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The Mystery of the Yellow Room

by Gaston Leroux · in Portuguese

O Mistério do Quarto Amarelo

Extraordinárias Aventuras de Joseph Rouletabille Repórter

por Gaston Leroux

[Frontispício: Joseph Rouletabille]

Conteúdo

I. Onde começamos a não entender II. Onde Joseph Rouletabille aparece pela primeira vez III. “Um homem passou como uma sombra pelas persianas” IV. “No seio da natureza selvagem” V. Onde Joseph Rouletabille faz uma observação ao senhor Robert Darzac que produz o seu pequeno efeito VI. No coração do bosque de carvalhos VII. Onde Rouletabille parte numa expedição debaixo da cama VIII. O juiz de instrução interroga a senhorita Stangerson IX. Repórter e detetive X. “Teremos de comer carne crua — agora” XI. Onde Frédéric Larsan explica como o assassino pôde sair do Quarto Amarelo XII. A bengala de Frédéric Larsan XIII. “O presbitério nada perdeu do seu encanto, nem o jardim do seu brilho” XIV. “Espero o assassino esta noite” XV. A armadilha XVI. Estranho fenômeno da dissociação da matéria XVII. A galeria inexplicável XVIII. Rouletabille traçou um círculo entre as duas saliências na testa XIX. Rouletabille convida-me para o pequeno-almoço na estalagem Donjon XX. Um ato da senhorita Stangerson XXI. À espreita XXII. O corpo incrível XXIII. O rastro duplo XXIV. Rouletabille conhece as duas metades do assassino XXV. Rouletabille vai de viagem XXVI. Onde Joseph Rouletabille é aguardado com impaciência XXVII. Onde Joseph Rouletabille aparece em toda a sua glória XXVIII. Onde se prova que nem sempre se pensa em tudo XXIX. O mistério da senhorita Stangerson

Capítulo I

Onde começamos a não entender

Não é sem uma certa emoção que começo a relatar aqui as extraordinárias aventuras de Joseph Rouletabille. Até ao presente momento, ele tinha-se oposto tão firmemente a que eu o fizesse, que cheguei a desesperar de algum dia publicar a mais curiosa das histórias policiais dos últimos quinze anos. Tinha até imaginado que o público nunca saberia toda a verdade do prodigioso caso conhecido como o do “Quarto Amarelo”, do qual nasceram tantos dramas misteriosos, cruéis e sensacionais, nos quais o meu amigo estava tão estreitamente envolvido, se, a propósito de uma recente nomeação do ilustre Stangerson para o grau de grã-cruz da Legião de Honra, um jornal vespertino — num artigo, miserável pela sua ignorância ou audacioso pela sua perfídia — não tivesse ressuscitado uma terrível aventura de que Joseph Rouletabille me dissera querer ser para sempre esquecido.

“O Quarto Amarelo!” Quem se lembra agora deste caso que fez correr tanta tinta há quinze anos? Os acontecimentos são tão rapidamente esquecidos em Paris. Não terá o próprio nome do processo Nayves e a trágica história da morte do pequeno Menaldo passado do pensamento? E, no entanto, a atenção do público estava tão profundamente interessada nos detalhes do julgamento que a ocorrência de uma crise ministerial passou completamente despercebida na época. Ora, o julgamento do “Quarto Amarelo”, que precedeu o de Nayves em alguns anos, fez muito mais ruído. O mundo inteiro debruçou-se durante meses sobre este problema obscuro — o mais obscuro, parece-me, que alguma vez desafiou a perspicácia da nossa polícia ou sobrecarregou a consciência dos nossos juízes. A solução do problema desconcertou todos os que tentaram encontrá-la. Era como um enigma dramático pelo qual a velha Europa e a nova América ficaram igualmente fascinadas. Isto é, na verdade — permito-me dizer, porque não pode haver vaidade de autor em tudo isto, já que não faço mais do que transcrever fatos sobre os quais uma documentação excecional me permite lançar uma nova luz — é porque, na verdade, não sei se, no domínio da realidade ou da imaginação, se pode descobrir ou recordar algo comparável, em mistério, ao mistério natural do “Quarto Amarelo”.

Aquilo que ninguém conseguiu descobrir, Joseph Rouletabille, com dezoito anos, então repórter num jornal de renome, conseguiu descobrir. Mas quando, no Tribunal de Assizes, trouxe a chave de todo o caso, não disse a verdade toda. Apenas deixou aparecer o suficiente para garantir a absolvição de um inocente. As razões que ele tinha para a sua reticência já não existem. Melhor ainda, chegou a hora de o meu amigo falar abertamente. Vais saber tudo; e, sem mais preâmbulos, vou colocar diante dos teus olhos o problema do “Quarto Amarelo” tal como foi colocado diante dos olhos do mundo inteiro no dia seguinte à encenação do drama no Château du Glandier.

No dia 25 de outubro de 1892, apareceu a seguinte nota na última edição do “Temps”:—

“Um crime terrível foi cometido no Glandier, na fronteira da floresta de Sainte-Geneviève, acima de Epinay-sur-Orge, na casa do Professor Stangerson. Nessa noite, enquanto o mestre trabalhava no seu laboratório, foi feita uma tentativa de assassinar a senhorita Stangerson, que dormia num quarto adjacente a este laboratório. Os médicos não respondem pela vida da senhorita Stangerson.”

A impressão causada em Paris por esta notícia pode ser facilmente imaginada. Já, naquela época, o mundo acadêmico estava profundamente interessado nos trabalhos do Professor Stangerson e da sua filha. Estes trabalhos — os primeiros que foram tentados em radiografia — serviram para abrir o caminho ao Monsieur e à Madame Curie para a descoberta do rádio. Esperava-se que o Professor lesse brevemente à Academia de Ciências um artigo sensacional sobre a sua nova teoria — a Dissociação da Matéria —, uma teoria destinada a derrubar pela base toda a ciência oficial, que se baseava no princípio da Conservação da Energia.

No dia seguinte, os jornais estavam cheios da tragédia. O “Matin”, entre outros, publicou o seguinte artigo, intitulado: “Um Crime Sobrenatural”:—

“Estes são os únicos detalhes”, escreveu o autor anônimo no “Matin” — “que pudemos obter a respeito do crime do Château du Glandier. O estado de desespero em que o Professor Stangerson está mergulhado, e a impossibilidade de obter qualquer informação dos lábios da vítima, tornaram as nossas investigações e as da justiça tão difíceis que, neste momento, não podemos formar a menor ideia do que se passou no ‘Quarto Amarelo’ onde a senhorita Stangerson, em camisola de dormir, foi encontrada deitada no chão nas agonias da morte. Pudemos, pelo menos, entrevistar o papai Jacques — como é chamado na região — um velho criado da família Stangerson. O papai Jacques entrou no ‘Quarto Amarelo’ ao mesmo tempo que o Professor. Este quarto é adjacente ao laboratório. O laboratório e o Quarto Amarelo ficam num pavilhão no final do parque, a cerca de trezentos metros do castelo.

“‘Era meia-noite e meia’, contou-nos este honrado velho, ‘e eu estava no laboratório, onde o Monsieur Stangerson ainda trabalhava, quando a coisa aconteceu. Eu tinha estado a limpar e a pôr os instrumentos em ordem toda a noite e estava à espera que o Monsieur Stangerson fosse para a cama. A senhorita Stangerson tinha trabalhado com o seu pai até à meia-noite; quando as doze badaladas da meia-noite soaram no relógio de cuco do laboratório, ela levantou-se, beijou o Monsieur Stangerson e deu-lhe boa noite. A mim, disse-me “boa noite, papai Jacques” enquanto passava para o “Quarto Amarelo”. Ouvimo-la trancar a porta e correr o ferrolho, de modo que não pude deixar de rir, e disse ao Monsieur: “Aí está a senhorita a trancar-se à chave — ela deve ter medo da ‘Bête du bon Dieu!’” O Monsieur nem sequer me ouviu, estava tão profundamente absorvido no que estava a fazer. Nesse momento, ouvimos o miado distante de um gato. “Será que isso nos vai manter acordados a noite toda?” disse eu para comigo; porque devo dizer-lhe, Monsieur, que, até ao fim de outubro, vivo num sótão do pavilhão acima do Quarto Amarelo, para que a senhorita não ficasse sozinha durante a noite no parque isolado. Era um capricho da senhorita passar o tempo bom no pavilhão; sem dúvida, ela achava-o mais alegre do que o castelo e, nos quatro anos em que fora construído, ela nunca falhara em instalar-se lá na primavera. Com o regresso do inverno, a senhorita volta para o castelo, pois não há lareira no Quarto Amarelo.

“‘Estávamos no pavilhão, então — o Monsieur Stangerson e eu. Não fazíamos barulho. Ele estava sentado à sua secretária. Quanto a mim, estava sentado numa cadeira, tendo acabado o meu trabalho e, olhando para ele, disse para comigo: “Que homem! — que inteligência! — que conhecimento!” Dou importância ao fato de não fazermos barulho; pois, por causa disso, o assassino certamente pensou que tínhamos saído do local. E, de repente, enquanto o cuco soava a meia hora depois da meia-noite, um clamor desesperado irrompeu no Quarto Amarelo. Era a voz da senhorita, gritando “Assassinato! — assassinato! — ajuda!” Imediatamente a seguir, disparos de revólver ecoaram e houve um grande barulho de mesas e móveis a serem atirados ao chão, como se no decurso de uma luta, e novamente a voz da senhorita a chamar, “Assassinato! — ajuda! — Papai! — Papai! —”

“‘Pode ter a certeza de que nos levantamos rapidamente e que o Monsieur Stangerson e eu nos lançamos contra a porta. Mas, infelizmente! estava trancada, firmemente trancada, pelo lado de dentro, pelo cuidado da senhorita, como lhe disse, com chave e ferrolho. Tentámos forçá-la, mas permaneceu firme. O Monsieur Stangerson estava como um louco, e na verdade, era o suficiente para o tornar um, pois ouvíamos a senhorita ainda a chamar “Ajuda! — ajuda!” O Monsieur Stangerson desferiu terríveis golpes na porta, e chorava de raiva e soluçava de desespero e impotência.

“‘Foi então que tive uma inspiração. “O assassino deve ter entrado pela janela!” gritei; — “Vou à janela!” e apressei-me a sair do pavilhão e corri como um louco.

“‘A inspiração era que a janela do Quarto Amarelo dá para um lado tal que o muro do parque, que confina com o pavilhão, me impedia de chegar imediatamente à janela. Para chegar lá, é preciso primeiro sair do parque. Corri em direção ao portão e, no meu caminho, encontrei Bernier e a sua mulher, os porteiros, que tinham sido atraídos pelos disparos e pelos nossos gritos. Em poucas palavras, contei-lhes o que tinha acontecido, e ordenei ao porteiro que se juntasse ao Monsieur Stangerson com toda a velocidade, enquanto a sua mulher vinha comigo para abrir o portão do parque. Cinco minutos depois, ela e eu estávamos diante da janela do Quarto Amarelo.

“‘A lua brilhava intensamente e vi claramente que ninguém tinha tocado na janela. Não só as grades que a protegem estavam intactas, mas as persianas interiores estavam fechadas, como eu próprio as tinha fechado no início da noite, como fazia todos os dias, embora a senhorita, sabendo que eu estava cansado do trabalho pesado que tinha feito, me tivesse pedido para não me incomodar, mas para deixar que ela o fizesse; e estavam exatamente como as deixara, presas com um trinco de ferro pelo lado de dentro. O assassino, portanto, não podia ter passado nem por dentro nem por fora por aquele caminho; mas eu também não podia entrar.

“‘Foi uma infelicidade, — o suficiente para se perder o juízo! A porta do quarto trancada por dentro e as persianas da única janela também presas por dentro; e a senhorita ainda a chamar por ajuda! — Não! ela tinha deixado de chamar. Estava morta, talvez. Mas eu ainda ouvia o pai dela, no pavilhão, a tentar arrombar a porta.

“‘Com a porteira, apressei-me a voltar para o pavilhão. A porta, apesar das tentativas furiosas do Monsieur Stangerson e de Bernier para a arrombar, ainda aguentava firme; mas, finalmente, cedeu aos nossos esforços unidos — e então que visão se apresentou aos nossos olhos! Devo dizer-lhe que, atrás de nós, a porteira segurava o candeeiro do laboratório — um candeeiro potente, que iluminava todo o quarto.

“‘Devo dizer-lhe também, monsieur, que o Quarto Amarelo é um quarto muito pequeno. A senhorita tinha-o mobilado com uma cama de ferro bastante grande, uma mesa pequena, uma mesa-de-cabeceira, uma penteadeira e duas cadeiras. À luz do grande candeeiro, vimos tudo num relance. A senhorita, em camisola de dormir, estava deitada no chão no meio da maior desordem. Mesas e cadeiras tinham sido derrubadas, mostrando que tinha havido uma luta violenta. A senhorita tinha certamente sido arrastada da sua cama. Estava coberta de sangue e tinha marcas terríveis de unhas na garganta — a carne do seu pescoço tinha sido quase rasgada pelas unhas. De um ferimento na têmpora direita, um fio de sangue tinha escorrido e formado uma pequena poça no chão. Quando o Monsieur Stangerson viu a sua filha naquele estado, lançou-se de joelhos ao lado dela, soltando um grito de desespero. Constatou que ela ainda respirava. Quanto a nós, procurámos o miserável que tinha tentado matar a nossa patroa, e juro-lhe, monsieur, que, se o tivéssemos encontrado, teria sofrido um mau bocado!

“‘Mas como explicar que ele não estava lá, que ele já tinha escapado? Ultrapassa toda a imaginação! — Ninguém debaixo da cama, ninguém atrás dos móveis! — Tudo o que descobrimos foram vestígios, marcas ensanguentadas da mão grande de um homem nas paredes e na porta; um grande lenço vermelho de sangue, sem quaisquer iniciais, um boné velho, e muitas pegadas frescas de um homem no chão — pegadas de um homem com pés grandes cujas solas das botas tinham deixado uma espécie de impressão fuliginosa. Como tinha este homem escapado? Como tinha ele desaparecido? Não se esqueça, monsieur, de que não há lareira no Quarto Amarelo. Ele não podia ter escapado pela porta, que é estreita, e no limiar da qual a porteira estava com o candeeiro, enquanto o seu marido e eu o procurávamos em cada canto do pequeno quarto, onde é impossível alguém esconder-se. A porta, que tinha sido forçada contra a parede, não podia esconder nada atrás dela, como verificámos. Pela janela, ainda de todas as formas segurada, nenhuma fuga tinha sido possível. O que então? — Comecei a acreditar no Diabo.

“‘Mas descobrimos o meu revólver no chão! — Sim, o meu revólver! Oh! isso trouxe-me de volta à realidade! O Diabo não teria precisado de roubar o meu revólver para matar a senhorita. O homem que esteve lá tinha primeiro subido ao meu sótão e tirado o meu revólver da gaveta onde eu o guardava. Verificámos então, contando os cartuchos, que o assassino tinha disparado dois tiros. Ah! foi uma sorte para mim que o Monsieur Stangerson estivesse no laboratório quando o caso aconteceu e tivesse visto com os seus próprios olhos que eu estava lá com ele; pois de outra forma, com este caso do meu revólver, não sei onde estaríamos — eu estaria agora atrás das grades. A justiça não precisa de mais para enviar um homem para o cadafalso!’”

O editor do “Matin” acrescentou a esta entrevista as seguintes linhas:—

“Não interrompendo, permitimos que o papai Jacques nos contasse, a grosso modo, tudo o que sabe sobre o crime do Quarto Amarelo. Reproduzimo-lo nas suas próprias palavras, poupando apenas ao leitor as contínuas lamentações com que ele guarnecia a sua narrativa. Está bem entendido, papai Jacques, está bem entendido que você gosta muito dos seus patrões; e você quer que eles saibam disso, e nunca para de repetir — especialmente desde a descoberta do seu revólver. É o seu direito, e não vemos mal nisso. Teríamos gostado de colocar mais algumas perguntas ao papai Jacques — Jacques-Louis Moustier — mas o inquérito do juiz de instrução, que está a ser realizado no castelo, torna impossível a nossa entrada no Glandier; e, quanto ao bosque de carvalhos, está vigiado por um vasto círculo de polícias, que vigiam zelosamente todos os vestígios que podem levar ao pavilhão, e que talvez possam levar à descoberta do assassino.

“Também quisemos questionar os porteiros, mas eles estão invisíveis. Finalmente, aguardámos numa estalagem à beira da estrada, não longe do portão do castelo, pela partida do Monsieur de Marquet, o magistrado de Corbeil. Às cinco e meia vimo-lo a ele e ao seu escrivão e, antes de ele poder entrar na sua carruagem, tivemos a oportunidade de lhe fazer a seguinte pergunta:—

“‘Pode, Monsieur de Marquet, dar-nos alguma informação sobre este caso, sem inconveniente para o curso do seu inquérito?’

“‘É-nos impossível fazê-lo’, respondeu o Monsieur de Marquet. ‘Só posso dizer que é o caso mais estranho que alguma vez conheci. Quanto mais pensamos que sabemos alguma coisa, mais longe estamos de saber o que quer que seja!’

“Pedimos ao Monsieur de Marquet que fosse tão amável de explicar as suas últimas palavras; e foi isto que ele disse, — cuja importância ninguém deixará de reconhecer:—

“‘Se nada for acrescentado aos fatos materiais até agora estabelecidos, receio que o mistério que envolve o crime abominável de que a senhorita Stangerson foi vítima nunca venha a ser trazido à luz; mas é de esperar, pelo bem da nossa razão humana, que o exame das paredes, e do teto do Quarto Amarelo — exame que confiarei amanhã ao construtor que construiu o pavilhão há quatro anos — nos dê a prova que não nos desencoraje. Pois o problema é este: sabemos por que via o assassino obteve a entrada — ele entrou pela porta e escondeu-se debaixo da cama, à espera da senhorita Stangerson. Mas como saiu ele? Como escapou ele? Se nenhuma armadilha, nenhuma porta secreta, nenhum esconderijo, nenhuma abertura de qualquer tipo for encontrada; se o exame das paredes — mesmo até à demolição do pavilhão — não revelar nenhuma passagem praticável — não só para um ser humano, mas para qualquer ser que seja — se o teto não mostrar nenhuma rachadura, se o chão não esconder nenhuma passagem subterrânea, tem-se realmente de acreditar no Diabo, como diz o papai Jacques!’”

E o autor anônimo no “Matin” acrescentou neste artigo — que escolhi como o mais interessante de todos os que foram publicados sobre o assunto deste caso — que o juiz de instrução parecia atribuir um significado peculiar à última frase: “Tem-se realmente de acreditar no Diabo, como diz Jacques.”

O artigo concluía com estas linhas: “Quisemos saber o que o papai Jacques queria dizer com o grito da Bête du Bon Dieu. O proprietário da estalagem Donjon explicou-nos que é o grito particularmente sinistro que é proferido às vezes à noite pelo gato de uma velha — Mãe Angenoux, como é chamada na região. Mãe Angenoux é uma espécie de santa, que vive numa cabana no coração da floresta, não longe da gruta de Sainte-Geneviève.

“O Quarto Amarelo, a Bête du Bon Dieu, Mãe Angenoux, o Diabo, Sainte-Geneviève, papai Jacques — eis um crime bem emaranhado que uma picaretada na parede poderá desenredar para nós amanhã. Esperemos pelo menos que, pelo bem da nossa razão humana, como diz o juiz de instrução. Entretanto, espera-se que a senhorita Stangerson — que não cessou de estar delirante e só pronuncia uma palavra distintamente, ‘Assassino! Assassino!’ — não sobreviva à noite.”

Em conclusão, e a uma hora tardia, o mesmo jornal anunciava que o Chefe da Sûreté tinha telegrafado ao famoso detetive, Frédéric Larsan, que tinha sido enviado a Londres para um caso de títulos roubados, para regressar imediatamente a Paris.

Capítulo II

Onde Joseph Rouletabille aparece pela primeira vez

Lembro-me, tão bem como se tivesse acontecido ontem, da entrada do jovem Rouletabille no meu quarto naquela manhã. Eram cerca de oito horas e eu ainda estava na cama a ler o artigo no “Matin” relativo ao crime do Glandier.

Mas, antes de prosseguir, é tempo de apresentar o meu amigo ao leitor.

Conheci Joseph Rouletabille quando ele era um jovem repórter. Naquela época, eu era um principiante na Ordem dos Advogados e encontrava-o frequentemente nos corredores dos juízes de instrução, quando ia obter uma "autorização de comunicação" para a prisão de Mazas, ou para Saint-Lazare. Ele tinha, como se costuma dizer, "uma boa cabeça". Parecia ter tirado a sua cabeça — redonda como uma bala — de uma caixa de berlindes, e é daí, creio eu, que os seus camaradas da imprensa — todos determinados jogadores de bilhar — lhe tinham dado aquela alcunha, que lhe ficaria colada e por ele seria tornada ilustre. Ele era sempre tão vermelho como um tomate, ora alegre como um tentilhão, ora grave como um juiz. Como, sendo ainda tão jovem — tinha apenas dezasseis anos e meio quando o vi pela primeira vez — tinha ele já conquistado o seu lugar na imprensa? Era o que todos os que entravam em contacto com ele poderiam ter perguntado, se não conhecessem a sua história. Na altura do caso da mulher cortada em pedaços na Rue Oberskampf — outra história esquecida — ele tinha levado a um dos editores do "Epoque", um jornal que na altura rivalizava com o "Matin" em informação, o pé esquerdo, que faltava no cesto em que os restos macabros foram descobertos. Por este pé esquerdo, a polícia procurava em vão há uma semana, e o jovem Rouletabille tinha-o encontrado num esgoto onde ninguém se tinha lembrado de procurar. Para o fazer, tinha-se vestido como um extra de esgotos, um dos muitos contratados pela administração da cidade de Paris, devido a uma cheia do Sena.

Quando o editor-chefe estava na posse do precioso pé e informado sobre a série de deduções inteligentes que tinham levado o rapaz a fazer tal coisa, ficou dividido entre a admiração que sentia por tamanha astúcia detetivesca no cérebro de um rapaz de dezasseis anos, e o prazer de poder exibir, na "vitrina da morgue" do seu jornal, o pé esquerdo da Rue Oberskampf.

"Este pé", exclamou, "dará uma grande manchete."

Depois, quando confiou o pacote macabro ao médico legista associado ao jornal, perguntou ao rapaz, que em breve se tornaria famoso como Rouletabille, quanto esperaria ganhar como repórter geral no "Epoque"?

"Duzentos francos por mês", respondeu o jovem modestamente, mal conseguindo respirar de surpresa com a proposta.

"Terás duzentos e cinquenta", disse o editor-chefe; "apenas tens de dizer a toda a gente que trabalhas no jornal há um mês. Que fique bem claro que não foste tu, mas o 'Epoque', que descobriu o pé esquerdo da Rue Oberskampf. Aqui, meu jovem amigo, o homem não é nada, o jornal é tudo."

Tendo dito isto, pediu ao novo repórter que se retirasse, mas antes que o jovem chegasse à porta chamou-o de volta para perguntar o seu nome. O outro respondeu:—

"Joseph Josephine."

"Isso não é um nome", disse o editor-chefe, "mas como não será necessário que assines o que escreves, não tem importância."

O repórter com cara de rapaz rapidamente fez muitos amigos, pois era prestável e dotado de um bom humor que encantava os mais severos e desarmava os mais zelosos dos seus companheiros. No café do Bar, onde os repórteres se reuniam antes de irem a qualquer um dos tribunais, ou à Prefeitura, em busca das suas notícias de crime, começou a ganhar uma reputação como um decifrador de casos complexos e obscuros, que chegou ao gabinete do Chefe da Sûreté. Quando um caso valia a pena e Rouletabille — já lhe tinham dado a alcunha — era lançado no rasto pelo seu editor-chefe, muitas vezes levava a melhor sobre o detetive mais famoso.

Foi no café do Bar que me tornei intimamente ligado a ele. Os advogados criminalistas e os jornalistas não são inimigos; os primeiros precisam de publicidade, os segundos de informação. Conversámos juntos e rapidamente ganhei afeição por ele. A sua inteligência era tão aguçada e tão original! — e possuía uma qualidade de pensamento como nunca encontrei em mais ninguém.

Algum tempo depois disto, fui encarregado das notícias judiciais do "Cri du Boulevard". A minha entrada no jornalismo não podia deixar de fortalecer os laços que me uniam a Rouletabille. Passado algum tempo, sendo permitido ao meu novo amigo realizar a ideia de uma coluna de correspondência judicial, que lhe era permitido assinar "Negócios", no "Epoque", pude frequentemente fornecer-lhe a informação jurídica de que ele necessitava.

Passaram quase dois anos desta forma, e quanto mais o conhecia, mais aprendia a amá-lo; pois, apesar da sua extravagância descuidada, tinha descoberto nele o que era, considerando a sua idade, uma seriedade de espírito extraordinária. Habituado como estava a vê-lo alegre e, na verdade, muitas vezes demasiado alegre, encontrava-o muitas vezes mergulhado na mais profunda melancolia. Tentava então interrogá-lo sobre a causa desta mudança de humor, mas de cada vez ele ria-se e não me dava resposta. Um dia, tendo-o questionado sobre os seus pais, de quem nunca falava, deixou-me, fingindo não ter ouvido o que eu disse.

Enquanto as coisas estavam neste estado entre nós, ocorreu o famoso caso do "Quarto Amarelo". Foi este caso que o elevaria ao estatuto de principal repórter de jornal e lhe obteria a reputação de ser o maior detetive do mundo. Não nos deve surpreender encontrar num só homem a perfeição de duas dessas linhas de atividade se nos lembrarmos de que a imprensa diária já estava a começar a transformar-se e a tornar-se o que é hoje — a gazeta do crime.

Pessoas de espírito moroso podem queixar-se disto; quanto a mim, considero um motivo de congratulação. Nunca podemos ter braços a mais, públicos ou privados, contra o criminoso. A isto, algumas pessoas podem responder que, ao publicar continuamente os detalhes dos crimes, a imprensa acaba por encorajar a sua prática. Mas então, com algumas pessoas, nunca fazemos o que está certo.

Rouletabille, como disse, entrou no meu quarto naquela manhã de 26 de outubro de 1892. Parecia mais vermelho do que o habitual, e os seus olhos saltavam da cabeça, como diz a expressão, e, no geral, parecia estar num estado de extrema excitação. Agitava o "Matin" com uma mão trémula e gritou:—

"Bem, meu caro Sainclair, — já leste?"

"O crime do Glandier?"

"Sim; 'O Quarto Amarelo'! — O que pensas disso?"

"Penso que deve ter sido o Diabo ou a Bête du Bon Dieu a cometer o crime."

"Sê sério!"

"Bem, não acredito muito em assassinos que escapam através de paredes de tijolo maciço. Penso que o papá Jacques fez mal em deixar para trás a arma com a qual o crime foi cometido e, como ocupava o sótão imediatamente acima do quarto da Mademoiselle Stangerson, o trabalho de pedreiro ordenado pelo juiz de instrução dar-nos-á a chave do enigma e não tardará muito até sabermos por que alçapão natural, ou por que porta secreta, o velho conseguiu entrar e sair, e regressar imediatamente ao laboratório para junto do Monsieur Stangerson, sem que a sua ausência fosse notada. Isso, claro, é apenas uma hipótese."

Rouletabille sentou-se numa poltrona, acendeu o seu cachimbo, do qual nunca se separava, fumou durante alguns minutos em silêncio — sem dúvida para acalmar a excitação que, visivelmente, o dominava — e depois respondeu:—

"Jovem", disse ele, num tom cuja triste ironia não tentarei reproduzir, "jovem, tu és um advogado e não duvido da tua capacidade de salvar os culpados da condenação; mas se fosses um magistrado no tribunal, quão fácil seria para ti condenar pessoas inocentes! — Tu és realmente dotado, jovem!"

Continuou a fumar energicamente e depois prosseguiu:—

"Nenhum alçapão será encontrado, e o mistério do 'Quarto Amarelo' tornar-se-á cada vez mais misterioso. É por isso que me interessa. O juiz de instrução tem razão; nada de mais estranho do que este crime foi alguma vez conhecido."

"Tens alguma ideia da forma como o assassino escapou?" perguntei eu.

"Nenhuma", respondeu Rouletabille, "nenhuma, por agora. Mas tenho uma ideia sobre o revólver; o assassino não o usou."

"Valha-me Deus! Por quem, então, foi usado?"

"Ora — pela Mademoiselle Stangerson."

"Não percebo, — ou melhor, nunca percebi", disse eu.

Rouletabille encolheu os ombros.

"Não há nada neste artigo no 'Matin' que te tenha impressionado particularmente?"

"Nada, — achei toda a história que conta igualmente estranha."

"Bem, mas — a porta trancada — com a chave do lado de dentro?"

"Essa é a única coisa perfeitamente natural em todo o artigo."

"A sério! — E o ferrolho?"

"O ferrolho?"

"Sim, o ferrolho — também no interior do quarto — uma proteção adicional contra uma intrusão? A Mademoiselle Stangerson tomou precauções muito extraordinárias! É claro para mim que ela temia alguém. Foi por isso que tomou tais precauções — até o revólver do papá Jacques — sem lho dizer. Sem dúvida, não queria alarmar ninguém, e muito menos o seu pai. O que ela temia aconteceu, e ela defendeu-se. Houve uma luta, e ela usou o revólver com habilidade suficiente para ferir o assassino na mão — o que explica a marca na parede e na porta da grande mão manchada de sangue do homem que procurava uma forma de sair da câmara. Mas ela não disparou cedo o suficiente para evitar o terrível golpe na têmpora direita."

"Então o ferimento na têmpora não foi feito com o revólver?"

"O jornal não diz que foi, e eu não penso que tenha sido; porque logicamente parece-me que o revólver foi usado pela Mademoiselle Stangerson contra o assassino. Agora, que arma usou o assassino? O golpe na têmpora parece mostrar que o assassino desejava atordoar a Mademoiselle Stangerson — depois de ter tentado, sem sucesso, estrangulá-la. Ele deve ter sabido que o sótão era habitado pelo papá Jacques, e esse foi um dos motivos, penso eu, pelos quais ele deve ter usado uma arma silenciosa — um cacete ou um martelo."

"Tudo isso não explica como o assassino saiu do 'Quarto Amarelo'", observei eu.

"Evidentemente", respondeu Rouletabille, levantando-se, "e é isso que tem de ser explicado. Vou para o Château du Glandier e vim ver se queres vir comigo."

"Eu?"—

"Sim, meu rapaz. Preciso de ti. O 'Epoque' confiou definitivamente este caso a mim, e tenho de resolvê-lo o mais rapidamente possível."

"Mas de que forma posso ser-te útil?"

"O Monsieur Robert Darzac está no Château du Glandier."

"É verdade. O seu desespero deve ser ilimitado."

"Tenho de falar com ele."

Rouletabille disse-o num tom que me surpreendeu.

"É porque — pensas que se pode tirar alguma coisa dele?" perguntei eu.

"Sim."

Isso foi tudo o que ele disse. Retirou-se para a minha sala de estar, pedindo-me que me vestisse rapidamente.

Eu conhecia o Monsieur Robert Darzac por lhe ter sido de grande utilidade numa ação cível, enquanto eu atuava como secretário do Maître Barbet Delatour. O Monsieur Robert Darzac, que tinha na altura cerca de quarenta anos, era professor de física na Sorbonne. Ele conhecia intimamente os Stangerson e, após um assíduo cortejo de sete anos à filha, estava prestes a casar-se com ela. Apesar de ela se ter tornado, como se costuma dizer, "uma pessoa de certa idade", continuava notavelmente bonita.

Enquanto me vestia, chamei Rouletabille, que se movia impacientemente pela minha sala de estar:—

"Tens alguma ideia sobre a condição social do assassino?"

"Sim", respondeu ele; "penso que, se não é um homem da sociedade, é, pelo menos, um homem pertencente à classe alta. Mas isso, novamente, é apenas uma impressão."

"O que te levou a formá-la?"

"Bem, — o boné gorduroso, o lenço comum e as marcas das botas grosseiras no chão", respondeu ele.

"Compreendo", disse eu; "os assassinos não deixam para trás vestígios que contem a verdade."

"Ainda havemos de fazer alguma coisa de ti, meu caro Sainclair", concluiu Rouletabille.

Capítulo III

"Um Homem passou como uma Sombra através das Persianas"

Meia hora depois, Rouletabille e eu estávamos na plataforma da estação de Orleães, à espera da partida do comboio que nos levaria a Epinay-sur-Orge.

Na plataforma, encontrámos o Monsieur de Marquet e o seu escrivão, que representavam o Tribunal Judicial de Corbeil. O Monsieur de Marquet tinha passado a noite em Paris, a assistir ao ensaio final, no Scala, de uma pequena peça da qual era o autor desconhecido, assinando simplesmente "Castigat Ridendo".

O Monsieur Marquet estava a começar a ser um "nobre cavalheiro idoso". Geralmente era extremamente educado e cheio de bom humor, e em toda a sua vida tivera apenas uma paixão — a da arte dramática. Ao longo da sua carreira magistral, interessou-se apenas pelos casos capazes de lhe fornecer algo da natureza de um drama. Embora pudesse muito bem ter aspirado aos mais altos cargos judiciais, nunca tinha trabalhado realmente para nada que não fosse obter sucesso no romântico Porte-Saint-Martin, ou no sombrio Odéon.

Devido ao mistério que o envolvia, o caso do "Quarto Amarelo" estava destinado a fascinar um espírito tão teatral. Interessava-o imensamente, e lançou-se nele, menos como um magistrado ansioso por conhecer a verdade, do que como um amador de embaraços dramáticos, tendendo totalmente para o mistério e a intriga, que nada teme tanto como o ato final explicativo.

De modo que, no momento em que o encontrámos, ouvi o Monsieur de Marquet dizer ao escrivão com um suspiro:—

"Espero, meu caro Monsieur Maleine, que este pedreiro com a sua picareta não destrua um mistério tão belo."

"Não tenha receio", respondeu o Monsieur Maleine, "a sua picareta pode demolir o pavilhão, talvez, mas deixará o nosso caso intacto. Sondei as paredes e examinei o teto e o chão e sei tudo sobre isso. Não me deixarei enganar."

Tendo assim tranquilizado o seu chefe, o Monsieur Maleine, com um movimento discreto de cabeça, chamou a atenção do Monsieur de Marquet para nós. O rosto daquele cavalheiro ensombrou-se e, ao ver Rouletabille aproximar-se, chapéu na mão, saltou para dentro de uma das carruagens vazias, dizendo, em voz semi-alta para o seu escrivão, enquanto o fazia: "Acima de tudo, nada de jornalistas!"

O Monsieur Maleine respondeu no mesmo tom: "Compreendo!" e depois tentou impedir Rouletabille de entrar no mesmo compartimento que o juiz de instrução.

"Desculpe-me, senhores — este compartimento está reservado."

"Sou jornalista, Monsieur, trabalho no 'Epoque'", disse o meu jovem amigo com um grande aparato de gestos e polidez, "e tenho uma ou duas palavras a dizer ao Monsieur de Marquet."

"O Monsieur está muito ocupado com o inquérito que tem em mãos."

"Ah! o seu inquérito, por favor, acredite, é-me absolutamente indiferente. Não sou um caçador de restos", continuou ele, com infinito desprezo no lábio inferior, "sou um repórter teatral; e esta noite terei de fazer um pequeno relato da peça no Scala."

"Entre, senhor, por favor", disse o escrivão.

Rouletabille já estava no compartimento. Entrei atrás dele e sentei-me ao seu lado. O escrivão seguiu e fechou a porta da carruagem.

O Monsieur de Marquet olhou para ele.

"Ah, senhor", começou Rouletabille, "Não deve zangar-se com o Monsieur de Maleine. Não é com o Monsieur de Marquet que desejo ter a honra de falar, mas com o Monsieur 'Castigat Ridendo'. Permita-me felicitá-lo — pessoalmente, assim como o escritor do 'Epoque'." E Rouletabille, tendo primeiro apresentado-me, apresentou-se a si próprio.

O Monsieur de Marquet, com um gesto nervoso, acariciou a barba até à ponta e explicou ao Rouletabille, em poucas palavras, que era um autor demasiado modesto para desejar que o véu do seu pseudónimo fosse publicamente levantado, e que esperava que o entusiasmo do jornalista pelo trabalho do dramaturgo não o levasse a dizer ao público que o Monsieur "Castigat Ridendo" e o juiz de instrução de Corbeil eram a mesma pessoa.

"O trabalho do autor dramático pode interferir", disse ele, após uma ligeira hesitação, "com o do magistrado, especialmente numa província onde os nossos trabalhos são pouco mais do que rotina."

"Oh, pode contar com a minha discrição!" gritou Rouletabille.

O comboio estava em movimento.

"Já partimos!" disse o juiz de instrução, surpreendido ao ver-nos ainda na carruagem.

"Sim, Monsieur — a verdade partiu", disse Rouletabille, sorrindo amavelmente — "a caminho do Château du Glandier. Um belo caso, Monsieur de Marquet — um belo caso!"

"Um assunto obscuro — incrível, insondável, inexplicável — e só há uma coisa que temo, Monsieur Rouletabille — que os jornalistas tentem explicá-lo."

O meu amigo sentiu isto como uma reprimenda.

"Sim", disse ele simplesmente, "isso é de temer. Metem-se em tudo. Quanto ao meu interesse, monsieur, apenas me referi a ele por mero acaso — o mero acaso de me encontrar no mesmo comboio que o senhor, e no mesmo compartimento da mesma carruagem."

"Para onde vai, então?" perguntou o Monsieur de Marquet.

"Para o Château du Glandier", respondeu Rouletabille, sem se virar.

"Não entrará, Monsieur Rouletabille!"

"Impedir-me-á?" disse o meu amigo, já preparado para lutar.

"Eu não! — Gosto demasiado da imprensa e dos jornalistas para ser de alguma forma desagradável para eles; mas o Monsieur Stangerson deu ordens para que a sua porta fosse fechada a todos, e está bem guardada. Nenhum jornalista conseguiu passar pelo portão do Glandier ontem."

O Monsieur de Marquet comprimiu os lábios e pareceu pronto a cair num silêncio obstinado. Só relaxou um pouco quando Rouletabille já não o deixou na ignorância do facto de que íamos ao Glandier com o propósito de apertar a mão a um "velho e íntimo amigo", o Monsieur Robert Darzac — um homem que Rouletabille talvez tivesse visto uma vez na vida.

"Pobre Robert!" continuou o jovem repórter, "este terrível caso pode ser a sua morte — ele está tão profundamente apaixonado pela Mademoiselle Stangerson."

"Os seus sofrimentos são verdadeiramente dolorosos de testemunhar", escapou-se como um lamento dos lábios do Monsieur de Marquet.

"Mas é de esperar que a vida da Mademoiselle Stangerson seja salva."

"Esperemos que sim. O pai dela disse-me ontem que, se ela não recuperar, não faltará muito para que ele se junte a ela na sepultura. Que perda incalculável para a ciência seria a sua morte!"

"O ferimento na têmpora dela é grave, não é?"

"Evidentemente; mas, por uma sorte maravilhosa, não se provou mortal. O golpe foi dado com grande força."

"Então não foi com o revólver que ela foi ferida", disse Rouletabille, lançando-me um olhar de triunfo.

O Monsieur de Marquet pareceu muito embaraçado.

"Não disse nada — não quero dizer nada — não direi nada", disse ele. E virou-se para o seu escrivão como se já não nos conhecesse.

Mas Rouletabille não se deixaria afastar tão facilmente. Moveu-se para mais perto do juiz de instrução e, tirando um exemplar do "Matin" do bolso, mostrou-lho e disse:—

"Há uma coisa, Monsieur, que lhe posso perguntar sem cometer uma indiscrição. Viu, claro, o relato dado no 'Matin'? É absurdo, não é?"

"Nem um pouco, Monsieur."

"O quê! O Quarto Amarelo só tem uma janela gradeada — cujas grades não foram movidas — e apenas uma porta, que teve de ser arrombada — e o assassino não foi encontrado!"

"É assim, monsieur — é assim. É assim que a questão se apresenta."

Rouletabille não disse mais nada, mas mergulhou nos seus pensamentos. Um quarto de hora passou-se assim.

Voltando a si, disse, dirigindo-se ao magistrado:—

"Como usava a Mademoiselle Stangerson o cabelo nessa noite?"

"Não sei", respondeu o Monsieur de Marquet.

"Esse é um ponto muito importante", disse Rouletabille. "O cabelo dela estava preso em bandas, não estava? Sinto-me seguro de que naquela noite, a noite do crime, ela tinha o cabelo arranjado em bandas."

"Então está enganado, Monsieur Rouletabille", respondeu o magistrado; "a Mademoiselle Stangerson nessa noite tinha o cabelo apanhado num nó no cimo da cabeça — a sua forma habitual de o arranjar — a testa completamente descoberta. Posso assegurar-lhe, pois examinámos cuidadosamente o ferimento. Não havia sangue no cabelo, e o arranjo do mesmo não foi perturbado desde que o crime foi cometido."

"Tem a certeza! Tem a certeza de que, na noite do crime, ela não trazia o cabelo em bandas?"

"Toda a certeza", continuou o magistrado, sorrindo, "porque me lembro do Doutor dizer-me, enquanto examinava o ferimento: 'É uma grande pena que a Mademoiselle Stangerson tivesse o hábito de puxar o cabelo para trás da testa. Se o tivesse usado em bandas, o golpe que recebeu na têmpora teria sido atenuado'. Parece-me estranho que atribua tanta importância a este ponto."

"Oh! se ela não trazia o cabelo em bandas, então desisto", disse Rouletabille, com um gesto de desespero.

"E o ferimento na têmpora era grave?" perguntou ele de seguida.

"Terrível."

"Com que arma foi feito?"

"Isso é um segredo da investigação."

"Encontraram a arma — seja ela qual for?"

O magistrado não respondeu.

"E o ferimento na garganta?"

Aqui, o juiz de instrução confirmou prontamente a decisão do médico de que, se o assassino tivesse pressionado a garganta durante mais alguns segundos, a Mademoiselle Stangerson teria morrido de estrangulamento.

"O caso, tal como foi noticiado no 'Matin'", disse Rouletabille ansiosamente, "parece-me cada vez mais inexplicável. Pode dizer-me, Monsieur, quantas aberturas existem no pavilhão? Refiro-me a portas e janelas."

"Existem cinco", respondeu o Monsieur de Marquet, depois de tossir uma ou duas vezes, mas já não resistindo ao desejo que sentia de falar sobre todo o incrível mistério do caso que estava a investigar. "Existem cinco, das quais a porta do vestíbulo é a única entrada para o pavilhão — uma porta que fecha sempre automaticamente, que não pode ser aberta, nem do exterior nem do interior, a não ser com as duas chaves especiais que nunca estão fora da posse do Papá Jacques ou do Monsieur Stangerson. A Mademoiselle Stangerson não precisava de nenhuma, uma vez que o Papá Jacques se alojava no pavilhão e porque, durante o dia, ela nunca deixava o pai. Quando os quatro correram para o Quarto Amarelo, depois de arrombarem a porta do laboratório, a porta do vestíbulo permaneceu fechada como de costume e, das duas chaves para a abrir, o Papá Jacques tinha uma no bolso e o Monsieur Stangerson a outra. Quanto às janelas do pavilhão, há quatro; a única janela do Quarto Amarelo e as do laboratório dão para o campo; a janela do vestíbulo dá para o parque."

"Foi por essa janela que ele escapou do pavilhão!" exclamou Rouletabille.

"Como sabe disso?" exigiu o Monsieur de Marquet, fixando um olhar estranho no meu jovem amigo.

"Veremos mais tarde como ele saiu do Quarto Amarelo", respondeu Rouletabille, "mas ele tem de ter deixado o pavilhão pela janela do vestíbulo."

"Mais uma vez — como sabe disso?"

"Como? Oh, a coisa é simples o suficiente! Assim que ele percebeu que não podia escapar pela porta do pavilhão, a sua única saída era pela janela do vestíbulo, a não ser que pudesse passar por uma janela gradeada. A janela do Quarto Amarelo está protegida por grades de ferro, porque dá para campo aberto; as duas janelas do laboratório têm de ser protegidas da mesma forma pela mesma razão. Como o assassino escapou, concebo que ele encontrou uma janela que não estava gradeada — a do vestíbulo, que abre para o parque — isto é, para o interior da propriedade. Não há muita magia em tudo isto."

"Sim", disse o Monsieur de Marquet, "mas o que não adivinhou é que esta única janela do vestíbulo, embora não tenha grades de ferro, tem persianas de ferro maciço. Ora, estas persianas de ferro permaneceram presas pelo seu trinco de ferro; e, no entanto, temos provas de que o assassino se escapou do pavilhão por essa janela! Vestígios de sangue na parede interior e nas persianas, assim como no chão, e pegadas, das quais tirei as medidas, atestam o facto de que o assassino escapou por ali. Mas então, como é que ele o fez, vendo que as persianas permaneceram presas por dentro? Ele passou por elas como uma sombra. Mas o que é mais desconcertante de tudo é que é impossível formar qualquer ideia sobre como o assassino saiu do Quarto Amarelo, ou como atravessou o laboratório para chegar ao vestíbulo! Ah, sim, Monsieur Rouletabille, é exatamente como disse: um belo caso, cuja chave não será descoberta durante muito tempo, espero."

"Espera, Monsieur?"

O Monsieur de Marquet corrigiu-se.

"Não espero — penso."

"Poderá essa janela ter sido fechada e tornada a fechar após a fuga do assassino?" perguntou Rouletabille.

"Foi o que me ocorreu por um momento; mas isso implicaria um cúmplice ou cúmplices — e não vejo..."

Após um curto silêncio, acrescentou:

"Ah — se a Mademoiselle Stangerson estivesse hoje suficientemente bem para permitir que fosse interrogada!"

Rouletabille, seguindo o seu pensamento, perguntou:

"E o sótão? — Deve haver alguma abertura para lá?"

"Sim; há uma janela, ou melhor, uma claraboia, que, como dá para o campo, o Monsieur Stangerson mandou gradeá-la, como o resto das janelas. Estas grades, tal como nas outras janelas, permaneceram intactas, e as persianas, que naturalmente abrem para dentro, não foram desfeitas. De resto, não descobrimos nada que nos leve a suspeitar que o assassino tenha passado pelo sótão."

"Parece-lhe claro, então, Monsieur, que o assassino escapou — ninguém sabe como — pela janela do vestíbulo?"

"Tudo o comprova."

"Eu também penso assim", confessou Rouletabille gravemente.

Após um breve silêncio, continuou:

"Se não encontrou quaisquer vestígios do assassino no sótão, tais como as pegadas sujas semelhantes às do chão do Quarto Amarelo, tem de chegar à conclusão de que não foi ele quem roubou o revólver do Papá Jacques."

"Não há pegadas no sótão além das do próprio Papá Jacques", disse o magistrado com um movimento significativo da cabeça. Então, após uma decisão aparente, acrescentou: "O Papá Jacques estava com o Monsieur Stangerson no laboratório — e foi uma sorte para ele que estivesse."

"Então, que papel desempenhou o seu revólver na tragédia? — Parece muito claro que esta arma fez menos mal à Mademoiselle Stangerson do que ao assassino."

O magistrado não respondeu a esta pergunta, que sem dúvida o embaraçou. "O Monsieur Stangerson", disse ele, "diz-nos que as duas balas foram encontradas no Quarto Amarelo, uma encravada na parede manchada com a impressão de uma mão vermelha — uma mão grande de homem — e a outra no teto."

"Oh! oh! no teto!" murmurou Rouletabille. "No teto! Isso é muito curioso! — No teto!"

Ele soprou por uns momentos em silêncio o seu cachimbo, envolvendo-se no fumo. Quando chegámos a Savigny-sur-Orge, tive de lhe tocar no ombro para o despertar do seu sonho e sair para a plataforma da estação.

Lá, o magistrado e o seu escrivão inclinaram-se perante nós e, entrando rapidamente num táxi que os esperava, fizeram-nos compreender que já nos tinham visto o suficiente.

"Quanto tempo demora a caminhar até ao Château du Glandier?" perguntou Rouletabille a um dos carregadores da estação.

"Uma hora e meia ou uma hora e três quartos — a caminhar calmamente", respondeu o homem.

Rouletabille olhou para o céu e, sem dúvida, achando a sua aparência satisfatória, deu-me o braço e disse:

"Vamos! — Preciso de uma caminhada."

"As coisas estão a ficar menos complicadas?" perguntei.

"Nem um pouco!" disse ele, "mais complicadas do que nunca! É verdade, tenho uma ideia..."

"Qual é?" perguntei.

"Não lhe posso dizer qual é neste momento — é uma ideia que envolve a vida ou a morte de duas pessoas, pelo menos."

"Acha que houve cúmplices?"

"Não penso nisso..."

Caímos em silêncio. Pouco depois, ele continuou:

"Foi uma sorte encontrarmos aquele juiz de instrução e o seu escrivão, não foi? O que lhe disse sobre aquele revólver?"

Tinha a cabeça baixa, as mãos nos bolsos e assobiava. Passado algum tempo, ouvi-o murmurar:

"Pobre mulher!"

"É a Mademoiselle Stangerson que está a lamentar?"

"Sim; é uma mulher nobre e digna de ser lamentada! — uma mulher de um grande, um muito grande caráter — imagino — imagino."

"Conhece-a, então?"

"De todo. Nunca a vi senão uma vez."

"Por que razão diz então que ela é uma mulher de grande caráter?"

"Porque ela enfrentou bravamente o assassino; porque se defendeu corajosamente — e, acima de tudo, por causa da bala no teto."

Olhei para Rouletabille e interroguei-me interiormente se ele não estaria a zombar de mim, ou se não teria subitamente perdido o juízo. Mas vi que ele nunca estivera menos inclinado a rir, e o brilho dos seus olhos, agudamente inteligentes, assegurou-me que ele retinha toda a sua razão. Além disso, eu estava habituado à sua forma fragmentada de falar, que apenas me deixava perplexo quanto ao seu significado, até que, com pouquíssimas palavras claras e rapidamente proferidas, ele tornava clara para mim a direção das suas ideias, e eu via que o que ele dissera anteriormente, e que me parecera desprovido de significado, era tão profundamente lógico que eu não conseguia compreender como não o tinha entendido mais cedo.

Capítulo IV

"No Seio da Natureza Selvagem"

O Château du Glandier é um dos castelos mais antigos da Ile de France, onde ainda subsistem tantos vestígios de construção do período feudal. Construído originalmente no coração da floresta, no reinado de Filipe, o Belo, podia agora ser visto a algumas centenas de metros da estrada que liga a aldeia de Sainte-Geneviève a Monthery. Um conjunto de estruturas inarmónicas, é dominado por um torreão. Quando o visitante sobe os degraus em ruínas deste antigo torreão, chega a um pequeno planalto onde, no século XVII, Georges Philibert de Sequigny, Senhor de Glandier, Maisons-Neuves e outros lugares, construiu a residência existente num estilo arquitetónico abominavelmente rococó.

Foi neste lugar, que parecia pertencer inteiramente ao passado, que o Professor Stangerson e a sua filha se instalaram para lançar as bases da ciência do futuro. A sua solidão, nas profundezas dos bosques, foi o que, mais do que tudo, lhes agradou. Não queriam ninguém para testemunhar os seus trabalhos e intrometer-se nas suas esperanças, a não ser as pedras antigas e os grandes carvalhos seculares. O Glandier — antigo Glandierum — era assim chamado devido à quantidade de bolotas (glandes) que, desde sempre, tinham sido colhidas naquela vizinhança. Estas terras, de presente interesse lúgubre, tinham regressado, devido à negligência ou abandono dos seus proprietários, ao caráter selvagem da natureza primitiva. Apenas os edifícios, que ali se escondiam, tinham preservado vestígios das suas estranhas metamorfoses. Cada época tinha deixado neles a sua marca; um pedaço de arquitetura a que estava ligada a lembrança de algum acontecimento terrível, de alguma aventura sangrenta. Tal era o castelo onde a ciência se tinha refugiado — um lugar aparentemente concebido para ser o teatro de mistérios, terror e morte.

Tendo explicado até aqui, não posso deixar de fazer uma reflexão adicional. Se me demorei um pouco nesta descrição do Glandier, não é porque tenha chegado ao momento certo para criar a atmosfera necessária para o desenrolar da tragédia perante os olhos do leitor. De facto, em todo este assunto, o meu primeiro cuidado será ser o mais simples possível. Não tenho a ambição de ser um autor. Um autor é sempre um pouco romancista, e Deus sabe, o mistério do "Quarto Amarelo" é suficientemente cheio de horror trágico real para não necessitar de ajuda de efeitos literários. Sou, e apenas desejo ser, um "repórter" fiel. O meu dever é relatar o acontecimento; e coloco o acontecimento na sua moldura — é só isso. É natural que saiba onde as coisas aconteceram.

Volto ao Monsieur Stangerson. Quando comprou a propriedade, quinze anos antes da tragédia com que nos ocupamos, o Château du Glandier estava há muito tempo desocupado. Outro castelo antigo nas redondezas, construído no século XIV por Jean de Belmont, estava também abandonado, pelo que aquela parte do país era muito pouco habitada. Algumas casas pequenas à beira da estrada que leva a Corbeil, uma estalagem, chamada "Auberge du Donjon", que oferecia hospitalidade passageira aos carreteiros; isto era quase tudo o que representava a civilização nesta parte remota do país, a apenas algumas léguas da capital.

Mas esta condição de deserto do local tinha sido a razão determinante para a escolha feita pelo Monsieur Stangerson e pela sua filha. O Monsieur Stangerson já era célebre. Tinha regressado da América, onde os seus trabalhos tinham causado um grande alvoroço. O livro que publicara em Filadélfia, sobre a "Dissociação da Matéria pela Ação Elétrica", tinha despertado oposição em todo o mundo científico. O Monsieur Stangerson era francês, mas de origem americana. Assuntos importantes relacionados com uma herança tinham-no retido durante vários anos nos Estados Unidos, onde continuara o trabalho iniciado por si em França, para onde regressara na posse de uma grande fortuna. Esta fortuna foi uma grande dádiva para ele; pois, embora pudesse ter feito milhões de dólares explorando duas ou três das suas descobertas químicas relacionadas com novos processos de tingimento, sempre lhe foi repugnante utilizar para o seu ganho pessoal o maravilhoso dom de invenção que tinha recebido da natureza. Ele considerava que o devia à humanidade, e tudo o que o seu génio trazia ao mundo ia, por esta visão filosófica do seu dever, para o colo do público.

