário muito abaixo. A mulher olha para ele, enquanto o seu rosto espasmódico se aproxima do dela, e não para o que ele aponta. Ela parece saber qual seria a influência da sua quietude perfeita; se assim é, ela não calculou mal, pois ele acalma-se novamente.
“Bem; eu disse-lhe que o fiz aqui centenas de milhares de vezes. O que digo eu? Fiz isso milhões e bilhões de vezes. Fiz isso tantas vezes, e através de tão vastas extensões de tempo, que quando foi realmente feito, parecia não valer a pena, foi feito tão depressa.”
“Essa é a viagem na qual esteve ausente,” ela comenta calmamente.
Ele encara-a enquanto fuma; e depois, os seus olhos tornando-se velados, responde: “Essa é a viagem.”
Segue-se o silêncio. Os seus olhos estão por vezes fechados e por vezes abertos. A mulher senta-se ao lado dele, muito atenta ao cachimbo, que está todo o tempo nos seus lábios.
“Garanto-lhe,” ela observa, quando ele esteve a olhar fixamente para ela por alguns momentos consecutivos, com uma aparência singular nos seus olhos de parecer vê-la a uma grande distância, em vez de tão perto dele: “Garanto-lhe que fez a viagem de muitas maneiras, quando a fez tão frequentemente?”
“Não, sempre de uma maneira.”
“Sempre da mesma maneira?”
“Sim.”
“Da maneira como foi realmente feita no fim?”
“Sim.”
“E sempre teve o mesmo prazer em insistir nela?”
“Sim.”
Pelo tempo que decorre, ele parece incapaz de qualquer outra resposta além desta lenta e monossilábica anuência. Provavelmente para se assegurar de que não se trata da anuência de um mero autómato, ela inverte a forma da sua frase seguinte.
“Nunca se cansou disso, meu querido, e tentou evocar outra coisa para variar?”
Ele esforça-se por se sentar e retorque-lhe: “O que quer dizer? O que eu queria? A que vim eu?”
Ela deita-o suavemente de novo e, antes de lhe devolver o instrumento que ele deixou cair, reaviva o lume nele com o seu próprio sopro; depois diz-lhe, de forma persuasiva:
“Claro, claro, claro! Sim, sim, sim! Agora acompanho-o. Foi demasiado rápido para mim. Vejo agora. Veio de propósito para fazer a viagem. Ora, eu devia ter sabido, por ela estar sempre ao seu lado.”
Ele responde primeiro com uma risada e, depois, com um ranger apaixonado de dentes: “Sim, vim de propósito. Quando não pude suportar a minha vida, vim buscar o alívio, e obtive-o. FOI um! FOI um!” Esta repetição com veemência extraordinária, e o rosnar de um lobo.
Ela observa-o com muita cautela, como se estivesse mentalmente a tatear o caminho para a sua observação seguinte. É: “Havia um companheiro de viagem, meu querido.”
“Ha, ha, ha!” Ele desata numa risada retumbante, ou melhor, num grito.
“Pensar”, exclama ele, “quão frequentemente companheiro de viagem, e ainda assim não o saber! Pensar em quantas vezes ele fez a viagem e nunca viu a estrada!”
A mulher ajoelha-se no chão, com os braços cruzados sobre a colcha da cama, perto dele, e o queixo sobre eles. Nesta atitude agachada, observa-o. O cachimbo está a cair-lhe da boca. Ela volta a colocá-lo e, pousando a mão sobre o peito dele, move-o ligeiramente de um lado para o outro. Ao que ele fala, como se ela tivesse falado.
“Sim! Eu fazia sempre a viagem primeiro, antes de começarem as mudanças de cores e as grandes paisagens e as procissões cintilantes. Não podiam começar enquanto eu não a tirasse do pensamento. Não tinha espaço até lá para mais nada.”
Mais uma vez, ele cai em silêncio. Mais uma vez, ela coloca a mão sobre o peito dele e move-o ligeiramente para a frente e para trás, como um gato poderia estimular um rato meio morto. Mais uma vez, ele fala, como se ela tivesse falado.
“O quê? Eu disse-lhe. Quando finalmente se torna real, é tão curto que parece irreal pela primeira vez. Escute!”
“Sim, meu querido. Estou a ouvir.”
“O tempo e o lugar estão ambos à mão.”
Ele está de pé, a falar num sussurro, e como se estivesse no escuro.
“Tempo, lugar e companheiro de viagem”, sugere ela, adotando o seu tom e segurando-o suavemente pelo braço.
“Como poderia o tempo estar à mão a menos que o companheiro de viagem estivesse? Calma! A viagem está feita. Acabou.”
“Tão cedo?”