Se ele não tentava esconder a sua satisfação por ter entrado na posse desta fortuna, que lhe permitia entregar-se à sua paixão pela ciência pura, ele tinha igualmente de se regozijar, parecia-lhe, por outra causa. A Mademoiselle Stangerson tinha, na altura em que o seu pai regressou da América e comprou a propriedade de Glandier, vinte anos de idade. Era extremamente bonita, tendo simultaneamente a graça parisiense da sua mãe, que morrera ao dar-lhe à luz, e todo o esplendor, todas as riquezas do jovem sangue americano do seu avô paterno, William Stangerson. Cidadão de Filadélfia, William Stangerson fora obrigado a naturalizar-se em obediência a exigências familiares na altura do seu casamento com uma senhora francesa, aquela que viria a ser a mãe do ilustre Stangerson. Desta forma, a nacionalidade francesa do professor fica explicada.

Vinte anos de idade, uma loira encantadora, de olhos azuis, tez branca como o leite e radiante com uma saúde divina, Mathilde Stangerson era uma das raparigas casadouras mais bonitas do velho ou do novo mundo. Era o dever do seu pai, apesar da dor inevitável que uma separação dela lhe causaria, pensar no seu casamento; e ele estava totalmente preparado para isso. No entanto, ele enterrou-se com a sua filha no Glandier no momento em que os seus amigos esperavam que ele a introduzisse na sociedade. Alguns deles expressaram o seu espanto, e às suas perguntas ele respondia: "É o desejo da minha filha. Não lhe posso negar nada. Ela escolheu o Glandier."

Interrogada por sua vez, a jovem respondia calmamente: "Onde poderíamos trabalhar melhor do que nesta solidão?" Pois a Mademoiselle Stangerson já começara a colaborar com o seu pai no seu trabalho. Na altura, não se podia imaginar que a sua paixão pela ciência a levaria tão longe a ponto de recusar todos os pretendentes que se apresentaram a ela durante mais de quinze anos. Tão isolada era a vida levada pelos dois, pai e filha, que apenas se mostravam em algumas receções oficiais e, em certas alturas do ano, em dois ou três salões amigos, onde a fama do professor e a beleza de Mathilde causavam sensação. A extrema reserva da jovem não desencorajou inicialmente os pretendentes; mas, ao fim de alguns anos, eles cansaram-se da sua busca.

Um apenas persistiu com terna tenacidade e mereceu o nome de "eterno noivo", um nome que ele aceitou com resignação melancólica; esse era o Monsieur Robert Darzac. A Mademoiselle Stangerson já não era nova, e parecia que, não tendo encontrado qualquer razão para casar aos trinta e cinco anos, nunca a encontraria. Mas tal argumento, evidentemente, não encontrou aceitação junto do Monsieur Robert Darzac. Ele continuou a cortejá-la — se a atenção delicada e terna com que ele incessantemente rodeava esta mulher de trinta e cinco anos podia ser chamada de corte — perante a sua declarada intenção de nunca casar.

Subitamente, algumas semanas antes dos acontecimentos com que nos ocupamos, um boato — ao qual ninguém atribuiu qualquer importância, tão incrível soava — espalhou-se por Paris, de que a Mademoiselle Stangerson tinha finalmente consentido em "coroar" a chama inextinguível do Monsieur Robert Darzac! Foi necessário que o próprio Monsieur Robert Darzac não desmentisse este rumor matrimonial para lhe dar uma aparência de verdade, tão improvável parecia ser bem fundado. Um dia, contudo, o Monsieur Stangerson, ao sair da Academia de Ciências, anunciou que o casamento da sua filha com o Monsieur Robert Darzac seria celebrado na privacidade do Château du Glandier, assim que ele e a sua filha tivessem dado os retoques finais ao seu relatório que resumia os seus trabalhos sobre a "Dissociação da Matéria". O novo agregado familiar instalar-se-ia no Glandier, e o genro daria a sua assistência ao trabalho a que o pai e a filha tinham dedicado as suas vidas.

O mundo científico mal tivera tempo de recuperar do efeito desta notícia, quando soube da tentativa de assassinato da Mademoiselle nas condições extraordinárias que detalhámos e que a nossa visita ao castelo nos permitiria apurar com ainda maior precisão. Não hesitei em fornecer ao leitor todos estes detalhes retrospetivos, conhecidos por mim através das minhas relações profissionais com o Monsieur Robert Darzac. Ao cruzar o limiar do "Quarto Amarelo", ele estava tão informado como eu.

Capítulo V

No Qual Joseph Rouletabille Faz uma Observação ao Monsieur Robert Darzac Que Produz o Seu Pequeno Efeito

Rouletabille e eu caminhávamos há vários minutos, ao lado de um muro longo que delimitava a vasta propriedade do Monsieur Stangerson e já tínhamos avistado o portão de entrada, quando a nossa atenção foi atraída para um indivíduo que, meio dobrado para o chão, parecia estar tão completamente absorvido no que fazia que não nos viu a vir na sua direção. A dada altura, ele baixava-se tanto que quase tocava no solo; noutra, erguia-se e examinava atentamente o muro; depois, olhava para a palma de uma das mãos e afastava-se a passos largos. Finalmente, pôs-se a correr, olhando sempre para a palma da mão. Rouletabille tinha-me feito parar com um gesto.

"Silêncio! Frédéric Larsan está a trabalhar! Não o vamos incomodar!"

Rouletabille tinha uma grande admiração pelo célebre detetive. Eu nunca o tinha visto antes, mas conhecia-o bem de reputação. Nessa altura, antes de Rouletabille ter dado provas do seu talento único, Larsan era reputado como o mais habilidoso desvendador dos crimes mais misteriosos e complicados. A sua reputação era mundial, e a polícia de Londres, e até da América, chamava-o frequentemente em seu auxílio quando os seus próprios inspetores e detetives nacionais se viam no fim do seu engenho e recursos.

Ninguém se espantou, então, que o chefe da Sûreté tivesse, logo no início do mistério do "Quarto Amarelo", telegrafado ao seu precioso subordinado para Londres, onde fora enviado para um grande caso de roubo de títulos, para regressar com toda a pressa. Frédéric que, na Sûreté, era chamado o "grande Frédéric", tinha vindo a toda a velocidade, sabendo sem dúvida por experiência que, se era interrompido no que estava a fazer, era porque os seus serviços eram urgentemente necessários noutra direção; por isso, como dizia Rouletabille, ele estava naquela manhã já "a trabalhar". Descobrimos em breve em que consistia.

Aquilo que ele examinava continuamente na palma da mão direita não era mais do que o seu relógio, cujo ponteiro dos minutos parecia notar atentamente. Depois, voltou-se e continuou a correr, parando apenas quando chegou ao portão do parque, onde consultou novamente o relógio e o guardou no bolso, encolhendo os ombros com um gesto de desencorajamento. Empurrou o portão do parque, fechou-o e trancou-o, ergueu a cabeça e, através das grades, percebeu a nossa presença. Rouletabille correu atrás dele e eu segui-o. Frédéric Larsan esperou por nós.

— Monsieur Fred — disse Rouletabille, tirando o chapéu e demonstrando o profundo respeito, baseado na admiração, que o jovem repórter sentia pelo célebre detetive —, pode dizer-me se Monsieur Robert Darzac se encontra neste momento no château? Aqui está um dos seus amigos, da Ordem dos Advogados de Paris, que deseja falar com ele.

— Realmente não sei, Monsieur Rouletabille — respondeu Fred, apertando a mão ao meu amigo, que encontrara várias vezes ao longo das suas difíceis investigações. — Não o vi.

— Os porteiros poderão informar-nos, sem dúvida? — disse Rouletabille, apontando para a guarita, cujas portas e janelas estavam bem fechadas.

— Os porteiros não poderão dar-lhe qualquer informação, Monsieur Rouletabille.

— Por que não?

— Porque foram presos há meia hora.

— Presos! — exclamou Rouletabille. — Então são eles os assassinos!

Frédéric Larsan encolheu os ombros.

— Quando não se pode prender o verdadeiro assassino — disse ele com um ar de suprema ironia —, pode-se sempre dar ao luxo de descobrir cúmplices.

— Foi o senhor que os mandou prender, Monsieur Fred?

— Eu não! — Não os mandei prender. Em primeiro lugar, estou quase certo de que não tiveram nada a ver com o caso e, depois, porque...

— Porque quê? — perguntou Rouletabille ansiosamente.

— Porque nada — disse Larsan, abanando a cabeça.

— Porque não houve cúmplices! — disse Rouletabille.

— Ah! Então tem uma ideia sobre este assunto? — disse Larsan, olhando fixamente para Rouletabille. — Contudo, não viu nada, jovem... ainda não obteve autorização para entrar aqui!

— Hei de entrar.

— Duvido. As ordens são estritas.

— Hei de entrar, se me deixar ver Monsieur Robert Darzac. Faça isso por mim. Sabe que somos velhos amigos. Rogo-lhe, Monsieur Fred. Lembra-se do artigo que escrevi sobre si no caso da barra de ouro?

O rosto de Rouletabille, naquele momento, era realmente engraçado de se ver. Mostrava um desejo tão irresistível de atravessar o limiar para lá do qual um mistério prodigioso ocorrera; apelava com tanta eloquência, não só com a boca e os olhos, mas com todos os traços, que não pude evitar soltar uma gargalhada. Frédéric Larsan, não mais do que eu, conseguiu manter a gravidade. Entretanto, de pé do outro lado do portão, ele guardou calmamente a chave no bolso. Observei-o atentamente.

Devia ter cerca de cinquenta anos. Tinha uma cabeça distinta, o cabelo a tornar-se grisalho; uma tez descorada e um perfil firme. A testa era proeminente, o queixo e as faces bem barbeados. O lábio superior, sem bigode, era finamente cinzelado. Os olhos eram um tanto pequenos e redondos, com um olhar que era, ao mesmo tempo, perscrutador e inquietante. Era de estatura média e bem constituído, com um porte geral elegante e distinto. Não havia nele nada do polícia vulgar. À sua maneira, era um artista, e sentia-se que tinha uma elevada opinião de si mesmo. O tom cético da sua conversa era o de um homem que fora ensinado pela experiência. A sua estranha profissão colocara-o em contacto com tantos crimes e vilanias que seria notável se a sua natureza não se tivesse tornado um pouco endurecida.

Larsan virou a cabeça ao som de um veículo que vinha do château e chegara ao portão atrás dele. Reconhecemos o cab que transportara o juiz de instrução e o seu escrivão da estação de Epinay.

— Ah! — disse Frédéric Larsan. — Se quer falar com Monsieur Robert Darzac, ele está aqui.

O cab já estava no portão do parque e Robert Darzac pedia a Frédéric Larsan que o abrisse, explicando que estava com pressa para apanhar o próximo comboio que partia de Epinay para Paris. Depois, reconheceu-me. Enquanto Larsan destrancava o portão, Monsieur Darzac perguntou o que me trouxera ao Glandier num momento tão trágico. Notei que ele estava terrivelmente pálido e que o seu rosto estava marcado como se pelos efeitos de um sofrimento terrível.

— A Mademoiselle está a melhorar? — perguntei imediatamente.

— Sim — disse ele. — Talvez ela se salve. Ela tem de ser salva!

Não acrescentou "ou será a minha morte"; mas senti que a frase tremia nos seus lábios pálidos.

Rouletabille interveio:

— Está com pressa, Monsieur; mas tenho de falar consigo. Tenho algo da maior importância para lhe dizer.

Frédéric Larsan interrompeu:

— Posso deixá-los? — perguntou a Robert Darzac. — Tem uma chave ou quer que lhe dê esta?

— Obrigado. Tenho uma chave e fecharei o portão.

Larsan apressou-se na direção do château, cujo imponente conjunto podia ser visto a algumas centenas de metros de distância.

Robert Darzac, com as sobrancelhas franzidas, começava a demonstrar impaciência. Apresentei Rouletabille como um bom amigo meu, mas, assim que soube que o jovem era jornalista, olhou para mim com muito desapontamento, desculpou-se, devido à necessidade de chegar a Epinay em vinte minutos, inclinou-se e fustigou o cavalo. Mas Rouletabille tinha agarrado as rédeas e, para meu espanto absoluto, parou a carruagem com uma mão vigorosa. Depois, proferiu uma frase que era totalmente sem sentido para mim.

— O presbitério não perdeu nada do seu encanto, nem o jardim o seu brilho.

As palavras mal tinham saído dos lábios de Rouletabille quando vi Robert Darzac estremecer. Pálido como estava, tornou-se mais pálido ainda. Os seus olhos fixaram-se no jovem com terror, e ele desceu imediatamente do veículo num estado de agitação indescritível.

— Venha! — entre! — balbuciou ele.

Depois, subitamente, e com uma espécie de fúria, repetiu:

— Vamos, monsieur.

Virou-se pelo caminho de onde tinha vindo do château, com Rouletabille ainda a segurar as rédeas do cavalo. Dirigi algumas palavras a Monsieur Darzac, mas ele não respondeu. O meu olhar questionou Rouletabille, mas o seu olhar estava noutro lugar.

Capítulo VI

No Coração do Bosque de Carvalhos

Chegámos ao château e, ao aproximarmo-nos, vimos quatro gendarmes a patrulhar em frente a uma pequena porta no rés-do-chão da torre de menagem. Soubemos logo que, naquele rés-do-chão, que outrora servira de prisão, Monsieur e Madame Bernier, os porteiros, estavam detidos.

Monsieur Robert Darzac conduziu-nos à parte moderna do château por uma porta grande, protegida por um alpendre saliente — uma "marquise", como se costuma chamar. Rouletabille, que tinha confiado o cavalo e o cab aos cuidados de um criado, nunca tirava os olhos de Monsieur Darzac. Segui o seu olhar e percebi que estava direcionado apenas para as mãos enluvadas do professor da Sorbonne. Quando estávamos numa minúscula sala de estar decorada com móveis antigos, Monsieur Darzac virou-se para Rouletabille e disse rispidamente:

— O que quer?

O repórter respondeu num tom igualmente ríspido:

— Apertar-lhe a mão.

Darzac recuou.

— O que significa isso?

Evidentemente, ele compreendeu, tal como eu compreendi, que o meu amigo o suspeitava da abominável tentativa de assassinato da Mademoiselle Stangerson. A marca da mão ensanguentada nas paredes de "O Quarto Amarelo" estava na sua mente. Olhei atentamente para o homem. O seu rosto altivo, com uma expressão normalmente tão direta, estava naquele momento estranhamente perturbado. Estendeu a mão direita e, referindo-se a mim, disse:

— Como é amigo do Monsieur Sainclair, que me prestou serviços inestimáveis numa causa justa, monsieur, não vejo razão para lhe recusar a mão...

Rouletabille não aceitou a mão estendida. Mentindo com a maior audácia, disse:

— Monsieur, vivi vários anos na Rússia, onde adquiri o hábito de nunca apertar senão uma mão sem luva.

Pensei que o professor da Sorbonne manifestaria a sua raiva abertamente, mas, pelo contrário, num esforço visivelmente violento, acalmou-se, tirou as luvas e mostrou as mãos; não tinham qualquer cicatriz.

— Está satisfeito?

— Não! — respondeu Rouletabille. — Meu caro amigo — disse ele, voltando-se para mim —, vejo-me obrigado a pedir-lhe que nos deixe sozinhos por um momento.

Inclinei-me e retirei-me, estupefacto com o que tinha visto e ouvido. Não conseguia compreender por que razão Monsieur Robert Darzac ainda não tinha posto o meu amigo impertinente, insultuoso e estúpido na rua. Eu próprio estava zangado com Rouletabille naquele momento, pelas suas suspeitas, que tinham conduzido a esta cena das luvas.

Durante uns vinte minutos, caminhei em frente ao château, tentando em vão ligar os diferentes acontecimentos do dia. O que estaria na mente de Rouletabille? Seria possível que ele pensasse que Monsieur Robert Darzac era o assassino? Como se poderia pensar que este homem, que se deveria ter casado com a Mademoiselle Stangerson dentro de poucos dias, se tinha introduzido em "O Quarto Amarelo" para assassinar a sua noiva? Não conseguia encontrar explicação para a forma como o assassino tinha podido sair de "O Quarto Amarelo"; e, enquanto aquele mistério, que me parecia tão inexplicável, permanecesse por explicar, pensei que era o dever de todos nós abdicarmos de suspeitar de quem quer que fosse. Mas, então, aquela frase aparentemente sem sentido — "O presbitério não perdeu nada do seu encanto, nem o jardim o seu brilho" — ainda ecoava nos meus ouvidos. O que significava? Estava ansioso por me juntar a Rouletabille e questioná-lo.

Nesse momento, o jovem saiu do château na companhia de Monsieur Robert Darzac e, extraordinário é dizer, vi, num relance, que eram os melhores amigos.

— Vamos a "O Quarto Amarelo". Venha connosco — disse-me Rouletabille. — Sabe, meu caro rapaz, vou mantê-lo comigo todo o dia. Tomaremos o pequeno-almoço juntos por aqui...

— Tomarão o pequeno-almoço comigo, aqui, senhores...

— Não, obrigado — respondeu o jovem. — Tomaremos o pequeno-almoço na Estalagem da Torre.

— Comerão muito mal lá; não encontrarão nada...

— Acha? Bem, espero encontrar algo lá — respondeu Rouletabille. — Depois do pequeno-almoço, voltaremos ao trabalho. Escreverei o meu artigo e, se fosse tão gentil de o levar à redação por mim...

— Não voltará comigo para Paris?

— Não; permanecerei aqui.

Virei-me para Rouletabille. Ele falava com toda a seriedade, e Monsieur Robert Darzac não parecia, de modo algum, surpreendido.

Passávamos pela torre de menagem e ouvíamos vozes de lamento. Rouletabille perguntou:

— Por que razão estas pessoas foram presas?

— É um pouco culpa minha — disse Monsieur Darzac. — Aconteceu eu comentar com o juiz de instrução ontem que era inexplicável que os porteiros tivessem tido tempo para ouvir os tiros de revólver, vestir-se e percorrer uma distância tão grande como a que separa a sua guarita do pavilhão, no espaço de dois minutos; pois não tinha decorrido mais do que esse intervalo de tempo após os disparos quando foram encontrados pelo Pai Jacques.

— Isso era suspeito, evidentemente — concordou Rouletabille. — E estavam vestidos?

— É isso que é inacreditável — estavam vestidos — completamente — não faltava uma peça do seu traje. A mulher usava tamancos, mas o homem tinha botas com atacadores. Ora, eles afirmam que se deitaram às nove e meia. Ao chegar esta manhã, o juiz de instrução trouxe de Paris um revólver do mesmo calibre que o encontrado na sala (pois não podia usar o que estava apreendido como prova) e fez com que o seu escrivão disparasse dois tiros em "O Quarto Amarelo" enquanto as portas e janelas estavam fechadas. Estávamos com ele na guarita dos porteiros e, contudo, não ouvimos nada, nem um som. Os porteiros mentiram, disso não pode haver dúvida. Deviam estar já à espera, não longe do pavilhão, à espera de alguma coisa! Certamente não devem ser acusados de serem os autores do crime, mas a sua cumplicidade não é improvável. Foi por isso que Monsieur de Marquet os mandou prender de imediato.

— Se fossem cúmplices — disse Rouletabille —, não teriam estado lá. Quando as pessoas se lançam nos braços da justiça com as provas de cumplicidade sobre elas, pode ter a certeza de que não são cúmplices. Não creio que existam cúmplices neste caso.

— Então, por que estavam fora à meia-noite? Por que não dizem?

— Têm certamente alguma razão para o seu silêncio. O que é essa razão, tem de ser descoberto; pois, mesmo que não sejam cúmplices, pode ser de importância. Tudo o que aconteceu numa noite destas é importante.

Tínhamos atravessado uma velha ponte sobre o Douve e entrávamos na parte do parque chamada Bosque de Carvalhos. Os carvalhos ali eram centenários. O outono já tinha murchado as suas folhas cor de açafrão, e os seus ramos altos, pretos e contorcidos, pareciam cabeças de cabelo horríveis, misturadas com répteis estranhos, como os antigos escultores fizeram na cabeça da Medusa. Este lugar, que a Mademoiselle achava alegre e no qual vivia na estação de verão, parecia-nos triste e fúnebre agora. O solo era preto e lamacento devido às chuvas recentes e ao apodrecimento das folhas caídas; os troncos das árvores eram pretos e o céu acima de nós estava agora, como se estivesse de luto, carregado de grandes e pesadas nuvens.

E foi nesse retiro sombrio e desolado que vimos as paredes brancas do pavilhão enquanto nos aproximávamos. Um edifício de aspeto estranho, sem uma janela visível do lado pelo qual nos aproximávamos. Uma pequena porta marcava apenas a sua entrada. Poderia ter passado por um túmulo, um vasto mausoléu no meio de uma floresta densa. À medida que nos aproximávamos, conseguimos distinguir a sua disposição. O edifício obtinha toda a luz de que necessitava do sul, isto é, do campo aberto. A pequena porta fechava-se sobre o parque. Monsieur e Mademoiselle Stangerson deviam ter achado que era um isolamento ideal para o seu trabalho e os seus sonhos.

Aqui está a planta do pavilhão. Tinha um rés-do-chão ao qual se acedia por alguns degraus, e acima dele havia um sótão, com o qual não precisamos de nos preocupar. A planta do rés-do-chão apenas, esboçada grosseiramente, é o que submeto aqui ao leitor.

1. O Quarto Amarelo, com a sua única janela e a sua única porta que abria para o laboratório.

2. Laboratório, com as suas duas grandes janelas gradeadas e as suas portas, uma servindo de vestíbulo, a outra de "O Quarto Amarelo".

3. Vestíbulo, com a sua janela sem grades e porta que abria para o parque.

4. Lavatório.

5. Escadas que levam ao sótão.

6. Chaminé grande e a única no pavilhão, servindo para as experiências do laboratório.

A planta foi desenhada por Rouletabille, e assegurei-me de que não faltava uma linha que fosse para ajudar à solução do problema que se apresentava então à polícia. Com as linhas desta planta e a descrição das suas partes diante deles, os meus leitores saberão tanto quanto Rouletabille sabia quando entrou no pavilhão pela primeira vez. Com ele, podem agora perguntar: Como escapou o assassino de "O Quarto Amarelo"?

Antes de subir os três degraus que levavam à porta do pavilhão, Rouletabille parou e perguntou a Monsieur Darzac a queima-roupa:

— Qual foi o motivo do crime?

— Falando por mim, Monsieur, não pode haver dúvida sobre o assunto — disse o noivo da Mademoiselle Stangerson, muito angustiado. — As marcas dos dedos, os arranhões profundos no peito e na garganta da Mademoiselle Stangerson mostram que o miserável que a atacou tentou cometer um crime horrível. Os peritos médicos que examinaram estes vestígios ontem afirmam que foram feitos pela mesma mão que deixou a sua impressão vermelha na parede; uma mão enorme, Monsieur, muito grande para entrar nas minhas luvas — acrescentou ele com um sorriso indefinível.

— Não poderia essa mão ensanguentada — interrompi — ter sido a mão da Mademoiselle Stangerson que, no momento de cair, a tinha pressionado contra a parede e, ao escorregar, ampliado a impressão?

— Não havia uma gota de sangue em nenhuma das suas mãos quando ela foi levantada — respondeu Monsieur Darzac.

— Estamos agora certos — disse eu — de que foi a Mademoiselle Stangerson que estava armada com o revólver do Pai Jacques, uma vez que ela feriu a mão do assassino. Ela tinha medo, então, de alguém ou de alguma coisa.

— Provavelmente.

— Suspeita de alguém?

— Não — respondeu Monsieur Darzac, olhando para Rouletabille.

Rouletabille disse-me então:

— Deve saber, meu amigo, que o inquérito está um pouco mais avançado do que Monsieur de Marquet escolheu dizer-nos. Ele não só sabe que a Mademoiselle Stangerson se defendeu com o revólver, como sabe qual foi a arma que foi usada para a atacar. Monsieur Darzac diz-me que foi um osso de carneiro. Por que é que Monsieur de Marquet está a rodear este osso de carneiro com tanto mistério? Sem dúvida com o propósito de facilitar as investigações dos agentes da Sûreté? Imagina, talvez, que o dono deste instrumento de crime, o mais terrível que se inventou, vai ser encontrado entre aqueles que são bem conhecidos nos bairros baixos de Paris que o usam. Mas quem poderá dizer o que passa pelo cérebro de um juiz de instrução? — acrescentou Rouletabille com ironia desdenhosa.

— Encontraram um osso de carneiro em "O Quarto Amarelo"? — perguntei-lhe.

— Sim, Monsieur — disse Robert Darzac —, ao pé da cama; mas rogo-lhe que não diga nada sobre isso. (Fiz um gesto de assentimento.) — Era um osso de carneiro enorme, cuja extremidade, ou melhor, a articulação, estava ainda vermelha com o sangue do ferimento horrível. Era um osso velho, que pode, de acordo com as aparências, ter servido noutros crimes. É isso que pensa Monsieur de Marquet, que o mandou enviar para o laboratório municipal em Paris para ser analisado. De facto, ele pensa que detetou nele não só o sangue da última vítima, mas outras manchas de sangue seco, evidências de crimes anteriores.

— Um osso de carneiro na mão de um assassino habilidoso é uma arma terrível — disse Rouletabille —, uma arma mais certa do que um martelo pesado.

— O patife provou que assim o era — disse Monsieur Robert Darzac, tristemente. — A articulação do osso encontrado corresponde exatamente ao ferimento infligido. A minha convicção é que o ferimento teria sido mortal se o golpe do assassino não tivesse sido detido no ato pelo revólver da Mademoiselle Stangerson. Ferido na mão, ele deixou cair o osso de carneiro e fugiu. Infelizmente, o golpe já tinha sido dado, e a Mademoiselle ficou atordoada depois de ter sido quase estrangulada. Se ela tivesse conseguido ferir o homem com o primeiro tiro do revólver, teria, sem dúvida, escapado ao golpe com o osso. Mas ela tinha certamente empregado o seu revólver demasiado tarde; o primeiro tiro desviou-se e alojou-se no teto; foi apenas o segundo que teve efeito.

Tendo dito isto, Monsieur Darzac bateu à porta do pavilhão. Devo confessar que senti uma forte impaciência por chegar ao local onde o crime tinha sido cometido. Passou algum tempo antes de a porta ser aberta por um homem que reconheci imediatamente como o Pai Jacques.

Parecia ter bem mais de sessenta anos. Tinha uma barba branca comprida e cabelo branco, sobre o qual usava uma boina basca achatada. Estava vestido com um fato completo de veludo de cor castanha, gasto nos lados; usava tamancos nos pés. Tinha um rosto com um aspeto um tanto irritadiço, cuja expressão se iluminou, no entanto, assim que viu Monsieur Darzac.

— Amigos — disse o nosso guia. — Ninguém no pavilhão, Pai Jacques?

— Não deveria permitir que ninguém entrasse, Monsieur Robert, mas é claro que a ordem não se aplica ao senhor. Estes senhores da justiça viram tudo o que havia para ver, fizeram desenhos suficientes e redigiram relatórios suficientes...

— Desculpe-me, Monsieur Jacques, uma pergunta antes de tudo — disse Rouletabille.

— O que é, jovem? Se eu puder responder...

— A sua patroa usava o cabelo em faixas, naquela noite? Sabe o que quero dizer — sobre a testa?

— Não, jovem. A minha patroa nunca usou o cabelo da maneira que sugere, nem naquele dia nem em qualquer outro. Ela usava o cabelo preso para cima, como de costume, de modo que a sua bela testa pudesse ser vista, pura como a de uma criança por nascer!

Rouletabille resmungou e pôs-se a trabalhar examinando a porta, descobrindo que ela se fechava automaticamente. Convenceu-se de que ela nunca poderia permanecer aberta e que precisava de uma chave para a abrir. Depois, entrámos no vestíbulo, uma sala pequena e bem iluminada, pavimentada com ladrilhos quadrados vermelhos.

— Ah! Esta é a janela pela qual o assassino escapou! — disse Rouletabille.

— É o que continuam a dizer, monsieur, é o que continuam a dizer! Mas se ele tivesse ido por esse caminho, teríamos certamente visto. Não somos cegos, nem Monsieur Stangerson nem eu, nem os porteiros que estão na prisão. Porque é que não me puseram também na prisão, por causa do meu revólver?

Rouletabille já tinha aberto a janela e estava a examinar as persianas.

— Estavam estas fechadas no momento do crime?

— E presas com o trinco de ferro por dentro — disse o Pai Jacques —, e tenho a certeza de que o assassino não saiu por aí.

— Há manchas de sangue?

— Sim, nas pedras lá fora; mas sangue de quê?

— Ah! — disse Rouletabille —, há pegadas visíveis no caminho — o solo estava muito húmido. Vou verificar isso dentro em breve.

— Disparates! — interrompeu o Pai Jacques; — o assassino não foi por esse caminho.

— Por que caminho foi ele, então?

— Como é que eu hei de saber?

Rouletabille observou tudo, cheirou tudo. Pôs-se de joelhos e examinou rapidamente cada um dos ladrilhos do pavimento. O Pai Jacques continuou:

— Ah! — o senhor não consegue encontrar nada, monsieur. Nada foi encontrado. E agora está tudo sujo; demasiadas pessoas passaram por aqui. Não me deixaram lavar, mas no dia do crime eu tinha lavado o chão cuidadosamente, e se o assassino o tivesse atravessado com as suas botas com pregos, eu não teria deixado de ver por onde ele tinha passado; ele deixou marcas suficientes no quarto da Mademoiselle.

Rouletabille levantou-se.

— Quando foi a última vez que lavou estes ladrilhos? — perguntou ele, e fixou no Pai Jacques um olhar muito perscrutador.

— Bem — como lhe disse —, no dia do crime, por volta das cinco e meia — enquanto a Mademoiselle e o seu pai davam um pequeno passeio antes do jantar, aqui nesta sala; tinham jantado no laboratório. No dia seguinte, o juiz de instrução veio e viu todas as marcas que havia no chão tão claramente como se tivessem sido feitas com tinta em papel branco. Bem, nem no laboratório nem no vestíbulo, que estavam ambos tão limpos como uma nova escova, havia vestígios de pegadas de um homem. Uma vez que foram encontradas perto desta janela, lá fora, ele deve ter feito o seu caminho através do teto do Quarto Amarelo para o sótão, depois cortou o seu caminho através do telhado e deixou-se cair no solo, fora da janela do vestíbulo. Mas — não há nenhum buraco, nem no teto do Quarto Amarelo nem no telhado do meu sótão — isso é absolutamente certo! Portanto, vê, não sabemos nada — nada! E nunca se saberá nada! É um mistério feito pelo próprio diabo.

Rouletabille pôs-se de joelhos novamente, quase em frente a um pequeno lavatório nas traseiras do vestíbulo. Nessa posição permaneceu durante cerca de um minuto.

— Bem? — perguntei-lhe quando ele se levantou.

— Oh! nada de muito importante — uma gota de sangue — respondeu ele, virando-se para o Pai Jacques enquanto falava. — Enquanto lavava o laboratório e este vestíbulo, a janela do vestíbulo estava aberta? — perguntou ele.

— Não, Monsieur, estava fechada; mas depois de ter lavado o chão, acendi um pouco de carvão para Monsieur na fornalha do laboratório e, como o acendi com jornais velhos, fez fumo, então abri ambas as janelas no laboratório e esta, para criar uma corrente de ar; depois fechei as do laboratório e deixei esta aberta quando saí. Quando voltei ao pavilhão, esta janela tinha sido fechada e Monsieur e Mademoiselle já estavam a trabalhar no laboratório.

— Monsieur ou Mademoiselle Stangerson tinham, sem dúvida, fechado-a?

— Sem dúvida.

— Não lhes perguntou?

— Não.

Após um exame minucioso do pequeno lavatório e da escada que levava ao sótão, Rouletabille — para quem parecíamos já não existir — entrou no laboratório. Segui-o. Estava, confesso, num estado de grande agitação. Robert Darzac não perdia nenhum dos movimentos do meu amigo. Quanto a mim, os meus olhos foram atraídos de imediato para a porta do Quarto Amarelo. Estava fechada e, como vi imediatamente, parcialmente destruída e fora de serviço.

O meu amigo, que realizava o seu trabalho metodicamente, estudou silenciosamente a sala em que nos encontrávamos. Era grande e bem iluminada. Duas grandes janelas — quase vãos — estavam protegidas por fortes barras de ferro e davam para uma vasta extensão de campo. Através de uma abertura na floresta, comandavam uma vista maravilhosa através da extensão do vale e através da planície até à grande cidade que podia ser claramente vista com bom tempo. Hoje, contudo, uma névoa pairava sobre o solo — e sangue naquela sala!

Todo um lado do laboratório era ocupado por uma grande chaminé, cadinhos, fornos e instrumentos tais como são necessários para experiências químicas; mesas carregadas com frascos, papéis, relatórios, uma máquina elétrica — um aparelho, como Monsieur Darzac me informou, utilizado pelo Professor Stangerson para demonstrar a Dissociação da Matéria sob a ação da luz solar — e outros instrumentos científicos.

Ao longo das paredes havia armários, simples ou com frente de vidro, através dos quais eram visíveis microscópios, aparelhos fotográficos especiais e uma grande quantidade de cristais.

Rouletabille, que estava a remexer na chaminé, meteu os dedos num dos cadinhos. De repente, endireitou-se e segurou um pedaço de papel meio consumido na mão. Aproximou-se do local onde estávamos a falar, junto a uma das janelas.

— Guarde isto para nós, Monsieur Darzac — disse ele.

Inclinei-me sobre o pedaço de papel chamuscado que Monsieur Darzac tirou da mão de Rouletabille e li distintamente as únicas palavras que permaneciam legíveis:

— "Presbitério — nada perdido — encanto, nem o gar — o seu brilho."

Duas vezes desde a manhã estas mesmas palavras sem sentido tinham-me atingido e, pela segunda vez, vi que produziam no professor da Sorbonne o mesmo efeito paralisante. A primeira ansiedade de Monsieur Darzac mostrou-se quando ele virou os olhos na direção do Pai Jacques. Mas, ocupado como estava noutra janela, ele não tinha visto nada. Depois, abrindo trémulamente a sua carteira, colocou o pedaço de papel nela, suspirando: "Meu Deus!"

Durante este tempo, Rouletabille tinha montado na abertura da grelha da lareira — isto é, tinha subido aos tijolos de uma fornalha — e estava a examinar atentamente a chaminé, que se estreitava em direção ao topo, sendo a sua saída fechada com chapas de ferro, presas na alvenaria, através das quais passavam três pequenas chaminés.

— Impossível sair por esse caminho — disse ele, saltando de volta para o laboratório. — Além disso, mesmo que ele tivesse tentado fazê-lo, teria trazido toda aquela estrutura de ferro para o chão. Não, não; não é por esse lado que temos de procurar.

Rouletabille examinou a seguir o mobiliário e abriu as portas do armário. Depois chegou às janelas, através das quais declarou que ninguém poderia possivelmente ter passado. Na segunda janela encontrou o Pai Jacques em contemplação.

— Bem, Pai Jacques — disse ele —, o que está a olhar?

— Aquele polícia que está sempre a andar à volta do lago. Outro daqueles tipos que pensam que podem ver melhor do que qualquer outra pessoa!

— Não conhece Frédéric Larsan, Pai Jacques, ou não falaria dele dessa maneira — disse Rouletabille num tom melancólico. — Se há alguém que encontrará o assassino, será ele. — E Rouletabille soltou um suspiro profundo.

— Antes de o encontrarem, terão de aprender como o perderam — disse o Pai Jacques, estoicamente.

Finalmente chegámos à porta do próprio Quarto Amarelo.

— Ali está a porta atrás da qual ocorreu alguma cena terrível — disse Rouletabille, com uma solenidade que, em quaisquer outras circunstâncias, teria sido cómica.

Capítulo VII

No qual Rouletabille parte numa expedição debaixo da cama

Rouletabille, tendo empurrado a porta do Quarto Amarelo, parou no limiar dizendo, com uma emoção que só mais tarde compreendi:

— Ah, o perfume da dama de negro!

A câmara estava escura. O Pai Jacques estava prestes a abrir as persianas quando Rouletabille o parou.

— A tragédia não aconteceu na escuridão total? — perguntou ele.

— Não, jovem, não creio. A Mademoiselle tinha sempre uma luz de presença na sua mesa, e eu acendia-a todas as noites antes de ela ir para a cama. Eu era uma espécie de camareira, deve compreender, quando a noite chegava. A verdadeira camareira não vinha aqui muito antes da manhã. A Mademoiselle trabalhava até tarde — pela noite dentro.

— Onde ficava a mesa com a luz de presença — longe da cama?

— A alguma distância da cama.

— Pode acender o bico agora?

— O candeeiro está partido e o óleo que lá estava foi derramado quando a mesa foi virada. Todas as outras coisas na sala permanecem exatamente como estavam. Só tenho de abrir as persianas para o senhor ver.

— Espere.

Rouletabille voltou para o laboratório, fechou as persianas das duas janelas e a porta do vestíbulo. Quando estávamos na escuridão total, ele acendeu uma fósforo de cera e pediu ao Pai Jacques que se movesse para o meio da câmara com ele, para o lugar onde a luz de presença ardia naquela noite.

O Pai Jacques, que estava de meias — ele deixava habitualmente os seus socos no vestíbulo —, entrou no Quarto Amarelo com o seu restinho de fósforo. Distinguimos vagamente objetos derrubados no chão, uma cama num canto e, à nossa frente, à esquerda, o brilho de um espelho pendurado na parede, perto da cama.

— Isso chega! — pode agora abrir as persianas — disse Rouletabille.

— Não venha mais para a frente — implorou o Pai Jacques —, pode fazer marcas com as suas botas, e nada deve ser perturbado; é uma ideia do magistrado — embora ele já não tenha mais nada que fazer aqui.

E ele empurrou a persiana. A luz pálida do dia entrou do exterior, lançando uma luz sinistra nas paredes cor de açafrão. O chão — pois embora o laboratório e o vestíbulo fossem ladrilhados, o Quarto Amarelo tinha um soalho de madeira — estava coberto por uma única esteira amarela, suficientemente grande para cobrir quase toda a sala, debaixo da cama e debaixo da toucador — a única peça de mobiliário que permanecia de pé. A mesa redonda central, a mesa de cabeceira e duas cadeiras tinham sido viradas. Estas não impediam que uma grande mancha de sangue fosse visível na esteira, feita, como o Pai Jacques nos informou, pelo sangue que tinha escorrido da ferida na testa da Mademoiselle Stangerson. Para além destas manchas, gotas de sangue tinham caído em todas as direções, em linha com os traços visíveis das pegadas — grandes e pretas — do assassino. Tudo levava a presumir que estas gotas de sangue tinham caído da ferida do homem que, por um momento, colocou a sua mão vermelha na parede. Havia outros vestígios da mesma mão na parede, mas muito menos distintos.

— Veja! — veja este sangue na parede! — não pude deixar de exclamar. — O homem que pressionou a sua mão tão fortemente nela na escuridão deve ter certamente pensado que estava a empurrar uma porta! Foi por isso que ele pressionou com tanta força, deixando no papel amarelo a terrível evidência. Não creio que haja muitas mãos no mundo daquele tipo. É grande e forte e os dedos são quase todos do mesmo comprimento! Falta o polegar e só temos a marca da palma; mas se seguirmos o traço da mão — continuei —, vemos que, depois de deixar a sua marca na parede, o toque procurou a porta, encontrou-a e depois tateou à procura da fechadura...

— Sem dúvida — interrompeu Rouletabille, rindo-se — apenas não há sangue, nem na fechadura nem no ferrolho!

— O que é que isso prova? — retorqui com um bom senso de que me orgulhava; — ele poderia ter aberto a fechadura com a mão esquerda, o que teria sido bastante natural, estando a sua mão direita ferida.

— Ele não a abriu de todo! — exclamou novamente o Pai Jacques. — Não somos tolos; e éramos quatro quando arrombámos a porta!

— Que mão estranha! — Olhe que mão estranha é aquela! — disse eu.

— É uma mão muito natural — disse Rouletabille —, cuja forma foi deformada por ter escorregado na parede. O homem secou a mão na parede. Deve ser um homem com cerca de um metro e setenta de altura.

— Como é que chega a essa conclusão?

— Pela altura das marcas na parede.

O meu amigo ocupou-se a seguir com a marca da bala na parede. Era um buraco redondo.

— Esta bala foi disparada a direito, não de cima, e, consequentemente, não de baixo.

Rouletabille voltou à porta e examinou cuidadosamente a fechadura e o ferrolho, convencendo-se de que a porta tinha sido certamente arrombada do exterior e, além disso, de que a chave tinha sido encontrada na fechadura no interior da câmara. Finalmente, convenceu-se de que, com a chave na fechadura, a porta não poderia possivelmente ser aberta do exterior com outra chave. Tendo-se certificado de todos estes detalhes, deixou cair estas palavras: "Isso é melhor!" — Depois, sentando-se no chão, tirou apressadamente as suas botas e, de meias, entrou na sala.

A primeira coisa que fez foi examinar minuciosamente o mobiliário derrubado. Observámo-lo em silêncio.

— Jovem, está a dar a si próprio um grande trabalho — disse o Pai Jacques ironicamente.

Rouletabille levantou a cabeça e disse:

— Disse a pura verdade, Pai Jacques; a sua patroa não usava o cabelo em faixas naquela noite. Fui um asno por ter acreditado que usava.

Depois, com a flexibilidade de uma serpente, deslizou para debaixo da cama. Pouco depois, ouvimo-lo perguntar:

— A que horas, Monsieur Jacques, chegaram Monsieur e Mademoiselle Stangerson ao laboratório?

— Às seis horas.

A voz de Rouletabille continuou:

— Sim — ele esteve aqui debaixo — isso é certo; de facto, não havia outro lugar onde ele se pudesse ter escondido. Aqui, também, estão as marcas dos seus pregos. Quando entraram — todos os quatro — olharam debaixo da cama?

— De imediato — tirámo-la do seu lugar...

— E entre os colchões?

— Só havia um na cama, e sobre esse foi colocada a Mademoiselle; e Monsieur Stangerson e o porteiro levaram-no imediatamente para o laboratório. Debaixo do colchão não havia nada a não ser a rede metálica, que não poderia esconder nada nem ninguém. Lembre-se, monsieur, que éramos quatro e não podíamos deixar de ver tudo — a câmara é tão pequena e pouco mobilada, e tudo estava fechado atrás no pavilhão.

Arrisquei uma hipótese:

— Talvez ele tenha fugido com o colchão — no colchão! — Tudo é possível, face a tal mistério! No seu estado de angústia, Monsieur Stangerson e o porteiro podem não ter reparado que transportavam um peso duplo; especialmente se o porteiro fosse um cúmplice! Lanco esta hipótese pelo que vale, mas explica muitas coisas — e particularmente o facto de nem o laboratório nem o vestíbulo apresentarem vestígios das pegadas encontradas na sala. Se, ao transportarem a Mademoiselle no colchão do laboratório do castelo, descansaram por um momento, poderia ter havido uma oportunidade para o homem que estava dentro escapar.

— E depois? — perguntou Rouletabille, rindo-se deliberadamente debaixo da cama.

Senti-me bastante vexado e respondi:

— Não sei — mas tudo parece possível...

— O juiz de instrução teve a mesma ideia, monsieur — disse o Pai Jacques —, e examinou cuidadosamente o colchão. Ele foi obrigado a rir da ideia, monsieur, como o seu amigo está a fazer agora — pois quem já ouviu falar de um colchão com fundo duplo?

Eu próprio fui obrigado a rir, ao ver que o que eu tinha dito era absurdo; mas num caso como este dificilmente se sabe onde começa ou acaba um absurdo.

Só o meu amigo parecia capaz de falar de forma inteligente. Ele chamou debaixo da cama.

— A esteira aqui foi tirada do lugar — quem foi?

— Fomos nós, monsieur — explicou o Pai Jacques. — Quando não conseguimos encontrar o assassino, perguntámo-nos se não havia algum buraco no chão...

— Não há — respondeu Rouletabille. — Há uma cave?

— Não, não há cave. Mas isso não impediu a nossa busca, e não impediu o juiz de instrução e o seu secretário de estudarem o chão tábua por tábua, como se houvesse uma cave por baixo.

O repórter reapareceu então. Os seus olhos brilhavam e as suas narinas tremiam. Ele permaneceu de gatas. Não poderia ser melhor comparado do que a um admirável cão de caça no rasto de alguma presa invulgar. E, de facto, ele estava a farejar os passos de um homem — o homem que ele jurou denunciar ao seu mestre, o gerente do "Epoque". Não se deve esquecer que Rouletabille era antes de tudo um jornalista.

Assim, de gatas, ele fez o seu caminho para os quatro cantos da sala, por assim dizer, farejando e dando a volta a tudo — a tudo o que podíamos ver, que não era muito, e tudo o que não podíamos ver, que devia ser infinito.

A mesa de toucador era uma mesa simples sobre quatro pernas; não havia nada nela pelo que pudesse possivelmente ser transformada num esconderijo temporário. Não havia um armário ou guarda-fatos. A Mademoiselle Stangerson guardava o seu guarda-roupa no castelo.

Rouletabille passou literalmente o nariz e as mãos ao longo das paredes, construídas de alvenaria sólida. Quando terminou com as paredes, e passou os seus dedos ágeis sobre cada parte do papel amarelo que as cobria, chegou ao teto, que ele conseguiu tocar montando numa cadeira colocada sobre a mesa de toucador, e movendo este palco engenhosamente construído de lugar para lugar, examinou cada centímetro dele. Quando terminou o seu escrutínio do teto, onde examinou cuidadosamente o buraco feito pela segunda bala, aproximou-se da janela e, mais uma vez, examinou as barras de ferro e as persianas, todas as quais estavam sólidas e intactas. Finalmente, soltou um grunhido de satisfação e declarou: "Agora estou à vontade!"

— Bem — acredita que a pobre e querida jovem estava fechada quando estava a ser assassinada — quando pediu ajuda? — lamentou-se o Pai Jacques.

— Sim — disse o jovem repórter, secando a testa —, o Quarto Amarelo estava tão bem fechado como um cofre-forte.

— Isso — disse eu —, é por isso que este mistério é o mais surpreendente que conheço. Edgar Allan Poe, no "Duplo Assassinato na Rua Morgue", não inventou nada parecido. O local daquele crime estava suficientemente fechado para impedir a fuga de um homem; mas havia aquela janela através da qual o macaco, o autor do assassinato, podia escapar! Mas aqui, não pode haver questão de uma abertura de qualquer tipo. A porta estava fechada, e através das persianas das janelas, seguras como estavam, nem sequer uma mosca poderia entrar ou sair.

— Verdade, verdade — assentiu Rouletabille enquanto continuava a secar a testa, que parecia estar a transpirar menos pelo seu recente esforço físico do que pela sua agitação mental. — De facto, é um grande, um belo e um muito curioso mistério.

— A Bête du bon Dieu — murmurou o Pai Jacques —, a própria Bête du bon Dieu, se tivesse cometido o crime, não poderia ter escapado. Ouça! Ouve-a? Silêncio!

O Pai Jacques fez-nos um sinal para ficarmos em silêncio e, estendendo o braço em direção à parede mais próxima da floresta, escutou algo que não podíamos ouvir.

— Está a responder — disse ele a certa altura. — Tenho de a matar. É demasiado má, mas é a Bête du bon Dieu, e, todas as noites, ela vai rezar no túmulo de Sainte-Geneviève e ninguém se atreve a tocar nela, por medo que a Mãe Angenoux lance um feitiço sobre eles.

— Qual é o tamanho da Bête du bon Dieu?

— Quase tão grande como um retriever pequeno — um monstro, digo-lhe eu. Ah! — perguntei a mim mesmo mais do que uma vez se não teria sido ela a agarrar a nossa pobre Mademoiselle pela garganta com as suas garras. Mas a Bête du bon Dieu não usa botas com pregos, nem dispara revólveres, nem tem uma mão como aquela! — exclamou o velho Jacques, apontando-nos novamente a marca vermelha na parede. — Além disso, tê-la-íamos visto, tal como teríamos visto um homem...

— Evidentemente — disse eu. — Antes de termos visto este Quarto Amarelo, também me perguntei se o gato da Mãe Angenoux...

— Você também! — gritou Rouletabille.

— Não perguntou? — questionei.

— Nem por um momento. Depois de ler o artigo no ‘Matin’, soube que um gato não tinha nada a ver com o assunto. Mas juro agora que uma tragédia terrível foi aqui encenada. Não diz nada sobre a boina basca, ou o lenço, encontrados aqui, velho Jacques?

— Naturalmente, o magistrado levou-os — respondeu o velho, hesitante.

— Não vi nem o lenço nem a boina, contudo posso dizer-lhe como são feitos — disse-lhe o repórter com gravidade.

— Oh, é muito inteligente — disse o velho Jacques, tossindo e embaraçado.

— O lenço é grande, azul com riscas vermelhas, e a boina é uma boina basca antiga, tal como a que está a usar agora.

— É um feiticeiro! — disse o velho Jacques, tentando rir e não conseguindo bem. — Como sabe que o lenço é azul com riscas vermelhas?

— Porque, se não fosse azul com riscas vermelhas, não teria sido encontrado de todo.

Sem prestar mais atenção ao velho Jacques, o meu amigo tirou um pedaço de papel do bolso e, retirando uma tesoura, debruçou-se sobre as pegadas. Colocando o papel sobre uma delas, começou a cortar. Em pouco tempo, tinha feito um molde perfeito que me entregou, pedindo-me que não o perdesse.

Voltou então para a janela e, apontando para a figura de Frédéric Larsan, que não tinha abandonado o lado do lago, perguntou ao velho Jacques se o detetive tinha, tal como ele, estado a trabalhar no Quarto Amarelo?

— Não — respondeu Robert Darzac que, desde que Rouletabille lhe entregara o pedaço de papel queimado, não tinha proferido uma palavra. — Ele finge que não precisa de examinar o Quarto Amarelo. Diz que o assassino escapou de lá de uma forma bastante natural e que explicará, esta noite, como o fez.

Ao ouvir o que Monsieur Darzac tinha a dizer, Rouletabille empalideceu.

— Terá Frédéric Larsan descoberto a verdade que eu apenas posso adivinhar? — murmurou ele. — Ele é muito inteligente — muito inteligente — e admiro-o. Mas o que temos de fazer hoje é algo mais do que o trabalho de um polícia — algo bem diferente dos ensinamentos da experiência. Temos de agarrar a nossa razão pela ponta certa.

O repórter correu para o ar livre, agitado pelo pensamento de que o grande e famoso Fred pudesse antecipar-se a ele na resolução do problema do Quarto Amarelo.

Consegui alcançá-lo no limiar do pavilhão.

— Acalme-se, meu caro — disse eu. — Não está satisfeito?

— Sim — confessou-me ele, com um suspiro profundo. — Estou bastante satisfeito. Descobri muitas coisas.

— Morais ou materiais?

— Várias morais — uma material. Esta, por exemplo.

E rapidamente retirou do bolso do colete um pedaço de papel no qual tinha colocado um fio de cabelo claro de uma cabeça de mulher.

Capítulo VIII

O Magistrado Instrutor Interroga Mademoiselle Stangerson

Dois minutos depois, enquanto Rouletabille se debruçava sobre as pegadas descobertas no parque, sob a janela do vestíbulo, um homem, evidentemente um criado do château, veio rapidamente na nossa direção e chamou Monsieur Darzac, que saía então do pavilhão:

— Monsieur Robert, o magistrado, sabe, está a interrogar a Mademoiselle.

Monsieur Darzac murmurou-nos uma desculpa e partiu a correr em direção ao château, com o homem a segui-lo.

— Se o cadáver puder falar — disse eu — seria interessante estar lá.

— Temos de saber — disse o meu amigo. — Vamos ao château. — E arrastou-me consigo. Mas, no château, um gendarme colocado no vestíbulo negou-nos a entrada na escadaria do primeiro andar. Fomos obrigados a esperar lá em baixo.

Isto foi o que se passou no quarto da vítima enquanto esperávamos cá em baixo.

O médico da família, constatando que Mademoiselle Stangerson estava muito melhor, mas receando uma recaída que já não permitiria que fosse interrogada, achou ser seu dever informar disso o magistrado instrutor, que decidiu proceder imediatamente a um breve exame. Neste exame, estiveram presentes o Escrivão, Monsieur Stangerson e o médico. Mais tarde, obtive o texto do relatório do exame e dou-o aqui, com toda a sua secura jurídica:

— Pergunta. Está apta, mademoiselle, sem se fatigar demasiado, a dar alguns detalhes necessários sobre o terrível ataque de que foi vítima?

— Resposta. Sinto-me muito melhor, monsieur, e direi tudo o que sei. Quando entrei no meu quarto, não notei lá nada de invulgar.

— P. Desculpe-me, mademoiselle — se me permitir, far-lhe-ei algumas perguntas e a senhora responder-lhes-á. Isso fatigá-la-á menos do que fazer um longo relato.

— R. Faça-o, monsieur.

— P. O que fez nesse dia? — Quero que seja o mais minuciosa e precisa possível. Desejo saber tudo o que fez nesse dia, se não for pedir demasiado.

— R. Levantei-me tarde, às dez horas, pois o meu pai e eu tínhamos regressado a casa tarde na noite anterior, tendo estado num jantar na receção dada pelo Presidente da República, em honra da Academia de Ciências de Filadélfia. Quando saí do meu quarto, às dez e meia, o meu pai já estava a trabalhar no laboratório. Trabalhámos juntos até ao meio-dia. Depois, demos um passeio de meia hora no parque, como costumávamos fazer, antes de almoçar no château. Após o almoço, demos outro passeio de meia hora e, depois, regressámos ao laboratório. Lá encontrámos a minha criada de quarto, que tinha vindo arrumar o meu quarto. Entrei no Quarto Amarelo para lhe dar algumas ordens breves e ela, logo de seguida, deixou o pavilhão, e eu retomei o meu trabalho com o meu pai. Às cinco horas, voltámos a passear no parque e, depois, tomámos chá.

— P. Antes de deixar o pavilhão às cinco horas, foi ao seu quarto?

— R. Não, monsieur, o meu pai entrou lá, a meu pedido, para me trazer o chapéu.

— P. E não encontrou nada de suspeito lá?

— R. Evidentemente que não, monsieur.

— P. É, então, quase certo que o assassino ainda não estava escondido debaixo da cama. Quando saiu, a porta do quarto estava trancada?

— R. Não, não havia razão para a trancar.

— P. Esteve ausente do pavilhão durante algum tempo, Monsieur Stangerson e a senhora?

— R. Cerca de uma hora.

— P. Foi durante essa hora, sem dúvida, que o assassino entrou no pavilhão. Mas como? Ninguém sabe. Encontraram-se pegadas no parque, afastando-se da janela do vestíbulo, mas nenhuma foi encontrada em direção a ela. Reparou se a janela do vestíbulo estava aberta quando saiu?

— R. Não me recordo.

— Monsieur Stangerson. Estava fechada.

— P. E quando regressou?

— Mademoiselle Stangerson. Não reparei.

— M. Stangerson. Estava ainda fechada. Lembro-me de comentar em voz alta: ‘O velho Jacques deve ter aberto isto enquanto estivemos fora.’

— P. Estranho! — Recorda-se, Monsieur Stangerson, se durante a sua ausência, e antes de sair, ele a tinha aberto? Regressaram ao laboratório às seis horas e retomaram o trabalho?

— Mademoiselle Stangerson. Sim, monsieur.

— P. E não saíram do laboratório desde essa hora até ao momento em que entrou no seu quarto?

— M. Stangerson. Nem a minha filha nem eu, monsieur. Estávamos ocupados com um trabalho urgente e não perdemos um momento — negligenciando tudo o resto por causa disso.

— P. Jantaram no laboratório?

— R. Por essa razão.

— P. Costumam jantar no laboratório?

— R. Raramente jantamos lá.

— P. Poderia o assassino saber que jantariam lá nessa noite?

— M. Stangerson. Santo Deus! — Penso que não. Foi apenas quando regressámos ao pavilhão às seis horas que decidimos, a minha filha e eu, jantar lá. Nesse momento, fui abordado pelo meu guarda-caça, que me deteve um momento para me pedir que o acompanhasse numa inspeção urgente a uma parte dos bosques que eu tinha decidido desbastar. Adiei isso para o dia seguinte e pedi-lhe, como ia passar pelo château, que dissesse ao administrador que jantaríamos no laboratório. Deixou-me para executar o recado e eu juntei-me à minha filha, que já estava a trabalhar.

— P. A que horas, mademoiselle, foi para o seu quarto enquanto o seu pai continuava a trabalhar lá?

— R. À meia-noite.

— P. O velho Jacques entrou no Quarto Amarelo no decorrer da noite?

— R. Para fechar as persianas e acender a luz de presença.

— P. Ele não viu nada de suspeito?

— R. Ele ter-nos-ia dito se tivesse visto. O velho Jacques é um homem honesto e muito afeiçoado a mim.

— P. Afirma, Monsieur Stangerson, que o velho Jacques permaneceu consigo todo o tempo que estiveram no laboratório?

— M. Stangerson. Tenho a certeza disso. Não tenho dúvidas quanto a isso.

— P. Quando entrou no seu quarto, mademoiselle, fechou imediatamente a porta, trancou-a e pôs o ferrolho? Isso foi tomar precauções invulgares, sabendo que o seu pai e o seu criado estavam lá? Tinha medo de alguma coisa, então?

— R. O meu pai regressaria ao château e o velho Jacques iria para a cama. E, de facto, temia alguma coisa.

— P. Tinha tanto medo de alguma coisa que pediu emprestado o revólver do velho Jacques sem lhe dizer que o tinha feito?

— R. É verdade. Não queria alarmar ninguém — tanto mais que os meus receios poderiam revelar-se tolos.

— P. O que é que temia?

— R. Dificilmente sei como lhe dizer. Durante várias noites, parecia-me ouvir, tanto no parque como fora dele, à volta do pavilhão, sons invulgares, por vezes passos, outras vezes o estalar de ramos. Na noite anterior ao ataque contra mim, quando não fui para a cama antes das três horas da manhã, no nosso regresso do Élysée, fiquei um momento diante da minha janela e tive a certeza de ver sombras.

— P. Quantas?

— R. Duas. Movem-se à volta do lago — depois a lua ficou nublada e perdi-as de vista. Nesta altura da estação, todos os anos, tenho regressado geralmente ao meu apartamento no château para o inverno; mas este ano disse a mim mesma que não deixaria o pavilhão antes que o meu pai terminasse o resumo dos seus trabalhos sobre a ‘Dissociação da Matéria’ para a Academia. Não queria que esse trabalho importante, que devia ter sido terminado no decorrer de alguns dias, fosse atrasado por uma mudança no nosso hábito diário. Pode bem compreender que não queria falar dos meus receios infantis ao meu pai, nem disse nada ao velho Jacques que, sabia, não teria sido capaz de segurar a língua. Sabendo que ele tinha um revólver no seu quarto, aproveitei a sua ausência e tomei-o emprestado, colocando-o na gaveta da minha mesa de cabeceira.

— P. Não conhece inimigos que tenha?

— R. Nenhum.

— P. Compreende, mademoiselle, que estas precauções são calculadas para causar surpresa?

— M. Stangerson. Evidentemente, minha filha, tais precauções são muito surpreendentes.

— R. Não; — porque lhe disse que estava inquieta há duas noites.

— M. Stangerson. Devias ter-me dito isso! Este infortúnio teria sido evitado.

— P. A porta do Quarto Amarelo trancada, foi para a cama?

— R. Sim, e, estando muito cansada, adormeci imediatamente.

— P. A luz de presença ainda estava acesa?

— R. Sim, mas dava uma luz muito fraca.

— P. Então, mademoiselle, diga-nos o que aconteceu.

— R. Não sei se estava a dormir há muito tempo, mas subitamente acordei — e soltei um grito alto.

— M. Stangerson. Sim — um grito horrível — ‘Assassino!’ — Ainda me soa nos ouvidos.

— P. Soltou um grito alto?

— R. Um homem estava no meu quarto. Lançou-se sobre mim e tentou estrangular-me. Estava quase sufocada quando, subitamente, consegui alcançar a gaveta da minha mesa de cabeceira e agarrar o revólver que lá tinha colocado. Nesse momento, o homem tinha-me forçado até ao pé da cama e brandia sobre a minha cabeça uma espécie de maça. Mas eu tinha disparado. Ele desferiu imediatamente um golpe terrível na minha cabeça. Tudo isso, monsieur, passou-se mais rapidamente do que posso contar, e não sei mais nada.

— P. Nada? — Não tem qualquer ideia sobre como o assassino pôde escapar do seu quarto?

— R. Nenhuma — não sei mais nada. Não se sabe o que se passa à nossa volta, quando estamos inconscientes.

— P. O homem que viu era alto ou baixo, pequeno ou grande?

— R. Apenas vi uma sombra que me pareceu formidável.

— P. Não nos pode dar qualquer indicação?

— R. Não sei mais nada, monsieur, do que o facto de que um homem se lançou sobre mim e que eu disparei contra ele. Não sei mais nada.

Aqui terminou o interrogatório de Mademoiselle Stangerson.

Rouletabille esperou pacientemente por Monsieur Robert Darzac, que apareceu pouco depois.

De um quarto próximo do quarto de Mademoiselle Stangerson, ele tinha ouvido o interrogatório e veio agora contá-lo ao meu amigo com grande exatidão, auxiliado por uma memória excelente. A sua docilidade ainda me surpreendia. Graças a notas rápidas a lápis, foi capaz de reproduzir, quase textualmente, as perguntas e as respostas dadas.

Parecia que Monsieur Darzac estava a ser empregado como secretário do meu jovem amigo e agia como se não lhe pudesse recusar nada; mais, como se estivesse sob a obrigação de o fazer.

O facto da janela fechada impressionou o repórter como tinha impressionado o magistrado. Rouletabille pediu a Darzac que repetisse mais uma vez o relato de Mademoiselle Stangerson sobre como ela e o seu pai tinham passado o tempo no dia da tragédia, tal como ela tinha declarado ao magistrado. A circunstância do jantar no laboratório parecia interessá-lo ao mais alto grau; e fê-lo repetir três vezes. Queria também ter a certeza de que o guarda-florestal sabia que o professor e a sua filha iam jantar no laboratório, e como tinha chegado a sabê-lo.

Quando Monsieur Darzac terminou, disse: — O exame não fez avançar muito o problema.

— Fê-lo retroceder — disse Monsieur Darzac.

— Lançou luz sobre ele — disse Rouletabille, pensativo.

Capítulo IX

Repórter e Detetive

Nós os três regressámos em direção ao pavilhão. A alguma distância do edifício, o repórter fez-nos parar e, apontando para um pequeno grupo de árvores à nossa direita, disse:

— Foi dali que o assassino veio para entrar no pavilhão.

Como havia outras manchas de árvores do mesmo tipo entre os grandes carvalhos, perguntei por que razão o assassino tinha escolhido aquela, em vez de qualquer uma das outras. Rouletabille respondeu-me apontando para o caminho que passava muito perto do matagal até à porta do pavilhão.

— Esse caminho está, como vê, coberto de gravilha — disse ele; — o homem deve ter passado por ele em direção ao pavilhão, uma vez que não foram encontrados vestígios dos seus passos no terreno macio. O homem não tinha asas; caminhou; mas caminhou sobre a gravilha, que não deixou qualquer impressão da sua pisada. A gravilha foi, de facto, calcada por muitos outros pés, uma vez que o caminho é a via mais direta entre o pavilhão e o château. Quanto ao matagal, feito do tipo de arbustos que não florescem na estação rigorosa — loureiros e fúcsias — ofereceu ao assassino um esconderijo suficiente até chegar a altura de se dirigir ao pavilhão. Foi enquanto se escondia nesse grupo de árvores que ele viu Monsieur e Mademoiselle Stangerson, e depois o velho Jacques, deixarem o pavilhão. A gravilha foi espalhada quase, muito quase, até às janelas do pavilhão. As pegadas de um homem, paralelas à parede — marcas que examinaremos mais tarde, e que já vi — provam que ele só precisou de dar um passo para se encontrar em frente da janela do vestíbulo, deixada aberta pelo velho Jacques. O homem puxou-se com as mãos e entrou no vestíbulo.

— Afinal, é muito possível — disse eu.

— Afinal o quê? Afinal o quê? — gritou Rouletabille.

Pedi-lhe que não se zangasse; mas ele estava demasiado irritado para me ouvir e declarou, ironicamente, que admirava a dúvida prudente com que certas pessoas abordavam os problemas mais simples, não arriscando nada ao dizer “isto é assim”, ou “isto não é assim”. A sua inteligência teria produzido mais ou menos o mesmo resultado se a natureza se tivesse esquecido de dotar a sua caixa craniana com um pouco de massa cinzenta. Como parecia vexado, o meu jovem amigo pegou-me pelo braço e admitiu que não tinha dito aquilo para mim; pensava melhor de mim do que isso.

— Se eu não raciocinasse como raciocino em relação a esta gravilha — continuou ele — teria de assumir um balão! — Meu caro, a ciência da aerostação de balões dirigíveis ainda não está desenvolvida o suficiente para eu a considerar e supor que um assassino cairia das nuvens! Por isso, não diga que uma coisa é possível, quando não poderia ser de outra forma. Sabemos agora como o homem entrou pela janela, e sabemos também o momento em que entrou — durante o passeio das cinco horas do professor e da sua filha. O facto da presença da criada de quarto — que tinha vindo limpar o Quarto Amarelo — no laboratório, quando Monsieur Stangerson e a sua filha regressaram do passeio, à uma e meia, permite-nos afirmar que, à uma e meia, o assassino não estava no quarto debaixo da cama, a menos que estivesse em conluio com a criada. O que diz, Monsieur Darzac?

Monsieur Darzac abanou a cabeça e disse estar seguro da fidelidade da criada, e que ela era uma serva completamente honesta e dedicada.

— Além disso — acrescentou ele — às cinco horas Monsieur Stangerson entrou no quarto para ir buscar o chapéu da sua filha.

— Há isso também — disse Rouletabille.

— Que o homem entrou pela janela no momento que diz, admito — disse eu; — mas por que razão fechou a janela? Foi um ato que atrairia necessariamente a atenção daqueles que a tinham deixado aberta.

— Pode ser que a janela não tenha sido fechada imediatamente — respondeu o jovem repórter. — *Mas se ele fechou a janela, foi por causa da curva no caminho de gravilha, a uma dúzia de metros do pavilhão, e por causa dos três carvalhos que crescem naquele local.*

— O que quer dizer com isso? — perguntou Monsieur Darzac, que nos tinha seguido e escutado com uma atenção quase ofegante tudo o que Rouletabille tinha dito.

— Explicar-lhe-ei tudo mais tarde, Monsieur, quando achar que o momento é o adequado para o fazer; mas não creio ter algo de maior importância a dizer sobre este caso, se a minha hipótese for justificada.

— E qual é a sua hipótese?

— Nunca saberá se não se revelar a verdade. É de uma natureza demasiado grave para falar dela, enquanto continuar a ser apenas uma hipótese.

— Tem, pelo menos, alguma ideia sobre quem é o assassino?

— Não, monsieur, não sei quem é o assassino; mas não tenha medo, Monsieur Robert Darzac — eu saberei.

Não pude deixar de observar que Monsieur Darzac estava profundamente comovido; e suspeitei que a afirmação confiante de Rouletabille não lhe estava a agradar. Por que, perguntei a mim mesmo, se ele tinha realmente medo que o assassino fosse descoberto, estava ele a ajudar o repórter a encontrá-lo? O meu jovem amigo parecia ter recebido a mesma impressão, pois disse, bruscamente:

— Monsieur Darzac, não quer que eu descubra quem foi o assassino?

— Oh! — eu gostaria de matá-lo com as minhas próprias mãos! — exclamou o noivo de Mademoiselle Stangerson, com uma veemência que me espantou.

— Acredito-lhe — disse Rouletabille gravemente; — mas não respondeu à minha pergunta.

Passávamos pela moita de que o jovem repórter nos falara um minuto antes. Entrei nela e apontei vestígios evidentes de um homem que estivera escondido ali. Rouletabille, mais uma vez, tinha razão.

— Sim, sim! — disse ele. — Temos de lidar com um ser de carne e osso, que usa os mesmos meios que nós. Tudo virá à luz por esse caminho.

Dito isto, pediu-me o molde em papel da pegada que me tinha dado para guardar, e aplicou-o a uma marca de pé muito clara atrás da moita. — Aha! — disse ele, levantando-se.

Pensei que ele fosse agora seguir o rasto das pegadas do assassino até à janela do vestíbulo; mas, em vez disso, conduziu-nos para muito longe, para a esquerda, dizendo que era inútil remexer na lama e que tinha a certeza, agora, do caminho tomado pelo assassino.

— Ele seguiu ao longo do muro até à sebe e ao fosso seco, que saltou. Veja, mesmo em frente ao pequeno caminho que leva ao lago, esse era o seu caminho mais curto para sair.

— Como sabe que ele foi para o lago?

— Porque Frédéric Larsan não abandonou as margens dele desde esta manhã. Deve haver lá marcas importantes.

Poucos minutos depois, chegámos ao lago.

Era uma pequena extensão de água pantanosa, rodeada de juncos, sobre a qual flutuavam algumas folhas mortas de nenúfar. O grande Fred pode ter-nos visto aproximar, mas provavelmente interessá-mo-lhe muito pouco, pois quase não deu por nós e continuou a mexer com a sua bengala em algo que não podíamos ver.

— Olhe! — disse Rouletabille, — aqui estão de novo as pegadas do homem que fugia; contornam o lago aqui e finalmente desaparecem pouco antes deste caminho, que leva à estrada principal para Epinay. O homem continuou a sua fuga para Paris.

— O que o faz pensar nisso? — perguntei, — uma vez que estas pegadas não continuam no caminho?

— O que me faz pensar nisso? — Ora, estas pegadas, que eu esperava encontrar! — exclamou ele, apontando para a marca nitidamente delineada de uma bota elegante. — Veja! — e chamou Frédéric Larsan.

— Monsieur Fred, estas pegadas elegantes parecem ter sido feitas desde a descoberta do crime.

— Sim, jovem, sim, foram cuidadosamente feitas — respondeu Fred sem levantar a cabeça. — Veja, há passos que vêm e passos que voltam.

— E o homem tinha uma bicicleta! — exclamou o repórter.

Aqui, depois de observar as marcas da bicicleta, que seguiam, indo e vindo, as pegadas elegantes, achei que podia intervir.

— A bicicleta explica o desaparecimento das pegadas grandes do assassino — disse eu. — O assassino, com as suas botas grosseiras, montou numa bicicleta. O seu cúmplice, o que usava as botas elegantes, tinha vindo esperá-lo na margem do lago com a bicicleta. Pode supor-se que o assassino trabalhava para o outro.

— Não, não! — respondeu Rouletabille com um sorriso estranho. — Eu esperava encontrar estas pegadas desde o início. Estas não são as pegadas do assassino!

— Então eram dois?

— Não — não havia senão um, e não tinha cúmplice.

— Muito bem! — Muito bem! — exclamou Frédéric Larsan.

— Veja! — continuou o jovem repórter, mostrando-nos o solo onde fora perturbado por saltos grandes e pesados; — o homem sentou-se ali e tirou as suas botas com pregos, que tinha usado apenas com o propósito de enganar a deteção, e então, sem dúvida, levando-as consigo, levantou-se nas suas próprias botas e, calma e lentamente, retomou a estrada principal, segurando a sua bicicleta pela mão, pois não se podia aventurar a montá-la neste caminho irregular. Isso explica a leveza da impressão deixada pelas rodas ao longo dele, apesar da suavidade do solo. Se houvesse um homem na bicicleta, as rodas ter-se-iam enterrado profundamente no solo. Não, não; não havia ali senão um homem, o assassino a pé.

— Bravo! — bravo! — exclamou Fred novamente e, vindo subitamente na nossa direção e plantando-se em frente a Monsieur Robert Darzac, disse-lhe: —

— Se tivéssemos uma bicicleta aqui, poderíamos demonstrar a correção do raciocínio do jovem, Monsieur Robert Darzac. Sabe se há alguma no castelo?

— Não! — respondeu Monsieur Darzac. — Não há. Levei a minha, há quatro dias, para Paris, a última vez que vim ao castelo antes do crime.

— É uma pena! — respondeu Fred, muito friamente. Depois, voltando-se para Rouletabille, disse: — Se continuarmos a este ritmo, ambos chegaremos à mesma conclusão. Tem alguma ideia de como o assassino saiu do Quarto Amarelo?

— Sim — disse o meu jovem amigo; — tenho uma ideia.

— Eu também — disse Fred, — e deve ser a mesma que a sua. Não há duas maneiras de raciocinar neste caso. Estou à espera da chegada do meu chefe antes de oferecer qualquer explicação ao juiz de instrução.

— Ah! O Chefe da Sûreté vem?

— Sim, esta tarde. Ele vai convocar, perante o magistrado, no laboratório, todos aqueles que desempenharam qualquer papel nesta tragédia. Será muito interessante. É uma pena que não possa estar presente.

— Estarei presente — disse Rouletabille com confiança.

— A sério — é um tipo extraordinário — para a sua idade! — respondeu o detetive num tom não totalmente isento de ironia. — Seria um detetive maravilhoso — se tivesse um pouco mais de método — se não seguisse os seus instintos e essa saliência na sua testa. Como já observei várias vezes, Monsieur Rouletabille, raciocina demasiado; não se deixa guiar pelo que viu. O que diz do lenço cheio de sangue e da marca vermelha da mão na parede? Viu a mancha na parede, mas eu só vi o lenço.

— Bah! — exclamou Rouletabille, — o assassino foi ferido na mão pelo revólver de Mademoiselle Stangerson!

— Ah! — uma observação puramente instintiva! Cuidado! — Está a tornar-se demasiado estritamente lógico, Monsieur Rouletabille; a lógica vai derrubá-lo se a usar indiscriminadamente. Tem razão quando diz que Mademoiselle Stangerson disparou o seu revólver, mas está enganado quando diz que ela feriu o assassino na mão.

— Tenho a certeza — exclamou Rouletabille.

Fred, imperturbável, interrompeu-o: —

— Observação defeituosa — observação defeituosa! — o exame do lenço, as inúmeras pequenas manchas escarlates redondas, a impressão de gotas que encontrei nos vestígios das pegadas, no momento em que foram feitas no chão, provam-me que o assassino não foi ferido de todo. Monsieur Rouletabille, o assassino sangrou do nariz!

O grande Fred falou muito a sério. Contudo, não pude evitar soltar uma exclamação.

O repórter olhou gravemente para Fred, que olhava gravemente para ele. E Fred concluiu imediatamente: —

— O homem deixou o sangue escorrer para a mão e para o lenço, e secou a mão na parede. O facto é altamente importante — acrescentou ele, — porque não há necessidade de ele estar ferido na mão para ser o assassino.

Rouletabille parecia estar a pensar profundamente. Após um momento, disse: —

— Há algo — algo, Monsieur Frédéric Larsan, muito mais grave do que o uso indevido da lógica — a disposição de espírito em alguns detetives que os faz, de perfeita boa-fé, distorcer a lógica para as necessidades das suas ideias preconcebidas. O senhor já tem a sua ideia sobre o assassino, Monsieur Fred. Não o negue; e a sua teoria exige que o assassino não tenha sido ferido na mão, caso contrário, não serve para nada. E procurou, e encontrou outra coisa. É perigoso, muito perigoso, Monsieur Fred, partir de uma ideia preconcebida para encontrar as provas que a justifiquem. Esse método pode levá-lo muito longe do caminho certo. Cuidado com o erro judiciário, Monsieur Fred, ele vai fazê-lo tropeçar!

E rindo um pouco, num tom ligeiramente trocista, com as mãos nos bolsos, Rouletabille fixou os seus olhos astutos no grande Fred.

Frédéric Larsan contemplou silenciosamente o jovem repórter que fingia ser tão sábio quanto ele. Encolhendo os ombros, inclinou-se para nós e afastou-se rapidamente, batendo nas pedras do seu caminho com a sua bengala robusta.

Rouletabille observou a sua retirada e depois virou-se para nós, com o rosto alegre e triunfante.

— Vou vencê-lo! — exclamou ele. — Vou vencer o grande Fred, por mais inteligente que seja; vou vencê-los a todos!

E dançou um sapateado. Subitamente parou. Os meus olhos seguiram o seu olhar; estavam fixos em Monsieur Robert Darzac, que olhava ansiosamente para a impressão deixada pelos seus pés lado a lado com as pegadas elegantes. Não havia uma partícula de diferença entre elas!

Pensámos que ele ia desmaiar. Os seus olhos, saltados de terror, evitavam-nos, enquanto a sua mão direita, com um movimento espasmódico, puxava a barba que cobria o seu rosto honesto, gentil e agora desesperado. Finalmente, recuperando a compostura, inclinou-se para nós e, observando, com uma voz alterada, que era obrigado a regressar ao castelo, deixou-nos.

— Diabo! — exclamou Rouletabille.

Ele, também, parecia estar profundamente preocupado. Da sua carteira tirou um pedaço de papel branco, como eu o vira fazer antes, e, com a sua tesoura, recortou o formato das marcas das botas elegantes que estavam no solo. Depois, ajustou o novo molde de papel com o que tinha feito anteriormente — os dois eram exatamente iguais. Levantando-se, Rouletabille exclamou novamente: — Diabo! — Pouco depois, acrescentou: — Ainda assim, acredito que Monsieur Robert Darzac seja um homem honesto. Conduziu-me então pela estrada para a Estalagem Donjon, que podíamos ver na estrada principal, ao lado de um pequeno grupo de árvores.

Capítulo X

"Teremos de comer carne vermelha — agora"

A Estalagem Donjon não tinha uma aparência imponente; mas gosto destes edifícios com as suas vigas enegrecidas pela idade e pelo fumo das suas lareiras — estas estalagens dos tempos das carruagens, construções a desmoronar-se que em breve existirão apenas na memória. Pertencem aos tempos idos, estão ligadas à história. Fazem-nos pensar na Estrada, naqueles dias em que os salteadores de estrada cavalgavam.

Vi logo que a Estalagem Donjon tinha pelo menos dois séculos — talvez mais. Sob o seu letreiro, sobre o limiar, um homem com um rosto de aspeto ranzinza estava de pé, aparentemente mergulhado em pensamentos desagradáveis, se as rugas na sua testa e o franzir das suas sobrancelhas fossem alguma indicação.

Quando estávamos perto dele, dignou-se a ver-nos e perguntou-nos, num tom nada cativante, se queríamos alguma coisa. Era, sem dúvida, o estalajadeiro não muito amável desta habitação encantadora. Quando expressámos a esperança de que ele tivesse a gentileza de nos fornecer um pequeno-almoço, assegurou-nos que não tinha mantimentos, olhando para nós, ao dizer isto, com um olhar inequivocamente suspeito.

— Pode receber-nos — disse-lhe Rouletabille, — não somos polícias.

— Não tenho medo da polícia — não tenho medo de ninguém! — respondeu o homem.

Eu tinha feito o meu amigo compreender por um sinal que faríamos melhor em não insistir; mas, estando determinado a entrar na estalagem, ele passou pelo homem à porta e entrou na sala comum.

— Venha — disse ele, — é muito confortável aqui.

Um bom fogo ardia na chaminé e aquecemos as mãos com o calor que ele emanava; era uma manhã em que a aproximação do inverno era inconfundível. A sala era toleravelmente grande, mobilada com duas mesas pesadas, alguns bancos, um balcão decorado com filas de garrafas de xarope e álcool. Três janelas davam para a estrada. Um anúncio colorido exaltava os muitos méritos de um novo vermute. Na lareira estava disposta a coleção de potes de barro e jarros de pedra do estalajadeiro.

— Esse é um bom fogo para assar um frango — disse Rouletabille.

— Não temos frango — nem sequer um coelho miserável — disse o estalajadeiro.

— Eu sei — disse o meu amigo lentamente; — eu sei — teremos de comer carne vermelha — agora.

Confesso que não compreendi minimamente o que Rouletabille queria dizer com o que tinha dito; mas o estalajadeiro, assim que ouviu as palavras, proferiu um juramento, que imediatamente sufocou, e colocou-se às nossas ordens tão obedientemente como Monsieur Robert Darzac tinha feito, quando ouviu a frase profética de Rouletabille — "A casa paroquial não perdeu nada do seu encanto, nem o jardim do seu brilho". Certamente o meu amigo sabia como fazer as pessoas compreenderem-no através do uso de frases totalmente incompreensíveis. Observei o mesmo para ele, mas ele apenas sorriu. Eu teria sugerido que ele me desse alguma explicação; mas ele levou um dedo aos lábios, o que evidentemente significava que ele não só tinha decidido não falar, como também impunha silêncio da minha parte.

Entretanto, o homem tinha empurrado uma pequena porta lateral e chamado alguém para lhe trazer meia dúzia de ovos e um bife de vaca. A comissão foi rapidamente executada por uma jovem de constituição forte, com belos cabelos loiros e olhos grandes e bonitos, que nos olhava com curiosidade.

O estalajadeiro disse-lhe rudemente: —

— Sai! — e se o Homem Verde vier, não deixes que eu o veja.

Ela desapareceu. Rouletabille pegou nos ovos, que lhe tinham sido trazidos numa tigela, e na carne que estava num prato, colocou tudo cuidadosamente ao lado dele na chaminé, despendurou uma frigideira e uma grelha, e começou a bater a nossa omeleta antes de proceder a grelhar o nosso bife. Pediu então duas garrafas de sidra e parecia prestar tão pouca atenção ao nosso anfitrião como o nosso anfitrião a ele. O estalajadeiro deixou-nos cozinhar o nosso próprio almoço e pôs a nossa mesa perto de uma das janelas.

Subitamente, ouvi-o murmurar:

— Ah! — lá está ele.

O seu rosto tinha mudado, expressando um ódio feroz. Foi colar-se a uma das janelas, observando a estrada. Não houve necessidade de chamar a atenção de Rouletabille; ele já tinha deixado a nossa omeleta e juntara-se ao estalajadeiro à janela. Fui com ele.

Um homem vestido inteiramente de veludo verde, com a cabeça coberta por um boné de caçador da mesma cor, avançava vagarosamente, acendendo um cachimbo enquanto caminhava. Carregava uma espingarda de caça às costas. Os seus movimentos exibiam uma facilidade quase aristocrática. Usava óculos e parecia ter cerca de quarenta e cinco anos. O seu cabelo, assim como o seu bigode, eram cinzentos. Era notavelmente bonito. Ao passar perto da estalagem, hesitou, como se se perguntasse se deveria ou não entrar; lançou um olhar na nossa direção, deu algumas baforadas no seu cachimbo e retomou a sua caminhada ao mesmo passo indiferente.

Rouletabille e eu olhámos para o nosso anfitrião. Os seus olhos brilhantes, as suas mãos cerradas, os seus lábios trémulos, diziam-nos os sentimentos tumultuosos pelos quais ele estava a ser agitado.

— Ele fez bem em não entrar aqui hoje! — sibilou ele.

— Quem é esse homem? — perguntou Rouletabille, voltando para a sua omeleta.

— O Homem Verde — rosnou o estalajadeiro. — Não o conhece? Então ainda bem para si. Não é um conhecido a fazer. — Bem, ele é o guarda-florestal do Monsieur Stangerson.

— Não parece gostar muito dele? — perguntou o repórter, vertendo a sua omeleta na frigideira.

— Ninguém gosta dele, monsieur. É um arrivista que deve ter tido outrora uma fortuna própria; e não perdoa ninguém porque, para viver, foi forçado a tornar-se um criado. Um guarda é tão criado como qualquer outro, não é? Pela minha palavra, dir-se-ia que ele é o dono do Glandier, e que todas as terras e bosques lhe pertencem. Ele não deixa uma pobre criatura comer um pedaço de pão na erva — a erva dele!

— Ele vem cá muitas vezes?

— Demasiadas vezes. Mas fiz-lhe entender que a sua cara não me agrada e, há um mês, ele não vem cá. A Estalagem Donjon nunca existiu para ele! — ele não tem tido tempo! — tem estado demasiado ocupado a cortejar a dona da estalagem dos Três Lírios em Saint-Michel. Um tipo mau! — Não há um homem honesto que o suporte. Ora, até os porteiros do castelo desviariam os olhos de uma fotografia dele!

— Os porteiros do castelo são pessoas honestas, então?

— Sim, são, tão verdadeiramente como o meu nome é Mathieu, monsieur. Acredito que sejam honestos.

— Contudo, foram presos?

— O que é que isso prova? — Mas não me quero meter nos assuntos dos outros.

— E o que pensa do homicídio?

— Do homicídio da pobre Mademoiselle Stangerson? — Uma boa rapariga, muito amada em toda a região. É o que penso disso — e muitas coisas mais; mas isso não é da conta de ninguém.

— Nem mesmo da minha? — insistiu Rouletabille.

O estalajadeiro olhou-o de lado e disse rudemente:

— Nem mesmo da sua.

A omeleta pronta, sentámo-nos à mesa e comíamos silenciosamente, quando a porta foi empurrada e uma velha, vestida de trapos, apoiada num bastão, com a cabeça a abanar, os seus cabelos brancos pendendo livremente sobre a sua testa enrugada, apareceu no limiar.

— Ah! — lá está a Mãe Angenoux! — Há muito que não a víamos — disse o nosso anfitrião.

— Tenho estado muito doente, quase a morrer — disse a velha. — Se alguma vez tiver algumas sobras para a Bête du Bon Dieu —?

E entrou, seguida por um gato, maior do que qualquer um que eu alguma vez julgara poder existir. A besta olhou para nós e deu um miado tão desesperado que estremeci. Nunca tinha ouvido um grito tão lúgubre.

Como se atraído pelo grito do gato, um homem seguiu a velha para dentro. Era o Homem Verde. Saudou levando a mão ao boné e sentou-se a uma mesa perto da nossa.

— Um copo de sidra, Papá Mathieu — disse ele.

Quando o Homem Verde entrou, o Papá Mathieu tinha dado um salto violento; mas, visivelmente dominando-se, disse: —

— Não tenho mais sidra; servi as últimas garrafas a estes senhores.

— Então dê-me um copo de vinho branco — disse o Homem Verde, sem demonstrar a menor surpresa.

— Não tenho mais vinho branco — não tenho mais nada — disse o Papá Mathieu, carrancudo.

— Como está a Madame Mathieu?

— Muito bem, obrigado.

Portanto, a jovem com os olhos grandes e ternos, que tínhamos acabado de ver, era a mulher deste rústico repugnante e brutal, cujo ciúme parecia enfatizar a sua fealdade física.

Batendo a porta atrás de si, o estalajadeiro deixou a sala. A Mãe Angenoux ainda estava de pé, apoiada no seu bastão, o gato aos seus pés.

— Tem estado doente, Mãe Angenoux? — Foi por isso que não a vimos durante a última semana? — perguntou o Homem Verde.

— Sim, Monsieur guarda. Só consegui levantar-me três vezes, para ir rezar a Sainte-Geneviève, a nossa boa padroeira, e o resto do tempo estive deitada na minha cama. Não havia ninguém para cuidar de mim, senão a Bête du bon Dieu!

— Ela não a deixou?

— Nem de dia nem de noite.

— Tem a certeza disso?

— Como tenho do Paraíso.

— Então como é que foi, Madame Angenoux, que durante toda a noite do homicídio não se ouviu mais do que o grito da Bête du bon Dieu?

A Mãe Angenoux plantou-se em frente ao guarda-florestal e bateu no chão com o seu bastão.

— Não sei nada sobre isso — disse ela. — Mas quer que lhe diga uma coisa? Não há dois gatos no mundo que chorem assim. Bem, na noite do homicídio, eu também ouvi o grito da Bête du bon Dieu lá fora; e, no entanto, ela estava nos meus joelhos e não miou uma única vez, juro. Benzi-me quando ouvi aquilo, como se tivesse ouvido o diabo.

Olhei para o guarda quando ele colocou a última pergunta, e estou muito enganado se não detetei um sorriso maligno nos seus lábios. Naquele momento, o ruído de uma discussão ruidosa chegou até nós. Até pensámos ouvir um som abafado de pancadas, como se alguém estivesse a ser espancado. O Homem Verde levantou-se rapidamente e apressou-se para a porta ao lado da lareira; mas ela foi aberta pelo estalajadeiro que apareceu e disse ao guarda: —

— Não se alarme, Monsieur — é a minha mulher; ela tem dores de dentes. — E riu-se. — Aqui, Mãe Angenoux, aqui tem algumas sobras para o seu gato.

Ele estendeu um embrulho à velha, que o tomou avidamente e saiu pela porta, seguida de perto pelo seu gato.

— Então, não me vai servir? — perguntou o Homem Verde.

O rosto do Pai Mathieu estava plácido e já não conservava a sua expressão de ódio.

— Não tenho nada para si — nada para si. Ponha-se a caminho.

O Homem Verde recarregou calmamente o seu cachimbo, acendeu-o, fez-nos uma vénia e saiu. Mal ele ultrapassou o limiar, o Pai Mathieu bateu a porta atrás dele e, voltando-se para nós, com os olhos injetados de sangue e a espumar pela boca, sibilou-nos, agitando o punho cerrado em direção à porta que acabara de fechar sobre o homem que evidentemente odiava:

— Não sei quem são os senhores que me dizem "Teremos de comer carne vermelha — agora"; mas se lhes interessa saber — aquele homem é o assassino!

Com estas palavras, o Pai Mathieu deixou-nos imediatamente. Rouletabille voltou para junto da lareira e disse:

— Agora vamos grelhar o nosso bife. O que acha da cidra? É um pouco ácida, mas eu gosto.

Não vimos mais o Pai Mathieu naquele dia, e um silêncio absoluto reinava na estalagem quando a deixámos, após colocar cinco francos sobre a mesa em pagamento da nossa refeição.

Rouletabille partiu imediatamente para uma caminhada de cinco quilómetros à volta da propriedade do Professor Stangerson. Parou durante cerca de dez minutos na esquina de um caminho estreito, negro de fuligem, perto de umas cabanas de carvoeiros na floresta de Sainte-Geneviève, que confina com a estrada de Epinay para Corbeil, para me dizer que o assassino tinha certamente passado por ali, antes de entrar nos terrenos e esconder-se no pequeno grupo de árvores.

— Então, não acha que o guarda sabe alguma coisa sobre isto? — perguntei.

— Veremos isso mais tarde — respondeu ele. — Por agora, não me interessa o que o estalajadeiro disse sobre o homem. O estalajadeiro odeia-o. Não o levei a tomar o pequeno-almoço na Estalagem Donjon por causa do Homem Verde.

Depois, Rouletabille deslizou com grande precaução, seguido por mim, em direção ao pequeno edifício que, situado perto do portão do parque, servia de habitação aos porteiros, que tinham sido presos naquela manhã. Com a destreza de um acrobata, entrou na portaria por uma janela superior que tinha sido deixada aberta e regressou dez minutos depois. Disse apenas: "Ah!" — uma palavra que, na sua boca, significava muitas coisas.

Estávamos prestes a seguir pela estrada que conduzia ao castelo, quando uma agitação considerável no portão do parque atraiu a nossa atenção. Uma carruagem tinha chegado e algumas pessoas tinham vindo do castelo para a receber. Rouletabille apontou-me um cavalheiro que dela desceu.

— Esse é o Chefe da Sûreté — disse ele. — Agora veremos o que Frédéric Larsan tem na manga e se ele é assim tão mais esperto do que todos os outros.

A carruagem do Chefe da Sûreté era seguida por outros três veículos contendo repórteres, que também desejavam entrar no parque. Mas dois gendarmes estacionados no portão tinham evidentemente recebido ordens para recusar a entrada a quem quer que fosse. O Chefe da Sûreté acalmou a impaciência deles comprometendo-se a fornecer à imprensa, naquela noite, todas as informações que pudesse dar e que não prejudicassem a investigação judicial.

Capítulo XI

No qual Frédéric Larsan explica como o assassino conseguiu sair do Quarto Amarelo

Entre a massa de papéis, documentos legais, memórias e recortes de jornais que colecionei, relativos ao mistério do "Quarto Amarelo", há uma peça muito interessante; é um detalhe do famoso interrogatório que teve lugar naquela tarde, no laboratório do Professor Stangerson, perante o Chefe da Sûreté. Esta narrativa é da autoria do Monsieur Maleine, o Escrivão, que, tal como o juiz de instrução, passava algum do seu tempo livre na busca da literatura. A peça deveria ter feito parte de um livro que, no entanto, nunca foi publicado e que se deveria intitular: "Os Meus Interrogatórios". Foi-me entregue pelo próprio Escrivão, algum tempo após o espantoso desenlace deste caso, e é única nas crónicas judiciais.

Aqui está ela. Não é uma mera transcrição seca de perguntas e respostas, porque o Escrivão intercala frequentemente a sua história com os seus próprios comentários pessoais.

A Narrativa do Escrivão

O juiz de instrução e eu (relata o escritor) encontrámo-nos no "Quarto Amarelo" na companhia do construtor que tinha edificado o pavilhão segundo os desenhos do Professor Stangerson. Ele tinha um operário consigo. Monsieur de Marquet tinha mandado despir as paredes completamente; isto é, mandara retirar o papel que as decorava. Pancadas com uma picareta, aqui e ali, convenceram-nos da inexistência de qualquer tipo de abertura. O chão e o teto foram minuciosamente sondados. Não encontrámos nada. Não havia nada para encontrar. Monsieur de Marquet parecia estar encantado e não parava de repetir:

— Que caso! Que caso! Nunca saberemos, vai ver, como o assassino conseguiu sair deste quarto!

Então, subitamente, com um rosto radiante, chamou o oficial responsável pelos gendarmes.

— Vá ao castelo — disse ele — e peça ao Monsieur Stangerson e ao Monsieur Robert Darzac que venham ter comigo ao laboratório, também o Pai Jacques; e que os seus homens tragam aqui os dois porteiros.

Cinco minutos depois, estavam todos reunidos no laboratório. O Chefe da Sûreté, que tinha chegado ao Glandier, juntou-se a nós nesse momento. Eu estava sentado à secretária do Monsieur Stangerson pronto para trabalhar, quando Monsieur de Marquet nos dirigiu o seguinte pequeno discurso — tão original quanto inesperado:

— Com a vossa licença, cavalheiros — como os interrogatórios não levam a lado nenhum — vamos, por uma vez, abandonar o antigo sistema de inquérito. Não farei com que sejam trazidos à minha frente um a um, mas ficaremos todos aqui como estamos — Monsieur Stangerson, Monsieur Robert Darzac, o Pai Jacques e os dois porteiros, o Chefe da Sûreté, o Escrivão e eu próprio. Estaremos todos em pé de igualdade. Os porteiros podem, por um momento, esquecer que foram presos. Vamos conferenciar juntos. Estamos no local onde o crime foi cometido. Não temos mais nada a discutir a não ser o crime. Por isso, discutamo-lo livremente — de forma inteligente ou não, desde que digamos exatamente o que nos vai na mente. Não precisa de haver formalidade ou método, uma vez que isso não nos ajudará de forma alguma.

Depois, passando por mim, disse em voz baixa:

— O que acha disto, eh? Que cena! Teria conseguido pensar nisto? Vou fazer um pequeno número com isto para o Vaudeville. — E esfregou as mãos de alegria.

Voltei os meus olhos para o Monsieur Stangerson. A esperança que ele tinha recebido dos últimos relatórios do médico, que tinha afirmado que a Mademoiselle Stangerson poderia recuperar dos seus ferimentos, não tinha conseguido apagar dos seus traços nobres as marcas da grande dor que o oprimia. Ele tinha acreditado que a sua filha estava morta, e ainda estava destroçado por essa crença. Os seus olhos azuis, claros e suaves, expressavam uma tristeza infinita. Tinha tido ocasião, muitas vezes, de ver o Monsieur Stangerson em cerimónias públicas e, desde o início, tinha ficado impressionado com o seu semblante, que parecia tão puro como o de uma criança — o olhar sonhador com a expressão sublime e mística do inventor e pensador.

Nessas ocasiões, a sua filha via-se sempre a segui-lo ou ao seu lado; pois nunca se separavam, dizia-se, e tinham partilhado os mesmos trabalhos durante muitos anos. A jovem, que tinha então trinta e cinco anos, embora não parecesse ter mais de trinta, tinha-se dedicado inteiramente à ciência. Ainda conquistava a admiração pela sua beleza imperial que permanecia intacta, sem uma ruga, resistindo ao tempo e ao amor. Quem teria sonhado que eu estaria um dia sentado junto à sua almofada com os meus papéis, e que a veria, à beira da morte, dolorosamente a relatar-nos o crime mais monstruoso e mais misterioso de que ouvi falar na minha carreira? Quem teria pensado que eu estaria, naquela tarde, a ouvir o pai desesperado a tentar inutilmente explicar como o agressor da sua filha tinha conseguido escapar-lhe? Porquê enterrarmo-nos com o nosso trabalho em retiros obscuros nas profundezas das florestas, se isso não nos pode proteger contra esses riscos perigosos de vida e morte que nos encontramos nas cidades movimentadas?

— Agora, Monsieur Stangerson — disse Monsieur de Marquet, com um ar um tanto importante —, coloque-se exatamente onde estava quando a Mademoiselle Stangerson o deixou para ir para o seu quarto.

O Monsieur Stangerson levantou-se e, de pé a uma certa distância da porta do Quarto Amarelo, disse, com uma voz uniforme e sem o menor traço de ênfase — uma voz que só posso descrever como uma voz morta:

— Eu estava aqui. Por volta das onze horas, depois de ter feito uma breve experiência química nos fornos do laboratório, necessitando de todo o espaço atrás de mim, mandei mover a minha secretária para aqui pelo Pai Jacques, que passou a noite a limpar alguns dos meus aparelhos. A minha filha tinha estado a trabalhar à mesma secretária comigo. Quando chegou a hora de ela sair, levantou-se, beijou-me e deu as boas-noites ao Pai Jacques. Ela tinha de passar por trás da minha secretária e da porta para entrar no seu quarto, e só podia fazê-lo com alguma dificuldade. Isto é, eu estava muito perto do local onde o crime ocorreu mais tarde.

— E a secretária? — perguntei, obedecendo, ao misturar-me assim na conversa, às ordens expressas do meu chefe, "assim que ouviu o grito de 'assassino' seguido pelos disparos do revólver, o que aconteceu à secretária?"

O Pai Jacques respondeu.

— Empurrámo-la de volta contra a parede, aqui — perto de onde está neste momento — para podermos chegar à porta imediatamente.

Continuei o meu raciocínio, ao qual, contudo, atribuía pouca importância, encarando-o apenas como uma hipótese fraca, com outra pergunta.

— Não poderia um homem no quarto, estando a secretária tão perto da porta, ao baixar-se e deslizar por baixo da secretária, ter saído sem ser visto?

— Está a esquecer-se — interrompeu o Monsieur Stangerson, cansado —, que a minha filha tinha trancado e fechado a porta à chave, que a porta tinha permanecido fechada, que tentámos em vão arrombá-la quando ouvimos o ruído, e que estávamos à porta enquanto a luta entre o assassino e a minha pobre filha estava a decorrer imediatamente após termos ouvido os seus gritos abafados enquanto ela era agarrada pelos dedos que deixaram a sua marca vermelha na garganta dela. Tão rápido como o ataque foi, não fomos menos rápidos nas nossas tentativas de entrar no quarto onde a tragédia estava a acontecer.

Levantei-me do meu lugar e examinei mais uma vez a porta com o maior cuidado. Depois voltei ao meu lugar com um gesto de desespero.

— Se o painel inferior da porta — disse eu — pudesse ser removido sem que a porta inteira tivesse necessariamente de ser aberta, o problema estaria resolvido. Mas, infelizmente, essa última hipótese é insustentável após um exame da porta — é de carvalho, sólida e maciça. Pode ver isso muito claramente, apesar dos danos causados na tentativa de arrombá-la.

— Ah! — gritou o Pai Jacques —, é uma porta antiga e sólida que foi trazida do castelo — já não fazem tais portas. Tivemos de usar esta barra de ferro para a abrir, nós os quatro — pois a porteira, mulher corajosa que é — ajudou-nos. Dói-me encontrá-los a ambos na prisão agora.

O Pai Jacques mal tinha proferido estas palavras de piedade e protesto quando lágrimas e lamentos irromperam dos porteiros. Nunca vi dois acusados a chorar mais amargamente. Fiquei extremamente desgostoso. Mesmo que fossem inocentes, não conseguia compreender como se podiam comportar daquela maneira perante a desgraça. Um porte digno em tais momentos é melhor do que lágrimas e gemidos, que, na maioria das vezes, são fingidos.

— Ora bem, chega de choramingas — gritou Monsieur de Marquet; — e, no vosso próprio interesse, digam-nos o que estavam a fazer debaixo das janelas do pavilhão na altura em que a vossa patroa estava a ser atacada; pois estavam perto do pavilhão quando o Pai Jacques vos encontrou.

— Estávamos a vir ajudar! — lamentaram-se eles.

— Se pudéssemos apenas deitar as mãos ao assassino, ele nunca mais provaria pão! — a mulher soluçou entre os seus soluços.

Como antes, não conseguimos obter dois pensamentos coerentes deles. Persistiram nas suas negativas e juraram, pelos céus e por todos os santos, que estavam na cama quando ouviram o som do disparo do revólver.

— Não foi um, mas dois tiros que foram disparados! — Estão a ver, estão a mentir. Se tivessem ouvido um, teriam ouvido o outro.

— Mon Dieu! Monsieur — foi o segundo tiro que ouvimos. Estávamos a dormir quando o primeiro tiro foi disparado.

— Dois tiros foram disparados — disse o Pai Jacques. — Tenho a certeza de que todos os cartuchos estavam no meu revólver. Descobrimos depois que dois tinham sido deflagrados, e ouvimos dois tiros atrás da porta. Não foi assim, Monsieur Stangerson?

— Sim — respondeu o Professor —, foram dois tiros, um abafado e o outro seco e retumbante.

— Porque persistem em mentir? — gritou Monsieur de Marquet, virando-se para os porteiros. — Acham que a polícia é tão tola quanto vocês? Tudo aponta para o facto de que estavam fora de casa e perto do pavilhão no momento da tragédia. O que estavam a fazer lá? No que me diz respeito — disse ele, virando-se para o Monsieur Stangerson —, só posso explicar a fuga do assassino com a suposição de ajuda destes dois cúmplices. Assim que a porta foi arrombada, e enquanto o senhor, Monsieur Stangerson, estava ocupado com a sua infeliz filha, o porteiro e a sua mulher facilitaram a fuga do assassino, que, escondendo-se atrás deles, alcançou a janela no vestíbulo e saltou para fora dela para o parque. O porteiro fechou a janela atrás dele e fechou as persianas, que certamente não poderiam ter fechado por si mesmas. Essa é a conclusão a que cheguei. Se alguém aqui tiver alguma outra ideia, que a diga.

Monsieur Stangerson interveio:

— O que diz foi impossível. Não acredito nem na culpa nem na conivência dos meus porteiros, embora não consiga compreender o que estavam a fazer no parque àquela hora tardia da noite. Digo que foi impossível, porque a Madame Bernier segurava a lamparina e não se moveu do limiar do quarto; porque eu, assim que a porta foi arrombada, atirei-me de joelhos ao lado da minha filha, e ninguém poderia ter saído ou entrado no quarto pela porta, sem passar por cima do seu corpo e forçar a sua passagem por mim! O Pai Jacques e o porteiro só tinham de lançar um olhar à volta da câmara e debaixo da cama, como eu tinha feito ao entrar, para ver que não estava lá ninguém a não ser a minha filha deitada no chão.

— O que acha, Monsieur Darzac? — perguntou o magistrado.

Monsieur Darzac respondeu que não tinha opinião a expressar.

Monsieur Dax, o Chefe da Sûreté, que, até ali, tinha estado a ouvir e a examinar o quarto, dignou-se finalmente a abrir os lábios:

— Enquanto se procura o criminoso, seria melhor tentarmos descobrir o motivo do crime; isso far-nos-á avançar um pouco — disse ele. Virando-se para Monsieur Stangerson, continuou, no tom uniforme e inteligente indicativo de um caráter forte: — Compreendo que a Mademoiselle estivesse prestes a casar-se?

O professor olhou tristemente para Monsieur Robert Darzac.

— Com o meu amigo aqui, a quem eu teria ficado feliz por chamar meu filho — com o Monsieur Robert Darzac.

— A Mademoiselle Stangerson está muito melhor e a recuperar rapidamente dos seus ferimentos. O casamento está simplesmente adiado, não é, Monsieur? — insistiu o Chefe da Sûreté.

— Espero que sim.

— O quê! Existe alguma dúvida sobre isso?

Monsieur Stangerson não respondeu. Monsieur Robert Darzac parecia agitado. Vi que a sua mão tremia enquanto mexia na corrente do seu relógio. Monsieur Dax tossiu, tal como Monsieur de Marquet. Ambos estavam evidentemente embaraçados.

— Compreende, Monsieur Stangerson — disse ele —, que num assunto tão desconcertante como este, não podemos negligenciar nada; temos de saber tudo, mesmo a mais pequena e aparentemente mais fútil coisa relativa à vítima — informações aparentemente mais insignificantes. Por que duvida que este casamento se realize? Expressou uma esperança; mas a esperança implica uma dúvida. Por que duvida?

Monsieur Stangerson fez um esforço visível para se recompor.

— Sim, Monsieur — disse ele finalmente. — Tem razão. Será melhor que saiba algo que, se eu escondesse, poderia parecer de importância; Monsieur Darzac concorda comigo nisto.

Monsieur Darzac, cuja palidez naquele momento me pareceu ser totalmente anormal, fez um sinal de assentimento. Concluí que ele era incapaz de falar.

— Quero que saiba, então — continuou o Monsieur Stangerson —, que a minha filha jurou nunca me deixar, e mantém-se firme no seu juramento, apesar de todas as minhas preces e de tudo o que argumentei para a induzir a casar. Conhecemos o Monsieur Robert Darzac há muitos anos. Ele ama a minha filha; e eu acreditava que ela o amava, porque ela só recentemente consentiu neste casamento que eu desejo com todo o meu coração. Sou um homem velho, Monsieur, e foi uma hora feliz para mim quando soube que, depois de eu partir, ela teria ao seu lado alguém que a amasse e que a ajudasse a continuar os nossos trabalhos comuns. Amo e estimo o Monsieur Darzac tanto pela sua grandeza de coração como pela sua devoção à ciência. Mas, dois dias antes da tragédia, por não sei que razão, a minha filha declarou-me que nunca se casaria com o Monsieur Robert Darzac.

Um silêncio sepulcral seguiu-se às palavras do Monsieur Stangerson. Foi um momento carregado de suspense.

— A Mademoiselle deu-lhe alguma explicação — disse-lhe ela qual era o seu motivo? — perguntou Monsieur Dax.

— Ela disse-me que era demasiado velha para casar — que tinha esperado demasiado tempo. Disse que tinha pensado muito no assunto e, embora tivesse uma grande estima, até afeição, pelo Monsieur Darzac, sentia que seria melhor se as coisas permanecessem como estavam. Ficaria feliz, disse ela, por ver as relações entre nós próprios e o Monsieur Darzac tornarem-se mais próximas, mas apenas com o entendimento de que não se voltaria a falar de casamento.

— Isso é muito estranho! — murmurou Monsieur Dax.

— Estranho! — repetiu Monsieur de Marquet.

— Certamente não encontrará o motivo aí, Monsieur Dax — disse o Monsieur Stangerson com um sorriso frio.

— De qualquer forma, o motivo não foi o roubo! — disse o Chefe impacientemente.