“Foi o que eu lhe disse. Tão cedo. Espere um pouco. Isto é uma visão. Hei de dormir até passar. Tem sido demasiado curta e fácil. Tenho de ter uma visão melhor do que esta; esta é a pior de todas. Sem luta, sem consciência de perigo, sem súplica — e, contudo, nunca tinha visto isso antes.” Com um sobressalto.
“Visto o quê, meu querido?”
“Olhe para isso! Olhe que coisa pobre, mesquinha e miserável que é! Aquilo deve ser real. Acabou.”
Ele acompanhou esta incoerência com alguns gestos selvagens e sem sentido; mas eles esmorecem na inação progressiva do estupor, e ele jaz como um tronco sobre a cama.
A mulher, contudo, continua inquisitiva. Com uma repetição da sua ação felina, ela mexe ligeiramente no corpo dele de novo, e ouve; mexe outra vez, e ouve; sussurra para ele, e ouve. Descobrindo que ele está fora de qualquer alcance por agora, ela levanta-se lentamente, com um ar de desapontamento, e sacode-lhe o rosto com as costas da mão ao afastar-se.
Mas não vai mais longe do que a cadeira junto à lareira. Senta-se nela, com um cotovelo num dos braços e o queixo sobre a mão, concentrada nele. “Ouvi-te dizer uma vez”, ela coaxa sob a respiração, “ouvi-te dizer uma vez, quando eu estava deitada onde tu estás deitado, e tu fazias as tuas especulações sobre mim: ‘Ininteligível!’ Ouvi-te dizer isso, de mais dois além de mim. Mas não estejas sempre tão certo; não estejas tu tão certo, beleza!”
Sem pestanejar, felina e concentrada, acrescenta pouco depois: “Não tão potente como outrora? Ah! Talvez não ao princípio. Aí podes ter mais razão. A prática leva à perfeição. Talvez eu tenha aprendido o segredo de te fazer falar, meu querido.”
Ele não fala mais, de qualquer modo. Contraindo-se de uma forma feia de tempos a tempos, tanto no rosto como nos membros, ele permanece pesado e silencioso. A vela miserável consome-se; a mulher pega na sua ponta expirante entre os dedos, acende outra nela, enfia o resto gotejante profundamente no castiçal e calca-o com a nova vela, como se estivesse a carregar alguma arma de feitiçaria malcheirosa e indecorosa; a nova vela, por sua vez, consome-se; e ele continua insensível. A dado momento, o que resta da última vela é apagado, e a luz do dia espreita para o quarto.
Não espreitou há muito tempo, quando ele se senta, arrepiado e a tremer, recupera lentamente a consciência de onde está e prepara-se para partir. A mulher recebe o que ele lhe paga com um grato, “Deus o abençoe, Deus o abençoe, meu querido!”, e parece, exausta, começar a preparar-se para dormir à medida que ele sai do quarto.
Mas parecer pode ser falso ou verdadeiro. É falso neste caso; pois, no momento em que as escadas deixam de ranger sob os seus passos, ela desliza atrás dele, murmurando enfaticamente: “Não te hei de perder duas vezes!”
Não há saída do pátio a não ser pela sua entrada. Com um espreitar estranho da porta, ela vigia-o à espera que ele olhe para trás. Ele não olha para trás antes de desaparecer, com um passo vacilante. Ela segue-o, espreita do pátio, vê-o ainda a cambalear sem olhar para trás, e mantém-no à vista.
Ele dirige-se para as traseiras de Aldersgate Street, onde uma porta se abre imediatamente ao seu bater. Ela agacha-se noutra entrada, observando aquela, e compreendendo facilmente que ele fica temporariamente naquela casa. A sua paciência não se esgota com as horas. Para sustento, ela pode, e compra, pão a cem jardas de distância, e leite à medida que é transportado passando por ela.
Ele sai de novo ao meio-dia, tendo mudado de roupa, mas não trazendo nada na mão e não tendo nada transportado para si. Não vai, portanto, voltar para o campo, pelo menos por agora. Ela segue-o por um pouco, hesita, vira-se instantaneamente com confiança e entra diretamente na casa que ele deixou.
“O cavalheiro de Cloisterham está dentro?”
“Acabou de sair.”
“Que azar. Quando é que o cavalheiro regressa a Cloisterham?”
“Às seis desta tarde.”
“Deus o abençoe e lhe agradeça. Que o Senhor prospere um negócio onde uma pergunta civil, mesmo de uma pobre alma, é tão civilmente respondida!”
“Não te hei de perder duas vezes!”, repete a pobre alma na rua, e não tão civilmente. “Perdi-te da última vez, onde aquele autocarro em que entraste perto do fim da tua viagem fazia o percurso entre a estação e o lugar. Nem sequer tinha a certeza de que tu tinhas ido mesmo até ao lugar. Agora sei que foste. Meu cavalheiro de Cloisterham, estarei lá antes de ti, e aguardarei a tua chegada. Jurei o meu juramento de que não te hei de perder duas vezes!”
Consequentemente, nessa mesma tarde, a pobre alma está em Cloisterham High Street, olhando para as muitas empenas pitorescas da Nuns’ House, e passando o tempo como melhor pode até às nove horas; hora em que tem razões para supor que os passageiros do autocarro que chega podem ter algum interesse para ela. A escuridão amigável, a essa hora, torna-lhe fácil verificar se assim é ou não; e é assim, pois o passageiro que não deve ser perdido duas vezes chega entre os outros.
“Agora deixa-me ver o que se torna de ti. Continua!”
Uma observação dirigida ao ar, e ainda assim poderia ser dirigida ao passageiro, tão obedientemente ele continua pela High Street até chegar a uma entrada em arco, na qual desaparece inesperadamente. A pobre alma apressa o passo; é veloz e está perto dele a entrar sob a entrada; mas apenas vê uma escadaria lateral de um lado, e do outro lado uma antiga sala abobadada, na qual um cavalheiro de cabeça grande e cabelos grisalhos está a escrever, sob as estranhas circunstâncias de estar sentado aberto para a via pública e a olhar para todos os que passam, como se fosse o porteiro da entrada: embora o caminho seja livre.
“Olá!”, grita ele em voz baixa, vendo-a imobilizada: “quem procura?”
“Houve um cavalheiro que passou por aqui ainda agora, senhor.”
“Claro que houve. O que quer dele?”
“Onde é que ele mora, meu querido?”
“Mora? Subindo aquela escadaria.”
“Deus o abençoe! Sussurre. Qual é o nome dele, meu querido?”
“Apelido Jasper, nome próprio John. Sr. John Jasper.”
“Tem alguma profissão, bom cavalheiro?”
“Profissão? Sim. Canta no coro.”
“Na torre?”
“Coro.”
“O que é isso?”
O Sr. Datchery levanta-se dos seus papéis e vai até à soleira da sua porta. “Sabe o que é uma catedral?”, pergunta ele, jocosamente.
A mulher acena com a cabeça.
“O que é?”
Ela parece perplexa, procurando na sua mente uma definição, quando lhe ocorre que é mais fácil apontar o próprio objeto substancial, maciço contra o céu azul-escuro e as estrelas precoces.
“Essa é a resposta. Vá lá dentro às sete da manhã de amanhã, e poderá ver o Sr. John Jasper, e ouvi-lo também.”
“Obrigada! Obrigada!”
O rasgo de triunfo com que ela lhe agradece não escapa à atenção do solteirão de temperamento fácil que vive ociosamente dos seus rendimentos. Ele olha para ela; cruza as mãos atrás das costas, como é hábito desses solteirões; e passeia pelos Precincts ecoantes ao lado dela.
“Ou”, sugere ele, com um puxão de cabeça para trás, “pode subir imediatamente aos quartos do Sr. Jasper ali.”
A mulher olha para ele com um sorriso astuto e abana a cabeça.
“Oh! Não quer falar com ele?”
Ela repete a sua resposta muda e forma com os lábios um “Não” sem som.
“Pode admirá-lo à distância três vezes por dia, sempre que quiser. É um longo caminho para vir apenas por isso, contudo.”
A mulher olha rapidamente para cima. Se o Sr. Datchery pensa que ela pode ser levada a declarar de onde vem, ele tem um temperamento muito mais fácil do que ela. Mas ela absolve-o de tal pensamento astuto, enquanto ele passeia, como o chato oficial da cidade, com o seu cabelo grisalho descoberto a esvoaçar e as suas mãos sem propósito a tilintar o dinheiro solto nos bolsos das calças.
O tilintar do dinheiro tem uma atração para os seus ouvidos gananciosos. “Não me ajudaria a pagar o meu alojamento de viajante, caro cavalheiro, e a pagar a minha viagem? Sou uma pobre alma, sou mesmo, e sofro de uma tosse penosa.”
“Vejo que conhece o alojamento de viajantes e que se dirige diretamente para lá”, é o comentário suave do Sr. Datchery, continuando a tilintar o seu dinheiro solto. “Tem vindo cá muitas vezes, minha boa mulher?”
“Uma vez em toda a minha vida.”
“Ah, ah?”
Chegaram à entrada de Monks’ Vineyard. Uma lembrança apropriada, apresentando um modelo exemplar para imitação, é revivida na mente da mulher pela visão do lugar. Ela para no portão e diz energicamente:
“Por este sinal, embora possa não acreditar, que um jovem cavalheiro me deu três e seis quando eu estava a tossir o fôlego nesta mesma relva. Pedi-lhe três e seis, e ele deu-mos.”