— Oh! estamos bastante convencidos disso! — gritou o juiz de instrução.

Nesse momento, a porta do laboratório abriu-se e o oficial responsável pelos gendarmes entrou e entregou um cartão ao juiz de instrução. Monsieur de Marquet leu-o e soltou uma exclamação meio irritada:

— Isto é realmente demais! — gritou ele.

— O que é? — perguntou o Chefe.

— É o cartão de um jovem repórter empregado no "Epoque", um Monsieur Joseph Rouletabille. Tem estas palavras escritas nele: "Um dos motivos do crime foi o roubo."

O Chefe sorriu.

— Ah! — o jovem Rouletabille — já ouvi falar dele — é considerado bastante esperto. Deixe-o entrar.

Foi permitido ao Monsieur Joseph Rouletabille entrar. Eu fizera o seu conhecimento no comboio naquela manhã, a caminho de Epinay-sur-Orge. Ele introduzira-se, quase contra a minha vontade, no nosso compartimento. É melhor dizer de imediato que as suas maneiras, e a arrogância com que presumia saber o que era incompreensível até para nós, deixaram uma impressão desfavorável no meu espírito. Não gosto de jornalistas. São uma classe de escritores a ser evitada como a peste. Acham que tudo é permitido e não respeitam nada. Conceda-lhes o menor favor, permita-lhes sequer aproximarem-se, e nunca saberá que incómodos lhe podem causar. Este parece ter pouco mais de vinte anos, e a audácia com que se atreveu a interrogar-nos e a discutir o assunto connosco tornou-o particularmente detestável para mim. Além disso, ele tinha uma maneira de se expressar que nos deixava na dúvida sobre se nos estava a ridicularizar ou não. Sei muito bem que o "Epoque" é um jornal influente com o qual é bom estar em bons termos, mas o jornal não deveria permitir ser representado por repórteres sorrateiros.

Monsieur Joseph Rouletabille entrou no laboratório, cumprimentou-nos e esperou que Monsieur de Marquet lhe pedisse para explicar a sua presença.

— O senhor pretende, Monsieur, que conhece o motivo do crime, e que esse motivo — perante toda a evidência que veio a lume — foi o roubo?

— Não, Monsieur, não pretendo isso. Não digo que o roubo tenha sido o motivo do crime, e não acredito que o tenha sido.

— Então, o que significa este cartão?

— Significa que o roubo foi um dos motivos do crime.

— O que o leva a pensar isso?

— Se tiver a bondade de me acompanhar, mostrar-lhe-ei.

O jovem pediu-nos que o seguíssemos até ao vestíbulo, e assim fizemos. Levou-nos em direção ao lavatório e implorou a Monsieur de Marquet que se ajoelhasse ao seu lado. Este lavatório é iluminado pela porta de vidro e, quando a porta estava aberta, a luz que penetrava era suficiente para o iluminar perfeitamente. Monsieur de Marquet e Monsieur Joseph Rouletabille ajoelharam-se no limiar, e o jovem apontou para uma mancha no pavimento.

— As pedras do lavatório não foram lavadas pelo Daddy Jacques há algum tempo — disse ele; — pode ver-se pela camada de pó que as cobre. Agora, observe aqui, as marcas de duas pegadas grandes e a cinza negra que deixaram onde estiveram. Essa cinza não é mais do que o pó de carvão que cobre o caminho pelo qual se deve passar através da floresta, para ir diretamente de Epinay para o Glandier. Sabe que existe uma pequena aldeia de carvoeiros nesse local, que produzem grandes quantidades de carvão. O que o assassino fez foi vir aqui ao meio-dia, quando não estava ninguém no pavilhão, e tentar o seu roubo.

— Mas que roubo? — Onde vê sinais de roubo? O que lhe prova que foi cometido um roubo? — exclamámos todos ao mesmo tempo.

— O que me pôs no seu rasto — continuou o jornalista —

— Foi isto? — interrompeu Monsieur de Marquet, ainda de joelhos.

— Evidentemente — disse Rouletabille.

E Monsieur de Marquet explicou que existiam, no pó do pavimento, marcas de duas pegadas, bem como a impressão, feita recentemente, de um volume retangular pesado, sendo as marcas da corda com que fora atado facilmente distinguíveis.

— Esteve aqui, então, Monsieur Rouletabille? Pensei ter dado ordens ao Daddy Jacques, que ficou encarregado do pavilhão, para não permitir que ninguém entrasse.

— Não repreenda o Daddy Jacques, vim aqui com o Monsieur Robert Darzac.

— Ah! — De facto! — exclamou Monsieur de Marquet, de forma desagradável, lançando um olhar de soslaio ao Monsieur Darzac, que permanecia perfeitamente silencioso.

— Quando vi a marca do volume ao lado das pegadas, não tive dúvidas quanto ao roubo — respondeu Monsieur Rouletabille. — O ladrão não trouxe um volume consigo; fez um aqui — um volume com os objetos roubados, sem dúvida; e colocou-o neste canto com a intenção de o levar quando chegasse o momento de fugir. Tinha também colocado as suas botas pesadas ao lado do volume — pois veja — não há marcas de passos que levem às marcas deixadas pelas botas, que foram colocadas lado a lado. Isso explica o facto de o assassino não ter deixado qualquer rasto dos seus passos quando fugiu do Quarto Amarelo, nem no laboratório, nem no vestíbulo. Após entrar no Quarto Amarelo com as botas, tirou-as, achando-as incómodas, ou porque desejava fazer o mínimo de ruído possível. As marcas deixadas por ele ao passar pelo vestíbulo e pelo laboratório foram subsequentemente lavadas pelo Daddy Jacques. Tendo, por uma razão ou outra, tirado as botas, o assassino transportou-as na mão e colocou-as ao lado do volume que tinha feito — nessa altura, o roubo estava consumado. O homem regressou então ao Quarto Amarelo e esgueirou-se para debaixo da cama, onde a marca do seu corpo é perfeitamente visível no chão e até no tapete, que foi ligeiramente deslocado do seu lugar e vincado. Fragmentos de palha também, recentemente arrancados, dão testemunho dos movimentos do assassino debaixo da cama.

— Sim, sim — já sabemos tudo isso — disse Monsieur de Marquet.

— O ladrão tinha outro motivo para regressar e esconder-se debaixo da cama — continuou o espantoso rapaz-jornalista. — Poderia pensar que ele estava a tentar esconder-se rapidamente ao ver, através da janela do vestíbulo, Monsieur e Mademoiselle Stangerson prestes a entrar no pavilhão. Teria sido muito mais fácil para ele subir até ao sótão e esconder-se lá, esperando por uma oportunidade para escapar, se o seu propósito tivesse sido apenas a fuga. — Não! Não! — ele tinha de estar no Quarto Amarelo.

Aqui o Chefe interveio.

— Não está nada mal, jovem. Felicito-o. Se ainda não sabemos como o assassino conseguiu escapar, podemos, pelo menos, ver como entrou e cometeu o roubo. Mas o que roubou ele?

— Algo de muito valor — respondeu o jovem repórter.

Nesse momento ouvimos um grito vindo do laboratório. Corremos para lá e encontrámos Monsieur Stangerson, os seus olhos esgazeados, os seus membros a tremer, a apontar para uma espécie de estante que ele abrira e que, vimos, estava vazia. No mesmo instante, ele afundou-se na grande poltrona que estava colocada diante da secretária e gemeu, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto: "Fui roubado novamente! Pelo amor de Deus, não digam uma palavra disto à minha filha. Ela ficaria mais magoada do que eu." Ele soltou um profundo suspiro e acrescentou, num tom que nunca esquecerei: "Afinal, que importa — desde que ela viva!"

— Ela viverá! — disse Monsieur Darzac, com uma voz estranhamente tocante.

— E encontraremos os artigos roubados — disse Monsieur Dax. — Mas o que estava no armário?

— Vinte anos da minha vida — respondeu o ilustre professor tristemente, — ou melhor, das nossas vidas — a vida minha e da minha filha! Sim, os nossos documentos mais preciosos, os registos das nossas experiências secretas e os nossos trabalhos de vinte anos estavam naquele armário. É uma perda irreparável para nós e, atrevo-me a dizer, para a ciência. Todos os processos pelos quais pude chegar à preciosa prova da destrutibilidade da matéria estavam lá — todos. O homem que veio desejava tirar-me tudo — a minha filha e o meu trabalho — o meu coração e a minha alma.

E o grande cientista chorava como uma criança.

Ficámos em volta dele em silêncio, profundamente afetados pelo seu grande sofrimento. Monsieur Darzac pressionou-se junto ao seu lado e tentou em vão conter as suas lágrimas — uma visão que, por um momento, quase me fez gostar dele, apesar de uma repulsa instintiva que o seu comportamento estranho e a sua ansiedade inexplicável me tinham inspirado.

Apenas Monsieur Rouletabille — como se o seu tempo precioso e a sua missão na terra não lhe permitissem deter-se na contemplação do sofrimento humano — tinha, muito calmamente, aproximado-se do armário vazio e, apontando para ele, quebrou o silêncio quase solene. Entrou em explicações, para as quais não havia necessidade, sobre o porquê de ter sido levado a acreditar que um roubo fora cometido, o que incluía a descoberta simultânea que fizera no lavatório e o precioso armário vazio no laboratório. A primeira coisa que o impressionara, disse ele, era a forma invulgar daquela peça de mobiliário. Era construída de forma muito robusta em ferro à prova de fogo, mostrando claramente que se destinava a guardar objetos de grande valor. Então, reparou que a chave tinha sido deixada na fechadura. "Não se tem habitualmente um cofre e deixa-se aberto!" dissera ele para consigo mesmo. Esta pequena chave, com a sua cabeça de latão e os seus segredos complicados, atraíra-o fortemente — a sua presença sugerira o roubo.

Monsieur de Marquet parecia muito perplexo, como se não soubesse se deveria alegrar-se com o novo rumo dado à investigação pelo jovem repórter, ou lamentar que não tivesse sido feito por si mesmo. Na nossa profissão e para o bem-estar geral, temos de suportar tais mortificações e enterrar sentimentos egoístas. Foi por isso que Monsieur de Marquet se conteve e juntou os seus elogios aos de Monsieur Dax. Quanto a Monsieur Rouletabille, ele simplesmente encolheu os ombros e disse: "Não há nada nisso!" Teria gostado de lhe dar uma bofetada, especialmente quando acrescentou: "Farão bem, Monsieur, em perguntar ao Monsieur Stangerson quem guardava habitualmente essa chave?"

— A minha filha — respondeu Monsieur Stangerson, — ela nunca a deixava.

— Ah! então isso altera o aspeto das coisas, que já não corresponde às ideias de Monsieur Rouletabille! — gritou Monsieur de Marquet. — Se essa chave nunca abandonou Mademoiselle Stangerson, o assassino deve ter esperado por ela no seu quarto com o propósito de a roubar; e o roubo não poderia ter sido cometido senão após o ataque que lhe foi feito. Mas após o ataque, quatro pessoas estavam no laboratório! Não consigo entender isto!

— O roubo — disse o repórter — só poderia ter sido cometido antes do ataque a Mademoiselle Stangerson no seu quarto. Quando o assassino entrou no pavilhão, já possuía a chave de cabeça de latão.

— Isso é impossível — disse Monsieur Stangerson em voz baixa.

— É muito possível, Monsieur, como isto prova.

E o jovem patife tirou um exemplar do "Epoque" do bolso, datado de 21 de outubro (recordo o facto de o crime ter sido cometido na noite entre 24 e 25), e mostrando-nos um anúncio, leu:

— "Ontem perdeu-se uma bolsa de cetim preto nos Grands Magasins de la Louvre. Continha, entre outras coisas, uma pequena chave com uma cabeça de latão. Uma recompensa generosa será dada à pessoa que a encontrou. Esta pessoa deve escrever, poste restante, gabinete 40, para este endereço: M. A. T. H. S. N." Não sugerem estas letras a Mademoiselle Stangerson? — continuou o repórter. — A "chave com cabeça de latão" — não será esta a chave? Leio sempre os anúncios. Na minha profissão, como na sua, Monsieur, deve-se ler sempre os "pessoais". São muitas vezes as chaves para intrigas, que nem sempre têm cabeça de latão, mas que não deixam de ser interessantes. Este anúncio interessou-me especialmente; a mulher da chave rodeou-o com uma espécie de mistério. Evidentemente que ela valorizava a chave, uma vez que prometia uma grande recompensa pela sua devolução! E pensei nestas seis letras: M. A. T. H. S. N. As quatro primeiras apontavam de imediato para um nome próprio; evidentemente, disse eu, Math é Mathilde. Mas não consegui tirar nada das duas últimas letras. Por isso, deitei o jornal de lado e ocupei-me de outros assuntos. Quatro dias depois, quando o jornal da tarde apareceu com títulos enormes anunciando o assassínio de Mademoiselle Stangerson, as letras do anúncio ocorreram-me mecanicamente. Tinha-me esquecido das duas últimas letras, S. N. Quando as vi novamente, não pude evitar exclamar: "Stangerson!" Saltei para um táxi e corri para o gabinete n.º 40, perguntando: "Tem uma carta endereçada a M. A. T. H. S. N.?" O funcionário respondeu que não. Insisti, implorei e supliquei-lhe que procurasse. Ele queria saber se eu estava a brincar com ele, e disse-me então que tivera uma carta com as iniciais M. A. T. H. S. N., mas que a entregara há três dias a uma senhora que viera buscá-la. "O senhor vem hoje reclamar a carta, e anteontem outro cavalheiro reclamou-a! Já me chega disto", concluiu ele irritado. Tentei interrogá-lo sobre as duas pessoas que já tinham reclamado a carta; mas quer ele quisesse entrincheirar-se atrás do sigilo profissional — pode ter pensado que já tinha dito demasiado —, quer estivesse enojado com a partida que lhe tinham pregado — ele não respondeu a nenhuma das minhas perguntas.

Rouletabille fez uma pausa. Ficámos todos em silêncio. Cada um tirou as suas próprias conclusões da estranha história da carta na poste restante. Parecia, de facto, que tínhamos agora um fio condutor através do qual poderíamos seguir este mistério extraordinário.

— Então é quase certo — disse Monsieur Stangerson — que a minha filha perdeu a chave, e que não me disse nada, querendo poupar-me qualquer ansiedade, e que implorou a quem quer que a tivesse encontrado que escrevesse para a poste restante. Ela temia, evidentemente, que, ao dar o nosso endereço, resultassem investigações que me informariam da perda da chave. Foi perfeitamente lógico, perfeitamente natural da sua parte ter tomado esse caminho — pois já fui roubado uma vez anteriormente.

— Onde foi isso, e quando? — perguntou o Chefe da Sûreté.

— Oh! há muitos anos, na América, em Filadélfia. Foram roubados do meu laboratório os desenhos de duas invenções que poderiam ter feito a fortuna de um homem. Não só nunca soube quem foi o ladrão, como nunca ouvi sequer uma palavra sobre o objeto do roubo, sem dúvida porque, para derrotar os planos da pessoa que me tinha roubado, eu próprio levei estas duas invenções a público, tornando assim o roubo inútil. Desde essa altura, tenho tido muito cuidado em fechar-me quando estou a trabalhar. As grades destas janelas, a localização isolada deste pavilhão, este armário, que mandei construir especialmente, esta fechadura especial, esta chave única, tudo são precauções contra receios inspirados por uma triste experiência.

— O mais interessante! — observou Monsieur Dax.

Monsieur Rouletabille perguntou pela bolsa. Nem Monsieur Stangerson nem Daddy Jacques a viam há vários dias, mas algumas horas depois soubemos pela própria Mademoiselle Stangerson que a bolsa tinha sido roubada ou que ela a tinha perdido. Ela corroborou ainda tudo o que tinha acontecido exatamente como o seu pai tinha declarado. Ela tinha ido à poste restante e, no dia 23 de outubro, recebera uma carta que, afirmava ela, não continha nada mais do que uma brincadeira vulgar, a qual tinha queimado imediatamente.

Para voltar ao nosso exame, ou melhor, à nossa conversa. Devo declarar que o Chefe da Sûreté, tendo inquirido Monsieur Stangerson sobre as condições em que a sua filha tinha ido a Paris no dia 20 de outubro, soubemos que Monsieur Robert Darzac a tinha acompanhado, e Darzac não tinha sido visto novamente no castelo desde essa altura até ao dia seguinte ao da ocorrência do crime. O facto de o Monsieur Darzac estar com ela nos Grands Magasins de la Louvre quando a bolsa desapareceu, não podia passar despercebido, e, deve dizer-se, despertou fortemente o nosso interesse.

Esta conversa entre magistrados, acusado, vítima, testemunhas e jornalista estava a chegar ao fim quando uma sensação teatral — um incidente de um tipo desagradável para Monsieur de Marquet — foi produzido. O oficial dos gendarmes veio anunciar que Frédéric Larsan pedia para ser admitido — um pedido que foi prontamente concedido. Ele segurava nas mãos um par de botas pesadas e enlameadas, que atirou para o pavimento do laboratório.

— Aqui — disse ele — estão as botas usadas pelo assassino. Reconhece-as, Daddy Jacques?

Daddy Jacques inclinou-se sobre elas e, estupefacto, reconheceu um par de botas velhas que tinha, há algum tempo, atirado para um canto do seu sótão. Ficou tão surpreendido que não pôde esconder a sua agitação.

Então, apontando para o lenço na mão do velho, Frédéric Larsan disse:

— Esse lenço é estranhamente parecido com o que foi encontrado no Quarto Amarelo.

— Eu sei — disse Daddy Jacques, a tremer, — são quase iguais.

— E depois — continuou Frédéric Larsan — o barrete basco velho também encontrado no Quarto Amarelo poderia, em tempos, ter sido usado pelo próprio Daddy Jacques. Tudo isto, cavalheiros, prova, creio eu, que o assassino desejava disfarçar a sua verdadeira personalidade. Fê-lo de uma forma muito desajeitada — ou, pelo menos, assim nos parece. Não se assuste, Daddy Jacques; temos a certeza de que não foi o assassino; nunca se afastou do lado do Monsieur Stangerson. Mas se Monsieur Stangerson não estivesse a trabalhar naquela noite e tivesse regressado ao castelo depois de se despedir da sua filha, e Daddy Jacques tivesse ido dormir para o seu sótão, ninguém teria duvidado de que ele era o assassino. Ele deve a sua segurança, portanto, à tragédia ter sido encenada demasiado cedo — o assassino, sem dúvida, pelo silêncio no laboratório, imaginou que este estava vazio, e que o momento para a ação tinha chegado. O homem que conseguiu introduzir-se aqui tão misteriosamente e deixar tantas provas contra Daddy Jacques, estava, sem dúvida, familiarizado com a casa. A que hora exatamente entrou, se à tarde ou à noite, não posso dizer. Alguém familiarizado com os procedimentos e as pessoas deste pavilhão poderia escolher o seu próprio momento para entrar no Quarto Amarelo.

— Ele não poderia ter entrado se estivesse alguém no laboratório — disse Monsieur de Marquet.

— Como podemos saber isso? — respondeu Larsan. — Houve o jantar no laboratório, a entrada e saída dos criados encarregados do serviço. Houve uma experiência química a decorrer entre as dez e as onze horas, com Monsieur Stangerson, a sua filha e Daddy Jacques ocupados na fornalha num canto da alta chaminé. Quem pode dizer que o assassino — um íntimo! — um amigo! — não aproveitou esse momento para se esgueirar para o Quarto Amarelo, depois de ter tirado as botas no lavatório?

— É muito improvável — disse Monsieur Stangerson.

— Sem dúvida — mas não é impossível. Não afirmo nada. Quanto à fuga do pavilhão — isso é outra coisa, a coisa mais natural do mundo.

Por um momento, Frédéric Larsan fez uma pausa — um momento que nos pareceu muito longo. A ânsia com que aguardávamos o que ele nos ia dizer pode ser imaginada.

— Eu não estive no Quarto Amarelo — continuou ele — mas considero como certo que os senhores se convenceram de que ele só poderia ter saído do quarto pela porta; é pela porta, então, que o assassino escapou. A que horas? No momento em que lhe foi mais fácil fazê-lo; no momento em que isso se tornou mais explicável — tão completamente explicável que não pode haver outra explicação. Analisemos os momentos que se seguiram à prática do crime. Houve o primeiro momento, em que Monsieur Stangerson e Daddy Jacques estavam perto da porta, prontos para bloquear a passagem. Houve o segundo momento, durante o qual Daddy Jacques esteve ausente e Monsieur Stangerson ficou sozinho diante da porta. Houve um terceiro momento, em que Monsieur Stangerson foi acompanhado pelo porteiro. Houve um quarto momento, durante o qual Monsieur Stangerson, o porteiro, a sua esposa e Daddy Jacques estavam diante da porta. Houve um quinto momento, durante o qual a porta foi arrombada e o Quarto Amarelo invadido. O momento em que a fuga é explicável é precisamente aquele em que havia o menor número de pessoas diante da porta. Houve um momento em que havia apenas uma pessoa — Monsieur Stangerson. A menos que se admita uma cumplicidade de silêncio por parte de Daddy Jacques — na qual não acredito —, a porta foi aberta na presença apenas de Monsieur Stangerson e o homem escapou.

— Aqui devemos admitir que Monsieur Stangerson tinha razões poderosas para não prender, ou não fazer prender o assassino, uma vez que o deixou chegar à janela do vestíbulo e a fechou depois dele! — Feito isso, Mademoiselle Stangerson, embora horrivelmente ferida, ainda tinha forças, e sem dúvida em obediência às súplicas de seu pai, para fechar novamente a porta do seu quarto, com o ferrolho e a fechadura, antes de cair ao chão. Não sabemos quem cometeu o crime; não sabemos de que miserável Monsieur e Mademoiselle Stangerson são vítimas, mas não há dúvida de que ambos sabem! O segredo deve ser terrível, pois o pai não hesitou em deixar a filha morrer atrás da porta que ela mesma fechara — terrível para ele ter deixado o assassino escapar. Pois não há outra maneira no mundo de explicar a fuga do assassino do Quarto Amarelo!

O silêncio que se seguiu a esta explicação dramática e lúcida foi aterrador. Sentimo-nos todos penalizados pelo ilustre professor, tão encurralado pela lógica impiedosa de Frédéric Larsan, tão forçado a confessar toda a verdade do seu martírio ou a manter o silêncio, e assim fazer uma admissão ainda mais terrível. O próprio homem, uma verdadeira estátua de dor, levantou a mão com um gesto tão solene que inclinamos a cabeça diante dele como se perante algo sagrado. Ele então pronunciou estas palavras, com uma voz tão alta que parecia exauri-lo:

— Juro pela cabeça da minha filha sofredora que nunca por um instante deixei a porta do seu quarto depois de ouvir os seus gritos de socorro; que essa porta não foi aberta enquanto eu estava sozinho no laboratório; e que, finalmente, quando entrámos no Quarto Amarelo, os meus três criados e eu, o assassino já lá não estava! Juro que não conheço o assassino!

Devo dizê-lo — apesar da solenidade das palavras de Monsieur Stangerson, não acreditámos na sua negação? Frédéric Larsan tinha-nos mostrado a verdade e ela não era assim tão fácil de abandonar.

Monsieur de Marquet anunciou que a conversa tinha terminado, e quando estávamos prestes a sair do laboratório, Joseph Rouletabille aproximou-se de Monsieur Stangerson, pegou-lhe na mão com o maior respeito, e ouvi-o dizer:

— Acredito em si, Monsieur.

Encerro aqui a citação que julguei ser meu dever fazer do relato de Monsieur Maleine. Não preciso de dizer ao leitor que tudo o que se passou no laboratório foi imediata e fielmente relatado por Rouletabille.

Capítulo XII

A bengala de Frédéric Larsan

Só às seis horas é que saí do château, levando comigo o artigo escrito apressadamente pelo meu amigo na pequena sala que Monsieur Robert Darzac tinha colocado à nossa disposição. O repórter iria dormir no château, aproveitando a hospitalidade, para mim inexplicável, que lhe fora oferecida por Monsieur Robert Darzac, a quem Monsieur Stangerson, naquele triste momento, deixara o cuidado de todos os seus assuntos domésticos. Contudo, insistiu em acompanhar-me até à estação de Epinay. Ao atravessar o parque, disse-me:

— Frédéric é realmente muito inteligente e não desmentiu a sua reputação. Sabe como ele encontrou as botas de Daddy Jacques? — Perto do local onde notámos os vestígios das botas elegantes e o desaparecimento das grosseiras, havia um buraco quadrado, feito recentemente no solo húmido, de onde uma pedra tinha sido evidentemente removida. Larsan procurou essa pedra sem a encontrar, e imaginou de imediato que ela tinha sido usada pelo assassino para afundar as botas no lago. O cálculo do Fred foi excelente, como prova o sucesso da sua busca. Isso escapou-me; mas o meu espírito estava voltado para outra direção devido ao grande número de falsas indicações da sua pista que o assassino deixou, e pela medida das marcas de pés pretas correspondentes à das botas de Daddy Jacques, que eu tinha estabelecido, sem ele suspeitar, no chão do Quarto Amarelo. Tudo isto era prova, aos meus olhos, de que o assassino tinha tentado desviar as suspeitas para o velho criado. Até esse ponto, Larsan e eu estamos de acordo; mas não mais do que isso. Vai ser um assunto terrível; porque digo-lhe que ele está a trabalhar numa linha errada, e eu — eu, tenho de combatê-lo sem nada!

Surpreendeu-me o tom profundamente grave com que o meu jovem amigo pronunciou as últimas palavras.

Ele repetiu:

— Sim — terrível! — terrível! Porque é combater com nada, quando só se tem uma ideia para lutar.

Nesse momento, passámos pelas traseiras do château. A noite tinha chegado. Uma janela no primeiro andar estava entreaberta. Uma luz fraca vinha de lá, assim como alguns sons que atraíram a nossa atenção. Aproximámo-nos até chegarmos ao lado de uma porta que ficava exatamente debaixo da janela. Rouletabille, em tom baixo, fez-me entender que aquela era a janela do quarto de Mademoiselle Stangerson. Os sons que tinham atraído a nossa atenção cessaram, depois renovaram-se por um momento, e então ouvimos soluços abafados. Só conseguimos captar estas palavras, que nos chegaram distintamente: "Meu pobre Robert!" — Rouletabille sussurrou ao meu ouvido:

— Se ao menos soubéssemos o que estava a ser dito naquele quarto, a minha investigação estaria rapidamente terminada.

Ele olhou à sua volta. A escuridão da noite envolvia-nos; não conseguíamos ver muito além do caminho estreito ladeado por árvores, que corria atrás do château. Os soluços tinham cessado.

— Se não podemos ouvir, podemos pelo menos tentar ver — disse Rouletabille.

E, fazendo-me um sinal para abafar o som dos meus passos, conduziu-me através do caminho até ao tronco de uma faia alta, cujo tronco branco era visível na escuridão. Esta árvore crescia exatamente em frente à janela em que estávamos tão interessados, sendo os seus ramos inferiores ao nível do primeiro andar do château. Da altura desses ramos poder-se-ia certamente ver o que se passava no quarto de Mademoiselle Stangerson. Evidentemente era isso que Rouletabille pensava, pois, ordenando-me que permanecesse escondido, ele abraçou o tronco com os seus braços vigorosos e subiu. Perdi-o de vista entre os ramos, e seguiu-se então um silêncio profundo.

À minha frente, a janela aberta permanecia iluminada, e não vi nenhuma sombra mover-se através dela. Escutei, e pouco depois, lá de cima, chegaram aos meus ouvidos estas palavras:

— Depois de si!

— Depois de si, por favor!

Alguém estava lá em cima, a falar — a trocar cortesias. Qual não foi o meu espanto ao ver na coluna escorregadia da árvore duas formas humanas aparecerem e deslizarem silenciosamente para o chão. Rouletabille tinha subido sozinho, e regressara com outro.

— Boa noite, Monsieur Sainclair!

Era Frédéric Larsan. O detetive já ocupava o posto de observação quando o meu jovem amigo pensou ter chegado lá sozinho. Nenhum notou o meu espanto. Expliquei-o a mim próprio pelo facto de terem sido testemunhas de alguma cena terna e desesperada entre Mademoiselle Stangerson, deitada na sua cama, e Monsieur Darzac de joelhos junto à sua almofada. Adivinhei que cada um tinha tirado conclusões diferentes do que tinham visto. Era fácil ver que a cena tinha impressionado fortemente Rouletabille a favor de Monsieur Robert Darzac; enquanto, para Larsan, não mostrava senão uma hipocrisia consumada, atuada com arte acabada pelo noivo de Mademoiselle Stangerson.

Ao chegarmos ao portão do parque, Larsan deteve-nos.

— A minha bengala! — gritou. — Deixei-a perto da árvore.

Ele deixou-nos, dizendo que nos voltaria a encontrar em breve.

— Notou a bengala de Frédéric Larsan? — perguntou o jovem repórter, assim que ficámos sós. — É uma bem nova, que nunca o vi usar antes. Parece ter um grande cuidado com ela — nunca o deixa. Dir-se-ia que ele tem medo que ela caia em mãos estranhas. Nunca a vi antes de hoje. Onde a encontrou? Não é natural que um homem que nunca antes usou uma bengala, no dia seguinte ao crime do Glandier, não dê um passo sem uma. No dia da nossa chegada ao château, assim que ele nos viu, colocou o relógio no bolso e apanhou a bengala do chão — um procedimento ao qual talvez eu tenha feito mal em não dar importância.

Estávamos agora fora do parque. Rouletabille tinha mergulhado no silêncio. Os seus pensamentos estavam certamente ainda ocupados com a bengala nova de Frédéric Larsan. Tive a prova disso quando, ao aproximarmo-nos de Epinay, ele disse:

— Frédéric Larsan chegou ao Glandier antes de mim; ele começou a sua investigação antes de mim; ele teve tempo de descobrir coisas sobre as quais nada sei. Onde encontrou ele aquela bengala? — Depois acrescentou: — É provável que a sua suspeita — mais do que isso, o seu raciocínio — o tenha levado a deitar mão a algo de tangível. Terá esta bengala alguma coisa a ver com isso? Onde é que o diabo a foi encontrar?

Como eu tinha de esperar vinte minutos pelo comboio em Epinay, entrámos num cabaré. Quase imediatamente a porta abriu-se e Frédéric Larsan fez a sua aparição, brandindo a sua famosa bengala.

— Encontrei-a! — disse ele a rir.

Os três sentámo-nos a uma mesa. Rouletabille nunca tirou os olhos da bengala; estava tão absorto que não notou um sinal que Larsan fez a um funcionário do caminho de ferro, um jovem com o queixo decorado por uma pequena barba loira e mal cuidada. Ao sinal, ele levantou-se, pagou a bebida, inclinou-se e saiu. Eu próprio não teria dado qualquer importância à circunstância, se ela não me tivesse sido recordada, alguns meses mais tarde, pelo reaparecimento do homem de barba num dos momentos mais trágicos deste caso. Soube então que o jovem era um dos assistentes de Larsan e tinha sido encarregado por ele de vigiar as idas e vindas de passageiros na estação de Epinay-sur-Orge. Larsan não negligenciava nada em qualquer caso em que estivesse envolvido.

Voltei os meus olhos para Rouletabille.

— Ah! — Monsieur Fred! — disse ele, — quando começou a usar uma bengala? Sempre o vi a andar com as mãos nos bolsos!

— É um presente — respondeu o detetive.

— Recente? — insistiu Rouletabille.

— Não, foi-me dada em Londres.

— Ah, sim, lembro-me — acabou de vir de Londres. Posso vê-la?

— Oh! — certamente!

Fred passou a bengala a Rouletabille. Era um grande bambu amarelo com um punho de muleta e ornamentado com um anel de ouro.

Rouletabille, depois de a examinar minuciosamente, devolveu-a a Larsan, com uma expressão trocista no rosto, dizendo:

— Deram-lhe uma bengala francesa em Londres!

— Possivelmente — disse Fred, imperturbável.

— Leia a marca ali, em letras minúsculas: Cassette, 6a, Opera.

— Será que os ingleses não podem comprar bengalas em Paris?

Quando Rouletabille me viu entrar no comboio, disse:

— Lembrar-se-á do endereço?

— Sim — Cassette, 6a, Opera. Confie em mim; terá notícias amanhã de manhã.

Nessa noite, ao chegar a Paris, vi Monsieur Cassette, vendedor de bengalas e guarda-chuvas, e escrevi ao meu amigo:

— Um homem que corresponde inequivocamente à descrição de Monsieur Robert Darzac — mesma altura, ligeiramente curvado, sobretudo cor de massa, chapéu de coco — comprou uma bengala semelhante àquela em que estamos interessados, na noite do crime, por volta das oito horas. Monsieur Cassette não tinha vendido outra bengala destas durante os últimos dois anos. A bengala do Fred é nova. É bem claro que é a mesma bengala. Fred não a comprou, uma vez que estava em Londres. Como você, penso que ele a encontrou algures perto de Monsieur Robert Darzac. Mas se, como supõe, o assassino esteve no Quarto Amarelo durante cinco, ou até seis horas, e o crime não foi cometido senão perto da meia-noite, a compra desta bengala prova um álibi incontestável para Darzac.

Capítulo XIII

"O presbitério não perdeu nada do seu charme, nem o jardim o seu brilho"

Uma semana após a ocorrência dos eventos que acabei de contar — no dia 2 de novembro, para ser exato — recebi em minha casa, em Paris, a seguinte mensagem telegráfica: "Venha ao Glandier no primeiro comboio. Traga revólveres. Saudações amigáveis. Rouletabille."

Já disse, penso eu, que nesse período, sendo um jovem advogado com poucos processos, frequentava o Palais de Justice mais com o objetivo de me familiarizar com os meus deveres profissionais do que para a defesa de viúvas e órfãos. Não podia, portanto, sentir qualquer surpresa pelo facto de Rouletabille dispor do meu tempo. Além disso, ele sabia quão interessado eu estava nas suas aventuras jornalísticas em geral e, acima de tudo, no assassinato no Glandier. Não tinha notícias dele há uma semana, nem do progresso feito com aquele caso misterioso, exceto pelos inumeráveis parágrafos nos jornais e pelas notas muito breves de Rouletabille no “Epoque”. Essas notas tinham divulgado o facto de terem sido encontrados vestígios de sangue humano no osso de carneiro, assim como vestígios frescos do sangue de Mademoiselle Stangerson — as manchas velhas pertenciam a outros crimes, provavelmente datando de anos atrás.

Pode imaginar-se facilmente que o crime ocupava a atenção da imprensa em todo o mundo. Nenhum crime conhecido tinha absorvido tanto as mentes das pessoas. Pareceu-me, contudo, que a investigação judicial estava a fazer muito pouco progresso; e eu ter-me-ia sentido muito contente se, ao receber o convite do meu amigo para me juntar a ele no Glandier, o despacho não contivesse as palavras: "Traga revólveres."

Isso deixou-me muito intrigado. Rouletabille a pedir revólveres por telégrafo significava que poderia haver ocasião para os usar. Ora, confesso-o sem vergonha, não sou um herói. Mas ali estava um amigo, evidentemente em perigo, a chamar-me para ir em seu auxílio. Não hesitei muito; e, depois de me certificar de que o único revólver que possuía estava devidamente carregado, apressei-me em direção à estação de Orleães. No caminho, lembrei-me de que Rouletabille tinha pedido dois revólveres; entrei, portanto, numa loja de armas e comprei uma excelente arma para o meu amigo.

Tinha esperado encontrá-lo na estação de Epinay; mas ele não estava lá. No entanto, uma carruagem esperava por mim e em breve estava no Glandier. Ninguém estava no portão, e foi apenas no limiar do château que encontrei o jovem. Ele saudou-me com um gesto amigável e abraçou-me, perguntando calorosamente pelo estado da minha saúde.

Quando estávamos na pequena sala de que falei, Rouletabille fez-me sentar.

— As coisas estão a correr mal — disse ele.

— O que é que está a correr mal? — perguntei.

— Tudo.

Ele aproximou-se de mim e sussurrou:

— Frédéric Larsan está a trabalhar com toda a força contra Darzac.

Isso não me espantou. Tinha visto a má figura que o noivo de Mademoiselle Stangerson tinha feito na altura do exame das pegadas. Contudo, perguntei imediatamente:

— E aquela bengala?

— Continua nas mãos de Frédéric Larsan. Ele nunca a larga.

— Mas não prova o álibi para Monsieur Darzac?

— De todo. Questionado suavemente por mim, Darzac negou ter, naquela noite, ou em qualquer outra, comprado uma bengala no Cassette. No entanto — disse Rouletabille —, não jurarei nada; Monsieur Darzac tem ataques de silêncio tão estranhos que não se sabe exatamente o que pensar do que ele diz.

— Para Frédéric Larsan esta bengala deve significar uma prova muito comprometedora. Mas de que maneira? A hora em que foi comprada mostra que não poderia ter estado na posse do assassino.

— A hora não preocupa Larsan. Ele não é obrigado a adotar a minha teoria que assume que o assassino entrou no Quarto Amarelo entre as cinco e as seis horas. Mas nada o impede de assumir que o assassino entrou entre as dez e as onze horas da noite? A essa hora Monsieur e Mademoiselle Stangerson, assistidos por Daddy Jacques, estavam ocupados a fazer uma experiência química interessante na parte do laboratório ocupada pelos fornos. Larsan diz, por mais improvável que pareça, que o assassino pode ter passado por trás deles. Ele já conseguiu que o juiz de instrução o ouvisse. Quando se olha de perto, o raciocínio é absurdo, vendo que o "íntimo" — se existe um — deve ter sabido que o professor deixaria o pavilhão pouco depois, e que o "amigo" só teria de adiar a operação até depois da partida do professor. Porque arriscaria ele atravessar o laboratório enquanto o professor estava lá dentro? E depois, quando ele tinha entrado no Quarto Amarelo? —

— Há muitos pontos a esclarecer antes que a teoria de Larsan possa ser admitida. Não desperdiçarei o meu tempo com isso, pois a minha teoria não me permitirá ocupar-me com mera imaginação. Apenas, como sou obrigado por agora a manter o silêncio, e Larsan fala por vezes, ele pode acabar por se manifestar abertamente contra Monsieur Darzac — se eu não estiver lá — acrescentou orgulhosamente o jovem repórter. — Pois há provas superficiais contra Darzac, muito mais convincentes do que a bengala, que permanece incompreensível para mim, tanto mais que Larsan não hesita minimamente em deixar que Darzac o veja com ela! — Compreendo muitas coisas na teoria de Larsan, mas não consigo tirar nada dessa bengala.

— Ele ainda está no château?

— Sim; ele quase nunca o deixa! — Ele dorme lá, como eu, a pedido de Monsieur Stangerson, que fez por ele o que Monsieur Robert Darzac fez por mim. Apesar da acusação feita por Larsan de que Monsieur Stangerson sabe quem é o assassino, ele ainda lhe faculta todos os meios para chegar à verdade — tal como Darzac está a fazer por mim.

— Mas está convencido da inocência de Darzac?

— Houve um tempo em que acreditei na possibilidade da sua culpa. Foi quando chegámos aqui pela primeira vez. Chegou a hora de lhe contar o que se passou entre Monsieur Darzac e eu próprio.

Aqui Rouletabille interrompeu-se e perguntou-me se eu tinha trazido os revólveres. Mostrei-lhos. Tendo examinado ambos, declarou-os excelentes e devolveu-mos.

— Teremos algum uso para eles? — perguntei.

— Sem dúvida; esta noite. Passaremos a noite aqui — se isso não o cansar?

— Pelo contrário — disse eu com uma expressão que fez Rouletabille rir.

— Não, não — disse ele, — este não é momento para risos. Lembra-se da frase que foi o "Abre-te Sésamo" deste château cheio de mistério?

— Sim — disse eu, — perfeitamente — "O presbitério não perdeu nada do seu charme, nem o jardim o seu brilho." Foi a frase que encontrou no pedaço de papel meio queimado entre as cinzas no laboratório.

— Sim; no fundo do papel, onde a chama não chegara, estava esta data: 23 de outubro. Memorize esta data, é de suma importância. Vou agora contar-lhe acerca dessa frase curiosa. Na véspera do crime, isto é, no dia 23, o senhor e a mademoiselle Stangerson estavam numa receção no Élysée. Sei disso porque lá estava de serviço, tendo de entrevistar um dos sábios da Academia de Filadélfia, que ali era homenageado. Nunca antes vira nem o senhor nem a mademoiselle Stangerson. Estava sentado na sala que precede o Salon des Ambassadeurs e, cansado de ser empurrado por tantos personagens nobres, caíra numa vaga divagação quando senti perto de mim o perfume da dama de negro.

— Pergunta-me o que é o "perfume da dama de negro"? Basta-lhe saber que é um perfume de que gosto muito, porque era o de uma senhora que fora muito gentil comigo na minha infância — uma senhora que eu sempre vira vestida de negro. A dama que, naquela noite, estava perfumada com o perfume da dama de negro, vestia-se de branco. Era maravilhosamente bela. Não pude evitar levantar-me e segui-la. Um velho ofereceu-lhe o braço e, à medida que passavam, ouvi vozes dizerem: "O professor Stangerson e a sua filha." Foi assim que soube quem era a pessoa que seguia.

— Encontraram o senhor Robert Darzac, a quem conhecia de vista. O professor Stangerson, abordado pelo senhor Arthur William Rance, um dos sábios americanos, sentou-se na grande galeria, e o senhor Robert Darzac conduziu a mademoiselle Stangerson até ao jardim de inverno. Segui-os. O tempo estava muito ameno naquela noite; as portas do jardim estavam abertas. A mademoiselle Stangerson lançou um xaile aos ombros e vi claramente que era ela quem pedia ao senhor Darzac para a acompanhar ao jardim. Continuei a segui-los, interessado pela agitação manifestamente exibida pelo porte do senhor Darzac. Passaram lentamente ao longo do muro que confronta com a Avenue Marigny. Tomei a alameda central, caminhando paralelamente a eles, e depois atravessei para me aproximar. A noite estava escura e a relva abafava o som dos meus passos. Tinham parado sob a luz vacilante de um bico de gás e pareciam ambos debruçados sobre um papel que a mademoiselle Stangerson segurava, lendo algo que os interessava profundamente. Parei na escuridão e no silêncio.

— Nenhum deles me viu, e ouvi distintamente a mademoiselle Stangerson repetir, enquanto dobrava o papel: "O presbitério não perdeu nada do seu charme, nem o jardim o seu brilho!" — Foi dito num tom ao mesmo tempo zombeteiro e desesperado, seguido por uma explosão de riso tão nervoso que penso que as suas palavras nunca deixarão de ecoar nos meus ouvidos. Mas outra frase foi pronunciada pelo senhor Robert Darzac: "Terei então de cometer um crime para a conquistar?" Ele estava num estado de agitação extraordinário. Pegou na mão da mademoiselle Stangerson e manteve-a por muito tempo junto aos lábios, e pensei, pelo movimento dos seus ombros, que ele estava a chorar. Depois, foram-se embora.

— Quando regressei à grande galeria — continuou Rouletabille —, não voltei a ver o senhor Robert Darzac e não o tornaria a ver até depois da tragédia no Glandier. A mademoiselle estava perto do senhor Rance, que falava com muita animação, os seus olhos, durante a conversa, brilhando com um fulgor singular. A mademoiselle Stangerson, pensei, nem sequer ouvia o que ele dizia, o seu rosto expressando perfeita indiferença. O rosto dele era o rosto vermelho de um ébrio. Quando o senhor e a mademoiselle Stangerson partiram, ele foi ao bar e lá permaneceu. Juntei-me a ele e prestei-lhe um pequeno serviço no meio da multidão apertada. Agradeceu-me e disse-me que regressaria à América três dias depois, isto é, no dia 26 (o dia a seguir ao crime). Conversei com ele sobre Filadélfia; disse-me que lá vivera durante vinte e cinco anos e que fora lá que conhecera o ilustre professor Stangerson e a sua filha. Bebeu muito champanhe e, quando o deixei, estava quase ébrio.

— Tais foram as minhas experiências naquela noite, e deixo-o imaginar que efeito a notícia da tentativa de homicídio da mademoiselle Stangerson produziu em mim — com que força aquelas palavras pronunciadas pelo senhor Robert Darzac, "Terei então de cometer um crime para a conquistar?", me ocorreram. Não foi esta frase, contudo, que lhe repeti quando nos encontrámos aqui no Glandier. A sentença do presbitério e o jardim brilhante bastaram para abrir o portão do castelo. Se me pergunta se acredito agora que o senhor Darzac é o assassino, devo dizer que não. Não creio ter pensado isso alguma vez realmente. Na altura, não conseguia pensar seriamente em nada. Tinha tão poucas provas em que me basear. Mas precisava de ter imediatamente a prova de que ele não fora ferido na mão.

— Quando ficámos a sós, contei-lhe como por acaso ouvira parte da sua conversa com a mademoiselle Stangerson no jardim do Élysée; e quando lhe repeti as palavras: "Terei então de cometer um crime para a conquistar?", ele ficou muito perturbado, embora muito menos do que ficara ao ouvir-me repetir a frase sobre o presbitério. O que o deixou num estado de verdadeira consternação foi saber por mim que o dia em que ele fora encontrar-se com a mademoiselle Stangerson no Élysée era o próprio dia em que ela fora aos Correios buscar a carta. Era essa carta, talvez, que terminava com as palavras: "O presbitério não perdeu nada do seu charme, nem o jardim o seu brilho." A minha suposição foi confirmada pelo facto de eu ter encontrado, se se lembra, nas cinzas do laboratório, o fragmento de papel datado de 23 de outubro. A carta fora escrita e levantada nos Correios no mesmo dia.

— Não pode haver dúvida de que, ao regressar do Élysée naquela noite, a mademoiselle Stangerson tentara destruir aquele papel comprometer. Foi em vão que o senhor Darzac negou que aquela carta tivesse qualquer relação com o crime. Disse-lhe que, num caso tão cheio de mistério como este, ele não tinha o direito de esconder essa carta; que eu estava persuadido de que era de importância considerável; que o tom desesperado com que a mademoiselle Stangerson pronunciara a frase profética — que as suas próprias lágrimas, e a ameaça de um crime que ele professara após a leitura da carta — todos estes factos tendiam a não me deixar margem para dúvidas. O senhor Darzac ficou cada vez mais agitado, e decidi tirar partido do efeito que produzira nele. "Estava prestes a casar-se, senhor", disse eu negligentemente e sem olhar para ele, "e subitamente o seu casamento torna-se impossível por causa do autor daquela carta; porque, assim que a sua carta foi lida, falou da necessidade de um crime para conquistar a mademoiselle Stangerson. Portanto, há alguém entre si e ela — alguém que está a impedir o seu casamento com ela — alguém que tentou matá-la para que ela não fosse capaz de se casar!" E concluí com estas palavras: "Agora, senhor, só tem de me dizer em confiança o nome do assassino!" — As palavras que proferi devem tê-lo atingido de forma sinistra, pois, quando virei os olhos para ele, vi que o seu rosto estava macilento, o suor na testa e o terror visível nos seus olhos.

— "Senhor", disse-me ele, "vou pedir-lhe algo que pode parecer insano, mas em troca do qual coloco a minha vida nas suas mãos. Não deve dizer aos magistrados o que viu e ouviu no jardim do Élysée — nem a eles, nem a ninguém. Juro-lhe que sou inocente, e sei, sinto, que acredita em mim; mas preferiria ser tomado pelo culpado do que ver a justiça desviar-se por causa daquela frase: 'O presbitério não perdeu nada do seu charme, nem o jardim o seu brilho.' Os juízes não devem saber nada sobre essa frase. Todo este assunto está nas suas mãos. Senhor, deixo-o aí; mas esqueça a noite no Élysée. Centenas de outros caminhos estão abertos para si na sua busca pelo criminoso. Eu próprio abri-los-ei para si. Ajudá-lo-ei. Quer instalar-se aqui? — Pode permanecer aqui para fazer o que quiser. — Coma — durma aqui — vigie as minhas ações — as ações de todos aqui. Será o senhor do Glandier, senhor; mas esqueça a noite no Élysée."

Rouletabille fez aqui uma pausa para tomar fôlego. Compreendi agora o que parecera tão inexplicável no comportamento do senhor Robert Darzac para com o meu amigo, e a facilidade com que o jovem repórter pudera instalar-se no local do crime. A minha curiosidade não podia deixar de ser despertada por tudo o que ouvira. Pedi a Rouletabille que a satisfizesse ainda mais. O que acontecera no Glandier durante a última semana? — Não me tinha ele dito que havia indícios superficiais contra o senhor Darzac muito mais terríveis do que os da bengala encontrada por Larsan?

— Tudo parece apontar contra ele — respondeu o meu amigo —, e a situação está a tornar-se extremamente grave. O senhor Darzac parece não se importar muito com isso; mas nisso ele está errado. Eu estava interessado apenas na saúde da mademoiselle Stangerson, que melhorava diariamente, quando ocorreu algo ainda mais misterioso do que... do que o mistério do Quarto Amarelo!

— Impossível! — exclamei. — O que poderia ser mais misterioso do que isso?

— Vamos primeiro voltar ao senhor Robert Darzac — disse Rouletabille, acalmando-me. — Disse que tudo parece apontar contra ele. As marcas das botas bem feitas encontradas por Frédéric Larsan parecem ser realmente as pegadas do noivo da mademoiselle Stangerson. As marcas deixadas pela bicicleta podem ter sido feitas pela sua bicicleta. Ele costumava deixá-la no castelo; por que a levou a Paris nessa ocasião particular? Teria sido porque não ia voltar ao castelo? Teria sido porque, devido ao fim do seu casamento, as suas relações com os Stangerson iam cessar? Todos os que estão interessados no assunto afirmam que essas relações iam continuar inalteradas.

— Frédéric Larsan, contudo, acredita que toda a convivência tinha acabado. Desde o dia em que o senhor Darzac acompanhou a mademoiselle Stangerson aos Grands Magasins de la Louvre até ao dia seguinte ao crime, ele não tinha estado no Glandier. Lembre-se de que a mademoiselle Stangerson perdeu a sua retícula contendo a chave com a cabeça de latão enquanto estava na sua companhia. Daquele dia até à noite no Élysée, o professor da Sorbonne e a mademoiselle Stangerson não se viram; mas podem ter escrito um ao outro. A mademoiselle Stangerson foi aos Correios buscar uma carta que, segundo Larsan, foi escrita por Robert Darzac; pois, não sabendo nada do que se passara no Élysée, Larsan acredita que foi o próprio senhor Darzac quem roubou a retícula com a chave, com o intuito de forçar o seu consentimento, apoderando-se dos documentos preciosos do seu pai — documentos que ele lhe teria restituído com a condição de que o noivado fosse cumprido.

— Tudo isso teria sido uma hipótese muito duvidosa e quase absurda, como Larsan me admitiu, não fosse uma outra circunstância muito mais grave. Em primeiro lugar, eis algo que não fui capaz de explicar — o próprio senhor Darzac, no dia 24, fora aos Correios pedir a carta que a mademoiselle pedira e recebera na véspera. A descrição do homem que fez o pedido coincide em todos os aspetos com a aparência do senhor Darzac, que, em resposta às perguntas que lhe foram colocadas pelo magistrado instrutor, nega ter ido aos Correios. Ora, mesmo admitindo que a carta foi escrita por ele — o que não acredito —, ele sabia que a mademoiselle Stangerson a recebera, uma vez que a vira nas suas mãos no jardim do Élysée. Não poderia ter sido ele, então, quem fora aos Correios, no dia a seguir ao dia 24, pedir uma carta que sabia não estar mais lá.

— Para mim, parece claro que alguém, muito semelhante a ele, roubou a retícula da mademoiselle Stangerson e, nessa carta, tinha-lhe exigido algo que ela não lhe enviara. Ele deve ter ficado surpreendido com o fracasso do seu pedido, daí o seu pedido nos Correios, para saber se a sua carta fora entregue à pessoa a quem fora endereçada. Descobrindo que fora reclamada, terá ficado furioso. O que teria ele exigido? Ninguém, exceto a mademoiselle Stangerson, sabe. Então, no dia seguinte, é noticiado que ela fora assassinada durante a noite e, no dia seguinte, descobri que o professor fora, ao mesmo tempo, roubado por meio da chave referida na carta da *poste restante*. Pareceria, então, que o homem que foi aos Correios indagar pela carta deve ter sido o assassino. Todos estes argumentos Larsan aplica contra o senhor Darzac. Pode ter a certeza de que o magistrado instrutor, Larsan e eu próprio fizemos o nosso melhor para obter dos Correios detalhes precisos relativos ao singular personagem que lá apareceu no dia 24 de outubro. Mas nada foi aprendido. Não sabemos de onde veio — nem para onde foi. Para além da descrição que o faz assemelhar-se ao senhor Darzac, não sabemos nada.

— Anunciei nos principais jornais que uma generosa recompensa será dada a qualquer condutor de transporte público que tenha levado um passageiro ao nº 40, Correios, por volta das dez horas da manhã do dia 24 de outubro. As informações devem ser endereçadas a "M. R.", na redação do "Epoque"; mas não resultou qualquer resposta. O homem pode ter ido a pé; mas, como provavelmente estava com pressa, havia a hipótese de ele ter ido de táxi. Quem, pergunto-me noite e dia, é o homem que se assemelha tanto ao senhor Robert Darzac, e que se sabe também ter comprado a bengala que caiu nas mãos de Larsan?

— O facto mais grave é que o senhor Darzac estava, no próprio momento em que o seu sósia se apresentou nos Correios, escalado para uma conferência na Sorbonne. Ele não deu essa conferência, e um dos seus amigos tomou o seu lugar. Quando o questionei sobre como empregara o tempo, disse-me que fora dar um passeio no Bois de Boulogne. O que pensa de um professor que, em vez de dar a sua conferência, obtém um substituto para ir dar um passeio no Bois de Boulogne? Quando Frédéric Larsan lhe pediu informações sobre este ponto, ele respondeu calmamente que não era da conta dele como ele passava o seu tempo em Paris. Ao que o Fred jurou em voz alta que iria descobrir, sem a ajuda de ninguém.