“Não foi um pouco ousado da sua parte nomear a quantia?”, insinua o Sr. Datchery, continuando a tilintar. “Não é costume deixar o valor em aberto? Não terá tido a aparência, para o jovem cavalheiro — apenas a aparência — de que ele estava a ser um tanto comandado?”
“Olhe para aqui, meu querido”, responde ela, num tom confidencial e persuasivo, “eu queria o dinheiro para gastá-lo num medicamento que me faz bem e com o qual negoceio. Disse isso ao jovem cavalheiro, e ele deu-mo, e eu gastei-o honestamente até ao último centavo. Quero gastar a mesma quantia da mesma forma agora; e se mo der, gastá-lo-ei honestamente até ao último centavo de novo, pela minha alma!”
“Qual é o medicamento?”
“Serei honesta consigo de antemão, assim como depois. É ópio.”
O Sr. Datchery, com uma mudança repentina de expressão, lança-lhe um olhar súbito.
“É ópio, meu querido. Nem mais nem menos. E é como uma criatura humana na medida em que se ouve sempre o que se pode dizer contra ele, mas raramente o que se pode dizer em seu louvor.”
O Sr. Datchery começa muito lentamente a contar a quantia que lhe foi pedida. Observando gananciosamente as suas mãos, ela continua a dissertar sobre o grande exemplo que lhe foi dado.
“Foi na véspera de Natal passada, logo após escurecer, a única vez que estive aqui antes, quando o jovem cavalheiro me deu os três e seis.” O Sr. Datchery para de contar, descobre que contou mal, junta o dinheiro e recomeça.
“E o nome do jovem cavalheiro”, acrescenta ela, “era Edwin.”
O Sr. Datchery deixa cair algum dinheiro, baixa-se para o apanhar e cora com o esforço enquanto pergunta:
“Como sabe o nome do jovem cavalheiro?”
“Pedi-lho, e ele disse-mo. Só lhe fiz as duas perguntas, qual era o seu nome cristão e se ele tinha uma namorada? E ele respondeu, Edwin, e que não tinha.”
O Sr. Datchery faz uma pausa com as moedas selecionadas na mão, como se estivesse a cair numa reflexão profunda sobre o seu valor e não conseguisse suportar separar-se delas. A mulher olha para ele com desconfiança e com a sua raiva a aumentar para o caso de ele se arrepender da dádiva; mas ele entrega-lho como se estivesse a abstrair a mente do sacrifício e, com muitos agradecimentos servis, ela segue o seu caminho.
A lâmpada de John Jasper está acesa, e o seu farol brilha quando o Sr. Datchery regressa sozinho na sua direção. Como os marinheiros numa viagem perigosa, aproximando-se de uma costa rochosa, podem olhar ao longo dos feixes da luz de aviso para o refúgio que se estende para além dela e que talvez nunca seja alcançado, assim o olhar nostálgico do Sr. Datchery é dirigido para este farol, e para além dele.
O seu objetivo ao revisitar agora o seu alojamento é meramente pôr o chapéu, que parece um artigo tão supérfluo no seu guarda-roupa. São dez e meia pelo relógio da Catedral quando ele sai novamente para os Precincts; demora-se e olha à sua volta, como se, tendo batido a hora encantada em que o Sr. Durdles pode ser apedrejado até casa, tivesse alguma esperança de ver o Diabrete que está encarregado da missão de o apedrejar.
Com efeito, esse Poder do Mal anda por aí. Não tendo nada vivo para apedrejar no momento, ele é descoberto pelo Sr. Datchery no ofício profano de apedrejar os mortos, através das grades do cemitério. O Diabrete acha esta uma ocupação saborosa e intrigante; primeiro, porque o seu local de descanso é anunciado como sagrado; e segundo, porque as lápides altas são suficientemente semelhantes a eles próprios, na sua ronda no escuro, para justificar a deliciosa fantasia de que são feridas quando atingidas.
O Sr. Datchery saúda-o: “Olá, Winks!”
Ele reconhece a saudação com: “Olá, Dick!” O seu conhecimento aparentemente foi estabelecido numa base familiar.
“Mas, digo-te”, protesta ele, “não vás tornar o meu nome público. Nunca tenciono confessar nome nenhum, lembra-te. Quando me dizem na esquadra, a caminho de me porem no livro, ‘Qual é o teu nome?’, eu digo-lhes: ‘Descobre’. Da mesma forma, quando dizem: ‘Qual é a tua religião?’, eu digo: ‘Descobre’.”
O que, pode observar-se de passagem, seria imensamente difícil para o Estado, por mais estatístico que fosse.
“Além disso”, acrescenta o rapaz, “não existe nenhuma família de Winkses.”
“Acho que deve existir.”
“Mentira, não existe. Os viajantes deram-me o nome por causa de eu não conseguir dormir descansado e ser acordado a noite toda; pelo que fico com um olho aberto antes de ter fechado o outro. É isso que Winks significa. Deputy é o nome mais próximo para me incriminar: mas não me apanhavas a confessar esse também.”
“Que seja sempre Deputy, então. Nós os dois somos bons amigos; eh, Deputy?”
“Muito bons.”
“Perdoei-te a dívida que me devias quando nos conhecemos, e muitos dos meus seis pences foram ter contigo desde então; eh, Deputy?”
“Ah! E o que é mais, tu não és amigo do Jarsper. Porque é que ele me foi levantar do chão?”
“Por que razão, de facto! Mas não te importes com ele agora. Um xelim meu vai ter contigo esta noite, Deputy. Acabas de receber um hóspede com quem falei; uma mulher enferma com uma tosse.”
“Puffer”, concorda Deputy, com um olhar astuto de reconhecimento, e fumando um cachimbo imaginário, com a cabeça muito de lado e os olhos muito fora dos seus lugares: “Hopeum Puffer.”
“Qual é o nome dela?”
“Sua Alteza Real, a Princesa Puffer.”
“Ela tem algum outro nome além desse; onde é que ela mora?”
“Lá em Londres. Entre os Jacks.”
“Os marinheiros?”
“Eu disse que sim; Jacks; e homens da China: e outros esfaqueadores.”
“Gostaria de saber, através de ti, exatamente onde ela mora.”
“Está bem. Passa para cá.”
Um xelim passa; e, naquele espírito de confiança que deve permear todas as transações comerciais entre princípios de honra, este negócio é considerado feito.
“Mas aqui está uma partida!”, grita Deputy. “Onde é que achas que Sua Alteza Real vai amanhã de manhã? Se não estou em erro, ela vai ao KIN-FREE-DER-EL!” Ele prolonga grandemente a palavra em êxtase, bate na perna e dobra-se num ataque de riso estridente.
“Como sabes isso, Deputy?”
“Porque ela disse-me agora mesmo. Disse que tinha de estar de pé e fora de propósito. Ela diz: ‘Deputy, tenho de fazer uma lavagem matinal e pôr-me o mais elegante que puder, porque vou dar uma volta ao KIN-FREE-DER-EL!’” Ele separa as sílabas com o seu entusiasmo anterior e, não achando o seu sentido do ridículo suficientemente aliviado por andar a bater o pé no passeio, desata numa dança lenta e majestosa, talvez suposta ser realizada pelo Deão.
O Sr. Datchery recebe a comunicação com um rosto bem satisfeito, embora ponderado, e termina a conferência. Regressando ao seu alojamento pitoresco e sentando-se durante muito tempo perante o jantar de pão, queijo, salada e cerveja que a Sra. Tope lhe deixou preparado, ele continua sentado quando termina a ceia. A dado momento, levanta-se, abre a porta de um armário de canto e refere-se a alguns traços toscos feitos a giz no seu interior.
“Gosto”, diz o Sr. Datchery, “da velha maneira das tabernas de manter as contas. Ilegível, exceto para quem marca. Quem marca não se compromete, quem é marcado fica em dívida com o que tem contra si. Hum; ha! Uma conta muito pequena esta; uma conta muito pobre!”
Ele suspira perante a contemplação da sua pobreza, pega num pedaço de giz de uma das prateleiras do armário e hesita com ele na mão, incerto sobre que adição fazer à conta.
“Acho que um traço moderado”, conclui ele, “é tudo o que me sinto justificado em marcar;” então, adapta a ação à palavra, fecha o armário e vai dormir.
Uma manhã brilhante brilha sobre a velha cidade. As suas antiguidades e ruínas são extraordinariamente belas, com uma hera vigorosa a brilhar ao sol e as árvores ricas a agitar-se no ar balsâmico. Mudanças de luz gloriosa vindas de ramos em movimento, canções de pássaros, aromas dos jardins, bosques e campos — ou, melhor, do único grande jardim de toda a ilha cultivada no seu tempo de rendimento — penetram na Catedral, suavizam o seu odor terroso e pregam a Ressurreição e a Vida. Os túmulos de pedra fria de séculos passados aquecem-se; e salpicos de claridade saltam para os cantos de mármore mais severos do edifício, esvoaçando ali como asas.