— Tudo isto parece encaixar na hipótese do Fred, a saber, que o senhor Stangerson deixou o assassino escapar para evitar um escândalo. A hipótese é ainda corroborada pelo facto de Darzac estar no Quarto Amarelo e ter tido permissão para sair. Essa hipótese creio ser falsa. — Larsan está a ser enganado por ela, embora isso não me desagradasse, se não afetasse uma pessoa inocente. Ora, será que essa hipótese engana realmente Frédéric Larsan? Essa é a questão — essa é a questão.

— Talvez ele tenha razão — exclamei, interrompendo Rouletabille. — Tem a certeza de que o senhor Darzac é inocente? — Parece-me que são coincidências extraordinárias...

— As coincidências — respondeu o meu amigo — são as piores inimigas da verdade.

— O que pensa agora o magistrado instrutor sobre o assunto?

— O senhor de Marquet hesita em acusar o senhor Darzac, na ausência de provas absolutas. Não só teria a opinião pública inteiramente contra si, para não mencionar a Sorbonne, mas também o senhor e a mademoiselle Stangerson. Ela adora o senhor Robert Darzac. Por muito indistintamente que ela tenha visto o assassino, seria difícil fazer o público acreditar que ela não o poderia ter reconhecido, se Darzac tivesse sido o criminoso. Sem dúvida, o Quarto Amarelo estava muito pouco iluminado; mas uma luz de presença, por mais pequena que seja, dá alguma claridade. Aqui, meu rapaz, é como as coisas estavam quando, há três dias, ou melhor, três noites, ocorreu um incidente extraordinariamente estranho.

Capítulo XIV

"Espero o Assassino esta Noite"

— Tenho de o levar — disse Rouletabille —, para que possa compreender, aos vários cenários. Eu próprio creio ter descoberto o que todos os outros procuram, a saber, como o assassino escapou do Quarto Amarelo, sem qualquer cúmplice e sem que a mademoiselle Stangerson tivesse tido algo a ver com isso. Mas, enquanto não tiver a certeza do verdadeiro assassino, não posso declarar a teoria na qual estou a trabalhar. Só posso dizer que creio que é a correta e, em qualquer caso, uma teoria bastante natural e simples. Quanto ao que aconteceu neste local há três noites, devo dizer que me deixou a matutar durante um dia e uma noite inteiros. Ultrapassa toda a crença. A teoria que formei a partir do incidente é tão absurda que preferiria que as coisas permanecessem ainda por explicar.

Dizendo isto, o jovem repórter convidou-me a ir fazer o tour pelo castelo com ele. O único som que se ouvia era o ranger das folhas secas sob os nossos pés. O silêncio era tão intenso que se poderia pensar que o castelo fora abandonado. As pedras antigas, a água estagnada do fosso que circundava o donjon, o solo sombrio coberto de folhas mortas, os contornos escuros e esqueléticos das árvores, tudo contribuía para dar ao lugar desolado, agora preenchido pelo seu terrível mistério, um aspeto fúnebre. Ao passarmos em volta do donjon, encontrámos o Homem Verde, o guarda-florestal, que não nos cumprimentou, mas passou como se não existíssemos. Ele estava com o aspeto que eu vira anteriormente através da janela da estalagem do Donjon. Tinha ainda a sua caçadeira às costas, o cachimbo na boca e os óculos sobre o nariz.

— Um peixe de espécie estranha! — disse-me Rouletabille, em tom baixo.

— Já falou com ele? — perguntei.

— Sim, mas não consegui tirar nada dele. As suas únicas respostas são resmungos e encolheres de ombros. Vive geralmente no primeiro andar do donjon — um quarto grande que serviu outrora de oratório. Vive como um urso, nunca sai sem a sua espingarda e só é agradável com as raparigas. As mulheres, num raio de doze milhas, estão todas a tentar seduzi-lo. Por agora, está a cortejar a senhora Mathieu, cujo marido, por consequência, a vigia com olhos de lince.

Depois de passar o donjon, que se situa na extremidade da ala esquerda, fomos para a parte de trás do castelo. Rouletabille, apontando para uma janela que reconheci como a única pertencente ao apartamento da mademoiselle Stangerson, disse-me:

— Se estivesse aqui, há duas noites, teria visto o seu humilde servo no topo de uma escada, prestes a entrar no castelo por essa janela.

Como exprimi alguma surpresa perante este exercício de ginástica noturna, ele pediu-me que observasse cuidadosamente a disposição exterior do castelo. Voltámos então para o interior do edifício.

— Devo agora mostrar-lhe o primeiro andar do castelo, onde vivo — disse o meu amigo.

Para permitir que o leitor compreenda melhor a disposição destas partes da habitação, anexo um plano do primeiro andar da ala direita, desenhado por Rouletabille no dia seguinte ao fenómeno extraordinário que ocorreu, cujos detalhes estou prestes a relatar.

1. Posição onde Rouletabille colocou Frédéric Larsan.

2. Posição onde Rouletabille colocou o velho Jacques.

3. Posição onde Rouletabille colocou o senhor Stangerson.

4. Janela pela qual Rouletabille entrou.

5. Janela encontrada aberta por Rouletabille quando ele saiu do quarto. Ele fechou-a novamente. Todas as outras portas e janelas estavam trancadas.

6. Terraço que supera uma sala saliente no rés-do-chão.

Rouletabille fez-me sinal para o seguir por uma magnífica escadaria que terminava num patamar no primeiro andar. Deste patamar, podia passar-se para a ala direita ou para a ala esquerda do castelo através de uma galeria que dele se abria. Esta galeria, alta e larga, estendia-se ao longo de todo o comprimento do edifício e era iluminada pela parte da frente do castelo, voltada para norte. Os quartos, cujas janelas davam para sul, abriam-se a partir da galeria. O Professor Stangerson habitava a ala esquerda do edifício. A Mademoiselle Stangerson tinha o seu apartamento na ala direita.

Entrámos na galeria à direita. Um tapete estreito, estendido sobre o soalho de carvalho encerado, que brilhava como vidro, abafava o som dos nossos passos. Rouletabille pediu-me, em tom baixo, para caminhar com cuidado, pois estávamos a passar pela porta do apartamento da Mademoiselle Stangerson. Este consistia num quarto, uma antecâmara, uma pequena casa de banho, um boudoir e uma sala de estar. Podia passar-se de uma para outra destas divisões sem ter de percorrer a galeria. A galeria continuava a direito até à extremidade ocidental do edifício, onde era iluminada por uma janela alta (janela 2 no plano). A cerca de dois terços do seu comprimento, esta galeria unia-se, em ângulo reto, a outra galeria que seguia o curso da ala direita.

Para melhor acompanhar esta narrativa, chamaremos à galeria que conduz da escadaria até à janela oriental de "galeria direita", e à galeria que dela sai em ângulo reto de "galeria de desvio" (galeria sinuosa no plano). Era no ponto de encontro das duas galerias que Rouletabille tinha o seu quarto, contíguo ao de Frédéric Larsan, abrindo-se a porta de cada um para a "galeria de desvio", enquanto as portas do apartamento da Mademoiselle Stangerson davam para a "galeria direita". (Ver o Plano.)

Rouletabille abriu a porta do seu quarto e, depois de termos entrado, correu cuidadosamente o ferrolho. Eu ainda não tivera tempo de lançar um olhar pelo lugar onde ele tinha sido instalado, quando ele soltou um grito de surpresa e apontou para um par de óculos sobre uma mesa de apoio.

— O que fazem estes aqui? — perguntou ele.

Eu teria dificuldade em responder-lhe.

— Pergunto-me — disse ele — pergunto-me se é isto o que eu andava a procurar. Pergunto-me se estes são os óculos da reitoria!

Ele agarrou-os avidamente, com os dedos a acariciar o vidro. Depois, olhando para mim, com uma expressão de terror no rosto, murmurou: — Oh! — Oh!

Repetiu a exclamação vezes sem conta, como se os seus pensamentos lhe tivessem subitamente transtornado o espírito.

Levantou-se e, pondo a mão no meu ombro, riu-se como um demente enquanto dizia:

— Esses óculos vão deixar-me louco! Matematicamente falando, a coisa é possível; mas humanamente falando, é impossível — ou depois — ou depois...

Dois toques leves soaram na porta. Rouletabille abriu-a. Uma figura entrou. Reconheci a porteira, que tinha visto quando ela estava a ser levada para o pavilhão para ser interrogada. Fiquei surpreendido, pensando que ela ainda estava sob detenção. Esta mulher disse em tom muito baixo:

— No bosque do parque.

Rouletabille respondeu: — Obrigado. — A mulher saiu então. Ele voltou-se novamente para mim, com o olhar abatido, depois de ter fechado cuidadosamente a porta, murmurando algumas frases incompreensíveis.

— Se a coisa é matematicamente possível, por que não haveria de ser humanamente! — E se é humanamente possível, o assunto é simplesmente terrível.

Interrompi-o no seu solilóquio:

— Então, puseram os porteiros em liberdade? — perguntei.

— Sim — respondeu ele —, eu fiz com que os libertassem. Precisava de pessoas em quem pudesse confiar. A mulher é-me profundamente devota, e o marido daria a vida por mim.

— Oh! — disse eu. — Quando é que ele terá ocasião de o fazer?

— Esta noite — pois esta noite espero o assassino.

— Espera o assassino esta noite? Então conhece-o?

— Hei-de conhecê-lo; mas seria loucura afirmar, categoricamente, neste momento, que o conheço. A ideia matemática que tenho do assassino produz resultados tão assustadores, tão monstruosos, que espero que ainda seja possível estar enganado. Espero-o, com todo o meu coração!

— Há cinco minutos, não conhecia o assassino; como pode dizer que o espera esta noite?

— Porque sei que ele tem de vir.

Rouletabille encheu o cachimbo muito lentamente e acendeu-o. Isso significava uma história interessante. Nesse momento, ouvimos alguém a caminhar na galeria e a passar diante da nossa porta. Rouletabille escutou. O som do passo desvaneceu-se ao longe.

— Frédéric Larsan está no quarto dele? — perguntei, apontando para a divisória.

— Não — respondeu o meu amigo. — Ele foi a Paris esta manhã — ainda no encalço de Darzac, que também partiu para Paris. Esse assunto vai correr mal. Espero que o senhor Darzac seja preso no decorrer da próxima semana. O pior é que tudo parece estar aliado contra ele — as circunstâncias, as coisas, as pessoas. Não passa uma hora sem trazer uma nova prova contra ele. O juiz de instrução está sobrecarregado com isso — e cego.

— Frédéric Larsan, contudo, não é um principiante — disse eu.

— Eu pensava isso — disse Rouletabille, com um esgar ligeiramente desdenhoso nos lábios —, imaginava que ele fosse um homem muito mais capaz. Tive, aliás, uma grande admiração por ele, antes de conhecer o seu método de trabalho. É deplorável. Ele deve a sua reputação apenas à sua habilidade; mas falta-lhe poder de raciocínio — a matemática das suas ideias é muito fraca.

Olhei atentamente para Rouletabille e não pude deixar de sorrir ao ouvir aquele rapaz de dezoito anos falar de um homem que provara ao mundo ser o melhor cão de fila da polícia na Europa.

— Tu sorris — disse ele —; estás errado! Juro que o hei-de superar — e de uma forma notável! Mas tenho de me apressar, pois ele tem uma vantagem enorme sobre mim — dada pelo senhor Robert Darzac, que esta noite a vai aumentar ainda mais. Pensa nisto! — cada vez que o assassino vem ao castelo, o senhor Darzac, por uma estranha fatalidade, ausenta-se e recusa-se a dar qualquer explicação sobre como emprega o seu tempo.

— Cada vez que o assassino vem ao castelo! — exclamei. — Ele voltou, então...?

— Sim, durante aquela famosa noite em que ocorreu o estranho fenómeno.

Eu ia agora aprender sobre o fenómeno espantoso ao qual Rouletabille tinha feito alusão meia hora antes, sem me dar qualquer explicação. Mas aprendera a nunca pressionar Rouletabille nas suas narrativas. Ele falava quando lhe apetecia e quando julgava ser o momento certo. Estava menos preocupado com a minha curiosidade do que com a elaboração de um balanço completo, para si próprio, de qualquer assunto importante em que estivesse interessado.

Finalmente, em frases curtas e rápidas, ele pôs-me ao corrente de coisas que me mergulharam num estado próximo do completo atordoamento. Na verdade, os resultados dessa ciência ainda desconhecida chamada hipnotismo, por exemplo, não eram mais inexplicáveis do que o desaparecimento da "matéria" do assassino no momento em que quatro pessoas estavam ao alcance dele. Falo de hipnotismo como falaria de eletricidade, pois da natureza de ambos somos ignorantes e pouco sabemos das suas leis. Cito estes exemplos porque, na altura, o caso parecia-me ser apenas explicável pelo inexplicável — isto é, por um evento fora das leis naturais conhecidas. E, no entanto, se eu tivesse o cérebro de Rouletabille, teria, como ele, tido um pressentimento da explicação natural; pois a coisa mais curiosa em todos os mistérios do caso Glandier era a forma natural como ele os explicava.

Tenho entre os papéis que me foram enviados pelo jovem, depois de o caso ter terminado, um caderno dele, no qual é dado um relato completo do fenómeno do desaparecimento da "matéria" do assassino e dos pensamentos a que isso deu origem na mente do meu jovem amigo. É preferível, creio, dar ao leitor este relato, em vez de continuar a reproduzir a minha conversa com Rouletabille; pois recearia, numa história desta natureza, acrescentar uma palavra que não estivesse de acordo com a mais estrita verdade.

Capítulo XV

A Armadilha

(Excerto do Caderno de Joseph Rouletabille)

"Ontem à noite — a noite entre 29 e 30 de outubro —", escreveu Joseph Rouletabille, "acordei por volta da uma da manhã. Teria sido insónia ou algum ruído lá fora? — O grito da Bête du Bon Dieu soou com uma sonoridade sinistra a partir do fim do parque. Levantei-me e abri a janela. Vento frio e chuva; escuridão opaca; silêncio. Fechei a minha janela novamente. De novo o som do grito estranho do gato ao longe. Vesti-me apressadamente, em parte. O tempo estava demasiado mau para que até um gato fosse posto na rua. O que significaria, então — aquela imitação do miar do gato da Mãe Angenoux tão perto do castelo? Agarrei num pau de bom tamanho, a única arma que tinha, e, sem fazer qualquer ruído, abri a porta.

"A galeria para a qual saí estava bem iluminada por um candeeiro com refletor. Senti uma corrente de ar intensa e, ao virar-me, encontrei a janela aberta, na extremidade da galeria, a que chamo de 'galeria de desvio', para a distinguir da 'galeria direita', para a qual se abria o apartamento da Mademoiselle Stangerson. Estas duas galerias cruzam-se em ângulo reto. Quem teria deixado aquela janela aberta? Ou, quem teria vindo abri-la? Fui até à janela e inclinei-me para fora. Cinco pés abaixo de mim havia uma espécie de terraço sobre a saliência semicircular de um quarto no rés-do-chão. Podia-se, se se quisesse, saltar da janela para o terraço e deixar-se cair dele para o pátio do castelo. Quem quer que tivesse entrado por este caminho não tinha, evidentemente, uma chave da porta do vestíbulo. Mas porque estaria eu a pensar na minha tentativa da noite anterior com a escada? — Por causa da janela aberta — deixada aberta, talvez, pela negligência de um criado? Fechei-a novamente, sorrindo da facilidade com que construía um drama sobre a mera sugestão de uma janela aberta.

"De novo o grito da Bête du Bon Dieu! — e depois silêncio. A chuva parou de bater na janela. Todo o castelo dormia. Caminhei com infinita precaução sobre o tapete da galeria. Ao chegar ao canto da 'galeria direita', espreitei com cautela. Havia lá outro candeeiro com refletor que iluminava completamente os vários objetos — três cadeiras e alguns quadros pendurados na parede. O que estava eu ali a fazer? Reinava um silêncio perfeito por todo o lado. Tudo estava mergulhado no repouso. Qual foi o instinto que me impeliu em direção ao quarto da Mademoiselle Stangerson? Por que é que uma voz dentro de mim gritava: 'Vai, para o quarto da Mademoiselle Stangerson!' Lancei os olhos para o tapete sobre o qual pisava e vi que os meus passos estavam a ser dirigidos para o quarto da Mademoiselle Stangerson pelos vestígios de passos que ali já tinham sido feitos. Sim, no tapete havia marcas de pegadas manchadas de lama que levavam ao quarto da Mademoiselle Stangerson. Horror! Horror! — Reconheci naquelas pegadas a impressão das botas elegantes do assassino! Ele tinha vindo, então, de fora nesta noite miserável. Se se podia descer da galeria pela janela, através do terraço, então podia-se entrar no castelo pelo mesmo meio.

"O assassino ainda estava no castelo, pois ali estavam marcas como de passos de retorno. Ele tinha entrado pela janela aberta na extremidade da 'galeria de desvio'; tinha passado pela porta de Frédéric Larsan e pela minha, tinha virado à direita e entrado no quarto da Mademoiselle Stangerson. Estou diante da porta da sua antecâmara — está aberta. Empurro-a, sem fazer o menor ruído. Por baixo da porta do próprio quarto vejo uma nesga de luz. Escuto — nenhum som — nem sequer de respiração! Ah! — se eu soubesse o que se passava no silêncio que havia atrás daquela porta! Encontro a porta trancada e a chave voltada pelo lado de dentro. E o assassino está lá, talvez. Ele deve estar lá! Será que ele escapará desta vez? — Tudo depende de mim! — Tenho de estar calmo e, acima de tudo, não devo dar passos em falso. Tenho de ver o que se passa naquele quarto. Posso entrar por lá através da sala de estar da Mademoiselle Stangerson; mas, para o fazer, teria de atravessar o seu boudoir; e, enquanto lá estiver, o assassino pode escapar pela porta da galeria — a porta diante da qual estou agora parado.

"Tenho a certeza de que não está a ser cometido nenhum outro crime, nesta noite; pois há um silêncio total no boudoir, onde duas enfermeiras cuidam da Mademoiselle Stangerson até que ela recupere a saúde.

"Como estou quase certo de que o assassino está lá, por que não dou o alarme imediatamente? O assassino pode, talvez, escapar; mas, talvez, eu possa salvar a vida da Mademoiselle Stangerson. Suponhamos que o assassino, nesta ocasião, não está ali para assassinar? A porta foi aberta para o deixar entrar; por quem? — E foi fechada novamente — por quem? — A Mademoiselle Stangerson tranca-se no seu apartamento com as suas enfermeiras todas as noites. Quem rodou a chave daquele quarto para deixar o assassino entrar? — As enfermeiras, duas domésticas fiéis? A velha camareira, Sylvia? É muito improvável. Além disso, elas dormiam no boudoir, e a Mademoiselle Stangerson, muito nervosa e cuidadosa, disse-me o senhor Robert Darzac, trata da sua própria segurança desde que está bem o suficiente para se mover no seu quarto, que ainda não a vi deixar. Este nervosismo e cuidado repentino da parte dela, que tinham impressionado o senhor Darzac, tinham-me, também, dado que pensar. Na altura do crime no Quarto Amarelo, não há dúvida de que ela esperava o assassino. Estaria ele a ser esperado esta noite? — Teria sido ela própria quem abrira a porta para ele? Teria ela alguma razão para o fazer? Estaria obrigada a fazê-lo? — Seria um encontro para fins criminosos? — Certamente não era um encontro amoroso, pois creio que a Mademoiselle Stangerson adora o senhor Darzac.

"Todas estas reflexões passaram pelo meu cérebro como um relâmpago. O que eu não daria para saber!

"É possível que houvesse alguma razão para o silêncio terrível. A minha intervenção poderia fazer mais mal do que bem. Como poderia eu saber? Como poderia saber se não poderia a qualquer momento causar outro crime? Se eu pudesse apenas ver e saber, sem quebrar aquele silêncio!

"Deixei a antecâmara e desci as escadas centrais até ao vestíbulo e, o mais silenciosamente possível, dirigi-me ao pequeno quarto no rés-do-chão onde o Papá Jacques dormia desde o ataque ao pavilhão.

"Encontrei-o vestido, com os olhos bem abertos, quase abatido. Ele não pareceu surpreendido ao ver-me. Disse-me que se tinha levantado porque ouvira o grito da Bête du bon Dieu, e porque ouvira passos no parque, perto da sua janela, pela qual tinha olhado e, nesse preciso momento, vira uma sombra negra passar. Perguntei-lhe se tinha alguma arma de fogo. Não, já não a guardava desde que o juiz de instrução lhe tinha confiscado o revólver. Saímos juntos, por uma pequena porta traseira, para o parque, e esgueirámo-nos ao longo do castelo até ao ponto que fica logo abaixo da janela da Mademoiselle Stangerson.

"Coloquei o Papá Jacques contra a parede, ordenando-lhe que não se mexesse do lugar, enquanto eu, aproveitando um momento em que a lua estava oculta por uma nuvem, me movi para a frente da janela, fora da mancha de luz que vinha dela — pois a janela estava entreaberta! Se eu pudesse apenas saber o que se passava naquele quarto silencioso! Voltei para junto do Papá Jacques e sussurrei a palavra 'escada' ao seu ouvido. De início, tinha pensado na árvore que, há uma semana, me serviu de observatório; mas vi imediatamente que, pela forma como a janela estava entreaberta, eu não conseguiria ver daquele ponto de observação nada do que se passava no quarto; e eu queria, não apenas ver, mas ouvir, e — agir.

"Muito agitado, quase a tremer, o Papá Jacques desapareceu por um momento e voltou sem a escada, mas fazendo-me sinais com os braços, como sinais para que eu fosse rapidamente ter com ele. Quando cheguei perto dele, ele arquejou: 'Venha!'

"Ele guiou-me à volta do castelo, passando pelo torreão. Chegado lá, disse:

"— Fui ao torreão em busca da minha escada, e na parte inferior do torreão que serve a mim e ao jardineiro de arrecadação, encontrei a porta aberta e a escada levada. Ao sair, foi isto que avistei à luz da lua.

"E apontou para a extremidade do castelo, onde uma escada estava encostada aos suportes de pedra do terraço, debaixo da janela que eu tinha encontrado aberta. A saliência do terraço tinha-me impedido de a ver. Graças àquela escada, era muito fácil entrar na 'galeria de desvio' do primeiro andar, e não tive dúvidas de que fora aquele o caminho tomado pelo desconhecido.

"Corremos para a escada, mas no momento de a alcançar, o Papá Jacques chamou a minha atenção para a porta entreaberta do pequeno quarto semicircular, situado debaixo do terraço, na extremidade da ala direita do castelo, tendo o terraço como telhado. O Papá Jacques empurrou a porta um pouco mais e espreitou para dentro.

"— Ele não está aqui! — sussurrou.

"— Quem não está aqui?

"— O guarda-florestal.

"Com os lábios novamente junto ao meu ouvido, acrescentou:

"— Sabe que ele dorme no quarto superior do torreão desde que foi restaurado? E com o mesmo gesto apontou para a porta entreaberta, a escada, o terraço e as janelas na 'galeria de desvio' que, pouco tempo antes, eu tinha fechado.

"Quais eram os meus pensamentos então? Não tive tempo de pensar. Senti mais do que pensei.

"Evidentemente, pensei, se o guarda-florestal está lá em cima no quarto (digo, se, porque neste momento, para além da presença da escada e do seu quarto vazio, não há provas que me permitam sequer suspeitar dele) — se ele está lá, teve de passar pela escada, e os quartos que ficam atrás do seu, no seu novo alojamento, são ocupados pela família do intendente e pelo cozinheiro, e pelas cozinhas, que bloqueiam o caminho pelo vestíbulo para o interior do castelo. E se ele estivesse lá durante a noite sob qualquer pretexto, teria sido fácil para ele ir à galeria e ver que a janela podia ser simplesmente aberta do lado de fora. Esta questão da janela destrancada restringia facilmente o campo de busca do assassino. Ele deve pertencer à casa, a menos que tivesse um cúmplice, o que não creio que tivesse; a menos — a menos que a própria Mademoiselle Stangerson tivesse visto que aquela janela não estava trancada por dentro. Mas, então — qual poderia ser o segredo terrível que a tornava na necessidade de eliminar os obstáculos que a separavam do assassino?

"Agarrei na escada e voltámos para a parte de trás do castelo para ver se a janela do quarto ainda estava entreaberta. O estore estava descido mas não se unia, permitindo que uma nesga brilhante de luz escapasse e caísse no caminho aos nossos pés. Plantei a escada debaixo da janela. Estou quase certo de que não fiz qualquer ruído; e enquanto o Papá Jacques permanecia ao pé da escada, subi-a, muito silenciosamente, com o meu pau robusto na mão. Prendi a respiração e levantei os pés com o máximo cuidado. De repente, uma nuvem pesada descarregou nesse momento num novo aguaceiro de chuva."

No mesmo instante, o grito sinistro da Bête du bon Dieu deteve-me na minha ascensão. Pareceu-me ter vindo de bem perto — a apenas alguns metros de distância. Seria o grito um sinal? Teria algum cúmplice do homem visto-me na escada? Levaria o grito o homem à janela? Talvez! Ah, ei-lo à janela! Senti a sua cabeça acima de mim. Ouvi o som da sua respiração! Não podia olhar para cima na direção dele; o mais leve movimento da minha cabeça e — eu poderia estar perdido. Ver-me-ia ele? Espreitaria para a escuridão? Não; ele afastou-se. Não tinha visto nada. Senti, mais do que ouvi, que ele se movia na ponta dos pés pelo quarto; e subi mais alguns degraus. A minha cabeça chegou ao nível do parapeito da janela; a minha testa elevou-se acima dele; os meus olhos espreitaram através da abertura das persianas — e vi —

Um homem sentado à pequena secretária de Mademoiselle Stangerson, a escrever. As costas estavam voltadas para mim. Uma vela estava acesa diante dele e ele debruçava-se sobre a chama, cuja luz projetava sombras disformes. Não vi nada além de umas costas monstruosas e curvadas.

A própria Mademoiselle Stangerson não estava lá! A sua cama não tinha sido usada! Onde, então, estaria ela a dormir naquela noite? Sem dúvida, no quarto anexo com as suas criadas. Talvez isto fosse apenas um palpite. Tinha de me contentar com a alegria de encontrar o homem sozinho. Tinha de manter a calma para preparar a minha armadilha.

Mas quem, então, é este homem que escreve ali diante dos meus olhos, sentado à secretária, como se estivesse na sua própria casa? Se não tivesse havido aquela escada debaixo da janela; se não tivesse havido aquelas pegadas no tapete da galeria; se não tivesse havido aquela janela aberta, eu poderia ter sido levado a pensar que este homem tinha o direito de estar ali, e que ali estava naturalmente e por razões sobre as quais, até ao momento, eu nada sabia. Mas não restavam dúvidas de que este desconhecido misterioso era o homem do Quarto Amarelo — o homem a cujo ataque assassino Mademoiselle Stangerson — sem o denunciar — tivera de se submeter. Se ao menos eu pudesse ver-lhe o rosto! Surpreendê-lo e capturá-lo!

Se eu saltar para dentro do quarto neste momento, ele escapará pela porta da direita que dá para o boudoir — ou, atravessando a sala de estar, chegará à galeria e eu perdê-lo-ei. Tenho-o agora e, dentro de cinco minutos, ele estará mais seguro do que se eu o tivesse numa jaula. O que faz ele ali, sozinho no quarto de Mademoiselle Stangerson? O que escreve ele? Desço e coloco a escada no chão. O Papá Jacques segue-me. Reentramos no castelo. Envio o Papá Jacques para acordar Monsieur Stangerson e instruo-o a aguardar a minha chegada no quarto de Mademoiselle Stangerson e a não dizer nada de definitivo a ele antes da minha vinda. Irei acordar Frédéric Larsan. É um aborrecimento ter de o fazer, pois gostaria de ter trabalhado sozinho e de ter levado todos os louros deste caso, mesmo debaixo do nariz do detetive adormecido. Mas o Papá Jacques e Monsieur Stangerson são homens idosos, e eu ainda não estou totalmente desenvolvido. Poderia não ser forte o suficiente. Larsan está habituado a lutar e a pôr as algemas. Ele abriu os olhos inchados de sono, pronto para me mandar embora, sem acreditar minimamente nas minhas fantasias de repórter. Tive de o assegurar de que o homem estava lá!

— Isso é estranho! — disse ele. — Pensei tê-lo deixado esta tarde em Paris.

Ele vestiu-se à pressa e armou-se com um revólver. Entrámos silenciosamente na galeria.

— Onde está ele? — perguntou Larsan.

— No quarto de Mademoiselle Stangerson.

— E — Mademoiselle Stangerson?

— Ela não está lá dentro.

— Vamos entrar.

— Não vá lá! Ao menor alarme, o homem escapará. Ele tem quatro vias pelas quais o pode fazer — a porta, a janela, o boudoir ou o quarto onde as mulheres estão a dormir.

— Atraí-lo-ei por baixo.

— E se falhar? Se apenas conseguir feri-lo — ele escapará novamente, sem contar que está certamente armado. Não, deixe-me dirigir a expedição e eu respondo por tudo.

— Como queira — respondeu ele, com bastante boa vontade.

Então, depois de me certificar de que todas as janelas das duas galerias estavam devidamente seguras, coloquei Frédéric Larsan no fim da galeria «de desvio», diante da janela que eu encontrara aberta e tornara a fechar.

— Sob nenhuma circunstância — disse-lhe eu — deve mover-se deste posto até que eu o chame. As probabilidades são iguais de que o homem, ao ser perseguido, volte a esta janela e tente salvar-se por esse caminho; pois foi por esse caminho que ele entrou e preparou a sua fuga. Tem um posto perigoso.

— Qual será o seu? — perguntou Fred.

— Eu saltarei para dentro do quarto e derrubá-lo-ei para si.

— Leve o meu revólver — disse Fred — e eu levarei o seu bastão.

— Obrigado — disse eu. — É um homem corajoso.

Aceitei a sua oferta. Eu ia ficar sozinho com o homem que escrevia no quarto e estava realmente agradecido por ter a arma.

Deixei Fred, tendo-o colocado à janela (n.º 5 no plano), e, com a maior precaução, dirigi-me para o apartamento de Monsieur Stangerson, na ala esquerda do castelo. Encontrei-o com o Papá Jacques, que obedecera fielmente às minhas instruções, limitando-se a pedir ao seu amo que se vestisse o mais rapidamente possível. Em poucas palavras, expliquei a Monsieur Stangerson o que estava a acontecer. Ele armou-se com um revólver, seguiu-me e, rapidamente, estávamos os três na galeria. Desde que vira o assassino sentado à secretária, tinham decorrido dez minutos. Monsieur Stangerson queria saltar imediatamente sobre o assassino e matá-lo. Fi-lo compreender que, acima de tudo, não devia, no seu desejo de o matar, falhar o alvo.

Quando lhe jurei que a sua filha não estava no quarto e que não corria perigo, ele venceu a sua impaciência e deixou-me dirigir as operações. Disse-lhes que deviam vir ter comigo no momento em que eu os chamasse, ou quando eu disparasse o meu revólver. Enviei então o Papá Jacques para se colocar diante da janela no fim da galeria «da direita». (n.º 2 no meu plano.) Escolhi essa posição para o Papá Jacques porque acreditava que o assassino, cercado, ao sair do quarto, correria através da galeria em direção à janela que deixara aberta e, vendo instantaneamente que estava guardada por Larsan, continuaria o seu curso ao longo da galeria «da direita». Ali encontraria o Papá Jacques, que o impediria de saltar da janela para o parque. Debaixo dessa janela havia uma espécie de contraforte, enquanto todas as outras janelas das galerias estavam a uma altura tal do solo que era quase impossível saltar delas sem partir o pescoço. Todas as portas e janelas, incluindo as do arrecadação no fim da galeria «da direita» — como me certificara rapidamente — estavam fortemente seguras.

Tendo indicado ao Papá Jacques o posto que deveria ocupar e tendo-o visto assumir a sua posição, coloquei Monsieur Stangerson no patamar, no cimo da escada, não longe da porta da antecâmara da sua filha. Tudo me levava a supor que, quando eu surpreendesse o assassino no quarto, ele correria pelo caminho da antecâmara, em vez do boudoir, onde estavam as mulheres e cuja porta devia ter sido trancada pela própria Mademoiselle Stangerson se, como eu pensava, ela se tinha refugiado no boudoir com o propósito de evitar o assassino que vinha vê-la. Em todo o caso, ele teria de voltar à galeria, onde os meus homens o aguardavam em todas as saídas possíveis.

Ao chegar lá, veria à sua esquerda Monsieur Stangerson; virar-se-ia para a direita, em direção à galeria «de desvio» — o caminho que pré-arranjara para a fuga, onde, na interseção das duas galerias, veria imediatamente, como expliquei, à sua esquerda, Frédéric Larsan no fim da galeria «de desvio» e, à frente, o Papá Jacques, no fim da galeria «da direita». Monsieur Stangerson e eu chegaríamos pelas traseiras do castelo. — Ele é nosso! — Já não nos pode escapar! Estava certo disso.

O plano que eu formara parecia-me o melhor, o mais seguro e o mais simples. Teria sido, sem dúvida, ainda mais simples se tivéssemos podido colocar alguém diretamente atrás da porta do boudoir de Mademoiselle, que dava para o seu quarto de dormir e, dessa forma, estarmos em posição de cercar as duas portas do quarto em que o homem estava. Mas não podíamos penetrar no boudoir exceto através da sala de estar, cuja porta tinha sido trancada por dentro por Mademoiselle Stangerson. Mas, mesmo que tivesse tido a livre disposição do boudoir, ter-me-ia mantido no plano que formara; porque qualquer outro plano de ataque nos teria separado no momento da luta com o homem, enquanto o meu plano unia todos nós para o ataque, num local que eu escolhera com precisão quase matemática — a interseção das duas galerias.

Tendo colocado os meus homens desta forma, saí novamente do castelo, apressei-me para a minha escada e, recolocando-a, subi, revólver em punho.

Se houver alguém inclinado a sorrir por eu tomar tantas medidas de precaução, remeto-o para o mistério do Quarto Amarelo e para todas as provas que temos da estranha astúcia do assassino. Além disso, se houver alguns que achem as minhas observações desnecessariamente minuciosas num momento em que deveriam estar completamente presas à rapidez de movimento e decisão de ação, respondo que desejei relatar aqui, longa e completamente, todos os detalhes de um plano de ataque concebido tão rapidamente que é apenas a lentidão da minha pena que dá uma aparência de lentidão à execução. Desejei, por esta lentidão e precisão, estar certo de que nada fosse omitido das condições sob as quais o estranho fenómeno foi produzido, o que, até que surja alguma explicação natural para ele, me parece provar, ainda melhor do que as teorias do Professor Stangerson, a Dissociação da Matéria — diria mesmo, a Dissociação instantânea da Matéria.

Capítulo XVI

Estranho fenómeno da Dissociação da Matéria

(Excerto do caderno de notas de Joseph Rouletabille, continuação)

— Estou novamente no parapeito da janela — continua Rouletabille — e, mais uma vez, levanto a cabeça acima dele. Através de uma abertura nas cortinas, cuja disposição não foi alterada, estou pronto a olhar, ansioso por notar a posição em que vou encontrar o assassino — se as suas costas estarão ainda voltadas para mim! — se ele ainda está sentado à secretária a escrever! Mas talvez — talvez — ele já lá não esteja! — Mas como poderia ele ter fugido? — Não estava eu na posse da sua escada? Forço-me a manter a calma. Levanto a cabeça ainda mais. Olho — ele ainda lá está. Vejo as suas costas monstruosas, deformadas pela sombra projetada pela vela. Já não está a escrever agora, e a vela está sobre o soalho, sobre o qual ele se inclina — uma posição que serve o meu propósito.

Prendo a respiração. Subo a escada. Estou no degrau mais alto dela e, com a mão esquerda, seguro o parapeito da janela. Neste momento de sucesso iminente, sinto o meu coração a bater descompassado. Ponho o meu revólver entre os dentes. Um salto rápido e estarei no parapeito da janela. Mas — a escada! Eu fora obrigado a carregar nela com força e, mal o meu pé a deixou, senti-a a oscilar debaixo de mim. Ela raspou na parede e caiu. Mas, já os meus joelhos tocavam no parapeito da janela e, com um movimento rápido como um relâmpago, trepei para cima dele.

Mas o assassino tinha sido ainda mais rápido do que eu. Ele ouvira o ranger da escada na parede e vi as costas monstruosas do homem erguerem-se. Vi a sua cabeça. Tê-la-ei realmente visto? — A vela no soalho iluminava apenas as suas pernas. Acima da altura da mesa, o quarto estava na escuridão. Vi um homem com cabelos longos, barba farta, olhos selvagens, um rosto pálido, emoldurado por grandes suíças — tanto quanto pude distinguir e, creio eu — de cor ruiva. Não conhecia o rosto. Essa foi, em suma, a principal sensação que recebi daquele rosto na meia-luz ténue em que o vi. Não o conhecia — ou, pelo menos, não o reconheci.

Agora, ação rápida! Era, de facto, tempo para isso, pois quando eu estava prestes a passar as pernas pela janela, o homem vira-me, saltara para os pés, correra — como eu previra que faria — para a porta da antecâmara, teve tempo de a abrir e fugiu. Mas eu já estava atrás dele, revólver na mão, gritando: «Socorro!»

Como uma seta atravessei o quarto, mas notei uma carta sobre a mesa enquanto corria. Quase alcancei o homem na antecâmara, pois ele tinha perdido tempo a abrir a porta para a galeria. Voei sobre asas e, na galeria, estava apenas a alguns pés atrás dele. Ele tinha tomado, como eu supusera que faria, a galeria à sua direita — isto é, o caminho que preparara para a sua fuga. «Socorro, Jacques! — socorro, Larsan!» gritei. Ele não nos podia escapar! Soltei um grito de alegria, de vitória selvagem. O homem chegou à interseção das duas galerias quase dois segundos antes de mim para o encontro que eu preparara — o choque fatal que deveria, inevitavelmente, ocorrer naquele local! Corremos todos para o cruzamento — Monsieur Stangerson e eu vindo de uma ponta da galeria da direita, o Papá Jacques vindo da outra ponta da mesma galeria e Frédéric Larsan vindo da galeria «de desvio».

O homem não estava lá!

Olhámos uns para os outros estupidamente e com olhos aterrorizados. O homem tinha desaparecido como um fantasma. «Onde está ele — onde está ele?», perguntámos todos.

— É impossível que ele tenha escapado! — gritei, o meu terror dominado pela minha raiva.

— Eu toquei-lhe! — exclamou Frédéric Larsan.

— Senti o seu hálito no meu rosto! — gritou o Papá Jacques.

— Onde está ele? — onde está ele? — gritámos todos.

Corremos como loucos ao longo das duas galerias; visitámos portas e janelas — estavam fechadas, hermeticamente fechadas. Não tinham sido abertas. Além disso, a abertura de uma porta ou janela por este homem que caçávamos, sem que o tivéssemos percebido, teria sido mais inexplicável do que o seu desaparecimento?

Onde está ele? — onde está ele? — Ele não podia ter escapado por uma porta ou uma janela, nem por qualquer outro caminho. Ele não podia ter passado através dos nossos corpos!

Confesso que, por um momento, me senti «acabado». Pois a galeria estava perfeitamente iluminada e não havia nem alçapão, nem porta secreta nas paredes, nem qualquer espécie de esconderijo. Movemos as cadeiras e levantámos os quadros. Nada! — nada! Teríamos espreitado para dentro de um vaso de flores, se houvesse algum para espreitar!

Quando este mistério, graças a Rouletabille, foi naturalmente explicado, apenas com a ajuda da sua mente magistral, pudemos perceber que o assassino não escapara nem por uma porta, nem por uma janela, nem pelas escadas — um facto que os juízes não queriam admitir.

Capítulo XVII

A galeria inexplicável

(Excerto do caderno de notas de Joseph Rouletabille, continuação)

— Mademoiselle Stangerson apareceu à porta da sua antecâmara — continua o caderno de notas de Rouletabille. — Estávamos perto da sua porta na galeria onde este fenómeno inacreditável ocorrera. Há momentos em que se sente como se o cérebro estivesse prestes a explodir. Uma bala na cabeça, uma fratura do crânio, a sede da razão despedaçada — apenas com isto posso comparar a sensação que me esgotou e me deixou vazio de sentidos.

Felizmente, Mademoiselle Stangerson apareceu no limiar da sua antecâmara. Vi-a e isso ajudou a aliviar o meu estado de espírito caótico. Respirei-a — inalei o perfume da senhora de negro, a quem nunca mais voltaria a ver. Teria dado dez anos da minha vida — metade da minha vida — para ver mais uma vez a senhora de negro! Infelizmente! Já não a encontro senão de tempos a tempos — e, no entanto! — e, no entanto! como a memória daquele perfume — sentido apenas por mim — me transporta de volta aos dias da minha infância.¹ Foi este lembrete agudo, do meu amado perfume, da senhora de negro, que me fez ir ter com ela — vestida inteiramente de branco e tão pálida — tão pálida e tão bela! — no limiar da galeria inexplicável. O seu belo cabelo dourado, apanhado num nó na nuca, deixava visível a estrela vermelha na sua têmpera que quase fora a causa da sua morte. Quando segui pela primeira vez o rasto do mistério deste caso, imaginara que, na noite da tragédia no Quarto Amarelo, Mademoiselle Stangerson usara o cabelo em bandas. Mas, então, como poderia eu ter imaginado o contrário quando não estivera no Quarto Amarelo!

¹ Quando escrevi estas linhas, Joseph Rouletabille tinha dezoito anos — e falava da sua «juventude». Guardei o texto do meu amigo, mas informo aqui o leitor de que o episódio do mistério do Quarto Amarelo não tem ligação com o do perfume da senhora de negro. Não é minha culpa se, no documento que citei, Rouletabille achou por bem referir-se à sua infância.

Mas agora, desde a ocorrência da galeria inexplicável, eu não raciocinava de todo. Estava ali, estúpido, perante a aparição — tão pálida e tão bela — de Mademoiselle Stangerson. Ela estava vestida com um roupão de um branco onírico. Poder-se-ia tê-la tomado por um fantasma — um belo espectro. O seu pai tomou-a nos braços e beijou-a apaixonadamente, como se a tivesse recuperado após muito tempo perdida para ele. Não me atrevi a questioná-la. Ele levou-a para o quarto e seguimo-los — pois tínhamos de saber! — A porta do boudoir estava aberta. Os rostos aterrorizados das duas enfermeiras esticavam-se na nossa direção. Mademoiselle Stangerson perguntou o significado de toda aquela perturbação. O facto de ela não estar no seu próprio quarto explicava-se facilmente — muito facilmente. Ela tivera um desejo de não dormir naquela noite no seu quarto, mas no boudoir com as suas enfermeiras, trancando a porta para elas. Desde a noite do crime, ela experimentara sentimentos de terror e medos que a assaltavam e que são facilmente compreensíveis.

Mas quem poderia imaginar que, naquela noite particular em que ele viria, ela, por um mero acaso, decidiria fechar-se com as suas mulheres? Quem pensaria que ela agiria contra o desejo do seu pai de dormir na sala de estar? Quem poderia acreditar que a carta que estivera recentemente sobre a mesa do seu quarto já não estaria lá? Aquele que pudesse compreender tudo isto teria de assumir que Mademoiselle Stangerson sabia que o assassino estava a vir — ela não podia impedir que ele voltasse — sem o conhecimento do seu pai, sem o conhecimento de ninguém exceto de Monsieur Robert Darzac. Pois ele devia sabê-lo agora — talvez o soubesse antes! Lembrar-se-ia daquela frase no jardim do Élysée: «Terei então de cometer um crime para a conquistar?» Contra quem o crime, se não contra o obstáculo, contra o assassino? «Ah, eu matá-lo-ia com as minhas próprias mãos!» — E eu respondi: «Não respondeu à minha pergunta.» Essa era a pura verdade. Em verdade, em verdade, Monsieur Darzac conhecia o assassino tão bem que — embora querendo matá-lo ele próprio — tinha medo que eu o encontrasse. Só podia haver duas razões para ele me ter ajudado na minha investigação. Primeiro, porque eu o obriguei a fazê-lo; e, segundo, porque ela estaria melhor protegida.

«Estou no quarto — o quarto dela. Olho para ela, e também para o lugar onde a carta estivera momentos antes. Ela apoderou-se dela; estava evidentemente destinada a ela — evidentemente. Como ela treme! — Treme com a estranha história que o pai lhe conta, sobre a presença do assassino no seu quarto e sobre a perseguição. Mas vê-se claramente que ela não fica totalmente satisfeita com a garantia que lhe foi dada, até que lhe disseram que o assassino, por meios incompreensíveis, tinha conseguido escapar-nos.

«Segue-se então um silêncio. Que silêncio! Estamos todos ali — a olhar para ela —, o pai, Larsan, o Daddy Jacques e eu. Em que estaríamos nós a pensar naquele silêncio? Depois dos acontecimentos daquela noite, do mistério da galeria inexplicável, do facto prodigioso da presença do assassino no seu quarto, pareceu-me que todos os nossos pensamentos poderiam ter sido traduzidos nas palavras que lhe foram dirigidas: "Vós que conheceis este mistério, explicai-o a nós, e talvez possamos salvar-vos." Como eu ansiava por salvá-la — de si mesma e do outro! — Isso trouxe-me lágrimas aos olhos.

«Ela está ali, espalhando à sua volta o perfume da dama de negro. Finalmente, vejo-a, no silêncio do seu quarto. Desde a hora fatal do mistério do Quarto Amarelo, temos andado à volta desta mulher invisível e silenciosa para saber o que ela sabe. Os nossos desejos, a nossa vontade de saber devem ser um tormento para ela. Quem pode dizer que, se descobríssemos o segredo do seu mistério, isso não precipitaria uma tragédia mais terrível do que a que já aqui tinha ocorrido? Quem pode dizer se isso não significaria a sua morte? E, no entanto, isso levou-a perto da morte — e continuávamos sem saber nada. Ou, melhor, alguns de nós não sabem nada. Mas eu — se soubesse quem, saberia tudo. Quem? Quem? Não sabendo quem, devo permanecer em silêncio, por piedade dela. Pois não há dúvida de que ela sabe como ele escapou do Quarto Amarelo, e, contudo, guarda o segredo. Quando eu souber quem, falarei com ele — com ele!

«Ela olhava para nós agora — com um olhar distante nos olhos — como se não estivéssemos no quarto. Monsieur Stangerson quebrou o silêncio. Declarou que, doravante, já não se ausentaria dos aposentos da filha. Ela tentou opor-se em vão. Ele manteve-se firme no seu propósito. Instalar-se-ia ali naquela mesma noite, disse ele. Unicamente preocupado com a saúde da filha, censurou-a por ter deixado a cama. Depois, começou subitamente a falar-lhe como se ela fosse uma criança pequena. Sorriu-lhe e parecia não saber nem o que dizia nem o que fazia. O ilustre professor perdera o juízo. Mademoiselle Stangerson, num tom de terna angústia, disse: "Pai! — pai!" Daddy Jacques assoa-se, e o próprio Frédéric Larsan é obrigado a virar-se para esconder a sua emoção. Quanto a mim, não sou capaz nem de pensar nem de sentir. Senti um desprezo infinito por mim mesmo.

«Foi a primeira vez que Frédéric Larsan, tal como eu, se encontrou face a face com Mademoiselle Stangerson desde o ataque no Quarto Amarelo. Tal como eu, ele tinha insistido para que lhe fosse permitido questionar a infeliz senhora; mas, tal como eu, não lhe tinha sido permitido. A ele, como a mim, a mesma resposta tinha sido sempre dada: Mademoiselle Stangerson estava demasiado fraca para nos receber. Os interrogatórios do juiz de instrução tinham-na exaurido. Era evidente que não pretendiam dar-nos qualquer assistência nas nossas pesquisas. Não fiquei surpreendido; mas Frédéric Larsan sempre se ressentira desta conduta. É verdade que ele e eu tínhamos uma teoria totalmente diferente sobre o crime.

«Ainda me apanho a repetir do fundo do coração: "Salva-a! — salva-a sem que ele fale!" Quem é ele — o assassino? Apanhai-o e tapai-lhe a boca. Mas Monsieur Darzac deixou claro que, para lhe tapar a boca, ele teria de ser morto. Tenho o direito de matar o assassino de Mademoiselle Stangerson? Não, não tinha. Mas que ele me dê apenas a oportunidade! Que eu descubra se ele é realmente uma criatura de carne e osso! — Que eu veja o seu cadáver, já que não pode ser levado vivo.

«Se eu pudesse fazer esta mulher, que nem sequer olha para nós, compreender! Ela está absorvida pelos seus medos e pela angústia de espírito do seu pai. E eu não posso fazer nada para a salvar. Sim, vou voltar ao trabalho mais uma vez e realizar maravilhas.

«Avanço na sua direção. Quero falar com ela. Quero suplicar-lhe que tenha confiança em mim. Quero, numa palavra, fazê-la compreender — a ela sozinha — que sei como o assassino escapou do Quarto Amarelo — que adivinhei os motivos do seu segredo — e que a compadeço com todo o meu coração. Mas, com gestos, ela pediu-nos que a deixássemos em paz, expressando cansaço e a necessidade de repouso imediato. Monsieur Stangerson pediu-nos que voltássemos para os nossos quartos e agradeceu-nos. Frédéric Larsan e eu fizemo-lhe uma vénia e, seguidos por Daddy Jacques, voltámos à galeria. Ouvi Larsan murmurar: "Estranho! estranho!" Ele fez-me um sinal para ir com ele para o seu quarto. No limiar, virou-se para Daddy Jacques.

«— Viu-o distintamente? — perguntou ele.

«— Quem?

«— O homem?

«— Vê-lo! — ora, ele tinha uma grande barba ruiva e cabelo ruivo.

«— Foi assim que ele me apareceu — disse eu.

«— E a mim — disse Larsan.

«O grande Fred e eu estávamos sozinhos no seu quarto, agora, para discutir este assunto. Falámos durante uma hora, revirando a questão e observando-a de todos os ângulos. Pelas perguntas que ele fez, pela explicação que me dá, é claro para mim que — apesar de todos os nossos sentidos — ele está convencido de que o homem desapareceu por alguma passagem secreta no castelo, conhecida apenas por ele.

«— Ele conhece o castelo — disse-me ele; — conhece-o bem.

«— Ele é um homem bastante alto — bem constituído — sugeri eu.

«— Ele é tão alto quanto quiser ser — murmurou Fred.

«— Compreendo — disse eu; — mas como explica o seu cabelo e barba ruivos?

«— Demasiada barba — demasiado cabelo — falso — diz Fred.

«— Isso é fácil de dizer. Está sempre a pensar em Robert Darzac. Não consegue livrar-se dessa ideia? Estou certo de que ele é inocente.

«— Tanto melhor. Espero que sim; mas tudo o condena. Reparou nas marcas no tapete? — Venha vê-las.

«— Já as vi; são as marcas das botas bem feitas, as mesmas que vimos na margem do lago.

«— Pode negar que pertencem a Robert Darzac?

«— Claro, pode-se estar enganado.

«— Reparou que essas pegadas só vão numa direção? — que não há marcas de regresso? Quando o homem saiu do quarto, perseguido por todos nós, as suas pegadas não deixaram rasto atrás de si.

«— Ele, talvez, estivesse no quarto há horas. A lama das suas botas tinha secado, e ele moveu-se com tal rapidez nas pontas dos pés... Vimo-lo a correr, mas não ouvimos os seus passos.

«Pus subitamente fim a esta conversa ociosa — destituída de qualquer lógica, e fiz sinal a Larsan para ouvir.

«— Ali — em baixo; alguém está a fechar uma porta.

«Levanto-me; Larsan segue-me; descemos ao piso térreo do castelo. Levo-o à pequena sala semicircular sob o terraço, debaixo da janela da galeria "que se desvia". Aponto para a porta, agora fechada, aberta pouco tempo antes, sob a qual é visível um facho de luz.

«— O guarda-florestal! — diz Fred.

«— Vamos! — sussurro eu.

«Preparado — não sei porquê — para acreditar que o guarda é o homem culpado — vou até à porta e bato nela com força.

«Alguns poderiam pensar que demorámos bastante a pensar no guarda, uma vez que a nossa primeira tarefa, depois de termos descoberto que o assassino nos tinha escapado na galeria, deveria ter sido procurar em todos os outros lugares — em redor do castelo — no parque —

«Se esta crítica tivesse sido feita na altura, só poderíamos ter respondido que o assassino tinha desaparecido da galeria de tal forma que pensámos que ele já não estava em lado nenhum! Ele tinha-nos escapado quando todos tínhamos as mãos estendidas, prontos a agarrá-lo — quando quase lhe tocávamos. Já não tínhamos qualquer motivo para esperar que pudéssemos esclarecer o mistério daquela noite.

«Assim que bati à porta, ela abriu-se e o guarda perguntou-nos calmamente o que queríamos. Estava despido e a preparar-se para ir para a cama. A cama ainda não tinha sido desarrumada.

«Entrámos e eu fingi surpresa.

«— Ainda não se deitou?

«— Não — respondeu ele rudemente. — Estive a fazer uma ronda pelo parque e pelos bosques. Acabei de chegar — e estou com sono. Boa noite!

«— Escute — disse eu. — Há uma hora ou mais, havia uma escada perto da sua janela.

«— Que escada? — Não vi escada nenhuma. Boa noite!

«E ele simplesmente expulsou-nos do quarto. Quando estávamos lá fora, olhei para Larsan. O seu rosto era impenetrável.

«— Bem? — disse eu.

«— Bem? — repetiu ele.

«— Isso abre-lhe alguma nova perspetiva?

«Não havia como enganar-se quanto ao mau humor de Larsan. Ao reentrar no castelo, ouvi-o murmurar:

«— Seria estranho — muito estranho — se eu me tivesse enganado nesse ponto!

«Ele parecia estar a falar comigo mais do que consigo mesmo. Acrescentou:

«— De qualquer modo, saberemos em breve o que pensar. A manhã trará luz consigo.