Vem o Sr. Tope com as suas chaves grandes, e bocejando abre e escancara. Vêm a Sra. Tope e os espíritos varredores que a acompanham. Vêm, a seu tempo, o organista e o rapaz do fole, espreitando lá de cima das cortinas vermelhas no coro, sacudindo destemidamente o pó dos livros naquela elevação remota, e limpando-o dos registos e pedais. Vêm diversas gralhas, de vários quadrantes do céu, de volta à grande torre; que se pode presumir que apreciam a vibração, e que sabem que o sino e o órgão lhes vão proporcionar. Vem uma congregação muito pequena e dispersa, na verdade: principalmente do Minor Canon Corner e do Precincts. Vem o Sr. Crisparkle, fresco e radiante; e os seus irmãos de ministério, não tão frescos nem radiantes. Vem o Coro à pressa (sempre à pressa, e lutando para vestir as suas batas no último momento, como crianças que se esquivam à cama), e vem John Jasper a liderar a fila. Por último, vem o Sr. Datchery para uma banca, uma de uma escolha de bancas vazias muito ao seu dispor, e lançando olhares à sua volta à procura de Sua Alteza Real, a Princess Puffer.
O serviço já vai bastante adiantado antes que o Sr. Datchery consiga distinguir Sua Alteza Real. Mas a essa altura ele já a descobriu, na sombra. Ela está atrás de um pilar, cuidadosamente retirada da vista do mestre do Coro, mas observa-o com a maior atenção. Alheio à sua presença, ele entoa e canta. Ela sorri quando ele se mostra mais musicalmente fervoroso, e — sim, o Sr. Datchery vê-a fazê-lo! — agita o punho para ele atrás do abrigo amigo do pilar.
O Sr. Datchery olha de novo, para se convencer. Sim, de novo! Tão feia e engelhada como uma das esculturas fantásticas nos suportes inferiores dos assentos da banca, tão maligna como o Maligno, tão dura como a grande águia de latão que segura os livros sagrados sobre as suas asas (e, de acordo com a representação do escultor dos seus atributos ferozes, nada convertida por eles), ela abraça-se com os seus braços magros, e depois agita ambos os punhos para o líder do Coro.
E nesse momento, fora da porta gradeada do Coro, tendo iludido a vigilância do Sr. Tope através de recursos ardilosos em que é um adepto, Deputy espreita, de olhos vivos, através das barras, e olha estupefacto do ameaçador para o ameaçado.
O serviço chega ao fim, e os servidores dispersam-se para o pequeno-almoço. O Sr. Datchery aborda o seu último novo conhecido cá fora, quando o Coro (tão apressado a despir as batas quanto estivera momentos antes a vesti-las) se foi embora apressadamente.
"Bem, senhora. Bom dia. Já o viu?"
"Já o vi, meu querido; já o vi!"
"E conhece-o?"
"Conhecê-lo! Muito melhor do que todos os reverendos párocos juntos o conhecem."
O cuidado da Sra. Tope preparou um pequeno-almoço muito arrumado e limpo para o seu inquilino. Antes de se sentar, ele abre a porta do seu armário de canto; tira o seu pedaço de giz da prateleira; acrescenta uma linha grossa ao registo, estendendo-se do topo da porta do armário até ao fundo; e depois atira-se à comida com apetite.
APÊNDICE: FRAGMENTO DE ‘O MISTÉRIO DE EDWIN DROOD’
Quando Forster estava quase a terminar a sua biografia de Dickens, encontrou entre as folhas de um dos outros manuscritos do romancista certas folhas soltas da sua escrita, ‘em papel com apenas metade do tamanho do usado para o conto, tão apertado, com entrelinhas e apagado que era quase ilegível.’ Estas provaram, após exame, conter um capítulo sugerido para Edwin Drood, no qual Sapsea, o leiloeiro, aparece como a figura principal, rodeado por um grupo de personagens novas na história. Esse capítulo, sendo uma das últimas coisas que Dickens escreveu, parece conter tanto interesse que pode ser bom reimprimi-lo aqui.—ED.
COMO O SR. SAPSEA DEIXOU DE SER MEMBRO DO CLUBE DOS OITO CONTADO POR ELE PRÓPRIO
Desejando apanhar ar, segui por uma rota sinuosa até ao Clube, sendo a nossa noite semanal de reunião. Descobri que estávamos na nossa força total. Éramos inscritos sob a denominação de Clube dos Oito. Éramos oito em número; reuníamo-nos às oito horas durante oito meses do ano; jogávamos oito partidas de cribbage para quatro, a oito pence a partida; a nossa ceia frugal era composta por oito pãezinhos, oito costeletas de carneiro, oito salsichas de porco, oito batatas assadas, oito ossos com tutano, com oito torradas e oito garrafas de cerveja. Pode, ou não, haver uma certa harmonia de cor na ideia governante desta (para adotar uma frase dos nossos animados vizinhos) reunião. Era uma pequena ideia minha.
Um membro um tanto popular do Clube dos Oito era um membro pelo nome de Kimber. Por profissão, um professor de dança. Um tipo comum e esperançoso, totalmente destituído de dignidade ou conhecimento do mundo.