Capítulo XVIII

Rouletabille traçou um círculo entre as duas saliências da sua testa

(Excerto do caderno de notas de Joseph Rouletabille, continuação)

«Separamo-nos no limiar dos nossos quartos, com um aperto de mão melancólico. Fiquei contente por ter despertado nele a suspeita de erro. O seu cérebro era original, muito inteligente, mas — sem método. Não fui para a cama. Aguardei o romper do dia e depois desci até à frente do castelo e fiz um desvio, examinando todos os vestígios de pegadas que vinham ou iam. Estas, contudo, estavam tão misturadas e confusas que não consegui tirar nada delas. Aqui posso fazer uma observação — não estou habituado a atribuir uma importância exagerada aos sinais exteriores deixados no rasto de um crime.

«O método que rastreia o criminoso através dos vestígios das suas pegadas é totalmente primitivo. Tantas pegadas são idênticas. Contudo, no estado perturbado da minha mente, fui ao pátio deserto e olhei para todas as pegadas que consegui encontrar lá, procurando alguma indicação como base para o raciocínio.

«Se eu pudesse encontrar um ponto de partida correto! Em desespero, sentei-me numa pedra. Durante mais de uma hora, ocupei-me com o trabalho comum e habitual de um polícia. Como o menos inteligente dos detetives, segui cegamente sobre os vestígios de pegadas que não me diziam mais do que podiam.

«Cheguei à conclusão de que era um tolo, inferior na escala de inteligência até à polícia dos romances modernos. Os romancistas constroem montanhas de estupidez a partir de uma pegada na areia ou de uma impressão de uma mão na parede. É assim que homens inocentes são levados para a prisão. Pode convencer um juiz de instrução ou o chefe de um departamento de detetives, mas não é prova. Vocês, escritores, esquecem-se de que o que os sentidos fornecem não é prova. Se tomo conhecimento do que me é oferecido pelos sentidos, faço-o apenas para trazer os resultados para dentro do círculo da minha razão. Esse círculo pode ser o mais circunscrito, mas, se o for, tem esta vantagem — não contém nada a não ser a verdade! Sim, juro que nunca usei o testemunho dos sentidos senão como servos da minha razão. Nunca permiti que se tornassem meus mestres. Eles não fizeram de mim essa coisa monstruosa — pior do que um cego — um homem que vê falsamente. E é por isso que posso triunfar sobre o seu erro e a sua inteligência meramente animal, Frédéric Larsan.

«Tem coragem, então, amigo Rouletabille; é impossível que o incidente da galeria inexplicável esteja fora do círculo da tua razão. Tu sabes disso! Então tem fé e reflete consigo mesmo e não te esqueças de que agarraste a extremidade certa quando traçaste esse círculo no teu cérebro dentro do qual desvendar este misterioso jogo de circunstâncias.

«Ao trabalho, mais uma vez! Volta à galeria. Mantém-te na tua razão e descansa nela como Frédéric Larsan descansa na sua bengala. Provarás então em breve que o grande Fred não passa de um tolo. — 30 de outubro. Meio-dia.

«Joseph Rouletabille.»

* * * * *

«Agi como planeado. Com a cabeça em fogo, refiz o meu caminho até à galeria e, sem ter encontrado nada mais do que tinha visto na noite anterior, a presa certa que tinha tomado da minha razão levou-me a algo tão importante que fui obrigado a agarrar-me a isso para não cair.

«Agora, que venham a força e a paciência para encontrar vestígios sensíveis que se encaixem no meu pensamento — e estes devem entrar no círculo que tracei entre as duas saliências da minha testa! — 30 de outubro. Meia-noite.

«Joseph Rouletabille.»

Capítulo XIX

Rouletabille convida-me para o pequeno-almoço na estalagem Donjon

Só mais tarde é que Rouletabille me enviou o caderno de notas no qual tinha escrito longamente a história do fenómeno da galeria inexplicável. No dia em que cheguei ao Glandier e me reuni com ele no seu quarto, ele contou-me, com o maior detalhe, tudo o que acabo de relatar, contando-me também como tinha passado várias horas em Paris, onde não tinha aprendido nada que pudesse ser-lhe de alguma ajuda.

O acontecimento da galeria inexplicável tinha ocorrido na noite entre 29 e 30 de outubro, isto é, três dias antes do meu regresso ao castelo. Foi no dia 2 de novembro, então, que voltei ao Glandier, convocado pelo telegrama do meu amigo, e levando os revólveres comigo.

Estou agora no quarto de Rouletabille e ele terminou a sua recitação.

Enquanto ele contava a história, notei que ele esfregava continuamente as lentes dos óculos que tinha encontrado na mesa lateral. Pelo prazer evidente que sentia ao manuseá-los, senti que deviam ser uma daquelas evidências sensíveis destinadas a entrar no que ele tinha chamado o círculo da extremidade certa da sua razão. Aquela sua forma estranha e única de se exprimir em termos maravilhosamente adequados ao seu pensamento já não me surpreendia. Era frequentemente necessário conhecer o seu pensamento para compreender os termos que usava; e não era fácil penetrar no pensamento de Rouletabille.

O cérebro daquele rapaz era uma das coisas mais curiosas que já observei. Rouletabille seguia o curso uniforme do seu caminho sem suspeitar do espanto e até do desnorteio que causava nos outros. Tenho a certeza de que ele próprio não tinha a menor consciência da originalidade do seu génio. Ele era ele mesmo e sentia-se à vontade onde quer que estivesse.

Quando terminou a sua recitação, perguntou-me o que achava dela. Respondi que estava muito intrigado com a sua pergunta. Depois, pediu-me para tentar, por minha vez, tomar a minha razão pela "extremidade certa".

— Muito bem — disse eu. — Parece-me que o ponto de partida da minha razão seria este — não há dúvida de que o assassino que perseguiu estava na galeria. — Fiz uma pausa.

— Depois de ter feito um começo tão bom, não devias parar tão cedo — exclamou ele. — Vamos, faz outro esforço.

— Vou tentar. Uma vez que ele desapareceu da galeria sem passar por qualquer porta ou janela, deve ter escapado por alguma outra abertura.

Rouletabille olhou para mim com pena, sorriu com desdém e comentou que eu estava a raciocinar como um carteiro, ou — como Frédéric Larsan.

Rouletabille tinha acessos alternados de admiração e desdém pelo grande Fred. Tudo dependia de as descobertas de Larsan coincidirem ou não com o raciocínio de Rouletabille. Quando coincidiam, ele exclamava: "Ele é realmente grande!" Quando não coincidiam, ele resmungava e murmurava: "Que asno!" Era um lado mesquinho do caráter nobre deste jovem estranho.

Tínhamos-nos levantado e ele levou-me para o parque. Quando chegámos ao pátio e nos dirigíamos para o portão, o som das persianas a bater contra a parede fez-nos virar a cabeça e vimos, numa janela do primeiro andar do castelo, o rosto avermelhado e barbeado de uma pessoa que não reconheci.

— Olá! — murmurou Rouletabille. — Arthur Rance! — Ele baixou a cabeça, apressou o passo e ouvi-o perguntar a si mesmo entre dentes: "Estaria ele no castelo naquela noite? O que é que ele está aqui a fazer?"

Já tínhamos percorrido alguma distância do castelo quando lhe perguntei quem era este Arthur Rance e como tinha chegado a conhecê-lo. Ele referiu-se à sua história daquela manhã e lembrei-me de que o Sr. Arthur W. Rance era o americano de Filadélfia com quem tinha bebido tantas vezes na receção do Élysée.

— Mas ele não deveria ter deixado a França quase imediatamente? — perguntei.

— Sem dúvida; é por isso que estou surpreendido por encontrá-lo aqui ainda, e não só em França, mas acima de tudo, no Glandier. Ele não chegou esta manhã; e não chegou ontem à noite. Deve ter chegado antes do jantar, então. Porque é que os porteiros não me disseram?

Lembrei ao meu amigo, a propósito dos porteiros, que ele ainda não me tinha dito o que o levara a conseguir a sua libertação.

Estávamos perto da sua guarita. Monsieur e Madame Bernier viram-nos aproximar. Um sorriso franco iluminou os seus rostos felizes. Pareciam não guardar qualquer ressentimento por causa da sua detenção. O meu jovem amigo perguntou-lhes a que horas o Sr. Arthur Rance tinha chegado. Responderam que não sabiam que ele estava no castelo. Deve ter chegado durante a noite anterior, mas não tinham tido de abrir o portão para ele, porque, sendo um grande caminhante e não querendo que uma carruagem fosse enviada ao seu encontro, estava habituado a sair no pequeno povoado de Saint-Michel, de onde vinha para o castelo através da floresta. Chegava ao parque pela gruta de Sainte-Geneviève, sobre o pequeno portão da qual, que dava para o parque, ele trepava.

Enquanto os porteiros falavam, vi o rosto de Rouletabille obscurecer-se e exibir desapontamento — um desapontamento, sem dúvida, consigo mesmo. Evidentemente, ele estava um pouco vexado, depois de ter trabalhado tanto no local, com um estudo tão minucioso das pessoas e dos acontecimentos no Glandier, que tinha de saber agora que Arthur Rance estava habituado a visitar o castelo.

— Dizem que Monsieur Arthur Rance está habituado a vir ao castelo. Quando é que ele veio cá pela última vez?

— Não lhe podemos dizer exatamente — respondeu Madame Bernier — esse era o nome da porteira — não podíamos saber enquanto nos mantinham na prisão. Além disso, como o senhor vem ao castelo sem passar pelo nosso portão, vai-se embora pelo caminho por onde vem.

— Sabem quando ele veio pela primeira vez?

— Oh sim, Monsieur! — há nove anos.

— Ele estava em França há nove anos, então — disse Rouletabille — e, desde esse tempo, que saibam, quantas vezes esteve no Glandier?

— Três vezes.

— Quando é que ele veio da última vez, que saibam?

— Uma semana antes da tentativa no Quarto Amarelo.

Rouletabille fez outra pergunta — desta vez dirigindo-se particularmente à mulher:

— No bosque do parquete?

— No bosque do parquete — respondeu ela.

— Obrigado! — disse Rouletabille. — Estejam prontos para mim esta noite.

Ele disse as últimas palavras com um dedo sobre os lábios, como que para ordenar silêncio e discrição.

Deixámos o parque e seguimos o caminho para a estalagem Donjon.

— Come aqui frequentemente?

— Às vezes.

— Mas também faz as suas refeições no castelo?

— Sim, Larsan e eu somos por vezes servidos num dos nossos quartos.

— Monsieur Stangerson nunca o convidou para a sua própria mesa?

— Nunca.

— A sua presença no castelo desagrada-lhe?

— Não sei; mas, de qualquer modo, ele não nos faz sentir que estamos no seu caminho.

— Ele não o questiona?

— Nunca. Ele está no mesmo estado de espírito em que estava à porta do Quarto Amarelo quando a filha estava a ser assassinada, e quando ele arrombou a porta e não encontrou o assassino. Ele está persuadido, uma vez que nada conseguiu descobrir, de que não há razão para que possamos descobrir mais do que ele. Mas tornou seu dever, desde que Larsan apresentou a sua teoria, não se opor a nós.

Rouletabille mergulhou novamente em pensamentos por algum tempo. Mais tarde, despertou para me contar como conseguiu libertar os dois porteiros.

— Fui ultimamente ver Monsieur Stangerson e levei comigo um pedaço de papel no qual estava escrito: "Prometo, independentemente do que os outros digam, manter ao meu serviço os meus dois fiéis criados, Bernier e a sua mulher." Expliquei-lhe que, ao assinar aquele documento, ele permitir-me-ia obrigar aquelas duas pessoas a falar; e declarei a minha própria certeza da inocência deles em qualquer parte do crime. Essa era também a sua opinião. O juiz de instrução, depois de assinado, apresentou o documento aos Bernier, que então falaram. Disseram o que eu tinha a certeza de que diriam, assim que tivessem a certeza de que não perderiam o seu lugar.

— Confessaram que caçavam furtivamente nas propriedades de Monsieur Stangerson, e foi enquanto caçavam, na noite do crime, que foram encontrados não longe do pavilhão no momento em que o atentado estava a ser cometido. Alguns coelhos que apanharam dessa forma foram vendidos por eles ao proprietário da Estalagem Donjon, que os serviu aos seus clientes ou os enviou para Paris. Essa era a verdade, como eu tinha adivinhado desde o início. Lembra-se do que eu disse, ao entrar na Estalagem Donjon? — "Vamos ter de comer carne vermelha — agora!" Eu tinha ouvido as palavras na mesma manhã em que chegámos à porta do parque. Você ouviu-as também, mas não lhes deu qualquer importância. Lembra-se de que, quando chegámos à porta do parque, parámos para olhar para um homem que corria ao lado do muro, olhando a cada minuto para o seu relógio? Esse era Larsan. Bem, atrás de nós, o proprietário da Estalagem Donjon, de pé à porta, disse a alguém lá dentro: "Vamos ter de comer carne vermelha — agora."

— Por que esse "agora"? Quando se está, como eu, à procura de algum segredo escondido, não nos podemos dar ao luxo de deixar escapar nada. Temos de saber o significado de tudo. Tínhamos entrado numa parte do país bastante isolada que tinha sido virada do avesso por um crime, e a minha razão levou-me a suspeitar de cada frase que pudesse ter relação com o acontecimento do dia. "Agora", tomei como significando "desde o atentado". No decurso da minha investigação, portanto, procurei encontrar uma relação entre essa frase e a tragédia. Fomos à Estalagem Donjon para o pequeno-almoço; repeti a frase e vi, pela surpresa e pelo transtorno no rosto do Daddy Mathieu, que eu não tinha exagerado a sua importância, no que a ele dizia respeito.

— Eu tinha acabado de saber que os porteiros tinham sido presos. O Daddy Mathieu falou deles como se fossem amigos queridos — pessoas por quem se tem pena. Foi uma conjunção imprudente de ideias, disse a mim mesmo. "Agora", que os porteiros estão presos, "vamos ter de comer carne vermelha". Acabaram-se os porteiros, acabou-se a caça! O ódio expresso pelo Daddy Mathieu pelo guarda-florestal de Monsieur Stangerson — um ódio que ele fingia ser partilhado pelos porteiros — levou-me facilmente a pensar na caça furtiva. Ora, como todas as provas mostravam que os porteiros não tinham estado na cama à hora da tragédia, por que estariam fora naquela noite? Como participantes no crime? Não estava disposto a pensar assim. Já tinha chegado à conclusão, por passos dos quais lhe falarei mais tarde, de que o assassino não tinha tido cúmplice e que a tragédia continha um mistério entre Mademoiselle Stangerson e o assassino, um mistério com o qual os porteiros nada tinham a ver.

— Com essa teoria em mente, procurei provas na sua portaria, na qual, como sabe, entrei. Encontrei lá, debaixo da cama deles, algumas molas e arame de latão. "Ah!", pensei, "estas coisas explicam por que é que eles estavam fora no parque à noite!" Não me surpreendeu o silêncio obstinado que mantiveram perante o juiz de instrução, mesmo sob a acusação tão grave como a de serem cúmplices no crime. A caça furtiva salvá-los-ia do Tribunal de Assizes, mas custar-lhes-ia os seus lugares; e, como eles tinham a certeza absoluta da sua inocência quanto ao crime, esperavam que esta fosse em breve estabelecida, e então a sua caça furtiva poderia continuar como de costume. Poderiam sempre confessar mais tarde. Eu, contudo, apressei a sua confissão por meio do documento que Monsieur Stangerson assinou. Deram todas as "provas" necessárias, foram postos em liberdade e têm agora uma viva gratidão por mim. Por que não os libertei mais cedo? Porque não tinha a certeza de que nada mais do que a caça furtiva pesava sobre eles. Queria estudar o terreno. À medida que os dias passavam, a minha convicção tornava-se cada vez mais certa. No dia seguinte aos eventos da inexplicável galeria, precisei de ajuda em que pudesse confiar, por isso decidi tê-los libertados de imediato.

Foi assim que Joseph Rouletabille se explicou. Mais uma vez, não pude deixar de ficar espantado com a simplicidade do raciocínio que o tinha levado à verdade da questão. Certamente isto não era coisa pequena; mas penso, eu próprio, que o jovem irá, um destes dias, explicar com a mesma simplicidade a terrível tragédia no Quarto Amarelo, assim como o fenómeno da inexplicável galeria.

Chegámos à Estalagem Donjon e entrámos.

Desta vez não vimos o proprietário, mas fomos recebidos com um sorriso agradável pela hospedeira. Já descrevi o quarto em que nos encontrávamos e dei um vislumbre da charmosa mulher loira de olhos gentis que agora começava imediatamente a preparar o nosso pequeno-almoço.

— Como está o Daddy Mathieu? — perguntou Rouletabille.

— Não muito melhor — não muito melhor; ele ainda está confinado à cama.

— O reumatismo ainda lhe pega, então?

— Sim. Ontem à noite fui novamente obrigada a dar-lhe morfina — o único medicamento que lhe dá algum alívio.

Ela falou com uma voz suave. Tudo nela expressava gentileza. Era, de facto, uma mulher bonita; com um certo ar de indolência, com grandes olhos que pareciam pretos e azuis — olhos amorosos. Seria ela feliz com o seu marido rabugento e reumático? A cena a que tínhamos assistido não nos levava a crer que fosse; contudo, havia algo no seu porte que não sugeria desespero. Ela desapareceu para a cozinha para preparar a nossa refeição, deixando sobre a mesa uma garrafa de excelente cidra. Rouletabille encheu as nossas canecas de barro, carregou o seu cachimbo e explicou-me calmamente a razão de me ter pedido para ir ao Glandier com revólveres.

— Sim — disse ele, olhando contemplativamente para as nuvens de fumo que soltava —, sim, meu caro rapaz, espero o assassino esta noite.

Seguiu-se um breve silêncio, que me cuidei de não interromper, e depois ele continuou:

— Ontem à noite, precisamente quando me ia deitar, Monsieur Robert Darzac bateu à porta do meu quarto. Quando entrou, confidenciou-me que era forçado a ir a Paris no dia seguinte, ou seja, esta manhã. A razão que tornava esta viagem necessária era ao mesmo tempo imperativa e misteriosa; não lhe era possível explicar-me o seu objeto. "Vou, e ainda assim", acrescentou ele, "daria a minha vida para não deixar Mademoiselle Stangerson neste momento." Ele não tentou esconder que acreditava que ela estava mais uma vez em perigo. "Não me surpreenderá muito se algo acontecer amanhã à noite", confessou ele, "e ainda assim tenho de estar ausente. Não posso estar de volta ao Glandier antes da manhã do dia depois de amanhã."

— Pedi-lhe que se explicasse, e isto é tudo o que me quis dizer. A sua antecipação de perigo iminente tinha-lhe vindo apenas da coincidência de Mademoiselle Stangerson ter sido atacada duas vezes, e ambas as vezes quando ele tinha estado ausente. Na noite do incidente da inexplicável galeria, ele tinha sido obrigado a estar ausente do Glandier. Na noite da tragédia no Quarto Amarelo, ele também não tinha podido estar no Glandier, embora esta fosse a primeira vez que se declarava sobre o assunto. Ora, um homem tão comovido que ainda assim partisse, tem de estar a agir sob coação — tem de estar a obedecer a uma vontade mais forte do que a sua. Foi assim que raciocinei, e disse-lho. Ele respondeu "Talvez." — Perguntei-lhe se Mademoiselle Stangerson o estava a obrigar. Ele protestou que não. A sua determinação em ir a Paris tinha sido tomada sem qualquer conferência com Mademoiselle Stangerson.

— Para encurtar a história, ele repetiu que a sua crença na possibilidade de um novo ataque se baseava inteiramente na coincidência extraordinária. "Se acontecer alguma coisa a Mademoiselle Stangerson", disse ele, "seria terrível para ambos. Para ela, porque a sua vida estaria em perigo; para mim, porque eu não poderia nem defendê-la do ataque nem dizer onde tinha estado. Estou perfeitamente consciente das suspeitas que recaem sobre mim. O juiz de instrução e Monsieur Larsan estão ambos prestes a acreditar na minha culpa. Larsan seguiu-me da última vez que fui a Paris, e tive todo o trabalho do mundo para me livrar dele."

— "Por que não me diz o nome do assassino agora, se o sabe?" — exclamei.

— Monsieur Darzac pareceu extremamente perturbado pela minha pergunta e respondeu-me num tom hesitante:

— "Eu? — Eu sei o nome do assassino? Ora, como poderia eu saber o seu nome?"

— Respondi imediatamente: "De Mademoiselle Stangerson."

— Ele ficou tão pálido que pensei que ia desmaiar, e vi que tinha acertado em cheio. Mademoiselle e ele sabiam o nome do assassino! Quando recuperou, disse-me: "Vou deixar-te. Desde que estás aqui, apreciei a tua inteligência excecional e a tua engenhosidade inigualável. Mas peço-te este serviço. Talvez eu esteja errado em temer um ataque durante a noite que se avizinha; mas, como tenho de agir com previsão, conto contigo para frustrar qualquer tentativa que possa ser feita. Toma todas as medidas necessárias para proteger Mademoiselle Stangerson. Mantém uma vigilância muito cuidadosa do seu quarto. Não vás dormir, nem te permitas um momento de repouso. O homem que tememos é notavelmente astuto — com uma astúcia que nunca foi igualada. Se mantiveres a vigilância, a sua própria astúcia pode salvá-la; porque é impossível que ele não saiba que estás a vigiar; e sabendo-o, pode não se aventurar."

— "Falou de tudo isto a Monsieur Stangerson?"

— "Não. Não quero que ele me pergunte, como acabaste de fazer, pelo nome do assassino. Conto-te tudo isto, Monsieur Rouletabille, porque tenho grande, muito grande confiança em ti. Sei que não me suspeitas."

— O pobre homem falava aos solavancos. Estava evidentemente a sofrer. Tive pena dele, tanto mais porque sentia a certeza de que ele preferiria deixar-se matar a dizer-me quem era o assassino. Quanto a Mademoiselle Stangerson, senti que ela preferiria deixar-se assassinar a denunciar o homem do Quarto Amarelo e da inexplicável galeria. O homem deve estar a dominá-la, ou a ambos, por algum poder inescrutável. Eles não temiam nada tanto quanto a possibilidade de Monsieur Stangerson saber que a sua filha era "detida" pelo seu agressor. Fiz Monsieur Darzac compreender que ele se tinha explicado o suficiente e que poderia abster-se de me dizer mais do que já tinha dito. Prometi-lhe vigiar durante a noite. Ele insistiu que eu deveria estabelecer uma barreira absolutamente intransponível à volta do quarto de Mademoiselle Stangerson, à volta do boudoir onde as enfermeiras dormiam, e à volta da sala de estar onde, desde o caso da inexplicável galeria, Monsieur Stangerson dormia. Em suma, eu deveria colocar um cordão à volta de todo o apartamento.

— Pela sua insistência, concluí que Monsieur Darzac pretendia não só tornar impossível ao homem esperado chegar ao quarto de Mademoiselle Stangerson, mas tornar essa impossibilidade tão visivelmente clara que, vendo-se esperado, ele se iria embora imediatamente. Foi assim que interpretei as suas palavras finais quando nos despedimos: "Pode mencionar as suas suspeitas do ataque esperado a Monsieur Stangerson, ao Daddy Jacques, a Frédéric Larsan e a qualquer pessoa no castelo."

— O pobre rapaz deixou-me quase sem saber o que estava a dizer. O meu silêncio e os meus olhos disseram-lhe que eu tinha adivinhado uma grande parte do seu segredo. E, de facto, ele devia estar no limite das suas forças, para ter vindo ter comigo a tal altura, e para abandonar Mademoiselle Stangerson apesar da sua ideia fixa quanto à coincidência.

— Quando ele partiu, comecei a pensar que teria de usar uma astúcia ainda maior do que a dele para que, se o homem viesse esta noite, não suspeitasse por um momento que a sua vinda tinha sido esperada. Certamente! Deixá-lo-ia entrar o suficiente para que, vivo ou morto, eu pudesse ver o seu rosto claramente! É preciso livrarmo-nos dele. Mademoiselle Stangerson deve ser libertada deste contínuo perigo iminente.

— Sim, meu rapaz — disse Rouletabille, depois de colocar o seu cachimbo sobre a mesa e esvaziar a sua caneca de cidra —, tenho de ver o seu rosto distintamente, para ter a certeza de o gravar naquela parte do meu cérebro onde tracei o meu círculo de raciocínio.

A proprietária reapareceu naquele momento, trazendo a tradicional omelete de bacon. Rouletabille provocou-a um pouco, e ela aceitou a provocação com o mais encantador bom humor.

— Ela é muito mais alegre quando o Daddy Mathieu está na cama com o seu reumatismo — disse-me Rouletabille.

Mas eu não tinha olhos nem para Rouletabille nem para os sorrisos da proprietária. Estava inteiramente absorvido pelas últimas palavras do meu jovem amigo e a pensar no estranho comportamento de Monsieur Robert Darzac.

Quando ele terminou a sua omelete e estivemos novamente sozinhos, Rouletabille continuou o relato das suas confidências.

— Quando lhe enviei o meu telegrama esta manhã — disse ele —, tinha apenas a palavra de Monsieur Darzac de que "talvez" o assassino viesse esta noite. Posso agora dizer que ele virá certamente. Espero-o.

— O que o fez sentir esta certeza?

— Tenho a certeza desde as dez e meia desta manhã de que ele virá. Sabia disso antes de vermos Arthur Rance à janela no pátio.

— Ah! — disse eu. — Mas, mais uma vez — o que o deixou tão certo? E por que desde as dez e meia desta manhã?

— Porque, às dez e meia, tive a prova de que Mademoiselle Stangerson estava a fazer tantos esforços para permitir a entrada do assassino quanto Monsieur Robert Darzac tinha tomado precauções contra ela.

— É possível! — exclamei. — Não me disse que Mademoiselle Stangerson ama Monsieur Robert Darzac?

— Disse-lho porque é a verdade.

— Então não vê nada de estranho...

— Tudo neste negócio é estranho, meu amigo; mas acredite na minha palavra, a estranheza que agora sente não é nada comparada com a estranheza que está para vir!

— Deve admitir-se, então — disse eu —, que Mademoiselle Stangerson e o seu assassino estão em comunicação — pelo menos por escrito?

— Admita, meu amigo, admita! Não arrisca nada! Falei-lhe da carta deixada na sua mesa, na noite do caso da inexplicável galeria — a carta que desapareceu — para o bolso de Mademoiselle Stangerson. Por que não teria sido um convite para um encontro? Poderia ele não, assim que tivesse a certeza da ausência de Darzac, marcar o encontro para a noite que se avizinhava?

E o meu amigo riu-se silenciosamente. Há momentos em que me pergunto se ele não se está a rir de mim.

A porta da estalagem abriu-se. Rouletabille estava de pé tão subitamente que se poderia ter pensado que tinha recebido um choque elétrico.

— Monsieur Arthur Rance! — gritou ele.

Monsieur Arthur Rance estava diante de nós, curvando-se calmamente.

Capítulo XX

Um Ato de Mademoiselle Stangerson

— Lembra-se de mim, Monsieur? — perguntou Rouletabille.

— Perfeitamente! — respondeu Arthur Rance. — Reconheço-o como o rapaz do bar. [O rosto de Rouletabille corou por ser chamado de "rapaz".] Quero apertar-lhe a mão. É um rapazinho inteligente.

O americano estendeu a mão e Rouletabille, relaxando o sobrolho, apertou-a e apresentou-me o Monsieur Arthur Rance. Convidou-o a partilhar a nossa refeição.

— Não, obrigado. Tomei o pequeno-almoço com Monsieur Stangerson.

Arthur Rance falava francês perfeitamente — quase sem sotaque.

— Não esperava ter o prazer de o ver novamente, Monsieur. Pensei que teria deixado a França no dia seguinte à receção no Élysée.

Rouletabille e eu, exteriormente indiferentes, escutávamos com a maior atenção cada palavra que o americano dizia.

O rosto vermelho arroxeado do homem, as suas pálpebras pesadas, os tiques nervosos, tudo falava do seu vício na bebida. Como é que um espécime de homem tão lamentável podia ser tão íntimo de Monsieur Stangerson?

Alguns dias mais tarde, soube por Frédéric Larsan — que, tal como nós, estava surpreendido e mistificado pelo seu aparecimento e receção no castelo — que o Monsieur Rance era alcoólico apenas há cerca de quinze anos; isto é, desde que o professor e a sua filha deixaram Filadélfia. Durante o tempo em que os Stangerson viveram na América, eram muito íntimos de Arthur Rance, que era um dos mais distintos frenologistas do novo mundo. Devido a novas experiências, tinha feito avanços enormes para lá da ciência de Gall e Lavater. A amabilidade com que foi recebido no Glandier pode explicar-se pelo facto de ele ter prestado a Mademoiselle Stangerson um grande serviço ao parar, sob risco da sua própria vida, os cavalos em fuga da sua carruagem. O resultado imediato disso poderia, contudo, não ter sido mais do que uma mera associação amigável com os Stangerson; certamente, não um caso de amor.

Frédéric Larsan não me disse onde tinha recolhido esta informação; mas parecia estar bastante seguro do que dizia.

Se tivéssemos sabido estes factos na altura em que Arthur Rance nos encontrou na Estalagem Donjon, a sua presença no castelo poderia não nos ter deixado perplexos, mas não poderiam ter deixado de aumentar o nosso interesse pelo próprio homem. O americano devia ter pelo menos quarenta e cinco anos. Falou num tom perfeitamente natural em resposta à pergunta de Rouletabille.

— Adiei o meu regresso à América quando soube do ataque a Mademoiselle Stangerson. Queria ter a certeza de que a senhora não tinha sido morta, e não partirei até que ela esteja perfeitamente recuperada.

Arthur Rance tomou então a iniciativa na conversa, não prestando atenção a algumas das perguntas de Rouletabille. Deu-nos, sem que o convidássemos, as suas opiniões pessoais sobre o assunto da tragédia — opiniões que, tanto quanto pude perceber, não estavam longe das sustentadas por Frédéric Larsan. O americano também pensava que Robert Darzac tinha algo a ver com o assunto. Não o mencionou pelo nome, mas não havia margem para dúvidas sobre quem ele queria dizer. Disse-nos que estava ao corrente dos esforços que o jovem Rouletabille estava a fazer para desenredar o novelo confuso do mistério do Quarto Amarelo. Explicou que Monsieur Stangerson lhe tinha relatado tudo o que tinha acontecido na inexplicável galeria. Expressou várias vezes o seu pesar pela ausência de Monsieur Darzac do castelo em todas estas ocasiões, e pensou que Monsieur Darzac tinha agido de forma inteligente ao aliar-se a Monsieur Joseph Rouletabille, que não poderia deixar, mais cedo ou mais tarde, de descobrir o assassino. Ele disse a última frase com uma ironia mal disfarçada. Depois levantou-se, curvou-se perante nós e saiu da estalagem.

Rouletabille observou-o através da janela.

— Um peixe estranho, aquele! — disse ele.

— Acha que ele passará a noite no Glandier? — perguntei.

Para meu espanto, o jovem repórter respondeu que lhe era uma questão de total indiferença se ele passava ou não.

Quanto à forma como passámos o tempo durante a tarde, tudo o que preciso dizer é que Rouletabille me levou à gruta de Sainte-Geneviève e, durante todo o tempo, falou de todos os assuntos, menos do que mais nos interessava. Pelo anoitecer, fiquei surpreendido por ver que Rouletabille não fazia nenhum dos preparativos que eu esperava que ele fizesse. Falei-lhe sobre isso quando a noite caiu e nos encontrávamos novamente no seu quarto. Ele respondeu que todos os seus arranjos já tinham sido feitos e que, desta vez, o assassino não lhe escaparia.

Exprimi alguma dúvida a este respeito, lembrando-lhe o seu desaparecimento na galeria, e sugeri que o mesmo fenómeno poderia ocorrer de novo. Ele respondeu que esperava que isso acontecesse. Nada desejava mais. Não insisti, sabendo por experiência o quão inútil isso teria sido. Disse-me que, com a ajuda dos porteiros, o château estava a ser vigiado desde o romper da alvorada de tal forma que ninguém poderia aproximar-se sem que ele soubesse, e que não se preocupava com aqueles que pudessem tê-lo deixado e permanecido fora.

Eram então seis horas pelo seu relógio. Levantando-se, fez-me um sinal para que o seguisse e, sem tentar de modo algum ocultar os seus movimentos ou o som dos seus passos, conduziu-me através da galeria. Chegámos à galeria da “direita” e chegámos ao patamar que atravessámos. Continuámos então o nosso caminho na galeria da ala esquerda, passando pelo apartamento do Professor Stangerson.

No extremo da galeria, antes de chegar à torre de menagem, fica o quarto ocupado por Arthur Rance. Sabíamo-lo, porque o tínhamos visto à janela a olhar para o pátio. A porta do quarto abre-se para o fim da galeria, exatamente em frente à janela leste, na extremidade da galeria da “direita”, onde Rouletabille tinha colocado o Daddy Jacques, e tem uma visão ininterrupta da galeria de uma ponta à outra do château.

“Essa galeria de ‘desvio’”, disse Rouletabille, “reservo-a para mim; quando eu lhe disser, virá e tomará o seu lugar aqui.”

E fez-me entrar num pequeno armário triangular escuro, construído numa dobra da parede, à esquerda da porta do quarto de Arthur Rance. Deste recanto, eu podia ver tudo o que acontecia na galeria tão bem como se estivesse de pé em frente à porta de Arthur Rance, e podia vigiar essa porta também. A porta do armário, que seria o meu posto de observação, estava equipada com painéis de vidro transparente. Na galeria, onde todas as lâmpadas tinham sido acesas, estava bastante claro. No armário, porém, estava totalmente escuro. Era um lugar esplêndido para observar e permanecer sem ser observado.

Eu estava prestes a desempenhar o papel de espião — um polícia comum. Imagino o que o meu superior na ordem dos advogados teria dito se soubesse! Não estava totalmente satisfeito com as minhas funções, mas não podia recusar a Rouletabille a assistência que ele me suplicara que lhe desse. Tive o cuidado de não o deixar ver que eu de alguma forma me opunha, e por várias razões. Queria obrigá-lo; não queria que ele me pensasse um cobarde; estava cheio de curiosidade; e era demasiado tarde para recuar, mesmo que tivesse decidido fazê-lo. Se não tinha tido estes escrúpulos mais cedo, era porque a minha curiosidade tinha levado a melhor sobre mim. Poderia também alegar que estava a ajudar a salvar a vida de uma mulher, e até um advogado pode fazer isso conscientemente.

Voltámos ao longo da galeria. Ao chegarmos à porta do apartamento da Mademoiselle Stangerson, esta abriu-se devido a um empurrão dado pelo mordomo que esperava à mesa de jantar. (O Monsieur Stangerson, nos últimos três dias, jantava com a filha na sala de estar do primeiro andar.) Como a porta permaneceu aberta, vimos nitidamente a Mademoiselle Stangerson, aproveitando a ausência do mordomo, e enquanto o seu pai se inclinava para apanhar algo que tinha deixado cair, verter o conteúdo de um frasco no copo do Monsieur Stangerson.

Capítulo XXI

À Espreita

O ato, que me deixou atordoado, não pareceu afetar muito Rouletabille. Regressámos ao seu quarto e, sem sequer mencionar o que tínhamos visto, ele deu-me as suas instruções finais para a noite. Primeiro, iríamos jantar; após o jantar, eu tomaria o meu posto no armário escuro e esperaria lá o tempo que fosse necessário — para estar atento ao que pudesse acontecer.

“Se vir alguma coisa antes de mim”, explicou ele, “deve avisar-me. Se o homem entrar na galeria da ‘direita’ por qualquer outro caminho que não a galeria de ‘desvio’, vê-lo-á antes de mim, porque tem uma visão de todo o comprimento da galeria da ‘direita’, enquanto eu só posso controlar a vista da galeria de ‘desvio’. Tudo o que precisa de fazer para me avisar é desatar o cordão que prende a cortina da janela da galeria da ‘direita’, a mais próxima do armário escuro. A cortina cairá por si mesma e deixará imediatamente um quadrado de sombra onde antes havia um quadrado de luz. Para o fazer, basta esticar a mão para fora do armário, eu entenderei o seu sinal perfeitamente.”

“E depois?”

“Depois ver-me-á a contornar o canto da galeria de ‘desvio’.”

“O que devo fazer então?”

“Virá imediatamente na minha direção, atrás do homem; mas eu já estarei sobre ele e terei visto o seu rosto.”

Tentei um sorriso fraco.

“Porque sorri? Bem, pode sorrir enquanto tem oportunidade, mas juro que não terá tempo para isso daqui a poucas horas.”

“E se o homem escapar?”

“Tanto melhor”, disse Rouletabille, friamente, “não quero capturá-lo. Pode ir-se embora como quiser. *Deixá-lo-ei partir — depois de ter visto o seu rosto.* É tudo o que quero. Saberei depois o que fazer para que, no que diz respeito à Mademoiselle Stangerson, ele esteja morto para ela, ainda que continue a viver. Se o apanhasse vivo, a Mademoiselle Stangerson e Robert Darzac, talvez, nunca me perdoariam! E eu desejo manter a sua boa vontade e respeito.

“Ao ver, como acabei de ver, a Mademoiselle Stangerson a verter um narcótico no copo do seu pai, para que ele não estivesse acordado para interromper a conversa que ela vai ter com o seu assassino, pode imaginar que ela não me ficaria grata se eu trouxesse o homem do Quarto Amarelo e da galeria inexplicável, atado e amordaçado, ao seu pai. Percebo agora que, se quiser salvar a infeliz senhora, devo silenciar o homem e não capturá-lo. Matar um ser humano não é pouca coisa. Além disso, esse não é o meu negócio, a menos que o próprio homem torne isso no meu negócio. Por outro lado, torná-lo silencioso para sempre sem o assentimento e a confiança da senhora é agir por iniciativa própria e pressupõe um conhecimento de tudo sem base alguma. Felizmente, meu amigo, adivinhei, não, raciocinei tudo. Tudo o que peço ao homem que vem esta noite é que me traga o seu rosto, para que possa entrar—”

“No círculo?”

“Exatamente! E o seu rosto não me surpreenderá!”

“Mas pensei que tivesse visto o seu rosto na noite em que saltou para dentro do quarto?”

“Apenas imperfeitamente. A vela estava no chão; e, a sua barba—”

“Ele usará a barba esta noite?”

“Penso que posso dizer com certeza que usará. Mas a galeria está iluminada e, agora, eu sei — ou — pelo menos, o meu cérebro sabe — e os meus olhos verão.”

“Se estamos aqui apenas para o ver e deixá-lo escapar, porque estamos armados?”

“Porque, se o homem do Quarto Amarelo e da galeria inexplicável souber que eu sei, é capaz de fazer qualquer coisa! Teríamos então de nos defender.”

“E tem a certeza de que ele virá esta noite?”

“Tão certo como você estar aí! Esta manhã, às dez e meia, a Mademoiselle Stangerson, da maneira mais inteligente do mundo, arranjou forma de não ter enfermeiras esta noite. Deu-lhes licença de vinte e quatro horas, sob pretextos plausíveis, e não desejava que ninguém estivesse com ela senão o seu pai, enquanto elas estivessem fora. O seu pai, que vai dormir no boudoir, consentiu alegremente no arranjo. A partida de Darzac e o que ele me disse, bem como as extraordinárias precauções que a Mademoiselle Stangerson está a tomar para estar sozinha esta noite, não me deixam margem para dúvidas. Ela preparou o caminho para a vinda do homem que Darzac teme.”

“Isso é terrível!”

“É!”

“E aquilo que a vimos fazer foi para adormecer o seu pai?”

“Sim.”

“Então somos apenas dois para o trabalho desta noite?”

“Quatro; o porteiro e a sua mulher vigiarão a todo o custo. Não dou muito valor a eles antes — mas o porteiro pode ser útil depois — se houver alguma matança!”

“Então acha que pode haver?”

“Se ele quiser.”

“Porque não trouxe o Daddy Jacques? — Não lhe deu uso hoje?”

“Não”, respondeu Rouletabille bruscamente.

Fiquei em silêncio por um momento, depois, ansioso por saber os seus pensamentos, perguntei-lhe diretamente:

“Porque não contar a Arthur Rance? — Ele pode ser de grande ajuda para nós?”

“Oh!” disse Rouletabille contrariado, “então quer deixar toda a gente a par dos segredos da Mademoiselle Stangerson? — Vamos, vamos jantar; está na hora. Esta noite jantamos no quarto de Frédéric Larsan — pelo menos, se ele não estiver no encalço de Darzac. Ele cola-se a ele como uma lapa. Mas, de qualquer forma, se ele não estiver lá agora, tenho a certeza de que estará, esta noite! É ele quem eu vou derrubar!”

Nesse momento ouvimos um ruído no quarto perto de nós.

“Deve ser ele”, disse Rouletabille.

“Esqueci-me de lhe perguntar”, disse eu, “se devemos fazer alguma alusão ao assunto desta noite quando estivermos com este polícia. Suponho que não. É assim?”

“Evidentemente. Vamos operar sozinhos, por nossa conta pessoal.”

“Para que toda a glória seja nossa?”

Rouletabille riu-se.

Jantámos com Frédéric Larsan no seu quarto. Ele disse-nos que tinha acabado de chegar e convidou-nos a sentar à mesa. Comemos o nosso jantar com o melhor dos humores, e não tive dificuldade em apreciar os sentimentos de certeza que tanto Rouletabille como Larsan sentiam. Rouletabille disse ao grande Fred que eu tinha vindo numa visita casual e que ele me tinha pedido para ficar e ajudá-lo na pesada carga de escrita que tinha de terminar para o “Epoque”. Eu voltaria a Paris, disse ele, pelo comboio das onze, levando a sua “cópia”, que tomava a forma de história, recountando os principais episódios dos mistérios do Glandier. Larsan sorriu à explicação como um homem que não era enganado e educadamente se abstinha de fazer o mais pequeno comentário sobre assuntos que não lhe diziam respeito.

Com infinitas precauções quanto às palavras que usavam, e até quanto aos tons das suas vozes, Larsan e Rouletabille discutiram, durante muito tempo, o aparecimento do Sr. Arthur Rance no château, e o seu passado na América, sobre o qual expressaram o desejo de saber mais, pelo menos no que dizia respeito às suas relações com os Stangerson. A certa altura, Larsan, que me pareceu estar indisposto, disse, com um esforço:

“Penso, Monsieur Rouletabille, que não temos muito mais a fazer no Glandier e que não dormiremos aqui muitas mais noites.”

“Penso o mesmo, Monsieur Fred.”

“Então acha que a conclusão do assunto foi atingida?”

“Penso, de facto, que não temos mais nada a descobrir”, respondeu Rouletabille.

“Encontrou o seu criminoso?” perguntou Larsan.

“Encontrou o seu?”

“Sim.”

“Eu também”, disse Rouletabille.

“Pode ser o mesmo homem?”

“Não sei se se desviou da sua ideia original”, disse o jovem repórter. Depois acrescentou, com ênfase: “O Monsieur Darzac é um homem honesto!”

“Tem a certeza disso?” perguntou Larsan. “Bem, eu tenho a certeza de que não é. Então é uma luta, afinal?”

“Sim, é uma luta. Mas eu vencê-lo-ei, Monsieur Frédéric Larsan.”

“A juventude nunca duvida de nada”, disse o grande Fred rindo-se, e estendeu-me a mão como conclusão.

A resposta de Rouletabille veio como um eco:—

“De nada!”

De repente, Larsan, que se tinha levantado para nos desejar boa noite, pressionou ambas as mãos contra o peito e cambaleou. Foi obrigado a apoiar-se em Rouletabille para se sustentar e evitar cair.

“Oh! Oh!” gritou ele. “O que é que se passa comigo? — Fui envenenado?”

Olhou para nós com olhos esgazeados. Questionámo-lo em vão; ele não nos respondeu. Tinha-se afundado numa poltrona e não conseguimos tirar uma palavra dele. Estávamos extremamente angustiados, tanto por causa dele como por nós próprios, pois tínhamos participado de todos os pratos que ele tinha comido. Parecia não ter dores; mas a sua cabeça pesada tinha caído sobre o ombro e as suas pálpebras estavam bem fechadas. Rouletabille inclinou-se sobre ele, escutando as batidas do coração.

O rosto do meu amigo, contudo, quando se levantou, estava tão calmo como tinha estado um momento antes agitado.

“Ele está a dormir”, disse ele.

Levou-me para o seu quarto, depois de fechar o quarto de Larsan.

“A droga?” perguntei. “A Mademoiselle Stangerson quer adormecer toda a gente, esta noite?”

“Talvez”, respondeu Rouletabille; mas eu podia ver que ele estava a pensar noutra coisa.

“Mas e nós?” exclamei. “Como sabemos que não fomos drogados?”

“Sente-se indisposto?” perguntou-me Rouletabille calmamente.

“De modo algum.”

“Sente alguma inclinação para ir dormir?”

“Nenhuma.”

“Bem, então, meu amigo, fume este excelente charuto.”

E entregou-me um Havana de eleição, um que o Monsieur Darzac lhe tinha dado, enquanto acendia o seu cachimbo de raiz — o seu eterno cachimbo de raiz.

Permanecemos no seu quarto até cerca das dez horas sem que uma palavra passasse entre nós. Enterrado numa poltrona, Rouletabille sentou-se e fumou continuamente, a testa em pensamento e um olhar distante nos olhos. Às dez horas em ponto, tirou as botas e fez-me sinal para fazer o mesmo. De pé, de meias, disse, num tom tão baixo que adivinhei, em vez de ouvir, a palavra:

“Revólver.”

Tirei o meu revólver do bolso do casaco.

“Engatilhe-o!” disse ele.

Fiz como ele ordenou.

Depois, movendo-se em direção à porta do seu quarto, abriu-a com infinita precaução; não fez nenhum som. Estávamos na galeria de “desvio”. Rouletabille fez-me outro sinal que entendi significar que eu deveria tomar o meu posto no armário escuro.

Quando estava a alguma distância dele, ele juntou-se a mim e abraçou-me; e então vi-o, com a mesma precaução, regressar ao seu quarto. Espantado com o seu abraço, e algo inquieto com ele, cheguei à galeria da direita sem dificuldade, atravessando o patamar e chegando ao armário escuro.

Antes de entrar nele, examinei o cordão da cortina da janela e descobri que só tinha de o soltar do seu fecho com os dedos para que a cortina caísse pelo seu próprio peso e escondesse o quadrado de luz de Rouletabille — o sinal acordado. O som de um passo fez-me parar diante da porta de Arthur Rance. Ele ainda não estava na cama, então! Como seria que, estando no château, ele não tinha jantado com o Monsieur Stangerson e a sua filha? Não o tinha visto à mesa com eles, no momento em que espreitámos.

Retirei-me para o armário escuro. Encontrei-me perfeitamente situado. Podia ver ao longo de todo o comprimento da galeria. Nada, absolutamente nada poderia passar por ali sem que eu visse. Mas o que ia passar por ali? O abraço de Rouletabille voltou à minha mente. Argumentei que as pessoas não se despedem umas das outras dessa maneira a menos que seja numa ocasião importante ou perigosa. Estaria eu então em perigo?

A minha mão fechou-se sobre a coronha do meu revólver e esperei. Não sou um herói; mas também não sou um cobarde.

Esperei cerca de uma hora, e durante todo esse tempo não vi nada de invulgar. A chuva, que tinha começado a cair fortemente por volta das nove horas, tinha agora parado.

O meu amigo tinha-me dito que, provavelmente, nada ocorreria antes da meia-noite ou da uma da manhã. Não passava de meia hora depois das onze, contudo, quando ouvi a porta do quarto de Arthur Rance abrir-se muito lentamente. A porta permaneceu aberta por um minuto que me pareceu um longo tempo. Como se abria para a galeria, isto é, para fora, não podia ver o que se passava no quarto atrás da porta.

Nesse momento notei um som estranho, três vezes repetido, vindo do parque. Normalmente não lhe teria dado mais importância do que daria ao ruído de gatos no telhado. Mas à terceira vez, o miado foi tão agudo e penetrante que me lembrei do que tinha ouvido sobre o grito da Bête du Bon Dieu. Como o grito tinha acompanhado todos os eventos no Glandier, não pude evitar estremecer com o pensamento.

Logo depois vi um homem aparecer no lado de fora da porta e fechá-la atrás de si. Ao princípio não o consegui reconhecer, pois estava de costas para mim e curvado sobre um pacote algo volumoso. Quando fechou a porta e apanhou o pacote, virou-se para o armário escuro, e então vi quem ele era. Era o guarda-florestal, o Homem Verde. Ele estava a usar o mesmo traje que usara quando o vi pela primeira vez na estrada em frente à estalagem do Donjon. Não havia dúvida de que era o guarda. Quando o grito da Bête du Bon Dieu veio pela terceira vez, ele pousou o pacote e foi até à segunda janela, contando a partir do armário escuro. Não me atrevi a arriscar fazer qualquer movimento, temendo que pudesse trair a minha presença.

Chegado à janela, espreitou para o parque. A noite estava agora clara, a lua aparecendo a intervalos. O Homem Verde levantou os braços duas vezes, fazendo sinais que eu não entendi; depois, deixando a janela, apanhou novamente o seu pacote e moveu-se ao longo da galeria em direção ao patamar.

Rouletabille tinha-me instruído a desatar o cordão da cortina quando visse alguma coisa. Estaria Rouletabille à espera disto? Não era da minha conta questionar. Tudo o que tinha a fazer era obedecer às instruções. Desatei o cordão da janela; o meu coração batia enquanto isso como se fosse explodir. O homem chegou ao patamar, mas, para minha total surpresa — eu esperava vê-lo continuar a passar ao longo da galeria — vi-o descer as escadas que levavam ao vestíbulo.

O que devia fazer? Olhei estupidamente para a cortina pesada que tinha cortado a luz da janela. O sinal tinha sido dado, e não vi Rouletabille aparecer ao canto da galeria de desvio. Ninguém apareceu. Fiquei extremamente perplexo. Meia hora passou, uma eternidade para mim. O que devia fazer agora, mesmo que visse alguma coisa? O sinal, uma vez dado, não o podia dar uma segunda vez. Aventurar-me na galeria poderia arruinar todos os planos de Rouletabille. Afinal, não tinha nada de que me censurar, e se algo tinha acontecido que o meu amigo não esperava, ele só podia culpar-se a si próprio. Incapaz de lhe ser de mais alguma assistência através de um sinal, deixei o armário escuro e, ainda de meias, pisei com cuidado e fiz o meu caminho para a galeria de “desvio”.

Não estava lá ninguém. Fui até à porta do quarto de Rouletabille e escutei. Não conseguia ouvir nada. Bati suavemente. Não houve resposta. Rodei o puxador da porta e a porta abriu-se. Entrei. Rouletabille estava estendido a todo o comprimento no chão.

Capítulo XXII

O Corpo Incrível

Inclinei-me com grande ansiedade sobre o corpo do repórter e tive a alegria de descobrir que ele dormia profundamente, o mesmo sono doentio que vira cair sobre Frédéric Larsan. Ele sucumbira à influência da mesma droga que fora misturada na nossa comida. Como era, então, que eu, também, não fora vencido por ela? Refleti que a droga devia ter sido colocada no nosso vinho; pois isso explicaria a minha condição. Nunca bebo quando como. Naturalmente inclinado à obesidade, limito-me a uma dieta seca. Sacudi Rouletabille, mas não consegui acordá-lo. Isto, sem dúvida, fora obra de Mademoiselle Stangerson.

Ela certamente achara necessário proteger-se contra este jovem, assim como contra o seu pai. Lembrei-me de que o mordomo, ao servir-nos, recomendara um excelente Chablis que, sem dúvida, proviera da mesa do professor.

Passou mais de um quarto de hora. Resolvi, perante as circunstâncias prementes, recorrer a medidas extremas. Atirei um jarro de água fria sobre a cabeça de Rouletabille. Ele abriu os olhos. Bati-lhe na cara e levantei-o. Senti-o enrijecer nos meus braços e ouvi-o murmurar: "Continua, continua; mas não faças barulho." Belisquei-o e sacudi-o até que ele fosse capaz de se pôr de pé. Estávamos salvos!

"Fizeram-me adormecer", disse ele. "Ah! Passei um quarto de hora terrível antes de ceder. Mas já passou. Não me deixes."

Mal ele proferira estas palavras, fomos sobressaltados por um grito horrível que ecoou pelo château — um verdadeiro grito de morte.

"Malheur!" rugiu Rouletabille; "chegaremos demasiado tarde!"

Ele tentou correr para a porta, mas estava demasiado atordoado e caiu contra a parede. Eu já estava na galeria, revólver na mão, correndo como um louco em direção ao quarto de Mademoiselle Stangerson. No momento em que cheguei ao cruzamento da galeria de "desvio" e da galeria da "direita", vi uma figura a sair do seu apartamento que, em poucos passos, alcançara o patamar.

Eu não era dono de mim mesmo. Disparei. O tiro do revólver fez um barulho ensurdecedor; mas o homem continuou a sua fuga escada abaixo. Corri atrás dele, gritando: "Para!—para! ou mato-te!" Enquanto corria atrás dele escada abaixo, dei de caras com Arthur Rance vindo da ala esquerda do château, a gritar: "O que é? O que é?" Chegámos quase ao mesmo tempo ao pé da escadaria. A janela do vestíbulo estava aberta. Vimos distintamente a forma de um homem a fugir. Instintivamente disparámos os nossos revólveres na sua direção. Ele não estava a mais de dez passos à nossa frente; cambaleou e pensámos que ia cair. Tínhamos saltado pela janela, mas o homem arrancou com novo vigor. Eu estava de meias e o americano estava descalço. Não havendo esperança de o alcançar, disparámos os nossos últimos cartuchos contra ele. Mas ele continuou a correr, percorrendo o lado direito do pátio em direção ao fim da ala direita do château, que não tinha outra saída senão a porta da pequena câmara ocupada pelo guarda-florestal.

O homem, embora estivesse evidentemente ferido pelas nossas balas, estava agora a vinte metros à nossa frente. De repente, atrás de nós e acima das nossas cabeças, uma janela na galeria abriu-se e ouvimos a voz de Rouletabille a gritar desesperadamente:—

"Fogo, Bernier!—Fogo!"

Nesse momento, a noite clara de luar foi ainda mais iluminada por um clarão intenso. À sua luz, vimos o velho Bernier com a sua espingarda no limiar da porta do donjon.