Ao entrar na sala do Clube, Kimber fazia a observação: ‘E ele ainda acredita piamente que ele é muito influente na Igreja.’
No ato de pendurar o meu chapéu no oitavo gancho junto à porta, captei o raio visual de Kimber. Ele baixou-o, e passou a fazer um comentário sobre a próxima mudança da lua. Não tomei nota particular disto no momento, porque o mundo se comprazia muitas vezes em ser um pouco tímido em relação a tópicos eclesiásticos na minha presença. Pois sentia que tinha sido escolhido (embora talvez apenas por coincidência) até certo ponto para representar o que chamo a nossa gloriosa constituição na Igreja e no Estado. A frase pode ser contestada por mentes cautelosas; mas assumo-a como minha. Lancei-a em discussão há algum tempo. Disse: ‘A NOSSA GLORIOSA CONSTITUIÇÃO na IGREJA e no ESTADO.’
Outro membro do Clube dos Oito era Peartree; também membro do Royal College of Surgeons. O Sr. Peartree não me presta contas pelas suas opiniões, e não digo mais nada sobre elas aqui a não ser que ele atende os pobres gratuitamente sempre que precisam dele, e não é o médico da paróquia. O Sr. Peartree pode justificar ao alcance da sua mente fazer o seu esforço republicano máximo para trazer um oficial nomeado para o desprezo. Basta que o Sr. Peartree nunca o possa justificar ao alcance da minha.
Entre Peartree e Kimber havia uma aliança doentia de espírito fraco. Chegou ao meu conhecimento particular quando vendi Kimber em leilão. (Bens tomados em execução.) Ele era viúvo com um colete branco, e sapatos leves com laços, e tinha duas filhas nada más de aspeto. Pelo contrário. Ambas as filhas ensinavam dança em estabelecimentos escolares para Jovens Senhoras — tinham-no feito na Sra. Sapsea; aliás, na de Twinkleton — e ambas, ao dar lições, apresentavam o espetáculo pouco feminino de ter pequenos violinos metidos debaixo dos queixos. Apesar do que, a mais nova poderia, se estou corretamente informado — levantarei o véu o suficiente para dizer que SEI que poderia — ter ascendido para a vida a partir desta mácula degradante, não fosse ter a classe de mente atribuída ao que chamo de rebanho comum, e ser tão incrivelmente desprovida de veneração ao ponto de se tornar penosamente ridícula.
Quando vendi Kimber sem reserva, Peartree (tão pobre quanto consegue manter-se) teve vários lotes domésticos de primeira qualidade adjudicados a ele. Não me deixo cegar; e, claro, era tão claro para mim o que ele ia fazer com eles, como o era que ele era um tipo de sujeito revolucionário bruto e corpulento que tinha estado na Índia com os soldados, e deveria (pelo bem da sociedade) ter o pescoço partido. Vi os lotes pouco depois nas acomodações de Kimber — através da janela — e facilmente concluí que tinha havido uma pretensão sorrateira de os emprestar até tempos melhores. Um homem com um conhecimento do mundo menor do que o meu poderia ter sido levado a suspeitar que Kimber tinha escondido dinheiro dos seus credores e comprado os bens fraudulentamente. Mas, além de saber com certeza que ele não tinha dinheiro, sabia que isso envolveria uma espécie de previdência incompatível com a frivolidade de um saltitante, a inocular outras pessoas com saltitos, para o seu pão.
Como era a primeira vez que via qualquer um desses dois desde a venda, mantive-me no que chamo de Suspensão. Ao vender as suas coisas, tinha proferido algumas observações — direi uma pequena homilia? — acerca de Kimber, que o mundo considerou como sendo mais dignas de nota do que o habitual. Eu tinha subido ao meu púlpito, dizia-se, de forma invulgarmente semelhante — e um murmúrio de reconhecimento tinha repetido o seu (não nomearei de quem) título, antes de eu falar. Tinha então prosseguido para dizer que todos os presentes encontrariam, na primeira página do catálogo que estava perante eles, no último parágrafo antes do primeiro lote, as seguintes palavras: ‘Vendido em cumprimento de um mandado de execução emitido por um credor.’ Tinha então procedido a lembrar aos meus amigos, que por mais frívolo, para não dizer desprezível, que fosse o negócio pelo qual um homem reunia os seus bens, ainda assim os seus bens eram tão caros para ele, e tão baratos para a sociedade (se vendidos sem reserva), como se as suas ocupações tivessem sido de um caráter que suportasse uma contemplação séria. Tinha então dividido o meu texto (se me é permitido chamá-lo assim) em três pontos: primeiro, Vendido; segundo, Em cumprimento de um mandado de execução; terceiro, Emitido por um credor; com algumas reflexões morais sobre cada um, e terminando com, ‘Agora para o primeiro lote’ de uma maneira que foi elogiada quando me misturei mais tarde com os meus ouvintes.