Ele tinha feito pontaria. A sombra caiu. Mas como tinha chegado ao fim da ala direita do château, caiu do outro lado do ângulo do edifício; isto é, vimo-lo prestes a cair, mas não o colapso real no chão. Bernier, Arthur Rance e eu próprio chegámos ao outro lado vinte segundos depois. A sombra jazia morta aos nossos pés.

Despertado da sua letargia pelos gritos e tiros, Larsan abriu a janela do seu quarto e chamou-nos. Rouletabille, já totalmente desperto, juntou-se a nós no mesmo momento, e eu gritei-lhe:

"Ele está morto!—está morto!"

"Tanto melhor", disse ele. "Levem-no para o vestíbulo do château." Depois, como se tivesse mudado de ideias, disse: "Não!—não! Vamos colocá-lo no seu próprio quarto."

Rouletabille bateu à porta. Ninguém respondeu. Naturalmente, isto não me surpreendeu.

"Ele não está lá, evidentemente, caso contrário teria saído", disse o repórter. "Levemo-lo então para o vestíbulo."

Desde que chegámos à sombra morta, uma nuvem espessa cobrira a lua e escurecera a noite, de modo que não conseguíamos distinguir os traços. O velho Jacques, que se nos juntara agora, ajudou-nos a levar o corpo para o vestíbulo, onde o deitámos no degrau inferior da escada. No caminho, senti as minhas mãos húmidas com o sangue quente que escorria das feridas.

O velho Jacques correu para a cozinha e voltou com uma lanterna. Aproximou-a do rosto da sombra morta, e reconhecemos o guarda, o homem chamado pelo estalajadeiro da Estalagem do Donjon de Homem Verde, a quem, uma hora antes, vira sair do quarto de Arthur Rance a carregar um pacote. Mas o que eu vira, só poderia contar a Rouletabille mais tarde, quando estivéssemos a sós.

* * * * *

Rouletabille e Frédéric Larsan sofreram uma deceção cruel com o resultado da aventura da noite. Só podiam olhar com consternação e estupefação para o corpo do Homem Verde.

O velho Jacques mostrava um rosto estupidamente pesaroso e, com lamentações tolas, repetia que estávamos enganados — o guarda não podia ser o agressor. Fomos obrigados a obrigá-lo a calar-se. Ele não poderia ter demonstrado maior dor se o corpo fosse o do seu próprio filho. Notei, enquanto todos nós estávamos mais ou menos despidos e descalços, que ele estava totalmente vestido.

Rouletabille não se tinha afastado do corpo. Ajoelhado nas lajes à luz da lanterna do velho Jacques, despiu o corpo e expôs-lhe o peito. Depois, arrancando a lanterna das mãos do velho Jacques, segurou-a sobre o cadáver e viu uma ferida aberta. Erguendo-se subitamente, exclamou com uma voz cheia de ironia selvagem:—

"O homem que julgais ter sido baleado foi morto por uma facada no coração!"

Pensei que Rouletabille tivesse enlouquecido; mas, debruçando-me sobre o corpo, convenci-me rapidamente de que Rouletabille tinha razão. Nem um sinal de bala em parte alguma — a ferida, evidentemente feita por uma lâmina afiada, penetrara no coração.

Capítulo XXIII

O Duplo Rastro

Mal tinha recuperado da surpresa em que esta nova descoberta me mergulhara, quando Rouletabille tocou-me no ombro e pediu-me que o seguisse para o seu quarto.

"O que vamos fazer lá?"

"Refletir sobre o assunto."

Confesso que não estava em condições de pensar muito, nem conseguia compreender como Rouletabille se podia controlar a ponto de conseguir sentar-se calmamente para refletir quando devia saber que Mademoiselle Stangerson estava naquele momento quase à beira da morte. Mas o seu autocontrolo era mais do que eu podia explicar. Fechando a porta do seu quarto, fez-me sinal para uma cadeira e, sentando-se à minha frente, tirou o seu cachimbo. Ficámos ali algum tempo em silêncio e depois adormeci.

Quando acordei, era dia claro. Eram oito horas pelo meu relógio. Rouletabille já não estava no quarto. Levantei-me para sair quando a porta se abriu e o meu amigo reentrou. Ele, evidentemente, não perdera tempo.

"Como está Mademoiselle Stangerson?" perguntei-lhe.

"A sua condição, embora muito alarmante, não é desesperada."

"Quando saíste deste quarto?"

"Perto do amanhecer."

"Imagino que tenhas trabalhado arduamente?"

"Nem me digas!"

"Descobriste alguma coisa?"

"Dois conjuntos de pegadas!"

"Explicam alguma coisa?"

"Sim."

"Têm alguma coisa a ver com o mistério do corpo do guarda?"

"Sim; o mistério já não é um mistério. Esta manhã, andando à volta do château, encontrei dois conjuntos distintos de pegadas, feitas ao mesmo tempo, na noite passada. Foram feitas por duas pessoas caminhando lado a lado. Segui-as desde o pátio até ao carvalhal. Larsan juntou-se a mim. Eram o mesmo tipo de pegadas que foram feitas na altura do ataque no Quarto Amarelo — um conjunto era de botas desajeitadas e o outro foi feito por sapatos elegantes, exceto que o dedo grande de um dos conjuntos era de um tamanho diferente do medido no incidente do Quarto Amarelo. Comparei as marcas com os moldes de papel que fizera anteriormente.

"Continuando a seguir o rasto das pegadas, Larsan e eu saímos do carvalhal e chegámos à margem do lago. Lá, desviaram-se para um pequeno caminho que levava à estrada principal para Epinay, onde perdemos os vestígios na estrada recém-pavimentada.

"Voltámos ao château e separámo-nos no pátio. Encontrámo-nos novamente, no entanto, no quarto do velho Jacques, para onde as nossas linhas de pensamento separadas nos tinham levado a ambos. Encontrámos o velho criado na cama. As suas roupas na cadeira estavam encharcadas e as suas botas muito enlameadas. Ele certamente não ficou naquele estado a ajudar-nos a transportar o corpo do guarda. Não estava a chover nessa altura. O seu rosto mostrava um cansaço extremo e ele olhou para nós com olhos aterrorizados.

"Ao interrogá-lo pela primeira vez, ele disse-nos que se deitara imediatamente após a chegada do médico. Ao pressioná-lo, no entanto, pois era evidente para nós que ele não estava a dizer a verdade, confessou que estivera fora do château. Explicou a sua ausência dizendo que tinha dores de cabeça e fora apanhar ar fresco, mas que não fora além do carvalhal. Quando lhe descrevemos então todo o percurso que ele tinha feito, ele sentou-se na cama a tremer.

"'E não estavas sozinho!' gritou Larsan.

"'Viram-no então?' ofegou o velho Jacques.

"'O quê?' perguntei.

"'O fantasma—o fantasma negro!'

"Então, ele contou-nos que, durante várias noites, tinha visto o que continuava a chamar de fantasma negro. Vinha ao parque à badalada da meia-noite e deslizava furtivamente por entre as árvores; parecia-lhe atravessar os troncos das árvores. Duas vezes vira-o da sua janela, à luz da lua, e levantara-se e seguira a estranha aparição. Na noite antes da última, quase que o alcançara; mas ele tinha desaparecido na esquina do donjon. Na noite passada, no entanto, ele não saíra do château, estando a sua mente perturbada por um pressentimento de que algum novo crime seria tentado. De repente, viu o fantasma negro surgir de algures no meio do pátio. Seguiu-o até ao lago e até à estrada principal para Epinay, onde o fantasma desapareceu subitamente.

"'Viste-lhe o rosto?' perguntou Larsan.

"'Não!—não vi nada além de véus negros.'

"'Saíste depois do que se passou na galeria?'

"'Não pude!—estava aterrorizado.'

"'Velho Jacques', disse eu, com uma voz ameaçadora, 'tu não o seguiste; tu e o fantasma caminharam até Epinay juntos—de braço dado!'

"'Não!' gritou ele, desviando os olhos, 'não o fiz. Começou a chover torrencialmente e—voltei para trás. Não sei o que aconteceu ao fantasma negro.'

"Deixámo-lo e, quando estávamos lá fora, virei-me para Larsan, olhando-o de frente, e fiz a minha pergunta subitamente para o apanhar desprevenido:

"'Um cúmplice?'

"'Como posso saber?' respondeu ele, encolhendo os ombros. 'Não se pode ter a certeza de nada num caso como este. Há vinte e quatro horas, teria jurado que não havia cúmplice!' Ele deixou-me, dizendo que ia para Epinay."

"Bem, o que concluis disto?" perguntei a Rouletabille, depois de ele ter terminado o seu relato. "Pessoalmente, estou completamente às escuras. Não consigo perceber nada disto. O que deduzes?"

"Tudo! Tudo!" exclamou ele. "Mas", disse bruscamente, "vamos descobrir mais sobre Mademoiselle Stangerson."

Capítulo XXIV

Rouletabille Conhece as Duas Metades do Assassino

Mademoiselle Stangerson tinha sido, pela segunda vez, quase assassinada. Infelizmente, ela estava num estado demasiado fraco para suportar os ferimentos mais graves deste segundo ataque tão bem quanto suportara os do primeiro. Recebera três ferimentos no peito com a faca do assassino e permaneceu durante muito tempo entre a vida e a morte. O seu físico forte, no entanto, salvou-a; mas, embora tenha recuperado fisicamente, descobriu-se que a sua mente fora afetada. A mínima alusão ao incidente terrível levava-a ao delírio, e a prisão de Robert Darzac, que se seguiu no dia seguinte à morte trágica do guarda, parecia mergulhar a sua inteligência fina numa melancolia completa.

Robert Darzac chegou ao château por volta das nove e meia. Vi-o a correr pelo parque, com o cabelo e as roupas em desordem e o rosto de um branco mortal. Rouletabille e eu estávamos a olhar por uma janela na galeria. Ele viu-nos e deu um grito de desespero: "Cheguei demasiado tarde!"

Rouletabille respondeu: "Ela vive!"

Um minuto depois, Darzac tinha entrado no quarto de Mademoiselle Stangerson e, através da porta, podíamos ouvir os seus soluços lancinantes.

* * * * *

"Há um destino sobre este lugar!" gemeu Rouletabille. "Alguns deuses infernais devem estar a vigiar as desgraças desta família!—Se eu não tivesse sido drogado, teria salvado Mademoiselle Stangerson. Tê-lo-ia silenciado para sempre. E o guarda não teria sido morto!"

* * * * *

Monsieur Darzac entrou para falar connosco. O seu sofrimento era terrível. Rouletabille contou-lhe tudo: as suas preparações para a segurança de Mademoiselle Stangerson; os seus planos para capturar ou para se livrar do agressor para sempre; e como ele teria tido sucesso, se não fosse pelo efeito da droga.

"Se ao menos tivesses confiado em mim!" disse o jovem, num tom baixo, "se tivesses apenas implorado a Mademoiselle Stangerson que confiasse em mim!—Mas, depois, toda a gente aqui desconfia de toda a gente, a filha desconfia do pai e até do seu amante. Enquanto me pedes para a proteger, ela está a fazer tudo o que pode para me frustrar. Foi por isso que cheguei à cena demasiado tarde!"

A pedido de Monsieur Robert Darzac, Rouletabille descreveu toda a cena. Apoiado na parede, para não cair, ele fizera o seu caminho até ao quarto de Mademoiselle Stangerson, enquanto nós corríamos atrás do suposto assassino. A porta da antecâmara estava aberta e, quando ele entrou, encontrou Mademoiselle Stangerson deitada, parcialmente caída sobre a secretária. O seu robe estava tingido com o sangue que corria do seu peito. Ainda sob a influência da droga, sentia que estava a caminhar num pesadelo horrível.

Ele voltou à galeria automaticamente, abriu uma janela, gritou a sua ordem para disparar e depois voltou para o quarto. Atravessou o boudoir deserto, entrou na sala de estar e tentou acordar Monsieur Stangerson que estava deitado num sofá. Monsieur Stangerson levantou-se estupidamente e deixou-se levar por Rouletabille até ao quarto onde, ao ver o corpo da sua filha, soltou um grito lancinante. Ambos uniram as suas forças débeis e levaram-na para a cama.

No seu caminho para se juntar a nós, Rouletabille passou pela secretária. No chão, perto dela, viu um grande pacote. Ajoelhou-se e, encontrando o invólucro solto, examinou-o e distinguiu uma enorme quantidade de papéis e fotografias. Num dos papéis, leu: "Novo condensador eletroscópico diferencial. Propriedades fundamentais da substância intermediária entre a matéria ponderável e o éter imponderável." Estranha ironia do destino que os preciosos papéis do professor lhe fossem restituídos precisamente no momento em que uma tentativa estava a ser feita para o privar da vida da sua filha! Que valem os papéis para ele agora?

* * * * *

A manhã seguinte àquela noite terrível viu Monsieur de Marquet mais uma vez no château, com o seu Secretário e gendarmes. Claro que fomos todos interrogados. Rouletabille e eu já tínhamos combinado o que dizer. Omitei qualquer informação sobre eu ter estado no armário escuro e não disse nada sobre o efeito da droga. Não queríamos sugerir de forma alguma que Mademoiselle Stangerson estivesse à espera do seu visitante noturno. A pobre mulher poderia, talvez, nunca recuperar, e não era assunto nosso levantar o véu de um segredo cuja preservação ela tinha pago tão caro.

Arthur Rance disse a toda a gente, de uma maneira tão natural que me surpreendeu, que vira o guarda pela última vez por volta das onze horas daquela noite fatal. Viera buscar a sua valise, disse ele, que levaria para ele no início da manhã seguinte para a estação de Saint-Michel; e tinha estado ocupado até tarde a correr atrás de caçadores furtivos. Arthur Rance tinha, de facto, a intenção de deixar o château e, segundo o seu hábito, de ir a pé até à estação.

Monsieur Stangerson confirmou o que Rance dissera, acrescentando que não tinha pedido a Rance para jantar com ele porque o seu amigo se tinha despedido de ambos mais cedo, durante a noite. Monsieur Rance tinha pedido que lhe servissem chá no seu quarto, porque se tinha queixado de uma ligeira indisposição.

Bernier testemunhou, instruído por Rouletabille, que o guarda lhe tinha ordenado que se encontrassem num local perto do carvalhal, com o propósito de vigiar caçadores furtivos. Descobrindo que o guarda não comparecera ao encontro, ele, Bernier, tinha ido à sua procura. Quase chegara ao donjon quando viu uma figura a correr rapidamente numa direção oposta à dele, em direção à ala direita do château. Ouviu tiros de revólver atrás da figura e viu Rouletabille numa das janelas da galeria. Ouviu Rouletabille chamar por ele para disparar, e ele disparou. Acreditou que tinha matado o homem até saber, depois de Rouletabille ter descoberto o corpo, que o homem tinha morrido de uma facada. Quem a tinha dado, ele não podia imaginar. "Ninguém poderia ter estado perto do local sem que eu o visse." Quando o juiz de instrução o lembrou de que o local onde o corpo foi encontrado era muito escuro e que ele próprio não tinha sido capaz de reconhecer o guarda antes de disparar, o velho Bernier respondeu que nem eles tinham visto o outro corpo; nem o tinham encontrado. No pátio estreito onde cinco pessoas estavam de pé, teria sido estranho se o outro corpo, se lá estivesse, pudesse ter escapado. A única porta que dava para o pátio era a do quarto do guarda, e essa porta estava fechada, e a chave dela foi encontrada no bolso do guarda.

Seja como for, o juiz de instrução não prosseguiu com o seu inquérito nesta direção. Estava evidentemente convencido de que tínhamos falhado o homem que perseguíamos e que encontrámos o corpo do guarda na nossa perseguição. Este assunto do guarda era um assunto inteiramente diferente. Ele queria certificar-se sobre isso sem qualquer demora. Provavelmente, isso coincidia com as conclusões a que ele já tinha chegado sobre o guarda e as suas intrigas com a mulher de Mathieu, o estalajadeiro da Estalagem do Donjon. Este Mathieu, mais tarde durante a tarde, foi preso e levado para Corbeil, apesar do seu reumatismo. Tinha sido ouvido a ameaçar o guarda e, embora nenhuma prova contra ele tivesse sido encontrada na sua estalagem, o testemunho de carroceiros que tinham ouvido as ameaças foi suficiente para justificar a sua detenção.

O interrogatório tinha chegado a este ponto quando, para nossa surpresa, Frédéric Larsan regressou ao castelo. Vinha acompanhado por um dos empregados do caminho de ferro. Naquele momento, Rance e eu estávamos no vestíbulo a discutir a culpa ou a inocência de Mathieu, enquanto Rouletabille estava afastado, aparentemente imerso em pensamentos. O juiz de instrução e o seu escrivão encontravam-se na pequena sala verde, enquanto Darzac estava com o médico e Stangerson no quarto da senhora. Quando Frédéric Larsan entrou no vestíbulo com o empregado do caminho de ferro, Rouletabille e eu reconhecemo-lo imediatamente pela pequena barba loira. Trocámos olhares significativos. Larsan fez-se anunciar ao juiz de instrução pelo gendarme e entrou com o empregado da ferrovia enquanto o paizinho Jacques saía. Decorreram cerca de dez minutos durante os quais Rouletabille pareceu extremamente impaciente. A porta da sala foi então aberta e ouvimos o juiz chamar o gendarme, que entrou. Pouco depois, ele saiu, subiu as escadas e, regressando pouco depois, entrou onde estava o magistrado e disse:

— Senhor, o senhor Robert Darzac não virá!

— Como! Não virá! — exclamou o senhor de Marquet.

— Ele diz que não pode deixar a Mademoiselle Stangerson no seu estado atual.

— Muito bem — disse o senhor de Marquet; — então iremos ter com ele.

O senhor de Marquet e o gendarme subiram as escadas. Ele fez um sinal a Larsan e ao empregado da ferrovia para que o seguissem. Rouletabille e eu também fomos.

Ao chegarmos à porta do quarto da Mademoiselle Stangerson, o senhor de Marquet bateu. Apareceu uma criada de quarto. Era Sylvia, com o cabelo todo desgrenhado e a consternação estampada no rosto.

— O senhor Stangerson está dentro? — perguntou o magistrado.

— Sim, senhor.

— Diga-lhe que desejo falar com ele.

Stangerson saiu. A sua aparência era de uma miséria extrema.

— O que deseja? — perguntou ele ao magistrado. — Não me podem deixar em paz, senhor?

— Senhor — disse o magistrado —, é absolutamente necessário que eu veja o senhor Darzac imediatamente. Se não o puder convencer a vir, serei forçado a recorrer à ajuda da lei.

O professor não respondeu. Olhou para todos nós como um homem a ser levado para a execução e depois voltou para dentro do quarto.

Quase imediatamente a seguir, o senhor Robert Darzac saiu. Estava muito pálido. Olhou para nós e, ao pousar os olhos no empregado da ferrovia, os seus traços endureceram e ele mal conseguiu reprimir um gemido.

Ficámos todos muito comovidos com a aparência do homem. Sentimos que o que estava prestes a acontecer decidiria o destino do senhor Robert Darzac. Apenas o rosto de Frédéric Larsan estava radiante, exibindo uma alegria semelhante à de um cão que finalmente apanhara a sua presa.

Apontando para o empregado da ferrovia, o senhor de Marquet disse ao senhor Darzac:

— Reconhece este homem, senhor?

— Reconheço — disse o senhor Darzac, num tom que tentou em vão tornar firme. — Ele é um empregado na estação de Epinay-sur-Orge.

— Este jovem — continuou o senhor de Marquet —, afirma que o viu sair do comboio em Epinay-sur-Orge...

— Nessa noite — disse o senhor Darzac, interrompendo —, às dez e meia... é a mais pura verdade.

Seguiu-se um intervalo de silêncio.

— Senhor Darzac — continuou o magistrado num tom de profunda emoção —, senhor Darzac, o que estava a fazer nessa noite, em Epinay-sur-Orge, a essa hora?

O senhor Darzac permaneceu em silêncio, simplesmente fechando os olhos.

— Senhor Darzac — insistiu o senhor de Marquet —, pode dizer-me como empregou o seu tempo, nessa noite?

O senhor Darzac abriu os olhos. Parecia ter recuperado o autocontrolo.

— Não, senhor.

— Pense, senhor! Pois se persistir na sua estranha recusa, ver-me-ei na penosa necessidade de o manter à minha disposição.

— Recuso-me.

— Senhor Darzac! — em nome da lei, prendo-o!

O magistrado mal tinha pronunciado as palavras quando vi Rouletabille mover-se rapidamente em direção ao senhor Darzac. Certamente que lhe teria falado, mas Darzac, com um gesto, manteve-o afastado. Quando o gendarme se aproximou do seu prisioneiro, um grito desesperado ecoou pelo quarto:

— Robert! — Robert!

Reconhecemos a voz da Mademoiselle Stangerson. Todos estremeceu. O próprio Larsan empalideceu. O senhor Darzac, em resposta ao grito, tinha corrido de volta para o quarto.

O magistrado, o gendarme e Larsan seguiram logo atrás. Rouletabille e eu permanecemos no limiar. Foi uma visão de partir o coração que se apresentou aos nossos olhos. A Mademoiselle Stangerson, com um rosto de uma palidez mortal, erguera-se na cama, apesar dos esforços de contenção de dois médicos e do seu pai. Estendia os seus braços trémulos em direção a Robert Darzac, sobre o qual Larsan e o gendarme tinham lançado as mãos. Os seus olhos dilatados viam — ela compreendeu — os seus lábios pareceram formar uma palavra, mas ninguém a percebeu; e ela caiu de volta, inconsciente.

O senhor Darzac foi retirado apressadamente do quarto e colocado no vestíbulo à espera do veículo que Larsan fora buscar. Estávamos todos dominados pela emoção e até o senhor de Marquet tinha lágrimas nos olhos. Rouletabille aproveitou a oportunidade para dizer ao senhor Darzac:

— Vai apresentar alguma defesa?

— Não! — respondeu o prisioneiro.

— Muito bem, então eu apresentá-la-ei, senhor.

— Não o pode fazer — disse o infeliz homem com um ténue sorriso.

— Posso — e fá-lo-ei.

A voz de Rouletabille tinha uma força e confiança estranhas.

— Posso fazê-lo, senhor Robert Darzac, porque sei mais do que o senhor!

— Vá! Vá! — murmurou Darzac, quase zangado.

— Não tenha medo! Só saberei o que o beneficiará.

— Não deve saber nada, jovem, se quer que eu lhe seja grato.

Rouletabille abanou a cabeça, aproximando-se de Darzac.

— Escute o que estou prestes a dizer — disse ele em tom baixo —, e que isso lhe dê confiança. O senhor não sabe o nome do assassino. A Mademoiselle Stangerson sabe-o; mas apenas metade dele; eu, porém, conheço as suas duas metades; conheço o homem por inteiro!

Robert Darzac abriu os olhos, com um olhar que mostrava que não tinha compreendido uma palavra do que Rouletabille lhe dissera. Nesse momento, o transporte chegou, conduzido por Frédéric Larsan. Darzac e o gendarme entraram nele, ficando Larsan no banco do cocheiro. O prisioneiro foi levado para Corbeil.

Capítulo XXV

Rouletabille parte em viagem

Nessa mesma noite, Rouletabille e eu deixámos o Glandier. Estávamos muito contentes por sair dali e já nada nos prendia. Declarei a minha intenção de desistir de todo o assunto. Tinha sido demasiado para mim. Rouletabille, com uma palmada amigável no meu ombro, confessou que não tinha mais nada a aprender no Glandier; aprendera ali tudo o que o local tinha para lhe dizer. Chegámos a Paris por volta das oito horas, jantámos e depois, exaustos, separámo-nos, combinando encontrar-nos na manhã seguinte no meu quarto.

Rouletabille chegou no dia seguinte à hora combinada. Estava vestido com um fato de tweed inglês, com um casaco ulster sobre o braço e uma valise na mão. Evidentemente, preparara-se para uma viagem.

— Quanto tempo ficará fora? — perguntei.

— Um mês ou dois — disse ele. — Tudo depende.

Não lhe fiz mais perguntas.

— Sabe — perguntou ele —, qual foi a palavra que a Mademoiselle Stangerson tentou dizer antes de desmaiar?

— Não — ninguém a ouviu.

— Eu ouvi! — respondeu Rouletabille. — Ela disse "Fale!".

— Acha que Darzac falará?

— Nunca.

Eu estava prestes a fazer mais algumas observações, mas ele apertou-me a mão calorosamente e despediu-se. Só tive tempo de lhe fazer uma pergunta antes de ele partir.

— Não tem medo de que outras tentativas possam ser feitas enquanto estiver fora?

— Não! Não agora que Darzac está na prisão — respondeu ele.

Com esta estranha observação, ele partiu. Eu não voltaria a vê-lo até ao dia do julgamento de Darzac no tribunal, quando ele apareceu para explicar o inexplicável.

Capítulo XXVI

No qual Joseph Rouletabille é esperado com impaciência

No dia 15 de janeiro, isto é, dois meses e meio após os trágicos acontecimentos que narrei, o "Epoque" publicou, como primeira coluna da primeira página, o seguinte artigo sensacional:

"O júri de Seine-et-Oise é convocado hoje para dar o seu veredito sobre um dos assuntos mais misteriosos nos anais do crime. Nunca houve um caso com tantos pontos obscuros, incompreensíveis e inexplicáveis. E, no entanto, a acusação não hesitou em colocar no banco dos réus um homem que é respeitado, estimado e amado por todos os que o conheciam — um jovem sábio, a esperança da ciência francesa, cuja vida inteira foi dedicada ao conhecimento e à verdade. Quando Paris soube da prisão do senhor Robert Darzac, um grito unânime de protesto ergueu-se de todos os lados. Toda a Sorbonne, envergonhada por este ato do juiz de instrução, afirmou a sua crença na inocência do noivo da Mademoiselle Stangerson. O senhor Stangerson foi veemente na sua denúncia deste erro judiciário. Não há dúvida, na mente de ninguém, de que se a vítima pudesse falar, exigiria aos jurados de Seine-et-Oise o homem com quem deseja casar e que a acusação quer enviar para o cadafalso. Espera-se que a Mademoiselle Stangerson recupere em breve a sua razão, que foi temporariamente perturbada pelo horrível mistério do Glandier. A questão perante o júri é a que nos propomos tratar neste mesmo dia.

"Decidimos não permitir que doze homens dignos cometam um erro judiciário vergonhoso. Confessamos que as coincidências notáveis, as muitas evidências incriminatórias e o silêncio inexplicável por parte do acusado, bem como uma ausência total de qualquer prova de álibi, foram suficientes para garantir que o tribunal de juízes assumisse que apenas neste homem residia a verdade do assunto. As evidências são, na aparência, tão avassaladoras contra o senhor Robert Darzac que um detetive tão bem informado, tão inteligente e geralmente tão bem-sucedido como o senhor Frédéric Larsan pode ser desculpado por ter sido induzido em erro por elas. Até agora, tudo correu contra o senhor Robert Darzac no inquérito judicial. Hoje, contudo, vamos defendê-lo perante o júri e vamos trazer para a barra das testemunhas uma luz que iluminará todo o mistério do Glandier. Pois nós possuímos a verdade.

"Se não falámos antes, foi porque os interesses de certas partes no caso exigiam que seguíssemos esse caminho. Os nossos leitores poderão lembrar-se das reportagens não assinadas que publicámos sobre o 'Pé esquerdo da Rue Oberkampf', na altura do famoso roubo do Crédit Universel, e do famoso caso dos 'Lingotes de Ouro da Casa da Moeda'. Em ambos os casos, fomos capazes de descobrir a verdade muito antes de a excelente engenhosidade de Frédéric Larsan ter sido capaz de a desvendar. Estas reportagens foram escritas pelo nosso repórter mais jovem, Joseph Rouletabille, um jovem de dezoito anos cuja fama será, amanhã, mundial. Quando a atenção foi chamada pela primeira vez para o caso do Glandier, o nosso jovem repórter estava no local e instalado no castelo, quando a todos os outros representantes da imprensa tinha sido negada a entrada. Trabalhou lado a lado com Frédéric Larsan. Ficou espantado e aterrorizado com o grave erro que o célebre detetive estava prestes a cometer e tentou desviá-lo da falsa pista que seguia; mas o grande Fred recusou receber instruções deste jovem jornalista. Sabemos agora a que isso levou o senhor Robert Darzac.

"Mas agora, a França deve saber — o mundo inteiro deve saber, que, na própria noite em que o senhor Darzac foi preso, o jovem Rouletabille entrou na nossa redação e informou-nos de que estava prestes a partir numa viagem. 'Quanto tempo ficarei fora', disse ele, 'não posso dizer; talvez um mês — talvez dois — talvez três — talvez eu nunca regresse. Aqui está uma carta. Se eu não estiver de volta no dia em que o senhor Darzac for comparecer perante o Tribunal de Assizes, façam com que esta carta seja aberta e lida ao tribunal, após todas as testemunhas terem sido ouvidas. Combinem com o advogado do senhor Darzac. O senhor Darzac é inocente. Nesta carta está escrito o nome do assassino; e — isso é tudo o que tenho a dizer. Estou a partir para obter as minhas provas — para a evidência irrefutável da culpa do assassino'. O nosso repórter partiu. Durante muito tempo ficámos sem notícias dele; mas, há uma semana, um estranho visitou o nosso gerente e disse: 'Ajam de acordo com as instruções de Joseph Rouletabille, se for necessário fazê-lo. A carta deixada por ele contém a verdade'. O cavalheiro que nos trouxe esta mensagem não quis dar o seu nome.

"Hoje, 15 de janeiro, é o dia do julgamento. Joseph Rouletabille não regressou. Pode ser que nunca mais o vejamos. A imprensa também conta os seus heróis, os seus mártires do dever. Pode ser que ele já não esteja entre nós. Saberemos como vingá-lo. O nosso gerente estará, esta tarde, no Tribunal de Assizes em Versalhes, com a carta — a carta que contém o nome do assassino!"

No topo do artigo aparecia um retrato de Rouletabille — o mesmo que é apresentado como frontispício deste livro.

* * * * *

Aqueles parisienses que afluíram ao Tribunal de Assizes em Versalhes para estarem presentes no julgamento do que era conhecido como o "Mistério do Quarto Amarelo", certamente lembrar-se-ão da terrível multidão na estação de Saint-Lazare. Os comboios comuns estavam tão cheios que tiveram de ser formados comboios especiais. O artigo no "Epoque" tinha excitado tanto a população que a discussão era intensa por toda a parte, quase chegando a vias de facto. Partidários de Rouletabille lutavam com os apoiantes de Frédéric Larsan. Curiosamente, a excitação devia-se menos ao facto de um homem inocente estar em perigo de ser injustamente condenado do que ao interesse pelas suas próprias ideias sobre o Mistério do Quarto Amarelo. Cada um tinha a sua explicação, à qual se agarrava firmemente. Aqueles que explicavam o crime com a teoria de Frédéric Larsan não admitiam que pudesse haver qualquer dúvida quanto à perspicácia do popular detetive. Outros, que tinham chegado a uma solução diferente, insistiam naturalmente que essa era a explicação de Rouletabille, embora ainda não soubessem qual era.

Com o "Epoque" do dia nas mãos, os "Larsans" e os "Rouletabilles" lutavam e empurravam-se nos degraus do Palais de Justice, até dentro do próprio tribunal. Aqueles que não conseguiram entrar permaneceram nas redondezas até à noite e foram, com grande dificuldade, mantidos afastados pela soldadesca e pela polícia. Ficaram ávidos por notícias, acolhendo os rumores mais absurdos. A certa altura, espalhou-se o boato de que o próprio senhor Stangerson tinha sido preso no tribunal e confessara ser o assassino. Isto demonstra a que ponto de loucura a excitação nervosa pode levar as pessoas. Rouletabille ainda era esperado. Alguns pretendiam conhecê-lo; e quando um jovem com um "passe" atravessou o espaço aberto que separava a multidão do Tribunal, ocorreu uma escaramuça. Ouviram-se gritos de "Rouletabille! — ali está Rouletabille!". A chegada do gerente do jornal foi o sinal para uma grande manifestação. Alguns aplaudiram, outros vaiaram.

* * * * *

O julgamento em si foi presidido pelo senhor de Rocouz, um juiz cheio dos preconceitos da sua classe, mas um homem honesto de coração. As testemunhas tinham sido chamadas. Eu estava lá, claro, assim como todos os que tinham, de alguma forma, estado em contacto com os mistérios do Glandier. O senhor Stangerson — parecendo muitos anos mais velho e quase irreconhecível —, Larsan, Arthur Rance, com o rosto tão rubicundo como sempre, o paizinho Jacques, o paizinho Mathieu, que foi levado ao tribunal algemado entre dois gendarmes, a senhora Mathieu, em lágrimas, os dois Berniers, as duas enfermeiras, o administrador, todos os criados do castelo, o empregado dos Correios de Paris, o empregado da ferrovia de Epinay, alguns amigos do senhor e da Mademoiselle Stangerson, e todas as testemunhas do senhor Darzac. Tive a sorte de ser chamado cedo no julgamento, de modo que pude assistir e estar presente em quase todo o processo.

O tribunal estava tão cheio que muitos advogados foram forçados a encontrar lugares nos degraus. Atrás da bancada dos juízes estavam representantes de outros tribunais. O senhor Robert Darzac estava no banco dos réus entre polícias, alto, elegante e calmo. Um murmúrio de admiração, mais do que de compaixão, saudou a sua aparição. Ele inclinou-se para o seu advogado, Maître Henri Robert, que, assistido pelo seu secretário-chefe, Maître André Hesse, folheava ativamente os documentos do seu processo.

Muitos esperavam que o senhor Stangerson, após prestar o seu depoimento, tivesse ido ter com o prisioneiro e lhe tivesse apertado a mão; mas ele saiu do tribunal sem outra palavra. Foi notado que os jurados pareciam estar profundamente interessados numa rápida conversa que o gerente do "Epoque" estava a ter com Maître Henri Robert. O gerente, mais tarde, sentou-se na primeira fila dos lugares públicos. Alguns ficaram surpreendidos por não lhe ter sido pedido que permanecesse com as outras testemunhas na sala reservada para elas.

A leitura da acusação passou, como sempre acontece, sem qualquer incidente. Não irei aqui relatar o longo interrogatório a que o senhor Darzac foi submetido. Ele respondeu a todas as perguntas de forma rápida e fácil. O seu silêncio quanto aos assuntos importantes de que temos conhecimento estava totalmente contra ele. Parecia que esta reticência lhe seria fatal. Ele ressentiu-se das reprimendas do Presidente. Foi-lhe dito que o seu silêncio poderia significar a morte.

— Muito bem — disse ele; — submeter-me-ei a isso; mas sou inocente.

Com aquela esplêndida habilidade que tornou célebre a sua fama, Maître Robert aproveitou o incidente e tentou mostrar que ele realçava nobremente o caráter do seu cliente; pois apenas naturezas heroicas poderiam permanecer em silêncio por razões morais perante tal perigo. O eminente advogado, contudo, só conseguiu convencer aqueles que já estavam convencidos da inocência de Darzac. Na suspensão da sessão, Rouletabille ainda não tinha chegado. Cada vez que uma porta se abria, todos os olhos ali se voltavam para ela e depois para o gerente do "Epoque", que estava sentado impassível no seu lugar. Quando ele, a dada altura, tateou o bolso, seguiu-se um forte murmúrio de expectativa. A carta!

Não é, contudo, minha intenção relatar em detalhe o desenrolar do julgamento. Os meus leitores estão suficientemente familiarizados com os mistérios que envolvem o caso do Glandier para me permitir avançar para o desfecho verdadeiramente dramático deste dia memorável.

Quando o julgamento foi retomado, Maître Henri Robert questionou o paizinho Mathieu quanto à sua cumplicidade na morte do guarda. A sua esposa também foi trazida e confrontada pelo marido. Ela começou a chorar e confessou que tinha sido amante do guarda, e que o marido suspeitava disso. Ela afirmou, contudo, mais uma vez, que ele não tinha tido nada a ver com o assassínio do seu amante. Maître Henri Robert pediu então ao tribunal que ouvisse Frédéric Larsan sobre este ponto.

— Numa curta conversa que tive com Frédéric Larsan, durante a pausa — declarou o advogado —, ele deu-me a entender que a morte do guarda pode ter sido provocada de outra forma que não pela mão de Mathieu. Será interessante ouvir a teoria de Frédéric Larsan.

Frédéric Larsan foi trazido. A sua explicação foi bastante clara.

— Não vejo necessidade — disse ele — de envolver Mathieu nisto. Disse ao senhor de Marquet que as ameaças daquele homem tinham influenciado o juiz de instrução contra ele. Para mim, a tentativa de homicídio da Mademoiselle e a morte do guarda são obra da mesma pessoa. O assassino da Mademoiselle Stangerson, fugindo pelo pátio, foi alvo de tiros; pensou-se que fora atingido, talvez morto. Na realidade, ele apenas tropeçou no momento do seu desaparecimento atrás do canto da ala direita do castelo. Ali encontrou o guarda que, sem dúvida, tentou agarrá-lo. O assassino tinha na mão a faca com que esfaqueara a Mademoiselle Stangerson e com ela matou o guarda.

Esta explicação muito simples pareceu imediatamente plausível e satisfatória. Ouviu-se um murmúrio de aprovação.

— E o assassino? O que aconteceu com ele? — perguntou o Presidente.

— Ele estava evidentemente escondido num canto escuro no fundo do pátio. Depois de as pessoas terem abandonado o pátio, levando consigo o corpo do guarda, o assassino escapou calmamente.

Mal as palavras tinham saído da boca de Larsan, do fundo do tribunal veio uma voz jovem:

«Concordo com Frédéric Larsan quanto à morte do guarda; mas não concordo com ele quanto à forma como o assassino escapou!»

Todos se voltaram, espantados. Os escrivães do tribunal correram na direção de quem falava, gritando silêncio, e o Presidente ordenou, furioso, que o intruso fosse imediatamente expulso. Contudo, a mesma voz clara voltou a fazer-se ouvir:

«Sou eu, Senhor Presidente — Joseph Rouletabille!»

Capítulo XXVII

No qual Joseph Rouletabille aparece em toda a sua glória

A excitação era extrema. Ouviam-se gritos de mulheres a desmaiar no meio da extraordinária agitação e tumulto. A «majestade da lei» foi completamente esquecida. O Presidente tentou em vão fazer-se ouvir. Rouletabille avançou com dificuldade, mas, à força de cotoveladas, chegou junto do seu advogado e cumprimentou-o cordialmente. A carta foi-lhe entregue e, metendo-a no bolso, virou-se para a tribuna das testemunhas. Estava vestido exatamente como no dia em que me deixou, até mesmo com o sobretudo pendurado no braço. Voltando-se para o Presidente, disse:

«Peço perdão, Senhor Presidente, mas acabo de chegar da América. O vapor atrasou-se. O meu nome é Joseph Rouletabille!»

O silêncio que se seguiu à sua entrada na tribuna das testemunhas foi quebrado por risos quando as suas palavras foram ouvidas. Todos pareciam aliviados e contentes por o ver ali, como se esperassem ouvir finalmente a verdade.

Mas o Presidente estava extremamente irritado:

«Portanto, você é Joseph Rouletabille», respondeu; «pois bem, meu jovem, vou ensinar-lhe o que acontece quando se faz da justiça uma farsa. Em virtude do meu poder discricionário, mantenho-o à disposição do tribunal.»

«Não peço nada melhor, Senhor Presidente. Vim aqui com esse propósito. Peço humildemente perdão ao tribunal pela perturbação da qual fui a causa inocente. Peço-lhe que acredite que ninguém tem pelo tribunal um respeito maior do que eu. Entrei como pude.» Ele sorriu.

«Retirem-no daqui!», ordenou o Presidente.

O Maître Henri Robert interveio. Começou por pedir desculpa pelo jovem, que, disse ele, era movido apenas pelas melhores intenções. Fez o Presidente compreender que o depoimento de uma testemunha que tinha dormido no Glandier durante toda aquela semana decisiva não podia ser omitido e, além disso, a presente testemunha tinha vindo para nomear o verdadeiro assassino.

«Vai dizer-nos quem era o assassino?», perguntou o Presidente, algo convencido, embora ainda cético.

«Vim com esse propósito, Senhor Presidente!», respondeu Rouletabille.

Uma tentativa de aplausos foi silenciada pelo oficial de justiça.

«Joseph Rouletabille», disse Maître Henri Robert, «não foi regularmente intimado como testemunha, mas espero, Senhor Presidente, que o interrogue em virtude dos seus poderes discricionários.»

«Muito bem!», disse o Presidente, «interrogá-lo-emos. Mas temos de proceder por ordem.»

O Procurador-Geral levantou-se:

«Seria, talvez, melhor», disse ele, «que o jovem nos dissesse agora quem suspeita.»

O Presidente acenou ironicamente:

«Se o Procurador-Geral atribui importância ao depoimento do Senhor Joseph Rouletabille, não vejo razão para que esta testemunha não nos dê o nome do assassino.»

Ouvir-se-ia cair um alfinete. Rouletabille permaneceu em silêncio, olhando com simpatia para Darzac, que, pela primeira vez desde o início do julgamento, se mostrava agitado.

«Bem», gritou o Presidente, «aguardamos o nome do assassino.»

Rouletabille, metendo a mão no bolso do colete, tirou o relógio e, olhando para ele, disse:

«Senhor Presidente, não posso nomear o assassino antes das seis e meia!»

Murmúrios altos de desapontamento encheram a sala. Ouviu-se alguns dos advogados dizer: «Ele está a troçar de nós!»

O Presidente, com voz severa, disse:

«Esta brincadeira já durou tempo demais. Pode retirar-se, Senhor, para a sala das testemunhas. Mantenho-o à nossa disposição.»

Rouletabille protestou.

«Garanto-lhe, Senhor Presidente», gritou ele com a sua voz aguda e clara, «que, quando eu nomear o assassino, entenderá por que razão eu não podia falar antes das seis e meia. Afirmo isto sob a minha honra. Posso, contudo, dar-lhe agora alguma explicação sobre o assassinato do guarda. O Senhor Frédéric Larsan, que me viu a trabalhar no Glandier, pode dizer-lhe com que cuidado estudei este caso. Vi-me obrigado a discordar dele quanto à detenção do Senhor Robert Darzac, que é inocente. O Senhor Larsan conhece a minha boa-fé e sabe que se pode atribuir alguma importância às minhas descobertas, que muitas vezes corroboraram as suas próprias.»

Frédéric Larsan disse:

«Senhor Presidente, será interessante ouvir o Senhor Joseph Rouletabille, especialmente porque ele discorda de mim.»

Um murmúrio de aprovação saudou o discurso do detetive. Ele era um bom desportista e aceitou o desafio. A luta entre os dois prometia ser emocionante.

Como o Presidente permanecia em silêncio, Frédéric Larsan continuou:

«Concordamos que o assassino do guarda foi o agressor da Mademoiselle Stangerson; mas, como não estamos de acordo sobre como o assassino escapou, estou curioso por ouvir a explicação do Senhor Rouletabille.»

«Não tenho dúvidas de que está», disse o meu amigo.

Risos gerais seguiram-se a este comentário. O Presidente declarou, irado, que, se se repetisse, mandaria despejar o tribunal.

«Agora, meu jovem», disse o Presidente, «ouviu o Senhor Frédéric Larsan; como é que o assassino fugiu do pátio?»

* * * * *

Rouletabille olhou para Madame Mathieu, que lhe retribuiu o sorriso tristemente.

«Uma vez que Madame Mathieu», disse ele, «admitiu livremente a sua intimidade com o guarda...»

«Ora, é o rapaz!», exclamou o velho Mathieu.

«Retirem esse homem!», ordenou o Presidente.

Mathieu foi retirado do tribunal. Rouletabille continuou:

«Uma vez que ela fez esta confissão, sinto-me livre para vos dizer que ela se encontrava frequentemente com o guarda à noite, no primeiro andar da torre de menagem, na sala que outrora fora um oratório. Estes encontros tornaram-se mais frequentes quando o seu marido estava de cama devido ao reumatismo. Ela dava-lhe morfina para aliviar as dores e para ter mais tempo para os encontros. Madame Mathieu foi ao castelo naquela noite, envolvida num grande xale preto que servia também de disfarce. Era este o fantasma que perturbava o velho Jacques. Ela sabia imitar o miar do gato da Mãe Angenoux e fazia os sons para avisar o guarda da sua presença. As recentes reparações da torre de menagem não interferiram com os seus encontros na antiga sala do guarda, na torre, visto que o novo quarto que lhe fora atribuído no final da ala direita estava separado da sala do administrador apenas por uma divisória.

«Antes da tragédia no pátio, Madame Mathieu e o guarda deixaram a torre juntos. Soube destes factos pelo meu exame das pegadas no pátio na manhã seguinte. Bernier, o porteiro, que eu tinha colocado atrás da torre — como ele próprio explicará — não podia ver o que se passava no pátio. Ele só chegou ao pátio quando ouviu os disparos do revólver e, então, disparou. Quando a mulher se separou do homem, ela dirigiu-se para o portão aberto do pátio, enquanto ele regressou ao seu quarto.

«Ele tinha quase chegado à porta quando os revólveres dispararam. Tinha acabado de chegar ao canto quando uma sombra saltou. Entretanto, Madame Mathieu, surpreendida pelos disparos e pela entrada de pessoas no pátio, agachou-se na escuridão. O pátio é grande e, estando perto do portão, ela poderia facilmente ter saído sem ser vista. Mas permaneceu lá e viu o corpo ser levado. Em grande agonia de espírito, aproximou-se do vestíbulo e viu o corpo sem vida do seu amante nas escadas, iluminado pela lanterna do velho Jacques. Ela fugiu então; e o velho Jacques juntou-se a ela.

«Naquela mesma noite, antes do assassinato, o velho Jacques tinha sido acordado pelo miar do gato e, olhando pela janela, tinha visto o fantasma preto. Vestindo-se à pressa, saiu e reconheceu-a. Ele é um velho amigo de Madame Mathieu e, quando ela o viu, teve de lhe contar as suas relações com o guarda e implorou a sua ajuda. O velho Jacques teve pena dela e acompanhou-a através do carvalhal para fora do parque, passando pela orla do lago até à estrada de Épinay. A partir daí, era apenas uma distância muito curta até sua casa.

«O velho Jacques regressou ao castelo e, vendo quão importante era que a presença de Madame Mathieu no castelo permanecesse desconhecida, fez tudo o que pôde para a esconder. Apelo ao Senhor Larsan, que me viu, na manhã seguinte, examinar os dois conjuntos de pegadas.»

Aqui, Rouletabille, voltando-se para Madame Mathieu, com uma vénia, disse:

«As pegadas de Madame têm uma estranha semelhança com as pegadas elegantes do assassino.»

Madame Mathieu estremeceu e olhou para ele com os olhos arregalados, como se estivesse espantada com o que ele diria a seguir.

«Madame tem um pé bem formado, comprido e bastante grande para uma mulher. A impressão, com a sua biqueira pontiaguda, é muito parecida com a do assassino.»

Um movimento no tribunal foi reprimido por Rouletabille. Ele manteve a atenção deles de imediato.

«Apresso-me a acrescentar», continuou ele, «que não atribuo importância a isto. Sinais exteriores como estes são muitas vezes suscetíveis de nos conduzir ao erro, se não raciocinarmos corretamente. As pegadas do Senhor Robert Darzac também são parecidas com as do assassino e, no entanto, ele não é o assassino!»

O Presidente, voltando-se para Madame Mathieu, perguntou:

«Isso está de acordo com o que sabe que aconteceu?»

«Sim, Senhor Presidente», respondeu ela, «é como se o Senhor Rouletabille estivesse atrás de nós.»

«Viu o assassino a correr para o final da ala direita?»

«Sim, tão claramente como os vi depois a levar o corpo do guarda.»

«O que aconteceu ao assassino? Estava no pátio e poderia facilmente ter visto?»

«Não vi nada dele, Senhor Presidente. Ficou muito escuro nessa altura.»

«Então o Senhor Rouletabille», disse o Presidente, «deve explicar como é que o assassino se escapou.»

Rouletabille continuou:

«Era impossível para o assassino escapar pelo caminho por onde tinha entrado no pátio sem que o víssemos; ou, se não o pudéssemos ver, teríamos certamente sentido a sua presença, uma vez que o pátio é muito estreito, fechado por grades de ferro altas.»

«Então, se o homem estava encurralado naquele quadrado estreito, como é que não o encontraram? — Estou a perguntar-lhe isso há meia hora.»

«Senhor Presidente», respondeu Rouletabille, «não posso responder a essa pergunta antes das seis e meia!»

A esta altura, as pessoas na sala do tribunal começavam a acreditar nesta nova testemunha. Divertiam-se com a sua atuação melodramática ao fixar a hora; mas pareciam ter confiança no resultado. Quanto ao Presidente, parecia que também tinha decidido levar o jovem da mesma maneira. Estava, certamente, impressionado com a explicação de Rouletabille sobre o papel de Madame Mathieu.

«Bem, Senhor Rouletabille», disse ele, «como quiser; mas não nos deixe ver mais nada de si antes das seis e meia.»

Rouletabille fez uma vénia ao Presidente e dirigiu-se à porta da sala das testemunhas.

* * * * *

Abri caminho silenciosamente através da multidão e saí do tribunal quase ao mesmo tempo que Rouletabille. Ele cumprimentou-me calorosamente e parecia feliz.

«Não lhe vou perguntar, meu caro», disse eu, sorrindo, «o que tem andado a fazer na América; porque não tenho dúvidas de que dirá que não me pode contar até depois das seis e meia.»

«Não, meu caro Sainclair, dir-lhe-ei agora mesmo por que fui à América. Fui em busca do nome da outra metade do assassino!»

«O nome da outra metade?»

«Exatamente. Quando deixámos o Glandier pela última vez, eu sabia que havia duas metades do assassino e apenas o nome de uma delas. Fui à América buscar o nome da outra metade.»

Eu estava demasiado perplexo para responder. Nesse momento, entrámos na sala das testemunhas e Rouletabille foi imediatamente rodeado. Mostrou-se muito amigável para com todos, exceto Arthur Rance, a quem exibiu uma frieza de maneiras marcada. Frédéric Larsan também entrou. Rouletabille aproximou-se e apertou-lhe a mão calorosamente. A sua atitude para com o detetive mostrava que ele tinha levado a melhor sobre o polícia. Larsan sorriu e perguntou-lhe o que tinha andado a fazer na América. Rouletabille começou por lhe contar algumas anedotas da sua viagem. Depois, afastaram-se juntos, aparentemente com o objetivo de falar confidencialmente. Deixei-os, portanto, discretamente e, sendo curioso por ouvir o testemunho, voltei ao meu lugar na sala do tribunal, onde o público mostrava claramente a sua falta de interesse pelo que se passava, na sua impaciência pelo regresso de Rouletabille à hora marcada.

* * * * *

Ao soar das seis e meia, Joseph Rouletabille foi trazido novamente. É impossível descrever a tensão e a excitação que surgiram em todos os rostos à medida que ele avançava para o estrado. Darzac levantou-se, terrivelmente pálido.

O Presidente, dirigindo-se a Rouletabille, disse gravemente:

«Não lhe pedirei que preste juramento, porque não foi regularmente intimado; mas confio que não haja necessidade de insistir na gravidade da declaração que está prestes a fazer.»

Rouletabille olhou o Presidente com muita calma e firmeza e respondeu:

«Sim, Senhor.»

«Na sua última aparição aqui», disse o Presidente, «chegámos ao ponto em que nos ia dizer como é que o assassino escapou e também o seu nome. Agora, Senhor Rouletabille, aguardamos a sua explicação.»

«Muito bem, Senhor», começou o meu amigo em meio a um silêncio profundo. «Tinha explicado como era impossível para o assassino fugir sem ser visto. E, no entanto, ele estava ali connosco no pátio.»

«E não o viu? Pelo menos é o que a acusação declara.»

«Não! Todos nós o vimos, Senhor Presidente!», gritou Rouletabille.

«Então, por que não foi preso?»

«Porque ninguém, além de mim, sabia que ele era o assassino. Teria estragado os meus planos tê-lo preso e eu não tinha, então, outra prova além do meu próprio raciocínio. Estava convencido de que tínhamos o assassino à nossa frente e de que estávamos, de facto, a olhar para ele. Trouxe agora o que considero a prova indiscutível.»

«Fale, Senhor! Diga-nos o nome do assassino.»

«Encontrá-lo-á na lista de nomes presentes no tribunal na noite da tragédia», respondeu Rouletabille.

As pessoas presentes na sala do tribunal começaram a mostrar impaciência. Algumas delas chegaram a pedir o nome e foram silenciadas pelo oficial de justiça.

«A lista inclui o velho Jacques, Bernier, o porteiro, e o Senhor Arthur Rance», disse o Presidente. «Acusa algum deles?»

«Não, Senhor!»

«Então não percebo onde quer chegar. Não havia outra pessoa no final do pátio.»

«Sim, Senhor, havia; não no final, mas acima do pátio, que estava debruçado da janela.»

«Refere-se a Frédéric Larsan!», exclamou o Presidente.

«Sim! Frédéric Larsan!», respondeu Rouletabille num tom retumbante. «Frédéric Larsan é o assassino!»

* * * * *

A sala do tribunal encheu-se imediatamente de protestos altos e indignados. Tão espantado estava ele que o Presidente não tentou acalmá-los. O rápido silêncio que se seguiu foi quebrado pelas palavras sussurradas nitidamente pelos lábios de Robert Darzac:

«É impossível! Ele está louco!»

«Atreve-se a acusar Frédéric Larsan, Senhor?», perguntou o Presidente. «Se não está louco, quais são as suas provas?»

«Provas, Senhor? Quer provas? Pois bem, aqui está uma», gritou Rouletabille de forma estridente. «Que Frédéric Larsan seja chamado!»

«Oficial de justiça, chame Frédéric Larsan.»

O oficial de justiça apressou-se para a porta lateral, abriu-a e desapareceu. A porta permaneceu aberta, enquanto todos os olhos se voltavam expectantes para ela. O escrivão reapareceu e, avançando, disse:

«Senhor Presidente, Frédéric Larsan não está aqui. Saiu por volta das quatro horas e não foi visto desde então.»

«Essa é a minha prova!», gritou Rouletabille, triunfante.

«Explique-se?», exigiu o Presidente.

«A minha prova é a fuga de Larsan», disse o jovem repórter. «Ele não voltará. Não verá mais Frédéric Larsan.»

«A não ser que esteja a brincar com o tribunal, Senhor, por que não o acusou quando ele estava presente? Ele ter-lhe-ia respondido nessa altura.»

«Ele não poderia dar outra resposta que não a que deu agora com a sua fuga.»

«Não podemos acreditar que Larsan tenha fugido. Não havia razão para o fazer. Sabia ele que o iria acusar?»

«Sabia. Disse-lhe que o faria.»

«Quer dizer que, sabendo que Larsan era o assassino, lhe deu a oportunidade de escapar?»

«Sim, Senhor Presidente, dei», respondeu Rouletabille, orgulhoso. «Não sou polícia, sou jornalista; e o meu trabalho não é prender pessoas. O meu trabalho está ao serviço da verdade e não é o de um carrasco. Se é justo, Senhor, verá que tenho razão. Pode agora entender por que me abstive até esta hora de divulgar o nome. Dei a Larsan tempo para apanhar o comboio das 4:17 para Paris, onde ele saberia onde se esconder e não deixaria vestígios. Não encontrará Frédéric Larsan», declarou Rouletabille, fixando os seus olhos no Senhor Robert Darzac. «Ele é demasiado astuto. É um homem que sempre vos escapou e que procuram há muito tempo em vão. Se ele não conseguiu enganar-me, pode ainda facilmente enganar qualquer polícia. Este homem que, há quatro anos, se apresentou na Sûreté e se tornou célebre como Frédéric Larsan, é notório sob outro nome — um nome bem conhecido no crime. Frédéric Larsan, Senhor Presidente, é Ballmeyer!»

«Ballmeyer!», gritou o Presidente.

«Ballmeyer!», exclamou Robert Darzac, saltando da cadeira. «Ballmeyer! — Era verdade, então!»

«Ah! Senhor Darzac; já não pensa que estou louco!», gritou Rouletabille.

Ballmeyer! Ballmeyer! Nenhuma outra palavra se podia ouvir na sala do tribunal. O Presidente suspendeu a audiência.

* * * * *

Aqueles dos meus leitores que talvez não tenham ouvido falar de Ballmeyer perguntar-se-ão sobre a excitação que o nome causou. E, no entanto, as façanhas deste criminoso notável formam o tema das narrativas mais dramáticas dos jornais e dos registos criminais dos últimos vinte anos. Tinha sido noticiado que ele estava morto e, assim, tinha escapado à polícia como escapara a ela durante toda a sua carreira.

Ballmeyer era o melhor espécime do «cavalheiro vigarista» de alta classe. Era um perito em truques de prestidigitação e nenhum criminoso mais ousado ou mais implacável viveu jamais. Era recebido na melhor sociedade e era membro de alguns dos clubes mais exclusivos. Em muitas das suas expedições predatórias, não hesitou em usar a faca e o osso de carneiro. Nenhuma dificuldade o detinha e nenhuma «operação» era demasiado perigosa. Tinha sido apanhado, mas escapou na própria manhã do seu julgamento, atirando pimenta aos olhos dos guardas que o conduziam ao Tribunal. Soube-se mais tarde que, apesar da caça cerrada feita pelos mais experientes detetives, ele tinha assistido, nessa mesma noite, a uma estreia no Théâtre Français, sem o menor disfarce.

Saiu de França, mais tarde, para «trabalhar» a América. A polícia de lá conseguiu capturá-lo uma vez, mas o homem extraordinário escapou no dia seguinte. Seria necessário um volume para relatar as aventuras deste mestre do crime. E, no entanto, este foi o homem que Rouletabille deixou escapar! Sabendo tudo sobre ele e quem ele era, deu ao criminoso a oportunidade de mais uma gargalhada à custa da sociedade que ele desafiou! Não pude deixar de admirar o golpe ousado do jovem jornalista, porque me senti certo de que o seu motivo tinha sido proteger tanto a Mademoiselle Stangerson como livrar Darzac de um inimigo ao mesmo tempo.

A multidão mal tinha recuperado do efeito da revelação surpreendente quando a audiência foi retomada. A questão na mente de todos era: Admitindo que Larsan era o assassino, como é que ele saiu do Quarto Amarelo?

Rouletabille foi imediatamente chamado ao estrado e o seu interrogatório continuou.

«Disse-nos», afirmou o Presidente, «que era impossível escapar pelo final do pátio. Uma vez que Larsan estava debruçado da sua janela, ele tinha saído do pátio. Como é que ele fez isso?»

«Ele escapou por um meio deveras incomum. Escalou a parede, saltou para o terraço e, enquanto estávamos ocupados com o corpo do guarda, alcançou a galeria pela janela. Não teve, então, mais nada a fazer senão abrir a janela, entrar e chamar por nós, como se acabasse de vir do seu próprio quarto. Para um homem com a força de Ballmeyer, tudo aquilo não passou de uma brincadeira de criança. E aqui, Monsieur, está a prova do que digo.»

Rouletabille tirou do bolso um pequeno embrulho, do qual retirou um robusto pino de ferro.

«Isto, Monsieur», disse ele, «é um espigão que encaixa perfeitamente num orifício que ainda se pode ver na cornija que sustenta o terraço. Larsan, que pensava e preparava tudo para qualquer eventualidade, tinha fixado este espigão na cornija. Tudo o que teve de fazer para garantir a sua fuga foi colocar um pé sobre uma pedra que se encontra no canto do château, outro sobre este suporte, uma mão na cornija da porta do guarda e a outra no terraço, e Larsan estava fora do solo. O resto foi fácil. A sua representação após o jantar, como se estivesse sob o efeito de narcóticos, foi fingimento. Ele não estava drogado; mas ele drogou-me a mim. Naturalmente, ele teve de fazer parecer que também ele tinha sido drogado para que nenhuma suspeita recaísse sobre ele devido ao meu estado. Se eu não tivesse sido assim neutralizado, Larsan nunca teria entrado no quarto de Mademoiselle Stangerson naquela noite, e o ataque contra ela não teria tido lugar.»

Um gemido escapou de Darzac, que parecia incapaz de controlar o seu sofrimento.

«Pode compreender», acrescentou Rouletabille, «que Larsan se sentiria tolhido pelo facto de o meu quarto ser tão próximo do dele, e pela suspeita de que eu estaria de vigia naquela noite. Naturalmente, ele não podia acreditar por um momento que eu o suspeitava! Mas eu poderia vê-lo a sair do seu quarto quando estivesse prestes a dirigir-se a Mademoiselle Stangerson. Ele esperou até que eu estivesse a dormir e o meu amigo Sainclair estivesse ocupado a tentar acordar-me. Dez minutos depois, Mademoiselle estava a gritar: "Assassino!"»

«Como é que veio a suspeitar de Larsan?», perguntou o Presidente.

«A minha pura razão apontou para ele. Foi por isso que o vigiei. Mas não previ o uso do narcótico. Ele é muito astuto. Sim, a minha pura razão apontou para ele; mas eu precisava de provas tangíveis para que os meus olhos pudessem vê-lo como a minha pura razão o via.»

«O que quer dizer com a sua pura razão?»

«Esse poder da mente que não admite elementos perturbadores numa conclusão. No dia seguinte ao incidente da "galeria inexplicável", senti-me a perder o controlo sobre ela. Tinha-me deixado desviar por provas falaciosas; mas recuperei e voltei a segurar a ponta certa do novelo. Convenci-me de que o assassino não poderia ter deixado a galeria, nem natural nem sobrenaturalmente. Reduzi o campo de consideração a esse pequeno círculo, por assim dizer. O assassino não poderia estar fora desse círculo. Ora, quem lá estava? Havia, primeiro, o assassino. Depois, o papá Jacques, Monsieur Stangerson, Frédéric Larsan e eu próprio. Cinco pessoas ao todo, contando com o assassino. E, no entanto, na galeria, estavam apenas quatro. Ora, uma vez que me tinha sido demonstrado que o quinto não poderia ter escapado, era evidente que um dos quatro presentes na galeria tinha de ser um duplo — ele tinha de ser ele mesmo e o assassino também. Por que não tinha visto isto antes? Simplesmente porque o fenómeno da dupla personalidade não tinha ocorrido antes nesta investigação.»

«Ora, quem das quatro pessoas na galeria era, simultaneamente, essa pessoa e o assassino? Repassei mentalmente o que tinha visto. Tinha visto, ao mesmo tempo, Monsieur Stangerson e o assassino, o papá Jacques e o assassino, eu próprio e o assassino; de modo que o assassino, então, não poderia ser nem Monsieur Stangerson, nem o papá Jacques, nem eu próprio. Terei visto Frédéric Larsan e o assassino ao mesmo tempo? — Não! — Tinham passado dois segundos, durante os quais perdi de vista o assassino; pois, como anotei nos meus documentos, ele chegou dois segundos antes de Monsieur Stangerson, do papá Jacques e de mim ao ponto de encontro das duas galerias. Isso teria dado tempo a Larsan para passar pela galeria "de desvio", arrancar a sua barba postiça, regressar e apressar-se connosco como se estivéssemos, tal como nós, no encalço do assassino. Estava agora certo de que tinha agarrado a ponta certa do meu raciocínio. Com Frédéric Larsan estava agora sempre associada, na minha mente, a personalidade do desconhecido que eu perseguia — o assassino, por outras palavras.»

«Essa revelação abalou-me. Tentei recuperar o meu equilíbrio revendo as evidências anteriormente traçadas, mas que tinham desviado a minha mente e conduzido para longe de Frédéric Larsan. Quais eram essas evidências?»

«1.ª Tinha visto o desconhecido no quarto de Mademoiselle Stangerson. Ao ir ao quarto de Frédéric Larsan, encontrei Larsan a dormir profundamente.»

«2.ª A escada.»

«3.ª Tinha colocado Frédéric Larsan no final da galeria "de desvio" e dito-lhe que eu correria para o quarto de Mademoiselle Stangerson para tentar capturar o assassino. Depois, voltei ao quarto de Mademoiselle Stangerson, onde tinha visto o desconhecido.»

«A primeira evidência não me perturbou muito. É provável que, quando desci da minha escada, depois de ter visto o desconhecido no quarto de Mademoiselle Stangerson, Larsan já tivesse terminado o que lá estava a fazer. Depois, enquanto eu reentrava no château, Larsan voltou para o seu próprio quarto e, despindo-se, adormeceu.»

«A segunda evidência também não me preocupou. Se Larsan fosse o assassino, não teria necessidade de uma escada; mas a escada poderia ter sido colocada ali para dar a aparência de uma entrada do assassino pelo exterior do château; especialmente porque Larsan tinha acusado Darzac e Darzac não estava no château naquela noite. Além disso, a escada poderia ter sido colocada ali para facilitar a fuga de Larsan em caso de necessidade absoluta.»

«Mas a terceira evidência deixou-me completamente perplexo. Tendo colocado Larsan no final da galeria "de desvio", não conseguia explicar como ele tinha aproveitado o momento em que eu tinha ido para a ala esquerda do château encontrar Monsieur Stangerson e o papá Jacques, para regressar ao quarto de Mademoiselle Stangerson. Era uma coisa muito perigosa a fazer. Arriscava ser capturado — e ele sabia-o. E esteve quase a ser capturado. Não tinha tido tempo de recuperar o seu posto, como certamente esperava fazer. Tinha, então, uma razão muito forte para regressar ao seu quarto. Quanto a mim, quando enviei o papá Jacques para o final da "galeria direita", pensei naturalmente que Larsan ainda estava no seu posto. O papá Jacques, ao dirigir-se para o seu posto, não olhou, ao passar, para ver se Larsan estava lá ou não.»

«Qual era, então, a razão urgente que tinha compelido Larsan a ir ao quarto uma segunda vez? Adivinhei ser alguma prova da sua presença lá. Ele tinha deixado algo muito importante naquele quarto. O que era? E teria ele recuperado? Pedi à Madame Bernier, que estava habituada a limpar o quarto, para procurar, e ela encontrou um par de óculos — este par, Monsieur le Président!»

E Rouletabille tirou os óculos, que conhecemos, do seu bolso.

«Quando vi estes óculos», continuou ele, «fiquei completamente desconcertado. Nunca tinha visto Larsan usar óculos. O que significavam? De repente, exclamei para comigo: "Será que ele é hipermétrope?" Nunca tinha visto Larsan escrever. Ele poderia, então, ser hipermétrope. Saberiam certamente na Sûreté, e saberiam também se os óculos eram dele. Tal prova seria condenatória. Isso explicava o regresso de Larsan. Sei agora que Larsan, ou Ballmeyer, é hipermétrope e que estes óculos lhe pertenciam.»

«Cometi um erro. Não fiquei satisfeito com as provas que tinha obtido. Queria ver o rosto do homem. Se me tivesse abstido disso, o segundo terrível ataque não teria ocorrido.»

«Mas», perguntou o Presidente, «porque haveria Larsan de ir ao quarto de Mademoiselle Stangerson, de todo? Porque haveria ele de tentar assassiná-la duas vezes?»

«Porque ele a ama, Monsieur le Président.»

«Essa é certamente uma razão, mas—»

«É a única razão. Ele estava loucamente apaixonado e, por causa disso, e de outras coisas, era capaz de cometer qualquer crime.»

«Mademoiselle Stangerson sabia disto?»

«Sim, Monsieur; mas ela ignorava o facto de que o homem que a perseguia era Frédéric Larsan, caso contrário, é claro, não lhe teria sido permitido estar no château. Notei, quando ele estava no quarto dela após o incidente na galeria, que ele se mantinha na sombra e que mantinha a cabeça baixa. Ele estava à procura dos óculos perdidos. Mademoiselle Stangerson conhecia Larsan sob outro nome.»

«Monsieur Darzac», perguntou o Presidente, «será que Mademoiselle Stangerson de alguma forma lhe confiou este assunto? Como é que ela nunca falou sobre isso a ninguém? Se é inocente, ela teria desejado poupar-lhe a dor de ser acusado.»

«Mademoiselle Stangerson não me disse nada», respondeu Monsieur Darzac.

«O que este jovem diz parece-lhe provável?», perguntou o Presidente.

«Mademoiselle Stangerson não me disse nada», respondeu ele de forma impassível.

«Como explica que, na noite do assassinato do guarda», perguntou o Presidente, voltando-se para Rouletabille, «o assassino tenha trazido de volta os documentos roubados a Monsieur Stangerson? — Como explica que o assassino tenha conseguido entrar no quarto trancado de Mademoiselle Stangerson?»

«A última pergunta responde-se facilmente. Um homem como Larsan, ou Ballmeyer, poderia ter mandado fazer chaves duplicadas. Quanto aos documentos, penso que Larsan não tinha a intenção de os roubar, a princípio. Vigiando de perto Mademoiselle com o propósito de impedir o seu casamento com Monsieur Robert Darzac, um dia seguiu-a a ela e ao Monsieur até aos Grands Magasins de la Louvre. Lá, obteve posse da bolsa que ela perdeu, ou deixou para trás. Nessa bolsa estava uma chave com uma cabeça de latão. Ele não sabia que havia qualquer valor associado à chave até que o anúncio nos jornais o revelou. Escreveu então a Mademoiselle, como o anúncio pedia. Sem dúvida, pediu uma reunião, dando-lhe a conhecer que ele era também a pessoa que a perseguia há algum tempo com o seu amor. Não recebeu resposta. Foi aos Correios e constatou que a sua carta já lá não estava. Ele já tinha feito um inventário completo de Monsieur Darzac e, tendo decidido ir até ao fim para obter Mademoiselle Stangerson, planeou que, acontecesse o que acontecesse, Monsieur Darzac, o seu odiado rival, seria o homem a ser suspeito.»

«Não creio que Larsan tivesse, até então, pensado em assassinar Mademoiselle Stangerson; mas, independentemente do que pudesse fazer, ele garantiu que Monsieur Darzac sofresse por isso. Ele tinha quase a mesma altura de Monsieur Darzac e quase o mesmo tamanho de pés. Não seria difícil tirar uma impressão das pegadas de Monsieur Darzac e mandar fazer botas semelhantes para si mesmo. Tais truques eram apenas brincadeiras de criança para Larsan, ou Ballmeyer.»

«Não recebendo resposta à sua carta, determinou, uma vez que Mademoiselle Stangerson não viria até ele, que ele iria até ela. O seu plano já estava formado há muito tempo. Tinha-se tornado mestre das plantas do château e do pavilhão. Assim, uma tarde, enquanto Monsieur e Mademoiselle Stangerson passeavam e enquanto o papá Jacques estava fora, ele entrou por uma janela do vestíbulo. Estava sozinho e, não tendo pressa, começou a examinar a mobília. Uma das peças, semelhante a um cofre, tinha um buraco de fechadura muito pequeno. Isso interessou-o! Ele trazia consigo a pequena chave com a cabeça de latão e, associando uma à outra, experimentou a chave na fechadura. A porta abriu-se. Não viu nada senão papéis. Eles deviam ser muito valiosos para terem sido guardados num cofre, cuja chave era de tanta importância. Talvez um pensamento de chantagem lhe tenha ocorrido como uma possibilidade útil para ajudar nos seus intentos sobre Mademoiselle Stangerson. Fez rapidamente um embrulho com os papéis e levou-o para o lavatório no vestíbulo. Entre o tempo do seu primeiro exame do pavilhão e a noite do assassinato do guarda, Larsan teve tempo de descobrir o que esses papéis continham. Não podia fazer nada com eles, e eram bastante comprometedores. Naquela noite, levou-os de volta ao château. Talvez esperasse que, ao devolver os papéis, pudesse obter alguma gratidão de Mademoiselle Stangerson. Mas, sejam quais forem as suas razões, ele levou os papéis de volta e assim livrou-se de um estorvo.»

Rouletabille tossiu. Era evidente para mim que ele estava embaraçado. Tinha chegado a um ponto em que tinha de ocultar o seu conhecimento do verdadeiro motivo de Larsan. A explicação que tinha dado tinha sido, evidentemente, insatisfatória. Rouletabille foi rápido o suficiente para notar a má impressão que tinha causado, pois, voltando-se para o Presidente, disse: «E agora chegamos à explicação do Mistério do Quarto Amarelo!»

* * * * *

Um movimento de cadeiras no tribunal, com um farfalhar de vestidos e um sussurro enérgico de «Silêncio!», demonstrou a curiosidade que tinha sido despertada.

«Parece-me», disse o Presidente, «que o Mistério do Quarto Amarelo, Monsieur Rouletabille, está totalmente explicado pela sua hipótese. Frédéric Larsan é a explicação. Temos apenas de substituí-lo por Monsieur Robert Darzac. Evidentemente, a porta do Quarto Amarelo estava aberta no momento em que Monsieur Stangerson estava sozinho, e ele permitiu que o homem que estava a sair do quarto da sua filha passasse sem o deter — talvez a pedido dela para evitar qualquer escândalo.»

«Não, Monsieur le Président», protestou o jovem. «Esquece que, atordoada pelo ataque que lhe foi feito, Mademoiselle Stangerson não estava em condições de ter feito tal apelo. Nem poderia ter-se trancado e fechado à chave no seu quarto. Deve também lembrar-se de que Monsieur Stangerson jurou que a porta não estava aberta.»

«Essa, contudo, é a única forma de o explicar. O Quarto Amarelo estava tão bem fechado como um cofre de ferro. Para usar a sua própria expressão, era impossível para o assassino fazer a sua fuga, nem natural nem sobrenaturalmente. Quando o quarto foi arrombado, ele não estava lá! Ele deve, portanto, ter escapado.»

«Isso não se segue necessariamente.»

«O que quer dizer?»

«Não havia necessidade de ele escapar — se ele não estivesse lá!»

«Não estava lá!»

«Evidentemente, não. Ele não poderia ter estado lá, se não foi encontrado lá.»

«Mas, e quanto às evidências da sua presença?», perguntou o Presidente.

«Isso, Monsieur le Président, é onde agarrámos a ponta errada. Desde o momento em que Mademoiselle Stangerson se trancou no seu quarto até ao momento em que a sua porta foi arrombada, foi impossível para o assassino escapar. Ele não foi encontrado porque não estava lá durante esse período.»

«Mas as evidências?»

«Elas levaram-nos por mau caminho. Ao raciocinar sobre este mistério, não devemos tomá-las como significando o que aparentemente significam. Por que concluímos que o assassino estava lá? — Porque ele deixou os seus vestígios no quarto? Bem! Mas poderá ele não ter estado lá antes de o quarto ter sido trancado? Aliás, ele deve ter estado lá antes! Examinemos a questão destes vestígios e vejamos se eles não apontam para a minha conclusão.»

«Após a publicação do artigo no ‘Matin’ e da minha conversa com o juiz de instrução na viagem de Paris para Epinay-sur-Orge, tive a certeza de que o Quarto Amarelo tinha sido hermeticamente fechado, por assim dizer, e que, consequentemente, o assassino tinha escapado antes de Mademoiselle Stangerson ter ido para o seu quarto à meia-noite.»

«Na altura, fiquei muito intrigado. Mademoiselle Stangerson não poderia ter sido a sua própria assassina, uma vez que as evidências apontavam para outra pessoa. O assassino, então, tinha vindo antes. Se assim fosse, como se explicava que Mademoiselle tivesse sido atacada depois? Ou melhor, que ela parecesse ter sido atacada depois? Foi necessário para mim reconstruir o ocorrido e fazer dele duas fases — cada uma separada da outra, no tempo, pelo espaço de várias horas. Uma fase em que Mademoiselle Stangerson tinha sido realmente atacada — a outra fase em que aqueles que ouviram os seus gritos pensaram que ela estava a ser atacada. Eu ainda não tinha examinado o Quarto Amarelo. Quais eram as marcas em Mademoiselle Stangerson? Havia marcas de estrangulamento e o ferimento de um golpe forte na têmpora. As marcas de estrangulamento não me interessaram muito; poderiam ter sido feitas antes, e Mademoiselle Stangerson poderia tê-las escondido com uma gola, ou qualquer artigo de vestuário semelhante. Tive de supor isto no momento em que fui compelido a reconstruir o ocorrido por duas fases. Mademoiselle Stangerson tinha, sem dúvida, as suas próprias razões para o fazer, uma vez que não tinha dito nada ao seu pai sobre isso, e tinha feito entender ao juiz de instrução que o ataque tinha tido lugar durante a noite, durante a segunda fase. Ela foi forçada a dizer isso, caso contrário o seu pai tê-la-ia questionado sobre a sua razão para não ter dito nada a respeito.»

«Mas não conseguia explicar o golpe na têmpora. Entendi-o ainda menos quando soube que o osso de carneiro tinha sido encontrado no seu quarto. Ela não podia esconder o facto de ter sido atingida na cabeça e, no entanto, esse ferimento parecia evidentemente ter sido infligido durante a primeira fase, uma vez que requeria a presença do assassino! Pensei que Mademoiselle Stangerson tinha escondido o ferimento arranjando o seu cabelo em faixas sobre a sua testa.»

«Quanto à marca da mão na parede, essa tinha sido evidentemente feita durante a primeira fase — quando o assassino estava realmente lá. Todos os vestígios da sua presença tinham, naturalmente, sido deixados durante a primeira fase; o osso de carneiro, as pegadas negras, a boina basca, o lenço, o sangue na parede, na porta e no chão. Se esses vestígios ainda estavam todos lá, eles mostravam que Mademoiselle Stangerson — que desejava que nada fosse sabido — ainda não tinha tido tempo de os limpar. Isto levou-me à conclusão de que as duas fases tinham tido lugar uma pouco depois da outra. Ela não tinha tido a oportunidade, depois de sair do seu quarto e voltar ao laboratório para junto do seu pai, de voltar ao seu quarto e pô-lo em ordem. O pai dela esteve sempre com ela, a trabalhar. Assim, após a primeira fase, ela não reentrou no seu quarto até à meia-noite. O papá Jacques esteve lá às dez horas, como estava todas as noites; mas entrou apenas para fechar as persianas e acender a luz de presença. Devido ao seu estado de espírito perturbado, ela tinha esquecido que o papá Jacques iria ao seu quarto e tinha-lhe pedido que não se incomodasse. Tudo isto foi exposto no artigo no ‘Matin’. O papá Jacques foi, no entanto, e, na luz ténue do quarto, não viu nada.»

«Mademoiselle Stangerson deve ter vivido alguns momentos de ansiedade enquanto o papá Jacques estava ausente; mas creio que ela não tinha consciência de que tantas evidências tinham sido deixadas. Depois de ter sido atacada, ela teve apenas tempo de esconder as marcas dos dedos do homem no seu pescoço e de se apressar para o laboratório. Se ela soubesse do osso, da boina e do lenço, ela ter-se-ia livrado deles depois de ter voltado para o seu quarto à meia-noite. Ela não os viu e despiu-se sob o brilho incerto da luz de presença. Foi para a cama, exausta pela ansiedade e pelo medo — um medo que a tinha feito permanecer no laboratório o mais tarde possível.»

«O meu raciocínio conduziu-me assim à segunda fase da tragédia, quando a Mademoiselle Stangerson estava sozinha no quarto. Tinha agora de explicar os disparos de revólver ouvidos durante a segunda fase. Tinham-se ouvido gritos de “Socorro! — Assassinato!”. Como explicá-los? Quanto aos gritos, não tive dificuldade; uma vez que ela estava sozinha no seu quarto, estes só podiam resultar de um pesadelo. A minha explicação para a luta e o barulho que se ouviram é simplesmente que, no seu pesadelo, ela foi assombrada pela terrível experiência por que tinha passado durante a tarde. No seu sonho, ela vê o assassino prestes a saltar sobre ela e grita: “Socorro! Assassinato!”. A sua mão procura freneticamente o revólver que ela tinha colocado ao seu alcance na mesa-de-cabeceira, ao lado da cama, mas a sua mão, ao bater na mesa, derruba-a, e o revólver, ao cair no chão, dispara, alojando-se a bala no teto. Soube desde o início que a bala no teto devia ter resultado de um acidente. A sua própria posição sugeriu-me um acidente e, por isso, encaixou-se na minha teoria de um pesadelo. Já não duvidava de que o ataque tinha ocorrido antes de a Mademoiselle se ter retirado para a noite. Depois de acordar do seu sonho aterrador e de gritar por socorro, ela tinha desmaiado.

“A minha teoria, baseada no testemunho dos tiros que foram ouvidos à meia-noite, exigia dois disparos — um que feriu o assassino no momento do seu ataque, e um disparado durante o pesadelo. O testemunho prestado pelos Bernier perante o magistrado instrutor foi no sentido de que apenas se tinha ouvido um tiro. O Monsieur Stangerson testemunhou ter ouvido primeiro um som abafado, seguido de um som metálico e agudo. Expliquei o som abafado pela queda da mesa de tampo de mármore; o som metálico foi o disparo do revólver. Estava agora convencido de que tinha razão. O tiro que ferira a mão do assassino e a fizera sangrar, de tal modo que ele deixou a impressão sangrenta na parede, foi disparado pela Mademoiselle em legítima defesa, antes da segunda fase, quando ela tinha sido realmente atacada. O tiro no teto que os Bernier ouviram foi o disparo acidental durante o pesadelo.

“Tinha agora de explicar o ferimento na têmpora. Não era grave o suficiente para ter sido feito com o osso de carneiro, e a Mademoiselle não tinha tentado escondê-lo. Deve ter sido feito durante a segunda fase. Foi para descobrir isto que fui ao Quarto Amarelo, e obtive a minha resposta lá.”

Rouletabille tirou um pedaço de papel branco dobrado do bolso e dele extraiu um objeto quase invisível que segurou entre o polegar e o indicador.

“Isto, Monsieur Président”, disse ele, “é um cabelo — um cabelo loiro manchado de sangue; é um cabelo da cabeça da Mademoiselle Stangerson. Encontrei-o preso a um dos cantos da mesa derrubada. O canto da mesa estava ele próprio manchado de sangue — uma mancha minúscula — quase invisível; mas disse-me que, ao levantar-se da cama, a Mademoiselle Stangerson tinha caído pesadamente e batido com a cabeça no canto do seu tampo de mármore.

“Ainda me faltava saber, para além do nome do assassino, o que fiz mais tarde, a hora do ataque original. Soube-o através do interrogatório da Mademoiselle Stangerson e do seu pai, embora as respostas dadas pela primeira fossem bem calculadas para enganar o magistrado instrutor. A Mademoiselle Stangerson tinha declarado com muita minúcia como tinha passado todo o seu tempo naquele dia. Estabelecemos o facto de que o assassino se tinha introduzido no pavilhão entre as cinco e as seis horas. Às seis e um quarto, o professor e a sua filha tinham retomado o seu trabalho. Às cinco, o professor tinha estado com a filha e, como o ataque teve lugar na ausência do professor junto da filha, tive de descobrir exatamente quando ele a deixou. O professor tinha declarado que, no momento em que ele e a filha estavam prestes a voltar a entrar no laboratório, foi abordado pelo guarda e mantido em conversa sobre o corte de alguma madeira e os caçadores furtivos. A Mademoiselle Stangerson não estava com ele nessa altura, uma vez que o professor disse: ‘Deixei o guarda e voltei a juntar-me à minha filha, que estava a trabalhar no laboratório’.

“Foi durante esse curto intervalo de tempo que a tragédia ocorreu. Isso é certo. Com os olhos da mente, vi a Mademoiselle Stangerson voltar a entrar no pavilhão, ir ao seu quarto para tirar o chapéu e dar de caras com o assassino. Ele estava no pavilhão há algum tempo à espera dela. Tinha planeado passar lá a noite toda. Tinha tirado as botas do papai Jacques; tinha removido os papéis do armário; e depois tinha deslizado para baixo da cama. Achando o tempo longo, tinha-se levantado, ido novamente para o laboratório, depois para o vestíbulo, espreitado para o jardim e visto, a aproximar-se do pavilhão, a Mademoiselle Stangerson — sozinha. Ele nunca se teria atrevido a atacá-la àquela hora se não a tivesse encontrado sozinha. A sua decisão estava tomada. Ele estaria mais à vontade sozinho com a Mademoiselle Stangerson no pavilhão do que teria estado a meio da noite, com o papai Jacques a dormir no sótão. Por isso, fechou a janela do vestilhão. Isso explica por que nem o Monsieur Stangerson nem o guarda, que estavam a alguma distância do pavilhão, tinham ouvido o tiro de revólver.

“Depois, ele voltou para o Quarto Amarelo. A Mademoiselle Stangerson entrou. O que se passou deve ter acontecido muito depressa. A Mademoiselle tentou pedir socorro; mas o homem tinha-a agarrado pela garganta. A sua mão procurara e agarrara o revólver que ela mantinha na gaveta da mesa-de-cabeceira desde que começara a temer as ameaças do seu perseguidor. O assassino estava prestes a bater-lhe na cabeça com o osso de carneiro — uma arma terrível nas mãos de um Larsan ou de um Ballmeyer; mas ela disparou a tempo, e o tiro feriu a mão que segurava a arma. O osso caiu no chão coberto com o sangue do assassino, que cambaleou, agarrou-se à parede para se apoiar — imprimindo nela as marcas vermelhas — e, temendo outra bala, fugiu.

“Ela viu-o passar pelo laboratório e escutou. Ele demorou-se junto à janela. Finalmente, saltou por ela. Ela voou para a janela e fechou-a. Passado o perigo, todos os seus pensamentos foram para o pai. Teria ele visto ou ouvido algo? A qualquer preço, ela tinha de manter isto longe dele. Assim, quando o Monsieur Stangerson regressou, encontrou a porta do Quarto Amarelo fechada e a sua filha no laboratório, debruçada sobre a sua secretária, a trabalhar!”

Voltando-se para o Monsieur Darzac, Rouletabille gritou:—

“Você sabe a verdade! Diga-nos, então, se não foi assim que as coisas aconteceram.”

“Não sei nada sobre isso”, respondeu o Monsieur Darzac.

“Admiro-o pelo seu silêncio”, disse Rouletabille, “mas se a Mademoiselle Stangerson soubesse do seu perigo, ela libertá-lo-ia do seu juramento. Ela implorar-lhe-ia que contasse tudo o que lhe confiou. Ela estaria aqui para o defender!”

O Monsieur Darzac não fez qualquer movimento nem proferiu uma palavra. Olhou para Rouletabille tristemente.

“Contudo”, disse o jovem repórter, “como a Mademoiselle não está aqui, devo fazê-lo eu mesmo. Mas, acredite, Monsieur Darzac, o único meio de salvar a Mademoiselle Stangerson e restaurá-la à sua razão é garantir a sua absolvição.”

“Qual é este motivo secreto que obriga a Mademoiselle Stangerson a esconder o seu conhecimento do pai?”, perguntou o Presidente.

“Isso, Monsieur, eu não sei”, disse Rouletabille. “Não é da minha conta.”

O Presidente, voltando-se para o Monsieur Darzac, tentou convencê-lo a contar o que sabia.

“Recusa-se ainda, Monsieur, a dizer-nos como empregou o seu tempo durante os atentados à vida da Mademoiselle Stangerson?”

“Não posso dizer-lhe nada, Monsieur.”

O Presidente voltou-se para Rouletabille como se apelasse a uma explicação.

“Devemos assumir, Monsieur le Président, que as ausências do Monsieur Robert Darzac estão estreitamente ligadas ao segredo da Mademoiselle Stangerson, e que o Monsieur Darzac se sente, por honra, obrigado a manter o silêncio. Pode ser que Larsan, que, desde as suas três tentativas, tem preparado tudo para lançar suspeitas sobre o Monsieur Darzac, tenha escolhido precisamente essas ocasiões para um encontro com o Monsieur Darzac num local extremamente comprometedor. Larsan é suficientemente astuto para ter feito isso.”

O Presidente parecia parcialmente convencido, mas, ainda curioso, perguntou:

“Mas qual é este segredo da Mademoiselle Stangerson?”

“Isso não lhe posso dizer”, disse Rouletabille. “Penso, contudo, que já sabe o suficiente para absolver o Monsieur Robert Darzac! A menos que Larsan regresse, e não creio que o fará”, acrescentou, com uma risada.

“Mais uma pergunta”, disse o Presidente. “Admitindo a sua explicação, sabemos que Larsan queria lançar suspeitas sobre o Monsieur Robert Darzac, mas por que razão haveria ele de lançar suspeitas sobre o papai Jacques também?”

“Entrou aí o detetive profissional, Monsieur, que se revela um decifrador de mistérios ao aniquilar as próprias provas que tinha acumulado. É um homem muito astuto, e um truque semelhante tinha-lhe permitido muitas vezes afastar as suspeitas de si próprio. Ele provou a inocência de um antes de acusar o outro. Pode facilmente acreditar, Monsieur, que um esquema tão complicado como este deve ter sido longa e cuidadosamente pensado com antecedência por Larsan. Posso dizer-lhe que ele estava há muito tempo empenhado na sua elaboração. Se quiser saber como ele reuniu informações, descobrirá que ele se tinha, numa ocasião, disfarçado de comissário entre o ‘Laboratório da Sûreté’ e o Monsieur Stangerson, de quem eram exigidas ‘experiências’. Desta forma, tinha conseguido, antes do crime, em duas ocasiões, avaliar o pavilhão. Tinha-se ‘maquilhado’ de tal modo que o papai Jacques não o tinha reconhecido. E ainda assim Larsan tinha encontrado a oportunidade de roubar ao velho um par de botas velhas e uma boina basca usada, que o criado tinha atado num lenço, com a intenção de as levar a um amigo, um carvoeiro na estrada para Epinay. Quando o crime foi descoberto, o papai Jacques tinha reconhecido imediatamente esses objetos como sendo seus. Eram extremamente comprometedores, o que explica a sua angústia na altura em que falámos com ele sobre eles. Larsan confessou-me tudo. É um artista no jogo. Fez algo semelhante no caso do ‘Crédit Universel’, e no dos ‘Lingotes de Ouro da Casa da Moeda’. Ambos os casos deveriam ser revistos. Desde que Ballmeyer ou Larsan está na Sûreté, um grande número de pessoas inocentes foi enviado para a prisão.”

Capítulo XXVIII

No qual se prova que nem sempre se pensa em tudo

Um grande entusiasmo prevaleceu quando Rouletabille terminou. A sala do tribunal agitou-se com os murmúrios de aplausos contidos. O Maître Henri Robert pediu um adiamento do julgamento e foi apoiado na sua moção pelo próprio procurador público. O caso foi adiado. No dia seguinte, o Monsieur Robert Darzac foi libertado sob fiança, enquanto o papai Jacques recebeu o benefício imediato de um “não há lugar a acusação”. Procurou-se por todo o lado por Frédéric Larsan, mas em vão. O Monsieur Darzac finalmente escapou à terrível calamidade que, a dada altura, o ameaçara. Após uma visita à Mademoiselle Stangerson, foi levado a esperar que ela pudesse, com cuidados atentos, um dia recuperar a sua razão.

Rouletabille, naturalmente, tornou-se o “homem do momento”. Ao sair do Palais de Justice, a multidão ergueu-o em triunfo. A imprensa de todo o mundo publicou as suas façanhas e a sua fotografia. Ele, que tinha entrevistado tantas personagens ilustres, tornou-se ele próprio ilustre e foi entrevistado por sua vez. Fico contente por dizer que o enorme sucesso de forma alguma lhe subiu à cabeça.

Deixámos Versalhes juntos, depois de termos jantado n’“O Cão que Fuma”. No comboio, coloquei-lhe uma série de perguntas que, durante a nossa refeição, estiveram na ponta da língua, mas que me abstive de proferir, sabendo que ele não gostava de falar de “trabalho” enquanto comia.

“Meu amigo”, disse eu, “esse caso Larsan é maravilhoso. É digno de si.”

Ele implorou-me que não dissesse mais nada e, com humor, simulou uma ansiedade por mim, caso eu me entregasse a elogios tolos a ele devido a uma admiração pessoal pela sua capacidade.

“Vou direto ao assunto, então”, disse eu, não pouco irritado. “Continuo no escuro quanto à sua razão para ir à América. Quando saiu do Glandier, tinha descoberto, se bem entendo, tudo sobre Frédéric Larsan; tinha descoberto a forma exata como ele tinha tentado o assassinato?”

“Exatamente. E você”, disse ele, mudando a conversa, “não suspeitou de nada?”

“Nada!”

“É incrível!”

“Não vejo como poderia ter suspeitado de algo. Teve muito cuidado em esconder os seus pensamentos de mim. Já suspeitava de Larsan quando me mandou buscar os revólveres?”

“Sim! Tinha chegado a essa conclusão através do incidente da ‘galeria inexplicável’. O regresso de Larsan ao quarto da Mademoiselle Stangerson, contudo, não tinha sido então esclarecido pelos óculos. As minhas suspeitas foram o resultado apenas do meu raciocínio; e a ideia de Larsan ser o assassino parecia tão extraordinária que decidi esperar por provas concretas antes de me aventurar a agir. Não obstante, a suspeita preocupava-me, e por vezes falava com o detetive de uma forma que deveria ter-lhe aberto os olhos. Falei depreciativamente dos seus métodos. Mas, até encontrar os óculos, só podia encarar a minha suspeita sobre ele sob a luz de uma hipótese absurda. Pode imaginar a minha euforia depois de ter explicado os movimentos de Larsan. Lembro-me bem de entrar no meu quarto como um louco e gritar para si: ‘Vou levar a melhor sobre o grande Fred. Vou levar a melhor sobre ele de uma forma que fará sensação!’

“Estava então a pensar em Larsan, o assassino. Foi nessa mesma noite que Darzac me implorou que vigiasse a Mademoiselle Stangerson. Não fiz esforços até depois de termos jantado com Larsan, até às dez horas. Ele estava ali mesmo à minha frente, e eu podia esperar. Deveria ter suspeitado, porque quando falávamos da chegada do assassino, disse-lhe: ‘Tenho a certeza de que Larsan estará aqui esta noite’.

“Mas um ponto importante escapou-nos a ambos. Foi um ponto que nos deveria ter aberto os olhos para Larsan. Lembra-se da bengala de bambu? Fiquei surpreendido por descobrir que Larsan não tinha feito uso dessa prova contra Robert Darzac. Não teria sido comprada por um homem cuja descrição correspondia exatamente à de Darzac? Bem, pouco antes de o ver partir no comboio, após o intervalo durante o julgamento, perguntei-lhe por que não tinha usado a prova da bengala. Disse-me que nunca teve qualquer intenção de o fazer; que a nossa descoberta dela na pequena estalagem em Epinay o tinha embaraçado muito. Se bem se lembra, ele disse-nos então que a bengala lhe tinha sido dada em Londres. Por que não dissemos imediatamente a nós próprios: ‘O Fred está a mentir. Ele não poderia ter tido esta bengala em Londres. Ele não estava em Londres. Ele comprou-a em Paris’? Depois, descobriu, ao inquirir no Cassette’s, que a bengala tinha sido comprada por uma pessoa vestida de forma muito semelhante a Robert Darzac, embora, como soubemos mais tarde pelo próprio Darzac, não tenha sido ele quem fez a compra. Junte isto ao facto de que já sabíamos, pela carta na poste restante, que havia realmente um homem em Paris que se fazia passar por Robert Darzac, porque não nos fixámos imediatamente no próprio Fred?

“Claro, a sua posição na Sûreté estava contra nós; mas quando vimos a evidente avidez da sua parte em encontrar provas condenatórias contra Darzac, não, até a paixão que ele demonstrava na sua perseguição ao homem, a mentira sobre a bengala deveria ter tido um novo significado para nós. Se pergunta por que razão Larsan comprou a bengala, se não tinha intenção de fabricar provas contra Darzac através dela, a resposta é bastante simples. Ele tinha sido ferido na mão pela Mademoiselle Stangerson, de modo que a bengala era útil para lhe permitir fechar a mão ao transportá-la. Lembra-se de que notei que ele a trazia sempre consigo?

“Todos estes detalhes voltaram à minha mente quando me fixei em Larsan como o criminoso. Mas eram demasiado tarde então para me serem de qualquer utilidade. Na noite em que ele fingiu estar drogado, olhei para a sua mão e vi uma ligadura de seda fina a cobrir os sinais de um ligeiro ferimento a sarar. Se tivéssemos tido uma iniciativa mais rápida na altura em que Larsan nos disse aquela mentira sobre a bengala, tenho a certeza de que ele teria partido, para evitar suspeitas. Ainda assim, preocupámos Larsan ou Ballmeyer sem o sabermos.”

“Mas”, interrompi, “se Larsan não tinha intenção de usar a bengala como prova contra Darzac, por que se tinha maquilhado para parecer o homem quando a foi comprar?”

“Ele não se tinha ‘maquilhado’ especialmente de Darzac para comprar a bengala; tinha vindo diretamente ao Cassette’s imediatamente depois de ter atacado a Mademoiselle Stangerson. O seu ferimento estava a incomodá-lo e, enquanto passava pela Avenue de l’Opéra, a ideia da bengala veio-lhe à mente e ele agiu em conformidade. Eram então oito horas. E eu, que tinha acertado na própria hora da ocorrência da tragédia, quase convencido de que Darzac não era o criminoso, e sabendo da bengala, ainda assim nunca suspeitei de Larsan. Há alturas...”

“Há alturas”, disse eu, “em que os maiores intelectos...” Rouletabille fechou-me a boca. Continuei a brincar com ele, mas, verificando que ele não respondia, vi que já não estava a prestar atenção ao que eu dizia. Descobri que ele estava profundamente adormecido.

Capítulo XXIX

O mistério da Mademoiselle Stangerson

Durante os dias que se seguiram, tive várias oportunidades de o questionar quanto à sua razão para a sua viagem à América, mas não obtive respostas mais precisas do que as que me tinha dado na noite do adiamento do julgamento, quando estávamos no comboio para Paris. Um dia, contudo, insistindo eu ainda com ele, disse:

“Não consegue compreender que eu tinha de saber a verdadeira personalidade de Larsan?”

“Sem dúvida”, disse eu, “mas por que foi à América para descobrir isso?”

Ele sentou-se a fumar o seu cachimbo e não deu mais resposta. Comecei a ver que estava a tocar no segredo que dizia respeito à Mademoiselle Stangerson. Rouletabille tinha evidentemente achado necessário ir à América para descobrir qual era o laço misterioso que a prendia a Larsan por um vínculo tão estranho e terrível. Na América, tinha aprendido quem era Larsan e tinha obtido informações que lhe fecharam a boca. Ele tinha estado em Filadélfia.

E agora, qual era este mistério que mantinha a Mademoiselle Stangerson e o Monsieur Robert Darzac num silêncio tão inexplicável? Depois de tantos anos e da publicidade dada ao caso por uma imprensa curiosa e sem vergonha; agora que o Monsieur Stangerson sabe tudo e perdoou tudo; tudo pode ser contado. Em todas as fases desta história notável, a Mademoiselle Stangerson tinha sido sempre a vítima.»

O começo remonta ao tempo em que, ainda jovem, ela vivia com o pai na Filadélfia. Um visitante da casa, um francês, conseguira, pelo seu espírito, graça e atenção persistente, conquistar-lhe as afeições. Dizia-se que era rico e pedira a mão dela ao pai. O Monsieur Stangerson, ao fazer averiguações sobre o Monsieur Jean Roussel, descobriu que o homem era um burlão e um aventureiro. Jean Roussel não passava de mais um dos muitos nomes sob os quais o notório Ballmeyer, um fugitivo de França, tentava esconder-se. O Monsieur Stangerson não sabia da sua identidade como Ballmeyer; soube apenas que o homem era, pura e simplesmente, indesejável para a sua filha. Não só recusou dar o seu consentimento ao casamento, como lhe proibiu a entrada em casa. Mathilde Stangerson, porém, apaixonara-se. Para ela, Jean Roussel era tudo o que o seu amor pintava. Ficou indignada com a atitude do pai e não ocultou os seus sentimentos. O pai enviou-a para ficar com uma tia em Cincinnati. Lá, foi ter com ela Jean Roussel e, apesar da reverência que sentia pelo pai, fugiu com ele para casar.

Foram para Louisville e lá viveram durante algum tempo. Uma manhã, contudo, bateram à porta da casa em que estavam e a polícia entrou para prender Jean Roussel. Foi então que Mathilde Stangerson, ou Roussel, soube que o seu marido não era outro senão o notório Ballmeyer!

A jovem, no seu desespero, tentou suicidar-se. Falhou e foi obrigada a voltar para junto da tia em Cincinnati. A velha senhora ficou radiante por vê-la de novo. Tinha-a procurado ansiosamente e não ousara contar ao Monsieur Stangerson o seu desaparecimento. Mathilde jurou-lhe segredo, para que o pai não soubesse que ela tinha estado fora. Um mês mais tarde, a Mademoiselle Stangerson regressou para junto do pai, arrependida, com o coração morto dentro de si, esperando apenas uma coisa: que nunca mais visse o marido, o horrível Ballmeyer. Algumas semanas depois, espalhou-se a notícia de que ele estava morto e ela decidiu então redimir-se da sua desobediência através de uma vida de trabalho e devoção ao pai. E cumpriu a sua palavra.

Tudo isto ela tinha confessado a Robert Darzac e, acreditando na morte de Ballmeyer, tinha-se entregue à alegria de uma união com ele. Mas o destino ressuscitara Jean Roussel — o Ballmeyer da sua juventude. Ele tinha tomado medidas para a fazer saber que nunca permitiria que ela casasse com Darzac — que ainda a amava.

A Mademoiselle Stangerson nunca hesitou, por um momento que fosse, em confiar no Monsieur Darzac. Mostrou-lhe a carta em que Jean Roussel lhe pedia para recordar as primeiras horas da sua união na sua bela e encantadora casa de Louisville. "O presbitério não perdeu nada do seu encanto, nem o jardim o seu brilho", escrevera ele. O patife fingia ser rico e reivindicava o direito de a levar de volta para Louisville. Ela dissera a Darzac que, se o pai soubesse da sua desonra, suicidar-se-ia. O Monsieur Darzac jurara silenciar o seu perseguidor, mesmo que para isso tivesse de o matar. Foi ludibriado e teria sucumbido se não fosse o génio de Rouletabille.

A Mademoiselle Stangerson estava, ela própria, indefesa nas mãos de tal vilão. Tinha tentado matá-lo quando ele a ameaçou e, depois, atacou no Quarto Amarelo. Infelizmente, falhara e sentia-se condenada a estar para sempre à mercê deste miserável sem escrúpulos que exigia continuamente a sua presença em encontros clandestinos. Quando ele lhe enviou a carta através dos correios, pedindo-lhe para se encontrarem, ela recusou. O resultado da sua recusa foi a tragédia do Quarto Amarelo. A segunda vez que ele escreveu a pedir um encontro, chegando a carta à sua câmara de doente, ela evitou-o dormindo com as suas criadas. Nessa carta, o patife avisara-a de que, uma vez que ela estava demasiado doente para ir ter com ele, ele iria ter com ela, e que estaria no seu quarto a uma hora específica numa noite específica. Sabendo que tinha tudo a temer de Ballmeyer, ela abandonou o seu quarto nessa noite. Foi então que ocorreu o incidente da "galeria inexplicável".

À terceira vez, ela estava decidida a comparecer ao encontro. Ele pediu-o na carta que escrevera no seu próprio quarto, na noite do incidente na galeria, a qual deixou na sua secretária. Nessa carta, ele ameaçava queimar os papéis do pai se ela não se encontrasse com ele. Foi para resgatar esses papéis que ela se decidiu a vê-lo. Não duvidou por um momento que o miserável levaria a cabo a sua ameaça se ela insistisse em evitá-lo e, nesse caso, o trabalho de toda a vida do seu pai estaria para sempre perdido. Uma vez que o encontro era, portanto, inevitável, ela decidiu ver o marido e apelar ao seu bom senso. Foi para esta entrevista que ela se preparou na noite em que o guarda foi morto. Encontraram-se e o que se passou entre eles pode ser imaginado. Ele insistiu que ela renunciasse a Darzac. Ela, por sua vez, afirmou o seu amor por ele. Ele esfaqueou-a na sua raiva, determinado a condenar Darzac pelo crime. Como Larsan, ele poderia fazê-lo e tinha gerido as coisas de tal modo que Darzac nunca poderia explicar como tinha empregado o tempo da sua ausência do castelo. As precauções de Ballmeyer foram tomadas com a maior astúcia.

Larsan tinha ameaçado Darzac tal como ameaçara Mathilde — com a mesma arma e as mesmas ameaças. Escreveu cartas urgentes a Darzac, declarando-se pronto a entregar as cartas que tinham sido trocadas entre ele e a sua mulher, e a deixá-los para sempre, se ele pagasse o seu preço. Pediu a Darzac que se encontrasse com ele com o objetivo de resolver o assunto, marcando a hora em que Larsan estaria com a Mademoiselle Stangerson. Quando Darzac foi a Epinay, esperando encontrar Ballmeyer ou Larsan, foi recebido por um cúmplice de Larsan e mantido à espera até que a "coincidência" pudesse ser estabelecida.

Foi tudo feito com uma astúcia maquiavélica; mas Ballmeyer não contava com Joseph Rouletabille.

* * * * *

Agora que o Mistério do Quarto Amarelo foi esclarecido, não é altura de contar as aventuras de Rouletabille na América. Conhecendo o jovem repórter como conhecemos, podemos compreender com que perspicácia ele tinha seguido, passo a passo, a história de Mathilde Stangerson e Jean Roussel. Na Filadélfia, tinha-se informado rapidamente sobre Arthur William Rance. Lá, soube do ato de devoção de Rance e da recompensa a que ele julgava ter direito por isso. Um boato sobre o seu casamento com a Mademoiselle Stangerson chegara, outrora, aos salões da Filadélfia. Soube também das atenções contínuas de Rance para com ela e das suas importunações para obter a sua mão. Dizia-se que ele se tinha entregado à bebida para afogar o seu desgosto pelo amor não correspondido. Pode agora compreender-se por que razão Rouletabille tinha demonstrado uma frieza tão marcada no seu comportamento para com Rance quando se encontraram na sala das testemunhas, no dia do julgamento.

O estranho mistério Roussel-Stangerson estava agora a descoberto. Quem era este Jean Roussel? Rouletabille tinha seguido o seu rasto desde a Filadélfia até Cincinnati. Em Cincinnati, conheceu a velha tia e encontrou meios de lhe abrir a boca. A história da prisão de Ballmeyer lançou a luz correta sobre toda a história. Visitou o "presbitério" — uma pequena e bonita habitação no velho estilo colonial — que, de facto, "não tinha perdido nada do seu encanto". Depois, abandonando a perseguição aos vestígios da Mademoiselle Stangerson, seguiu os de Ballmeyer. Seguiu-os de prisão em prisão, de crime em crime. Finalmente, quando estava prestes a partir para a Europa, soube em Nova Iorque que Ballmeyer tinha, cinco anos antes, embarcado para França com alguns papéis valiosos pertencentes a um comerciante de Nova Orleães que ele tinha assassinado.

E, contudo, a totalidade deste mistério não foi revelada. A Mademoiselle Stangerson teve um filho do seu marido — um rapaz. A criança nasceu na casa da velha tia. Ninguém soube disso, tão bem a tia tinha conseguido ocultar o acontecimento.

O que aconteceu a esse filho? — Essa é uma outra história que, até agora, não me é permitido relatar.

* * * * *

Cerca de dois meses depois destes acontecimentos, encontrei Rouletabille sentado num banco no Palais de Justice, com um aspeto muito deprimido.

"Que se passa, velho amigo?", perguntei. "Estás com um aspeto muito abatido. Como vão os teus amigos?"

"Para além de ti", disse ele, "não tenho amigos."

"Espero que o Monsieur Darzac..."

"Sem dúvida."

"E a Mademoiselle Stangerson — Como está ela?"

"Melhor — muito melhor."

"Então não deverias estar triste."

"Estou triste", disse ele, "porque estou a pensar no perfume da senhora de negro..."

"O perfume da senhora de negro! — Ouvi-te referir-te a ele muitas vezes. Diz-me por que te perturba."

"Talvez... um dia; um dia", disse Rouletabille.

E soltou um suspiro profundo.

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