Portanto, não estando certo sobre em que termos eu e Kimber estávamos, fui grave, fui gélido. Kimber, no entanto, ao mover-se para mim, movi-me para Kimber. (Eu era o credor que tinha emitido o mandado. Não que importe.)
‘Estava a aludir, Sr. Sapsea,’ disse Kimber, ‘a um estranho que entrou em conversa comigo na rua quando vinha para o Clube. Ele tinha estado a falar consigo pouco antes, parecia, junto ao cemitério; e embora lhe tivesse dito quem era, dificilmente consegui persuadi-lo de que o senhor não era influente na Igreja.’
‘Idiota?’ disse Peartree.
‘Asno!’ disse Kimber.
‘Idiota e Asno!’ disseram os outros cinco membros.
‘Idiota e Asno, cavalheiros,’ repreendi, olhando à minha volta, ‘são expressões fortes para aplicar a um jovem de boa aparência e trato.’ A minha generosidade foi despertada; admito-o.
‘Admitirá que ele deve ser um Tolo,’ disse Peartree.
‘Não pode negar que ele deve ser um Estúpido,’ disse Kimber.
O seu tom de desprezo equivalia a ser ofensivo. Por que deveria o jovem ser tão caluniado? O que tinha ele feito? Ele tinha apenas cometido um erro inocente e natural. Controlei a minha generosa indignação, e disse-o.
‘Natural?’ repetiu Kimber. ‘Ele é um Natural!’
Os restantes seis membros do Clube dos Oito riram unanimemente. Picou-me. Foi uma risada desdenhosa. A minha raiva foi despertada em favor de um estranho ausente e sem amigos. Levantei-me (pois estivera sentado).
‘Cavalheiros,’ disse com dignidade, ‘não permanecerei um membro deste Clube permitindo que se lance opróbrio sobre uma pessoa inofensiva na sua ausência. Não violarei assim o que chamo de ritos sagrados da hospitalidade. Cavalheiros, até saberem como se comportar melhor, deixo-vos. Cavalheiros, até lá retiro, deste local de reunião, quaisquer qualificações pessoais que possa ter trazido para ele. Cavalheiros, até lá deixam de ser o Clube dos Oito, e terão de fazer o melhor que puderem para se tornarem o Clube dos Sete.’
Coloquei o meu chapéu e retirei-me. Enquanto descia as escadas, ouvi distintamente darem um brado contido. Tal é o poder do porte e do conhecimento da humanidade. Eu tinha-o forçado a sair deles.
II
Quem deveria eu encontrar na rua, a poucos metros da porta da estalagem onde o Clube se realizava, senão o mesmo jovem cuja causa eu sentira ser meu dever tão calorosamente — e acrescentarei tão desinteressadamente — defender.
‘É o Sr. Sapsea,’ disse ele hesitantemente, ‘ou é—’
‘É o Sr. Sapsea,’ respondi.
‘Perdoe-me, Sr. Sapsea; parece caloroso, senhor.’
‘Tenho estado caloroso,’ disse eu, ‘e por sua conta.’ Tendo exposto as circunstâncias com algum detalhe (a minha generosidade quase o dominou), perguntei-lhe o seu nome.
‘Sr. Sapsea,’ respondeu ele, olhando para baixo, ‘a sua penetração é tão aguda, o seu olhar para as almas dos seus semelhantes é tão penetrante, que se eu fosse suficientemente audaz para negar que o meu nome é Poker, de que me serviria?’
Não sei se tinha feito contas de forma bastante exata até à fração de que o nome dele era Poker, mas atrevo-me a dizer que tinha estado bastante perto de o fazer.
‘Bem, bem,’ disse eu, tentando deixá-lo à vontade acenando com a cabeça de uma forma tranquilizadora. ‘O seu nome é Poker, e não há mal nenhum em chamar-se Poker.’
‘Oh, Sr. Sapsea!’ exclamou o jovem, de uma forma muito bem-educada. ‘Abençoado seja pelas suas palavras!’ Ele então, como se tivesse vergonha de se ter deixado levar pelos seus sentimentos, olhou para baixo novamente.
‘Venha Poker,’ disse eu, ‘deixe-me ouvir mais sobre si. Diga-me. Para onde vai, Poker? e de onde vem?’
‘Ah Sr. Sapsea!’ exclamou o jovem. ‘O disfarce perante si é impossível. Já sabe que venho de algum lado, e vou para outro qualquer. Se eu negasse, de que me serviria?’
‘Então não o negue,’ foi a minha observação.
‘Ou,’ continuou Poker, numa espécie de êxtase desanimado, ‘ou se eu negasse que vim a esta cidade para o ver e ouvir, senhor, de que me serviria? Ou se eu negasse—’